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O FOGO INTERIOR / Carlos Castañeda
O FOGO INTERIOR / Carlos Castañeda

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FOGO INTERIOR

 

Escrevi extensos relatos descritivos de meu relacionamento de aprendiz com um feiticeiro indígena mexicano, Dom Juan Matus, Devido à estranheza dos conceitos e práticas que Dom Juan desejava que eu compreendesse e internalizasse, não tive outra escolha senão apresentar seus ensinamentos sob a forma de uma narrativa, uma narrativa do que aconteceu e da maneira como aconteceu.

A organização do ensino de Dom Juan era baseada na idéia de que o homem tem dois tipos de consciência. Ele rotulou-os de lado direito e lado esquerdo. Descreveu o primeiro como o estado de consciência normal, necessário para a vida cotidiana. O segundo, disse ele, era o lado misterioso do homem, o estado de consciência exigido para ele funcionar como feiticeiro e vidente. De acordo com isso, Dom Juan dividiu sua instrução em ensina­mentos para o lado direito e ensinamentos para o lado esquerdo.

Conduzia seus ensinamentos para o lado direito quando eu estava em meu estado de consciência normal, e já descrevi esses ensinamentos em todos os meus relatos. Em meu estado de consciência normal, Dom Juan contou-me que era um feiticeiro e até mesmo apresentou-me a outro feiticeiro, Dom Genaro Flores; devido à natureza de nossa associação concluí logicamente que me haviam tomado como seu aprendiz.

Aquele aprendizado terminou com um ato incompreensível, que tanto Dom Juan como Dom Genaro levaram-me a realizar. Fizeram-me saltar do topo achatado de uma montanha para um abismo.

Descrevi em um dos meus relatos o que teve lugar naquele topo de montanha. O último drama dos ensinamentos de Dom Juan para o lado direito foi representado ali pelo próprio Dom Juan; Dom Genaro; dois aprendizes, Pablito, Nestor e eu. Pablito, Nestor e eu pulamos do alto da montanha para o abismo. Depois disso, durante anos, pensei que somente a minha confiança total em Dom Juan e Dom Genaro havia sido suficiente para dominar todos os meus medos racionais ao encarar a aniquilação real. Sei agora que não era assim; sei que o segredo estava nos ensinamentos de Dom Juan para o lado esquerdo, e que foi necessária tremenda disciplina e perseverança para que ele, Dom Genaro e seus companheiros conduzissem esses ensinamentos.

Foram necessários aproximadamente dez anos para que eu rememorasse o que de fato ocorreu em seus ensinamentos para o lado esquerdo, para me deixar tão disposto a realizar aquele ato incompreensível: saltar para um abismo.

Foi em seus ensinamentos para o lado esquerdo que Dom Juan mostrou o que ele, Dom Genaro e seus companheiros estavam realmente fazendo comigo, e quem eles eram. Não estavam ensinando feitiçaria, e sim como dominar três aspectos de um antigo conhecimento que possuíam: consciência, espreita e intenção. E não eram feiticeiros; eram videntes. E Dom Juan não era apenas um vidente, mas também um nagual.

Dom Juan já me havia explicado, em seus ensinamentos para o lado direito, muita coisa sobre o nagual e sobre ver. Eu havia compreendido ver como a capacidade dos seres humanos alargarem seu campo de percepção até se tornarem capazes de assimilar não apenas as aparências externas, mas a essência de tudo. Ele explicara que os videntes vêem o homem como um campo de energia que parece um ovo luminoso. A maioria das pessoas tem seus campos de energia divididos em duas partes. Alguns poucos homens e mulheres têm quatro ou às vezes três partes. Por serem mais flexíveis do que o homem médio, essas pessoas podem tornar-se naguais após aprenderem a ver.

Em seus ensinamentos para o lado esquerdo, Dom Juan ensinou-me as complexidades de ver e ser um nagual. Ser um nagual, disse ele, é algo mais complexo e abrangente do que ser meramente um homem mais flexível que aprendeu a ver. Ser um nagual implica ser um líder, um mestre e um guia. Como nagual, Dom Juan era o líder de um grupo de videntes conhecido como o "grupo do nagual", composto de oito videntes mulheres, Cecília, Delia, Hermelinda, Carmela, Nelida, Florinda, Zuleica e Zoila; três videntes homens, Vicente, Silvio Manuel e Genaro; e quatro correios ou mensageiros, Emilito, Juan Tuma, Marta e Teresa.

Além de liderar o grupo do nagual, Dom Juan também ensinou e guiou um grupo de videntes aprendizes conhecido como o "grupo do novo nagual". Este consistia de quatro homens jovens, Pablito, Nestor, Eligio e Benigno, juntamente com cinco mulheres, Soledad, La Gorda, Lídia, Josefina e Rosa. Eu era o líder nominal do grupo do novo nagual, juntamente com a mulher nagual Carol.

Para que Dom Juan pudesse ministrar-me seus ensinamentos para o lado esquerdo, era necessário que eu entrasse num estado único de clareza de percepção, conhecido como consciência intensificada. Através dos anos de minha associação com ele, Dom Juan fez-me passar repetidas vezes para esse estado por meio de um golpe que desfechava com a palma de sua mão na parte superior de minhas costas.

Dom Juan explicou-me que, em um estado de consciência intensificada, os aprendizes podem agir quase tão naturalmente como na vida diária, mas são capazes de concentrar suas mentes em qualquer coisa com força e clareza incomuns. Entretanto, uma qualidade inerente da consciência intensificada é a de não ser suscetível à lembrança normal. O que transcorre em tal estado só pode tornar-se parte da consciência cotidiana do aprendiz através de um tremendo esforço de memória.

Minha interação com o grupo do nagual foi um exemplo dessa dificuldade de lembrança. Com exceção de Dom Genaro, eu tinha contatos com eles apenas quando estava em estado de consciência intensificada; deste modo, em minha vida cotidiana normal, não conseguia lembrar-me deles, nem mesmo como personagens vagos de sonhos. A maneira como me encontravam com eles a cada vez era quase um ritual. Primeiro, eu viajava até a casa de Dom Genaro em uma pequena cidade na parte meridional do México. Dom Juan ia encontrar-nos imediatamente e nós três ficávamos ocupados com seus ensinamentos para o lado direito. Depois disso, Dom Juan fazia com que eu mudasse de nível de consciência e então rodávamos até uma cidade próxima, maior, onde ele e os outros quinze videntes estavam morando.

Cada vez que eu entrava em estado de consciência intensificada, não podia deixar de maravilhar-me com a diferença entre meus dois lados. Sempre sentia como se um véu tivesse sido removido de meus olhos, como se eu estivesse parcialmente cego antes e agora pudesse ver. A liberdade, a pura alegria que me possuíam nessas ocasiões não podem ser comparadas com nenhuma outra coisa que jamais tenha sentido.

Entretanto, ao mesmo tempo, havia uma assustadora sensação de tristeza e saudade que vinha de mãos dadas com aquela alegria e liberdade. Dom Juan tinha dito que não se pode ser completo sem tristeza e saudade, pois sem tais coisas não existe sobriedade, nem benevolência. Sabedoria sem benevolência, afirmou ele, e conhecimento sem sobriedade são inúteis.

A organização de seus ensinamentos para o lado esquerdo também requeria que Dom Juan, juntamente com alguns de seus companheiros videntes, explicasse para mim as três facetas do seu conhecimento: o domínio da consciência, o domínio da espreita e o domínio da intenção.

Este livro lida com o domínio da consciência, que é parte do conjunto total de ensinamentos de Dom Juan para o lado esquerdo, que ele usou para preparar-me, a fim de executar o espantoso ato de saltar para um abismo.

Já que as experiências que nano aqui tiveram lugar sob o estado de consciência intensificada, elas não podem ter a textura da vida diária. Falta-lhes o contexto mundano, embora eu tenha tentado ao máximo supri-lo sem ficcionalizar. Na consciência intensificada, a pessoa tem uma consciência mínima do que a rodeia, porque sua concentração total é ocupada pelos detalhes da ação em curso..

Nesse caso, a ação em curso era, naturalmente, a elucidação do domínio da consciência. Dom Juan compreendia o domínio da consciência como a versão moderna de uma tradição extremamente antiga, que ele chamava de tradição dos antigos videntes toltecas.

Embora sentisse que estava inexplicavelmente ligado àquela antiga tradição, ele se considerava um dos videntes de um novo ciclo. Quando lhe perguntei certa vez qual era o caráter essencial dos videntes do novo ciclo, respondeu que são os guerreiros da Uberdade total, mestres da consciência, espreita e intenção, a tal ponto que não são colhidos pela morte como o resto dos homens mortais, mas escolhem o momento e o modo de sua partida deste mundo. É então que os consome um fogo interior e desaparecem da face da terra, livres, como se nunca tivessem existido.

 

 

       Os Novos Videntes

 

Havia chegado à cidade de Oaxaca, no sul do México, em meu caminho para as montanhas em busca de Dom Juan. Pouco antes de sair da cidade, de manhã cedo, tive o bom senso de passar pela praça principal, e ali o encontrei sentado em seu banco favorito, como se estivesse esperando a minha passagem.

 

Juntei-me a ele. Disse-me que estava na cidade a negócios, hospedado em uma pensão local, e que eu podia ficar em sua companhia, pois iria permanecer no local por mais dois dias. Conversamos um pouco sobre minhas atividades e problemas do mundo acadêmico. Como de costume, subitamente, quando eu menos esperava, bateu em minhas costas, e o golpe fez-me passar para um estado de consciência intensificada.

 

Ficamos sentados em silêncio por um tempo muito longo. Esperei ansiosamente que ele começasse a falar. No entanto, quando o fez, pegou-me de surpresa.

 

— Séculos antes da chegada dos espanhóis ao México — disse ele — havia extraordinários videntes toltecas, homens capazes de feitos inconcebíveis. Eram o último elo de uma cadeia de conhecimento que se estendia por milhares de anos.

 

"Os videntes toltecas eram homens extraordinários: poderosos feiticeiros, homens sombrios e determinados que desvendavam mistérios e possuíam um conhecimento secreto que usavam para influenciar e dominar pessoas, fixando a consciência de suas vítimas no que quer que escolhessem."

 

Parou de falar e olhou para mim atentamente. Senti que estava esperando que eu fizesse uma pergunta, mas eu não sabia o que perguntar.

           

— Tenho de enfatizar um fato importante, — continuou — o fato de que aqueles feiticeiros sabiam como fixar a consciência de suas vítimas. Você não percebeu isso. Quando falei desse aspecto, não significou nada para você. Isto não é surpreendente. Uma das coisas mais difíceis de reconhecer é que a consciência pode ser manipulada.

 

Senti-me confuso. Sabia que ele estava me levando ao encontro de alguma coisa. Senti uma apreensão familiar — o mesmo sentimento que tinha sempre que ele começava um novo ciclo de seus ensinamentos.

 

Disse-lhe como me sentia. Dom Juan sorriu vagamente. Em geral, quando sorria, irradiava felicidade, mas desta vez estava claramente preocupado. Pareceu refletir por um momento se continuava ou não falando. Fitou-me de maneira concentrada outra vez, movendo lentamente seu olhar sobre toda extensão de meu corpo. Então, aparentemente satisfeito, anuiu e disse que eu estava preparado para o exercício final, pelo qual todos os guerreiros têm de passar antes de se considerarem aptos a ficar por sua própria conta. Fiquei mais intrigado do que nunca.

 

— Vamos falar sobre a consciência — continuou ele. — Os videntes toltecas conheciam a arte de manipular a consciência. Com efeito, eram os mestres supremos dessa arte. Quando digo que eles sabiam como fixar a consciência de suas vitimas, isto significa que seu conhecimento secreto e suas práticas secretas permitiam-lhes desvendar o mistério de estar consciente. Parte de suas práticas sobreviveu até os dias de hoje, mas, felizmente, de uma forma modificada. Digo felizmente porque essas atividades, como irei explicar, não levaram os antigos videntes toltecas à liberdade, mas à sua própria perdição,

 

— Você conhece essas práticas?

 

— É claro — replicou. — Não há maneira de não conhecer­mos aquelas técnicas, mas isso não significa que as pratiquemos. Nós temos outra visão. Pertencemos a um novo ciclo.

 

— Mas você não se considera um feiticeiro, Dom Juan; ou se considera? — insisti.

 

— Não, não me considero. Sou um guerreiro que vê. Na verdade, nós todos somos tos nuevos videntes: os novos videntes. Os antigos videntes é que eram feiticeiros.

 

"Para o homem médio — continuou — a feitiçaria é uma atividade negativa, mas, ao mesmo tempo fascinante. Foi por isso que o encorajei, em sua consciência normal, a nos considerar feiticeiros. É aconselhável fazer isso. Serve para atrair o interesse. Mas, para nós, tornar-nos feiticeiros seria o mesmo que entrar em uma rua sem salda."

 

Tentei saber o que ele queria dizer com aquilo, mas recusou-se a falar a respeito. Disse que se estenderia sobre o assunto à medida que prosseguisse em sua explicação de consciência.

 

Perguntei-lhe então sobre a origem do conhecimento dos toltecas.

 

— O modo como os toltecas começaram a seguir a trilha do conhecimento foi consumindo plantas de poder — respondeu. — Motivados pela curiosidade, pela fome ou pelo erro, eles as comiam. Depois que as plantas de poder produziram seus efeitos sobre eles, foi apenas uma questão de tempo alguns deles começarem a analisar suas experiências. Na minha opinião, os primeiros homens na trilha do conhecimento eram muito ousados, mas estavam muito enganados.

 

— Isso tudo não é uma conjetura de sua parte, Dom Juan?

 

— Não, não é uma conjetura minha. Sou um vidente, e quando focalizo a minha visão naquele tempo, sei de tudo o que aconteceu.

 

— Você pode ver os detalhes de coisas do passado? — perguntei.

 

— Ver é uma sensação peculiar de saber — replicou —, de saber alguma coisa sem resquício de dúvida. Nesse caso, sei o que aqueles homens fizeram, não apenas devido à minha visão, mas porque estamos ligados de modo tão estreito.

 

Dom Juan explicou então que seu uso do termo "tolteca" não correspondia às minhas concepções. Para mim, significava uma cultura, ou o Império Tolteca. Para ele, o termo "tolteca" significava "homem de conhecimento".

 

Explicou que no tempo do qual estava falando, séculos ou talvez milênios antes da Conquista espanhola, todos esses homens de conhecimento viviam em uma vasta área geográfica, ao norte e ao sul do vale do México, empenhados em linhas específicas de trabalho: curar, enfeitiçar, contar histórias, dançar, atuar como oráculos, preparar comida e bebida. Essas tinhas de trabalho proporcionavam uma sabedoria específica, sabedoria que os distinguia dos homens comuns.

 

Esses toltecas, além disso, eram também pessoas ajustadas à estrutura da vida cotidiana, de modo semelhante aos médicos, artistas, professores, sacerdotes e comerciantes de nosso tempo. Praticavam seus ofícios sob o estrito controle de irmandades organizadas, e tornavam-se eficazes e influentes, a tal ponto que chegavam mesmo a dominar grupos de pessoas que viviam fora de suas regiões geográficas.

 

Acrescentou ainda que, depois que alguns daqueles homens tinham finalmente aprendido a ver — após séculos de lidar com plantas de poder —, o mais empreendedor começou a ensinar a outros homens de conhecimento como também ver. E esse foi o começo do seu fim. À medida que o tempo passou, o número de videntes aumentou, mas sua obsessão com aquilo que viam, que os enchia de reverência e temor, tornou-se tão intensa que deixaram de ser homens de conhecimento.

 

Tornaram-se extraordinariamente eficazes em ver e eram capazes de exercer grande controle sobre os mundos estranhos que contemplavam, Mas foi inútil. Ver havia minado sua força, deixando-os inteiramente obcecados com aquilo que viam.

 

— Houve videntes, entretanto, que escaparam desse destino — continuou Dom Juan — grandes homens que, apesar de sua visão, nunca deixaram de ser homens de conhecimento. Alguns deles empenharam-se em usar a visão de modo positivo e ensiná-la aos seus semelhantes. Estou convencido de que, sob sua direção, as populações de cidades inteiras passaram para outros mundos e nunca voltaram.

 

“Mas os videntes que podiam apenas ver eram um fiasco, e quando a terra em que viviam foi invadida por um povo conquistador, ficaram tão indefesos como todos os demais”.

 

"Aqueles conquistadores, continuou, tomaram o mundo tolteca, apropriaram-se de tudo, mas nunca aprenderam a ver."

 

— Por que você pensa que nunca aprenderam a ver? — perguntei.

 

— Porque eles copiaram os procedimentos dos videntes toltecas sem possuírem seu conhecimento interior. Até o dia de hoje, há muitos feiticeiros por todo o México, descendentes daqueles conquistadores, que seguem os modos toltecas, mas não sabem o que estão fazendo ou sobre o que estão Calando, porque não são videntes.

 

— Quem eram os conquistadores, Dom Juan?

 

— Outros índios. Quando os espanhóis chegaram, os antigos videntes já haviam desaparecido há séculos, mas havia uma nova estirpe de videntes que estavam começando a consolidar sua posição em um novo ciclo.

 

— O que significa isso, uma nova estirpe de videntes?

 

— Depois que o mundo dos primeiros toltecas foi destruído,os videntes que sobreviveram retiraram-se e começaram um exame sério de suas práticas. A primeira coisa que fizeram foi estabelecer que a espreita, o sonho e a intenção eram os procedimentos-chave, e reduziu-se a importância do uso de plantas de poder; talvez isso nos dê uma idéia do que realmente aconteceu a eles com as plantas de poder.

 

"O novo ciclo estava justamente começando a firmar-se quando os conquistadores espanhóis devastaram a terra. Feliz­mente, por essa época os novos videntes estavam criteriosamente preparados para enfrentar esse perigo. Eram já praticantes consumados da arte de espreitar."

 

Explicou Dom Juan que os séculos subseqüentes de subjugação proporcionaram a esses novos videntes as circunstâncias ideais para o aperfeiçoamento de suas habilidades. Paradoxalmente, foi o extremo rigor e correção daquele período que lhes deu ímpeto para refinar os novos princípios, e devido ao fato de nunca divulgarem suas atividades foram deixados em paz para registrar seus descobrimentos.

 

— Havia uma grande quantidade de novos videntes durante a Conquista? — perguntei.

 

— No começo havia. Perto do final, apenas alguns. O resto foi exterminado.

 

— E hoje, Dom Juan?

 

— Existem poucos. Estão espalhados por toda parte, você compreende.

 

— Você os conhece?

 

— Uma questão tão simples é a mais difícil de responder. Há alguns que conhecemos muito bem. Mas não são exatamente como nós, porque se concentraram em outros aspectos específicos do conhecimento, tais como dançar, curar, enfeitiçar, falar, ao invés do que os novos videntes recomendam, a espreita, o sonho e a intenção. Aqueles que são exatamente como nós não iriam atravessar nossos caminhos. Os videntes que viveram durante a Conquista tomaram precauções para evitar que fossem extermina­dos no confronto com os espanhóis. Cada um desses videntes fundou uma linhagem. E nem todos eles tiveram descendentes, de modo que as Unhas são poucas.

 

— Você conhece alguns exatamente como nós? — perguntei.

 

— Uns poucos — replicou laconicamente.

 

Pedi-lhe então que me desse toda a informação que pudesse, pois estava vitalmente interessado nesta questão; para mim, era de importância crucial saber nomes e endereços, para finalidades de validação e corroboração.

 

Dom Juan não pareceu inclinado a atender meu pedido.

 

— Os novos videntes passaram por essa corroboração — disse. — Metade deles deixou seus ossos nas salas de corroboração. Assim, agora são pássaros solitários. Deixemos isso como está. Só podemos falar sobre nossa linha. Sobre isso, você e eu podemos conversar tanto quanto quisermos.

 

Explicou que todas as linhas de videntes foram iniciadas ao mesmo tempo e da mesma forma. Por volta do final do século XVI, todos os naguais se isolaram deliberadamente, com seu grupo de videntes, longe de qualquer contato direto com outros videntes. A conseqüência dessa drástica segregação, disse ele, foi a formação das linhagens individuais. Nossa linhagem consistia em 14 naguais e 126 videntes, continuou. Alguns desses 14 naguais tiveram apenas sete videntes consigo, outros tiveram onze, e alguns até quinze.

 

Contou-me que seu professor — ou seu benfeitor, como o chamava — foi o nagual Julian, e que antes de Julian vinha o nagual Elias. Perguntei-lhe se sabia os nomes de todos os 14 naguais. Dom Juan nomeou-os e enumerou-os para mim, de modo que pude aprender quem foram. Disse também que havia conhecido pessoalmente os quinze videntes que formavam o grupo de seu benfeitor e também o professor de seu benfeitor, o nagual Elias, e os onze videntes do seu grupo.

 

Dom Juan assegurou-me que nossa linha era absolutamente excepcional, pois passara por uma mudança drástica no ano de 1723, em conseqüência de uma influência exterior que alterou inexoravelmente nosso curso. Não quis discutir o evento em si naquele momento, mas disse que um novo começo é contado a partir daquela época; e que os oito naguais que dirigiram a linha desde então são considerados intrinsecamente diferentes dos seis que os precederam.

 

Dom Juan deve ter tido negócios a tratar no dia seguinte, pois não o vi até por volta de meio-dia. Enquanto isso, três dos seus aprendizes haviam chegado à cidade: Pablito, Nestor e La Gorda. Pretendiam comprar ferramentas e materiais para a carpintaria de Pablito. Acompanhei-os e ajudei-os a completar todas suas tarefas. Então voltamos à pensão.

 

Estávamos todos sentados conversando quando Dom Juan entrou em meu quarto. Anunciou que iríamos partir depois do almoço, mas que antes de almoçar tinha ainda alguma coisa para discutir comigo em particular. Queria que nós dois déssemos um passeio ao redor da praça principal, antes de nos encontrarmos num restaurante com os demais.

 

Pablito e Nestor levantaram-se e disseram que tinham algumas coisas para ver antes do encontro. La Gorda pareceu muito aborrecida.

 

— Sobre o que vocês irão falar? — deixou escapar, mas rapidamente percebeu seu engano e deu uma risadinha.

 

Dom Juan dirigiu-lhe um olhar estranho, porém não disse nada.

 

Encorajada por seu silêncio, La Gorda propôs que a levássemos conosco. Assegurou que não iria atrapalhar-nos em nada.

 

— Estou certo de que você não irá atrapalhar-nos — disse Dom Juan — mas realmente não quero que ouça qualquer coisa do que tenho a dizer a ele.

 

A raiva de La Gorda era muito óbvia. Ela corou e, enquanto Dom Juan e eu saíamos do quarto, seu rosto inteiro nublou-se de ansiedade e tensão, ficando instantaneamente distorcido. Sua boca estava aberta e seus lábios secos.

 

O humor de La Gorda deixou-me muito apreensivo. Senti um desconforto real. Não disse nada, mas Dom Juan pareceu notar meu sentimento.

 

— Você deveria agradecer a La Gorda dia e noite — disse ele de repente. — Ela está ajudando-o a destruir sua vaidade. Ela é o pequeno tirano de sua vida, mas você ainda não percebeu.

 

Vagamos ao redor da praça até que todo o meu nervosismo se desvanecesse. Sentamos então em seu banco favorito, nova­mente.

 

— Os antigos videntes eram muito afortunados, na verdade — começou Dom Juan — porque tinham muito tempo para aprender coisas maravilhosas. Eles conheciam maravilhas que sequer podemos imaginar hoje.

 

— Quem lhes ensinou tudo isso?

 

— Aprenderam tudo sozinhos, vendo, A maior parte das coisas que sabemos em nossa linhagem foi descoberta por eles. Os novos videntes corrigiram os enganos dos antigos videntes, mas a base do que conhecemos e fazemos está perdida no tempo dos toltecas.

 

"Uma das descobertas mais simples e, no entanto mais importantes, do ponto de vista de instrução", explicou, é o conhecimento de que o homem tem dois tipos de consciência. Os antigos videntes chamavam-nos de lado direito e lado esquerdo do homem.

 

"Os antigos videntes calcularam", continuou, que a melhor maneira de transmitir seu conhecimento era fazer com que seus aprendizes passassem para o lado esquerdo, para um estado de consciência intensificada. É aí que ocorre a verdadeira aprendizagem.

 

"Crianças muito novas eram entregues aos antigos videntes, como aprendizes, antes de terem conhecido outro modo de vida. Essas crianças, por sua vez, quando chegava a idade, tomavam outras crianças como aprendizes. Imagine as coisas que devem ter descoberto em suas mudanças para a esquerda e para a direita, depois de séculos desse tipo de concentração."

 

Comentei como essas mudanças eram desconcertantes para mim. Ele disse que minha experiência era similar à sua própria. Seu benfeitor, o nagual Julian, havia criado um profundo cisma nele, fazendo-o passar constantemente de um tipo de consciência para outro. Disse que a clareza e a liberdade que experimentava no estado de consciência intensificada estavam em total contraste com as racionalizações, as defesas, a raiva e o medo de seu estado normal de consciência.

 

Os antigos videntes costumavam criar esta polaridade adequando-a aos seus próprios propósitos particulares; com ela, forçavam seus aprendizes a atingir a concentração necessária para aprender técnicas de feitiçaria. Mas os novos videntes, disse, usam-na para levar seus aprendizes à convicção de que há possibilidades não realizadas no homem.

 

— O melhor esforço dos novos videntes — continuou Dom Juan — é sua explicação do mistério da consciência. Eles condensaram-no todo em alguns conceitos e ações que são ensinados enquanto os aprendizes estão em estado de consciência intensificada.

 

Acrescentou que o valor do método de ensino dos novos videntes está em tirar vantagem do fato de que ninguém pode lembrar-se de nada do que aconteceu durante sua permanência no estado de consciência intensificada. Essa incapacidade de relembrar coloca uma barreira quase intransponível para os guerreiros, que têm de rememorar toda instrução a eles proporcionada antes de seguir adiante. Apenas depois de anos de luta e disciplina os guerreiros podem lembrar-se de sua instrução. Então os conceitos e os procedimentos que lhes foram ensinados já estão internalizados, e assim adquiriram a força que os novos videntes desejavam que tivessem.

 

 

       Pequenos Tiranos

 

Dom Juan não discutiu mais o domínio da consciência comigo até meses depois. Nessa época, estávamos na casa onde vivia o grupo do nagual.

 

— Vamos sair para um passeio — disse-me Dom Juan, colocando a mão em meu ombro. — Melhor ainda, vamos até a praça da cidade, onde há bastante gente, sentar e conversar.

 

Fiquei surpreso quando falou comigo, pois eu já estava na casa há vários dias e ele não havia dito nem sequer um alô.

 

Quando Dom Juan e eu estávamos saindo, La Gorda interceptou-nos e exigiu que a levássemos junto. Parecia determinada a não aceitar um não como resposta. Dom Juan, em uma voz muito ríspida, disse-lhe que tinha que discutir algo era particular comigo.

 

— Vocês vão falar a meu respeito — disse La Gorda, seu tom e seus gestos traindo tanto suspeita como aborrecimento.

 

— É verdade — replicou Dom Juan secamente. E passou por ela sem virar-se para olhá-la.

 

Eu o segui, e caminhamos em silêncio para a praça da cidade. Quando nos sentamos, perguntei-lhe por que diabo iríamos nos encontrar para discutir sobre La Gorda. Ainda sentia o olhar de ameaça que ela nos lançara ao deixarmos a casa.

 

— Não temos nada a discutir sobre La Gorda ou quem quer que seja — disse ele. —Disse-lhe aquilo apenas para provocar sua enorme vaidade. E funcionou. Ela está furiosa conosco. Se a conheço, nesse momento terá conversado consigo mesma o suficiente para aumentar sua convicção e indignação por ter sido recusada e feito papel de tonta. Não ficaria surpreso se ela irrompesse aqui no banco da praça.

 

— Se nós não vamos falar sobre La Gorda, o que vamos discutir?

 

— Vamos continuar a conversa que começamos em Oaxaca — replicou ele. — Compreender a explicação da consciência irá requerer seu máximo esforço e sua disposição de ficar mudando de níveis de consciência. Enquanto estivermos envolvidos em nossa discussão, peço sua total concentração e paciência.

 

Meio queixoso, disse-lhe que havia feito com que me sentisse muito desconfortável, recusando-se a falar comigo nos últimos dois dias. Ele olhou-me e arqueou as sobrancelhas. Um sorriso brincou em seus lábios e desvaneceu-se. Percebi que estava dando-me, a saber, que eu não era melhor que La Gorda.

 

— Estava provocando sua vaidade — disse com expressão de censura.

 

— A vaidade é o nosso maior inimigo, pense sobre isso... o que nos enfraquece é nos sentirmos ofendidos pelos feitos e desfeitas de nossos semelhantes. Nossa vaidade faz com que passemos a maior parte de nossas vidas, ofendidos por alguém.

 

"Os novos videntes recomendavam que todo esforço devia ser feito para erradicar a vaidade da vida dos guerreiros. Eu segui aquela recomendação, e muitos dos meus esforços com você têm sido dirigidos a mostrar-lhe que, sem vaidade, somos invulneráveis."

 

Enquanto eu escutava, seus olhos repentinamente se torna­ram muito brilhantes. Estava pensando comigo mesmo que ele parecia estar a ponto de rir e que não havia razão para isso, quando fui surpreendido por uma bofetada abrupta e dolorosa no lado direito de meu rosto.

 

Saltei do banco. La Gorda estava parada atrás de mim, com a mão ainda levantada. Seu rosto estava vermelho de raiva.

 

— Agora você pode dizer o que quiser sobre mim e com mais razão — gritou ela. — Se tem alguma coisa a dizer, em todo caso, diga-o na minha cara!

 

A explosão pareceu tê-la extenuado, pois sentou-se no cimento e começou a chorar. Dom Juan estava petrificado, com uma alegria inexprimível. Eu, paralisado de verdadeira fúria. La Gorda olhou-me e então voltou-se para Dom Juan; humildemente, disse-lhe que não tínhamos o direito de criticá-la.

 

Dom Juan riu tanto que quase se dobrou até o chão. Não conseguia nem mesmo falar. Tentou duas ou três vezes dizer-me algo, mas desistiu e afastou-se, seu corpo ainda sacudido por espasmos de riso.

 

Eu estava a ponto de correr atrás dele, ainda zangado com La Gorda — naquele momento eu a achava desprezível — quando algo extraordinário aconteceu. Eu percebera o que Dom Juan havia achado tão hilariante. La Gorda e eu éramos horrorosamente parecidos. Nossa vaidade era monumental. Minha surpresa e fúria por ter sido esbofeteado eram exatamente iguais aos sentimentos de raiva e suspeita de La Gorda. Dom Juan estava certo. O peso da vaidade é um empecilho terrível.

 

Corri atrás dele, emocionado, as lágrimas descendo pela face. Alcancei-o e contei-lhe o que havia descoberto. Seus olhos estavam brilhantes de malícia e deleite.

 

— O que devo fazer quanto a La Gorda? — perguntei.

 

— Nada — replicou. — As descobertas são sempre pessoais. Mudou o tema e disse que os presságios estavam-nos dizendo para continuar nossa conversa em casa, fosse em um aposento grande com cadeiras confortáveis ou no pátio posterior, que era cercado por um corredor coberto. Disse que, sempre que conversássemos dentro da casa, aquelas duas áreas ficariam proibidas para qualquer outra pessoa.

 

Voltamos para casa- Dom Juan contou a todos o que La Gorda havia feito. O prazer que todos os videntes demonstraram em zombar dela tornou a posição de La Gorda extremamente desconfortável.

 

— A vaidade não pode ser combatida com delicadeza — comentou Dom Juan quando expressei minha preocupação com La Gorda.

 

Pediu então a todos que deixassem o aposento. Sentamos e Dom Juan começou suas explicações.

 

Contou que os videntes, antigos e novos, são divididos em duas categorias. A primeira é composta por aqueles que se dispõem a exercitar o autocontrole c são capazes de canalizar suas atividades para metas pragmáticas, que iriam beneficiar outros videntes e o homem em geral. A outra categoria é formada pelos que não se interessam pelo autocontrole ou qualquer meta pragmática. É consenso entre os videntes que os últimos não conseguiram resolver o problema da vaidade.

 

— A vaidade não é algo simples e ingênuo — explicou. — De um lado, é o núcleo de tudo que é bom em nós e, por outro, o núcleo de tudo que não presta. Livrar-se da vaidade que não presta requer prodígios de estratégia. Através dos tempos, os videntes renderam homenagens àqueles que conseguiram.

 

Queixei-me de que a idéia de erradicar a vaidade, embora muito atuante para mim às vezes, era na verdade incompreensível; disse-lhe que achava suas diretivas para livrar-se dela tão vagas que não sabia como segui-las.

 

— Já lhe disse muitas vezes — replicou Dom Juan — que para seguir a trilha do conhecimento é preciso ser muito imaginativo. Na trilha do conhecimento, nada é tão claro como gostaríamos que fosse.

 

Meu desconforto fez-me argumentar que suas admoestações sobre a vaidade lembravam-me máximas católicas. Após toda uma vida sendo alertado sobre os males do pecado, eu me havia tornado insensível.

 

— Os guerreiros combatem a vaidade por uma questão de estratégia, e não de princípio — argumentou Dom Juan. — Seu erro é compreender o que eu digo em termos morais.

 

— Considero-o um homem altamente moral, Dom Juan — insisti.

 

— Você apenas notou minha impecabilidade — observou.

 

— A impecabilidade, assim como o ato de livrar-se da vaidade, é um conceito vago demais para ser de algum valor para mim — comentei.

 

Dom Juan engasgou-se de riso e desafiei-o a explicar a impecabilidade,

 

— A impecabilidade não é nada mais do que o uso apropriado da energia — disse ele. — As minhas afirmações não têm um pingo de moralidade. Economizei energia, e isso me torna impecável. Para compreender isso, você mesmo tem de economizar energia suficiente.

 

Ficamos em silêncio por muito tempo. Eu desejava pensar sobre o que ele havia dito. Subitamente, começou de novo a falar.

 

— Os guerreiros elaboram listas estratégicas. Anotam tudo o que fazem. Depois decidem quais dessas coisas podem ser mudadas de modo a permitir que poupem parte da energia que despedem.

 

Argumentei que sua lista teria de incluir tudo que há sob o sol. Pacientemente, ele respondeu que a lista estratégica sobre a qual estava falando cobria apenas padrões de comportamento que não eram essenciais à nossa sobrevivência e bem-estar.

 

Aproveitei a oportunidade para salientar que a sobrevivência e o bem-estar eram categorias que podiam ser interpretadas de infinitas maneiras; portanto, não havia modo de concordar sobre o que era ou não essencial à sobrevivência e ao bem-estar.

 

À medida que continuava falando, comecei a perder o ímpeto. Finalmente, parei porque percebi a futilidade de meus argumentos.

 

Dom Juan disse então que, nas listas estratégicas dos guerreiros, a vaidade figura como atividade que consome a maior quantidade de energia, daí seu esforço para erradicá-la.

 

— Uma das primeiras preocupações dos guerreiros é libertar aquela energia para poder encarar o desconhecido com ela — continuou Dom Juan. — A ação de recanalizar aquela energia é a impecabilidade.

 

Disse, ainda, que a estratégia mais eficaz foi elaborada pelos videntes da Conquista, mestres inquestionáveis da espreita. Consiste de seis elementos que interagem entre si. Cinco deles são chamados de atributos do guerreiro: controle, disciplina, paciência, oportunidade e vontade. Estes dizem respeito ao mundo do guerreiro que está lutando para perder a vaidade. O sexto elemento, talvez o mais importante de todos, pertence ao mundo exterior, e é chamado de pequeno tirano.

 

Olhou-me como se perguntasse silenciosamente se eu compreendera ou não.

 

— Estou realmente intrigado — disse eu. — Você está sempre dizendo que La Gorda é o pequeno tirano de minha vida.

 

— O que é exatamente um pequeno tirano?

 

— Um pequeno tirano é um atormentador — explicou. — Alguém que ou mantém poder de vida e morte sobre guerreiros ou simplesmente os perturba, levando-os à distração.

 

Dom Juan deu um sorriso radiante enquanto falava comigo. Disse que os novos videntes desenvolveram sua própria classificação de pequenos tiranos; embora o conceito seja uma de suas descobertas mais sérias e importantes, os novos videntes tinham senso de humor a esse respeito. Assegurou-me de que havia uma isca de malícia, em cada uma de suas classificações, pois o humor era o único meio de fazer frente à compulsão da consciência humana de elaborar listas e classificações incômodas.

 

Os novos videntes, de acordo com sua prática, acharam oportuno encabeçar sua classificação com a fonte primária de energia, o único e absoluto governante do universo, e chamaram-no simplesmente de tirano. O restante dos déspotas e autoritários foi considerado, naturalmente, infinitamente abaixo da categoria de tirano. Comparados à fonte de tudo, os homens mais assustadores e tirânicos são bufões; em conseqüência disso, foram classifica­dos de pequenos tiranos, pinches tiranos.

 

Disse que havia duas subclasses de pequenos tiranos inferiores. A primeira subclasse reunia os pequenos tiranos que perseguem e infligem miséria, mas sem chegar a causar a morte de ninguém. Esses foram chamados de pequenos tiraninhos, pinches tiranitos. A segunda consistia dos pequenos tiranos que são apenas desesperantes e aborrecidos ao extremo. Estes foram chamados de minúsculos tiraninhos, repinches tiranitos, ou minúsculos peque­nos tiraninhos, pinches tiranitos chiquititos.

 

Achei que suas classificações eram ridículas. Fiquei convencido de que ele estava inventando os termos espanhóis, e perguntei-lhe se era isso.

 

— De maneira alguma — replicou, com uma expressão divertida. — Os novos videntes eram excelentes para classificações. Genaro é sem dúvida um dos maiores; se você observá-lo com cuidado, perceberá exatamente o que os novos videntes acham de suas classificações.

 

Riu ruidosamente diante de minha confusão quando lhe perguntei se estava zombando de mim.

 

— Jamais faria isso — falou sorrindo. — Genaro pode fazê-lo, mas não eu, especialmente quando sei o que você acha das classificações. Acontece que os novos videntes eram terrivelmente irreverentes.

 

Acrescentou que os pequenos tiraninhos são ainda divididos em quatro categorias. Uma que atormenta com brutalidade e violência. Outra que o faz criando uma ansiedade intolerável através da desonestidade. Outra que oprime com a tristeza. E a última, que atormenta fazendo os guerreiros se enraivecerem.

 

— La Gorda pertence a uma classe própria — acrescentou. — Ela é um minúsculo pequeno tiraninho ativo. Ela o aborrece ao extremo e faz com que você se enraiveça. Ela até o esbofeteia. Com tudo isso, ela está lhe ensinando o desprendimento.

 

— Isto não é possível! — protestei.

 

— Você ainda não reuniu todos os ingredientes da estratégia dos novos videntes — disse ele. — Quando o fizer, irá saber como é eficiente e engenhoso o artifício de usar um pequeno tirano. Eu certamente diria que a estratégia não apenas elimina a vaidade, como também prepara os guerreiros para a compreensão final de que a impecabilidade é a única coisa que conta no caminho do conhecimento.

 

Disse que os novos videntes conceberam uma manobra mortal, na qual o pequeno tirano é como um pico montanhoso e os atributos do guerreiro são como alpinistas que se encontram no topo.

 

— Normalmente, apenas quatro atributos são usados -— continuou. — O quinto, à vontade, é sempre reservado para uma confrontação extrema, quando os guerreiros estão diante do esquadrão de fuzilamento, por assim dizer.

 

— Por que é feito desse modo?

 

— Porque a vontade pertence à outra esfera, o desconheci­do. Os outros quatro pertencem ao conhecido, exatamente onde estão alojados os pequenos tiranos. Na verdade, o que transforma os seres humanos em pequenos tiranos é precisamente a manipulação obsessiva do conhecido.

 

Dom Juan explicou que a interação de todos os cinco atributos do guerreiro é feita apenas por videntes, que são também guerreiros impecáveis e têm domínio da vontade. Esta interação é uma manobra suprema, que não pode ser executada no estágio cotidiano dos homens.

 

— Quatro atributos são tudo o que é necessário para lidar com os piores dos pequenos tiranos — continuou, — Desde que, naturalmente, um pequeno tirano tenha sido encontrado. Como eu disse, o pequeno tirano é o elemento externo, aquele que não podemos controlar, o que é talvez o mais importante de todos eles. Meu benfeitor costumava dizer que o guerreiro que tropeça num pequeno tirano é um guerreiro afortunado. Ele queria mostrar que você será afortunado se topar com um em seu caminho, porque, caso contrário, terá de sair a procurar por um.

 

Explicou que uma das maiores realizações dos videntes da Conquista era um conceito que chamou de progressão de três fases. Compreendendo a natureza do homem, eles foram capazes de chegar à incontestável conclusão de que, se os videntes conseguem manter-se inteiros ao defrontar-se com pequenos tiranos, podem certamente encarar o desconhecido com impunidade, e então podem suportar até mesmo a presença do incognoscível

 

— A reação do homem médio 6 pensar que a ordem dessa afirmação deveria ser invertida — continuou, — O vidente que pode permanecer inteiro em face do desconhecido pode certamente encarar pequenos tiranos. Mas não é assim. O que destruiu videntes soberbos dos tempos antigos foi essa presunção. Agora, já sabemos. Sabemos que nada pode temperar tanto o espírito de um guerreiro quanto o desafio de lidar com pessoas intoleráveis em posições de poder. Apenas sob essas condições podem os guerreiros adquirir sobriedade e serenidade para suportar a pressão do incognoscível.

 

Discordei violentamente dele. Disse-lhe que na minha opinião os tiranos podem apenas tornar suas vítimas indefesas ou fazer delas seres tão brutais quanto eles próprios. Afirmei que inúmeros estudos haviam sido realizados sobre os efeitos da tortura física e psicológica em tais vitimas.

 

— A diferença está em algo que você acabou de dizer — retorquiu. — Eles são vítimas, não guerreiros. Já pensei exatamente como você. Vou lhe contar o que me fez mudar, mas primeiro vamos voltar ao que eu disse sobre a Conquista. Os videntes daquele tempo não podiam ter encontrado solo melhor. Os espanhóis eram os pequenos tiranos que testaram as habilidades dos videntes ao limite; depois de lidar com os conquistadores, os videntes eram capazes de enfrentar qualquer coisa. Eles tiveram sorte. Naquele tempo, havia pequenos tiranos por toda parte.

 

“Depois de todos aqueles maravilhosos anos de abundância, as coisas mudaram muito. Os pequenos tiranos nunca mais tiveram tanta oportunidade; durante aqueles tempos, sua autoridade era ilimitada, O ingrediente perfeito para forjar um vidente soberbo é um pequeno tirano com privilégios ilimitados”.

 

"Em nossos tempos, infelizmente, os videntes têm de ir a extremos para encontrar um pequeno tirano de qualidade. Na maior parte do tempo, devem satisfazer-se com um muito ordinário."

 

— E chegou a encontrar um pequeno tirano, Dom Juan?

 

— Tive sorte. Fui encontrado por um tamanho-família. Nessa época, entretanto, me sentia como você; não conseguia considerar-me afortunado.

 

Disse Dom Juan que seu sofrimento começou poucas sema­nas antes de conhecer seu benfeitor. Mal tinha vinte anos de idade naquela época. Havia conseguido um trabalho em uma moenda de açúcar como operário. Sempre fora muito forte, de modo que lhe era fácil conseguir trabalhos que requeressem músculos. Um dia, quando estava carregando algumas pesadas sacas de açúcar, uma mulher passou por ele. Estava muito bem vestida e parecia ser uma mulher de posses.

 

Teria uns cinqüenta anos, disse Dom Juan, e aspecto muito dominador. Olhou para Dom Juan, falou com o feitor e partiu. Dom Juan foi então abordado pelo feitor, que lhe contou que por uns trocados poderia recomendá-lo para um trabalho na casa do patrão. Dom Juan disse ao homem que não tinha dinheiro. O feitor sorriu, e comentou que não se preocupas­se, pois teria bastante no dia do pagamento. Bateu nas costas de Dom Juan e assegurou-lhe que era uma grande honra trabalhar para o patrão.

 

Dom Juan contou que, sendo um índio muito ignorante, vivendo da mão para a boca, não apenas acreditou em cada palavra como pensou que havia sido tocado por uma boa fada.

 

Prometeu pagar ao feitor o que este quisesse. O feitor falou em uma grande soma, que deveria ser paga em parcelas.

 

Imediatamente a seguir, o feitor em pessoa levou Dom Juan à casa, que ficava a uma boa distância da cidade, e deixou-o lá com outro feitor, um homem grande, sombrio e feio, que lhe fez uma série de perguntas. Queria saber sobre a família de Dom Juan. Dom Juan respondeu que não tinha família. O homem ficou tão satisfeito que até mesmo sorriu com os seus dentes estragados.

 

Prometeu a Dom Juan que haveriam de pagar-lhe muito, e que ele teria até condições de guardar dinheiro, pois não precisaria gastar nada, já que iria viver e comer na casa.

 

O modo como o homem ria era terrificante. Dom Juan percebeu que deveria fugir imediatamente. Correu para o portão, mas o sujeito pôs-se à sua frente com um revólver na mão. Engatilhou-o e cutucou Dom Juan no estômago.

 

— Você está aqui para trabalhar até se acabar. E não se esqueça disso.

 

— Empurrou Dom Juan, cutucando-o com um bastão. Então levou-o para o lado da casa e, depois de afirmar que fazia seus homens trabalharem todos os dias do amanhecer ao crepúsculo sem nenhuma parada, pôs Dom Juan a trabalhar, escavando dois enormes tocos de árvore. Disse também a Dom Juan que, se alguma vez tentasse escapar ou procurasse as autoridades, ele iria matá-lo, e que se Dom Juan conseguisse algum dia fugir, juraria diante do tribunal que Dom Juan havia tentado assassinar o patrão.

 

— Você vai trabalhar aqui até morrer — acrescentou. — Então outro índio irá ganhar o seu emprego exatamente como você está tomando o lugar de um índio morto.

 

Dom Juan contou que a casa parecia uma fortaleza, com homens armados de facão por toda parte; sendo assim, ele se ocupou trabalhando e tentou não pensar em sua condição. Ao final do dia, o homem voltou e chutou-o durante todo o caminho para a cozinha, porque não gostava do olhar desafiante de Dom Juan. Ameaçou cortar os tendões do braço de Dom Juan se ele não obedecesse.

 

Na cozinha, uma velha trouxe comida, mas Dom Juan estava tão abatido e assustado que não conseguiu comer. A velha aconselhou-o a comer o máximo que pudesse. Tinha que estar forte, disse ela, porque seu trabalho nunca iria terminar. Advertiu-o de que o homem a quem substituía havia morrido justamente um dia antes. Ele estava fraco demais para trabalhar e havia caído de uma janela do segundo andar.

 

Dom Juan trabalhou na casa do patrão por três semanas, com o homem atormentando-o a todo momento e em todos os dias. Ele o fez trabalhar sob as condições mais perigosas, cumprindo a tarefa mais pesada que se podia imaginar, sob a constante ameaça de faca, revólver ou bastão. Enviava-o diariamente para os estábulos a fim de limpar as baias onde ficavam os nervosos garanhões. Ao começo de cada dia, Dom Juan pensava que esse seria seu último na terra. E sobreviver significava apenas que ele tinha que passar pelo mesmo inferno novamente no dia seguinte. O que precipitou o final foi o pedido de Dom Juan para ter algum tempo livre. O pretexto era de que precisava ir à cidade pagar ao feitor do engenho de açúcar o dinheiro que lhe devia. O outro feitor replicou que Dom Juan não podia parar de trabalhar nem mesmo por um minuto, pois estava em débito até as orelhas apenas pelo privilégio de trabalhar ali.

 

Dom Juan soube o que o esperava. Compreendeu as manobras do homem. Tanto ele quanto o outro feitor estavam mancomunados para conseguir índios humildes do engenho, fazê-los trabalhar até a morte e dividir seus salários. Essa descoberta enraiveceu-o tão intensamente que correu através da cozinha gritando e entrou na casa principal. O feitor e os outros trabalhadores foram apanhados inteiramente de surpresa. Ele saiu correndo pela porta dianteira e quase conseguiu escapar, mas o feitor alcançou-o na estrada e atirou em seu peito. Deixou-o como morto.

 

Dom Juan disse que não era seu destino morrer; seu benfeitor encontrou-o ali e cuidou dele até que ficasse bom.

 

— Quando contei a meu benfeitor toda a história — disse Dom Juan — ele mal podia conter sua excitação. "Aquele homem é realmente um prêmio", disse-me o benfeitor. "Ele é bom demais para ser desperdiçado. Algum dia você precisa voltar àquela casa."

 

"Ele exultou com minha sorte em encontrar aquele pequeno tirano, um em um milhão, com poder quase ilimitado. Pensei que o velho estava maluco. Isto foi anos antes que eu compreendesse completamente o que estava falando."

 

— Esta é uma das histórias mais horríveis que eu já ouvi — falei.

 

— Você voltou realmente àquela casa?

 

— Certamente. Voltei três anos mais tarde. Meu benfeitor estava certo. Um pequeno tirano como aquele era um em um milhão, e não podia ser desperdiçado.

 

— Como fez para voltar?

 

— Meu benfeitor desenvolveu uma estratégia usando os quatro atributos do guerreiro: controle, disciplina, paciência e sentido de oportunidade.

 

Dom Juan afirmou que seu benfeitor, ao explicar-lhe o que ele tinha que fazer para aproveitar-se do confronto com aquele ogro, também lhe disse o que os novos videntes consideravam ser os quatro passos no caminho do conhecimento. O primeiro passo ê a decisão de tornar-se aprendiz. Depois que os aprendizes mudam sua visão sobre si mesmos e sobre o mundo dão o segundo passo e tornam-se guerreiros, ou seja, seres capazes de extrema disciplina e autocontrole. O terceiro passo, depois de adquirirem paciência e senso de oportunidade, é tornar-se um homem de conhecimento. Quando homens de conhecimento aprendem a ver, dão o quarto passo, tornando-se videntes.

 

Seu benfeitor salientou o fato de que Dom Juan estivera no caminho do conhecimento o suficiente para adquirir um mínimo dos dois primeiros atributos: controle e disciplina. Dom Juan enfatizou que esses atributos referem-se a um estado interior. Um guerreiro é auto-orientado, não de um modo egoísta, mas no sentido de um exame total e contínuo de si mesmo.

 

— Naquele tempo, eu não possuía os outros dois atributos — continuou Dom Juan. — Paciência e oportunidade não são realmente um estado interior. Estão no domínio do homem de conhecimento. Meu benfeitor mostrou-os para mim através de sua estratégia.

 

— Isto significa que você não poderia ter enfrentado o pequeno tirano sozinho?

 

— Estou certo de que poderia tê-lo feito sozinho, embora tenha sempre duvidado de que me desempenhasse com elegância e alegria. Meu benfeitor estava simplesmente desfrutando do encontro ao dirigi-lo. A idéia de usar um pequeno tirano não serve apenas para aperfeiçoar o espírito do guerreiro, mas também para diversão e felicidade.

 

— Como pode alguém divertir-se com um monstro como o que você descreveu?

 

— Ele não era nada em comparação com os monstros de verdade com que os novos videntes se defrontaram durante a Conquista. E tudo indica que aqueles videntes divertiram-se tremendamente ao lidar com eles. Provaram que mesmo os piores tiranos podem trazer encanto, naturalmente desde que a pessoa seja um guerreiro.

 

Dom Juan explicou que o engano que os homens comuns cometem ao se confrontarem com pequenos tiranos é não possuírem uma estratégia que os apóie; a falha fatal é que os homens comuns levam-se por demais a sério; suas ações e sentimentos, assim como as ações e sentimentos dos pequenos tiranos, são de suma importância. Os guerreiros, por outro lado, não apenas têm uma estratégia bem elaborada, como estão livres da vaidade. O que restringe sua vaidade é que eles compreenderam que a realidade é uma interpretação que fazemos. Esse conhecimento era a vantagem definitiva que os videntes tinham sobre os espanhóis simplórios.

 

Disse que ficou convencido de que poderia derrotar o feitor usando apenas uma única percepção: a de que os pequenos tiranos levam-se mortalmente a sério, ao contrário dos guerreiros.

 

E assim, seguindo o plano estratégico de seu benfeitor, Dom Juan conseguiu um trabalho no mesmo engenho de açúcar de antes. Ninguém se lembrava de que ele havia trabalhado ali no passado; peões chegavam e saíam do engenho sem deixar sinal.

 

A estratégia de seu benfeitor especificava que Dom Juan tinha de ser solícito com quem quer que viesse procurar outra vítima. Quando isso aconteceu, a mesma mulher o notou, como havia feito anos antes. Desta vez, ele estava até mais forte fisicamente do que naquela época.

 

A história se repetiu, A estratégia, entretanto, mandava recusar pagamento ao feitor desde o início. O homem nunca havia sido desafiado, e foi tomado de surpresa. Ameaçou despedir Dom Juan do emprego. Dom Juan ameaçou-o por sua vez, dizendo que iria diretamente para a casa da senhora para vê-la. Dom Juan sabia que a mulher, esposa do proprietário do engenho, ignorava o que os dois feitores andavam fazendo. Disse ao feitor que sabia onde ela morava porque havia trabalhado nos campos em torno, cortando cana. O homem começou a regatear, e Dom Juan pediu-lhe dinheiro, pata aceitar o serviço na casa da senhora. O feitor cedeu e entregou-lhe algumas notas. Dom Juan estava perfeita­mente consciente de que a aquiescência do feito era apenas um ardil para conseguir levá-lo para a casa.

 

— Ele mesmo levou-me novamente — disse Dom Juan. — Era uma velha fazenda pertencente ao pessoal do engenho de açúcar... homens ricos que sabiam o que se passava e não se importavam, ou eram indiferentes demais para notar.

 

“Assim que ali chegamos, corri para a casa, procurando pela senhora. Encontrei-a e caí de joelhos e beijei-lhe a mão em agradecimento. Os dois feitores estavam lívidos”.

 

“O feitor da casa seguiu o mesmo padrão de antes. Mas eu estava bem equipado para lidar com ele; tinha controle, disciplina, paciência e sentido de oportunidade. Tudo correu como meu benfeitor havia planejado. Meu controle fez com que eu atendesse às exigências mais estúpidas do homem. Mas o que geralmente nos exaure em uma situação como aquela é o desgaste em nossa vaidade. Qualquer homem que tenha um pingo de orgulho dilacera-se quando o fazem sentir-se desvalorizado”.

 

"Eu fazia tudo que ele me pedia com satisfação. Era alegre e forte. Não me importava com meu orgulho ou meu medo. Ali estava como um guerreiro impecável. Dominar o espírito quando alguém está pisando em você chama-se controle."

 

Dom Juan explicou que a estratégia de seu benfeitor requeria que, em vez de sentir pena de si mesmo, como havia sentido antes, fosse imediatamente trabalhar, anotando os pontos fortes do homem, suas fraquezas, as características de seu comportamento.

 

Descobriu que os pontos mais fortes do feitor eram sua natureza violenta e sua ousadia. Havia atirado em Dom Juan em pleno dia e à vista de um punhado de testemunhas. Sua grande fraqueza era o gosto pelo próprio trabalho e o fato de não desejar colocá-lo em perigo. Sob nenhuma circunstância, ele poderia tentar matar Dom Juan dentro da propriedade, durante o dia. Sua outra fraqueza era ser um homem de família. Tinha mulher e filhos, que viviam num barraco perto da casa.

 

— Juntar toda essa informação, enquanto estão batendo em vocês chama-se disciplina — disse Dom Juan. — O homem era um verdadeiro demônio. Não tinha salvação. Segundo os novos videntes, um pequeno tirano perfeito não tem qualquer aspecto positivo.

 

Dom Juan disse que os outros dois atributos do guerreiro, paciência e sentido de oportunidade, que ainda não possuía, haviam sido incluídos automaticamente na estratégia de seu benfeitor. Paciência é esperar calmamente — sem pressa, sem ansiedade. Trata-se de um simples e alegre adiamento do que é devido.

 

— Eu me lamentava diariamente — continuou Dom Juan — às vezes chorando sob o chicote do homem. E ainda assim era feliz. A estratégia de meu benfeitor foi o que me fez seguir dia após dia sem odiar mortalmente o homem. Eu era um guerreiro. Sabia que estava esperando e sabia pelo que estava esperando. É exatamente ai que está a grande alegria do guerreiro.

 

Acrescentou que a estratégia de seu benfeitor exigia embaraçar sistematicamente o feitor, obtendo uma proteção de ordem superior, exatamente como os videntes do novo ciclo haviam procedido durante a Conquista, escudando-se com a Igreja Católica. Um simples padre era às vezes mais poderoso do que um nobre.

 

O escudo de Dom Juan era a senhora que o trouxera para o trabalho. Ele se ajoelhou à sua frente e chamava-a de santa todas as vezes que a via. Pediu-lhe que lhe desse um medalhão de seu santo padroeiro para que pudesse rezar por sua saúde e bem-estar.

 

— Ela me deu uma medalha — continuou Dom Juan — e isto destroçou o feitor. E quando consegui que os empregados rezassem à noite, ele quase teve um ataque do coração. Acho que foi então que decidiu matar-me. Ele não podia deixar-me continuar.

 

“Como contramedida, organizei um rosário entre todos os criados da casa. A senhora pensou que eu tinha os modos de um homem muito pio”.

 

“Mas não dormi bem depois daquilo, nem dormia em minha cama. Subia para o telhado todas as noites. Dali vi o homem duas vezes procurando por mim no meio da noite, com uma intenção assassina nos olhos”.

 

"Diariamente ele me mandava para as baias dos garanhões esperando que fosse morto por esmagamento, mas eu tinha uma prancha de tábuas pesadas que encostava contra um dos cantos, protegendo-me por trás. O homem nunca soube, porque tinha horror a cavalos — outra de suas fraquezas, a mais mortal de todas, como as coisas vieram demonstrar."

 

Dom Juan disse que o sentido de oportunidade é a qualidade que governa a liberação de tudo o que está contido. Controle, disciplina e paciência são como um dique por trás do qual tudo é represado. O sentido de oportunidade é a abertura do dique.

 

O homem conhecia apenas a violência, com a qual costumava aterrorizar. Se a sua violência era neutralizada, ficava quase indefeso. Dom Juan sabia que ele não se atreveria a matá-lo diante da casa. Assim, um dia, na presença dos outros trabalhadores, mas também à vista da senhora, Dom Juan insultou o homem. Disse que ele era covarde, que tinha um medo mortal da mulher do patrão.

 

A estratégia de seu benfeitor recomendava que estivesse alerta para um momento como aquele e o usasse para virar a mesa sobre o pequeno tirano. Coisas inesperadas sempre acontecem desse modo. O mais baixo dos escravos subitamente zomba do tirano, insulta-o, faz com que se sinta ridículo diante de testemunhas significativas, e então foge sem dar ao tirano o tempo para a retaliação.

 

— Um momento depois, o homem ficou louco de raiva, mas eu já estava solicitamente ajoelhado diante da senhora — continuou ele.

 

Dom Juan disse que quando a senhora foi para dentro da casa, o homem e seus amigos chamaram-no para os fundos, alegando algum trabalho. O homem estava muito pálido, branco de ódio. Pelo som de sua voz, Dom Juan soube o que ele estava realmente planejando fazer. Dom Juan fingiu aquiescer, mas, em vez de dirigir-se para os fundos, correu para os estábulos. Achava que os cavalos fariam tal barulho que os proprietários sairiam para ver qual era o problema. Sabia que o homem não se atreveria a atirar nele. Faria barulho demais, e o medo que ele tinha de colocar seu emprego em risco era muito forte. Dom Juan também sabia que o homem não iria onde os cavalos estavam — isto é, a menos que fosse pressionado além de sua resistência.

 

— Saltei para dentro da baia do garanhão mais selvagem — disse Dom Juan — e o pequeno tirano, cego de raiva, tirou sua faca e saltou depois de mim. Fui instantaneamente para trás de minha prancha. O cavalo escoiceou uma vez, e estava tudo acabado.

 

“Havia passado seis meses naquela casa, e naquele período de tempo exercitei os quatro atributos do guerreiro. Graças a eles, fui bem-sucedido. Em momento algum senti pena de mim mesmo ou chorei de impotência. Permaneci alegre e sereno. Meu controle e disciplina estavam mais aguçados do que nunca, e pude ver de perto o que a paciência e sentido de oportunidade podiam fazer pelos guerreiros impecáveis. E nem uma vez desejei que o homem morresse”.

 

"Meu benfeitor explicou uma coisa muito interessante. Paciência significa reter com o espírito algo que o guerreiro sabe que, por justiça, deve fazer. Isto não significa que um guerreiro saia por ai planejando causar prejuízos a alguém ou acertar contas passadas. A paciência é algo independente. Desde que o guerreiro tenha controle, disciplina e sentido de oportunidade, a paciência assegura dar o que se deve a quem quer que o mereça."

 

— Às vezes os pequenos tiranos vencem e destroem o guerreiro que os enfrenta?

 

— Naturalmente. Houve um tempo em que os guerreiros morriam como moscas. No princípio da Conquista, suas fileiras foram dizimadas; os pequenos tiranos podiam causar a morte de qualquer um, agindo simplesmente por um capricho. Sob tal tipo de pressão, os videntes alcançaram estados sublimes.

 

Dom Juan disse que naquele tempo os videntes que sobreviviam tinham de forçar-se ao limite para encontrar novos caminhos.

 

— Os novos videntes usavam pequenos tiranos — disse Dom Juan, olhando para mim fixamente — não apenas para livrar-se de sua vaidade, mas também para realizar a manobra muito sofisticada de se deslocar para fora deste mundo. Você irá entender essa manobra à medida que continuamos a discutir o domínio da consciência.

 

Expliquei a Dom Juan que o que eu queria saber era se, no presente, em nossos tempos, os pequenos tiranos que ele classificara entre os mais minúsculos poderiam derrotar um guerreiro.

 

— A qualquer momento — respondeu. — As conseqüências não são tão medonhas como as do passado remoto. Hoje não é preciso dizer que os guerreiros sempre têm uma oportunidade de recuperar-se ou retrair-se e voltai mais tarde. Mas há um outro lado desse problema. Ser derrotado por um minúsculo pequeno tiraninho não é mortal, mas devastador. O grau de mortalidade, no sentido figurado, é quase tão alto. Quero dizer com isso que os guerreiros que sucumbem a um minúsculo pequeno tiraninho são eliminados pelo seu próprio senso de fracasso e inutilidade. Isto para mim significa alta mortalidade.

 

— Como se pode medir a derrota?

 

— Todos os que se juntam ao pequeno tirano são derrotados. Agir com raiva, sem controle e disciplina, não ter paciência, é ser derrotado.

 

— O que acontece depois que os guerreiros são derrotados?

 

— Eles ou se reagrupam ou abandonam a busca de conhecimento e juntam-se às fileiras dos pequenos tiranos por toda a vida.

 

 

       As Emanações da Águia

 

No dia seguinte, Dom Juan e eu saímos para uma caminhada ao longo da estrada que levava à cidade de Oaxaca. A estrada estava deserta àquela hora. Eram duas da tarde.

 

Enquanto caminhávamos vagarosos, Dom Juan subitamente começou a falar. Disse que nossa discussão sobre os pequenos tiranos havia sido meramente uma introdução à questão da consciência. Observei que ela tinha aberto uma nova visão para mim. Dom Juan pediu-me para explicar o que eu queria dizer.

 

Disse-lhe que isto tinha a ver com uma discussão que tivéramos alguns anos antes sobre os índios yaquis. No curso de seus ensinamentos para o lado direito, ele tentara falar-me sobre as vantagens que os yaquis conseguiram encontrar na opressão que sofriam. Eu argumentara apaixonadamente que não havia vantagens possíveis nas péssimas condições em que viviam. E contei-lhe que não podia compreender como, sendo ele próprio um yaqui, não reagia contra tão flagrante injustiça.

 

Dom Juan escutara atentamente. Então, quando eu estava certo de que iria defender seu ponto, concordou que as condições dos índios yaquis eram realmente miseráveis. Mas salientou que era inútil isolar o caso dos yaquis quando as condições de vida do homem em geral eram horrendas.

 

— Não sinta pena somente dos pobres índios yaquis — disse ele. — Sinta pena da humanidade. No caso dos índios, posso mesmo lhe dizer que eles têm sorte. São oprimidos e, por causa disso, alguns deles podem sair triunfantes no final. Mas os opressores, os pequenos tiranos que os pisoteiam, esses nunca terão uma chance no inferno.

 

Eu havia respondido imediatamente com uma torrente de chavões políticos. Não havia compreendido seu argumento de maneira alguma. Ele novamente tentou explicar-me o conceito de pequenos tiranos, mas o todo me escapava. E somente agora as coisas começavam a se encaixar.

 

— Nada se acomodou em seus lugares ainda — disse ele, rindo do que lhe havia contado. — Amanhã, quando você estiver em seu estado normal de consciência, não irá sequer lembrar-se do que descobriu agora.

 

Senti-me completamente deprimido, pois sabia que ele tinha razão.

 

— O que vai acontecer com você é o que aconteceu comigo — continuou ele. — Meu benfeitor, o nagual Julian, fez-me perceber em consciência intensificada o que você próprio percebeu sobre os pequenos tiranos. Terminei por mudar minhas opiniões em minha vida diária, sem saber por quê.

 

"Sempre fui oprimido, de modo que tinha verdadeiro ódio aos meus opressores. Imagine minha surpresa quando encontrei-me procurando a companhia de pequenos tiranos. Pensei que havia perdido a razão,"

 

Chegamos a um lugar, ao lado da estrada, onde algumas grandes pedras estavam semi-enterradas por uma antiga barreira; Dom Juan dirigiu-se a elas e sentou-se sobre uma pedra achatada. Fez-me sinal para sentar-me à sua frente. E então, sem qualquer outra preparação, começou sua explicação sobre o domínio da consciência. Contou que existia uma série de verdades que os videntes, antigos e novos, haviam descoberto sobre a consciência, e que essas verdades foram dispostas em uma seqüência específica, objetivando melhor compreensão.

 

Explicou que o domínio da consciência consistia em internalizar a seqüência total de tais verdades. A primeira verdade, disse, era que nossa familiaridade com o mundo que percebemos compele-nos a acreditar que estamos rodeados de objetos que existem por si próprios e como eles próprios, exatamente como os percebemos, quando, na realidade, não há um mundo de objetos, mas um universo das emanações da Águia.

 

Disse-me então que antes que pudesse explicar as emanações da Águia, tinha que falar sobre o conhecido, o desconhecido e o incognoscível. A maior parte das verdades sobre a consciência foi descoberta pelos antigos videntes. Mas a ordem na qual estavam arranjadas havia sido elaborada pelos novos videntes. E, sem aquela ordem, essas verdades eram praticamente incompreensíveis.

 

Explicou que não procurar a ordem foi um dos grandes enganos que os antigos videntes cometeram. Uma conseqüência mortal desse engano foi a presunção de que o desconhecido e o incognoscível eram a mesma coisa. Ficou a cargo dos novos videntes corrigir este erro. Eles traçaram limites e definiram o desconhecido como algo que se apresenta velado para o homem, embalado talvez por um contexto terrificante, mas que, apesar disso, está a seu alcance. O desconhecido torna-se o conhecido em um dado momento. O incognoscível, por outro lado, é o indescritível, o impensável, o inconcebível, É algo que jamais será conhecido por nós, e ainda assim está ali, fascinando e ao mesmo tempo horrorizando em sua vastidão.

 

— Como podem os videntes fazer a distinção entre os dois?

 

— Existe uma regra muito simples. Diante do desconhecido, o homem é aventureiro. Dar-nos uma sensação de esperança e felicidade é uma qualidade do desconhecido. O homem sente-se robusto, jovial. Mesmo a apreensão que o desconhecido desperta é muito gratificante. Os novos videntes viram que o homem fica em sua melhor forma diante dele.

 

Ele disse que, sempre que o que é tomado como sendo o desconhecido revela-se como o incognoscível, os resultados são desastrosos. Os videntes sentem-se exauridos, confusos. Uma terrível opressão toma posse deles. Seus corpos perdem o tônus, seu raciocínio e sua sobriedade ficam desnorteados, pois o incognoscível não tem qualquer efeito energizante. Não está ao alcance do homem, e por isso não deveria ser invadida totalmente ou mesmo com prudência. Os novos videntes perceberam que tinham que estar preparados para pagar preços exorbitantes pelo menor contato com o incognoscível.

 

Dom Juan explicou que os novos videntes precisaram superar formidáveis barreiras de tradição. Na época em que o novo ciclo começou, nenhum deles sabia ao certo quais procedi­mentos de sua imensa tradição eram os carretos e quais não o eram. Obviamente, algo saíra errado com os antigos videntes, mas os novos não sabiam o quê.

 

Começaram presumindo que tudo o que seus predecessores fizeram estava errado, Aqueles antigos videntes tinham sido os mestres da conjetura. Eles haviam partido do princípio de que sua capacidade de ver era uma salvaguarda. Pensavam que eram intocáveis — isto é, até que os invasores os esmagaram, e infligiram mortes horrendas à maior parte deles. Os antigos videntes não tinham qualquer proteção, apesar de sua total certeza de que eram invulneráveis. Os novos videntes não desperdiçaram seu tempo em especulações sobre o que saiu errado. Em lugar disso, começaram a delimitar o desconhecido, de modo a separá-lo do incognoscível.

 

— Como eles delimitaram o desconhecido, Dom Juan?

 

— Através do uso controlado de ver.

Esclareci que queria saber em que consistia a delimitação do desconhecido.

 

Ele respondeu que delimitar o desconhecido significa torná-lo acessível à nossa percepção. Praticando firmemente ver, os novos videntes descobriram que o desconhecido e o conhecido estão realmente na mesma base, porque ambos estão ao alcance da percepção humana. Os videntes, com efeito, podem abandonar o conhecido num dado momento e entrar para o desconhecido.

 

Tudo que esteja além de nossa capacidade de perceber é o incognoscível. E a distinção entre este e o cognoscível é crucial. Confundir os dois colocaria os videntes numa posição extrema­mente precária todas as vezes que se defrontassem com o incognoscível.

 

— Quando isso aconteceu aos antigos videntes — continuou Dom Juan. — eles pensaram que seus procedimentos se haviam emaranhado totalmente. Nunca lhes ocorreu que a maior parte do que está lá fora ultrapassa nossa compreensão. Foi um erro terrível de avaliação, pelo qual pagaram muito caro.

 

— O que aconteceu depois que a distinção entre o desconhecido e o incognoscível foi percebida?

 

— O novo ciclo começou, Essa distinção é a fronteira entre o antigo e o novo. Tudo que os novos videntes fizeram origina-se da compreensão desta distinção.

 

Dom Juan disse que ver era o elemento crucial tanto na destruição do mundo dos antigos videntes como na reconstrução da nova visão. Foi através de ver que os novos videntes descobriram certos fatos inegáveis, que usaram para chegar a determinadas conclusões revolucionárias para eles, a respeito da natureza do homem e do mundo. Essas conclusões, que tornaram possível um novo ciclo, eram as verdades sobre a consciência que Dom Juan estava explicando para mim.

 

Dom Juan pediu-me para acompanhá-lo ao centro da cidade para um passeio ao redor da praça. Em nosso caminho, começamos a conversar sobre máquinas e instrumentos delicados. Ele disse que os instrumentos são extensões de nossos sentidos, e repliquei que existem instrumentos que não estão nesta categoria, porque executam funções para as quais não somos psicologicamente capazes.

 

— Nossos sentidos são capazes de tudo — assegurou ele.

 

— Posso dizer-lhe sem cerimônia que há instrumentos com capacidade de detectar ondas de rádio que vêm do espaço exterior

 

— afirmei eu. — Nossos sentidos não conseguem detectar ondas de rádio.

 

— Tenho uma idéia diferente. Acho que nossos sentidos podem detectar tudo que nos rodeia.

 

— E quanto aos sons ultra-sônicos? — insisti. —Não temos o equipamento orgânico para ouvi-los.

 

— Os videntes acreditam que contamos com uma porção muito pequena de nós mesmos — replicou ele. E mergulhou em seus pensamentos por algum tempo, como se estivesse tentando decidir o que dizer em seguida. Então sorriu.

 

— A primeira verdade sobre a consciência, como já lhe disse — recomeçou —, é que o mundo lá fora não é realmente como pensamos. Achamos que é um mundo de objetos, mas não é.

 

Fez uma pausa, como se medisse o efeito de suas palavras. Disse-lhe que concordava com sua premissa, porque tudo podia ser reduzido a um campo de energia. Ele falou que eu estava meramente intuindo uma verdade, e que deduzi-la não era verificá-la. Não se interessava em minha concordância ou discordância, continuou, mas na minha tentativa de compreender o que estava envolvido naquela verdade.

 

— Você não pode testemunhar campos de energia. Não como homem médio. Agora, se fosse capaz de vê-los, você seria um vidente, e nesse caso estaria explicando as verdades sobre a consciência. Compreendeu o que quero dizer?

 

Continuou, dizendo que as conclusões a que chegamos através do raciocínio tinham muito pouca ou mesmo nenhuma influência para alterar o curso de nossas vidas. Daí os incontáveis exemplos de pessoas que têm as convicções mais claras mas, ainda assim, agem diametralmente contra elas vezes seguidas, e apresentam como única explicação para seu comportamento a idéia de que errar é humano.

 

— A primeira verdade é que o mundo é como parece, e entretanto não é. Não é tão sólido e real como nossa percepção foi levada a crer, mas também não é uma miragem. O mundo é uma ilusão, como tem sido dito; ele é real por um lado, e irreal por outro. Preste muita atenção nisso, pois isso deve ser compreendido, e não simplesmente aceito. Nós percebemos. Isto é um fato concreto. Mas o que percebemos não é um fato concreto, porque aprendemos o que perceber.

 

"Algo lá fora afeta nossos sentidos. Esta é a parte que é real. A parte irreal é o que eles dizem estar lá. Tome uma montanha, por exemplo. Nossos sentidos dizem-nos que se trata de um objeto. Ela tem tamanho, corpo, forma. Nós temos até várias categorias de montanhas, extremamente precisas. Não há nada de errado com isso; a falha está simplesmente em que nunca nos ocorreu que nossos sentidos desempenham apenas um papel superficial. Eles percebem do modo como o fazem porque uma qualidade específica de nossa consciência força-os a atuar desse modo."

 

Comecei a concordar com ele novamente, mas não porque quisesse, pois não havia compreendido seu argumento. Antes, eu estava reagindo a uma situação assustadora. He me fez parar.

 

— Usei o termo "o mundo" — continuou Dom Juan — para significar tudo que nos rodeia. Tenho um termo melhor, naturalmente, mas este seria totalmente incompreensível para você, Os videntes dizem que pensamos que há um mundo de objetos apenas por causa de nossa consciência. Mas o que existe realmente são as emanações da Águia, fluidas, sempre em movimento e, no entanto, inalteráveis, eternas.

 

E me fez parar com um gesto da mão exatamente quando estava por perguntar-lhe o que eram as emanações da Águia. Explicou-me então que um dos legados mais dramáticos que os antigos videntes nos deixaram foi a descoberta de que a razão da existência de todos os seres sencientes é o desenvolvimento da consciência. Dom Juan classificou isso como uma descoberta colossal.

 

Em um tom meio sério, perguntou-me se sabia de uma resposta melhor para a pergunta que sempre intrigou o homem; a razão de nossa existência. Imediatamente tomei uma posição defensiva e comecei a argumentar sobre a falta de significado da pergunta, pois ela não pode ser logicamente respondida. Disse-lhe que, para discutir o assunto, teríamos de conversar sobre crenças religiosas e transformar tudo isso em matéria de fé.

 

— Os antigos videntes não estavam falando apenas de fé — disse ele. — Não eram tão práticos como os novos videntes, mas eram práticos o suficiente para saber o que estavam vendo. O que eu tentei demonstrar com essa pergunta que o afetou tão seriamente, é que nossa racionalidade não pode por si só responder sobre a razão de nossa existência. Todas as vezes que tentamos fazê-lo, a resposta transforma-se em matéria de fé. Os antigos videntes tomaram outro caminho, e encontraram uma resposta que não envolve apenas a fé.

 

Disse que os antigos videntes, arriscando-se a perigos inimagináveis, viam realmente a força indescritível que é a fonte de todos os seres sencientes. Chamaram-na de Águia, porque nos pequenos vislumbres que podiam suportar, viam-na como algo que se parecia com uma águia branca e preta, de tamanho infinito.

 

Viram que é a Águia que concede consciência. A Águia cria os seres sencientes para que estes vivam e enriqueçam a consciên­cia que ela lhes proporciona com a vida. Eles também viram que é a Águia que devora essa mesma consciência enriquecida, depois de fazer com que os seres sencientes a abandonem no momento da morte.

 

— Para os antigos videntes — continuou Dom Juan — dizer que a razão da existência é enriquecer a consciência não é uma questão de fé ou de dedução. Eles viram.

 

"Eles viram que a consciência dos seres sencientes levanta vôo no momento da morte e flutua como um tufo de algodão luminoso diretamente para o bico da Águia, onde é consumida. Para os antigos videntes, esta era a evidência de que os seres sencientes vivem apenas para enriquecer a consciência, que é o alimento da Águia."

 

A elucidação de Dom Juan foi interrompida, pois ele tinha de partir numa curta viagem de negócios. Nestor levou-o a Oaxaca. Quando me vi só, lembrei-me de que, no início de minha associação com Dom Juan, cada vez que ele mencionava uma viagem de negócios eu pensava que estivesse empregando um eufemismo para alguma outra coisa. Finalmente, percebi que queria dizer exatamente isso. Todas as vezes que uma viagem dessas estava por acontecer, ele vestia um de seus muitos ternos com colete imaculadamente confeccionados, e assumia uma aparência muito diversa da do velho índio que eu conhecia. Eu comentei com ele sobre a sofisticação de sua metamorfose.

 

— Um nagual deve ser flexível o suficiente para ser qualquer coisa — respondeu. — Ser um nagual, entre outras coisas, significa não ter nenhuma posição a defender. Lembre-se disso... voltaremos a esse assunto muitas vezes.

 

Voltamos a esse tema com freqüência, de todos os modos possíveis; ele parecia mesmo não ter nenhuma posição a defender, mas durante sua ida a Oaxaca, entreguei-me a uma ponta de dúvida. Percebi subitamente que um nagual tinha algo a defender: a descrição da Águia e do que ela faz requeria, na minha opinião, uma defesa apaixonada.

 

Tentei colocar essa questão a alguns dos companheiros de Dom Juan, mas eles evitaram minhas sondagens. Disseram-me que eu estava em quarentena contra esse tipo de discussão, até que Dom Juan tivesse terminado sua explicação.

 

No momento em que ele retornou, sentamos para conversar e perguntei-lhe sobre o tema.

 

— Essas verdades não são algo a defender apaixonadamente

 

— replicou. — Sc você pensa que estou tentando defendê-las, está enganado. Essas verdades foram estabelecidas para o deleite e esclarecimento dos guerreiros, não para suscitar sentimentos de propriedade. Quando lhe disse que um nagual não tem posições a defender, queria dizer, entre outras coisas, que o nagual não tem obsessões.

 

Disse-lhe que não estava seguindo seus ensinamentos, pois havia ficado obcecado com sua descrição da Águia e do que ela faz. Comentei vezes seguidas sobre o quanto essa idéia me impressionava.

 

— Não se trata apenas de uma idéia — disse ele . — Trata-se de um fato. E um fato terrivelmente assustador, se quiser saber o que eu acho. Os novos videntes não estavam simplesmente brincando com idéias.

 

— Mas que tipo de força seria a Águia?

 

— Eu não sei como responder a isso. A Águia é tão real para os videntes como a gravidade e o tempo são reais para você, e exatamente tão abstrata e incompreensível.

 

— Espere um minuto, Dom Juan. Esses são conceitos abstratos, mas referem-se a fenômenos reais que podem ser comprovados. Há disciplinas inteiras dedicadas a isso.

 

— A Águia e suas emanações são igualmente comprováveis

 

— retorquiu Dom Juan. — E a disciplina dos novos videntes é dedicada a fazer exatamente isso.

Pedi-lhe que explicasse o que são as emanações da Águia.

Ele disse que as emanações da Águia são uma coisa-em-si imutável, que engloba tudo que existe, do conhecido ao incognoscível.

 

— Não há maneira de descrever em palavras o que são realmente as emanações da Águia — continuou Dom Juan. — Um vidente precisa testemunhá-las.

 

— Testemunhou-as pessoalmente, Dom Juan?

 

— Naturalmente que sim, e entretanto não posso contar-lhe o que são. São uma presença, quase uma espécie de massa, uma pressão que cria uma sensação de deslumbramento. Só se pode captar um vislumbre delas, assim como só se pode captar um vislumbre da própria Águia.

 

— Você diria, Dom Juan, que a Águia é a fonte das emanações?

 

— Mas é claro que a Águia é a fonte das suas emanações.

 

— Eu queria perguntar se é assim visualmente.

 

— Mas a Águia não tem nada de visual. O corpo inteiro do vidente sente a Águia. Há alguma coisa em todos nós que pode fazer-nos testemunhar com nosso corpo inteiro. Os videntes explicam o ato de ver a Águia em termos muito simples: o homem é composto das emanações da Águia, e assim precisa apenas reverter aos seus componentes originais. O problema surge com a consciência do homem; é sua consciência que se torna emaranhada e confusa. No momento crucial, no que deveria ser um simples caso de emanações dando conta de si mesmas, a consciência do homem é compelida a interpretar. O resultado é uma visão da Águia e das emanações da Águia. Mas não existe Águia nem emanações. O que existe é algo que nenhuma criatura viva pode compreender.

 

Perguntei-lhe se a fonte das emanações era chamada de Águia porque em geral as águias têm atributos importantes.

 

— Trata-se simplesmente de algo incognoscível, que se assemelha vagamente a algo conhecido — replicou. — Por conta disso, houve tentativas de dotar as águias de atributos que não possuem. Mas isso sempre acontece quando pessoas impressionáveis aprendem a realizar atos que requerem grande sobriedade. Há videntes de todos os tamanhos e formas.

 

— Você quer dizer que há tipos diferentes de videntes?

 

— Não. Quero dizer que há muitos imbecis que se tornam videntes. Os videntes são seres humanos cheios de fraquezas, ou melhor, seres humanos cheios de fraquezas são capazes de tornarem-se videntes. Exatamente como no caso de pessoas deploráveis que se tornam grandes cientistas.

 

"A característica dos videntes deploráveis é que eles desejam esquecer as maravilhas do mundo. Ficam maravilhados pelo fato de verem e acreditam que é seu gênio que conta. Um vidente deve ser um exemplo, capaz de ultrapassar a imprecisão quase invencível de nossa condição humana. Mais importante do que ver é o que os videntes fazem com o que vêem."

 

— O que quer dizer com isso, Dom Juan? — Olhe para o que alguns videntes fizeram. Estamos presos a sua visão de uma Águia que nos governa e nos devora no momento de nossa morte.

 

Acrescentou que há uma certa imprecisão naquela versão, e que pessoalmente não apreciava a idéia de algo que nos devora. Para ele, seria mais correto dizer que existe uma força que atrai nossa consciência, como um ímã atrai limalha de ferro. No momento da morte, todo nosso ser se desintegra sob a atração dessa força imensa.

 

Achava grotesco que este fato fosse interpretado como a Águia devorando-nos, pois isto reduz um ato indescritível a algo tão trivial quanto comer.

 

— Sou um homem bastante comum — disse eu. — A descrição de uma Águia que nos devora teve grande impacto sobre mim.

 

— O impacto real não pode ser medido até você mesmo ver. — disse ele. — Mas você precisa lembrar-se que nossas falhas permanecem conosco mesmo depois que nos tomamos videntes. Assim, quando vir àquela força, pode ser que concorde com os videntes imprecisos que a chamaram de Águia, como eu. Por outro lado, isto talvez não ocorra. Você pode resistir à tentação de atribuir características humanas ao que é incompreensível, e realmente improvisar um novo nome para isso, um novo nome mais preciso.

 

— Os videntes que vêem as emanações da Águia dão-lhes geralmente o nome de ordens — disse Dom Juan. — Eu não me importaria em chamá-las de ordens se não estivesse habituado a chamá-las de emanações. Foi uma reação à preferência de meu benfeitor; para ele, eram ordens. Achei que este termo estava mais de acordo com sua personalidade forte do que com a minha. Desejava algo impessoal.

 

"Ordens" soa humano demais para mim, mas é o que realmente são, ordens.

 

Dom Juan disse que ver as emanações da Águia é beirar o desastre. Os novos videntes em pouco tempo descobriram as tremendas dificuldades envolvidas, e somente após grandes atribulações em tentar delimitar o desconhecido e separá-lo do incognoscível conseguiram perceber que tudo provém das emanações da Águia. Apenas uma pequena porção daquelas emanações está ao alcance da consciência humana, e essa pequena porção é reduzida ainda mais. a uma fração diminuta, pelas exigências de nossas vidas diárias. Essa fração diminuta das emanações da Águia é o conhecido; a pequena porção ao alcance possível da consciência humana é o desconhecido, e o incalculável restante é o incognoscível.

 

Continuou dizendo que os novos videntes, pragmaticamente orientados, tornaram-se imediatamente conhecedores do poder compulsório das emanações. Perceberam que todas as criaturas vivas são forçadas a empregar as emanações da Águia sem sequer saber o que são. Perceberam também que os organismos são construídos de modo a captar certas faixas dessas emanações, e que cada espécie tem uma faixa definida. As emanações exercem grandes pressões sobre os organismos, e através dessa pressão eles constroem seu mundo perceptível.

 

— Em nosso caso, como seres humanos — disse Dom Juan —, empregamos essas emanações, que interpretamos como realidade. Mas o que o homem percebe é uma porção tão pequena das emanações da Águia que é ridículo confiar muito em nossas percepções. Entretanto, não podemos ignorar nossas percepções. Os novos videntes descobriram isso pelo caminho difícil... após passarem perto de perigos tremendos.

 

Dom Juan estava sentado em seu lugar usual, no aposento grande. Ordinariamente não havia mobília naquele aposento — as pessoas sentavam-se em esteiras no chão — mas Carol, a mulher nagual havia conseguido mobiliá-lo com poltronas muito confortáveis para as sessões em que ela e eu nos revezávamos lendo para Dom Juan obras de poetas de língua espanhola,

 

— Desejo que você esteja muito consciente do que estamos fazendo — disse assim que me sentei. — Estamos discutindo o domínio da consciência. As verdades que estamos discutindo são os princípios deste domínio.

 

Acrescentou que em seus ensinamentos para o lado direito havia demonstrado tais princípios à minha atenção normal, com a ajuda de um de seus companheiros videntes, Genaro, e que Genaro havia brincado com minha consciência com todo o humor e irreverência pelos quais os novos videntes são conhecidos.

 

— Genaro é que deveria estar aqui contando-lhe sobre a Águia — disse ele —, só que suas versões são irreverentes demais. Ele pensa que os videntes que chamaram aquela força de Águia eram muito estúpidos ou estavam inventando uma grande piada, porque as águias, além de botarem ovos, também cagam.

 

Dom Juan riu e disse que achava os comentários de Genaro tão apropriados que não podia resistir ao riso. Acrescentou que se tivessem sido os novos videntes a descrever a Águia, a descrição certamente seria feita meio de brincadeira.

 

Disse a Dom Juan que em um certo nível eu tomava a Águia como uma imagem poética, e que como tal a achava ótima, mas em outro nível eu a tomava literalmente, e isso me aterrorizava.

 

— Uma das maiores forças nas vidas dos guerreiros é o medo — disse ele. — Ele estimula-os a aprender.

 

Lembrou-me de que a descrição da Águia veio dos antigos videntes. Os novos videntes estavam fartos de descrições, comparações e conjeturas de qualquer espécie. Queriam chegar direta-mente à fonte das coisas, e conseqüentemente arriscaram-se a perigos ilimitados. Eles viram as emanações da Águia. Mas nunca interferiram com sua descrição. Sentiram que era necessária muita energia para ver a Águia, e que os antigos videntes já haviam pago suficientemente por seu escasso vislumbre do incognoscível.

 

— Como foi que os antigos videntes chegaram a descrever a Águia? — perguntei.

 

— Eles precisavam de um conjunto mínimo de linhas-mestras sobre o incognoscível, com finalidades de instrução — explicou Dom Juan. — Resolveram o problema com a descrição sumária da força que governa tudo que existe, mas não de suas emanações, porque elas não podem ser transmitidas em uma linguagem de comparações. Individualmente, alguns videntes podem sentir a compulsão de fazer comentários sobre certas emanações, mas isso será sempre pessoal. Em outras palavras, não existe uma versão pronta das emanações, assim como existe sobre a Águia.

 

— Os novos videntes parecem ter sido muito abstratos — comentei, — Eles me soam como os filósofos de hoje.

 

— Não. Os novos videntes eram homens terrivelmente práticos — replicou. — Não estavam envolvidos na elaboração de teorias racionais.

 

Ele disse então que os antigos videntes é que eram os pensadores abstratos. Construíram edifícios monumentais de abstrações próprios para eles e para seu tempo. E, exatamente como os filósofos de hoje, não tinham qualquer controle sobre suas concatenações. Os novos videntes, por outro lado, imbuídos de uma natureza prática, foram capazes de ver um fluxo de emanações e ver como o homem e os outros seres vivos utilizam-nas para construir seu mundo perceptível.

 

— Como são essas emanações utilizadas pelo homem, Dom Juan?

 

— Ê tão simples que parece idiotice. Para um vidente, os homens são seres luminosos. Nossa luminosidade é feita daquela porção das emanações da Águia que está englobada em nosso casulo ovóide. Essa porção particular, essa porção de emanações que está englobada, é o que nos torna homens. Percebê-lo é compatibilizar as emanações contidas dentro de nosso casulo com as que se encontram do lado de fora.

"Os videntes podem ver, por exemplo, as emanações no interior de qualquer criatura viva e podem dizer qual das emanações externas irá compatibilizar-se com elas."

 

— As emanações são como raios de luz?

 

— Não. De forma alguma. Isto seria simples demais. São algo indescritível. Entretanto, meu comentário pessoal seria dizer que são como filamentos de luz. O que é incompreensível à consciência normal é que os filamentos têm consciência. Não posso dizer-lhe o que isso significa, porque não sei o que estou dizendo. Tudo que posso afirmar-lhe com meus comentários pessoais é que os filamentos têm consciência de si mesmos, são vivos e vibram, que existem tantos deles que o número não tem qualquer significado e que cada um deles é uma eternidade em si mesmo.

 

 

       O Brilho da Consciência

 

Dom Juan, Dom Genaro e eu havíamos justamente retornado de uma excursão para colher plantas nas montanhas próximas. Estávamos na casa de Dom Genaro, sentados ao redor da mesa, quando Dom Juan fez-me mudar de nível de consciência. Dom Genaro estava olhando para mim, e começou a rir. Comentou como era estranho que eu tivesse dois padrões completamente diferentes para lidar com os dois lados da consciência. Minha relação com ele era o exemplo mais óbvio. Em meu lado direito, ele era o respeitado e temido feiticeiro Dom Genaro, um homem cujos atos incompreensíveis deliciavam-me e ao mesmo tempo enchiam-me de terror mortal. Em meu lado esquerdo, era simplesmente Genaro, ou Genarito, sem qualquer Dom ligado a seu nome, um vidente gentil e encantador, cujos atos tomavam-se totalmente compreensíveis e coerentes com aquilo que eu mesmo fazia ou tentava fazer.

 

Concordei, acrescentando que, em meu lado esquerdo, o homem cuja mera presença fazia-me tremer como a uma folha era Silvio Manuel, o mais misterioso dos companheiros de Dom Juan. Disse também que Dom Juan, sendo um verdadeiro nagual, transcendia padrões arbitrários e era respeitado e admirado por mim em ambos os estados.

 

— Mas ele é temido? — perguntou Genaro numa voz tremula.

 

— Muito temido — interrompeu Dom Juan em uma voz de falsete. Todos nós rimos, mas Dom Juan e Genaro riram com tal abandono que imediatamente suspeitei que sabiam de algo que estavam escondendo.

Dom Juan estava lendo-me como a um livro. Explicou que no estágio intermediário, antes que a pessoa entre inteiramente na atenção do lado esquerdo, é capaz de tremenda concentração, mas também é suscetível a toda influência concebível. Eu estava sendo influenciado pela suspeita.

 

— La Gorda está sempre nesse estágio — disse ele. Ela aprende maravilhosamente, mas é uma verdadeira chateação. Não consegue deixar de ser levada por qualquer coisa que atravesse seu caminho, inclusive, naturalmente, coisas muito boas, como a concentração pura.

 

Dom Juan explicou que os novos videntes descobriram que o período de transição é o momento em que tem lugar, o aprendizado mais profundo e que é também quando os guerreiros precisam ser supervisionados e devem ser-lhes dadas explicações, de modo que possam avaliá-las apropriadamente. Se nenhuma explicação surgir antes de entrarem para o lado esquerdo, tornar-se-ão grandes feiticeiros, mas videntes pobres, como os antigos toltecas.

 

As guerreiras mulheres, em particular, caíam presas da atração do lado esquerdo, acrescentou. São tão ágeis que podem ir para o lado esquerdo sem qualquer esforço, às vezes cedo demais para seu próprio bem.

 

Após um longo silêncio, Genaro adormeceu. Dom Juan recomeçou a falar. Disse que os novos videntes tiveram de inventar uma série de termos para explicar a segunda verdade sobre a consciência. Seu benfeitor havia mudado alguns desses termos de acordo com sua conveniência, e ele próprio havia feito o mesmo, guiado pela convicção dos videntes de que os termos usados não fazem qualquer diferença, desde que as verdades tinham sido verificadas através de ver.

 

Estava curioso por saber quais termos ele havia mudado, mas não sabia realmente como formular minha pergunta. Ele compreendeu que eu duvidava de seu direito ou sua capacidade de mudá-los, e explicou que, se os termos que propomos originam-se em nossa razão, podem apenas comunicar a concordância mundana da vida diária. Quando os videntes propõem o termo, por outro lado, este nunca é uma figura de linguagem, pois se origina de ver e abarca tudo o que eles podem atingir.

 

Perguntei-lhe por que havia mudado os termos.

 

— É um dever do nagual procurar sempre maneiras melhores de explicar — replicou. — O tempo muda todas as coisas, e cada novo nagual deve incorporar novas palavras, novas idéias, para descrever sua visão.

 

— Você quer dizer que um nagual forma idéias a partir do mundo da vida diária?

 

— Não. Quero dizer que um nagual fala sobre ver de maneiras sempre novas. Por exemplo, como novo nagual, você deveria dizer que a consciência dá origem à percepção. Estaria dizendo a mesma coisa que meu benfeitor disse, mas de um modo diferente.

 

— O que os novos videntes dizem ser a percepção, Dom Juan?

 

— Para eles, a percepção é uma condição de alinhamento; as emanações no interior do casulo ficam alinhadas com as exteriores, que se adaptam a elas. O alinhamento é aquilo que permite que a consciência seja cultivada por toda criatura viva. Os videntes fazem essas afirmações porque vêem as criaturas vivas como realmente são: seres luminosos que parecem bolhas de luz esbranquiçadas.

 

Perguntei-lhe como as emanações do interior do casulo se adaptam às externas de modo a permitir a percepção.

 

— As emanações interiores e as emanações exteriores são os mesmos filamentos de luz. Os seres sencientes são diminutas bolhas feitas desses filamentos, microscópicos pontos de luz, ligados às emanações infinitas.

 

Prosseguiu explicando que a luminosidade dos seres vivos é constituída pela porção particular das emanações da Águia que sucede estar dentro de seus casulos luminosos. Quando os videntes vêem a percepção, testemunham que a luminosidade das emanações da Águia no exterior dos casulos destas criaturas aumenta a luminosidade das emanações em seu interior. A luminosidade externa atrai a interna; ela a aprisiona, por assim dizer, e a fixa. Essa fixação é a consciência de cada ser específico.

 

Os videntes podem também ver como as emanações exteriores ao casulo exercem uma pressão particular sobre a porção de emanações interiores. Essa pressão determina o grau de consciên­cia que cada ser vivo tem.

 

Pedi-lhe que esclarecesse como as emanações da Águia externas ao casulo exercem pressões sobre as internas.

 

— As emanações da Águia são mais do que filamentos de luz — replicou. — Cada uma delas é uma fonte de energia ilimitada. Procure pensar assim: uma vez que algumas das emanações exteriores ao casulo são as mesmas que as emanações interiores, suas energias são como uma pressão contínua. Mas o casulo isola as emanações que estão dentro de sua trama, e dessa maneira dirige a pressão.

 

"Disse a você que os antigos videntes eram mestres da arte de manipular a consciência — continuou. — O que posso acrescentar agora é que eram os mestres dessa arte porque aprenderam a manipular a estrutura do casulo. Disse ainda que desvendaram o mistério de estar consciente. Quis mostrar com isso que eles viram e perceberam que a consciência é um brilho no casulo dos seres vivos. Acertadamente, chamaram-no de brilho da consciência."

 

Explicou, a seguir, que os antigos videntes viram que a consciência do homem é um brilho de luminosidade ambarina mais intenso do que o resto do casulo. Esse brilho está em uma faixa estreita e vertical no lado extremo direito do casulo, correndo por todo seu comprimento. O talento dos antigos videntes consistia em mover esse brilho, em fazê-lo espalhar-se, a partir de seu ponto original na superfície do casulo, para dentro, por toda a sua largura.

 

Parou de falar e olhou para Genaro, que ainda estava profundamente adormecido.

 

— Genaro não dá valor a explicações — disse. — Ele é da prática. Seu benfeitor impeliu-o a defrontar-se constantemente com problemas insolúveis. Desta forma, ele entrou para o lado esquerdo propriamente dito e nunca teve uma oportunidade de cogitar e conjeturar.

 

— É melhor ser desse modo, Dom Juan?

 

— Depende. Para ele, é perfeito. Para você e para mim, não seria satisfatório, porque de uma maneira ou de outra somos chamados a explicar, Genaro ou meu benfeitor são mais como os antigos do que como os novos videntes. Podem controlar e fazer o que desejam com o brilho da consciência.

 

Levantou-se da esteira onde estivemos sentados, e distendeu braços e pernas. Pedi que continuasse falando. Sorriu e disse-me que eu necessitava descansar, que minha concentração estava declinando.

 

Ouvi uma batida na porta. Acordei. Estava escuro. Por um momento não pude lembrar-me do local em que me encontrava. Havia algo em mim que fugia para muito longe, como se parte de mim ainda dormisse, embora eu estivesse completamente acorda­do. Entrava luar suficiente através da janela aberta para que eu pudesse enxergar.

 

Vi Dom Genaro levantar-se e ir até a porta. Percebi então que eu estava em sua casa. Dom Juan dormia profundamente sobre uma esteira no chão. Tive a nítida impressão de que nós três havíamos adormecido após voltar mortalmente cansados de uma viagem às montanhas.

 

Dom Genaro acendeu seu lampião de querosene. Segui-o até a cozinha. Alguém havia trazido uma panela de caldo quente e uma pilha de tortillas.

 

— Quem lhe trouxe comida? Existe alguma mulher que cozinha para você?

 

Dom Juan havia entrado na cozinha. Os dois olharam para mim sorrindo. Por alguma razão, seus sorrisos foram terrificantes. Estava a ponto de gritar de terror, de fato, quando Dom Juan bateu-me nas costas e fez-me mudar para um estado de consciên­cia intensificada. Percebi então que talvez durante meu sono, ou quando acordei, havia deslizado de volta para a consciência cotidiana. A sensação que experimentei então, de regresso à consciência intensificada, foi uma mistura de alívio, raiva e da mais aguda tristeza. Estava aliviado por ser eu mesmo novamente, pois chegara a encarar esses estados incompreensíveis como sendo meu eu verdadeiro. Havia uma simples razão para isso — nesses estados sentia-me completo; nada me faltava. A raiva e a tristeza eram uma reação à impotência. Tornava-me mais consciente do que nunca das limitações do meu ser. Pedi a Dom Juan que me explicasse como era possível fazer o que estava fazendo. Em estados de consciência intensificada podia me lembrar de tudo a cerca de mim mesmo; seria capaz de elaborar um relato de tudo que fizera em qualquer estado; podia, inclusive, lembrar-me de minha incapacidade de recordar. Mas, uma vez de volta ao meu nível normal cotidiano de consciência, não conseguia lembrar-me de nada que havia feito em consciência intensificada, mesmo se minha vida dependesse disso.

 

— Pare, pare por aí — disse ele. — Você ainda não se lembrou de nada. A consciência intensificada é apenas um estado intermediário. Há mais infinitamente, mais, além disso, e você já esteve lá muitas vezes. Exatamente agora você não pode lembrar-se, mesmo se sua vida dependesse disso.

 

Dom Juan estava certo. Eu não tinha idéia do que ele estava falando. Pedi uma explicação.

 

— A explicação está vindo, É um processo lento, mas chegaremos a ela. É lento porque sou exatamente como você: gosto de compreender. Sou o contrário de meu benfeitor, que não era dado a explicações. Para ele, havia apenas a ação. Ele costumava nos lançar cruamente de encontro a problemas incompreensíveis, e deixava-nos resolvê-los por nós mesmos. Alguns de nós jamais resolveram nada, e acabamos no mesmo barco que os antigos videntes, só ação e nenhum conhecimento real.

 

— Essas memórias estão aprisionadas em minha mente?

 

— Não. Isso tornaria tudo muito simples — replicou. — As ações dos videntes são mais complexas do que dividir uma pessoa humana em mente e corpo. Você esqueceu o que fez, ou o que testemunhou, porque quando estava realizando o que esqueceu, você estava vendo.

 

Pedi que Dom Juan que reinterpretasse o que havia acabado de dizer,

Pacientemente, explicou que tudo que eu esquecera havia acontecido em estados nos quais minha consciência normal fora intensificada, enriquecida, uma condição que significava que outras áreas de meu ser total estavam sendo usadas.

 

— Seja o que for que você tenha esquecido, está aprisionado naquelas áreas de seu ser total. Usar estas outras áreas é ver.

 

— Estou mais confuso do que nunca, Dom Juan.

 

— Não o censuro. Ver é deixar a nu o núcleo de todas as coisas, testemunhar o desconhecido e ter um vislumbre do incognoscível. Sendo assim, isso não traz nenhum consolo. Geral­mente, os videntes se despedaçam ao descobrir que a existência é incompreensivelmente complexa e que nossa consciência normal atrapalha-a com suas limitações.

 

Reafirmou que minha concentração tinha de ser total, que compreender era de crucial importância, que os novos videntes davam o máximo valor às percepções profundas e não emocionais.

 

— Por exemplo, no outro dia — continuou — quando você compreendeu sobre a vaidade de La Gorda e a sua própria, não compreendeu realmente nada. Você teve apenas uma explosão emocional. Digo isso porque no dia seguinte você estava de volta ao alto de sua vaidade, como se nunca tivesse percebido coisa alguma.

 

“A mesma coisa acontecia com os antigos videntes. Eles eram dados a reações emocionais. Mas quando chegou o tempo de compreender o que haviam visto, não puderam fazê-lo. Para compreender, a pessoa necessita de sobriedade, não de emotividade. Cuidado com aqueles que choram diante da percepção, pois não perceberam nada”.

 

"Existem perigos inomináveis no caminho do conhecimento para aqueles que não possuem uma compreensão sóbria. Estou delineando a ordem na qual os novos videntes colocaram a verdade sobre a consciência, de modo que lhe sirva como um mapa, um mapa que deverá comprovar com sua visão, mas não com seus olhos."

 

Houve uma longa pausa, os olhos dele em mim. Definitiva­mente, estava esperando que lhe perguntasse algo.

 

— Todas as pessoas são presas do engano de que ver é função dos olhos — continuou. —Mas não fique surpreso se, após tantos anos, não tenha percebido ainda que ver não é assunto dos olhos. É bastante normal cometer esse engano.

 

— O que é ver, então?

 

Explicou que ver é o alinhamento. Lembrei-lhe que havia dito que percepção é alinhamento. Esclareceu então que o alinhamento das emanações usadas rotineiramente é a percepção do mundo do dia-a-dia, mas o alinhamento de emanações que nunca são usadas ordinariamente é ver. Quando tal alinhamento ocorre, a pessoa vê. Ver, portanto, sendo produzido por um alinhamento fora do comum, não pode ser algo para que alguém possa meramente olhar. Disse que, apesar do fato de eu ter visto vezes sem conta, não me havia ocorrido dispensar meus olhos. Havia sucumbido à maneira como ver é rotulado e descrito.

 

— Quando os videntes vêem, algo explica tudo que aconteceu à medida que o novo alinhamento ocorre — continuou. — É uma voz que lhes conta no ouvido o que é o quê. Se essa voz não está presente, aquilo em que o vidente está engajado não é ver.

 

Após um momento de pausa, continuou explicando a voz de ver. Disse que era igualmente errado afirmar que ver era ouvir, porque era infinitamente mais do que isso, mas que os videntes haviam optado por usar o som como a medida de um novo alinhamento.

Chamou a voz de ver de uma coisa muito misteriosa e inexplicável.

 

— Minha conclusão pessoal é que a voz de ver pertence apenas ao homem — disse. — Isto pode acontecer porque só os homens falam. Os antigos videntes acreditavam que fosse a voz de uma entidade todo-poderosa intimamente relacionada com a humanidade, um protetor do homem. Os novos videntes descobriram que essa entidade, à qual deram o nome de molde do homem, não possui uma voz. A voz de ver para os novos videntes é algo praticamente incompreensível; dizem que é o brilho da consciência tangendo as emanações da Águia, como um harpista toca uma harpa.

 

Recusou-se a explicar mais o tema, argumentando que mais tarde, à medida que prosseguisse com sua explicação, tudo se tornaria claro para mim.

 

Minha concentração fora tão completa enquanto Dom Juan falava, que realmente não me lembrei de ter sentado à mesa para comer. Quando Dom Juan parou de falar, notei que seu prato de caldo havia quase terminado.

 

Genaro olhava para mim com um sorriso radiante. Meu prato estava diante de mim sobre a mesa, também vazio. Havia apenas um pequeno resíduo de cozido no mesmo, como se eu tivesse acabado de comer naquele momento. Não me lembrava de ter ingerido coisa alguma, mas também não me recordava de ter caminhado até a mesa ou de ter sentado.

 

— Gostou do cozido? — perguntou-me Genaro, e olhou para o outro lado.

 

Respondi que sim, pois não queria admitir que estava tendo problemas de rememoração.

 

— Tinha muita pimenta para o meu gosto — disse Genaro. — Você nunca come comida apimentada, de modo que estou um pouco preocupado com o que pode acontecer com você. Não deveria ter repetido a comida. Acho que é um pouco mais esganado quando está em consciência intensificada, hein?

 

Admiti que estava provavelmente certo. Estendeu-me uma grande jarra de água para matar minha sede e aliviar a garganta. Quando bebi sofregamente todo o seu conteúdo, os dois caíram numa gargalhada ululante.

 

Subitamente, percebi o que estava ocorrendo. Minha percepção foi física. Foi um raio de luz amarelada que me atingiu como se um fósforo houvesse sido riscado exatamente entre meus olhos. Soube então que Genaro estava brincando. Eu não havia comido. Estivera tão absorto nas explicações de Dom Juan que esquecera tudo o mais. O prato diante de mim era de Genaro.

 

Após o jantar, Dom Juan continuou com sua explicação sobre o brilho da consciência. Genaro sentou-se ao meu lado, escutando como se nunca tivesse ouvido a explicação antes.

 

Dom Juan disse que a pressão que as emanações externas ao casulo, chamadas de emanações livres, exercem sobre as emanações no interior é a mesma em todos os seres conscientes. Entretanto, os resultados de tal pressão são imensamente diferentes de um para outro, porque seus casulos reagem a ela de todos os modos concebíveis. Existem, entretanto, graus de uniformidade, dentro de certos limites.

 

— Quando — continuou — os videntes vêem que a pressão das emanações livres se aplica às emanações do interior, que estão sempre em movimento, e faz com que parem de mover-se, sabem que o ser luminoso naquele momento está fixado pela consciência.

 

"Dizer que as emanações livres se aplicam às de dentro do casulo e fazem-nas parar de mover-se significa que os videntes vêem algo indescritível, cujo significado conhecem sem sombra de dúvida. Isto significa que a voz de ver lhes disse que as emanações de dentro do casulo estão completamente em descanso, e combinam-se com algumas das que estão no exterior."

 

Acrescentou que os videntes afirmam, naturalmente, que a consciência sempre vem de fora de si mesmos, que o mistério real não está dentro de nós. Já que, por sua própria natureza, as emanações livres são feitas para fixar o que está dentro do casulo, o que a consciência faz é deixar as emanações fixadoras fundirem-se com o que há dentro de nós, Os videntes acreditam que, se permitirmos que isso aconteça, tornamo-nos como realmente somos: fluidos, sempre em movimento, eternos.

 

Houve uma longa pausa, Os olhos de Dom Juan apresentavam um brilho intenso. Pareciam olhar-me de um lugar muito distante. Tive a sensação de que cada um de seus olhos era um ponto independente de brilho. Por um instante, ele pareceu estar lutando contra uma força invisível, um fogo do interior que pretendia consumi-lo. Depois tudo passou, e continuou falando.

 

— O grau de consciência de cada ser senciente depende do grau ao qual ele é capaz de deixar a pressão das emanações livres levá-lo.

Após uma longa interrupção, Dom Juan continuou explicando. Disse que os videntes viam que desde o momento da concepção a consciência é desenvolvida, enriquecida pelo processo de estar vivo. Explicou que os videntes viam, por exemplo, que a consciência de um determinado inseto e a de um determinado homem crescem desde o momento da concepção de modos inteiramente diferentes, mas com a mesma coerência.

 

— É desde o momento da concepção ou desde o momento do nascimento que a consciência se desenvolve?

 

— A consciência se desenvolve desde o momento da concepção — explicou. — Sempre lhe afirmei que a energia sexual é algo de extrema importância, e que deve ser controlada e usada com grande cuidado. Mas você sempre se ressentiu com o que eu dizia, porque pensava que eu estava falando em controle em termos de moralidade; mas sempre falei em termos de economizar e recanalizar a energia sexual.

 

Dom Juan olhou para Genaro. Genaro balançou a cabeça, em aprovação.

 

— Genaro vai lhe contar o que o nosso benfeitor, o nagual Julian, costumava dizer sobre economizar e recanalizar a energia sexual.

 

— O nagual Julian costumava afirmar que fazer sexo é uma questão de energia — começou Genaro. — Por exemplo, ele nunca tinha quaisquer problemas em fazer sexo, porque possuía enormes quantidades de energia. Mas olhou para mim e determinou imediatamente que o meu pinto era apenas para mijar. Disse-me que meus pais estavam muito aborrecidos e muito cansados quando me fizeram; disse que eu era o resultado de uma relação muito aborrecida, cojida aburrida. Nasci desse modo, aborrecido e cansado. O nagual Julian recomendava que pessoas como eu nunca fizessem sexo; dessa maneira podemos acumular a pouca energia que temos.

 

"Ele afirmou a mesma coisa a Silvio Manuel e a Emilito. Ele viu que os outros tinham energia suficiente. Não eram o resultado de sexo aborrecido. Disse que poderiam fazer o que quisessem com sua energia sexual, mas recomendou que se controlassem e compreendessem a ordem da Águia de que o sexo é uma doação do brilho da consciência. Todos nós dissemos ter compreendido.

 

"Um dia, sem qualquer espécie de aviso, ele abriu a cortina do outro mundo com a ajuda de seu próprio benfeitor, o nagual Elias, e empurrou todos nós para dentro, sem qualquer espécie de hesitação. Todos, exceto Silvio Manuel, quase morremos ali dentro. Não tínhamos energia para suportar o impacto do outro mundo. Nenhum de nós, com exceção de Silvio Manuel, havia seguido a recomendação do nagual."

 

— O que é a cortina do outro mundo? — perguntei a Dom Juan.

 

— O que Genaro disse: 6 uma cortina — replicou Dom Juan. — Mas você está fugindo do assunto, Sempre faz isso. Estamos falando sobre a ordem da Águia quanto ao sexo. A Águia ordena que a energia sexual seja usada para que haja vida. Através da energia sexual, a Águia confere a consciência. Assim, quando seres conscientes estão engajados em relações sexuais, as emanações dentro de seus casulos fazem o possível para conferir consciência ao novo ser que estão criando.

 

Disse que, durante o ato sexual, as emanações contidas dentro do casulo dos dois parceiros passam por uma profunda agitação, cujo ponto culminante é uma junção, uma fusão de duas partes do brilho da consciência, uma de cada parceiro, que se separam de seus casulos.

 

— A relação sexual é sempre uma doação de consciência, mesmo quando a doação termine não sendo consolidada — continuou. — As emanações do interior do casulo dos seres humanos não conhecem o sexo por prazer.

 

Genaro inclinou-se para mim por sobre a mesa, e falou-me em voz baixa, balançando a cabeça para maior ênfase.

 

— O nagual está lhe dizendo a verdade — disse, e piscou para mim. — As emanações realmente não conhecem o sexo por prazer.

 

Dom Juan lutou para não rir e acrescentou que um erro do homem é agir com total desrespeito pelo mistério da existência, e acreditar que um ato tão sublime quanto conferir vida e consciên­cia é meramente um impulso físico que a pessoa pode manipular à vontade.

 

Genaro fez gestos sexuais obscenos, torcendo a pélvis em movimentos circulares várias vezes. Dom Juan anuiu, e disse que aquilo era exatamente o que queria dizer. Genaro agradeceu-lhe por reconhecer sua única contribuição para a explicação da consciência.

 

Ambos riram como idiotas, dizendo que, se eu soubesse como o benfeitor deles era sério sobre a explicação da consciência, estaria rindo com os dois.

 

Gravemente, perguntei a Dom Juan o que tudo isso significava para um homem médio do mundo cotidiano.

 

— Você quer dizer, o que Genaro está fazendo? — perguntou-me, com zombeteira seriedade.

 

A alegria deles era sempre contagiosa. Foi necessário um longo tempo para que se acalmassem. Seu nível de energia estava tão alto que, perto deles, sentia-me velho e decrépito.

 

— Realmente não sei — respondeu Dom Juan. — Tudo o que sei é o que significa para os guerreiros. Eles não ignoram que a única energia real que possuímos é a energia sexual, que confere vida. Esse conhecimento toma-os permanentemente conscientes de sua responsabilidade.

 

"Se os guerreiros desejam ter energia suficiente para ver, devem tornar-se avaros com sua energia sexual. Essa foi a lição que o nagual Julian nos deu. Empurrou-nos para o desconhecido e todos nós quase morremos. Como cada um de nós desejava ver, naturalmente nos abstivemos de desperdiçar nosso brilho da consciência."

 

Já o ouvira manifestar essa convicção antes. Cada vez que o fazia, começávamos uma discussão. Sempre me sentia impelido a protestar, a levantar objeções ao que achava ser uma atitude puritana em relação ao sexo.  

 

Coloquei novamente minhas objeções. Ambos riram até as lágrimas.

 

— O que pode ser feito com a sensualidade natural do homem? — perguntei a Dom Juan.

 

— Nada — replicou. — Não há nada de errado com a sensualidade do homem. É a ignorância do homem e o desrespeito por sua natureza mágica que estão errados. É um engano desperdiçar à toa a força do sexo que confere vida e não ter filhos, mas também é um engano não saber que, tendo filhos, a pessoa compromete o brilho da consciência.

 

— Como os videntes sabem que ter filhos compromete o brilho da consciência?

 

— Eles vêem que, ao terem um filho, o brilho da consciência dos pais diminui e o da criança aumenta. Em alguns pais supersensíveis e frágeis, o brilho da consciência quase desaparece. À medida que as crianças aumentam a consciência, uma grande mancha preta se desenvolve no casulo luminoso dos pais, no exato lugar do qual o brilho foi retirado. Isto ocorre geralmente na seção média do casulo. Às vezes, esses pontos podem mesmo ser vistos sobrepostos no próprio corpo.

 

Perguntei se havia algo a ser feito para dar às pessoas uma compreensão mais equilibrada do brilho da consciência.

 

— Nada — disse ele. — Ao menos, não há nada que os videntes possam fazer. Os videntes almejam ser livres, ser testemunhas imparciais incapazes de qualquer julgamento; de outra maneira, teriam de assumir a responsabilidade de iniciar um ciclo mais ajustado. Ninguém pode fazer isso, O novo ciclo, se acontecer, terá de vir por si mesmo.

 

 

       A Primeira Atenção

 

No dia seguinte, tomamos o desjejum ao amanhecer, e então Dom Juan fez-me mudar de nível de consciência.

 

— Hoje, vamos a um lugar novo — disse Dom Juan a Genaro.

 

— Claro — falou Genaro com ar grave. Olhou-me e depois acrescentou em voz baixa, como se não quisesse que eu o ouvisse: — Será que ele precisa mesmo... talvez seja demais...

 

Em questão de segundos meu medo e suspeita escalaram alturas insuportáveis. Suava e ofegava. Dom Juan veio para meu lado e, com uma expressão de diversão quase incontrolável, assegurou-me que Genaro estava apenas se divertindo à minha custa, e que íamos a um lugar em que os videntes originais tinham vivido há milhares de anos.

 

Enquanto Dom Juan falava comigo, aconteceu-me olhar de relance para Genaro. Ele balançou lentamente a cabeça de um lado para o outro. Foi um gesto quase imperceptível, como se estivesse dizendo-me que Dom Juan não estava sendo verdadeiro. Entrei em um estado de nervosismo frenético, próximo à histeria, e parei apenas quando Genaro caiu na risada.

 

Fiquei maravilhado de ver com que facilidade meus estados emocionais podiam elevar-se a alturas quase incontroláveis ou despencar para nada.

 

Dom Juan, Genaro e eu deixamos a casa de Genaro de manhã cedo e caminhamos uma curta distância até as colinas erodidas das proximidades. Finalmente, paramos e sentamos no topo de uma enorme rocha achatada, em declive gradual, num campo de milho onde parecia ter havido colheita há pouco tempo.

 

— Este é o lugar original — disse-me Dom Juan. — Voltaremos aqui mais algumas vezes durante o desenvolvimento de minha explicação,

 

— Coisas muito extraordinárias acontecem aqui à noite — disse Genaro — O nagual Julian praticamente apanhou um aliado aqui. Ou melhor, o aliado...

 

Dom Juan fez um gesto significativo com as sobrancelhas e Genaro parou no meio da frase. Sorriu para mim.

 

— Ainda é muito cedo para histórias assustadoras — disse Genaro. — Vamos esperar até que escureça.

 

Levantou-se e começou a andar devagarinho pela rocha nas pontas dos pés com a espinha arqueada para trás.

 

— O que ele estava dizendo sobre seu benfeitor ter apanha­do um aliado aqui? — perguntei a Dom Juan.

 

Mas ele não respondeu de imediato. Estava extático, olhando as extravagâncias de Genaro.

 

— Referia-se a certo uso sofisticado da consciência — replicou finalmente, ainda olhando para Genaro.

 

Genaro completou o ciclo ao redor da rocha, voltou e sentou-se ao meu lado. Estava ofegando em ritmo pesado, quase ruidosamente, sem fôlego.

 

Dom Juan parecia fascinado pelo que Genaro havia feito. Novamente tive a sensação de que estavam se divertindo à minha custa, que ambos estavam às voltas com algo que eu não compreendia.

 

Repentinamente, Dom Juan começou sua explicação. Sua voz acalmou-me. Disse que, depois de muito labutar, os videntes chegaram à conclusão de que a consciência dos seres humanos adultos, amadurecida pelo processo de crescimento, é modificada, tornando-se algo mais intenso e complexo, que os videntes chamam de atenção.

 

— Como os videntes sabem que a consciência do homem é cultivada e cresce?

 

Explicou que, em dado momento do crescimento dos seres humanos, uma faixa das emanações interiores de seus casulos torna-se muito intensa; à medida que seres humanos acumulam experiência, ela começa a brilhar. Em certos casos, o brilho dessa faixa de emanações aumenta tão dramaticamente que se funde com as emanações do exterior. Os videntes, testemunhando uma evolução desse tipo, tiveram que concluir que a consciência é a matéria-prima, enquanto a atenção é o produto final do amadure­cimento.

 

— Como os videntes descrevem a atenção?

 

— Dizem que a atenção é o controle e a intensificação da consciência através do processo de estar vivo.

 

Esclareceu que o perigo das definições é que simplificam os temas para tomá-los compreensíveis; nesse caso, ao definir a atenção, corre-se o risco de transformar uma realização mágica, miraculosa, em algo banal. A atenção é a maior realização singular do homem. Desenvolve-se a partir da simples consciência animal até cobrir toda a gama das alternativas humanas. Os videntes aperfeiçoam-na ainda mais até que cubra todo o alcance das possibilidades humanas.

 

Quis saber se havia uma significação especial para alternativas e possibilidades, no entender dos videntes.

 

Dom Juan explicou que as alternativas humanas são tudo que somos capazes de escolher como pessoas. Elas têm a ver com o nível de nossa atuação cotidiana, o conhecido; e, devido a esse fato, são bastante limitadas em número e alcance. As possibilidades humanas pertencem ao desconhecido. Não são aquilo que somos capazes de escolher, mas aquilo que temos capacidade de atingir. Acrescentou que um exemplo das alternativas humanas é nossa opção de acreditar que o corpo humano é um objeto entre objetos. Um exemplo das possibilidades humanas é o feito dos videntes ao verem o homem como um ser luminoso de forma oval. Com o corpo como objeto aborda-se o conhecido, com o corpo como ovo luminoso aborda-se o desconhecido; as possibilidades humanas têm, portanto, um alcance quase inesgotável.

 

— Os videntes dizem que há três tipos de atenção — continuou Dom Juan. — Quando dizem isso, referem-se somente aos seres humanos, não a todos os seres conscientes que existem.

 

Mas não são somente tipos de atenção; são, antes, três níveis de realização. São a primeira, segunda e terceira atenção; cada uma delas é um campo independente, completo em si mesmo.

 

Explicou que a primeira atenção no homem é a consciência animal, desenvolvida, através do processo da experiência, até tornar-se uma faculdade complexa, intricada e extremamente frágil que lida com o mundo cotidiano, em todos seus inúmeros aspectos. Em outras palavras, tudo em que se pode pensar é parte da primeira atenção,

 

— A primeira atenção é o que somos como homens comuns — continuou. — Por força de um controle tão absoluto sobre nossas vidas, a primeira atenção é o bem mais valioso que o homem comum possui. Talvez seja mesmo seu único bem.

 

"Levando em conta seu valor real, os novos videntes começaram um rigoroso exame da primeira atenção através de ver. Suas descobertas moldaram sua visão global e a visão de todos seus descendentes, embora muitos deles não compreendam o que aqueles videntes realmente viam."

 

Enfaticamente, preveniu-me que as conclusões do rigoroso exame feito pelos novos videntes tinham muito pouco a ver com a razão ou a racionalidade, porque para examinar e explicar a primeira atenção é preciso vê-la. Só os videntes podem fazer isso. Mas examinar o que os videntes vêem na primeira atenção é essencial. É o que permite à primeira atenção a única oportunidade que jamais terá de compreender seu próprio funcionamento.

 

— Em termos do que os videntes vêem, a primeira atenção é o brilho da consciência desenvolvido a um ultrabrilho — continuou. — Mas é um brilho fixado na superfície do casulo, por assim dizer. É um brilho que cobre o conhecido.

 

“A segunda atenção, por outro lado, é um estado mais complexo e especializado do brilho da consciência. Tem a ver com o desconhecido. Sobrevêm quando emanações não incomuns dentro do casulo do homem são utilizadas”.

 

"A razão pela qual disse que a segunda atenção é especializa­da é que, para se utilizar essas emanações incomuns, são necessárias táticas inusuais, elaboradas, que requerem muita disciplina e concentração."

Continuando, disse que me havia contado antes, quando estava me ensinando a arte de sonhar, que a concentração necessária para se estar consciente de um sonho é o prenúncio da segunda atenção. A concentração é uma forma de consciência que não está na mesma categoria que a consciência necessária para lidar com o mundo cotidiano.

 

Disse que a segunda atenção é também chamada de consciência do lado esquerdo, e é o campo mais vasto que se pode imaginar, tão vasto que, na verdade, parece não ter limites.

 

— Não gostaria de perder-me nela por nada deste mundo — continuou.

 

— É um pântano tão complexo e bizarro que os videntes sóbrios somente entram nela sob as mais estritas condições. A grande dificuldade é que a entrada para a segunda atenção é muito simples, e sua atração quase irresistível.

 

Contou que os antigos videntes, mestres da consciência, aplicavam sua habilidade em seus próprios brilhos da consciência e faziam com que se expandissem a limites inconcebíveis. Na verdade, aspiravam acender todas as emanações dentro de seus casulos, uma faixa por vez. Conseguiram, mas, de modo bastante estranho, o fato de acender uma faixa de cada vez determinou seu aprisionamento no pântano da segunda atenção.

 

— Os novos videntes corrigiram aquele erro. Deixaram o domínio da consciência desenvolver-se no sentido de seu fim natural, que é o de estender o brilho da consciência além dos limites do casulo luminoso em uma única pulsação.

 

"A terceira atenção é atingida quando o brilho da consciência se transforma no fogo interior: o brilho que acende não uma faixa de cada vez, mas todas as emanações da Águia no interior do casulo do homem."

 

Dom Juan expressou seu respeito pelo esforço deliberado dos novos videntes em atingir a terceira atenção enquanto estão vivos e conscientes de sua individualidade.

 

Não achava que valesse a pena discutir os casos esparsos de homens e outros seres sencientes que ingressam no desconhecido e no incognoscível sem estarem conscientes disso; referiu-se a tal fato como o presente da Águia. Assegurou que, para os novos videntes, entrar na terceira atenção também é um presente, mas que tem um significado diferente. É mais como uma recompensa por uma realização.

 

Acrescentou que, no momento de morrer, todos os seres humanos entram no incognoscível, e alguns deles atingem a terceira atenção, embora por um tempo muito breve e apenas para purificar o alimento da Águia.

 

— A realização suprema dos seres humanos é atingir aquele nível de atenção enquanto retêm a força da vida, antes de se tornarem uma consciência desencarnada movendo-se como uma cintilação de luz na direção do bico da Águia para ser devorada.

 

Enquanto escutava a explicação de Dom Juan, eu havia novamente perdido de todo a visão do que me rodeava. Genaro, aparente­mente, levantara-se e nos deixara, pois não estava à vista. Estranhamente, encontrei-me agachado na rocha, com Dom Juan acocorado ao meu lado, mantendo-me nessa posição, empurrando suavemente meus ombros. Encostei-me na pedra e fechei os olhos. Havia uma brisa suave soprando do oeste.

 

— Não adormeça — disse Dom Juan. — Você não deve adormecer nessa rocha por nenhuma razão.

 

Sentei-me. Dom Juan olhava para mim.

 

— Apenas relaxe — continuou. — Deixe o diálogo interno cessar.

Toda minha concentração estava voltada para seguir o que ele dizia, quando senti um espasmo de pavor. Não sabia o que era no início; pensei que iria passar por outro ataque de suspeita. Mas então percebi, como um raio, que a tarde estava muito avançada. O que eu pensara ter sido uma conversa de uma hora havia consumido o dia inteiro.

 

Levantei-me de um salto, completamente consciente da incongruência, embora não pudesse conceber o que havia acontecido comigo. Sentia uma sensação estranha, que fazia meu corpo desejar correr. Dom Juan atirou-se sobre mim, segurando-me com força. Caímos no chão macio, e ele manteve-me ali com mão de ferro. Eu não tinha idéia de que Dom Juan fosse tão forte.

 

Meu corpo tremia violentamente. Meus braços voavam para todos os lados enquanto tremia. Estava tendo algo como um ataque, e embora alguma coisa em mim se mantivesse à parte, a ponto de ficar fascinada ao ver meu corpo vibrar, torcer-se e sacudir-se.

 

Os espasmos finalmente se extinguiram, e Dom Juan soltou-me. Ele ofegava com o esforço. Recomendou que voltássemos a subir ao alto da rocha e nos sentássemos ali, até que eu estivesse bem.

 

Não pude evitar de pressioná-lo com minha pergunta usual: o que me havia acontecido? Ele respondeu-me que, enquanto falava comigo, eu havia passado além de certo limite, e entrado muito profundamente no lado esquerdo. Ele e Genaro me seguiram, e então eu saí, do mesmo modo precipitado como entrara.

 

— Apanhei-o no momento exato — disse ele. — De outra forma, você teria voltado diretamente ao seu eu normal.

 

Eu estava totalmente confuso. Ele explicou que nós três havíamos estado lidando com a consciência. Devo ter ficado assustado e fugi deles.

 

— Genaro é o mestre da consciência — continuou Dom Juan. — Silvio Manuel é o mestre da vontade. Os dois foram empurrados com inclemência para o desconhecido. Meu benfeitor fez-lhes o que seu próprio benfeitor havia feito com ele. Genaro e Silvio Manuel são muito parecidos aos antigos videntes, em alguns aspectos. Sabem o que podem fazer, mas não se preocupam com o modo como o fazem. Hoje, Genaro aproveitou a oportunidade para empurrar seu brilho da consciência e todos terminamos nos estranhos confins do desconhecido.

 

Pedi-lhe que me contasse o que acontecera no desconhecido.

 

— Você terá de lembrar por si mesmo — disse uma voz perto do meu ouvido.

Eu estava tão convencido de que era a voz de ver que não me assustei de modo algum. E nem sequer obedeci ao impulso de virar-me.

 

— Eu sou a voz de ver e digo-lhe que você é um cabeça-de-vento — disse a voz novamente, e riu-se.

 

Voltei-me. Genaro estava sentado atrás de mim. Fiquei tão surpreso que ri, talvez um pouco mais histericamente do que eles.

 

— Está ficando escuro — disse-me Genaro. — Como lhe prometi antes, teremos um baile aqui. — Dom Juan interveio e disse que deveríamos parar por esse dia, pois eu era do tipo de paspalhão capaz de morrer de medo,

 

— Não, ele está bem — disse Genaro, batendo-me no ombro.

 

— É melhor que você lhe pergunte — disse Dom Juan a Genaro. — Ele próprio irá confirmai-lhe que é esse tipo de paspalhão.

 

— Você realmente é esse tipo de paspalhão? — perguntou-me Genaro, franzindo a sobrancelha. Não respondi. Isso fez com que eles rolassem pelo chão, rindo. Genaro rolou pela pedra abaixo até o solo.

 

— Ele não tem saída — disse Genaro a Dom Juan, referindo-se a mim, depois que Dom Juan desceu de um salto e ajudou-o a levantar-se.

 

— Ele nunca dirá que é um paspalhão. É vaidoso demais para isso, mas está tremendo nas calças, de medo do que pode acontecer por não ter confessado que é um paspalhão.

 

Olhando-os rir, fiquei convencido de que apenas os índios podiam rir com tanta alegria. Mas também percebi que havia uma grande porção de malícia neles. Estavam zombando de um não-índio.

 

Dom Juan captou imediatamente meus sentimentos.

 

— Não deixe sua vaidade tomar a dianteira — disse. — Você não é especial, por quaisquer padrões. Nenhum de nós é, índios ou não-índios. O nagual Julian e seu benfeitor passaram anos enchendo de diversão as suas vidas, rindo-se de nós.

 

Genaro subiu agilmente de volta à rocha, e chegou para meu lado.

 

— Se eu fosse você, me sentiria tão terrivelmente embaraça­do que choraria — disse-me. — Chore, chore. Dê uma boa chorada e você se sentirá melhor.

 

Para meu total espanto, comecei a chorar suavemente. Depois fiquei tão zangado que rugi de fúria. Somente então me senti melhor. Dom Juan deu umas pancadinhas suaves nas minhas costas. Disse que geralmente a raiva é muito boa para se recuperar a sobriedade, ou às vezes é o medo, ou o humor. Minha natureza violenta fazia-me reagir apenas à raiva.

 

Acrescentou que uma mudança súbita no brilho da consciência nos toma fracos. Eles. estiveram tentando reforçar-me e amparar-me, Aparentemente, Genaro tivera sucesso deixando-me com raiva.

 

Já era a hora do crepúsculo, Genaro apontou para uma cintilação no ar, ao nível dos olhos. À meia-luz, parecia uma grande mariposa voando ao redor de onde estávamos sentados.

 

— Seja muito suave com sua natureza exagerada — disse-me Dom Juan. — Não seja precipitado. Simplesmente deixe Genaro guiá-lo. Não deixe seus olhos afastarem-se daquele ponto.

 

O ponto cintilante era mesmo uma mariposa. Eu podia distinguir claramente todos os seus traços. Segui seu vôo irregular e cansado até conseguir ver cada mancha de pó em suas asas.

 

Algo me tirou de minha absorção total. Senti uma lufada de ruído inaudível, se isso é possível, exatamente atrás de mim. Virei-me e tive a visão de uma fileira de pessoas no outro lado da rocha, um lado um pouco mais alto do que aquele em que estávamos sentados. Achei que as pessoas que viviam por perto, suspeitando por ver-nos ali o dia inteiro, haviam subido até a rocha com a intenção de fazer-nos mal. Soube de seu intento instantaneamente.

 

Dom Juan e Genaro desceram deslizando da rocha e disseram-me para apressar-me. Partimos imediatamente, sem nos voltarmos para ver se os homens estavam nos seguindo. Dom Juan e Genaro recusaram-se a falar enquanto caminhávamos de volta para a casa de Genaro. Dom Juan até mesmo calou-me com um resmungo zangado, colocando seus dedos sobre os próprios lábios. Genaro não entrou na casa, mas continuou andando enquanto Dom Juan puxava-me para dentro.

 

— Quem eram aquelas pessoas, Dom Juan? — perguntei-lhe, quando estávamos seguros dentro da casa e ele havia acendido a lanterna.

 

— Não eram pessoas — replicou.

 

— Vamos, Dom Juan, não me engane. Eram homens; eu os vi com meus próprios olhos.

 

— É claro que você os viu com seus próprios olhos — retorquiu ele. — Mas isso não quer dizer nada. Seus olhos o enganaram. Aquilo não eram pessoas, e estavam seguindo você. Genaro teve de atraí-los para longe.

 

— O que eram, então, se não eram pessoas?

 

— Oh, eis aí o mistério. É o mistério da consciência e não pode ser resolvido racionalmente, falando-se a respeito. O mistério só pode ser testemunhado.

 

— Deixe-me testemunhá-lo então.

 

— Mas você já o fez, duas vezes no mesmo dia. Você não se lembra agora, mas se lembrará, quando tornar a acender as emanações que estavam brilhando quando testemunhou o mistério da consciência ao qual me refiro. Enquanto isso, vamos voltar a nossa explicação de consciência.

 

Repetiu que a consciência começou com a pressão permanente que as emanações livres exercem sobre as aprisionadas no interior do casulo. Essa pressão produz o primeiro ato de consciência; ela detém o movimento das emanações aprisionadas, que estão lutando para quebrar o casulo, lutando para morrer.

 

— Para o vidente, a verdade é que todos os seres vivos estão lutando para morrer. O que detém a morte é a consciência.

 

Dom Juan disse que os novos videntes ficaram profundamente perturbados pelo fato de que a consciência evita a morte e ao mesmo tempo a induz, sendo alimento para a Águia. Uma vez que não conseguiram explicá-lo, pois não há maneira racional para compreender a existência, os videntes notaram que seu conheci­mento é composto de proposições contraditórias.

 

— Por que desenvolveram um sistema de contradições?

 

— Eles não desenvolveram nada. Encontraram verdades inquestionáveis através de sua visão. Essas verdades estão dispostas em termos de contradições supostamente extravagantes, isso é tudo.

 

"Por exemplo, os videntes devem ser seres metódicos, racionais, modelos de sobriedade, e ao mesmo tempo têm de abrir mão de todas essas qualidades para poderem ser completamente livres e abertos às maravilhas e mistérios da existência."

 

Seu exemplo deixou-me desconcertado, mas não ao extremo. Compreendi o que queria dizer. Ele próprio havia patrocinado minha racionalidade apenas para demoli-la e exigir uma total ausência da mesma. Contei-lhe como havia compreendido seu ponto de vista.

 

— Apenas o sentimento de suprema sobriedade pode estender uma ponte por sobre as contradições — disse ele.

 

— Poderia dizer, Dom Juan, que a arte é essa ponte?

 

— Você pode chamar a ponte entre as contradições da maneira que quiser... arte, afeição, sobriedade, amor, e mesmo gentileza.

 

Dom Juan continuou sua explicação; disse que, ao examinar a primeira atenção, os novos videntes descobriram que todos os seres orgânicos, exceto o homem, acalmam suas emanações prisioneiras agitadas, de modo que possam alinhar-se com as emanações externas que lhes correspondem. Os seres humanos não procedem assim; em lugar disso, sua primeira atenção faz um inventário das emanações da Águia no interior de seus casulos.

 

— O que é um inventário, Dom Juan?

 

— Os seres humanos notam as emanações que têm dentro de seus casulos — explicou. — Nenhuma outra criatura faz isso. No momento em que a pressão das emanações livres, fixa as emanações do interior, a primeira atenção começa a observar a si mesma. Nota tudo a respeito de si mesma, ou ao menos tenta, mesmo das maneiras mais aberrantes. Este é o processo que os videntes chamam de fazer um inventário.

 

"Não quero dizer que seres humanos escolheram fazer inventários, ou que podem recusar-se a fazê-los. Fazer um inventário é a ordem da Águia. O que está sujeito ã vontade, entretanto, 6 a maneira como a ordem é obedecida."

 

Disse que, embora não lhe agradasse chamar as emanações de ordens, é isso o que elas são: ordens a que ninguém pode desobedecer. E, contudo, a maneira de fugir à obediência às ordens está em obedecer-lhes.

 

— No caso do inventário da primeira atenção, os videntes fazem-no porque não podem desobedecer. Mas depois de completá-lo, atiram-no fora. A Águia não nos ordena que veneremos nosso inventário; ela só ordena que o façamos.

 

— Como os videntes vêem que o homem faz um inventário?

 

— As emanações no interior do casulo do homem não são acalmadas com o propósito de serem combinadas cora as externas. Isto é evidente depois que se vi o que as outras criaturas fazem. Ao acalmar-se, algumas delas chegam realmente a fundir-se com as emanações livres, e movem-se com elas. Os videntes podem ver, por exemplo, a luz das emanações dos escaravelhos expandindo-se a um tamanho imenso.

 

"Mas os seres humanos acalmam suas emanações e então refletem sobre elas. As emanações focalizam-se em si mesmas."

 

Continuando, disse que os seres humanos levam ao extremo lógico o comando de fazer o inventário, e dispensam todo o restante. Uma vez que estão profundamente envolvidos no inventário, duas coisas podem acontecer. Podem ignorar os impulsos das emanações livres, ou usá-las de um modo muito especializado.

 

O resultado final de ignorar esses impulsos após fazer um inventário é um estado único conhecido como razão. O resultado de usar cada impulso de uma maneira especializada é conhecido como auto-absorção.

 

A razão humana aparece ao vidente como um brilho opaco incomumente homogêneo, que raramente reage, quando chega a fazê-lo, à pressão constante das emanações livres — um brilho que faz a concha ovóide ficar mais forte, porém mais quebradiça.

 

Dom Juan observou que a razão na espécie humana deveria ser abundante, mas que na realidade é muito rara. A maioria dos seres humanos volta-se para a auto-absorção.

 

Assegurou que a consciência de todos os seres vivos tem um grau de auto-reflexão, para permitir que interajam. Mas nenhuma, exceto a primeira atenção do homem, possui tal grau de auto-absorção. Contrariamente aos homens de razão, que ignoram os impulsos das emanações livres, os indivíduos auto-absorvidos usam cada impulso e transformam-nos a todos em uma força para agitar as emanações aprisionadas no interior dos seus casulos.

 

Observando tudo isso, os videntes chegaram a uma conclusão prática. Viram que os homens de razão são destinados a viver mais tempo, porque, ao ignorar o impulso das emanações livres, aquietam a natural agitação do interior dos seus casulos. Os indivíduos auto-absorvidos, por outro lado, usando o Impulso das emanações livres para criar mais agitação, encurtam suas vidas.

 

— O que os videntes vêem quando olham para seres humanos auto-absorvidos?

 

— Vêem-nos como explosões intermitentes de luz branca, seguidas de longas pausas de opacidade.

 

Dom Juan parou de falar. Eu não tinha outras perguntas a fazer, ou talvez estivesse cansado demais para perguntar sobre qualquer coisa. Houve uma batida forte que me fez saltar. A porta da frente abriu-se e Genaro entrou, sem fôlego. Desabou sobre a esteira. Estava realmente coberto de suor.

 

— Eu estava explicando sobre a primeira atenção — disse-lhe Dom Juan.

 

— A primeira atenção trabalha apenas com o conhecido — falou Genaro. — Não vale dois níqueis furados com o desconhecido.

 

— Isso não é exatamente certo — retorquiu Dom Juan, —A primeira atenção trabalha muito bem com o desconhecido. Ela o bloqueia; ela nega-o tão ferozmente que, no final, o desconhecido não existe para a primeira atenção.

 

— Fazer um inventário torna-nos invulneráveis, é por isso que o inventário começou a existir.

 

— Sobre o que está falando? — perguntei a Dom Juan. Ele não respondeu. Olhou para Genaro como se esperasse

uma resposta.

 

— Mas se eu abrisse a porta — disse Genaro — a primeira atenção seria capaz de lidar com o que entraria?

 

— A sua e a minha não seriam, mas a dele sim — disse Dom Juan, apontando para mim.

 

— Vamos tentar.

 

— Mesmo com ele em consciência intensificada? — perguntou Genaro a Dom Juan.

 

— Isso não fará nenhuma diferença — respondeu Dom Juan.

 

Genaro levantou-se e foi até a porta da frente e abriu-a, saltando instantaneamente para trás. Uma lufada de ar frio entrou. Dom Juan veio para o meu lado, assim como Genaro. Ambos olharam para mim com espanto.

 

Eu queria fechar a porta da frente. O frio fazia-me sentir desconfortável. Mas quando me movimentei em direção à porta, Dom Juan e Genaro pularam à minha frente e escudaram-me.

 

— Notou alguma coisa aqui dentro? — perguntou-me Genaro.

 

— Não, não notei — disse, e era o que eu realmente queria dizer.

 

Exceto pelo vento frio entrando pela porta aberta, nada havia ali para notar.

 

— Criaturas estranhas entraram quando eu abri a porta — disse ele. — Você não notou coisa alguma?

 

Havia alguma coisa em sua voz que me garantiu que, dessa vez, ele não estava brincando.

 

Nós três, cada um deles de um lado meu, saímos da casa. Dom Juan apanhou o lampião de querosene e Genaro trancou a porta da frente. Entramos no carro, através do lado dos passageiros; eles me fizeram entrar em primeiro lugar. E então viajamos até a casa de Dom Juan, na cidade seguinte.

 

 

       Seres Inorgânicos

 

No outro dia, pedi repetidamente a Dom Juan que explicasse nossa partida apressada da casa de Genaro. Ele recusou-se até a mencionar o incidente. Genaro também não ajudou em nada. Cada vez que lhe perguntava, piscava para mim, sorrindo, como um tolo.

 

À tarde, Dom Juan veio para o pátio dos fundos de sua casa, onde eu conversava com seus aprendizes. Como se estivesse combinado, os jovens aprendizes saíram instantaneamente. Dom Juan segurou-me pelo braço, e começamos a caminhar ao longo do corredor. Ele não disse nada; por algum tempo apenas caminha­mos, como faríamos se estivéssemos na praça pública.

 

Dom Juan parou de caminhar e virou-se para mim. Circulou ao meu redor, observando meu corpo inteiro. Soube que ele estava me vendo. Senti uma estranha fadiga, uma lassidão que não havia experimentado antes de seus olhos me percorrerem. Começou a falar repentinamente.

 

— A razão pela qual Genaro e eu não quisemos conversar sobre o que aconteceu à noite passada foi o fato de você ter ficado muito assustado durante o tempo em que esteve no desconhecido. Genaro empurrou-o, e aconteceram-lhe coisas.

 

— Que coisas, Dom Juan?

 

— Coisas que ainda são difíceis, senão impossíveis, de explicar-lhe agora. Você não tem energia suplementar suficiente para entrar no desconhecido e deduzir qualquer coisa. Quando os novos videntes dispuseram a ordem das verdades sobre a consciên­cia, viram que a primeira atenção consome todo o brilho da consciência, que os seres humanos têm, e nenhum pingo de energia é deixado em liberdade. Este é o seu problema agora. Assim, os novos videntes propuseram que os guerreiros, uma vez que tenham de entrar para o desconhecido, devem economizar sua energia. Mas onde vão arranjar energia, se toda ela está tomada? Eles a conseguem, dizem os novos videntes, erradicando hábitos desnecessários.

 

Parou de falar e solicitou perguntas. Perguntei-lhe o que a erradicação de hábitos desnecessários fazia ao brilho da cons­ciência.

 

Dom Juan explicou que ela separa a consciência da auto-reflexão e permite-lhe a liberdade de focalizar uma outra coisa.

 

— O desconhecido está sempre presente — continuou —, mas fora das possibilidades de nossa consciência normal. O desconhecido é a parte supérflua do homem comum. E é supérflua porque o homem comum não tem energia livre suficiente para captá-la.

 

Depois de todo o tempo que passou no caminho do guerreiro, você tem energia livre suficiente para captar o desconhecido, mas não suficiente para compreendê-lo, ou mesmo para recordá-lo.

 

Explicou que, no local da rocha achatada, eu entrara muito profundamente no desconhecido. Mas havia cedido à minha natureza exagerada e ficava aterrorizado, o que era mais ou menos a pior coisa que alguém pode fazer. Assim, precipitara-me para fora do lado esquerdo, como um morcego para fora do inferno; trazendo comigo, infelizmente, uma legião de coisas estranhas.

 

Disse a Dom Juan que ele não estava chegando ao ponto exato, que deveria abrir-se e contar-me exatamente o que queria dizer com uma legião de coisas estranhas.

 

Ele tomou-me pelo braço e continuou caminhando comigo.

 

— Ao explicar a consciência, estou presumivelmente encaixando tudo ou quase tudo no lugar. Vamos falar um pouco sobre os antigos videntes, Genaro, como lhe contei, é muito parecido com eles.

Levou-me então para o aposento grande. Sentamos, e começou sua elucidação.

 

— Os novos videntes ficaram simplesmente aterrorizados pelo conhecimento que os antigos haviam acumulado ao longo dos anos, É compreensível. Os novos videntes sabiam que aquele conhecimento leva apenas à destruição total. Entretanto, também estavam fascinados por ele; especialmente pelas práticas.

 

— Como os novos videntes sabiam sobre essas práticas?

 

— Elas são um legado dos antigos toltecas. Os novos videntes aprendem sobre elas à medida que progridem. Dificilmente chegam a usá-las, mas essas práticas são parte de seu conhecimento.

 

— Que espécie de práticas são essas, Dom Juan?

 

— São fórmulas muito obscuras, encantamentos, procedi­mentos demorados que têm a ver com o manuseio de uma força muito misteriosa. Ao menos era misteriosa para os antigos toltecas, que a mascararam e tornaram-na mais aterrorizante do que realmente é.

 

— O que é essa força misteriosa?

 

— É uma força que está presente em tudo o que existe. Os antigos videntes nunca tentaram desvendar o mistério da força que os fez criar suas práticas secretas; eles simplesmente aceitavam-na como algo sagrado. Mas os novos videntes olharam-na de perto e chamaram-na de vontade, a vontade das emanações da Águia, ou intenção.

 

Dom Juan continuou explicando que os antigos toltecas dividiram seu conhecimento secreto em cinco conjuntos de duas categorias cada: a terra e as regiões escuras, fogo e água, o acima e o abaixo, o sonoro e o silente, o movente e o estacionário. Especulou que devem ter existido milhares de técnicas diferentes, que $e tornaram mais e mais intricadas à medida que o tempo passava.

 

— O conhecimento secreto da terra — continuou — tinha a ver com tudo o que existe sobre o solo. Havia conjuntos particulares de movimentos, palavras, ungüentos, poções que eram aplicadas a pessoas, animais, insetos, árvores, pequenas plantas, rochas, solo.

 

"Eram técnicas que transformavam os antigos videntes em seres horrorosos. E seu conhecimento secreto da terra era empregado para aprimorar ou para destruir o que quer que estivesse sobre o solo.

 

“A contrapartida da terra era o que eles conheciam como as regiões escuras. Essas práticas eram, de longe, as mais perigosas. Lidavam com entidades sem vida orgânica. Criaturas vivas que estão presentes na terra e povoam-na juntamente com todos os seres orgânicos”.

 

"Sem dúvida, uma das descobertas mais valiosas dos antigos videntes, especialmente para eles, foi a descoberta de que a vida orgânica não é a única forma de vida presente neste terra."

 

Não compreendi exatamente o que ele dissera. Esperei que esclarecesse suas afirmações.

 

— Os seres orgânicos não são as únicas criaturas que têm vida — disse, e fez nova pausa como se me desse tempo de pensar mais em suas afirmações.

Retruquei com um longo argumento sobre a definição da vida e de estar vivo. Falei sobre reprodução, metabolismo e crescimento, os processos que distinguem os organismos vivos das coisas inanimadas.

 

— Você está se baseando no orgânico — disse ele. — Mas esta é apenas uma instância. Você não devia basear tudo o que diz em apenas uma categoria.

 

— E como mais poderia ser?

 

— Para os videntes, estar vivo significa estar consciente. Para o homem comum, estar consciente significa ser um organismo. É aí que os videntes são diferentes. Para eles, estar consciente significa que as emanações que causam a consciência estão encerradas dentro de um receptáculo.

 

"Os seres vivos orgânicos têm um casulo que encerra as emanações. Mas existem outras criaturas cujos receptáculos não aparecem como um casulo para o vidente. Ainda assim, têm eles as emanações da consciência e características de vida diferentes da reprodução e do metabolismo."

 

— Como o quê?

 

— Como dependência emocional, tristeza, alegria, ira e assim por diante. Esqueci ainda o melhor: amor; uma espécie de amor que o homem não pode sequer conceber.

 

— Está falando sério, Dom Juan? — perguntei com gravidade.

 

— Inanimadamente sério — respondeu, com uma expressão neutra, e depois caiu na risada.

 

"Se partirmos do que os videntes vêem — continuou — a vida é realmente extraordinária."

 

— Se esses seres estão vivos, por que não se deixam conhecer pelo homem?

 

— Eles o fazem, o tempo todo, E não apenas para os videntes, mas também para o homem comum. O problema é que toda energia disponível é consumida pela primeira atenção. O inventário do homem não apenas consome toda a energia, mas também enrijece o casulo a ponto de deixá-lo inflexível. Sob tais circunstâncias, não há interação possível.

 

Lembrou-me das inúmeras vezes, ao curso de meu aprendizado com ele, em que eu tivera uma visão direta de seres inorgânicos. Retorqui, dizendo que havia encontrado explicação para quase todos esses casos. Tinha mesmo formulado a hipótese de que seus ensinamentos, através do uso de plantas alucinógenas, eram elaborados para forçar o aprendiz a concordar com uma interpretação primitiva do mundo. Disse-lhe que não a havia chamado formalmente de interpretação primitiva, mas que, em termos antropológicos, a rotulara de "visão de mundo mais própria a sociedades caçadoras e coletoras".

 

Dom Juan riu até perder o fôlego,

 

— Realmente não sei se você é pior em seu estado de consciência normal ou intensificada. Em seu estado normal, não é suspeitoso, mas aborrecidamente razoável. Acho que gosto mais de você quando está no lado esquerdo, apesar de ficar terrivelmente assustado com tudo. como ontem.

 

Antes que eu tivesse tempo de dizer qualquer coisa, declarou que estava opondo as realizações dos antigos videntes às dos novos videntes, como uma espécie de contraponto, com o que pretendia dar-me uma visão mais abrangente das dificuldades que eu precisaria enfrentar.

 

Continuou, então, cora suas elucidações das práticas dos antigos videntes. Disse que outra de suas grandes descobertas tinha a ver com a categoria seguinte de conhecimento secreto: fogo e água. Descobriram que as chamas possuem uma qualidade muito peculiar; podem transportar o homem corporalmente, exatamente como faz a água.

 

Dom Juan chamou a isso uma descoberta brilhante. Comentei que há leis básicas da física que provariam ser isso impossível. Pediu-me para esperar até que tivesse explicado tudo, antes de tirar conclusões. Comentou que devia controlar minha racionalidade excessiva, porque esta constantemente afetava meus estados de consciência intensificada. Eu não estava reagindo por todos os modos às influências externas, mas sucumbindo a meus próprios artifícios.

 

Continuou explicando que os antigos toltecas, embora obvia­mente vissem, não compreendiam o que viam. Limitavam-se a usar suas descobertas sem preocupar-se em relacioná-las a um quadro mais amplo. No caso de sua categoria de fogo e água, dividiam o fogo em calor e chama e a água em umidade e fluidez. Correlacionaram calor e umidade, e chamavam-nos de propriedades menores. Consideravam as chamas e a fluidez como propriedades mais elevadas, mágicas, e usavam-nas como meio de transporte corpóreo ao reino da vida não orgânica. Entre seu conhecimento desse tipo de vida e as suas práticas de fogo e água, os antigos videntes ficaram atolados em um pântano sem saída.

 

Dom Juan assegurou-me que os novos videntes concordavam que a descoberta de seres vivos não orgânicos era realmente extraordinária, mas não do modo como os antigos videntes acreditavam. Encontrar-se numa relação face a face com outro tipo de vida dava aos antigos videntes uma falsa sensação de invulnerabilidade, o que provocou sua ruína.

 

Pedi que ele explicasse as técnicas do fogo e da água com maiores detalhes. Falou, então, que o conhecimento dos antigos videntes era tão intricado quanto inútil, e que ia apenas delineá-lo.

 

Resumiu as práticas do acima e do abaixo. O acima lidava com o conhecimento secreto sobre o vento, a chuva, relâmpagos, nuvens, trovão, a luz do dia e o sol, O conhecimento do abaixo tinha a ver com nevoeiro, água de fontes subterrâneas, pântanos, raios, terremotos, a noite, o luar e a lua.

 

O sonoro e o silente eram uma categoria de conhecimento secreto que tinha a ver com a manipulação do som e da quietude. O movente e o estacionário eram práticas que lidavam com aspectos misteriosos do movimento e da imobilidade.

 

Perguntei-lhe se poderia dar um exemplo de uma das técnicas que tinha citado. Replicou que já me dera dezenas de demonstrações, ao longo dos anos. Insisti que eu havia explicado racionalmente tudo que ele fizera comigo.

 

Dom Juan não respondeu. Parecia estar zangado comigo por fazer perguntas, ou seriamente concentrado em procurar um bom exemplo. Depois de algum tempo, sorriu e disse que acabara de visualizar o exemplo apropriado.

 

— A técnica que tenho em mente deve ser posta em ação no raso de um rio. Existe um, perto da casa de Genaro.

 

— O que terei de fazer?

 

— Você terá de arranjar um espelho de tamanho médio. Fiquei surpreso com seu pedido, Comentei que os antigos toltecas não conheciam espelhos.

 

— Não conheciam — admitiu, sorrindo. — Este é um acréscimo do meu benfeitor à técnica. Os antigos videntes usavam apenas uma superfície polida.

 

Explicou que a técnica consistia em submergir uma superfície brilhante na água rasa de um rio. A superfície poderia ser qualquer objeto chato que tivesse alguma capacidade de refletir imagens.

 

— Desejo que construa uma moldura sólida, feita de folhas de metal, para um espelho de tamanho médio. Deve ser à prova d'água, de modo que você deverá calafetá-la com alcatrão. Deve fazê-la com suas próprias mãos. Quando estiver pronta, traga-a e continuaremos.

 

— O que irá acontecer, Dom Juan?

 

— Não fique apreensivo. Você mesmo pediu-me para dar um exemplo da prática dos antigos toltecas. Pedi a mesma coisa a meu benfeitor. Acho que todos pedem, em certo momento. Meu benfeitor disse que fez a mesma coisa. Seu benfeitor, o nagual

 

Elias, deu-lhe um exemplo; meu benfeitor por sua vez deu o mesmo para mim, e agora vou passá-lo a você.

 

"Na época em que meu benfeitor deu-me o exemplo, eu não sabia como o fez. Agora sei. Algum dia você mesmo também saberá como a técnica funciona; irá compreender o que está por trás de tudo isso."

 

Pensei que Dom Juan desejava que eu voltasse para casa, em Los Angeles, e ali construísse a moldura para o espelho. Comentei que seria impossível para mim lembrar-me da tarefa se não permanecesse em consciência intensificada.

 

— Há duas coisas erradas em seu comentário. Uma é que não há condição de você permanecer em consciência intensificada, porque não seria capaz de funcionar a não ser que eu ou Genaro ou algum dos guerreiros do grupo do nagual cuidasse de você a cada minuto do dia, como estou fazendo agora. A outra é que o México não é a Lua. Há lojas de ferragens aqui. Podemos ir a Oaxaca e comprar tudo de que você precisar.

 

Rodamos até a cidade no dia seguinte, e comprei todas as peças para a moldura. Conseguia-as numa oficina mecânica por um preço mínimo. Dom Juan disse-me para colocá-las no porta-malas do meu carro. Mal olhou para elas.

Viajamos de volta à casa de Genaro ao final da tarde, e ali chegamos na manhã seguinte. Procurei por Genaro. Ele não estava lá. A casa parecia deserta.

 

— Por que Genaro mantém essa casa? — perguntei a Dom Juan. — Ele mora com você, não mora?

 

Dom Juan não respondeu. Olhou-me de modo estranho e foi acendei o lampião de querosene. Eu estava sozinho no quarto, na escuridão total. Senti um grande cansaço, que atribuí à longa e tortuosa viagem montanha acima. Desejava deitar-me. Na escuridão, não podia ver onde Genaro havia colocado as esteiras, tropecei numa pilha delas. Soube então por que Genaro mantinha aquela casa; ele tornava conta dos aprendizes homens: Pablito, Nestor e Benigno viviam ali quando estavam em seu estado de consciência normal.

 

Senti uma onda de rejuvenescimento; não me sentia mais cansado. Dom Juan entrou com um lampião. Contei-lhe sobre minha descoberta, mas ele disse que não importava, que não iria lembrar-me dela por muito tempo.

 

Pediu que lhe mostrasse o espelho. Pareceu satisfeito e comentou que o espelho era leve, embora sólido. Notou que eu havia utilizado parafusos de metal para fixar uma moldura de alumínio a uma folha de metal que usara como apoio para um espelho de 45 por 35 centímetros.

 

— Fiz uma moldura de madeira para meu espelho — disse ele. — Este parece muito melhor que o meu. Minha moldura era muito desajeitada e ao mesmo tempo frágil. — Após terminar o exame do espelho, continuou: — Deixe-me explicar o que vamos fazer. Ou talvez eu devesse dizer o que vamos tentar fazer. Os dois juntos vamos colocar esse espelho na superfície do rio perto de casa. Ele é largo e raso o suficiente para servir a nossos propósitos. A idéia é deixar que a fluidez da água exerça pressão sobre nós e nos transporte.

 

Antes que eu pudesse fazer qualquer comentário ou pergunta, lembrou-me de que no passado eu usara a água de um rio semelhante e realizara feitos extraordinários de percepção. Referia-se aos efeitos posteriores à ingestão de plantas alucinógenas, que havia experimentado várias vezes enquanto ficava submerso na valeta de irrigação atrás de sua casa, no norte do México.

 

— Guarde quaisquer perguntas até que lhe explique o que os videntes sabiam sobre consciência. Então irá compreender tudo o que estamos fazendo sob uma luz diferente. Mas, antes, continuemos com nossa experiência.

 

Caminhamos até o rio próximo, e ele selecionou um lugar com pedras chatas e expostas. Disse que ali a água era suficiente­mente rasa para nossos propósitos.

 

— O que espera que aconteça? — perguntei, em meio a uma apreensão que me agarrava.

 

— Não sei. Tudo que sei é o que vamos tentar. Vamos segurar o espelho com muito cuidado, mas muito firmemente. Iremos colocá-lo suavemente sobre a superfície d'água e então deixá-lo submergir. Vamos segurá-lo no fundo. Já o examinei. Há limo suficiente, que nos permite enterrar os dedos sob o espelho e segurá-lo com firmeza.

Disse para acocorar-me sobre uma pedra chata acima da superfície, no meio da suave correnteza, e fez-me segurar o espelho com ambas as mãos, quase na beira de um lado. Acocorou-se diante de mim, e segurou o espelho da mesma maneira que eu. Deixamos o espelho afundar e então seguramo-lo enfiando os braços na água até quase os cotovelos. Ordenou que me esvaziasse de pensamentos e encarasse a superfície do espelho. Repetiu várias vezes que o truque estava em não pensar absoluta­mente em nada. Olhei com atenção para o espelho. A suave correnteza desfigurou ligeiramente o reflexo do rosto de Dom Juan e o roeu. Após alguns minutos olhando firme para o espelho, pareceu-me que gradualmente a imagem de seu rosto e do meu ficou mais clara. E o espelho cresceu em tamanho até atingir no mínimo um metro quadrado. A correnteza parecia ter parado, e o espelho tornou-se tão claro como se estivesse colocado na superfície. Ainda mais estranha era a clareza de nossos reflexos. Como se meu rosto houvesse aumentado, não em tamanho, mas em foco. Podia ver os poros da pele de minha testa.

 

Dom Juan sussurrou suavemente para que não olhasse em meus olhos ou nos seus, mas que deixasse meu olhar vagando sem focalizar parte alguma de nossos reflexos.

 

— Olhe fixamente, sem encarar! — ordenava ele repetida­mente, num sussurro forte.

 

Fiz o que ele dizia, sem parar para ponderar sobre a aparente contradição. Naquele momento, algo dentro de mim foi apanhado naquele espelho, e a contradição realmente fez sentido. "É possível olhar fixamente sem encarar", pensei, e no instante em que o pensamento foi formulado, outra cabeça apareceu perto da de Dom Juan e da minha. Estava na parte de baixo do espelho, à minha esquerda.

 

Meu corpo todo tremeu. Dom Juan sussurrou para que me acalmasse e não demonstrasse medo ou surpresa. Novamente, ordenou que olhasse o recém-chegado sem encará-lo. Tive de fazer um esforço inimaginável para não ofegar e soltar o espelho, Meu corpo estava tremendo da cabeça aos pés. Dom Juan sussurrou mais uma vez para que me contivesse. Cutucou-me repetidamente com seu ombro.

 

Lentamente, coloquei meu medo sob controle. Olhei para a terceira cabeça, e gradualmente percebi que não era uma cabeça humana, ou uma cabeça animal. Com efeito, não era uma cabeça. Era uma forma que não tinha mobilidade interna. Quando o pensamento me ocorreu, instantaneamente percebi que não estava pensando-o eu mesmo. A descoberta também não era um pensamento. Tive um momento de tremenda ansiedade e então algo incompreensível tornou-se conhecido para mim. Os pensa­mentos eram uma voz em meu ouvido!

 

— Estou vendo! — gritei em inglês, mas não houve som.

 

— Sim, você está vendo — disse a voz em meu ouvido em espanhol.

 

Senti que estava preso numa força maior que eu mesmo. Não me sentia em pânico, nem mesmo angustiado. Não sentia nada. Sabia, sem sombra de dúvida, porque a voz assim me falava, que não poderia quebrar as cadeias daquela força por um ato de vontade ou esforço. Soube que estava morrendo. Levantei meus olhos automaticamente para olhar para Dom Juan, e no instante que nossos olhos se encontraram a força libertou-me. Eu estava livre. Dom Juan sorria para mim, como se soubesse exatamente pelo que eu havia passado.

 

Percebi que me levantava. Dom Juan estava segurando o espelho de lado para deixar que a água escorresse.

 

Voltamos para casa em silêncio.

 

Os antigos toltecas eram simplesmente mesmerizados por suas descobertas — disse Dom Juan.

 

— Posso compreender por quê.

 

— Eu também — retorquiu Dom Juan.

 

A força que me envolvera tinha sido tão poderosa que me deixara incapacitado para a fala, e mesmo para o pensamento, durante horas. Havia-me paralisado com uma total ausência de volição. E eu havia descongelado apenas alguns graus.

 

— Sem qualquer intervenção deliberada de nossa parte — continuou Dom Juan — essa antiga técnica tolteca foi dividida em duas fases para você. A primeira foi suficiente apenas para familiarizá-lo com o que acontece. Na segunda, iremos tentar realizar o que os antigos videntes perseguiam.

 

— O que realmente aconteceu lá fora, Dom Juan?

 

— Há duas versões. Vou dar-lhe primeiro a versão dos antigos videntes.

Eles achavam que a superfície refletora de um objeto brilhante submergido na água aumenta o poder da água. O que costumavam fazer era olhar para porções de água, e a superfície refletora servia-lhes como ajuda paia acelerai o processo. Acreditavam que nossos olhos são as chaves para entrar no desconhecido; olhando para a água, estavam deixando que os olhos abrissem caminho.

 

Dom Juan disse que os antigos videntes observaram que a umidade da água apenas molha ou ensopa, mas que a fluidez da água move. Ela corre, acreditavam, em busca de outros níveis abaixo de nós. Achavam que a água nos havia sido dada não apenas para a vida, mas também como um elo no caminho para outros níveis abaixo.

 

— Há muitos níveis abaixo?

 

— Os antigos videntes contavam sete níveis.

 

— Conhece-os pessoalmente, Dom Juan?

 

— Sou um vidente do novo ciclo e, conseqüentemente, tenho uma visão diferente. Estou apenas mostrando-lhe o que os antigos videntes faziam e contando em que acreditavam.

 

Assegurou que o fato de ter visão diferente não significava que as práticas dos antigos videntes não fossem válidas; suas interpretações estavam erradas, mas suas verdades tinham valor prático. No caso das práticas da água, estavam convencidas de que era humanamente possível ser transportado corporalmente pela fluidez da água para qualquer ponto entre este nosso nível e os outros sete níveis abaixo; ou ser transportado em essência para qualquer lugar neste nível, ao longo do curso de um rio em qualquer direção. Usavam, conseqüentemente, a água corrente para serem transportados neste nosso nível, e água de lagos profundos ou de nascentes para serem transportados às profundezas.

 

— O que perseguiam com a técnica que estou mostrando tinha dois aspectos — continuou. — Por um lado, usavam a fluidez da água para serem transportados para o primeiro nível abaixo. Por outro, utilizavam-na para ter um encontro face a face com um ser vivente daquele primeiro nível. A forma semelhante, a uma cabeça no espelho foi uma dessas criaturas que veio para nos olhar.

 

— Então realmente existem!

 

— Certamente que sim.

 

Ele disse que os antigos videntes foram prejudicados por sua aberrante insistência em permanecerem agarrados aos seus procedimentos, mas, seja lá o que tenham encontrado, foi válido. Descobriram que a maneira mais segura de encontrar uma dessas criaturas é através de uma porção de água. O tamanho dela não é relevante; um oceano ou um tanque servem ao mesmo propósito. Havia escolhido um pequeno riacho porque odiava ficar molhado. Nós poderíamos ter obtido os mesmos resultados em um lago ou em um rio volumoso.

 

— A outra vida vem para descobrir o que se passa quando os seres humanos chamam — continuou. — Essa técnica tolteca é como uma batida em sua porta. Os antigos videntes diziam que a superfície brilhante no fundo da água servia como uma isca e uma janela. Assim, os humanos e aquelas criaturas encontravam-se em uma janela.

 

— Foi isso que aconteceu ali comigo?

 

— Os antigos videntes teriam dito que você estava sendo puxado pelo poder da água e pelo poder do primeiro nível, mais a influência magnética da criatura na janela.

 

— Mas ouvi uma voz em meu ouvido dizendo que eu estava morrendo,

 

— A voz estava certa. Você estava morrendo, e isso teria acontecido se eu não me encontrasse ali. Este é o perigo de praticar as técnicas toltecas.

 

São extremamente eficazes, mas, na maioria das vezes, são mortais.

Disse-lhe que tinha vergonha de confessar que estava apavorado.

 

Ver aquela forma no espelho e ter a sensação de uma força envolvente ao meu redor havia sido demais para mim no dia anterior.

 

— Não desejo alarmá-lo, mas nada lhe aconteceu ainda. Se o que se passou comigo for o exemplo do que irá ocorrer com você, é melhor preparar-se para o maior choque de sua vida. É preferível tremer nas bases agora do que morrer de susto amanhã. Meu medo era tão terrificante que não consegui sequer elaborar as perguntas que vinham à minha mente. Demorei algum tempo para engolir. Dom Juan riu até engasgar. Sua face ficou púrpura. Quando recuperei a voz, cada uma de minhas perguntas provocava outro ataque de riso e tosse.

 

— Você não tem idéia de como isso é engraçado para mim — disse ele, finalmente. — Não estou rindo de você. É apenas a situação. Meu benfeitor fez-me atravessar os mesmos movimentos, e ao olhar para você não posso evitar ver-me a mim mesmo. Disse-lhe que me sentia enjoado. Ele falou que isso era bom, que era natural estar assustado, e que controlar o medo seria errado e sem sentido. Os antigos videntes foram apanhados ao suprimir seu terror quando deveriam ter ficado assustados até perder o juízo. Uma vez que não desejavam parar suas pesquisas ou abandonar suas construções confortadoras, trataram de controlar o medo em lugar disso.

 

— O que mais iremos fazer com o espelho?

 

— Aquele espelho será usado para um encontro face a face entre você e aquela criatura que apenas entreviu ontem.

 

— O que acontece em um encontro face a face?

 

— O que acontece é que uma forma de vida, a forma humana, encontra outra forma de vida. Os antigos videntes diziam que nesse caso é uma criatura do primeiro nível da fluidez da água.

Explicou que os antigos videntes supunham que os sete níveis abaixo de nós eram níveis da fluidez da água. Para eles, uma nascente tinha significação extraordinária, porque pensavam que em tal caso a fluidez da água é revertida, e vem das profundezas para a superfície. Acharam que aquele era o meio pelo qual as criaturas dos outros níveis, essas outras formas de vida, vêem ao nosso plano para espiar-nos, observar-nos.

 

“A esse respeito, aqueles antigos videntes não estavam enganados. Acertaram o prego exatamente na cabeça. As entidades que os novos videntes chamam de aliados aparecem ao redor de nascentes”.

 

— A criatura no espelho era um aliado?

 

— Sem dúvida. Mas não um que possa ser utilizado. A tradição dos aliados, com a qual eu o familiarizei no passado, vem diretamente dos antigos videntes. Eles faziam maravilhas com aliados, mas nada do que fizeram valeu coisa alguma quando o inimigo real chegou. Seus semelhantes, os homens.

 

— Uma vez que aquelas criaturas são aliadas, devem ser muito perigosas.

 

— Tão perigosas quanto nós homens somos, não mais, não menos.

 

— Podem matar-nos?

 

— Não diretamente, mas certamente podem assustar-nos até a morte. Podem atravessar os próprios limites, ou simplesmente chegar até a janela. Como você deve ter notado agora, os antigos toltecas não paravam na janela, também. Encontraram estranhas maneiras de ir além das mesmas.

 

O segundo estágio da técnica desenvolveu-se de modo semelhante ao primeiro, exceto pelo fato de que levou talvez duas vezes mais tempo para que eu relaxasse e parasse meu turbilhão interno. Quando isso aconteceu, o reflexo do rosto de Dom Juan e o do meu ficaram instantaneamente claros. Olhei para o seu reflexo e para o meu talvez durante uma hora. Esperava que o aliado aparecesse a qualquer momento, mas nada aconteceu. Meu pescoço doía. Minhas costas estavam duras e minhas pernas insensíveis. Eu queria ajoelhar-me na rocha para aliviar a dor na parte inferior das costas. Dom Juan sussurrou que no momento em que o aliado mostrasse sua forma, meu desconforto iria desaparecer.

 

Estava absolutamente certo. O choque de testemunhar uma forma redonda aparecendo no canto do espelho afugentou qual­quer desconforto em mim.

 

— O que faremos agora? — sussurrei.

 

— Relaxe e não focalize seu olhar em nada, nem mesmo por um instante. Observe tudo que aparecer no espelho. Olhe sem fixar.

 

Obedeci. Olhei para tudo dentro da moldura do espelho. Havia um zumbido peculiar em meus ouvidos. Dom Juan sussurrou que eu deveria mover os olhos na direção dos ponteiros se sentisse que estava sendo envolvido por uma força incomum; mas sob nenhuma circunstância, salientou, deveria erguer minha cabeça para olhar para ele.

 

Depois de um momento, notei que o espelho estava refletindo mais do que os nossos rostos e a forma redonda. A superfície se tornara escura. Pontos de intensa luz violeta apareceram. Ficaram maiores. Também havia pontos de negro absoluto. Depois a superfície se transformou em algo parecido a uma fotografia do céu nublado à noite, à luz do luar. Subitamente, a superfície toda entrou em foco, como se fosse uma imagem móvel. A nova visão era uma vista tridimensional, impressionante, das profundezas.

 

Sabia que me era absolutamente impossível lutar contra a tremenda atração daquela visão. Ela começou a puxar-me para dentro.

 

Dom Juan sussurrou energicamente que eu deveria mover os olhos pelo bem de minha vida. O movimento giratório trouxe-me alívio imediato. Pude distinguir novamente nossos reflexos e o do aliado. Então, o aliado desapareceu e reapareceu novamente na outra extremidade do espelho.

 

Dom Juan ordenou que eu agarrasse o espelho com toda a minha força. Preveniu-me para ficar calmo e não fazer qualquer movimento súbito.

 

— O que irá acontecer? — sussurrei.

 

— O aliado tentará sair.

 

Assim que acabou de falar, senti um poderoso puxão. Algo deu um arrancão em meus braços. O puxão vinha de debaixo do espelho. Era como uma força de sucção que criava uma pressão uniforme ao redor de toda a moldura.

 

— Segure o espelho com força, mas não o quebre — ordenou Dom Juan. — Combata a sucção. Não deixe que o aliado afunde demais o espelho.

 

A força puxando para baixo era enorme. Senti que meus dedos iriam quebrar ou seriam esmagados contra as pedras do fundo. Dom Juan e eu perdemos o equilíbrio em certo momento e tivemos de descer das pedras achatadas para o leito do rio. A água era bastante rasa, mas a tensão da força do aliado ao redor da moldura do espelho era tão assustadora como se estivéssemos num vasto rio. A água ao redor de nossos pés estava redemoinhando loucamente, mas as imagens no espelho permaneceram inalteráveis.

 

— Olhe! — gritou Dom Juan. — Aí vem ele!

 

O puxão transformou-se num impulso vindo de baixo. Algo estava agarrando a borda do espelho; não a borda exterior da moldura onde estávamos segurando, mas a do interior do espelho. Era como se a superfície do vidro fosse realmente uma janela aberta e algo ou alguém estivesse subindo através dela.

 

Dom Juan e eu lutamos desesperadamente, fosse para empurrar o espelho para baixo quando ele estava sendo pressiona­do para cima, ou puxá-lo para cima quando estava sendo atraído para baixo. Numa posição curvada, movemo-nos lentamente rio abaixo. A água ficou mais funda e ali o leito estava coberto de pedras escorregadias.

 

— Vamos retirar o espelho da água e balançá-lo devagar — disse Dom Juan em voz rouca.

 

A agitação da água continuou sem cessar. Era como se tivéssemos agarrado um enorme peixe com as mãos nuas e ele nadasse loucamente ao nosso redor.

 

Ocorreu-me que o espelho era, em essência, um alçapão. Uma forma estranha estava realmente tentando içar-se através dele. Estava debruçando-se na borda do alçapão com um peso imenso e era grande o suficiente para deslocar os reflexos do meu rosto e do de Dom Juan. Eu não podia vê-los mais. Podia apenas sentir uma massa tentando içar-se.

 

O espelho não era mais apoiado no fundo. Meus dedos não estavam comprimidos contra a rocha. O espelho estava a meia profundidade, mantido pelas forças opostas dos puxões do aliado e dos nossos. Dom Juan disse que iria estender suas mãos sob o espelho e que eu deveria muito rapidamente agarrá-las, de modo a termos um melhor equilíbrio para levantá-lo com os nossos antebraços. Quando ele o soltou, o espelho inclinou-se para seu lado. Rapidamente, procurei suas mãos, mas não havia nada por baixo. Vacilei por um segundo longo demais, e o espelho escapou de minhas mãos.

 

— Agarre-o! Agarre-o! — gritou Dom Juan.

 

Agarrei o espelho exatamente quando ia cair sobre as pedras. Levantei-o para fora da água, mas não com suficiente rapidez. A água parecia cola. Quando puxei o espelho para fora, puxei também um pedaço de uma substância pesada parecida com borracha, que simplesmente puxou o espelho de minhas mãos de volta para a água.

 

Dom Juan, usando de extraordinária agilidade, agarrou o espelho e levantou-o de lado sem qualquer dificuldade.

 

Nunca em minha vida eu tivera tal ataque de melancolia. Era uma tristeza que não tinha fundamento preciso; associei-a à memória das profundezas que havia visto no espelho. Era uma mescla da pura saudade daquelas profundezas com um medo absoluto de sua solidão arrepiante.

 

Dom Juan comentou que na vida dos guerreiros era extrema­mente natural ficar triste sem razão clara. Os videntes dizem que o ovo luminoso, como campo de energia, sente seu destino final todas as vezes que os limites do conhecido são quebrados. Um mero vislumbre da eternidade fora do casulo é suficiente para romper o aconchego de nossos inventários. A melancolia resultante é, às vezes, tão intensa que pode até provocar a morte.

 

Disse, ainda, que a melhor maneira de livrar-se da melancolia é rir-se dela. Comentou então, jocoso, que minha primeira atenção estava fazendo tudo para restaurar a ordem que fora rompida pelo meu contato com o aliado. Uma vez que não havia maneira de restaurá-la por meios racionais, minha primeira atenção estava focalizando todo seu poder na tristeza.

 

Disse-lhe que, de qualquer modo, a melancolia era real. Entregar-me a isso, lastimar-me, ficar acabrunhado não eram parte do sentimento de solidão que eu experimentei ao lembrar-me daquelas profundezas.

 

— Algo está finalmente sucedendo com você — disse ele. — Está certo. Não existe nada mais solitário do que a eternidade. E nada é mais aconchegante para nós do que ser um ser humano. Com efeito, essa é outra contradição: coma o homem pode manter os laços de sua condição de humanidade e ainda aventurar-se alegre e voluntariamente na absoluta solidão da eternidade? Quando você resolver esse enigma, estará pronto para a viagem definitiva.

 

Soube então com certeza absoluta a razão de minha tristeza.

 

Era uma sensação periódica em mim, da qual iria invariavelmente esquecer-me até que de novo percebesse a mesma coisa: a insignificância da humanidade diante da imensidão da coisa-em-si que havia visto refletida no espelho.

 

— Os seres humanos na realidade não são coisa alguma, Dom Juan.

 

— Sei exatamente o que você está pensando. É verdade que nada somos, mas é justamente isso que cria o desafio supremo: nós, que somos nada, podermos realmente encarar a solidão da eternidade.

 

Bruscamente mudou de assunto, deixando-me com a boca aberta, sem tempo de formular outra pergunta. Começou a discutir nossa luta com o aliado. Disse que, antes de tudo, a peleja não havia sido brinquedo. Não fora realmente um caso de vida ou morte, mas também não fora um piquenique.

 

— Escolhi aquela técnica — continuou — porque meu benfeitor mostrou-a para mim. Quando lhe pedi que me desse um exemplo das técnicas dos antigos videntes, ele quase arrebentou os intestinos de tanto rir; meu pedido lembrava-lhe demais sua própria experiência. O benfeitor dele, o nagual Elias, também lhe proporcionara uma rude demonstração da mesma técnica.

 

Dom Juan disse que, como havia feito a moldura de seu espelho de madeira, deveria ter-me solicitado que fizesse o mesmo, mas desejava saber o que aconteceria se a moldura fosse mais sólida do que a sua ou a de seu benfeitor. As duas molduras quebraram e, nas duas tentativas, o aliado escapou.

 

Explicou que, durante sua própria luta, o aliado partiu a moldura. Ele e seu benfeitor foram deixados segurando dois pedaços de madeira, enquanto o espelho afundava e o aliado saía por ele.

 

Seu benfeitor sabia que espécie de problemas devia esperar. No reflexo dos espelhos, os aliados não são realmente assustadores porque a pessoa apenas vê uma forma, uma massa de qualidades. Mas quando vêm para fora, além de serem realmente de aparência assustadora, causam um enorme aborrecimento. Comentou que, depois de saírem de seu nível, é muito difícil para os aliados voltar. O mesmo acontece com o homem. Se os videntes se aventuram em um nível dessas criaturas, é muito possível que nunca mais se saiba deles.

 

— Meu espelho quebrou-se com a força do aliado — continuou. — Não havia mais janela e ele não podia voltar, de modo que veio atrás de mim. Realmente o aliado veio atrás de mim, rolando. Saí correndo em alta velocidade, berrando de terror. Subi e desci os morros como um possesso. O aliado estava a centímetros de mim o tempo todo.

 

Dom Juan contou que seu benfeitor correu atrás dele, mas era velho demais e não podia mover-se com rapidez; teve o bom senso, entretanto, de dizer a Dom Juan para voltar, e desse modo foi capaz de tomar medidas para livrar-se do aliado. Gritou que iria montar uma fogueira e que Dom Juan deveria correr em círculo até que tudo estivesse pronto. Saiu à frente para reunir galhos secos, enquanto Dom Juan corria ao redor de um morro, enlouquecido de medo.

 

Dom Juan confessou que, enquanto corria em círculos, ocorreu-lhe o pensamento de que seu benfeitor, na verdade, estava apreciando a coisa toda. Sabia que ele era um guerreiro capaz de encontrar prazer em qualquer situação concebível. Por que também não aquela? Por um momento ficou tão bravo com ele que o aliado parou de persegui-lo, e Dom Juan, em termos inequívocos, acusou seu benfeitor de má intenção. Ele não respondeu, mas fez um gesto de genuíno horror enquanto olhava para além de Dom Juan, para o aliado, que estava crescendo sobre ambos. Dom Juan esqueceu a raiva e começou a correr em círculos novamente.

 

— Meu benfeitor era realmente um velho diabólico — disse Dom Juan, rindo. — Havia aprendido a rir internamente. Não demonstrava nada no rosto, de modo que podia fingir estar chorando ou vociferando quando, na realidade, estava rindo. Naquele dia, enquanto o aliado caçava-me em círculos, meu benfeitor ficou parado defendendo-se de minhas acusações. Ouvia apenas pedaços de seu longo discurso, cada vez que passava correndo por ele. Quando terminou com aquilo, ouvi parte de outra longa explicação: que ele precisava juntar muita lenha, que o aliado era grande, que o fogo devia ser tão grande quanto o próprio aliado, que a manobra poderia não funcionar.

 

 

"Apenas meu medo enlouquecedor manteve-me correndo, finalmente, ele deve ter percebido que eu estava a ponto de cair morto de exaustão; preparou a fogueira e com as chamas defendeu-me do aliado."

 

Dom Juan disse que ficaram perto do fogo a noite inteira. Os piores momentos aconteceram quando seu benfeitor teve de sair para procurar mais galhos secos e deixou-o sozinho. Estava tão assustado que prometeu a Deus deixar o caminho do conhecimento para tornar-se lavrador.

 

— Pela manhã, quando achava-me exaurido de toda minha energia, o aliado conseguiu empurrar-me para o fogo e queimei-me gravemente — acrescentou Dom Juan.

 

— O que aconteceu ao aliado?

 

— Meu benfeitor nunca me disse o que aconteceu com ele, mas tenho a sensação de que ainda está correndo em círculos, sem destino, procurando encontrar seu caminho de volta.

 

— E o que aconteceu com sua promessa a Deus?

 

— Meu benfeitor disse que não me preocupasse, que havia sido uma boa promessa, mas que eu ainda não sabia que não há ninguém para ouvir tais promessas, porque não existe nenhum Deus. Tudo o que existe são emanações da Águia, e não há maneira de fazer promessas a elas.

 

— O que teria acontecido se o aliado o tivesse apanhado?

 

— Eu poderia ter morrido de pavor. Se soubesse o que implicava ser apanhado, teria deixado que me apanhasse. Naquele tempo, era um homem irresponsável. Quando um aliado o agarra, ou você tem um ataque do coração e morre, ou luta com ele. Então, depois de um escarcéu de fingida ferocidade, a energia do aliado se desvanece. Não há nada que um aliado nos possa fazer, ou vice-versa. Estamos separados por um abismo.

 

"Os antigos videntes acreditavam que, no momento em que a energia do aliado diminui, ele concede seu poder ao homem. Poder, uma ova! Os antigos videntes tinham aliados saindo pelas orelhas e o poder desses aliados não significava coisa alguma."

 

Dom Juan explicou que mais uma vez coube aos novos videntes esclarecei essa confusão. Descobriram que a única coisa que conta é a impecabilidade, isto é, a energia liberada. Houve realmente alguns entre os antigos videntes que foram salvos por seus aliados, mas isso não tinha nada a ver com o poder dos aliados de afastar qualquer coisa; antes, era a impecabilidade dos homens que lhes permitia o uso da energia daquelas outras formas de vida.

 

— Os novos videntes também descobriram uma coisa ainda mais importante sobre os aliados, o que os faz inúteis ou utilizáveis pelo homem. Aliados inúteis, que existem em quantidades incríveis, são aqueles que apresentam dentro de si emanações que não têm par dentro de nós mesmos. São tão diferentes que se tornam completamente não utilizáveis. Outros aliados, notavelmente poucos em número, são semelhantes a nós, o que significa que possuem emanações que, ocasionalmente, combinam com as nossas.

 

— Como esse tipo é utilizado pelo homem?

 

— Deveríamos usar outra palavra em lugar de "utilizar" — replicou Dom Juan. — Diria que o que tem lugar entre videntes e aliados desse tipo é uma troca honesta de energia.

 

— Como ocorre essa troca?

 

— Através das emanações das duas partes que se combinam. Essas emanações estão, naturalmente, na consciência do lado esquerdo do homem; o lado que o homem comum nunca usa. Por essa razão, os aliados são totalmente barrados do mundo da consciência do lado direito, ou o lado da racionalidade.

 

Disse ainda que as emanações que se combinam dão a ambos uma base comum. Então, com familiaridade, um elo mais profundo é estabelecido, que permite um aproveitamento a ambas as formas de vida. Os videntes buscam a qualidade etérea dos abados; eles são fabulosos batedores e guardiões. Os aliados procuram o campo de energia maior do homem, e com ele podem até mesmo materializar-se.

 

Assegurou-me que videntes experimentados tocam essas emanações compartilhadas até que as põem totalmente em foco; a troca tem lugar nesse momento. Os antigos videntes não compreendiam esse processo, e desenvolveram técnicas complexas de olhar para descer as profundidades que eu havia visto no espelho.

 

— Os antigos videntes tinham um instrumento muito elaborado para ajudá-los em sua descida — continuou Dom Juan. — Era um cordão especialmente trançado, que amarravam ao redor da cintura. Ele tinha uma ponta macia, embebida em resina, que se encaixava no umbigo como uma tomada. Os videntes mantinham um assistente ou vários deles, que o seguravam pelo cordão enquanto estavam perdidos em seu olhar. Naturalmente, olhar diretamente para o reflexo de um tanque ou lago profundo e claro é infinitamente mais poderosa e perigoso do que o que fizemos com o espelho.

 

— Mas eles de fato desciam, corporeamente?

 

— Você ficaria surpreso com o que os homens são capazes de fazer, especialmente se controlam a consciência. Os antigos videntes eram aberrantes. Em suas excursões às profundezas, descobriram maravilhas. Era rotina para eles encontrar aliados. Naturalmente, agora você percebe que dizer "as profundezas" é uma figura de linguagem. Não existem profundezas, existe apenas a manipulação da consciência. Entretanto, os antigos videntes nunca fizeram essa descoberta.

 

Disse a Dom Juan que, do que ele contara sobre sua experiência com aliados e mais da minha própria impressão subjetiva ao sentir o aliado exercendo força na água, eu havia concluído que os aliados são muito agressivos.

 

— Não propriamente — disse ele. — Não é que não possuam energia suficiente paia serem agressivos, mas acontece que têm um tipo diferente de energia. Eles são mais como uma corrente elétrica. Os seres orgânicos são mais como ondas de calor.

 

— Mas por que ele o perseguiu por um tempo tão longo?

 

— Isso não é mistério. Eles são atraídos por emoções. O medo animal é o que mais os atrai; libera o tipo de energia que lhes convém. As emanações no interior deles são ativadas pelo medo animal. Uma vez que meu medo era inflexível, o aliado saiu atrás dele, ou melhor, meu medo fisgou o aliado e não o deixou escapar.

 

Explicou que foram os antigos videntes que descobriram que os aliados preferem o medo animal a qualquer outra coisa. Chegaram mesmo ao extremo de oferecê-lo propositalmente aos aliados, assustando mortalmente as pessoas. Os antigos videntes estavam convencidos de que os aliados tinham sentimentos humanos, mas os novos videntes viram o fato diferentemente. Viram que os aliados são atraídos pela energia liberada pelas emoções; o amor é igualmente eficaz, assim como o ódio, ou a tristeza.

 

Dom Juan acrescentou que, se houvesse sentido amor por aquele aliado, ele viria atrás dele de qualquer maneira, embora a caçada pudesse ter apresentado um caráter diferente. Perguntei se o aliado teria desistido de ir atrás dele, caso Dom Juan conseguisse controlar seu medo. Ele respondeu que controlar o medo era um truque dos antigos videntes, que aprenderam a dominá-lo a ponto de serem capazes de despendê-lo aos poucos. Fisgavam seus aliados com o próprio medo, e ao liberá-lo gradualmente, como alimento, mantinham de fato os abados cativos.

 

— Aqueles antigos videntes eram homens aterrorizantes — continuou Dom Juan. — Não deveria usar o tempo passado: são aterrorizantes, mesmo hoje. Seu objetivo é dominar, governar a todos e a tudo.

 

— Mesmo hoje, Dom Juan? — perguntei, esperando que explicasse mais.

 

Mas Dom Juan mudou de assunto, comentando que eu havia perdido a oportunidade de ficar realmente assustado além dos limites. Disse que, sem dúvida, o modo pelo qual eu calafetara a moldura do espelho com alcatrão havia evitado que a água penetrasse por trás do vidro. Considerava isso como o fator decisivo, que evitara que o aliado despedaçasse o espelho.

 

— Muito mal — disse ele. — Você poderia ter gostado de verdade daquele abado. A propósito, não era o mesmo que veio no dia anterior. O segundo era perfeitamente semelhante a você.

 

— Não tem alguns aliados próprios, Dom Juan?

 

— Como sabe, tenho os aliados de meu benfeitor. Não posso dizer que tenho por eles o mesmo sentimento que tinha o meu benfeitor. Ele era um homem sereno, mas profundamente apaixonado, que prodigamente dava tudo que possuía, incluindo sua energia. Amou seus aliados. Para ele, não era difícil permitir que usassem sua energia para materializar-se. Houve um, em particular, que podia assumir uma forma humana grotesca.

 

Dom Juan prosseguiu dizendo que, uma vez que ele não era parcial com relação aos abados, nunca havia me proporcionado um gosto real dos mesmos, como seu benfeitor fez com ele enquanto ainda estava se recuperando da ferida no peito. Tudo começou com o pensamento de que seu benfeitor era um homem estranho. Mal tendo escapado das garras de um pequeno tirano, Dom Juan suspeitou que havia caído em outra armadilha. Sua intenção era esperar alguns dias para recuperar suas forças e, então, fugir quando o velho não estivesse em casa. Mas o velho deve ter lido seus pensamentos, porque um dia, em tom confidencial, sussurrou a Dom Juan que este devia sarar o mais rapidamente possível, para que ambos pudessem escapar de seu captor e atormentador. Então, tremendo de medo e impotência, o velho abriu a porta e um homem monstruoso com rosto de peixe entrou no aposento, como se tivesse estado escutando a conversa. Era verde-acinzentado, tinha apenas um enorme olho que não piscava e era grande como uma porta. Dom Juan disse que ficou tão surpreso e terrificado que desmaiou, e foram necessários anos para escapar do impacto daquele susto.

 

— Seus aliados são úteis para você, Dom Juan?

 

— Isto é uma coisa muito difícil de determinar. De certa maneira, amo os aliados que meu benfeitor me deu. Eles são capazes de retribuir com uma afeição inconcebível. Mas são incompreensíveis para mim. Foram-me dados para companhia, em caso de alguma vez me ver sozinho na imensidão que são as emanações da Águia.

 

 

       O Ponto de Aglutinação

 

Dom Juan interrompeu sua explicação sobre o domínio da consciência por vários meses, depois do meu confronto com os aliados. Um dia, recomeçou-a. Um evento estranho desencadeou tudo.

 

Dom Juan estava no norte do México. Era o final da tarde. Eu havia acabado de chegar à casa que ele mantinha ali; logo fez-me entrar em estado de consciência intensificada. E instantaneamente lembrei-me que Dom Juan sempre voltava a Sonora como um recurso de renovação. Ele havia explicado que um nagual, sendo um líder com enormes responsabilidades, precisa ter um ponto físico de referência, um lugar em que ocorra uma confluência conveniente de energias. O deserto de Sonora era um lugar assim.

 

Ao passar para a consciência intensificada, notara que havia outra pessoa escondendo-se na semi-obscuridade do interior da casa. Perguntei a Dom Juan se Genaro estava com ele. Respondeu que estava só; o que eu tinha observado era um de seus aliados, aquele que guardava a casa.

 

Dom Juan fez então um gesto estranho. Contorceu o rosto como se estivesse surpreso ou terrificado. E, instantaneamente, a forma assustadora de um estranho homem apareceu na porta do aposento onde estávamos. A presença daquele ser amedrontou-me tanto que, realmente, senti vertigem. E antes que pudesse recuperar-me do susto, o homem saltou sobre mim com uma ferocidade espantosa. Quando agarrou meus antebraços, senti uma pancada quase igual à descarga de uma corrente elétrica.

 

Eu estava sem voz, tomado por um terror que Não conseguia dissipar. Dom Juan sorria para mim. Resmunguei e grunhi, tentando dar voz a um pedido de socorro, enquanto sentia outra pancada mais forte.

 

O homem agarrou-me com mais força ainda e tentou jogar-me para trás, para o chão. Dom Juan, sem pressa na voz, aconselhou que eu me recompusesse e não lutasse com meu medo, mas me arranjasse com ele.

 

— Fique assustado sem ficar aterrorizado — disse ele. Dom Juan veio para o meu lado e, sem intervir em minha luta, sussurrou-me ao ouvido que eu deveria colocar toda a concentração no ponto central de meu corpo.

 

Ao longo dos anos, ele vinha insistindo em que eu medisse meu corpo até o centésimo de uma polegada e estabelecesse seu ponto central, tanto no comprimento quanto na largura. Sempre afirmara que tal ponto é o verdadeiro centro de energia em todos nós.

 

Assim que focalizei minha atenção nesse ponto central, o homem soltou-me. Naquele instante, percebi que o que imaginara fosse um ser humano era algo que apenas se parecia com um. No momento em que perdeu sua forma humana para mim, o aliado transformou-se numa bolha amorfa de luz opaca. Afastou-se. Fui atrás, movido por uma grande força que me fazia seguir aquela luz opaca.

 

Dom Juan me deteve- Suavemente, levou-me à entrada de sua casa e fez-me sentar sobre um rústico caixote que usava como banco.

 

Eu estava muito perturbado pela experiência, porém mais ainda pelo fato de que meu medo paralisante tivesse desaparecido tão rápida e completamente.

 

Comentei sobre minha abrupta mudança de estado. Dom Juan disse que não havia nada de estranho com respeito a ela, e que o medo deixa de existir assim que o brilho da consciência se move além de certo umbral, dentro do casulo humano.

 

Começou então sua explicação, Sumariamente, delineou as verdades sobre a consciência que havia discutido: que não existe mundo objetivo, mas apenas um universo de campos de energia que os videntes chamam de emanações da Águia. Que os seres humanos são feitos das emanações da Águia e são essencialmente bolhas de energia luminescente; cada um de nós está envolto em um casulo que aprisiona uma pequena porção dessas emanações. Que a consciência é adquirida pela pressão constante que as emanações externas aos nossos casulos, chamados emanações livres, excercem sobre as que se encontram dentro dos mesmos. Essa consciência dá origem à percepção, o que acontece quando as emanações no interior dos nossos casulos alinham se com as emanações livres correspondentes.

 

— A verdade seguinte é que a percepção tem lugar — continuou — porque existe em cada um de nós um agente chamado ponto de aglutinação que seleciona as emanações internas e externas para alinhamento. O alinhamento particular que percebemos Como mundo é produto da posição específica em que nosso ponto de aglutinação está localizado em nosso casulo.

 

Repetiu isso várias vezes, dando-me tempo para entender. Disse, então, que para corroborar as verdades sobre a consciência, eu necessitava de energia.

 

— Expliquei a você — continuou — que lidar com pequenos tiranos ajuda os videntes a realizarem uma manobra sofisticada: essa manobra destina-se a mover seus pontos de aglutinação.

 

Disse que o fato de eu ter percebido um aliado significava que havia movido meu ponto de aglutinação de sua posição costumeira. Em outras palavras, meu brilho da consciência movera-se além de certo umbral, apagando também meu medo. E tudo isso havia acontecido porque eu tinha energia suplementar suficiente.

 

Mais tarde, naquela noite, depois que retornamos de uma viagem para as montanhas circundantes, parte de seus ensinamentos para o lado direito, Dom Juan fez-me passar novamente para a consciência intensificada e continuou então sua explicação. Disse-me que, para discutir a natureza do ponto de aglutinação, teria que começar com uma discussão sobre a primeira atenção.

 

Explicou que os novos videntes examinavam as maneiras imperceptíveis pelas quais funciona a primeira atenção e, ao tentarem explicá-las para os outros, arranjaram uma ordem para as verdades sobre a consciência. Assegurou-me que nem todo vidente é dado a explicações. Por exemplo, seu benfeitor, o nagual Julian, não poderia importar-se menos com elas. Mas o benfeitor do nagual Julian, o nagual Elias, a quem Dom Juan teve a sorte de conhecer, importava-se. Entre as explicações detalhadas e longas do nagual Elias, as resumidas do nagual Julian e seu próprio ver pessoal, Dom Juan chegou a compreender e a comprovar essas verdades.

 

Dom Juan explicou que, para nossa primeira atenção colocar em foco o mundo que percebemos, ela deve enfatizar certas emanações selecionadas na estreita faixa de emanações em que está localizada a consciência do homem. As emanações descarta­das continuam dentro de nosso alcance, mas permanecem inativas, ignoradas por nós pela duração de nossas vidas.

 

Os novos videntes chamam as emanações enfatizadas do lado direito, a consciência normal, o tonal, este mundo, o conhecido, a primeira atenção. O homem médio chama-as de realidade, racionalidade, senso comum.

 

As emanações enfatizadas compõem uma larga porção da faixa de consciência do homem, mas uma parte muito pequena do espectro total de emanações presente no interior do casulo humano. As emanações negligenciadas na faixa do homem são consideradas como uma espécie de preâmbulo ao desconhecido, e o próprio desconhecido consiste em todas as emanações que não são parte da faixa humana e que nunca são enfatizadas, Os videntes chamam-nas de consciência do lado esquerdo, nagual, o outro mundo, o desconhecido, a segunda atenção.

 

— Esse processo de enfatizar certas emanações — continuou Dom Juan.

 

— foi descoberto e praticado pelos antigos videntes. Eles notaram que um homem nagual ou uma mulher nagual, pelo fato de possuir força extra, pode afastar a ênfase das emanações usuais e fazê-la passar para as emanações mais próximas. Esse empurrão é conhecido como o golpe do nagual.

 

Dom Juan disse que a mudança era utilizada pelos antigos videntes com finalidades práticas, para manter seus aprendizes atados. Com esse golpe, faziam com que os aprendizes entrassem em um estado de consciência intensificada, extremamente aguda e impressionável; enquanto estavam irremediavelmente maleáveis, os antigos videntes ensinavam-lhes técnicas aberrantes que trans­formavam os aprendizes em homens sinistros, exatamente como seus mestres.

 

Os novos videntes empregam a mesma técnica, mas, ao invés de usá-la para propósitos sórdidos, utilizavam-na para guiar seus aprendizes no conhecimento das possibilidades do homem.

 

Dom Juan explicou que o golpe do nagual tem de ser desferido num ponto preciso, o ponto de aglutinação, que varia ligeiramente de pessoa para pessoa. Além disso, o golpe deve ser desferido por um nagual que vê. Assegurou-me que é igualmente inútil possuir a força de um nagual e não ver, ou ver e não possuir a força de um nagual. Em qualquer dos dois casos, os resultados são apenas golpes. Um vidente poderia acertar o ponto preciso uma vez após outra, sem a força para mover a consciência, e um nagual não vidente não seria capaz de acertar o ponto preciso.

 

Disse também que os antigos videntes descobriram que o ponto de aglutinação não está no corpo físico, mas no invólucro luminoso, no próprio casulo. O nagual identifica esse ponto por sua intensa luminosidade, e o empurra, mais do que o golpeia. A força do empurrão cria uma mossa no casulo e é sentida como um golpe na omoplata direita, um golpe que retira todo o ar dos pulmões.

 

— Existem tipos diferentes de mossas?

 

— Existem apenas dois. Um é uma concavidade, o outro é uma fenda; cada qual tem um efeito distinto. A concavidade é uma marca temporária e produz uma mudança temporária, mas a fenda é uma marca profunda e permanente no casulo, produzindo uma mudança permanente.

 

Explicou que geralmente um casulo endurecido pela auto-reflexão não é afetado de modo algum pelo golpe do nagual. Às vezes, entretanto, o casulo do homem é muito maleável e a menor força cria uma mossa, variando em tamanho, desde uma pequena depressão a uma que tenha um terço do tamanho do casulo inteiro; ou cria uma fenda que pode atravessar a largura da casca ovóide, ou ao longo de seu comprimento, fazendo o casulo parecer como se estivesse curvado sobre si mesmo.

 

Algumas conchas luminosas, após terem sido deformadas, voltam instantaneamente à sua forma original. Outras permanecem deformadas por horas ou mesmo dias de cada vez, mas retrocedem por si mesmas. Outras ainda recebem uma mossa firme e resistente, que requer outro golpe do nagual sobre a área fronteiriça para restaurar a forma original do casulo luminoso. E algumas poucas nunca perdem sua mossa depois que a recebem. Por mais que recebam golpes de um nagual, nunca revertem às suas formas ovóides.

 

Dom Juan disse ainda que a mossa age sobre a primeira atenção deslocando o brilho da consciência. A mossa faz pressão sobre as emanações do interior da concha luminosa, e os videntes testemunham como a primeira atenção muda sua ênfase sob a força de tal pressão. A mossa, deslocando as emanações da Águia no interior do casulo, faz com que o brilho da consciência incida sobre emanações de áreas normalmente inacessíveis à primeira atenção.

 

Perguntei-lhe se o brilho da consciência só é visto na superfície do casulo luminoso. Não me respondeu imediatamente. Pareceu mergulhar em seus pensamentos. Após talvez dez minutos, respondeu à minha pergunta; disse que normalmente o brilho da consciência é visto na superfície do casulo de todos os seres conscientes. Depois que o homem desenvolve a atenção, entretanto, o brilho da consciência adquire profundidade. Em outras palavras, é transmitido da superfície do casulo a um certo número de emanações no interior do mesmo.

 

— Os antigos videntes sabiam o que estavam fazendo quando manipulavam a consciência — continuou. — Perceberam que, ao criar uma mossa no casulo do homem, podiam forçar o brilho da consciência, que já está incidindo sobre as emanações no interior do casulo, a atingir outras emanações vizinhas.

 

— Você faz tudo isso parecer uma questão física. Como podem ser feitas mossas em algo que é apenas um brilho?

 

— De alguma maneira inexplicável, trata-se de um brilho que cria uma mossa em outro brilho. O seu problema é que você continua agarrado ao inventário da razão. A razão não lida com o homem como energia. A razão lida com instrumentos que criam energia, mas nunca ocorreu seriamente à razão que somos mais do que instrumentos: somos organismos que criam energia. Somos uma bolha de energia. Assim, não é um disparate que uma bolha de energia possa provocar uma mossa em outra bolha de energia. Disse que o brilho da consciência criado pela mossa poderia ser, na verdade, chamado de atenção temporariamente intensifica­da, porque ele enfatiza emanações que estão tão próximas das habituais que a mudança é mínima. Ainda assim, produz um aumento da capacidade de compreender e concentrar-se e, acima de tudo, um aumento da capacidade de esquecer. Os videntes sabiam exatamente como usar essa mudança na escala de qualidade. Eles viam que apenas as emanações que cercam as que usamos no cotidiano subitamente ficavam brilhantes após o golpe do nagual. As mais distantes permaneciam intocadas, o que significava para eles que, enquanto se encontrassem num estado de atenção intensificada, os seres humanos podiam trabalhar como se estivessem no mundo da vida cotidiana. A presença de um homem nagual e uma mulher nagual tornou-se fundamental para eles, porque aquele estado só dura o tempo que a depressão permanece. Depois disso, as experiências são imediatamente esquecidas.

 

— Por que é necessário esquecer?

 

— Porque as emanações que provocam o aumento da clareza deixam de ser enfatizadas depois que os guerreiros não estão mais com a consciência intensificada. Sem essa ênfase, aquilo que experimentem ou testemunhem desaparece.

 

Dom Juan disse que uma das tarefas que os novos videntes haviam criado para seus alunos era forçá-los a recordar, ou seja, reenfatizar sozinhos, depois, as emanações usadas durante os estados de consciência intensificada. Lembrou-me que Genaro estava sempre recomendando que eu aprendesse a escrever com a ponta do dedo, em lugar do lápis, para não acumular anotações. Dom Juan explicou que o que Genaro queria realmente dizer era que enquanto eu me encontras­se em estado de consciência intensificada, deveria lançar mão de algumas emanações não usadas, para armazenar os diálogos e experiências, e algum dia lembrar-me de tudo reenfatizando as emanações que haviam sido usadas.

 

Continuou explicando que um estado de consciência intensificada é visto não apenas como um brilho que aparece numa região mais profunda da forma ovóide dos seres humanos, mas também como um brilho mais intenso na superfície do casulo. Embora não seja nada em comparação com o brilho produzido em estados de consciência total, visto como uma explosão de incandescência no ovo luminoso inteiro. É uma explosão de luz de tal magnitude que os limites da concha ficam difusos e as emanações do interior estendem-se além de qualquer coisa imaginável.

 

— São casos especiais, Dom Juan?

 

— É claro. Acontecem apenas com videntes. Nenhum outro homem ou nenhuma outra criatura vivente se ilumina dessa maneira. Videntes que atingem deliberadamente a consciência total são uma visão para se guardar. Esse é o momento em que queimam de dentro para fora, O fogo do interior os consome. Em consciência total, fundem-se com as emanações livres, e deslizam para a eternidade.

 

Após alguns dias em Sonora, levei Dom Juan de volta à cidade do sul do México onde ele e seu grupo de guerreiros viviam.

 

O dia seguinte foi quente e nebuloso. Sentia-me preguiçoso e um tanto aborrecido. No meio da tarde, havia uma quietude muito desagradável naquela cidade. Dom Juan e eu estávamos sentados nas poltronas confortáveis no aposenta grande. Disse-lhe que a vida no México rural não era o que mais me agradava. Não gostava da sensação que tinha de que o silêncio daquela cidade era forçado. O único ruído que conseguia ouvir era o som de vozes de crianças que gritavam a distância. Nunca foi capaz de descobrir se estavam brincando ou gritando de dor.

 

— Quando você está aqui, está sempre num estado de consciência intensificada. Isso faz uma grande diferença. Entre­tanto, deveria acostumar-se a viver numa cidade como esta. Algum dia irá viver numa delas.

 

— Por que deveria viver em uma cidade como esta, Dom Juan?

 

— Eu lhe expliquei que os novos videntes pretendem ser livres, E a liberdade tem as implicações mais devastadoras. Entre elas, está a implicação de que os guerreiros devem procurar deliberadamente a mudança. Já a sua predileção é viver da maneira como vive. Você estimula sua razão, percorrendo seu inventário e comparando-o com os inventários de seus amigos. Essas manobras deixam-lhe muito pouco tempo para examinar a si mesmo e a seu destino. Terá de abandonar tudo isso. Da mesma maneira, se tudo o que conhecesse fosse a calma mortal dessa cidade, você teria que procurar, mais cedo ou mais tarde, o outro lado da moeda.

 

— É isso que está fazendo aqui, Dom Juan?

 

— Nosso caso é um pouquinho diferente, porque estamos no final de nosso caminho. Não estamos procurando coisa alguma. O que todos nós fazemos aqui é algo que só um guerreiro pode compreender. Passamos dia após dia sem fazer coisa alguma. Estamos esperando, não me cansarei de repetir isso: sabemos que estamos esperando e sabemos pelo que estamos esperando. Estamos à espera da liberdade! E acrescentou com um sorriso:

 

— Agora que você sabe disso vamos voltar à nossa discussão sobre consciência.

 

Geralmente, quando estávamos naquele aposento, nunca éramos interrompidos por ninguém, e Dom Juan sempre decidia sobre a extensão de nossas discussões. Mas dessa vez houve uma pancada polida na porta, e Genaro entrou e sentou-se. Não via Genaro desde o dia em que corrêramos para fora de sua casa com grande pressa. Abracei-o.

 

— Genaro tem algo a contar-lhe — disse Dom Juan. — Eu lhe disse que ele é o mestre da consciência. Agora posso dizer-lhe o que tudo isso significa. Ele pode fazer o ponto de aglutinação se deslocar mais para o fundo do ovo luminoso depois de ter sido tirado de sua posição pelo golpe do nagual.

 

Explicou que Genaro havia empurrado meu ponto de aglutinação inúmeras vezes depois de eu atingir a consciência intensificada. No dia em que tínhamos ido à gigantesca rocha achatada para conversar, Genaro fez com que meu ponto de aglutinação se movesse dramaticamente para o lado esquerdo — tão dramaticamente, com efeito, que havia sido um pouco perigoso.

 

Dom Juan parou de falar e pareceu pronto a passar a palavra a Genaro. Fez um sinal com a cabeça, como que o incitando a dizer alguma coisa. Genaro levantou-se e veio para o meu lado.

 

— A chama é muito importante — disse, suavemente. — Lembra-se do dia em que fiz você olhar para o reflexo do sol em um pedaço de quartzo, quando estávamos sentados sobre aquela grande rocha achatada?

 

Quando Genaro mencionou o fato, lembrei-me. Naquele dia, logo depois que Dom Juan parou de falar, Genaro apontou para a refração da luz que atravessava um pedaço de quartzo polido, que ele tirara do seu bolso e colocara sobre a rocha. O brilho do quartzo prendeu imediatamente minha atenção. Quando me dei conta, estava agachado sobre a rocha com Dom Juan parado a meu lado, com um olhar preocupado no rosto.

 

Estava a ponto de contar a Genaro que me lembrava, quando ele começou a falar. Colocou a boca perto de meu ouvido, e apontou para um dos lampiões de querosene que havia no aposento.

 

— Olhe para a chama. Não há calor nela. Ê pura chama. A pura chama pode levá-lo às profundezas do desconhecido.

 

Enquanto falava, comecei a sentir uma pressão estranha; era um peso físico. Meus ouvidos estavam zumbindo, meus olhos lacrimejavam a ponto de eu mal poder distinguir a forma da mobília. Minha visão parecia estar totalmente fora de foco. Embora meus olhos estivessem abertos, não podia ver a luz intensa dos lampiões. Tudo ao meu redor estava escuro. Havia faixas de fosforescência verde-amarelada que iluminavam nuvens escuras em movimento. Então, tão abruptamente como havia desaparecido, minha visão retornou.

 

Não consegui descobrir onde me encontrava. Parecia flutuar como um balão. Estava sozinho. Senti uma pontada de terror, e minha razão apressou-se a construir uma explicação que fizesse sentido para mim naquele momento: Genaro me hipnotizara, usando a chama do lampião de querosene. Sentia-me quase satisfeito. Flutuei silenciosamente, tentando não me preocupar; pensei que uma maneira de evitar as preocupações seria concentrar-me nos estágios pelos quais teria de passar para acordar.

 

A primeira coisa que notei foi que eu não era eu mesmo. Não podia realmente olhar para nada, porque não tinha nada com que olhar. Quando tentei examinar meu corpo, percebi que só conseguia estar consciente, e ainda assim era como se estivesse olhando para o espaço infinito. Havia nuvens portentosas de luz brilhante e massas de negrume; estavam todas em movimento. Vi claramente uma onda de brilho ambarino que vinha em minha direção, como uma onda oceânica enorme e lenta. Soube então que era como uma bóia flutuando no espaço e que a onda iria engolfar-me e me carregar. Aceitei o fato como inevitável. Mas pouco antes que me atingisse, algo totalmente inesperado aconteceu: um vento soprou-me para fora da trajetória da onda.

 

A força daquele vento levou-me com tremenda velocidade. Passei através de um imenso túnel de intensas luzes coloridas. Minha visão embaçou-se completamente, e então senti que estava acordando, que estivera sonhando, um sonho hipnótico provocado por Genaro. No instante seguinte retornava ao aposento, com Dom Juan e Genaro.

 

Dormi a maior parte do dia que se seguiu. No final da tarde, Dom Juan e eu sentamo-nos novamente para conversar. Genaro estivera comigo antes, mas recusou-se a comentar sobre minha experiência.

 

— Genaro empurrou novamente seu ponto de aglutinação na noite passada — disse Dom Juan. — Mas talvez o empurrão tenha sido forte demais.

 

Ansiosamente, contei a Dom Juan o conteúdo de minha visão. Ele sorriu, obviamente enfadado.

 

— Seu ponto de aglutinação afastou-se de sua posição normal, e isso fez com que você percebesse emanações que normalmente não são percebidas. Parece uma bobagem, não é? Entretanto, trata-se de uma realização suprema, que os novos videntes lutam para elucidar.

 

Explicou que os seres humanos escolhem sempre as mesmas emanações para perceber, por duas razões. Primeira e mais importante: porque fomos ensinados que essas emanações são perceptíveis; a segunda; porque nossos pontos de aglutinação selecionam e preparam essas emanações para serem usadas.

 

— Todo ser vivo tem um ponto de aglutinação que seleciona emanações para enfatizar. Os videntes podem ver se outros seres conscientes têm a mesma visão do mundo. Vendo se as emanações que seus pontos de aglutinação selecionaram são as mesmas.

 

Afirmou que uma das conquistas mais importantes para os novos videntes foi descobrir que a área onde esse ponto está localizado no casulo de todas as criaturas vivas não é uma característica permanente, mas está estabelecida por hábito naquela região específica. Daí a tremenda importância que os novos videntes atribuem a novas ações, novas práticas. Desejam desesperadamente chegar a novos usos, novos hábitos.

 

— O golpe do nagual é de grande importância — continuou — porque faz com que aquele ponto se desloque. Altera sua localização. Às vezes chega mesmo a criar uma massa permanente. O ponto de aglutinação é totalmente desalojado, e a consciên­cia muda dramaticamente. Mas o que é ainda mais importante é a compreensão apropriada das verdades sobre a consciência, de modo a perceber que aquele ponto pode ser deslocado a partir do interior. A infeliz verdade é que os seres humanos sempre perdem por omissão. Simplesmente não conhecem suas possibilidades.

 

— Como se pode realizar esta mudança a partir do interior?

 

— Os novos videntes dizem que a compreensão é a técnica, Dizem que, antes de tudo, é preciso ficar consciente de que o mundo que percebemos é o resultado da localização dos nossos pontos de aglutinação em uma área específica do casulo. Depois que isto é compreendido, o ponto de aglutinação pode mover-se quase por força da vontade, como conseqüência de novos hábitos.

 

Não entendi realmente o que ele estava chamando de hábitos. Pedi que esclarecesse esse ponto.

 

— O ponto de aglutinação do homem aparece em uma área definida do casulo porque a Águia assim ordena. Mas a área precisa é determinada pelo hábito, pelos atos repetitivos. Primeiro aprendemos que ele pode ser localizado ali, e então nós mesmos ordenamos que fique naquele lugar. Nossa ordem torna-se a ordem da Águia, e o ponto se fixa naquela posição. Reflita sobre isto com muito cuidado; nossa ordem torna-se a ordem da Águia. Os antigos videntes pagaram muito caro por essa descoberta. Mais tarde, voltaremos a esse assunto.

 

Reafirmou mais uma vez que os antigos videntes se concentraram exclusivamente no desenvolvimento de milhares das mais complexas técnicas de feitiçaria. Acrescentou que o que nunca perceberam foi que seus métodos intricados, por mais bizarros que fossem, só tinham valor como meios de quebrar a fixação de seus pontos de aglutinação e fazer com que se deslocassem. Pedi que explicasse o que havia dito.

 

— Já disse que a feitiçaria é algo como entrar em uma rua sem saída. O que queria mostrar era que as práticas de feitiçaria não possuem valor intrínseco, O valor é indireto, pois sua função real é fazer com que o ponto de aglutinação mude, levando a primeira atenção a relaxar seu controle sobre aquele ponto.

 

"Os novos videntes perceberam o verdadeiro papel que aquelas práticas de feitiçaria desempenhavam, e decidiram ir diretamente ao processo de fazer seus postos de aglutinação se deslocarem, evitando todos os outros rituais e encantamentos sem sentido. Entretanto, os rituais e encantamentos são realmente necessários em determinada época na vida de cada guerreiro. Pessoalmente, iniciei-o em todos os tipos de procedimentos de feitiçaria, mas apenas com a finalidade de atrair sua primeira atenção para além do poder de auto-absorção, que mantém seu ponto de aglutinação rigidamente fixado.”

 

Acrescentou que a permanência obsessiva da primeira atenção na auto-absorção ou razão é uma força de coesão poderosa, e que o comportamento ritual, por ser repetitivo, obriga a primeira atenção a liberar certa quantidade de energia do ato de cuidar do inventário — e, em conseqüência disso, o ponto de aglutinação perde sua rigidez.

 

— O que acontece às pessoas cujo ponto de aglutinação perde a rigidez?

 

— Se não são guerreiros, pensam que estão perdendo a razão — disse ele sorrindo. —- Exatamente como você pensou que estava ficando louco em certa ocasião. Quando são guerreiros, sabem que ficarão loucos, mas esperam pacientemente. Veja você, ser saudável e lúcido significa que o ponto de aglutinação é imóvel. Quando ele muda, o fato significa, literalmente, que a pessoa está perturbada.

 

Disse que há duas opções abertas aos guerreiros cujo ponto de aglutinação se desloca. Uma é considerar que estão doentes e proceder de maneira incongruente, reagindo emocionalmente aos mundos estranhos que suas mudanças forçam-nos a testemunhar; a outra é permanecer impassíveis, intocados, sabendo que o ponto de aglutinação sempre volta à sua posição original.

 

— E se o ponto de aglutinação não retornar?

 

— Então essas pessoas estão perdidas. Ou ficam incuravelmente loucas, porque seus pontos de aglutinação jamais poderiam aglutinar o mundo como o conhecemos, ou se tornam videntes impecáveis que começaram seu movimento em direção ao desconhecido.

 

— O que determina se é um caso ou outro?

 

— Energia! Impecabilidade! Guerreiros impecáveis não perdem a linha. Permanecem intocáveis. Disse-lhe muitas vezes que os guerreiros impecáveis podem ver mundos aterrorizantes e, entretanto, no momento seguinte contar uma piada, rindo com amigos ou estranhos.

 

Falei então a Dom Juan o que já havia dito muitas vezes antes, que o que me fizera pensar que estava doente foi uma série de perturbadoras experiências sensoriais pelas quais tinha passado como efeitos retardados da ingestão de plantas alucinógenas. Passei por estados de total discordância de espaço e tempo, lapsos muito incômodos de concentração mental, visões ou alucinações de pessoas ou lugares que enxergava como se existissem realmente. Não pude deixar de pensar que estava perdendo a razão.

 

— Por todos os critérios ordinários, você estava realmente perdendo a razão — disse ele — mas, na visão dos videntes, se você a perdesse, não teria perdido muito. A mente, para um vidente, não é nada mais que o reflexo do inventário do homem. Se você perde esse reflexo, mas não perde seus alicerces, vive realmente uma vida infinitamente mais forte do que se o conser­vasse.

 

Observou que minha falha era minha reação emocional, que me impedia de perceber que a estranheza de minhas experiências sensoriais era determinada pela profundidade a que meu ponto de aglutinação havia sido deslocado na faixa das emanações humanas.

 

Disse-lhe que eu não podia compreender o que ele estava explicando porque a configuração que ele chamava de faixa das emanações humanas era algo incompreensível para mim. Eu a imaginava como uma fita estendida sobre a superfície de uma bola.

 

Dom Juan disse que chamá-la de faixa era enganoso, e que iria usar uma analogia para ilustrar o que tinha em mente. Explicou que a forma luminosa do homem é como uma bola de queijo branco com um espesso disco de queijo mais escuro no interior. Olhou para mim e deu uma risadinha. Sabia que eu não gostava de queijo.

 

Traçou um diagrama em um pequeno quadro-negro. Desenhou uma forma ovóide e dividiu-a em quatro seções longitudinais, dizendo que iria apagar imediatamente as linhas divisórias porque as havia desenhado apenas para dar-me uma idéia de onde a faixa estava localizada no casulo do homem. Traçou então uma faixa larga sobre a linha que separava a primeira e a segunda seções, e apagou as linhas divisórias. Explicou que a faixa era como um disco de queijo amarelo inserido na bola de queijo branco.

 

— Agora, se essa bola de queijo branco fosse transparente, você teria uma réplica perfeita do casulo do homem. O queijo amarelo vai até o fundo da bola de queijo branco. É um disco que vai da superfície de um lado à superfície do outro. O ponto de aglutinação do homem é localizado acima, a três quartos do caminho para o alto do ovo, na superfície do casulo. Quando um nagual faz pressão sobre esse ponto de intensa luminosidade, o ponto move-se para o interior do disco de queijo amarelo. A consciência intensificada aparece quando o brilho intenso do ponto de aglutinação ilumina emanações adormecidas no interior do disco de queijo amarelo. Ver o brilho do ponto de aglutinação movendo-se para dentro daquele disco dá a sensação de que ele está deslocando-se para a esquerda na superfície do casulo.

 

Repetiu sua analogia por três ou quatro vezes, mas não a compreendi, e teve de explicá-la novamente. Disse que a transparência do ovo luminoso cria a impressão de um movimento para a esquerda, quando na realidade qualquer movimento do ponto de aglutinação se dá no sentido da profundidade, para o centro do ovo luminoso ao longo da espessura da faixa humana.

 

Observei que o que ele dizia soava como se os videntes estivessem usando seus olhos quando vêem o movimento do ponto de aglutinação.

 

— O homem não é o incognoscível. A luminosidade do homem pode ser vista quase como se estivéssemos usando apenas os olhos.

 

Explicou ainda que os antigos videntes haviam visto o movimento do ponto de aglutinação, mas que nunca lhes ocorreu que se tratava de um movimento em profundidade; ao invés disso, seguiram sua visão e cunharam a frase "mudança para a esquerda", que os novos videntes ainda usavam, embora soubessem que não era correto.

 

Disse também que no curso de minha atividade com ele havia feito meu ponto de aglutinação mover-se inúmeras vezes, como era o caso naquele exato momento. Uma vez que a mudança do ponto de aglutinação dava-se sempre em profundidade, eu nunca tinha perdido meu sentido de identidade, embora estivesse sempre usando emanações que nunca usara antes.

 

— Quando o nagual empurra este ponto, ele se move para qualquer lugar ao longo da faixa humana, mas isso absolutamente não importa, porque onde quer que vá parar, será sempre em terreno virgem.

 

"O grande teste que os novos videntes desenvolveram para os seus aprendizes de guerreiros é reconstituir a trajetória seguida por seus pontos de aglutinação sobre a influência do nagual. Ao completar-se, esta reconstituição é chamada de reconquista da totalidade de si mesmo.”

 

Continuou dizendo que os novos videntes afirmam que, no curso de nosso crescimento, depois que o brilho da consciência se focaliza sobre a faixa de emanações humanas e seleciona algumas delas para ênfase, entra em um círculo vicioso. Quanto mais enfatiza certas emanações, mais estável fica o ponto de aglutina­ção. Isso equivale a afirmar que a nossa ordem torna-se a ordem da Águia. Não é preciso dizer que, quando nossa consciência se desenvolve em primeira atenção, a ordem é tão forte que quebrar esse círculo e fazer o ponto de aglutinação mover-se é um verdadeiro triunfo.

 

Dom Juan disse que o ponto de aglutinação também é responsável por fazer a primeira atenção perceber em termos de aglomerados. Um exemplo de um aglomerado de emanações que recebem ênfase ao mesmo tempo é o corpo humano tal como nós o percebemos. Outra parte de nosso ser total, nosso casulo luminoso, nunca recebe ênfase e é relegado ao esquecimento, pois o efeito do ponto de aglutinação não é apenas fazer-nos perceber certos aglomerados de emanações, mas também fazer-nos ignorar outras emanações.

 

Quando insistir em pedir uma explicação para os aglomera­dos ele replicou que o ponto de aglutinação irradia um brilho que reúne feixes de emanações aprisionadas. Esses feixes então se alinham com as emanações livres. Os aglomerados se formam mesmo quando os videntes lidam com emanações que nunca são usadas. Sempre que são enfatizadas, podemos percebê-las exata-mente como percebemos os aglomerados da primeira atenção.

 

— Um dos maiores momentos que os novos videntes tiveram — continuou — foi quando descobriram que o desconhecido é simplesmente as emanações descartadas pela primeira atenção. É vasto, mas a aglomeração ainda pode ser feita. Já o incognoscível, por sua vez, é uma eternidade onde nosso ponto de aglutinação não tem condição de aglomerar alguma.

 

Explicou que o ponto de aglutinação é como um magneto luminoso que escolhe emanações e as agrupa sempre que se move dentro dos limites da faixa de emanações do homem. Essa descoberta foi a glória dos novos videntes, pois lançou nova luz sobre o desconhecido. Os novos videntes perceberam que algumas das visões obsessivas dos videntes, aquelas que eram quase inconcebíveis, coincidiam com a mudança do ponto de aglutinação para a região da faixa do homem que é diametralmente oposta àquela onde ele está ordinariamente localizado.

 

— Eram visões do lado escuro do homem — assegurou.

 

— Por que você chama de o lado escuro do homem?

 

— Porque é sombrio e ameaçador — disse. — Não é apenas o desconhecido, mas o que não se quer conhecer.

 

— E quanto às emanações que estão dentro do casulo, mas fora dos limites da faixa do homem? Podem ser percebidas?

 

— Sim, mas de maneiras indescritíveis. Não são o desconhecido humano, como é o caso das emanações não utilizadas na faixa do homem, mas o desconhecido quase incomensurável, onde não há nenhum traço. É de fato uma área de uma vastidão tão gigantesca que o melhor dos videntes dificilmente conseguiria descrevê-la.

Insisti, mais uma vez, que me parecia que o mistério está obviamente dentro de nós.

 

— O mistério está fora de nós. Dentro de nós há apenas emanações tentando romper o casulo. E esse fato nos desvia da verdade de um modo ou de outro, sejamos homens comuns ou guerreiros. Apenas os novos videntes superaram esse ponto. Eles lutam para ver. E por meio das mudanças de seus pontos de aglutinação conseguem sentir que o mistério é perceber. Não tanto o que percebemos, mas o que nos faz perceber.

 

"Já lhe disse que os novos videntes acreditam que os nossos sentidos são capazes de detectar qualquer coisa. Acreditam nisso porque vêem que a posição do ponto de aglutinação é o que dita o que nossos sentidos percebem. Se o ponto de aglutinação alinha emanações no interior do casulo em uma posição diferente da normal, os sentidos humanos percebem de maneiras inconcebíveis."

 

 

       A Posição do Ponto de Aglutinação

 

Na vez seguinte em que Dom Juan retomou sua explicação do domínio da consciência, estávamos novamente em sua casa no sul do México. Aquela casa pertencia na realidade a todos os membros do grupo do nagual, mas Silvio Manuel se colocava como proprietário e todos referiam-se a ela como a casa de Silvio Manuel, embora eu, por alguma razão inexplicável, houvesse me acostumado a chamá-la de casa de Dom Juan.

 

Dom Juan, Genaro e eu havíamos retornado à casa depois de uma jornada pelas montanhas. Naquele dia, enquanto relaxávamos após a longa viagem e fazíamos um almoço tardio, perguntei a Dom Juan a razão para esse curioso engano. Ele assegurou-me que não havia engano naquilo, e chamá-la de casa de Silvio Manuel era um exercício na arte de espreitar, que deveria ser realizado por todos os membros do grupo do nagual sob quaisquer circunstâncias, mesmo na privacidade dos próprios pensamentos. Pois a insistência por parte de qualquer um deles em pensar sobre a casa em quaisquer outros termos era um ponto crucial para negar suas ligações com o grupo do nagual.

 

Protestei, dizendo que nunca me havia contado isso. Não desejava, com meus hábitos, causar qualquer dissensão.

 

— Não se preocupe com isso — disse, sorrindo e batendo em minhas costas, — Você pode chamar essa casa como quiser.

 

Um nagual tem autoridade. A mulher nagual, por exemplo, chama-a de casa das sombras.

 

Nossa conversação foi interrompida, e não voltei a vê-lo até que me mandou chamar para vir ao pátio dos fundos, algumas horas mais tarde.

 

Ele e Genaro caminhavam na extremidade mais distante do corredor. Podia vê-los gesticulando no que parecia ser uma conversação animada.

 

Era um dia claro e ensolarado. O sol da tarde brilhava diretamente sobre alguns dos vasos de flores que pendiam das traves do teto ao longo do corredor e projetavam suas sombras nas paredes norte e leste do pátio. A combinação de intensa luz amarela do sol, maciças sombras negras dos vasos e sombras delicadas e adoráveis das frágeis plantas floridas que neles cresciam era estonteante. Alguém com olho aguçado para o equilíbrio e a ordem havia disposto aquelas plantas para criar um efeito extraordinário.

 

— A mulher nagual fez isso — disse Dora Juan, como se lesse meus pensamentos. — Ela olha para essas sombras durante as tardes.

 

A idéia dela olhando para as sombras durante as tardes teve um efeito rápido e devastador em mim. A intensa luz amarela daquela hora, a quietude daquela cidade, a afeição que sentia pela mulher nagual colocaram-me bruscamente diante de toda a solidão do caminho infindo dos guerreiros.

 

Dom Juan havia definido o objetivo daquele caminho quando me disse que os novos videntes são os guerreiros da liberdade total, que sua única busca é a liberação última, que chega ao se atingir a consciência total. Compreendi com clareza absoluta, enquanto olhava para aquelas sombras fantasmagóricas sobre a parede, o que a mulher nagual queria dizer quando afirmava que ler poemas em voz alta era o único repouso que seu espírito tinha.

 

Lembrei-me de que no dia anterior ela lera algo para mim ali no pátio, mas eu não havia compreendido realmente sua urgência, sua ansiedade. Era um poema de Juan Ramón Jiménez, "Hora Inmensa", que ela disse sintetizar a solidão dos guerreiros que vivem para fugir para a liberdade total.

 

Somente um sino e um pássaro quebram a quietude... Parece que os dois conversam com o sol poente. Silêncio colorido de ouro, a tarde é feita de cristais.

 

Uma pureza errante agita as árvores frescas, e além de tudo isso um rio transparente sonha que correndo sobre pérolas se liberta e flui para o infinito.

 

Dom Juan e Genaro vieram para o meu lado e olharam-me com uma expressão de surpresa.

 

— O que estamos realmente fazendo, Dom Juan? — perguntei. — É possível que os guerreiros estejam apenas se preparando para a morte?

 

— De maneira alguma — respondeu, batendo suavemente em meu ombro. — Os guerreiros preparam-se para ser conscientes, e a consciência plena só chega quando não há mais vaidade neles. Apenas quando são nada tornam-se tudo.

 

Ficamos quietos por um momento. Então Dom Juan perguntou-me se eu estava na agonia da autopiedade. Não respondi, porque não tinha certeza.

 

— Você não está arrependido de estar aqui está? — perguntou Dom Juan com um leve sorriso.

 

— É claro que não está — assegurou Genaro. Depois pareceu ter um momento de dúvida. Coçou a cabeça, olhou para mim e arqueou as sobrancelhas. — Talvez esteja — disse. — Está?

 

— É claro que não está! — trovejou Genaro, e ambos explodiram em um riso incontrolável.

Quando se acalmaram, Dom Juan disse que a vaidade é a força motivadora de todos os ataques de melancolia. Acrescentou que os guerreiros podem ter profundos estados de tristeza, mas que a tristeza está presente apenas para fazê-los rir.

 

— Genaro tem algo para mostrar-lhe que é muito mais excitante que toda autopiedade que você puder juntar — continuou Dom Juan. — Tem a ver com a posição do ponto de aglutinação.

 

Genaro começou imediatamente a andar pelo corredor, arqueando as costas e erguendo as coxas ate o peito.

 

— O nagual Julian ensinou-lhe a caminhar desse modo — disse Dom Juan num sussurro. — Chama-se a marcha do poder. Genaro conhece várias marchas de poder. Olhe para ele fixa­mente.

 

Os movimentos de Genaro eram realmente mesméricos. Vi­me seguindo sua marcha, primeiro com os olhos e depois irresistivelmente com os pés. Imitei sua marcha. Caminhamos uma vez ao redor do pátio e paramos. Enquanto caminhava, percebi a extraordinária lucidez que cada passo me trazia. Quando paramos, encontrava-me num estado de lucidez aguçada. Era capaz de ouvir cada som, de detectar cada mudança na luz ou na sombra ao meu redor, Caí presa de uma sensação de urgência, de ação iminente. Senti-me extraordinariamente agressivo, forte, ousado. Naquele momento vi um enorme trecho de terra plana diante de mim; exatamente às minhas costas, vi uma floresta. Enormes árvores estavam alinhadas em linha reta, como um muro. A floresta era escura e verde; a planície, ensolarada e amarela.

 

Minha respiração apresentava-se profunda e estranhamente acelerada, mas não de modo anormal. E ainda assim era seu ritmo que me forçava a trotar no mesmo lugar. Queria sair correndo, ou melhor, meu corpo queria, mas exatamente quando estava partindo, algo me deteve.

 

Dom Juan e Genaro ficaram subitamente ao meu lado. Caminhamos pelo corredor, com Genaro à minha direita. Ele me cutucou com o ombro. Senti o peso de seu corpo sobre mim. Suavemente, empurrou-me para a esquerda e viramos diretamente para o muro leste do pátio. Por um momento, tive a estranha impressão de que íamos atravessar o muro, e até preparei-me para o impacto, mas paramos exatamente diante dele.

 

Enquanto meu rosto ainda se encontrava contra o muro, ambos examinaram-me com grande cuidado. Sabia o que estavam procurando; desejavam assegurar-se de que eu havia mudado meu ponto de aglutinação. Eu sabia que sim, pois meu humor havia mudado. Obviamente, eles também sabiam disso. De modo suave, tomaram-me pelos braços e caminhamos em silêncio para o outro lado do corredor, para uma passagem escura, num hall estreito que ligava o pátio com o resto da casa. Paramos ali. Dom Juan e Genaro afastaram-se alguns metros de mim.

 

Fui deixado de frente para a parte da casa que se encontrava na sombra. Olhei para um quarto escuro e vazio. Tive uma sensação de cansaço físico. Sentia-me lânguido, indiferente, e experimentava, entretanto uma sensação de força espiritual. Percebi então que perdera algo. Não havia força em meu corpo. Mal conseguia ficar de pé. Finalmente, minhas pernas cederam e sentei-me, deitando-me depois sobre um lado. Enquanto fiquei deitado ali, tive os mais maravilhosos e gratificantes pensamentos de amor por Deus e pela bondade.

 

Então, de repente, encontrei-me diante do altar principal de uma igreja. Os baixos-relevos folheados a ouro brilhavam com a luz de milhares de velas. Vi figuras obscuras de homens e mulheres carregando um enorme crucifixo, montado num grande andor. Afastei-me de seu caminho e saí para fora da igreja. Avistei uma multidão de pessoas, um mar de velas, vindo em minha direção. Senti-me exaltado. Corri para juntar-me a eles. Era movido por um profundo amor. Desejava estar com eles, rezar para o Senhor. Estava apenas a alguns passos da massa de pessoas quando algo afastou-me com um zumbido.

 

No instante seguinte encontrava-me com Dom Juan e Genaro. Ia entre eles, enquanto caminhávamos vagarosamente ao redor do pátio.

 

Enquanto almoçávamos no dia seguinte, Dom Juan disse que Genaro havia empurrado meu ponto de aglutinação com sua marcha de poder, e que fora capaz de fazê-lo porque eu estivera em um estado de silêncio interior. Explicou que o ponto de articulação de tudo o que os videntes fazem é algo sobre o qual vinha falando desde o dia em que nos conhecemos: parar o diálogo interno. Salientou, vez após vez, que o diálogo interno é o que mantém o ponto de aglutinação fixo em sua posição original.

 

— Depois que se chega ao silêncio, tudo é possível — disse ele.

 

Falei que estava muito consciente do fato de que, em geral, conseguia parar de falar comigo mesmo, mas ignorava como o fazia. Se me pedissem para explicar o procedimento, não saberia o que dizer.

 

— A explicação é extremamente simples — disse Dom Juan. — Você exerceu sua vontade, e dessa maneira estabeleceu uma nova intenção, uma nova ordem. Então, sua ordem tornou-se a ordem da Águia.

 

"Esta é uma das coisas mais extraordinárias que os novos videntes descobriram: que nossa ordem pode tornar-se a ordem da Águia. O diálogo interno pára do mesmo modo como começa: por um ato da vontade. Afinal, somos forçados a começar a conversar com nós mesmos por aqueles que nos ensinam. Enquanto nos ensinam, comprometem sua vontade e nós comprometemos a nossa, ambos sem saber. Enquanto aprendemos a conversar com nós mesmos, aprendemos a manipular a vontade, É nossa vontade que nos faz conversar com nós mesmos. A maneira de parar de conversar com nós mesmos é usar exatamente o mesmo método: precisamos exercer nossa vontade, precisamos ter esta intenção."

 

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Perguntei-lhe a quem se referia quando disse que tínhamos professores que nos ensinavam a conversar com nós mesmos.

 

— Estava falando do que acontece com os seres humanos quando são crianças, uma época em que são ensinadas por todos, ao seu redor, a repetir um diálogo infindo sobre si mesmas. O diálogo torna-se internalizado, e essa forca mantém fixo o ponto de aglutinação.

 

"Os novos videntes dizem que as crianças têm centenas de professores que lhes ensinam exatamente onde colocar seu ponto de aglutinação."

 

Explicou que os videntes vêem que as crianças não têm, de início, o ponto de aglutinação fixo. Suas emanações aprisionadas encontram-se em estado de grande agitação, e seus pontos de aglutinação mudam para qualquer ponto da faixa humana, dando as crianças uma grande capacidade de focalizar emanações que mais tarde serão completamente dispensadas. Então, enquanto crescem, os humanos mais velhos ao redor, através de seu considerável poder sobre elas, forçam os pontos de aglutinação das crianças a se tornarem mais estáveis por meio de um diálogo interno progressivamente mais complexo. O diálogo interno é um processo que fortalece constantemente a posição do ponto de aglutinação, porque essa posição é arbitrária e necessita de reforço constante.

 

— O fato é que muitas crianças vêem. Quase todas aquelas que vêem são consideradas esquisitas e todos os esforços são feitos para corrigi-las, para fazê-las consolidar a posição de seus pontos de aglutinação.

 

— Mas seria possível encorajar as crianças a manter seus pontos de aglutinação mais fluidos?

 

— Apenas se viverem entre novos videntes. De outro modo, elas seriam apanhadas, como ocorreu com os antigos videntes, nas complexidades do lado silencioso do homem. E, acredite, isso é pior do que ser apanhado nas garras da racionalidade.

 

Dom Juan prosseguiu expressando sua profunda admiração pela capacidade humana de impor ordem ao caos das emanações da Águia. Afirmou que cada um de nós, em seu próprio direito, é um mágico habilidoso e que nossa magia é manter nosso ponto de aglutinação inabalavelmente fixo.

 

— A força das emanações livres — continuou — faz nosso ponto de aglutinação selecionar certas emanações e agrupá-las para alinhamento e percepção. Esta é a ordem da Águia, mas todo sentido que damos àquilo que percebemos é nossa ordem, nosso toque de magia.

 

Disse que, à luz daquilo que havia explicado, o que Genaro fizera comigo no dia anterior era algo extraordinariamente com­plexo e ainda assim muito simples. Era complexo porque requeria tremenda disciplina da parte de todos; requeria que o diálogo interno fosse detido, que um estado de consciência intensificada fosse alcançado e que alguém afastasse o ponto de aglutinação da pessoa. A explicação por trás de todos esses procedimentos complexos era muito simples. Segundo os novos videntes, já que a posição exata do ponto de aglutinação é arbitrária, escolhida para nós por nossos ancestrais, ele pode ser deslocado com relativa­mente pouco esforço; depois que se move, força novos alinhamentos de emanações e, portanto, novas percepções.

 

— Eu costumava dar-lhe plantas de poder para fazer com que seu ponto de aglutinação se movesse — continuou Dom Juan. — As plantas de poder têm esse efeito; mas a fome, o cansaço, a febre e outras coisas semelhantes podem produzir um efeito similar. O erro do homem médio é que ele pensa que o resultado de uma mudança é puramente mental. Não é, como você mesmo pode atestar.

 

Explicou que meu ponto de aglutinação havia mudado inúmeras vezes no passado, exatamente como mudara no dia anterior, e que na maior parte das vezes os mundos que havia aglutinado estavam tão próximos ao mundo da vida cotidiana que eram virtualmente mundos fantasmas.

 

De forma enfática, acrescentou que visões desse tipo são automaticamente rejeitadas pelos novos videntes.

 

— Essas visões são produto do inventário do homem. Não têm valor para os guerreiros em busca da liberdade total, porque são produzidas por uma mudança lateral do ponto de aglutinação.

 

Parou de falar e olhou-me. Eu sabia que com a expressão "mudança lateral" ele havia designado a mudança do ponto de um lado para o outro ao longo da largura da faixa de emanações do homem, ao invés de uma mudança em profundidade. Perguntei-lhe se estava certo.

 

— Foi exatamente o que eu quis dizer. Nas duas margens das faixas de emanações do homem existe um estranho acumulo de refugos, uma incalculável pilha de lixo humano. Ê um depósito muito mórbido e sinistro. Tinha grande valor para os antigos videntes, mas não para nós. Uma das coisas mais fáceis que alguém pode fazer é cair nele. Ontem, Genaro e eu desejamos dar-lhe um rápido exemplo dessa mudança lateral; foi por isso que fizemos seu ponto de aglutinação caminhar, mas qualquer pessoa pode atingir esse depósito simplesmente parando o diálogo interno. Se a mudança é mínima, os resultados são explicados como fantasias. Se a mudança é considerável, os resultados são chamados de alucinações.

 

Pedi que explicasse o ato de fazer caminhar o ponto de aglutinação e ele disse que, uma vez que os guerreiros atingem o silêncio interior parando o diálogo interno, o som da marcha do poder, mais do que sua visão é o que capta seus pontos de aglutinação. O ritmo de passos abafados agarra instantaneamente a força de alinhamento das emanações no interior do casulo, desconectada pelo silêncio interior.

 

— Essa força se prende imediatamente às margens da faixa — continuou. — Na margem direita, encontramos infindáveis visões de atividade física, violência, assassinato, sensualidade. Na margem esquerda, encontramos espiritualidade, religião, Deus. Genaro e eu fizemos seu ponto de aglutinação caminhar para ambas as margens, de modo a dar-lhe uma visão completa dessa pilha de lixo humano.

 

Dom Juan reafirmou, como se tivesse pensado melhor, que um dos aspectos mais misteriosos do conhecimento dos videntes são os incríveis efeitos do silêncio interior. Disse que, quando o silêncio interior é atingido, os laços que ligam o ponto de aglutinação à área onde está localizado começam a soltar-se, e o ponto de aglutinação fica livre para se movimentar.

 

Disse que, normalmente, o movimento é para esquerda, e que esta preferência direcional é uma reação natural da maior parte dos seres humanos, mas que existem videntes capazes de dirigir este movimento a posições abaixo da área onde o ponto está costumeiramente localizado. Os novos videntes chamam essa mudança de "mudança para baixo".

 

— Os videntes também sofrem mudanças acidentais para baixo. Felizmente, o ponto de aglutinação não permanece ali por muito tempo, pois aquele é o lugar da besta. Ir para baixo é contrariar nosso interesse, embora seja a coisa mais fácil de fazer.

 

Dom Juan disse também que, entre os muitos erros de julgamento cometidos pelos antigos videntes, um dos mais atrozes era mover seus pontos de aglutinação para a incomensurável área abaixo, o que os tornava especialistas em adotar a forma de animais. Eles escolhiam diferentes animais como ponto de referência, e chamavam esses animais de seu nagual. Acreditavam que movendo os pontos de aglutinação para áreas específicas adquiri­riam características do animal de sua escolha, sua força, sabedoria, astúcia, agilidade, ou ferocidade.

 

Dom Juan assegurou-me de que há muitos exemplos deploráveis de tais práticas, mesmo entre os videntes de nosso tempo. A relativa facilidade com a qual o ponto de aglutinação do homem se move para qualquer posição mais baixa constitui uma grande tentação para os videntes, especial­mente aqueles cuja inclinação volta-se para esse fim. É dever de um nagual, portanto, testar seus guerreiros.

 

Disse-me então que me havia testado movendo meu ponto de aglutinação a uma posição abaixo enquanto eu me encontrava sob a influência de uma planta de poder. Guiou meu ponto de aglutinação até que eu pudesse isolar a faixa de emanações do corpo, o que resultou em minha mudança em um corvo.

 

Perguntei novamente a Dom Juan o que já lhe perguntara dúzias de vezes. Desejava saber se me havia transformado fisicamente em um corvo ou meramente pensado e sentido como este. Ele explicou que uma mudança do ponto de aglutinação para a área abaixo sempre resulta em uma transformação total. Acrescentou que, se o ponto de aglutinação se move além de um limiar crucial, o mundo desaparece; deixa de ser o que é para nós ao nível humano.

 

Concordou que minha transformação era de fato aterrorizante por quaisquer padrões. Minha reação àquela experiência demonstrou a ele que eu não tinha inclinações naquela direção. Não fosse assim, eu teria de empregar enorme energia para combater uma tendência a permanecer naquela área abaixo, que alguns videntes consideram muito confortável. Disse ainda que uma mudança indesejável para baixo ocorre periodicamente a todo vidente, mas que tal mudança torna-se cada vez menos freqüente à medida que seus pontos de aglutinação se deslocam para a esquerda. Sempre que isso ocorre, entretanto, o poder do vidente que sofre o processo diminui consideravelmente. É um retrocesso que exige tempo e grande esforço para ser corrigido.

 

— Esses lapsos tornam os videntes extremamente morosos e tacanhos, e em certos casos extremamente racionais.

 

— Como podem os videntes evitar essas mudanças para baixo?

 

— Tudo depende do guerreiro. Alguns são naturalmente inclinados a perder-se em suas artimanhas; você mesmo, por exemplo. Estes são os mais duramente atingidos. Para aqueles como você, recomendo uma vigilância de 24 horas sobre tudo que fazem. Homens ou mulheres disciplinados são menos propensos a tal tipo de mudança; para esses, recomendaria uma vigilância de 23 horas.

 

Olhou para mim com os olhos brilhantes e riu.

 

— As videntes mulheres têm mudanças para baixo mais freqüentes que os homens. Mas também são capazes de saltar fora dessa posição sem qualquer esforço, enquanto os homens demo­ram-se perigosamente nela.

 

Disse também que as videntes mulheres têm uma capacidade extraordinária de fazer seus pontos de aglutinação se manterem em qualquer posição na área abaixo. Os homens não o conseguem. Os homens têm sobriedade de propósito, mas muito pouco talento; esta é a razão por que um nagual precisa ter oito mulheres videntes em seu grupo. As mulheres dão o impulso para cruzar a incomensurável vastidão do desconhecido. Juntamente com essa capacidade natural, ou como conseqüência dela, as mulheres têm uma intensidade extremamente feroz. Podem, portanto, reproduzir uma forma animal com brilho, facilidade e uma ferocidade inigualável.

 

— Se você pensa sobre coisas assustadoras — continuou —, sobre algo inominável escondendo-se na escuridão, está pensando, sem o saber, sobre uma vidente mulher mantendo uma posição na incomensurável área abaixo. O verdadeiro horror está exatamente ali. Se alguma vez você encontrar uma mulher vidente aberrante, corra para as montanhas!

 

Perguntei-lhe se outros organismos eram capazes de mudar seus pontos de aglutinação.

 

— Seus pontos podem mudar, mas nesses casos a mudança não é uma coisa voluntária.

 

— O ponto de aglutinação de outros organismos também é treinado para aparecer onde aparece?

 

— Todo organismo recém-nascido é treinado, de um modo ou de outro. Podemos não compreender como é realizado seu treinamento; afinal, nós nem mesmo compreendemos como é feito o nosso, mas os videntes vêem que os recém-nascidos são coagidos a fazer o que sua espécie faz. Isto é exatamente o que acontece com as crianças humanas; os videntes vêem seus pontos de aglutinação mudando para todos os lados e vêem então como a presença de adultos fixa cada ponto em uma área. O mesmo acontece com todos os outros organismos.

 

Dom Juan pareceu refletir por um momento, e então acrescentou que, de fato, havia um efeito único que o ponto de aglutinação do homem possui. Apontou para uma árvore lá fora.

 

 

— Quando nós, como seres humanos adultos e sérios, olhamos para uma árvore, nossos pontos de aglutinação alinham um número infinito de emanações e executam um milagre. Nossos pontos de aglutinação fazem-nos perceber um grupo de emanações que chamamos de árvore.

 

Explicou que o ponto de aglutinação não apenas efetua o alinhamento necessário à percepção, como também impede o alinhamento de certas emanações, de maneira a atingir um maior refinamento da percepção, uma depuração, uma engenhosa construção humana sem nenhum paralelo.

 

Disse que os novos videntes tinham observado que apenas os seres humanos eram capazes de aglomerar novamente os aglomerados de emanações. Usou a palavra espanhola desnate, desnatação, que descreve o ato de separar a nata mais saborosa da superfície de uma vasilha de leite fervido depois que ela esfria. Do mesmo modo, em termos de percepção, o ponto de aglutinação do homem toma certa parte das emanações já selecionadas para alinhamento e faz uma construção mais agradável com elas.

 

— Os desnates dos homens — continuou Dom Juan — são mais reais do que aquilo que outras criaturas percebem. Essa é a nossa armadilha. São tão reais para nos que esquecemos que os construímos ordenando a nossos pontos de aglutinação que apareçam onde aparecem. Esquecemos que são reais para nós apenas porque é nossa ordem percebê-los como tais. Possuímos o poder de desnatar o melhor dos alinhamentos, mas não temos o poder de proteger-nos contra nossas próprias ordens. Isso deve ser aprendido. Dar livre trânsito aos nossos desnates, como o fazemos, é um erro de julgamento pelo qual pagamos tão caro quanto os antigos videntes pagaram pelos seus erros.

 

 

       A Mudança Para Baixo

 

Dom Juan e Genaro fizeram sua viagem anual ao norte do México, ao deserto de Sonora, para procurar plantas medicinais. Um dos videntes do grupo do nagual, Vicente Medrano, o herborista entre eles usava estas plantas para preparar remédios.

 

Encontrei-me com Dom Juan e Genaro em Sonora, no último estágio de sua viagem, exatamente a tempo de trazê-los para o sul, de volta à sua casa.

 

No dia anterior à nossa partida, Dom Juan repentinamente continuou sua explicação do domínio da consciência. Estávamos descansando à sombra de alguns altos arbustos, ao pé das montanhas. Era bastante tarde, quase escuro. Cada um de nós trazia um grande saco de aniagem cheio de plantas. Assim que os baixamos, Genaro deitou-se no chão e adormeceu, usando seu casaco dobrado como travesseiro.

 

Dom Juan falou comigo em voz baixa, como se não desejasse acordar Genaro. Disse que já havia explicado a maior parte das verdades sobre a consciência, e que deixara apenas uma delas por discutir. A última verdade, assegurou-me, é a melhor das descobertas dos antigos videntes, embora nunca tenham tido consciên­cia disso. Seu enorme valor foi reconhecido apenas muito tempo depois, pelos novos videntes.

 

— Expliquei-lhe que o homem tem um ponto de aglutinação e que este ponto alinha emanações para a percepção. Também discutimos que esse ponto se desloca de sua posição fixa. Agora, a última verdade é que, quando esse ponto de aglutinação se move além de certo limite, pode aglutinar mundos inteiramente diferentes daquele que conhecemos.

 

Ainda num sussurro, disse que certas áreas geográficas não apenas ajudam esse precário movimento do ponto de aglutinação, mas também selecionam direções específicas para esse movimento, Por exemplo, o deserto de Sonora ajuda o ponto de aglutinação a mover-se para baixo de sua posição costumeira, para o lugar da besta.

 

— É por isso que existem feiticeiros de verdade em Sonora — continuou. — Especialmente feiticeiras. Você já conhece uma, La Catalina. No passado, promovi encontros entre vocês dois. Desejava fazer seu ponto de aglutinação deslocar-se e La Catalina, com seus truques de feitiçaria, conseguiu afrouxá-lo.

 

Dom Juan explicou que as assustadoras experiências que eu tivera com La Catalina foram parte de uma combinação anterior entre os dois,

 

— O que você acharia de convidá-la para juntar-se a nós? — perguntou-me Genaro em voz alta, sentando-se.

 

A maneira abrupta com que fez a pergunta e o som estranho de sua voz lançaram-me num terror instantâneo.

Dom Juan riu e sacudiu-me pelos braços. Assegurou-me que não havia necessidade de alarme. Disse que La Catalina era como uma prima ou uma tia para nós. Fazia parte de nosso mundo, embora não seguisse realmente nossos passos. Estava infinitamente mais perto dos antigos videntes.

 

Genaro sorriu e piscou para mim.

 

— Parece que você é louco por ela. Ela mesma me disse que toda vez que você tinha um confronto com ela, quanto mais sentia medo, mais excitado ficava.

 

Dom Juan e Genaro riram quase até a histeria. Tive de admitir que de algum modo sempre achei La Catalina muito assustadora, mas ao mesmo tempo uma mulher extremamente atraente. O que mais me impressionava a seu respeito era sua energia transbordante.

 

— Ela tem tanta energia acumulada — comentou Dom Juan

 

— que você não precisaria estar em consciência intensificada para que ela movesse seu ponto de aglutinação até as profundezas do lado esquerdo.

 

Dom Juan disse novamente que La Catalina estava intima­mente relacionada conosco, porque pertencia ao grupo do nagual Julian. Explicou que geralmente o nagual e todos os membros de seu grupo deixam o mundo juntos, mas há casos em que partem ou em grupos menores ou um a um. O nagual Julian e seu grupo eram um exemplo desses últimos. Embora ele tivesse deixado o mundo havia cerca de 40 anos, La Catalina ainda estava aqui.

 

Lembrou-me de algo que havia dito antes, que o grupo do nagual Julian consistia de três homens altamente inconseqüentes e oito soberbas mulheres. Dom Juan sempre achara que tal disparidade era uma das razões pelas quais os membros do grupo do nagual Julian deixaram o mundo um a um.

 

Disse que La Catalina estivera relacionada com uma das soberbas mulheres videntes do grupo do nagual Julian, que lhe ensinou manobras extraordinárias para mover seu ponto de aglutinação para a área abaixo. Aquela vidente foi uma das últimas a deixar o mundo. Viveu até uma idade extremamente avançada, e uma vez que tanto ela como La Catalina eram originárias de Sonora, para lá voltaram, na época de sua velhice, e viveram juntas até que a vidente deixou o mundo. Nos anos em que passaram juntas, La Catalina tornou-se sua ajudante e discípula mais dedicada, uma discípula que desejava aprender as maneiras extravagantes pelas quais os antigos videntes sabiam movimentar o ponto de aglutinação.

Perguntei a Dom Juan se o conhecimento de La Catalina era essencialmente diferente do seu próprio.

 

— Somos exatamente iguais. Ela é mais como Silvio Manuel ou Genaro, na verdade, a versão feminina deles, mas, naturalmente, sendo mulher, é infinitamente mais agressiva e perigosa do que os dois juntos.

 

Genaro assentiu com um gesto de cabeça.

 

— Infinitamente mais — disse, e piscou novamente.

 

— Ela está ligada ao seu grupo?

 

— Disse que é como uma prima ou tia para nós. Isto significa que pertence à geração mais antiga, embora seja mais jovem do que todos nós. É a última daquele grupo. Raramente está em contato conosco. Na verdade, não gosta de nós. Somos muito rígidos para ela, porque está acostumada ao toque do nagual Julian. Prefere a grande aventura do desconhecido à busca da Uberdade.

 

— Qual a diferença entre as duas coisas?

 

— Na última parte de minha explicação das verdades sobre a consciência, iremos discutir essa diferença lenta e minuciosamente. O que é importante que saiba neste momento é que você guarda zelosamente segredos estranhos em sua consciência do lado esquerdo; é por isso que La Catalina e você se gostam mutuamente.

 

Insisti novamente que não se tratava de gostar dela, tratava-se mais de minha admiração por sua grande força.

 

Dom Juan e Genaro riram e deram-me tapinhas, como se soubessem de algo que eu ignorasse.

— Ela gosta de você porque sabe com quem você se parece — disse Genaro estalando os lábios.— Ela conheceu o nagual Julian muito bem.

Ambos examinaram-me longamente, fazendo-me sentir embaraçado.

 

— Onde quer chegar? — perguntei a Genaro num tom beligerante.

 

Sorriu-me e moveu as sobrancelhas para cima e para baixo, num gesto cômico. Mas manteve-se calado. Dom Juan falou quebrando o silêncio.

 

— Há pontos muito estranhos em comum entre o nagual Julian e você. Genaro está apenas tentando descobrir se você está consciente disso.

Perguntei a ambos como seria possível ter consciência de algo tão vago.

 

— La Catalina pensa que você tem — disse Genaro. — Diz isso porque conheceu o nagual Julian melhor do que qualquer um de nós aqui.

 

Comentei que não podia crer que ela tivesse conhecido o nagual Julian, uma vez que ele deixara o mundo há cerca de 40 anos atrás.

 

— La Catalina não é nenhuma jovenzinha — disse Genaro.

 

— Simplesmente parece jovem; isso é parte de seu conhecimento. Exatamente como foi parte do conhecimento do nagual Julian. Você a viu apenas quando parece jovem. Se você a avistar quando parece velha, ela assustará todo o sopro de vida que há em você.

 

— O que La Catalina faz — interrompeu Dom Juan — pode ser explicado apenas em termos dos três domínios: o domínio da consciência, o domínio da espreita e o domínio da intenção.

 

"Mas hoje vamos examinar o que ela faz apenas à luz da última verdade sobre a consciência: a verdade de que o ponto de aglutinação pode aglutinar mundos diferentes do nosso próprio, quando se desloca de sua posição original."

 

Dom Juan fez-me sinal para levantar-me. Genaro também levantou-se. Automaticamente agarrei o saco de aniagem cheio de plantas medicinais. Genaro deteve-me quando estava para colocá-lo em meus ombros.

 

— Deixe o saco em paz — disse, sorrindo. — Temos de fazer uma pequena caminhada morro acima e encontrar La Catalina.

 

— Onde ela está?

 

— Lá em cima — disse Genaro, apontando para o alto de uma pequena elevação. — Se você olhar com os olhos semicerrados, irá vê-la como um ponto muito escuro contra os arbustos verdes.

 

Esforcei-me por enxergar o ponto escuro, mas não consegui ver nada.

 

— Por que não sobe até lá? — sugeriu-me Dom Juan.

 

Senti-me tonto e com dor de estômago. Dom Juan apressou-me a subir com um movimento da mão, mas não ousei mover-me. Finalmente, Genaro tomou-me pelo braço e ambos subimos até o topo do morro. Quando ali chegamos, percebi que Dom Juan havia subido diretamente atrás de nós. Alcançamos o topo ao mesmo tempo.

 

Dom Juan começou a falar a Genaro muito calmamente. Perguntou-lhe se se lembrava das muitas vezes em que o nagual Julian quase os esganara, por haverem cedido a seus temores.

 

Genaro voltou-se para mim e assegurou-me que o nagual Julian havia sido um professor rude. Ele e seu próprio mestre, o nagual Elias, que ainda estava no mundo, costumavam empurrar os pontos de aglutinação de todos além do limite crucial, deixando que se arrumassem por si mesmos.

 

— Uma vez contei-lhe que o nagual Julian recomendou-nos a não desperdiçar nossas energias sexuais — continuou Genaro. — Ele queria dizer que, para que o ponto de aglutinação se mova, a pessoa necessita de energia. Se não dispuser desta, o golpe do nagual não é o golpe da uberdade, mas o golpe da morte.

 

— Sem a energia suficiente — disse Dom Juan — a força de alinhamento é esmagadora. Você precisa ter energia para agüentar a pressão de alinhamentos que nunca têm lugar sob circunstâncias comuns.

 

Genaro disse que o nagual Julian era um mestre inspirador. Sempre encontrava maneiras de ensinar e ao mesmo tempo divertir-se. Um de seus métodos favoritos de ensino era apanhá-los desprevenidos uma ou duas vezes, em sua consciência normal, e fazer seus pontos de aglutinação mudarem. Dali por diante, tudo o que precisava fazer para ter sua total atenção era ameaçá-los com um golpe de nagual inesperado.

 

— O nagual Julian foi realmente um homem inesquecível — disse Dom Juan. — Tinha um grande tato com as pessoas, Podia fazer as piores coisas do mundo, mas feitas por ele eram notáveis. Feitas por qualquer outra pessoa, teriam sido cruas e grosseiras. O nagual Elias, por outro lado, não tinha tato, mas realmente era um mestre muito, muito poderoso.

 

— O nagual Elias era muito parecido com o nagual Juan Matus — disse-me Genaro. — Eles se davam muito bem. E o nagual Elias ensinou-lhe tudo sem jamais elevar a voz, ou fazer brincadeiras com ele.

E dando-me um empurrão amigável, continuou:

 

— Mas o nagual Julian era realmente diferente. Diria que ele guardava zelosamente estranhos segredos em seu lado esquerdo, exatamente como você. Não diria o mesmo? — perguntou a Dom Juan.

 

Dom Juan não respondeu, mas balançou a cabeça afirmati­vamente. Parecia estar retendo o riso.

 

— Ele tinha uma natureza brincalhona — disse Dom Juan, e ambos caíram num grande acesso de riso.

 

O fato de que estavam aludindo obviamente a algo que conheciam fez com que me sentisse ainda mais -ameaçado.

 

Dom Juan disse com seriedade que referiam-se a bizarras técnicas de feitiçaria que o nagual Julian havia aprendido no curso de sua vida. Genaro acrescentou que o nagual Julian tivera um único mestre ao lado do nagual Elias. Um mestre que gostara dele imensamente e lhe havia ensinado maneiras novas e complexas de mover seu ponto de aglutinação. Como resultado disso, o nagual Julian era extraordinariamente excêntrico em seu comporta­mento.

 

— Quem foi esse mestre, Dom Juan?

 

Dom Juan e Genaro entreolharam-se e riram como duas crianças.

 

— Essa é uma pergunta muito difícil de responder — replicou Dom Juan. — Tudo que posso dizer é que ele foi o mestre que desviou o curso de nossa linha. Ensinou-nos muitas coisas, boas e más, mas, entre as piores, ensinou-nos o que os antigos videntes faziam. Assim, alguns de nós caíram na armadilha. O nagual Julian foi um deles, e assim é La Catalina. Esperamos apenas que você não os siga.

 

Imediatamente comecei a protestar. Dom Juan interrompeu-me. Disse que eu não sabia contra o que estava protestando.

 

Enquanto Dom Juan falava, fiquei terrivelmente zangado com ele e Genaro. Subitamente, estava explodindo, gritando com eles em voz muito alta. Minha reação foi tão destoante de mim mesmo que me assustou. Era como se eu fosse outra pessoa. Farei e olhei para eles em busca de ajuda.

 

Genaro tinha as mãos sobre os ombros de Dom Juan como se precisasse de suporte. Ambos estavam rindo descontroladamente.

 

Fiquei tão desarvorado que quase rompi em lágrimas. Dom Juan aproximou-se de mim. Confortadoramente, colocou a mão em meu ombro. Disse que o deserto de Sonora, por motivos para ele incompreensíveis, provocava uma beligerância aguda no homem ou em qualquer outro organismo.

 

— As pessoas podem dizer que é porque o ar aqui é muito seco, ou porque faz muito calor. Os videntes diriam que há aqui uma confluência particular das emanações da Águia, as quais, como já disse, ajudam o ponto de aglutinação a mover-se para baixo.

 

"Seja como for, os guerreiros estão no mundo a fim de se treinarem para ser testemunhas imparciais; assim compreenderão o mistério de nós mesmos e desfrutarão a alegria de descobrir o que realmente somos. Esta é a mais elevada das metas dos novos videntes. E nem todo guerreiro a atinge. Acreditamos que o nagual Julian não a atingiu. Foi desviado, assim como La Catalina."

 

Disse ainda que, para ser um nagual imaculado, a pessoa precisa amar a liberdade, e deve ter um desprendimento supremo. Explicou que o que toma o caminho do guerreiro tão perigoso é que ele é o oposto da situação de vida do homem moderno. Disse que o homem moderno abandonou o reino do desconhecido e do misterioso, instalando-se no reino do funcional. Voltou as costas ao mundo do proibitivo e da exultação e deu boas-vindas ao mundo do enfado.

 

— Receber a oportunidade de voltar novamente ao mistério do mundo.

 

— continuou Dom Juan — é às vezes demais para os guerreiros, e eles sucumbem; são desviados pelo que chamei de grande aventura do desconhecido. Esquecem da busca da liberdade; esquecem de ser testemunhas imparciais. Afundam-se no desconhecido e o amam.

 

— E você acha que sou assim, não é?

 

— Nós não achamos, nos sabemos — replicou Genaro. — E La Catalina sabe melhor do que qualquer outro,

 

— Por que o saberia?

 

— Porque ela é como você — replicou Genaro, pronunciando suas palavras com uma entonação cômica.

 

Estava por iniciar novamente uma discussão acalorada, quando Dom Juan interrompeu-me.

 

— Não há necessidade de ficar tão abatido. Você é o que é. A luta pela liberdade é mais difícil para alguns. Você é um deles.

 

E continuou:

 

— Para tornarmo-nos testemunhas imparciais, começamos por compreender que a fixação ou o deslocamento do ponto de aglutinação é tudo o que existe para nós e para o mundo que testemunhamos, seja qual for esse mundo.

 

"Os novos videntes dizem que, quando somos ensinados a falar com nós mesmos, somos ensinados a entorpecer-nos, de modo a manter o ponto de aglutinação fixo em um lugar."

 

Genaro bateu palmas ruidosamente e desferiu um assobio agudo que imitava o apito de um professor de educação física,

 

— Vamos fazer esse ponto de aglutinação se deslocar! — gritou. — Vamos, vamos, vamos! Andando, andando!

 

Ainda estávamos todos rindo, quando os arbustos à minha direita se agitaram repentinamente. Dom Juan e Genaro senta­ram-se de imediato sobre a perna esquerda dobrada. A perna direita, com o joelho para cima, era como um escudo diante deles. Dom Juan fez um sinal para que eu fizesse o mesmo. Ergueu as sobrancelhas, com um gesto de resignação no canto da boca.

 

— Os feiticeiros têm seus próprios truques — disse num sussurro. — Quando o ponto de aglutinação se move para as regiões abaixo de sua posição normal, a visão dos feiticeiros torna-se limitada. Se virem você em pé, irão atacá-lo.

 

— O nagual Julian certa vez manteve-se dois dias nessa posição de guerreiro — sussurrou Genaro. — Eu tinha até mesmo de urinar sem sair dessa mesma posição.

 

— E defecar — acrescentou Dom Juan.

 

— Certo — disse Genaro. E depois sussurrou para mim, como se houvesse pensado novamente; — Espero que você tenha feito coco antes. Se seu intestino não estiver vazio quando La Catalina aparecer, irá cagar nas calças, a menos que eu lhe mostre como tirá-las. Se você tiver que cagar nessa posição, será melhor aprender como se faz.

 

Começou a mostrar como livrar-me de minhas calças. Fê-lo de uma maneira tremendamente séria e preocupada. Toda minha concentração estava focalizada em seus movimentos. Somente quando consegui sair fora de minhas calças foi que percebi que Dom Juan morria de tanto rir. Percebi que Genaro divertia-se novamente à minha custa. Estava por levantar-me para vestir as calças quando Dom Juan me deteve. Estava rindo tanto, que mal podia articular as palavras. Disse-me para ficar quieto, pois Genaro fazia as coisas apenas meio por brincadeira, e que La Catalina estava realmente ali atrás dos arbustos.

 

Seu tom de urgência misturado ao riso atingiu-me. Fiquei congelado. Um momento depois um ruído nos arbustos lançou-me em tal pânico que esqueci as calças. Olhei para Genaro. Ele estava vestindo novamente as suas. Encolheu os ombros.

 

— Sinto muito — sussurrou. — Não tive tempo de mostrar-lhe como colocá-las de volta sem levantar-se.

 

Não tive tempo de zangar-me ou juntar -me a eles em sua hilaridade. De repente, exatamente diante de mim, os arbustos separaram-se e uma criatura extremamente horrenda apareceu. Era tão estranha que eu não tinha mais medo. Estava enfeitiçado. O que estivesse diante de mim não era um ser humano; era algo que nem sequer remotamente se parecia com um. Era mais como um réptil. Ou um volumoso inseto grotesco. Ou mesmo um pássaro peludo, extremamente repulsivo. Seu corpo era escuro e tinha um pêlo áspero e avermelhado. Não pude ver pernas, apenas a enorme e feia cabeça. O nariz era achatado; as narinas, dois enormes buracos laterais. Possuía algo semelhante a um bico com dentes. Por mais horrível que fosse aquela coisa, seus olhos eram magníficos. Pareciam dois lagos mesméricos de inconcebível clareza. Possuíam conhecimento. Não eram olhos humanos, ou olhos de ave, ou qualquer tipo de olhos que jamais tivesse visto.

 

A criatura moveu-se para meu lado esquerdo, resvalando nos arbustos. Quando movi minha cabeça para segui-la, percebi que Dom Juan e Genaro pareciam tão emudecidos pela sua presença como eu. Ocorreu-me que também nunca tinham visto algo semelhante.

Em um instante, a criatura se havia movido completamente para fora do campo visual. Mas, um momento depois, houve um grunhido e sua forma gigantesca cresceu novamente diante de nós.

 

Eu estava fascinado e ao mesmo tempo preocupado pelo fato de que não me encontrava nem um pouco assustado por aquela criatura grotesca. Era como se meu pânico costumeiro houvesse sido experimentado por outra pessoa.

 

Senti, em certo momento, que estava começando a levantar-me. Contra minha vontade minhas pernas endireitaram-se e me pus de pé, encarando a criatura. Vagamente, percebi que estava tirando meu casaco, minha camisa e meus sapatos. Então fiquei nu. Os músculos de minhas pernas ficaram tensos, com uma contração tremendamente poderosa. Saltei para cima e para baixo com colossal agilidade, e, então, a criatura e eu corremos na direção de um inefável verdor à distância.

 

A criatura corria à minha frente, enrolando-se sobre si mesma, como uma serpente. Mas emparelhei-me com ela. Enquanto corríamos juntos, tive consciência de algo que já sabia — a criatura era realmente La Catalina. Repentinamente, La Catalina, em carne e osso, estava ao meu lado. Movíamo-nos sem esforço. Era como se estivéssemos estacionários, simplesmente posando num gesto corporal de movimento e velocidade, enquanto o cenário ao nosso redor ia sendo movido, dando a impressão de enorme aceleração.

 

Nossa corrida parou tão repentinamente quanto havia começado, e então estava só com La Catalina, em um mundo diferente. Não havia sequer um detalhe reconhecível nele. Havia um brilho e um calor intensos, vindos do que parecia ser o solo, um solo coberto de grandes rochas. Ou ao menos pareciam ser rochas. Tinham a cor do granito, mas não o peso; eram como pedaços de tecido esponjoso. Podia arremessá-las, espalhando-as ao redor, apenas encostando-me nelas.

 

Fiquei tão fascinado com minha força, que me esqueci de qualquer outra coisa. Tinha notado, de alguma maneira, que os pedaços de material aparentemente sem peso opunham resistência a mim. Era minha força superior que os arremessava, espalhando-os ao redor. Tentei agarrá-los com as mãos, e percebi que meu corpo inteiro havia mudado. La Catalina estava olhando para mim. Ela era novamente a criatura grotesca que fora antes, e assim estava eu. Não podia ver-me a mim mesmo, mas sabia que ambos estávamos exatamente iguais.

 

Uma alegria indescritível possuiu-me, como se a alegria fosse alguma força que viesse de fora de mim. La Catalina e eu saltamos, nos contorcemos e brincamos até que eu não tinha mais pensamentos, ou sentimentos, ou consciência humana em grau algum. Entretanto, estava definitivamente consciente. Minha consciência era um conhecimento obscuro que me proporcionava confiança. Era uma confiança sem limites, uma certeza física de minha existência, não no sentido de um sentimento humano de individualidade, mas no sentido de uma presença que era tudo.

 

Então tudo entrou novamente em foco humano de uma só vez. La Catalina estava segurando minha mão. Caminhávamos sobre o solo do deserto, entre os arbustos. Tive a percepção imediata e desagradável de que as rochas do deserto e os duros torrões de solo eram dolorosamente ásperos a meus pés descalços. Chegamos a uma área limpa de vegetação. Dom Juan, e Genaro encontravam-se ali. Sentei-me e vesti-me.

 

Minha experiência com La Catalina atrasou nossa viagem de volta ao sul do México. Essa experiência perturbou-me de um modo indescritível. Em meu estado normal de consciência, fiquei dissociado. Era como se eu tivesse perdido um ponto de referência. Fiquei desanimado. Disse a Dom Juan que havia mesmo perdido meu desejo de viver.

 

Encontrávamo-nos sentados, distribuídos pela ramada da casa de Dom Juan. Meu carro estava carregado com sacos e estávamos prontos para partir, mas minha sensação de desespero venceu-me e comecei a chorar.

 

Dom Juan e Genaro riram até os olhos lacrimejarem. Quanto mais desesperado me sentia, maior era seu divertimento. Finalmente, Dom Juan fez-me mudar para a consciência intensificada e explicou que o riso não era indelicadeza da parte deles, ou resultado de um estranho senso de humor, mas a genuína expressão de felicidade ao ver-me avançar no caminho do conheci­mento.

 

— Vou lhe contar o que o nagual Julian sempre dizia para nós quando chegávamos no ponto em que você está — continuou Dom Juan. — Dessa maneira, saberá que não está só. O que aconteceu com você acontece a qualquer um que acumule energia suficiente para captar um vislumbre do desconhecido.

 

Contou que o nagual Julian costumava dizer-lhes que tinham sido despejados dos lares onde viveram todas as suas vidas. Um resultado de ter economizado energia havia sido o rompimento de seu ninho confortável, mas muito limitador e aborrecido no mundo da vida cotidiana. A sua depressão, dizia-lhes o nagual Julian, não era tanto a tristeza de haver perdido seu ninho, mas o aborrecimento por ter de procurar novas acomodações.

 

— As novas acomodações — continuou Dom Juan — não são tão confortáveis. Mas são infinitamente mais espaçosas.

 

"A sua notificação de despejo chegou sob forma de uma grande depressão, uma perda do desejo de viver, exatamente como aconteceu conosco. Quando você nos disse que não desejava viver, não pudemos evitar o riso."

 

— O que irá acontecer comigo agora?

 

— Usando de gíria, você mudou de departamento — replicou Dom Juan.

 

Dom Juan e Genaro entraram novamente em estado de grande euforia, e cada uma de suas afirmações e comentários faziam-nos rir histericamente.

 

— É tudo muito simples — disse Dom Juan. — Seu novo nível de energia irá criar um novo lugar para acomodar seu ponto de aglutinação. E o diálogo de guerreiros que você tem conosco cada vez que estamos juntos irá solidificar essa nova posição.

 

Genaro adotou uma aparência séria e numa voz trovejante perguntou-me: Você cagou hoje?

 

— Com um movimento de sua cabeça, incitou-me a responder.

 

— Cagou, cagou? — Cobrou ele. — Vamos continuar com nosso diálogo de guerreiros.

 

Quando o riso deles diminuiu, Genaro disse que eu tinha que estar preparado para uma recaída, para o fato de que, de tempos em tempos, o ponto de aglutinação retorna à sua posição original. Disse-me que, em seu próprio caso, a posição normal de seu ponto de aglutinação havia-o forçado a ver as pessoas como seres ameaçadores e muitas vezes aterrorizantes. Para seu completo espanto, um dia percebeu que tinha mudado. Estava consideravelmente mais ousado e lidava com sucesso com uma situação que ordinariamente o teria lançado no caos e no medo.

 

— Encontrei-me fazendo amor — continuou Genaro, e piscou para mim, — Geralmente tinha um pavor mortal das mulheres. Mas um dia encontrei-me na cama com uma mulher extremamente fogosa. Aquilo era tão estranho para mim que, quando percebi o que estava fazendo, quase tive um ataque do coração. O golpe fez meu ponto de aglutinação retornar à sua miserável posição normal, e tive de sair correndo da casa, tremendo como um coelho assustado.

 

— É melhor você tomar cuidado com a retração do ponto de aglutinação — acrescentou Genaro, e ambos estavam rindo novamente.

 

— A posição do ponto de aglutinação no casulo do homem

 

— explicou Dom Juan — é mantida pelo diálogo interno e, por causa disso, no melhor dos casos é uma posição frágil. É por isso que homens e mulheres perdem a razão com tanta facilidade, especialmente aqueles cujo diálogo interno é repetitivo, aborreci­do e sem qualquer profundidade.

 

— Os novos videntes dizem que os seres humanos mais joviais são aqueles cujo diálogo interno é mais fluido e variado.

 

Acrescentou que a posição do ponto de aglutinação do guerreiro é infinitamente mais forte, porque tão logo este ponto começa a deslocar-se no casulo cria uma mancha na luminosidade, uma mancha que acomoda o ponto de aglutinação daí por diante.

 

— Esse é o motivo pelo qual não podemos dizer que os guerreiros perdem a razão — continuou Dom Juan. — Se perdem alguma coisa, perdem sua mancha.

 

Dom Juan e Genaro acharam essa declaração tão hilariante que rolaram pelo chão rindo. Pedi a Dom Juan para explicar minha experiência com La Catalina. E ambos urraram novamente de riso.

 

— As mulheres são definitivamente mais bizarras do que os homens — disse Dom Juan finalmente.

 

"O fato de terem uma abertura extra entre as pernas faz com que sejam presas de influências estranhas. Forças estranhas poderosas possuem-nas através daquela abertura. Essa é a única maneira pela qual compreendo seus truques."

 

Ficou em silêncio por alguns momentos, e perguntei-lhe o que queria dizer com aquilo.

 

— La Catalina surgiu para nós como uma minhoca gigante — replicou.

 

A expressão de Dom Juan quando disse tal coisa e a explosão de riso em Genaro colocaram-me num estado de pura jovialidade. Ri até ficar quase doente.

 

Dom Juan afirmou que a habilidade de La Catalina era tão extraordinária que podia fazer qualquer coisa que desejasse no reino da besta. Sua representação sem paralelos havia sido motivada por sua afinidade comigo. O resultado final de tudo aquilo, disse ele, foi que La Catalina puxou meu ponto de aglutinação consigo.

 

— Que fizeram vocês dois como minhocas? — perguntou Genaro, e bateu em minhas costas.

 

Dom Juan pareceu estar próximo de sufocar de rir.

 

— Foi por isso que eu disse que as mulheres são mais bizarras que os homens — comentou.

 

— Não concordo com você — disse Genaro a Dom Juan. — O nagual Julian não tinha um buraco extra entre as pernas e era mais estranho do que La Catalina. Acredito que ela aprendeu o truque da minhoca com ele. Costumava fazer isso com ela.

 

Dom Juan saltou de um pé para outro, como uma criança que está tentando evitar molhar as calças.

 

Quando recuperou um pouco de sua calma, Dom Juan disse que o nagual Julian tinha certo talento para criar e explorar as situações mais bizarras. Disse também que La Catalina me havia proporcionado um exemplo soberbo da mudança para baixo. Ela me fizera vê-la como o ser cuja forma tinha adotado movendo seu ponto de aglutinação, e então ajudara-me a mover o meu para a mesma posição, que dava aquela aparência monstruosa.

 

— O outro mestre que o nagual Julian teve — continuou Dom Juan — ensinou-me como chegar a pontos específicos naquela imensidade da área baixa. Nenhum de nós conseguia segui-lo para lá, mas todos os membros de seu grupo conseguiram, especialmente La Catalina e a mulher vidente que a ensinara.

 

Dom Juan falou ainda que uma mudança para baixo implicava uma visão, não propriamente de outro mundo, mas de nosso próprio mundo da vida cotidiana, visto por uma perspectiva diferente. Acrescentou que, para que eu pudesse ver outro mundo, tinha de perceber outra grande faixa das emanações da Águia.

 

Pôs então um fim à sua explicação. Disse que não tinha tempo de falar mais sobre o assunto das grandes faixas de emanações porque tínhamos que nos colocar a caminho. Eu desejava ficar um pouco mais e continuar conversando, mas ele argumentou que necessitaria de um bom período de tempo para explicar aquele tópico e eu precisaria de concentração revigorada.

 

 

       Grandes Faixas de Emanações

 

Dias mais tarde, em sua casa no sul do México, Dom Juan continuou com sua explicação. Levou-me para o aposento grande. Começava a anoitecer. O aposento estava na obscuridade. Desejei acender os lampiões de querosene, mas Dom Juan não permitiu que o fizesse. Disse que eu tinha que deixar o som de sua voz deslocar meu ponto de aglutinação de modo que este brilhasse sobre as emanações de concentração total e memória total.

 

Falou-me então que iríamos conversar sobre as grandes faixas de emanações. Disse que eram outra descoberta-chave que os antigos videntes fizeram mas que, em sua aberração, eles a relegaram ao esquecimento, até ser resgatada pelos novos vi­dentes.

 

— As emanações da Águia estão sempre reunidas em aglomerados — continuou. — Os antigos videntes chamavam esses aglomerados de grandes faixas de emanações. Não são realmente faixas, mas o nome pegou.

 

"Por exemplo, há um aglomerado incomensurável que produz seres orgânicos. As emanações daquela faixa orgânica têm uma espécie de leveza. São transparentes e têm uma luz própria única, uma energia peculiar. São conscientes e saltam. Esta é a razão peta qual todos os seres orgânicos estão cheios de uma energia particular consumidora. As outras faixas são mais escuras, menos leves. Algumas delas não têm qualquer luz, mas uma qualidade opaca."

 

— Quer dizer, Dom Juan, que todos os seres orgânicos têm a mesma espécie de emanações no interior de seus casulos?

 

— Não. Não quis dizer isso. Não é realmente tão simples, embora os seres orgânicos pertençam à mesma grande faixa. Pense nela como uma faixa enormemente larga de filamentos luminosos; cordões luminosos sem fim. Os seres orgânicos são bolhas que crescem ao redor de um grupo de filamentos luminosos. Imagine que nessa faixa de vida orgânica algumas bolhas são formadas ao redor dos filamentos luminosos no centro da faixa, e outras são formadas perto das margens; a faixa é suficientemente larga para acomodar todo o tipo de seres orgânicos, com espaço de sobra. Em tal arranjo, as bolhas que estão próximas das margens da faixa não recebem as emanações que estão no centro, presentes apenas nas bolhas que estão alinhadas com o centro. Da mesma forma, as bolhas do centro não recebem as emanações das margens.

 

"Como você pode compreender, rodos os seres orgânicos estão ligados às emanações de uma faixa; entretanto, os videntes vêem que no interior dessa faixa orgânica os seres são tão diferentes quanto possível."

 

— Existem muitas dessas grandes faixas?

 

— Tantas quanto o próprio infinito. Os videntes descobri­ram, entretanto, que na terra existem apenas 48 de tais faixas.

 

— Qual é o significado disso, Dom Juan?

 

— Para os videntes, significa que há 48 tipos de organizações na terra, 48 tipos de feixes ou estruturas. A vida orgânica é um deles.

 

— Isto quer dizer que há 47 tipos de vida inorgânica?

 

— Não, de modo algum. Os antigos videntes contaram sete faixas que produziam bolhas inorgânicas de consciência; em outras palavras, há 40 faixas que produzem bolhas sem consciência; são faixas que geram apenas organização.

 

"Pense nas grandes faixas como em grandes árvores. Todas elas produzem frutos; produzem invólucros cheios de emanações: entretanto, apenas oito dessas árvores produzem frutos comestíveis, isto é, bolhas de consciência. Sete produzem frutos amargos, mas de qualquer forma comestíveis; e apenas uma tem o fruto mais suculento e saboroso que existe."

 

Riu e disse que em sua analogia havia tomado o ponto de vista da Águia, para a qual os bocados mais saborosos são as bolhas orgânicas de consciência.

 

— O que faz essas oito faixas produzirem consciência?

 

— A Águia lhes confere consciência através de suas emanações.

 

Sua resposta fez-me discutir com ele. Afirmei que dizer que a Águia confere consciência através de suas emanações é semelhante ao que um homem religioso diria sobre Deus, que Deus confere vida através do amor. Isso não significa nada.

 

— As duas colocações não são feitas do mesmo ponto de vista — disse ele, pacientemente. — Entretanto, creio que significam a mesma coisa.

 

A diferença é que os videntes vêem como a Águia confere consciência através de suas emanações, e os homens religiosos não vêem como Deus confere vida através de seu amor.

 

Disse que a Águia confere consciência através de três feixes gigantes de emanações que correm através de oito grandes faixas. Esses feixes são bastante peculiares, porque fazem os videntes sentirem uma coloração. Um feixe dá a sensação de ser bege-rosado, algo semelhante ao brilho de lâmpadas de sódio; outro dá a sensação de ser cor de pêssego, como luzes de neon desfocadas; e o terceiro feixe dá a sensação de ser âmbar, como mel claro.

 

— Assim, quando os videntes vêem que a Águia confere consciência através de suas emanações, eles vêem uma coloração — continuou. — Os homens religiosos não vêem o amor de Deus, mas se o vissem, saberiam que é ou cor-de-rosa, ou pêssego, ou âmbar.

 

"O homem, por exemplo, está ligado ao feixe âmbar, mas outros seres também estão."

 

Eu quis saber que seres também estavam ligados a tais emanações.

 

— Detalhes como esse você terá que descobrir sozinho, através de sua própria visão. Não há nenhuma vantagem em dizer-lhe quais são esses seres; você estará apenas fazendo outro inventário, É suficiente dizer que descobrir isso por si mesmo será uma das coisas mais excitantes que você irá fazer.

 

— Os feixes rosa e pêssego aparecem no homem?

 

— Nunca. Esses feixes pertencem a outros seres vivos — replicou.

Eu estava a ponto de fazer outra pergunta, mas, com um movimento forte da mão, Dom Juan fez-me sinal para que parasse. Mergulhou então em seus pensamentos. Passamos muito tempo envoltos em silêncio completo.

 

— Contei-lhe que o brilho da consciência no homem tem cores diferentes — disse finalmente. — O que não lhe contei então, porque não havíamos chegado ainda a esse ponto, foi que não são cores, mas tonalidades de âmbar.

 

Disse que o feixe âmbar de consciência tem uma infinidade de variantes sutis, que sempre denotam diferenças na qualidade da consciência. O âmbar rosado e o verde-pálido são as tonalidades mais comuns. Âmbar-azulado é mais incomum, mas âmbar puro é de longe o mais raro.

 

— O que determina as diferentes tonalidades de âmbar?

 

— Os videntes dizem que é a quantidade de energia que uma pessoa poupa e armazena. Números incontáveis de guerreiros começaram com uma tonalidade âmbar rosada comum e termina­ram com o mais puro de todos os âmbares, Genaro e Silvio Manuel são exemplos disso.

 

— Que formas de vida estão ligadas aos feixes cor-de-rosa e pêssego de consciência?

 

— Os três feixes, com todas as suas tonalidades, entremeiam as oito faixas — replicou. — Na faixa orgânica, o feixe cor-de-rosa está ligado principalmente às plantas, o de cor de pêssego, aos insetos, e o âmbar ao homem e a outros animais. A mesma situação prevalece nas faixas inorgânicas. Os três feixes de consciência produzem tipos específicos de seres inorgânicos em cada uma das sete grandes faixas.

 

Pedi que falasse mais sobre os tipos de seres inorgânicos que existiam.

 

— Esta é outra coisa que você precisa ver por si mesmo — disse ele, — Há sete faixas e o que produzem são, com efeito, inacessíveis à razão humana, mas não à visão humana.

 

Disse-lhe que não conseguia realmente compreender sua explicação das grandes faixas, porque sua descrição me havia forçado a imaginá-las como feixes independentes de cordões, ou mesmo como faixas achatadas, semelhantes a correias transportadoras.

 

Dom Juan explicou que as grandes faixas não são achatadas nem redondas, mas indescritivelmente entrelaçadas, como um feixe de feno que fosse mantido coeso em pleno ar pela força da mão que o juntou. Assim, não há ordem para as emanações; dizer que existe uma parte central ou que há margens é enganoso, mas necessário à compreensão. Continuando, explicou que os seres inorgânicos produzidos peias outras sete faixas de consciência são caracterizados por terem um invólucro que não possui movimento; é mais como um receptáculo disforme, com baixo grau de luminosidade. Não se parece com o casulo dos seres orgânicos. Falta-lhe a tensão, a qualidade inflada que faz os seres orgânicos parecerem bolhas luminosas repletas de energia.

 

Dom Juan disse que a única semelhança entre os seres inorgânicos e os orgânicos é que todos possuem as emanações cor-de-rosa, pêssego ou âmbar, que conferem consciência.

 

— Essas emanações, sob certas circunstâncias — continuou —, tornam possível a comunicação mais fascinante entre os seres das oito grandes faixas.

 

Disse que geralmente os seres orgânicos, com seus campos de energia maiores, são os iniciadores da comunicação com os seres inorgânicos, mas que a continuação desse relacionamento, sutil e sofisticada, é sempre conduzida por seres inorgânicos. Quando a barreira é quebrada, os seres inorgânicos mudam e tomam-se o que os videntes chamam de aliados, A partir desse momento, os seres inorgânicos podem prever os mais sutis pensamentos, estados de espírito ou temores do vidente.

 

— Os antigos videntes ficaram mesmerizados por esta devoção de seus aliados — continuou. — As histórias dizem que os antigos videntes podiam fazer com que seus aliados atendessem a tudo que desejavam. Essa foi uma das razões para acreditarem em sua própria invulnerabilidade. Foram enganados por sua vaidade. Os aliados têm poder somente se o vidente que os vê for um modelo da impecabilidade, o que não era o caso desses antigos videntes.

 

— Existem tantos seres inorgânicos quantos organismos vivos?

 

Dom Juan respondeu que os seres inorgânicos não são tão numerosos como os orgânicos, mas que isso é compensado pelo número maior de faixas de consciência inorgânica. Disse também que as diferenças entre os próprios seres inorgânicos são muito mais vastas do que as diferenças entre os organismos, porque os organismos estão ligados apenas a uma faixa, enquanto os seres inorgânicos estão ligados a sete.

 

— Além disso, os seres inorgânicos vivem infinitamente mais tempo que os orgânicos — continuou. — Esse aspecto t que estimulava os antigos videntes a concentrarem sua visão sobre os aliados, por motivos que lhe revelarei mais tarde.

 

Disse que os antigos videntes também chegaram a perceber que é a alta energia dos organismos e o subseqüente alto desenvolvimento de sua consciência que faz deles bocados delicio­sos para a Águia. Na visão dos antigos videntes, a gulodice era a razão pela qual a Águia produzia o maior número possível de organismos.

 

Explicou em seguida que o produto das outras 40 grandes faixas não é a consciência, mas uma configuração de energia inanimada. Os antigos videntes resolveram chamar de vasilhas o produto dessas faixas. Enquanto os casulos e recipientes são campos de consciência energética, o que concorre para sua luminosidade independente, as vasilhas são receptáculos rígidos que prendem emanações sem serem campos de consciência energética. Sua luminosidade provém apenas da energia das emanações aprisionadas.

 

— Você precisa ter em mente que tudo o que existe na terra está aprisionado — continuou. — Tudo o que percebemos é construído de partes de casulos ou vasilhas com emanações. Geralmente, não percebemos de maneira alguma os receptáculos dos seres inorgânicos.

 

— Olhou-me, esperando por um sinal de compreensão. Quando percebeu que não iria interpelá-lo, continuou explicando.

 

— O mundo total é feito de 48 faixas — disse. — O mundo que nosso ponto de aglutinação aglomera para nossa percepção normal é construído de duas faixas; uma é a faixa orgânica, a outra é somente uma faixa que tem apenas estrutura, mas não consciên­cia. As outras 46 grandes faixas não fazem parte do mundo que percebemos normalmente.

 

Fez outra pausa para perguntas pertinentes. Eu não tinha nenhuma.

 

— Existem outros mundos completos que nossos pontos de aglutinação podem aglomerar. Os antigos videntes contaram sete de tais mundos, um para cada faixa de consciência. Dois desses mundos, ao lado do mundo da vida cotidiana, são fáceis de concatenar. Os outros cinco são outra coisa.

 

Quando nos sentamos novamente para conversar, Dom Juan começou de imediato a falar sobre minha experiência com La Catalina. Disse que o deslocamento do ponto de aglutinação para a área abaixo de sua posição costumeira permite ao vidente uma visão detalhada e estreita do inundo que conhecemos. Essa visão é tão detalhada que parece ser um mundo inteiramente diferente. É uma visão fascinante, de um apelo tremendo, especialmente para aqueles videntes que têm um espírito aventureiro, mas algo indolente e preguiçoso.

 

— A mudança de perspectiva é muito agradável — continuou Dom Juan. — Requer um esforço mínimo, e os resultados são surpreendentes. Se o vidente é motivado pelo ganho rápido, não há manobra melhor do que a mudança para baixo. O único problema é que, nessas posições do ponto de aglutinação, os videntes são* perseguidos pela morte, que ocorre mais rápida e mais brutalmente do que na posição do homem.

 

"O nagual Julian achava que era um ótimo lugar para brincar, mas só isso."

 

Disse que uma verdadeira mudança de mundos acontece apenas quando o ponto de aglutinação se desloca para dentro da faixa do homem, suficientemente fundo para alcançar um limiar crucial, estágio no qual o ponto de aglutinação pode usar outra das grandes faixas.

 

— Como elas são usadas? Dom Juan encolheu os ombros.

 

— É uma questão de energia. A força de alinhamento fisga outra faixa, desde que o vidente tenha energia suficiente. Nossa energia normal permite aos nossos pontos de aglutinação usar a força de alinhamento de uma grande faixa de emanações. E percebemos o mundo que conhecemos. Mas se tivermos uma reserva de energia podemos usar a força de alinhamento de outras grandes faixas, e conseqüentemente percebemos outros mundos.

 

Dom Juan mudou abruptamente o tema, e começou a falar sobre plantas.

 

— Pode parecer uma bobagem para você, mas as árvores, por exemplo, estão mais próximas do homem que as formigas. Já disse a você que as árvores e o homem podem desenvolver um grande relacionamento; e assim é porque compartilham emanações.

 

— Qual o tamanho de seus casulos?

 

— O casulo de uma árvore gigante não é muito maior do que a própria árvore. A parte interessante é que algumas pequenas plantas têm um casulo quase tão grande quanto o corpo de um homem, três vezes a sua largura. São as plantas de poder. Elas têm a maior quantidade de emanações em comum com o homem, não as emanações da consciência, mas outras emanações em geral.

 

"Outra coisa única em relação às plantas é que suas luminosidades têm tonalidades diferentes, São rosadas, em geral, porque sua consciência é cor-de-rosa. Plantas venenosas são de um rosa amarelado pálido e as plantas medicinais têm um rosa violáceo brilhante. As únicas que são rosa-esbranquiçadas são as plantas de poder. Algumas são de um branco opaco, outras de um branco brilhante.”

 

"Mas a diferença real entre as plantas e outros seres orgânicos é a localização de seus pontos de aglutinação. O das plantas fica na parte inferior do casulo, enquanto em outros seres orgânicos fica na parte superior."

 

— E quanto aos seres inorgânicos? Onde ficam seus pontos de aglutinação?

 

— Em alguns deles, na parte inferior de seus recipientes. Estes são completamente estranhos ao homem, mas aparentados às plantas. Em outros, fica em qualquer lugar da parte superior dos recipientes. Estes são próximos ao homem e às outras criaturas orgânicas.

 

Acrescentou que os antigos videntes estavam convencidos de que as plantas têm uma comunicação intensa com os seres inorgânicos. Acreditavam eles que quanto mais baixo fosse o ponto de aglutinação, mais fácil era para as plantas quebrar a barreira da percepção; árvores muito grandes e planta muito pequenas possuem os pontos de aglutinação extremamente baixos em seus casulos. Por causa disso, boa parte das técnicas de feitiçaria dos antigos videntes visava a aproveitar a consciência das árvores e pequenas plantas para usá-las como guias na descida ao que chamavam de mais profundos níveis das regiões obscuras.

 

— Você compreende, é claro — continuou Dom Juan — que quando pensavam estar descendo às profundezas, estavam, na verdade, deslocando seus pontos de aglutinação para aglomerar outros mundos perceptíveis com as sete grandes faixas.

 

"Forçaram sua consciência ao limite e aglutinaram mundos com cinco grandes faixas, acessíveis aos videntes somente quando estes se submetem a uma perigosa transformação."

 

— Mas os antigos videntes tiveram sucesso na aglomeração desses mundos?

 

— Tiveram. Em sua aberração, acreditaram que valia a pena romper todas as barreiras da percepção, mesmo se tivessem de transformar-se em árvores para fazê-lo.

 

 

       Espreita, Intenção, e a Posição de Sonho

 

No dia seguinte, novamente ao anoitecer, Dom Juan veio ao aposento onde eu estava conversando com Genaro. Segurou-me pelo braço e dirigiu-me através da casa para o pátio dos fundos. Já estava bastante escuro. Começamos a caminhar pelo corredor que rodeava o pátio.

 

Enquanto caminhávamos, Dom Juan disse-me que desejava prevenir-me mais uma vez de que é muito fácil, no caminho do conhecimento, perder-se na confusão e na morbidez. Disse que os videntes defrontara-se com grandes inimigos que podem destruir seu propósito, minar seus objetivos e torná-los fracos; inimigos criados pelo próprio caminho do guerreiro juntamente com as sensações de indolência, preguiça e vaidade que são partes integrantes de nosso mundo diário. Observou que os enganos que os antigos videntes cometeram como resultado de indolência, preguiça e vaidade eram tão grandes, tão graves, que os novos videntes não tiveram escolha senão maldizer e rejeitar sua própria tradição.

 

— A coisa mais importante que os novos videntes precisavam — continuou Dom Juan — eram passos práticos para deslocar seus pontos de aglutinação. Como não tinham nenhum, começa­ram a desenvolver um intenso interesse por ver o brilho da consciência, e assim desenvolveram três conjuntos de técnicas que se tornaram sua pedra angular.

 

Dom Juan disse que, com esses três conjuntos, os novos videntes executaram um feito extraordinário e difícil. Consegui­ram fazer o ponto de aglutinação deslocar-se sistematicamente de sua posição costumeira. Reconheceu que os antigos videntes também haviam realizado esse feito, mas por meio de manobras caprichosas, idiossincráticas.

 

Explicou que a visão que os novos videntes tiveram do brilho da consciência resultou na seqüência em que organizaram as verdades dos antigos videntes sobre a consciência. Isto é conheci­do como o domínio da consciência. A partir daí, desenvolveram os três conjuntos de técnicas. O primeiro é o domínio da espreita, o segundo, o domínio da intenção, e o terceiro, o domínio do sonho. Insistiu que me ensinava esses três conjuntos desde o primeiro dia em que nos conhecemos.

 

Disse-me que havia ensinado o domínio da consciência de dois modos, exatamente como os novos videntes recomendam. Em seus ensinamentos para o lado direito, ministrados durante minha consciência normal, atingiu dois objetivos: ensinou-me o caminho dos guerreiros e afrouxou meu ponto de aglutinação de sua posição original. Em seus ensinamentos para o lado esquerdo, ministrados enquanto eu me encontrava em consciência intensificada, também atingiu dois objetivos: fez meu ponto de aglutinação deslocar-se para tantas posições quantas fui capaz de sustentar, e deu-me uma longa série de explicações.

 

Dom Juan parou de falar, e olhou-me fixamente. Houve um silêncio desajeitado; então começou a falar sobre a espreita. Disse que a espreita teve origens muito humildes e acidentais. Partiu da observação feita pelos novos videntes de que, quando os guerreiros se comportam por algum tempo de modo fora do habitual, as emanações não usadas no interior de seus casulos começam a brilhar. E seus pontos de aglutinação se deslocam de maneira suave, harmoniosa, muito pouco perceptível.

 

Estimulados por essa observação, os novos videntes começa­ram a praticar o controle sistemática do comportamento. Chama­ram a essa prática arte da espreita. Dom Juan comentou que, embora discordasse do nome, ele era apropriado, porque a espreita envolvia um tipo específico de comportamento diante das pessoas, um comportamento que poderia ser categorizado como sub-reptício.

 

Os novos videntes, armados com essa técnica, sondaram o conhecido de uma maneira sóbria e frutífera. Pela prática contínua, fizeram seus pontos de aglutinação se deslocar constantemente.

 

— A espreita é uma das duas maiores realizações dos novos videntes. Eles decidiram que deveria ser ensinada ao nagual dos dias modernos quando seu ponto de aglutinação já se tivesse deslocado bem profundamente para o lado esquerdo. O motivo desta decisão é que um nagual precisa aprender os princípios da espreita sem o incômodo do inventário humano. Afinal, o nagual é o líder de um grupo, e para liderá-lo deve agir rapidamente, sem ter que pensar primeiro.

 

"Outros guerreiros podem aprender a espreitar em sua consciência normal, embora seja aconselhável que o façam em consciência intensificada... não tanto por causa do valor da consciência intensificada, mas porque isto imbui a espreita de um mistério que ela na verdade não possui; espreitar é meramente um comportamento diante das pessoas."

 

Disse ainda que eu podia agora compreender que mudar o ponto de aglutinação era a razão pela qual os novos videntes atribuíam um valor tão alto à interação com os pequenos tiranos. Os pequenos tiranos forçavam os videntes a usar os princípios da espreita e, ao fazê-lo, ajudavam-nos a deslocar seus pontos de aglutinação.

 

Perguntei-lhe se os antigos videntes sabiam alguma coisa sobre os princípios da espreita.

 

— A espreita foi desenvolvida exclusivamente pelos novos videntes — falou, sorrindo. — São os únicos videntes que tiveram de lidar com pessoas. Os antigos estavam tão enredados em seu sentido de poder que só foram perceber que as pessoas existiam quando elas começaram a bater-lhes nas cabeças. Mas você já sabe de tudo isso.

Dom Juan disse em seguida que o domínio da intenção, juntamente com o domínio da espreita são as duas obras-primas dos novos videntes, que marcam o advento dos videntes dos dias de hoje. Explicou que em seus esforços para obter uma vantagem sobre seus opressores os novos videntes perseguiam cada possibilidade. Sabiam que seus predecessores haviam executado feitos extraordinários, manipulando uma força misteriosa e miraculosa que só podiam descrever como poder. Os novos videntes tinham muito pouca informação sobre essa força, de modo que foram obrigados a examiná-la sistematicamente através da visão. Seus esforços foram amplamente recompensados quando descobriram que a energia de alinhamento é essa força.

 

Começaram por ver como o brilho da consciência aumenta em tamanho e intensidade quando as emanações no interior do casulo são alinhadas com as emanações livres. Usaram essa observação como trampolim, exatamente como haviam feito com a espreita, e passaram a desenvolver uma complexa série de técnicas para manejar esse alinhamento de emanações.

 

Inicialmente, referiam-se a essas técnicas como o domínio do alinhamento. Perceberam então que o que estava em jogo era muito mais do que o alinhamento; era a energia produzida pelo alinhamento de emanações. A essa energia chamaram vontade. A vontade tornou-se a segunda base. Os novos videntes compreenderam-na como uma explosão cega, impessoal e incessante de energia que nos faz agir do modo como o fazemos. A vontade responde por nossa percepção do inundo dos eventos comuns e, indiretamente, através da força dessa percepção, responde pela localização do ponto de aglutinação em sua posição costumeira.

 

Dom Juan disse que os novos videntes examinaram como tem lugar a percepção do mundo da vida cotidiana e viram os efeitos da vontade. Viram que o alinhamento é incessantemente renovado, de maneira a dar um sentido de continuidade à percepção. Para sempre renovar o alinhamento com o frescor de que este necessita para produzir um mundo vivo, a explosão de energia que sai desses mesmos alinhamentos é automaticamente redirecionada para reforçar alguns alinhamentos especiais.

 

Essa nova observação serviu aos novos videntes como outro trampolim, que os ajudou a atingir a terceira base do conjunto. Chamaram-na intenção, e descreveram-na como a orientação proposital da vontade, a energia do alinhamento.

 

— Silvio Manuel, Genaro e Vicente foram levados pelo nagual Julian a aprender esses três aspectos do conhecimento dos videntes. Genaro é o mestre da manipulação da consciência, Vicente o mestre da espreita, e Silvio Manuel o mestre da intenção.

 

"Vamos agora a uma explicação final do domínio da consciência; é por isso que Genaro o está ajudando."

 

Dom Juan falou às aprendizes mulheres por um longo tempo. Elas ouviam-no com expressões sérias em suas faces. Tive certeza de que ele estava dando instruções detalhadas sobre difíceis procedi­mentos, a julgar pela profunda concentração de todas.

 

Havia sido excluído de sua reunião, mas as observara enquanto conversavam na sala da frente da casa de Genaro, Sentei-me à mesa da cozinha, esperando até que terminassem. Então as mulheres levantaram-se para partir, mas antes de fazê-lo vieram à cozinha com Dom Juan. Ele sentou-se à minha frente, enquanto as mulheres falavam comigo com desajeitada formalidade. Na realidade, chegaram até mesmo a abraçar-me. Todas elas estavam incomumente amigáveis, e até mesmo loquazes. Disseram que iam juntar-se aos aprendizes homens, que haviam saído com Genaro horas antes. Genaro ia mostrar a todos o seu corpo sonhador.

 

Assim que as mulheres partiram, Dom Juan retomou abruptamente sua explicação. Disse que à medida que o tempo passava e os novos videntes estabeleciam suas práticas, perceberam que, sob as condições prevalecentes da vida, espreitar deslocava muito pouco os pontos de aglutinação. Para efeito máximo, a espreita necessitava de uma localização ideal; necessitava de pequenos tiranos em posições de grande autoridade e poder. Tornou-se cada vez mais difícil para os novos videntes se colocarem a si próprios em tais situações; a tarefa de improvisá-las ou procurá-las tornou-se uma carga insuportável.

 

Os novos videntes julgaram imperativo ver as emanações da Águia para encontrar uma maneira mais adequada de deslocar o ponto de aglutinação. Quando tentaram ver as emanações, foram confrontados com um problema sério. Descobriram que não há maneira de ver as emanações sem correr um risco mortal, e no entanto tinham de vê-las. Essa foi a época em que usaram a técnica de sonhar dos antigos videntes como um escudo para proteger-se do golpe mortal das emanações da Águia. E, ao agir assim, perceberam que sonhar era na verdade o modo mais eficiente de deslocar o ponto de aglutinação.

 

— Um dos princípios mais estritos dos novos videntes — continuou Dom Juan — era o de que os guerreiros têm de aprender a sonhar enquanto estão em seu estado normal de consciência. Seguindo este princípio, comecei a ensinar-lhe a sonhar praticamente desde o primeiro dia em que nos vimos.

 

— Por que os novos videntes determinam que sonhar deve ser ensinado em consciência normal?

 

— Porque sonhar é muito perigoso, e os sonhadores muito vulneráveis. È perigoso porque tem um poder inconcebível; toma os sonhadores vulneráveis parque os deixa à mercê da força incompreensível do alinhamento.

 

"Os novos videntes perceberam que em nosso estado normal de consciência temos incontáveis defesas que podem resguardar-nos contra a força de emanações inusuais, que subitamente se alinham durante o sonho."

 

Dom Juan explicou que sonhar, assim como espreitar, começava com uma simples observação. Os antigos videntes tiveram consciência de que nos sonhos o ponto de aglutinação se desloca ligeiramente para a esquerda, de maneira natural. Com efeito, o ponto de aglutinação relaxa quando o homem dorme, e todos os tipos de emanações inusuais começam a brilhar.

 

Os antigos videntes ficaram imediatamente intrigados com esta observação e começaram a trabalhar com esse deslocamento natural até se tornarem capazes de controlá-lo. Chamaram esse controle de sonhar, ou a arte de manejar o corpo sonhador.

 

Observou que não há maneira de descrever a imensidão do conhecimento dos antigos videntes sobre sonhar. Muito pouco deste, entretanto, teve qualquer utilidade para os novos videntes. Assim, quando chegou o tempo da reconstrução, os novos videntes conservaram apenas os elementos essenciais de sonhar para ajudá-los a ver as emanações da Águia e a deslocar seus pontos de aglutinação.

 

Disse que os videntes, antigos e novos, compreendem sonhar como o controle do deslocamento natural que o ponto de aglutinação sofre durante o sono. Salientou que controlar essa mudança não quer dizer de modo algum dirigi-la, mas manter o ponto de aglutinação fixo na posição para onde se desloca naturalmente durante o sono, manobra extremamente difícil que exigiu enorme esforço e concentração dos antigos videntes.

 

Dom Juan explicou que os sonhadores precisam atingir um equilíbrio muito sutil, pois os sonhos não podem sofrer interferência, assim como não podem ser comandados pelo esforço consciente do sonhador. Por outro lado, o deslocamento dos pontos de aglutinação deve obedecer ao comando do sonhador — uma contradição que não pode ser racionalizada, mas que precisa ser resolvida na prática.

 

Após observar os sonhadores enquanto dormiam, os antigos videntes encontraram a solução, deixando os sonhos seguirem seu curso natural. Tinham visto que, em alguns sonhos, o ponto de aglutinação do sonhador penetraria consideravelmente mais fundo no lado esquerdo do que em outros. Essa observação fê-los pensar se é o conteúdo do sonho que faz o ponto de aglutinação deslocar-se, ou se o próprio movimento do ponto de aglutinação produz o conteúdo do sonho ao ativar emanações não utilizadas.

 

Logo perceberam que é o deslocamento do ponto de aglutinação para o lado esquerdo que produz os sonhos. Quanto mais amplo é o movimento, mais vívidos e bizarros eles são. Inevitavelmente, tentaram comandar seus sonhos, almejando fazer com que seus pontos de aglutinação se deslocassem mais profundamente para o lado esquerdo. Ao tentá-lo, descobriram que, quando os sonhos são manipulados consciente ou semiconscientemente, o ponto de aglutinação retorna imediatamente ao seu lugar usual. Como desejavam que esse ponto se deslocasse, chegaram à inevitável conclusão de que interferir com os sonhos era interferir com o deslocamento natural do ponto de aglutinação.

 

Dom Juan disse que os antigos videntes continuaram desenvolvendo seu impressionante conhecimento sobre o assunto — um conhecimento que tinha um valor tremendo para o que os novos videntes aspiravam fazer com o sonho, mas que lhes era de pouca utilidade em sua forma original.

 

Disse-me que até aí eu tinha compreendido sonhar como sendo controle dos sonhos, e que todos os exercidos que ele me havia proposto para executar, tais como encontrar minhas mãos em meus sonhos, não eram, embora pudesse parecer o contrário, destinados a ensinar-me a comandar meus sonhos. Aqueles exercícios destinavam-se a manter meu ponto de aglutinação fixo num lugar para o qual se deslocara durante o sono. É nesse ponto que os sonhadores devem atingir um equilíbrio sutil. Tudo que podem dirigir é a fixação de seus pontos de aglutinação. Os videntes são como pescadores equipados com uma linha que se agarra em qualquer parte; a única coisa que podem fazer é manter a linha ancorada no ponto em que afunda.

 

— O lugar para onde o ponto de aglutinação se desloca nos sonhos é chamado de posição de sonho — continuou. — Os antigos videntes ficaram tão especializados em manter sua posição de sonho que eram até mesmo capazes de acordar enquanto seus pontos de aglutinação estavam ancorados ali.

 

“Os antigos videntes chamavam a esse estado de corpo sonhador, porque controlavam-no ao extremo de criar um novo corpo temporário a cada vez que acordassem em uma nova posição de sonho”.

 

"Devo esclarecer-lhe que sonhar tem um terrível obstáculo" continuou. "Pertence aos antigos videntes. Está impregnado de seu espírito. Fui muito cuidadoso ao guiá-lo através disso, mas ainda assim não há maneira de estar seguro."

 

— Sobre o que está me prevenindo, Dom Juan?

 

— Estou prevenindo-o sobre as ciladas de sonhar, que são verdadeiramente estupendas. No sonho não há realmente qual­quer maneira de dirigir o deslocamento do ponto de aglutinação: a única coisa que dita essa mudança é a força ou a fraqueza interior dos sonhadores. Exatamente aí temos a primeira armadilha.

 

Disse que, de início, os novos videntes hesitaram em usar o sonho. Acreditavam que sonhar, em lugar de fortalecer, tomava os guerreiros fracos, compulsivos, caprichosos. Os antigos videntes eram todos assim. Para contrabalançar o efeito nefasto de sonhar, como não tinham outra opção senão usá-lo, os novos videntes desenvolveram um rico e complexo sistema de comporta­mento chamado o caminho do guerreiro, ou a trilha do guerreiro.

 

Com esse sistema, os novos videntes se fortaleceram e adquiriram força interior necessária para guiar o deslocamento do ponto de aglutinação nos sonhos. Dom Juan salientou que a força sobre a qual estava falando não era apenas convicção. Ninguém poderia ter convicções mais fortes do que os antigos videntes, e ainda assim eles eram fracos até o âmago. Força interna significava um sentido de equanimidade, quase de indiferença, uma sensação de estar à vontade, mas, acima de tudo, uma inclinação natural e profunda pelo exame, pela compreensão. Os novos videntes chamaram todos esses traços de caráter de sobriedade.

 

— A convicção que os novos videntes têm — continuou — é de que uma vida de impecabilidade leva inevitavelmente ao sentido de sobriedade, e este por sua vez leva ao deslocamento do ponto de aglutinação.

 

Disse ainda que os novos videntes acreditavam que o ponto de aglutinação pode ser deslocado de dentro. Eles deram mais um passo e afirmaram que homens impecáveis não necessitam de ninguém para guiá-los, e sozinhos, através da economia de sua energia, podem fazer tudo que os videntes fazem. Tudo o que necessitam é de uma chance mínima, a de terem conhecimento das possibilidades que os videntes desvendaram.

 

Disse-lhe que retornáramos à mesma posição em que estivéramos em meu estado normal de consciência. Ainda estava convencido de que a impecabilidade ou economia de energia era algo tão vago que poderia ser interpretado por qualquer um segundo seus caprichos.

 

Desejava falar mais para reforçar meu argumento, mas uma estranha sensação assaltou-me. Era uma sensação física, real, de que me precipitava através de algo. E rebati então meu próprio argumento. Soube, sem qualquer dúvida, que Dom Juan tinha razão. Tudo o que é necessário é a impecabilidade, energia, e isto se inicia com um ato singular, que deve ser deliberado, preciso e constante. Se esse ato é repetido por tempo suficiente, a pessoa adquire um sentido de intenção inflexível, que pode ser aplicado a qualquer outra coisa. Se isso é realizado, o caminho está aberto. Uma coisa levará a outra até que o guerreiro descubra seu potencial completo.

 

Quando disse a Dom Juan o que havia acabado de descobrir, ele riu com aparente satisfação e exclamou que esse era realmente um exemplo perfeito da força sobre a qual estava falando. Explicou que meu ponto de aglutinação mudara e que havia sido deslocado, pela sobriedade, a uma posição que proporcionava compreensão. Poderia da mesma forma ter sido movido, pelo capricho, a uma posição que apenas ressaltasse a vaidade, como ocorrera muitas vezes antes.

 

— Vamos falar agora sobre o corpo sonhador — continuou. — Os antigos videntes concentraram parte de seus esforços em desvendar e explorar o corpo sonhador. E foram bem sucedidos usando-o como um corpo mais prático, o que quer dizer que recriavam-se de maneiras cada vez mais estranhas.

 

Dom Juan afirmou que os novos videntes sabem que muitos dos antigos feiticeiros nunca voltaram após despertar em uma posição de sonho de seu agrado. Disse que provavelmente todos morreram naqueles mundos inconcebíveis, ou podem ainda estar vivos hoje, em uma forma ou maneira retorcida.

 

Parou e olhou-me, caindo em grande risada.

 

— Você está louco para perguntar-me o que os antigos videntes faziam com o corpo sonhador, não está? — indagou, apressando-me com o movimento do queixo a formular a pergunta.

 

Dom Juan afirmou que Genaro, o mestre incontestável da consciência, havia-me mostrado o corpo sonhador muitas vezes enquanto eu estava em estado de consciência normal. O efeito que Genaro desejava com suas demonstrações era fazer meu ponto de aglutinação deslocar-se, não de uma posição de consciência intensificada, mas de sua localização normal.

 

Dom Juan disse-me então, como se estivesse desvendando um segredo, que Genaro esperava por nós em certo local perto da casa, para mostrar-me seu corpo sonhador. Repetiu várias vezes que me encontrava agora no estado perfeito de consciência para ver e compreender o que o corpo sonhador é na verdade. Fez-me levantar depois e atravessamos o aposento da frente até a porta. Quando estava por abri-la, percebi que havia alguém deitado sobre a pilha de esteiras que os aprendizes usavam como camas. Pensei que um deles voltara à casa enquanto Dom Juan e eu conversávamos na cozinha.

 

Aproximei-me, e percebi então que era Genaro. Estava profundamente adormecido, ressonando pacificamente, com o rosto voltado para baixo.

 

— Acorde-o — disse-me Dom Juan. — Temos de ir andando. Ele deve estar muito cansado.

 

Sacudi suavemente Genaro. Vagaroso, girou sobre si mesmo, emitindo os sons de alguém que acorda de um sono profundo. Estendeu os braços, e depois abriu os olhos. Gritei sem querer e saltei para trás, Os olhos de Genaro não eram absolutamente olhos humanos. Eram dois pontos de intensa luz âmbar. Meu susto foi tão violento que fiquei tonto. Dom Juan bateu em minhas costas e restaurou meu equilíbrio.

 

Genaro levantou-se e sorriu-me. Suas feições estavam rígidas. Movia-se como um bêbado ou alguém fisicamente enfraquecido. Passou por mim e dirigiu-se diretamente para a parede. Encolhi-me diante do choque iminente, mas atravessou a parede como se ela não estivesse ali. Voltou para o aposento através da entrada da cozinha. Então, enquanto eu olhava com verdadeiro horror, Genaro caminhou pelas paredes, com seu corpo paralelo ao solo, e pelo teto, com a cabeça para baixo.

 

Caí para trás quando tentei seguir seus movimentos. Daquela posição não vi mais Genaro; em vez disso, estava olhando para uma bolha de luz que se movia no teto acima de mim e nas paredes, circulando pelo quarto. Era como se alguém com uma lanterna gigante estivesse dirigindo seu facho para o teto e para as paredes. O facho de luz finalmente se apagou. Sumiu de vista, desaparecendo de encontro à parede.

 

Dom Juan comentou que meu medo animal era sempre fora de medida, que eu devia lutar para mantê-lo sob controle, mas, em tudo e por tudo, comportara-me muito bem. Vira o corpo sonhador de Genaro como é realmente, uma bolha de luz.

Perguntei-lhe como estava tão seguro de eu ter feito isso. Replicou que havia visto meu ponto de aglutinação mover-se primeiro na direção de sua posição normal de modo a compensar meu pavor, depois mover-se mais profundamente para a esquerda, além do ponto onde não existem duvidas.

 

— Nesta posição existe apenas uma coisa que uma pessoa pode ver. bolhas de luz — continuou. — Mas da consciência intensificada a esse outro ponto mais profundo do lado esquerdo é apenas um pequeno pulo. O verdadeiro feito é fazer o ponto de aglutinação mudar de sua localização normal ao local onde não há dúvidas.

 

Acrescentou que ainda tínhamos um encontro com o corpo sonhador de Genaro nos campos ao redor da casa, enquanto me encontrava em consciência normal.

 

Quando estávamos de volta à casa de Silvio Manuel, Dom Juan disse que a competência de Genaro com o corpo sonhador era um caso bastante simples, comparado com o que os antigos videntes faziam.

 

— Verá isso muito breve — afirmou em tom sinistro, e riu.

 

Interroguei-o a respeito com medo crescente, e aquilo apenas provocou mais riso. Finalmente, disse que ia falar sobre a maneira como os novos videntes chegaram ao corpo sonhador e como o usavam.

 

— Os antigos videntes estavam procurando uma réplica perfeita do corpo — continuou. — E quase conseguiram. A única coisa que nunca conseguiram copiar foram os olhos. Em lugar de olhos, o corpo sonhador tem simplesmente o brilho da consciên­cia. Você nunca percebeu isso antes, quando Genaro lhe mostrava seu corpo sonhador.

 

"Os novos videntes não podiam importar-se menos com uma réplica perfeita do corpo; na realidade não estão interessados sequer em copiar o corpo. Mas mantiveram o nome de corpo sonhador significando uma sensação, uma onda de energia que o transportava, pelo movimento do ponto de aglutinação, a qual­quer lugar neste mundo, como a qualquer lugar nos sete mundos alcançáveis pelo homem."

 

Dom Juan delineou então o procedimento para se chegar ao corpo sonhador. Disse que começa com um ato inicial que, pelo fato de ser continuado, desenvolve uma intenção inflexível. A intenção inflexível leva ao silêncio interior, e o silêncio interior à força interior necessária para fazer o ponto de aglutinação se deslocar nos sonhos para posições adequadas. Chamou a essa seqüência de alicerce. O desenvolvimento do controle vem após ter sido completado o alicerce; consiste em manter sistematicamente a posição de sonho agarrando-se com tenacidade ã visão do sonho. A prática constante resulta numa grande facilidade em manter novas posições de sonho com novos sonhos, não tanto porque a pessoa obtém controle deliberado com a prática, mas porque cada vez que esse controle é exercido a força interior sai enriquecida. A força interior, por sua vez, faz o ponto de aglutinação se deslocar para posições de sonho, que são cada vez mais apropriadas para proporcionar sobriedade; em outras palavras, os próprios sonhos se tornam cada vez mais controláveis, e ate mesmo ordenados.

 

— O desenvolvimento dos sonhadores é indireto. É por isso que os novos videntes acreditavam que podemos sonhar sozinhos. Uma vez que sonhar usa um deslocamento natural, intrínseco, do ponto de aglutinação, não deveríamos precisar de ninguém para ajudar-nos.

 

“O que precisamos desesperadamente é de sobriedade, e só nós mesmos podemos consegui-la. Sem ela, o deslocamento do ponto de aglutinação é caótico, como são caóticos nossos sonhos comuns”.

 

"Assim, em tudo e por tudo, o procedimento para se chegar ao corpo sonhador é a impecabilidade em nossa vida diária."

 

Dom Juan explicou que, depois que a sobriedade é adquirida e as posições de sonho se tornam cada vez mais fortes, o passo seguinte é acordar em alguma posição de sonho. Observou que a manobra, embora soasse tão simples, era na realidade um assunto muito complexo — tão complexo que requeria não apenas sobriedade, mas também todos os atributos do guerreiro, especial­mente a intenção.

 

Perguntei-lhe como a intenção ajuda os videntes a acordarem em uma posição de sonho. Replicou que a intenção, sendo o mais sofisticado controle da força de alinhamento, é o que mantém, através da sobriedade do sonhador, o alinhamento de quaisquer emanações que tenham sido acesas pelo deslocamento do ponto de aglutinação.

 

Dom Juan disse que há mais uma armadilha formidável em sonhar: a própria força do corpo sonhador. Por exemplo, é muito fácil para o corpo sonhador fixar ininterruptamente as emanações da Águia por longos períodos de tempo. Mas também é muito fácil para o corpo sonhador ser totalmente consumido por elas no final.

 

Videntes que fixaram as emanações da Águia sem seus corpos sonhadores morreram, e aqueles que as fixaram com seus corpos sonhadores queimaram-se com o fogo interior. Os novos videntes resolveram o problema vendo em grupo. Enquanto um vidente fixava as emanações, outros ficavam ao lado, prontos para encerrar a visão.

 

— Como os novos videntes vêem em grupo?

 

— Eles sonham juntos. Como você mesmo sabe, é perfeita­mente possível para um grupo de videntes ativar as mesmas emanações inusuais. E também nesse caso, não há passos estabelecidos. Simplesmente acontece; não há técnica a seguir.

 

Acrescentou que, ao sonharmos juntos, algo em nós assume o controle e subitamente encontramo-nos dividindo a mesma visão com outros sonhadores. O que acontece é que nossa condição humana faz-nos focalizar o brilho da consciência automaticamente nas mesmas emanações que outros seres humanos estão usando; ajustamos a posição de nossos pontos de aglutinação para combinar com os outros ao nosso redor. Fazemo-lo no lado direito, em nossa percepção ordinária, e também o fazemos do lado esquerdo, enquanto sonhamos Juntos.

 

 

       O Nagual Julian

 

Havia uma estranha excitação na casa. Todos os videntes do grupo de Dom Juan pareciam tão estimulados que estavam aéreos, coisa que nunca testemunhara antes. Seu alto nível de energia usual parecia ter aumentado. Fiquei muito apreensivo. Interroguei Dom Juan a respeito. Ele levou-me ao pátio de trás. Caminhamos em silêncio por um momento. Ele disse que se aproximava cada vez mais o tempo de todos partirem. Estava acelerando sua explicação para poder terminá-la a tempo.

 

— Como sabe que estão próximos de partir?

 

— É o conhecimento interno. Você saberá por si mesmo um dia. Veja, o nagual Julian fez meu ponto de aglutinação se deslocar inúmeras vezes, exatamente como fiz com o seu. Então, deixou-me com a tarefa de realinhar todas as emanações que me ajudara a alinhar através desses deslocamentos. Eis a tarefa deixada para ser executada por todo nagual.

 

"De qualquer maneira, o trabalho de realinhar todas essas emanações prepara o caminho para a manobra peculiar de acender todas as emanações dentro do casulo. Já fiz boa parte disso. Estou por atingir meu máximo. Como sou um nagual, assim que eu acender todas as emanações dentro do meu casulo, teremos partido num instante."

 

Achei que devia ficar triste e chorar, mas algo em mim sentiu tamanho júbilo ao ouvir que o nagual Juan Matus estava por ficar livre que pulei e gritei de pura alegria. Não ignorava que, mais cedo ou mais tarde, iria atingir outro estado de consciência e choraria de tristeza. Mas, nesse dia, estava cheio de felicidade e otimismo.

Contei a Dom Juan como me sentia, Ele riu e bateu-me nas costas,

 

— Lembre-se do que lhe disse. Não conte com percepções emocionais. Deixe seu ponto de aglutinação deslocar-se primeiro, e então, anos depois, tenha a percepção.

 

Fomos até o aposento grande e sentamo-nos para conversar. Dom Juan hesitou por um momento. Olhou para fora da janela. De meu assento, podia ver o pátio. Era o início da tarde; um dia nublado. Parecia chuvoso. Nuvens de trovoada aproximavam-se do oeste. Eu gostava de dias nublados. Dora Juan não gostava. Ficou inquieto enquanto tentava encontrar uma posição mais confortável para sentar-se.

 

Começou sua elucidação comentando que a dificuldade em lembrar-se do que acontece em consciência intensificada se deve à infinidade de posições que o ponto de aglutinação pode adotar após ter sido afrouxado de sua localização normal. A facilidade era lembrar-se de tudo que ocorre em consciência normal, por outro lado, tem a ver com a fixidez do ponto de aglutinação, em um local, o local onde assenta normalmente.

 

Disse que lamentava por mim. Sugeriu que aceitasse a dificuldade de relembrar e reconhecesse que poderia falhar em minha tarefa e nunca ser capaz de realinhar todas as emanações que ele me havia ajudado a alinhar.

 

— Procure pensar assim — disse, sorrindo. — Você pode nunca ser capaz de lembrar desta exata conversa que estamos tendo agora, que neste momento parece tão comum, tão carreta.

 

“Com efeito, esse é o .mistério da consciência. Os seres humanos afastam-se desse mistério; nós nos afastamos da escuridão, das coisas que são inexplicáveis. Encarar a nós mesmos em outros termos é loucura. Portanto, não despreze o mistério do homem em você sentindo pena de si mesmo ou tentando racionalizá-lo. Despreze a estupidez do homem em você, compreendendo-a. Mas não se desculpe por nenhum dos dois; ambos são necessários”.

 

"Uma das grandes manobras dos espreitadores é contrapor o mistério à estupidez que há em cada um de nós."

 

Explicou que as práticas da espreita não são coisas para alguém se rejubilar; na verdade, são completamente censuráveis. Sabendo disso, os novos videntes percebem que seria contra o interesse geral discutir ou praticar os princípios de espreita em consciência normal.

 

Apontei-lhe uma incongruência. Ele dissera que não há meios de os guerreiros agirem no mundo enquanto se encontram em consciência intensificada, e também que espreitar é simples­mente comportar-se diante de pessoas de maneiras específicas. As duas afirmações contradiziam-se mutuamente.

 

— Por não ensiná-la em consciência normal referia-me apenas a ensiná-la a um nagual — disse ele. — O propósito de espreitar é duplo: primeiro, deslocar o ponto de aglutinação tão firmemente e a salvo quanto possível, e nada pode fazê-lo tão bem quanto a espreita; segundo, imprimir seus princípios a um nível tão profundo que o inventário humano seja ultrapassado, assim como a reação natural de recusar e julgar algo que possa ser ofensivo à razão.

 

Falei que duvidava sinceramente que eu conseguisse julgar ou recusar algo dessa forma. Riu e disse que eu não podia ser uma exceção, que iria reagir como todos os outros quando ouvisse sobre os feitos de um mestre espreitador, como seu benfeitor, o nagual Julian.

 

— Não estou exagerando quando lhe digo que o nagual Julian era o mais extraordinário espreitador que jamais conheci — disse Dom Juan.

 

— Você já ouviu de todos sobre seus talentos de espreita. Mas nunca lhe contei o que ele fez comigo.

 

Eu quis esclarecer que jamais ouvira coisa alguma sobre o nagual Julian de ninguém, mas exatamente antes de dar voz ao meu protesto, uma estranha sensação de incerteza invadiu-me. Dom Juan pareceu saber instantaneamente o que eu estava sentindo. Riu, deliciado.

 

— Você não pode lembrar-se porque ainda não domina a vontade. Você necessita de uma vida de impecabilidade e de um grande excedente de energia, então a vontade poderá liberar essas memórias.

 

"Vou contar-lhe como o nagual Julian portou-se comigo quando o conheci. Se você julgá-lo e achar seu comportamento censurável enquanto estiver em consciência intensificada, pense em como poderia ficar revoltado com ele em consciência normal."

 

Protestei, dizendo que ele estava me predispondo. Assegurou-me que tudo que desejava com sua história era ilustrar a maneira como os espreitadores operam e as razões por que o fazem.

 

— O nagual Julian era o último dos espreitadores do tempo antigo — continuou. — Era um espreitador não devido a circunstâncias de sua vida, mas porque essa era a tendência do seu caráter.

 

Dom Juan explicou que os novos videntes viam que há dois grupos principais de seres humanos; os que se preocupam com os outros e os que não o fazem. Entre esses dois extremos eles viam uma mistura interminável nos dois. O nagual Julian pertencia à categoria de homens que não se importam; Dom Juan classificou a si mesmo como pertencendo à categoria oposta.

 

— Mas não me disse que o nagual Julian era generoso, que daria sua própria camisa?

 

— É claro que era. E não apenas generoso; era também completamente encantador, irresistível. Estava sempre profunda e sinceramente interessado em todos ao seu redor. Era gentil e aberto e dava tudo que tivesse a qualquer um que necessitasse, ou a qualquer um que caísse em seu agrado. Em troca era amado por todos, porque, sendo um mestre que espreitava, ele lhes revelava seus verdadeiros sentimentos: não dava um níquel furado por qualquer um deles.

 

Não comentei nada, mas Dom Juan estava consciente de minha sensação de descrédito ou mesmo de desagrado diante do que estava dizendo. Riu-se e sacudiu a cabeça de um lado para outro.

 

— Isto é a espreita. Veja só, eu sequer comecei minha história sobre o nagual Julian e você já está aborrecido.

 

Explodiu numa grande risada enquanto eu tentava explicar o que estava sentindo.

 

— O nagual Julian não se preocupava com ninguém — continuou. — É por isso que podia ajudar às pessoas. E o fazia; dava-lhes a própria camisa, porque não dava nada por eles.

 

— Quer dizer, Dom Juan, que os únicos que ajudam seus semelhantes são aqueles que não dão nada por eles? — perguntei, realmente vexado.

 

— É o que dizem os espreitadores — disse, com um sorriso radiante. — O nagual Julian, por exemplo, era um curador fabuloso. Ajudou a milhares e milhares de pessoas, mas nunca assumiu o crédito por isso. Deixava as pessoas acreditarem que uma mulher vidente de seu grupo era a curadora.

 

"Se ele fosse um homem que se preocupasse com seu semelhante, teria pedido reconhecimento. Os que se preocupam com os outros preocupam-se consigo mesmos, e pedem reconheci­mento onde o reconhecimento é devido."

 

Dom Juan disse que .ele mesmo pertencia à categoria dos que se interessam por seus semelhantes, e que nunca havia ajudado a ninguém: ficava embaraçado com generosidades; não podia se­quer conceber ser amado como o nagual Julian, e certamente se sentiria estúpido dando a alguém sua própria camisa.

 

— Importo-me tanto com os semelhantes que não faço nada por eles. Não saberia o que fazer, E teria sempre a desagradável sensação de impor minha vontade através de meus dons.

 

"Naturalmente superei todos esses sentimentos com o caminho do guerreiro. Qualquer guerreiro pode ser bem sucedido com as pessoas como era o nagual Julian, desde que desloque seu ponto de aglutinação para uma posição em que se torna indiferente se as pessoas gostam dele, não gostam ou o ignoram. Mas isso não é a mesma coisa."

 

Dom Juan disse que quando pela primeira vez teve consciên­cia dos princípios dos espreitadores, como eu estava fazendo agora, ficou extremamente angustiado. O nagual Elias, que era muito parecido com Dom Juan, explicou-lhe que espreitadores como o nagual Julian são lideres naturais. Podem ajudar as pessoas a fazer qualquer coisa.

 

— O nagual Elias disse que esses guerreiros podem ajudar as pessoas a se curarem — continuou Dom Juan — ou podem ajudá-las a ficarem doentes. Podem ajudá-las a encontrar a felicidade ou a encontrar a tristeza. Sugeri ao nagual Elias que, em vez de dizer que esses guerreiros ajudam as pessoas, deveríamos dizei que as afetam. Ele respondeu que não só afetam as pessoas como as pastoreiam ativamente.

 

Dom Juan riu, e olhou-me fixamente. Havia um brilho travesso em seus olhos.

 

— Estranho, não é? A maneira como os espreitadores apresentam o que vêem sobre as pessoas.

 

Então Dom Juan começou sua história sobre o nagual Julian. Disse que ele passou muitos e muitos anos esperando por um aprendiz nagual. Tropeçou em Dom Juan um dia quando voltava para casa, após uma curta visita a conhecidos de um vilarejo próximo. Na realidade, vinha pensando sobre um aprendiz nagual enquanto caminhava pela estrada, quando ouviu um estampido alto e viu pessoas correndo em todas as direções. Correu com elas para uns arbustos ao lado da estrada e só deixou seu esconderijo para ver um grupo de pessoas ao redor de alguém ferido, caído no chão.

 

A pessoa ferida era, naturalmente, Dom Juan, que fora atingido pelo feitor tirânico. O nagual Julian viu instantaneamente que Dom Juan era um homem especial cujo casulo estava dividido em quatro seções em lugar de duas; percebeu também que Dom Juan estava muito ferido. Sabia que não havia tempo a perder. Seu desejo fora satisfeito, mas teria de trabalhar rápido antes que alguém notasse o que estava se passando. Pôs as mãos na cabeça e gritou: — Mataram o meu filho!

 

Ele estava viajando com uma das videntes mulheres de seu grupo, uma rude mulher indígena que sempre aparecia publica­mente como sua mulher vulgar e rabugenta. Eram um excelente par de espreitadores. Lançou então uma deixa à mulher vidente que começou também a chorar e uivar por seu filho, que estava inconsciente e sangrando em profusão. O nagual Julian pediu aos circunstantes que não chamassem as autoridades, mas, em lugar disso, ajudassem-no a remover o filho para sua casa na cidade, a alguma distância dali. Ofereceu dinheiro a alguns jovens fortes para que carregassem seu filho ferido, à beira da morte.

 

Os homens levaram Dom Juan para a casa do nagual Julian. O nagual foi muito generoso e pagou-lhes regiamente. Os homens ficaram tão comovidos com o triste casal, era prantos durante todo o caminho, que recusaram o dinheiro, mas o nagual Julian insistiu que aceitassem, para dar sorte ao seu filho.

 

Por alguns dias, Dom Juan não sabia o que pensar sobre o gentil casal que o havia levado para casa. Disse que, para ele, o nagual Julian parecia um velho quase senil. Não era índio, mas estava casado com uma radia jovem, gorda e irascível, cuja força física era tão grande quanto seu mau humor. Dom Juan pensou que ela era na verdade uma curandeira, a julgar pela maneira como tratava de sua ferida e pela quantidade de plantas medicinais guardadas no quarto em que o haviam colocado.

 

A mulher também dominava o velho, e fazia-o cuidar do ferimento de Dom Juan todos os dias. Com uma espessa esteira, arrumaram uma cama para Dom Juan, e o velho tinha terríveis dificuldades em ajoelhar-se para alcançá-lo. Dom Juan precisava conter-se para não rir ante a cômica visão do frágil velho tentando laboriosamente dobrar os joelhos. Dom Juan disse que, enquanto o velho lavava sua ferida, murmurava incessantemente; tinha um olhar vago; suas mãos tremiam, e também seu corpo, da cabeça aos pés.

 

Quando estava ajoelhado, não conseguia levantar-se sozinho. Chamava pela mulher gritando com voz áspera, cheia de ira contida. A mulher vinha, e ambos iniciavam uma terrível discussão. Muitas vezes ela saía, deixando que o velho se levantasse com suas próprias forças.

 

Dom Juan assegurou que nunca havia sentido tanta pena de alguém quanto sentiu por aquele pobre e gentil velho. Muitas vezes desejou levantar-se e ajudá-lo, mas ele próprio mal conseguia se mover. Certa vez, o velho passou meia hora praguejando e gemendo enquanto bufava e se retorcia como uma lesma, até que, agarrando-se à porta, ergueu-se dolorosamente.

 

Ele explicou a Dom Juan que sua saúde fraca devia-se à idade avançada, a ossos quebrados que não se consolidaram corretamente e ao reumatismo. Dom Juan disse que o velho ergueu os olhos na direção do céu e confessou que era o mais miserável dos homens sobre a terra; viera consultar a curandeira em busca de ajuda e terminara casando-se com ela, tornando-se seu escravo.

 

— Perguntei-lhe por que não partia. Os olhos do velho arregalaram-se de medo. Engasgou-se com a própria saliva tentando calar-me e então ficou rígido e caiu pesadamente no chão, perto de minha cama, tentando fazer-me parar de falar. "Você não sabe o que está dizendo; você não sabe o que está dizendo. Ninguém pode fugir desse lugar", ficou repetindo com uma expressão selvagem nos olhos.

 

"E acreditei nele. Estava convencido de que era mais miserável e mais infeliz do que eu próprio jamais havia sido. E a cada dia que passava, sentia-me mais e mais desconfortável naquela casa. A comida era farta e a mulher sempre saía para curar pessoas, e eu era deixado com o velho. Conversamos muito sobre minha vida. Gostava de falar com ele. Contei-lhe que não tinha dinheiro para pagar por sua gentileza, mas que faria qualquer coisa para ajudá-lo. Ele me disse que nenhuma ajuda adiantaria, que estava pronto para morrer, mas que, se eu fosse realmente sincero no que dissera, gostaria que eu me casasse com sua mulher depois que ele morresse.

 

"Foi exatamente ali que conclui que o velho era maluco. E foi exatamente ali também que eu soube que tinha de fugir o mais rápido possível."

 

Contou Dom Juan que quando estava suficientemente bem para caminhar sem ajuda, seu benfeitor deu-lhe uma aterrorizante demonstração de habilidade como espreitador. Sem qualquer aviso ou preâmbulo, colocou Dom Juan face a face com um ser vivo inorgânico. Sentindo que Dom Juan estava planejando fugir, aproveitou a oportunidade para apavorá-lo com um aliado que, de algum modo, era capaz de parecer um homem monstruoso.

 

— A visão daquele aliado deixou-me quase louco — continuou Dom Juan. — Não podia crer em meus olhos, e no entanto o monstro estava exatamente diante de mim. E o frágil velho ao meu lado, choramingando, pedindo ao monstro que poupasse sua vida. Veja só, meu benfeitor era como os antigos videntes. Podia dosar seu medo, uma gota de cada vez. e o aliado estava reagindo a ele. Eu não sabia disso. Tudo que podia ver com meus próprios olhos era uma criatura horrenda avançando sobre nós, pronta a rasgar-nos em pedaços membro por membro.

 

"No momento em que o aliado saltou sobre nós, silvando como uma serpente, desmaiei. Quando recobrei os sentidos, o velho disse-me que havia feito um trato com a criatura."

 

Explicou a Dom Juan que o homem havia concordado em deixar que ambos vivessem, desde que Dom Juan ficasse a serviço dele. Dom Juan perguntou apreensivamente o que significava esse serviço. O velho replicou que seria escravidão, mas lembrou-lhe que Dom Juan quase havia morrido alguns dias antes, quando fora alvejado. Se ele e sua esposa não tivessem chegado para parar o sangramento, Dom Juan certamente não teria escapado, de modo que havia realmente muito pouco com que barganhar, ou pelo que barganhar. O homem monstruoso sabia disso, e ele estava à sua mercê. O velho disse a Dom Juan que parasse de vacilar e aceitasse o negócio, porque, se recusasse, o homem monstruoso, que estava ouvindo atrás da porta, entraria e mataria a ambos.

 

— Tive presença de espírito para perguntar ao frágil velho, que tremia como uma folha, como o homem iria matar-nos — continuou Dom Juan. — Disse que o monstro planejava quebrar todos os ossos de nossos corpos, começando pelos pés, enquanto gritaríamos em terrível agonia, e que iria levar no mínimo cinco dias para nos matar.

 

"Aceitei as condições instantaneamente. O velho, com lágrimas nos olhos, congratulou-se comigo e disse que o acordo não era tão ruim assim. Seríamos mais prisioneiros do que escravos do homem monstruoso e comeríamos no mínimo duas vezes por dia; e enquanto tivéssemos vida poderíamos trabalhar por nossa liberdade, poderíamos planejar, conspirar e construir nosso caminho para fora daquele inferno."

 

Dom Juan sorriu, e então começou a gargalhar. Sabia de antemão o que eu iria achar do nagual Julian.

 

— Disse-lhe que ficaria revoltado — afirmou ele.

 

— Realmente não compreendo, Dom Juan. Qual a vantagem de encenar uma comédia tão elaborada?

 

— A vantagem é muito simples — respondeu ainda rindo. — Este é outro método de ensino, um método muito bom. Requer enorme imaginação e um tremendo controle por parte do instrutor. Meu método de ensino é mais próximo ao que você considera ensino. Requer uma enorme quantidade de palavras. Eu vou aos extremos falando. O nagual Julian ia aos extremos da espreita.

 

Dom Juan disse que havia dois métodos de ensino entre os videntes. Estava familiarizado com ambos. Preferia o que optava por explicar tudo, e deixar a outra pessoa saber o curso da ação com antecedência. Era um sistema que permitia liberdade, escolha e compreensão. O método de seu benfeitor, por outro lado, era mais coercitivo e não permitia escolha ou compreensão. Sua grande vantagem era a de forçar os guerreiros a viver os conceitos dos videntes, diretamente, sem elucidação intermediária.

 

Dom Juan explicou que tudo que seu benfeitor lhe fazia eram obras-primas de estratégia. Cada uma das palavras e ações do nagual Julian fora deliberadamente selecionada para causar um efeito particular. Sua arte consistia em dar a suas palavras e ações o contexto mais adequado para que tivessem o impacto necessário.

 

— Esse é o método dos espreitadores — continuou Dom Juan. — Permite não a compreensão, mas a percepção total. Levei, por exemplo, uma vida inteira para compreender o que ele fizera comigo ao levar-me a encarar o aliado, embora eu tivesse percepção de tudo aquilo sem qualquer explicação enquanto vivi a experiência.

 

"Disse-lhe que Genaro, por exemplo, não compreende o que faz, mas sua percepção do que está fazendo é tão apurada quanto poderia ser. È porque seu ponto de aglutinação foi deslocado pelo método dos espreitadores.

 

Disse que, quando o ponto de aglutinação é forçado para fora de sua localização costumeira pelo método de explicar tudo, como em meu caso, sempre há a necessidade de mais alguém não apenas para ajudar no próprio deslocamento do ponto de aglutinação, como também para proporcionar as explicações do que está se passando. Contudo, se o ponto de aglutinação é deslocado pelo método dos espreitadores, como em seu caso ou no de Genaro, basta o ato catalítico inicial, que expulsa o ponto de sua localização.

 

Dom Juan contou que, quando o nagual Julian fê-lo encarar o aliado de aspecto monstruoso, seu ponto de aglutinação se deslocou sob o impacto do medo. Um pavor tão intenso quanto o causado pelo confronto, combinado com sua fraca condição física, era ideal para desalojar seu ponto de aglutinação.

 

Para compensar os efeitos danosos do pavor, seu impacto tinha de ser amortecido, porém não minimizado. Explicar o que estava acontecendo teria minimizado o medo. O que o nagual desejava era assegurar-se de que poderia usar aquele pavor catalítico inicial sempre que fosse necessário, mas também queria assegurar-se de que amorteceria seu impacto devastador; era essa a razão para a comédia. Quanto mais elaboradas e dramáticas eram suas histórias, tanto maior o efeito amortecedor. Se ele próprio parecesse estar no mesmo barco com Dom Juan, o pavor não seria tão intenso quanto se Dom Juan estivesse sozinho.

 

— Com sua inclinação para o drama, meu benfeitor pôde deslocar meu ponto de aglutinação o suficiente para imbuir-me em seguida de uma sensação subjacente com relação às duas qualidades básicas dos guerreiros: esforço continuado e intenção inflexível. Sabia que, para ser livre novamente algum dia, teria de trabalhar de uma forma ordenada e firme e em cooperação com o frágil velho, que na minha opinião necessitava de minha ajuda tanto quanto eu necessitava da dele. Sabia, sem sombra de dúvida, que era isso que eu desejava fazer mais do que qualquer outra coisa na vida.

 

Não pude falar com Dom Juan novamente até dois dias depois. Estávamos em Oaxaca, caminhando na praça principal, de manhã bem cedo. Havia crianças indo para a escola, pessoas indo à igreja, uns poucos homens sentados nos bancos e motoristas de táxi esperando por turistas do hotel.

 

— Não é preciso dizer que a coisa mais difícil no caminho dos guerreiros é fazer o ponto de aglutinação deslocar-se — disse Dom Juan. Este movimento é a coroação da busca do guerreiro. Seguir daí em frente é outra busca; é a busca dos videntes propriamente dita.

 

Repetiu que, no caminho dos guerreiros, o deslocamento do ponto de aglutinação é tudo. Os antigos videntes falharam completamente quanto à percepção dessa verdade. Pensavam que o deslocamento do ponto era como um marcador que determinava suas posições numa escala de valor. Nunca conceberam que era a própria posição que determinava o que eles percebiam.

 

— O método dos espreitadores — continuou Dom Juan — nas mãos de um mestre de espreita como o nagual Julian permite deslocamentos estupendos do ponto de aglutinação. São desloca­mentos muito sólidos; apoiando o aprendiz, o instrutor espreitador consegue sua cooperação e participação completas. Consegui-las de qualquer pessoa é provavelmente o resultado mais importante do método dos espreitadores; e o nagual Julian era o melhor em obter ambas as coisas.

Dom Juan disse que não havia condições de descrever o redemoinho pelo qual passou ao descobrir, pouco a pouco, a riqueza e a complexidade da personalidade e da vida do nagual Julian. Enquanto se defrontara com um homem velho, frágil e assustado que parecia indefeso, ficara bastante à vontade, confortado. Mas um dia, pouco depois de terem feito o trato com o que Dom Juan pensava ser um homem de aspecto monstruoso, seu conforto foi feito em cacos assim que o nagual Julian deu-lhe outra inervante demonstração de seus talentos de espreitador.

 

Embora Dom Juan estivesse bastante bem nessa ocasião, o nagual Julian ainda dormia no seu quarto para poder prestar-lhe assistência. Quando acordou naquele dia, anunciou a Dom Juan que o seu captor havia partido por alguns dias, o que significava que não precisava agir como um velho. Confiou a Dom Juan que apenas fingia ser velho para enganar o homem monstruoso.

 

Sem dar a Dom Juan tempo para pensar, saltou de sua esteira com incrível agilidade; dobrou-se e mergulhou a cabeça em um balde d'água, mantendo-a ali por algum tempo. Quando se endireitou, seu cabelo estava completamente negro, o cabelo grisalho havia sido lavado e Dom Juan olhava para um homem que nunca havia visto antes, um homem que devia ter perto de 40 anos. Flexionou os músculos, respirou profundamente e distendeu cada parte do seu corpo como se tivesse passado muito tempo numa gaiola apertada.

 

— Quando vi que o nagual Julian era um homem jovem, pensei que fosse na verdade o demônio — continuou Dom Juan, — Fechei meus olhos e achei que meu fim estava próximo. Ele riu até as lágrimas.

Dom Juan disse que o nagual Julian colocou-o então à vontade, fazendo-o passar várias vezes do lado direito para o lado esquerdo da consciência.

 

— Por dois dias, o homem rejuvenescido circulou pela casa.

 

Contou-me histórias sobre sua vida e piadas que me faziam rolar pela sala de tanto rir. Mas o mais impressionante fora a maneira como sua mulher havia mudado. Era na realidade magra e bonita. Pensei que fosse uma mulher completamente diferente. Falei com entusiasmo sobre como sua mudança fora completa, e como parecia bonita. O homem jovem disse que, quando seu captor estava fora, ela era realmente outra mulher.

 

Dom Juan riu e disse que seu diabólico benfeitor estava dizendo a verdade. A mulher era realmente outra vidente do grupo do nagual. Dom Juan perguntou porque fingiam ser o que não eram. Ele olhou para Dom Juan com os olhos cheios de lágrimas, e disse que os mistérios do mundo são realmente insondáveis. Ele e sua jovem esposa haviam sido apanhados por forças inexplicáveis e tinham de proteger-se com aquele disfarce. A razão por que ele seguia seu caminho como o fazia, como um frágil velho, era devido ao fato de seu captor estar sempre espiando através das frestas das portas. Pediu a Dom Juan que o perdoasse por havê-lo enganado.

 

Dom Juan perguntou quem era aquele homem de aparência monstruosa. Com um profundo suspiro, o nagual Julian confessou que não tinha a menor idéia. Disse a Dom Juan que embora ele próprio fosse um homem educado, um famoso ator do teatro da Cidade do México, não conseguiria dar nenhuma explicação. Tudo o que sabia era que viera para lá a fim de ser tratado de uma tuberculose de que sofrera por vários anos. Estava próximo da morte quando seus parentes trouxeram-no para conhecer a curandeira. Ela ajudou-o a ficar bom e ele ficou loucamente apaixonado pela linda jovem índia, casando-se com ela.

 

Seus planos eram levá-la à capital para que ambos pudessem enriquecer com sua capacidade de curar.

 

Antes de começarem a viagem à Cidade do México, ela preveniu-o de que tinham de disfarçar-se para escapar de um feiticeiro. Explicou-lhe que sua mãe também havia sido curandeira, e que quem lhe ensinara a curar fora aquele mestre feiticeiro, que exigira que a filha ficasse com ele por toda a vida. O nagual Julian disse que se recusara a perguntar à mulher sobre aquele relacionamento. Desejava apenas libertá-la, de modo que se disfarçou de velho e disfarçou-a de mulher gorda.

 

A história deles não tivera um final feliz. O horrível homem apanhou-os e mantinha-os como prisioneiros. Não se atreviam a tirar os disfarces diante daquele homem de pesadelo, e em sua presença portavam-se como se se odiassem mutuamente; mas na realidade ansiavam tanto um pelo outro que viviam apenas para os curtos períodos em que o homem estava fora.

 

Dom Juan falou que o nagual Julian o abraçou e disse-lhe que o quarto onde ele, Dom Juan, estava dormindo era o único lugar seguro na casa. Será que ele poderia sair gentilmente e ficar vigiando enquanto os dois faziam amor?

 

— A casa sacudia com a paixão deles — continuou Dom Juan — enquanto eu fiquei sentado à porta, sentindo-me culpado por ouvir e assustado até a morte, pois o homem poderia voltar a qualquer momento. E, é claro, ouvi-o chegar. Bati na porta e, como não respondessem, entrei, A moça estava adormecida, nua, e o jovem não estava por perto. Eu nunca havia visto uma linda mulher nua em minha vida. Estava ainda muito fraco. Ouvi o homem monstruoso movendo-se do lado de fora. Meu embaraço e meu medo foram tão grandes que desmaiei.

 

A história do nagual Julian aborreceu-me bastante. Disse a Dom Juan que não havia compreendido o valor dos talentos de espreita do nagual Julian. Dom Juan ouviu-me sem fazer qualquer comentário, e deixou-me falar à vontade.

 

Quando finalmente nos sentamos num banco, eu estava muito cansado. Não sabia o que dizer quando me perguntou por que o seu relato sobre o método de ensino do nagual Julian me afetara tanto.

 

— Não posso deixar de sentir que ele era um moleque — disse, finalmente.

 

— Os moleques não usam suas molecagens para ensinar deliberadamente — retorquiu Dom Juan, — O nagual Julian encenava dramas, dramas mágicos que provocavam um desloca­mento do ponto de aglutinação.

 

— Ele me parece uma pessoa muito egoísta — insisti.

 

— Parece porque você está julgando. Está sendo moralista. Eu mesmo

passei por tudo isso. Se você se sente assim ao ouvir sobre o nagual Julian, pense em como eu devo ter me sentido vivendo em sua casa por anos. Eu o julgava, temia e invejava, nessa ordem.

 

"Também o amava, mas minha inveja era maior que o meu amor. Invejava sua facilidade, sua misteriosa capacidade de ser jovem ou velho à vontade; invejava seu talento e, acima de tudo, sua influência sobre quem quer que estivesse por perto. Eu subia pelas paredes ao ouvi-lo entreter as pessoas com as conversas mais interessantes. Sempre tinha algo a dizer; eu nunca tinha, sempre me sentia incompetente, excluído."

 

As revelações de Dom Juan me incomodaram. Queria que ele mudasse de assunto, pois não gostaria de ouvir que era igual a mim. Na minha opinião, ele era realmente inigualável. Obviamente, ele sabia como eu me sentia. Riu e bateu em minhas costas.

 

— O que estou tentando fazer, contando a historia de minha inveja — continuou — é mostrar-lhe algo de grande importância: é a posição do ponto de aglutinação que dita como nos comporta­mos e como nos sentimos.

 

"Meu grande defeito naquela época era que eu não conseguia compreender esse princípio. Estava cru. Minha vaidade resistia, assim como a sua, porque era ali que meu ponto de aglutinação estava alojado. Eu ainda não havia aprendido que a maneira de deslocar aquele ponto é estabelecer novos hábitos, fazê-lo deslocar-se pela vontade. Quando se deslocou, foi como se tivesse descoberto que a única maneira de lidar com guerreiros insuperáveis como meu benfeitor é não ter vaidade, para poder louvá-los com o espírito aberto."

 

Disse que é possível compreender de duas maneiras. Uma é apenas conversa fiada, grandes explosões de emoção e nada mais. A outra é produto de um deslocamento do ponto de aglutinação; não está ligada a uma explosão emocional, mas à ação, A compreensão emocional chega anos depois que os guerreiros já consolidaram, pelo uso, a nova posição de seus pontos de aglutinação.

 

— O nagual Julian nos conduziu a todos incansavelmente a esse tipo de mudança — continuou Dom Juan. — Conseguiu de todos nós cooperação e participação totais em suas encenações exageradas. Com sua história do jovem, sua esposa e seu captor, por exemplo, obteve minha atenção e preocupação absolutas.

 

Para mim, a história do velho que era jovem fazia todo sentido. Eu vira o homem de aparência monstruosa com meus próprios olhos, e por isso o jovem obteve minha adesão imorredoura.

 

Dom Juan disse que o nagual Julian era um mágico, um feiticeiro que podia manipular a força da vontade a um grau que seria incompreensível ao homem médio. Participavam de suas histórias personagens mágicos, invocados pela força da intenção, como O ser inorgânico que podia adotar uma grotesca forma humana.

 

— O poder do nagual Julian era tão impecável que ele podia forçar o deslocamento do ponto de aglutinação de qualquer um e alinhar emanações que fariam perceber o que ele desejasse. Podia, por exemplo, parecer muito velho ou muito jovem para sua idade, dependendo do que desejava obter. E tudo o que se diria sobre sua idade era que esta variava. Durante os 32 anos em que o conheci, ele era por vezes não muito mais velho do que você é agora, e em outras vezes tão miseravelmente velho que não conseguia sequer caminhar.

 

Dom Juan disse que, sob a orientação de seu benfeitor, seu ponto de aglutinação deslocou-se imperceptível, mas profunda­mente. Por exemplo, um dia percebeu, sem motivo algum, que tinha um medo que, por um lado, não fazia qualquer sentido, mas por outro fazia todo o sentido do mundo.

 

— Meu medo era de que, por estupidez, eu perdesse minha oportunidade de ser livre e repetisse a vida de meu pai.

 

“Não havia nada de errado com a vida de meu pai. Ele viveu e morreu nem melhor nem pior que a maior parte dos homens; o importante é que o meu ponto de aglutinação se havia deslocado e percebi, um dia, que a vida e a morte de meu pai não representa­ram quase nada, tanto para os outros quanto para ele próprio”.

 

"Meu benfeitor disse-me que meu pai e minha mãe haviam vivido e morrido apenas para ter-me, e que seus próprios pais haviam feito o mesmo por eles. Disse que os guerreiros são diferentes pelo fato de deslocarem seus pontos de aglutinação o suficiente para perceber o preço tremendo que foi pago por suas vidas. Esse deslocamento possibilita sentir o respeito e a admiração que seus pais jamais sentiram pela vida em geral, ou por estarem vivos, em particular."

 

Dom Juan disse que o nagual Julian não se limitava a orientar com sucesso seus aprendizes a deslocarem seus pontos de aglutinação, mas também se divertia tremendamente enquanto o fazia.

 

— É verdade que ele se divertia imensamente comigo — continuou Dom Juan. — Quando os outros videntes do meu grupo começaram a chegar, anos depois, até mesmo eu ficava ansioso pelas situações inconcebíveis que ele criava e desenvolvia para cada um deles.

 

"Quando o nagual Julian deixou o mundo, a alegria foi-se com ele e nunca voltou. Genaro nos alegra às vezes, mas ninguém pode substituir o nagual Julian. Suas encenações eram sempre exageradas. Asseguro-lhe que não sabíamos o que era divertimento até que vimos o que ele fazia quando algumas dessas histórias saíam pela culatra."

 

Dom Juan levantou-se de seu banco favorito. Voltou-se para mim. Seus olhos estavam brilhantes e pacíficos.

 

— Se você for tapado ao ponto de fracassar em sua tarefa, deve ter ao menos energia suficiente para deslocar seu ponto de aglutinação, de maneira a chegar a esse banco. Sente-se aqui por um instante, livre de pensamentos e desejos; tentarei vir até aqui de onde quer que eu esteja e recolhê-lo. Prometo-lhe que tentarei.

 

Então caiu numa gargalhada, como se o teor de sua promessa fosse ridículo demais para merecer crédito.

 

— Essas palavras deveriam ser ditas no final da tarde — falou ainda rindo. — Nunca pela manhã. A manhã faz as pessoas sentirem otimismo, e palavras assim perdem o sentido.

 

 

       O Impulso da Terra

 

— Vamos caminhar pela estrada de Oaxaca — disse-me Dom Juan. — Genaro está esperando por nós em algum ponto do caminho.

 

Seu convite tomou-me de surpresa. Eu passara todo o dia esperando que continuasse sua explicação. Deixamos sua casa e Atravessamos em silêncio a cidade até a estrada de terra. Caminha­mos tranqüilamente por um longo tempo. Subitamente, Dom Juan começou a falar.

 

— Tenho falado sobre as grandes descobertas que os antigos videntes fizeram. Assim como descobriram que a vida orgânica não é a única vida presente na Terra, também descobriram que a própria Terra é um ser vivo.

 

Esperou um pouco antes de continuar. Sorriu-me como se me convidasse a fazer um comentário. Não me ocorreu nada para dizer.

 

— Os antigos videntes viram que a Terra tem um casulo — continuou.

 

— Viram que existe uma bola circundando a Terra, um casulo luminoso que contém as emanações da Águia. A Terra é um gigantesco ser consciente, sujeito as mesmas forças que nós.

 

Explicou que os antigos videntes, ao descobrirem isso, ficaram imediatamente interessados no uso prático que poderiam fazer desses conhecimentos. O resultado do seu interesse foi que as categorias mais elaboradas de suas feitiçarias tinham a ver com a Terra. Consideravam a Terra como fonte última de tudo que somos.

 

Dom Juan reafirmou que os antigos videntes não estavam enganados a esse respeito, porque a Terra é com efeito nossa fonte última.

 

Não disse nada mais até que encontramos Genaro, cerca de um quilômetro e meio estrada acima. Estava esperando por nós, sentado numa pedra ao lado da estrada.

 

Cumprimentou-me com grande efusão. Disse-me que devíamos subir ao topo de umas pequenas montanhas agrestes cobertas por vegetação rústica.

 

— Nós três vamos nos sentar apoiados em uma pedra — disse Dom Juan — e olhar para a luz do sol refletida nas montanhas do leste, Quando o sol se puser atrás dos picos do oeste, a Terra poderá deixá-lo ver o alinhamento.

 

Quando atingimos o alto de uma montanha, sentamo-nos como Dom Juan havia dito, com as costas contra uma pedra. Dom Juan fez-me sentar entre os dois.

Perguntei-lhe o que estava planejando fazer. Suas declarações veladas e seus longos silêncios eram ameaçadores, Sentia-me terrivelmente apreensivo.

 

Ele não me respondeu. Continuou falando como se eu não tivesse dito nada.

 

— Foram os antigos videntes que, ao descobrirem que a percepção é alinhamento, tropeçaram em algo monumental. A parte triste é que suas aberrações impediram novamente que soubessem o que haviam realizado.

 

Apontou a cadeia de montanhas a leste do pequeno vale onde a cidade está localizada.

 

— Há cintilação suficiente naquelas montanhas para abalar seu ponto de aglutinação. Exatamente antes de o sol se pôr atrás dos picos do oeste, você terá alguns momentos para todas as cintilações de que precisa. A chave mágica que abre as portas da Terra é feita de silêncio interno e mais qualquer coisa que brilhe.

 

— O que devo fazer exatamente, Dom Juan?

Ambos examinaram-me. Pensei ver em seus olhos uma mistura de curiosidade e desagrado.

 

— Simplesmente corte o diálogo interno — disse-me Dom Juan. Senti um choque intenso de ansiedade e duvida; não tinha confiança de que pudesse fazê-lo à vontade. Após um momento inicial de desagradável frustração, resignei-me a simplesmente relaxar.

 

Olhei ao redor. Percebi que estávamos suficientemente alto para enxergar o vale longo e estreito. Mais de metade dele estava coberto cora as sombras do crepúsculo. O sol ainda iluminava o sopé da cadeia de montanhas do leste, no outro lado do vale; a luz do sol dava uma coloração ocre às montanhas erodidas, enquanto os picos azulados mais distantes adquiriram um tom púrpura.

 

— Percebe que já fez isto antes, não? — perguntou Dom Juan num sussurro.

Disse-lhe que não havia percebido coisa alguma.

 

— Sentamo-nos aqui antes, em outras ocasiões — insistiu — mas isso não importa, porque esta ocasião é a que vai contar.

 

— Hoje, com a ajuda de Genaro, você irá encontrar a chave que abre tudo. Não será capaz de usá-la ainda, mas saberá o que é e onde está. Os videntes pagam os preços mais caros para saber disso. Você mesmo vem pagando seu tributo todos esses anos.

 

Explicou que o que chamava de chave de tudo era o conhecimento em primeira mão de que a Terra é um ser consciente e, como tal, pode dar aos guerreiros um grande impulso, um empurrão que vem da consciência da própria Terra no instante em que as emanações do interior dos casulos dos guerreiros alinham-se com as emanações apropriadas do interior do casulo da Terra. Uma vez que tanto ela quanto o homem são seres conscientes, suas emanações coincidem, ou melhor, a Terra possui todas as emanações presentes no homem e, além disso, todas as emanações presentes em todos os seres conscientes, orgânicos e inorgânicos. Quando ocorre o alinhamento, os seres conscientes usam este alinhamento de um modo limitado e percebem seu mundo. Os guerreiros podem usar esse alinhamento para perceber, como todos os demais, ou usá-lo como um impulso que lhes permita entrar em mundos inimagináveis.

 

— Venho esperando que você me faça a única pergunta com sentido que poderia fazer, mas você nunca pergunta — continuou. — Você teima em perguntar se o mistério de tudo está dentro de nós. De qualquer modo, chegou bem perto.

 

"O desconhecido não está realmente dentro do casulo do homem nas emanações intocadas pela consciência e, no entanto, de certo modo, está lá. Esse é o ponto que você não compreendeu. Quando lhe disse que podemos aglutinar sete mundos além do que conhecemos, você entendeu que isto é algo interno, porque tende a acreditar que está apenas imaginando tudo que faz conosco. Por isso nunca me perguntou onde o desconhecido está realmente. Há anos venho traçando círculos com minha mão para indicar tudo ao redor de nós, dizendo que é lá que está o desconhecido. Mas você nunca ligou as coisas."

 

Genaro começou a rir, e depois tossiu e levantou-se.

 

— Ele ainda não ligou as coisas — disse a Dom Juan, Admitir para eles que, se havia uma ligação a ser feita, eu não estava percebendo.

 

Dom Juan reafirmou várias vezes que as emanações presentes dentro do casulo do homem só estão ali para a consciência, e que a consciência combina aquelas emanações com uma quantidade igual de emanações livres. Estas se chamam emanações livres porque são imensas; e dizer que fora do casulo do homem está o incognoscível é dizer que dentro do casulo da Terra está o incognoscível. Entretanto, no ulterior do casulo da Terra também está o desconhecido, e dentro do casulo do homem o desconhecido são as emanações intocadas pela consciência. Quando o brilho da consciência as toca, tornam-se ativas e podem ser alinhadas com as emanações livres correspondentes. Quando isto acontece, o desconhecido é percebido e torna-se conhecido.

 

— Sou muito estúpido, Dom Juan. Precisa trocar as coisas em miúdos para num.

 

— Genaro vai fazer isso para você — retorquiu Dom Juan. Genaro levantou-se e começou a executar a mesma marcha de poder que havia executado antes, quando circulou uma imensa rocha achatada em um campo de milho perto de sua casa com Dom Juan assistindo fascinado.

 

Dessa vez, Dom Juan sussurrou em meu ouvido que eu deveria tentar ouvir os movimentos de Genaro, especialmente os movimentos de suas coxas quando se erguiam contra seu peito a cada passo que dava.

 

Segui os movimentos de Genaro com os olhos. Em poucos segundos, senti que alguma parte de mim fora aprisionada pelas pernas de Genaro. O movimento de suas coxas não me soltava. Era como se estivesse caminhando com ele. Sentia-me mesmo sem fôlego. Percebi, então, que estava realmente seguindo Genaro. De fato caminhava com ele, afastando-me do lugar onde estivéramos sentados.

 

Não vi Dom Juan, apenas Genaro caminhando diante de mim da mesma maneira estranha. Caminhamos por horas e horas. Minha fadiga era tão intensa que fiquei com uma terrível dor de cabeça e me senti mal subitamente. Genaro parou de caminhar e veio para o meu lado. Havia um intenso brilho ao redor de nós, e a luz se refletiu nas feições de Genaro. Seus olhos brilhavam.

 

— Não olhe para Genaro! — Uma voz ordenou-me ao ouvido. — Olhe ao redor!

 

Obedeci. Pensei que estava no inferno! O choque de ver a paisagem foi tão grande que gritei de terror, mas não havia som em minha voz. Ao redor de mim estava a imagem mais vivida de todas as descrições do inferno de minha criação católica. Via um inundo avermelhado, quente e opressivo, escuro e cavernoso, sem céu, sem qualquer luz além das reflexões malignas das luzes avermelhadas que se mantinham em movimento ao redor de nós, em grande velocidade. Genaro começou a caminhar novamente, e algo puxou-me com ele. A força que me fazia segui-lo também evitou que eu olhasse ao redor. Minha consciência estava colada aos movimentos de Genaro.

 

Vi-o desabar como se estivesse profundamente exausto. No instante em que tocou o solo e estendeu-se para descansar, algo foi liberado em mim e fui novamente capaz de olhar ao redor. Dom Juan me fitava com ar de interrogação. Eu estava de pé diante dele. Encontrávamo-nos no mesmo lugar onde havíamos sentado, numa espaçosa saliência rochosa no topo de unta pequena montanha. Genaro ofegava e bufava, e eu também. Estava coberto de transpiração. Meu cabelo ensopara. Minhas roupas pingavam como se eu tivesse afundado num rio.

 

— Meu Deus, o que está acontecendo? — perguntei, com profunda seriedade e preocupação.

 

A exclamação soou tão imbecil que Dom Juan e Genaro começaram a rir.

 

— Estamos tentando fazer você compreender o que é o alinhamento — disse Genaro.

 

Cuidadosamente, Dom Juan ajudou-me a sentar. Sentou-se a meu lado.

 

— Lembra-se do que aconteceu?

 

Disse-lhe que sim, e ele insistiu em que lhe contasse exatamente o que tinha visto. Sua solicitação era incongruente com o que me dissera, que o único valor de minhas experiências era o deslocamento de meu ponto de aglutinação, e não o conteúdo de minhas visões. Explicou que Genaro tentara ajudar-me antes de maneira bastante parecida à que havia usado agora, mas que nunca pude lembrar-me de nada. Disse que Genaro guiara meu ponto de aglutinação desta vez, como havia feito antes, para aglomerar um mundo com outro dos grandes feixes de emanações.

 

Houve um longo silêncio. Eu estava tonto, chocado, embora minha consciência estivesse mais aguçada do que nunca. Pensei que havia finalmente compreendido o que era alinhamento. Algo dentro de mim, que eu vinha ativando sem saber como, deu-me a certeza de que eu compreendera uma grande verdade.

 

— Acho que você está começando a acumular seu próprio ímpeto — disse-me Dom Juan, — Vamos para casa. Foi bastante para um dia.

 

— Ora, vamos — disse Genaro. — Ele é mais forte do que um touro. Deveria ser empurrado um pouco atém.

 

— Não! — disse Dom Juan enfaticamente. — Temos que economizar sua força. Ele já gastou muito.

 

Genaro insistiu para que ficássemos. Olhou para mim e piscou.

 

— Olhe — disse-me, apontando para a cadeia de montanhas do leste.

 

— O sol mal se moveu alguns centímetros sobre aquelas montanhas e ainda assim você já caminhou no inferno por horas e horas. Não acha isso desconcertante?

 

— Não o assuste desnecessariamente! — protestou Dom Juan, quase com veemência.

 

Foi então que vi suas manobras. Naquele momento, a voz da visão disse-me que Dom Juan e Genaro eram uma dupla de soberbos espreitadores brincando comigo. Era Dom Juan que sempre me empurrava além de meus limites, mas sempre deixava Genaro ser o vilão. Naquele dia na casa de Genaro, assim que atingi um estado perigoso de medo histérico quando Genaro perguntou a Dom Juan se eu deveria ser empurrado e Dom Juan assegurou-me que ele estava divertindo-se à minha custa, Genaro estava na verdade preocupando-se comigo.

 

Fiquei tão chocado com a minha visão que comecei a rir. Tanto Dom Juan quanto Genaro olharam-me com surpresa. Então Dom Juan pareceu perceber imediatamente o que estava se passando em minha mente. Contou a Genaro, e ambos riram como crianças.

 

— Você está ficando adulto — disse-me Dom Juan. — Bem na hora. Você não é nem estúpido demais nem inteligente demais, exatamente como eu. Mas não é como eu em suas aberrações. Nisso, parece-se mais com o nagual Julian, só que ele era brilhante.

 

Levantou-se e distendeu as costas. Olhou para mim com os olhos mais penetrantes e ferozes que eu jamais havia visto. Levantei-me.

 

— Um nagual nunca deixa ninguém saber que ele está no comando — disse. — Um nagual vai e vem sem deixar rastros. Essa liberdade é o que faz dele um nagual.

 

Seus olhos lampejaram por um instante, e depois cobriram-se com uma nuvem de brandura, amabilidade e compaixão, e eram novamente os olhos de Dom Juan.

 

Eu mal podia manter o equilíbrio. Estava oscilando sem controle. Genaro saltou para o meu lado e ajudou-me a sentar. Ambos sentaram-se flanqueando-me.

 

— Você vai captar um impulso da Terra — disse-me Dom Juan em um ouvido.

 

— Pense nos olhos do nagual — disse-me Genaro no outro.

 

— O impulso virá no momento em que você enxergar a cintilação no alto daquela montanha — disse Dom Juan, e apontou para o pico mais alto da cadeia do leste.

 

— Nunca verá outra vez os olhos do nagual — sussurrou Genaro.

 

— Vá com o impulso para onde ele o levar — disse Dom Juan.

 

— Se pensar nos olhos do nagual, irá perceber que há dois lados numa moeda — sussurrou Genaro.

 

Eu queria pensar no que ambos estavam dizendo, porém meus pensamentos não me obedeciam. Algo fazia pressão sobre mim. Senti que estava encolhendo. Tive uma sensação de náusea. Vi as sombras do entardecer avançando rapidamente encosta acima naquelas montanhas do leste. Tive a sensação de que estava correndo atrás delas.

 

— É agora — disse Genaro em meu ouvido.

 

— Olhe o pico grande, olhe a cintilação — falou Dom Juan em meu outro ouvido.

 

Via-se realmente um ponto de brilho intenso onde Dom Juan havia apontado, no pico mais alto da cadeia. Observei o último raio de sol refletindo-se nele. Senti um frio na boca do estômago, como se estivesse em uma montanha-russa.

 

Senti, mais do que ouvi, o ruído distante de um terremoto que abruptamente me engolfou. As ondas sísmicas era tão altas e enormes que perderam todo o sentido para mim. Eu era um micróbio insignificante sendo torcido e virado.

 

O movimento diminuiu aos poucos. Houve mais uma sacudi­dela antes que tudo se detivesse. Tentei olhar ao redor. Não tinha qualquer ponto de referência. Parecia estar plantado, como uma árvore. Acima de mim havia uma cúpula branca, inconcebivelmente grande. Sua presença fez-me sentir exaltado. Voei em sua direção, ou melhor, fui lançado como um projétil. Tinha a sensação de estar confortável, cuidado, seguro; quanto mais perto chegava da cúpula, mais intensos se tornavam esses sentimentos. Finalmente venceram-me e perdi toda a consciência de mim mesmo.

 

A coisa seguinte que percebi foi estar ondulando suavemente no ar como uma folha que cai. Sentia-me exausto. Uma força de sucção começou a puxar-me. Atravessei um buraco escuro e então estava com Dom Juan e Genaro.

 

No dia seguinte, Dom Juan, Genaro e eu fomos a. Oaxaca. Enquanto Dom Juan e eu perambulávamos pela praça, ao entardecer, ele repentinamente começou a falar sobre o que fizéramos no dia anterior. Perguntou-me se havia entendido ao que se referia quando dissera que os antigos videntes tropeçaram em algo monumental.

 

Disse-lhe que sim, mas que não podia explicarem palavras.

 

— E o que acha que era a coisa principal que desejávamos que encontrasse no topo daquela montanha?

 

— Alinhamento — disse uma voz em meu ouvido, ao mesmo tempo em que eu dizia o mesmo.

 

Virei-me numa ação reflexa e dei com Genaro, que estava exatamente atrás de mim, caminhando em minhas pegadas. A rapidez de meu movimento surpreendeu-o. Abriu-se num sorriso e então abraçou-me.

 

Sentamo-nos. Dom Juan disse que havia pouquíssimas coisas que ele poderia dizer sobre o impulso que eu recebera da Terra, que os guerreiros estão sempre sós em tais casos e que as verdadeiras percepções vêm muito mais tarde, depois de anos de luta.

 

Disse a Dom Juan que o meu problema em compreender era aumentado porque ele e Genaro estavam fazendo todo o trabalho. Eu era simplesmente um personagem passivo, que só podia reagir às suas manobras. Não podia de maneira alguma iniciar qualquer ação, pois não sabia qual seria a ação apropriada, nem como iniciá-la.

 

— É precisamente esta a questão — disse Dom Juan. — Você ainda não deve saber. Você será deixado para trás, sozinho para reorganizar por sua própria conta tudo o que estamos fazendo com você agora. Essa é a tarefa que todo nagual tem de enfrentar,

 

"O nagual Julian fez a mesma coisa comigo, de um modo muito mais rude do que o usado com você. Ele sabia o que estava fazendo; era um nagual brilhante, que foi capaz de reorganizar em poucos anos tudo o que o nagual Elias lhe havia ensinado. Fez em tempo reduzidíssimo algo que tomaria a vida toda para você ou para mim. A diferença foi que o nagual Julian só necessitava de uma leve insinuação; a partir dali sua consciência assumia o comando, abrindo a única porta que existe."

 

— O que quer dizer, Dom Juan, a única porta que existe?

 

— Quer dizer que, quando o ponto de aglutinação do homem se desloca além de um limite crucial, os resultados são sempre os mesmos para qualquer homem. As técnicas para fazê-lo deslocar-se podem ser muito diferentes, mas os resultados são sempre os mesmos, ou seja: o ponto de aglutinação aglomera outros mundos, auxiliado pelo impulso da Terra.

 

— O impulso da Terra é o mesmo para todos os homens, Dom Juan?

 

— É claro. A dificuldade para o homem médio é o diálogo interno. A pessoa só pode usar o impulso quando atinge um estado de silêncio total. Você vai comprovar esta verdade no dia em que tentar usar o impulso sozinho.

 

— Eu não acho que devia tentar — disse Genaro sincera­mente. — São necessários anos para tornar-se um guerreiro impecável. Para suportar o impacto do impulso da Terra, você precisa ser melhor do que agora,

 

— A rapidez do impulso irá dissolver tudo em você — disse Dom Juan.

 

— Sob seu impacto, tornamo-nos nada. Velocidade e sentido de existência individual não combinam. Ontem na montanha, Genaro e eu amparamos você e servimos de âncora; de outro modo você não teria regressado. Seria como alguns homens que, propositalmente, usaram esse impulso e entraram no desconheci­do, onde continuam vagando em alguma imensidão incompreensível.

 

Queria que ele explicasse melhor, mas recusou-se. Mudou de assunto abruptamente.

 

— Há uma coisa que você ainda não compreendeu sobre a Terra ser um ser consciente. E Genaro, esse pavoroso Genaro, quer empurrá-lo até que compreenda.

 

Ambos riram. Brincando, Genaro deu-me um empurrão e piscou para mim enquanto pronunciava: "Eu sou pavorosa."

 

— Genaro é um capataz terrível, vil e rude — continuou Dom Juan.— Ele não se importa com seus medos e empurra-o sem do nem piedade. Se não fosse por mim...

 

Era a imagem perfeita de um velho senhor bondoso e amável. Baixou os olhos e suspirou. Os dois caíram numa gargalhada ruidosa.

 

Quando se aquietaram, Dom Juan disse que Genaro desejava mostrar-me o que eu ainda não havia compreendido, que a suprema consciência da Terra é o que torna possível para nós passarmos para outras grandes faixas de emanações.

 

— Nós, seres vivos, somos percebedores — disse ele. — E percebemos por que algumas emanações do interior do casulo do homem se alinham com algumas emanações de fora. O alinhamento, portanto, é a passagem secreta, e o impulso da Terra é a chave. Genaro quer que você observe o momento de alinhamento. Olhe, para ele!

 

Genaro levantou-se como um ator e fez uma mesura, depois mostrou-nos que não trazia nada em suas mangas ou nas pernas de suas calças. Tirou os sapatos e sacudiu-os para mostrar que não havia nada escondido ali também.

 

Dom Juan estava rindo com total abandono. Genaro moveu suas mãos para cima e para baixo. O movimento criou uma imediata fixação em mim. Senti que nós três subitamente nos levantávamos e afastávamo-nos andando da praça, comigo entre os dois.

 

Enquanto continuamos andando, perdi minha visão periférica. Não distinguia mais as casas ou as ruas. Não percebi as montanhas ou a vegetação, também. Em dado momento, notei que havia perdido Dom Juan e Genaro de vista; em vez disso, via dois volumes luminosos movendo-se para cima e para baixo ao meu lado.

 

Senti um pânico instantâneo, que controlei imediatamente. Tive a incomum, porém bem conhecida sensação de que eu era eu mesmo, mas ainda assim, não o era. Estava consciente, entretanto, de tudo ao meu redor por meio de uma capacidade ao mesmo tempo estranha e extremamente familiar. A visão do mundo veio a mim de uma só vez. Tudo em mim via; a totalidade do que eu, em minha consciência normal, chamo de meu corpo era capaz de sentir como se fosse um enorme olho que detectava tudo. A primeira coisa que detectei após ver as duas bolhas de luz foi um mundo violeta arroxeado, feito de algo que parecia painéis e dosséis coloridos. Painéis chatos, semelhantes a telas de círculos concêntricos e irregulares, estavam por toda parte.

 

Senti uma grande pressão sobre mim e então ouvi uma voz em meu ouvido. Estava vendo. A voz disse que a pressão se devia a meu movimento. Eu me movia junto com Dom Juan e Genaro.

 

Senti uma leve sacudida, como se tivesse rompido uma barreira de papel, e encontrei-me diante de um mundo luminescente. A luz se irradiava de toda a parte, mas sem ofuscar. Era como se o sol estivesse por irromper por detrás de nuvens brancas e diáfanas. Estava olhando para baixo, para a fonte de luz. Era uma visão maravilhosa. Não havia massas de terras, apenas nuvens brancas e fofas e luz. E estávamos caminhando sobre as nuvens.

 

Então algo aprisionou-me novamente. Eu me movia com a mesma velocidade das duas bolhas de luz aos meus lados. Gradualmente, começaram a perder seu brilho, tornaram-se opacas e finalmente eram Dom Juan e Genaro. Estávamos caminhando por uma rua deserta, afastada da praça principal. Então voltamos.

 

— Genaro ajudou-o a alinhar suas emanações com as emanações livres ligadas a outra faixa — disse-me Dom Juan. — O alinhamento deve ser um ato muito pacífico, imperceptível. Nada de sair voando, nada de espetacular.

 

Disse que a sobriedade necessária para deixar que o ponto de aglutinação aglomere outros mundos é algo que não deve ser improvisado. A sobriedade deve estar madura e tornar-se uma força por si mesma para que os guerreiros possam romper impunemente a barreira da percepção.

 

Estávamos chegando mais perto da praça principal. Genaro não havia dito palavra. Caminhava em silêncio, como que absorto em seus pensamentos. Pouco antes de chegarmos à praça, Dom Juan disse que Genaro queria mostrar-me mais uma coisa: que a posição do ponto de aglutinação é tudo, e que o mundo que ele nos faz perceber é tão real que não deixa espaço para nada além da realidade.

 

— Genaro fará o ponto de aglutinação dele aglomerar outro mundo só para você ver — disse-me Dom Juan. — Então, você verá que, enquanto ele o perceber, a força de sua percepção não deixará espaço para mais nada.

 

Genaro caminhou à nossa frente e Dom Juan ordenou-me que girasse os olhos na direção contrária do relógio enquanto olhava para Genaro, para evitar ser arrastado com ele. Obedeci. Genaro estava a cinco ou seis passos de mim. Subitamente, sua forma ficou difusa e num instante ele se desvaneceu no ar.

 

Pensei sobre os filmes de ficção científica que havia visto, e perguntei-me se temos consciência subliminar de nossas possibilidades.

 

— Genaro está separado de nós nesse momento pela força da percepção

 

— disse Dom Juan calmamente. — Quando o ponto de aglutinação aglomera um mundo, este mundo é total. Esta é a maravilha em que os antigos videntes tropeçaram sem nunca perceber o que fosse: a consciência da Terra pode dar-nos um impulso para alinhar outras grandes faixas de emanações, e a força desse novo alinhamento faz o mundo desaparecer.

 

"Todas as vezes que os antigos videntes realizavam um novo alinhamento, acreditavam ter descido às profundezas abaixo ou subido céus acima. Nunca souberam que o mundo desaparece no ar quando um novo alinhamento total nos faz perceber outro mundo total."

 

 

       A Força Rolante

 

Dom Juan ia iniciar sua explicação do domínio da consciência, mas mudou de idéia e levantou-se. Estávamos sentados num aposento grande, observando um momento de quietude.

 

— Quero que você tente ver as emanações da Águia. Para isso precisa primeiro deslocar seu ponto de aglutinação até ver o casulo do homem.

 

Caminhamos de casa até o centro da cidade. Sentamo-nos em um banco vazio e surrado no parque diante da igreja. Era o início da tarde; um dia ensolarado e ventoso, com muita gente circulando

 

Repetiu, como se estivesse tentando enfiar a idéia em mim, que o alinhamento é uma força única porque ou ajuda o ponto de aglutinação a se deslocar, ou o mantém agarrado à sua posição costumeira. O aspecto do alinhamento que mantém o ponto estacionário, disse e!e, é a vontade; e o aspecto que o faz mudar é a intenção. Observou que um dos mistérios mais assombrosos é como a vontade; a força impessoal do alinhamento se transforma em intenção, a força personalizada, a serviço de cada indivíduo.

 

— A parte mais estranha deste mistério é que a mudança é tão fácil de realizar — continuou. — Mas o que não é tão fácil é convencer a nós mesmos que isso é possível. E aí que reside nossa segurança. Temos de ser convencidos. E nenhum de nós quer sê-lo.

 

Disse-me então que eu estava em meu estado de consciência mais agudo, e que me seria possível conseguir que o meu ponto de aglutinação se deslocasse mais profundamente para o meu lado esquerdo, para uma posição de sonho. Disse que os guerreiros só deveriam tentar ver ajudados pelo sonho. Argumentei que adormecer em publico não era um dos meus fortes. Ele esclareceu sua afirmação, dizendo que deslocar o ponto de aglutinação de sua localização natural e mantê-lo fixo em nova localização é estar adormecido; com a prática, os videntes aprendem a estar adormecidos e ainda assim atuar como se nada acontecesse com eles.

 

Após uma pausa curta, acrescentou que para se ver o casulo do homem é preciso olhar as pessoas de trás, enquanto se afastam. É inútil olhar para as pessoas face a face, porque a parte dianteira do casulo ovóide do homem tem um escudo protetor que os videntes chamam chapa frontal. É um escudo quase indevassável, indeformável, que nos protege por todas as nossas vidas contra o assalto de uma força peculiar que provém das próprias emanações.

 

Disse-me também para não me surpreender se meu corpo ficasse rígido como se estivesse congelado; disse que eu iria sentir-me como uma pessoa parada no meio de um quarto olhando para a rua através de uma janela, e que a velocidade era essencial, uma vez que os outros iriam mover-se com extrema rapidez pela minha janela de ver. Falou-me então para relaxar os músculos, silenciar meu diálogo interno e deixar meu ponto de aglutinação afastar-se sob a magia do silêncio interno. Incentivou-me a golpear-me suave, mas firmemente em meu lado direito, entre a anca e a caixa torácica.

 

Fiz isso três vezes e vi-me profundamente adormecido. Era um estado extremamente peculiar de sonho. Meu corpo estava dormente, mas me encontrava perfeitamente consciente de tudo que acontecia. Podia ouvir Dom Juan falando comigo, e podia seguir cada uma de suas afirmações como se eu estivesse acorda­do, embora não pudesse absolutamente mover meu corpo.

 

Dom Juan disse que um homem ia passar por minha janela de ver e que eu deveria tentar vê-lo. Sem sucesso, tentei mover minha cabeça e então uma brilhante forma ovóide apareceu. Era resplandecente. Fiquei impressionado pela visão e, antes que pudesse recobrar-me da minha surpresa, ela partira. Afastou-se flutuando, saltando para cima e para baixo.

 

Tudo fora tão repentino e rápido que me senti frustrado e impaciente. Senti que estava começando a acordar. Dom Juan falou-me novamente e me convenceu a relaxar. Disse que eu não tinha direito nem tempo de ficar impaciente. Subitamente, outro ser luminoso apareceu e afastou-se, Parecia feito de um novelo branco fluorescente.

 

Dom Juan sussurrou em meu ouvido que, se eu quisesse, meus olhos seriam capazes de desacelerar tudo o que focalizavam. Avisou-me depois que outro homem estava vindo. Percebi naquele instante que existiam duas vozes. A voz que havia acabado de ouvir era a mesma que me mandara ser paciente. Era a de Dom Juan. A outra, a que me disse para usar os olhos para desacelerar o movimento, era a voz da visão.

 

Naquela tarde, vi dez seres luminosos em câmara lenta. A voz da visão guiou-me para presenciar neles tudo o que Dom Juan contara sobre o brilho da consciência. Havia uma faixa vertical com um brilho âmbar mais forte no lado direito dessas criaturas luminosas ovóides, talvez um décimo do volume total do casulo. A voz disse que era a faixa de consciência do homem. A voz apontou para um ponto na faixa do homem, um ponto com um brilho intenso; situava-se bem alto nas formas oblongas, quase em sua crista, sobre a superfície do casulo; a voz disse que aquele era o ponto de aglutinação.

 

Quando vi cada criatura luminosa de perfil, do ponto de vista do seu corpo, sua forma ovóide era como um gigantesco ioiô assimétrico colocado em pê, ou como um jarro quase redondo que estivesse descansando sobre um lado, com a tampa. A parte que parecia uma tampa era a chapa frontal; tinha talvez um quinto da espessura total do casulo.

Por mim, teria continuado a ver essas criaturas, mas Dom Juan disse que agora deveria olhar para as pessoas face a face e sustentar meu olhar até que eu rompesse a barreira e visse as emanações.

 

Segui sua ordem. Quase instantaneamente, vi uma formação extremamente brilhante de fibras de luz, vivas e irresistíveis. Era uma visão estonteante que, imediatamente, abalou meu equilíbrio. Caí na calçada de cimento, sobre um lado. Dali vi as fibras irresistíveis de luz se multiplicarem. Elas se abriam, e miríades de outras fibras saíam delas. Mas as fibras, por mais irresistíveis que fossem, de algum modo não interferiam com minha visão ordinária. Havia muitas pessoas entrando na igreja. Eu não estava mais vendo-as. Havia algumas poucas mulheres e homens perto do banco. Quis focalizar meus olhos neles, mas em vez disso percebi como uma das fibras de luz tornou-se subitamente bojuda. Transformou-se numa espécie de bola de fogo com cerca de dois metros de diâmetro. Rolou sobre mim. Meu primeiro impulso foi rolar para fora de seu caminho. Antes que eu pudesse sequer mover um músculo, a bola me atingiu. Parecia que alguém tivesse me socado suavemente no estômago. Um instante depois, outra bola de fogo me atingiu, dessa vez com uma força consideravelmente maior, e então Dom Juan bateu-me mesmo no rosto com a mão aberta. Saltei involuntariamente, e perdi de vista as fibras de luz e os balões que me atingiam.

 

Dom Juan disse que eu suportara com sucesso meu primeiro breve encontro com as emanações da Águia, mas que os golpes do derrubador haviam aberto perigosamente minha fenda. Acrescentou que as bolas que me atingiram eram conhecidas como a força rolante, ou o derrubador.

 

Havíamos voltado à sua casa, embora não me lembrasse como ou quando. Passara horas em uma espécie de estado de sonolência. Dom Juan e os outros videntes de seu grupo me deram grandes quantidades de água para beber. Também me submergi­ram numa banheira de água gelada por curtos períodos de tempo.

 

— Aquelas fibras que vi eram as emanações da Águia?

— Sim. Mas você não as viu realmente — respondeu Dom Juan. — Assim que começou a ver, o derrubador parou-o. Se você tivesse permanecido um pouco mais, ele o teria destruído.

 

— O que é exatamente o derrubador?

 

— É uma força das emanações da Águia. Uma força incessante, que nos atinge a cada instante de nossas vidas. É letal quando vista, mas de outro modo não a percebemos em nossa existência ordinária, porque temos escudos protetores. Temos interesses absorventes, que ocupam toda a nossa consciência. Estamos permanentemente preocupados com nosso status e nossas propriedades. Esses escudos, entretanto, não mantêm o derrubador afastado, simplesmente nos impedem de vê-lo diretamente, protegendo-nos assim de sermos feridos pelo pavor de ver as bolas de fogo atingindo-nos. Os escudos são uma grande ajuda e um grande obstáculo para nós. Acalmam-nos e ao mesmo tempo nos enganam. Dão-nos uma falsa sensação de segurança.

 

Preveniu-me de que chegaria um momento em minha vida em que eu ficaria sem qualquer escudo, o tempo todo à mercê do derrubador. Disse que este é um estágio obrigatório na vida de um guerreiro, conhecido como a perda da forma humana.

 

Pedi-lhe que me explicasse de uma vez por todas o que é a forma humana e o que significa perdê-la.

 

Replicou que os videntes descrevem a forma humana como a força compulsória de alinhamento das emanações acesas pelo brilho da consciência, no lugar preciso em que normalmente está fixado o ponto de aglutinação do homem. É a força que nos torna pessoas. Assim, ser uma pessoa e ser compelido a aderir a essa força de alinhamento e, conseqüentemente, a aderir ao lugar exato onde ela se origina.

 

Em virtude de suas atividades, em dado momento o ponto de aglutinação dos guerreiros deriva para a esquerda. É uma mudança permanente, que resulta em uma incomum sensação de indiferença, ou controle, ou mesmo de desenvoltura. Esse deslocamento do ponto de aglutinação provoca um novo alinhamento de emanações. É o começo de uma série de mudanças maiores. Os videntes chamam muito apropriadamente essa mudança inicial de perda da forma humana, porque ela marca um movimento inexorável do ponto de aglutinação para fora de sua posição original, o que resulta na perda irreversível de nossa adesão à força que nos faz sermos pessoas.

 

Pediu-me então para descrever todos os detalhes que podia recordar sobre as bolas de fogo. Disse-lhe que as havia visto tão brevemente que não estava certo de poder descrevê-las com minúcias.

 

Ele observou que ver é um eufemismo para o deslocamento do ponto de aglutinação, e que, se eu deslocasse o meu um pouco mais para a esquerda, teria uma imagem clara das bolas de fogo, uma imagem que então poderia interpretar como me tendo lembrado delas.

 

Tentei ter uma imagem clara, mas não consegui, de modo que descrevi o que recordava.

 

Dom Juan ouviu atentamente e então insistiu em que me lembrasse se eram bolas ou círculos de fogo. Disse-lhe que não me recordava.

 

Explicou que essas bolas de fogo são de crucial importância para os seres humanos, porque são a expressão de uma força que diz respeito a todos os detalhes da vida e da morte, algo que os novos videntes chamam de força rolante.

 

Pedi-lhe que esclarecesse o que queria dizer com todos os detalhes da vida e da morte.

 

— A força rolante é o meio através do qual a Águia distribui vida e consciência — afirmou ele. — Mas é também a força que, por assim dizer, cobra o tributo. É o que faz morrer todos os seres vivos. O que você viu hoje era conhecido pelos antigos videntes como o derrubador.

 

Disse que os videntes o descrevem como uma linha eterna de anéis iridescentes, ou bolas de fogo, que rolam incessantemente na direção dos seres vivos. Os seres orgânicos luminosos recebem a força rolante de frente, até o dia em que a força mostra-se excessiva para eles e as criaturas finalmente entram em colapso, Os antigos videntes ficaram fascinados quando viram como o derrubador então os derruba e os faz rolar para o bico da Águia, para serem devorados. Foi essa a razão de lhe darem o nome de derrubador.

 

— Você disse que é uma visão fascinante. Você já vim o derrubador fazendo rolar seres humanos?

 

— É claro que vi! — replicou, e após uma pausa acrescentou: — Você e eu o vimos há muito pouco tempo, na Cidade do México.

 

Sua afirmação era tão estranha, que me senti obrigado a dizer que dessa vez ele estava errado. Riu e lembrou-me que naquela ocasião, em que nós dois estávamos sentados em um banco no Parque Alameda, na Cidade do México, havíamos testemunhado a morte de um homem. Disse que eu tinha registrado o fato em minha memória cotidiana, assim como em minhas emanações do lado esquerdo.

 

Enquanto Dom Juan falava, tive a sensação de que algo dentro de mim se tomava cada vez mais lúcido, e consegui visualizar toda a cena do parque com impressionante clareza. O homem estava deitado na grama com três policiais ao lado para manter os circunstantes afastados. Lembrei-me distintamente de Dom Juan golpeando-me nas costas para fazer-me mudar de nível de consciência. Então eu vi. Minha visão foi imperfeita. Eu era incapaz de afastar a visão do mundo cotidiano. Terminei vendo uma mistura de filamentos das cores mais exuberantes sobrepostos aos edifícios e ao tráfego. Os filamentos eram na realidade linhas de luz coloridas que vinham do alto. Tinham vida interior; eram brilhantes e transbordavam de energia.

 

Quando olhei para o homem que morria, vi o que Dom Juan estava descrevendo; algo que parecia ao mesmo tempo círculos de fogo ou bolas iridescentes rolava por toda a parte em que eu focalizava meus olhos. Os círculos rolavam sobre as pessoas, sobre Dom Juan, sobre mim. Atingiram meu estômago e me senti mal.

 

Dom Juan disse-me para focalizar meus olhos no homem que morria. Vi-o encolhendo-se sobre si mesmo em dado momento, exatamente como um tatuzinho se enrola ao ser tocado. Os círculos incandescentes empurraram-no, como se estivessem var­rendo-o para o lado, para fora de seu caminho majestoso e inalterável.

 

Não gostei da sensação. Os círculos de fogo não me haviam assustado; não eram sinistros nem inspiravam temor. Não me senti mórbido ou sombrio. Eles me davam uma sensação de náusea, Eu os senti na boca do estômago. O que experimentei naquele dia foi uma sensação de repulsa.

 

Relembrá-los evocou novamente a total sensação de desconforto que eu experimentara naquela ocasião. Quando me senti mal, Dom Juan riu até perder o fôlego.

 

— Você é um sujeito muito exagerado. A força rolante não é tão má assim. Na verdade, é adorável. Os novos videntes recomendam que nos abramos para ela. Os antigos videntes também se abriram para ela, mas por motivos e propósitos ditados principalmente pela vaidade e pela obsessão. Os novos videntes, por outro lado, tornam-se amigos dela. Familiarizaram-se com essa força, manipulando-a sem qualquer vaidade. As conseqüências são impressionantes.

 

Disse que basta o deslocamento do ponto de aglutinação para abrir-se para a força rolante. Acrescentou que se a força é vista deliberadamente, o perigo é mínimo. Uma situação que é extremamente perigosa, entretanto, é um deslocamento involuntário do ponto de aglutinação, devido à fadiga física, à exaustão emocional, à doença, ou simplesmente a uma crise emocional ou física menor, como o pânico ou a embriaguez.

 

— Quando o ponto de aglutinação se desloca involuntariamente, a força rolante fende o casulo — continuou. — Falei muitas vezes sobre uma fenda que o homem tem abaixo do umbigo. Não exatamente abaixo do próprio umbigo, mas no casulo, na altura do umbigo. A fenda é mais como uma depressão, uma falha natural no casulo, cujo resto da superfície é liso. É lá que o derrubador nos golpeia incessantemente, e é nesse ponto que o casulo se fende.

 

Continuou explicando que quando se trata de um pequeno deslocamento do ponto de aglutinação, a fenda é muito pequena, e o casulo se restaura rapidamente. As pessoas sentem o que todos experimentam em alguma ocasião; vêem manchas de cor e formas contorcidas que persistem até com os olhos fechados.

 

Se o deslocamento é considerável, a fenda também é extensa, e leva tempo para o casulo reparar*se. É o caso de guerreiros que usam propositadamente plantas de poder para provocar o deslocamento, ou de gente que toma drogas e inadvertidamente faz a mesma coisa. Nesses casos, as pessoas sentem-se entorpecidas e frias; têm dificuldade de falar ou mesmo pensar; é como se tivessem sido congeladas de dentro para fora.

 

Dom Juan disse que nos casos em que o ponto de aglutinação se desloca drasticamente por efeito de um trauma ou de uma doença mortal, a força rolante produz uma rachadura no comprimento do casulo; o casulo desaba e se enrola sobre si mesmo, e o indivíduo morre.

 

— Um deslocamento voluntário pode produzir uma fenda dessa natureza?

 

— Às vezes. Somos muito frágeis. À medida que o derruba­ nos atinge repetidamente, a morte vai chegando através da fenda. A morte é a força rolante. Quando encontra fraqueza na fenda de um ser luminoso, automaticamente faz com que esta se abra, e o ser entra em colapso.

 

— Todo ser vivo tem uma fenda?

 

— É claro. Se não tivesse, não morreria. Entretanto, as fendas são diferentes em tamanho e configuração. A fenda do homem é uma depressão circular do tamanho de um punho, uma configuração muito frágil e vulnerável. As fendas de outras criaturas orgânicas são muito semelhantes à do homem; algumas são mais fortes que a nossa e outras mais fracas. Mas a fenda dos seres inorgânicos é realmente diferente. É mais como um fio alongado, um cabelo de luminosidade; conseqüentemente, os seres inorgânicos são infinitamente mais duráveis do que nós.

 

"Há alguma coisa assustadoramente atraente na longa vida dessas criaturas, e os antigos videntes não puderam resistir a se deixarem levar por esse apelo."

 

Disse que a mesma força pode produzir dois efeitos diametralmente opostos. Os antigos videntes foram aprisionados pela força rolante, e os novos videntes são recompensados por seus esforços com o presente da liberdade. Familiarizando-se com a força rolante através do domínio da intenção, os novos videntes, em dado momento, abrem seus próprios casulos e a força os inunda em lugar de fazê-los enrolar-se como um tatuzinho encolhido. O resultado final é sua desintegração total e instantânea.

 

Fiz-lhe uma série de perguntas sobre a sobrevida da cons­ciência depois que o ser luminoso é consumido pelo fogo do interior. Não respondeu. Limitou-se a rir e a encolher os ombros, e passou a dizer que a obsessão dos antigos videntes com o derrubador cegou-os para o outro lado daquela força. Os novos videntes, com o seu cuidado usual em recusar a tradição, foram ao outro extremo. No início eram totalmente contrários a focalizar sua visão sobre o derrubador; argumentavam que precisavam compreender a força das emanações livres em seu aspecto doador de vida e enriquecedor da consciência.

 

— Perceberam que é infinitamente mais fácil destruir alguma coisa — continuou Dom Juan — do que construir e conservar. Tomar a vida é nada, em comparação com dar e preservar a vida.

 

Naturalmente, os novos videntes estavam errados a esse respeito, mas na hora oportuna corrigiram seu engano.

 

— Como estavam errados, Dom Juan?

 

— É um erro isolar qualquer coisa para ver. No início, os novos videntes fizeram exatamente o oposto de seus predecessores. Focalizaram com igual atenção o outro lado do derrubador. O que lhes aconteceu foi tão terrível quanto o que aconteceu aos antigos videntes, se não pior, Tiveram mortes estúpidas, exata-mente como o homem médio. Não possuíam o mistério ou a malignidade dos antigos videntes, assim como não possuíam a busca da liberdade dos videntes de hoje.

 

— Aqueles primeiros novos videntes serviam a todos. Por focalizarem sua visão sobre o lado doador de vida das emanações, estavam repletos de amor e ternura. Mas isso não impediu que fossem derrubados. Eram tão vulneráveis quanto os antigos videntes cheios de morbidez.

 

Disse que, para os novos videntes dos dias atuais, não darem nada depois de uma vida de disciplina e trabalho, exatamente como os homens que nunca tiveram um momento significativo em suas vidas, era intolerável. Explicou que esses novos videntes perceberam, depois de haverem readotado sua tradição, que o conhecimento dos antigos videntes sobre a força rolante fora completo; em dado momento, os antigos videntes concluíram que havia realmente dois aspectos diferentes da mesma força. O aspecto derrubador está relacionado exclusivamente com a destruição e a morte. O aspecto circular, por outro lado, t o que mantém a vida e a consciência, a realização e o propósito. Escolheram, entretanto, lidar exclusivamente com o aspecto derrubador.

 

— Olhando em grupos, os novos videntes foram capazes de ver a separação entre os aspectos derrubador e circular — explicou. — Viram que as duas forças estão fundidas, mas não são a mesma. A força circular chega a nós um pouco antes da força derrubadora; estão tão próximas entre si que parecem a mesma.

 

"A razão pela qual é chamada força circular é porque chega em anéis, aros filiformes de iridescência. São realmente muito delicados. E, exatamente como a força derrubadora, atinge sem cessar todos os seres vivos, mas com um propósito diferente.

 

Atinge-os para lhes dar força, direção e consciência; para dar-lhes vida.

 

"O que os novos videntes descobriram é que o equilíbrio entre as duas forças em todo ser vivo é muito delicado. Se em qualquer momento um indivíduo sente que a força derrubadora o atinge com mais força do que a circular, isto significa que o equilíbrio foi afetado; daí em diante, a força derrubadora o atinge com impacto cada vez maior, até romper a fenda do ser vivo e fazê-lo morrer."

 

Acrescentou que do que eu chamava de bolas de fogo sai um aro iridescente exatamente do tamanho dos seres vivos, sejam homens, árvores, micróbios ou aliados.

 

— São círculos de tamanhos diferentes?

 

— Não me interprete tão ao pé da letra — protestou. —Não existem exatamente círculos, apenas uma força circular que dá aos videntes que sonham com ela a sensação de anéis. E também não há tamanhos diferentes. É uma força indivisível que se ajusta a todos os seres vivos, tanto orgânicos como inorgânicos.

 

— Por que os antigos videntes se concentraram no aspecto derrubador?

 

— Porque acreditavam que suas vidas dependiam de vê-lo.

 

Estavam certos de que sua visão iria dar-lhes respostas a questões antiqüíssimas. Calcularam que, se desvendassem o segredo da força rolante, tornar-se-iam invulneráveis e imortais. A parte triste é que, de algum modo, desvendaram os segredos, mas ainda assim não se tornaram invulneráveis nem imortais.

 

"Os novos videntes mudaram tudo ao perceber que o homem não pode aspirar à imortalidade por possuir um casulo."

 

Explicou Dom Juan que os antigos videntes aparentemente jamais perceberam que o casulo humano é um receptáculo e não pode suportar indefinidamente o assalto da força rolante. Apesar de todo o conhecimento que haviam acumulado, ao final não se encontravam em posição melhor, e talvez mesmo até muito pior, do que o homem comum.

 

— De que maneira ficaram em posição pior do que o homem comum?

 

— Seu imenso conhecimento forçou-os a presumir que suas escolhas eram infalíveis. Assim, escolheram viver a qualquer

custo.

 

Dom Juan olhou para mim e sorriu. Com sua pausa teatral estava contando-me algo que eu não podia conceber.

 

— Escolheram viver — repetiu. — Assim como escolheram

tornar-se árvores para poderem aglomerar mundos com as grandes faixas quase inatingíveis.

 

— O que quer dizer com isso, Dom Juan?

 

— Quero dizer que usaram a força rolante para deslocar seus pontos de aglutinação a posições de sonhar inimagináveis, em vez de se deixarem rolar para o bico da Águia a fim de ser devorados.

 

 

       Os Desafiantes da Morte

 

Cheguei à casa de Genaro por volta das duas da tarde. Dom Juan e eu nos envolvemos numa conversa, e então Dom Juan fez-me mudar para a consciência intensificada.

 

— Aqui estamos de novo, nós três, exatamente como estávamos no dia que fomos àquela rocha achatada — disse Dom Juan. — E esta noite vamos fazer outra viagem àquela área.

 

"Agora você já possui conhecimento suficiente para chegar a conclusões muito sérias sobre aquele lugar e seus efeitos sobre a consciência."

 

— O que há com aquele lugar, Dom Juan?

 

— Esta noite você vai descobrir alguns fatos horríveis que os antigos videntes reuniram sobre a força rolante; e você irá ver o que eu quis dizer quando lhe contei que os antigos videntes escolheram vivei a qualquer custo.

 

Dom Juan voltou-se para Genaro, que estava a ponto de cair no sono. Cutucou-o.

 

— Você não diria, Genaro, que os antigos videntes eram homens horrorosos?

 

— Completamente — respondeu Genaro num tom ríspido e pareceu então sucumbir à fadiga.

 

Começou a cabecear de forma visível. Num instante estava profundamente adormecido, a cabeça pendendo com o queixo fincado no peito. Ressonava.

 

Tive vontade de rir alto. Mas então notei que Genaro estava olhando para mim, como se estivesse dormindo com os olhos

abertos.

 

— Eram homens tão horrorosos que até mesmo desafiavam a morte — acrescentou Genaro entre dois roncos.

 

— Não está curioso para saber como esses homens horrorosos desafiavam a morte? — perguntou-me Dom Juan.

 

Parecia estar levando-me a perguntar por um exemplo de tais qualidades horrorosas. Deteve-se e olhou-me com o que julguei ser um brilho de expectativa nos olhos.

 

— Está esperando que lhe peça um exemplo, não está? — disse eu.

 

— Este é um grande momento — replicou, batendo-me nas costas e rindo. — Meu benfeitor conseguiu deixar-me louco de curiosidade nesse ponto. Pedi que me desse um exemplo, e ele o fez; agora irei dar-lhe um, mesmo que você não peça.

 

— O que vai fazer? — perguntei, tão assustado que sentia um nó no estômago e minha voz falhava.

 

Levou algum tempo até que Dom Juan parasse de rir. Todas as vezes que começava a falar, tinha um ataque de riso engasgado.

 

— Como Genaro lhe contou, os antigos videntes eram homens horríveis — disse, esfregando os olhos. — Havia uma coisa que tentaram evitar a qualquer custo; não desejavam morrer. Você pode dizer que o homem comum também não deseja morrer, mas a vantagem que os antigos videntes tinham sobre o homem comum era possuírem a concentração e a disciplina para evitar as coisas por força da intenção; e com efeito intentaram afastar a morte.

 

Parou e olhou-me com as sobrancelhas erguidas. Disse que eu estava fracassando, que não estava fazendo minhas perguntas usuais. Comentei que era claro para mim que ele me queria levar a perguntar se os antigos videntes haviam sido bem-sucedidos em sua intenção de afastar a morte, mas ele próprio já me havia contado que seu conhecimento sobre o derrubador não os tinha salvo da morte.

 

— Foram bem-sucedidos na intenção de afastar a morte — disse, pronunciando as palavras com cuidado especial. — Mas ainda assim tinham de morrer.

 

— Como intentavam afastar a morte?

 

— Observavam seus aliados, e ao ver que eles eram seres vivos com uma resistência muito maior à força rolante, copiaram o modelo deles.

Os antigos videntes perceberam, explicou Dom Juan, que apenas os seres orgânicos possuem uma fenda em forma de tigela. Seu tamanho, sua forma e sua fragilidade fazem dela a configuração ideal para apressar a quebra e o colapso da concha luminosa sob o assalto da força derrubadora. Os aliados, por outro lado, têm apenas uma Unha por fenda, apresentando uma superfície tão pequena à força rolante que os torna praticamente imortais. Seus casulos podem suportar indefinidamente os assaltos do derrubador, porque fendas em forma de linha não lhes oferecem uma configuração ideal.

 

— Os antigos videntes desenvolveram as técnicas mais bizarras para fechar suas fendas — continuou Dom Juan. — Estavam essencialmente corretos ao julgar que uma fenda linear é mais durável do que uma fenda em forma de tigela.

 

— Essas técnicas ainda existem?

 

— Não, não existem — disse ele. — Mas alguns dos videntes que as praticaram existem.

 

Por motivos obscuros, sua afirmação causou-me uma reação de puro terror. Minha respiração alterou-se instantaneamente, e não consegui controlar seu ritmo rápido.

 

— Eles estão vivos até hoje, não é verdade, Genaro? — perguntou Dom Juan.

 

— Completamente — murmurou Genaro, num estado aparente de sono profundo.

 

Perguntei a Dom Juan se sabia a razão pela qual eu estava tão assustado. Relembrou-me de uma ocasião anterior naquele mesmo aposento, quando me haviam perguntado se eu reparara nas criaturas assustadoras que entraram no momento em que Genaro abrira a porta.

 

— Naquele dia, seu ponto de aglutinação deslocou-se muito profundamente para o lado esquerdo e aglomerou um mundo assustador — continuou — mas já lhe disse isso; o que você não recorda é que entrou diretamente em um mundo muito remoto e ali ficou se mijando de medo.

 

Dom Juan voltou-se para Genaro, que ressonava pacifica­mente com as pernas estendidas diante de si,

 

— Ele não estava se mijando de medo, Genaro?

 

— Mijando-se todo — murmurou Genaro, e Dom Juan riu.

 

— Quero que você saiba que não o censuramos por ficar

com medo. Nós mesmos ficamos revoltados com algumas das ações dos antigos videntes. Estou certo de que agora você percebeu que o que não consegue recordar sobre aquela noite é que viu os antigos videntes que ainda estão vivos.

 

Quis protestar de que não havia percebido nada, mas não consegui dar voz às minhas palavras. Precisei limpar a garganta várias vezes antes de conseguir articular uma palavra. Genaro se levantou e bateu suavemente no alto de minhas costas, perto de minha nuca, como se eu estivesse engasgado.

 

— Você está com um sapo na garganta — disse. Agradeci-lhe numa voz aguda e rachada.— Não, acho que é uma galinha — acrescentou, e sentou-se para dormir.

 

Dom Juan disse que os novos videntes se haviam rebelado contra todas as práticas bizarras dos antigos videntes e as declararam não apenas inúteis, mas ofensivas a nosso ser total. Chegaram até mesmo ao ponto de banir essas técnicas do que era ensinado aos novos guerreiros; e durante gerações não houve qualquer menção àquelas práticas. Foi durante a primeira parte do século XVIII que o nagual Sebastian, um membro da Unha direta de naguais de Dom Juan, redescobriu a existência dessas técnicas.

 

— Como?

 

— Era um espreitador soberbo e, por causa de sua impecabilidade, teve oportunidade de aprender maravilhas — replicou Dom Juan.

 

Disse que, um dia, o nagual Sebastian estava por iniciar suas rotinas diárias (era o sacristão da catedral da cidade onde morava), e encontrou à porta da igreja um índio de meia-idade que parecia estar com problemas.

 

O nagual Sebastian aproximou-se do homem e perguntou-Ihc se necessitava de ajuda.

 

— Preciso de um pouco de energia para fechar minha fenda — disse-lhe o homem em voz alta e clara. — Poderia dar-me um pouco de sua energia?

 

Dom Juan disse que, de acordo com a história, o nagual Sebastian ficou perplexo. Não sabia do que o homem estava falando. Ofereceu-se para levar o índio para ver o vigário da paróquia. O homem perdeu a paciência e, irritado, acusou o nagual Sebastian de estar fugindo.

 

— Preciso de sua energia porque você é um nagual — falou.

 

— Vamos sem dizer nada.

 

O nagual Sebastian sucumbiu ao poder magnético do estra­nho, e obedientemente foi com ele para as montanhas. Ficou lá vários dias. Quando voltou, não apenas tinha uma nova visão dos antigos videntes como um conhecimento detalhado de suas técnicas. O desconhecido era um antigo tolteca. Um dos últimos sobreviventes.

 

— O nagual Sebastian descobriu maravilhas sobre os antigos videntes — continuou Dom Juan. — Foi o primeiro a saber o quanto eram realmente grotescos e aberrantes. Antes dele, esse conhecimento era apenas por ouvir dizer.

 

"Uma noite, meu benfeitor e o nagual Elias deram-me uma amostra dessas aberrações. Na verdade, mostraram-nas a Genaro e a mim ao mesmo tempo, de modo que é justo que nós dois lhe mostremos o mesmo exemplo."

 

Eu queria falar só para protelar a situação; precisava de tempo para acalmar-me, para pensar sobre as coisas. Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Dom Juan e Genaro já estavam praticamente arrastando-me para fora de casa. Dirigiram-se para os mesmos morros erodidos que havíamos visitado antes.

 

Paramos ao pé de um grande morro pelado. Dom Juan apontou na direção de umas montanhas distantes ao sul, e afirmou que entre o lugar em que estávamos e o corte natural de uma daquelas montanhas, um corte que parecia uma boca aberta, existiam no mínimo sete lugares onde os antigos videntes haviam concentrado todo o poder de sua consciência.

 

Dom Juan disse que aqueles videntes, além de conhecedores e ousados, foram perfeitamente bem-sucedidos. Acrescentou que seu benfeitor mostrara a ele e a Genaro um local em que os antigos videntes, levados por seu amor à existência, se haviam sepultado vivos e, com efeito, intentado afastar a força rolante.

 

— Não há nada que possa chamai a atenção nesses lugares — continuou. — Os antigos videntes foram cuidadosos em não deixar marcas, É simplesmente uma paisagem. A pessoa tem de ver para saber onde esses lugares estão.

 

Disse que não desejava caminhar aos locais mais distantes, mas que me levaria ao mais próximo, Insisti em saber o que estávamos buscando. Disse-me que íamos ver os videntes sepulta­dos, e que para isso tínhamos de permanecer sob a proteção de uns arbustos verdes até que ficasse escuro. -Apontou para eles; estavam a uns mil metros de distância, numa inclinação íngreme.

 

Alcançamos a faixa de arbustos e sentamo-nos o mais confortavelmente que pudemos. Ele começou então a explicar em voz muito baixa que, para obter energia da Terra, os antigos videntes costumavam enterrar-se por lapsos de tempo que dependiam do que desejavam realizar. Quanto mais difícil a tarefa, mais longo o período de sepultamento.

 

Dom Juan levantou-se e, de modo melodramática, mostrou-me um local a poucos metros de onde estávamos.

 

— Dois antigos videntes estão sepultados ali. Enterraram-se há cerca de dois mil anos para escapar à morte, não no sentido de fugir dela, mas de desafiá-la.

 

Dom Juan pediu a Genaro que me mostrasse o ponto exato onde os antigos videntes foram sepultados. Voltei-me para olhar para Genaro, e percebi que estava sentado ao meu lado profunda­mente adormecido outra vez. Mas para minha total surpresa, levantou-se num salto, latiu como um cão e correu de quatro até o ponto que Dom Juan estava mostrando. Correu ao redor do lugar numa imitação perfeita de um pequeno cão.

 

Achei seu desempenho hilariante. Dom Juan estava pratica­mente no chão de tanto rir.

 

— Genaro mostrou-lhe algo extraordinário — disse Dom Juan, depois que Genaro retornou ao local em que estávamos e voltou a dormir. — Mostrou-lhe algo sobre o ponto de aglutinação e sobre sonhar. Está sonhando agora, mas pode agir como se estivesse completamente desperto e até ouvir tudo que você diz. A partir dessa posição, pode fazer mais do que se estivesse acordado. Ficou em silêncio por um momento, como se pensasse o que dizer em seguida. Genaro ressonava ritmicamente.

 

Dom Juan observou como era fácil para ele encontrar falhas no que os antigos videntes haviam feito, embora, com toda justiça, nunca se cansasse de repetir como eram maravilhosas suas realizações. Disse que compreendiam a Terra à perfeição. Não apenas descobriram e usaram o impulso da Terra, como também descobriram que, se permanecessem sepultados, seus pontos de aglutinação alinhariam emanações que eram ordinariamente inacessíveis, e que este alinhamento utilizava a estranha e inexplicável capacidade da Terra de desviar os ataques incessantes da força rolante, Conseqüentemente, desenvolveram as mais impressionantes e complexas técnicas para permanecer sepultados por períodos de tempo extremamente longos sem sofrer qualquer dano. Em sua luta contra a morte, aprenderam como prolongar esses períodos por milênios.

 

Era um dia nublado, e a noite caiu rapidamente. Num instante tudo estava envolto em escuridão. Dom Juan levantou-se e guiou a mim e ao sonâmbulo Genaro a uma enorme pedra achatada e oval que me havia chamado a atenção no momento em que chegamos àquele lugar. Era semelhante à pedra achatada que havíamos visitado antes, só que maior. Ocorreu-me que aquela pedra, por maior que fosse, tinha sido colocada ali deliberadamente.

 

— Este é outro lugar — disse Dom Juan. — Essa pedra imensa foi posta aqui como armadilha, para atrair pessoas. Logo saberá por quê.

 

Senti um calafrio percorrer meu corpo. Pensei que ia desmaiar. Sabia que minha reação era definitivamente exagerada e desejava dizer algo a respeito, mas Dom Juan continuou falando num sussurro rouco. Disse que Genaro, que estava sonhando, tinha controle suficiente sobre seu ponto de aglutinação para deslocá-lo até atingir as emanações específicas que iriam despertar o que havia ao redor daquela rocha. Recomendou que eu tentasse deslocar meu ponto de aglutinação e seguir o de Genaro. Disse que poderia fazê-lo, primeiro aplicando minha intenção inflexível em deslocá-lo e, segundo, deixando que o contexto da situação ditasse para onde ele deveria deslocar-se.

 

Depois de pensar por um momento, sussurrou em meu ouvido para não me preocupar com procedimentos, porque a maior parte das coisas realmente incomuns que acontecem aos videntes, assim como ao homem comum, acontecem sozinhas, apenas com a intervenção da intenção.

 

Ficou em silêncio por um momento e acrescentou então que o perigo para mim seria a inevitável tentativa dos videntes sepultados de assustar-me até a morte. Exortou-me a me manter calmo e a não sucumbir ao medo, procurando seguir os movimentos de Genaro.

 

Lutei desesperadamente para não vomitar. Dom Juan bateu-me nas costas e disse que eu era um antigo profissional em representar o papel do espectador inocente. Assegurou-me que não era só eu que estava me recusando conscientemente a permitir que meu ponto de aglutinação se movesse, mas que todo ser humano faz isso automaticamente.

 

— Alguma coisa vai deixar você quase morto de medo — sussurrou. — Mas não desista, porque se desistir vai morrer e os velhos abutres que existem por aqui irão devorar toda a sua energia.

 

— Vamos sair daqui — supliquei. —Na verdade eu não faço a menor questão de ver o aspecto grotesco dos antigos videntes.

 

— Tarde demais — disse Genaro, inteiramente desperto agora, ao meu lado. — Mesmo se tentarmos ir embora, os dois videntes e seus aliados do outro local não vão deixar. Já fizeram um círculo ao redor de nós. Existem cerca de dezesseis consciências focalizadas em você exatamente agora.

 

— Quem são eles? — sussurrei no ouvido de Genaro.

 

— Os quatro videntes e sua corte. Estão conscientes de nossa presença desde que chegamos aqui.

Eu quis virar-me e sair correndo, mas Dom Juan segurou meu braço e apontou para o céu. Notei uma perceptível mudança na visibilidade. Em vez do negrume total, havia uma agradável meia-luz de alvorada. Verifiquei rapidamente os pontos cardeais. O céu estava definitivamente mais claro para os lados do leste.

 

Senti uma estranha pressão em torno de minha cabeça. Meus ouvidos estavam zumbindo. Sentia-me frio e febril ao mesmo tempo. Estava mais assustado do que nunca, mas o que me preocupava era uma desagradável sensação de derrota, de covardia. Senti-me nauseado e miserável.

 

Dom Juan sussurrou em roeu ouvido. Disse que eu devia estar alerta, que sentiríamos o assalto dos antigos videntes a qualquer momento.

 

— Você pode agarrar-se a mim se quiser — falou Genaro num rápido sussurro, como se algo o estivesse impelindo.

 

Hesitei por um instante. Não desejava que Dom Juan acreditasse que estava tão assustado que necessitasse agarrar-me a Genaro.

 

— Estão chegando! — disse Genaro num sussurro mais alto. O mundo virou instantaneamente de ponta-cabeça para mim quando algo agarrou-me pelo tornozelo esquerdo. Senti o frio da morte em meu corpo inteiro. Achei que havia pisado numa garra de ferro, talvez uma armadilha para ursos. Tudo isso passou rapidamente pela minha mente antes que eu soltasse um grito agudo, tão intenso quanto meu medo.

 

Dom Juan e Genaro riram alto. Flanqueavam-me a não mais do que um metro de distância, mas eu estava tão aterrorizado que sequer os percebia.

 

— Cante! Cante se tem amor à vida? — ouvi Dom Juan ordenar-me em voz baixa.

 

Tentei libertar a perna. Senti então uma dor, como se agulhas estivessem penetrando minha pele. Dom Juan insistia repetidamente que eu cantasse. Ele e Genaro começaram a cantar uma canção popular. Genaro dizia os versos olhando-me a pouco mais de cinco centímetros. Cantavam desafinando, com vozes ásperas, ficando tão sem fôlego e indo tão além do alcance de suas vozes que terminei por rir.

 

— Cante ou irá morrer — disse-me Dom Juan.

 

— Vamos fazer um trio — disse Genaro. — Vamos cantar um bolero.

 

Juntei-me a eles num trio desafinado, Cantamos por um bom tempo no máximo volume de nossas vozes, como bêbados, e senti que as garras de aço em minha perna soltavam-me aos poucos. Não me atrevera a olhar para o tornozelo. Em certo momento olhei, e percebi que não havia armadilha nenhuma. Uma forma escura semelhante a uma cabeça estava-me mordendo!

 

Apenas um esforço supremo evitou que eu desmaiasse. Percebi que estava ficando enjoado e automaticamente tentei curvar-me, mas alguém com força sobre-humana agarrou-me sem esforço pelos cotovelos e pela nuca e não deixou que me movesse. Vomitei diretamente sobre minhas roupas.

 

Meu nojo foi tão completo que comecei a cair num desmaio. Dom Juan borrifou meu rosto com um pouco de água da pequena cabaça que sempre trazia quando íamos para as montanhas. A água penetrou por meu colarinho, e a frieza restaurou meu equilíbrio físico, mas não afetou a força que me segurava pelos cotovelos e pelo pescoço.

 

— Acho que está indo longe demais com o seu pavor — disse Dom Juan em voz alta e num tom tão severo que criou uma imediata sensação de ordem.

 

— Vamos cantar novamente — acrescentou. — Vamos cantar uma canção com substância, não quero mais nenhum bolero.

 

Silenciosamente agradeci-lhe pela sobriedade e por seu estilo grandioso. Fiquei tão comovido ao ouvi-los cantar La Valentina que comecei a chorar.

 

"Dizem que a minha paixão causará minha perdição.

Não importa

que seja o próprio demônio. Eu sei como morrer,

 

Valentina, Valentina.

Lanço-me no teu caminho.

Se devo morrer amanhã,

por que não hoje, de uma vez por todas?"

 

Todo o meu ser vacilou sobre o impacto daquela inconcebível justaposição de valores. Nunca uma canção significara tanto para mim. Ao ouvi-los cantar aqueles versos, que normalmente considerava transbordantes de sentimentalismo barato, achei que compreendia o caráter do guerreiro. Dom Juan havia-me repetido que os guerreiros vivem com a morte ao lado, e do conhecimento de que a morte está com eles retiram a coragem para enfrentar qualquer coisa. Ele dissera que o pior que nos pode acontecer é termos que morrer, e já que esse de qualquer modo é nosso destino inalterável, somos livres; aqueles que perderam tudo, nada mais têm a temer.

 

Caminhei para Dom Juan e Genaro e abracei-os para expressar minha gratidão sem limites e minha admiração por eles.

 

Percebi então que nada mais estava me prendendo. Sem uma palavra, Dom Juan segurou meu braço e levou-me para sentar sobre a rocha achatada.

 

— Agora é que o espetáculo vai realmente começar — disse Genaro num tom jovial, tentando encontrar uma posição confortável para sentar-se. — E você acaba de pagar seu ingresso. Está todo sobre seu peito.

 

Olhou para mim e ambos começaram a rir.

 

— Não sente muito perto de mim — disse Genaro. — Não gosto de porcalhões. Mais não vá muito longe, também. Os antigos videntes ainda não terminaram com seus truques.

 

Aproximei-me deles o máximo que a polidez permitia. Fiquei preocupado com meu estado por um instante, e logo toda a minha náusea perdeu o sentido, pois percebi que algumas pessoas vinham em nossa direção. Não podia enxergar suas formas claramente, mas distingui uma massa de figuras humanas movendo-se na semi-escuridão. Não carregavam lanternas ou lâmpadas, que naquela hora deveriam necessitar. De algum modo esse detalhe preocupou-me. Não desejava concentrar-me nele e deliberadamente comecei a pensar de forma racional. Calculei que devíamos ter atraído atenção cantando em voz alta, e que vinham investigar. Dom Juan bateu em meu ombro. Apontou com um movimento do queixo para os homens que caminhavam à frente do grupo.

 

— Aqueles quatro são os antigos videntes. Os demais são os seus aliados.

 

Antes que eu conseguisse dizer que eram apenas camponeses locais, ouvi um som sibilante exatamente atrás de mim. Rapidamente voltei-me, num estado de alarme total. Meu movimento foi tão súbito que o aviso de Dom Juan chegou tarde demais.

 

— Não se vire!

 

Suas palavras ficaram muito distantes, e não significavam nada. Ao voltar-me, vi três homens grotescamente deformados que tinha subido para a rocha exatamente atrás de mim; arrastavam-se em minha direção, com as bocas abertas em caretas de pesadelo e com os braços estendidos para agarrar me.

 

Quis gritar com toda a força de meus pulmões, mas o que saiu foi um coaxar agonizante, como se algo estivesse obstruindo minha traquéia. Automaticamente, rolei para fora de seu alcance e para o chão.

 

Quando me levantei, Dora Juan saltou para o meu lado, no mesmo instante em que uma horda de homens, liderada pelos que Dom Juan havia apontado, caía sobre mim como abutres. Estavam realmente guinchando como morcegos ou ratos. Berrei aterrorizado. Dessa vez, fui capaz de emitir um grito forte.

 

Dom Juan, com tanta facilidade quanto um atleta em plena forma, puxou-me para fora de suas garras e para o alto da rocha. Disse-me em voz preocupada para não virar-me a fim de olhar, não importava o quanto estivesse assustado. Disse que os aliados não eram capazes de empurrar, mas que certamente podiam assustar-me e fazer-me cair para o chão. No chão, entretanto, os aliados conseguiam prender qualquer pessoa. Se ocorresse de eu cair sobre o local onde os videntes estavam sepultados, estaria à sua mercê. Iriam me fazer em pedaços enquanto os aliados me seguravam. Acrescentou que não me contara tudo aquilo antes porque tivera esperanças de que eu fosse forçado a ver e compreender por mim mesmo. Sua decisão por pouco não me havia custado a vida.

 

A sensação de que os homens grotescos estavam exatamente atrás de mim era quase insuportável. Dom Juan exortou-me severamente a manter-me calmo e a focalizar minha atenção nos quatro homens à frente de um grupo de talvez dez ou doze. No instante em que focalizei meus olhos neles, como obedecendo a uma deixa, avançaram todos para a borda da rocha achatada. Pararam ali e começaram a sibilar como serpentes. Caminhavam para um lado e para outro. Seus movimentos pareciam estar sincronizados. Eram tão combinados e ordenados que pareciam mecânicos. Como se estivessem seguindo um padrão repetitivo, hipnótico.

 

— Não os encare, querido — disse-me Genaro como se falasse a uma criança.

 

O riso que se seguiu foi tão histérico como o meu medo. Ri com tanta força que o som reverberou nos morros ao redor.

 

Os homens pararam imediatamente, parecendo perplexos. Podia distinguir as formas de suas cabeças balançando para cima e para baixo como se estivessem conversando, deliberando entre si. Então um deles subiu para a rocha.

 

— Olhe! É um vidente! — exclamou Genaro,

 

— Que vamos fazer? — gritei.

 

— Podíamos começar a cantar novamente — respondeu Dom Juan despreocupadamente.

 

Meu medo atingiu o auge. Comecei a saltar para cima e para baixo e a rugir como um animal. O homem pulou para o solo.

 

— Não preste mais atenção a esses palhaços — disse Dom Juan. — Vamos conversar normalmente.

 

Falou que havíamos vindo ali para meu esclarecimento, e que eu estava fracassando miseravelmente. Tinha de me reorganizar. A primeira coisa a perceber era que meu ponto de aglutinação se havia deslocado e que agora estava fazendo brilhar emanações obscuras. Trazer o sentimento de meu estado usual de consciência para um mundo que eu havia aglomerado era na verdade um disfarce, pois o medo só tem lugar entre as emanações da vida diária.

 

Disse a Dom Juan que se meu ponto de aglutinação se deslocara como afirmava, tinha más notícias para ele. Meu medo era infinitamente maior e mais devastador que qualquer coisa que jamais tivesse experimentado em minha vida diária.

 

— Você está errado — disse ele. — Sua primeira atenção está confusa e não quer largar o controle, é isso. Tenho a sensação de que você poderia ir diretamente até aquelas criaturas e encará-las sem que lhe fizessem nada.

 

Insisti em que definitivamente não tinha condição de testar uma coisa tão absurda como aquela.

 

Ele riu de mim. Disse que mais cedo ou mais tarde eu teria de curar-me de minha loucura, e que tomar a iniciativa e encarar aqueles quatro videntes era infinitamente menos absurdo do que a idéia de que realmente os estava vendo. Disse também que, para ele, loucura era ser atacado por homens que estavam sepultados há dois mil anos e ainda se encontravam vivos, e não achar que isso era o auge do absurdo.

 

Ouvi tudo que ele dizia com clareza, mas não estava realmente prestando muita atenção. Estava aterrorizado pelos homens ao redor da rocha. Pareciam sé preparar para saltar sobre nós, na verdade saltar sobre mim. Estavam fixados em mim. Meu braço direito começou a tremer como se eu fosse atingido por algum distúrbio muscular. Tive então consciência de que a luz no céu havia mudado. Não notara, antes, que já estava amanhecendo. O estranho é que uma urgência incontrolável fez com que me levantasse e corresse para o grupo de homens.

 

Naquele momento, tive dois sentimentos completamente diferentes sobre o mesmo acontecimento. O menor era de puro terror. O outro, o maior, era de total indiferença. Não poderia me importar menos.

 

Quando alcancei o grupo, percebi que Dom Juan estava certo; não eram realmente homens. Apenas quatro deles tinham alguma semelhança com homens, mas também não eram homens; eram criaturas estranhas com grandes olhos amarelos. Os outros eram apenas formas impelidas pelos quatro que pareciam homens.

 

Senti-me extraordinariamente triste por aquelas criaturas com olhos amarelos. Tentei tocá-las, mas não as consegui encontrar. Alguma espécie de vento arrastou-as para longe.

 

Procurei Dom Juan e Genaro. Não se encontravam ali. Estava totalmente escuro novamente. Chamei seus nomes por várias vezes. seguidas. Vaguei pela escuridão durante alguns minutos. Dom Juan veio para o meu lado e assustou-me. Não vi Genaro.

 

— Vamos para casa — disse ele. — Temos muito que caminhar.

 

Dom Juan comentou que me havia comportado bem no local dos videntes sepultados, especialmente durante a última parte de nosso encontro com eles. Disse que o deslocamento do ponto de aglutinação é marcado por uma mudança na luz. Durante o dia, a luz fica muito escura; durante a noite, a escuridão se torna meia-luz. Acrescentou que eu havia feito dois deslocamentos sozinho, auxiliado apenas pelo medo animai. A única coisa que reprovava era eu me ter entregue ao medo, especialmente depois que havia percebido que os guerreiros nada têm a temer.

 

— Como sabe que o percebi?

 

— Porque você ficou livre. Quando o medo desaparece, todos os laços que nos atam dissolvem-se. Um aliado estava agarrado ao seu pé porque foi atraído por seu terror animal.

 

Disse-lhe que sentia muito não ser capaz de executar o que compreendia.

 

— Não se preocupe com isso — riu. — Sabe que essa compreensão não vale nada; não soma nada à vida dos guerreiros, pois é cancelada quando o ponto de aglutinação se desloca.

 

"O que Genaro e eu pretendíamos era fazê-lo deslocar-se muito profundamente. Dessa vez, Genaro estava presente simplesmente para atrair os antigos videntes. Já o fez antes, e você deslocou-se tão fundo para o lado esquerdo que levará bastante tempo até que se lembre. Seu medo esta noite era exatamente tão intenso quanto naquela primeira vez, quando os videntes e seus aliados seguiram-no para esse mesmo aposento, mas a sua teimosa primeira atenção não, quis deixá-lo ficar consciente deles."

 

— Explique-me o que aconteceu no local dos videntes — pedi.

 

— Os aliados saíram para ver você. Como têm energia muito baixa, sempre necessitam da ajuda dos homens. Os quatro videntes reuniram doze aliados.

 

"A zona rural do México e também algumas cidades são perigosas. O que aconteceu a você pode acontecer a qualquer homem ou mulher. Se derem com aquela tumba, podem até mesmo ver os videntes e seus aliados, se forem maleáveis o suficiente para deixar que o medo faça seus pontos de aglutinação se deslocarem; mas uma coisa é certa: podem morrer de pavor."

 

— Acredita honestamente que aqueles videntes toltecas ainda estão vivos?

 

Ele riu e balançou a cabeça em descrédito.

 

— E hora de deslocar esse seu ponto de aglutinação apenas um pouco. Não posso falar com você quando está em seu estágio de idiota.

 

Bateu com a palma da mão em três pontos: diretamente na crista de meu ilíaco direito, no centro de minhas costas abaixo das omoplatas, e na parte superior de meu músculo peitoral direito. Meus ouvidos começaram a zumbir imediatamente. Uma gotícula de sangue escorreu de minha narina direita, e algo dentro de mim se desencadeou. Foi como se algum fluxo de energia tivesse estado bloqueado e subitamente começasse a se mover novamente.

 

— Atrás do que estavam aqueles videntes e seus aliados? — perguntei.

 

— De nada — replicou. — Éramos nós que estávamos atrás deles. Os videntes, naturalmente, já perceberam seu campo de energia na primeira vez em que você os viu; quando voltou, estavam preparados para devorar sua energia.

 

— Você afirma que eles estão vivos, Dom Juan — disse eu. — Isso quer dizer que estão vivos assim como os aliados estão vivos, é isso?

 

— Exatamente. Eles não têm qualquer possibilidade de estar vivos como você e eu. Isso seria despropositado.

 

Continuou explicando que a preocupação dos antigos videntes com a morte fê-los examinar as mais bizarras possibilidades. Os que optaram pelo modelo dos aliados tinham em mente, sem dúvida, o desejo de um refúgio. E encontraram-no, em uma posição fixa de uma das sete faixas de consciência inorgânica. Os videntes sentiram que estavam relativamente a salvo ali. Afinal, encontravam-se separados do mundo cotidiano por uma barreira quase intransponível, a barreira da percepção estabelecida pelo ponto de aglutinação.

 

— Quando os quatro videntes viram que você podia deslocar seu ponto de aglutinação partiram como morcegos fugindo do inferno — disse ele, e riu.

 

— Quer dizer que aglutinei um dos sete mundos?

 

— Não, não chegou a tanto. Mas já o fez antes, quando os videntes e seus aliados o caçaram. Naquele dia você foi diretamente até seu mundo. O problema é que você adora agir estupidamente, de modo que não pode lembrar-se.

 

"Estou certo de que é a presença do nagual que às vezes faz as pessoas agirem tolamente. Quando o nagual Julian ainda estava entre nós, eu era mais tolo do que sou agora. Estou convencido de que, quando eu não estiver mais por aqui, você será capaz de lembrar-se de tudo."

 

Dom Juan explicou que, como necessitava mostrar os desafiantes da morte, ele e Genaro os haviam atraído para as fronteiras de nosso mundo. O que eu fiz em primeiro lugar foi um profundo deslocamento lateral, que me permitiu vê-los como pessoas, mas no final fiz o deslocamento correto, que me permitiu ver os desafiantes da morte e seus aliados como realmente são.

 

Muito cedo na manhã seguinte, na casa de Silvia Manuel, Dom Juan chamou-me para o aposento grande a fim de discutir os acontecimentos da noite anterior. Sentia-me exausto e desejava descansar, dormir, mas Dom Juan estava com pressa. Começou imediatamente sua explicação. Disse que os antigos videntes haviam descoberto uma maneira de utilizar a força rolante e serem impelidos por ela. Em vez de sucumbirem aos assaltos do derrubador, viajavam com ele e deixavam-no deslocar seus pontos de aglutinação aos últimos limites das possibilidades humanas. Dom Juan exprimiu admiração genuína por tal realização. Admitiu que não havia nada que pudesse dar ao ponto de aglutinação o impulso que o derrubador dá.

 

Perguntei-lhe sobre a diferença entre o impulso da Terra e o do derrubador. Explicou que o impulso da Terra é força de alinhamento apenas das emanações de cor âmbar. É um impulso que eleva a consciência a graus impensados. Para os novos videntes, é uma explosão de consciência ilimitada, que chamam de liberdade total.

 

Disse que o impulso do derrubador, por outro lado, é a força da morte. Sob o impacto do derrubador, o ponto de aglutinação se desloca para posições novas, imprevisíveis. Assim, os antigos videntes encontravam-se sempre sozinhos em suas viagens, embora o empreendimento em que estavam envolvidos fosse sempre comunitário. A companhia de outros videntes em suas viagens era casual, e geralmente significava um conflito pela supremacia.

 

Confessei a Dom Juan que as preocupações dos antigos videntes, quaisquer que fossem, eram piores do que mórbidas histórias de terror para mim. Ele riu ruidosamente. Parecia estar se divertindo.

 

— Deve admitir, por mais que se sinta enojado, que aqueles demônios eram muito ousados. Jamais gostei deles pessoalmente, como sabe, mas não posso deixar de admirá-los. Seu amor pela vida está realmente além de mim.

 

— Como aquilo pode ser amor pela vida, Dom Juan? É nauseante!

 

— O que mais poderia empurrar um homem a tais extremos senão o amor pela vida? Amavam tão intensamente a vida que não tinham desejo de renunciar a ela. Ê assim que eu vejo. Meu benfeitor via outra coisa. Achava que tinham medo de morrer, o que não é o mesmo que amar a vida. Eu acho que tinham medo de morrer porque amavam a vida e porque viram maravilhas, e não porque fossem pequenos monstros gananciosos. Não. Tomaram-se aberrantes porque ninguém jamais os desafiou e eram mimados como crianças estragadas, mas sua ousadia era impecável, assim como sua coragem.

 

"Você iria se aventurar pelo desconhecido por ganância? De modo algum. A ganância funciona apenas no mundo das coisas ordinárias. Para aventurar-se por aquela solidão aterrorizante é preciso ter algo mais do que ganância. Amor — a pessoa necessita de amor pela vida, pela intriga, pelo mistério. É preciso ter uma curiosidade insaciável e muita coragem. Então não me venha com essa besteira de estar enojado. É uma bobagem primária!"

 

Os olhos de Dom Juan brilhavam de riso contido. Estava pondo-me em meu lugar, mas divertindo-se.

 

Dom Juan deixou-me sozinho no aposento, por uma hora talvez. Eu queria organizar meus pensamentos e sentimentos, mas não conseguia. Sabia sem qualquer dúvida que meu ponto de aglutinação encontrava-se numa posição onde o raciocínio era inútil; no entanto, eu estava perturbado por preocupações racionais. Dom Juan dissera que, tecnicamente, assim que o ponto de aglutinação se desloca, estamos adormecidos. Perguntei-me, por exemplo, se eu estava profundamente adormecido do ponto de vista de um observador, exatamente como Genaro estivera adormecido para mim.

 

Perguntei a Dom Juan sobre aquilo assim que ele regressou.

 

— Você está inteiramente adormecido sem precisar ficar deitado. Se pessoas em estado normal de consciência o vissem agora, iria parecer-lhes um pouco tonto, ou talvez bêbado.

 

Explicou que, durante o sono normal, o deslocamento do ponto de aglutinação se dá ao longo de qualquer das margens da faixa do homem. Esses deslocamentos estão sempre combinados com o sono. Os deslocamentos que são induzidos pela prática ocorrem ao longo da seção central da faixa do homem e não estão combinados com o sono, embora o sonhador esteja adormecido.

 

— Foi exatamente nessa junção que os antigos e os novos videntes fizeram suas tentativas diferentes de obter poder — continuou. — Os antigos videntes queriam obter uma réplica do corpo, mas com maior força física, e assim faziam deslizar seus pontos de aglutinação ao longo da margem direita da faixa do homem. Quanto mais profundamente se deslocavam ao longo da faixa direita, mais bizarro se tornava seu corpo sonhador. Você próprio testemunhou na noite passada o resultado monstruoso de um deslocamento profundo ao longo da margem direita.

 

Disse que os novos videntes eram completamente diferentes, que mantêm seus pontos de aglutinação ao longo da seção central da faixa do homem. Se o deslocamento é pequeno, como a mudança para a consciência intensificada, o sonhador é quase como qualquer outra pessoa na rua, exceto por uma ligeira vulnerabilidade às emoções, tais como medo ou dúvida. Mas, a certo grau de profundidade, o sonhador que está deslocando ao longo da seção central toma-se uma bolha de luz. Uma bolha de luz é o corpo do sonhador dos novos videntes.

 

Disse também que um corpo sonhador tão impessoal é mais receptivo à compreensão e ao exame, que são a base de tudo que os novos videntes fazem. O corpo sonhador intensamente humanizado dos antigos videntes levou-os a procurar respostas que eram igualmente pessoais, humanizadas.

 

Repentinamente, Dom Juan pareceu estar procurando as palavras certas.

 

— Existe outro desafiante da morte — disse secamente —, tão diferente dos quatro que você viu que não se pode distingui-lo do homem comum das ruas. Conseguiu essa façanha única por ser capaz de abrir e fechar sua fenda sempre que deseje.

 

Brincou com os dedos quase nervosamente.

 

— O antigo vidente que o nagual Sebastian encontrou em 1723 é esse desafiante da morte — continuou. — Consideramos essa data como o começo de nossa Unha, o segundo começo. Aquele desafiante da morte, que estava na terra há centenas de anos, mudou a vida de todo nagual que encontrou, a de alguns mais profundamente que a de outros. E encontrou todos os naguais de nossa linha desde aquele dia em 1723.

 

Dom Juan olhou fixamente para mim. Fiquei estranhamente embaraçado. Pensei que meu embaraço fosse o resultado de um dilema. Tinha dúvidas muito sérias sobre o conteúdo da história, e ao mesmo tempo tinha a mais desconcertante confiança de que tudo o que dissera era verdade. Expressei-lhe minha hesitação.

 

— O problema do descrédito racional não é apenas seu. No início, meu benfeitor foi perseguido pela mesma pergunta. Naturalmente, mais tarde lembrou-se de tudo. Mas levou um longo tempo para fazê-lo. Quando o encontrei, já se havia lembrado de tudo, de modo que nunca testemunhei suas dúvidas. Apenas ouvi a respeito.

 

"O mais estranho é que pessoas que nunca puseram os olhos no homem têm menos dificuldade em aceitar que ele seja um dos videntes originais. Meu benfeitor disse que suas dúvidas se deviam ao fato de que o choque de encontrar tal criatura havia juntado certo número de emanações. É preciso tempo para que tais emanações se separem,"

 

Dom Juan continuou explicando que, à medida que meu ponto de aglutinação continuasse mudando, chegaria o momento em que atingiria a combinação apropriada de emanações; nesse momento, a prova da existência daquele homem se tornaria irresistivelmente evidente para mim.

 

Senti-me compelido a falar novamente sobre minha ambivalência.

 

— Estamos nos desviando de nosso assunto — disse ele. — Pode parecer que tento convencê-lo da existência daquele homem; e na realidade desejava falar sobre o fato de que o antigo vidente sabe como manejar a força rolante. Acreditar ou não que ele exista não é importante. Algum dia você saberá com certeza que ele realmente conseguiu fechar sua fenda. Ele usa a energia que toma emprestada dos naguais de cada geração exclusivamente para fechar sua fenda.

 

— Como conseguiu fechá-la?

 

— Não há como saber — replicou. — Falei com dois outros naguais que virara esse homem face a face, o nagual Julian e o nagual Elias. Nenhum deles sabia. O homem nunca revelou como fecha a abertura, que deve começar a expandir-se após algum tempo. O nagual Sebastian disse que, quando viu pela primeira vez o antigo vidente, ele estava muito fraco, realmente morrendo. Mas meu benfeitor encontrou-o movendo-se vigorosamente, como um homem jovem.

 

Dom Juan disse que o nagual Sebastian apelidou aquele homem sem nome de "o inquilino", pois eles chegaram a um arranjo pelo qual o homem recebia energia, alugando o nagual por assim dizer, e pagando o aluguel sob a forma de favores e conhecimento.

 

— Alguma vez alguém saiu perdendo na troca?

 

— Nenhum dos naguais que trocaram energia com ele foi prejudicado. O compromisso do homem era de que ele apenas tomaria um pouco da energia supérflua do nagual em troca de dons, de extraordinárias habilidades. Por exemplo, o nagual Julian recebeu a marcha do poder. Com o mesmo, podia ativar ou tornar dormentes as emanações dentro de seu casulo de maneira a parecer jovem ou velho à vontade.

 

Dom Juan explicou que os desafiantes da morte em geral chegavam ao ponto de tomar dormentes todas as emanações dentro de seus casulos, menos aquelas que combinavam com as emanações dos aliados. Dessa maneira, eram capazes de imitar os aliados sob alguns aspectos.

 

Todos os desafiantes da morte que encontráramos na rocha, disse Dom Juan, haviam sido capazes de deslocar seu ponto de aglutinação à posição precisa em seu casulo onde enfatizavam as emanações que tinham em comum com os aliados, e interagiam com eles. Mas eram todos incapazes de deslocá-lo de volta à sua posição usual e interagir com as pessoas. O inquilino, por outro lado, tem capacidade de deslocar seu ponto de aglutinação para aglomerar o mundo cotidiano, como se nada houvesse acontecido.

 

Dom Juan disse também que seu benfeitor estava convencido — e concordava inteiramente com ele — que o que tem lugar durante o empréstimo de energia é que o antigo feiticeiro desloca o ponto de aglutinação do nagual para enfatizar as emanações do aliado no interior do casulo do nagual. Usa então o grande fluxo de energia produzido por essas emanações que são subitamente alinhadas após estarem tão profundamente adormecidas.

 

Disse que a energia aprisionada dentro de nós, nas emanações dormentes, tem uma força imensa e um alcance incalculável. Podemos estimar apenas vagamente o alcance dessa tremenda