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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O GAMO REI / Marion Zimmer Bradley
O GAMO REI / Marion Zimmer Bradley

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

AS BRUMAS DE AVALON

 

Livro 3

O Gamo-rei

 

Capítulo 1

Naquela estação, no reino de Lot, era como se o sol dificilmente desaparecesse: a rainha Morgause acordou quando a luz começou a infiltrar-se pelas cortinas, e era ainda tão cedo que as gaivotas não tinham começado a esvoaçar. Mas já havia luz suficiente para que ela percebesse o corpo peludo e musculoso do jovem que dormia a seu lado... privilégio que desfrutara durante a maior parte do inverno. Ele era um dos cavaleiros de Lot, que lançara olhares cobiçosos para a rainha antes mesmo da morte de seu marido. E na escuridão mortal do último inverno, era demais pedir que ela dormisse sozinha no frio quarto real.

Lot tinha sido um bom rei, pensou ela, protegendo os olhos contra a claridade que aumentava. Mas reinara por um tempo excessivamente longo - desde que Uther Pendragon subira ao trono - e seu povo estava acostumado com ele: havia homens de meia-idade que não conheciam outro rei. Já ocupava o trono quando o jovem Lochlan nasceu... e, na verdade, também ela, Morgause, já era rainha. Essa lembrança, porém, era um pouco incômoda, e ela afastou-a.

Gawaine devia ter sucedido o pai, mas não visitava sua terra natal desde a coroação de Artur, e o povo não o conhecia. Ali, as tribos concordavam, já que havia paz, em ser governadas pela rainha, assistida por seu filho Agravaine, caso precisassem de um chefe na guerra. Desde tempos imemoriais, eles haviam sido governados por rainhas, tal como a Deusa governava os Deuses, satisfeitos de que assim fosse.

Gawaine, porém, não deixara a companhia de Artur, nem mesmo quando Lancelote foi passar o dia de Beltane no norte - segundo sua desculpa - para ver se os faróis do litoral estavam funcionando, a fim de que os navios não se chocassem com as rochas. Mas Morgause desconfiava que ele visitara o reino de Lot para que os olhos de Artur pudessem ver o que acontecia ali, se havia alguém inconformado com o governo do Grande Rei.

Ficou, então, sabendo da morte de Igraine. Quando mais jovem, não se dava bem com a irmã: sempre lhe invejara a beleza, e nunca lhe perdoara ter sido escolhida por Viviane para mulher de Uther. Achava que teria sido melhor Grande Rainha do que aquela moça frágil, tão apagada, devota e amante. E na hora da verdade, quando a luz se apagava, os homens não eram muito diferentes uns dos outros: podiam ser controlados com absurda facilidade, eram dependentes daquilo que a mulher lhes podia oferecer. Morgause governara bem, à sombra do trono de Lot; e teria governado ainda melhor com Uther, pois não se teria deixado dominar de maneira tão idiota pelos padres.

Quando soube da morte de Igraine, porém, lamentou-a sinceramente e desejou tê-la visitado em Tintagel. Tinha, atualmente, tão poucas amigas...

Suas damas haviam sido escolhidas principalmente por Lot, pela beleza ou pela submissão aos caprichos dele, que se interessava mais por aquelas que não pensavam nem falavam de maneira muito inteligente. Ele declarara, certa vez, que, sob esse aspecto, Morgause lhe bastava. Ouvia seus conselhos em tudo, respeitava-lhe a inteligência, mas depois de lhe ter dado quatro filhos, ele voltou ao que preferia naturalmente em sua cama: mulheres bonitas e sem muita coisa na cabeça. Morgause nunca o censurou por isso, e sentiu-se até contente de não precisar ter mais filhos. E se tinha vontade de brincar com crianças, ali estava o filho adotivo Gwydion, e as mulheres de Lot estavam sempre concebendo - Gwydion tinha muitos companheiros de sangue real!

Lochlan mexeu-se, resmungou e puxou-a sonolentamente para seus braços, obrigando Morgause a pôr de lado as re- flexões. Sentira falta dele - quando Lancelote estivera na corte, mandara-o dormir com os jovens, embora Lancelote fosse indiferente a isso; para ele, Morgause tanto poderia ter conservado o rapaz em sua cama, como ter dormido com o cachorro. Bem, Lochlan ali estava novamente. Lot nunca lhe censurara as diversões, tal como Morgause nunca fizera comentários sobre suas mocinhas.

Quando, porém, o excitamento diminuiu, e Lochlan desceu as escadas com passos incertos em direção ao banheiro, lá fora, Morgause teve a súbita consciência de que sentia falta do marido. Não que ele fosse particularmente bom naquele esporte. Já era velho quando se casaram. Mas depois de fazer amor, ele conversava de maneira inteligente, e Mor- gause sentia falta das ocasiões em que acordavam juntos, e ficavam na cama conversando sobre o que devia ser feito, ou o que havia acontecido em seu reino e em toda a Bretanha.

Quando Lochlan voltou, o sol já estava mais forte, e o ar animava-se com o grito das gaivotas. Morgause ouvia leves ruídos lá embaixo, e de algum lugar vinha o cheiro do pão de cevada que estava sendo assado. Puxou-o para um rápido beijo, e disse:

- Você precisa levantar-se, meu caro. Quero que saia antes de Gwydion chegar. Ele já está crescido e começa a observar as coisas.

Lochlan riu.

- Aquele menino já observa as coisas desde que deixou os braços da ama. Enquanto Lancelote estava aqui, vigiou tudo o que ele fazia, até mesmo nas comemorações de Beltane. Mas creio que você não precisa preocupar-se, ele não tem idade para pensar nisso.

- Não estou tão certa assim - respondeu Morgause, acariciando-lhe o rosto. Gwydion tinha o hábito de não fazer nada até ter a certeza de que não pareceria muito ingênuo, ou que pudessem rir dele. Com o domínio que tinha de si mesmo, não gostava que o considerassem muito imaturo para qualquer coisa. Aos quatro anos, tivera um acesso de raiva por lhe terem dito que não poderia ir procurar ninhos de aves nos rochedos, e levara um tombo quase mortal, ten- tando acompanhar os meninos mais velhos. Morgause lembrava-se da ocasião, e de outras parecidas, em que havia recomendado ao menino que não voltasse a fazer aquilo, e que ele lhe respondera: "Sim, mas vou fazer, e você não me pode impedir". Teve de ameaçá-lo, então: "Não, você não fará, ou serei obrigada a dar-lhe eu mesma uma surra". Pouca importância tinha, se a surra fosse dada ou não - a ameaça apenas o tornava ainda mais desafiador, a não ser que estivesse disposta a deixá-lo inconsciente de pancada. E, certa vez, perdendo a calma, batera-lhe tanto que foi ela que acabou ficando com medo. Nenhum de seus próprios filhos, nem mesmo o teimoso Gareth, fora tão insubordinado. Gwydion fazia o que queria, de modo que, quando ficou maior, Morgause teve de recorrer a métodos mais sutis:

- Você não pode fazer isso, ou mandarei a ama tirar seus calções e dar-lhe umas varadas à frente de todos os criados, como se você fosse um garoto de quatro ou cinco anos.

Essa ameaça surtiu efeito durante algum tempo, pois o jovem Gwydion era muito cioso de sua dignidade. Mas, agora, fazia o que queria e não havia como impedi-lo. Seria preciso um homem forte para dar-lhe as surras violentas que ele merecia, e o menino sabia como fazer alguém se arrepender, mais cedo ou mais tarde, de ter-lhe causado algum mal.

Morgause supunha que ele se tornaria mais vulnerável quando começasse a se preocupar com a opinião das moças a seu respeito. Descendia das fadas e era moreno, como Morgana, mas muito bonito, tanto quanto Lancelote. E sua aparente indiferença em relação às moças também poderia ser como a de Lancelote. Refletiu sobre isso por um momento, sentindo uma pontada de humilhação. Lancelote... o homem mais belo que tinha visto, em muitos anos, a quem deixara claro que nem mesmo a rainha estava fora de seu alcance. Mas ele fingira não compreender, chamara-a sempre, cuidadosamente, de "tia", e pelo comportamento que adotou poder-se-ia pensar que ela era muito mais velha, na realidade - talvez mesmo gêmea de Viviane, nem parecendo que tinha idade suficiente para ser filha dela.

Morgause começou a fazer ainda na cama a primeira refeição, conversando com suas aias sobre as ocupações daquele dia. Enquanto se recostava nas almofadas - trouxeram-lhe o pão fresco de centeio, e naquela estação havia muita manteiga -, Gwydion entrou no quarto.

- Bom dia, minha mãe adotiva. Fui passear, e trouxe-lhe alguns morangos. E há creme na despensa. Se quiser, irei buscá-lo para você.

Olhou os morangos na cesta, ainda úmidos do orvalho.

- Foi muita gentileza sua, meu filho - e sentou-se na cama, envolvendo-o num grande abraço. Quando um pouco menor, o menino deitava-se nos cobertores ao seu lado, naquelas ocasiões, e ela lhe dava pão e mel; no inverno abrigava-o com as peles, como a qualquer criança mimada. Sentia falta do calor daquele pequeno corpo contra o seu, mas achava que Gwydion estava realmente muito crescido para isso.

Ele endireitou o corpo, ajeitando os cabelos - não gostava de ficar desalinhado. Como Morgana, que sempre fora muito arrumadinha.

- Levantou-se cedo hoje, querido, e o fez apenas para trazer morangos para sua velha mãe adotiva? Não, não quero creme. Você não deseja me ver gorda como uma porca velha, não?

Ele inclinou a cabeça para o lado, como um passarinho, e ficou olhando-a, examinando-a.

- Não faz mal - respondeu. - Você continuaria bonita, mesmo que engordasse. Há mulheres nesta corte, como Mara, que não são altas como você, e todos as chamam de gordas. Mas sua altura não aparece tanto porque, quando se olha para você, nota-se apenas sua beleza. Portanto, pode comer o creme, se quiser.

Uma resposta tão lógica para uma criança! Mas, afinal de contas, ele estava começando a transformar-se num homem. Ele se parecia com Agravaine, que não era muito alto - alguma coisa do povo antigo, uma volta às origens. E, naturalmente, ao lado do gigantesco Gareth, ele pareceria sempre uma criança, mesmo quando tivesse vinte anos! Gwydion tinha lavado o rosto e escovado cuidadosamente os cabelos, que também havia mandado aparar.

- Como você está bonito, meu querido! - sorriu Morgause, enquanto o menino apanhava um morango da cesta. - Você mesmo cortou seu cabelo?

- Não, mandei o servo apará-lo. Disse-lhe que estava cansado de me parecer com o cachorro do castelo. Lot andava sempre de cabelos curtos e barbeado, e notei que Lancelote também tinha os mesmos cuidados durante o tempo em que esteve aqui. Eu gosto de ser um cavalheiro.

- E realmente o é, meu caro - observou Morgause, olhando para a pequena mão morena que segurava o morango. Estava arranhada e tinha os dedos sujos, como os de qualquer menino, mas observou que fora bem lavada pela manhã, e que as unhas não estavam sujas, mas, pelo contrário, limpas e bem aparadas.

- Mas por que vestiu sua roupa de festa, esta manhã?

- Vesti minha roupa de festa? - perguntou, com uma expressão inocente no rosto. - Sim, creio que vesti mesmo. Bem... - fez uma pausa, e Morgause sabia que, qualquer que fosse a razão, jamais a conheceria; Por fim, ele concluiu, calmamente: - Molhei a outra roupa quando fui colher morangos para você. - Depois, de repente, acrescentou: - Pensei que fosse acabar tendo raiva de Sir Lancelote, minha mãe. Gareth falava dele dia e noite como se fosse um deus.

Morgause lembrou-se de que, embora não chorasse na sua frente, Gwydion ficara muito triste quando Gareth fora para o sul, para a corte do rei Artur. Também ela sentia falta do filho - ele era a única pessoa que exercia uma influência real sobre o menino, e podia forçá-lo à obediência com uma simples palavra. Desde que partira, Gwydion não dava ouvidos a ninguém.

- Eu pensei que ele fosse muito presunçoso - continuou Gwydion -, mas não é. Contou-me mais coisas sobre os faróis do que até mesmo Lot. E disse que quando eu for mais velho devo ir para a corte de Artur, para ser feito cavaleiro, se for bom e honrado. - Seus olhos escuros e profundos pareciam examinar tal possibilidade. - Todas as mulheres dizem que eu me pareço com ele, fizeram perguntas, e fiquei com raiva porque não sabia responder a elas. Mãe... - e ele inclinou-se, fazendo cair sobre a testa o cabelo escuro e solto, o que emprestava ao pequeno rosto uma vulnerabilidade excepcional -, diga-me a verdade, Lancelote é meu pai? Pensei que talvez seja por isso que Gareth gosta tanto de mim.

E você não é o primeiro a fazer essa pergunta, meu querido, pensou Morgause, acariciando-lhe os cabelos macios. A incomum expressão infantil de seu rosto, ao fazer a pergunta, tornou a voz da tia mais suave do que de costume.

- Não, meu querido. De todos os homens do reino, Lancelote não poderia ser seu pai - eu mesma lhe perguntei. Durante o ano em que você foi gerado, Lancelote estava na Bretanha Menor, lutando ao lado de seu pai, o rei Ban. Eu também pensei nisso, mas você se parece com ele porque Lancelote é primo de sua mãe, tal como é meu sobrinho.

Gwydion olhou-a com desconfiança, e Morgause pôde ler seus pensamentos; acreditava que ela lhe dissera exatamente o que diria se soubesse que Lancelote era seu pai. Por fim, o menino observou:

- Talvez algum dia eu vá para Avalon, e não para a corte de Artur. Minha mãe está morando agora em Avalon?

- Não sei... - Morgause franziu a testa. Mais uma vez, o estranho menino que era seu filho adotivo, e que se comportava como adulto, levara-a a responder-lhe como se estivesse falando com um homem feito. Isso acontecia com freqüência. Ocorreu-lhe então que, desde a morte de Lot, Gwydion era a única pessoa do castelo com quem mantinha uma conversação adulta, em certas ocasiões! Lochlan era bastante homem na cama, à noite, mas não tinha muita coisa a dizer-lhe além do que poderiam dizer as camareiras e os pastores!

- Deixe-me, agora, por favor, Gwydion. Vou vestir-me...

- Por que devo sair? Sei perfeitamente como você é, desde que eu tinha cinco anos.

- Mas você está crescido, agora - respondeu ela, sem saber o que fazer. - Não fica bem que permaneça aqui, enquanto eu me visto.

- Você se importa tanto assim com o que fica bem ou não, minha mãe adotiva? - perguntou com malícia, de olhos voltados para a depressão da cama onde Lochlan estivera deitado. Morgause sentiu-se envolvida por uma súbita onda de frustração e raiva - o menino discutia com ela como se fosse um homem, e um druida! Atalhou secamente:

Não tenho explicações a lhe dar sobre o que faço, Gwydion!

- E eu disse que tem? - Tinha nos olhos um ar de inocência ofendida. - Mas, se estou mais velho, então preciso saber mais sobre as mulheres do que sabia quando era pequeno, não é? Quero ficar aqui e conversar.

- Ora, pois fique, se quiser, mas vire-se de costas. Não quero que fique olhando para mim, Sir Desavergonhado!

Obediente, o menino voltou o rosto para o outro lado, mas quando Morgause se levantou e fez sinal à serva para que trouxesse o vestido, ele pediu:

- Não! Use o vestido azul, mãe, o novo, e o manto cor de açafrão.

- Agora você quer me dizer o que devo vestir? O que é isso, o que é isso?

- Gosto de vê-la vestida como uma grande senhora e rainha - argumentou Gwydion, persuasivo. - E diga às aias que lhe prendam o cabelo no alto, com sua rede de ouro, sim, mãe?

- Ora, você quer que eu me vista como se fosse para uma festa, e fique sentada cardando a lã com as minhas melhores roupas! Minhas damas ririam de mim, meu filho!

- Pois que riam. Você não se vestirá com suas melhores roupas para me agradar? E quem sabe o que pode acontecer antes que o dia termine? Você poderia ficar contente por estar bem-vestida.

Morgause cedeu, rindo.

- Está bem, como quiser. Se deseja que me vista para uma festa, está bem... Teremos a nossa festa aqui mesmo! E acho então que devem ser preparados bolos de mel para esta festa imaginária...

Afinal de contas, ele é uma criança, pensou. Imaginou isso para conseguir uns doces. Mas por que me trouxe morangos?

- Bem, Gwydion, devo mandar fazer um bolo de mel para o jantar?

Ele voltou-se. O vestido de Morgause ainda estava aberto, e os olhos do menino demoraram-se um instante em seus seios brancos. Não é tão criança assim, portanto.

- Fico contente quando há bolo de mel, mas talvez devesse haver algum peixe para o jantar - sugeriu ele.

- Para haver peixe, você terá de trocar novamente sua roupa e ir pescar. Os homens estão ocupados com a semeadura.

- Pedirei a Lochlan para ir. Para ele, será como um dia de festa. Ele merece, não é, minha mãe adotiva, você está satisfeita com ele, não está?

Isso é idiotice! Não vou corar diante de um menino dessa idade!

- Se você quer mandar Lochlan pescar, meu querido, mande. Creio que ele poderia ir. - Ficou pensando que gostaria de saber o que se passava realmente na cabeça do menino, com a escolha da roupa de festa e a insistência em que ela usasse o melhor vestido e fizesse um bom jantar. Chamou a governanta: - O sr. Gwydion quer um bolo de mel. Providencie isso.

- Ele terá o bolo - sorriu a governanta, com um olhar indulgente. - Veja que rosto suave, ele é como um anjo!

Anjo. Seria a última coisa de que o chamaria, pensou Morgause. Mandou, porém, que a aia lhe arranjasse o cabelo com a rede de ouro. Provavelmente jamais saberia o que Gwydion estava pensando.

O dia transcorreu lento, como de hábito. Morgause indagava-se, em certos momentos, se Gwydion teria a Visão, mas o menino jamais evidenciara qualquer sinal disso, e quando lhe fez a pergunta, frontalmente, ele comportou-se como se não tivesse idéia do que ela estava falando. E se tivesse, lembrou ela, teria, pelo menos uma vez, exibido suas qualidades, para vangloriar-se.

Bem, por alguma razão obscura, que só as crianças entendem, Gwydion queria uma festa, e convencera-a disso. Sem dúvida, agora que Gareth se fora, ele ficava sempre sozinho - não tinha muito em comum com os outros filhos de Lot. Também não tinha a paixão de Gareth pelas armas e as coisas da cavalaria, nem o dom da música de Morgana, ao que sabia, embora sua voz fosse clara e, por vezes, ele tocasse gaita, como a dos pastores, com sua música estranha, triste. Mas não era uma paixão, como tinha sido com Morgause, que podia passar o dia inteiro tocando harpa, satisfeita.

Apesar disso, ele tinha o espírito rápido e atento. Lot contratara, durante três anos, um padre instruído de Iona, para residir no castelo e ensinar o menino a ler. Devia ensinar também a Gareth, mas este não tinha interesse por livros. Lutava, obediente, com as letras e o latim, mas não ia além de Gawaine - ou da própria Morgause, e não podia fixar a atenção nos símbolos escritos ou na misteriosa língua dos romanos antigos. Agravaine era bastante inteligente, mantinha bem as contas da propriedade, tinha o dom dos números; mas Gwydion assimilava todos os tipos de conhecimento tão logo lhe eram apresentados. Dentro de um ano, sabia ler tão bem quanto o padre, e falava latim como se fosse um dos velhos césares, renascido. Pela primeira vez, Morgause ficou pensando se não haveria, afinal de contas, alguma verdade naquilo que os druidas diziam, que renascemos várias vezes, aprendendo sempre mais em cada nova existência.

É um filho que faria o orgulho de qualquer pai, pensou ela. E Artur não tem filhos com sua rainha. Um dia, sim, um dia terei um segredo para contar a Artur, e a consciência do rei estará em minhas mãos. Essa idéia divertia-a muito. Ficava surpresa por Morgana jamais ter usado esse trunfo que tinha com relação a Artur - poderia tê-lo forçado a negociar-lhe um casamento com o mais rico dos reis seus vassalos, poderia ter jóias ou poder... mas Morgana não se preocupava com tais coisas, apenas com a harpa e as bobagens de que falavam os druidas. Ela, Morgause, pelo menos saberia aproveitar melhor esse poder inesperado que lhe caía nas mãos.

Ficou sentada no salão, com suas roupas de festa, cardando a lã para os trabalhos da primavera e tomando decisões. Gwydion precisava de um manto novo, crescia tão depressa que o antigo já lhe estava à altura dos joelhos e de pouco lhe valeria no frio do inverno - e, sem dúvida, ele cresceria ainda mais naquele ano. Não seria melhor dar-lhe o manto de Agravaine, cortando-o um pouco, e fazer um outro novo para o filho? Vestido em sua túnica de festa cor de açafrão, Gwydion apareceu, e ficou sentindo no ar, desfrutando-o, o cheiro do bolo de mel, rico em especiarias, que chegava ao salão. Não pediu, porém, que lhe dessem logo um pedaço, como teria feito alguns meses antes. Ao meio-dia, disse:

- Mãe, vou apanhar um pedaço de pão e queijo e dar um passeio. Agravaine disse que eu devia ir ver se as cercas estão em boa ordem.

- Mas não com seus sapatos de festa - reclamou Morgause.

- Claro que não. Irei descalço. - E, tirando as sandálias, deixou-as ao lado dela, junto à lareira. Atou a túnica com o cinturão, de modo que ficasse à altura dos joelhos, apanhou um bastão e saiu, enquanto Morgause franzia as sobrancelhas, pois Gwydion não costumava fazer aquele trabalho, por mais que Agravaine mandasse. O que estava acontecendo com o menino nesse dia?

Lochlan voltou depois do meio-dia com um belo peixe grande, tão pesado que Morgause não o pôde levantar. Contemplou-o com satisfação: serviria para alimentar quem quer que se sentasse naquele dia à sua mesa, e ainda sobraria peixe para três dias. Limpo, temperado com ervas, estava pronto para o forno, quando Gwydion voltou, de pés e mãos bem lavados, o cabelo penteado, e calçou as sandálias novamente. Olhou para o peixe e sorriu.

- Sim, realmente, será como uma festa - comentou com satisfação.

- Você inspecionou as cercas, irmão de criação? - perguntou Agravaine, vindo de um dos celeiros onde estava tratando de um cavalo doente.

- Sim, e quase todas estão em ordem, mas no alto dos morros do norte, onde ficaram as cabras no outono passado, há um enorme buraco, pois caíram todas as pedras. É preciso mandar os homens lá para consertá-la, antes que as ovelhas sejam levadas para pastar ali; e quanto aos cabritos, eles fugiram sem que eu pudesse impedir!

- Você subiu até lá sozinho? - Morgause ficou assustada. - Você não é um cabrito; podia ter caído e quebrado uma perna, e ninguém ficaria sabendo, durante dias. Já lhe disse várias vezes que, quando subir os morros, tem de levar um dos pastores com você!

- Eu tinha minhas razões para ir sozinho - sorriu Gwydion, com a teimosia que lhe era característica. - E o que desejava ver.

- E o que poderia ver que valesse a pena o risco dum ferimento, e de ficar ali sozinho durante dias? - quis saber Agravaine, aborrecido.

- Nunca caí do morro e, se cair, eu é que sofrerei por isso. Que importância tem para vocês que eu corra riscos?

- Sou seu irmão mais velho e mando nesta casa - insistiu Agravaine. - Respeite-me, ou o obrigarei a isso.

- Talvez, se você abrisse sua cabeça, pudesse colocar um pouco de juízo nela - riu Gwydion, malevolamente. - Isso porque certamente o juízo não aparecerá sozinho.

- Seu miseravelzinho...

- Sim, sim - gritou Gwydion -, zombe de meu nascimento. Não sei o nome de meu pai, mas sei quem é o seu, e entre os dois, prefiro estar na minha situação!

Agravaine correu no seu encalço, mas Morgause levantou-se rapidamente e protegeu-o.

- Não implique com o menino, Agravaine.

- Se ele sempre se esconder atrás de suas saias, mãe, não poderei mesmo ensiná-lo a obedecer - queixou-se o rapaz.

- Precisaria ser mais homem do que é para me ensinar isso - desafiou Gwydion, e Morgause recuou, ante a amargura de sua voz.

- Cale-se, menino, não fale assim com seu irmão - censurou ela.

- Desculpe-me, Agravaine, eu não devia ser descortês com você.

Sorriu, com os grandes e adoráveis olhos sob as pestanas escuras, a própria imagem de uma criança arrependida. Agravaine resmungou:

- Penso apenas na sua segurança, seu diabinho. Acha que quero que você quebre os ossos? E por que resolveu subir o morro sozinho?

- Bem, sem isso seria impossível saber que há buracos na cerca, e as cabras e os cabritos poderiam ter sido levados para lá, e já estariam perdidos. E nunca estrago minhas roupas, não é, mãe?

Morgause riu, pois era verdade. Gwydion cuidava bem de suas roupas. Havia meninos assim. Bastava a Gareth vestir uma túnica, que ela em menos de uma hora ficava amassada, manchada e suja, enquanto Gwydion subira no morro mais alto com sua túnica de festa cor de açafrão, e ela parecia ter sido vestida naquele momento. O menino olhou para Agravaine, que usava roupas de trabalho, e reclamou:

- Mas você não está em condições de sentar-se à mesa com nossa mãe, em suas belas roupas. Vá vestir sua túnica mais bonita, irmão. Você prefere sentar-se para jantar com uma roupa velha, como um homem do campo?

- Não vou deixar um diabrete como você me dar ordens - respondeu Agravaine, mas dirigiu-se para seu quarto, e Gwydion sorriu com grande satisfação.

- Agravaine devia casar-se, mãe. Está mal-humorado como um touro na primavera, e, além disso, você não precisaria mais tecer roupas para ele, nem consertá-las.

- Realmente, você tem razão - divertiu-se Morgause. - Mas não quero outra rainha sob meu teto. Nenhuma casa é bastante grande para ser governada por duas mulheres.

- Então, deve encontrar-lhe uma mulher que não seja de alta linhagem, que tenha pouca inteligência e fique satisfeita em receber ordens sobre o que fazer, pois terá medo de errar entre pessoas que lhe são superiores. A filha de Niall serviria. Ela é bonita, sua família é rica, mas não demais, porque grande parte de seu gado morreu naquele inverno rigoroso, há seis anos. Ela deve ter um bom dote, pois Niall receia que ela não se case. A menina teve caxumba quando tinha seis anos, e seus olhos não são muito bons, nem é muito boa da cabeça, também. Sabe fiar e tecer bastante bem, mas não tem olhos nem inteligência para outras coisas, por isso não se importará se Agravaine a deixar sempre grávida.

- Ora, ora, que estadista você me está saindo - observou Morgause, causticamente. - Agravaine devia nomeá-lo conselheiro, por ser tão esperto!

Disse isso, mas achou que ele tinha razão e que, no dia seguinte, devia falar com Niall.

- Acho que ele faria bem - continuou o menino -, mas não estarei aqui para isso, mãe. Pretendia dizer-lhe que, quando subi o morro, vi... Mas, não, eis que chega Donil, o caçador, e ele poderá contar-lhe.

Realmente, o gigantesco caçador já estava entrando no salão, fazendo profunda reverência diante de Morgause.

- Minha senhora, há cavaleiros vindo pela estrada, próximo da casa grande. Uma liteira panejada como a barca de Avalon, e com eles um corcunda com uma harpa, e servos com as roupas da Ilha Sagrada. Chegarão dentro de meia hora.

Avalon! E então Morgause viu o sorriso secreto de Gwydion, e soube que ele estava esperando por isso. Mas ele nunca falou da Visão! Qualquer criança teria se vangloriado dela, se a tivesse! Compreendeu de súbito que Gwydion podia disfarçá-la, sentir maior prazer nela por ser secreta, e isso lhe pareceu estranho, a tal ponto que teve um momento de repulsa, quase de medo, de seu filho adotivo. Sentiu que ele percebeu, e que isso lhe desagradara.

- Não é uma sorte termos agora um bolo de mel e peixe, e estarmos todos vestidos da melhor maneira, para que possamos fazer as honras a Avalon, mãe?

- Sim - murmurou ela, olhando-o fixamente. - É muita sorte, realmente, Gwydion.

 

De pé no pátio em frente ao castelo, para receber os visitantes, Morgause recordou-se do dia em que Viviane e Taliesin haviam chegado ao distante castelo de Tintagel. Há muito que essas viagens tinham se tornado impossíveis para o druida, pensou, mesmo que ainda estivesse vivo. Mas teria sido informada, se tivesse morrido. E Viviane já montava de calças e botas, como um homem, viajando rapidamente, indiferente aos outros.

Gwydion estava ao seu lado, em silêncio. Com a túnica cor de açafrão, o cabelo bem penteado e afastado do rosto, parecia-se muito com Lancelote.

- Quem são esses visitantes, mãe?

- Creio ser a Senhora do Lago, e o Merlim da Bretanha, o Mensageiro dos Deuses.

- Você me disse que minha mãe era sacerdotisa de Avalon. A vinda desses visitantes tem alguma coisa a ver comigo?

- Ora, ora, não me diga que há alguma coisa que você não saiba! - respondeu Morgause com ironia e, em seguida, mudando de tom: - Não sei por que vêm, meu querido, não tenho a Visão. Mas é possível que tenham relação com você. Quero que lhes sirva o vinho, ouça e aprenda, mas não fale, a menos que lhe façam perguntas.

Isso, pensou ela, teria sido difícil para os seus filhos - Gawaine, Gaheris e Gareth eram barulhentos e curiosos, e avessos a aprender as maneiras da corte. Eram como grandes cães amigos, ao passo que Gwydion era como um gato, silencioso, insinuante, exigente, vigilante. Quando criança, Morgana era assim... Viviane não fez bem ao expulsar Morgana, mesmo que estivesse com raiva dela por ter um filho... e por que isso teria importância? A própria Viviane teve filhos, inclusive aquele desgraçado Lancelote, que provocou tamanha confusão no reino de Artur que até mesmo aqui ficamos sabendo como a rainha o protege.

Perguntou-se, então, por que imaginava que Viviane não queria que Morgana tivesse aquele filho. Morgana tinha brigado com Avalon, mas talvez fosse por iniciativa sua, e não por vontade da Senhora.

Estava mergulhada nessas reflexões quando Gwydion lhe tocou o braço, e murmurou:

- Seus hóspedes, mãe.

Morgause fez uma profunda reverência para Viviane, que parecia ter encolhido. Antigamente, ela parecia não ter idade, mas agora tinha uma aparência enrugada, o rosto marcado, os olhos afundados nas órbitas. Seu sorriso, porém, continuava o mesmo, e a voz tinha a suavidade de sempre.

- Ah, como é bom vê-la, minha irmã - disse ela, abraçando Morgause. - Há quanto tempo? Não gosto de pensar nos anos! Como você está conservada, Morgause! Que belos dentes, e seu cabelo continua brilhando! Você conheceu Kevin, o Harpista, no casamento de Artur, antes que ele fosse feito o Merlim da Bretanha.

Kevin também parecia ter envelhecido, estava mais curvo e mais torto, como um velho carvalho. Bem, pensou Morgause, isso estava de acordo com quem venerava aquela árvore, e seus lábios abriram-se num sorriso muito leve.

- Bem-vindo, Mestre Harpista... senhor Merlim, devia eu dizer. Como passa o nobre Taliesin? Continua no mundo dos vivos?

- Continua - sorriu Viviane, enquanto uma outra mulher descia da liteira. - Mas está velho e fraco, e não pode mais fazer estas viagens. - Em seguida, apresentou: - Esta é uma filha de Taliesin, uma filha dos bosques sagrados, Niniane. Portanto, ela é sua meia irmã, Morgause.

Morgause sentiu-se um pouco constrangida, quando a jovem deu um passo à frente e a abraçou, dizendo com voz doce:

- Estou contente em conhecê-la, irmã.

Niniane parecia tão jovem! Tinha belos cabelos, de um vermelho dourado, e olhos azuis por trás de longos cílios.

- Niniane viaja comigo, agora que estou velha - tornou Viviane. - Ela é a única descendente da velha linhagem real que vive hoje em Avalon, além de mim.

Niniane estava vestida como sacerdotisa; o belo cabelo estava trançado baixo por sobre a testa, mas a marca azul do crescente, recém-pintada, era claramente visível. Falava com a voz das sacerdotisas, cheia de força; mas, ao lado de Viviane, parecia jovem e frágil.

Morgause tentou manter seu papel de anfitriã, não esquecendo que eles eram seus hóspedes, mas sentia-se como uma serva diante das duas sacerdotisas e do druida. Lembrou-se, ainda, com irritação, de que as duas eram suas meias irmãs, e quanto ao Merlim, era apenas um velho corcunda!

- Bem-vindos ao reino de Lot e à minha casa. Este é o meu filho Agravaine, que reina enquanto Gawaine está longe, na corte de Artur. E este é meu filho adotivo, Gwydion.

O menino fez uma graciosa reverência aos hóspedes ilustres, mas murmurou apenas algumas palavras.

- É um belo menino, e já crescido - disse Kevin. - Então ele é o filho de Morgana?

Morgause arregalou os olhos:

- Adiantaria negá-lo a quem tem a Visão, senhor?

- A própria Morgana me disse, quando soube que eu vinha para o norte - disse Kevin, com uma sombra a passar-lhe pelo rosto.

- Então Morgana está novamente em Avalon? - perguntou Morgause, e Kevin sacudiu negativamente a cabeça. Ela viu que também Viviane parecia triste.

- Morgana está na corte de Artur - esclareceu o Merlim.

- Ela tem uma missão no mundo exterior - cortou Viviane, apertando os lábios. - Mas voltará a Avalon no momento indicado. Há um lugar à sua espera, o qual ela deve ocupar.

- É de minha mãe que fala, senhora? - perguntou Gwydion, docemente.

Viviane olhou-o de frente e, de repente, pareceu ficar alta e imponente - o velho recurso das sacerdotisas, pensou Morgause. Mas o menino nunca havia presenciado aquilo.

- Por que me pergunta, menino, se já sabe perfeitamente bem a resposta? - e sua voz encheu todo o pátio. - Você não respeita a Visão, Gwydion? Tenha cuidado. Conheço-o melhor do que pensa, e há ainda algumas coisas neste mundo que você ignora!

Gwydion recuou, de boca aberta, voltando a ser subitamente apenas uma criança precoce. Morgause arregalou os olhos: ainda havia alguém, e alguma coisa, capaz de assustá-lo.

Pela primeira vez, ele não procurou justificar-se ou explicar-se, como fazia habitualmente.

Morgause reassumiu a iniciativa, dizendo:

- Vamos entrar. Está tudo preparado para recebê-las, minhas irmãs, e meu senhor Merlim.

Olhou então para a toalha vermelha que mandara colocar na mesa, as taças e a louça fina que estavam sendo usadas, e pensou: Mesmo aqui, no fim do mundo, nossa corte não é um chiqueiro! Conduziu Viviane à cadeira alta que lhe pertencia e instalou Kevin, o Harpista, ao lado dela. Quando subia a plataforma onde estava a mesa, Niniane tropeçou, e Gwydion acorreu rapidamente, com seu braço e uma palavra de cortesia.

Ora, ora, finalmente nosso Gwydion está começando a tomar conhecimento de uma moça bonita. Ou serão apenas bons modos, ou talvez o desejo de mostrar-se simpático porque Viviane a censurou? Sabia muito bem que jamais conheceria a resposta.

O peixe fora muito bem preparado, e havia bolo de mel suficiente para todos e para os servos. Morgause mandou buscar mais cerveja de cevada, para que todos, na outra sala de refeições, pudessem também ter alguma coisa extra. Havia pão fresco de cevada em abundância, bem como leite, manteiga e queijo de cabra. Viviane comeu moderadamente, como sempre, mas elogiou a comida.

- Você tem uma mesa verdadeiramente real. Eu não teria melhor recepção em Camelot. Não esperava isso, ao chegar aqui sem avisar.

- Esteve em Camelot? Viu meus filhos? - perguntou Morgause, mas Viviane negou com um movimento de cabeça, enquanto franzia a testa, preocupada.

- Não, ainda não. Mas pretendo ir daqui, na data que Artur chama agora de Pentecostes, como os próprios padres da igreja.

Morgause sentiu um leve frio na espinha, mas, por causa dos hóspedes, não pôde preocupar-se com isso.

- Vi seus filhos na corte, senhora - informou Kevin. - Gawaine sofreu um leve ferimento em monte Badon, mas já está bom, e a barba disfarça a cicatriz... Ele está usando uma pequena barba como os saxões, não porque deseje parecer-se com eles, mas porque não pode barbear-se todos os dias sem irritar a cicatriz. Talvez ele lance uma nova moda na corte! Não vi Gaheris, que estava no sul, fiscalizando as fortifica ções do litoral. Gareth será feito Companheiro na grande festa de Artur, no Pentecostes. Ele é um dos maiores e mais fiéis homens da corte, embora Sir Cai ainda brinque com ele, chamando-o de "Bonito", por ter um belo rosto.

- Ele já devia ter sido feito Companheiro de Artur - comentou Gwydion, zeloso, e Kevin olhou com mais bondade para o menino:

- Então você está cioso da honra de seu parente, meu rapaz? Na verdade, ele bem merece ser um dos Companheiros, e como tal é tratado, agora que suas origens são conhecidas. Mas Artur quis distingui-lo em sua primeira festa em Camelot, por isso ele será feito Companheiro com toda a solenidade possível. Pode ficar tranqüilo, Gwydion, pois Artur conhece bem o valor de Gaheris, tal como o de Gawaine. E ele é dos mais jovens entre os Companheiros do rei.

E então, de maneira ainda mais tímida, Gwydion perguntou:

- O senhor conhece minha mãe, Mestre Harpista? A senhora Morgana?

- Sim, meu rapaz, eu a conheço bem - respondeu Kevin gentilmente, e Morgause notou que aquele homem pequeno e feio tinha, pelo menos, uma voz bela e cheia. - É uma das mais distintas senhoras da corte de Artur, uma das mais formosas, e também toca harpa tão bem quanto um bardo.

- Ora - retrucou Morgause com os lábios abertos num fino sorriso, ante a devoção observada na voz do harpista -, está bem exagerarmos um pouco para divertir uma criança, mas a verdade também deve ser respeitada. Morgana, bonita? É feia como um corvo! Igraine era bela quando jovem, todos os homens achavam, mas Morgana não se parece nada com ela.

A voz de Kevin foi respeitosa, mas também divertida, quando observou:

- Há, na sabedoria druida, um velho ditado segundo o qual a beleza não está num belo rosto, mas sim no interior. Morgana é realmente muito bonita, rainha Morgause, embora a beleza dela se pareça com a sua tanto quanto um salgueiro se parece com um narciso. E é a única pessoa da corte a cujas mãos confio a Minha Dama.

Fez um gesto em direção à harpa, colocada ao seu lado. Aproveitando a deixa, Morgause perguntou a Kevin se ele brindaria os presentes com uma canção.

O druida apanhou a harpa e cantou, e durante algum tempo fez-se no salão um silêncio total, cortado apenas pelas notas do instrumento e pela voz do bardo. Enquanto ele cantava, as pessoas que estavam no outro salão aproximaram-se para ouvir a música. Mas quando terminou, Morgause mandou sair os criados, permitindo porém a presença de Lochlan, que ficou sentado em silêncio junto à lareira, e disse:

- Também gosto muito de música, Mestre Harpista, e o senhor nos proporcionou um prazer que recordarei por muito tempo. Mas esta longa viagem desde Avalon até o norte não foi feita para que nos regozijemos com sua harpa. Peço-lhe que me diga: qual a razão desta inesperada visita?

- Não deve ser tão inesperada assim - interrompeu Viviane, com um leve sorriso -, pois encontrei a todos vestidos com as melhores roupas e prontos a nos receber com vinho e peixe e bolos de mel. Você teve um aviso de minha chegada, e como nunca teve uma Visão muito acentuada, só posso imaginar que uma outra pessoa, que não está longe daqui, a tenha avisado.

Lançou um olhar irônico para Gwydion, e Morgause fez um gesto de cabeça, concordando:

- Mas ele não me disse por quê, apenas me pediu que preparasse as coisas para uma festa, e pensei que se tratasse de um capricho de criança, nada mais.

Gwydion, que se aproximara de Kevin enquanto este guardava sua harpa, perguntou, estendendo a mão, hesitante:

- Posso tocar as cordas?

- Pode - concordou o bardo com suavidade, e ele fez soar uma ou duas cordas, dizendo:

- Nunca vi uma harpa tão bonita!

- Nem verá outra. Creio que não existe outra melhor. nem aqui, nem no País de Gales, onde existe todo um colégio de bardos - esclareceu Kevin. - Minha Dama foi presente de um rei, e nunca me separo dela. E, como muitas mulheres - observou com uma vênia a Viviane -, torna-se mais bela com o passar dos anos.

- Quem me dera que minha voz se tivesse tornado mais doce, à medida que eu envelhecia - sorriu Viviane com bom humor. - Mas a Mãe Negra não quis assim. Apenas seus filhos imortais cantam melhor com o passar do tempo. Possa Minha Dama cantar com a mesma beleza que demonstrou hoje.

- Gosta de música, Gwydion? Conhece alguma coisa de harpa?

- Não tenho harpa. Coll, que é o único harpista da corte, está com os dedos endurecidos e raramente toca. Há dois anos que não fazemos música. Mas toco um pouco a gaita pequena, e Aran, que era o músico de Lot nas guerras, ensinou-me a tocar um pouco a flauta de chifre de alce... ela está pendurada ali. Ele acompanhou o rei Lot ao monte Badon, e, como o rei, não voltou.

- Traga-me a flauta - pediu Kevin, e quando Gwydion a entregou, depois de apanhá-la da parede onde estava pendurada, limpou-a com um pano, soprou a poeira acumulada em seu interior, levou-a aos lábios e colocou os dedos deformados sobre os orifícios abertos no chifre. Tocou uma breve música de dança, colocando depois o instrumento de lado, dizendo: - Não tenho muita habilidade para a flauta, meus dedos não são bastante rápidos. Bem, Gwydion, se você gosta de música, pode aprender em Avalon. Toque um pouco nesta flauta.

O menino tinha a boca seca - Morgause viu-o umedecer os lábios com a língua -, mas apanhou o instrumento de chifre e madeira e soprou-o com cuidado. Depois, começou a tocar uma melodia lenta, e Kevin, depois de alguns compassos, fez um gesto de aprovação com a cabeça.

- Basta. Você, afinal de contas, é filho de Morgana, e seria estranho que não tivesse nenhum talento. Poderemos ensinar-lhe muita coisa. Tem as qualidades de um bardo, mas provavelmente sua grande vocação será a de sacerdote e druida.

A surpresa fez com que Gwydion deixasse cair a flauta.

- De um bardo? O que quer dizer? Fale claramente!

Viviane fitou-lhe os olhos:

- É chegado o momento, Gwydion. Você nasceu druida, e de duas linhagens reais. Receberá os velhos ensinamentos secretos em Avalon, para que um dia possa tornar-se dragão.

Ele engoliu em seco, e Morgause viu que estava tentando compreender tudo aquilo. Bem podia imaginar que a idéia de um conhecimento secreto seria atraente para Gwydion, mais do que qualquer coisa que lhe pudesse ser oferecida.

- A senhora disse duas linhagens reais... - gaguejou ele.

Viviane fez, com a cabeça, uma indicação de que Niniane devia responder, e esta disse apenas:

- Tudo lhe será esclarecido no devido momento, Gwydion. Para que seja um druida, a primeira coisa é aprender a calar, quando isso for necessário, e a não fazer perguntas.

Ele olhou-a em silêncio, e Morgause pensou: Valeu a pena todo o trabalho deste dia, apenas para ver Gwydion impressionar-se pela primeira vez, e até mesmo ficar mudo. Bem, não se sentia surpresa: Niniane era bela, parecia-se muito com Igraine quando jovem, ou com ela própria, apenas seu cabelo era mais louro do que vermelho.

- Mas uma coisa posso dizer-lhe agora - disse Viviane com suavidade -, a mãe da mãe de sua mãe era a Senhora do Lago, e descendia de uma longa linhagem de sacerdotisas. Igraine e Morgause também têm o sangue do nobre Taliesin, tal como você. Muitas das linhagens reais destas ilhas, entre os druidas, foram preservadas em você, e, se for digno delas, um grande destino estará à sua espera. O sangue real, apenas, não faz um grande rei, mas sim a coragem, a sabedoria e a previdência. Ouça, Gwydion, aquele que leva o dragão pode ser mais rei do que aquele que se senta num trono, pois o trono pode ser conquistado pela força das armas, ou por astúcia; ou, como no caso de Lot, por ter nascido no berço adequado e ter sido gerado por um rei de valor. O Grande Dragão, porém, só pode ser conquistado pelo mérito pessoal, e não apenas nesta vida, mas nas vidas anteriores. O que lhe digo é um mistério.

- Eu... não compreendo! - exclamou Gwydion.

- Claro que não! - A voz de Viviane era incisiva. - Pois, como eu disse, é um mistério, e druidas sábios estudaram por vezes durante muitas vidas para compreenderem menos do que isso. Eu não pretendi que você entendesse, mas, sim, que ouvisse e aprendesse a obedecer.

Gwydion abaixou a cabeça. Morgause viu Niniane sorrir-lhe; o menino respirava profundamente, como se aquele sorriso amenizasse a censura sofrida, e sentou-se perto dela, ouvindo tranqüilamente, sem tentar qualquer resposta petulante, ou qualquer explicação. Talvez seja do treinamento dos druidas que ele precisa, pensou Morgause.

- Então vocês vieram dizer-me que já fiquei muito tempo com o filho de Morgana, e é chegado o momento de levá-lo para Avalon, a fim de aprender os ensinamentos dos druidas. Mas vocês não fizeram toda essa viagem longa para dizer-me isto - poderiam ter mandado qualquer druida menor, que levaria o menino. Eu sempre soube que não ficaria bem ao filho de Morgana terminar seus dias entre pastores e pescadores. E para onde, senão a Avalon, poderia levar o seu destino? Peço-lhes que me digam o resto, pois sinto, pelos seus rostos, que há mais.

Kevin ia falar, mas Viviane interferiu bruscamente:

- Por que lhe devo dizer todos os meus pensamentos, Morgause, quando você procura tirar vantagem de tudo, para você e para seus filhos? Agora mesmo, Gawaine é o cavaleiro mais próximo do trono do Grande Rei, não apenas devido ao seu sangue, mas também pela amizade de Artur. Quando Artur se casou com Gwenhwyfar, previ que ela não teria filhos. Pareceu-me apenas provável que ela morresse de parto, razão pela qual não quis interferir na felicidade que Artur pudesse ter ao seu lado. Se ela morresse, nós poderíamos encontrar uma esposa mais adequada para o rei. Mas deixei que a situação se prolongasse demais, e agora ele não quer afastar-se de Gwenhwyfar, embora ela seja estéril - e você vê nisso apenas uma oportunidade para a carreira de seu filho.

- Você não devia supor que ela é estéril, Viviane - comentou Kevin, com uma expressão amarga no rosto. - Ela estava grávida antes da batalha de monte Badon, e conservou a criança durante cinco meses; bem poderia ter levado a cabo a gestação. Acho que abortou devido ao calor, e por ter ficado presa no castelo, e, ainda, pelo medo que tinha dos saxões... E foi por pena dela, creio, que Artur traiu Avalon e deixou de lado a bandeira do dragão.

- Portanto, não foi apenas pela sua infantilidade que Gwenhwyfar causou um grande mal a Artur - arrematou Niniane. - Ela é uma criatura dos padres, e já influenciou demais o rei, nesse sentido. Se algum dia ela tivesse um filho e este se tornasse adulto... o pior poderia acontecer.

Morgause sentiu-se sufocar.

- Gawaine...

- Gawaine é tão cristão quanto Artur - cortou Viviane rispidamente. - Ele quer apenas agradar ao rei, em tudo!

- Não sei se Artur tem algum compromisso sério com o Deus cristão, ou se é tudo obra de Gwenhwyfar, e os atos dele são apenas para agradar a ela, por ter pena...

- Será digno de reinar o homem que, por uma mulher, esquece seu juramento? - perguntou Morgause com desprezo. - Então Artur é perjuro?

- Eu o ouvi dizer que, como Cristo e a Virgem Maria lhe deram a vitória em monte Badon, não se afastará deles, agora. E ele disse mais, em conversa com Taliesin - que a Virgem Maria era tão poderosa quanto a Grande Deusa, e que lhe dera a vitória para salvar esta terra... que a bandeira do Pendragon pertencia ao seu pai, Uther, e não a ele...

- Ainda assim - tornou Niniane -, ele não tem o direito de colocá-la de lado. Nós, de Avalon, o colocamos no trono, e ele nos deve isso...

- O que importa a bandeira que flutua sobre as tropas de um rei? - perguntou Morgause com impaciência. - Os soldados precisam de alguma coisa que lhes inspire a imaginação...

- Como sempre, você não percebe o que é importante - disse Viviane. - É aquilo que vive na imaginação e nos sonhos deles que devemos controlar de Avalon, ou esta luta com o Cristo estará perdida, e suas almas serão escravas de uma falsa fé! O símbolo do dragão devia estar sempre ante seus olhos, mostrando que a humanidade deve empreender realizações, e não ficar pensando em pecados e penitências!

- Não sei... - murmurou Kevin lentamente. - Talvez também fosse bom que se transmitissem todos os mistérios menores, e que os ensinamentos mais reservados fossem ministrados aos homens mais sábios... Talvez tenha sido fácil demais à humanidade procurar Avalon, e por isso ela não nos dá o devido valor.

- Você quer que eu fique sentada vendo Avalon afundar-se cada vez mais nas brumas, como o país das fadas?

- O que estou dizendo, Senhora - respondeu ele com deferência, mas também com firmeza -, é que talvez já seja tarde demais para impedir que isso aconteça. Avalon estará sempre ali para todos os que puderem buscar o caminho, por todos os séculos e além dos séculos. Se não puderem encontrar o caminho de Avalon, isso talvez seja um sinal de que não estão prontos para isso.

- Ainda assim - retrucou Viviane com a mesma dureza na voz. - Manterei Avalon dentro do mundo, ou morrerei tentando mantê-lo!

Houve um silêncio, e Morgause sentiu um frio mortal.

- Avive o fogo, Gwydion - pediu ela, passando o vinho. - Não quer beber, irmã? E o senhor, Mestre Harpista?

Niniane serviu o vinho, mas Gwydion permaneceu sentado, como se estivesse sonhando, ou em transe.

- Gwydion, faça o que lhe mandei - repetiu Morgause, mas Kevin estendeu a mão pedindo silêncio, ao mesmo tempo em que dizia em voz baixa:

- O menino está em transe. Gwydion, fale...

- Sangue por toda parte - suspirou ele -, sangue derramado como o sangue do sacrifício nos altares antigos, sangue derramado sobre o trono...

Niniane tropeçou, espalhando o resto do vinho, vermelho, sobre Gwydion e Viviane. Esta levantou-se, assustada, e Gwydion, pestanejando, sacudiu-se como um cachorrinho.

- O que... desculpem... deixe-me ajudá-la... - e tomou o odre de vinho da mão da moça. - Oh, parece sangue, vou buscar um pano na cozinha - e saiu rapidamente, como qualquer menino desembaraçado.

- Bem, eis aí seu sangue - irritou-se Morgause com aversão. - Também meu Gwydion vai se perder em sonhos e visões doentias?

Limpando o vinho espesso de suas roupas, Viviane advertiu:

- Não deprecie o dom de outrem só porque você não tem a Visão, Morgause!

Gwydion voltou com um pano, mas, ao inclinar-se para limpar o vinho, cambaleou; Morgause tomou-lhe o esfregão e fez um sinal a uma das servas para que viesse secar a mesa e a lareira. O menino parecia doente, mas, ao contrário de seu comportamento normal, que seria exagerar a doença para chamar a atenção, ele afastou-se rapidamente, como se tivesse vergonha. Morgause ansiava por tomá-lo nos braços e acalentá-lo, à criança que havia sido seu último filho, quando os outros estavam crescidos e haviam partido. Sabia, porém, que o menino não gostaria disso, e conteve-se, olhando para baixo, para as mãos que trazia trançadas. Niniane estendeu a mão para Gwydion, também, mas foi Viviane quem o chamou, com olhos firmes.

- Diga-me a verdade: há quanto tempo você tem a Visão?

Ele baixou os olhos:

- Não sei... não sabia que nome dar-lhe. - Ele estava inquieto, recusando-se a encará-la.

- E você escondeu isso, por orgulho e amor ao poder, não foi? - perguntou novamente Viviane, com voz tranqüila. - Agora, a Visão o dominou, e você terá de dominá-la, por sua vez. Chegamos em tempo. Espero que não seja muito tarde. Tem dificuldade em manter-se de pé? Sente-se aqui, então, e fique quieto.

Para surpresa de Morgause, Gwydion sentou-se sem nada dizer, ao pé das duas sacerdotisas. Niniane colocou a mão sobre a cabeça do rapaz, que se apoiou nela.

- Como já lhe disse antes - Viviane dirigiu-se a Morgause -, Gwenhwyfar não terá filhos de Artur, mas ele não a deixará. Principalmente por ser ela cristã, e a religião deles proíbe que um homem se separe de sua esposa...

- E o que tem isso? - indagou Morgause, dando de ombros. - Ela já abortou uma vez, ou mais de uma vez. E não é tão nova assim, agora. A vida é muito insegura para as mulheres.

- Sim, Morgause - concordou Viviane. - Certa vez, você tentou aproveitar-se da insegurança da vida para que seu filho se aproximasse mais do trono, não foi? Faço-lhe uma advertência, irmã, não procure interferir naquilo que os Deuses decretaram!

Morgause sorriu:

- Eu pensava, Viviane, que você me teria dito certo dia - ou foi Taliesin? - que nada acontece sem a vontade dos Deuses. Se Artur tivesse morrido antes de subir ao trono de Uther, ora, não tenho dúvida de que os Deuses teriam encontrado algum outro para servir aos seus propósitos.

- Não vim discutir teologia com você - irritou-se Viviane. - Você acha que, se dependesse de minha vontade, eu lhe teria confiado a vida ou a morte da linhagem real de Avalon?

Morgause respondeu com uma indignação contida:

- Mas a Deusa não quis que sua vontade predominasse, ao que me parece, Viviane. Estou cansada dessas conversas de profecias antigas... Se há realmente Deuses, do que não estou certa, não posso acreditar que eles vivam interferindo nos assuntos dos homens. Não que eu dependa dos Deuses para fazer o que vejo claramente que deve ser feito. Quem pode afirmar que a Deusa não atue por meu intermédio, ou por intermédio de qualquer outra pessoa? - Notou que Niniane estava espantada; ora, era outra idiota como Igraine, que acreditava em toda essa conversa sobre Deuses. - Quanto à linhagem real de Avalon, você pode ver que cuidei bem dela - concluiu.

- Ele parece forte e bem, um rapaz saudável - concordou Viviane -, mas poderá você jurar que não o deformou interiormente, Morgause?

Gwydion levantou a cabeça e falou com violência:

- Minha mãe adotiva tem sido boa comigo. A senhora Morgana não se preocupou muito com a criação de seu filho, pois nem uma vez veio perguntar se eu estava vivo ou morto!

- Já lhe ensinaram a só falar quando a palavra lhe for dirigida, Gwydion - observou Kevin, severamente. - E você não sabe das razões ou dos propósitos de Morgana.

Morgause olhou com raiva para o pequeno bardo aleijado. Terá Morgana feito confidências a esse miserável aborto, quando eu tive de forçá-la a revelicr seu segredo, com encantamentos e com a Visão? Sentiu uma onda de ódio.

- Basta - interrompeu Viviane. - Você o criou bem, enquanto isso lhe convinha, Morgause, mas vejo que não se esqueceu de que ele está mais próximo do trono do que Artur à sua idade, e dois passos mais próximo do que seu filho, Gawaine! Quanto a Gwenhwyfar, prevejo que terá certo papel a desempenhar no destino da Ilha Sagrada. Ela não pode ser totalmente destituída da Visão, pois certa vez dissipou as brumas e chegou às margens de Avalon. Talvez, se ela tivesse um filho, e deixássemos claro que isso acontecia por vontade e pelas artes de Avalon... - e olhou para Niniane. - Ela pode conceber. Com uma feiticeira hábil ao seu lado, para impedir que perca a criança.

- Tarde demais para isso - interrompeu Kevin. - Foi por influência dela que Artur traiu Avalon e deixou de lado a bandeira do dragão. A verdade é, creio, que ela não tem o juízo perfeito.

- A verdade é - observou Niniane - que você está ressentido com ela, Kevin. Por quê?

O harpista baixou os olhos e contemplou as mãos deformadas e cheias de cicatrizes.

- É verdade. Não posso, nem mesmo em pensamento, ser justo com Gwenhwyfar. Também sou humano. Mesmo, porém, que eu gostasse dela, diria que não é rainha para um rei que deve governar de Avalon. Eu não lamentaria, se ela sofresse algum acidente ou infortúnio. Se viesse a dar um filho a Artur, ela pensaria somente que foi por bondade do Cristo, mesmo que a própria Senhora do Lago estivesse ao lado de sua cama. Não posso deixar de rezar para que ela não tenha essa boa sorte.

Morgause exibiu seu sorriso felino.

- Gwenhwyfar pode querer ser mais cristã do que o próprio Cristo, mas eu conheço um pouco das Escrituras deles, pois Lot teve aqui um padre de Iona para dar aulas aos meninos. Dizem elas que será condenado aquele que rejeitar sua mulher, exceto pelo adultério. E até mesmo aqui sabemos que... que a rainha não é tão casta assim! Artur ausenta-se freqüentemente nas guerras, e todos os homens sabem como ela vê com bons olhos seu filho, Viviane.

- A senhora não conhece Gwenhwyfar - comentou Kevin. - Ela é mais carola do que seria normal, e Lancelote é muito amigo de Artur. O rei nada faria contra eles, a menos que os surpreendesse na cama, na frente de toda a corte.

- Até isso se poderia conseguir - propôs Morgause.

- Gwenhwyfar é bonita demais para acreditar que as outras mulheres possam gostar muito dela. Sem dúvida, alguém do seu séquito poderia fazer um escândalo, a fim de forçar uma decisão de Artur...

Viviane fez uma careta de desgosto.

- Que mulher trairia outra mulher dessa maneira?

- Eu - respondeu Morgause -, se estivesse convencida de que era para o bem do reino.

- Eu não o faria - afirmou Niniane -, e Lancelote é honrado, e amigo íntimo de Artur. Duvido que ele traia o rei. Se quisermos afastar Gwenhwyfar, teremos de pensar em outra maneira.

- E podemos fazer o seguinte - comentou Viviane, com um ar cansado. - A rainha nada fez de errado, pelo que sabemos. Não podemos afastá-la de Artur enquanto ela se mantiver fiel ao juramento de ser uma esposa cumpridora de seus deveres. Se houver um escândalo, terá de encerrar alguma verdade. Avalon tem compromissos com a verdade.

- Mas se houver um escândalo verdadeiro? - perguntou Kevin.

- Então, ela terá de sofrer as conseqüências, mas eu não participarei de nenhuma acusação falsa - admitiu Viviane.

- Não obstante, ele tem, pelo menos, um outro inimigo - comentou Kevin, pensativo. - Leodegranz, do País do Verão, morreu recentemente, e sua jovem viúva também, com o último filho deles. Gwenhwyfar é agora rainha daquele país. Leodegranz tem um parente, que se diz seu filho, mas não creio nisso. Acredito que ele gostaria muito de poder afirmar-se como rei à velha maneira das tribos, indo para a cama com a rainha.

- É bom que não tenham esse costume na corte bem cristã de Lot, não é mesmo? - murmurou Gwydion, de modo que não puderam considerar suas palavras. E Morgause pensou: Ele está com raiva por não estarem lhe dando atenção, apenas. Deverei irritar-me, porgue um cachorrinho me morde com seus pequenos dentes?

- Segundo o velho costume - observou Niniane, franzindo levemente a bela testa -, Gwenhwyfar não está casada com alguém enquanto não tiver dele um filho, e se outro homem puder tirá-la de Artur...

- Sim, essa é a questão - sorriu Viviane. - Artur pode conservar a mulher pela força das armas. E não tenho dúvidas de que o faria. - E continuou, seriamente: - A única coisa de que podemos ter certeza é que Gwenhwyfar continuará estéril. Se ela conceber novamente, há encantamentos para que não leve a bom termo a gravidez, nem passe das primeiras semanas. Quanto ao herdeiro de Artur... - fez uma pausa, olhou para Gwydion, que continuava sentado, como uma criança sonolenta, com a cabeça encostada no colo de Niniane. - Ali está um menino da linhagem real de Avalon, e filho do Grande Dragão.

Morgause sentiu faltar-lhe a respiração. Nunca, em todos aqueles anos, lhe ocorrera a possibilidade de que a gravidez de Morgana por seu meio irmão não tivesse sido apenas fruto de um acidente infeliz. Percebeu, naquele instante, a complexidade do plano de Viviane, e ficou aterrorizada pela sua ousadia - colocar no trono, depois do pai, um filho de Avalon e de Artur.

O que acontecerá ao Gamo-Rei, quando o pequeno gamo tiver crescido? Por um momento Morgause ficou sem saber se a idéia era sua, ou se era apenas um eco do pensamento das duas sacerdotisas de Avalon à sua frente. Sempre havia experimentado aqueles instantes incompletos e perturbadores de Visão, embora não pudesse controlar-lhe os movimentos. Na verdade, não se preocupava muito com isso.

Gwydion tinha os olhos arregalados, inclinando-se para a frente, com a boca aberta.

- Senhora - perguntou, quase sem fôlego -, é certo que... que sou filho do Grande Rei?

- Sim - admitiu Viviane, com a boca contraída -, embora os padres jamais aceitem isso. Para eles, seria o maior dos pecados que um filho fizesse um filho na filha de sua mãe. Eles se colocaram numa posição mais santa do que a da própria Deusa, que é mãe de todos nós. Mas assim é.

Kevin voltou-se. Lenta e penosamente, por causa do corpo aleijado, ajoelhou-se ante Gwydion.

- Meu príncipe e meu senhor, filho da linhagem real de Avalon e filho do filho do Grande Dragão, viemos para levá-lo a Avalon, onde pode ser preparado para seu destino. Pela manhã, deve estar pronto para partir.

 

Capítulo 2

Pela manhã, deve estar pronto para partir...

Era como o terror de um sonho o fato de falarem tão abertamente daquilo que mantive em segredo durante todos estes anos, mesmo durante o período em que ninguém acreditava que eu sobrevivesse ao seu nascimento... Eu poderia ter morrido sem que ninguém soubesse que tive um filho de meu próprio irmão. Mas Morgause arrancou-me o segredo, e Viviane sabia... Há um velho ditado segundo o qual três só podem guardar um segredo se dois estiverem no túmulo. Viviane tinha planejado isso, e me usou como havia feita com Igraine!

Mas o sonho estava começando a apagar-se, e a ondear-se e a mover-se como se tudo estivesse submerso. Lutei para conservar o sonho, para ouvir, mas parecia que Artur surgia nele e puxava a espada contra Gwydion, e o menino arrancava a bainha da Excalibur...

Morgana deu um salto em sua cama em Camelot, agarrando-se às cobertas. Não, disse para si mesma, não era um sonho, não era apenas um sonho. Nem mesmo sei quem é a substituta de Viviane em Avalon; sem dúvida, é Raven, e não essa moça de cabelos louros tão parecida com minha mãe, que vejo repetidamente em meus sonhos. E quem sabe se tal mulher existe na face da Terra, ou em Avalon, ou se é um sonho confuso com minha mãe? Não me lembro de ninguém que fosse, mesmo ligeiramente, parecida com ela, na Casa das Moças...

Eu devia estar lá. Era eu quem devia estar ao lado de Viviane, e abandonei tudo isso, de minha própria vontade...

- Vejam - disse Elaine da janela -, já se aproximam cavaleiros, e faltam ainda três dias para a grande festa de Artur!

As outras mulheres que estavam no quarto juntaram-se a Elaine, olhando para os campos ao redor de Camelot, e onde já havia tendas e pavilhões armados.

- Estou vendo a bandeira de meu pai - continuou Elaine. - Lá está ele com meu irmão, Lamorak, ao seu lado. Ele já tem idade para ser um dos Companheiros de Artur. Será que o rei o escolherá?

- Ele não tinha idade para lutar em monte Badon, não é? - perguntou Morgana.

- Não tinha idade, mas mesmo assim lutou, como todos os homens que eram capazes de agüentar o peso de uma espada, e todos os jovens também - explicou Elaine, com orgulho.

- Então, não há dúvida de que Artur fará dele um de seus Companheiros, ainda que seja apenas para agradar a Pellinore - comentou Morgana.

A grande batalha de monte Badon fora travada havia um ano, no dia de Pentecostes, e Artur prometera fazer desse dia uma data comemorativa, com grandes festas para saudar todos os seus velhos Companheiros. E no Pentecostes também recebia todas as petições e distribuía justiça. E os reis vassalos dos reinos próximos compareciam ante o Grande Rei, para renovar seus votos de fidelidade.

- Você deve ir ajudar a rainha a vestir-se - sugeriu Morgana a Elaine -, e eu também tenho de agir. Há muito o que fazer, para a festa que se realizará dentro de três dias apenas.

- Sir Cai cuidará de tudo isso - retrucou Elaine.

- Sim, ele cuidará da alimentação e da instalação dos hóspedes - disse Morgana, alegremente. - Mas devo providenciar as flores para o salão, supervisionar o polimento das taças de prata, sendo provável que também tenha de fazer os bolos de amêndoas e doces. Além disso, Gwenhwyfar deve ter ainda outras idéias.

Na verdade, Morgana estava satisfeita por ter tantas coisas a fazer para os três dias de comemorações, pois isso a distraía do medo e do terror que o sonho lhe provocara.

Naqueles dias, sempre que Avalon lhe surgia num sonho, ela procurava afastar essa lembrança, com desespero. Não sabia que Kevin se dirigira ao norte, ao reino de Lot. Não, eu também nada sei, agora, foi apenas um sonho, dizia para si mesma. Mas quando encontrou o velho Taliesin mais tarde, naquele mesmo dia, fez-lhe uma reverência, e, quando ele estendeu a mão para abençoá-la, disse timidamente:

- Pai...

- Sim, minha querida filha?

Há dez anos, pensou Morgana, eu me teria irritado pelo fato de Taliesin me falar sempre como se eu ainda fosse uma criança de sete anos, que podia ir para seu colo e puxar sua barba. Agora, de uma forma vaga, sentia-se reconfortada por isso.

- Kevin, o Merlim, virá para o Pentecostes?

- Não sei, minha filha - respondeu Taliesin com um sorriso bondoso. - Ele viajou para o norte, para o reino de Lot. Mas sei que ele gosta muito de você, e que virá vê-la, sempre que possível. Creio que nada impedirá que venha para esta corte, enquanto você estiver aqui, minha pequena Morgana.

Será que todas aqui sabem que fomos amantes? Sem dúvida eu fui discreta.

- Há um boato que corre pela corte - comentou Morgana com astúcia - de que Kevin, o Harpista, faz o que eu quero, mas isso não é verdade.

- Minha cara, não se envergonhe nunca de amar - aconselhou Taliesin, sorrindo novamente. - E foi muito importante para Kevin que uma pessoa gentil e gracíosa como você...

- Está zombando de mim, senhor?

- Por quê, minha querida? É filha de minha querida filha, e gosto muito de você. Sabe que a considero a mais bela e talentosa das mulheres. E não tenho dúvida de que Kevin pensa a mesma coisa, e talvez mais ainda. E você é a única pessoa desta corte, depois de mim, e a única mulher, que pode conversar com ele sobre música em pé de igualdade. Se ignora que, para ele, o sol aparece e desaparece quando você chega e sai, então é a única desta corte que desconhece isso. Você bem merece que ele a considere a estrela-guia de seus dias e noites. O Merlim da Bretanha não está proibido de casar-se, se quiser. Ele não é de sangue real, mas é nobre de coração, e algum dia será o Grande Druida, se sua coragem não lhe faltar. E no dia em que ele pedir sua mão, não creio que Artur ou mesmo eu digamos não.

Morgana baixou o rosto e olhou para o chão. Ah, pensou, como seria bom que eu gostasse de Kevin como ele gosta de mim. Quero-lhe bem, amo-o muito, tenho prazer em compartilhar de sua cama, mas casamento? Não, pensou ela, não, não e não, apesar de toda a sua dedicação.

- Não penso em casar-me, meu avô.

- Bem, você deve fazer aquilo que quer, minha filha - concordou Taliesin, suavemente. - Você é uma senhora e sacerdotisa. Mas também já não é muito jovem, e como deixou Avalon.. não, não a estou censurando, mas acho que seria melhor que se casasse, que tivesse o seu lar. Não gostaria de vê-la passar todos os seus dias como dama de Gwenhwyfar. Quanto a Kevin, o Harpista, sem dúvida virá, se puder, mas ele não pode viajar com a rapidez dos outros homens. É bom que você não o despreze por ser aleijado, minha querida.

Quando Taliesin se afastou, Morgana caminhou até a casa das infusões, refletindo profundamente. Gostaria de amar Kevin como Taliesin julgava.

Por que sou amaldiçoada com esse sentimento por Lancelote? Durante todo o tempo em que ficou preparando água de rosas para os convidados lavarem as mãos e para dar sabor aos confeitos, pensou nisso. Bem, quando Kevin estava presente, pelo menos não tinha razão para desejar Lancelote - embora de nada adiantasse desejá-lo, pensou com tristeza.

O desejo deve ser recíproco, ou de nada valerá. Resolveu que, se Kevin voltasse à corte, ela lhe daria a recepção que ele gostaria de ter.

Sem dúvida, casar-me com ele não seria a pior das decisões... Avalon está perdida para mim... Pensarei nisso.

E, na verdade, meu sonho está se confirmando até agora, pois ele esteve no reino de Lot... E pensei que a Visão tivesse me abandonado...

 

Kevin voltou a Camelot na véspera de Pentecostes. Durante todo o dia, visitantes acorriam a Camelot e à área vizinha, como se fossem para a feira da colheita, a feira da primavera. Seria a maior festa a ser realizada na região. Morgana recebeu Kevin com um beijo e um abraço que fizera brilhar os olhos do harpista, e levou-o a um quarto de hóspedes, onde lhe tirou o manto e os sapatos de viagem, mandando um dos servos levá-los para serem lavados, e ofereceu-lhe fitas para enfeitar seu instrumento.

- Ora Minha Dama ficará tão bonita quanto a rainha - sorriu Kevin. - Você não tem raiva de sua única rival, Morgana, meu amor?

Nunca se dirigira a Morgana com essas palavras, e a moça aproximou-se mais de Kevin, passando o braço em torno dele. O harpista acrescentou, em voz suave:

- Senti falta de você - e colocou por um instante o rosto contra os seus seios.

- Também senti sua falta, meu caro - disse Morgana -, e quando todos tiverem ido descansar, esta noite, mostrarei o quanto senti... Por que acha que consegui um quarto só para você, quando até mesmo os mais caros Companheiros de Artur terão de dormir quatro num quarto, e até mesmo dois numa cama?

- Pensei que fosse para que ninguém tivesse de dividir um quarto comigo.

- E assim será, para dignidade de Avalon, embora até mesmo Taliesin tenha de dividir um quarto com o bispo.

- Não lhe admiro o gosto - comentou Kevin. - Preferiria ficar nas cocheiras com os outros burros!

- Eu queria que o Merlim da Bretanha ficasse num quarto sozinho, mesmo que não fosse maior do que uma das baias dos burros. Mas é bastante grande para você e Minha Dama, e para mim também - sussurrou Morgana sorrindo e olhando sugestivamente para a cama.

- Será sempre bem-vinda, e se Minha Dama ficar com ciúmes, poderei virá-la para a parede - beijou-a, abraçando-a por um longo momento com toda a força de seus braços retorcidos. Depois, soltando-a, disse: - Pensei que você gostaria de saber que levei seu filho para Avalon. Ele está bastante crescido, é inteligente, e tem um pouco do seu talento para a música.

- Sonhei com ele a noite passada. No sonho, creio que ele tocava uma gaita, como a de Gawaine.

- Então seu sonho foi certo. Gosto dele, e o menino tem a Visão. Em Avalon, será preparado para ser druida.

- E depois?

- Depois? Ah, minha cara, as coisas terão de seguir seu curso. Mas não tenho dúvidas de que ele será um bardo e um homem de sabedoria notável. Você não precisa ter medo de que ele não se dê bem em Avalon. - Tocou-lhe suavemente o ombro. - Gwydion tem os seus olhos.

Morgana gostaria de ter-lhe feito mais perguntas, mas falou de outra coisa:

- A festa só começa amanhã, mas esta noite os amigos e Companheiros mais íntimos de Artur foram convidados a jantar. Gareth deve ser feito cavaleiro ao amanhecer, e Artur, que gosta de Gawaine como de um irmão, vai homenageá-lo com uma festa de família.

- Gareth é bom homem e bom cavaleiro, e terei satisfação em homenageá-lo. Não gosto muito da rainha Morgause, mas seus filhos são bons homens e bons amigos de Artur.

Embora fosse uma festa de família, eram muitos os parentes a se sentar à mesa de Artur, à véspera do Pentecostes: Gwenhwyfar e sua prima Elaine, o pai desta, Pellinore, seu irmão Lamorak; Taliesin e Lancelote, os três meios irmãos de Lancelote: Balam, filho da Senhora do Lago, e Bors e Lionel, filhos do rei Ban da Bretanha Menor. Gareth estava presente, e, como sempre, Gawaine ficava atrás de Artur, à mesa. O rei havia protestado, ao entrarem no salão:

- Sente-se aqui ao nosso lado, esta noite, Gawaine. Você é meu primo, e rei de Orkney, e não me agrada que fique de pé como um criado, atrás de minha cadeira!

- Tenho orgulho em ficar de pé e servir ao meu senhor e rei - afirmou Gawaine; e Artur inclinou a cabeça.

- Você me faz sentir-me como aqueles velhos Césares - queixou-se. - Será que preciso ser protegido dia e noite, até mesmo em minha própria casa?

- Para a dignidade de seu trono, senhor, o rei é como os Césares, e até mais - insistiu Gawaine, provocando uma risada em Artur.

- Nada posso negar aos que foram meus Companheiros.

- Então - sussurrou Kevin a Morgana, que estava sentada ao seu lado -, não é orgulho ou arrogância, mas apenas o desejo de agradar aos Companheiros...

- Creio sinceramente que sim - respondeu ela, também em voz baixa. - Creio que é disso que Artur mais gosta, ficar sentado em seu salão contemplando a paz que conseguiu. Quaisquer que sejam as suas falhas, ele realmente ama a ordem e o império da lei.

Mais tarde, Artur fez um gesto pedindo silêncio, e chamou o jovem Gareth para junto de si.

- Esta noite você fará a vigília das armas na igreja, e pela manhã, antes da missa, o cavaleiro de sua escolha fará de você um dos meus Companheiros. Serviu-me bem e com honra, embora sendo jovem. Se quiser, eu mesmo o farei cavaleiro, mas compreenderei que prefira receber essa honra das mãos de seu irmão.

Gareth usava uma túnica branca; seu cabelo era como um halo dourado em torno do rosto. Parecia quase uma criança, um menino crescido com quase dois metros, de ombros largos como um touro. Tinha no rosto uma penugem dourada, ainda muito fina para ser raspada. Gaguejando um pouco devido à preocupação, ele disse:

- Senhor, peço-lhe... Não quero ofendê-lo, nem ao meu irmão, mas... se ele quiser... eu gostaria de ser feito cavaleiro por Lancelote, meu rei e senhor.

- Ora, se Lancelote aceitar, não faço objeções.

Morgana lembrou-se do menino que chamava de Lancelote um cavaleiro de madeira pintada que havia feito para ele. Quantas pessoas conseguem realizar um sonho infantil, como Gareth?, perguntou-se. Lancelote disse, em voz grave:

- Será uma honra para mim, primo - e o rosto de Gareth iluminou-se como se a luz de uma tocha tivesse caído sobre ele. Lancelote voltou-se então para Gawaine e, como quem cumpre um dever de cortesia, acrescentou: - Mas cabe a você, meu primo, dar licença. Você faz o papel de pai deste rapaz, e não quero usurpar seu direito...

Gawaine olhou, constrangido, para um e outro, e Morgana notou que Gareth mordia o lábio. Talvez só então compreendesse que sua atitude poderia ser considerada como ofensiva pelo irmão. Além disso, o rei dera-lhe a honra de oferecer-se para sagrá-lo cavaleiro, e ele a recusara. Que criança era, apesar de seu tamanho e sua força, e da precoce habilidade nas armas!

- Quem poderia preferir ser sagrado cavaleiro por mim, quando Lancelote está pronto a fazê-lo? - disse Gawaine, com impaciência.

Lancelote abraçou os dois:

- Vocês me concedem uma honra demasiado grande. Bem, rapaz, vá para junto de suas armas, que irei fazer-lhe companhia na vigília depois da meia-noite.

Gawaine ficou olhando para o rapaz enquanto este se afastava, com seus passos largos e desajeitados, e depois disse:

- Você devia ser um daqueles velhos gregos, como conta a lenda que lemos quando crianças. Como era mesmo o nome dele? Aquiles... cujo verdadeiro amor era o jovem cavaleiro Pátroclos, e nenhum dos dois dava importância às belas damas da corte de Tróia. Todos os rapazes desta corte o adoram como um herói. É pena que você não tenha as preferências gregas, em matéria de amor!

O rosto de Lancelote tornou-se vermelho.

- Você é meu primo, Gawaine, e pode dizer-me tais coisas. Mas eu não toleraria isso de ninguém mais, mesmo como brincadeira.

Gawaine deu uma gargalhada sonora.

- Sim, uma brincadeira, com quem só professa devoção à nossa casta rainha...

- Não ouse! - exclamou Lancelote, avançando sobre ele e segurando-lhe o braço com força suficiente para quebrá-lo. Gawaine lutou para libertar-se, mas Lancelote, embora menor do que ele, dobrou-lhe o braço para trás, rugindo de ódio como um lobo enraivecido.

- Parem! Não se permitem lutas no salão real!

Cai, desajeitadamente, interpôs-se entre eles, e Morgana procurou contemporizar:

- Ora, Gawaine, e o que dirá você de todos esses padres que professam devoção à Virgem Maria, acima de tudo o mais? Dirá que eles têm uma escandalosa devoção carnal ao seu Cristo? E, na verdade, ouvimos contar que Nosso Senhor Jesus Cristo não se casou nunca, e que entre os doze por ele escolhidos havia um que se reclinou em seu peito, na ceia...

Gwenhwyfar deu um grito, chocada:

- Morgana, cale-se, que brincadeira blasfema!

Lancelote soltou o braço de Gawaine, que ficou esfregando a marca ali deixada. Artur voltou-se para eles, com uma expressão séria:

- Vocês são como crianças, meus primos, brigando dessa maneira! Deverei mandá-los para a cozinha, para serem castigados por Cai? Vamos, voltem a ser amigos! Não ouvi a brincadeira, mas qualquer que fosse, Lance, não pode ter sido assim tão grave!

Gawaine riu, e disse:

- Eu estava brincando, Lance. Sei perfeitamente que você é perseguido por muitas mulheres, para que pretendesse estar falando a sério. - Lancelote sacudiu os ombros e sorriu, como um pássaro com as penas arrepiadas.

- Todos os homens da corte invejam sua formosura, Lance - comentou Cai. E, esfregando a cicatriz que lhe contraía o canto da boca num falso riso, acrescentou: - Mas isso nem sempre é uma vantagem, não é mesmo, primo?

Tudo terminou com gargalhadas bem-humoradas, porém mais tarde Morgana, ao atravessar o pátio, encontrou Lancelote andando nervosamente, agitado, com as penas ainda arrepiadas.

- O que há, meu primo, por que está tão agitado?

- Eu preferia deixar a corte - suspirou ele.

- Mas a rainha não permitirá.

- Nem mesmo com você, Morgana, falarei sobre a rainha - respondeu ele secamente, e foi a vez de Morgana suspirar.

- Não sou o vigia de sua consciência, Lancelote. E se Artur não se importa, quem sou eu para dizer uma palavra de censura?

- Você não compreende! - exclamou com impaciência. - Ela foi dada a Artur como alguma coisa que se compra num mercado, como parcela de uma compra de cavalos, porque o pai queria ser parente do Grande Rei, como parte do preço! Não obstante, é demasiado fiel para protestar...

- Eu não disse uma palavra contra ela, Lancelote - lembrou Morgana. - Você está ouvindo acusações feitas por você mesmo, e não de meus lábios.

Eu poderia fazer com que ele me desejasse, mas essa consciência tinha um gosto amargo. Havia feito esse jogo certa vez, e além do desejo Lancelote sentira medo, como tinha medo da própria Viviane. Temia-a a ponto de odiá-la, devido a esse desejo. Se o rei mandasse, Lancelote se casaria com ela, mas dentro em pouco a odiaria.

- Você me amaldiçoou, e, creia-me, sou maldito - tornou ele, fitando-a nos olhos.

E, de súbito, a velha raiva e desprezo desapareceram. Ele era o que era. Morgana tomou-lhe as mãos:

- Primo, não se aborreça com isso. Foi há muitos, muitos anos, e não creio que algum deus ou deusa ouça as palavras de uma moça irritada porque foi desprezada. E tudo não passou disso.

Lancelote deu um suspiro e recomeçou a andar.

- Eu poderia ter matado Gawaine, esta noite - admitiu, por fim. - Foi bom que você nos detivesse, mesmo com aquela brincadeira blasfema. Eu... tenho de enfrentar isso durante toda a minha vida. Quando era menino, na corte de Ban, era mais bonito do que Gareth hoje, e na corte da Bretanha Menor, como também em outros lugares, um menino bonito tem de cuidar-se melhor do que uma donzela. Mas nenhum homem vê ou acredita nessas coisas, até ter experiência delas, e pensa que tudo não passa de pilhéria mais ou menos vulgar, feita sobre outras pessoas. Houve uma época em que eu também pensei assim, e depois me convenci de que nem sempre era como eu pensava... - Houve um longo silêncio, durante o qual ele ficou olhando para as pedras do pátio. - Por isso, entreguei-me a experiências com mulheres, qualquer mulher. Que Deus me perdoe, até mesmo com você, que foi criada por minha mãe e era sacerdotisa dedicada à Deusa. Poucas mulheres, porém, me excitavam, até que a conheci... - Morgana sentiu-se contente por ele não ter dito o nome de Gwenhwyfar. - E a partir daquele momento, não houve nenhuma outra. Com ela, sei que sou homem.

- Mas ela é a mulher de Artur...

- Meu Deus! - Lancelote voltou-se e bateu com a cabeça no muro. - Você pensa que isso não me atormenta? Ele é meu amigo; se Gwenhwyfar fosse casada com qualquer outro homem desta terra, eu a teria levado comigo para longe... - Morgana viu os músculos de seu pescoço se contrairem, quando ele engoliu em seco. - Não sei o que vai ser de nós. E Artur precisa de um herdeiro, para seu reino. O destino da Bretanha é mais importante do que o nosso amor. Quero bem a ambos. E vivo atormentado, Morgana, atormentado! - Tinha os olhos arregalados, e por um momento Morgana teve a impressão de ver nele um sinal de loucura. O que poderia eu ter dito ou feito, naquela noite?, costumava perguntar-se, mesmo muito tempo depois daqueles acontecimentos. - Amanhã, pedirei a Artur que me mande para longe, para alguma missão difícil, como acabar para sempre com o dragão de Pellinore, conquistar os selvagens homens do norte que vivem além da muralha romana, não importa qual, Morgana, qualquer coisa, desde que me afaste daqui.

Percebendo na voz dele uma tristeza maior do que as lágrimas, Morgana teve vontade de abraçá-lo e acalentá-lo como se fosse uma criancinha.

- Acho que teria matado Gawaine esta noite, se você não nos tivesse contido. E ele estava apenas brincando, teria morrido de horror se soubesse... - Lancelote afastou os olhos e murmurou: - Não sei se o que ele disse é verdade. Eu devia agarrar Gwenhwyfar e fugir daqui, antes que se transforme num escândalo para todas as cortes do mundo o fato de eu amar a mulher do rei, e ainda assim... não poder separar-me de Artur... Não sei se amo Gwenhwyfar por que, com isso, me aproximo ainda mais dele...

Morgana estendeu a mão para silenciá-lo. Havia coisas que preferia não ouvir. Mas Lancelote não notou.

- Não, não, tenho de contar a alguém, ou morrerei sufocado. Morgana, você sabe como me deitei a primeira vez com a rainha? Eu a amava há muito tempo, desde que a vi em Avalon, mas acreditava que viveria e morreria com essa paixão frustrada. Artur é meu amigo, e eu não o trairia pela... você não deve imaginar que ela me tenha tentado alguma vez! Mas foi por vontade de Artur. Aconteceu em Beltane...

E Lancelote contou-lhe tudo, enquanto Morgana ouvia, estupefata, pensando apenas: Foi assim, então, que o talismã funcionou... Teria preferido que a Deusa me fizesse leprosa a ter dado esse talismã a Gwenhwyfar!

- Mas isso ainda não é tudo - suspirou ele. - Enquanto estávamos na cama... nunca, nunca alguma coisa tão... - engoliu em seco, e procurou encontrar palavras para dizer o que Morgana não desejava ouvir. - Eu... toquei Artur, acariciei-o... Eu a amo, oh, Deus, não me entenda mal, eu a amo, mas se ela não fosse a mulher de Artur, se não fosse por isso... duvido que mesmo ela...

Soluçou, e não pôde terminar a frase, enquanto Morgana permanecia imóvel, num espanto que a tornava muda. Fora essa, então, a vingança da Deusa, que ela, que amava Lancelote sem esperanças, se tornasse a confidente dele e da mulher que ele amava, que fosse depositária de todos os medos secretos que Lancelote não podia revelar a mais ninguém, as paixões incompreensíveis de sua alma?

- Lancelote, você não devia dizer tais coisas para mim, não para mim. A algum homem, a Taliesin, a um sacerdote...

- O que pode um padre saber disso? - perguntou ele, desesperado. - Nenhum homem sentiu isso, creio... Deus sabe que conheço muito bem os desejos dos homens, eles não falam de outra coisa, e de vez em quando alguém revela coisas estranhas, mas nunca, nunca, nada tão estranho e tão mau como isso! Estou perdido! - exclamou: - É esse o castigo por ter desejado a mulher de meu rei: ter de viver numa servidão terrível, que até mesmo Artur, se soubesse, me odiaria e desprezaria. Ele sabe que amo Gwenhwyfar, mas isso... nem ele me poderia perdoar, e ela... quem sabe ela, até mesmo ela, não me odiaria e desprezaria...

Sua voz sufocou-se num silêncio. Morgana só pôde dizer as palavras que aprendera em Avalon:

- A Deusa sabe o que existe no coração dos homens, Lancelote. Ela o consolará.

- Mas isso é um desprezo à Deusa - tornou ele, horrorizado. - E o que pode fazer o homem que vê a mesma Deusa na face da mãe que o gerou? Não posso me voltar para ela... Sinto-me quase tentado a jogar-me aos pés do Cristo. Seus padres dizem que ele pode perdoar qualquer pecado, por pior que seja, como perdoou aos que o crucificaram...

Morgana retrucou com violência que nunca vira qualquer indício de que os padres fossem tolerantes e compreensivos com os pecadores.

- Sim, sem dúvida, você tem razão - admitiu Lancelote, olhando para as pedras. - Não há ajuda em parte alguma, até que eu seja morto em combate, ou fuja daqui, para atirar-me no caminho de algum dragão... - esfregou com o pé uma folha de grama que nascia entre as pedras do pátio. - E naturalmente o pecado, o bem e o mal, tudo isso são mentiras contadas pelos padres e pelos homens. A única verdade é que crescemos, morremos e desaparecemos como esta folha de grama, aqui. Bem, vou participar da vigília de Gareth, como prometi. Pelo menos, ele me ama com toda a inocência, como um irmão mais novo, ou um filho. Eu teria medo de me ajoelhar ante o altar se acreditasse numa palavra do que os padres dizem, condenado como estou. E mesmo assim, como desejo que houvesse um Deus que pudesse me perdoar, e me fizesse saber que estou perdoado...

Começou a afastar-se, mas Morgana agarrou a manga bordada da túnica de festa que ele usava.

- Espere. Que história é essa de vigília na igreja? Eu não sabia que os Companherios de Artur haviam-se tornado tão carolas!

- Artur pensa, com freqüência, na cerimônia em que foi feito rei, na ilha do Dragão. Disse certa vez que os romanos, com seus numerosos deuses, e o velho povo pagão, tinham alguma coisa que era necessária à vida: o fato de que os homens, ao assumirem alguma obrigação séria, deviam fazê-lo em meio a orações, e ter presente seu grande significado. Por isso, conversou com os padres, e estes estabeleceram um ritual, segundo o qual, quando qualquer Companheiro novo, ainda não temperado pela batalha - onde é julgado pelo próprio confronto com a morte -, quando um homem que ainda não passou por essa prova é feito Companheiro, há uma cerimônia especial, em que ele faz uma vigília e reza a noite toda ao lado de suas armas, pela manhã confessa seus pecados e é purificado, para depois então ser feito cavaleiro.

- Ora, então, é uma espécie de iniciação nos Mistérios. Mas Artur não é regente de Mistérios, não tem o direito de conferi-los a ninguém, ou fazer iniciação, e tudo isso misturado com o nome do seu Cristo. Pela Deusa, será que eles pretendem até mesmo usar os Mistérios?

A resposta de Lancelote foi defensiva:

- Ele consultou Taliesin, que concordou. - Morgana ficou surpresa de que o mais alto dos druidas comprometesse daquela maneira os Mistérios. Não obstante, houve uma época, contara Taliesin, que cristãos e druidas rezavam juntos. - O importante é o que acontece na alma do homem, e não se ele é cristão, pagão ou druida. Se Gareth enfrenta o mistério em seu coração, e isso faz dele um homem melhor, que importância tem que a inspiração venha da Deusa, do Cristo ou do Nome que os druidas não podem dizer... ou da própria bondade que existe dentro dele?

- Ora, você está argumentando como o próprio Taliesin! - irritou-se Morgana.

- Sim, eu conheço essas palavras. - Seus lábios se contrairam num ricto amargo. - Quisera Deus, qualquer deus, que eu pudesse encontrar em meu coração alguma coisa em que acreditar, ou qualquer conforto semelhante!

Morgana pôde dizer apenas:

- Faço votos para que você possa, primo. Rezarei por você.

- Rezará a quem? - perguntou Lancelote, afastando-se e deixando Morgana dolorosamente perturbada.

Ainda não era meia-noite. Podia ver as luzes da igreja onde Gareth, agora ao lado de Lancelote, fazia sua vigília. Inclinou a cabeça, lembrando-se da noite em que ela própria tivera de vigiar, e sua mão dirigiu-se automaticamente à cintura, em busca da pequena faca curva que há muitos anos não mais trazia ali.

Eu a joguei fora. Quem sou eu para falar em profanação dos Mistérios?

Houve uma comoção súbita no ar, que rodopiou como um remoinho à sua frente, e Morgana sentiu-se como se fosse cair, pois Viviane estava à sua frente, ali, ao luar.

Estava mais velha e mais magra. Os olhos eram como brasas candentes sob as sobrancelhas retas, e os cabelos estavam quase totalmente brancos. Seu olhar era de sofrimento e ternura, pensou Morgana.

- Mãe... - gaguejou sem saber se falava a Viviane ou à Deusa. E então a imagem oscilou, e ela compreendeu que Viviane não estava ali, era apenas a Visão.

- Por que me apareceu? O que deseja de mim? - murmurou Morgana, ajoelhando-se e sentindo o movimento das roupas de Viviane no vento da noite. Ela trazia uma coroa de juncos, como a da rainha do país das fadas. A aparição estendeu a mão, e Morgana sentiu a apagada tatuagem do crescente queimar-lhe na testa.

O vigia passou pelo pátio, com a luz de sua lanterna brilhando. Morgana estava ajoelhada sozinha, sem olhar para nada. Levantou-se apressadamente antes que o homem pudesse vê-la.

Havia perdido, de súbito, toda a vontade de ir para a cama de Kevin. Ele estava à espera, mas, se não fosse, não pensaria em censurá-la. Atravessou silenciosamente os corredores até o quarto em que dormia com as outras damas solteiras de Gwenhwyfar, para a cama que dividia com a jovem Elaine.

Pensei que a Visão me havia deixado para sempre. Não obstante Viviane apareceu-me estendeu-me a mão. Estará Avalon precisando de mim? Ou será que eu, como Lancelote, estou ficando louca?

 

Capítulo 3

Quando Morgana acordou, todo o castelo, à sua volta, despertava com o barulho e a confusão de um dia de festa.

Pentecostes. No pátio, onde flutuavam bandeiras e as pessoas entravam e saíam dos portões, os servos preparavam as liças para os jogos, os pavilhões eram montados por toda a área de Camelot e nas encostas do morro, como flores estranhas e belas.

Não havia tempo para sonhos e visões. Gwenhwyfar mandou chamá-la para que lhe fizesse o penteado - nenhuma mulher de Camelot tinha mãos tão hábeis quanto Morgana, e ela prometera à rainha que, naquela manhã, iria trançar-lhe o cabelo de maneira especial, com as quatro tranças que a própria Morgana usava nas grandes festas. Enquanto penteava e separava o belo cabelo sedoso de Gwenhwyfar para trançá-lo, Morgana olhou para o lado, para a cama de onde se havia levantado a cunhada. Artur já tinha sido vestido pelos servos e saíra. Os pajens e camareiros faziam a cama, retirando as roupas sujas para que fossem lavadas e estendendo vestidos para que a rainha escolhesse.

Morgana pensou: Eles partilham esta cama, todos os três, Lancelote, Gwenhwyfar e Artur - era uma coisa sem precedentes. Lembrou-se de alguma coisa ocorrida no país das fadas, algo que não estava claro. Lancelote sentia-se atormentado, e Morgana não fazia idéia de como Artur considerava tudo aquilo. Enquanto suas mãos pequenas e ligeiras se movimentavam nos cabelos de Gwenhwyfar, ficou pensando o que a cunhada sentiria. De súbito, sua mente foi tomada por imagens eróticas, recordações daquele dia na ilha do Dragão em que Artur, ao despertar, a tomara nos braços, lembranças da noite em que estivera nos braços de Lancelote, no campo. Baixou os olhos e continuou a trançar o cabelo da rainha.

- Você está apertando demais - queixou-se Gwenhwyfar, e Morgana escusou-se, em voz baixa:

- Desculpe.

E forçou as mãos a se relaxarem. Artur era, então, um rapaz, e ela, uma virgem. Lancelote teria dado a Gwenhwyfar aquilo que lhe negara, ou teria a rainha se contentado com suas carícias infantis? Por mais que se esforçasse, Morgana não conseguia afastar da mente aquelas imagens odiosas, embora continuasse a trançar calmamente os cabelos de Gwenhwyfar, com um rosto impassível.

- Bem, assim ficará bem. Dê-me o grampo de prata - pediu, prendendo as tranças no alto. A rainha examinou-se, satisfeita, no espelho de bronze que era um de seus tesouros. - Está muito bonito, minha querida irmã. Muito obrigada - e voltou-se impulsivamente para abraçar Morgana, que se sentiu rígida em seus braços.

- Não precisa agradecer. É mais fácil pentear os outros do que a mim mesma. Espere, um grampo está se soltando.

Recolocou o grampo. Gwenhwyfar estava brilhante, linda. Morgana abraçou-a, encostando por um momento o rosto no dela. Parecia bastar, então, tocar aquela beleza, como se alguma coisa dela pudesse penetrar Morgana e dar-lhe um pouco daquele brilho e formosura. Depois, voltou a lembrar-se daquilo que Lancelote lhe contara, e pensou: Não sou melhar do que ele. Também eu alimento desejos estranhos e perversos, e quem sou eu para zombar de algum deles?

Invejava a rainha, que ria ao dar instruções a Elaine para que fosse procurar nos baús as taças que serviriam de prêmios para os vencedores dos jogos. Gwenhwyfar era simples e franca, não deveria sentir-se nunca torturada por tais pensamentos sombrios. Seus sofrimentos eram simples, os sofrimentos e problemas de toda mulher, medo de que o marido se cansasse dela, sofrimento pela sua esterilidade apesar de todos os efeitos do talismã, não havia sinais de gravidez. Se um homem não conseguiu emprenhá-la, é provável que dois também não, pensou Morgana, maliciosamente.

Gwenhwyfar estava sorridente:

- Vamos descer? Ainda não cumprimentei os hóspedes. O rei Uriens de Gales do Norte está aqui, com seu filho crescido. Você gostaria de ser rainha do País de Gales, Morgana? Ouvi dizer que o rei Uriens pedirá uma noiva a Artur...

- Você acredita que eu seria uma boa rainha, porque provavelmente não lhe darei um filho que possa questionar a pretensão de Avaloch ao trono? - perguntou, rindo.

- É certo que você estaria com muita idade para ter o primeiro filho - considerou Gwenhwyfar -, mas ainda assim tenho esperanças de que possa dar ao meu senhor e rei um herdeiro. - Ela não sabia que Morgana tinha um filho, e jamais saberia.

Mas isso a molestava.

Artur devia saber que tem um filho. Ele se culpa pelo fato de a rainha não ter filhos. Para sua própria tranqüilidade, ele devia saber: E se acontecer que ela nunca tenha filhos, pelo menos o rei tem um. Ninguém precisa saber que é também filho de sua irmã. E Gwydion tem o sangue real de Avalon. Está, agora, em idade de ir para Avalon, para ser druida. Sem dúvida, eu deveria tem ido olhar seu rosto, antes disso...

- Ouça - disse Elaine -, as trombetas estão soando no pátio... Alguém importante está chegando, e devemos apressar-nos. Uma missa será celebrada esta manhã, na igreja.

- E Gareth será feito cavaleiro - comentou Gwenhwyfar. - É uma pena que Lot não esteja vivo para ver seu filho mais novo sagrado cavaleiro...

- Ele não se sentia muito satisfeito em companhia de Artur, nem este gostava muito dele - suspirou Morgana, dando de ombros. Por isso, pensou, o protegido de Lancelote seria feito Companheiro. Lembrou-se em seguida do que Lancelote dissera sobre a vigília ritual que precedia a sagração - um simulacro dos Mistérios. Será meu dever falar com Artur sobre seu compromisso com Avalon? Ele conduziu a imagem da Virgem na batalha de monte Badon; ele deixou de lado a bandeira do Dragão e agora entregou um dos Mistérios maiores para os padres cristãos. Buscarei o conselho de Taliesin...

- Temos de descer - insistiu Gwenhwyfar, prendendo a bolsa e as chaves à cintura. Estava bonita e tinha uma aparência solene, com os cabelos trançados e o vestido cor de açafrão. Elaine usava uma roupa verde, e Morgana ostentava o vermelho. Desceram a escada, reunindo-se em frente à igreja. Gawaine saudou Morgana, chamando-a de "prima", e fez uma curvatura diante da rainha. Mais além, viu um rosto familiar, e franziu levemente a testa, tentando descobrir onde vira antes aquele cavaleiro: alto, corpulento, de barba, quase tão louro quanto um saxão ou um homem do norte. Lembrou-se, então, de que se tratava do irmão de criação de Balam, Balim. Fez-lhe uma fria inclinação de cabeça. Era um homem tolo, de mentalidade estreita, mas mesmo assim estava ligado pelos sagrados laços do parentesco a Viviane, que era sua parenta mais próxima e mais cara.

- Cumprimentos, Sir Balim.

Ele olhou-a com má vontade, mas lembrou-se de suas boas maneiras. Usava um manto gasto e puído. Era evidente que estivera viajando por muito tempo e ainda não havia trocado de roupa e tomado banho.

- Vai à missa, senhora Morgana? Renunciou aos demônios de Avalon e abandonou aquele lugar maligno, aceitando nosso Salvador e Senhor, o Cristo?

Morgana sentiu-se ofendida com a pergunta, mas nada respondeu. Com um sorriso cuidadoso, dirigiu-se a ele:

- Vou à missa para ver nosso parente Gareth ser feito cavaleiro. - Como esperava, essa observação mudou a direção dos pensamentos de Balim.

- O irmão menor de Gawaine! Balam e eu o conhecíamos menos do que os outros. É difícil acreditar que já seja um homem. Para mim, será sempre aquele menininho que assustou os cavalos no casamento de Artur e quase provocou a morte de Galahad.

Morgana lembrou-se de que era esse o verdadeiro nome de Lancelote, e sem dúvida o religioso Balim era orgulhoso demais para ousar qualquer outro. Ele fez-lhe uma reverência e entrou na igreja. Acompanhando Gwenhwyfar, Morgana seguiu-o com o olhar, franzindo as sobrancelhas. Havia nele um ar de fanatismo, e ela ficou satisfeita por Viviane não estar ali embora os dois filhos da Senhora do Lago estivessem - Lancelote e Balam -, e certamente impediriam qualquer problema.

A igreja estava florida, e os fiéis, vestidos com suas brilhantes roupas de festa, pareciam-se com as flores. Gareth vestia uma túnica de linho branco e Lancelote de vermelho, ajoelhou-se ao seu lado, belo e grave. Morgana pensou: O louro e o moreno, o branco e o vermelho. Uma outra comparação ocorreu-lhe: Gareth, feliz e inocente, alegre com sua iniciação, e Lancelote, sofrido e atormentado. Ao ajoelhar-se, porém, ouvindo o padre ler a história do Pentecostes, ele parecia calmo e completamente diverso do homem torturado que desabafara com ela.

"... e quando terminou o dia de Pentecostes, eles estavam reunidos num lugar; subitamente, veio do céu o som de um vento violento, que encheu toda a casa onde se encontravam. E surgiram línguas de fogo, que se separaram e desceram sobre eles, uma sobre cada um. E foram todos impregnados do Hálito Divino, e começaram a falar em outras línguas, que o Espírito mandava. Ora, viviam em Jerusalém judeus muito rigorosos, de todas as raças que há sob o céu. Quando ouviram esse som, toda a multidão se juntou e ficou confusa, porque todos ouviram esses homens falando em suas línguas. E também pareciam loucos, dizendo uns para os outros: 'Vejam! Não serão todos esses pregadores galileus? E como os estamos ouvindo, cada um de nós, em nossas próprias línguas nativas? Partos e medos e elamitas e homens da Mesopotâmia, da Judéia e de Capadócia, da Ásia, da Frígia e de Panfília, e visitantes de Roma, judeus, cretenses e árabes. Mas todos nós os ouvimos falar nossa própria língua'. E ficaram todos espantados, perguntando-se uns aos outros: 'O que significa isso?'. Outros porém diziam, zombeteiros: 'Esses homens beberam demais do vinho novo e doce, e muito cedo pela manhã'. E então Pedro, o Apóstolo, elevou a voz e lhes disse: 'Homens da Judéia, e todos vós, ouvi minhas palavras. Estes homens não estão bêbados como pensais, já que estamos apenas na terceira hora; mas o profeta Joel escreveu: Deus diz, nos últimos dias do mundo, mandarei meu Espírito a todos os corpos, e vossas filhas profetizarão, e vossos jovens terão visões e vocês, velhos, terão sonhos'."

Ajoelhada tranqüilamente em seu lugar, Morgana pensou: Ora, foi a Visão que desceu sobre eles, e não compreenderam. Nem se interessavam em compreender; para eles, isso apenas provava que seu Deus era maior do que os outros Deuses. O padre falava agora dos últimos dias do mundo, de como Deus derramaria dons de visão e profecia, mas Morgana ficou pensando se algum desses cristãos sabia que tais dons eram comuns, afinal de contas. Qualquer um podia dominar tais poderes, se provasse ser capaz de usá-los de maneira adequada. Mas entre os usos adequados não estava assustar as pessoas comuns com milagres tolos! Os druidas usavam seus poderes para fazer o bem privadamente, e não para reunir multidões!

Quando os fiéis se aproximaram do altar para a comunhão, Morgana balançou a cabeça e afastou-se, embora Gwenhwyfar tentasse levá-la para a frente. Não era cristã, e não fingiria.

Logo depois, do lado de fora da igreja, ficou olhando a cerimônia na qual Lancelote tirou a espada e tocou os ombros de Gareth com ela, dizendo numa voz forte e musical:

- Levanta-te agora, Gareth, Companheiro de Artur e irmão de todos nós aqui presentes e de todos os cavaleiros desta companhia. Não te esqueças de defender teu rei e de viver em paz com todos os cavaleiros de Artur e com a gente pacífica de toda parte, mas lembra-te sempre de combater o mal e defender os que precisam de proteção.

Morgana lembrou-se da ocasião em que Artur recebera Excalibur das mãos da Senhora. Olhou para ele, imaginando se também o irmão se recordaria, e se teria sido essa a razão pela qual instituíra aquele compromisso solene e aquele cerimonial, a fim de que os jovens que eram feitos cavaleiros em sua companhia pudessem ter uma solenidade de que se recordar. Talvez isso não fosse, afinal de contas, um simulacro dos santos Mistérios, mas uma tentativa de preservá-los da melhor maneira possível.. Mas por que, então, realizar na igreja a solenidade? Chegaria o dia em que ele negaria os direitos daqueles que não acreditavam no cristianismo? Durante a missa, Gareth e seu primo e patrono Lancelote foram os primeiros a receber a comunhão, antes mesmo do rei. Não era isso o mesmo que colocar a ordem da cavalaria dentro da igreja, como um rito cristão, como um dos seus sacramentos? Lancelote não tinha o direito de fazer isso, ele não estava qualificado para conferir os Mistérios a ninguém. Seria aquilo uma profanação ou uma tentativa honesta de colocar os Mistérios no coração e na alma de todos, na corte?

Morgana não sabia.

Depois da missa, houve um intervalo antes dos jogos.

Morgana saudou Gareth e deu-lhe um presente, uma bela correia de couro onde poderia usar a espada e o punhal. Ele inclinou-se para beijá-la.

- Ah, como você cresceu! Duvido que sua mãe o reconhecesse!

- Isso acontece com todos nós, prima - respondeu, sorrindo. - Tenho dúvidas de que você reconhecesse seu próprio filho!

Foi, então, cercado pelos outros cavaleiros, que se acotovelavam e se comprimiam para cumprimentá-lo. Artur apertou-lhe a mão e falou-lhe de um modo que o deixou radiante.

Morgana viu que estava sendo atentamente observada por Gwenhwyfar.

- Morgana, o que foi que Gareth disse? Seu filho.

Morgana respondeu secamente:

- Se nunca lhe disse, cunhada, é porque respeito sua religião. Tive um filho consagrado à Deusa, nos ritos de Beltane. Está sendo criado na corte de Lot. Não o vejo desde que foi desmamado. Está satisfeita ou espalhará meu segredo por toda parte?

- Não - disse Gwenhwyfar, empalidecendo. - Que desgraça para você, ter sido separada de seu filho! Sinto muito, Morgana, e não direi a ninguém, nem mesmo a Artur. Ele também é cristão e ficaria chocado.

Você nem imagina quanto ele ficaria chocado, pensou Morgana com tristeza. Seu coração batia forte. Seria possível confiar nela? Agora, havia gente demais que conhecia seu segredo!

Haviam soado as trombetas do início dos jogos. Artur concordara em não participar deles, pois ninguém queria atacar seu rei, e um dos dois grupos da batalha simulada teria a chefia de Lancelote, como campeão do rei; o comando do segundo grupo coube, por sorte, a Uriens, de Gales do Norte, um homem corpulento que já passara da meia-idade, mas ainda era forte e musculoso. Tinha a seu lado o segundo filho, Acolon. Morgana observou, quando Acolon colocava as luvas, que seus pulsos estavam tatuados com as serpentes azuis: ele era um iniciado da ilha do Dragão!

Gwenhwyfar tinha brincado, sem dúvida, sobre a possibilidade de casá-la com o velho Uriens. Mas Acolon - ali estava o homem indicado, talvez o mais belo, depois de Lancelote, entre os que participavam dos jogos. Morgana admirou sua habilidade com as armas. Ágil e bem-constituído, ele movia-se com a facilidade natural de um homem habituado a esses exercícios, que manejava armas desde a infância. Mais cedo ou mais tarde, Artur desejaria arranjar um casamento para ela; se Acolon lhe fosse oferecido, diria não?

Depois de algum tempo, sua atenção começou a distrair-se. A maioria das outras mulheres havia perdido o interesse, há muito, nas disputas, e estavam conversando sobre proezas de que tinham ouvido falar. Outras jogavam dados em seus pavilhões, enquanto outras, ainda, seguiam o torneio com animação, tendo apostado fitas, grampos ou pequenas moedas em seus maridos, irmãos ou namorados.

- Não vale a pena apostar - disse uma delas, descontente. - Todos sabemos que Lancelote vencerá, como sempre.

- Você está querendo dizer que ele vence injustamente? - perguntou Elaine, com um ar de ressentimento, ao que a mulher estranha respondeu:

- De modo algum. Mas sou de opinião que, nesses jogos, ele devia ficar de fora, já que ninguém pode enfrentá-lo.

Morgana riu:

- Vi o jovem Gareth, irmão de Gawaine, derrubá-lo, e ele não se aborreceu. Mas, se você quiser, aposto uma fita de seda vermelha como Acolon ganhará um prêmio, mesmo que seja enfrentando Lancelote.

- De acordo. - concordou a mulher, e Morgana levantou-se:

- Não gosto de ficar vendo os homens brigarem por esporte. Já houve brigas suficientes, e estou cansada até mesmo de ouvir falar nisso. - Fez um aceno a Gwenhwyfar: Irmã, posso voltar ao castelo e ver se está tudo em ordem para o banquete?

Gwenhwyfar assentiu, e ela, passando por trás das cadeiras, dirigiu-se para o pátio principal. Os grandes portões estavam abertos e guardados apenas pelos poucos que não queriam ver o certame. Morgana começou a andar de volta para o castelo, mas uma intuição que nunca pôde explicar levou-a de volta aos portões, de onde ficou observando dois cavaleiros que se aproximavam e chegavam tarde para as primeiras festividades. Quando se aproximaram, sentiu a pele arrepiar-se num presságio. Ao chegarem junto aos portões, começou a correr, chorando.

- Viviane! - gritou, e depois parou, receosa de lançar-se aos braços de sua tia. Em lugar disso, ajoelhou-se no chão poeirento e inclinou a cabeça. A voz doce e familiar, inalterada, tal como a havia ouvido em sonhos, disse gentilmente:

- Morgana, minha filha querida, é você! Como ansiei por encontrá-la durante todos esses anos! Vamos, vamos, minha cara, você nunca precisa ajoelhar-se diante de mim.

Morgana levantou o rosto, mas tremia demais para poder erguer-se. Viviane, com a face envolta nos véus cinzentos, inclinou-se para ela, estendendo-lhe a mão, que ela beijou. Em seguida, puxou-a para um abraço.

- Querida, há quanto tempo... - disse, enquanto a sobrinha lutava inutilmente para conter o pranto. - Andava tão preocupada com você! - continuou, apertando-lhe a mão, enquanto caminhavam para a entrada. - De tempos em tempos eu a via no poço, mas estou velha, só raramente posso recorrer à Visão. Mas sabia que estava viva, que não havia morrido de parto, nem além-mar... Estava ansiosa para olhá-la nos olhos, minha pequena - tinha a voz terna como se nunca houvesse surgido entre elas o desentendimento, e Morgana sentiu-se tomada pela antiga afeição.

- Todos estão nos jogos, agora. O filho mais novo de Morgause foi feito cavaleiro e Companheiro, esta manhã. Eu acho que sabia que você estava chegando... - e lembrou-se da Visão que tivera na noite passada: sim, realmente sabia. - Por que veio, Mãe?

- Você deve ter sabido que Artur traiu Avalon - explicou Viviane. - Kevin falou-lhe em meu nome, sem resultados. Por isso, vim para exigir justiça. Em nome de Artur, os reis vassalos estão proibindo os velhos cultos, os bosques sagrados foram profanados, até mesmo na terra governada pela rainha de Artur, por herança, e ele nada fez...

- Gwenhwyfar é muito cristã - murmurou Morgana, e sentiu que seus lábios se contraíam num ricto de desprezo, tão carola e, apesar disso, deitava-se com o primo do marido, com a aprovação do rei, também excessivamente carola! Mas uma sacerdotisa de Avalon não espalhava segredos de alcova que tivessem chegado ao seu conhecimento. Viviane pareceu ler seus pensamentos, pois disse:

- Não, Morgana, mas poderá haver um momento em que, se eu conhecesse algum segredo de Artur, poderia forçá-lo a cumprir o que jurou fazer. Eu tenho uma arma dessas, realmente, mas para proteger você, não a usarei à frente da corte. Diga-me... - e olhou à volta. - Não, não falemos aqui. Leve-me para onde possamos conversar em segredo e possa lavar-me e preparar-me para comparecer diante de Artur, em sua grande festa.

Morgana levou-a para seu próprio quarto, que partilhava com as damas de Gwenhwyfar, que naquele momento estavam todas nos jogos. Também os servos haviam desaparecido, e ela mesma teve de providenciar água para o banho de Viviane e vinho para que ela se refrescasse, ajudando-a a tirar as roupas empoeiradas da viagem.

- Vi seu filho no reino de Lot - disse Viviane.

- Kevin me contou. - Sentiu no coração a velha dor: então Viviane havia, afinal de contas, conseguido o que queria, um filho de duas linhagens reais, para Avalon. - Você vai, então, fazer dele um druida para Avalon?

- É muito cedo para saber o que ele traz em si. Receio que o tenhamos deixado por muito tempo entregue a Morgause. De qualquer modo, porém, ele deve ser criado em Avalon, e fiel aos velhos Deuses, de modo que, se Artur não cumprir seu juramento, poderemos lembrar-lhe que há um menino com o sangue do Pendragon para substituí-lo.

Não toleraremos um rei que se transforme em apóstata e tirano, que imponha aquele Deus dos escravos e do pecado e da vergonha ao nosso povo! Nós, que o colocámos no trono de Uther, podemos derrubá-lo, se necessário, e com mais facilidade ainda se houver alguém da velha linhagem real de Avalon, um filho da Deusa, para tomar o lugar dele. Artur é um bom rei, mas, se for preciso, eu farei isso - a Deusa é quem comanda meus atos.

Morgana estremeceu. Seria seu filho um instrumento da morte do próprio pai? Afastou resolutamente o rosto dessa Visão:

- Não creio que Artur falte à palavra com Avalon.

- Que a Deusa permita isso - respondeu Viviane -, e mesmo assim os cristãos não aceitarão um filho gerado naquele rito. Devemos reservar para Gwydion um lugar perto do trono, para que ele possa ser o herdeiro do pai, e um dia teremos novamente um rei vindo de Avalon. Os cristãos julgariam que seu filho, Morgana, nasceu do pecado; ante a Deusa, porém, ele tem o mais puro de todos os sangues reais, pois tanto o pai como a mãe nasceram da linhagem dela - a linhagem sagrada. E ele tem de pensar assim, não pode ser contaminado pelos padres, que lhe dirão que sua concepção e seu nascimento são vergonhosos. - Olhou Morgana diretamente nos olhos: - Você ainda julga que isso é uma vergonha?

- Você sempre pôde ler meu coração, tia - respondeu, baixando a cabeça.

- A culpa é de Igraine e minha também, por tê-la deixado durante sete anos na corte de Uther. No dia em que soube que você tinha nascido para ser sacerdotisa, deveria tê-la tirado de lá. Você é uma sacerdotisa de Avalon, minha filha querida, por que não voltou mais?

Viviane começou a pentear seus longos cabelos embranquecidos, que lhe caíam no rosto. E Morgana murmurou, enquanto as lágrimas afloravam a seus olhos semicerrados:

- Não pude. Não pude, Viviane. Tentei... não encontrei o caminho.

Toda a humilhação e vergonha disso desabaram sobre ela, e Morgana chorou. Viviane pôs de lado o pente e abraçou a sobrinha, embalando-a como a uma criança pequena - Minha querida, minha filhinha, não chore, não chore... Se eu soubesse, teria vindo buscá-la. Não chore agora. Eu mesma a levarei de volta, iremos juntas, depois que eu tiver interpelado Artur. Levarei você comigo, e antes que ele queira casá-la com algum cristão idiota.. Sim, minha filha, você voltará para Avalon. Iremos juntas... - Enxugou o rosto de Morgana com seu véu. - Vamos, vamos, preciso vestir-me para comparecer diante do Grande Rei.

Morgana suspirou:

- Sim, trançarei seu cabelo, Mãe. - Tentou rir. - Hoje, pela manhã, trancei o cabelo da rainha.

Viviane afastou-a e disse, muito irritada:

- Artur colocou você, sacerdotisa de Avalon e princesa de sangue real, como criada de sua rainha?

- Não, não - respondeu Morgana rapidamente. - Sou tão respeitada quanto a própria rainha. Fiz o cabelo de Gwenhwyfar, hoje, por amizade. Ela também faz o meu, ou dá laços no meu vestido, como duas irmãs.

- Eu não toleraria vê-la rebaixada - e Viviane suspirou de alívio. - Você é a mãe do filho de Artur. Ele tem de aprender a honrá-la como tal, e também a filha de Leodegranz.

- Não! - exclamou Morgana. - Não, imploro-lhe! Artur não deve saber, pelo menos não deve saber perante toda a corte! Ouça, Mãe, toda essa gente é cristã. Você quer envergonhar-me na frente de todos eles?

- Eles têm de aprender a não se envergonhar das coisas sagradas! - respondeu Viviane, implacável.

- Mas os cristãos têm poder em toda esta terra. Não podemos mudar-lhes a maneira de pensar com umas poucas palavras.

Ficou pensando se a idade diminuíra a capacidade de raciocínio de Viviane. Era simplesmente impossível proclamar que as velhas leis de Avalon voltavam a imperar, e que duzentos anos de cristianismo deviam ser esquecidos. Os padres a expulsariam da corte como louca, e tudo continuaria inalterado. Viviane devia ter bastante experiência para saber de tudo isso! E, na verdade, ela sacudiu a cabeça e admitiu:

- Você tem razão, devemos agir com cautela. Mas, pelo menos, temos de lembrar a Artur sua promessa de proteger Avalon, e falarei com ele em segredo, algum dia, sobre seu filho. Não podemos proclamar isso em voz alta entre os ignorantes.

Morgana ajudou Viviane a pentear-se e a vestir-se com as roupas solenes de uma sacerdotisa de Avalon, preparada para grandes cerimoniais. Pouco depois, ouviram ruídos que revelavam o término dos jogos. Sem dúvida, os prêmios seriam entregues no salão durante o banquete. Ficou pensando se Lancelote teria ganho todos eles, novamente, em honra de seu rei. Ou, pensou amargamene, de sua rainha? E seria possível alguém considerar isso uma honra?

- Você voltará comigo para Avalon, minha filha? - perguntou Viviane, segurando-lhe delicadamente a mão, enquanto deixavam o quarto.

- Se Artur deixar...

- Morgana, você é uma sacerdotisa de Avalon, e não precisa pedir licença nem mesmo ao Grande Rei para movimentar-se como quiser. Um Grande Rei é chefe na batalha, não é dono da vida de seus súditos, nem mesmo dos reis vassalos, como se fosse um desses tiranos orientais que se julgam donos do mundo e das vidas de todos os homens e mulheres. Eu lhe direi que preciso de você em Avalon, e veremos o que ele responderá.

Morgana sentiu-se sufocar com as lágrimas não derramadas. Ah, voltar para AvaLon, ir para casa... Mas, mesmo ao segurar a mão de Viviane, não podia acreditar que realmente voltaria. Mais tarde, Morgana diria: Eu sabia, eu sabia, e reconheceria o desespero e a intuição que sentia ao ouvir tais palavras, porém, naquele momento, pensava apenas que o que experimentava era medo, a sensação de não ser digna de voltar para aquilo que abandonara.

Desceram, então, para o grande salão de Artur, para o banquete de Pentecostes.

Camelot brilhava de uma forma que Morgana nunca tinha visto, e talvez nunca voltaria a ver. A grande Távola Redonda, o presente de casamento de Leodgranz, fora instalada num salão digno de sua majestade, todo decorado de sedas e bandeiras. Uma disposição hábil fazia que todos os olhos se voltassem para Artur, sentado no grande trono no extremo mais distante do salão. Convidara Gareth a sentar-se ao seu lado, e ao lado da rainha, e todos os cavaleiros e Companheiros estavam reunidos em círculos, com suas melhores roupas, as armas brilhando, as mulheres usando trajes coloridos como flores. Um atrás do outro, os reis menores vieram ajoelhar-se diante de Artur e oferecer-lhe presentes.

Morgana observou o rosto do irmão, grave, solene, delicado.

Olhou depois para Viviane, que sem dúvida teria percebido o desenvolvimento de Artur, transformado num bom rei, que não podia ser julgado apressadamente, nem mesmo por Avalon ou pelos druidas. Mas quem era ela para pesar o que estava em causa entre Artur e Avalon? Sentiu o velho tremor de aversão, como nos dias antigos de Avalon, quando estava aprendendo a abrir a mente para a Visão, que a utilizaria como seu instrumento, e surpreendeu-se desejando, sem compreender por quê, que Viviane estivesse a cem léguas dali!

Olhou para os Companheiros - Gawaine, de cabelos vermelhos e forte como um buldogue, sorrindo para o irmão que acabava de ser feito cavaleiro; Gareth, brilhando como ouro recém-fundido. Lancelote, moreno e belo, parecia um pouco distraído, como se seus pensamentos estivessem do outro lado do mundo. Pellinore, grisalho e gentil, assistido por sua filha Elaine.

E então alguém, que não era um dos Companheiros, aproximou-se do trono de Artur. Morgana nunca o vira antes, mas notou que Gwenhwyfar o reconhecia e manifestava desagrado.

- Sou o único filho do rei Leodegranz - disse o estranho -, e irmão de vossa rainha, Artur. Exijo que minha reivindicação do País do Verão seja reconhecida.

- Você não pode fazer exigências a esta corte, Meleagrant - respondeu Artur, suavemente. - Examinarei seu pedido, aconselhando-me com minha rainha, e pode ser que consinta em nomeá-lo regente, em nome dela. Mas não posso tomar uma decisão agora.

- Pois, então, talvez eu não espere pela vossa decisão! - gritou Meleagrant. Era um homem corpulento, que se apresentava não só com a espada e o punhal, mas também com um grande machado de bronze, usado nas batalhas. Estava vestido de peles mal curtidas, e parecia tão selvagem e sinistro quanto um bandido saxão. Seus dois acompanhantes pareciam ainda mais selvagens do que ele. - Sou o único filho vivo de Leodegranz.

Gwenhwyfar inclinou-se para Artur e murmurou-lhe alguma coisa. O rei dirigiu-se então a Meleagrant:

- A rainha me diz que seu pai sempre negou ter qualquer parentesco com você. Mas pode ter a certeza de que examinaremos a questão, e se suas pretensões forem justificadas, serão atendidas. No momento, Sir Meleagrant, peço-lhe que confie na minha justiça, e participe das festividades.

Trataremos do assunto com os nossos conselheiros, e faremos justiça.

- As festividades que se danem! - gritou Meleagrant; irritado. - Não vim para comer doces e olhar para as mulheres, e ver homens grandes brincando como se fossem meninos! Digo-vos uma coisa, Artur: sou o rei daquele país, e se ousardes contestar minha afirmação, pior para vós e para vossa rainha!

Colocou a mão no cabo de seu grande machado de batalha, mas Cai e Gareth lançaram-se sobre ele, dobrando-lhe o braço às costas.

- Nenhuma arma pode ser usada no salão do rei - disse Cai duramente, enquanto Gareth arrancava-lhe o machado das mãos e colocava-o aos pés de Artur. - Vá para seu lugar, homem, e coma sua comida. A ordem tem de ser espeitada na Távola Redonda, e se nosso rei disse que fará justiça, você terá de esperar que ele a faça! Empurraram-no com violência, mas Meleagrant soltou-se:

- Ao diabo com suas festas e sua justiça, então! E ao diabo com a Távola Redonda e todos os Companheiros!

Abandonando o machado, voltou as costas e, com passos pesados, caminhou por toda a extensão do salão. Cai deu um passo para segui-lo, e Gawaine levantou-se, mas Artur lhes fez um gesto para que se sentassem.

- Deixem-no ir. Trataremos dele na ocasião oportuna. Lancelote, como campeão da rainha, talvez caiba a você ocupar-se daquele usurpador.

- Será um prazer, meu rei - respondeu ele, sobressaltando-se, como se tivesse sido acordado. Morgana desconfiou que Lancelote não tinha a menor idéia do que se tratava. À porta, os arautos ainda estavam anunciando que todos deviam se aproximar, para obter a justiça real. Houve um breve momento de comicidade, quando um camponês se apresentou e contou como havia brigado com um vizinho por causa de um pequeno moinho de vento situado no limite entre as propriedades de ambos.

- E não conseguimos chegar a um acordo, senhor - concluiu ele, torcendo nas mãos o grosseiro chapéu de lã. - Por isso, ambos decidimos que o rei havia tornado todo este país seguro para se ter um moinho, por isso era melhor virmos aqui, senhor, e apresentar nosso caso, acatando vossa decisão.

A questão foi solucionada entre risos bem-humorados, mas Morgana observou que Artur era o único a não rir, ouvindo com seriedade, e fazendo seu pronunciamento, e quando o homem, depois de agradecer, se retirou com muitas curvaturas, só então seu rosto descontraiu-se num sorriso.

- Cai, faça que dêem a esse camponês alguma coisa para comer, antes que ele parta de volta, pois fez uma longa caminhada até aqui - suspirou. - Quem é o seguinte a pedir justiça? Deus permita que seja alguma coisa que eu possa resolver. Será que acabarão pedindo minha decisão sobre coisas relacionadas com a criação de cavalos ou outras parecidas?

- Isso mostra como consideram seu rei, Artur - observou Taliesin. - Mas o senhor devia aconselhá-los a procurar também o senhor local, e fazer que os reis vassalos administrem justiça em seu nome. - Levantou a cabeça para ver quem era o seguinte. - O próximo pedido pode ser mais digno da atenção do rei. Afinal de contas, trata-se de uma mulher, e não tenho dúvidas de que está com um problema.

Artur fez um gesto para que se aproximasse: era uma mulher jovem, segura de si, altaneira, habituada aos costumes da corte. Vinha só, tendo como acompanhante apenas um anão feio, com menos de um metro de altura, musculoso, de ombros largos, e que trazia um machado pequeno mas forte.

A mulher inclinou-se perante o rei e contou sua história. Servia a uma senhora que, como tantas outras, ficara, depois dos anos de guerra, sozinha no mundo; suas terras estavam ao norte, perto da velha muralha romana que se estendia quilômetro após quilômetro, com fortes e castelos arruinados e abandonados. Mas um grupo de cinco irmãos, todos bandidos, havia fortificado cinco desses castelos e estava assolando toda a região. Agora, um deles, que resolvera intitular-se Cavaleiro Vermelho das Terras Vermelhas, estava sitiando as terras de sua senhora. Os irmãos desse homem eram ainda piores do que ele.

- Cavaleiro Vermelho, essa é boa! - zombou Gawaine. - Conheci esse homem. Lutei contra ele quando voltava para o sul, na ocasião de minha última visita ao reino de Lot, e por pouco não perdi a vida. Artur, talvez fosse conveniente mandar um exército para eliminar esses sujeitos, pois não há lei naquela parte do mundo.

Artur franziu a testa e assentiu com a cabeça, mas o jovem Gareth levantou-se.

- Meu senhor Artur, essa região fica no extremo dos limites do país de meu pai. O senhor me ofereceu uma missão; peço-lhe então que me mande ajudar essa dama a defender suas terras contra tais bandidos.

A jovem olhou para Gareth, para o rosto imberbe e a túnica de seda branca que vestira para a cerimônia de sagração de cavaleiro, e começou a rir.

- Você? Ora, você é um menino! Eu não sabia que o Grande Rei estava usando meninos muito crescidos para servir sua mesa!

Gareth corou como uma criança. Ele, na realidade, entregara ao rei uma taça - serviço que os meninos bem-nascidos, criados na corte, desempenhavam em todas as grandes festas. Gareth esquecera-se de que isso já não fazia mais parte de suas funções, e Artur, que gostava do prazer, nada dissera.

- Meu senhor e rei - disse a mulher, num tom orgulhoso -, vim pedir que um ou mais de seus grandes cavaleiros famosos pelas batalhas, como Gawaine, Lancelote ou Balim, que são conhecidos como grandes soldados contra os saxões, derrotassem esse Cavaleiro Vermelho. Permitireis que um menino de vossa cozinha zombe de mim, senhor?

- Meu Companheiro Gareth não é nenhum menino de cozinha, senhora. É irmão de Sir Gawaine, e promete ser um cavaleiro tão bom quanto seu irmão, ou melhor. Eu realmente prometi confiar-lhe a primeira missão honrosa que aparecesse, e mandá-lo-ei com a senhora. Gareth - disse Artur delicadamente -, encarrego-o de acompanhar esta moça, protegê-la contra os perigos da estrada e, quando chegar às terras dela, organizar com a senhora a defesa contra tais bandidos. Se precisar de ajuda, mande-me um mensageiro, mas, sem dúvida, ela dispõe de homens capazes de lutar, que precisam apenas de alguém que conheça o trato das armas e a estratégia, e isso você aprendeu de Cai e Gawaine. Senhora, ofereço-lhe um bom soldado para ajudá-la.

A moça não ousou responder ao rei, mas lançou um furioso olhar de desprezo a Gareth. Este disse formalmente:

- Obrigado, meu senhor Artur. Farei que os bandidos que estão agitando aquelas terras tremam diante de Deus.

Fez uma inclinação ao rei, voltando-se em seguida para a moça, que lhe deu as costas e saiu apressadamente do salão.

- Ele ainda é jovem para tudo isso, senhor - observou Lancelote em voz baixa. - Não deveria mandar Balam, ou Balim, ou alguém com mais experiência?

- Realmente, acredito que Gareth possa sair-se bem - respondeu Artur, sacudindo negativamente a cabeça. - E prefiro não favorecer nenhum dos meus Companheiros. Deve bastar, à senhora em questão, saber que um deles vai ajudar sua gente.

Artur recostou-se na cadeira e fez um gesto a Cai para que servisse o seu prato:

- Distribuir justiça é trabalho que dá fome. Há outros?

- Há mais um, meu senhor Artur - anunciou Viviane com voz tranqüila, erguendo-se do lugar que ocupava entre as damas da rainha. Morgana começou a levantar-se para acompanhá-la, mas Viviane conteve-a com um gesto. Parecia mais alta do que realmente era, porque se mantinha bem ereta. E em parte devido ao encanto, o encanto de Avalon. Seu cabelo, todo branco, estava trançado no alto da cabeça; da cintura pendia-lhe a pequena faca em forma de meia-lua, o punhal da sacerdotisa, e na testa via-se a marca da Deusa, a brilhante lua crescente.

Artur olhou-a, surpreso, por um momento. Depois, reconhecendo-a, fez um gesto para que se aproximasse.

- Senhora de Avalon, há muito tempo que não honrava esta corte com sua presença. Venha sentar-se ao meu lado, tia, e dizer-me como lhe posso ser útil.

- Honrando Avalon, como jurou fazer - pediu Viviane. Sua voz era muito clara e baixa, mas, como a voz treinada de uma sacerdotisa, podia ser ouvida em todo o salão. - Meu rei, peço-vos que olheis agora para a espada que trazeis e que penseis naqueles que a colocaram em vossa mão, e aos quais jurastes...

Anos depois, quando tudo o que aconteceu naquele dia era comentado e narrado, não havia duas pessoas, das duzentas que estavam presentes ali, que pudessem concordar quanto ao que havia acontecido primeiro. Morgana viu Balim levantar-se de onde estava sentado e correr para perto do trono, viu a mão que se estendeu para agarrar o grande machado deixado por Meleagrant, depois houve uma confusão, um grito, e ela ouviu-se gritando, quando o grande machado foi erguido no ar e caiu pesadamente. Mas não viu o golpe, apenas o cabelo branco de Viviane tingir-se subitamente de sangue, enquanto ela desabava no chão sem soltar sequer um suspiro.

O salão encheu-se de gritos. Lancelote e Gawaine seguravam Balim, que lutava para libertar-se. Morgana, com seu punhal na mão, correu para ele, mas Kevin agarrou-a com força, prendendo-a pelo pulso com os dedos deformados.

- Morgana, Morgana... Não, é tarde demais... disse ele, e sua voz estava entrecortada de soluços. - Ceridwen! Deusa-Mãe! Não, não olhe para ela agora, Morgana..

Tentou afastá-la, mas Morgana estava paralisada, como se tivesse sido transformada em pedra, ouvindo as obscenidades gritadas por Balim a plenos pulmões.

- Socorram o senhor Taliesin! - gritou Cai subitamente.

O velho desmaiara. Cai inclinou-se e levantou-o, e, murmurando um pedido de desculpas a Artur, agarrou a taça do rei e deu o vinho para que o velho bebesse. Kevin soltou Morgana e arrastou-se para junto do velho druida, inclinando-se sobre ele. Morgana pensou: Devo ir socorrê-lo, mas seus pés pareciam congelados no chão, incapazes de um único passo. Ficou olhando para o velho desmaiado, a fim de não ter de olhar para aquela horrível poça de sangue no chão, que molhava as roupas, os cabelos e o longo manto.

No último instante, Viviane havia agarrado seu pequeno punhal. Tinha a mão sobre ele, agora, manchada de seu próprio sangue - havia tanto sangue, tanto! O crânio tinha sido aberto ao meio, e havia sangue, sangue sobre o trono, derramado como se um animal tivesse sido sacrificado ali, ao pé do trono de Artur...

Artur finalmente recuperou a voz:

- Desgraçado! - disse roucamente -, o que fez você? Um assassinato, a sangue-frio, ante o próprio trono de seu rei...

- Assassinato? - gritou Balim numa voz áspera. - Sim, ela era a mais sinistra das assassinas deste reino, merecia ser morta duas vezes... Livrei seu reino de uma feiticeira maligna, meu rei!

Artur parecia dominado mais pela raiva do que pelo sofrimento.

- A Senhora do Lago era minha amiga e minha benfeitora! Como ousa falar de minha tia nesses termos, dela que me ajudou a conquistar o trono?

- Invoco o testemunho do senhor Lancelote, de que ela provocou a morte de minha mãe - disse Balim. - Uma santa e piedosa senhora cristã chamada Priscila, e mãe adotiva de seu irmão Balam! E ela matou minha mãe, digo a todos que matou minha mãe com suas feitiçarias malignas - seu rosto contorceu-se, e ele começou a chorar como uma criança. - Ela matou minha mãe, e eu vinguei essa morte, como um cavaleiro deve fazer!

Lancelote fechou os olhos, horrorizado, de rosto contraído, mas sem chorar.

- Meu senhor Artur, a vida deste homem me pertence! Deixe que vingue aqui mesmo minha mãe...

- E a irmã de minha mãe - disse Gawaine.

- E da minha - acrescentou Gaheris.

A imobilidade de Morgana rompeu-se, e ela gritou:

- Não, Artur! Deixe que eu dê cabo dele! Ele matou a Senhora do Lago ante seu trono, deixe que uma mulher de Avalon vingue o sangue de Avalon. Veja como o senhor Taliesin está abalado, é como se esse homem tivesse matado também nosso avô...

- Irmã, irmã - pediu Artur, estendendo as mãos para Morgana. - Não, não, irmã, dê-me seu punhal...

Morgana continuava a sacudir a cabeça, com o punhal ainda na mão. Taliesin ergueu-se de repente, e tomou-o com as mãos trêmulas:

- Não, Morgana, que não corra mais sangue aqui. A Deusa sabe que já basta. O sangue dela foi derramado como um sacrifício a Avalon, neste salão...

- Sacrifício! Sim, um sacrifício a Deus, tal como Deus dizimará todas essas feiticeiras malignas e seus deuses! - gritou Balim, como louco. - Deixe-me acabar também com esta outra, meu senhor, limpar a corte de todas estas feiticeiras malignas.

Lutava tão violentamente, que Lancelote e Gawaine mal podiam contê-lo, e então fizeram um sinal para Cai, que os ajudou a fazer Balim ajoelhar-se, ainda se contorcendo, em frente ao trono.

- Silêncio! - gritou Lancelote, torcendo-lhe a cabeça. - Estou lhe avisando, se encostar um dedo em Morgana ou no Merlim, corto-lhe a cabeça com ou sem ordem de Artur. Sim, meu senhor, e depois morro por suas mãos, se assim o desejar! - Tinha o rosto contorcido pela angústia e desespero.

- Senhor meu rei - gritou ainda Balim -, deixe-me acabar com todas essas feiticeiras e esses magos, em nome do Cristo que os odeia a todos...

Lancelote golpeou Balim violentamente na boca; ele pareceu sufocar e calou-se, com o sangue escorrendo do lábio ferido.

- Com sua licença, senhor - pediu Lancelote, tirando o rico manto que usava, e cobrindo com ele o ensangüentado corpo de sua mãe.

Artur parecia respirar melhor, agora que o corpo tinha sido coberto. Só Morgana continuava a contemplar, de olhos arregalados, aquela forma sem vida agora coberta com o manto vermelho que Lancelote escolhera para o dia festivo.

Sangue, sangue ao pé do trono real. Sangue, derramado na lareira... Pareceu a Morgana ouvir o grito de Raven...

- Alguém socorra a senhora Morgana, ela vai desmaiar - disse Artur, e ela sentiu que mãos gentis a ajudavam a sentar-se e alguém lhe chegava uma taça aos lábios. Começou a afastá-la, mas pareceu-lhe ouvir a voz de Viviane, que dizia: Beba. Uma sacerdotisa tem de manter a força e a vontade. Bebeu, obedientemente, e ouviu a voz dura e solene de Artur:

- Balim, quaisquer que sejam suas razões... Não, chega, ouvi o que você disse, nem mais uma palavra... Você é um louco, um assassino cruel. Não importa o que diga, você matou minha tia e puxou uma arma diante de seu rei, no Pentecostes. Mesmo assim, não mandarei que o matem aqui, onde se encontra... Lancelote, abaixe a espada.

Lancelote recolocou a espada na bainha.

- Cumpro suas ordens, meu rei. Mas se este assassino não for punido, peço, então, licença para deixar sua corte.

- Ah, ele será punido. - O rosto de Artur estava sombrio. - Balim, você está em juízo suficiente para me ouvir? Então, esta será a sua sorte: está banido para sempre desta corte. Que o cadáver desta senhora seja preparado e colocado num ataúde, que você, Balim, terá de levar para Glastonbury a cavalo, e confessará ao arcebispo seu crime, tendo de cumprir a penitência que lhe for imposta por ele. Você falou ainda há pouco de Deus e Cristo, mas nenhum rei cristão permite que a vingança pessoal seja realizada, pela espada, ante seu trono de justiça. Ouviu o que eu disse, Balim, que já não é mais meu cavaleiro nem meu Companheiro?

Balim baixou a cabeça. Tinha o nariz quebrado pelo murro de Lancelote; o sangue corria-lhe da boca e ele tinha um dente quebrado; disse, com voz empastada:

- Ouvi, meu senhor e rei. Irei.

Ficou sentado, de cabeça baixa, enquanto Artur fazia um gesto para os servos:

- Vamos, que alguém carregue o pobre corpo...

Morgana soltou-se das mãos que a seguravam e ajoelhou-se ao lado de Viviane.

- Meu senhor, imploro que me deixe prepará-la para o funeral... - e lutou para conter as lágrimas que não ousava verter. Não era mais Viviane aquela coisa morta, com a mão ainda como uma garra encolhida segurando o punhal curvo de Avalon. Retirou-o, beijou-o e colocou-o na sua própria cintura. Isso, e apenas isso, guardaria.

Grande Mãe misericordiosa, eu sabia que nunca poderíamos voltar juntas para Avalon...

Não choraria. Sentiu que Lancelote estava ao seu lado, murmurando:

- Graças a Deus, Balam não está aqui. Perder a mãe e o irmão de criação num momento de loucura... Mas se Balam estivesse aqui, talvez isso não tivesse acontecido! Haverá algum Deus, ou alguma misericórdia?

Morgana sofria com a angústia de Lancelote, que havia temido e odiado a mãe, mas que também a havia adorado, como a própria face da Deusa. Uma parte dela queria abraçar o primo, consolá-lo, fazer que chorasse. Ao mesmo tempo, sentia também raiva. Ele desafiara sua mãe, como ousava agora chorar por ela?

Taliesin ajoelhou-se ao lado deles e disse, com a voz insegura:

- Deixem-me ajudá-los, meus filhos. Tenho esse direito... - e ambos afastaram-se para o lado, enquanto ele inclinava a cabeça para murmurar uma velha oração fúnebre.

Artur levantou-se:

- Não haverá mais comemorações hoje. Acabamos de viver uma grande tragédia. Aqueles que ainda tiverem fome podem terminar a refeição e sair silenciosamente.

Aproximou-se devagar do corpo. Sua mão pousou delicadamente no ombro de Morgana, que, apesar de todo o sofrimento, sentiu-a. Os convidados deixavam silenciosamente o salão, um após outro, e em meio ao ruído das saias ela ouviu, muito suavemente, uma harpa, tocada como só duas mãos em toda a Bretanha sabiam fazer. Morgana deixou, por fim, as lágrimas correrem de seus olhos, ouvindo Kevin tocar a nênia pela Senhora do Lago, ao som da qual Viviane, sacerdotisa de Avalon, foi lentamente retirada do grande salão de Camelot. Morgana, caminhando ao seu lado, voltou-se para olhar mais uma vez o grande salão e a Távola Redonda, e a solitária figura inclinada de Artur, de pé, sozinho, ao lado do harpista. E em meio a todo o seu sofrimento e desespero, ela pensou: Viviane não chegou a transmitir a Artur a mensagem de Avalon. Este é o salão de um rei cristão, e agora ninguém dirá o contrário. Como Gwenhwyfar se regozijaria, se soubesse!

Artur tinha as mãos estendidas; ela não sabia, talvez ele rezasse. Viu as serpentes tatuadas em seus pulsos e pensou no gamo novo e no rei recém-coroado que a procurara com o sangue do Gamo-Rei em suas mãos e rosto, e por um momento pareceu-lhe ouvir a voz zombeteira da rainha das fadas. E então, no silêncio, soavam apenas a harpa de Kevin e os soluços de Lancelote, ao seu lado, enquanto levavam Viviane para o descanso.

 

Morgana fala...

... Acompanhei o corpo de Viviane desde o grande salão da Távola Redonda, chorando pela segunda vez na vida, ao que podia me lembrar.

Mais tarde, naquela mesma noite, tive uma discussão com Kevin.

Ajudada pelas damas da rainha, preparei o corpo de Viviane para ser enterrado. Gwenhwyfar mandou suas aias, linho, ervas e um manto de veludo, mas não apareceu pessoalmente. E foi bom. Uma sacerdotisa de Avalon deve ser preparada para o enterro por outra sacerdotisa. Eu sentia falta de minhas irmãs da Casa das Moças, mas pelo menos nenhum cristão tocaria seu corpo. Quando terminou, Kevin veio acompanhar-me na vigília.

- Mandei Taliesin descansar. Tenho essa autoridade agora, como Merlim da Bretanha. Ele é muito velho, está fraco, e é um milagre que seu coração tenha resistido aos acontecimentos de hoje. Balim está calado, agora - acrescentou. - Creio que talvez tenha consciência do que fez, mas não há dúvida de que seu ato foi causado por um acesso de loucura. Está pronto a acompanhar o corpo da Senhora do Lago a Glastonbury e a cumprir as penitências determinadas pelo arcebispo.

Olhei para ele, sentindo-me ultrajada.

- E você vai tolerar isso? Vai entregá-la às mãos da Igreja? Não me importa o que aconteça com o assassino, mas Viviane deve ser levada para Avalon.

Contraí a garganta para não chorar novamente. Teríamos ido juntas para Avalon...

- Artur determinou que ela seja enterrada na frente da Igreja de Glastonbury, onde todos possam ver - respondeu Kevin.

Sacudi a cabeça, sem poder acreditar. Estariam todos loucos?

- Viviane deve ficar em Avalon, onde todas as sacerdotisas da Mãe foram enterradas desde os tempos mais remotos. E ela era a Senhora do Lago!

- Era também amiga e benfeitora de Artur - atalhou Kevin. - E ele quer que seu túmulo seja um lugar de peregrinação. - Estendeu a mão para que eu não falasse. - Não, Morgana, ouça-me. Artur tem razão. Nunca houve um crime tão grande em seu reinado. Ele não pode esconder o túmulo de Viviane num lugar em que não possa ser visto e onde não será lembrado. Ela deve ser enterrada onde todos saibam da justiça do rei e da justiça da Igreja.

- E você permitirá isso?

- Morgana, minha querida, não me cabe permitir ou recusar. Artur é o Grande Rei, e é a sua vontade que se cumpre neste reino.

- E Taliesin não diz nada? Ou será por isso que você o mandou descansar, para que ele não interfira, enquanto pratica essa blasfêmia, com a conivência do rei? Você deixará que Viviane seja enterrada com ritos cristãos, num funeral cristão, ela, que era a Senhora do Lago, enterrada por essas mesmas pessoas que prendem seu Deus dentro de paredes de pedra. Viviane escolheu-me para ser a Senhora do Lago depois dela, e eu o proíbo, ouviu bem? Eu o proíbo.

- Morgana, não, ouça-me. Viviane morreu sem indicar a sucessora...

- Você estava presente no dia em que ela declarou ter-me escolhido...

- Mas você não estava em Avalon, quando ela morreu, e renunciou àquele lugar - argumentou Kevin, e suas palavras caíram sobre minha cabeça como uma chuva fria, fazendo-me estremecer. Ele olhou para o ataúde em que o corpo de Viviane jazia coberto. Nada do que pudesse fazer conseguiria recompor-lhe o rosto para que pudesse ser visto na morte. - Viviane morreu sem ter indicado uma sucessora para o seu lugar, e, portanto, cabe a mim, como o Merlim da Bretanha, declarar o que será feito. E se esta é a vontade de Artur, só a Senhora do Lago poderia opor-se ao que digo... e perdoe-me, minha querida, dizer-lhe isso, mas não há agora uma Senhora do Lago em Avalon. Acredito que o rei tem razão para agir assim. Viviane dedicou toda a sua vida em promover um reinado pacífico da Lei, neste país...

- Ela veio censurar Artur por ter esquecido Avalon! - exclamei, desesperada. - Ela morreu sem concluir sua missão, e agora você quer que seja enterrada em terra cristã, ao som dos sinos, para que triunfem sobre ela na morte, como triunfaram na vida?

- Morgana, Morgana, minha pobre criança! - Kevin estendeu-me as mãos deformadas que me haviam acariciado tantas vezes. - Também eu a amo, acredite! Mas ela está morta. Era uma grande mulher, dedicou a vida a esta terra. Você crê que tem importância onde será enterrada a sua casca vazia? Ela foi para o que quer que a esperava além da morte e, conhecendo-a, sei que isso só pode ser bom. Você a acredita que ela protestaria contra o fato de o seu corpo ser colocado no lugar onde pode servir melhor aos propósitos pelos quais ela deu a vida: o triunfo final da justiça do rei contra todo o mal nesta terra?

Sua voz rica, acariciante, musical, era tão eloqüente que hesitei por um momento. Viviane se fora; eram apenas os cristãos que davam tanta importância ao chão consagrado ou não, como se toda a terra, que é o seio da Mãe, não fosse santa. Eu queria cair nos braços de Kevin e neles chorar pela única mãe que conhecera, pela destruição de todas as minhas esperanças de voltar para Avalon ao lado dela, chorar por tudo o que eu abandonara e pelas ruínas de minha própria vida...

Mas o que ele disse em seguida me fez afastar-me, horrorizada:

- Viviane era velha, e vivia em Avalon, protegida do mundo real. Eu tive de viver, como Artur, no mundo onde as batalhas são travadas e as verdadeiras decisões são tomadas. Morgana, minha querida, ouça. É tarde demais para exigirmos que Artur mantenha seu juramento a Avalon, na forma original. O tempo passa, os sons dos sinos das igrejas cobrem toda esta terra e o povo está satisfeito com isso. Quem somos nós para dizer que não é o desejo dos Deuses que está por trás dos Deuses? Queiramos ou não, esta terra é cristã, e nós, que honramos a memória de Viviane em nada contribuiremos para o seu bem, tornando conhecido de todos que ela veio fazer exigências impossíveis ao rei.

- Exigências impossíveis? - Retirei as mãos. - Como ousa dizer isso?

- Morgana, ouça a voz da razão...

- Não é razão, mas traição! Se Taliesin ouvisse isso...

- Falo como ouvi o próprio Taliesin falar. Viviane não viveu para desfazer o que havia feito, para criar uma terra de paz... seja chamada de cristã ou druida, não importa. A vontade da Deusa será feita sobre todos, qualquer que seja o nome que os homens lhe dêem. Quem é você para dizer que não era vontade da Deusa que Viviane fosse assassinada, antes de poder disseminar a dissenção, outra vez, numa terra que chegou à paz e a um acordo bem-sucedido? Digo-lhe, Morgana, que este país não será novamente dividido pela discórdia, e se Viviane não tivesse sido morta por Balim, eu mesmo me teria manifestado contra o que ela pedia, e creio que Taliesin concordaria comigo.

- Como ousa falar por Taliesin?

- Foi ele mesmo quem me nomeou Merlim da Bretanha, e portanto deve ter confiado em mim, para que fale em seu nome quando ele não puder fazê-lo.

- Só falta você dizer que se tornou cristão! Por que não usa rosários e um crucifixo?

Ele respondeu, numa voz tão suave que poderia ter-me feito chorar:

- Você realmente acredita que faria tanta diferença assim, se eu me tivesse tornado cristão?

Ajoelhei-me junto dele, como o fizera um ano antes, e apertei sua mão deformada sobre meu seio.

- Kevin, eu o amei. Imploro-lhe, em nome disso, seja fiel a Avalon, agora, e à memória de Viviane! Venha comigo, esta noite. Não compactue com essa farsa, mas acompanhe-me a Avalon, onde a Senhora do Lago será enterrada junto das outras sacerdotisas da Deusa...

Ele inclinou-se para mim. Pude sentir a ternura angustiada de suas mãos deformadas.

- Morgana, é impossível. Minha querida, por que não se acalma e ouve a voz da razão em minhas palavras?

Ergui-me, livrando-me de suas mãos fracas, e, levantando os braços, invoquei o poder da Deusa. Ouvi minha voz ecoando com a força de uma sacerdotisa.

- Kevin! Em nome daquele que se dirigiu a você, em nome da condição humana que ela lhe conferiu, imponho-lhe obediência! Sua fidelidade não é para Artur, nem para a Bretanha, mas apenas à Deusa e aos votos que fez! Vamos, deixemos este lugar! Venha comigo para Avalon, levando o corpo de Viviane!

Eu percebia, nas sombras, o brilho da Deusa envolvendo-me; por um momento, Kevin ficou ajoelhado, tremendo, e sei que, mais um momento, e ele teria obedecido. E então, não sei o que aconteceu, talvez me tenha cruzado a mente a idéia de que não era digna, não tinha o direito... Eu abandonara Avalon, afastara-me, que direito tinha de dar ordens ao Merlim da Bretanha? Quebrou-se o encantamento; Kevin fez um gesto violento, brusco, levantando-se desajeitadamente.

- Mulher, você não pode exigir-me obediência, você que renunciou a Avalon, como pretende dar ordens ao Merlim? É você quem deve se ajoelhar à minha frente e não o contrário! - Afastou-me com as duas mãos. - Não me tente mais!

Voltou as costas e afastou-se, mancando, e as sombras faziam movimentos estranhos e oscilantes na parede, enquanto ele se afastava. Fiquei a olhá-lo, demasiado surpresa até mesmo para chorar.

Quatro dias depois, Viviane foi enterrada, com todos os ritos da Igreja, na Ilha Sagrada de Glastonbury, mas eu não compareci.

Jurei nunca pôr os pés na ilha dos Padres.

Artur lamentou sinceramente sua morte, e construíu para ela um monumento funerário, jurando que, algum dia, ele e Gwenhwyfar repousariam ali, ao seu lado.

Quanto a Balim, o arcebispo Patrício impôs-lhe uma peregrinação a Roma e às Terras Santas; mas antes de partir para o exílio, Balam ouviu a história contada por Lancelote e saiu no seu encalço; os irmãos de criação lutaram, e Balim foi morto de um só golpe. Balam, porém, devido à umidade que atingira seus ferimentos, não sobreviveu nem um dia. Assim foi Viviane vingada, foi o que disse uma canção sobre o ocorrido. Mas que vingança é essa, se ela está enterrada num túmulo cristão?

E eu... eu nem mesmo sei quem escolheram como Senhora do Lago para substituí-la, pois não pude voltar para Avalon.

... Eu não era digna de Lancelote, não era digna nem mesmo de Kevin... Não pude fazer que ele cumprisse seu dever para com Avalon...

... Eu devia ter procurado Taliesin e implorado, de joelhos, mesmo que me levasse de volta para Avalon, para que eu pudesse expiar todas as minhas faltas e voltar novamente ao santuário da Deusa.

Mas antes que o verão terminasse, também Taliesin se foi; creio que ele nunca soube realmente que Viviane estava morta, pois, mesmo depois do enterro, falava com se ela fosse chegar dentro em pouco e voltar com ele para Avalon; e ele referiu-se também à minha mãe, como se ela estivesse viva e fosse uma menininha da Casa das Moças. Ao final do verão, morreu tranqüilamente e foi enterrado em Camelot, e até mesmo o bispo lamentou a morte de um homem tão sábio e prudente.

E no inverno que se sucedeu, ficamos sabendo que Meleagrant se constituíra rei do País do Verão. Contudo, quando a primavera chegou, e Artur estava longe, numa missão no sul, e também Lancelote fora inspecionar o castelo real em Caerleon, Meleagrant mandou um mensageiro, sob a bandeira da trégua, pedindo que sua irmã Gwenhwyfar fosse parlamentar com ele a respeito do governo das terras reclamadas por ambos.

 

Capítulo 4

- Eu me sentiria mais seguro, e acho que meu senhor e rei se sentiria mais tranqüilo, se Lancelote a acompanhasse - disse Cai, cautelosamente. - No Pentecostes, tivemos aquele sujeito que quis sacar a espada neste salão, perante o rei, e não queria esperar sua justiça. Irmão seu ou não, não me agrada que a senhora viaje sozinha, levando apenas sua aia e o camareiro.

- Ele não é meu irmão. A mãe dele foi amante do rei por algum tempo, mas foi rejeitada por ter sido encontrada com outro homem. Ela alegou, e talvez tenha dito isso ao filho, que Leodegranz era seu pai, mas este jamais o admitiu. Se fosse um homem honrado e digno da confiança de meu senhor, talvez pudesse ser colocado como regente, ele ou qualquer outro. Mas não permitirei que se aproveite dessa mentira.

- Você se colocará, então, nas mãos dele? - perguntou Morgana, tranqüilamente.

Gwenhwyfar olhou para Cai e Morgana, sacudindo a cabeça. Por que Morgana parecia tão calma e destemida? Nunca teria medo de nada, jamais seria dominada por uma emoção, por trás daquele rosto frio e que nada revelava?

Racionalmente, sabia que Morgana, como todos os mortais, devia ter, por vezes, dor, medo, ansiedade, raiva. E, não obstante, apenas duas vezes lhe notara alguma emoção, e isso há muito tempo - uma vez, quando ela entrara em transe, sonhara que havia sangue na lareira e gritara de medo; a outra, quando Viviane foi morta à sua frente, tendo então desmaiado.

- Não confio absolutamente nele - respondeu Gwenhwyfar -, pois não passa de um impostor ambicioso. Mas pense, Morgana. Todas as suas pretensões baseiam-se no fato de se intitular meu irmão. Se me fizer o menor insulto, ou tratar-me de maneira não condizente com o tratamento que deve ser dispensado a uma irmã importante, a falsidade de sua pretensão estará demonstrada. Portanto, ele não ousará fazer outra coisa que não seja receber-me como sua irmã e rainha, com a devida deferência, compreende?

- Eu não confiaria nele nem mesmo nessas condições - tornou Morgana, dando de ombros.

- Sem dúvida, você, como o Merlim, tem suas feitiçarias para saber o que acontecerá, se eu confiar nele.

- Não é preciso feitiçaria para saber que um bandido é um bandido - atalhou Morgana, com indiferença. - Não é preciso nenhuma sabedoria sobrenatural para saber que não devo entregar minha bolsa ao bandido mais próximo.

Não importa o que Morgana dissesse, Gwenhwyfar sentia-se sempre inclinada a fazer o contrário; parecia-lhe que a cunhada considerava-a uma tola, sem capacidade sequer de dar laço nos cordões dos sapatos. Morgana acreditava que ela, Gwenhwyfar, não podia resolver uma questão de Estado, na ausência de Artur? Embora ela mal pudesse olhá-la de frente desde aquele fatídico Beltane, há um ano, quando lhe pedira um talismã contra sua esterilidade. Morgana avisara que os talismãs, por vezes, funcionam de maneira indesejada... Agora, sempre que olhava para ela, pensava que Morgana devia lembrar-se, também.

Deus está me castigando, talvez por mexer com feitiçaria, talvez por aquela noite de pecado. E como sempre, quando se permitia a mais leve lembrança daquela noite, sentiu o corpo vibrar com uma mistura de prazer e vergonha. Ah, era muito fácil alegar que todos os três estavam bêbados, ou desculpar-se, com o fato de tudo ter sido feito com o consentimento de Artur, na verdade por insistência dele. Mesmo assim, o adultério era um pecado grave.

Desde aquela noite, ela ansiava constantemente por Lancelote, embora eles mal tivessem podido encarar-se. Não conseguia mais fitá-lo nos olhos. Será que ele a odiava, considerando-a uma mulher vergonhosa, adúltera? Mesmo assim, ansiava por ele, com um desespero terrível.

Depois daquele Pentecostes, Lancelote passou pouco tempo na corte. Gwenhwyfar nunca imaginara que ele gostasse tanto da mãe, nem de seu irmão Balam, mas a morte de ambos deixara-o profundamente triste. Estivera longe da corte durante quase todo aquele tempo.

- Gostaria que Lancelote estivesse aqui - disse Cai. - Quem deveria acompanhar a rainha numa missão dessas, senão o cavaleiro que Artur indicou como campeão e protetor da rainha?

- Se Lancelote estivesse aqui, muitos de nossos problemas estariam resolvidos, pois ele liquidaria Meleagrant com umas poucas palavras. Mas não adianta falarmos do impossível. Gwenhwyfar, deverei ir junto, e protegê-la? - perguntou Morgana.

- Em nome de Deus - repondeu a rainha -, não sou uma criança que não pode sair sem a ama! Levarei meu camareiro, Sir Lucan, e Bracca, para pentear-me e vestir-me, se passar ali mais de uma noite, e para dormir ao pé de minha cama. De que mais posso precisar?

- Mesmo assim, Gwenhwyfar, você devia levar uma escolta condizente com sua posição. Ainda há alguns dos Companheiros de Artur aqui na corte.

- Levarei Ectório. Ele é o pai adotivo de Artur, de nascimento nobre, e veterano de muitas guerras do rei.

Morgana sacudiu a cabeça, com impaciência.

- O velho Ectório e Lucan, que perdeu um braço no monte Badon... Por que não leva também Cai e o Merlim, para completar, com os aleijados, sua comitiva de velhos? Você devia ter uma escolta de homens combatentes que pudessem protegê-la, caso esse homem pretenda seqüestrar a rainha em troca de um resgate, ou coisa pior.

Gwenhwyfar repetiu pacientemente:

- Se ele não me tratar como sua irmã, então sua pretensão é nula. E que homem poderia constituir uma ameaça à sua própria irmã?

- Não sei se Meleagrant é um cristão assim tão bom, mas se você não tem medo dele, é porque o conhece melhor do que eu. Sem dúvida, você pode formar uma escolta de veteranos para acompanhá-la. Que assim seja. Poderia até oferecer-lhe a mão de sua prima Elaine, para tornar ainda mais válida sua pretensão de parentesco, e colocá-lo como regente, em seu lugar...

Gwenhwyfar teve um estremecimento, lembrando-se do homem corpulento e grosseiro, vestido de peles mal curtidas.

- Elaine é uma moça de boa família, eu não a entregaria a tal homem. Conversarei com ele. Se me parecer um soldado honesto, capaz de manter a paz neste reino, então, jurando lealdade ao meu senhor Artur, poderá reinar sobre a ilha. Não é de todos os Companheiros de Artur que gosto, e ele pode ser um rei honesto, mesmo sem ter capacidade de sentar-se com as senhoras para conversar, num salão.

- Espanta-me que diga isso. Depois de ouvi-la tecer tantos elogios ao meu primo Lancelote, pensei que, para você, nenhum homem poderia ser bom cavaleiro se não fosse bonito e tivesse maneiras de cortesão.

Gwenhwyfar não queria discutir novamente com Morgana.

- Vamos, irmã, gosto também de Gawaine, e ele é um homem do norte, sem refinamentos, que tropeça nos próprios pés e não sabe o que dizer às damas. Talvez Meleagrant possa ser uma jóia dessas, envolta em andrajos, e é por isso que vou até lá, para julgar por mim mesma.

Assim, na manhã seguinte, Gwenhwyfar partiu com uma escolta de seis cavaleiros, Ectório, o veterano Lucan, sua aia e um pajem de nove anos. Não mais visitara a casa de seus pais, desde que dela saíra com Igraine, para casar-se com Artur. Não era longe: algumas léguas descendo o morro, e até as margens do lago, que, naquela estação, estava se transformando num pântano, com o gado pastando em campos de verão e prados verdejantes, cheios de flores. Dois barcos a esperavam, na margem, enfeitados com as bandeiras de seu pai. Era uma arrogância de Meleagrant usá-las sem permissão, mas era até possível que ele se considerasse realmente filho de Leodegranz. Isso até podia ser verdade: seu pai poderia ter mentido.

Gwenhwyfar tinha desembarcado naquelas mesmas margens, com destino a Caerleon, muitos anos antes... Mas como era jovem e inocente! Lancelote estava ao seu lado, porém o destino reservara-a para Artur - Deus sabia que tentara ser uma boa esposa, embora Deus lhe tivesse negado filhos. E o desespero tomou conta dela novamente, ao olhar os barcos que a esperavam. Podia dar ao marido três, cinco ou sete filhos, e poderia vir um ano de praga, ou de varío- la, ou de febre da garganta, e todos os seus filhos poderiam desaparecer... tais coisas já tinham acontecido. Sua mãe tivera quatro filhos, e nenhum deles conseguira passar dos cinco anos, e o filho de Alienor morrera com ela. Morgana... Morgana tinha dado um filho à maligna Deusa das bruxas; pelo que sabia, o filho vivia e crescia, enquanto ela, Gwenhwyfar, uma fiel esposa cristã, não podia ter um filho, e dentro em pouco estaria muito velha para isso.

O próprio Meleagrant esperava-a no embarcadouro, saudando-a como sua irmã respeitada, fazendo-lhe gestos para que tomasse seu barco, que era o menor dos dois. Gwenhwyfar nunca soube direito como foi separada de sua escolta, exceto do pequeno pajem. "Os servos de minha senhora podem ir no outro barco, eu mesmo serei a sua escolta, aqui", disse Meleagrant, segurando-lhe o braço com um excesso de familiaridade que lhe foi desagradável. Mas, afinal de contas, ela devia comportar-se de maneira diplomática, sem irritá-lo. No último momento, tomada de uma ligeira sensação de pânico, fez um gesto para Sir Ectório.

- Quero que meu camareiro me acompanhe também - insistiu, e Meleagrant sorriu, enquanto seu rosto grosseiro se avermelhava.

- Como minha irmã e rainha mandar - sorriu, deixando que Ectório e Lucan ficassem no barco menor, com ela. Estendeu desajeitadamente um tapete para que ela se sentasse, e os remadores começaram a remar. O lago estava raso e coberto de juncos; em certas estações, ele secava completamente, naquele ponto. E, de repente, quando Meleagrant se sentou ao seu lado, Gwenhwyfar foi tomada de um ataque do velho terror; sentiu náuseas, e, por um momento, pareceu-lhe que ia vomitar. Agarrou-se ao assento com as duas mãos. Meleagrant estava muito perto dela; afastou-se tanto quanto as reduzidas dimensões do barco o permitiam. Ter-se-ia sentido melhor se Ectório estivesse ao seu lado, pois sua presença era serena e paternal. Observou o grande machado que Meleagrant trazia na cintura: era parecido com o que tinha deixado junto do trono e que Balim agarrara para matar Viviane... Meleagrant disse, inclinando-se tanto que seu hálito pesado a deixou enjoada:

- Minha irmã está tonta? Certamente, a oscilação do barco não lhe fará mal, o lago está tão calmo...

Afastou-se dele, lutando para controlar-se. Estava sozinha, exceto pelos dois velhos, e isolada no meio do lago, tendo à sua volta apenas os juncos, a água e o horizonte... Por que viera? Por que não estava em seu jardim protegido, em casa, em Camelot? Não havia segurança ali, estava no descampado, a céu aberto, e sentia-se enjoada, nua e vulnerável...

- Chegaremos logo, e se quiser descansar antes de discutirmos nossos assuntos, irmã, mandei preparar os aposentos da rainha...

O barco atingiu a terra. O velho caminho ainda estava ali, estreito e sinuoso, subindo para o castelo, assim como a velha muralha, onde Gwenhwyfar se sentara naquela tarde, olhando para Lancelote, que corria entre os cavalos. Sentiu-se confusa, como se tivesse sido apenas no dia anterior que tudo aquilo tinha acontecido, e ela fosse ainda aquela mocinha tímida. Estendeu disfarçadamente a mão, tocou o muro, sentindo-o firme e sólido, e atravessou o portão com uma sensação de alívio.

O velho saguão parecia menor do que quando vivia ali; habituara-se aos grandes espaços em Caerleon e, mais tarde, em Camelot. A velha cadeira alta de seu pai estava coberta de peles como as usadas por Meleagrant, e a seus pés jazia uma grande pele negra de urso. Todo o conjunto tinha uma aparência de coisa malcuidada, as peles furadas e gordurosas, a sala sem varrer, um cheiro acre de suor. Torceu o nariz, mas era um alívio tão grande estar atrás das paredes, que não se importava. Ficou imaginando aonde teria ido sua escolta.

- Deseja descansar e refrescar-se, irmã? Devo levá-la aos seus aposentos?

Gwenhwyfar sorriu, e disse:

- Não ficarei aqui tempo bastante para chamá-los de meus, embora seja certo que gostaria de lavar as mãos e tirar o manto. Quer mandar chamar minha aia? Você devia ter uma esposa, se está querendo ser o regente, aqui, Meleagrant.

- Há tempo suficiente para isso - respondeu ele -, mas eu lhe mostrarei os aposentos que foram preparados para a senhora.

Foi à frente, mostrando o caminho escada acima. Também ela estava mal cuidada, ao abandono. Franzindo a testa, Gwenhwyfar não estava fazendo bom juízo do que seria ele como regente. Se Meleagrant se tivesse mudado para o castelo, instalado ali uma esposa e bons criados para tratar bem da casa, com nova decoração e boa limpeza, além de soldados apresentáveis - então estaria bem. Mas seus homens pareciam ainda piores do que ele, e também não tinham encontrado nenhuma mulher. Um vago receio começava a dominá-la: talvez não tivesse sido muito prudente ter vindo sozinha, sem insistir em que sua escolta a acompanhasse por toda parte. Voltou-se, na escada:

- Quero que meu camareiro me acompanhe, por favor, e desejo que minha aia me seja mandada sem demora!

- Como quiser, minha senhora.

Meleagrant riu. Seus dentes pareciam muito compridos, amarelos e manchados. Gwenhwyfar pensou: Ele é como um animal selvagem... e aproximou-se da parede, aterrorizada. Valeu-se, porém, de uma reserva de forças interiores, para dizer, com firmeza:

- Agora, por favor, mande chamar Sir Ectório, ou descerei imediatamente para o salão, até que minha aia chegue. Não condiz com a rainha de Artur estar a sós com um estranho...

- Nem mesmo com seu irmão? - perguntou Meleagrant, mas Gwenhwyfar, passando por baixo do braço que ele estendera, notou que Ectório entrava no saguão, e chamou-o: - Sir Ectório! Acompanhe-me, por favor! E mande Sir Lucan procurar minha criada.

O velho subiu lentamente as escadas, atrás deles, passando por Meleagrant, e Gwenhwyfar apoiou-se em seu braço. Meleagrant pareceu não gostar. Chegaram ao alto da escada, ao quarto que outrora tinha sido de Alienor. Gwenhwyfar ocupava um quarto menor atrás dele. Meleagrant abriu a porta. Um bafo de mofo veio do interior às escuras, e a rainha hesitou. Talvez devesse insistir em descer imediatamente e tratar dos assuntos que a levavam ali, pois dificilmente poderia lavar-se e descansar num aposento tão sujo e abandonado como aquele...

- Você, não, velho - disse Meleagrant, voltando-se de súbito e empurrando Ectório na direção da escada. - Minha senhora não precisa mais de seus serviços.

Ectório cambaleou, perdendo o equilíbrio, e naquele momento Meleagrant empurrou-a para dentro do quarto, fechando a porta atrás dela. Gwenhwyfar ouviu o ferrolho ser corrido, e caiu de joelhos; quando se levantou, estava sozinha, e, por mais que batesse na porta não houve resposta.

A advertência de Morgana fora válida. Teriam matado os membros de sua escolta? Teriam matado Ectório e Lucan?

O quarto onde Alienor tivera seus filhos, onde vivera e depois morrera, estava escuro e úmido. Havia apenas alguns trapos de lençóis de linho sobre a grande cama, e a palha cheirava mal. A velha arca entalhada de Alienor ainda se achava ali, mas os entalhes estavam sujos de poeira e de gordura, e o móvel, vazio. A lareira estava cheia de cinza, como se ali não se acendesse fogo há muitos anos. Gwenhwyfar bateu na porta e gritou até sentir dor nas mãos e na garganta. Estava com fome e cansada, enjoada com o cheiro e a sujeira do quarto. Mas não conseguia mover a porta, e a janela era pequena demais para que pudesse subir nela - e se encontrava a três metros e meio do chão. Estava encarcerada. Pela janela, via apenas um pátio maltratado com uma solitária vaca, que andava a esmo e que, por vezes, mugia.

As horas arrastaram-se. Gwenhwyfar tinha de admitir duas coisas: que não podia sair do quarto sozinha e que não conseguiria atrair a atenção de ninguém que pudesse ir até ela e soltá-la. Sua escolta desaparecera - morta, ou detida, de qualquer modo incapaz de vir em sua ajuda. Sua aia e seu pajem provavelmente tinham sido assassinados, e estavam fora de seu alcance. Achava-se ali isolada, à mercê de um homem que provavelmente a usaria como refém para obter alguma concessão de Artur.

Sua integridade física, provavelmente, estaria a salvo, com ele. Como dissera a Morgana, toda a reivindicação de Meleagrant baseava-se no fato de ser o único filho sobrevivente de Leodegranz - bastardo, mas, ainda assim, de linhagem real. Ao pensar, porém, no seu riso rapace e na sua enorme figura, sentiu-se aterrorizada: poderia abusar dela com facilidade, ou tentar forçá-la a reconhecê-lo como regente.

O dia passou lentamente; uma réstia de sol que entrava pela abertura da janela foi-se movendo vagarosamente, até que o quarto começou a escurecer. Gwenhwyfar dirigiu-se ao pequeno aposento, atrás do quarto de Alienor, que tinha ocupado quando criança. Sua mãe vivera no quarto que fora dela. O pequeno espaço limitado e escuro parecia confortavelmente seguro - quem poderia fazer-lhe mal ali? Não importa que estivesse sujo e malcheiroso, com a palha da cama úmida: estendeu-se nela e envolveu-se em seu manto. Depois, voltou ao quarto maior e tentou empurrar a pesada arca de Alienor contra a porta. Descobriu que tinha muito medo de Meleagrant, e um medo ainda maior de seus homens armados, que mais pareciam bandidos.

Sem dúvida, ele não deixaria que lhe fizessem mal - a única arma de que dispunha era sua presença. Artur o matará, pensou Gwenhwyfar, Artur o mataria se ele a ofendesse de qualquer modo, ou se lhe fizesse mal.

Mas, perguntou-se em sua angústia, será que Artur realmente se importaria? Embora ele tivesse sido bom e carinhoso todos aqueles anos, e a tivesse tratado com todas as honras, mesmo assim era possível que ele não lamentasse muito a perda de uma mulher que não podia dar-lhe um filho - mulher que, além disso, estava apaixonada por outro homem e não conseguia ocultar-lhe isso.

Se eu fosse Artur, nada faria contra Meleagrant; dir-lhe-ia que, agora que se apoderou de mim, poderia ficar comigo, se eu lhe parecia assim tão valiosa.

O que queria Meleagrant? Se ela, Gwenhwyfar, estivesse morta, não haveria ninguém para reclamar o trono do País do Verão; havia alguns sobrinhos e sobrinhas ainda jovens, filhos de suas irmãs, mas viviam muito longe e provavelmente de nada sabiam e nem se interessavam por aquela terra. Talvez ele simplesmente quisesse matá-la, ou deixá-la ali até consumir-se de fome. A noite custou a passar. Ouviu, num determinado momento, homens e cavalos que se movimentavam no pátio, lá embaixo. Chegou à pequena janela e ficou olhando, mas viu apenas uma ou duas tochas fracas, e embora gritasse com todas as suas forças, ninguém levantou os olhos nem deu quaisquer mostras de ter ouvido.

Em certo momento, já noite alta, Gwenhwyfar, que estava em meio a um sono leve e agitado, acordou assustada, julgando ter ouvido Morgana pronunciar seu nome. Sentou-se imediatamente na palha suja que forrava a cama, de olhos arregalados na escuridão total, mas estava sozinha.

Morgana, Morgana, se você puder me ver com a sua magia, diga a meu senhor, quando ele chegar, que Meleagrant é falso, que foi uma cilada... Em seguida perguntou-se se Deus não a desaprovaria por ter invocado o feitiço da cunhada para libertar-se. E começou a rezar ternamente, até que a monotonia da oração adormeceu-a novamente.

Dessa vez, teve um sono pesado, sem sonhos, e, quando acordou, sentindo a boca seca, compreendeu que o dia já ia longe e que continuava prisioneira naquele aposento vazio e sujo. Tinha fome e sede, estava enjoada com o cheiro do lugar, não só da palha úmida e do mofo, mas também das emanações provenientes de um dos cantos do quarto que tivera de usar como latrina. Por quanto tempo iriam deixá-la ali sozinha? A manhã passou, e Gwenhwyfar perdeu até mesmo a força ou a coragem de rezar.

Estava sendo punida, então, pela sua culpa, por não ter dado o devido valor ao que tinha? Fora esposa fiel de Artur, e, não obstante, desejara outro homem. Recorrera à feitiçaria de Morgana. Mas, pensou, desesperada, se estou sendo castigada pelo adultério com Lancelote, qual era a razão do meu castigo, quando ainda era fiel a Artur?

Mesmo que Morgana pudesse ver, com sua magia, que estava presa, dar-se-ia ao trabalho de ajudá-la? Morgana não tinha motivos para gostar dela, e quase certamente a desprezaria. Haveria alguém que gostasse mesmo dela? Por que alguém haveria de se preocupar com o que estava lhe acontecendo?

Já passava do meio-dia, quando, finalmente, ouviu passos na escada. Levantou-se, envolvendo-se bem no manto, e afastou-se da porta. Meleagrant entrou, e, ao vê-lo, Gwenhwyfar recuou ainda mais.

- Por que está fazendo isto comigo? - perguntou. - Onde estão minha aia, meu pajem, meu camareiro? O que foi feito de minha escolta? Você acredita que Artur permitirá que governe este país, depois do insulto que fez à sua rainha?

- Já não é mais sua rainha - sorriu Meleagrant tranqüilamente. - Quando eu tiver feito o que quero com você, ele não vai querê-la de volta. Antigamente, senhora, o marido da rainha era o rei da terra, e se eu lhe fizer filhos, ninguém se oporá ao meu reinado.

- Você não me fará filhos - e Gwenhwyfar deu uma risada amarga. - Sou estéril.

- Conversa! Você casou-se com um rapazinho imberbe - disse ele, acrescentando mais alguma coisa que Gwenhwyfar não compreendeu bem, mas imaginou tratar-se de alguma enorme obscenidade.

- Artur o matará.

- Ele que experimente. É mais difícil do que pensa atacar uma ilha, e talvez já então ele não se interesse em tentar, pois teria de levá-la de volta...

- Não posso casar-me com você, já tenho um marido.

- Ninguém no meu reino se importará com isso - foi a resposta de Meleagrant. - Muita gente não gostava dos padres, e eu expulsei-os todos! Governo segundo as velhas leis, e serei rei de acordo com elas, pois dizem que quem for seu homem será rei...

- Não! - exclamou ela, recuando, mas Meleagrant saltou e agarrou-a, puxando-a para si.

- Você não é meu tipo. - Avaliou-a brutalmente. - Magrinha, feia, pálida... Eu gosto mais de mulheres carnudas! Mas é filha do velho Leodegranz, a menos que sua mãe tivesse mais fogo nas veias do que aparentava. Assim sendo...

Puxou-a para si. Gwenhwyfar lutou, conseguiu soltar um braço e golpeou-lhe o rosto com o cotovelo. Meleagrant, ao ter o nariz atingido, deu um grito, agarrou-lhe o braço e sacudiu-a violentamente. Depois, deu-lhe um murro no queixo. Ela sentiu um estalo e o gosto de sangue na boca.

Meleagrant empurrou-a novamente, e embora Gwenhwyfar levantasse os braços para aparar seus golpes, ele continuou batendo.

- Agora não vou tolerar mais isso. Você vai ver quem é seu senhor - gritou ele, enquanto a agarrava pelo pulso, torcendo-o.

- Ai, não, não... por favor, não me machuque... Artur matará você...

A resposta de Meleagrant foi uma obscenidade, e lançou-a sobre a palha suja da cama, ajoelhando-se ao seu lado, enquanto procurava tirar-lhe a roupa. Gwenhwyfar contorceu-se, gritando; recebeu novo murro, e ficou quieta, enroscada num canto da cama.

- Tire a roupa! - ordenou.

- Não! - gritou a rainha, enrolando-se no manto.

Meleagrant agarrou-lhe a mão e torceu-lhe o pulso, segurando-a, enquanto lhe arrancava o vestido, rasgando-o até a cintura.

- Vai tirar ou terei de arrancá-lo à força?

Tremendo, soluçando, com dedos vacilantes, Gwenhwyfar puxou o vestido pela cabeça, sabendo que devia lutar, mas aterrorizada demais com os murros, para que pensasse em resistir. Quando ficou sem roupa, ele puxou-a, obrigou-a a deitar-se na palha suja, abrindo-lhe as pernas com mãos brutais. Gwenhwyfar lutou apenas um pouco, com medo dos golpes, enojada com seu hálito horrível, o enorme corpo peludo, o falo grande, que a penetrou causando-lhe dor, empurrado a tal ponto que ela sentiu que estava sendo dividida em duas.

- Não fuja de mim assim - gritou ele, pressionando-a com violência. Gwenhwyfar gritou de dor e recebeu novo tapa. Ficou quieta, soluçando, e deixou que ele fizesse o que queria. Aquele corpo enorme pareceu ficar sobre ela uma eternidade, mexendo-se, até que por fim teve um estremecimento e apertou-a ainda mais. Depois, afastou-se um pouco, e ela pôde respirar, procurando cobrir-se com suas roupas. Meleagrant levantou-se, amarrando o cinto, e fez-lhe um sinal.

- Não me deixará partir, agora? - implorou Gwenhwyfar. - Prometo-lhe... prometo-lhe...

Ele deu um sorriso feroz:

- Por que iria deixá-la partir? Não, você está aqui, e aqui ficará. Precisa de alguma coisa? Um vestido para trocar por este?

Ela pôs-se de pé, chorando, exausta, envergonhada, doente. Finalmente disse com voz trêmula:

- Posso... Posso ter um pouco de água e alguma coisa para comer? E... - começou a chorar ainda com mais força, com vergonha - E um vaso de noite?

- Tudo o que a minha senhora desejar - disse Melegrant, sarcástico; e foi-se embora, fechando novamente a porta, por fora.

Mais tarde, uma velha corcunda trouxe-lhe um pedaço gorduroso de carne, um naco de pão de cevada e jarros com água e cerveja. Trouxe-lhe também cobertores e um vaso de noite.

- Se levares um recado ao meu senhor, Artur - disse Gwenhwyfar -, dou-te isto... - e tirou o pente de ouro do cabelo. A face da velha brilhou quando viu o ouro, mas depois desviou o olhar assustada, e deslizou para fora do quarto. Gwenhwyfar desatou novamente a chorar.

Finalmente recuperou um pouco de calma, comeu, bebeu e tentou lavar-se um pouco. Sentia-se agoniada e dorida, mas pior do que isso era a sensação de ter sido usada, envergonhada, irremediavelmente emporcalhada.

Seria verdade aquilo que Meleagrant havia dito, que Artur já não quereria tê-la de volta, pois estava conspurcada e sem qualquer possibilidade de redenção? Talvez fosse verdade... Se fosse um homem também não quereria nada que Meleagrant tivesse usado...

Não, mas não era justo. Ela não tinha feito nada de mal, tinha caído numa armadilha, tinha sido enganada, usada contra sua vontade.

Oh, mas não é senão o que eu mereço... Eu, que não sou uma mulher fiel, que amo outro... Sentiu-se doente de culpa e de vergonha. Mas, passado um bocado, começou a recuperar um pouco de compostura e a considerar a situação difícil em que se encontrava.

Ali estava ela, no castelo de Meleagrant... O castelo do seu próprio pai. Fora violada e era mantida em cativeiro e Meleagrant proclamara a sua intenção em manter-se como rei daquela ilha pelo direito de ser o consorte dela. Não era de considerar que Artur consentisse em tal. Independentemente do que pensasse dela pessoalmente, pela sua própria honra como Grande Rei, havia de declarar guerra a Meleagrant. Não seria fácil, mas não seria impossível recapturar uma ilha. Ela nada sabia de Meleagrant como guerreiro, excepto, pensou ela com um lampejo de amargo humor, o que fora capaz de fazer contra uma mulher indefesa, a quem espancara até a obrigar à submissão. Mas tão-pouco era de considerar que ele pudesse fazer frente ao Grande Rei, que tinha derrotado completamente os saxões no monte Badon.

E então ela teria de enfrentá-lo e dizer-lhe o que tinha acontecido. Talvez fosse mais simples matar-se. Viesse o que viesse a acontecer, não era capaz de se imaginar a contar a Artur o que Meleagrant lhe fizera... Devia ter lutado contra ele com mais força; Artur, em batalha, fizera frente à própria morte; de uma vez, ficara tão ferido que tivera de ficar de cama meio ano. E eu... eu parei de lutar depois de alguns sopapos e pancadas... Desejou possuir alguma da magia de Morgana. Se fosse ela, havia de o transformar em porco! Mas Morgana nunca teria caído nas mãos dele. Havia de ter percebido desde logo que era uma armadilha... E teria usado também o seu pequeno punhal, talvez não o tivesse matado, mas teria feito que perdesse a vontade, a capacidade mesmo, de violentar uma mulher!

Comera e bebera o que pudera, lavara-se e escovara as roupas, limpando-as. O dia começou a desaparecer, novamente. Não podia ter esperanças de que sua ausência fosse sentida, de que alguém viesse buscá-la, antes que Meleagrant começasse a espalhar o que fizera, proclamando-se consorte da filha do rei Leodegranz. Viera livremente, por sua vondade, e escoldada por dois Companheiros de Artur.

Enquanto o rei não voltasse do sul, e dalvez por uma semana ou dez dias depois de seu retorno, quando Gwenhwyfar não aparecesse na época devida, é que ele começaria a desconfiar de alguma coisa.

Morgana, por que não lhe dei ouvidos? Você me avisou que ele era um handido.

Pareceu-lhe ver, por um instante, o rosto pálido e inescrutável de sua cunhada - calmo, com um leve ar de ironia - tão nitidamente que esfregou os olhos. Morgana, rindo-se dela? Não, era um efeito da luz, a imagem havia desaparecido.

Talvez ela pudesse me ver, com sua magia... talvez pudesse mandar alguém... não, ela não faria isso, odeia-me, acharia graça da minha infelicidade... Mas lembrou-se de que Morgana ria e zombava, mas quando se tratava de um problema sério, ninguém era mais bondoso que ela. A cunhada cuidara dela por ocasião do aborto; mesmo contra vontade, dera-lhe um talismã para ajudá-la. Talvez Morgana não a odiasse, afinal de contas. Talvez toda a zombaria de Morgana fosse uma defesa contra seu orgulho, seu desprezo pela feiticeira de Avalon.

A escuridão estava começando a fazer desaparecer os objetos no quarto. Devia ter pedido alguma luz. Agora, parecia-lhe que passaria uma segunda noite como prisioneira, e talvez Meleagrant voltasse... e esse pensamento provocou-lhe um enorme terror. Sofria ainda dores devido à brutalidade a que fora submetida, tinha a boca inchada, manchas nos ombros e, logicamente, também no rosto. Quando estava sozinha ali, podia pensar com calma em meios de resistir-lhe, e talvez mesmo de afastá-lo, mas sabia, com um tremor doentio no corpo, que, quando Meleagrant a tocasse, se encolheria de medo e deixaria que fizesse o que queria, para não ser novamente espancada... Tinha medo, tanto medo, de que ele voltasse a magoá-la...

E como poderia Artur perdoá-la, já que não fora possuída totalmente à força, mas cedera como uma covarde, depois da ameaça de uns poucos murros e tapas... Como poderia aceitá-la novamente como rainha, continuar a amá-la e honrá-la, quando deixara que outro homem a possuísse?

Artur não se importara quando ela e Lancelote... até participara de tudo... se havia pecado, não fora apenas culpa dela, pois tinha feito o que o marido desejava.

Ah, sim, mas Lancelote era seu parente e melhor amigo...

Ouviu o barulho de uma agitação no pátio. Gwenhwyfar espiou pela janela, mas só conseguiu ver o de sempre, e a mesma vaca mugindo. Mas o barulho continuava, houve gritos e o ruído de armas. Não conseguia ver nada, porém, e os sons chegavam amortecidos pelas paredes e escadas. Poderia ser apenas uma briga entre os homens de Meleagrant, e até mesmo - Ah, não, que Deus não o permita! - que estivessem assassinando sua escolta. Tentou descobrir o que ocorria, mas não conseguiu perceber nada.

Houve ruídos também do lado de fora do quarto. A porta se abriu, e ela, voltando-se com medo, defrontou-se com Meleagrant, que, de espada na mão, gesticulava:

- Entre para o quartinho menor - mandou. - Entre e fique calada, ou se arrependerá.

Será que alguém veio me salvar? Ele parecia desesperado, e Gwenhwyfar adivinhou que não daria qualquer informação. Recuou lentamente para o quartinho. Meleagrant seguiu-a, com a mão na espada. Gwenhwyfar tremeu, com o corpo inteiro esperando o golpe da arma... Iria matá-la agora ou conservá-la como refém, para poder fugir?

Não chegou a conhecer seu plano. De repente, a cabeça de Meleagrant deu um salto, numa onda de sangue e miolos, e ele tombou lentamente. Gwenhwyfar também caiu, desmaiada, mas antes de chegar ao chão, foi amparada pelos braços de Lancelote.

- Minha senhora, minha rainha, ah, minha amada...

Apertou-a junto ao peito, e, ainda meio inconsciente, Gwenhwyfar sentiu que ele a cobria de beijos. Não protestou, era como um sonho. Meleagrant estava caído no chão em meio ao sangue, com a espada ao seu lado. Lancelote teve de suspender a rainha para que não pisasse no cadáver.

- Como... como você ficou sabendo? - gaguejou ela.

- Morgana - respondeu, rapidamente. - Quando cheguei a Camelot, ela contou-me que tentara convencê-la a me esperar. Achava que era uma armadilha. Montei e vim imediatamente, com meia dúzia de homens. Encontrei sua escolta aprisionada nos bosques, aqui perto, todos amarrados e amordaçados. Depois de libertá-los, não foi difícil. Meleagrant, sem dúvida, sentia-se seguro.

Lancelote soltou-a e notou as manchas em seu rosto e no corpo, o vestido rasgado, o lábio cortado e inchado. Tocou os ferimentos com dedos trêmulos:

- Arrependo-me agora de tê-lo matado tão depressa. Seria um grande prazer fazê-lo sofrer como você sofreu... Ah, meu pobre amor, minha querida, tão cruelmente usada...

- Você não sabe - murmurou ela -, você não sabe... - e voltou a soluçar, agarrando-se a ele. - Mas você chegou, por fim, chegou. Pensei que ninguém viria, ninguém me queria mais, que ninguém me tocaria novamente, agora, quando estou tão envergonhada...

Lancelote abraçou-a, beijando-a repetidamente, num acesso de ternura:

- Envergonhada? Você? Não, a vergonha é dele, dele, que pagou pelo que fez... - murmurou, entre os beijos. - Tive medo de tê-la perdido para sempre, ele poderia tê-la matado. Morgana, porém, afirmou que não, que você estava viva...

Mesmo ali, naquela situação, Gwenhwyfar teve um sentimento de medo e ressentiu-se: saberia Morgana como fora humilhada e violentada? Ah, Deus, se Morgana o ignorasse! Não podia suportar a idéia de que a cunhada soubesse.

- Sir Ectório... ? E Sir Lucan...

- Lucan está bem; Ectório não é jovem e sofreu um choque sério, mas não há motivos para se pensar que não resista. Você precisa descer, minha querida, para que eles a vejam, devem ficar sabendo que sua rainha está viva.

Gwenhwyfar olhou para sua roupa rasgada, tocou o rosto ferido com mãos hesitantes, e pediu, numa voz sumida:

- Posso ter um momento para preparar-me? Não quero que me vejam... - e não conseguiu continuar.

Lancelote hesitou, depois fez um movimento de cabeça, concordando:

- Sim. Que eles pensem que você não sofreu nenhuma violência. É melhor assim. Eu vim sozinho, sabendo que podia enfrentar Meleagrant; os outros estão lá embaixo. Vou procurar nos demais quartos, pois um homem como ele não viveria aqui sem alguma mulher.

Deixou-a por um momento, e Gwenhwyfar quase não suportou separar-se dele. Afastou-se um pouco do corpo de Meleagrant, caído no chão, olhando-o como se fosse a carcaça de um lobo abatido por algum pastor, sem sentir nem mesmo aversão pelo sangue.

Lancelote voltou pouco depois:

- Há um quarto limpo, com arcas e roupas; creio que era o quarto do velho rei. Há até mesmo um espelho.

Conduziu-a pelo corredor para um quarto que tinha sido varrido; a palha na cama grande era fresca e limpa, e havia lençóis e cobertores, bem como peles - não muito limpas, mas sem chegar a ser repulsivas. Reconheceu uma arca entalhada. Nela havia três vestidos, um dos quais pertencera a Alienor; os outros eram um pouco maiores. Ao examiná-los, em meio às lágrimas, pensou: Devem ter sido de minha mãe. Não sei por que meu pai nunca os deu para Alienor. Pensou ainda: Nunca cheguei a conhecê-lo bem. Não posso fazer idéia do tipo de homem que era; sei apenas que era meu pai. Isso lhe pareceu tão triste que teve vontade de chorar novamente.

- Vou vestir este - disse, e deu um sorriso triste. Se conseguir, sem uma mulher para me ajudar...

- Eu a ajudarei, minha querida - ofereceu-se Lancelote, tocando-lhe delicadamente o rosto e começando a segurar o vestido. Depois, seu rosto contraiu-se, e ele tomou-a nos braços, ainda semivestida como estava:

- Quando penso naquele... animal tocando-a... murmurou, com o rosto mergulhado no seio de Gwenhwyfar. - E eu, que a amo tanto, mal ouso encostar-lhe a mão...

Apesar de toda a sua fidelidade, ela fora castigada; Deus tinha recompensado toda a sua virtude e moderação, permitindo que fosse atraída para as mãos de Meleagrant, e submetendo-a àquela brutalidade! E Lancelote, que lhe oferecera amor e ternura, que se afastara escrupulosamente para não trair seu primo, tinha de testemunhar aquilo! Voltou-se e abraçou-o.

- Lancelote - murmurou -, meu amor, meu querido... Faça-me esquecer o que passei. Fiquemos aqui ainda um pouco mais...

Os olhos dele encheram-se de lágrimas; deitou-a carinhosamente na cama, acariciando-a com mãos trêmulas.

Deus não me recompensou pela minha virtude. O que me faz pensar que ele poderia me castigar? E teve, em seguida, um pensamento que lhe causou medo: Talvez não exista Deus, nem qualquer dos Deuses em que as pessoas acreditam. Talvez seja tudo uma grande mentira dos padres, para que possam dizer à humanidade o que fazer, o que não fazer, no que acreditar, dar ordens até mesmo ao rei.

Ergueu-se um pouco, puxou Lancelote para junto do peito, buscando com os lábios machucados a boca do amante, enquanto acariciava todo o seu corpo, desta vez sem medo e sem sentir vergonha. Já não se importava, não sentia constrangimento. Artur? Artur não a protegera contra o estupro. Sofrera o que tinha de sofrer, e agora, pelo menos, teria essa compensação. Fora por obra de Artur que primeiro se deitara com Lancelote, e agora iria fazer o que desejava.

 

Duas horas depois, deixavam o castelo de Meleagrant, lado a lado, com as mãos tocando-se na marcha dos cavalos.

Gwenhwyfar já não se importava: olhava de frente para Lancelote, com a cabeça erguida de alegria e satisfação. Ele era seu verdadeiro amor, e ela nunca se daria ao trabalho de escondê-lo dos outros.

 

Capítulo 5

Em Avalon, as sacerdotisas caminham lentamente pelas margens sinuosas do lago, levando tochas nas mãos... Eu devia estar entre elas, mas por algum motivo não pude ir... Viviane teria ficado irritada comigo por eu não estar ali, e, apesar disso, tinha a impressão de estar numa margem ao longe, incapaz de dizer a palavra que me teria levado até elas...

Raven caminhava devagar, com o rosto pálido marcado como eu nunca tinha visto, uma grande mecha de cabelos brancos junto à testa... Trazia os cabelos soltos; seria ainda virgem, intocada, a não ser pelo Deus? Suas vestes brancas eram agitadas pelo mesmo vento que fazia tremer as tochas.

Onde estava Viviane, onde estava a Senhora? A barca sagrada estava na praia das terras eternas, mas ela não viria para o lugar da Deusa... e quem era essa, usando o véu e o manto da Senhora do Lago? Nunca a vi, exceto em sonhos...

Cabelos espessos, sem cor, como o trigo maduro, trançados em forma de coroa baixa sobre a testa; mas pendurado ao pescoço, onde devia estar o punhal curvo da sacerdotisa... ah, Deusa, blasfêmia!, pendurado ao lado de seu vestido claro, um crucifixo de prata; lutei contra laços invisíveis para correr e arrancar aquela coisa blasfema, mas Kevin interpôs-se entre nós, e segurou minhas mãos com as suas, que se contorciam como serpentes deformadas...

E, então, era ele quem se contorcia entre minhas mãos, e as serpentes atacavam-me com suas presas...

- Morgana, Morgana! O que tem você? - Elaine sacudia-lhe o ombro. - O que é? Você chorava enquanto dormia!

- Kevin - murmurou ela, sentando-se, enquanto o cabelo solto, negro, envolvia-a como uma onda. - Não, não foi você... mas a cabeça era loura como a sua, e tinha um crucifixo.

- Você estava sonhando, Morgana. Acorde!

Morgana pestanejou e estremeceu; depois, deu um profundo suspiro e olhou para a outra com a calma habitual.

- Sinto muito, tive um pesadelo - e seus olhos pareciam assustados. Elaine conjeturou quais sonhos perseguiam a irmã do rei. Sem dúvida seriam maus sonhos, pois ela vinha daquela ilha maligna de bruxas e feiticeiras... Mas Morgana nunca lhe dera a impressão de ser má. Como alguém podia ser bom, se adorava diabos e rejeitava a Cristo? Afastou-se um pouco e procurou dissimular seus pensamentos:

- Temos de levantar-nos, prima. O rei volta hoje, pelo que disse o mensageiro na noite passada.

Morgana fez um gesto de concordância e pulou da cama, arrancando a camisola. Elaine desviou os olhos, pudicamente. Morgana parecia não sentir vergonha - por acaso, ignoraria que todo pecado chegava ao mundo pelo corpo da mulher? Estava agora totalmente nua, procurando na sua arca uma roupa de festa. Elaine afastou-se e começou a vestir-se.

- Ande depressa, Morgana, temos de ir procurar a rainha...

- Não podemos apressar-nos muito, prima - sorriu. - Temos de dar tempo a Lancelote para afastar-se convenientemente. Gwenhwyfar não nos agradeceria, se provocássemos um escândalo.

- Morgana, como pode dizer isso? Depois do que aconteceu, há mais do que razão para que Gwenhwyfar tenha medo de ficar sozinha à noite, e deseje que seu paladino durma à sua porta... E, na verdade, foi uma sorte Lancelote ter chegado a tempo de salvá-la do pior.

- Não seja mais tola do que é preciso, Elaine. - Morgana perdeu a paciência. - Você acredita nisso?

- Você sabe melhor das coisas, com sua magia - retrucou a moça, tão alto que as outras mulheres que dormiam no quarto voltaram a cabeça para ouvir a briga entre a prima da rainha e a irmã do rei. Morgana baixou a voz:

- Não quero escândalo, e você também não. Gwenhwyfar é minha cunhada, e Lancelote também é meu primo. Deus sabe que Artur não podia censurar a mulher pelo que lhe aconteceu com Meleagrant. Pobrezinha, não foi culpa dela, e sem dúvida Lancelote teve o mérito de tê-la salvo em tempo. Mas não tenho dúvidas de que Gwenhwyfar dirá a Artur, pelo menos em segredo, como Meleagrant a usou... Não, Elaine, eu a vi quando Lancelote a trouxe de volta da ilha, ouvi o que disse, notei o medo que tinha de que aquele bandido horrível lhe tivesse feito um filho!

O rosto de Elaine era só palidez mortal.

- Mas ele é irmão dela - murmurou. - Haverá algum homem capaz de cometer um pecado assim?

- Ora, Elaine, em nome de Deus, como você é tola! É isso o que lhe parece pior?

- E você estava dizendo que Lancelote dormiu com ela quando o rei estava ausente?

- Não me surpreendo, nem acredito que tenha sido a primeira vez. Veja bem, Elaine. Depois do que Meleagrant lhe fez, eu não me espantaria se a rainha nunca mais desejasse ser tocada por um homem. E ficaria muito contente por ela, se Lancelote pudesse evitar isso, mormente agora, pois Artur talvez a rejeite, para ter um filho com alguma outra mulher.

Olhando-a com espanto, Elaine comentou:

- Talvez Gwenhwyfar vá para um convento. Ela me disse uma vez que nunca foi tão feliz quanto no convento de Glastonbury. Mas será que a aceitariam, se tivesse sido amante do capitão da cavalaria do seu marido? Ah, Morgana, estou tão envergonhada por ela!

- Isso nada tem a ver com você. Por que deveria preocupar-se?

- Gwenhwyfar tem um marido, é mulher do Grande Rei; seu marido é o mais honrado e bondoso dos reis que já reinaram neste país! - disse Elaine, surpreendendo-se com sua veemência. - Ela não precisa procurar amor em outro homem! Ao mesmo tempo, como pode Lancelote afastar-se e procurar outra mulher, quando a rainha estende a mão para ele?

- Bem, talvez agora ambos deixem a corte. Lancelote tem terras na Bretanha Menor, e eles se amam há muito tempo, embora lhe pareça que, até acontecer este incidente, tenham vivido como cristãos.

Silenciosamente, Morgana pediu perdão pela mentira; aquilo que Lancelote lhe contara, em meio à sua angústia, devia ficar enterrado para sempre no fundo de seu coração.

- Mas, então, Artur seria motivo de riso para todos os reis cristãos destas ilhas - disse Elaine, com argúcia. - Se sua rainha fugir de seu reino com o melhor amigo e capitão de sua cavalaria, Artur será chamado de corno, ou pior.

- Não me parece que Artur dará importância ao que disserem dele - começou Morgana, mas Elaine sacudiu a cabeça.

- Não, Morgana, mas ele tem de dar importância. Os reis vassalos devem respeitá-lo para lutarem ao lado dele, se houver necessidade. Como iriam fazê-lo, se pensassem que ele permite que sua mulher viva abertamente em pecado com Sir Lancelote? Sim, eu sei que você está se referindo aos últimos dias. Mas poderemos ter certeza de que ficará nisso? Meu pai é amigo e vassalo de Artur, mas creio que até ele zombaria de um rei que não soubesse controlar a própria mulher, e perguntar-lhe-ia como seria capaz de controlar um reino.

- E o que podemos fazer, a não ser matar o casal culpado? - perguntou Morgana, dando de ombros.

- Que conversa! - exclamou Elaine, estremecendo.

- Não, Lancelote tem de deixar a corte. Você é prima dele, não pode fazê-lo compreender isso?

- Ora, acredito que eu tenha pouca influência sobre meu primo nessa questão. - Morgana sentiu como se dentes frios a estivessem mordendo por dentro.

- Se Lancelote fosse casado - tornou Elaine, e, de repente, pareceu encher-se de coragem. - Se ele fosse casado comigo! Morgana, você, que entende de encantamentos e magia, não poderá dar-me um talismã que desvie os olhos de Lancelote, de Gwenhwyfar para mim? Eu também sou filha de rei, e, sem dúvida, sou tão bonita quanto ela. E pelo menos não tenho marido!

Morgana deu uma gargalhada amarga:

- Meus talismãs, Elaine, podem ter efeitos indesejados. Pergunte à rainha as conseqüências imprevistas que um deles produziu! - E ficando séria de repente, acrescentou:

- Mas, Elaine, você realmente quer isso?

- Creio que, se ele se casasse comigo, acabaria compreendendo que não sou menos digna de seu amor do que Gwenhwyfar.

Morgana segurou o queixo da moça e levantou-lhe o rosto.

- Ouça, minha criança - disse, e Elaine sentiu que os olhos escuros da feiticeira estavam penetrando no íntimo de sua alma. - O que vou propor-lhe não será fácil. Disse que o ama, mas o amor, para uma donzela, pode ser apenas um capricho. Você sabe realmente que tipo de homem ele é? Seu capricho poderá durar todos os anos de um casamento? Se você quisesse apenas deitar-se com ele, isso podia ser conseguido facilmente. Mas quando a força do talismã se tivesse esgotado, ele bem poderia odiar você por tê-lo envolvido num casamento. E o que aconteceria, então?

Gaguejando, Elaine respondeu:

- Eu correria até mesmo esse risco. Meu pai ofereceu-me a outros homens, mas prometeu-me que nunca me casaria contra a vontade. Se eu não puder casar-me com Lancelote, entrarei para um convento, juro - a moça tremia, mas não chorava. - Mas por que você me ajudaria, Morgana? Como todas as outras, como a própria Gwenhwyfar, você gostaria de ter Lancelote, seja como marido ou amante, e a irmã do rei tem o direito de escolher...

Por um momento, Elaine acreditou que não estava vendo bem, pois surgiram lágrimas nos olhos frios da feiticeira. E alguma coisa na voz dela trouxe lágrimas também aos olhos de Elaine.

- Ah, não, minha filha, Lancelote não se casaria comigo, nem mesmo se Artur mandasse. Acredite, Elaine, você não seria muito feliz com ele.

- Não acho que as mulheres possam ter muita felicidade na vida, com o casamento - respondeu Elaine. - Só as jovenzinhas pensam assim, e eu já não sou tão jovem! Mas a mulher tem que se casar, seja com quem for, e eu preferia que fosse com Lancelote. - E explodiu, em seguida: - Não acredito que você possa promover isso! Por que zomba de mim? Seus talismãs e sortilégios serão, então, apenas tolices?

Esperava que Morgana se inflamasse, defendendo suas artes mágicas, mas ela apenas suspirou e sacudiu a cabeça:

- Não tenho muita fé em talismãs e encantamentos de amor, já lhe disse. Eles servem para concentrar a vontade dos ignorantes. A arte de Avalon é coisa muito diferente, e não pode ser invocada levianamente porque uma donzela prefere deitar-se com este homem, e não com aquele.

- Ah, é sempre assim com a arte dos sábios - retrucou Elaine com desprezo. - Eles podem fazer isto ou aquilo, mas não fazem porque não seria certo interferir nos atos dos Deuses, ou porque os astros não são propícios, ou qualquer outra alegação...

Morgana suspirou fundo.

- Prima, posso dar-lhe Lancelote como marido, se é isso o que você realmente quer. Não creio que tal coisa a fará feliz, mas você é tão esperta e diz que não espera a felicidade no casamento... Creia-me, Elaine, não desejo outra coisa senão ver Lancelote bem casado e longe desta corte e da rainha. Artur é meu irmão, e não quero que a vergonha caia sobre ele, como acontecerá mais cedo ou mais tarde, se as coisas continuarem como estão. Mas terá de lembrar-se de que foi você quem me pediu. Não me venha com lamúrias, quando as coisas se tornarem amargas.

- Juro que aceitarei o que acontecer, se eu puder casar-me com ele. Mas por que você me faria isso, Morgana. Simplesmente por não gostar da rainha?

- Acredite nisso, se quiser, ou acredite que gosto muito de Artur, e não desejo ver um escândalo destruir o que ele realizou aqui - respondeu com firmeza. - E lembre-se, Elaine, de que os talismãs raramente operam da maneira esperada...

Depois que os Deuses já se decidiram, que importância podia ter qualquer ato dos mortais, mesmo com sortilégios e talismãs? Viviane tinha colocado Artur no trono... e, não obstante a Deusa realizara sua própria vontade, e não a de Viviane, pois negou a Artur um filho com sua rainha.

E quando ela, Morgana, tentou remediar o que a Deusa deixara inacabado, o resultado dessa tentativa de agir pela magia foi lançar Gwenhwyfar nos braços de Lancelote, num amor escandaloso.

Bem, pelo menos isso ela poderia remediar, promovendo um casamento honroso para Lancelote. E Gwenhwyfar, que enfrentava um impasse, talvez até ficasse satisfeita em ter uma solução para ele.

Os lábios de Morgana contraíram-se de um modo que não chegava a ser um sorriso.

- Fique sabendo, Elaine, que há um ditado que diz: "Cuidado com o que pede quando rezar, pois isso lhe pode ser concedido". Posso dar-lhe Lancelote por marido, mas pedirei alguma coisa em troca.

- Haverá alguma coisa que eu possa dar-lhe, que você deseje, Morgana? Você não se interessa por jóias, como já vi...

- Não quero jóias nem riquezas, mas apenas isto: você terá filhos com Lancelote, pois eu já vi o filho dele... - Morgana parou, sentindo a pele arrepiar-se ao longo da espinha, como acontecia quando tinha a Visão. Os olhos azuis de Elaine arregalaram-se de espanto. Morgana quase pôde ler o pensamento da moça: Então é certo que terei Lancelote como marido, e lhe darei filhos... Sim, é verdade, embora eu não soubesse disso até o momento em que falei... se eu fizer o que a Visão me mostrou, então não estarei interferindo no que deve caber à Deusa, por isso poderei agir sem medo.

- Não direi nada sobre seu filho - continuou Morgana, com decisão. - Ele deve seguir seu próprio destino... Sacudiu a cabeça para afastar a estranha penumbra da Visão. - Peço apenas que me entregue a primeira filha que tiver, para ser educada em Avalon.

- Na feitiçaria? - perguntou Elaine, arregalando os olhos.

- A mãe do próprio Lancelote era grã-sacerdotisa de Avalon. Eu não terei uma filha que possa dedicar à Deusa. Se, graças a meus encantamentos, você der a Lancelote o filho desejado por todo homem, você terá de me jurar, e jurará pelo seu Deus, que me entregará sua filha, para ser criada por mim.

O quarto encheu-se de um silêncio pesado.

- Se tudo isso realmente acontecer, e se eu tiver um filho de Lancelote, então juro que você terá a minha filha para Avalon. Juro em nome de Cristo - disse Elaine finalmente, e fez o sinal-da-cruz.

- E eu, por minha vez, juro - continuou Morgana, fazendo um aceno de cabeça - que ela será tratada como a filha que nunca poderia oferecer à Deusa, e que vingará um grande crime...

- Um grande crime? Morgana, de que está falando? - perguntou Elaine, espantada.

Morgana estremeceu, e o silêncio pesado do quarto foi rompido. Teve consciência do som da chuva caindo lá fora e de que o ar estava frio. Franziu a testa, ao dizer:

- Não sei... minha mente devaneou. Elaine, isto não pode ser feito aqui. Você tem de pedir permissão para visitar seu pai e convidar-me para fazer-lhe companhia. Eu arranjarei as coisas para que Lancelote também vá para lá. - Suspirou e voltou-se para apanhar o vestido: - E quanto a ele, penso que já lhe demos tempo suficiente para deixar o quarto da rainha. Vamos, Gwenhwyfar deve estar nos esperando.

E, realmente, quando Elaine e Morgana chegaram ao aposento da rainha não havia qualquer sinal da presença de Lancelote, ou de qualquer outro homem. Mas num momento em que Elaine se afastou um pouco, os olhos da rainha e os de Morgana encontraram-se, e esta viu neles uma terrível amargura.

- Você me despreza, não é, Morgana?

Até que enfim, ela fez a pergunta que a vem perseguindo durante todas estas semanas, pensou Morgana. Teve ímpetos de dar uma resposta agressiva: Se assim for, não será porgue você me desprezou primeiro? Respondeu, porém, com a voz mais suave que pôde:

- Não sou seu confessor, Gwenhwyfar, e você, e não eu, é que acredita num Deus que a condenará por oferecer sua cama a um homem que não é seu marido. Minha Deusa é menos rigorosa com as mulheres.

- Ele devia ter sido meu marido - explodiu Gwenhwyfar, mas, controlando-se em seguida, continuou: - Artur é seu irmão, aos seus olhos ele não pode fazer nada errado.

- Eu não disse isso - Morgana não podia suportar o desespero que se estampava no rosto da outra. - Gwenhwyfar, minha irmã, ninguém a acusou.

Mas Gwenhwyfar afastou-se, dizendo entre os dentes cerrados:

- Não, e também não quero sua piedade Morgana.

Queira ou não, ela é sua, pensou, mas guardou o pensamento. Não era uma curandeira, para mexer em velhas feridas e fazê-las sangrar.

- Está pronta para o desjejum, Gwenhwyfar? O que vai comer?

Cada vez mais, nesta corte, desde que não há mais guerras, é como se eu fosse uma serva e ela, mais nobre do que eu. E refletiu, friamente, que se tratava de um jogo feito por todos, e não se ressentiria com a rainha, por isso. Mas havia no reino mulheres nobres que poderiam irritar-se com tal coisa, e também não lhe agradava que Artur aceitasse tal situação, supondo inclusive que, como não havia mais guerras, seus velhos Companheiros deviam servi-lo como seus atendentes pessoais, muito embora fossem reis ou senhores, por direito próprio. Em Avalon servira Viviane voluntariamente, porque ela era a representante viva da Deusa, e sua sabedoria e seus poderes mágicos praticamente a colocavam acima dos seres humanos. Mas sabia que também ela, Morgana, podia dispor desses mesmos poderes, se trabalhasse seriamente nesse sentido. E chegaria o dia em que gozaria da reverência dos demais, se assumisse os poderes da Deusa.

Mas para o senhor guerreiro do país, ou para sua consorte - não, tais poderes não eram adequados, exceto na própria guerra, e irritava-se com o fato de Artur manter sua corte daquele modo, assumindo um poder que só devia pertencer aos maiores druidas e sacerdotisas. Artur ainda usa a espada de Avalon, e se não cumprir o juramento feito, eles a tomarão de suas mãos.

Morgana teve a impressão de que o aposento silenciava totalmente à sua volta, e parecia ampliar-se, como se todas as coisas estivessem muito distantes. Ainda podia ver Gwenhwyfar, com a boca semi-aberta para falar, mas, ao mesmo tempo, parecia-lhe ver através de seu corpo, como se estivesse no país das fadas. Tudo pareceu-lhe, ao mesmo tempo, distante e pequeno, pairando sobre ela, e houve um silêncio profundo em sua mente. Naquele silêncio, viu as paredes de um pavilhão, e Artur dormindo com a Excalibur nas mãos. E Morgana inclinava-se sobre ele - não podia retirar-lhe a espada, mas, com o pequeno punhal curvo de Viviane, cortou os laços que prendiam a bainha à sua cintura. Estava usada, com o veludo desgastado, e o metal precioso dos bordados parecia escurecido e manchado. Morgana ficou com a bainha nas mãos, e em seguida viu-se nas margens de um grande lago, com o ruído dos juncos à sua volta...

- Eu disse que não, não quero vinho, estou cansada de ter vinho ao desjejum - observava a rainha. - Talvez Elaine me pudesse conseguir um pouco de leite fresco na cozinha. Morgana? Você está devaneando?

Morgana piscou, e ficou olhando para Gwenhwyfar. Voltou lentamente à realidade, tentando focalizar os olhos. Nada daquilo era verdade, ela não estava galopando a cavalo nas margens de um lago com a bainha na mão... Não obstante, aquele lugar tinha o aspecto do mundo das fadas, como se visse tudo através de uma água agitada, e tudo parecia um sonho que já lhe acontecera uma vez. Só que não conseguia lembrar-se direito... e mesmo ao dizer a Gwenhwyfar que estava bem, prometendo ir ela mesma à sala de laticínios buscar o leite, se não houvesse na cozinha. Ainda assim, sua mente levava-a pelos labirintos do sonho... Se pudesse recordar-se apenas do que tinha sonhado, tudo estaria bem...

Ao sair ao ar fresco, que mesmo no verão era frio, já não tinha a sensação de que este mundo podia, a qualquer momento, dissolver-se num mundo das fadas. A cabeça doía-lhe como se tivesse sido partida ao meio, e durante todo o dia ficou dominada pela estranha magia do sonho que tivera acordada. Se pelo menos pudesse lembrar-se... Havia jogado a Excalibur no lago, sim, fora isso, para que a rainha das fadas não a pudesse ter... Não, não havia sido isso, também... e sua mente tentava desvendar novamente o estranho e obsessivo sonho.

Logo depois do meio-dia, porém, quando o sol já caminhava para a tarde, ouviu as trombetas anunciando a chegada de Artur, e sentiu a agitação que percorria toda a corte de Camelot. Com as outras mulheres, correu para os parapeitos que cercavam o alto das muralhas, e acompanhou a aproximação da comitiva real, com suas bandeiras flutuando ao vento. Gwenhwyfar tremia ao seu lado. Era mais alta do que a cunhada, mas, com as esguias mãos pálidas e a fragilidade de seus ombros estreitos, parecia a Morgana apenas uma criança, uma criança muito crescida, nervosa por causa de algum erro imaginário pelo qual poderia ser castigada. Ela pousou a mão trêmula no braço de Morgana.

- Irmã... Será preciso que meu senhor saiba? Tudo terminou, e Meleagrant está morto. Não há razão para que Artur declare guerra a quem quer que seja. Por que não deve pensar que o senhor Lancelote salvou-me a tempo... a tempo de impedir... - sua voz era apenas um murmúrio frágil, como o de uma meninazinha, e ela não conseguiu proferir as palavras.

- Irmã, cabe a você decidir - respondeu Morgana.

- Mas... se ele ficasse sabendo por outras pessoas...

Morgana suspirou. Por que Gwenhwyfar não dizia de uma vez o que pensava?

- Se Artur ouvir alguma coisa desagradável, não será de mim, e ninguém mais tem o direito de falar. Mas ele não pode acusá-la por ter sido enganada, por ter sido usada à força.

Adivinhou, então, como se a tivesse ouvido, a voz de um padre dirigindo-se à trêmula Gwenhwyfar - não teria sido quando era criança? - para dizer que nenhuma mulher era violentada se não tivesse tentado algum homem a isso, tal como Eva tentara nosso primeiro pai, Adão, ao pecado. E que as Santas Virgens Mártires de Roma tinham preferido morrer a entregar sua castidade... era isso o que fazia Gwenhwyfar tremer. No íntimo, por mais que tentasse não pensar, ou esquecer nos braços de Lancelote, acreditava sinceramente que a culpa era sua, que merecia a morte pelo pecado de ter-se deixado violentar. E como não morreu em lugar de ceder, Artur tinha o direito de matá-la por isso. Nenhuma palavra confortadora acalmaria aquela voz na consciência da rainha.

Ela transfere o sentimento de culpa para o que aconteceu com Meleagrant, a fim de que não se sinta culpada em relação a Lancelote...

Gwenhwyfar estava tremendo ao seu lado, apesar do sol cálido.

- Gostaria que ele estivesse aqui, que estivéssemos dentro de casa. Veja, há falcões voando no céu. Tenho medo deles, sempre receio que me ataquem...

- Receio que eles a achassem muito grande e de carne muito dura - brincou Morgana.

Os servos acotovelavam-se junto aos grandes portões, abrindo-os para que a comitiva real passasse. Sir Ectório ainda mostrava sinais daquela noite que tinha passado preso, mas apresentou-se ao lado de Cai, quando este, como guardião do castelo, fez uma reverência à frente de Artur.

- Bem-vindo de volta, meu senhor e rei.

Artur desmontou e foi abraçar Cai.

- Esta recepção está muito formal, meu caro. Está tudo bem aqui?

- Agora, está tudo bem - começou Ectório. - E mais uma vez, o senhor meu rei tem razões para ser grato a seu capitão.

- É verdade - concordou Gwenhwyfar, aproximando-se e colocando levemente a mão na de Lancelote. - Senhor meu rei, Lancelote salvou-me de uma armadilha preparada por um traidor, salvou-me de uma sorte que nenhuma mulher cristã deve sofrer.

Artur segurou com uma das mãos a mão da rainha, dando a outra ao capitão de sua cavalaria:

- Sou, como sempre, grato a você, meu querido amigo, como também minha esposa o é. Vamos, conversaremos sobre isso em particular - e, passando entre os dois, subiu os degraus do castelo.

- Gostaria de saber que mentiras vão contar-lhe, essa casta rainha e o melhor dos cavaleiros.

Morgana ouviu esse comentário feito por alguém da multidão, mas não pôde precisar de onde vinha. Talvez a paz não seja uma bênção completa, pensou. Sem a guerra, não há nada para se fazer na corte, já que a ocupação habitual acabou, senão espalhar boatos e mexericos escandalosos.

Se, porém, Lancelote deixasse a corte, o escândalo amainaria. Decidiu, então, que tudo o que tivesse de fazer com esse objetivo seria realizado imediatamente.

Naquela noite, ao jantar, Artur pediu a Morgana que trouxesse a harpa e cantasse para eles.

- Parece que não ouço sua música há muito tempo, irmã - pediu ele, puxando-a para si e beijando-a. Há muito que não faziam isso.

- Terei prazer em cantar, mas, diga-me, quando Kevin voltará para a corte?

Lembrava-se, com amargura, da discussão que tivera com ele. Nunca poderia perdoar a traição a Avalon! Não obstante, contra sua vontade, sentia falta de Kevin e lembrava-se com pesar da época em que tinham sido amantes.

Estou cansada de dormir sozinha, é tudo...

Mas isso a obrigou a pensar em Artur, em seu filho em Avalon. Se Gwenhwyfar deixasse a corte, então certamente seu irmão voltaria a casar-se, o que não lhe parecia provável, naquele momento. E se Gwenhwyfar nunca tivesse um filho, então o filho que tivera com Artur não teria de ser reconhecido como herdeiro? Ele era de uma dupla linhagem real, o sangue do Pendragon e de Avalon. Igraine estava morta, e o escândalo não lhe poderia fazer mal.

Ficou sentada num banco dourado e entalhado, perto do trono, com a harpa aos seus pés, no chão. Artur e Gwenhwyfar sentaram-se bem juntos, dando-se as mãos. Lancelote estava estendido no chão, ao lado de Morgana, observando o instrumento, mas freqüentemente seus olhos elevavam-se para Gwenhwyfar com um ardente desejo. Como ousava ele revelar seus sentimentos assim abertamente, para qualquer observador? E então Morgana percebeu que só ela conseguia ver-lhe o coração. Para todos os outros olhos, ele era apenas um cortesão, olhando respeitosamente para sua rainha, que ria e brincava com ele, como com um amigo privilegiado do marido.

As mãos de Morgana movimentaram-se sobre as cordas, o mundo voltou a distanciar-se, a ficar muito pequeno e afastado, e, ao mesmo tempo, imenso e estranho; as coisas perdiam suas formas familiares, sua harpa parecia de um modo simultâneo brinquedo de criança e algo monstruoso, uma coisa informe, imensa, que a esmagava, e ela estava sobre um trono, em algum lugar, querendo ver entre sombras incertas, olhando para um jovem de cabelos escuros, que trazia sobre a cabeça uma fina coroa. Ao vê-lo, a dor fina do desejo percorreu novamente o corpo de Morgana, seus olhos encontraram-se e foi como se tivesse sido tocada em suas partes mais íntimas, despertando-lhe a fome e a ansiedade... Sentiu os dedos entrarem nas cordas da harpa, havia sonhado com alguma coisa... Um rosto incerto, o sorriso de um homem jovem, não, não era Lancelote, mas algum outro... não, tudo eram sombras...

A voz clara de Gwenhwyfar chegou até seus ouvidos:

- Ajudem a senhora Morgana, minha irmã está desmaiando!

Sentiu que os braços de Lancelote apoiavam-na, e viu seus olhos escuros: era como seu sonho, o desejo percorria todo o seu corpo, derretendo-o... mas não, havia sonhado isso. Não era real. Levou a mão, confusa, aos olhos:

- Foi a fumaça, a fumaça da lareira...

- Beba - disse Lancelote, levando uma taça aos seus lábios. Que loucura era essa? Ele mal a tocara, e o corpo de Morgana doía de desejo. Há muito se esquecera daquela sensação, que a havia queimado durante tantos anos.. bastou que a tocasse, de maneira suave e impessoal, para despertar novamente seu desejo. Teria sido, então, um sonho?

Ele não me quer, ele não quer nenhuma outra mulher que não seja a rainha, pensou, e seu olhar foi além de Lancelote, até a lareira, onde não havia fogo naquela época, pois era verão, e uma coroa de folhas verdes ocultava a abertura , para que o espaço não parecesse demasiado escuro e vazio. Bebeu um pouco do vinho que lhe era oferecido por Lancelote.

- Desculpem. Andei um pouco tonta durante todo o dia - e lembrou-se do que lhe acontecera pela manhã. - Que alguma outra pessoa toque, eu não posso...

- Com sua licença, meu senhor, eu cantarei! - pediu Lancelote. Tomou a harpa e acrescentou: - É uma história de Avalon, que ouvi na infância. Creio que foi escrita pelo próprio Taliesin, embora ele possa tê-la ouvido de alguma canção mais antiga ainda.

Começou a cantar uma velha balada, de Arianrhod, a rainha, que atravessara um rio e dele saíra grávida; e que amaldiçoara o filho quando este nasceu, dizendo que só lhe daria um nome quando quisesse, e como o menino obrigou-a a isso; depois, ela amaldiçoou-o novamente, prevendo que nunca teria uma mulher, fosse de carne e osso, ou mesmo do país das fadas, e, por isso, ele criou para si uma mulher de flores...

Morgana ficou ouvindo, ainda pensando em seu sonho e pareceu-lhe que o rosto moreno de Lancelote revelava um sofrimento terrível, e ao falar da mulher de flores, Blodeuwedd, seus olhos voltaram-se momentaneamente para a rainha. Mas dirigiram-se em seguida para Elaine, e ele cantou, de maneira elegante, uma canção dizendo como o seio das mulheres era feito de lírios dourados, como as duas faces eram pétalas da flor de maçã, e como elas se vestiam das cores de todas as flores, azul, vermelho e amarelo, que brotam nos campos no verão...

Morgana ficou sentada em silêncio, protegendo com as mãos a cabeça dolorida. Mais tarde, Gawaine trouxe uma flauta de sua terra, e começou a tocar um lamento selvagem, cheio dos gritos das aves marinhas e de sofrimento. Lancelote sentou-se ao lado dela, segurando-lhe carinhosamente a mão.

- Sente-se melhor agora, prima?

- Ah, sim. Isto já me aconteceu, antes. É como se eu tivesse um sonho e visse todas as coisas através de uma névoa. - E ainda assim, pensou Morgana, não era exatamente isso.

- Minha mãe me disse algo parecido, certa vez - observou Lancelote, e Morgana pôde avaliar seu sofrimento e seu cansaço. Ele nunca falara com ela, ou com qualquer outra pessoa, de sua mãe ou dos anos que tinha passado em Avalon. - Ela acreditava que isso acontecia naturalmente com a Visão. Disse, certa vez, que era como se fosse arrastada para o país das fadas e estivesse nos olhando de lá, como uma prisioneira. Não sei, porém, se ela foi alguma vez ao país das fadas, ou se era apenas um modo de falar.

Mas eu estive, pensou Morgana, e não é bem assim... é como tentar lembrar um sonho que está desaparecendo...

- Eu mesmo já tive uma sensação parecida - continuou Lancelote. - Há momentos em que não posso ver claramente, é como se todas as coisas estivessem muito distantes e não fossem reais... E não posso tocá-las, sem ter de atravessar antes uma enorme distância. Talvez seja alguma coisa do sangue de fadas que temos - suspirou e esfregou os olhos. - Eu, quando era criança, durante as brincadeiras, chamava-a de Morgana das Fadas, e você se aborrecia, lembra-se?

- Lembro-me, sim - respondeu ela, pensando que, apesar de todo o cansaço em seu rosto, das novas marcas que nele se viam, dos fios brancos nos anéis de seus cabelos, Lancelote ainda lhe parecia mais belo do que qualquer outro homem. Fechou os olhos com força. Assim era, e assim tinha de ser: ele a amava apenas como a uma prima.

Mais uma vez, teve a impressão de que o mundo movia-se atrás de uma barreira de sombras, pouco importando o que ela fizesse. Este mundo não era mais real do que o reino das fadas. Até mesmo a música parecia vir de muito longe - Gawaine tomara a harpa e estava cantando uma canção ouvida entre os saxões, sobre um monstro que vivia num lago e como um de seus heróis entrara nas águas e arrancara um dos braços do monstro, enfrentando em seguida a mãe dele, num covil maligno...

- Uma história sombria, horrível - comentou Morgana baixinho a Lancelote, que sorriu.

- A maior parte das histórias saxônias é assim. Guerra, derramamento de sangue e heróis hábeis na batalha, mas sem muita coisa mais na cabeça dura...

- E agora vamos viver em paz com eles, ao que parece.

- Sim. Assim terá de ser. Eu posso conviver com os saxões, mas não com o que eles chamam de música, embora suas canções sejam bastante divertidas, acho, para uma longa noite junto do fogo - suspirou, e disse numa voz quase inaudível: - Acho que talvez eu não tenha nascido para ficar sentado junto do fogo, também...

- Você gostaria de enfrentar novas batalhas?

Ele sacudiu negativamente a cabeça:

- Não, mas estou cansado da corte.

Morgana notou que ele voltava os olhos para Gwenhwyfar, sentada ao lado de Artur, sorrindo ao ouvir a canção de Gawaine. Suspirou novamente, num gesto que parecia vir do fundo da alma.

- Lancelote - disse em voz baixa, procurando dar-lhe um tom convincente -, você precisa sair daqui, ou será destruído.

- Sim, destruído de corpo e alma - admitiu ele, cravando os olhos no chão.

- Sobre sua alma, eu nada sei. Você deve perguntar a um padre.

- Se eu pudesse! - murmurou com violência sufocada. Deu um soco no chão, ao lado da harpa, que balançou um pouco. - Se eu pelo menos pudesse acreditar que existe um Deus como os cristãos afirmam...

- Você precisa partir, primo. Procure alguma missão, como Gareth, vá matar bandidos que estejam perturbando a paz, ou dragões, ou o que quiser, mas deve partir!

Viu a garganta de Lancelote contrair-se, enquanto ele engolia em seco:

- E ela?

- Acredite ou não, também sou amiga dela - afirmou Morgana, com voz suave. - Você não acha que ela tem igualmente uma alma que deve ser salva?

- Ora, você está me dando os mesmos conselhos dos padres! - observou Lancelote com um sorriso amargo.

- Não é preciso ser padre para saber quando dois homens, e também uma mulher, estão presos numa armadilha, sem poder escapar do que aconteceu. Seria fácil culpá-la de tudo, mas eu também sei o que é um amor impossível.

Parou, desviou o olhar, sentindo um calor escaldante subir-lhe ao rosto. Não pretendia dizer aquilo. A canção terminou, e Gawaine entregou a harpa:

- Depois dessa história sombria, precisamos de alguma coisa leve, talvez uma canção de amor - e deixou ao galante Lancelote essa incumbência.

- Já passei muito tempo na corte cantando canções de amor - respondeu ele, levantando-se e dirigindo-se a Artur. - Agora que o senhor meu rei está aqui novamente, peço-lhe que me mande para longe desta corte, em qualquer missão.

Artur sorriu para o amigo.

- Você já quer partir, tão cedo? Não posso retê-lo, se está ansioso por partir, mas para onde irá?

Pellinore e seu dragão. Morgana, de olhos baixos, fixos, sentiu as palavras formarem-se em sua mente, com todo o vigor de que foi capaz, tentando transmiti-las a Artur.

- Eu pensava em ir atrás de um dragão...

Os olhos de Artur brilharam de ironia.

- Então seria bom acabarmos com o dragão de Pellinore. Essa história aumenta a cada dia que passa, criando o medo das viagens por aquele país! Gwenhwyfar disse-me que Elaine pediu licença para ir visitar o pai. Você poderia acompanhá-la até lá, e ordeno-lhe que não volte enquanto o dragão de Pellinore estiver vivo.

- Ora! - brincou Lancelote. - Então o senhor meu rei me exila de sua corte para todo o sempre? Como posso matar um dragão que não passa de um sonho?

Artur riu:

- Que você nunca encontre um dragão pior do que esse, meu amigo! Bem, encarrego-o de acabar definitivamente com ele, mesmo que tenha de ser a gargalhadas, fazendo uma balada sobre essa história!

Elaine levantou-se e fez uma reverência ao rei:

- Com sua permissão, meu senhor, posso pedir à senhora Morgana que passe algum tempo comigo na corte de meu pai?

Sem olhar para Lancelote, Morgana disse:

- Eu gostaria de ir com ela, meu senhor e irmão, se a rainha puder me dispensar. Há ervas e plantas medicinais naquela região que não me são muito conhecidas, e gostaria de aprender seu uso com as pessoas de lá. Seriam úteis para remédios e encantamentos.

- Bem, você pode ir, se quiser. Mas sem vocês, isto aqui vai ficar muito solitário. - Lançou um dos seus raros sorrisos para Lancelote. - Minha corte não é a mesma sem o melhor de meus cavaleiros. Mas eu não o prenderia aqui contra sua vontade, nem minha rainha desejaria isso.

Não tenho tanta certeza assim, pensou Morgana, vendo a luta de Gwenhwyfar para controlar-se. Artur tinha passado muito tempo ausente e estava ansioso para ficar a sós com a mulher. Iria ela dizer-lhe sinceramente que amava outro, ou se deitaria, obediente, em sua cama, fingindo mais uma vez?

Por um momento estranho, Morgana viu-se como uma sombra da rainha... nossos destinos misturaram-se, de algum modo... Ela, Morgana, deitara-se com Artur e lhe dera um filho, e isso constituía o maior desejo de Gwenhwyfar. E a rainha era a dona do amor de Lancelote, pelo qual Morgana teria dado, de bom grado, a alma... seria preciso um Deus como o dos cristãos para fazer tamanha embrulhada, pois ele não gosta de amantes. Ou será a Deusa que brinca cruelmente conosco?

Gwenhwyfar fez um gesto em direção a Morgana:

- Você parece doente, irmã. Ainda se sente indisposta?

Morgana assentiu com a cabeça. Não devo odiá-la. Ela é tão vítima quanto eu.

- Sinto-me ainda um pouco cansada. Pretendo ir descansar logo.

- E amanhã, você e Elaine nos roubarão Lancelote - disse Gwenhwyfar, como se estivesse brincando, mas Morgana viu fundo em sua alma; ela lutava contra uma raiva e um desespero parecidos com os seus. Ah, nossos destinos foram aproximados pela Deusa, e quem pode lutar contra a vontade Dela?... Fechou, porém, o coração contra o desespero da outra, e disse:

- De que vale um paladino da rainha, se não estiver longe, lutando pelo que lhe parece ser o bem? Você preferiria conservá-lo na corte e longe das conquistas da honra, irmã?

- Nenhum de nós desejaria isso - respondeu Artur, abraçando a esposa. - Graças à boa vontade de meu amigo e paladino, a rainha está aqui, a salvo, quando eu volto. Boa noite para você, minha irmã.

Morgana viu-os afastarem-se, e um instante depois sentiu a mão de Lancelote no ombro. Ele ficou ali em silêncio, acompanhando com os olhos os dois que se afastavam. Morgana, também em silêncio, sentiu que, se fizesse um gesto, poderia ter Lancelote naquela noite. No desespero, agora, quando via a mulher amada voltar para o marido, e um marido que também lhe era tão caro, e contra o qual não podia levantar a mão, sentia que ele se voltaria para ela, se o quisesse.

E ele é muito honrado, sentir-se-ia depois na obrigação de casar-se comigo... Não. Elaine ficaria com ele nessas condições, talvez, mas não eu. Ela não tem malícia, Lancelote não chegará a odiá-la, como certamente me odiaria.

Retirou suavemente a mão de Lancelote de seu ombro.

- Estou cansada, meu primo. Também vou dormir. Boa noite, meu caro. - E, ciente da ironia encerrada em suas palavras, concluiu: - Durma bem - sabendo que ele não dormiria. Bem, tanto melhor para o plano que tinha elaborado.

Durante grande parte daquela noite, porém, ela ficou deitada sem conseguir dormir, lamentando amargamente seu dom de prever as coisas. O orgulho, pensou, era um mau companheiro de cama.

 

Capítulo 6

Em Avalon, o Tor elevava-se coroado de pedras circulares, e na noite de lua nova a procissão subia lentamente, dando voltas, com as tochas. À frente ia uma mulher, de cabelos claros trançados numa coroa sobre a fronte larga e baixa. Estava vestida de branco, com o punhal curvo na cintura. À luz das tochas bruxuleantes, ela parecia buscar Morgana com os olhos, onde esta se encontrava, fora do círculo, nas sombras, e os seus olhos eram imperativos. Onde está você, que deveria estar aqui em meu lugar? Por que se demora aí? Seu lugar é aqui... O reino de Artur escapa ao controle da Senhora do Lago, e você deixa que isso aconteça. Ele já se volta, em tudo, para os padres, enquanto você, que deveria representar para ele a Deusa, não age. Ele tem a espada das Insígnias Sagradas; será você quem o forçará a viver de acordo com elas, ou será você quem a tomará das mãos dele e provocará a sua queda? Lembre-se, Artur tem um filho, e seu filho deve crescer em Avalon, para que possa entregar o reino da Deusa a seu filho...

E, então, Avalon parecia desaparecer, e ela viu Artur cair numa batalha desesperada, com a espada Excalibur na mão, atravessado por uma outra espada, lançando a Excalibur no lago para que não caisse nas mãos de seu filho...

Onde está Morgana, que foi preparada pela Senhora do Lago para esse dia? Onde está ela, que devia ocupar o lugar da Deusa nessa hora?

Onde está o Grande Corvo? E, de súbito, pareceu-me que uma revoada de corvos passavam por sobre minha cabeça, mergulhando para bicar-me os olhos, fazendo circunvoluções à minha volta, gritando com a voz de Raven: "Morgana, Morgana! Por que nos abandonou, por que me traiu?"

- Não posso - gritei -, não conheço o caminho... - Mas a face de Raven fundiu-se com o rosto acusador de Viviane, e depois, na sombra do velho Mensageiro da Morte...

E Morgana acordou, consciente de estar num ensolarado quarto da casa de Pellinore. As paredes eram brancas, pintadas no velho estilo romano. Um grito de corvo penetrou pelas janelas, vindo de muito longe, e ela estremeceu.

Viviane nunca teve escrúpulos de interferir na vida de outros, quando isso representava o bem de Avalon, ou do reino. Também ela não devia ter. Não obstante, deixara passar muitos dias ensolarados. Lancelote passava o tempo nos morros junto ao lago, em busca do dragão - como se realmente houvesse um dragão, pensou Morgana com desprezo, e as noites, junto à lareira, trocando canções e histórias com Pellinore, cantando para Elaine, sentado aos pés dela. Elaine era bela e inocente, e não muito diferente de sua prima Gwenhwyfar, embora cinco anos mais moça. Morgana deixava transcorrer os dias ensolarados, certa de que todos acabariam vendo a lógica de um casamento entre Lancelote e Elaine.

Não, disse amargamente para si mesma, se algum deles tivesse a sensatez de perceber a lógica ou a razão, então Lancelote deveria ter-se casado comigo há anos. Agora é o momento de agir.

Elaine mexeu-se na cama em que dormiam juntas e abriu os olhos. Sorriu, e aconchegou-se a Morgana. Ela confia em mim, pensou Morgana dolorosamente; acha que a estou ajudando a conquistar Lancelote apenas por amizade. Nem mesmo se a odiasse, poderia fazer-lhe tanto mal! Disse, porém, com voz tranqüila:

- Lancelote já teve tempo suficiente para sentir a perda de Gwenhwyfar. Sua hora chegou, Elaine.

- Você vai dar a ele um talismã, ou um filtro de amor...?

- Não confio em talismãs de amor - respondeu rindo - embora esta noite ele vá beber alguma coisa em seu vinho que o deixará preparado para qualquer mulher. Esta noite, você não vai dormir aqui, mas num pavilhão perto da floresta, e Lancelote receberá uma mensagem dizendo que Gwenhwyfar chegou e mandou chamá-lo. Assim, ele irá à sua procura, no escuro. Não posso fazer nada mais do que isso. Você deve estar preparada para ele...

- E ele pensará que sou Gwenhwyfar - completou Elaine, piscando e engolindo em seco. - Bem, então...

- Ele pode pensar que você é Gwenhwyfar por algum tempo, mas descobrirá logo que não é. Você é virgem, não, Elaine?

O rosto da moça ficou vermelho, mas ela assentiu com a cabeça.

- Bem, depois da poção que eu lhe tiver dado, ele não poderá conter-se, a menos que você entre em pânico e tente afastá-lo. Vou logo avisando que não será muito agradável, já que vocé é virgem. Depois que eu começar, será impossível voltar atrás; portanto, diga agora se quer mesmo que eu comece.

- Quero Lancelote para marido, e Deus não permita que eu recue antes de ser sua esposa legítima.

- Que assim seja, então - suspirou Morgana. - Bem, você conhece o perfume que Gwenhwyfar usa...

- Conheço, mas não gosto, é muito forte para mim.

- Sou eu quem o fabrica para ela. Você sabe que eu conheço bem essas artes. Quando você for para a cama no pavilhão, deve colocar bastante desse perfume, no corpo e na roupa de cama. Isso fará com que Lancelote pense em Gwenhwyfar e se sinta excitado com essa lembrança.

A jovem franziu o nariz, com desgosto.

- Não parece muito certo...

- Não é certo. Decida-se de uma vez. O que estamos fazendo é desonesto, Elaine, mas há um certo bem nisso. O reino de Artur não pode manter-se por muito tempo, se todos souberem que o rei é um cornudo. Quando vocês estiverem casados, por algum tempo, e como Gwenhwyfar e você são muito parecidas, sem dúvida dirão que era você que ele amava, durante todo esse tempo. - Deu-lhe um frasco do perfume. - Se você tiver um criado em quem pode confiar, coloque-o no pavilhão, em algum lugar que Lancelote não veja, até esta noite.

- Até mesmo os padres aprovariam, sem dúvida, já que o estou afastando do adultério com uma mulher casada - sorriu Elaine. - Sou livre e posso casar.

Morgana teve um leve e tenso sorriso.

- É bom para você, se com isso pode tranqüilizar sua consciência. Alguns padres realmente dizem que o fim é tudo, e quaisquer meios usados justificam o fim. - Percebeu que Elaine ainda estava de pé à sua frente, como uma criança na aula. - Bem, Elaine, vá e mande Lancelote sair para um novo dia de caça ao dragão. Eu tenho de preparar as coisas.

Ficou a observá-los, enquanto partilhavam de uma taça e de um prato, no desjejum. Parecia-lhe que Lancelote gostava de Elaine - como poderia gostar de um cachorrinho amigo. Não seria cruel com ela, depois que estivessem casados.

Viviane tivera a mesma impiedade, não tivera escrúpulos de mandar um irmão deitar-se com a própria irmã...

Essa lembrança doía barbaramente em Morgana. Também isso é para a felicidade do reino, pensou, e quando saiu para procurar as ervas que seriam mergulhadas no vinho para preparar a poção que seria oferecida a Lancelote, tentou executar uma operação para a Deusa que unia os homens e as mulheres no amor, ou mesmo no simples impulso do desejo, como acontecia no cio dos animais.

Deusa, conbeço bastante o desejo..., pensou, e estendeu a mão para amassar as ervas, deixando-as cair no vinho.

Senti desejo por ele, embora não me quisesse dar o que eu estava pronta a receber.

Ficou sentada vendo as ervas ferverem no vinho, pequenas bolhas subiam, rompiam-se preguiçosamente e salpicavam essências amargas, que fumegavam à sua volta. O mundo parecia muito distante e pequeno; seu fogareiro era apenas um brinquedo de criança, e cada bolha que subia no vinho parecia tão grande que poderia ter flutuado lá dentro.

Todo o seu corpo doía com um desejo que sabia nunca seria satisfeito. Podia sentir que começava a entrar no estado em que era possível fazer magias poderosas.

Parecia-lhe estar, ao mesmo tempo, dentro e fora do castelo, que uma parte dela estava lá fora, nos montes, seguindo a bandeira do Pendragon que Lancelote levava por vezes... o grande dragão vermelho parecia torcer-se... mas não havia dragões, não aquele tipo de dragão, e o de Pellinore era sem dúvida apenas uma brincadeira, um sonho, tão irreal quanto o que flutuava nalgum lugar mais ao sul, sobre as muralhas de Camelot, um dragão inventado por um artista para a bandeira, tal como os desenhos que Elaine fazia para os tapetes. E Lancelote, obviamente, sabia disso. Perseguindo o dragão, ele estava apenas fazendo um agradável passeio pelos morros, no verão, seguindo um sonho e uma fantasia que lhe deixavam tempo para sonhar com os braços de Gwenhwyfar.

Morgana ficou olhando para o líquido que borbulhava no pequeno fogareiro, e, gota a gota, foi acrescentando mais vinho à mistura, para que não se evaporasse ao ferver. Lancelote sonharia com Gwenhwyfar, e naquela noite haveria uma mulher em seus braços, usando o perfume dela. Antes, porém, Morgana dar-lhe-ia a poção que estava preparando e que o deixaria à mercê do desejo, impedindo-o de parar, ao descobrir que tinha nos braços não uma mulher experimentada e sua amante, mas uma virgem temerosa... Por um momento, Morgana teve pena de Elaine, porque aquilo que preparava com tanto sangue-frio era, sem dúvida, algo muito parecido com um estupro. Por mais que ela desejasse Lancelote, era virgem e não tinha uma idéia precisa da diferença entre seus sonhos românticos com os beijos dele e aquilo que realmente a esperava - ser possuída por um homem demasiado excitado. Não importava o que aquilo representaria para ela, nem a coragem com que suportaria a prova, mas dificilmente o episódio poderia ser chamado de romântico.

Dei minha virgindade ao Gamo-Rei... aquilo foi diferente. Desde a infância eu sabia o que me esperava, tinha sido preparada e criada no culto daquela Deusa que junta o homem e a mulher, seja no amor ou no desejo... Elaine foi criada como cristã e aprendeu a pensar na força da vida como o pecado original, que condenou a humanidade à morte...

Pensou, por um instante, que deveria procurar Elaine, tentar prepará-la, procurar fazê-la ver aquilo como as sacerdotisas o viam: uma grande força da natureza, limpa e sem pecado, a ser recebida como uma corrente da vida que envolvia os participantes num turbilhão... mas Elaine julgaria isso um pecado ainda maior. Bem, então, ela teria de receber aquilo da maneira que quisesse; talvez seu amor por Lancelote pudesse fazê-la sair daquela experiência sem sofrer arranhões.

Morgana voltou novamente a atenção para o preparo das ervas e do vinho, e ao mesmo tempo sentiu que cavalgava pelos montes... o dia não estava muito bom para isso, o céu, escuro e cheio de nuvens, soprava um vento fraco, os montes estavam desnudos e tristes. Lá embaixo, o longo braço do mar que formava o lago parecia cinzento e insondável, como metal recém-forjado. E a superfície do lago começou a ferver um pouco, ou era a água do seu fogareiro? Bolhas escuras subiam e respingavam com um cheiro desagradável, e em seguida, subindo lentamente do lago, um pescoço comprido e fino, encimado por uma cabeça de cavalo, um corpo longo e sinuoso, torcendo-se na direção da margem... crescendo, arrastando-se até a praia.

Os cães de Lancelote corriam, lançando-se para a margem, latindo furiosamente. Ouviu-o chamá-los, exasperado; estava parado, olhando para a água, imobilizado, sem poder acreditar no que estava vendo. Em seguida, Pellinore soprou sua corneta chamando os outros, e Lancelote esporeou o cavalo e desceu em grande velocidade o morro, de lança em riste. Um dos cães deu um ganido lamentoso, depois houve silêncio, e Morgana, à distância em que se encontrava, viu a trilha curiosamente pegajosa onde jazia metade do corpo mutilado do cão que fora corroído por aquela substância escura e visguenta.

Pellinore também atacava, e Morgana ouviu o grito de advertência de Lancelote para que não investisse diretamente contra o dragão, que era escuro e semelhante a um enorme verme, com exceção da ridícula cabeça, que parecia cheia de crina de cavalo. Lancelote avançou contra ele, evitando a cabeça oscilante, e enfiou a longa lança diretamente no corpo.

Um grito estrondoso abalou a praia, um berro enlouquecido.

Morgana viu a grande cabeça oscilar freneticamente para a frente e para trás... Lancelote saltara do cavalo, que recuava, e corria na direção do monstro. A cabeça voltou-se para baixo, e a moça estremeceu vendo a bocarra a abrir-se... A espada de Lancelote perfurou o olho do dragão, provocando uma grande onda de sangue e de uma matéria negra e malcheirosa... e eram como as bolhas que subiam do vinho...

Seu coração batia com violência. Recuou um pouco, e provou do vinho não diluído que estava no frasco. Teria sido um pesadelo ou teria realmente visto Lancelote matar o dragão no qual nem ela mesma tinha acreditado? Ficou ali, parada, por algum tempo, dizendo-se que havia sonhado.

Em seguida, forçou-se a levantar-se, a acrescentar mais um pouco de funcho doce à mistura, para que seu sabor forte disfarçasse o gosto das outras ervas. E haveria, para jantar, carne bem salgada, para que todos sentissem sede, e bebessem muito vinho, especialmente Lancelote. Pellinore era um homem religioso - o que diria, se soubesse que todos em seu castelo ficariam sexualmente excitados. Não, Morgana devia fazer com que apenas Lancelote bebesse da mistura especial e talvez, por piedade, dá-la um pouco também a Elaine...

Colocou o vinho com ervas numa jarra e deixou-o de lado. Depois ouviu um grito, e Elaine entrou correndo.

- Ah Morgana, venha depressa, precisamos de você e de suas ervas. Papai e Lancelote mataram o dragão, mas estão ambos com queimaduras...

- Queimaduras? Que absurdo é esse? Você acredita que dragões voam e deitam fogo pela boca?

- Não, não - tornou Elaine com impaciência -, mas o monstro cuspiu uma substância viscosa sobre eles, que queima como fogo. Você precisa vir fazer-lhes curativos.

Sem acreditar, Morgana olhou para o céu lá fora. O sol pairava a apenas um palmo da linha do horizonte ocidental; ela ficara sentada ali a maior parte do dia. Caminhou depres sa, chamando as criadas para que trouxessem ataduras de linho.

Pellinore tinha uma grande queimadura no braço - sim, parecia-se muito com uma queimadura. O tecido de sua túnica fora corroído, e ele berrava enquanto Morgana lhe passava ungüento. Lancelote sofrera queimaduras leves, e numa das pernas a substância corroera suas botas, transformando o couro em apenas uma fina camada.

- Preciso limpar bem minha espada - disse ele. - Se isso pode destruir o couro da bota, pense o que teria feito com minha perna... - e estremeceu.

- Isso servirá de lição aos que consideravam meu dragão uma fantasia - disse Pellinore, levantando a mão e provando o vinho que sua filha lhe oferecia. - E graças a Deus tive a prudência de lavar o braço no lago, ou esse visgo me teria corroído a carne, tal como corroeu meu pobre cachorro. Você viu a carcaça dele, Lancelote?

- O cão? Sim, e espero não ver outra vez uma morte como aquela. Mas você poderá desmoralizá-los a todos, quando pendurar a cabeça do dragão no seu portão principal.

- Não posso - atalhou Pellinore, benzendo-se. - Não havia osso nela, apenas uma substância macia, como a de um verme. E já se transformou em visgo. Tentei cortar-lhe a cabeça, e o próprio ar parecia dissolvê-la. Não me parece que fosse um animal, mas sim alguma coisa vinda diretamente do inferno!

- Mas está morto, e você fez o que o rei mandou - aplaudiu Elaine -, acabando de uma vez por todas com o dragão do meu pai. - Em seguida, beijou o pai, com um terno pedido de desculpas: - Perdoe-me, pois também pensei que seu dragão fosse apenas imaginário...

- Quisera Deus que fosse - e Pellinore fez novamente o sinal-da-cruz. - Eu preferia ser motivo de riso, daqui até Camelot, a enfrentar novamente aquela coisa! Gostaria de acreditar que não existem mais bestas semelhantes. Gawaine conhece histórias de animais que vivem nos lagos distantes. - Fez um sinal ao criado, pedindo mais vinho. - Acho que farei bem em me embriagar esta noite, ou verei aquela coisa em pesadelos, durante um mês!

Será que fará?, perguntou-se Morgana. Não, pois se todos no castelo ficassem bêbados, isso não seria útil aos seus planos. Por isso, disse: - Sir Pellinore, para que eu trate de seus ferimentos, tem de me ouvir. Não pode beber mais, e deve deixar que Elaine o ponha na cama, com tijolos quentes nos pés. Perdeu um pouco de sangue e deve tomar sopa quente e leite, mas vinho, não.

Ele resmungou, mas parou de beber, e depois que a filha e os criados o levaram para o quarto, Morgana ficou sozinha com Lancelote.

- Então, qual seria a melhor maneira de comemorar a morte do dragão? - perguntou-lhe.

Lancelote levantou a taça e disse:

- Rezando para que seja o último. Realmente, achei que era chegada a minha hora. Prefiro enfrentar uma horda inteira de saxões tendo apenas meu machado!

- Que a Deusa permita que você não tenha outros encontros como esse - concordou Morgana, enchendo-lhe o copo com seu vinho temperado de ervas. - Preparei isto para você; é medicinal, e ajudará a sarar seus ferimentos. Preciso ir ver se Elaine instalou adequadamente o velho Pellinore.

- Mas você voltará, prima? - perguntou Lancelote, segurando-a levemente pela mão. O vinho começava a fazer efeito. E mais do que o vinho, o encontro com a morte deixa o homem disposto para o amor, pensou ela.

- Sim, prometo que volto. Agora, deixe-me ir - disse Morgana, sentindo amargura na alma.

Terei descido tanto a ponto de ter vontude de ficar com ele, drogado, sem saber? Elaine aceita-o desse jeito... por que é melhor para ela? Mas quer casar-se com ele, para o que der e vier. Eu não. Sou uma sacerdotisa, e sei que essa coisa que me queima por dentro não vem da Deusa, mas é ímpia... Serei tão fraca a ponto de aceitar as roupas velhas e os amantes velhos de Gwenhwyfar? E enquanto seu desprezo gritava não, a fraqueza em todo o seu corpo clamava sim, a tal ponto que se sentia enojada de si mesma, enquanto se dirigia, pelo corredor, até o quarto do rei Pellinore.

- Como está seu pai, Elaine? - Espantava-se com a firmeza de sua voz.

- Está calmo, agora, e creio que dormirá.

Morgana concordou com a cabeça.

- Agora você deve ir para o pavilhão, e mais tarde Lancelote irá ao seu encontro. Não se esqueça do perfume que Gwenhwyfar usa.

Elaine estava muito pálida, e seus olhos azuis brilhavam como fogo. Morgana tomou-lhe o braço, e ofereceu-lhe um pouco do vinho temperado com ervas, dizendo com voz trêmula:

- Beba isto primeiro.

Elaine levou a taça aos lábios e bebeu.

- Tem gosto doce, de ervas. É um filtro de amor?

O sorriso de Morgana não passou de um esgar.

- Pode dizer que é, se quiser.

- Estranho, queimou-me a boca, e está me queimando por dentro. Morgana, não é veneno? Você não está com raiva de mim, porque vou ser a esposa de Lancelote?

Morgana abraçou-a e beijou-a. Aquele corpo cálido em seus braços estimulou-a, fosse por desejo ou ternura, não sabia.

- Odiá-la? Não, prima, juro que não. Eu não queria Sir Lancelote para marido, nem que ele me implorasse de joelhos... Vamos, termine o vinho, minha querida. Perfume o corpo aqui, e aqui... Lembre-se do que ele quer de você. É você quem pode fazê-lo esquecer-se da rainha. Agora vá, espere por ele lá no pavilhão... - Voltou a abraçá-la e beijá-la. - Que a Deusa a abençoe.

Tão parecida com Gwenhwyfar! Lancelote já está meio enamorado dela, acho, apenas completei a obra...

Deu um suspiro longo e trêmulo, compondo-se para voltar ao salão e a Lancelote, que não hesitara em servir-se de mais vinho e levantava para ela uns olhos turvos.

- Ah, Morgana, minha prima... - Puxou-a, para que se sentasse ao seu lado. - Beba comigo...

- Não, agora não. Ouça bem, Lancelote. Tenho um recado para você.

- Um recado, Morgana?

- Sim. A rainha Gwenhwyfar veio visitar uns parentes, e está dormindo no pavilhão que fica depois do gramado. - Pegou-o pela mão e levou-o até a porta. - E mandou dizer-lhe que não deseja perturbar seus parentes, razão pela qual você deve ir ao encontro dela muito silenciosamente, lá onde está dormindo. Está bem?

Podia perceber a aura de embriaguez e de paixão nos olhos escuros.

- Não vi nenhum mensageiro, Morgana. Eu não sabia que você me queria bem...

Você não sabe o bem que lhe quero, primo. Quero que se case bem e abandone esse amor sem esperanças por uma mulher que só pode lhe trazer desonra e desespero...

- Vá - disse tranqüilamente -, sua rainha o espera. Se duvida de mim, eis a confirmação que ela lhe mandou.

Estendeu um lenço: era de Elaine, mas todos os lenços se parecem, e aquele tinha sido embebido no perfume de Gwenhwyfar. Lancelote levou-o aos lábios, murmurando:

- Gwenhwyfar... Onde, Morgana, onde.

- No pavilhão. Termine de beber o vinho...

- Você beberá à minha saúde?

- Depois - disse ela com um sorriso. Os passos de Lancelote eram um pouco incertos, e ele apoiou-se em Morgana, abraçando-a. Esse contato excitou-a, por mais leve que fosse. Desejo, luxúria animal, isso não é abençoado pela Deusa, disse para si mesma, violentamente. Lutou para se acalmar. Lancelote estava drogado como um animal, não se importaria, poderia possuí-la agora, sem mesmo saber direito o que estava fazendo, como teria possuído Gwenhwyfar ou Elaine... - Vá, Lancelote, não deve deixar sua rainha esperando.

Viu-o desaparecer nas sombras próximas do pavilhão. Entraria silenciosamente. Elaine estaria deitada lá, com a luz caindo-lhe sobre os cabelos dourados, tão parecidos com os da rainha, mas, na penumbra, Lancelote não poderia distinguir suas feições, e o corpo e a cama cheiravam a Gwenhwyfar. Atormentou-se, imaginando como o esguio corpo nu do homem que amava se introduziria sob as cobertas, como tomaria Elaine nos braços e a cobriria de beijos. Se aquela pequena tola tiver a presença de espírito de ficar calada até que ele tenha terminado...

Deusa! Afasta de mim a Visão, para que não veja Elaine em seus braços... Contorcendo-se, Morgana não sabia se era sua imaginação ou a Visão que a torturaram com a imagem do corpo nu de Lancelote, do contato de suas mãos, de que podia recordar-se perfeitamente... Voltou para o salão, onde os servos limpavam as mesas, e disse asperamente:

- Tragam-me um pouco de vinho.

Assustado, um homem serviu-lhe um copo. Agora, vão pensar que, além de feiticeira, sou também bêbada. Não se importava. Bebeu o vinho e pediu mais. Ele servia para afastar a Visão, libertá-la da lembrança de Elaine, atemorizada e extasiada, presa sob o corpo brutal e exigente de Lancelote...

Inquieta, como um felino na caça, ela caminhava pelo salão, enquanto a Visão lhe proporcionava vislumbres. Quando lhe pareceu chegado o momento oportuno, respirou profundamente, buscando forças para o que tinha a fazer em seguida. O criado pessoal que dormia junto da porta do quarto do rei acordou, quando Morgana se inclinou para despertá-lo.

- Senhora, não pode acordar o rei a esta hora...

- É assunto relacionado com a honra de sua filha.

Morgana tirou uma das tochas que estavam penduradas na parede e levantou-a. Sabia a impressão que estava causando, grande e terrível, assumindo as proporções dominadoras da Deusa. O homem afastou-se, aterrorizado, e ela entrou rapidamente.

Pellinore estava em sua grande cama, mexendo-se inquieto com a dor do ferimento. Também ele acordou sobressaltado, olhando para o rosto pálido de Morgana, com a tocha na mão.

- Venha rapidamente, meu senhor - disse ela numa voz tensa, com a paixão controlada. - É uma traição à sua hospitalidade... Pareceu-me que devia saber... Elaine...

- Elaine... O quê...

- Ela não está dormindo em nossa cama. Venha rapidamente, meu senhor.

Havia sido prudente em não deixar que ele bebesse mais: teria sido impossível despertá-lo, se estivesse dormindo pesadamente com a bebida. Assustado, sem acreditar, Pellinore vestiu-se às pressas, gritando pelas criadas de sua filha. Pareceu a Morgana que a seguiam pelas escadas e pela porta afora com a rapidez do dragão, um séquito no qual ela e Pellinore eram a cabeça da serpente. Abriu a cortina de seda do pavilhão, mantendo a tocha bem alta e observando com um triunfo cruel o rosto ultrajado do rei, iluminado pela chama. Elaine estava deitada com os braços em volta do pescoço de Lancelote, sorrindo, feliz. Ele, despertando com a luz, olhou à volta, espantado, tomando conhecimento das coisas, com o rosto agoniado ao perceber a traição. Mas não disse uma palavra.

- Agora você terá que fazer reparações, seu canalha lúbrico, você, que traiu minha filha... - gritou Pellinore.

Lancelote enterrou o rosto nas mãos, através das quais disse, com voz estrangulada:

- Ofereço a reparação, meu senhor Pellinore.

Depois, levantou o rosto e olhou Morgana nos olhos: ela enfrentou-lhe o olhar, sem titubear, mas foi como se uma espada lhe atravessasse o corpo. Antes daquilo, ele pelo menos a tinha amado como prima.

Bem, era melhor que a odiasse. Tentaria odiá-lo também. Mas ante o rosto sorridente e ao mesmo tempo envergonhado de Elaine, teve vontade de gritar e implorar o perdão de ambos.

 

Morgana fala...

Lancelote casou-se com Elaine na Transfiguração. Pouco me lembro da cerimônia, a não ser do rosto feliz e sorridente de Elaine. Quando Pellinore organizou o casamento, ela já sabia que tinha no ventre o filho de Lancelote, e, embora ele parecesse infeliz, magro e pálido de desespero, era carinhoso com ela e orgulhava-se do ventre que crescia. Lembro-me também de Gwenhwyfar, com o rosto inchado de chorar, e do olhar de ódio indisfarçável que me lançou.

- Pode jurar que isso não foi obra sua, Morgana?

Olhei-a bem nos olhos:

- Você nega à sua prima o direito a um marido, como você também tem o seu?

Não pôde me responder. E eu disse novamente a mim mesma: se ela e Lancelote tivessem sido sinceros com Artur e tivessem fugido juntos da corte, indo viver fora de seu reino, para que ele pudesse casar-se com outra mulher e ter um herdeiro para o trono, então eu não teria interferido.

Desde então Gwenhwyfar passou a odiar-me; e senti muito isso, pois eu gostava dela, de uma forma estranha. Gwenhwyfar pareceu-me não ter ficado com raiva de sua prima, pois mandou-lhe um rico presente e uma taça de prata quando o filho nasceu. Quando o menino foi batizado Galahad, em homenagem ao pai, ela quis ser a madrinha e jurou que ele seria o herdeiro do reino, se não tivesse um filho com Artur. E, naquele mesmo ano, anunciou que estava grávida, mas tudo não passou de sugestão - parece-me que era apenas seu desejo de ter um filho, sua imaginação.

O casamento não foi pior do que a maioria deles. Naquele ano, Artur teve de enfrentar uma guerra no litoral norte, e Lancelote passou pouco tempo em casa. Como muitos outros maridos, ele passava o tempo na guerra, visitando a casa duas ou três vezes por ano para ver suas terras - Pellinore dera-lhe um castelo próximo do seu -, para receber os novos mantos e camisas que Elaine tecia e bordava para ele - depois de casado, Lancelote vestia-se tão bem quanto o próprio rei - e para beijar o filho, mais tarde também as filhas, dormir uma vez, ou talvez duas, com a mulher, e depois partir novamente.

Elaine parecia estar sempre feliz. Não sei se realmente o seria, se era daquelas mulheres que se sentem sinceramente felizes com a casa e os filhos, ou se ansiava por mais do que isso, mas suportou corajosamente o trato que fizera comigo.

Quanto a mim, vivi na corte por mais dois anos. E, então, no Pentecostes do segundo ano, quando Elaine estava grávida pela segunda vez, Gwenhwyfar teve a sua vingança.

 

Capítulo 7

Como em todos os anos, o Pentecostes foi uma grande festa para Artur. Gwenhwyfar acordara ao alvorecer. Todos os Companheiros que haviam lutado ao lado de Artur deviam estar presentes, e naquele ano também Lancelote estaria ali... no ano anterior, não havia comparecido. Mandara dizer que estava na Bretanha Menor, atendendo a um chamado do pai, o rei Ban, que enfrentava problemas no seu reino. Mas Gwenhwyfar sabia, no íntimo, a razão da ausência de Lancelote, por que ele preferira ficar longe.

Não fora por ela ter-se recusado a perdoar seu casamento com Elaine. Morgana e suas feitiçarias tinham sido responsáveis por isso - Morgana, que gostaria de ter Lancelote para si, e não se deteria ante nada para separá-lo daquela a quem ele realmente amava. Preferia, em lugar de vê-lo nos braços de Gwenhwyfar, mandá-lo para o inferno ou para o túmulo, pensava a rainha.

Também Artur sentira muita falta do amigo, pelo que ela percebia. Embora ele se sentasse em seu alto trono de Camelot e distribuísse justiça a todos - era amado, e muito mais do que qualquer outro rei de que Gwenhwyfar ouvira falar -, ela percebia que se recordava sempre com saudade dos dias de guerras e conquistas, e concluiu que todos os homens eram assim. Artur levaria para o túmulo as cicatrizes dos ferimentos recebidos nas suas grandes batalhas. Quando haviam lutado, ano após ano, para impor a paz àquela terra, ele falava como se não desejasse senão o lazer para sentar-se em Camelot e desfrutar a tranqüilidade em seu castelo. Agora, sentia-se mais feliz quando conseguia reunir alguns de seus velhos camaradas à sua volta, e falar daqueles tempos difíceis, quando havia saxões, jutos e selvagens do norte por todos os lados.

Ficou olhando para Artur, adormecido a seu lado. Sim, ele ainda era o mais belo e bondoso de todos os velhos Companheiros.

Parecia-lhe, por vezes, mais delicado de feições e até mesmo mais bonito do que Lancelote, embora não fosse justo compará-los, sendo um tão moreno, e o outro, tão louro. E, afinal de contas, eram primos, eram do mesmo sangue... Como, pensou ela, podia Morgana ser também parenta deles? Talvez ela fosse filha das fadas, deixada em Avalon pelo malicioso povo encantado para espalhar o mal entre a humanidade... uma feiticeira formada em artes anticristãs. Também Artur estava manchado por essa origem, embora Gwenhwyfar tivesse conseguido levá-lo tantas vezes à missa, que ele já podia considerar-se cristão. Morgana também não gostava disso.

Bem, ela lutaria até o fim para salvar a alma de Artur! Amava-o bastante, era o melhor marido que uma mulher poderia querer, mesmo que não fosse rei, mas um simples cavaleiro. Sem dúvida, a loucura que se apossara dela tinha desaparecido havia muito. Era, portanto, natural e conveniente que ela pensasse com bondade no primo do marido. Ora, fora por vontade de Artur que ela pela primeira vez se deixara possuir por Lancelote. E agora tudo estava acabado, confessara-se e fora absolvida. O padre dissera-lhe que era como se o pecado nunca tivesse acontecido e que ela devia lutar para esquecer-se dele.

Mesmo assim, não podia deixar de recordar-se um pouco, naquela manhã em que Lancelote era esperado na corte com sua mulher e filho... Ele era um homem casado, e casado com sua prima. Não era apenas parente de seu marido, agora, mas também seu próprio parente. Podia recebê-lo com um beijo, sem que fosse pecado.

Artur virou-se, como se os pensamentos da esposa pudessem perturbá-lo, e sorriu para ela.

- É o dia de Pentecostes, minha querida, e todos os nossos parentes e amigos estarão aqui. Quero vê-la sorrir. - Gwenhwyfar sorriu, e ele abraçou-a, beijou-a e acariciou- lhe os seios. - Você tem certeza de que o que fizermos neste dia não será uma ofensa? Eu não gostaria que alguém pensasse que gosto menos de você. Você não é velha, Gwenhwyfar, e Deus ainda pode nos abençoar com filhos, se essa for sua vontade. Mas os reis vassalos me pedem; a vida é tão incerta, tenho de nomear um regente. Quando nosso primeiro filho nascer, querida, então será como se este dia não tivesse acontecido jamais, e estou certo de que o jovem Galahad não hesitará em concordar que o trono deve ser de seu primo, e o servirá e honrará, tal como Gawaine fez comigo...

Talvez fosse verdade, pensou Gwenhwyfar, entregando-se às carícias suaves do marido. A Bíblia contava casos assim: a mãe de João Batista, que era prima da Virgem - Deus lhe abrira o ventre muito depois de ter ela passado da idade de ter filhos. Ela, Gwenhwyfar, ainda não tinha trinta anos. Lancelote contara-lhe certa vez que sua mãe era mais velha do que ela, quando o deu à luz. Talvez desta vez, depois de todos aqueles anos, ela se levantasse da cama do marido levando novamente a semente de seu filho no corpo. E agora que tinha aprendido não só a sujeitar-se a ele, como era o dever de uma boa esposa, mas também a sentir prazer nesse contato, estava mais receptiva e mais pronta a conceber e ter um filho.

Três anos antes, ela pensara trazer no ventre o filho de Lancelote, mas alguma coisa não tinha dado certo. Por três meses, as regras lhe faltaram, e chegou a dizer a algumas de suas damas que estava grávida. Contudo, depois de outros três meses, quando deveria ter sentido os primeiros movimentos da criança, as regras voltaram... Mas agora, certamente, com o interesse que vinha sentindo desde que despertara para Artur, tudo correria como desejava. E Elaine não iria mostrar-se novamente superior a ela, triunfante... Elaine podia ter sido, por um breve período, a mãe do herdeiro do rei, mas ela, Gwenhwyfar, era a mãe do filho do rei.

Ela referiu-se a isso, mais tarde, quando estavam se vestindo, e Artur olhou-a, perturbado:

- A mulher de Lancelote manifestou algum desagrado em relação a você, Gwen? Sempre me pareceu que eram boas amigas.

- Somos, sim - disse Gwenhwyfar, contendo as lágrimas -, mas é sempre assim com as mulheres. Aquelas que têm filhos consideram-se melhores do que as mulheres estéreis. Sem dúvida, a mulher do camponês, ao dar à luz, pensa com desprezo e pena em sua rainha, que não pode dar ao rei nem mesmo um único filho.

Artur aproximou-se e beijou-a na nuca.

- Não, querida, não chore. Prefiro você a qualquer outra mulher que já me tivesse dado uma dúzia de filhos.

- É verdade? - perguntou, com um leve escárnio na voz. - Não obstante, eu era apenas uma coisa que meu pai deu para você, junto com cem cavalos e homens; apenas uma parte de um negócio. E você me aceitou porque queria os cavalos, mas não fui uma boa troca.

Ele levantou os olhos e fitou-a, com incredulidade:

- Você pensa e vem reagindo assim comigo durante todos esses anos, minha querida? Você sabe que, desde o primeiro momento em que a vi, tornou-se para mim a pessoa mais cara do mundo! - Gwenhwyfar estava rígida, com os olhos cheios de lágrimas, e ele beijou-a novamente. - Gwenhwyfar, minha cara, minha amada, minha querida esposa, nada no mundo poderia nos separar. Se eu quisesse apenas uma égua reprodutora para me dar filhos, Deus sabe que poderia ter quantas quisesse!

- Mas você não tem - respondeu ela, ainda rígida e fria nos braços de Artur. - Eu estava disposta a aceitar um filho seu para criar, como herdeiro. Mas você não me considerou digna disso... Foi você quem me empurrou para os braços de Lancelote.

- Ah, minha Gwen - suspirou, com o rosto triste como o de uma criança castigada -, você ainda me acusa por aquela velha loucura? Eu estava bêbado, e parecia-me que você gostava muito de Lancelote... Pensei que estaria lhe dando prazer, e, se assim fosse, que era por minha culpa que não tinha um filho. Pareceu-me que, se você tivesse um filho de alguém que estava tão próximo de mim, eu poderia considerá-lo meu próprio herdeiro. Mas, principalmente, eu estava bêbado...

- Por vezes, eu tinha a impressão de que você gostava mais de Lancelote do que de mim - tornou a rainha, com o rosto duro como pedra. - Poderá dizer com sinceridade que foi para me dar prazer, ou terá sido para dar prazer a ele, que você amava mais do que a tudo?

Artur deixou cair os braços que a envolviam, como se tivesse sido ferido.

- Será pecado, então, gostar de meu primo e pensar também no prazer que ele deseja? É certo que amo vocês dois...

- Na Sagrada Escritura fala-se de uma cidade que foi destruída por pecados assim.

Artur ficou branco como sua camisola.

- Gosto de meu primo Lancelote com toda a honra, Gwen. O próprio rei Davi escreveu, sobre seu primo Jónatas: "Teu amor foi para mim maravilhoso, superando o amor da mulher", e Deus não o castigou. Isso acontece com os camaradas de luta. Você ousará dizer que esse amor é pecado, Gwen? Eu o confessaria ante o trono de Deus...

Parou, incapaz de dizer qualquer coisa mais, com a garganta seca. Gwenhwyfar ouviu a própria voz, histérica:

- Você pode jurar que quando o trouxe para nossa cama... Eu vi bem, você o acariciou com mais amor do que jamais demonstrou para com a mulher que meu pai lhe impôs. Quando você me levou a isso, pode jurar que não foi seu próprio pecado, e que todas as suas justificativas não passaram de um disfarce para encobrir esse pecado, tão grande que atraiu o fogo celeste contra a cidade de Sodoma?

Ele a olhou fixamente, ainda com uma palidez mortal:

- Você está louca. Naquela noite eu estava bêbado, não sei o que você pode ter pensado que viu. Era Beltane, e a força da Deusa pesava sobre todos nós. Creio que todas as suas orações e preocupações com o pecado prejudicaram sua razão, Gwenhwyfar.

- Nenhum cristão diria isso!

- E essa é uma das razões pelas quais não gosto de me intitular cristão! - gritou ele em resposta, perdendo por fim a paciência. - Estou cansado de toda essa conversa de pecado! Se eu tivesse rejeitado você - e foram muitos os conselhos que recebi nesse sentido, e não o fiz porque a amava muito -, e tomado outra mulher...

- Não! Você preferia me dividir com Lancelote, e ter a ele também!

- Se você disser isso outra vez, esposa ou não, amor ou não, eu a matarei, Gwenhwyfar!

Ela, porém, soluçava histericamente, e não podia se conter:

- Você disse que queria um filho, por isso me levou a um pecado que Deus não pode perdoar. Se pequei e Deus me castigou com a esterilidade, não foi você então que me levou ao pecado? E mesmo agora, é o filho de Lancelote que você tem como herdeiro. Ousa dizer que não é ele que você mais ama, se faz do filho dele seu herdeiro, e não seu próprio filho; se você se recusa a trazer seu filho para que eu o crie...

- Vou chamar suas damas, Gwenhwyfar - disse ele, suspirando. - Você não sabe o que está dizendo. Juro-lhe que não tenho filho, ou, se tiver, será algum filho feito sem pensar, na época das batalhas, sem que a mulher me conhecesse, nem soubesse quem eu era. Nenhuma mulher, em lugar algum, de condição próxima da minha, jamais me procurou para dizer que lhe fiz um filho. Com ou sem padres, com ou sem pecado, não posso acreditar que uma mulher tivesse vergonha de reconhecer ter tido um filho do Grande Rei, que não tem herdeiros. Jamais forcei, nunca, nenhuma mulher, nem cometi adultério com mulher de outro. Que conversa louca é esta de um filho meu que você criaria como meu herdeiro? Digo-lhe que não tenho nenhum filho. Tenho pensado com freqüência se alguma enfermidade de infância, ou se o ferimento que recebi, não me tornaram estéril... Eu não tenho filho.

- Não! Isso é mentira! - gritou Gwenhwyfar, com ódio. - Morgana pediu-me que não falasse disso, mas há muito tempo, roguei-lhe um encantamento que me fizesse fértil. Eu estava desesperada, disse-lhe que me entregaria a outro homem, já que parecia impossível que você fosse capaz de engravidar-me. Naquela ocasião, ela jurou que você podia ter um filho, que ela conhecia um filho seu, criado na corte de Lot, mas obrigou-me a prometer que não falaria disso...

- Criado na corte de Lot... - repetiu Artur, levando a mão ao peito, como se sentisse ali uma dor insuportável. - Ah, Deus misericordioso!... E eu nunca soube...

Gwenhwyfar sentiu-se tomada de um súbito terror:

- Não, não, Artur, Morgana mentiu! Sem dúvida foi maldade dela, foi ela quem tramou o casamento de Lancelote com Elaine, porque estava com ciúmes... Sem dúvida, estava mentindo, para atormentar-me...

A voz de Artur estava distante, quando disse:

- Morgana é sacerdotisa de Avalon. Ela não mente. Acho, Gwenhwyfar, que teremos de perguntar-lhe. Mande chamá-la...

- Não, não - implorou Gwenhwyfar. - Sinto muito ter falado... Eu estava fora de mim, estava louca, como você disse... Ah, meu senhor e marido, meu rei, meu senhor, sinto muito pelo que disse! Peço que me perdoe... imploro-lhe...

Ele abraçou-a.

- É preciso que você também me perdoe, minha querida. Vejo agora que lhe fiz um grande mal. Mas quem semeia vento colhe tempestade, mesmo que ela destrua tudo... - Beijou-a gentilmente na testa. - Mande chamar Morgana.

- Ah, meu senhor Artur, peço-lhe... Eu prometi a ela que nunca falaria disso...

- Bem, agora você quebrou a promessa - disse Artur. - Eu lhe pedi que não continuasse falando, mas você insistiu, e agora o que foi dito não pode ser esquecido.

Dirigiu-se à porta e chamou seu camareiro:

- Diga à senhora Morgana que venha ver-me e à rainha o mais depressa possível.

Quando o camareiro saiu, Artur chamou a criada de Gwenhwyfar, que permaneceu imóvel durante todo o tempo em que foi vestida e penteada. Provou um pouco de água quente com vinho, mas tinha a garganta contraída. Proferira o imperdoável.

Mas se for verdade que esta manhã ele me fez um filho... e uma dor estranha penetrou-lhe o corpo, chegando a atingir-lhe o ventre. Seria possível que alguma coisa deitasse raizes em meia àquela amargura?

Pouco depois, Morgana chegava ao quarto, usando uma roupa vermelho-escura, com o cabelo atado com fitas de seda vermelha: vestira-se bem para a festa e parecia animada e brilhante:

E eu não passo de uma árvore sem frutos, pensou Gwenhwyfar. Elaine tem um filho de Lancelote; até mesmo Morgana, que não tem marido e não quer ter, agiu como prostituta e teve um filho de um desconhecido, e Artur é pai de um filho de mulher desconhecida... mas eu, eu não tenho nada.

Morgana beijou-a, mas Gwenhwyfar permaneceu rígida durante o abraço. Depois, voltando-se para Artur, perguntou:

- Você mandou chamar-me, irmão?

- Sinto muito incomodá-la assim tão cedo, irmã. Mas, Gwenhwyfar - disse voltando-se para a rainha -, você deve repetir agora, na minha presença e na de Morgana, o que disse. Não admito que se repitam calúnias secretas em minha corte.

Morgana olhou para a cunhada e viu as marcas de lágrimas em volta de seus olhos vermelhos.

- Querido irmão - volveu, então -, a rainha está doente. Está novamente grávida? E se disse alguma coisa, há um ditado segundo o qual as palavras não quebram ossos.

Artur olhou friamente para a esposa, e Morgana recuou: não era o irmão que conhecia bem, era o rosto fechado do Grande Rei, quando se sentava no trono para distribuir justiça.

- Gwenhwyfar, não só como seu marido, mas também como seu rei, ordeno-lhe: repita na frente de Morgana aquilo que você disse, aquilo que ela lhe contou, ou seja, que tenho um filho sendo criado no reino de Lot.

Então é verdade, pensou Gwenhwyfar numa fração de segundo. Nunca antes, exceto quando Viviane fora assassinada à sua frente, o rosto de Morgana perdera a calma e a serenidade de uma sacerdotisa... É certo então que isso a atinge profundamente, de alguma forma... mas porquê?

- Morgana - insistiu Artur -, diga-me: isso é verdade? Eu tenho um filho?

Por que isso atinge Morgana? Por que ela desejava esconder esse fato até mesmo de Artur? Poderia querer esconder suas devassidões, mas por que esconder de Artur o fato de que ele tem um filho? E então um vislumbre da verdade cruzou-lhe a mente, e ela teve uma exclamação de espanto..

Uma sacerdotisa de Avalon não mente, pensou Morgana. Mas fui expulsa de Avalon, e por essa razão, e a menos que nada disso tenha sentido, terei de mentir, e mentir bem e depressa...

- Quem foi? - indagou Gwenhwyfar com ódio. - Uma das sacerdotisas prostitutas de Avalon que se deitam com homens em pecado e luxúria nos seus festivais demoníacos?

- Você nada sabe de Avalon - retrucou a cunhada, tentando controlar a voz. - Suas palavras são como o vento, sem sentido...

Artur segurou-a pelo braço, dizendo:

- Morgana, minha irmã... - E ela teve a impressão de que ia chorar... como ele chorara em seus braços, naquela manhã, ao tomar conhecimento de que Viviane armara uma cilada para ambos...

Morgana tinha a boca seca e os olhos brilhantes:

- Falei de seu filho... apenas para consolar Gwenhwyfar, Artur. Ela tinha medo de que você não pudesse lhe fazer um filho.

- Você devia ter dito isso para confortar a mim - gritou Artur, com um ricto nos lábios que dificilmente poderia ser chamado de sorriso. - Durante todos esses anos pensei que não podia gerar um filho, nem mesmo para salvar meu reino. Morgana, agora você tem de dizer a verdade.

Morgana suspirou profundamente. No silêncio mortal do quarto, podia-se ouvir um cão latindo em algum lugar, além da janela, e algum inseto fazendo ruído. Por fim, decidiu-se:

- Em nome da Deusa, Artur, já que você quer que eu diga, tive um filho do Gamo-Rei dez luas depois de você ter sido celebrado na ilha do Dragão. Morgause está tomando conta dele, e jurou-me que você nunca saberia disso, por ela. Agora, você soube de tudo por meu intermédio. Que isso fique entre nós.

Artur estava branco como a morte. Abraçou-a, e Morgana sentiu que ele tremia. As lágrimas corriam-lhe pelo rosto, sem que procurasse enxugá-las, nem contê-las.

- Ah, Morgana, Morgana, minha pobre irmã... Eu sabia que lhe havia feito um grande mal, mas nunca poderia ter sonhado que fora tão grande assim...

- Você quer dizer que é verdade! - gritou Gwenhwyfar. - Essa prostituta vagabunda que é sua irmã é tão vil que praticou suas artes imundas contra o próprio irmão.

Artur voltou-se para ela, com um braço ainda nos ombros de Morgana, e disse-lhe numa voz que ela nunca havia ouvido antes:

- Cale-se!

Suspirou profundamente, e Gwenhwyfar teve tempo de ouvir o eco de suas palavras feias.

- Minha pobre irmã - continuou Artur. - E você carregou sozinha esse peso, nunca me chamou à responsabilidade. Não, Gwenhwyfar - e voltou-se para ela, num tom severo -, não é o que você está pensando. Foi na cerimônia em que fui feito rei, e nenhum de nós conhecia o outro. Estava escuro, não nos víamos desde que eu era tão pequeno que Morgana podia carregar-me no colo. Para mim, ela era apenas a sacerdotisa da Mãe, e para ela eu era apenas o Galhudo. Quando nos reconhecemos, era tarde demais - e sua voz havia dominado as lágrimas. Ficou abraçado a Morgana, dizendo: - Morgana, Morgana, você devia ter-me contado!

- E você só pensa nela! - exclamou Gwenhwyfar. - Não pensa no maior dos pecados que cometeu. Ela é sua irmã, filha do ventre de sua mãe, e Deus o castigará por isso...

- Já me castigou realmente - admitiu Artur, abraçado a Morgana. - Mas o pecado foi inconsciente, sem nenhuma intenção de fazer mal.

- Talvez seja por isso - e Gwenhwyfar hesitou - que ele puniu você com a esterilidade, e mesmo agora, se você se arrepender e fizer penitência...

Morgana soltou-se delicadamente dos braços do rei, enquanto Gwenhwyfar, com um ódio que não lhe permitia falar, observava-a secar as lágrimas de Artur com um lenço, num gesto quase distraído, o gesto de mãe ou de uma irmã mais velha, sem nenhuma sombra da depravação que queria ver nela.

- Gwenhwyfar, você se preocupa demais com o pecado. Não cometemos nenhum pecado, Artur e eu. O pecado é a intenção de fazer mal. Nós nos juntamos pela vontade da Deusa, das forças da vida, e se disso nasceu uma criança, então foi gerada no amor, qualquer que tenha sido o motivo de nossa união. Artur não pode reconhecer um filho gerado no corpo de sua própria irmã, é verdade. Mas ele não é o primeiro rei a ter um filho bastardo, cuja existência não pode reconhecer. O menino é sadio e está bem e em segurança em Avalon. A Deusa, e também o seu Deus, não são demônios vingativos, ansiosos para impor castigos por pecados imaginários. O que aconteceu entre nós dois não devia ter acontecido, nenhum de nós o teria desejado, mas aconteceu. A Deusa não castigaria você com a esterilidade pelos pecados de outro. Você pode culpar Artur pela sua própria esterilidade, Gwen?

- Culpo! - gritou ela. - Artur pecou, e Deus o castigou, por incesto, por fazer um filho na própria irmã, por servir à Deusa, aquele demônio da abominação e da luxúria... Artur, diga-me que fará penitência, que irá, neste dia santo, confessar ao arcebispo que pecou, e fazer as penitências que ele recomendar, e então talvez Deus o perdoe e deixe de nos castigar a ambos!

Perturbado, Artur olhou a irmã e Gwenhwyfar.

- Penitência? - perguntou Morgana. - Pecado? Você realmente acredita que seu Deus é um velho maldoso, que anda espionando para ver quem se deita na cama da mulher de outrem?

- Eu confessei os meus pecados - gritou Gwenhwyfar. - Fiz penitência e fui absolvida, não é pelos meus pecados que Deus nos castiga! Diga que você se confessará, Artur! Quando Deus lhe deu a vitória no monte Badon, você jurou deixar de lado a velha bandeira do dragão e governar como um rei cristão, mas não confessou esse pecado. Penitencie-se agora também disso e deixe que Deus lhe dê a vitória neste dia, tal como fez no monte Badon. Livre-se de seus pecados e dê-me um filho que possa reinar depois de você em Camelot!

Artur apoiou-se na parede, cobrindo o rosto com as mãos. Morgana quis aproximar-se dele, mas Gwenhwyfar gritou:

- Afaste-se dele, sua... ! Quer continuar a tentá-lo ao pecado? Já não lhe causou mal suficiente, você e aquele demônio que chama de Deusa, você e aquela feiticeira velha que Balim fez bem em matar, devido às suas bruxarias pagãs...?

Morgana fechou os olhos; seu rosto denunciava que ela estava prestes a chorar. Controlou-se e suspirou:

- Não posso ouvir você amaldiçoar minha religião, Gwenhwyfar. Nunca praguejei contra a sua, lembre-se disso. Deus é Deus, qualquer que seja o nome pelo qual é chamado, e é sempre bom. Considero pecado acreditar que Deus possa ser cruel ou vingativo, e você o torna mais mesquinho do que o pior dos seus padres. Peço-lhe que pense bem no que está fazendo, antes de colocar Artur nas mãos dos padres, com isso.

Ela voltou-se, seu vestido vermelho rodou silenciosamente à sua volta, e deixou o quarto.

Ao sentir a partida de Morgana, Artur virou-se para Gwenhwyfar e disse, finalmente, com uma suavidade que jamais usara com ela, mesmo quando se abraçavam:

- Meu querido amor...

- Como pode me falar assim? - retrucou ela amargamente, e afastou-se. Artur seguiu-a, colocando a mão em seu ombro e fazendo que ela se voltasse, para enfrentá-lo.

- Minha querida senhora e rainha, ter-lhe-ei feito tanto mal assim?

- Agora mesmo - respondeu ela tremendo -, agora mesmo, tudo o que você pode fazer é pensar no mal que causou a Morgana...

- E deveria eu estar feliz pelo que causei à minha própria irmã? Juro que de nada sabia, e, quando a reconheci, foi ela quem me reconfortou, como se eu ainda fosse o menininho que se sentava em seu colo... Acho que, se ela se tivesse voltado contra mim, acusando-me, como tinha todo o direito de fazer, eu teria me afogado no lago. Mas nunca pensei no que poderia acontecer com ela... Eu era tão jovem, e havia saxões e todas aquelas batalhas... - Estendeu as mãos, indefeso. - Tentei fazer o que ela me tinha dito, não pensar nisso, recordar-me apenas de que havíamos agido na ignorância. Ah, talvez fosse pecado, mas eu não quis cometer um pecado...

Parecia tão infeliz que, por um momento, Gwenhwyfar sentiu-se tentada a dizer-lhe o que desejava ouvir, que realmente nada fizera de mau, tomá-lo nos braços e consolá-lo.

Mas permaneceu imóvel. Artur nunca a consolara, nunca havia admitido que cometera um erro com ela; e ainda agora, tudo o que fazia era insistir em que o pecado, pelo qual haviam ficado sem filhos, não era pecado; sua preocupação era apenas com o mal causado àquela maldita feiticeira, sua irmã! Disse então, furiosa e chorando novamente, porque ele pensaria que chorava de mágoa e não de raiva:

- Acha que você só causou mal a Morgana?

- Não me parece ter feito mal a mais ninguém - repetiu ele, teimosamente. - Gwenhwyfar, quando isso aconteceu, eu nunca a tinha visto!

- Mas você casou-se comigo, trazendo esse grande pecado inconfessado, e ainda agora você se apega a ele, quando podia livrar-se, fazer penitência e acabar com esse castigo!

- Gwenhwyfar, se seu Deus é capaz de castigar alguém por um pecado que não sabia ter cometido, iria então suspender esse castigo se eu contasse tudo a um padre e recitasse as orações que ele me recomendasse, e não sei mais o quê... ficar apenas a pão e água durante certo tempo, ou o que mais... ?

- Se você se arrepender sinceramente...

- Oh, Deus, e você pensa que não me arrependi? - explodiu ele. - Arrependo-me todas as vezes que olho para Morgana, durante esses doze anos! E meu arrependimento seria mais forte se eu o confessasse a um desses padres que querem apenas ter poder sobre o rei?

- Você pensa apenas no seu orgulho - teimou Gwenhwyfar com raiva -, e o orgulho também é um pecado. Se você se humilhasse, Deus o perdoaria!

- Se seu Deus é assim, não quero seu perdão! - exclamou Artur, fechando as mãos. - Tenho de governar o reino, Gwen, e não poderia fazer isso, se me ajoelhasse ante um padre e aceitasse tudo o que ele quisesse me impor como penitência! E tenho de pensar em Morgana. Ela já é chamada de feiticeira, prostituta, bruxa! Não tenho o direito de confessar um pecado que atrairá o desprezo público e a vergonha para minha irmã.

- Também Morgana tem uma alma a ser salva, e se o povo desta terra compreender que seu rei pode colocar o orgulho de lado e pensar em sua alma, que se arrepende humildemente de seus pecados, isso contribuirá para que também o povo salve sua própria alma para a salvação do próprio rei, no céu.

- Você argumenta tão bem como qualquer padre conselheiro, Gwenhwyfar - suspirou ele. - Não sou padre, não me preocupo com a alma de meu povo...

- Como ousa dizer isso? - protestou. - Assim como o rei está acima de todo o povo, e a vida de seus súditos está em suas mãos, também a alma deles é de sua responsabilidade! Você devia ser o primeiro em piedade, como é o primeiro em coragem, no campo de batalha! O que pensaria de um rei que mandasse seus soldados para a luta e ficasse protegido, olhando-os de longe?

- Não pensaria boa coisa - disse Artur. Gwenhwyfar, sabendo que agora o tinha na mão, continuou:

- E o que pensaria de um rei que visse seu povo adotar uma vida de piedade e virtude, e dissesse que não pensava nos próprios pecados?

- Por que você se preocupa tanto? - perguntou ele tristemente.

- Porque não suporto imaginar que você vai sofrer o fogo do inferno... E se você libertar-se do pecado, Deus poderá deixar de castigar-nos e de nos negar filhos.

Sentiu-se, então, sufocar, e recomeçou o pranto. Artur abraçou-a e encostou a cabeça dela em seu ombro, dizendo suavemente:

- Você realmente acredita nisso, minha rainha? - Gwenhwyfar lembrou-se de que muito antes, quando Artur recusara pela primeira vez levar a bandeira da Virgem em batalha, falara-lhe da mesma forma. E, naquela ocasião, tinha vencido e conseguira levá-lo para Cristo, sendo recompensado por Deus com a vitória. Mas, então, ela não sabia desse pecado inconfessado na alma do marido. Fez um gesto de assentimento com a cabeça: - Então eu também lhe fiz mal, e lhe devo alguma forma de reparação. Mas não me parece certo que Morgana tenha de sofrer a vergonha disso.

- Sempre Morgana - protestou Gwenhwyfar, tomada de raiva. - Você não quer que ela sofra, ela é perfeita a seus olhos. Diga-me, então, é justo que eu sofra pelo pecado que ela cometeu, ou você? Você a ama mais do que a mim, a ponto de deixar-me sem filhos por toda a vida, para que esse pecado fique em segredo?

- Mesmo que eu tenha agido errado com você, Morgana não tem culpa.

- Não, ela também é culpada - exclamou Gwenhwyfar -, pois ela é fiel àquela Deusa antiga, e os padres dizem que essa Deusa é a mesma serpente do mal que Nosso Senhor expulsou do Jardim do Éden! Ainda hoje, Morgana se apega a esses rituais imundos e pagãos. Sim, Deus nos diz que os pagãos que não ouviram a voz do Senhor podem ser salvos. Mas e Morgana, que foi criada no seio de uma família cristã, e depois adotou os costumes e as bruxarias de Avalon? E todos esses anos passados aqui na corte, durante os quais ela ouviu a palavra de Cristo? Não está escrito que aqueles que ouvirem a palavra de Cristo e não se arrependerem e acreditarem nele serão condenados? Especialmente as mulheres, que precisam do arrependimento, já que é por meio da mulher que o pecado entrou neste mundo.

Gwenhwyfar soluçava tão forte que mal podia falar. Por fim, Artur perguntou-lhe:

- O que você quer que eu faça, Gwenhwyfar?

- Hoje é o dia santo de Pentecostes - sugeriu, enxugando as lágrimas e tentando controlar os soluços -, quando o espírito de Deus desceu até o homem. Você iria à missa e tomaria os sacramentos com esse grande pecado na alma?

- Acho... acho que não poderia - admitiu Artur, com voz incerta. - Se você realmente acredita nisso, Gwenhwyfar, não posso recusar-lhe tal satisfação. Arrepender-me-ei tanto quanto puder me arrepender por uma coisa que não posso considerar como pecado, e farei as penitências que o bispo me impuser. - Seu sorriso era apenas uma contração preocupada dos lábios. - Espero, para sua felicidade, que tenha razão quanto à vontade de Deus, minha querida.

E Gwenhwyfar, ao abraçá-lo, chorando de gratidão, teve um momento de dúvida e medo terríveis. Lembrou-se das horas passadas na casa de Meleagrant, com a certeza de que nem suas orações poderiam salvá-la. Deus não a recompensara pela sua virtude, e quando Lancelote a salvou, não tinha jurado que nunca mais se esconderia nem se arrependeria, porque um Deus que não-lhe recompensara a virtude certamente não podia punir seus pecados. Deus não se importava com a virtude ou o pecado...

Mas Deus realmente a castigara, afastando dela Lancelote, dando-o a Elaine, e apesar de ter colocado em risco a alma, ela nada conquistara... Havia confessado e feito penitências, mas Deus continuou a castigá-la. E agora, sabia que talvez não fosse por sua culpa, mas também pelo peso do pecado de Artur, o pecado cometido com a irmã. Mas se fossem libertados desse pecado, se ele fizesse penitênciaspelo grande crime inconfessado, se pudesse humilhar-se, então, sem dúvida, Deus também o perdoaria...

Artur beijou-a no alto da cabeça e afagou-lhe os cabelos. Afastou-se em seguida, e ela sentiu-se fria e perdida, quando o viu distante, como se não estivesse segura dentro de quatro paredes, mas lá fora, a céu aberto, com aquele céu imenso, assustador, que a enchia de pavor. Aproximou-se novamente dele, quis refugiar-se em seus braços, mas Artur deixara-a cair numa cadeira, exausto, vencido, mil léguas longe dela.

Por fim, ele levantou a cabeça e disse, com um suspiro profundo:

- Mande chamar o padre Patrício.

 

Capítulo 8

Quando Morgana deixou Artur e Gwenhwyfar em seu quarto, apanhou um manto e deixou o castelo, sem se preocupar com a chuva. Foi para as ameias altas, e por ali caminhou, sozinha. As tendas dos seguidores e Companheiros de Artur, dos reis menores e vassalos enchiam todo o espaço existente no planalto onde se situava Camelot, e, mesmo na chuva, todas as bandeiras e pendões flutuavam brilhantemente. O céu, porém, estava negro e pesado de nuvens baixas, que quase pareciam tocar o alto do morro. Andando, inquieta, Morgana pensou que o Espírito Santo poderia ter escolhido um dia melhor para descer sobre seu povo - especialmente sobre Artur.

Ah, Gwenhwyfar não lhe daria descanso agora, até que ele se entregasse nas mãos dos padres. E o que seria de seu juramento a Avalon?

Mas se fosse destino de Gwydion sentar-se um dia no trono de seu pai, se fora isso o que Merlim tinha planejado... nenhum homem poderia fugir ao destino. E Morgana pensou, sem nenhuma alegria: E nenhuma mulher também. Taliesin, que conhecia muitas músicas e muitas histórias antigas, contara-lhe, certa vez, de um velho povo que vivia no sul, na Terra Santa ou em algum lugar próximo dali, e entre o qual havia um homem nascido sob a maldição de que um dia viria a matar o pai e casar-se com a própria mãe. Os pais, ouvindo a maldição, abandonaram-no num lugar distante, para que ele morresse. Foi, porém, criado por estranhos, e certo dia, encontrando-se com o pai sem o reconhecer, brigou com ele, matou-o, e casou-se com a viúva. Assim, o recurso que tinham usado para tentar evitar a maldição acabou por levar à sua concretização: se ele tivesse sido criado com a família, não teria feito o que fez por ignorância.

Ela e Artur haviam se unido na ignorância, também, e não obstante a fada amaldiçoara seu filho: Deite fora seu filho ou mate-o ao nascer; o que acontecerá com o Gamo-Rei, quando o gamo novo crescer? E todo o mundo à sua volta parecia tornar-se cinzento e estranho, como se tivesse penetrado as brumas de Avalon, e havia um estranho zumbido em seu cérebro.

Parecia haver ruídos de armas e choques à sua volta, ensurdecendo-a... Não, eram os sinos da igreja, tocando para a missa. Morgana também ouvira dizer que o povo das fadas não suportava o som dos sinos das igrejas, e fora por isso que se refugiara nos montes distantes, e nos lugares ocos... Pareceu-lhe impossível ir sentar-se tranqüilamente, como sempre fizera e restar atenção cortesmente, porque as damas da rainha devem dar exemplo a todas as outras. As paredes poderiam sufocá-la, e o murmúrio dos padres e a fumada do incenso a enlouqueceriam. Era melhor ficar ali fora, na chuva límpida. Cobriu a cabeça com o capuz; as fitas de seus cabelos estavam todas molhadas, provavelmente estragadas. Pegou-as, e seus dedos mancharam-se de vermelho: eram mal tingidas, apesar de o material custar muito caro.

A chuva, porém, diminuiu um pouco, e as pessoas começavam a andar nos espaços entre as tendas.

- Não haverá jogos hoje - disse uma voz atrás dela -, caso contrário, eu lhe pediria uma dessas fitas que está jogando fora, para levá-la na batalha como um pendão de honra, senhora Morgana.

Morgana assustou-se e tentou recompor-se. Um jovem esguio e de cabelos negros, de olhos também escuros, com um ar familiar, que ela não conseguiu identificar perfeitamente.

- Não se recorda de mim, senhora? - reclamou ele, num tom acusador. - E disseram-me que tinha apostado uma fita no meu sucesso, num desses combates simulados, há um ou dois anos, ou terão sido três?

Lembrou-se, então: era o filho do rei Uriens de Gales do Norte. Acolon, era o seu nome; e ela apostara com uma das damas da rainha, que afirmava ser impossível vencer Lancelote... Nunca se interessara em saber o resultado da aposta: foi no Pentecostes em que Viviane fora assassinada.

- Lembro-me, sim, Sir Acolon. Mas, como há-de recordar-se, aquela festa de Pentecostes terminou numa morte tão brutal, a de minha mãe adotiva...

Ele mostrou-se constrangido.

- Então devo pedir-lhe perdão por ter lembrado uma ocasião tão triste! E suponho que haverá outros combates simulados antes de nossa partida, já que não há mais guerras. Meu senhor Artur deseja mostrar que suas legiões ainda são capazes de defender-nos a todos.

- Não parece haver necessidade de defesa - respondeu ela. - Até mesmo os selvagens do norte voltam-se hoje para outros lugares. Você sente falta dos dias de batalhas e glórias?

Ele tem um sorriso bonito, pensou Morgana.

- Lutei no monte Badon. Foi minha primeira batalha, e quase a última. Creio que prefiro os combates simulados e os torneios. Lutarei, se for necessário, mas é melhor brincar de luta com amigos que não querem nos matar, próximo de belas damas que nos observam e admiram. Nas batalhas verdadeiras, minha cara senhora, não há ninguém para admirar a coragem, e, na verdade, há mesmo pouca coragem, por mais que se fale nela...

Enquanto conversavam, aproximaram-se da igreja, e agora o som dos sinos quase sufocava a voz dele - uma voz agradável, musical, pensou Morgana. Ficou imaginando se ele tocaria harpa. E, então, alheou-se de repente do som dos sinos.

- Não vai à missa hoje, senhora Morgana?

Ela sorriu, olhou para os pulsos de Acolon, onde havia serpentes entrelaçadas. Passou o dedo, levemente, sobre elas.

- E você vai?

- Não sei. Pensei em ir, talvez para ver os amigos... Não, acho que não - acrescentou, sorrindo para ela -, agora que tenho uma moça para conversar comigo.

Ela disse, dando à voz um tom de ironia:

- Você não tem medo de perder sua alma?

- Ora, meu pai é bastante religioso por nós dois. Ele agora não tem mulher, e sem dúvida deseja estudar o terreno para sua nova conquista. Ele ouviu bem o Apóstolo e sabe ser melhor casar-se do que queimar-se, e estou certo de que se sente queimar com mais freqüência do que seria digno num homem de sua idade...

- Você perdeu sua mãe, Sir Acolon?

- Sim, antes de ser desmamado. E perdi também uma, duas, três madrastas. Meu pai tem três filhos vivos, e não precisa de mais herdeiros. É, porém, demasiado religioso para levar uma mulher para a cama sem se casar; por isso, terá de arranjar uma esposa. E até mesmo meu irmão mais velho é casado e tem um filho.

- Você nasceu quando ele já era velho?

- Digamos, quando estava na meia-idade. E não sou tão jovem assim! Se não tivesse havido uma guerra, quando eu era mais jovem, poderia ter sido destinado a Avalon. Meu pai, porém, tornou-se cristão, depois de velho.

- Não obstante, você traz as serpentes tatuadas.

- E conheço um pouco de sua sabedoria, embora não o bastante para me satisfazer. Nos dias de hoje, não há muito o que fazer para um filho mais novo. Meu pai disse-me que iria procurar uma esposa para mim, nesta festa - comentou com um sorriso. - Gostaria que você fosse filha de algum senhor menos importante.

Morgana corou como uma menina:

- Ora, sou velha demais para você. E sou apenas meia irmã do rei, pelo primeiro casamento de minha mãe. Meu pai era o duque Gorlois, o primeiro homem que Uther Pendragon matou como traidor...

Houve um breve silêncio antes que Acolon dissesse:

- Nos dias de hoje, talvez seja perigoso usar as serpentes... Ou virá a ser, se os padres se tornarem mais poderosos. Quando Artur subiu ao trono, ouvi dizer que ele tinha o apoio de Avalon, e que o Merlim lhe deu a espada das Sagradas Insígnias. Agora, porém, ele tornou-se cristão. Meu pai tinha manifestado o receio de que Artur levasse o país de volta ao domínio druida, mas parece que isso não aconteceu...

- É certo - disse ela, e por um momento sentiu-se sufocada pela raiva. - Mas, mesmo assim, ele ainda usa a espada druida...

Acolon olhou-a atentamente.

- E você usa a cruz de Avalon.

Morgana corou. Todos tinham entrado na igreja, e as portas estavam fechadas.

- Está chovendo mais forte, senhora Morgana. Vai molhar-se e ficar resfriada. Deve entrar. Mas virá sentar-se ao meu lado, no banquete, hoje?

Ela hesitou, sorrindo. Era certo que Artur e Gwenhwyfar não desejariam sua companhia, naquele dia.

Ela, que deve se lembrar do que foi ser vítima da luxúria de Meleagrant... poderia culpar-me, ela, que se consolou nos braços do melhor amigo de seu marido? Não, não foi estupro, nada parecido, mas ainda assim fui entregue ao Galhudo, sem que ninguém me perguntasse se era aquilo o que eu desejava... Não foi o desejo que me levou a deitar-me com meu irmão, mas a obediência à vontade da Deusa...

Acolon continuava esperando a resposta, com a ansiedade no rosto. Se eu quisesse, ele me beijaria, me imploraria o favor de uma única carícia. Tinha certeza disso, e tal pensamento era confortante para seu orgulho. Sorriu para ele, um sorriso que o deixou tonto.

- Irei, sim, se pudermos nos sentar longe de seu pai.

De súbito, lembrou-se de que Artur a havia olhado daquela maneira. É isso o que Gwenhwyfar teme. Ela sabe o que eu não sabia, que, se estender a mão para Artur, posso fazer que ele esqueça tudo o que foi dito por ela, pois Artur gosta mais de mim. Não sinto desejo por ele, quero-o apenas coma a um irmão, mas ela ignora isso. Ela teme que eu faça um gesto, e, com as artes secretas de Avalon, volte a levá-lo para a minha cama.

- Peço-lhe, vá para casa e mude o seu... o seu vestido - recomendou-lhe Acolon, preocupado, e Morgana sorriu para ele novamente, apertando-lhe a mão.

- Nós nos veremos no banquete.

 

Durante toda a missa, Gwenhwyfar ficou sentada sozinha, procurando controlar-se. O arcebispo pregou o habitual sermão de Pentecostes, falando da descida do Espírito Santo, e ela pensou: Se Artur pelo menos se arrepender de todos os seus pecados e tornar-se cristão, então terei de dar graças ao Espírito Santo por ter descido sobre nós dois, hoje. Deixou que os dedos tocassem disfarçadamente o ventre; tinham-se deitado juntos naquele dia, e era possível que, na Candelária, tivesse nos braços o herdeiro do reino... Olhou para o lugar onde Lancelote estava ajoelhado ao lado de Elaine. Notou, com ciúme, que a cintura dela já estava novamente cheia. Outro filho, ou filha. E agora Elaine orgulhava- se, ao lado do homem que amara tanto tempo, e tão bem, do filho que deveria ter sido meu... bem, devo inclinar a cabeça e humilhar-me por algum tempo, não me fará nenhum mal fingir que acredito que o filho dela substituirá Artur no trono... Ah, sou uma pecadora, disse a Artur que ele precisava humilhar-se, e eu mesma estou cheia de orgulho.

A igreja estava cheia, como sempre numa missa de dia santo. Artur estava pálido e calado; conversara com o bispo, mas sem tempo para maiores detalhes, antes da missa. Ajoelhada ao lado dele, Gwenhwyfar sentia que ele era um estranho, muito mais estranho do que no primeiro dia em que se deitara em sua cama, aterrorizada com as coisas desconhecidas que a esperavam.

Eu deveria ter mantido a paz com Morgana...

Por que me sinto culpada? Foi Morgana quem pecou...

Eu me arrependi de meus pecados e os confessei e fui absolvida...

Morgana não estava na igreja; sem dúvida, não tivera a ousadia de vir sem a absolvição, a um serviço religioso onde seria denunciada pelo que era - incestuosa, pagã, bruxa, feiticeira.

A missa parecia não terminar nunca, mas por fim a bênção foi dada, e as pessoas começaram a retirar-se. Em dado momento, Gwenhwyfar viu-se ao lado de Elaine e Lancelote, que passara o braço protetoramente em torno do ombro da esposa, para que não fosse empurrada. Gwenhwyfar levantou os olhos para ambos, a fim de evitar olhar a cintura aumentada de Elaine.

- Há muito tempo que não vemos vocês na corte - comentou.

- Ah, há tanta coisa a fazer no norte - respondeu Lancelote.

- Não são dragões, não? - indagou Artur.

- Graças a Deus, não - sorriu Lancelote. - Espero ter visto um dragão pela primeira e última vez. Deus me perdoe por ter zombado de Pellinore quando ele falava daquela besta! E agora que não há mais saxões a combater, suponho que nossos Companheiros devam estar combatendo dragões, bandidos e todos aqueles que fazem mal ao povo.

Elaine sorriu modestamente para Gwenhwyfar:

- Meu marido é como todos os homens: prefere uma batalha até mesmo contra dragões, a ficar em casa desfrutando a paz que tanto lutaram para conseguir! Artur também é assim?

- Julgo que ele tem batalhas suficientes aqui na corte, onde todos os homens o procuram em busca de justiça - murmurou Gwenhwyfar, sem responder diretamente à pergunta. - Para quando espera este? - acrescentou, olhando para a barriga de Elaine. - Acha que será outro menino, ou uma menina?

- Espero que seja outro menino, não quero filhas - respondeu Elaine. - Mas será o que Deus quiser. Onde está Morgana? Não veio à igreja? Está doente?

Gwenhwyfar sorriu com desprezo:

- Acho que você sabe como Morgana é boa cristã...

- Mas ela é minha amiga - afirmou Elaine. - E embora seja má cristã, gosto dela, e rezarei por ela.

É claro que sim, pensou Gwenhwyfar com amargura. Ela promoveu seu casamento só para me fazer mal. Os olhos azuis de Elaine pareciam mostrar indiferença, a voz, falsidade. Gwenhwyfar sentiu que, se ficasse mais um momento ali ouvindo-a, acabaria por estrangulá-la. Pediu desculpas, e um instante depois Artur a acompanhava.

- Eu tinha esperanças de que Lancelote ficasse conosco algumas semanas - começou ele -, mas quer partir novamente para o norte. Disse, porém, que Elaine poderia ficar, se você desejasse. Ela deve ter a criança dentro de pouco tempo, e ele prefere que não volte sozinha. Talvez Mor- gana também esteja saudosa da amiga. Bem, vocês, que são mulheres, devem resolver isso entre vocês mesmas. - Voltou-se, e seu rosto estava sombrio, ao olhar para ela: - Devo ir falar com o arcebispo. Ele disse que estaria à minha disposição imediatamente depois da missa.

Gwenhwyfar quis agarrar-se a ele, retê-lo, conservá-lo, segurá-lo com as duas mãos, mas já não era mais possível.

- Morgana não estava na igreja - observou Artur. - Diga-me, Gwenhwyfar, você disse alguma coisa a ela...

- Nada lhe disse, nem de bom nem de mau - respondeu a rainha, friamente. - E pouco me importa onde esteja, gostaria que estivesse no inferno!

Artur abriu a boca; por um momento a rainha pensou que iria censurá-la, e ficou esperando a ira do marido, de um modo perverso. Mas ele apenas suspirou e abaixou a cabeça. Doía-lhe ver Artur assim tão abatido, como um cão espancado.

- Gwen, peço-lhe, não brigue mais com Morgana. Ela já sofreu muito... - E em seguida, como se estivesse envergonhado do pedido, voltou-se de repente e afastou-se dela, em direção ao arcebispo, que estava de pé, cumprimentando seu rebanho. Quando Artur aproximou-se, ele fez uma reverência, disse algumas palavras de desculpas aos outros, e os dois afastaram-se em meio à multidão.

No castelo, havia muita coisa a ser feita: receber os convidados no salão, conversar com homens que haviam sido Companheiros de Artur no passado, explicar-lhes que ele estava ocupado com um de seus conselheiros - o que não era mentira, pois Patrício era realmente um dos conselheiros do rei -, e que tardaria um pouco. Durante algum tempo, todos estiveram tão ocupados cumprimentando velhos amigos, trocando impressões sobre o que lhes havia acontecido em suas terras e aldeias, falando dos casamentos feitos e das filhas que ficaram noivas, de filhos que se faziam homens, dos que haviam nascido e dos bandidos mortos e das estradas abertas, que o tempo passou sem que a ausência do rei fosse muito notada. Mas, por fim, até os acontecimentos se esgotaram, e as pessoas no salão começaram a murmurar. A comida esfriaria, mas não era possível começar o banquete sem a presença do rei. Gwenhwyfar deu ordens para que o vinho, a cerveja e a sidra fossem servidos, esperando que, quando chegasse a hora da comida, muitos dos convidados estivessem bêbados e não se importassem se estivesse fria. Viu Morgana sentada distante, na mesa, rindo e conversando com alguém que não reconheceu, notando apenas que tinha as serpentes de Avalon tatuadas no pulso. Estaria praticando suas depravações sagradas para seduzi-lo também, como seduzira Lancelote, antes, e o Merlim? A depravação de Morgana era tão grande que nenhum homem lhe escapava.

Quando Artur afinal surgiu, caminhando devagar e pesadamente, Gwenhwyfar sentiu-se esmagada de pesar: nunca o tinha visto assim, a não ser quando fora ferido e quase morrera. Sentiu, de repente, que agora ele havia recebido um ferimento muito mais profundo do que ela podia imaginar, na própria alma, e por um instante conjeturou se Morgana não estaria certa quando procurou poupar-lhe o conhecimento que o fazia sofrer tanto. Não. Como sua esposa dedicada, o que ela fizera assegurava-lhe a salvação de sua alma. E o que representava, em comparação a isso, uma pequena humilhação?

Ele havia tirado a túnica de festa, e vestia uma roupa simples, sem enfeites. Também não usava a pequena coroa, que costumava trazer naquelas ocasiões. Seu cabelo dourado parecia sem brilho e grisalho. Quando o viram chegar, todos os seus Companheiros começaram a aclamá-lo, e Artur ouviu as saudações solenemente, sorrindo, até que, por fim, levantou a mão.

- Desculpem-me por tê-los feito esperar. Peço-lhes que me perdoem e comecem o banquete.

Sentou-se no seu lugar, suspirando. Os servos começaram a passar com tigelas e bandejas fumegantes, os trinchadores começaram a usar suas facas. Gwenhwyfar deixou que alguns pedaços de carne assada fossem colocados em seu prato, mas apenas brincou com a comida. Depois de algum tempo, ousou levantar os olhos e encarou Artur. Em meio à abundância da festa, ele tinha no prato apenas um pouco de pão, sem manteiga, e em seu copo havia apenas água.

- Mas você não está comendo nada - censurou ela.

- Não é que a comida esteja ruim. Tenho certeza de que está excelente como sempre, minha querida - disse com um sorriso enigmático.

- Não fica bem, num dia de festa, jejuar...

Artur fez uma careta.

- Bem, já que você insiste - disse com impaciência -, o bispo acha que meu pecado é tão grave que não pode me absolver com penitências comuns, e como era isso o que você queria de mim, bem... - Estendeu as mãos, com ar cansado. - Por isso, venho à festa de Pentecostes com minha camisa e sem minhas belas roupas, e terei de jejuar e dizer muitas orações até ter cumprido toda a penitência. Mas seus desejos foram atendidos, Gwenhwyfar.

Pegou o copo, bebeu água resolutamente, e ela sentiu que Artur não queria falar mais. Mas não era isso que Gwenhwyfar desejava. Todo o seu corpo retesou-se para conter o choro: os olhos de todos estavam voltados para eles, e, sem dúvida, já era muito estranho que o rei estivesse jejuando na sua maior festa. A chuva caía pesadamente no telhado. Havia um estranho silêncio na sala. Por fim, Artur levantou a cabeça e pediu música.

- Que Morgana cante para nós, ela é melhor do que qualquer menestrel!

Morgana, sempre Morgana! Mas o que podia fazer? Notou que Morgana trocara o vestido colorido que usara pela manhã, e vestia agora uma roupa escura, sóbria, como a de uma freira. Não tinha mais o ar de uma prostituta, sem suas fitas coloridas. Ela tomou a harpa, e sentou-se perto da mesa do rei para cantar.

Como parecia ser isso o que Artur desejava, houve risos e alguma alegria, e quando Morgana terminou, uma outra pessoa tomou a harpa, e depois uma terceira. Havia grande movimentação entre as mesas, conversas, cantos, e bebia-se muito.

Lancelote aproximou-se, e Artur fez um gesto para que se sentasse ao lado deles, como nos velhos tempos, no mesmo banco. Os criados traziam grandes pratos de doces e frutas, maçãs assadas com creme e vinho, todos os tipos de pastas finas e requintadas. Ficaram sentados, sem falar de nada em particular, e Gwenhwyfar sentiu-se feliz por um momento: era como antigamente, quando todos eram amigos, quando todos se amavam... Por que não podia continuar como sempre havia sido?

Por fim Artur levantou e disse:

- Acho que vou falar com alguns dos Companheiros mais antigos... minhas pernas são jovens, e alguns deles estão ficando velhos e grisalhos. Pellinore... ele não parece capaz de lutar com um dragão. Acho que uma boa luta com o cachorrinho de estimação de Elaine seria muito difícil para ele, agora!

- Desde que Elaine se casou - contou Lancelote -, é como se ele não tivesse mais nada a fazer na vida. Homens assim costumam morrer logo depois de terem concluído que nada mais lhes resta a fazer. Espero que isso não lhe aconteça. Gosto muito de Pellinore, e espero que viva muito tempo conosco. - Sorriu timidamente. - Nunca senti que tinha um pai. Ban foi bom para mim a seu modo. Mas agora, pela primeira vez, tenho um parente que me trata como filho. Também não tive irmãos, só depois de grande, quando os filhos de Ban, Lionel e Bors, vieram para a corte. E me fiz homem quase sem falar a língua deles. E Ban tem outras preocupações.

Artur agora sorria, coisa que não fizera desde que chegara dos aposentos do arcebispo.

- Então um primo tem muito menos importância do que um irmão, Galahad?

Lancelote estendeu a mão e segurou-lhe o pulso:

- Deus me castigue se eu pudesse esquecer-me disso, Gwydion. - Levantou os olhos para Artur, e, por um momento, Gwenhwyfar teve a impressão de que Artur iria abraçá-lo. Mas recuou, e deixou cair a mão. Lancelote olhou-o, espantado, porém o rei levantou-se rapidamente.

- Ali estão Uriens e Marcus da Cornualha. Também ele está envelhecendo... Eles verão que seu rei não é orgulhoso e vai conversar com eles, hoje. Fique aqui com a rainha, Lance, como nos velhos tempos.

Lancelote fez o que lhe era pedido, permanecendo sentado no banco ao lado de Gwenhwyfar. Por fim, perguntou-lhe:

- Artur está doente?

Gwenhwyfar sacudiu a cabeça e respondeu:

- Creio que tem uma penitência a cumprir, e está aborrecido por isso.

- Ora, certamente Artur não pode ter um pecado muito grande na alma - sorriu Lancelote. - É um dos homens mais corretos que conheço. Orgulho-me de continuar sendo seu amigo. Não mereço isso, eu sei, Gwen.

Olhou-a com tamanha tristeza que ela quase chorou. Por que não podia ter amado a ambos, sem pecado, por que Deus havia determinado que uma mulher tem de ter apenas um marido? Ela se tornara tão má quanto Morgana, se era capaz de tais pensamentos! Tocou a mão de Lancelote:

- Você é feliz com Elaine?

- Feliz? Que homem vivo é feliz? Procuro fazer o melhor que posso.

Ela olhou para as próprias mãos. Esqueceu por um instante que aquele homem havia sido seu amante e lembrou-se apenas de que havia sido seu amigo.

- Desejo que você seja feliz. Sinceramente, desejo.

A mão de Lancelote fechou-se sobre a dela.

- Eu sei, minha cara. Eu não queria vir aqui hoje. Amo-a, e amo Artur. Mas já vai longe o dia em que eu podia me contentar em ser seu capitão da cavalaria e... - faltou-lhe a voz - e o paladino da rainha.

- Você não tem, por vezes, a impressão de que já não somos jovens, Lancelote? - perguntou ela de repente, com a mão na dele.

Ele assentiu com a cabeça, e suspirou:

- Sim, tenho.

Morgana havia tomado novamente a harpa e cantava. Lancelote comentou:

- A voz dela continua doce como sempre. Lembra-me minha mãe quando cantava. Não o fazia tão bem quanto Morgana, mas tinha a mesma voz baixa, suave...

- Morgana continua sempre jovem - admitiu Gwenhwyfar, com inveja.

- Isso acontece com as pessoas do velho sangue. Elas parecem jovens, até o dia em que, de súbito, ficam velhas - observou Lancelote, inclinando-se para tocar-lhe o rosto com um beijo leve. Depois, disse, de repente: - Não pense que você é menos bonita do que Morgana, minha Gwen. É apenas uma beleza diferente, eis tudo.

- Por que você diz isso?

- Meu amor, não posso tolerar a idéia de que você está infeliz...

- Acho que não sei o que significa ser feliz.

Por que Morgana parece indiferente? Aquela bruxa arruinou minha vida e a de Artur, mas não se preocupa, lá está ela rindo e cantando, e aquele cavaleiro com as serpentes tatuadas no pulso parece encantado com ela.

Pouco depois, dizendo que tinha de voltar para junto de Elaine, Lancelote afastou-se. Artur voltou seguido de alguns Companheiros e velhos camaradas com pedidos, além daqueles que vinham oferecer-lhe presentes e recordar os serviços prestados ao rei. Algum tempo depois, Uriens de Gales do Norte aproximou-se, já corpulento e grisalho, mas ainda com todos os dentes, e capaz de liderar seus homens em combate, se necessário.

- Vim pedir um favor, Artur. Quero casar-me novamente e gostaria de aliar-me à sua casa. Ouvi dizer que Lot está morto, e peço sua autorização para casar-me com a viúva dele, Morgause.

Artur teve de reprimir o riso.

- Ah, quanto a isso, meu amigo, você terá de pedir licença a Sir Gawaine. O reino de Lot agora é dele, e não há dúvida de que ficaria satisfeito de casar a mãe e livrar-se dela. Acredito, porém, que ela tem idade suficiente para decidir por si mesma. Não posso ordenar-lhe que se case; seria como mandar que minha mãe se casasse!

Gwenhwyfar foi tomada de uma súbita inspiração: seria a solução perfeita - o próprio Artur disse que, se o incesto se tornasse conhecido na corte, Morgana poderia sofrer o desprezo e a vergonha de todos. Tocou o braço de Artur, e disse em voz baixa:

- Artur, Uriens é um aliado valioso. Você me disse que as minas de Gales são tão preciosas para nós quanto o eram para os romanos, pelo ferro e o chumbo... e você tem uma parenta que ainda não casou.

Olhou-a, espantado:

- Uriens é tão velho!

- Morgana é mais velha do que você, e como ele tem filhos e netos, não se importará muito que ela não lhe dê filhos.

- Isso é verdade - concordou Artur, franzindo a testa. - E parece um bom casamento. - Levantou a cabeça para Uriens e disse: - Não posso ordenar à senhora Morgause que se case novamente, mas minha irmã, a duquesa da Cornualha, não é casada.

Uriens fez uma reverência.

- Eu não pretendia tanto, meu rei, mas se sua irmã concordar em ser rainha de meu país...

- Eu não obrigaria nenhuma mulher a casar-se contra a vontade. Mas posso perguntar-lhe - fez um sinal a um dos pajens. - Peça à senhora Morgana que venha até aqui, quando tiver terminado de cantar.

O olhar de Uriens voltou-se para Morgana, cujo vestido escuro lhe tornava a pele mais branca.

Uriens voltou ao seu lugar, e Artur ficou sentado, pensativamente, vendo Morgana aproximar-se.

- Ela está há muito na idade de casar. Deve desejar um lar seu, do qual seja a senhora, em lugar de estar servindo sempre a outra mulher. E ela também é muito instruída para a maior parte dos jovens. Mas Uriens ficará satisfeito por ser ela graciosa e poder administrar bem sua casa. Gostaria, porém, que ele não fosse tão velho...

- Acho que ela será mais feliz com um homem mais velho - continuou Gwenhwyfar. - Ela não é muito jovem.

Morgana fez uma reverência para os dois. Sempre, em público, ela se apresentava sorridente e impassível, e Gwenhwyfar, pela primeira vez, sentiu-se satisfeita com isso.

- Irmã, recebi uma oferta de casamento para você. E depois do que aconteceu esta manhã - ele abaixou a voz -, parece-me conveniente que você se afaste da corte por algum tempo.

- Realmente, ficarei satisfeita em sair daqui, irmão.

- Ora, então, gostaria de viver em Gales do Norte? Ouvi dizer que é muito desolado, mas certamente não será mais do que Tintagel.

Para surpresa de Gwenhwyfar, Morgana corou como uma mocinha de quinze anos.

- Não fingirei que estou surpresa com isso, meu irmão.

Artur riu.

- Ora, ele não me disse que havia falado com você, vejam que esperto!

Morgana corou e ficou brincando com sua trança. Não aparentava, nem de longe, a idade que tinha, pensou Gwenhwyfar.

- Você pode lhe dizer que ficarei contente em viver em Gales do Norte.

Artur disse suavemente:

- A diferença de idade não lhe causa preocupação?

- Se não preocupa a ele, a mim também não.

- Assim seja, então - respondeu Artur, e fez um gesto para Uriens, que se aproximou sorrindo.

- Minha irmã disse-me que gostaria de ser rainha de Gales do Norte, meu amigo. Não vejo razão por que não possamos realizar logo o casamento, talvez no domingo.

Levantou a taça, e pediu a atenção de todos.

- Bebamos ao casamento, meus amigos, ao casamento entre a senhora Morgana da Cornualha, minha querida irmã, e meu bom amigo, o rei Uriens de Gales do Norte!

Pela primeira vez no dia, parecia estar realmente havendo uma comemoração de Pentecostes, com os aplausos, os gritos de congratulações, a aclamação. Morgana ficou imóvel como uma pedra.

Mas ela concordou com isso, disse que ele lhe havia falado... pensou Gwenhwyfar, e em seguida lembrou-se do jovem que estava flertando com a cunhada. Era o filho de Uriens, Acolon, sim, Acolon. Mas, certamente, ela não podia ter esperado que ele quisesse desposá-la: Morgana era mais velha! Deve ter sido Acolon; será que ela vai fazer uma cena?, indagou-se Gwenhwyfar.

E então, com uma onda de ódio, pensou: Agora, que Morgana sinta o que é ser dada em casamento a um homem que ela não ama!

- Então, você também será rainha, minha irmã - disse ela, segurando a mão de Morgana. - Eu poderia ser sua dama de honra.

Apesar de todas aquelas palavras cordiais, Morgana olhou-a bem nos olhos, e Gwenhwyfar compreendeu que ela não se deixara enganar.

Mas que assim seja. Pelo amor de Deus, estaremos livres uma da outra. E não haverá mais fingimento de amizade entre nós.

 

Morgana fala...

Para um casamento destinado a terminar como o meu, começou bem, ao que me parece. Gwenhwyfar proporcionou-me uma bela solenidade, considerando-se o ódio que me tinha. Entre as minhas seis damas de honra, quatro eram rainhas. Artur deu-me jóias bonitas e caras - nunca me importei muito com jóias, pois não me habituei a usá-las em Avalon, nem depois, embora tivesse algumas que tinham pertencido a Igraine. Ele deu-me mais algumas das jóias de nossa mãe, e outras que haviam sido tomadas dos saxões. Eu teria protestado, mas Gwenhwyfar lembrou-me que Uriens esperava que sua mulher se vestisse e ornamentasse como convinha a uma rainha, e eu dei de ombros, deixando que ela me preparasse como uma boneca. Uma das peças, um colar de âmbar, recordava-me de ter visto Igraine usá-lo quando eu era muito pequena - e depois, nunca mais. Eu o tinha visto certa vez em sua caixa de jóias, e ela contou-me que lhe fora dado por Gorlois e algum dia seria meu. Antes, porém, que tivesse idade para usá-lo, já era sacerdotisa de Avalon e não precisava de jóias. Agora, era meu, como tantas outras coisas que eu afirmava que jamais usaria.

A única coisa que lhes pedi - que retardassem o casamento, a fim de que eu pudesse mandar chamar Morgause, minha única parenta viva - não me foi concedida. Talvez tivessem pensado que eu poderia arrepender-me e dizer que, ao aceitar um casamento em Gales do Norte, pensava em Acolon, e não no velho rei. Tenho a certeza de que pelo menos Gwenhwyfar sabia. Figuei imaginando o que Acolon teria pensado de mim; praticamente aceitara sua corte, e antes que a noite chegasse, estava publicamente prometida a seu pai! Não tive oportunidade de perguntar-lhe.

Mas, afinal de contas, supunha-se que Acolon desejaria uma noiva de quinze, e não de trinta e quatro anos. Uma mulher de mais de trinta - é o que dizem a maioria das mulheres - deve contentar-se com um homem que já foi casado várias vezes e a quer pelos laços de família, pela sua beleza ou pela sua riqueza, ou talvez para servir de mãe para seus filhos. Bem, minhas ligações de família não poderiam ser melhores. Quanto ao resto, eu tinha muitas jóias, mas não podia me imaginar como mãe de Acolon ou de quaisquer outros filhos que o velho pudesse ter. Avó dos filhos de seus filhos, talvez. Lembrei-me, com um susto, de que a mãe de Viviane tinha sido avó mais jovem do que eu; tivera Viviane aos treze anos, e Viviane, por sua vez, teve uma filha antes dos catorze anos.

Falei apenas uma vez a sós com Uriens, nos três dias que decorreram entre o Pentecostes e nosso casamento. Talvez eu tivesse esperanças de que, como rei cristão, ele me recusasse, ao saber; ou talvez mesmo então desejasse uma mulher mais jovem que lhe pudesse dar filhos. Nem eu desejava que ele me aceitasse com uma falsa idéia e que pudesse acusar-me depois. Eu sabia o valor que os cristãos dão a uma esposa virgem, talvez isso lhes tenha sido transmitido pelos romanos, com seu orgulho de família e o culto da virgindade.

- Tenho bem mais de trinta anos, Uriens, e não sou virgem - não conhecia nenhuma maneira graciosa de dizer tais coisas.

Ele estendeu a mão, e tocou o pequeno crescente azul em minha testa. Estava desaparecendo. Era possível vê-lo no espelho que foi um dos presentes de Gwenhwyfar. Também o de Viviane tinha esmaecido quando fui para Avalon, mas ela castumava pintá-lo com tinta azul.

- Você foi sacerdotisa de Avalon, uma das donzelas da Senhora do Lago, e como donzela foi dada ao Deus, não? - Cancordei. - Entre meu povo, alguns ainda fazem isso, e não me esforço para acabar com esse costume. Os camponeses acham que é muito bom para os reis e os nobres, que podem pagar padres e outros para rezarem a fim de evitar-lhes o inferno, seguir a religião cristã. Seria, porém, duro para eles se os velhos Deuses, que são adorados em nossos montes desde tempos imemoriais, não recebessem o que lhes é devido. Acolon pensa como eu, mas hoje o poder dos padres está crescendo tanto que é preciso não ofendê-los. Quanto a mim, não me importa qual seja o Deus que se senta na trono dos céus, ou que Deus é adorado pelo meu povo, desde que meu reino viva em paz. Mas, certa vez, usei os galhos do Gamo. Juro que jamais a acusarei, senhora Morgana.

Ah, Deusa Mãe, pensei, isto é grotesco, é loucura, você está brincando comigo... Eu poderia ter feito um casamento feliz com Acolon, afinal de contas. Mas Acolon é jovem, e gostaria de ter uma mulher nova... Disse a Uriens:

- Há outra coisa que deve saber. Tive um filho com o Galhudo...

- Já lhe disse que não a censurarei por coisa alguma do passado, senhora Morgana.

- Você não compreendeu. Passei tão mal quando essa criança nasceu que, certamente, não poderei ter outra.

Achava que um rei desejaria uma noiva fértil, mais ainda do que seu filho mais novo...

Uriens afagou-me a mão. Creio que pretendia consolar-me.

- Já tenho filhos su ficientes. Não preciso de outros. As crianças são uma bela coisa, mas já tive mais do que meu quinhão delas.

Pensei: ele é tolo, ele é velho... mas é bom. Se tivesse fingido estar louco de desejo por mim, eu teria nojo, mas com a bondade posso conviver.

- Você tem saudades de seu filho, Morgana? Se quiser, pode mandar buscá-lo e criá-lo em minha corte. Juro-lhe que nem ele, nem você, ouvirão jamais uma palavra de crítica, e ele será criado com a dignidade que convém ao filho da duquesa da Cornualha e da rainha de Gales do Norte.

Essa bondade me trouxe lágrimas aos olhos.

- Você é muito bom, mas ele está bem onde se encontra, em Avalon.

- Bem, se você mudar de idéia, avise-me. Eu gostaria de ter outro menino em casa, e ele seria da idade ideal, suponho, para companheiro de meu filho mais novo, Uwaine.

- Pensei que Acolon fosse seu filho mais novo.

- Não, não, Uwaine tem apenas nove anos. A mãe morreu quando ele nasceu. Você não imaginava que um velho como eu pudesse ter um filho de nove anos, não?

Ora, podia pensar que sim, foi o que imaginei, com um sorriso irônico, pois os homens orgulham-se muito de sua capacidade de fazer filhos, como se para isso fosse necessária uma grande habilidade. Como se qualquer gato vagabundo não pudesse fazer a mesma coisa. A mulher, pelo menos, tem de levar a criança em seu corpo muitos meses, e sofrer para dá-la à luz, e por esse motivo tem alguma razão de orgulhar- se. Mas os homens fazem isso sem maior preocupação, e sem nenhum trabalho.

Mas, tentando brincar, eu disse:

- Quando era menina, havia em meu país um ditado que dizia: um marido de quarenta pode não ser pai, mas o de sessenta certamente o será.

Eu disse isso deliberadamente. Se ele tivesse se endurecido e se ofendesse com a brincadeira forte, eu saberia como tratá-lo no futuro, e teria muito cuidado em falar sempre modestamente, com sobriedade. Mas Uriens deu uma gargalhada sincera:

- Acho que nós dois poderemos nos dar muito bem, minha cara. Estou cansado de ser casado com moças novas que não sabem rir. Espero que você seja feliz, casando-se com um velho como eu. Meus filhos riem de mim, porque me casei de novo depois do nascimento de Uwaine, mas, para dizer a verdade, senhora Morgana, o homem acostuma-se a ser casado, e não gosto de viver sdzinho. Quando minha última mulher morreu com a febre do verão... bem, é certo que eu desejava aparentar-me com seu irmão, mas também me senti muito sozinho. E acho que você, que não se casou, embora tenha passado da idade em que as mulheres normalmente se casam, poderá não julgar de todo ruim ter uma casa e um marido, mesmo que ele não seja jovem e bonito. Sei que não foi consultada sobre esse casamento, mas espero que não venha a ser muito infeliz.

Pelo menos, Uriens não espera que eu me entusiasme com a honra de ser casada com ele, pensei. E eu poderia ter dito que não haveria uma modificação muito grande - eu não tinha sido realmente feliz desde que deixara Avalon, e como seria infeliz onde quer que estivesse, pelo menos seria melhor ficar longe da malícia de Gwenhwyfar. Eu já não podia mais fingir que era sua irmã leal e sua amiga, e isso me entristecia bastante, porque em certa época haviamos sido realmente amigas, e não fui eu quem mudou. Certamente não tinha desejo de roubar-lhe Lancelote; mas como explicar-lhe que, embora eu o tivesse desejado no passado, também o desprezava, e não o teria ambicionado por marido nem como um presente. Ah, sim, se Artur nos tivesse casado antes de ter desposado Gwenhwyfar - mas mesmo então já era muito tarde. Seria sempre muito tarde depois daquele dia sob as pedras circulares. Se eu tivesse me deixado possuir por ele, então, nada disso teria acontecido... mas o que está feito está feito, e eu não sabia dos planos que Viviane fizera para mim. E esses planos acabaram levando ao meu casamento com Uriens.

Nossa primeira noite foi o que eu havia esperado. Ele acariciou-me, mexeu comigo e resfolegou em cima de mim algum tempo, roncando e arfando, e de repente acabou, afastou-se e dormiu. Não tendo esperado nada melhor, não fiquei decepcionada, nem particularmente triste ao me aconchegar à curva de seu braço. Ele gostava de me ter ali, e embora depois das primeiras semanas raramente se deitasse comigo, ainda assim gostava de me ter em sua cama, e por vezes ficava abraçado comigo durante horas, falando de uma coisa ou de outra, e, o que era mais importante, ouvindo o que eu dizia. Ao contrário dos romanos do sul, os homens das tribos nunca deixaram de ouvir a opinião de uma mulher e pelo menos por isso eu lhe fui grata pelo fato de ouvir o que eu dizia e nunca mostrar-se indiferente à opinião de uma mulher.

Gales do Norte é um belo país, com grandes montes que me faziam lembrar o reino de Lot. Mas este era alto e desnudo, enquanto o país de Uriens era verde e fértil, cheio de árvores e flores, com um solo rico e boas colheitas. Uriens construíra seu castelo num dos vales mais bonitos.

Avaloch, sua mulher e seus filhos ouviam-me sobre todas as coisas, e Uwaine chamava-me de "mãe". Pude compreender o que significava ter um filho para criar, cuidar de todos os pequenos problemas cotidianos de uma criança em crescimento, que sobe em árvores e quebra ossos, cujas roupas ficam pequenas, ou que as rasga nas florestas, que é grosseira com seus professores e sai a pescar quando deveria estar estudando. O padre que dava aulas a Uwaine se desesperava, mas o menino era o orgulho e a alegria de seu mestre de armas. Por mais irrequieto que fosse, eu o amava muito; ele atendia-me durante o jantar, e com freqüência ficava sentado ouvindo-me quando eu tocava harpa - como todos, naquele país, tinha ouvido para a música e cantava com uma voz clara e afinada. E como toda a corte, a família de Uriens preferia fazer sua própria música a pagar menestréis. Depois de um ou dois anos, comecei a pensar em Uwaine como se fosse meu próprio filho, e, é claro, ele não se recordava de sua mãe. Por mais indisciplinado que fosse, comigo era sempre gentil; não é fácil controlar meninos daquela idade, mas tínhamos momentos de ternura, depois de dias de aborrecimento ou silêncio, quando ele vinha subitamente sentar-se ao meu lado e cantar ao som de minha harpa, ou trazer-me flores ou uma pele de lebre mal curtida, e uma ou duas vezes, desgracioso como uma cegonha nova, inclinou-se e beijou-me de leve no rosto. Muitas vezes, nessas ocasiões, desejei ter filhos meus, que eu mesma pudesse criar. Havia pouco o que fazer naquela corte tranqüila, distante das guerras e das agitações do sul.

E então, quando eu já estava casada com Uriens havia um ano, Acolon voltou para casa.

 

Capítulo 9

Verão nas montanhas; o jardim da rainha cobriu-se de flores rosa e brancas. Morgana, andando sob as árvores, sentia doer-lhe no sangue a saudade, recordando-se de Avalon na primavera, com as árvores cobertas daquelas nuvens rosadas e brancas. O ano, marchava para o solstício de verão; Morgana fez as contas, compreendendo com pesar que, por fim, os efeitos de metade de uma vida passada em Avalon estavam desaparecendo - já não sentia no sangue o calor da primavera.

Não, terei de mentir para mim mesma? Não é que eu tenha esquecido, ou que aqueles calores já não me percorram o sangue, mas sim que eu já não me permito senti-los. Morgana analisou-se desapaixonadamente - o discreto e caro vestido, adequado a uma rainha... Uriens dera-lhe todas as roupas e jóias que haviam pertencido à sua última mulher, e ela tinha também as jóias de Igraine. Uriens gostava de vê-la enfeitada com jóias dignas de uma rainha.

Alguns reis matam seus prisioneiros de Estado, ou os escravizam nas minas; se é do agrado do rei de Gales do Norte pendurar jóias em sua mulher e fazê-la desfilar ao seu lado, e chamá-la de rainha, por que não?

Mesmo assim, sentia a plenitude do verão. Lá embaixo, na encosta da montanha, podia ouvir um camponês estimulando seu boi com gritos. No dia seguinte, seria o solstício de verão.

No domingo seguinte, viria um padre, para levar tochas aos campos e realizar procissões com seus acólitos, cantando salmos e dando bênçãos. Os barões e cavaleiros mais ricos, que eram todos cristãos, tinham convencido o povo de que isso era mais adequado a um país cristão do que os velhos costumes segundo os quais eram acesas fogueiras nos campos, e a Senhora era invocada no velho culto. Morgana desejava - e não era a primeira vez - ser apenas uma das sacerdotisas, e não descender da grande linhagem real de Avalon.

Eu ainda estaria lá, pensou ela, seria uma sacerdotisa, fazendo o trabalho da Senhora... e não aqui, como qualquer marujo naufragado, perdida em terra alheia... Voltou-se abruptamente e caminhou pelo jardim florido, de olhos baixos, recusando-se a olhar outra vez as flores de maçã.

A primavera volta sempre e sempre, a ela segue-se o verão, com seus frutos. Mas eu estou só e estéril, como uma dessas virgens cristãs trancadas atrás das paredes de um convento. Usou sua força de vontade para controlar as lágrimas, que pareciam sempre prontas a aflorar-lhe aos olhos, naqueles dias, e entrou no castelo. Atrás dela, o sol poente espalhava tons vermelhos pelos campos, mas ela não queria ver. Tudo ali estava cinzento e estéril. Tão cinzento e estéril quanto eu.

Uma de suas criadas saudou-a quando ela entrou.

- Minha senhora, o rei voltou, e deseja vê-la em seu quarto.

- Sim, está bem - assentiu Morgana, mais para si mesma do que para a criada. Uma forte dor de cabeça parecia comprimir-lhe a testa, e por um momento não pôde respirar, não pôde forçar-se a penetrar na penumbra do castelo, que, durante todo aquele frio inverno, fechara-se à sua volta como uma armadilha. Disse a si mesma para não ser fantasiosa, apertou os dentes e dirigiu-se ao quarto de Uriens, onde o encontrou semivestido e deitado no chão, com seu criado esfregando-lhe as costas.

- Você voltou a cansar-se - disse Morgana, sem acrescentar você já não é jovem para andar pelas suas terras dessa maneira. Ele tinha ido a cavalo até uma cidade próxima para discutir disputas de terras. Sabia que desejava vê-la ao seu lado, ouvindo tudo o que tivesse para contar-lhe sobre o que vira na viagem. Morgana sentou-se em sua cadeira, perto dele, e ouviu, um pouco distraída, o relato de Uriens.

- Você pode ir, Berec - disse ele ao criado. - Minha senhora trará minhas roupas para mim. - Depois de Berec ter saído, pediu-lhe: - Morgana, pode esfregar-me os pés? Suas mãos são muito melhores que as dele.

- Certamente. Mas você terá de sentar-se na cadeira.

Uriens estendeu as mãos, e ela ajudou-o a levantar-se. Ajoelhou-se ao seu lado, colocou um tamborete sob seus pés compridos e calosos e esfregou-os até que o sangue aflorou à pele, e eles voltaram a parecer vivos. Em seguida, apanhou um frasco e começou a esfregar um de seus óleos de ervas nos dedos contorcidos do rei.

- Você devia mandar fazer botas novas. O rasgão das botas velhas vai provocar uma ferida aqui. Está vendo a bolha?

- Mas as velhas são bastante confortáveis, e as botas novas costumam ser tão duras!

- Faça como quiser, meu senhor.

- Não, não, você tem razão, como sempre. Vou mandar que venham tirar a medida de meus pés amanhã, para um novo par.

Colocando de lado o vidro de óleo de ervas, e apanhando um par de velhos sapatos macios, Morgana pensou: Saberá ele que talvez este seja o último par de botas que encomenda, e será por isso que está tão relutante? Não queria pensar no que a morte do rei poderia representar para ela. Não desejava vê-lo morto - fora sempre muito bom. Calçou-lhe os sapatos confortáveis e levantou-se, enxugando as mãos numa toalha.

- Está melhor, meu senhor?

- Excelente, minha querida, muito obrigado. Ninguém sabe cuidar de mim como você.

Morgana suspirou. Quando ele tivesse as botas novas, aumentariam os problemas com seus pés. Elas seriam duras, como Uriens previa, e deixariam seus pés tão doloridos quanto estavam agora. Talvez ele tivesse de deixar de montar, e ficar em casa em sua cadeira, embora se recusasse a isso.

- Você deve mandar Avaloch cuidar desses assuntos. Ele precisa aprender a governar.

O filho mais velho de Uriens tinha a mesma idade de Morgana. Havia esperado muito tempo para reinar, e parecia que Uriens ia viver para sempre.

- É certo, é certo. Mas se eu não for, eles pensarão que seu rei não se preocupa com eles. Talvez, quando as estradas estiverem más no próximo inverno, eu faça isso.

- É melhor que o faça. Se tiver frieiras novamente, perderá o uso das mãos.

- A verdade, Morgana - sorriu, bem-humorado -, é que sou velho, e isso não tem remédio. Você acha que vamos ter porco assado no jantar?

- Sim, e algumas das primeiras cerejas. Tenho certeza.

- Você é uma dona-de-casa notável - disse ele, segurando-lhe o braço enquanto saíam do quarto. Morgana pensou: Ele pensa que está sendo gentil ao dizer isso.

A família de Uriens já estava reunida para a refeição da noite: Avaloch e a mulher, Maline, e os filhos mais novos; Uwaine, magro e moreno, com seus três irmãos de criação e o padre, confessor deles; e depois, à longa mesa, sentavam-se os soldados e suas mulheres e os criados superiores. No momento em que Uriens e Morgana ocuparam seus lugares, e esta fez um sinal aos criados para que trouxessem a comida, o filho mais novo de Maline começou a chorar e gritar:

- Vovó! Quero me sentar no colo da vovó! Quero que vovó me dê comida!

Maline - uma moça de cabelos louros, pálida, magra e que estava em adiantado estado de gravidez - franziu o cenho e ralhou:

- Não, Conn, sente-se bonitinho e fique quieto!

Mas a criança já se agarrara aos joelhos de Morgana, que riu e a segurou. Não sou nada parecida com uma avó, pensou. Maline tem quase a minha idade. Mas os netos de Uriens gostavam dela, e ela afagou-o, recebendo com prazer sua cabeça junto da cintura e os pequenos dedos gorduchos que a tateavam. Partiu pedaços pequenos da carne de porco e deu de comer a Conn, de seu próprio prato, depois cortou- lhe um pedaço de pão na forma de um porco.

- Veja, agora você tem mais porco para comer... - E limpou-lhe os dedos engordurados, voltando a ocupar-se de sua própria refeição. Mesmo agora, comia pouca carne; molhou o pão no molho do assado, apenas. Terminou rapidamente, enquanto os outros ainda estavam comendo. Recostou-se na cadeira e ficou cantando ternamente para Conn, que se enroscou satisfeito em seu colo. Depois de algum tempo, percebeu que todos a estavam ouvindo, e foi-se calando aos poucos.

- Por favor, continue a cantar, mãe - pediu Uwaine, mas ela sacudiu negativamente a cabeça.

- Não, estou cansada. Ouça, o que foi que ouvi no pátio?

Levantou-se e fez sinal aos criados para que iluminassem a entrada. Viu então o cavaleiro que chegava ao grande pátio. O criado pendurou a tocha na parede e correu para ajudá-lo a desmontar.

- Meu senhor Acolon!

Ele entrou, e a capa vermelha flutuava às suas costas como um rio de sangue.

- Senhora Morgana - disse, com uma reverência profunda. - Ou deveria dizer senhora minha mãe?

- Por favor, não - respondeu Morgana com impaciência. - Entre, Acolon, seu pai e seus irmãos sentir-se-ão felizes em vê-lo.

- E a senhora, não?

Morgana mordeu o lábio, pensando de repente se iria chorar.

- Você é filho de um rei, e eu sou irmã de outro. Terei de lembrar-lhe como esses casamentos são feitos? Não foi obra minha, Acolon, e quando falávamos, eu não sabia. - Parou, e ele olhou para ela, depois inclinou-se sobre sua mão. Disse baixinho, de modo que nem o criado ouviu:

- Pobre Morgana. Acredito em você. Paz entre nós, então... mãe?

- Mas só se você não me chamar de mãe - protestou, com a sombra de um sorriso. - Afinal de contas, não sou tão velha! Já chega Uwaine...

Quando entraram novamente no salão, Conn ergueu-se e começou a gritar "Vovó", novamente. Morgana riu sem vontade e voltou a pegá-lo no colo. Sentia os olhos de Acolon a acompanhá-la, por isso voltou os seus para o menino que segurava, ouvindo, em silêncio, Uriens saudar o filho.

Acolon abraçou formalmente o irmão, fez uma reverência diante da cunhada, ajoelhou-se e beijou a mão do pai, e depois voltou-se para Morgana, que lhe disse rapidamente:

- Chega de cortesias, Acolon, minhas mãos estão engorduradas, pois eu estava segurando o menino, e ele não sabe comer direito.

- Como quiser, senhora. - E ele encaminhou-se para a mesa e tomou o prato que uma das criadas lhe trazia. Mas enquanto comia e bebia, Morgana sentia seus olhos nela.

Tenho a certeza de que ele ainda está com raiva de mim. Pediu minha mão pela manhã, e à noite me viu noiva do pai. Sem dúvida, pensa que sucumbi à ambição - por que casar- se com o filho do rei, se pode casar-se com o próprio rei?

- Não - ralhou, dando uma sacudida em Conn -, se quer ficar no meu colo, tem de ficar quieto, e não sujar minha roupa com as mãos cheias de gordura.

Quando ele me viu da última vez, eu estava vestida de vermelho e era a irmã do rei, considerada feiticeira... Agora sou uma avó com uma criança suja no colo, tomando conta da casa e implicando com meu velho marido para que não monte com botas remendadas que lhe magoam os pés. Morgana tinha perfeita consciência de todos os cabelos brancos, de todas as rugas em seu rosto. Em nome da Deusa, por que deveria eu me preocupar com o que Acolon pensa? Mas preocupava-se, e sabia; estava habituada ao olhar admirador dos homens jovens, e agora sentia-se velha, feia, pouco desejável. Nunca se considerara uma beleza, mas sempre, antes disso, fizera parte do grupo dos mais jovens, e agora sentava-se entre matronas que envelheciam. Fez calar novamente o menino, pois Maline pedia a Acolon notícias da corte de Artur.

- Não há grandes novidades. Creio que os dias das grandes notícias acabaram, pelo menos durante nossa existência. A corte de Artur está tranqüila, e o rei ainda faz penitência por algum pecado desconhecido; não toma vinho, mesmo nos dias de grande festa.

- E a rainha dá sinais de que vai ter um herdeiro? - perguntou Maline.

- Não, embora uma de suas damas me tenha dito, antes dos combates simulados, que desconfiava que a rainha estivesse grávida.

Maline voltou-se para Morgana e disse:

- Você conheceu bem a rainha, não, minha sogra?

- Conheci - respondeu Morgana. - E quanto a esse boato, bem, Gwenhwyfar sempre se julga grávida, se as regras se atrasam um dia.

- O rei é um idiota - comentou Uriens. - Ele deveria separar-se dela e escolher outra mulher que lhe desse um filho. Lembro-me muito bem do caso que ocorreu quando eles acharam que Uther morreria sem um filho. A sucessão devia ser estabelecida com firmeza.

- Ouvi dizer que o rei nomeou um de seus primos como herdeiro - informou Acolon. - O filho de Lancelote. Isso não me agrada. Lancelote é filho de Ban de Benwick, e não queremos nenhum rei estrangeiro que reine sobre nosso próprio rei.

- Lancelote é filho da Senhora de Avalon - protestou Morgana com firmeza -, e da velha linhagem real.

- Avalon! - interrompeu Maline, com desprezo. - Esta terra é cristã. O que é Avalon para nós, hoje?

- Mais do que você pensa - respondeu Acolon. - Ouvi dizer que parte do pessoal dos campos, que se recorda do Pendragon, não está satisfeita com uma corte tão cristã como a de Artur, e lembre-se de que ele, antes de sua coroação, fez um juramento de ficar com o povo de Avalon.

- Sim - confirmou Morgana -, e ele tem a grande espada das Insígnias Sagradas de Avalon.

- Os cristãos não parecem censurá-lo por isso - continuou Acolon -, e agora eu me lembro de algumas notícias da corte: o rei Edric dos saxões converteu-se ao cristianismo e foi batizado, com toda a sua comitiva, em Glastonbury. Ajoelhou-se e jurou, na presença de Artur, que todas as terras saxônias o aceitavam como Grande Rei.

- Artur? Rei dos saxões? Não é possível! - riu-se Avaloch. - Sempre o ouvi dizer que só trataria os saxões na ponta da espada!

- É, mas, apesar disso, o rei saxão ajoelhou-se na igreja de Glastonbury, e Artur ouviu seu juramento e tomou-o pela mão. Talvez ele case a filha do saxão com o filho de Lancelote, e acabe de uma vez por todas com essas guerras. E entre os conselheiros de Artur estava o Merlim, parecendo tão bom cristão quanto todos os outros!

- Gwenhwyfar deve estar satisfeita, agora - observou Morgana. - Ela sempre disse que Deus tinha dado a Artur a vitória no monte Badon porque ele levara a bandeira da Santa Virgem. E mais tarde ouvi-a proclamar que Deus havia poupado a vida de Artur para que ele pudesse atrair os saxões ao seio da Igreja.

Uriens fez um gesto de indiferença:

- Não creio que eu confiasse num saxão a ponto de deixá-lo atrás de mim com um machado, mesmo que usasse a mitra de bispo!

- Nem eu - concordou Avaloch -, mas se os chefes saxões estiverem rezando e fazendo penitências para salvar a alma, pelo menos não estarão atacando e incendiando nossas aldeias e abadias. E quanto às penitências e jejuns, o que poderá ter Artur na sua consciência? Quando eu acompanhava seus exércitos, não fazia parte de seus Companheiros, e não o conheci muito bem, mas ele me parecia um homem excepcionalmente bom. Uma penitência tão rigorosa significa algum pecado maior do que o comum. Senhora Morgana, sabe alguma coisa sobre isso, já que é irmã dele?

- Sou sua irmã, não seu confessor. - Morgana foi seca, e calou-se.

- Qualquer homem que fez a guerra durante quinze anos entre os saxões deve ter mais na consciência do que costuma revelar - comentou Uriens. - Poucos, porém, são tão sensíveis a ponto de pensar nisso, depois de terminada a batalha. Todos nós conhecemos o assassinato, o saque, o sangue e a mortandade de inocentes. Mas as batalhas acabaram, pelo menos durante nossa existência, que Deus o permita, e tendo feito as pazes entre os homens, temos agora tranqüilidade para celebrar as pazes com Deus.

Então Artur continua fazendo penitência, e aquele velho arcebispo Patrício ainda tem a hipoteca de sua alma! Que prazer terá Gwenhwyfar com isso?

- Fale-nos mais da corte - pediu Maline. - E a rainha? O que usava, nas festas?

- Nada entendo de roupas de mulher - riu-se Acolon. - Alguma coisa branca, com pérolas. Marhaus, o grande cavaleiro irlandês, ofereceu-lhe pérolas mandadas pelo rei da Irlanda. E sua prima, Elaine, pelo que ouvi dizer, teve uma filha de Lancelote, ou terá sido no ano passado? Creio que ela já tinha um filho, que foi escolhido como herdeiro de Artur. E houve um escândalo na corte do rei Pellinore: ao que parece, seu filho Lamorak foi numa missão ao reino de Lot, e agora está querendo casar-se com a viúva, a velha rainha Morgause...

Avaloch riu:

- O rapaz deve estar louco. Morgause tem cinqüenta anos, pelo menos, ou mais!

- Quarenta e cinco - e Morgana alteou a voz. - Ela é dez anos mais velha do que eu.

E ficou pensando por que remexia a sua velha ferida... estou querendo que Acolon saiba minha idade, avó que sou dos netos de Uriens?

- Ele realmente deve estar louco - continuou Acolon. - Anda cantando baladas, carrega consigo a liga da rainha, e coisas absurdas como estas...

- Creio que essa liga já poderia servir para cabresto de um cavalo, a esta altura - disse Uriens, e Acolon negou com a cabeça.

- Não. Eu vi a dama de Lot, e ela ainda é uma bela mulher. Não é jovem, mas parece ainda mais bela por isso. O que me pergunto é: o que pode ela querer com um menino imaturo como Lamorak, que não tem mais de vinte e cinco anos?

- O que pode um rapaz assim querer com uma velha? - insistiu Avaloch.

Maline corou:

- Por favor! Isso não é conversa adequada a uma família cristã!

- Se não fosse, minha nora, duvido que sua liga se tivesse tornado tão larga!

- Sou uma mulher casada - respondeu Maline, muito vermelha.

- Se para ser uma família cristã é preciso não falar daquilo que não se tem vergonha de fazer, então que os Deuses não permitam que eu me considere cristão!

- Mesmo assim - disse Avaloch -, talvez não seja bom estarmos aqui sentados a contar histórias pouco lisonjeiras sobre a parenta da senhora Morgana.

- A rainha Morgause não tem marido para ofender-se, e além disso já tem idade suficiente para saber o que faz. Sem dúvida seus filhos estão satisfeitos porque ela se contenta com um amante, sem querer casar-se com o rapaz. Ela também não é duquesa da Cornualha?

- Não - disse Morgana. - Igraine era duquesa da Cornualha, título que adquiriu depois que Gorlois foi morto por traição ao Pendragon. Gorlois não tinha filho, e como Uther deu Tintagel a Igraine como presente de casamento, suponho que hoje ele me pertença.

E Morgana sentiu-se tomada, de súbito, de saudades daquelas terras de que mal se recordava, do sombrio perfil do castelo e das rochas escarpadas contra o céu, as súbitas depressões que se transformavam em vales ocultos, o ruído permanente do mar lá embaixo... Tintagel! Minha casa! Não posso voltar para Avalon, mas tenho um lar... A Cornualha é minha.

- E de acordo com o direito romano - sorriu Uriens -, suponho que, como seu marido, minha querida, eu seja o duque da Cornualha.

Morgana sentiu novamente uma onda de raiva. Só depois que eu estiver morta e enterrada, pensou. Uriens não se importa com a Cornualha, apenas o fato de ser Tintagel, como eu, propriedade sua, trazendo a marca de sua posse! Se eu pudesse ir para lá, viver ali sozinha como Morgause no reino de Lot, dona de mim mesma, sem ninguém para me dar ordens... Uma imagem veio-lhe à lembrança, o quarto da rainha em Tintagel, numa época em que ela, Morgana, era ainda muito pequena e brincava com uma velha roca, no chão... Se Uriens ousar reivindicar um palmo da Cornualha, eu lhe darei sete palmos dela, e mais terra para comer!

- Agora, contem-me as novidades daqui - pediu Acolon. - A primavera atrasou-se, pois vejo que os camponeses só agora começam a ir para os campos.

- Mas quase já terminaram de arar - informou Maline. - E, no domingo, haverá a bênção dos campos.

- E escolherão a Virgem da Primavera - interrompeu Uriens. - Estive na aldeia e vi que estavam fazendo a escolha entre todas as moças bonitas. Você não estava aqui no ano passado - disse, voltando-se para Morgana. - Escolhem a mais bonita de todas para a Virgem da Primavera, e ela percorre, em procissão, os campos, quando os padres os vêm abençoar. Há danças, nessa ocasião, e carregam um boneco feito com produtos da última colheita, com a palha da cevada. O padre Eian não gosta disso, mas não entendo por quê, pois é tudo tão bonito...

O padre tossiu e disse, consciente da sua importância:

- A bênção da Igreja deve ser suficiente. Por que precisaríamos de mais do que a palavra de Deus para fazer com que os campos produzam? O boneco de palha que levam é um vestígio dos tempos antigos, quando homens e animais eram queimados vivos para que suas vidas tornassem férteis os campos, e a Virgem da Primavera é uma recordação do... bem, não quero falar, na frente de crianças, desse costume maligno e idólatra!

- Houve uma época - observou Acolon, dirigindo-se diretamente a Morgana - em que a rainha da terra era a Virgem da Primavera, e também a Senhora da Colheita, e contribuía para que os campos tivessem vida e fossem férteis. - Morgana notou em seus pulsos a pálida sombra azul das serpentes de Avalon.

Maline fez o sinal-da-cruz com afetação:

- Graças a Deus, vivemos entre pessoas civilizadas.

- Duvido que você fosse chamada para fazer aquilo nos campos, cunhada - disse Acolon.

- Não - concordou Uwaine, com a falta de tato de todas as crianças. - Ela não é bonita. Mas nossa mãe, sim, não acha, Acolon?

- Fico satisfeito de que você ache minha rainha bonita - comentou Uriens, apressadamente -, mas o passado é o passado. Nós não queimamos gatos e ovelhas vivos nos campos, nem matamos um bode para espalhar o sangue nas terras. Já não há necessidade de que a rainha abençoe os campos dessa maneira.

Não, pensou Morgana. Agora tudo é estéril, agora temos padres com suas cruzes, proibindo que sejam acesas as fogueiras da fertilidade. É um milagre que a Deusa não mande pragas aos campos de cereais, pois está irritada por lhe negarem o que lhe é devido...

Pouco depois, foram todos dormir. Morgana, a última a levantar-se da mesa, foi fiscalizar as portas e, em seguida, verificar, à luz de um lampião, se fora dada uma boa cama a Acolon. Uwaine e seus irmãos de criação ocupavam agora o quarto que fora dele, quando ali morava.

- Está tudo em ordem para você, aqui?

- Tenho tudo de que possa precisar - respondeu Acolon -, exceto uma dama para alegrar meu quarto. Meu pai é um homem de sorte, senhora. E você bem merece ser a esposa de um rei, e não de seu filho mais novo.

- Você implicará sempre comigo? - explodiu ela. - Já lhe disse: não tive escolha!

- Você havia se comprometido comigo!

Morgana sabia que estava empalidecendo. Apertou fortemente os lábios, e disse:

- O que aconteceu é fato consumado, Acolon.

Levantou o lampião e afastou-se. Ele disse, às suas costas, e quase como uma ameaça:

- Não se consumou entre nós dois, senhora.

Morgana não respondeu. Apressou-se a atravessar o corredor até o quarto onde dormia com Uriens. Sua criada já estava pronta para ajudá-la a despir-se, mas ela mandou a mulher embora. O rei estava sentado na beira da cama, resmungando:

- Até mesmo esses chinelos são muito duros para meus pés! Ah, como é bom descansar!

- Descanse, então, meu senhor.

- Não - disse ele, puxando-a para si. - Amanhã os campos serão abençoados... e talvez devêssemos agradecer o fato de vivermos numa terra civilizada, onde o rei e a rainha não precisam mais abençoar os campos deitando-se juntos em público. Mas na véspera desse dia, minha querida, talvez devêssemos fazer nossa bênção em particular, em nosso quarto. O que acha?

Morgana suspirou. Tivera sempre um grande cuidado em preservar o orgulho de seu marido velho, sem provocar-lhe qualquer sentimento de inferioridade pelo uso ocasional e bisonho que fazia de seu corpo. Mas Acolon despertara-lhe uma recordação angustiada de seus dias em Avalon - as tochas levadas ao alto do Tor, as fogueiras de Beltane acesas e as donzelas esperando nos campos arados... E, naquela noite, tinha de ouvir um padre insignificante zombar daquilo que, para ela, era extremamente sagrado. E agora, até mesmo Uriens queria fazer do rito sagrado uma pantomima.

- Acho que as bênçãos que eu e você poderíamos dar aos campos não fazem falta nenhuma. Sou velha e estéril, e você não é um rei que possa dar muita vida aos campos, também!

Uriens ficou olhando-a. Em todo aquele ano de casamento, Morgana nunca lhe dirigira palavras menos doces. Ficou tão espantado que não foi sequer capaz de reagir.

- Sim, sem dúvida, você está certa - concordou ele em voz baixa. - Bem, então deixemos isso para os jovens. Venha dormir, Morgana.

Quando ela se deitou ao seu lado, Uriens ficou quieto por um momento, e depois a abraçou timidamente. Morgana lamentou suas palavras ásperas. Sentiu-se fria e solitária, e ficou ali mordendo o lábio para não chorar, e quando Uriens falou com ela, fingiu estar dormindo.

 

O solstício amanheceu brilhante. Acordando cedo, Morgana compreendeu, porém, que, por mais que dissesse a si mesma que já não sentia desejo no sangue, alguma coisa nela se tornava inquieta no verão. Ao vestir-se, olhou com indiferença para a forma adormecida de seu marido.

Havia sido uma idiota. Por que aceitara, sem protestar, a palavra de Artur, temendo deixá-lo em má posição ante seus Companheiros e reis? Se ele não podia manter-se no trono sem a ajuda de uma mulher, então não merecia sentar-se nele. Era um traidor de Avalon, um apóstata, e a entregara a outro apóstata. E, ainda assim, concordara humildemente em fazer o que eles haviam planejado para ela.

Igraine deixou que sua vida fosse usada para a política. E alguma coisa em Morgana, que estava morta ou adormecida, desde o dia em que fugira de Avalon, levando Gwydion no ventre, despertou e agitou-se de súbito, movimentando-se de maneira desajeitada e lenta, como um dragão sonolento, numa atividade tão secreta e invisível quanto os primeiros movimentos de um feto. Alguma coisa lhe dizia, numa voz clara e segura dentro dela: Se eu não quis deixar Viviane, a quem eu amava, usar-me deste modo, por que deverei baixar a cabeça humildemente e deixar-me usar de acordo com as conveniências de Artur? Sou a rainha de Gales do Norte, sou a duquesa da Cornualha, onde o nome de Gorlois ainda significa alguma coisa, e sou da linhagem real de Avalon.

Uriens, erguendo-se com grande esforço, resmungou:

- Ah, meu Deus, dói-me todo o corpo, e meus dedos do pé parecem sofrer de dor de dentes! Cavalguei demais, ontem. Morgana, pode esfregar-me as costas?

Ela ia responder, com irritação: Você tem dezenas de criados, e eu sou sua mulher, não sua escrava, mas conteve-se e sorriu:

- Sim, naturalmente - e mandou um pajem buscar seus ungüentos e óleo de ervas. Era melhor deixá-lo acreditar que ela continuava a ser dócil e a ceder em tudo. Além disso, tratar dos doentes era parte da missão de uma sacerdotisa. Mesmo que fosse a parte menor, ainda assim lhe dava acesso aos planos e pensamentos de Uriens. Esfregou-lhe as costas e passou ungüento em seus pés doloridos, ouvindo-o falar dos detalhes da disputa de terras que fora solucionar, na véspera.

Para Uriens, qualquer mulher poderia ser rainha, ele quer apenas um rosto sorridente e mãos bondosas para afagá-lo. Bem, ele terá isso, enquanto for de minha conveniência.

- Parece que vamos ter um belo dia para a bênção das colheitas. Nunca temos chuva no solstício de verão - disse Uriens. - A Deusa brilha nos campos, quando eles lhe são consagrados, era o que diziam quando eu era jovem e pagão. O Grande Casamento não podia ser consumado na chuva - riu. - Ainda me recordo: certa vez, quando era muito jovem, chovia havia dez dias, e a sacerdotisa e eu poderíamos ser confundidos com porcos na lama.

Morgana sorriu, contra a vontade, pois o quadro despertado em sua imaginação era ridículo.

- Mesmo no ritual, a Deusa costuma fazer pilhérias, e um dos seus nomes é a Grande Porca; todos nós somos seus porquinhos.

- Ah, Morgana, como eram bons aqueles tempos - exclamou Uriens com o rosto contraído. - É claro que foi há muito tempo. Agora, o que o povo quer em seus reis é a dignidade. Aqueles dias acabaram e para sempre.

Acabaram? É o que me pergunto. Mas Morgana nada disse. Ocorreu-lhe que Uriens, quando jovem, poderia ter sido um rei com força suficiente para se opor à onda de cristandade que varria o país. Se Viviane tivesse se empenhado mais em colocar no trono um rei que não estivesse de pés e mãos atados pelos padres... Mas é claro que ninguém poderia ter previsto que Gwenhwyfar se tornaria de uma religiosidade doentia! E por que o Merlim nada fizera?

Se o Merlim da Bretanha e as pessoas experimentadas de Avalon nada tinham feito para conter essa onda que sufocava a terra e varria para sempre todos os velhos costumes e os velhos Deuses, por que culpar Uriens, que afinal de contas era apenas um velho e só queria sossego? Não havia razão para fazer dele um inimigo. Se estivesse contente, pouco lhe importaria o que Morgana fizesse... E ela ainda não sabia o que pretendia fazer. Sabia apenas que sua fase de aceitação silenciosa terminara.

- Gostaria de ter conhecido você, então - sorriu ela, e deixou que Uriens a beijasse na testa.

Se eu tivesse me casado com ele na idade certa, Gales do Norte talvez nunca tivesse se tornado cristã. Mas ainda não é tarde demais. Há os que não se esqueceram de que o rei ainda traz, embora desbotadas, as serpentes de Avalon tatuadas em seus braços. E casou-se com uma mulher que foi sacerdotisa da Senhora do Lago. Eu poderia ter continuado sua obra aqui melhor do que durante todos aqueles anos na corte de Artur, à sombra de Gwenhwyfar.

Ocorreu a Morgana que a cunhada ficaria satisfeita com um marido como Uriens, a quem podia controlar, em lugar de Artur, que levava uma vida de que ela não participava.

Em certa época, também Morgana havia tido influência sobre Artur - a influência da mulher que primeiro possuíra ao se transformar em homem, e que tinha, para ele, o rosto da Deusa. Não obstante, em sua loucura e seu orgulho, ela o deixara cair nas mãos de Gwenhwyfar e dos padres. Agora, quando era tarde demais, começava a compreender qual fora a intenção de Viviane.

Nós dois poderíamos ter governado esta terra; eles chamariam Gwenhwyfar de Grande Rainha, mas ela teria Artur apenas em corpo. Ele seria meu de coração, alma e mente. Ah, que tola fui eu... Nós dois poderíamos ter governado - para Avalon! Agora, Artur é dominado pelos padres. E ainda leva com ele a grande espada das Insígnias Druidas, e o Merlim da Bretanha nada fez para impedir isso. Devo retomar a obra que Viviane deixou inacabada. Ah, Deusa, esqueci tanta coisa...

- Tenho toda a certeza de que você fez o que era certo, meu querido marido. - E espalhou mais um pouco do ungüento cheiroso nas mãos. Não tinha a menor idéia do que Uriens dissera, mas ele sorriu e continuou a falar. Morgana voltou outra vez aos seus pensamentos.

Ainda sou uma sacerdotisa. Estranho como, de súbito, volto a ter consciência disso, depois de todos estes anos, quando até mesmo os sonhos de Avalon desapareceram.

Refletiu sobre o que Acolon lhes contara. Elaine tinha uma filha. Ela, Morgana, não podia dar a Avalon uma filha, mas como Viviane fizera, oferecer-lhe-ia uma filha adotiva. Ajudou Uriens a vestir-se, desceu com ele e, com suas próprias mãos, levou-lhe o pão fresco e cerveja nova, espumante. Serviu-o, passando mel no pão. Que ele a considerasse a mais delicada de suas servas, que a visse apenas como sua terna e dócil esposa. Isso nada significava para ela, mas ter a confiança de Uriens poderia representar muita coisa, algum dia, permitindo-lhe fazer o que quisesse.

- Até mesmo no verão, meus velhos ossos doem. Acho, Morgana, que vou para o sul, para Aquae Sulis, a fim de tomar as águas dali. Há um santuário antigo no sul; quando os romanos estiveram aqui, construíram termas enormes, e parte delas ainda está de pé. As grandes piscinas foram destruídas, e, quando os saxões vieram, levaram grande parte das peças decorativas e derrubaram a estátua da Deusa mas as fontes continuam intatas; elas sobem em nuvens de vapor, dia após dia e ano após ano, das forjas que existem no centro da terra. É assustador! E há ainda poços quentes em que a gente pode lavar todo o cansaço dos ossos. Lá não vou há dois ou três anos, mas voltarei agora que o país está em calma.

- Acho que deve ir, sim, já que está tudo calmo.

- Você gostaria de ir comigo, minha querida? Podemos deixar meus filhos tomando conta das coisas aqui, e o velho santuário poderá interessar a você.

- Gostaria de vê-lo - disse Morgana, com sinceridade. Lembrou-se das águas frias e infalíveis do Poço Sagrado de Avalon borbulhando, perenemente, frescas e claras, e que não vinham de nenhuma fonte... -, mas não sei se seria bom deixar tudo nas mãos de seus filhos. Avaloch é um tolo. Acolon é esperto, mas é apenas um filho mais novo, não sei se será ouvido pelo povo. Talvez, se eu ficasse, Avaloch ouvisse o irmão mais novo...

- Excelente idéia, minha querida - concordou Uriens com satisfação. - E, de qualquer modo, seria uma viagem muito longa para você. Se ficar aqui, não terei a menor hesitação em deixar tudo entregue aos rapazes. E darei ordens para que se aconselhem com você sobre todos os problemas.

- E quando pretende partir?

Não seria mal se todos soubessem que Uriens não hesitou em deixar o reino em minhas mãos, pensou Morgana.

- Talvez amanhã. Ou mesmo depois da bênção das colheitas, hoje. Você providenciará minhas coisas?

- Tem certeza de que pode fazer essa viagem tão longa? Não é uma distância fácil nem mesmo para um jovem...

- Ora, minha querida, ainda não estou velho demais para montar - disse ele, levemente aborrecido. - E tenho certeza de que as águas me farão bem.

- Eu também acho. - Morgana levantou-se, deixando o desjejum quase intocado. - Vou chamar seu criado e começar a preparar as coisas para a sua partida.

Morgana permaneceu ao lado de Uriens durante a longa procissão pelos campos, de pé num morro pouco além da aldeia, e ficou olhando os dançarinos que se pareciam a bodes novos... Imaginou se algum deles saberia o significado dos fálicos mastros verdes levantados por todo lado com grinaldas vermelhas e brancas, e a bela moça de cabelos soltos, que entre eles caminhava, serena e indiferente. Era viçosa e jovem, ainda não tinha catorze anos, os cabelos eram de um dourado brônzeo, longos, e chegavam abaixo da cintura. Usava um vestido tingido de verde que parecia muito antigo. Saberia algum deles o que estava vendo, ou perceberia a incongruência da procissão dos padres que os seguia, com dois meninos vestidos de preto, carregando velas e cruzes, e o padre entoando as orações em péssimo latim? O latim que Morgana falava era bem melhor do que o dele!

Esses padres odeiam a fertilidade e a vida, é um milagre que suas supostas bênçãos não arruinem os campos, tornando-os estéreis...

A voz suave que ouviu foi como que uma resposta às perguntas formuladas interiormente.

- Eu me pergunto, senhora, se alguém aqui, além de nós dois, sabe realmente o significado do que estamos vendo.

Acolon segurou-lhe o braço por um momento para ajudá-la a pular um monte de terra arada, e Morgana notou as serpentes, frescas e azuis, enroladas em seus pulsos.

- O rei Uriens sabe, e procurou esquecer. Isso me parece uma blasfêmia pior do que não saber nunca.

Esperava que Acolon se irritasse com isso e, de certa maneira, pretendia provocá-lo. Com as mãos fortes do rapaz no braço, Morgana sentiu o desejo forte, o anseio interior... ele era jovem, era um homem viril, e ela... ela era a mulher já não muito nova do velho pai de Acolon... e os olhos dos súditos do rei estavam sobre eles, como também os olhos da família e do padre da casa! Ela não podia sequer falar livremente, tinha de tratá-lo com uma distância fria: era seu enteado! Se Acolon dissesse qualquer coisa bondosa, ou demonstrasse pena dela, Morgana gritaria em voz alta, arrancaria os cabelos e arranharia o rosto, com as unhas...

Ele, porém, murmurou apenas, numa voz que não seria ouvida a um metro de distância:

- Talvez seja suficiente para a Deusa que nós saibamos, Morgana. Ela não nos falhará, enquanto houver um único fiel que lhe dê o que lhe é devido.

Ela voltou-se para encará-lo. Os olhos do rapaz estavam fixos nela, e embora as mãos que a tocavam fossem cuidadosas, corteses e indiferentes, pareceu-lhe que elas lhe transmitiam um calor que se espalhava por todo o seu corpo. Teve medo, de repente, e quis afastar-se.

Sou a mulher do pai dele, e, entre todas as mulheres, a que lhe é mais proibida. Nesta terra cristã, sou mais proibida para ele do que para Artur.

E então uma lembrança de Avalon veio-lhe à mente, coisa que não acontecia há uma década; um dos druidas, que ensinava os preceitos secretos às jovens sacerdotisas, dissera: Se quiserem que a mensagem dos Deuses dirija sua vida, procurem aquilo que se repete muitas vezes, pois é isso o que lhes transmitem, a lição cármica que devem aprender nesta encarnação. A mensagem repete-se até que a tenham transformado em parte de sua alma e de seu espírito duradouro.

O que tem me acontecido repetidas vezes...?

Todos os homens que desejara eram parentes próximos: Lancelote, filho de sua mãe de criação; Artur, filho de sua própria mãe; agora, o filho de seu marido...

Mas eles só são parentes meus, e próximos, pelas leis feitas por cristãos, que querem governar esta terra... Governá-la com uma tirania nova - não só querem fazer as leis, mas também dominar a mente, o coração e a alma. E estou sofrendo, na minha vida, toda a tirania dessa Lei, para que, como sacerdotisa, saiba por que ela deve ser derrubada?

Descobriu que suas mãos, ainda firmemente seguras por Acolon, tremiam. Procurando recompor seus pensamentos, Morgana disse:

- Você acredita realmente que a Deusa eliminaria a vida desta terra, se as pessoas que vivem aqui não lhe dessem o que lhe é devido?

Era uma pergunta que poderia ter sido feita, em Avalon, de uma sacerdotisa a um sacerdote. Morgana sabia disso e, mais do que qualquer outra pessoa, sabia que a verdadeira resposta a essa pergunta era a de que os Deuses eram o que eram, faziam o que queriam na Terra, a despeito daquilo que o homem considerasse obra deles, de uma ou de outra forma. Acolon, porém, respondeu, com um curioso sorriso:

- Então, devemos fazer sempre com que Ela receba o que lhe é devido, para que a vida não falte ao mundo - e dirigiu-se a Morgana, chamando-a de um nome que nunca era pronunciado, exceto entre sacerdote e sacerdotisa, no ritual. Ela sentiu o coração bater tão fortemente, que ficou tonta.

Para que a vida não falte ao mundo. Para que minha vida não me falte, em mim... ele me chamou em nome da Deusa.

- Silêncio - pediu ela, preocupada. - Não é este nem o momento, nem o lugar para tais conversas.

- Não?

Haviam chegado ao fim do terreno acidentado. Ele soltou-lhe a mão, e Morgana sentiu-a fria sem seu contato. Mais adiante, os dançarinos mascarados sacudiam seus bastões fálicos e saltavam. A Virgem da Primavera, com os longos cabelos agitados pela brisa, dava a volta ao círculo de dançarinos, trocando um beijo com cada um deles - um beijo ritualizado, formal, no qual os lábios mal tocavam o rosto. Uriens fez um gesto impaciente para que Morgana ficasse ao seu lado. Para lá ela se dirigiu, friamente, sentindo o lugar onde Acolon a havia tocado, nos pulsos, como um ponto de calor em todo o seu corpo frio.

- Cabe a você, minha cara, dar estas coisas aos dançarinos que nos divertiram hoje - recomendou Uriens, aborrecido.

Fez um gesto para um servo, que encheu as mãos de Morgana com doces e frutas cristalizadas, que ela jogou para os dançarinos e os espectadores. Estes se atiraram sobre as prendas, empurrando-se para apanhá-las. Sempre uma zombaria das coisas sagradas... um vestígio dos dias em que as pessoas se empurravam para conseguir pedaços da carne e do sangue do sacrifício... O rito pode ser esquecido, mas não transformado numa zombaria como essa! Os espectadores encheram as mãos de doces, e Morgana voltou a jogá-los sobre a multidão. Eles não viam no rito senão a dança que era motivo de diversão: teriam todos esquecido? A Virgem da Primavera aproximou-se de Morgana, rindo e entusiasmada, com um orgulho inocente. E embora fosse bonita, de perto notava-se que tinha os olhos fundos e as mãos grossas do trabalho no campo. Era apenas uma camponesa bonita que tentava fazer o papel de sacerdotisa, sem ter a menor idéia disso. Seria tolice querer-lhe mal.

E mesmo assim, ela é uma mulher, fazendo a obra da Deusa da melhor maneira que aprendeu. Não é por culpa sua que não tenha sido formada em Avalon para o grande trabalho. Morgana não sabia exatamente o que se esperava dela, mas a moça ajoelhou-se um momento ante a rainha, que adotou a posição meio esquecida de uma sacerdotisa ao conceder a bênção, e sentiu por um momento a velha consciência de alguma coisa que pairava sobre ela, além dela, lançando-lhe sua sombra... Colocou as mãos, por um momento, na cabeça da moça, sentiu o fluir momentâneo de uma força vital entre elas, e a face inexpressiva da camponesa transfigurou-se por um instante. A Deusa também está nela, pensou Morgana, e viu o rosto de Acolon, que a contemplava com espanto e receio. Morgana já vira aquela expressão antes, quando provocava as brumas de Avalon, e a consciência do seu poder tomou conta dela, como se estivesse de súbito renascendo.

Estou viva, outra vez. Depois de todos esses anos, volto a ser sacerdotisa, e foi Acolon quem me trouxe isso de volta...

E, em seguida, a tensão do momento rompeu-se, e a moça afastou-se, tropeçando e fazendo uma reverência desajeitada para os reis. Uriens distribuiu moedas aos dançarinos e uma doação um pouco maior ao padre da aldeia, para que fossem acesas velas na igreja, e a comitiva real voltou para casa. Morgana caminhava calmamente ao lado do marido, de rosto impassível mas interiormente vibrando de vida. Seu enteado Uwaine aproximou-se, caminhando ao lado dela.

- Foi melhor este ano do que em geral, mãe. Shana é muito bonita, a Virgem da Primavera, filha do ferreiro Euan. Mas você, mãe, quando a estava abençoando, parecia tão bonita que deveria ter sido a Virgem da Primavera...

- Ora, ora - respondeu em tom galhofeiro -, você acha que eu poderia vestir-me de verde e deixar meu cabelo esvoaçando, e dançar por todos os campos arados, dessa maneira? E eu não sou virgem!

- Não - disse Uwaine, examinando-a com um olhar demorado. - Mas parecia-se com a Deusa. O padre Eian diz que a Deusa era, na realidade, um demônio que vinha impedir que as pessoas servissem ao Cristo, mas sabe o que penso? Que a Deusa estava aqui para ser adorada pelo povo, antes que o ensinassem a adorar a santa mãe do Cristo.

Acolon, que andava ao lado deles, intrometeu-se:

- A Deusa existia antes do Cristo, e não haverá mal se você a imaginar como Maria, Uwaine. Você deve sempre fazer-lhe suas devoções, sob qualquer nome. Mas não deve falar sobre isso com o padre Eian.

- Ah, não - admitiu o menino, de olhos arregalados. - Ele não gosta de mulheres, nem mesmo quando são Deusas.

- E o que pensará das rainhas? - murmurou Morgana.

Chegaram de volta ao castelo, e Morgana tinha de providenciar todo o necessário para a viagem do rei Uriens. Na agitação que se seguiu, deixou que suas novas emoções passassem a segundo plano, sabendo que mais tarde teria de examiná-las mais seriamente.

Uriens partiu depois do meio-dia, com sua escolta e um ou dois servos. Despediu-se de Morgana carinhosamente, com um beijo, recomendando ao filho Avaloch que consultasse Acolon e a rainha em tudo. Uwaine estava triste, pois desejava acompanhar o pai, a quem adorava. Uriens, porém, não desejava ter o trabalho de levar uma criança na comitiva. Morgana teve de consolá-lo, prometendo-lhe alguma coisa especial enquanto o pai estivesse ausente. Mas, por fim, tudo sossegou, e ela pôde sentar-se, sozinha, junto à lareira no salão grande - Maline tinha levado os filhos para a cama - e pensar em tudo o que lhe acontecera durante o dia.

Já começava a escurecer, lá fora, a longa noite do solstício, Morgana apanhara o fuso e a roca, mas apenas fingia fiar, fazendo-a rodar por vezes, e produzindo um pouco de fio. Continuava a não gostar daquele trabalho, e uma das poucas coisas que tinha pedido a Uriens fora empregar duas mulheres mais na fiação, a fim de não ter de se ocupar naquela tarefa detestada. Em compensação, fazia o dobro do que lhe cabia, em tecelagem. Não ousava fiar: caía num estado estranho, entre o sono e a vigília, e temia o que pudesse ver. Por isso, agora só ocasionalmente fiava, para que nenhum dos servos a visse ociosa - não que alguém tivesse direito de censurá-la, pois estava sempre ocupada, desde bem cedo até tarde da noite.

O salão estava ficando escuro, com algumas áreas iluminadas pelos raios vermelhos do sol poente, contrastando com as trevas que já se espalhavam pelo cantos. Morgana apertou os olhos, recordando o poente vermelho sobre as pedras circulares do Tor, as sacerdotisas caminhando em fila atrás da luz vermelha da tocha, que pouco penetrava na escuridão.

Por um momento o rosto de Raven pairou à sua frente, silencioso, enigmático, e pareceu-lhe que ela abria os lábios silenciosos e falava seu nome, Morgana. Parecia ver outros rostos na penumbra do entardecer: Elaine, com os cabelos soltos à luz da tocha, na cama de Lancelote; Gwenhwyfar, com uma expressão de ódio e triunfo, no casamento dela; o rosto calmo e imóvel da estranha mulher de cabelo trançado como fada, a mulher que só tinha visto em sonhos, Senhora de Avalon... Raven outra vez, atemorizada, pedindo... Artur, levando uma vela de penitência, caminhando entre seus súditos... Ah, mas os padres jamais forçariam o rei a realizar uma penitência pública... E viu, então, a barca de Avalon, coberta de panos pretos como num funeral, e seu próprio rosto era um reflexo na bruma, espelhado ali, com três outras mulheres vestidas todas de preto como a barca, e um homem ferido, branco e imóvel, em seu colo...

A luz de uma tocha flamejou no salão escuro, e uma voz perguntou-lhe:

- Está tentando fiar no escuro, mãe?

Confundida pela luz, Morgana olhou para cima e respondeu, com impertinência:

- Já lhe pedi para não me tratar assim.

Acolon pendurou a tocha na parede e sentou-se ao pé de Morgana.

- A Deusa é mãe de nós todos, senhora, e eu a reconheço como tal...

- Está zombando de mim?

- Eu não zombo - e Acolon ajoelhou-se perto dela, de lábios trêmulos: - Vi seu rosto hoje. Acha que eu poderia zombar disso, quando tenho estas serpentes?

Estendeu os braços e, por um efeito da luz, as serpentes azuis tatuadas em seus pulsos pareciam agitar-se e levantar as cabeças pintadas.

- Senhora, Mãe, Deusa.. - Seus braços tatuados envolveram-na, e ele escondeu a cabeça em seu colo, murmurando: - Para mim, você tem a face da Deusa...

Como num sonho, Morgana estendeu-lhe a mão, inclinando-se para beijá-lo na nuca, onde o cabelo se encaracolava. Parte dela se perguntava, atemorizada: O que estou fazendo? Será apenas por me ter falado em nome da Deusa, de sacerdote a sacerdotisa? Ou será apenas porque, quando ele me toca, ou me fala, eu me sinta mulher e viva novamente, depois de todo esse período em que me senti velha, estéril, semimorta, neste casamento, com um homem morto e uma vida morta? Acolon levantou o rosto, beijando-a na boca. Cedendo ao beijo, ela sentiu-se fundir, abrir-se, com um estremecimento, numa sensação que era um misto de dor e prazer, que a percorreu quando a língua de Acolon tocou a sua, despertando lembranças por todo o seu corpo. Tão longo, tão longo havia sido aquele ano em que seu corpo estivera morto, sem se deixar despertar para não ter consciência daquilo que Uriens estava fazendo... Pensou, num desafio: Sou uma sacerdotisa, meu corpo é meu, para ser dado em homenagem a ela! O que fiz com Uriens é que foi pecado, a submissão à luxúria! Isto, porém, é sagrado e verdadeiro...

As mãos de Acolon tremeram no corpo de Morgana, mas, quando ele falou, sua voz era firme e tinha um tom prático:

- Creio que estão todos dormindo. Eu sabia que você ficaria aqui, esperando por mim...

Por um momento, essa certeza irritou Morgana; depois, baixou a cabeça. Estavam nas mãos da Deusa, e ela não rejeitaria a força vital que se apossava dela, arrastando-a como um rio. Durante muito, muito tempo, ficara estagnada como numa água parada, mas agora voltava a ser lavada e purificada pela correnteza da vida.

- Onde está Avaloch?

- Foi para a aldeia, encontrar-se com a Virgem da Primavera - respondeu Acolon, com um riso breve. - É um dos nossos costumes que o padre da aldeia não conhece. Sempre, desde que nosso pai envelheceu e nós nos tornamos homens, tem sido assim, e Avaloch não considera incompatível com seus deveres de cristão ser um pai para o seu povo, ou pelo menos, do maior número possível, como o próprio Uriens fazia quando jovem. Avaloch prontificou-se a tirar a sorte comigo, para ver quem teria o privilégio, e eu pensei em aceitar, mas depois lembrei-me de suas mãos abençoando-a, e tive consciência de que não era ela que eu devia procurar...

- Avalon está tão distante! - murmurou Morgana num protesto débil.

- Mas está em toda parte - retrucou Acolon, apertando o rosto contra seu seio.

- Que assim seja - murmurou Morgana, levantando-se. Puxou-o para que também ele ficasse de pé, e deu meia-volta em direção à escada, mas parou. - Não, aqui não. - Não havia uma cama no castelo que pudessem dividir com honra. E lembrou-se novamente da máxima do druida. Pode aquilo que não foi feito ou criado pelo Homem ser cultuado sob um teto feito por mãos humanas?

Saíram, então, para a noite. Quando estavam no pátio vazio, uma estrela cadente riscou o céu tão rapidamente que, por um momento, pareceu a Morgana que os céus giravam e a terra andava para trás, sob seus pés. Depois, a estrela desapareceu, deixando-a deslumbrada. Um sinal. A Deusa saúda minha volta ao seu seio...

- Vamos - murmurou ela, segurando a mão de Acolon e levando-o para o jardim, onde os fantasmas brancos das flores oscilavam no escuro e tombavam à volta deles. Morgana abriu o manto sobre a grama, como um círculo mágico sob o céu, estendeu os braços e murmurou novamente: - Vem.

A sombra escura do corpo de Acolon sobre o seu fez desaparecer o céu e as estrelas.

 

Morgana fala

Mesmo quando estávamos deitados juntos, sob as estrelas daquele solstício de verão, eu sabia que o que tínhamos feito era menos amor do que um ato mágico de força apaixonada; que suas mãos, o toque de seu corpo, eram como que uma reconsagração minha como sacerdotisa, e que era a vontade da Deusa. Por mais cega que estivesse a tudo o que não fosse aquele momento, ainda assim ouvi, à nossa volta, na noite de verão, murmúrios que mostravam não estarmos sós.

Ele queira reter-me em seus braços, mas levantei-me, movida pela força que me dominava naquela hora, e levantei as mãos acima da cabeça, baixando-as depois lentamente, de olhos fechados, contendo a respiração na tensão da força...

E só quando ouvi a exclamação de espanto e reverência, aventurei-me a abrir os olhos e vi seu corpo banhado daquela mesma luz suave que emanava do meu.

Consumara-se, e a Deusa estava comigo. Mãe, sou indigna ante teus olhos... Mas agora a força voltara... Contive a respiração, com medo de romper em pranto. Depois de todos aqueles anos, depois de minha traição e infidelidade, a Deusa voltara para mim, e eu era sacerdotisa de novo. O pálido luar mostrava-me, na orla do campo em que nos encontrávamos, o brilho de olhos semelhantes aos de animais, em meio ao mato, embora não se percebesse sequer uma sombra. Não estávamos sós, o pequeno povo das montanhas sabia onde estávamos e o que acontecia ali, e tinha vindo ver a consumação desconhecida, desde que Uriens envelhecera e o mundo se tornara cinzento e cristão. Ouvi o eco de um murmúrio reverente e respondi numa língua da qual eu não conhecia mais do que algumas palavras, de maneira apenas audível onde eu estava e onde Acolon continuava ajoelhado, reverente.

- Consumou-se. Que assim seja!

Inclinei-me e beijei-o na testa, repetindo:

- Consumou-se. Vá, meu querido, e que a Deusa o abençoe.

Sei que ele teria ficado, se eu fosse a mulher com quem entrara no jardim. Frente à sacerdotisa, porém, afastou-se em silêncio, sem questionar a palavra da Deusa.

Não pude dormir aquela noite. Sozinha, andei pelo jardim até o amanhecer, e já sabia, tremendo de terror, o que tinha de fazer. Não sabia como e se, sozinha, eu podia fazer o que havia começado, mas, assim como tinha sido feito sacerdotisa havia muito tempo e renunciado a essa condição, agora teria de refazer sozinha meus passos. Recebi, naquela noite, uma grande graça, mas sabia que não haveria outros sinais para mim, nem qualquer ajuda, enquanto eu não voltasse a ser, pelos meus próprios meios, a sacerdotisa para que fora preparada.

Trazia ainda na testa, desbotado sob a touca de dona-de-casa que Uriens queria que eu usasse, o sinal da graça da Deusa, mas agora isso não me ajudaria. Olhando para as estrelas que desapareciam, não sabia se o sol nascente me surpreenderia ou não em minha vigília. Fazia tanto tempo que o calor do sol não me corria nas veias, que eu já não sabia o lugar exato, no horizonte oriental, para onde devia me voltar a fim de saudar seu aparecimento. Já não lembrava sequer como os ciclos da lua se completavam em meu corpo... tão longe estava dos ensinamentos de Avalon. Sozinha, tendo apenas uma lembrança apagada, devia recordar-me de todas as coisas que, em certo momento, haviam sido parte de mim mesma.

Antes do amanhecer, entrei silenciosamente e, andando no escuro, localizei a única lembrança que tinha de Avalon - a pequena faca curva que tirara do corpo sem vida de Viviane, uma faca igual àquela que, outrora, eu levava como sacerdotisa e tinha abandonado em Avalon, quando dali fugi. Coloquei-a na cintura, sob o vestido; ela nunca mais me abandonaria, seria enterrada comigo.

Mantive assim, escondida ali, a única lembrança que pude guardar daquela noite. Nem mesmo pintei de novo o crescente em minha testa, em parte devido a Uriens - ele teria feito perguntas -, em parte porque eu sabia que ainda não era digna de usá-lo. Não o usaria com a indiferença com que Uriens levava as serpentes desbotadas nos braços, um ornamento e uma lembrança meio esquecida daquilo que ele fora outrora, e que já não era mais. Nos meses que se seguiram e se acumularam em anos, uma parte de mim movia-se como uma boneca pintada, realizando tudo o que ele exigia de mim - fiando e tecendo, fazendo remédios de ervas, cuidando das necessidades de seu filho e do neto, ouvindo a conversa de meu marido, bordando para ele belas roupas e cuidando dele quando adoecia... Tudo isso eu fazia sem pensar muito, com a superfície da mente e com um corpo embotado pelas ocasiões em que ele me possuía de maneira rápida e desagradável.

Mas a faca ali estava, e eu podia tocá-la por vezes, para reassegurar-me, à medida que ia reaprendendo a contar o tempo dos movimentos solares, do equinócio ao solstício, e de volta ao equinócio. A contá-lo penosamente nos dedos como uma criança ou uma sacerdotisa noviça. Transcorreram anos antes que eu pudesse sentir esses movimentos novamente no sangue, ou conhecer, com a máxima exatidão, onde, no horizonte, a lua ou o sol nasceriam ou desapareceriam, para as saudações que de novo aprendi a fazer. E tarde da noite, quando todos dormiam à minha volta, eu estudava as estrelas, deixando que sua influência me penetrasse o sangue, à medida que percorriam os céus, até me transformar apenas num ponto insignificante na Terra imóvel, centro da dança espiralar em volta de mim, acima de mim, do movimento das estações. Levantava-me cedo e deitava-me tarde, para ter tempo de vagar pelos montes, sob o pretexto de colher ervas e raízes para remédios, e nos montes busquei as velhas linhas de força, traçando-as desde as pedras até os lagos. Foi um trabalho cansativo, e passaram-se anos antes que eu pudesse conhecer umas poucas dessas linhas, próximas do castelo de Uriens.

Mesmo naquele primeiro ano, porém, quando eu lutava com a memória, que se apagava, procurando recordar aquilo que sabia havia tantos anos, tinha a consciência de que minhas vigílias não eram solitárias. Nunca estava desacompanhada, embora jamais tivesse visto mais do que vira na primeira noite, o brilho de olhos no escuro, uma sombra de movimento com o canto dos olhos... Eles raramente se deixavam ver, mesmo ali nos montes distantes, perto de campos ou aldeias. Viviam sua vida em segredo, em montes e florestas desertas, para onde haviam fugido com a chegada dos romanos. Mas eu sabia que estavam ali, que o pequeno povo que nunca A perdera de vista me vigiava.

Certa vez, em montes distantes, encontrei um círculo de pedras, não tão grande quanto o que havia no Tor, em Avalon, nem o outro, ainda maior, onde antes havia sido o Templo do Sol, nas grandes planícies calcárias. Aqui, as pedras não iam além da altura do ombro, mesmo do meu - e não sou alta -, e o círculo não era mais largo do que a altura de um homem. Uma pequena laje de pedra, com manchas apagadas e coberta de hera, estava semi-enterrada na relva, no centro. Limpei as heras e urtigas, e como eu sempre encontrava jeito de tirar comida da cozinha, deixei ali, para o povo da Deusa, as coisas que eu sabia que raramente tinham - um pedaço de pão de cevada, um pouco de queijo ou de manteiga. E certa vez, quando ali cheguei, encontrei, no centro do círculo de pedras, uma coroa de flores perfumadas que crescem nas orlas do país das fadas, e que se ressecam sem murchar. Quando, numa noite de lua cheia, saí novamente com Acolon, usei a coroa quando nos juntamos naquela união solene que fazia desaparecer o indíviduo e nos tornava apenas Deusa e Deus, afirmando a vida interminável do cosmos, o fluxo da energia entre homem e mulher, como entre a Terra e o Céu. Depois disso, nunca mais andei sem companhia, além do meu jardim. Eu sabia que não devia procurar vê-los diretamente, mas sentia que estavam ali, se deles precisasse. Não foi por acaso que me deram o antigo nome de Morgana das Fadas... E agora, eles me reconheciam como sua sacerdotisa e rainha.

Cheguei ao círculo de pedras, caminhando à noite, quando a lua da colheita estava baixa no céu e o quarto inverno tornava-se ainda mais frio, na véspera do Dia dos Mortos. Ali, envolta em meu manto e tremendo durante a noite, fiz minha vigília, jejuando. A neve começava a cair quando me levantei e caminhei para casa, mas, ao deixar o círculo, tropecei numa pedra que não estava ali antes e, inclinando a cabeça, vi a configuração que tinha sido dada às pedras brancas:

Mexi uma delas, para formar o número seguinte na seqüência de números mágicos - as estações haviam-se modificado, e estávamos agora sob as estrelas do inverno. Fui em seguida para casa, tremendo, e ali contei a história de que passara a noite nos morros e dormira numa cabana vazia - Uriens estava preocupado com a neve, e tinha mandado dois homens à minha procura. A neve, que se acumulava nas encostas das montanhas, me impediu de sair durante grande parte do inverno, mas eu sabia quando as tempestades cessariam, e arrisquei uma excursão até as pedras circulares, no solstício de inverno, sabendo que as pedras estariam limpas - a neve não se acumula nunca nos grandes círculos, eu sabia, e supunha que a mesma coisa aconteceria ali, nos círculos menores, onde a magia ainda se fazia sentir.

E naquele lugar, exatamente no centro, encontrei um pequeno volume - um pedaço de couro atado com um cordão.. Meus dedos estavam recobrando a antiga habilidade, e não hesitaram, quando desfiz os nós e espalhei o conteúdo na palma da mão. Pareciam sementes secas, mas tratava-se na realidade dos pequenos cogumelos que cresciam tão raramente perto de Avalon. Não serviam de alimento, e a maioria das pessoas os consideravam venenosos, pois provocavam vômitos, diarréias e fluxo sangüíneo. Mas, se consumidos com moderação, em jejum, podiam abrir as portas da Visão...

Era um presente mais valioso do que ouro. Não se encontravam naquele país, e eu imaginei quanto o povo pequeno teria procurado os cogumelos por terras distantes. Deixei-lhes toda a comida que tinha trazido, carnes, frutos secos e favos de mel, mas não como pagamento: o presente não tinha preço. Eu sabia que iria me trancar em meu quarto no solstício de inverno, buscando novamente a Visão a que havia renunciado. Com suas portas assim abertas, eu podia ousar buscar a própria presença da Deusa, implorando que me devolvesse aquilo que eu jogara fora. Não tinha medo de ser novamente rejeitada. Ela é que me havia mandado aquele presente para que eu pudesse voltar à Sua presença.

Curvei-me até o chão em agradecimento, sabendo que minhas orações tinham sido ouvidas e que minhas penitências estavam cumpridas.

 

Capítulo 10

A neve começava a derreter-se nos montes, e as primeiras flores precoces já eram vistas nos vales abrigados, quando a Senhora do Lago foi chamada à barca para receber o Merlim da Bretanha. Kevin parecia pálido e cansado, de rosto marcado, e os membros deformados pareciam ter dificuldades ainda maiores do que antes, obrigando-o a apoiar-se num pesado cajado. Niniane notou, disfarçando a pena que sentia, que ele tinha sido forçado a entregar Minha Dama às mãos de um criado, e fingiu não perceber, sabendo o golpe que isso representava para seu orgulho. Caminhou mais devagar em direção à sua casa, mandou as criadas acenderem o fogo, trazerem o vinho, do qual ele tomou apenas um gole, curvando a cabeça com seriedade, em agradecimento.

- O que o traz aqui tão cedo assim, no começo do ano, Venerável? - perguntou Niniane. - Veio de Camelot.

Ele sacudiu negativamente a cabeça:

- Estive lá parte do inverno, e conversei muito com os conselheiros de Artur. Mas, em princípios da primavera, fui para o sul numa missão junto às tropas do pacto deveria dizer agora, acho, junto aos reinos saxões. E creio que sabe quem vi lá Niniane. Foi obra de Morgause, ou sua?, pergunto.

- De nenhuma das duas - respondeu ela tranqüilamente. - Foi escolha do próprio Gwydion. Ele sabia que devia ter alguma experiência de combate, com ou sem ensinamentos druidas. Houve guerreiros druidas, antes. E preferiu ir para o sul, para os reinos saxões. Eles são aliados de Artur, mas ali ele não estaria sob a vigilância do rei. Por motivos que nós dois sabemos, Gwydion não queria que o Grande Rei o tivesse sob os olhos. - Um momento depois, acrescentou: - Não juraria que Morgause não influenciou sua escolha. Ele aconselha-se com ela, isto é, quando busca alguma opinião.

- É assim? - perguntou Kevin, arregalando os olhos. - Sim, creio que sim, ela é a única mãe que conheceu. E governou o reino de Lot tão bem quanto qualquer homem, e ainda governa, mesmo com seu novo consorte.

- Não sabia que tinha um novo consorte - interrompeu Niniane. - Não consigo ver o que ocorre nos reinos tão claramente quanto Viviane.

- Ah, ela era dotada da Visão, o que a ajudava, e tinha donzelas que também a possuíam, quando começou a perdê-la. Você não tem nenhuma, Niniane?

- Alguma - respondeu, hesitando. - Mas falha-me de vez em quando. - Ficou calada por um momento, olhando para as pedras no chão. Por fim, disse: - Creio que Avalon está se afastando cada vez mais das terras dos homens, senhor Merlim. Que estação fazia no mundo lá fora?

- Já transcorreram dez dias desde o equinócio, Senhora.

Niniane suspirou profundamente:

- E eu realizei a festa há apenas sete dias. É como se... as terras estivessem se distanciando. Até agora, apenas alguns dias em cada lua, mas temo que dentro em pouco estejamos tão distantes dos ciclos solares e lunares quanto o reino das fadas. É cada vez mais difícil chamar as brumas e sair desta terra.

- Eu sei - disse Kevin. - Por que acha que vim com a baixa da maré? - Deu seu sorriso deformado e disse: - Devia regozijar-se, pois não envelhecerá com a mesma rapidez das mulheres do mundo lá fora, Senhora, permanecerá sempre jovem.

- O senhor não me consola - tornou Niniane com um estremecimento. - Mas não há ninguém no mundo exterior cuja vida eu acompanhe, exceto...

- Gwydion - sussurrou Kevin. - Foi o que pensei. Mas há também outras pessoas com cuja sorte a Senhora se devia preocupar...

- Artur, em seu palácio? Ele renunciou a nós, e Avalon já não lhe dá mais apoio.

- Não é de Artur que falo, nem busca ele ajuda de Avalon, pelo menos agora. Mas... - hesitou. - Ouvi o povo dos montes dizer que há novamente um rei em Gales do Norte, e uma rainha.

- Uriens? - riu Niniane, com desprezo. - É mais velho do que esses montes, Kevin! O que pode ele fazer por esse povo?

- Também não falei de Uriens. Já se esqueceu? Morgana está lá, e o Povo Antigo a aceitou como rainha. Ela o protegerá, até mesmo contra Uriens, enquanto for viva. Esqueceu-se de que o filho de Uriens foi instruído aqui, e usa as serpentes nos pulsos?

Niniane ficou calada por um instante, imóvel. Por fim, disse:

- Havia me esquecido disso. Ele não era o filho mais velho, por isso pensei que nunca reinaria...

- O filho mais velho é um idiota, embora os padres o considerem um bom sucessor para o pai, e do ponto de vista deles, realmente é. É tão religioso e simples que não interferirá na Igreja. Os padres não confiam no segundo filho, Acolon, porque ele traz as serpentes. E desde que Morgana foi para lá, ele se lembra disso e a atende como sua rainha. E para o povo das montanhas, ela é a rainha, também, não importa quem esteja no trono, ao estilo romano. Para eles, o rei é aquele que morre anualmente entre os gamos, mas a rainha é eterna. E pode ser que, no fim, Morgana realize aquilo que Viviane deixou por terminar.

Niniane pôde sentir, com uma surpresa distante, a amargura da própria voz:

- Kevin, nem por um dia sequer, desde a morte de Viviane, e desde que me colocaram aqui, pude esquecer que não sou Viviane, que, em comparação com ela, nada sou. Até mesmo Raven me acompanha com seus grandes olhos silenciosos, que estão sempre dizendo: Você não é Viviane, você não pode realizar o trabalho a que ela dedicou sua vida. Eu sei disso muito bem, sei que fui escolhida apenas por ser a última que tinha o sangue de Taliesin, e não havia outra, que não sou da linhagem real da Rainha de Avalon! Não, não sou Viviane, e não sou Morgana, mas servi fielmente neste lugar, embora nunca o tivesse buscado e ele me tivesse sido imposto devido ao sangue de Taliesin. Tenho sido fiel a meus votos, será que isso não significa nada para ninguém?

- Senhora - Kevin foi amável -, Viviane foi uma sacerdotisa como só uma vez em muitas centenas de anos, mesmo em Avalon, aparece alguma. E seu reinado foi longo, durou trinta e nove anos, sendo poucos os que se lembram de tempos anteriores a ela. Qualquer sacerdotista que viesse depois dela se sentiria diminuída, em comparação. Não há nenhuma razão para que a Senhora se censure. Tem sido fiel a seus votos.

- E Morgana não foi.

- Certo. Mas ela é da linhagem real de Avalon, e deu à luz o herdeiro do Gamo-Rei. Não nos cabe julgá-la.

- O senhor a defende porque foi seu amante - exclamou Niniane, e Kevin levantou a cabeça. Ela não tinha percebido; naquele rosto contorcido e deformado, seus olhos eram azuis, como o centro mesmo de uma chama. Kevin perguntou com voz tranqüila:

- Estaria querendo hostilizar-me, Senhora? Isso terminou e passou há muitos anos, e quando vi Morgana pela última vez, ela chamou-me de traidor e coisas piores, e expulsou-me de sua presença com palavras que nenhum homem com sangue nas veias poderá perdoar. Acha que a amo demais? Mas não me cabe julgá-la, nem à Senhora, que é a Senhora do Lago. Morgana é minha rainha e a Rainha de Avalon. Faz seu trabalho no mundo lá fora, assim como a Senhora faz o seu aqui... e eu o faço aonde os Deuses me levam. E nesta primavera levaram-me ao país dos pântanos, onde, na corte de um saxão que se intitula rei sob Artur, vi Gwydion.

Niniane tinha aprendido, em seu longo treinamento, a manter um rosto impassível, mas sabia que Kevin, tendo o mesmo preparo, podia perceber o esforço que isso lhe custava, e sentiu vagamente que seus olhos penetrantes podiam ler seu íntimo. Queria pedir-lhe notícias, mas em vez disso, disse apenas:

- Morgause contou-me que ele conhece um pouco de estratégia e que não é covarde em batalha. Como se comporta, então, entre esses bárbaros que preferem estourar os cérebros com seus grandes macetes a usá-los em suas cortes? Sei que ele foi para os reinos saxões porque um deles queria um druida na corte, que soubesse ler e escrever e conhecesse um pouco dos números e da elaboração de mapas. Disse-me que desejava experiência na guerra sem estar sob os olhos de Artur, e creio que realizou seu desejo. Embora tenha havido paz na terra, há sempre alguma luta entre aquela gente. Não é saxão o Deus de guerras e batalhas?

- A Gwydion, eles chamam de Mordred, o que significa "Mau Conselho", na língua deles. É um cumprimento, querem dizer com isso que é mau conselho para os que lhe poderiam fazer mal. Dão a todo hóspede um nome, e a Lancelote chamam de Flecha dos Duendes.

- Entre os saxões, um druida, mesmo que jovem, poderá parecer mais sábio do que realmente é, em contraste com a cabeça dura que eles têm! E Gwydion é inteligente!

Mesmo quando pequeno, ele podia encontrar uma dezena de respostas para tudo!

- Inteligente ele é - admitiu Kevin lentamente - e sabe muito bem fazer-se amar, como eu mesmo já vi. Recebeu-me como se eu fosse o tio favorito de sua infância, dizendo como era bom ver um rosto familiar de Avalon, abraçando-me, dando-me grande importância, como se me amasse muito.

- Sem dúvida ele sentia-se só ali, e o senhor foi para ele como um ar vindo de sua terra - disse Niniane, mas Kevin franziu a testa e tomou um pouco de vinho. Depois, deixou-o de lado e voltou a esquecê-lo. Perguntou:

- Até onde foi Gwydion no conhecimento da magia?

- Ele usa as serpentes.

- Elas podem significar pouca ou muita coisa. A Senhora deve saber disso... - E embora as palavras fossem inocentes, Niniane sentiu-as: uma sacerdotisa que trazia na fronte o crescente poderia ser uma Viviane, ou podia ser apenas Niniane.

- Ele deve voltar no solstício de verão, para ser feito Rei de Avalon, o Estado que Artur traiu. E agora, está transformado em um homem...

- Ele não está preparado para ser rei - advertiu Kevin.

- O senhor duvida de sua coragem? Ou de sua lealdade?

- Ora, coragem... - murmurou Kevin com um gesto desdenhoso. - Coragem e inteligência... Mas é no seu coração que não confio e não consigo ler. E ele não é Artur.

- É uma felicidade para Avalon que não seja - exclamou Niniane. - Não precisamos de outros apóstatas que nos jurem lealdade e esqueçam o juramento feito ao povo dos montes! Os padres podem colocar no trono um carola hipócrita, que sirva a qualquer Deus que lhes seja mais conveniente no momento...

Kevin levantou a mão deformada, num gesto tão imperioso que Niniane se calou.

- Avalon não é o mundo! Não temos força nem exércitos, nem recursos, e Artur é muito amado pelo povo. Não em Avalon, admito, mas por todas essas ilhas, onde ele foi a mão que criou a paz que tanto valorizam. Neste momento, qualquer voz contra Artur será silenciada em poucos meses, ou mesmo em poucos dias. Artur é amado, ele é o espírito da própria Bretanha. E mesmo se assim não fosse, o que fazemos em Avalon tem pouco peso no mundo lá fora. Como a Senhora observou, estamos nos afundando nas brumas.

- Então, mais uma razão para agirmos rapidamente, para derrubarmos Artur e colocarmos no trono um rei que reconduza Avalon ao mundo e a Deusa...

- Por vezes, tenho dúvidas de que isso possa ser feito - opinou Kevin, com voz tranqüila. - Pergunto-me se não passamos a vida dentro de um sonho sem realidade.

- O senhor diz isso? O senhor, o Merlim da Bretanha?

- Tenho vivido na corte de Artur, e não abrigado numa ilha que cada vez mais se afasta do mundo lá fora. Isto aqui é minha casa, e eu morreria, como jurei... mas foi com a Bretanha que celebrei o Grande Casamento, Niniane, e não apenas com Avalon...

- Se Avalon morrer, então a Bretanha estará sem seu coração e morrerá também, pois a Deusa terá retirado sua alma de toda esta terra.

- Você pensa assim, Niniane? - Kevin suspirou novamente: - Andei por todas essas terras, em todos os climas e em todos os momentos, como Merlim da Bretanha, falcão da Visão, mensageiro do Grande Corvo, e constatei que existe agora um outro coração na terra, e que brilha a partir de Camelot.

Ficou calado. Depois de um longo tempo, Niniane perguntou-lhe:

- Foi quando o senhor disse tais palavras para Morgana que ela o chamou de traidor?

- Não, foi por outra razão. Niniane, talvez não conheçamos a vontade dos Deuses e sua maneira de agir tão bem quanto pensamos. Digo-lhe que, se agirmos agora para derrubar Artur, esta terra entrará num caos, pior do que quando Ambrósio morreu e Uther teve de lutar pela sua coroa. A Senhora acredita que Gwydion pode lutar como Artur para apoderar-se do país? Os Companheiros de Artur cerrariam fileiras contra qualquer homem que se levantasse diante de seu rei e herói, que para eles é como um deus e não pode cometer erros.

- Nunca desejamos que Gwydion enfrentasse o pai e lutasse contra ele pela coroa, mas apenas que um dia, quando Artur souber que não tem herdeiro, ele se volte para o filho que vem da linhagem real de Avalon e jurou fidelidade à Ilha Sagrada e aos Deuses verdadeiros. E com esse fim ele deverá ser proclamado Gamo-Rei em Avalon, para que possa haver vozes que falem por ele, quando Artur buscar um herdeiro. Soube que Artur escolheu o filho de Lancelote para seu herdeiro, já que a rainha é estéril. Mas o filho de Lancelote é uma criança, ao passo que Gwydion já é homem feito. Se alguma coisa acontecesse a Artur, agora, não pensa que eles escolheriam Gwydion, que é homem feito, guerreiro e druida, e não uma criança?

- Os Companheiros de Artur não seguiriam um estranho, fosse duas vezes guerreiro e druida. É mais provável que nomeassem Gawaine como regente do filho de Lancelote até que ele crescesse. E os Companheiros são cristãos, em sua maioria, e rejeitariam Gwydion devido ao seu nascimento. O incesto é um pecado grave, para eles.

- Eles nada sabem das coisas sagradas.

- Certo. Precisam de tempo para se habituar à idéia, e esse tempo ainda não transcorreu. Mas se Gwydion não pode ser reconhecido agora como filho de Artur, então deve-se saber que a sacerdotisa Morgana, que é irmã de Artur, tem um filho, e que seu filho está mais próximo do trono do que o filho de Lancelote. Neste verão, haverá guerra novamente.

- Pensei que Artur tinha feito a paz.

- Aqui na Bretanha, sim. Mas há alguém na Bretanha Menor que pretende reivindicar toda a Bretanha como seu império...

- Ban? - perguntou Niniane, espantada. - Ele jurou há muito tempo... Ele realizou o Grande Casamento antes que o nosso Lancelote nascesse. Está velho demais para fazer guerra contra Artur...

- Ban está velho e fraco. Seu filho Lionel reina em seu lugar, e o irmão dele, Bors, que é um dos Companheiros de Artur, adora Lancelote como seu herói. Nenhum dos dois perturbaria o reinado de Artur. Mas há alguém que se dispõe a isso. Chama-se Lúcio, conseguiu as velhas águias romanas e proclamou-se imperador. Ele desafiará Artur.

A pele de Niniane arrepiou-se:

- Isso é uma Visão?

- Morgana me disse certa vez - respondeu Kevin com um sorriso - que não é necessário ter Visão para saber que um bandido é um bandido. Não preciso da Visão para saber que um homem ambicioso fará os desafios que possam promover sua ambição. Há quem imagine que Artur está ficando velho, porque seu cabelo já não é tão dourado e não usa mais a bandeira do dragão. Mas não o subestime, Niniane. Eu o conheço, e a Senhora, não. Artur não é nenhum tolo!

- Acho que, embora tenha jurado destruí-lo, o senhor o ama demais!

- Amá-lo? - O sorriso de Kevin era amargo. - Sou o Merlim da Bretanha, mensageiro do Grande Corvo, e sento-me ao lado dele em conselho. Artur é um homem fácil de ser amado. Mas eu fiz um juramento à Deusa. - Deu novamente uma risada breve. - Acho que minha sanidade depende disso, de saber que as situações vantajosas para Avalon devem, a longo prazo, beneficiar também a Bretanha. A Senhora considera Artur inimigo, Niniane. Eu o vejo como o Gamo-Rei, protegendo sua manada e suas terras.

Niniane respondeu, num murmúrio trêmulo:

- E o que acontecerá ao Gamo-Rei, quando o gamo novo crescer?

Kevin apoiou a cabeça nas mãos, parecia velho, cansado e doente:

- O dia ainda não é chegado, Niniane. Não procure empurrar Gwydion com tanta pressa, ou ele será destruído, apenas por ser seu amante.

Levantou-se e saiu capengando da sala, sem olhar para trás, deixando Niniane sombria e irritada.

Como esse maldito homem podia saber disso?

E disse para si mesma: Não fiz votos como uma freira cristã! Se quiser levar um homem para minha cama, é a mim que compete decidir... Mesmo que esse homem seja meu discípulo, e fosse apenas um menino, quando aqui chegou!

Nos primeiros anos, ele fizera-se querido dela, sendo um menino solitário, perdido e sem nada, sem ninguém para amá-lo, cuidar dele ou preocupar-se com sua sorte... Morgause era a única mãe que tinha conhecido, e agora também se separava dela. Como podia Morgana ter abandonado um filho tão bonito, inteligente e sensível, sem nunca procurar saber como ele ia, sem ir vê-lo de perto? Niniane não tinha filhos, embora por vezes acreditasse que, se voltasse de Beltane com o ventre cheio, gostaria de oferecer uma filha à Deusa. Mas isso nunca lhe acontecera, e ela não se rebelaria contra o seu destino.

Mas naqueles primeiros anos deixara que Gwydion encontrasse o caminho do seu coração. E depois ele partiu, como fazem os homens, já tendo passado da idade dos ensinamentos das sacerdotisas, para aprender os ensinamentos entre os druidas e também as artes da guerra. Voltava a cada ano, na época de Beltane, e Niniane julgara que tinha sido por astúcia que se aproximara dela nas fogueiras rituais, e ela se afastara com ele...

Mas não se separaram quando a estação terminou, e depois, sempre que suas andanças o levaram a Avalon, ela deixara claro que o queria, e Gwydion não respondera negativamente. Sou eu quem está mais próxima de seu coração, pensou ela, eu, que o conheço melhor. O que sabe Kevin dele? E agora chegou a hora de ele voltar para Avalon, e ter seu julgamento como Gamo-Rei...

Voltou seus pensamentos para a questão de onde encontrar uma virgem para ele. São tão poucas as mulheres na Casa das Moças que podem ser consideradas até mesmo semi- preparadas para esse grande papel, pensou, e seus pensamentos foram impregnados de um súbito medo e sofrimento.

Kevin tinha razão. Avalon está se afundando, está morrendo; são poucos os que aqui vêm para receber os ensinamentos antigos, e não há quase ninguém para manter os ritos. Um dia, não haverá ninguém... E mais uma vez sentiu o formigamento que lhe tomava todo o corpo, e que acontecia em lugar da Visão.

 

Gwydion chegou a Avalon poucos dias antes de Beltane. Niniane recebeu-o formalmente na barca, e ele inclinou-se para ela numa reverência, frente às donzelas e às pessoas da ilha, ali reunidas. Mas quando se viram a sós, tomou-a nos braços e beijou-a, rindo, até perderem ambos a respiração.

Seus ombros estavam mais largos, e ele tinha uma marca vermelha no rosto. Notava-se que tinha lutado, pois já não tinha o olhar tranqüilo do sacerdote e do estudioso.

Meu amante e meu filho. É por isso que a Grande Deusa não tem marido ao estilo romano, mas apenas filhos, pois somos todos seus filhos? E eu, que estou no seu lugar, devo sentir que meu amante é também meu filho, pois todos aqueles que a amam são seus filhos...

- E o país está agitado com isso - dizia ele -, aqui em Avalon e entre o Povo Antigo dos montes, pelo fato de que na ilha do Dragão, esse Povo Antigo escolherá seu rei, novamente... Foi para isso que me chamou, ou não foi?

 

Por vezes Gwydion podia ser tão irritante quanto uma criança arrogante, pensou ela.

- Não sei, Gwydion. A ocasião pode não ser propícia, as vibrações podem não ser adequadas. Nem consigo encontrar nesta casa alguém que possa desempenhar para você o papel da Virgem da Primavera.

- Mesmo assim, será nesta primavera - tornou ele com calma -, e neste Beltane, pelo que sei.

Os lábios de Niniane contraíram-se um pouco, quando disse:

- E você viu a sacerdotisa que o admitirá ao rito quando tiver conquistado os galhos, supondo-se que a Visão não lhe tenha mostrado sua morte?

Ao contemplá-lo, achou que estava mais bonito, com o rosto frio e decidido, escurecido pela paixão:

- Vi, Niniane. Não sabe que era você?

Ela atalhou, sentindo-se de repente gelada até os ossos:

- Não sou virgem. Por que zomba de mim, Gwydion?

- Não obstante, foi você que vi, e sabe disso tão bem quanto eu. Nela, a Donzela, a Mãe e o Mensageiro da Morte se encontram e se fundem. Ela pode ser jovem ou velha, como quiser, Virgem e Besta e Mãe, o rosto da Morte ao relâmpago, flutuando e emprenhando-se e voltando outra vez à virgindade.

Niniane baixou a cabeça e disse:

- Não, Gwydion, não pode ser...

- Sou o consorte dela - continuou o rapaz, implacável. - E conquistarei isso, ali... Não é tempo de virgem, os padres valorizam demais esse absurdo. Invoco-a como a Mãe, para que me dê o que me é devido e minha vida...

Niniane sentiu como se tentasse resistir a alguma onda irresistível, que a levava de arrastão.

- Assim tem sido sempre - disse com hesitação -, na corrida do gamo; embora a Mãe o envie para a morte, ele volta novamente para a Donzela...

Mas havia razão nas palavras de Gwydion. Sem dúvida, era melhor ter uma sacerdotisa para os ritos, que sabia o que estava fazendo, do que alguma criança mal preparada, nova no templo, cuja única qualificação era não ter idade suficiente para sentir o apelo das fogueiras de Beltane. Gwydion dizia a verdade: a Mãe sempre se renova, Mãe e Mensageira da Morte, e novamente Donzela, tal como a lua que se esconde no céu escuro.

Baixou a cabeça:

- Que assim seja. Você fará o Grande Casamento com a terra e comigo, em nome dela.

Mas, quando ficou novamente sozinha, teve medo. Como podia concordar com isso? O que, em nome da Deusa, significava essa força em Gwydion, que dobrava todos à sua vontade?

Seria herança de Artur, o sangue do Pendragon? O gelo voltou a dominá-la novamente.

E o que acontece,como o Gamo-Rei... Morgana sonhava...

Beltane, e o gamo correndo nos montes... a vida da floresta correndo pelo seu corpo, como se cada parte da floresta fosse parte da vida que pulsava nela... ele estava entre os gamos, o gamo que corria, o homem nu com os galhos amarrados à cabeça, que subiam e desciam, o cabelo escuro empastado de sangue.. mas estava de pé, atacando, uma faca brilhava à luz do sol entre as árvores, e o Gamo-Rei veio rolando, enquanto o som de seu grito enchia a floresta de tremores de desespero.

E então estava numa caverna escura, as coisas pintadas ali estavam também pintadas em seu corpo, ela era a mesma coisa que a caverna, e à sua volta as fogueiras de Beltane brilhavam, as chamas elevavam-se para os céus... havia o gosto de sangue fresco em sua boca, e agora a entrada da caverna ensombreia-se de galhos do gamo... a lua ainda não estava cheia, não podia ver claramente que seu corpo nu não era o corpo esguio de uma virgem, mas que seus seios eram macios e cheios e rosados como na ocasião em que seu filho nascera, quase como se estivessem pingando Leite, e sem dúvida tinha sido submetida à prova para saber se vinha virgem ao rito... o que lhe diriam, que não vinha como a Virgem da Primavera para o Gamo-Rei?

Ele ajoelhou-se ao lado dela e Morguna levantou os braços, recebendo-o no rito e em seu corpo, mas os olhos dele eram negros e preocupados. Suas mãos eram ternas, frustrantes, brincando com o prazer ao lhe negarem o rito da força... Não era Artur, não, era Lancelote, o Gamo-Rei, que devia derrubar o velho consorte da Virgem da Primavera, mas ele a desprezou, os olhos negros atormentados por alguma dor que o magoava por dentro, a mesma dor que penetrou o corpo dela, e o homem disse: Queria que você não fosse tão parecida com minha mãe, Morgana...

Aterrorizada, com o coração batendo muito forte, Morgana acordou em seu quarto. Uriens dormia ao seu lado, roncando. Ainda envolvida pela imagem aterrorizante do sonho, ela sacudiu a cabeça, confusa, para afastar dela o terror.

Não, Beltane passou... ela celebrara os ritos com Acolon, como sabia que teria de fazer, não estava deitada, na caverna esperando o Gamo-Rei... e por quê, perguntou-se, por que esse sonho com Lancelote, agora, por que não sonhara com Acolon, quando o tinha feito seu sacerdote, e Senhor de Beltane, e seu amante? Por que, depois de tantos anos, haveria a lembrança da rejeição e do sacrilégio a golpeá-la tão intimamente, em sua própria alma?

Tentou acalmar-se para dormir novamente, mas o sono não vinha, e ficou acordada, tremendo, até que os raios do sol de princípios do inverno penetraram no quarto.

 

Capítulo 11

Gwenhwyfar passou a odiar o dia de Pentecostes, quando, a cada ano, Artur mandava dizer a todos os Companheiros que deviam comparecer a Camelot para renovar sua camaradagem. Com a crescente paz na terra, e a dispersão dos velhos Companheiros, a cada ano eram menos numerosos, e maior o número daqueles que tinham laços com suas casas, famílias e propriedades. E Gwenhwyfar via isso com satisfação, pois aquelas reuniões de Pentecostes faziam-na lembrar-se, e muito, dos dias em que Artur ainda não era cristão, mas carregava a odiada bandeira do Pendragon. Na festa de Pentecostes, ele pertencia aos seus Companheiros, e ela não participava desse aspecto de sua vida.

Estava atrás dele, enquanto Artur selava as duas dezenas de cópias feitas pelos seus escribas, uma para cada um dos reis aliados e muitos dos velhos Companheiros.

- Por que está mandando este ano uma convocação especial? Sem dúvida, todos aqueles que não tiverem outra coisa a fazer virão sem que você os convoque.

- Mas este ano, isso não será suficiente - disse Artur, voltando-se para ela e sorrindo. Estava grisalho, compreendeu ela, embora fosse de um louro tão claro que só se percebiam os cabelos brancos de bem perto. - Quero organizar jogos e torneios e combates simulados que mostrem a todos que a legião de Artur ainda é capaz de lutar.

- Você acha que alguém tem dúvidas quanto a isso?

- Talvez não. Mas há esse Lúcio na Bretanha Menor. Bors mandou avisar-me, e como todos os meus reis vassalos vieram em minha ajuda quando os saxões e os homens do norte queriam dominar esta terra, tenho o compromisso de ir em ajuda deles. E Lúcio intitula-se imperador de Roma!

- E ele tem algum direito a ser imperador?

- Nem é preciso perguntar! Muito menos do que eu, tenho certeza. Há mais de cem anos que não há imperador em Roma, minha cara. Constantino foi imperador e usou a púrpura, e depois dele Magno Máximo, que atravessou o canal para tentar fazer-se imperador. Mas nunca voltou para a Bretanha, e só Deus sabe o que lhe aconteceu, ou onde morreu. Depois dele, Ambrósio Aureliano uniu o povo contra os saxões, e em seguida, Uther, e creio que qualquer dos dois poderia atribuir-se o título de imperador, ou eu, mas estou satisfeito em ser o Grande Rei da Bretanha. Quando criança, li um pouco da história de Roma, e não há nada de novo em que algum usurpador consiga a fidelidade de uma ou duas legiões e proclame-se imperador. Aqui na Bretanha, porém, é preciso mais do que o estandarte da águia para fazer um imperador. Se não fosse assim, Uriens seria imperador desta terra! Mandei chamá-lo, pois há muito que não vejo minha irmã.

Gwenhwyfar não deu uma resposta direta, mas estremeceu:

- Não desejo ver esta terra envolvida novamente em guerra, estraçalhada pela mortandade...

- Nem eu. Acredito que qualquer rei prefira a paz.

- Não tenho tanta certeza assim. Há alguns de seus homens que nunca param de falar dos velhos dias em que combatiam da manhã à noite contra os saxões. E agora, não querem dar a condição de cristãos a esses mesmos saxões, sem se importarem com o que diz o bispo...

- Não creio que lamentem o fim das guerras - disse Artur, sorrindo para a rainha -, acho que sentem falta dos dias em que éramos todos jovens e da amizade que havia entre nós. Você não sente saudade dessa época, minha querida?

Gwenhwyfar sentiu-se corar. Na verdade, lembrava-se bem daqueles dias em que Lancelote fora seu paladino, e estavam enamorados. Mas uma rainha cristã não podia pensar assim, e não obstante, não conseguia conter-se.

- Sinto realmente, meu marido. E como você mesmo diz, talvez seja apenas saudade da juventude... Já não sou jovem - suspirou.

Artur segurou-lhe a mão e comentou:

- Para mim, minha querida, você continua tão bonita quanto no primeiro dia em que fomos juntos para a cama. - E ela sabia que era verdade.

Forçou-se, porém, a ter calma, e a não corar. Não sou jovem, portanto não convém que pense naqueles dias em que o era, e sinta falta deles, porque então eu era uma pecadora e adúltera. Hoje, estou arrependida e fiz as pazes com Deus, e até mesmo Artur penitenciou-se do seu pecado com Morgana. Forçou-se a ser prática, como convinha à rainha de toda a Bretanha.

- Suponho então que teremos mais visitantes do que habitualmente, no Pentecostes. Terei de consultar Cai e Sir Lucan sobre a instalação de todos, e como o celebraremos. Bors virá da Bretanha Menor?

- Virá, se puder, embora Lancelote me tenha enviado uma mensagem no princípio desta semana, solicitando licença para ir ajudar seu irmão Bors, se ele for sitiado ali. Mandei-lhe dizer que viesse para cá, pois talvez fôssemos todos juntos... Agora que Pellinore morreu, Lancelote é rei ali, como marido de Elaine, enquanto seu filho for criança. E Agravaine virá em lugar de Morgause, e Uriens ou talvez um de seus filhos. Uriens está muito conservado, mas não é imortal. Seu filho mais velho é um idiota, mas Acolon é um de meus velhos Companheiros, e Uriens tem Morgana para orientá-lo e aconselhá-lo.

- Isso não me parece certo - comentou Gwenhwyfar -, pois o Santo Apóstolo afirmou que as mulheres devem se sujeitar aos maridos, e mesmo assim Morgause reina no reino de Lot e Morgana é mais do que uma auxiliar de seu rei em Gales do Norte.

- Você precisa lembrar-se de que eu venho da linhagem real de Avalon. Sou rei, não só como filho de Uther Pendragon, mas também por ser filho de Igraine, que era filha da velha Senhora do Lago. Gwenhwyfar, desde tempos imemoriais, a Senhora governava a terra, e o rei era apenas o seu consorte em tempos de guerra. Até mesmo na época dos romanos, as legiões tratavam com o que chamavam de rainhas vassalas, que governavam as tribos, e algumas delas eram também guerreiras, e poderosas. Nunca ouviu falar da rainha Boadicéia? Quando suas filhas foram violentadas por alguns soldados das legiões, e ela própria açoitada como rebelde contra Roma, organizou um exército e quase expulsou todos os romanos daqui.

- Espero que a tenham matado - exclamou Gwenhwyfar, com amargura.

- Ah, mataram e ultrajaram-lhe o corpo... Mas isso foi um indício de que os romanos não podiam ter esperanças de conquista sem aceitar que, neste país, uma Senhora governasse. Todo governante da Bretanha, até a época de meu pai, Uther, usou o título que os romanos criaram para um chefe guerreiro, que estava sob o governo de uma rainha: dux bellorum, duque de guerra. Uther, e eu depois dele, ocupamos o trono da Bretanha como dux bellorum da Senhora de Avalon, Gwenhwyfar. Não se esqueça disso.

- Pensei que você deixara tudo isso de lado - impacientou-se ela - e que se considerava agora um rei cristão, e fizera penitência por ter servido ao povo das fadas daquela ilha maligna...

- Minha vida pessoal e minha fé religiosa são uma coisa, mas as tribos ficam ao meu lado porque eu trago isto! - disse Artur com igual impaciência, batendo com a mão na Excalibur, colocada à sua cintura dentro da bainha vermelha. - E sobrevivi na guerra devido à magia desta lâmina.

- Você sobreviveu na guerra porque Deus o poupou para cristianizar este país - respondeu ela.

- Algum dia, talvez. Mas esse dia ainda não chegou, senhora. No reino de Lot, os homens estão satisfeitos, vivendo sob o governo de Morgause, e Morgana é rainha na Cornualha e em Gales do Norte. Se fosse chegado o momento de todas essas terras ficarem sob o domínio de Cristo, eles clamariam por um rei, e não por uma rainha. Eu governo esta terra tal como é, Gwenhwyfar, e não como os bispos gostariam que fosse.

Gwenhwyfar teria continuado a discussão, mas sentiu a impaciência nos olhos de Artur, e recuou.

- Talvez, com o tempo, até mesmo os saxões e as tribos cheguem ao pé da cruz. Dia virá, como disse o bispo Patrício, em que Cristo será o único rei entre os cristãos, e os reis e rainhas serão seus servos. Deus permita que esse dia não tarde - e fez o sinal-da-cruz, o que provocou o riso de Artur.

- Servo de Cristo eu serei, de boa vontade, mas não dos seus padres. Sem dúvida, porém, o bispo Patrício estará entre os convidados, e você pode recebê-lo tão bem quanto queira.

- Uriens virá de Gales do Norte, e Morgana também, é claro. E Lancelote, da terra de Pellinore?

- Ele virá - disse Artur -, embora eu receie que, se você desejar ver sua prima Elaine, terá de viajar e fazer-lhe uma visita: Lancelote mandou dizer que ela está dando à luz novamente.

Gwenhwyfar estremeceu. Sabia que Lancelote passava pouco tempo em casa com a mulher, mas Elaine já lhe dera o que ela jamais poderia dar - filhos e filhas.

- Que idade tem hoje o filho de Elaine? Ele será meu herdeiro e deve ser criado na corte - lembrou Artur. Gwenhwyfar respondeu:

- Eu sugeri isso, quando ele nasceu, mas Elaine disse que, se ele devia ser rei algum dia, tinha de ser criado de maneira simples e modesta, até tornar-se homem. Você também foi criado como filho de um homem simples, e isso só lhe fez bem.

- Bem, talvez ela tenha razão. Gostaria de, pelo menos uma vez, ver o filho de Morgana. Ele já deve ser homem feito, hoje; já tem dezessete anos. Sei que não pode me suceder, os padres não o aceitariam, mas é o único filho que tenho, e gostaria de vê-lo e dizer-lhe... Não sei o que poderia lhe dizer, mas gostaria de vê-lo.

Gwenhwyfar lutou contra a resposta irada que lhe veio aos lábios, pois nada tinha a ganhar revivendo a discussão desse assunto. Por isso, disse apenas:

- Ele está bem onde está.

Dizia a verdade, e, depois de pronunciar tais palavras, teve consciência disso. Sentia-se satisfeita por estar o filho de Morgana sendo criado na ilha das feiticeiras, aonde nenhum rei cristão podia ir. Criado ali, era mais do que certo que nenhuma alteração súbita da sorte poderia colocá-lo no trono, depois de Artur - cada vez mais, os padres e o povo desconfiavam das feitiçarias de Avalon. Se fosse criado na corte, alguma pessoa pouco escrupulosa poderia começar a ver no filho de Morgana um sucessor mais legítimo do que o filho de Lancelote.

- É duro para um homem saber que tem um filho e não vê-lo nunca - suspirou Artur. - Talvez, algum dia. - Seus ombros, porém, fizeram um movimento de subir e descer, em resignação. - Sem dúvida, você tem razão, minha querida. E a festa de Pentecostes? Sei que você fará dela, como sempre, um dia memorável.

 

E foi o que fiz, pensou Gwenhwyfar naquela manhã, olhando para a extensão da área ocupada pelas tendas e pavilhões. O grande campo destinado aos combates simulados tinha sido limpo e cercado de cordas e bandeiras, e os pendões de meia centena de pequenos reis e mais de uma centena de cavaleiros eram agitados pelo vento de verão que passava pelos altos do morro. Era como se um exército estivesse acampado ali.

Procurou o estandarte de Pellinore, o dragão branco que adotara depois de ter matado o dragão do lago. Lancelote estaria ali. Havia mais de um ano não o via, e, da última vez, fora de maneira formal, na presença de toda a corte. Havia muitos anos não ficava a sós com ele, nem mesmo por um breve instante; na véspera de seu casamento com Elaine, Lancelote procurara-a para despedir-se.

Também ele havia sido vítima de Morgana. Não traíra sua rainha, fora vítima de uma manobra cruel. Quando Lancelote lhe contou, o fez com lágrimas, e ela cultivava a lembrança dessas lágrimas como o mais alto cumprimento que lhe fora feito. Quem, senão ela, tinha visto Lancelote chorar?

- Juro-lhe que Morgana me preparou uma cilada. Deu-me uma falsa mensagem sua e um lenço com o seu perfume. E acho também que me drogou, ou fez alguma magia comigo - olhou-a nos olhos, chorando, e ela também chorou. - E Morgana disse a Elaine alguma mentira também, que eu estava doido de amor por ela... E ficamos juntos, ali. A princípio, pensei que fosse você, era como se eu estivesse sob o domínio de um encantamento. Depois, quando percebi que era Elaine que tinha nos braços, não podia mais parar. E de repente chegaram todos, com as tochas... O que podia eu fazer, Gwen? Eu tinha dormido com a filha virgem de meu anfitrião, Pellinore tinha todo o direito de matar-me, ali mesmo, na cama dela...

Lancelote chorou, então, e com voz trêmula, concluiu:

- Quisera Deus que eu tivesse então me lançado contra a espada dele, em lugar de ter-me casado...

Ela lhe perguntara: Então você não gosta de Elaine? Sabia que era indesculpável dizer isso, mas não poderia viver sem ter essa certeza. Mas embora Lancelote pudesse contar-lhe todo o seu sofrimento, recusava-se a falar de Elaine. Dizia apenas, e com ênfase, que nada disso era culpa dela, e que ele tinha o dever de honra de tentar fazê-la o mais feliz que pudesse.

Bem, Morgana havia imposto sua vontade. Por isso, veria Lancelote e o receberia como parente do marido, e nada mais. A loucura de outrora era coisa do passado, mas ela o veria, o que era melhor do que nada. Procurou afastar tudo isso da mente, pensando no banquete. Dois bois estavam sendo assados, seria o suficiente? E havia um enorme javali, caçado há poucos dias, e dois porcos das fazendas próximas, que também estavam sendo preparados. Já se espalhava um cheiro tão saboroso que um grupo de crianças famintas andava a cheirar o ar. Havia também centenas de pães de centeio, parte dos quais seria dada ao pessoal dos campos, que se amontoava nas orlas do campo para ver os nobres, os reis, os cavaleiros e Companheiros; havia também maçãs sendo cozidas com creme, e nozes em quantidade, doces para as damas, bolos de mel, coelhos e pequenas aves feitas no vinho. Se o banquete não fosse um sucesso, certamente não seria por falta de comida boa e farta!

Pouco depois do meio-dia, reuniram-se. Uma longa fila de senhores e damas ricamente vestidos entraram no grande salão e foram conduzidos aos seus lugares. Os Companheiros, como sempre, sentaram-se em volta da grande mesa redonda, que, embora enorme, já não comportava a todos.

Gawaine, que estava sempre mais perto de Artur, apresentou a mãe, Morgause. Ela apoiava-se no braço de um jovem que Gwenhwyfar não reconheceu no primeiro momento; Morgause continuava esguia como sempre, com o cabelo ainda viçoso e rico, trançado e enfeitado de pedras preciosas. Ela fez uma reverência para Artur, que a ergueu com um gesto e a abraçou.

- Bem-vinda à corte, tia.

- Ouvi dizer que o senhor só monta cavalos brancos - disse Morgause -, por isso trouxe-lhe um do país dos saxões. Tenho um filho de criação, ali, que lho mandou de presente.

Gwenhwyfar viu o rosto de Artur contrair-se, e também ela pôde adivinhar quem seria esse filho de criação. Mas o rei disse apenas:

- Um presente verdadeiramente real, tia.

- Não mandarei trazer o cavalo para o salão, como me disseram ser costume em país saxão - brincou Morgause. - Não me parece que a senhora de Camelot gostasse que seu salão preparado para os convidados fosse transformado numa estrebaria! E, sem dúvida, seus criados têm muito o que fazer, Gwenhwyfar!

Abraçou a rainha, numa onda cálida, e esta, de perto, pôde ver que o rosto de Morgause estava pintado, os olhos delineados com khol, mas que, mesmo assim, ela continuava bela.

- Agradeço-lhe a compreensão, senhora Morgause. Não seria a primeira vez que um belo cavalo ou cão é trazido ao meu senhor e rei aqui neste salão, e sei que o foram por cortesia, mas não tenho dúvidas de que seu cavalo ficará muito melhor esperando lá fora... Não creio que a hospitalidade de Camelot venha a significar muito nem mesmo para o mais belo dos animais. Tenho a certeza de que ele prefere jantar na sua cocheira! Isso, embora Lancelote costumasse contar-nos a história de um romano que alimentava seu cavalo com vinho, servindo numa gamela de ouro, e lhe prestava honrarias, coroando-o de louros...

O belo jovem que estava ao lado de Morgause riu e disse:

- Lembro-me de que Lancelote contou essa história no casamento de minha irmã. Foi o imperador Caio, o Deus, que fez de seu cavalo um senador, e, quando morreu, o imperador seguinte disse alguma coisa como "pelo menos o cavalo não deu maus conselhos, nem provocou assassinatos". Mas não faça a mesma coisa, meu senhor Artur, não temos cadeiras adequadas para tais Companheiros, se por acaso quiser nomear seu garanhão um deles!

Artur riu sinceramente, e segurou a mão do jovem, dizendo:

- Não farei isso, Lamorak. - Surpresa, Gwenhwyfar compreendeu quem era o jovem que estava ao lado de Morgause: o filho de Pellinore. Sim, tinha ouvido falar nisso, que Morgause fizera do rapaz seu favorito, até mesmo na frente de toda a corte. Como podia ela levar para a cama um rapaz que podia ser seu filho? Ora, Lamorak teria apenas vinte e cinco anos, agora! Olhou, fascinada e horrorizada, e com uma inveja secreta, para Morgause. Ela parece tão jovem, ainda é bela, apesar de toda a pintura, e faz o que quer e não se importa de que a critiquem! Disse, porém, com frieza:

- Quer sentar-se ao meu lado, parenta, e deixar que os homens conversem entre si?

Morgause apertou a mão de Gwenhwyfar:

- Obrigada, prima. Venho tão raramente à corte, que me sinto feliz em, pelo menos aqui, sentar-me entre senhoras, e conversar sobre quem se casou, quem tem um amante e sobre as novas modas de fitas e vestidos! Em meu reino estou sempre tão ocupada com o governo da terra que pouco tempo tenho para as coisas femininas, que são um luxo e um prazer para mim.

Afagou a mão de Lamorak, e quando achou que não a estavam observando, deu-lhe um beijo leve na testa:

- Deixo-o com os Companheiros, meu querido.

O perfume forte que se desprendia generosamente de suas fitas e amplas roupas quase sufocou Gwenhwyfar, quando a rainha do reino de Lot se sentou ao seu lado no banco.

- Se você anda tão ocupada com assuntos de Estado, prima, por que não procura uma mulher para Agravaine, e deixa que reine em lugar do pai, abandonando o governo? Sem dúvida o povo de lá não pode estar feliz sem um rei - sugeriu Gwenhwyfar.

O riso de Morgause foi sincero e alegre:

- Ora, então eu teria de viver solteira, pois naquele país o marido da rainha é rei, e, minha cara, isso não me seria conveniente! Lamorak é muito jovem para ser rei, embora tenha outros deveres para os quais me parece extremamente capacitado.

Gwenhwyfar ouvia com uma aversão fascinada: como podia uma mulher da idade de Morgause prestar-se a tal papel com um homem tão novo? Mas os olhos de Lamarak seguiam Morgause como se fosse a mais bela e fascinante mulher do mundo. Pouco olhou para Isotta da Cornualha, que fazia agora uma reverência em frente ao trono, ao lado de seu marido idoso, o duque Marcus da Cornualha. Isotta era tão bela que um leve murmúrio percorreu toda a sala. Era alta e esguia, de cabelo da cor de uma moeda de cobre nova. Mas, sem dúvida, Marcus dava maior valor ao ouro irlandês que ela usava no pescoço e no broche do manto, e às pérolas irlandesas que trazia na cabeça, do que à sua beleza. Gwenhwyfar achou-a a mulher mais bela que já tinha visto. Ao lado dela, Morgause parecia gasta e exagerada, mas, ainda assim, os olhos de Lamorak acompanhavam-na.

- Sim, Isotta é muito bela - comentou Morgause -, mas afirma-se na corte do duque Marcus que ela está mais interessada no herdeiro dele, o jovem Drustan, do que no próprio Marcus, e quem pode culpá-la? Ela, porém, é modesta e discreta, e se tiver senso suficiente para dar ao velho um filho... embora quanto a isso ela faria melhor com o jovem Drustan. - Morgause riu. - Ela não parece uma mulher muito satisfeita no leito matrimonial. Apesar disso, não creio que Marcus queira dela muito mais do que um filho para a Cornualha. E penso que ele só espera por isso para declarar que a Cornualha pertence a quem a administra; e não a Morgana, que a herdou de Gorlois. E onde está minha sobrinha? Estou ansiosa por abraçá-la!

- Está ali com Uriens - mostrou Gwenhwyfar, olhando para o lugar onde o rei de Gales do Norte esperava para aproximar-se do trono.

- Artur podia ter feito melhor em casar Morgana na Cornualha - continuou Morgause. - Mas deve ter achado que Marcus era muito velho para ela. Embora pudesse tê-la casado com o jovem Drustan, cuja mãe era aparentada com Ban da Bretanha Menor, sendo ele primo distante de Lancelote, e quase tão bonito quanto ele, não é mesmo, Gwenhwyfar? - Sorriu, satisfeita, e continuou: - Ah, mas eu tinha esquecido, você é uma senhora piedosa, não olha nunca para a beleza de outro homem que não seja seu marido. Mas é fácil para você ser virtuosa, casada com um homem tão jovem e bonito como Artur!

Gwenhwyfar acreditou que a conversa de Morgause iria enlouquecê-la. Será que aquela mulher não pensava em outra coisa?

- Creio que você devia dizer uma ou duas palavras de cortesia a Isotta, ela é nova na Bretanha. Ouvi dizer que fala pouco a nossa língua. Mas também ouvi dizer que em sua terra natal da Irlanda ela tinha um conhecimento notável de ervas e magia, de modo que, quando Drustan lutou contra o cavaleiro irlandês Marhaus, ela o curou, quando ninguém esperava que vivesse, razão pela qual ele tornou-se seu fiel cavaleiro e paladino... ou, pelo menos, Drustan diz ser essa a razão - prosseguiu Morgause com seus mexericos -, embora ela seja tão bela que eu não me espantaria se... Talvez eu deva apresentá-la a Morgana, que também é uma grande conhecedora de ervas e da arte de curar. Elas teriam muito o que conversar, e creio que minha sobrinha conhece um pouco da língua irlandesa. E também é casada com um homem que tem idade para ser seu pai... e acho que isso foi maldade de Artur!

- Morgana casou-se com Uriens por sua livre vontade - atalhou Gwenhwyfar, secamente. - Não pense que Artur daria sua querida irmã em casamento, sem perguntar a ela!

Morgause teve uma manifestação de incredulidade:

- Morgana é muito cheia de vida para que eu pense que ela possa estar satisfeita na cama de um velho. E se eu tivesse um enteado tão bonito quando Acolon, sei muito bem que não estaria!

- Vamos pedir à senhora da Cornualha que se sente conosco - disse Gwenhwyfar, para pôr fim aos mexericos de Morgause. - E Morgana também, se você quiser.

Morgana estava casada com Uriens, e pouco importava a Gwenhwyfar que ela tivesse feito um papel de tola, ou se viesse a colocar em perigo sua alma imortal, comportando-se como uma prostituta com este ou aquele homem!

Uriens, Morgana e seus dois filhos mais novos foram saudar Artur, que tomou as mãos do velho rei, chamando-o de "cunhado", e beijou Morgana nas faces.

- Você veio trazer-me um presente, Uriens? Mas não preciso de presentes de parentes, apenas sua afeição me basta - sorriu Artur.

- Não só trazer-lhe um presente, como também pedir-lhe uma mercê - disse Uriens. - Peço-lhe que faça de meu filho Uwaine um cavaleiro da Távola Redonda, e que o receba como um dos Companheiros.

Artur sorriu para o jovem esguio e moreno que se ajoelhou à sua frente.

- Que idade tem, jovem Uwaine?

- Quinze, meu rei e senhor.

- Bem, então levante-se, Sir Uwaine - disse Artur bondosamente. - Pode fazer esta noite a vigília das armas, e amanhã um de meus Companheiros irá sagrá-lo cavaleiro.

- Com sua permissão - pediu Gawaine -, poderei conferir tal honra a meu primo Uwaine, senhor Artur?

- Quem melhor do que você, meu primo e amigo? Se estiver de acordo, Uwaine, então assim será. Eu o recebo com satisfação como meu Companheiro, tanto pelas suas próprias qualidades como pelo fato de ser enteado de minha querida irmã. Abram um lugar para ele em minha casa, vocês aí. E quanto a você, Uwaine, poderá lutar amanhã ao meu lado, nos combates simulados.

- Agradeço-lhe, meu rei - gaguejou Uwaine.

Artur sorriu e disse para Morgana:

- Agradeço-lhe por este presente, irmã.

- É um presente também para mim, Artur - disse Morgana. - Uwaine tem sido para mim um verdadeiro filho.

Gwenhwyfar achou, com crueldade, que Morgana aparentava a idade que tinha: o rosto estava marcado de linhas sutis e havia fios brancos no cabelo muito negro, embora os olhos escuros continuassem tão brilhantes como sempre. E falara de Uwaine como seu filho, olhando-o com orgulho e afeição. Não obstante, seu verdadeiro filho deve ser ainda mais velho...

E assim Morgana, que o diabo a carregue, tem dois filhos, e eu não tenho nem um filho adotivo!

Morgana, sentada ao lado de Uriens mais adiante, estava consciente dos olhos de Gwenhwyfar voltados para ela.

Como me odeia! Mesmo agora, quando não posso lhe fazer mal! Não obstante, não sentia ódio pela rainha; não lhe guardava ressentimento nem mesmo por ter sugerido seu casamento com Uriens, sabendo que, de uma forma obscura, fora isso o que a levara de volta para o que havia sido outrora, uma sacerdotisa de Avalon. Mesmo assim, se não fosse Gwenhwyfar, eu estaria casada com Acolon agora, ao passo que na situação em que estamos, ficamos à mercê de qualquer servo que nos espione, ou que nos delate a Uriens, pensando numa recompensa... Ali em Camelot precisavam de toda a discrição, pois Gwenhwyfar não se deteria ante nenhum obstáculo para criar-lhes problemas.

Não devia ter vindo. Mas Uwaine queria que ela estivesse presente na solenidade em que ele seria feito cavaleiro, e ela era a única mãe que o rapaz conhecera.

Afinal de contas, Uriens não podia viver para sempre, embora por vezes, naqueles anos que se arrastavam, ela sentisse que ele estava disposto a rivalizar com o velho rei Matusalém - e tinha dúvidas de que até mesmo os estúpidos camponeses criadores de porcos de Gales do Norte aceitassem Avaloch como rei. Se ela pudesse pelo menos ter um filho de Acolon, então ninguém teria dúvidas de que, ao seu lado, o rapaz pudesse fazer um bom reinado.

Teria corrido o risco. Afinal de contas, Viviane tinha quase a mesma idade que ela, quando Lancelote nasceu, e vivera ainda muito tempo depois. Mas a Deusa não tinha lhe dado nem mesmo a esperança de concepção, e, para ser sincera, não queria isso. Uwaine bastava-lhe, como filho, e Acolon não a censurara pela sua esterilidade - sem dúvida, achava que ninguém acreditaria, seriamente, que fosse filho de Uriens, embora Morgana tivesse a certeza de que poderia convencer o velho a reconhecer como seu esse filho; dependia dela para tudo, e partilhava com freqüência - demasiada freqüência, para o gosto de Morgana - de sua cama.

- Deixe-me preparar seu prato - disse ela a Uriens. - O porco assado é muito indigesto para você; ficará doente. Alguns bolinhos de trigo, sim, com molho, e eis aqui uma boa perna de coelho.

Fez sinal para o criado que trazia uma bandeja cheia de frutas, e escolheu morangos e cerejas para o marido.

- Eis aí, sei que você gosta disso.

- Você é boa para mim, Morgana - disse Uriens, e ela afagou-lhe o braço. Valia a pena, todo o tempo que gastava mimando-o, cuidando de sua saúde, bordando-lhe belas roupas e camisas, e até mesmo, de vez em quando, e discretamente, descobrindo uma mulher jovem para a cama dele ou dando-lhe uma dose de seus remédios de ervas que lhe proporcionavam algo parecido com a virilidade normal. Uriens estava convencido de que Morgana o adorava, e jamais duvidaria de sua dedicação, ou negaria qualquer coisa que ela pedisse.

O banquete estava terminando, com as pessoas andando pelo salão, provando bolos e doces, pedindo vinho e cerveja, parando para falar com parentes e amigos a quem viam apenas uma ou duas vezes por ano. Uriens ainda estava comendo morangos; Morgana pediu licença para ir cumprimentar suas parentas.

- Como quiser, minha querida - resmungou ele. - Você devia ter cortado meu cabelo, pois todos os Companheiros usam cabelo curto...

Morgana passou a mão pelos ralos cabelos de Uriens e respondeu:

- Ah, não, meu caro, acho que assim está melhor para sua idade. Você não quer parecer um menino de escola, ou um monge, não? - E você tem tão pouco cabelo que, se o cortar muito curto, a sua careca brilhará como um farol, pensou. Mas o que disse foi: - Veja, o nobre Lancelote ainda usa o cabelo comprido e solto, e Gawaine, e Gareth também, e ninguém poderia dizer que eles são velhos!

- Você tem razão, como sempre - sorriu Uriens, concordando. - Creio que deve estar mais de acordo com um homem maduro. Fica muito bem a um rapaz como Uwaine cortar o cabelo curto. - E Uwaine tinha, na verdade, cortado o cabelo rente à nuca, como era a nova moda. - Vejo que há também cabelos brancos em Lancelote. Nenhum de nós é mais jovem, minha querida.

Você já era avô quando Lancelote nasceu, pensou Morgana, aborrecida, mas murmurou apenas que nenhum deles era tão jovem quanto eram há dez anos - verdade que ninguém poderia contestar - e afastou-se.

Em sua opinião, Lancelote continuava sendo o homem mais belo que conhecera; ao lado dele, até mesmo Acolon parecia demasiado perfeito, com feições precisas demais. Havia cabelos brancos em sua cabeça, sim, e na barba cuidadosamente aparada. Seus olhos, porém, brilhavam com o mesmo sorriso antigo.

- Bom dia, prima.

Morgana surpreendeu-se com seu tom cordial. Não obstante, pensou que havia verdade no que Uriens dizia, que já não eram mais jovens, e não são muitos os que se recordam de uma época em que todos o eram. Lancelote abraçou-a, e ela sentiu sua barba cacheada e sedosa contra o rosto.

- Eliane não veio? - perguntou Morgana.

- Não, ela teve uma outra menina há apenas três dias. Ela esperava que a criança tivesse nascido há algum tempo e estivesse bem para poder viajar no Pentecostes, mas era uma menina grande, e bonita, e levou muito tempo para dá-la à luz. Nós esperávamos que isso ocorresse há três semanas!

- Quantos filhos você já tem, Lancelote?

- Três. Galahad é um rapagão de sete anos, e Nimue tem cinco. Não os vejo muito, mas suas amas dizem que são inteligentes e desenvolvidos para a idade. Elaine quer dar o nome de Gwenhwyfar à nova, em homenagem à rainha.

- Creio que irei até o norte fazer-lhe uma visita.

- Ela ficará contente em vê-la, tenho certeza; leva uma vida solitária, ali.

Morgana não acreditava que Elaine ficaria satisfeita de vê-la, mas aquilo era um acordo entre as duas. Lancelote olhou a plataforma para onde a rainha tinha levado Isotta da Cornualha, a fim de que se sentasse ao seu lado, enquanto Artur conversava com o duque Marcus e seu sobrinho.

- Você conhece Drustan, aquele ali? É um bom harpista, embora não se compare a Kevin, claro.

Morgana sacudiu negativamente a cabeça:

- Kevin deve tocar nesta festa?

- Eu não o vi - respondeu Lancelote. - A rainha não gosta dele, a corte ficou cristã demais para isso, embora Artur o considere, não só por ser conselheiro como pela sua música.

- Você também se tornou cristão? - perguntou Morgana diretamente.

- Gostaria de ter-me tornado - respondeu, suspirando. - Essa fé me parece demasiado simples. A idéia de que basta acreditar que Cristo morreu para nos redimir de todos os pecados, de uma vez por todas... Mas eu conheço demais a verdade, a maneira pela qual a vida funciona, com vidas sucessivas nas quais nós mesmos, e só nós, é que podemos resolver as causas que colocamos em movimento e tentar compensar o mal que fizemos. Não é lógico que um homem, por mais santo e bendito, pudesse redimir todos os pecados de todos os homens, cometidos em todas as suas existências. O que mais poderia explicar por que alguns homens têm tudo, e outros, tão pouco? Não, é uma artimanha cruel dos padres levar os homens a acreditar que têm o ouvido de Deus e que podem perdoar seus pecados em nome dele. Ah, eu gostaria que fosse verdade! E alguns padres são homens bons e sinceros.

- Jamais conheci um que fosse que sequer se aproximasse do conhecimento e da bondade de Taliesin.

- Taliesin era uma grande alma. Talvez uma vida apenas a serviço dos Deuses não possa criar tanta sabedoria, e ele é um dos grandes que talvez os tenham servido por centenas de anos. Ao lado dele, Kevin parece tanto digno de ser o Merlim da Bretanha quanto meu filho pequeno de sentar-se no trono de Artur e comandar seus soldados na batalha. E Taliesin teve bastante grandeza para não brigar com os padres, sabendo que serviam ao seu Deus da melhor maneira que podiam, e talvez, depois de muitas vidas, tenha aprendido que esse Deus era maior do que se pensava. E eu sei que ele respeitava a força que os padres têm de viver na castidade.

- Isso me parece uma blasfêmia e uma negação da vida - opinou Morgana -, e sei que Viviane também pensava assim. - Por que fico aqui discutindo religião com Lancelote?, pensou.

- Viviane, como Taliesin, vinha de um outro mundo e de uma outra época - observou Lancelote. - Eram gigantes naqueles dias, e agora devemos contentar-nos com o que temos. Você é tão parecida com ela, Morgana. - E teve um meio sorriso triste, que doeu fundo no coração de Morgana. Lembrou-se de que já lhe tinha dito uma frase parecida... não, ela havia sonhado, também mas não podia lembrar-se de tudo... e ele continuou: - Vejo você aqui, com seu marido e o seu belo enteado, que dignificará os Companheiros. Sempre desejei sua felicidade, Morgana, e durante muitos anos você parecia infeliz, mas agora é rainha, em seu país, e tem um bom filho... - Certamente, pensou ela, o que mais pode desejar uma mulher? - Mas, agora, tenho de ir apresentar minhas homenagens à rainha...

- Sim - disse Morgana, sem conseguir esconder a amargura em sua voz. - Você deve estar ansioso para isso.

- Ah, Morgana - sussurrou ele, desalentado -, nós nos conhecemos há tanto tempo, somos todos parentes, não podemos deixar morrer o passado? Você me despreza tanto, ainda me odeia tanto assim?

- Não odeio nenhum de vocês - disse Morgana, sacudindo a cabeça. - Por que odiaria? Mas pensei que agora, sendo casado, você... e Gwenhwyfar também merece ser deixada em paz.

- Você nunca a compreendeu. Acredito que não gostava dela, desde a época em que eram muito jovens! Não faz bem, Morgana. Ela arrependeu-se de seu pecado, e eu... bem, estou casado, como você disse, com outra. Mas não a evitarei como se fosse uma leprosa. Se ela desejar minha amizade, como parente de seu marido, sem dúvida a terá!

Morgana sabia que ele falava com sinceridade, mas isso nada significava para ela. Tinha agora de Acolon aquilo que durante muito tempo desejara de Lancelote... E, estranhamente, até isso era doloroso, como o vazio deixado por um dente que doía, depois de ter sido arrancado. Amara-o durante tantos anos que, agora, quando podia olhá-lo sem dese- jo, sentia um vazio por dentro.

- Sinto muito, Lance, não queria aborrecê-lo tanto. - Sua voz era suave. - Como você mesmo diz, tudo isso faz parte do passado... - Ouso dizer que realmente acredito que ele e Gwenhwyfar só podem ser amigos... Talvez para ele seja assim, e ela tornou-se tão religiosa, que não tenho dúvidas...

- Ora, aí está você, Lancelote, como sempre conversando com as damas mais belas - disse uma voz alegre. Lancelote voltou-se e envolveu o recém-chegado num grande abraço.

- Gareth! Como vai você naquele país do norte? Então você também se casou, e é homem de família... São dois os filhos que sua mulher lhe deu, ou três? Você está bonito, mais bonito do que nunca, e nem mesmo Cai zombaria de você agora!

- Eu gostaria muito de tê-lo de volta em minha cozinha - riu Cai, aproximando-se para dar uma palmada no ombro de Gareth. - Quatro filhos, não? Mas a senhora Lionors tem gêmeos, como um dos gatos selvagens de seu país, não é? Morgana, acho que você fica cada vez mais jovem com o passar dos anos - acrescentou, curvando-se sobre a mão dela. Cai sempre gostara de Morgana.

- Mas vendo Gareth crescido, e um homem tão grande, sinto-me mais velha do que as próprias montanhas - observou Morgana, rindo. - A mulher sabe que está ficando velha quando olha para todos os jovens altos e diz para si mesma que os conheceu ainda em cueiros...

- E, infelizmente, isso é verdade, em relação a mim, prima - sorriu Gareth, inclinando-se para abraçá-la. Lembro-me de que você costumava fazer-me cavaleiros de madeira, quando eu era ainda criancinha...

- Você ainda se lembra dos cavaleiros de madeira? - perguntou Morgana, satisfeita.

- Lembro-me. Um deles é guardado ainda hoje por Lionors, entre meus tesouros. Está muito bem pintado de azul e vermelho, e meu filho mais novo gostaria de tê-lo, mas dou muito valor a ele. Você sabia que eu chamava meu cavaleiro de pau de Lancelote, primo?

Lancelote também riu, e Morgana pensou que nunca o tinha visto tão despreocupado, alegre como estava naquele momento, entre amigos.

- Seu filho tem quase a mesma idade do meu Galahad, acho. Galahad é um belo menino, embora não se pareça muito com a minha família. Eu o vi há poucos dias, pela primeira vez desde que ele deixou os cueiros. E as meninas são bonitas, ou pelo menos me parecem bonitas.

Gareth voltou-se para Morgana e disse:

- Como vai meu irmão de criação Gwydion, senhora Morgana?

Ela respondeu rapidamente:

- Ouvi dizer que está em Avalon. Não o vi ainda. E afastou-se, deixando Lancelote entregue aos amigos. Mas Gawaine juntara-se a eles, curvando-se para dar em Morgana um abraço quase filial.

Gawaine era agora um homem enorme, monstruosamente pesado, com ombros que pareciam - e provavelmente eram - bastante fortes para derrubar um touro. Seu rosto estava marcado e comido por muitas cicatrizes.

- Seu filho Uwaine parece um bom menino - disse ele. - Creio que será um bom cavaleiro, e podemos precisar dele. Você viu seu irmão Lionel, Lance?

- Não. Ele está aqui? - Lancelote olhou à volta, e seus olhos pousaram num homem alto, forte, que usava um manto estranho.

- Lionel! Irmão, como vai você no seu nevoento reino de além-mar?

Lionel aproximou-se, cumprimentou-os, falando com um sotaque tão forte que Morgana teve dificuldade em seguir suas palavras.

- Falta de sorte sua não estar lá, Lancelote, onde poderemos ter alguma luta, não ouviu falar? Já soube das notícias de Bors?

Lancelote sacudiu negativamente a cabeça:

- A última notícia que tive dele foi que iria casar-se com a filha do rei Hoell, cujo nome esqueci...

- Isotta, o mesmo nome da rainha da Cornualha. Mas ainda não se realizou o casamento. Hoell, como você deve saber, é um homem que não diz nunca sim ou não a coisa alguma, mas tem de refletir muito sobre as vantagens de uma aliança com a Bretanha Menor, ou com a Cornualha...

- Marcus não pode dar a Cornualha a ninguém - opinou Gawaine secamente. - A Cornualha lhe pertence, não é, senhora Morgana? Creio estar lembrado de que Uther a deu à senhora Igraine, quando subiu ao trono, de modo que Morgana é a senhora da Cornualha, tanto pela parte de Igraine como de Gorlois, embora as terras deste tenham sido confiscadas por Uther, se a história foi mesmo assim. Tudo isso aconteceu antes de eu nascer, embora você fosse uma criança, então.

- O duque Marcus administra a terra por mim - explicou Morgana. - Eu ignorava que ele a reivindicava, embora saiba que surgiu certa vez uma conversa sobre um casamento meu com ele, ou com seu sobrinho Drustan.

- Teria sido bom se você tivesse se casado com ele - observou Lionel -, pois Marcus é um homem ambicioso. Conseguiu um grande tesouro com essa senhora irlandesa, e não tenho dúvida de que tentará engolir toda a Cornualha e Tintagel também, se achar que podem safar-se com isso, como a raposa foge com uma galinha do galinheiro.

- Gostava mais dos dias em que éramos todos apenas Companheiros de Artur - disse Lancelote. - Agora, estou reinando no país de Pellinore, e Morgana é rainha em Gales do Norte, enquanto você, Gawaine, devia ser rei no reino de Lot...

Gawaine sorriu para ele:

- Não tenho talento nem gosto para o ofício de rei, primo, sou um soldado, e viver sempre no mesmo lugar e na corte iria aborrecer-me mortalmente! Sinto-me muito satisfeito de que Agravaine reine ao lado de minha mãe. Acho que as tribos é que organizam as coisas bem: as mulheres ficam em casa e governam, e os homens andam por aí e fazem a guerra. Eu não me separarei de Artur, mas reconheço que estou me cansando da vida na corte. Ainda assim, um combate simulado é melhor do que nada.

- Tenho certeza de que você conquistará honras - opinou Morgana, sorrindo para o primo. - Como vai sua mãe, Gawaine? Ainda não falei com ela. - E acrescentou, com um toque de malícia: - Ouvi dizer que ela conta com outra ajuda, além da de Agravaine, para governar seu reino.

Gawaine deu uma risada:

- Sim, é a moda, agora. É culpa sua, Lancelote. Depois que você se casou com a filha de Pellinore, Lamorak deve ter pensado que nenhum cavaleiro poderia ser grande, e cortesão, e renomado, se não tivesse sido antes aman... - Interrompeu-se subitamente, ao ver o rosto sombrio de Lancelote, e corrigiu-se apressadamente: - o paladino eleito de uma grande e bela rainha. Mas creio que não é apenas por exibição, e que Lamorak está sinceramente enamorado de minha mãe, e isso não me aborrece. Ela casou-se com o velho rei Lot quando ainda não tinha quinze anos, e, mesmo quando criança, eu costumava perguntar-me como podia viver em paz com ele e ser sempre bondosa.

- De fato ela é bondosa - concordou Morgana -, e não teve uma vida muito fácil com Lot. Ele pode ter ouvido a opinião de Morgause em tudo, mas a corte estava tão cheia de seus bastardos que não precisava contratar soldados, e qualquer mulher que ali aparecesse era legalmente sua, mesmo eu, sobrinha de sua esposa. Esse comportamento é considerado másculo para um rei, e se alguém o criticar em Morgause, terei alguma coisa a dizer sobre o assunto!

- Sei muito bem que você é amiga de minha mãe, Morgana. Também sei que Gwenhwyfar não gosta dela. A rainha...

Olhou para Lancelote, deu de ombros e ficou calado.

Mas Gareth continuou:

- Gwenhwyfar é muito religiosa, e nenhuma mulher jamais teve razão para queixar-se de Artur... talvez Gwenhwyfar tenha dificuldades em compreender que uma mulher possa desejar mais da vida do que aquilo que o casamento lhe proporciona. Quanto a mim, tenho sorte de ter sido escolhido livremente por Lionors, que está sempre tão ocupada com sua gravidez, seu parto ou com a amamentação do mais novo, que não tem tempo para olhar para nenhum outro homem, mesmo que quisesse. E espero que não queira, pois se quisesse, creio que não poderia negar-lhe nada - acrescentou com um sorriso.

O rosto de Lancelote iluminou-se:

- Não posso imaginar que uma dama casada com você, Gareth, voltasse os olhos para outro homem.

- Mas você deve voltar os olhos para outras mulheres, primo, pois lá está a rainha à sua procura - sorriu Gawaine -, e você deve ir apresentar-lhe cumprimentos, como seu paladino.

E realmente, naquele momento uma das damas de Gwenhwyfar aproximou-se, e disse com sua voz infantil:

- Sir Lancelote, não? A rainha pede que vá falar com ela. - Lancelote fez uma reverência para Morgana:

- Conversaremos depois, Gawaine, Gareth. - E afastou-se. Gareth ficou a observá-lo, franzindo a testa, e murmurou:

- Ele sempre corre, quando ela estende a mão para chamá-lo.

- E você esperava outra coisa, irmão? - observou Gawaine, com sua maneira folgazã. - Ele foi seu paladino desde que Gwenhwyfar se casou com Artur, e se assim não fosse... bem, como Morgana disse, tais coisas são consideradas másculas num rei; por que iríamos criticá-las numa rainha? Ora, essa é a moda, hoje em dia. Ou será que você não sabe o que se diz sobre aquela rainha irlandesa ali, casada com o velho duque Marcus, e sobre as canções que Drustan faz para ela e como a acompanha por todo lado... Ele é harpista, dizem, e tão bom quanto Kevin! Você já o ouviu tocar, Morgana?

Ela negou com a cabeça:

- Você não deve chamar Isotta de rainha da Cornualha. A rainha da Cornualha sou eu. Marcus reina ali apenas como meu castelão, e se ele não sabe disso, é tempo de que fique sabendo.

- Acho que Isotta não se importa com o título que Marcus usa - comentou Gawaine, voltando-se para olhar para a comprida mesa onde as senhoras estavam sentadas. Morgause juntara-se a Gwenhwyfar e à rainha irlandesa, e Lancelote falava com elas. Gwenhwyfar sorria para ele e fez alguma pilhéria que provocou riso, mas Isotta da Cornualha não olhava para nada, com o belo rosto pálido e distante. - Nunca vi nenhuma mulher que parecesse tão infeliz como aquela rainha irlandesa.

- Se eu fosse casada com o duque Marcus, duvido que pudesse ser feliz - comentou Morgana, e Gawaine deu-lhe um empurrão, de brincadeira.

- Artur fez mal quando casou você com aquele velho vovô Uriens, não é mesmo, Morgana? Você também é infeliz?

Morgana sentiu a garganta contrair-se, como se a bondade de Gawaine fosse provocar-lhe o pranto:

- Talvez não haja muita felicidade para as mulheres no casamento, afinal de contas...

- Eu não diria isso - reclamou Gareth. - Lionors parece ser bastante feliz.

- Ah, mas ela está casada com você - disse Morgana, rindo. - E eu não poderia ter essa boa sorte, sou apenas sua velha prima.

- Ainda assim, não critico minha mãe - reafirmou Gawaine. - Ela foi boa para Lot durante toda a vida dele, e enquanto ele esteve vivo, sempre foi discreta em seus amores. Não a censuro por coisa alguma, e Lamorak é um bom homem, um bom cavaleiro. Quanto a Gwenhwyfar... Fez uma careta. - É uma pena que Lancelote não a tenha retirado deste reino enquanto Artur tinha tempo de arranjar uma nova mulher. Mesmo assim, suponho que o jovem Galahad será um bom rei, quando chegar a sua vez. Lancelote é da velha linhagem real de Avalon, e também tem sangue real de Ban, da Bretanha Menor.

- Ainda assim - interrompeu Gareth -, creio que seu filho está mais próximo do trono do que o filho dele, Morgana. - Ela lembrou-se de que Gareth tinha idade suficiente para recordar-se do nascimento de Gwydion. - E as tribos dariam sua fidelidade à irmã de Artur, pois antigamente o filho da irmã era o herdeiro natural, na época em que a herança cabia ao lado feminino da família. - Franziu a testa, refletiu por um momento e em seguida perguntou:

- Morgana, ele é filho de Lancelote?

Ela achou a pergunta bastante natural, pois haviam sido amigos desde a infância. Mas sacudiu a cabeça negativamente, procurando fazer uma pilhéria, em lugar de mostrar a irritação que sentia:

- Não, Gareth. Se fosse, eu teria contado a você. Isso lhe teria causado satisfação, pois fica satisfeito com tudo o que se relaciona com Lancelote. Desculpem-me, primos, mas vou falar com a mãe de vocês, ela sempre foi muito boa para mim.

Voltou-se, e começou a caminhar lentamente para a plataforma onde ficavam sentadas as senhoras; o salão estava cada vez mais cheio, enquanto as pessoas se cumprimentavam, formando pequenos grupos.

Sempre tivera aversão por lugares cheios e passara tanto tempo nos verdes montes galeses que se desabituara do cheiro de muitos corpos amontoados e da fumaça da lareira. Voltando-se para um lado, esbarrou num homem, que oscilou, embora Morgana fosse leve, e apoiou-se à parede. Viu-se, então, frente a frente com o Merlim.

Não falava com Kevin desde o dia da morte de Viviane. Olhou-o friamente e afastou-se.

- Morgana... - Ela não tomou conhecimento do chamado. Kevin, então, disse numa voz tão fria quanto o olhar que dela recebeu: - Uma filha de Avalon pode voltar o rosto quando o Merlim fala?

Morgana deu um suspiro fundo:

- Se me pede para ouvi-lo em nome de Avalon, aqui estou para isso. Mas isso não lhe fica bem, depois de ter entregue o corpo de Viviane aos cristãos. Chamo a isso um gesto de traição.

- E quem é você para falar de traições, você, que é rainha de Gales, enquanto o lugar de Viviane está vazio em Avalon?

Morgana inflamou-se:

- Busquei falar certa vez em nome de Avalon e você me mandou calar. - E inclinou a cabeça, sem esperar resposta. Não, ele está certo. Como posso falar de traição quando fugi de Avalon, demasiado jovem e demasiado tola para compreender o que Viviane planejara? Só agora começo a perceber que ela me dera o controle da consciência do rei, e que eu o joguei fora, sem usá-lo, permitindo que Gwenhwyfar o levasse para as mãos dos padres. - Fale, Merlim. A filha de Avalon escuta.

Ele ficou calado por um momento, olhando-a apenas, enquanto Morgana se lembrava, dolorosamente, dos anos em que Kevin tinha sido seu único amigo e aliado naquela corte. Por fim, ele disse:

- Sua beleza, como a de Viviane, cresce com os anos, Morgana. Ao seu lado, todas as mulheres desta corte, inclusive aquela irlandesa que consideram bela, são bonecas pintadas.

Morgana deu um leve sorriso e respondeu:

- Você não me fez parar com o retumbar de Avalon para me dizer galanteios, Kevin.

- Não? Expressei-me mal, Morgana. Avalon precisa de você. Aquela que lá está, agora... - Interrompeu-se, perturbado. - Você está assim tão enamorada de seu velho marido que não pode se separar dele?

- Não, mas ali também faço o trabalho da Deusa.

- Disso eu sei, e contei a Niniane. E se Acolon puder substituir o pai, o culto da Deusa crescerá ali... Mas Acolon... não é herdeiro, e o filho mais velho é um tolo, amigo dos padres!

- Acolon não é rei, mas druida - disse Morgana - e a morte de Avaloch de nada adiantaria. Eles adotam, hoje, em Gales, os costumes romanos, e Avaloch tem um filho. Conn, pensou ela, que se senta no meu colo e me chama de avó.

Kevin sugeriu, como se tivesse ouvido as palavras que ela não disse:

- A vida das crianças é incerta, Morgana. Ele pode não chegar à idade adulta.

- Não cometerei esse crime, nem mesmo por Avalon, e você pode dizer isso a eles.

- Diga você mesma. Niniane contou-me que o rei irá visitar Avalon depois do Pentecostes.

Morgana experimentou a sensação desagradável de frio e de vazio no estômago, e considerou-se prudente por ter comido pouco dos pesados alimentos do banquete.

Eles sabem de tudo, então? Observam-me, julgando-me, quando engano meu velho e confiante marido com Acolon?

Pensou em Elaine, trêmula e envergonhada à luz das tochas que a tinham surpreendido nua nos braços de Lancelote.

Sabem até o que planejo, antes que eu mesma tenha certeza.

Mas tinha feito apenas o que a Deusa queria que fizesse.

- O que tinha para me dizer, Merlim?

- Apenas que seu lugar em Avalon continua vazio, e Niniane sabe disso tão bem quanto eu. Gosto muito de você, Morgana, e não sou traidor. Sinto que pense isso de mim, você, que tanto me deu. - Estendeu as mãos deformadas.

- Paz, então, Morgana, entre nós?

- Em nome da Senhora, paz, então - respondeu ela, beijando a boca torta de Kevin.

Também para ele a Deusa tem o meu rosto.

e isso doeu em Morgana. A Deusa é quem dá a vida e a masculinidade... e a morte. Quando seus lábios tocaram os dele, o Merlim recuou, com o medo estampado no rosto.

- Você se afasta de mim, Kevin? Juro pela minha vida que não cometerei assassinatos. Nada tem a temer... - afirmou, enquanto ele estendia os dedos tortos para sustar suas palavras.

- Não faça juramentns, Morgana, para não vir a ser perjura. Ninguém sabe o que a Deusa pode exigir de nós. Também eu celebrei o Grande Casamento, e minha vidá ficou marcada desde aquele dia. Vivo apenas pela vontade da Deusa, e não tenho uma existência tão doce que sinta pena de deixá-la.

Anos depois, Morgana lembrar-se-ia daquelas palavras, sentindo que amenizavam a mais dura tarefa de sua vida. Kevin inclinou-se para ela, na saudação feita apenas à Senhora de Avalon ou ao Grande Druida, e em seguida se afastou rapidamente. Morgana ficou, trêmula, observando-o distanciar-se. Por que Kevin fizera aquilo? E por que tivera medo dela?

Caminhou em meio à multidão. Quando chegou à plataforma, Gwenhwyfar deu-lhe um sorriso frio, mas Morgause levantou-se para um grande e fraternal abraço.

- Querida filha, você parece cansada! Sei que não gosta de multidões.

Ofereceu-lhe uma taça de prata. Morgana provou o vinho e sacudiu depois a cabeça, rejeitando-o.

- Você parece ainda mais jovem, tia!

Morgause deu um sorriso satisfeito:

- A companhia dos jovens tem esse efeito, comigo, minha querida. Você viu Lamorak? Enquanto ele me achar bonita, também me acharei, e o serei... É a única feitiçaria de que necessito! - Traçou, com o dedo macio, uma linha sob o olho de Morgana e acrescentou: - Recomendo-lhe o tratamento, minha cara, ou você ficará velha e ranzinza... Não há jovens bonitos na corte de Uriens que lancem olhares para sua rainha?

Por cima do ombro, Morgana notou a expressão de desagrado de Gwenhwyfar, embora certamente acreditasse que Morgause estava brincando. Pelo menos a história de meu comportamento com Acolon não está na boca do povo, aqui. Depois, pensou, irritada: Em nome da Senhora, não me envergonho do que faço, não sou Gwenhwyfar!

Lancelote conversava com Isotta da Cornualha. Sim, ele sempre tinha faro para a mulher mais bonita de um salão, e Morgana sabia que isso desagradava a Gwenhwyfar. Com uma pressa nervosa, a rainha interrompeu-os:

- Senhora Isotta, conhece a irmã de meu marido, Morgana?

A beldade irlandesa levantou os olhos desatentos para Morgana e sorriu. Era muito pálida, as feições bem-feitas eram brancas como o leite, os olhos, de um azul quase esverdeado. Morgana percebeu que, embora alta, tinha os ossos tão pequenos que parecia uma criança enfeitada de jóias, pérolas e cadeias de ouro pesadas demais para ela. Teve uma súbita pena da moça, e não pronunciou as primeiras palavras que lhe vieram à mente, e que eram: Então agora a chamam de rainha da Cornualha? Preciso falar com o duque Marcus!

Disse apenas:

- Disseram-me que a senhora conhece muito bem as ervas e os remédios. Algum dia, se tiver tempo antes de voltar para Gales do Norte, gostaria que conversássemos sobre isso.

- Seria um prazer. - Isotta foi cortês. Lancelote olhou-a e observou:

- Também lhe disse que você é amante da música, Morgana. Vamos ouvi-la, hoje?

- Estando Kevin aqui? Minha música não é nada, em comparação com a dele - respondeu Morgana, mas Gwenhwyfar teve um estremecimento e interrompeu a conversa:

- Gostaria que Artur me ouvisse e mandasse aquele homem embora da corte. Não gosto de ter magos e feiticeiros aqui, e um rosto tão feio deve encobrir também coisas feias em seu interior! Não sei como você suporta o contato com ele, Morgana. Creio que qualquer mulher ficaria doente se Kevin a tocasse, mas você o abraça e beija como se fossem parentes...

- É evidente então que me faltam os sentimentos das mulheres, e alegro-me com isso.

Isotta da Cornualha comentou numa voz macia e doce:

- Se o que está no exterior for igual ao que está no interior, então a música que Kevin faz deve ser um sinal para nós, senhora Gwenhwyfar, de que a alma que há nele é realmente a de um grande anjo. Pois nenhum homem mau pode tocar como ele toca.

Artur juntara-se a eles e, ouvindo as últimas palavras, comentou:

- Mesmo assim, não contrariarei a rainha com a presença de alguém que lhe é desagradável, nem terei a insolência de pedir a música de um artista como Kevin para alguém que não a pode receber com satisfação. - Parecia aborrecido, e acrescentou: - Morgana, você toca para nós?

- Minha harpa está em Gales do Norte. Talvez, se alguém me emprestar um instrumento, eu toque em outra ocasião. O salão está tão cheio e barulhento que a música se perderia... Lancelote é tão músico quanto eu.

- Ah, não, prima! Sei distinguir uma corda da outra porque fui criado em Avalon e minha mãe colocou uma harpa em minhas mãos logo que eu pude segurá-la. Mas não tenho seu talento musical nem o do sobrinho de Marcus. Você já ouviu Drustan tocar, Morgana?

Ela negou com a cabeça, e Isotta disse:

- Vou pedir-lhe que venha tocar para nós.

Mandou um pajem chamá-lo, e Drustan aproximou-se. Era um jovem esbelto, de olhos e cabelos escuros, que Morgana achou realmente parecido com Lancelote. Isotta pediu-lhe que tocasse, ele mandou buscar a harpa, sentou-se nos degraus do palanque e tocou algumas músicas bretãs. Eram sentimentais e tristes, numa escala muito triste, e fizeram Morgana pensar na antiga terra de Lyonesse, distante e além do litoral de Tintagel. Tinha, realmente, mais talento do que Lancelote, e mais até mesmo do que ela. Embora não fosse Kevin, e nem sequer dele se aproximasse, era o melhor músico que já ouvira, depois do Merlim. Também sua voz era doce e musical.

Enquanto a música soava, Artur disse baixinho para Morgana:

- Como tem passado, irmã? Há muito não vinha a Camelot, sentimos falta de você.

- Ah, sim? Pensei que você tivesse me casado com o rei de Gales do Norte para isso e para que minha rainha... - e fez uma inclinação irônica em direção a Gwenhwyfar - não tenha de sofrer o desgosto de ver nada que lhe seja desagradável, seja Kevin ou eu.

- Ora, como pode dizer isso? - perguntou Artur. - Sabe que gosto muito de você, e Uriens é um bom homem, que parece depender de você para tudo. Sem dúvida, ele ouve todas as suas palavras! Procurei encontrar-lhe um marido bondoso, Morgana, que tivesse filhos e não a acusasse de não tê-los. E tive hoje o prazer de fazer de seu jovem enteado um dos meus Companheiros. O que podia querer mais do que isso, irmã?

- O quê, realmente? O que mais pode querer uma mulher do que um bom marido velho que poderia ser seu avô e um reino no fim do mundo? Eu deveria me curvar e agradecer-lhe de joelhos, irmão!

- Mas eu fiz o que me pareceu que lhe causaria prazer, irmã. Uriens é muito velho para você, mas não viverá para sempre. Sinceramente, pensei que seria feliz.

Sem dúvida ele estava dizendo a verdade, do seu ponto de vista, pensou Morgana. Como podia ser um rei tão bom e sábio, com tão pouca imaginação? Ou seria esse o segredo de seu reinado, o fato de apegar-se às verdades simples e não ir além delas? Seria por isso que a fé cristã o tinha atraído, por ser tão simples, com algumas leis apenas?

- Quero que todos sejam felizes - disse Artur, e Morgana sabia que realmente era esse seu desejo fundamental. Ele procurava fazer que todos fossem felizes, até o último de seus súditos. Tinha permitido a ligação de Gwenhwyfar e Lancelote porque sabia que a rainha ficaria infeliz se os separasse, e não queria também feri-la tomando outra mulher, ou uma amante que lhe desse o filho que ela não podia ter.

Ele não é bastante impiedoso para ser Grande Rei, pensou, enquanto tentava ouvir as canções tristes de Drustan. Artur passou a falar das minas de chumbo e estanho da Cornualha, que ela devia ir ver. O duque Marcus precisava saber que não era o governante de todo o país, e sem dúvida ela e Isotta seriam amigas, pois ambas gostavam de música, bastava ver como ouviam atentamente Drustan.

Não é o amor à música que a leva a fixar os olhos nele, pensou Morgana, mas não disse nada. Examinou as quatro rainhas que se sentavam àquela mesa e suspirou: Isotta não podia tirar os olhos de Drustan, e quem a condenaria? O duque Marcus era velho e rígido, de olhos ariscos e nada simpáticos, que lembravam os de Lot de Orkney. Morgause chamara o jovem Lamorak com um gesto e dizia-lhe alguma coisa ao ouvido; quem a acusaria, também? Fora casada com Lot, que não era um marido ideal, aos catorze anos, e durante toda a vida do marido tivera o cuidado de não ferir seu orgulho, e nunca se exibira com amantes jovens. E eu não sou melhor do que nenhuma delas, afagando Uriens de um lado, mas fugindo para a cama de Acolon, de outro. E procurando justificar-me chamando Acolon de meu sacerdote...

Ficou pensando se alguma mulher teria agido de maneira diferente. Gwenhwyfar era a Grande Rainha, e tomara um amante, e Morgana tinha a impressão de que seu coração se endurecera como pedra. Ela, Morgause e Isotta haviam sido casadas com homens velhos. Gwenhwyfar, porém, desposara um homem bonito e de sua idade, que além disso era o Grande Rei - que razões tinha para ficar descontente?

Drustan colocou a harpa de lado, fez uma reverência e pegou um chifre com vinho para refrescar a garganta.

- Não posso cantar mais, mas se a senhora Morgana quiser usar minha harpa, terei grande prazer. Ouvi falar de sua habilidade de musicista.

- Sim, cante para nós - pediu Morgause, secundada por Artur.

- Faz muito tempo que não ouço sua voz, e continua sendo a mais doce que já ouvi... Talvez por ser a primeira que me lembre de ter ouvido - confessou ele. - Creio que você já cantava para me fazer dormir, antes mesmo que eu soubesse falar, e você mesma ainda era uma criança. Sempre me recordo de você como era então, Morgana - acrescentou, e ante a dor que se espelhava em seus olhos, ela baixou a cabeça.

É isso o que Gwenhwyfar não pode perdoar? O que eu tenha para ele a face da Deusa? Pegou a harpa de Drustan, inclinou a cabeça sobre suas cordas, tocando-as uma a uma.

- A afinação é diferente da minha. - E experimentou o som. Mas um barulho no outro extremo da sala fez que levantasse a cabeça. Ouviu-se o som de uma trombeta, áspero e estridente, e um ruído de botas militares. Artur começou a levantar-se, depois voltou a sentar-se, enquanto quatro homens armados, com espada e escudo, entravam.

Cai foi ao encontro deles, protestando - não era permitido portar armas na sala do rei, no Pentecostes. Empurraram-no brutalmente para o lado. Os homens traziam capacetes romanos - Morgana tinha visto um ou dois deles, conservados em Avalon - e túnicas militares curtas, armadura romana, bem como pesados mantos militares vermelhos. Morgana espantou-se: era como se os legionários romanos tivessem saído do passado. Um deles trazia, na ponta de uma lança, a figura entalhada e dourada de uma águia.

- Artur, duque da Bretanha! - gritou um deles. - Trazemos para você uma mensagem de Lúcio, imperador de Roma!

Artur levantou-se, deu um passo na direção dos homens vestidos de legionários.

- Não sou duque da Bretanha, mas Grande Rei - respondeu tranqüilamente. - E não conheço nenhum imperador Lúcio. Roma caiu nas mãos dos bárbaros e, sem dúvida, dos impostores. Mesmo assim, não se enforca o cão devido à impertinência do dono. Podem dizer sua mensagem.

- Sou Castor, centurião da legião Valeria Victrix - disse o homem que tinha falado. - Na Gália, as legiões foram novamente formadas, sob a bandeira de Lúcio Valério, imperador de Roma. A mensagem de Lúcio é a seguinte: que você, Artur, duque da Bretanha, pode continuar a governar sob esse nome, desde que mande, dentro de seis semanas, um tributo imperial constituido de quarenta onças de ouro, duas dúzias de pérolas e três carros de ferro, estanho e chumbo de seu país, com cem fardos de lã também do país, e mais cem escravos.

Lancelote levantou-se e deu um salto, colocando-se no espaço à frente do rei.

- Meu senhor Artur, dê-me licença de enxotar esses cães e mandá-los de volta ganindo para seus senhores, para dizer a esse Lúcio idiota que, se quiser tributo da Inglaterra, venha buscá-lo.

- Espere, Lancelote - pediu Artur calmamente, sorrindo para o amigo. - Não é assim que se faz. - Examinou os legionários por um momento; Castor começara a sacar a espada, e Artur disse, com severidade: - Nenhuma arma pode ser sacada neste dia santo, em minha corte, soldado. Não espero que os bárbaros da Gália conheçam os costumes civilizados, mas se não guardarem suas espadas imediatamente na bainha, então, Lancelote irá tomá-las. E sem dúvida já ouviram falar de Sir Lancelote, mesmo na Gália. Não quero, porém, ver sangue derramado ao pé de meu trono.

Mostrando os dentes com raiva, Castor recolocou a espada na bainha.

- Não tenho medo de seu cavaleiro Lancelote. Sua época passou com as guerras contra os saxões. Mas fui mandado como mensageiro, com ordens de não derramar sangue. Que resposta devo levar ao imperador, duque Artur?

- Nenhuma, se não me tratar pelo meu título adequado, em meu próprio salão. Mas diga isto a Lúcio: que Uther Pendragon sucedeu a Ambrósio Aureliano, quando já não havia romanos para nos ajudarem em nossa luta de morte contra os saxões, e eu, Artur, sucedi a meu pai Uther, e meu sobrinho Galahad me sucederá no trono da Bretanha. Não há ninguém que possa reivindicar lealmente a púrpura do imperador; o Império Romano já não governa a Bretanha. Se Lúcio desejar governar em sua Gália nativa, e o povo o aceitar como rei, eu certamente não contestarei sua pretensão. Mas se reivindicar um único centímetro da Bretanha, ou da Bretanha Menor, então ele terá de nós três dezenas de boas flechas onde lhe farão o maior bem.

Castor ficou pálido de raiva:

- Meu imperador previu uma resposta imprudente como essa, e eis o que me mandou avisar: que a Bretanha Menor já está em suas mãos, e que aprisionou o filho do rei Ban, Bors, em seu próprio castelo. E quando o imperador Lúcio tiver saqueado toda a Bretanha Menor, então virá para a Bretanha, como fez o imperador Cláudio, outrora, para conquistar outra vez o país, apesar de todos os seus primitivos chefes inteiramente pintados!

- Diga a seu imperador - respondeu Artur - que minha oferta de três dezenas de flechas continua válida, mas que a elevarei para trezentas, e que o único tributo que terá de mim será uma dessas flechas atravessada no coração. Diga-lhe também que, se molestar um fio de cabelo de meu Companheiro, Sir Bors, eu o entregarei a Lancelote e Lionel, que são irmãos de Bors, para esfolá-lo vivo e pendurar-lhe o cadáver nos muros do castelo. Agora, voltem para seu imperador e transmitam-lhe a mensagem. Não, Cai, não deixe que ninguém toque neles: o mensageiro é sagrado perante os Deuses.

Houve um silêncio sepulcral, enquanto os legionários deixavam o saguão, fazendo uma rígida meia-volta e batendo nas pedras do chão com as botas cheias de pregos. Quando desapareceram, elevou-se um clamor, mas Artur levantou a mão, e fez-se silêncio.

- Não haverá combates simulados amanhã, pois teremos batalhas de verdade, dentro em pouco. Como prêmios, posso oferecer o que for tomado a esse bandido que se intitula imperador. Companheiros, espero que, ao amanhecer, estejam prontos para partir para o litoral. Cai, trate das provisões. Lancelote - e teve um sorriso para o amigo -, gostaria de deixá-lo aqui como protetor da rainha, mas, como seu irmão está preso, sei que você há-de querer nos acompanhar. Pedirei ao padre que celebre missa para os que desejem confessar seus pecados antes da batalha, amanhã ao amanhecer. Sir Uwaine... - seus olhos voltaram-se para o mais novo de seus Companheiros, sentado entre os cavaleiros mais jovens -, agora posso oferecer-lhe a glória na batalha em lugar de jogos. Peço-lhe, como filho de minha irmã, que fique ao meu lado, e me proteja as costas contra as traições.

- Sinto-me honrado, meu rei - gaguejou Uwaine, com o rosto brilhando, e naquele momento Morgana testemunhou como Artur inspirava tão grande dedicação.

- Uriens, meu bom cunhado - disse Artur -, deixo a rainha sob sua guarda. Fique em Camelot, e proteja-a até que eu volte. - Inclinou-se e beijou a mão de Gwenhwyfar. - Minha senhora, peço-lhe que nos desculpe por interromper a festa. Estamos novamente em guerra.

A rainha estava branca como sua roupa:

- E a guerra é bem recebida pelo meu senhor. Que Deus o proteja, meu querido marido. - Inclinou-se para a frente para beijá-lo. Artur levantou-se e desceu da plataforma.

- Gawaine, Lionel, Gareth, todos vocês, Companheiros, ouçam!

Lancelote atrasou-se um instante, antes de acompanhá-lo:

- Peça a bênção de Deus também para mim, na guerra, minha rainha.

- Ah, meu Deus... Lancelote - disse Gwenhwyfar, e, apesar dos olhos voltados para ela, atirou-se em seus braços. Ele segurou-a delicadamente, falando tão baixo que Morgana não pôde ouvir, mas notou que ela chorava. Quando levantou a cabeça, porém, o rosto e os olhos estavam secos.

- Que Deus o proteja, meu querido amor.

- E que Deus fique com você, amor do meu coração - respondeu Lancelote, baixinho. - Quer eu volte ou não, que Ele a abençoe. - Voltou-se para Morgana: - Agora, sinto-me realmente feliz de que você faça uma visita a Elaine. Leve minhas saudações à minha cara esposa, e diga-lhe que parti com Artur para salvar meu irmão Bors desse canalha que se intitula imperador Lúcio. Diga-lhe que peço a Deus que cuide dela, e que mando meu amor para as crianças. - Ficou calado por um momento, e Morgana pensou que também iria beijá-la. Mas, em vez disso, sorrindo, levou a mão ao seu rosto. - Que Deus a abençoe também, Morgana, quer você queira sua bênção, quer não. - E dirigiu-se para o salão inferior, onde Artur se reunia com os Companheiros.

Uriens aproximou-se da plataforma e fez uma reverência à rainha.

Se ela rir do velho, pensou Morgana, com um súbito impulso protetor, eu a esbofetearei! Uriens tinha boas intenções, e a missão era apenas cerimonial, constituindo uma deferência menor ao rei. Camelot estaria protegido nas mãos de Cai e Lucan, como sempre. Mas Gwenhwyfar estava habituada à diplomacia da corte, e respondeu, gravemente:

- Muito obrigada, Sir Uriens. O senhor é extremamente bem-vindo aqui. Morgana é minha amiga e irmã, e estarei contente em tê-la novamente perto de mim, na corte.

Ah, Gwenhwyfar, que mentirosa você é!, pensou Morgana, mas disse com doçura:

- Mas eu terei de ir visitar minha prima Elaine. Lancelote encarregou-me de levar-lhe notícias.

- Você é sempre bondosa - sorriu Uriens -, e como a guerra não é em nossa ilha, mas do outro lado do canal, poderá ir quando quiser. Pediria a Acolon que a acompanhasse, mas provavelmente ele irá com Artur para o litoral.

Ele realmente me entregaria aos cuidados de Acolon. Pensa bem de todos, disse Morgana para si mesma, e beijou o marido com sincera ternura.

- Depois que eu tiver feito minha visita a Elaine, senhor, poderei visitar minha prima em Avalon?

- Você pode ir aonde quiser, minha querida. Mas antes de partir, arrumará minhas coisas? Meu criado não sabe fazer isso tão bem quanto você. E deixará seus remédios e ungüentos de ervas para mim?

- Sem dúvida - respondeu ela, e foi preparar as coisas para a viagem, pensando com resignação que certamente, antes de se separarem, ele haveria de querer dormir com ela. Bem, já suportava isso antes, e poderia suportar de novo.

Em que prostituta me transformei!

 

Capítulo 12

Morgana sabia que só ousaria fazer aquela viagem se a dividisse em etapas de uma légua, a ser vencida diariamente.

Sua primeira etapa, portanto, era o castelo de Pellinore, e por amarga ironia tinha como primeira missão levar uma mensagem carinhosa para a mulher e os filhos de Lancelote.

Durante todo aquele primeiro dia, seguiu a velha estrada romana para o norte, atravessando morros ondulantes.

Kevin oferecera-se para acompanhá-la, e Morgana sentira-se tentada a aceitar, tomada pelo velho receio de não encontrar o caminho de Avalon também desta vez, de não ousar chamar a barca de Avalon, de perder-se novamente pelo país das fadas e ali ficar para sempre. Não ousara ir lá depois da morte de Viviane...

Agora, porém, tinha de enfrentar a prova, como tinha acontecido da primeira vez, quando se tornara sacerdotisa... Tinha saído de Avalon sozinha, e a única prova era esta: ser capaz de voltar. E devia reconquistar o direito de entrar ali pelas suas próprias forças, e não com a ajuda de Kevin.

Ainda assim, tinha medo, pois muito tempo se passara.

Avistou, no quarto dia, o castelo de Pellinore, e ao meio-dia, contornando a margem pantanosa do lago que não tinha então mais vestígios do dragão que outrora o habitava - embora seus dois criados tremessem e se apoiassem mutuamente, contando histórias horríveis de dragões -, avistou também a residência um pouco menor que Pellinore destinara a Elaine e Lancelote, quando de seu casamento.

Era mais uma mansão do que um castelo; naqueles dias de paz, não eram numerosas as fortificações na área. Amplos gramados desciam até a estrada, e quando Morgana subiu por eles em direção à casa, um bando de gansos fugiu gritando.

Um camareiro bem-vestido recebeu-a, perguntando-lhe o nome e o que desejava.

- Sou a senhora Morgana, mulher do rei Uriens de Gales do Norte. Trago uma mensagem do senhor Lancelote.

Foi levada para um aposento, em que pôde se lavar e arrumar, e depois conduzida ao grande salão, cuja lareira estava acesa, e onde lhe foram oferecidos bolos de trigo com mel e uma garrafa de bom vinho. Morgana entediou-se com tanta cerimônia - ela era, afinal de contas, parente, e não um visitante oficial. Depois de algum tempo, um menininho olhou pela porta e, quando a viu sozinha, entrou. Era louro, de olhos azuis e sardento. Compreendeu imediatamente de quem ele era filho, embora em nada se parecesse com o pai.

- É a senhora Morgana, a quem chamam de Morgana das Fadas?

- Sou. E sou também sua prima, Galahad.

- Como sabe meu nome? - perguntou o menino, desconfiado. - Você é feiticeira? Por que a chamam de Morgana das Fadas?

- Porque sou da velha linhagem real de Avalon, e fui criada ali. E sei seu nome não por alguma feitiçaria, mas porque você se parece com sua mãe, que também é minha parenta.

- O nome de meu pai também é Galahad - tornou a criança. - Mas os saxões chamam-no de Flecha de Duende.

- Vim trazer as lembranças de seu pai para você, para sua mãe e para suas irmãs também.

- Nimue é uma menina tola - continuou Galahad. - É uma menina grande, de cinco anos, mas chorou quando meu pai veio, e não queria deixar que ele a pegasse no colo e a beijasse, porque não o reconheceu. Você conhece meu pai?

- Conheço, sim - respondeu Morgana. - A mãe dele, a Senhora do Lago, era minha tia e mãe de criação.

O menino não parecia acreditar muito, e franziu a testa.

- Minha mãe contou que a Senhora do Lago é uma feiticeira malvada.

- Sua mãe é... - Conteve-se e amenizou as palavras. Afinal de contas, ele era apenas uma criança. - Sua mãe não conheceu a Senhora como eu. Era uma mulher boa, sábia e grande sacerdotisa.

- Ah, sim? - Podia perceber que Galahad lutava com esse conceito. - O padre Griffin diz que só os homens podem ser sacerdotes, porque são feitos à imagem de Deus, e as mulheres, não. Nimue disse que queria ser padre quando fosse grande, e aprender a ler, escrever e tocar harpa, mas o padre Griffin disse que nenhuma mulher pode fazer todas essas coisas, nenhuma delas.

- Então, o padre Griffin está enganado, pois eu posso fazer todas essas coisas, e mais algumas.

- Não acredito em você. - E examinou-a com um olhar fixo de hostilidade. - Você acha que todos estão errados, menos você, não é? Minha mãe diz que as crianças não devem contradizer os adultos, e você não parece ser muito mais velha do que eu. Você não é muito maior do que eu.

Morgana riu da irritação do menino:

- Mas sou mais velha do que seu pai e sua mãe, Galahad, embora não seja muito grande.

Houve um ruído na porta e Elaine entrou. Estava mais gorda, o corpo mais redondo, os seios já não muito empinados. Afinal de contas, pensou Morgana, tinha três filhos, e um deles ainda estava sendo amamentado. Continuava bonita, porém, com o cabelo dourado brilhando, e abraçou Morgana como se a tivesse visto na véspera.

- Vejo que já conheceu meu filho. Nimue está de castigo em seu quarto, por ter sido impertinente com o padre Griffin. E Gwenie, graças a Deus, está dormindo. É uma criança chorona; fiquei acordada com ela grande parte da noite. Você está vindo de Camelot? Por que meu marido não veio com você, Morgana?

- Foi para explicar-lhe isso que vim. Lancelote não voltará durante algum tempo. Há guerra na Bretanha Menor, e seu irmão Bors está sitiado em seu castelo. Todos os Companheiros de Artur partiram para salvá-lo e derrubar o homem que se intitula imperador.

Os olhos de Elaine encheram-se de lágrimas, mas o rosto do jovem Galahad ficou transtornado de entusiasmo.

- Se eu fosse grande, seria um dos Companheiros, meu pai faria de mim um cavaleiro, e eu iria com eles e lutaria contra esses velhos saxões, e também contra qualquer velho imperador!

Elaine ouviu o que Morgana tinha a dizer, e respondeu:

- Esse Lúcio me parece um louco!

- Louco ou não, ele tem um exército, e diz agir em nome de Roma. Lancelote mandou-me falar com você e beijar as crianças, embora eu não tenha dúvidas de que este moço aqui esteja muito grande para ser beijado como um bebê. - E sorriu para Galahad. - Meu enteado, Uwaine, considerava-se muito crescido para isso, quando tinha mais ou menos seu tamanho, e há poucos dias tornou-se um dos Companheiros de Artur.

- Que idade tem ele? - perguntou Galahad e quando Morgana lhe informou que tinha quinze anos, ficou muito aborrecido e começou a contar nos dedos.

- E como estava meu marido? - quis saber Elaine.

- Galahad, vá para junto de seu professor, quero conversar com minha prima. - Quando o menino saiu, ela continuou:

- Tive mais tempo de conversar com Lancelote antes do Pentecostes do que em todos os anos de nosso casamento. Foi a primeira vez que tive sua companhia por mais de uma semana!

- Pelo menos, ele não a deixou grávida desta vez - sorriu Morgana.

- Não. E foi muito delicado, não me procurou durante as últimas semanas em que esperamos juntos o nascimento de Gwen. Disse que eu estava muito pesada e que não teria prazer. Eu não o teria rejeitado, mas, para dizer a verdade, acho que ele não estava interessado... é uma confissão que lhe faço, Morgana.

- Você se esquece de que eu conheço Lancelote desde que me entendo por gente - disse Morgana, com um leve sorriso triste.

- Diga-me uma coisa. Jurei que nunca lhe perguntaria isso, mas Lancelote foi seu amante?, vocês alguma vez dormiram juntos?

Morgana viu seu rosto tenso, e respondeu cordialmente:

- Não, Elaine. Houve uma época em que eu achei... mas não chegou a isso. Eu não o amava, nem ele a mim. - e para sua própria surpresa, sabia que as palavras eram verdadeiras, embora nunca tivesse pensado nisso, antes.

Elaine olhava para o chão, onde um raio de sol incidia sobre um velho e desbotado vitral que estava ali desde os tempos romanos.

- Morgana, enquanto ele esteve lá, durante o Pentecostes, ele viu a rainha?

- Como Lancelote não é cego, e como ela estava sentada na plataforma ao lado de Artur, creio que sim - respondeu secamente.

Elaine teve um gesto de impaciência:

- Você sabe do que estou falando!

Será que ela ainda é assim tão ciumenta? Odeia tanto Gwenhwyfar? Ela tem Lancelote, deu-lhe filhos, sabe que ele é um homem honrado, o que mais deseja? Mas diante da mulher que torcia nervosamente as mãos e das lágrimas que pareciam pender-lhe dos olhos, Morgana apiedou-se.

- Elaine, ele falou com a rainha, beijou-a na despedida, quando partiram. Mas, digo sinceramente, falou como um cortesão fala à rainha, não como amante. Eles se conhecem desde a juventude, e se não puderem esquecer que outrora se amaram de uma forma que não acontece duas vezes na vida de um homem ou de uma mulher, por que aborrecer-se com isso? Você é a mulher dele, Elaine, e pude perceber, quando me mandou sua mensagem, que Lancelote a ama muito.

- E eu jurei contentar-me com isso, não foi?

Elaine baixou a cabeça por um longo momento, apertando as pálpebras com força, mas chorou. Por fim, levantou o rosto:

- Você, que teve tantos amantes, sabe o que é amar?

Por um instante, Morgana foi dominada pela velha tempestade, a loucura do amor que os havia lançado, a ela e Lancelote, um nos braços do outro, naquele monte ensolarado em Avalon, que os reaproximara repetidas vezes até que tudo terminara em amargura... Usando toda a sua força de vontade, afastou essa lembrança e pensou em Acolon, que voltara a despertar a doçura da feminilidade em seu coração e em seu corpo, quando se julgava velha, morta, abandonada... que a levara de volta para a Deusa, que lhe devolvera a condição de sacerdotisa. Sentiu sucessivas ondas de rubor avermelharem seu rosto, e sacudiu, lentamente a cabeça, numa afirmativa:

- Sim, minha filha, conheci e conheço o que é o amor.

Compreendeu que Elaine queria fazer centenas de outras perguntas e pensou como seria bom partilhar tudo isso com a única mulher que fora sua amiga desde que partira de Avalon e cujo casamento fora feito por ela - mas não. O segredo era parte do poder da sacerdotisa, e falar do que conhecera com Acolon seria retirá-lo do reino da magia, seria transformar-se apenas numa esposa descontente que se deitava sorrateiramente com o enteado.

- Mas agora, Elaine, temos outro assunto a tratar. Lembra-se de que me fez uma promessa, a de que, se eu a ajudasse a conquistar Lancelote, você me daria o que lhe pedi? Nimue tem hoje mais de cinco anos, e está na idade de ser adotada. Parto amanhã para Avalon. Você deve prepará-la para me acompanhar.

- Não! - Foi uma exclamação prolongada, quase um grito. - Não, não, Morgana! Você não pode querer isso!

Morgana tivera medo de que isso acontecesse. Foi com uma voz distante e firme que disse:

- Elaine, você jurou.

- Como podia jurar por uma criança que ainda não nascera? Eu não sabia o que isso significava. Oh, não, não a minha filha, não a minha filha! Você não pode tomá-la de mim, assim tão nova!

- Você jurou - repetiu Morgana.

- E se eu recusar? - Elaine parecia uma tigresa irada pronta a defender sua cria contra um cão grande e feroz.

- Se você recusar - respondeu Morgana numa voz sempre tranqüila -, quando Lancelote voltar, saberá por mim como esse casamento foi feito, como você chorou e me implorou que fizesse uma magia para que ele passasse de Gwenhwyfar para você. Ele pensa que você é a vítima inocente de minha feitiçaria, Elaine, e culpa a mim, e não a você. Terá de saber a verdade?

- Você não faria isso! - implorou Elaine, pálida de horror.

- Experimente e verá. Não sei como os cristãos encaram um juramento, mas asseguro-lhe que pelos crentes da Deusa é considerado com toda a seriedade. Foi assim que aceitei o seu. Esperei até que você tivesse outra filha, mas Nimue é minha, porque você deu sua palavra.

- Mas... e ela? É uma criança cristã... Como posso mandá-la para um mundo de feitiçarias pagãs?

- Afinal de contas, sou parenta dela - argumentou Morgana suavemente. - Há quanto tempo você me conhece, Elaine? Já me viu fazer alguma coisa tão desonrosa ou má que a levasse a hesitar em confiar-me uma criança? Eu não vou dá-la a um dragão, e há muito, mas muito tempo mesmo, que findaram os dias em que até os criminosos eram queimados nos altares de sacrifício.

- E o que acontecerá com ela, em Avalon? - perguntou Elaine, com tanto medo que Morgana ficou pensando se, afinal de contas, ela realmente pensaria em sacrifícios humanos ou coisas parecidas.

- Será uma sacerdotisa, com todo o conhecimento proporcionado por Avalon. Algum dia, ela lerá as estrelas, e conhecerá toda a sabedoria do mundo e dos céus. - Sorriu. - Galahad disse-me que ela quer aprender a ler, a escrever e a tocar harpa. Em Avalon, nada disso lhe será proibido.

Sua vida será menos difícil do que se você a colocasse na escola de algum convento, pois certamente exigiremos muito menos, em jejuns e penitências, antes que ela cresça.

- Mas... o que vou dizer a Lancelote? - hesitou Elaine.

- O que você quiser. Será melhor dizer a verdade que você a mandou para ser criada em Avalon, a fim de que ela preencha o lugar que está vazio, lá. Mas não me importo com o que você lhe disser. No que me diz respeito pode dizer que ela se afogou no lago ou foi levada pelo fantasma do dragão do velho Pellinore.

- E ao padre? Quando o padre Griffin souber que mandei minha filha para ser feiticeira em terras pagãs...

- Importo-me ainda menos com o que você disser ao padre. Se quiser pode dizer-lhe que você me hipotecou a alma em troca de minhas feitiçarias para conseguir um marido, e prometeu entregar-me sua filha como pagamento... não? Achei que não.

- Vôcê é cruel, Morgana. - E lágrimas desceram-lhe dos olhos. - Não posso ter alguns dias para prepará-la para partir, para arrumar as coisas de que ela precisará?

- Não precisa de muita coisa. Uma muda de roupa, se quiser, e agasalhos para a viagem, um manto grosso e sapatos fortes, apenas. Em Avalon, ela receberá as vestes de uma sacerdotisa noviça. - E acrescentou, com bondade: - Acredite, Elaine, ela será tratada com amor e reverência, como a neta da maior das sacerdotisas. E, como seus padres dizem, em Avalon eles lhe darão o frio conforme a roupa: não será forçada a fazer aquilo que ainda não tenha idade suficiente para suportar. Creio que será feliz.

- Feliz? Naquele lugar de feitiçarias e do mal.

Morgana respondeu com tal convicção, que suas palavras impressionaram Elaine:

- Digo-lhe, com toda a sinceridade, fui feliz em Avalon e desde que deixei aquele lugar, tenho desejado, todos os dias, voltar para lá. Você já me viu mentir? Vamos, mostre-me a menina.

- Eu mandei que ficasse em seu quarto e fiasse sozinha até o pôr-do-sol. Ela foi grosseira com o padre, e está sendo castigada.

- Mas eu suspendo o castigo. Sou agora sua tutora e mãe adotiva, e já não há razão para que ela seja delicada com um padre. Leve-me até ela.

Partiram no dia seguinte ao amanhecer. Nimue chorou ao despedir-se da mãe, mas antes mesmo de terem viajado uma hora, começou a olhar com curiosidade para Morgana, sob o capuz do manto. Era alta para a idade, menos parecida com a mãe de Lancelote, Viviane, do que com Morgause ou Igraine. Tinha cabelos louros, mas com um tom de cobre nos cachos dourados, o que levava a pensar que ficariam vermelhos quando ficasse mais velha. E os olhos tinham quase a cor das pequenas violetas que cresciam à margem dos regatos.

Havia tomado apenas um pouco de vinho e água antes de partir, e Morgana perguntou:

- Está com fome, Nimue? Podemos parar e comer alguma coisa logo que encontrarmos uma clareira, se você quiser.

- Sim, tia.

- Muito bem.

Pouco depois, Morgana desmontava e retirava a menina do seu pônei.

- Preciso ir... - Nimue baixou os olhos, envergonhada.

- Se você quer urinar, pode fazê-lo atrás daquela árvore, e leve a criada - sugeriu Morgana. - Jamais sinta vergonha daquilo que Deus fez.

- O padre Griffin diz que não é bonito...

- E nunca mais me fale daquilo que o padre Griffin disse - observou gentilmente, mas com um tom de firmeza atrás das palavras suaves. - Isso acabou, Nimue.

Quando a menina voltou, disse, com os olhos arregalados de espanto:

- Eu vi alguém, muito pequeno, olhando por trás de uma árvore. Galahad disse que você era chamada de Morgana das Fadas... era uma fada, titia?

Morgana sacudiu a cabeça e disse:

- Não, era alguém do Povo Antigo das montanhas. Eles são tão reais quanto eu ou você. É melhor não falar deles, Nimue, nem tomar conhecimento de sua presença. São muito tímidos, e têm medo dos homens que vivem nas aldeias e nas fazendas.

- Onde é que vivem, então?

- Nos montes e florestas. Eles não suportam ver a terra, que é sua mãe, violentada pelo arado e forçada a pro- duzir. E não moram em aldeias.

- Se não aram e colhem, titia, como é que comem?

- Comem apenas aquilo que a terra produz espontaneamente. Raízes, bagos, frutas e sementes. Só comem carne nas grandes festas. Como eu disse, é melhor não falar, mas pode deixar um pouco de pão para eles na orla da clareira, pois temos bastante para nós todos.

Partiu um pedaço de pão e deixou que Nimue o levasse até a orla da floresta. Elaine lhe dera, realmente, provisões suficientes para uma viagem de dez dias, e não para o rápido percurso até Avalon.

Morgana comeu pouco, mas a menina comeu tudo o que quis, e a própria Morgana passou mel no pão para ela. Haveria tempo suficiente para que aprendesse, e afinal de contas estava crescendo muito depressa.

- Você não está comendo carne, titia. É dia de jejum?

Morgana lembrou-se de repente como havia feito perguntas a Viviane, da primeira vez que se dirigiram para Avalon.

- Não, eu raramente como carne.

- Você não gosta? Eu gosto.

- Então coma, se quiser. As sacerdotisas não comem carne com muita freqüência, mas não é proibido, muito menos para uma criança da sua idade.

- Elas são como as freiras? Jejuam durante todo o tempo? O padre Griffin diz... - Mas parou, lembrando-se da ordem recebida, de não repetir o que o padre dizia. Morgana ficou satisfeita ao ver que a menina aprendia depressa.

- O que eu quis dizer foi que você não deve considerar o que o padre dizia como um modelo para sua conduta. Mas pode contar-me o que ele falava, e algum dia você saberá, por você mesma, separar o que havia de certo nas palavras do padre e o que era tolice ou pior do que tolice.

- Ele diz que os homens e as mulheres devem jejuar para pagar seus pecados. É por isso?

Morgana sacudiu negativamente a cabeça:

- Em Avalon se jejua de vez em quando, para que o corpo aprenda a fazer o que queremos, sem criar exigências cuja satisfação é inconveniente. Há ocasiões em que temos de ficar sem comer, sem beber ou dormir, e o corpo deve ser o servo da mente, e não o seu senhor. A mente não pode se voltar para coisas santas, ou para a sabedoria, ou concentrar-se na longa meditação que abre ao pensamento outras esferas, quando o corpo está gritando por comida ou por água. Por isso, nós aprendemos a silenciar esse clamor. Você me entendeu?

- Penso que não entendi muito bem.

- Você compreenderá quando for mais velha, então. Agora, coma seu pão e prepare-se para continuarmos a viagem.

Nimue acabou de comer o pão com mel e limpou as mãos na grama.

- Também nunca entendi o padre Griffin, mas ele ficava irritado com isso. Eu era castigada quandolhe perguntava por que devemos jejuar e rezar por nossos pecados, quando Cristo já os havia perdoado. Ele dizia que me haviam ensinado o paganismo, e fazia com que mamãe me mandasse para o quarto. O que é paganismo, titia?

- É tudo aquilo de que os padres não gostam. O padre Griffin é um tolo. Os padres cristãos, quando são bons, não molestam as crianças como você, que não podem pecar falando dessas coisas. Há tempo bastante para falarmos do pecado, Nimue, quando você for capaz de pecar, ou de escolher entre o bem e o mal.

Nimue montou obedientemente no seu pônei e, depois de algum tempo, disse:

- Tia Morgana, não sou uma boa menina. Peco todo o tempo. Estou sempre fazendo coisas más. Não me surpreendo de que mamãe quisesse mandar-me embora. É por isso que ela está me mandando para um lugar ruim, porque não sou uma menina boa.

Morgana sentiu na garganta uma contração que se aproximava muito da agonia. Ia montar seu cavalo, mas correu para o pônei de Nimue e deu-lhe um grande abraço, apertando-a bastante e beijando-a repetidamente.

- Nunca repita isso, Nimue - disse quase sem fôlego. - Nunca mais, nunca! Não é verdade, juro-lhe que não é. Sua mãe não quis mandá-la embora, e se ela achasse Avalon um lugar ruim, não teria consentido que você fosse para lá, por mais que eu a ameaçasse!

Nimue perguntou debilmente:

- Então por que estou indo para lá?

- Porque sua mãe prometeu isso antes de você nascer, minha filha. Porque sua avó era uma sacerdotisa, e porque eu não tenho filha para oferecer à Deusa. E você está sendo mandada para Avalon a fim de aprender e servir à Deusa. - Notou que suas próprias lágrimas caíam livremente nos cabelos louros de Nimue. - Quem lhe disse que era um castigo?

- Uma das mulheres, enquanto preparava minha bagagem. - Nimue hesitou. - Eu a ouvi dizer que mamãe não devia me mandar para aquele lugar ruim, e o padre Griffin me disse várias vezes que eu era uma menina má.

Morgana sentou-se no chão, segurando Nimue no colo, embalando-a.

- Não, não - sussurrou gentilmente. - Não, minha querida, não. Você é uma boa menina. Se por vezes faz artes, ou é preguiçosa e desobediente, isso não é pecado, é apenas porque você não tem idade para julgar, e quando aprender a fazer o que é certo, então fará assim. - E, julgando que a conversa tinha ido longe demais, para uma criança tão pequena, disse: - Veja aquela borboleta! Nunca vi uma borboleta dessa cor! Vamos, Nimue, vou colocá-la agora em seu pônei. - E ouviu com atenção a conversa da menina sobre borboletas.

Sozinha, Morgana poderia ter feito num dia a viagem para Avalon, mas as pernas curtas do pônei de Nimue não podiam percorrer a distância com essa rapidez. Por isso, naquela noite dormiram numa clareira. Nimue nunca tinha dormido ao ar livre e sentiu medo, da escuridão, quando apagaram a fogueira. Morgana deixou que ela se aninhasse em seus braços e ficou mostrando as estrelas, uma a uma.

Nimue estava cansada da viagem e dormiu logo, mas Morgana ficou acordada, sentindo a cabeça dela pesar sobre seu braço, com uma sensação cada vez maior de medo. Estava ausente de Avalon havia muito tempo. Passo a passo, recordara-se de toda a sua preparação ou do que dela pôde se lembrar; teria, porém, esquecido alguma coisa importante?

Adormeceu finalmente, mas antes de amanhecer pareceu-lhe ouvir passos na clareira, e viu Raven à sua frente, de pé. Usava um vestido escuro e a túnica de pele, e disse:

- Morgana, Morgana, minha querida!

Sua voz, a voz que Morgana só ouvira uma vez em todos os anos passados em Avalon, estava tão impregnada de surpresa, alegria e espanto que Morgana acordou de repente, e olhou à volta, como se esperasse ver Raven ali na clareira, em carne e osso. Mas não havia ninguém, apenas um vestígio de névoa que ocultava as estrelas. Deitou-se novamente, sem saber se sonhara, ou se, com a Visão, Raven tinha conhecimento de que ela se aproximava. O coração batia-lhe apressado, a ponto de quase lhe doer no peito.

Eu não devia ter ficado tanto tempo longe. Eu devia ter tentado voltar quando Viviane morreu. Mesmo que eu tivesse morrido nessa tentativa, deveria tê-lo feito. Será gue me querem agora, velha, desgastada, usada, perdendo aos poucos a Visão, sem nada levar para Avalon?

A criança ao seu lado resmungou qualquer coisa no sono, e espreguiçou-se. Mudou de posição, aconchegando-se mais aos braços de Morgana. Estou levando a neta de Viviane. Mas se me deixarem voltar apenas por isso, será então mais amargo do que a morte. Será que a Deusa me abandonou para sempre?

Por fim, adormeceu novamente, e só despertou com o dia claro, quando a névoa já começava a desaparecer. Começando tarde, o dia não foi bom. Lá pelo meio-dia, a montaria de Nimue perdeu uma ferradura, e, embora Morgana estivesse impaciente e desejasse colocar a criança no mesmo cavalo que montava - era muito leve, e qualquer animal poderia ter carregado duas do seu peso sem esforço -, não queria deixar o pônei manco, por isso tiveram de procurar uma aldeia e um ferreiro. Não queria que se soubesse ou se murmurasse nos campos que a irmã do rei ia para Avalon, mas agora seria impossível evitar isso. Eram tão poucas as novidades naquela parte do país, que tudo o que acontecia parecia ter asas.

Bem, não podia evitar a divulgação da notícia, e a culpa não era do pobre animal. Encontraram uma aldeia distante da estrada principal. Choveu durante todo o dia, e, embora estivessem em pleno verão, Morgana tremia; Nimue estava suada e irritada, mas a tia não deu muita atenção a isso. Teve pena da menina, sobretudo quando ela começou a chorar chamando a mãe, mas nada podia fazer quanto a isso. Uma das primeiras lições que a sacerdotisa aprendia era suportar a solidão. Nimue teria, simplesmente, de chorar até que a sensação passasse, ou então viver sem esse consolo, como todas as donzelas da Casa das Moças eram obrigadas a fazer.

Passava muito do meio-dia, mas o céu estava tão carregado que não se podia ver o sol. Ainda assim, naquela época do ano a luz perdurava até mais tarde, e Morgana não queria passar outra noite na estrada. Resolveu continuar enquanto pudessem enxergar o caminho, e foi estimulada pelo fato de que tão logo recomeçaram a viajar a menina não chorou mais e passou a interessar-se pelas coisas que encontravam. Agora estavam muito próximas de Avalon. Nimue estava tão sonolenta que oscilava na sela, até que, por fim, Morgana colocou-a junto de si, no mesmo cavalo que montava. Nimue, porém, acordou quando chegaram às margens do lago.

- Já chegamos, titia? - perguntou, ao ser colocada de pé.

- Não, mas já estamos perto. Dentro de meia hora, se tudo correr bem, você poderá jantar e deitar-se.

E se tudo não correr bem? Morgana nem queria pensar nisso. A dúvida era fatal para o poder e para a Visão... Ela passara cinco anos refazendo laboriosamente os passos, desde o início; agora era como havia sido antes, e a única prova a que teria de se submeter era: Terei o poder de voltar?

- Não vejo nada - disse Nimue. - É este o lugar? Mas não tem nada aqui, titia. - E a menina olhou receosa para as margens desoladas, para os juncos solitários, murmurando à chuva.

- Eles nos mandarão um barco - disse Morgana.

- Mas como saberão que estamos aqui? Como podem nos ver com esta chuva?

- Vou chamá-los. Fique calada, Nimue.

Em seu íntimo, ecoava o irritado choro da criança, mas agora, quando finalmente estava nos limites de sua terra, sentiu o velho conhecimento avolumar-se, enchendo-a como se fosse uma taça, até a borda. Inclinou a cabeça por um instante, na mais fervorosa oração de sua vida, deu um longo suspiro e levantou os braços numa invocação.

Durante um segundo, com o coração temendo um possível fracasso, nada sentiu. Depois, como um raio de luz que baixasse lentamente sobre ela, sentiu-se iluminada e ouviu a súbita exclamação de espanto da criança junto de si. Mas Morgana não tinha tempo para isso, e sentiu o corpo como se fosse uma ponte de luz entre o Céu e a Terra. Não pronunciou conscientemente a palavra de poder, mas sentiu-a pulsar como o trovão por todo o corpo... silêncio. Silêncio, Nimue permanecia muda e pálida ao seu lado. E então, nas águas cinzentas e foscas do lago houve um movimento, como se as névoas fervilhassem... e uma sombra comprida, escura e brilhante, a barca de Avalon, destacou-se aos poucos das brumas. Morgana deu um profundo suspiro de alívio, que era quase um soluço.

A barca aproximou-se silenciosamente da margem, mas o som do fundo rangendo sobre a areia era bastante real e concreto. Vários homens pequenos saltaram e seguraram as rédeas dos cavalos, fazendo uma reverência para Morgana. Um deles disse:

- Levarei os cavalos pelo outro caminho, senhora. - E desapareceu em meio à chuva. Um outro recuou para que Morgana fosse a primeira a subir no barco, pegou a menina, espantada, e colocou-a ali, e deu a mão aos servos, também atemorizados. Ainda em silêncio, que fora quebrado apenas pelas palavras do homem que levara os cavalos, a barca dirigiu-se para o meio do lago.

- Que sombra é aquela, tia? - perguntou Nimue num sussurro, enquanto os remos afastavam a barca da margem.

- É a igreja de Glastonbury - respondeu Morgana, surpreendendo-se com a calma de sua voz. - Fica na outra ilha, que podemos ver daqui. Sua avó, a mãe de seu pai, está enterrada ali. Um dia, talvez você veja seu túmulo.

- Nós vamos para lá?

- Hoje, não.

- Mas a barca está indo diretamente para lá. Eu ouvi dizer que há também um convento em Glastonbury.

- Sim, é verdade, mas não iremos ao convento. Espere e verá, fique calada agora.

Chegara o momento da verdadeira prova. Talvez a tivessem visto de Avalon, com a Visão, e mandado a barca, mas poderia ela dissipar as brumas de Avalon?... Essa seria a prova, tudo o que almejara naqueles anos. Não podia tentar e falhar, tinha simplesmente de levantar-se e realizar o ato mágico, sem parar para pensar: Estava agora no meio do lago, e mais uma remada poderia levá-los para a correnteza que puxava na direção da ilha de Glastonbury... Morgana ergueu-se rapidamente, com as roupas esvoaçando à sua volta, e levantou os braços. Lembrou-se novamente... Era como da primeira vez que tinha feito aquilo, com um choque de surpresa ante o silêncio da tremenda explosão de força, que deveria ter ecoado pelos céus como trovões enormes... não ousou abrir os olhos até que ouviu a exclamação de medo e espanto de Nimue.

A chuva desapareceu, e, sob os últimos raios do sol poente, a ilha de Avalon surgiu à sua frente, verde e bela, o lago banhou-se de sol, que chegava por entre as pedras circulares do alto do Tor, o sol nas paredes brancas do templo. Morgana viu-o entre as névoas das lágrimas. Oscilou e teria caído, se não houvesse pousado em seu ombro a mão que a sustentou.

Meu lar, meu lar, estou chegando em casa...

Sentiu o barco arranhar as pedras da margem e procurou arrumar-se. Não lhe parecia certo não estar usando as roupas de sacerdotisa, embora sob o vestido, como sempre, o pequeno punhal curvo de Viviane estivesse preso à cintura. Não lhe parecia direito... seus véus de seda, os anéis nos dedos finos... A rainha Morgana de Gales do Norte, e não Morgana de Avalon... Bem, tudo aquilo podia ser mudado. Ergueu orgulhosamente a cabeça, com um suspiro profundo, e pegou a mão da menina. Por mais que tivesse mudado, por mais numerosos que fossem os anos passados fora dali, era Morgana de Avalon, sacerdotisa da Grande Deusa. Para além daquele lago de brumas e sombras, ela poderia ser a rainha de um rei velho e engraçado, num país distante... mas, ali, era sacerdotisa, nascida da velha linhagem real de Avalon.

Viu, de imediato, ao descer da barca, que à sua frente estavam os criados em linha, reverentes, e, atrás deles, esperando-a, os vultos das sacerdotisas de roupas escuras. Elas sabiam e tinha vindo recebê-la de volta ao lar. E, em meio à fila das sacerdotisas, viu um rosto e uma forma que só havia visto em sonho, a mulher alta, de cabelos dourados trançados sobre a testa e porte majestoso. Ela aproximou-se rapidamente de Morgana, passando em meio às outras sacerdotisas, e abraçou-a.

- Bem-vinda, prima - disse com voz suave. - Bem-vinda à sua terra, Morgana.

E Morgana pronunciou o nome que ouvira apenas em sonhos, até que Kevin o proferira, confirmando o sonho:

- Eu a saúdo, Niniane, e trago a neta de Viviane. Será criada aqui, e seu nome é Nimue.

Niniane examinava-a com curiosidade. O que teria ouvido, durante todos aqueles anos?, perguntou-se Morgana. A moça, porém, desviou o olhar e inclinou-se para a menina.

- É filha de Galahad?

- Não - respondeu Nimue. - Galahad é meu irmão. Eu sou filha do bom cavaleiro Lancelote.

- Eu sei. - Niniane sorriu. - Mas aqui não o chamamos como os saxões o apelidaram, e ele tem o mesmo nome de seu irmão. Bem, Nimue, você veio para ser sacerdotisa?

Nimue olhou à volta, para a paisagem iluminada pelo sol poente.

- Foi o que minha tia Morgana disse. Eu queria aprender a ler e a escrever, tocar harpa, conhecer as estrelas e tudo o que minha tia faz. Vocês são mesmo feiticeiras, aqui? Eu pensava que as feiticeiras eram velhas e feias, e você é muito bonita. - Mordeu o lábio. - Estou sendo grosseira, outra vez.

- Sempre diga a verdade, minha filha - respondeu Niniane, rindo. - Sim, sou feiticeira. Não acho que sou feia, mas você terá de decidir por si mesma se sou boa ou má. Tento fazer a vontade da Deusa, e isso é tudo o que uma pessoa pode fazer.

- Eu procurarei fazer isso, se você me ensinar.

O sol escondeu-se sob a linha do horizonte, e de repente a semi-obscuridade baixou sobre tudo. Niniane fez um sinal, e um servo estendeu uma tocha para outro, que a passou a um terceiro, e assim a luz correu de mão em mão até que toda a área junto ao lago ficou perfeitamente iluminada. Niniane afagou o rosto da menina:

- Enquanto você não tiver idade suficiente para conhecer bem a vontade da Deusa, obedecerá às regras daqui, e às mulheres encarregadas de tomar conta de você?

- Procurarei obedecer - prometeu. - Mas estou sempre esquecendo. E faço muitas perguntas.

- Pode fazer quantas quiser, quando for hora de perguntas, mas você viajou durante todo o dia, e é tarde. Para esta noite, a primeira ordem que lhe dou é que seja uma boa menina, vá jantar e tomar banho, para depois ir dormir. Despeça-se de sua tia, agora, e vá com Lheana para a Casa das Moças. - Fez um aceno para uma mulher corpulenta, de aparência maternal, vestida de sacerdotisa. Nimue choramingou um pouco:

- Tenho de despedir-me agora? Não virá dizer-me adeus amanhã, tia Morgana? Pensei que ia ficar com você aqui.

Morgana respondeu gentilmente:

- Não, minha querida, você tem de ir para a Casa das Moças, e fazer o que lhe mandam. - Beijou-lhe o rosto rosado. - Que a Deusa a abençoe, querida. Nós nos encontraremos novamente, quando ela assim desejar. - E, ao falar, viu aquela mesma Nimue como uma mulher feita, alta, pálida, e séria, com o crescente azul pintado na testa e a sombra do Mensageiro da Morte... Cambaleou, e Niniane estendeu a mão para segurá-la.

- Você está cansada, Morgana. Mande a menina para a cama, e venha comigo. Podemos conversar amanhã.

Morgana deu um último beijo na testa de Nimue, e a menina afastou-se, obedientemente, ao lado de Lheana. Morgana sentiu uma bruma escura ante os olhos. Niniane deu-lhe o braço e recomendou:

- Apóie-se em mim. Venha até meus aposentos, onde poderá descansar.

Levou-a para os aposentos que tinham sido de Viviane e para a pequena alcova onde dormiam as sacerdotisas que se alternavam no serviço da Senhora do Lago. Morgana conseguiu recuperar-se. Ficou pensando, por um instante, se Niniane a teria levado àqueles aposentos para ressaltar o fato de ser ela, e não Morgana, a Senhora do Lago. Depois, conteve-se: aquelas intrigas eram para a corte, e não para Avalon. Niniane simplesmente reservara para ela os aposentos mais cômodos e apartados. Raven vivera ali, em seu silêncio consagrado, para receber ensinamentos de Viviane...

Morgana lavou-se da poeira da viagem, envolveu o corpo cansado na longa veste de lã sem tingir que encontrou sobre a cama, e até mesmo comeu um pouco dos alimentos que lhe foram levados, mas não tocou no vinho aquecido e temperado. Havia um jarro com água ao lado da lareira, no qual mergulhou uma concha, e bebeu do líquido com lágrimas nos olhos.

As sacerdotisas de Avalon só bebem água do Poço Sagrado... Mais uma vez, viu a jovem Morgana, adormecida entre as paredes de sua casa. Deitou-se e dormiu como uma criança.

Nunca soube o que a acordou. Houve um passo no quarto, e silêncio. Ao último bruxulear da lâmpada agonizante, e à luz do luar que entrava pela janela, viu uma forma velada, e por um momento pensou que Niniane viera conversar com ela. Mas o cabelo que flutuava sobre os om bros era longo e escuro, e o rosto moreno, belo e imóvel. Numa das mãos, viu a mancha escura e grossa de uma velha cicatriz... Raven! Sentou-se na cama e exclamou:

- Raven! É você?

Os dedos de Raven cobriram-lhe os lábios, no velho gesto de silêncio; inclinou-se para Morgana e beijou-a. Sem uma palavra, tirou o longo manto e deitou-se ao lado dela, tomando-a nos braços. Na penumbra, Morgana pôde ver o resto das cicatrizes que corriam pelos braços e os seios páli- dos e pesados. Nenhuma delas disse uma palavra, nem naquele instante nem nos que se seguiram. Parecia que o mundo real e Avalon simplesmente tinham desaparecido, e mais uma vez ela estava nas sombras do país das fadas, abraçada com firmeza pela Senhora... Morgana ouviu, mentalmente, as palavras da velha bênção de Avalon, enquanto Raven a acariciava lentamente, com o silêncio e a significação rituais, e o som parecia vibrar à sua volta, apesar do silêncio. Benditos os pés que a trouxeram a este lugar... benditos os joelhos que se curvarão ante o altar Dela... bendita a porta da vida...

E então o mundo começou a flutuar, a mudar-se e a mover-se à sua volta, e por um momento não era Raven no silêncio, mas uma forma delineada em luz, a que vira uma vez, anos antes, no momento em que atravessara o grande silêncio... Morgana sabia que também ela estava brilhando à luz... o profundo silêncio permanecia flutuando. E, então, voltou a ser novamente apenas Raven, deitada junto dela, com os cabelos perfumados pelas ervas que usavam nos ritos, um braço levantado sobre ela, os lábios silenciosos que apenas tocavam o rosto de Morgana. Pôde então perceber os fios brancos nos cabelos pretos.

Raven mexeu-se e levantou-se. Ainda sem falar, apanhou um crescente de prata, o adorno ritual da sacerdotisa. Morgana sentiu, retendo a respiração, que era o crescente que deixara em sua cama na Casa das Moças no dia em que fugira de Avalon, levando no ventre o filho de Artur. Calou- se, depois de um protesto semi-esboçado, e deixou que Raven pendurasse o ornamento em seu pescoço. Esta mostrou-lhe, ainda, rapidamente, ao último brilho da lua que desaparecia, o reflexo de um punhal ritual atado à cintura. Morgana fez um gesto de assentimento, sabendo que jamais deixaria de usar o punhal ritual de Viviane, enquanto vivesse. Sentia-se feliz ao ver que Raven trazia o punhal que ela mesma tinha abandonado, e sabia que um dia o veria preso à cintura de Niniane.

Raven apanhou a faca de excelente fio, e Morgana ficou olhando, calada como em sonho, enquanto a pequena arma era levantada; que assim seja mesmo que ela queira derramar meu sangue diante da Deusa, de quem tentei fugir... Raven, porém, voltou o punhal para sua própria garganta, fez um pequeno furo no peito, de onde saiu uma única gota de sangue; Morgana, baixando a cabeça, tomou a faca, por sua vez, e abriu um pequeno talho à altura do coração.

Somos velhas, Raven e eu, já não deitamos sangue do ventre, mas do coração... e ficou imaginando, depois, o que ela desejava dizer-lhe. Raven inclinou-se para ela e lambeu o sangue do pequeno corte; Morgana inclinou-se e tocou com os lábios a manchinha que surgira no peito de Raven, sabendo que seu significado era o de um selo muito mais forte do que os juramentos feitos quando atingira a idade adulta. Depois, Raven apertou-a novamente nos braços.

Perdi a virgindade para o Galhudo. Tive um filho do Deus. Ardi de paixão por Lancelote, e Acolon fez-me novamente sacerdotisa nos campos arados que a Virgem da Primavera havia abençoado. Não obstante, eu não sabia o que era ser recebida simplesmente com amor.. Morgana teve a impressão, como se estivesse num sonho, de que repousava no colo de sua mãe... não, não de Igraine, mas que era recebida de volta nos braços da Grande Mãe...

Quando acordou, estava sozinha. Ao abrir os olhos, ao sol de Avalon, chorando de alegria... ficou pensando por um momento se não estaria sonhando. Mas no peito, à altura do coração, tinha uma pequena mancha de sangue coagulado; no travesseiro ao seu lado estava o crescente de prata, a jóia ritual da sacerdotisa, que deixara ao fugir de Avalon. Mas certamente Raven o havia atado à volta de seu pescoço...

Morgana colocou-o. Jamais voltaria a abandoná-lo. Como Viviane, seria enterrada com o crescente. Seus dedos tremeram enquanto dava o nó ao fio que o prendia, sabendo que aquilo era uma nova consagração. Havia uma outra coisa sobre o travesseiro, que escorregou e se modificou, um botão de rosa ainda não aberto, depois uma rosa cheia. E quando Morgana o pegou, era o fruto da roseira-brava, pulsando de vida acre. Enquanto o contemplava, ele encolheu-se, murchou e ficou seco, na palma de sua mão. E ela compreendeu, de súbito.

A flor e até mesmo o fruto são apenas o começo. Na semente está a vida e o futuro.

Com um suspiro profundo, Morgana amarrou a semente num pedaço de seda, sabendo que teria de partir novamente de Avalon. Sua obra não estava terminada, e escolhera o lugar de seu trabalho e de sua prova, ao partir dali a primeira vez. Algum dia, talvez, pudesse voltar, mas esse momento ainda não chegara.

E o que sou deve ser escondido, como a rosa está escondida dentro da semente. Levantou-se e vestiu as roupas de rainha. As vestes sacerdotais voltariam a ser suas algum dia, mas precisava reconquistar o direito de usá-las. Sentou-se, e esperou que Niniane mandasse chamá-la.

 

Quando entrou na sala central, onde tantas vezes enfrentara Viviane, o tempo pareceu descrever um movimento circular, girando sobre si mesmo, de modo que, por um momento, Morgana teve a impressão de que iria vê-la sentada onde tantas vezes estivera, parecendo ainda menor naquela cadeira majestosa, e ao mesmo tempo enchendo toda a sala com seu porte. Pestanejou, e foi Niniane que viu ali, alta, esguia e loura, dando-lhe a impressão de que era apenas uma criança brincando.

Naquele momento, o que Viviane lhe dissera quando estava à sua frente, havia tantos anos, subitamente voltou à sua lembrança: Você chegou a uma etapa na qual a obediência pode ser temperada pelo seu próprio critério... E por um átimo pareceu-lhe que a melhor coisa a fazer, pelo seu critério, era colocar-se de lado, e só dizer para Niniane palavras que pudessem tranqüilizá-la. E então uma onda de ressentimento se apoderou dela, ao pensar que aquela criança, aquela menina tola e comum, vestida de sacerdotisa, estava pretensiosamente ocupando o lugar de Viviane e queria dar ordens em nome de Avalon. Havia sido escolhida apenas por ter o sangue de Taliesin... Como ousa sentar-se ali e pretender dar-me ordens?

Olhou com superioridade para a moça, tendo consciência de que voltara a assumir, sem saber bem como, o antigo encanto e majestade. E com uma súbita Visão, pareceu-lhe ler os pensamentos de Niniane: Ela devia estar aqui no meu lugar, como posso falar com autoridade para a rainha Morgana das Fadas?... Esse pensamento desapareceu, em parte devido ao temor da estranha e poderosa sacerdotisa à sua frente, e em parte devido apenas ao ressentimento, se ela não tivesse fugido de nós e esguecido seus deveres, eu não estaria agora me esforçando para preencher um lugar que, ambas sabemos, não sou capaz de ocupar.

Morgana aproximou-se e segurou-lhe as mãos, surpreendendo Niniane com a doçura da voz.

- Sinto muito, minha pobre filha, eu daria a própria vida para voltar e retirar esse peso de seus ombros. Mas não posso, não ouso. Não posso esconder-me aqui e fugir à tarefa que me foi confiada, só porque anseio por voltar ao meu velho lar. - Já não era arrogância, nem desprezo pela menina que fora colocada, sem o desejar, no lugar que deveria ter sido seu, mas tão-somente pena dela. - Comecei uma tarefa no país do ocidente que tem de ser concluída. Se deixá-la pela metade, seria melhor que nunca a tivesse começado. Você não pode tomar meu lugar ali; portanto, que a Deusa nos ajude a ambas, você deve guardar meu lugar, aqui. - Abraçou fortemente a moça. - Minha pobre e pequena prima, estamos ambas presas a um destino do qual não podemos escapar... Se eu tivesse ficado aqui, a Deusa me teria usado talvez de outro modo, mas até mesmo quando tentei fugir ao meu dever, Ela voltou a impô-lo, em outro lugar... Nenhuma de nós pode fugir. Estamos nas mãos Dela, e é tarde demais para dizer se teria sido melhor que fosse diferente. Faremos o que Ela desejar.

Niniane ficou fria e distante por um momento, depois seu ressentimento desapareceu e ela retribuiu o abraço de Morgana, quase como Nimue o fizera. Contendo as lágrimas, disse:

- Eu queria odiar você...

- E eu, talvez também quisesse odiá-la... Mas a Deusa quis outra coisa, e, para Ela, somos irmãs. - Hesitou, relutando em dizer as palavras contidas durante tanto tempo, mas acabou acrescentando alguma coisa. Niniane inclinou a cabeça e murmurou a resposta adequada. Depois, pediu:

- Fale-me de seu trabalho no ocidente, Morgana. Não, sente-se aqui junto de mim, não há distinções entre nós, você sabe disso...

Depois que Morgana lhe contou o que podia, Niniane assentiu com a cabeça.

- O Merlim falou-me um pouco sobre isso. Naquele país, então, os homens voltam-se contra o velho culto... Mas Uriens tem dois filhos, e o mais velho é o herdeiro. Sua tarefa, Morgana, é portanto fazer com que Gales do Norte tenha um rei de Avalon, ou seja, que Acolon seja o sucessor do pai.

Morgana fechou os olhos e baixou a cabeça. Por fim, respondeu:

- Não quero assassinatos, Niniane. Já vi guerra e derramamento de sangue demais. A morte de Avaloch nada resolveria. Ali, eles seguem os costumes romanos desde que os padres chegaram, e Avaloch tem um filho.

Niniane não deu importância a isso:

- Um filho que poderia ser criado segundo os velhos cultos. Que idade tem ele, quatro anos?

- Tinha, quando fui para Gales do Norte - respondeu Morgana, pensando na criança que se sentava em seu colo e a ela se agarrava com dedos pegajosos, chamando-a de vovó. - Basta, Niniane, eu já fiz tudo, mas nem mesmo por Avalon eu mataria.

Os olhos de Niniane lançaram lampejos azuis; ela levantou a cabeça e fez uma advertência:

- Nunca diga "Desta água não beberei!"

E de repente Morgana compreendeu que a mulher à sua frente era uma sacerdotisa também, e não apenas a criança dócil que parecia ser. Não poderia estar ocupando o posto que era seu, se nunca tivesse passado nas provas que faziam parte da formação da Senhora de Avalon, se não tivesse sido considerada como aceitável pela Deusa. Com humildade inesperada, compreendeu por que tinha sido mandada para Avalon. Niniane disse quase como se fosse uma advertência:

- Você fará o que a Deusa quiser, se ela colocar a mão sobre você, e sei que isso aconteceu, pelos emblemas que traz... - E seus olhos fixaram-se no peito da prima, como se pudesse ver através da roupa a semente que ali estava, ou o crescente de prata em sua capa de couro. Morgana, baixando a cabeça, murmurou:

- Estamos todos nas mãos Dela.

- Que assim seja - completou Niniane, e por um momento o silêncio na sala foi tão completo que Morgana pôde ouvir o salto de um peixe no lago, bem além da pequena casa onde se encontravam. A seguir, Niniane inquiriu:

- E Artur, Morgana? Ele tem ainda a espada das Insígnias Druidas. Acabará honrando seu juramento? Você poderá fazer com que ele o honre?

- Não conheço o coração de Artur - foi a amarga confissão de Morgana. Tive poder sobre ele, mas fui muito timida para usá-lo. Perdi-o.

- Artur tem de jurar novamente honrar seu compromisso com Avalon, ou você terá de recuperar a espada que está com ele. Você é a única pessoa a quem essa tarefa pode ser confiada. Excalibur, a espada das Insígnias Sagradas, não deve continuar nas mãos de alguém que segue o Cristo. Você sabe que Artur não tem filho com a rainha, e que indicou o filho de Lancelote, chamado Galahad, para ser seu herdeiro, uma vez que Gwenhwyfar está ficando velha.

Morgana pensou: Gwenhwyfar é mais nova do que eu, e eu ainda poderia ter filhos se não tivesse so frido tanto com o nascimento de Gwydion. Por que têm tanta certeza de que ela não poderá conceber? Ante a certeza de Niniane, porém, não fez perguntas. Havia muita magia em Avalon, e sem dúvida também tinham olhos e mãos na corte de Artur. E, na verdade, a última coisa que poderia desejar é que a rainha cristã desse a Artur um filho... agora.

- Artur tem um filho - continuou Niniane -, e embora o seu dia não tenha chegado, há um reino que ele pode tomar, um lugar para começar a reconquistar este país para Avalon. Pelos costumes antigos, o filho do rei pouca importância tinha, o filho da Senhora do Lago era tudo, e o filho da irmã do rei era o herdeiro. Você percebe o que quero dizer, Morgana?

Acolon deve subir ao trono de Gales do Norte. Morgana ouviu isso novamente, e também aquilo que Niniane não disse: E meu filho... é o filho do rei Artur. Agora, tudo tinha sentido. Até mesmo sua infertilidade depois do nascimento de Gwydion. Mas perguntou:

- E o herdeiro de Artur, o filho de Lancelote?

Niniane teve um gesto de indiferença, e Morgana perguntou-se, horrorizada, se o plano seria dar a Nimue a mesma influência sobre a consciência de Galahad que ela tivera sobre a de Artur.

- Não posso ver tudo - disse Niniane. - Se você fosse a Senhora aqui... mas o tempo passou e outros planos têm de ser feitos. Artur ainda pode cumprir seu juramento a Avalon e ficar com a espada Excalibur; se assim for, agiremos de um modo. E se isso não acontecer, então haverá outros meios que Ela preparará, e segundo os quais teremos de trabalhar. De qualquer maneira, Acolon deve reinar no país do oeste, e essa tarefa é sua. E o próximo rei governará de Avalon. Quando Artur cair, embora suas estrelas digam que viverá até avançada idade, então o rei de Avalon ascenderá. Ou então, dizem as estrelas, cairá sobre este país uma treva tão grande que tudo será como se ele nunca tivesse existido. E quando o próximo rei chegar ao poder, Avalon retornará à corrente principal do tempo e da história. E então haverá um reino vassalo nas terras ocidentais, reinando sobre o povo das tribos. Acolon subirá muito como seu consorte, e cabe a você preparar as condições para o grande rei de Avalon.

Morgana baixou novamente a cabeça:

- Estou em suas mãos.

- Agora você deve voltar - disse Niniane -, mas primeiro há alguém que precisa conhecer. Seu momento ainda não é chegado, mas haverá mais uma tarefa para você.

Ergueu a mão, e, como se estivesse esperando numa ante-sala, abriu-se uma porta e um jovem alto entrou.

Ao vê-lo, Morgana conteve a respiração, com uma dor tão grande que, por um momento, lhe pareceu impossível respirar. Ali estava Lancelote renascido - jovem e esguio como uma chama morena, com o cabelo cacheado caindo junto ao rosto, e sorrindo... Lancelote como tinha sido, no dia em que estiveram juntos à sombra das pedras circulares , como se o tempo tivesse andado para trás, como no país das fadas...

E então percebeu quem devia ser. O jovem aproximou-se e inclinou-se para beijar-lhe a mão. Também seu jeito de andar era igual ao de Lancelote, com movimentos leves que quase pareciam uma dança. Ele trazia, porém, as roupas de bardo, e tinha na testa uma pequena tatuagem de uma coroa de folhas, e nos pulsos as serpentes de Avalon. As imagens do tempo passaram vertiginosamente pela sua mente.

Se Galahad vai ser rei, meu filho será então o Merlim, o sucessor escolhido em vida? Por um momento, foi como se ela se movesse entre sombras, rei e druida, a sombra brilhante que se sentava ao lado do trono de Artur como rainha, e ela mesma que dera à luz o filho de Artur... Uma poderosa sombra feminina.

Sabia que qualquer coisa que dissesse seria tola.

- Gwydion. Você não se parece com seu pai.

Ele sacudiu a cabeça:

- Não. Tenho o sangue de Avalon. Eu vi Artur certa vez, quando fez uma peregrinação a Glastonbury dos padres. Eu fui disfarçado com a roupa deles. Esse Artur, que é nosso rei, curva-se demais ante os padres.

O sorriso de Gwydion era impreciso, feroz.

- Você não tem razões para gostar de seus pais, Gwydion - tornou Morgana, apertando a mão do filho, ao surpreender em seus olhos um brilho passageiro de ódio frio... Depois, esse olhar desapareceu e ele voltou a ser o sorridente druida jovem.

- Meus pais me deram seu melhor dom - disse ele -, o sangue real de Avalon. E mais uma coisa lhe peço, senhora Morgana.

Morgana desejou, de maneira irracional, que ele a chamasse de mãe, pelo menos uma vez.

- Peça, e se eu puder, darei.

- Não é grande coisa. Dentro de cinco anos, no máximo, você me levará até Artur e dirá a ele que sou seu filho. Sei - e esboçou um rápido e perturbador sorriso - que ele não pode me reconhecer como herdeiro. Mas quero que olhe seu filho de frente. É apenas isso que peço.

- Certamente que lhe devo isso, Gwydion - respondeu ela, de cabeça baixa.

Gwenhwyfar poderia pensar o que quisesse, Artur já cumprira penitência. Qualquer homem só poderia ter orgulho desse jovem druida, sério e de ar sacerdotal. E ela também não devia sentir vergonha pelo que acontecera - depois de todos aqueles anos, sabia que sempre sentira vergonha, desde o dia em que fugira de Avalon. Agora, que via o filho crescido, curvou-se ante a inevitabilidade da Visão de Viviane.

- Juro que farei isso, juro pelo Poço Sagrado.

Seus olhos encheram-se de lágrimas, que conteve. Aquele jovem não era filho dela; Uwaine talvez fosse, mas não Gwydion. Aquele jovem moreno, bonito, tão parecido com o Lancelote que amara quando moça, não era o filho que olhava para a mãe pela primeira vez, a mãe que o havia abandonado antes de desmamá-lo. Era um sacerdote, e ela, uma sacerdotisa da Grande Deusa, se alguma relação havia entre eles, e não mais do que isso.

Colocou as mãos sobre a cabeça dele:

- Seja abençoado.

 

Capítulo 13

A rainha Morgause havia muito deixara de queixar-se de não ter a Visão. Não obstante, duas vezes, nos últimos dias da queda das folhas, quando as árvores ficavam nuas sob o vento gelado que soprava sobre o reino de Lot, ela sonhou com o filho adotivo Gwydion. E não ficou surpresa quando um dos servos lhe disse que um cavaleiro se aproximava, na estrada.

Gwydion usava um manto de cor estranha, grosseiro, com um fecho feito de osso, como ela nunca vira, e, quando quis abraçá-lo, ele recuou.

- Não, mãe. - Envolveu-a com o braço livre e explicou: - Fui ferido a espada na Bretanha Menor. Não é sério - disse, tranqüilizando-a. - Não inflamou, e talvez nem deixe cicatriz, mas quando o lugar é tocado, ainda dói muito.

- Então você andou lutando por lá? Pensei que estava tranqüilamente em Avalon - censurou Morgause, enquanto o levava para dentro do castelo e para junto da lareira. - Não posso oferecer-lhe vinho do sul...

- Estou cansado desse vinho. Cerveja de cevada é o bastante para mim, ou alguma aguardente, se tiver... com água e mel, se houver. Estou todo duro por ter montado por muito tempo.

Deixou que uma das mulheres tirasse suas botas e pendurasse o manto para secar, recostando-se bem na cadeira.

- É tão bom estar aqui, mãe!

Levou o cálice fumegante aos lábios, e bebeu com prazer.

- E você veio de tão longe, viajando no frio, e com um ferimento? Haveria alguma grande notícia que era preciso trazer?

Ele sacudiu a cabeça:

- Não. Eu estava apenas com saudade de casa. É tudo tão verde, tão exuberante, tão úmido aqui, com névoa e sinos de igrejas... Eu ansiava pelo ar puro dos montes, pelo grito das gaivotas e pelo seu rosto, mãe... - Estendeu a mão para o cálice que tinha posto na mesa, e ela viu as serpentes em torno de seus pulsos. Não conhecia muito bem os costumes de Avalon, mas sabia que essa tatuagem indicava o mais elevado grau do sacerdócio. Gwydion viu o olhar dela e assentiu com a cabeça, mas nada disse.

- Foi na Bretanha Menor que você arranjou esse manto feio, tão grosseiro e vulgar, que só serve para um servo?

Ele riu:

- Serve para me proteger da chuva. Eu o tomei de um grande chefe de terras estrangeiras, que lutava com as legiões daquele homem que se intitulava imperador Lúcio. Os homens de Artur deram cabo dele, e o saque geral foi permitido. Trouxe uma taça de prata e um anel de ouro para você, mãe.

- Você lutou nos exércitos de Artur? - Morgause nunca pensou que ele pudesse fazer isso. Gwydion viu a surpresa em seu rosto, e riu novamente:

- Sim, lutei sob aquele grande rei que é meu pai. - Teve um ar de desprezo. - Ah, não tenha medo, eu tinha ordens de Avalon. Tive o cuidado de lutar entre os guerreiros de Ceardig, o chefe saxão que gosta muito de mim, e evitei também ser visto por Artur. Gawaine não me conhecia, e não deixei que Gareth me visse, exceto quando estava envolto num manto como este. Perdi o meu em batalha, e temi que, se usasse um manto do reino de Lot, Gareth se interessasse por um conterrâneo ferido, por isso arranjei este...

- Gareth o teria conhecido em qualquer lugar. E espero que não pense que seu irmão de criação poderia traí-lo.

Gwydion sorriu, e Morgause achou que ele se assemelhava muito ao menino que outrora se sentara em seu colo.

- Tive muita vontade de me dar a conhecer a Gareth - contou ele -, e quando fui ferido e fiquei muito fraco, quase o procurei. Mas Gareth é homem de Artur, ama seu rei, pude ver isso, e não quis criar um problema para o melhor de meus irmãos. Gareth... Gareth é o único...

Não terminou a frase, mas Morgause sabia o que ele queria dizer; por mais estranho que fosse em toda parte, Gareth era seu irmão e seu amigo amado. De repente, ele riu, espantando o sorriso distante que lhe dava uma aparência tão jovem.

- Por todos os exércitos saxões, perguntaram-me repetidamente se eu era filho de Lancelote! Não vejo tanta semelhança assim, mas na verdade não conheço muito bem meu próprio rosto... Só me olho no espelho quando me barbeio!

- Mesmo assim, alguém que tenha visto Lancelote, especialmente quem o conheceu jovem, não pode ver você sem pensar logo que são parentes.

- Foi o que pensei. Por vezes, eu fingia um sotaque bretão e dizia que era parente do velho rei Ban. Mas creio que nosso Lancelote, com aquele rosto que age como um ímã para todas as donzelas, teria feito bastardos em número suficiente para que ninguém se espantasse de nossa semelhança! Não é isso? Mas tudo o que ouvi dizer dele foi que poderia ter feito um filho na rainha e que a criança teria sido levada em segredo para algum lugar, para ser criada pela parenta da rainha que deram a Lancelote como esposa... As histórias de Lancelote e da rainha são numerosas, cada qual mais ousada do que a outra, mas concordo que para todas as outras mulheres feitas pelos Deuses ele tem apenas palavras justas e corteses. Houve até mesmo mulheres que se jogaram em seus braços, dizendo que, se não podiam ter Lancelote, queriam um filho seu... - Sorriu novamente. - Deve ter sido difícil para o galante Lancelote. Gosto de uma mulher bonita, mas quando elas se oferecem desse jeito, bem... - Fez um gesto cômico de indiferença. Morgause riu.

- Então os druidas não proibiram isso, meu filho?

- De modo algum. Mas as mulheres, em sua maioria, são tolas, e prefiro não me dar ao trabalho de brincar com as que esperam de minha parte um tratamento muito especial, ou esperam que as ouça. Você me tornou intolerante com as mulheres tolas, mãe.

- Pena que o mesmo não se possa dizer de Lancelote, pois foi sempre ele quem achou que Gwenhwyfar tinha mais inteligência do que a necessária para dar o laço a uma liga; e, no que diz respeito a Lancelote, tenho mesmo dúvidas de que a inteligência dela fosse tão longe. - E pensou: Você tem o rosto de Lancelote, meu filho, mas a inteligência de sua mãe!

Como se tivesse ouvido os pensamentos dela, Gwydion recolocou o cálice vazio e fez um gesto negativo para a criada, que se apressava a enchê-lo novamente.

- Não quero mais, estou tão cansado que ficarei bêbado com mais um copo! Jantar, disso eu gostaria. Estou cansado da vida de caçador, não quero mais carne, mas, sim, a gostosa comida de casa. Mãe, eu estive com a senhora Morgana em Avalon antes de partir para a Bretanha Menor.

Por que me diz isso?, pensou Morgause. Não se podia esperar que ele tivesse grande amor pela mãe verdadeira. Sentiu então uma súbita sensação de culpa. Fiz que ele só amasse a mim. Bem, ela havia feito o que devia, e não se arrependia.

- Como vai minha sobrinha?

- Não parece jovem. Tive a impressão de que era mais velha do que você.

- Não. Morgana é dez anos mais nova do que eu.

- Ainda assim, ela pareceu acabada e velha, ao passo que você... - Sorriu para ela, e Morgause foi tomada de repentina felicidade. Pensou: Não gostei de nenhum dos meus filhos verdadeiros como gosto deste. Morgana fez bem em deixá-lo aos meus cuidados.

- Ah, eu também envelheço, meu rapaz... Já tinha um filho crescido quando você nasceu!

- Então você é duas vezes mais feiticeira do que ela, pois qualquer pessoa juraria que esteve por longo tempo no país das fadas, sem que o tempo jamais a tocasse... Você tem a mesma aparência do dia em que parti para Avalon.

Pegou a mão de Morgause e beijou-a. Ela acariciou-lhe o cabelo negro.

- Então Morgana é agora rainha de Gales do Norte.

- É verdade, e parece ter muito prestígio com o rei... Artur fez do enteado dela, Uwaine, um membro de sua guarda pessoal, ao lado de Gawaine, que é amigo íntimo dele. Uwaine não é má pessoa, não me parece muito diferente de Gawaine: ambos são fortes, decididos, dedicados a Artur como se o sol nascesse e desaparecesse no lugar onde ele mija. - Morgause notou o sorriso irônico. - Mas essa é uma falha que muitos homens têm. E eu vim para conversar com você sobre isso, mãe. Você conhece os planos de Avalon?

- Sei apenas o que Niniane disse, e o Merlim também, quando vieram buscar você. Sei que você deve ser o herdeiro de Artur, embora o rei acredite que deixará o reino para o filho de Lancelote. Sei que você é o gamo novo que derrubará o Gamo-Rei... - falou na velha linguagem, e Gwydion franziu a testa.

- Então você sabe de tudo. Mas talvez não saiba de uma coisa... Não será possível realizar este plano agora. Desde que Artur acabou com esse romano que queria ser imperador, o tal Lúcio, sua estrela subiu ainda mais. Quem levantar a mão contra ele será feito em pedaços pelo povo, ou por seus Companheiros. Nunca vi um homem tão amado! É por isso, creio, que tenho necessidade de olhá-lo no rosto, para ver o que pode fazer um rei ser tão amado...

Calou-se, e Morgause sentiu-se constrangida:

- E você o viu?

Gwydion assentiu com um aceno lento de cabeça:

- Ele é verdadeiramente um rei. Mesmo eu, que não tenho motivos para gostar dele, senti a atração que se cria à sua volta. Você não pode imaginar como ele é adorado.

- Estranho, pois eu nunca o considerei assim tão notável.

- Não, seja justa. Não há muitos... talvez não exista ninguém mais nesta terra que pudesse ter unido todas as facções como ele fez! Romanos, galeses, cornualheses, gente do oeste, anglos do leste, homens da Bretanha Menor, do reino de Lot, o Povo Antigo... por todo este reino, mãe, os homens juram pela estrela de Artur. Até mesmo os saxões, que outrora lutaram até a morte contra Uther, levantam-se e juram que Artur é seu rei. Ele é um grande guerreiro... Não, não em si mesmo, não luta melhor do que qualquer outro soldado, nem a metade do que luta Lancelote ou mesmo Gareth, mas é um grande general. E há alguma coisa... alguma coisa na sua pessoa. É fácil amá-lo. E enquanto todos o adorarem desse modo, nada posso fazer.

- Então - disse Morgause -, é preciso fazer com que seja menos amado. Ele precisa ser desacreditado. Não é melhor do que qualquer outro homem, os Deuses sabem disso. Fez um filho na própria irmã e sabe-se aqui, e lá fora, que ele não teve um papel muito nobre com a rainha. Há um nome para quem assiste com indiferença à corte de outro homem à sua mulher, e não é um nome bonito.

- Sim, tenho certeza de que seria possível usar isso. Mas, pelo que se diz, nos últimos anos Lancelote tem-se mantido longe da corte e teve o cuidado de não ficar nunca a sós com a rainha, para que nem mesmo uma sombra de escândalo envolvesse o nome dela. Não obstante, dizem que Gwenhwyfar chorou como uma criança, e ele também, quando se despediram por ocasião da partida dos exércitos de Artur para lutar contra Lúcio, e eu nunca vi um homem lutar como Lancelote. Parecia que estava se lançando nos braços da morte. Mas não foi nem mesmo ferido, como se sua vida fosse encantada... Fico pensando... ele é filho de uma grã-sacerdotisa de Avalon. É possível que tenha alguma proteção sobrenatural.

- Morgana saberia, nesse caso - afirmou Morgause secamente. - Mas não me parece aconselhável que pergunte a ela.

- Eu sei que a vida de Artur é sagrada, pois ele leva a Excalibur, a espada das Insígnias Druidas, com uma bainha mágica que impede o derramamento de seu sangue. Sem ela, teria sangrado até a morte na Floresta de Celidon, e em outras ocasiões. Morgana recebeu a incumbência de retomar essa espada de Artur, se ele não jurar novamente fidelidade a Avalon. E não tenho dúvidas de que minha mãe é bastante astuciosa para conseguir isso. Acredito que ela não se deteria ante nada. Dos dois, creio que meu pai é o melhor. Ele não sabia o mal que estava fazendo quando me gerou, acho.

- Morgana também não sabia - interrompeu Morgause, incisivamente.

- Ah, estou cansado de Morgana... Até mesmo Niniane caíu sob seu encanto - disse Gwydion com irritação. - Não a defenda na minha frente, mãe.

Morgause pensou: Viviane também era assim, podia enfeitiçar qualquer homem vivo para que fizesse sua vontade, e qualquer mulher também... Igraine foi docilmente, por ordem sua, para a cama com Gorlois e, mais tarde, seduziu Uther... E eu, para a cama de Lot... e agora Niniane fez o que Morgana queria. E este seu filho adotivo tinha, ao que supunha, um pouco do mesmo poder. Lembrou-se, de repente, e com uma dor inesperada, de Morgana com a cabeça baixa, sendo penteada como uma criança, na noite em que Gwydion nasceu... Morgana, que tinha sido para ela a filha que nunca tivera, e agora se sentia dividida entre ela e o filho, que lhe era ainda mais caro do que seus próprios filhos.

- Você lhe tem tanto ódio assim, Gwydion?

- Não sei o que sinto - respondeu ele, olhando-a com os escuros olhos de Lancelote. - Não parece estar muito de acordo com os votos que fiz em Avalon odiar desse modo minha mãe e meu pai. Eu preferia ter sido criado na corte como filho de meu pai e ser seu seguidor de confiança, e não seu acerbo inimigo... - Deitou a cabeça nos braços e, através deles, disse: - Estou cansado, mãe. Estou cansado e já não quero mais lutar. Sei que Artur também está. Ele trouxe a paz para estas ilhas, da Cornualha ao reino de Lot. Não gosto de pensar que esse grande rei, esse grande homem, é meu inimigo, e que por Avalon eu teria de derrubá-lo, de levá-lo à morte ou à desonra. Preferia amá-lo, como todos amam. Gostaria de ver minha mãe, não você, mas a senhora Morgana, gostaria de ver aquela que me deu à luz como minha mãe, e não como a grande sacerdotisa a quem jurei obedecer, qualquer que seja sua ordem. Preferia que fosse minha mãe, e não a Deusa. Gostaria que quando Niniane estivesse em meus braços fosse apenas meu caro amor, de quem gosto porque tem a face doce e a voz adorável... Estou cansado de Deuses e Deusas. Preferia ser seu filho com Lot, e apenas isso, estou tão cansado do meu destino... - E ficou calado por longo tempo, com o rosto escondido, os ombros tremendo. Morgause afagou-lhe timidamente os cabelos. Por fim, Gwydion levantou a cabeça e disse, com um sorriso amargo que tornava impossível deduzir qualquer coisa com base em seu momento de fraqueza: - Quero outra taça daquela forte bebida que fazem nestes montes, desta vez sem água e sem mel... - E quando a bebida lhe foi trazida, tomou-a de um só gole, sem olhar sequer para a comida que a criada tinha colocado à sua frente. - O que diziam aqueles velhos livros de Lot, quando o padre residente espancou-me, e a Gareth, até que nossos traseiros sangraram, tentando ensinar-nos a língua dos romanos? Quem foi aquele velho romano que disse: Não chamem nenhum homem de feliz enquanto ele estiver vivo? Se minha missão é trazer a maior de todas as felicidades a meu pai, por que devo rebelar-me contra meu destino?

Fez um gesto, pedindo mais bebida, e quando Morgause hesitou, pegou ele mesmo a jarra e encheu outra vez o copo.

- Você vai ficar bêbado, meu querido filho. Coma primeiro o seu jantar, sim?

- Pois ficarei bêbado - disse Gwydion com amargura. - Que assim seja. Bebo à morte e à desonra... De Artur e minha!

Voltou a esvaziar o copo e atirou-o para um canto, onde ele caiu com um som metálico.

- Que seja como quer o destino. O Gamo-Rei reinará na floresta até o dia ordenado pela Senhora... pois todos os animais nasceram e se juntaram aos outros de sua espécie e viveram e trabalharam de acordo com as forças da vida, e por fim entregaram novamente seus espíritos à guarda da Senhora...

Disse essas palavras com uma ênfase estranha, áspera, e Morgause, que não conhecia a sabedoria dos druidas, mesmo assim compreendeu que eram do ritual, e tremeu quando ele as pronunciou.

Gwydion suspirou profundamente:

- Mas esta noite dormirei na casa de minha mãe e esquecerei Avalon, reis, gamos e destinos. Não é mesmo?

E, dominado finalmente pela bebida forte, caiu nos braços de Morgause. Ela segurou-o, afagando-lhe os cabelos negros, tão parecidos com os de Morgana, e ele dormiu com a cabeça pousada em seus seios. E mesmo no sono, Gwydion contorcia-se, gemia e murmurava, como se tivesse pesadelos. Morgause sabia que não era apenas a dor da ferida ainda aberta.

 

                                                                                            Marion Zimmer Bradley

 

 

Carlos Cunha  Arte & Produção Visual

 

 

 

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