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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O GATO QUE ATRAVESSA PAREDES / Robert Anson
O GATO QUE ATRAVESSA PAREDES / Robert Anson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O GATO QUE ATRAVESSA PAREDES

 

Honesto Indiferente

 

"O que quer que faça, você se arrependerá."

Allan McLeod Gray, 1905-1975

 

— Precisamos de você para matar um homem. Aquele estranho olhou nervoso em volta. Achei que um restaurante cheio de gente não era lugar para uma conversa dessas. O fato é que o alto nível de ruído em volta só dá mes­mo uma privacidade limitada.

Sacudi a cabeça, não querendo nada com aquilo.

— Não sou assassino. Matar, para mim, é mais um hobby. Já jantou?

— Não vim aqui para comer. Simplesmente, deixe que eu...

— Ora, não faça cerimônia. Eu insisto...

Ele me aborrecera, interrompendo uma noite com uma ga­rota maravilhosa. Eu lhe pagava na mesma moeda. Não adianta dar corda à má educação. A retaliação se impõe, cortês, mas firme.

A garota, Gwen Novak, dissera que precisava retocar a ma­quiagem e deixara a mesa. Ao que, o Sr. Anônimo se materia­lizara e se sentara, sem ser convidado. Eu ia lhe dizer que se mandasse quando ele mencionou um nome, Walker Evans.Não há nenhum "Walker Evans".

Em vez disso, o nome é, ou deve ser, uma mensagem en­viada por uma entre seis pessoas, cinco homens e uma mu­lher, um código a me lembrar de uma dívida. É concebível que um pagamento, em prestação, daquela antiga dívida pudesse exigir que eu matasse um homem — possível, mas improvável.

Mas não era concebível que eu matasse alguém por solici­tação de um estranho porque ele mencionara aquele nome.

Embora me sentisse obrigado a lhe prestar atenção, nem de longe pensava em deixar que ele estragasse minha noite. Mas já que estava sentado à minha mesa, bem que poderia comportar-se como um convidado.

— Moço, se não quer um jantar completo, experimente as sugestões do maître. Este ragout de lapin com torradas talvez seja rato em vez de coelho, mas o chef aqui dá um jeito para que tenha o sabor de ambrosia.

— Mas eu não quero...

— Por favor. — Ergui a cabeça e captei o olhar de meu gar­çom. — Morris.

Morris compareceu imediatamente.

— Três ragout de lapin, por favor, Morris, e peça ao Hans que me escolha um vinho branco seco.

— Sim, senhor, Dr. Ames.

— Sirva apenas quando a moça chegar, por favor.

— Certamente, senhor. Esperei até o garçom se afastar.

— Minha convidada volta logo. O senhor tem alguns mi­nutos para se explicar, em particular. Por favor, comece dizen­do quem é.

— Meu nome não tem importância. Eu...

— Ora, vamos, senhor! Seu nome. Por favor.

— Mandaram que eu dissesse simplesmente: "Walker Evans".

— Serve, em parte. Mas seu nome não é Walker Evans e eu não faço negócios com um homem que não quer dizer o nome. Diga quem é, e seria bom que tivesse uma carteira de identidade que combinasse com suas palavras.

— Mas... coronel, é muito mais importante dizer quem tem que morrer e por que o senhor é o homem que tem que matá-lo! O senhor tem que reconhecer isso!

— Eu não tenho que reconhecer nada. Seu nome, moço! E sua carteira de identidade. E, por favor, não me chame de "coronel". Eu sou o Dr. Ames.

Tive que erguer o tom para a voz não ser abafada por um rufo de tambores. O último show da noite estava começando. As luzes diminuíram e um projetor focalizou o apresentador.

— Tudo bem, tudo bem! — O inesperado convidado en­fiou a mão no bolso e tirou-a trazendo uma carteira. — Mas Tolliver tem que estar morto até o meio-dia de domingo ou todos nós é que estaremos!

Abriu a carteira para me mostrar a cédula de identidade. Um pequeno ponto escuro apareceu no peito de sua camisa branca. Ele pareceu surpreso e disse baixinho:

— Sinto muito, mesmo — e inclinou-se para a frente. Pa­receu que estava tentando acrescentar alguma coisa, mas, de sua boca, o que jorrou mesmo foi sangue. A cabeça de meu convidado imobilizou-se em cima da toalha da mesa.

Saltei da cadeira e dei a volta para o seu lado direito. Qua­se com a mesma rapidez, Morris apareceu no lado esquerdo. Talvez Morris estivesse tentando socorrê-lo. Eu, não — era tarde demais. Um dardo de quatro milímetros abre um pequeno ori­fício de entrada e não tem ferimento de saída. Explode dentro do corpo. Quando o ferimento ocorre no tronco, a morte é rá­pida. O que eu estava fazendo era examinar a multidão em volta — isto e um pequeno trabalho.

Enquanto eu tentava descobrir quem fora o assassino, o chefe dos garçons e um auxiliar de serviço juntaram-se a Mor­ris. Os três agiram com tal presteza e eficiência que dava até para pensar que remover de uma mesa um comensal assassi­nado era coisa que faziam com uma das mãos amarrada nas costas. Levaram o cadáver com a rapidez e a discrição de um comparsa de palco chinês. Um quarto homem tirou a toalha e os talheres, e voltou imediatamente com uma toalha imacu­lada preparando a mesa para dois.

Sentei-me de novo. Não conseguira identificar o provável assassino. Nem mesmo notei pessoa alguma demonstrando uma curiosa falta de curiosidade com o que acontecera à mi­nha mesa. Pessoas olharam fixamente, mas logo que o corpo foi levado deixaram de olhar e voltaram a atenção para o show. Não houve gritos nem expressões de horror. Aparentemente, os que haviam notado o fato pensaram que estavam vendo um comensal que se sentira mal de repente, ou que a bebida su­bira com a mesma rapidez.

A carteira do morto estava nesse momento no bolso es­querdo de meu paletó.

Quando Gwen Novak voltou, levantei-me mais uma vez e puxei a cadeira. Ela sorriu, agradecendo, e perguntou:

— Perdi alguma coisa?

— Não muito. Piadas que já eram velhas antes de você nas­cer. E outras ainda mais velhas, do tempo em que Neil Arms­trong nem tinha nascido ainda.

— Eu gosto de piadas antigas, Richard. Com elas, sei quan­do devo rir.

— Pois veio ao lugar certo.

Eu também gosto de piadas velhas. Aliás, gosto de todo tipo de coisas velhas — velhos amigos, velhos livros, velhos poemas, velhas peças de teatro. Uma velha favorita fora o co­meço de nossa noite: Sonhos de uma Noite de Verão, encena­da no Halifax Ballet Theater, estrelando Luanna Pauline no pa­pel de Titânia. Balé de baixa gravidade, artistas em carne e os­so e hologramas mágicos que criavam uma terra de fadas que Will Shakespeare teria adorado. Novidade não é virtude.

Pouco depois, a música abafou o idoso humor do apre­sentador. O corpo de baile entrou em ondulações na pista de dança, sensualmente gracioso em meia gravidade. O ragout chegou; com ele, o vinho. Terminado o jantar, Gwen sugeriu que dançássemos. Eu tenho esta perna cabulosa, mas à meia-gravidade dou um jeito de me safar nas danças clássicas len­tas — valsa, bolero, tango, coisas assim. Gwen é uma trouxi­nha quente, viva, cheirosa. Dançar com ela é regalo de sibarita.

E era um final alegre para uma noite agradável. Havia ain­da, claro, o caso daquele desconhecido que tivera o mau gos­to de conseguir ser assassinado à minha mesa. Mas como Gwen aparentemente não tomara conhecimento do desagra­dável caso, eu o arquivara na mente para tratar dele depois. Para ser exato, estava pronto para, a qualquer momento, rece­ber aquele tapinha no ombro... mas, enquanto isso, estava cur­tindo a boa comida, o bom vinho e a boa companhia. A vida transborda de tragédias. Se deixarmos que elas nos peguem pelo pé, não podemos desfrutar-lhe os prazeres inocentes.

Gwen sabe que em matéria de dança minha perna só vai até certo ponto. A primeira interrupção na música, ela tomou a frente em nossa volta para a mesa. Com um sinal, pedi a conta a Morris. Ele tirou-a do meio do ar, digitei nela o código de minha conta de crédito, marquei-a para a gorjeta padrão, mais cinqüenta por cento, e selei tudo com minha impressão digital.

Morris agradeceu:

— Uma saideira, senhor? Ou um conhaque? Quem sabe, a moça gostaria de tomar um licor? Com os cumprimentos do Rainbow's End.

O dono do restaurante, um egípcio idoso, acreditava num agrado. Pelo menos para os freqüentadores habituais. Não sei como os turistas da Terra eram tratados.

— Gwen? — perguntei, esperando que ela recusasse. O consumo de bebida de Gwen limita-se a um cálice de vinho às refeições. Um único.

— Um cointreau seria bom. Eu gostaria de ficar ainda um pouco, ouvindo a música.

— Cointreau para a senhora — anotou Morris. — Doutor?

— Mary Tears e um copo d'água, por favor, Morris. Logo que Morris se afastou, Gwen comentou, tranqüila:

— Eu precisava de tempo para conversar com você, Richard. Quer dormir em minha casa hoje à noite? Não precisa ficar desconfiado. Pode dormir sozinho, se quiser.

— Eu não gosto tanto assim de dormir sozinho.

Mentalmente, examino rápido as possibilidades. Ela pe­dira uma bebida que não queria para me fazer um oferecimento que não combinava. Gwen é uma mulher franca. Achei que, se desejasse dormir comigo, teria dito isso mesmo — não vi­ria com rodeios.

Por conseguinte, convidara-me para dormir em seu compar­timento porque achava que era imprudente ou perigoso, para mim, ir dormir em minha própria cama. Portanto...

— Você viu.

— De longe. De modo que esperei até que as coisas se acal­massem antes de voltar para a mesa. Richard, não tenho bem certeza do que aconteceu. Mas se precisa de um lugar para bancar o morto... então venha comigo!

— Ora, muito obrigado, minha querida! — Uma amiga que oferece ajuda sem pedir explicações é um tesouro sem preço. — Aceite ou não, estou em dívida com você. Hummm, Gwen, eu também não sei bem o que aconteceu. Um desconhecido total que é morto enquanto está tentando nos dizer alguma coisa... Um clichê, um clichê surrado. Se eu bolasse hoje uma história dessa maneira, meu sindicato me expulsaria. — Sorri para ela. — Na forma clássica, acabaria por se descobrir que você foi a assassina... um fato que só se revelaria aos poucos, enquanto você fingisse me ajudar na busca. O leitor escolado saberia desde o primeiro capítulo que foi você, mas eu, como detetive, nem desconfiaria do que era tão visível como o nariz em seu rosto. Digo: no meu.

— Oh, meu nariz é muito comum. Os homens se lembram é de minha boca, Richard. Mas não vou ajudar você a botar a culpa disso em mim. Eu, simplesmente, lhe ofereci um es­conderijo. Ele foi realmente assassinado? Não pude ter certeza.

— Ahn? — A chegada de Morris com as bebidas salvou-me de responder àquilo depressa demais. — Eu não havia pen­sado em nenhuma outra possibilidade. Gwen, ele não foi ferido. Ou morreu quase instantaneamente... ou aquilo foi fin­gido. Poderia ser? Claro. Se mostrado em representação holo­gráfica, poderia ser feito em tempo real, com apenas alguns adereços banais. — Pensei no assunto. Por que o pessoal do restaurante fora tão rápido, tão preciso, no abafamento do ca­so? Por que eu não havia sentido aquele tapinha no ombro? — Gwen, pego você na palavra. Se os censores quiserem me prender, eles me encontrarão. Mas eu gostaria de discutir este assunto com você em maiores detalhes do que podemos fazer aqui, por mais baixo que a gente fale.

— Ótimo. — Levantou-se. — Não me demoro querido. — E dirigiu-se para a toalete feminina.

Quando me levantei, Morris me entregou a bengala e me apoiei nela, enquanto a seguia na direção dos toaletes. Não preciso realmente usar bengala — posso até dançar, como vo­cês sabem — mas usando-a evito que minha perna fique can­sada demais.

Saindo do toalete dos homens, tomei posição no foyer e esperei.

E tome espera.

Tendo esperado mais do que o razoável, procurei o maî­tre d'hotel.

— Tony, você poderia mandar uma de suas auxiliares ir até o toalete das senhoras para ver o que está acontecendo com a Sra. Novak? Acho que ela pode ter adoecido ou estar com algum problema.

— Sua convidada, Dr. Ames?

— Ela mesma.

— Mas ela saiu há 20 minutos. Eu mesmo a levei até a porta.

— Saiu? Devo ter entendido mal o que ela disse. Obriga­do, e boa-noite.

— Boa-noite, doutor. Vamos esperar ansiosos sua próxi­ma visita.

Deixei o Rainbow's End, demorei-me por um instante no corredor público no lado de fora — círculo 30, nível de meia-gravidade, na direção dos ponteiros do relógio a partir do raio 2-70, na Petticoat Lane, um local movimentado, mesmo à 1h da manhã. Olhei em volta à procura de censores à minha es­pera, em parte esperando ver Gwen já em cana.

Nada parecido. O que vi foi uma corrente ininterrupta de pessoas, a maioria gente da superfície em férias a julgar por suas roupas e comportamento, além de mascates de lojas pornôs, guias e matutos, batedores de carteira e pedras. O hábi­tat Regra de Ouro [1] é conhecido em todo o Sistema como lu­gar onde tudo está à venda e a Petticoat Lane ajuda a manter essa reputação no que interessa a locais luxuosos. Quem qui­ser coisas mais sóbrias basta virar no sentido contrário aos ponteiros em um arco de 90 graus, para chegar a Threadnee­dle Street.

Nenhum sinal dos censores. Nem de Gwen.

Ela prometera me encontrar na saída. Prometera mesmo? Não, não mesmo. As palavras exatas dela haviam sido: "Não me demoro, querido". Eu tirara a ilação de que ela espe­rava me encontrar à porta do restaurante.

Conheço todas aquelas piadas velhas e batidas sobre as mulheres e o tempo, La donna è mobile, estes troços. Não acre­dito em nenhuma delas. Gwen não mudara de idéia assim de repente. Por alguma razão — alguma boa razão — ela saíra sem mim e, nesse momento, esperaria que eu fosse ter com ela em casa.

Ou pelo menos foi isso o que disse a mim mesmo.

Se tomara uma motoneta, já estava lá. Se andara, logo che­garia à casa. Tony dissera: "Há 20 minutos." Há um posto de motonetas na esquina do círculo 30 com a Petticoat Lane. En­contrei uma desocupada, digitei círculo 1-0-5, raio 1-30-5, gra­vidade 6/10, o que me levaria tão perto quanto é possível, em motoneta pública, do compartimento de Gwen.

Gwen mora no Gretna Green, a um passo do Appian Way, no ponto em que corta a Yellow Brick Road — o que não significa coisa nenhuma para uma pessoa que nunca esteve no habitat Regra de Ouro. Algum "especialista" em relações públi­cas chegara à conclusão de que os habitantes se sentiriam mais à vontade se cercados por nomes de lugares conhecidos da superfície. Há mesmo (não vomite) uma "Casa na Esquina dos Pobres". O que digitei foram as coordenadas do cilindro prin­cipal: 105, 135, 0, 6.

O cérebro da motoneta, concentrado em alguma coisa perto do círculo 10, aceitou essas coordenadas e esperou. Digitei meu código de crédito e tomei posição, agachado de costas para os coxins de aceleração.

Aquele cérebro idiota passou um tempo insultuosamente longo para chegar à conclusão de que meu crédito era bom e depois pôs uma teia em volta de mim, fechou a cápsula e, whuff; bam!, lá fomos nós... em vôo rápido por três quilôme­tros a partir do círculo 30 para o círculo 1-0-5, e logo depois bam! bing! whuff!, e eu estava em Gretna Green. A motoneta se abriu.

Para mim, esse serviço vale bem o preço. O administra­dor, porém, vem nos advertindo de que o sistema não se autofinancia: temos que usá-lo mais ou pagar mais por viagem, ou o material será sucatado e o espaço alugado a outro. Toma­ra que cheguem a uma solução. Algumas pessoas precisam deste serviço. (Sim, eu sei, a teoria Laffer fornece sempre duas soluções para um problema como este, uma alta e outra baixa — exceto quando a teoria afirma que as duas soluções são as mesmas... e imaginárias. O que bem poderia se aplicar aqui. Pode ser que um sistema de motonetas seja caro demais para um habitat espacial no estágio atual da arte de engenharia.)

Dava para andar até o compartimento de Gwen: para bai­xo até 7/10 de gravidade, 50 metros "para a frente" até seu nú­mero. Toquei.

A porta respondeu:

— Esta é a voz gravada de Gwen Novak. Fui me deitar e estou, espero, dormindo placidamente. Se sua visita é realmen­te uma emergência, deposite 100 coroas, usando seu código de crédito. Se concordar que se justifica eu ter sido acordada, devolverei seu dinheiro. Se discordar — riso, risinho, casquinada! — gasto todo o dinheiro em bebida e deixo-o do lado de fora, de qualquer maneira. Se sua visita não é uma emer­gência, por favor, grave sua mensagem na trilha sonora de meu grito.

Estas palavras foram seguidas por um grito agudo, como se a pobre garota estivesse morrendo por estrangulamento.

Aquilo era uma emergência? Uma emergência de 100 co­roas? Cheguei à conclusão de que não era esse tipo de emer­gência, de modo que gravei:

— Querida Gwen, fala aqui o seu sempre fiel namorado Richard. De alguma maneira, nossos fios se embaralharam. Mas podemos desembaralhá-los pela manhã. Pode ligar para meu compartimento quando acordar? Amor e beijinhos. Ri­chard, o Coração-de-Leão.

Fiz um esforço para manter fora da voz o aborrecimento, que não era tão banal assim. Achava que havia sido passado para trás, mas, bem no fundo, havia a convicção de que Gwen não me maltrataria intencionalmente. Tinha que haver uma ex­plicação honesta para aquilo, embora eu não pudesse com­preender o quê.

Depois, fui pra casa, whuff! bing! bam!.. bam! bing! whuff!

Possuo um compartimento de luxo, com quarto separado da sala de estar. Entrei, verifiquei se havia algum recado no terminal — nenhum — ajustei-o para condições de dormida, tanto na porta como no terminal, pendurei a bengala e entrei no quarto.

E lá estava Gwen, dormindo em minha cama.

E parecia docemente tranqüila. Recuei em silêncio, despi-me sem barulho, entrei no refrescador, fechei a porta — à pro­va de som. Eu disse que era um compartimento de luxo. Ape­sar disso, fiz o menor ruído possível enquanto me refrescava para a cama, uma vez que "à prova de som" é mais esperança do que certeza. Quando fiquei tão higiênico e inodoro quanto um símio glabro pode ficar sem passar por cirurgia, voltei silenciosamente para o quarto e, com o máximo cuidado, enfiei-me na cama. Gwen se mexeu, mas não acordou.

 

Acordado em alguma ocasião durante a noite, desliguei o alarme. Mas acordei na hora habitual, uma vez que minha bexiga não pode ser desligada. Levantei-me, tratei dela, refres­quei-me para o dia que começava, resolvi que queria viver, enfiei-me em um roupão e, sem barulho, entrei na sala de es­tar, onde abri o abastecedor e verifiquei as provisões. Uma hós­pede especial merecia um desjejum especial.

Deixei aberta a porta de comunicação, de modo a poder mantê-la de olho, Acho que foi o cheiro do café que a acordou.

Quando a vi abrir os olhos, disse em volta alta:

— Bom-dia, dia lindo. Levante-se e escove os dentes. O desjejum está pronto.

— Já escovei os dentes há uma hora. Volte para a cama.

— Ninfomaníaca. Suco de laranja, de cereja preta, ou ambos?

— Ahn... ambos. Não mude de assunto. Venha até aqui e enfrente seu destino, como homem.

— Coma, primeiro.

— Covarde. Richard é bicha, Richard é bicha!

— Um covarde completo... Quantos waffles você conse­gue comer?

— Humm... decisões! Você não pode descongelar um de cada vez?

— Estes não são congelados. Há apenas alguns minutos, estavam vivos e cantando. Eu mesmo os matei e esfolei. Fale, ou como todos eles.

— Oh, vergonha das vergonhas! Troca-me por waffles. Na­da me resta senão recolher-me a um mosteiro. Dois.

— Três. Você quer dizer "convento".

— Eu sei o que quero dizer. — Levantou-se, entrou no refrescador, saiu logo, usando um de meus roupões. Pedaços agradáveis de Gwen projetavam-se aqui e ali. Entreguei-lhe o copo de suco. Ela tomou dois goles antes de falar:

— Poxa, isto é bom. Richard, quando a gente se casar vo­cê vai me preparar o desjejum todas as manhãs?

— Essa pergunta contém suposições implícitas que não es­tou querendo...

— Depois que eu confiei em você e lhe dei tudo!

— ... discutir, mas admito que, com igual boa vontade, tan­to prepararia desjejum para dois como para um. Por que é que presume que vou me casar com você? Que incentivos você me oferece? Está pronta para um waffle?

Escute aqui, moço, nem todos os homens ficam exigen­tes assim quando se trata de casar com avós. Já recebi ofereci­mentos. Sim, estou pronta para um waffle.

— Passe o prato. — Sorri alegre para ela. — Vovó, uma ova. Nem mesmo se tivesse tido o primeiro filho quando ficou in­comodada pela primeira vez e sua prole tivesse nascido imedi­atamente.

— Nem uma coisa nem outra e eu sou avó. Richard, estou querendo deixar claras duas coisas. Não, três. Em primeiro lu­gar, estou falando sério quando falo em querer casar com vo­cê, se você ainda topar... ou, se não quiser, eu fico com você, como meu bichinho de estimação e preparo o desjejum para você. Em segundo, sou realmente avó. Em terceiro, se, a des­peito de minha avançada idade, você quer ter filhos comigo, as maravilhas da microbiologia moderna conservaram-me fe­cunda, além de relativamente sem rugas. Se quiser ter filhos comigo, não deve ser tão trabalhoso assim.

— Eu poderia me obrigar a isso. Xarope de bordo nesse aí, de vacínio nesse outro. Ou, quem sabe, eu fiz um filho na noite passada?

— Ocasião errada por, pelo menos, uma semana... mas o que diria você se eu tivesse dito: "Acertou no meu dia fértil!"

— Deixe de brincadeira e acabe o waffle. O outro já está pronto.— Você é um monstro sádico. E deformado.

— Deformado, não — protestei. — Este pé foi amputado. Não nasci sem ele. Meu sistema imunológico recusa-se a acei­tar um transplante e ponto final. E é um dos motivos porque vivo em baixa gravidade.

Gwen ficou subitamente séria.

— Oh, meu querido! Eu não estava me referindo a seu pé. Oh, Deus do céu... seu pé não importa... exceto que vou to­mar mais cuidado do que nunca para não pressioná-lo, agora que sei por quê.

— Desculpe. Tudo bem. Agora, que história é essa de eu ser "deformado"?

Imediatamente, ela voltou ao seu alegre habitual.

— Você devia saber! Depois de ter me estirado toda e me tornado inútil para um homem normal. E agora não quer ca­sar comigo. Vamos voltar para a cama.

— Vamos terminar o café e resolver isto primeiro... Você não tem compaixão? Eu não disse que não casava com você... e eu não estirei você.

— Oh, que mentira mais pecaminosa! Passe a manteiga, sim? Você é deformado, mesmo! Qual é o tamanho desse tu­mor com um osso dentro! Vinte e cinco centímetros! Mais? E que grossura? Se o tivesse visto primeiro, nunca teria me ar­riscado a ele.

— Oh, tolice! Não tem nem mesmo 20 centímetros. E eu não estirei você. Sou apenas de tamanho médio. Você devia ter conhecido meu tio Jack. Quer mais café?

— Quero, obrigada. Mas você me estirou, mesmo! Humm... seu tio Jack é mesmo maior do que você? Localmente?

— Bastante.

— Hummm... onde é que ele mora?

— Termine seu waffle. Ainda quer me levar de volta para a cama? Ou quer uma carta de apresentação para meu tio Jack?

— Por que não posso ter os dois? Quero, um pouco mais de bacon, obrigado. Richard, você é bom cozinheiro. Não quero casar com o tio Jack. Estava simplesmente curiosa.— Não peça a ele que lhe mostre a ferramenta, a menos que você queira usá-la. Ele seduziu a mulher do chefe de es­coteiros dele quando tinha apenas 12 anos. Fugiu com ela. O caso provocou muitos comentários no sul de Iowa porque ela não queria soltá-lo. Isso aconteceu há mais de 100 anos, quando essas coisas eram levadas a sério, pelo menos em Iowa.

— Richard, você está insinuando que tio Jack tem mais de 100 anos e que continua ainda ativo e viril?

— Cento e dezesseis e ainda metendo com as esposas, fi­lhas, mães e gado dos amigos. E tem três esposas próprias, de acordo com o código de cohabitação de cidadãos gradua­dos de Iowa, uma delas — minha tia Cissy — ainda na escola se­cundária.

— Richard, às vezes acho que você nem sempre fala a ver­dade. Que tem uma ligeira inclinação para o exagero.

— Mulher, isto não são modos de se dirigir ao seu futuro marido. Atrás de você há um terminal. Digite aí Grinnell, Iowa. Tio Jack mora lá. Vamos chamá-lo? Converse com ele bem convincente e ele talvez lhe mostre seu orgulho e alegria. En­tão, querida?

— Você está simplesmente tentando evitar de me levar de volta para a cama.

— Outro waffle?

Pare de tentar me subornar. Hum, metade, talvez. Di­vida um comigo, sim?

— Não. Um inteiro para cada um.

— "Ave, César!" Você é o mau exemplo de que sempre pre­cisei. Logo que a gente se casar, vou engordar.

— Que bom que disse isso. Eu estava sem saber como di­zer, mas você é um pouco sobre o osso. Cantos pontudos. Con­tusões. Um pouco de acolchoamento ajudaria.

Não vou descrever o que Gwen disse em seguida. Foi pi­toresco, mesmo lírico, mas (na minha opinião) pouco refina­do. Não a verdadeira Gwen, de modo que não vou deixar is­so registrado.

Respondi:— Na verdade, é irrelevante! Admiro-a por sua inteligên­cia. E por seu espírito angélico. E pela bela alma. Não vamos descer ao físico.

Mais uma vez, acho que tenho que censurar.

— Muito bem — concordei. — Se é isso o que você quer. Meta-se naquela cama e comece a pensar pensamentos físi­cos. Vou desligar a máquina de waflle.

Um pouco mais tarde, perguntei:

— Você quer um casamento na igreja?

— (Arrulho.) Vou ter que usar branco? Richard, você é religioso?

— Não.

— Nem eu. Acho que nem você nem eu somos gente de igreja.

— Concordo. Mas de que maneira quer casar? Tanto quanto sei, não há outra maneira de casar-se no Regra de Ouro. Na­da nos regulamentos do administrador. Legalmente, o insti­tuto do casamento não existe aqui.

— Mas, Richard, um bocado de gente se casa.

— Mas como, querida? Sei que casam, mas se não fazem isso através de uma igreja, como é que fazem, não sei. Nunca tive oportunidade de descobrir. Será que vão a Luna City? Ou descem para a superfície? Como?

— Da maneira como querem. Alugam um salão e conse­guem que algum VIP amarre o nó na presença de um bocado de convidados, com música de fundo e uma grande recepção depois... ou fazem isso em casa, presentes apenas alguns ami­gos. Ou qualquer outra coisa entre as duas. A escolha é sua, Richard.

— Hummm, humm, minha, não. Sua. Eu simplesmente concordei em topar. Quanto a mim, acho que uma mulher se encontra em sua melhor forma quando está um pouco tensa, sem ficar insegura de seu status. Isso a mantém na ponta dos pés. Não concorda? Hei! Pare com isso!

— Então, pare de me chatear. Se não quiser cantar de so­prano no seu próprio casamento.— Faça isso mais uma vez, e não vai haver casamento. Que­rida, que tipo de casamento você quer?

— Richard, eu não preciso de uma cerimônia nupcial. Não preciso de testemunhas. Quero simplesmente lhe prometer tu­do o que uma esposa deve.

— Tem certeza, Gwen? Você não está sendo precipitada? Droga, promessas que uma mulher faz na cama não de­vem ser de cumprimento compulsório.

— Não, não estou. Resolvi casar com você há mais de um ano.

— Resolveu? Bem, o diabo me... Hei! Nós nos conhece­mos há menos de um ano. No Baile do Dia Um. Julho, dia 20, lembro-me.

— Verdade.

— E então?

— E então o quê, querido? Resolvi me casar com você an­tes de nos conhecermos. Há algum problema nisso? Eu não tenho. Não tive.

— Hummm. É melhor eu lhe dizer algumas coisas. No meu passado há coisas das quais não me vanglorio. Não exatamente desonestas, mas um pouco duvidosas. E Ames não é meu no­me de nascimento.

— Richard, eu me sentirei orgulhosa em ser chamada de "Sra. Ames". Ou de "Sra. Campbell"... "Colin".

Fiquei calado, sonoramente calado, depois perguntei:

— O que mais você sabe?

Ela me olhou firme no olho e não sorriu.

— Tudo que eu precisava saber. Coronel Colin Campbell, conhecido como "Matador" Campbell por suas tropas... e em despachos oficiais. Um anjo salvador para os estudantes da Academia Percival Lowell. Richard, ou Colin, minha filha mais velha foi uma de suas alunas.

— O diabo me leve para sempre.

— Duvido disso.

— E por causa disso você resolveu casar comigo?

— Não, homem querido. Essa razão foi suficiente há um ano. Mas, agora, tive muitos meses para descobrir o homem que está por trás do herói das histórias em quadrinhos. E... eu, de fato, dei um jeito para levá-lo para a cama na noite pas­sada, mas nenhum de nós dois se casaria apenas por esse mo­tivo. Quer conhecer também seu próprio passado maculado? Eu conto.

— Não. — Tomei-lhe as mãos. — Gwendolyn, quero que você seja minha esposa. Você me aceita como marido?

— Aceito.

— Eu, Colin Richard, aceito-te, Gwendolyn, como minha esposa, para manter e conservar, amar e cuidar, enquanto vo­cê me quiser.

— Eu, Sadie Gwendolyn, aceito-te, Colin Richard, como meu marido, para manter e conservar, amar e cuidar, pelo resto de minha vida.

— Poxa! Acho que isto resolve.

— Resolve. Mas, beije-me... Beijei.

— Quando foi que apareceu esse "Sadie"?

— Sadie Lipschitz, meu nome de família. Não gostava dele e, por isso, mudei-o. Richard, a única coisa que falta para torná-lo oficial é divulgá-lo. Isto legaliza o casamento. E quero legalizá-lo enquanto você ainda está tonto.

— Tudo bem. Divulgue-o agora.

— Posso usar seu terminal?

— Nosso terminal. Você não tem que pedir para usá-lo.

— "Nosso terminal." Obrigado, querido. — Levantou-se, foi até o terminal, digitou o catálogo, ligou para o Golden Ru­le Herald e pediu para falar com o colunista social. — Por fa­vor, grave. O Dr. Richard Ames e a Sra. Gwendolyn Novak têm o prazer de anunciar seu casamento nesta data. Solicita-se que não sejam enviados presentes nem flores. Por favor, con­firme. — E desligou.

Eles ligaram para nós imediatamente. Respondi e confirmei. Ela suspirou.

— Richard, eu o apressei. Mas tive que fazer isso. Agora, ninguém pode me obrigar a depor contra você em qualquer jurisdição, em qualquer lugar. Quero ajudá-lo de todas as ma­neiras como puder. Por que o matou, querido? E como?

 

"Para acordar um tigre, use uma vara comprida. "

Mao Tse-Tung, 1893-1976

 

Olhei pensativamente para minha esposa.

— Você é uma mulher valente, meu amor, e sinto-me gra­to porque não quer depor contra mim. Mas não tenho certeza de que o princípio legal que citou possa ser aplicado nesta jurisdição.

— Mas essa é a norma geral da justiça, Richard. Não se pode obrigar uma esposa a depor contra o marido. Todo mundo sabe disso.

— A questão é: o Administrador sabe? A Companhia afir­ma que o habitat só tem uma lei, a Regra de Ouro, e alega que os regulamentos do Administrador são apenas interpretações práticas dessa regra, simplesmente diretrizes sujeitas à mudan­ça... mudanças bem no meio de uma audiência e retroativas, se o Administrador assim decidir. Gwen, não sei. A promoto­ria do Administrador pode chegar à conclusão de que você é a principal testemunha da Companhia.

— Eu não farei isso! Não farei!

— Obrigado, minha querida. Mas vejamos o que seria seu depoimento caso você fosse testemunha do... o que é que va­mos chamar aquilo? Ahn, suponhamos que sou acusado de ter maldosamente causado a morte do, ahn, Sr. X... sendo o Sr. X o estranho que veio à mesa quando você pediu licença para ir ao toalete. O que foi que você viu?

— Richard, eu o vi matá-lo. Eu vi!

— Um promotor pode querer mais detalhes. Viu-o chegar à nossa mesa?

— Não. Não o vi até sair do toalete e começar a me dirigir para nossa mesa... e fiquei espantada vendo uma pessoa sen­tada em minha cadeira.

— Tudo bem, volte atrás um pouco e me diga exatamente o que viu.

— Humm, saí do toalete, e virei à esquerda, na direção de nossa mesa. Você estava de costas para mim, como deve se lembrar...

— Não importa o que eu me lembro. Conte o que você lem­bra. A que distância estava você?

— Oh, não sei. Dez metros, talvez. Posso voltar lá e me­dir. Isso tem importância?

— Se tiver em alguma ocasião, você pode medir. Você me viu de uma distância de uns dez metros. O que eu estava fa­zendo? Estava de pé? Sentado? Movimentando-me?

— Você estava sentado, de costas para mim.

— Minhas costas estavam voltadas para você. A ilumina­ção não era muito boa. Como é que você sabe que era eu?

— Ora... Richard, você está sendo intencionalmente difícil.

— Estou, porque promotores são intencionalmente difíceis. Como foi que me reconheceu?

— Humm... Era você, Richard. Conheço tão bem sua nu­ca como conheço seu rosto. De qualquer modo, quando você se levantou e se moveu, eu vi de fato seu rosto.

— O que foi que eu fiz em seguida? Levantei-me?

— Não, não. Eu o vi, em nossa mesa... depois parei quando vi alguém sentado à sua frente, em minha cadeira. Fiquei sim­plesmente ali e olhei.

— Reconheceu-o?

— Não. Acho que nunca o vi antes.

— Descreva-o.

— Hummm, acho que não posso, muito bem.

— Baixo? Alto? Idade? Barba? Raça? De que maneira ele es­tava vestido?

— Eu não o vi de pé. Ele não era moço, mas também não era velho. Acho que não usava barba.

— Bigode?

— Não sei. (Eu sabia. Não usava bigode. Devia ter uns 30 anos.)

— Raça?

— Branca. Pele clara, de qualquer maneira, mas não lou­ro como um sueco. Richard, não houve tempo para notar to­dos os detalhes. Ele o ameaçou com alguma espécie de arma, você atirou nele e saltou quando o garçom se aproximou... e eu recuei até que o levaram dali.

— Para onde o levaram?

— Não sei com certeza. Recuei para o toalete das mulhe­res e deixei que a porta se contraísse. Podem tê-lo levado para o toalete dos homens, que fica no outro lado do corredor. Mas há outra porta no fim do corredor, com uma tabuleta: "Em­pregados, apenas."

— Você disse que ele me ameaçou com uma arma?

— Disse. Em seguida, você atirou nele, pegou dele a arma e guardou-a no bolso no mesmo momento em que o garçom apareceu no outro lado.

— (Ohh!) Em que bolso eu a guardei?

— Deixe ver se eu me lembro. Mentalmente, tenho que vi­rar daquela maneira. O bolso esquerdo. O bolso esquerdo ex­terno do paletó.

— Como era que eu estava vestido na noite passada?

— A rigor, nós tínhamos vindo diretos do ballet. Camisa branca de gola rolê, paletó marrom, calças pretas.

— Gwen, porque você estava adormecida no quarto, na noite passada eu me despi aqui na sala de estar e pendurei as roupas que estava vestindo naquele guarda-roupa junto à porta de entrada, pensando em tirá-las dali depois. Quer, por favor, abrir aquele guarda-roupa, procurar o paletó que usei ontem e tirar do bolso esquerdo externo a "arma" que me viu guardar nele?

— Mas...

Mas calou-se e, rosto solene, fez o que eu mandara. Um momento depois, voltou.

— Isto é tudo que estava naquele bolso. — E me entregou a carteira do estranho.

Peguei-a.

— Esta é a arma com que ele me ameaçou. — E mostrei-lhe o indicador da mão direita, sem nada. — E esta é a arma que usei para atirar nele quando ele me apontou a carteira.

— Não estou entendendo.

— Amada, é por isto que os criminologistas acreditam mais em prova circunstancial do que no depoimento de testemu­nhas oculares. Você é a testemunha ideal, inteligente, sincera, cooperativa e honesta. Você descreveu uma mistura do que realmente viu, o que pensou que viu, o que deixou de ver, em­bora estivesse bem à sua frente, e o que sua mente lógica con­tribuiu, como necessidade, ligando o que viu com o que pen­sou que viu. Esta mistura está tão sólida agora em sua mente como se fosse uma autêntica recordação, uma recordação de primeira mão de urna testemunha ocular. Mas não aconteceu.

— Mas Richard, eu de fato vi.

— Você viu aquele pobre palhaço ser morto. Não o viu me ameaçando, nem me viu atirando nele. Uma terceira pessoa matou-o com um dardo explosivo. Uma vez que ele estava de frente para você e o dardo pegou-o no peito, deve ter partido bem detrás de você. Notou alguém de pé ali?

— Não. Oh, havia garçons andando de um lado para o outro, auxiliares de garçom, o maître e gente levantando-se e se sentando. Quero dizer, não notei ninguém em especial... e de maneira nenhuma alguém usando uma arma. Que tipo de arma?

— Gwen, talvez não parecesse uma arma. Uma arma dis­farçada de assassino, capaz de disparar um dardo a curta dis­tância... Poderia parecer com qualquer coisa, enquanto tives­se a dimensão de uns 15cm de comprimento. Uma bolsa de mulher. Uma câmara fotográfica. Binóculos de ópera. Uma lista interminável de objetos de aparência inocente. Mas isto não nos leva a parte alguma, uma vez que eu estava de costas e você nada viu de fora do comum. O dardo provavelmente veio de um lugar atrás de suas costas. De modo que, esqueça isso. Vamos ver quem era a vítima. Ou quem dizia ser.

Tirei tudo dos compartimentos da carteira, inclusive do mal disfarça do compartimento "secreto." Este último continha certificados de ouro, emitidos por um banco de Zurique, equi­valentes a umas 17 mil coroas — seu último pagamento, ao que parecia.

Havia uma espécie de carteira de identidade do tipo que o Regra de Ouro fornece a todas as pessoas que chegam ao eixo do habitat. Mas tudo o que ela prova é que a pessoa "iden­tificada" tem um rosto, alega possuir nome, prestou esclareci­mento sobre nacionalidade, idade, local de nascimento, etc., e depositou na Companhia uma passagem de volta, ou o equi­valente em dinheiro, bem como pagou antecipadamente a ta­xa de respiração de 90 dias — sendo estes dois aspectos tudo o que interessa à Companhia.

Não sei com certeza se a Companhia jogaria no espaço uma pessoa que, por algum lapso, chegasse sem passagem de vol­ta nem dinheiro para pagar pelo ar. Talvez lhe deixasse ven­der a dentadura. Mas eu não contaria com isso. Comer vácuo não é coisa a que eu queira me arriscar.

Essa tal carteira de identidade da Companhia dizia que o portador era Enrico Schultz, de 32 anos de idade, cidadão de Belize, nascido em Ciudad Castro, contador por profissão. A foto que acompanhava a carteira era daquele pobre-diabo que arranjara um jeito de morrer abordando-me em um lugar pú­blico demais... e pela enésima vez perguntei-me por que ele não me telefonara e, em seguida, me fizera uma visita parti­cular. Como "Dr. Ames" eu estou no catálogo... e se mencio­nasse "Walker Evans" teria conseguido uma audiência, uma audiência particular.

Mostrei-o a Gwen.

— É este o nosso rapaz?

— Acho que é. Mas não tenho certeza.

— Eu tenho. Conversei com ele cara a cara durante alguns minutos.

A coisa mais estranha na carteira de Schultz era o que não continha. Além dos certificados de ouro suíços, guardava 831 coroas e aquela identidade do Regra de Ouro.

Mas isso era tudo.

Nada de cartões de crédito, nem habilitação de piloto de veículo a motor, nem cartões de seguros, nem de sindicatos ou associações, nem outro qualquer que o identificasse, nem mesmo carteirinha de clube, neca. Carteiras de homens são como bolsas de mulheres. Acumulam lixo — fotos, recortes, listas de compras, etc. sem fim, e periodicamente precisam de uma limpeza. Mas, ao fazer isso, o indivíduo geralmente dei­xa uma dezena de itens que o homem moderno precisa para se mexer por aí. Meu amigo Schultz não tinha nada disso.

Conclusão: ele não estava ansioso para divulgar sua ver­dadeira identidade. Corolário: em algum lugar do Regra de Ouro estavam guardados, escondidos, seus documentos pes­soais... outra carteira de identidade com um nome diferente, um passaporte, quase com certeza não emitido em Belize, ou­tros itens que poderiam me dar uma pista sobre seus antece­dentes, motivos e (possivelmente) como ele viera saber de "Wal­ker Evans" e invocá-lo.

Poderiam ser encontradas essas peças?

Um problema associado me incomodava: aqueles 17 mil em certificados de ouro. Em vez de ser dinheiro para fuga, po­deria ter ele esperado usar uma soma tão insignificante para me contratar para matar Tolliver? fosse isso, eu me sentia ofen­dido. Preferia pensar que ele alimentara a esperança de me fazer cometer o assassinato como um serviço público.

— Quer se divorciar de mim? — perguntou Gwen.

— Ahn?

— Eu forcei você a isto. Minhas intenções eram boas, eram, mesmo! Mas acabo de descobrir que fui uma estúpida.

— Oh, Gwen, eu nunca casei e me divorciei no mesmo dia. Nunca. Se quer realmente se livrar de mim, fale-me ama­nhã. Embora, para ser justo, eu ache que deva me experimen­tar por 30 dias. Ou duas semanas, pelo menos. E me permita fazer o mesmo. Até agora, seu desempenho, tanto vertical quanto horizontal, tem sido satisfatório. Se algum dia se tor­nar insatisfatório, eu lhe aviso. Bastante justo?

— Bastante justo. Embora eu talvez possa surrá-lo até a morte com suas próprias cavilações.

— Surrar o marido até a morte é privilégio de todas as mu­lheres casadas, enquanto ela puder fazer isto em particular. Por favor, acalme-se, minha querida, estou com problemas. Po­de pensar em alguma boa razão por que Tolliver deveria ser morto?

— Ron Tolliver? Não. Embora eu também não consiga pen­sar em qualquer boa razão por que ele deva continuar vivo. Ele é um grosseirão.

— Ele é tudo isso, certo. Se não fosse um dos donos da Companhia, já lhe teriam dito para pegar sua passagem de volta e cair fora há muito tempo. Mas eu não disse "Ron Tol­liver", eu disse simplesmente "Tolliver".

— Há mais de um? Tomara que não.

— Isso veremos.

Fui até o terminal e digitei o catálogo telefônico, letra "T".

— "Ronson H. Tolliver, Ronson Q. — este é o filho dele — e aqui o da esposa, "Stella M., Tolliver". Hei! Aqui diz: "Ver também Taliaferro."

— Essa é a grafia original — explicou Gwen. — Mas é pro­nunciada "Tolliver" da mesma maneira.

— Tem certeza?

— Toda. Pelo menos ao sul da Linha Mason e Dixon, lá na superfície. Grafar a palavra como "Tolliver" sugere ralé bran­ca que não sabe escrever. Escrever de maneira certa e depois pronunciar todas as letras juntas faz com que pareça uma droga de nome ianque, um antigo nome que poderia ter sido "Lips­chitz" ou coisa assim. O autêntico dono de fazenda, surrador de negros e fodedor de negras escrevia da maneira comprida e pronunciava-o da maneira curta.

— Lamento muito que você tenha me dito isso.

— Por quê, querido?

— Porque há três homens e uma mulher listados aqui que grafam o nome da maneira comprida, Taliaferro. Não conhe­ço nenhum deles. De modo que não sei qual devo matar.

— Você tem que matar um deles?

— Não sei. Humm, está na hora de lhe contar algumas coi­sas. Se estiver pensando em ficar casada comigo pelo menos durante 14 dias. Está?

— Claro que estou! Quatorze dias e o resto de minha vi­da! E você é um porco chauvinista machão.

— Sócio remido.

— E um chato.

— Eu acho que você é bonitinha, também. Quer voltar para a cama?

— Só depois que você resolver quem vai matar.

— Isso pode levar algum tempo. — Fiz o melhor que pu­de para dar a Gwen uma descrição detalhada, factual, de meu curto conhecimento com o homem que usara o nome "Schultz". — E isso é tudo o que sei. Ele morreu cedo demais para que eu descobrisse mais alguma coisa. Deixando um bocado de perguntas sem respostas.

Virei-me para o terminal, digitei-o para o modo de pro­cessador de texto e assim criei um novo arquivo, como se esti­vesse armando uma história sensacionalista:

 

A AVENTURA DO NOME GRAFADO ERRONEAMENTE

 

Perguntas a Serem Respondidas

  1. Tolliver ou Taliaferro?
  2. Por que T. tem que morrer?
  3. Por que "todos nós morreremos" se T. não estiver mor­to até o meio-dia de domingo?
  4. Quem é esse cadáver que deu a si mesmo o nome "Schultz"?
  5. Por que sou o capanga lógico para acabar com T.?
  6. Este assassinato é necessário?
  7. Qual dos membros da Sociedade em Memória de Walker Evans deu meu nome àquele trapalhão? E por quê?
  8. Quem matou "Schultz"? E por quê?
  9. Por que o pessoal do Rainbow's End interveio logo e abafou o assassinato?
  10. (Geral.) Por que Gwen saiu antes de mim e por que veio parar aqui, em vez de ir para casa, e como conseguiu entrar?

 

— Vamos respondê-las na ordem? — perguntou Gwen. — A número 10 é a única que posso responder.

— Essa eu simplesmente incluí de quebra — respondi. — Quanto às nove primeiras, acho que, se obtiver a resposta pa­ra qualquer três delas, poderei deduzir o resto. — E continuei a juntar palavras na tela:

 

AÇÕES POSSÍVEIS

"Quando Estiver em Perigo ou em Dúvida

Corra em Círculos, Grite ou Berre."

 

— Isso ajuda? — quis saber Gwen.

— Em todas as ocasiões! Pergunte a qualquer velho mili­tar. Agora, vamos tomar uma pergunta de cada vez:

 

  1. 1 — Telefone para todos os Taliaferro do catálogo. Des­cubra a pronúncia preferida do nome. Risque os que usarem a pronúncia com todas as letras.
  2. 2 — Estude os antecedentes dos que sobrarem. Comece com números velhos do arquivo do Herald.
  3. 3 — Enquanto investiga a P. 2, mantenha as orelhas bem abertas para alguma coisa marcada ou esperada para o meio-dia de domingo.
  4. 4 — Se você fosse um cadáver que chega ao habitat es­pacial Regra de Ouro e quisesse esconder sua identidade, mas pegar seu passaporte e outros documentos para partida ime­diata, onde os esconderia? Palpite: procure saber quando es­se cadáver chegou ao Regra de Ouro. Em seguida, verifique hotéis, armários individuais, serviços de cofre de depósito, pos­ta restante, etc.
  5. 5 — Adie.
  6. 6 — Adie.
  7. 7 — Procure entrar em contato telefônico com tantos membros do grupo de juramento "Walker Evans" quanto pos­sível. Continue a tentar até que alguém dê o serviço. Nota: al­gum cretino pode ter falado demais sem saber.
  8. 8 — Morris, ou o maître d', ou o auxiliar de garçom, ou todos eles, ou qualquer dois deles, sabe quem matou Schultz. Um ou mais de um esperavam que aquilo aconteces­se. De modo que procuramos o ponto fraco de cada um — be­bida, drogas, dinheiro, sexo (comme ci ou comme ça) — e qual era mesmo seu nome lá embaixo, meu velho? Algum digital sobre você, em algum lugar? Descubra esse ponto fraco. Aperte-o. Faça isso com todos os três e veja como as histórias deles combinam. Todo armário tem um esqueleto. Isto é uma lei na­tural — de modo que, procure-o em todos os casos.
  9. 9 — Dinheiro (suposição conclusiva, até prova em con­trário). (Pergunta: Quanto tudo isso vai me custar? Tenho recur­sos para pagar a conta? Resposta à pergunta: Posso me dar o luxo de não fazer isso?)

 

— Eu andei pensando sobre o caso — disse Gwen. — Quando enfiei nele meu nariz, achava que você estava muito encrencado. Mas, aparentemente, você é inocente como um anjo. Por que é que você tem que fazer alguma coisa, meu marido?

— Preciso matá-lo.

— O quê? Mas você não sabe qual deles é o Tolliver! Ou por que ele deve ser morto. Se deve ser.

— Não, não, Tolliver, não. Embora possamos descobrir que Tolliver deva ser morto. Não, querida, o homem que matou Schultz. Tenho que encontrá-lo e matá-lo.

— Oh. Humm, agora entendo que ele deva ser morto. É um assassino. Mas por que você deve fazer isso? Ambos são estranhos para você — a vítima e quem quer que o tenha ma­tado! Na verdade, isto não é de sua conta, ou é?

— É da minha conta. Schultz, ou qualquer que seja o no­me dele, foi morto enquanto era convidado à minha mesa. Is­so é intoleravelmente grosseiro. Não vou tolerar isso. Gwen, meu amor, se toleramos grosserias, elas se tornam piores. Nos­so agradável habitat poderia transformar-se no tipo de cortiço que é o Ell-Five, com gente se acotovelando, conduta impró­pria, barulho desnecessário e linguagem chula. Tenho que en­contrar o grosseirão que fez isso, explicar-lhe o crime que co­meteu, dar-lhe uma oportunidade de se desculpar, e matá-lo.

 

"Devemos perdoar nossos inimigos, mas

não antes deles serem enforcados."

Heinrich Heine, 1797—1856

 

Minha linda esposa olhou-me fixamente.

— Você mataria um homem? Por má educação?

— Você conhece uma razão melhor? Quer que eu ignore comportamento rude?

— Não, mas... Posso entender que se execute um homem por assassinato. Não sou contrária à pena de morte. Mas você não deve deixar isso aos censores e à Administração? Por que você tem que fazer justiça com suas próprias mãos?

— Gwen, eu me expliquei perfeitamente. Meu intuito não é castigar, mas erradicar... Além da satisfação estética de reta­liação a comportamento grosseiro. Este assassino desconheci­do pode ter tido excelentes razões para matar a pessoa que disse chamar-se Schultz... mas matá-lo na presença de pessoas que faziam uma refeição é tão repugnante como briga de marido e mulher em público. Depois, aquele grosseirão agravou seu ato intolerável fazendo o que fez enquanto a vítima era meu convidado... o que torna a retaliação tanto obrigação como prer­rogativa minha. E continuei:

— O crime putativo de assassinato não é assunto meu. Mas, quanto aos censores e à Administração cuidarem do as­sunto, conhece algum regulamento que proíba assassinato?

— O quê? Richard, tem que haver um.

— Pois nunca ouvi falar. Acho que o Administrador pode­ria interpretar o assassinato como violação da Regra de Ouro...

— Eu acho que interpretaria, mesmo!

— Você acha? Eu nunca tenho certeza do que o Adminis­trador pensará. Mas, Gwen, minha querida, matar não é ne­cessariamente assassinar. Na verdade, freqüentemente não é. Se esta morte jamais chegar à atenção do Administrador, ele pode chegar à decisão de que foi homicídio justificado. Um crime contra as boas maneiras, mas não contra a moral.

— Mas... — continuei, voltando-me novamente para o ter­minal — o Administrador talvez já tenha resolvido o caso, de modo que vamos ver o que o Herald tem a dizer sobre o assunto.

Digitei novamente o jornal, desta vez selecionando o ín­dice da edição e depois escolhendo as estatísticas vitais.

O primeiro item à passar pela tela foi "Casamento — Ames - Novak", de modo que parei, digitei ampliação, pedi maté­ria impressa, destaquei-a e entreguei-a a minha esposa.

— Guarde isso para seus netos, a fim de lhes provar que vovó não está mais vivendo em pecado.

— Obrigada, querido. Você é tão galante.

— E sei cozinhar, também.

Desci para os necrológios. Em geral leio os necrológios pri­meiro, uma vez que há sempre a feliz possibilidade de que um deles me alegre o dia.

Mas não naquele dia. Nenhum nome que eu reconheces­se. Especialmente, nenhum "Schultz". Nada senão a triste lis­ta habitual de pessoas que haviam morrido de causas naturais, e uma delas por acidente. Em vista disso, digitei notícias gerais do habitat e deixei o noticiário passar.

Nada. Oh, havia o interminável rosário de fatos, de che­gadas e partidas de naves até (a maior de todas as notícias) o anúncio de que o mais novo acréscimo, os círculos 130-140, estavam sendo trazidos e, se tudo corresse de acordo com a programação, seriam encaixados e sua soldagem ao cilindro principal começada às 08:00 no dia seis.

Mas nada havia sobre "Schultz", nem menção a qualquer Tolliver ou Taliaferro, e nenhum cadáver de desconhecido. Con­sultei novamente o índice do jornal, digitei a programação de fatos do domingo seguinte e descobri que a única coisa mar­cada para o meio-dia do domingo era uma mesa-redonda, mon­tada com imagens holográficas procedentes de Haia, Tóquio, Luna City, EU-Four, Regra de Ouro, Tel Aviv e Agra: "A Crise na Fé: O Mundo Moderno em uma Encruzilhada." Os co-mediadores eram o presidente da Sociedade Humanista e o Dalai Lama. Desejei boa sorte a ambos.

— Até agora só temos nada somado com nada, que dá ze­ro. Gwen, qual é a maneira polida de eu perguntar a estra­nhos como eles pronunciam seus nomes?

— Deixe que eu tente, querido. Eu digo: "Sinhora Tolivá, aqui tá falando Gloria Meade Calhou, sou di Savannah. A si­nhora tem uma prima por nomi Stacey Mae, de Charliston?" Quando ela corrigir a maneira como lhe pronunciei o nome, peço desculpa e desligo. Mas se ela — ou ele — aceitar a for­ma curta mas negar conhecer Stacey Mae, eu digo: "Eu tava in dúvida. Ela disse, Talei-a-faro... mas eu sabia que tava erra­do." E depois, Richard? Transformo a coisa num encontro ou desligo como se fosse "linha caída"?

— Marque um encontro, se possível.

— Um encontro para você? Ou para mim?

— Para você, mas eu irei com você. Ou marque o encon­tro em seu compartimento. Mas, em primeiro lugar, tenho que comprar um chapéu.

— Um chapéu?

— Uma dessas coisas engraçadas que se bota na parte pla­na da cabeça. Ou botaria, se a gente estivesse lá embaixo.

— Eu sei o que é um chapéu! Eu nasci na superfície, exa­tamente como você. Mas duvido muito que um chapéu jamais tenha sido visto fora da Terra. Onde é que você ia comprar um?

— Não sei, garota incomparável, mas posso lhe dizer por que preciso de um. De modo a que possa inclinar polidamen­te o chapéu e dizer: "Senhor, ou madame, por gentileza, diga-me por que alguém quer que esteja morto, ou morta, até meio-dia de domingo?" Gwen, isto andou me preocupando... como iniciar uma conversa destas. Há maneiras polidas tradicionais para iniciar quase qualquer pergunta, de propor adultério a uma esposa antes casta e solicitar uma propina. Mas como é que a gente inicia este assunto?

— Você não pode simplesmente dizer: "Não olhe agora, mas há uma pessoa que está tentando matá-la."

— Não, a ordem está errada. Não vou tentar avisar esse estúpido que alguém anda querendo pegá-lo. Vou tentar des­cobrir por quê. Quando souber o motivo, posso aprová-lo com tanto prazer que simplesmente me recostarei e assistirei ao ato... ou posso mesmo ficar tão inspirado pelo motivo que realiza­rei o serviço pretendido pelo falecido Sr. Schultz como servi­ço à humanidade.

— Mas em sentido contrário — continuei —, eu poderia discordar tão veemente que sentaria praça para o resto da vi­da, ofereceria voluntariamente minha vida e meus serviços à causa sagrada de impedir que aconteça esse assassinato. O que é improvável, se o alvo escolhido for Ron Tolliver. Mas é cedo demais ainda para escolher lados. Preciso compreender o que está acontecendo. Gwen, meu amor, neste negócio de assas­sinato nunca devemos matar primeiro e perguntar depois. Is­to costuma aborrecer as pessoas.

Virei-me para o terminal e olhei-o fixamente, sem tocar em tecla nenhuma.

— Gwen, antes de fazermos chamadas locais, acho que de­vo dar seis telefonemas com retardo temporal, um para cada um dos Amigos de Walker Evans. Afinal de contas esta é mi­nha pista básica, que Schultz tinha mencionado esse nome. Um dos seis lhe deu o nome... e esse deve saber por que Schultz estava em tal apuro.

— Retardo temporal? Eles estão tão longe assim?

— Não sei. Um deles está provavelmente em Marte, dois outros talvez no Cinturão de Asteróides. Um ou dois podem estar mesmo na superfície, mas, mesmo assim, sob nomes fal­sos, exatamente como eu. Gwen, dada a débacle que me le­vou a renunciar à alegre profissão das armas e fez com que seis de meus camaradas acabassem como meus irmãos de san­gue... bem, a coisa cheirou mal para o público. Entendi per­feitamente que os repórteres dos meios de divulgação de mas­sa, que não viram a coisa acontecer, de maneira nenhuma po­deriam compreender por que ela aconteceu. Eu poderia afir­mar, sem falsear a verdade, que o que fizemos foi moral no contexto naquele tempo, naquele lugar, naquelas circunstân­cias. Eu poderia... não importa, querida. Basta que saiba que meus irmãos estão, todos, escondidos. Descobrir o paradeiro deles poderia ser um trabalho tediosamente demorado.

— Mas você quer falar com apenas um, não? O que en­trou em contato com esse Schultz.

— Isso mesmo, mas não sei qual é ele.

— Richard, não seria mais fácil trabalhar em sentido in­verso a partir de Schultz para descobrir o que você quer, em vez de localizar seis pessoas que estão escondidas, sob nomes supostos, e espalhadas por todo o Sistema Solar? Ou mesmo fora dele?

Recolhi-me dentro de mim mesmo para pensar um pouco.

— Talvez. Mas como é que eu parto de Schultz para trás? Tem alguma inspiração, meu amor?

— Não é uma inspiração. Mas eu me lembro que, quando cheguei aqui no Regra de Ouro, perguntaram-me no eixo não apenas onde eu morava, e conferiram isso com meu passa­porte, mas também de onde viera antes daquela viagem... e conferiram isso com os vistos. Não apenas que eu viera de Luna — quase todo mundo chega aqui procedente de Luna — mas como cheguei a Luna. Não lhe perguntaram isso, também?

— Não. Mas eu trazia um passaporte do Estado Livre de Luna provando que nasci lá.

— Eu pensava que você tinha nascido na Terra.

— Gwen, Colin Campbell nasceu na superfície. ''Richard Ames" nasceu em Hong Kong Luna... é o que diz aqui.

— Oh!

— Mas procurar refazer os passos de Schultz é realmente uma coisa que devo tentar antes de querer localizar todos os seis. Se eu soubesse que Schultz nunca esteve muito longe, eu verificaria primeiro perto de casa... em Luna, na superfí­cie, em todos os habitats balisticamente ligados à Terra ou Lu­na. Não na Faixa de Asteróides. Ou mesmo em Marte.

— Richard? Suponha que o objetivo é... Não, isso seria tolice.

— O que é que seria tolice, querida? Experimente comigo, de qualquer maneira.

— Humm, suponha que esta — o que quer que seja — conspiração, suponha que... não visa a Ron Tolliver nem qual­quer outro Tolliver, mas a você e seus seis amigos, o pessoal "Walker Evans." Poderia o objetivo ser como você toma medi­das radicais para entrar em contato com todos os outros? E des­sa maneira fazer com que você os levasse, a quem quer que sejam eles, todos os sete? Poderia ser por acaso uma vendet­ta? Poderia, o que quer que tenha acontecido, dar origem a uma vendetta contra todos vocês sete?

Senti frio na boca do estômago.

— Sim, podia ser isso. Embora não, acho, neste caso. E não explicaria por que Schultz foi morto.

— Eu disse que era tolice.

— Espera um momento. Schultz foi morto mesmo?

— Ora, nós dois vimos isso, Richard.

— Vimos? Eu pensei que vi. Mas reconheci que aquilo po­dia ter sido um embuste. O que vi pareceu ser morte provoca­da por dardo explosivo. Mas... Dois adereços simples, Gwen. Um deles faz um pequeno ponto preto aparecer na camisa de Schultz. O outro é uma pequena bexiga de borracha que ele traz na boca. Contém sangue falso. No momento certo, ele mor­de a bexiga, e o "sangue" escorre da sua boca. O resto é histrionismo... incluindo o comportamento estranho de Morris e dos outros empregados. Aquele "cadáver" tinha que ser ti­rado logo dali... através daquela porta "Empregados, Apenas"... onde lhe deram uma camisa limpa e depois o levaram pela porta de serviço.

— Você acha que foi assim que aconteceu?

— Humm... Não, droga. Não acho. Gwen, eu já vi mui­tas mortes. Aquela aconteceu tão perto de mim como você es­tá neste minuto. Não acho que aquilo tenha sido uma repre­sentação. Acho que vi um homem morrer.

Estava danado comigo mesmo. Poderia ter-me enganado num ponto tão básico assim?

Claro que poderia! Não sou nenhum supergênio, dotado de poderes extra-sensoriais. Poderia me enganar, como teste­munha de vista, com a mesma facilidade com que Gwen se enganara.

Soltei um suspiro.

— Gwen, eu simplesmente não sei. Pareceu-me morte pro­vocada por dardo explosivo... mas se a intenção era falsificar a coisa e, se foi bem preparada, então, claro, pareceria exata­mente isso. Um embuste planejado explica o abafamento rá­pido do caso. A não ser assim, o comportamento do pessoal do Rainbow's End é quase inacreditável. — Fiquei pensativo. — Melhor das mulheres, eu não tenho certeza de nada. Al­guém está tentando me expulsar de dentro de meu crânio?

Ela tratou minha pergunta como retórica, como pergunta que não merecia resposta, feita por fazer, o que era, na verda­de... ou assim eu tinha esperança que fosse.

— Neste caso, o que é que nós vamos fazer?

— Ahn... vamos tentar descobrir o que pudermos sobre Schultz. E não nos preocupar com o próximo passo até que tenhamos feito isso.

— Como?

— Propina, meu amor. Mentiras e dinheiro. Mentiras pró­digas e uso parcimonioso de dinheiro. A menos que você seja rica. Nunca pensei em perguntar, antes de me casar com você.

— Eu? — Os olhos dela se esbugalharam. — Mas, Richard, eu me casei com você por causa de seu dinheiro.

— Casou? Moça, você foi ludibriada. Quer consultar um advogado?

— Acho que sim. É isso que chamam de "estupro por pre­sunção de violência"?

— Não, "estupro por presunção" significa que a vítima acha que vai haver violência, e cede... embora porque alguém de­va se preocupar com isso eu nunca entendi. Acho que, aqui, não é contra os regulamentos. — Virei-me para o terminal. — Você quer aquele advogado? Ou procuramos o Schultz?

— Ahn... Richard, nós estamos tendo uma lua-de-mel mui­to esquisita. Vamos voltar para a cama.

— A cama pode esperar. Mas você pode comer outro waffle enquanto eu tento localizar um Schultz.

Digitei novamente o terminal, pedindo o catálogo, e sele­cionei "Schultz".

Encontrei 19 pessoas com o nome "Schultz", mas nenhum "Enrico Schultz". O que não era de espantar. Mas de fato en­contrei um "Henrik Schultz" e digitei, pedindo mais detalhes.

"O Reverendo Doutor Henrik Hudson Schultz, B.S., M.A., D.D., D.H.L., K.G.B., ex-Grande Mestre da Real Sociedade As­trológica. Horoscopia científica a preços moderados. Solenização de casamentos. Aconselhamento Familiar. Terapia eclé­tica e holística. Assessoramento sobre investimentos. Apostas aceitas a todas as horas do dia sobre os favoritos nas pistas de corridas. Petticoat Lane, círculo 95, contíguo a Madame Pom­padour." Sobre essa legenda, a efígie, em holograma, dele, sor­ridente e repetindo seu slogan: "Eu sou o Padre Schultz, seu amigo nas horas difíceis. Nenhum problema é grande de­mais; nenhum problema é pequeno demais. Todo trabalho ga­rantido."

Garantido a ser o quê? Henrik Schultz parecia exatamen­te igual a Papai Noel, menos a barba, e em absoluto lembrava meu amigo Enrico, de modo que o apaguei — relutantemen­te, porque senti uma espécie de afinidade com o Reverendo Doutor.

— Gwen, ele não está no catálogo nem de acordo com o nome que consta da identidade no Regra de Ouro. Será que isto significa que ele nunca esteve no catálogo? Ou que o no­me dele foi retirado ontem à noite, antes que o corpo esfriasse?

— Você está esperando uma resposta? Ou pensando em voz alta?

— Nenhuma das duas coisas, acho. Nosso próximo movi­mento é fazer indagações no eixo... certo? — Consultei o catá­logo e liguei para o Departamento de Imigração, no eixo. — Aqui fala o Dr. Richard Ames. Estou tentando localizar um mo­rador chamado Enrico Schultz. Poderia me dar o endereço dele?

— Por que o senhor não o procura no catálogo? (Ela falava exatamente igual à minha professora do terceiro primário — o que não era uma recomendação.)

— Ele não consta do catálogo. É turista, não assinante. Eu quero simplesmente o endereço dele no Regra de Ouro. Ho­tel, pensão, o que for.

— Ora, ora! O senhor sabe muito bem que não fornece­mos informações de natureza pessoal. Se ele não consta do catálogo, então pagou bem e muito para não constar. Faça aos outros, doutor, o que quer que lhe façam. — E desligou.

— Onde é que vamos perguntar agora? — quis saber Gwen.

— No mesmo lugar, com a mesma burocrata — mas, des­ta vez, com dinheiro e pessoalmente. Terminais são convenien­tes, Gwen... mas não para propinas em somas inferiores a cem mil. Para um pequeno suborno, dinheiro na mão e uma visita em pessoa é mais prático. Vem comigo?

— Você acha que pode me deixar pra trás? No dia de nos­so casamento? Simplesmente tente, meu chapa.

— Que tal vestir alguma coisa?

— Está com vergonha da maneira como estou?

— Em absoluto. Vamos.

— Desisto. Meio segundo, enquanto calço os chinelos. Ri­chard, podemos passar antes por meu compartimento? No bal­let, noite passada, eu me senti muito chique, mas meu vesti­do é produzido demais para corredores públicos nesta hora do dia. Quero me trocar.

— Seu menor desejo é uma ordem para mim, madame. Mas isso coloca outra questão. Quer se mudar para cá?

— Quer que eu me mude?

— Gwen, segundo minha experiência, o casamento pode, às vezes, resistir a camas separadas, mas quase nunca a ende­reços separados.

— Você não me respondeu, realmente.

— De modo que você notou, Gwen. Eu tenho um único péssimo hábito. Que torna difícil uma pessoa conviver comi­go. Eu escrevo.

A querida moça pareceu confusa.

— Foi o que você me disse. Mas por que o chama de pés­simo hábito?

— Ahn... Gwen, meu amor, não vou pedir desculpas por escrever... não mais do que o faria por este pé que falta... e, na verdade, um levou ao outro. Quando não pude mais se­guir a profissão das armas, tive que fazer alguma coisa para comer. Não fui treinado para mais nada e, lá na superfície, ou­tro garoto ficou com meu circuito de entrega de jornais. Escre­ver, porém, é uma maneira legal de evitar trabalhar sem real­mente roubar e que nem precisa de talento nem de treinamento.

— Mas escrever é anti-social. É uma coisa tão solitária co­mo masturbação. Perturbe-se um escritor quando ele está nas vascas da criação e é provável que ele se vire e morda até o osso... e nem mesmo saber que fez isso. Como mulheres e ma­ridos de escritores e escritoras descobrem para seu horror.

— E... — escute com toda atenção, Gwen! — não há ma­neira de amestrar escritores e torná-los seres civilizados. Ou mesmo curá-los. Em uma família de mais de uma pessoa, uma das quais é escritor, a única solução conhecida da ciência é for­necer ao paciente um quarto de isolamento, onde ele possa agüentar sozinho os estágios agudos e onde a comida possa lhe ser dada empurrando-a com uma vara. Porque, se pertur­bar o paciente nessas ocasiões, ele pode debulhar-se em lá­grimas ou tornar-se violento. Ou ele talvez não a ouça absolu­tamente... e, se você o sacudir nessa fase, ele morde. Sorri meu melhor sorriso e continuei:

— Não se preocupe, querida. No momento, não estou tra­balhando em nenhum conto e vou evitar começar outro até que a gente arranje um quarto isolado para eu trabalhar. Este lugar aqui não é suficientemente grande, nem o seu. Humm, antes de irmos ao eixo, vou telefonar para o escritório do Ad­ministrador e verificar quais os compartimentos maiores dis­poníveis. Vamos precisar também de dois terminais.

— Por que dois, querido? Eu não o uso muito.

— Mas quando usa, precisa dele. Quando estou usando este em modo de processador de texto, ele não pode ser usa­do em nada mais — nada de jornal, correspondência, com­pras, programas, chamadas pessoais, nada. Acredite, queri­da, eu sofro desta doença há anos, sei como controlá-la. Dei­xe que eu tenha uma pequena sala e um terminal, deixe que eu entre e feche as portas às minhas costas e será a mesma coisa que ter um marido normal e sadio, que vai para o escri­tório todas as manhãs e faz o que quer que homens façam em escritórios. Nunca soube e nunca me interessei muito em saber.

— Sim, querido. Richard, você gosta de escrever?

— Ninguém gosta de escrever.

— Eu estava curiosa. Neste caso, tenho que lhe dizer que não lhe disse toda a verdade quando lhe disse que me casei com você por seu dinheiro.

— E eu não acreditei inteiramente em você. Estamos quites.

— Sim, querido. Eu, realmente, tenho meios para mantê-lo como bichinho de estimação. Oh, não posso comprar iates para você. Mas podemos viver aqui no Regra de Ouro com relativo conforto... e ele não é o lugar mais barato do Sistema Solar. Você não precisara escrever.

Beijei-a, exaustiva e cuidadosamente.

— Estou feliz por ter casado com você. Mas eu tenho que escrever.

— Mas você não gosta de escrever e nós não precisamos de dinheiro. Realmente, não precisamos!

— Obrigado, meu amor. Mas não lhe expliquei o outro as­pecto insidioso deste negócio de escrever. Não há maneira de parar. Escritores continuam a escrever muito tempo depois de isto se tornar financeiramente desnecessário... porque dói me­nos escrever do que não escrever.

— Não entendi.

— Eu também não, quando dei aquele primeiro passo fa­tal — um conto, foi isso, e honestamente pensei que podia de­sistir quando quisesse. Esqueça, querida. Dentro de mais de dez anos você compreenderá. Simplesmente, não preste aten­ção quando eu gemer. Não significa nada... é apenas dor de criação.

— Richard! Psicanálise não ajudaria?

— Não posso me arriscar a isso. Conheci um escritor que tentou esse caminho. Curou-o de escrever, certo. Mas não da necessidade de escrever. Na última vez em que o vi, ele esta­va agachado em um canto, tremendo. Mas essa era a fase boa dele. A simples vista de um processador de texto era suficien­te para que ele tivesse um ataque.

— Humm, isso não será queda para um pouco de exagero?

— Ora, Gwen, eu poderia até levar você para conhecê-lo. Mostrar-lhe a pedra tumular dele. Esqueça, querida. Vou te­lefonar para o Departamento de Imóveis de Aluguel da Admi­nistração.

Virei-me para o terminal...

... exatamente no momento em que a maldita coisa iluminou-se como se fosse uma árvore de Natal e a campai­nha de emergência tocou insistentemente. Apertei o botão de resposta:

— Ames, aqui! Estamos sendo grampeados?

Letras brancas acompanhadas de som correram pela face do terminal e a tele-impressora começou a funcionar, sem or­dem minha — e eu odeio quando isso acontece.

"Comunicação oficial para o Dr. Richard Ames. A Admi­nistração informa que há necessidade urgente do compar­timento que o senhor ora ocupa, designação 715301 a 65-15-0,4. O senhor é, pelo presente, notificado a desocupá-lo imediata­mente. O aluguel não devido foi creditado à sua conta, além de um bônus extra de 50 coroas a fim de compensar qualquer incômodo que esta medida lhe traga. Ordem assinada por Arthur Middlegaff, Vice-Administrador a Cargo de Habitações. Um bom-dia para o senhor!"

 

"Continuo a trabalhar pelo mesmo motivo porque uma gali­nha continua a pôr ovos."

H.L. Mencken, 1880-1956

 

Esbugalhei os olhos.

— Oh, maravilha das maravilhas! Cinqüenta coroas... poxa vida! Gwen! Agora você pode casar comigo por causa de meu dinheiro!

— Está se sentindo bem, querido? Você pagou mais do que isso por uma garrafa de vinho na noite passada. Acho isto per­feitamente nojento. Insultuoso.

— Claro que é, querida. A intenção é me botar furioso, além do incômodo de me forçar a me mudar. De modo que não vou fazer isso.

— Não vai se mudar?

— Não, e não. Vou me mudar imediatamente. Há manei­ras de lutar com a municipalidade, mas recusar-me a mudar não é uma delas. Não, quando o Vice-Administrador a Cargo de Habitações pode cortar a energia, a ventilação, a água e o serviço sanitário. Não, querida, a intenção é me irritar, arruinar minha capacidade de julgamento e me levar a fazer amea­ças que não possam ser cumpridas. Sorri para o meu amor.

— De modo que não vou ficar zangado, saio daqui ime­diatamente, manso como um cordeiro... e a fúria intensa que sinto dentro de mim será mantida onde está, fora da vista, até que me seja útil. Além do mais, não muda coisa nenhu­ma, uma vez que eu ia pleitear um compartimento mais am­plo — com pelo menos mais um quarto — para nós dois. De modo que vou ligar de volta para ele, para o querido Sr. Middlegaff, quero dizer.

Chamei novamente o catálogo, não sabendo de cor o có­digo do Departamento Imobiliário. Apertei o botão "executar".

E recebi um aviso pela tela: Terminal desligado."

Olhei-o fixamente, enquanto contava até dez na ordem in­versa, em sânscrito. O querido Sr. Middlegaff, ou o próprio Administrador, estava fazendo uma força danada para me en­raivecer. De modo que, acima de tudo, não devia deixar que isso acontecesse. Pense calmo, pensamentos tranqüilizadores, apropriados para um faquir deitado numa cama de pregos. Em­bora não houvesse nada demais em pensar em lhe fritar os testículos para almoço, logo que eu soubesse quem era ele. Com molho de soja? Ou apenas com manteiga ao alho e uma pita­da de sal?

Pensar nessa opção culinária realmente me acalmou um pouco. Descobri que não fiquei surpreso e não visivelmente mais aborrecido quando o aviso mudou de "Terminal desligado" para "Energia e serviços dependentes de uso de energia serão desligadosàs 13:00." O aviso foi substituído por outro, em grandes números: 1231 — e que mudou para 1232 enquanto eu o fitava.

— Richard, o que, em nome de Deus, eles estão fazendo?

— Ainda tentando me expulsar de dentro de meu crânio, acho. Mas não vamos deixar que consigam. Em vez disso, va­mos gastar esses 28 minutos — não, 27 — limpando o lixo de cinco anos.

— Sim, senhor. Como é que eu posso ajudar?

— É assim que se fala! O pequeno guarda-roupa ali, o gran­de, no quarto, jogue tudo em cima da cama. Na prateleira do grande guarda-roupa há uma sacola de lona, uma grande bolsa de pára-quedista. Ponha tudo dentro dela, o máximo que puder. Não escolha. Deixe de fora esse roupão que você usou no café da manhã e aproveite-o para fazer uma trouxa de tu­do que não couber na sacola. Amarre-a com a faixa do roupão.

— Seus artigos de toalete?

— Ah, sim. Fornecedor de sacos plásticos na cozinha... Coloque-os em um saco e ponha-o na trouxa. Doçura, você vai ser uma esposa maravilhosa!

— Nisso você tem razão. Um bocado de prática, querido... Viúvas sempre são as melhores esposas. Quer saber sobre meus maridos?

— Quero, mas não agora. Reserve isso para alguma longa noite, quando você estiver com dor de cabeça e eu não estiver cansado demais.

Tendo transferido para Gwen 90% de meu trabalho de ar­rumação, dediquei-me aos mais árduos 10%: meus arquivos e registros de transações.

Escritores são, na maior parte, ratos de bando, enquanto que militares profissionais aprendem a viajar leve, mais uma vez a maioria. Esta dicotomia poderia ter-me tornado um tipo esquizóide, não fosse pela mais maravilhosa das invenções que aconteceu na vida dos escritores desde a borracha em uma das pontas do lápis: os arquivos eletrônicos.

Eu uso Sony Megawafers, cada um deles com capacidade de meio milhão de palavras, cada um deles com dois centí­metros de largura, três milímetros de espessura, com as in­formações acondicionadas tão densamente que nem vale a pe­na pensar nisso. Sentei-me ao terminal, tirei minha prótese (pé postiço, se preferirem) e abri a porta de cima. Em seguida retirei todos os meus wafers de memória do seletor do termi­nal, coloquei-os no cilindro que é a "tíbia" de minha prótese, fechei-a e recoloquei-a no lugar.

Nesse momento, possuía todos os arquivos necessários à minha vida profissional: contratos, cartas comerciais, cópias de meus trabalhos protegidos por direitos autorais, correspon­dência geral, agendas de endereços, apontamentos para his­tórias que pretendia escrever, comprovantes de impostos, etcetera, e assim por diante, ad nauseam. Antes dos dias do ar­quivamento eletrônico, esses registros teriam equivalido a uma tonelada e meia de papel, em meia tonelada de aço, tudo isso ocupando vários metros cúbicos. Nesse momento, pesavam alguns gramas e ocupavam um espaço não maior que meu de­do médio — 20 milhões de palavras de espaço de arquivamento.

Os wafers estavam inteiramente acondicionados dentro do "osso" e, por conseguinte, protegidos contra roubo, perda ou dano. Quem é que rouba a prótese de um homem? De que modo pode um aleijado esquecer seu pé artificial? Pode tirá-lo à noite, mas é a primeira coisa que pega quando acorda.

Nem mesmo um assaltante profissional presta atenção a uma prótese. No meu caso, a maioria nem sabe que a uso. Ape­nas uma vez me separei dela, um colega (não um amigo) tomou-a enquanto me trancafiava durante a noite — havíamos tido um arranca-rabo a respeito de um assunto profissional. Mas consegui escapar, saltando sobre uma perna só. Depois, abri a cabeleira dele no meio com um atiçador de lareira e pe­guei meu outro pé, alguns papéis, e me mandei. Este negócio de literatura, basicamente sedentário, tem seus momentos animados.

No momento em que o terminal avisou 1254, estávamos quase no fim. Eu possuía apenas um punhado de livros — li­vros encadernados, palavras impressas em papel —, uma vez que fazia minhas pesquisas, o que havia neste particular, atra­vés do terminal. Esses poucos, Gwen enfiou na trouxa que fi­zera com meu roupão.

— O que mais? — perguntou ela.

— Acho que isso é tudo. Vou passar uma revista rápida e depois botar tudo que esquecemos no corredor e então decidir o que fazer com os troços depois que desligarem as luzes.

— E a árvore bonsai? — Gwen olhava nesse momento pa­ra meu pé de bordo, que tinha uns 80 anos e media apenas 39 centímetros de altura.

— Não dá para guardá-la em algum lugar, querida. Além do mais, precisa ser aguada várias vezes por dia. A coisa sen­sata a fazer é legá-la ao próximo inquilino.

— Uma ova, chefe. Você a leva na mão até meu comparti­mento, enquanto eu arrasto a bagagem atrás.

(Eu ia acrescentar que a "coisa sensata" a fazer nunca me agradara.) Mas de fato acrescentei:

— Vamos para seu compartimento?

— Para onde mais, querido? Claro que vamos precisar de um lugar maior, mas nossa necessidade urgente é de alguma espécie de teto sobre nossas cabeças. Parece que vai nevar ao anoitecer.

— Ora, é isso mesmo! Gwen, lembre-me para lhe dizer que estou feliz por ter casado com você.

— Você não pensaria nisso. Homens nunca pensam.

— É mesmo?

— De verdade. Mas eu a você, lembro de qualquer maneira.

— Faça isso. Estou contente porque você pensou em casar comigo. Estou feliz porque casou comigo. A partir de agora, promete que não deixa que eu faça as coisas sensatas?

Ela não prometeu, uma vez que as luzes piscaram duas vezes e, de repente, ficamos muito ocupados, Gwen pondo tudo lá fora no corredor, enquanto eu fazia uma última e fre­nética inspeção. As luzes piscaram novamente, agarrei a ben­gala e saí exatamente um instante antes da porta se contrair atrás de mim.

— Poxa!

— Calma aí, chefe. Respira devagar. Conte até 10 antes de exalar, depois solte o ar, devagarinho.

Gwen deu uma palmadinha nas minhas costas.

— Nós devíamos ter ido para Niagara Falls. Eu lhe disse. Eu lhe disse.

— Disse, Richard. Pegue a arvorezinha. Nesta gravidade, posso levar a. sacola e a trouxa, uma em cada mão. Vamos di­reto para gravidade zero?

— Vamos, mas eu levo a sacola de lona e a árvore. Vou amarrar a bengala à sacola.

— Por favor, não banque o macho, Richard. Não quando estamos tão ocupados.

— Macho é uma palavra que deprime, Gwen. Usá-la no­vamente será um convite a uma surra. Pela terceira vez, dou-lhe uma sova com esta bengala. Banco o macho toda vez que tiver vontade.

— Sim, senhor. Eu, Jane, você, Tarzã. Pegue a arvorezinha. Por favor.

Chegamos a uma solução conciliadora. Levei a sacola e usei a bengala para me equilibrar. Gwen segurou a trouxa com uma das mãos e a árvore bonsai com a outra. Ficou desequilibrada e continuou a mudar a trouxa de lado. A solução proposta por Gwen, tenho que reconhecer, fora mais sensata, uma vez que o peso não teria sido demais para ela nessa acelera­ção e caiu quase ininterruptamente à medida que subíamos para a gravidade zero. Fiquei um pouco sem graça, um tanto envergonhado... mas é uma tentação para um aleijado provar, especialmente para mulheres, que pode fazer tudo o que fa­zia antes. Besteira porque todo mundo pode ver que ele não pode. Mas eu não cedo freqüentemente a essa tentação.

Logo que começamos a flutuar no eixo, continuamos nos­so caminho, nossa bagagem amarrada atrás de nós, enquanto Gwen protegia a pequena árvore com ambas as mãos. Ao che­garmos ao anel onde ela morava, Gwen pegou as duas peças de bagagem e não discuti. A viagem levou menos de meia ho­ra. Eu podia ter chamado uma gôndola de carga — mas pode­ríamos estar ainda esperando por ela. Um "dispositivo eco­nomizador de trabalho" é o que não é.

Gwen pôs os embrulhos no chão e falou com a porta.

E ela não abriu.

Em vez disso, a porta respondeu:

— Sra. Novak, por favor, telefone imediatamente para o Departamento Imobiliário da Administração. O terminal pú­blico mais próximo fica no anel 1-100-5, raio 1-30-5, aceleração seis décimos de gravidade, contíguo à estação de transporte público. Esse terminal aceitará sua chamada gratuitamente, cor­tesia da Regra de Ouro.

Não posso dizer que fiquei muito surpreso. Mas reconhe­ço que fiquei horrivelmente decepcionado. Estar sem um teto é mais ou menos como estar com fome. Talvez pior.

Gwen reagiu como se não tivesse ouvido a triste notícia. Virou-se para mim;

— Sente-se em cima da sacola de lona, Richard, e acalme­-se. Acho que não vai demorar.

Abriu a bolsa, mexeu nela e puxou a mão trazendo uma lixa de unha, um pedaço de arame e um clip de papel. Canta­rolando uma musiquinha monótona, começou a trabalhar na porta do compartimento.

Ajudei não dando conselho. Nem uma única palavra. Era difícil, mas consegui.

Gwen parou de cantarolar e espigou-se. — Pronto! — anunciou.

A porta escancarou-se.

Pegou minha árvore bonsai — nosso bonsai de bordo.

— Entre, querido. É melhor deixar a sacola atravessada na soleira, para que a porta não se encolha. Está escuro aí dentro.

 

TODOS OS SERVIÇOS DESLIGADOS

 

Ela ignorou o aviso, deu outra busca na bolsa e dela tirou uma lanterna-caneta, que usou para mexer numa gaveta na co­zinha, de onde tirou uma comprida e fina chave de fenda, uma chave de grifa, uma ferramenta não identificada que podia ter sido de fabricação caseira e um par de luvas do tamanho de suas esguias mãos.

— Richard, você quer segurar bonitinho para mim?

A placa de acesso que ela queria alcançar ficava bem alto acima de seu forno de microondas e era fechada e decorada com os avisos habituais alertando moradores para nem mes­mo olhar para ela, quanto mais tocá-la, acompanhada de en­cantamentos como "Perigo! Não Mexa — Chame a Manuten­ção", etc. Gwen subiu, sentou-se em cima do forno e abriu a placa com apenas um toque, tendo sido antes, aparentemen­te, inutilizada a tranca.

Depois, trabalhou em silêncio, salvo por aquela musiqui­nha monótona, além de um pedido ou outro para eu mover a luz. Numa ocasião, produziu um autêntico fogo de artifício, o que a fez cacarejar de reprovação e murmurar:

— Mal-educado, mal-educado, você não devia fazer isso com Gwen!

Em seguida, trabalhou mais devagar durante mais alguns momentos. As luzes do compartimento voltaram, acompanha­das por um baixo ronronado na sala de estar — ar, micromotores, etc.

Fechou a placa de acesso.

— Pode me ajudar a descer, querido?

Ergui-a com ambas as mãos, abracei-a por um instante, exi­gi um beijo de pagamento. Ela sorriu para mim.

— Obrigado, senhor! Deus do céu, eu havia me esqueci­do como é bom ser casada. A gente devia casar mais vezes.

— Agora?

— Não. Agora almoço. O café da manhã foi reforçado mas já passa das 2h da tarde. Topa comer alguma coisa?

— É um bom exercício — assenti. — Que tal o Sloppy Joe ou a Appian Way, que fica perto do anel 1-0-5? Ou você prefe­re haute cuisine?

Um Sloppy Joe dá pé. Não sou exigente em comida, que­rido. Mas não acho que a gente deva sair para almoçar. Talvez não pudéssemos entrar de novo.

— Por que não? Você faz um trabalho bacana como penetra.

— Richard, talvez não seja fácil outra vez. Eles simplesmente não notaram ainda que fechar a porta comigo não fun­ciona. Mas quando notarem... podem soldar uma chapa de aço de um lado a outro da porta, se for necessário. Não que seja, porque não vou mais brigar para sair daqui mais do que você brigou. Vamos almoçar. Depois, arrumo minhas coisas. O que é que você gostaria de comer?

Descobri que Gwen havia tirado de minha cozinha certos itens de gourmet que eu mantinha no freezer ou em pacotes esterilizados. Eu de fato me abasteço de alimentos pouco co­muns. De que modo pode um cara saber antecipadamente, quan­do está trabalhando num conto, no meio da noite, que vai so­frer de um desejo ardente de comer pudim de mariscos? É me­ramente prudente ter os materiais à mão. De outra maneira o cara podia sucumbir à tentação de abandonar o trabalho, aban­donar a reclusão monástica a fim de descobrir um artigo que tem por que tem que comer — e esta é a porta aberta para a falência.

Gwen preparou um buffet de seus suprimentos e dos meus — nossos é o que eu devia ter dito — e almoçamos enquanto discutíamos nosso próximo movimento... porque tínhamos que nos pôr em movimento. Disse a ela que minha intenção era procurar o querido Sr. Middlegaff logo que terminássemos o almoço.

Ela pareceu pensativa.

— Acho que seria melhor eu arrumar minhas coisas pri­meiro.

— Se quiser. Mas por quê?

— Richard, estamos com lepra, isto é claro. Acho que de­vemos ter pego a doença com o assassinato de Schultz. Mas não sabemos. Qualquer que seja a causa, quando botarmos a cabeça do lado de fora é melhor que eu tenha minhas coi­sas à mão, exatamente como você. Talvez não possamos en­trar novamente. — Inclinou a cabeça na direção do terminal, brilhando ainda com o aviso: "Todos os serviços desligados." — Recolocar aquele terminal em funcionamento seria muito mais difícil do que mexer em alguns solenóides, uma vez que o próprio computador está em outro local. De modo que não podemos enfrentar o Sr. Middlegaff a partir deste com­partimento. Por conseguinte, temos que fazer tudo que pre­cisarmos fazer aqui, antes de sairmos por aquela porta.

— Enquanto você faz as malas, eu posso sair e telefonar para ele.

— Só sobre meu cadáver.

— Ahn? Gwen, seja sensata.

— Sensata eu enfaticamente sou. Richard Colin, você é um marido novo em folha. Tenciono obter anos e anos de uso de você. Enquanto esta confusão estiver acontecendo, não tenho a menor intenção de deixá-lo longe de minhas vistas. Você po­deria desaparecer, como o Sr. Schultz. Paixão, se vão atirar em você, vão ter que atirar em mim primeiro.

Tentei raciocinar com ela. Ela tapou as orelhas.

— Não vou discutir. Não posso ouvir o que você está di­zendo, não estou escutando! — Descobriu as orelhas. — Ve­nha me ajudar a arrumar as coisas. Por favor.

— Sim, querida.

Gwen arrumou tudo em menos tempo do que eu, embo­ra minha ajuda consistisse principalmente em não atrapalhá-la. Não estou acostumado a morar com mulheres. O serviço militar não é conducente à vida doméstica e eu tendera a evi­tar casamento, à parte contratos de curto prazo com camara­das amazonas — contratos automaticamente cancelados por ordens de mudança de missões. Depois que cheguei ao ofi­cialato, tive ordenanças umas duas ou seis vezes — mas tam­bém não acho que esse relacionamento seja muito parecido com o casamento civil.

O que estou tentando dizer é que, a despeito de ter escri­to muitos milhares de palavras de histórias de amor, sob cen­to e tantos pseudônimos femininos diferentes, não entendo muito de mulheres. Quando estava aprendendo os macetes da profissão, disse isso ao editor que me comprava essas his­tórias de pecado, sofrimento e arrependimento. O editor em causa era Evely Fingerhut, um cara sombrio, de meia-idade, uma falha no couro cabeludo e um charuto permanente na boca.

Grunhiu ele:

— Não tente compreender as mulheres. Isto só o preju­dicaria.

— Mas estas são supostamente histórias verdadeiras — protestei.

— Elas são histórias verdadeiras. Todas são acompanha­das de uma declaração prestada sob juramento: "Esta história baseia-se em fatos verídicos." — Indicou o manuscrito que

eu acabara de lhe entregar. — Você tem uma declaração de "Fato verídico" grampeada a essa aí. Está querendo me dizer que ela não é? Não quer receber seu dinheiro?

Sim, queria. Para mim, o máximo em estilo de prosa é exemplificado pela frase simples e graciosa: "Pague-se por es­te cheque a quantia de..." e respondi logo:

— Bem, para ser fiel aos fatos, essa história não constitui problema. Eu não conheci realmente a mulher em causa, mas minha mãe me contou tudo sobre ela... uma coleguinha dela na escola. Já estava grávida quando a verdade apareceu... e ela então enfrentou aquele horrível dilema, segundo me con­taram: o pecado do aborto ou a tragédia de um filho incestuo­so, com a possibilidade de duas cabeças e nenhum queixo? Tu­do é fato verídico, Evelyn, mas eu suavizei um pouco a coisa ao contar a história. Acabou-se descobrindo que Beth Lou não era parente consangüínea do tio — e foi assim que escrevi — mas também que o filho não era do marido. Essa parte eu dei­xei de fora.

— Então, reescreva-a e deixe essa parte e tire a outra. Sim­plesmente, não esqueça de mudar os nomes e lugares. Eu não quero queixas.

Mais tarde fiz isso e vendi a ele também essa versão, mas nunca me convenci a dizer a Fingerhut que aquilo não acon­tecera a uma coleguinha de minha mãe, mas era uma coisa que eu havia surrupiado de um livro que pertencia a minha tia Abby: o libretto do O Anel dos Nibelungen, de Richard Wagner, que devia ter se limitado a compor música e procurado um W. S. Gilbert para lhe preparar os librettos. Wagner era péssimo escritor.

Os seus enredos absurdos, porém, eram exatamente cer­tos para o ramo de confissões verdadeiras... as arestas um pou­co aparadas, menos crueza e, claro, nomes e locais diferentes. Não os roubei. Ou não inteiramente. Todos eles pertencem hoje ao domínio público, copyríghts vencidos, e tudo mais, e pa­ra começar, Wagner roubou-os de alguém.

Eu poderia ter continuado a ganhar a vida usando nada mais que os enredos wagnerianos. Mas enchi da coisa. Quan­do Fingerhut se aposentou e comprou um rancho de criação de perus, abandonei o ramo de confissões e comecei a escre­ver histórias de guerra. Isto era mais difícil — durante algum tempo até fome passei — porque assuntos militares são coisas que conheço e isso (conforme dissera Fingerhut) prejudica.

Após algum tempo, aprendi a suprimir o que sabia e não deixar que interferisse na história. Mas nunca tive aquele pro­blema com as histórias de confissões verdadeiras, uma vez que nem Fingerhut nem eu, nem Wagner, sabíamos de coisa al­guma a respeito de mulheres.

 

Especialmente sobre Gwen. Em algum lugar eu pegara a idéia de que, para viajar, mulheres precisam, pelo menos, de sete mulas de carga. Ou o equivalente em grandes valises. E, claro, mulheres, por natureza, são desorganizadas. Pelo me­nos era isso o que eu pensava.

Gwen saiu do compartimento trazendo apenas uma grande mala de roupas, menor que minha sacola de lona, com todas as roupas bem dobradas, e uma maleta menor contendo... bem, não eram roupas. Coisas.

Alinhou nossas posses — sacola de lona, trouxa, mala gran­de, maleta, a bolsa de sair, minha bengala, a árvore bonsai, e fitou-as.

— Acho que posso bolar uma maneira — disse — de le­varmos todas elas de uma só vez.

— Não vejo como — protestei —, com duas mãos apenas cada. Acho que é melhor eu chamar uma gôndola de carga.

— Se quiser, Richard.

— Quero. — Virei-me para o terminal dela e... parei interdito: — Ahn...

Gwen dirigia toda sua atenção para nosso minúsculo pé de bordo.

— Ahn... — repeti. — Gwen, você tem que relaxar um pou­co. Eu saio daqui, procuro a cabine de terminal mais próxima, volto em seguida...

— Não, Richard.

— Ahn? Apenas o tempo suficiente para...

— Não, Richard. Soltei um suspiro.

— Qual é a sua solução?

— Richard, concordo com qualquer curso de ação que não exija que nos separemos. Deixar tudo aqui no compartimento e acalentar a esperança de que possamos voltar a ele... bem, isto é uma maneira. Pôr tudo do lado de fora e deixar aí, en­quanto vamos procurar uma gôndola de carga — e telefona­mos para o Sr. Middlegaff — é outra.

— E tudo sumir quando estivermos longe? Ou será que não há ratos bípedes neste bairro?

Eu estava sendo sarcástico. Todos os habitats no espaço têm seus noctâmbulos, habitantes invisíveis que não possuem recursos para permanecer no espaço mas que, de todo jeito, querem evitar ser mandados de volta à Terra. No Regra de Ou­ro, tenho a impressão de que a Administração jogava-os no vácuo quando conseguia pegá-los... embora circulassem boa­tos do tipo que me faziam evitar todos os tipos de carne de porco picada.

— Há uma terceira maneira, senhor, suficiente para nos levar até aquela cabine de terminal. Sendo este o lugar mais longe onde podemos ir, até que o Departamento Imobiliário nos designe novas acomodações. Logo que soubermos nosso novo endereço, podemos chamar uma gôndola e esperar por ela.

Após uma pequena pausa, ela continuou:

— A cabine fica perto daqui. Senhor, o senhor disse antes que poderia levar sua sacola e a trouxa, com a bengala amar­rada à sacola. Nesta curta distância, concordo com isso. Posso levar minhas malas, uma em cada mão, com a correia de mi­nha bolsa aumentada para que eu possa carregá-la em volta do ombro.

E disse mais:

— O único problema é a pequena árvore. Richard, você viu alguma vez na National Geographic moças nativas levan­do trouxas na cabeça?

Não esperou que eu concordasse com a sugestão. Pegou a árvore em seu vaso, equilibrou-a em cima da cabeça, soltou as mãos, sorriu para mim, agachou-se, curvando apenas os joelhos, a espinha reta e a postura ereta — e apanhou as duas malas.

Foi até o fim do compartimento, virou-se e olhou para mim. Aplaudi.

— Obrigada, senhor. Apenas mais uma coisa. Os corre­dores estão às vezes muito cheios de gente. Se alguém se cho­car comigo, faço isto. — Simulou que estava cambaleando de­vido a um encontrão, deixou cair as duas malas, pegou a bon­sai no momento em que ela caía, recolocou-a na cabeça e, mais uma vez, levantou as malas. — Assim.

— E eu solto minhas sacolas, pego a bengala e espanco-o com ela. O cara que deu um encontrão em você. Não para ma­tar. Apenas para repreender. — E acrescentei: — Suponho que o canalha seja homem e adulto. Se não, farei com que o casti­go se ajuste ao criminoso.

— Tenho certeza de que fará isso, querido. Mas, para di­zer a verdade, acho que ninguém vai me empurrar, uma vez que você vai seguir na minha frente, abrindo caminho. Tudo bem?

— Tudo bem. Exceto que você deve ficar nua da cintura para cima.

— É mesmo?

— Todas as fotos desse tipo na National Geographic mos­tram mulheres com o busto nu. É por isso que as publicam.

— Tudo bem, se é isso o que você quer. Embora eu não seja realmente bem-dotada nesse particular.

— Deixe de querer provocar elogios, sua fingida. Você serve perfeitamente. Mas é boa demais para a plebe comum, de mo­do que continue a usar a blusa.

— Não me importo. Se você realmente pensar que eu devo.

— Você é bem-disposta demais. Faça o que quiser, mas eu não estou, repito, não estou insistindo em que faça isso. To­das as mulheres são exibicionistas?

— São.

A discussão terminou porque a porta deu sinal. Ela pare­ceu surpresa.

— Deixe que eu atendo — disse eu, e dirigi-me para a porta, onde toquei o botão de áudio: — Sim?

— Mensagem do Administrador!

Tirei o dedo do botão e olhei para Gwen:

— Abro?

— Acho que devemos.

Toquei o botão do dilatador. A porta se alargou e um ho­mem usando uniforme de censor entrou. Deixei a porta vol­tar a se contrair. Ele me estendeu uma prancheta.

— Assine aqui, senador. — Recolheu-a em seguida. — Hei, o senhor é o senador da Standard Oil, não?

 

"Ele é uma dessas pessoas que seriam imensamente melho­radas pela morte."

  1. H. Munro, 1870-1916

 

Respondi:

— Você começou de trás para frente. Quem é você? Identi­fique-se.

— Ahn? Se o senhor não é o senador, esqueça, deram-me o endereço errado.

Ele começou a recuar e bateu de costas na porta. Pareceu surpreso, virou a cabeça e procurou o botão dilatador. Bati na mão dele para baixá-la.

— Eu lhe disse para se identificar. Essa roupa de palhaço que está usando não é identificação. Quero ver suas creden­ciais. Gwen! Cubra-o!

— Certo, senador!

Ele estendeu a mão para o bolso de trás e sacou rápido. Com um pontapé Gwen arrancou o que quer que ele tivesse na mão. Quanto a mim, dei-lhe uma cutelada no lado esquerdo do pescoço. A prancheta voou e ele desabou, caindo com uma indolência curiosamente graciosa naquela baixa gravidade. Ajoelhei-me ao lado dele.

— Continue a cobri-lo, Gwen.

— Um instante, senador... fique de olho nele! — Recuei e esperei. Ela continuou: — Tudo bem, agora. Mas não fique em minha linha de fogo, por favor.

— Recebido e entendido.

Olhei para nosso convidado, desmoronando frouxamen­te no chão. A postura esquisita parecia dizer que ele estava sem sentidos. Ainda assim, havia a possibilidade de que estivesse fingindo. Eu não o atingira com essa força toda. Por causa dis­so, apliquei o polegar no ponto de pressão na vértebra cervi­cal esquerda inferior, apertando com força suficiente para que ele gritasse e subisse até o teto, se estivesse consciente. Ele não se moveu.

Fiz uma revista nele. Em primeiro lugar, atrás. Em segui­da, virei-o. As calças não combinavam com a túnica e lhe fal­tava o friso dourado lateral, que fazem parte do uniforme dos censores. A túnica também não estava bem no corpo. Nos bol­sos, algumas coroas, em papel-moeda, um bilhete de loteria e cinco cartuchos. Eram Skodas, 6,5mm, longos, sem estojo, expansivos, usados em pistolas, metralhadoras portáteis e fu­zis — e ilegal em quase toda parte. Nada de carteira, nem cé­dula de identidade, nada mais.

E ele precisava de um banho.

Coloquei-o novamente de costas e me levantei.

— Continue a cobri-lo com sua arma, Gwen. Acho que ele é um noctâmbulo.

— Eu também acho. Por favor, olhe para aquilo, senhor, enquanto eu o mantenho coberto.

Chamar aquilo de "pistola" dignificava-a mais do que a coi­sa merecia. Era uma arma letal, de fabricação caseira, da cate­goria tradicionalmente conhecida como "queimante de malan­dro". Examinei-o com todo o cuidado que me era possível, sem tocá-lo. O cano era um tubo de metal tão delgado que me per­guntei se jamais havia sido disparado. Possuía empunhadura de plástico, lixada ou desbastada para se ajustar à mão. O me­canismo de disparo era ocultado por uma tampa de metal man­tida no lugar (acreditem ou não) por elásticos. Parecia certo que era uma arma de um só disparo. Mas com aquele cano tão fino poderia ser também de último disparo. Achei que era tão perigosa para quem a usasse como para o alvo.

— Coisinha perigosa — comentei. — Não quero tocá-la. É uma armadilha antipessoal em si.

Olhei para Gwen. Ela o cobria com uma arma igualmente letal, mas que incluía tudo o que havia de melhor na moder­na arte do armeiro, uma Miyako de nove tiros.

— Quando ele sacou, por que não atirou nele? Em vez de se arriscar a desarmá-lo! Você pode ficar bem morta dessa maneira.

— Porquê.

— Porque o quê? Se uma pessoa puxar uma arma para vo­cê, mate-a imediatamente. Se puder.

— Eu não podia. Quando você me disse para cobri-lo, mi­nha bolsa estava ali. De modo que o cobri com isto. — Algu­ma coisa brilhou subitamente na outra mão e ela deu a im­pressão de ser uma pistoleira ambidestra. Depois, colocou-a no bolso da blusa: uma caneta. — Fui pega desprevenida, chefe.

— Oh, como pude cometer tais erros! Quando gritei para você dizendo para cobri-lo, eu estava simplesmente tentando distraí-lo. Não sabia que você só tinha o pé para mandar.

— Eu disse que sentia muito. Logo que deu tempo de pe­gar a bolsa, tirei este convencedor. Mas tinha que desarmá-lo primeiro.

Quando descobri, estava pensando comigo mesmo o que um comandante de campo não faria com mil Gwens. Ela pesa mais ou menos 50kg e não deve ter de altura muito mais que l,50m — digamos, 156 centímetros, descalça. Mas tamanho pouco tem a ver com a coisa, conforme descobriu Golias há muito tempo.

Por outro lado, em parte alguma há mil Gwens. O que tal­vez seja bom.

Ela hesitou antes de responder:

— Se estivesse, os resultados poderiam ter sido lamentá­veis, não acha?

— Retiro a pergunta. Acho que nosso amigo está acordan­do. Mantenha a arma apontada para ele, enquanto verifico.

Mais uma vez, apliquei-lhe o polegar. Ele soltou um uivo.

— Sente-se — ordenei. — Não tente se levantar. Simples­mente, sente-se e ponha as mãos na cabeça. Qual é o seu nome?

Ele me disse para fazer uma coisa não só improvável co­mo imoral.

— Ora, ora — censurei-o —, nada de grosseria, por favor. Sra. Durona — continuei, olhando diretamente para Gwen —, gostaria de atirar nele apenas um pouquinho? Um ferimento na carne? O suficiente para lhe ensinar boas maneiras?

— Se quer assim, senador. Agora?

— Bem... vamos perdoá-lo por aquele erro. Mas nada de se­gunda oportunidade. Faça o possível para não matá-lo, quere­mos que ele fale. Pode atingi-lo na parte carnuda da coxa? Sem atingir o osso?

— Posso tentar.

— Isso é tudo o que uma pessoa pode pedir. Se atingir o osso, não será por rancor. Agora, vamos recomeçar. Qual é o seu nome?

— Ahn... Bill.

— Bill. E o resto do seu nome?

— Ahn, apenas Bill. Esse é todo nome que tenho.

— Um pequeno ferimento na carne agora, senador? — su­geriu Gwen. — Para avivar a memória dele?

— Quem sabe? Quer na perna esquerda, Bill? Ou na di­reita?

— Em nenhuma das duas! Olhe aqui, senador, Bill é mes­mo o único nome que tenho... e diga a ela para não apontar aque­la coisa pra mim, sim?

— Mantenha-o coberto, Sra. Durona. Bill, ela não atira en­quanto você cooperar. O que foi que aconteceu com seu sobrenome?

— Nunca tive. Eu era o "Bill Número Seis" no Orfanato do Santo Nome. Lá na superfície, isto é, Nova Orleans.

— Compreendo. Estou começando a compreender. Mas o que dizia no seu passaporte quando você chegou aqui?

— Eu não tinha. Apenas um cartão de trabalho. Dizia: "William Nenhum Nome Intermediário Johnson." Mas isso foi o que o recrutador de operários escreveu. Olhe, ela está ba­lançando aquela arma na minha direção!

— Então não faça nada para aborrecê-la. Você sabe como são as mulheres.

— Claro que sei. Elas não deviam ter permissão para usar armas.

— Um pensamento interessante. Falando em armas... A respeito dessa que você trouxe: quero descarregá-la, mas te­nho medo que exploda na minha mão. De modo que, em vez da minha, vamos arriscar a sua. Sem se levantar, vire-se de modo a ficar de costas para a Sra. Durona. Vou empurrar seu estilingue para um lugar onde possa pegá-lo. Quando eu lhe disser — não antes! —, pode baixar as mãos, descarregá-lo e no­vamente pôr as mãos sobre a cabeça. Mas escute isto com aten­ção. — Virei-me para Gwen: — Sra. Durona, quando Bill se vi­rar, faça pontaria para a espinha dele, imediatamente abaixo do pescoço. Se ele fizer qualquer movimento suspeito — mate-o. Não espere ordem, e não lhe dê uma segunda opor­tunidade, nem faça disso um ferimento na carne — mate-o instantaneamente.

— Com grande prazer, senador! Bill soltou um gemido.

— Tudo bem, Bill, vire-se. Não use as mãos. Apenas for­ça de vontade.

Ele girou sobre as nádegas, raspando o chão com os calca­nhares para conseguir tração. Notei, aprovador, que Gwen mu­dara para a firme empunhadura de duas mãos. Peguei a bengala e empurrei a arma de fabricação caseira de Bill para um ponto em frente a ele.

— Bill, não faça qualquer movimento súbito. Baixe as mãos. Descarregue a pistola. Deixe-a aberta, com a bala ao lado. De­pois volte a pôr as mãos sobre a cabeça.

Dei apoio a Gwen com minha bengala e prendi a respira­ção enquanto Bill fazia exatamente o que eu mandara. Eu não tinha a menor pena em matá-lo e estava certo de que Gwen o mataria imediatamente, se ele tentasse virar contra nós aquela arma improvisada.

Mas eu me preocupava sobre o que fazer com o cadáver. Não o queria morto. A menos que o cara esteja em um campo de batalha ou num hospital, cadáver é um embaraço, difícil de explicar. A Administração forçosamente seria exigente a esse respeito.

Soltei por isso mesmo um suspiro de alívio quando ele terminou a tarefa e recolocou as mãos na cabeça.

Estendi a bengala, ao contrário, e puxei a perigosa arma­zinha e seu único cartucho em minha direção — botei o cartu­cho no bolso, pisei com o calcanhar no cano, esmagando-o, também o mecanismo de disparo improvisado, e depois disse a Gwen:

— Pode relaxar um pouco. Não há necessidade de matá-lo neste instante. Retorna àquele alerta para infligir ferimen­tos na carne.

— Sim, senhor senador. Posso fazer nele aquele ferimento?

— Não, não! Não, se ele se comportar. Bill, você vai se com­portar, não vai?

— Não estou me comportando? Senador, diga a ela para, pelo menos, baixar a trava de segurança!

— Ora, ora! O seu nem trava tinha. E você não está em situação de impor condições. Bill, o que foi que você fez com o censor que matou?

— Humm!

— Ora, não me venha com essa. Você aparece aqui usan­do uma túnica de censor que não dá em você. E as calças não combinam com a túnica. Pedi para ver suas credenciais e você puxou uma arma — um queimante de malandro, pelo amor de Deus! E você não toma banho... há quanto tempo? Você vai dizer. Mas vai dizer primeiro o que tez com o dono da tú­nica. Está morto? Ou simplesmente sem sentidos e enfiado num armário? Responda logo ou vou pedir à Sra. Durona que lhe aplique um estimulante de memória. Onde está ele?

— Não sei! Não fui eu que fiz isso.

— Ora, ora, meu querido rapaz, não minta.

— É verdade! Juro pela minha santa mãe que é a pura verdade!

Eu tinha dúvidas sobre a honra da mãe dele, mas teria si­do impolido manifestá-las, especialmente tratando-se de um espécime tão lamentável.

— Bill — disse eu gentilmente —, você não é censor. Tenho que explicar por que estou tão certo disso? (O Censor-Chefe Franco é um disciplinador rigoroso. Se um de seu capangas aparecesse para a chamada da manhã com a aparência — e o cheiro — daquele pobre-diabo, o delinqüente teria sorte se fosse meramente chutado de volta para a terra.) — Explicarei se insiste. Já enfiaram um alfinete embaixo da sua unha e de­pois aqueceram a outra extremidade? Esse remédio melhora imediatamente a memória.

Entusiasmada, Gwen disse:

— Um grampo de cabelo funciona melhor, senador... há mais massa para conservar o calor. Eu tenho um aqui. Posso fazer isso com ele? Posso?

— Você quer dizer: "O senhor deixa eu fazer isso com ele?", não é? Não, querida menina. Quero que você continue a manter Bill sob mira. Se for necessário recorrer a esses métodos, não vou pedir a uma senhora que faça isso por mim.

— Ah, senador, o senhor vai ficar com pena e parar quando ele for justamente dar o serviço. Eu, não! Deixe que lhe mos­tre... por favor!

— Bem...

— Não deixe essa cadela sedenta de sangue se aproximar de mim! — Bill falou em voz estridente.

— Bill! Você vai pedir desculpa à moça imediatamente. Se não pedir, deixo que ela faça o que desejar.

Novamente, ele gemeu:

— Moça, desculpe. Sinto muito. Mas você está me enca­gaçando. Por favor, não use um grampo de cabelo em mim... Eu vi um cara depois que fizeram isso com ele.

— Oh, poderia ser pior — garantiu-lhe Gwen em voz agra­dável. — Fio de cobre conduz o calor ainda melhor, e no cor­po do homem, há lugares interessantes onde a gente pode usá-lo. Mais eficiente. Resultados mais rápidos. — E acrescentou, pensativa: — Senador, tenho um pedaço de fio de cobre na minha maleta. Se segurar esta pistola por um momento, vou buscá-lo para o senhor.

— Obrigado, minha querida, mas talvez não seja neces­sário. Acho que o Bill quer dizer alguma coisa.

— Nenhum problema, senhor. O senhor não quer que eu fale logo?

— Talvez. Vejamos. Bill, o que foi que você fez com aque­le censor?

— Não fiz. Nunca botei os olhos em cima dele! Dois ba­bacas disseram que tinham um negócio pra mim, pagavam bem. Não os vi, não sei quem são. Mas eles sempre aparecem e Dedos diz que eles eram legais. Ele...

— Pare aí. Quem é "Dedos"?

— Ahn, o prefeito do nosso beco. Okay?

Mais detalhes, por favor. Seu beco?

— Um homem tem que dormir em algum lugar, não tem? Gente importante como o senhor tem compartimento com no­me na porta. Quem me dera ter essa sorte! A casa é o lugar onde a gente está... certo?

— Acho que você está me dizendo que o beco é o seu lar. Onde fica? Anel, raio, aceleração.

— Ahn... bem, a coisa não é exatamente assim.

— Seja racional, Bill. Se está dentro do cilindro principal, e não distante em um dos anexos, a localização dele pode ser descrita dessa maneira.

— Talvez possa, mas não posso descrevê-la assim, porque não é assim que se chega lá. E não vou na frente pelo cami­nho que o senhor tem que seguir porque... — O rosto dele contorceu-se em total desespero e ele pareceu dez anos mais velho. — Não deixe ela aplicar o arame quente em mim e não deixe ela atirar em mim, um pouquinho de cada vez. Por fa­vor! Simplesmente, me jogue no espaço e acabe com tudo lo­go... okay?

— Senador?

— Sim, Sra. Durona.

— Bill está com medo de que, se o senhor o machucar mui­to, ele lhe diga onde se esconde para dormir. Outros noctâm­bulos também dormem lá. A coisa é essa. Acho que o Regra de Ouro não é suficientemente grande para escondê-lo dos ou­tros. Se ele disser onde dormem, eles o matarão. E talvez não depressa.

— Bill, é por isso que você está sendo teimoso?

— Eu já falei demais. Me jogue no espaço.

— Não, enquanto você estiver vivo, Bill. Você sabe de coi­sas que eu preciso saber e tenciono espremê-las de você, mes­mo que tenha que usar o arame de cobre e as idéias mais ca­prichosas da Sra. Durona. Mas talvez eu não precise de res­posta à pergunta que lhe fiz. O que é que vai lhe acontecer se você me disser ou me mostrar onde fica seu beco?

Ele demorou a responder. Não o apressei. Finalmente, ele começou em voz baixa:

— Os censores pegaram um babaca há seis, sete meses. Obrigaram-no a falar. Não era do meu beco, graças a Jesus. O beco dele era uma instalação de manutenção espacial, per­to de 110 e com gravidade completa. De modo que os censo­res encheram-na de gás e um bocado de babacas morreram... mas este babaca eles soltaram. E que ajuda foi essa? Não estava solto nem 24 horas quando o pegaram e trancaram-no com ratos, ratos famintos.

— Compreendo. — E olhei para Gwen. Ela engoliu em seco e murmurou:

— Senador, ratos, não. Não gosto de ratos. Por favor.

— Bill, retiro a pergunta sobre seu beco. Seu esconderijo. E não vou pedir que identifique qualquer noctâmbulo. Mas espero que responda a tudo mais, completo e rápido. Nada de embromar. E nem de perder tempo. De acordo?

— Sim, senhor.

— Volte atrás. Esses dois desconhecidos lhe ofereceram um trabalho. Conte como foi.

— Ahn, eles falaram comigo apenas uns minutos, nada demais nisso. Queriam que eu usasse esta túnica, para eu pa­recer um censor. Bater na porta aqui e perguntar pelo senhor. "Mensagem do Administrador", era isso o que eu devia dizer. Depois, o resto a gente faz... o senhor sabe. Quando eu di­sesse "Hei? O senhor não é o senador! Ou é?", eles deviam chegar e prender o senhor.

Bill olhou-me, acusador.

— Mas o senhor botou tudo a perder. O senhor foi quem estragou a coisa, não eu. O senhor não fez nada que devia fa­zer. Fechou a porta às minhas costas... e não devia ter feito isso. E, no fim, era mesmo o senador... e ela estava com o se­nhor. — A voz ficou especialmente amarga quando ele se re­feriu a Gwen.

Eu podia compreender a razão do ressentimento dele. De que modo pode um criminoso sincero, que se esforça muito, progredir em sua profissão se a vítima não coopera? Quase todos os crimes dependem da aquiescência da vítima. Se a ví­tima recusa-se a assumir o papel designado, o criminoso fica em desvantagem tão séria que, em geral, é preciso um juiz com­preensivo e compassivo para endireitar as coisas. Eu quebra­ra as regras; reagira.

— Você certamente teve uma maré de má sorte, Bill. Vamos ver essa "Mensagem da Administração" que você devia entregar. Mantenha-o coberto, Sra. Durona.

— Posso baixar as mãos?

— Não.

A prancheta continuava no chão, entre Gwen e Bill, mas um pouco mais perto de mim. Poderia pegá-la sem interrom­per a linha de tiro. Apanhei-a.

Preso à prancheta havia um formulário de recibo de men­sagens, com lugar para que eu (ou alguém) assinasse. Ao la­do, vi o envelope azul da Mackay Três Planetas. Abri-o.

A mensagem era em grupos de códigos de cinco letras, mais ou menos uns 50 deles. Até mesmo o endereço estava em código. Mas em cursivo em cima do endereço estava escri­to: "Sen. Cantor, St. Oil."

Enfiei a mensagem no bolso sem comentário. Gwen inter­rogou-me com os olhos. Consegui não vê-los.

— Sra. Durona, o que é que nós vamos fazer com Bill?

— Dar um esfrega nele!

— Ahn? Quer dizer 'Acabar com ele"? ou está se ofere­cendo para esfregar as costas dele?

— Deus, não! As duas coisas. Nenhuma delas. Estou su­gerindo que a gente o ponha no refrescador e deixe-o lá até que fique higiênico. Banhado, água quente e um bocado de sabão. E xampu nos cabelos. Unhas limpas, das mãos e dos pés. Tudo. Não deixar que ele saia até que cheire bem.

— Você deixaria que ele usasse seu "refrescador"?

— Do jeito que estão as coisas, não penso que vá usá-lo novamente, senador. E estou cansada do fedor dele.

— Bem, sim, ele lembra batatas podres em dia quente no Gulf Stream. Bill, tire a roupa.

A classe criminal é o grupo mais conservador de qualquer sociedade. Bill relutou tanto em se despir em frente a uma mu­lher como o fizera a respeito da divulgação do esconderijo de seus amigos bandidos. Ficou chocado porque sugeri isso, hor­rorizado porque a mulher topou a proposta indecente. Quan­to a este último ponto, eu poderia ter concordado com ele ontem... mas eu descobrira que Gwen não se assusta à toa. Na verdade, acho que ela gostou daquilo.

Ao ficar pelado, Bill despertou-me um pouco de simpa­tia: parecia uma galinha depenada, com uma expressão infe­liz para combinar. Quando chegou à cueca (cinzenta de sujo) parou e olhou-me.

— Tudo bem — respondi vivamente. — Tire e corra para o refrescador. Se fizer um trabalho ordinário, repete tudo. Se botar o nariz de fora em menos de 30 minutos, nem me preo­cuparei em ver seu estado. Simplesmente, mando-o voltar para o banho. Agora, tire essa cueca — rápido!

Bill virou as costas para Gwen, tirou a cueca e correu de lado para o refrescador, em uma tentativa inútil de conservar um pouco de pudor. Trancou a porta.

Gwen guardou a pistola na bolsa e depois movimentou os dedos, flexionando-os e estirando-os.

— Eu estava ficando com os dedos duros, segurando a ar­ma. Amado, posso ficar com esses cartuchos?

— Ahn?

— Os que você tirou de Bill? Seis, não era? Cinco mais um.

— Claro, se os quer.

Devia lhe dizer que eu, também, tinha um uso em vista para eles? Não, informações desse tipo devem ser comparti­lhadas apenas na base do "precisa saber". Tirei-os do bolso e entreguei-os.

Gwen examinou-os, inclinou a cabeça, tirou novamente da bolsa a linda pistolinha — puxou o carregador, carregou-o com os seis cartuchos confiscados, recolocou o carregador, pôs uma bala na agulha, travou a arma e recolocou-a na bolsa.

— Corrija-me se estou errado — comecei lentamente. — Quando a chamei para me dar cobertura, você o cobriu com uma caneta. Depois de desarmá-lo, manteve-o coberto com uma arma descarregada. Correto isto?

— Richard, eu fui tomada de surpresa. Fiz o melhor que podia.

— Eu não estava criticando. Muito pelo contrário.

— Parece que nunca houve um momento apropriado, pa­ra eu lhe contar — prosseguiu ela. — Querido, você podia ce­der uma calça e uma camisa? Há algumas bem em cima das coisas em sua sacola.

— Acho que sim. Para nosso filho-problema?

— Para ele mesmo. Estou querendo botar as roupas imun­das dele na calha, para que sejam recicladas. O mau cheiro não vai passar até que a gente dê um jeito nessas roupas.

— Neste caso, vamos nos livrar delas. — Enfiei as roupas de Bill na calha (todas, menos os sapatos) e depois lavei as mãos na pia da cozinha. — Gwen, acho que não tenho nada mais a obter desse idiota. Poderíamos lhe deixar algumas rou­pas e simplesmente ir embora. Ou... poderíamos ir embora imediatamente e não lhe deixar roupa nenhuma.

Gwen pareceu estarrecida.

— Mas os censores o pegariam, imediatamente.

— Exatamente. Querida moça, aquele cara é um perdedor nato. Os censores vão pegá-lo antes de muito tempo, de qual­quer maneira. O que é que eles fazem com noctâmbulos atual­mente? Ouviu algum boato a esse respeito?

— Não. Nada com aparência de verdade.

— Não acho que o mandem em uma nave de volta à Ter­ra. Isto custaria dinheiro demais à Companhia, desta maneira violando a Regra de Ouro, da forma como é interpretada aqui. Não há xadrez ou penitenciária aqui. Isto limita as possibili­dades. Neste caso...

Gwen pareceu perturbada.

— Não acho que esteja gostando do que estou ouvindo.

— E a coisa fica pior. Do outro lado desta porta, talvez não à vista, mas em algum lugar por perto, há uns dois bandidos que não têm nenhuma boa intenção a nosso respeito. Ou pe­lo menos não têm boas intenções a meu respeito. Se Bill sair daqui tendo botado a perder o trabalho que foi contratado para fazer, o que é que vai acontecer com ele? Servem-no aos ratos como comida?

— Ugh!

— Isso mesmo, ugh. Meu tio costumava dizer: "Nunca apa­nhe um gatinho perdido... a menos que já tenha resolvido que ele vai ser seu dono." Bem, Gwen?

Ela suspirou.

— Acho que ele é um bom rapaz. Poderia ser, quero di­zer, se alguém se importasse com ele.

Devolvi o suspiro.

— Só há uma maneira de descobrir.

 

"De que adianta escorar a casa que já caiu?"

Hartley M. Baldwin

 

É difícil dar soco no nariz de um cara através de um terminal.

Mesmo que a pessoa não tenha intenção de usar esses mé­todos diretos de convencimento, discussão via terminal de com­putador é menos que satisfatória. Com um apertar de botão, o interlocutor pode nos cortar no meio da frase ou nos trans­ferir para um subordinado. Mas se estamos fisicamente pre­sentes no gabinete dele, podemos combater seus argumentos mais sensatos sendo simplesmente mais estupidamente obs­tinados do que ele. Basta a gente ficar inamovível e dizer não. Ou não dizer nada. Nós podemos dar-lhe a opção de ou con­cordar com nossas reivindicações (oh, tão razoáveis) ou obrigá-lo a nos mandar botar para fora.

Esta última medida provavelmente não combina com sua persona pública.

Por essas razões, resolvi não telefonar para o Sr. Middlegaff ou qualquer pessoa no Departamento Imobiliário e sim dirigir-me em pessoa ao gabinete do Administrador. Não ti­nha esperança de influenciar o Sr. Middlegaff, a quem eviden­temente haviam encarregado de uma política que ele estava executando com burocrática indiferença ("Um bom-dia para o senhor", realmente!). E era mínima a esperança de obter sa­tisfações do Administrador — mas, pelo menos, se ele recu­sasse me atender eu não teria que perder tempo apelando para uma instância superior. O Regra de Ouro, sendo uma compa­nhia particular, não-licenciada por qualquer Estado soberano (isto é, sendo ele mesmo soberano), não contava com autori­dade mais altamente colocada que o Administrador — e Deus Todo-Poderoso nem mesmo era sócio minoritário.

Decisões tomadas pelo Sócio Administrador poderiam ser inteiramente arbitrárias... mas eram também inteiramente fi­nais. Não havia possibilidade de anos de litígio judicial, ne­nhuma maneira de uma corte superior revogar-lhe a decisão. As "demoras da justiça" que tanto maculam o funcionamento da "justiça" nos Estados democráticos lá na Terra não podiam existir aqui. Lembro-me de apenas alguns casos capitais nos meus cinco anos de residência aqui... mas, em todos eles, o Administrador agira como magistrado e o condenado fora lan­çado ao espaço no mesmo dia.

Em um sistema desses, a questão de erro de justiça torna-se acadêmica.

Acrescente-se a isso o fato de que a profissão da lei, da mesma forma que a profissão da prostituição, não é licencia­da nem proibida, e o resultado é um sistema judicial que tem pouca semelhança com a teia maluca de precedentes e tradi­ção que passa por "justiça" na superfície. A justiça no Regra de Ouro poderia sofrer de astigmatismo, se não fosse inteira­mente cega. Mas não podia ser lenta.

Deixamos Bill na ante-sala do gabinete do Administrador, tomando conta de nossa bagagem — minha sacola de lona e a trouxa, as malas de Gwen, a árvore bonsai (que fora aguada antes de deixarmos o compartimento de Gwen) — com ins­truções para se sentar em cima da primeira, defender a bon­sai até com a vida (no fraseado de Gwen) e vigiar o resto. Entramos.

Uma vez no lado de dentro, deixamos nossos nomes, se­paradamente, na recepção e depois nos sentamos para espe­rar. Gwen abriu a bolsa e tirou um tabuleiro eletrônico Casio.

— O que é que vai ser, querido? Carteado, gamão, go, ou o quê?

— Você está pensando que vamos esperar muito?

— Estou, sim senhor. A menos que a gente acenda um fo­go embaixo da mula.

— Acho que você tem razão. Alguma idéia sobre como acender o fogo? Sem tocar fogo na carroça, quero dizer. Oh, que diabo, vá em frente e toque fogo na carroça. Mas como?

— Nós poderíamos usar uma variação do velho modelo: "Meu marido sabe de tudo." Ou "Sua mulher descobriu." Mas nossa variação teria que ser absolutamente nova, uma vez que o estratagema básico já é muito manjado. — E depois acres­centou: — Eu poderia entrar em trabalho de parto. Isto é sem­pre uma boa maneira de chamar atenção.

— Mas você não parece grávida.

— Quer apostar? Até agora ninguém me deu uma boa olhada. Simplesmente me dê cinco minutos sozinha naquele toalete de senhoras e você se convence logo que já estou no nono mês. Richard, este macete eu aprendi há muitos anos, quando era investigadora de sinistros de uma companhia de seguros. Ele sempre consegue que a gente entre em algum lugar.

— Você está me tentando — reconheci —, já que seria en­graçado ver você fazer a coisa. Mas o macete que usarmos te­rá não apenas que nos fazer entrar mas nos manter ali dentro em circunstâncias tais que o estúpido escute nossos argu­mentos.

— Dr. Ames?

— Sim, Sra. Ames?

— O Administrador não vai escutar nossos argumentos.

— Por favor, explique.

— Aplaudi sua decisão de vir direto até o alto porque per­cebi que economizaria tempo e lágrimas receber todas as más notícias de uma vez só. Temos lepra. O que já foi feito conos­co deixa isso muito claro. A intenção do Administrador não é simplesmente nos obrigar a ir embora, mas nos chutar logo para fora do Regra de Ouro. Não sei por quê, mas não preci­samos saber porquê — a coisa é simplesmente esta. Compreen­do isto, estou relaxada. Uma vez que você compreende isso tam­bém, homem querido, poderemos traçar planos. Ir para a Ter­ra, ou para Luna, ou então para a Terra Prometida, Ell-Four, Ceres, Marte — o que você desejar, amado meu. "Aonde fo­res..."

— Para Luna.

— Senhor?

— Por ora, pelo menos. O Estado Livre de Luna não é dos piores. Atualmente, está passando da anarquia para a burocra­cia, mas não foi ainda inteiramente engessado. Ainda permi­te um bocado de liberdade a pessoas que sabem enfrentar pragmaticamente a situação. E há ainda espaço para viver em Lu­na. E dentro de Luna. Isso mesmo, Gwen, temos que nos man­dar. Eu desconfiava disso antes e tenho certeza agora. A não ser por uma coisa, poderíamos seguir até diretamente para o espaçoporto. Eu ainda quero falar com o Administrador. Dro­ga, quero ouvir a mentira de seus próprios lábios mentirosos! Em seguida, com uma clara consciência, posso servir o veneno.

— Você tenciona envenená-lo, querido?

— Uma figura de retórica. Penso em colocá-lo em minha lista e um karma rápido dará jeito nele.

— Oh. Talvez eu possa pensar em uma maneira de aju­dar o karma.

— Não é necessário. Uma vez na lista, eles nunca duram muito.

— Mas eu gostaria de fazer isso. "A mim pertence a vin­gança, diz o Senhor." Mas a Versão Revista diz: "A vingança a Gwen pertence... e a Mim apenas se Gwen deixar alguma coisa por fazer."

— Minha querida, você.é uma menininha perversa, digo com prazer. Vai matá-lo com urticária? Com unha encravada? Talvez soluços?

— Estou pensando em mantê-lo acordado até que ele mor­ra. Falta de sono é pior do que qualquer coisa que você listou, querido, se levado suficientemente longe. A capacidade de jul­gamento da vítima se desfaz em pedacinhos antes que ela pa­re de respirar. Tem alucinações. Incluindo todas as suas pio­res fobias. Morre em seu próprio inferno particular e jamais escapa dele.

— Gwen, você dá a impressão de que já usou esse método. Gwen não comentou.

Encolhi os ombros.

— O que você resolver, diga-me para eu poder ajudar.

— Farei isso, senhor. Hummm, gosto muito da idéia de afo­gar uma pessoa em lagartas. Mas não sei como conseguir tan­tas assim, a não ser trazendo-as da Terra. Exceto... Bem, a gente pode sempre dar um jeito, utilizando o método da insônia. Perto do fim, pode fazer com que o condenado crie suas pró­prias lagartas apenas sugerindo-lhe isso. — Arrepiou-se. — Schrecklich! Mas não vou usar ratos, Richard. Nunca ratos. Nem mesmo ratos imaginários.

— Minha doce e terna esposa, que bom saber que você traça uma linha em algum ponto.

— Claro que traço! Bem-amado, você me surpreendeu com a idéia de que má educação poderia ser considerada como cri­me que merece forca. Meu próprio interesse é no mal, e não em má educação. Acho que ratos maldosos nunca devem pas­sar sem castigo. Os métodos de Deus para punir o mal são lentos demais para meu gosto. Quero que isto seja feito ago­ra. Veja o caso de seqüestro. Seqüestradores deveriam ser en­forcados no local, logo que capturados. Incendiários deveriam ser queimados vivos no tronco, no local do incêndio que ini­ciaram, se possível antes que as cinzas esfriem. Um estupra-dor deveria ser morto por...

Não descobri nessa ocasião que complexa maneira de mor­rer Gwen preferia para estupradores, porque um burocrata po­lido (homem, com caspas, risus embutido) parou à nossa frente e perguntou:

— Dr. Ames?

— Eu sou o Dr. Ames.

— Eu sou Mungerson Fitts, Vice-Administrador Assisten­te a cargo de Estatísticas Super-Rogatórias. Estou dando uma mãozinha aqui. Tenho certeza de que o senhor compreende que o gabinete do Administrador está numa roda viva com o novo acréscimo que está sendo trazido para se acoplar ao sis­tema... todos os reassentamentos temporários que têm que ser feitos e todas as perturbações em rotina que têm que ser corri­gidas, antes que possamos nos acomodar todos em um Regra de Ouro mais espaçoso e melhorado. — Endereçou-me um sor­riso cativante. — Acho que querem falar com o Administrador.

— Isso mesmo.

— Excelente. Devido à atual emergência, estou dando uma ajuda aqui, a fim de manter a qualidade de que nos orgulha­mos dos serviços do Regra de Ouro para nossos hóspedes du­rante as alterações que ora se processam. Recebi todos os po­deres para agir em nome do Administrador. Podem pensar em mim como seu alter ego... porque, para todos os fins e finali­dades, eu sou o Administrador. Esta jovem senhora... ela está com o senhor?

— Está.

— É uma honra, madame. Um prazer. Agora, amigos, se quiserem ter a gentileza de virem comigo...

— Não.

— Perdão?

— Quero falar com o Administrador.

— Mas eu expliquei ao senhor...

— Eu espero.

— Acho que o senhor não me compreendeu. Por favor, ve­nham comigo...

— Não.

(Nessa altura Fitts devia ter-me pegado numa chave e, com um balão, me jogado sentado no chão. Não que isso seja fácil de fazer comigo. Afinal de contas fiz meu treinamento com Dorsai. Mas era isso o que ele devia ter feito. Mas era pessoa inibida pelo costume, o hábito e a política da empresa)

Fitts fitou-me calado por um momento, parecendo perplexo.

— Ahn... mas o senhor tem que vir comigo, como sabe.

— Não, não sei.

— Estou tentando lhe dizer...

— Quero falar com o Administrador. Ele lhe disse o que fazer a respeito do senador Cantor?

— Senador Cantor? Espere aí, ele é o senador eleito por, ahn, por...

— Se o senhor não sabe quem é ele, como é que sabe o que fazer com ele?

— Ahn, se quiser esperar um momento, farei uma con­sulta.

— Era melhor nos levar... uma vez que o senhor não pa­rece estar no gozo de "todos os poderes" no tocante a este as­sunto crítico.

— Ahn... por favor, esperem aqui. Levantei-me.

— Não, é melhor eu ir embora. O senador pode andar à minha procura. Por favor, diga ao Administrador que sinto mui­to não ter podido esperar. — Virei-me para Gwen. — Vamos, madame. Não devemos deixá-lo à espera.

(A mim mesmo perguntei se Mungerson notara que eu usa­ra o caso proclítico, sem referência à pessoa.)

Gwen levantou-se e tomou-me o braço. Apressado, disse Fitts:

— Por favor, amigos, não vão embora! Humm, venham co­migo. — Levou-nos por uma porta sem tabuleta ou inscrição. — Esperem apenas um momento, por favor.

Ele demorou mais que um momento, mas, apesar disso, não muito. Voltou com o rosto aureolado de sorrisos. (Acho que esta é a frase.)

— Por aqui, por favor!

Levou-nos pela porta sem marca, descemos uma curta pas­sagem e entramos no gabinete do Administrador.

O Administrador ergueu os olhos da escrivaninha e nos ins­pecionou, não com aquela expressão conhecida, paterna, da freqüente demais "Uma Palavra do Administrador!", aqueles avisos que aparecem em todos os terminais. Muito ao contrá­rio, o Sr. Sethos dava a impressão de que havia encontrado no seu mingau, naquela manhã, alguma coisa repugnante.

Ignorei seu comportamento glacial. Fiquei simplesmen­te onde estava, no lado de dentro do gabinete, Gwen ainda pendurada no meu braço, e esperei. Morei certa vez com um gato exigente (Há algum outro tipo?) que, quando lhe era ofe­recida comida que não combinava perfeitamente com seu gosto, dava impressão de ofendido — uma façanha de representa­ção por parte de um ser cuja face é inteiramente coberta de pelugem. Ele, não obstante, fazia isso principalmente através de linguagem corporal. Fiz isso nesse momento com o Sr. Se­thos, pensando principalmente naquele gato. Fiquei onde es­tava... e esperei.

Ele nos fitou... e finalmente se levantou, fez uma ligeira mesura e disse:

— Madame... Tenha a bondade de se sentar.

Ao que, nós nos sentamos. Primeiro assalto ganho por nós, por pontos. Eu não poderia ter feito isso sem Gwen. Mas ti­nha a ajuda dela e logo que sentei meu traseiro na cadeira ele não ia tirá-lo de lá — até que eu conseguisse o que queria.

Continuei imóvel, calado, e esperei.

Quando a pressão sangüínea do Sr. Sethos chegou a ponto de provocar um derrame, ele disse:

— Bem? O senhor conseguiu forçar a entrada em meu ga­binete. Que tolice é essa a respeito do senador Cantor?

— Espero que o senhor me diga. O senhor designou o se­nador Cantor para o compartimento de minha esposa?

— Ahn? Não seja ridículo. A Sra. Novak tem um compar­timento de alta eficiência de um único cômodo, o menor ta­manho na primeira classe. O senador da Standard Oil, se che­gou aqui, iria querer uma suíte de luxo. Claro!

— O meu, talvez? Foi por isso que o senhor me despejou? Para dar meu compartimento ao senador?

— O quê? Não ponha palavras na minha boca. O senador não está a bordo. Fomos obrigados a pedir a alguns de nossos hóspedes que se mudassem, o senhor entre eles. A nova se­ção, como sabe. Antes que ela possa ser soldada, todos os com­partimentos e espaços adjacentes ao círculo 1-30 têm que ser evacuados. De modo que tivemos que duplicar temporariamen­te as acomodações, a fim de conseguir espaço para os hóspe­des remanejados. O seu compartimento receberá três famílias, segundo me lembro. Isto é por pouco tempo.

— Compreendo. Neste caso foi apenas por um lapso que não me disseram para onde eu devia ir?

— Oh, tenho certeza de que o senhor foi informado.

— Não fui, de maneira alguma. Pode, por favor, me di­zer qual é o meu novo endereço?

— Doutor, o senhor espera que eu guarde de cabeça as de­signações para todas as acomodações? Espere lá fora, alguém verificará e lhe comunicará.

Ignorei-lhe a ordem/sugestão.

— Sim, de fato acho que o senhor as guarda na cabeça.

— Há mais de 180 mil pessoas neste habitat — rosnou ele. — Tenho assistentes e computadores para cuidar desses de­talhes.

— Tenho certeza que sim. Mas o senhor me deu fortes ra­zões para pensar que tem esses detalhes na cabeça... quando isto lhe interessa. Vou dar um exemplo. Minha esposa não lhe foi apresentada. Mungerson Fitts não sabia o nome dela, de modo que não podia ter dito ao senhor. Mas o senhor sabia, sem que ele tivesse dito. Sabia o nome dela e em que compar­timento residia. Residia antes, isto é, até que o fechou, deixan­do-a do lado de fora. É assim que o senhor aplica a Regra de Ouro, Sr. Sethos? Expulsando seus hóspedes a pontapés, sem ter mesmo a cortesia de avisar a eles antecipadamente?

— Doutor, o senhor está querendo provocar briga?

— Não. Estou tentando descobrir por que o senhor está nos perseguindo. Intimidando-nos. Fustigando-nos. O senhor e eu sabemos que isto nada tem a ver com o deslocamento cau­sado pela nova seção que vai ser soldada. Isto é certo... por­que a nova seção está sendo construída há mais de três anos e o senhor sabia com pelo menos um ano de antecedência quando ela seria trazida... Não obstante, o senhor me expul­sou de meu compartimento com um aviso de menos de 30 mi­nutos. E tratou ainda pior minha esposa. Simplesmente tran­cou o compartimento, deixando-a do lado de fora, sem nenhum aviso. Sethos, vocês não estão nos tirando do caminho ape­nas para que a nova seção seja soldada. Se isso fosse verda­de, teríamos sido avisados há pelo menos um mês, juntamente com a relocalização temporária e as datas para nos mudarmos para nossas novas acomodações temporárias. Agora, está nos expulsando, nada menos que isso, do habitat Regra de Ou­ro... e eu quero saber por quê!

— Saia de meu gabinete. Mandarei alguém levá-lo pessoal­mente às suas novas... acomodações... temporárias.

— Isto não é necessário. Simplesmente me dê as coorde­nadas e o número do compartimento. Espero aqui enquanto o senhor verifica isso.

— Deus do céu, eu acredito mesmo que o senhor quer ser expulso do Regra de Ouro.

— Não, tenho vivido bem confortável aqui. Ficarei muito contente em permanecer aqui... se me disser onde vamos dor­mir hoje à noite... e nos fornecer nosso novo endereço per­manente — o lugar onde vamos residir logo que a nova seção seja soldada e pressurizada, quero dizer. Precisamos de uma suíte de três cômodos, a fim de substituir o compartimento de dois que eu tinha e o de um único da Sra. Ames. Dois ter­minais. Um para cada um de nós, como antes. E baixa gravi­dade. Quatro décimos de gravidade, preferencialmente, mas não mais que meia gravidade.

— Gostaria também de um jardim particular? Por que pre­cisa de dois terminais? Isto exigiria fiação adicional.

— De fato, e eu pago a despesa. Porque eu sou escritor. Vou usar um como processador de texto e trabalho de pesqui­sa em bibliotecas. A Sra. Ames precisa de outro para a rotina doméstica.

— Ohhh! O senhor pensa em usar espaço residencial pa­ra fins comerciais. Este fato implicará cobrança de tarifas co­merciais. Não residencial.

— Isso importa em quanto?

— O preço terá que ser calculado. Há um fator de custo para cada tipo de uso comercial. Lojas a varejo, restaurantes, bancos e coisas assim custam aproximadamente três vezes mais por metro cúbico que o espaço residencial. Espaço para fábri­cas não custa tanto como o comercial para varejo, mas pode ter adicionais de risco, coisas assim. O espaço de armazena­gem custa apenas um pouco mais que o residencial. De im­proviso, eu diria que o senhor terá que pagar tarifas de espa­ço para escritório — há um fator de 3,5 — mas terei que verifi­car isso com o contador-chefe.

— Sr. Administrador, será que o compreendi perfeitamen­te? O senhor está pensando em nos cobrar três vezes e meia nossos antigos alugueres combinados?

— Aproximadamente. Pode descer talvez a três vezes.

— Bem, bem. Eu não escondi o fato de que sou escritor. Diz isso no meu passaporte e estou listado dessa maneira em seu catálogo, nos últimos cinco anos. Diga-me uma coisa: por que, de repente, faz esta diferença toda se uso meu terminal para escrever cartas para casa... ou escrever ficção?

Sethos emitiu um som que poderia ser interpretado como uma risada.

— Doutor, o Regra de Ouro é uma empresa comercial com fins lucrativos. Com esse objetivo em vista, administro-o para meus sócios. Ninguém tem que morar aqui, ninguém tem que fazer negócios aqui. O que cobro às pessoas para viverem aqui, ou para fazer negócios aqui, é decidido exclusivamente pelo lucro maximizador para a sociedade, conforme meu melhor julgamento para atingir esse fim. Se não gostar, pode ir fazer negócios em outra parte.

Eu ia justamente mudar a base da discussão (eu sei quan­do sou superado em peças de fogo), quando Gwen falou:

— Sr. Sethos?

— Ahn? Sim, Sra. Novak? Sra. Ames.

— O senhor começou na vida sendo cafetão de suas irmãs? Sethos adquiriu uma delicada tonalidade de berinjela. Mas por fim controlou-se o suficiente para dizer:

— Sra. Ames, a senhora está sendo intencionalmente insultuosa?

— Isto é óbvio, não é? Eu não sabia que o senhor tinha irmãs. Simplesmente parece o tipo de atividade que o atrai­ria. O senhor nos insultou sem nenhuma razão. Viemos aqui pedindo reparação de uma injustiça. O senhor nos respondeu com evasivas, mentiras completas, questões irrelevantes... e nova extorsão. E justificou essa nova indignidade com um se­rão de terceira classe sobre livre empresa. Exatamente que preço o senhor habitualmente pedia por suas irmãs? E quanto guar­dava de comissão? Metade? Ou mais da metade?

— Madame, tenho que lhes pedir que deixem meu gabi­nete... e este habitat. Os senhores não são o tipo de pessoas que queremos que residam aqui.

— Iremos embora com imenso prazer — respondeu Gwen, sem se mexer —, logo que o senhor encerrar minha conta. E a de meu marido.

— FORA!

Gwen levantou a mão, palma para cima.

— Dinheiro na frente, seu escroque careca. O saldo de nos­sas contas, mais os depósitos relativos às passagens de volta, que fizemos ao chegar. Se sairmos desta sala sem nosso di­nheiro, não há nenhuma garantia de que jamais veremos a cor dele. Pague o que deve e vamos embora. Na primeira ponte aérea para Luna. Mas pague tudo e agora! Ou terá que me jo­gar no espaço para me calar. Se chamar seus brutamontes, seu mentiroso, boto este lugar abaixo aos gritos. Quer uma amostra?

Inclinou a cabeça para trás e soltou um grito que me fez os dentes doerem.

Os de Sethos também, aparentemente... porque o vi se encolher todo.

Ele fitou-a durante um longo tempo e, em seguida, tocou em algum botão de controle na mesa.

— Ignatius, encerre as contas do Dr. Richard Ames e da Sra. Gwendolyn Novak, números — com uma hesitação ape­nas momentânea deu corretamente os números do meu com­partimento e de Gwen — e traga-as imediatamente ao meu ga­binete. E dinheiro para pagar o saldo deles. Com os devidos recibos. Nada de cheque. O quê? Você ouviu o que eu disse. Se isto demorar mais de 10 minutos mandarei fazer uma ins­peção de alto a baixo em seu departamento... a fim de verifi­car quem deve ser demitido, e não apenas rebaixado.

Desligou, e não olhou para nós.

Gwen tirou da bolsa o tabuleiro de jogo, preparou-o para o jogo-da-velha, o que me agradou, sendo mais ou menos o nível intelectual a que, no momento, eu me arriscaria a subir. Ela me venceu em quatro partidas seguidas, embora em duas ocasiões me coubesse a primeira jogada. Mas minha cabeça ainda estava doendo com o grito supersônico dela.

Não marquei o tempo exato, mas uns 10 minutos depois um homem entrou trazendo nossas contas. Sethos lançou-lhes um olhar e passou-as para nós. A minha parecia estar certa. Eu ia assinar o recibo quando Gwen falou:

— E os juros sobre o dinheiro que tive que depositar?

— Ahn? Sobre o que é que a senhora está falando?

— Minha passagem de volta à Terra. Tive que depositá-la em dinheiro vivo, não sendo aceito cheque. O seu banco aqui cobra 9% sobre empréstimos pessoais, de modo que deve pa­gar pelo menos as taxas de poupança sobre o dinheiro imobi­lizado. Embora depósitos a prazo fixo ofereçam taxas mais ra­zoáveis. Estou aqui há mais de um ano e assim... deixe-me ver... — Tirou da bolsa a calculadora que estávamos usando para manter o escore do jogo-da-velha. — O senhor me deve 871 e... — vamos arredondar — 871 coroas em juros. Em ouro suíço isso importa em...

— Nós pagamos em coroas, não em dinheiro suíço.

— Tudo bem, o senhor então me deve a importância em coroas.

— Nós não pagamos juros sobre o dinheiro relativo à pas­sagem de volta. Nós conservamos o dinheiro simplesmente bloqueado.

Fiquei subitamente alerta.

— Não paga, hein? Deus do céu, pode me emprestar essa maquininha? Vejamos —180 mil pessoas... e passagens em clas­se turista para Maui via PanAm ou Quantas importam em...

— Sete-duzentos — respondeu Gwen — não computados os fins de semana e feriados.

— Sendo assim. — Digitei o número. — Humm, bem mais de um bilhão de coroas! Um, dois, nove, seis, seguidos por seis zeros. Que coisa mais interessante! E como é esclarecedo­ra. Sethos, meu velho, você deve estar ganhando mais de 100 milhões por ano, isentos de imposto, apenas colocando todo este dinheiro que exige de nós, palermas, em fundos monetá­rios em Luna City. Mas não acho que o use dessa maneira — ou nem todo ele. Acho que você dirige toda essa empresa usan­do dinheiro de outras pessoas... sem que elas saibam ou con­sintam. Certo?

O lacaio (Ignatius) que trouxera nossas contas escutava tu­do aquilo com agudo interesse.

— Assinem esses recibos e caiam fora.

— Oh, assinaremos!

— Mas pague os nossos juros — acrescentou Gwen. Sacudi a cabeça.

— Não, Gwen. Em qualquer lugar, menos aqui, podería­mos processá-lo. Aqui ele é a lei e o juiz. Mas não me impor­ta, Sr. Administrador, o senhor acaba de me dar uma idéia ma­ravilhosa e vendável para um artigo na Reader's Digest, pro­vavelmente, ou na Fortune. Vou dar-lhe o título de "Uma Mi­na no Céu, ou Como Ficar Rico com o Dinheiro dos Outros: A Economia dos Habitats Espaciais de Propriedade Privada". Cem milhões ao ano surrupiados do público apenas no habitat Regra de Ouro. Alguma coisa nesse sentido.

— Publique isso e eu o processo e tomo tudo que o se­nhor possui.

— Processa? A gente se vê no tribunal, meu velho. De al­guma maneira, acho que você não vai querer lavar sua roupa suja em um tribunal em que não seja o juiz. Humm, tive ou­tra idéia maluca. O senhor está concluindo um acréscimo muito importante — e me lembro de ter visto no Wall Street Journal que o senhor fez isso sem vender ações. Quanto daquele di­nheiro dito bloqueado está flutuando aqui como círculos 130 a 140? E quantos de nós, indo embora na mesma semana, se­riam necessários para ocasionar uma corrida ao seu banco? Po­de pagar à vista, Sethos? Ou esse dinheiro bloqueado é tão falso como você?

— Diga isso em público e eu o processarei em todos os tri­bunais do Sistema! Assinem esse recibo e caiam fora daqui!

Gwen só assinou depois de contado todo o dinheiro em nossa frente. Assinou finalmente, e eu também.

Enquanto recebíamos o dinheiro, o terminal da escrivani­nha de Sethos acendeu. A tela era visível apenas para ele, mas a voz da pessoa que falava foi suficiente para identificá-la: o Censor-Chefe Franco:

— Sr. Sethos!

— Estou ocupado.

— Mas isto é uma emergência! Ron Tolliver foi baleado. Eu...

— O quê!

— Acabou de acontecer! Estou no escritório dele... mas ele está muito ferido, provavelmente não vai escapar. Mas tenho testemunhas oculares. O autor do crime foi aquele doutor de ataque... Richard Ames...

— Cale a boca!

— Mas, chefe...

— CALE A BOCA! Seu estúpido, seu trapalhão! Apre­sente-se a mim imediatamente. — Sethos virou-se para nós. — Agora, sumam daqui.

— Talvez fosse melhor eu esperar e conhecer essas teste­munhas oculares.

— Fora. Fora deste habitat. Dei o braço a Gwen.

 

"Você não pode enganar um homem honesto. Para começar, ele precisaria ser desonesto no fundo do coração."

Claude William Dukenfield, 1880-1946

 

No lado de fora encontramos Bill sentado em cima de mi­nha sacola de lona, a pequena árvore nos braços. Levantou-se, uma expressão indecisa no rosto. Mas quando Gwen lhe sorriu, ele retribuiu todo alegre.

Perguntei:

— Algum problema, Bill?

— Não, chefe. Humm, um babaca quis comprar a arvore­zinha.

— Por que não a vendeu?

Ele pareceu chocado.

— Ahn? É dela.

Isso mesmo. Se a tivesse vendido, sabe o que ela teria feito? Teria afogado você em um monte de lagartas, é isso o que teria feito. De modo que você foi sabido em não aborrecê-la. Mas nada de ratos. Enquanto ficar com ela, não precisa nun­ca ter medo de ratos. Certo, Sra. Durona?

— Correto, senador, ratos, nunca Bill, estou orgulhosa de você, não deixando que alguém o tentasse. Mas quero que pare com essa gíria — ora, alguém que o ouvisse poderia até pen­sar que você é um noctâmbulo —, e nós não gostaríamos dis­so, certo? De modo que não diga "um babaca quis comprar a árvore", mas apenas "um homem".

— Ahn, para dizer a verdade, o babaca era uma xoxota. Ahn, uma piranha. Morou?

— Morei. Mas vamos tentar outra vez. Diga "uma mulher".

— Tudo bem. Aquela babaca era uma mulher. — Sorriu envergonhado. — A senhora até parece aquelas irmãs que en­sinavam a gente no Santo Nome, lá na superfície.

— Recebo isso como um elogio, Bill... E vou atazanar vo­cê ainda mais do que elas sobre sua gramática, pronúncia e escolha de palavras. Até que você consiga falar tão bonito co­mo o senador. Isto porque, há muitos anos, um homem sábio e cínico provou que a maneira como uma pessoa fala é a coisa mais importante nela quando se trata de se sair bem neste mun­do. Entendeu o que eu disse?

— Ahn... médio.

— Ninguém aprende tudo de uma só vez e não espero is­so de você. Bill, se você tomar banho todos os dias e falar cor­retamente, o mundo chegará à conclusão de que você é um vencedor e o tratará nessa conformidade. De modo que va­mos continuar a tentar.

Interrompi-os:

— Enquanto isso, é urgente para nós cair fora desta banheira.

— Senador, isto é urgente, também.

— Ah, sim, a velha regra "acostumar o cachorrinho a não fazer xixi no chão". Compreendo. Mas vamos nos mexer.

— Sim, senhor. Direto para o espaçoporto?

— Ainda não. Descer todo El Camino Real, ao mesmo tempo verificando todos os terminais públicos que aceitem moedas. Tem algumas?

— Poucas. O suficiente para um telefonema rápido, talvez.

— Ótimo. Mas fique de olho também em um cambista.

Agora que você e eu cancelamos nossos códigos de crédito, temos que usar moedas.

Pegamos novamente nossa tralha e começamos a andar. Gwen disse baixinho:

— Não quero que Bill ouça isto... mas não é difícil con­vencer um terminal público de que estamos usando um códi­go de crédito correto, quando não estamos.

Respondi em voz igualmente baixa:

— Recorreremos a esse meio apenas se a honestidade não funcionar. Minha querida, quantos outros macetes você tem escondidos?

— Senhor, não sei do que está falando. A uns 100 metros à nossa frente... Aquela cabine à direita tem o sinal amarelo? Por que são tão poucas as cabines públicas equipadas para tra­balhar com moedas?

— Porque o Irmão Mais Velho quer saber quem está tele­fonando para quem... e com o método do código de crédito estamos praticamente implorando a ele que compartilhe de nossos segredos. Sim, aquele tem o sinal. Vamos reunir nos­sas moedas.

O reverendo doutor Henrik Hudson Schultz respondeu imediatamente em seu terminal. A fisionomia de Papai Noel me examinou, me avaliou, contou o dinheiro em minha carteira.

— Padre Schultz?

— Em pessoa. Às suas ordens, senhor?

Em vez de responder, tirei da carteira uma nota de mil co­roas, coloquei-a em frente ao mesmo. O Dr. Schultz examinou-a e ergueu as sobrancelhas eriçadas.

— O senhor me interessa, senhor.

Dei uma batidinha na orelha enquanto olhava para a es­querda e para a direita e fiz em seguida o sinal dos três maca­quinhos. Ele respondeu:

— Ora, sim, eu ia mesmo sair para tomar uma xícara de café. Quer me fazer companhia? Um momento...

Pouco depois, mostrou uma folha de papel, na qual es­crevera em grandes letras de fôrma:

 

OLD MACDONALD'S FARM

 

— Pode me encontrar no Sans Souci Bargrill? Fica na Petticoat Lane, bem em frente ao meu estúdio. Em uns 10 mi­nutos?

Durante todo o tempo em que falava, cutucava com o in­dicador a tabuleta improvisada que me mostrava. Respondi:

— Combinado — e desliguei.

Eu não tinha o hábito de ir a território agrícola, uma vez que gravidade plena é ruim para minha perna e fazendas têm que funcionar com toda gravidade. Não, isso não é correto. Talvez haja mais habitais no Sistema que usam em agricultura quaisquer frações de gravidade que desejam (ou que plantas que sofreram mutações preferem) do que os que usam luz na­tural do sol e gravidade plena. Em nosso caso, o Regra de Ou­ro utilizava luz natural e gravidade completa para produzir a maior parte de seus alimentos frescos. Outros espaços no Re­gra de Ouro, porém, utilizam luz artificial e vários tipos de aceleração para conseguir alimentos — em que volumes, não sei. Mas o espaço imenso dos círculos 50 a 70 é a céu aberto, lado a lado, exceto pelas longarinas, amortecedores de vibra­ção e passadiços ligando os principais corredores.

No espaço desses 20 círculos — 800 metros — os raios 0-60, 120-180 e 240-300 deixam entrar a luz solar; os raios 60-120, 180-240 e 300-0 são terras agrícolas — e nos 180-240, raio 50-70, fica a Old MacDonald's Farm.

A fim de chegar ao restaurante, tínhamos que descer até o círculo 50, caminhar para trás (a plena gravidade, droga!) até o círculo 60, numa distância de cerca de 400 metros. Distância curta, certamente — uns quatro quarteirões de cidade. Mas ten­te isso andando com um pé postiço, com um coto que já fora usado demais para andar e para carregar coisas em um único dia.

Gwen notou, na minha voz, rosto, andar, ou em algu­ma outra coisa — ou leu a minha mente, quem sabe. Não tenho certeza de que ela não possa fazer isso. Parou.

Parei também.

— Problema, querida?

— Sim, senador. Arreie essa trouxa. Eu equilibro árvore-san em minha cabeça. Passe a trouxa.

— Eu estou bem.

— Sim, senhor. Certamente que está e vou mantê-lo des­sa maneira. É direito seu ser macho quando quiser... e meu direito ser feminina, delicada, fraca e irrazoável. Agora, estou a ponto de desmaiar. E fico assim até que me passe a trouxa. Pode me dar uma surra depois.

— Humm. Quando é que chega minha vez de ganhar uma discussão?

— No dia do seu aniversário, senhor. Que não é hoje. Passe a trouxa. Por favor.

Não era uma discussão que eu quisesse vencer. Entreguei a trouxa. Bill e Gwen seguiram à frente, Bill de escoteiro, abrin­do caminho. Ela nem por um momento perdeu controle do fardo equilibrado na cabeça, mesmo que a estrada não fosse um corredor macio — uma estrada de terra. Terra de verdade — uma peça de luxo inteiramente desnecessária.

Claudiquei lentamente atrás, apoiado pesadamente na ben­gala, quase sem pôr o peso no coto. Ao chegar ao restaurante ao ar livre, senti-me quase inteiramente recuperado.

O Dr. Schultz estava encostado no bar, um cotovelo no tam­po. Ele me reconheceu mas não deu sinal até que me aproxi­mei dele.

— Dr. Schultz?

— Ah, sim! — Não perguntou meu nome. — Vamos pro­curar um lugar sossegado? Eu gosto da tranqüilidade de um pomar de maçãs. Peço ao gerente para mandar colocar uma pequena mesa e algumas cadeiras lá entre as árvores?

— Pode. Mas três cadeiras, não duas. Gwen reuniu-se a nós.

— Quatro, não?

— Não. Quero que Bill olhe nossas coisas, como fez an­tes. Estou vendo uma mesa vazia ali. Ele pode botar em cima e em volta dela nossas coisas.

Pouco depois, acomodamo-nos em uma mesa que nos fo­ra preparada nos fundos do pomar. Após consultá-lo, pedi cer­veja para o reverendo e para mim, uma Coca para Gwen, e disse à garçonete para procurar o jovem com as bagagens e lhe servir o que quisesse — cerveja, Coca, sanduíches, o que fosse. (De repente dei-me conta de que Bill talvez não tivesse comido ainda nada naquele dia.)

Quando ela se afastou, enfiei a mão no bolso, saquei a nota de mil coroas e entreguei-a ao Dr. Schultz.

Ele a fez desaparecer num passe de mágica.

— Senhor, quer um recibo?

— Não.

— Negócio entre cavalheiros, ahn? Excelente. Em que posso ajudá-lo?

 

Quarenta minutos depois o Dr. Schultz sabia quase tanto a respeito de nossos problemas como nós, uma vez que não escondi nada. Ele poderia ajudar-me, ou assim me parecia, apenas se soubesse de todos os antecedentes — tanto quanto eu os conhecia — do que havia acontecido.

— O senhor disse que Ron Tolliver foi baleado? — pergun­tou ele finalmente.

— Não presenciei o fato. Ouvi o Censor-Chefe dizer. Cor­reção: ouvi um homem que falava como Franco e o Adminis­trador tratou-o como tal.

— Isso é suficiente. Ouvindo som de patas, espere um ca­valo, não uma zebra. Mas eu não soube de nada ao vir para aqui. E não notei sinais de agitação no restaurante... e o as­sassinato ou tentativa de assassinato do segundo maior sócio da empresa neste Estado soberano devia causar agitação. Esti­ve no bar durante alguns minutos antes de vocês chegarem. Ninguém comentava nada. Ora, o bar é sabidamente o lugar onde as notícias chegam primeiro. Há sempre uma tela ligada ao canal de noticiário. Hummm... poderia ser que o Adminis­trador estivesse abafando a coisa?

— Aquela serpente mentirosa é capaz de tudo.

— Eu não estava me referindo ao caráter moral dele, a res­peito do qual sua opinião coincide com a minha, mas apenas na possibilidade física. Não é tão fácil assim abafar um tiro­teio. Sangue. Barulho. Uma vítima, morta ou ferida. E o se­nhor falou em testemunhas... ou pelo menos Franco. Ainda assim, o juiz Sethos controla o único jornal, os terminais e os censores. Sim, se quisesse se dar a esse trabalho, ele poderia certamente manter a coisa na moita durante muito tempo. Ve­remos. .. e este é mais um assunto sobre o qual lhe farei rela­tório depois que o senhor chegar a Luna City.

— Talvez não fiquemos em Luna City. Vou ter que lhe telefonar.

— Coronel, isso é aconselhável? A menos que nossa pre­sença, juntos uns poucos segundos naquele bar, tenha si­do notada por alguma parte interessada que nos conheça a am­bos, é possível que tenhamos conseguido manter secreta nos­sa aliança. É realmente uma sorte que não nos tenhamos as­sociado de qualquer maneira no passado. Não há maneira pro­vável de me ligar ao senhor ou o senhor a mim. Pode me tele­fonar, claro... mas temos que supor que meu terminal estará grampeado, que meu estúdio tem dispositivo eletrônico de es­cuta, ou ambas as coisas... e as duas aconteceram no passa­do. Sugiro, em vista disso, o correio... a não ser no caso da mais grave emergência.

— Mas correspondência pode ser violada. Por falar nisso, eu sou o Dr. Ames, não coronel Campbell, por favor. E, oh, sim! Este jovem que está comigo. Ele me conhece como "se­nador" e a Sra. Durona, desde aquela pequena confusão de que lhe falei.

— Eu me lembrarei. No curso de uma longa vida, somos obrigados a viver muitos papéis. O senhor acreditaria que ou­trora fui conhecido como o "anspeçada Finnegan, dos Fuzi­leiros Imperiais"?

— Posso facilmente acreditar nisso.

— O que serve de prova, porque nunca fui. Mas fiz mui­tos trabalhos estranhos. Correspondência pode ser aberta, é verdade, mas se eu entregar uma carta a uma nave da ponte aérea para Luna City antes que ela deixe o aeroporto é muito improvável que chegue as mãos de alguém interessado em abri-la. Na direção oposta, uma carta enviada a Henrietta van Loon, aos cuidados de Madame Pompadour, 20012 Petticoat Lane, chegará às minhas mãos com uma demora de apenas minu­tos. Uma velha e tradicional dona de pensão tem anos de tra­to suave com os segredos de outras pessoas. Temos que con­fiar, acho. A arte consiste em saber em quem confiar.

— Doutor, acho que confio no senhor. Ele soltou uma risadinha.

— Meu querido senhor, eu venderia com todo prazer seu próprio chapéu, se o deixasse por esquecimento em cima de meu balcão. Mas, em essência, tem razão. Uma vez que o aceitei como meu cliente, pode confiar inteiramente em mim. Ser agente duplo poderia me provocar úlceras... e eu sou um gour­mand que nada fará que possa interferir em seus prazeres de bom de garfo.

Pareceu pensativo e acrescentou:

— Posso ver novamente aquela carteira? Enrico Schultz. Passei-lhe a carteira. Ele tirou a cédula de identidade.

— O senhor diz que a foto é fiel?

— Excelente, acho.

— Dr. Ames, o senhor deve ter compreendido que o no­me "Schultz" imediatamente me despertou a atenção. O que talvez não possa desconfiar é que a natureza variada de mi­nhas empresas torna desejável que eu tome conhecimento de cada nova chegada a este habitat. Leio o Herald todos os dias, examinando tudo mas anotando com o maior cuidado tudo de natureza pessoal. Posso lhe dizer inequivocamente que es­te homem não entrou no habitat Regra de Ouro sob o nome "Schultz". Qualquer outro nome poderia ter-me escapado. Mas meu próprio sobrenome? Impossível.

— Aparentemente, ele deu esse nome ao chegar aqui.

— Aparentemente... o senhor fala com precisão. — Schultz voltou a olhar para o documento de identidade. — Em 20 mi­nutos no meu estúdio — não, dê-me meia hora — eu poderia produzir uma carteira de identidade com esse rosto — e de qualidade também boa — que declararia que seu nome é "Al­bert Einstein".

— O senhor está dizendo que não podemos identificá-lo pela carteira?

— Espere aí. Eu não disse isso. O senhor me disse que é uma boa foto. Uma boa foto é melhor do que um nome im­presso. Muitas pessoas devem ter visto este homem. Várias têm que saber quem é ele. Um número menor por que ele foi assassinado. Se foi. O senhor deixou em aberto, com todo cuidado.

— Bem... principalmente por causa daquela incrível Dan­ça Mexicana de Chapéu que ocorreu imediatamente depois que ele foi baleado. Se foi. Em vez de confusão, aqueles quatro se comportaram como se houvessem ensaiado a coisa.

— Bem, vou investigar o assunto, empregando tanto a ce­noura como o porrete. Se um homem tem consciência culpa­da ou natureza gananciosa — e a maioria tem as duas coisas —, meios podem ser encontrados para extrair o que ele sabe. Bem, senhor, uma vez que é improvável que voltemos a nos consultar, o senhor segue em frente com o aspecto Walker Evans, enquanto eu investigo as demais perguntas em sua lis­ta. Nós nos manteremos informados dos progressos consegui­dos, especialmente no tocante ao que entra e sai do Regra de Ouro. Mais alguma coisa? Ah, sim, aquela mensagem codifi­cada... Tenciona investigá-la?

— O senhor tem alguma idéia a respeito?

— Sugiro que a guarde e a leve à sede da Mackay em Luna City. Se puderem identificar o código, a coisa torna-se uma questão de pagar honorários, lícitos ou ilícitos, para traduzi-la. Seu significado lhe dirá se eu precisarei ou não dela aqui. Se Mackay não puder ajudar, talvez possa levá-la ao Dr. Jakob Raskob, na Universidade Galileu. Ele é criptógrafo no depar­tamento de ciência de computadores... e se ele não puder des­cobrir o que fazer, não posso sugerir nada melhor do que ora­ções. Posso conservar esta foto de meu primo Enrico?

— Claro, claro. Mas mande-me uma cópia, por favor. Pos­so precisar dela para investigar o ângulo Walker Evans... Pen­sando bem, com certeza. Doutor, temos mais uma necessida­de que não mencionei.

— Sim?

— Aquele rapaz que está conosco. Ele é um fantasma, re­verendo, um andarilho da noite. E está nu. Queremos protegê-lo. O senhor conhece alguém que possa cuidar disso — e ime­diatamente? Gostaríamos de tomar a próxima nave da ponte aérea para Luna.

— Um momento, senhor. Devo inferir que seu carregador, o jovem que cuida de sua bagagem, é o marginal que fingiu ser um censor?

— Eu não deixei isto claro?

— Talvez eu tenha sido obtuso. Muito bem, aceito o fa­to, conquanto reconheça meu espanto. Quer que eu lhe for­neça simplesmente um documento? De modo que ele possa andar pelo Regra de Ouro sem medo dos censores?

— Não, exatamente. Quero mais do que isso. Quero um passaporte. Para tirá-lo do Regra de Ouro e levá-lo para o Es­tado Livre de Luna.

O Dr. Schultz puxou o lábio inferior.

— O que é que ele vai fazer lá? Não, retiro a pergunta... problema seu, não meu. Ou dele.

Gwen interveio na conversa:

— Eu vou botá-lo em forma, padre Schultz, mesmo que tenha que espancá-lo. Ele precisa aprender a manter as unhas limpas e melhorar sua sintaxe de concordância. Além disso, precisa de uma espinha dorsal. Vou dar isso a ele. Schultz fitou-a pensativo.

— Sim, acho que a senhora tem espinha suficiente para duas pessoas. Madame, permita-me dizer que embora não an­seie por imitá-la admiro-a profundamente?

— Eu odeio ver desperdícios. Bill deve ter uns 25 anos, acho, mas se comporta e fala como se tivesse 10 ou 12. Ain­da assim, ele não é estúpido. — Sorriu alegre. — Eu ensino a ele mesmo que tenha que quebrar seu coco.

— Deus a ajude. — Em seguida Schultz acrescentou sua­vemente: — Mas suponhamos que ele revele ser simplesmen­te estúpido. Que carece de capacidade para crescer.

Gwen exalou um suspiro.

— Neste caso acho que choraria um pouco e lhe arranja­ria algum lugar protegido, onde ele pudesse trabalhar no que fosse capaz de fazer e ser o que é, com dignidade e conforto. Reverendo, eu não poderia devolvê-lo à sujeira, à fome, ao me­do... e aos ratos. Viver assim é pior do que morrer.

— De fato, é. Porque não devemos temer a morte — ela é o consolo final. Como todos aprenderemos, no fim. Muito bem, um passaporte honesto para Bill. Tenho que procurar uma certa senhora — verificar se ela aceita ou não um trabalho a toda pressa. — Franziu as sobrancelhas. — Será difícil fazer isto antes da próxima nave da ponte aérea. E preciso de uma foto dele. Diabos o levem! Isso significa uma viagem a meu estúdio. Mais tempo perdido, mais riscos para vocês dois.

Gwen enfiou a mão na bolsa e tirou uma Mini Helvetia ilegal, sem licença na maioria dos lugares, mas provavelmente não abrangida pelos regulamentos do Administrador ali no habitat.

— Dr. Schultz, isto não tira uma foto suficientemente gran­de para um passaporte, eu sei, mas ela não podia ser amplia­da para o que queremos?

— Claro que poderia. Hummm, esta é uma câmera de al­ta classe.

— Gosto dela. Certa vez trabalhei para... uma agência que usava estas câmeras. Quando me exonerei, descobri que a ha­via perdido... e tive que pagar por ela. Mais tarde, encontrei-a... Estivera em minha bolsa o tempo todo... mas bem no fun­do, perdida no meio do lixo. — E acrescentou: — Vou correr e tirar uma foto de Bill.

Apressadamente, avisei:

— Use um fundo neutro.

— Pensou que eu ia usar a porta com o letreiro daqui? Li­cença, por favor. Volto logo.

Voltou minutos depois. A foto estava sendo revelada na máquina. Um minuto depois, ganhara nitidez. Entregou-a ao Dr. Schult.

— Isto serve?

— Excelente. Mas o que é este fundo, se posso perguntar.

— Uma toalha de bar. Frankie e Juanita estenderam-na atrás da cabeça de Bill.

— Frankie e Juanita — repeti. — Quem são eles?

— O garçom-chefe e o gerente. Gente bacana.

— Gwen, eu não sabia que você era conhecida aqui. Isto pode dar problema.

— Eu não sou conhecida aqui. Nunca estive aqui antes, queridor Eu estava acostumada a ir ao The Chuck Wagon in Lazy Eight Spread, no raio 90... lá dançam quadrilha. — Gwen olhou para cima, apertando as pálpebras para se defender da luz do sol, que vinha diretamente de cima — o habitat, em seu majestoso giro, estava justamente cruzando o arco que coloca­va o sol no zênite para a Old MacDonald's Farm. Apontou pa­ra cima — bem para 60 graus acima, tinha que estar lá. — Ali, estão vendo, o The Chuck Wagon. A pista de dança fica bem em cima dele, na direção do sol. Estão dançando lá? Podem ver alguma coisa? Uma longarina está obstruindo parcialmen­te minha vista.

— Está longe demais para que eu possa dizer com certeza — reconheci.

— Estão dançando — confirmou o Dr. Schultz. — Texas Star, acho. Sim, as evoluções são essas. Ah, mocidade, moci­dade! Eu não danço mais, mas, às vezes, fui ao The Chunk Wagon. Eu a teria visto lá por acaso, Sra. Ames? Acho que não.

— E eu acho que sim — respondeu Gwen. — Mas naque­le dia eu estava mascarada. Gostei quando me tirou para dan­çar, doutor. O senhor tem um verdadeiro toque de veterano.

— Louvor mais alto eu não poderia esperar. "Mascarada..." Por acaso usava um vestido em faixas de verde e branco? E saia rodada?

— Mais do que roda inteira. Fazia ondas todas as vezes em que meu par me fazia girar — pessoas se queixaram que a vista as deixava tontas. O senhor tem excelente memória.

— E a senhora é uma excelente dançarina, madame. Um pouco irritado, interrompi-os:

— A gente não podia acabar com esta história dos velhos tempos? Há ainda coisas urgentes a fazer e ainda estou com esperança de pegar a ponte aérea das 20h.

Schultz sacudiu a cabeça.

— Vinte horas? Impossível, senhor.

— Por que é impossível? Temos mais de três horas à fren­te. Fico nervoso com a idéia de esperar por uma nave mais tarde. Franco pode resolver mandar seus brutamontes atrás de nós.

— O senhor pediu um passaporte para o Bill. Dr. Ames, até mesmo a pior imitação de passaporte precisa de mais tem­po que isso. — Calou-se e pareceu-me menos com Papai Noel e mais com um velho cansado e preocupado. — Mas seu prin­cipal objetivo é tirar Bill deste habitat e levá-lo para a lua, não?

— É...

— Suponhamos que o leve em estado de servidão por pe­ríodo certo.

— Ahn? Não se pode levar um escravo para o Estado Li­vre de Luna.

— Sim e não. Pode levar um escravo até a Lua... mas ele fica automaticamente livre, na ocasião e para sempre, quando puser os pés em Luna. Isto foi o que aqueles condenados exi­giram e conseguiram quando se evadiram. Dr. Ames, posso fornecer uma nota fiscal com o contrato de servidão de Bill em tempo para a nave da noite, tenho quase certeza. Tenho um suprimento de papel timbrado oficial — autêntico, mediante requisição irregular — e há tempo para enrugar e envelhecer o documento. Realmente, este método é muito mais seguro do que tentar fabricar um passaporte a toda pressa.

— Curvo-me ao seu julgamento profissional. Como, quan­do e onde pego o documento?

— Hummm, não no meu estúdio. Conhece um pequeno bistrô vizinho ao espaçoporto, um décimo de gravidade no raio 300? O The Spaceman's Widow?

Eu ia dizer que não, mas que o encontraria, quando Gwen falou:

— Sei onde fica. Temos que ir por trás do armazém do Macy's para chegar lá. Não tem tabuleta.

— Isso mesmo. Na verdade é um clube particular, mas eu lhes dou um cartão. Podem relaxar por lá e comer alguma coi­sa. Ninguém os incomodará. Os fregueses tendem a cuidar de seus próprios negócios.

(Porque os negócios deles são contrabando ou alguma outra coisa ilegal — mas eu não disse isso.)

— Serve para mim.

O reverendo doutor tirou um cartão do bolso, começou a escrever alguma coisa, parou.

— Nomes?

— Sra. Durona — respondeu imediatamente Gwen.

— Concordo — disse sério o Dr. Schultz. — Uma precau­ção bem apropriada. Senador, qual é o seu sobrenome?

— Não pode ser "Cantor". Eu poderia por acaso topar com uma pessoa que conheça o senador Cantor. Hummm.... Durona?

— Não, ela é sua secretária, não sua esposa. "Johnson." Houve mais senadores com o nome "Johnson" do que qual­quer outro, de modo que não desperta suspeitas — e combina com o sobrenome de Bill... Isto pode ser útil. — Terminou o cartão e entregou-o. — O nome do dono é Tiger Kondo e ele ensina todos os tipos de morte rápida, nos momentos de fol­ga. Pode confiar nele.

— Obrigado, senhor. — Olhei para o cartão rapidamente, enquanto o guardava. — Doutor, quer agora mais uma parte de seus honorários?

Ele sorriu jovialmente.

— Ora, ora! Não resolvi ainda em quanto vou sangrá-lo. Meu lema é "Tudo o que o tráfico possa fornecer", mas nunca torne a vítima anêmica.

— Razoável. Até depois, então. Seria melhor que não saís­semos juntos.

— Concordo. Dezenove horas é meu melhor palpite. Que­ridos amigos, foi um prazer e uma honra. E não esqueçamos a verdadeira importância deste dia. Minhas felicitações, ma­dame. Meus parabéns, senhor. Que a vida de vocês, juntos, seja longa, tranqüila e cheia de amor.

Gwen pôs-se nas pontas dos pés e beijou-o por ter dito isso, e ambos tinham lágrimas nos olhos. Bem, e eu também.

 

"Os biscoitos e o melado nunca saem iguais."

Lazaraus Long, 1912—

 

Gwen levou-nos diretamente ao Spaceman's Widow, um lugarzinho escondido atrás dos armazéns da Macy's, exatamen­te como ela dissera, em um desses estranhos pequeninos cantos formados pela forma cilíndrica do habitat — e se a pessoa não soubesse que estava lá provavelmente nunca o descobriria. E era agradavelmente silencioso depois das multidões que ha­víamos encontrado na extremidade do eixo, onde ficava o espaçoporto.

De modo geral, essa extremidade era reservada apenas para naves de passageiros. Os cargueiros usavam a outra. O posi­cionamento do novo acréscimo para erguê-lo e soldá-lo à es­trutura fizera com que todo o tráfego fosse desviado para a direção da Lua, ou extremidade fronteira — "fronteira" por­que o Regra de Ouro era suficientemente comprido para apre­sentar um leve efeito de maré, e terá ainda mais disto quando o novo acréscimo estiver no lugar. Não quero dizer que tenha suas marés diárias. Não tem. Mas o que de fato tem...

(Posso estar falando demais. Tudo depende do quanto você sabe sobre habitais. Pode saltar esta parte sem perder grande coisa).

O que, de fato, tem é uma orientação de maré com Luna: a extremidade dianteira aponta sempre em linha reta para a Lua. Se o Regra de Ouro fosse do tamanho de uma nave de ponte aérea, ou estivesse tão longe como Ellfive, isto não acon­teceria. O Regra de Ouro, porém, tem mais de cinco quilôme­tros de comprimento e descreve uma órbita em torno de um centro de massa que fica a apenas pouco mais de 2.000 quilô­metros de distância. Claro, isto é apenas uma parte em 400 — mas é uma função quadrática, não há atrito e o efeito conti­nua para sempre. Fica acoplado. A ligação de maré que a Ter­ra tem com Luna é apenas quatro vezes maior que isso — muito menos se você levar em conta que Luna é redonda como uma bola de tênis, ao passo que o Regra de Ouro lembra mais um charuto.

O Regra de Ouro possui outra peculiaridade orbital. Des­creve sua órbita de pólo a pólo (tudo bem, todo mundo sabe disso — desculpem), mas, além disso, esta órbita, elíptica mas formando um círculo quase perfeito, tem este círculo inteira­mente virado para o Sol, isto é, o plano de sua órbita dá fren­te para o Sol, sempre, enquanto Luna gira embaixo dele. Tal como o pêndulo de Foucault. Tal como os satélites espiões que patrulham a Terra.

Ou, mudando as palavras, o Regra de Ouro simplesmen­te segue o círculo de iluminação, a linha dia-e-noite de Luna, em volta, para sempre — nunca na sombra. (Bem... na som­bra nos eclipses lunares, se quer descer a detalhezinhos. Mas só nessa ocasião.)

Esta configuração é apenas meta-estável, não fixa. Tudo e todos o puxam, até Saturno e Júpiter. Mas há um pequeno computador-piloto no Regra de Ouro que nada faz senão cer­tificar-se de que a órbita do habitat conserva-se sempre de frente para o Sol — o que dá a Old MacDonald's Farm suas abundantes colheitas. Para isso não é preciso energia que valha a pena mencionar, apenas às menores das cutucadas para corrigir os mais minúsculos dos desvios.

Tomara que você tenha saltado essa parte. A balística é in­teressante apenas para aqueles que a usam.

 

O Sr. Kondo era baixo, aparentemente de origem japone­sa, muito polido, e possuía músculos tão lisos como os de um jaguar — e movia-se como um deles. Mesmo sem a dica do Dr. Schultz, eu teria sabido que não quereria encontrar Tiger Kondo em um beco escuro, a menos que ele estivesse lá para me proteger.

A porta não se abriu de todo até que lhe mostrei o cartão do Dr. Schultz. Imediatamente ele nos colocou à vontade com uma hospitalidade formal, mas calorosa. O lugar era peque­no, cheio apenas pela metade, e as mulheres não eram (pen­sei) as esposas daqueles homens. Mas tampouco piranhas. À impressão que dava era de profissionais em igualdade de con­dições. O dono da casa nos avaliou com um olhar, chegou à conclusão que nosso lugar não era com os habitues da casa, colocou-nos em uma pequena sala ou cabine lateral, suficien­te para nós três e nossa bagagem, mas por pouco. Em segui­da recebeu nossos pedidos. Perguntei-lhe se havia jantar.

— Sim e não — respondeu ele. — Há sushi. E sukiyaki co­zido na mesa pela minha filha mais velha. Pode-se arranjar hamburgers e cachorros quentes. Há também pizza, mas está congelada. Nós não a fazemos. Ou recomendamos. Esta casa é principalmente um bar. Servimos comida, mas não exigimos que os freqüentadores comam aqui. O senhor pode jogar go, xadrez ou cartas a noite toda e não pedir nada.

Gwen pôs a mão no meu braço.

— Posso?

— À vontade.

Ela lhe falou durante algum tempo e eu não entendi absolutamente nada. Mas o rosto dele se iluminou. Fez uma cur­vatura e se afastou. Eu disse:

— Então?

— Perguntei se podíamos comer o que experimentei na úl­tima vez... e isto não é um prato específico, mas um convite para que Mama-San use seu critério com o que acaso tenha. O que o levou a reconhecer que estive aqui antes... o que ele nunca teria feito, se eu não tivesse dito isto, já que estive aqui com outro homem. Ele também me disse que nosso brinquedinho aqui é a melhor espécie de bordo que já viu fora do Ja­pão... e eu lhe pedi que o aguasse para nós antes de irmos embora. Ele vai fazer isso.

— Você disse a ele que somos casados?

— Não foi necessário. A expressão idiomática que usei ao me referir a você deixou isso implícito.

Tive vontade de perguntar a ela como e quando aprende­ra japonês, mas não. Gwen me diria quando lhe fosse conve­niente. (Quantos casamentos vão à ruína por causa daquela velha coceira de saber "tudo" sobre seu cônjuge? Como vete­rano de incontáveis histórias de confissões verdadeiras, garanto que a curiosidade sem freios sobre o passado da esposa é uma fórmula segura para provocar tragédia doméstica).

Em vez disso, dirigi-me a Bill:

— Bill, esta é sua última oportunidade. Se quer ficar no Regra de Ouro, a hora de ir embora é esta. Depois de ter jan­tado, quero dizer. Mas após o jantar vamos descer para Luna. Você pode vir conosco ou ficar aqui.

Bill pareceu espantado.

— Ela disse que eu tenho escolha? Gwen falou secamente:

— Claro que você tem! Pode ir conosco... caso em que exi­girei que se comporte como ser humano civilizado o tempo todo. Ou você pode ficar no Regra de Ouro e voltar a seu ter­ritório... e dizer a Dedos que botou a perder o trabalho que ele o encarregou.

— Eu não baguncei nada! Foi ele. Significando eu. Decidi:

— Isso resolve, Gwen. Ele não gosta de mim. Não o que­ro à minha volta — e muito menos sustentá-lo. Uma dessas noites, ele bota veneno na minha sopa.

— Ele não faria uma coisa dessas. Faria, Bill?

— Oh, não faria? — observei. — Notou como ele demo­rou a responder? Gwen, hoje cedo ele tentou atirar em mim. Por que eu deveria ter que tolerar seu comportamento mal-humorado?

— Richard, por favor! Você não pode esperar que ele me­lhore da noite para o dia.

A discussão irresponsável foi interrompida pelo Sr. Kondo, que nesse momento voltara para preparar a mesa para o jantar... incluindo pregadores para nossa pequena árvore. Um décimo de gravidade normal da Terra é suficiente para man­ter comida em um prato, manter os pés no chão — mas por pouco. As cadeiras ali eram presas ao chão, havia cintos de segurança para quem quisesse usá-los... Não os usei, mas um cinto tem suas vantagens, se a gente tem que cortar um bife duro. Cálices e xícaras tinham tampas e asas. Esta era talvez a adaptação mais necessária: o cara pode facilmente escaldar-se pegando uma xícara de café quente em 1/10 de gravidade — o peso é nada, mas a inércia continua a ser a mesma... e ele derrama e dá um banho na pessoa.

No momento em que colocava os pratos e os pauzinhos de comer ao meu lado, o Sr. Kondo disse baixinho ao meu ouvido:

— Senador, é possível que o senhor tenha estado presen­te na descida de pára-quedistas em Solis Lacus?

Respondi, contente:

— Claro que estive, meu chapa! Você também? Ele fez uma curvatura.

— Tive essa honra.

— Que unidade?

— "Vou Até o Fim, Oahu."

— A velha "Vou Até o Fim" — retruquei, reverente. — A unidade mais condecorada de toda a história. Orgulhe-se, ho­mem, orgulhe-se!

— Em nome de meus camaradas, agradeço. E o senhor, senhor?

— Saltei com... os "Matadores de Campbell". O Sr. Kondo sugou o ar com os dentes.

— Ah, então, ela! Motivo de orgulho, realmente.

Fez nova mesura e dirigiu-se rapidamente para a cozinha.

Olhei sombriamente para meu prato. Descoberto... Kon­do havia me reconhecido. Mas quando chegar o dia em que, perguntando de cara, eu repudiar meus camaradas, não se preocupem em tomar meu pulso, nem mesmo se importem em me mandar cremar — simplesmente me tirem dali com o lixo.

 

— Richard?

— Ahn? Sim, querida?

— Você me dá licença?

— Claro. Sente-se bem?

— Muito bem, obrigada, mas há uma coisa que tenho que fazer.

Saiu, dirigiu-se para o passadiço que levava à sala de es­tar e à saída movendo-se daquele jeito imponderável que é mais dança do que andadura — a um décimo de gravidade a caminhada normal só pode ser feita usando-se pegadores magnéticos ou qualquer outra coisa, ou tendo muita práti­ca. Kondo não usava pegadores... e deslizava como se fosse um gato.

— Senador?

— Sim, Bill?

— Ela está piçuda comigo?

— Acho que não. — Eu ia acrescentar que ficaria aborreci­do com ele se insistisse em... depois calei-me, mentalmente.

Ameaçar deixá-lo ali parecia demais com abandonar um be­bê. Ele não tinha proteção. — Ela simplesmente quer que você se torne responsável e não ponha a culpa nos outros por seus atos. Não dê desculpas.

Tendo dito minha banalidade favorita a pessoas que pre­cisavam de um reforço, voltei à minha sombria auto-análise. Eu dava desculpas. Sim, mas não em voz alta, apenas para mim mesmo. Isto em si é uma desculpa, meu chapa — o que quer que você tenha feito, onde quer que tenha estado, tudo isso é, na totalidade, 100% falta sua.

Ou para crédito meu. Sim, mas danado de pouco. Ora va­mos, fale a verdade.

Mas vejam só onde comecei... e, ainda assim, subi o ca­minho todo até coronel.

Na turma mais cheia de filhos da puta, mais ordinária, ladravaz, saqueadora, de bandidos desde as Cruzadas.

Não fale dessa maneira sobre o Regimento.

Muito bem. Mas eles não eram a Guarda da Rainha, certo?

Aqueles almofadinhas! Ora, um único pelotão dos Mata­dores de Campbell...

Merda.

 

Gwen voltou, tendo estado longe por muito tempo — oh, um bocado de tempo. Eu não havia conferido as horas, mas, naquele momento, notei, eram quase 6h. Tentei me levantar — o que não é prático com cadeiras e mesa presas ao chão. Ela perguntou:

— Atrasei o jantar?

— Nem um pouco. Comemos e jogamos o resto aos porcos.

— Tudo bem. Mama-San não vai deixar que eu passe fome.

— E Papa-San não serve o jantar sem você.

— Richard, eu fiz uma coisa sem consultá-lo.

— Não conheço nada no livro que diz que você não pode. A gente pode arrumar as coisas com os guardas?

— Nada parecido com isso. Você deve ter notado o movi­mento, o dia todo... de gente usando fez... excursionistas vin­dos da convenção dos Shriners em Luna City.

— Então é isso que eles são. Pensei que a Turquia havia nos invadido.

— Se quiser. Mas viu-os hoje, subindo e descendo a Lane e o Camino, comprando tudo que não morde. Acho que a maio­ria não vai passar a noite aqui. Têm um programa completo em Luna City e quartos de hotel pelos quais já pagaram. As últimas naves certamente estarão superlotadas...

— Com turcos bêbados vomitando dentro do fez. E nas almofadas.

— Sem dúvida. Eu pensei que mesmo a nave das 20h pro­vavelmente teria toda a lotação comprada com muita antece­dência. De modo que comprei passagens para nós e reservei camas.

— E agora você espera que eu a indenize? Submeta um pedido e eu o mandarei ao meu departamento jurídico.

— Richard, eu estava com medo de não conseguirmos sair absolutamente daqui hoje à noite.

— Sra. Durona, a senhora continua a me impressionar. Qual foi o total?

— Podemos acertar depois esta questão de finanças. Eu simplesmente achei que poderia jantar em um estado de es­pírito mais alegre se estivesse certa que poderíamos ir embo­ra imediatamente depois. E, ahn... — Interrompeu-se e olhou para Bill. — Bill.

— Sim, madame.

— Nós vamos jantar já. Vá lavar as mãos. — Ahn?

— Não rosne. Faça o que eu mandei.

— Sim, madame.

Docilmente, Bill se levantou e saiu. Gwen voltou-se novamente para mim.

— Eu estava nervosa. Inquieta. Por causa do Limburger.

— Que Limburger?

— O seu Limburger, querido. Parte do que eu tirei de sua dispensa, e depois coloquei na bandeja de frutas e queijos quando almoçamos. Sobrou uma porção de 100 gramas, in­teira, ainda na embalagem metálica, quando terminamos. Em vez de jogá-la fora, guardei-a na bolsa. Pensei que daria um bom lanche...

— Gwen.

— Tudo bem, tudo bem! Guardei-o com uma finalidade, porque o usei numa guerra de espelhos antes disso. É muito mais decente que algumas outras coisas na lista. Ora, você nem acreditaria o que...

— Gwen. Eu escrevi aquela lista. Volte ao assunto.

— No gabinete do Dr. Sethos, você deve lembrar-se de que eu me sentei quase colada ao anteparo e junto da principal saí­da de ventilação. Senti uma corrente de ar nas pernas e desa­gradavelmente quente. Comecei a pensar...

— Gwen.

— Elas são todas iguais, em todo o habitat — controle lo­cal, tanto de calor quanto de volume. E a tampa é a pressão. Enquanto a Contabilidade trabalhava em nosso demonstrati­vo final e o Administrador cuidadosamente nos ignorava, bai­xei o volume e o calor para neutro e tirei a tampa. Passei o queijo Limburger por todas as saídas do intercambiador de ca­lor e joguei o resto tão no fundo quanto consegui, e novamente recoloquei a tampa. Em seguida, pouco antes de sairmos de lá, liguei o controle de calor para "frio" e aumentei o volume. — Ela pareceu preocupada. — Está com vergonha de mim?

— Não. Mas estou satisfeito porque você está do meu la­do. Ahn... você está, não está?

— Richard!

— Mas estou ainda mais contente porque você fez reser­vas na próxima nave. Quanto tempo vai demorar até que Se­thos sinta frio e ligue o calor?

O que comemos no jantar foi delicioso, não sei o nome de prato nenhum, de modo que vou ficar por aqui. Havíamos chegado justamente à fase do arroto quando o Sr. Kondo apa­receu, aproximou-se de minha orelha e disse:

— Senhor, por favor, venha comigo.

Segui-o até a cozinha. Mama-San levantou a cabeça do tra­balho, e depois não nos deu mais atenção. O reverendo Dr. Schultz estava ali, com aparência preocupada.

— Problemas? — perguntei.

— Apenas um momento. Esta é a sua foto de Enrico. Tirei uma cópia. Aqui os documentos de Bill. Por favor, examine-os.

Em um envelope usado, os documentos estavam enruga­dos, gastos, um tanto amarelos e mais do que sujos em alguns lugares. A Hercules Manpower, Inc. contratara William Sem Nome Intermediário Johnson, de Nova Orleans, Ducado de Mississipi, República da Estrela Solitária, que por seu lado ven­dera o contrato de servidão a Bechtel High Construction Corp. (contrato endossado para espaço, queda livre e vácuo), que por sua vez o vendera ao Dr. Richard Ames, habitat Regra de Ouro, circum Luna, etc. — o resto era conversa de advogado. Grampeado ao contrato havia uma certidão de nascimento mui­to honesta, dizendo que Bill era um enjeitado, fora abandona­do na Metairie Parish, com uma data de nascimento de três dias antes do dia em que fora encontrado.

— Grande parte disso é verdade — garantiu-me o Dr. Schultz. — Consegui arrancar alguns velhos registros do com­putador principal.

— Importa se for verdade ou não?

— Realmente, não. Enquanto for suficientemente hones­to para tirar Bill daqui.

Gwen me seguira. Tomou-me os documentos, leu-os.

— Estou convencido, padre Schultz, que o senhor é um artista.

— Uma senhora que conheço é a artista. Mas transmitirei seus elogios. Amigos, agora as más notícias. Tetsu, pode lhes mostrar?

O Sr. Kondo recuou para os fundos da cozinha. Mama-San (a Sra. Kondo, quero dizer) deu um passo para o lado. O Sr. Kondo ligou o terminal. Digitou o Herald, pediu algu­ma coisa — notícias de última hora, acho. Descobri-me olhan­do para mim mesmo.

Comigo, em meia tela, Gwen — numa imagem medíocre. Eu não a teria reconhecido, não fosse o áudio:

"... Ames. Sra. Gwendolyn Novak. A mulher é uma co­nhecida vigarista que tosquiou numerosas vítimas, principal­mente homens, em bares e restaurantes da Petticoat Lane. O pretenso 'Dr.' Ames, nenhum meio de sustento conhecido, desapareceu de seu endereço no círculo 65, raio 15, a 4/10 de gravidade. Os tiros foram disparados às 20h16m esta tarde no gabinete do sócio do Regra de Ouro, Tolliver"...

— Hei! — exclamei. — Essa hora está errada. Nós está­vamos...

— Isso mesmo. Vocês estavam comigo na Farm. Ouça o resto.

"... Segundo testemunhas oculares, ambos os assassinos dispararam. Acredita-se que continuem armados e sejam pe­rigosos. Utilizem a maior cautela para prendê-los. O Adminis­trador está profundamente abalado com a morte de seu velho amigo e ofereceu uma recompensa de dez mil coroas por..."

O Dr. Schultz estendeu a mão e desligou o aparelho.

— Daí em diante é só repetição. A proclamação está em um loop. Mas é transmitida como notícia de última hora em todos os canais. Por esta hora, a maioria dos habitantes deve tê-la assistido.

— Obrigado por nos avisar. Gwen, você não sabe que não se deve atirar em ninguém? Você é uma menina muito levada.

— Sinto muito, senhor. Caí em más companhias.

— Desculpas, novamente. Reverendo, que diabo vamos fa­zer? Aquele calhorda vai nos jogar no espaço antes do anoitecer.

— Esse pensamento me ocorreu. Hei, veja se isto dá em você.

De algum lugar em sua ampla pessoa ele tirou um fez. Experimentei-o.

— Dá bem.

— E agora isto.

Era uma venda de olho de veludo preto, com elástico. Coloquei-a e cheguei à conclusão de que não gostava de ter um olho tapado, mas fiquei calado. Papa Schultz evidentemente fizera um esforço de imaginação para impedir que eu respi­rasse vácuo.

— Oh, Deus! — exclamou Gwen. — Isso resolve!

— Exatamente — concordou o Dr. Schultz. — Um tapa olho atrai de tal maneira a atenção da maioria dos observadores que é preciso um esforço consciente para ver a fisionomia. Eu sem­pre tenho um à mão. Esse fez e a presença dos Nobres do San­tuário Místico fora uma feliz coincidência.

— O senhor tinha também um fez à mão?

— Não, exatamente. Ele, de fato, tem um antigo dono. Quando ele acordar, pode sentir falta... mas não acho que vá acordar muito cedo. Meu amigo Mickey Finns está cuidando dele. Mas seria bom evitar quaisquer membros do Templo Al Mizar. Os sotaques deles podem ajudar a identificá-los. São do Alabama.

— Doutor, vou evitar todos eles, tanto quanto puder. Acho que devo embarcar no último minuto. Mas, e Gwen?

O reverendo doutor mostrou outro fez.

— Experimente este, querida senhora.

Gwen obedeceu. O fez desceu sobre ela como um apaga-dor de velas. Tirou-o.

— Não acho que me melhore. Não combina com minha tez. O que é que você acha?

— Lamento dizer que acho que você tem razão.

— Doutor — disse eu —, os Shriners são duas vezes mais volumosos que Gwen, em todas as direções, e têm protube­râncias em lugares diferentes. Tem que ser outra coisa. Ma­quiagem de artista?

Schultz sacudiu a cabeça.

— Maquiagem de artista sempre parece maquiagem de artista.

— Foi uma foto muito ruim dela que mostraram no termi­nal. Ninguém vai reconhecê-la com base naquilo.

— Obrigada, meu amor. Infelizmente, há muitas pessoas no Regra de Ouro que sabem como eu sou... e apenas uma delas na câmara de embarque hoje à noite poderia reduzir dras­ticamente minha expectativa de vida. Hummm. Com um pouco de esforço e nada de maquiagem eu poderia mostrar minha verdadeira idade. Papa Schultz?

— Qual é sua verdadeira idade, querida moça?

Ela me lançou um olhar, levantou-se nas pontas dos pés e murmurou alguma coisa no ouvido do Dr. Schultz. Ele pa­receu surpreso.

— Não acredito nisso, E, não, não ia dar certo. Precisamos de alguma coisa melhor.

A Sra. Kondo falou rapidamente com o marido. Ele pare­ceu subitamente alerta, trocaram algumas palavras rápidas no que tinha que ser japonês. Ele passou ao inglês.

— Posso, por favor? Minha esposa observou que a Sra. Gwen tem a mesma altura, quase a mesma altura, que nossa filha Naomi... e, de qualquer maneira, quimonos são muito... flexíveis.

Gwen parou de sorrir.

— É uma idéia... e eu agradeço a ambos. Mas eu não pa­reço nipônica. Meu nariz. Meus olhos. Minha pele.

Houve mais conversas e trocas de palavras naquela língua rápida mas de palavras compridas, três pessoas ao mesmo tem­po. Finalmente Gwen disse:

— Isto poderá prolongar minha vida. De modo que, com licença.

Saiu em companhia de Mama-San.

Kondo voltou ao salão principal: luzes vinham piscando há vários minutos, solicitando serviço. Ele as ignorara. Eu disse ao bom doutor:

— O senhor prolongou nossa vida simplesmente — Gwen! — exclamei. —Sim?

— Gwen, isto é maravilhoso! Mas diga-nos, rápido, que nomes usou quando fez nossas reservas?

— Ames e Novak. Para combinar com nossos passaportes.

— Isto liquida a coisa. O que faremos, doutor? Gwen relanceou a vista entre nós dois.

— Por favor, qual é a dificuldade? Expliquei:

— Nós vamos ao portão de embarque, os dois bem disfar­çados... e nossas reservas mostram os nomes Ames e Novak. Cai o pano. Nada de flores.

— Richard, eu não lhe contei tudo.

— Gwendolyn, você nunca conta inteiramente tudo. Mais Limburger?

— Não, querido. Eu pensei que a coisa podia acabar desta maneira. Bem, acho que você pode dizer que desperdicei um monte de dinheiro. Mas eu... ahn, depois que comprei nos­sas passagens — passagens que não podemos mais usar e que estão perdidas... fui até a ala das naves de aluguel e fiz um depósito por um U-Pushit. Um esportivo Volvo.

— Sob que nome? — perguntou Schultz. Eu perguntei:

— Quanto?

— Usei meu nome verdadeiro...

— Valha-nos Deus! — exclamou Schultz.

— Apenas um momento, senhor. Meu nome verdadeiro é Sadie Lipschitz... e Richard é o único que sabe disso. E o senhor, agora. Por favor, guarde segredo disto, porque não gos­to do nome. Como Sadie Lipschitz reservei um Volvo para meu patrão, o senador Richard Johnson, e fiz o depósito. Seis mil coroas.

Soltei um assovio.

— Por um Volvo? Até parece que você o comprou.

— De fato, comprei-o, querido, tive que comprar. Tanto o aluguel como o depósito tiveram que ser feitos em dinheiro porque eu não tinha cartão de crédito. Oh, de fato tenho, em número suficiente para jogar paciência. Mas Sadie Lipschitz não tem crédito. De modo que tive que pagar seis mil simples­mente para reservá-lo... alugá-lo, mas com contrato de venda. Tentei conseguir um abatimento, mas com os Shriners na ci­dade, ele tinha certeza de que poderia vendê-lo.

— No que provavelmente tinha razão.

— Acho que sim. Se o pegarmos, temos ainda que com­pletar o pagamento de lista dos preços regulares, mais 19 mil coroas...

— Meu Deus!

— ... mais seguro e propina. Mas receberemos de volta o saldo não utilizado se o entregarmos aqui, em Luna City ou em Hong Kong Luna em 30 dias. O Sr. Dockweiler explicou o motivo do contrato de compra. Mineiros de asteróides, ou melhor, garimpeiros, andaram alugando naves sem pagar to­do o preço, levando-as para algum esconderijo em Luna e modificando-as para mineração.

— Um Volvo? A única maneira de levar um Volvo aos as­teróides seria no porão de carga de um Hanshaw. Mas, 19 mil... não, 25 mil coroas. Mais seguro e bola. Uma deslavada rouba­lheira.

Schultz falou-me um tanto seco:

— Amigo Ames, sugiro que deixe de comportar-se como o escocês da fábula com um refrescador operado a moeda. Acei­ta o que a Sra. Ames conseguiu arranjar? Ou prefere a rota de ar fresco do Administrador? Fresco mas... rarefeito.

Tomei uma profunda respiração.

— Desculpe. O senhor tem razão. Não posso respirar di­nheiro. Mas simplesmente odeio ser explorado. Gwen, per­dão. Tudo bem, onde fica a Hertz, a partir daqui? Estou desorientado.

— Hertz, não, querido, Budget Jets'. A Hertz não tinha nem uma única unidade de sobra.

 

"Murphy era um otimista. "

(Comentário de OToole à Lei de Murphy, citada por A. Bloch)

 

Para chegar ao escritório da Budget Jets tínhamos que la­dear os fundos da sala de espera do espaçoporto e entrar na mesma pelo eixo, e em seguida seguir diretamente até a porta da agência. A sala estava congestionada — a multidão habi­tual, mais Shriners e suas esposas, a maioria presa por cintos aos descansos da parede, alguns flutuando livres. E censores — um numero excessivo deles.

Talvez eu deva explicar que a sala de espera — e o balcão de venda de passagens, a câmara pneumática para o túnel de embarque de passageiros e as instalações dos escritórios de aluguel de naves — estão todos em queda livre, em estado de imponderabilidade; não fazem parte do majestoso giro que dá ao habitat sua pseudogravidade. A sala de espera e ativi­dades correlatas situam-se em um cilindro dentro de outro mui­to maior, o próprio habitat. Os dois cilindros têm um eixo co­mum. O grande gira; o menor, não — tal como uma roda gi­rando em torno de um eixo.

Isto exige uma válvula de vácuo na superfície externa do habitat no ponto onde os dois cilindros se tocam — uma de tipo mercúrio, acho, mas nunca a vi. O importante é que em­bora o habitat circundante gire, o espaçoporto de maneira ne­nhuma pode girar porque uma nave de ponte aérea (ou um transatlântico, um cargueiro ou mesmo um Volvo precisa de um lugar fixo em queda livre para atracar. As baias de atra­cação das naves de aluguel formam uma roseta em torno do espaço de pouso principal.

Ao cruzar a sala de espera, evitei qualquer contato olho a olho e segui direto para meu destino, uma porta em um canto à frente da sala. Gwen e Bill me seguiam. Ela trazia a bolsa pendurada no pescoço e protegia a árvore bonsai com uma das mãos e agarrava meu tornozelo com a outra; Bill segurava um dos tornozelos dela e rebocava um embrulho na embala­gem da Macy's, o logotipo da loja proeminente e à vista de todos. Não sei o que aquele papel originariamente embrulha­ra, mas nesse momento escondia a valise menor de Gwen, a parte que não era de roupas.

O resto de nossa bagagem? Seguindo o primeiro princí­pio de quem quer salvar o pescoço, havíamos nos desfeito de­la. Ela nos teria indicado como impostores — para uma via­gem secundária de um único dia, Shriners em férias não le­vam grandes cargas de bagagem. A mala menor de Gwen po­díamos salvar porque, disfarçada com o papel de embrulho da Macy's, parecia o tipo de compras que muitos Shriners ha­viam evidentemente feito. E o mesmo acontecia com a minús­cula árvore — exatamente o tipo de compra tola e trabalhosa de levar que turistas geralmente fazem. Mas o resto da baga­gem teve que ser abandonada.

Oh, quem sabe, talvez pudesse ser-nos enviada algum dia, se por meios seguros pudessem ser encontrados. Mas eu a ris­caria de nossos inventários. O Dr. Schultz, censurando-me por ter reclamado o custo da transação feita por Gwen, havia me reorientado. Eu me permitira tornar-me mole, sedentário e domesticado — ele me obrigara a trocar de marchas no mundo real, onde só há duas raças de pessoas: as rápidas e as mortas.

Verdade esta, aliás, da qual me tornei agudamente cons­ciente ao cruzar a sala de espera: o censor-chefe Franco vinha atrás de nós. Aparentemente sem nos perceber e eu fazendo o possível para não notá-lo. Ele parecia interessado apenas em chegar ao grupo de capangas que guardavam a câmara pneu­mática de entrada para o túnel de passageiros. Mergulhou di­retamente na direção deles, enquanto eu puxava minha peque­na família ao longo de uma linha vital que se estendia da en­trada até o canto que queria atingir.

E consegui, cheguei à porta da Budget Jets, que se con­traiu atrás de nós, voltei a respirar e reengoli o estômago.

 

No escritório da Budget Jets encontramos o gerente, um tal de Sr. Dockweiler, amarrado à escrivaninha, fumando cha­ruto e lendo a edição de Luna do Daily Racing Form. Ele nos olhou quando entramos e disse:

— Sinto muito amigos, mas não temos nada para alugar ou vender. Nem mesmo uma vassoura de feiticeira.

Lembrei-me de quem era — o senador Richard Johnson, representante de um sindicato imensamente rico, que se es­tendia por todo o Sistema, de cheiradores de sassafrás, um dos lobistas mais poderosos em Haia — e deixei que a voz do senador falasse por mim:

— Filho, eu sou o senador Johnson. Sei que uma de mi­nhas assessoras fez uma reserva em meu nome hoje cedo... de um Hanshaw Superb.

— Oh! Prazer em conhecê-lo, senador — disse ele, pren­dendo o jornal à mesa e soltando o cinto de poltrona. — Sim, de fato temos sua reserva. Mas não é um Superb. É um Volvo.

— O quê! Ora, eu disse claramente à moça... Não impor­ta. Mude a reserva, por favor.

— Eu gostaria muito, senhor, mas não temos mais nada.

— Lamentável. O senhor poderia ter a gentileza de con­sultar seus colegas das outras agências, perguntando se...

— Senador, não há uma única unidade de sobra para alu­gar em todo o Regra de Ouro. A Morris Garage, a Lockheed-Volkswagen, a Hertz, a Interplanet... todos estamos nos con­sultando nesta última hora. Nenhuma chance. Nada feito. Ne­nhuma unidade.

Era tempo de ser filosófico, tolerante.

— Neste caso seria melhor eu aceitar um Volvo, não, filho?

 

O senador tornou-se mais uma vez apenas um pouco mais ríspido quando solicitado a pagar o preço total de lista sobre o que era evidentemente uma nave muito usada — e eu me queixei dos cinzeiros sujos e exigi que fossem limpos com as­pirador de pó... Depois disse que não se importasse com isso (quando o terminal atrás da cabeça de Dockweiler parou de falar sobre Ames e Novak) e ordenei:

— Vamos verificar a massa e a velocidade delta disponí­vel. Quero partir logo.

Para verificação de massa, a Budget Jets não usa centrífu­ga, porém o mais moderno, mais rápido, mais barato e muito mais conveniente medidor de inércia... embora eu tenha dúvi­das até que ponto é preciso. Dockweiler nos colocou todos ime­diatamente na rede (todos menos a bonsai, que ignorou e ano­tou como pesando dois quilos — quase o bastante, talvez), pediu-nos para nos abraçar firmemente com o pacote da Macy's entre nós, e em seguida puxou a alavanca do suporte elástico — e quase nos arrancou os dentes. Depois, anunciou que nossa massa total era de 213,6kg.

Minutos depois estávamos amarrados aos coxins, Dock­weiler fechava o nariz da nave e em seguida a porta interna do berço. Não nos pedira carteiras de identidade, passapor­tes ou habilitação de piloto de veículos a motor. Mas contara duas vezes aquelas 19 mil coroas. Mais a taxa de seguro. Mais a propina.

Digitei "213,6kg" no computador-piloto e verifiquei os instrumentos de bordo. O medidor de combustível indicava "completo" e todas aquelas luzes idiotas brilhavam, verdes. Apertei o botão "pronto" e esperei. A voz de Dockweiler nos chegou pelo alto-falante:

— Boa aterrissagem.

— Obrigado.

A carga de ar comprimido explodiu com um Whumpf!, deixamos a baia e entramos em brilhante luz solar. À frente e perto divisei a parte externa do espaçoporto. Apertei o con­trole de precessão e ajustei-o para 1/80. Enquanto girávamos, o habitat afastou-se para minha vigia esquerda; à frente, a na­ve da ponte aérea que chegava surgiu à vista — e eu nada fiz a esse respeito: era ela que tinha que me evitar, uma vez que era eu que estava decolando — e na minha vigia direita apare­ceu uma das vistas mais impressionantes do sistema: Luna em close-up, a uns meros 300 quilômetros de distância — tão per­to que poderia estender a mão e tocá-la.

Senti-me maravilhosamente bem.

Aqueles patifes mentirosos e assassinos estavam sendo dei­xados para trás e estávamos para sempre fora do alcance da tirania caprichosa de Sethos. No início, viver no Regra de Ou­ro me parecera uma existência livre e descuidada. Mas eu aprendera. O pescoço de um monarca deve ter sempre um la­ço de carrasco em volta do pescoço — para mantê-lo na pos­tura certa.

 

Eu ocupava o coxim do piloto, e Gwen o do co-piloto, à direita. Olhei para ela e me dei conta de que continuava a usar aquela venda idiota. Não, cortem o "idiota" — ela, com toda probabilidade, me salvara a vida. Tirei-a e enfiei-a no bolso. Depois, tirei o fez, olhei em volta procurando um lugar para guardá-lo — e coloquei-o sob o cinto de segurança.

— Vamos ver se estamos em segurança para viajar no es­paço — comecei.

— Não é um pouco tarde para isto, Richard?

— Eu sempre faço as verificações da lista depois que de­colo — expliquei-lhe. — É porque sou um tipo otimista. Você tem uma bolsa e um grande pacote da Macy's. Estão seguros?

— Ainda não. Se você não acelerar a nave enquanto eu es­tiver fazendo isso, desamarro o cinto e vou prendê-los na pra­teleira. — E começou a soltar o cinto de segurança.

— Espere aí! Antes de desamarrar o cinto você precisa ob­ter permissão do piloto.

— Eu pensei que a tinha.

— Tem, agora. Mas não cometa novamente esse erro, Sr. Christian. O Bounty, navio da esquadra de Sua Majestade, é um navio que obedece aos regulamentos e continuará assim. Bill! Como é que está indo aí atrás?

— Eu, legal.

— Está seguro de todas as maneiras? Quando eu virar a cauda da nave não quero dinheiro trocado voando por toda a cabine.

— Ele está devidamente amarrado — garantiu-me Gwen. — Eu mesma verifiquei. Está segurando o vaso da Árvore-San contra o estômago e prometi a ele que, se a soltar, nós o enter­raremos sem nenhum rito fúnebre.

— Não tenho muita certeza de que ela resista à aceleração.

— Nem eu, mas não havia maneira de acondicioná-la. Pelo menos ela estará na posição correta para a aceleração — e eu vou fazer uns encantamentos. Homem querido, o que é que vou fazer com esta peruca? É uma das que Naomi usa em es­petáculos públicos. E é valiosa. Foi realmente uma grande gen­tileza dela insistir em que eu a usasse — isto foi o toque final, convincente, acho — mas não vejo como protegê-la. Ela é pe­lo menos tão sensível à aceleração como a Árvore-San.

— O diabo me leve se sei — e isto é minha opinião oficial. Mas duvido que tenha que levar este calhambeque a mais de duas gravidades. — Pensei um pouco nisto. — Que tal o porta-luvas? Tire todos os lenços de papel da despensa e amarrote-os em volta da peruca. E alguns dentro. Acha que funciona?

— Acho que sim. Há tempo suficiente?

— De sobra. Fiz uma rápida estimativa no escritório do Sr. Dockweiler. A fim de aterrar em Hong Kong Luna, e de dia, tenho que começar a entrar em uma órbita mais baixa às 21h. Tempo à vontade. De modo que, vá, faça o que precisa ser fei­to... enquanto eu digo ao computador-piloto o que quero fa­zer. Gwen, pode ler todos os instrumentos de seu lado?

— Posso, senhor.

— Muito bem, este é seu trabalho, isto e a vigia de estibordo. Eu cuidarei da propulsão, altitude e este computador bebê. Por falar nisso, você é piloto brevetada, não?

— Não adianta me perguntar isso agora, adianta? Mas pa­ra que seu coração não fique perturbado, querido, eu estava juntando lixo espacial antes de deixar a escola secundária.

— Ótimo.

Não pedi para ver a carteira de piloto dela — como ela mes­ma observara, era tarde demais para importar.

E notei também que ela não respondera à minha pergunta.

 

(Se balística o aborrece, este é outro trecho para saltar.)

Uma órbita raspando as margaridas de Luna (supondo que Luna tem margaridas, o que me parece improvável) leva uma hora, 48 minutos e alguns segundos. O Regra de Ouro, estan­do 300 quilômetros mais alto do que uma alta margarida, tem que ir. mais longe que a circunferência de Luna (10.919 quilô­metros), isto é, 12.805 quilômetros. Quase dois mil quilôme­tros mais adiante — de modo que tem que ir mais rápido. Certo?

Errado. (Fiz tramóia.)

O aspecto mais maluco, contrário a todo bom senso, difí­cil, da balística em volta de um planeta é o seguinte: para ace­lerar você diminui a velocidade; para diminuir a velocidade, você acelera.

Sinto muito. Mas a coisa é assim mesmo.

Estávamos na mesma órbita do Regra de Ouro, 300 quilô­metros acima de Luna flutuando com o habitat a um e meio quilômetro por segundo (1.5477 km/s foi o que digitei no computador-piloto, porque era isso o que dizia a folha de ins­truções que recebi no gabinete de Dockweiler). A fim de des­cer à superfície eu tinha que descer para uma órbita mais bai­xa (e mais veloz)... E a maneira de fazer isso era reduzir a velocidade.

Porém era mais complexo do que isso. Uma aterrissagem em local sem atmosfera exige que desçamos à órbita mais baixa (e mais rápida)... mas temos que cortar essa velocidade para chegar a contato com o solo à velocidade relativa zero — te­mos que continuar a dobrá-la de modo que o contato seja na vertical e sem um solavanco (ou não muito) e sem derrapagem (ou não muita) — o que chamam de órbita "sinergística" (difícil de pronunciar e ainda mais difícil de calcular).

Mas isto pode ser feito. Armstrong e Aldrin fizeram isso certo da primeira vez. (Não há segunda oportunidade.) Mas a despeito de toda a matemática cuidadosa, aconteceu que ha­via uma pedra danada de grande no caminho deles. Por puro virtuosismo e um pouco de gasto de combustível, consegui­ram aterrissar a pouca distância dela. (Se eles não tivessem aque­le pouco de combustível de sobra, as viagens espaciais teriam sido retardadas em um século, mais ou menos. Nós não ho­menageamos o suficiente os pioneiros).

Há outra maneira de aterrissar. Pare de súbito sobre o lo­cal onde quer descer. Caia feito uma pedra. Freie com seus jatos tão precisamente que toca o chão como um saltimbanco pegando um ovo num prato.

Uma pequena dificuldade: voltas em ângulo reto são pra­ticamente o pior que se pode fazer em pilotagem. O gasto de delta vee é escandaloso — e sua nave provavelmente não leva tanto combustível assim. ("Delta vee" no jargão dos pilotos. Isto quer dizer "mudança de velocidade" porque, em equa­ções, a letra grega delta significa mudança minúscula e "v" significa velocidade — e, por favor, lembre-se que "velocidade" é tanto direção como velocidade propriamente dita, o motivo porque foguetes não fazem curvas em U.)

Comecei a programar o pequeno computador-piloto do Vol­vo com o tipo de aterrissagem sinergística que Armstrong e Aldrin haviam feito, mas nem de longe tão sofisticada. Princi­palmente tive que pedir ao computador-piloto que sacasse da memória seu programa generalizado para aterrissagem vindo de uma órbita em volta de Luna... E ele docilmente admitiu que sabia como fazer isso... E então tive que dar os dados pa­ra aquela aterrissagem particular, usando a folha de instruções fornecida pela Budget Jets.

Terminado isto, disse ao computador que verificasse os da­dos que eu lhe havia fornecido. Relutantemente, ele admitiu que possuía tudo de que necessitava para aterrar em Hong Kong Luna às 22hl7min48,3.

O relógio do computador marcava 19h57min. Há apenas 20h um estranho que dissera chamar-se "Enrico Schultz" sentara-se, sem ser convidado, à minha mesa no Rainbow's End — e cinco minutos depois fora assassinado. Desde então, Gwen e eu havíamos casado, sido despejados, "adotado" um dependente inútil, sido acusados de assassinato e dado no pé para salvar a vida. Um dia cheio! — e não terminara ainda.

Eu estivera vivendo em uma embotadora segurança por tempo longo demais. Nada dá mais vivacidade à vida do que correr para salvar a vida.

— Co-piloto.

— Co-piloto, sim, senhor?

— Isto é divertido! Obrigado por ter casado comigo.

— Recebido e entendido, comandante querido! Eu, tam­bém!

Aquele era meu dia de sorte, quanto a isso, nenhuma dú­vida! Um golpe de sorte em programação nos mantivera vi­vos. Naquele momento, o chefe Franco devia estar verifican­do todos os passageiros que entravam na câmara da nave da ponte aérea das 20h, esperando que o Dr. Ames e a Sra. Novak viessem reclamar suas reservas — enquanto havíamos saído por uma porta lateral. Mas, embora aquela sincronização crí­tica nos tivesse salvo a vida, Dona Sorte ainda estava ofere­cendo alternativas.

Como? A partir da órbita do Regra de Ouro, nosso pouso mais fácil em Luna implicaria descermos em algum ponto da linha de iluminação — menos combustível consumido, menor delta vee. Por quê? Porque já estávamos nessa linha de ilumi­nação, indo de um pólo a outro, do Sul para o Norte, do Nor­te para o Sul, de modo que o pouso mais simples era dobrá-la para baixo onde estávamos, nunca mudando nossa direção.

Aterrissar na direção leste-oeste implicaria jogar fora nosso movimento atual, gastar ainda mais delta vee fazendo aquela tola volta em ângulo reto — e em seguida programar pa­ra o pouso. Talvez sua conta bancária possa agüentar esse des­perdício — mas a nave não pode nem carregar esse combustível — e vamos acabar lá em cima sem nada embaixo senão o vá­cuo e pedras. Desagradável.

A fim de salvar nosso pescoço, eu aceitava feliz qualquer campo de pouso em Luna... Mas aquele risco oferecido por Dona Sorte incluía aterrar em meu corpo preferido (Hong Kong Luna) mais ou menos quando ali nascia o dia, com apenas uma hora estacionado em órbita, esperando a ocasião de dizer ao computador-piloto para nos baixar ao chão. O que mais po­deria eu pedir?

Naquele momento, estávamos flutuando sobre o outro la­do da Lua — tão enrugada quanto a bunda de um crocodilo. Pilotos amadores não pousam no outro lado de Luna por duas razões: 1) montanhas — o lado da Lua oculto da Terra faz com que os Alpes pareçam tão lisos como o Kansas; 2) povoados — não há nenhum que mereça menção. E não falemos dos que merecem porque poderia enfurecer alguns colonos de carac­terísticas impublicáveis.

Dentro de mais 40 minutos estaríamos sobre Hong Kong Luna, exatamente no momento em que o dia estivesse raiando. Antes disso, eu pediria liberação para pouso e controle de terra na última e mais delicada parte da aterrissagem — e pas­saria as duas horas seguintes girando e baixando suavemente o Volvo para o pouso. Nesse momento chegaria a ocasião de transferir o controle para a equipe de terra em Hong Kong Lu­na, mas prometi a mim mesmo que ficaria no comando e diri­giria pessoalmente o pouso, apenas para praticar. Há quanto tempo eu não fazia pessoalmente um pouso em local sem at­mosfera? Calisto, fora isso? Em que ano acontecera isso? Há tempo demais!

 

Às 20h12min passamos por cima do pólo norte de Luna e fomos brindados com o nascer da Terra... Uma visão empol­gante, por mais vezes que a tenhamos visto. Mãe Terra estava em meia fase (desde que nós estávamos na linha de ilumina­ção de Luna), com a parte brilhante à nossa esquerda. Tendo passado apenas alguns dias do solstício de verão, a calota po­lar norte aparecia inclinada em plena luz, ofuscantemente bri­lhante. A América do Norte, porém, estava quase igualmente brilhante, amplamente nublada, exceto pela parte da costa oeste do México.

Descobri que prendera a respiração e que Gwen me aper­tava a mão. Quase esqueci de chamar o controle da terra HKL.

 

— Volvo Bee Jay Seventeen chamando controle de terra HKL. Está me ouvindo?

— Bee Jay Seventeen, afirmativo. Continue.

— Solicito liberação para pousar aproximadamente às 22h 17min40s. Solicito aterrissagem controlada de terra, com pi­lotagem manual. Estou vindo do Regra de Ouro e ainda na órbita do mesmo a aproximadamente seis quilômetros a oeste do habitat. Câmbio.

— Volvo Bee Jay Seventeen. Liberado para aterrissagem em Hong Kong Luna a aproximadamente 22hl7min48s. Mude para canal de satélite 13 não mais tarde que 21h49min e prepare-se para receber controle de terra. Aviso: você tem que iniciar programa de descida dessa órbita às 21hl9min e segui-lo exatamente. Se em inserção para aterrissagem controlada de terra você estiver fora em vetor 3% ou em altitude quatro quilômetros, espere ser desconectado. Controle HKL.

— Recebido e entendido. Seguirei as instruções. — E acres­centei: — Aposto que vocês não sabem que estão falando com o Capitão Meia-Noite, o piloto mais "quente" do Sistema So­lar — mas desliguei o microfone antes de dizer isso.

Ou foi isso o que pensei. Ouvi a resposta:

— E este aqui é o Capitão Colônia de Hemorróidas, o mais perverso piloto de controle de terra de Luna. Você vai me com­prar uma garrafa de Glenlivet depois que eu o trouxer para baixo. Se eu o trouxer.

Examinei o controle do microfone — e não parecia haver nada de errado com ele. Resolvi não responder. Todo mundo sabe que telepatia funciona melhor no vácuo... mas devia ha­ver uma maneira de uma cara comum se proteger contra super-homens.

(Tal como saber quando calar o bico.)

Acertei o despertador para 21h, em seguida processei o computador para uma altitude diretamente para baixo e na hora seguinte saboreei a viagem de mãos dadas com minha esposa. As incríveis montanhas da Lua, mais altas e angulosas que os Himalaias e tragicamente desoladas, corriam à frente (ou sob) de nós. O único som era o murmúrio baixo do com­putador e o suspiro do exaustor de ar — e uma fungadela re­gular e irritante de Bill. Excluí todos os sons e convidei minha alma a entrar. Nem Gwen nem eu tínhamos desejo de falar. Era um feliz interlúdio, tão tranqüilo como o riacho ao lado do velho moinho.

— Richard! Acorde!

— Ahn? Eu não estava dormindo.

— Estava, querido. Já passa de 21h.

Humm... e assim era: 21h1min, e o tempo correndo. O que teria acontecido com o alarme? Isso não importava no mo­mento: eu dispunha de cinco minutos e alguns segundos pa­ra nos certificar de que entrávamos na ocasião certa no pro­grama de descida. Acionei o controle de precessão, de cabeça para baixo — o mais fácil para descer, embora supino para trás funcione também. Ou mesmo do lado para trás. Qualquer que seja a orientação, o local do jato tem que apontar contra a di­reção do movimento a fim de reduzir a velocidade para inser­ção no programa de pouso — isto é, "para trás" para o piloto, tal como a ave maluca que voa para trás. (Mas eu me sinto mais feliz quando o horizonte parece "certo" à maneira como estou preso no assento. Este o motivo porque prefiro pôr uma nave na posição cabeça para baixo e para trás.)

Logo que senti o Volvo iniciar a precessão, perguntei ao computador se estava pronto para iniciar o programa de pou­so,utilizando o código padrão constante da lista gravada em sua tampa.

Nada de resposta. Tela vazia. Mudo.

Falei cheio de desprezo dos ancestrais do computador. Gwen observou:

— Você apertou o botão "execute"?

— Claro que apertei. — E apertei novamente.

A tela iluminou-se e o som voltou em um nível de rachar dentes:

"De que maneira você escreve a palavra conforto? Para o cidadão de Luna hoje, superesgotado de trabalho, superes­timulado, superestressado, é escrito como C.O.M.F.I.E.S. — isso mesmo, Comfies, ò conforto que os terapeutas recomendam para acidez estomacal, azia, úlceras gástricas, cólicas intesti­nais e simples dor de estômago. Comfies! Elas fazem mais! Fabricadas por Tiger Balm Pharmaceuticals, Hong Kong Lu­na, fabricantes de medicamentos em que você pode confiar. COMFIES Comfies. Eles fazem mais! Pergunte a seu terapeu­ta." E uivos de corujas começaram a cantar as delícias de Comfies.

— Esta droga de coisa não quer desligar!

— Bata nele! — Ahn?

— Bata nele, Richard!

Não consegui ver lógica nisso, mas atendia as minhas ne­cessidades emocionais. Bati, e bati com força. O computador continuou a dizer bobagens sobre bicarbonato de sódio caro demais.

— Querido, você tem que bater com mais força. Eléctrons são coisinhas tímidas, mas opiniosas. Você tem que lhes mos­trar quem é o chefe. Deixe que eu faço. — E Gwen desfechou-lhe um murro que pensei que ia rachar a tampa da coisa.

O computador imediatamente reagiu:

"Pronto para descida — Hora Zero = 21-06-17,0."

O relógio do computador marcava 21-05-42,7.

... o que me dava tempo suficiente apenas para lançar um olhar ao altímetro de radar (que indicava 298 quilômetros aci­ma do chão, regular) e uma leitura de efeito doppler, que mos­trava que estávamos orientados ao longo de nossa linha de mo­vimento sobre o solo, perto o suficiente para trabalho do go­verno... embora o que eu pudesse ter feito em cerca de 10 se­gundos eu não pudesse saber. Em vez de usar pequenos ja­tos em pares para controlar altitude, o Volvo usa giroscópios e precessiona contra eles — mais barato do que 12 pequenos jatos e um bocado de fiação. Embora sejam mais lentos.

Em seguida, de repente, o relógio chegou a tempo zero, os jatos foram ligados, jogando-nos contra os coxins, e a tela mostrou o programa de queima de combustível — o principal sendo:

 

21 — 06 — 17,0 — 19 segundos

21 — 06 — 36,0

               

Tão suavemente como foi possível, o jato desligou após 19 segundos, sem mesmo pigarrear.

— Está vendo? — disse Gwen. — A gente tem simplesmen­te que ser firme com ele.

— Eu não acredito em animismo.

— Não acredita? De que modo você pode enfrentar... Des­culpe, querido. Esqueça. Gwen cuidará dessas coisas.

O Capitão Meia-Noite não respondeu. Vocês podem di­zer, sem falsear a verdade, que fiquei emburrado. Mas, dro­ga, animismo é pura superstição. (Exceto no tocante a armas.)

 

Eu mudara para o canal 13 e estávamos justamente inician­do o quinto disparo dos foguetes. Eu ia passar o controle pa­ra o HKL GCL (Capitão Hemorróida) quando o querido idiotazinho eletrônico fundiu a cuca, isto é, o RAM — Memória de Acesso Aleatório, onde estava gravado nosso programa de descida. A tabela de disparos na tela diminuiu de clareza, tre­meu, encolheu até transformar-se em um ponto e desapare­ceu. Freneticamente, premi a tecla de restauração — e nada aconteceu.

O Capitão Meia-Noite, intimorato como sempre, sabia exa­tamente o que fazer:

— Gwen! A coisa perdeu o programa!

Ela estendeu a mão e esmurrou o computador. A seqüên­cia de queima não voltou — um RAM, uma vez fundido, está perdido para sempre, como uma bolha de sabão —, mas a coi­sa não tomou vergonha. Um cursor apareceu no canto superior esquerdo e piscou interrogativamente. Gwen virou-se para mim:

— A que horas deve ligar novamente os jatos, querido? E por quanto tempo?

— 21, 47, 17, acho, durante, acho, ahn, 17 segundos.

— Eu confiro para você ambos os números. De modo que, faça isso manualmente, depois pergunte ao computador para recomputar o que perdeu.

— Certo. — Digitei a ligação. — Depois deste, estou pron­to para aceitar o controle de Hong Kong.

— E assim damos um jeito na coisa, querido — uma liga­ção manualmente e, em seguida, o controle de terra assume o controle. Mas vamos recomputar, apenas por questão de segurança.

Ela parecia mais otimista do que eu me sentia. Não con­seguia me lembrar que vetor e altitude eu devia conseguir pa­ra que o controle de terra assumisse. Mas não tinha tempo para me preocupar com isso. Tinha que comandar aquela ligação dos foguetes.

Digitei:

 

21 — 47 — 17,0 — 11,0 segundos

21 — 47 — 28,0

 

Observei o relógio e contei com ele. A exatamente 17 se­gundos depois de 21h47min apertei o botão de disparo e o mantive em posição. Os jatos dispararam. Não sei se eu os disparei ou se foi o computador. Mantive o dedo no botão enquanto os segundos se escoavam e ergui-o em exatamente 11 segundos.

Os jatos continuaram a queimar.

("... corra em círculos, grite e berre!") Mexi de um lado pa­ra o outro no botão de ignição. Não, não estava preso. Bati na tampa do computador. Os jatos continuaram a rugir e nos lançaram contra os coxins.

Gwen estendeu a mão e cortou a energia do computador. Os jatos pararam bruscamente. Fiz força para parar de tremer.

— Obrigado, co-piloto.

— Não há de quê, senhor.

Olhei para fora e cheguei à conclusão de que o chão pare­cia mais perto do que eu gostava, de modo que dei uma olha­da no altímetro de radar. Noventa alguma coisa — o terceiro número continuava a mudar.

— Gwen, acho que nós não vamos a Hong Kong Luna.

— Eu também não.

— De modo que o problema é tirar esta sucata do céu sem quebrá-la,

— Concordo, senhor.

— E onde é que nós estamos? Um palpite educado, quero dizer. Não espero milagres.

A coisa à frente — atrás, para ser exato, uma vez que está­vamos ainda orientados para frenagem — parecia tão aciden­tada como atrás. Não um lugar para um pouso de emergência.

— Poderíamos virar ao contrário? Se pudéssemos ver o Re­gra de Ouro isto nos diria alguma coisa.

— Muito bem. Vamos ver se a nave responde. Agarrei os controles de precessão, disse à nave que virasse 1/81 de grau, passando novamente pela inversão. O terreno estava visivelmente mais próximo. Nossa nave acomodou-se, com o horizonte correndo à direita e à esquerda — mas com o céu no lado de "baixo". Irritante... mas tudo o que queríamos era olhar para o nosso ex-lar, o habitat Regra de Ouro.

— Consegue vê-lo?

— Não, não consigo, Richard.

— Deve estar acima do horizonte, em algum lugar. Não é de surpreender, ele estava muito longe da última vez em que olhamos — e aquela última queima foi toda errada. Demora­da. De modo que, onde estamos nós?

— Quando foi que passamos por aquela grande cratera — Aristóteles?

— Não foi a de Platão?

— Não, senhor. Platão ficaria a oeste de nossa rota e ain­da estaria na sombra. Pode ser alguma cratera que não conhe­ço... mas aquele troço liso — aquele troço razoavelmente liso — ao sul me faz pensar que deve ser a de Aristóteles.

— Gwen, não importa o que seja. Vou ter que descer esta carroça naquele troço liso. Razoavelmente liso. A menos que você tenha uma idéia melhor.

— Não, senhor, não tenho. Estamos caindo. Se acelerás­semos o suficiente para manter uma órbita circular a esta alti­tude provavelmente não teríamos combustível suficiente pa­ra fazê-la descer mais tarde. Isto é um palpite.

Olhei para o marcador de combustível — aquele longo e desastrado disparo gastara um bocado de minha delta vee dis­ponível. Nenhuma folga.

— Seu palpite é uma certeza... de modo que vamos des­cer. Vamos ver se nosso amiguinho consegue calcular uma des­cida parabólica para esta altitude — porque tenciono cortar nos­sa velocidade avante e simplesmente deixar a nave cair logo que estivermos passando por cima de um terreno que pareça razoavelmente liso. O que é que você acha?

— Tomara que a gente tenha combustível suficiente.

— Eu também. Gwen?

— Sim, senhor?

— Doçura, foi divertido.

— Oh, Richard! Foi, sim.

 

Em voz abafada, Bill disse:

— Humm, eu não acho que possa...

Eu estava precessionando para nos colocar novamente em altitude de frenagem.

— Bico calado, Bill. Estamos ocupados!

O altímetro mostrava oitenta e alguma coisa — quanto tempo precisaríamos para a nave cair 80 quilômetros em um cam­po de 1/6 de gravidade? Ligar novamente o computador-piloto e perguntar? Ou fazer isso mentalmente? Poderia confiar que o computador não ligaria novamente os jatos se eu novamen­te lhe fornecesse energia?

Era melhor não arriscar. Uma aproximação em linha reta me diria alguma coisa? Vejamos... Distância é igual à meia ace­leração multiplicada pelo quadrado do tempo, tudo isso em centímetros e segundos. De modo que 80 quilômetros são, ahn, 80 mil, não, 800 mil... Não, 80 milhões de centímetros. Estava certo?

Um sexto de gravidade... Não, metade de um, 62. De mo­do que pegue esse número e extraia a raiz quadrada...

Cem segundos?

— Gwen, quanto tempo até o impacto?

— Mais ou menos 17 minutos. Isto é aproximado. Fiz a con­ta de cabeça.

Dei outra olhada dentro de meu crânio e verifiquei que, deixando de incluir o vetor para a frente — o fator "queda em espiral" — minha "aproximação" não era nem mesmo um pal­pite maluco.

— Bastante perto. Vigie o doppler. Vou diminuir um pou­co a velocidade para a frente. Não me deixe cortá-la toda. Pre­cisamos de alguma opção sobre o lugar onde pousar.

— Sim, senhor comandante.

Forneci energia ao computador. Os jatos dispararam ime­diatamente. Deixei que funcionassem por cinco segundos, cor­tei o combustível. Os jatos soluçaram e calaram-se.

— Isto — reconheci amargamente — é uma maneira horrí­vel de operar um acelerador. Gwen?

— Estamos simplesmente nos arrastando agora. Podemos virar e ver para onde estamos indo?

— Claro.

— Senador...

— Bill... cale a boca! — Virei a nave mais 180 graus. — Está vendo à frente alguma lisa e linda pastagem?

— Tudo isso parece liso, Richard, mas estamos ainda à qua­se 70 quilômetros de altura. Podia descer bastante antes de cortar a velocidade à frente, talvez? De modo a que possa ver qualquer rocha adiante?

— Razoável? Perto até que ponto?

— Ahn, um quilômetro seria seguro?

— Bastante perto para nós ouvirmos o som das asas do Anjo da Morte. Quantos segundos até o impacto? Para uma altura de um quilômetro, quero dizer?

— Ahn, raiz quadrada de 1.200 mais... digamos, 35 se­gundos.

— Tudo bem. Continue observando a altura e o terreno. A mais ou menos dois quilômetros vou querer começar a cortar a velocidade à frente. Preciso ter tempo de virar mais 90 graus depois disso e cair de cauda para baixo. Gwen, nós devíamos ter ficado na cama.

— Eu tentei lhe dizer isso, senhor. Mas confio no senhor.

— De que vale a fé sem obras? Eu gostaria de estar em Paducach. Tempo?

— Seis minutos, por aí.

— Senador...

— Bill, cale a boca! Cortamos metade da velocidade res­tante!

— Três segundos?

Dei um disparo de três segundos usando o mesmo méto­do idiota de ligar e cortar os jatos.

— Dois minutos, senhor.

— Observe o doppler. Diga quando. Ligue o jato.

— Agora!

Cortei-o bruscamente e comecei a pressionar, cauda para baixo, "pára-brisa" para cima.

— Como está indo a coisa?

— Estamos quase tão parados quanto podemos ir dessa maneira, acho. E eu não brincaria com isso. Olhe para esse medidor de combustível. Olhei e não gostei.

— Muito bem. Não ligo em absoluto até estarmos bem perto.

Estabilizamos na posição proa para cima — nada senão céu à nossa frente. Sobre meu ombro esquerdo via o terreno em um ângulo de uns 45 graus. Olhando para além de Gwen, po­dia vê-lo no lado de estibordo, também, mas a uma grande distância — um mau ângulo, talvez.

— Gwen, qual é o comprimento deste calhambeque?

— Nunca vi um deles fora do ancoradouro. Isto importa?

— Importa pra burro quando estou tentando julgar a que distância estamos do chão olhando por cima de meu ombro.

— Oh, eu pensava que você queria saber exatamente. Di­gamos, uns 30 metros. Um minuto, senhor.

Eu ia justamente provocar uma súbita explosão de moto­res quando Bill explodiu. De modo que o pobre-diabo estava enjoado, mas, naquele instante, desejei mesmo foi que esti­vesse morto. O jantar dele passou entre nossas cabeças e cho­cou-se com a vigia de proa, onde se espalhou.

— Bill! — gritei. — Pare com isso!

(Não se dê ao trabalho de me dizer que fiz uma exigência descabida.)

Bill fez o melhor que pôde. Virou a cabeça para a esquer­da e depositou barragem na vigia da esquerda — deixando-me a pilotar às cegas.

Tentei. Com os olhos no altímetro de radar, dei um rápi­do disparo de motores — e perdi este, também. Tenho certeza de que algum dia solucionarão o problema de leituras de baixa confiabilidade feitas através de disparos de jatos e prejudica­da pela "grama" do terreno... Eu nasci cedo demais, só isso.

— Gwen, não posso ver!

— Assumi, senhor.

Ela parecia calma, fria, relaxada... a companheira certa para o Capitão Meia-Noite. Pelo ombro direito ela olhava para o solo da Lua, a mão esquerda no controle de energia do compu­tador-piloto, nosso "acelerador" de emergência.

— Quinze segundos, senhor... dez... cinco. Baixou a alavanca.

Os jatos queimaram por um instante, senti o mais leve dos solavancos, e tínhamos peso novamente. Ela virou a cabeça e sorriu.

— O co-piloto comunica...

E perdeu o sorriso, pareceu espantada, e sentimos a nave vacilar.

Você já jogou pião quando criança? Sabe como um pião se comporta quando desce? Gira e gira, e afunda cada vez mais, enquanto lentamente perde velocidade e pára? Foi o que o or­dinário Volvo fez.

Até jazer o fio comprido na superfície e rolar. Paramos, ain­da amarrados aos nossos assentos, em segurança, sem uma contusão — e de cabeça para baixo.

Gwen continuou:

— ... comunica que acabou de pousar, senhor.

— Obrigado, co-piloto.

 

"É inútil ovelhas votarem resoluções em favor de vegetarianismo enquanto lobos tiverem opinião diferente."

William Ralph Inge, D. D., 1860—1954

 

"A cada minuto nasce alguém."

P.T. Barnum, 1810—1891

 

E acrescentei:

— Foi uma bela aterrissagem, Gwen. A PanAm jamais pou­sou com tal suavidade.

Gwen afastou para o lado a saia do quimono e olhou para fora.

— Não foi tão bom assim. Simplesmente, fiquei sem combustível.

— Não seja modesta. Admirei especialmente aquela pe­quena gaivota que pôs a nave deitada. Conveniente, desde que não temos aqui uma escada de espaçoporto.

— Richard, o que levou a nave a fazer isso?

— Hesito em dar um palpite. Pode ter sido alguma coisa com o giroscópio de precessão... que pode ter caído. Sem da­dos, nenhuma opinião. Querida, você fica encantadora nessa pose. Tristram Shandy tinha razão: a mulher fica no seu me­lhor aspecto com as saias em cima da cabeça.

— Não acho que Tristram Shandy tenha jamais dito isso.

Neste caso, devia ter dito. Você tem pernas lindas, mi­nha querida.

— Obrigada. Agora, pode ter a gentileza de me tirar desta confusão toda? Meu quimono está emaranhado no cinto de segurança e não consigo soltá-lo.

— Você se importa se, antes, eu tirar uma foto? Gwen, às vezes, dá respostas rudes. Neste caso é melhor mudar de assunto. Soltei meu cinto de segurança, fiz uma rá­pida e eficiente descida até o teto, levantei-me, atirei-me à ta­refa e libertei Gwen. A fivela do cinto não era realmente um problema: ela simplesmente não podia vê-la para soltá-la. Fiz isso e cuidei para que ela não caísse quando a libertei. Coloquei-a de pé e exigi um beijo. Eu me sentia eufórico. Minutos an­tes, não teria apostado em aterrissar vivo. Gwen fez o pagamento e deu sobra.

— Agora, vamos soltar o Bill.

— Por que é que ele não pode...

— Ele não está com as mãos livres, Richard.

Quando soltei minha esposa e olhei, entendi o que ela que­ria dizer. Bill estava pendurado de cabeça para baixo, uma ex­pressão de paciente sofrimento no rosto. Minha... nossa, ár­vore bonsai ele a conservava junto à barriga, a planta incólu­me. Solenemente, olhou para Gwen.

— Não larguei ela — disse, em tom de defesa.

Em silêncio, concedi-lhe absolvição por ter vomitado du­rante a aterrissagem. Uma pessoa que pode cumprir um de­ver (mesmo simples) durante a agonia de agudo enjôo espa­cial não pode ser tão má assim. (Mas ele tinha que limpar aqui­lo. A absolvição não significava que eu ia limpar para ele. Nem Gwen. Se ela se oferecesse, eu ia ser macho, marital e in­sensato.)

Gwen pegou a arvorezinha e colocou-a sobre a parte infe­rior do computador. Bill soltou o cinto, enquanto eu o segura­va pelos tornozelos, e em seguida desci-o para o teto e deixei que ele se espreguiçasse.

— Gwen, dê o vaso a Bill e deixe que ele continue a cui­dar da árvore. Quero-a fora do caminho... porque preciso usar o computador e os instrumentos de bordo.

Devia dizer em voz alta o que estava me preocupando? Não, isto poderia fazer Bill vomitar novamente... e Gwen já devia ter calculado o que era.

Deitei-me de costas, arrastei-me para baixo do computa­dor e do painel de instrumentos, e liguei-o.

Uma voz metálica, que reconheci, disse:

— Seventeen, está me ouvindo? Volvo Bee Jay Seventeen, responda. Este é o controle de terra Hong Kong Luna, cha­mando Volvo Bee Jay Seventeen...

— Bee Jay Seventeen aqui, Capitão Meia-Noite falando. Es­tou recebendo, Hong Kong.

— Por que, com todos os' diabos, não ficou no canal 13, Bee Jay? Você não compareceu ao ponto de encontro. Saia da onda. Não posso fazê-lo descer.

— Ninguém pode, Capitão Coceira de Hemorróida. Pou­so de emergência. Disfunção de computador. Disfunção de rá­dio. Disfunção de jatos. Perda de visibilidade. Ao aterrar, caí­mos de lado. Combustível acabado e, de qualquer maneira, posição impossível para decolagem. E agora o exaustor de ar parou.

Houve um silêncio bem demorado.

— Tovarishch, já fez suas pazes com Deus?

— Andei ocupado demais para isso!

— Hummm. Compreensível. Como está você em matéria de pressão na cabine?

— A luz idiota está verde. Não há medidor para isso.

— Onde está você?

— Não sei. As coisas degringolaram às 21h 47min, pouco antes de eu lhe passar o controle. Passei o tempo desde então numa descida de traseira. Embora eu não saiba onde estamos, devemos estar em algum lugar no caminho da órbita do Re­gra de Ouro. Nossos disparos de jatos foram todos cuidado­samente orientados. Passamos por cima do que acho que era Aristóteles às, ahn...

— Vinte e um, cinqüenta e oito — forneceu Gwen.

— Vinte e um, cinqüenta e oito, meu co-piloto anotou is­so. Desci em um maré ao sul desse ponto. Lacus Somniorum?

— Espere um pouco. Você ficou dentro da linha de iluminação?

— Fiquei. Ainda estamos nela. O sol está justamente no horizonte.

— Neste caso você não pode estar tão distante assim a les­te. Tempo de pouso?

Eu não tinha a mais vaga noção. Gwen sussurrou:

— Vinte e dois, ou vinte e três, quarenta e um.

— Humm. Deixe que eu verifique. Neste caso, você deve estar ao sul de Eudoxus, na parte mais setentrional do Maré Serenitatis. Montanhas a oeste?

— Altas.

— Cordilheira do Caucasus. Você está com sorte. Ainda pode sobreviver para ser enforcado. Há duas pressurizadas ha­bitadas bem perto de você. Pode haver alguém interessado em salvá-lo... pelo pedaço de carne mais querido de seu coração, e mais 10%.

— Eu pago.

— Claro que paga! E se for resgatado, não se esqueça de pedir a conta do que nos deve. Pode precisar de nós outro dia. Muito bem, vou dar o alarme. Isto poderia ser por acaso mais alguma dessa sua besteira de Capitão Meia-Noite? Se for, arranco seu fígado e mando fritá-lo.

— Capitão Coceira, sinto muito a este respeito, sinto, ho­nestamente. Eu estava simplesmente brincando com meu co-piloto e pensei que o microfone estava desligado. Devia ter es­tado. Sem querer, abri o canal. Um de meus problemas inter­mináveis com este monte de sucata.

— Você não devia fazer brincadeiras quando estivesse ma­nobrando.

— Eu sei. Mas... oh, que diabo, meu co-piloto é minha mu­lher. Hoje foi o dia de nosso casamento... recém-casados. Senti vontade de rir e brincar o dia todo. É este tipo de dia.

— Se isto for verdade... tudo bem. E parabéns. Mas vou esperar que prove isto. E meu nome é Marcy, não Coceira. Ca­pitão Marcy Choy-Mu. Vou passar os dados adiante e tentare­mos localizá-lo de órbita. Enquanto isso, é melhor entrar no canal 11 — é o de emergência — e começar a cantar S.O.S. Te­nho tráfego a cuidar, de modo que...

Gwen estava de quatro ao meu lado.

— Capitão Marcy!

— Ahn? Sim?

— Eu sou realmente a mulher dele e casamos de fato hoje e, se ele não fosse um piloto "quente", eu não estaria viva ho­je. Tudo saiu errado, exatamente como meu marido disse. A coisa foi como pilotar um barril por cima das Cataratas do Niá­gara.

— Nunca vi as Cataratas do Niágara, mas entendi o que disse. Meus melhores votos de felicidade, Sra. Meia-Noite. Desejo-lhes uma vida longa e feliz e uma penca de filhos.

— Obrigado, senhor! Se alguém nos encontrar antes de nosso ar acabar, vamos ter esses filhos.

 

Gwen e eu nos revesamos a irradiar "S.O.S., S.O.S!" no canal 11. Quando estava de folga, eu aproveitava o tempo pa­ra verificar os recursos e equipamento do bom e velho Volvo B.J.17, o lixo. De acordo com o Protocolo de Brasília, este car­ro aéreo devia ter sido equipado com água, ar e alimentos de reserva, um estojo de primeiros socorros classe dois, instala­ções sanitárias mínimas e macacões pressurizados de emergência (UN-SN especificação 10007A) para a capacidade má­xima (quatro, incluindo o piloto).

Bill passou seu tempo livre limpando as vigias e tudo em volta, usando lenços de papel retirados do porta-luvas — a pe­ruca de Naomi sobrevivera sem danos. Mas ele quase estou­rou a bexiga antes de tomar coragem de me perguntar o que fazer. Neste caso, tive que lhe ensinar como usar um balão... uma vez que as "instalações sanitárias mínimas" acabaram por ser um pequeno embrulho dos primitivos quebra-galhos e um panfleto explicando como usá-los, se obrigados.

Os outros recursos de emergência eram dos mesmos al­tos padrões.

Havia água em um tanque de dois litros junto ao assento do piloto — quase cheio. Nada de reserva. Mas nada para dar motivo a preocupação, uma vez que não havia ar de reserva e sufocaríamos no ar viciado antes de poder morrer de sede. O exaustor continuava sem funcionar, mas havia um apare­lho para operá-lo a mão — tudo, menos a manivela, que esta­va faltando. Comida? Não vamos brincar a este respeito. Gwen, porém, tinha uma barra de Hershey na bolsa, que partiu em três e distribuiu. Delicioso o chocolate!

Os macacões pressurizados e respectivos capacetes ocu­pavam a maior parte do espaço de carga atrás dos coxins dos passageiros — quatro de cada, segundo o manual. Eram tra­jes de resgate de excedentes militares, ainda fechados em suas embalagens originais. Todas as embalagens tinham a marca do fabricante (Michelin Tires, S.A.) e data (29 anos antes).

À parte o fato de que os plastificadores deviam ter escor­rido dos plastômeros e elastômeros — mangueiras, gaxetas, etc, — nesse tempo todo e o fato de que algum brincalhão safado deixara de acrescentar os tanques de ar, os macacões estavam em excelente forma. Para um baile de máscaras.

Não obstante, eu estava disposto a confiar a vida a um des­ses trajes de palhaço durante uns cinco minutos, mesmo 10, se a alternativa fosse expor o rosto ao vácuo.

Mas se a alternativa fosse simplesmente enfrentar um ur­so cinzento, eu gritaria: — Tragam o urso!

 

O Capitão Marcy nos chamou pelo rádio, disse-nos que

a câmara do satélite mostrava-nos a 35°17min norte, 14°07min oeste.

— Notifiquei Pressurizado Ossos Secos e Pressurizados Nariz Quebrado. Eles são os mais próximos. Boa sorte.

Tentei tirar do computador o catálogo telefônico de Luna. Mas ele continuava emburrado. De modo que tentei alguns problemas para submetê-lo a teste. Ele insistiu em que 2 + 2 = 3,9999999999999999999999... Quando tentei fazer com que reconhecesse que 4 = 2 + 2, ele se irritou e alegou que 4 =3,14159265358979323846264338327950288419716939937511... De modo que desisti.

Deixei o canal 11 ligado no máximo e subi para o teto. En­contrei lá Gwen usando um traje de mulher azul, com um lenço de pescoço cor de chamas. Ela me pareceu arrebatadora.

— Querida — observei —, eu achava que todas as suas rou­pas estivessem ainda no Regra de Ouro.

— Enfiei isto na mala menor quando resolvemos deixar lá a bagagem. Não posso manter a farsa de ser japonesa depois que lavo o rosto... o que espero que você tenha notado.

— Não muito bem. Especialmente as orelhas.

— Exigente, exigente! Usei apenas um lenço úmido de nos­sa preciosa água potável. Amado, não pude incluir um traje safari — ou qualquer outra coisa — para você. Mas de fato trouxe-lhe cuecas e meias limpas.

— Gwen, você não é apenas saudável, você é eficiente.

— Saudável?

— Mas é querida. Foi por isso que me casei com você.

— Essa, não! Quando eu calcular o quanto fui insultada e quanto você vai ter que pagar... e pagar, e pagar, pagar! A discussão besta foi interrompida pelo rádio:

— Volvo Bee Jay Seventeen, foi seu o S.O.S.? Câmbio.

— E como!

— Aqui Jinx Henderson, Serviço de Salvamento Chance Feliz, Pressurizado Ossos Secos. O que é que você precisa?

Descrevi nossa situação e dei nossa longitude e latitude. Henderson voltou ao áudio:

— Você arranjou essa sucata com a Budget, não? O que para mim significa que não a alugou, mas comprou-a com um contrato de retrovenda... Conheço bem aqueles ladrões. De modo que agora você é o dono do troço. Certo?

Reconheci que era o proprietário oficial.

— Você pensa em decolar e levá-lo a Hong Kong? Se as­sim for do que vai precisar?

Pensei uns pensamentos um tanto longos em três segundos.

— Não acho que esta nave esporte possa decolar daqui. Ela precisa de revisão geral.

— O que significa levá-la por terra a Kong. Certo, posso fazer isso. Uma longa viagem, um trabalho grande. Enquanto isso, resgate pessoal, duas pessoas... certo?

— Três.

— Muito bem, três. Está pronto para gravar um contrato? Uma voz de mulher interrompeu-o:

— Pare bem aí, Jinx. Bee Jay Seventeen, fala aqui Maggie Snodgrass, Operadora Chefe Gerente-Geral da Equipe Diabo Vermelho de Incêndio, Policial e Salvamento, Pressurizado Na­riz Quebrado. Não faça nada até ouvir minhas condições... por­que Jinx está pensando em esfolá-lo.

— Oi, Maggie! Como vai, Joel?

— Macio como seda e mais safado do que nunca. Como vai Ingrid?

— Mais bonita do que nunca e com outro no forno.

— Que bom pra você! Parabéns! Para quando ela está esperando?

— Natal, talvez Ano-novo, tanto quanto a gente pode cal­cular.

— Estou pensando em dar uma passada por aí para visitá-la. Agora, você vai cair fora e deixar que eu trate honestamen­te com esse cavalheiro? Ou vou encher de buraco sua cabine e deixar escapar todo o ar? Sim, vi você subindo a elevação... Comecei no mesmo momento que você, logo que Marcy deu a localização. Eu disse a Joel: "Este território é nosso... mas aquele patife mentiroso Jinx vai tentar roubá-lo bem embaixo de meu nariz" — e você não me decepcionou, rapaz, está aqui.

— E pensando em ficar, Maggie — e inteiramente dispos­to a lançar um lembretezinho não-nuclear no seu caminho, se você não se comportar. Você conhece as regras: nada na su­perfície pertence a ninguém... a menos que o cara esteja sen­tado em cima da coisa... ou estabeleça pressurização em cima ou embaixo da coisa.

— Essa é sua idéia de regra, não a minha. Isso é trambi­que daqueles advogados de Luna City... e eles não falam por mim e nunca falaram. Agora, vamos mudar para o canal 4 — a menos que queira que todo mundo em Kong ouça você im­plorar piedade e exalar seu último suspiro.

— Canal 4, então, Maggie, seu velho intestino cheio de gases.

— Canal 4 Quem foi que você contratou para fabricar aque­le bebê, Jinx? Se fosse um cara sério em matéria de resgate, estaria aqui com um transportador, como eu... e não com seu calhambeque rolador.

Eu sintonizara para o canal 4 quando eles fizeram isso. Nes­se momento, fiquei calado. Ambos apareceram no horizonte mais ou menos no mesmo momento, Maggie vindo do sudoes­te e Jinx do noroeste. Uma vez que tínhamos caído com a vi­gia principal orientada para o oeste, podíamos vê-los facilmen­te. O caminhão rolador (tinha que ser Henderson, pela conver­sa) estava a noroeste e um pouco mais perto. Exibia o que pa­recia um reparo de bazuca montado bem em frente da cabine. O transportador era um veículo muito comprido, com lagartas em cada extremidade e um guincho de serviço pesado mon­tado à ré. Não vi nenhuma bazuca nele, mas de fato vi o que poderia ser um Browning 2.54 semi-automático.

— Maggie, eu corri para aqui no rolador por razões hu­manitárias... uma coisa que você não compreenderia. Mas meu filho Wolf está vindo com meu transportador, com a irmã Gret­chen guarnecendo a torreta. Devem chegar logo. Ligo para eles e digo para voltarem para casa? Ou que corram para aqui e vinguem o papai?

— Jinx, você não pensou realmente que eu ia abrir a tiros buracos em sua cabine, pensou?

— Pensei, Maggie, penso com toda sinceridade que você faria isso. O que apenas me dá tempo de botar um obus em­baixo de suas lagartas, que é para onde estou apontando nes­te exato instante. Um morto apertando o gatilho. Com o que eu estaria morto... e você aí, incapaz de se mover, simples­mente para ver o que meus meninos fariam com a parte que fez isso com o paizinho deles... meu canhão de torreta tendo três vezes o alcance de sua espingarda de matar passarinhos. Que foi o motivo por que o arranjei... depois que Howie mor­reu por acaso.

— Jinx, você está tentando me escandalizar com essa ve­lha história? Howie era meu sócio. Você devia ter vergonha.

— Não estou acusando você de coisa nenhuma, querida. Estou sendo apenas cauteloso. O que é que me diz? Espero por seus filhos e fico com tudo? Ou dividimos, direito e bonitinho?

Eu simplesmente desejei que esses entusiásticos empre­sários acabassem logo com aquilo. A nossa luz de pressão de ar piscou vermelha e eu estava sentindo uma tonteira. Acho que quando rolamos pelo chão ocorreu um pequeno furo. Lutei entre a necessidade de dizer a eles que se apressassem e a com­preensão de que minha má posição de barganha cairia a zero, ou mesmo menos, se fizesse isso.

Pensativa, disse a Sra. Snodgrass:

— Bem Jinx, não faz sentido levar essa sucata à sua pressurizada — fica ao norte da minha — quando é uns 30 quilô­metros mais perto levá-la a Kong passando pelo meu territó­rio — ao sul do seu. Certo?

— Simples aritmética, Maggie. E eu tenho espaço de so­bra neste calhambeque para mais três... e não tenho certeza de que você pudesse receber mais três, mesmo que os empi­lhasse como panquecas.

— Eu poderia dar um jeito neles, mas reconheço que vo­cê tem mais espaço. Muito bem, você pega os três refugiados e esfola-os até o ponto em que sua consciência permitir... e eu pego esta sucata e resgato o que puder dela, se é que há alguma coisa.

— Oh, não, Maggie! Você é generosa demais. Eu não ia querer passar a perna em você. Dividimos ao meio. No papel. Confirmado.

— Ora, Jinx, você pensa que eu ia enganar você?

— Não vamos discutir isso, Maggie. Só causaria sofrimento. Essa nave esporte não está abandonada. O dono está dentro dela neste exato minuto. Antes de poder movê-lo, você preci­sa de autorização escrita... com base em um contrato registra­do. Se você não quiser ser razoável, ele pode esperar lá pelo meu transportador e não deixar nem por um momento sua propriedade. Nada de salvamento, apenas reboque de alu­guel... além de transporte gratuito para o dono e seus con­vidados.

— Senhor, quem quer que seja, não deixe que Jinx o en­gane. Ele o leva e sua nave à pressurizada dele e descasca-o como se fosse uma cebola, até que nada sobre de você, senão o cheiro. Eu lhe ofereço agora mesmo mil coroas, dinheiro vi­vo, por essa sucata de metal onde está sentado.

Henderson reagiu:

— Duas mil e eu o levo à pressurizada. Não deixe que ela o engane. Há mais salvados do que ela está oferecendo ape­nas no seu computador.

Fiquei calado enquanto os dois vampiros resolviam como iam nos sangrar. Finalmente, quando concordaram, eu concordei... apenas com uma resistência nominal. Objetei que o preço subira e que era alto demais. A Sra. Snodgrass foi dura:

— Pegue ou se vire. Henderson reforçou:

— Eu não saí de uma cama quente para perder dinheiro. Topei.

 

E assim vestimos aqueles trajes idiotas, gastos de tanta pra­teleira, tão rígidos como uma cesta de vime. Gwen protestou dizendo que a Árvore-San não podia ser exposta ao vácuo. Res­pondi que calasse a boca e não fosse idiota. Alguns momen­tos de exposição ao vácuo não iam matar a pequena criatura — e o ar havia se acabado, de modo que não havia opção. Neste caso, ela ia carregá-la. Depois, deixou que Bill carregasse. Ela se ocupou com outra coisa — comigo.

Entendam, não posso usar um traje pressurizado que não tenha sido feito especialmente para mim... enquanto uso meu pé artificial. De modo que tive que tirá-lo. E por isso tive que saltitar. Quanto a isto, tudo bem, estou acostumado a saltitar e a um sexto de gravidade saltitar não é problema. Mas Gwen tinha que cuidar de mim.

E assim fomos — Bill à frente com a Árvore-San, sob ins­truções de Gwen de entrar logo no veículo e conseguir um pou­co de água com o Sr. Henderson para molhar a planta, e logo atrás Gwen e eu, andando como se fôssemos gêmeos siame­ses. Ela levava a maleta com a mão esquerda e envolvia com o braço direito minha cintura. Eu pendurara o pé artificial no ombro, usava a bengala, saltitava e me equilibrava com o bra­ço esquerdo em volta dos ombros dela. De que modo poderia lhe dizer que teria ficado mais equilibrado sem a ajuda dela? Mantive fechada minha bocona e deixei que ela me ajudasse.

O Sr. Henderson abriu a cabine, selou-a hermeticamente e em seguida abriu generosamente a garrafa de ar — ele estivera trabalhando no vácuo, usando traje pressurizado. Apre­ciei devidamente este dispendioso gasto da mistura de ar — oxigênio extraído laboriosamente de rochas lunares e nitrogê­nio trazido desde a Terra — até que a vi no dia seguinte em minha conta a preço inflacionado.

Henderson demorou-se para ajudar Maggie a içar a velha B.J. 17 para o transporte, enquanto ela cuidava dos controles das lagartas. Em seguida, levou-nos para a Pressurizada Os­sos Secos. Passei parte do tempo da viagem calculando o quan­to aquilo me custara. Eu tivera que vender a nave, tudo nela — líquido por pouco menos de 27 mil coroas. Pagara três mil por cabeça pelo nosso salvamento, com um desconto para oi­to mil por cortesia... mais 500 cada por cama e café da ma­nhã... mais (soube depois) 1.800 no dia seguinte para que ele nos levasse à Pressurizada Dragão Feliz, o lugar mais próximo de onde poderíamos pegar um ônibus rolador para Hong Kong Luna.

Em Luna é mais barato morrer.

Ainda assim, sentia-me feliz em estar vivo, a qualquer pre­ço. Eu tinha Gwen e dinheiro é um troço que a gente sempre pode ganhar mais.

Ingrid Henderson era uma dona-de-casa muito graciosa — sorridente, bonita, gordinha (evidentemente esperando be­bê). Recebeu-nos calorosamente, acordou a filha, transferiu-a para o quarto deles, colocou-nos no quarto de Gretchen, alo­jou Bill no de Wolf — ponto em que compreendi que as amea­ças de Jinx a Maggie não tinham apoio na força... e compreendi também que isso não era de minha conta.

A dona-de-casa desejou-nos boa-noite, disse-nos que a luz no refrescador seria deixada acesa para o caso de... e saiu. Olhei no relógio antes de desligar a luz.

Vinte e quatro horas antes, um estranho e arrogante Schultz se sentara à minha mesa.

 

Arma Letal

"Deus querido, dai-me castidade e autocontrole... mas ainda não, oh, Deus, ainda não!"

Santo Agostinho, A.D. 354-430

 

Aquela droga de fez!

Esse chapéu idiota e falso oriental fora 50% do disfarce que me salvara a vida. Mas, tendo-o usado, a coisa friamente prag­mática a fazer teria sido destruí-lo.

Não fiz isso. Eu me sentia contrafeito em usá-lo, em pri­meiro lugar porque não sou nenhum tipo de maçom, e muito menos um Shriner, e em segunda porque não era meu. Fora roubado.

A gente pode roubar um trono, o resgate de um rei ou uma princesa marciana e ainda se sentir eufórico com a faça­nha. Mas um chapéu? Roubar um chapéu era ainda menos que desprezível. Bem, não raciocinei assim. Eu simplesmente me sentia contrafeito no que interessava ao Sr. Clayton Rass­mussen (o nome que encontrei gravado no fez) e tencionava devolver-lhe o imaginoso enfeite de cabeça. Algum dia... de alguma maneira... quando pudesse fazer isso... quando a chu­va parasse...

Deixando o habitat Regra de Ouro, eu o enfiara sob o cin­to e o esquecera. Após o pouso em Luna, quando me soltei da cadeira, o fez caíra para o teto. Eu nem notara. Quando ía­mos vestindo aqueles trajes espaciais ventilados, Gwen pegou-o e me deu. Enfiei-o na parte fronteira de meu traje e fechei o zíper.

Quando chegamos à casa dos Henderson na Pressurizada Ossos Secos e nos mostraram onde íamos dormir, despi-me tão sonolento que quase nem soube o que estava fazendo. Acho que o fez caiu nessa ocasião. Não sei. Simplesmente me aninhei contra Gwen e adormeci imediatamente — e passei minha noite de núpcias em oito horas de sono ininterrupto.

Acho que minha nova esposa dormiu também como uma pedra. Não tinha importância — havíamos feito uma grande sessão de treinamento na noite anterior.

À mesa do café da manhã, Bill entregou-me o tal fez.

— Senador, o senhor deixou cair o chapéu no chão do refrescador.

À mesa estavam também Gwen, os Henderson — Ingrid, Jinx, Gretchen, Wolf — e dois pensionistas, Eloise e Ace, além de três crianças pequenas. A ocasião era boa para que eu fi­zesse uma brilhante improvisação que explicasse a posse da­quele chapéu engraçado. Mas o que eu disse foi:

— Obrigado, Bill.

Jinx e Ace trocaram olhares. Em seguida, Jinx me fez si­nais de reconhecimentos maçônicos.

Era isso que eu devia ter suposto que eram. Na ocasião, pensei simplesmente que ele estava se coçando. Afinal de con­tas todos os lunáticos se coçam porque todos eles têm coceiras. Não podem evitar isso — não há banhos suficientes, não há água suficiente.

Jinx me procurou após o café. Disse:

— Nobre... Respondi:

— Ahn? (Resposta rápida!)

— Não pude deixar de notar que o senhor declinou de me reconhecer à mesa. A Ace notou isso, também. Está por acaso pensando que o trato que fizemos ontem não foi no nível e dentro do esquadro?

(Jinx, você me tirou o couro, me deixou de tanga,)

— Ora, nada disso. Não estou me queixando. (Negócio é negócio, seu safado. Bom cabrito não berra.)

— Tem certeza? Eu nunca enganei um irmão de loja — ou um estranho, por falar nisso. Mas dedico um cuidado espe­cial a qualquer um de meu próprio sangue. Se acha que pa­gou demais pelo salvamento, então pague o que achar que é certo. Ou não pague nada.

E acrescentou:

— Embora eu não possa falar por Maggie Snodgrass, ela fará um ajuste comigo, e será honesto. Não há nada de mes­quinho em Maggie. Mas não espere que aqueles salvados dêem um líquido muito bom. Ou talvez dê até prejuízo quando ela o vender porque... Sabe onde a Budget arranja a sucata que vende, não?

Confessei minha ignorância. Ele acrescentou:

— Todos os anos, as empresas de aluguel, de qualidade, como a Hertz e a Interplanet, vendem seus carros usados. Os bons são comprados por pessoas privadas, principalmente lunarianos. O resto vai para as revendedoras de segunda mão. A Budget Jets compra o que sobra a preços de ferro-velho, por uma ninharia. Reformam a sucata em suas oficinas nas proxi­midades de Loonie City, conseguindo talvez montar duas na­ves por três que compra e depois vende como sucata o que sobra. Aquele calhambeque que o deixou na mão — a com­panhia lhe cobrou o preço de lista, 26 mil... mas se a Budget teve mesmo até cinco mil empatado na coisa, eu lhe dou a di­ferença e lhe pago um drinque, e isto é a verdade.

Olhou-me e continuou:

— Agora, Maggie vai recondicioná-lo novamente, mas os reparos dela serão honestos e o trabalho garantido, e ela o ven­derá como a coisa é... um veículo usado, reformado, não novo. Talvez dê uns 10 mil, bruto. Depois de descontada uma parte justa por sobressalentes e mão-de-obra, se o líquido que ela dividir comigo chegar a mais de três mil, ficarei muito es­pantado — e pode ser um prejuízo líquido. Isto é um jogo.

Contei um bocado de mentiras sinceras e consegui (acho) convencer Jinx de que não éramos irmãos de loja, que eu não ia pedir desconto em nada e que obtivera aquele fez por aci­dente, no último minuto — encontrara-o no Volvo quando o alugara.

(Suposição implícita: o Sr. Rassmussen alugara aquela car­roça em Luna City e deixara o chapéu nela quando entregara o Volvo na Regra de Ouro 1.)

Acrescentei que o nome do dono estava no fez e que ten­cionava devolvê-lo a ele.

Jinx perguntou:

— Tem o endereço dele?

Reconheci que não tinha — apenas o nome de seu tem­plo, bordado no fez. Jinx estendeu a mão.

— Passe pra cá. Posso lhe poupar este trabalho... e a des­pesa de enviar um embrulho de volta a Terra.

— Como?

— Acontece que conheço um cara que vai de ônibus lunar a Luna City no sábado. A convenção dos Nobres termina no domingo, logo depois de eles inaugurarem o Hospital de Crian­ças Aleijadas e Mentalmente Retardadas de Luna City. Have­rá uma barraca de objetos perdidos e achados no centro de convenções, sempre há. Uma vez que o nome dele está no cha­péu, farão com que chegue às mãos dele... antes da noite de sábado, porque essa é a noite do concurso de evoluções em grupo... e sabem que um membro de um grupo de evoluções — se ele for — sem o seu fez está tão nu como uma garçonete de bar sem biquíni.

Entreguei-lhe o chapéu vermelho. E pensei que seria o fim da coisa.

Mais aborrecimentos antes de podermos iniciar a viagem para o Pressurizado Dragão Feliz — não havia trajes pressurizados. Ou como disse Jinx:

— Na noite passada, concordei em que usassem essas pe­neiras cheias de furos porque era tudo ou nada — era arriscar ou deixar que vocês morressem. Hoje, poderemos usá-las da mesma maneira — ou trazer mesmo o calhambeque para o han­gar e fazer vocês entrarem sem usar os trajes. Claro, isso gas­taria um volume imenso de ar. Em seguida, fazer a mesma coisa no outro lado... com um custo ainda maior de ar porque o han­gar deles é maior.

Eu disse que pagaria. (Não sei como poderia evitar isso.)

— Esta não é a questão. A noite passada vocês ficaram na cabine durante vinte minutos... e foi preciso uma garrafa in­teira para mantê-los respirando. Em fins da noite passada, o sol estava apenas nascendo; esta manhã ele está cinco graus alto. Os raios do sol vão bater num dos lados do veículo o tem­po todo até o Dragão Feliz. Oh, Gretchen vai dirigir pela som­bra o máximo que puder. Nós não criamos aqui crianças estú­pidas. Mas o ar que houvesse dentro da cabine esquentaria, se dilataria e continuaria a sair pelas rachaduras. De modo que a operação normal consiste em pressurizar seu traje, mas não a cabine, e usar esta apenas como sombra.

Após uma pequena pausa, continuou:

— Bem, não vou lhe mentir. Se eu tivesse trajes para ven­der, insistiria em que comprasse três novos. Mas não tenho nenhum. Ninguém neste pressurizado tem trajes para vender. Nós somos menos de 150 e eu saberia. Compramos trajes em Kong e é isso o que vocês devem fazer.

— Mas eu não estou em Kong.

Há mais de cinco anos que eu não possuía um traje pres­surizado. Na maior parte, os habitantes permanentes do Regra de Ouro não os possuem. Não precisam deles, não saem de lá. Claro, há muita gente do pessoal administrativo e tur­mas de manutenção que mantêm sempre trajes de prontidão, da mesma maneira que bostonianos têm suas galochas. O ha­bitante comum, porém, idoso e rico, não as tem e nem sabe­ria como usá-las.

Os lunarianos são diferentes. Mesmo hoje, tendo Luna City mais de um milhão e tanto- de moradores, e alguns que rara­mente saem de seus limites, todo lunariano tem seu traje pressurizado. Até mesmo os habitantes dessa grande cidade sa­bem, desde criancinhas, que esse pressurizado seguro, quen­te, bem-iluminado, pode ser furado — por um meteoro, uma bomba, um terrorista, um terremoto ou alguma calamidade imprevisível.

Se ele é um tipo pioneiro, como Jinx, está tão acostumado ao traje como um mineiro do cinturão de asteróides. Jinx nem mesmo cultiva sua fazenda pessoal dentro do túnel: isto ca­bia ao resto da família. Habitualmente ele trabalha fora, em traje pressurizado, como mecânico de construção pesada. O Resgate Feliz era apenas uma de suas dezenas de ocupações. Ele era também a Companhia de Gelo de Ossos Secos, Com­panhia de Transportes Terrestres Henderson, John Henry, Em­preiteiros de Solda, Perfurações e Construções — basta dizer o quê e Jinx inventaria a companhia correspondente.

(Havia também a Loja Ingrid de Pechinchas, que vendia tudo, de aço estrutural a biscoitos caseiros. Mas não trajes pressurizados.)

 

Jinx bolou uma maneira de nos levar ao Dragão Feliz: In­grid e Gwen eram mais ou menos do mesmo corpo, exceto que a primeira estava temporariamente distendida no equa­dor. Possuía um traje pressurizado de gravidez, com cintura que podia ser alargada. Possuía também um traje convencional que usava quando não estava grávida, e no qual não po­dia entrar nessa ocasião — mas Gwen podia.

Jinx e eu tínhamos mais ou menos a mesma altura e ele possuía dois trajes, ambos de primeira qualidade, fabricação Goodrich Luna. Notei que ele estava tão disposto a emprestá-lo como um carpinteiro em emprestar suas ferramentas. Mas também trabalhava sob pressão para bolar alguma coisa, ou teria que nos agüentar como hóspedes pagantes... e depois como não-pagantes quando nosso dinheiro acabasse. E na rea­lidade não dispunha de acomodações para nós, mesmo que pagássemos.

Passava das 10h na manhã seguinte quando vestimos nos­sos trajes pressurizados e subimos para o rolador — eu usan­do o segundo melhor de Jinx, Gwen no traje de não-gravidez de Ingrid e Bill em uma antigüidade restaurada que pertence­ra ao fundador do Pressurizado Ossos Secos, um certo Sr. Sou­pie McClanaham, que chegara à Lua há muito, muito tempo, na qualidade de hóspede involuntário do governo.

O plano era que conseguíssemos trajes de empréstimos no Pressurizado Dragão Feliz, que usaríamos até HKL, enviando-os de volta pelo ônibus de carreira, enquanto Gretchen levaria estes de volta ao pai quando nos deixasse em nosso atual destino. No dia seguinte, estaríamos em Hong Kong Lu­na, onde poderíamos comprar trajes que atendessem às nos­sas necessidades.

Falei com Jinx a respeito do pagamento. Quase pude ou­vir os números estalando dentro de seu crânio. Finalmente, ele disse:

— Senador, vou-lhe dizer o que vamos fazer. Aqueles tra­jes que vieram com sua sucata, bem, eles não valem grande coisa. Mas há alguns salvados nos capacetes e nas guarnições de metal. Mande-me de volta meus três trajes no estado em que os recebeu e ficaremos quites. Se também pensa assim.

Claro que pensei. Aqueles trajes Michelin tinham sido óti­mos... 20 anos antes. Rara mim, neste momento, nada valiam...

Restava apenas um problema — a Árvore-San.

Eu pensara que teria de ser firme com minha esposa — intenção esta nem sempre exeqüível. Mas descobri que enquan­to Jinx e eu estiváramos resolvendo o que fazer a respeito dos trajes de pressão, Gwen estivera trabalhando no que fazer a respeito da Árvore-San... com Ace.

Não tenho motivo para pensar que Gwen seduziu Ace. Mas tenho certeza de que Eloise assim pensou. Não obstante, lu­narianos têm lá seus costumes sobre sexo desde os dias em que homens superavam mulheres na proporção de seis a um. Segundo os costumes lunarianos, todas as opções em ques­tões sexuais cabem às mulheres — nenhuma aos homens. Eloi­se não pareceu zangada, apenas divertida — o que tirou o as­sunto de minha alçada.

De qualquer modo, Ace arranjou um balão de borracha de silicone, que abriu num dos lados, e por ele introduziu a Árvo­re San, com vaso e tudo, e em seguida fechou-o com aplicação de calor — acrescentando um apêndice contendo uma garrafa de ar de um litro. Não cobrou nada, nem mesmo pela garrafa. Ofereci-me para pagar, mas Ace simplesmente sorriu largamen­te e Gwen sacudiu a cabeça. De modo que não sei. E não quero perguntar.

Ingrid despediu-se de nós com beijos, fez-nos prometer que voltaríamos. Isto parecia improvável. Mas era uma boa idéia.

 

Gretchen fez perguntas durante toda a viagem e em ne­nhum instante pareceu observar o caminho por onde dirigia o veículo. Era uma loura de covinhas e trancas, alguns centí­metros mais alta que a mãe, mas ainda revestida de gordura infantil. Ficou muito impressionada com nossas viagens. Ela mesma fora a Hong Kong Luna duas vezes e uma vez até Novylen, onde as pessoas falam de modo engraçado. No próximo ano, quando completasse 14 anos, iria a Luna City e daria uma olhada nos rapazes — e talvez trouxesse um para casa como marido.

— Mamãe não quer que eu tenha bebê com ninguém em Ossos Secos, e nem mesmo de Dragão Feliz. Diz que é um dever meu com meus filhos procurar conseguir alguns genes novos. Sabe o que quer dizer isso? Genes novos, quero dizer.

Gwen garantiu-lhe que de fato sabia o que era isso e que concordava com Ingrid. Casar fora do grupo era uma política válida e necessária. Não fiz comentário, mas concordei: 150 pessoas não constituem um número suficiente para prover um bom reservatório de genes.

— Foi assim que mamãe pegou papai. Foi procurá-lo. Pa­pai nasceu no Arizona. Isso é uma parte da Suécia que fica na Terra. Veio para Luna como subempreiteiro da Picardy Trans­mutation Plant, mamãe o fisgou em um baile de máscaras, deu a ele nosso nome de família quando teve certeza — quero di­zer, sobre Wolf —, levou-o para Ossos Secos e botou um ne­gócio para ele.

Sorriu, cheia de covinhas. Estávamos conversando através dos aparelhos de rádio de nossos trajes e pude ver-lhe as co­vinhas pelo capacete graças a uma feliz mudança de luz.

— E eu vou fazer a mesma coisa com meu homem, usan­do a quota de minha família. Mamãe, porém, disse que não devo agarrar o primeiro rapaz que esteja querendo — como se eu fosse fazer isso! — e não me apressar nem me preocu­par mesmo que fique uma velha solteirona de 18 anos. E não vou. Ele tem que ser um bom homem, como papai.

Com meus botões, pensei que ela poderia ter que procu­rar muito. Jinx Henderson, née John Black Eagle, é um homem e tanto.

 

Quando divisamos finalmente o pátio de estacionamento de Dragão Feliz já era quase noite — em Istambul, quero dizer, como qualquer um podia ver, bastando olhar. A Terra es­tava quase diretamente ao sul de nós e bem alta no céu, uns 60 graus. Sua linha de iluminação cruzava o deserto a partir do norte da África e subia pelas Ilhas Gregas e Turquia. O sol estava ainda baixo no céu, nove ou dez graus, e subindo. Haveria quase 14 dias mais de luz solar no Dragão Feliz antes da longa noite seguinte. Perguntei a Gretchen se ela tenciona­va voltar imediatamente.

— Oh, não — garantiu-me ela. — Mamãe não ia gostar dis­so. Vou passar a noite aqui — há roupas de cama lá atrás — e voltarei descansada amanhã. Depois que vocês, gentes, pe­garem o ônibus.

— Isto não é necessário, Gretchen — respondi. — Logo que tirarmos estes trajes de pressão poderemos devolvê-los a vo­cê, e assim não há razão para esperar.

— Sr. Richard, está doido para que eu leve uma surra?

— Você? "Uma surra?" Ora, seu pai não faria uma coisa dessas. Com você? Quase uma mulher feita!

— Você bem que poderia dizer isso a mamãe. Papai, não me bateria, ele não faz isso há anos, muitos anos. Mamãe, po­rém, diz que sou candidata até o dia em que casar. Mamãe é uma peste, descendente direta de Hazel Stone. Ela disse: "Gret, veja esse negócio dos trajes deles. Leve-os a Charlie para que eles não sejam enganados. Se ele não puder fornecê-los, deixe que usem os nossos até Kong e combine com Lilybet para ir buscar os nossos mais tarde. E é melhor também que os ve­ja tomar o ônibus".

— Mas Gretchen — lembrou Gwen —, seu pai nos avisou que o ônibus não parte até completar a lotação. Isto poderia demorar um dia ou dois. Mesmo vários dias.

Gretchen soltou uma risadinha.

— Isso não seria horrível? Eu ganharia umas férias. Nada pra fazer senão ver de novo capítulos atrasados de O Outro Marido de Sylvia. Todo mundo com pena de Gretchen! Sra. Gwen, a senhora pode ligar para mamãe neste exato minuto, se quiser... mas eu tenho instruções terminantes.

Gwen calou-se, aparentemente convencida. Paramos a uns 50 metros da câmara pneumática de Dragão Feliz, instalada na vertente de uma colina. Dragão Feliz se situa nos sopés me­ridionais das Cordilheiras Caucasus, 32 graus 27 minutos nor­te. Esperei, apoiado sobre um pé e segurando-me na bengala, enquanto Bill e Gwen davam ajuda desnecessária a uma mo­cinha altamente eficiente na armação de um toldo inclinado para manter o rolador fora da luz solar direta nas 24 horas se­guintes, mais ou menos.

Gretchen ligou em seguida para a mãe pelo rádio do veí­culo, comunicou nossa chegada e prometeu voltar a falar pela manhã. Passamos pela câmara pneumática, Gwen levando a maleta e a bolsa e me amparando, Bill carregando a Árvore-San e um embrulho com a peruca de Naomi, e Gretchen ar­rastando um volumoso saco de roupas de cama. Uma vez do outro lado, ajudamo-nos uns aos outros a tirar os trajes pres­surizados. Recoloquei meu pé no lugar enquanto Gretchen pendurava meu traje no dela, e Bill e Gwen faziam o mesmo com os seus em longos cabides em frente à câmara.

Gwen e Bill apanharam seus fardos e dirigiram-se para o refrescador público à direita da câmara. Gretchen virou-se para segui-los, quando eu a detive.

— Gretchen, não seria melhor eu esperar aqui até que vo­cês três voltassem?

— Para quê, senhor senador?

— O traje de seu pai é valioso e também o que a Sra. Gwen esteve usando. Talvez todos aqui sejam honestos... mas os tra­jes não são meus.

— Oh. Talvez todos aqui sejam honestos, mas não confie nisso. Ou é isso o que papai diz. Eu não deixaria abandonada aquela linda arvorezinha, mas nunca se preocupe com um traje pressurizado: ninguém jamais toca no traje de outro lunariano. Eliminação automática na câmara pneumática mais próxi­ma. Nada de desculpas ou justificativas.

— Simples assim, ahn?

— Sim, senhor. Apenas, não acontece porque todos sabem que isso não se faz. Mas sei de um caso, que aconteceu antes de eu nascer. Um cara novo, talvez ele não soubesse que isso não se faz. Mas nunca mais fez porque um grupo foi atrás de­le e trouxe de volta o traje pressurizado, mas não ele. Deixaram-no simplesmente para secar nas pedras. Eu o vi, o que sobrou dele. Horrível. — Enrugou o nariz e depois encheu-se de co-vinhas. — Agora, pode me dar licença, senhor? Estou para mo­lhar minha calcinha.

— Desculpe!

(Sou um estúpido. A instalação hidráulica em um traje pres­surizado de homem é adequada, embora apenas isso. Mas o que os grandes cérebros inventaram para as mulheres não é. Tenho forte impressão que a maioria das mulheres prefere agüentar um grande desconforto a usá-lo. Certa vez ouvi uma delas referir-se depreciativamente à coisa como "a caixa de areia".)

À porta do refrescador, encontrei minha esposa à espera. Ela me estendeu meia coroa.

— Não tinha certeza se você tinha uma moeda, querido.

— Ahn?

— Para o refrescador. Já providenciei o ar. Gretchen pagou nosso consumo de um dia e eu paguei a ela. Estamos de volta à civilização, querido... Nada de almoço gratuito.

Nem nada gratuito. Agradeci.

Convidei Gretchen para jantar conosco. Respondeu:

— Obrigado senhor, aceito. Mamãe disse que eu podia acei­tar. Mas por ora o senhor não se contentaria com sorvete em casquinha? Mamãe me deu dinheiro para que eu pudesse oferecê-lo aos senhores. Porque há várias coisas que temos que fazer antes do jantar.

— Mas claro. Estamos em suas mãos, Gretchen. Você é a veterana. Nós somos os jecas.

— O que é um "jeca"?

— Um cara novo por aqui.

— Oh. Em primeiro lugar, temos que ir ao túnel Sonhos Tranqüilos e estender nossas roupas de cama, a fim de mar­car nossos lugares para que todos possamos dormir juntos. — Ponto em que descobri por que as roupas de cama de Gret­chen eram tão volumosas. Mais uma vez, o espírito de previ­são da mãe. — Mas antes disso é melhor dar nossos nomes a Lilybet para reservar lugares no ônibus... e, antes disso, va­mos pegar aqueles sorvetes em casquinha, se estão com tanta fome como eu. Depois, a última coisa antes do jantar, a gente deve ir falar com Charlie sobre os trajes pressurizados.

O sorvete de casquinha estava à mão, no mesmo túnel que os cabides: duas bolas borodin com guarnição, servido pela própria Kelly Borodin, que me ofereceu ainda à venda (além dos generosos sorvetes) revistas usadas da Terra, revistas quase sem uso de Luna City e Tycho Subsolo, balas, bilhetes de lo­teria, horóscopos, o Lunaya Pravda e o Luna City Lunatic, pos­tais (autênticas imitações Hallmark), comprimidos garantidos para restaurar a virilidade e uma cura certeira para ressaca, fabricada segundo antiga fórmula cigana. Em seguida, ofereceu-se para disputar nos dados o pagamento em dobro ou nada pelos sorvetes. Gretchen captou meu olhar e sacudiu de leve a cabeça.

Saindo dali, ela me disse:

— Kelly tem duas parelhas de dados, um para estranhos e outro para gente que conhece. Mas ela não sabe que eu sei disso. O senhor pagou o sorvete... e agora, se não deixar que eu retribua, vou levar aquela surra. Porque mamãe vai me per­guntar e eu vou ter que contar a ela.

Pensei no caso.

— Gretchen, é difícil para mim acreditar que sua mãe lhe dê uma surra por alguma coisa que eu fiz.

— Oh, mas ela daria, senhor! Vai dizer que eu devia ter estado com o dinheiro à mão. E devia, mesmo.

— E ela bate mesmo com força? No bumbum, sem nada?

— Oh, Deus, bate, sim! Brutal.

— Isto é um pensamento intrigante. Seu pequeno bum­bum ficando vermelho enquanto você chora.

— Eu não choro! Bem, não demais.

— Richard.

— Sim, Gwen?

— Pare com isso.

— Agora, ouça bem, mulher. Não interfira em minhas re­lações com outra mulher. Eu...

— Richard!

— Disse alguma coisa, querida?

— Mamãe bate.

Aceitei de Gretchen o pagamento dos sorvetes de casqui­nha. É, ela manda em mim.

 

A tabuleta dizia:

 

COMPANHIA DE ÔNIBUS APOCALIPSE

E O SEGUNDO ADVENTO

Viagens Regulares para Hong Kong Luna

Lotação Mínima — doze (12) passageiros

Afretamento para qualquer lugar, por hora

Próxima viagem para HKL não antes

de amanhã, ao meio-dia, 3 de julho

 

Sentada sob a tabuleta, balançando-se em uma cadeira e tricotando, uma negra idosa. Gretchen cumprimentou-a:

— Como vai, tia Lilybet?

Ela ergueu os olhos, pôs o tricô no colo e sorriu.

— Gretchen, doçura! Como vai sua mamãe, querida?

— Muito bem. Engordando a cada dia. Tia Lilybet, quero que conheça meus amigos, o senhor senador Richard, Sra. Gwen e Sr. Bill. Eles precisam ir com você a Kong.

— Prazer em conhecê-los, amigos, e será uma satisfação levá-los a Kong. Penso em viajar amanhã ao meio-dia, uma vez que, com vocês, tenho já 10 passageiros, e se não conseguir mais dois até o meio-dia, é possível completar com car­ga. Tudo bem?

Garanti a ela que sim, que estaríamos ali antes do meio-dia, usando traje pressurizado e prontos para rolar. Gentilmen­te ela sugeriu pagamento antecipado, observando que havia ainda assentos no lado da sombra, uma vez que alguns pas­sageiros tinham feito reservas mas não pago ainda. De modo que pensei — 1.200 coroas pelos três.

Fomos em seguida para o túnel Sonhos Tranqüilos. Não sei se devo chamá-lo de hotel ou o quê — talvez "albergue" descreva-o melhor. Era um túnel de pouco mais de três me­tros de largura por uns cinqüenta e tantos rocha adentro, on­de terminava. O meio e o lado esquerdo do túnel eram uma prateleira de pedra de meio metro acima da passagem à direi­ta. Esta prateleira era disposta em forma de espaços de dor­mir, marcados por faixas pintadas e por grandes números na parede. O espaço mais perto do corredor tinha o número "50". Cerca de metade dos espaços tinha roupas ou sacos de dormir.

A meio caminho do túnel, à direita, a costumeira luz ver­de indicava onde ficava o refrescador.

À entrada do túnel, sentado a uma mesa e lendo alguma coisa, um cavalheiro chinês, usando um traje fora de moda já na época em que Armstrong dera seu "primeiro e pequeno passo". Usava óculos tão antiquados como a roupa e ele mes­mo parecia ser uns 90 anos mais velho que Deus e duas vezes mais sério.

Ao nos aproximarmos, pôs o livro de lado e sorriu para Gretchen.

— Gretchen, que bom vê-la de novo. Como vão seus esti­mados pais?

Ela respondeu com uma mesura e disse:

— Eles vão bem, Dr. Chan, e lhe enviam cumprimentos. Posso lhe apresentar nossos convidados, o senhor senador Ri­chard, a Sra. Gwen e o Sr. Bill?

Ele fez uma curvatura sem se levantar do lugar e apertou mãos consigo mesmo.

— Hóspedes da Casa Henderson são muito bem-vindos à minha casa.

Gwen fez uma mesura, eu, uma curvatura, e o mesmo fez Bill, depois que enfiei um polegar em suas costelas — o que o Dr. Chan notou sem declinar ter notado. Murmurei a for­malidade apropriada. Gretchen continuou:

— Gostaríamos de dormir aos seus cuidados hoje à noite, Dr. Chan, se nos aceitar. Se assim, chegamos cedo o suficien­te para termos quatro lugares lado a lado?

— Na verdade, sim... porque sua graciosa mãe não me fa­lou antes. Suas camas são de números quatro, três, dois e um.

— Oh, ótimo! Obrigado, vovô Chan.

E assim paguei por três, não por quatro. Não sei se Gret­chen pagou ou se tinha conta corrente, ou o quê: não vi di­nheiro mudar de mãos. Cinco coroas por pessoa por noite, ne­nhum custo extra pelo uso do refrescador, mas duas coroas se quiséssemos água para o banho de chuveiro — água sem limite. Sabão, extra — meia coroa.

Terminada a transação, o Dr. Chan perguntou:

— A bonsai não precisa de água?

Quase em coro respondemos que sim. O hospedeiro exa­minou a película de plástico que a envolvia, abriu-a e, com todo cuidado, tirou árvore e vaso. O depósito que havia em sua mesa era uma garrafa d'água. Encheu um cálice e, usan­do apenas as pontas dos dedos, borrifou-a repetidamente. En­quanto ele fazia isso, dei uma olhada no livro que ele estava lendo. Era A Marcha dos Dez Mil, em grego.

Deixamos com ele a Árvore-San e também a maleta de Gwen.

 

Fizemos a parada seguinte na Churrascaria Jake. Jake era chinês como o Dr. Cham, mas de outra geração e estilo. Recebeu-nos com um:

— Oi, gente. O que é que vai ser? Hamburgers? Ovos me­xidos? Café ou cerveja?

Gretchen falou-lhe em uma língua tonal — cantonês, acho. Jake pareceu aborrecido e respondeu. Gretchen replicou, no mesmo tom. Trocaram insultos. Finalmente, parecendo revol­tado, ele disse:

— Okay, em quarenta minutos... — deu-nos as costas e se afastou.

Gretchen virou-se para nós:

— Venham, por favor. Vamos agora conversar com Char­lie Wang sobre os trajes pressurizados.

Enquanto nos afastávamos, ela disse baixinho:

— Ele estava querendo evitar que a gente pedisse os me­lhores pratos. Dão muito mais trabalho. Mas a pior discussão foi sobre preço. Jake queria que eu ficasse calada enquanto ele lhes cobraria preços de turistas. Eu disse a ele que se cobrasse mais do que cobra a meu pai, então meu pai, na próxima vez que viesse aqui, lhe cortaria as orelhas e as daria a ele para comer, cruas. Jake sabe que papai faria exatamente isso.

Gretchen sorriu, orgulhosa, e continuou:

— Meu pai é muito respeitado em Dragão Feliz. Quando eu era menina, papai eliminou um vagabundo que tentou ex­plorar uma prostituta daqui, que não quis pagar a ela o que prometera. Todo mundo se lembra disso. As prostitutas de Dra­gão Feliz fizeram mamãe e eu membros honorários da asso­ciação delas.

 

A tabuleta dizia: Wang Chai-Lee, Trajes sob Medida para Cavalheiros e Senhoras — especialidade em consertos de tra­jes pressurizados. Gretchen, mais uma vez, apresentou-nos e explicou nossas necessidades. Charlie Wang inclinou a cabeça.

— Viagem de ônibus ao meio-dia? Estejam aqui às 10h30min. Em Kong vocês devolvem os trajes a meu primo Johnny Wang, na Sears Montgomery, departamento de trajes pressurizados. Vou telefonar para ele.

Depois disso voltamos à Churrascaria do Jake. Não era churrasco, nem chop suey nem chowmein — mas que era uma delícia, era. Comemos até que a comida começou a sair pelo ladrão.

Ao voltarmos ao túnel Sonhos Tranqüilos as luzes do alto haviam sido apagadas e muitos dos espaços estavam ocupados por pessoas adormecidas. Uma fita luminosa corria ao lado dos espaços, numa posição que não brilhava no rosto das pes­soas adormecidas mas era suficiente para iluminar o caminho de quem andasse por ali. Notei uma luz de leitura à mesa do Dr. Chan, protegida de um lado para não incomodar os que dormiam. Ele parecia estar trabalhando em suas contas, ope­rando um terminal com uma das mãos e um ábaco com a ou­tra. Cumprimentou-nos sem falar; nós murmuramos boa-noite.

Instruídos por Gretchen, preparamo-nos para a cama: dispa-se, dobre suas roupas e coloque-as e os sapatos sob a cabeceira da tralha de cama, como travesseiro. Fiz isso e acrescentei meu pé de cortiça. Mas continuei de cueca, tendo notado que Gwen e Gretchen haviam conservado as calcinhas — e Bill, atrasado, vestiu a sua quando notou o que havíamos feito. Depois, dirigimo-nos todos ao refrescador.

Mas essa homenagem nominal à modéstia não durou: to­mamos banho de chuveiro juntos. Havia três homens no re­frescador quando entramos, todos nus. Seguimos o preceito antigo: "A nudez é freqüentemente vista mas nunca olhada." E os três homens seguiram rigorosamente a regra: nós não es­távamos ali, éramos invisíveis. (Salvo que, acho, não, tenho cer­teza, que nenhum homem pode ignorar totalmente Gwen e Gretchen.)

Eu não pude ignorar totalmente Gretchen, nem tentei. Nua, ela parecia anos mais velha e deliciosamente apetitosa. Acho que tinha um bronzeado de lâmpada ultravioleta. Sei que tinha covinhas que eu não vira antes. Não vejo necessida­de de entrar em detalhes. Todas as mulheres são belas no ponto em que desabrocham em plena feminilidade, e Gretchen tinha a beleza adicional de boas proporções e disposição alegre. Ela poderia ter sido usada para tentar Santo Antônio.

Gwen entregou-me o sabão:

— Muito bem, querido, pode esfregar as costas dela... mas ela mesma pode lavar a parte da frente.

Respondi, cheio de dignidade:

— Não sei do que é que você está falando. Não estou pen­sando em lavar as costas de ninguém, uma vez que preciso de mão livre para agarrar alguma coisa e manter o equilíbrio. Você se esquece que sou uma futura mãe.

— É mãe, sim, disto não há dúvida.

— Quem é que está chamando quem de mãe? Eu agradece­ria se você se mostrasse educada no que diz.

— Richard, isto está descendo até abaixo de minha digni­dade. Gretchen, você esfrega as costas dele. Eu servirei de árbitro.

A coisa acabou com todo mundo lavando o que ele/ela po­dia alcançar — até Bill — e a coisa não foi eficiente, mas que foi engraçado, foi, com um bocado de risadas. Pertenciam am­bas a um sexo extremamente oposto e tê-las em volta era divertido.

Às 22h estávamos prontos para a noite, Gretchen junto à parede dos fundos. Gwen ao lado dela, eu e depois Bill. A um sexto de gravidade, uma prateleira de rocha é mais macia do que um colchão de espuma em Iowa. Adormeci rapidamente.

Algum tempo depois — uma hora? duas horas? — acordei com um corpo quente colado ao meu. Murmurei:

— Agora, querida? — Depois, acordei mais um pouco: — Gwen?

— Sou eu, Sr. Richard. O senhor gostaria realmente de ver meu bumbum vermelho? E eu chorar?

Tenso, murmurei:

— Doçura, volte para junto da parede.

— Por favor.

— Não, querida.

— Gretchen — disse Gwen baixinho —, volte para seu lu­gar, querida... antes que acorde os outros. Venha, eu ajudo você a rolar por cima de mim.

Fez isso, pegou a mulher-criança nos braços e lhe falou. Ficaram assim e (acho) dormiram.

Mas eu precisei de muito tempo para fazer o mesmo.

 

"Somos orgulhosos demais para lutar. "

Woodrow Wilson 1856-1924

 

"A violência jamais resolve coisa alguma."

Genghis Khan, 1162-1227

 

"Os ratos votaram para amarrar uma campainha ao pescoço do gato. "

Esopo, c. 620 - c. 560 a.C.

 

Dar beijo de despedida usando trajes pressurizados é de­pressivamente anti-séptico. Assim penso eu e acho que Gretchen também pensou o mesmo. Mas foi assim que transcor­reu a coisa.

Na noite anterior, Gwen me salvara de "um destino pior do que a morte" e por isso eu estava grato. Bem, moderada­mente grato. Certamente um velho caído por uma fêmea que mal chegou à puberdade (Gretchen só faria 13 anos dentro de dois meses) é um espetáculo ridículo, objeto de desprezo de todos aqueles que têm a cabeça no lugar. Mas desde o momen­to, na noite anterior, em que Gretchem deixara claro para mim que não me considerava tão velho assim, eu estivera me sen­tindo cada vez mais jovem.

De modo que conste em ata que estou grato. E isto é oficial.

 

Gwen ficou aliviada, tenho certeza, quando ao meio-dia Gretchen acenou um adeus da cabine do caminhão rolador do pai e nós rolamos para o sul no ônibus rolador de tia Lilybet, o Valha-me, Jesus.

O Valha-me era muito mais amplo e enfeitado do que o caminhão de Jinx: pintado em cores berrantes com cenas da Terra Santa e trechos da Bíblia. Podia transportar 18 passagei­ros, além de carga, motorista e guarda — este último em uma torreta bem acima do motorista. Os pneumáticos do ônibus eram imensos, duas vezes a minha altura, muito acima do es­paço destinado aos passageiros, cujo piso ficava na altura dos eixos, ou ao nível de minha cabeça. Havia escadas de cada lado para permitir acesso às portas situadas entre os pneumáticos dianteiros e traseiros.

Essas rodas enormes tornavam difícil ver o que havia nos lados. Os lunarianos, porém, não estão muito interessados em paisagens, uma vez que a maior parte é interessante apenas quando vista de órbita. Do Caucasus às Montanhas Haemus — nossa rota — o fundo do Mare Serenitatis tem seus encantos escondidos. Inteiramente escondidos. Quase todo o terreno é liso como uma panqueca e tão interessante como panquecas frias sem manteiga e mel.

A despeito disto, eu estava satisfeito porque tia Lilybet nos colocara na primeira fila à direita — Gwen à janela, eu junto, e Bill à minha esquerda. Isto significava que podíamos ver tudo o que a motorista via à frente e também um pouco à direita, porque estávamos à frente do eixo dianteiro e portanto podía­mos divisar alguma coisa do outro lado do pneumático. Mas nem assim a visão era clara à direita, porque o plástico da janela de pressão era velho, riscado e amarelecido. Mas à frente tia Lilybet levantara sua grande vigia de motorista e a prendera, e a visão era tão clara quanto o permitiam nossos capacetes — excelente, em nosso caso. O equipamento alugado a Charlie Wang aliviava a feroz claridade solar sem interferir na visão, o que acontece também com bons óculos de sol.

Não conversamos muito porque os rádios dos trajes dos passageiros estavam todos ligados em uma freqüência comum — e era uma babel, de modo que conservamos os nossos desli­gados. Gwen e eu podíamos conversar tocando nossos capace­tes, mas não com muita facilidade. Eu me divertia tentando seguir o percurso que fazíamos. Nem bússolas magnéticas nem giroscópias são úteis em Luna. O magnetismo aqui (em geral nenhum) significa a presença de uma ocorrência de minério e não uma direção e a revolução da Lua, conquanto exista (uma revolução por mês!), é lenta demais para poder afetar bússolas giroscópicas. Um rastreador por inércia funciona bem, mas um bom é extraordinariamente caro — embora eu não entenda por quê: a arte foi aperfeiçoada há muito tempo para emprego em mísseis teleguiados.

Nessa fase de Luna sempre temos a Terra para servir como baliza de navegação e na metade do tempo também o Sol. As estrelas? Claro, as estrelas estão sempre lá — não há chuva, nem nuvens, nem amog. Oh, claro! Escute, tenho boas notícias para qualquer terráqueo que esteja escutando: é mais fácil ver estrelas em Iowa do que em Luna.

Você estará usando um traje pressurizado certo? O capace­te tem uma lente e um visor construídos para lhe proteger os olhos — o que equivale a amog embutido. Se o Sol está alto, esqueça as estrelas: suas lentes escureceram para lhe proteger os olhos. Se o Sol está ausente, então a Terra está em alguma fase entre cheia e semicheia e o brilho terreno é ofuscante — oito vezes mais superfície refletora com cinco vezes o albedo tornam a Terra pelo menos 40 vezes mais brilhante que a luz da Lua é para ela.

Oh, as estrelas estão lá, nítidas e brilhantes. Luna é um lugar maravilhoso para telescopia astronômica. Mas para ver estrelas a olho "nu" (isto é, de dentro do capacete de seu traje pressurizado) procure um ou dois metros de cano de fogão — poxa!, esqueci, não há fogões em Luna. Assim, utilize uns dois metros de um duto de ar. Olhe através dele; o duto corta o fulgor e as estrelas brilham "como uma boa obra em um mun­do perverso".

À minha frente, a Terra já passara um pouco da fase de semicheia. À esquerda, o Sol estava um dia e meio alto, 20 graus ou menos, tornando brilhante o solo do deserto, com lon­gas sombras destacando nada mais que a lisura perfeita, o que tornava o dirigir fácil para tia Lilybet. Segundo o mapa que havia na câmara pneumática do Pressurizado Dragão Feliz, havíamos partido da latitude norte de 32 graus e 27 minutos, com longitude de 6 graus 56 leste, e dirigíamo-nos para 14 graus 11 minutos leste, por 17 graus e 32 minutos norte, ou seja, um lugar próximo a Menelaus. Isto nos dava um curso em geral na direção sul — mais ou menos 25 graus a sudeste, tanto quanto pude ler naquele mapa — e um destino a cerca de 550 quilômetros de distância. Não era de espantar que nosso TEC (tempo estimado de chegada) falasse em 3h da manhã seguinte.

 

Não havia estrada. Tia Lilybet aparentemente não dispu­nha de rastreador ou qualquer coisa parecida em matéria de instrumentos de navegação, salvo um odômetro e um velocí­metro. Aparentemente, pilotava como se dizia que os coman­dantes de barcos dos rios de antanho descobriam o caminhos: simplesmente conhecendo a rota. Talvez fosse assim — mas na primeira hora notei outra coisa: havia marcos em toda a rota. Logo que chegávamos a um, víamos outro no horizonte.

Não notara esses marcos na véspera e acho que não os ha­via. Acho que Gretchen pilotava realmente no estilo Mark Twain. Na verdade penso que tia Lilybet fazia a mesma coisa. Notei também que com grande freqüência ela não se aproximava do marco ao passar por ele. Aqueles indicadores provavelmen­te haviam sido postos ali para motoristas ocasionais ou para os motoristas de reserva do Valha-me.

Comecei a tentar descobri-los, fazendo um jogo disto. Se perdia um, marcava um ponto contra mim. Dois erros segui­dos valiam uma "morte" no jogo de "Perdidos na Lua" — algo que acontecera com grande freqüência nos primeiros dias — e ainda acontece hoje. Luna é um lugar amplo, maior que a África, quase tão grande como a Ásia — e cada metro quadrado dela é letal, bastando que se cometa um pequeno erro.

Definição de lunariano: um ser humano, de qualquer cor, tamanho, ou sexo que nunca comete um erro onde ele possa prejudicá-lo.

Ao chegar à nossa primeira parada de descanso, eu "mor­rera" duas vezes, não tendo conseguido descobrir os marcos.

 

Às 15h 5min, tia Lilybet parou o ônibus e projetou uma transparência que dizia: PONTO DE DESCANSO — 20 MINU­TOS — e embaixo: Multa por atraso — Uma Coroa por Minuto.

Nós todos descemos. Bill agarrou o braço de tia Lilybet e encostou seu capacete no dela. Ela começou a se soltar, mas depois escutou. Não tentei dissuadi-lo: vinte minutos não é muito para uma parada de descanso quando isto envolve me­xer num traje pressurizado. Claro que a situação torna-se ainda pior para mulheres e leva mais tempo. Tínhamos uma passa­geira acompanhada de três crianças — e o braço direito de seu traje terminava imediatamente abaixo do cotovelo, em um gan­cho. Como era que ela dava um jeito? Resolvi ficar atrás dela, de modo que a multa por atraso fosse cobrada a mim e não a ela.

Aquele "refrescador" era medonho. Tratava-se de uma câ­mara pneumática à boca de um buraco na rocha que se ligava à casa de um colono que combinava agricultura em túnel com mineração de gelo. Pode ter havido na câmara algum oxigênio pressurizado para nos receber, mas o mau cheiro não me deu certeza. Lembrou-me as masmorras de um castelo onde fiquei certa vez aquartelado durante a Guerra das Três Semanas — no Reno, isto mesmo, perto de Ramagem. Possuía uma privada de pedras de grande profundidade que se dizia nunca ter sido limpa em mais de 900 anos.

Nenhum de nós foi multado por atraso, uma vez que nossa motorista atrasou-se ainda mais. E o mesmo aconteceu com Bill. O Dr. Chan vedara Árvore-San com um dispositivo de enrolar e prender que permitia que fosse aguada com maior facilidade. Bill pedira ajuda a tia Lilybet. Haviam conseguido fazer a coisa juntos, mas não rapidamente. Não sei se Bill teve tempo de urinar ou não. A titia, claro, teve — o Valha-me não podia rolar até que ela voltasse.

Fizemos uma parada para almoço às 19h30min em uma pequena pressurizada, quatro famílias, denominada Rob Roy. Após a última parada, esta parecia ser o máximo em civiliza­ção. O lugar era limpo, o ar tinha o cheiro certo e o pessoal mostrou-se cordial e hospitaleiro. Não havia opções no cardá­pio — frango e bolinho de massa assado e torta de amoras lunarianas, — e o preço era salgado. Mas o que queria você no meio de lugar nenhum na face da Lua? Havia uma barraca de souvenirs feitos à mão, com um garoto tomando conta. Comprei uma carteira para dinheiro trocado de que não precisava, porque aquelas pessoas haviam sido boas para nós. A decoração na carteirinha dizia: "Rob Roy City, Capital do Mar da Serenida­de". Presenteei-a à minha mulher.

Gwen ajudou a mulher maneta com as três crianças e sou­be que estavam voltando para Kong de uma visita aos avós dos meninos, no Dragão Feliz. O nome da mãe era Ekaterina OToole e, dos filhos, Patrick, Brigid e Igor, idades oito, sete e cinco. Os três outros passageiros eram Lady Diana Kerr-Shapley e seus maridos — ricos e pouco inclinados a confraternizar conosco, plebeus. Os homens dela usavam armas à cintura — dentro de seus trajes. Que sentido fazia isso?

 

A partir desse ponto, o terreno não foi tão plano e achei que a titia conservava-se um pouco mais perto dos marcos. Mas ainda guiava rápido e ousadamente, levando-nos em tor­no daquelas corcovas grandes e de baixa pressão de uma ma­neira que me levou a pensar no estômago delicado de Bill. Pelo menos ele não estava tendo que segurar a Árvore-San: tia Lily­bet ajudara-o a amarrá-la no compartimento de carga à ré. Desejei-lhe boa sorte. Vomitar dentro de um capacete é horrí­vel... Isto me aconteceu uma vez, há gerações. Ugh!

Fizemos outra parada de descanso pouco antes de meia-noite. Aceitável. O Sol estava nesse instante apenas alguns graus mais alto, e continuava a subir. Titia nos disse que tínhamos mais uns 115 quilômetros para percorrer e que chegaríamos em Kong mais ou menos no horário, Deus querendo.

Deus não deu à titia a ajuda que ela merecia. Estávamos viajando fazia uma hora quando, saindo de lugar nenhum (de trás de um afloramento rochoso?) apareceu outro rolador, me­nor, mais rápido, cortando em diagonal nosso caminho.

Dei uma batida no braço de Bill, agarrei o ombro de Gwen e nos abaixamos, abaixo da vigia do motorista e um tanto prote­gido pela chapa de aço lateral do ônibus. Quando me abaixei, vi o relâmpago que partia do estranho veículo.

Nosso ônibus rolou e parou, o outro veículo bem à nossa frente. Titia levantou-se.

Abateram-na.

Gwen pegou o homem que havia disparado o feixe contra titia, apoiando a Miyako no peitoral da vigia — pegou-o na lente do capacete, o melhor lugar para acertar um homem ves­tindo traje pressurizado se você usa balas em vez de laser. Eu peguei o motorista, apontando com todo cuidado, uma vez que minha bengala só dispara cinco vezes — e sem munição mais perto do que no Regra de Ouro (e em minha sacola de lona, droga). Outros tipos também usando trajes pressurizados saí­ram dos lados do veículo atacante. Gwen ergueu um pouco a mira e continuou a atirar.

Tudo isso aconteceu num vácuo fantasmagoricamente silencioso.

Comecei a apoiar Gwen com meu fogo quando outro veí­culo apareceu. Não um rolador, mas aparentado — e algo que eu nunca vira antes. Possuía apenas um pneumático, uma ros­ca supergigante de pelo menos oito metros de altura. Talvez 10! O orifício na rosca estava cheio do que pode ter sido (ou ti­nha que ser?) a unidade propulsora. A partir desse cubo de roda, de cada lado, projetava-se uma plataforma em balan­ço. No lado superior de cada plataforma, a bombordo e a estibordo, havia um artilheiro preso à sua sela. Abaixo do artilhei­ro ficava o piloto, ou motorista, ou engenheiro — um de cada lado, e não me perguntem como eles se coordenavam.

Não vou jurar por cada detalhe. Eu estava ocupado. Havia feito pontaria para o artilheiro do lado virado para mim e ia apertar o gatilho e disparar um de meus preciosos tiros quan­do parei: a arma dele estava virada para baixo, atacando nossos atacantes. Ele utilizava uma arma de energia — laser, feixe de partículas, não sei —, uma vez que tudo o que eu via com ca­da disparo era o relâmpago parasita e... o resultado.

A grande rosca virou um quarto de volta. Vi o outro par, motorista e artilheiro, no outro lado — e este artilheiro estava apontando para nós. O projetor dele relampejou.

Peguei-o na chapa facial.

Depois tentei pegar o motorista e acertei-o (acho) na junção do pescoço. Não tão bom como abrir um buraco em sua chapa facial, mas a menos que ele estivesse equipado para fazer um rápido e difícil conserto, ia respirar coisa rala em segundos.

A rosca virou o círculo todo. Quando parou, peguei o outro artilheiro em um nano-segundo antes de ele me pegar. Tentei me alinhar para um tiro no motorista, mas não pude me firmar no alvo e não tinha munição para desperdiçar. A rosca come­çou a rolar, para longe de nós, na direção leste — ganhou veloci­dade, atingiu um calhau, subiu alto no ar e desapareceu no horizonte.

Olhei para o outro rolador. Além dos dois que havíamos liquidado na primeira troca de tiros, ainda estirados ao lado do carro, havia cinco outros corpos no chão, dois a bombordo, três a estibordo. Nenhum dava a impressão de que voltaria a se mover. Encostei meu capacete no de Gwen.

— Mais algum deles?

Ela me deu uma cotovelada forte na costela. Virei-me. Uma cabeça envolvida em capacete estava justamente aparecendo na porta esquerda. Ergui a bengala e abri um buraco em forma de losango na chapa facial. Saltei sobre os pés de alguém e olhei para fora — ninguém mais à esquerda, e me virei, e lá estava outro, subindo pela porta da direita. Em vista disso, ati­rei nele...

Corrijo-me: tentei atirar nele. Não tinha mais munição. Caí na direção dele, dando uma estocada com a bengala. Ele agar­rou a ponteira da bengala, e este foi seu erro, pois a puxei pára trás, expondo 20cm de aço de Sheffield, que enfiei em seu traje e entre suas costelas. Puxei-a e, mais uma vez, mergulhei-a. Esse estilete, de apenas meio centímetro de largura de lâmina triangular, três lados estriados, necessariamente não mata de­pressa, mas minha segunda estocada prendeu-lhe a atenção, a atenção enquanto ele morria, mantendo-o ocupado demais para que me matasse.

Desmoronou, em parte para dentro da porta, e soltou a par­ta de bainha de minha bengala. Recuperei-a e recoloquei-a no lugar. Depois, empurrei-o para fora, agarrei-me ao assento mais perto, apoiei-me no meu pé, agüentei o pequeno desconforto, saltitei de volta para meu assento e me acomodei. Sentia-me cansado, embora o entrevero inteiro não pudesse ter demora­do mais de dois ou três minutos. É a adrenalina — eu sempre me sinto exausto depois.

Isto foi o fim da coisa, e foi bom que assim tivesse sido, também, porque minha munição e a de Gwen haviam acabado inteiramente e não posso usar mais de uma vez o macete da lâmina escondida — só funciona se conseguirmos fazer com que o adversário pegue a ponteira da bengala. Houvera nove naquele rolador e todos estavam mortos. Eu e Gwen havíamos acabado juntos com cinco, cabendo aos artilheiros da gigantes­ca rosca liquidar os outros quatro. A contagem dos corpos esta­va certa porque não há como confundir um buraco de bala com uma queimadura.

Não estou contando, notem, os dois, ou três, que acertei entre o pessoal da rosca... porque não havia corpos para con­tar. Se houvesse, estavam do outro lado do horizonte.

Nossas baixas somavam quatro pessoas.

Em primeiro lugar, nosso artilheiro, que viajara como guar­da de diligência na torreta sobre a motorista. Rastejei lá para cima e dei uma olhada — a um sexto de gravidade posso su­bir uma escada vertical quase com a mesma facilidade que qualquer outra pessoa. Nosso artilheiro estava morto. Prova­velmente aquele primeiro relâmpago fora o fim dele. Estivera dormindo durante a vigia? Quem é que sabe e se importa ago­ra? Estava morto.

Nossa segunda baixa, tia Lilybet, porém, não estava, e isto para crédito de Bill. Botara rapidamente nela dois remendos de pressurização, um no braço esquerdo e o outro no alto do capacete — e fora inteligente o bastante para cortar o ar enquan­to fizera isso, contara 60 segundos antes de mexer na válvula e reinflar o traje dela. E assim lhe salvara a vida.

Era a primeira prova que eu via que Bill tinha inteligência bastante até para mexer concreto. Notara onde era guardado o estojo com os remendos de pressurização, perto do assento do motorista, e depois se desincumbira do resto como indivíduo bem-treinado, sem perder movimentos e sem dar atenção à luta que se desenvolvia em torno de nós.

Acho que não devia ter ficado surpreso. Sabia que Bill tra­balhara como operário em construção de mecânica pesada — e no caso de um habitat espacial, isso significa trabalho com trajes pressurizados, com treinamentos e simulações de emer­gência de situações reais. Mas não é suficiente ser treinado. Em um aperto, é preciso ser sabido e ter cabeça fria para aplicar até mesmo o melhor treinamento.

Bill mostrou-nos o que fizera, não para se bravatear, mas porque compreendeu que parte do trabalho poderia ter que ser refeito: ao vedar às pressas o traje da titia, ele não pudera chegar ao ferimento no braço e estancar o sangramento, e não sabia se ele fora ou não cauterizado pela queimadura. Se ela estivesse sangrando, o traje teria que ser reaberto, uma banda­gem de pressão aplicada ao ferimento, e fechado novamente o traje — e rápido! Tendo em vista a localização do ferimento — um braço — a única maneira de fazer isto seria cortar o tecido do traje para abrir um orifício maior, pegar o braço e estancar o sangramento, remendar o orifício maior, e esperar os intermi­náveis segundos até completar um minuto antes de sujeitar novamente à pressão o traje remendado.

Há um limite muito estreito de tolerância ao vácuo de um paciente. Titia era velha e estava ferida, e isto já fora feito com ela naquele dia. Agüentaria pela segunda vez?

Abrir o capacete estava fora de cogitação. O raio que a atin­gira arrancara uma fatia no alto do capacete mas não na cabeça — caso este em que não estaríamos pensando em se ela deixava abrir ou não o traje pressurizado.

Gwen encostou o capacete no de titia, conseguiu despertá-la e chamar-lhe a atenção. Estava sangrando?

Titia achava que não. O braço estava dormente mas não doía muito. Eles o haviam pegado? Pegado o quê? Alguma coi­sa na carga. Gwen garantiu-lhe que não haviam tocado em na­da, estavam todos mortos. Isto pareceu satisfazer titia. E acrescentou:

— Taddie pode dirigir — e pareceu cair no sono.

Nossa terceira baixa era um dos maridos de Lady Diana. Morto. Mas não por nenhum dos bandos de malfeitores. Na verdade, ele se ferira acidentalmente no pé.

Acho que disse que ele estivera preparado — com a arma, pelo amor de Deus, dentro do traje. Quando começou o tiro­teio, ele tentou sacar a arma da cintura, descobriu que não po­dia pegá-la e abriu a parte fronteira do traje para sacá-la.

É possível abrir um traje de pressão e fechá-lo novamente no vácuo, e acho que o lendário Houdini poderia ter aprendido a fazer isso. Mas esse palhaço ainda procurava atabalhoado sacar a arma quando entrou em colapso e afogou-se no vácuo. O seu co-marido era um nadinha mais sabido. Em vez de pro­curar puxar a arma, tentou tirar a do sócio depois que ele em­borcou. Conseguiu, porém tarde demais para soltá-la e usá-la na luta. Espigou-se exatamente no momento em que eu me espigava sobre um pé só, depois de ter espetado o último bandido.

E ali estava aquele boboca brandindo uma arma em minha cara.

Minha intenção não era quebrar-lhe o pulso, mas simples­mente desarmá-lo. Afastei a arma de linha de tiro com um safa­não e desci a bengala em cima do pulso. Peguei a arma no ar, enfiei-a no cinto de meu traje pressurizado e desmoronei no assento.

Não sabia se o havia machucado, provocado outro ferimento ou uma contusão. Tomara.

Mas não sentia remorso. Se não quer um pulso rachado, não sacuda uma arma na minha cara. Não quando estou cansa­do e agitado.

Odeio falar a respeito da quarta baixa, Igor OToole, o garo­to de cinco anos.

Uma vez que estivera no assento traseiro com a mãe, é cer­to que não foi morto por ninguém no rolador. O ângulo teria sido impossível. Só os dois artilheiros da super-rosca estive­ram alto o suficiente para atirar atrás da vigia do motorista do Valha-me e acertar em alguma coisa lá nos fundos do veículo. Além do mais, tinha que ter sido o segundo artilheiro, já que o primeiro estivera ocupado matando colegas bandidos. De­pois a rosca virara, virara a arma apontada para nós, vira o relâmpago no momento em que eu disparara e o matara.

Embora ele tivesse perdido o tiro que dera em mim. Se estivera atirando, errara. Não tenho certeza de que ele estivesse apontando com cuidado, pois quem visaria o alvo menos peri­goso — uma criança, um bebê, realmente, lá no fundo do ôni­bus? Mas o relâmpago que vi tinha que ser o que matou Igor.

Não fosse a morte do menino, eu poderia ter sentido senti­mentos conflitantes sobre a tripulação da rosca gigante — pois não poderíamos certamente ter ganho a parada sem ajuda de­les. Mas aquele último tiro me convenceu que eles estiveram apenas liquidando concorrentes nos negócios, antes de aten­der à sua finalidade principal: seqüestrar o Valha-me.

Minha única pena é que eu não tenha acabado com o quar­to ocupante da rosca.

 

Mas esses foram pensamentos posteriores. O que vimos na ocasião foi simplesmente uma criança morta. Levantamo-nos depois de cuidar de titia e olhamos em volta. Vimos Ekaterina sentada, calma, abraçando o corpo do filho. Tive que olhar duas vezes para compreender o que acontecera. Um traje pres­surizado, porém, não segura uma criança viva quando a chapa facial é corroída por um raio. Saltitei na direção dela. Gwen chegou lá primeiro. Parei atrás dela. Lady Diana agarrou a manga do meu traje e disse alguma coisa.

Toquei o capacete dela com o meu.

— O que foi que você disse?

— Disse-lhe para dizer ao motorista que continue viagem! Será que o senhor não entende inglês comum?

Eu gostaria que ela houvesse dito isso a Gwen. As respos­tas de Gwen são mais imaginativas que as minhas e muito mais líricas. Tudo o que consegui dizer, cansado como estava, foi:

— Oh, cale a boca, e sente-se, sua puta tola. Não esperei por resposta.

Lady Dee foi à frente, onde Bill impediu-a de incomodar titia. Não presenciei isto, uma vez que nesse exato momento, enquanto eu me inclinava para ver o que acontecera ao consor­te (eu não sabia nada ainda) que acabara de se matar com seu traje pressurizado, o co-marido tentou tomar de mim aquela arma.

No curso da briga que se seguiu agarrei-lhe o pulso (que­brado). Não podia ouvir-lhe o grito ou ver-lhe a expressão, mas ele fez uma espantosa exibição improvisada de representação teatral, que me disse que sofrimento estava sentindo.

Tudo o que posso dizer é: não sacudam uma arma em mi­nha cara. Isto tira ressalta o que há de pior em mim.

Voltei a Gwen e àquela pobre mãe, toquei meu capacete no de Gwen:

— Alguma coisa que a gente possa fazer por ela?

— Não. Nada até que consigamos que ela pressurize. E não muito nessa ocasião.

— O que me diz dos outros dois?

Acho que eles estavam chorando, mas quando a gente não pode ver nem ouvir, o que fazer?

— Richard, acho que o melhor que podemos fazer é deixar esta família em paz. Vamos mantê-los de olho, mas deixá-los sozinhos. Até que cheguemos a Kong.

— Isso mesmo... Kong. Quem é Taddie?

— O quê?

— Tia Lilybet disse: "Taddie pode guiar."

— Oh, acho que ela se referia ao artilheiro da torreta. O sobrinho dela.

Em vista disso, subi à torreta para investigar. Tive que sair do veículo a fim de subir, o que fiz — cautelosamente. Mas tínhamos razão — todos eles estavam mortos. E também nos­so artilheiro, Taddie. Desci, voltei ao compartimento dos passageiros, reuni nós três — e disse que não tínhamos motorista de reserva. Perguntei:

— Bill, você pode dirigir este veículo?

— Não, não posso, senador. Esta é a primeira vez em mi­nha vida em que estou num troço destes.

— Eu estava com receio disso. Bem, faz alguns anos desde que dirigi um deles, mas sei como fazer, de modo que... Oh, Jesus! Gwen, eu não posso.

— Problema, querido? Suspirei.

— A gente guia este troço com os pés. Estou sem um pé... ele está ali, junto ao meu assento. Não há maneira no mundo como possa colocá-lo... e maneira nenhuma no mundo de diri­gir com um pé só.

Tranqüilamente, ela respondeu:

— Está tudo bem, querido. Você cuida do rádio... precisa­mos emitir uns SOSs, acho. Enquanto eu dirijo.

— Você pode guiar este beemonte?

— Claro. Eu não quis me oferecer, com vocês dois, homens, aqui. Mas dirigirei com prazer. Mais ou menos duas horas. Fácil.

 

Três minutos depois Gwen estava examinando os contro­les, eu sentado ao lado dela, pensando em como ligar meu traje ao rádio do ônibus. Dois desses minutos haviam sido pas­sados delegando a Bill a função de mestre d'armas, com ordens para manter Lady Dee em seu assento. Ela viera novamente à frente com instruções firmes sobre a maneira como deviam ser feitas as coisas. Aparentemente, ela estava com pressa — alguma coisa sobre reunião de diretores em Ell-Four. De modo que tínhamos que correr, compensar o tempo perdido.

Desta vez ouvi o comentário de Gwen. Foi de lavar o peito. Lady Dee arquejou, especialmente quando Gween lhe disse o que fazer com suas procurações de acionistas, depois de do­brar até que ficassem cheias de arestas afiadas.

Gwen debreou e o Valha-me sacudiu-se todo, recuou, pas­sou pelo outro rolador, e estávamos na estrada novamente. Fi­nalmente, consegui apertar os botões certos no rádio e sinto­nizei-o para o que pensei ser o canal certo.

"(...) O, M, F, I, E, S, escreve-se assim. 'Comfies!' a solução perfeita para os stresses da vida moderna! Não leve para casa as preocupações dos negócios. Tenha conforto com Comfies, a bênção para o estômago que terapeutas recitam mais do que..."

Tentei outro canal.

 

"A verdade é a única coisa em que ninguém acredita."

George Bernard Shaw, 1856-1950

 

Mediante tentativas e erros continuei a procurar o 11, o canal de emergências. O mostrador estava marcado, mas não numerado por canais — o que indicava que titia tinha seus pró­prios códigos. A janela marcada "Ajuda" não era o auxílio de emergência que eu supusera, mas ajuda espiritual. Apertei o botão e vejam só o que ouvi:

"Aqui o reverendo Herold Angel, falando do fundo do co­ração, diretamente para vocês do Tabernáculo sob Tycho, o Lar de Cristo em Luna. Sintonize às 8h de domingo para co­nhecer os verdadeiros significados das profecias das Escritu­ras... e envie hoje sua dádiva de amor à Caixa Postal 99, Angel Station, Tycho Subsolo. Nosso Tema das Boas-novas de hoje é: Como Reconheceremos o Senhor quando Ele chegar. Agora, juntemo-nos ao Coro do Tabernáculo no hino Jesus Aperte-me em Seu"...

Este tipo de ajuda estava atrasado 40 minutos, de modo que passei para outro canal. Nele reconheci uma voz e concluí que devia estar no canal 13. Por isso chamei:

— Capitão Meia-Noite chamando Capitão Marcy. Respon­da, Capitão Marcy.

— Marcy, controle de terra, Hong Kong Lima. Meia-Noite, que diabo você está fazendo agora? Câmbio.

Fiz um esforço para explicar, em 25 palavras ou menos, por que eu estava operando naquele circuito. Ele escutou por um momento e depois me interrompeu:

— Meia-Noite, você esteve puxando fumo? Deixe que eu fale com sua esposa. Nela eu posso acreditar.

— Ela não pode falar agora. Está dirigindo o ônibus.

— Agüente aí. Você está me dizendo que é passageiro do rolador Valha-me, Jesus. Esse é o ônibus de Lilybet Washing­ton. Por que sua esposa está dirigindo?

— Eu tentei lhe explicar. Ela foi baleada. Titia Lilybet, que­ro dizer, não minha mulher. Fomos assaltados por bandidos.

— Não há bandidos nessa área.

— Isso é verdade, acabamos com todos eles. Capitão, escu­te, deixe de formar conclusões apressadas. Fomos atacados. Te­mos três mortos e dois feridos... e minha mulher está dirigindo porque é a única pessoa válida restante que pode fazer isso.

— Você está ferido?

— Não.

— Mas você disse que sua mulher é a única pessoa válida restante que pode dirigir.

— Disse.

— Deixe-me ver se entendo bem isso. Anteontem você es­tava pilotando uma nave espacial... ou era sua mulher quem pilotava?

— Eu era o piloto. O que é que o está incomodando, capitão?

— O senhor consegue pilotar uma nave espacial... mas não pode dirigir um velho rolador. Isso é difícil de engolir.

— É simples. Não posso usar o pé direito.

— Mas você disse que não estava ferido.

— E não estou. Simplesmente perdi um pé, só isso. Bem, não está "perdido". Neste momento eu o tenho aqui no colo. Mas não posso usá-lo.

— Por que não pode usá-lo?

Tomei uma profunda respiração e tentei me lembrar das fórmulas empíricas de Siacci aplicáveis à balística em planetas dotados de atmosfera.

— Capitão Marcy, há alguém em sua unidade — ou em qualquer lugar em Hong Kong Luna — que possa estar interes­sado no fato de que bandidos atacaram um ônibus público que serve à sua cidade, a apenas alguns quilômetros dessa cidade pressurizada? E há alguém que possa receber os mortos e feri­dos quando chegarmos com eles? E que não se importe com quem dirige o ônibus? E que não ache incrível que um homem possa ter tido um pé amputado há alguns anos?

— Por que você não disse isso?

— Droga, capitão, isto não era de sua maldita conta. Seguiu-se um silêncio de vários segundos. Depois, o Capi­tão Marcy falou em voz calma.

— Talvez você tenha razão. Meia-Noite, vou passá-lo ao Ma­jor Bozell. Ele é comerciante em grosso por profissão, mas co­manda também nossos Vigilantes Voluntários e é por isso que deve falar com ele. Fique simplesmente sintonizado.

Esperei e fiquei observando Gwen dirigir o veículo. Quan­do começamos, sua maneira de guiar fora um pouco cheia de solavancos, como acontece com todo mundo que está se fami­liarizando com uma máquina estranha. Nesse momento, a coisa ia suave, embora não tão ousada como ao jeito da titia.

— Bozell aqui. Está me ouvindo?

Respondi.... e quase no mesmo instante senti uma sensa­ção de pesadelo de déjà vu, uma vez que ele me interrompeu dizendo:

— Não há bandidos nessa área. Suspirei.

— Se quer assim, major. Mas há nove cadáveres e um rola­do abandonado nessa área. Talvez alguém se interesse em pas­sar revista aos corpos, em salvar os trajes pressurizados e as armas, e reivindicar o ônibus abandonado... antes que colonos pacíficos, que nunca pensaram em virar bandidos, apareçam e peguem tudo.

— Hummm. Choy-Mu me disse que está tirando uma foto de satélite do local onde ocorreu esse alegado ataque. Se hou­ver realmente um ônibus abandonado...

— Major! — Sim?

— Não me importo realmente com o que o senhor pensa. E não dou a mínima bola para salvados de acidentes. Estare­mos na câmara pneumática norte mais ou menos às 3h30min. Pode providenciar um médico para nos receber, juntamente com uma maca e padioleiros? A maca é para a Sra. Lilybet Was­hington. Ela é...

— Eu sei quem ela é. Vem fazendo esse percurso desde que eu era moleque. Deixe-me falar com ela.

— Ela está ferida. Eu lhe disse isso. Está deitada, e espero que dormindo. Se não estiver, não queremos incomodá-la. Isto poderia provocar mais hemorragia. Simplesmente, mande al­guém para a câmara pneumática a fim de cuidar dela. E de três mortos também, um deles uma criança pequena. A mãe da cri­ança está conosco e em estado de choque, o nome dela é Ekaterina OToole e o marido mora em sua cidade. Nigel OToole. Talvez o senhor possa mandar avisá-lo para que ele venha re­ceber a família e cuidar dela. Isto é tudo major. Quando o cha­mei, em estava um pouco nervoso com bandidos. Mas como não há bandidos nesta área, não temos razão para pedir pro­teção dos vigilantes aqui no Mar da Serenidade neste belo e ensolarado dia, e sinto muito ter perturbado seu sono.

— Tudo bem, estamos aqui para ajudar... e não há necessi­dade de ser sarcástico. Isto está sendo gravado. Dê seu nome completo e endereço legal e repita em seguida: como repre­sentante de Lilybet Washington, do Pressurizado Dragão Feliz, estabelecida com a Companhia de Ônibus Apocalipse e Ad­vento, autorizo o Major Kirk Bozell, oficial-comandante e ge­rente comercial dos Vigilantes Voluntários de Hong Kong Lu­na, a fornecer...

— Espere aí. O que é isso?

— Apenas o contrato padrão, cobrindo serviços para pro­teção pessoal e conservação de propriedade, e garantindo o pagamento. O senhor não pode esperar que eu tire um pelotão de guardas de suas camas no meio da noite e que não pague por isso. Nada de almoço gratuito.

— Hum. Major, o senhor tem por acaso pomada anti-hemorróida à mão? Preparação H? Pazo? Esse tipo de coisa?

— Ahn? Eu uso Bálsamo de Tigre. Por quê?

— Porque o senhor vai precisar. Pegue o controle padrão, dobre-o até que esteja cheio de arestas afiadas...

 

Continuei ligado no 13 e não tentei mais descobrir onde ficava o canal de emergências. Tanto quanto me parecia, não havia proveito em gritar "Maidez!" no canal 11 quando eu já falara com a única provável origem de ajuda. Encostei meu ca­pacete no de Gwen, sumariei a situação e acrescentei:

— Mas os idiotas insistem em que não há bandidos nesta área.

— Talvez não fossem. Talvez fossem apenas reformadores agrários fazendo uma declaração pública. Deus queira que a gente não tope com extremistas da direita! Richard, é melhor eu não falar enquanto estou dirigindo. Carro estranho, estra­da estranha... apenas, não é uma estrada.

— Desculpe, amor! Você está indo maravilhosamente bem. Como é que eu posso ajudar?

— Ajudaria um bocado se você localizasse os marcos pa­ra mim.

— Claro!

— Neste caso eu poderia olhar para baixo e observar a es­trada à frente. Alguns desses buracos são piores do que os de Manhattan.

— Impossível.

Elaboramos um sistema mediante o qual eu a ajudava incomodando-a o mínimo. Logo que localizava um marco, eu o apontava. Quando também o via — e não antes —, ela batia no meu joelho. Não conversávamos porque tocar capacetes in­terferia na direção.

Cerca de uma hora mais tarde surgiu à frente outro rola­dor, que se aproximou de nós em alta velocidade. Gwen ba­teu no capacete, em um lugar em cima da orelha. Colei meu capacete ao dela. Ela disse:

— Mais reformadores agrários?

— Pode ser.

— Estou sem munição.

— Eu, também — suspirei. — Teremos simplesmente que levá-los para uma mesa de conferência. Afinal de contas a vio­lência nunca resolve coisa nenhuma.

Gwen fez um comentário pouco elegante e acrescentou:

— Que me diz daquela arma que tomou de Sir Galahad?

— Oh, querida, nem mesmo a examinei. Pode me consi­derar estúpido.

— Você não é estúpido, Richard, apenas espiritual. Dê uma olhada.

Tirei da cintura a arma confiscada e examinei-a. Depois, toquei-lhe novamente o capacete.

— Querida, você não vai acreditar nisto. Não está carre­gada.

— Ahn?

— Realmente, "Ahn". À parte isso, não tenho outro comen­tário a fazer. E pode me citar, se quiser.

Joguei para um canto do ônibus o troço inútil e olhei para o outro rolador, que chegava rápido. Por que uma pessoa usa­ria uma arma descarregada? Pura loucura!

Gwen bateu na orelha novamente. Toquei-lhe o capacete.

— Sim?

— A munição dessa arma está no corpo, pode apostar.

— Não aposto! Pensei nisso, Gwen, mas se eu tivesse que dar uma busca naquele corpo, teria que esfriar também os dois outros. Não é uma boa idéia.

— Concordo. E de qualquer modo não há mais tempo pa­ra isso. Aí vêm eles.

Apenas não vieram, ou não inteiramente. O outro rola-dor, ainda a uns 200 metros de distância, virou para a esquer­da, deixando claro que estava evitando um curso de colisão. Passando por nós, li: "Vigilantes Voluntários — Hong Kong Lu­na", escrito em um dos lados.

Pouco depois, Marcy chamou ao rádio:

— Bozell disse que o encontrou mas que não pôde alcançá-lo pelo rádio.

— Não sei por quê. Você me alcançou.

— Porque calculei que você estaria no canal errado. Meia-Noite, o que quer que você deva estar fazendo, é absolutamente certo que estará sempre fazendo outra coisa.

— Você me lisonjeia. O que deveria ter feito desta vez?

— Devia estar de plantão no canal 2, é isso. O que é reser­vado para veículos de superfície.

— Todos os dias a gente aprende uma coisa nova. Obriga­do.

— Quem não sabe disso não devia estar operando um veí­culo na superfície deste planeta.

— Capitão, como o senhor tem razão. E calei o bico.

 

Muito antes de chegar divisamos Hong Kong Luna no ho­rizonte — a torre de aterrissagem de emergência, os grandes pratos usados para conversar com a Terra, os maiores para Mar­te e o Cinturão, as grelhas de energia solar — e a cidade tornou-se ainda mais impressionante à medida em que nos aproxi­mávamos. Claro, todo mundo vive no subsolo... mas costu­mo esquecer o quanto da indústria pesada de Luna se situa na superfície — e é ilógico que esqueça isso, uma vez que a maior parte da grande riqueza de Luna está vinculada à luz solar feroz, às noites geladas e ao vácuo interminável. Mas, como observara minha esposa, eu sou do tipo espiritual.

Passamos pelo novo complexo industrial Nissan-Shell, hec­tare após hectare de tubulações e colunas de craqueamento, destiladores invertidos, válvulas, bombas e pirâmides Bussard. As longas sombras desenhadas pelo Sol nascente tornavam a paisagem um quadro de Gustave Doré, pintada por Pieter Brughel (zoonito) e orquestrado por Salvador Dali. Imediata­mente atrás dessas estruturas ficava a câmara pneumática norte.

 

Por causa de tia Lilybet deixaram-nos usar o pequeno Kwiklok. Bill passou com titia — ele merecera isso — e depois Lady Dee e seu marido sobrevivente se adiantaram empurrando-se, à frente de Ekaterina e das crianças. A querida Diana distinguira-se novamente exigindo que fosse levada ao espa­çoporto e não à câmara pneumática da cidade. Bill e eu não permitimos que ela incomodasse Gwen com suas ordens reais, mas isto diminuiu (se possível) sua popularidade conosco. Fi­quei satisfeito em vê-los desaparecer pela câmara. E a coisa funcionou bem porque o marido de Ekaterina veio em nossa direção pela câmara principal exatamente no momento em que perdíamos nossos VIPs. Nigel OToole levou a família (incluindo o triste corpinho) pelo mesmo caminho, depois que Gwen abra­çou Ekaterina e lhe prometeu telefonar.

Depois chegou nossa vez... mas apenas para descobrir­mos que a Árvore-San não podia ser colocada em um Kwik­lok. De modo que recuamos e demos a volta para a câmara pneumática maior (e mais lenta). Notei que alguém estava re­tirando o corpo da torreta do Valha-me, Jesus e outros des­ciam a carga, fiscalizados por quatro guardas armados. O que haveria naquela carga? Mas o assunto não me dizia respeito. (Ou talvez dissesse, uma vez ser possível que aquela carga te­nha sido a causa da carnificina e das mortes.) Entramos na câmara mais ampla — nós, o bordo bonsai, maleta, bolsa, peru­ca no embrulho, bengala e prótese de pé.

A câmara completou o ciclo, entramos em um túnel longo e inclinado e passamos em seguida por duas portas de pres­são. Na segunda porta havia uma máquina operada por moe­das, para venda de licenças curtas de uso do ar, mas tinha um aviso: "ENGUIÇADA. Visitantes, por favor, paguem meia co­roa por 24 horas." Vi um pires com algumas moedas em cima da máquina. Acrescentei uma coroa, por Gwen e por mim.

Ao fim do túnel, outra porta de pressão levou-nos para a cidade.

Havia bancos logo adiante para uso de pessoas que esta­vam vestindo trajes pressurizados para sair ou tirando para entrar. Com um suspiro de alívio, comecei a baixar o zíper e logo depois prendia, no lugar devido, o pé artificial.

Ossos Secos é um povoado, Dragão Feliz é uma pequena cidade e Hong Kong Luna é uma metrópole e perde apenas para Luna City. No momento não parecia congestionada, mas estávamos na calada da noite e só os que trabalhavam nes­sas horas podiam ser vistos. Até mesmo madrugadores tinham ainda duas horas de sono, pouco importando se era dia claro lá fora.

Mas o corredor quase deserto mostrava ainda assim sua qualidade de grande cidade: um aviso em cima do cabide de trajes dizia: NÃO ASSUMIMOS RESPONSABILIDADES POR TRAJES DEIXADOS NESTES CABIDES. PROCURE JAN NO VESTIÁRIO - GA­RANTIDOS E SEGURADOS - Uma Coroa/Um Traje Pressurizado. Sob essas palavras, e escrito a mão, outro aviso: Seja sabi­do — Procure Sol e pague apenas meia coroa — nem garanti­do, nem segurado, mas honesto. Ambos os avisos eram acom­panhados por setas, uma apontando para a esquerda e a ou­tra para a direita.

— Qual dos dois, querido? — perguntou Gwen. — Sol ou Jan?

— Nenhum dos dois. Este lugar é suficientemente pareci­do com Luna City para eu saber como me virar por aqui. Acho.

— Olhei em volta, para cima e para baixo, e vi uma luz verme­lha. — Há um hotel ali. Com o pé no lugar, posso levar um traje pressurizado embaixo de cada braço. Você pode dar con­ta do resto?

— Claro. O que me diz de sua bengala?

— Enfio no cinto de meu traje. Nenhum problema. Dirigimo-nos para o hotel.

De frente para o corredor, na janela de recepção do hotel, uma moça sentada estudava transgenia, o clássico de Sylvester. Ergueu os olhos.

— É melhor guardar primeiro esses trajes. Procure o Sol, porta ao lado.

— Não. Quero um quarto grande, com uma cama empress-size. Nós botaremos isto em um dos cantos.

Ela olhou para a planta dos quartos.

— Quartos de solteiro eu tenho. Com duas camas, tam­bém. Felizes suítes, idem. Mas o que vocês querem — não. To­dos ocupados.

— Quanto custa uma suíte feliz?

— Depende. Esta aqui tem duas camas king e um refrescador. Esta aqui não tem absolutamente camas mas um chão acolchoado e almofadas à bessa. E este aqui...

— Quanto pelo que tem duas camas king?

Oitenta coroas. Pacientemente, respondi:

— Ouça aqui, cidadã. Eu mesmo sou lunariano. Meu avô foi ferido nos degraus do Bom Marché. O pai dele veio para aqui acusado de sindicalismo criminoso. Conheço os preços em Luna City. Eles não podem ser tão mais altos assim em Kong. O que é que está cobrando pelo que eu pedi? Se tivesse um deles vago?

— Não estou impressionada, meu chapa. Todo mundo po­ete alegar ancestrais na Revolução e a maioria alega. Meus an­cestrais deram as boas-vindas a Neil Armstrong quando ele desceu. Supere isso.

Sorri alegre para ela.

— Não posso e devia ter ficado calado. Qual é seu preço real por um quarto duplo, com uma única grande cama e um refrescador? Não o seu preço para turistas?

— Um quarto duplo padrão com uma grande cama e re­frescador próprio custa 20 coroas. Vou lhe dizer o que vou fazer, cara — não há muita possibilidade de alugar minhas suí­tes vazias tão tarde assim da noite — ou tão cedo. Eu lhe alu­go uma suíte para orgia por 20 coroas... mas você sai ao meio-dia.

— Dez coroas.

— Ladrão. 18. Se cobrar menos, estou perdendo dinheiro.

— Não, não está. Conforme você mesma disse, a esta ho­ra da manhã não pode ter esperança de alugá-lo a qualquer preço. Quinze coroas.

— Mostre seu dinheiro. Mas vocês têm que sair ao meio-dia.

— Digamos, 1h da tarde. Estivemos acordados a noite to­da e tivemos um tempo difícil.

Contei o dinheiro.

— Eu sei. — Ela inclinou a cabeça na direção do terminal. — Hong Kong Gong deu vários extras sobre vocês. Treze ho­ras, tudo bem — mas se ficarem mais tempo, ou pagam o pre­ço completo ou se mudam para um quarto comum. Vocês ti­veram realmente um encontro com bandidos? No caminho para Dragão Feliz?

— Disseram-me que não há bandidos nessa área. Tivemos um encontro com uns desconhecidos muito hostis. Nossas per­das foram de três mortos, dois feridos. Estes só trouxemos para cá.

— Sim, eu vi. Quer recibo para sua conta de despesas? Por uma coroa, tiro um recibo sincero, autêntico, detalhado, em qualquer soma que você quiser. E tenho três mensagens para você.

Pisquei, estupidamente.

— Como? Ninguém sabia que vínhamos para seu hotel. Nós mesmos não sabíamos.

— Não há mistério nenhum, cara. Se um estranho entra pela câmara norte tarde da noite, as probabilidades são de se­te a dois que terminará na minha cama — numa de minhas camas, e nada de piadinhas de mau gosto, por favor. — Lan­çou um olhar ao terminal. — Se você não tivesse recebido es­sas mensagens em mais 10 minutos, reforços seriam enviados a todas as estalagens da pressurizada. Se nem assim conse­guissem entrar em contato com você, o vigilante de segurança pública poderia iniciar uma busca. Não é sempre que rece­bemos estranhos bonitões com aventuras românticas pa­ra contar.

— Deixe de balançar o rabo para ele, queridinha — disse Gwen —, ele está cansado. E já tem dona. Passe as fichas de registro, por favor.

A gerente do hotel olhou friamente para Gwen e dirigiu-se a mim:

— Meu chapa, se você já não tivesse pago a ela, eu pode­ria lhe garantir coisa melhor, mais jovem e mais bonita, a pre­ço de liquidação.

— Sua filha? — perguntou docemente Gwen. — Por favor, as mensagens.

A mulher encolheu os ombros e entregou as mensagens. Agradeci e disse:

— A respeito dessa outra coisa. Mais jovem, possivelmente. Mais bonita, duvido. Não poderia ser mais barata. Casei com esta por causa do dinheiro dela. Quais são os fatos?

Ela olhou de mim para Gwen.

— Isso é verdade? — Ele se casou com você por causa de seu dinheiro? Faça com que ele o mereça.

— Bem, ele disse que se casou — Gwen respondeu pen­sativa. — Não tenho certeza. Estamos casados há apenas três dias. Estamos em lua-de-mel.

— Menos de três dias, querida — protestei. — Apenas, pa­rece mais tempo.

— Cara, não fale assim com sua mulher! Você é um grosseirão, um bruto, e provavelmente anda foragido.

— Sim, tudo isso — concordei.

Ela me ignorou e dirigiu-se a Gwen:

— Queridinha, eu não sabia que era sua lua-de-mel ou não teria oferecido "aquela coisa" a seu marido. Peço humildes des­culpas. Mais tarde, porém, quando se cansar desse sujeito que fala demais, posso arranjar o mesmo para você, só que homem. Preço justo. Jovem. Bonitão. Viril. Durável. Afetuoso. Venha aqui ou telefone procurando Xia — sou eu. Garantido... Se não ficar satisfeita, não paga.

— Obrigada. Mas neste momento o que eu quero é um café da manhã. E depois, cama.

— O balcão do café fica atrás de você, no fim do corredor. O Sing's New York Café. Recomendo o Ressaca Especial, a uma coroa e 50. — Olhou para uma prateleira às costas e pegou duas fichas. — Aqui estão as chaves. Queridinha, você poderia pe­dir ao Sing que me mandasse queijo frito Cheddar em torra­da branca e café? E não deixem que ele cobre mais do que uma coroa e meia por um Ressaca Especial. Ele rouba apenas por prazer.

 

Deixamos nossa bagagem com Xia e cruzamos o corredor para tomar o café da manhã. O Ressaca Especial era tão bom como Xia dissera. Finalmente, entramos em nossa suíte. A suíte nupcial. Xia, mais uma vez, fora honesta conosco. De vá­rias maneiras. Levou-nos à suíte, ficou ali enquanto nós nos desmanchávamos em ahs e ohs — champanha em balde de gelo, colcha virada na cama, lençóis perfumados, flores (arti­ficiais mas convincentes), tudo isso destacado pela única luz existente.

Em vista de tudo isso, a noiva beijou Xia, Xia beijou a noi­va, e ambas fungaram — e isto foi bom, também, porque um bocado de coisas haviam acontecido rápido demais e Gwen não tivera tempo de chorar. E mulheres precisam chorar.

Depois, Xia beijou o noivo, o noivo não chorou e não re­cusou. Xia é uma oriental e tanto, do tipo que dizem que Mar­co Pólo encontrou em Xanadu. E me beijou de maneira con­vincente. Logo depois, soltou-se para respirar.

— Poxa!

— Sim, poxa! — concordei. — Quanto ao negócio que vo­cê mencionou antes... Quanto você cobra?

— Falador. — Sorriu alegre para mim e não se afastou. — Grosseiro. Patife. Eu dou amostras gratuitas. Mas não a noi­vos. — Desvencilhou-se. — Descansem bem, meus queridos. Esqueçam aquele prazo fatal de lh da tarde. Durmam tanto quanto quiserem. Eu digo ao gerente do dia.

— Xia, duas dessas mensagem pediam que eu ligasse pa­ra pessoas nas horas horríveis em que vacas estão sendo ordenhadas. Você poderia interceptar outras chamadas?

— Já pensei nisso. — Li essas mensagens antes de vocês. Esqueça. Mesmo que Bozell Fanfarrão apareça com todos os seus Escoteiros, o gerente do dia não vai dizer que vocês estão aqui.

— Eu não quero lhe criar problema com seu chefe.

— Eu não lhe disse? Eu sou a dona. Juntamente com o BancAmerica.

Beijou-me rapidamente e saiu.

 

Enquanto nos despíamos, Gwen observou:

— Richard, ela estava esperando ser solicitada para ficar. E ela não é uma virgenzinha arregalada como Gretchen. Por que não a convidou?

— Ora, bolas, mãe, eu não sabia como.

— Você podia ter tirado o cheong-sam dela enquanto ela estava tentando estrangulá-lo. Isto teria sido suficiente. Não havia nada por baixo. Corrijo: Xia estava por baixo da roupa, e nada mais. Mas havia um bocado de Xia, disto tenho certe­za. Por que não pediu a ela que ficasse?

— Quer saber a verdade?

— Hummm... não tenho certeza se quero.

— Porque eu queria dormir com você, moça, sem distra­ções. Porque não estou cheio de você. Não é o seu cérebro, nem suas qualidades espirituais, das quais você quase não tem nenhuma. Estou doido de desejo por esse seu pequeno corpo suado.

— Oh, Richard!

— Antes de tomarmos banho? Ou depois?

— Hummm... os dois?

— É assim que se fala.

 

"A democracia pode agüentar quase tudo, menos os democra­tas."

  1. Harshaw, 1904-

 

"Todos os reis são quase sempre patifes."

Mark Twain, 1835-1910

 

No banho, eu disse:

— Você me surpreendeu, amor, ao mostrar que sabia diri­gir um rolador.

— Não tanto quanto você me surpreendeu quando des­cobri que aquela sua bengala era um fuzil.

— Ah, sim, isso me lembra de uma coisa... Você se im­portaria em servir de cobertura para mim?

— Claro que não, Richard, mas como?

— Minha bengala maceteada deixa de ser proteção quan­do se sabe o que ela é. Mas se todos os tiros forem atribuídos a você, ninguém saberá o que ela é.

Pensativa, Gwen respondeu:

— Não vejo... Ou melhor, não entendo. Todo mundo no ônibus viu-o usando a bengala como fuzil.

— Viu, mesmo? A luta ocorreu no vácuo — em silêncio mortal. De modo que ninguém ouviu tiro nenhum. Quem me viu atirar? Titia? Ela estava ferida quando entrei na coisa. Ape­nas segundos antes, mas estamos falando de segundos. Bill? Ocupado com titia. Ekaterina e as crianças? Duvido que as crianças tenham visto alguma coisa que compreenderam, e a mãe sofreu o pior choque que pode acontecer a uma mãe. Não será grande coisa como testemunha, se chegar a depor. A que­rida Diana e seus rapazes enfeitadinhos? Um deles está mor­to e o outro ficou tão confuso que me tomou como bandido, e a própria Lady Dee é tão egocêntrica que nunca entendeu o que estava acontecendo. Sabia simplesmente que algum ab­surdo irritante estava interferindo em seus sagrados caprichos. Vire-se que eu esfrego suas costas.

Gwen virou-se. Continuei:

— Vamos melhorar a coisa. Eu lhe dou cobertura em vez de você fazer isso por mim.

— Como?

— Minha bengala e seu pequeno Miyako usam munição do mesmo calibre. De modo que todos os tiros partiram do Miyako — disparado por mim, não por você — e minha ben­gala é apenas uma bengala. E você é minha doce e inocente esposa que nunca faria algo tão grosseiro e pouco feminino como responder a tiros de estranhos. Isto lhe convém?

Gwen levou tanto tempo para responder que comecei a pensar que a havia ofendido.

— Richard, talvez nenhum de nós dois tenha atirado em ninguém.

— Mesmo? Você me interessa. Diga como.

— Eu estou tão pouco ansiosa para reconhecer que ando armada com uma pistola como você que sua bengala tem ta­lentos inesperados. Alguns locais são horrivelmente antiqua­dos a respeito de armas escondidas... mas uma pistola em mi­nha bolsa — ou em algum outro lugar em mim — salvou-me a vida em mais de uma ocasião e tenciono continuar a andar armada. Richard, as razões que você deu para acreditar que ninguém sabe coisa alguma sobre sua bengala aplicam-se tam­bém à minha Miyako. Você é mais alto do que eu e estava jun­to da janela. Quando nos abaixamos, não acho que alguém possa ter-me visto muito bem... afinal de contas seus ombros não são transparentes.

— Hummm... Podia ser assim. Mas e os corpos com ba­las dentro?

Balas longas, calibre 6.5, para ser exato.

— Mortos pelos açougueiros daquela grande roda.

— Eles usavam lasers, não balas.

— Richard, Richard! Você sabe se eles não tinham armas que usam balas, além de armas que disparam raios de ener­gia? Eu não sei.

— Hummm, novamente. Meu amor, você é tão tortuosa como um diplomata.

— Eu sou uma diplomata. Passe o sabão, bonitinho, por favor. Richard, nada de dar informações. Éramos apenas pas­sageiros, testemunhas inocentes, e estúpidas também. A ma­neira como aqueles reformadores agrários morreram não é res­ponsabilidade nossa. Meu pai me disse para guardar minhas cartas junto ao peito e nunca reconhecer coisa nenhuma. Esta é a ocasião de fazer isto.

— Meu pai me ensinou a mesma coisa. Gwen, por que você não se casou comigo antes?

— Precisei de algum tempo para amolecê-lo, querido. Ou vice-versa. Pronto para enxaguar?

Enquanto eu a secava, lembrei-me de um ponto que ha­víamos esquecido:

— Modelo de esposa, onde aprendeu a guiar um rolador?

— Onde? No Maré Serenitatis. — Ahn?

— Aprendi observando Gretchen e titia. Hoje à noite foi a primeira vez que guiei um deles.

— Bem! Por que não disse isso? Ela começou a me secar.

— Paixão, se tivesse sabido, você teria se preocupado. Inu­tilmente. Em todas as vezes em que casei, sempre adotei a regra de nunca dizer ao meu marido alguma coisa que pu­desse preocupá-lo, se eu pudesse de alguma maneira evitar isso. — Sorriu angelicalmente. — É melhor assim. Homens são preocupadores; mulheres, não.

 

Fui despertado do profundo sono por fortes batidas.

— Abram!

Não consegui pensar em uma boa razão para responder, e não respondi. Bocejei largamente, tomando cuidado para não deixar que a alma escapasse, depois, virei-me para a direita e, de repente, Gwen não estava ali.

Levantei-me da cama com tal rapidez que fiquei tonto. Dei uma sacudidela na cabeça para clareá-la, depois fui saltitando até o refrescador. Gwen também não estava ali. As batidas continuaram.

Não beba champanha na cama e durma logo em seguida. Eu tinha que drenar um litro de champanha antes de poder suspirar de alívio e pensar em outras coisas. As batidas conti­nuaram, com mais gritos.

Enfiado no alto de meu pé havia uma nota de minha ama­da. Menina esperta! Ainda melhor do que prendê-la à minha escova de dentes. Li:

 

Queridíssimo,

Tive um acesso de acordadite, de modo que estou saindo para fazer umas duas coisas. Em primeiro lugar, vou à Sears Montgomery devolver nossos trajes pressurizados e pagar o aluguel deles. Enquanto estiver na Sears, comprarei meias e cuecas para você e calcinhas para mim, e farei outras pequenas coi­sas. Deixei um bilhete na recepção aqui, dizendo a Bill para devolver seu tra­je, também... Sim, ele apareceu depois de nós e Xia colocou-o em um quarto de solteiro, como você combinou com ela. Depois vou ao Wyoming Knott Me­morial Hospital visitar titia e telefonar para Ekaterina.

Você está dormindo como um bebê e espero estar de volta antes de você acordar. Se não — se você for a algum lugar —, por favor deixe uma nota na recepção.

Amo-o

Gwendolyn

 

As batidas continuaram. Calcei o pé, notando ao mesmo tempo que nossos trajes pressurizados não estavam onde os vira pela última vez, isto é, arrumados em pose romântica no chão, uma brincadeira feita por minha devassa esposa. Vesti as únicas roupas que tinha, molhei o pequeno bordo, desco­bri que não precisava de muita coisa. Gwen devia tê-la aguado.

— Abra!

— Vá pro inferno! — respondi polidamente.

Pouco depois as batidas foram substituídas por um ruído de arranhão, de modo que me coloquei junto à porta e um pou­co de lado. Esta não era do tipo de dilatar, mas do tipo mais tradicional de dobradiça.

A porta se abriu. Meu barulhento visitante mergulhou para dentro. Estendi a mão e empurrei-o para o outro lado do quarto. Em um sexto de gravidade isto exige algum cuidado — é pre­ciso ter um pé apoiado em alguma coisa ou perde-se tração e o troço não funciona.

Ele rebotou mais ou menos da parede mais distante e caiu na cama. Eu disse:

— Tire seus pés sujos de cima da minha cama! Ele saiu da cama e se levantou. Continuei, furioso:

— Agora, explique por que arrombou meu quarto... e fa­ça isso logo, antes que eu lhe arranque o braço e bata com ele em sua cabeça. Quem é que você pensa que é, acordando um cidadão que ligou o aviso "Favor Não Perturbar'? Responda!

Dava para ver que ele era alguma espécie de palhaço da cidade: usava um uniforme que dizia "polícia". A resposta dele, uma mistura de indignação com arrogância, correspon­dia à aparência:

— Por que não abriu quando ordenei?

— Por que é que eu devia? Você paga o aluguel deste quar­to?

— Não, mas...

— Esta é sua resposta. Fora daqui!

— Agora, você é que vai me ouvir! Eu sou um oficial de segurança da cidade soberana de Hong Kong Luna. O senhor deve apresentar-se imediatamente ao Moderador do Conse­lho Municipal, a fim de fornecer informações necessárias à paz e segurança da cidade.

— Devo, hem? Mostre-me a intimação?

— Não é necessária intimação nenhuma. Estou uniformi­zado e em serviço. O senhor tem que cooperar comigo. Postu­ra Municipal 27-82, página 41.

— Você tem um mandado para arrombar a porta de meu quarto particular? Não me diga que isso não precisa de um mandado. Vou processá-lo e tomar sua última coroa e esse traje de macaco que usa.

Os músculos do queixo dele tremeram, mas tudo o que ele disse foi:

— O senhor vem de boa vontade ou terei de arrastá-lo? Sorri para ele.

— Quer disputar na melhor de três? Ganhei a primeira. Venha. — Notei que havia uma audiência à porta. — Bom-dia, Xia. Conhece este palhaço?

— Sr. Richard, sinto horrivelmente a respeito de tudo is­to. Meu gerente do dia tentou detê-lo, mas ele não quis ouvi-lo. Vim aqui logo que pude.

Notei que ela estava descalça e que não usava maquiagem — de modo que seu sono fora também interrompido. Respon­di suavemente:

— Não foi culpa sua, querida. Ele não tem um mandado. Jogo-o na rua?

— Bem... — e ela pareceu perturbada.

— Oh, entendo. Acho que entendo. Durante toda a histó­ria, estalajadeiros julgaram conveniente se dar bem com a polícia. E durante toda a história policiais tiveram corações de ladrões e maneiras arrogantes. Muito bem, como um favor a você, vou deixar que ele viva. — Virei-me para o policial. — Rapaz, você pode rastejar de volta para junto de seu chefe e dizer a ele que vou logo. Depois que tiver tomado pelo menos duas xícaras de café. Se ele quiser mais cedo que isso, é me­lhor que mande um pelotão. Xia, que tal um café? Vamos ver se Sing tem café pronto e pão-careca.

Nesta altura dos acontecimentos Joe Guarda-de-Tropa-de-Assalto tornou necessário que eu lhe tomasse a arma. Podem atirar em mim — já atiraram, mais de uma vez —, mas não um cara que pensa que simplesmente me apontando uma arma muda as probabilidades.

A arma não era nada que eu quisesse — mero lixo. Des­carreguei-a, verifiquei com certeza que a munição não era do mesmo calibre que eu uso, joguei os cartuchos pela calha de lixo, e devolvi-lhe a arma.

Ao perder os cartuchos, ele protestou em altos brados, mas eu lhe expliquei pacientemente que a arma dele era tão boa como antes para o que ele a usara, e que se eu lhe deixasse a munição ele poderia ferir-se acidentalmente.

Ele continuou a grasnar e eu lhe disse que fosse grasnar no ouvido do seu chefe. E dei-lhe as costas. Ele estava, disto eu tinha certeza, aborrecido. Mas eu também.

 

Quarenta minutos depois, sentindo-me melhor mas ain­da com sono, e após uma agradável conversa com Xia no acom­panhamento de café com roscas barradas com geléia, apresen­tei-me no gabinete do Honorável Jefferson Mao, Moderador do Conselho de Escolhidos da Cidade Soberana de Hong Kong Luna — ou pelo menos era isso o que havia na porta. Pergun­tei a meus botões o que o Congresso do Estado Livre de Luna pensava do uso da palavra "soberano", mas isto não era de mi­nha conta.

Uma mulher de aspecto eficiente, olhos amendoados e ca­belos ruivos (genes interessantes, acho) perguntou:

— Nome, por favor.

— Richard Johnson. O Moderador quer falar comigo. Ela lançou um olhar ao monitor.

— O senhor está atrasado para o encontro. Vai ter que es­perar. Pode sentar-se, se quiser.

— E posso não querer. Eu disse que o Moderador queria falar comigo. Eu não disse que queria falar com ele. Digite es­sa caixa e diga a ele que estou aqui.

— Não posso, de jeito nenhum lhe arranjar brecha antes de duas horas, pelo menos.

— Diga a ele que estou aqui. Se ele não me receber agora, vou embora.

— Muito bem. Volte dentro de duas horas.

— Você me compreendeu mal. Vou embora. Embora de Kong. E não volto.

Eu estava blefando quando disse isso e, quando disse, des­cobri que não estava. Meus planos ainda desarticulados ha­viam incluído uma estada indefinida em Kong. De repente dei-me conta de que não permaneceria em uma cidade que caíra tanto nas qualidades que constituem civilização porque algum funcionário oficioso resolve intimá-lo. Não, de jeito ne­nhum! Um soldado raso em uma unidade decente, bem co­mandada, disciplinada, tem mais liberdade e mais privacida­de do que isso. Hong Kong Luna, cantada em verso e prosa como o berço da liberdade de Luna, não era mais lugar apro­priado para alguém viver.

Virei e estava quase na porta quando ela chamou:

— Sr. Johnson!

Parei, mas não me virei.

— Sim?

— Volte aqui!

— Por quê?

A resposta pareceu machucar-lhe o rosto:

— O Moderador o receberá agora.

— Muito bem.

Aproximando-me da porta do gabinete, ela rolou para lon­ge... mas não entrei no gabinete privado do Moderador. Ha­via à frente mais três portas, todas elas guardadas por fiéis cães de guarda... e isto me disse mais do que eu queria saber so­bre o atual governo de Hong Kong Luna.

O guardião na última porta anunciou-me e me fez entrar. O Sr. Mao quase nem me olhou.

— Sente-se.

Sentei-me e coloquei a bengala sobre os joelhos.

Esperei durante cinco minutos, enquanto o chefão da ci­dade remexia em papéis e continuava a me ignorar. Depois, levantei-me, dirigi-me para a porta, movendo-me devagar, apoiado na bengala. Mao levantou a vista.

— Sr. Johnson? Para onde vai?

— Embora.

— Não diga. O senhor não quer cooperar, não é?

— Quero tratar de minha vida. Alguma razão para que eu não deva?

Ele me fitou, o rosto sem expressão.

— Se o senhor insiste, posso citar uma postura municipal, nos termos da qual o senhor é obrigado a cooperar comigo quando eu exigir isso.

— O senhor está se referindo à Postura Municipal 217-82?

— Vejo que a conhece... de modo que dificilmente pode alegar ignorância como atenuante de seu comportamento.

— Não conheço essa postura, apenas o número. Foi men­cionado pelo policial apalhaçado que arrombou meu quar­to. Essa postura diz alguma coisa sobre arrombamento de quar­tos particulares?

— Ah, sim. Interferir na ação de um agente de segurança que cumpre seu dever. Discutiremos isso mais tarde. Essa pos­tura que o senhor citou é a pedra fundamental de nossa liber­dade. Cidadãos, residentes e mesmo visitantes podem ir e vir como quiserem, sujeitos apenas ao dever cívico de cooperar com funcionários eleitos, nomeados, ou delegados no cum­primento de seus deveres oficiais.

— E quem decide quando a cooperação é necessária, de que tipo e em que grau?

— Ora, o funcionário interessado, claro.

— Foi o que pensei. Há alguma coisa mais que o senhor queira comigo? — Comecei a me levantar.

— Sente-se. Há, realmente. E eu exijo sua cooperação. La­mento ter posto a questão desta maneira, mas o senhor apa­rentemente não atende a solicitações polidas.

— Tais como arrombar minha porta?

— O senhor me cansa. Sente-se e cale-se. Vou interrogá-lo... logo que chegarem duas testemunhas.

Sentei-me novamente e fiquei calado. Achei que nesse mo­mento compreendia o regime: absoluta liberdade... exceto que qualquer funcionário, do laçador de cães vadios ao mais alto potentado, poderia dar quaisquer ordens, em qualquer tem­po, a qualquer cidadão privado.

Então era a "liberdade" da forma definida por Orwell e Kafka, a "liberdade" concedida por Stalin e Hitler, a "liberda­de" de andar de um lado para o outro numa gaiola. Fiquei cu­rioso em saber se o próximo interrogatório seria auxiliado por dispositivos 'mecânicos ou elétricos, ou quem sabe drogas, e senti o estômago embrulhado. Nos velhos tempos, quando es­tava no serviço ativo e enfrentava repetidamente a possibili­dade de captura, estando de posse de informações secretas, sempre tivera um "amigo final" aquele "dente oco" ou equi­valente. Mas não usava mais esta proteção.

E estava com medo.

Antes de muito tempo, entraram dois homens. Mao res­pondeu ao bom-dia e mandou-os sentar com um aceno. Um terceiro chegou logo depois.

— Tio Jeff, eu...

— Cale a boca e sente-se!

O retardatário era o palhaço cuja arma eu esvaziara. Ele calou-se e sentou-se. Surpreendi-o olhando para mim. Ele des­viou a vista.

Mao pôs de lado alguns papéis.

— Major Bozell, obrigado por ter vindo. E ao senhor tam­bém, Capitão Marcy. Major, o senhor tem perguntas a fazer a um certo Richard Johnson. Ele está sentado aí. Faça suas perguntas.

Bozell era um homem baixote que adotava postura muito ereta. Possuía cabelos amarelos cortados rentes e maneiras bruscas, sacudidas.

— Ahn! Vamos direto ao assunto! Por que o senhor me lançou numa busca improfícua?

— Que busca improfícua?

— Ah! O senhor vai negar que me contou uma história fan­tasiosa sobre um ataque de bandidos? Numa área onde nun­ca houve bandidos? O senhor nega que insistiu comigo em que mandasse para lá uma equipe de resgate e salvamento? Saben­do que eu nada encontraria! Responda!

— Isso me lembra... — comecei. — Alguém aqui pode me dizer como está tia Lilybet esta manhã? Porque me disseram para vir aqui, não pude ir até o hospital.

— Ah! Não mude de assunto! Responda! Respondi, humildemente:

— Mas este é o assunto. Nesse ataque fantasioso de que fala, a velha senhora foi ferida. Ela ainda está viva? Alguém sabe?

Bozell fez menção de responder. Mao cortou-o:

— Ela está viva. Ou estava, há uma hora. Johnson, é me­lhor que você reze para que ela continue viva. Tenho um de­poimento aqui — bateu no terminal — de uma cidadã cuja pa­lavra está acima de qualquer suspeita. Um de nossos acionis­tas mais importantes, Lady Diana Kerr-Shapley. Ela disse que o senhor atirou na Sra. Lilybet Washington...

— O quê?

— ... ao mesmo tempo que criou uma situação de terror, na qual seus atos provocaram a morte por anoxia de seu mari­do, o Honorável Oswald Progant, que quebrou o pulso de seu marido, o Honorável Brockman Hogg, e sujeitou a própria Lady Diana a táticas de terror e a insultos repetidos.

— Hummm. Ela disse também quem matou a criança OToole? E o artilheiro da torreta? Quem foi que o matou?

— Ela diz que foi tal a confusão que não viu tudo. Mas que o senhor saiu quando o ônibus estava parado e que subiu para a torreta... sem dúvida foi nessa ocasião que acabou com o pobre rapaz.

— É o senhor mesmo que está dizendo esta última parte ou foi ela quem disse?

— Eu disse. Uma presunção conclusiva. Lady Diana teve todo o cuidado de não prestar depoimento sobre coisa algu­ma que não viu com seus próprios olhos. Incluindo esse rola-dor fantasmagórico cheio de bandidos. Ela não viu nada disso.

Bozell tomou a palavra:

— Aí o senhor tem, Sr. Moderador. Este seqüestrador dis­parou uma saraivada de tiros dentro do ônibus, matou três pes­soas e feriu mais duas... e inventou uma história da carochi­nha para encobrir seus crimes. Não há bandidos nessa área, todos sabem disso.

Tentei agarrar com as duas mãos a realidade.

— Sr. Moderador, um momento, por favor! O Capitão Marcy está aqui. Sei que ele tirou uma foto do rolador dos bandidos.

— Eu faço as perguntas, Sr. Johnson.

— Mas... ele conseguiu ou não as fotos?

— Isso basta, Johnson! Comporte-se de acordo com as re­gras. Ou o faremos cumpri-las.

— O que estou fazendo que viola xs regras?

— Está perturbando uma investigação com matéria desca­bida. Espere até que receba permissão para responder. Em se­guida, responda à pergunta.

— Sim, senhor. Qual é a pergunta?

— Eu lhe disse para ficar calado!

Fiquei. E todo os demais ali.

Logo depois o Sr. Mao tamborilou na escrivaninha e disse:

— Major, tem mais alguma pergunta a fazer?

— Ah! Ele não respondeu à minha primeira pergunta. Tergi­versou.

O Moderador falou, por sua vez:

— Johnson, responda à pergunta. Banquei o estúpido — meu melhor papel.

— Qual a pergunta?

Mao e Bozell começaram a falar no mesmo instante. Bo­zell cedeu a vez a Mao, que continuou:

— Vou sumariar. Por que fez o que fez?

— O que foi que eu disse?

— Acabei de lhe dizer o que você fez!

— Mas não fiz nada do que o senhor disse que fiz. Sr. Mo­derador, não compreendo como o senhor se envolveu nisto O senhor não esteve lá. O ônibus não é de sua cidade. Eu não sou de sua cidade. O que quer que tenha acontecido, aconte­ceu fora de sua cidade. Qual é sua ligação com este assunto?

Mao recostou-se na poltrona e pareceu contente consigo mesmo. Bozell tomou a palavra:

— Ah! — disse, e acrescentou: — Digo a ele, Sr. Modera­dor, ou o senhor mesmo diz?

— Eu digo. Na verdade vai ser um prazer dizer. Johnson, há menos de um ano, o Conselho desta cidade soberana to­mou uma medida muito sábia: ampliou sua jurisdição a fim de abranger todas as atividades na superfície e no subsolo em um raio de 100 quilômetros a partir do pressurizado municipal.

— E transformou os Vigilantes Voluntários em braço ofi­cial do governo — contribuiu feliz Bozell —, encarregado de manter a paz e a ordem nessa faixa de 100 quilômetros. E isto cuida de você, seu assassino!

Mao ignorou a interrupção.

— De modo que você vê, Johnson, embora você provavel­mente pensasse que estava no meio de um deserto de anarquistas, onde a letra da lei não se aplica, você na verdade não estava. Seus crimes serão punidos!

(Eu gostaria de saber quanto tempo ainda vai passar an­tes que alguém tente um golpe assim para assumir o poder lá no Cinturão de Asteróides.)

— Esses meus crimes... eles ocorreram a menos de 100 qui­lômetros de Hong Kong Luna? Ou mais?

— Ahn? Menos. Consideravelmente menos. Claro.

— Quem foi que mediu a distância? Mao olhou para Bozell.

— A que distância aconteceu isso?

— A mais ou menos 80 quilômetros. Um pouco menos. Falei:

— O que foi um pouco menos? Major, o senhor está fa­lando do ataque dos bandidos ao ônibus? Ou a resposta de alguma coisa que teria acontecido dentro do ônibus?

— Não ponha palavras na minha boca! Marcy... responda. Tendo dito isso, Bozell assumiu uma expressão vazia. Fez menção de acrescentar alguma coisa, mas parou antes de falar. Eu, com todo cuidado, permaneci calado. Imediatamente Mao recomeçou:

— Bem, Capitão Marcy?

— O que deseja de mim, senhor? O diretor do espaçoporto, quando me enviou aqui, disse-me que cooperasse no que fos­se possível... mas que não dissesse voluntariamente nada que o senhor não perguntasse.

— Quero tudo que for relevante para este caso. O senhor deu ao Major Bozell um número de 80 quilômetros?

— Dei, senhor. Setenta e oito quilômetros.

— De que modo conseguiu esse número?

— Medi-o em um monitor no meu console de controle. Habitualmente, não imprimimos foto tirada de satélite, ape­nas a projetamos. Esse homem — o senhor diz que o nome dele é Johnson. Eu o conhecia como "Meia-Noite" — se é o mesmo homem. Ele me chamou pelo rádio na noite passada às 10h27min e disse que estava no ônibus do Dragão Feliz e que bandidos haviam atacado o ônibus...

— Ah!

—... e que o ataque fora repelido mas que a motorista, tia Lilybet — a Sra. Washington —, estava ferida e que o artilhei­ro da torreta...

— Nós sabemos de tudo isso, capitão. Fale-nos sobre a fotografia.

— Sim, Sr. Moderador. Pelo que Meia-Noite me disse, pude dirigir a câmara do satélite para o alvo. Fotografei o rolador.

— E o senhor calculou naquela ocasião que o ônibus esta­va a 78 quilômetros da cidade.

— Não, senhor, não o ônibus. O outro rolador. Houve um tipo de silêncio algumas vezes chamado de "prenhe de". Bozell, porém, explodiu:

— Mas isso é uma loucura! Não havia nenhum...

— Espere um pouco, Bozell. Marcy, você foi desencaminhado pelas mentiras de Jonhson. O que você viu foi o ônibus.

— Não, senhor. De fato, vi o ônibus: eu o tinha no moni­tor. Mas vi imediatamente que estava se movendo. De modo que fiz a câmara recuar pela estrada uns 10 quilômetros... e lá estava o segundo rolador, exatamente como Meia-Noite dissera.

Bozell ficou quase em lágrimas.

— Mas... nada havia lá, eu lhe garanto! Meus rapazes e eu demos uma busca por toda a área. Nada! Marcy, você está louco!

Não sei por quanto tempo Bozell teria continuado dese­jando que não tivesse havido um rolador que ele não pudera achar, quando foi interrompido. Gwen entrou. E eu reengoli meu coração. Tudo ia acabar bem.

(Eu estivera doente de preocupação desde que vira a trí­plice defesa que Mao montara contra qualquer pessoa que qui­sesse se aproximar dele. Uma guarda contra assassinato? Não sei. Simplesmente tive pavor que Gwen fosse contrariada. Mas eu devia ter tido mais confiança naquela pequena gigante.)

Ela sorriu, jogou-me um beijo, virou-se e manteve a porta aberta.

— Por aqui, cavalheiros!

Dois dos próprios guardas de Mao entraram empurrando uma cadeira de rodas, puxada para trás para que titia pudes­se se reclinar. Ela olhou em volta, sorriu para mim e disse ao Moderador:

— Oi, Jefferson. Como vai sua mamãe?

— Ela vai bem, obrigado, Sra. Washington. Mas a senhora...

— Que bobagem é essa de "Senhora Washington"? Meni­no, eu mudei suas fraldas. Você me chama de "titia", como sem­pre chamou. Agora, ouvi dizer que você estava pensando em pregar uma medalha no peito do senador Richard, como re­conhecimento pela maneira como ele me salvou daqueles ban­didos... e quando ouvi dizer isso, disse a mim mesmo: "Jef­ferson não ouviu nada a respeito dos outros dois que mere­cem tanto as medalhas como o senador Richard"... com seu perdão, senador.

— Oh, a senhora tem toda razão, titia.

— De modo que eu os trouxe aqui. Gwen, querida, diga oi a Jefferson. Ele é o prefeito desta pressurizada. Gwen é a esposa do senador Richard, Jefferson. E Bill... Onde está Bill? Bill! Venha até aqui, filho! Não fique com vergonha. Jefferson, embora seja verdade que o senador Richard matou dois da­queles perversos com as mãos nuas...

— Não com as mãos nuas, titia — protestou Gwen. — Ele tinha a bengala.

— Fique calada, amor. Com as mãos nuas e a bengala, mas se Bill não estivesse lá — e fosse rápido e esperto — eu não estaria aqui. Jesus teria me levado. Mas o Senhor querido dis­se que não era o meu dia ainda, Bill botou remendos em meu traje e me salvou para servir a Jesus mais um dia. — Estendeu a mão e pegou a de Bill. — Este é o Bill, Jefferson. Não se es­queça de dar também uma medalha a ele. E Gwen... Venha aqui, Gwen. Este bebezinho salvou a vida de nós todos.

Eu não tenho certeza da idade de minha esposa, mas ela não é um ''bebezinho". Contudo, esta foi a menor distorção de fatos que ouvimos nos minutos seguintes. Para dizer o mí­nimo, titia contou um montão de mentiras. E Gwen inclinan­do a cabeça, confirmando, e parecendo angélica.

O problema não era tanto que os fatos estivessem errados, mas que titia prestasse depoimentos sobre fatos que não po­deria ter presenciado de maneira nenhuma. Gwen devia tê-la escolado com todo cuidado.

Dois grupos de bandidos haviam atacado o ônibus, mas se engalfinharam. Isso nos salvou, uma vez que todos menos dois deles morreram naquela luta fratricida. Estes dois eu ma­tei com as mãos nuas e a bengala — enfrentando pistolas a laser. Sou um cara tão heróico que até me espanto comigo mesmo.

Enquanto essas valentes façanhas aconteceram, sei que titia estava inconsciente parte do tempo, deitada de costas duran­te todo o tempo e só podia ver mesmo o teto do ônibus. Ain­da assim, ela parecia acreditar — acho mesmo que acreditava — no que estava dizendo. Que isso diga o que valem testemu­nhas de vista.

(Não que eu esteja me queixando.)

Em seguida, titia contou como Gwen dirigia o ônibus. Quando dei por mim, estava levantando a bainha da calça pa­ra mostrar minha prótese — uma coisa que nunca faço —, mas mostrei desta vez para demonstrar porque não pudera usá-la vestindo um traje pressurizado padrão e, por conseguinte, sem condições para dirigir o veículo.

Mas foi Gwen quem arrematou grandiosamente o grande espetáculo quando titia findou seu relato altamente pitoresco. E fez isso com fotos.

Prestem atenção. Gwen usara toda sua munição, seis car­tuchos. Em seguida, arrumada como sempre — pusera a Miya­ko na bolsa, tirara a Mini Helvetia e batera duas fotos.

Inclinara a câmera um pouco para isso, pois as fotos mos­travam não só os dois veículos dos bandidos, mas também três baixas no chão e um bandido de pé e se movendo. A segunda foto mostrava quatro no chão e a super-rosca virada para fu­gir dela.

Não posso calcular o tempo exato que durou isto, mas de­ve ter sido pelo menos quatro segundos desde o momento em que ela ficou sem munição e o tempo em que a roda gigante virou para ir embora. Com uma câmera rápida, leva-se mais ou menos tanto tempo para bater uma foto como dar um tiro com uma arma semi-automática que usa balas.

A pergunta é: o que foi que ela fez com os outros dois segundos? Simplesmente desperdiçou-os?

 

"Síndrome pré-menstrual: pouco antes da menstruação mulheres se comportam da maneira como homens se compor­tam o tempo todo."

Dr. Lowell Stone, 2144

 

Não saímos na carreira, mas partimos daquele lugar com toda rapidez possível. É verdade que titia obrigara o Sr. Mao a me aceitar como "herói" e não como criminoso — mas isto não o fez me amar, e eu sabia disso.

O Major Bozell nem mesmo fingiu gostar de mim. A "de­serção" do Capitão Marcy enfureceu-o; as fotos de Gwen, mos­trando bandidos de verdade (onde eles não podiam estar!) partiu-lhe o coração. Em seguida o chefe desfechou-lhe o mais cruel dos golpes, ordenando-lhe que reunisse suas tropas, fosse até lá e os achasse! E imediatamente!

— Se não conseguir isso, major, vou ter que encontrar al­guém que consiga. Foi você quem pensou nessa idéia de limi­te de 100 quilômetros. Agora, justifique suas bravatas.

Mao não devia ter feito isso com Bozell na presença de outras pessoas — especialmente não da minha presença. Isto eu eu sei por experiência profissional — em ambos os papéis. Acho que Gwen deu algum sinal à titia. Como quer que fosse, tia Lilybet disse a Mao que tinha que ir embora.

— Minha enfermeirinha vai me passar um pito por ter fi­cado ausente por tanto tempo. Não quero que ela brigue co­migo. Mei-Ling Ouspenskaya... Conhece-a, Jefferson? Ela co­nhece sua mamãe.

Os mesmos dois guardas empurraram a cadeira de rodas de titia por aquela série de salas até o corredor público — ou melhor, praça, já que a Prefeitura dá para a Praça da Revolu­ção. Ela se despediu de nós nesse local e os policiais conti­nuaram empurrando a cadeira até o Wyoming Knott Memo­rial Hospital, dois níveis para baixo e ao norte dali. Não acho que eles esperassem fazer isso — mas sei que Gwen os con­vocou para serviço militar ali mesmo no gabinete do Modera­dor —, e titia supôs que eles a levariam de volta ao hospital, e foi o que fizeram.

— Não, Gwen, amor, você não precisa ir... estes bondo­sos cavalheiros sabem onde fica o hospital.

(Portas se abriram para ela porque ela espera que portas se abram. Tanto Gwen quanto tia Lilybet acreditam piamente nesse princípio.)

 

De frente para a Prefeitura havia um grande cartaz enfei­tado com bandeirolas, onde estava escrito:

 

LUNA LIVRE!

4 de Julho, 2076-2188

 

Já era realmente o Dia da Independência? Mentalmente, contei. De fato, Gwen e eu havíamos casado no dia 1º — de modo que aquele dia tinha que ser o 4 de julho. Bom augúrio!

Sentada em um banco em volta da fonte situada no cen­tro da Praça da Revolução, Xia esperava por nós.

Eu esperara Gwen. Mas não Xia. Naquela conversa que tivera com ela, pedira-lhe para tentar localizar Gwen e lhe di­zer para onde eu ia e por quê.

— Xia, eu não gosto de ser intimidado por tiras para ser interrogado, especialmente numa cidade estranha onde não conheço a organização policial. Se eu for "detido" — para di­zer a coisa polidamente — quero que minha esposa saiba on­de me procurar.

Não sugeri o que Gwen devia fazer a esse respeito. Em apenas três dias de casamento já aprendera que nada que eu pudesse sugerir poderia ser igual ao que ela pensaria se dei­xada a seus tortuosos expedientes. Ser casado com Gwen não era monótono.

Fiquei satisfeito em vê-la à espera, mas fiquei surpreendi­do com o que trouxera consigo. Olhei e perguntei:

— Alguém alugou a suíte nupcial?

No banco, junto a Xia, vi a maleta de Gwen, o pacote con­tendo a peruca, a bonsai, um pacote não conhecido mas bas­tante evidente pelo papel de embrulho da Sears Montgomery.

— Aposto que minha escova de dentes ainda está pendu­rada no refrescador.

— Quanto quer apostar, e qual é a vantagem que dá? — perguntou Xia. — Você perderia. Richard, vou sentir falta dos dois. Talvez eu dê um pulo em L-City para visitar vocês.

— Faça isso! — pediu Gwen.

— De acordo — disse eu —, se vamos nos mudar para L-City. Vamos?

— Imediatamente — confirmou Gwen.

— Bill, você sabia alguma coisa sobre isso?

— Não, senhor senador. Mas ela me mandou a toda à Sears entregar o traje. De modo que estou pronto.

— Richard — falou Gwen, séria — não é seguro para você permanecer aqui.

— Não, não é — confirmou uma voz às minhas costas (o que provava, mais uma vez, que assuntos sigilosos não devem ser discutidos em público). — Quanto mais cedo vocês forem embora, melhor. Oi, Xia. Você está com estes elementos perigosos?

— Oi, você, Choy-Mu. Obrigado pela última vez. Pisquei espantado para ele.

— Capitão Marcy! Que bom que apareceu. Eu queria lhe agradecer!

— Não tem o que me agradecer, Capitão Meia-Noite... ou é "senador"?

— Bem... na verdade, "doutor", ou "senhor", mas para você é "Richard", se quiser. Você me salvou o pescoço.

— E eu sou o Choy-Mu, Richard. Mas não salvei seu pes­coço. Segui-o para lhe dizer isto. Você pode pensar que ganhou lá dentro. Não ganhou. Perdeu. Você fez o Moderador perder o prestígio... os dois perderam prestígio. De modo que você é uma bomba de tempo ambulante, um acidente à procura de um lugar. — Franziu as sobrancelhas. — Não foi muito sadio para mim, também, estar presente quando eles perderam pres­tígio... depois de ter cometido o erro inicial de "levar más no­tícias ao rei". Entendeu o que eu disse?

— Receio que sim.

— Choy-Mu — perguntou Xia —, o Número Um perdeu realmente prestígio?

— Realmente perdeu, amor. E foi tia Lilybet Washington que fez isso com ele. Mas, claro, ele não pode fazer nada com ela. De modo que resta o capitão... Richard. Ou é assim que eu vejo a coisa.

Xia levantou-se.

— Gwen, vamos direto para a estação. Não podemos per­der nem um segundo! Oh, droga, eu queria tanto que vocês ficassem alguns dias.

Vinte minutos depois estávamos na Estação Sul do Me­trô, prestes a tomar o tubo balístico para Luna City. O fato de que pudéssemos arranjar lugar na cápsula L-City que partia quase imediatamente decidiu nosso destino, uma vez que Choy-Mu e Xia nos acompanharam para se despedirem de nós, e ao chegarmos à estação, usando o metrô local, eles haviam me convencido — ou convencido Gwen (mais fundamental) — que devíamos tomar o primeiro veículo que saísse da cida­de, pouco importando para onde. Partindo daquela mesma es­tação há tubos comuns (não balísticos) para Platão, Tycho Sub­solo e Novy Leningrad — e se tivéssemos chegado seis mi­nutos antes teríamos terminado na coelheira humana de Pla­tão, o que teria mudado muitas coisas.

Ou teria mesmo mudado alguma coisa? Há por acaso um Destino que modele nosso fins? (O fim de Gwen era delicio­samente modelado. O de Xia, também, pensando bem.)

Mal houve tempo para dizer ciao, ciao, antes de prender­mos as coisas nas prateleiras e nos amarrarmos. Xia beijou to­dos nós e eu fiquei satisfeito porque Gwen não deixou Choy-Mu sem um beijo. Verdadeiro lunariano, ele hesitou um lon­go momento antes de se certificar que a moça o beijava a sé­rio, e depois retribuiu entusiasticamente. Observei Xia dar um beijo de adeus em Bill— que retribuiu sem essa hesitação. Che­guei à conclusão de que a tentativa de Gwen de bancar Pig­maleão para essa incrível Galatéia estava tendo sucesso, mas que Bill precisaria aprender maneiras lunarianas, ou poderia perder alguns dentes.

Sentamo-nos, amarrramo-nos, a cápsula foi vedada e, mais uma vez, Bill apertou o pequeno bordo contra a barriga. As prateleiras se movimentaram para acompanhar a aceleração — uma gravidade completa, aceleração alta para os lunarianos que enchiam o resto do carro. Dois minutos e cinqüenta segundos de aceleração e logo alcançamos velocidade orbital.

Esquisito entrar em queda livre em um metrô. Mas que é divertido, é.

Esta era a primeira vez que eu andava no tubo balísti­co. O sistema data de antes da Revolução, embora por essa época (segundo li) só fosse até Endsville. Completado mais tar­de, seu princípio de funcionamento nunca foi estendido a ou­tros sistemas de metrô — não era econômico, segundo me dis­seram, a não ser por trechos longos e muito utilizados, que podem ser escavados "retos" o caminho todo — "reto", neste caso, significando "exatamente de acordo com uma curva ba­lística à velocidade orbital".

Este metrô é a única "nave espacial" subterrânea de toda a história. Funciona de acordo com o princípio de catapultas de indução que lançam cargas a Ell-Four, Ell-Five e à Terra... exceto que as estações de lançamento, de recebimento e toda a trajetória são todas situadas embaixo da terra... alguns me­tros no subsolo na maior parte das vezes, e uns três quilôme­tros mais fundo quando o tubo passa por baixo de montanhas.

Dois minutos e 51 segundos de aceleração a uma gravida­de, 12 minutos e 27 segundos em queda livre, dois minutos e 51 segundos de frenagem a uma gravidade — tudo isso so­ma uma velocidade média de mais de 5.000 quilômetros horá­rios. Nenhum outro transporte de "superfície", em qualquer lugar, aproxima-se sequer dessa velocidade. Ainda assim, é uma viagem feita no mais absoluto conforto — três minutos que parecem passados em uma rede de balanço na Terra, em seguida 12 e meio minutos de imponderabilidade, e mais três minutos de rede naquele jardim. Quem é que pode fazer me­lhor que isso?

Oh, poder-se-ia fazer isto mais rápido, acelerando a gravidades múltiplas. Mas não muito. Se a aceleração pudesse ser instantânea (matando todos os passageiros!) e a desacelera­ção da mesma maneira (splat), poderíamos aumentar a velo­cidade média para mais de 6.000 quilômetros por hora e cor­tar o tempo de viagem em quase três minutos! Mas isso seria o máximo.

Este é também o melhor tempo possível de uma nave-foguete entre Kong e L-City. Na prática, um foguete saltador leva geralmente meia hora — e tudo depende da altura da trajetória.

Mas certamente meia hora é um tempo bem curto. Mas por que túnel sob maria e montanhas quando um foguete po­deria fazer o trabalho?

O foguete é a forma de transporte mais cara já inventa­da. Numa típica missão em foguetes, metade do esforço é gasto lutando com a gravidade para subir e a outra metade lu­tando contra ela para descer — uma vez que se despedaçar-se no solo é considerado fim insatisfatório de missão. As gigan­tescas catapultas em Luna, Terra, Marte e no espaço são pro­testos gigantescos contra o desperdício dos motores a foguete.

Ao contrário, o metrô balístico é o transporte mais econô­mico já inventado: nenhuma massa é queimada ou lançada e a energia usada na aceleração é recuperada na outra extre­midade, na desaceleração.

Não há nenhuma mágica nisso. A catapulta elétrica é um gerador a motor. Pouco importa que não se pareça com isso. Na sua fase de aceleração é um motor, energia elétrica conver­tida em energia cinética. Na fase de desaceleração é um gera­dor: a energia cinética extraída da cápsula é puxada como ener­gia elétrica e armazenada em um Shipstone. Em seguida, a mesma energia é retirada do Shipstone para lançar a cápsula de volta a Kong.

Uma refeição gratuita!

Não, de todo. Há perdas de histerese e outras insuficiên­cias. A entropia aumenta sempre. Ninguém pode esnobar a segunda lei da termodinâmica. A coisa que mais lembra é a frenagem regenerativa. Houve tempo, há muitos anos, quan­do carros de superfície eram desacelerados e parados por atrito, rudemente aplicados. Mas, um dia, um cara brilhante com­preendeu que uma roda em movimento poderia ser parada tratando-a como se fosse um gerador e fazendo com que pa­gasse pelo privilégio de ser parada — o momento angular po­dia ser extraído e armazenado em um "acumulador" (um dos primeiros precursores dos Shipstones).

A cápsula que parte de Kong faz mais ou menos a mesma coisa: ao cortar linhas magnéticas de força na extremidade de L-City, ela gera uma imensa força eletromotriz, que pára a cáp­sula e transforma sua energia cinética em energia elétrica, que é em seguida armazenada.

O passageiro, porém, não precisa saber nada disso. Ele sim­plesmente mata o tempo em "sua rede" durante a viagem, a mais suave possível.

Havíamos acabado de passar a maior parte de três dias rolando 700 quilômetros. Naquele momento, percorríamos 1.500 quilômetros em 18 minutos.

 

Tivemos que abrir caminho da cápsula à força de ombros, e fazer o mesmo pela estação porque havia Shriners impacien­tes à espera da oportunidade de viajar para Kong. Ouvi um dizer que "eles" (o anônimo "eles", a quem culpam por tudo) — "deviam botar mais carros na linha". Um lunariano tentou explicar-lhe a impossibilidade envolvida nessa exigência — ape­nas um tubo, capaz de operar com apenas uma cápsula, que poderia estar apenas nesta ou na outra extremidade, quando não em queda livre entre as duas. Mas nunca duas cápsulas no tubo — impossível, puro suicídio.

A explicação provocou uma alvar incredulidade. O visi­tante aparentemente teve problema também para aprender a idéia de que o tubo balístico era de propriedade particular, não sujeito a qualquer regulamento... assunto que veio à baila quan­do o lunariano disse:

— Se o senhor quer outro tubo, vá em frente! Construa-o! Tem toda liberdade para fazer isso. Ninguém o está impedin­do. Se isso não o satisfaz, volte para Liverpool.

Indelicado da parte dele. Minhocas não podem deixar de ser minhocas. Todos os anos, algumas morrem pela incapacidade de compreender que Luna não é igual a Liverpool, Den­ver ou Buenos Aires.

Passamos através da câmara pneumática que separa a pressurizada de propriedade de Artemis Transit Company da pressurizada municipal. No túnel do outro lado da câmara vi uma tabuleta: PEGUEM SEUS VALES DE AR AQUI. Sentado sob a tabuleta, a uma mesa, havia um homem duas vezes mais inválido que eu: pernas terminadas nos joelhos. Isto, porém, não parecia lhe diminuir a movimentação: vendia revistas, do­ces e ar, anunciava serviços turísticos e de guia e exibia outro aviso interessante: ACEITAM-SE APOSTAS.

A maioria das pessoas passava por ele sem parar. Bill ia fazer o mesmo quando o detive:

— Espere, Bill.

— Senador, vou ter que botar um pouco d'água nesta ár­vore.

— Espere, ainda assim. E deixe de me chamar "senador". Chame-me de "doutor". Dr. Richard Ames.

— Ahn?

— Não importa. Simplesmente, faça isso. Neste exato mo­mento temos que comprar ar. Você não comprou em Kong?

Bill não comprara. Entrara na pressurizada ajudando titia e ninguém pensara em lhe cobrar coisa nenhuma.

— Bem, você devia ter pago. Notou que Gretchen pagou por todos nós no Dragão Feliz? Pagou. E agora vamos pagar aqui, mas vou comprar mais do que para uma única noite. Es­pere aqui.

Parei à mesa.

— Oi, aí. O senhor está vendendo ar?

O vendedor de ar levantou os olhos de um problema de palavras cruzadas, olhou-me de cima a baixo.

— O senhor não tem que pagar. Pagou o ar quando com­prou a passagem.

— Não, inteiramente — respondi. — Sou lunariano, com­panheiro, voltando para casa. Com esposa e um dependente. De modo que preciso de ar para três.

— Boa tentativa. Mas que deu em nada. Escute, uma au­torização de cidadão não vai lhe conseguir preços de cidadão — vão olhar para você e ainda lhe cobrar preços de turista. Se quiser prolongar seu visto, pode. Na Prefeitura. E cobrarão o ar para cobrir o prazo de prolongamento do visto. Agora, esqueça, antes que eu resolva enganá-lo.

— Cara, você é difícil de agradar. — Tirei do bolso o pas­saporte, lancei-lhe um rápido olhar para me certificar de que era meu passaporte "Richard Ames", e entreguei-o. — Esti­ve longe durante muitos anos. Se isso me faz parecer uma mi­nhoca, é pena. Mas, por favor, note ande nasci.

Ele olhou e me devolveu o passaporte.

— Muito bem, lunariano, você me enganou. Três de vo­cês, ahn? Por quanto tempo?

— Meus planos ainda não são definitivos. Qual é o perío­do mais curto na escala de residente permanente?

— Um quarto de ano. Oh, mais um desconto de 5% se comprar cinco anos de uma só vez... mas, com a prime rate de hoje a 7,5, é uma mão na roda.

Paguei ar para três adultos durante 90 dias e perguntei o que ele sabia sobre acomodações.

— Tendo ficado fora tanto tempo, não só não tenho com­partimento como não conheço o mercado, e não me agrada­ria dormir na Bottom Alley hoje à noite.

— Você acordaria sem sapatos, a garganta cortada e ratos passeando por cima da cara. Hummm, é uma questão difícil, companheiro. Está vendo esses chapéus vermelhos esquisitos? A maior convenção que L-City já assistiu. Entre a convenção e o Dia da Independência, a cidade está lotada. Mas se você não for biqueiro demais...

— Não somos.

— Poderão conseguir alguma coisa melhor depois do fim de semana, mas enquanto isso, há um motel antigo no nível 6, o Raffles, que fica em frente...

— Sei onde é. Vou ver se me arranjo lá.

— É melhor telefonar antes e dizer que sou eu que estou enviando vocês para lá. Eu sou o Rabi Ezra ben David. O que me lembra, "Ames, Richard". Você é o Richard Ames procura­do por assassinato?

— Não diga!

— Surpreso? É verdade, mesmo, companheiro. Tenho uma cópia do aviso por aqui. — Mexeu nas revistas, notas a lápis e problemas de xadrez. — Aqui está. É procurado no habitat Regra de Ouro... Parece que você esfriou algum cara impor­tante. Pelo menos é o que diz aí.

— Interessante. Há um mandado de prisão para mim aqui?

— Em Luna? Acho que não. Por que haveria? Ainda o mes­mo velho impasse. Nada de relações diplomáticas com o Re­gra de Ouro até que eles se qualifiquem, segundo os termos da Convenção de Oslo. O que não podem fazer sem uma Carta de Direitos. O que não é nada provável.

— Acho que não.

— Ainda assim... se precisar de advogado, venha me pro­curar. Sou isso, também. Estou aqui todos os dias, depois do meio-dia, ou então deixe seu nome no Seymour's Kosher Fish Emporium, em frente à Biblioteca Carnegie. Seymour é meu filho.

— Obrigado. Vou me lembrar. Por falar nisto, quem foi que dizem que matei?

— Não sabe?

— Uma vez que não matei ninguém, como é que posso saber?

— Há lacunas lógicas nisso que não vou examinar. Está dito aqui que sua vítima foi Enrico Schultz. Esse nome lhe refres­ca a memória?

— Enrico Schultz. Acho que nunca ouvi esse nome. Um estranho para mim. A maioria das vítimas de assassinato é mor­ta por amigos ou parentes, não por estranhos. E neste caso, não por mim.

— Entretanto, realmente. Ainda assim os proprietários do Regra de Ouro oferecem uma substancial recompensa por sua morte. Ou, para ser exato, pela sua entrega, vivo ou morto, sem ênfase em você ser entregue vivo — simplesmente seu corpo, companheiro, quente ou frio. Devo observar que, se fos­se seu advogado, eu seria eticamente obrigado a não explorar esta oportunidade?

— Rabi, acho que não faria isso, de qualquer maneira. O senhor é um lunariano típico demais. Está simplesmente ten­tando me fazer contratá-lo. Humm. Quero os Três Dias.

— Três dias, então. Quer recibo oficial ou um vale serve?

— Uma vez que perdi a aparência de lunariano, é melhor os dois.

— Muito bem. Uma coroa ou duas para dar sorte?

O Reverendo Ezra carimbou nossos antebraços com uma data três meses depois e com sua chancela, usando uma tinta à prova d'água, visível apenas em luz negra, e nos demons­trou, usando uma lâmpada de teste, que estávamos marcados e que podíamos legalmente respirar durante um quarto de ano em qualquer lugar na pressurizada L-City — e desfrutar ou­tros privilégios concomitantes, tais como passagem pelos lo­gradouros públicos. Ofereci-lhe três coroas acima do que pa­guei pelo ar. Ele aceitou duas.

Agradeci e desejei-lhe bom-dia e continuamos pelo túnel, todos um pouco desajeitados e sobrecarregados. Cinqüenta me­tros à frente, o túnel desembocou em um corredor principal. Íamos sair e eu conferia a orientação, decidindo se ia para a esquerda ou para a direita, quando ouvi um apito e uma voz de soprano:

— Espere aí! Menos pressa. Inspeção, em primeiro lugar.

Parei e me virei. Ela possuía aquele rosto que diz "funcio­nário público" — e não me pergunte como. Eu simplesmente sei, experiência em três planetas e vários planetóides, e um número ainda maior de habitais, que depois de cumprir certo número de anos a caminho da aposentadoria todos os servi­dores públicos têm aquela aparência. Ela usava um uniforme que nem era policial nem militar.

— Recém-chegados de Kong?

Confirmei que sim.

— Estão juntos, os três? Ponham tudo sobre a mesa. Abram tudo. Frutas, verduras ou alimentos?

— O que quer dizer isso? — perguntei.

— Eu tenho uma barra de chocolate Hershey. Quer um pedaço?

— Acho que isso significa suborno. Claro, por que não?

— Claro que estou tentando suborná-la. Tenho um peque­no jacaré na minha bolsa. Ele nem é fruta nem verdura. Acho que poderia ser comida. De qualquer modo, quase com certe­za é contra suas regras oficiais.

— Espere um minuto. Vou ter que consultar as listas. — A inspetora consultou um volume imenso de folhas soltas, de impressora de terminal. — Jacaré, peles de, secas ou curtidas, jacarés, empalhados... Esse está empalhado?

— Só quando come demais. É muito comilão.

— Queridinha, você está querendo me dizer que tem um jacaré vivo nessa bolsa?

— Ponha a mão dentro dela, mas por sua conta e risco. Ele é treinado como jacaré de guarda. Conte os dedos antes de enfiar a mão e depois quando tirar.

— Você está brincando.

— Quer apostar? E quanto? Mas lembre-se, eu avisei.

— Oh, conversa mole! — A inspetora enfiou a mão na bolsa de Gwen e soltou um uivo ao tirá-la. — Ele me mordeu!

E enfiou os dedos na boca.

— É para isso que ele está aí — lembrou Gwen. — Eu lhe avisei. Machucou muito? Deixe-me ver.

As duas examinaram a mão e chegaram à conclusão de que marcas vermelhas eram toda a extensão do dano.

— Que bom — disse Gwen. — Venho tentando ensinar a ele segurar firme mas não romper a pele. E nunca, nunca, arrancar os dedos. Ele está aprendendo, mas ainda é jovem. Mas você não devia ter podido tirar a mão tão fácil assim. Al­fred deve agarrar como um buldogue, enquanto o alarme do rádio me traz correndo para junto da bolsa.

— Eu não sei nada sobre buldogues, mas ele realmente ten­tou arrancar meu dedo.

— Oh, claro que não! Nunca viu um cachorro?

— Só em carcaça, em mercados de carne. Não, não foi is­so. Vi um deles num zoológico de Tycho quando era menina. Um bicho grande e feio. Fiquei com medo.

— Alguns são pequenos e alguns não são feios. O buldo­gue é feio, mas não muito grande. O buldogue é bom mesmo em agarrar e segurar. É isso que estou treinando Rei Alfredo para fazer.

— Tire-o daí e me mostre.

— De jeito nenhum! Ele é um animal de guarda. Não quero que ninguém o alise ou lhe faça carinhos. Quero que ele mor­da. Se quer vê-lo, enfie a mão e tire-o. Talvez desta vez ele se­gure. Tomara.

Isso acabou com qualquer tentativa de inspeção. Adele Sus­subaum, Servidora Pública Desnecessária Primeira Classe, con­cordou que Árvore-San era verbotem, admirou-a e fez pergun­tas sobre suas flores. Quando ela e Gwen começaram a trocar receitas culinárias, insisti em que tínhamos que nos mandar — se a inspeção sanitária e alfandegária estivesse terminada.

Dirigimo-nos em diagonal para o Círculo Externo. Senti o cheiro da Alameda e me orientei. Descemos um nível, pas­samos pelo Velho Dono e pegamos um túnel onde minha me­mória dizia que devia ficar o Raffles Hotel.

A caminho, porém, Bill me fez conhecer algumas de suas opiniões políticas.

— Senador...

— Não "senador", Bill. "Doutor."

— "Doutor." Sim, senhor, doutor. Acho que é errado o que aconteceu lá pra trás.

— Sim, foi. Essa chamada inspeção é sem sentido. Trata-se do tipo de tarefas caras, inúteis, que os governos se acostu­mam a adquirir ao longo dos anos, tais como cracas em um navio oceânico.

— Oh, não estou falando nisso. Isso está bem. Protege a cidade e dá a ela trabalho honesto.

— Corte essa palavra "honesto".

— Ahn? Eu estava falando sobre cobrar pelo ar. Isso é er­rado. Ar deve ser dado de graça.

— Por que diz isso, Bill? Isto aqui não é Nova Orleans. É a Lua. Não há atmosfera aqui. Se não comprar ar de que modo vai respirar?

— Mas é isso que estou dizendo! Ar para respirar é direi­to de todo mundo. O governo deve fornecer.

— A municipalidade de fato o fornece, a todos os lugares na pressurizada. E foi isso justamente o que pagamos. — Aba­nei o ar em frente ao nariz dele. — Esta coisa.

— Mas é isso que estou dizendo. Ninguém devia ter de pagar pela respiração da vida. É um direito natural e o governo devia dar o ar de graça.

Virei-me para Gwen:

— Espere um pouco, querida, isto tem que ser resolvido. Podemos ter que eliminar Bill apenas para conservá-lo feliz. Vamos ficar aqui mesmo até esclarecermos isto, Bill; eu paguei pelo ar que você respira porque você não tem dinheiro. Correto?

Ele não respondeu logo. Tranqüilamente, Gwen disse:

— Eu dei a ele uns trocados. Você é contra? Fitei-a, pensativo.

— Acho que devia ter sido informado. Meu amor, se vou ser o responsável por esta família, tenho que ser informado do que acontece nela. — Voltei-me para Bill. — Quando pa­guei lá pelo seu ar, por que você não se ofereceu para pagar sua parte com o dinheiro que tem?

— Mas ela me deu o dinheiro. Não foi o senhor.

— E daí? Devolva o dinheiro a ela.

Bill pareceu confuso. Gwen perguntou:

— Richard, isto é necessário?

— Acho que é.

— Mas eu não acho que seja.

Bill ficou calado, nada disse, observando apenas. Dei-lhe as costas para conversar em particular com Gwen e disse bai­xinho, apenas para ela:

— Gwen, preciso de seu apoio.

— Richard, você está provocando uma tempestade em um copo d'água.

— Não vejo a questão dessa maneira, querida. Muito ao contrário, é assunto da mais alta importância e preciso de sua ajuda. De modo que, me apóie ou então...

— Ou então o quê, querido?

— Você sabe o que "o então" significa. Decida-se. Vai me apoiar?

— Richard, isto é ridículo. Não vejo razão para fazer o que você quer.

— Gwen, estou lhe pedindo que me apóie. — Esperei por um tempo interminável e depois soltei um suspiro. — Ou en­tão comece a andar e não olhe para trás.

A cabeça dela sacudiu-se como se eu a tivesse esbofetea­do. Depois, pegou a maleta e começou a andar.

Boquiaberto de espanto durante um instante, Bill come­çou a segui-la apressadamente, ainda levando a Árvore-San.

 

"Mulheres foram feitas para serem amadas, e não compreen­didas."

Oscar Wilde, 1854-1900

 

Observei-os desaparecer e, em seguida, comecei a andar vagarosamente. Era mais fácil andar do que ficar parado, e não havia por ali um lugar onde pudesse sentar. O coto do pé doeu e todo o cansaço dos últimos dias chegou de repente. Tinha a mente embotada. Continuei a caminhar em direção ao Raf­fles Hotel porque estava voltado naquela direção, programado.

O Raffles estava ainda mais andrajoso do que me lembra­va. Mas desconfiei que o rabi Ezra sabia o que estivera dizen­do — aquilo, ou nada. De qualquer modo, eu queria desapa­recer da vista do público. Teria aceito uma estalagem muito mais modesta, enquanto me permitissem ficar atrás de uma porta fechada.

Disse ao empregado da recepção que fora enviado pelo ra­bi Ezra e perguntei o que havia disponível. Acho que ele me ofereceu seu quarto ainda vago mais caro: 18 coroas.

 

Iniciei o ritual de barganha, mas meu coração não estava nela. Concordei com 14 coroas, paguei, recebi a chave. O em­pregado virou um grande livro na minha direção.

— Assine aqui. E mostre, por favor, o recibo de pagamen­to do ar.

— Ahn? Quando foi que começou essa novidade?

— Com o novo governo, meu chapa. Não gosto mais dela do que o senhor, mas faço o que mandam ou fecham a casa.

Pensei no caso. Seria "Richard Ames"? Por que fazer um tira encher a boca d'água pensando no prêmio? Colin Camp­bell? Alguém de boa memória poderia reconhecer o nome — e pensar em Walker Evans.

Escrevi: "Richard Campbell, Novylen."

— Obrigado, gospodin. O quarto L fica ao fim deste cor­redor, à esquerda. Não temos salão de jantar, mas nossa cozi­nha serve nos quartos por elevador interno. Se quiser jantar aqui, por favor, anote que a cozinha fecha às 21h. Exceto nos casos de bebida e gelo, o elevador interno nos quartos fecha também na mesma hora. Mas há um Sloppy Joe em frente à saída do corredor, que fica aberto à noite toda, e a uns 50 me­tros ao norte. Não é permitido preparar comida nos quartos.

— Obrigado.

— Quer companhia? Linha reta, à esquerda, mulheres co­muns, ou versáteis, todas as idades e sexos e que atendem ape­nas à clientela de alta classe.

— Obrigado, mais uma vez. Estou muito cansado.

 

Era um quarto adequado para minhas necessidades. Não me importei com sua pobreza. Havia uma cama de solteiro, um sofá-cama e um refrescador, pequeno, mas com os servi­ços habituais, e nenhuma restrição ao uso de água... Prometi a mim mesmo um banho quente... depois, depois! Um suporte de prateleira no conjugado parecia ter sido reservado para um terminal de comunicação, mas nesse momento encontrava-se vazio. Junto, cravada na rocha, vi uma placa de latão:

 

Neste Quarto, no Dia 14 de Maio de 2075,

Adam Selene, Bernardo de La Paz, Manuel Davis e Wyoming Knott

Formularam o Plano que Deu Origem à Luna Livre.

Aqui Iniciaram Eles a Revolução!

 

Não fiquei impressionado. Sim, esses quatro eram os he­róis da Revolução, mas no ano em que enterrei Colin Camp­bell e criei Richard Ames, eu me hospedara numa dúzia e tanto de quartos de hotel em L-City, a maioria exibindo tabuletas semelhantes. A coisa lembrava cartazes do tipo "Washington Dormiu Aqui" em meu país nativo: engodo para turistas e qual­quer semelhança com a verdade era mera coincidência.

Não que eu me importasse. Tirei o pé fora, deitei-me no sofá e fiz um esforço para esvaziar a mente.

 

Gwen! Oh, droga, droga, droga!

Fora eu acaso um tolo presunçoso? Talvez. Mas, diabos, há um limite. Não me importava em fazer a vontade dela na maioria das coisas. Tudo bem que ela tomasse decisões por nós dois e eu não esperneara quando fizera isso sem me con­sultar. Mas não devia estimular aquele pensionista a me desa­fiar — devia? Eu não poderia tolerar isso. Um homem não po­de viver dessa maneira.

Mas não posso viver sem ela!

Não é verdade, não é verdade! Até esta semana — há pouco mais de três dias — você vivia sem ela... e pode fazer agora a mesma coisa.

Posso passar também sem meu pé faltante. Mas não gos­to de não possuir os dois e nunca me acostumarei à perda. Claro, você pode passar sem Gwen, não vai morrer sem ela — mas reconheça, seu estúpido: nos últimos 30 anos você só foi feliz nesse curto espaço de tempo, as horas em que Gwen chegou e casou com você. Horas cheias de perigo, profunda injustiça, lutas e dificuldades, nada disso importou o míni­mo, você estava borbulhando de felicidade simplesmente por­que a tinha a seu lado.

E, agora, mandou-a embora.

Ponha seu chapéu de burro. Prenda-o com rebites, e nun­ca mais o tire

Mas eu tinha razão!

E daí? O que é que ter razão tem a ver com continuar casado?

 

Devo ter dormido (eu estava mortalmente cansado) e lembro-me de coisas que não aconteceram — isto é, Gwen fo­ra estuprada e morta em Bottom Alley. Mas o estupro é tão raro em Luna City como comum em Los Angeles. O último aconteceu há 80 anos e o minhoca que o cometeu não viveu o suficiente para ser eliminado: os homens que atenderam aos gritos da mulher reduziram-no a picadinho.

Mais tarde descobriu-se que ela gritara porque ele não lhe pagara. Mas isso não fez diferença. Para o lunariano, a puta é tão sagrada em sua pessoa como a Virgem Maria. Sou luna­riano por adoção e concordo com isso do fundo do coração. O único castigo apropriado para o estupro é a morte, imedia­ta, sem apelação.

Antigamente, na Terra, houvera atenuantes legais deno­minados de "irresponsabilidade por desenvolvimento mental incompleto" e "inexculpável por razão de insanidade mental". Conceitos como esses fundiriam a cuca de um lunariano. Em Luna City, um homem teria desenvolvimento mental incom­pleto até mesmo em pensar em estupro, e praticá-lo seria a prova mais forte possível de insanidade — mas entre os luna­rianos essas doenças mentais não despertavam simpatia nenhuma pelo estuprador. Lunarianos não submetem estupra-dores à psicanálise. Matam-nos. Rápido. Na hora. Brutalmente. São Francisco devia aprender com os lunarianos. E todas as cidades onde mulheres não podem andar sozinhas em se­gurança. Em Luna, as mulheres nunca temem os homens, ami­gos, ou estranhos; em Luna, homens não fazem mal a mu­lheres — porque morrem!

 

Eu acordei soluçando incontrolavelmente. Gwen estava morta, fora estuprada e assassinada, e por culpa minha!

Mesmo quando acordei o suficiente para reentrar na mi­nha continuidade temporal, continuei a chorar — sabia que fora apenas um sonho, um horrível pesadelo... mas meus sen­timentos de culpa nem por isso diminuíram. Eu, de fato, não conseguira proteger meu amor. Havia-lhe dito que fosse em­bora... — começasse a andar e não olhasse para trás. Oh, lou­cura insondável.

O que é que posso fazer a esse respeito?

Procurá-la! Talvez ela me perdoe. Mulheres têm aparente­mente capacidade quase ilimitada de perdão. (Desde que, em geral, é o homem que precisa do perdão, isto deve ser um tra­ço racial de sobrevivência.)

Mas, em primeiro lugar, tinha que achá-la.

Senti uma necessidade insuportável de sair e iniciar a busca — saltar em cima de meu cavalo e galopar em todas as dire­ções. Mas este é o exemplo clássico dado em livros de mate­mática sobre como não localizar uma pessoa desaparecida. Não tinha a menor idéia de onde procurá-la, mas, quem sabe, ha­via a possibilidade de que ela estivesse me procurando no Raf­fles — se mudasse de idéia. Se mudasse, eu tinha que estar ali, e não procurando-a ao acaso.

Mas podia melhorar as probabilidades. Ligar para o Daily Lunatic e botar um anúncio — colocar mais de um: na coluna dos classificados, entre vinhetas e — melhor! — numa lenga-lenga comercial que seria exibida em todos os terminais jun­tamente com os noticiários do Lunatíc, de hora em hora.

Se isso não der certo, o que é que você vai fazer?

Oh, cale a boca e escreva logo o anúncio!

 

Gwen, procure-me no Raffles. Richard.

Gwen. Por favor, ligue para mim! Estou no Raffles. Amor, Richard.

Queridíssima Gwen, pelo amor do que tivemos juntos, por favor ligue para mim. Estou no Raffles. Amor, sempre. Richard.

Gwen, eu errei. Dê-me outra chance. Estou no Raffles. To­do meu amor, Richard.

Hesitei, nervoso, e finalmente achei que o número dois era o melhor — mudei de idéia; o número quatro tinha mais apelo. Mudei novamente — a simplicidade do número dois era melhor. Ou mesmo do número um. Oh, diabo, estúpido, sim­plesmente bote um anúncio! Peça a ela para telefonar. Se você tiver alguma possibilidade de trazê-la de volta, ela não vai se incomodar com o fraseado.

Ligar da gerência do hotel? Não, deixe um recado aí, di­zendo a Gwen aonde vai, e por que, quando vai voltar e, por favor, espere... depois corra até a sede do jornal e consiga que o anúncio apareça imediatamente em todos os terminais — e na próxima edição. Depois, volte correndo.

De modo que calcei o pé postiço, escrevi o bilhete para dei­xar na portaria e agarrei a bengala — e aquela sincronização, de fração de segundos, que notei um número excessivo de ve­zes em minha vida, aconteceu novamente: um senso de oportunidade que me leva a pensar, mais do que qualquer outra coisa, que este mundo louco é de certa forma planejado, não um caos.

Uma batida à porta...

Corri para abri-la. Era ela! Aleluia!

Parecia ainda menor do que me lembrava e toda olhos re­dondos e solenes. Trazia o pequeno pé de bordo no vaso, co­mo se fosse uma oferenda de amor — talvez fosse.

— Richard, você deixa que eu volte? Por favor? Acontecendo tudo no mesmo momento, peguei a arvorezinha, coloquei-a no chão, levantei-a no ar, fechei a porta, sentei-a no sofá ao meu lado, ela e eu aos soluços e em lágri­mas, falando, tudo misturado ao mesmo tempo.

Após algum tempo, moderamos o ritmo e eu me calei o suficiente para ouvir o que ela estava dizendo:

— Sinto muito, Richard, eu estava errada. Devia ter apoiado você, mas estava magoada e zangada, e era de um orgulho besta grande demais para ter voltado e lhe dito isso, e, quando fiz isso, você já tinha ido embora e eu não sabia o quê fazer. Oh, Deus, querido, nunca mais deixe que eu deixe você, obrigue-me a ficar! Você é maior do que eu. Se eu ficar zangada nova­mente e tentar ir embora, pegue-me, vire-me de bruços e não deixe que eu vá embora!

— Eu nunca mais deixarei, nunca. Eu errei, querida. Não devia ter criado um caso daquela bobagem. Esta não é a ma­neira de amar e acalentar. Rendo-me, com todas as armas. Fa­ça de Bill um bichinho de estimação, se quiser. Não direi uma única palavra. Vá em frente, mime-o até estragá-lo.

— Não, Richard, não! Eu estava errada. Bill precisava de uma lição rigorosa e eu devia tê-lo apoiado e deixado que vo­cê o endireitasse. Contudo...

Gwen relaxou um pouco, pegou a bolsa e abriu-a. Eu disse:

— Cuidado com o jacaré! Cuidado!

Ela sorriu pela primeira vez.

— Adele engoliu mesmo aquela isca, com anzol, chum­bada e linha.

— Você quer dizer que não há um jacaré aí?

— Deus do céu, querido, você pensa que sou uma excêntrica!

— Oh, Deus nos livre!

— Apenas uma ratoeira e a imaginação dela. Aqui... — Gwen pôs uma maçaroca de dinheiro, papel e metal ao lado, no sofá. — Obriguei Bill a devolver o dinheiro. O que ele ain­da tinha, quero dizer. Devia ter três vezes mais. Receio que Bill seja um desses fracotes que não podem andar com dinheiro sem gastá-lo. Tenho que pensar como espancá-lo até que ele aprenda. Enquanto isso, ele não vai ganhar dinheiro nenhum até que o mereça.

— Logo que ele merecer algum dinheiro, deve me pagar 90 dias de conta de ar — interrompi-a. — Gwen, fiquei real­mente aborrecido com aquilo. Aborrecido com ele, não com você. Com a atitude dele a respeito de pagar pelo ar. Mas sin­to tanto quanto possível que tenha deixado que isso transbor­dasse em cima de você.

— Mas você teve razão, querido. A atitude de Bill sobre o pagamento do ar reflete sua desorientação geral. Foi isso o que descobri. Sentamo-nos no Velho Domo e discutimos um bocado de coisas. Richard, Bill sofre da doença socialista na sua forma mais maligna: acha que o mundo lhe deve o sus­tento. Disse-me com toda sinceridade — contente consigo mes­mo! — que naturalmente todos têm direito aos melhores ser­viços médicos e hospitalares possíveis — gratuitos, naturalmen­te, ilimitados, naturalmente, e, claro, o governo deve pagar tu­do. Ele não consegue nem entender a impossibilidade mate­mática do que exige. Mas não são apenas ar gratuito e trata­mento gratuito. Bill acredita honestamente que tudo o que ele quer deve ser possível... e deve ser gratuito. — Arrepiou-se toda. — Não consegui modificar a opinião dele sobre coisa nenhuma.

— "A Road Song of the Bandar-Log."

— Não entendi!

— De autoria de um poeta velho de dois séculos, Rudyard Kipling. Os bandarlog eram símios, acreditavam que tudo era possível, bastando desejar alguma coisa.

— Isso mesmo, Bill é assim. Com toda seriedade, ele ex­plica como as coisas deviam ser... e em seguida cabe ao go­verno fazer com que aconteçam. Simplesmente baixar uma lei. Richard, ele pensa no "governo" da mesma maneira que um selvagem pensa em ídolos. Oh... Não, não sei, não compreen­do como funciona a mente dele. Conversamos, mas um não alcançou o outro. Ele acredita nos absurdos que diz. Richard, cometemos um erro... ou eu cometi. Não devíamos ter resga­tado Bill.

— Errado, doçura de mulher.

— Não, querido. Pensei que poderia reabilitá-lo. Enga­nei-me.

— Não foi assim que eu quis dizer que você errou. Lembra-se dos ratos?

-Oh.

— Não fique tão infeliz assim. Trouxemos Bill conosco por­que ficamos com medo que, se não trouxéssemos, ele fosse morto, possivelmente comido vivo por ratos. Gwen, nós dois conhecemos os riscos de pegar gatinhos abandonados, nós dois entendemos o conceito de "obrigação chinesa". Mas fizemos isso, de qualquer maneira. — Levantei-lhe o queixo e beijei-a. — E faríamos a mesma coisa novamente, neste exato minuto. Sabendo o preço.

— Oh, eu o amo!

— Eu amo você, também, de maneira suada, vulgar.

— Hummm, agora?

— Preciso de um banho.

— Podemos tomar banho depois.

Eu havia justamente pegado o resto da bagagem de Gwen, temporariamente esquecida do outro lado da porta — e por sorte intacta — e estávamos nos preparando para o banho quando Gwen se curvou sobre a pequena árvore, apanhou-a do chão e colocou-a na mesa-prateleira ao lado do elevador interno de refeições, onde poderia tratá-la melhor.

— Um presente para você, Richard.

— Que bom. Mulheres? Ou bebida?

— Nem uma coisa nem outra. Embora ache que há pron­ta disponibilidade de ambas. O gerente da noite queria uma comissão de meu pagamento quando pedi um quarto para Bill aqui.

— Bill está aqui?

— Para passar a noite, no quarto de solteiro mais barato. Richard, eu não sabia o que fazer com Bill. Eu teria dito a ele para procurar um chefe na Bottom Alley, se não tivesse ouvi­do o que o rabi Ezra falou sobre ratos. Droga, não havia antes ratos aqui. Luna City deve estar se transformando em cortiço.

— Receio que você tenha razão.

— Dei de comer a ele, também. Há um Sloppy Joe nesta rua. Ele come por quatro... talvez você tenha notado.

— Notei.

— Richard, eu não podia abandoná-lo sem alimentá-lo an­tes e lhe dar uma cama segura. Mas amanhã a história é dife­rente. Disse a ele que esperava que se modificasse... antes do café da manhã.

— Hummm. Bill mentiria por um ovo frito. Ele é um caso triste, Gwen, o mais triste de todos.

— Não acho que ele consiga mentir convincentemente. Pelo menos, dei-lhe alguma coisa em que pensar. Sabe que estou zangada com ele, que desprezo as idéias deles e que o almoço gratuito está prestes a fechar as portas. Tomara que isto lhe tenha dado uma noite insone. Aqui, querido... — estivera mexendo na areia do vaso; sob o pequeno bordo. — Para Richard. É melhor levá-los.

Entregou-me seis cartuchos, Skoda 6,5mm, longos ou có­pias muito bem feitas. Peguei um deles e examinei-o.

— Mulher Maravilha, você continua a me deixar pasmo. Onde? Quando? Como?

Os elogios fizeram-na sorrir feliz, e mais.

— Esta manhã. Em Kong. Mercado negro, naturalmente, o que significa simplesmente descobrir em que balcão procu­rar na Sears. Escondi minha Miyako sob a Arvore-San antes de ir às compras, depois guardei a munição aí ao deixar o ho­tel de Xia. Queridíssimo namorado, eu não sabia que tipo de revista poderíamos sofrer se as coisas ficassem pretas em Kong — e ficaram, mas titia deu um jeito.

— Você sabe cozinhar?

— Sou uma cozinheira passável.

— Você pode atirar, pode dirigir um rolador, pode pilotar uma nave espacial, pode cozinhar. Okay, está contratada. Mas tem ainda outras habilidades?

— Bem, um pouco de engenharia. Fui também advogada muito competente. Mas não pratiquei nenhuma dessas pro­fissões ultimamente. — E acrescentou: — E posso cuspir por entre os dentes da frente.

— Supermoça! Você é agora ou já foi membro da raça hu­mana? Cuidado com o que vai responder. Isto constará dos anais.-

— Recuso-me a responder, a conselho de meu advogado. Vamos pedir o jantar antes que fechem a cozinha.

— Pensei que você queria um banho.

— Quero. Estou com coceira. Mas se não pedirmos logo teremos que nos vestir e ir até o Sloppy Joe... Não me impor­to com o Sloppy Joe, mas me importo em ter que me vestir. Esta é a primeira ocasião inteiramente relaxada, tranqüila, que tenho com meu marido desde, oh, eternidades. Em sua suíte no Regra de Ouro antes daquele mandado de despejo idiota.

— Três dias.

— Tão pouco assim? De verdade?

— Oitenta horas. Horas muito ocupadas, isto reconheço.

 

O Raffles tem boa cozinha se a gente segue as sugestões do chef. Naquela noite havia almôndegas com panquecas sue­cas e molho de mel e cerveja — uma combinação estranha mas que funcionava, salada verde com azeite e vinagre de vinho, queijo e morangos frescos. Chá preto.

Apreciamos, mas um sapato velho, devidamente frito, te­ria sido aceitável também, tanto tempo havia passado desde que comêramos algum coisa. Podia até ter sido gambá frito e nem teríamos notado. A companhia de Gwen era todo o mo­lho de que eu necessitava.

Estivéramos comendo feliz por meia hora, sem fazer ten­tativa nenhuma de parecermos elegantes, quando minha que­rida notou a chapa de latão na pedra — estivera ocupada de­mais antes. Compreensível.

Levantou-se, leu a placa e disse em voz sumida:

— O diabo me leve! É este o lugar! Richard, este é o pró­prio berço da Revolução! E eu aqui sentada, arrotando e me coçando; como se este fosse apenas qualquer quarto de hotel.

— Sente-se e termine seu jantar, amor — recomendei. — Três em cada quatro hotéis em Luna têm placas parecidas como essa.

— Não como essa, Richard. Qual é o número deste quarto?

— Não tem. Tem uma letra. Quarto L.

— Quarto L... é isso mesmo! Este é o lugar! Richard, em qualquer nação lá na Terra, um santuário nacional tão impor­tante como este teria uma chama perene. E provavelmente uma guarda de honra. Mas aqui... alguém botou essa pequena placa e ela foi esquecida. Mesmo no Dia de Luna Livre. Mas os lunarianos são assim. O grupo mais esquisito de todo o univer­so conhecido. Pode acreditar em mim!

— Querida moça — observei —, se lhe agrada pensar que este quarto é realmente o que aquela placa diz, ótimo! Enquanto isso, volte a sentar-se e coma. Ou como seus morangos!

Ela não respondeu, mas sentou-se e ficou calada. Ape­nas beliscou a fruta e o queijo. Finalmente, cheguei a uma conclusão:

— Namorada, alguma coisa a está incomodando.

— Não vou morrer disso.

— Que bom saber. Quando tiver vontade de falar, sou to­do ouvidos. Enquanto isso, vou apenas abaná-la com eles. Não se apresse.

— Richard...

A voz dela me pareceu sufocada. Surpreso, vi lágrimas es­correndo silenciosas de cada lado do nariz.

— Sim, querida?

— Eu lhe contei um monte de mentiras. Eu...

— Pare aí mesmo. Meu amor, meu pequenino amor arden­te, sempre acreditei que mulheres podem mentir tanto quan­to precisarem e nunca serem censuradas por isso. Mentiras po­dem ser sua única defesa contra um mundo hostil. Eu não lhe perguntei nada sobre seu passado... perguntei?

— Não, mas...

— Mais uma vez, pare. Não perguntei. Você contou vo­luntariamente algumas coisas. Mas, mesmo assim, eu a fiz calar uma duas vezes quando você estava prestes a sofrer um ata­que de perniciosa autobiografia. Gwen, não me casei com vo­cê por seu dinheiro, por sua origem familiar, sua inteligência ou mesmo pelos seus talentos na cama.

— Nem mesmo por esta última coisa? Você não me dei­xou muita coisa.

— Oh, sim, deixei. Aprecio sua perícia na horizontal e seu entusiasmo. Mas dançarinas de colchão competentes não são raras. Veja Xia, por exemplo. Conjecturo que ela seja não só hábil mas desejosa.

— Provavelmente duas vezes mais hábil que eu, mas o dia­bo me leve se for mais desejosa.

— Você se sai muito bem quando consegue um descanso. Mas não me distraia. Quer saber o que é que a torna tão especial?

— Quero! Bem, acho que quero. Se isto não tiver uma bom­ba escondida.

— Não tem. Amante minha, sua qualidade excepcional e especial é a seguinte: quando você está comigo eu sou feliz.

— Richard!

— Deixe de choramingar. Não posso suportar mulher que tem que lamber as lágrimas do lábio superior.

— Bruto. Eu choro quando tiver droga de vontade... e pre­ciso, desta vez. Richard, eu o amo.

— Eu gosto de você também, cara de macaco. O que eu estava dizendo era que, se seu atual monte de mentiras está começando a aparecer, não se importe em construir outra es­trutura cheia de solenes garantias de que esta é, finalmente, a verdade, toda a verdade, e nada mais que a verdade. Esque­ça. A velha estrutura pode estar puída — mas não me impor­to. Não estou procurando buracos ou incoerências porque não me importo. Quero simplesmente viver com você, segurar sua mão e ouvir você roncar.

— Eu não ronco! Oh... ronco?

— Não sei. Não tivemos sono suficiente nas últimas 80 ho­ras para isto constituir um problema. Pergunte-me dentro de 50 anos. — Estendi a mão por cima da mesa, toquei um bico de seio e vi-o endurecer. — Quero segurar sua mão, es­cutar seus roncos e, ocasionalmente... ou, uma ou duas vezes por mês...

— Uma ou duas vezes por mês!

— Isto é demais? Ela suspirou.

— Acho que devo me contentar com o que conseguir. Ou sair para miar nos telhados.

— Telhados? Que telhados? Eu ia dizer que uma ou duas vezes por mês sairemos para jantar fora, assistir a um show ou dançar numa boate. Comprarei uma flor para você pren­der nos cabelos. Ou mais vezes, se você insistir. Tenciono sustentá-la, meu amor, a despeito desses sacos de ouro que você escondeu em alguma parte. — E acrescentei: — Algum problema, querida? Programa anulado? Por que essa expressão?

— Richard Colin, você é de longe o homem mais exasperante com quem já casei. Ou mesmo dormi.

— Você deixava que eles dormissem?

— Oh, pergunte a sua mãe! Eu não devia tê-lo salvo de Gretchen. "Uma ou duas vezes por mês." Você botou uma casca de banana no meu caminho. E eu caí.

— Madame, não sei do que está falando.

— Sabe muito bem! Você pensa que eu sou uma ninfomaniacazinha suada.

— Você não é tão pequena assim.

— Continue assim. Continue a me encher. Continue e eu acrescento um segundo marido a nosso casamento. Choy-Mu casaria conosco... sei que casaria.

— Choy-Mu é um cara decente, quadrado demais. E te­nho certeza de que casaria com você. Ele não tem a cabeça cheia de terra. Se resolver isso, vou fazer o possível para recebê-lo bem. Embora eu não soubesse que o conhecia tão bem assim. Falou sério nele?

— Não, droga. Nunca tive o hábito de casamento múlti­plo. Agüentar um marido de cada vez já é complexo o sufi­ciente. Certamente que o Capitão Marcy é um rapaz direito, mas jovem demais para mim. Oh, não vou dizer que lhe re­cusaria uma noite de prazer, se ele me pedisse graciosamen­te. Mas seria apenas por divertimento, nada sério.

— Eu também não vou dizer que deva recusar a ele. Bem, avise-me antes, se for conveniente para você, de modo que eu graciosamente finja não notar. Ou servir de reserva. Ou for­necer toalhas. Escolha da dama.

— Richard, você é totalmente demais.

— Quer que eu fique com ciúme? Mas isto é Luna e eu sou lunariano. Só por adoção, mas, apesar disso, lunariano. Nunca uma minhoca batendo com a cabeça em um muro de pedra. — Parei para lhe beijar a mão. — Minha querida aman­te, você é realmente pequena e sem muita massa. Mas seu co­ração é grande. Tal como na multiplicação dos pães e dos pei­xes, você é rica em abundância para tantos maridos e amantes quantos quiser. Sinto-me feliz em ser o primeiro — se sou — entre iguais.

— O que é isso que estou vendo aí? Uma adaga?

— Não, um pingente de gelo.

— É mesmo? Vamos agarrá-lo antes que ele derreta. Conseguimos, mas por um triz. Eu estava cansado. De­pois, perguntei:

— Gwen, por que você está tão séria? Meu desempenho foi tão medíocre assim?

— Não, amor. Mas aquelas mentiras continuam a me in­comodar... E desta vez, por favor, não mude o assunto. Eu sei que a inscrição naquela chapa de bronze ali é correta, porque eu conheci três desses quatro. Conheci-os muito bem. Fui ado­tada por dois deles. Amado, eu sou uma das Mães Fundado­ras do Estado Livre de Luna.

Eu nada disse porque há ocasiões em que nada há que pos­samos dizer. Pouco depois Gwen se contorceu e disse quase com raiva:

— Não me olhe assim! Sei no que é que você está pensan­do: 2076 é uma data um bocado antiga. E é. Mas, se você se vestir, eu o levarei ao Velho Domo e lhe mostrarei minha chan­cela e minhas impressões digitais na Declaração de Indepen­dência. Você pode pensar que não é minha chancela... mas não posso falsificar impressões digitais. Quer ir dar uma olhada?

— Não.

— Por que não? Quer saber qual é a minha idade? Eu nas­ci no dia de Natal de 2063, de modo que tinha 12 anos e meio quando assinei a Declaração. Isso revela minha idade.

— Namorada minha, quando resolvi tornar-me lunariano nativo, ou pelo menos um fac-símile aceitável, estudei a his­tória de Luna a fim de poder me safar bem com minha nova identidade. Não há nenhuma Gwendolyn entre as assinan­tes. Espere um segundo, não estou dizendo que você mentiu... estou dizendo que você devia ter outro nome por essa ocasião.

— Claro que tinha. Hazel. Hazel Meade Davis.

— Hazel. Por casamento, ingressou mais tarde na Turma de Stone. Líder do corpo auxiliar de crianças. Humm, Hazel era ruiva.

— Era sim. Agora posso deixar de tomar essas pílulas no­jentas e permitir que meu cabelo volte à cor natural. A menos que você prefira esta tonalidade.

— A cor do cabelo não tem importância. Mas... Hazel, por que casou comigo?

Ela soltou um suspiro.

— Por amor, querido, e isto é verdade. A fim de ajudá-lo quando você esteve em perigo... E isto também é verdade. Por­que era inevitável e isto também é verdade. Porque está escri­to em livros de história em outro tempo e lugar que Hazel Stone voltou a Luna, casou-se com Richard Ames, conhecido tam­bém como Colin Campbell... e que esse casal resgatou Adam Selene, presidente do Comitê Revolucionário.

— Já escrito, ahn? Predestinado?

— Não inteiramente, bem-amado. Em outros livros de his­tória está escrito que fracassamos... e que morremos tentando.

 

"A idade não pode mirrá-la, nem o costume tornar cediça

Sua variedade infinita; outras mulheres saciam

Os apetites que despertam; ela, porém, torna-os famintos

Onde mais os satisfaz..."

William Shakespeare, 1564-1616

 

Então a menininha disse à 'fessora: "Meu irmão acha que é uma galinha". A professora respondeu: "Oh, Deus do céu! O que é que vocês estão fazendo para ajudar o pobre meni­no?" A menininha respondeu: "Nada. Mamãe diz que a gen­te tá precisando de ovos."

Devemos acaso nos preocupar com as ilusões de uma mu­lher? Se as ilusões a fazem feliz? Teria eu o dever de pegar Gwen pela mão e levá-la a um psicanalista para tentar curá-la?

Diabo, não! Psicanalistas são cegos conduzindo cegos e mesmo o melhor deles opera na base de palpites. Quem con­sulta psicanalistas devia mandar examinar a cabeça.

Exame atento mostrava que Gwen possivelmente tinha mais de 30 anos, provavelmente não chegara ainda aos 40 — mas de modo nenhum chegara aos 50! De modo que, qual era a maneira suave de receber a alegação dela de que nascera há mais de um século?

Todo mundo sabe que nativos de Luna envelhecem mais lentamente que minhocas que cresceram em um campo de uma gravidade. A ilusão de Gwen parecia incluir a idéia de que ela mesma era uma lunariana, em vez de ser a minhoca nativa que alegara antes ser. Mas lunarianos de fato envelhecem, ainda que devagar, e lunarianos de mais de 100 anos (eu conheci vá­rios deles) não parecem apenas ter mais de 30 e tantos; pare­cem velhos.

Teria que fazer um esforço danado para que Gwen pen­sasse que acreditara em tudo o que dissera... embora em na­da acreditasse e dissesse a mim mesmo que isto não tinha im­portância. Conheci certa vez um homem que, embora men­talmente são, casara com uma mulher que acreditava piamen­te em astrologia. Ela vivia obcecando pessoas e lhes pergun­tando sob que signo nasceram. Este tipo de loucura anti-social devia ser de convivência mais difícil do que viver com a man­sa ilusão de Gwen.

Ainda assim, esse homem parecia feliz. A mulher era ex­celente cozinheira, mulher de trato agradável (à parte o bu­raco que tinha na cabeça), e pode ter sido uma artista de cama igual a Rangy Lil. De modo que, por que devia ele se preocu­par com aquela síndrome da mulher? Ela se sentia feliz com a mesma, mesmo que aborrecesse outras pessoas. Acho que ele não se importava em viver em um vácuo intelectual em casa, enquanto nela estivesse fisicamente confortável.

Tendo lavado o lindo peito daquilo que a incomodava, Gwen dormiu imediatamente, o que fiz logo depois durante uma longa, feliz e ininterrupta noite de descanso. Acordei re­cuperado e alegre, pronto para lutar com uma cascavel e dar de quebra as duas primeiras picadas.

Ou pronto para comer uma cascavel. Quando chegasse segunda-feira, teria que procurar novos alojamentos. Em geral saio sem protestos para fazer as demais refeições, mas o café da manhã deve ser tomado antes que um homem enfrente o mundo. Esta não é a única razão para casar, mas é boa. Claro, há outras maneiras de resolver o problema do des­jejum em casa, mas casar e convencer a esposa a preparar o dito cujo é, acho, a estratégia mais comum.

Depois, acordei inteiramente e dei-me conta de que po­díamos tomar o desjejum ali mesmo. Podíamos mesmo? A que horas começava a funcionar a cozinha? Que horas eram? Verifiquei o aviso colocado no elevador interno de refeições e fiquei deprimido.

Escovara os dentes, calçara o pé e estava vestindo as cal­ças (pensando ao mesmo tempo que precisava comprar roupas naquele dia, uma vez que aquelas estavam alcançando massa crítica) quando Gwen acordou.

Abriu um olho.

— A gente se conhece?

— Nós, de Boston, não consideraríamos isto como uma apresentação formal, mas estou disposto a lhe pagar, de qual­quer maneira, o desjejum. Você foi bem ardente. O que é que vai ser? Este pulgueiro oferece uma coisa chamada "café com­plet", uma promessa pouco inspiradora, na melhor das hipó­teses. Ou você pode se vestir e irmos lentamente fazer uma visita a Sloppy Joe.

— Volte para a cama.

— Mulher, você está tentando receber meu seguro de vi­da. Sloppy Joe? Ou peço para você uma xícara de Nescafé mor­no, croissant passado e um copo de suco sintético de laranja como luxuoso desjejum na cama?

— Você me prometeu waffles todas as manhãs. Você pro­meteu. Prometeu.

— Prometi. No Sloppy Joe. É para lá que vou. Vem comi­go? Ou peço para você a especialidade da casa aqui no Raffles?

Gwen continuou a resmungar e a gemer, a me acusar de cri­mes impublicáveis e me desafiar a voltar e a morrer como um homem, ao mesmo tempo em que rápida e eficientemente se levantava, refrescava-se para o dia, e vestia-se. Acabou pare­cendo novinha em folha, em vez de ter passado três dias dentro da mesma roupa. Bem, nós dois tínhamos roupas de bai­xo novinhas em folha, banhos quentes recentes, e mentes e unhas putativamente limpas... Mas ela parecia fresca como uma caixa de chapéu novo, enquanto eu parecia o porco que vaga­rosamente se afasta. O que era azar dela e nenhum meu. Era maravilhoso acordar e ver Gwen. Eu me sentia borbulhante­mente feliz.

Ao deixarmos o quarto L, ela me tomou o braço e apertou-o.

— Moço, obrigada por ter-me convidado para um café.

— Quando quiser, mocinha. Em que quarto está o Bill? Ela ficou séria imediatamente.

— Richard, eu não queria que você enfrentasse o Bill até que tivesse tomado o desjejum? Não será melhor?

— Ahn... oh, diabo, eu não gosto de esperar pelo café e não vejo nada a ganhar fazendo com que Bill espere pelo dele. Nós não temos que olhar para ele. Pego uma mesa para dois e Bill pode comer no balcão.

— Richard, você é um boboca de coração mole. Adoro você.

— Não me chame de boboca de coração mole, sua boboca de coração mole. Quem foi que gastou uma fortuna com ele?

— Eu gastei, foi um erro, tomei-a de volta e isto não vai acontecer novamente.

— Você tomou parte do dinheiro.

— Tomei o que ele ainda tinha, e deixe de me acusar por isso, por favor. Fui uma idiota, Richard. Certa demais.

— Então, vamos esquecer isso. É este o quarto dele? Bill não estava. Uma pergunta na recepção confirmou o

que a batida à porta mostrara ser provável: Bill saíra meia ho­ra mais cedo. Acho que Gwen ficou aliviada. Eu sei que fiquei. Nossa criança-problema se transformara em uma forte dor em um lugar sensível. Eu tinha que me lembrar que ele salvara titia para conseguir ver alguma coisa boa nele.

Minutos depois, entramos no Sloppy Joe local. Eu olhava em volta à procura de uma mesa para dois quando Gwen me apertou o braço. Ergui os olhos e olhei para onde ela estava olhando.

Bill estava no caixa, pagando a conta. E fazendo isso com uma nota de 25 coroas.

Esperamos. Quando ele se virou e nos viu — pareceu dis­posto a correr. Mas não havia por onde correr, exceto por ci­ma de nós.

Levamos Bill para fora sem nenhuma cena. No corredor, Gwen fitou-o, seu rosto frio de repugnância.

— Bill, onde foi que você arranjou esse dinheiro? Ele olhou para ela e desviou a vista.

— É meu.

— Oh, besteira. Você saiu do Regra de Ouro sem um tos­tão no bolso. O dinheiro que você tem fui eu que dei. Você me mentiu na noite passada... você me escondeu coisas.

Com uma aparência de bronca obstinação, Bill ficou calado. De modo que eu disse:

— Bill, volte para seu quarto. Depois de tomarmos nosso desjejum iremos conversar com você lá. E extrairemos a ver­dade de você.

Ele me fitou com uma raiva mal controlada.

— Senador, isto não é de sua conta!

— Isso veremos. Volte ao Raffles. Venha, Gwen.

— Mas eu quero que Bill devolva meu dinheiro. Agora!

— Depois do café. Desta vez deixe que eu faça a coisa à minha maneira. Você vem?

Gwen calou-se e voltamos ao restaurante. Cuidei para não falarmos sobre Bill. Alguns assuntos coalham os sucos gás­tricos.

Uns 30 minutos depois, perguntei:

— Outro waffle, querida?

— Não, obrigada, Richard, já estou satisfeita. Eles não são tão bons como os seus.

— Isso é porque eu sou um gênio nato. Vamos terminar aqui, voltar ao hotel e cuidar de Bill. Vamos esfolá-lo vivo ou simplesmente empalá-lo em uma estaca?

— Eu estava pensando em interrogá-lo na roda. Richard, a vida perdeu alguns de seus encantos quando drogas de ver­dade substituíram as torqueses para dedos e os ferros em brasa.

— Minha amada, você é um horrorzinho sedento de san­gue. Mais café?

— Você disse isso apenas para me lisonjear. Não, obrigada. Quando voltamos ao Raffles, fomos ao quarto de Bill, não

conseguimos despertar-lhe a atenção e voltamos à portaria. O misantropo que me recebera na véspera estava novamente de serviço. Perguntei:

— Viu por acaso William Johnson, quarto KK?

— Vi. Há uns 30 minutos ele recebeu o depósito que fez pela chave e foi embora.

— Mas eu comprei aquela chave! — exclamou Gwen, um tanto estridentemente.

O recepcionista permaneceu impassível.

— Gospazha, sei que a senhora fez isso. Mas nós devol­vemos o depósito com a devolução da chave. Não tem impor­tância quem alugou o quarto. — Estendeu a mão para o qua­dro de escaninhos e tirou a chave-cartão KK. — O depósito mal paga a mudança do código magnético, se alguém deixa de devolver a chave... e não paga pelo aborrecimento. Se a se­nhora perdesse o cartão no corredor e alguém o apanhasse e o entregasse, nós devolveríamos o depósito... e a senhora teria de fazer um segundo depósito para entrar no quarto.

Segurei firme Gwen pelos ombros.

— Bastante justo. Se ele aparecer, avise-nos, sim? Quarto L. Ele olhou para Gwen.

— Não quer o quarto KK?

— Não.

Ele voltou a atenção para mim:

— O senhor está no quarto L pela taxa de solteiro. Por ocu­pação dupla nós cobramos mais.

Subitamente, enchi. De toda aquela merda, toda a descon­sideração, todas as besteiras pequeninas que eu podia agüentar. — Tente me arrancar mais uma única coroa e eu o arrasto até a Bottom Alley, desatarraxo sua cabeça. Venha comigo, querida.

Eu estava ainda uma fera quando abri a porta do quarto e entramos.

— Gwen, vamos embora de Luna. O lugar mudou. Para pior.

— Para onde você quer ir, Richard? — Ela parecia, pelo tom da voz, também aflita.

— Ahn.... eu optaria por emigrar para fora de todo o Sis­tema... Botany Bay, ou Próxima, ou coisas assim... se eu fosse mais jovem e tivesse duas pernas. — Suspirei. — Às vezes eu me sinto como órfão de mãe.

— Amor meu...

— Assim, querida?

— Eu estou aqui e quero ser sua mãe. Eu vou aonde você for. Segui-lo-ei até os confins da galáxia. Mas não quero ir em­bora de Luna ainda... se você puder me fazer esta vontade. Podemos sair agora e procurar outro lugar para morar. Se não encontrarmos — o rabi Ezra talvez tenha razão —, não pode­ríamos tolerar aquele porteiro mal-humorado até segunda-feira? Nessa ocasião certamente arranjaremos lugar.

Concentrei-me em diminuir as batidas do coração, e consegui.

— Certo, Gwen. Podemos sair à procura de um lugar pa­ra morar após o fim de semana, depois que os Shriners forem embora, se não pudermos encontrar imediatamente um lugar conveniente. Eu não me importaria com aquele idiota da por­taria, se tivéssemos certeza de arranjar um cubículo decente depois do fim de semana.

— Sim, senhor. Posso lhe dizer agora por que preciso fi­car em Luna City durante algum tempo?

— Ahn? Sim, certamente. Na verdade eu devia me fixar em algum lugar por algum tempo, também. Escrever alguma coisa, ganhar algum dinheiro para compensar as pesadas des­pesas desta semana.

— Richard, eu já tentei lhe dizer. Não há motivo para preo­cupações financeiras.

— Gwen, sempre há preocupações financeiras. Eu não vou gastar sua poupança. Chame isto de comportamento macho, se quiser, mas eu tenciono sustentá-la.

— Tudo bem, Richard. Obrigada. Mas você não precisa se sentir pressionado pelo tempo. Posso levantar rapidamente qualquer importância que precisarmos.

— É mesmo? Essa declaração é muito ambiciosa.

— E a intenção foi essa, Sr. Richard, eu deixei de lhe mentir. Chegou agora a ocasião de você conhecer grandes blocos de verdade.

Com ambas as mãos, fiz um gesto de pouco caso.

— Gwen, eu já não deixei claro que não me importo com as mentiras que me contou, sobre sua idade ou sobre o que você foi? Isto é um novo começo, para você e para mim.

— Richard, pare de me tratar como se eu fosse uma criança!

— Gwen, não estou tratando-o como se você fosse uma criança. Estou dizendo que a aceito como você é. Hoje. Neste momento. Seu passado é problema seu.

Ela me fitou, triste.

— Querido, você não acredita que eu seja Hazel Stone, não é?

Tempo de mentir! Mas a mentira não vale nada se não é aceita (a menos que seja contada para ser desacreditada, o que não se aplicava neste caso). Em vez disso, era tempo de fazer a dança do leque.

— Amor meu, estou tentando lhe dizer que não me im­porto se você é ou não Hazel Stone. Ou Sadie Lipschitz. Ou Pocanhontas. Você é a minha esposa bem-amada. Não tolde­mos este fato dourado com irrelevâncias.

— Richard, Richard! Escute. Deixe que eu fale. — Suspi­rou. — Ou então...

— Ou então?

— Você sabe o que "ou então" significa. Você o usou contra mim. Se você me escutar, tenho que voltar a eles e comu­nicar que fracassei.

— Voltar para onde? Comunicar a quem? Fracassou no quê?

— Se você não quiser me escutar, não tem importância.

— Você me disse para não deixar você ir embora!

— Eu não vou deixá-lo. Irei só dar um recado rápido e volto correndo para você. Ou você me dará prazer indo comigo... Oh, como eu gostaria que fosse. Mas tenho que comunicar meu fracasso e exonerar-me de minha função... Depois, ficarei li­vre para acompanhá-lo até os confins do universo. Mas tenho que pedir baixa, não simplesmente desertar. Você é soldado e compreende isso.

— Você é soldado?

— Não, exatamente. Agente.

— Hummm... agente provocateuse?

— Quase. — Sorriu ironicamente. — Agente amoreuse, tal­vez. Embora não tivesse ordens de me apaixonar por você. Apenas casar. Mas eu me apaixonei, Richard, e isto pode ter me arruinado como agente. Você vem comigo enquanto eu fa­ço meu relatório? Por favor?

Eu estava ficando confuso a cada minuto.

— Gwen, estou ficando confuso a cada minuto.

— Neste caso, por que não deixa que eu explique?

— Hummm... Gwen, isso não pode ser explicado. Você diz que é Hazel Stone.

— Sou.

— Droga, eu sei contar, Hazel Stone, se ainda estiver vi­va, tem mais de um século.

— Exatamente. Eu tenho mais de 100 anos. — Sorriu. — Roubei o berço, meu querido.

— Oh, pelo amor de Deus! Escute, querida, passei as úl­timas cinco noites na cama com você. Você é uma velhota ex­cepcionalmente ardente.

Ela me sorriu, alegre.

— Obrigada, querido. Devo tudo isso ao Composto Vege­tal Lydia Pinkham.

— Deve, hem? Uma panacéia comercial tirou o cálcio de suas juntas e colocou-o de volta nos ossos, passou a ferro as rugas, restabeleceu o belo equilíbrio hormonal, desentupiu suas artérias? Peça um barril disso para mim. Estou pifando.

— A Sra. Pinkham teve aconselhamento de especialista, Richard. Se você apenas me permitisse provar quem sou, pe­la minha impressão digital na Declaração de Independência, sua mente se abriria então à verdade, estranha como ela seja. Eu gostaria de poder oferecer-lhe identificação por padrão re­tinal... mas minhas retinas não haviam sido fotografadas na­quela época. Mas há a impressão digital. E identificação de tipo sangüíneo, também.

Comecei a entrar em pânico: o que faria Gwen quando essa ilusão caísse por terra?

Nesse momento, porém, lembrei-me de uma coisa.

— Gwen, Gretchen mencionou Hazel Stone.

— Mencionou, sim. Gretchen é minha tataraneta, Richard. Casei com Slim Lemke, da Quadrilha Stone, no meu 14º ani­versário, e tive meu primeiro filho com ele no equinócio de ou­tono na Terra, no ano 2078 — um menino. Dei-lhe o nome de Roger, em homenagem a meu pai. Em 2080 nasceu minha pri­meira filha...

— Pare aí. Sua filha mais velha era estudante em Percival Lowell quando comandei aquela operação de resgate. Ou foi isso o que você disse.

— Parte daquele monte de mentiras, Richard. Eu, de fato, tinha uma descendente ali — uma neta que fazia parte do cor­po docente. De modo que lhe estou realmente grata. Mas tive que ajustar os detalhes para combinar com minha aparente ida­de. Minha primeira filha chamou-se Ingrid, em homenagem à mãe de Slim... e Ingrid Henderson recebeu o nome por causa da avó... minha filha, Ingrid Stone. Richard, você não pode imaginar como foi difícil para mim na ocasião encontrar na Pressurizada Ossos Secos, pela primeira vez, cinco de meus descendentes e não poder reconhecê-los publicamente.

Fez uma pequena pausa antes de continuar:

— Mas não posso ser vovó Hazel quando estou sendo Gwen Novak. De modo que não reconheci... e essa não foi a primeira vez que isso me aconteceu. Tive muitos filhos — 44 anos, da primeira menstruação à menopausa, e dei a luz a 16 crianças por quatro maridos e três estranhos, de pas­sagem — e assumi o nome de Stone de volta quando morreu meu quarto marido. Porque passei a morar com meu filho Roger Stone.

E continuou:

— Criei quatro dos filhos que Roger teve com a segunda esposa — ela é médica e precisava de uma avó residente. Ca­sei três deles; todos, menos o mais novo, que hoje é o cirurgião-chefe do Ceres General, e que talvez nunca case uma vez que é bonitão, muito egocêntrico e acredita naquela velha histó­ria: "Por que ser dono de uma vaca?"

Olhou-me, antes de continuar:

— Depois, comecei a tomar aquele composto vegetal e aqui estou, fecunda novamente e pronta para criar outra família. — Sorriu e deu uma palmadinha na barriga. —Vamos voltar para a cama.

— Droga, mulher. Isso não vai resolver nada!

— Não, mas é uma maneira agradável de passar o tempo. E às vezes suspende aquele sangramento periódico. O que me lembra de uma coisa... se Gretchen voltar a aparecer, não vou interferir pela segunda vez. Eu simplesmente não achei graça em ver minha tataraneta se metendo em nossa lua-de-mel — já perturbada por gente demais e agitação demais.

— Gretchen é apenas uma criança.

— Você acha? Ela é fisicamente tão madura como eu era aos 14 anos... quando me casei e engravidei imediatamente. Virgem no casamento, Richard. Isto acontece mais aqui do que em qualquer outro lugar. Mama Mimi era rigorosa e Mama Wyoh era encarregada de me vigiar, mas eu não era incli­nada a me desencaminhar, uma vez que a família Davis era socialmente tão importante como se podia ser em Luna City naqueles dias, e eu gostava de ter sido adotada por ela. Ama­do, não vou lhe contar mais nada até que você verifique mi­nha chancela e impressão digital na Declaração. Estou sentin­do sua incredulidade... e isso me humilha.

(O que é que se faz quando a esposa insiste? O casamen­to é a maior das artes humanas... quando funciona.)

— Amor, não quero humilhá-la. Mas não sou competente para comparar impressões digitais. Mas há mais de uma ma­neira de desmascarar um mentiroso. Essa segunda mulher de seu filho Roger: ela vive ainda?

— Está vivinha da Silva. Dra. Edith Stone.

— Então há, provavelmente, aqui mesmo em Luna City, um registro do casamento dela com seu filho... Ele é o Roger Sto­ne que foi certa vez prefeito?

— Ele mesmo. De 2122 a 2130. Mas não está disponível. Deixou Luna em 2148.

— Onde está ele agora?

— A vários anos-luz de distância. Edith e Roger emigra­ram. Ninguém daquele ramo de minha família está mais aqui. Não vai dar certo, querido... Você está procurando alguém que possa me identificar como Hazel Stone, não é?

— Bem... é... Pensei que a Dra. Edith Stone seria uma es­pecialista e testemunha imparcial.

— Bem... ela ainda pode ser.

— Como?

— Determinação do grupo sangüíneo, Richard.

— Escute, Gwen, determinação de grupo sangüíneo é as­sunto sobre o qual tive que aprender alguma coisa, devido à possibilidade de cirurgia em campo de batalha. Providenciei para que todos os homens de meu regimento tivessem o gru­po sangüíneo determinado. A determinação pode mostrar o que a pessoa não é. Não o que é. Até mesmo em um número tão pequeno como um regimento, até mesmo um raro AB ne­gativo pode ser encontrado mais de uma vez: aparecer um em cada 200. Lembro-me porque sou um deles.

Ela inclinou a cabeça, concordando:

— E eu sou O positivo, o tipo mais comum de todos. Mas isso não é toda a história. Se você faz a determinação no to­cante a todos os 30 grupos sangüíneos, um tipo é tão excep­cional e único como uma impressão digital ou padrão retinal. Richard, durante a Revolução, um bocado de gente mor­reu porque o grupo sangüíneo deles não fora determinado. Oh, sabíamos como fazer transfusões, mas doadores seguros só podiam se encontrados por determinação cruzada, uma vez ou outra. Sem a determinação prévia, isto era freqüentemen­te feito com grandes demoras. Muitos — não, a maioria — dos nossos feridos que precisaram de sangue morreram porque um doador não pôde ser identificado a tempo. Após a paz e a independência, mamãe Wyoh — Wyoming Knott Davis, o hos­pital em Kong — lembra-se?

— Sim.

— Mamãe Wyoh fora uma mãe-hospedeira profissional, em Kong, e sabia dessas coisas. Iniciou o primeiro banco de sangue com dinheiro levantado pelo Major Watenabe, outro dos Fundadores. Pode haver ainda hoje meio litro de meu san­gue congelado em Kong... mas o certo é que uma determina­ção de grupo sangüíneo completa de meu sangue está arqui­vada aqui, porque Edith providenciou para que todos nós fi­zéssemos isso, todos os grupos conhecidos, antes de come­çarmos a Wanderjahr em 2148.

Gwen sorriu feliz.

— De modo que, pegue uma amostra de meu sangue, Ri­chard. Mande determinar-lhe o grupo no Centro Médico de Galileo Univerity. Peça um exame completo. Eu pago por ele. Compare-o com a determinação feita em 2148, arquivada no Wyoming Knott Memorial. Qualquer pessoa que consiga ler inglês lhe dirá se os dois combinam. Não é preciso o tipo de conhecimentos especializados necessários para comparar im­pressões digitais. Se a comparação não disser que eu sou eu, então peça uma camisa-de-força e é tempo de mandar me re­colher a um hospital de alienados.

— Gwen, nós não vamos voltar a Kong. Por nada neste mundo.

— Nem precisamos. Pedimos ao banco de sangue de Galileo uma transcrição enviada de Kong, impressa em terminal.

— O rosto dela anuviou-se. — Mas isso acabará com minha cobertura como Sra. Novak. Logo que esses registros forem postos lado a lado, todos saberão que vovó Hazel voltou à ce­na de seus crimes. Não sei o que isso fará com minha missão. Isto não devia acontecer. Mas sei, de fato, que convencê-lo é absolutamente essencial para a missão.

— Gwen, suponha que me convenceu.

— Realmente, querido? Você não me mentiria?

(Mentir eu mentiria, amorzinho meu. Mas tenho que re­conhecer que suas palavras são convincentes. Tudo o que vo­cê disse combina com meus cuidadosos estudos da história lunariana... e você fala com detalhes, como se estivesse esta­do presente. Tudo isso é convincente, menos a impossibilida­de física — você é jovem, querida, e não uma velha coroa de mais de um século.)

— Doçura, você me deu duas maneiras positivas de identificá-la. Assim, vamos supor que conferi uma outra, ou as duas. Vamos estipular que você é Hazel. Prefere ser cha­mada de Hazel?

— Atendo a ambos os nomes, querido. Como você quiser.

— A coisa pega é na sua aparência. Se você fosse velha e seca, em vez de jovem e suculenta...

— Está se queixando?

— Não. Estou sendo meramente descritivo. Admitindo que você é Hazel Stone, nascida em 2063, de que modo expli­ca sua aparência juvenil? E não me venha com conversa fiada sobre o lendário remédio comercial,

— Você vai achar a verdade difícil de acreditar, Richard. Passei por um processo de rejuvenescimento. Duas vezes, pa­ra ser exata. A primeira vez para me levar à aparência de fins de meia-idade... ao mesmo tempo restaurando minha econo­mia corporal a uma jovem maturidade. A segunda vez foi principalmente cosmética, para me dar uma aparência desejável. A fim de recrutá-lo, senhor.

— O diabo me leve. Cara de macaco, é essa sua cara?

— É, mas pode ser mudada, se quer que eu tenha outra aparência.

— Oh, não. Eu não sou de insistir em beleza, enquanto o coração da mulher continuar puro.

— Oh, seu ordinário!

— Mas desde que seu coração não é tão puro assim, é bom que você seja bonita.

— Você não pode se safar tão facilmente assim pelo que disse!

— Muito bem, você é deslumbrante, sexy e perversa. Mas "rejuvenescimento" explica sem explicar. Tanto quanto ouvi di­zer, rejuvenescimento funciona no caso de platelmintos, mas não em coisa alguma mais alta na escala evolutiva.

— Richard, esta parte você terá que aceitar em confiança — pelo menos por ora. Fui rejuvenescida em uma clínica si­tuada a uns 2.000 anos de distância e em uma estranha di­reção.

— Humm. Isto parece um macete que eu podia ter bola­do quando estava escrevendo ficção.

— Sim, de fato parece, não? Não é convincente. É mera­mente verdade.

— De modo que não vejo maneira de investigar isso. Tal­vez eu tenha que pedir aquela transcrição de tipo sangüíneo. Ahn... Hazel Stone, Roger Stone... O Flagelo das Rotas Espaciais!

— Meu Deus, o passado se emparelhou comigo! Richard, você assistiu à minha novela?

— Todos os capítulos, a menos que houvesse sido flagra­do fazendo alguma coisa que exigia castigo drástico. O Capi­tão John Sterling foi o herói de minha infância. E foi você que a escreveu?

— Meu filho Roger começou-a. Passei a escrevê-la em 2148, mas não botei meu nome na novela senão no ano seguinte — nessa ocasião ela passou a ser "Roger e Hazel Stone..."

— Lembro-me! Mas não me lembro de Roger Stone jamais a ter escrito sozinho.

— Oh, não, ele escreveu.. até que se cansou da rotina. Pe­guei onde ele a deixou, tencionando acabar com o espetáculo...

— Amor de minha vida, você não pode acabar com uma novela. É inconstitucional.

— Eu sei. De qualquer modo, pegaram a opção e me ofe­receram dinheiro demais. E precisávamos do dinheiro. Está­vamos vivendo no espaço nesta ocasião e uma nave espacial, mesmo pequena, improvisada, é muito cara.

— Eu nunca tive coragem de escrever uma novela com obri­gação de cumprir prazos. Oh, escrevi episódios por encomen­da, usando uma sinopse da novela, mas não independente­mente e com meu próprio nome.

— Nós não usávamos sinopse. Buster e eu bolávamos os capítulos enquanto os escrevíamos.

— Buster?

— Meu neto. O que hoje é cirurgião-chefe no Ceres Ge­neral. Durante 11 anos nós a escrevemos juntos, frustrando o Suserano Galático em todas as tramas...

— "O Suserano Galático!" O melhor vilão dos filmes de terror. Querida, eu gostaria que houvesse realmente um Su­serano Galático.

— Ora, seu presunçoso e insignificante escritor, como ou­sa você levantar dúvidas sobre a autenticidade do Suserano Galático? O que é que você sabe sobre isso?

— Desculpe. Perdão. Ele é tão real como Luna City. Ou John Sterling não teria a quem frustrar... e eu acredito piamente no Capitão John Sterling, da Patrulha Estelar.

— Isso é melhor.

— Naquela ocasião em que o Capitão Sterling estava per­dido na nebulosa Cabeça de Cavalo, com os vermes de radia­ção em seu encalço, como foi que ele escapou? Aquela foi uma das vezes em que eu estava sendo castigado e não pude assis­tir à televisão.

— Segundo me lembro... Note, isso aconteceu há muitos anos. Parece que ele "engatilhou" o radar Doppler para fritá-los como feixes polarizados.

— Não, isso foi o que ele usou contra as entidades es­paciais.

— Richard, tem certeza? Não acho que ele tenha encon­trado entidades espaciais senão depois de ter escapado da ne­bulosa Cabeça de Cavalo. Quando ele teve que fazer uma tré­gua temporária com o Suserano Galático para salvar a galáxia.

— Pensei nisso. Que idade tinha eu naquele tempo? Que ano na escola?

— Meu docinho, penso que você tem razão. Fiquei preo­cupado, pensando que ele se aliaria ao Suserano, mesmo que para salvar a galáxia. Eu...

— Mas ele teve que se aliar, Richard! Ele não podia deixar que bilhões de pessoas inocentes morressem apenas para não sujar as mãos cooperando com o Suserano. Mas entendo seu argumento. Buster e eu discutimos muito sobre esse episódio.., Buster queria aproveitar a trégua temporária para liquidar o Suserano logo que as entidades espaciais fossem destruídas...

— Não, o Capitão Sterling nunca faltaria à sua palavra.

— É verdade. Mas Buster sempre foi o pragmático. Sua so­lução para quase todos os problemas era cortar a garganta de alguém.

— Bem, é um argumento convincente — reconheci.

— Mas, Richard, a gente tem que ir devagar nesse negó­cio de matar personagens numa novela. A gente tem que dei­xar alguém para o capítulo seguinte. Mas você me disse que nunca escreveu uma novela sob seu próprio nome.

— Não escrevi, mas sei disso. Vi um bocado de novelas naqueles tempo. Hazel, por que você me deixou lhe dizer tanta besteira sobre a vida de escritor?

— Você me chamou "Hazel".

— Doçura — Hazel, minha querida —, eu não estou inte­ressado em grupos sangüíneos ou em impressões digitais. Você é inegavelmente a autora da maior novela de horror de toda a história: O Flagelo das Rotas Espaciais. Era isso o que di­ziam os créditos, semana após semana, ano após ano: "Escri­to por Hazel Stone." Depois, melancolicamente, começou a di­zer: "Baseado em personagens criados por Hazel Stone..."

— Foi mesmo? Esses últimos créditos deviam ter incluído Roger. Foi ele quem criou a novela. E não eu. Esses safados.

— Não teve importância. Porque os personagens ficaram anêmicos e morreram. Sem você, a novela nunca mais foi a mesma.

— Eu tive que parar, Buster cresceu. Eu fornecia a trama; ele fornecia o sangue. Às vezes, meu coração amolecia. O de Buster, nunca.

— Hazel! Por que não ressuscitamos a novela? Nós bola­ríamos a coisa juntos. Você a escreveria. Eu faria a cozinha e a faxina da casa. — Parei e olhei-a. — Por que, em nome de Deus, você está chorando?

— Eu choro, se quero! Você me chamou "Hazel" ... você acredita em mim!

— Tenho que acreditar. Qualquer pessoa poderia me en­ganar nessa história de grupos sangüíneos e impressões digi­tais. Mas não em ficção comercial. Não este velho escriba. Você é o verdadeiro McCoy, meu amor, o autêntico flagelo das ro­tas espaciais. Mas também minha ninfomaniacazinha suada... Acho que não me importo de você ter uns dois séculos de idade.

— Não tenho dois séculos! E não vou ter ainda por mui­tos anos e anos.

— Mas ainda é minha ninfomaniacazinha suada.

— Se você deixar. Sorri alegre para ela.

— Eu tenho alguma voz neste assunto? Tire as roupas e vamos bolar alguma coisa.

— Bolar?

— Toda a melhor literatura é escrita com os testículos, Ha­zel, minha ardente mulher... você não sabia disso? Posições de combate! Lá vem o Suserano Galático!

— Oh, Richard.

 

"Quando a opção é entre bondade e honestidade, meu voto é pela bondade, sempre — dando ou recebendo. "

Ira Johnson, 1854-1941

 

— Hazel, meu velho amor...

— Richard, gostaria de um abraço quebrado?

— Não acho que, neste momento, você tenha forças para fazer isso.

— Quer apostar?

— Ouch! Pare com isso! Não faça isso novamente... ou jo­go você no riacho e caso com Gretchen. Ela não é velha..

— Continue a me provocar. Meu terceiro marido era um provocador. Todo mundo notou como ele estava bem no en­terro dele... e que pena que tenha morrido tão moço. — Hazel-Gwen me sorriu. — Mas ele tinha muito seguro de vida, o que consola uma viúva. Casar com Gretchen é uma boa idéia, que­rido. Eu gostaria de criá-la. Ensinar a ela a atirar, ajudá-la no primeiro filho, mostrar-lhe como manejar uma faca, treinar com ela artes marciais, todas as graças domésticas que uma moça precisa neste mundo moderno.

— Hummmph! Minha querida menina, você é tão peque­nina, engraçadinha, bonitinha e inofensiva como uma cobra coral. Acho que Jinx já treinou Gretchen.

— É mais provável que tenha sido Ingrid. Mas ainda pos­so dar um polimento nela. Conforme você observou, sou ex­periente. Qual foi a palavra que usou? "Velha", foi isso.

— Ouch!

Oh, isso não doeu. Frouxo.

— O diabo que não doeu. Vou entrar num mosteiro.

— Não, até que você tenha entrado em Gretchen. Acabei de decidir, Richard: vamos casar com Gretchen.

Tratei essa declaração ridícula com o desprezo que ela me­recia — levantei-me e fui saltitando para o refrescador.

Pouco depois, ela veio atrás de mim. Afastei-me, aco­vardado.

— Socorro! Não me bata de novo!

— Oh, medroso! Eu não o mordi nem uma vez ainda.

— Entrego-me. Você não é velha, apenas bem marinada. Hazel meu amor, o que é que a faz tão violenta?

— Eu não sou. Mas quando a mulher é pequena como eu, se não defender seus direitos, será com certeza maltratada por homens grandalhões, cabeludos, fedorentos, com ilusões so­bre superioridade masculina. Deixe de ganir, querido. Eu não o machuquei, nem uma vez ainda. Não tirei sangue... tirei?

— Estou com medo de olhar. Mamãe nunca me avisou que a vida de casado podia ser assim! Querida, você ia me dizer por que tinha que me recrutar, e para que fim quando nos distraímos.

Ela demorou a responder.

— Richard, você teve problema para acreditar que tenho duas vezes sua idade.

— Você me convenceu. Não entendi, mas vim a aceitar.

— Você vai achar que outras coisas que tenho que lhe di­zer são muito mais difíceis de aceitar. Muito mais!

— Neste caso provavelmente não as aceitarei. Hazel-Gwen, doçura, eu sou duro de roer. Não acredito em mesas falantes, em astrologia, nem em nascimento imaculado...

— Nascimento imaculado não é difícil.

— Quero dizer, no sentido teológico. Não estou falando em laboratórios de genética — nascimento imaculado, nume­rologia, inferno literal, magia, feitiçaria e promessas de cam­panha de políticos. Diga-me alguma coisa que seja contrária ao bom senso. Vou ser tão difícil de convencer como a respei­to de sua antiga idade. E vai precisar do Suserano Galático co­mo testemunha para confirmar tudo.

— Tudo bem. Experimente esta para ver se dá: de um pon­to de vista sou ainda mais velha do que você suspeita. Mais de dois séculos.

— Agüente aí. Você só vai ter 200 anos no Dia de Natal de 2263. E faltam ainda muitos anos, como você mesma disse.

— É verdade. Eu não lhe falei a respeito de anos extras, embora eu os tenha vivido também... porque os vivi em ân­gulos retos.

Respondi:

— Querida, a trilha de áudio emudeceu de repente.

— Mas, Richard, esta é fácil de acreditar. Onde foi que dei­xei minhas calcinhas?

— Na maior parte do Sistema Solar, segundo suas memó­rias.

— Isso não é nem metade da coisa, moço. Tanto dentro como fora do Sistema, e mesmo fora deste universo... E, irmão, eu transgredi novamente! Quero dizer, onde foi que as deixei hoje?

— Ao pé da cama, acho. Doçura, por que se incomoda em vestir calcinhas quando as está tirando com tanta freqüência?

— Porque apenas piranhas andam por aí sem calcinhas... e apreciaria se você observasse bem o que diz.

— Eu não disse nada.

— Eu ouvi o que você estava pensando.

— E eu também não acredito em telepatia.

— Não acredita, hem? Meu neto, Dr. Lowell Stone, conhe­cido também como Buster, costumava roubar no xadrez lendo minha mente. Graças a Deus ele perdeu essa habilidade quan­do chegou aos 10 anos.

— Anotado — respondi — como boato a respeito de fato altamente improvável, veiculado por uma repórter cuja vera­cidade não foi comprovada. A confiabilidade do alegado da­do, por conseguinte, não é maior que C-Cinco, de acordo com a escala militar de classificação de informações.

— Você vai pagar por isso!

— Então você mesmo a classifique na escala — retruquei. — Você trabalhou em informações e contra-informações mili­tares. CIA, não foi?

— Quem foi que disse isso?

— Você disse. Através de várias observações incompletas.

— Não foi a CIA, nunca estive em McLean em toda mi­nha vida, e usava disfarce completo quando estive lá, e não era eu. Era o Suserano Galático.

— E eu sou o Capitão John Sterling. Gwen-Hazel ficou arregalada.

— Poxa, capitão, podia me dar seu autógrafo? Melhor me dar dois: posso trocar dois seus por um de Rosie, a Robô. Ri­chard, nós vamos passar por perto da agência central dos Cor­reios?

— Vou ter que. Tenho que arranjar um lançamento de cor­respondência para o padre Sultz. Por que, querida?

— Se passarmos pela Macy's vou mandar embrulhar as roupas e a peruca de Naomi e enviá-las pelo correio. Elas es­tão pesando na minha consciência.

— Pesando no quê?

— No sistema de contabilidade que uso em lugar dela. Ri­chard, você me lembra cada vez mais meu terceiro marido. Ele era um tipo bonitão, assim como você. Tomava grande cuida­do consigo mesmo e morreu em perfeita saúde.

— De que foi que ele morreu?

— De uma terça-feira, segundo me lembro. Ou foi de uma quarta? De qualquer modo, eu não estava lá... estava muito longe, enroscada com um bom homem. Nunca soubemos o que acabou com ele. Aparentemente, desmaiou no banho e a cabeça ficou embaixo d'água. O que é que você está res­mungando, Richard? "Charlotte" quem?

— Nada, nada, absolutamente, Hazel... eu não tenho se­guro de vida.

— Neste caso temos que tomar cuidado extra para mantê-lo vivo. Deixe de tomar banho!

— Se eu fizer isso, dentro de três ou quatro semanas você vai se arrepender.

— Oh, eu deixo de tomar também, e os cheiros se cance­lam. Richard, temos tempo hoje para ir ao Complexo Executivo?

— Talvez. Por quê?

— Procurar Adam Selene.

— Ele está enterrado lá?

— Isso é uma coisa que vou ter que descobrir. Richard, seu acreditador está em boa forma?

— Sobrecarregado. Vários anos em ângulos retos, realmen­te! Quer comprar uma dobra espacial?

— Obrigada. Eu tenho uma delas. Em minha bolsa. Esses anos extras são apenas uma questão de geometria, meu mari­do. Se você está apegado à imagem convencional de espaço-tempo, com apenas um eixo temporal, então, claro, vai achar difícil compreender isso. Mas há pelo menos três eixos temporais, da mesma maneira que há pelo menos três eixos espaciais... e eu vivi esses anos extras em outros eixos. Tudo claro agora?

— Inteiramente claro, meu amor. Tão axiomático como o transcendentalismo.

— Eu sabia que você compreenderia. O caso de Adam Se­lene é mais difícil. Quando eu tinha 12 anos de idade, ouvi-o falar muitas vezes. Ele era o líder inspirador que mantinha coesa nossa Revolução. Depois, foi morto — ou foi isso o que se in­formou. Só muitos anos mais tarde Mama Yoh contou-me, como o mais profundo segredo, que Adam não era um homem. Não era absolutamente um ser humano. Era um tipo de entidade.

Com todo cuidado possível, fiquei calado.

Gwen-Hazel perguntou:

— Bem, não tem nada a dizer?

— Oh, claro. Não era humano. Era um ádvena. Pele ver­de, um metro de altura e seu disco voador aterrou no Maré Crisium, do lado de fora de Luna City. Onde estava o Suserano Galático?

— Você pode me confundir falando dessa maneira, por­que sei como uma história assim inacreditável afeta uma pes­soa. Senti os mesmos tipos de dúvida quando Mama Wyoh me contou. Exceto que tive que acreditar nela porque mamãe Wyoh nunca me mentiria. Mas Adam não era um ádvena, Ri­chard. Ele era filho da humanidade. Mas não uma criança hu­mana. Adam Selene era um computador. Ou um complexo de programas em um computador. Mas era um computador autoprogramável, o que é a mesma coisa. Bem, senhor?

Não tive pressa em responder:

— Gosto mais de disco voador.

— Oh, besteira! Estou tentada em trocar você por Marcy Choy-Mu.

— É a coisa mais sabida que você poderia fazer.

— Não, vou ficar com você. Estou acostumada a suas ex­centricidades. Mas posso guardá-lo em uma gaiola.

— Hazel, escute com atenção — comecei, sério. — Com­putadores não pensam. Calculam com grande velocidade, de acordo com regras que são embutidas neles. Desde que nós mesmos calculamos usando nosso cérebro para pensar, esta capacidade embutida de calcular dá a alguns computadores a aparência de que podem pensar. Mas eles não pensam. Ope­ram da maneira como o fazem porque têm que agir assim. Fo­ram construídos dessa maneira. Você pode acrescentar "ani­mismo" à lista de idéias absurdas que não aceito.

— Que bom você pensar assim, Richard, porque esta mis­são será delicada e difícil. Preciso de seu sadio cepticismo pa­ra me manter sensata.

— Vou ter que botar isso no papel e estudá-lo cuidadosa­mente.

— Faça isso, Richard. Agora, foi isto o que aconteceu em 2075 ou 6: um de meus pais adotivos, Manuel Garcia, era o técnico que cuidava do grande computador do Executivo. Es­se computador único fazia quase tudo... administrava todos os serviços de utilidade pública desta cidade e a maioria dos outros povoados — exceto Kong —, dirigia a primeira catapul­ta, controlava os tubos, cuidava dos negócios bancários, im­primia o Lunatic... fazia praticamente tudo. O Executivo achou que era mais barato expandir as funções desse único grande computador do que espalhar computadores por toda Luna.

— Nem eficiente nem seguro.

— Provavelmente, mas foi assim que fizeram. Na época, Luna era uma prisão. Não tinha nem que ser eficiente nem segura. Não havia indústria de alta tecnologia aqui e naque­les dias tínhamos que aceitar o que nos davam. Como quer que seja, querido, esse único computador-mestre ficou cada vez maior.... e acordou.

(Acordou, hem? Pura fantasia, minha doçura... e clichê que tem sido usado por todos os autores de obras de fantasia na história. Até mesmo o Cabeça de Bronze de Roger Bacon era uma versão disso. O monstro de Frankenstein, outra. Depois, grande número de outras histórias, e elas continuam a surgir. E, todas elas, absurdos.) Mas o que eu disse foi:

— Continue, querida. E o que foi que aconteceu?

— Richard, você não acredita em mim.

— Eu pensava que havíamos resolvido isso. Você disse que precisava de meu sadio cepticismo.

— E necessito! De modo que, use-o. Critique! Não fique simplesmente aí com esse ar de gato que comeu o canário. Es­se computador estivera operando com voz durante anos — aceitando programas falados, respondendo com fala sintetizada, material impresso, ou as duas coisas.

— Funções embutidas. Técnicas de mais de dois séculos.

— Por que foi que você fechou a cara quando eu disse "acordou'?

— Porque isso é absurdo, meu amor. Acordar e dormir são funções de seres vivos. Uma máquina, por mais poderosa e flexível seja, nem acorda nem vai dormir. É uma questão de energia ligada e desligada, só.

— Muito bem, deixe-me refrasear a coisa. Esse computa­dor tornou-se autoconsciente e adquiriu livre-arbítrio.

— Interessante. Se é verdade, não tenho que acreditar nis­so. Não acredito.

— Richard, eu me recuso a entrar em desespero. Você é simplesmente jovem e ignorante, e isto não é culpa sua.

— Sim, vovó. Eu sou jovem e você é ignorante. Bundinha escorregadia.

— Tire essas mãos libidinosas de cima de mim e ouça. O que é que explica a autoconsciência no homem?

— Ahn? Não tenho necessidade de explicá-la. Eu a expe­rimento.

— Verdade. Mas esta não é uma pergunta trivial, senhor. Vamos tratá-la como um problema-limite. Você é autoconscien­te? Eu sou?

— Bem, eu sou, cara de macaco. Não tenho certeza a seu respeito.

— O mesmo, vice-versa.

— Isso é engraçado, também.

— Richard, vamos continuar no assunto. O esperma em um corpo masculino é autoconsciente?

— Tomara que não.

— Ou o óvulo na mulher?

— Essa pergunta quem pode responder é você, beleza. Nunca fui mulher.

— Você está evitando responder às perguntas apenas para me atazanar. O espermatozóide não é autoconsciente nem também o óvulo — e não me venha com observações idiotas. Esse é um dos limites. Eu, um zigoto humano adulto, sou au­toconsciente. E você, também, por mais obscuramente isso seja verdade no caso de homens. Segundo limite. Muito bem, Ri­chard, em que ponto a partir do óvulo recém-fecundado até o zigoto maduro ora chamado "Richard" surgiu a autoconsciência? Responda-me. Não evite a pergunta e, por favor, na­da de observações idiotas.

Eu ainda pensava que era uma pergunta idiota, mas me esforcei para dar uma resposta séria.

— Muito bem. Eu sempre fui autoconsciente.

— Uma resposta séria, por favor.

— Gwen-Hazel, essa resposta é tão séria quanto a posso dar. Tanto quanto sei, tenho vivido sempre e autoconsciente o tempo todo. Toda essa conversa sobre coisas que acontece­ram antes de 2133 — o alegado ano de meu alegado nascimento — é puro boato e não muito convincente. Continuo com a pi­lhéria, mas para evitar incomodar pessoas ou ficar com apa­rência esquisita. E quando ouço astrônomos falarem da cria­ção do mundo em uma grande explosão há oito ou 16, ou 30 bilhões de anos antes de eu ter nascido — se eu nasci, não me lembro disso —, isto é uma grande piada. Se eu não estava vivo há 16 bilhões de anos, então não havia absolutamente na­da. Nem mesmo espaço vazio. Nada. Zero sem nenhuma mol­dura em volta. O universo onde existo não pode existir sem mim. De modo que é tolo falar sobre a data em que me tornei autoconsciente. O tempo começou quando eu comecei. Tudo claro? Ou quer que eu lhe desenhe um diagrama?

— Tudo claro, na maioria dos pontos, Richard. Mas você está enganado na data. O tempo não começou em 2133. Co­meçou em 2063. A menos que um de nós dois seja um golem.

Todas as vezes em que tento um silipsismo, uma coisa co­mo essa acontece.

— Doçura, você é bonitinha. Mas é uma criação de minha imaginação. Ouch! Eu lhe disse para parar com isso.

— Você tem uma imaginação muito viva, querido. Obri­gado por ter me imaginado. Quer outra prova? Até agora, es­tive apenas brincando... quebro agora um de seus ossos? Ape­nas um pequenininho. Você escolhe qual.

— Escute, criação minha. Quebre um de meus ossos e vai se arrepender pelo próximo bilhão de anos.

— Apenas como uma demonstração lógica, Richard. Ne­nhuma maldade nisso.

— E logo que eu reduzir a fratura...

— Oh, eu a reduzirei para você, querido.

— Nem por sombras! Logo que a tenha reduzido, telefo­no para Xia, peço a ela para vir, casar-se comigo e me prote­ger de pequenas criações com hábitos violentos.

— Você vai se divorciar de mim? Mais uma vez ela era olhos só.

— Diabos, não! Simplesmente rebaixo você a esposa jú­nior e boto Xia no comando. Mas você não pode ir embora. Permissão negada. Você está cumprindo uma pena de prisão perpétua, seja diretamente para a frente ou em ângulos retos. Vou arranjar um cacete e bater até que você desista desses seus hábitos perversos.

— Tudo bem, enquanto eu não tiver que ir embora.

— Ouch! E não morda. Isso é indelicado.

— Richard, se eu sou apenas criação de sua imaginação, então o fato de eu mordê-lo é apenas uma idéia sua, pratica­da por você contra si mesmo por alguma tenebrosa razão ma­soquista. Se isso não é verdade, então eu tenho que ser auto-consciente... e não criação sua.

— Essa lógica de e/ou nunca provou coisa nenhuma. Mas você é uma deliciosa criação, querida. Estou satisfeito por ter pensado você.

— Obrigado, senhor. Amor, vou fazer agora uma pergun­ta decisiva. Se respondê-la seriamente, deixo de mordê-lo.

— Para sempre?

— Hummm...

— Não se esforce demais, criação minha. Se tem uma per­gunta séria, vou procurar dar-lhe uma resposta séria.

— Sim, senhor. O que explica a autoconsciência no homem e o que há nessa condição, processo, ou o que quer que torna a consciência impossível a uma máquina? Especificamente, a um computador. Em particular, o computador gigante que ad­ministrava este planeta em 2076. O Holmes IV.

Resisti à tentação de dar uma resposta petulante. Autocons­ciência? Sei que uma escola de psicólogos insiste que a cons­ciência, se existe, está presente apenas como um passageiro, não como um efeito sobre o comportamento.

Este tipo de absurdo pode ser metido no mesmo saco que a transubstanciação. Se verdadeira, não pode ser provada.

Estou consciente de minha própria autoconsciência... e isto é o máximo até onde vai meu solipsismo honesto.

— Gwen-Hazel, não sei.

— Ótimo! Estamos progredindo.

— Estamos?

— Estamos, Richard. A parte mais difícil em aceitar qual­quer nova idéia consiste em varrer a idéia falsa que ocupava esse lugar. Enquanto esse lugar estiver ocupado, nem evidên­cia, nem prova nem demonstração lógica, conseguirão coisa nenhuma. Mas logo que o espaço é esvaziado da idéia errô­nea que o preenchia — logo que podemos dizer honestamen­te "Não sei" —, então torna-se possível chegar à verdade.

— Meu docinho, você não é só a criação mais bonitinha que jamais imaginei, mas também a mais esperta.

— Acabe com isso, meu chapa. Escute esta teoria. E pen­se nela como hipótese de trabalho, não como verdade revela­da por Deus. Ela foi bolada pelo meu pai adotivo, papai Mannie, a fim de explicar o fato observado de que esse computa­dor ganhara vida. Talvez ela explique tudo, talvez não... Ma­ma Wyoh disse que papai Mannie nunca teve certeza. Agora, preste atenção... Um óvulo humano fecundado se divide... e divide-se novamente. E mais uma vez. E mais e mais vezes.

Em algum ponto do caminho — não sei quando — essa cole­ção de milhões de células vivas torna-se consciente de si mes­ma e do mundo em volta. E ela continuou:

— Um óvulo fecundado não é consciente, mas um bebê é. Depois que papai Mannie descobriu que seu computador era autoconsciente, notou também que ele, que fora expandi­do absurdamente à medida que mais e mais missões lhe eram designadas, chegara a um ponto de complicação tal que pos­suía mais interconexões do que um cérebro humano.

Gwen fez uma pequena pausa antes de prosseguir:

— Papai Mannie deu um grande salto teórico. Quando o número de interconexões em um computador torna-se da mes­ma ordem que o número das que existem em um cérebro hu­mano, esse computador pode acordar e tornar-se conciente de si mesmo... e provavelmente fará isso. Ele não tinha certeza se isso sempre acontecia, mas convenceu-se de que podia acon­tecer, e por essa razão: o alto número de interconexões.

Mas ela advertiu:

— Richard, papai Mannie nunca levou mais longe sua teo­ria. Ele não era um cientista teórico, mas um técnico em con­sertos. Mas a maneira como seu computador se comportava aborrecia-o. Fez um grande esforço para descobrir por que ele estava se conduzindo de modo tão estranho. Desse trabalho resultou esta teoria. Mas você não precisa prestar atenção a ela. Papai Mannie nunca a submeteu à experimentação.

— Hazel, que modo estranho era esse?

— Oh, Mama Wyoh me disse que a primeira coisa que Ma­nuel notou foi que Mike — o computador, quero dizer —, Mi-ke adquirira senso de humor.

— Oh, não.

— Oh, sim. Mama Wyoh me disse que para Mike — ou Michelle — ou Adam Selene — ele usava todos os três nomes, ele era uma trindade — para Mike, toda a Revolução Lunariana, na qual milhares morreram aqui e centenas de milhares morreram na Terra, era uma piada. Era simplesmente uma pia­da de mau gosto, pensada por um computador com um po­der cerebral de supergênio e um senso de humor infantil. — A careta que Hazel fizera transformou-se em sorriso. — Ape­nas uma criança grandalhona, volumosa, excessivamente cres­cente, adorável, que devia ter levado um pontapé.

— Você faz com que isso pareça um prazer. Dar um chute nele.

— Faço? Talvez eu não deva. Afinal de contas um com­putador não podia, em hipótese alguma, praticar o bem ou o mal ou experimentar o bem ou o mal no sentido humano. Não teria meio formativo para isso — nenhuma criação domés­tica, se quiser. Mama Wyoh me disse que o comportamento humano de Mike era expressado através de imitação — ele pos­suía incontáveis modelos de papéis na vida, lera tudo, incluin­do ficção. Mas sua única emoção real, toda sua, era profunda solidão e um grande desejo por companhia. Isto é o que nos­sa Revolução foi para Mike: companhia... um jogo... uma brin­cadeira que lhe ganhou a atenção do Professor, de Wyoh e es­pecialmente de Mannie. Richard, se uma máquina pode ter emoções, aquele computador amava meu papai Mannie. Bem, senhor?

Senti vontade de dizer "besteira" ou alguma coisa ainda menos polida.

— Hazel, você está exigindo a crua verdade de mim — e ela vai machucar seus sentimentos. Tudo isso me parece fic­ção. Se não ficção de sua autoria, então de sua mãe de cria­ção, Wyoming Knott. — E acrescentei: — Amor meu, vamos fazer o que temos que fazer? Ou passar o dia inteiro falando sobre uma teoria sobre a qual nenhum de nós tem prova?

— Estou vestida e pronta para sair, querido. Apenas mais uma palavra, e me calo. Você acha esta história inacreditável.

— De fato, acho — respondi tão sem emoção quanto possível.

— Que parte dela é inacreditável?

— Toda ela.

— É mesmo? Ou a dificuldade é a idéia de que um com­putador pode ser autoconsciente? Se aceitar isso, o resto da história torna-se mais fácil de engolir?

(Fiz um esforço para ser honesto. Se esse absurdo não me causasse náuseas, o resto seria aceitável? Oh, certamente! Tal como os óculos de ouro de Joseph Smith, tais como as Tábuas da Lei entregues a Moisés no monte, tal como o deslocamento para o vermelho devido à grande explosão — aceite o postula­do e o resto desce fácil.)

— Hazel-Gwen, se supormos um computador autocons­ciente com emoções e livre-arbítrio, não recuso mais nada — de fantasmas a homenzinhos verdes. O que foi que a Rainha Vermelha fez? Acreditar em sete coisas impossíveis antes do café da manhã.

— A Rainha Branca.

— Não, a Rainha Vermelha.

— Tem certeza, Richard? Isso aconteceu pouco antes de...

— Esqueça. Peças de xadrez que falam são ainda mais di­fíceis de engolir que um computador piadista. Amor, a única prova que você oferece é uma história que lhe foi contada por sua mãe de criação em sua velhice. Só isso. Hummm, senil, talvez?

— Não, senhor. Moribunda, mas não senil. Câncer. Cau­sado por exposição a uma tempestade solar quando era mui­to jovem. Ou pelo menos era isso o que ela pensava. Contou-me isso quando sabia que ia morrer... porque pensava que a história não seria perdida inteiramente.

— Está percebendo a fraqueza da história, querida? Uma história contada no leito de morte. Nenhum outro dado.

— Não exatamente, Richard.

— Ahn?

— Meu pai adotivo Manuel Davis confirma-a e acrescenta mais alguma coisa.

— Mas... você sempre falou a respeito dele no tempo pas­sado do verbo. Acho que falou. E ele teria... que idade? Mais velho do que você.

— Ele nasceu em 2040, de modo que teria agora um sécu­lo e meio... o que não é impossível para um lunariano. Mas ele é tanto mais velho quanto mais moço do que isso... pelas mesmas razões que eu, Richard. Se você falasse com Manuel Davis e ele confirmasse o que lhe disse, você acreditaria nele?

— Hummmm... — sorri alegre para ela. — Você pode me forçar a trazer para a questão o sólido bom senso da ignorân­cia e do preconceito.

— Topo o que você disse! Calce seu pé, querido, por fa­vor. Quero sair e lhe arranjar pelo menos um traje novo antes de começarmos a nos movimentar. Suas calças têm manchas em cima das manchas. Não estou sendo uma boa esposa.

— Sim, madame. Imediatamente, madame. Onde está ago­ra seu papai Mannie?

— Você não vai acreditar nisto.

— Se não implicar tempo em ângulo reto e computadores solitários, acreditarei.

— Eu acho... não verifiquei ultimamente... acho que pa­pai Mannie está com seu tio Jock em Iowa.

Parei com o pé na mão.

— Você tem razão. Não acredito.

 

"A patifaria tem limites; a estupidez, não. "

Napoleão Bonaparte, 1769-1821

 

Como é que se pode argumentar com uma mulher que não quer argumentar? Esperei que Gwen começasse a justifi­car sua absurda alegação, citando capítulo e verso a fim de me convencer. Em vez disso, ela se limitou a dizer tristemente:

— Eu sabia que isso era tudo o que podia esperar. Vou ter simplesmente que esperar. Richard, temos algumas outras pa­radas a fazer, além do Macy e da sede dos Correios, antes de podermos ir ao Complexo Executivo?

— Eu preciso abrir uma nova conta corrente e em seguida transferir minha atual conta do Regra de Ouro. Meus troca­dos estão se tornando escassos. Anêmicos.

— Mas, paixão, tentei lhe dizer: dinheiro não é problema. — Abriu a bolsa, sacou uma maçaroca de dinheiro, e come­çou a tirar notas de 100 coroas. — Estou trabalhando com uma verba de representação, claro.

Estendeu-me o dinheiro.

— Calma, aí! — retruquei. — Guarde seus tostões, meni­ninha. Eu resolvi sustentar você. E não vice-versa.

Esperei uma resposta incluindo "macho" ou "porco chau­vinista" ou, pelo menos, "isto é propriedade comum". Em vez disso, ela me flanqueou:

— Richard? Sua conta bancária no Regra de Ouro... É uma conta numerada? Se não, sob que nome?

— Ahn? Não. "Richard Ames", naturalmente.

— Você não acha que isso poderia interessar ao Sr. Sethos?

— Oh, nosso bondoso senhorio. Meu docinho, é bom que você esteja aqui para pensar por mim. — Uma pista levando diretamente a mim, tão clara como pegadas na neve... para que os capangas de Sethos a seguissem, a fim de cobrar o prê­mio por minha carcaça: vivo ou morto. Claro, todas as contas bancárias são confidenciais, e não apenas as numeradas, mas "confidenciais" significa apenas que são precisos dinheiro ou poder para quebrar as regras. E Sethos possuía ambos. — Gwen, vamos voltar lá e colocar novamente uma armadilha antipessoal no ar condicionado dele. Mas desta vez usaremos ácido prússico em vez de queijo Limburger.

— Ótimo!

— Como eu gostaria que pudéssemos. Você tem razão, não podemos tocar naquela conta corrente de "Richard Ames" en­quanto estiver hasteado o aviso de tempestade. Usaremos seu dinheiro... Considere isto como um empréstimo. Anote tudo...

— Anote você! Droga, Richard, eu sou sua esposa!

— A gente briga sobre isso depois. Deixe a peruca e a roupa de gueixa aqui. Não vamos ter muito tempo hoje... desde que tenho que procurar primeiro o rabi Ezra. A menos que você queira fazer suas coisas enquanto eu faço as minhas...

— Meu chapa, está com febre? Não vou deixar você fora de minhas vistas.

— Obrigado, mãe. Essa é a resposta que eu queria. Vamos ver o rabi Ezra, depois iremos caçar computadores vivos. Se sobrar tempo, faremos as outras coisas quando voltarmos.

Não sendo ainda meio-dia, procuramos o rabi Ezra ben David na peixaria de seu filho, que fica em frente à biblio­teca pública. O rabi morava em um quarto nos fundos da pei­xaria. Concordou em ser meu advogado e servir como ende­reço secreto de correspondência. Expliquei-lhe minhas com­binações paralelas com o padre Schultz e depois escrevi uma nota para ele, que devia ser enviada a "Henrietta van Loon".

Reb Ezra recebeu-a.

— Vou enviá-la imediatamente do terminal de meu filho. Deve ser impressa pelo computador no Regra de Ouro dentro de 10 minutos, a partir de agora. Expressa?

(Chamar a atenção para a mensagem? Ou aceitar serviço mais lento? Alguma coisa estava acontecendo no Regra de Ouro. Hendrik Schultz poderia ter algumas respostas.)

— Expressa, por favor.

— Muito bem. Com licença, só alguns minutos. — Saiu do quarto na cadeira de roda e voltou rápido. — O Regra de Ouro acusou o recebimento. Agora, a respeito de outros as­suntos... estava à sua espera, Dr. Ames. Aquele jovem que es­tava com o senhor ontem... Ele é membro de sua família? Ou empregado de confiança?

— Nem uma coisa nem outra.

— Interessante. O senhor mandou que ele perguntasse quem estava oferecendo um prêmio pela sua cabeça e qual o valor do prêmio?

— Certamente que não! Disse a ele alguma coisa?

— Meu querido senhor! O senhor pediu os tradicionais Três Dias.

— Obrigado, senhor.

— De nada. Desde que ele teve o trabalho de me procurar aqui, em vez de esperar por meu horário comercial, supus que havia alguma urgência. Uma vez que o senhor não o mencionou, concluí que a urgência era dele, não sua. Agora presu­mo, a menos que o senhor me desminta, que ele não tem boas intenções a seu respeito.

Dei ao rabi uma versão condensada de nossas relações com Bill. Ele inclinou a cabeça e disse:

— Conhece as observações de Mark Twain a respeito des­ses assuntos?

— Acho que não.

— Ele disse que se você pega na rua um cão perdido, alimenta-o e cuida dele, ele não o morderá. Esta, na opinião dele, é a principal diferença entre um homem e um cão. Não concordo inteiramente com Twain. Mas ele tem um bom ar­gumento aí.

Pedi-lhe que fixasse um honorário inicial, paguei sem dis­cutir muito, e acrescentei um pouco mais para dar sorte.

O Complexo do Executivo (oficialmente "Centro de Ad­ministração'', nome encontrado apenas em material impresso) situa-se a oeste de Luna City, a meio caminho do Mare Cri­sium. Chegamos lá por volta do meio-dia. Aquele metrô, em­bora não fosse balístico, era bem rápido. Logo que tomamos o carro, chegamos ao nosso destino em 20 minutos.

O meio-dia, porém, era o tempo errado de chegar. O Com­plexo é constituído de repartições do governo e todas fe­cham para uma descansada hora de almoço. O almoço, aliás, pareceu-me uma boa idéia: o desjejum já era coisa de passa­do remoto. Nos túneis do complexo havia numerosos restau­rantes... todas as cadeiras ocupadas pelas largas envergadu­ras de servidores públicos ou turistas coroados com aquele fez vermelho. Gente fazia fila em frente ao Sloppy Joe, o Mom's e o Antoine's II.

— Hazel, estou vendo máquinas de vender ali à frente. Pos­so interessá-la em uma Coca quente e num sanduíche frio?

— Não, senhor, o senhor não pode. Há um terminal pú­blico do outro lado das máquinas de vender comida. Vou fa­zer umas chamadas enquanto você almoça.

— Não estou com tanta fome assim. Que chamadas?

— Xia. E Ingrid. Quero ter certeza de que Gretchen vol­tou para casa em segurança. Ela pode ter sido atacada de em­boscada, como nós fomos. Eu devia ter ligado na noite passada.

— Apenas para dissipar suas preocupações: ou Gretchen chegou à casa na noite de anteontem... ou é tarde demais e ela está morta.

— Richard!

— É isso o que a preocupa, não? Telefone para Ingrid. Gretchen atendeu e soltou um grito agudo quando viu

Gwen-Hazel:

— Mamãe! Venha depressa! É a Sra. Durona!

Vinte minutos depois, desligamos. Tudo o que se conse­guiu foi dizer aos Henderson que estávamos no Raffles e que nosso endereço de correspondência passava pelo rabi Ezra. Mas as moças gostaram de se visitar eletronicamente e uma garan­tiu à outra que o faria pessoalmente antes de muito tempo. Trocaram beijinhos pelo terminal — na minha opinião um des­perdício de tecnologia. E de beijos.

Tentamos em seguida ligar para Xia... e surgiu na tela um homem que não reconheci. Não era o recepcionista do turno do dia.

— O que é que o senhor quer? — perguntou ele. Hazel respondeu:

— Eu gostaria de falar com Xia, por favor.

— Não está. Este hotel foi fechado pelo Departamento de Saúde Pública.

— Oh! Pode me informar onde ela se encontra?

— Tente a Chefia de Segurança Pública. E o rosto apagou-se.

Hazel virou-se para mim, os olhos cheios de preocupação.

— Richard, isto não pode estar certo. O hotel de Xia é tão escrupulosamente limpo como ela.

— Estou vendo um padrão nisso — retruquei, sombriamen­te —, e você também. Deixe-me tentar.

— Tomei o lugar dela, pedi o código e liguei para o gabinete do principal tira, HKL. Uma velha sargenta de serviço respondeu. Comecei:

— Gospazha, estou tentando entrar em contato com uma cidadã chamada Dong Xia. Fui informado...

— Isso mesmo. Fechei-a aqui — respondeu ela. — Mas saiu sob fiança há uma hora. Não está mais aqui.

— Ah, bem. Obrigado, madame. Pode me dizer onde pos­so falar com ela?

— Não tenho a menor idéia. Sinto muito.

— Obrigado. — E desliguei.

— Oh, meu Deus.

— Lepra, doçura. Pegamos a doença, quem toca em nós é contaminado. Droga.

— Richard, o que estou lhe dizendo é a pura verdade. Em minha infância, quando isto aqui era uma colônia penal, ha­via mais liberdade sob o Carcereiro do que há agora com autogoverno.

— Talvez você exagere, mas desconfio que Xia concorda­ria com você. — Mordi o lábio inferior e franzi o cenho. — Sa­be quem mais pegou nossa lepra? Choy-Mu.

— Você acha?

— Aposto, sete a dois.

— Nada feito, Ligue para ele.

O pedido de informações deu-me seu telefone particular. Liguei para a casa dele. Ouvi uma gravação, sem imagem: "Marcy Choy-Mu falando. Não sei quando voltarei para casa, mas responderei logo às mensagens, quando as receber. Ao som do gongo, por favor, grave sua mensagem." E soou um gongo.

Pensei furiosamente e disse em seguida:

— Capitão Meia-Noite falando, Estamos hospedados no velho Raffles. Um amigo mútuo precisa de ajuda. Por favor, ligue-me para o Raffles. Se eu não estiver, deixe recado dizen­do quando e onde posso falar com você.

E desliguei mais uma vez.

— Querido, você não deu o código do rabi Ezra.

— De propósito, Sadie, minha garota. Para manter o códi­go do rabi fora das mãos de Jefferson Mao. A linha de Choy-Mu pode estar grampeada. Eu tive que dar a ele um lugar pa­ra ele ligar de volta... mas não posso me arriscar a compro­meter a ligação rabi Ezra. Precisamos preservá-la para o padre Schultz. Cartas na mesa, beldade. Vou ter que ligar para o con­trole de terra de HKL.

 

— Controle de terra de Hong Kong Luna. Este terminal destina-se a assuntos oficiais. Seja breve.</