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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FILHO DE SPOCK / A. C. Crispin
O FILHO DE SPOCK / A. C. Crispin

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

STAR TREK

O FILHO DE SPOCK

 

O Segundo-em-Comando Cletas andava nervosamente diante da porta bem guardada do escritório de seu Sovren, e a cada passo seus dedos chapinhavam dentro de suas botas. Mesmo através das grossas paredes de pedra da fortaleza, ele ainda podia ouvir os trovões, o furioso sibilar da tempestade. Seu manto cinza escuro estava negro de água; chovia copiosa-mente, mas Cletas mal notava o desconforto - estava cansado demais, preocupado demais, sentindo-se miserável demais.

As tochas nos castiçais de parede bruxulearam com a corrente de ar quando a porta abriu-se e Voba, o ajudante do Sovren, espiou para fora. — Você pode entrar agora - sussurrou ele, entrando no hall. — Ingev e Reydel estão acabando de dar seus relatórios sobre o alcance que podemos esperar das novas - como eles as chamam? - catapultas.

Cletas curvou-se para o ajudante-de-ordens, um homem baixo e magro com cabelos vermelhos e um cômico nariz de batata. — Como ele está esta noite? - perguntou, abaixando a voz para que somente Voba o ouvisse.

O homenzinho magro e resistente deu de ombros. — A umidade está sendo cruel com sua perna - disse, sotto você. — Mas é verdade o que ouvi? Que hoje a Alta Sacerdotisa dos Danreg predisse...

Cletas silenciou o ajudante-de-ordens com um olhar, sabendo que sua recusa em falar seria tomada como assentimento, assim mesmo. Voba corou furiosamente enquanto sinalizava para que os guardas abrissem a porta.

Cletas entrou no estúdio, uma câmara pequena, quase aconchegante, se comparada ao restante da fortaleza. Seu estômago vazio pulou e depois deu um nó devido à ansiedade. Quando as três figuras sentadas à imensa mesa embutida voltaram-se em sua direção, Voba anunciou formalmente: — O Segundo-em-Comando Cletas pede uma audiência, sire.

— Parece mais apropriado que o Segundo Cletas devesse pedir uma refeição quente e um banho - disse o Sovren, a boca retorcendo-se no que Cletas, devido à sua longa convivência, reconheceu como sendo um sorriso. — Entre e livre-se desse manto encharcado! Está pingando em meu tapete!

Cletas ergueu as dobras molhadas sobre seus ombros, inclinando a cabeça em um cumprimento para Ingev e Reydel, Primeiro e Segundo Comandantes de Armas Pesadas, enquanto cruzava o chão de tábuas (evitando pisar o belo tapete de lã azul com suas botas molhadas), então saudou e agachou-se em um joelho, a cabeça baixa. — Meu suserano.

— Hoje dificilmente é uma noite para formalidades, Cletas - disse-lhe seu Sovren, suavemente, uma de suas sobrancelhas erguidas em divertimento. — Sente-se e peça a Voba que o ajude com essas botas. Pude ouvir você chapinhando no hall.

Enquanto Voba entretinha-se com os pés do Segundo, o Sovren voltou-se para seus outros dois oficiais. — Então podemos esperar quase duas vezes o alcance do modelo experimental? - perguntou. — E quanto ao tamanho das pedras?

— Podemos ajustar o tamanho do copo de lançamento desde duas vezes o tamanho de um elmo até quase meio metro de diâmetro, sire - relatou Ingev. — É claro que, quanto mais pesada a pedra, menor o alcance. Talvez no máximo 450 metros para os mísseis maiores, os que pesarem mais de vinte e cinco quilos.

— Ótimo. Escorem as ribanceiras dos caminhos pelos quais eles devem passar e verifiquem a drenagem.

— Sim, senhor - murmuraram Ingev e Reydel, enrolando seus pergaminhos de listas e desenhos.

— Voba, por favor, traga algo para o Segundo comer - disse o Sovren ao ajudante-de-ordens, enquanto Cletas movia sua cadeira para juntar-se a eles à mesa. — Terá tropas e vykars para mover todas as seis máquinas, Comandante Ingev?

Ingev, um homem baixo e atarracado com as típicas pernas curvas de um cavaleiro, trocou um olhar de esguelha com seu alto e louro Segundo-em-Comando. — Precisaríamos de mais 120 homens, meu suserano - disse, após pensar um instante. — 20 para cada máquina.

— Muito bem. Cletas, veja que o Comandante Ingev receba 120 soldados de sua infantaria auxiliar. A maioria deles deve ter tempo para reencontrar as companhias antes de entrar em combate. As catapultas só serão úteis enquanto o inimigo estiver cruzando o Redbank, antes de entrarmos em combate.

O Segundo-em-Comando recompôs-se antes mesmo de poder dizer alguma coisa, mas ele bem sabia que os penetrantes olhos cinzentos haviam percebido sua relutância. — Como ordenar, sire - disse, rispidamente.

Ingev e Reydel já estavam se levantando. — Temos permissão para sair, sire?

— É claro - assentiu o Sovren, fazendo uma saudação como resposta à deles. — Tentem descansar um pouco.

Quando os passos distanciaram-se no salão lá fora, Cletas voltou-se para seu Sovren sem mais esconder seu protesto. — Cento e vinte lutadores de infantaria, meu suserano! É uma companhia inteira e posso perder mais se não puderem juntar-se a seus grupos. E para quê - para cuidar e empurrar essas - essas - ele se interrompeu, percebendo que estava quase ao ponto da insubordinação. — Por que, sire?

— Porque, meu amigo Cletas, essas catapultas podem significar a diferença entre sermos completamente vencidos e o empate. Nem ouso pensar na palavra "vitória" - isso seria até mesmo loucura se analisarmos o que enfrentamos. - O rosto magro do Sovren era sério e circunspecto por baixo da barba e do bigode, e seus olhos cinzentos prendiam o olhar do Segundo com implacável intensidade. — Mas os Asyri, os Kerren e os Danreg jamais viram o que construímos com tantas dificuldades, e o terror que suas hordas sentirão quando forem atacadas por uma chuva de pedregulhos caindo do céu lhes causará muito mais danos do que as pedras propriamente ditas.

— Mas como pode ter certeza de que essas coisas realmente funcionarão em uma situação de combate? Elas nunca foram usadas...

— Foram sim. Não aqui, não agora. Mas funcionarão. Já estive errado antes?

Cletas correu uma mão por seus cabelos grisalhos com resignação cansada, pensando em todas as mudanças introduzidas pelo Sovren nos últimos vinte anos em que o conhecia. Novos modos de contar, de medir, até mesmo de falar e de ler... lâmpadas, sistemas de esgoto, escolas para as crianças, montar nos vykar além de fazê-los puxar carroças, armaduras melhores, derreter o ferro em vez de usar o bronze, mais suave e maleável...

— Não, meu suserano. Não esteve errado - admitiu. — Ainda assim... - Ele riu sem jeito. — Eu gostaria que não tivéssemos de experimentá-las pela primeira vez na última batalha que talvez nós dois vejamos. Se finalmente cometeu um erro, eu odiaria perder a oportunidade de dizer "eu disse".

A boca de seu Sovren suavizou-se em um genuíno e raro sorriso. — Manterei seu desejo em mente. - Abriu o pergaminho de um mapa, suas mãos de dedos longos e rijos movendo-se com sua costumeira e eficiente rapidez. — Você encontrou-se com seus espiões, ou todos eles se dispersaram?

— Nos encontramos, sire - disse Cletas. — A situação não mudou muito. Heldeon do Baixio Danreg montou acampamento no vale norte do Big Snowy, e esta tarde a Rainha da Guerra Laol e Rorgan Death-Hand reuniram-se lá com ele. Conversaram por cerca de duas horas, então voltaram a suas tropas.

— Meu informante - continuou — disse que o encontro foi interrompido pela descoberta de três espiões, o que ocasionou uma certa troca de acusações, mas logo se acalmaram, beberam vinho e repartiram pão como se fossem grandes amigos. Nem mesmo a chuva pôde nublar a alegria em seus olhos quando olhavam para Nova Araen.

O rosto do Sovren mantinha sua impassividade usual, mas Cletas foi rápido em notar o enrijecimento de seus ombros largos. — Então não podemos nem mesmo esperar que cortem algumas cabeças entre si antes que cortem as nossas - disse suave e secamente. — E com essa chuva contínua, a Planície Moorgate estará tão macia que o inimigo mal precisará de pás para cavar nossas covas. Presumindo que tenham a decência de nos enterrar, o que é duvidoso.

Cletas assentiu, sabendo que, apesar de não mais poder ouvir o gotejar externo, seu governante podia. — Se esta chuva continuar, também podemos esquecer da luta. As tropas não poderão marchar, as catapultas não rolarão e a cavalaria parecerá um amontoado de bonecos de barro prontos a serem esmagados.

— Precisamos de dois dias de sol para que tenhamos uma caminhada decente.

— Eu sei - concordou Cletas, fitando sombriamente o picadinho saboroso que Voba colocara diante dele. Ausente, cortou um naco de pão vermelho e duro e começou a mascá-lo. — Talvez sejamos obrigados a abandonar os flancos da cavalaria se o chão estiver muito ruim. Depois de tantos exercícios... - suspirou. — O Comandante Yarlev da Tropa Vykar vai chorar, bem sabe.

Desta vez o Sovren ignorou as frivolidades, seus olhos intensamente cravados no rosto de seu Segundo. — O encontro com seus espiões e escutas - falou ele. — Como foi? Alguma coisa o está perturbando. Pude senti-lo assim que o vi.

Cletas estremeceu ligeiramente, pensando em todas as vezes que seu Sovren de algum modo sentira os problemas que ele deveria manter em segredo. Era assustador perceber que esse homem, fisicamente tão diferente de seu povo adotivo, também fosse diferente por dentro. Ele pensava diferente, de algum jeito que Cletas não podia explicar. Ele podia sentir pensamentos e emoções e, às vezes, a chegada da morte.

— Sinto muito, velho amigo - disse o Sovren, de modo gentil. — Eu o assustei de novo? Já deveria estar acostumado com isso. Mas e quanto ao restante de seu relatório? O Redbank ainda está inundado? A Alta Sacerdotisa dos Danreg já pronunciou o oráculo de batalha? Quando eles marcharão?

— Não - Cletas falou pesadamente, — ela ainda não o pronunciou. Sabemos que o povo de Heldeon - e, pelo menos no momento, também podemos incluir os Asyri de Rorgan Death-Hand e o Clã Kerren de Laol -não lutará sem ele. Quanto ao rio, minhas fontes estimaram que não será possível atravessar o Redbank até depois de amanhã, pelo menos. É mais provável que sejam três dias.

O Sovren o observou intensamente enquanto Cletas pegava seu pão com a colher, de modo compenetrado. — Então o que aconteceu hoje? Voba também sabia de alguma coisa... eu podia sentir. O que é?

O Segundo pegou um imenso pedaço de pão empapado de ensopadinho e o mastigou, enquanto tentava desesperadamente pensar em um meio de pôr as notícias em palavras. Talvez se ele começasse com o plano que desenvolvera, não pareceria tão... final. Cletas engoliu o pão, ajudado por um gole de vinho rochab. — A Alta Sacerdotisa, Wynn - começou, — é filha de Heldeon, além de estar a serviço da Deusa.

— E daí?

— Ela é viúva, perdeu o marido e o filho há dois anos em um ataque Asyri. Já não é mais jovem, mas ainda está em idade de procriar, meu suserano... eles dizem que seu pai dá mais valor a seus conselhos do que aos de quaisquer um dos chefes de seu clã. E, como é relatado, parece ser... alta, com...

— Eu repito, e daí? - A voz do Sovren estava tão dura e fria quanto seus olhos, e Cletas sentiu-se atingido pela onda palpável de ira que emanava de seu governante. — Explique o que tudo isto tem a ver com seu oráculo de batalha, maldição!

— Sire - Cletas encontrou os olhos quase sem cor, e então todas as suas resoluções quanto a sutileza foram esquecidas, abandonadas, — já faz muitos anos desde que Lady Araen - que a Deusa a tenha - vestiu seu Véu Final. Se desejar, seria uma questão de Estado, não uma união verdadeira! Considere, meu suserano, por favor!

— Cletas, se está sugerindo o que penso que está sugerindo, você está passando dos limites. — O rosto do Sovren estava pálido, seus traços duros e angulares fazendo-o parecer quase inumano. — Se interpretei mal sua declaração francamente desajeitada, então clareie seu significado.

— O significado, sire, é o seguinte: Se a Alta Sacerdotisa Wynn fosse capturada antes de poder pronunciar o oráculo para a batalha que se seguirá, então os Danreg ficarão confusos. Suas tropas talvez até se recusem a marchar.

Uma sobrancelha inclinada ergueu-se, surpresa. — Mmmm... Cletas, é uma sugestão muito mais lógica do que todas as fornecidas hoje pelo Conselho. Você acha que um pequeno grupo de assalto poderia realizar tal captura?

— Eu me ofereceria para liderá-lo pessoalmente, meu suserano - disse Cletas. — Esta noite. — Ele se concentrou. — Porém, isso constitui somente a primeira parte de meu plano, sire. Depois que a mulher estiver dentro de nossas muralhas, talvez fosse possível... - ele hesitou, à procura de palavras, — talvez seja possível... conversar... com ela. Convencê-la de que uma aliança pelo casamento beneficiaria aos dois povos. Rapto de noiva é comum entre os Danreg, algo que desculpariam se fosse com o propósito de um casamento honroso.

Com um movimento abrupto e furioso, o Sovren levantou-se e voltou as costas para seu Segundo-em-Comando. Cletas continuou, teimosamente: — O povo de Heldeon considera os laços de sangue e casamento tão sagrados que jamais lutaria contra um dos seus. Se pudesse convencer essa mulher a aliar-se a você em um contrato de Estado, Heldeon talvez venha a juntar-se à nossa causa. Na pior das hipóteses, ele recuaria suas tropas para evitar o pecado de erguer sua espada contra alguém que é de mesmo sangue pelo casamento.

Quando Cletas terminou, o Sovren começou a andar de um lado para o outro, e até mesmo seu manquejar (causado por uma lança que trespassara sua coxa esquerda anos atrás) não podia mascarar a fúria estampada em cada passo. — O Conselho o incumbiu disto? - perguntou, seco. Seu rosto ainda estava impassível, mas seus olhos fizeram o Segundo estremecer, sabendo que reabrira uma velha - e ainda agonizante - ferida.

— Não, sire - disse forçando-se a fitar seu governante diretamente. — Pode ser um meio de salvar Nova Araen, e é nisso que estou pensando... e no fato de estar sozinho por tempo demais. Dezenove anos... — Ele hesitou, pensando em sua própria Marya e seus filho e filha, tentando imaginar uma vida sem eles. — É tempo demais para se estar sozinho.

— Fiquei sete anos em completa solidão uma vez. Eu me arranjo - a voz do Sovren era cortante. Ele permanecia de pé com as mãos fechadas atrás das costas, fitando um mural que fizera há vinte anos, quando sua fortaleza fora erguida. O Segundo jamais compreendera o assunto em questão - estrelas e uma mão estendida, sob uma forma esquisita, parecida com um disco. Uma vez perguntara a seu governante o que significava, somente para ouvir: — É uma mensagem para alguém que ainda não nasceu.

O Segundo trouxe seus pensamentos de volta ao presente com um certo esforço - havia algo estranhamente hipnótico quanto àquelas estrelas pintadas. Elas não eram apenas pontinhos de luz como apareciam no céu noturno, mas pequeninas esferas de todas as cores, pendendo como jóias espalhadas em um fundo negro. Cletas jamais vira estrelas como aquelas.

— Sire, não vai nem mesmo pensar em meu plano? Poderia significar vida em vez de morte para todo o Vale Lakreo. Seria um preço assim tão terrível arrumar uma consorte? Heldeon tem quase oito mil soldados, e se ele pudesse ser trazido para nosso lado...

O Sovren suspirou, voltando-se para fitá-lo, o cansaço mais do que físico envolvendo-o como um manto, sombreando-lhe as feições sob seu basto cabelo negro. — Muito bem, Cletas. Prometo pensar na segunda parte de seu plano, presumindo que tenha sucesso em capturar a mulher esta noite.

— Obrigado, meu suserano.

— Mas você tem certeza de que ela ainda não pronunciou o oráculo de batalha? O Terceiro-em-Guerra Trebor Damas mencionou que houve algum tipo de cerimônia na colina hoje, e que a Alta Sacerdotisa falara.

Cletas suspirou. Então, aqui vamos nós. Eu devia saber que não poderia esconder isso dele. — Tenho certeza quanto ao oráculo de batalha, sire. O que a Alta Sacerdotisa anunciou hoje foi que ela teve uma Mensagem sobre você.

Uma sobrancelha ergueu-se em estranho divertimento. — Eu? E qual a cotação de Lady Wynn nessas questões?

— Ela... nunca errou, sire. Pelo menos, não que minhas fontes pudessem descobrir - admitiu Cletas.

— Cletas, você está com a aparência de alguém que perdeu o gato de caça favorito. O que é? O que ela disse?

O Segundo-em-Comando forçou-se a encarar os cansados olhos cinzentos. — Ela disse: "Somente se aquele que manca ficar curado, se ele que for mortalmente atingido em batalha erguer-se inteiro, somente então a vitória pode escapar de nós - somente então a Deusa afastará Sua face de nós."

Desta vez, a sobrancelha praticamente desapareceu sob o cabelo negro. — Verdade - o Sovren falou, lentamente. — Então, hoje Wynn, Alta Sacerdotisa dos Danreg, que sempre acerta em suas profecias, predisse minha morte na batalha que virá.

— Mas, sire... - Cletas fez um gesto impotente. — Talvez desta vez ela esteja errada.

— Como meu estimado pai diria - o Sovren fez uma pausa, lembrando-se com clareza, — Fascinante.

— É tudo o que tem a dizer? - Cletas bufou, indignado. — Alguns instantes atrás você parecia pronto para me partir ao meio por sugerir que tomasse outra consorte, e agora, quando lhe digo que foi profetizado que não sobreviverá a essa batalha, você parece apenas ligeiramente interessado - ele bateu com o punho na mesa — e cita seu pai? Ele tinha sangue frio?

— Bem, na verdade não - disse o Sovren, divertido pela explosão do Segundo, — ambos temos o sangue bastante quente, em comparação ao restante de vocês. Cerca de três graus a mais, aproximadamente.

Cletas lançou-lhe um olhar especulativo. — Esta deve ser uma noite para revelações - disse. — Nunca o ouvi mencionar seu pai antes. Ele ainda está vivo? Onde ele está?

Os olhos cinzentos suavizaram-se de repente, de modo tristonho, no rosto sombrio. — Meu pai... - falou, pensativo. — Alguém a quem não vejo há mais de vinte anos. — Girou uma pesada braçadeira de prata de modo ausente, sem olhar para cima. — Ainda sinto falta dele, sabe? Quase tanto quanto sinto de Araen. Eu os conheci por tão pouco tempo...

— Ele está morto? - Alguma coisa no jeito de seu Sovren falar fazia com que Cletas imaginasse que não.

— Morto? — O governante soltou um som baixinho, quase uma risada. — Não, ele não está morto.

— Ele é... - Cletas hesitou, — como você?

— Quer dizer, fisicamente? - O Sovren afastou o cabelo das orelhas, cabelo deixado comprido de propósito, para disfarçar sua "diferença" mais óbvia. Cedo aprendera que minimizar suas diferenças tornava seu trabalho mais fácil. — Sim, eu definitivamente puxei a ele, Cletas.

— Ele foi - é - um chefe também, meu suserano?

— Bem... não, não realmente. Na verdade, da última vez que soube, ele era um Segundo-em-Comando, como você, meu amigo. Ele serve a seu chefe de modo tão leal e tão bem quanto você a mim. Juntos, os dois tiveram pelo menos tantas aventuras quanto nós, e seus feitos tornaram-se lendários.

— Grandes guerreiros, hein?

— Quando necessário, Cletas. Mas na maior parte das vezes eles trilhavam os caminhos da paz.

— Que nós também pudéssemos fazê-lo, sire — disse Cletas, tentando visualizar tal lugar. — Existe algum modo de poder chamá-los? Dois guerreiros assim nos seriam úteis.

Lentamente, o Sovren balançou a cabeça, a expressão em seus olhos muito distante, como se estivesse olhando alguma coisa maravilhosa que jamais pudesse ver novamente. — Não, Cletas. Eles estão muito mais longe do que a mera distância. Se você cavalgasse incessantemente por todos os dias e noites que ainda lhe restam, e seu filho e então sua filha o fizessem por todos os dias e noites de suas vidas, jamais chegariam sequer perto deles. Encontrá-los seria tão impossível quanto pegar um punhado de estrelas...

Suas palavras falharam e então, após um instante, ele se retesou e sua voz endureceu. — Vamos, Cletas. Vamos ver essas requisições de armaduras que Trebor Damas nos enviou. Não nos resta muito tempo.

 

A névoa era algo tangível, abafando o som do oceano ao pé do alto e íngreme penhasco, escondendo sob seu macio cobertor as rochas pontiagudas que despontavam. Até mesmo o whoosh-boom do grande Pacífico, aqui na romântica região de Lands End, estava reduzido a barulhos sussurrantes que ecoavam e retumbavam feericamente na névoa pesada. O homem de pé na ponta do penhasco em um momento estava envolto em um silêncio quase total, e no seguinte, podia ouvir claramente os latidos lamentosos dos leões marinhos que agrupavam-se nas rochas protuberantes e nas bóias de navegação.

Uma nova brisa começou a açoitar-lhe o cabelo escuro ondulado e ele sabia, de longa experiência, que ela soletrava a morte para esta névoa em particular. As neblinas de São Francisco eram persistentes, mas o vento sempre vencia no final, espantado-as para o mar, quebrando-as contra as colinas, suavizando-as nos vales.

Por um instante o homem sentiu uma certa pena da névoa, indefesa diante das correntes de ar. Está ficando mórbido, disse a si mesmo. Pare aqui mesmo, ou passará o resto do dia deprimido. Além do mais, verificou seu cronômetro de pulso, a hora do almoço terminou há dez minutos... está atrasado.

Mas ele não fez qualquer menção de virar-se e refazer seus passos até as parábolas e torres bruxuleantemente brilhantes do Comando da Frota Estelar. Afinal, qual era a vantagem desse posto se não se podia ter meia hora a mais no almoço de vez em quando? Não era como se sua ajudante, a Tenente Thasten, fosse apontar-lhe um acusador dedo azul... a andoriana apreciaria a oportunidade de levantar-se de seu local de trabalho esta manhã. Ele a mantinha ocupada.,, devo lembrar-me de colocá-la na lista para uma promoção, fez uma nota mental. Qualquer um que consegue manter meu escritório tão organizado quanto Thasten o tem feito nos últimos anos merece o equivalente a uma patente de guerra...

Ele começou a caminhar pela névoa móvel, imerso em memórias; memórias que povoavam-lhe a mente sempre que não estavam completamente ocupadas pelo trabalho. Os ecos na névoa soavam como uma voz, e sua mente formou os sons nas palavras que ouvia com tanta freqüência nos últimos três meses...

Jim... quando vou poder ir para casa, filho? Jim, odeio este lugar... Uma dor familiar o alfinetou, mais fraca após seis meses, mas ainda presente. Por um segundo ele estava de volta à austera capelinha em Riverside, Iowa, sabendo que em poucos minutos teria de carregar a pequena caixa para as filas de criptas de parede e parar junto à mais nova... o prato de bronze polido identificando o nicho como o local de descanso final para os restos terrenos de sua mãe, Winona Kirk...

O sibilar de um mensageiro corta-mar de dois lugares trouxe-o de volta a São Francisco e ao presente. Ele flutuou para baixo, mantendo-se a meio metro acima da borda do penhasco e o piloto, uma jovem tenente, inclinou-se, seus modos ao mesmo tempo respeitosos e urgentes. — Almirante Kirk, o Almirante Morrow exige sua presença, senhor.

James T. Kirk rapidamente sentou-se no pequeno veículo de nariz arrebitado e a tenente levantou-os com pressa antes mesmo dele terminar de ativar seu campo de segurança. Lands End afastava-se enquanto ele olhava para baixo; então, quando a nave fez um a curva e virou para leste, Kirk observou as torres de um âmbar-alaranjado da Ponte Golden Gate emergir da neblina branca como as cúspides etéreas de alguma terra de fadas.

— O que foi, tenente? Para onde estamos indo?

— Minhas ordens foram de levá-lo ao quartel general central, senhor -disse a tenente, com a expressão cuidadosamente neutra. — O Almirante Morrow não me disse o por quê, apesar de dizer que era urgente.

Minutos depois, o corta-mar aportava na doca central de naves auxilia-res no Comando da Frota Estelar, e Kirk seguia imediatamente para o escritório de Morrow. Ele ainda se perguntava do por quê do comandante da Frota Estelar tê-lo chamado, e gastou alguns momentos revisando mentalmente as condições de suas designações atuais. Nada estava errado - ele estava adiantado na maioria dos casos e, passando pela confusão burocrática (uma ameaça contínua), tudo seria completado no tempo previsto.

Suas botas estalaram impacientemente até os hangares da torre norte e o almirante franziu as sobrancelhas, vendo que estava tudo em uso. Ele se forçou a não se mexer enquanto esperava, seus olhos amendoados viajando de modo impaciente sobre a magnífica vista de São Francisco e da Baía, visíveis através do 50° andar, enchendo o hall da torre com raios de sol polarizados. A névoa se fora completamente, agora, e o Sol transformava o hall de bronze pálido, ouro e branco em uma maravilha resplandecente, sua harmonia quebrada apenas a nível do chão pelas manchas verdes, vermelhas e cor de cobalto das plantas.

Vamos, vamos, pensou, forçando-se a não virar e apertar o botão do elevador novamente. Morrow disse que era urgente...

O elevador chiou suavemente, como se pedindo desculpas, atrás dele. — Nível 43, Seção 17 - anunciou Kirk, entrando na bala de vidro.

O elevador depositou-o no corredor diante do escritório do almirante. Quando a porta de entrada sibilou para que passasse, Kirk ficou surpreso por encontrar-se fitando a Tenente Thasten, que estava saindo. — Thasten, o que está acontecendo?

— Trouxe-lhe suas coisas, Almirante - disse ela, indicando-lhe uma bolsa de viagem depositada no carpete da área de recepção. — Sabe quando voltará, senhor?

— Não sabia que estava indo até o momento. Eu lhe informarei, Thasten. Em minha ausência, por favor, peça ao Comandante Arex para cuidar dos serviços do Capitão Ikeya e da tripulação da Constellation.

— Sim, senhor.

Kirk virou-se para encontrar o ajudante-de-ordens de Morrow ocupado em utilizar seu comunicador interno. — O Almirante Kirk está aqui, senhor.

— Entre direto, por favor, Almirante - disse ele, quase que imediatamente, e então levou Kirk ao escritório particular de Morrow, o saco de viagem do almirante firmemente preso em suas garras mais altas.

Harry Morrow os aguardava, seu rosto escuro, belo e sério. — Segure as perguntas, Jim - disse ele. — Uma de nossas naves está com problemas. Não temos muito tempo. A Cochise está esperando. Teremos uma reunião assim que estivermos a caminho.

Kirk assentiu, pegando seu saco com o ajudante-de-ordens. Morrow pressionou um botão e uma parede com vid-tela afastou-se, revelando uma pequena unidade de transporte com dois transportadores. Ao se posicionarem, o ajudante falou suavemente em um comunicador, e logo Kirk teve a sensação familiar de deslocamento quando as paredes tremeram, então se solidificaram, revelando um local diferente.

A primeira pessoa que viu ao descer na pequena sala de transporte da Cochise foi seu ex-Imediato. — Spock! - exclamou, dirigindo-se ao vul-cano. — Mas que diabos você está fazendo aqui?

— O Almirante Morrow me chamou - Spock lhe disse. - Acabei de chegar.

— Você está muito bem - disse Kirk. — Quanto tempo faz?

— Um mês, seis dias, dezessete horas, dezenove minutos...

— A pergunta era retórica, Spock - como sabe muito bem - Kirk o interrompeu, sorrindo. — É bom vê-lo.

— A você também, Jim.

— Senhores - a voz de Morrow veio de trás de Kirk. — Odeio interromper reencontros, mas não temos muito tempo.

Kirk voltou-se para seguir o almirante. — Muito bem, Harry, vamos ouvir algumas daquelas respostas que me prometeu. Aonde estamos indo? Por quê todo esse segredo?

Morrow assentiu. — O segredo se deve por você ainda ser James T. Kirk, o queridinho dos media, e não quero repórteres sabendo desta situação. A última coisa que queremos é criar pânico.

— Pânico? - o sorriso sempre jovial de Kirk desfez-se. Morrow assentiu. — A sala de reuniões é por aqui, senhores.

Assim que deixaram a sala de transporte, as vibrações praticamente não sentidas dos motores da nave se alteraram, e Kirk percebeu que já haviam deixado a órbita da Terra a força total de impulso. Morrow não brincava sobre estar com pressa, pensou, seguindo o almirante. Já devemos estar a meio caminho de Plutão. Para onde estamos indo? Que nave está em perigo?

A Cochise era uma das naves Observadoras Hermes Classe I, com um complemento usual de cerca de 200 tripulantes e oficiais. Mas conforme seguia as costas largas de Morrow pelos corredores praticamente vazios, Kirk percebeu que a nave devia estar funcionando com apenas um esqueleto da tripulação.

O almirante os liderou até uma pequena sala de reuniões, ativou as telas de segurança e então fez um gesto para que se sentassem. — Temos um grande problema, senhores. Alguma coisa está ameaçando a Federação, alguma coisa com um potencial de destruição que é... ilimitado, suponho. Pior do que Vjer, muito pior. O aspecto do problema que é nossa preocupação imediata é Alfa Centauri B, e a Kismet, uma nave mensageira da Federação que agora está encalhada a cerca de 100 milhes de quilômetros da estrela.

— Encalhada? - Kirk inclinou-se para a frente, franzindo a testa.

— Sim. Está lá há quase 16 horas, indefesa, seu sistema de computador completamente cortado.

A sobrancelha de Spock ergueu-se até quase grudar-se à raiz de seus cabelos. — O sistema completo? Muito... incomum. Os backups não estão operacionais?

Morrow concordou com brusquidão. — É tudo parte do que está ocorrendo a Alfa Centauri B. A estrela está sendo envolvida por uma onda de deslocamento temporal que acelera seu envelhecimento. Está se consumindo a uma velocidade inacreditável - convertendo seu hidrogênio em hélio como se milhões de anos passassem em minutos. Estamos evacuando a população de Kent para Centaurus, rezando para que tenhamos tempo suficiente para terminar antes que a estrela exploda em uma gigante vermelha e engolfe os planetas. Isso poderia ocorrer em aproximadamente 20 horas, segundo algumas estimativas.

Kirk fitava o almirante, atônito. Alfa Centauri era um sistema de três estrelas. Alfa Centauri A era um sol amarelo, um pouco maior e mais brilhante do que o Sol, orbitado por Centaurus e mais 14 outros planetas inabitados. Alfa Centauri B era sua companheira laranja, mais próxima (de 30 a 40 U.A. de distância X e menor. Ambas eram orbitadas, a distância, por uma pequena anã vermelha, uma estrela flare chamada Próxima Centauri. Kirk soubera que Próxima Centauri era a estrela mais próxima do sistema solar da Terra antes mesmo de aprender a ler.

Alfa A mostrara sinais de instabilidade por centenas de anos, mas suas ligeiras flutuações eram negligenciáveis em uma escala estelar. Kirk jamais soubera de qualquer problema referente a Alfa B - em circunstâncias normais, as duas estrelas deveriam permanecer inalteradas por bilhões de anos. Alfa B era orbitada por seis planetas. O mais semelhante à Terra, Kent, fora povoado por humanos há mais de 100 anos. Kirk visitara o planeta mais vezes do que podia se lembrar.

Ele também tinha uma propriedade em Centaurus, a apenas um sistema de distância... um vale que comprara com o decorrer dos anos e que chamava de Vale Garrovick, em honra a seu primeiro capitão. Kirk teve uma lembrança breve e penetrante de sua pequena cabana no local, das horas de paz e calma - de pescar no Rio Farragut.

Ele levou um instante para recuperar a voz. — E a Kismet? Também foi pega nesta... onda de... tempo acelerado?

— Não - disse Spock, de modo decidido. — A lógica dita que se assim o fosse, todos a bordo teriam morrido instantaneamente. Teriam envelhecido e virado pó antes mesmo de poderem perceber o que lhes acontecia.

Harry Morrow assentiu sua concordância. — Certo. Apesar de também terem que me explicar em palavras curtas, Jim, então não fique assim.

Kirk estava se sentindo idiota. — Devia achar que já tinha me habituado após todos esses anos trabalhando com vulcanos. E afinal, qual é o problema com os computadores da Kismet?

— O efeito EMP - disse-lhe o comandante da Frota Estelar. — Qualquer reação termonuclear maciça - seja vinda de uma bomba ou de uma estrela - causa um pulso eletromagnético que corta os computadores - e as comunicações. De qualquer modo, a nave está vagando no espaço e, se assim ficar por muito mais tempo... - Deu de ombros, dando um curioso estalar de dedos final.

— Podemos nos aproximar o bastante da nave para resgatar a tripulação sem sermos pegos pelo efeito EMP? - perguntou Kirk.

— Eu não sei - disse Morrow. — Qualquer comunicação é impossível, é claro, já que seus sistema estão cortados. Nossos escudos defletores nos protegerão - é deste modo que estão conseguindo evacuar Kent - mas quanto a podermos chegar perto o bastante da nave para tentar um resgate... - Ele franziu as sobrancelhas, balançando a cabeça. — A Kismet foi pega pelo EMP antes de ter tempo suficiente para ativar seus escudos. Tudo o que podemos fazer é chegar lá o mais rápido possível e ver o que pode ser feito. Meu pessoal de ciências está trabalhando no problema de como permanecer com os escudos erguidos e ainda assim usar o transporte... apesar de que, como bem o sabem, ainda não termos descoberto como fazer isso.

— Eu lhes oferecerei minha ajuda - disse Spock. — Qual é nosso HEG? Os olhos de Morrow voltaram-se para o cronômetro. — Em velocidade de dobra 8, devemos estar lá em torno de 15 horas.

— Muito em cima da hora - murmurou Kirk.

— Só descobrimos há uma hora atrás. A Kismet estava em comunicação com Kent quando foi atingida, mas levou um certo tempo até a notícia chegar a nós. As comunicações da área de evacuação têm sido esporádicas e confusas, como devem imaginar.

— Qual o percentual da população de Kent já evacuado? - perguntou Spock.

— Nosso último relatório disse 75 por cento.

— Então ainda tem muita gente lá - Kirk disse, sombrio. E então, porque ele tinha que saber, disse, tentando manter sua preocupação escondida. — Acredita que afetará Centaurus?

— Alfa B pode engolfar ou cauterizar os gigantes gasosos mais externos do sistema de Centaurus - disse Spock, o rápido olhar para seu amigo percebendo a razão da ansiedade de Kirk, — mas o próprio Centaurus deve estar bastante distante para escapar ao calor. Quanto aos raios cósmicos... - Ele ergueu uma sobrancelha para Morrow.

— Temos escudos planetários erguidos - disse-lhes o almirante, - suficientes para defletir os raios. Não se preocupe, Jim, seu vale ficará a salvo. Ainda me lembro de pescar lá.

Kirk suspirou. — Obrigado, Harry.

Spock cruzou os dedos, um gesto familiar para Kirk através das muitas reuniões tidas juntos ao longo dos anos. Significava que ele estava pensando com grande concentração. — Disse que era apenas um aspecto de um problema maior, Almirante Morrow - disse o vulcano. — Esse problema maior, por algum acaso, está conectado com a perda da Constellation há dez dias?

Kirk enrijeceu-se, olhando rapidamente do vulcano para o almirante.

Morrow assentiu, relutante. — Sim, ele...

O almirante foi interrompido pelo sinal brilhante acima da porta. Quando ele a abriu, um alferes telarita entrou, saudando-os, seus pequeninos olhos cheios de ansiedade. — Esta mensagem acabou de chegar, Almirante. Prioridade Um, senhor.

Morrow pegou a fita que o oficial mais jovem lhe estendia. — Obrigado, Alferes.

Enquanto observava o almirante sondar a mensagem, a mente de Kirk voltou à revelação de Morrow sobre a Constellation e seu destino. Conhecera seu capitão, Carmen Ikeya, por mais de 10 anos. Ela fora a primeira mulher a comandar uma nave estelar, apesar de agora já haver várias outras. Ele podia vê-la com o olho da mente, os olhos amendoados sob os cabelos negros com fios brancos, soltos, um sorriso despreocupado do tipo "vamos arrepiar" em seu rosto bem traçado. Não importava o que tivesse acontecido a Carmen - e aparentemente era mais do que a designação oficial da Frota de "perdido, supostamente destruído" - Kirk podia apostar que ela se fora lutando.

Suas conjecturas foram interrompidas por um palavrão leve vindo de Morrow. Os ombros largos do almirante encurvaram-se de repente. — O que foi, Harry?

Spock também se inclinava em seu assento, apesar de sua expressão, como sempre, permanecer inescrutável.

Morrow sacudiu a cabeça. — Acabei de receber confirmação de que a Kismet levava um passageiro. Tinha esperanças de que ele talvez tivesse se atrasado por algum motivo e não estivesse a bordo... - suspirou, — mas ele está.

— Quem é? Que passageiro? - Kirk estava começando a sentir que, como Alice, caíra num buraco de coelho.

— Queria falar com vocês três juntos - Morrow continuou, murmurando, um pouco consigo mesmo. — Você são um time tão bem conhecido, que ordenei-lhe que pegasse a próxima nave para a Terra.

— Nós três... - Kirk olhou para Spock, que assentiu solenemente para ele. — Está me dizendo que o passageiro da Kismet é... o Dr. Leonard McCoy.

— Sim.

 

— Merda - disse Kirk. — Mas que confusão dos diabos.

— Realmente - concordou Spock. Morrow assentiu, carrancudo.

Finalmente Spock quebrou o silêncio. — Almirante Morrow, talvez devesse explicar o problema por inteiro, e o porquê de sentir que apenas "nós três" somos as pessoas indicadas a aconselhá-lo.

Morrow respirou fundo. — Primeiro, lembrem-se que este é um problema de Prioridade Um. Eu não fui informado de todo o quadro até anteontem. Somente o Secretário Geral do Conselho da Federação, e mais quatro pessoas, duas delas físicos teóricos, sabem tudo sobre o que vou lhes contar.

Kirk observava o almirante, pensando na razão de tal atitude teatral -conhecia Harry Morrow há anos, e drama não fazia parte de seu estilo. É como se ele tivesse que tomar coragem para falar do assunto.

— Outras estrelas além de Alfa Centauri estão morrendo prematuramente - começou ele. — Imagino que o Sr. Spock tenha visto os artigos dos jornais científicos especulando sobre o repentino aumento do número de mortes estelares. - Ele fitou o vulcano.

Spock assentiu. — Sim. Estatisticamente, nos últimos dois meses houve mais de dez vezes o número de mortes estelares em nossa galáxia do que deveria ter havido. Astrofísicos não têm podido determinar a razão para tal aumento, mas, extrapolando esta propensão de modo a incluir as estrelas com massa dez vezes maior que a do Sol, a projeção resultante é realmente inquietante...

— Você quer dizer aterrorizante - Morrow interrompeu. — O que não leu nesses artigos é o motivo para a morte dessas estrelas.

Ele fez uma pausa e Kirk deu um palpite: — Mais dessas ondas temporais?

— Sim. Felizmente, até ontem nenhuma das estrelas afetadas possuía planetas habitados. Mas agora, Alfa Centauri B está morrendo. Imagine o que uma dessas ondas de aceleração temporal fará ao Sol. Ou 40 Eridani. Kent tem uma população de 50 milhões. Qual é a população de Vulcano?

— Sete bilhões, setecentos e cinqüenta e dois mil, segundo o último censo realizado.

— E a Terra tem quase o dobro disso - Morrow massageou a testa como se afastasse uma dor de cabeça. — Ordenei que todos os cargueiros, naves de passeio e naves da Frota que estejam nas proximidades auxiliem na evacuação de Kent. Temos que conseguir.

— E a Constellation?. - perguntou Kirk. — O que aconteceu a ela?

— A nave saiu de dobra muito cedo - disse Morrow. — Ela... - Ele foi interrompido pelo som do intercom. O almirante ativou-o pela vid-tela. — Aqui é Morrow.

— Almirante - o oficial de Comunicações era um nativo americano de meia-idade, — acabei de receber um sinal em código da Secretária Geral do Conselho da Federação.

— Decodifique-o e transmita-o para mim.

Um momento depois, ele sondou a tradução, seu rosto ficando tenso e pálido devido ao choque. — Detectores de neutrinos localizaram sinais de crescente instabilidade em Canopus. A Secretaria Geral quer saber quantas naves registradas pela Federação nesse setor poderiam ser usadas para evacuação.

Morrow reativou a tela. — Tenente Buck, responda que terei de fazer algumas verificações - disse, lentamente. — Não sei quantas naves particulares podem estar disponíveis para recrutamento. Informe à Secretaria que darei uma resposta assim que for possível.

Morrow desligou a unidade, sua expressão transformada em uma máscara de frustração. — Dois planetas habitados no sistema Canopus - resmungou. — Oito bilhões de pessoas. Creio que esta reunião terá de esperar até que eu obtenha a informação para T’Kyra. Jim, precisarei de sua ajuda para comparar tabelas de vôos comerciais. Spock, apresente-se ao grupo de Ciências.

 

Durante as horas seguintes, Kirk pôs de lado sua preocupação sobre McCoy, forçando-se a se concentrar na difícil tarefa de traçar as rotas e as tabelas de horário de naves cargueiras potencialmente disponíveis no setor de Canopus. Ele uma vez ergueu os olhos para um tímido "Senhor?" e descobriu o alferes telarita aguardando com um bule de café e um prato de sanduíches. Comeu-os mecanicamente, mal notando que eram seus favoritos: salada de galinha. Somente quando seus dedos tatearam um prato vazio é que percebeu como estava faminto.

Bebeu o café preto, grato pela injeção de energia. Quando ergueu a cabeça, olhou seu cronômetro e ficou atônito ao descobrir que estivera sentado por quase cinco horas.

Duas canecas de café, um chuveiro sônico e um cochilo de vinte minutos (quando adormeceu inadvertidamente sobre suas tabelas) mais tarde, terminou a análise que Morrow queria. Kirk introduziu os dados finais nos bancos, e então transmitiu cópias de seus achados a Morrow. Seus olhos estavam arenosos e doloridos quando os esfregou, tentando afastar uma dor de cabeça atordoante. Preciso fazer um check-up nos olhos, pensou, levantando e se espreguiçando. Suas costas estalaram.

Estou acordado há somente trinta e quatro horas, pensou, desgostoso. Devo estar mesmo ficando velho. Houve tempo em que podia ficar acordado trinta e seis horas e ainda estar pronto para uma briga. Pela primeira vez em horas ele se permitiu lembrar de Magro, pensando em como seu amigo estaria passando. Deve ser um inferno, estar preso naquela pequena nave com todos os sistemas mortos, cego e surdo, esperando que aquela estrela dilate e os engula...

A porta deslizou para o lado e Spock entrou. O vulcano, Kirk notou mal-humorado, parecia muito mais descansado e alerta do que tinha direito de

parecer. Ele ergueu uma sobrancelha diante da expressão de Kirk. — Está tudo bem, Jim?

O almirante assentiu, cansado. — Quanto tempo até alcançarmos a Kis-mefí

— Estamos quase à distância de sensor de sua última posição registrada. O Almirante Morrow disse que seríamos de boa ajuda na ponte, já que a Cochise está com tripulação mínima.

— Ótimo. Qualquer coisa é melhor do que ficar sentado, se preocupando.

Os dois oficiais seguiram para a ponte. Apesar da nave de pesquisa ser bem menor do que os cruzadores pesados como a Enterprise, fora construída com linhas semelhantes. Kirk permaneceu por um instante fitando a cadeira do capitão, a tela principal, cada posto, e soltou um suspiro de contentamento por estar de volta ao espaço, por sentir uma nave sob os pés. Era impossível sentir felicidade, é claro - Magro estava lá fora, em perigo. Mas já fazia meses desde que deixara a órbita da Terra pela última vez.

É somente quando volto para cá que percebo quanta falta sinto, pensou. Deixo algo aqui quando estou em um planeta... uma parte de minha alma.

— Jim, pode pegar o leme? - Morrow perguntou, voltando-se na cadeira do capitão para fitá-lo. — Acabei de enviar meu oficial de leme e meu navegador ao deck das naves auxiliares para o caso de a localizarmos.

— Sim, senhor - disse Kirk, fazendo sua melhor saudação de "alferes ansioso" e seguindo para o console de controle e navegação.

— Sr. Spock, assuma os sensores, por favor. Quero monitoramento constante.

— Entendido, almirante - murmurou Spock, assumindo seu posto ao lado do oficial de Ciências.

— Estamos livres, Sr. Spock?

— Sim, senhor. Nossa melhor órbita para a sondagem dos sensores será a uma distância de 120 milhes de quilômetros, almirante, e precisaremos manter nossos escudos erguidos. As emanações EMP são contínuas.

— Muito bem. Em frente, a um quarto de velocidade de impulso. Curso três-quatro-dois, marco quatro.

Kirk viu-se examinando o console à procura dos controles apropriados. Queria que Sulu estivesse aqui. Ele marcou o curso e então liberou a informação para o banco de dados. A Cochise pôs-se suavemente a caminho.

Alfa Centauri B agora encontrava-se claramente em suas telas dianteiras, como uma pequena esfera laranja-amarelada ligeiramente menor do que o Sol visto da Terra.

— Estou detectando considerável atividade de neutrinos, almirante -disse Spock. — Alfa B pode expandir-se para uma gigante laranja a qualquer instante.

— Magnificação na tela dianteira. Aumentar os filtros.

Alfa B expandiu-se mais, e ficou ainda maior. Kirk fitava a estrela. Veja essas manchas solares. Nunca vi tantas. E as explosões solares!

— Algum sinal da Kismet, Sr. Spock?

— Negativo, almirante.

— Aumentar velocidade para meio impulso, Jim. Mesmo curso.

— Sim, senhor. - Kirk descobriu-se voltando a seus dias de alferes no leme da Farragut. Seus dedos dançavam nos controles com hesitação cada vez menor.

Lentamente, a Cochise estabeleceu órbita em volta da estrela. A esta velocidade, levaremos dias para circulá-la, pensou Kirk, ansioso. Mas ele sabia que não podiam perder a pequena Kismet dos sensores - não teriam uma segunda chance. Se é que realmente tinham uma primeira chance.

A onda eletromagnética cortara as comunicações, de modo que não podiam nem verificar como procedia a evacuação de Kent. Kirk guiou a Cochise em sua órbita, mantendo uma cuidadosa observação em seus níveis de força. — Almirante - disse, após quase uma hora, — manter nossas telas em capacidade total está drenando nossas reservas de força mais rápido do que projetado.

— Quanto tempo podemos manter uma busca a essa velocidade? perguntou Morrow.

— Não mais que duas horas - disse-lhe Kirk. — A última comunicação da Kismet informava suas coordenadas?

— Sim - disse Morrow. — Sua última localização relatada foi onde entramos em órbita.

— Mas ela teve quase trinta e duas horas para afastar-se de lá - Kirk apontou.

— Inércia - disse Spock, assentindo em aprovação a seu ex-capitão. — Logicamente, não podemos ignorar o fato de que um corpo viajando a qualquer velocidade tende a permanecer a essa velocidade a menos que sofra influência de uma força externa.

Morrow massageou a testa. — Entendo o que quer dizer... mas podemos correr o risco de os perdermos se alterarmos o padrão de busca? Kirk respirou fundo. — Podemos não fazê-lo?

— A que velocidade estava a Kismet quando encontrou a onda EMP? -perguntou Spock.

— Estava respondendo a uma mensagem de encontro em Kent - disse-lhe Morrow, — e por isso saiu de velocidade de dobra. Se a Capitão Perez seguia uma aproximação padrão, deveria estar viajando a três-quartos de força de impulso.

— Isso me dá algo em que me apoiar. - Trabalhando com fervor, Kirk lançou o problema nos computadores de navegação, verificando duas vezes seus números, lembrando-se de acrescentar as crescentes oscilações do vento solar de Alfa B sobre uma nave sem força, mas ainda capaz de planar. Ele alimentou o computador com todos os dados disponíveis, e então pediu-lhe que estabelecesse um curso em três dimensões. Instantes depois obtinha a resposta.

— Spock, já se passou muito tempo desde que fiz algo semelhante. Pode checar meus números?

Concentrado como estava, Kirk esquecera de que não estava mais em comando. Spock pediu permissão relanceando os olhos para o Almirante Morrow, que assentiu. Kirk transferiu seus dados para o console de Ciências e ficou tenso, tentando não pensar que a vida de McCoy podia depender do que fariam nos próximos poucos minutos.

O vulcano endireitou-se após um instante. — Verificado - disse, fitando Kirk. — Logicamente, eles estão onde deveriam estar.

— Muito bem, Jim - disse Morrow, após olhar a projeção, — estabeleça seu curso. Dobra fator um.

A Cochise pulou para a frente sob os dedos de Kirk. Vinte minutos depois, Kirk anunciou: — Alcançamos minhas coordenadas projetadas, almirante. Diminuindo para sub-luz.

— Algum sinal deles, Sr. Spock?

— Nada, almirante.

— Implantar rede de busca padrão. Diminua para meio impulso.

Kirk pilotou a Cochise automaticamente através das manobras da rede de busca, sua boca seca de ansiedade. O que fizera de errado? Já devíamos tê-los passado. Magro pode estar a dez mil quilômetros atrás de nós, naquela nave sem sistemas de suporte de vida... ele pode estar morrendo, neste minuto, podem todos estar mortos...

Dez minutos... Quinze... Trinta... Uma hora.

Uma hora e vinte minutos.

— Condições de força, Jim?

— Podemos manter escudos totais erguidos por mais 15 minutos — disse Kirk, calmo, sentindo o desespero envolvê-lo como um manto. — Se procurarmos por mais tempo, não poderemos manter nossos escudos erguidos tempo suficiente para nos liberarmos.

As feições escuras de Morrow nada mostravam além de simpatia. — Examinaremos, então. Fez tudo o que podia, Jim. Não fique assim.

Kirk balançou a cabeça, tonto com a percepção de que, desta vez, não conseguiriam tirar um milagre do nada. Desta vez, eles iriam...

— Estou captando alguma coisa - o tom impassível de Spock continha uma excitação oculta.

— Kismet? - Morrow inclinou-se para a frente.

— Verificado, almirante. A nave está bem à frente, seguindo para marco três ponto quatro-dois.

Kirk sentiu o alívio banhá-lo, alívio quase que imediatamente substituído por uma tensão crescente. Estamos atrasados? Ainda estarão vivos?

A Cochise aproximou-se do cargueiro à deriva. A não ser por suas luzes de emergência, estava morta no espaço. — Bem, nós a encontramos - disse Morrow, a ninguém em particular, — agora, como os contactaremos? Todos os sistemas de comunicação estão inoperantes. Ela não nos pode ouvir.

A oficial de Ciências da Cochise, uma mulher chamada Lisa Washington, virou-se para observar a imagem na tela frontal. — Enviar alguém para bater em sua escotilha? - sugeriu, sem expressão.

Apesar de sua preocupação, a boca de Kirk torceu-se com a cena que a sugestão dela o fizera imaginar. — Infelizmente não dá, tenente. - Então, abruptamente, endireitou-se em sua cadeira. — Ei, é isso! Bateremos em seu casco!

— Hein? - disse Washington, franzindo a testa.

— Dispararemos nossos phasers em sua proa, perto o suficiente para sacudi-los um pouco! Pode ser feito em um padrão regular, para que saibam que estamos aqui!

Spock já estava assentindo. — Pode funcionar, Almirante Morrow.

— Vamos tentar. Jim, dispare quando estiver pronto.

— Sim, senhor. Disparando phaser um - Kirk pressionou o botão de disparo, e o feixe mortal partiu.

Ao disparar em feixes mais curtos e longos, ele pôde criar um padrão. Deu-lhes o velho "ponto-ponto-ponto, traço-traço-traço, ponto-ponto-pon-to" do sinal de S.O.S., repetiu-o e, então, num impulso, acrescentou um "barbear-e-cortar-o-cabelo".

Eles então esperaram, rígidos de esperança e medo, rezando por algum sinal de vida a bordo da nave estropiada. Kirk descobriu-se desejando que pudessem baixar suas telas, só por um segundo, para que seus sensores pudessem focalizar na tripulação e transportá-los a bordo, mas ele sabia que era impossível. O próximo passo era da Kismet.

Passaram-se cinco minutos. Dez.

— Devo sinalizar novamente, almirante? - perguntou Kirk, tentando manter a voz impassível.

— Sim - não! - Morrow estava de pé, seu olhar jamais deixando a tela visual. — A escotilha está se abrindo!

Automaticamente, Kirk aumentou a magnificação para que todos pudessem ver a figura corpulenta em um traje propulsor, pendendo contra uma "tela de fundo" espacial e ao lado do casco da Kismet. Enquanto observavam, a figura liberou uma linha de segurança. A escotilha girou novamente, abrindo para permitir a saída de mais três figuras em trajes espaciais comuns. Conforme cada figura saía pela escotilha, o ocupante do traje propulsor o prendia à linha. Em dez minutos, havia dois trajes propulsores, com dez figuras usando trajes espaciais ligadas a cada um deles. Com seus trajes brancos e ligeiramente refletores, pareciam pêras de estranha forma postas juntas, suspensas contra o manto de veludo da escuridão infinita.

Terão de usar as transferências manuais quando ativarem seus trajes propulsores, pensou Kirk. Os computadores não funcionam. Terão de computar sua trajetória mentalmente e quantos segundos de propulsão devem permitir.

— Como os traremos a bordo? - perguntou-se o Tenente Buck.

— Se chegarem perto o bastante, podemos usar uma nave auxiliar -Morrow respondeu. — Se virarmos a Cochise de modo a nosso hangar de entrada ficar voltado para a estrela, o casco da nave bloqueará o EMP. Podemos então descer nosso escudo dianteiro tempo suficiente para deixar uma nave auxiliar sair e voltar.

— Deck de naves auxiliares - continuou Morrow, em seu intercom. — Prepare a nave auxiliar de carga Onizuka para recuperar a tripulação da Kismet.

— Sim, almirante. A postos.

— Eles acionaram a ignição dos propulsores! - falou Kirk.

Observava, com a boca seca, enquanto os propulsores cortavam o vácuo, enviando as figuras em alta velocidade na direção da Cochise. Por sua vez, cada um dos trajes espaciais saltava quando a linha esticava, e então seguia em altos e baixos atrás do operador do propulsor. Como um gigantesco movimento de chicote, pensou Kirk. Haverá alguns pescoços e costas doloridos amanhã.

Finalmente, logo depois que os dois "colares de pérolas" de trajes espaciais passaram diante da tela principal a uma distancia de vários quilômetros, Kirk viu que os propulsores haviam sido desligados. Eles calcularam certo? Eles vão parar onde a nave auxiliar possa alcançá-los?

— Aqui é o deck de naves auxiliares - soou o intercom, um minuto depois. — Nós os temos ao alcance. A navegadora Ferguson diz que lançaremos a nave em um minuto. Aguarde para abaixar o escudo defletor número quatro.

A tripulação da ponte soltou um excitado grito de alegria. Kirk sentou-se ereto, aguardando para descer, e então reativar, a tela.

Finalmente, após o que lhes pareceu um intervalo interminável - na verdade foram apenas 15 minutos - a voz de contralto de Ferguson relatou: — Nós os pegamos, Almirante Morrow. Eles estão bem. As portas do deck estão se fechando atrás de nós. Pode reativar o defletor número quatro.

Kirk manteve-se firme tempo suficiente para acionar o escudo, então pulou para segurar a mão de Morrow. Os olhos do almirante brilhavam. — Conseguimos!

— Graças a Deus - disse Kirk, suavemente. Foi envolvido por uma onda de alívio que o deixou leve, solto. Sorriu quando Morrow lhe deu um tapinha no ombro.

— Condecore-se, Almirante Kirk - brincou Morrow. — Se não fosse por você, jamais teríamos descoberto onde eles estavam.

— Apenas um pouco de lógica na hora certa - o sorriso de Kirk abriu-se tanto que parecia que ia partir-lhe o rosto em dois. — Acho que depois de todos esses anos acabei assimilando-a um pouco, não é, Spock?

O vulcano permaneceu observando a contente tripulação, as mãos postas atrás das costas. — Almirante, com sua permissão, gostaria de juntar-me ao grupo médico no deck de naves auxiliares.

Morrow assentiu. — Podem ir os dois. Assim que McCoy estiver disponível, notifiquem-me e encontrem-me na sala de reunião. Temos muito o que discutir.

Kirk e Spock chegaram ao deck de naves auxiliares na hora em que a última das figuras de traje espacial era ajudada a descer do cheio compartimento de carga da Onizuka, — Você vê o Magro?

— Lá - apontou o vulcano. Os dois oficiais correram para a figura em traje espacial que sentava-se largada na rampa de carga da nave auxiliar, obviamente tendo problemas para remover o capacete. Enquanto se aproximavam pelo lado cego do médico, Spock acionou o mecanismo automático de emergência na parte de trás do capacete, que liberou repentinamente a alavanca teimosa . As observações irascíveis de McCoy surgiram abruptamente. — ...traje espacial idiota e imbecil... ouch!

Kirk tirou o capacete das mãos do doutor, então deu uma volta de inspeção em seu ex-cirurgião-chefe. — Calma, Magro. Spock e eu tivemos muito trabalho em resgatá-lo para vê-lo ser nocauteado pelo próprio capacete.

O queixo de Leonard McCoy caiu com um som quase audível. — Jim? Spock? Mas que diabos...?

De algum modo o médico já estava de pé e, de repente, sem saber exatamente o que ele pretendia, Kirk estava com os dois braços em volta de seu amigo e dava-lhe tapinhas nas costas - e levando os seus de volta. Riram até tossirem, e então, quando suas risadas ameaçavam tornar-se algo mais constrangedor, Spock clareou a garganta de modo ostensivo. — Se pretendem continuar, prefiro esperá-los na sala de reunião.

McCoy fitou o vulcano com um olhar zombeteiro. — Ora, seu filho da mãe de sangue frio...

— Magro - Kirk interrompeu-o apressadamente, sufocando um sorriso. McCoy o fitou, então um sorriso lento e relutante iluminou as feições abatidas do médico. — Diabos, eu agora não conseguiria ficar com raiva nem de Lúcifer - principalmente se ele acabou de ajudar a salvar minha vida. Como é que vai, Spock?

— Estou bem, doutor - respondeu o vulcano, somente seus olhos escuros revelando seu prazer aliviado de ver novamente seu adversário de discussões. — Gratificado por encontrá-lo de tão bom humor - apesar de profano.

— Vamos tirar esse traje - disse Kirk. — Odeio apressá-lo após a viagem que teve, mas temos uma emergência em nossas mãos, e o Almirante Morrow - por alguma razão que ainda desconhecemos - quer nosso conselho para tentar solucioná-lo.

— Foi por isso que ele me ordenou que voltasse à Terra?

— Aparentemente - disse Spock. Juntos, ele e Kirk ajudaram McCoy a sair do traje espacial. Kirk torceu o nariz.

O médico empertigou-se ao ver-lhe a expressão. — Estive vivendo nesta coisa duplamente horrível nas últimas 14 horas, Jim. Você não era nenhum mar de rosas depois do incidente Tholiano, lembra-se? E não como nada há mais de um dia - não que eu desejasse comer muito após a gravidade artificial ter sido cortada. Uma boa coisa a enfermaria deles ter bastante remédio contra náusea. Tive tantos pacientes que quase não tive tempo para me preocupar. Que bagunça!

— Imagino que possamos esperar pelo tempo de você tomar um banho e comer alguma coisa - disse Kirk, enquanto abriam caminho através da multidão que se encontrava no deck de naves auxiliares.

— Não creio que meu estômago já esteja assim tao acostumado. Não tenho feito um exercício com trajes espaciais desde o curso básico... ficar preso lá, sentindo como se cada parte de meu corpo estivesse caindo... em diferentes direções... - o médico engoliu em seco, estremecendo. — Até mesmo essa droga de transporte é melhor do que ficar preso no espaço. Espero mesmo nunca mais ter que passar por isso novamente.

— Poucas chances - assegurou-lhe Kirk. — Voltamos ao fator de dobra 9, seguindo para Kent para pegarmos tantos refugiados quanto a Cochise puder carregar, antes de voltarmos à Terra.

Após o médico ter tomado seu banho e os três oficiais terem compartilhado de uma refeição e café no pequeno refeitório, informaram ao Almirante Morrow que encontravam-se na sala de reunião.

Enquanto aguardavam a chegada de Morrow, Kirk encostou-se em sua cadeira, olhando para o outro lado da mesa, para McCoy e Spock, pensando em quantas vezes ele já se sentara com esses dois homens antes, tentando solucionar problemas difíceis. Faz muito tempo desde que trabalhamos juntos... espero que não tenhamos perdido aquele velho toque.

Kirk não via seu antigo médico-chefe há quase um ano. Até ontem, McCoy estivera dando um curso de Xenoanatomia na escola de medicina da Frota Estelar, em Prima, parsecs distante.

Kirk também não vira muito Spock, apesar de pelo menos estarem estacionados no mesmo mundo. O vulcano era instrutor na Academia da Frota e passava muito de seu tempo acompanhando seus alunos em detalhes de treinamento.

— Apesar de tudo, Jim, você está ótimo. - As feições marcadas de McCoy mostravam cansaço, as linhas em volta de seus olhos e descendo pelo rosto tão pronunciadas pela fadiga que seus olhos pareciam encovados. Mas o azul permanecia tão brilhante como sempre.

— Obrigado, Magro. Tenho tentado manter a forma.

— Como está Peter?

— Bem - disse Kirk. — A morte de mamãe atingiu-o duramente no início, mas a capacidade de recuperação da juventude... - Deu de ombros, voltando-se para fitar o vulcano. — Falando nisso, Spock, como vão os cadetes? Já os deixou em forma?

— É uma eterna luta, almirante - disse Spock, o rosto impassível. — Muitos são humanos, e tendem a... infectar... os outros.

McCoy sorriu. — Vulcanos não têm honra, Jim. Ele sabe que estou cansado demais para rebater, então está tirando vantagem de mim.

— Meu palpite é de que ficará aqui por um bom período, portanto você vai ter bastante tempo para recuperar a velha forma, Magro.

— É - concordou o médico, pensativo. — Nem imagino quando voltarei. Provavelmente minha turma está oferecendo sacrifícios para Hipócrates - tinha uma prova marcada para hoje. Sabe-se lá quando eles a farão.

A porta se abriu, e Harry Morrow entrou. — Dr. McCoy, fico contente que esteja a salvo. - Apertou-lhe a mão com gravidade. — Jim e Spock já lhe explicaram por que estamos aqui?

— Não. Mas percebi que algo está acontecendo a Alfa Centauri B - que ela vai explodir ou coisa parecida.

Spock já estava movendo a cabeça. — Não, doutor, ela não explodirá. Mas o que está acontecendo a ela é tão perigoso para Kent quanto se fosse explodir. Muito em breve, ela expandirá até se transformar em uma gigante laranja, então esfriará um pouco para tornar-se uma gigante vermelha.

— O que acontecerá a Kent?

— Quando Alfa B começar a expandir, ela engolfará todos os seus planetas - sem mencionar vários dos gigantes gasosos de Alfa A.

— E quanto a Centaurus? - McCoy perguntou rapidamente. O doutor vivera no planeta por alguns anos; ainda constava nos registros como sua residência oficial.

— Segura - Kirk garantiu. — Estão erguendo um escudo.

— Mas se evacuarmos todas as pessoas de Kent... - começou McCoy.

Spock balançou a cabeça. — O problema não termina com Alfa B, doutor. O Almirante Morrow nos explicou que várias outras estrelas também estão envelhecendo a uma velocidade extremamente rápida, já que o consumo de seu hidrogênio interno é acelerado pelas ondas de deslocamento temporal.

— Quer nos explicar tudo em linguagem comum, Spock? - McCoy fitou o vulcano. — De preferência com palavras curtas! Lembre-se, sou um médico, não um...

— Um físico cosmólogo - completou Spock, enquanto o oficial médico procurava por um termo. — Muito bem. - Ele tamborilou seus dedos finos e pensou por um instante. — Talvez o melhor meio para iniciar seja lembrá-los de que essas estrelas, como os seres vivos, possuem tempo de vida limitado. Depois de terem convertido o suficiente de seu hidrogênio em hélio como combustível interno, elas morrem.

— Até aí eu sei - resmungou o doutor.

— Ótimo - disse Spock, impassível. — Estrelas pequenas ou de tamanho médio, como o Sol - ou Alfa A e B - expandem-se em gigantes vermelhas, então encolhem-se como anãs brancas. O tempo de vida de uma estrela de tamanho pequeno a médio é de aproximadamente dez bilhões de anos, mais ou menos um ou dois bilhões.

— Pensei que você tinha dito que era um problema imediato - McCoy observou, sarcástico. — Não me parece que eu deva ficar acordado por noites a fio me preocupando com isso.

Spock soltou um som baixo e impaciente... não exatamente um "ahum". — Dr. McCoy, uma vez que nada do que você ou qualquer outra pessoa possa fazer vá evitar as conseqüências naturais ou não naturais do envelhecimento de uma estrela - o vulcano ergueu a sobrancelha, — permanecer acordado se preocupando sobre a eventualidade constitui uma reação completamente ilógica.

— Magro, não; - Kirk falou rápido, vendo o brilho combativo nos olhos do doutor. — Estamos com você, Spock. Prossiga.

— Muito bem. Quanto maior a massa da estrela em questão, mais curto é seu tempo de vida. Estrelas maciças e pesadas exaurirão seus suprimentos internos de hidrogênio em torno de apenas dez milhões de anos. A estrela então incha, tornando-se uma supergigante vermelha, e acaba explodindo - uma supernova.

— E isso tem ocorrido muito ultimamente? - Kirk lembrou-se da conversa anterior com Morrow e Spock.

— Correto, almirante. Para ser mais preciso, houve um aumento considerável em mortes estelares de todos os tipos.

— O que acontece às supernovas? - perguntou McCoy, intrigado apesar de tudo. — Elas simplesmente explodem em átomos?

— O plural correto é supernovae, doutor. Sim, algumas estrelas fazem exatamente isso, tornando-se nuvens de hidrogênio ionizado que nós chamamos de nebulosas. Outras, porém, caem sobre si mesmas. As de massa menor, tornam-se estrelas de nêutrons. Porém, os remanescentes das estrelas mais massivas caem em poços gravitacionais tão intensos que nenhuma luz pode escapar deles.

— Buracos negros - disse Kirk.

— É o termo popular para o fenômeno.

— Mas já os descobrimos antes - protestou o doutor. — Eles engolem tudo que fica preso dentro de seu campo gravitacional, mas na maioria dos casos é apenas gás ou poeira cósmica, e ocasionalmente uma faixa de asteróides ou coisa parecida. Nunca foram uma ameaça para um planeta!

— Quer dizer, e ainda não foram uma ameaça, doutor - Morrow advertiu-o. — Mas isso porque o universo explorado é um lugar grande, e não há muitos deles. Mas com um maior desenvolvimento - possivelmente muitos mais... - ele se interrompeu com um dar de ombros e uma expressão que era mais eloqüente do que seriam as palavras. — Soube há apenas poucas horas que Canopus foi afetada.

— Canopus também? - McCoy estava visivelmente preocupado. — Tenho um velho amigo reformado que vive em Serenity.

— No presente momento, a Frota está evacuando a população do sistema - disse Morrow. — Esperamos poder remover oito bilhões de pessoas de dois mundos antes que a estrela vire supernova e seu interior entre em colapso. Felizmente, nossas estimativas indicam que isso levará vários meses, então provavelmente poderemos salvar essas vidas. Canopus é uma estrela mais jovem do que Alfa B.

O comandante da Frota Estelar suspirou. — Mas é tarde demais para Carmen Ikeya e a tripulação da Constellation.

— O que houve, Harry? - Kirk perguntou. — Eu conhecia Carmen, sabe.

— Eu também. - Morrow passou a mão nos olhos de modo cansado. — Podemos apenas imaginar como aconteceu, mas sabemos o que aconteceu. A Constellation saiu da velocidade de dobra cedo demais e emergiu em espaço real dentro do horizonte de eventos de um novo buraco negro recentemente descoberto no Setor 87. Havia uma estrela cepheida, como Canopus, chamada Achernar - havia. Ela agora é um buraco negro, e a Constellation está presa dentro dele.

— Ela não pode sair? - indagou McCoy.

— Não, doutor - Spock falou normalmente. — A natureza de um buraco negro é que ele exerce uma tal força de gravidade que nada pode escapar — nem mesmo a própria luz. Por isso o termo buraco "negro".

— E a nave foi engolida?

Spock hesitou. — Tempo, espaço e gravidade são termos interligados quando discutimos buracos negros, doutor. No que se refere à tripulação da Constellation, suas vidas foram ceifadas pelas enormes pressões gravitacionais dentro do buraco, aproximadamente 6,7 nanosegundos após cruzarem o horizonte dos eventos - o limite de onde não há mais retomo, para ser mais coloquial.

O vulcano interpretou o olhar chocado de McCoy como falta de compreensão. — Um nanosegundo, doutor, é um bilionésimo de segundo. Se seus motores ainda estivessem funcionando, talvez pudessem ter experimentado um ou dois nanosegundos a mais...

— Droga, Spock! - rosnou o doutor. — Você já devia saber como estou cansado de ouvir você recitar fatos e números tão friamente quanto um pepino quando está falando sobre pessoas - seres vivos - morrendo!

— Doutor, estou tão angustiado por esta situação quanto você - respondeu o vulcano, de modo franco, — mas erguer minha voz ou demonstrar agitação extrema dificilmente ajudará a Constellation. Mesmo que sua imagem permaneça em nossos sensores por toda a eternidade, a nave e sua tripulação se foram.

— Quer dizer que a Constellation ainda está lá! - Kirk estava confuso.

— Como pode estar em nossos sensores se foi destruída?

Spock expressou frustração com um pequeno suspiro. — É difícil explicar sem recorrer a equações, mas para os observadores distantes - nós - a Constellation permanecerá presa nesse horizonte para sempre, como um inseto preso em âmbar.

— Ahn? - McCoy franziu a testa. — Por quê?

— Porque o tempo decorrido observado cessa uma vez que o horizonte de eventos é cruzado. Para nossos sensores, a Constellation está lá. Mas do ponto de vista de qualquer um a bordo da nave, ela foi instantaneamente destruída.

McCoy fitou Kirk, incrédulo. — Peraí, Spock. Está tentando me dizer que a Constellation está em dois lugares ao mesmo tempo? Isso é loucura... impossível!

— Não, doutor. - O vulcano permitiu-se outro suspiro. — Mas explicar-lhe de modo mais completo exigiria um tempo de que não dispomos. Temo ter que pedir-lhe para aceitar de boa fé minha explicação.

O oficial médico resmungou mas, após um olhar de Kirk, conformou-se.

— Certo. Acredito em você. Mas por que está acontecendo isso? O que fez a Constellation calcular mal sua saída da velocidade de dobra?

— Não sabemos com certeza, tudo aconteceu rápido demais - disse Morrow. — Na realidade, se não fosse pelo grupo de cientistas que monitoram o buraco negro, ela teria sido listada como apenas mais uma nave desaparecida.

— Saber com certeza - repetiu Kirk. — Então tem uma teoria?

— Não eu - Morrow sorriu, cansado. — Acham que entendo desse tipo de matemática? R't’lk de Hamal foi quem correlacionou os dados. Ela crê que o cronômetro da Constellation estava correndo rápido demais, e que por isso a nave saiu tão cedo da velocidade de dobra.

Kirk tentou, sem sucesso, acompanhar a teoria. — O cronômetro estava errado... mas isso é impossível! Existem sistemas de backup, sistemas antifalhas, interligações nos computadores! - Balançou a cabeça teimosamente. — As naves estelares marcam o tempo pela data estelar. É a constante de tempo mais acurada jamais descoberta...

Kirk interrompeu-se, ouvindo suas próprias palavras. Uma compreensão repentina começou a infiltrar-se em sua mente.

Spock já estava concordando. — Compreendo - disse o vulcano, lentamente. — A física Halmaki não estava sugerindo que os aparelhos de medição do tempo da Constellation estivessem com problemas. Em vez disso, a Professora R't'lk teoriza que o próprio tempo estava correndo rápido demais a bordo da nave.

— O que isso causaria? - perguntou McCoy.

— Se foi mesmo esse o caso, isso significaria que a Capitão Ikeya e sua tripulação já estavam mortos quando a nave cruzou o horizonte de eventos. Envelheceram e desintegraram no nada entre duas respirações.

— Bem - disse Kirk, sentindo-se um pouco mal, — eles pelo menos não sofreram.

— Eles jamais saberiam o que os atingiu - concordou Morrow.

— Almirante Morrow - disse Spock, com uma certa urgência, — seguindo esta linha de raciocínio até sua conclusão lógica, é possível que R't'lk também creia que esse processo de aceleração do tempo seja responsável por todas as mortes estelares prematuras? - A sobrancelha do vulcano ergueu-se de modo inquisitivo.

Morrow assentiu. — Meus cumprimentos, Sr. Spock. Precisei de quase dez minutos de explicação para compreender todas as ramificações do que estavam tentando me dizer... e você decifrou assim - ele estalou os dedos.

— Só faltava essa - McCoy murmurou devagar. — Como se ele já não fosse muito convencido...

O vulcano ignorou o médico. Os planos angulares de seu rosto endureceram-se e mesmo enquanto Kirk o observava, a pele ligeiramente esverdeada empalideceu de modo visível. — Isto é... extremamente alarmante - disse, sua voz próxima a um sussurro. — Se este fenômeno continuar, significará o fim...

— De quê? - McCoy perguntou, confuso.

— Tudo.

— Quer dizer... - As mãos do médico fecharam-se sobre a mesa como se ele quisesse se certificar de que ela ainda era sólida. — Spock, está falando do fim do Universo? Como? Descobriram o primeiro buraco negro há duzentos anos, e ainda estamos aqui.

— Realmente estamos - concordou o vulcano, mas sua voz calma tinha um tom metálico. — Mas se o tempo corresse mais rápido, ou de modo irregular, isso criaria uma enorme fadiga no tecido do espaço-tempo, doutor. Vivemos em um Universo em expansão, mas seu movimento, na maioria das vezes, é detectável apenas pelo exame do desvio para o vermelho dos espectros de estrelas e de galáxias distantes.

McCoy assentiu lentamente. — Certo, lembro-me disso. Mas é difícil de imaginar.

— Talvez ajude-o a visualizar se pensar nas galáxias como sementes individuais em uma massa de bolo de especiarias. Quando a massa começa a crescer, as sementes se afastam umas das outras. O movimentos das galáxias em nosso Universo é de algum modo análogo.

— E o que isso tem a ver com mortes de estrelas e buracos negros? -perguntou Kirk.

— Não sabemos exatamente como será o fim do Universo, Jim. Podemos apenas teorizar - e a maior parte das teorias atuais concorda que, em bilhões de anos, as estrelas terão virado cinza, ou que terão caído em buracos negros - que então engolfarão a maior parte da matéria restante antes deles mesmos morrerem. O Universo terminará, como disse T.S. Eliot em "The Hollow Men": "Não com uma explosão, com um lamento."

Kirk tentou imaginar um vácuo infinito, vazio de matéria, até mesmo de átomos. Nada além de alguns espalhados e decadentes prótons ou elétrons, talvez. — E você acha que este envelhecimento pode ser apressado, fazendo com que o Universo termine muito antes do que o normal?

— É possível, almirante. Também não sabemos o efeito que o surgimento de tantos buracos negros teria no tecido do espaço-tempo. Poderia ser que o "pipocar" de tantos buracos negros em um Universo em expansão resultasse em "rasgos" maciços - o efeito semelhante ao de fazer buracos em uma massa que está sendo puxada por todos os lados. Eventualmente, ela se rasgaria por completo. É claro que o cosmo tem pelo menos quatro dimensões, não apenas duas - o vulcano acrescentou imediatamente.

— Quem se importa com quantas dimensões existem? - perguntou McCoy, erguendo as mãos. — Isso tudo significa que vamos explodir como bolhas de sabão amanhã?

— Dificilmente, doutor - disse Spock, em um tom cheio de excessiva paciência. — O Universo tem cerca de quinze bilhões de anos. Se ele envelhecer normalmente, durará mais de um trilhão de anos. O perigo imediato aqui é apresentado pelas mortes estelares, e quanto tempo levará antes que "rasgos" comecem a surgir.

— R’t’lk já calculou quanto tempo tempos para interromper o processo - disse Morrow, olhando para uma folha impressa. — Uma vez que o fenômeno foi originado em outra galáxia, temos aproximadamente noventa dias antes que o dano seja irreparável.

— Noventa dias! - Kirk sentiu seu coração querendo saltar para fora do peito, e então começar a bater forte, rápido e cheio de expectativa. Um banho de adrenalina o fez tremer. — Harry, se nos chamou aqui só para atualizarmos os testamentos, eu gostaria que tivesse me deixado morrer em abençoada ignorância. - Ele respirou fundo, controlando a onda de medo com esforço, concentrando-se em pensar. — Mas tem de haver algo que possamos fazer sobre isso, ou você não nos teria chamado. E por que nós três, e não algum outro oficial da Frota?

Kirk pensou ter ouvido Spock murmurar "Lógico", mesmo enquanto Morrow lhe lançava um olhar aprovador. — Está certo, Jim. Eu tinha uma razão especial para precisar de vocês três. Descobrimos a fonte das ondas de distorção temporal que estão causando a aceleração do tempo, e ela está localizada no Setor 90.4.

— Quer dizer Gateway? Está dizendo que o Guardião é a causa de tudo isso?

O Setor 90.4 se localizava em uma das mais velhas porções da galáxia explorada, uma região desolada do espaço contendo apenas algumas poucas estrelas anãs negras já explodidas e mais alguns planetóides rochosos espalhados. O único mundo marginalmente habitado (possuía uma atmosfera baseada em oxigênio-nitrogênio, mas não havia vida) era aquele que a Federação apelidara "Gateway".

Gateway era coberto por ruínas de uma civilização tão inimaginavelmente antiga que pouco se sabia sobre ela, mesmo após anos de estudo pelos arqueólogos da Federação. A única estrutura intacta (se é que se podia chamá-la assim) era a pedra redonda monolítica que chamava a si mesma de "O Guardião da Eternidade".

O Guardião era consciente, mas não era um ser vivo como Kirk entendia a vida. Era também um Portal do Tempo possuidor de poderes vastos e quixotescos - capaz de projetar toda a História de um mundo em minutos. Qualquer observador tolo o bastante para pular por sua abertura central corria o risco de alterar a História; o Portal do Tempo imediatamente transportava os viajantes de volta ao mundo e ao tempo pedido.

A Enterprise descobrira o Guardião anos atrás, ao investigar as "tiras" de deslocamento temporal que a entidade causava. Kirk, Spock e McCoy foram os primeiros homens a usar o Portal do Tempo. Pesadelos sobre a tal "viagem" ainda acordavam Kirk ocasionalmente, deixando-o acordado no escuro.

O almirante foi puxado de suas memórias pela voz de Morrow: — Temo que sim, Jim. E, uma vez que vocês três descobriram o Guardião, achei que podiam ter algumas idéias.

— O que o Guardião está fazendo, exatamente? - indagou Spock.

— Ninguém está seguro de nada, a não ser de que ele não mais responde às perguntas, e que a natureza dessas ondas de deslocamento temporal que ele causa mudou. Elas agora estão sendo emitidas a intervalos muito variáveis.

— E essas ondas estão acelerando o tempo? - perguntou McCoy. — É por isso que as estrelas estão envelhecendo e morrendo prematuramente?

— Nós sabemos sobre essas emissões, doutor, tanto quanto vocês sabiam sobre as antigas - disse Morrow. — É igualmente possível, suponho, que durante todos esses anos o Guardião tenha desacelerado o envelhecimento das estrelas para aumentar-lhes o tempo de vida. Simplesmente não sabemos.

— Foi dito que ele está lá "desde antes de nosso Sol queimar no espaço" - citou Kirk. — Sabíamos que ele tinha muitos estranhos poderes, mas nunca sonhei que fosse capaz de algo assim. Os arqueólogos em Gateway podem dar alguma resposta quanto a isso?

— Nada - disse Morrow. — Ele não responde a nenhuma pergunta ou tentativa de comunicação por... - fitou um relatório à sua frente, — .. .por 174 dias solares. Há 2 meses perdemos contato com o time arqueológico atual e com a nave de patrulhamento. Estamos presumindo o pior.

— Já tentaram um telepata? - Spock perguntou, de repente.

— Um telepata? - as sobrancelhas de Morrow ergueram-se. — Não, isso é algo que ninguém tentou. O que o faz pensar que um telepata possa comunicar-se com o Guardião? Até onde sei, ele é alguma espécie de computador incrivelmente avançado, não é? Além disso, não há muitos especialistas à disposição.

— Na época em que o Guardião foi descoberto pela primeira vez, Spock fez parte do grupo científico escolhido para estudá-lo. Ele o conhece melhor do que qualquer outro ser vivo - Kirk disse ao almirante, com um olhar rápido para o vulcano.

— Eu sei - disse Morrow, seus olhos jamais se afastando do rosto de Spock. — Li seu relatório várias vezes. Nunca foi mencionado que ele tenha tentado um elo mental com o Portal do Tempo.

Kirk ouviu McCoy prender a respiração, e soube que o doutor estava se lembrando, bem como ele, da identidade da pessoa que, com sucesso, con-tactara o Guardião mentalmente. Apressado, começou: — A teoria de Spock de que o Guardião pode ser contactado por um elo mental é...

Sem olhá-lo, o vulcano ergueu uma mão, e Kirk voltou a um silêncio inquieto. — Não, Almirante Morrow, eu não tentei um contato telepático com o Guardião. Mas vi ser feito.

— Como o Guardião é um dos mais bem guardados segredos da Federação - Morrow disse tranqüilamente, — creio ter justificativa para pedir-lhe que identifique este indivíduo.

— Um jovem vulcano parente de Spock... - iniciou o Dr. McCoy, mas então Spock voltou-se para o oficial-médico com um rasgo de afeição divertida nos olhos. — Aprecio sua tentativa de proteger-me, doutor, mas situação tão grave não exige nada menos do que a verdade. - Encarou Morrow novamente. — Almirante, a pessoa que se comunicou mentalmente com o Guardião foi meu filho, Zar.

— Seu... - Kirk duvidava que Morrow teria ficado mais chocado se a mesa criasse vida e começasse a dançar ao som de gaitas de fole. Passaram-se trinta segundos antes que o almirante pudesse falar. — Peço desculpas, Sr. Spock, por me intrometer em sua privacidade, mas seus registros pessoais nunca... - Ele pigarreou para clarear a garganta. — No entanto, como diz, a situação é extremamente ameaçadora. Mas não fazia idéia... - Morrow pigarreou novamente. — De qualquer modo, o importante é que foi estabelecido contato. O que seu filho fez uma vez, pode fazer novamente. Onde ele está?

— Temo que isso seja impossível, almirante - Spock disse de modo calmo, mas algo sombreou-lhe os olhos escuros por um instante. — Meu filho está morto há cinco mil anos.

 

Spock observou Morrow tentar recuperar-se deste segundo e maior choque. O vulcano evitou que suas feições traíssem-lhe sua diversão. Esta é a segunda vez que ele abriu sua boca, e então fechou-a sem emitir nenhum som...

— Talvez deva explicar-lhe - ofereceu Spock com gentileza. O almirante assentiu, sem nada dizer.

— Há aproximadamente 14.5 anos, a Enterprise foi designada para observar a estrela Beta Niobe, que se transformaria numa nova a qualquer momento, assim como para avisar os habitantes do planeta Sarpeidon sobre o destino de sua estrela. Mas, quando nos teleportamos para o planeta, descobrimos que todos os habitantes haviam se refugiado no passado de seu planeta. Por um engano, o Dr. McCoy e eu também fomos lançados pelo Portal do Tempo na era glacial do planeta... há uns 5.000 anos.

Spock fitou McCoy. Ele está surpreso que eu possa falar sobre o que houve com tanta equanimidade. Antes do Kolinahr, eu talvez não pudesse mesmo fazê-lo...

O vulcano voltou o olhar para Morrow. — No passado de Sarpeidon, descobrimos Zarabeth, uma mulher que fora erroneamente exilada sozinha para tal difícil período. Teria sido fatal para McCoy e para mim permanecermos em tal era glacial, e igualmente letal a ela retornar pelo Portal. Tivemos de deixá-la lá.

— E ela era... - Morrow arriscou de maneira delicada.

— A mãe de Zar - confirmou Spock. — É claro que eu não tinha idéia de que ele nascera até analisarmos registros pré-históricos que os computadores da Enterprise haviam copiado da biblioteca principal de Sarpeidon. Zar pintara sua própria imagem nas paredes da caverna de Zarabeth. Havia - ele juntou as mos à sua frente, — uma acentuada semelhança.

— Sei - disse o almirante. — Mas quando voltou lá para encontrá-lo, se esse mundo não mais existia?

— T'Pau obteve autorização do Conselho da Federação para que eu utilizasse o Guardião para visitar o passado de Sarpeidon - respondeu Spock. — Zar então retornou ao presente de 14.5 anos atrás comigo.

— E o Comando da Frota Estelar nunca soube?

— O Almirante Komack sabia - Kirk falou. — Contamos-lhe toda a história após a confusão com os romulanos estar resolvida e Zar ter ido embora.

— Romulanos? - Morrow parecia completamente estonteado.

— Eles tentaram confiscar Gateway. Spock e Zar foram a maior razão por terem falhado.

— Foi então que a expedição arqueológica foi massacrada?

— Sim - respondeu Spock. — Creio que, após o incidente, os detalhes foram, em sua maioria, suprimidos devido a seu alto grau de segurança.

— E Zar? Aonde ele foi? Ele era adulto?

— Zar estava com cerca de 28 anos - disse Spock, as memórias passando por sua mente em uma série de brilhantes imagens mentais. — Após a batalha por Gateway, ele escolheu retornar ao passado de Sarpeidon. A história do planeta mostrava que ele, de fato, retornava - e ele não queria alterá-la e assim criar um paradoxo, após tudo o que havíamos feito para salvaguardar a integridade da linha temporal.

— Percebo - disse Morrow, após uma longa pausa. — E aprecio sua honestidade, Sr. Spock. Tenha a certeza que respeitarei sua confidencia. De volta ao problema imediato, diz que seu filho contatou o Guardião telepaticamente? Quantas vezes?

— Uma só - respondeu Spock.

— Duas vezes - corrigiu-lhe Kirk. O vulcano voltou-se para ele, sua sobrancelha erguendo-se em surpresa. — Eu o vi fazer isso logo após tê-lo atravessado - explicou Kirk. — Ele... me disse que o Guardião estava vivo, mas não do modo como o que ele compreendia a vida. Disse que ele se comunicara com ele.

— Fascinante - comentou o vulcano. — Você nunca me contou.

— Na verdade, esqueci completamente sobre isso até o presente momento.

— E também o viu contatá-lo? - Morrow perguntou, dirigindo-se a Spock.

O vulcano hesitou, examinando profundamente em sua mente pela seqüência exata dos acontecimentos que, por um segundo, ele estava de volta, sentindo o tapa gelado do vento, ouvindo seu gemido presente e vendo Zar, seu manto de pele agitando-se a sua volta, a mão tocando a pedra inacreditavelmente antiga do Guardião. Vendo-o - e sentindo, novamente, a dor de sua perda. Não quero que vá, disse silenciosamente àquela memória imagem tão vivida. Quase fui atrás de você... desde então, poucos são os dias em que não penso em você, não desejo seu bem através dos anos...

Spock voltou ao presente de repente, percebendo que Morrow aguardava. — A segunda vez foi pouco antes dele partir. Ele tocou o monolito, e ele o presenteou com uma visão de um vale em Sarpeidon - apenas essa visão, e nenhuma outra - que é um contraste total com o modus openrandi usual do Portal. Creio que ele comunicou-se mentalmente, dando ao Guardião um comando silencioso - que ele obedeceu.

— Sei... - Morrow movimentou a cabeça. — Uma pena que ele não nos possa ajudar desta vez. Mas existem outros telepatas...

— Almirante Morrow - a vid-tela brilhou com vida. — Estamos a distância de comunicação com Kent.

— Podemos falar com eles?

— Podemos falar com o grupo que está controlando a evacuação no lado escuro do planeta. O lado claro bloqueia o EMP.

— Contate o coordenador da evacuação.

Momentos depois, um rosto de mulher mais velha encheu a tela. Spock nunca vira alguém com uma aparência tão exausta, mas ainda assim seus olhos, apesar de injetados, fitaram os de Morrow com firmeza, e seu discurso era claro. — Martha Hardesty, Coordenadora da Defesa Civil Planetária, Almirante Morrow.

— Quantos restaram para serem trazidos a bordo?

— Agora apenas o restante do grupo de evacuação. Cerca de 250 de nós.

— Isso ficará apertado. - Morrow fitou Spock. — Como Alfa B está indo?

O vulcano balançou a cabeça. — Verifiquei o status com a Tenente Washington antes de começarmos nossa reunião, almirante, e ela me informou que a estrela já estava começando a expandir.

— Droga... quanto tempo acha que temos?

— Dados insuficiente para especular, senhor.

Morrow abrir um canal para a ponte. — Tenente Washington, quanto tempo temos para tirarmos essas pessoas daqui?

— Almirante - Washington parecia extremamente nervosa, — quanto mais cedo nos afastarmos pelo menos mais uma U.A. dessa coisa, ficarei mais feliz. Eu posso vê-la crescer, senhor.

— O tempo é curto - Morrow disse a Hardesty. — Mande sua gente em todas as naves que tiver, e manteremos um fluxo estável pelo transporte. Todos os civis se foram?

— Não. - As feições sérias de Hardesty tornou-se ainda mais séria. — Há 184 idiotas que recusaram-se a partir.

— Droga! Tolos teimosos...

— Não pudemos forçá-los. Alguns eram idosos, disseram que já estavam mesmo prontos para partir. Alguns não acreditaram em nós, não importasse o que disséssemos. Alguns poucos... - ela lutou para acalmar uma onda de risada histérica, — disseram que queriam observar, se é que pode imaginar isso.

— Ah, dá para crer numa coisa dessas - Morrow falou, de modo azedo. Não importa, Hardesty. Você fez o que pôde. Mande sua gente para cá.

— Estamos indo.

Uma hora depois Spock encontrava-se com Kirk, Martha Hardesty, Dr. McCoy e o Almirante Morrow na ponte, enquanto a Cochise saía de órbita. Quando a nave emergiu de trás da massa do planeta, ele piscou de consternação.

Alfa B crescia até mesmo enquanto eles a observavam. A estrela já estava com cerca de duas vezes seu tamanho normal. Spock fitou-a, absorto pela sensação de que aqui havia algo fora de controle, algo maligno, crescendo sem razão, contra a natureza.

As telas ondularam quando Alfa B assumiu novos e maiores contornos. A estrela ainda estava laranja-amarelada, mas Spock sabia que não ia demorar. Ela logo esfriaria como inchara, consumindo voluptuosamente seus fogos internos. Ela finalmente se tornaria uma gigante vermelha, tão grande que, daqui há quatro anos e quatro meses, quando sua luz chegasse à Terra, ela dominaria os céus das latitudes sul, sendo visível até mesmo durante a luz do dia.

A Cochise seguiu para longe sob força de empuxo. — Olson se foi -anunciou calmamente Lisa Washington, referindo-se ao planeta mais interno de Alfa B.

A consumação do pequeno mundo morto, semelhante a Mercúrio do Sistema Solar tanto em tamanho quanto em forma, nem sequer causara um piscar em suas telas. Enquanto a Cochise afastava-se lentamente da borbulhante estrela gravando o acontecimento, Washington estoicamente listava os nomes dos planetas que morriam. — Perry se foi... - Então, minutos depois: — Esse foi Lang, ele se foi.

E, finalmente: — Kent... - Sua voz falhou, e Spock sabia que ela pensava, assim como ele, nos 184 seres conscientes e na vida animal que se queimava no nada.

Martha Hardesty começou a soluçar. — Minha casa... nunca mais a verei... minha casa, minha casa...

Kirk acarinhou-lhe o ombro, e a mulher idosa desmoronou por completo. O almirante a abraçou, acariciando-lhe as costas com gentileza, sussurrando conforto em seus ouvidos. Observando o rosto de Kirk, Spock percebeu, em uma repentina onda de empatia, que as palavras da mulher mais velha haviam lhe trazido de volta as memórias dos últimos dias de Winona Kirk, de seus pedidos angustiados para que seu filho a levasse para casa.

A mãe de Jim esquecera que sua casa fora destruída quando um raio atingira a velha casa de fazenda de 350 anos, queimando-a até o chão. Se não fosse pelo jovem Peter Kirk, que estava em casa durante as férias da Academia da Frota Estelar, Winona teria morrido, mas seu neto a carregara, inconsciente por causa da fumaça, até um local seguro. O acidente causara-lhe um retrocesso do qual jamais se recuperara, física ou mentalmente. Ela morrera seis meses depois, de pneumonia.

— Bem, acho melhor ver se posso ajudar o médico - a voz de McCoy invadiu os pensamentos de Spock. — Alguns desses refugiados sem dúvida alguma precisarão de sedativos. Estamos com gente demais para permitirmos histeria em massa.

— O pessoal médico a bordo da Cochise, diferente do resto da tripulação, está em força total, doutor - disse-lhe Spock. — O Almirante Morrow previu esta situação. Creio que seu tempo, e o de Jim, seria melhor gasto descansando. Precisaremos estar alertas quando chegarmos ao Quartel General da Frota.

McCoy fez uma pausa, pensativo. — Odeio como o diabo dizer isso, mas está certo, Spock. Mas apenas se você também descansar. E não quero ouvir nenhuma desculpa sobre vulcanos e como eles podem adiar o sono. Feito?

Tendo ganho este round, o vulcano pôde permitir-se ser indulgente. Spock inclinou a cabeça. — Muito bem, doutor.

Os três oficiais acomodaram-se em um quarto de três camas com mais três outros oficiais - e, devido à importância de sua missão, tinha status a seu favor. A pequena Cochise regurgitava de pessoas. Os refugiados ocupavam os corredores e enchiam o pequeno deck de recreação. Havia longas filas para uso dos lavatórios. Soluços tornaram-se parte do barulho de fundo da nave, mesclado com a tênue vibração dos propulsores de dobra.

Spock decidira que permaneceria deitado até que Kirk e McCoy adormecessem, então se levantaria e ofereceria seus serviços aos grupos médicos, mas os acontecimentos dos últimos dois dias o haviam cansado mais do que ele percebera. Em poucos minutos, sentiu-se afundando no sono e, com um suspiro, aceitou-o e deixou-o tomar conta dele.

O vulcano sonhou que estava de pé em um vazio sem rosto, que se estendia para infinito em todas as direções - e ainda assim, de algum modo, ele podia ver o infinito, e ele sabia que não havia nenhum lugar lá, nem nada mais. Nenhuma estrela, nenhum planeta - nenhuma poeira, nenhum átomo... nada. Nada, nada, nada. Ele estremeceu, percebendo que isso era o que todos temiam - o fim do Universo.

Ele jamais se sentira tão só.

Deve haver alguma coisa, pensou, olhando em volta com cuidado. Alguma coisa... alguém... Ele se virou, dando uma volta completa. Tem de haver alguém...

E havia. Por um momento, ele pensou estar olhando em um espelho, então percebeu que estava vendo Zar, apesar de seu filho estar consideravelmente mais velho do que quando o vira pela última vez. Eles se fitaram, e Zar falou, mas nenhum som emergiu de sua boca. É claro que não, pensou Spock. Estamos no vácuo. O som não se propaga no vácuo.

— Zar - tentou dizer. — Filho...

Mas tampouco ele pôde fazer qualquer som.

Não podemos estar vivos no vácuo sem trajes espaciais, Spock então percebeu. Devo estar sonhando.

E acordou.

Em algum lugar, um dos refugiados gritava de dor e desespero. Os propulsores haviam mudado ligeiramente de vibração. Força de empuxo, pensou o vulcano. Estamos nos aproximando da órbita da Terra.

 

— Você podia ter me nocauteado com uma pena, Jim - disse Leonard McCoy, irritado, pegando seu drink. Ele fitou a coleção de armas antigas que pendiam na parede do apartamento de Kirk em São Francisco. — Juro, toda vez que penso ter pego aquele safado de orelhas pontudas, ele me faz uma cara como a que ele mostrou ontem. É pura maldade da parte dele.

— Perdoe-me por parecer cético - Kirk disse, brandamente, — mas não acha que o desejo de ajudar diante de uma ameaça em potencial possa ser parte do que acionou a revelação de Spock?

McCoy lançou-lhe um olhar tipo Et tu, Jim?, então suspirou e deu de ombros. — Bem, não pode me culpar por ficar azedo. Eu estava mentindo horrores por causa dele, e ele vai lá e me puxa o tapete. - Balançou a cabeça, um sorriso tocando seus olhos azuis. — Gostaria de ter um holo do rosto de Morrow. Não creio que ele tivesse ficado mais perplexo se tanto o praetor romulano quanto o imperador klingon tivessem dançado bale em sua sala de conferência usando tutus cor-de-rosa.

Kirk não pôde evitar um sorriso. — Eles ficou muito surpreso.

— Por que deveria? O comandante da Frota Estelar, tem responsabilidades demais para sentar-se à mesa lendo velhos relatórios - Kirk bebericou seu conhaque. — Ademais, não tenho certeza se cheguei a explicitar o exato relacionamento entre Spock e Zar. Eu talvez o tenha deixado um pouco... vago.

— Sei.

— Não me lance esse olhar de santo, Magro. Você foi o único que nunca mencionou que nosso estimável vulcano e Zarabeth descobriram o prazer da companhia um do outro na era glacial de Sarpeidon. Pelo seu relatório, ninguém jamais adivinharia que eles haviam passado pelo estágio de se darem as mos.

O olhar de McCoy foi sardônico. — Relatórios supostamente são compostos de fatos, almirante. Tudo o que eu tinha até sabermos sobre a existência de Zar eram especulações. - Deu uma bebericada rápida e nervosa em seu drink. — Afinal, não é como se eu estivesse lá quando... quer dizer... - ele se interrompeu, fitando fixamente seu conhaque.

Kirk teve pena de seu amigo e salvou-o, mudando de assunto. — Todo esse negócio com o Guardião deixou-me atônito - disse ele. — Após milênios de operações não ditas - se aceitarmos o que ele nos disse como verdade - o que poderia estar errado?

— Uma conexão perdida? - McCoy disse ao acaso, sorrindo.

Kirk levantou-se e foi até a cozinha. — Tem um senso de humor afiado, Magro. Já lhe disse isso?

— Constantemente, pelos últimos 19 anos, mais ou menos.

— Vamos comer. - O almirante começou a examinar os menus do terminal de sua cozinha. — Do que gostaria?

— Galinha frita com purê de batatas.

Os dedos de Kirk digitaram o pedido no teclado. — Está vindo.

O doutor passou uma perna sobre o banco do bar e sentou-se, observando enquanto Kirk fazia uma salada com gestos rápidos e experientes. A unidade de preparo de comida apitou, e o almirante retirou dois pratos fumegantes. — Aqui está, Magro.

— Obrigado. Pelo menos os condenados terão tempo para algumas boas últimas refeições. - McCoy pegou um garfo cheio de purê.

— A questão como um todo é tão... incompreensível. - Kirk pegou suas verduras. — Quer dizer, em todos os anos em que tenho estado na Frota, viajei talvez... não sei... um décimo de um por cento do espaço que podemos ver e os medimos? Um centésimo de um por cento? Um milionésimo? O que é um milionésimo de infinito, Magro? Se não posso imaginar isso, então com que diabos o fim dele pode me parecer real?

— É, sei o que quer dizer. Sempre me senti mais confortável às voltas com o espaço interior - dentro do corpo humano - então nunca fico pensando sobre lá fora. - McCoy suspirou. — Mas após observar Alfa B, descobri que agora posso imaginar o Sol crescendo e evaporando a Baía de São Francisco - isso sem contar o resto dos oceanos.

— Sonhei sobre isso na noite passada — admitiu Kirk.

— Se ao menos tivéssemos mais tempo! — McCoy espetou selvagemente um pedaço de tomate.

Noventa dias, o pequeno mantra se repetia na mente de Kirk, como estivera ocorrendo desde o dia anterior. Noventa dias. Se não pudermos mudar o que está acontecendo, pelo menos é tempo o bastante para ir ate' aquela estação de pesquisa para ver Carol e David... talvez desta vez eu devesse contar a David...

A referência de Spock a Zar fez o almirante pensar ainda mais em seu filho, David Marcus. Pelo menos o vulcano encontrara seu filho adulto, conhecera-o, mesmo que por apenas poucas semanas. Diante desta nova ameaça, o almirante novamente sentiu sua própria mortalidade pesando contra ele, mais forte ainda do que antes.

Sempre achei que haveria tempo... anos, décadas... mas agora... noventa dias... Kirk balançou a cabeça, franzindo as sobrancelhas. E isso, decidiu. Não importa como isso se resolva, vou marcar um encontro. Vou dizer-lhe... não importa o que eu e Carol concordamos há muito tempo, isso agora é parte do passado. Talvez possamos passar algum tempo juntos, conhecermos um ao outro...

O sistema de comunicações iluminou-se, interrompendo-lhe os pensamentos. — Almirante Kirk. Chamada.

A tela encheu-se com as feições escuras e belas de Morrow. — Encontramos um, Jim - disse o almirante, sem preâmbulos.

— Um o quê?

— Um telepata. Ela tem uma das maiores médias de sensitividade conhecidas - o que não surpreende, considerando que ela é uma marishal. Spock ajudou a entrevistar candidatos.

— Onde está Spock?

— A caminho de sua casa. Podem partir amanhã?

Kirk inclinou-se e começou a programar uma refeição vegetariana. — Quer dizer, para Gateway?

Morrow assentiu. — Quero que assumam a missão de levar essa telepata até lá o mais rápido possível. Podem partir amanhã?

— É claro -disse Kirk, então sorriu. — Harry...? - começou.

— O que foi, Jim?

— Levarei a Enterprise!

Morrow balançou a cabeça, surpreso. — Eu devia imaginar. Ela pode ficar pronta em tempo?

— Pode. Scott nunca me falhou antes.

Morrow suspirou. — Também quer o Engenheiro-Chefe Scott?

— E mais a Comandante Uhura e o Comandante Sulu - ele já recebeu a promoção para a capitão?

— Está em andamento.

— Diga-lhe que preciso dele. Ele virá. - Kirk voltou-se para McCoy. — E... vejamos, onde está a Dra. Chapei?

— Pesquisando a febre Hephaestus em Vulcano.

— Longe demais. E a Reliant foi designada para uma missão de longo tempo, então Chekov está fora. Mas pelo menos Scott, Uhura e Sulu, Harry. E todos aqueles que eles pedirem para seus departamentos.

— Remover tantas pessoas-chave de seus postos vai desmontar metade da Frota! - protestou o almirante.

Kirk sorriu, sereno.

Morrow lançou-lhe um olhar mal-humorado. — Mas você me tem na berlinda, e sabe disso. Certo, você os terá. - Ele sorriu, divertido. — Algo mais que deseje, Ó Herói da Frota Estelar?

— Isso já basta - Kirk falou suavemente.

— E partirão amanhã?

— Pode apostar.

— Tudo bem, meu ajudante-de-ordens entrará imediatamente em contato com sua tripulação - disse Morrow.

— Diga-lhes para me encontrarem a bordo da nave. Magro, Spock e eu iremos a bordo assim que ele chegar.

— Certo. — Morrow interrompeu a conexão.

McCoy observava seu antigo capitão com divertimento, enquanto Kirk calmamente voltava a seu jantar interrompido. — Harry Morrow não estava brincando quando disse que metade da Frota vai ficar em polvorosa. Sem mencionar que a academia vai ter que encontrar outros instrutores para todos aqueles cadetes. Estou surpreso de Morrow não tê-lo mandado para o inferno, Jim.

— Não - disse Kirk, de modo complacente, às voltas com um último bocado de berinjela à milanesa. — Ele precisa de nós. Esta missão é por demais importante para enviar nada menos do que o melhor.

A campainha da porta tocou. — É Spock - falou Kirk, acionando o mecanismo de destrancamento da porta e limpando a boca. — Vou colocar o uniforme. Diga-lhe que seu jantar está pronto.

A porta do quarto de Kirk fechava-se quando o vulcano entrou no apartamento. — Olá, Spock. Eis seu jantar - disse-lhe McCoy, tirando o prato da unidade. — Jim está se vestindo. Iremos para a nave. agora mesmo, então não enrole.

Spock se sentou e pegou seu garfo. — A Enterprise, presumo?

McCoy sorriu. — Como adivinhou?

— Os vulcanos nunca adivinham. Conhecendo o almirante, era a única resposta lógica.

 

Enterprise! Só estar de volta a bordo de sua nave levantava o ânimo de Kirk. Ele permanecia no turboelevador e mal podia se conter em tocá-la. Está agindo como um alferes em sua primeira missão, ralhou consigo mesmo.

Mas por que não? Ele estava sozinho; não havia ninguém para vê-lo. Kirk esticou a mão e acariciou o suplemento acolchoado das paredes. — É bom estar de volta - sussurrou. — Senti sua falta.

Ele sorriu, sentindo-se tolo, mas não se importando. O turboelevador desacelerou, e então parou.

— Ponte - o local de destino piscou.

Desde que a Enterprise fora remodelada antes de seu encontro com Vger, Kirk sentia-se um pouco desconcertado pelo novo design da ponte. Ele sentia falta das portas vermelhas, seus pés não sabiam automaticamente o número de passos que o levariam para chegar à cadeira de comando... alguns dos consoles estavam nos lugares errados. Pequenas coisas, mas ele sempre levava alguns minutos para se ajustar.

A maior parte da tripulação já estava a bordo; a Comandante Nyota Uhura voltou-lhe o rosto quando ele entrou, um sorriso caloroso iluminando-lhe as negras feições cansadas - ele sabia que ela estivera trabalhando sem descanso para que pudesse fazer, pessoalmente, uma dupla verificação de todo o sistema de comunicações, e ele a abençoou silenciosamente por isso.

Spock também estava lá, inclinado sobre o posto de ciências ao lado do Tenente-Comandante Naraht, o oficial de ciências Horta.

— Sulu? - Kirk perguntou, olhando em volta.

— Ele e seu grupo acabaram de subir a bordo - respondeu Spock.

Kirk afundou-se na cadeira de comando, então chamou o deck de engenharia. — Aqui é o Almirante Kirk. Sr. Scott, está aí?

— Sim, senhor - soou o familiar sotaque escocês.

— Tempo estimado para partida?

— Acabei de completar minhas verificações nos sistemas, senhor. Estaremos prontos assim que der a ordem.

— Sabia que podia contar com você, Scott. Estaremos saindo logo que nosso passageiro for trazido a bordo.

— Muito bem, almirante.

— Almirante - disse Uhura, — o chefe do transporte informa que a ma-rishal está a salvo a bordo, senhor, e que o Dr. McCoy a escoltará para seus aposentos.

Atrás de Kirk, as portas da ponte se abriram, e um instante depois, o Comandante Hikaru Sulu entrou, fazendo uma pausa com uma breve saudação e sorrindo para seu oficial-comandante. Ao sinal de Kirk, ele deslizou para a cadeira do leme, que um oficial júnior liberou com prontidão.

— Temos permissão, almirante - disse ele, quando uma luz verde piscou em seu console.

— Aguarde para sair da doca espacial, Sr. Sulu - disse Kirk. — Uhura, contate o Almirante Morrow, por favor.

— Pode prosseguir, senhor.

— Harry, estamos a caminho. Boa sorte em manter as coisas normais por aqui.

A voz de Morrow soou calorosa. — Boa sorte para você e sua tripulação, Jim. Manteremos nossos dedos cruzados por vocês.

— Algumas orações também não machucarão - Kirk murmurou à meia voz, enquanto Uhura interrompia a transmissão.

Lenta e cuidadosamente, a Enterprise deslizou pelo cavernoso interior da doca espacial da Frota Estelar. As portas abriram-se, e então eles ficaram livres, em órbita temporária. "Abaixo" deles, a Terra virou, o Pacífico

voltado para cima, nuvens brilhando brancas sobre a água azul-celeste. A massa terrestre de um verde-amarronzado da América do Norte ainda estava visível na ponta da direita.

— Tenente s'Bysh - Kirk falou para sua navegadora de pele verde, — compute nosso curso e melhor velocidade para o Setor 90.4.

— Sim, senhor.

Kirk sentava-se fitando a ponte, ensaiando mentalmente o discurso "para toda a tripulação" que daria tão logo estivessem a caminho. Ele mal passara pelo "vital", quando a mulher de Órion voltou-se de seu console de navegação. — Curso computado e inserido, senhor.

— Sr. Sulu, prepare-se para implantar curso.

— Sim, senhor - os longos dedos de Sulu dançaram sobre seu console do leme com segurança, sem qualquer instante de hesitação.

A boca do almirante torceu-se enquanto ele observava o piloto. — Estou contente por ter consentido em juntar-se a nós, Sr. Sulu. Daria tudo por sua habilidade há alguns dias atrás, quando encontrei-me tentando lidar com um complicado trabalho de piloto.

O oficial parecia deliberadamente inescrutável, mas seus olhos amen-doados piscaram. — Posso respeitosamente indagar se a nave do almirante alcançou com sucesso seu destino pretendido?

Kirk riu. — Eventualmente, Hikaru. Após alguns cálculos errados. Estamos prontos?

— Curso estabelecido, senhor.

— Então nos tire daqui, comandante. Força de empuxo.

— Sim, senhor! - A voz de Sulu traiu-lhe a excitação, e Kirk bem sabia como ele se sentia.

O piloto aumentou a velocidade para força total de empuxo e, repentinamente, as estrelas borraram-se à sua frente e o Sol desapareceu. Dentro de minutos, eles estavam se aproximando dos gigantes gasosos.

Ainda observando Saturno enquanto ele se afastava na escuridão, Kirk pressionou o botão para o intercom geral da nave. — Aqui é o... - capitão, ele quase disse, mas corrigiu-se em tempo, — Almirante Kirk, comandante. Primeiro, deixem-me congratular com todos os membros da tripulação pela rapidez e prontidão com que prepararam Enterprise para uma missão em espaço profundo. Não tenho permissão de revelar os detalhes de nossa missão, mas ela é vital para a segurança da Federação. Sei que continuarão a dar de tudo de vocês. - Fez uma pausa de um segundo, percebendo que não havia mais nada a dizer a não ser "obrigado".

— Obrigado. Kirk desliga.

Ele recostou-se em seu assento, fitando a tela visual. A sua frente não havia nada além de inumeráveis estrelas, queimando com todas as cores, todas as matizes. Tão belo, pensou. Voltei para casa. Ele viu-se pensando - pela centésima vez - por que aceitara a promoção que o tornara um administrador preso a uma mesa e a um planeta. Parte era porque ele sabia que a Frota precisava de gente competente para posições no alto comando; na época parecera-lhe seu dever. Porém mais e mais vezes, ele se perguntava se seu dever na verdade não seria fazer o que ele agora sabia que fazia melhor - comandar uma nave estelar. Explorar. Solucionar problemas. Evitar ameaças.

Se ao menos pudermos lidar com esta, pensou, sentindo o medo voltar. Apesar de toda sua velocidade, a Enterprise não podia transportá-lo rápido o bastante. Noventa dias...

Se ao menos, pegou-se pensando, ele pudesse descobrir algum meio de permanecer a bordo de sua nave, mesmo após a missão de Gateway estar terminada - de um jeito ou de outro. Se o Universo fosse mesmo acabar, James Kirk sabia onde queria passar seus últimos meses ou anos - no espaço. Havia algum meio de ganhar tal liberdade? Ele conseguiria convencer Morrow a retorná-lo à servir no espaço?

Eu podia sempre fazer algo para me rebaixarem, pensou. Desobedecer ordens, ou tirar licença sem permissão. Ele sorriu, irritado. Claro, essa vai ser demais.

— Almirante, estamos nos aproximando da órbita de Plutão - falou Sulu.

Kirk abriu o canal para a Engenharia. — Scott, está pronto para velocidade de dobra?

— Quando quiser, almirante.

— Obrigado, Sr. Scott. Adiante fator dobra sete, Sr. Sulu.

A Enterprise estremeceu por uma fração de segundo, então adentrou o infinito. Kirk sentiu a mudança imediatamente, por todo seu corpo, enquanto observava as estrelas borrarem, passando em disparada, deixando em seus olhos suas pós-imagens tênues e coloridas como arco-íris.

Ele se levantou. — Sr. Sulu, tem o comando. Estarei na cabine VIP. Sr. Spock, vamos dar as boas-vindas a nossa hóspede.

Kirk pisou no turboelevador da direita, lembrando-se dos dias em que havia apenas uma única saída da ponte. Eles todos haviam tido mais de uma ocasião para não gostar de tal fato mais de uma vez - o novo design era infinitamente melhor.

Mas ele ainda sentia falta das portas vermelhas.

Spock juntou-se a ele em segundos, e Kirk informou seu destino ao elevador. As portas se fecharam. — Dez dias para alcançar Gateway - disse o vulcano.

Kirk concordou. — E não há dúvida de que Scott estará puxando os cabelos quando chegarmos lá. Constantes de alta velocidade acabam com suas amadas "crianças".

A boca de seu antigo imediato curvou-se infinitesimalmente. — Lembro-me bem.

— Eu também - Kirk admitiu, modestamente. — Sinto falta disso, Spock. Você sente?

O olhar do vulcano o fitou. — Às vezes, Jim. Mas também valorizo minha designação atual; ensinar aos jovens tem suas próprias recompensas.

— Concordo. Eu gostaria de poder passar mais tempo fazendo exatamente isso. - Kirk franziu a testa de modo pesaroso. — Harry continua me prometendo que logo poderei ensinar meio período, mas toda vez que faço planos Dará realizar isso, há outro incêndio por aqui. - Ele suspirou. —

Bem, já despachei quase todos os meus projetos atuais. Depois disso, juro, se alguém mais for me entregar memorandos, vou fugir e juntar-me aos fuzileiros navais do espaço.

O vulcano ergueu a sobrancelha, mas disse apenas: — Sabe como damos valor a sua experiência, Jim. Seu registro como comandante de nave estelar nunca foi igualado - muito menos ultrapassado. Os cadetes aprendem muito com você.

Kirk sorriu. — E quando estiver ensinando, teremos de nos ver mais.

O turboelevador diminuiu a velocidade e parou, e os dois oficiais saíram. — Antes de encontrarmos nossa hóspede, refresque minha mente sobre os marishal, Spock. Já vi referências a eles, mas pouco sei sobre esse povo.

— Os marishal - disse o vulcano, — são uma raça de bípedes não-tec-nológicos de um planeta localizado próximo ao setor Procyon. São herbívoros gentis e prolíficos, totalmente não-agressivos. Sua descoberta pela Federação há quase duas décadas ocorreu de forma afortunada em sua história; eles haviam superpopulado seu planeta de modo muito grave, ao ponto de apenas restrito controle reprodutivo poder vir a salvá-los da fome. Grupos de vulcanos foram trazidos para ensinar-lhes as técnicas de biorealimentação de limitação de população.

— Já conheceu algum?

— Não, eles raramente viajam para fora de seu mundo. Ficarei interessado em descobrir por que este tal D'berahan escolheu fazê-lo.

— O que mais sabe sobre eles?

— São um povo noturno e não possuem ouvidos ou qualquer outro órgão auditivo. Em vez disso, parecem ter desenvolvido a telepatia como uma característica de sobrevivência contra os muitos predadores de seu mundo. Pesquisa atual indica que desenvolveram a telepatia primeiro, então, depois, consciência, o que é incomum. As espécies telepatas mais conhecidas desenvolveram a consciência primeiro.

— E são poderosos telepatas - observou Kirk.

— Muito. Tão poderosos que jamais desenvolveram nenhuma forma de linguagem falada ou escrita. Fisicamente, são pequenos e peludos. Os marishal têm três sexos: fêmeas, que produzem óvulo, machos, que produzem esperma, e portadores - que recebem ovos fertilizados, nutre-os até o nascimento, então os amamenta nos primeiros meses de suas vidas. A partir desse ponto, o filhote torna-se parte do bando, e responsabilidade de todos. Os marishal amadurecem muito rápido, e seu ciclo de vida é comparativamente curto - quinze anos desde seu nascimento até sua morte.

— E curto - concordou Kirk. — Este D'berahan... é macho, fêmea ou portador?

Não se sabe, Jim. Todos os órgãos sexuais dos marishal são escondidos em uma bolsa próxima ao abdômen da criatura. Uma vez que todos os contatos com a Federação têm sido feitos com marishals que se identificaram como fêmeas - depois de terem compreendido o conceito de apenas dois sexos, o que muito os divertiu - eu diria, hipoteticamente, que talvez D'berahan seja fêmea. O Almirante Morrow diz "ela" e não "ele"?

— Sim, está correto. Certo, então, que seja "ela".

Kirk parou diante da suíte VIP e ergueu um dedo para pressionar o intercom, mas jamais completou seu gesto. Em vez disso, uma "voz" encheu sua mente.

[Entrem, que os dois sejam bem-vindos.]

Kirk não teve qualquer problema em compreender os conceitos não verbais que encheram sua mente com um calor suave e de algum modo peludo.

A porta se abriu, e Kirk entrou, piscando. A iluminação da cabine fora escurecida a uma intensidade muito abaixo da normal em toda a nave. O Doutor McCoy estava sentado no sofá, e uma criatura estava curvada perto dele. Quando os dois oficiais entraram, o ser - ela, lembrou-se Kirk -mexeu-se e ergueu-se até sua altura total. O topo de sua cabeça chegava pouco acima do cinto de Kirk.

A marishal parecia-se vagamente com um wallaby, um canguru pequeno, já que ela se balançava em um rabo troncudo e nas duas poderosas pernas traseiras, e tinha dois braços que se estendiam de ombros praticamente inexistentes. Ela não usava roupas; seu pêlo era curto e felpudo, uma mistura de marrom e verde, clareando para um âmbar pálido na barriga e no rosto bigodudo. Sua cabeça era estreita, com uma testa arredondada saindo logo acima de um focinho grosseiro. Um topete felpudo iniciava-se logo acima de seus olhos imensos cor de âmbar e de pupilas dilatas.

— Dona. - O sotaque da Geórgia de McCoy surgiu com força total, assim como seu charme de "cavalheiro sulista dos velhos tempos". — Quero apresentar-lhes James T. Kirk e Sr. Spock. Esta é D'berahan, de Marish.

— Como vai? - perguntou Kirk, fazendo um ligeiro cumprimento e, à sua direita, Spock fez a saudação vulcana e murmurou-a em sua própria língua. É claro, Kirk percebeu. Línguas são quase sempre insignificantes quando comunica-se com um ser possuidor deste nível de telepatia.

Ele desajeitadamente tentou refazer sua saudação mentalmente, e novamente sentiu o calor felpudo em sua mente.

[Verbalize, almirante, por favor, para seu próprio conforto. Esta aqui] -uma imagem da marishal surgiu em sua mente, vibrante e individual -[compreende sua saudação feita em seu jeito habitual. É melhor para o bem do Todo que haja conforto entre aqueles que devem trabalhar juntos.]

Kirk assentiu, notando que Spock fazia o mesmo. Que mensagem ela lhe envio? perguntou-se. A mesma? Uma diferente?

A marishal moveu uma graciosa "mão" opositora - os dedos moviam-se tão rápidos que Kirk ainda não conseguira contá-los - em direção aos assentos. [Descansem, sintam-se à vontade. Diga a esta daqui mais sobre nosso perigo em comum.]

Kirk olhou para Spock. — Como nosso perito em Ciências, eu entregarei o caso a você.

O vulcano assentiu, então, após um instante fitando os enormes olhos da marishal, esticou uma mão para tocar-lhe levemente a testa. Vários segundos depois, ele interrompeu o contato, e D'berahan voltou-se para Kirk.

[Esta aqui compreende totalmente, graças a] - as feições fechadas de Spock brilharam pela mente de Kirk. - [Tenha certa de que esta daqui vai lutar até o fim para conseguir contatar] - a forma bagel do Guardião da Eternidade piscou - [para que harmonia/continuidade do abençoado Todo possa ser preservada a ter sua conclusão natural. Mas, para dizer a verdade, as extremidades desta daqui tremem com desejo de fugir sempre que pensa que o fracasso pode mostrar-se um desastre de tal amplitude.]

— Só podemos pedir-lhe que tente "lutar até o fim" - disse Kirk, gostando da criatura por sua honestidade. — E também tenho sentido alguns desses desejos de fugir, também.

— Como todos nós - concordou Spock gravemente.

 

Spock teve pouco tempo livre durante a viagem para o Setor 90.4, e normalmente o teria gasto em solitária meditação em seus aposentos, mas em vez disso, ele escolheu passá-lo visitando D'berahan Ele gostava da marishal; ela era uma criatura gentil e sensível, com um calmo senso de humor. Sua crença religiosa no "Todo" lembrava-o da filosofia vulcana de NOME. Melhor de tudo, ela não lhe fazia exigências emocionais do mesmo modo que os humanos costumavam fazer; ele sabia que ela o aceitava do jeito que era.

D'berahan recebia muito mais de Spock através de sua amizade. O vulcano era o único oficial a bordo que era telepata; apenas com ele ela podia discutir livremente sua missão.

E o contato telepático, Spock percebera quase que imediatamente, era o bem-estar mental essencial da alienígena. Ela explicou-lhe que os marishals eram seres muito sociais, com todas suas horas acordadas (e bastante horas de seu tempo de sono) eram preenchidas com interação telepática. Solidão mental, para D'berahan, era quase tão doloroso quanto a presença de uma nave cheia de não-telepatas, a maioria dos quais era incapaz de "esconder" seus pensamentos.

Ele também conhecera sua história pessoal. D'berahan tinha oito anos e, comparada a sua espécie praticamente insular, ela tinha um estado de espírito inconvencional e aventureiro - o que explicava sua presença na Terra. Ela estivera na universidade, estudando literatura, drama e arte. Apesar da falta de linguagem escrita em seu povo, D'berahan queria registrar algumas de suas lendas e imagens mentalmente contadas para que não-telepatas pudessem ler, ver e apreciar a arte e os mitos de sua gente.

[Esta aqui aprendeu a destilar palavras de pensamentos], ela lhe disse, [e o método de escrever tais palavras ao apertar teclar em suas máquinas eletrônicas pensantes] - uma imagem de um terminal de computador brilhou na mente do vulcano. [Esta aqui usará palavras e imagens para transmitir uma aproximação de] - ela hesitou, à procura de um conceito - [nossas "peças mentais", nossas "danças mentais" e nossas "pinturas mentais".]

Fico feliz em saber disso, respondeu Spock. As que mostrou são realmente bonitas e valem ser preservadas.

[Se ao menos esta aqui puder provar-se tão valiosa quanto sua ambição. Esta aqui tem nada mais que um pequeno talento nas artes na visão de seu próprio povo], admitiu D'berahan.

Não concordo com a percepção deles, assegurou-lhe Spock. Talvez você, como muitos pioneiros artísticos, necessite de tempo para torná-la honrada em seu próprio mundo, mas seu trabalho certamente será laureado na Federação, se o que eu tiver visto for representativo.

[É muito gentil por dizer-me isso] - sua projeção mental transmitia um calor extra, o equivalente telepático a um sorriso. - [Esta aqui espera mostrar-se digna de sua confiança.]

Durante suas visitas, o vulcano descobriu que D'berahan era na verdade um portador, não uma fêmea. Mas você se refere a si mesma como "ela", disse-lhe ele. Por favor, ensine-me o termo correto em sua língua.

[O pensamento/conceito/palavra que você usou está correto] veio a resposta divertida. [Entre meu povo, temos apenas um jeito de expressar todos os gêneros... como "o que dá a vida". Seu tradutor universal interpretou-a como "ela", e assim somos todos conhecidos... machos, fêmeas, e portadores. Todos nós não damos vida?]

Realmente, respondeu Spock. Nunca havia pensado deste modo antes.

[E por quê, meu amigo? Você não dá vida?]

Spock teve uma memória repentina de Zar, como o vira em seu sonho, e sabia que a marishal compartilhava desta imagem. Sim, dou, respondeu. Apesar de não ver meu filho há anos. Estamos separados por - morte, ele começou a dizer, e então, por alguma razão que ele não analisou, disse -tempo, bem como espaço.

[Apesar disso], disse-lhe a marishal, [na imensidade do Todo, você será sempre seu pai.]

Acho esse pensamento, disse-lhe Spock, sério, bastante reconfortante. Você é sábia, D 'berahan.

[Mas não sou lógica, como já me disse muitas vezes] seu pensamento era uma caçoada gentil. [Será que a sabedoria pode estar além da lógica?]

Há vezes em que descobri que isso é verdade, admitiu o vulcano. Mas não diga ao Doutor McCoy o que lhe contei, por favor. Eu ficaria ouvindo para sempre.

 

— Entrando no Setor 90.4, almirante - anunciou Sulu.

Lá vamos nós, pensou Kirk. Respirou fundo; ele fizera as pazes com o cosmo na noite passada, compartilhando conhaque sauriano com Spock e McCoy em seu alojamento. Conversaram um pouco, mas a maior parte do tempo ficaram apenas sentados, companheiros de tão longa data que as palavras não mais eram necessárias nesse instante.

Kirk viu que o vulcano o observava, esperando por seu sinal. — Preparar para monitoramento total do sensor, Sr. Spock.

— Pronto, almirante - respondeu Spock, voltando-se para seu posto. A Comandante Uhura sentava-se à sua direita, e um tenente Ryjhahx à sua esquerda; seu objetivo era monitorar os sensores auxiliares recentemente instalados e que poderiam dar ao sensor da Enterprise uma amplitude adicional.

— Diminuir para sub-luz, piloto.

Os arco-íris de estrelas borraram-se, correram, então escureceram até a escuridão negra do espaço-tempo normal. Todos a bordo sentiram a mudança na velocidade para sub-luz, quando seus corpos deram um giro breve e não-físico.

O Setor 90.4 encontrava-se à volta deles, escuro com os remanescentes de sóis queimados e explodidos. Os resíduos de estrelas brilhavam tenuemente estando eles dentro deles; era apenas quando visto de fora do sistema que eles se pareciam com uma mancha escura contra as estrelas normais e luminosas.

— Onda temporal! - falou Uhura. — Procedendo de quatro-três-seis marco dois-oito!

— Evasiva, Sr. Sulu!

A Enterprise desviou-se tão rápido que seus sistemas de gravidade interna atrasaram um segundo para regularizar-se - tudo inclinou-se por um instante, e então voltou ao normal. Kirk bateu em seu botão do sistema de segurança, e sentiu o campo de força envolver seu torso, enquanto sentia suas coxas serem envolvidas por presilhas. Acho que conseguimos, pensou, tonto, um instante depois. Uma vez que ainda estamos aqui.

— Sr. Spock, pode nos dar uma estimativa esquemática das ondas, para que s'Bysh e o Sr. Sulu possam estabelecer um curso?

— Difícil, almirante. - Spock parecia distraído, e até mesmo sua voz calma tinha uma ponta de tensão. — Elas se espalham logo após serem emitidas... em alguns lugares elas até mesmo se superpõem.

Ótimo, maravilhoso. — Bem, faça o melhor possível. Precisamos de direção, não podemos simplesmente saltitar como sapos sobre elas - poderemos cair em outro.

— Sim, apesar de que fazê-lo exigirá extrema precisão de navegação e leme.

— Tenente s'Bysh? Sr. Sulu?

A voz do asiático estava distraída. — Ainda trabalhando, almirante.

Kirk inclinou-se para a frente e viu o esquema brilhante no console de navegação mostrando os distúrbios de tempo em violeta. Eles ondulavam em volta da pequena esfera vermelha que era Gateway como se fosse um ninho de cobras, e os muitos lugares onde elas superposicionavam-se brilhavam em amarelo. Kirk molhou os lábios. — s'Bysh, Sulu, se conseguirem fazer-nos passar por este labirinto, eu... - ele se interrompeu, incapaz de pensar em uma recompensa ou incentivo que fossem bons o bastante. — Ficarei muito grato - finalizou, em um anti-clímax.

— Estou tentando, almirante - murmurou s'Bysh em sua voz suave e rouca. Sulu lançou uma concordância rápida a seu oficial comandante indicando que compreendia, sem nem mesmo desviar os olhos de seu console. Minutos tensos avolumavam-se enquanto eles vagavam, monitorando as ondas de tempo, à espera.

Finalmente o piloto voltou-se. — Curso calculado e estabelecido, senhor.

— Muito bom, Sr. Sulu, s'Bysh. Aguardem ordem para implantação. -Kirk tocou seu intercom. — Sr. Scott, prepare para uma corrida rápida.

— Sim, almirante. Meus propulsores não o deixarão mal.

— Leve-nos, Sr. Sulu.

A Enterprise lentamente ganhou velocidade, até que estivessem viajando a meia força de empuxo. O pesado cruzeiro ia para trás e para frente, para cima e para baixo, enquanto seguia o louco curso de loops através de uma ameaça que sequer podiam ver. Kirk esqueceu-se de respirar enquanto os dedos de Sulu faziam mínimas correções e alterações de curso.

— Onda de tempo bem à frente, sete-seis-nove marco zero-quatro! -emitiu o vocoder de Ryjhahx.

As mãos de Sulu estava lá, e a brilhante bola verde do esquema que era a Enterprise desviou-se do ondulante fio violeta que era a representação do computador da onda temporal.

O almirante soltou a respiração depois de se passarem mais dez segundos, e eles ainda estavam lá, aproximando-se cada vez mais da pequena esfera vermelha. Ele apenas ficou lá sentindo, sentindo-se inútil, desejando que houvesse algo que ele pudesse fazer enquanto os minutos passavam. E então, quando seu uniforme ficou empapado de suor e seu coração já estava cansado de saltar de medo, exatamente quando ele pensou que não conseguiria agüentar nem mais um segundo, a espera vermelha deixou de ser pequena - e havia um pequeno planeta em sua tela visual.

— Conseguimos - murmurou Sulu, maravilhado. — Ei, conseguimos!

— Conseguimos - disse Kirk. — Parabéns a todos por um trabalho difícil muito bem realizado. Mas que curso estabeleceu, hein, tenente?

s'Bysh deu-lhe um sorriso agradecido enquanto afastava os cachos negros suados de sua testa. — Obrigada, almirante.

Kirk voltou-se para seu piloto. — Sulu, as palavras são inadequadas. Estou convencido de que ninguém mais, em toda a Galáxia, poderia realizar o que acabei de vê-lo fazer hoje.

Sulu tentou, sem muito sucesso, parecer modesto.

Kirk virou-se para o vulcano. — Sr. Spock, estamos salvos aqui?

— Enquanto permanecermos no lado do planeta oposto a nosso destino, podemos permanecer por baixo da trajetória das ondas, almirante. A menos, é claro - a voz do vulcano era regular, — que a trajetória mude.

— Conseguiremos alcançar nosso alvo?

— Podemos descer com uma nave auxiliar em segurança. Na superfície, serei capaz de continuar a monitorar usando meu tricorder ligado ao computador da nave.

— Comandante Uhura, pode chamar a expedição arqueológica? Alguma resposta da El Nath?

Ela tentou por vários minutos, então balançou a cabeça. — Não há resposta em nenhuma freqüência, senhor.

— Spock, o que seus sensores indicam?

— Nenhuma forma de vida, almirante.

Kirk suspirou. — Acho que isso não é nenhuma surpresa. Já são duas naves estelares, agora... - Ele se deu uma sacudidela mental e bateu no intercom. — Sr. Scott, o comando é seu. Se não souber de nós em uma hora, presuma o pior e tire a Enterprise daqui. Entendido?

— Sim, almirante - disse Scott, resignado. — Boa sorte.

 

Spock pilotou a nave auxiliar através dos ventos erráticos de Gateway, rolando e subindo, passando a apenas algumas centenas de metros acima das destruídas ruínas branco-acinzentadas que cobriam toda a superfície do pequeno mundo antigo.

A bordo da navezinha, ninguém falava, apesar do vulcano estar bem consciente de um "hum" mental subliminar vindo de D'berahan - talvez o equivalente telepático a um passear nervoso.

Finalmente, após lutar longamente contra o vento constante, Spock levou-os em direção a um espaço relativamente calmo, pousando no que uma vez deveria ter sido um pátio ou uma rua. Ele desligou automaticamente a nave auxiliar, mal ousando desviar os olhos de seus sensores.

Estavam a apenas 137 metros do Guardião e, apesar de seus instrumentos dizerem ao vulcano que este local em particular não estava na mira das ondas temporais, eles poderiam entrar em seu caminho direto ao se aproximarem a pé. Se uma onda temporal surgisse, não haveria tempo para escapar...

Spock franziu as sobrancelhas enquanto ajustava seu tricorder. Não haveria tempo, ponto.

— Devemos nos apressar - disse aos outros quando desceram da nave. O vulcano fitou a alienígena, que movia-se com seu andar costumeiro meio-saltito, meio-arrastar de pés. — D'berahan, se permitir...? - Ele fez uma imagem mental para a marishal.

[Certamente. Os pés desta aqui não estão acostumados a andar sobre muitas pedras.]

Inclinando-se, Spock pegou a pequena alienígena no colo, embalando-a como se fosse uma criança, e começou seu caminho através das pedras arredondadas. O vulcano olhou para o local onde estivera o acampamento dos arqueólogos, mas não encontrou nenhum sinal dele. Logicamente, ele desfez-se em pó quando a primeira onda de tempo o atingiu, pensou, lembrando-se do concerto informal que lá assistira há muito tempo com uma ponta de tristeza. Pergunto-me por que Gateway parece ser imune às ondas de tempo. Deve haver algo singular quanto a este mundo e estas ruínas. Se formos bem sucedidos, devo perguntar ao Guardião...

Kirk e McCoy os seguiram, todos os três homens tropeçando um pouco quando a rocha quebrada sob seus pés cedia a seu peso. Conforme se aproximavam mais do monolito de pedra maciça que era o Guardião, as ruínas tornavam-se mais intactas. Os três oficiais eram forçados a contornar paredes desmoronadas, agachar-se por baixo de colunas meio caídas. O céu sobre eles permanecia negro e cheio de estrelas, imutável por milênios, e o mesmo vento gemia por entre as pedras, abandonado.

Spock sentiu alguma coisa mover-se contra seu peito, e olhou para baixo para ver uma ondulação abaulada sob o pêlo abdominal da marishal. E, enquanto olhava, outra saliência apareceu e escondeu-se. D'berahan! Spock pensou, sua voz mental equivalente a um gemido. Você está com filhotes?

[É claro. Sou uma portadora, afinal. Não fique preocupado, Spock], a "voz" mental da marishal era tranqüila. [Pense, meu amigo. Esta ameaça que enfrentamos é grande demais para deixar preocupações individuais afetar nossas ações.]

Deveria ter nos dito, protestou ele.

[Por quê? O Doutor McCoy tem algumas idéias muito estranhas sobre dar a vida... quase como... Ele a vê com uma doença. Ele teria proibido esta aqui a tentar o que ela deve tentar. E quando esta aqui está com filhotes, ela está no auge de sua sensitividade mental. É sempre assim, para proteção dos não-nascidos. Então esta aqui não poderia ter melhor chance de sucesso.]

Mas...

[Além do mais, é tarde demais para voltarmos.]

Spock foi relutantemente forçado a concordar com a lógica da observação dela. Ele tropeçou, as mandíbulas apertadas e os olhos sérios.

Alcançaram o Guardião e Spock soltou a pequena marishal. Ela ficou próxima ao Portal, parecendo duplamente pequena e frágil contra a enorme massa de pedra. [Ele tem um nome pelo qual possa chamá-lo?]

— Ele chama a si mesmo de Guardião da Eternidade - respondeu McCoy.

Ela gesticulou para que todos se afastassem. [Muito bem. Por favor, não interrompam a concentração desta aqui.]

A presença da marishal abruptamente partiu da mente de Spock quando ela voltou o rosto para o monolito, fechando os olhos. Ele fitou Kirk e McCoy e pôde ver a ansiedade em seus rostos. Ele tentou, sem muito sucesso, recuperar sua costumeira calma interior.

Gradualmente, Spock tomou consciência de um forte chamado telepático. Não lhe era dirigido, então ele apenas observou-o à margem e, fitando . Kirk e McCoy, o vulcano percebeu que eles nada sentiam. Mas a força do apelo diáfano por trás dele deixou-o alerta. O grito mental de D'berahan ecoou e ecoou...

Ele sentiu que ela concentrava todo seu ser em pegar as emanações mentais do Guardião, tentando traçá-las, segui-las através de um vasto e indeterminável vácuo... e ela estava sendo bem sucedida! Ele vislumbrou seu triunfo quando ela tocou...

...então D'berahan enrijeceu-se e deu um pequeno e arrepiante grito (o primeiro som audível que jamais a ouvira fazer). Seus imensos olhos arregalaram-se, cegos, e Spock pulou em sua direção, vendo, sentindo agonia - tanto física como mental. — Doutor! - gritou.

McCoy já se movia.

D'berahan encolheu-se onde estava. Spock e McCoy quase não a alcançaram a tempo de evitar que sua cabeça atingisse o chão rochoso quando ela caiu.

— O que houve? - Kirk agachou-se perto de Spock e McCoy quando eles apoiaram a marishal no chão.

McCoy passou sua sonda médica sobre a pequena forma. — Arritmia cardíaca! Diabos! - Ele começou a remexer em seu medikit de cinto.

Spock passou seus dedos na saliência peluda do crânio da alienígena. D'berahan?

A consciência dela era apenas uma faísca tênue em uma escuridão reinante, como a luz de uma única vela tentando manter-se acesa contra um tufão. Spock perdeu contato com o mundo que o cercava, até com seu próprio corpo, enquanto projetava sua mente correndo atrás da dela. Era como estar no espaço, sem controle, disparando através da escuridão cheia de imagens que eram totalmente alienígenas - por um instante, Spock lembrou-se de sua jornada através de Vger.

Mas Vger era uma máquina, estéril, desprovida de qualquer paixão exceto de uma compulsão programada de ingerir dados. D'berahan era uma pessoa, vivaz, excêntrica, cômica - perceber que ela estava morrendo encheu o vulcano de tristeza e de uma determinação de ferro para salvá-la. Lançou-se atrás dela com cada resquício de vontade que possuía.

Mesmo apesar de sua consciência não mais responder a estímulos externos, seus ouvidos automaticamente pegaram e registraram os sons de vozes preocupadas:

— Possa ajudar, Magro?

— Segure-lhe os braços. Ela continua tentando se curvar. Tenho de injetar-lhe um pouco de cordrazine.

— Isso não a machucará? Ela é uma alienígena.

— Morrer irá machucá-la muito mais. Pronto. - Seguiu-se o som da hipo. — Tenho estudado a fisiologia dos marishal desde que soube que haveria uma a bordo, Jim. Dê-me um pouco de crédito!

— Desculpe, Magro.'

Spock se aproximava da pequenina faísca. Ele aumentou sua velocidade, ignorando as imagens alienígenas que assaltavam-lhe a mente. Clarões de rostos de vários marishal, de um mundo que ele nunca vira. Uma total ausência de som. "Vozes" telepáticas em tal profusão que aglomeravam-se em um único grito mental.

— Ela está estabilizando um pouco, Jim.

— Spock está tentando um elo mental.

— Teremos de monitorá-lo também. Se ela se for, pode levá-lo junto.

— Deveríamos tentar separá-los, Magro?

— Não sei, Jim. Ele talvez possa salvá-la.

Spock pegou a bruxuleante faísca de vida e lançou sua consciência dentro dela. Não havia tempo para delicadezas.

D'berahan! É Spock. Use minha força para se recuperar. Ligue-se a mim!

Não houve resposta.

Somente então Spock tomou consciência da razão para o colapso da alienígena e sua transferência iminente. Se ele pensasse na mente alienígena de D'berahan, era como se ela nada fosse em relação ao caos mental que agora o cercava. O vulcano foi sacudido como se tivesse sido atingido por um maciço choque elétrico.

O Guardião. A força da consciência da entidade temporal o envolveu -vasta, antiga, poderosa. Abrangendo tudo.

Ele estava ligado com uma consciência que fazia com que todo conhecimento e lógica de Vger parecessem infantis. E ainda, essa consciência, conquanto fosse fundamentalmente artificial em sua natureza, tinha paixão. O Guardião amava, sentia fome, era solitário - tudo isso em um nível que fez Spock sentir que, se comparados, ele sempre fora o mais feliz dos seres.

Palavras/conceitos assumiram forma em sua mente:

CHAMANDO... PROCURANDO... DESEJANDO. CUMPRIR PROGRAMA PRIMÁRIO. MAS ONDE? TANTOS UNIVERSOS... INFINIDADE. LOOP INFINITO? CLARO QUE NÃO... MAS... A SOLIDÃO. O CHAMADO. A BUSCA...

A intensidade dessa comunicação quase lançou a mente de Spock a um retraimento confuso - ele agora entendia por que D'berahan entrara em colapso. A pequena alienígena absorvera a força total dessa superconsciência questionadora e angustiada, absorvera-a em um nível muito maior do que o vulcano, com sua habilidade telepática menor, jamais poderia.

Ele afastou sua atenção do Guardião e procurou pela marishal. Ela devia estar aqui - ou aquela minúscula faísca fora engolfada? Ela teria ido para sempre?

— Isso não está bom, Jim. Agora são as batidas cardíacas de Spock que ficaram irregulares.

— Droga, Magro, ele vai se matar! Temos de livrá-lo dela!

— D'berahan morrerá se o fizermos.

— Ela morrerá de qualquer modo. Eu... nós... não podemos perder Spock.

— Seus músculos estão em espasmos, Jim. Não posso... pegá-los...

— Deixe-me tentar, Magro. Ah, não. Teremos de quebrar-lhe os dedos. D'berahan? pensou Spock, procurando em volta, sentindo desespero pela segunda vez em sua vida. D 'berahan?

NÃO POSSO NEGLIGENCIAR O SEGUNDO PROGRAMA. MUITAS JORNADAS COMO ESSA SÃO POSSÍVEIS. DEIXE-ME SER SEU PORTÃO. ATIVAR INTELIGÊNCIA SECUNDÁRIA PERIFÉRICA PARA REINSTALAR FUNÇÃO DO PROGRAMA TEMPORAL.

D'berahan? Spock começou a retrair sua consciência, repentinamente convencido de que ela se fora e que ele estava em grande perigo.

Mas mesmo enquanto iniciava sua retirada, ficou ciente de uma tênue presença.

[?]

D'berahan!

Não houve resposta concreta, mas Spock sabia que o que restara de sua mente permanecia com ele. Ele fugiu, "rebocando" a marishal.

— Espere um instante, Jim! As batidas cardíacas dele estão se normalizando e ficando mais fortes.

— E quanto à marishal?

— Ela não está morta, Jim... mas não tenho certeza se está viva.

— Catatonia?

— Semelhante, creio. Precisarei usar as sondas cerebrais.

Spock voltou a seu corpo como um nadador que estivera submerso por muito tempo além do que seu pulmão agüentaria. Ele arquejou, todos seus músculos movendo-se espasmodicamente, então vergou-se, exausto, a escuridão ameaçando engolfá-lo. Apenas o braço de apoio de Kirk evitou que ele caísse. — Spock! Você está bem?

O vulcano fechou os olhos, concentrando-se em diminuir sua respiração, controlando seus músculos. — Estou... bem. - Sentou-se de modo dolorido, então endireitou-se, e Kirk pode soltá-lo. — D'berahan?

— Ela ainda está viva - McCoy disse, com um sorriso, — fisicamente, pelo menos. Mentalmente... eu não sei.

Spock fez um gesto para seus pés. D'berahan estava mole, os olhos fechados, seu peito subindo e descendo. O vulcano tocou-a hesitantemente, mas pôde detectar apenas um tênue eco de sua presença mental. — Ela se retraiu - disse ele. — A força da comunicação do Guardião era intensa demais para que ela agüentasse e permanecesse sã. E eu não tenho a força mental para alcançá-la.

— Ela vai se recuperar? - Kirk perguntou ansiosamente para os dois oficiais.

— Desconhecido - respondeu Spock.

— Não tenho idéia - admitiu McCoy. — Tudo o que posso fazer é certificar-me de que ela tenha todo o tratamento de apoio possível. Ela pode sair dessa sozinha. É melhor a levarmos de volta para a nave auxiliar. - O doutor moveu-se para pegar a marishal. Quando tocou-lhe o corpo, ele enrijeceu-se. ,

— Outro ataque? - Kirk caiu de joelhos ao lado do oficial-médico.

— Nããão... - McCoy passou sua sonda sobre a pequena alienígena. — Está mais para... - Ele se interrompeu, correndo seu instrumento novamente sobre o corpo. Seus olhos chispavam, furiosos, quando ele os ergueu na direção do vulcano. — Você sabia sobre isto?

Spock apoiou uma mão gentil sobre o abdome da marishal. — Não até pousarmos. Ela nunca me permitiria contar-lhe, doutor. Ela está tendo contrações?

— Aparentemente. - A boca de McCoy torceu-se de modo amargo. — Droga, Spock! Eu jamais a deixaria... - Ele começou a apalpar o ventre da marishal com dedos cuidadosos e capazes.

— Foi isso que ela disse - retrucou Spock, prontamente. — Ela considerava que esta missão valia o risco tanto para si como para seu filho.

— Ah, não! - No rosto de Kirk, o horror substituiu a confusão. — Está tentando me dizer que ela vai ter um bebê?

— Três - respondeu McCoy. — O choque ou a cordrazina agiu como indutor do parto. Só espero que estejam formados. Vai ser um inferno ter de montar uma incubadora.

— Não podemos levá-la de volta à nave auxiliar?

— Vamos tentar. Jim, vá na frente e tire os assentos traseiros do espaço de carga. Ative o campo estéril de emergência.

— Certo... e então terei de falar com a nave - respondeu Kirk, já se movendo. — Se Scott não souber de mim até o fim da hora, ficaremos presos aqui.

Com gentileza infinita, McCoy segurou a pequena alienígena nos braços. — Diabos! O Universo está se desfazendo e eu tenho de dar uma de ama-seca!

— Já o fez antes, com sucesso - lembrou-lhe Spock, enquanto eles seguiam seu caminho através do chão cheio de pedras.

— É, e você e Jim foram de muita ajuda, também - caçoou o doutor. — Como disse a Jim, tenho estudado a fisiologia dos marishal, mas duvido que esteja pronto para isto. Terá de assistir-me, Spock. Li que, com os marishal, contato telepático imediato é essencial. E se falhar comigo, essas orelhas pontudas nunca mais deixarão de ouvir minhas reclamações, juro por tudo de mais sagrado.

— Não lhe falharei - prometeu Spock, desta vez por demais preocupado para prestar atenção à provocação.

Quando chegaram à nave auxiliar, Kirk, ansioso, ajudou McCoy a erguer a marishal até a seção de carga, onde ele arrumara os assentos para criar uma cama rudimentar. — É seguro permanecer aqui, Spock? - perguntou o almirante. — Ou devíamos partir e tentar passar antes da próxima onda temporal?

— Meu tempo projetado para a próxima onda ocorrer passou enquanto eu estava conectado com D'berahan - disse o vulcano. — O fato de ainda estarmos aqui significa que ela ainda não ocorreu. Além disso, escolhi esta localização porque meus sensores indicaram que esta área está localizada em um ângulo suficiente para nos proteger do percurso da onda.

A marishal arfou alto. — É melhor não a movermos, Jim - disse McCoy. — Isto já é bastante traiçoeiro, sem nenhuma corrida de montanha-russa como a que fizemos para chegarmos até aqui. . — Certo - concordou Kirk. — Ficaremos. Vou avisar Scott. .

O primeiro bebê nasceu quarenta e cinco minutos depois de terem alcançado a nave auxiliar. McCoy pegou a pequenina criatura para fazer sucção em seu nariz e boca, e então secou-a. Sob seus cuidados, ela guinchou suavemente, abrindo seus imensos olhos.

— Diminua as luzes - McCoy instruiu Spock.

Depois que seu pêlo secou, o bebê parecia-se com uma cópia peluda de D'berahan, tão pequenino que McCoy poderia segurá-lo na palma de sua mão. O doutor verificou rapidamente as batidas cardíacas e a respiração, e então passou-o para Spock.

O vulcano concentrou-se por longos instantes, suas feições mais angulosas e nas sombras devido à pouca luz. Ele finalmente fez um gesto com a cabeça, devolvendo o bebê a McCoy. — Meu contato mental não pode, é claro, ser comparado ao que faria D'berahan, mas a mente da criança agora está telepaticamente "acordada". Ela pode começar a se desenvolver.

— Ótimo - disse McCoy, colocando o bebê de volta a um local próximo à abertura agora distendida da bolsa abdominal da marishal.

Assim que o minúsculo corpo encontrou o calor do corpo de sua genitora, o marishal bebê começou a arrastar-se na direção da bolsa. — Aonde ele está indo? - perguntou Kirk.

— A bolsa dos marishal também esconde as mamas, bem como os órgãos sexuais - explicou Spock, enquanto o bebê se enfiava por dentro das dobras soltas e desaparecia. — Eles mamam e dormem dentro da bolsa do portador durante seus primeiros meses de vida.

— Como os cangurus?

— Não exatamente - respondeu McCoy. — Os marishal parecem-se mais com mamíferos do que os marsupiais, visto que os bebês nascem peludos e capazes de passar algum tempo fora da bolsa da mãe imediatamente após seu nascimento. Minhas leituras indicam que assim que o primeiro bebê esteja se alimentando em segurança, o próximo deve vir em seguida, portanto, estejam prontos.

Em dez minutos, a abertura de nascimento localizada dentro do ponta mais baixa da bolsa dilatou-se novamente e um segundo bebê emergiu. O terceiro chegou cerca de quarenta minutos depois.

Assim que Spock finalmente estabeleceu contato mental com o último bebê, Kirk inclinou-se hesitante para acariciar o topo da pequenina cabeça castanha, sorrindo quando os imensos olhos piscaram-lhe na penumbra. — Você vai ficar bem, pequenino, ou pequenina - ou portador - como talvez seja o caso. Tomaremos conta de você, até sua mãe ficar boa. - O bebê marishal abriu a boca, pesquisando inquisitivamente seu dedo.

— Não, não há nada aqui para você - disse McCoy, colocando-o próximo à abertura da bolsa. — Vá encontrar a coisa de verdade.

O bebê arrastou-se sem hesitação para dentro da bolsa.

— É melhor prosseguirmos - disse McCoy. — Quero colocar D'berahan em uma cama-diagnóstico tão logo seja possível.

Kirk deu uma olhada na paisagem que jamais se alterava. — Estivemos aqui embaixo - ele verificou o cronômetro - por quase três horas.

Spock assentiu enquanto sentava no banco do piloto. A pequena nave agitou-se, então elevou-se e partiu.

Kirk ativou a segurança de seu assento de modo ausente. — E até agora, nenhuma onda temporal.

— Isso significa que D'berahan teve sucesso? - falou McCoy, da parte de trás da nave, de onde monitorava sua paciente.

— Minha impressão é de que seu chamado mental pode ter feito com que a entidade temporal tenha retomado algumas de suas responsabilidades junto ao nosso Universo - disse Spock, enquanto a nave auxiliar voava baixo, próximo ao Portal do Tempo. — Mas não tenho dados suficientes para especular se as ondas voltarão.

— Estou ordenando que especule, Spock - Kirk disse ao vulcano. — Você pôde perceber algo sobre o que aconteceu com o Guardião das memórias do contato de D'berahan com ele?

Spock hesitou. — Nada concreto. Tive uma forte impressão de que o Portal do Tempo está... preocupado. Que sua atenção está em outro lugar. Literalmente em outro lugar. Em outro universo, ou outra dimensão. Procurando.

— Pelo quê?

— Eu não sei. Alguma coisa que lhe é muito importante. Alguma coisa a que deseja, e que perdeu há aeons passados.

— E sua... preocupação... está causando as ondas temporais?

— Parece que elas estão relacionadas de algum modo.

Kirk suspirou. — E agora? Voltamos à estaca zero. Ou menos um, na verdade.

— Eu poderia tentar...

— Não - cortou Kirk. — Não posso me dar ao luxo de ter também você fora do jogo. E as ondas temporais pararam.

— Por hora. Mas é totalmente possível - até provável - que elas voltem. A impressão que tive ao ligar-me com a tênue consciência de D'berahan é que o Guardião necessitará de todas suas fontes únicas de energia mental e física para completar sua busca com sucesso. No momento em que ele retornar sua total "atenção" - na falta de um termo melhor - para seu objetivo, as ondas temporais voltarão.

— O que o faz pensar assim?

— Estou começando a crer que o Guardião lança as ondas temporais como a maioria das entidades respira. Mas quando ele está consciente, controla deliberadamente essas ondas para que elas não sejam prejudiciais ao continuum espaço-tempo.

— Sei... - Kirk pensou por um instante. — Então não há qualquer má-fé no que ele está fazendo.

— Nenhuma má-fé. Apenas... negligência.

McCoy bufou, desgostoso, na área de carga. — Odeio pensar no que poderia nos fazer se quisesse ser intencionalmente mau.

 

A Comandante Nyota Uhura estava profundamente adormecida quando seu intercom apitou. Ahn? ela pensou, confusa, verificando o cronômetro automaticamente. Ainda faltam seis horas até o próximo turno. O que está havendo? O intercom apitou novamente, insistente. Uhura empurrou os cabelos para longe dos olhos e jogou as pernas para fora da cama. É bom que seja importante.

Ela ativou apenas o circuito de voz com uma observação mal-humorada: — Aqui é Uhura.

— Comandante Uhura, aqui é Spock. Sinto perturbá-la durante sua folga, mas tenho um pedido urgente para lhe fazer.

Uhura piscou. — Sr. Spock? Alguma coisa errada? Sou necessária na ponte?

— Não, não, comandante. A nave está ótima.

Uhura acionou o intercom para uma única imagem, e as feições familiares do vulcano surgiram diante dela. Ele pigarreou, então engoliu. Ele só faz isso quando está realmente chateado ou nervoso, pensou ela. — O que foi? - perguntou, gentilmente.

— Tenho um... pedido... pessoal.

— Tudo o que eu puder fazer, Sr. Spock, eu farei - assegurou-lhe, completamente surpresa. Um pedido pessoal? De Spock?

— Posso explicar-lhe melhor na Enfermaria. Poderia encontrar-me lá dentro de dez minutos?

— Dê-me doze - disse ela. — Eu estava dormindo.

Mesmo através do controle habitual do vulcano, ela pôde ler-lhe o constrangimento. — É claro. Uma vez mais peço-lhe desculpas por perturbá-la.

— Sem problemas, Sr. Spock. Quero ajudar.

Franzindo as sobrancelhas, intrigada, ela desfez a ligação, levantou-se e vestiu um de seus cafetãs para suas horas livres. Após jogar água no rosto, passou um pente pelos cabelos, afofou-os e então fez uma careta para seu reflexo no espelho. Ainda bem que verei apenas Spock - se eu raspasse a cabeça e a pintasse de verde, duvido que ele notasse.

Com uma risadinha rouca, ela apressou-se corredor abaixo.

O vulcano a aguardava no laboratório próximo ao escritório de McCoy, andando, as mãos postas atrás das costas.

— Comandante - disse-lhe, inclinando a cabeça em uma breve saudação formal. — Venha comigo, por favor.

Spock levou-a a uma das enfermarias, parcamente iluminada. Uhura parou à porta, piscando, mas Spock nem hesitou ao caminhar até uma das camas que estava com uma estrutura retangular à altura da cintura.

Um enfermeiro coridiano de serviço olhou quando eles se aproximaram, e o vulcano, mantendo sua voz baixa, pediu-lhe permissão para ver a marishal em particular. A imensa criatura de pele avermelhada concordou. — Doutor McCoy deu ordens para que lhe fossem permitidas visitas, senhor. Estarei na sala ao lado, caso precisem de mim. — Ele os cumprimentou e saiu.

Uhura permanecia de pé, fitando a faixa de segurança da cama. — É D'berahan - disse ela, reconhecendo a pequena figura peluda. — Eu estava de serviço quando vocês aportaram, e retransmiti o pedido do Dr. McCoy por uma unidade móvel. O que houve?

— Ela tentou contato mental com o Guardião da Eternidade - disse Spock, seu tom de voz normalmente calmo quase triste. — Mas quando a energia mental da entidade tomou conta dela - foi arrancada do aqui e agora. Ela está enterrada bem fundo dentro de si mesma, e não sei se vai se recuperar.

— Pobrezinha - murmurou Uhura. — Eu gostaria de poder ajudar.

— Você pode. Foi por isso que lhe pedi para vir aqui. Ela estava atônita. — Eu? Como?

— Enquanto ela estava inconsciente, D'berahan deu à luz a três bebês. Eles no momento estão dentro de sua bolsa, mas sairão dela várias vezes por dia. É tão vital que eles não fiquem mentalmente isolados - quanto é importante que D'berahan receba calor e segurança mental.

— Mas não sou telepata ... - começou Uhura.

— Eu sei. Mas é a pessoa mais sensitiva que conheço. Seu calor e sensibilidade aos outros, inclusive a seres alienígenas, é bem documentada. Os taygetianos, os eeiauoanos... - ele sorrira por uma fração de segundo? À meia-luz, Uhura não podia ter certeza — até mesmo os pingos.

Uhura sentiu-se corar pela primeira vez em anos. — Ora... obrigada, Sr. Spock. Como posso ajudar D'berahan?

— Passe alguns minutos com ela e seus filhos, quantas vezes por dia você puder. Sente-se ao lado deles e crie imagens mentais positivas de força e saúde. Reflita suas próprias memórias mais agradáveis, aquelas que não se importar em compartilhar. Ou leia suas poesias ou histórias favoritas. O benefício vem em transmitir-lhes pensamentos quentes e gentis à curta proximidade, onde os marishal possam senti-los com facilidade.

— E uma pena que sejam surdos - meditou Uhura. — Eu poderia cantar para eles.

— Faça-o, por favor. Eles realmente não podem ouvir sons, mas podem sentir as vibrações, e compreenderão as letras quando pensar nelas para eles. Imagens positivas irão...

— Ei! O que está havendo? - Uhura interrompeu-o, observando, fascinada, enquanto um dos bebês emergia da bolsa do portador inconsciente. — É um dos bebês... ele é adorável!

A pequenina criatura piscou solenemente para ela. Logo as outras duas juntaram-se a ela, e todas as três fitavam inquisitivamente o vulcano e a humana. — Companheirismo mental é essencial para os marishal - explicou-lhe Spock. — Eles precisam tanto dele quanto necessitam da bolsa de seu portador para comer e abrigar-se. Uma vez que seu "pai" não pode fornecê-lo, precisamos fazê-lo.

Uhura concordou. — Eu compreendo, Sr. Spock. Virei quantas vezes puder.

— Obrigado, comandante. Informarei o fato ao Dr. McCoy.

Partiram juntos da enfermaria, mas quando chegaram à sala de espera, Uhura parou de repente. — Sr. Spock - disse ela, ouvindo a urgência na própria voz, — por quê eu?

Ele ergueu uma sobrancelha, surpreso. — Já expliquei sobre a necessidade dos marishal por um contato mental...

— Não, isso eu entendi - Uhura o interrompeu, sacudindo a cabeça, inconformada. — O que quis dizer foi, por quê eu em vez de você? Você é o telepata, portanto você é a - ela deu de ombros de modo irônico, - escolha lógica para o trabalho. O que o detém em manter contato com D'berahan e seus filhos?

O vulcano estava obviamente desconcertado com sua percepção e, por um instante, Uhura pensou que ele fosse lhe dizer para cuidar da própria vida (apesar de que ele jamais diria isso dessa maneira, pensou ela. Ele acharia algum meio incrivelmente educado e civilizado para dizê-lo).

Mas após um segundo de hesitação, a máscara de calma das feições vulcanas relaxou ligeiramente. — Uma dedução lógica, comandante, que eu deveria ter previsto que faria. Existe uma... possibilidade de que eu não possa continuar visitando a marishal, portanto pedi-lhe para fazê-lo, para o caso de minha... impossibilidade.

— Quer dizer sua... ausência? - adivinhou Uhura.

— Eu não disse isso - falou Spock, contrito.

Mas foi isso o que quis dizer, pensou Uhura. O que está havendo? Ela se sobressaltou ao perceber a situação. Ele vai voltar para Gateway para fazer um elo mental com o Guardião.

Ela sabia pelo brilho dos olhos negros que ele percebera e catalogara sua reação, e sabia o que isso significava. — Sr. Spock... - Ela procurou pelas palavras. — Servi com você por muito tempo. É um dos melhores oficiais comandantes que já tive , você e o Almirante Kirk. Odiaria perdê-lo.

Ele relaxou levemente quando viu que ela não poria em palavras a verdade que ambos sabiam. — Todos nós temos nosso dever, comandante. Há vezes em que cada um de nós deve... interpretar... a natureza desse dever de acordo com nossa consciência individual. Creio que a exigência de nossa situação atual torna esta uma dessas vezes.

— Compreendo - respondeu ela, mas não pôde evitar o ligeiro tremor em sua voz. Qual é meu dever aqui? Ele dificilmente me chamaria aqui para fazer-me um "pedido pessoal" se Kirk o tivesse autorizado a fazê-lo - portanto, o almirante não sabe. Mas, por outro lado, não tenho certeza de que Spock esteja planejando agir contra ordens...

— Mas, Sr. Spock... - ela mordeu o lábio e então continuou, - não sei nada sobre os marishal mas, de tudo o que ouvi, eles são poderosos telepatas. Mais do que os vulcanos. E se D'berahan falhou... - Ela se interrompeu, sem desejar expressar o resto em palavras.

— Pode ser, comandante, que D'berahan tenha falhado precisamente devido a sua força telepática. E possível que um ser de força e sensibilidade mentais menores - um, com escudos mentais mais fortes - não sofra tal domínio.

— Tudo é possível, mas é incrivelmente perigoso. Ninguém jamais fez isso.

— Não há lógica em negar o perigo de tal ligação mental - admitiu Spock. — Contudo, está errada, isso já foi feito. A única pessoa que teve um contato telepático bem-sucedido com o Guardião foi treinada nas disciplinas mentais vulcanas. Ele possuía habilidades mentais muito superiores às minhas, mas ele - os olhos escuros de Spock estavam escuros, impenetráveis, — não está mais disponível.

— Quem era ele? - ela perguntou, intrigada.

— Zar - disse Spock. — Creio que se lembra dele.

— É claro que lembro - sussurrou Uhura, sua garganta apertando-se com a memória do jovem que conhecera tão brevemente. — Como poderia esquecer? Eu estava em comando do grupo de terra naquele dia, em Gateway. Fui eu quem o enviou para criar uma distração para que pudéssemos salvar a você e ao Capitão Kirk - ela respirou fundo, e então finalizou, suavemente, - e essa distração, é claro, foi a explosão que o matou. Eu... o mandei para sua morte.

Spock a fitava, obviamente preocupado. — Comandante - disse ele, após uma longa pausa, — existe algo que deve saber. Zar não morreu durante aquela explosão. Em vez disso, ele escolheu usar o Guardião para retornar a seu próprio mundo, que existe apenas no passado. Almirante Komack ordenou a mais restrita segurança relativa a todo o incidente Gateway, então o na época Capitão Kirk e eu estávamos sob ordens de não discuti-lo. Mas se eu soubesse... - Ele engoliu seco. — Eu deveria ter encontrado algum meio de contar-lhe. Não percebi que você... se sentia responsável.

A Oficial de Comunicações piscou. — Zar não morreu? - Ela sentiu uma imensa sensação de alívio envolvê-la, seguida quase que imediatamente de fúria. — E todos esses anos eu pensei... - Ela mordeu o lábio. Como puderam manter silêncio? Eles certamente deviam saber como eu me senti!

Spock obviamente sentira a direção de seus pensamentos - o olhar escuro do vulcano continha um inconfundível arrependimento. — Desculpe-me, comandante. Arrependo-me profundamente de que tenha sido forçada a carregar tal pesar.

— Não há necessidade de desculpar-se, senhor - disse Uhura em um tom de voz formal. — Como oficial da Frota Estelar, compreendo sobre as diretrizes de segurança.

— Sei disso, comandante. Entretanto, eu devia ter percebido que você se sentiria responsável, e ter-lhe confiado a verdade. Mas após Zar partir, eu estava um pouco... distraído. Não é desculpa, eu sei, mas... - o vulcano interrompeu-se, balançando a cabeça ligeiramente.

Distraído? Nunca ouvi Spock admitir tal coisa! Ele devia se importar ainda mais com Zar do que sempre demonstrou... É claro, Zar era um membro de sua família... apesar de nunca termos descoberto qual era exatamente a ligação... apesar de se parecerem tanto...

Nyota fitou as feições angulares e alienígenas, lembrando-se de Zar, e experimentou uma revelação repentina e surpreendente. Deus meu... é claro que ele estava distraído! Quem era ela? Quando isso aconteceu? Não pode ser verdade...

Mas, instintivamente, ela sabia que era.

— Zar era seu filho, não era? - perguntou suavemente, seus olhos jamais deixando os dele.

Ele piscou, surpreso, então a boca rígida relaxou, mesmo que só um pouco. — Sim - disse Spock, a voz tornando-se mais profunda e rouca. — Ele resolveu que, para proteger a integridade da linha de tempo, ele devia retornar a seu próprio mundo. Sempre me pergunto sobre como ele se saiu no passado.

— Quero agradecer-lhe por contar-me a verdade, Sr. Spock - disse Uhura — E um grande alívio saber que Zar pôde viver sua própria vida, em vez de morrer violentamente em combate. Ele era uma boa pessoa... todos gostávamos dele.

A voz de veludo continha uma ponta de divertimento. — Está correta, como de hábito, Nyota.

Uhura levou um segundo para decifrar a observação e, quando o fez, sorriu. — É uma pena que não possa ativar o Guardião e usá-lo para contactá-lo novamente. Disse que Zar podia comunicar-se com o Guardião. Ele talvez pudesse descobrir o que há de errado com ele.

Spock fitou-a com intensidade. — Sim, é um infortúnio que ele não esteja.. . disponível. - Os olhos escuros ficaram repentinamente distantes. — Mas eu fui seu professor, então talvez haja uma chance...

— Uma chance para quê, Sr. Spock?

Apesar de suas feições manterem a habitual impassividade, o vulcano não pôde esconder a esperança que havia em seus olhos. — Uma chance para todos nós - disse-lhe. — Obrigado novamente, Nyota.

Antes mesmo que Uhura pudesse fazer-lhe mais perguntas, o vulcano se foi.

Quinze minutos depois, enquanto sentava-se ao lado da cama de D'berahan, cantando com suavidade para seus filhos de olhos grandes, Uhura foi tirada de seu devaneio musical pelo som do intercom da nave, chamando o vulcano.

A voz do oficial de Comunicações em serviço continuou na linha por quase um minuto, então silenciou. Uhura baixou a cabeça, sabendo que não haveria resposta para os chamados. Lutando contra as lágrimas, ofereceu uma oração silenciosa pela segurança do vulcano a quem quer que a estivesse escutando.

 

Havia apenas duas coisas que Spock, filho de Sarek, filho de Skon, cidadão do planeta Vulcano, temia. Morte não era uma delas. Apesar de preferir continuar vivendo, Spock sabia que se a lógica ou o dever assim o exigisse, ele era totalmente capaz de arriscar sua vida, ou até mesmo escolher a própria morte, sem qualquer arrependimento ou medo.

Mas agora que estava em Gateway, diante do Guardião da Eternidade, Spock sabia que ele estava confrontando seu pior pesadelo... e o vulcano não podia negar que tinha medo.

Medo da incapacidade mental - fosse pela insanidade ou por danos no cérebro. Spock não conseguia imaginar nada pior do que existir com uma mente estropiada ou irracional.

Limpou a garganta e voltou-se para a unidade de registro de seu tricorder. — Aqui é Spock - disse brevemente, sem preâmbulos. Ele não tinha muito tempo. — No caso de ocorrer minha morte física ou mental, desejo que seja compreendido que eu estou... estava... totalmente consciente de meus atos na hora deste registro. Almirante Kirk não é, de modo algum, responsável por minha decisão em fazer tal tentativa - na verdade, ele proibiu-me expressamente tal atitude.

O vulcano hesitou, então continuou. — Acho a idéia de vida sem total consciência e domínio mental abominável e, no caso desta tentativa causar minha incapacidade mental, eu, por meio deste registro, lembro a quem encontrá-lo quanto aos termos de minha vontade... que nenhuma medida de suporte de vida - incluindo suspensão líquida ou sólida - deve ser usada para preservar minha existência.

E, pensou ele, uma vez que estou só, e não há ninguém a quem possa confiar meu katra, meu espírito vivo, a ausência de vida física significará morte real. Que seja.

Respirou fundo. — Para meus companheiros... meus amigos... a bordo da Enterprise, adeus. Foi um privilégio servir com vocês. Que tenham vidas longas e prósperas.

Ele tocou na pausa do tricorder e pensou em deixar uma mensagem mais pessoal para Kirk, mas tal comunicação já estava inserida em seu testamento; uma duplicação aqui seria ilógica. Jim compreenderia. Ele ligou novamente o aparelho. — Fim do registro.

Spock deixou o tricorder no alto de uma coluna próxima caída, então estabeleceu que seu sinal de emergência fosse ativado após vinte minutos. Uma rajada de vento o atingiu e ele estremeceu, desejando estar com sua jaqueta de exploração; mas usá-la chamaria a atenção quanto a sua intenção de descer em Gateway. Moveu-se para o abrigo do monolito de pedra, saindo do vento.

O vulcano ergueu suas mãos e, respirando profundamente, tocou no Guardião.

Pedra dura sob suas palmas, mas não fria... quente. Como alguma coisa viva. Um brilho tênue piscou dentro da rocha, tornando-a quase translúcida. Spock se concentrou, lançando sua consciência para a frente, procurando ligar sua mente à da entidade antiga.

Ele se sentia balançar no limiar de um abismo negro sem fim. A "mente" do Guardião estava muito, muito distante de Gateway, apesar de sua existência física estar ligada ao planetóide. Spock se concentrou ainda mais, tentando sondar essa escuridão.

Tênues ecos de contato o tocaram, mas ele não conseguia prosseguir... sua capacidade mental não era tão forte para estabelecer o elo. Spock tentou novamente, mas era como se tentasse agarrar um punhado de gás - por demais difuso, muito concentrado. Ele apoiou-se contra a forma do Guardião, exausto.

A entidade está... ocupada, pensou, lembrando-se das impressões que tivera enquanto tentava salvar D'berahan. Com o quê? Por quê?

Lentamente, ele começou a caminhar diante do Portal do Tempo, as mãos postas atrás das costas, pensando. O sucesso de Zar em comunicar-se com a entidade temporal há catorze anos dera-lhe esperanças de que ele também pudesse criar um elo. Mas não; ele não era um telepata suficientemente forte para romper a barreira e seguir a trilha da entidade.

A capacidade telepática de D'berahan havia sido bastante poderosas, mas seu escudo pessoal não o fora - a força da mente do Guardião a engolira, dispersando-lhe o sentido de identidade. Spock suspirou. Há um meio de estabelecer contato, tem que haver. Sempre há possibilidades.

O vulcano tentou lembrar-se exatamente o que o Portal do Tempo "dissera" enquanto sua mente estivera ligada à da marishal. Naquela hora ele estivera concentrando todas suas energias mentais e físicas em quebrar o elo mental da alienígena com o Guardião. Alguma coisa sobre iniciar... não, ativar...

De repente, lá estava. Ativar... ativar inteligência periférica secundária... reinstalar programação temporária.

Spock olhou para o Guardião, experimentando uma nova onda de excitação, de esperança. — Guardião - disse, saudando a entidade temporal. — Aqui é Spock, de vulcano. Já viajei através de você antes. Posso novamente usar suas propriedade de relocação temporal?

Após uma longa pausa, a forma de pedra falou - mas não com a voz profunda, quente e agradável que Spock ouvira antes. Este era um som agudo e abrupto, gerado artificialmente. — Pedido concedido. Destino?

— Planeta Sarpeidon, que antigamente orbitava a estrela Beta Niobe antes que seu sol explodisse há 16.4 anos solares da Terra.

Novamente uma longa pausa. A resposta do sistema está muito mais lenta, pensou Spock, preocupado. É possível que as capacidades de transporte temporal da entidade estejam similarmente limitadas... mas, é claro, não há como certificar-me disso, caso tente usá-las. Sua boca apertou enquanto ele esperava, contando os segundo.

— Local de referência inaceitável - disse o Portal, finalmente. — Acesso à memória primária limitado. Por favor, especifique localização.

Spock suspirou e pediu à entidade para projetar mapas estelares do Braço de Sagitário. Quando a entidade compreendeu a que porção de que galáxia Spock estava se referindo (isso significa que o Guardião poderia realmente me transportar para um local em outra galáxia? indagou-se o vulcano. Fascinante!), seu buraco central começou a encher-se com imagens tridimensionais. Os campos de estrelas lentamente tomavam forma diante do vulcano, um após outro. Spock estremeceu enquanto olhava, desejando novamente estar usando sua jaqueta. Finalmente...

— Pare.

O campo de estrelas projetado parou.

— Elimine tudo exceto o quadrante superior à direita.

— Aumente o quadrante especificado.

— Elimine tudo exceto o quadrante inferior à direita.

— Aumente.

— Elimine tudo exceto o quadrante superior à direita.

— Aumente.

— Pare. Beta Niobe é a terceira nuvem difusa embaixo e a quarta sobre a esquerda mais acima.

O objeto estelar indicado começou a pulsar. — Esta aqui?

— Está correto. Há 16.4 anos solares da Terra, essa nebulosa era Beta Niobe, uma gigante vermelha orbitada por sete planetas. Sarpeidon, o quarto a partir do sol, era o único mundo sem lua.

— Entendido e localizado.

Spock voltou seu tricorder rapidamente, preparando-o para gravar à velocidade máxima. — Iniciar história de Sarpeidon.

Imagens começaram a girar na abertura central. Spock observava enquanto o tricorder disparava, e via, pela quarta vez, maciços rios de gelo inundando o continente norte. Zar está lá, vivo, do outro lado deste Portal, pensou, lembrando-se de sua conversa com D'berahan. O tempo é a verdadeira barreira entre a vida e a morte...

Forçando-se a desviar os olhos, concentrou-se em monitorar seu tricorder. Após mais ou menos.um minuto, ele ergueu os olhos novamente, para ver sofisticados prédios e sistemas de transporte, e, sabendo o que vinha a seguir, fechou os olhos. O clarão cegante que marcava o fim deste mundo ocorreu apenas um segundo depois, tão brilhante que ele podia senti-lo até mesmo através de suas pálpebras duplas fechadas.

— História de Sarpeidon concluída - declarou o Guardião. — Final do pedido?

Por enquanto - Spock informou à entidade. — Tão logo complete minha análise dos dados pedidos, gostaria de transporte temporal. Isso também encontra-se dentro de sua programação?

Sim. Muitas jornadas assim são possíveis. Deixe-me ser seu portão -respondeu o Portal do Tempo, repetindo como um papagaio sua costumeira frase, mas com sua nova voz mecânica.

Entendido - disse Spock. Atrás dele, ouviu o som tênue de um feixe transportador, e virou-se para encontrar a forma maciça e com mais de dois metros do Comandante Beranardi al Auriga materializando-se ao lado da coluna. Dois de seus oficiais de segurança o acompanhavam: Tenente-Comandante Snnanagfashtalli, um ser felinóide com presas cor de rubi, e Max Arrunja, um humano de cabelos grisalhos e de meia-idade, com o único talento de não ser notado - a menos que o quisesse ser. Os olhos de Arrunja estavam mais frios que as neves da Europa.

Uma força formidável, realmente, pensou o vulcano, divertido. Mais do que suficiente para levar um oficial vulcano culpado.

— Comandante al Auriga - Spock cumprimentou educadamente o Comandante de Segurança de pele escura, enquanto trespassava seu tricorder pelo ombro.

— Senhor - saudou-o al Auriga, impassível, seus olhos escarlates cuidadosamente sem expressão, - o Almirante Kirk pediu que o escoltasse de volta à Enterprise. Queira nos acompanhar, senhor.

— Certamente, comandante - falou Spock, e caminhou para posicionar-se entre eles. Para fazer uma demonstração tão pública, pensou com um suspiro pesaroso, o almirante deve estar, realmente, com um humor inusitado.

O feixe de transporte tremeluziu o ar diante de seus olhos.

 

— Droga, Spock! - Kirk, andando de um lado para outro, confrontou o vulcano sentado na outra extremidade da sala de reunião. — Esta é a segunda vez que faz isso! Primeiro Vjer, agora o Guardião! Juro, se alguma vez esquivar-se para tentar um elo mental com uma inteligência alienígena novamente, vou mandá-lo voando pela câmara de compressão mais próxima e sem um traje espacial! Veremos se é possível passar por debaixo da quilha em pleno espaço! Entendeu?

Spock ergueu uma sobrancelha — Passar por debaixo da quilha? O termo não me é familiar, Jim.

— Bem, olhe em seu arquivo completo - Kirk responde, ríspido. — Não tente mudar de assunto. Eu lhe dei uma ordem para deixar o Guardião em paz!

Spock engoliu em seco. — Peço desculpas, almirante. Acreditei ter visto uma possibilidade de estabelecer comunicações com a entidade, e aproveitei-a. E tive sucesso - finalizou ele, ouvindo uma tênue nota defensiva infiltrar-se em seu tom de voz e esperando que Kirk não a tivesse notado.

O almirante sorriu. — Isso não desculpa sua ação, Spock, e sabe disso. A nave toda sabe que você desceu sem ordens! Sabe o que isso me faz parecer?

O vulcano nada disse, apenas permaneceu sentado, esperando. Finalmente, Kirk suspirou tempestuosamente, então afundou em uma cadeira oposta a de seu ex-Imediato — Tudo bem. Eu lhe darei corte marcial depois. O que você descobriu?

— Descobri que agora podemos nos utilizar do Guardião. Aparentemente, a tentativa de contato de D'berahan acionou um lembrete de suas responsabilidades junto ao Portal do Tempo, pois ele estabeleceu um segundo "cérebro" para lidar com funções temporais.

— Como isso nos ajuda?

— Isso significa que, apesar de eu ser incapaz de estabelecer um elo mental com o Guardião, agora temos acesso a alguém que já o fez.

Kirk fitou-o, atônito. — Você fala de... Zar?

— Sim. Suas capacidades telepáticas excediam consideravelmente às minhas, apesar de estarem obscurecidas por suas habilidades empáticas. Com as disciplinas vedra-prah que lhe ensinei, ele pode ser capaz não apenas de contactar o Guardião, mas também de proteger sua mente de ser engolfada, como foi a de D'berahan.

— Mas podemos apontar seu tempo com precisão suficiente para localizá-lo?

Spock tocou se tricorder com um dedo esguio. — Dados os avanços tecnológicos da última década, este instrumento foi capaz de gravar à velocidade suficiente para ter toda a História de Sarpeidon escaneada quando o Guardião a mostrou para mim. Se a presença de Zar há 5.000 anos teve alguma importância histórica, deve poder realmente vê-lo. Então posso calcular. ..

Kirk estava com uma mão erguida. — Espere um instante, pare esse pensamento. Quero que McCoy esteja aqui.

Spock concordou, então sentou-se novamente enquanto o almirante falava com o doutor pelo intercom. O vulcano começou a escanear as imagens do tricorder, à procura da presença de seu filho na história do planeta. A pintura de Zar da Enterprise aparecera em uma antiga fortaleza no Vale Lakreo; ele portanto voltara para tornar-se alguém de menor importância histórica... pintor da corte, professor, ou talvez um conselheiro do governante da cidade chamada Nova Araen.

Spock mal ouviu quando McCoy entrou e Kirk o saudou brevemente; ele estava atento à pequena tela de seu tricorder.

— Ora, é uma hora um pouco imprópria para uma chamada social, mas ficarei feliz em ver Zar novamente, não importa em que circunstâncias -disse McCoy, calorosamente. — Eu senti saudade dele.

Spock endireitou-se, então seu dedo indicador apertou com força o controle, de pausa. Cuidadosamente, seu rosto transformado em uma máscara impassível, ele voltou a seqüência de batalha que encontrara e focalizou na figura solitária no topo de um pequeno monte. Ele correu com ela novamente - vendo a arma manchada do guerreiro erguer-se, e então descer...

Observando o jorro de sangue, e o corpo caído e sem vida...

— Spock? - Ouviu a voz de Kirk ao longe, percebendo que esta era a segunda vez que o almirante o chamava. — Spock, o que foi? Você o encontrou? - A preocupação deixava o tom de seu amigo mais duro.

— Você está bem? - McCoy perguntou-lhe, ansioso.

O vulcano percebeu que devia ter empalidecido; tanto Kirk quanto McCoy fitavam-no. Ele clareou a garganta. — Sim, eu o encontrei - disse, não muito estável. — Zar evidentemente tornou-se uma espécie de governante no passado de Sarpeidon. Ele reinou com sucesso por quase duas décadas, então entrou em guerra. Acabei... - O vulcano deu um suspiro tremulo e profundo. — Acabei de vê-lo morrer.

McCoy soltou um som que era um meio protesto. — Tem certeza? - Ele balançou a cabeça, pasmo, e seus olhos, normalmente de um azul vivido, estavam opacos e envelhecidos. — Pergunta idiota... desculpe, Spock, é claro que você tem certeza... - Ele se interrompeu, passando a mão no rosto cansado.

— Eu sabia, é claro, que ele morrera... - o vulcano murmurou, meio que para si mesmo. — Mas foi... perturbante... testemunhar. - Lutando para recompor-se, ele voltou-se para encontrar os olhos de Kirk, vendo neles a simpatia, e pela primeira vez não a rejeitando.

Mas então, enquanto Spock observava, o olhar do almirante estreitou-se de repente. — Spock! - disse Kirk, de modo urgente. — Ocorreu-lhe que esta pode ser nossa oportunidade? Por que não voltarmos no tempo e arrancá-lo dessa batalha pouco antes do instante final? Se Zar morreu mesmo, então não haveria nenhuma razão para ele não voltar conosco e terminar sua vida aqui, certo?

— É possível - admitiu o vulcano, sentindo a esperança crescer dentro dele. — Eu teria de estudar as ramificações de sua morte na linha de tempo a fim de determinar se isso poderia ser feito. Também não podemos simplesmente "arrancá-lo" de seu tempo sem sua permissão. Não seria ético.

— Então voltamos no tempo alguns dias antes da batalha! - os olhos de McCoy iluminaram-se de excitação. — E perguntamos a ele! Nós lhe explicaremos que já fez seu dever pela história e que agora está livre. Ele não queria realmente voltar, lembram-se?

— Sim - disse Spock. — Mas seria melhor se eu voltasse sozinho. Qualquer um que use o Guardião nas presentes condições estará correndo um risco considerável.

— De jeito nenhum! - protestou McCoy. — Eu vou!

— E eu também - Kirk disse, sorrindo. — E não me fale sobre riscos. Corremos um perigo terrível só de estar neste sistema. Nós três provavelmente estaremos muito mais seguros no passado de Sarpeidon.

A sobrancelha de Spock ergueu-se. — No meio de uma guerra?

— Comparadas ao jeito como as ondas temporais do Guardião podem nos fazer desaparecer da existência assim - McCoy estalou seus hábeis dedos de cirurgião, e então deliberadamente acentuou seu sotaque sulista, — ora, bolas, algumas poucas rixas locais em Sarpeidon me parecem bastante amigáveis em comparação, não é mesmo, Jimmy?

Kirk rolou os olhos para o doutor, então ficou sério. — Falando sério, esta missão é importante demais para arriscarmos em mandarmos alguém sozinho... e nós três já estivemos lá antes. Conhecemos Zar. Temos as melhores chances de convencê-lo a nos ajudar.

 

— Mas, almirante - protestou Scott, — eu também conheci o rapaz. Ele me ouvirá.

— Eu me ofereço para ir, também, senhor - disse Uhura.

— Eu também - acrescentou Sulu.

— Não há necessidade para que o senhor, o doutor e o Sr. Spock se arrisquem - falou o Engenheiro-Chefe.

Kirk suspirou. — Agradeço sua oferta, Scott, mas você não pode ser dispensado daqui. Se essas ondas temporais voltarem, você é a única pessoa que pode tirar a Enterprise daqui. O mesmo para você, Hikaru. Já foi bastante difícil entrar, lembra-se?

Consigo mesmo, Kirk também pensava que o Engenheiro-Chefe estava ficando velho, e que Sarpeidon era um planeta frio e maior do que a Terra, com alguns nativos muito hostis.

— Mas aqui vocês não precisam de Comunicações, almirante - disse Uhura, usando seu tom de voz mais persuasivo. — Então posso ser dispensada. Tenente-Comandante Riley e eu poderíamos acompanhar o Sr. Spock.

Por que será que ela, de todos meus oficiais, automaticamente aceita a presença de Spock como natural, pensou Kirk, lançando um olhar para sua oficial de Comunicações. Ela sabe? Como poderia saber? O almirante pensou por um instante. A idéia era tentadora... mas de todos eles, fora Magro quem tivera o melhor relacionamento com Zar, e ele não ia mandar o doutor para nenhum lugar que ele mesmo não estivesse querendo ir.

E, sejamos francos, Jim, admitiu para si mesmo, já faz muito tempo que você não coloca seus pés em solo alienígena. Você tem procurado por uma oportunidade de fazer trabalho de campo.

— Obrigado, Nyota, mas não - disse ele. — Tenho um palpite quanto a esta vez.

— Todos conhecemos seus palpites, senhor - disse ela, concordando. — Boa sorte, então, almirante.

O restante daquele "dia" passou como um borrão, enquanto os três oficiais preparavam-se para sua aventura, estudando os dados disponíveis sobre a História de Sarpeidon, então experimentando roupas nativas produzidas pelo computador - calças de "couro", túnicas e gibões caseiros de "lã", mocassins de "couro" até os joelhos, capas de "tricô rudimentar" e mantos de "peles" com gorros ("já estou sentindo uma coceira" murmurara McCoy, sombrio, tentando coçar-se discretamente. "Não posso nem manter minhas roupas de baixo, pelo amor de Deus?" "Certo, vá em frente" Kirk lhe dissera, desgostoso. "É uma ótima coisa você ser um médico e não um ator. Você jamais conseguiria usar as roupas teatrais).

Enquanto o almirante dava suas últimas instruções a Scott, Spock terminou seus cálculos para o salto para o passado.

Finalmente, vestidos como pobres pastores, sem armas a não ser suas facas de cinto, os três oficiais reuniram-se na sala de transporte, e Scott transportou-os para a superfície de Gateway.

McCoy verificou o medikit que ele grudara em seu corpo, e então seu tricorder em miniatura no bolso de seu cinto. Ele tremeu quando o vento lançou seus dedos gélidos por baixo de seu manto. Odeio este lugar. Sempre odiei. Desde a primeira vez, quando eu estava tão alto, tão louco, pensando que meus amigos tentavam me matar. Seus rostos continuavam a mudar e gotejar... escorrendo como cera de vela... horrível. Resolutamente, o doutor forçou a própria atenção de volta para o presente. Concentre-se em não estragar esta missão, Leonard. Muitos dependem dela, lembra-se?

O doutor observava, enquanto Spock dirigia-se ao Guardião. — Aqui é Spock - disse ele. — Se fizermos uso de suas capacidades de deslocamento temporal, você realizará o monitoramento padrão e o programa de retorno do objeto volitivo?

— Todo o programa será executado corretamente - respondeu o Portal, após uma pausa.

— Entendido. Implantar a seqüência de deslocamento temporal. História do planeta Sarpeidon.

— Entendido - falou o Guardião, sem tom. Sua porção central encheu-se com a visão de um planeta recém-nascido, quente e turbulento. Mesmo enquanto observavam, ele começou a esfriar visivelmente.

— O que aconteceu à voz dele? - perguntou McCoy. — Ela costumava parecer com a de um guia turístico que tive em Altair VI, certa vez, mas agora... - Ele lançou um olhar preocupado para Jim. — Esta coisa não está usando todos seus propulsores, Jim.

O almirante deu de ombros. — Não temos muita escolha, temos, Magro?

Spock nem mesmo erguera os olhos de seu tricorder. — O Guardião ativou o que ele se refere como "segunda inteligência periférica" para lidar com suas funções temporais primárias. Doutor.

— Estou tão contente por ter perguntado.

— Aprontem-se - disse Spock, observando o tricorder e ignorando McCoy. — Faltam apenas alguns milhares de anos.

— Um simples piscar de olhos - McCoy murmurou para si mesmo.

Os três oficiais aproximaram-se um do outro, seus ombros quase se tocando. McCoy se agachou, preparando-se para o salto, sentindo a adrenalina correr por seu corpo, fazendo-o tremer.

— Quando eu contar até três - a voz de Spock soou à sua esquerda. — Um. Dois...

O tempo ficou suspenso.

— Três! McCoy pulou...

(estrelas brancas em negro, estrelas negras em branco, seu corpo expandindo-se para o infinito e contraindo-se em um único átomo num único e mesmo momento)

...e descobriu-se caindo próximo a um metro do chão. Chuva respingou-o. Ele espatifou-se em lama negra com um grande e surpreso shplaft, ficando sem ar. Água gelada agulhou seu cabelo (seu capuz caíra) e correu por seu rosto quando ele arquejou como um peixe fora d'água. Ele podia ver pouco além de seu nariz... apenas pedaços de terra molhada e musgosa, esmagada e pisada no estéreo escuro.

Finalmente, após longos segundos de luta, o doutor conseguiu forçar o ar de volta a seus pulmões. Parecia-lhe que nada jamais seria tão bom quanto aquela primeira golfada de oxigênio. Ele ergueu-se em seus braços, tirou a sujeira e piscou, tentando ver...

Pés.

Um círculo de pés e pernas cercava-o. Os pés estavam calçados com mocassins altos de couro parecidos com os seus, além de haver uma camada grossa da lama onipresente.

Uma mão brutal alcançou-lhe o ombro e rolou-o de costas. McCoy piscou, afastando a chuva de seus olhos e ergueu-os para o alto, onde um céu tinto de água estava cheio de gordas nuvens púrpura e, talhados contra elas, havia rostos barbados e carrancudos. Os homens que o fitavam estavam vestidos muito semelhantes a ele próprio, exceto por também usarem capacetes e armaduras de camadas de couro reforçadas com placas de bronze cru. — Mas que diabos... - murmurou o doutor. Ele tentou se sentar.

Imediatamente, todos os guerreiros ergueram perigosas lanças farpadas em indiscutível ameaça. O oficial médico afundou-se novamente no chão ensopado. — Certo, entendi a mensagem - falou ele, ficando totalmente quieto.

Ouviu um gemido vindo de algum lugar a sua direita. — Droga, Magro, já estamos com muitos problemas sem suas piadinhas idiotas!

— Jim! Você está bem?

— Só enlameado e arranhado. E cercado. Onde está Spock?

— Não sei.

— Estou incólume - falou a voz do vulcano. Parecia vir da esquerda do doutor, mas sua visão estava bloqueada pelos guerreiros.

— Nós conseguimos? - perguntou Kirk. — Aqui é Sarpeidon?

— Creio que sim, almirante - disse Spock. — A terra parece ser da cor correta.

— Então quem são essa gente?

— Desconhecido.

Dois dos guerreiros de olho em McCoy entreolharam-se. O doutor esperou que o tradutor universal implantado em seu braço funcionasse, e surpreendeu-se quando ele não o fez. Por que ele não está funcionando? perguntou-se. Então, uma luz brilhou em seu cérebro. Claro. A Central está no computador da Enterprise, a parsecs no espaço e há quase 5.000 anos no futuro. Droga.

Um dos homens apontou para McCoy, gesticulando para que ele se levantasse. Com todos seus músculos protestando, estou velho demais para isso, o doutor obedeceu. Ele agora podia ver Kirk e Spock, seus capuzes ainda no lugar, cada um deles cercado por um grupo semelhante ao que o cercava.

Eles estavam em uma pequena campina em declive, cercada por todos os lados por montanhas que erguiam-se ao seu sopé. Além de seus vales cheios de florestas, uma montanha coroada com branco erguia-se acima, desigual e rochosa contra o céu baixo. Nenhum sinal do sol, pensou McCoy, mas a luz parece vir do lado mais vermelho, o que seria o certo para Beta Niobe. Os odores pouco familiares de fumaça de madeira, animais, e pessoas amontoadas e sujas fez o doutor desejar ter filtros para narinas.

Os odores vinham de alguma espécie de campo - tendas de couro postas a volta deles como malévolos cogumelos ocres, e havia animais em fios de correias. As criaturas de cor parda pareciam-se com os jumentos terráqueos, mas suas cabeças eram mais como as de um alce, com chifres delgados e graciosos. Eles tinham crinas eriçadas e caudas cabeludas.

— Isto é um acampamento militar - falou Kirk. — Uma força invasora, se não estou enganado.

— Ótimo - disse McCoy. — Bem onde queríamos parar.

Os guerreiros reuniram-se outro instante, então um deles (evidentemente um oficial, devido a sua armadura peitoral e seu capacete com placas de bronze mais elaboradas) deixou o grupo.

McCoy ensaiou seu melhor sorriso "sejamos amigos" para o guerreiro mais próximo a ele. — Olá - disse ele. — Tempo horrível este, não?

O homem a quem se dirigira olhou-o zangado, falou algumas palavras que soaram como "dioti-gick'nuf", e então, intencionalmente desviou o olhar.

— Tanto esforço para nada - murmurou o doutor. Mesmo que as palavras fossem incompreensíveis, não era necessário ser um gênio para perceber que eles não eram amigáveis.

Todos os guerreiros voltaram-se ao ouvirem um grito e, então, em resposta a outro grito, empurraram rudemente os três oficiais da Frota Estelar juntos, até que estivessem dentro de um grande círculo de homens armados.

— Eu sabia que devia ter trazido meu phaser - murmurou McCoy, a ninguém em particular.

— A presença de phasers quando se contactando com uma sociedade não-tecnológica está em total oposição à Primeira Diretriz, Doutor - falou Spock. — Está bem ciente do fato.

— Diga isso ao meu cadáver - retrucou o doutor.

— Pare com isso, Magro.

O oficial com armadura de bronze aproximava-se deles novamente, acompanhado agora por uma figura baixa, encapuzada e usando um manto. O círculo de guerreiros abriu-se para deixá-los passar. Finalmente, ficaram diante dos três oficias da Federação.

McCoy descobriu-se fitando a pessoa encapuzada, que estava quase ao nível de seus olhos. Foi apenas quando ela ergueu as mãos ásperas para remover seu capuz que ele percebeu que a recém-chegada era uma mulher.

Um diadema de ouro forjado, engastado com rubis cabochão afastavam de sua testa os cabelos grossos e da cor do bronze, e o doutor vislumbrou um colar semelhante em sua garganta. Algum tipo de governante, com certeza. Ele inclinou-se ligeiramente, e Kirk e Spock seguiram-lhe o gesto.

Ela permaneceu estudando-os por quase um minuto, seus olhos penetrantes e perscrutadores. Eram olhos incomuns, do mais claro e pálido verde que o doutor já encontrara, e suas pestanas eram densas e escuras.

O restante de seu rosto era interessante, apesar de não ser belo. Sua boca era grande demais, sua mandíbula quadrada e pesada demais, e sua pele, apesar de naturalmente clara, escurecera devido à exposição às intempéries, até que as sardas em suas maçãs e seu nariz quase não aparecessem. Seus dentes da frente eram ligeiramente tortos. Ela devia estar com, aproximadamente, vinte e cinco anos... não uma jovem pelos padrões de juventude de povos não-tecnológicos. Mas a vida dura e a responsabilidade, e não a idade, haviam marcado as linhas em volta de sua boca e de seus olhos.

Quando ela concluiu sua apreciação dos três prisioneiros, falou-lhes na língua dos guerreiros. McCoy balançou a cabeça e moveu os ombros de modo eloqüente.

Kirk inclinou-se novamente e falou em voz alta. — Sinto muito, temo não falarmos a sua língua.

A mulher voltou-se para o oficial que a escoltara e dirigiu-se a ele. Ele assentiu, então ela deu-lhe as costas e falou em inglês padrão com um ligeiro sotaque. — Sou Wynn, Alta Sacerdotisa dos Danreg. Como chegaram aqui? Quem são vocês?

Kirk, apesar de obviamente surpreso, recuperou-se rapidamente. — Sou James T. Kirk, sua Alteza, e estes são meus amigos. Leonard McCoy - o doutor inclinou-se — e o Sr. Spock. - O vulcano inclinou a cabeça quando saudou a mulher no modo cerimonioso de seu povo.

— Viemos aqui de um lugar distante - Kirk continuou, com cuidado.

— Kirk... Spock... McCoy. Nomes estranhos. E vocês falam a língua de nossos inimigos. — Os olhos de Wynn eram frios. — O Comandante Madon disse a mim e a meu pai que vocês caíram do céu. É verdade?

— Ahn... - hesitou Kirk. McCoy sabia que ele estava pesando os prós e os contras de contar a verdade. Não faça isso, Jim, queria dizer. Em uma cultura assim primitiva, eles pensarão que você está falando de bruxaria, e prefiro ser enforcado como espião a ser queimado como bruxo. — Sua Alteza - falou Kirk, finalmente, — não posso dizer-lhe como chegamos aqui, pois eu mesmo não compreendo.

Ela mediu-o com os olhos. — Suas... palavras... são verdadeiras, mas o espírito por trás delas é uma mentira, Kirk. Não gosto de ser convocada em meio a um conselho de guerra com nossos aliados apenas para ouvir mentiras.

McCoy não perdeu o pequeno sobressalto de surpresa - nem Wynn. — Você é sábia, sua Alteza - disse Kirk, tentando recuperar-se, abrindo seu mais atraente sorriso para a Alta Sacerdotisa. — Eu gostaria de poder contar-lhe tudo, mas isso é impossível. Porém, não somos inimigos, asseguro-lhe. Não vamos causar mal nem a você nem a seu povo.

Ela também sorriu, mas não de modo agradável. — Disso não tenho qualquer dúvida, Kirk. A partir deste momento, vocês não estarão livres para nos fazerem qualquer mal. Amanhã, antes de eu pronunciar o oráculo da batalha, eu lhes darei mais uma chance de me contar a verdade, e se não o fizerem, então vocês terminarão falando com a Deusa Ashmara, e Ela vai me dizer o que devo saber sobre vocês. Eu lhes aviso, Ela não gosta de mentirosos, e nenhuma falsidade ou equívoco é permitido do Outro Lado.

Virando-lhes as costas, ela deu uma ordem ao Comandante Madon, e os três oficiais tiveram rápida e imediatamente suas mãos e pés atados. Um puxão em suas cordas foi suficiente para convencer McCoy de que ele ia ficar preso até que alguém achasse que deveria soltá-lo - ou até que Beta Niobe se tornasse nova, o que é que acontecesse primeiro.

Eles então foram puxados para várias estacas de amarração desocupadas próximas às tendas maiores e foram presos a elas. Os guerreiros removeram suas facas (com muitas exclamações e disputas quanto à posse das lâminas de aço) mas, além de uma busca superficial à procura de armas escondidas, eles não foram molestados. McCoy e Spock ainda tinham seus tricorders nos bolsos de seus cintos, e os Danreg não haviam descoberto o medikit do doutor.

Tão logo seus captores se foram, McCoy deixou-se cair, encolhendo-se debaixo de seu manto o máximo possível, tentando escapar à chuva. — "Estaríeis melhor em um túmulo do que ter que enfrentar este rigor dos céus com vosso corpo despido" - resmungou ele.

— Rei Lear, Ato Três, Cena Quatro - Spock respondeu automaticamente, mas seu coração obviamente não estava no jogo.

— Nós todos vamos nos afogar, droga. De quem foi essa idéia brilhante, afinal? - reclamou McCoy, na esperança de alguém morder a isca.

— Sua - disse Kirk, mas não havia nenhuma diversão em seu tom. Ele afastou água de seu nariz com o ombro de seu manto, e então espirrou. — Droga.

As horas arrastavam-se, enquanto os três oficiais da Frota Estelar tentavam conservar sua energia, descansar, evitar que a umidade de enregelar os ossos sugasse-lhes as» forças. Estavam amarrados longe demais uns dos outros para que pudessem se tocar; não poderiam trocar nenhum calor físico. Eles conversaram um pouco, a princípio, mas a conversa logo morreu. Seus captores os ignoraram, a não ser por uma vez, quando o Comandante Madon e dois guardas pesadões levaram-nos a uma visita ao mictório.

Eles não foram alimentados, nem deram-lhes água.

— Você acha que eles simplesmente não se importam, ou que fazem isso com a intenção de nos dobrar, Jim? - perguntou McCoy, quando a noite escureceu à volta deles. Com o pôr-do-sol, rajadas geladas de vento haviam se elevado, fazendo a chuva bater-lhes impiedosamente. A única luz vinha das tochas sombrias e das fogueiras protegidas.

— Nos dobrar - disse Kirk. — Wynn quer a verdade sobre o que estamos fazendo aqui. Não a culpo, eu mesmo gostaria de saber. — Ele se esticou, tentando aliviar os músculos de suas costas que estavam com câimbras.

— O que acha que ela quis dizer com "se não falássemos, amanhã poderíamos contar à sua Deusa no Outro Lado"? - McCoy perguntou, incerto.

— Parece que ela quis dizer que seríamos executados... ou, possivelmente, sacrificados em algum ritual, Doutor.

McCoy engoliu seco. — Grande.

— A que distância estaremos de Nova Araen? - Kirk perguntou-se, quebrando o silêncio desolado que caíra sobre eles.

— É um infortúnio que não possamos alcançar nossos tricorders - falou Spock. — Fazendo uma sondagem da área que nos cerca, poderia determinar a localização do centro populacional mais próximo e que deve ser Nova Araen.

— Não conte com isso - resmungou McCoy. — Lembre-se como o Guardião estava confuso. Ele pode ter-nos jogado em qualquer lugar -para não mencionar qualquer tempo.

— Vamos esperar que esteja errado, Magro - disse Kirk. — Spock, havia alguma menção aos Danreg nos registros da biblioteca de Atoz? - Ele ergueu sua cabeça apenas o tempo suficiente para falar, então imediatamente enfiou seu nariz avermelhado de volta ao calor de seu manto.

— Apenas a um Heldeon de Danreg Ford, aparentemente um dos lendários governantes-guerreiros.

— Havia menção sobre onde os Danreg estava acampados, em relação à Nova Araen?

— Não. Há menção apenas às forças de quatro grandes líderes aliadas em combate na Planície Moorgate, ao sopé de uma montanha chamada Grande Nevada; Heldeon de Danreg Ford, Laol, a Rainha da Guerra do Clã Kerren, Rorgan Death-Hand dos Asyri e o Sovren do Vale Lakreo. Os registros são compreensivelmente vagos e sobrescritos com lendas. É como se tentasse juntar uma história factual da Guerra de Tróia lendo Homero - apenas os detalhes que constituíam "alto drama" são mencionados, e há muitas dúvidas sobre sua acurácia.

— Se não sairmos deste acampamento miserável, toda a questão de onde estamos se mostrará discutível - apontou McCoy. — Se demorarmos muito mais com nossa fuga, estaremos todos com muito frio para até mesmo nos movermos quando surgir a oportunidade. Os nativos podem estar aclimatados a este frio, mas nós não estamos.

— Está correto, doutor. Tenho usado técnicas de biorealimentação na última hora para evitar a hipotermia, mas não posso fazê-lo indefinidamente. .. principalmente se a temperatura cair abaixo do enregelante.

— Então, qual é o plano? - perguntou McCoy.

Kirk pensou por um longo momento. — Se fizermos bastante barulho para atrair a atenção de Wynn, talvez consigamos que ela venha falar novamente conosco. Se o fizer, garanto que direi algo que pelo menos a manterá bastante interessada em dar-nos comida e abrigo.

— O que vai lhe dizer, Jim? - McCoy sorriu de repente. — Não me diga... vai apontar para as estrelas no céu e dizer-lhe que caímos da maior delas - então olhará fundo em seus olhos, e logo nossos problemas estarão acabados, certo?

A resposta de Kirk foi curta e direta.

A sobrancelha de McCoy foi erguida. — Isso é anatomicamente impossível, bem sabe, Jim. Mas afinal, não aceita uma piada?

— Não quando estou com tanto frio e fome - rebateu o almirante, mas, após um instante, sua expressão se suavizou. — Desculpe, Magro. Pelo menos ficar com raiva fez meu sangue correr novamente. Pensarei em uma boa história enquanto aguardamos que o acampamento adormeça. Se começarmos a gritar agora, o Comandante Madon simplesmente nos baterá.

— É uma coisa estarmos amarrados ao lado do que aparenta ser a tenda VIP - disse McCoy. — Com nós três gritando, ela certamente nos escutará.

— Parece que algumas tropas estão deitando - observou Kirk. — Torçamos para que a espera não seja longa demais.

— É, e já que estamos esperando, esperemos que Wynn não resolva apenas cortar suas perdas e mande Madon cortar nossas gargantas - falou McCoy, sombrio. — Em uma cultura como esta, a vida não é só barata, como praticamente não tem valor.

— Temos de correr o risco, Magro, já que a alternativa é permanecer amarrado aqui e morrer pela exposição ao tempo.

— Você está certo - suspirou o doutor. — Seguramente não podemos sobreviver a uma noite em campo aberto.

Kirk espirrou explosivamente. — Droga! Gostaria que uma vez, ao menos uma vez, eu comandasse uma missão em que tudo saísse com perfeição. Tudo. As funções do transporte sem uma falha...

— Amém - soltou McCoy.

— ...no motor de dobra e que os motores de empuxo ficassem on-line pela duração... ninguém da Segurança sofresse mais do que uma unha machucada... - A voz de Kirk ficou mais forte conforme ele se aquecia no assunto, -...e o computador da nave não tivesse soluços. Sem mencionar evitar tiranos loucos e poderosos, computadores megalomaníaco, pingos, ou, Deus me perdoe, Harry Mudd! - Respirou fundo, mas ele acabou dando novo espirro. — Só uma vez,, é pedir demais?

— Jim - disse Spock, no silêncio que se seguiu, — houve algumas dessas missões enquanto servíamos juntos. A vez em que fomos despachados para contactar as dançarinas ondulantes de Bellatrix V, por exemplo. O incidente com a Ratazana Gigante de Tamuras. A celebração do dia da morte para a Arquiduquesa sa'Gliszppkk de Rumon Alfa III. A posse do Neo-Papa de Ecatholos, que resultou no tratado de paz entre os ecatholianos e os phlyrinigi de...

— Certo, Spock, aceito seu ponto de vista - interrompeu o almirante, obviamente percebendo que, sem dúvida, o vulcano continuaria a catalogar as missões de sucesso ad infinitum. — Houve mesmo algumas... eu só gostaria que esta fosse uma delas. - Ele tossiu, e então o doutor ouviu-o queixar-se baixinho: — Tudo isso pela aventura de trabalho de campo...

McCoy fitou as linhas de chuva visíveis contra a luz da fogueira mais próxima. — A chuva está se transformando em neve - observou ele.

— Não me surpreendo - grunhiu Kirk. Ele espirrou novamente, então acrescentou, queixosamente: — E, para coroar, acho que estou ficando resfriado.

 

— Magro... Psssst! Magro!

Sono... e calor. Eram as únicas coisas importantes. O sussurro urgente não era importante. Leonard McCoy enterrou-se no calor, recusando-se a escutar.

— Droga, Magro! Acorde, é uma ordem!

— Doutor McCoy! Acorde!

Apesar de seus desejos, o calor começou a desaparecer. McCoy virou-se, procurando-o, e então engasgou-se quando um montículo de neve molhada escorreu da ponta de seu capuz para seu rosto. — Mmmmmph! Ahn?

— Magro, sente-se! Neste minuto, entendeu?

Grogue, o doutor afastou a roupa molhada de seu nariz e boca, e então se sentou. — Estou acordado - murmurou ele, infeliz. — O que está havendo?

— Você quase congelou, foi isso o que aconteceu. Mexa os braços! Bata os pés!

— Respire profundamente, inspire e expire — admoestou Spock. — Não deite novamente.

Desajeitadamente, o doutor tentou obedecer. Quando seu cérebro recomeçou a funcionar, ele teve medo ao perceber quão perto ele estivera de congelar. — Quanto tempo fiquei adormecido?

— Não sei - Kirk disse, sombrio. — Também apaguei. Se não fosse por Spock, seríamos dois picolés amanhã de manhã. Você está bem, Magro?

— Melhor. Está na hora?

— Não podemos nos dar ao luxo de esperar. Grite o mais alto que puder - instruiu Kirk, que então berrou: — Lady Wynn! Tenho que falar com você!

— Alta Sacerdotisa Wynn, precisamos falar com você!

— Sua Alteza, ei! - McCoy repuxou os lábios para trás e um penetrante assovio invadiu o ar cheio de granizo. Ele sorriu, irracionalmente satisfeito por descobrir que ainda podia fazer isso... devia fazer mais de quarenta anos que ele tivera a oportunidade (ou a imaturidade) de assoviar para uma mulher.

— Magro!

— Jim, ela não vai saber o que isso significa na Terra!

— Não conte com isso. Apenas grite.

— Wynn! Lady Wynn!

Antes que o doutor pudesse tomar novo fôlego, eles foram cercados por sentinelas sombrias. Comandante Madon, carregando uma tocha, juntou-se a eles um segundo depois. — Você! — Ele mirou um chute em Spock, que estava mais próximo. — O que estão fazendo?

— Quero falar com sua Alteza - balbuciou Kirk. — Estou com tanto frio, não agüento mais isso! Eu lhe direi a verdade, por favor! Dê-me só um pouco de comida e um cobertor!

O couro pintado que servia de cortina para a abertura da tenda maior abriu-se e Wynn, com seu manto a sua volta, emergiu. Atrás dela vinha um homem maciço e idoso, que tinha um chocante cabelo ruivo claro e barba e bigode eriçados. Heldeon, adivinhou o doutor.

— Que barulho todo é esse? - a Alta Sacerdotisa indagou, em inglês. Comandante Madon fez uma mesura, então colocou sua tocha sibilante em um suporte. Em silenciosa explicação, fez um gesto com o polegar mostrando os prisioneiros.

— Vamos morrer congelados aqui fora! - Kirk quase soluçou. — E estou com tanta fome! Por favor, eu lhe direi a verdade!

Sua encenação de um homem alquebrado estava perfeita. McCoy teve que esconder um sorriso de admiração.

Mas Wynn não foi tão facilmente convencida. Ela fitou o almirante com suspeita. — Então devo levá-los para um abrigo e dar-lhes comida, simplesmente para ouvir mais mentiras, é isso?

— Não, não, mentiras não. Juro pela Deusa! Somos espiões, é verdade. Mas, por favor - seus dentes bateram audivelmente, — tenho tanto frio que nem posso pensar, sua Alteza...

Kirk interrompeu-se quando um grito alcançou-os vindo da esquerda do acampamento. Mesmo enquanto se virava para olhar, duas tendas mais distantes explodiram em chamas. Comandante Madon enviou todas as sentinelas, com exceção de duas, e ele e o grupo principal se dirigiram para o local da comoção com suas espadas desembainhadas.

Wynn e Heldeon gritaram alguma coisa (provavelmente "Fogo!", pensou McCoy), e mais tropas começaram a sair de suas tendas, buscando suas armas enquanto corriam, de peitos e pés nus, dentro da noite.

— Kirk! Você é responsável por isto? - Wynn estava furiosa.

— Como poderia ser? - Kirk rebateu, indignado. — Eu estava amarrado aqui, sob guarda!

Heldeon murmurou alguma coisa para sua filha, e ela sussurou-lhe algo de volta. Então a Alta Sacerdotisa falou. — Para quem estão trabalhando? A verdade, ou meu pai jura que os enviará para a Deusa neste instante!

O almirante hesitou por um instante, então, com o ar de um homem que fala contra sua vontade, continuou. — Rorgan Death-Hand nos enviou, mas nada sei sobre este...

— Silêncio! - Wynn interrompeu-o, escutando.

Após alguns instantes, McCoy também escutou. Um tênue retumbar rítmico. .. e que ficava mais alto.

O que é isso? perguntou-se o doutor. Parece-me vagamente familiar...

O retumbar de cascos correndo de repente encheu a noite. Quando a Alta Sacerdotisa e seu pai preparavam-se para correr, um grupo de atacantes montados em criaturas chifrudas galopou acampamento adentro vindos da direita de McCoy - o lado oposto ao das tendas em chamas. Eles não deram nenhum grito quando suas montarias pararam repentinamente na lama gelada, cercando Wynn e Heldeon e eliminando-lhes a chance de fuga.

Heldeon parou, rosnando com ódio, e então desembainhou sua espada.

Wynn gritou, afastando seu pai do cavaleiro mais à frente, bem quando as duas sentinelas atacaram. McCoy viu o braço do líder do grupo de ataque mover-se, ouviu o thunk de uma lâmina cortando profundamente em tecido vivo. A sentinela caiu, berrando, soando tão cheia de agonia que o doutor lutou novamente com suas amarras, tentando, inutilmente, libertar-se para cuidar do homem. A montaria do cavaleiro cuidou da segunda sentinela, balançando sua cabeça chifruda e enviando o homem voando pelo ar, para aterrisar imóvel.

Heldeon caiu na lama, e então lutou para erguer-se, rosnando ordens a seus guerreiros distantes. A Alta Sacerdotisa caiu de joelhos, procurou por baixo do homem ferido e encontrou-lhe a espada. Enquanto McCoy observava (de onde diabos veio essa gente?), ela afastou o manto, enroscando-o em seu antebraço esquerdo para usá-lo como um escudo rudimentar. Ela posicionou-se meio inclinada, agitando a lâmina de modo experiente à sua frente. Sob a luz bruxuleante das tochas, ela se assemelhava à uma aparição afogada em sua roupa branca encharcada, seus longos cabelos caídos por suas costas.

McCoy ouviu os gritos dos guerreiros, e sabia que eles finalmente tinham se apercebido do perigo que seu chefe corria. O líder dos atacantes fitou a horda que se aproximava e sua montaria moveu-se, deixando sua perna desguardada por um crítico segundo. O golpe de espada de Wynn foi rápido e econômico, e apenas as reações das treinadas montarias salvou seu cavaleiro.

Mas enquanto a Alta Sacerdotisa se movia, um laço de corda foi jogado por um dos outros atacantes e passou por sobre sua cabeça. Ela lutou selvagemente, tentando livrar-se dele, mas o laço se apertou ainda mais fortemente em volta de seus ombros, deixando-a sem equilíbrio.

Heldeon pulou para ajudá-la, mas outro laço jogou-o no chão.

Em um instante, o líder dos atacantes desmontou e inclinou-se sobre Wynn, amarrando-lhe os braços ao lado do corpo, então jogou-a sobre a sela de sua montaria, que agora estava ajoelhada. Ele apontou para os três prisioneiros. — Traga os espiões também!

Antes que McCoy sequer pudesse piscar, um dos cavaleiros preciptou-se sobre ele e cortou a corda que o mantinha preso ao poste. O homem pegou a ponta solta, puxou o doutor até o flanco de sua montaria, então agarrou a parte de trás do gibão de McCoy e jogou-o atravessado sobre as costas do animal. A criatura deu um salto para a frente com o susto, fazendo o doutor soltar o ar de seus pulmões de modo brusco quando saíram galopando para a escuridão.

McCoy estava aterrorizado. Estava deitado de cabeça para baixo, seu rosto batendo no ombro tenso da montaria. Suas mãos ainda estavam atadas às suas costas, e a única coisa que o mantinha no lugar era o ângulo de seu corpo e a mão do cavaleiro segurando firmemente em seu cinto. O animal galopante girou e virou para evitar pedras e árvores, mas arbustos chicoteavam o rosto e as pernas do doutor. McCoy congelou; se ele lutasse, seu captor poderia largá-lo, deixando o doutor cair de rosto no chão pedregoso.

Finalmente, a corrida de pesadelo ralentou gradualmente, até que a criatura estivesse a meio galope, e então trotando. Com cada passada, suas cernelhas ossudas acertavam o estômago do doutor. O pobre órgão maltratado protestou, mas ele estava vazio demais e contraído demais para livrar-se de seu parco conteúdo. Ele podia apenas enjoar e ter ânsias de vômito em seco.

Isso quebrou o silêncio de seu captor. — Vomite em minha perna e eu juro que o jogarei para fora deste penhasco, espião. - O único pedido de clemência que o doutor conseguiu murmurar saiu como um grunhido, mas instantes depois, o homem diminui o passo da criatura para um caminhar.

Eles trouxeram Jim e Spock? McCoy perguntou-se, tolamente. Eu voltarei a vê-los novamente? Tentou erguer o rosto para olhar em volta, porém sua cabeça girou de modo tão violento que ele deixou-a cair novamente contra o ombro suarento da criatura.

A viagem continuou por um tempo que pareceu-lhe infindável, e que continuaria até o fim dos tempos. Ele ganhou e perdeu a consciência, porém nunca chegou a ser liberado de seu desconforto.

Na maior parte do tempo eles desceram, pois o homem tinha de segurá-lo por sobre o santo antônio da sela a fim de evitar que ele escorregasse pelo pescoço da montaria. Querido Deus, acabe com isto, rezava o doutor. Não me importa como, mas acabe com isto, por favor...

Finalmente, o doutor foi erguido de seu estupor, apenas para perceber que haviam parado. Ele abriu os olhos para ver a luz cinzenta que precede o nascer do sol, e tentou erguer a cabeça para olhar a sua volta, mas seus músculos recusaram-se a obedecê-lo. Após um instante, o cavaleiro jogou-o da sela - ainda bem que não de cabeça para baixo - para cima de uma superfície dura. McCoy caiu imediatamente, quase que sob os cascos da criatura chifruda, mas ele não conseguia se mover, nem mesmo quando uma das patas tocou em seu ombro.

— Quieto - soou a voz de seu captor, amansando sua nervosa montaria. A criatura se afastou, mas então o doutor já estava meio de pé e, após um segundo, seus braços estavam livres e suas pernas não mais estavam amarradas. Elas falharam imediatamente e, com uma imprecação, o homem jogou o braço fraco do médico sobre seus ombros e começou a puxá-lo.

McCoy olhou grogue à sua volta, e viu um jardim cercado por uma muralha de pedra. Além da muralha erguia-se uma torre pequena que era parte de uma fortaleza de duas ou três alas. Seu captor arrastou o doutor através de uma porta maciça e gasta. Luz amarela e escuridão negra chegavam em clarões borrados e, finalmente, McCoy percebeu que estavam passando por um corredor iluminado por tochas. Seu captor soltou nova imprecação pelo peso morto do médico e então, ao chegaram a uma escada, ele parou, jogou o prisioneiro com facilidade sobre o ombro e começou a descer.

Uma onda de ar úmido e fétido engolfou-os. McCoy teve nova ânsia de vômito ao sentir o odor de latrinas abertas e corpos suados e rançosos, e lutou para permanecer consciente. Sentiu seu captor parar, ouviu uma troca de palavras murmuradas que não conseguiu compreender, então um barulho de grade. O homem começou a mover-se novamente, mas parou após alguns passos e baixou o doutor em uma superfície ligeiramente macia. Mãos tocaram em seu pé e ele ouviu algo fazendo clink e então click. Seu tornozelo ficou repentinamente pesado.

— Tome, é melhor lhe dar um cobertor - disse seu captor. — O Segundo quer interrogá-los a todos quando estiverem aqui. Não queremos que este aqui morra conosco.

— Certo - falou uma voz diferente e, um instante depois, algo áspero mas quente foi posto em volta do corpo do doutor. Ele fez um esforço desesperado.

— Jim? - sussurrou, tocando debilmente no braço do homem. — Spock?

— O que ele quer? - perguntou o homem ao captor de McCoy.

— Nem imagino. Ele ficou balbuciando isso durante toda a descida da montanha. Provavelmente está rezando... ele certamente já está com problemas bastante para precisar de toda a ajuda que conseguir.

— Está certo quanto a isso. - Ambos deram meia volta e o doutor ouviu-lhe os passos. Não vão! ele queria gritar. Mas conseguiu apenas gemer. — Não queria estar usando as roupas deles. Cletas não lida de modo suave com espiões inimigos.

A porta bateu atrás deles, e McCoy descobriu que não mais podia lutar contra a escuridão dominante...

 

O doutor acordou com o som de um ronco suave, e com um corpo tão maltratado e enrijecido que até mesmo sentar-se em seu catre era pura agonia. Ele viu a luz do sol passando por uma janela estreita e com barras próxima ao teto da cela - pois era uma cela, com paredes de pedra e uma imensa porta de madeira e com uma abertura com barras. Sua perna estava presa à parede por uma longa corrente de ferro.

Havia mais dois outros catres estreitos com formas corcundas sobre eles, e era de uma dessas formas enrodilhadas que emanava o sonolento ressonar. Apesar de sua dor, McCoy sorriu de alívio; reconhecia aqueles roncos. — Jim!

Os sons cessaram abruptamente e uma cabeça desgrenhada surgiu debaixo do cobertor. — Magro... - resmungou Kirk, - é você?

— Você parece tão horrível quanto me sinto. É Spock quem está ali?

— Afirmativo, Doutor McCoy - disse o vulcano; Ele também apareceu. Ele fora o único que não perdera o gorro.

Cuidadosamente, sem se preocupar em reprimir seus gemidos, o doutor conseguiu jogar as pernas ao lado de seu catre. — pensei que nunca mais os veria de novo. Vocês estão bem?

— Até meu cabelo dói - disse Kirk, sentando-se também, — mas acho que vou sobreviver. - Ele endireitou as costas com um sibilar de dor. — Mas não ficarei feliz sobre isso por algum tempo. Spock... você está bem?

— Estou machucado e enrijecido devido ao meio tão pouco ortodoxo de transporte mas, afora isso, não estou ferido - falou o vulcano, cuidadosamente esticando as juntas de sua figura esguia.

— Tome - disse o doutor, remexendo debaixo de seu gibão, — ainda tenho meu medikit. Elas devem ajudar. - Deu-lhes duas pílulas enquanto ele próprio jogava a terceira na boca.

Spock pegou a sua com uma sobrancelha erguida, mas engoliu-a bastante documente.

— Como se sente, Jim? Febril? Precisa de alguma coisa para esse resfriado?

Kirk respirou profunda e experimentalmente, então pareceu surpreso. — Acho que estava errado sobre ter um resfriado. Estou bem. Talvez a neve da noite passada tenha congelado todos os germes.

Spock ergueu uma sobrancelha em sua direção. — Almirante, essa especulação é totalmente...

Kirk sorriu. — Poupe-me de uma palestra científica, Spock. Há água aqui dentro? Estou com tanta sede!

Os três oficiais encontraram uma moringa com água fria próxima à porta. Após cada um beber um pouco, usaram o líquido restante para lavar seus rostos e mãos. Por essa hora, o analgésico já estava surtindo efeito e eles moviam-se quase que normalmente.

— A questão é - andou Kirk, arrastando sua corrente, — onde estamos? No fogo, depois de ter pulado da panela?

— Com que diabos eu deveria saber? - McCoy explodiu, rabugento, tentando livrar-se da câimbra na barriga da perna. — Pelo amor de Deus, sente-se, Jim! Você parece o fantasma de Marley, arrastando essa coisa!

— Ah. - Spock ergueu os olhos de seu tricorder. — Dickens. A Christmas Carol.

Só então as dobras da porta de sua cela gemeram novamente, e um homenzinho corpulento e com cabelos grisalhos entrou. Pelas chaves penduradas em seu cinto, McCoy presumiu que ele fosse seu carcereiro. Ele estava acompanhado de dois guardas armados e levava tigelas e mais uma moringa de água fresca em uma bandeja. A um gesto seu, um dos guardas jogou os remanescentes da primeira moringa no buraco usado para as necessidades fisiológicas. — Então todos já estão acordados - ele disse, olhando-os. — Parecendo um pouco mais vivos do que estavam, com certeza. Agora comam,

Ele passou-lhes colheres e tigelas de mingau quente, cada uma acompanhada por um naco de carne seca. Spock passou gravemente sua porção de carne para o almirante, que a dividiu com o doutor. Em troca, ambos colocaram algumas colheradas de seu mingau no prato do vulcano. O carcereiro e seus guardas observavam enquanto eles comiam.

McCoy experimentou a papa amarronzada com certo temor, esperando achá-la repulsiva, mas, apesar de grosseira, ela era boa, com um sabor adocicado de avelã. Ele a empurrou ansiosamente para dentro da boca, raspando o fundo da tigela com pena.

Quando terminaram, o carcereiro recolheu as tigelas e as colheres. — O Segundo em pessoa virá falar com vocês. Apesar de que - ele sorriu desdenhoso e piscou-lhes de volta, — acho que ele fará com que vocês respondam a perguntas e não as façam!

— Grande - murmurou McCoy quando a porta fechou-se atrás deles. — Temos um carcereiro comediante. Quem é o Segundo?

— Nem imagino - disse Kirk.— Mas pelo menos três pessoas falam inglês. E, eles nos alimentaram. - Ele começou a consumir seu naco de carne.

— Sim, eles o fizeram - falou Spock. — Notei um número significante de fatos desde que acordamos. Primeiro, as leituras em meu tricorder indicam que este é um centro populacional grande. Segundo, as condições desta cela: apesar de úmida, ela parece ter sido projetada pensando-se no conforto de seus ocupantes. A janela fornece ventilação adequada. Os cobertores - grosseiros, mas sem piolhos. A comida - simples, porém comível. As bordas dessas algemas foram alisadas para evitar o abrasamento da pele de quem a usa. E...

— E daí? - interrompeu-o McCoy. — Podemos colocar este lugar na nossa lista das dez cadeias favoritas. Só Deus sabe que já estivemos em muitas delas para já sermos connaisseurs. Qual é a questão, Spock?

— Que esta masmorra parece ter linhas muito... avançadas em comparação a seu tempo. - O vulcano passou os dedos pensativamente pelos elos de sua corrente. — Terceiro, isto é feito de ferro forjado, uma substância que exige um avanço tecnológico muito maior do que as armas e armaduras de bronze que vimos no acampamento de Heldeon.

— Conclusão: chegamos a Nova Araen - disse Kirk. — Também acho isso.

— Não me importo se isto é Nova Araen ou a Cidade das Esmeraldas. Ficarmos aqui sentados não nos trará nada de bom - protestou McCoy. — A batalha de Zar pode ser hoje! Não podemos simplesmente ficar sem fazer nada, temos de sair daqui!

— Calculei que nosso salto nos trouxe vários dias antes do conflito, doutor.

— E, mas não se esqueça de que você calculou nossa última visita a Sarpeidon para que encontrássemos um moleque de orelhas pontudas!

— Percebo seu ponto de vista, porém, não sinto que a fuga seja nosso curso de ação mais lógico desta vez - disse Spock, encostando-se à parede e arranjando o cobertor sobre suas penas. — Creio que deveríamos aguardar até que alguém com maior autoridade preste atenção em nosso caso. Se então isso se mostrar necessário, posso sempre reconfigurar meu tricorder para desintegrar a maçaneta da porta da cela, mas fazê-lo significa inutilizar os sensores, e talvez necessitemos deles.

Concordo com Spock - falou Kirk. — Todos nós levamos uma surra ontem. Podemos aproveitar a oportunidade para recuperarmos nossas forças. Esperemos algumas horas e vejamos o que acontece.

McCoy deu de ombros. — Você é o chefe. - Ociosamente, pegou seu tricorder médico e divertiu-se fazendo leituras das formas de vida dentro de seu alcance. — Isto é estranho - disse, ele, prontamente.

— O quê? - perguntou Kirk.

— Esta é a primeira oportunidade que tive de fazer leituras dos nativos de Sarpeidon - Zar não conta, é claro, devido a seu parentesco mixado - e meu tricorder mostra que essas pessoas provavelmente não evoluíram neste mundo. Há pouca correlação entre sua química corporal básica e a dos animais - pelo ponto de vista evolutivo.

— Fascinante. - Spock ergueu os olhos. — Essa observação liga-se com a anomalia que me intrigava desde o início. Meus estudos da ecologia de Sarpeidon mostraram que ele não possui nenhum animal análogo aos primatas. Especulei que, talvez, todos os primatas-análogos em falta houvessem se extinguido devido a alguma doença, mas se as formas de vida consciente foram transplantadas daqui vindas de algum outro lugar, isso poderia explicar esse vácuo.

— Transplantadas? De onde?

— Eu não sei, Jim. - McCoy sondou as leituras novamente. — Não da Terra. Sua estrutura é mais semelhante a dos rigelianos, e ainda mais semelhante a dos vulcanos. Não me admira que sejam tão fortes.

Kirk fitou-o, em dúvida. — Vulcanos? Mas e quanto a suas... — Ele bateu em sua própria orelha.

— Este mundo é muito mais frio do que Vulcano, Jim. Se o que o Dr. McCoy especula é verdade, então os transplantadores saberiam que a orelha dos vulcanos, evoluída para captar ondas de som em uma atmosfera fina e desértica, aqui não seria uma característica para a sobrevivência. Eles fizeram alterações que fossem importantes no material genético básico.

— "Eles" quem?

Spock moveu a cabeça. — Impossível dizer. Sabemos que havia um número de espécies agora desaparecidas que "plantaram" vida inteligente pelas porções exploradas da Galáxia. Os Preservadores e o povo de Sargon, para citar duas.

— Então, se seu povo e os sarpeidianos vieram de um mesmo material genético, isso explicaria por que você e Zarabeth puderam... ahn... - A voz de Kirk sumiu enquanto ele procurava pelas palavras.

O almirante foi salvo pelo som das dobradiças da porta da cela. Os três oficiais prontamente ficaram de pé quando ela se abriu, desta vez admitindo a entrada de um homem de meia-idade, de altura mediana, e que usava uma cota de malha, mas cuja cabeça estava nua, revelando chocantes cabelos castanhos meio grisalhos. Ele era bastante moreno e seus olhos eram azuis. Pelo menos, McCoy presumiu que seus olhos fossem azuis... seu olho direito estava quase fechado devido a uma mancha rocha a sua volta. Seu lábio inferior estava cortado e inchado.

Ele estava desarmado, a não ser por um punhal, mas os dois guardas que o flanqueavam compensavam sua falta de armas. Eles brilhavam com armas de aço... espadas, alabardas e adagas.

O que Jim não daria para ter algumas dessas belezinhas e pendurá-las na parede de sua casa, pensou McCoy, secamente.

— Sou o Segundo-em-Comando Cletas - disse o oficial. — Quem são vocês?

— Antes de respondermos a isso - falou Kirk, — onde estamos?

— Esta é a cidade comercial de Nova Araen - respondeu o homem, desdenhosamente curioso. — Não finjam que não sabem disso.

Kirk sorriu para seus companheiros. — Conseguimos!

— Conseguiram o quê? — perguntou o Segundo, seus olhos duros e cansados. — Quem são vocês? Disseram-me que os Danreg haviam capturado espiões, mas vocês não são nenhum dos meus. Para quem estão trabalhando?

— Olha, não temos tempo para isso - disse Kirk, impacientemente. — Nós não somos espiões. Sou Kirk, ele é Spock e esse é McCoy. Precisamos ver seu governante... o Sovren... imediatamente. Não há muito tempo a perder. A batalha ainda não começou, não é?

A mão de Cletas foi para o punho de seu punhal. — O que sabe sobre quando se iniciará o ataque?

— Nada! - Kirk fez um gesto desesperado. — Quer dizer, sabemos que haverá uma, mas nada sobre a hora exata do ataque. Não estamos com seus inimigos, somos amigos. Nós temos de ver o Sovren antes que a batalha se inicie, ou será tarde demais!

— Viemos transmitir-lhe um aviso - falou McCoy. — Ele nos conhece, apenas pergunte-lhe.

Cletas fitou os três longamente, seus olhos observando cada detalhe de seus rostos machucados, suas roupas rasgadas e enlameadas. - Conhecem, é? Esperam que acredite nisso? - Ele balançou a cabeça. — Vocês não são espiões, são lunáticos.

— É verdade! — insistiu Kirk, um pouco revoltado. — Apenas diga-lhe nossos nomes. Ele descerá aqui tão rápido...

Um dos guardas riu-se silenciosamente. Cletas lançou-lhe um olhar duro e o homem voltou a sua posição de sentido. — Talvez possa lhes arranjar uma entrevista - disse-lhes o Segundo, — se me disserem para quem estão trabalhando.

— Rorgan Death-Hand - disse Kirk, evidentemente resolvendo que este era o melhor meio de lidar com a situação. — Eles nos enviou para espionar os Danreg e eles nos pegaram. Então sua gente capturou-nos, por sua vez, durante um ataque noite passada... - Ele examinou cuidadosamente o rosto do Segundo. — Foi você quem liderou o ataque!

O homem deu de ombros, como se não tivesse nenhuma razão para negar a observação de Kirk. — Tudo bem, então Rorgan Death-Hand enviou-os?

— Sim! - Kirk estava frustrado de um modo que o doutor jamais o vira. Agora leve-nos para ver seu Sovren!

— Primeiro diga-me por que ele é chamado "Death-Hand". - Cletas disse enganchando seus dedões no cinto e balançando nos saltos das botas.

— Ahn... - Kirk lançou um olhar implorante a Spock, mas o vulcano deu-lhe uma negativa curta com a cabeça. — Por que ele matou muitos homens?

A boca do guarda torceu-se. — Porque - disse o Segundo, impassível, — ele usa um porrete de bronze com espinhos onde antes era sua mão direita. Vocês nunca o viram em sua vida. Talvez alguns dias a pão e água os convença de que falo sério.

Cletas virou-se para sair. — Espere! - McCoy gritou, movido por uma súbita inspiração. Sua corrente bateu violentamente quando o doutor moveu-se rapidamente até Spock e retirou-lhe o capuz. — Agora acredita que conhecemos Zar?

O Segundo fitou-o por um longo instante, seu olho bom estreitando-se, e então ele virou-se para os guardas. — Fiquem aqui - ordenou. — Vejam para que nada lhes aconteça. Eu voltarei.

McCoy recolheu-se de volta a seu catre, aliviado. Vai mesmo dar tudo certo depois de tudo isso? Ele teria que ter esperança.

Kirk sentou-se próximo a ele. — Muito bom, Magro. Eu devia ter pensado nisso.

McCoy baixou o tom de voz. — Quase não pensei. Quase esqueci da presença dele, de tão quieto que estava.

Ambos fitaram o vulcano, que estava de pé, as mãos para trás das costas em sua pose tão habitual, sua expressão completamente serena. McCoy fez uma careta e murmurou. — Ele está tão nervoso quanto um gato de rabo comprido em uma sala cheia de cadeiras de balanço.

— Eu sei - retrucou Kirk, também sussurrando. — Posso imaginar como ele se sente.

McCoy notou um certo anseio na expressão do almirante, e ficou intrigado com isso. Mas dificilmente agora parecia-lhe uma boa hora para perseguir a questão.

Passou-se um certo tempo. Até mesmo os guardas trocavam o peso de seus pés.— Quanto tempo se passou, Spock? - Kirk finalmente perguntou.

— Dezessete minutos e quatorze segundos, almirante.

O que está havendo? perguntou-se McCoy, remexendo-se. Nova Araen foi atacada? Cletas está morto e sua mensagem não foi entregue?

Ele passou mais tempo fazendo leituras dos guardas com seu tricorder. Eles não demonstraram nem temor nem interesse à visão do instrumento.

Finalmente, o doutor jogou-se de volta em seu catre. — Não agüento isso - disse ele, sua voz duas vezes mais alta no silêncio reinante. — Spock, quanto tempo agora?

— Trinta e seis minutos e dez seg... - O vulcano parou, ouvindo. Quase que um minuto depois, McCoy também ouviu os passos.

Ao longe, a voz de Cletas os alcançou. — Lady Wynn esperará um pouco mais, sire. Creio que necessita ver esses prisioneiros por si mesmo.

Os passos pararam ao lado de fora da cela, e ouviram uma voz diferente dizer: — Cletas, há algo que não está me dizendo. O que está havendo aqui? - Até mesmo antes dos guardas se posicionarem em posição de sentido, saudando-os, McCoy reconheceu a voz. Uma súbita onda de emoção fê-lo morder o lábio com força.

As dobradiças rangeram, e a porta abriu-se. Kirk e McCoy ergueram-se quando um homem alto e de ombros largos, que movia-se com um acentuado claudicar, entrou. Ele carregava um elmo de aço com plumas vermelhas e usava um manto escarlate sobre sua cota de malha.

Zar.

Ele permaneceu junto ao batente, por um instante fitando, um a um, os três homens extremamente tensos. Ninguém falava.

Finalmente, Zar piscou. Sua voz falhou por um instante, mas quando ela finalmente emergiu, estava admiravelmente calma. — Eu estou acordado, portanto isto deve ser real.

Os olhos de McCoy ficaram marejados enquanto ele sorria, abobalhado.

— Olá, Zar. Há quanto tempo não nos vemos.

Kirk rosnou. — Se não parar de fazer essas observações horríveis, vou deixá-lo aqui na masmorra, Magro. Zar, estou feliz em vê-lo.

— E eu a vocês - disse o Sovren, então seus olhos voltaram-se para Spock e seus dedos fizeram a saudação vulcana. — Senhor... - começou formalmente, — bem-vindo a Nova Araen.

Um tênue meio-sorriso suavizou a boca rígida quando o vulcano devolveu-lhe o gesto. — Saudações, filho. É bom vê-lo de novo. Já faz muito tempo.

Os olhos cinzentos do homem mais jovem começaram a brilhar, sua voz não mais totalmente firme. — Obviamente, mais tempo para mim do que para vocês, Pai. Já fazem quase vinte anos.

— Para nós passaram-se 14.5 anos. - Havia um toque de preocupação na voz de Spock. — Você está bem? Estava mancando.

— Um velho ferimento. É pior quando o tempo está úmido. - Zar recuperara a maior parte de seu autocontrole com esforço. — Senti sua falta, Pai. - Ele fitou Kirk e McCoy. — Senti falta de todos vocês. Jamais esperei vê-los novamente. Isto foi uma surpresa total.

— Quer dizer que Cletas não lhe contou, quem o aguardava? - Kirk perguntou com um piscar de olhos.

— Se disse seus nomes a Cletas, ele não achou que devia me contar. - O Sovren virou-se de novo para seu oficial, que agora já sorria abertamente.

— Vejo que está se divertindo com sua pequena piada.

— Estou sim, sire - admitiu o Segundo. — E pensar que quase deixei-os a pão e água... - Fez um gesto com a cabeça na direção de Spock. — Eu ficava pensando que havia algo familiar sobre o alto, mas foi apenas quando McCoy retirou-lhe o capuz que percebi quem ele deveria ser.

Os olhos cinzentos de Zar assumiram uma expressão dura e fatalística que o doutor jamais vira neles. — Ah, sim, meu doppelganger. - Ele voltou os olhos para Spock, inexpressivo. — Isso significa que um de nós esta destinado a morrer, você sabe.

O sorriso de Cletas sumiu; o homem parecia ferido. — Doppelganger, meu suserano?

— Uma velha lenda de outro... lugar - explicou Zar. — Se uma pessoa encontra uma aparição que seja seu sósia, isso é um sinal certo de morte iminente.

Ele sabe que vai morrer na batalha que virá! pensou McCoy. Mas como? Zar alegara que as habilidades empáticas/clarividentes que ele demonstrara durante seu tempo a bordo da Enterprise não se aplicavam a si mesmo, apenas àqueles de quem ele gostava...

Tentando quebrar a tensão súbita, o doutor disse, com entusiasmo exagerado: — Não conheço nada de lendas antigas, mas no instante em que você entrou, pensei que estávamos de volta a um universo paralelo que visitamos certa vez. Um universo-espelho, onde todos éramos gêmeos desumanos, Zar. Eu disse a Spock que gostei dele de barba. Ele parecia um pirata.

Kirk riu, apenas para ver o riso transformar-se em tosse.

Zar fez um gesto do tipo "o que estou fazendo?". — Sinto muito, capitão, saiamos imediatamente desta umidade para que possam se lavar. Cletas, eles desejarão banhos quentes, roupas limpas e comida. - Ele fez um gesto para Kirk em direção à porta.

— Por sinal - McCoy bateu com o dedão nas costas de Kirk, — agora é almirante.

— Eu devia ter imaginado - disse Zar. — Parabéns, almirante.

— Me chame de Jim - falou Kirk, enquanto o grupo subia pelo corredor em direção às escadas. — Parece que todos tivemos sucesso no mundo. Não esperávamos voltar aqui e encontrá-lo comandando o espetáculo.

— Essa condição - Zar disse, sinistramente, linhas de dor aprofundando-se em volta de sua boca enquanto ele manqueja escadas acima, — pode muito bem ser temporária. Mas posso ao menos cuidar de seu conforto enquanto explicam como acabaram em minha masmorra.

— Cuidarei deles, sire - falou Cletas. — E os levarei ao senhor assim que estiver livre para conversar.

— O que quer dizer com isso? Eu pessoalmente vou... - Zar iniciou, mas interrompeu-se e suspirou. — Ah. Lady Wynn. Devo falar com ela.

— Sim, meu suserano. Ela o espera em seu estúdio, sob guarda. Tenha cuidado, sire.

Zar torceu a boca. — Me certificarei de manter a mesa entre nós, vendo pelo que ela lhe fez. Inclusive, McCoy é um médico. Creio que ele pode cuidar desse seu olho.

Deixaram as escadas e pegaram um corredor que subia, com paredes e chão de pedra, como antes, mas janelas estreitas e altas forneciam luz, e tapeçarias e tapetes ocasionais quebravam a monotonia cinzenta com cores brilhantes. Zar fez uma pausa e fitou-os. — Por mais que deseje ficar, devo ir. Cletas os trará a mim quando estiver livre outra vez.

— Ele não parece muito ansioso em falar com ela - disse McCoy, observando-o prosseguir caminhando, pensando que, apesar do manquejar, ele ainda se movia com parte de sua antiga graça e rapidez felina.

—Ele não está - retrucou Cletas. — Mas creio que o Conselho e eu o convencemos a ir contra seus desejos pessoais para fazer o que deve ser feito.

—E o que é? - perguntou McCoy, pensando, desconfortavelmente, sobre reféns e exemplos de guerra.

— Persuadi-la a casar-se com ele, no que resultaria na remoção das tropas de Heldeon da batalha por vir, ou causaria uma mudança de aliança de modo a que lutem do nosso lado. A Alta Sacerdotisa é de utilidade limitada como refém; é mais provável que os Danreg já tenham acrescentado seu nome aos Pergaminhos dos Mortos para vingança e estejam preparando o ataque tão logo as águas do Redbank baixem o bastante para permitir-lhes atravessá-lo. Apesar de que - acrescentou o Segundo, — sua falta de um Oráculo de Batalha talvez os faça hesitar.

— E se eles atacarem? - indagou McCoy, com uma premonição desagradável de que não gostaria da resposta.

— Eles são quase quatro contra um dos nossos - Cletas falou, sombriamente.

O doutor franziu as sobrancelhas. — Eu não tinha percebido que estava tão ruim assim. Ele tem apenas esta tarde para obter-lhe o consentimento?

— Sim - falou o Segundo. — Se Lady Wynn não concordar em casar-se hoje, então, amanhã à noite, provavelmente estaremos todos mortos.

 

O salão parecia interminável, nu com sombras que agachavam-se, à espera e pacientes... caçadores prontos para pular sobre uma presa aleijada. Zar rangeu os dentes enquanto manquejava através delas. Sua perna doía, os músculos outrora feridos enviando pontadas para todo seu corpo.

A dor, por um lado, era um alívio, pois o distraía de sua escuridão interior. McCoy a chamaria de "depressão". Ou, mais provavelmente, "fadiga de batalha". Mas os Danreg tinham um termo, "d'arkeh n'esth", que significava "sombra da morte", e para Zar esse termo melhor a descrevia.

Por anos ele a mantivera acuada, lançando-se em seu trabalho, ignorando a dolorida voz interna. Mas, ultimamente, quando percebera que tudo pelo que voltara a Sarpeidon para construir estava desmoronando - que este vale não poderia escapar aos invasores - as sombras o haviam envolto.

Zar deixou a longa galeria com suas janelas altas, e o corredor não-iluminado mais além parecia um reflexo do que o esperava em seu próprio interior. Não hoje, disse à escuridão, silenciosamente. Você terá de esperar. Não por muito tempo, porém.

Tempo bastante, relembrou-se, sentindo novamente a pequena faísca de calor que as palavras de seu pai acendera na masmorra. Ele lutava contra a escuridão fria que ameaçava envolvê-lo, enfrentava-a, pois ele não tinha mais força ou desejo de lutar. Tempo bastante para ouvi-lo chamar-me "filho ", para ver a luz em seus olhos. Ele voltou por mim, não importa a razão.

Zar sorriu internamente. E quase como se ele soubesse que esta seria sua última oportunidade. A última parte de um negócio não-terminado e agora está feito, acabou.

Uma sensação de paz o envolveu, paz e aceitação. Ele primeiro tentara lutar contra o desespero, a sensação de estar sob "d'arkeh n'esth", mas, recentemente, cedera, deixara-o tomar conta dele. Estava cansado de lutar, estava cansado há anos; mas, como um guerreiro por demais endurecido pela batalha para sentir a dor e permitir que seus ferimentos o parassem, ele se recusara a vê-lo até esses últimos dias. A profecia de Wynn tocara em uma pequena corda sombreada dentro dele, e agora todo seu ser tocava neste mesmo tom. Estava feito. Acabado. Logo, ele poderia descansar. Fora por isso que ele concordara em fazer o que Cletas e o Conselho queriam. Que diferença faria se ele tomasse a Alta Sacerdotisa como sua consorte? Essa farsa de casamento duraria apenas um dia ou dois, no máximo, e então ele teria ido, e ele poderia usar sua influência como sua sucessora para implorar clemência aos Kerren e aos Asyri. O contrato de casamento entre Estados evitaria o derramamento de sangue, pouparia vidas. Sua gente ainda poderia ser conquistada, mas não seria massacrada.

Ele esperava, com todo seu ser, que isso fosse verdade. Tudo isso dependia de que tipo de pessoa era a Alta Sacerdotisa, se ela realmente servia a sua Deusa, Ashmara, que desposara a vida, ou se Wynn apenas a servia da boca para fora. De tudo que Zar pudera descobrir sobre ela, ela era verdadeira. Mas ele saberia após conversarem; era impossível enganar um sensitivo.

Ele alcançou a porta de seu quarto de dormir e abriu-a para entrar no aposento, fazendo uma saudação com a cabeça para o guarda. Uma vez em seu interior, passou pela cama com cortinas altas, pelo retrato que fizera de Araen e foi até o lavatório. Voba já se encontrava lá, despejando água quente do jarro para dentro da bacia, uma toalha limpa jogada sobre seus ombros. De algum modo ele sempre sabe o que vou fazer antes de eu mesmo saber, Zar pensou, irônico.

Após despir-se de seus calções negros, ele começou a se lavar. Lama e suor secara em placas em seu braço; suas unhas estavam com uma crosta negra. O sabão que Voba lhe passou cheirava ligeiramente a ervas.

Finalmente, ele estava limpo e seco. Zar deu de ombros dentro da túnica cinzenta e de pescoço aberto com que o ajudante o vestiu, então cingiu-a em volta da cintura com um cinto preto simples de couro que sustentava apenas uma bainha para a faca de Zarabeth. Ele balançou a cabeça para o Medalhão do Estado de prata e âmbar-negro que Voba lhe entregou. — Nada oficial, Voba. Isso apenas a deixaria mais furiosa do que já está.

Zar penteou os cabelos, a barba, então, com um suspiro, voltou-se na direção da porta. — Ela se acalmou? Comeu?

— Sim, sire - disse o homenzinho, mexendo em seus cabelos avermelhados. — Pensei que ela jogaria a comida em mim, mas ela não jogou.

Então, ela pode controlar seu temperamento, bem como libertá-lo, Zar pensou. Uma característica valiosa em um líder.

— Acidentalmente, meu pai e dois de seus companheiros acabaram de chegar para uma visita. Cletas os está escoltando para os quartos de hóspede. Por favor, cuide para que estejam confortáveis, Voba.

— Seu pai, meu Sovren? - Essa era a primeira vez em anos que Zar via seu ajudante-de-ordens surpreso.

— Sim. Você o reconhecerá quando o vir. Seu nome é Spock. Os outros com ele são o Doutor McCoy e o Almirante Kirk. McCoy tem olhos azuis.

Voba fez uma ligeira mesura. — Cuidarei deles pessoalmente, sire.

Zar assentiu de modo ausente, seus olhos postos no retrato que ele pintara há vinte anos. As feições pintadas eram pequenas e ovais sob uma massa de cabelos negros. Grandes olhos negros dominavam o rosto pálido e de ossos delicados. — Araen era bonita, não era, Voba? - murmurou.

Era sim, sire - concordou o homenzinho, e Zar percebeu-lhe o olhar de esguelha. Ele está surpreso que eu diga seu nome, após todos esses anos.

— Esta Wynn é bonita?

O ajudante pensou. — Bem, ela não tem má aparência, meu suserano, mas creio que ninguém jamais a chamaria de uma beleza. Alta e de constituição robusta e forte. Olhos que o fitam bem dentro dos seus.

— De que cor são eles? Não são escuros? - Zar não sabia por que ele se importava, mas isso era, de algum modo, importante.

— Oh, não, sire. Eles são verdes. E seus cabelos são de um tom claro de castanho.

Zar assentiu de modo ausente, seu interesse momentâneo se desfazendo. O que importa isso? Ele virou-se abruptamente e saiu para o salão, então parou diante da porta vigiada de seu estúdio. Que ela me ouça, por favor.

Inspirando profundamente, ele baixou a maçaneta e entrou.

 

Wynn sentava-se graciosamente no grande assento acolchoado, suas costas mal tocando o encosto. Ela estava temerosa, mas não era da filha de Heldeon demonstrar medo, então seus olhos, enquanto ela observava o aposento (pela centésima vez), estavam frios e suas mãos pousadas calmamente nos braços da cadeira.

Era um aposento amplo, com tapeçarias pesadas e coloridas pendendo nas paredes de pedra, exceto pela parede voltada para ela, onde havia uma grande pintura. Era uma pintura estranha. Wynn fitou as estrelas estranhamente coloridas, tentando desvendar seu sentido. Havia sentido, ela tinha certeza disso... mas ela soube, repentina e intuitivamente, que ela representava um tempo e um lugar completamente fora de sua gama de referências, algo que ela não poderia compreender mesmo que lhe fosse explicado.

A pintura aumentou seu desconforto.

Verdade que até o momento ela fora bem tratada, fora-lhe oferecido uma bacia de água quente e perfumada com ervas para que pudesse se banhar, e uma seleção de belas túnicas de lã para que ela se vestisse. Eles haviam-lhe dado comida; frutas, pão, queijo e carnes, além de canecas de água e vinho.

O homenzinho feio que a servira até mesmo provara, de modo bastante cerimonioso, de cada prato a fim de demonstrar que seu conteúdo não estava nem envenenado nem drogado (apesar de Wynn conhecer vários meios de administrar narcóticos que passassem pelo saborear cerimonioso de um servo... secar a substância na borda de uma taça, ou colocá-la nos cantos de um lenço, por exemplo. Ela era filha de chefe e intrigas não eram nada novo para ela).

Mas a Alta Sacerdotisa sabia que a comida e a bebida estavam intocadas, pois podia sentir a falta de duplicidade do pequeno servo. Então ela bebera e comera sem medo... afinal, se eles quisessem simplesmente matá-la, poderiam tê-la trespassado com uma lança quando fora capturada, ou tê-la jogado de uma ribanceira durante a cavalgada montanha abaixo.

Mesmo sob extrema provocação, seus captores não a haviam ferido. Quando eles primeiro entraram no pátio em Nova Araen, seu captor, o líder do bando de atacantes, se inclinara para erguê-la da sela de seu vykar. Devido ao treinamento de seu pai, Wynn aproveitara a oportunidade - primeiro, com um chute no queixo que estonteou o oficial, então ela pulou da sela e, em seguida, deu-lhe um direto de esquerda antes que os guardas conseguissem agarrá-la.

Ela ficou rindo dele enquanto ele esparramava-se no chão, inconsciente, nas pedras do pátio... e os guardas impassíveis apenas a escoltaram para dentro. Wynn massageou os nós dos dedos feridos, sorrindo com ironia. Ela não deveria ter perdido sua calma, mas foi bom ter desabafado. Desde o incidente, os guardas e servos a tratavam com um respeito cuidadoso.

Não, eles definitivamente a queriam viva. Mas por quê?

Wynn ergueu-se e atravessou o aposento até a única janela existente e olhou para o mercado de Nova Araen, cercado pela cidade que se fundara no Vale Lakreo. Diante dela, tão distante que ela não as podia enxergar, erguendo-se maciças do outro lado do raivoso rio, as tropas dos Kerren e dos Asyri aguardavam.

Seria possível que o Sovren de Nova Araen quisesse discutir termos de rendição? Dizia-se que ele era estranho, diferente dos outros homens, mas ninguém jamais mencionara que ele fosse tolo. Se o Sovren quisesse se render, teria apenas de enviar um grupo montanha acima com as espadas embainhadas e com bandeiras azuis da paz, e Heldeon os receberia sob a bandeira de trégua. Não havia necessidade de um ataque perigoso e um rapto que seria uma garantia em deixar seu pai desejoso de beber cada gota do sangue de seu captor.

Talvez o Sovren quisesse implorar anistia para seu povo. Isso era muito mais provável, resolveu Wynn, estudando as casas de pedra e madeira, cada uma com seu próprio jardim. Nova Araen parecia um lugar bem cuidado, próspero. Se fosse possível subjugá-la com apenas o mínimo de derramamento de sangue necessário, ela faria o que estivesse em seu alcance para convencer seu pai a fazê-lo.

Isso agradaria à Deusa. Ashmara era uma divindade feminina, e a Vida era sua preocupação, não a morte - exceto a morte por causas naturais, que sempre fora parte da Vida.

Apesar de ter aprendido as artes da guerra, e ter comandado as tropas de seu pai durante batalhas, Wynn odiava as orgias de saques, mortes e estupros que eram o quinhão de uma cidade conquistada. Os lamentos das crianças, os berros dos homens e mulheres - sempre que Heldeon ouvia (e ele normalmente dava valor a seus conselhos), ela intercedera com seu pai para evitar os saques às cidades inimigas. A dor compartilhada que ela sentia a enjoava; nos gritos dos subjugados, ela ouvia os ecos de seus próprios gritos quando descobrira os corpos mutilados de Nahral e do pequeno Lelinos, há dois anos.

Apesar de seu autocontrole, os dedos de Wynn fecharam-se espasmodicamente no batente da janela de pedra. Ela ainda sentia saudades de ambos, com uma dor semelhante a um punho gelado dentro de seu peito. O grande, sorridente e louro Nahral, com suas mãos grandes e gentis... e seu bebê, Lelinos, com pouco mais de cinco meses, suas feições de anjo sem energia e envelhecidas pela morte, seus olhos de pupilas imensas fitando o nada. Os Asyri não haviam deixado os olhos de Nahral... Wynn odiava Rorgan Death-Hand, desprezando as mentiras que o líder Asyri dissera a Heldeon para criar a aliança atual. Ele explicara maciamente que o grupo de guerreiros que atacara o acampamento Danreg era composto de soldados mercenários e foras-da-lei que haviam agido por conta própria, que eles não eram seus guerreiros.

Era tão plausível que podia até mesmo ser verdade... - mas Wynn soube - assim que fitou os olhos do homem - que suas palavras eram falsas. Ela não tinha provas, além dos estranhos clarões de emoções compartilhadas que chegavam até ela, e seu "poder" deixava Heldeon desconfortável - era um dom da Deusa, ele dizia, mas ela sabia que ele não confiava nele e nem tampouco o compreendia.

Além disso, os Danreg precisavam das tropas e dos suprimentos que a aliança com os Asyri haviam lhes trazido, portanto Wynn permanecera em silêncio. Ashmara sabia da verdade, e a Deusa não tinha amor por mentirosos. Rorgan pagaria, algum dia. Wynn confiava Nela.

Passos soaram ao lado de fora da porta.

Apressadamente, Wynn retornou a sua cadeira e sentou-se, alisando o vestido e recompondo seu rosto quando ouviu a maçaneta baixar. Um instante depois, a porta abriu-se e um homem entrou.

Ele era alto, mais alto do que até mesmo Nahral o fora, apesar de não ser de constituição graúda. Mas seus ombros eram musculosos e largos, sua cintura fina. Obviamente um guerreiro - exceto pelo fato dele ser coxo.

Inconscientemente, ele fechou a porta atrás de si, então fitou-a. Wynn fitou-o de volta sem nem mesmo piscar.

Seu rosto era... estranho. Magro e curtido como o de qualquer guerreiro, mas... diferente. Longo e com ângulos bem definidos, maçãs altas e austero. Linhas o marcavam, cruzando-lhe as sobrancelhas, descendo do nariz para alcançar a boca séria e rígida. Cabelos grossos e ligeiramente encaracolados caíam por sua testa e enrolavam-se na altura de sua nuca. Ele usava barba, uma barba mantida curta, como preferiam os soldados. Não havia nenhum tom de cinza em seus cabelos ou em sua barba, mas ele não era jovem.

Seus olhos eram cinzentos, da cor das nuvens de uma tempestade distante e, acima deles, suas sobrancelhas inclinavam-se para cima. Eram olhos frios e distantes mas, em algum lugar no fundo deles, Wynn pressentiu desespero.

A Alta Sacerdotisa ficou desconcertada com tais olhos, e desconcertou-se também pela sensação de que ela já o vira antes, apesar de ter a igual certeza de que jamais haviam se encontrado.

Ele foi o primeiro a interromper o silêncio. — Saudações, minha senhora - disse ele, fazendo-lhe uma mesura formal. Sua voz era agradável, não tão profunda quanto o retumbar maciço de Nahral, mas a dureza sob o gesto cortês disse a Wynn que ele estava acostumado a comandar.

Ela inclinou a cabeça de modo quase igual. — Meu senhor.

A boca dele torceu-se ligeiramente. — Posso me sentar? Não estou confortável de pé.

Ela indicou-lhe a cadeira diante da sua. — Por favor, sente-se. Suspeito que seja sua cadeira.

Após encontrar-se sentado, ele fitou-a por cima da mesa, e ela percebeu o primeiro toque tênue de emoção nele... estava nervoso, o que fez Wynn sentir-se quase com pena. — Você é aquele que chamam de Sovren?

— Sim - replicou ele. — Devia pedir-lhe perdão por trazê-la aqui tão... precipitadamente.

Ela sorriu com ironia. — Devia mesmo. Não vai pedir?

— Não - respondeu ele simplesmente, com um tom de voz seco. — Não o farei. Você era minha última chance e minha gente foi instruída em mantê-la a salvo a qualquer custo, até mesmo ao custo das próprias vidas. Meu Segundo, Cletas, pagou o preço por tal ordem. Creia-me, se houvesse algum outro modo de que pudesse encontrá-la para conversarmos, eu o teria usado.

Wynn recostou-se novamente em seu assento, fingindo com maestria uma calma que não sentia. — Sei... por que desejava conversar comigo?

— Porque você é a sacerdotisa de Ashmara e, portanto, jurou servi-La, certo? - Uma das sobrancelhas negras inclinadas arqueou-se. Wynn assentiu. — E Ela é uma Deusa que ama a vida. Eu esperava poder persuadi-la a juntar-se a mim no esforço de poupar muitas vidas. As vidas do meu povo e do seu. Vidas são importantes para você?

Então, ela estava certa. Wynn assentiu. — Sim, são.

— Se a batalha ocorrer amanhã, ou depois de amanhã, não apenas as vidas dos soldados serão perdidas - disse ele. — Do jeito como as coisas se encontram no momento, as vidas do povo de Nova Araen - incluindo as crianças - serão confiscadas se perdermos.

Wynn encontrou-lhe os olhos em pé de igualdade - novamente sentindo a assombrosa pontada de reconhecimento. Afastou-a com esforço. — Você está certo. Nossas forças são esmagadoras... vocês serão vencidos. Obviamente, o destino de cidades conquistadas lhe é familiar.

Ele assentiu, seus olhos gelados. — Eu sei o que ocorre.

— Serei franca com você - começou ela, pois algo quanto a este homem a compelia a ser honesta. — Estou ultrajada pelo modo como fui capturada e trazida até aqui... mas... também sinto simpatia pelos seus esforços em favor de sua gente.

Mesmo apesar da expressão facial dele não se alterar, Wynn sentiu-lhe o alívio por suas palavras e ergueu uma mão, em aviso. — Mas isso talvez não ajude. Tenho uma certa influência sobre meu pai, e tentarei interceder junto a ele pela segurança dos cidadão não-combatentes de Nova Araen. E, afinal, a cidade e sua gente especializada em comércio nos será muito útil intacta.

Ela soltou um suspiro. — Mas, francamente, Heldeon pode estar tão zangado com meu rapto que não ouvirá a nada do que tenho a dizer. E não tenho qualquer influência sobre Laol, Rorgan ou suas respectivas tropas. Nossa aliança é bastante difícil.

O desapontamento dele alcançou-a de modo bem definido. — Sei - disse ele, pesadamente, movendo os dedos a sua frente. Wynn fitou-lhe as mãos... de dedos longos como os de um escrivão, mas também calejadas espada e hábeis. Duas cicatrizes, velhos cortes de espada pela sua aparência, cruzavam as costas da mão direita e desapareciam por sob a manga.

— Sinto muitíssimo - ela falou com suavidade.

— Eu sei - falou ele. — Posso perceber. E se eu pudesse sugerir-lhe uma tática que dispersaria muito da raiva de seu pai, e lhe daria um forte incentivo para poupar a vida de minha gente?

Alguma coisa em sua voz fez o coração de Wynn começar a bater forte, apesar dela não ter nenhuma idéia sobre o que ele estava falando. Ela descobriu que não conseguia desviar seus olhos dos dele. Sua própria voz soou-lhe abafada, por causa do sangue retumbando em seus ouvidos. — Que tática? O que está me propondo?

Um pequeno sorriso tocou a boca dele quando sua sobrancelha voltou a erguer-se. — Que coincidência ter usado essa palavra em particular. Estou falando, minha senhora, em casamento.

Wynn levou um segundo para encontrar a voz, mas quando ela finalmente emergiu, estava totalmente uniforme. — Você fala entre você e eu. - Não era uma pergunta, mas ele concordou. — Que interessante. É certamente a melhor oferta que tive no dia inteiro. - Ela riu, realmente divertida. — Diga seus termos, meu senhor.

Ele respirou fundo. — Estou falando de uma aliança de Estado, minha senhora. Disseram-me que roubar a noiva é um costume aceitável entre os Danreg, então a raiva de Heldeon será aplacada quando ele souber da razão para seu rapto, se consentir livremente em casar-se comigo. E então, os Danreg seriam meus parentes pelo casamento, inabilitando-os, portanto, a marcharem contra mim.

Ele moveu um dos ombros. — Eu quase com toda certeza ainda terei de enfrentar os Asyri e o Clã Kerren - e ainda assim estarei em enorme desvantagem. Mas então, talvez haja uma pequeníssima chance. Do modo como as coisas estão, não há qualquer chance - apesar de que - sua voz ficou mais fria e dura que as paredes que os cercavam, — nossos conquistadores pagarão caro por sua vitória, posso assegurar-lhe.

Wynn recostou-se em sua cadeira. — Muito bem raciocinado, meu senhor. Está certo, Heldeon jamais pecaria atacando alguém que lhe seja parente pelo casamento. Ele talvez até mesmo possa aliar-se a você... o que ainda deixaria suas tropas em menor número, segundo as últimas notícias de nossa Inteligência, mas... - ela balançou os ombros e deu-lhe um sorriso seco — então pode ter uma chance de lutar. Mas diga-me, uma vez que parece ter pensado em tudo, o que eu ganho em entrar em tal aliança?

Ele inclinou-se para a frente. — Estou preparado a declará-la minha co-regente e sucessora. Não tenho herdeiro. Você está acostumada a comandar, e possui tanto sabedoria como compaixão. Você governará bem o Vale Lakreo.

— Mas sua gente... - começou ela.

— O Conselho apoiará o sucessor de minha escolha, bem como o exercito. Minha gente venera Ashmara e você é Sua sacerdotisa, então isso os deixará com boa disposição em relação a você - principalmente se esta aliança poupar-lhes as vidas e as propriedades. O Vale é amplo e próspero, você mesma já viu isso. Possuirá um belo domínio.

— Caso Rorgan e Laol não o destruam.

—Esse é um risco que você terá que correr - admitiu o Sovren. — Mas

Heldeon certamente a apoiará com suas tropas, mesmo que ele não ajude a mim. E há uma chance de que eles, em vez de lutar, façam uma aliança com você, como fizeram com seu pai.

—Você está certo - concedeu-lhe ela, descobrindo, para sua surpresa, que estava realmente considerando sua oferta.

Este homem estava correto em pensar que ela seria tentada por este próspero vale; ela era filha de seu pai, nascida para governar. Uma aliança entre o Vale Lakreo e Danreg Ford seria de grande benefício para seu povo nômade, dando-lhes um novo mercado para seus animais pastoris. E os sopés das montanhas continham estepes protegidas que forneceriam-lhes excelente abrigo durante o inverno.

Ligar-nos a essa gente nos beneficiaria muito mais do que nossa aliança atual com Rorgan e Laol - com eles estamos comprometidos apenas para a guerra, e somente enquanto durar esta luta atual. Assim que a fumaça das batalhas baixarem, é bem provável que estaremos uns nas gargantas dos outros...

Wynn estudou veladamente o homem sentado a sua frente. Apesar da estranha forma de suas feições, ele não era deformado ou feio. Ela novamente fitou-lhe as mãos, rijas e com marcas, e perguntou-se por um rápido segundo se haveria algum prazer em seu toque. A Alta Sacerdotisa suspirou; ela tivera sorte com Nahral... Ashmara a abençoara. Era demais esperar que isso acontecesse duas vezes em uma só vida.

Quando ela voltou seu olhar, ele a fitava com uma avidez bem controlada, e por um surpreendente segundo, Wynn perguntou-se se ele, de algum modo, percebera a direção de seus pensamentos. Seu rosto ficou quente. — Sua oferta é tentadora, apesar de arriscada - admitiu.

Ele inclinou-se para a frente, seus olhos cinzentos intensos. — Se estiver interessada, devemos agir agora. Uma mensagem sua para seu pai esta tarde, então um encontro particular esta noite para acertarmos os termos, seguido da cerimônia. Um anúncio público amanhã.

Wynn hesitou, pensando em como seria dormir esta noite ao lado de um estranho, então sorriu com ironia. Casamentos de Estado são sempre assim... você sabe disso.

— Há uma coisa... - iniciou ela.

— O quê?

Dizem que você não é como os outros homens, e posso ver com meus próprios olhos que você é diferente de qualquer um que já tenha conhecido. Dizem que... - Ela interrompeu-se, constrangida, lutando para não corar.

— Que sou filho do demônio? - Wynn sentiu-lhe o divertimento escarnecedor, apesar de sua expressão permanecer inalterada. — E você acredita nisso?

— Não - ela o cortou, — é claro que não. Mas acho que tenho justificativas em perguntar-lhe precisamente como você é diferente. Creia-me, não tenho qualquer ilusões sobre casamentos de Estado. Não sou uma menina, alguém que exige palavras suaves e persuasão. Há anos já passei dessa fase, e fico feliz por isso. Mas tenho o direito de saber com o que concordo em dormir esta noite.

Ele a fitou, sem fala. Finalmente, limpou a garganta. — Minha senhora... interpretou mal o que quis dizer. Não pretendi dizer que esta aliança deveria ser um casamento de verdade... em nenhum sentido físico, pelo menos. Sinto muito se lhe dei essa impressão.

— Então é essa sua diferença? - Wynn perguntou-lhe friamente. — Não é capaz?

Ele engasgou-se, então gaguejou: — Não! Bem, talvez... faz tanto tempo... - Ele obrigou-se a fazer uma pausa, respirou profundamente e então sua expressão endureceu. — Minha senhora, minha virilidade não é o assunto aqui. Eu fui casado uma vez. Ela morreu no parto. Eu... gostava... dela, muito. Não tenho desejo por esse tipo de relacionamento novamente.

— Tampouco eu o tenho - admitiu Wynn, pensando em seu marido e filho. Tiveram-na de arrancá-la dos corpos. Ela própria quisera morrer. — Eu sei o que é perder aqueles que lhes são os mais caros.

— E quanto a minhas... diferenças - continuou o Sovren, — elas são menores e internas, com uma - ou melhor, duas exceções. - Ele correu os dedos pelos cabelos, e virou a cabeça de um lado para o outro, de modo que ela pudesse ver ambas as orelhas.

Wynn estudou-o por vários instantes com os olhos estreitados, então deu de ombros. — Obrigada por satisfazer minha curiosidade. Elas são naturais para sua espécie?

— Sim - ele respondeu, parecendo aliviado por sua aceitação serena. — Bom, agora que compreende os termos de minha oferta, o que me diz? Gostaria de ter tempo para considerá-la?

— Estava quase convencida - disse Wynn, lentamente. — Mas agora que você... clareou... a questão, não creio que eu possa reconciliar seu tipo de casamento com meus serviços a Ashmara.

— Por que não?

— O que oferece não é casamento verdadeiro, mas apenas uma imitação para o mundo exterior ver. Ashmara não olharia com simpatia para tal imitação vazia, ou para aqueles que nela convivessem.

Ela endireitou sua saia, sem olhar para cima. — Além do mais, se eu tivesse de me casar novamente, rezaria para a Deusa abençoar-me com crianças - para a sucessão. - Ela manteve o tom de voz casual, sem desejar que ele percebesse quanta falta ela sentia de Lelinos, como ela ansiava por novamente segurar uma criança que fosse sua... mesmo temendo amar tão profundamente outra vez.

— Você fala como se estivéssemos falando de uma união que duraria uma vida - falou ele. — Você logo estaria livre para escolher um consorte de verdade, ter filhos dele, se esse fosse o seu desejo.

Wynn piscou. — Eu estaria?

— É claro. Estamos falando de uma união que durará não mais do que um dia... possivelmente dois. Você então governará Nova Araen sozinha.

— Por que diz isso?

— Esqueceu-se? Você mesma declarou-me d'arkeh n'esth. Eu não sobreviverei à batalha que está por vir.

A Alta Sacerdotisa fitou-o em choque, e em seus ouvidos soou um rugido como o som de uma grande tempestade. Agora ela sabia por que experimentara aquela sensação assombrosa de familiaridade - ainda ontem ela "vira" este homem morrer em uma massa de sangue e ossos partidos.

Wynn raramente retinha memórias claras das visões que Ashmara lhe enviava - sua sacerdotisa tinha de lhe repetir todas as profecias que ela fazia durante um transe sagrado. Sua garganta ficou repentina e incrivelmente apertada. Você está louca? obrigou-se. Você mal o conhece! Por que deveria achar que sua morte a afetaria?

Mas a afetava - a visão de seu corpo estava de algum modo misturada com suas lembranças de Nahral e Lelinos, e por um segundo, Wynn reviveu a agonia sufocante do instante em que ela os encontrara nas ruínas do acampamento.

Um segundo depois, a nuvem diante de seus olhos clareou ligeiramente, e Wynn percebeu que agarrava os braços da cadeira com ambas as mãos, tremendo violentamente. O Sovren estava de pé, fitando-a com ansiedade. Com uma exclamação balbuciada, ele rodeou a mesa mancando e jogou um pouco de água em uma taça. — Você está bem? Está pálida como a morte.

Wynn assentiu enquanto tentava, descoordenadamente, pegar a taça, mas suas mãos tremiam tanto que ela derramou o líquido sobre a mesa. — Calma - disse-lhe ele, ajudando-a. Com seu auxílio, ela conseguiu beber alguns goles, e isso fê-la sentir-se mais firme.

— Sinto muito - sussurrou, finalmente. — Eu tinha esquecido. As visões vêm, e eu as falo, mas quando a Deusa fala através de mim, sou apenas seu instrumento. Pouco me lembro do que acontece nelas, ou do que eu disse.

Ele concordou com a cabeça. — Sei como é isso. - Ele relaxou ligeiramente, jogando sua perna ruim para cima da mesa, de modo a estar meio inclinado e meio sentado no tampo da mesa, diante dela. — Elas sempre se tornam realidade?

— De um jeito ou de outro - declarou Wynn. Ela se sentia esgotada, e perguntou-se por quê. Então lembrou-se de modo confuso de que praticamente não dormira na noite anterior. — As palavras estão certas mas, às vezes, o que vejo acontece de modo diferente, ou em um lugar diferente.

— Mas quando você vê morte, morte é o que ocorre. - Ele não parecia particularmente preocupado. Wynn ergueu o rosto e o estudou. O distanciamento gelado estava de volta em seus olhos. Eles bem poderiam estar discutindo sobre o melhor solo onde plantar grãos.

— Sim - admitiu ela.

Ele assentiu, curiosamente satisfeito. — Bem, então - falou ele, — agora você sabe. Casará comigo?

As costas de Wynn endureceram-se, e ela não pôde conter sua fúria. — Você não se importa? Você tem que se importar!

Um sorriso de lado tocou a boca rígida por um instante. — "Não seja gentil nessa bela noite... esbraveje, esbraveje, contra a morte da luz."

— Sim - disse ela, seus olhos nunca deixando os dele. — É exatamente isso o que quero dizer. São suas essas palavras?

— Não, um homem chamado Dylan Thomas escreveu-as. - Ele balançou a cabeça. — Você está certa. Eu devia me importar. Mas ela não está mais lá. E que bem faria se eu me importasse? Você mesma disse, suas visões são sempre verdadeiras.

— Mas você foi avisado! - gritou ela. — Nunca pude avisar ninguém antes... posso dizer como ocorrerá, e talvez você possa proteger-se contra isso!

Seus olhos não deixaram os dela, e Wynn sentiu o calor subir novamente para seu rosto. — Obrigado - ele finalmente falou. — Por preocupar-se, quando sequer me conhece, após tudo o que já lhe fiz. Você é uma boa pessoa.

— Você também é - falou ela. — Posso perceber coisas sobre as pessoas.. . o que há dentro delas. O que estão sentindo. - Até agora, ela contara seu segredo apenas a seu pai e Nahral. Wynn não sabia por que confiava neste homem... mas ela não se arrependia de sua decisão.

— Empatia além de precognição - falou ele. — Eu suspeitava. Também posso perceber as pessoas.

Wynn não fazia nenhuma idéia do que aquelas duas palavras significavam, mas não podia esconder seu ceticismo. — Como poderia? Isto é um dom da Deusa, e você é um homem.

— Eu provarei. Segure minha mão.

Wynn hesitou, então deslizou seus dedos para dentro dos dele. Sua calma calejada pela espada estava quente contra sua pele e...

...e ela podia sentir o que estava dentro dele, desespero, dolorosa solidão, amarga determinação. O compartilhamento tornou-se mais profundo do que jamais o fora e, após um instante, Wynn percebeu que era porque ele também a lia - sua solidão, sua dor, sua recusa resoluta em desistir, seu amor pela vida apesar de suas agonias. Eles eram como espelhos um do outro, mas ele era seu reflexo ensombrecido.

Lute, ela gritou-lhe silenciosamente. Esbraveje!

Wynn experimentou sua resposta surpresa e instintiva à emoção dela -por um instante, algo vital e vivo crepitou dentro dele, em resposta ao chamado passional dela.

Então o contato entre os dois diminuiu, recuou e ela estava de volta a sua própria mente, novamente só. Após um minuto, ela percebeu que ainda segurava-lhe a mão como um elo de vida. Seus dedos estavam com câimbras quando ela soltou os dele.

Ele a fitava, seus olhos arregalados de surpresa, mas mesmo enquanto Wynn o observava, a expressão fechada e vazia cobriu-lhe novamente as feições. Mas com o breve contato viera o conhecimento, e Wynn sabia que, desta vez, seu distanciamento era uma máscara, que atrás da impassibilidade, seus pensamentos corriam disparados. Ela perguntou-se o que seriam. — Agora creio em você.

— Eu a deixarei para que considere minha proposta - ele endireitou-se, saindo bruscamente de sua contemplação. — Quando devo voltar?

Wynn respirou profundamente e ergueu-se da cadeira. — Não precisa voltar. Já tomei minha decisão. Eu aceito sua proposta. - Devo estar louca! pensou, mas já estava tudo resolvido em sua mente. — Escreverei uma mensagem a meu pai contando-lhe que cavalgaremos esta noite sob uma bandeira de trégua.

O Sovren pegou-lhe a mão e inclinou-se profundamente sobre ela. — Minha Senhora Wynn... obrigado. Obrigado. - Endireitando-se, ele olhou para ela, e a luz súbita em seus olhos teve eco no vislumbre de esperança que Wynn experimentou.

— Você sabe meu nome - disse ela, após um instante. — Posso saber o seu? Eu me sentiria tola casando-me com um homem - mesmo que por breves momentos - que eu não pudesse chamar pelo nome.

Ele sorriu, desta vez um sorriso verdadeiro. — Nunca ouviu as velhas histórias de que todo aquele a quem honrar com seu nome terá poder sobre você a partir desse instante?

— E você acredita nisso? - contrapôs ela, usando suas próprias palavras.

O sorriso desfez-se e ele, solenemente, ergueu-lhe a mão para beijar-lhe os dedos. Ela pôde sentir o calor de sua respiração contra a pele. — Meu nome é Zar. Ficaria honrado se você o usasse.

 

— Não, obrigado, Voba, não posso comer mais nada - disse James Kirk com um suspiro apreciativo, gesticulando para que o ajudante-de-ordens de cabelos vermelhos levasse embora os rolinhos de mel que oferecia. — Na verdade, eu quase poderia adormecer aqui mesmo. É tão bom sentir-me quente, limpo e alimentado. - Ele bocejou tão abertamente que suas mandíbulas estalaram.

Leonard McCoy hesitou diante do prato que lhe era oferecido, e então sucumbiu. — Eu não deveria, mas vou fazer assim mesmo. - Ocupou-se em espalhar geléia no rolinho. — Vocês percebem que estamos aqui há menos de um dia? Parece mais do que uma semana.

Spock deixou a mesa, andando lentamente até a janela. Os três oficiais haviam sido designados para quartos de dormir separados que davam para essa grande sala de estar.

Tapetes de lã feita à mão, em cores brilhantes e padrão que a Kirk lembravam dos designs Zuni que ele vira, pendiam das paredes e estavam espalhadas pelo chão de pedra, além de haver duas monstruosas lareiras em ambos os lados do aposento. Três grandes janelas sem vidros permaneciam com suas cortinas abertas, fornecendo a visão de uma grande campina plana atrás da fortaleza. Era evidentemente o local dos exercícios militares, pois a cavalaria e os soldados a pé treinavam lá. As montanhas ao norte encontravam-se distantes.

O vulcano ficou observando o local de treino com as mãos postas atrás das costas. — Talvez ache isso interessante, Jim. Zar está usando uma variação do antigo sistema manipular romano, que por sua vez se derivara das falanges gregas. No entanto, ele está usando arqueiros com arcos longos nos flancos... que devem ser eficientes contra carruagens inimigas.

Spock fitou o outro lado do campo. — Sua cavalaria é bem treinada e armada com lanças. Eu teorizaria que ele a está usando como força de ataque móvel para assolar as linhas traseiras do inimigo em seus pontos mais fracos.

— Mas Cletas disse que eles estavam com uma desvantagem de quatro para um - falou McCoy. — Que diferença pode fazer uma maior mobilidade?

— Ficaríamos surpresos, Magro - disse Kirk, cocando os olhos. Se ficasse sentado mais um instante, ele realmente dormiria. Relutantemente, ergueu-se para juntar-se a Spock. — Três mil soldados treinados podem infligir muitos danos contra uma força desorganizada que luta como doze mil indivíduos, em vez de em uma unidade. - Semicerrou os olhos por causa da luz do sol. — A cavalaria está usando estribos? Não consigo ver daqui.

— Sim - respondeu Spock, sem hesitação. — Estão usando sim.

— As selas que vimos ontem no acampamento de Heldeon tinham estribos? - perguntou Kirk.

— Não, creio que não - falou Spock. — Isso é definitivamente outro trunfo.

— Estribos? - McCoy ergueu uma sobrancelha.

— A invenção do estribo foi vital na história das guerras montadas, doutor - explicou-lhe Spock. — Os estribos permitiram aos cavaleiros um uso mais eficiente das lanças, já que eram capazes de segurar-se com os pés. Também deram grande estabilidade aos cavaleiros, de modo a poderem engajar-se melhor na luta com espada. Foi o desenvolvimento dos estribos pelos godos que permitiu-lhes vencer as legiões romanas.

— Aprende-se uma coisa nova a cada dia. Você acha que as "inovações" de Zar poderiam possivelmente pesar a seu favor contra o maior número das forças opostas? - McCoy perguntou, cético.

— Elas certamente ajudarão. Se ajudarão o bastante, é impossível prever sem ter mais dados.

Kirk franziu as sobrancelhas. — Não sou sanguinário sobre suas chances, Magro. Pelo menos o chão está secando um pouco... - Interrompeu-se ao ouvir uma batida na porta. Voba moveu-se rapidamente para abri-la.

O Segundo-em-Comando Cletas entrou e os saudou. — O Sovren está livre agora. Sigam-me, por favor.

Kirk pegou o manto marrom avermelhado que lhe fora dado e seguiu o oficial; o sol podia estar brilhando lá fora, mas as paredes de pedra retinham a umidade fria, e ficar de pé diante da janela aberta causara-lhe arrepios em seus braços nus.

Terei de me lembrar disto da próxima vez que me sentar e olhar para minha coleção de armas, sentindo-me nostálgico pelas românticas eras passadas, pensou, jogando as dobras quentes sobre seus ombros e fechando a vestimenta em sua garganta com um broche de ouro vermelho. Viver à mercê dos elementos... nenhum sistema sanitário moderno...

O Segundo liderou-os pelos salões até chegarem a uma porta com guardas. Kirk seguiu Cletas para dentro do aposento, com Spock e McCoy logo atrás dele.

Zar sentava-se na ponta de uma mesa maciça incrustada, feita de variadas formas de madeira de cor dourada. Sentada diante dela estava a Alta Sacerdotisa, usando um vestido cor de âmbar pálido dois tons mais claro que seus cabelos. A pesada massa de cabelos de bronze estava trançada e enrolada atrás da cabeça, e seus pequenos brincos de ouro soltavam faíscas à luz das velas. Ela parecia perfeitamente à vontade.

Kirk deu um olhar rápido pelo aposento, decidindo que era o escritório particular de Zar. Havia uma mesa junto à única janela do aposento, que mostrava o lado sul e Nova Araen.

Na parede em frente, o almirante teve uma visão familiar - o mural de Zar da Enterprise, suas cores ainda vividas.

Quando os três oficiais da Federação entraram, Zar ergueu-se, sua mão procurando a de Wynn. Ela permitiu que ele a levantasse para fitá-los, permanecendo de pé com a cabeça orgulhosamente erguida, sua expressão impassível, mas o almirante tinha certeza de que, por um segundo, ele vislumbrara um reconhecimento surpreso.

— Minha senhora - disse Zar, formalmente, — deixe-me apresentar-lhe o Almirante Kirk, o Doutor McCoy e o Sr. Spock. A Alta Sacerdotisa de Danreg Ford, Senhora Wynn.

— Prazer em conhecê-la, senhora - falou McCoy, inclinando-se.

Kirk também inclinou-se, usando seu melhor sorriso. — O prazer é meu, Senhora Wynn. Desta vez, ela sorriu-lhe de volta. — Meu charmoso espião - disse ela.

— Então estavam trabalhando para Nova Araen.

— Na verdade, não - corrigiu-lhe Zar. — Foi pura coincidência que tivesse chegado onde chegaram, e quando chegaram.

Os olhos de Wynn arregalaram-se quando fixaram-se em Spock. O vulcano inclinou sobriamente a cabeça. Ela olhou para Zar. — Seu irmão, meu senhor?

Kirk não perdeu o brilho de divertimento que surgiu nos olhos cinzentos. — Não, meu pai.

Ela parecia surpresa e cética ao mesmo tempo, mas nada disse. Zar deu-lhe aquele tênue meio-sorriso. — É verdade. Uma longa história mas, se tivermos tempo, eu a contarei para você.

— Estarei bastante interessada em ouvir, meu senhor - respondeu ela,

— mas agora temo que devo me retirar para preparar aquela mensagem para o meu pai. - Ela sorriu para Spock. — É uma grande felicidade que tenha escolhido este momento para sua visita, senhor. Pelo costume, os parentes de sangue deveriam estar presentes a um contrato de casamento.

Zar acenou com a cabeça para Cletas, que adiantou-se. — Este é Cletas, meu Segundo-em-Comando, que irá escoltá-la e cuidar para que sua mensagem para Heldeon seja despachada.

O oficial inclinou-se profundamente. — Minha senhora.

Ela o fitou por um instante, e Kirk observou a cor subir a suas faces antes dela falar. — Tirei vantagem de você esta manhã, Cletas, o que foi algo abominável. Sinto muito por isso.

O Segundo, apesar de obviamente surpreendido, recuperou-se rapidamente. — Sem dúvida alguma eu merecia algo muito pior, minha senhora, pelos modos rudes aos quais foi submetida. Posso apenas oferecer-lhe minhas sinceras desculpas, apesar de tardias. E agora, minha senhora, permita-me escoltá-la.

— Certamente - respondeu ela, e acompanhou-o, saindo do aposento. Kirk olhou para Zar, enquanto o homem mais jovem caía pesadamente em uma cadeira, sinalizando para que se juntassem a ele em volta da grande mesa. — Felicidades - disse secamente o almirante, quando encontrou uma cadeira. — Fale-nos sobre romances tempestuosos.... como conseguiu isso? .

A voz do Sovren continha uma ponta de divertimento. — Prometi-lhe torná-la minha co-regente e sucessora. Ela quer Nova Araen.

— Quando ocorrerá o casamento? - perguntou Spock.

— Tão logo seja possível - disse Zar, de modo resignado. — Esta noite. A cerimônia se realizará após as negociações de aliança estarem completas. - Ele suspirou e fitou o vulcano. — Você... você ficaria comigo, Pai?

— Seria uma honra - Spock falou, sério.

A troca de palavras deu a Kirk um rápido clarão de déjà vu, mas a memória o traiu. Zar voltou-se para ele e para McCoy. — Ficaria contente se vocês também fossem...

Kirk olhou para McCoy. — Adoraríamos, Zar. Mas antes de você prosseguir com este... arranjo, deveríamos discutir a razão pela qual viemos. Temo que não tenha sido puramente uma visita social.

— Eu suspeitava disso, sabendo das restrições colocadas no Guardião da Eternidade. Qual é o problema?

— Você acabou de citá-lo: o Guardião da Eternidade - falou Kirk. Ele acenou para Spock, que fez um resumo conciso do comportamento errático do Guardião e do perigo que ele representava para o Universo 5.000 anos no futuro. Zar ouvia com intensidade, franzindo um pouco as sobrancelhas, automaticamente tomando notas em uma pedaço de papel de pergaminho. Kirk observou seu rosto, notando como ele mudara com os anos - envelhecera mais devido às responsabilidades e ao poder do que ao tempo. Jim sabia muito bem como essas coisas desgastavam um indivíduo.

— ...com alguma dificuldade, consegui estabelecer uma comunicação parcial com a porção estritamente mecânica do Guardião - concluía Spock. — O bastante para pedir-lhe que nos transportasse de volta aqui e nos monitorasse até que estivéssemos prontos para retornar. É nossa... - o vulcano hesitou, então continuou, deliberadamente. — nossa esperança de que você, com sua maior habilidade telepática, possa conectar-se totalmente com a entidade, descobrir seu problema e convencê-la a reassumir suas funções normais.

Zar fitou seu pai, sua expressão fechou-se, ensombrecida, e ele então balançou lentamente a cabeça. — Não fiz um elo mental completo desde aquele dia em Gateway, há vinte anos. Duvido que ainda seja capaz de contactar uma entidade não-humana.

— Posso ajudá-lo. Podemos rever... - iniciou Spock, mas interrompeu-se ao perceber a expressão vazia de Zar.

— Mesmo que eu pudesse realizar o elo, não posso partir. Sinto muito, mas tenho uma batalha a lutar.

Kirk limpou a garganta. — Sim, compreendemos isso. E também sabermos de uma coisa que você não sabe, algo que pode influenciar sua decisão. - Ele manteve os olhos cinzentos presos aos seus. — Você não sobreviverá a essa batalha, Zar.

O Sovren soltou um som baixo que era meio um bufar de desprezo e um riso seco. — Eu sei.

Kirk lançou um olhar surpreso a Spock. Ele realmente sabe? Como poderia? — Talvez eu não tenha sido claro - falou o almirante. — Spock observou essa batalha em seu tricorder. Eu a vi. Ambos vimos o que vai acontecer a você. Amenos que venha conosco, Zar, você morrerá.

— Sim, eu sei.

— Como poderia saber? - perguntou-lhe Spock.

— Porque minha futura noiva professou minha morte ontem à tarde na batalha por vir. Wynn é uma esper. Uma sensitiva, como eu, mas também precognitiva. O que ela considera como mensagens enviadas pela Deusa são, na verdade, visões precognitivas. Acho - não, eu sei - que parte de sua razão em concordar com este casamento foi por ter pena de mim. Seu modo de honrar um último pedido, suponho. De qualquer modo, ele ocorrerá; não há como mudar isso.

— Mas, Zar - McCoy falou pela primeira vez, — há como. Você pode voltar conosco. Você cumpriu o que veio fazer aqui. Guiou sua gente para a civilização... agora pode parar. Desta vez, volte para ficar.

— E fazer o quê? - Zar indagou, amargo. — Duvido que a Federação tenha demanda para governantes desempregados. Não me tente, Leonard!

Empurrando sua cadeira para trás, Zar ergueu-se e começou a andar, suas palavras saindo com urgência cada vez maior. — Vocês não têm idéia de como gostaria de escapar disto tudo, mas se eu o fizesse, estaria condenando meu povo a ser massacrado! Não, tenho de ficar. Se eu ficar e casar com Wynn, pelo menos Nova Araen terá uma chance de sobreviver após eu ter morrido e ela me suceder.

Ele voltou-se para fitá-los novamente. — Heldeon tem mais de sete mil guerreiros. Se eu puder persuadi-lo a aliá-los às minhas forças, eles diminuiriam a diferença entre as nossas forças e as que Laol e Rorgan comandam para somente cinco mil guerreiros. Com tal vantagem, minha gente poderia até ter uma chance de vencer!

— Tudo bem - disse McCoy, — suponhamos que vá em frente e case com ela, então desapareça durante a primeira carga da batalha - qual é a diferença entre isso e tornar-se uma baixa mais tarde? Você devotou sua vida a essas pessoas - não lhes deve sua morte, também! E quanto ao que poderia fazer em nosso tempo, não me venha com essa - pessoas competentes que conseguem fazer as coisas são sempre minoria. Você é bastante jovem para...

McCoy interrompeu-se quando os lábios de Zar curvaram-se. — Está errado, Len. Logo terei quarenta e cinco verões, como costumo dizer. Isso é... esqueci o fator de conversão para o Padrão Terrestre.

— Quarenta e nove ponto quatro anos - disse Spock.

— Não percebe que em minha cultura, qualquer coisa acima de quarenta é velha? Apesar de que, graças aos imunizadores que me deu, e à minha.. • linhagem - Zar lançou um olhar para Spock, — eu provavelmente tenho ainda alguns anos a viver - se não fosse por esta batalha. - De modo cansado, deixou-se cair de volta em sua cadeira. — Mas, droga, eu me sinto velho... velho demais para mudar. É melhor morrer lutando.

— Isso é um monte de baboseira, e sabe bem disso! - cortou-lhe McCoy, visivelmente perturbado. — Você poderia ir para a escola - teria tempo para aprender uma profissão completamente nova, Zar! Poderia ate mesmo juntar-se à Frota Estelar, se quisesse. Os grupos de exploração imploram por espers. Ou um homem com sua experiência em sobrevivência poderia traçar seus próprios passos nos mundos colonizados.

— Magro... - Kirk alcançou-o e colocou uma mão sobre o ombro de seu amigo. — Vá devagar. Zar é quem tem que decidir.

Mas McCoy afastou-se do toque de Kirk. Ele ergueu-se e inclinou-se para encarar o Sovren, seus olhos flamejando. - Droga, Zar, nunca achei que fosse um covarde, mas está agindo como um! Pelas minhas regras, é preciso mais coragem para se continuar vivendo do que ceder e morrer!

A voz do doutor falhou na última palavra, e ele fez uma pausa para recuperar o controle. — Há vinte anos, você desistiu das estrelas para fazer o que considerava ser o certo. Apesar de eu saber que sentiria sua falta, tive de aplaudir sua decisão. Agora que o dever foi cumprido, e você tem uma segunda chance - uma coisa que a maioria das pessoas jamais tem - está me dizendo que vai simplesmente jogá-la fora?

Zar fitou-o, obviamente emocionado pelas palavras do doutor. Quando ele voltou a falar, parecia melancólico. — Se ao menos eu pudesse, Leonard. Mas você não compreende... moral é um fator poderoso em guerra. Minhas tropas sabem sobre esta profecia, mas sabem que as liderarei apesar disso - e, portanto, elas também estarão preparadas para lutar até o final. Determinação como essa pode significar a diferença entre vitória e derrota para elas. E não posso desertá-las.

— E se você não contactar o Guardião - disse McCoy, suavemente, — isso significará nossas vidas. Sem mencionar a população da Via Láctea -e, pelo que Spock nos diz, até mesmo de todas as galáxias.

Zar apoiou os cotovelos na mesa com um suspiro exausto, então começou a massagear as têmporas. — Pensarei nisso, Len. Talvez haja algum meio... isso é tudo o que posso prometer pelo momento.

McCoy lançou um olhar cuidadosamente triunfante para Kirk antes de voltar-se para Zar. — Está com dor de cabeça, filho?

— Isso já é uma constante.

— Tome. - O doutor pegou um pequeno pacote de seu medikit. — Engula essas. Com água, não com vinho.

Obedientemente Zar encheu uma taça e tomou o medicamento. — Obrigado. O vinho era para Wynn. Por alguma razão meu estômago não tolera etanol... ele me deixa violentamente enjoado.

— Eu lembro - disse Kirk. — Zar, como eu ia dizer - ele lançou um olhar de aviso para McCoy, — esta decisão é sua, e todos nós a respeitaremos. Com franqueza, esta é uma escolha que eu não gostaria de ter que fazer.

— Bem, seja lá o que for que eu decidir, ainda vou realizar essa cerimônia - declarou Zar. — De um jeito ou de outro, tenho que declarar Wynn como minha sucessora. - Após um instante, puxou um prato de pão e queijo. — Acabei de me lembrar que esqueci de comer hoje. Não me espanta que minha cabeça esteja latejando. Alguém quer um sanduíche?

— Não depois do jeito como Voba nos entupiu de comida - retrucou Kirk.

Zar serviu-se de outra taça de água. — Estou começando a me sentir melhor. Esse seu remédio funciona rápido, Doe. - Ele hesitou. — Vejo que trouxe seu medikit. Fará algo por mim?

— Depende - disse McCoy, cauteloso. — Se quiser que eu pare de tentar convencê-lo a retornar conosco, eu não o farei.

— Não, não é nada disso. Preciso de seus serviços como médico.

— É claro. Tenho pretendido lhe falar sobre essa perna. - O doutor interrompeu-se ao ver Zar balançar a cabeça. — O que é, então?

— Gostaria que imunizasse Wynn contra doenças, como fez comigo há vinte anos. Isso não é garantia para uma vida longa nesta sociedade, mas qualquer coisa que possa ajudá-la a permanecer saudável o bastante para governar Nova Araen por um longo tempo...

McCoy concordou. — Posso fazer isso, mas você tem certeza de que quer que ela comande tudo? Pelo que já vi, o povo dela é bastante bárbaro.

— Ela tem consciência, e compaixão - respondeu Zar. — Comparada a Laol, Rorgan e o resto de sua laia, ela é a alma da civilização. Não se esqueça, Wynn é uma sensitiva... o que faz com que lhe seja extremamente difícil ser cruel. Eu acredito que ela se sairá bem.

O Sovren ocupou-se um instante cortando um pedaço de pão e queijo, então fitou os outros. — Por favor, sirvam-se. Há vinho naquele frasco... ou posso enviar alguém até a adega para pegar algo mais forte, se um de vocês preferir.

— O vinho está ótimo - falou o almirante, enchendo uma taça para si mesmo e para o doutor. — Spock?

— Muito obrigado, não.

Zar terminou de fazer um imenso sanduíche. — Enquanto como, por que não me contam o que têm feito nesses últimos 14.5 anos?

Iniciando com Spock, os três oficiais relataram brevemente os maiores acontecimentos de suas vidas. Kirk foi o último e, quando mencionou a morte de Winona, ficou surpreso ao perceber que há já vários dias não pensava em sua mãe. Ele^sentiu uma pontada de culpa, mas afastou-a, sabendo que Winona seria a última a querer uma lamentação prolongada. Na verdade, se ela estivesse aqui, provavelmente me puxaria a orelha e diria para que eu continuasse com minha vida, ele pensou, sorrindo de leve.

Quando Zar já dera cabo de dois sanduíches de queijo e vários pedaços de fruta, eles haviam terminados seus relatórios. — Sua vez, agora - disse Kirk. — Diga-nos como tudo isto - ele fez um gesto a sua volta, — aconteceu.

— Obviamente, é uma longa história. - Zar pousou sua taça de prata e então começou a girar-lhe o pé entre os dedos de modo ausente. — Quando os deixei naquele dia, o Guardião depositou-me no outro lado das montanhas onde agora ergue-se Nova Araen. Caminhei até o paço mais próximo e, naquela noite, encontrei um grupo de pastores.

— Eu não sabia falar a língua deles, é claro - continuou ele, — e depois de darem uma boa olhada em mim, me chamaram de filho do demônio e pretendiam me empalar. - Zar ergueu uma sobrancelha para seu pai, que retribuiu-lhe o gesto com um brilho de divertimento em seus olhos escuros.

— Consegui dissuadi-los temporariamente projetando-lhes boa-vontade em toda a intensidade de que era capaz, então eles apenas me amarraram, com muito mal amarrado, e saíram para fazer um conselho sobre o assunto. Fiquei sentado lá até escurecer, e usei telepatia para saber um pouco do que eles falavam. Estavam preocupados por causa de um vitha selvagem que descera das montanhas para atacar-lhes os rebanhos. Comecei a trabalhar nas amarras que me prendiam ao poste...

— Na tarde seguinte - prosseguiu, — eles se surpreenderam quando retornei ao acampamento carregando a carcaça da criatura... mas o gesto funcionou. Eles me aceitaram. Vivi com eles até aprender sua língua, então acompanhei-os montanha abaixo, quando trouxeram seus rebanhos para o mercado. Nova Araen era então um pequeno povoado sem nome... com um quarto de seu tamanho atual. A maioria dos prédios eram de taipa, em vez de como são agora.

Zar deu um gole em sua água. — Na época, o governante deste território era um homem chamado Tekolin. Quando ele ouviu falar do útil demônio, mandou me buscar. Conversamos. Ele era um bom homem, inteligente e até um pouco visionário. Permaneci com ele, servindo-lhe de guarda pessoal, e em poucos meses ele me fez seu Capitão das Guardas.

— Isso era o ideal - continuou, — já que tinha de viajar muito em patrulha. Comecei a juntar um grupo de pessoas jovens, a maioria de homens, algumas poucas mulheres - as que ainda não estavam ocupadas com bebês - e a ensinar-lhe minha língua, tudo isso com a bênção de Tekolin. Vocês conheceram dois deles - Cletas e Voba.

— Nos dois anos seguintes - prosseguiu, — eles e os outros me ajudaram a juntar todos os avanços tecnológicos disponíveis neste continente. Algumas vezes cheguei a viajar centenas de quilômetros para trazer novas invenções, novas técnicas... cortadores especializados de cantadas, por exemplo. Fazendo cruzamentos para obter o vykar mais alto e de pernas mais finas, próprios para montaria.

Zar fez uma pequena pausa, então respirou fundo. Sua boca se apertou e, quando ele prosseguiu, sua voz estava cheia de dor. — Araen, filha de Tekolin - sua filha única - fazia parte de meu grupo. Uma estação após termos nos conhecido, ela implorou ao pai para que pudéssemos nos casar. Tekolin concordou. Nem dez meses depois, ela morreu.

Zar ficou em silêncio, girando interminavelmente a taça nas mãos.

— Sinto muito - falou Kirk. As palavras pareciam desajeitadas e inadequadas como elas costumavam fazê-lo se sentir, mas, como sempre, ele se sentia compelido a dizer alguma coisa. Nove meses... provavelmente foi no parto.

O almirante lembrou-se de Miramanee, que morrera sem jamais ter sentido o bebê deles chutar, e então pensou de novo em seu filho vivo. Por que Carol não me contou sobre David antes de eu aceitar a missão de cinco anos? Tenho de contactá-lo, pois eleja está com idade para compreender quando eu explicar... pelo menos espero que compreenda... . Sinto muito, também. Mas então, o que aconteceu? - McCoy induziu-o, gentilmente.

— Tekolin declarou-me seu sucessor, então morreu um ano e meio depois. Governei como Sovren, mas também continuei a juntar os avanços de meu mundo, educando meu grupo, desenvolvendo tecnologias... escrevendo livros. Nos primeiros cinco anos, escrevi dez ou doze textos... cartilhas para leitura, matemática, gramática, ciência, física, até mesmo um dicionário. Mantinha um grupo de pessoas ocupadas apenas em copiá-los, pois eu não tivera nem o tempo nem a tecnologia necessária para construir uma prensa ou desenvolver papel - ainda. Agora já quase a tenho, mas... - suspirou.

— Todos esses livros eram de nível elementar, entendem? - continuou ele. — Meu povo não estava preparado para mecânica quântica - ainda não estão. Mal expliquei aos mais letrados deles a idéia de que tudo é composto de átomos. É afinal, é apenas um conceito intelectual.

— Tecnologias em desenvolvimento? - perguntou Spock. — Tais como cavar minério de ferro e forjá-lo em aço?

— Entre outras coisas.

— Vi as armaduras de cotas de malha e as espadas usadas por seus guardas - disse o vulcano. — Seu exército inteiro está equipado desse modo?

— Apenas dois terços têm cotas de malha - respondeu-lhe Zar, — mas todos têm espadas, elmos e armaduras peitorais de aço. A produção de armas, tristemente, tomou precedência sobre tudo o mais nos últimos quatro anos. No momento, tenho mais ferreiros do que professores aqui em Nova Araen.

Spock assentiu pensativamente. — Considerando os méritos do aço sobre o bronze, essas armas e armaduras fornecem uma grande vantagem.

— Isso é o que espero que Rorgan e Laol não suspeitem. Eles podem ser descuidados devido a seu número tão grande.

— Mas, Zar... - Kirk estava intrigado. — Como você poderia dominar todos esses assuntos? Parece impossível para um único indivíduo - não importa quão inteligente ou comparativamente sofisticado ele seja - realizar tanto.

O Sovren concordou com a cabeça, dando um meio-sorriso. — Está certo, é impossível. A resposta é simples... eu trapaceei, Jim.

— Trapaceou?

— Vocês nunca viram o que eu tinha na bolsa que trouxe comigo - falou Zar, erguendo-se. Ele mancou até sua mesa e voltou um instante depois com um objeto que colocou na mesa diante deles - um objeto bastante familiar.

Kirk sorriu, admirado. — Seu safado fingido! Um tricorder!

— Equipado com baterias solares - disse Spock com a sobrancelha erguida. — Na época perguntei-me onde estaria minha unidade de reserva. Presumi que a tivesse pego emprestada e que ela fora perdida durante a luta em Gateway.

Zar deu de ombros, não parecendo nem um pouco arrependido. Quando vi, pela primeira vez, minha pintura nos registros de Atoz - ele mostrou o mural na parede de pedra, — sabia que eu devia ter que voltar...

Ele se interrompeu, balançando a cabeça. — Nada como viagem temporal para confundir seus tempos verbais, não? De qualquer modo, peguei "emprestado" as fitas reservas na enfermaria - desculpe, Doe - e dei ordens ao computador-biblioteca a bordo da Enterprise para copiar todos os arquivos sob certos assuntos, principalmente aqueles relacionados a colonização e sobrevivência em mundos primitivos. Quando parti, tinha as fitas de tudo, desde como fazer sopa a forjar o ferro, táticas de batalha à fabricação de velas e como soprar vidro. Elas eram tão pequenas que pude esconder quase cem delas dentro daquela bolsa. E as copiara na mais alta densidade de dados possível.

Ele pressionou um botão na máquina e as inconfundíveis notas de abertura da Quinta Sinfonia de Beethoven ressoou. Zar desligou-o novamente. — Eu trouxe música, e literatura também. - Sua voz tornou-se quase um sussurro. — Houve vezes em que pensei que a música era a única coisa que me mantinha são.

— Aficcionado por clássicos, hein? - brincou McCoy.

Zar concordou. — Um reacionário total, temo. Nada mais recente que T'Nira, e ela está morta há duzentos... - Ele fez uma pausa, então suspirou. — Quer dizer, ela terá estado morta por duzentos anos, daqui a cinco mil anos.

— Termine sua história - falou Kirk.

— Não há muito mais o que falar. A princípio tentei instilar conceitos como democracia, na esperança de que eu eventualmente pudesse renunciar em favor do Conselho, mas isso é algo para o que meu povo não está pronto... francamente, mal consegui que aceitassem a idéia do Conselho. O melhor que pude fazer foi funcionar como um déspota bastante benevolente.

Ele tirou um grão de pó de cima do tricorder, franzindo um pouco a testa. — Realizei metade das coisas que esperava fazer até o momento. E, para tornar tudo mais frustrante, bem quando o vale começava a realmente prosperar, eles vieram - e tudo o que queriam era obliterar tudo em que havíamos trabalhado todos esses anos... destruir tudo no espaço de um único e sangrento dia.

— Nos primeiros dez anos - prosseguiu, — tivemos paz, mas temos lutado desde então. No início contra pequenos bandos. Este pequeno vale deve ter parecido de fácil conquista mas, em poucos anos, aprenderam a nos respeitar. Então, finalmente, veio esta aliança entre os Danreg, o Clã Kerren e os Asyri... e comecei a perceber que provavelmente isto era o fim.

Era a idade da Luz, era a idade da Escuridão - citou McCoy. Isso me parece familiar, Magro, mas não consigo identificá-la - disse Kirk. — De onde é?

McCoy sorriu, dirigindo-se ao vulcano. — Por favor, Spock. — Um Conto em Duas Cidade, de Charles Dickens. — Estou envergonhado de dizer que não o leio desde a Academia - admitiu o almirante. Ele fitou Zar e suspirou. — Mas a citação procede, esmo com todos seus avanços, suas tropas terão grandes dificuldades.

— Eu sei. - As linhas em torno da boca de Zar ficaram mais profundas. — Toda vez que passo por um monte de estéreo, fico tentado em "descobrir" a pólvora. Três ou quatro disparos, e estaria tudo resolvido.

— Monte de estéreo? - McCoy perguntou, atônito.

— Reações químicas dentro de estrumeiras produz nitrato de potássio -salitre - o que, junto com enxofre e carbono, é um dos componentes de pólvora negra, doutor - explicou Spock.

O oficial-médico ergueu uma sobrancelha. — Bem... por que não o faz? Só desta vez?

— A pólvora só será inventada daqui a mais de cem anos - disse Zar. — Eu destruiria a integridade da linha temporal. E, pelo que andaram me contando sobre o Guardião, essa ação pode ter repercussões que se estendam além deste único planeta.

— Você tomou a decisão certa, Zar, mas sei que isso é um conforto vazio - falou Kirk. — Não tem sido fácil, não é?

Inquieto, o almirante levantou e caminhou pela câmara, parando próximo à imensa lareira. — Esta é sua espada? - perguntou, apontando para um objeto coberto que pendia acima da cornija. Zar concordou com a cabeça. — Posso?

— Por favor.

Segurando o cinto marcado feito de couro e arames, o almirante desceu a lâmina, e então, com cuidado para não tocar no aço, retirou-a lentamente de sua bainha negra. — Uma beleza - murmurou, girando-a de modo exploratório.

A espada tinha dois fios, uma ponta, e pouco mais de um metro de comprimento. O pomo esférico de aço tinha chumbo em seu interior para contrabalançar a pesada lâmina. O punho, a guarda da espada e o pomo eram simples e sem qualquer ornamento.

— Seu ferreiro fez um belo trabalho - disse Kirk, admirado. — Apesar dele obviamente não ter usado de decorações.

— Obrigado - agradeceu Zar. — Elas me pareceram supérfluas. Kirk fitou-o, surpreso. — Você forjou isto?

— Sim. Eu a fiz quando tornei-me Capitão da Guarda. Consumiu-me incontáveis tentativas para fazê-la direito, mesmo tendo uma fita sobre a fabricação de armas antigas. - Zar sorriu fracamente. — Suspeito que ela tenha sido uma das inclusões de Hikaru à biblioteca.

Kirk fez uma posição de en garde, mas a arma era pesada demais para seu pulso - a ponta baixou imediatamente. — Certamente não esgrima com ela.

— Não - falou Zar. — ela é pesada demais, apesar de ser surpreendentemente bem balanceada. Mas em esgrima tem-se de aparar golpes, e com uma arma como esta, longa e pesada, há um grande problema. Até mesmo o aço temperado a carbono pode quebrar. Então é preciso carregar algum tipo de escudo para aparar os golpes. Mas eu apresentei o uso da ponta às minhas tropas. Eles haviam aprendido a usar apenas o fio... a maioria das espadas de bronze nem mesmo tem ponta.

O almirante concordou. — Isto é o que eles chamam uma espada de mão-e-meia, não é? Você pode usá-la com uma ou duas mãos? - Ele sabia que ela também era chamada de "espada bastarda" - uma designação irônica, considerando-se as circunstâncias do nascimento de Zar.

— Sim... esse é um de seus nomes - disse Zar, dando-lhe um sorriso seco e erguendo uma sobrancelha.

O almirante limpou a garganta e mudou de assunto. — Por sinal, qual é o nome dela?

— Nome? - Zar pareceu confuso por um instante, então compreendeu.

— Ah, quer dizer, um nome como "Excalibur" ou "Fred", algo assim? -Os olhos cinzentos estavam vazios. — Ela não tem um nome, Jim. "Matadora", talvez, pois é para isso que a uso. Francamente, eu odeio o que faço com ela, mas aprendi a ser muito bom em usá-la. Ultimamente, nenhum de nós tem tido muita chance.

Ligeiramente desanimado - lá se vai mais uma de minhas ilusões românticas - Kirk cuidadosamente colocou a espada de volta em sua bainha e pendurou-a no lugar.

— E agora? - perguntou, voltando-se para encarar os outros.

Zar fitou o cronômetro de seu tricorder. — Agora é melhor que eu verifique se Heldeon respondeu à mensagem de Wynn. Devemos partir para o acampamento dos Danreg antes do amanhecer. Mandarei arranjar montaria para vocês três. - Ele se levantou, apoiando-se na ponta da mesa, a boca apertando-se quando sua perna ruim sentiu seu peso. — Fico enrijecido se permaneço sentado muito tempo.

— Eu realmente gostaria de dar uma olhada nisso, filho - disse McCoy.

— Talvez houvesse algo que eu pudesse fazer para ajudar. O que aconteceu?

— Uma lança atravessou a coxa, há quase dez anos - contou-lhe Zar. — Ela matou meu vykar, e fiquei preso debaixo do corpo até Cletas me encontrar. Suspeito de dano no nervo. Isto não é algo que possa reparar, se bem me recordo.

— Houve avanços desde que esteve conosco - disse o oficial-médico.

— Um médico chamado Corrigan, trabalhando com um healer vulcano, Sorel, aperfeiçoou uma técnica de regeneração do nervo, há mais de uma década. Tenho uma unidade a bordo da Enterprise... mas, é claro, você teria de voltar conosco.

Zar fitou-o por um longo instante. — Sei... ainda o grande jogador. Realmente sabe como aumentar as apostas, não é?

 

Cavalgar um vykar não é exatamente como andar a cavalo, descobriu McCoy. As criaturas moviam-se com um andar sacolejante que muito lhe lembrava o de um camelo. Usavam arreios sem freios, e eram controlados mais por comandos de pernas e voz do que pelas rédeas. Apesar disso, sentar-se reto nas costas da criatura era infinitamente preferível a ser jogado por sobre a sela.

A escuridão caíra sobre os montes de Big Snowy conforme seu pequeno bando seguia em frente, subindo a montanha. Os guardas, suas armas presas aos mastros azuis de paz, carregavam tochas, mas sua luz não alcançava o centro do grupo, onde encontrava-se o doutor.

McCoy esperava, inquieto, que sua montaria possuísse melhor visão noturna do que ele. Apesar da noite ser clara, a falta de lua em Sarpeidon fazia a escuridão parecer infindável e sombria. O doutor fitou o céu, vendo estrelas que lhe eram apenas vagamente familiares de sua visita anterior, quando haviam levado Zar de volta com eles pelo que - esperava - fora a primeira vez.

McCoy sentiu uma nostalgia súbita e dolorosa do jovem de olhos claros e sorriso tímido que conhecera naquelas sete semanas a bordo da Enterprise. Ele virtualmente adotara Zar, tornando-se o confidente e conselheiro do jovem. De um certo modo, como Kirk observara na ocasião, era como se Zar fosse seu filho, em vez de filho de Spock. Quando Zar retornara ao passado, McCoy lamentara por semanas... quase como teria lamentado por sua filha, Joanna, se algo tivesse lhe acontecido.

O vykar tateou seu caminho pelo caminho rochoso e tropeçou, fazendo uma pedra rolar para longe de seu casco. O doutor sentiu, mais do que viu, a pedra rolar por um desfiladeiro a dois metros deles. Esperou ouvir o som de pedra alcançando o solo, mas nada ouviu. McCoy engoliu em seco. — Tenha cuidado, colega - falou com o vykar, dando batidinhas no ombro quente diante da sela e recebendo uma lufada de seu odor almiscarado carregado pela brisa escura. — É uma longa descida.

Sua montaria bufou, sem se impressionar, conforme seguia. McCoy voltou a suas preocupações.

Estava preocupado com Zar. O homem que vira hoje era tão diferente do jovem ansioso e impetuoso que conhecera há catorze anos que, exceto por breves clarões de familiaridade, ele poderia ser uma pessoa completamente diferente. O Zar que conhecera antes era apaixonado e intenso, de temperamento explosivo e orgulhoso (às vezes, até arrogante), mas tocantemente vulnerável em sua solidão.

O homem que McCoy encontrara hoje parecia pouco mais do que uma concha vazia cheia apenas de uma determinação amarga em realizar seu dever. Toda a paixão, a intensidade, o orgulho se fora. Apenas a solidão ainda estava lá - maior do que nunca. O que aconteceu a ele? pensava McCoy, tentando ir mais fundo do que o pouco que Zar lhes dera, para descobrir velhas tristezas.

Obviamente, a morte de sua esposa tem grande parte nisso... ele a amou muito, pelo que posso julgar. Deve ter sido de parto. Não me surpreende, em uma sociedade tão primitiva. Mas enfim, é um milagre que sobrevivam...

Os pensamentos de McCoy voltaram-se para Wynn, lembrando-se da tensão em seus bíceps de músculos rijos quando ele lhe aplicara as imunizações que Zar lhe pedira. Ela temera a hypospray, enrijecendo-se involuntariamente a cada vez que ela soava, mas ela obviamente confiava o suficiente em Zar para aceitar-lhe a palavra de que McCoy era um healer, de que as ações do doutor iriam beneficiá-la.

É muita confiança para dar a um homem que conheceu apenas hoje, pensou ele, mesmo que esteja planejando casar-se com ele esta noite. Um casamento de estado que, pelo que pude tirar de Zar, será estritamente de conveniência. Muita confiança... mas, não se esqueça que ela também é uma sensitiva... ela saberia, com certeza, se alguém lhe desejasse mal...

McCoy suspirou, mudando a posição na sela estreita. Ele sempre fora magro, e perdera peso nos últimos dias, deixando seu traseiro ainda menos macio do que o habitual. Acrescidos com a dureza dos acontecimentos do dia anterior, ele sem dúvida alguma ficaria assado pelo passeio.

Droga. Mas valerá a pena, se Zar voltar conosco. Talvez eu aproveite para tirar a folga que está para vencer e nós dois possamos usar a cabana de Jim no Vale Garrovick por umas duas semanas. Só para descansarmos, talvez pescar um pouco... ele precisa disso, ele tem estado sob inacreditável fadiga por anos, tentando evitar que os lobos rasguem a garganta de Nova Araen... não espanta ele parecer assombrado...

Sem mencionar as pressões da liderança. Espada de Dâmocles e tudo o mais. Ele aconselhara Jim Kirk vezes demais para ter qualquer ilusão sobre como algumas escolhas do comando poderiam ser agonizantes. A síndrome do "se ao menos eu tivesse..." matava.

A trilha (McCoy ao menos presumia que ainda seguiam uma trilha) parecia estar subindo, e o doutor deu uma olhada e viu fogueiras e tochas bruxuleando em um platô acima. No mesmo instante, ouviu uma exigência incompreensível de uma figura ensombrecida, obviamente o desafio de uma sentinela. Cletas, que seguia na frente, respondeu na mesma língua.

De repente, as tochas ondularam loucamente quando os cavaleiros líderes aumentaram a velocidade. O vykar de McCoy bufou e juntou-se aos demais, saindo em desabalada corrida. O doutor agarrou-se sem qualquer preconceito ao santo antônio enquanto eles ribombavam pelo prado e chegavam ao centro do acampamento de Heldeon.

Oôôah, droga! - gritou ele, tentando agarrar as rédeas. — Pare!

Com uma guinada que quase enviou o doutor voando por sobre seus chifres, o vykar parou.

— Magro, você está bem? - McCoy ouviu o grito familiar. Ele virou-se, esticando a postura, para ver Kirk lidando de maneira exemplar com sua montaria galopante em meio à confusão, e então fazendo-a parar ordenadamente.

McCoy fez uma careta quando assentiu. É positivamente odioso como tudo o que Jim tem de fazer é tentar uma coisa uma vez, e ele sabe como fazê-lo com perfeição. Por que eu não nasci com equilíbrio e reflexos como esses? Dez contra um como ele nem mesmo vai ficar assado amanhã.

O almirante pulou de seu vykar sem problemas e sem que sinalizasse para que ele se ajoelhasse. — Boa garota - disse ele, cocando o pescoço da criatura enquanto ela grunhia de prazer. — Precisa de ajuda para descer, Magro?

— Não, na verdade pensei em continuar sentado aqui e posar para uma estátua quase eqüestre - retrucou o doutor, impaciente. — Droga, esqueci o comando para fazer essas coisas ajoelharem.

À luz das tochas, a boca de Kirk torceu-se. Ele apertou os lábios e então aproximou-se de McCoy. Inclinando-se, bateu no meio dos ombros da criatura. — Desça - disse ele, firmemente.

Grunhindo, o vykar ajoelhou-se pesadamente.

— Espertinho - resmungou McCoy, balançando-se para fora com grande ressentimento, apenas para que seus joelhos falhassem quando seus pés tocaram o chão.

— Firme, Magro - disse Kirk, segurando o braço do doutor.

— Estou bem... ou ficaria após uma boa noite de sono, um banho quente de chuveiro, uma massagem e uma bebida forte - falou o doutor, lutando contra um bocejo enquanto se moviam em direção a um círculo de tochas que haviam sido arranjadas ao lado da tenda onde haviam estado amarrados na noite anterior. — Sinto como se estivesse acordado metade da minha vida.

— Bem, tente parecer vivo. Não deseja desgraçar Zar dando um cochilo durante casamento dele, não é?

— Onde ele está?

— Ele está falando com Heldeon e Wynn. A cerimônia começará tão logo possam estabelecer os direitos de sucessão, a propriedade dos povoados, e as negociações de batalha tenham dado certo.

— Onde está Spock?

— Como parente mais próximo do noite, foi com eles. Do que Cletas me falou enquanto cavalgávamos, o casal conubial não deve falar - seus representantes fazem isso por ele. Zar estava lhe dizendo o que ele deveria perguntar durante todo o caminho até aqui.

McCoy riu cansadamente. — Era melhor que o velho Heldeon tomasse cuidado. Spock já negociou com todo tipo de gente, de romulanos a talosianos. É capaz de Zar terminar sendo dono de todo o planeta.

Quando sentou-se na tenda de seu pai, fingindo beber uma taça de vinho, Wynn percebeu que estava nervosa, o que muito a surpreendeu. Ela estivera nervosa há oito anos, na noite em que se casara com Nahral..-mas esse fora um casamento real, e ela era uma donzela, como era natural.

Então porquê, agora, seu estômago dava um nó, e suas mãos tremiam tanto que ela temia até mesmo em levar a taça para à mesa baixa por medo de deixar o líquido pingar e alguém pudesse ver?

A Alta Sacerdotisa engoliu uma fração da secura de sua boca e forçou a própria atenção de volta a Heldeon e Spock. Seus assentimentos de cabeça diziam-lhe que eles tinham chegado a um compromisso aceitável quanto aos direitos de pastagem. Eles já estavam quase terminando. Logo será a hora da cerimônia, pensou ela, com uma pontada de medo real.

Vellum sussurrou enquanto os escribas produziam os papéis completos, então cada negociador assinou-os. — E agora - disse Spock, — sobre a batalha que se aproxima. Que apoio podemos esperar de você, muito honrado chefe?

Heldeon espirrou, então fungou; ele ficara com dores reumáticas devido à umidade que pegara na noite anterior. O homem mais velho assoou o nariz na manga antes de responder. — Apoio? Fala de tropas? Pede-me para romper minha palavra e lutar contra meus inimigos?

— Mas eles não são nem parentes de sangue, nem parentes pelo casamento - apontou Spock, sua voz e palavras tão calmamente razoáveis que Wynn suavizou um sorriso. — Certamente seria uma maior transgressão permitir que um parente por casamento se ferisse por sua falta de ação.

Heldeon piscou os olhos avermelhados, então cocou seus cabelos grisalhos. — Hmmmmm.

No início, a Alta Sacerdotisa se perguntara sobre a sabedoria de seu futuro senhor em trocar o negociador dos termos de casamento, o membro mais velho de seu Conselho, o velho Davon, por seu pai. Mas agora ela percebera por que Zar assim o fizera. O pai de Zar não se intimidara ou fora por demais reverente pelo chefe do Danreg Ford... uma atitude com a qual Heldeon não estava acostumado a ver. A conduta tranqüila de Spock deixara seu pai fora de equilíbrio, como nenhuma agressão ou tentativa de bravura poderia causar.

— É claro, eu recuarei de minha aliança - disse Heldeon, finalmente. — O sangue de nossos irmãos de Lakreo não mancharão as mãos dos Danreg. - Ele soltou um leve pigarro.

Spock ergueu uma sobrancelha desdenhosa. — Perdoe-me, mas não é verdade que, aquele que recua e permite que seu irmão seja atacado e morto, peca tanto quanto a mão que guia a lâmina assassina? Sem sua força, grande chefe, todos os esforços de Lakreo muito provavelmente darão em nada... sua filha governará uma cidade sangrenta, gotejante, e estropiada pela carnificina prazerosa de Laol e Rorgan. É isso o que deseja para ela?

Heldeon aprumou-se, desconfortável. — Deixa bem claro seu ponto de vista, homem-de-lugares-distantes, mas... mas há a questão de trair minha palavra. Ashmara não é muito favorável àqueles que quebram seu juramento.

Wynn pensou por vários minutos. Ashmara, pensou, Grande Mãe. Empreste sua sabedoria à minha língua, para que eu possa expressar corretamente Sua vontade. Finalmente, ela voltou-se e fitou os olhos de seu pai. - Honra é uma faca de dois gumes - disse ela, lentamente. — Às vezes é impossível manejá-la sem haver ferimentos. Ainda assim, parece-me que o ferimento mais doloroso de um espírito vem com a morte de familiares, mais do que os que quebram juramentos. E, afinal - sua voz endureceu, — não é como se Rorgan jamais tivesse quebrado sua palavra a você.

— O que quer dizer com isso? - seu pai exigiu, falando em Danrei.

— Ele ordenou aquele ataque em nosso acampamento na noite em que Nahral e Lelinos foram massacrados. - Replicou Wynn, na mesma língua. — A Deusa enviou-me certo conhecimento disto da primeira vez em que fitei-o nos olhos. Ele mesmo já quebrou juramento, Pai.

Heldeon pigarreou novamente, parecendo muito sério. — Sei. Por que não me contou isso antes, filha?

— Porque eu sabia que minhas Mensagens de Ashmara deixam-no desconfortável comigo... e, precisávamos de tal aliança. Agora, creio, foi-nos oferecido uma melhor. Meu conselho é que aceite a oferta de meu futuro senhor e ceda-lhe todo apoio que pudermos conseguir. Eu mesma liderarei nossas tropas, caso suas dores reumáticas piorem e não possa fazê-lo.

Heldeon tossiu, o som vindo do mais fundo de seu peito. — Farei como me aconselha - disse ele. — Mas, creia-me, não perderei a oportunidade de lutar contra o mentiroso de duas palavras que matou meu neto. Antes que parta para deitar-se com seu novo senhor esta noite, deve usar sua habilidade de curandeira para fazer uma tisana a fim de acabar com esta febre e aliviar o peso em meu peito.

— Eu o farei, Pai - falou Wynn. — E meu senhor tem com ele alguém que ele diz ser um poderoso curandeiro. Se desejar, eu lhe pedirei para ajudá-lo. Seu nome é McCoy.

Heldeon estremeceu com um arrepio. — Talvez. Este McCoy é um feiticeiro?

— Não - disse ela. — Mas meu senhor diz que seus poderes de cura são um pouco mágicos.

— Que seja. — O chefe voltou a falar na língua de Lakreo. — Como sempre, minha filha aconselha-me sabiamente. Amanhã, informarei Laol de que não poderei manter a aliança feita com aquele mentiroso e assassino de crianças do Rorgan Death-Hand. Então, após ela ter sido bem avisada de minhas intenções, as tropas dos Danreg e de Lakreo marcharão juntas para afastar tais invasores. Eu, Heldeon, Chefe de Danreg Ford, farei um juramento de espada sobre isso.

O guerreiro grisalho ergueu-se de pé e levantou as mãos, as palmas voltadas para cima. Comandante Madon pousou prontamente a velha lâmina de bronze do chefe sobre elas. — Que minha própria arma golpeie-me, se faltar com meu juramento - Heldeon entoou as palavras formais, sua voz roufenha, mas ainda impressionante.

— E, também, faço juramento de espada de que eu cumprirei todos os acordos feitos hoje entre nós - disse Zar, falando pela primeira vez desde as saudações formais. — Minha senhora? - falou, erguendo-se e estendo suas mãos.

Impetuosamente, Wynn puxou a arma do Sovren de sua bainha, pensando no momento em que sentiu seu peso que jamais encontrara arma como aquela antes. Uma cor tão estranha. De que ela é feita?

Cuidadosamente, ela deitou a espada por sobre as palmas do homem mais jovem. — Que meu próprio aço me queime, caso fuja a meu juramento - disse Zar, seus olhos fitando os de Heldeon intensamente.

Wynn ouviu Spock dar um tênue suspiro de alívio.

— E agora, para a cerimônia - trovejou Heldeon. — Diga a nosso povo que se apronte, Madon.

Wynn descobriu-se empurrada para fora, em direção à sua própria tenda de dormir, pelas sacerdotisas menores. Lá ela se lavou, limpando-se e purificando-se como o faria para qualquer ritual. Suas servas soltaram-lhe os cabelos e o escovaram até que eles brilhassem à luz dos lampiões, deixando-os caírem livremente sobre seus ombros e descendo por suas costas.

O vestido que lhe trouxeram era do verde tradicional de Ashmara, a cor do sangue, da vida. Wynn escorregou para dentro dele, e então prendeu seu colar de rubi em volta de sua garganta. Finalmente, ela colocou a grinalda em sua cabeça, e estava pronta.

Escoltada por suas sacerdotisas menores, ela saiu da tenda e entrou no círculo de tochas. Ela podia sentir o pulsar latejante em sua garganta até que pensou que ele poderia fazê-la tremer. Tentou engolir, mas sua boca estava seca como o deserto.

O que estou fazendo? pensou, estonteada. Grande Mãe, por que concordei com isto? Será que enlouqueci?

Ela entrou no meio do círculo e ficou à espera, a chefe de suas sacerdotisas menores, Lylla, à sua direita, seu pai à sua esquerda. Não posso fazer isto, pensou Wynn. Nem mesmo conheço este homem. Por que estou fazendo isto?

Após vários minutos, o círculo de observadores abriu-se, e ela o viu aproximando-se, seu pai à sua direita, Cletas à sua esquerda. Ele não usava nenhuma armadura, nem carregava nenhuma arma, pois não havia lugar para a guerra num rito de Ashmara.

Em vez do verde tradicional, ele ainda usava negro... calças, botas e uma túnica de couro sem mangas que lhe deixava os braços nus para a brisa noturna. Um medalhão de prata e âmbar-negro pendia contra seu peito, fazendo conjunto com suas braçadeiras, mas ele não usava nenhuma coroa ou qualquer outro símbolo de seu posto. Enquanto Wynn observava, Cletas desdobrou e balançou um manto vermelho e lançou-o sobre os ombros do Sovren. Zar jogou as dobras para trás conforme se aproximou.

Ele parou, fitando-a, então curvou-se formalmente. Wynn inclinou sua cabeça em uma saudação de igual para igual, e ergueu sua mão com a palma para cima. Ainda poderia impedi-lo. Uma palavra, e minha vontade seria obedecida. Eu poderia impedir...

O Sovren moveu-se em sua direção, sua mão também erguida. Quando parou, estava tão próximo que ela podia ver o pulso latejante sob sua mandíbula. Lenta e formalmente, ele encontrou-lhe a carne com a sua própria, De modo a estarem palma contra palma, e antebraço contra antebraço.

Como antes, a pela dele era quente, mais quente do que a dela... como se estivesse febril. Tão logo se tocaram, o contato entre eles tornou-se novamente vivo. Wynn inspirou profundamente, lutando contra essa ligação. Por que sinto isto? Por que estou fazendo isto!

Ela desejava resistir a esse contato mental e emocional, recusando-se a olhá-lo, fitando fixamente o medalhão que ele usava, lutando para manter seus pensamentos e sentimentos barrados dentro dela... e percebeu que Zar estava tendo a mesma dificuldade.

Da multidão veio uma lenta batida de tambor, então um canto lento e insistente. Lylla fazia uma invocação para Ashmara. A mente de Wynn automaticamente forneceu as palavras, já que ela oficiara tantos casamentos antes, mas para uma outra parte dela, elas eram somente baboseira.

Eu poderia impedir... eu deveria impedir... minha vontade... isto é rápido demais...

Lylla moveu-se para a frente, ainda cantando, carregando pesadas correias de couro, que haviam sido secas verdes. A Sacerdotisa-Abaixo começou a balançar as tiras de couro, envolvendo-lhes os braços, até que estivessem presos, da ponta dos dedos aos cotovelos, de modo a não se libertarem.

O coração de Wynn batia tão forte que ela tremia. E quase tarde demais. Se vou impedir isto, terá de ser agora, deve ser agora... Senhora Deusa, pode isto ser Sua vontade?

Engasgando, ela ergueu a cabeça para gritar as palavras de negação, mas seus olhos encontraram os dele, e elas morreram sem serem ditas em seus lábios. Zar a fitava ansioso, ela podia sentir sua preocupação, e ela, repentinamente, percebeu - com a serenidade de uma Mensagem - que estava fazendo o que deveria fazer. Este homem não lhe pretendia nenhum mal, ela o sabia, sempre soubera.

Ela permaneceu em silêncio, ainda trêmula, mas seu medo agora se misturara à outra emoção.

Lylla deu um passo atrás, deixando-os unidos. — O elo está completo. Eles somente podem ser separados pela morte - Ashmara assim testemunhou!

A Alta Sacerdotisa sentiu seu pulso ser erguido de trás, e soube sem precisar olhar que Heldeon fazia sua parte. No mesmo instante, Spock, a um sinal de Cletas, também deu um passo à frente e pegou o pulso de Zar. Ambos os homens puxaram com força, e Wynn tropeçou para trás, para longe de seu senhor, enquanto ele era também puxado para longe dela.

O canto agora encheu-lhe os ouvidos, junto com o som dos tambores, enquanto ela se esticava toda, seus braços estirados como as asas de urna águia pela grande força de seu pai - três puxões fortes - uma vez.. duas vezes... três vezes - mas Lylla conhecia seu trabalho, e as correias verdes, apesar de não conterem nenhum nó, haviam sido unidas corretamente. Elas mantiveram-se Firmes por todos os três puxões da cerimônia.

Tendo demonstrado que Ashmara abençoara este casamento tornando-o à prova de tentativas familiares de separar o casal recém-unido, ambos os pais deveriam soltar-lhes os respectivos pulsos. Mas Heldeon, com uma gargalhada grosseira, empurrou Wynn ao mesmo tempo que a liberava, lançando-a cambaleante de volta ao abraço involuntário de Zar. A Alta Sacerdotisa teria caído se ele não a tivesse segurado pelos ombros com seu braço livre, equilibrando-a.

Wynn corou, praguejando em silêncio contra seu pai, enquanto dirigia um olhar mordaz ao chefe. Ao se endireitar no abraço de seu novo marido, ela tinha total consciência de seu corpo contra o dela. Ela olhou para cima, e encontrou-o fitando-a, os olhos arregalados de surpresa... e algo mais que ela não conseguia desvendar.

— Beije-a, filho pelo casamento! - bradou Heldeon. — Ela não morderá... muito!

— Isso é necessário para completar o ritual? - Zar perguntou suavemente. Ela mal podia ouvi-lo em meio às saudações.

— É tradição, mas o casamento está completado, meu senhor - disse Wynn, tentando se afastar. — A maioria daqueles que entram no círculo mal podem se segurar, mas nós somos diferentes, você e eu.

— Sim, somos diferentes - ele concordou, mas, abaixando a cabeça, tocou sua boca com a dele. Ela sentiu a suave aspereza de seu bigode em seu lábio superior. — Pronto - disse ele, recuando e soltando-a, finalmente. — As tradições devem ser preservadas, não concorda?

— É claro - respondeu ela, automaticamente, e ficou furiosa ao perceber que estava com uma ligeira falta de ar. Não seja tola, pensou. Ele nada quis dizer com isso, nada! Ele estava apenas respondendo ao desafio do Pai. Qualquer homem teria feito o mesmo.

Eles então foram cercado pelas pessoas que lhes desejavam felicidades, e era hora de soltarem as correias.

Zar sentava-se só em seu quarto, terminando uma refeição tardia (ele estivera por demais nervoso para comer durante o banquete de casamento), quando ouviu baterem à porta. Ele franziu as sobrancelhas enquanto se erguia de sua cadeira; se o guarda permitira que seu visitante batesse, tanto o visitante quanto a razão de sua visita deveria ser importantes.

— Entre - ele falou.

A porta abriu-se e Spock permaneceu parado, seu manto azul puxado bem próximo a seus ombros. — Achei que deveria estar acordado.

— Cansado demais para dormir - Zar permitiu-se afundar de novo em sua cadeira, então fez um gesto para a cadeira à sua frente. — Sente-se. Estou feliz que tenha vindo. Posso oferecer-lhe algo?

O vulcano balançou a cabeça enquanto sentava, esticando suas pernas com botas na direção do fogo. — Cletas nos disse que é quase verão, ainda assim, aqui neste vale, à noite ainda é enregelante. Confesso que estou grato pelo calor do fogo.

Raramente sinto frio - admitiu Zar. — Após viver na tundra todos aqueles anos, se comparados, este clima sulista ainda me parece bastante quente. Duvido que conseguisse suportar o calor de Vulcano.

— Ainda não é tarde demais para descobrir - disse Spock, fitando-o. Zar não perdeu o apelo não-pronunciado nos olhos de seu pai, apesar de sua expressão se alterar.

O homem mais jovem suspirou. — Já passamos por isso. Não há meios de eu voltar com vocês. Meu povo precisa de mim. Ademais, Sarpeidon, para melhor ou para pior, é o meu mundo. Vulcano não o é... não conheço ninguém lá.

— Você tem família lá - lembrou-lhe Spock.

Zar ergueu uma sobrancelha, o movimento vindo tão naturalmente que, por um instante, ele esqueceu que isso poderia parecer que estivesse gracejando de se pai. — Fala de T'Pau?

— Ela morreu há alguns anos. Não, falava de seus avós.

— Amanda e Sarek? Eles sabem sobre mim? Como?

— Eu lhes contei - Spock falou, sem qualquer emoção na voz. — Enquanto estava em Vulcano, me preparando para estudar o Kolinahr, pendurei duas de suas pinturas em meu quarto. Quando minha mãe as viu, ela pergunto-se sobre a identidade do artista. — Ele fez uma pausa que durou uma batida de seu coração. — Eu pretendia mesmo informá-los.

Zar prendeu a respiração, lembrando-se vivamente como o vulcano se sentira envergonhado de seu filho "krenath" - a prova viva de sua própria falibilidade. E ele contou a seu pai sobre mim? Sarek, a pessoa que ele mais queria impressionar! Ele limpou a garganta, à procura de palavras.

— Como eles encararam o fato?

— Desejaram que tivessem tido a oportunidade de conhecê-lo. Se voltar conosco, ainda podem fazê-lo. Dr. McCoy está correto... seu dever com este mundo não exige sua morte. Fiz uma sondagem nos acontecimentos que se seguem à batalha em questão, a linha de tempo está livre de quaisquer complicações ou repercussões relativas a seu desaparecimento. Não importa se você morra ou não, ou se será listado como "desaparecido em combate".

— O que acontece a Nova Araen?

— A paz virá. O Vale Lakreo continuará a prosperar.

Então é possível que Wynn tenha sucesso em evitar os invasores, pensou Zar. — Isso é maravilhoso - disse ele, sem ironia. — Estou feliz que tenha me contado. Isso torna tudo mais fácil.

A boca do vulcano enrijeceu, e por um segundo, o Sovren sentiu a frustração de seu pai. — Isso não tem que acontecer. - Os olhos escuros de Spock estavam muito sérios. — Zar, se voltar comigo, tirarei vários meses de licença para vê-lo estabelecido — mais, se for preciso. Poderíamos visitar a Terra, Vulcano - qualquer lugar que quisesse. O universo explorado - e ele é muito amplo - seria verdadeiramente seu, filho.

Spock inspirou profundamente. — E para Amanda isso significaria... -Ele engoliu em seco. — Compreenda que, por anos, minha mãe estudou as disciplinas mentais de Vulcano, inclusive o controle de suas emoções humanas. Ela fez consideráveis progressos relativos a elas. Ainda assim, quando falei de você, e ela me disse que desejaria tê-lo conhecido, havia lágrimas em seus olhos.

Está jogando sujo, Pai, Zar pensou, olhando para baixo, recusando-se a encontrar o olhar do pai. Ele procurou desajeitadamente por uma mudança de assunto. — Quais eram as duas pinturas?

— A geleira de Beta Niobe, e uma ampliação de seu auto-retrato na caverna. Era a única imagem que tinha de você. Mas uma imagem não é o que quero...

Ele está me deixando saber quanto sou importante para ele, algo que nunca aconteceu quando estivemos juntos antes - exceto uma vez, na privacidade de um elo, pensou Zar. Mas ouvi-lo realmente dizer isso... Sua boca afinou-se. Não posso deixar que isso importe. Não posso deixá-lo dominar-me.

— Você mudou - falou Zar, bruscamente.

— Você também.

— Está certo sobre isso - disse o homem mais jovem. — Há vinte anos eu era um século mais jovem - ou, pelo menos, era assim que eu me sentia. E agora - ele inclinou a cabeça, a sobrancelha voltando a erguer-se, — graças aos paradoxos da viagem temporal, você está menos de uma década mais velho do que eu.

— Eu sei - Spock olhou em volta do aposento, com sua grande cama acortinada e as paredes cheias de tapeçarias. Havia apenas algumas poucas peças de mobília maciça... um armário, e o gabinete onde Voba guardava a armadura e as armas. O olhar do vulcano parou no retrato. — Trabalho seu? - perguntou, como se já soubesse a resposta.

— Sim. Essa era Aren - disse Zar. — Minha esposa... quer dizer - corrigiu-se com um toque de azedume, — minha primeira esposa.

— Ela era adorável - disse Spock, gentilmente.

— Ela o era - concordou Zar, mantendo sua voz firme com esforço. — De ossos pequenos e tão delicada... inteligente, mas gentil. Ela nunca usava sua vontade para ferir, apenas para fazer os outros felizes. Quando estava em um aposento, as pessoas gravitavam em sua direção como o fariam em direção ao fogo durante o inverno. - Ele suspirou, parecendo que não poderia se permitir afundar nessas memórias. — Posso fazer-lhe uma pergunta pessoal?

Spock pensou. — Você pode fazê-la. Não prometo respondê-la.

— Bastante justo. Por que você nunca se casou?

Foi a vez do vulcano erguer uma sobrancelha. — Não há uma razão única. Uma vez que a ligação arranjada pela família para mim foi terminada em divórcio, não havia nenhuma razão para entrar em outra imediatamente... então decidi não fazê-lo. O tempo passou... meus contemporâneos todos tinham seus pares. Então, nossa missão de cinco anos acabou, e comecei a estudar as disciplinas do Kolinahr. Quando alguém torna-se acólito na busca do Kolinahr, deve desistir das... ligações... externas. - Ele Juntou os dedos. — Quando deixei o Kolinahr, também deixei Vulcano. Não voltei à casa desde então.

— Então, você simplesmente não encontrou a mulher certa - disse Zar, sem hesitação.

Um certo divertimento tocou os olhos de seu pai. — Pode colocar desse jeito.

— Pensei que tivesse um dever com "a família" em manter a linhagem. Spock concordou. — Assim mo disseram. Considerando-se o tempo de vida dos vulcanos, ainda tenho tempo mesmo que você escolha não voltar comigo. Apesar de não me sentir mais tão preso às tradições familiares como já me senti. Conforme se envelhece, as perspectivas e prioridades se alteram.

— A compreensão do anoitecer.

A sobrancelha de Spock ergueu-se novamente. — E do que se trata isso? Soube que o Conselho o pressiona há anos para que se case novamente. Por que levou tanto tempo para fazê-lo?

Zar hesitou por quase um segundo antes de falar. — O que houve esta noite entre Wynn e eu não será um casamento de verdade - disse finalmente, deliberadamente rodeando a pergunta e esperando que Spock não o notasse. Ele é a última pessoa com quem quero discutir tal assunto...

— Percebo - disse o pai. — Um acordo apenas no nome, então, contraído por razões políticas. - Os olhos escuros do vulcano prenderam os seus, e o Sovren soube então que Spock percebera sua evasão. — Por que não um casamento de verdade? - perguntou. — Não desejo me intrometer, mas...

Zar engoliu em seco. — Não sei... suponho que também nunca tenha encontrado a mulher certa. Ou, se encontrei, nunca permiti que eu mesmo soubesse. Para dizer a verdade, Pai, McCoy estava certo. Sou um covarde.

— Não por nenhuma medida do termo até onde o compreendo. Se posso oferecer-lhe minha opinião, você mesmo se colocou em uma situação francamente difícil, Zar.

O homem mais jovem piscou de surpreso prazer. — Ora... obrigado. Significa muito para mim ouvi-lo dizer isso. - Silenciou-se por um instante. — Sabe o que tem mais difícil de certo modo sobre minha "situação"? Voltei aqui cheio de ardor e determinação de salvar o mundo. Mas não demorou muito para eu perceber que só porque algo era a coisa "certa" de se fazer, isso não a tornava agradável. Eu realmente não gosto de "dirigir o espetáculo". E um sentimento de dever e obrigação só pode levá-lo até aqui. Me arrependi por não estar com você mais vezes...

— Você não gosta do comando?

— Não, não do modo como Jim Kirk gosta. Ele nasceu para isso, ele cresce com ele, pode-se olhar para ele e ver. Quando está no comando, mesmo quando está errado - ele está certo, de algum modo. É difícil de pôr em palavras.

— Eu sei o que significa - disse-lhe Spock.

— Suponho que sim, mais do que ninguém.

— Mas certamente seu trabalho aqui deve ter algumas compensações.

— Anos atrás, quando tínhamos paz, ele tinha sim. Eu visitaria as salas de aula e sabia que, um dia, o povo de meu vale seria letrado. Eu olharia os fazendeiros usando seus novos arados de aço, e tudo isso me mostraria que valia a pena. Não importaria quanto eu desgostasse ter impostos, ou julgar criminosos, qualquer trabalho do dia-a-dia de "dirigir o espetáculo" - eu estava realizando aquilo para que viera, e isso significava alguma coisa.

Ele balançou a cabeça. — Mesmo para fazer isso, eu teria de desistir de minha liberdade pessoal - e, se pensar sobre isso, minha vida inteira anterior, eu fora tão livre quanto alguém poderia ser. Ninguém a quem responder a não ser a mim mesmo. Mas quando vim para cá, era responsável por milhares de vidas - ninguém está mais preso do que um governante de um território deste tamanho... - Zar interrompeu-se, fitando a mesa entre eles. Sua espada, que Voba limpara e lá colocara para sua inspeção, brilhava azulada, desembainhada.

Sua boca torceu-se enquanto a fitava. — E então as guerras começaram...

— Eu compreendo - disse Spock. — Mas por que diz que lhe falta coragem?

Zar flexionou as mãos, acariciando de modo ausente uma de suas velhas cicatrizes. — Já perdi tanta gente, através dos anos... Araen, e Tekolin... Alyn, um de meus melhores generais táticos, Matrick, que estava comigo desde a primeira... outros... e, é claro, minha mãe. Com cada morte, recebi o aviso de que algo terrível estava acontecendo, ou que ia acontecer a eles... exatamente do modo que eu soube, daquela vez, quando o Comandante Tal ia executar você. Enjoado, tonto, desorientado... quanto maior o perigo, pior me sinto.

— Eu me lembro.

— É difícil deixar-se sentir e se importar, quando se sabe que estará lá -mental, e emocionalmente, pelo menos - quando eles morrerem. - A voz de Zar falhou na última sílaba. — Gastei muitos anos tentando me importar o menos possível. E ainda assim, ainda acontece comigo. Amanhã devo acordar enjoado, e perceberei que Cletas ou Voba serão os próximos. É um inferno viver com isso.

— Sim - concordou Spock. — Mas a alternativa é viver sem amizade ou calor... em um ambiente estéril e sem prezar. Já experimentei tal existência estéril durante meu elo mental com V'ger.

— Vger?

— Uma gigantesca nave espacial gerada por um computador que encontramos. Ele veio à Terra à procura de seu criador, por algo que lhe desse propósito em sua existência árida. Ele acumulara tantos dados, alcançara tal perfeita lógica - e ainda assim não tinha qualquer conceito de compaixão, ou amizade, e portanto permanecera... vazio. Estéril. Ele chegou bem próximo de destruir a Terra antes que pudéssemos fazê-lo ir em busca de um propósito maior.

Zar ouvia com intensidade. - Então, qual é a moral aqui? - perguntou, quando Spock terminou. — Lógica não é tudo? Estou chocado, Pai! - disse ele, com um meio-sorriso.

Impassível, Spock retrucou. — Algumas coisas transcendem a lógica. -Tornou-se sério, juntando os dedos enquanto fitava o fogo. — Na verdade, as limitações inerentes da lógica eram apenas parte "da moral", como a determinou. Mais importante, creio, é a lição de que qualquer coisa - ou qualquer um - que pára de crescer, de tentar alcançar mais adiante, mesmo com grande risco ou custo... está morrendo espiritualmente.

Enquanto ouvia as palavras do vulcano, Zar perdera seu ar de divertimento casual; agora, ele inclinava-se para a frente, seus olhos tão duros e intensos como a lâmina pousada entre eles. — Então está dizendo que eu deveria correr o risco de me importar, não importa quem morra, e o que faz comigo quando isso acontece? Está dizendo que eu deveria lutar para permanecer vivo, mesmo quando eu mesmo sou a melhor autoridade para dizer que sou um cadáver apenas esperando para cair? Está dizendo que eu deveria... - Sua voz falhou, e ele passou a mão na testa, lutando para recuperar o controle.

Após um instante, uma mão pousou em seu ombro, gentilmente, e então se foi. Zar deu um suspiro profundo e estremecido e olhou novamente para Spock. — Peço desculpas pela explosão. Quando penso que estou completamente convencido, algo surge e percebo que parte de mim ainda teme e não quer morrer.

— Fico grandemente aliviado em ouvi-lo dizer isso - falou o vulcano, seus olhos escuros fitando-o com intensidade. — Desde que nos encontramos desta vez, estive preocupado que estivesse, realmente, convencido de que não deveria mais lutar. O pensamento... me... angustiou mais do que posso dizer-lhe com facilidade.

Zar ouviu a rouquidão na voz de seu pai, mesmo enquanto sentia outras emoções... mesmo sem tentar alcançá-la, ela estava lá, próxima à superfície. Desde que ele observara aquela pequena cena sangrenta na tela de seu tricorder, o vulcano fora assombrado por ela... a dor e a tristeza eram profundas.

— Ah, Pai... - Zar procurou pelas palavras. — Não percebi... não pensei em como seria para você, ver-me... - Interrompeu-se de repente. — Sinto muito.

— É pouco lógico para você desculpar-se por algo que eu tenha visto em meu tricorder - disse Spock, com gentileza. — Obviamente, se o acontecido estivesse sob seu controle, ele não teria ocorrido. Ou vá ocorrer. -Ele franziu as sobrancelhas à confusão dos tempos verbais.

— Não, mas se eu não estivesse tão obcecado comigo mesmo, teria percebia o efeito que tudo isto poderia ter nas pessoas que se importam comigo. Tentei chamar um pouco de raiva.

— Raiva?

— Algo que Wynn disse sobre o mesmo assunto, ainda hoje.

— Para o seu meio, ela é realmente uma pessoa admirável - disse Spock, pensativo. — Inteligente, compassiva... descobri que gosto dela.

— Eu também - admitiu o Sovren, então lembrou-se, sem qualquer motivo, da expressão nos olhos de Wynn logo após ele tê-la beijado no círculo da fogueira. Como se ela pensasse que eu zombava dela, quando na verdade foi apenas um... impulso. Espero ter tempo para explicar isso a ela. Ela merece saber...

O vulcano endireitou-se. — Já é muito tarde - disse ele. — Creio que necessita de seu descanso.

E você também, pensou Zar, vendo as linhas profundas em volta da boca de seu pai. — Você está correto. - Quando Spock ergueu-se para partir, ele limpou a garganta. — Pai?

—Sim?

— Deu-me muito sobre o que pensar. Sobre se devo permanecer aqui, ou se vou com vocês... Se devo ficar parado, ou arriscar crescer... Se devo... me enraivecer. Obrigado.

— Estou sempre às ordens - disse Spock, então acrescentou em vulcano lento e deliberado. — Descanse bem e em paz, meu filho. Lembre-se de em qualquer mundo o vento acaba por varrer a pedra, pois a pedra pode apenas sucumbir; o vento pode mudar.

Então a porta fechou-se com um suave clique, e ele se foi.

Zar sentou-se por alguns minutos, pensando sobre essas palavras finais. Finalmente, suspirou, agarrando os braços de sua cadeira enquanto se preparava para erguer-se. Foi então que ele ouviu o tênue e cuidadoso clique atrás da tapeçaria às suas costas. Um suave farfalhar, como de tecido, seguido...

Sem fazer qualquer som, ele pulara de sua cadeira e sua espada encontrava-se em sua mão. Sentindo-lhe cuidadosamente o peso, ele escorreu em direção à tapeçaria, lutando contra o impulso louco de gritar: "Morte a um ducado, morte!" enquanto afundava sua lâmina contra ela.

Controle-se, admoestou-se severamente. Seja lá quem for, não é Polonius. Um segundo antes de Zar puxar as pesadas dobras para o lado, ele soube a identidade do intruso.

— Minha cara esposa - disse ele, fazendo uma mesura irônica para Wynn, então estendendo-lhe a mão, — não estaria mais confortável próxima ao fogo?

 

Eu deveria ter desconfiado, Zar pensou, que Cletas a colocaria em um quarto próximo ao meu. Matrimônio de estado ou não, ela é minha esposa e co-regente e, portanto, com direitos a todos os privilégios e honras de sua classe. Inclusive ao leito do seu cônjuge. Desde a morte de Araen, ele não tinha mais entrado naquele quarto... ele tinha parafusado as conexões da porta e a coberto com o tapete, quase conseguindo esquecer que lá estava.

Wynn hesitou por um segundo e então levantou o seu queixo de um jeito que ele começou a reconhecer. — Obrigado meu Senhor, ela disse indiferente — Estou com um certo calafrio.

Seus dedos ao tocá-lo pareceram pingentes de gelo. Ela estava usando apenas uma fina camisa de linho e um manto que a cobria, e seus cabelos estavam entrançados até as costas. Zar ajudou-a a sentar e, depois, manteve-se ocupado com o fogo pondo vários troncos até que o clima estivesse confortável.

Quando ele se virou para Wynn, ela estava a olhá-lo, com seus olhos provocantes.

— Eu suponho que você não acreditará em mim, meu Senhor, mas eu nunca desejei que acontecesse o que a pouco aconteceu. Eu tinha caído no sono, e subitamente...— Ela mordeu os lábios, desesperadamente — Subitamente eu estava acordada, achando que alguém havia chamado meu nome. Então me aproximei da porta — Cletas me mostrou hoje a noite quando ele a desparafusou. A porta estava um pouco aberta e eu escutei seu pai falar, notei que vocês dois estavam aqui, então é que percebi que ninguém havia me chamado.

— Quando escutei sobre o que vocês conversavam, fiquei com vergonha de admitir que tinha escutado aquela conversa tão pessoal, tentei partir, mas a porta tinha se fechado atrás de mim. Como não poderia abri-la sem fazer barulho, esperei, pretendendo partir assim que pudesse, mas sem que ninguém pudesse me descobrir. Quando você se sentou, bem depois que Spock tinha saído, achei que você tinha caído no sono e minha chance havia chegado...

Sua sinceridade era genuína. Zar poderia descobrir sem sequer se esforçar. Inclinou a cabeça, descansando o braço contra o alto encosto da cadeira dela — Eu entendo, essas coisas acontecem, não se preocupe com isso. Estávamos conversando sobre você então é muito provável que você tenha escutado seu nome.

— Mas isso não é tudo — ela continuou, sem olhar para ele — Enquanto estava de pé, esperando, tentando não escutar, o que era no entanto impossível. Era como se eu tivesse recebendo uma mensagem sem visão, sem palavras, uma forte convicção, meu Senhor, que você deve fazer como seu pai deseja. Você precisa ir... aonde quer que ele queira te levar.

Você deve ajudá-lo. Ajudando-o talvez seja seu único meio de salvar-se. Eu senti isso tão forte... tenho certeza que é a vontade de Ashmara.

— Você não compreende o que eles querem que eu faça — disse Zar.

— Você está certo, eu não entendo. Eles não são deste mundo, são? — ela hesitou entrelaçando os dedos e pondo sua mão sobre o colo — Eu também não quis chamá-los de espíritos ou demônios. Não tenho certeza do que quero dizer... exceto do que Kirk me disse, quando eu primeiro o vi, que ele não podia me explicar como eles haviam viajado até aqui. Eles vêm... de algum outro lugar. Mas isso não é tudo, é?

— Não, eles vêm de um outro lugar; de fato de, um outro mundo, ou mundos. Que é diferente não somente em localização, mas também no tempo. Eles vêm de um tempo que ainda haverá de vir.

Wynn, suspirou — Talvez seja melhor que você me dê aquela explicação que me prometeu. É importante que eu saiba tudo que eu seja capaz de entender sobre você... e sobre eles, por favor confie em mim.

O Sovren deu de ombros. Que diferença isso pode fazer? Ela provavelmente não acreditará em mim...

— Muito bem.

Escolhendo suas melhores palavras, ele fez um sumário da verdade do jeito mais simples possível. Quando Zar terminou, ela o fitou.

— Toda minha vida, eu tive a sensação de que existem coisas nesse mundo... no Universo... que eu não consigo entender. Agora eu sei que existem muitas, muitas coisas além da minha compreensão. Você me fala que existem mundos além do mundo, e estrelas além das estrelas... e que a distância e tempo podem, de alguma forma, ser um e a mesma coisa, mas eu não sei se ninguém faria tal jornada que esses três fizeram sem uma boa razão. Você é o escolhido que pode ajudá-los.

Ele franziu a testa — só porque eu contactei uma vez o Guardião...

— Eu sinto que eles estão certos, se tem alguém que pode ajudá-los com esse Deus do Tempo, essa pessoa é você.

— Eles tem esperanças que eu possa. Ninguém sabe.

Ela se inclinou para frente, seus olhos verdes brilhavam com entusiasmo, esperança — Você deve - disse ela — você deve fazer o que eles pedem.

— Partir e nunca retornar? — Zar levantou uma sobrancelha. — Você irá com certeza gozar da sua herança bem mais rápido do que esperava, minha senhora.

— Eu não quis dizer isso — disse ela, repelindo o cinismo de Zar impacientemente — Para esse guardião, o tempo não é nada, um rolo de tecido dobrado ou descartado, ao seu bel querer, sim?

Zar concordou com a cabeça.

— Então pode trazer você de volta para antes que a batalha comece. E você estará lá para liderar suas tropas. Você lutará e talvez você não será abatido. A mensagem é forte mas não há nenhuma imagem para me guiar... somente sentimentos!... mas se eu estou certa... se você puder ser salvo...

— Sim? - perguntou ele atento quando ela desconversou —O que então?

Ela mordeu os lábios, e todo o entusiasmo havia desaparecido do seu rosto.

— Porque... nada, meu senhor. Exceto que um bom homem não morreria. ..

— Pode tal fato ser evitado? — Zar maravilhou-se — isso não causaria um paradoxo?

Eu duvido... ele pensou por um momento e, então, abandonou a tentativa. Estava muito cansado para ponderar sobre tais teorias.

Mas havia algo mais que o incomodava, algo sobre a própria Wynn, e aquele mistério que ele foi compelido a entender. Ele a fitou de volta fixamente, com um olhar bem direto — Eu também me surpreendo. Porque deveria importar tanto para você?

— Importa — disse ela bruscamente, totalmente nervosa — Mas não é da sua conta porque é importante para mim!

Ele apertou fortemente o encosto da cadeira, Subitamente ficou furioso. — O que esta acontecendo? Porque ela esta sendo tão furtiva?

Sua voz ficou suave, implacável e muito irônico — Se é a meu respeito, eu tenho o direito de saber, minha Senhora. Porque você desejaria adiar sua sucessão? O que tudo isso significa para você? Porque você se preocupa com isso?

Ele se inclinou para frente e tocou no queixo dela, e então ela foi forcada a olhar para ele.

— Como pode se preocupar?

Wynn se levantou zangada, Havia "raiva" escrito em cada uma das linhas do seu rosto. — Tudo tem que ter uma razão? As pessoas não podem fazer algo só porque elas se sentem bem em fazê-lo? Você pensa demais meu Senhor. Ela deu a volta e saiu em direção a porta de comunicação.

Enfurecido, agarrou ò braço dela e a deteve, girando-a para que ela ficasse de frente para ele.

— Se você tivesse experimentado o que eu já experimentei — disse com firmeza, tão bravo que tremia ao falar —Primeiro McCoy, depois Spock, agora você! Porque todos vocês não me deixam em paz? Ai, então, você não teria tanta certeza de que os sentimentos são uma coisa importante, minha Senhora. Eu aprendi, há muito tempo atrás, que os sentimentos... machucam.

Ela olhou furiosamente para ele.

— Você pensa que tem monopólio sobre a dor, majestade, você esta certo. Você é um covarde.

Ele segurou os dois braços dela ignorando sua tentativa de livra-se.

— Você acha que sim? Eu te mostrarei e você poderá julgar se sou covarde ou não.

— Muito bem, mostre-me.

Zar desbloqueou as paredes que havia entre eles e então sua mente, suas memórias surgiram na dela. Wynn parou de lutar. Se acalmando à medida que a fusão tomava conta deles. Zar tocou no lado do seu rosto, seus dedos deslizaram naturalmente pelos pontos de contatos.

Na fusão, os anos passavam na velocidade das batidas do coração.

Crescendo somente com Zarabeth como companhia, a solidão, a saudade..- como companheiro, como amigo... como pai... a solidão que parecia terrível. — Até que ele descobriu o verdadeiro significado dessa palavra no dia da morte de sua mãe. Zar sentiu de novo o peso do corpo ao carregá-la para a caverna de gelo. Sua única companhia se foi...

E depois, Araen, gritando em um delírio rouco, ao tentar livrar o corpo dela da morte, que sua criança tinha provocado. Eles tinham esperado muito tempo e, quando ele soube não tinha mais jeito, ainda esperava por algum milagre, algo... e então estava tudo acabado, suas mãos e sua faca estavam machadas com sangue derramado. Araen estava morta e sua filha estava tentando chorar sem forças para fazê-lo.

A pequena Araen tinha vivido por apenas 6 horas, mais do que o suficiente para que ele a perdoasse pela morte de sua mãe... Para estabelecer um vinculo emocional que o despedaçou quando ele de pé a segurava, desejando que ela respirasse. Ele tinha esperado tempo demais para tirá-la. Duas vezes ele conseguira insuflar vida dentro dela, quando os seus pequenos pulmões falharam, mas não teve sucesso na terceira vez...

Todas as mortes, naquele ano, toda a dor... as perdas, e nunca o alívio das lágrimas. Ele tinha tentado, mas não havia nada dentro dele... porque, ele não sabia. Ao invés de curar a ferida, havia progredido em uma chaga de mágoa e raiva.

Mas mesmo quando a última de suas memórias tinha percorrido Wynn, Zar ficou consciente que a fusão estava mudando, vindo agora a ser em duplo sentido. Ele começou a experimentar coisas do passado da Wynn... da morte de sua mãe por uma longa e grave doença. Wynn tinha cuidado dela com carinho, até que ela finalmente fechou os olhos encontrou paz.

Depois de um curto período de tempo de alegria com Nahral, o nascimento de Lelinos, seu filho... a alegria a qual só piorou o choque agonizante de ver seus corpos brutalizados nas ruínas do seu lar.

Zar, engoliu em seco, sua garganta doía, Wynn estava certa ao dizer que ele não tinha nenhum monopólio do sofrimento. Mas, diferentemente dele, ela tinha sido forte. Suficiente para continuar pondo-se em risco e continuar carregando o seu fardo. Ela tinha encarado sua própria dor, e aprendido a viver com ela, e não deixá-la prá lá sem primeiro curá-la.

Ele percebeu, então, que sua face estava encostada contra seu ombro e ela estava tremendo violentamente. E, quando a fusão entre eles se reduziu, ele a escutou a soluçar profundamente com sons que pareciam lhe cortar o peito.

— Shhhhh, ele sussurrou

— Sinto muito — Wynn repetia sem palavras na mente dele — Eu sinto Pesar por você.

— E eu por você — ele disse — Eu desejaria ter essa tua capacidade de suportar.

Ele não soube quanto tempo passou desde que seu choro diminuiu, até que parou, mas a sua perna fraca estava, tremendo. Dentro, no entanto, onde o nó tinha sido atado tão agonizantemente apertado, havia um relaxamento. Através da fusão ele havia experimentado a dor dela e tinha finalmente ganho um alívio interno. Ele suspirou, sentindo-se esgotado, mas calmo... o sangramento de algumas feridas invisíveis, embora mortal, tinha finalmente estancado permitindo que começasse a sarar.

Wynn, fungou — Você tem um lenço?

Zar pôs a mão no bolso de sua jaqueta e encontrou um.

— Aqui está.

— Obrigada.

Ela recuou um passo para longe dele. E ele relaxou deixando seus dois braços caírem, tentado não notar o sentimento de vazio que ele sentia. Ele ficou de pé, assistindo-a enxugar seus olhos, sentindo-se deslocado.

— Você esta bem, agora?

— Sim — disse ela — eu me arrependo de ter chamado você de covarde, eu estava errada.

— Não, você não estava, e eu me desculpo por meu comportamento — disse Zar, cerimonioso — Eu não sei o que me fez agir daquele modo, você obviamente tem suas próprias razões para ajudar-me... Mas quaisquer que sejam elas, não me dizem respeito, sinto muito.

Wynn suspirou, dando a volta para partir. Deu um passo na direção da porta, parou subitamente, ergueu seu queixo e o encarou novamente olhando-o nos olhos. Sua expressão refletia uma estranha mistura de emoções... delicadeza, encantamento e frustração, tudo junto de uma só vez.

Ele olhou-a atentamente, respirando fundo.

— Meu querido Senhor, claro que minhas razões são do seu interesse... são o seu interesse. Essas coisas acontecem. No entanto, isso nunca aconteceu para mim. Negar como eu me sinto - coisa que andei fazendo por horas - não fará isso ir embora. Eu deveria saber disso e não ter mentido para mim mesma... ou para você.

Zar fixou o olhar nela, com os olhos arregalados.

Não seja um idiota, ela não quer dizer o que você esta pensando... ele engoliu a seco, então tentou falar.

— Quase parece, embora que esteja dizendo, que você... — ele hesitou e fez silêncio.

Ela ficou corada, recuando mais um passo para trás, mas seus olhos permaneceram firmes.

— Eu sei o que está parecendo. Você quer que eu seja direta? Está bem, algumas vezes durante esses últimos dias, e têm sido dias muitos loucos, eu tenho me encontrado amando você, querendo você. Eu não quis admitir, mas é verdade... e eu não tenho vergonha disso.

Pela primeira vez ela não hesitou. Virando seu olhar para longe, suas próximas palavras vieram de um sussurro.

— Eu não espero que você compartilhe de meus sentimentos.

O coração de Zar estava batendo forte, e sem perceber que ele tinha se movido, ele achou-se perto o suficiente para por a mão nos ombros dela, e ao se tocarem a aura entre os dois brilhou com vida novamente, e ele podia sentir as emoções dela... sua imediata resposta por ele estar muito perto. A reação dela foi tão forte e urgente que ele se engasgou com a respiração.

— Wynn... - ele começou pausadamente — Eu não sou muito eloqüente nesses momentos, mas desde que nós nos conhecemos, eu senti... algo, eu não sei... — ele estendeu a mão e gentilmente tocou o rosto dela, às cegas, traçando o contorno de sua face, seus lábios — Eu não sei o que pensar... o que dizer... ou fazer...

— Eu acho — ela disse quieta — que você deveria parar de pensar. Através da fusão lhe veio o conhecimento que ela queria muito que ele a beijasse.

E ele também.

Sua boca era fresca e macia junto da dela e, depois de alguns segundos, ele a puxou contra o seu peito, abraçando-a bem apertado. Ao se beijarem profundamente, a mão de Wynn deslizou por entre seus ombros e atrás do seu pescoço acariciando-o. A fusão entre eles enfureceu-se e depois acalmou-se... ele experimentou o prazer do corpo dela contra o seu, e intensificou o dele próprio.

— Não! O perigo...— uma voz em sua mente advertiu, mas foi sufocada pelas vertiginosas ondas da sensação.

Ele se afastou um pouco para trás, começando a beijar seu rosto, seus cabelos, suas pequenas e redondas orelhas. Ela murmurou o nome dele, mansamente, em um suspiro tremido. Zar passou seus lábios pelas linhas do seu queixo, e depois até embaixo da garganta, sentindo o latejar de seu coração bater como o de um animal assustado.

O elo que havia entre eles se aprofundou na fusão, sufocando a pequena voz que gritava perigo, submergindo a identidade dele, seu sentimento de individualidade, até que não havia mais espaço para nada a não ser o sentimento dela em seus braços.

— Wynn... — ele sussurrou.

— Eu te amo — As palavras não foram faladas e Zar não teve nenhuma idéia de qual deles tinha pensado naquilo primeiro. Quando ele levantou a cabeça fitando-a com um olhar indagativo, ela respondeu sem falar nada apenas puxando sua boca de volta para seus lábios. O seu beijo encheu ambos com tanta intensidade que obliterou tudo menos a cega e instintiva necessidade de unificar, mente e corpo, completamente.

As cobertas da enorme cama cortinada, eram como lençóis de gelo, mas Zar quase no sentiu o choque deles na carne; existia somente Wynn, o jeito deles fazerem amor tremia e consumia, sua paixão cauterizara as lembranças sombrias da morte... deixando apenas a exaustão física, e finalmente, o sono...

Quando Wynn acordou, ela não teve problemas em se lembrar onde estava.. . mesmo no sono. A fusão que ela havia compartilhado com Zar não unha ainda desaparecido, Somente definhado um pouco, ao ponto que estava agora, somente um ponto cinza no canto de sua mente. Ela bocejou, bicando os braços acima de sua cabeça, então apressadamente tirou o alívio de volta do seu queixo, nenhum deles tinha se lembrado de baixar as cortinas da cama antes de dormir. O fogo tinha morrido e o quarto estava gelado.

Mas em baixo das cobertas, próximo a ele, estava quente e confortável. Sorrindo, Wynn se enfiou para baixo delas.

Zar estava deitado ao seu lado enrodilhado, com seus braços dobrados contra o peito, sua respiração suave e regular. Ela o fitou e estudou suas formas, lembrando-se de Nahral e de como ele parecia jovem quando estava a dormir. Mas Zar, parecia o mesmo de quando estava acordado, franzindo a testa um pouco sério como se estivesse concentrado em algum problema.

Ela ficou curiosa para saber que horas eram... tarde, com certeza. A cortina da janela estava baixa mas a luz do sol penetrava pelas suas bordas. Devagar ela se lembrou de ter visto o tom cinza do crepúsculo, quando estava quase caindo no sono. Deve ser quase meio dia, pensou, notando um pouco surpresa que nem um dia tinha se passado, desde o primeiro em que ela vira o homem que agora estava deitado ao seu lado.

Memórias do dia anterior, a correria, o primeiro encontro, o conselho, a cerimônia do casamento, se misturavam em sua mente deixando-a tonta. É tão duro que eu tenha saltado através desta porta do tempo da qual ele me falou e pelo qual os anos passam na velocidade de uma batida de coração.

Wynn pensou sobre um mundo, um universo, onde pessoas pudessem viajar de estrela a estrela dentro de grandes carruagens espaciais.

A parte que a havia deixado pensativa foi sobre a carruagem espacial chamada Enterprise. Zar havia dito a ela que a Enterprise era capaz de viajar tão rápido que poderia dar a volta nesse mundo inteiro (o qual ele tinha dito que era redondo) em menos do que levaria um piscar de olhos. Ele era o seu marido, ela tinha estado dentro da mente dele onde era impossível mentir, então ela devia acreditar nele... mas era muito difícil.

Ele se mexeu, com um ruído que soava quase como um ronco. Wynn podia ver as formas pontiagudas de uma de suas orelhas através dos seus cabelos pretos despenteados. Ele é tão estranho, algumas vezes, tão alienígena... e ainda, ontem a noite nós éramos uma só criatura... a memória veio com uma onda de desejo até ela.

Cuidadosamente, ela moveu uma mão até que a ponta dos dedos tocassem o ombro dele. Mesmo sem tocá-lo ela pode sentir o calor do seu corpo, mais quente do que o dela, como se ele estivesse febril. Mas ela sabia, agora, que isso era normal para ele.

— O que irá acontecer, hoje? — ela se perguntou — Irá ele partir, para tentar curar esse Deus do Tempo, o Guardião? Se ele partir irá ele regressar para mim? Devo eu querer que ele volte mesmo que isso possa talvez significar sua morte?

A horrível visão que Ashmara havia mandado para ela, brilhou através do olho de sua mente, e Wynn piscou trazendo lagrimas. — Senhora, proteja-o, eu te suplico. Tu nos puseste juntos por uma razão... eu sei que foi. Se eu pudesse ter certeza que a visão da noite passada era verdadeira, que se ele for com Spock e com os outros, ele viverá!

Ela se perguntava se a mensagem da noite passada significava que Zar viveria somente se ele permanecesse no seu próprio tempo. Talvez eu deva convencê-lo a ir e não retornar. Nunca mais vê-lo novamente...

Wynn sentiu um nó na garganta. Eu devo ser forte, ela resolveu, se Ashmara me deu o conhecimento de que ele seria salvo somente se ele não regressar, então isso é o que eu vou implorar que ele faça.

Como se a sua decisão fosse um silencioso sinal, Zar acordou. Ele ficou deitado, a observá-la por um bom tempo. Seu olhos cinza escuro ainda estavam cansados, então ele sorriu e estendeu o braço e tocou o cabelo dela.

— Eu não sei direito o que dizer, minha Senhora.

O costume formal de saudar um visitante simplesmente não pareceu cabível.

Wynn sorriu — Então vamos ser informais. Bom dia, meu Senhor, presumindo que ainda seja manhã, o que duvido.

— Bom dia — ele respondeu obedientemente — você dormiu bem?

— Muito bem — disse sem rodeios — eu tive muita pouca chance, você me esgotou.

Ele escorou a cabeça em uma de suas mãos e suas sobrancelhas sumiram por baixo do seu cabelo.

— Eu te esgotei? Eu pensei que Ashmara não gostasse de mentirosos.

— Isso foi o que disse para James Kirk — disse ela sorrindo, apreciando o modo pelo qual ele olhava o seu corpo por baixo das cobertas.

— É hoje que você irá com eles?

— Se eu for, eu não decidi ainda.

— Você deve ir, você tem que ir.

— Mas eles me disseram que um esper, assim que eles chamam as pessoas semelhantes a eu e você no tempo de meu pai, já foi atingido quase a ponto de morte pelo Guardião. E se eu for e não puder retornar?

Wynn respirou fundo, sentindo como se uma faca a tivesse atravessando, mas de alguma maneira tentou conservar sua expressão imutável.

— Então eu irei governar Araen por nós dois, tão bem quanto eu possa, meu Senhor.

Ela olhou para baixo e disse — E se eu tiver sorte, nossa filha ou filho irá governar depois de mim.

As feições de Zar se congelaram, e ela sentiu o choque através da fusão entre eles ainda que eles não estivessem se tocando.

— Nosso... filho? É isso possível? Ela fez um olhar coquete.

Você já se esqueceu? Tão cedo? Estou sentida. Ele se sentou, sua face parecia uma pedra, sua boca inexorável.

— Quero dizer é o tempo certo para você?

Wynn olhou para ele, estarrecida. O que pode estar errado?

— Sim, é — ela respondeu — e eu não tenho tomado nenhuma erva anticoncepcional. Se Ashmara decidiu me abençoar, há uma boa chance. Ela se sentou também, e puxou o cobertor para cobrir seus ombros.

— Por que você me olha assim desse jeito, Zar?

Ela podia sentir o medo no seu coração a bater, mesmo antes que ela com sua mão tocasse seu braço. Com o contato físico entre eles era tão forte que ela suspirou.

— Diga me, por favor! O que está errado?

Ele engoliu em seco, e ela pode sentir o esforço que ele fez para controlar sua reação. Ele disse em voz baixa.

— Eu estava pensando como ela morreu...

Wynn balançou a cabeça.

— Como eu a vi em sua mente ontem a noite, em meu sonho. Ela era uma mulher pequena e delicada, não era? E também não era forte?

Ele balançou a cabeça.

— A cabeça dela mal alcançava o meu peito.

— E aquele era o seu primeiro bebê, sim?

Ele balançou a cabeça novamente, evitando se virar em direção a ela.

— Meu querido — disse ela, acariciando as linhas do seu queixo — olhe para mim, os do meu povo são mais altos e maiores do que os seus moradores do vale. Eu sou alta, mesmo para meu povo, tão alta quanto Cletas, ou McCoy. E ninguém pode me chamar de frágil. Eu já dei à luz uma criança saudável... meu trabalho de parto durou menos de duas horas. Acredite em mim como curandeira e futura esposa, eu sei sobre esse tipo de coisa. Eu compreendo seu medo, mas eu não vou ceder. Qualquer risco não é nada comparado a alegria que nosso filho me trará.

— Mas... — ele começou, depois parou,encolhendo os ombros — Talvez você esteja certa.

Wynn tinha certeza, de qualquer modo ela não o tinha convencido. Ela pensou em continuar com o assunto, mas decidiu esquecê-lo. Ele ia ver, ela ia ficar bem.

Ela olhava-o na penumbra, o corpo musculoso do jeito que ele estava debruçado. O corpo musculoso que tinha sentindo nos seus braços. Pele lisa e cicatrizes... tantas cicatrizes, poucos guerreiros viveram o suficiente para ter tal coleção.

Ela tocou seu ombro direito, passando seus dedos nele, sentindo seus duros nervos abaixo da carne, percorrendo o espinhaço áspero.

— Como você conseguiu essa aqui?

Ele riu dele mesmo e levantou uma sobrancelha.

— Essas marcas de dentes? — disse ele impassível — obviamente alguém me mordeu.

Ela sorriu, e lhe lançou um olhar, com indignação fingida.

— Não, estou falando dessa aqui.

— A ponta de uma lança de um fora da lei. Esse foi o que me fez decidir que eu não podia adiar a invenção da cota de malha.

Ao seu olhar de incompreensão, ele explicou — Armadura feita de aço, o mesmo metal de que minha espada é feita. Mais forte do que couro cozido mesmo com reforços. Pode evitar o corte de uma arma de bronze.

A mente de Wynn estava longe.

—Você tem mais desse metal? Daria as nossas forcas uma grande vantagem-

— Eu posso equipar, talvez, duzentos dos seus soldados com espadas de açO — ele disse — e trezentos com lanças de ponta de aço. Mas não mais do que isso. Meus ferreiros têm trabalhado noite e dia por meses, somente para forjar armaduras e armas para minhas tropas.

—Nós também temos ferreiros — ela disse — poderia seu povo ensinar nosso povo a fundir esse novo metal?

— Se nós o fizermos por causa da batalha, nada me daria mais prazer — disse ele — Quando você acha que eles irão atacar?

— Tão logo que as águas do Redbank acalmem o suficiente para que os permitam cruzar com suas carruagens, eles virão — ela disse — Minha previsão é que será amanhã ou depois de amanhã no mais tardar.

— Isso está de acordo com meus últimos informes — Zar disse — Eu quero encontrá-los no planalto de Moorgate. Meus planos de batalhas precisam de espaço para a manobra.

Ela olhou com um olhar de repugnância e então beliscou o ombro dele.

— Táticas, estratégias de batalhas... conversa interessante para duas pessoas na cama, na manhã depois de seu casamento.

Ele sorriu com seu meio sorriso, alisando os cabelos do rosto dela. Então curvou-se para beijar seu pescoço no lugar em que se juntava ao ombro.

— Wynn... ontem eu lhe fiz aquela proposta, por que você não aceitou? Wynn, aconchegou-se mais perto dele, encostando seu rosto contra o peito dele.

— Eu não sei... não foi por sua aparência certamente.

Ela o escutou soltar a respiração naquilo que reconheceu ser um riso.

— Sério — ela disse — é difícil colocar em palavras. Naqueles primeiros momentos em seu estúdio, eu sabia que havia algo a nos juntar... como se nós fossemos peças cortadas do mesmo couro. Muito diferente no jeito em que fomos formados, mas criados do mesmo material. Eu não permiti a mim mesma, perceber o que sentia no início... mas sempre esteve lá.

Ele puxou-a para mais perto dele.

— Eu sei, mas eu somente comecei a reconhecer o que era quando o seu pai estimulo-me a te beijar.

— Eu fiquei furiosa com ele — disse Wynn, sorrindo ao lembrar.

— Eu notei.

— Você ira ajudar seu pai, meu Senhor?

Ele deu um suspiro profundo, seu braços apertados em volta dela.

— Sim, não tenho nenhuma escolha agora.

— Estou contente.

Wynn fechou os olhos pensando que breve, muito breve, eles tinham que se levantar e ele teria que partir e que ela talvez nunca o veria novamente.

Pare de pensar, disse a si mesma ferozmente, se concentre somente em sentir a pele morna e o espetar do cabelo dele abaixo de suas bochechas.

Ela desistiu por um momento, tentando se convencer (e quase... quase... teve sucesso) que nunca aquilo acabaria.

Zar estava sentado na sua escrivaninha estudando, checando suprimentos, requisições, quando Cletas entrou e o saudou.

— Aqui estão os últimos relatórios da inteligência, Majestade.

— Bom, eu convoquei uma reunião com todos os comandantes de tropas em duas horas, o Comandante Mason, Heldon, a senhora Wynn e o resto dos comandantes da Danreg também se unirão a nós.

Ele pegou as folhas de pergaminho e as estudou

— Então o Redbank não permitirá o cruzamento hoje... como Rorgan e Laol receberam a notícia de que Heldon está agora aliado a nós?

O "Segundo de Guerra" sorriu

— Como esperávamos, dava para ouvi-los a milhas de distância dentro da noite.

— Bom, se eles lutam entre si, eles não tem planos para essa batalha. Relato das catapultas.

— Nós já movemos duas, e moveremos mais duas hoje a tarde, e mais duas amanhã.

— O chão?

— Secando rápido, a cavalaria poderá se exercitar hoje a tarde. Zar respirou fundo.

— Então, eu suponho que nós estaremos tão preparados quanto possível. Eu quero que você pegue todas as armas de aço excedentes e as distribua para as tropas escolhidas por Lady Wynn, de acordo com as suas ordens.

— Sim majestade — Cletas hesitou — por falar nisso, eu não me encontrei com a senhora ainda hoje. Heldon mandou sua criada procurá-la essa manhã, mas quando eles foram para o aposento dela, elas disseram que ela não estava lá. Você... a viu?

O Sovren desconversou rápido, subitamente se lembrando de quem tinha desparafusado a comunicação da porta.

— Ela está tomando banho — disse ele — nos meus aposentos.

— Entendo... — Cletas disse com um tom cuidadosamente neutro. Zar levantou um sobrancelha em sinal de indignação.

— Você entende o que, Cletas?

— Nada majestade — disse o segundo, fervorosamente, — somente uma figura de linguagem.

Uma batida na porta salvou o segundo. Zar deu-lhe um olhar do tipo "Resolverei-esse-assunto-com-você-mais-tarde" e disse — Devem ser Zaylenz, Yarlev, Ingeu, Reydel e Trebor Damas. Eu os chamei para uma reunião, tenho algo importante a dizer a todos vocês.

Doutor McCoy gritou exultante.

— Você irá? isso é ótimo! eu sabia que você escolheria pela razão... espera até eu falar para Jim e Spock.

Zar ergueu uma de suas mãos.

— Não tão depressa, Leonard. Tão logo eu me reúna com os oficiais de Danreg. Eu irei com você mas retornarei a tempo para batalha.

McCoy sentiu como se ele tivesse sido esmurrado no estômago. Ele se sentou e então finalmente respirou fundo, procurando sua voz.

— Porque Zar? Você sabe o que irá acontecer... A boca do Sovren estava inexorável.

— Talvez, por outro lado, agora que eu sei sobre isso, talvez eu possa fazer algo para prevenir. Wynn acha que existe uma chance.

— E você esta me dizendo que está planejando arriscar sua vida com uma superstição idiota de uma sacerdotisa bárbara? — o doutor perguntou usando um tom crítico.

Os olhos cinzas eram quase sem cor na luz do sol. ,— Eu tenho que voltar aqui — Zar repetiu — e não se esqueça que você esta falando sobre a minha esposa, Leonard.

— Danação! Você é tão cabeça dura quanto seu velho! — McCoy, bravo, bateu com o punho na mesa. — O que te prende aqui? Ou você tem algum complexo de mártir?

Os lábios de Zar se comprimiram.

— O que me prende aqui é a razão pela qual eu tive que vê-lo... eis por que tive que falar consigo em primeiro lugar. Doutor, eu preciso de sua ajuda, por favor.

O oficial medico tomou um longo e lento fôlego, e depois soltou.

— Está bem, ele disse finalmente, o que posso fazer?

— Quando eu estiver a bordo da Enterprise, quero que você me esterilize.

— Esterilizar? — McCoy repetiu. Por um momento tudo que ele pode pensar, foi sobre Noward, aquele pequeno e estranho robô que eliminou um sistema inteiro de seres sensíveis, seguindo sua programação para "esterilizar". Aquela coisa havia quase matado todos eles.

— O que você quer dizer com esterilizar?

— O que você pensa que eu quis dizer? — perguntou Zar perdendo visivelmente o controle — eu nunca tive a chance de aprender sobre bio-controle dos vulcanos. Então eu quero que você faça, não importa o que faça, com que eu me torne infértil... incapaz de ser pai, quão mais explícito devo eu ser?

— Ok, ok. eu entendo o que você quer, mas porque? O Sovren não olhou nos olhos de McCoy.

— Eu receio pela Wynn.

McCoy relaxou, apoiando as costas na cadeira e ergueu uma sobrancelha.

— Oh eu começo a ver, tem tudo a ver com o "casamento por conveniência".

— Eu também quero que você leve consigo um tricorder para fazer uma leitura dela — disse Zar, seu rosto tornou-se em uma máscara impassível e se necessário dê-lhe algo.

— Algo o que?

Algo para evitar a concepção, droga! — Zar gritou — você precisa!

O doutor se sentou.

— Maldito seja se eu o fizer, você tem direito para com o seu corpo, e o mesmo acontece com Wynn. Eu deduzo que você... tem algo com que se preocupar?

O Sovren inclinou a cabeça.

— Bem... e como Wynn se sente a respeito dessa idéia? Ela quer o bebê?

— Sim e ela pode tê-lo, mas não comigo, ela pode escolher qualquer um que ela quiser, mas eu sou... há algo... errado... comigo, geneticamente.

— Quando eu examinei você 20 anos atrás não havia.

— Deve ter havido um erro no seu teste. Araen... — Zar engoliu em seco, lutando para se acalmar — Araen morreu como resultado do parto.

— Eu calculei.

— E minha filha também, ela viveu somente algumas horas, deve ter sido a miscigenação de minha raça. Meus genes de alguma maneira são defeituosos...

— Por um monte de razões eu duvido disso — o doutor disse gentilmente — em primeiro lugar, Araen teve uma gravidez normal?

— Pelo que eu sei... quero dizer, pelo que eu pude determinar, e pelo que as parteiras disseram e também por ter lido os relatórios médicos. Ela nunca foi forte, O pai dela disse-me que ela sempre foi fraca. Mas ela era tão feliz, tão cheia de vida, você não notaria nada.

— E o trabalho de parto?

— Ela não pôde — disse Zar trêmulo — ela esteve em trabalho de parto por 2 dias. A partir do momento em que ela começou a sentir as contrações eu comecei a ficar doente.

Ele respirou fundo e tossiu limpando a garganta.

— As parteiras tentaram de tudo, mas ela não conseguiu dilatar mais que alguns centímetros. Finalmente quando ela estava inconsciente, e eu sabia que ela ia morrer, não importava o que fizesse, eu fiz o que ela estava a me implorar por horas... eu peguei a minha faca e fiz uma cesariana. Eu... eu... foi muito difícil cortar suficientemente profundo... no inicio, e eu que pensava que estivesse acostumado com o sangue nas batalhas, mas...

— Eu entendo, acalme-se filho. Mas o que faz você crer que tenha sido sua culpa? A criança era malformada?

Zar tinha apoiado sua cabeça nas mãos e não olhou para cima.

— Não, exteriormente ela era perfeita, ela só não respirava propriamente.

— Mirrada, prematura?

— Não, as parteiras disseram que era um bebê de bom tamanho.

— Bem... é impossível dar um diagnóstico completo e preciso em um caso como este, claro, mas me parece que o infante era muito grande para o canal do parto, não é um problema incomum, especialmente considerando que Araen era uma mulher pequena. E depois de um trabalho de parto longo o bebê simplesmente não teve forças para sobreviver.

Zar olhou para ele sem palavras.

— Você está me ouvindo? — McCoy olhou firme para o jovem — eu descobri algo nessa viagem que eu não sabia antes. O povo desse mundo provavelmente é uma evolução da mesma Unha de existência básica dos Vulcanos e dos Rigelianos — o doutor explicou rapidamente a teoria de Spock.

Zar olhou pensativo.

— Isso esclarece muitas coisas que me eram confusas desde que eu o conheci. Eu fiquei muito surpreso, por exemplo, ao descobrir que o sangue humano era vermelho. Eu nunca tinha visto tal coisa antes.

— Mas a coisa mais importante é que não há nenhuma razão para achar que você e Wynn não podem ter filhos — McCoy disse. — O que aconteceu com Araen não foi causado por algum defeito nos seus cromossomos. Foi uma tragédia, sim, mas não foi culpa de ninguém. Se você quiser eu lhe darei um relatório genético completo. Mas eu sei o que vou encontrar — disse meio rude — se você ainda quer que eu faça, eu farei o que você me pede.

— E Wynn? e se ela já estiver...?

— Se ela já estiver grávida e quiser o bebê, o risco é dela... a decisão é dela. Mas francamente, de acordo com a leitura que fiz com meu tricorder nela ontem, diria que não se preocupe, ela é forte e saudável — sorriu confiante.

Zar inclinou a cabeça, no entanto McCoy sabia que ele não tinha se convencido.

— Tudo bem, Leonard obrigado.

— Por nada, filho — O doutor se levantou — eu direi a Kirk e Spock que temos um encontro com um certo Portal enfermo.

 

James T. Kirk entrou na sala e encontrou Spock de pé, suas mãos estavam juntas para trás , olhando fixamente para a janela.

— Magro disse que Zar concordou em retornar conosco e tentar contactar o Guardião.

O vulcano se virou e a luz vermelha vindo do sol salientou o seu rosto no que parecia uma máscara satânica.

— Ele disse se permanecerá em nosso tempo? Kirk balançou a cabeça relutantemente.

— Ele disse que voltará em tempo para a batalha, e ele não cederá. Spock olhou para longe, seus lábios se comprimiram.

— É um direito dele.

— Mas talvez nós ainda possamos convencê-lo a passar um dia ou dois a bordo da Enterprise... se lembra como ele gostou da nave?

— Sim, mas eu também me lembro que Zar é um indivíduo muito cabeça dura.

Kirk tossiu.

Bem... a fruta nunca cai muito longe da árvore, como diz o ditado. U vulcano levantou uma sobrancelha e Kirk traduziu — eu diria que ele e assim por herança.

— Você por acaso está insinuando que eu sou cabeça dura, Jim?

— Uh... bem, sim. Mas embora isso não seja uma boa qualidade, algumas vezes — Kirk adicionou apressadamente — já salvou minha pele mais de uma vez.

O vulcano retorceu a boca.

— Você tem razão, eu sou cabeça dura, e por falar nisso, você é também.

— Quem? Eu? — Os olhos da cor de avelã de Kirk se arregalaram. Então o almirante soltou um riso — Você tem razão, como sempre.

Eles se levantaram ao mesmo tempo assistindo ao deslizar do disco escarlate de Beta Niobe, se afogando no pico do Big Snowy.

— Magro me disse que ele está preocupado sobre se Zar está a par de tudo isso... ele está sob muita pressão, tentando deixar as coisas acertadas por aqui. Nós estamos fazendo a coisa certa pedindo a ele que venha conosco e desafie o Guardião? E se ele não suportar?

— A mesma preocupação está em minha cabeça — disse Spock — Especialmente tendo em vista o que aconteceu com D'berahan. Zar não tem tido tempos fáceis por aqui.

— Eu também acho — a voz do vulcano era severa.

— Mas nosso dever é restaurar o Portal do Tempo usando qualquer método possível. Zar concordou em tentar, portanto nós não temos nenhuma outra escolha que não seja deixá-lo.

— Eu suponho que sim — Kirk concordou, relutantemente. Hesitou e então, num impulso, perguntou — Spock... você já pensou se você fez a coisa certa ao contactar Zar?

O vulcano ergueu uma sobrancelha em sinal de surpresa e o almirante impacientemente balançou a cabeça.

— Não, não foi o que quis dizer, claro que você fez a coisa certa! Zar estava sozinho naquele deserto gelado sem nenhuma chance de uma vida normal. Mas... supondo que ele tivesse tido uma vida normal. Escola, um emprego, amigos, parentes...

Kirk se virou para fitar através da janela, assistindo os primeiros raios de escuridão arrastar-se por baixo das curvas da montanha — Nesse caso, você acha que é... justo... para um pai contactar um filho adulto? Alguém que ele somente viu algumas vezes, mas a quem nunca disseram quem era seu pai?

O almirante sentiu o olhar preocupado do vulcano, mas não se virou de onde estava... ele não conseguiu fazê-lo.

— Eu não sei, Jim — Spock disse finalmente.

— Nem eu — Kirk suspirou.

Depois de um longo momento, ele sentiu um leve toque no ombro.

— Jim... existe algo em que posso ajudá-lo?

O almirante respirou fundo e se virou para encarar o amigo, ajeitando os ombros.

— Acho que não, Spock, vamos encontrar Zar e acabar logo com isso.

O Sovren tinha obviamente acabado de concluir sua breve sessão, quando os dois oficiais chegaram a sua sala. Heldeon estava a meio caminho em direção a porta, seus braços ao redor de Wynn e comandante Madon ao seu lado. O resto dos oficiais Danreg e Lakreo os seguiam. Kirk e Spock inclinaram suas cabeças para o chefe Danreg, e então entraram.

McCoy estava sentado sobre a grande mesa embutida, conversando com Zar, que estava rodeado por mapas, diagramas táticos e listas. Spock entrou e imediatamente mergulhou no estudo dos planos de batalha.

— Pronto para partir? — Kirk perguntou ao Sovren.

— Tão logo eu diga adeus para Wynn — disse Zar. Ele se levantou e deixou a sala, aparecendo um momento mais tarde com a Sumo-Sacerdotisa. O olhar aguçado de Kirk os observava, nem Zar nem Wynn se tocaram ou olharam um para o outro ao entrar na sala, mas algo havia mudado entre os dois...

Uh, o almirante percebeu, eu suspeito que esse matrimônio não pertence mais a categoria de "Somente para constar". Isso realmente complica as coisas. Kirk olhou para McCoy por cima da cabeça de Spock com um olhar indagador e o doutor, adivinhando os seus pensamentos, balançou a cabeça em um sinal afirmativo.

— Está partindo agora? — Wynn perguntou levemente.

— Em alguns minutos — Zar disse.

— Posso ver você partir?

Seu marido balançou a cabeça em afirmação.

— Eu não acho que essa seja uma boa idéia, o guardião não está funcionando corretamente, há uma chance de que você seja sugada junto conosco.

Ela levantou o queixo.

— Está bem, ela hesitou, e continuou, sua voz cuidadosamente controlada, meu Senhor, eu tenho esperado que Ashmara me desse conhecimento sobre se você deverá voltar ou não, mas ela continua em silêncio. Eu não tenho nenhum modo de saber o que é melhor... para você, então você deve decidir.

— Não se preocupe — disse Zar carinhosamente — eu voltarei.

Ele levantou a mão para tocar o rosto dela, e virando a cabeça ela beijou as mãos dele.

— Eu sei — ela disse firmemente. Virou-se e saiu da sala com a cabeça levantada.

Zar ficou a observá-la até que o guarda fechasse a porta e depois olhou para Kirk.

— Tudo bem, vamos.

O almirante deu uma olhada para seu ex-primeiro oficial, que continuava atento aos planos de batalha. Tossiu discretamente e, então, quando o outro não respondeu, chutou a perna da cadeira com sua bota...

— Spock?

O vulcano olhou para cima.

— Sim almirante?

E hora de ir. Nós temos um universo para salvar.

 

Assim que seus pés chocaram-se com o solo cinzento de Gateway, a mente de Zar encheu-se de um terrível e ecoante vazio. Ele vacilou, sua perna ruim cedeu e então estava de joelhos e mãos no chão, tentando respirar.

Wynn! Não!

Ela se fora, apagada, como se nunca houvesse existido. Uma obliteração escura instalou-se em seus olhos e ele não tinha forças para combatê-la.

— Zar! - Ouviu McCoy gritar e então: - Segure-o, Jim!

Mãos agarraram seus ombros e a voz de Kirk, rouca de alarme, encheu seus ouvidos: - Spock, o que há com ele? O mesmo que com D'berahan?

— Eu Não sei...

— Spock, Jim, virem-no para que possa respirar...

Dedos vulcanos tocaram o lado de seu rosto, então a voz de Spock soou tensa: - Deveria ter pensado nisso. Ele perdeu contato com Wynn repentinamente ... nesse local e tempo ela está morta. Você sabe o choque que é para o sobrevivente de um elo, Jim.

A escuridão o inundava em ondas, cada uma mais forte que a anterior. Com um suspiro final, Zar permitiu que elas o tomassem.

Mas, mesmo enquanto fazia isso, uma luz brilhou em sua mente, e uma presença familiar cresceu, preenchendo o vazio. Wynn está esperando por você - ela dizia sem palavras. Ela Não está morta... ela está apenas do outro lado desse portal. Você prometeu voltar para ela...

Sim - ele pensou, lembrando-se. Eu prometi...

Respire - instruiu a presença de Spock. - Eu ajudarei.

Com esforço, Zar respirou fundo e mais uma vez e, enquanto fazia isso, a escuridão diminuiu e desapareceu. Ele ainda sentia a ausência de Wynn, mas agora que compreendia o que acontecera, podia afastar o vazio desesperador. Então, com uma força que o deixou tonto e enjoado, ele estava de volta a seu corpo, ouvindo o gemido do vento desolado de Gateway, sentindo o chão frio sob ele.

Zar abriu os olhos para encontrar Spock debruçado sobre ele.

— Está bem agora, filho? - A voz de McCoy perguntou e Zar virou a cabeça para ver o médico, com Kirk acocorado ao lado.

— Eu estou bem - tentou dizer, mas sua língua estava dormente e não queria cooperar. Em vez disso, balançou a cabeça em concordância.

Depois de um momento tentou sentar-se e eles deixaram. Spock estudou seu rosto intensamente, sua própria face ainda pálida pelo esforço do elo mental. — Sinto muito - Spock disse. — Eu deveria tê-lo avisado. Mas não percebi que você e Wynn estavam ligados.

— Não foi sua culpa - Zar disse, sua voz ainda ininteligível. — Eu também não sabia. É assim que chamam, quando a mente de alguém está sempre ali, no fundo da sua? Araen não era uma esper, então meu... contato... com ela era diferente.

Seu pai concordou. — Sim. Em Vulcano, quando um dos parceiros de um elo morre, a família se une mentalmente para oferecer apoio até que o parceiro sobrevivente ajuste-se à perda.

Zar balançou a cabeça, tentando clareá-la, então seus olhos abriram-se alarmados. — Wynn! - Disse. — A mesma coisa lhe aconteceu? Não há ninguém para unir-se com ela!

— Eu não sei - Spock disse. — Mas a solução é você voltar apenas um momento após sua partida. Nesse caso, ela mal teria tempo de perceber sua ausência.

— Se o Guardião cooperar - Zar murmurou, virando-se para olhar o Portal do Tempo. - Vou me levantar.

Ainda trêmulo, ele ficou de pé e limpou-se. Lentamente, mancou de um lado para o outro, sentindo suas pernas firmarem-se vagarosamente. Sua mente clareou, acalmou-se. A falta de Wynn ainda era um vazio dolorido dentro dele, mas agora era capaz de isolar a dor, ignorá-la para que pudesse se concentrar na tarefa do momento.

Finalmente, parou diante do portal e ficou firme contra o vento frio, sua capa escarlate balançando a suas costas, encarando as estrelas através da abertura central. Lembranças de última visita a Gateway corriam por sua mente.

Bem à direita podia ver o afloramento de rochas onde ele e Spock haviam se escondido dos romulanos, encolhidos em um pequeno espaço por horas. Mais adiante ficava o local onde lutara com Tal, o líder romulano. E onde estava agora fora o local onde Spock unira sua mente com a dele, para contar a verdade sobre o encontro do vulcano com Zarabeth... como dividiram algo muito especial. Que Spock, naquele tempo, a sua própria maneira, a amara.

Foi quando ele me disse que tinha orgulho de mim...

Zar voltou-se ao ouvir um ruído agudo familiar. — Kirk para Enterprise - o almirante dizia. O homem mais jovem ponderou onde ele conseguira o comunicador e decidiu que deveria tê-lo pego depois que voltaram.

— Enterprise. Scott falando.

— Há quanto tempo partimos, Scotty?

— Cerca de 15 minutos, almirante. Acharam o rapaz?

Kirk olhou para Zar com um sorriso torto. — Não pode mais chamá-lo de rapaz, mas sim, nós o encontramos.

— Bom. Devo transportá-los agora, senhor?

— Não. Já que estamos aqui, faremos a tentativa agora. Se eu não contactá-lo em uma hora, ou se as ondas de tempo reaparecerem, tire a Enterprise do sistema e contate o Almirante Morrow para mais instruções, Scotty. Entendeu?

— Sim, almirante. Boa sorte, senhor.

— Obrigado, Scotty. Desligo.

Zar aproximou-se da estrutura monolítica de pedra; agora ele estava à distancia de toque do Guardião. Ouviu o macio roçar de rochas sob o salto de botas e virou-se para encontrar Spock ao seu lado. Ele tentou sorrir para seu pai, mas sua boca estava tão seca que mais pareceu uma careta. — É constrangedor admitir, mas estou com medo - ele murmurou.

— Lógico, devido as circunstâncias. Assim como fiquei - Spock disse.

Rápido, antes que pudesse mudar de idéia, Zar colocou ambas as mãos na pedra.

Foi como segurar seu tricorder - nada consciente respondeu à sua cuidadosa sonda mental. Nada mesmo.

Não está certo, - Zar pensou, sondando mais fundo. Quando eu o toquei antes, estava vivo - mesmo tendo sido construído artificialmente, era autoconsciente.

Ele encostou sua testa contra o portal, entre seus dedos abertos, e tentou de novo, esforçando-se completamente para passar. O mundo exterior evanesceu, tornou-se difuso e remoto, então desapareceu complemente.

Era como se ele estivesse (mas sem um corpo físico) dentro de uma caverna negra quase infinita, onde ocasionais raios de luz iluminavam, então diminuíam, sem qualquer padrão que ele pudesse perceber. Sua mente era uma pequena flecha de luz branca, tentando encontrar seu caminho através de um imenso labirinto invisível.

O verdadeiro Guardião deve estar aqui em algum lugar, ele pensou. Afinal, ele está preso a seu corpo físico, assim como eu. Ou não está?

Fachos de luz explodiram ao lado dele, ou através dele, mas os "pensamentos" que representavam eram estéreis e artificiais, criados por uma máquina, lembrando Zar da descrição de Vger feita por Spock.

Onde está? Ele pensou, mandando sua pequena flecha de luz mais rápido, movendo-se profundamente no labirinto ilimitado. Onde?

Zar afastou barreiras, seguiu por passagens sem saída, examinou caminhos escuros, procurando...

Agora estava tão fundo na porção máquina da entidade que ele corria o perigo de se perder - o elo entre seu corpo físico e sua mente ficava perigosamente estreito. Não posso ir muito mais adiante... tenho que encontrá-lo logo. Onde?

Desejou ter pedido a Spock que se unisse com ele. O vulcano poderia ter amplificado a conexão entre seu corpo e sua mente... mas era muito tarde.

Não posso... ir... muito mais longe...

...O que é isso?

Ao longe, ele "viu" alguma coisa diferente - rápidos pulsos de luz dourada esticando-se até o infinito. Eles diminuíam enquanto Zar os observava. Ele jogou-se para eles, rezando para que seu próprio elo corpo-mente agüentasse.

Consegui!

No momento em que "tocou" a luz dourada, Zar soube que atingira seu objetivo. O calor, a consciência, mesmo o humor pertencente a um ser vivo e autoconsciente - ele localizara o Guardião.

Imagens caóticas dançaram em sua mente, assaltando-o com suas formas alienígenas - ele teve que se afastar, escudando sua própria consciência, temendo ser arrastado, sua própria identidade submergida pela vasta e antiga mente que tocava agora.

Guardião? - ele projetou o pensamento. - Há um problema. O tempo não está seguindo corretamente. Volte comigo. Você deve retomar seus deveres.

Nenhuma resposta.

Os brilhos de luz tornaram-se mais finos... finos...

Alarmado, Zar percebeu que o próprio Guardião corria perigo de se perder nesta... dimensão? Plano? Não havia palavras para descrever essa imensidão - e ele sabia que não poderia continuar seguindo a entidade temporal muito mais. Seu próprio elo corpo-mente estava muito frágil...

Guardião! - Ele exigiu, jogando o pensamento como o faria com um golpe de espada. Ligue-se a mim! Eu sei o caminho de volta!

Um pequeno brilho de consciência...

Sim! - Insistiu. Eu sei o caminho de volta. Estive procurando por você. Venha comigo, antes que se perca!

IMPLEMENTANDO SUB-ROTINA PRIMÁRIA PROGRAMADA "UNIVERSO/DIMENSÃO/CONTINUUM DA ORIGEM - ENTER" PARA FACILITAR A VOLTA DO SER E ORIGINADORES DO LOCAL DE DESLOCAMENTO TEMPORAL. GUIA AGORA DISPONÍVEL.

Zar captou apenas fragmentos do processo mental do Guardião, mas compreendeu o bastante para saber que ele estava aceitando sua proposta. O mais suavemente possível, ele reverteu sua "direção" e seguiu de volta.

Quase imediatamente, soube que tinha problemas. A energia que expedira para alcançar o Guardião lhe deixara muito pouco de reserva. Era como nadar contra uma corrente violenta... ele prosseguia, mas seu elo corpo-mente estava tão fraco que encontrá-lo para voltar era muito difícil. Zar lutou, tentando não se apavorar, usando as disciplinas mentais vulcanas que Spock lhe ensinara há muito tempo para ajudá-lo a focalizar sua energia e acalmar sua mente.

Serenidade... paz.

Brilho de estrelas, água gelada, sombras e areia...

empenhe-se sem ansiedade, focalize o esforço, utilize a energia... as regras da mente... as regras da mente...

Ele estava fazendo progressos, mas tão lentamente! E o elo estava desaparecendo, mesmo enquanto ele tentava juntar força o bastante para renová-lo... desaparecendo...

Repentinamente, a força estava lá, sua para ser usada - não sua própria energia, mas de outro. Por um louco momento, Zar pensou que o Guardião reconhecera o perigo e o estava ajudando, mas enquanto usava essa outra força, ele a reconheceu como a de Spock.

E claro que ele estava monitorando... eu deveria ter percebido...

Ele estava se movendo de novo, cada vez mais rápido, enquanto seu elo corpo-mente era renovado. Movendo-se - e o Guardião ainda o seguia.

A escuridão à sua volta tornou-se menor...

Ele estava - de volta!

Gradualmente, Zar tomou conhecimento da dureza da pedra contra suas mãos e rosto, e da pressão dos dedos do vulcano em sua testa. Ele podia ouvir o vento, sentir seu toque frio. Abrindo os olhos, ele viu a rocha cinza azulada, e as ruínas através da abertura central.

O Sovren respirou com alívio, mesmo enquanto suas pernas ameaçavam ceder sob seu peso. Apoiando-se contra o Guardião, ele afastou-se do mo-nólito de pedra. Enquanto fazia isso, Spock afastou suas mãos. Zar virou a cabeça, encontrou os olhos de seu pai, escuros e exaustos em uma fisionomia abatida e cansada. Ele tem a aparência de como eu me sinto!

Zar engoliu um pouco da secura de sua boca, então abriu-a para agradecer ao vulcano por resgatá-lo... bem no momento em que o tecido do universo a volta deles explodiu em milhões de pedaços insanos.

Eu estou enlouquecendo, - foi seu primeiro pensamento, quando recuou, fechando os olhos, jogando os braços sobre o rosto, tentando esconder-se da sedutora barragem de cores que explodiam agora do Portal do Tempo. Cor e som - gosto e cheiro estavam todos juntos, misturados e correndo como pigmentos solúveis em água em uma palheta segura sob uma queda d'água.

Várias vezes Zar fora ferido tão gravemente que delirara antes de recobrar a consciência... isso era um pouco assim, mas infinitamente pior. Ele gemeu em dor, ouviu o suspiro agonizante de Spock, então deu uma olhadela e viu o vulcano dobrar-se e cair de joelhos, evidentemente cegado pelas estridentes brilhos de cor.

Ainda protegendo os olhos, Zar cambaleou para a frente, fez um gesto selvagem para alcançar o braço de seu pai e puxou-o para cima. Dez passos trôpegos e cambaleantes, então empurrou Spock na proteção de um a parede desmoronada e seguiu-o.

Uma vez fora da visão do Guardião, o assalto mudou, invadindo a mente de Zar com completo desrespeito por sua individualidade, sua sanidade - para não mencionar sua privacidade. Ele lutou para permanecer consciente, mas não poderia dizer se fora ou não bem sucedido... era como ser jogado, acordado, em um pesadelo infinito:

Trovão explode e asas de insetos sussurram, dissolvendo em pingos de ácido vermelho e água-marinha gelada... deixando o gosto amargo e cúprico de sangue em sua boca para enviar sarcásticos beijos descendo por sua pele...

...mesmo enquanto o cosmos se formava a sua volta, expandindo para fora a partir de um único ponto matemático contendo massa quase infinita para fervilhar em um vórtex, uma prole de galáxias embrionárias, cada uma fugindo a velocidades terríveis...

...e ele nasceu e morreu em um único instante, sua mente simultaneamente esmagada e expandida, peneirada e jogada de lado, tudo que ele era, tudo por que lutara, reconhecido e rejeitado por intelectos tão acima do seu próprio quanto ele o era acima de um inseto - deixando-o vazio, esvaziado, humilhado...

...para encarar, completamente hipnotizado, um universo unidimensional laranja cheio de pontos verde-jade, que começaram a tremeluzir e oscilar, agigantando-se e retraindo-se, então ele avançava em velocidade de dobra para um buraco negro em contração no espaço, para uma radiante e bem-vinda luz. Estou morto, ele pensou, com uma certeza inabalável. Os metafísicos do século vinte estavam certos...

...mas quando atingiu a Luz e percebeu que era apenas um Portal para algum outro lugar, ele fechou-se com uma batida que o vez recuar, deixando-o no escuro, eternamente sozinho e abandonado, perdido além de qualquer alcance, perdido, perdido...

Zar retornou à consciência devagar. Percebeu que estava esparramado no chão com o rosto para baixo, sua cabeça e peito descansando sobre algo quente e vivo, sua barriga e pernas sobre algo frio e não-convidativo. Respiração difícil e gemidos baixos misturavam-se ao som do vento. Os dentes de Zar morderam seu lábio inferior quando ele tentou mover seus braços, e os gemidos pararam. Só então percebeu que era ele que os fazia.

A respiração difícil e cheia de dor vinha de Spock, que estava encolhido sob ele. Zar levantou-se rapidamente, percebendo que deveria ter atirado o vulcano e então caído sobre ele quando o pior - do que quer que fosse -viera.

Ajoelhado, ele virou o outro cuidadosamente, espanando gentilmente um pouco da sujeira cinza das feições austeras. — Pai? - Sussurrou rouca-mente. — O senhor está bem?

Passou-se quase um minuto antes que Spock abrisse lentamente seus olhos e mais outro antes que eles se tornassem racionais. Ele tossiu, tentando abafar o som e Zar o sustentou. — Jim? McCoy? - Perguntou finalmente, sua voz baixa e rouca.

— Eu não sei - Zar respondeu. — Eles estavam bem mais longe do que nós... - Por um momento ele sentiu-se tentado a gritar pelo almirante e o médico, mas reconsiderou. Poderia não ser uma boa idéia informar suas posições e o fato de que ainda estavam vivos. — Não gosto do som desta tosse - continuou, mantendo a voz baixa. — Seu peito está bem?

O vulcano concordou com a cabeça, limpando a boca. — Apenas poeira. - Sua voz era um sussurro rouco. — Eu... a inalei quando você caiu sobre mim. Tirou minha respiração.

— Sinto muito. Pode mover seus braços e pernas?

Spock tentou, enrijecido. — Sim - respondeu, sua voz ficando mais forte. — Essencialmente, não estou machucado. E não se desculpe. Suspeito que pode ter salvo minha vida. Embora, ele reprimiu um gemido enquanto lutava para sentar-se, só conseguindo fazê-lo com a ajuda de Zar. — Eu não gostaria de repetir a experiência. O que aconteceu?

— Não sei. Eu estava pronto para agradecer-lhe por me trazer de volta, salvando assim a minha vida, quando algo saiu do Portal. Lembro-me de ter tropeçado e tirado-o do alcance e, é só. Exceto por várias... alucinações. Umas... bem... perturbadoras.

Spock concordou. — Você também?

Zar enrugou a testa. — O problema é: o que faremos agora? Localizamos Jim e McCoy. Você viu meu tricorder?

— Não - o homem mais jovem rastejou para espiar o Portal do Tempo. — Sim. Está caído perto do Guardião.

— Vê algum sinal de nossos atacantes?

— Nada visível ali. Mas isso pode não significar nada. Não creio que essas... coisas... tenham corpos físicos.

— Pode alcançar o tricorder?

— Eu acho... que sim...- Enquanto falava, Zar deitou de barriga e arrastou-se até perto do Portal do Tempo. Finalmente, quando estava sem proteção, esticou o braço, deu uma rápida corrida e voltou apressado para o esconderijo. — Peguei.

O vulcano pegou o instrumento e estudou suas leituras por um instante, então mexeu a cabeça, obviamente aliviado. — Estou captando duas vidas humanas. Jim e McCoy.

— Quanto aos outros? Aqueles de dentro do Guardião?

— As leituras estão flutuando... as vezes parece haver surtos de energia próximo ao portal... mas não é um tipo de energia que eu tenha encontrado antes. Outras vezes, as leituras são próximas de matéria... mas há diferenças. - Ergueu a sobrancelha. — Fascinante. Agora estou captando leituras que mostram uma estranha ambigüidade em algum lugar entre os dois estados.

— Onde estão Jim e Leonard?

— Por aqui - o vulcano acenou para além de uma pilha de ruínas. — Nós deveríamos... - ele se interrompeu, ouvindo.

— Zar - uma voz quente e feminina chamou. — Spock? Sinto pelo que aconteceu, não foi intencional. Por favor, saiam.

Eu estou morto, Zar pensou, sentindo o sangue sumir de seu rosto. Ou louco.

Mordeu o lábio com força, dizendo-se que ele não poderia estar ouvindo esta voz em particular. Então viu a expressão de Spock e percebeu que o vulcano também ouvira. Alucinação coletiva? Ou nós dois estamos mortos?

— Isso soou como... - Spock começou, então balançou a cabeça, enrugando a testa. — Eu devo estar errado.

— Não está — Zar lhe assegurou. — Não sei como isso pode acontecer, ou por quê, mas aquela voz foi a única que ouvi em meus primeiros dezenove anos de vida. Eu não poderia me enganar.

O coração batendo em uma selvagem mistura de esperança e apreensão, ele levantou-se para espiar de novo.

Zarabeth.

Ela estava parada a cerca de vinte passos do Guardião da Eternidade, seu cabelo pálido alcançando os ombros de sua jaqueta de pele, seus olhos azuis examinando ansiosamente a área a sua volta. Com um gesto tão familiar que doía em Zar observá-lo, ela levantou a mão para afastar um punhado de cabelo agitado pelo vento. — Zar? - Ela chamou ansiosa. Filho?

O Sovren caiu de volta contra a rocha, a palma das mãos pressionadas contra seus olhos. — É sim. É mamãe. Zarabeth está parada bem em frente ao portal.

Num instante Spock movera-se, passando por ele, observando por um longo momento, então virou-se de costas, jogando-se contra a parede, como se ele também, precisasse de apoio. O vulcano esfregou as têmporas cansadas. Passou-se quase um minuto antes que ele falasse e, quando o fez, havia um traço de dor antiga em sua voz. — Zar, você sabe tão bem quanto eu que Zarabeth não pode estar lá.

Raiva acendeu-se. — Por que não? - Zar exigiu. — Ela saiu do Guardião, não saiu? Talvez ele tenha voltado e a pego antes que ela... antes. — O Sovren espiou seu pai, teimosamente se recusando a tomar conhecimento do que ele já sabia subconscientemente ser verdade.

Spock apenas o encarou de volta, sem palavras.

Finalmente, Zar afastou o olhar e suspirou. — Está certo, maldito seja. Mas ela parece tão real. Exatamente como me lembro dela, em seu último amanhecer, quando ela ficou parada na boca da caverna, acenando. Eu a deixei adormecida, e minha mente estava na caçada, então eu não voltei para me despedir adequadamente... o senhor pode imaginar o quanto me arrependi disso mais tarde...

O olhar do vulcano endureceu. — Prova maior de que fomos presenteados com uma ilusão. Eu a vi como era quando eu me despedi dela, quando ela era vinte anos mais jovem do que a Zarabeth que você acabou de ver.

— Spock? Zar? Por favor, precisamos conversar.

O Sovren piscou e resistiu à necessidade de cobrir suas orelhas com as mãos. — Está dizendo que a imagem que nós dois vimos foi extraída de nossas mentes. Que os... seres... que saíram do Portal do Tempo nos deram uma ilusão que nós dois reconheceríamos.

— Sim.

— Para nos fazer sair e acabar conosco?

O vulcano balançou a cabeça. — Acho que não. Se eles nos quisessem mortos, nós já estaríamos mortos. Seu poder mental está... além de qualquer coisa que eu jamais encontrei. Acredito que em vez disso, nós fomos vítimas de algum tipo de coice não-intencional causado por sua chegada através do Guardião, e um deles está usando a forma de Zarabeth para nos acalmar.

— Então, o que está sugerindo? - Zar perguntou, levantando uma sobrancelha. — Que nós simplesmente saiamos daqui?

— Sim, acredito que essa seria a atitude mais sábia, - Spock disse, tranqüilo.

— Zar? Spock? Por favor...

— E eu preocupado de que eu estivesse louco - Zar murmurou.

— Eles podem nos encontrar, mesmo se tentarmos nos esconder – seu pai indicou. — Entretanto, uma demonstração de confiança e boa vontade Pode melhorar nossa situação. - Spock levantou e começou a limpar-se. — Espero apenas espero que Jim ainda esteja com seu comunicador e tenha entrado em contato com o Sr. Scott. Seu limite de uma hora acabou há nove minutos e trinta e cinco segundos atrás, e eu não tenho qualquer desejo de ficar ancorado aqui em Gateway.

— Nós podemos voltar a Sarpeidon através do Guardião - Zar comentou, limpando a poeira de sua capa. Olhou para o vulcano, sem expressão. — Estou sempre necessitado de bons oficiais. Quer um emprego? Pode lidar com uma espada?

A boca de Spock torceu-se. — Posso, embora seja melhor com antigas armas vulcanas. Vamos.

Juntos, saíram detrás da parede, e seguiram para a mulher parada diante da entidade do tempo.

— Zar! Querido, senti tanta falta sua! - Ela correu para eles. — Spock, encontrei-o de novo!

A despeito de sua decisão de não-avançar, Zar viu-se dar um passo ou dois para frente. Enquanto "Zarabeth" o alcançava, ele moveu-se para frente, determinado a segurá-la, assim destruindo sua ilusão brutalmente, e então censurar as criaturas que lhe deram esse momento de esperança cruel.

Suas mãos encontraram carne viva e um momento depois ela estava em seus braços, abraçando-o freneticamente. — Zar! Filho!

A boca de Zar abriu-se de pura surpresa. Ele se convencera que iria abraçar apenas ar. Por sobre seu ombro, viu Jim Kirk e Leonard McCoy saírem das ruínas e andarem até o lado do vulcano. Todos eles, mesmo Spock, traziam expressões parecidas com a sua.

Ela era tão perfeita, a cor de seu cabelo (mechas brancas misturadas livremente com o dourado, um pálido e sedoso capacete); o toque de sua parka de pele (pele branca de um bardok, que ele mesmo lhe fizera, como presente); até mesmo seu cheiro (fumaça de óleo e ervas doces).

Zar permitiu-se um último abraço, então ele beijou a face suave gentilmente e afastou-se. — Obrigado - disse, mantendo a voz firme com esforço. — Eu nunca pude dizer adeus corretamente a ela, mas agora sinto como se o tivesse feito de algum modo. Agora, por favor... quem é você?

"Zarabeth" olhou-o, então virou-se para os outros.

— Eu, bem, eu não sou um "eu", estritamente falando... mas algumas vezes, sim, eu posso ser... - ela pareceu estar discutindo com ela mesmo.

— Suponho que possa simplesmente dizer "eu", certo?

Zar lançou um olhar enviesado para Kirk e Spock, então sacudiu os ombros. - Certamente.

— Eu criei este mundo... — o ser disse, olhando em volta, como se notando pela primeira vez o monte de ruínas, a desolação e a noite perpétua.

— Ora, ficou acabado, não é? Onde estava eu... nós? Sim... minha - nossa

— criação, tudo isso. Incluindo o... Ela franziu a testa, olhando para o Portal do Tempo. - Como você chama a si mesmo?

— O Guardião da Eternidade - a entidade temporal respondeu, sua voz profunda reverberando e de algum modo... contente.

Você construiu o Guardião? - Kirk perguntou, tentando manter o ceticismo longe de sua voz.

— Sim... isso é, bem... ele construiu a si mesmo, na verdade. Nós apenas definimos os parâmetros e providenciamos a... não há palavras em sua língua... "programação" inicial chega perto o bastante, eu acho.

Enquanto a alienígena falava, Zar recuou para ficar próximo aos outros. _ Você está bem? - Sussurrou para McCoy.

— Estou, - o médico respondeu, sotto você. - Nós não estávamos tão perto quanto vocês dois. No minuto que aquelas cores malucas explodiram, procuramos abrigo. E aparentemente, pelo que Spock acabou de nos contar, aquele contato mental foi muito mais devastador para qualquer um com habilidades, esper do que para nós.

— Não derrubou vocês?

— Não. Só nos sacudiu um pouco. Jim chamou Scotty e pediu que aguardasse. Estávamos saindo para procurá-los quando vocês dois saíram das ruínas.

— Por que você criou o Guardião? - Kirk estava perguntando. — E quando o criou?

— Quando? - "Zarabeth" olhou a volta vagamente. — Quando nós fizemos? Não posso dizer... mas eu posso... sim, conte-lhes... por que deveríamos contar a eles qualquer coisa! — A criatura franziu a testa. - Não me confundam, por favor. Você está sempre confusa!

Zar ouviu a alienígena discutir com si mesma e percebeu que quisera dizer "nós" bem literalmente. Eles estavam conversando com um vasto número de personalidades diferentes.

— Agora, o que eles querem? - A criatura perguntou, desamparada.

Pareceu escutar. - Sim. Bem, nós criamos o - o que era isso? - o Guardião - porque este universo tinha ficado tão pequeno, sabe. Não havia mais nenhum desafio, nada para ver ou fazer. Havia muitos mais de nós naqueles dias... quando não havia tantas estrelas e galáxias como há hoje, almirante, mas temo que não possa lhe dizer quando mais precisamente que isso... foi há muito tempo.

A entidade começou a nublar levemente nas bordas, como se estivesse se dissolvendo. — Então precisávamos de algo para fazer, algum lugar novo para ir. Primeiro nós o usávamos para viajar no Tempo, mas acabamos com isso bem rápido, porque ainda não havia muito disso... apenas alguns... bilhões, qual é sua palavra... "anos"? Sim. Mas então decidimos tentar outras dimensões, cada uma delas com seu próprio universo completo... se reproduzindo e se sobrepondo, como as páginas de um desses livros antigos que o senhor gosta tanto, almirante.

A alienígena era apenas uma mancha suave de bruxuleante luz branca agora, mas a voz de "Zarabeth" não mudara. Zar ponderou por um momento se ele realmente a estava mesmo ouvindo com seus ouvidos, mas não havia nenhum modo de julgar. Qualquer que fosse a forma de comunicação que essas criaturas estavam usando, sua mente a estava reconhecendo como fala.

— E o Guardião os transportou para lá? - Spock perguntou.

— Sim... mas nós continuamos indo mais longe. Finalmente encontramos um continuum que gostamos muito... tão belas pontes entre as estrelas, tudo isso ligado com tachions e tão compacto... e nós ficamos lá por algum tempo... acho que talvez por muito tempo? Sim, muito tempo. Muito, muito, foi muito.

— E agora vocês retornaram a este universo? - Kirk lançou um olhar preocupado para Spock. Zar simpatizava com a preocupação do almirante. Essas criaturas eram tão poderosas... mas tão confusas. Não havia jeito de prever qual seria seu próximo capricho.

— Sim, e é maravilhoso estar de volta - a criatura alienígena dizia. — Nós queríamos - foi minha idéia primeiro! — Alguns de nós que sobraram, é isso, queriam voltar para casa. Sentimental, sim, mas esse não era um dos prazeres dos ancestrais de sua espécie, almirante Kirk?

— Ah, sim, - Kirk respondeu, olhando para a bolha de luz e afastando os olhos rapidamente de novo, piscando. A criatura era agora um incômodo padrão violeta. Olhando para isso, Zar tinha a sinistra sensação de que se entrasse nela, ele cairia através dela até... algum outro lugar.

— Veja - a voz alienígena consigo mesma, — você deixou sua forma se perder. É doloroso para eles olharem para você. Isso é muito rude. - A luz começou a mergulhar em si mesma, aglutinando-se. — Minhas desculpas - disse. — Faz tanto tempo que estivemos aqui, estou meio enferrujada na física de seu - nosso universo. Talvez algo maior? Sim, um pouco maior pode ser mais fácil de manter... assim é melhor.

De repente, uma pálida casa amarela estava diante deles.

Kirk engasgou, empalidecendo visivelmente. - Essa... essa é minha casa! A casa da fazenda em Iowa. Mas ela queimou... Tonto, o almirante avançou, colocou uma mão na grade da varanda cuidadosamente pintada e tirou-a. - Sólida... Não posso acreditar!

Ele saltou nos degraus, correndo para dentro. A distância, ouviram sua voz. - Spock, Magro! Está tudo aqui! O velho piano, as mantas que a tataravó de Winona tecera! A mossa no corrimão da escada daquela vez que Sam e eu saltamos o carpete e tentamos esquiar nos degraus!

Um momento depois ele estava do lado de fora, corado e de olhos arregalados. — Como fizeram isso? Está perfeito!

— Obrigado, mas os créditos são seus, almirante, - a voz de "Zarabeth" lhe respondeu. — Sua mente é muito detalhada.

— Com todo o respeito - Spock se dirigiu a alienígena, posso lembrá-los de que nós fomos expostos a muitas formas e variedades diferentes de vida consciente através dos anos. Não vejo nenhuma razão por que não possam assumir e permanecer em sua foram natural para falar conosco. Eu seriamente duvido que nós os acharíamos chocantes ou repugnantes.

— Essa é uma boa idéia! - A criatura disse, entusiasmada, mas então sua voz encheu-se de remorso. — Nós - eu - esquecemos. Se apenas pudéssemos aparecer como nós mesmos de novo, Sr. Spock... mas faz tanto tempo, acho que esquecemos qual era nossa forma natural.

— Eu lembro! - Veio uma voz diferente, uma voz hostil, levemente louca, de detrás deles e, virando-se, eles viram uma sombra com as cores de uma chama flutuando sobre uma coluna caída. — Mas ninguém nunca me ouve, então eu não vou lhes contar!

— Era aí que você estava - disse a voz vinda da casa. — Nós - eu -pensamos que você se perdera durante a transição.

— Não, não pensaram - a chama-sombra objetou. — Vocês apenas não queriam admitir que me esqueceram!

— Minha programação não permitiria isso - o Guardião da Eternidade interferiu, soando um pouco ofendido. — Eu recuperei todos em segurança.

— De qualquer jeito - a casa-alienígena continuou alto, com um tom de quem já havia sido interrompido demais, — é muito fácil para nós emprestar formas de suas mentes.

— Quantos de vocês estão aí? - Perguntou Kirk. — Vocês têm nomes?

— Há - oito - isso é tudo? - de nós, - disse a criatura. — E nossos nomes para nós mesmos são... intraduzíveis em linguagem verbal.

— Eu os chamo de Originadores - retumbou o Guardião. — Permitem-me fazer um comentário?

— Muito bem - disse a casa-alienígena com o tom descuidado de alguém falando com um servo moderadamente valioso.

— Almirante Kirk - o Portal do Tempo disse, — sinto muitíssimo ter negligenciado meus deveres com este continuum. Eu estou funcionando normalmente de novo.

— Fico feliz em ouvir isso - Kirk respondeu.

— No entanto, - a entidade temporal continuou, — eu não tinha escolha nesse assunto. Eu tinha que responder à minha programação primária quando meus Originadores me contactaram com instruções de localizá-los e transportá-los para casa. Procurando em um número quase infinito de dimensões não foi uma tarefa fácil e exigiu quase toda minha capacidade.

— Compreendo - Kirk disse, seu tom cuidadosamente neutro. Zar sabia que o almirante estava pensando em todas as mortes que a ausência do Guardião causara. — É claro. Mas, ah, Originador, com tantas possíveis dimensões para escolher, por que você quis voltar para essa?

A casa começou a oscilar, a perder solidez. A alienígena não respondeu imediatamente. Finalmente disse: — Para tudo há uma tempo, James, como diz um livro sagrado para uma de suas religiões. Foi um capricho sentimental para os oito de nós desejar terminar nossa existência no mesmo universo que começamos.

A casa desapareceu em uma coluna de luz de arco-íris. — Em outras palavras, almirante, nós voltamos para casa para morrer.

 

James Kirk ficou olhando a casa da fazenda onde passara sua infância desaparecer e sentiu o medo crescendo dentro dele como se fosse algo com vida própria. Seu sexto sentido (no qual ele confiava tanto quanto na parte racional e consciente de sua mente) o estava avisando de que essas criaturas representavam um perigo considerável. Calma Jim, ele ordenou para si mesmo silenciosamente. Eles ainda não fizeram nada de ameaçador, a não ser o escarcéu de sua chegada. Quanto a isso, porém, acredito neles quando dizem que não foi intencional.

Mas todos os seus instintos ainda sussurravam uma advertência.

— Entendo — ele disse finalmente ao arco-íris cintilante — Vocês estão falando de algo iminente? Vocês... bem, não me parecem doentes... mas... — e abriu os braços.

— Ele nos insulta! — a sombra chamejante disse, indignada — Doença, ora! Falando como se fôssemos de mera matéria!

— Como, em verdade, já fomos — a voz que emanara da casa soou severa — Nenhum de vocês se lembra?

Aparentemente nenhum deles se lembrava, pois apenas o ruído do vento respondeu a essa pergunta.

— Não, almirante — a voz austera e distante (na qual Kirk começara a pensar como "o racional") finalmente continuou — nós não estamos doentes, mas, mesmo para criaturas como nós, a entropia pode causar danos. Nós estamos... cansados. Murchando...

— Sua forma está novamente colapsando — fez notar, rudemente, a sombra chamejante.

— Pois então... — o brilho esticou-se, aumentou e uma forma humana parou em frente ao almirante, um pouco mais baixo que ele, ombros largos e olhos cor de avelã, do mesmo tom dos de Kirk. Ele estava sorrindo, o mesmo sorriso traquina que Jim tão bem lembrava.

— Sam... — Kirk sussurrou, com um nó na garganta, lembrando a expressão de agonia nas feições de seu irmão a última vez que o vira. George Samuel Kirk Jr. morrera anos atrás, vítima de uma epidemia de loucura em Deneva, causada por parasitas.

Um momento depois Kirk sentiu a mão de Spock pousada sobre seu ombro, amparando-o — Você está bem, Jim?

O vulcano olhou para o Originador — A imagem que você está projetando está causando sofrimento nele — protestou.

— Mas ela é verdadeira — retrucou ironicamente a sombra chamejante — e como pode ser a verdade prejudicial?

Kirk empertigou-se — Está tudo bem, Spock. Obrigado. Forçou-se a olhar diretamente para "Sam"— Suponho que pretendam fazer deste mundo seu local para o descanso final?

— Bem, não, almirante — a criatura disse. Cresceu, seu contorno horizontal tremeu e um outro rapaz, elegante e de ombros largos, apareceu ao lado da imagem do irmão de Kirk. Gary! Kirk reconheceu a imagem de seu melhor amigo dos tempos da Academia.

O comandante Gary Mitchell tinha encontrado sua morte logo depois que Kirk assumira o comando a Enterprise. Ele tinha sido vítima de um perigoso "complexo-de-Deus" desenvolvido logo após a tentativa de fazer sua nave passar através de uma barreira de energia nos confins da Galáxia. Conforme a estranha síndrome ia se desenvolvendo, Gary adquiria cada vez mais poderes, às custas da diminuição de sua humanidade; finalmente, ele tornara-se tão perigoso que seu melhor amigo fora forçado a abatê-lo.

paradoxalmente, a visão da imagem de Gary deu mais segurança a Kirk. Eles são seres alienígenas, lembrou para si mesmo. Este não é Sam, este não é Gary! Por mais perfeitas que sejam, essas imagens não são diferentes de um holo do meu irmão ou de Gary.

Agora "Mitchell" falava com o tom queixoso e irresoluto que ele já havia escutado de um dos Originadores — Nós queremos, ou pelo menos eu quero, achar nosso planeta de origem. É um bonito lugar... ou foi, pelo menos.

— Quer dizer que este não é seu mundo natal? — perguntou McCoy apontando para as ruínas ao redor deles.

— Loucos! Porque estamos ainda nos aborrecendo com eles — retrucou a sombra chamejante.

— Seu velho gagá — disse uma voz diferente de todas as outras já ouvidas antes, uma voz fria e altiva que fez os cabelos da nuca de Kirk se arrepiarem. Perante seus olhos uma outra forma coalesceu. Uma velha mulher vulcana com uma face ascética e implacável e duas mechas brancas em seu cabelo preto. T’Pau! Kirk identificou a imagem da estadista vulcana.

— Você não lembra nosso mundo de origem tanto quanto eu — ela disse para "Gary" — mas nós o reconheceremos quando o acharmos, mesmo que tenhamos que procurá-lo por um milênio.

— Não, Dr. McCoy — disse o comedido e distante tom de voz do racional — este não é nosso mundo natal. Nós apenas o criamos como base de operações para nosso servidor, o Guardião.

— E tornou-se tão arruinado — lamentou uma nova voz — e, repentinamente, uma mulher esbelta apareceu, vestindo roupas modernas, com cabelos ligeiramente grisalhos e uma expressão inteligente e desdenhosa em sua face. Jocelyn, Kirk identificou sua imagem mesmo que não tivesse visto a ex-mulher de Leonard McCoy nos últimos vinte anos — É claro que não podemos ficar aqui — ela disse escarnecedora.

McCoy ficara pálido, lábios cerrados e olhos estreitados. O divórcio do doutor não havia sido nem um pouco amigável.

— Magro — disse Kirk num tom de alerta — esta não é Jocelyn, lembre-se.

McCoy assentiu, relaxando vagarosamente — Você realmente tem intenção de procurar por mil anos? — ele perguntou ao racional. A imagem de Sam Kirk sorriu tenuemente — Se necessário.

— Tempo — disse o racional — é uma das coisas mais relativas do Universo ou o senhor ainda não havia percebido isso, doutor? A morte pode parecer realmente iminente quando comparamos os milhares de anos que dela nos separam com bilhões de anos já vividos, concorda?

— Porque se aborrecer explicando isso para eles? — insurgiu-se a sombra chamejante — Não posso crer que estejam desperdiçando tanto tempo falando com eles!

— Mas... isto é, talvez... falando com eles não seja... não seja um desperdício — gaguejou a imagem de Gary Mitchell — Seria mais fácil, sabe... mais ético... isto é, mais confortável, se eles querem ajudar... se eles concordarem em nos ajudar...

— Ajudá-los com o que — perguntou Kirk.

— Sim, com o que? — disse "Zarabeth" reaparecendo. Com isso são seis em oito, pensou Kirk.

— Os não sencientes ainda estão ai? — ela virou o olhar para os quatro

— Oh! Eu pensei que se haviam ido. Ou esqueci de novo?

— Nós não precisamos deles, — afirmou "T'Pau" — ou, considerando as leis físicas deste continuum... — ela hesitou indecisa.

— Sim, nós precisamos — disse o racional ainda usando a imagem de Sam. — Gastar a energia necessária para a viagem vai encurtar consideravelmente o tempo que nos resta.

— Mas que indignidade! — protestou "Jocelyn". — Depender de não sencientes? Eu não quero isso!

— Talvez o, hummm... — "Mitchell" gesticulou vagamente em direção ao Guardião — você sabe... talvez ele possa...

— As distâncias entre as estrelas se alteraram muito para que ele possa nos fornecer coordenadas — disse o racional.

— Mas viajar nesse veículo orbitante? — "T'Pau" perguntou duvidosa

— Quão primitivo. Suponha que os não sencientes não concordem em nos transportar.

— Então nós o tomaremos — disse a sombra chamejante. — Eles não podem nos impedir.

A Enterprise... eles estão falando em comandar minha nave para sua insana busca de um mundo que talvez nem sequer exista mais! Kirk percebeu, sentindo a fria sensação do medo congelar seu estômago. — Espera aí! — ele disse — Eu posso simpatizar com o seu desejo de voltar para sua antiga casa, e pode ser que a Federação decida ajudá-los em sua busca. Mas minha nave está em missão...

— Você não tem escolha, almirante — advertiu suavemente a imagem de Sam. — Meus... colegas... podem ser birrentos... caprichosos.

Não duvido, pensou Kirk amargamente. Que diabo vou fazer agora? Alguém cutucou seu cotovelo. O almirante olhou para o lado a tempo de vê-lo piscar e acenar com a cabeça para o outro lado da clareira.

— Vocês poderiam nos dar licença um instante? — disse Kirk — Nós... bem, nós precisamos discutir a melhor maneira de atender seu pedido.

— Afinal, por que estamos nos aborrecendo com eles? — gritou a sombra chamejante com "Sam". — Vamos!

Kirk sentiu algo formigando no limiar de sua mente. O que quer que tenha sido, fez a sombra chamejante encolher-se sobre si mesma em silêncio.

—Certamente, almirante — disse o racionai — esteja a vontade.

Quando eles chegaram do outro lado da clareira, Zar sentou-se esfregando sua coxa com uma careta. — Precisamos conversar — ele disse.

— Mas eles vão nos "ouvir" — disse McCoy, batendo no lado de sua cabeça. Deixou-se cair sentado ao lado do homem mais jovem com um suspiro.

— Isto não pode ser evitado — disse Zar. — Por outro lado, eu duvido que eles se dêem ao trabalho de nos ouvir. Eles são muito seguros de si mesmos.

— Sim, eles são — concordou ironicamente Kirk. — O que há?

— Eu estive monitorando as emanações mentais e emocionais dos dois

Originadores não físicos, aqueles que nós ainda não vimos. — A voz de Zar era pouco mais que um sussurro. — Se muitos daqueles com os quais nós estivemos falando parecem irracionais ou senis, pelos padrões humanóides, então esses dois são loucos de pedra. Eles são insanos, pervertidos e, de longe, muito mais perigosos que os outros seis juntos. Não podemos permitir que eles fiquem aqui.

— Bem, o que você sugere que façamos Zar? — perguntou McCoy sarcasticamente. — Pedir educadamente para que toda essa turma deixe este continuum! Danação, eles podem nos apagar do mapa com um único impulso! Essas coisas podem criar matéria e destruí-la tão facilmente quanto eu posso disparar um phaser!

— Zar está certo — disse Kirk. — Eu certamente não vou entregar a Enterprise para eles, para que eles possam se mandar para uma galáxia qualquer.

— Talvez possamos convencê-los de que o mundo que eles procuram é Klinzhai e deixá-los lá — sugeriu cinicamente McCoy. — Vamos dar aos klingons algo com o que se preocupar em troca das encrencas que eles já nos arrumaram. .

Kirk ignorou o doutor. — Nós não podemos enganá-los, ludibriá-los ou forçá-los — ele disse vagarosamente. — Poderemos influenciá-los? Apelar para seus melhores sentimentos?

— O que faz você pensar que eles tenham algum? — resmungou McCoy.

— Por que se eles não os tivessem não teriam se dado ao trabalho de conversar conosco. Teriam simplesmente nos forçado a fazer o que desejassem.

— Bem pensado, Jim — disse Spock. — É claro que alguns deles, pelo menos, gostaria que nós estivéssemos dispostos a ajudá-los. Eles não querem nos compelir mentalmente.

— Eu concordo — disse Zar. — Por falar nisso, me ajudaria muito nesta discussão, quais imagens eles assumiram.

Kirk identificou brevemente os quatro Originadores.

— "Sam" é o mais racional deles e parece ter uma influência considerável sobre os outros — fez notar Spock.

— "Gary" também — disse Zar.

— Você deve começar seu apelo com esses dois, Jim — disse Spock.

— Então eu fui eleito para fazer o discurso? — sorriu sem humor Kirk

— Não me apresentei como voluntário.

— Afinal — fez notar McCoy — você é o melhor na Frota para esse tipo de coisa.

— Tudo bem — Kirk levantou-se com um calafrio e cobrindo-se com o manto — eu apenas espero que meu melhor seja bom o suficiente desta vez.

Enquanto eles voltavam para os Originadores, uma pedra sob a bota de Zar o fez apoiar seu peso sobre a perna defeituosa. Ele gemeu de dor e soltou o fôlego. McCoy segurou seu braço e perguntou — Você está bem?

— Isto acabou comigo — admitiu o Sovren — e mesmo estes contatos periféricos com aqueles dois Originadores... — ele estremeceu com a lembrança.

— Você está com um aspecto horrível.

— Não duvido. Já voltei para casa de uma batalha em melhor forma do que estou agora.

Enquanto Kirk, Spock e McCoy se colocaram à frente do racional, Zar deu a volta e parou perto do Portal do Tempo. Ele se sentia esgotado, tanto fisicamente quanto mentalmente. Ele estava perto da exaustão, e sua perna doía horrivelmente.

Parece que eu estou acordado a dois dias... não há cinco ou seis horas, pensou. Lembrou o acordar naquela manhã achando Wynn ao seu lado olhando-o enquanto dormia. Será que vou vê-la novamente?

Eu só gostaria de poder voltar, ele pensou fatigado, e poder viver, as coisas seriam diferentes. Danação, eu quero viver agora! Que ironia...

Para aliviar um pouco sua perna, ele encostou seu ombro no Portal do Tempo.

— Vocês decidiram se vão nos ajudar, almirante? — disse finalmente a imagem de Sam Kirk.

Os olhos de Kirk piscaram. — Eu não creio que vocês tenham consciência daquilo que estão pedindo — disse ele imparcialmente — ou que compreendam as ramificações de sua volta.

A imagem de Sam franziu as sobrancelhas — Ramificações?

— Os efeitos de sua volta sobre este Universo. Mais de mil seres já morreram por que o Guardião estava procurando por vocês. Seu povo e tão poderoso e tão facilmente irritável que se torna uma ameaça grave para este continuum. Se vocês tomarem minha nave e começarem a busca pelo seu lar, as coisas só vão piorar. Mais seres vão morrer? E isso o que vocês querem?

— Mais de mil morreram? — o racional parecia obviamente perturbado

— Por nossa causa? Como aconteceu isso?

— Quatrocentos e trinta seres do Constellation estão congelados para sempre num buraco negro. Quatrocentos e trinta mais do El Nath viraram poeira num piscar de olhos. Cento e oitenta e quatro pessoas - e um mundo inteiro com suas plantas e animais selvagens - num planeta chamado Kent, incinerado, vaporizado, quando seu sol tornou-se uma gigante vermelha. Doze cientistas que viviam exatamente aqui — apontou Kirk — não mais existem porque vocês forçaram o Guardião a concentrar suas energias em vocês apesar de suas responsabilidades para com este Universo.

"Sam" e "Gary" olharam rapidamente um para o outro, obviamente perturbados. — Nós... não sabíamos que a nossa convocação... teria produzido tantos danos. — A imagem de Mitchel gaguejou.

— Oh, ainda não terminei — disse Kirk inexorável — e a respeito das pessoas de Kent? Vocês dizem que querem achar seu lar? E os lares deles? Obliterados! Eles passarão os próximos meses ou anos em campos de refugiados, danação, eles perderam tudo o que tinham no mundo, e mais, o próprio mundo! Na manhã em que nós os deixamos para vir para esta missão, já tínhamos tido 40 suicídios entre os sobreviventes.

— Existe uma outra morte para acrescentar ao seu total, Jim — disse McCoy — você ouviu aquela mulher gritando a noite toda a bordo do Cochise? Ela estava grávida e começou o trabalho de parto durante a evacuação - ela deu à luz um bebê prematuro no corredor por que a enfermaria estava sobrecarregada com pacientes em estados ainda pior - choques, catatonia, coronária, e assim por diante. A equipe médica fez o que pode, mas... — o doutor encolheu os ombros — adicionem a morte desse bebê ao seu total Originadores.

Zar olhava a cena engolindo em seco.

— Ainda há D'berahan a considerar — acrescentou Spock. — Ela arriscou sua vida contactando o Guardião e agora está em coma, com três recém-nascidos. Ela pode morrer, e suas crianças com ela.

Zar sentiu a reação do Guardião do Tempo às palavras de Kirk, Spock e McCoy através do contacto físico entre eles. Um pensamento fluiu pela pedra e uma pergunta se formou em sua mente: Tudo isso é verdade?

Sim, respondeu ele, aborrecido.

Eu sinto muito. O remorso do Portal do Tempo era genuíno. Eu nunca quis causar danos a ninguém.

Zar projetou um sentimento de compreensão. Você não tinha outra escolha a não ser obedecer aos que o convocaram. Nós sabemos que você não pode sobrepor sua vontade às ordens da programação original.

A imagem de Sam Kirk meditou silenciosamente por alguns minutos antes de começar a falar novamente — Não voltamos para causar mortes. E pedimos desculpas por isso. Mas o que aconteceu, aconteceu. Porque você diz que nossa presença poderia ser perigosa?

— Devido ao seu poder — disse Kirk, seus olhos de avelã não deixando os do outro por um instante sequer — Existe um ditado do meu povo que diz "o poder absoluto corrompe absolutamente". Vocês dois, que estão vestindo os corpos de dois homens que foram honestos e decentes, digam-me a verdade. Podem controlar os outros tão bem a ponto de não deixar que um de seus caprichos cause uma tragédia antes que possam pará-los? Sejam honestos... podem!

— Porque estão dando ouvidos a esse ser? — esbravejou a sombra chamejante. — Nós estamos além de seu nível de entendimento. Você não pode deixar que uma criatura não senciente lhe dite normas!

A imagem do irmão de Kirk virou-se para encarar os outros. — Não é pelo fato de que eles não podem atingir nosso nível mental - e outros como eles - que não tenham o direito de viver suas curtas vidas em paz e aproveitá-la como puderem.

— Direito? — a imagem de T’Pau estava nitidamente irritada. — Eles nos devem suas vidas! Não semeamos milhares desses sujos e barrentos mundos com moléculas geradoras de vida? Eles não devem pagar a dívida agora, nos ajudando?

Zarabeth excitou-se por um momento — Acho que me lembro de estar fazendo isso há muito, muito tempo atrás — ela disse. — Era como um jogo, tentando adivinhar que tipo de forma de vida poderia evoluir...

— O que estão dizendo? — perguntou horrorizada "Jocelyn". — Que nós somos responsáveis pelo surgimento deles! Que pensamento abominável! — disse olhando para McCoy. — Sequer são civilizados. Precisavam ouvir o que esse aqui disse para sua esposa na última vez que se encontraram!

— Escuta aqui, sua... — o doutor avançou com os olhos injetados de sangue, mas parou de supetão quando Spock o segurou pelo braço.

— Doutor...

— Magro...

McCoy parou, esfregando seu braço e olhando ressentido para o vulcano — Tá bom, tá bom...,Mas se vocês Originadores acham que não somos civilizados, deviam se ouvir a si mesmos um pouco. Parecem um bando de moleques de jardim de infância.

— Não precisamos ficar ouvindo isso — sibilou a sombra chamejante.

— Vamos abandonar esses quatro aqui e nos re-formar a bordo de sua nave. Não precisamos de tripulação para comandá-la.

— Então o que faremos com os tripulantes? — perguntou grave "Sam Kirk" — Vamos jogá-los no espaço para que morram? Abandonar esses quatro aqui sem mantimentos? Adicionar mais 435 vidas ao nosso funesto total? Estou começando a me convencer de que o almirante está certo. Nós representamos um perigo para esse continuam e para os seres que nele habitam.

— Não, você não pode dizer isso! — A imagem de Jocelyn começou a ficar borrada com tamanha raiva. — Pense durante quanto tempo esperamos para poder voltar!

— O almirante Kirk está mentindo sobre esses "milhares de mortes" — disse a sombra chamejante.

— Não, não está — disse Gary calmamente. — Eu toquei a mente dele e ele diz a verdade. Ele está certo, nossa presença aqui provou ser perigosa.

— De qualquer forma — disse T’Pau — as mortes não foram nossa culpa. Nosso servidor é o responsável.

Zar sentiu o calafrio de remorso que passou pelo Guardião ao ouvir as palavras do Originador. Você não sabia, disse, confortando a entidade. Todos nós fazemos inadvertidamente coisas das quais, depois, nos arrependemos...

— E agora é claro, para mim, que nossa presença é uma ameaça permanente para este continuum — disse o racional, lamentando. — James Kirk diz a verdade. Procurem em sua mente vocês mesmos — convidou a entidade alienígena. — Vocês verão que estou certo.

— Sim — disse "Gary" com um novo tom de certeza em sua voz — vocês sabem que sua mente não pode esconder a verdade de nós. Procurem e vejam. Todos vocês, e acharão o mesmo que eu achei.

Todos os Originadores se mantiveram em silêncio por alguns minutos.

Zar sentiu muitas mentes tocando levemente a sua, captando a sensação de comunicação não falada entre as entidades, mas não num nível que pudesse entender. Recebeu apenas a impressão de um amargo conflito.

Finalmente o racional virou-se para encarar Kirk. — Estamos tentando convencer nossos companheiros a partir.

— Nunca! — "Jocelyn" bateu o pé. — Quero ir para casa!

— Se formos para casa, destruiremos os habitantes desse universo — disse "Gary"— E isso que você quer? Afinal, de alguma forma, eles são nossas crianças.

— Estou começando a me convencer, também, que devemos partir — disse "T’Pau" insolentemente. — Nem que seja para acabar com essa tediosa disputa.

— Porque ainda estamos aqui? — perguntou Zarabeth vagamente. — Se não nos querem vamos para outro lugar. Este aqui é tão sem graça, tão vulgar...

— Como podem concordar com esse... essa imundice? — questionou a sombra chamejante. Começou a se mover em direção aos humanos mas "Gary" rapidamente se interpôs entre eles. As formas começaram a se tornar trêmulas e logo havia duas entidades insubstanciais agitando-se uma contra a outra.

Logo, como Zar pôde ver, os Originadores começaram a piscar. O ar ficou novamente cheio de uma verdadeira barragem de cores, cheiros, sons e sensações que o fizeram cerrar os olhos firmemente.

Alguns momentos depois os reabriu e viu três sombras amorfas - Gary, Sam e qual dos outros? - cercarem e absorverem os outros Originadores. As formas então colapsaram fundindo-se numa única entidade.

A forma única, pulsava e o Sovren captou o limiar de uma comunicação mental passando entre o racional e o Guardião, e uma impressão de que a entidade temporal procurava obedecer a um comando do Originador. O Portal veio à vida, brilhando com uma luz branco-azulada.

Como pôde ver, a janela central estava preenchida com uma imagem -Zar virou-se após uma única olhada que lhe provocou uma torção no estômago. Não que o novo Universo que o Guardião estava mostrando fosse feio, mas é que aquelas formas, cores e ângulos eram mais absurdamente alienígenas que qualquer coisa que ele tivesse aprendido a aceitar como normal e sã...

Mesmo as leis físicas daquele Universo, ele pensou, deviam ser diferentes. Zar tentou imaginar um continuum onde objetos abandonados nunca cairiam, linhas paralelas logo se cruzariam e onde seus habitantes pudessem perceber e construir em quatro dimensões. Ele sacudiu sua cabeça com uma careta. Já é duro o suficiente lidar com este Universo.

— Nós os deixamos ao seu próprio destino — a voz do racional ecoou em sua mente — adeus, crianças.

E então, com um turbilhão final de cores prismáticas, os Originadores se dissolveram e fluíram através da abertura do Guardião, como arcos-íris fraturados.

Kirk ficou estático em frente ao Guardião até voltar à visão normal de colunas caídas e edifícios tombados — Eles se foram — disse, como tentando convencer a si mesmo — danação... essa passou perto — Tirou do bolso do cinto o intercomunicador e chamou — Kirk para a Enterprise...

— Enterprise... Uhura falando.

O almirante sorriu afetuosamente para o pequeno instrumento. — Comandante, eu já lhe disse que voz maravilhosa você tem?

— Senhor? — a macia voz de contralto soou compreensivelmente confusa. — Oh, não senhor.

— Bem, você tem. Houve momentos, durante a última hora, em que eu duvidei seriamente de que fosse ouvi-la de novo.

— O senhor está bem, almirante?

— Estamos ótimos, Uhura. Quatro para transporte...

— Não, Jim! — gritou Zar repentinamente. Não. Ele olhou rapidamente em volta de si, tentando ver o que tinha sentido profundamente um momento antes. Talvez eu esteja louco - estava realmente lá?

— Hein? — hesitou Kirk, e então — aguarde, comandante.

— Ele fechou o comunicador e perguntou — Zar, que diabo é isso?

— Não sei — sussurrou Zar. — Espere um momento. — fechou seus olhos e, enviando seu alerta ao redor de si, buscando e sentindo outra vez aquele toque de não racionalidade... de intensa e psicótica paranóia. Zar disse um pesadíssimo palavrão em Danrei e viu Spock levantar uma sobrancelha quando o tradutor universal emitiu a obscenidade.

— Não se foram todos — disse aos outros — eu os sinto, bem agora, dois deles ficaram para trás, não preciso dizer quais.

Kirk olhou ao redor irrequieto — Você tem certeza?

— Sim.

— Da frigideira para a brasa — disse McCoy — que diabo vamos fazer agora?

— Peça-lhes para que apareçam e tente descobrir o que eles querem — replicou Spock. Ele aumentou sua voz — Originadores, nós sentimos sua presença. Por favor, materializem-se, assim poderemos falar com vocês. O que vocês querem?

Silêncio.

Kirk pigarreou e perguntou — Zar... você tem certeza?

O Sovren assentiu — Eu não sinto nada agora, mas um minuto atrás positivamente senti. Você acha que eles estão ainda aqui? Ou será que já estão a bordo da nave?

A boca do almirante retorceu-se — E sob qual forma? As normas indicam que eu deveria ordenar alerta vermelho, mas que bem isso traria?

Uma forma retorceu-se e materializou-se em frente a Kirk. — Absolutamente nenhum, almirante.

James Kirk emitiu um som inarticulado de dor e fechou seus olhos. Este Originador tinha aparecido como uma jovem mulher de cabelo preto, olhos vivos e escuros, malares salientes - não uma beleza clássica, mas possuindo um vibrante fascínio. Zar ouviu uma palavra não falada "mamãe" ecoando na mente do almirante e então percebeu que o alienígena tinha tomado a forma de Winona Kirk.

Enquanto olhava, a imagem foi se alterando e encolhendo sob a forma envelhecida da mesma mulher. Ela esticou uma mão marcada por veias azuis para Kirk e disse num sussurro implorante — Por favor, Jim... deixe-me ir para casa filho. Leve-me para casa...

Kirk ficou pálido.

— Pare — Spock interpôs-se protetoramente entre o alienígena e seu oficial comandante com seus olhos escuros brilhando de raiva. — Eu insisto em que você assuma outra forma. Isto é cruel. Por que você quer lhe causar sofrimento? Ele não lhe fez nenhum mal.

— Oh, sim, ele fez — disse o alienígena, alterando sua imagem para a jovem Winona Kirk novamente. — Ele afastou nosso povo com suas mentiras. Ele recusou-se a nos ajudar na busca de nosso lar assim como ele recusou-se com sua própria mãe.

A imagem tremeu até aparecer a mulher idosa novamente. — Jim? Você vai me levar para casa hoje, não vai? — O alienígena subitamente riu, de maneira horrível. — Sabe, almirante, se você tivesse reconstruído a casa, e a levado para lá, ela ainda estaria viva hoje...

— Cale a boca! — gritou Leonard McCoy — Isso é monstruoso!

Kirk respirou fundo — Calma Magro. Obrigado, mas eu estou bem. Eu fiz tudo o que eu podia pela minha mãe e, onde quer que ela esteja hoje, ela entende isso. Esta... coisa... não sabe nada a respeito disso — ele olhou diretamente para a imagem de sua mãe. — Por que você está tentando nos magoar?

— Por que... — o alienígena riu — por que não?

— Diga-nos o que devemos fazer para ajudá-lo — disse Kirk — você quer que tentemos achar o planeta do qual você se originou?

— Não sei... disse a imagem de Winona com indiferença. — Talvez, ou talvez não — a criatura fez uma pausa e então o tom malicioso ou irônico apareceu novamente em sua voz. — Você causou sua morte, você sabe.

— Não, eu não causei — disse Kirk com a voz cheia de convicção e dor.

— Deixe-o em paz! — pediu Zar. — Ele ofereceu sua ajuda, o que mais você quer?

Vagarosamente a imagem de Winona Kirk virou-se para olhá-lo e Zar se viu profundamente refletido em seus olhos.

— Talvez eu não deva falar com o bravo almirante, mas com você... você não suporta falar sobre quem você matou, não é, Sovren?

O ar em frente a Zar tremeu e, repentinamente, Araen apareceu perante ele;

É apenas o segundo Originador - apenas uma imagem, apenas uma imagem - não real! Ele disse para si mesmo mordendo seus lábios pela dor de vê-la novamente aqui tal qual se lembrava dela. A morena de cabelos ondulados pelo vento com seus adoráveis olhos escuros... vestia apenas uma túnica azul que deixava seus braços e ombros nus. Ele podia ver os pequenos pontos de seus seios.

— Pare — ele disse estarrecido — você sabe que não é real.

— Você gostaria de ver a realidade? — perguntou o alienígena. — Você quer vê-la no exato momento em que você a matou? Contorcendo-se e agonizando no sangue? Arfando por que não tinha mais fôlego para gritar?

Zar sacudiu sua cabeça fechando os olhos. — Não!

A mente da entidade, então, o invadiu e a imagem se formou atrás de suas pálpebras fechadas. Ele se afastou e, instintivamente, levantou seu escudo mental para evitar o contato com o Originador. Estas criaturas tinham decaído e enlouquecido além da habilidade de quem quer que seja que tentasse argumentar com elas. A irracionalidade da mente alienígena o chocara e repugnara como se tivesse colocado sua mão em algo sujo e podre.

A onda de vertigem veio de novo, tonteando-o e ele teve que cerrar os dentes para não vomitar. Eles vão nos matar, ele pensou, compreendendo repentinamente o que estava acontecendo. E assim que eu me sinto quando as pessoas de quem,eu gosto estão em perigo de vida. Spock, Jim, Leonard... não há jeito de salvar nenhum de nós. Eles vão tomar a Enterprise e fazer o que quiserem.

Ele olhou para os outros e percebeu que tinham chegado à mesma conclusão. Se pudéssemos lutar com eles!

Mas como lutar contra um oponente que não tinha mais realidade física que uma bolha de sabão e que podia existir como matéria ou energia à sua escolha?

— Vamos falar a respeito disso — sugeriu Kirk, mantendo sua voz num tom conciliatório.

— Não há nada que se falar a respeito — ecoou a voz do Originador apesar dos lábios de Winona e de Araen não se moverem. — Vocês nos traíram, todos.

— Por que você diz isso? — perguntou McCoy.

— Nós dizemos por que é verdade. Vocês invejam nossos poderes, vocês tentaram nos destruir. Já fomos pacientes até demais.

Zar começou a tremer sentindo náuseas e uma dor crescente em sua cabeça. Sua visão embaralhou-se e ele tinha que lutar para permanecer consciente. Com uma mão abraçou uma das colunas de pedra do Guardião

sabendo que o fim não deveria estar longe, por que seu mal estar era muito intenso. Medo misturado com náusea, e ele começou a tremer.

Medo...

Olhando ao redor para as ruínas do que tinha sido Gateway, Zar lembrou-se repentinamente de quando matara dois guardas romulanos em sua missão anterior com Spock. Ele tinha projetado empaticamente seu próprio medo da morte sobre os dois, com tanta força que tinha matado ambos os soldados. O esforço quase o matara também...

Será que isso funciona com esses alienígenas?'Ele pensou, olhando para as silenciosas e imóveis formas dos Originadores. Eles já estão loucos com paranóia - projetando medo neles pode ser suficiente para levá-los a algo equivalente à catatonia ou, até, à morte.

Mas ele sabia também que o explodir do medo alienígena teria, certamente, matado a ele, Spock, Kirk e McCoy também.

Os corpos dos Originadores começaram a brilhar.

É o momento, Zar sabia instintivamente. O que devo fazer? Tenho que decidir...

Ele gostaria de ter tempo para se consultar com Kirk e com os outros, mas não havia mais tempo. Se eu puder pará-los, eu devo. Não posso deixá-los matar todos a bordo da Enterprise e sabe-se lá quem mais.

Silenciosamente Zar pediu desculpas aos outros, e começou a respirar cada vez mais depressa, despertando deliberadamente os reflexos de luta em seu corpo. Alguns segundos mais tarde, o sangue corria pelas suas veias e ele estava tremendo, não mais pelo mal estar, mas pela descarga de adrenalina.

O Originadores começaram a perder suas formas humanas e a brilhar cada vez mais numa vermelho pulsante, amarelo pulsante, branco-azulado pulsante...

Zar fechou seus olhos, evocando imagens de morte.

Não, disse uma voz em sua mente, eu vou ajudá-lo contra eles.

Espantado, Zar focalizou sua atenção para a pedra que tocava sua mão. Apesar do crescente calor emanando dos alienígenas, ele a sentiu morna. Guardião? Ele pensou incrédulo.

Sim, respondeu a entidade temporal, eles são meus criadores, mas eu não posso deixar que a força de sua loucura destrua o Universo que eu protegi por tanto tempo. Dê-me toda a sua força mental - isto não vai ser fácil.

Você a tem, replicou Zar silenciosamente.

A seguir, gritou — Spock! — procurando por seu pai.

Os dois alienígenas já haviam se juntado numa massa lívida de luz e calor - era como estar perto do coração de uma nova.

Ele não vai conseguir, Zar pensou desesperadamente, enquanto juntava energias se preparando para a ligação mental com o Portal do Tempo. Ninguém pode evitar este inferno agora... ninguém pode.

Urna mão segurou a sua, apertando firme. Pai e filho tornaram-se uma única consciência enquanto os Originadores começaram a se expandir tentando obliterá-los. No instante seguinte, Zar lançou sua mente na ligação com o Portal do Tempo e começou a canalizar toda a sua energia mental combinada na antiga entidade.

Eles eram um só com o Guardião, combinando suas forças para criar um vórtice mental e físico que pegou os dois alienígenas desprevenidos. Por um momento, eles pareceram perdidos - e começaram, então, a resistir.

Quando os Originadores reagiram, o Guardião usou mais e mais energia, abrindo o caminho do Maelstrom que ele havia criado. Zar se surpreendeu empurrando mentalmente, usando toda a sua força e a de Spock unidas; era como se os dois estivessem enfincando mentalmente seus calcanhares no chão tentando empurrar uma montanha à sua frente.

Não havia espaço nem para pensamentos, nem para o medo - só para o esforço que eles estavam despendendo. Tudo estava canalizado para empurrar os dois alienígenas para o coração do vórtex.

Zar estava mergulhado na ligação mental compartilhando força e potência com o Guardião - e o Portal do Tempo estava usando cada migalha dessa potência.

Mas não está... sendo... suficiente...

Sem aviso, uma pequena fração de força adicional entrou na fusão - somente uma migalha, mas o suficiente para desequilibrar a balança.

Zar sentiu, mais do que viu, os Originadores mergulhando no coração do ciclone, mergulhando para o nada - e então eles se foram.

O Guardião soltou sua mente, desfazendo a fusão. Ele pode ouvir a entidade temporal falando profundamente:

— Eles se juntaram aos outros agora, tantos continua além do nosso, que nunca acharão o caminho de volta. Por favor, aceitem minha gratidão, almirante Kirk, Dr. McCoy, Sr. Spock... e especialmente Zar, que me ajudou a cumprir o meu dever. Eu lhes asseguro que, a partir de agora eu arcarei plenamente com minhas responsabilidades para com este Universo no melhor da minha habilidade. Mais uma vez, muito obrigado.

 

Com o eco da voz do Guardião desaparecendo, Zar abriu seus olhos e descobriu-se apoiado contra o Portal do Tempo. Spock, Kirk e McCoy agachavam-se perto dele, seus rostos sujos e marcados pela poeira e pedrinhas atiradas pelo vento. O tecido da capa de Kirk estava rasgado, desnudando-lhe o ombro e o braço. A manga de Spock estava esfolada e rasgada, e havia um arranhão atravessando sua face direita; um filete verde escorria e pingava lentamente. McCoy rasgara as calças na altura dos joelhos.

— Tudo bem? - McCoy perguntou, dirigindo a pergunta a todos. Eles concordaram com a cabeça.

— Vocês se uniram ao elo - Zar disse para McCoy. Sacudiu a cabeça, ainda tonto. — Você e Jim. Foram vocês que forneceram o último bocado de energia mental, não foram?

— Não me dê medalhas - McCoy resmungou. — Eu estava congelado de pavor. Se não fosse Jim me arrastar para juntar-me a vocês, eu ainda estaria parado ali.

— Mentira - Kirk disse. — Era eu que estava imóvel quando Magro me sacudiu com tanta força que meus dentes bateram, e gritou: "Não fique apenas parado aí, nós temos que ajudar! Segure a mão de Spock!"

Kirk, Spock e McCoy ergueram-se lentamente. Todos os três vacilavam de exaustão.

Zar hesitou, imaginando se poderia ficar de pé. Sua perna esquerda estava dobrada sob ele e parecia uma imensa câimbra. Spock ofereceu-lhe a mão sem comentários e seu filho a segurou, então colocou-se de pé dolorosamente, balançando de leve, enquanto esperava que todas as agulhas-e-pontadas do retorno da circulação passassem.

Kirk estava falando com a Enterprise, acalmando um preocupado Comandante Scott. — Acabou mesmo desta vez, Scotty - concluiu. — E o Guardião está de volta ao normal.

— Graças aos céus, senhor! Vão ser quatro para subir?

— Sim. Acho... - Kirk interrompeu-se com o enfático balançar de cabeça de Zar. — Aguarde, Scotty. - Fechou o comunicador. — Você vai voltar conosco, Zar.

— Não, eu tenho que voltar para Nova Araen - o Sovren disse, então olhou de lado para McCoy. — Tudo que preciso é daquela hipo, Doc.

— Você terá que vir à enfermaria - McCoy disse. Diante da expressão cautelosa de Zar, ele sibilou: — Certo! Eu já aceitei o fato de que você não ficará, seu estúpido traseiro de burro! Só quero dar uma olhada nessa perna e ver se não posso ajudá-lo. O Guardião está funcionando normalmente de novo, irá mandá-lo de volta um momento depois que partiu, você indo agora ou daqui a um ano!

Zar balançou a cabeça, imaginando por que sentia-se tão tonto. — Aprecio isso, Leonard, mas...

O temperamento de McCoy explodiu. — Cale-se! Você não pode voltar assim, seu idiota, mal pode ficar de pé! Não está em condições de marchar para uma batalha! - Sua mão avançou para a testa do rapaz, cuidadosamente afastando o cabelo. — Superficial - grunhiu depois de uma olhada, — mas ainda precisa ser fechado. - Seus dedos voltaram manchados de sangue esverdeado. Zar olhou-os com surpresa, percebendo então que o lado de sua mandíbula parecia frio e grudento. Talvez fosse por isso que ele estava tão tonto....

— Nem mesmo sentiu isso, não é? - O médico perguntou. — Você está fora de si, Zar. Agora, vai voltar comigo para a Enterprise e deixar-me "remendá-lo" - mesmo que Spock tenha que usar o toque vulcano em você e carregá-lo. Certo, Spock?

O vulcano concordou. — Apesar de parecer extraordinário, o bom doutor e eu estamos em completo acordo. - Uma leve curva tocou a boca severa. — Entretanto, preferiria não carregá-lo, meu filho. Eu mesmo não estou no melhor de minha forma.

Zar conseguiu dar um sorriso fraco. — Muito bem, vocês venceram. Quem sou eu para arruinar uma ocasião histórica?

Kirk, sorrindo, reativou o comunicador. — Sr. Scott? - Disse, então parou quando Zar estendeu a mão.

— Posso?

Intrigado, o almirante entregou o pequeno instrumento. — Sempre quis fazer isso - Zar confidenciou, sotto você. Então falou no comunicador. — Sr. Scott, aqui é Zar.

— Ora, olá, rapaz. É bom ouvir sua voz! Está subindo para nos ver?

— Eles "torceram meu braço" - Zar disse e sorriu. — Então, por favor, transporte-nos, Scotty.

Quando o suave toque do intercom acordou Zar, na manhã seguinte, tudo que ele queria era afundar de novo sob as cobertas (eu tinha esquecido como esses colchões de baixa gravidade são confortáveis...) e voltar a dormir. Estou tão cansado... Em vez disso, sentou-se e esfregou os olhos com cuidado. Eles doíam.

A dor fluiu, espalhando-se sobre ele como suor sob a armadura, lânguida e sem foco. Deus, tão cansado...

O intercom soou de novo. Zar blasfemou e tirou as pernas da cama.

Levou um momento para que lembrasse como ativar o intercom. — Sim? - grunhiu, sem usar o circuito visual.

— Desculpe acordá-lo, Zar - veio a voz de McCoy, - mas temos que começar esses testes. Quando pode chegar aqui?

— Ahm... - disse, tentando pensar, sua mente nublada como o topo encoberto de nuvens de Big Snowy. — Posso tomar café da manhã? E café? Não tomo café há vinte anos.

— Vou fazer o pedido. Creme e açúcar?

— Preto.

Zar afundou na ponta da cama, olhando a volta para a luxuosa cabine de oficial-sênior. Sua calça de couro e a camisa de lã ainda estavam empilhadas na cadeira, mas na cômoda havia um macacão preto simples que antes não se encontrava lá. Spock, Zar percebeu. Ninguém mais poderia entrar sem me acordar. Lembrava-se vagamente de Kirk lhe dizer, noite passada, que fora colocado no alojamento ao lado do vulcano.

Espreguiçou-se, cada músculo de seu corpo protestando, então mancou nu até o chuveiro. Gastou alguns minutos renovando seu conhecimento dos controles. Sônico ou água? Ponderou e, no fim, tomou os dois.

De volta ao paraíso... pensou, apoiando-se contra a suave parede brilhante, enquanto a água quente caía sobre ele. Tinha esquecido quão limpo é... tudo cheira tão bem.

Lembranças de estar descalço em um chão de pedra, quebrando a superfície de gelo de uma bacia d'água para que pudesse se lavar e latrinas do lado de fora no meio do verão o assaltaram. Olhou desejoso para a Jacuzzi e prometeu-se um longo mergulho.

Mas trocaria tudo isso por Wynn... Zar experimentou o vazio em sua mente, delicadamente, como uma língua é irresistivelmente atraída para o espaço vazio de um dente. Nesse tempo e lugar ela estava morta e, enquanto ele estivesse aqui, parte dele estaria morto também.

Na enfermaria, suportou com estoicismo os aparentemente intermináveis testes de McCoy. Quando o médico finalmente o liberou, Kirk anunciou que estava pronto a levar o visitante para uma volta pela Enterprise.

A primeira parada foi, é claro, a ponte. Zar olhou a volta, maravilhado. — Não estava brincando quando me avisou que as coisas tinham mudado, Jim - disse.

— Toda a nave foi recondicionada e reconstruída alguns anos atrás -Kirk respondeu. — Parece mesmo bem diferente.

— Novas telas, novos uniformes, estações de controle diferentes... -Zar olhou a sua volta para o par de portas do turbo-elevador. — Até mesmo as portas estão diferentes.

— O novo desenho é muito mais eficiente - Spock disse, levantando os olhos da estação de ciências, onde conferenciava com os Tenentes-Comandantes Maybri e Naraht (Zar ainda não superara a presença de uma rocha viva e pensante - especialmente uma com senso de humor!)

— Sim, isso é - Scotty disse. — Espere até ver minha sala das máquinas, rapaz. Dois andares de altura, com um elevador no meio dela.

— Parece extremamente aerodinâmico - Zar concordou, — mas, sabem, sinto falta daquelas portas vermelhas.

Kirk sorriu torto. — Eu também, agora que mencionou isso. Mas o progresso é um mal necessário, suponho. - Gesticulou para Scotty, — Eu o verei mais tarde, no jantar. Estou oferecendo uma festa para você e os oficiais sêniores, Zar. Mas agora, o Sr. Scott está louco para lhe mostrar sua sala de engenharia.

— Eu proponho um brinde - o Dr. McCoy anunciou, levantando seu copo. — Ao Guardião da Eternidade. Se não fosse ele ficar ao nosso lado contra seus criadores, não estaríamos aqui esta noite.

O resto dos presentes concordou gravemente e bebeu. Zar provou o suco de frutas que Spock sugerira que experimentasse - embora sua cor laranja lhe causasse hesitação. Era bom, apenas ácido o bastante para ser agradável.

Obrigado pelo reconhecimento, uma voz familiar ecoou dentro de sua mente. Eu o apreciei muito.

Zar engoliu apressadamente um bocado de suco de laranja antes que se engasgasse com ele. Guardião? Perguntou silenciosamente. Mas estamos em órbita, milhares de quilômetros distantes... como pode me alcançar?

Eu tenho muitas habilidades, a entidade temporal lhe disse, ambiguamente. Mas posso parar com o contato, se você preferir.

Está tudo bem. Gosto de conversar com você.

Gosta? Uma onda de genuíno prazer coloriu os padrões de pensamento da antiga criação. Então... eu imagino...

Sim?

Consentiria em "falar" comigo às vezes? Há inumeráveis mundos e tempos que posso examinar como diversão e aprendizado, mas descobri ontem que comunicação com outro ser consciente também é valioso. Minha procura por meus criadores me fez compreender - ou talvez, lembrar - que estive sozinho por um longo tempo.

Zar pensou em como seria existir em isolamento por milênios e sentiu uma onda de simpatia pelo Portal do Tempo. Eu teria prazer em "falar" com você, disse ao Guardião, mas não acredito que será capaz de me alcançar por muito tempo. Logo estarei voltando para minha casa no passado.

Eu serei capaz de alcançá-lo, veio a resposta confiante. E estou agradecido por sua compaixão.

Tão de repente como chegara, o contato retrocedeu.

Zar voltou a si para perceber que Uhura, que estava sentada ao seu lado, tinha acabado de repetir seu nome. Ele piscou. — Peço desculpas, mas não ouvi o que você estava dizendo.

Ela sorriu. — Não estou surpresa. Você estava a parsecs de distância.

— Não, só cerca de 400 quilômetros. Ela pareceu surpresa. — Desculpe?

Zar sacudiu a cabeça e sorriu arrependido para ela. — Sinto muito, Nyota. Tenho muito em minha mente, mas isso não é desculpa para um comportamento desatento. Desculpe-me, por favor.

Ela deu um risinho, um som rico e profundo. — Eu estava comentando como você mudou - disse. — Lembro-me quando nos encontramos pela primeira vez... você era um menino tão quieto e doce. Tão ansioso... e tão ingênuo.

— Não me lembre. - Zar sacudiu a cabeça com as reminiscências. — Eu ficava com a língua presa toda vez que a olhava. Me levou toda uma semana para conseguir uma resposta inteligível quando você me dizia "oi".

— Você vai ficar, dessa vez?

Ele sacudiu a cabeça, meio arrependido. — Temo não poder.

Ela lhe deu um rápido olhar de conhecimento. — Alguém está esperando por você.

Ele concordou. — Minha esposa, Wynn.

—E você sente falta dela.

O comentário foi uma afirmação, não uma pergunta, mas Zar a respondeu de qualquer jeito. — Mais do que julgava ser possível.

Mais tarde, eles mudaram para as cadeiras e sofás do outro lado da sala de oficiais e falaram. Zar estava profundamente envolvido em uma conversa com Sulu sobre esgrima de ataque e defesa, quando notou a expressão de Uhura que falava com seu pai perto da porta. Concentrou-se e captou sua ansiedade, sua dor... ela estava terrivelmente preocupada com algo.

Enquanto observava, ela afastou-se de Spock que ia embora e, levantando a saia do flutuante vestido branco que usava, apressou-se para a saída.

— Você me desculparia, Hikaru? - Zar disse, apressado. — Tenho que falar com Nyota antes que se vá.

O timoneiro concordou. — Claro. Encontre-me no ginásio amanhã cerca de 09:00 e eu lhe demonstrarei o ataque de que estava falando.

— Eu estarei lá.

Uhura moveu-se rapidamente pelo corredor, imaginando se deveria tirar seu vestido longo e sapatos de noite antes de ir até a enfermaria. — Malditos sapatos - murmurou, e parou para tirar as sandálias opalescentes.

— Nyota!

Ela virou-se para ver Zar mancando atrás dela, preocupação em seus olhos cinzentos. — O que há de errado? Eu sinto que você está muito chateada.

— É D'berahan - Uhura admitiu. — Eu estava falando com Spock e ele me disse que as capacidades telepáticas dos três bebês estão diminuindo. Ele acha que é porque a mãe não está se comunicando com eles. Isso poderia acabar tornando-os párias entre sua própria gente.

— O que você vai fazer?

— A única coisa que posso... passar mais tempo com eles, deixando que captem meus pensamentos. Só tenho medo de que não seja o suficiente. - Ela chamou o elevador. — Quer vir comigo para vê-los?

— Tudo bem.

— É tão trágico - ela disse, quando entraram no turbo-elevador. — Tenho tentado oferecer uma espécie de "âncora" mental para as crianças, mas elas realmente precisam da mãe.

Eles entraram na enfermaria, movendo-se cuidadosamente através da quietude e sombras lançadas pela iluminação noturna.

D'berahan estava encolhida em uma posição diferente da última vez que Uhura a vira, mas ela sabia agora que as enfermeiras mexiam regularmente em seu corpo e mudavam a posição da pequena alienígena, então isso não era incomum. A oficial de comunicações sorriu quando os três bebês engatinharam para fora da bolsa de sua mãe em resposta a sua presença. — Oi, crianças - sussurrou.

Os pequenos rostos, com seus imensos olhos, piscaram solenemente para ela. — Pode captar seus pensamentos? - Perguntou a Zar.

— Nesse estágio, eles são muito pequenos para ter pensamentos coerentes, mas capto suas emoções... sua apreciação pela calidez, estômagos cheios e companheirismo.

Uhura curvou-se sobre o cercado e acariciou com gentileza suas pequenas cabeças arredondadas, cantarolando suavemente. — E quanto a D'berahan?

— Ela é um branco total.

— Se ao menos alguém pudesse ajudá-la - ela disse, acariciando a pele da alienígena inconsciente. Olhou para o companheiro como se um pensamento repentino lhe ocorresse. — Você poderia ajudá-la, Zar? Spock me disse que suas habilidades esper são muito mais fortes que as dele.

Ele hesitou e Uhura imediatamente se arrependeu de sua pergunta impulsiva. Ele parece tão cansado, pensou, estudando as linhas de fatiga em seu rosto, a boca apertada e os olhos com sombras escuras. — Sinto muito - disse. — Eu não deveria ter pedido isso. Sei que o elo mental deve ser muito difícil... uma intensa invasão pessoal. Especialmente com um completo estranho.

Zar olhou para a pequena alienígena e seus bebês, e seus olhos se enterneceram. — Eu gostaria de ajudá-la... - disse lentamente.

— Você acha que pode?

— Não sei. Sondar a mente de um estranho não-humanóide pode ser arriscado... para nós dois.

Nyota observou o peito de D'berahan levantar quase imperceptivelmente quando ela respirava. — E se você tiver um guia? Alguém que já esteve em contato mental com ela antes?

— Isso ajudaria consideravelmente. Eu poderia deixar que o outro cuidasse da parte mais profunda, mais pessoal, do elo. Há outro marishal a bordo?

— Não... - Uhura disse, endireitando-se e andando até o intercom. — Mas se você tem certeza que quer tentar, eu acho que conheço a segunda melhor coisa.

Ele concordou. — Vá em frente.

Quando Uhura apertou os códigos de memória, Zar moveu-se para perto dela. — Quem está chamando?

— Seu pai - ela respondeu, enquanto completava a conexão. — Espero que esteja em seu alojamento. Ele poderia estar na ponte. - Ela lhe deu um sorriso travesso. — Eu lhe devo uma chamada noturna.

Os olhos de Zar se abriram surpresos, mas antes que pudesse dizer algo, uma voz conhecida soou. — Fala Spock.

— Senhor, aqui é Uhura. Seria possível me encontrar na enfermaria? Tenho um pedido pessoal a fazer.

— Estou a caminho.

Uhura desligou o intercom. Zar a observava intensamente. — Como sabe que ele é meu pai?

—Adivinhei - ela respondeu, sem emoção. — Então, quando lhe perguntei, ele confirmou. —Ah. - Ele estava para dizer algo mais quando ouviram a porta externa abrir.

Esse não pode ser Spock, Uhura pensou. Ele não teve tempo sequer de alcançar o turbo-elevador.

Leonard McCoy entrou e parou, piscando para eles. Ainda usava as calças do uniforme de gala, mas tinha trocado a jaqueta pela túnica médica. —Olá - disse, finalmente. — O que vocês dois estão fazendo aqui? A festa ainda não acabou.

— Viemos ver D'berahan - Nyota respondeu, sentindo-se absurdamente como uma criança pega roubando o pote de biscoitos.

— O que você está fazendo aqui? - Zar perguntou. — Não estava se divertindo?

— Sim, mas sou o único médico a bordo nessa viagem. Desci para checar o Alferes Weinberger - o rapaz quebrou o ombro quando um fluxo de gravidade na Engenharia o jogou contra um anteparo esta tarde. - Ele os observou com suspeita. — Nyota, você parece culpada como o diabo. Zar, não tente essa cara de jogador de pôquer vulcano comigo... posso dizer que algo está acontecendo. O que estão aprontando?

Uhura olhou para Zar, que levantou-lhe uma sobrancelha. Ela então sacudiu os ombros. — Eu pedi a Zar que tentasse alcançar D'berahan. Ele acha que se Spock dirigir a sonda, pode ser possível.

— Entendo. - McCoy respirou fundo, enchendo um pouco as bochechas, então esvaziando-as devagar. — Quando Spock tentou isso, tanto ele quanto a marishal quase morreram.

— Eu sei que é potencialmente perigoso - Zar disse.

— Você acha que vale o risco?

Zar hesitou, então falou devagar. — Sim, acho. A vida é cheia de riscos... você não pode se fechar para eles, só porque tem medo de ser ferido.

McCoy observou-o de perto. — Você deve ter conversado com Jim. Isso soa como algo que ele diria.

— Não foi Jim - Zar respondeu secamente.

— Quem, então?

— Você não me acreditaria se eu lhe contasse.

O doutor enrugou a testa. — Você será capaz de monitorar os efeitos do elo em D'berahan para que possam sair sem lhe causar qualquer dano?

— Acho que sim.

— Muito bem - McCoy disse. — Mas é melhor dar o fora de lá se tiver algum problema, viu? Não é como se não houvesse mais nenhum outro telepata... nós teremos que passar por Vulcano em nosso caminho para casa. Talvez fosse melhor esperar para...

Ele parou quando Zar virou-se para a porta. — Spock está aqui.

Um momento depois Uhura ouviu a porta externa da enfermaria abrir. Enquanto Nyota explicava por que o chamara, Spock permanecia olhando a forma imóvel da pequena alienígena.

Finalmente, quando ela acabou, o vulcano concordou. — A despeito de seu medo, ela arriscou tudo para nos ajudar a completar nossa missão. Se houver uma chance de ajudá-la, é meu dever tentar. - Olhou para Zar. — Mas você... ela é uma estranha para você...

— Só vou ajudá-lo e monitorar - Zar indicou. — Se quiser tentar, eu o farei também.

Spock hesitou. — Não subestime o perigo - avisou ao filho. — Ela pode ter recuado tão longe que não poderemos alcançá-la. E sei por experiência que você estará fornecendo a maior parte da energia para a busca.

Zar olhou diretamente. — Se nossas posições fossem reversas, D'berahan tentaria me alcançar?

— Sim, acredito que tentaria - Spock respondeu.

Zar sacudiu os ombros, um gesto de "aí está a resposta". — Vamos começar.

Uhura observou quando McCoy abaixou um dos lados do cercado. À vista dos recém-chegados, os bebês de D'berahan tentaram engatinhar de volta para a bolsa de sua mãe, mas a oficial de comunicações, a um aceno de McCoy, gentilmente os impediu. — O que faremos com as crianças, Sr. Spock?

O vulcano considerou. — Elas não podem estar em contato físico com D'berahan enquanto fazemos isso. Doutor, pode trazer uma divisório temporária para separá-los dela?

McCoy atendeu prontamente. — Agora o quê? - Perguntou.

Zar estudou os três bebês. — Não há jeito de sabermos se eles estão em contato mental com sua mãe, por causa de suas mentes alienígenas. Nyota, estaria disposta a se unir a mim e então ficar na borda do elo para nos avisar se eles experimentarem algum desconforto?

Uhura hesitou, tentando esconder sua reação inicial à sugestão. Ela nunca fizera parte de um elo mental antes e a idéia de permitir que alguém tocasse seus pensamentos deixava sua boca seca e suas palmas úmidas. Aí as eu não tenho escolha, percebeu. As crianças de D 'berahan precisam de mim.

— Tudo bem - respondeu firmemente.

— Bom. Você sentirá coisas, provavelmente, mas ainda estará consciente, capaz de ver. E - Zar olhou-a — eu farei tudo que puder para ficar longe dos níveis profundos de sua mente.

Ela lhe lançou um sorriso trêmulo. — Confio em você.

— Prontos - Spock disse e, inclinando-se para frente, colocou seus dedos na testa arredondada com o topete de pele cortado curto. Estendeu sua mão direita para Zar, que a tomou com a sua esquerda. Uhura olhou para suas mãos. Quão parecidos eram - mesmo que Zar estivesse envelhecido e marcado.

Ambos fecharam os olhos, seus rostos tornando-se máscaras sem expressão. Uhura quase podia senti-los se afastando do aqui e agora. Então Zar estendeu-lhe sua mão direita.

Respirando fundo, ela tocou os dedos esticados, sentindo-os agarrarem os seus com gentileza. Mesmo assim ela estava completamente consciente da força potencial que poderia esmagar ossos. Mais forte ainda era o elo mental que espalhava-se entre eles.

De repente era como se ela fosse parte do corpo de Zar, dentro de sua pele - vendo com seus olhos, respirando com seus pulmões. Seu coração saltou, tentando bater em uma velocidade impossivelmente rápida e, por um segundo, ela o sentiu pulsar, não debaixo de seu seio esquerdo, mas mais embaixo, em seu lado direito.

Não havia nada sexual sobre essa experiência mas, por um momento, Uhura sentiu-se mais intimamente consciente do corpo de um homem do que ela jamais fora antes. Então o contato entre eles mudou, pousando em sua mente. Ela ainda podia ver, mas tinha consciência de uma estranha visão dupla - com um par de olhos (os seus) observava os três bebês marishal, com os outros experimentava apenas escuridão... uma escuridão cheia de imagens alienígenas.

Você está bem? As palavras entraram na mente dela como se tivessem sido marcadas a fogo.

Sim, ela pensou de volta, controlando sua força para formar as palavras mentalmente. Diga a Spock para prosseguir.

A consciência de Zar se afastou, mas ela ainda sentia o elo entre eles, vivo e pulsante, trazendo-lhe pedaços e imagens da busca que ele e Spock estavam fazendo. Muito rápidas para segurar, memórias e imagens espaçadas, que não eram suas, brilhavam - de Sarpeidon (então é de onde Zar veio! Eu daria muito para saber como isso aconteceu!), de Vulcano e de Marish.

Uhura mantinha a parte física de sua visão nos bebês marishal, observando-os para qualquer sinal de perigo, lançando um olhar ocasional a seus parceiros de elo. Seus rostos permaneciam vazios, mas ela percebia a tensão sob a qual estavam através dos nós dos dedos esbranquiçados e a leve umidade em suas testas.

Eu nunca vi Spock transpirar, pensou. Não sabia que podia.

Finalmente, o vislumbre de memórias transmitidas eram na maioria de Marish e Nyota percebeu que eles deveriam ter atingido seu objetivo.

Uma repentina onda de terror, então uma torrente selvagem de negação - [Não! Preciso escapar! Esconder!]

Uhura percebeu, com uma explosão de contentamento, que Spock tinha localizado a identidade da marishal.

D'berahan, aqui é Spock. Você está a salvo agora. Volte conosco. A garantia sem palavras era forte, trazendo imagens de conforto, de amigos, de segurança.

[Negação, medo]

Você está a salvo, D'berahan, salva. Venha conosco. Nós somos seus amigos...

[Não, não - Esconder]

Sem qualquer decisão consciente de sua parte, Uhura de repente descobriu-se formando palavras, projetando uma imagem: D'berahan, vê suas crianças? Estou olhando para elas agora... veja-as, através de meus olhos. Elas precisam de você. Elas podem morrer sem você! Você precisa voltar, pelo bem delas. Olhe para seus bebês!

Depois de um momento, ela sentiu suas palavras, sua visão projetada ser captada, amplificada e jogada para a marishal com toda a força de duas mentes extremamente afiadas.

[Minhas crianças?]

Sim!

[Minhas crianças!]

De repente Uhura "ouviu" uma quarta "voz" no elo e estava consciente de uma presença telepática tão poderosa que eclipsava as outras. A presença "falou":

[Amigos... vocês arriscaram muito por esta aqui. Esta aqui expressa os maiores agradecimentos a todos... mas especialmente a você, nova amiga Nyota Uhura, que amou as crianças desta aqui, quando esta aqui não podia...]

A pequena marishal concluiu seus discurso enviando uma onda de gratidão e afeição tão grande que Uhura saiu do elo em dissolução com lágrimas em seu rosto. Engoliu um soluço enquanto via D'berahan mexer-se. McCoy liberou a divisória e os bebês marishal engatinharam sobre sua mãe, que levantou a cabeça para olhá-los e as mãos para tocá-los.

— Nós conseguimos! - Nyota sussurrou, em uma respiração sofrida. Ela afastou-se, suas pernas tremendo com a reação, então virou-se para Zar, sabendo que estava sorrindo como uma tola. — Nós conseguimos! -Jogou os braços a volta dele em um poderoso abraço, sentindo-se ao mesmo tempo chocada e em êxtase.

— Não, você conseguiu, Nyota - disse Zar, lhe devolvendo o abraço que a levantou claramente do chão. — Se você não tivesse projetado a imagem das crianças...

— Zar está correto - 'Spock disse e, por um segundo, Uhura teve certeza de sentir a mão do vulcano tocar seu ombro.

— Vocês todos conseguiram - McCoy disse asperamente. Ele limpou a garganta. — Obrigado por mim também.

— Mas...

Leonard McCoy inclinou-se sobre sua mesa e sacudiu um dedo admoestador para seu paciente. — Quieto! Você prometeu me ouvir até o fim.

— Mas cinco semanas está fora de questão! Não tenho todo esse tempo! - Zar protestou.

— Seu ingrato... - McCoy começou e então respirou fundo, obviamente lutando para manter a calma. — Ouça, Zar. Você tem muita sorte que eu possa fazer algo por esse ferimento, é muito antigo. Sou um médico, não um mago. Estou lhe dizendo que depois de uma semana em terapia de suspensão, então três ou quatro mais de reabilitação, você será capaz de andar quase normalmente de novo. Nada mais de dor. Pelo amor de Deus, isso não vale um pouco?

Zar relaxou na cadeira, braços cruzados sobre o peito. — Você está certo eu sou um bastardo ingrato... sem nenhum trocadilho. Eu realmente aprecio sua tentativa em ajudar, aprecio sim.

Ele esfregou a mão na testa, suspirando. — É só que... a cada minuto longe, não posso deixar de pensar nas coisas acontecendo sem mim. Intelectualmente, eu sei que não é assim, mas o sentimento de urgência... está me matando.

Sua voz baixou para um sussurro. — E há esse... esse espaço vazio, dentro de mim, onde Wynn estava. É como se tivesse perdido um braço, ou ficado cego... sou capaz de isolá-lo, assim eu posso funcionar, mas não posso esquecê-lo, nem por um segundo.

— Eu compreendo como você deve se sentir e é completamente natural, nessas circunstâncias - o médico admitiu. — Entretanto, você seria louco de deixar passar essa chance - e sabe disso.

— Então eu devo apenas deitar por aí e levar as coisas devagar por um mês?

— Por que diabos não? - McCoy olhou para o rapaz. — Ouça, meu amigo teimoso, sabe o que aqueles testes me mostraram? Além das condições de sua perna, quero dizer?

— O quê?

— Um homem a beira de um colapso físico e mental. Um homem que tem estado sob muita pressão por muito tempo. Se Jim mostrasse leituras como essa, eu o declararia incapacitado para o comando. Seu vigor muscular está falhando, seu tempo de reação está lento, sua energia está baixa - não está em condições para uma marcha extenuante, que dirá para lutar por sua vida!

McCoy tamborilou os dedos no tampo da mesa. — Você sabe que estou certo e, se for honesto, vai admitir isso. Você está cansado, Zar. Morto de cansaço. Tensão e fatiga extrema podem causar desequilíbrios metabólicos que atrapalham o julgamento, sabia disso?

Zar suspirou. — Eu sei que pessoas cansadas cometem erros, o que é algo que um comandante aprende bem depressa.

— Há quanto tempo vem tendo dores de estômago?

Os olhos cinzentos se arregalaram. — Como você... - Parou, sacudindo os ombros. — Sempre tive um estômago sensível, sabe disso.

— Eu sei que se não parar de esforçar-se tanto e não parar de pular as refeições, você vai desenvolver uma versão vulcana de uma úlcera madura. E não vai gostar nada disso.

— Pode consertar o dano?

— Claro. Mas se você voltar e submeter-se às mesmas tensões do mesmo jeito, isso vai voltar. Você precisa tomar mais cuidado consigo. Comece a meditar de novo, todo dia. Faz quanto tempo que não pinta?

— Provavelmente dez anos.

— Pinte também. Ou, se não quiser fazer isso, saia para uma calma cavalgada pela floresta - qualquer coisa para que seu corpo e mente tenham algum tempo de descanso, entendeu?

— Sim. Mas eu não posso ficar aqui por cinco...

— Quanto tempo faz que tirou férias? Seja honesto.

Zar abaixou a vista. — Dois anos atrás, quando recebi isso. - Bateu no meio do corpo. — Fiquei confinado no quarto por uma semana por causa do impacto de uma lança. Minha armadura impediu que penetrasse, mas o impacto quebrou uma costela.

— Quebrou duas - disse McCoy, curto. — E trincou outra. É um milagre que não tivesse um pulmão perfurado por levantar cedo demais, seu tolo. Isso não é férias. Você precisa de um mês, filho. Precisa comer refeições nutritivas, pôr o sono em dia e exercitar-se sensivelmente.

— Suponho que precise. Mas Wynn...

— Ouça-me, Zar. Você me disse que essa Wynn queria que você nos acompanhasse, certo? Que ela foi muito insistente quanto a isso?

— Sim, ela foi.

— E ela lhe disse que a razão por que queria que você voltasse conosco era que recebera uma... o que quer que ela chame - uma Mensagem - que era vital para você - para sua vida - fazer isso, certo?

— Sim.

— Bem - McCoy recostou-se confiante, — não lhe ocorreu que talvez a razão pela qual ela queria tanto que você voltasse para nos ajudar era que você voltando à forma e eu consertando sua perna poderia ser essencial para sua sobrevivência?

Zar olhou para o médico, espantado. No melhor de minha condição, com duas pernas boas, eu poderia ser capaz de desviar ou suportar um ataque que de outro modo me atingiria, ele pensou. Lentamente, relutante, concordou. — Isso faz sentido.

— Pode apostar que faz.

— Mas e quanto a Enterprise! O que Jim fará, ficará apenas orbitando Gateway enquanto eu faço essa terapia e me recupero? O Comando da Frota Estelar não vai notar que a Enterprise não voltou para casa?

McCoy sorriu. — O Almirante Morrow ficou tão aliviado em ouvir sobre nosso sucesso que nos designou para um pequena missão no próximo quadrante para revisar o curso de uma tempestade iônica descoberta ano passado. Isso levará exatamente quatro semanas, tempo de viagem incluído.

— Você quer dizer que esse Almirante Morrow sabe sobre mim?

— Claro. Spock lhe contou. Você deveria ter estado lá.

Zar levantou uma sobrancelha quando imaginou o momento. — E Morrow concordou em deixá-los ter um civil ancorado por um mês?

McCoy sorriu. — Morda sua língua. Você não é um mero civil, você é um Chefe-de-Estado visitante.

— Ah, Deus... - Os olhos cinzentos dançaram com o riso, então ficaram sóbrios. — Vocês parecem ter pensado em tudo.

— É o mínimo que podemos fazer. E quanto a isso, o que diz?

Zar virou as palmas da mão, em um gesto de resignação. — Parece que eu vou ter umas férias.

— Certo, devagar agora... vá devagar, Zar... é isso, apenas deite aí por um segundo. Como se sente?

Zar sacudiu a cabeça, tentando fazer a cena a sua volta parar de rodar.

—Tonto. - Piscou e as coisas gradualmente se firmaram. Reconheceu a sala de recuperação na enfermaria e o rosto de McCoy inclinado sobre ele. Na outra ponta do sofá estava um imenso enfermeiro coridiano e, além dele, Spock. — Funcionou? Eu realmente fiquei inconsciente por uma semana?

— Sim, para as duas perguntas. Quantos dedos estou mostrando?

Zar franziu os olhos por causa da luz. — Só um... e em um acampamento, esse gesto iria lhe conseguir um queixo inchado.

McCoy riu. — Vai sobreviver. Quer se sentar?

— Sim. - Com oito mãos ajudando (dois pares pertencendo ao enfermeiro), Zar sentou-se. A sala girou à volta dele por um segundo, então firmou-se. — Por que me sinto tão fraco?

— Porque você não moveu um músculo por sete dias. Se sentirá melhor quanto mais ficar em pé. Com fome?

— Faminto.

Depois de ter comido, Zar exigiu tentar andar. — Tudo bem - McCoy respondeu. — Acho que essa é a melhor maneira de convencê-lo a ir devagar. Urgh'kesht, não o deixe cair.

— Sim, doutor - o enfermeiro respondeu, agarrando obedientemente o braço esquerdo de Zar entre três carnudas mãos vermelhas.

Zar milimetrou seu avanço até o lado da cama, sentindo o deck contra a sola de seus pés nus, então, cuidadosamente, jogando seu corpo para frente e ficando em pé. Ele não pode reprimir o sorriso deliciado. — A dor se foi!

— Eu lhe disse - McCoy respondeu calmamente. — Agora dê um passo.

Zar levantou a perna esquerda e avançou...

...e só foi salvo de cair como uma pilha ignóbil pelo aperto de Urgh'kesht. O enfermeiro o segurou de pé, enquanto ele balançava como bêbado.

— Não posso andar! - Zar lutou contra o pânico. — Por quê não?

O médico cruzou os braços em frente ao peito e observou seu paciente, imperturbável. — O que está errado é que, por quinze anos, você vem protegendo essa perna ao andar incorretamente. Você vai ter que reaprender a andar normalmente.

Zar pensou quanto tempo levara para ele se recuperar depois do ferimento inicial. — Mas isso vai levar meses!

McCoy balançou a cabeça. — Não se obedecer às ordens do seu bondoso velho doutor. Você vai passar parte do dia com uma unidade de regeneração na perna, então fará exercícios com o equipamento de terapia física, com Urgh'kesht aqui. Depois disso, você poderá se exercitar sozinho - nadando seria bom. A cada dia será capaz de usá-la um pouco mais... até estar de volta ao normal. - Ele franziu a testa. — Eu o aviso, sempre será um pouco mais curta. Mas será tão pouco que pode ser que só você note.

Trincando os dentes, Zar tentou outro passo e dessa vez conseguiu manter o equilíbrio, embora todos os músculos em sua coxa esquerda parecessem estar tendo espasmos. Respirou fundo e tentou um terceiro passo. Então um quarto...

A cada dia que passava, ele melhorava. No terceiro dia, andava sem ajuda pelo ginásio e exercitava-se no equipamento, com cuidado para não forçar a perna. Então, cuidadosamente, ele afundou no lado mais raso da piscina e, com os dentes mordendo o lábio inferior, começou os movimentos de esticar e chutar que Urgh'kesht lhe mostrara.

Depois de dois dias no lado raso, pediu a Spock que lhe ensinasse a nadar (uma habilidade que nunca adquirira, por causa do clima da idade do gelo de Sarpeidon). Em outra semana, já era competente o bastante para fazer voltas e, como McCoy predissera, esse exercício provou ser um dos mais benéficos.

Zar levou suas "férias" forçadas tão a sério quanto qualquer outro trabalho que já houvesse feito. Chegava ao limite em seus exercícios, mas tinha o cuidado de nunca ultrapassá-lo... nunca se esforçar demais. Seu mundo durante o dia restringiu-se a sua perna e sua condição física geral. Ele temperou e moldou seu corpo, como fazia com a lâmina de sua espada, sabendo que sua força, agilidade e tempo de reação poderia ser toda a diferença.

As horas de sua noite eram passadas percorrendo planos de batalha e mapas que redesenhou de memória, analisando estratégias, criando configurações, distribuição de tropas, tentando planejar para qualquer contingência. Quando Spock e Kirk descobriram o que ele estava fazendo, os três passavam horas discutindo e refinando possíveis táticas...

— Essa catapulta aqui - disse Kirk, apontado para uma ficha de pôquer representado a máquina de ataque. — Se seu mapa é acurado, você tem uma pequena elevação aqui, cinqüenta metros a frente. Certo?

Zar concordou. — Toda a Planície Moorgate inclina-se gradualmente para o Redbank, mas entendo o que quer dizer. Se eu mudar a posição da catapulta para o topo da elevação, seu alcance pode ser consideravelmente aumentado... - Esticou um dedo e empurrou a ficha para mais perto da faixa azul marcando o Redbank. — Mas essa pequena elevação é íngreme... precisarei de vykar e tropas extras para puxá-la morro a cima - valeria a pena?

Spock estudou o padrão da distribuição de tropas. — Uma boa pergunta. Que tipo de terreno é esse?

— Quebradiço, na maioria rochoso.

— Então eu diria que o esforço despendido para carregar a catapulta seria muito grande para sobrepujar o maior alcance que conseguiria.

Zar suspirou. — Você está certo. - Levantou uma sobrancelha para Kirk. — Sabe, Jim, acabei de pensar em algo. Já que o Guardião está funcionando de novo, nós bem que poderíamos usá-lo e trazer de volta alguns consultores.

O almirante levantou a cabeça, seus olhos de avelã acendendo-se. — Boa idéia! Ah, vamos ver... que tal Alexandre? E Arthur da Inglaterra? Não esqueça do velho Júlio!

Zar concordou. — Gerônimo, é claro. E Gêngis. Patton?

— Muito recente para esse tipo de guerra. Embora ele costumasse se gabar de ter lutado em Maratona numa outra vida... Não tem ninguém com que contribuir, Spock? Qual é o nome daquele famoso general vulcano pré-reforma? Voltan?

— Voltag - Spock disse automaticamente, encarando os dois como se tentando se convencer que eles estavam brincando. Zar e Kirk olharam-no ansiosos, a representação da inocência. A sobrancelha de Spock levantou-se em descrédito. — Mas... tal ação seria desastrosa para a integridade da linha temporal... - O vulcano interrompeu-se, seus olhos afiando-se quando a boca de Kirk começou a tremer. — Entendo - disse, distante. — Eu espero que vocês dois tenham apreciado sua pequena piada.

O almirante começou a rir. — Você devia ter visto sua expressão. - Ele lançou um olhar de esguelha para Zar. — Faz muito tempo que consegui levá-lo assim. Logo que o conheci, Magro e eu costumávamos brincar com ele - embora eu deva admitir, com o tempo ele aprendeu a devolver tão bem quanto recebia.

— Melhor - disse Spock, sem emoção.

— Ai - Kirk recuou exageradamente. — Zar, acho que é melhor voltarmos aos planos de batalha...

Enquanto a Enterprise cumpria sua missão, o Guardião continuou a contatar Zar de tempos em tempos, a distância não parecendo ser qualquer empecilho para a entidade temporal. Sua "conversação" era bem unilateral... Zar encorajava a antiga criação a lhe contar as maravilhas que testemunhara e lembrava e ele parecia feliz em fazê-lo. Ele "ouvia" e imaginava.

— Jim me contou que estamos voltando para Gateway amanhã - o Dr. McCoy disse, checando os dados na unidade de regeneração na perna de seu paciente.

Zar concordou. — Foi o que Spock me disse. Como eu fui nos testes que fez essa manhã?

— A perna está indo muito bem. Você trabalhou duro para colocá-la em condição e isso aparece. Agora não estrague meu trabalho estirando algum músculo ou tendo um pedaço seu arrancado e eu ficarei muito feliz.

McCoy atravessou a sala de terapia física, desaparecendo em seu escritório, e retornou com um copo de café. — Quer?

Zar balançou a cabeça. — Eu já tomei meu copo. Não posso arriscar a ficar muito dependente de cafeína, já que não há nenhuma para onde eu vou. - Flexionou as mãos, notando que as calosidades em suas palmas estavam começando a amaciar e despelar. — E quanto às minhas reações gerais e tonicidade muscular? Minha energia?

McCoy sorriu. — Deixe-me dizer assim. Se um vitha trapaceiro estivesse atacando meus rebanhos, eu contrataria você para me livrar dele.

Sorrindo, Zar relaxou. — Então você me certifica capacitado para o comando?

— Absolutamente. - McCoy hesitou. — Eu provavelmente não deveria falar nisso, para o caso de você ter esquecido, mas você tomou uma decisão sobre o outro assunto que discutimos? Você viu os resultados daqueles testes genéticos que fiz. Você está ótimo.

— Eu não esqueci. - Zar encarou as leituras de diagnóstico da unidade de regeneração fixamente, como se nunca as houvesse visto antes. — Ontem à noite eu sonhei, Leonard. Sonhei com a morte de Araen, do jeito que já sonhei mais de uma dúzia de vezes antes...

McCoy sentou-se e sorveu um pouco de café. — Nada surpreendente depois do que os Originadores fizeram. Jim me disse que sonhou com a morte de sua mãe várias vezes desde que viu sua imagem em Gateway. -Seu rosto endureceu. — Diabos, eu mesmo sonhei com Jocelyn - e isso é algo que não faço há muito tempo. No entanto, posso imaginar como se sente.

Zar franziu a testa miseravelmente, olhando para sua perna. — Eu não sei o quer fazer, Len. Eu ainda tenho medo, o sonho prova isso, mas ultimamente venho pensando que lhe pedir para me dar essa hipo agora seria como... como quebrar a confiança de Wynn. Como se pagasse sua honestidade com uma mentira. Sem falar que estaria zombando de suas crenças religiosas. Estou dividido.

— Você diz que Wynn quer filhos. Como você se sente sobre isso? Confuso, Zar levantou a vista. — Eu expliquei por que estava com medo...

McCoy já estava sacudindo a cabeça. — Não, não é isso que quero dizer. Deixe-me colocar de outro jeito. Suponha que sua esposa tenha uma gravidez normal e um bebê saudável. Você iria querer a criança?

— É claro que sim! Não deixei isso claro?

— Não. - McCoy encarou-o, sem piscar.

Zar recostou-se no sofá alcochoado e considerou em silêncio. — Hmmmm - disse, finalmente. — Você está me dizendo, em seu próprio modo inimitável, que estou sendo paranóico.

— Sim. - Depois de um segundo para que sua resposta penetrasse, o doutor ergueu uma sobrancelha. — Agora, obviamente, há um risco, eu seria um mentiroso se lhe dissesse que não. Mas o perigo para Wynn não é maior que para qualquer outra mulher em seu período de tempo. E não há nada de errado com seus genes. - Ele terminou com o café. — Às vezes, não é só uma questão de você mesmo se arriscar. Às vezes, você tem que estar disposto a deixar as pessoas que você ama correrem os próprios riscos. Não pode mantê-los em um campo esterilizado.

— Entendo.

— Mesmo? Entende mesmo?

— Eu... estou tentando, Doe. Vivi com essa culpa por tanto tempo... e difícil deixá-la ir. Ao menos, quando estava me culpando, eu sentia como se tivesse algum... controle... sobre o que aconteceu. - Zar sacudiu a cabeça, carrancudo. — Isso parece loucura.

— Não, isso soa humano. O que não é um insulto, não importa o que seu pai diz.

Zar sorriu levemente. — Vocês dois... ainda discutindo, depois de todos esses anos. Vou sentir saudades disso.

Ele esticou cautelosamente a perna no confinamento da unidade de regeneração. — E sentirei falta das estrelas. Foi maravilhoso vê-las de novo, em todas suas infinitas cores... toda noite, antes de ir para a cama, fui ao deque de observação e apenas sentei lá, observando-as. Nunca me canso de olhar as estrelas.

— Por que você não fica, então? - McCoy levantou a mão para interceptar o protesto de Zar. — Espere, eu sei o que vai dizer. Mas você poderia voltar e pegar Wynn, então trazê-la através do Guardião também. Você estaria lhe fazendo um favor.

— Estaria? - Zar balançou a cabeça. — Não, Leonard. Wynn seria um anacronismo sem esperança neste tempo... uma sacerdotisa que devotou sua vida a servir uma deusa cujo o nome foi esquecido há milhares de anos. Ela nunca se ajustaria. Ela cresceu acreditando em demônios, tão sinceramente quanto sua sociedade acredita em ciência.

—Você poderia ajudá-la a se adaptar. Ela é uma mulher inteligente, poderia aprender.

— Mas ela algum dia seria feliz! Duvido. Wynn é como Jim, ela é uma líder natural. Nessa sociedade, ela se sentiria inútil... impotente.

— Parece com o que você disse sobre si mesmo em Sarpeidon, quando tentamos convencê-lo a ficar da primeira vez.

— Sim... mas é pior para ela. Diferente de mim, Wynn gosta de estar no comando. Diabos, se eu pudesse imaginar um jeito de abdicar e devotar minha vida a ensinar meu povo, eu provavelmente faria isso, porque é isso que gosto. Minha mãe era uma professora, sabe. E minha avó, Amanda.

McCoy sorriu. — Assim como seu pai, pensando nisso... um dos mais respeitados instrutores da Academia da Frota Estelar.

Um sorriso em resposta torceu o canto da boca de Zar. — Está na família. Talvez, se eu conseguir sobreviver, possa passar as rédeas gradualmente para Wynn.

Eles ficaram em silêncio companheiro por vários minutos, então Zar disse: — Eu vou sentir saudades especialmente de você, Leonard. Sabe, ainda não tivemos tempo para um jogo de pôquer. Como vou pagar a conta do meu médico?

McCoy sorriu. — Ainda temos seis dias. Vou tentar arrumar alguma coisa.

— Não, Len. Vou voltar assim que entrarmos em órbita de Gateway. Depois de amanhã.

— É muito cedo! - McCoy protestou. — A perna ainda não está pronta. Eu ia tentar fazer com que fossem dez dias ou duas semanas, em vez de só mais uma!

— A perna está ótima. Você mesmo disse que tive um excelente progresso.

— Mas se esperar mais dez dias, eu terei certeza de que não há nenhuma fraqueza residual! Sendo assim... ela pode lhe faltar se a forçar.

— Vou ter que arriscar isso. Leonard... eu fico acordado à noite, pensando na batalha, imaginando... você sabe. Se esperar mais, vou ficar louco. Tenho que acabar com isso... de um jeito ou de outro.

Spock entrou no turbo-elevador no fim de seu turno de serviço. — Deque E, nível 5 - disse distraidamente, revendo mentalmente o relatório de Narah sobre a trajetória da tempestade iônica. O oficial horta dirigia seu Departamento de Ciências com admirável eficiência e lógica. Um elogio formal seria correto, o vulcano decidiu. Falarei com o Comando da Frota Estelar quando chegarmos à Terra...

Quando Spock entrou em seu alojamento, alguns minutos mais tarde encontrou Zar sentado na mesa do terminal, observando uma tela em branco.

O vulcano não se surpreendeu de encontrá-lo ali, já que seu filho fora um visitante freqüente nas horas livres de seu pai, mas agora soube imediatamente que algo estava errado. Com passos silenciosos, avançou para olhar a etiqueta do disco de dados sobre a mesa.

Em sua própria bela letra, lia-se em vulcano:

SARPEIDON - HISTÓRIA (GF)

A respiração de Spock parou em sua garganta, então disse, suavemente: — Você a assistiu?

Zar não se assustou quando ouviu a voz e Spock percebeu que ele sabia, o tempo todo, que seu pai estava ali.

— Não - respondeu finalmente. — Não tive coragem.

O vulcano esticou o braço por cima do ombro do outro para pegar o disco. — Não há lógica em se submeter a essa visão. Eu pretendia desde o começo lhe contar o que pudesse ajudá-lo a evitar.... isso.

Zar concordou, ainda meio virado. — Eu apreciaria.

Spock sentou-se na beira de sua pedra de meditação, um longo e polido pedaço de granito vulcano - um dos poucos luxos que ele se permitia. Encarou sem ver o largo mosaico do IDIC na parede. — Os detalhes são difíceis de discernir, mas, aconteceu... em uma pequena colina - disse, enfim. — Foi... um golpe na cabeça. Não pude ver o rosto do homem, mas ele não parecia estar usando muita coisa como armadura. Seus braços, por exemplo, estavam nus.

— Asyri - Zar identificou. — Muitos deles vão para a batalha usando apenas um capacete de bronze, couraças de bronze sem braços, um saiote de batalha e proteções de bronze dos joelhos até as sandálias. Muitos pontos vulneráveis, mas o pouco peso os deixa muito rápidos. - Esfregou seu queixo pensativamente, enquanto virava-se para encarar Spock, e o vulcano viu que ele estava barbeado e seu cabelo fora cortado.

— Pôde ver a arma?

Spock balançou a cabeça. — Algum tipo de arma de impacto. Parecia com um machado curto, mas não posso ser positivo. Definitivamente não uma espada.

Zar concordou impassivelmente, então levantou a vista e encontrou os olhos do vulcano. — Mais uma pergunta e desculpe por antecipação por ser mórbido, mas... - Deu de ombros, — há coisas piores que a morte. Viver com uma mente aleijada, por exemplo. Foi uma pancada mortal? Imediatamente fatal?

— Pela força da pancada e a quantidade de sangue resultante, tenho certeza - Spock disse sem emoção, — que ninguém poderia ter sobrevivido à ela.

— Algum tipo de conforto, de qualquer jeito - disse Zar. — Eu reconheço que foi... difícil... para você falar disso e sinto muito ter de perguntar. Obrigado por me contar.

Spock concordou silenciosamente, fugindo dos olhos de seu filho. Ele revivia a desolação que sentira enquanto observava a seqüência de batalha. Fique aqui, queria dizer. Não deixe que isso aconteça. Mas ele não podia falar; Zar tomara sua decisão e não havia nada... nada... que ele, Spock, pudesse fazer.

O vulcano nunca se sentira tão impotente.

Quando levantou os olhos de novo, Zar o observava, preocupado. — Você está bem?

— Sim. - Para mudar de assunto, disse a primeira coisa que lhe passou pela cabeça. — Sua barba se foi.

Zar tocou o queixo de novo. — Parece estranho, depois de todos esses anos. Pretendia cortá-la bem curta, como sempre faço antes de uma batalha - uma barba grande o bastante para ser agarrada pode ser perigoso -mas não pude encontrar nenhuma tesoura. Então usei seu repressor capilar. Doe cortou meu cabelo também, pelos velhos tempos.

— Quando vai voltar?

— Amanhã de manhã, depois do café.

— Compreendo. - Spock manteve sua voz firme com esforço. Tão cedo? Pensou, estupidamente. Mas... pensei que teríamos pelo menos outra semana... — McCoy disse que sua perna está completamente curada?

— Não, Leonard quer que eu fique mais dez dias. Ele fez um sermão sobre esperar por todo o tempo que fiquei na unidade de regeneração essa manhã... mas não posso. A perna parece bem. Estive esgrimindo com Sulu.

Spock levantou uma sobrancelha. — Ouvi falar disso. Esses embates estão se tornando uma das atrações mais esperadas da nave. Aparentemente, vocês são considerados oponentes à altura.

Zar sacudiu a cabeça pesarosamente. — Dificilmente. Hikaru - ele é rápido - esgrima em círculos a minha volta com a lâmina e o florete. - Levantou-se e andou suavemente até ficar diante da antiga espada vulcana S'harien, pendurada na parede junto com outras armas antigas. — Sou melhor com o sabre porque tem corte, mas Sulu é especialmente forte no sabre, então ele sempre vence nisso também.

— Mas... - um sorriso fraco tocou-lhe os lábios, - hoje, Scotty, que assistiu o embate de sabres ontem, produziu duas claymores - espadas escocesas de dois gumes - e dois escudos, e nos desafiou a uma melhor de três com eles.

— O que aconteceu?

— Você deveria ter visto o rosto de Hikaru quando ele os pegou. Essas coisas eram ainda maiores que minha espada bastarda. - (Spock levantou uma sobrancelha diante da nomenclatura.) — A postura é diferente também - mais próximo, para que você possa balançar as duas mãos, em vez de lateral. Sem surpresa, eu venci todos os combates. Scotty, que apostou nas partidas, fez uma bolada. Ele disse que queria me nomear para filiação honorária no clã Scott.

A sobrancelha de Spock subiu. — Qual foi a reação do Comandante Sulu diante da derrota?

— Ele me disse que não se divertia assim há anos. Queria que eu o treinasse no uso da espada dupla, mas, é claro, estou partindo amanhã. Então Scotty se voluntariou para lhe dar algumas dicas.

O vulcano concordou distraidamente. Amanhã... pensou. E depois que você se for, eu certamente nunca mais o verei de novo. Há tantas coisas que gostaria de lhe dizer, mas não posso...

Com um movimento abrupto e raivoso, Spock levantou-se e começou a andar ansiosamente, mãos atrás das costas. — Você parece extremamente despreocupado com o que poderá enfrentar quando voltar amanhã.

— Acho que nosso encontro com aqueles dois perturbadores super-seres sobrecarregaram todos os meus circuitos de medo - Zar replicou. Seus olhos encontraram os do vulcano, claros e cândidos. — E, é estranho, mas suponho que pessoas condenadas à forca têm a mesma reação - há uma curiosa serenidade que vem do conhecimento de como, quando e onde você vai morrer. Você sabe que, até lá, nada pode tocá-lo.

Mas algo vai tocá-lo. Algo... alguém... vai matar você. Se apenas... se apenas houvesse algo que eu pudesse fazer. Se ao menos pudesse convencê-lo a ficar aqui, onde é seguro... Spock percebeu que suas habilidades racionais estavam comprometidas devido ao envolvimento pessoal, mas não podia impedir isso. Se eu apenas pudesse...

— Pai. - Spock levantou os olhos. — Há algo que quero que saiba. Wynn me disse que acha que pode haver um meio de impedir... o que você viu. Foi por isso que ela insistiu que eu voltasse para ajudá-los. É possível que, com seu aviso e com minha perna curada, eu possa ser rápido o bastante para desviar-me da pancada.

Spock sentiu uma chama de esperança brilhar dentro de si.

Zar olhou para suas mãos. — Eu quero ser rápido o bastante agora. O sermão que me passou aquela noite depois do casamento me fez pensar e comecei a perceber que o que eu vinha chamando de fatalismo era muito mais uma grande dose de auto-piedade. Obrigado por me ajudar a ver isso.

O vulcano sorriu fracamente. — Suspeito que o que aconteceu depois com Wynn tem muito mais haver com seu renovado entusiasmo pela vida do que qualquer uma de minhas palavras - disse, secamente.

Assustado, Zar levantou os olhos quando as palavras de Spock penetraram, seus olhos arregalados e corado. — Droga - murmurou, envergonhado. — Olhe o que me fez fazer. Não corava há anos.

— É especialmente perceptível agora que a barba se foi - seu pai observou, amigável.

Zar levantou uma sobrancelha para ele, então seus dentes brilharam em um sorriso relutante. — Eu vou lhe pegar por isso.

— Espero que tenha a chance - disse Spock seriamente.

Eles trocaram um longo olhar pesquisador, então Zar entregou-lhe outro disco. — Antes que eu esqueça, quero que fique com isso. Eu o fiz para que mostrasse a Amanda e Sarek... se achar que eles gostariam de ver. Você decide.

O vulcano pegou o pequeno quadrado. — Obrigado. Tenho certeza que significará muito para eles. - Respirou fundo, então lutou pelas palavras. — É difícil para mim expressar... o que vê-lo de novo significou... - Hesitou, então fez um pequeno gesto de frustração. — Mais que amizade, você sabe disso...

— Pai... - Zar interrompeu, suavemente. — Eu sei. Eu compreendo.

Se ao menos eu pudesse impedi-lo de ir... mas não posso. Se ao menos eu pudesse ajudá-lo... mas isso é impossível. Impossível?

Os olhos de Spock se estreitaram com o pensamento, quando as palavras que repetia tanto para seus alunos lhe ocorreram. Sempre há possibilidades... se apenas alguém puder encontrá-las... sempre possibilidades...

— Você jantou? - Disse, de repente, sua mente ocupada, analisando o problema por todos os ângulos. Possibilidades...

Zar foi surpreendido pela completa mudança de assunto, mas sacudiu a cabeça e respondeu: — Ainda não.

— Vamos? - Spock perguntou. — Descobri, de repente, que estou faminto.

 

— Pegou tudo? - Perguntou Kirk ao aproximar-se de Zar, que estava parado com McCoy no corredor, fora da sala de transporte.

Zar mostrou a bolsa que carregava.— Novos discos de música e literatura, além de um kit médico que Leonard montou. Tudo aqui.

— Nem tudo - Kirk disse e fez aparecer um pacote detrás das costas. Magro me disse que você sentia falta disso. É café.

— Obrigado! - Zar pegou o grande pacote, então cheirou-o, apreciativa-mente. — Isso é maravilhoso.

Kirk sorriu. — É o mínimo que posso fazer pelo homem que conseguiu que Scotty pintasse as portas de minha ponte de vermelho de novo.

O Sovren sorriu de volta. — Elas estão exatamente como antigamente, não é?

O almirante concordou, abaixando a voz. — É claro que ele diz que vai ter que repintá-las pela especificação do regulamento antes que aportemos, mas eu certamente gostei. Mesmo considerando as circunstâncias que nos trouxeram aqui, foi ótimo sair de detrás da mesa.

— É aonde pertence, Jim - Zar disse calmamente. — Você sabe disso. Kirk hesitou, então afastou o olhar. É claro que sei, porcaria. Mas o que posso fazer quanto a isso? — Onde está Spock? Ele já devia estar aqui agora. Quando não o vi no café, achei que iria nos encontrar aqui. Talvez fosse melhor procurá-lo.

— Não. - Kirk podia ver o desapontamento doloroso nos olhos cinzentos, mas Zar soou inflexível. — Não chame. Nós... nos despedimos ontem à noite.

— Bem... está certo. - Relutantemente, Kirk liderou o caminho para a sala de transporte, então entrou as coordenadas nos controles, deliberante-mente atrasando-se, no caso do vulcano mudar de idéia e decidir juntar-se a eles. Não posso acreditar que Spock não vai dizer adeus...

— Cuide de você agora - McCoy estava dizendo, sua voz rouca de emoção. — Não force essa perna. Lembre-se de fazer os exercícios... não se esqueça de meditar... e lembre-se de... - Ele parou. — Ah, droga, não posso agüentar isso! - O médico envolveu Zar em um curto mas caloroso abraço e se foi, porta a fora.

Kirk afastou-se dos controles, estendendo a mão. — Vou sentir saudades, Zar. Muitas. Cuide-se bem, está certo?

Zar apertou sua mão fortemente. — Você também, Jim. Vou sentir saudades de todos vocês também. E ela... — Fez um gesto de inclusão total para as paredes e consoles. — Cuide dela.

— Você sabe que o farei.

Kirk observou-o subir no pedestal, segurando sua bolsa e o pacote de café, então conseguiu sorrir e acenar.

— Adeus, Jim.

O transporte funcionou, então Kirk estava sozinho na sala.

Quando o almirante saiu, encontrou McCoy esperando por ele no corredor. Os olhos do médico estava avermelhados, mas exteriormente estava composto. — Está bem, Magro?

— Sim - McCoy grunhiu, em seu tom de "vamos mudar de assunto".

— Viu Spock essa manhã?

— Não, mas quando o vir vou dizer o que penso sobre aquele maldito vulcano de sangue gelado. Imagine não aparecer para dizer adeus! - A tristeza de McCoy desapareceu em uma onda de indignação de direito. — Onde diabos ele está?

— Não sei. Ele não esta de serviço. Talvez esteja em seu quarto. - O almirante franziu a testa, consciente de uma crescente ansiedade. — Talvez devêssemos ver se ele está bem.

Quando alcançaram a entrada da cabine do vulcano, Kirk identificou-se, mas não houve resposta. — Ele não está aqui.

— Faça Uhura chamá-lo - McCoy sugeriu.

Em vez disso, Kirk pressionou o botão de abrir e a porta escorregou silenciosamente de lado. Vulcanos nunca trancavam as portas.

Entrou no quarto, sentindo a alta temperatura fluir sobre seu corpo, parcialmente combinada com o arrepio que percorreu-o. — Algo não está certo, Magro - disse, olhando em volta. — Algo está diferente... faltando...

McCoy franziu a testa. — Tudo parece bem para mim... é claro que você passa mais tempo aqui do que eu, então é você que deve saber. -Avançou para o intercom. — Quer que peça uma procura?

— Espere um segundo - o almirante disse distraidamente, seu olhar varrendo a sala... espartana, tudo arrumado com precisão militar; a pedra de meditação; aquecedor na alcova; o mosaico IDIC; mesa com computador; tudo normal, tudo como deveria ser...

Kirk enrijeceu de repente. — Ah, não. Deus do céu, não...

McCoy agarrou o braço de seu amigo, seu aperto forte e assustado. — O que está errado, Jim?

Sem palavras, Kirk apontou a parede, para a coleção de antigas armas vulcanas de Spock. Duas delas, que Jim tinha motivo particular para lembrar, estavam faltando.

— Parece o mesmo para mim! O que é? - McCoy exigiu.

— A lirpa e o ahn-woon - Kirk disse, sua voz dura de medo. — Elas se foram. Ele as levou consigo, Magro.

— Levou o que aonde?

— Sarpeidon, é claro. - A voz do almirante estava vazia. — Spock vai voltar para aquela batalha, para tentar salvar Zar.

 

Zar andava lentamente de um lado para outro, a brisa gelada balançando seu cabelo. Ele estava bem quente entre as dobras de sua capa, mas estremeceu mesmo assim. Seu estômago deu um salto, então se apertou de enjôo. Achou que já estaria acostumado com isso agora, pensou, trincando os dentes.

Mas era sempre a mesma coisa, antes de cada batalha ele lutava em conflito silencioso com seu próprio interior, algo que não tinha nada com os avisos de morte que recebia sobre aqueles que lhe eram próximos. Esses ataques não eram outra coisa que nervos pré-batalhas. Quando a luta começasse, iriam desaparecer.

Pensaria que é um recruta novato, disse a si mesmo, desgostoso, em vez do Primeiro-na-Guerra. Terá sorte se passar pelo seu discurso "faça-ou-morra" sem envergonhar a si mesmo.

Por outro lado, lembrou-se melancolicamente, essa, provavelmente, é sua última batalha, então, se conseguir passar desta vez, parece que não terá de se preocupar com nenhum outro discurso...

Para distrair-se desses pensamentos, afastou a escuridão e reviu, em sua mente, o terreno onde ele e aqueles sob seu comando, logo estariam lutando.

Estava parado na Planície Moorgate, uma larga extensão de turfa ainda molhada que descia gradualmente para Redbank, que ficava a quase um quilômetro adiante dele. No outro lado, a planície crescia em cada vez mais largas elevações, onde encontrava o sopé das montanhas ao norte e ao sul. Às suas costas, cerca de dois quilômetros, ficava Nova Araen.

O vale Lakreo estreitava-se enquanto aproximava-se da cidade e Zar estava contando que os não-combatentes tivessem tempo suficiente para alcançar as montanhas e suas passagens se o dia fosse contra eles; suas tropas podiam defender a entrada do vale por um longo tempo.

Mas sua estratégia exigia espaço para manobra, então seu primeiro encontro com os invasores seria ali, na planície Moorgate.

— Senhor? - A voz de Cletas alcançou-o em meio a escuridão.

Zar mal podia identificar os contornos de seu Segundo-na-Guerra; a noite era poderosa, mais escura que o fundo de um poço e as tochas do acampamento estavam muito atrás deles.

— Aqui, Cletas. Estamos prontos?

— Todas as tropas em posição, senhor. Fizemos as mudanças que ordenou na posição das catapultas e redistribuímos os arqueiros como instruiu. Yarlev e a cavalaria estão escondidos nos montes, esperando por nosso sinal.

— Bom. - Zar estava para dizer algo mais, mas outro espasmo de enjôo apertou seu estômago. Lutou contra ele e começou a andar de novo, o Segundo ao seu lado. Ambos pisavam com cautela, tendo o cuidado de evitar os buracos finamente camuflados que as tropas haviam cavado durante a noite para derrubar as carruagens do inimigo quando eles corressem rio acima.

— É difícil esperar, não é? - Cletas disse.

— Sim. - Zar olhou através do Redbank, vendo as tochas no campo inimigo. Há tantos deles... ainda estavam em minoria... Ele sacudiu os ombros e abaixou a voz para perguntar: — Você treme alguma fez antes de uma batalha, Cletas?

— Todas as vezes - seu Segundo disse, alegremente. — E há chances iguais de eu perder, ou não, o café da manhã. Lembra-se de nossa primeira luta juntos? Aquela grande tropa de bandidos, com o líder sem olho e que usava um colar feito de escalpos?

— Eu me lembro.

— Quando cavalgamos para essa, eu não só vomitei, voltei para casa em uma sela molhada. - O Sovren ouviu o riso na voz de seu Segundo. — Nunca contei a ninguém sobre isso... até agora.

Zar colocou a mão no ombro de Cletas, sentido a dura flexibilidade da cota de malha de seu Segundo, sob sua capa. — Obrigado, meu amigo. Falar ajuda, não é? Reconheço sua estratégia... e acredite-me, eu a aprecio. Que Ashmara o proteja hoje.

— Protegerá? Estarei a salvo?

Zar inalou. — Então sabe sobre isso?

— Sei há anos. Desde que Lady Araen morreu.

— Entendo. Não tive qualquer aviso hoje, Cletas. Então, talvez, você sobreviverá.

— Isso significa que estará a salvo também, meu soberano?

— Eu não sei. Só posso saber sobre outros, nunca sobre mim. Ficaram em silêncio algum tempo, ouvindo o suave mas inconfundível ruído do exército às suas costas (o praguejar baixo, o silvo da pedra de amolar contra o aço, a respiração e o movimento agitado do vykar, alguns acordes tentadores de música) e, diante deles, o ainda mais distante blop-blop do Redbank quando lambia suas margens.

Zar tinha cuidado em manter seu escudo mental levantado, para ouvir apenas com os ouvidos, nunca com sua mente - sabia que baixar sua guarda, mesmo por um momento, poderia ser desastroso. Havia muita apreensão antes de uma batalha e muita dor e medo durante. Ele aprendera, por necessidade, a manter seu escudo mental levantado automaticamente, mas isso representava outro vazamento para sua energia mental e física.

Cletas cheirou a brisa que descia das montanhas. — Aposto que vai haver tempestade pelo meio do dia.

— Essas nuvens estão se fechando - Zar concordou. — Será um amanhecer tardio e escuro. Ainda assim, haverá luz em uma hora. É melhor eu ir me aprontar.

Lentamente, o Sovren seguiu seu caminho através da escuridão, de volta à tenta de Comando. Ela brilhava em dourado pálido, iluminada no interior por uma lamparina. Ele acenou de volta para o cumprimento do guarda, abaixou-se diante da aba aberta e entrou.

Wynn estava no meio da tenda, checando novamente as amarras de sua armadura. Voba ajoelhava-se diante dela, amarrando a nova armadura encadeada. Ela ainda não usava o capacete, mas tinha o resto da armadura completa. As proteções para suas pernas, coxas, joelhos e braços eram velhas, feitas de placas de couro fervido em pratos de bronze - não houvera tempo para fazer placas de aço que coubessem nela.

— Gostou de seu presente de casamento? - Zar perguntou.

Wynn levantou a nova espada, pendente em seu quadril esquerdo, e a lamparina lançou sombras âmbar sobre a lâmina azulada. — Eu adorei. O comprimento é perfeito e o equilíbrio, soberbo. Embora, - ela sorriu para ele enquanto Voba afastava-se e ela balançava a arma em um exercício restrito, sabendo do espaço limitado, golpe de frente, golpe oblíquo e cortar, — tenha tido problemas para manter-me séria quando você presenteou meu pai e eu com as espadas em frente de todos os oficiais. Tem de admitir, uma espada é, de algum modo... um presente simbólico... para um marido dar à esposa. - E ergueu sugestivamente as sobrancelhas para ele.

Zar balançou a cabeça. — Esse significado nunca me ocorreu - um lento sorriso abriu-se em sua boca, — ao menos até ver o rosto de Cletas. Parecia que ele lutava para não rir.

— Isso é porque você não tem uma mente suja, meu caro senhor. Cletas e eu temos. - Ela embainhou a espada sem olhar. É bom que esteja usando o capacete. Acho que ninguém mais o viu enrubescer.

— Essa é a segunda vez em dois dias - Zar disse triste. Seus olhos se encontraram e ele deu um passo involuntário para ela, desejando poderem ficar sozinhos, apenas por alguns minutos. Desde aquele abraço extasiado quando ele voltara, eles estiveram cercados por pessoas e muito ocupados com os deveres para trocarem mais que um rápido sorriso e alguns palavras sussurradas...

Voba limpou a garganta e Zar virou-se para encontrar seu ajudante-de-ordens parado ali, seus braços cheios de malhas e armaduras. Suspirou. —; Está certa, está na hora.

O Sovren olhou para as várias peças que Voba segurava e fez sua escolha. Nos últimos anos, passara mais tempo, durante as batalhas, montado, dirigindo os movimentos das tropas, do que lutando e usara a armadura leve de um cavaleiro de cavalaria para poder mover-se rápido. Mas não tinha ilusões quanto a hoje: hoje todos estariam envolvidos em encontros próximos, lutas corpo-a-corpo, antes que acabasse.

O problema era balancear o peso da armadura pela fator de proteção. Cavaleiros, durante o período medieval da Terra, usaram armaduras completas em placas (geralmente com malha metálica por baixo) e isso lhes garantia excelente proteção contra os golpes e batidas, mas eram tão pesadas que o guerreiro só seria capaz de uma luta extenuante por quinze ou vinte minutos de cada vez.

Agora Zar escolhia calças de malha metálica - chausses - que eram seguras na cintura por um cinto, então acrescentou sua malha muito melhorada. De manga curta, cobria seu torso até o meio da coxa, estendendo-se sobre a chausses.

Então, enrugando a testa, ele pegou um gorro metálico com um barrete que descia para proteger a garganta e pescoço. Normalmente o Sovren só usava seu capacete de placa de aço com sua característica pluma vermelha, para que suas tropas o pudessem reconhecer facilmente, mas, devido ao aviso de Spock, uma proteção extra para a cabeça parecia necessário. Eu vou assar em tudo isso. Droga.

Zar colocou o gorro e o barrete na pilha.

— Muito bem, sire - Voba disse, acenando em aprovação. O ajudante de cabelos vermelhos estava sempre insinuando que seu comandante precisava de mais e mais pesada armadura. — Mas e quanto a armadura para o braços e antebraço?

O Sovren concordou com relutância e selecionou protetores para os braços, feitos de placas de aço. — Feliz agora, Voba?

— Está muito melhor, sire.

Zar colocou a calça colante que protegia a pele do atrito, então vestiu as chausses como longas meias. A única maneira de vestir a armadura era de baixo para cima; ele descobrira isso da primeira vez que tentara de outro modo. Voba trouxe, alegremente, um par de demi-greviére - caneleiras de placa de aço para cobrir a frente da perna, do tornozelo ao joelho, e Zar, reclamando baixinho, deixou seu ajudante amarrá-las. Então escorregou para dentro da saia de couro e Voba amarrou sua couraça. Finalmente, colocou um gorro apertado e vestiu o gorro metálico. Amarraria o barrete a volta do pescoço no último momento antes da batalha.

Finalmente, inspecionou e prendeu sua espada. Juntos, Wynn e Voba amarraram suas proteções de braço.

Zar pegou seu capacete e escorregou o escudo pelo braço. Na verdade era uma combinação entre carapaça e escudo, assim podendo ficar preso ao seu braço por amarras ou seguro pelo pulso esquerdo. Como explicara a Kirk, isso era essencial para bloquear os ataques.

Ele olhou para Wynn. — Pronta, minha senhora?

— Pronta, meu senhor.

Juntos, eles saíram. Zar estudou o céu, vendo um pouco de luz a leste. O ar estava cheio com o suave ruído de armaduras e armas sendo colocadas e a respiração nervosa dos vykar treinados para a guerra. No lado mais afastado do campo, podia ouvir o distante clamor de dois soldados se esquentando. Seu estômago se apertou.

— Eu odeio a espera - murmurou, mal consciente que falara em voz alta.

— A melhor coisa a fazer é manter-se ocupado - Wynn lhe disse e levantou a espada. — Vamos nos esquentar?

Zar concordou, tirou sua capa, então colocou o capacete. Sua espada escorreu para sua mão enluvada em couro e metal tão naturalmente quanto era sua respiração.

Tocaram as lâminas em saudação, então começaram devagar, gradualmente percebendo o tempo, sem pressa, apenas soltando os músculos, afiando o tempo de resposta.

Golpe de frente, golpe oblíquo, aparar, cortar, avançar - Wynn, como o resto de sua gente, tinha pouca experiência no uso da ponta, então quando a lâmina de Zar tocou seu seio esquerdo enquanto ele bloqueava seu ataque, ela parou. — Você tem de me ensinar a fazer isso.

— Alegremente. - Ele passou os minutos seguintes demonstrando, então voltaram ao treino.

— Agora você tenta um - disse, deixando-lhe, deliberadamente, uma abertura, preparado para saltar para trás e bloquear se ela tentasse com muita força.

Wynn avançou para ele, mas perdeu um ponto vital. — Pegou a idéia -ele disse. — Agora só precisa de prática.

Ela concordou, seu rosto sombrio em concentração, então um segundo depois seu aço tocou o ombro dele. — Muito melhor!

Ela deu um passo para trás. — É melhor parar enquanto estou ganhando.

Ele embainhou sua lâmina e inclinou-se ligeiramente. — Gostei disso -disse. — Você é boa com uma espada.

— Não, você é bom - Wynn corrigiu-o, aproximando-se. — Eu posso cuidar de mim, mas não estou em seu grupo. Especialmente agora, com sua perna curada.

Zar flexionou os músculos de sua perna esquerda com cuidado, então concordou. — Estou tentando não exigir demais dela, mas é maravilhoso poder mover-se livremente de novo.

Eles haviam juntado um círculo de observadores. Wynn acenou para os soldados reunidos a sua volta. — O efeito nas tropas é ainda melhor - sussurrou. — Seus espíritos estão elevados, agora que metade da profecia já se realizou.

Zar quase esquecera as palavras exatas da visão de Wynn até que ela o lembrara. Vendo Voba emergindo da tenda de comando, disse: — A tenda está vazia agora. Eu não quero fazer nossa despedida aqui fora.

Uma vez dentro, ele abaixou a entrada, apagou a lâmpada no cinzento antecedente da alvorada e puxou Wynn para si. Ficou parado, olhando-a, mal capaz de perceber o pálido borrão que era seu rosto. — Só temos alguns minutos - ele sussurrou.

Ela tocou sua bochecha. — Tão macia - murmurou. — Como ficou tão macio?

— Não com uma lâmina - ele respondeu. — Mais "mágica" do meu tempo a bordo da Enterprise. Gosta?

— Eu não sei. Precisarei de tempo para me acostumar.

— Tempo... - Ele a beijou levemente. — Se apenas tivéssemos mais tempo... se eu não...

— Quieto! - Ela gritou, seus braços subindo para trás de seu pescoço. — Nem mesmo diga isso. Não vai acontecer.

— Está bem - ele sussurrou e a beijou com lenta e apaixonada deliberação. Ela correspondeu, segurando-o com força, fazendo um suave ruído no fundo da garganta.

Quando finalmente se separaram, ela enrugou a testa para ele. — Beijar enquanto se usa armadura é estupidez - reclamou. — Nenhuma graça mesmo.

— Então por que está ofegante?

Ela riu macio. — Você já me conhece bem. Zar tocou-lhe o rosto. — Está na hora.

— Sim, eu sei.

 

Segurando um braço machucado contra o corpo, o cavaleiro fez o vykar parar, fez uma saudação automática, com a mão esquerda. — Sire! O Comandante Zaylenz requisita reforços. Os arqueiros de Rorgan o forçaram a recuar e sua Unha está enfraquecendo.

Zar concordou. — Pode cavalgar?

— Sim, senhor.

— Então diga a ele que estamos bem atrás de você. O vykar partiu.

Zar voltou-se ao próximo homem montado que o esperava na inclinação. — Instrua o Segundo Cletas para liderar três companhias da infantaria de reserva para apoiar a linha do Comandante Zaylenz. Então encontre o Comandante Yarlev e diga-lhe para mandar uma tropa de cavalaria através do sopé da montanha para um ataque pela retaguarda contra o flanco asyri. Diga a ambos que eu estou indo na frente, com um esquadrão.

— Sim, senhor! - Seu vykar, fresco e impaciente, correu pela inclinação para as tropas de reserva, como se pudesse voar.

Zar virou-se para encontrar Voba ao seu lado, segurando as rédeas do vykar de seu comandante. — Chame a guarda. Não podemos deixar que passem.

Pegou as rédeas e saltou para a sela, momentaneamente aliviado por não ter de ordenar a sua montaria que ajoelhasse.

Momentos depois ele trotava ladeira abaixo, escudo levantado e armadura abaixada, à frente de vinte soldados da infantaria.

As forças de Rorgan e Laol começaram seus ataques cerca de uma hora depois do amanhecer Suas carroças passaram pelo Redbank em ondas aparentemente intermináveis, mas as catapultas e os fossos diminuíram dramaticamente seus números. Ainda assim, sobraram bastante deles para guardar a infantaria inimiga quando esta fez sua travessia.

Enquanto Zar descia a montanha, estudava o campo. As forças de Laol lutavam furiosamente à esquerda, mas sua gente os segurava, até mesmo empurrando-os de volta um pouco. Mas a sua frente, podia ver que os arqueiros de asyri castigavam o flanco direito das forças de Lakreo, que recuavam lentamente ladeira acima. Meio quilômetro de terreno entre o Redbank e os exércitos em luta estava vazio, exceto pelos corpos dos mortos e feridos. As tropas de Zaylenz lutavam bravamente em ordem, em contraste com a selvagem e desorganizada massa dos invasores - mas, claramente, estavam enfraquecendo.

Zar fez sua montaria ir mais rápido quando viu a linha ficar mais fina, balançar, então um homem cair com um grito e os asyri começarem a atravessar.

Um segundo depois Zar estava no meio deles, golpeando ombros e pescoços, enquanto seu vykar saltava e atacava, balançando sua cabeça chifruda de modo maldoso. Uma lança o atingiu no lado, mas foi desviada por sua armadura, então ele amparou outro golpe com seu escudo. Um segundo depois ele sentiu algo atingir sua perna esquerda e girou na sela bem a tempo de esfaquear o homem em sua boca aberta antes que o asyri pudesse atingi-lo de novo. Dentes bateram contra a lâmina quando ele a sacudiu para livrá-la.

Sua perna parecia estar bem, Zar notou aliviado, enquanto amparava automaticamente outro golpe asyri e chutava o homem na garganta com seu pé coberto por armadura. O guerreiro asyri tropeçou para trás e caiu com um grito sob as patas do vykar.

Por agora, o esquadrão de soldados de lakreo juntavam-se à luta e, por vários minutos, o Sovren esteve muito ocupado para pensar conscientemente. A despeito de seus maiores esforços, ainda estavam sendo obrigados a recuar.

Repentinamente a montaria de Zar tropeçou no terreno rochoso e caiu, prendendo um asyri sob ele. Zar libertou sua perna direita e saltou livre quando seu vykar rolou, esmagando o homem sob ele, então lutou para se colocar de pé. O Sovren viu que a criatura estava manca e golpeou-a nas ancas com o lado da espada, para afastá-la do caminho. Assustada, ela pulou para frente e ele perdeu-a imediatamente de vista, enquanto amparava um golpe que visava cortar-lhe o braço. Um momento depois sua espada encontrou a axila do soldado e lá estava outro com quem ele não precisava se preocupar mais...

Cortar, atacar, amparar, golpe de frente, amparar, golpe oblíquo, amparar, atacar de novo, então um passo para trás, não escorregue na lama ou no sangue...

Para trás - estavam sendo forçados para trás, subindo uma inclinação acentuada no lado direito do campo de batalha...

Atacar, amparar... um passo para trás... e para trás de novo...

Zar ofegava pesadamente, mas seus braços ainda moviam-se com precisão e ele estava vagamente grato às semanas a bordo da Enterprise, àquelas horas no ginásio. Se não fosse por elas, e McCoy curando sua perna, ele provavelmente teria caído horas atrás.

— Afastem-se! Lembrem-se de minhas ordens! O filho do demônio é meu!

O rugido em asyri atingiu Zar como se vindo de muito longe, fraco se comparado ao ruído da batalha, ao sangue pulsando em seu ouvido, o respirar pesado. O Sovren olhou em volta, intrigado, vendo que os guerreiros asyri tinham se afastado, formando um círculo primitivo, deixando-o sozinho no centro.

Enquanto lutava por ar, viu um grande homem, tão alto quanto ele e construído como um grande vykar, dar um passo à frente do círculo. Quem é esse?, ele pensou, sem muita curiosidade, mais preocupado em tentar normalizar a respiração. Então viu que o homem carrega a espada na mão esquerda; onde a direita deveria estar havia uma bola com perigosos espinhos.

Rorgan Death-Hand, Zar percebeu. O homem responsável pela morte do marido e do filho de Wynn.

Com o canto do olho, viu Voba e os homens restantes do esquadrão que liderara começarem a subir para perto dele e, enfaticamente, balançou a cabeça para seu ajudante. Não. O que quer que ele queira, isso pode nos dar tempo suficiente para que os reforços de Cletas e Yarlev cheguem até nós.

Quando Voba e os outros pararam obedientemente, Zar imaginou como o resto da batalha estaria. A única coisa de que tinha certeza era que Wynn estava bem, já que ela estava no fundo de sua mente, escondida como um talismã secreto contra o medo e a solidão.

— Você me conhece, filho do demônio? - O líder asyri vociferou asperamente. — Até mesmo demônios têm o direito de saber quem vai matá-los.

Zar concordou em silêncio, poupando seu fôlego, estudando o modo como o outro homem ficava, checando sua armadura de bronze por pontos vulneráveis. O chefe asyri usava um capacete, couraça, kilt escamado, armaduras nas pernas e uma guarda de bronze no braço da espada.

Rorgan dirigiu-se a suas tropas. — Quero o prazer de matá-lo para mim. Esse é um duelo honrado, então quem interferir com o vencedor ou o perdedor, morre! Entendido?

Os guerreiros asyri reunidos o saudaram. Idiota, Zar pensou, caindo para a posição de guarda, observando Rorgan enquanto o líder asyri movia-se para ele. Em seu lugar eu me despacharia pelas costas em dois segundos e estaria a caminho de Nova Araen. Essa noção de combate solitário de "ele é todo meu" é uma carga de vykar...

A espada do líder asyri assobiou no ar. O Sovren saltou para trás, amparando o golpe com seu escudo e então avançando com um golpe de frente para o braço de Rorgan. O homem girou, escapando da lâmina por um palmo e a maça desceu. Zar desviou-se, sentindo aqueles espinhos perigosos escovarem a ponta das plumas em seu capacete.

Ele pode ser um tolo mas é rápido, a despeito de seu tamanho.

Eles se agarraram por um momento, a maça presa contra o escudo, lâmina contra lâmina, e, pela primeira vez, Zar estava próximo o bastante para ter um relance dos olhos azuis e as feições não marcadas sob a sombra do capacete do líder asyri. Seu coração afundou. E jovem também. Droga. Provavelmente tenho 25 anos a mais que ele.

Os braços muito musculosos do líder asyri incharam ainda mais enquanto forçava o braço do escudo de Zar para baixo... baixo...

Deus, ele é forte...

Com um grito ensurdecedor e sem palavras, o Sovren abaixou seu pé coberto de armadura sobre o dedão dentro da bota do outro, então, enquanto Rorgan gritava, saltou para trás e para longe.

— Você não tem honra, filho do demônio! Fique e lute, covarde!

Zar afastou-se para trás, circulando, seus olhos nunca deixando os de seu oponente. Fazia anos que no lutava contra um oponente canhoto e tinha que ajustar sua posição de acordo. Não podia permitir-se esquecer a maça também. Não era apenas uma arma formidável, Rorgan podia esgrimir com ela também.

— Ouvi dizer que casou com aquela sacerdotisa su