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O GATO QUE TOCAVA BRAHMS / Lilian Jackson
O GATO QUE TOCAVA BRAHMS / Lilian Jackson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O GATO QUE TOCAVA BRAHMS

 

Para Jim Qwilleran, jornalista veterano, aquele foi um dos momentos mais estarrecedores de sua carreira. Anos antes, como correspondente de guerra, tinha sido metralhado nas praias; como repórter criminal fora alvo da Máfia. Atualmente escrevia artigos de críticas sobre restaurantes para um jornal do meio-oeste, o Daily Fluxion, e não estava preparado para os chocantes acontecimentos no Clube da Imprensa.

O dia começara bastante bem. Ele havia tomado um bom café da manhã na sua pensão: uma fatia de melão, omelete fines herbes com fígados de galinha refogados, bolinhos de queijo, e três xícaras de café. Planejava almoçar com o velho amigo, Arch Riker, no Clube da Imprensa, lugar favorito deles.

Ao meio-dia Qwilleran galgou os degraus da encardida fortaleza de pedra calcária que um dia fora a cadeia do condado, mas agora oferecia comida e bebida para os profissionais de imprensa. Ao se aproximar do antigo portal ornado de tachas, pressentiu que algo estava errado. Sentiu o cheiro de verniz fresco! Seu ouvido agudo percebeu que a porta maciça não rangia mais nos gonzos! Entrou no vestíbulo e levou um susto. Aquele ambiente sombrio e enfumaçado que tanto amava estava agora todo limpo e faiscante.

Qwilleran sabia que o Clube da Imprensa havia sido fechado por duas semanas para algo chamado "manutenção anual", mas ninguém aludira a semelhante metamorfose. Acontecera enquanto ele estava fora da cidade, a serviço.

Seu opulento bigode cinza eriçou-se de raiva, e ele esfregou-o com o punho. Em vez das velhas paredes de lambris, enegrecidas por inúmeras camadas de verniz barato, o vestíbulo ostentava um papel de parede com desenho semelhante às toalhas de mesa de sua avó. Em lugar do soalho de tábuas, todo marcado e gasto por um século de uso, havia um tapete de parede a parede por cima de um carpete grosso. Em vez dos tubos fluorescentes e ofuscantes no teto em cúpula, havia um lustre de latão polido. Até o familiar cheiro de mofo se fora, substituído por um odor químico de coisa nova.

Engolindo o choque e o desalento, o repórter entrou no bar, onde sempre almoçava num canto escuro e afastado. E deparou com as mesmas coisas: paredes cor de creme, iluminação suave, cestas pendentes de plantas plásticas, e espelhos. Espelhos! Qwilleran estremeceu.

Arch Riker, seu editor no Daily Fluxion, estava sentado à mesa habitual com o costumeiro copo de scotch, mas a velha mesa de madeira fora lixada e envernizada, e havia jogos de mesa de papel branco com bordas enfeitadas. A garçonete chegou em seguida com o usual copo de suco de tomate para Qwilleran, mas não envergava seu uniforme habitual, com lencinho de babados no bolso da blusa. Todas as garçonetes agora vestiam-se como criadas francesas, com elegantes trajes pretos, aventais brancos e toucas pregueadas.

"Arch! O que aconteceu?", reclamou Qwilleran. "Não acredito no que estou vendo!" Ele arriou o corpanzil numa cadeira e gemeu.

"Bom, o clube tem muitas mulheres sócias agora", Riker explicou calmamente, "e elas deram um jeito de ser nomeadas para a comissão de manutenção, a fim de fazer uma faxina por aqui. Chama-se 'renovação reversível'. A comissão de manutenção do próximo ano pode arrancar o papel e o carpete e voltar à velha sujeira e decrepitude..."

"Você fala como se estivesse gostando. Seu traidor!"

"Temos de dançar conforme a música", disse Riker, com a calma enfastiada de um editor que já viu tudo. "Olhe o menu e decida o que vai comer. Tenho uma reunião à uma e meia. Eu vou pedir cordeiro ao curry."

"Perdi a fome", disse Qwilleran, a expressão desgostosa acentuada pelo bigode curvado para baixo. Agitou um braço para a cena ao redor. "O lugar perdeu todo o charme. Até o cheiro é falso." Ergueu o nariz e fungou. "Sintético! Provavelmente é cancerígeno!"

"Você está ficando com o nariz de um cão de caça, Qwill. Ninguém mais se queixou do cheiro."

"E outra coisa", disse Qwill, com beligerância. "Também não gosto do que está acontecendo no Fluxion."

"O que quer dizer?"

"Primeiro eles transferiram todo aquele bando de mulheres para a sala de copidesque e um bando de homens para o Departamento das Mulheres. Depois nos designaram banheiros unissex. Então colocaram um monte de escrivaninhas novas em verde, laranja e azul. Parece um circo! Aí tiraram minha máquina de escrever e me deram um terminal de computador que me dá dores de cabeça."

Riker disse, num tom conciliatório: "Você nunca esqueceu aqueles filmes antigos, Qwill. Ainda quer que os repórteres datilografem de chapéu na cabeça e batam no teclado com dois dedos".

Qwilleran afundou na cadeira. "Olhe aqui, Arch. Estava tentando resolver algo, e acabei de tomar uma decisão. Tenho três semanas de férias vencendo e mais duas semanas de complementares. Quero acrescentar uns dias de licença e sair por três meses."

"Você deve estar brincando."

"Estou cansado de escrever asneiras, bajulando os restaurantes que anunciam no Fluxion. Quero ir para o norte e fugir das decepções e da poluição, do barulho e dos crimes da cidade."

"Você está bem, Qwill?", Riker perguntou, alarmado. "Não está doente ou coisa que o valha, está?"

"O que há de errado em querer respirar um pouco de ar fresco?"

"Isso o mataria! Você é menino de cidade, Qwill. Eu também. Ambos fomos criados no monóxido de carbono, fumaça e toda essa sujeira que sopra por Chicago. Sou seu amigo mais antigo e estou lhe dizendo: Não faça isso! Você está começando a se firmar financeiramente, e..." (baixou a voz) "Percy está pensando numa outra excelente missão para você."

Qwilleran gemeu. Conhecia muito bem as outras excelentes missões do editor. Quatro delas lhe tinham sido dadas nos últimos anos, e todas eram um insulto a um antigo correspondente de guerra e repórter criminal premiado. "O que é desta vez?", resmungou. "Obituários? Dicas domésticas?"

Riker sorriu, presumido, antes de dizer num sussurro: "Reportagens de investigação! Você vai poder falar francamente. Expor suborno político, fraude organizada, violação de ambientes, gastos governamentais, qualquer coisa que desencavar".

Qwilleran cofiou cautelosamente o bigode e fitou o editor por cima da mesa. Reportagens de investigação eram algo que desejara fazer muito antes de se tornarem a coqueluche da mídia. No entanto, seu sensível lábio superior — fonte de seus melhores palpites — estava enviando sinais. "Talvez no próximo outono. Neste momento quero passar o verão onde as pessoas não tranquem as portas nem tirem as chaves dos carros da ignição."

"O emprego pode não estar disponível no próximo outono. Descobrimos que o Morning Rampage está procurando um repórter de investigação, e Percy quer ser o primeiro. Sabe como ele é. Seria um enorme risco você não estar aqui para agarrar o emprego quando lhe for oferecido."

A garçonete voltou para servir outro scotch a Riker e pegar o pedido deles. "Você parece magro", disse ela a Qwilleran. "O que vai querer? Um hambúrguer de duzentos e cinquenta gramas com fritas, um malte duplo e uma torta de maçã?"

Ele olhou-a emburrado. "Não estou com fome."

"Peça um sanduíche da casa", ela sugeriu. "Você pode comer a alface e o tomate e levar o peru para Koko. Eu trago um saquinho para colocá-lo."

O gato siamês de Qwilleran era uma celebridade no Clube da Imprensa. O retrato de Koko estava pendurado no vestíbulo junto a ganhadores do Prêmio Pullitzer, e ele era provavelmente o único gato na história do jornalismo que tinha seu próprio cartão de imprensa assinado pelo chefe de polícia. Embora a natureza desconfiada e a mente inquisidora de Qwilleran houvessem levado alguns criminosos à justiça, subentendia-se comumente no Clube da Imprensa que o cérebro por trás de seu sucesso pertencia a um felino de inteligência e percepção sensorial fora do comum. Koko sempre parecia farejar ou arranhar no lugar certo, na hora certa.

Os dois jornalistas dedicaram-se ao cordeiro ao curry e ao sanduíche de peru em silêncio, em profunda reflexão. Finalmente Riker perguntou: "Para onde você iria se saísse no verão?"

"Para um cantinho no lago, cerca de seiscentos quilômetros ao norte. Perto de Mooseville."

"Tão longe? O que faria com os gatos?"

"Levaria junto."

"Você não tem carro. E não há táxis nas florestas ao norte."

"Eu poderia dar uma entrada num carro — usado, é claro."

"É claro", disse Riker, conhecendo a reputação de parcimonioso do amigo. "E imagino que o gênio felino vai tirar carteira de motorista."

"Koko? Não me surpreenderia. Ele está se interessando por interruptores de pressão, maçanetas, mostradores, alavancas — qualquer coisa mecânica."

"Mas o que você faria, Qwill, num lugar como Mooseville? Você não pesca. Não veleja. Aquele lago é muito frio para nadar. É gelo duro no inverno e gelo derretido no verão."

"Não se preocupe, Arch. Tenho planos e uma ótima ideia para um livro. Gostaria de tentar escrever uma novela — com muito sexo, violência e tudo mais."

Riker só podia olhar e tentar lembrar de mais objeções. "Isso lhe custaria uma barbaridade. Você imagina quanto estão cobrando de aluguel pelas casas de veraneio?"

"Na verdade", disse Qwilleran, com uma nota de triunfo, "não me custará um centavo. Tenho uma velha tia por lá, e ela tem uma cabana que eu posso usar."

"Você nunca me falou dessa velha tia."

"Ela não é minha parente de verdade. Era amiga de minha mãe, e eu a chamava de tia Fanny quando era criança. Perdemos contato, mas ela viu minha assinatura num artigo do Fluxion e me escreveu. Temos nos correspondido desde então... Falando de assinaturas, meu nome saiu errado no jornal de ontem."

"Eu sei, eu sei", disse Riker. "Temos uma nova editora de texto, e ninguém contou a ela sobre aquele W ridículo. Só o pegamos na segunda edição."

A garçonete trouxe o café — uma beberagem preta como o verniz fuliginoso escondido pelo papel de parede — e Riker estudou sua xícara, à procura de pistas para o aberrante comportamento de Qwilleran. "E sua amiga? A que come comida natural. O que ela pensa de sua insanidade temporária?"

"Rosemary? Ela é a favor de ar puro, exercício, e coisas do gênero."

"Você não tem fumado seu cachimbo ultimamente. Foi ideia dela?"

"Você está sugerindo que eu não tenho ideias próprias? Acontece que percebi como é trabalhoso comprar tabaco, encher o cachimbo, calcar, acender, reacender duas ou três vezes, bater as cinzas, esvaziar o cinzeiro, limpar o cachimbo..."

"Você está ficando velho", disse Riker.

Depois do almoço, o crítico de restaurantes voltou para sua escrivaninha verde-oliva, com telefone e videotexto combinando, e o editor-chefe foi a uma reunião de editores assistentes, subeditores, editores de grupo, editores divisionais, editores gerentes e editores executivos.

Qwilleran gostou de ver que sua notícia abalara a calma profissional de Riker. Na verdade as perguntas do editor haviam atrapalhado sua resolução. Como reagiria a três meses de vida simples, depois de toda uma vida no caos urbano? É verdade que tinha planos de escrever durante o verão, mas quantas horas por dia se pode ficar sentado em frente de uma máquina de escrever? Não haveriam almoços no Clube da Imprensa, nem telefonemas, nem noitadas com amigos, nem jantares epicuristas, nem jogos de beisebol de primeira divisão, nem Rosemary.

Contudo, ele precisava de uma mudança. Estava desencantado com o Fluxion, e a oferta de um cantinho à beira do lago por toda a estação agradava à sua natureza parcimoniosa.

Por outro lado, tia Fanny não fizera menção de confortos ou conveniências. Qwilleran gostava de uma cama extra-longa, espreguiçadeiras espaçosas, bons abajures de leitura, uma geladeira decente, muita água quente e encanamentos sem problemas. Ele sem dúvida sentiria falta do conforto de Maus Haus, a pensão glamourosa onde ocupava um apartamento de luxo. Sentiria falta do padrão Robert Maus de jantares elegantes e a camaradagem dos outros inquilinos, especialmente Rosemary.

O telefone verde em sua mesa tocou, e ele respondeu distraído.

"Qwill, você ouviu a notícia?" Era a voz aveludada de Rosemary, mas estava aguda de apreensão.

"O que aconteceu?" Tinha havido dois homicídios em Maus Haus no ano passado, mas o assassino estava atrás das grades, e os residentes já haviam se tranquilizado e viviam com um agradável senso de segurança.

"Robert vai vender o prédio", disse Rosemary queixosamente, "e todos teremos de sair."

"Por que ele está vendendo? Tudo ia tão bem."

"Alguém fez uma ótima oferta pela propriedade. Você sabe que ele sempre quis desistir da advocacia e abrir um restaurante fino. Disse que essa é a sua chance. É um imóvel bem localizado, e um empreiteiro quer construir um grande prédio de apartamentos."

"A notícia é mesmo ruim", concordou Qwilleran. "Robert nos estragou a todos com seu châteaubriand, sua lagosta thermidor e seus fundos de alcachofra à florentina. Por que você não vem até o Número Seis quando chegar em casa? Falaremos sobre isso."

"Vou levar uma garrafa. Ponha os copos para gelar", disse Rosemary. "Acabamos de receber uma remessa de suco de romãs." Ela era co-proprietária de uma loja especializada em comidas chamada Helthy-Welthy, um nome que Qwilleran achava irritante.

Recolocou o fone, pensativamente. A má notícia fora uma mensagem do destino, empurrando-o para o norte. Saiu cedo do escritório naquela tarde, com o saquinho de carne de peru do Clube da Imprensa e uma fita métrica da loja de antiguidades Blue Dragon.

O ônibus de River Road deixou-o numa liquidação de carros usados, onde encaminhou-se diretamente para uma fila de carros pequenos, de pouco consumo de combustível. Metodicamente foi de carro em carro, abrindo a porta e medindo o espaço do soalho atrás do banco do motorista.

Um vendedor, que o estivera observando, apareceu. "Interessado num compacto?"

"Depende", resmungou Qwilleran, com a cabeça enterrada no banco de trás. Tomou nota mentalmente: trinta por trinta e oito.

"Procurando algum modelo em particular?"

"Não." O eixo de transmissão parecia ser o problema. Trinta e três por trinta e oito.

"Você quer automático ou manual?"

"Não faz diferença", disse Qwilleran enquanto se ocupava de novo com a fita métrica. Trinta e três por quarenta. Depois de anos dirigindo carros de empresa de jornais, ele podia dirigir qualquer coisa; sua seletividade tinha ficado embotada.

O vendedor estava estudando o pesado bigode caído e os olhos melancólicos. "Eu conheço você", disse finalmente. "Seu retrato está sempre no Fluxion. Você escreve sobre restaurantes. Meu primo tem uma pizzaria em Happy View Woods."

Qwilleran gemeu nas entranhas de um quatro-portas.

"Eu gostaria de lhe mostrar um carro que acabou de chegar. Nem foi limpo ainda. É um modelo do ano passado — só rodou três mil quilômetros. Veio de um espólio."

Qwilleran seguiu-o até a garagem. Lá estava um duas-portas verde, ainda não vaporizado com o Perfume de Carro Novo. Ele mergulhou no banco de trás com a fita métrica. Depois empurrou o banco do motorista para acomodar suas pernas compridas, e tornou a medir. Trinta e cinco por quarenta. "Perfeito", disse, "embora eu talvez tenha de tirar os puxadores. Quanto é?"

"Venha para o escritório e faremos negócio", disse o vendedor.

O repórter dirigiu o carro verde em volta do quarteirão e notou que ele guinava, pulava, roncava e chocalhava menos que qualquer carro de empresa que havia dirigido. E o preço estava bom. Deu uma entrada, assinou alguns papéis, e voltou dirigindo para casa em Maus Haus.

Como esperava, havia uma carta em sua caixa de correio, de Robert Maus, escrita em seu papel timbrado legal. Explicava com o maior escrúpulo que a propriedade até então conhecida como Maus Haus havia sido subministrada, após devida deliberação, a um sindicato de investidores de fora da cidade que estaria dando andamento a amplos planos que exigiam, lamentava-se, a evicção dos atuais inquilinos em data não posterior a 1º de setembro.

Qwilleran, que tinha rasgado o envelope ali mesmo, deu de ombros e subiu as escadas para seu apartamento no balcão. Ao abrir a porta do Número Seis, estava acompanhado por uma delicada essência de peru que deveria ter atraído os famintos siameses ao seu encontro, dançando em círculos agitados, com ruídos e gemidos, num dueto excitado de antecipação. Em vez disso, os dois ingratos sentaram-se imóveis no tapete branco de pele de urso, numa conspiração de silêncio. Qwilleran sabia porquê. Eles pressentiam uma revolução no seu status quo. Embora Koko e sua cúmplice Yum Yum fossem peritos em aprontar suas próprias surpresas, detestavam mudanças feitas por outros. Em Maus Haus eles estavam muito satisfeitos com o grande e ensolarado peitoril da janela, o contínuo entretenimento proporcionado pelos pombos da vizinhança e o regalo de um tapete de pele de urso.

"Muito bem, vocês aí", Qwilleran disse. "Sei que não gostam de mudanças, mas esperem até ver para onde vamos! Gostaria de poder levar o tapete, mas acontece que não é nosso."

Koko, cujo nome completo era Kao K'o-Kung, tinha a dignidade de um potentado oriental. Sentava-se ereto, mostrando desaprovação em cada fio do bigode. Tanto ele como Yum Yum estavam cônscios de sua magnífica aparência sobre o fofo tapete branco. Ambos tinham a clássica cor e conformação siamesa: olhos azuis e uma máscara marrom-escura, pêlo castanho-claro de uma qualidade que fazia o vison parecer de segunda classe, longas e elegantes pernas marrons e uma graciosa e ágil cauda.

O homem picou o peru para eles. "Venham pegar! Isso foi mesmo cortado de um peru." Os dois siameses mantiveram a fria reserva.

Um instante depois Qwilleran levantou o nariz. Identificara um perfume familiar, e logo Rosemary bateu à porta. Ele cumprimentou-a com um beijo, que foi mais que um descuidado beijinho social. Os siameses sentavam-se imóveis como pedras.

O suco de romãs foi despejado no gelo, com um toque de clube soda, e brindaram ao prédio condenado, em memória de tudo que ali havia acontecido.

"Foi um modo de vida que nunca esqueceremos", Qwilleran disse.

"Foi um sonho", acrescentou Rosemary.

"É um pesadelo ocasional."

"Acho que agora você vai aceitar a oferta de sua tia. Será que o Fluxion vai deixá-lo sair?"

"Claro que sim. Eles podem não me. deixar voltar, mas me deixarão sair. Você fez algum plano?"

"Talvez eu volte para o Canadá", disse Rosemary. "Max quer abrir um restaurante de comida natural em Toronto e, se eu puder vender minha parte na Helthy-Welthy, talvez faça sociedade com ele."

Qwilleran resmungou no bigode. Max Sorrel! Aquele efeminado! Falou: "Eu esperava que você viesse para o norte passar algum tempo comigo."

"Eu adoraria, se não me comprometer em Toronto. Como é que você vai chegar lá?"

"Comprei um carro hoje. Os gatos e eu iremos até Pickax City para cumprimentar tia Fanny e depois seguiremos para o lago. Não a vejo há quarenta anos. A julgar pela sua correspondência, ela é um tipo original. Suas cartas são escritas em cruz."

Rosemary olhou-o sem entender.

"Minha mãe costumava escrever em cruz. Ela escrevia numa página normalmente, depois virava o papel de lado e escrevia por cima das linhas originais."

"Por quê? Para economizar papel?"

"Quem é que sabe? Talvez para preservar a privacidade. Não é fácil de ler... Ela não é realmente minha tia", ele prosseguiu. "Fanny e minha mãe eram voluntárias na primeira grande guerra. Mais tarde Fanny seguiu algum tipo de carreira — e nunca se casou. Depois aposentou-se e voltou a Pickax City."

"Nunca ouvi falar desse lugar."

"Antigamente era um local de mineração. A família dela fez fortuna nas minas."

"Você vai me escrever, Qwill querido?"

"Vou — muitas vezes. Sentirei sua falta, Rosemary."

"Conte sobre a tia Fanny, depois de ter estado com ela."

"Ela chama a si mesma de Francesca, agora. Não gosta de ser chamada de tia Fanny. Diz que a faz parecer uma velha."

"Que idade ela tem?"

"Vai completar noventa anos no mês que vem."

 

Qwilleran colocou a bagagem no carro verde para a viagem rumo ao norte: duas malas, a máquina de escrever, o dicionário de vinte e cinco quilos, quinhentas folhas de papel para datilografia e duas caixas de livros. Como Koko se recusava a comer qualquer produto comercial próprio para gatos, havia vinte e quatro latas de galinha desossada, salmão vermelho, carne salgada, atum branco inteiro, camarão para coquetel e carne de siri do Alasca. No banco de trás estava a almofada favorita dos siameses e, no chão, uma assadeira oval com as alças serradas, para que coubesse entre o eixo de transmissão e o painel inferior da soleira da porta. Dentro havia uma camada de três centímetros de areia. Era a privada dos gatos. Depois que a antiga privada de chapa pintada a mão havia enferrujado, Robert Maus doara a panela de sua cozinha bem sortida.

Os móveis do apartamento de Qwilleran pertenciam a um inquilino anterior, e seus poucos objetos pessoais — como o prato de balança antigo e o brasão de ferro fundido — estavam agora guardados durante o verão no porão de Arch Riker. Assim desembaraçado, o jornalista partiu despreocupadamente para o norte.

Os passageiros do banco de trás reagiram de outro modo. A pequena fêmea miava em tons estridentes sempre que o carro fazia uma curva, cruzava uma ponte, passava sob um viaduto, encontrava um caminhão, ou passava de oitenta quilômetros por hora. Koko ralhava com ela e mordia-lhe a perna de trás, acrescentando rosnados e silvos à algazarra orquestrada. Qwilleran dirigia com os dentes cerrados, aguentando os olhares indignados dos motoristas que passavam por ele, buzinando impacientes e encostando atrás de seu carro, furiosos.

O percurso passava por uma série de subúrbios e depois por estradas sinuosas, em regiões de criação de cavalos. Em seguida vieram temperaturas mais amenas, pinheiros mais altos, sinais de passagem de veados, e mais caminhões. Pickax City ainda estava cento e sessenta quilômetros à frente, quando os nervos abalados de Qwilleran o convenceram a parar para dormir. Os viajantes pararam num campo de turistas, onde as cabanas sem segurança, de uma era pré-motéis, ficavam isoladas numa área de bosques. Os três estavam exaustos, e Koko e Yum Yum dormiram imediatamente, bem no centro da cama.

A jornada do dia seguinte foi marcada por menos protestos no banco de trás. A temperatura caiu mais ainda, e as passagens de veados deram lugar a passagens de alces. A estrada começou a se elevar gradualmente para uma região de morros e de repente mergulhou num vale e transformou-se na artéria principal de Pickax City. Aqui, velhas e majestosas casas, retratando a riqueza dos pioneiros de mineração e de madeireiras, alinhavam-se dos dois lados da rua principal, que se dividia no centro da cidade e rodeava um pequeno parque. Defronte do parque havia vários edifícios imponentes: um tribunal do século XIX, uma biblioteca com colunas de templo grego, duas igrejas e uma majestosa residência com numeração em latão polido, que era a casa da tia Fanny.

Era uma grande mansão quadrada de pedra, com uma garagem separada nos fundos. Uma caminhonete azul estava na entrada de veículos, e um jardineiro cuidava dos arbustos. Ele olhou fixamente para Qwilleran com uma expressão que o jornalista não soube definir. Na porta da frente havia uma caixa de correio antiga, emoldurada em latão, com o nome da família gravado: Klingenschoen.

A velhinha que atendeu à porta era sem dúvida tia Fanny: uma vigorosa senhora de oitenta e nove anos, pequenina, mas cheia de energia. O rosto branco, empoado e enrugado tinha dois riscos de batom laranja e óculos que lhe aumentavam os olhos. Ela fitou o visitante e, depois de focalizá-lo através das grossas lentes, abriu os braços num dramático gesto de boas-vindas. E do peito daquela mulher pequenina brotou uma voz profunda:

"Benza-o Deus! Como você cresceu!"

"Espero que sim", disse Qwilleran, prazenteiro. "Na última vez que você me viu eu tinha sete anos. Como vai, Francesca? Você parece ótima!"

O exótico nome estava em harmonia com a extraordinária indumentária: uma túnica de cetim laranja bordada com pavões e usada por cima de calças pretas. Uma charpa, também laranja, envolvia-lhe a cabeça e estava amarrada para cima de modo a fazê-la parecer mais alta que seu um metro e trinta.

"Entre, entre", disse ela, alegremente, com sua voz profunda. "Nossa, como estou feliz em vê-lo!... Você é igualzinho àquele retrato no Fluxion. Se sua mãe pudesse vê-lo agora, que Deus a tenha! Ela adoraria seu bigode. Quer tomar uma xícara de café? Sei que vocês jornalistas tomam muito café. Vamos para o jardim de inverno."

Tia Fanny liderou o caminho através de uma entrada com uma grande escadaria, passou por uma sala de visitas formal, uma sala de jantar decorada, uma biblioteca apainelada e uma sala de café afogada em chintz, até chegar a uma espaçosa sala com portas envidraçadas, móveis de vime e seringueiras antigas.

Com sua voz profunda ela disse: "Tenho uns bolinhos de canela divinos. Tom apanhou-os na padaria essa manhã. Você adorava bolinhos de canela quando era menino."

Enquanto Qwilleran relaxava num canapé de vime, a anfitriã afastou-se, com seus chinelinhos chineses pretos, desaparecendo numa parte distante da casa, continuando um monólogo que ele só ouvia pela metade. Ela voltou carregando uma grande bandeja.

Qwilleran levantou-se num pulo. "Deixe-me pegar isso, Francesca."

"Obrigada, querido", ela vociferou. "Você sempre foi um menino atencioso. Agora ponha creme no café. Tom comprou-o essa manhã na granja. Não se encontra um creme assim na cidade, querido."

Qwilleran preferia café puro, mas aceitou o creme e, enquanto comia um fofo bolinho de canela, seu olhar vagueou para as portas envidraçadas. O jardineiro estava apoiado no ancinho e olhava para a sala.

"Agora você vai ficar para o almoço", disse tia Fanny, do fundo de uma cadeira de balanço, que engolia toda a sua figurinha. "Tom irá ao açougue buscar um filé. Você gosta de Porterhouse ou Delmonico? Temos um açougueiro maravilhoso. Quer batata assada com creme azedo?"

"Não! Não! Muito obrigado, Francesca, mas estou com dois animais nervosos no carro, e pretendo chegar com eles o quanto antes à cabana. Agradeço o convite, mas fica para uma outra vez."

"Ou talvez prefira costeletas de porco", continuou tia Fanny. "Vou lhe fazer uma bela salada. Que tipo de molho você gosta? Vamos ter crepes suzette para sobremesa. Eu sempre as fazia para meus visitantes, quando estava na faculdade."

Qwilleran pensou: será que ela é surda? Ou não se dá ao trabalho de ouvir? O truque é chamar sua atenção. "Tia Fanny!", ele gritou.

Ela olhou-o sobressaltada com o nome e o tom. "O que foi, querido?"

"Depois que eu estiver instalado", disse ele, em voz normal, "voltarei para almoçar com você, ou você poderá ir até o lago e eu a levarei para jantar. Você tem carro, Francesca?"

"Claro que sim! Tom dirige para mim. Perdi minha licença há alguns anos, depois de um pequeno acidente. O chefe de polícia era uma pessoa muito desagradável, mas nós nos livramos dele, e agora temos um homem encantador. Ele deu o meu nome à sua filha caçula..."

"Tia Fanny!"

"Sim, querido?"

"Pode me dizer como se chega à cabana?"

"Claro. É muito fácil. Vá para o norte até o lago e vire à esquerda. Procure as ruínas de uma chaminé de pedra; foi tudo o que sobrou da velha escola feita de troncos. Então você verá a letra K num poste. Entre na estrada de cascalho e siga por ela através da floresta. É tudo minha propriedade. As cerejas silvestres e grageias estão em flor agora. Mooseville está a apenas cinco quilômetros de lá. Você pode dirigir até a cidade, para restaurantes e compras. Eles têm uma encarregada de correios encantadora por lá, mas não tenha ideias! Ela é casada..."

"Tia Fanny!"

"Sim, querido?"

"Vou precisar de chave?"

"Santo Deus, não! Acho que nunca vi uma chave por lá. É apenas uma velha cabana de troncos com dois quartos com beliche, mas você ficará confortável. Será bom e tranquilo para escrever. Era tranquilo demais para meu gosto. Eu fazia trabalhos no clube em Nova Jersey, sabe, e tinha montes de gente à minha volta o tempo todo. Estou tão feliz que você esteja escrevendo um livro, querido. Qual é o título? Sua mãe ficaria tão orgulhosa de você!"

Qwilleran estava cansado da viagem e ansioso para chegar ao seu destino. Precisou de toda a sua manha para desvencilhar-se da esmagadora hospitalidade de tia Fanny. Ao sair da casa, o jardineiro ocupava-se com alguma coisa no canteiro de tulipas dos degraus da frente. O homem olhou-o fixamente, e Qwilleran cumprimentou-o, brincalhão.

Os passageiros comemoraram sua volta com miados indignados, e os protestos de Yum Yum continuaram por questão de princípio, mesmo não havendo mais curvas, pontes, viadutos, ou caminhões grandes. A estrada percorria uma região erma, algumas partes devastadas por incêndios de matas; esqueletos de árvores destruídas estavam congelados numa dança grotesca. Por trás de uma tabuleta anunciando Pastelões Quentes, um restaurante havia desmoronado e estava coberto de mato. O tráfego era raro, na maioria caminhonetes cujos motoristas acenaram uma saudação para o duas portas verde. Os locais das minas extintas — Dimsdale, Big B, Goodwinter — estavam marcados com tabuletas avisando Perigo — Entrada Proibida. Não havia uma mina Klingenschoen, notou Qwilleran. Virou o ponteiro do rádio para uma estação local mas desligou depressa.

Então a tia Fanny tinha sido uma frequentadora de clube! Ele podia imaginá-la atarefando-se com chás da tarde, dirigindo comitês, usando chapéus floridos, sendo eleita Senhora Presidente, presidindo convenções, organizando bailes de caridade.

Suas reflexões foram interrompidas por um olhar no espelho retrovisor. Estava sendo seguido por uma caminhonete azul. Qwilleran reduziu a velocidade, e a caminhonete fez o mesmo. O jogo continuou por muitos quilômetros até que ele se distraiu com o aparecimento de uma fazenda com diversas varandas. Seus telhados, bem como a fazenda em si, estavam em constante movimento — uma massa cor de bronze, elevando-se e ondulando. "Perus!", ele disse aos passageiros. "Vocês vão morar perto de uma fazenda de perus, seus sortudos."

Quando olhou de novo pelo retrovisor, a caminhonete azul não estava mais à vista.

Mais adiante passou por uma grande propriedade cultivada — gramados bem cuidados e canteiros de flores atrás de uma alta cerca ornamental. Localizados bem no fundo da propriedade havia grandes edifícios de algum tipo de instituição.

A estrada galgou uma colina. Imediatamente duas cabeças ergueram-se no assento de trás. Dois focinhos farejaram a primeira indicação de água, ainda a quase dois quilômetros de distância. Os miados raivosos transformaram-se em guinchos excitados. Depois descortinou-se o lago, um trecho contínuo de plácidas águas azuis alongando-se ao encontro de um céu inacreditavelmente anil.

"Estamos quase lá!", Qwilleran disse aos inquietos passageiros.

O caminho agora seguia ao longo da margem, às vezes perto da praia, outras mergulhando de volta nos bosques. Passaram por um portão rústico que guardava a estrada particular para o Clube Top o' the Dunes. Um quilômetro depois viram as ruínas da chaminé da velha escola — e a letra K no poste. Qwilleran entrou por uma trilha de cascalho que serpenteava através de uma floresta de coníferas e carvalhos. De quando em quando apareciam clareiras ensolaradas cheias de flores silvestres, tocos de árvores e vistosos arbustos floridos. Ele gostaria que Rosemary estivesse junto; ela observava e apreciava tudo. Após galgar uma série de dunas de areia, a estrada terminou subitamente numa clareira com vista para o lago pontilhado de barcos a vela lá longe, perto do horizonte.

Ali, empoleirada no topo da mais alta duna e sobrepujada por pinheiros de mais de trinta metros, estava a pitoresca cabana que seria seu lar durante o verão. Seus troncos e fendas estavam escurecidos pelo tempo. Uma varanda abrigada defronte ao lago prometia horas tranquilas de reflexão e relaxamento. Uma grande chaminé de pedra e uma ampla pilha de lenha sugeriam noites preguiçosas com um bom livro junto a uma lareira acesa.

A entrada da cabana era por uma segunda varanda protegida com tela contra mosquitos, virada para o bosque e para a clareira que servia de estacionamento. Quando Qwilleran se aproximou, um esquilo correu para cima da árvore, olhou para baixo e guinchou. Bandos de pequenos pássaros amarelos passavam e chilreavam. No topo da pilha de lenha um animalzinho marrom sentou-se, ergueu a cabeça e olhou indagadoramente para o homem.

Qwilleran sacudiu a cabeça sem acreditar. Todos esses prazeres misteriosos da natureza, essa pacífica cena campestre — tudo isso era seu por três meses.

Um sino de latão brilhante estava pendurado na entrada da varanda. Sua cordinha pendente o tentou a puxá-la por pura alegria. Ao encaminhar-se para lá, algo viscoso e vivo caiu de uma árvore na sua cabeça. E o que seria aquele furo na porta de tela? Bordas aguçadas estavam viradas para dentro como se alguém tivesse atirado uma bola de boliche através da tela de arame. Abriu a maçaneta da porta e entrou cautelosamente na varanda. Avistou um tapete trançado, móveis resistentes às intempéries e antigos apetrechos rústicos pendurados na parede do fundo — e alguma coisa mais. Sentiu um ligeiro movimento no fundo. Um olho pequeno e redondo brilhou. Um grande pássaro de bico ameaçador estava empoleirado nas costas de uma poltrona, suas garras enfiadas no estofamento de vinil: um falcão? Deve ser um falcão, pensou Qwilleran. Era seu primeiro encontro com uma ave de rapina, e ficou contente por ter deixado os siameses no carro; o pássaro podia estar machucado — e feroz. Era necessário uma grande força para atravessar aquela porta, e os olhos aguçados não eram nada amistosos.

As ferramentas penduradas na parede incluíam um forcado primitivo de madeira, e Qwilleran estendeu a mão devagar para apanhá-lo. Com cuidado abriu a porta de tela e calçou-a. Cautelosamente deu a volta por trás do pássaro, agitando o forcado, e o falcão voou porta afora.

Qwilleran deu um suspiro de alívio no bigode. Bem-vindo ao campo, disse para si mesmo.

Embora a cabana fosse pequena, o interior parecia espaçoso. Um teto sem forro, de pinho nodoso, erguia-se a mais de seis metros no cume, apoiado por feixes de troncos descascados. As paredes também eram de troncos expostos, caiados. Em cima da lareira de pedra havia uma cabeça de alce com uma vasta galharia, ladeada por uma picareta e uma serra com dentes de cinco centímetros. O olfato agudo de Qwilleran sentiu um odor estranho. Animal morto? Encanamento entupido? Lixo esquecido? Ele abriu as portas e janelas e examinou o local. Tudo estava em boa ordem, e logo a ventilação trouxe a frescura do lago e o perfume das flores de cerejeiras silvestres. Depois examinou as telas das janelas, para se certificar de que eram seguras. Koko e Yum Yum eram gatos de apartamento e nunca tinham permissão de sair, e ele não queria arriscar. Procurou alçapões, tábuas soltas e outras saídas secretas.

Só então trouxe os siameses para a cabana. Eles avançaram prudentemente, ventres e caudas baixos, bigodes para trás, orelhas controlando ruídos inaudíveis para os humanos. Mas quando a bagagem foi descarregada do carro, Yum Yum estava em algum lugar lá em cima, pulando feliz de viga em viga, enquanto Koko sentara-se todo arrogante na cabeça do alce, examinando seus novos domínios com aprovação. O alce — com seu longo focinho, narinas largas e boca pendente — tolerou essa afronta com resignação mal-humorada.

A aprovação da cabana por Qwilleran foi igualmente entusiástica. Ele notou o telefone de último tipo no bar, um forno de microondas, uma banheira de hidromassagem e várias prateleiras de livros. Os últimos números das revistas da moda estavam na mesa de café, e alguém tinha deixado uma fita cassete com o concerto de Brahms no toca-fitas. Não havia televisão, mas isso não importava; Qwilleran era apegado à mídia impressa.

Ele abriu uma lata de frango desossado para os companheiros e depois foi de carro até Mooseville para jantar. Mooseville era um povoado de veraneio que se estendia pela margem do lago. De um lado da rua principal havia embarcadouros, barcos e o Hotel Aurora Boreal. Do outro lado da rua havia casas comerciais, a maioria estabelecida em construções de troncos aparentes. Até a igreja era feita de troncos.

No hotel, Qwilleran comeu costeletas de porco medíocres, uma batata assada encharcada e vagens cozidas demais, servidas por uma amável garçonete loura de nome Darlene. Ela o reconheceu pelo retrato no Daily Fluxion e insistiu em lhe servir uma segunda porção de tudo. No escritório ele tinha frequentemente questionado o critério de publicar a foto do crítico de restaurantes, mas era norma do Fluxion publicar fotos dos colunistas e, no Fluxion, normas eram normas.

Não era só o bigode de Qwilleran que o tornava conspícuo no Hotel Aurora Boreal. Numa sala cheia de camisas xadrez, jeans e japonas, seu casaco esporte de tweed e gravata de tricô estavam chocantemente em desacordo. Imediatamente, após a gelatinosa torta de mirtilo, ele foi à General Store e comprou jeans, camisas esporte, tênis... e um boné de viseira. Todos os homens de Mooseville estavam usando um. Havia bonés de beisebol, náuticos, de caça, de cerveja, e bonés com emblemas anunciando tratores, fertilizantes e alimentos. Qwilleran escolheu um cor-de-laranja de caçador, esperando que fosse um disfarce eficiente.

A banca tinha o Daily Fluxion e o Morning Rampage, bem como o jornal local. Ele comprou um exemplar do Fluxion, outro do Pickax Picayune e rumou de volta para a cabana.

No caminho, foi detido por um bloqueio da polícia, mas um policial cortês disse: "Pode seguir, senhor Qwilleran. Veio escrever sobre os restaurantes de Mooseville?"

"Não, estou de férias. O que aconteceu aqui, seu guarda?"

"Apenas jogos de guerra de rotina", brincou o policial. "Temos de nos manter em forma. Aproveite as férias, sr. Qwilleran."

Era junho. Os dias eram longos na cidade e mais longos ainda no interior do norte do país. Qwilleran estava cansado e ficava olhando o relógio e verificando o sol, que relutava em se pôr. Desceu pelo lado da duna, para inspecionar a praia e a temperatura da água. Era gelada, como Riker o prevenira. O lago estava calmo, produzindo um ruído suave ao lamber a praia, e o único som era o zumbido dos mosquitos. Quando Qwilleran subiu furiosamente a colina, já estava sendo perseguido por uma horda alada. Eles acharam rapidamente o buraco na tela e precipitaram-se para a varanda.

Ele saltou cabana adentro, fechou a porta com estrondo e deu um telefonema apressado para Pickax.

"Boa noite", disse uma voz prazenteira.

"Francesca, é só para dizer que chegamos sãos e salvos." Qwilleran falou depressa, esperando que ela compreendesse a mensagem, antes que sua atenção se desviasse. "A cabana é ótima, mas temos um problema. Um falcão atravessou a tela de arame e deixou um enorme buraco. Espantei-o, mas ele já havia emporcalhado o tapete e os móveis."

Tia Fanny recebeu a notícia calmamente. "Não ligue para isso, querido", ela disse gentilmente. "Tom irá amanhã cedo consertar a tela e limpar a varanda. Não há problema. Ele gosta de fazê-lo. Tom é uma joia. Não sei o que faria sem ele. Como estão os mosquitos? Vou mandar Tom lhe levar um inseticida. Você também vai precisar para aranhas e vespas. Avise se as formigas invadirem a cabana; elas são muito possessivas. Não mate as joaninhas, querido. Dá azar, você sabe. Você gostaria de mais fitas cassetes? Tenho algumas.maravilhosas de jazz de Chicago. Você gosta de ópera? Desculpe não ter televisão, mas eu acho que é uma perda de tempo no verão, e você não sentirá falta dela, enquanto estiver ocupado escrevendo seu livro."

Depois da conversa com Madame Presidente, Qwilleran tentou o toca-fitas. Apertou dois botões e conseguiu o Concerto Duplo com excelente fidelidade. Uma vez namorara uma garota que só escutava Brahms, e nunca mais esqueceria o bom e velho Opus

O sol finalmente mergulhou no lago, inundando a água e o céu de rosa e laranja, e ele resolveu ir dormir. Os siameses estavam anormalmente quietos. Geralmente eles entregavam-se a uma corrida final, antes de dormir. Mas onde estavam agora? Não na cabeça de alce nem nas vigas lá em cima. Não na almofada azul que ele colocara em cima da geladeira. Não no par de sofás de linho branco em frente à lareira. Nem nas camas ou nos quartos.

Qwilleran chamou-os. Não houve resposta. Estavam muito ocupados. Agachados no parapeito da janela no quarto do sul, olhavam para algo no lusco-fusco. A propriedade não tinha sido cultivada, e a vista não oferecia qualquer coisa além de uma duna de areia, moitas e coníferas, no entanto, a alguns metros da cabana havia uma depressão na areia — mais ou menos retangular. Parecia uma sepultura afundada. Os siameses haviam-na notado imediatamente; eles sempre detectavam qualquer coisa fora do normal.

"Desçam", disse Qwilleran para eles. "Tenho de fechar a janela para a noite."

Ele escolheu o quarto do norte porque tinha vista para o lago, mas — embora cansado — não conseguiu dormir. Pensava na sepultura. Quem poderia estar enterrado ali? Deveria contar à tia Fanny? Ou deveria pôr-se a cavar? Havia uma cabana de ferramentas na propriedade, e devia ter uma pá.

Ficou se revolvendo por horas. Estava tão escuro! Não havia luzes de rua, anúncios de néon, habitações, lua, nem o brilho de qualquer civilização por perto — apenas total escuridão. E era tudo tão quieto! Não havia farfalhar de árvores, uivo do vento, barulho de ondas, nem zumbido de tráfego de uma estrada distante — apenas o silêncio total. Qwilleran ficou deitado quieto e ouviu o próprio coração batendo.

Então, através do travesseiro ele ouviu um thud-thud-thud irregular. Sentou-se e escutou com cuidado. O thud-thud havia cessado, mas ele podia ouvir vozes — uma voz de homem e o riso de uma mulher. Olhou na janela para a escuridão e viu duas luzes de lanterna balançando na praia, no pé da duna, avançando em direção leste. Deitou-se de novo e, com o ouvido no travesseiro, escutou o thud-thud-thud. Deviam ser passadas na areia dura. O som desapareceu gradualmente.

Era bem depois da meia-noite. Ele se perguntou sobre os vagabundos na praia. Perguntou-se sobre a sepultura. E de repente houve um ruído nos arbustos — alguém subia uma árvore —, passadas no telhado, andando em direção à chaminé.

Qwilleran pulou da cama, berrando uma imprecação que aprendera na África do Sul. Acendeu as luzes. Gritou para os gatos, que dispararam em volta da cabana, num frenesi. Apertou os botões do toca-fitas. Brahms de novo! Bateu violentamente nas panelas e potes na cozinha... as passadas correram pelo telhado; houve um barulho nos arbustos, e depois tudo voltou ao silêncio.

Qwilleran sentou-se e leu pelo resto da noite até que o sol surgiu e os pássaros começaram seu dia gorjeando, chilreando, grasnando e atitando.

 

Mooseville, Terça-Feira

 

Caro Arch,

 Se eu receber qualquer correspondência pessoal, favor encaminhar a/c da posta-restante. Vou apreciar. Chegamos ontem, e estou exausto. Os gatos miaram por todos os setecentos quilômetros e me deixaram louco. E o pior é que comprei um carro onde cabia a caixa de areia deles, e não a usaram nem uma vez! Esperaram até chegarmos ao nosso destino. Siameses! Quem os entende?

 O lugar aqui é lindo, mas não consegui pregar o olho, na noite passada. Estou sofrendo um choque de culturas.

 Por sorte Mooseville recebe a edição interestadual do Fluxion. O Pickax Picayune não passa de um jornaleco.

Qwill.

 

Parecendo fatigado, mas na verdade animado pelo estímulo de um novo ambiente, Qwilleran dirigiu-se a Mooseville para o café da manhã. No caminho foi detido por outro bloqueio da polícia. Dessa vez um sujeito amigável vestido de alce entregou-lhe um panfleto Bem-vindo a Mooseville e insistiu para que visitasse o guichê de informações na rua principal.

No banco, Qwilleran abriu uma conta corrente. Apesar do prédio de troncos ser uma imitação dos antigos, ele podia sentir o aroma característico de dinheiro novo. A caixa era uma loura queimada de sol chamada Jennifer, de amabilidade quase insuportável, que observou estar um tempo ótimo e esperava que ele estivesse indo pescar ou velejar.

No correio foi cumprimentado por uma moça de longos cabelos louros e sorriso estonteante. "Não está um dia maravilhoso?", ela disse. "Não sei se vai durar. Dizem que está vindo uma tempestade. Em que posso servi-lo? Sou Lori, a encarregada do correio."

"Meu nome é Jim Qwilleran", ele disse, "e vou ficar três meses na cabana Klingenschoen. Minha correspondência deverá chegar endereçada à posta-restante."

"É, eu sei", disse ela. "A sra. Klingenschoen nos avisou. O senhor pode ter entrega na zona rural se quiser reservar uma caixa de correio."

Precisamente naquele momento, as narinas de Qwilleran foram agredidas pelo odor mais fétido que jamais havia sentido. Espantado, murmurou um "não, obrigado" e precipitou-se para fora da casa, completamente atordoado. Os outros clientes do correio, que estavam lambendo selos ou abrindo caixas numeradas, saíram discreta mas rapidamente. Qwilleran parou na calçada, aspirando sofregamente o ar fresco; os outros saíram sem comentários nem qualquer reação visível à experiência. Ele não conseguiu atinar com qualquer explicação. Na verdade, havia muitas ocorrências sem explicação nessa região norte do país.

Por exemplo, onde quer que fosse, parecia estar sendo perseguido por uma caminhonete azul. Tinha uma estacionada em frente ao correio com a parte de trás vazia, exceto por uma lona enrolada. Havia outra na frente do banco, carregando pás e um carrinho de mão. Na estrada o motorista de uma caminhonete azul havia buzinado e acenado. E a caminhonete que o seguira na estrada de Pickax, na noite anterior, era azul.

Puxando para os olhos a viseira do boné laranja, aproximou-se de uma cabana de troncos com uma tabuleta recém-pintada: Centro de Informações — Associação de Desenvolvimento do Turista. O interior tinha o cheiro pungente de madeira nova.

Atrás de uma escrivaninha com panfletos de viagem sentava-se um rapaz pálido de barba muito preta e basta cabeleira negra. Qwilleran percebeu que seu próprio cabelo grisalho e bigode cinzento já haviam sido igualmente negros. Perguntou: "É aqui que os turistas vêm para ser desenvolvidos?"

O rapaz encolheu os ombros contrafeito. "Eu disse a eles que devia ser turismo. Mas quem sou eu para dar conselhos à Câmara de Comércio? Apenas um professor de história procurando um emprego de verão. Não está um dia lindo? Em que posso servi-lo? Meu nome é Roger. Não precisa me dizer quem é. Eu leio jornal."

"O Daily Fluxion deve ter uma bela circulação por aqui", disse Qwilleran. "O Fluxion estava quase esgotado ontem na banca, mas ainda havia uma pilha enorme do Morning Rampage."

"Isso mesmo", disse Roger. "Estamos boicotando o Rampage. O editor de viagens fez uma reportagem sobre Mooseville e chamou-a de Mosquitoville."

"Você tem de admitir que eles são abundantes. E grandes."

Roger olhou furtivamente para os lados e disse em voz baixa: "Se você pensa que os mosquitos são ruins, espere até ver as moscas de cervos. Isso é confidencial, claro. Não falamos sobre moscas de cervos. Não é bom para o turismo. Você veio escrever sobre nossos restaurantes?"

"Não, estou de férias. Vou ficar uns três meses. Há um barbeiro na cidade?"

"A Chop Shop do Bob fica em Cannery Mall. É cabeleireiro unissex." Roger passou a Qwilleran outro exemplar do panfleto de Mooseville. "Você gosta de pescar?"

"Posso imaginar muitas outras coisas que preferiria fazer."

"Pescaria em alto mar é uma ótima experiência. Você iria gostar. Pode alugar um barco no embarcadouro municipal e sair por um dia inteiro ou por meio dia. Eles fornecem o equipamento, levam para onde estão os peixes e até ensinam a segurar a vara de pescar. E garantem que você volta com alguns peixes grandes."

"Alguma coisa mais a fazer por aqui?"

"Há o museu; é ótimo em história de naufrágio. Os jardins floridos da prisão estadual são espetaculares, e a loja de presentes da prisão tem alguns bons artigos de couro. Você pode ver os ursos fuçando no lixão da cidade, ou caçar ágatas na praia."

Qwilleran estava estudando o panfleto. "O que é esse cemitério histórico?"

"Não é grande coisa", admitiu Roger. "É um cemitério do século XIX, abandonado nos últimos cinquenta anos. Está meio destruído. Se eu fosse você, faria uma excursão de pesca."

"O que são esses pastelões que todos anunciam?"

"São pastéis fechados recheados com carne, batatas e nabos. Os pastelões são tradicionais aqui. Os mineiros costumavam levar pastelões nas marmitas."

"Onde há um bom lugar para experimentá-los?"

"Com ou sem chapéu?"

"O quê?"

"Quero dizer — temos alguns restaurantes de certa classe, como o salão de jantar do hotel, e temos os do outro tipo — casual — onde os sujeitos não tiram o chapéu para comer. Para um bom lugar sem chapéu você pode tentar um pequeno bistrô em Cannery Mall, chamado Nasty Pasty. Os turistas gostam."

Qwilleran disse que preferia a genuína atmosfera do norte do país.

"Certo. Então faça o seguinte: dirija-se para o oeste, margeando a praia por cerca de dois quilômetros. Você vai encontrar um grande letreiro iluminado anunciando COMID. O A de COMIDA caiu há três anos. É uma pocilga, famosa por seus pastelões, e é estritamente com chapéu."

"Mais uma pergunta." Qwilleran cofiou o bigode, tentativamente, como fazia quando as circunstâncias o incomodavam. "Como é que tem tantas caminhonetes azuis neste lugarejo?"

"Não sei. Nunca notei isso." Roger pulou da cadeira e foi à janela lateral virada para o estacionamento da Taverna Shipwreck. "Tem razão. Há duas caminhonetes azuis no estacionamento... Mas também tem uma vermelha, uma verde-sujo e uma meio-amarela."

"E lá vem outra azul", persistiu Qwilleran. Era a das pás. O homenzinho ágil que desceu do lugar do motorista usava macacão, boné de viseira e enormes bigodes cinzentos sem aparar.

"Aquele é o velho Sam, o coveiro. Ele ainda é bem animado, não? Já passou dos oitenta e toma meio litro de uísque todos os dias, exceto aos domingos."

"Vai me dizer que ainda cavam sepulturas a mão por aqui?"

"Isso mesmo. Sam tem cavado sepulturas e outras coisas durante toda a vida. Isso o mantém jovem... Olhe aquele céu. Vem vindo uma tempestade."

"Obrigado pelas informações", disse Qwilleran. "Acho que vou tentar os pastelões." Olhou para o pulso. "Que horas são? Deixei meu relógio na cabana."

"Isso é normal. Quando os sujeitos vêm para cá, é a primeira coisa que fazem — esquecem de usar o relógio. Depois param de se barbear. Depois começam a comer de chapéu na cabeça."

Qwilleran dirigiu-se para o oeste até topar com o letreiro iluminado reluzindo futilmente sua mensagem ao sol: COMID... COMID... COMID. O estacionamento estava cheio de caminhonetes e furgões. Nenhum azul. Ele pensou: Será que estou ficando paranóico com essas caminhonetes? A resposta foi uma conhecida sensação de desconforto no lábio superior.

O restaurante era uma casa de dois andares precisando de pintura, telhas e pregos. Um ventilador espalhava cheiro de peixe frito e de hambúrgueres fumacentos. Dentro, as mesas estavam repletas, e podia-se entrever bonés vermelhos, verdes, azuis e amarelos através da névoa dos cigarros. A música country no rádio não conseguia competir com o alarido das conversas e risadas.

Qwilleran sentou-se num banco do balcão perto de um cliente com uma faixa do escritório do xerife na manga e um chapéu de aba dura na cabeça.

O cozinheiro saiu da cozinha, arrastando os pés e disse ao delegado: "Vem vindo uma grande por aí."

O chapéu de abas largas acenou afirmativamente.

"Outro bloqueio ontem à noite?"

Duas inclinações de cabeça.

"Acharam algo?"

O chapéu abanou de um lado para outro.

"Todos sabemos para onde vão os malandros."

Outro aceno afirmativo.

"Mas não há provas."

O chapéu registrou negativo.

A garçonete estava em pé, à frente de Qwilleran, esperando silenciosa seu pedido.

"Dois pastelões", disse ele.

"Para viagem?"

"Não. Para comer aqui."

"Dois?"

Qwilleran viu-se acenando uma afirmativa.

"Quer que eu retenha um para mantê-lo quente enquanto come o primeiro?"

"Não, obrigado. Não será preciso."

A conversa nas mesas dizia respeito exclusivamente a pescarias, com muita especulação sobre uma tempestade que se aproximava. O movimento do lago, a cor do céu, o comportamento das gaivotas, a formação das nuvens, o jeito do vento — todos esses fatores convenciam os pescadores veteranos de que uma tempestade se aproximava, a despeito das previsões da estação de rádio local.

Quando os dois pastelões de Qwilleran chegaram, cobriam completamente duas grandes travessas ovais. Cada um dos crocantes pastelões tinha trinta centímetros de comprimento por sete de espessura. Ele examinou o banquete. "Preciso de um garfo", disse.

"É só pegar com as mãos", disse a garçonete e desapareceu na cozinha.

Roger tinha razão. Os pastelões estavam recheados com carne, batatas e muito nabo, que se comparava à cenoura lá no fim da sua lista de alimentos. Ele foi mastigando até o meio do primeiro pastelão, lubrificando cada bocada seca com goles de café fraco, e então pediu que embrulhassem o resto, para levar para casa. Pagou a conta carrancudo, recebendo o troco em notas de dólares que cheiravam a fumo de charuto.

A caixa, uma mulher corpulenta, metida em calças justas e uma camiseta de Mooseville, olhou de soslaio para o boné laranja e disse: "Pronto para o Halloween, querido?"

Relanceando os olhos pela gorda figura, ele pensou numa resposta à altura, mas conteve o impulso.

Voltou para casa com um pastelão e meio embrulhado em papel-manteiga encharcado, e descobriu alguns fatos novos. A tela danificada da varanda havia sido substituída, e os móveis emporcalhados pelo falcão estavam limpos. Havia uma lata de inseticida na cozinha. Cassetes adicionais empilhavam-se sobre o aparelho de som. E seu relógio desaparecera. Ele lembrava claramente de tê-lo colocado numa prateleira do banheiro, antes de entrar no chuveiro. Agora tinha sumido. Era um relógio caro, que lhe fora presenteado pela Associação de Antiquários num jantar em sua homenagem.

Perturbado e aborrecido, sentou-se para pensar. Koko roçou-lhe os tornozelos e Yum Yum pulou no seu colo. Afagou-a distraidamente, enquanto passava em revista as últimas vinte e quatro horas.

Primeiro havia a sepultura; os gatos ainda estavam intrigados e ficavam voltando ao seu ponto de observação na janela do quarto de hóspedes. Depois havia o ruído de passos no telhado; o intruso estava indo em direção à chaminé, quando foi afugentado pela luz e pelo barulho. Naquela manhã tinha sentido um cheiro horrível no correio. E por que Roger o desencorajara de visitar o velho cemitério? O panfleto da Câmara do Comércio o recomendava para entusiastas de história, fotógrafos e artistas interessados em fazer decalques de lápides do século XIX.

E agora seu relógio tinha sido roubado. Ele tinha outro para usar, mas o relógio desaparecido era de ouro e tinha boas memórias. Será que o empregado de confiança de tia Fanny tentaria um roubo tão fácil de ser descoberto? Talvez ele tivesse um ajudante de dedos leves; afinal, muito trabalho havia sido feito em bem pouco tempo.

O devaneio de Qwilleran foi interrompido pelo som de um veículo subindo devagar pela trilha de automóvel, os pneus esmagando o cascalho. Tinha o ronco do motor de um carro caro.

Os gatos ficaram alertas. Koko marchou para a varanda sul, a fim de inspecionar o recém-chegado. Yum Yum escondeu-se sob um sofá.

O homem que saiu do carro era uma visão alarmante nessa região inculta do norte. Usava um terno, obviamente de alfaiate, e uma camisa branca com uma elegante gravata de listras. Havia um leve aroma de colônia, um perfume sóbrio. Seu rosto longo e fino era sombrio.

"Imagino que seja o sobrinho da srta. Klingenschoen", disse ele, quando Qwilleran se adiantou. "Sou o advogado dela..."

"Alguma coisa errada?", Qwilleran interrompeu depressa, alarmado pelo tom fúnebre.

"Não, não, não, não. Eu tinha negócios na vizinhança e apenas parei para me apresentar. Sou Alexander Goodwinter."

"Entre, entre. Meu nome é Qwilleran. Jim Qwilleran."

"Já fui informado. Escrito com um W", o advogado disse. "Eu leio o Daily Fluxion. Todos lemos o Fluxion por aqui, principalmente para nos convencer que temos sorte de viver a seiscentos quilômetros de lá. Quando nos referimos à área metropolitana como Lá Embaixo, não estamos pensando somente na geografia." Ele parecia estar totalmente à vontade na cabana, sentando-se no sofá de Yum Yum e cruzando as pernas confortavelmente. "Acho que há uma tempestade chegando. Elas podem ser bem violentas por aqui."

O jornalista tinha aprendido que qualquer conversa no norte do país começava com comentários sobre o tempo, quase como uma etiqueta. "É mesmo", respondeu ele num floreio declamatório, "a textura do lago e a mobilidade do vento estão um tanto ameaçadoras." O advogado o olhou desconfiado e Qwilleran acrescentou depressa: "Gostaria de lhe oferecer um drinque, mas ainda não tive tempo de me abastecer. Chegamos ontem."

"Foi o que Fanny me disse. É um prazer ter um parente dela por aqui. Ela é muito sozinha — a última dos Klingenschoens."

"Na verdade... não somos... parentes", disse Qwilleran, com um pequeno lapso de concentração. Podia entrever o focinho de Yum Yum emergindo furtivamente sob a saia do sofá, não longe do pé do advogado. "Ela e minha mãe eram amigas, e me encorajaram a chamá-la de tia Fanny. Agora ela rejeita a denominação."

"Fanny é o nome real dela", disse Goodwinter. "Ela era Fanny quando saiu de Pickax para frequentar Vassar ou Wellesley ou seja lá qual for, e era Francesca quando voltou quarenta anos depois." Ele reprimiu o riso. "Acho o nome Francesca uma deliciosa incongruência. Nossa firma administra os negócios legais da família dela há três gerações. Agora minha irmã e eu somos os únicos sócios, e Fanny contratou Penélope para cuidar de seus impostos, ações judiciais e transações com propriedades. Temos insistido para que ela venda este lugar. Quem tem uma propriedade na praia tem uma mina de ouro, devo lhe dizer. Fanny deveria liquidar algumas de suas propriedades para facilitar... ah... futuras providências. Afinal de contas ela está perto dos noventa. Sem dúvida você irá vê-la algumas vezes neste verão, não é?"

"É, ela prometeu vir almoçar aqui, e tenho um convite para um churrasco em Pickax."

"Ah, sim, todos conhecem os churrascos de Fanny", disse Goodwinter, com uma careta divertida. "Ela promete um filé, mas na hora serve ovos mexidos. Suas excentricidades são desculpáveis devido ao seu... ah... ativo envolvimento na comunidade. Foi Fanny que, por assim dizer, chantageou os próceres de Pickax a instalar novos esgotos, consertar as calçadas e solucionar o problema de estacionamento. Uma mulher muito... ah... determinada."

A cabeça de Yum Yum estava agora inteiramente visível, e uma pata começava a aparecer.

O advogado continuou: "Minha irmã e eu estamos esperando que logo você venha compartilhar do nosso pão. Ela lê sua coluna religiosamente e o cita como se fosse Shakespeare."

"Agradeço o convite", disse Qwilleran, "mas não sei se vou ser muito sociável neste verão. Estou ocupado escrevendo." Ele acenou com a mão para a mesa de jantar do outro lado da sala, coberta de livros, máquina de escrever, papel, canetas e lápis. Ao fazê-lo, notou a pata de Yum Yum estendendo-se devagar e cautelosamente para os cordões do sapato do advogado.

"Aplaudo suas intenções", disse Goodwinter. "A musa deve ser servida. Mas lembre-se, por favor: a tranca está aberta na residência Goodwinter." Depois de uma tossida acrescentou: "Você achou Fanny... ah... bem, quando a visitou?"

"Muito bem! Muito ativa e enérgica para uma mulher de sua idade. Só há um problema: é difícil conseguir sua atenção."

"A audição dela é excelente, de acordo com seu médico. Mas a maior parte do tempo parece absorta — num mundo só dela, por assim dizer." O advogado tossiu de novo. "Para ser franco — e falo isto confidencialmente — estamos imaginando se Fanny estaria... ah... bebendo um pouco."

"Alguns médicos recomendam um golinho diário para os mais velhos."

"Bom... é que... o vendedor me informou que ela anda comprando uma quantidade considerável de bebida alcoólica ultimamente. Uma garrafa de um bom xerez costumava bastar-lhe por dois meses, me informaram, mas o criado que faz suas compras tem adquirido bebida de alto teor alcoólico duas a três vezes por semana."

"Provavelmente é ele quem está bebendo", disse Qwilleran.

"Temos nossas dúvidas. Tom tem estado sob severa observação desde que veio de Pickax para trabalhar para Fanny, e todos os relatórios são bons. Ele é um homem simples, mas confiável — um faz-tudo competente e motorista cuidadoso. Os donos dos bares locais me asseguram que Tom nunca bebe mais do que uma ou duas cervejas."

"Que tipo de bebida alcoólica ele tem comprado?"

"Uísque de centeio, gim, scotch. Nenhum rótulo em especial. E só meio litro por vez. Você poderia ter em mente esse assunto confidencial quando visitar Fanny. Todos nós a consideramos um tesouro da comunidade e experimentamos um senso de responsabilidade. Por falar nisso, se ela pedir sua opinião, você poderia sugerir que ela vendesse a mansão de Pickax e mudasse para uma casa menor. Ela teve alguns desmaios recentemente — como ela os descreve. Você vê porque é que estamos todos preocupados com essa notável senhora. Não queremos que algo lhe aconteça."

Depois que o advogado amarrou o cordão do sapato, despediu-se e saiu no seu carro, Koko e Yum Yum olharam esfomeadamente para Qwilleran. Ele raspou o recheio de metade de um pastelão, esmagou-o numa pasta cinzenta, esquentou ligeiramente e despejou no que parecia ser um prato para ragu, feito a mão. Os siameses aproximaram-se da comida devagar, farejaram-na incrédulos, rodearam-na num esforço para compreender seu propósito, afastaram-se desdenhosos e olharam para Qwilleran numa censura silenciosa, sacudindo as patas da frente num gesto de nojo.

"Chega de pastelões", ele disse, e abriu uma lata de salmão vermelho.

O frio da noite estava aumentando, e ele tentou acender a lareira. Havia gravetos e jornais velhos num balde de cobre para carvão, achas de lenha na cesta e fósforos num suporte de latão, mas o papel estava úmido e os fósforos mal acendiam e logo se apagavam. Fez três tentativas e desistiu.

Depois da viagem enervante desde Lá de Baixo e duas noites sem dormir, ele estava cansado. Também estava desorientado pela súbita mudança de calçadas de concreto para dunas de areia, e por circunstâncias estranhas que não compreendia.

Dirigiu-se para a fileira de janelas viradas para o lago — cento e sessenta quilômetros de água e o Canadá na praia do lado oposto. O lago transformava-se gradualmente de prata em turquesa, e em azul profundo. Como Rosemary gostaria desta vista! Enquanto ele tentava imaginá-la através dos olhos dela, ouviu um assobio lúgubre nos topos dos pinheiros mais altos. Não havia brisa — só o assobio sonoro e agudo. Ao mesmo tempo, os siameses — que deveriam estar sonolentos após seu festim de salmão — começaram a rondar inquietos. Yum Yum emitia miados ensurdecedores, sem razão aparente, e Koko dava marradas com a cabeça beligerantemente nas pernas das mesas e cadeiras.

Em minutos o lago mudou para cinza-aço pontilhado de cristas espumosas. Então um vendaval chegou sem aviso. As cristas se transformaram em ondas, arrebentando-se em turbilhões de espuma. Quando os altos pinheiros começaram a balançar, os bordos e bétulas já se vergavam como a relva da praia. De repente a chuva bateu nas janelas com o barulho staccato de uma metralhadora. A tempestade uivava; a rebentação golpeava a praia; galhos de árvore partiam-se e mergulhavam para o chão.

Pela primeira vez, desde a chegada, Qwilleran sentiu-se realmente confortável. Relaxou. A paz e a quietude tinham sido insuportáveis; estava acostumado com barulho e agitação. Ia ser uma boa noite de sono.

Antes, ele teve um impulso de escrever para Rosemary. Colocou uma folha de papel na máquina de escrever e imediatamente o arrancou. Seria mais apropriado escrever com a caneta de ouro que ela lhe dera no seu aniversário.

Remexendo na desordem da mesa de escrever, achou lápis amarelos, grossos lápis pretos do Fluxion, esferográficas baratas e uma velha e enorme caneta-tinteiro vermelha que pertencera à mãe. A fina caneta de ouro de Rosemary havia desaparecido.

 

Qwilleran dormiu bem, embalado pelo furioso tumulto lá fora. Foi acordado logo após o amanhecer pelos acordes de abertura do Concerto Duplo de Brahms. O cassete ainda estava no aparelho, e Koko estava sentado a seu lado, parecendo satisfeito consigo mesmo. Tinha colocado uma pata no botão "power", ativando uma luzinha vermelha, e outra no "play".

A tempestade havia passado, embora ainda pudesse ouvir as árvores pingando no telhado. O vento amainara, e o lago transformara-se num lençol de prata. Por todos os lados se espalhava o gostoso cheiro de mato, depois de uma chuva pesada. Os pássaros rejubilavam.

Mesmo antes de se levantar, os pensamentos de Qwilleran se dirigiram para a caneta e o relógio roubados. Devia relatar o roubo à tia Fanny? Devia confrontar Tom? Nesse novo e desconhecido ambiente, percebeu que tinha de ser cauteloso e diplomático, e que o caso exigia circunspeção e uma certa sutileza.

Koko foi o primeiro a ouvir o barulho se aproximando. Suas orelhas se empinaram e o corpo ficou tenso. Em seguida, Qwilleran ouviu o ronco do motor subindo pela trilha íngreme e sinuosa. Vestiu-se rapidamente, enquanto Koko corria para a porta e reclamava acesso à varanda, seu posto oficial de controle dos visitantes. O bigode formigante de Qwilleran informou-o que seria uma caminhonete azul, e a mensagem estava certa. Um homenzinho velho e atarracado estava tirando uma pá da caçamba da caminhonete.

"Hei, o que está acontecendo?", perguntou Qwilleran. Reconhecera o coveiro do estacionamento da Taverna Shipwreck.

"Tenho de abri-la", disse o velho Sam, encaminhando-se para a sepultura no lado leste da cabana.

"Para quê?" Qwilleran bateu com estrondo a porta da varanda e correu atrás dele.

"Big George está chegando."

"Quem o mandou vir aqui?"

"Big George." O velho Sam cavava furiosamente. "A areia ficou pesada depois da tempestade."

Qwilleran engasgou, procurando as palavras. "O quê? Quem? Olhe aqui! Você não pode cavar nesta propriedade a menos que tenha autorização."

"Pergunte a Big George. Ele é o patrão." A areia voava para fora do buraco raso, que estava ficando mais precisamente regular. Logo a pá atingiu uma laje de concreto. "Aí está ela!" Depois de algumas pazadas mais, o velho Sam saiu do buraco, exatamente quando um velho caminhão-tanque surgiu dirigindo-se pesadamente para a clareira que servia de estacionamento.

Qwilleran foi para a clareira e confrontou o motorista. "Você é Big George?"

"Não, eu sou Dave", disse o homem calmamente, enquanto desenrolava uma grande mangueira. "Big George é o caminhão. A senhora de Pickax, ela ligou ontem de noite. Disse para a gente se mandar para cá rapidinho. Você está entupido?"

"Eu estou o quê?"

"Quando ela chama, nós tratamos de obedecer. Aquela senhora não é de brincadeiras. Devíamos ter esgotado no verão passado, acho eu."

"Esgotado o quê?"

"A fossa séptica. Tivemos de arrancar o Sam da cama, hoje de manhã, com bebedeira e tudo. Ele cava; nós esgotamos. Não há lugar para uma retroescavadeira aqui. Tem muitas árvores. Você é novo por aqui? Sam vai voltar depois para cobri-la. Ele não cobre tudo; fica mais fácil para a próxima vez. A menos que você queira. Então ele nivela."

O velho Sam já tinha ido embora, mas agora uma caminhonete preta apareceu na clareira, dirigida por um rapaz magro de camiseta vermelha, branca e azul e uma cartola de seda.

Qwilleran esbugalhou os olhos. "E quem é você?"

"Little Henry. Está tendo algum problema? A senhora de Pickax disse que você ia pegar fogo a qualquer momento. Puxa, ela é durona. Não aceita desculpas." Ele tirou a cartola e a admirou. "Esta é minha marca registrada. Você viu meus anúncios no Picayune?"

"O que é que você anuncia?"

"Sou o único limpador de chaminés do Condado de Moose. Você deveria pedir uma verificação a cada ano... Não é o seu telefone tocando?"

Qwilleran correu de volta à cabana. O telefone, que ficava no bar que dividia a cozinha da sala de jantar, parara de tocar. Koko tinha tirado o fone do gancho com o focinho e estava farejando o bocal.

Qwilleran agarrou o fone. "Alô, alô! Desça! Alô?" Koko estava brigando pela posse do instrumento. "Desça, droga! Alô?"

"Está tudo bem, querido?", disse a voz profunda, após um momento de hesitação. "A tempestade fez algum estrago? Não se preocupe com isso; Tom vai limpar o pátio. Fique na sua máquina de escrever. Você tem aquele livro maravilhoso para acabar. Sei que vai ser um sucesso. Você viu Big George e Little Henry? Não quero que tenha problemas com os encanamentos ou com a chaminé enquanto estiver concentrado em escrever. Eu lhes disse para irem imediatamente aí ou mandaria cassar suas licenças. Você tem de ser firme com esse pessoal do interior, senão eles vão pescar e o esquecem. Está comendo bem? Comprei alguns daqueles pãezinhos de canela divinos para deixar no seu congelador. Tom me levará aí hoje de manhã, e faremos um almoço agradável na varanda. Vou levar uma cesta de piquenique. Volte para seu livro, querido."

Qwilleran virou-se para Koko. "Madame Presidente vai chegar. Veja se age como um gato normal. Não atenda o telefone. Não toque música. Fique longe do microondas."

Quando Big George e Little Henry acabaram seu trabalho, Qwilleran pôs o boné laranja e foi de carro até Mooseville a fim de colocar no correio uma carta para Rosemary e comprar suprimentos. A lista de compras estava ligada a seus talentos culinários: café instantâneo, sopa enlatada, bife congelado. Para convidados, ele ajuntou um suprimento de bebidas e pacotes de coisas para beliscar.

Na seção de sopas enlatadas do supermercado, notou um rapaz de barba negra e boné amarelo com um emblema de vela de ignição. Olharam um para o outro.

"Olá, sr. Qwilleran."

"Esqueça o senhor. Chame-me Qwill. Você não é o Roger da agência de turismo? Roger, George, Sam, Henry, Tom, Dave... já conheci tantas pessoas sem sobrenomes, é como nos tempos bíblicos."

"O meu é difícil: MacGillivray."

"Verdade? Minha mãe era uma Mackintosh!"

"Não brinca! Do mesmo clã!"

"Certo! Em Culloden em 1746."

"Dezesseis de abril."

Suas vozes tinham se erguido gradualmente com a surpresa e o prazer, para espanto dos outros clientes. Os dois homens apertaram-se as mãos e deram-se tapas nas costas.

"Espero que esteja comprando sopa escocesa", disse Roger.

"Por que não jantamos juntos qualquer noite?", sugeriu Qwilleran. "Se possível, não no COMID."

"Que tal hoje? Minha mulher está fora da cidade."

"Que tal o restaurante do hotel? Sem chapéu."

Qwilleran voltou à cabana para tomar um banho e fazer a barba, em preparação para a visita de tia Fanny e o notável Tom — jardineiro, motorista, faz-tudo, menino de recados, e talvez ladrão. Logo antes do meio-dia, uma limusine preta avançou devagar pelas curvas da trilha e emergiu triunfalmente na clareira. O motorista, metido em roupas de trabalho e um boné azul de viseira, saiu e deu a volta para abrir a porta do passageiro.

De dentro saíram mocassins indígenas de contas, uma saia de camurça franjada, uma jaqueta de couro com mais franjas e contas, depois o rosto empoado de tia Fanny encimado por um turbante indígena vermelho. Qwilleran notou que ela tinha pernas bem torneadas para uma octogenária que logo seria nonagenária.

"Francesca! Que prazer vê-la de novo!", exclamou. "Você está me parecendo muito... muito... sexy."

"Deus o abençoe, querido", disse ela, na sua surpreendente voz de barítono. "As velhinhas são geralmente chamadas de 'alegres' ou 'ativas', e vou dar um tiro no primeiro que o fizer." Ela procurou na bolsa franjada de camurça e tirou uma pistola pequena de coronha dourada, que brandiu com desembaraço.

"Cuidado!", gritou Qwilleran.

"Meu Deus! A tempestade fez muitos estragos. Aquele pinheiro está quase sem galhos. Temos de removê-lo... Tom, venha conhecer o famoso sr. Qwilleran."

O criado avançou obedientemente, tirando o boné azul que anunciava uma marca de fertilizante. Era difícil imaginar sua idade. Um velho de vinte anos ou um jovem de quarenta? O rosto redondo e barbeado e os olhos azuis-claros tinham uma expressão de serena admiração.

"Esse é Tom", disse tia Fanny. "Tom, pode apertar a mão do sr. Qwilleran; ele é um membro da família."

Qwilleran apertou uma mão forte mas desacostumada a gestos sociais. "Como vai, Tom. Ouvi falar muito bem de você." Pensando no relógio e na caneta desaparecidos, ele olhou de forma perscrutadora nos olhos do homem, mas seu olhar aberto e inocente era franco. "Você fez um belo serviço na varanda ontem, Tom. Como conseguiu fazer tanto trabalho em tão pouco tempo? Tinha um ajudante?"

"Não", disse Tom devagar. "Não tinha. Gosto de trabalhar. Gosto de dar duro." Ele falava numa voz suave e musical.

Tia Fanny colocou algo na mão dele. "Vá até Mooseville, Tom, e compre para você um belo pastelão e uma cerveja, e volte daqui a duas horas. E tire a cesta de piquenique do carro, antes de sair."

"Tom, sabe que horas são?", perguntou Qwilleran. "Perdi meu relógio."

O caseiro olhou para o céu procurando o sol, que se escondia atrás dos altos pinheiros. "É quase meio-dia", disse ele, suavemente.

Ele saiu dirigindo a limusine, e tia Fanny disse: "Eu trouxe alguns sanduíches de salada de ovos e uma térmica com café com um creme maravilhoso. Vamos nos sentar na varanda e apreciar o lago. A temperatura está perfeita. Onde estão aqueles gatos inteligentes de que tanto ouvi falar? E onde é que você escreve? Confesso que tenho muita admiração por seu talento, querido."

Como jornalista, Qwilleran era perito em entrevistar gente difícil, mas foi derrotado por tia Fanny. Ela tagarelava sem parar sobre naufrágios no lago, ursos na floresta, peixes mortos na praia, lagartas nas árvores. Ignorava ou se esquivava de algumas perguntas. Madame Presidente liderava a conversa.

Em desespero, Qwilleran finalmente bradou "Tia Fanny!" Quando ela fez uma pausa, surpresa, ele continuou: "O que sabe sobre Tom? Onde o achou? Há quanto tempo ele trabalha para você? Ele é de confiança? Ele tem acesso a esta cabana quando não estou aqui. Não pode me culpar por querer saber."

"Meu pobre querido", disse ela. "Você sempre viveu em cidades. A vida é diferente no campo. Nós confiamos uns nos outros. As pessoas entram na sua casa sem bater. Se você não está e eles querem pedir um ovo emprestado, pegam-no. É uma maneira amiga de se viver. Não se preocupe com Tom. É um ótimo rapaz. Faz tudo que o mando fazer, e nada mais."

Um sino tocou — o som cristalino do sino da varanda sul.

"É Tom", disse ela. "Está bem na hora. Ele não é uma maravilha? Vá e fale com ele enquanto vou empoar o nariz. Foi uma visita muito agradável, meu querido."

Qwilleran foi até o pátio. "Olá, Tom. Você está bem na hora, mesmo sem relógio."

"É, eu não preciso de relógio", disse ele serenamente, o rosto brilhando de orgulho. Afagou o sino de latão. "É um belo sino. Limpei ele ontem. Gosto de limpar coisas. Eu mantenho a caminhonete e o carro muito limpos."

Qwilleran estava fascinado pela inflexão monótona da voz dele.

"Eu vi sua caminhonete em Pickax. É azul, não é?"

"É. Gosto de azul. É como o céu e o lago. Muito bonitos. Esta é uma cabana bonita. Eu virei e limparei para o senhor."

"É uma oferta amável, Tom, mas não venha a não ser que eu o chame. Estou escrevendo um livro, e não gosto de ter gente em volta quando escrevo."

"Eu gostaria de saber escrever. Gostaria de escrever um livro. Seria bom."

"Cada um tem seus talentos", disse Qwilleran, "e você tem muitas habilidades. Deveria estar orgulhoso de si mesmo."

O rosto de Tom brilhou de prazer. "É, eu posso consertar qualquer coisa."

Tia Fanny apareceu, despediram-se, e a limusine moveu-se cuidadosamente pela trilha.

Os siameses, que tinham estado invisíveis nas últimas duas horas, materializaram-se do nada. "Vocês não foram muito sociáveis", disse Qwilleran. "O que acharam da tia Fanny?"

"MIAU!", fez Koko, sacudindo-se vigorosamente.

Qwilleran lembrou-se de ter oferecido à tia Fanny um drinque, antes do almoço — uísque sour, ou gim tônica, scotch e soda ou xerez seco. Ela recusara todos.

Ainda tinha quatro horas livres antes do jantar com Roger, e nenhum incentivo para começar a página um do capítulo um do livro que supunham estivesse escrevendo. Poderia ir espiar os ursos no lixão da cidade, ou visitar os canteiros de flores da prisão, ou estudar história de naufrágios no museu, mas foi o cemitério abandonado que tentou sua imaginação, mesmo Roger tendo sido contra — ou talvez porque Roger fora contra.

O panfleto da Câmara de Comércio dava as indicações: vá em direção leste na estrada de Pickax e vire para o sul por oito quilômetros; entre no cemitério por uma estrada de terra (não marcada) e através de um portão de pedra.

A estrada passava por terrenos ajardinados que evidentemente faziam parte do recinto da prisão. Passaram pela fazenda de perus, e Qwilleran diminuiu a velocidade para olhar o mar de dorsos de penas bronzeadas ondeando no terreiro. A sua frente uma caminhonete emergia de uma estrada vicinal e avançava em sua direção, uma daquelas onipresentes caminhonetes azuis. Quando ela passou, acenou para o motorista mas não obteve resposta. Ao chegar ao portão de pedra, percebeu que a caminhonete viera do cemitério.

O acesso ao cemitério era meramente uma trilha, sulcada e enlameada depois da tempestade. Ela entrava pelo mato com uma clareira aqui e ali, suficiente apenas para um carro manobrar e estacionar; e havia sinais de piqueniques e de cervejas bebidas. Finalmente a trilha ramificou-se em várias direções através de um prado pontilhado de lápides. Qwilleran seguiu os sulcos que pareciam ter sido usados recentemente.

Quando as marcas de pneus cessaram, saiu do carro e explorou o cemitério, que estava sufocado pelo mato alto e trepadeiras. Teve de arrancá-los para ler as inscrições dos túmulos menores: 1877-1879, 1841-1862, 1856-1859. Quantas crianças estavam enterradas aqui! Quantas mulheres haviam morrido na casa dos vinte anos! Os maiores monumentos familiares tinham nomes como Schmidt, Campbell, Trevelyan, Watson.

O mato calcado por pés marcava uma pequena trilha que ia para trás do túmulo Campbell, e quando ele a seguiu, achou sinais de escavação recente. Ervas secas tinham sido jogadas por cima do solo recém-revirado, mal ocultando a tampa plástica marrom de uma lata de lixo. A lata propriamente, com cerca de cinquenta litros de capacidade, estava enterrada no solo. Qwilleran retirou a tampa com cuidado. Estava vazia.

Ele deixou o esconderijo como estava antes e voltou para casa, imaginando quem enterraria uma lata de lixo num cemitério — e por quê. A única pista era um tremor no seu lábio superior.

Antes de ir jantar em Mooseville, preparou um prato de atum para os siameses. "Koko, você não está merecendo seu sustento", disse. "Coisas estranhas estão acontecendo, e você não me veio com uma única pista." Koko apertou os olhos azuis languidamente. Talvez seus dias de detetive tivessem acabado. Talvez tivesse se convertido apenas num consumidor exigente de comidas caras.

Nesse momento as orelhas de Koko empinaram-se, e ele saltou para seu observatório. O ronco distante de um veículo que se aproximava foi ficando cada vez mais alto, até parecer um tanque russo. Uma caminhonete vermelha apareceu, seguida de um trator amarelo com uma complicada superestrutura.

O motorista da caminhonete desceu e disse a Qwilleran: "Você tem um pinheiro que está quase caindo em cima da casa? Tivemos um chamado de urgência de Pickax. Algo sobre as linhas de força. Temos de derrubar a árvore e serrá-la."

O trator ergueu a caçamba; as serras de cadeia gemeram; três homens de bonés de viseira gritavam; Yum Yum escondeu-se sob o sofá, e Qwilleran escapou para Mooseville, meia hora antes da hora marcada para o jantar.

O Hotel Aurora Boreal era uma relíquia do ano de 1860, quando a cidade era um porto florescente de embarque de madeira e minério. Era o tipo da estrutura de prédio que devia ter se incendiado há um século, mas fora milagrosamente preservada. O formato era de uma caixa de sapatos com janelas, mas uma varanda havia sido adicionada nos fundos, com vista para os desembarcadouros. Qwilleran sentou-se numa das cadeiras rústicas e entregou-se ao seu passatempo favorito: bisbilhotar.

Duas vozes ali perto discordavam e censuravam. Sem ver a fonte, Qwilleran imaginou que o homem era gordo e de rosto vermelho, e a mulher magricela e meio surda.

"Esta cidade é uma droga", disse o homem, numa voz entrecortada e ofegante. "Não há nada para fazer. Poderíamos (arquejo) ter ficado em casa sentados no quintal. Teria sido (arquejo) mais barato."

A mulher respondeu numa voz esganiçada, francamente indiferente. "Você disse que queria pescar. Não sei por quê. Sempre detestou pescar."

"Seu irmão tem contado vantagem da pesca por aqui (arquejo) há seis anos. Eu queria mostrar que ele não é o único (arquejo) que sabe pescar truta."

"Então por que não contrata um barco de aluguel, como o homem disse, e para de resmungar?"

"Já disse — é muito caro. Você viu quanto eles querem (arquejo) por meio dia? Poderia comprar um cruzeiro (arquejo) no Caribe com esse dinheiro."

Qwilleran tinha verificado os preços ele próprio e os achara meio exorbitantes.

"Então vamos voltar para casa", insistiu a mulher. "Não tem sentido ficar por aqui."

"Depois de dirigir toda essa distância? Sabe quanto gastamos de gasolina (arquejo) para chegar aqui?"

Roger apareceu nesse momento, usando um boné preto de beisebol.

"Vejo que está vestido a caráter", disse Qwilleran. "Você não me disse que era formal."

"Eu os coleciono", explicou Roger. "Até agora tenho dezessete. Se você tiver inimigos, deixe-me alertá-lo sobre seu boné laranja; você é um alvo perfeito."

Penduraram os bonés junto com dezenas de outros numa fileira de ganchos fora da sala de jantar do hotel, depois sentaram-se numa mesa lateral sob um enorme e trágico quadro de uma escuna de três mastros afundando num mar revolto.

"Bem, tivemos um dia perfeito", disse Qwilleran, começando com as notícias obrigatórias do tempo. "Ensolarado. Brisa agradável. Temperatura ideal."

"É, mas a neblina está começando a descer. De manhã você não conseguirá enxergar um palmo diante do nariz. Não é bom para a pesca de corrico."

"Se quer saber, Roger, os quadros desta sala não são nada bons para a pesca de corrico. Cada tela na parede mostra algum tipo de desastre no mar. Além disso, os barcos de aluguel cobram demais — quero dizer, demais para alguém como eu que não está realmente interessado em pescar."

"Você devia experimentar uma vez", insistiu Roger. "A pesca de corrico é muito mais emocionante, sabe, do que ficar sentado num barco a remo com uma minhoca no anzol."

Qwilleran olhou o menu. "Se o lago está cheio de peixes, por que não há nenhum produto local no menu? Nada a não ser linguado da Nova Escócia, salmão do Rio Columbia, ou bacalhau de Boston."

"Aqui só temos pesca de esporte. As peixarias comerciais da praia pegam na rede toneladas de peixes e mandam para fora."

Para Nova Escócia, Massachusetts e o Estado de Washington, pensou Qwilleran.

Roger pediu um bourbon com água; Qwilleran, seu suco de tomate habitual. Um casal com ar mal-humorado sentava-se numa mesa vizinha, e ele notou, presunçoso, que o homem tinha o rosto vermelho e era obeso, e a mulher usava um aparelho de surdez.

Roger disse: "É só isso que você bebe? Pensava que os jornalistas eram grandes bebedores. Estudei jornalismo antes de resolver ser professor de história... Ei, você me fez ficar contando caminhonetes azuis, e descobri que tem razão. Minha mulher diz que os povos de climas setentrionais gostam de azul... Você mora sozinho?"

"Não de todo. Adotei um casal de gatos siameses despóticos. Um ficou órfão como resultado de um assassinato em meu plantão. A fêmea foi abandonada quando era pequenina. São ambos de raça pura, e o macho é mais esperto do que eu."

"Tenho um cão de caça, um brittany spaniel", disse Roger. "Sharon tem um scottie... Você já foi casado, Qwill?"

"Uma vez. Não tive muito sucesso."

"O que aconteceu?"

"Ela teve um esgotamento nervoso, e eu tentei afogar meus problemas no álcool. Você faz muitas perguntas, Roger. Devia ter ficado com o jornalismo." O jornalista disse isso de bom humor. Tinha passado toda a vida fazendo perguntas, e agora gostava de ser interrogado.

"Você se casaria de novo algum dia?"

Qwilleran permitiu que um vislumbre de sorriso lhe crispasse o bigode. "Há três meses, eu teria dito não; agora, não tenho certeza." Esfregava as costas das mãos, enquanto falava; estavam começando a coçar. O barman do Clube da Imprensa havia predito que ficaria com urticária de tanto beber suco de tomate, e talvez Bruno tivesse razão.

O homem gordo da mesa vizinha parecia estar ouvindo, por isso Qwilleran baixou a voz. "A polícia fez um bloqueio na estrada na segunda à noite. Por que foi? Não havia nada no jornal ou no rádio."

Roger deu de ombros. "Os bloqueios são uma atividade social por aqui, como os jantares de comida caseira. Acho que os guardas os fazem de vez em quando para animar as coisas."

"Está me dizendo que não há crimes suficientes no Condado de Moose para mantê-los ocupados?"

"Não como vocês têm na cidade. Os caras da conservação pegam alguns caçadores furtivos, e as coisas ficam barulhentas na taverna Shipwreck nas noites de sábado, mas os guardas passam a maior parte do tempo atrás de acidentes — de um carro só, principalmente. Alguém que dirige depressa demais e tromba num alce, ou garotos que tomam algumas cervejas e se enrolam numa árvore. Também há muito trabalho de salvamento no lago; o xerife tem dois barcos e um helicóptero."

"Não há problema de drogas?"

"Talvez os turistas fumem alguns cigarros estranhos, mas sem problemas realmente. O que me preocupa é o saque a barcos naufragados. O lago está cheio de navios afundados. Alguns deles soçobraram há centenas de anos, e suas cargas constam nos arquivos públicos. Os saqueadores têm um equipamento sofisticado de mergulho — vestimentas para água fria, material eletrônico, e tudo mais. Há cargas valiosas lá embaixo, e eles estão despojando os destroços em proveito próprio."

"Isso não é ilegal?"

"Ainda não. Se tivéssemos uma reserva subaquática protegida por lei, seria um enorme incremento para o turismo. Poderia ser usada por historiadores marítimos, arqueólogos e mergulhadores esportivos."

"O que os está segurando?"

"O dinheiro! Precisaríamos de dezenas de milhares para uma pesquisa arqueológica. Depois teríamos de fazer lobby para a legislação."

Qwilleran disse: "Seria uma lei muito difícil de fazer cumprir. Vocês precisariam de mais barcos, helicópteros e pessoal."

"Certo! E aí já não haveria mais carga afundada a proteger."

Os homens tinham pedido uma segunda rodada de bebidas, mas Qwilleran parou de tomar seu suco de tomate. Sub-repticiamente esfregava as mãos que coçavam sob a mesa.

Roger baixou a voz. "Está vendo aqueles dois caras sentados perto da porta? São mergulhadores em destroços de naufrágios. Provavelmente saqueadores."

"Como sabe?"

"Todo mundo sabe."

Quando a comida foi servida, Qwilleran classificou-a com um C de comível, mas a conversa foi instrutiva. Ao final da refeição, ele comentou com Roger: "Você acha que pode haver um gambá vivendo sob o correio? Fui lá ontem, e o cheiro expulsou todo mundo do edifício."

"Provavelmente algum criador de porcos apanhando sua correspondência", disse Roger. "Se eles vêm à cidade com as roupas de trabalho, todo mundo sai ventando. Você não acreditaria no modo como alguns dos filhos deles vêm à cidade. Nem todos são assim, é claro. Um de meus companheiros de caça cria porcos. Sem problemas."

"Outro mistério: um falcão voou através de uma porta de tela de arame na cabana e deixou um buraco enorme. Não posso imaginar como foi."

"Ele estava mergulhando para apanhar algum coelho ou esquilo", explicou Roger, "e não brecou suficientemente rápido."

"Você acha?"

"Claro! Já vi um falcão apanhar um gato. Eu estava caçando e ouvi algo miando no céu. Olhei para cima e lá estava o pobre do gato."

Qwilleran pensou em Yum Yum e contorceu-se inquieto. Houve um momento de silêncio, e então ele disse: "Umas noites atrás, ouvi passos no telhado no meio da noite."

"Um guaxinim", disse Roger. "Um guaxinim no telhado de uma cabana como a sua parece um lutador japonês com botas espaciais. Eu sei como é! Meus sogros têm um chalé perto do seu. Uma vez tiveram uma família inteira de guaxinins na chaminé."

"Seus sogros dão grandes festas? Ouvi uns risos histéricos bem tarde da noite."

"Foi um mergulhão que você ouviu. É um pássaro doido."

A neblina se adensava, e a vista da sala de jantar estava obscurecida. Qwilleran falou que devia voltar à cabana.

"Espero que minha mulher não tente voltar dirigindo para casa hoje", disse Roger. "Ela foi fazer compras Lá Embaixo. Ela tem uma lojinha de velas e presentes na avenida. Que tal este porta-notas? É da loja de Sharon." Ele pagou sua parte da conta com notas de um grande grampo de papel que parecia de ouro.

Qwilleran voltou para casa a trinta quilômetros por hora, com a neblina enrodilhando-se na frente do para-brisa. A estrada particular para a cabana estava ainda mais perigosa, com troncos de árvore surgindo de repente, onde não se supunha estarem. Ao estacionar o carro, pensou ter visto duas figuras afastando-se da cabana, ladeira abaixo, em direção à praia.

"Ei!", ele chamou. "Vocês aí!" Mas eles desapareceram na neblina.

Dentro da casa, primeiro verificou o paradeiro dos siameses. Koko estava encolhido na cabeça de alce, e Yum Yum saiu cautelosamente de sob o sofá. Nada parecia ter sido mexido, mas ele sentiu o aroma de fumo de cachimbo. No quarto de hóspedes havia uma pequena depressão numa das camas, onde os gatos costumavam cochilar, e uma de suas meias marrons estava no chão. Yum Yum tinha paixão por suas meias. Tudo o mais parecia estar em ordem.

Então ele achou uma nota na cozinha, escrita numa de suas folhas de datilografia: "Bem-vindo às dunas. Sou a sogra de Roger. Veja o embrulho de alumínio na sua geladeira. Achei que gostaria de peru assado. Venha nos visitar."

Era tudo. Não havia nome. Qwilleran examinou o refrigerador e encontrou um generoso suprimento de peito de peru fatiado e pedaços de carne escura. Quando começou a picar uma porção deles para o jantar dos gatos, Yum Yum guinchava em antecipação, e Koko pulava para frente e para trás, modulando uma ária de miados, em voz de tenor e estáticas guturais.

Qwilleran olhou-os comer, mas seu pensamento estava longe. Gostara de Roger. Menos de trinta anos, cabelos negros como carvão, era uma boa idade. Mas o rapaz tinha sido singularmente escorregadio no assunto de falcões, mergulhões, guaxinins, caminhonetes azuis e bloqueios de polícia. Quantas de suas respostas tinham sido no interesse do turismo? E se o panfleto oficial encorajava os turistas a visitarem o velho cemitério, por que Roger tentara desencorajá-lo? Ele sabia algo sobre a lata de lixo? E se não havia crimes no Condado de Moose, por que tia Fanny fazia questão de carregar um revólver?

 

Qwilleran foi acordado por Yum Yum sentada no seu peito, os olhos azuis transmitindo uma mensagem subliminar: café da manhã. A visão do lago pelas janelas do quarto fora substituída por uma brancura total. A neblina descera sobre a praia como um manto sufocante. Não havia qualquer brisa ou som.

Qwilleran tentou acender a lareira para dissipar a umidade, usando o jornal de quarta-feira, e algumas caixas de fósforos do hotel, mas nada funcionou. Sua maior preocupação era a condição das mãos e pulsos. A coceira era insuportável, e estavam se formando bolhas do tamanho de fichas de pôquer. Além disso, estava começando a sentir coceiras por todo o corpo.

Vestiu-se sem se barbear, alimentou os gatos sem cerimônias e — nem sequer lembrando de usar o boné novo — pegou o carro e dirigiu apreensivo pela atmosfera leitosa.

Havia uma drogaria na rua principal, e ele mostrou as bolhas ao farmacêutico. "Você tem algum remédio para isto?"

"Caramba!", disse o farmacêutico. "É o pior caso de irritação com urtiga que já vi. É melhor você tomar uma injeção."

"Há um médico na cidade?"

"Há um ambulatório em Cannery Mall. Você conhece o Mall? A dois quilômetros além da cidade — uma antiga fábrica de enlatados de peixe transformada em lojas e afins. Nessa neblina você não poderá vê-lo, mas vai sentir o cheiro."

Quase não havia veículos à vista na rua principal. Qwilleran ficou na faixa amarela, olhando o hodômetro, e na marca dos dois quilômetros não teve mais dúvida que chegara a Cannery Mall. Estacionou em diagonal entre duas linhas amarelas e seguiu o aroma até um grupo de portas envidraçadas abrindo para uma galeria.

A clínica médica, cheirando apropriadamente a antisséptico, estava deserta, com exceção de uma moça despretensiosa, sentada atrás de uma mesa. "Há um médico por aqui?", ele perguntou.

"Eu sou o médico", ela respondeu, olhando para as mãos dele. "Onde é que conseguiu arrumar esse magnífico caso de envenenamento com urtiga?"

"Acho que o apanhei no cemitério."

"Mesmo? Não acha que está um pouco velho para esse tipo de coisa?" Ela olhou-o maliciosamente.

Ele estava muito indisposto para apreciar o gracejo. "Eu estava olhando as lápides antigas."

"Uma história verossímil. Venha para a sala de tortura, e lhe darei uma injeção." Ela também lhe deu um tubo de loção e uns conselhos: "Não ponha as mãos na água quente. Evite banhos de chuveiro quentes. E afaste-se de cemitérios antigos."

Ao sair da clínica, Qwilleran estava de mau-humor. Achava que a médica deveria ter sido menos irreverente e mais compreensiva. Mas, enquanto voltava devagar para a cidade em meio à neblina, a medicação começou a surtir efeito, trazendo não só alívio, mas uma inebriante euforia, e ele lembrou-se que a médica tinha lindos olhos verdes e os cílios mais longos que já vira.

No hotel, onde parou para tomar café e ovos, quatro homens na mesa vizinha estavam se queixando do tempo. "Os barcos não querem sair nessa neblina. Vamos pegar uma garrafa de vinho tinto e jogar cartas."

Na mesa de trás da sua, uma voz familiar disse: "Não vamos embora daqui (arquejo) até conseguirmos pescar."

Uma voz esganiçada e monótona respondeu: "Por que você é tão teimoso? Você nem gosta de pescar."

"Isso é diferente, eu já disse. Sairemos num barco de pesca de onze metros de comprimento e talvez pesquemos trutas de dez quilos."

"Você disse que era muito caro."

"Os preços no embarcadouro principal são um roubo, mas achei um barco (arquejo) que nos levará por quinze dólares."

A natureza parcimoniosa de Qwilleran farejou uma oportunidade, e a combinação da medicação com a atmosfera insólita emprestou-lhe um sentimento de imprudente alvoroço. Quando o casal saiu da sala, ele o seguiu.

"Desculpe, senhor, mas será que ouvi falar algo sobre um barco de pesca mais barato?"

"Ouviu sim! Quinze dólares por seis horas. Dividido por três (arquejo) fica em cinco dólares por pessoa. Nada mau. Os donos do barco (arquejo) são dois rapazes. Está interessado?"

"Esse tempo é bom para pescaria?"

"Os rapazes dizem que não faz qualquer diferença. A propósito", ele ofegou, "meu nome é Whatley — de Cleveland — vendedor de ferragens." Ele apresentou a mulher, que foi muito fria, e ofereceu-se para dirigir, já que sabia o caminho do embarcadouro. "O barco fica atracado fora da cidade. É por isso (arquejo) que é mais barato. A gente tem de pesquisar para fazer um bom negócio."

A viagem até o embarcadouro transcorreu arrastada e agoniada, entre nuvens baixas. Num momento as cinco letras gigantes do COMID brilharam fracamente através da névoa. Mais adiante, Cannery Mall se anunciou apesar do prédio estar invisível. Depois foram quilômetros de nada.

Cada quilômetro parecia cinco. Whatley dirigia carrancudo. Ninguém falava. Qwilleran forçava os olhos, olhando a estrada à frente, temendo dar de cara com um par de faróis amarelos de neblina ou com as súbitas luzes de trás de um caminhão de madeira enguiçado.

"Como vai saber que chegou?", perguntou.

"Não tem erro. Há uns destroços de barco (arquejo) onde devemos sair da estrada."

Quando os destroços finalmente surgiram na neblina, Whatley entrou por uma vereda pantanosa, margeando um canal cheio de mais destroços.

"Estou arrependida de ter vindo", anunciou a sra. Whatley na sua primeira declaração do dia.

Onde a vereda terminava, um embarcadouro mal seguro avançava para dentro do lago, e os três marinheiros de água doce tatearam seu caminho pelas pranchas apodrecidas. A água lambia as estacas num sussurro líquido, e um casco podia ser ouvido rangendo contra o molhe.

Qwilleran já tinha visto a frota de pesca reluzentemente branca no embarcadouro municipal. Barcos de nomes como Lady Aurora, Rainha do Lago e Princesa do Norte exibiam cartazes, gabando-se de seus rádios barco-terra, sonares de pesca, sondas de profundidade e pilotos automáticos. Por isso não estava preparado para o Minnie K. Era uma velha banheira cinzenta, coberta de crostas de tinta descascando. Incrustações no convés e nas amuradas traziam à lembrança visitas de gaivotas e tripas de peixes mortos. Os dois tripulantes, presentes de um modo meio vago, eram tão esfarrapados quanto sua embarcação. Um deles tinha cerca de dezessete anos, imaginou Qwilleran, e o outro era um pouco mais jovem. Nenhum tinha vivacidade que inspirasse segurança.

Não houve cumprimentos nem apresentações. Os rapazes olharam os passageiros com desconfiança e, depois de recolher o dinheiro, zarparam rapidamente, vociferando um com o outro em sílabas sem sentido.

Qwilleran perguntou ao mais moço até onde planejavam navegar e recebeu um grunhido em resposta.

A sra. Whatley disse: "Que nojento! Não admira que chamem estas coisas de barcos fedorentos."

"O que esperava por cinco dólares?", disse o marido. "O Queen Elizabeth?"

Os passageiros acomodaram-se em cadeiras de lona rasgadas e manchadas, e o Minnie K moveu-se devagar pela água, quase sem fazer ondulações. O sr. Whatley cochilava de vez em quando, e a mulher abriu um livro e desligou o aparelho de surdez. Durante uma hora o barco navegou apaticamente em meio à neblina, o cheiro de peixe misturando-se à fumaça do escapamento. Então o barulho do motor baixou ainda mais, e os rapazes indolentemente apresentaram os apetrechos de pesca: varas com enormes molinetes, linhas de cobre e colheres metálicas de latão.

"O que eu faço com isso?", perguntou Qwilleran. "Onde está a isca?"

"A colher é só o que precisa", disse Whatley. "Jogue a linha pela amurada (arquejo) e fique movimentando a vara para cima e para baixo."

"E daí?"

"Quando morderem a isca você vai sentir. Enrole a linha."

O Minnie K avançava relutantemente pelas plácidas águas. De vez em quando o motor morria por pura falta de propósito e recomeçava de má vontade. Durante uma hora Qwilleran manejou a vara de pesca para cima e para baixo num transe induzido pelo pulsar do motor e a sensação de isolamento. O barco navegava num apertado mundinho particular, rodeado por uma neblina que cancelava tudo o mais. Não havia brisa, nem mesmo o barulho da água contra o casco — só o "put-put" oco do motor e o gemido distante de uma sereia de nevoeiro.

Whatley recolheu a linha e, depois de tomar alguns tragos de um frasco, adormeceu na cadeira de lona. A mulher nem levantou os olhos do livro.

Qwilleran perguntava-se onde estavam — e por que estava lá — quando o motor parou com uma tossida explosiva, e os dois rapazes, resmungando sílabas, pularam para o porão. O silêncio tornou-se absoluto, e o barco ficou imóvel no lago vítreo. Foi então que Qwilleran ouviu vozes flutuando sobre a água — vozes masculinas, longe demais para poder distinguir. Descansou a vara de pescar na amurada e escutou. As vozes estavam se aproximando, discutindo, ficando mais fortes. Houve gritos de raiva, seguidos de torrentes de imprecações ininteligíveis, depois um abrupto "crack" como madeira partindo-se... grunhidos... som de uma estocada... um baque pesado. Alguns segundos depois Qwilleran ouviu uma grande pancada e um ruído de borrifo na superfície da água.

Depois disso, tudo ficou quieto, exceto por uma série de pequenas ondulações que cruzaram a superfície do lago e marulharam de encontro ao Minnie K. A neblina fechou-se em volta como algodão em pasta, e a água transformou-se em leite.

 

Os tripulantes continuavam com as cabeças curvadas sobre a geringonça que passava por motor. Whatley seguia dormindo, e a mulher também cochilava. Fazendo conjeturas, Qwilleran retomou os movimentos sem sentido da vara de pescar, para cima e para baixo, para cima e para baixo, em arcos exagerados. Tinha perdido todo o senso do tempo; o relógio ficara em casa por causa da comichão nos pulsos.

Passaram-se trinta minutos, ou uma hora, e de repente houve um puxão na linha, enviando vibrações pela vara até seus braços. Ele deu um grito.

Whatley acordou num sobressalto. "Enrole a linha! Enrole a linha!"

Naquele momento mágico, com as raízes do cabelo formigando, Qwilleran compreendeu a emoção da pesca em alternar. "Parece uma baleia!"

"Devagar! Mantenha firme! Não pare!" Whatley fazia esforços para respirar, e Qwilleran também. Suas mãos tremiam. A linha de cobre era interminável.

Todos observavam. O jovem capitão inclinava-se sobre a amurada. "Arpão!", gritou, e o outro rapaz atirou-lhe um comprido gancho de ferro.

"Deve ter uns trinta quilos!", gritou Qwilleran, lutando para puxar os últimos metros de linha. Podia sentir o salto final no momento em que o monstro apareceu na água. "Peguei! Peguei!"

O enorme vulto tinha apenas emergido, quando ele perdeu o controle do molinete.

"Agarre-o!", gritou Whatley, mas o molinete girava furiosamente. Quando começou a afrouxar, o capitão puxou um alicate do bolso e cortou a linha.

"Não presta", ele disse. "Não presta."

"Como, não presta?", gritou Whatley. "Aquele peixe tinha no mínimo (arquejo) trinta quilos!"

"Não presta", repetiu o capitão. Virou-se para a casa do leme; o outro desceu ao porão e o motor pôs-se em movimento.

"Isso é um logro!", protestou Whatley.

A mulher levantou os olhos do livro e bocejou.

"Não sei de vocês", disse Qwilleran, "mas para mim chega."

O barco ganhou velocidade e rumou para o que ele esperava fosse terra firme. Na viagem de volta, Qwilleran afundou-se na cadeira de lona, absorto em seus pensamentos. Whatley tomou outro trago e cochilou.

Qwilleran não era pescador, mas vira filmes sobre o esporte, e sua experiência fora tudo menos típica. A presa não lutara como um peixe; quando emergiu não espadanava como um peixe; e certamente não se parecia com um peixe.

De volta a Mooseville encaminhou-se direto para a agência de turismo. Não estava se sentindo amigável, mas primeiro tinha de tecer comentários sobre o tempo. "Você tinha razão sobre a neblina, Roger. Quanto tempo acha que vai durar?"

"Deve clarear amanhã lá pelo meio-dia."

"Sua mulher chegou bem em casa?"

"Chegou hoje à uma e meia da manhã. Levou duas horas para dirigir os últimos trinta quilômetros e estava em petição de miséria quando chegou. O que andou fazendo nessa neblina, Qwill?"

"Pescando de corrico."

"O quê! Você está tendo alucinações. Os barcos não saíram hoje."

"O Minnie K saiu. Estivemos fora por quatro horas, das quais três já foram demais."

Roger estendeu a mão para uma pasta. "Nunca ouvi falar desse Minnie K. E ele não consta na lista dos barcos de pesca registrados. Onde o achou?"

"Um hóspede do hotel arranjou a expedição. Chama-se Whatley."

"É, eu o conheço. Obeso, arfante. Esteve aqui três vezes, queixando-se. Quanto eles cobraram? Suponho que não pegaram nenhum peixe."

"Não, mas eu peguei outra coisa", disse Qwilleran. "Não se comportava como um peixe, e quando o puxei para a tona, o capitão cortou minha linha e voltou para a praia na disparada. Ele não gostou da aparência daquilo e eu também não. Parecia o corpo de um homem."

Roger engoliu em seco e afagou a barba negra. "Era provavelmente um pneu velho ou algo assim. Seria difícil ter certeza naquela neblina. Os barqueiros amarram pneus nos lados do embarcadouro — para fazer de para-choques, você sabe. Eles podem se soltar numa tempestade. Houve uma grande tempestade na terça à noite..."

"Pare com isso, Roger. Todos nós sabemos que a Câmara do Comércio escreve o seu roteiro. Eu gostaria de dar parte desse... desse pneu à polícia. Onde encontro o xerife?"

Roger corou e pareceu culpado, mas não contrito. "Atrás da igreja de troncos. O prédio com uma bandeira."

"A propósito, tive uma surpresa ontem à noite", continuou Qwilleran, já de melhor humor. "Sua sogra deixou um pouco de peru e um bilhete na minha cabana, mas não assinou o nome. Não sei como vou agradecê-la."

"Ah, ela é assim mesmo — desmiolada. Mas é boa gente. Vive rindo. Chama-se Mildred Hanstable e mora em Top o' the Dunes, a leste de você. Devo lhe avisar sobre uma coisa. Ela vai insistir em ler sua sorte e depois espera um donativo.

"Isso não é ilegal?"

"É para caridade. Ela está ajudando a levantar dinheiro para algum tipo de máquina para o coração no Hospital de Pickax."

"Ponha-me na lista", disse Qwilleran. "Vou precisar da máquina, antes de acabar essas férias relaxantes."

Quando voltou à cabana, ainda havia luz do dia filtrando-se através do nevoeiro. Dentro, sentiu cheiro de vinagre, lembrando-o de limpadores caseiros de latão usados por antiquários. Dito e feito: a lanterna de latão pendurada no bar estava recém-polida. Tom tinha estado lá a despeito da ordem; tinha-lhe dito para não vir à cabana sem ser chamado. Qwilleran havia deixado o relógio velho e alguns trocados na gaveta do quarto, e ainda estavam lá. Ele deu de ombros.

Quando chamou os amigos, Yum Yum veio correndo do quarto de hóspedes, mas Koko estava ocupado demais para responder. Estava empoleirado na cabeça de alce, remexendo e falando consigo mesmo em pequenos rosnados musicais que se originavam lá no fundo de seu peito cor de neve.

"O que está fazendo aí?", perguntou Qwilleran.

Koko estava mudando de posição sobre os chifres, de pé nas pernas traseiras e estendendo a pata de frente como se buscasse um apoio. A cabeça de alce era montada numa placa de madeira envernizada que pendia da parede irregular de troncos. Koko estava tentando enfiar a pata numa das frinchas por trás da placa. Depois de algum jogo de pés experimental, ele finalmente preparou-se para alcançar a fresta. Sua pata aventurou-se cautelosamente pelo orifício. Algo chocalhou lá dentro. Koko tentou com mais empenho, esticou-se mais, ainda resmungando consigo mesmo.

Qwilleran aproximou-se e, de repente, a presa caiu da fresta, bateu nos chifres e ele a apanhou. "O que é isto? Uma fita cassete!"

Era uma fita virgem que tinha sido usada para gravação em casa. No lado A estava escrito Favoritas de 1930, no que parecia ser a letra da tia Fanny. O lado B estava rotulado Mais Favoritas de 1930. Não havia poeira na caixa de plástico transparente.

Qwilleran levou o cassete até o toca-fitas e tirou o concerto de Brahms, que tinha estado no aparelho desde que chegara. "Espere aí", disse alto. "Não foi desse jeito que eu deixei." O cassete tinha sido invertido, e o lado que continha Beethoven estava virado para cima.

O troféu de Koko apresentou uma música saltitante: interpretações de My Blue Heaven, Exactly Like You, e outras da época, todas com a dúbia fidelidade de velhos setenta e oito rotações. Era uma estranha coleção para se esconder atrás de uma cabeça de alce.

Qwilleran terminou de escutar o lado A e virou a fita. Havia mais do mesmo estilo. Então, no meio de Little White Lies, uma voz interrompeu — uma voz não profissional — uma voz masculina comum, mas poderosa. Após uma breve e surpreendente mensagem, a música voltou. Ele reenrolou a fita e tocou de novo.

A voz exigente interrompia: "Escute aqui: mexa-se ou vai se arrepender! Você sabe o que eu vou fazer! Precisa trazer mais coisas. Não vou pagar enquanto não trouxer toda a encomenda. E temos de fazer algumas mudanças. As coisas estão ficando quentes. Venha me ver no sábado, entendeu? Estarei na doca de barcos depois do jantar."

A fita tinha sido usada recentemente. Fora somente ontem que Koko pisara nos botões e tocara Brahms. Alguém estivera aqui nesse meio tempo e tinha gravado a mensagem, ou ouvido, recolocando depois o concerto de Brahms de cabeça para baixo. Alguém também tinha roubado um relógio e uma caneta de ouro, mas isso tinha ocorrido antes. Visitantes não-identificados estavam entrando e saindo da cabana, na maneira sem-cerimônia que tia Fanny achava tão amistosa.

Alguém tinha indubitavelmente subido num banco do bar para alcançar a cabeça de alce, e Qwilleran procurou pegadas nos quatro bancos de pinho, mas as superfícies envernizadas estavam limpas.

Koko olhava fixamente, enquanto Qwilleran guardava a fita numa gaveta da cômoda. "Koko", disse, "não gosto desse costume de portas abertas. As pessoas estão usando este lugar como se fosse um terminal de ônibus. Temos de achar um serralheiro. E se alguma vez você ou Yum Yum estiverem em perigo, já sabe o que fazer."

Koko piscou os olhos devagar e sagazmente.

 

Mooseville,

Sexta-Feira

 

Caro Arch,

Sou muito sovina para lhe comprar um cartão de aniversário, mas desejo a você e à sua linda mulher um feliz vigésimo quarto aniversário e que tenham muitos mais ainda. Parece que foi ontem que você deixou cair as alianças e eu perdi suas passagens para a viagem de lua-de-mel.

Sabe, desde que cheguei a Mooseville, descobri que toda a civilização se divide em duas partes: Aqui em Cima e Lá Embaixo. Temos por aqui gente amistosa que lê o Fluxion — e também incidentes misteriosos que eles tentam encobrir. Ontem fui pescar e fisguei algo que parecia ser um cadáver. Quando reportei o incidente à delegacia de polícia, ninguém pareceu se importar. Sei que não foi afogamento acidental. Tenho razões para acreditar que foi homicídio — culposo, no mínimo. Fiquei imaginando: quem era o sujeito no lago? Por que estava lá? Quem o teria jogado?

Tive um envenenamento por urtigas, mas já estou bem. E hoje cedo achei que alguém estava roubando meus pneus, mas era apenas uma gaivota fazendo um ruído como de macaco de automóvel. As casas de pasto daqui são regulares. Para um pesquisador de restaurantes é como ser mandado para a Sibéria.

Qwill

P.S.

Koko aprendeu uns truques novos: atende o telefone e liga o toca-fitas. Daqui a uns anos estará trabalhando para a NASA.

 

A neblina estava se dispersando. Das janelas da cabana era possível ver as árvores próximas e a sepultura da fossa séptica. Embora o Velho Sam tivesse enchido a depressão e nivelado cuidadosamente, os gatos continuavam sua prévia ocupação de ficar olhando fixo para aquela direção.

Quando o telefone tocou, na sexta de manhã, Koko pulou do parapeito da janela e correu para o bar. Qwilleran estava logo atrás dele, mas não foi suficientemente rápido para impedi-lo de deslocar o fone. Ele caiu na tampa do bar com estardalhaço.

O homem o apanhou. "Alô? Alô?"

"Ah, você está aí", disse a voz áspera de Pickax. "Eu estava preocupada, querido. Liguei ontem e o telefone fez uns barulhos muito esquisitos. Quando chamei de novo, a linha estava ocupada. No fim eu mandei que a telefonista interrompesse, mas ela disse que o fone estava fora do gancho, de modo que mandei Tom aí para investigar. Ele disse que o fone estava caído em cima do bar, e que não havia ninguém em casa. Você devia ter mais cuidado, querido. Imagino que esteja preocupado com o livro. Está progredindo? Você ainda está..."

"Tia Fanny!"

"Sim, querido?"

"Eu passei o dia na cidade, e meu gato derrubou o fone. É um mau hábito que ele pegou. Sinto muito. De agora em diante vou deixar o telefone no armário da cozinha, se o fio alcançar."

"Feche sempre as janelas quando sair, querido. Pode cair um aguaceiro de repente e inundar a casa. Quantos capítulos do livro já escreveu? Sabe quando será publicado? Tom disse que o pinheiro grande foi cortado. Amanhã ele irá aí com um picador de madeira. Você já viu a canoa sob a varanda? Os remos estão no barracão de ferramentas. Não saia com tempo ruim, querido, e fique sempre perto da margem. Não vou falar mais porque sei que você quer continuar a escrever. Algum dia você poderá escrever a história de minha vida, e ambos faremos uma fortuna."

Usando seu boné laranja, ao qual estava ficando muito apegado, Qwilleran dirigiu até Mooseville para mandar a carta para Arch. No correio, farejou cautelosamente mas só sentiu cheiro de cera nova.

Sua próxima parada foi Cannery Mall, onde decidiu que o aroma de peixe defumado não era de todo mau. Na clínica, a jovem médica estava sentada à mesa de recepção, lendo uma revista de gastronomia. Tinha razão sobre os olhos dela; brilhavam de juventude, saúde e humor.

"Lembra-se de mim?", começou, tirando o boné. "Sou o paciente com a Síndrome do Cemitério."

"Fico feliz em saber que você não é tão rabugento como parecia ontem."

"A injeção fez efeito imediatamente. Você tem muitos casos como o meu?"

"Ah, sim", ela disse. "Envenenamento por urtiga, queimaduras de sol de segundo grau, bolhas infectadas no calcanhar, mordidas de esquilo raivoso — todos esses deleites comuns de férias."

"Algum afogamento?"

"O esquadrão de emergência da polícia se encarrega disso. Espero que não esteja planejando cair no lago. É tão frio que se alguém cair pela borda e afundar uma vez, não aflora mais. Pelo menos é o que se diz por aqui."

Ela fechou a revista. "Não quer sentar?"

Qwilleran acomodou-se numa cadeira e alisou o bigode preocupado.

"Gostaria de lhe perguntar uma coisa sobre aquela injeção que me deu. Poderia causar alucinações?"

"É extremamente improvável. Você tem um histórico de alucinações?"

"Não, mas tive uma experiência incomum depois da injeção, e ninguém acredita no que vi. Estou começando a duvidar da minha sanidade."

"Você pode ser aquela pessoa em dez milhões que tem uma reação anormal", disse alegremente a médica. "Parabéns!"

Qwilleran olhou-a fixamente, e ela retornou o olhar com olhos risonhos e cílios irrequietos.

Ele disse: "Posso processá-la por imperícia? Ou vamos conciliar isso com um convite para jantar?"

"Mude para um almoço rápido, e eu posso ir já", disse ela, consultando o relógio. "Nunca recuso um almoço com um homem mais velho interessante. Você gosta de pastelões?"

"Seriam bons se tivessem uma massa flocosa, um pouco de molho, e menos nabo."

"Então você vai adorar o Nasty Pasty. Vamos." Ela tirou o avental branco que cobria uma camiseta de Mooseville.

O restaurante era pequeno e projetado para intimidade, com duas fileiras de reservados e enfeites de redes de pescar, cordas velhas e gaivotas empalhadas.

Qwilleran disse: "Nunca pensei que consultaria um médico que fosse mulher, tivesse metade da minha idade e fosse bonita."

"É melhor se acostumar com a ideia", disse ela. "Existem muitas de nós... Você está em boa forma para a idade. Faz muito exercício?"

"Não muito", ele disse, embora nenhum estivesse mais perto da verdade. "Desculpe, doutora, mas não sei o seu nome."

"Melinda Goodwinter."

"É parente do advogado?"

"Prima. Pickax está cheia de Goodwinters. Meu pai é clínico geral aqui, e vou ingressar em sua clínica no outono."

"Você provavelmente conhece Fanny Klingenschoen. Ela me emprestou sua cabana de troncos neste verão."

"Todo mundo conhece Fanny — para o melhor ou pior. Talvez não devesse dizer isso; ela é uma senhora notável. Disse que vai ser minha primeira paciente quando eu começar a clinicar."

"Por que a chama de notável?"

"Fanny tem um jeito único de conseguir o que quer. Você conhece o velho tribunal do condado? É uma joia arquitetônica, mas estavam prontos para demoli-lo, quando Fanny interveio e o salvou — sozinha."

Qwilleran tocou o bigode. "Deixe-me perguntar uma coisa, Melinda. Este lugar é muito bonito, as pessoas são amistosas, mas estou começando a desconfiar que está acontecendo algo que eu não compreendo. Devo acreditar que o Condado de Moose é algum tipo de utopia?"

"Temos nossos problemas", ela admitiu, "mas não falamos deles — com estranhos. Não é para publicar, mas há uma tendência aqui à animosidade contra os visitantes Lá de Baixo."

"Eles adoram os dólares dos turistas, mas não gostam dos turistas, certo?"

Ela acenou afirmativamente. "Os veranistas são muito hipócritas, muito presunçosos, muito agressivos, muito condescendentes, muito diferentes. Com exceção da presente companhia, é claro."

"Você acha que somos diferentes? Vocês é que são diferentes", protestou Qwilleran. "A vida na cidade é previsível. Saio para um serviço, almoço no Clube da Imprensa, volto correndo ao jornal para escrever a história, janto num bom restaurante, sou assaltado no caminho de casa... sem surpresas!"

"Você está brincando. Já morei na cidade, e o campo é melhor."

Os pastelões foram um sucesso: flocosos, suculentos, sem nabos, e de tamanho satisfatório. Qwilleran sentiu-se à vontade com Melinda, e num dado momento cofiou o bigode embaraçado e disse: "Há algo que gostaria de lhe dizer confidencialmente, se não se importar."

"Fico lisonjeada."

"Eu não o discutiria com ninguém mais, mas como você é médica..."

"Entendo."

"Como vou começar?... Você conhece alguma coisa sobre gatos? Eles têm um sexto sentido, sabe, e algumas pessoas acham que seus bigodes são um tipo de antena extra-sensorial."

"Teoria interessante."

"Eu moro com um siamês, e juro que ele está sintonizado em algum obscuro órgão de conhecimento."

Ela abanou a cabeça encorajadoramente.

Qwilleran abaixou a voz. "Às vezes sinto vibrações estranhas no meu bigode, e percebo coisas que não são óbvias para os outros. E não é tudo. De um ano para cá meu olfato está ficando excepcionalmente apurado — inquietantemente apurado, na verdade. E agora minha audição está se tornando extraordinariamente aguda. Há algumas noites, alguém estava andando na praia, a mais de trezentos metros de distância — na areia fofa —, e eu podia ouvir as passadas no meu travesseiro: thud thud thud."

"Fenomenal", disse ela.

"Você acha que é anormal? É algo com que devo me preocupar?"

"Dizem que os elefantes podem ouvir os passos dos camundongos."

"Espero que não esteja sugerindo que eu tenho orelhas grandes."

"Suas orelhas são muito bem proporcionadas", disse Melinda. "Para dizer a verdade, você é um homem muito atraente — para sua idade."

De um modo geral Melinda Goodwinter era uma companhia agradável, embora Qwilleran achasse que ela se referia demais à sua idade; até perguntara se ele tinha netos. Não obstante, sentia-se bem ao voltar para a cabana; pensou que poderia começar a trabalhar no livro, ou fazer algum exercício.

A neblina praticamente desaparecera. Lufadas intermitentes de brisa empurravam-na para o mar, e as águas tinham uma calma vítrea. Tempo perfeito para canoagem, decidiu.

Qwilleram não praticava canoagem desde que era um garoto de treze anos, num acampamento de verão, mas achou que lembrava como se fazia. Descobriu os remos no barracão de ferramentas e escolheu o mais comprido. Foi fácil arrastar a canoa de alumínio pela descida de areia até a praia, mas lançá-la à água foi bem mais difícil, envolvendo pés molhados e uma vacilante arremetida numa embarcação cambaleante e não-cooperativa. Quando finalmente sentou-se à popa e deslizou pela água acetinada e brilhante, sentiu uma gloriosa mescla de regozijo e paz.

Lembrou-se do conselho de tia Fanny e voltou a proa alta, que se erguia muito acima da água, na direção da margem. Um momento depois, uma lufada de vento apanhou a proa, e a canoa girou e rumou para o fundo, mas seu curso foi rapidamente corrigido, quando a brisa amainou. Ele remou passando por praias desertas e dunas solitárias encimadas por altos pinheiros. Mais à frente estava o Clube Top o' the Dunes, uma fileira de importantes casas de veraneio. Ele imaginou os ocupantes olhando e invejando-o. Dois deles acenaram de suas varandas.

A brisa soprou de novo, agitando a água. A proa girou como um catavento, e a canoa deslizou em direção ao Canadá, a cento e sessenta quilômetros dali. Qwilleran reuniu todas as forças, mas nada funcionou, até que o vento amainou de novo.

Encontrava-se agora mais longe da margem do que seria prudente, e tentou voltar, mas estava fora do abrigo da terra, e as lufadas de vento terral eram persistentes, fazendo girar a proa e tornando a canoa ingovernável. Remou freneticamente, mergulhando o remo na água sem saber direito o que fazer, tentando desesperadamente fazer a canoa voltar. Ela apenas se afastava cada vez mais, rodopiando loucamente nas águas, que estavam ficando revoltas.

Perdera completamente o controle. Deveria pular da canoa e nadar para a terra e deixá-la ir embora? Não era um grande nadador, e lembrava-se da reputação do lago gélido. Não havia tempo a perder. Cada segundo afastava-o mais da margem. Estava na beira do pânico.

"Reme para trás!", veio uma voz trazida pelo vento. "Reme para trás... reme para trás!"

Sim! É claro! Esse era o truque. Ele inverteu a remada, e, enquanto a proa ainda apontava para o norte, a canoa retrocedeu gradualmente para a margem. Uma vez no abrigo da terra, ele conseguiu virá-la e dirigir-se à praia.

Um homem e uma mulher estavam de pé na areia, olhando-o, o homem empunhando um megafone. Eles gritavam encorajando-o, e ele aportou a canoa aos pés deles.

"Estávamos realmente preocupados com você", disse a mulher. "Eu já ia chamar o helicóptero." Ela riu nervosamente.

O homem disse: "Você precisa de um pouco mais de prática antes de tentar a Olimpíada."

Qwilleran estava ofegante, mas conseguiu agradecê-los.

"Deve ser o sr. Qwilleran", disse a mulher. Ela era de meia-idade, rechonchuda e vestida com elegantes roupas de praia. "Sou Mildred Hanstable, sogra de Roger, e este é nosso vizinho, Buford Dunfield."

"Chame-me Buck", disse o vizinho.

"Chamem-me Qwill."

Apertaram-se as mãos.

"Você precisa de um drinque", disse Buck. "Venha para minha casa. Mildred, você vem?"

"Obrigada, Buck, mas estou com um bolo de carne no forno. Stanley vem jantar."

"Queria lhe agradecer pelo peru", disse Qwilleran. "Fiz ótimos sanduíches. Sanduíche é o máximo da minha habilidade culinária."

Mildred riu cordialmente e disse: "Por acaso você encontrou uma pulseira na sua cabana — uma pulseira de elos de ouro?"

"Não, mas vou procurar."

"Mas ela também pode ter caído, quando eu estava andando na praia."

"Nesse caso", disse Buck, "foi-se para sempre."

Mildred deu uma risada abafada. "Se as ondas não a levaram, aquelas garotas o farão."

Os dois homens escalaram a duna até o chalé. Buck era um homem de boa compleição, com abundantes cabelos grisalhos e modos autoritários. Falava numa voz poderosa que casava bem com o megafone. "Estou bem satisfeito de ver essa neblina se dispersando", disse ele. "Quanto tempo vai ficar por aqui?"

"Todo o verão. Vocês têm neblina frequentemente?"

"Neblina forte? Três ou quatro vezes na estação. Nós vamos para o Texas no inverno."

O chalé de madeira era moderno, com um deque virado para o lago e portas envidraçadas levando a uma sala em desordem.

"Desculpe a desordem", disse o anfitrião. "Minha mulher foi para o Canadá com minha irmã para ver algumas peças teatrais sobre reis falecidos. As meninas adoram esse tipo de coisa... O que vai beber? Eu vou tomar uísque de centeio, mas tenho scotch e bourbon. Ou talvez goste de gim e tônica?"

"Apenas água tônica ou ginger ale", disse Qwilleran. "Não tomo mais bebidas fortes."

"Não é uma má ideia. Eu devia cortar. Você tem planos para uma pescaria?"

"Minha pescaria combina com minha canoagem. A principal razão de eu estar aqui é achar tempo para escrever um livro."

"Homem, se eu soubesse, escreveria um bestseller", disse Buck. "As coisas que já vi! Passei vinte e cinco anos como policial Lá Embaixo. Aposentei-me cedo com uma boa pensão, mas fiquei impaciente — sabe como é — e peguei um emprego em Pickax. Chefe de polícia numa cidade pequena! Que experiência!" Sacudiu a cabeça. "Os cidadãos respeitáveis davam mais trabalho que os infratores, por isso saí. Contento-me em folgar agora. Faço um pouco de marcenaria. Está vendo aquela fileira de castiçais? Faço-os no meu torno e Mildred vende para levantar dinheiro para o hospital."

"Gosto dos grandes", disse Qwilleran. "Parecem castiçais de igreja."

Estavam sentados no bar. Buck reencheu os copos e depois acendeu um cachimbo, passando pelo ritual que Qwilleran conhecia tão bem. "Já fiz castiçais maiores do que esses", ele disse entre baforadas. "Venha aqui para baixo e veja minha oficina." Ele mostrou o caminho para um cômodo cheio de maquinaria e de serragem. "Eu começo com um desses quatro-por-quatro e transformo-o num castiçal. Simples, mas os turistas gostam, e é por uma boa causa. Mildred deu um acabamento em ouro num par deles e fê-los parecer antigos. É uma mulher inteligente."

"Ouvi dizer que ela ajuda muito o hospital."

"É, ela tem umas ideias malucas para levantar fundos. Tudo bem, faz com que esqueça seus problemas."

O fumo do cachimbo chegou às narinas de Qwilleran, e ele observou:

"Seu tabaco vem da Escócia."

"Como é que sabe? Encomendei Lá Embaixo."

"Eu costumava fumar a mesma marca, Groat e Boddle Número Cinco."

"Exatamente! Eu fumei Auld Clootie Número Três durante muito tempo, mas mudei no ano passado."

"Eu costumava alternar entre os dois."

Buck varreu a serragem do assento de uma cadeira de capitão e empurrou-a para o convidado. "Sente-se, meu amigo."

Qwilleran sentou-se e apreciou o cheiro forte de serragem misturado ao de seu tabaco favorito. "Diga uma coisa, Buck. Quanto tempo precisou para você se acostumar a morar aqui?"

"Oh, quatro a cinco anos."

"Você tranca as portas?"

"No começo trancávamos, mas depois de algum tempo não nos dávamos mais ao trabalho."

"É bem diferente de Lá de Baixo. O ambiente, as atividades, o tempo, os costumes, o ritmo, a atitude. Eu nunca pensei que fosse uma mudança tão radical. Minha primeira ideia era fugir à poluição, à congestão e ao crime por uns tempos."

"Não fique tão certo sobre esse último", disse Buck, de modo confidencial.

"O que o faz dizer isso?"

"Fiz algumas observações." O policial aposentado lançou um olhar significativo para o convidado.

Qwilleran alisou o bigode. "Por que você não aparece para um drinque nesse fim de semana? Estou na cabana Klingenschoen. Já esteve lá alguma vez?"

Buck estava reacendendo o cachimbo. Tirou umas baforadas, sacudiu a cabeça e soprou de novo.

"É na duna, mais ou menos a um quilômetro daqui. E eu tenho uma garrafa de uísque de centeio com seu nome nela."

Quando Qwilleran remou de volta para casa na canoa pela água rasa, pensava sobre o homem que havia salvo sua vida com um megafone. Buck negara haver estado alguma vez na cabana Klingenschoen, e no entanto... na noite em que Mildred deixara seu presente de peru, duas figuras haviam desaparecido na neblina, em direção à praia, e uma delas estivera fumando Groat e Boddle Número Cinco.

 

O ruído abafado da campainha do telefone soou várias vezes, antes que Qwilleran estivesse bem desperto para responder. O aparelho agora ficava guardado num armário da cozinha, e Koko ainda não descobrira um meio de abrir a porta.

Qwilleran não estava preparado para receber uma enxurrada de ordens de Madame Presidente, antes do café da manhã, e encaminhou-se relutantemente para atender.

Uma voz suave disse: "Bom dia, Qwill querido. Acordei você? Adivinhe! Posso pegar o carro e ir vê-lo, se ainda me quiser!"

"Se ainda a quiser! Estou morrendo de saudade, Rosemary. Quando é que pode vir? Quanto tempo vai ficar?"

"Acho que vou poder sair da loja hoje, depois do almoço, e chegarei a qualquer hora amanhã, e posso ficar uma semana, a menos que alguém faça uma boa oferta pela Helthy-Welthy. Estou sendo muito amável com Max Sorrell, na esperança que ele pague a vista."

A resposta de Qwilleran foi um grunhido de desaprovação.

Houve uma pausa. "Você está aí, querido? Está me ouvindo?"

"Estou sem fala de tanta alegria, Rosemary. Eu lhe mandei as instruções de como chegar à cabana, não mandei?"

"Mandou, estão comigo."

"Dirija com cuidado."

"Mal posso esperar."

"Sinto sua falta."

Ele sentia falta de Rosemary em mais de um aspecto. Precisava de uma amiga que compartilhasse suas alegrias e problemas. Estava rodeado de pessoas amigáveis, mas sentia-se sozinho.

Qwill disse aos gatos: "Esperem até ela ver a cabana! Esperem até ela ver o lago! Esperem até ela conhecer a tia Fanny!" Ele só lamentava o odor de peixe que vinha da praia. Durante a noite, o lago tinha depositado quilos de suvenires prateados, que começavam a cheirar mal ao sol da manhã.

Enquanto dirigia até a cidade para o café da manhã, acenava alegres saudações para todos os motoristas que passavam. Então, fortalecido por bolos de trigo sarraceno com calda, foi procurar a loja de velas em Cannery Mall. Sentiu os trinta e sete aromas diferentes mesmo antes de ler a tabuleta: Velas da Noite.

"Você é Sharon MacGillivray?", perguntou a uma mulher jovem que arrumava as vitrinas. "Sou Jim Qwilleran."

"Ah, que prazer conhecê-lo! Sou Sharon Hanstable", disse ela, "mas sou casada com Roger MacGillivray. Ouvi falar tanto de você!"

"Gostei do nome de sua loja." Ele pensou um momento e declamou: "'As velas da noite já se extinguiram, e o dia jovial ergue-se nas pontas dos pés na montanha brumosa."

"Você é incrível! Ninguém mais havia notado que é uma citação."

"Talvez os pescadores não leiam Shakespeare. O que é que eles acham das velas perfumadas?"

Sharon riu. "Por sorte temos todos os tipos de turistas por aqui, e eu vendo algumas joias, objetos de madeira e brinquedos, além das velas."

Qwilleran passeou pelos corredores estreitos da lojinha, o nariz sensível quase subjugado pelos trinta e sete aromas. Disse: "Roger tem um belo porta-notas. Você tem mais algum?"

"Sinto, mas vendi todos. Os clientes compraram para o Dia dos Pais, mas já encomendei outros."

"Em quanto ficam os castiçais altos de madeira?"

"Vinte dólares. São feitos aqui na região por um policial aposentado, e cada centavo vai para caridade. Foi ideia de minha mãe."

"Conheci a sua mãe na praia, ontem. É muito simpática."

Sharon inclinou a cabeça concordando. "Todos gostam da mamãe, até seus alunos. Ela ensina em Pickax, sabe. Somos todos professores, exceto o papai. Ele dirige a fazenda de perus na Estrada de Pickax."

"Já vi a fazenda. Lugar interessante."

"Na verdade não é." Sharon franziu o nariz com repugnância. "É catinguenta e suja. Eu tomava conta dos peruzinhos quando estava no ginásio, e eles são tão estúpidos! A gente tem de ensinar os perus domesticados a comer e beber. Mas eles acabam ficando loucos e se matam entre si. Você tem de ser meio louco para criar perus. Mamãe não os suporta. Ela se ofereceu para ler a sua sorte?"

"Ainda não", disse Qwilleran, "mas tenho algumas perguntas que gostaria que ela respondesse. E tenho outra para você: onde posso achar um serralheiro?"

"Nunca ouvi falar de um serralheiro em Mooseville, mas talvez o mecânico da oficina de carros possa ajudá-lo."

Ele saiu da loja com um castiçal de sessenta centímetros e uma vela verde, grossa e baixa, e foi para casa inalando grandes tragadas de aroma de pinho. Quando colocou o castiçal numa mesa da varanda, Koko farejou cada polegada. Yum Yum estava mais interessada em apanhar aranhas, mas o focinho de Koko estava praticamente grudado na madeira crua, enquanto explorava todas as curvas torneadas. As orelhas estavam atiradas para trás e, ocasionalmente, ele espirrava.

A tarde a caminhonete azul apareceu na estrada. Tom estava sozinho na cabina.

"Onde está o cortador de madeira?", Qwilleran perguntou, alegremente.

"Na caçamba", disse Tom, com sua expressão calma de prazer. "Gosto de cortar troncos com marreta e cunha, mas a árvore é grande. Muito grande." Ele espiou o lago. "Está um dia lindo. A neblina se foi. Não gosto de neblina."

O cortador de madeira revelou ser um aparelho movido a gasolina, com uma cunha mortífera que golpeava os troncos de trinta centímetros de diâmetro transformando-os em lenha. Qwilleran observou por um tempo, mas o barulho o deixava nervoso e refugiou-se na cabana para escovar o pelo dos gatos. Esses cuidados tinham sido negligenciados por uma semana.

Ao grito de "Escova!" Koko saiu da varanda do lago, onde estava observando a vida selvagem, e Yum Yum espremeu-se de sob o sofá, para onde tinha sido afugentada pelo ruído no pátio. Então seguiu-se um atraente pas-de-deux dos gatos, que se contorciam, esticavam, enroscavam e deslizavam em êxtase sob a escova.

Quando Tom acabou de cortar a madeira, Qwilleran saiu para ajudar a empilhá-la. "Então você não gosta de neblina densa", disse, para abrir a conversa.

"Não; é difícil enxergar na neblina", disse Tom. "É perigoso dirigir um carro ou uma caminhonete. Sim, é muito perigoso. Eu não dirijo muito na neblina. Não quero ter um acidente. Um homem em Pickax morreu num acidente. Ele estava dirigindo na neblina." A fala de Tom era vagarosa e suave, com uma cadência musical que agia como calmante. Hoje havia algo diferente no rosto dele — um buço de três dias.

Qwilleran reconheceu os primeiros sintomas de um bigode e sorriu. Procurando algo para dizer, comentou sobre a qualidade da areia que rodeava a cabana — tão fina, tão limpa.

"Existe ouro na areia", disse Tom.

"É, ela brilha como ouro, não é?"

"Existe ouro de verdade", insistiu Tom. "Ouvi um homem dizer. Ele disse que tinha uma mina de ouro enterrada sob sua cabana. Eu gostaria que fosse minha cabana. Eu desenterraria o ouro."

Qwilleran começou a explicar a metáfora do imóvel mas pensou melhor. Em vez disso falou: "Eu sempre vejo pessoas apanhando pedregulhos na praia. Imagino o que estarão procurando."

"Não tem ouro na praia", disse Tom. "Só ágatas. As ágatas são bonitas. Eu achei algumas ágatas."

"Como é que elas são?"

"Elas parecem pedrinhas, mas são bonitas. Eu as vendi a um homem num restaurante. Ele me deu cinco dólares."

Trabalharam em silêncio durante algum tempo. A enorme árvore havia produzido uma grande quantidade de lenha, e Qwilleran ofegava com o esforço de empilhá-la. O caseiro trabalhava depressa e com eficiência, pondo-o no chinelo.

Depois de uns minutos Tom disse: "Eu gostaria de ter muito dinheiro."

"O que você faria com ele?"

"Ia para Las Vegas. É muito bonita. Não é como aqui."

"Não mesmo", disse Qwilleran. "Você já esteve lá alguma vez?"

"Não. Vi na televisão. Lá tem luzes e música e muita gente. Um montão de gente! Eu gosto de cabarés."

"Você gostaria de trabalhar num cabaré, se fosse a Las Vegas?"

"Não", disse Tom, pensativamente. "Eu gostaria de comprar um cabaré. Eu seria o chefe."

Depois de Tom ter varrido todas as lascas de madeira, Qwilleran convidou-o para uma cerveja. "Ou talvez prefira um trago? Também tenho uísque."

"Eu gosto de cerveja", disse Tom.

Sentaram-se na varanda de trás com suas bebidas geladas. Koko ficou fascinado com a voz suave do homem, e até Yum Yum fez uma de suas raras aparições.

"Gosto de gatos", disse o caseiro. "Eles são bonitos." De repente ele pareceu embaraçado.

"O que houve, Tom?"

"Ela me mandou vir aqui e ver o telefone. Foi por isso que vim. Você me disse para não vir. Eu não sabia o que fazer."

"Está tudo bem", disse Qwilleran. "Fez a coisa certa."

"Eu sempre faço o que ela manda."

"Você é um empregado leal, Tom, e um bom trabalhador. Pode se orgulhar de seu serviço."

"Eu vim aqui para olhar o telefone, e o gato grande veio e falou comigo."

"É Koko. Espero que ele tenha sido educado."

"Ele foi muito educado." Tom levantou-se e olhou o céu. "Está na hora de ir para casa."

"Tome", disse Qwilleran, oferecendo-lhe uma nota dobrada. "Compre seu jantar no caminho de casa."

"Eu já tenho dinheiro para o jantar. Ela me deu dinheiro para jantar."

"Tudo bem. Compre dois jantares. Você gosta de pastelões, não é?"

"É, eu gosto de pastelões. Eu gosto muito de pastelões. Eles são bons."

Qwilleran sentiu-se entristecido e contrafeito, após a visita do caseiro. Esquentou uma lata de sopa escocesa e tomou, sem apreciá-la. Não estava em condições de começar a escrever a novela, e ficou aliviado quando chegou outro visitante — dessa vez vindo da praia.

Buck Dunfield, usando um boné de capitão de barco, subia desajeitadamente a duna, pisando a areia fofa da ladeira escarpada. "Você me prometeu um drinque", ele bradou, "e vim cobrar enquanto ainda estou solteiro. Minha mulher chega amanhã. Como vão as coisas?"

"Tudo na santa paz. Venha para a varanda."

"Eu lhe trouxe uma coisa. Acabei de achar." Entregou uma pedrinha a Qwilleran. "Estava na sua praia, portanto é sua. Uma ágata!"

"Obrigado. Já tinha ouvido falar nelas. São valiosas?"

"Bem, algumas pessoas as usam para fazer joias. Todos por aqui as colecionam. Trouxe-lhe outra coisa." Buck tirou um embrulho de papel de alumínio do bolso da japona. "Bolo de carne, de Mildred. O marido dela não apareceu ontem à noite." Em voz mais baixa acrescentou: "Cá entre nós, ela está melhor sem ele."

Acomodaram-se nas cadeiras de lona da varanda, com uma vista panorâmica do lago. Buck disse: "Vou lhe dar uma dica. Se usa muito esta varanda, lembre-se que as vozes ecoam por sobre o lago quando a atmosfera está parada. Você pode ver um barco de pesca a um quilômetro de distância, e ouvir um sujeito dizer 'passe a cerveja' tão claramente como se fosse ao telefone. Mas não esqueça: ele também pode ouvi-lo."

Havia vários barcos à vista, no lago prateado, que se fundia com o céu descolorido. Os barcos pareciam suspensos no ar.

"Você pesca muito, Buck?"

"Pesco um pouco, jogo um pouco de golfe... Ei, estou vendo que você tem um dos meus castiçais."

"Comprei-o essa manhã na loja de velas da Sharon."

"Vou dizer a Mildred. Ela vai ficar encantada. Lojinha simpática, não é? Boa menina a Sharon. O Roger também é muito legal." Ele tirou o cachimbo e começou o ritual de acendê-lo. Apontando com ele para a praia, disse: "Tem uns peixes mortos lá embaixo".

"Nem precisa dizer. Cheiram muito mal quando a brisa vem do lago."

"Você devia enterrá-los. É o que eu faço. O fedor não me incomoda; sofro de sinusite, mas minha mulher detesta, por isso enterro os peixes sob as árvores. São um ótimo fertilizante!"

"Se não tem bom nariz", disse Qwilleran, "como é que pode apreciar o cachimbo? O aroma era a grande atração para mim."

"É apenas um hábito nervoso." Buck olhou duas moças de longas pernas, que passeavam pela praia com as cabeças inclinadas, examinando a areia sob os pés. "Viu? O que foi que eu disse? Todo mundo coleciona ágatas. Em pleno verão fica como se fosse um desfile nessa praia." Deu outra espiada nas moças. "Elas são meio magricelas para meu gosto. O que você acha?"

Qwilleran estava pensando presunçoso: espere até ele ver Rosemary! Ele disse: "Você conhece a proprietária desta cabana?"

Buck revirou os olhos expressivamente: "Nossa, se conheço! Ela me detesta. Mandei cassar sua carteira de motorista depois que ela derrubou com o carro a parede da delegacia de Pickax. Ela não sabia a diferença entre a marcha para a frente e a marcha-a-ré. Espero que não seja sua avó ou qualquer coisa assim."

"Não. Não há parentesco."

"Só porque tem todo o dinheiro do mundo, ela pensa que pode fazer o que bem quiser. Uma mulher da sua idade não deveria ter licença para portar arma. Ela é suficientemente louca para dar uns tiros numa sessão da câmara municipal algum dia." Deu umas baforadas agressivas. "O nome dela é Fanny, mas ela se chama de Francesca, e qualquer pessoa que puser o nome dela numa filha constará no seu testamento. Há mais Francescas em Pickax do que em Roma, na Itália."

Quando a segunda rodada foi servida, Buck inclinou-se e disse confidencialmente: "Falando francamente, o que acha deste lugar?"

"O que quer dizer?"

"Mooseville. Você acha que tudo aqui é feito às claras?"

Pelo modo conspiratório do homem, ficava claro que não se referia à paisagem. Qwilleran cofiou o bigode. "Bem... eu diria que eles têm uma tendência para encobrir certas situações e atenuá-las com explicações muito rápidas."

"Exatamente! É o hábito deles. O Picayune nem noticiou quando alguns turistas foram atacados por ursos no lixão da cidade. É claro que os idiotas subiram na cerca e provocaram os ursos, e depois disso a cidade ergueu uma cerca dupla. Mas nada foi noticiado no jornal."

"Fico pensando se este paraíso de férias é tão livre de crimes quanto querem que acreditemos."

"Agora você está falando a minha língua." Buck olhou depressa em volta. "Eu suspeito de irregularidades que deveriam ser investigadas e submetidas a processo judicial. Você trabalhou no setor de crimes; sabe o que quero dizer. Sou amigo de alguns detetives Lá Embaixo, e eles o elogiam muito."

"Você conhece o tenente Hames?"

"Claro que conheço." Buck reprimiu o riso. "Ele me contou sobre seu gato esperto. Que exagero! Não acreditei numa palavra, mas ele jurou que é verdade."

"Koko é mais esperto do que eu, e está sentado embaixo de sua cadeira agora, de modo que tome cuidado com o que diz."

"Não tenho nada contra gatos", disse Buck, "mas prefiro cães."

"Voltando ao assunto", continuou Qwilleran, "acho que as autoridades daqui querem administrar do seu próprio jeito, sem quaisquer sugestões ou perguntas embaraçosas de estranhos."

"Exatamente! As pessoas do lugar não querem que algum fulaninho da cidade metido a sabido venha lhes dizer o que está errado."

"O que você acha que está errado?"

Buck abaixou a voz de novo e olhou duas vezes por cima do ombro. "Eu digo que há crimes que estão sendo convenientemente dissimulados. Mas estou trabalhando nisso — por minha conta. Uma vez policial, sempre policial. Você já comeu alguma vez no COMID? A clientela é muito misturada, a megera que toca a espelunca tem jeito de ladra, mas aquilo está ligado ao melhor centro de boatos do país... Mas, veja bem, eu não vou me arriscar. Já cheguei a uma idade onde valorizo cada dia da minha vida. Tenho boa digestão, uma boa mulher e algo útil para fazer. Entende o que digo? Só que... eu gostaria muito de ver uma certa atividade criminal passar por uma bela limpeza. Não estou dizendo que a polícia é corrupta, mas está com os movimentos restringidos. Ninguém quer falar."

Qwilleran ficou em silêncio, alisando o bigode com os nós dos dedos, enquanto o panorama da aventura no Minnie K desenrolava-se na sua mente.

"Tive uma experiência interessante há uns dias", começou. "Poderia reforçar sua teoria, embora eu realmente não tenha provas. E quanto a você?"

"Tenho andado bisbilhotando por aí, e estou perto de um resultado. Algo vai surgir dentro em breve."

"Bem. Deixe-me contar-lhe o que me aconteceu. Você já ouviu falar de um barco chamado Minnie K?" O jornalista contou toda a história da neblina, sem perder um só detalhe.

Buck ouviu atentamente, esquecendo-se de reacender o cachimbo. "Que pena não sabermos o nome do barco onde os sujeitos estavam tendo a briga."

"Ele provavelmente atraca na mesma área solitária onde embarcamos no Minnie K. É uma parte suja do litoral. Não voltei lá depois que a neblina se dispersou, de modo que não sei se há muita atividade pela vizinhança."

"Eu conheço aquela área. É a favela da zona portuária. Mooseville gostaria de ver aquilo arrumado, mas está fora dos limites da cidade. Quer ir lá comigo algum dia desses?"

"Eu gostaria muito. Vou ter um hóspede de Lá de Baixo daqui a uma semana, mas posso arranjar um tempo."

"Preciso ir", disse Buck. "Obrigado pelos drinques. Tenho de me livrar de uma pia cheia de pratos sujos, antes que as meninas voltem para casa e fiquem furiosas comigo. Tenho uma mulher e uma irmã na minha cola o tempo todo. Você não sabe como é sortudo." Olhou o céu. "Tempestade hoje à noite."

Ele saiu do mesmo modo que tinha vindo, deslizando e escorregando pela duna abaixo até a praia. As moças esguias estavam retornando de seu passeio, e Buck acertou o passo atrás delas, fazendo um sinal de OK para Qwilleran na varanda.

Koko ainda estava sentado sob a cadeira, muito quieto, enrolado como uma bola. Algo no visitante o havia fascinado. Qwilleran também apreciara esse novo conhecido que falava sua linguagem e gostava do desafio da descoberta. Fariam algumas investigações juntos.

O dia estava inusitadamente calmo. Podia se ouvir vozes dos barcos de pesca: "Alguém quer cerveja?... Não, está na hora de voltar." Havia algo de pressago no ar abafado. Um por um, os barcos deslizaram de volta a Mooseville. Havia um troar distante no horizonte. Koko começou a se jogar de encontro às pernas das mesas e cadeiras, enquanto Yum Yum emitia um guincho ocasional. Ao cair da noite a tempestade chegou. A chuva fustigava o telhado e as janelas, os trovões faziam a cabana estremecer e os raios riscavam o céu e iluminavam o lago.

 

Quando as sereias passaram, apitando pela estrada, Qwilleran estava tomando o café da manhã com um dos bolinhos de canela da tia Fanny tirado do congelador, descongelado e aquecido no microondas até ficar com consistência de pudim. Vários acres de florestas separavam a cabana da estrada principal, mas ele podia identificar o som de dois carros de polícia e uma ambulância indo a grande velocidade para o leste. Outro acidente! O tráfego estava ficando mais pesado, à medida que se aproximava a temporada de férias. Furgões, veículos de passeio e reboques de barcos estavam transformando a estrada rural numa artéria perigosa.

Naquela manhã Qwilleran havia perdido outra batalha na sua briga com a lareira. Como, perguntava a si mesmo, uma simples ponta de cigarro pode começar um incêndio na floresta, se eu não consigo acender um jornal com onze fósforos? Quando finalmente conseguiu atear fogo na seção de esportes, rolos de fumaça saíram para fora da lareira e flocos de jornal carbonizado flutuaram pela sala até assentar nos sofás de linho branco, no soalho lustrado com óleo e nos tapetes indígenas.

Depois do café, resolveu limpar a casa. Começou por espanar as estantes de livros, e ainda estava lá depois de duas horas, tendo descoberto livros sobre índios, guaxinins, história de mineração e ervas daninhas comuns. A dissertação sobre urtigas incluía um desenho da sinistra trepadeira. Imediatamente Qwilleran saiu da cabana com o livro na mão para explorar a mata além do tanque séptico — aquela área específica que monopolizava a atenção dos gatos.

Toda a natureza reagia exuberantemente à violência da tempestade recente. Tudo estava mais limpo, mais verde, mais alto, e mais vivo. Dois coelhinhos marrons mordiscavam cones de pinheiro. Criaturinhas faziam farfalhar o tapete de agulhas de pinheiro e de folhas de carvalho do outro ano. Mas não havia urtigas. Voltando à limpeza, Qwilleran refletia.

Então outra oportunidade para adiamento se apresentou. Ele nunca havia entrado no barracão de ferramentas, exceto para escolher um remo para a canoa. Era uma cabana de cedro com uma porta, sem janelas nem luz elétrica. Logo depois da entrada estavam os remos, ferramentas de jardinagem de cabos longos e uma escada. O fundo da cabana estava escuro, e Qwilleran voltou a casa para apanhar uma lanterna. Como esperava, suas atividades estavam sendo monitoradas pelos dois siameses na janela leste.

Na obscuridade de dentro do barracão, o facho da lanterna iluminou latas de tinta, rolos de corda, uma mangueira de jardim, machados e — encostado na parede do fundo — um catre sujo com um travesseiro murcho. Na parede acima estavam penduradas páginas de revistas com data de dois anos atrás e a inconfundível propaganda de Las Vegas. Mosquitos voavam pelo pescoço e orelhas de Qwilleran, e um zumbido forte sugeria algo pior. Qwilleran saiu rapidamente.

Tinha voltado à sua desajeitada limpeza, quando ouviu um ronronar na garganta de Koko. O gato correu para as janelas que davam vista para o lago. Instantes depois, na praia, uma andarilha solitária começou a subir a duna. A cabeça de Mildred Hanstable estava curvada, e ela enxugava os olhos com um pano.

Qwilleran saiu ao seu encontro. "Mildred! O que aconteceu?"

"Oh, meu Deus!", ela chorou. "É Buck Dunfield."

"O que houve?"

"Ele está morto!"

"Mildred, não posso acreditar! Ele esteve aqui ontem e estava mais saudável que um touro." Ela desabou nos seus braços e ele a levou para dentro, sentando-a num sofá. "Quer tomar alguma coisa? Chá? Um gole de uísque?"

Ela sacudiu a cabeça e controlou-se com esforço. Koko olhava, os olhos arregalados de susto. "Sarah e Betty chegaram do Canadá... há pouco e... e o acharam no porão... da oficina." Ela colocou as mãos no rosto. "Sangue por toda a parte. Ele foi morto — espancado... com um dos... um dos... castiçais grandes." As palavras afogaram-se nas lágrimas, e Qwilleran segurou-lhe a mão e deixou-a chorar, enquanto lutava com seu próprio choque e indignação.

Quando ela se acalmou, disse entre acessos de fungadelas: "Sarah desmaiou... e Betty veio gritando até minha casa... e chamamos a polícia. Eu lhes disse que não tinha ouvido nada... nem mesmo as máquinas. A tempestade abafou tudo."

"Você sabe se o motivo foi roubo?"

"Betty disse que nada foi tocado. Estou arrasada. Nem sei o que estou fazendo. É melhor eu voltar para casa. Sharon e Roger virão assim que puder."

"Deixe que eu a leve."

"Não, eu quero andar sozinha — e me aprumar. Mas obrigada."

 

Qwilleran tentou aprumar seus próprios pensamentos. Primeiro tinha de enfrentar a amarga constatação de que esse tipo de violência podia acontecer em Mooseville. Poderia ser alguém de Lá de Baixo? A área estava sendo invadida por forasteiros... Depois havia um genuíno pesar. Gostara de Buck Dunfield e estava antegozando um verão de boas prosas e aventuras compartilhadas... E havia raiva pelo assassinato sem sentido. Buck tinha tanta alegria de viver e de fazer algo útil... Depois veio a inquietação. Não importava o costume do lugar, as trancas nas portas agora eram obrigatórias. Correu ao telefone e ligou para Pickax.

"Tia Fanny! Aqui é Jim, de Mooseville. Ouça com cuidado. É importante. Tenho de achar um serralheiro imediatamente. Preciso ter trancas nestas portas, ou chaves para as fechaduras. Alguém entrou na casa de meu vizinho e o matou. Alguém também tem usado esta cabana para algum fim escuso. Sei que é domingo, mas quero poder chamar um serralheiro amanhã cedo. Essa ideia de deixar as portas abertas para estranhos é perigosa, absurda, e medieval!"

Houve uma longa pausa antes da resposta no barítono rascante. "Minha Nossa! Meu querido menino, eu não imaginava que um jornalista pudesse ficar tão perturbado. Você é sempre tão moderado. Não se preocupe! Desligue, que vou tomar umas providências. Como está o tempo na praia? Teve trovões e raios na noite passada?"

Qwilleran colocou o fone no gancho e gemeu. "Quanto você aposta", perguntou a Koko, "que ela vai mandar Tom, o gênio residente?" Para Yum Yum, que se espremia de sob o sofá, disse: "Desculpe, meu bem, não percebi que estava gritando." Para si mesmo ele disse: Fanny nem perguntou quem foi assassinado.

Mal se passaram dez minutos antes de se ouvir um carro vindo cuidadosamente por entre as árvores e sobre as dunas onduladas. Koko correu para seu observatório na varanda. O visitante era um rapaz de cabelos pretos e crespos, vestido com o que Mooseville achava ser uma roupa domingueira: gravata com camisa xadrez e jeans e sem boné.

Com deferência no tom e modos corteses, ele disse: "Boa tarde, sr. Qwilleran. Soube que está com um problema."

"Você é o serralheiro?"

"Não, senhor. Mooseville não tem serralheiro, mas eu conheço um pouco de fechaduras. Sou mecânico. Minha mulher e eu estávamos jantando no hotel, como fazemos, todos os domingos, e a srta. Klingenschoen nos encontrou. É uma mulher muito persuasiva. Vim assim que terminei minhas costeletas. São muito boas no hotel. Já experimentou?"

"Ainda não", disse Qwilleran, tentando esconder a impaciência. "Só estou aqui há poucos dias."

"Foi o que a minha mulher disse. Ela é a encarregada dos correios em Mooseville."

"Lori? Já a conheci. Moça encantadora." Qwilleran relaxou um pouco. "Qual é o seu nome?"

"Dominic. Abreviando, Nick. Qual é o problema?" Depois de explicada a situação, ele disse: "Não há problema. Vou trazer meu equipamento amanhã e resolver isso."

"Desculpe aborrecê-lo no domingo, mas um homem em Top o' the Dunes foi assassinado. Foi um grande choque."

"É, foi mesmo. Todo mundo está imaginando que efeito isso terá na comunidade."

"Quer dizer que as pessoas já sabem disso? Mas só acharam o corpo há algumas horas."

"Minha mulher ouviu a notícia no sótão do coro", disse Nick. "Ela canta no coral da Igreja Old Log. Eu ouvi de um dos indicadores de lugar durante o ofertório."

"Assassinato não é o que eu esperaria em Mooseville. Quem faria tal coisa? Algum forasteiro de Lá de Baixo?"

"Be-e-m", respondeu o mecânico, "eu poderia dar um palpite."

O bigode de Qwilleran eriçou-se. Farejava uma fonte de informação. "Posso lhe oferecer um drinque, Nick?"

"Não, obrigado. Vou voltar para minha mulher e minha sobremesa. Gostamos da torta de maçã do hotel."

Qwilleran acompanhou-o até o carro. "Então você é um mecânico. Que tipo de trabalho faz?"

"Tenho um emprego na prisão", disse Nick. "Vejo-o amanhã."

Qwilleran voltou para a arrumação da casa — do modo desconexo, que era sua característica. Estava sacudindo os tapetes indígenas no estacionamento, quando ouviu um ruído que fez seu coração saltar: um carro com o silenciador defeituoso. Rosemary nunca achava tempo para substituí-lo. Vislumbrou o carrinho entre as árvores e ficou sem fôlego. Ela estava com um passageiro! Se ela estivesse trazendo Max Sorrel — aquele oportunista metido, aquela víbora de cabeça raspada e sorriso condescendente — poderia haver outro assassinato em Mooseville. O carro desapareceu num barranco, e reapareceu roncando. Sentado ao lado do motorista, a boca aberta e os olhos esbugalhados, estava o tapete de urso polar do apartamento de Maus Haus.

Rosemary precipitou-se para fora do carro, rindo do grande espanto de Qwilleran. "Como? O quê? Como?"

"O inquilino anterior queria vendê-lo por cinquenta dólares, e achei que você podia pagar isso", disse ela. "Diverti-me muito dirigindo com o urso no banco da frente, mas os patrulheiros rodoviários me pararam e disseram que era um perigo na estrada. Empurrei a cabeça dele para baixo, mas ela teimava em aparecer... O que há, querido? Você está meio murcho."

"Houve um incidente horrível aqui", contou-lhe Qwilleran, "e se você quiser dar meia volta e voltar para casa, não posso culpá-la."

"Mas por quê...?"

"Um assassinato a um quilômetro daqui, na praia."

"Alguém que você conhecia?"

Ele acenou tristemente que sim.

Rosemary levantou o queixo do seu modo determinado. "É claro que não vou voltar. Vou ficar aqui e animá-lo. Você anda muito solitário, e provavelmente comendo tudo errado, e passando tempo demais na máquina de escrever, em vez de fazer exercício."

Essa era sua Rosemary — não tão jovem como algumas das moças com quem estivera saindo; na verdade já era avó. Mas era uma morena atraente, de silhueta jovem, e confortável de se ter por perto. Uma vez, quando ele fizera uma desastrada tentativa de exercício rigoroso, ela lhe aplicara uma massagem muito jeitosa.

"Por favor, traga minha bagagem, querido, e mostre meu quarto. Eu adoraria tomar um banho e mudar de roupa. Onde estão aqueles lindos gatos? Trouxe-lhes umas ervas-de-gato."

Koko e Yum Yum lembravam-se dela de Maus Haus e reagiram à sua presença sem a cautela felina mas também sem aberta cordialidade. Ocasionalmente, quando ela visitara o apartamento de Qwilleran, eles tinham sido trancados no banheiro.

A vitalidade de Rosemary, tez suave e olhos brilhantes, era resultado, segundo ela, de comer os Alimentos Certos, alguns dos quais trouxera numa geladeira. Com o Alimento Certo esquentando no forno e a pele de urso mostrando os dentes na lareira, a cabana tornou-se íntima e confortável. Koko dirigiu-se para o toca-fitas, e tiveram música.

"Aimez-vous Brahms?", perguntou Qwilleran.

"O quê?", Rosemary frequentemente perdia a graça de seus ditos espirituosos.

Ele perguntou sobre a situação de Maus Haus.

"Terrível. A cozinheira foi embora. Hixie nunca diz qualquer coisa engraçada. Charlotte chora o tempo todo. E uma noite o imaculado Max estava com uma mancha na gravata. Você tem muita sorte de ter esta cabana no verão, Qwill. É tão linda. Há violetas e trilliums por todo o caminho, nunca vi tantos pintassilgos, e os esquilos são uma gracinha."

Rosemary notou e comentou tudo: as cobertas de linho branco dos sofás, as cores lilás e turquesa do lago no pôr-do-sol, o alto castiçal de carvalho na varanda, a cabeça de alce e a serra no consolo da lareira.

"A picareta! Onde está a picareta?", exclamou Qwilleran, levantando-se de um salto. "Havia uma picareta antiga ali há uma semana. Não sei não, Rosemary. As pessoas entram e saem desta cabana como se fosse um terminal de ônibus. É considerado inamistoso trancar as portas. Meu relógio de estimação desapareceu e — pior ainda — a caneta de ouro que você me deu. E agora a picareta está faltando."

"Ah, meu Deus", disse ela, compreensiva.

"Tudo por aqui é estranho. A polícia monta bloqueios na estrada só para se divertir. Ninguém tem sobrenome. Há barulho de passos no telhado no meio da noite. Os gatos ficam o tempo todo olhando para a fossa séptica."

"Ah, Qwill, isso é exagero. Você está rabugento porque está comendo a comida errada."

"Você acha? Bem, aqui está um fato: Koko achou uma fita escondida atrás da cabeça de alce, com uma mensagem ameaçadora gravada no meio de uma música. E quando fui pescar, fisguei o corpo de um homem."

Rosemary ficou boquiaberta. "Quem era?"

"Não sei. Voltou para o fundo do lago e todo mundo tenta me convencer que era um pneu velho."

"Qwill, querido, tem certeza de que está comendo bastante frutas e verduras?"

"Você é como todos os outros", queixou-se ele, "mas havia uma pessoa que acreditou em mim, e agora ele está morto, com o crânio esfacelado."

"Oh, Qwill, não se meta nessas coisas. Pode ser perigoso para você."

"Veremos", disse ele. "Vamos comer. Mas primeiro quero alimentar os gatos. Uma mulher simpática lá da praia mandou-me um bolo de carne, e eu os induzi a pensar que é patê de foie gras."

"Você conheceu muitos mulheres na praia?" perguntou Rosemary, docemente. "Pensei que estivesse aqui para escrever um livro."

Conversaram até tarde da noite. Qwilleran não podia parar. Contou a ela sobre Nasty Pasty e COMID, flores de cerejeira e mosquitos, ágatas e coveiros, Goodwinters e Whatleys, naufrágios e caçadores furtivos, Little Henry e Big George, Velas da Noite e Chop Shop do Bob.

Rosemary não conseguia mais controlar os bocejos, que tentava disfarçar com risadas, tossidas e soluços. "Querido, eu dirigi o dia todo", disse ela. "Não estaria na hora...?"

Depois de um boa-noite prolongado, ela escapou para o quarto de hóspedes e desalojou os siameses de sua cama favorita. Qwilleran foi para a própria cama e pensou em Rosemary por dez minutos, preocupou-se com as portas sem trancar por sete e ponderou sobre o mistério do assassinato de Buck Dunfield por quatro e meio, antes de cair num sono profundo.

Foi acordado por um grito horroroso. Pulou fora da cama. Tinha sido em baixo da sua janela. "Rosemary!", berrou.

"O que foi isso?" gritou ela.

Luzes se acenderam. Koko disparou com as orelhas atiradas para trás. Yum Yum escondeu-se. Rosemary veio correndo do quarto de hóspedes metida num roupão vermelho.

O barulho de luta sem palavras nas moitas cessou, e os gritos gradualmente diminuíram de volume, sumindo na quietude da noite.

Qwilleran agarrou uma lanterna e um atiçador de lareira.

"Não vá lá fora, Qwill!", gritou Rosemary. "Chame a polícia!"

"Não adianta. Eu relatei um incidente nesta semana, e me fizeram parecer um idiota."

"Por favor, chame-os, Qwill. Pode ser assassinato, ou estupro, ou sequestro. Alguma mulher devia estar andando na praia. Era uma mulher gritando."

"Parecia uma alma penada."

Sucumbindo às súplicas de Rosemary, telefonou para a delegacia de polícia. Deu o nome e localização e descreveu o episódio tão calma e objetivamente quanto possível.

Em resposta a uma pergunta disse: "Não, não há outra casa em meio quilômetro, mas pessoas costumam vagar pela praia no meio da noite... Sim, tem muito mato... Havia sons de luta no mato... Nenhuma outra voz, só os gritos... Muito altos no começo — puro pânico. Depois foram ficando fracos e desapareceram... Uma o quê?... Hummm. Muito interessante. Você acha que foi isso?... É, deve ter sido... Bem, obrigado, seu guarda. Desculpe ter incomodado."

Qwilleran voltou-se para Rosemary. "Foi uma coruja, arrebatando um rato e carregando-o."

"Ele disse isso? Não quero saber; quase desmaiei de susto. Ainda estou tremendo. E me sentiria bem mais segura no seu quarto. Você se incomoda?"

"Nem um pouco", disse Qwilleran, cofiando o bigode.

"Os gatos também gostariam mais, acho", disse Rosemary. "Parecem pensar que eu me apoderei da cama deles."

 

Qwilleran sentia-se especialmente feliz e disposto na segunda de manhã. Embora não fosse dado a apelidos afetuosos, começou a chamar Rosemary de "meu bem". No decorrer do dia, no entanto, seu entusiasmo começou gradualmente a murchar. O primeiro contratempo ocorreu quando Nick chegou para consertar as fechaduras, antes de Qwilleran haver tomado café.

"Vejo que tem um siamês", disse Nick, depois que Koko o inspecionou do seu posto de controle. "Temos três gatos comuns. Minha mulher adoraria ver os seus."

Lembrando-se do enigmático comentário do mecânico sobre o assassino de Buck Dunfield, Qwilleran disse: "Por que não traz sua mulher qualquer dia desses para conhecer Koko e Yum Yum? Peço desculpas de novo por perturbar sua refeição ontem."

"Não foi nada. Fico feliz em ajudar. Além disso, ninguém jamais diz não à srta. Klingenschoen." Nick levantou as sobrancelhas numa careta divertida.

Quando saiu, levava consigo um dos brinquedos de erva-de-gato de Rosemary. "Enquanto estiver por aqui", disse a ela, "não se esqueça de visitar os canteiros de flores da prisão. As tulipas estão lindas agora. Tudo aqui dá mais tarde que Lá Embaixo, você sabe."

Depois que ele saiu, Rosemary disse: "Que rapaz simpático! Eu posso visitar os jardins nesta tarde, enquanto você estiver trabalhando no livro. Também gostaria de ir a um cabeleireiro, se conseguir marcar uma hora."

Os siameses ficaram encantados com seu novo brinquedo, erva-de-gato amarrada na ponta de uma meia. Koko era particularmente hábil, rebatendo com uma pata, correndo atrás, rolando junto, depois perdendo-a num canto ou fenda afastados.

Qwilleran, por outro lado, não gostou nada de seu tardio café da manhã. Consistia numa compota de fruta fresca, polvilhada com um pó não-identificado parecendo cimento, seguida de um cereal contendo vários ingredientes misteriosos — alguns de mascar, outros gomosos, outros areentos. Ele sabia que tudo era o Alimento Certo, e consumiu tudo sem comentários, mas recusou desistir de sua cafeína matinal, em favor de ervas em infusão.

Rosemary disse: "Achei uns pãezinhos comerciais horríveis no seu congelador, feitos com farinha branca e cobertos de glacê açucarado. Você não ia querer comer aquele lixo, Qwill querido. Joguei tudo fora."

Qwill bufou no bigode e não fez comentários.

Depois que o barulhento carro dela desceu pelo caminho na direção da Chop Shop do Bob, Qwilleran planejou seu próprio dia. Instalou a máquina de escrever na mesa de jantar, juntamente com os apetrechos de escrever e papéis espalhados, num quadro realístico de trabalho criativo. Em seguida, telefonou para Mildred: "Como está passando?"

"Não tão histérica como ontem", disse ela, "mas me sinto péssima. Você sabe o que é ter o vizinho da casa ao lado assassinado?"

"Todos temos de começar a trancar nossas portas, Mildred — como fazem Lá Embaixo."

"Buck, Sarah e Betty eram tão bons amigos meus. Jogávamos bridge sempre. Ele vai ser enterrado na sua cidade natal, e as moças já foram embora, de modo que está quieto e triste por aqui. Sinto falta do barulho das máquinas da marcenaria. Você gostaria de dar um pulo aqui? Vou fazer uma torta de morangos."

"Estou com uma hóspede", disse Qwilleran, "e ia sugerir que você e seu marido viessem tomar uns drinques e fossem meus convidados no salão de refeições do hotel."

"Você é muito amável", disse ela, "mas ele está muito ocupado na fazenda agora. Por que não traz sua convidada para cá? Vou ler as cartas de tarô para vocês."

A seguir, na agenda de Qwilleran constava uma excursão a Mooseville. Antes de deixar a cabana, ele verificou o paradeiro dos siameses, fechou as janelas e saboreou o ritual familiar de trancar a porta. Deixar a cabana sem trancar era um ato antinatural que o deixava inquieto desde que chegara a Mooseville.

Nos últimos três dias tinha acalentado o desejo de dar outra olhada no Minnie K, só para se convencer que o barco realmente existia. Foi na direção oeste, retraçando a rota feita com os inesquecíveis Whatley. Depois de Cannery Mall e passando o COMID, a paisagem estava pontilhada de casinholas decrépitas, todas com um calhambeque no pátio, uma antena no telhado e roupas mal lavadas no varal. Finalmente entrou na ruela, ao lado do canal cheio de lixo.

Lá no fim do atracadouro podre estava o barco com as cadeiras rasgadas, cinzentas e manchadas no deque. Mas não era mais o Minnie K, era o Seagull, de acordo com a placa recentemente pintada na popa. Não havia sinal da tripulação. Mais além, na praia, outros barcos de igual dilapidação estavam atracados na lassidão da manhã de segunda-feira. De um daqueles deques, Qwilleran tinha certeza, alguém tinha sido atirado ao lago gelado.

Na viagem de volta a Mooseville, parou no COMID para um café e a edição de segunda do Pickax Picayune. A notícia que procurava estava escondida no fim da página cinco, sob os escores do Euchre Club. O título era: Incidente na Praia Leste. Qwilleran leu-a duas vezes.

 

Buford Dunfield, 59, policial aposentado e veranista há muitos anos em Mooseville, foi achado morto na oficina do porão de seu elegante chalé na Praia Leste, domingo de manhã, aparentemente vítima de assaltante desconhecido, que o atacou com um instrumento rombudo, pouco antes de sua mulher, Sarah Dunfield, 56, e sua irmã, Betty Dunfield, 47, voltarem da visita anual ao Canadá, onde assistiram a três peças de Shakespeare. A polícia está investigando.

 

O restaurante estava zumbindo com as conversas sobre pescaria. Qwilleran suspeitou que os fregueses mudavam para esse assunto automaticamente sempre que um forasteiro entrava.

Sua próxima parada foi a agência de turismo. Roger estava sentado à mesa, gracejando com um visitante — um rapaz de expressão atrevida, recostado numa cadeira habilmente equilibrada em duas pernas, e com os pés apoiados na mesa de Roger.

"Qwill! Chegou bem a tempo de conhecer o editor-chefe do Pickax Picayune", exclamou Roger. "Este é Júnior Goodwinter, um de seus admiradores. Estávamos falando agora mesmo de você."

O rapaz levantou-se num pulo. "Uau! O grande homem em pessoa!"

"E outro dos famosos Goodwinters", disse Qwilleran. "Sabia que você era jornalista pelo jeito que equilibra a cadeira. Parabéns pela cobertura do assassinato de Dunfield. Foi a sentença de setenta e uma palavras mais sucinta que já li."

"Uau! Você contou!"

"Você omitiu só um fato importante: os títulos das peças de Shakespeare que as mulheres assistiram no Canadá."

"Agora você está caçoando", disse Júnior.

"Finalmente percebi porque vocês não têm crimes por aqui. Têm 'incidentes' em vez disso. Brilhante solução para o problema dos crimes."

"Ah, recolha as garras, está bem? Sei que fazemos as coisas de modo diferente por aqui — pelo menos diferente do que aprendi na escola de jornalismo. Estamos no interior, e você é da cidade. Você me deixaria entrevistá-lo qualquer dia?"

"Seria um prazer. Quem sabe eu aprendo alguma coisa."

"Bem, até logo. Tenho de sair e vender uns anúncios", disse Júnior.

Qwilleran ficou chocado. "Não me diga que você vende anúncios e também é editor do jornal!"

"Claro, todos nós vendemos anúncios. Meu pai é dono do jornal, vende anúncios e faz a composição."

O editor-chefe saiu a passos elásticos do escritório no seu tênis de jogging, e o rosto de Qwilleran refletiu espanto e divertimento. "Ele não é muito jovem para ser editor-chefe?", disse a Roger.

- "Ele trabalha no jornal desde os doze anos. Começou de baixo. Formou-se na Universidade Estadual no ano passado. Garoto ambicioso."

"Eu sempre quis possuir um jornal pequeno."

"Você poderia comprar o Picayune por um preço bem em conta, mas precisaria de muita grana para trazê-lo até o século XX. Foi fundado em 1859 e não mudou desde então... Alguma coisa em que possa ajudá-lo hoje?"

"Sim. Você tem todas as respostas. Conte-me quem matou Buck Dunfield."

Roger corou. "Essa é difícil. Não ouvi qualquer mexerico. Sharon e eu fomos ver Mildred ontem, e ela estava realmente abalada."

"Foi um homicídio fortuito? Dunfield tinha inimigos? Ou estava envolvido em algo que não sabemos?"

Roger deu de ombros. "Não sei muito sobre os veranistas."

"Ele morava pegado à sua sogra e fazia castiçais para vender na loja de sua mulher. Você nunca o viu?"

"Acho que o encontrei na praia um par de vezes e trocamos algumas palavras."

"Está mentindo, Roger. Você está treinando para ser um político?"

Roger levantou as mãos. "Não atire!" Em seguida fez uma careta trocista para Qwilleran. "Tem pescado ultimamente no Minnie K?"

"Vou lhe contar uma coisa interessante", disse Qwilleran. "Voltei essa manhã para dar outra espiada no velho barco, e o nome foi mudado para Seagull com o S pintado às avessas."

Roger acenou com a cabeça. "Posso lhe dizer por quê, se quer saber. O capitão provavelmente ficou com medo que você fosse dar com a língua nos dentes sobre um corpo no lago, e envolver o Minnie K. Então ele seria multado por operar um serviço de frete ilegal. Os barcos têm de ser registrados antes de poder pegar grupos para pesca de corrico. Pelo que você conta do Minnie K, ele nunca passaria pela inspeção."

Qwilleran tinha mais uma missão a cumprir naquela tarde. Sua curiosidade sobre a lata de lixo enterrada continuava a atraí-lo de volta ao cemitério, e agora que podia identificar as urtigas, estava pronto para outra expedição. As atividades de fim de semana na vereda dos namorados tinha aumentado o volume do lixo de piqueniques, e os dias ensolarados e noites chuvosas tinham feito maravilhas com o mato dentro do cemitério. Em volta das lápides menores achou as ervas daninhas com as folhas de três pontas e lembrou que as tinha arrancado para ler as inscrições. Seguiu a tênue trilha para trás do monumento Campbell.

A lata ainda estava camuflada com mato espalhado por cima, e ainda estava vazia. Mas tinha sido usada para algum fim. Havia um pouco de palha no fundo, e a alça da tampa, que Qwilleran tinha deixado em ângulo reto com a lápide, agora estava de través.

Qwilleran não se demorou. Voltou rapidamente à cabana a fim de chegar antes de Rosemary. As exalações de peixe apodrecendo, mais penetrantes, pioravam seu humor sombrio. Rosemary, por outro lado, entrou alegremente na cabana, borbulhante de entusiasmo e carregando uma braçada de tulipas amarelas, brancas, rosa, vermelhas e roxo-escuro.

"Os jardins da prisão são lindos", disse ela. "Você precisa conhecê-los, Qwill querido. Um homem encantador me deu essas flores para trazer para casa. Quantas páginas escreveu hoje?"

"Nunca as conto", disse Qwilleran.

"É uma bela prisão nova. Uma mulher muito gentil fora dos portões me convidou para me unir à PALS. É a Sociedade de Senhoras para Ajuda aos Presos, ou algo assim. Elas escrevem cartas para os presos e lhes mandam pequenos presentes."

"Você ouviu alguma fofoca sobre o assassinato?"

"Nem uma palavra! Você tem algum vaso para essas tulipas? Tenho algumas coisas da mercearia no carro para nosso jantar. Comprei peixe fresco, aipos lindos e couve-de-bruxelas — e algumas cenouras para os gatinhos. Você precisa ralar um pouco de cenouras e misturá-las à comida deles todos os dias."

Couve-de-bruxelas! Cenouras! Qwilleran estivera pensando num bife de quinhentos gramas, batatas fritas com ketchup, pãezinhos Parker-House, salada de roquefort, torta de maçã com queijo cheddar e três xícaras de café.

"Será que os peixes podem esperar?", perguntou ele. "Gostaria de levá-la ao Hotel Aurora Boreal para jantar. Meu dia não foi muito produtivo, e eu preciso de uma mudança de cenário."

"Mas é claro! Parece ótimo", disse Rosemary. "Dá tempo para eu andar uma hora na praia?"

"Você não vai gostar. A praia está coberta de peixes mortos."

"Isso não me incomoda", disse ela. "É parte da natureza."

Deixando as tulipas numa jarra de limonada no consolo da lareira, numa vasilha de flores na mesa de jantar e num balde de gelo no bar, Rosemary saltitou exultante pela descida que levava à praia.

Qwilleran atirou-se num dos sofás. "Koko, sinto-me um idiota", disse ao gato, que o estudava atentamente do encosto do sofá. "Não tenho uma única pista. No que estamos trabalhando? Um corpo no lago, o assassinato de um policial aposentado e uma mensagem numa fita. Alguém tem usado esta cabana para uma finalidade ilícita ou ilegal. Não importa quem. Nem sabemos qual."

"MIAU!", disse Koko, piscando os grandes olhos azuis.

Qwilleran apanhou o cassete na gaveta da cômoda e tocou Little White Lies mais uma vez. A voz interrompeu: "...trazer mais coisas... fazer algumas mudanças... as coisas estão ficando quentes... na doca de barcos depois do jantar." Era uma voz aguda e anasalada, com uma inflexão monótona.

"Eu já ouvi essa voz", disse Qwilleran a Koko, mas o gato se entretinha com seu brinquedo de erva-de-gato. "As coisas estavam ficando quentes porque Buck se aproximava em sua investigação. Algumas mudanças tiveram de ser feitas porque a cabana não estava mais disponível como depósito."

Aquela voz! Aquela voz! Ele a escutara no correio, ou no COMID, ou na General Store, ou no refeitório do hotel.

Não! Qwilleran ficou alerta. A voz na fita era a que ouvira na neblina, quando dois homens estavam tendo uma altercação no outro barco. Uma delas tinha um tom profundo e sotaque inglês. O outro homem falava num tom agudo e uma inflexão monótona. Lembrou-se que algo tinha acontecido ao motor, e eles estavam discutindo, aparentemente, sobre o melhor jeito de fazê-lo pegar.

clunk!

Qwilleran reconheceu o ruído de um livro sendo empurrado da prateleira e caindo ao chão. Koko já fizera isso antes. Ele nunca era desajeitado; se derrubara algo era por um bom motivo.

Koko estava na segunda prateleira, esgravatando atrás de uma fileira de livros para soltar sua meia de erva-de-gato. O livro que havia desalojado era um tratado sobre naufrágios históricos, e jazia aberto no chão — numa página marcada por uma tira de papel dobrado.

Ali, na página 102, estava o relato do afundamento do Waterhouse B. Duncan, cargueiro que levava um carregamento precioso de lingotes de cobre. Ele submergira em águas traiçoeiras, ao norte de Mooseville, durante uma grande tempestade, em novembro de 1913. Todos haviam morrido: três passageiros e uma tripulação de vinte e três pessoas, inclusive uma cozinheira.

O papel dobrado que marcava a página cento e dois era um contrato escrito a lápis do aluguel de um barco por treze fins de semana durante o verão, condições a decidir. Estava datado do ano anterior e assinado S. Hanstable.

Havia algo nesses dados que estimulou a memória de Qwilleran. Em algum trecho de suas cartas, tia Fanny tinha mencionado... o quê? A lembrança era vaga. Revolveu o arquivo de correspondência e gemeu; as cartas dela não eram apenas escritas em cruz, mas com caligrafia extremamente individual, e a profusão de traços transformava cada página num axadrezado ofuscante.

Colocou os óculos de leitura e relanceou os olhos por meia dúzia de páginas antes de achar a referência que lhe importunava a memória. No dia três de abril ela lhe oferecera a cabana pela primeira vez. Escrita no seu estilo telegráfico, a carta dizia:

 

Lugarzinho encantador... construída inteiramente de troncos... muito confortável... estou ficando velha... não a aprecio mais tanto... no último verão resolvi alugar... dois rapazes de boa aparência... interessados em história marítima... vinham nos fins de semana... as namoradas ficavam a semana toda... criaturas detestáveis... faziam brincadeiras com espaguete... jogaram-no no teto... desordem indescritível... duas semanas para limpar o lugar... nunca mais!

 

O bigode de Qwilleran eriçou-se, como fazia sempre que pensava ter achado uma pista. O marcador do livro levantava outras questões: a mulher de Roger possuía um barco? Escrevia em letra de fôrma como uma professora primária? Escrevia decidir com s?

 

Antes de levar Rosemary para jantar, Qwilleran alimentou os gatos, que cuidadosamente evitaram todas as migalhinhas de cenoura que contaminavam a carne enlatada.

Ele havia feito uma reserva no Hotel Aurora Boreal para conseguir um dos reservados de encosto alto construídos com cabinas aproveitadas de barcos pesqueiros desativados. Os clientes que se sentavam nesses reservados tinham de ter cuidado para evitar as farpas e, com tempo úmido, eles exalavam lembranças assombradas de sua origem, mas eram ideais para conversas particulares.

Rosemary usava uma camiseta de Mooseville e um colar de couro trançado da loja de presentes da prisão, e parecia tão jovem, tão vibrante, tão saudável que Qwilleran achou difícil acreditar que tinha um neto com idade bastante para cursar a escola de medicina. Ela pendurou a bolsa de alça longa num gancho à entrada do reservado. "Não é maravilhoso", disse ela, "não precisar me preocupar com roubos! Em casa, quando vou a um restaurante, ponho esta bolsa no chão, fico com o pé em cima e enrolo a alça no meu tornozelo."

A capa do menu reproduzia a gravura de uma terrível tempestade no lago, e as toalhinhas sob os pratos davam as datas dos principais naufrágios, bem como o número de mortes. Bon appetit, pensou Qwilleran.

Ele disse a Rosemary: "Você pode pedir o bacalhau escaldado com couve-flor se quiser, mas eu vou querer um belo bife com fritas... Não fique tão chocada. Sei que o Alimento Certo tem feito maravilhas para você, que não parece ter um dia a mais que trinta e nove anos. Mas já é muito tarde para mim. A única vez que parecia ter trinta e nove foi quando tinha vinte e cinco."

"Trégua! Trégua!", disse ela, acenando com um guardanapo de papel. "Eu não queria ser aborrecida, Qwill. Peça o que quiser e não se desculpe. Você está sob pressão criativa com seu livro, e merece um trato. Quantos capítulos já escreveu? Você me leria algumas páginas hoje à noite?"

"E outra coisa, Rosemary: por favor não fique perguntando sobre meu progresso. Não tenho quota diária nem limite de tempo, e quando não estou sentado à máquina de escrever, quero me esquecer por completo disso."

"É claro, Qwill querido. Nunca conheci um autor pessoalmente. Você tem de me ensinar como me comportar."

Ele ficava olhando através da sala para um grupo de quatro pessoas sentadas sob um quadro de um marinheiro se afogando num mar infestado de tubarões. "Não olhe agora", disse ele, "mas me disseram que os dois homens ali adiante são mergulhadores em destroços de naufrágios. Eles saqueiam navios afundados."

Os homens eram altos, enxutos de carnes e de rostos impassíveis. "Parecem anúncio de cigarros", disse Rosemary, "e as moças com eles parecem modelos. Como é que conseguiram esse belo bronzeado tão cedo na estação? E por que não parecem felizes? A dieta deles provavelmente é inadequada."

"Já vi essas moças andando na praia", disse Qwilleran. "Acho que estão num chalé perto do nosso. Eles podem ser os quatro que alugaram a cabana de tia Fanny no ano passado." Ele contou como Koko tinha atraído sua atenção para o livro do naufrágio e como ele tinha procurado no meio da correspondência escrita em cruz. "Se estiver procurando um meio rápido de ficar com dor de cabeça", acrescentou, "eu lhe empresto uma das cartas de tia Fanny."

"Quando vou conhecê-la?"

"Amanhã ou quarta-feira. Eu gostaria de perguntar a ela sobre os supostos historiadores marítimos e sobre seu relacionamento com Buck Dunfield. Há um obstáculo: é difícil atrair sua atenção."

"Alguns tipos de surdez são causados por uma deficiência de dieta", disse Rosemary.

"Tenho certeza que ela não é surda. Ela simplesmente resolve não ouvir. Talvez você consiga entabular conversa, Rosemary. Ela parece preferir as mulheres... Desculpe um momento. Quero pegar aquelas pessoas antes que saiam."

Cruzou a sala até os mergulhadores e dirigiu-se ao mais temível dos dois. "Com licença. Você não é correspondente de um dos serviços telegráficos?"

O homem sacudiu a cabeça. "Sinto, mas está enganado", disse ele numa voz profunda e inamistosa.

"Mas é um jornalista, não é? Não se formou na Columbia? Você cobriu a última eleição presidencial."

"Não, nada disso."

Qwilleran fez uma boa demonstração de perplexidade e virou-se para o segundo homem. "Eu podia jurar que você era fotógrafo de imprensa, e que os dois trabalhavam juntos."

Mais cordialmente, o outro homem disse: "Nada disso, moço. Somos apenas dois caras de férias."

Qwilleran desculpou-se, desejou-lhes boas férias e voltou para o reservado.

"O que está acontecendo?", perguntou Rosemary.

"Mais tarde eu conto."

No caminho de casa ele explicou: "Acho que tem um grupo de criminosos operando por aqui. Eles têm usado a cabana de tia Fanny como centro de operações clandestino. É retirada, as portas sempre estiveram destrancadas; e há três vias de acesso ou de fuga: a praia, a estrada e a floresta. O chefe grava as ordens para seus asseclas, escondendo a fita atrás da cabeça de alce".

Rosemary riu. "Qwill querido, você está brincando comigo."

"Estou falando sério."

"Você acha que está relacionado com drogas?"

"Acho que é saque de naufrágios. O lago está cheio de destroços valiosos, e há um livro na cabana que determina precisamente sua localização e descreve as cargas. Alguns dos barcos afundaram há mais de cem anos."

"Mas a carga já não estaria estragada?"

"Rosemary, eles não embarcavam automóveis nem aparelhos de TV, em 1850. Embarcavam lingotes de cobre e barras de ouro. Os registros de embarque descrevem exatamente o que havia a bordo de cada navio quando afundou: quantos barris de uísque, ou quantos dólares em notas de banco ou ouro. Houve uma época em que esta parte do país era florescente."

"Por que foi falar com os homens no hotel?"

"Pensei que um deles fosse o cabeça, mas não há semelhança entre suas vozes e a da fita. Nenhuma mesmo. Mas o chefe está por perto em algum lugar."

"Ah, Qwill, você tem uma imaginação fantástica."

Quando chegaram à cabana, Qwilleran destrancou a porta e Rosemary entrou. Ele ouviu o grito dela: "Meu Deus! tem tulipas por todo o chão!"

"Esses gatos!", berrou Qwilleran — alto o bastante para enviá-los voando ao quarto de hóspedes.

"Eles arrancaram todas as tulipas negras, Qwill."

"Não os culpo. As tulipas não foram feitas para ser negras."

"Mas você me disse uma vez que os gatos não podem distinguir as cores."

Ele apanhou as flores, e Rosemary rearranjou os buquês nos vasos improvisados na lareira, no bar, e na mesa de jantar. Depois foram para a varanda do lago esperar o pôr-do-sol, estirando-se em cadeiras envernizadas de navio tão velhas que poderiam ter sido do Titanic.

Gaivotas alçavam voo, precipitavam-se e disputavam os peixes na praia. Rosemary identificou-as como gaivotas de arenque. Os caçadores de moscas, disse ela, que executavam um balé aéreo ininterrupto, eram andorinhas arroxeadas. Uma coisa marrom e amarela que ficava zunindo pela varanda era um âmpelis cedrino.

"Estou ouvindo uma coruja", disse Qwilleran, para provar que não era totalmente ignorante da vida selvagem.

"É uma pomba selvagem", ela corrigiu. "E estou ouvindo um cardeal... e um papa-moscas... e acho que um pintassilgo dos pinheiros. Feche os olhos e ouça, Qwill. É como uma sinfonia."

Ele tocou o bigode compungido. Talvez estivesse ouvindo as vozes erradas. Estava no campo, de férias, rodeado pelos prazeres da natureza, e tentava identificar meliantes em vez de âmpelis cedrinos. Devia estar lendo o livro sobre pássaros, em vez de cartas escritas em cruz.

Rosemary interrompeu seus pensamentos. "Conte-me sobre tia Fanny."

"Ah... bem... sim", disse ele, voltando a atenção para o momento. "Para começar... ela usa roupas espalhafatosas e batom vivo, e tem voz de sargento instrutor. É animosa e mandona e cheia de energias e ideias."

"Deve ter uma alimentação excelente."

"Ela tem um empregado que a conduz de carro para todo lugar, leva recados, toma conta do jardim, limpa a casa e sabe consertar tudo o que existe na face da terra."

Rosemary reprimiu o riso. "Ele daria um marido maravilhoso. Que idade tem?"

"Mas suspeito que também é um gatuno."

"Eu sabia que tinha um porém", disse Rosemary. "Como é que Koko reage a ele?"

"Muito favoravelmente. Tom tem o tipo de voz que agrada aos gatos."

Koko ouviu seu nome e veio se encaminhando displicentemente para a varanda.

"Você tem feito Koko caminhar com a coleira?"

"Não, mas estou pensando numa manobra de reconhecimento. Ele passa muito tempo olhando pela janela do quarto de hóspedes, e eu gostaria de saber o que acha tão interessante."

"Coelhos e esquilos", sugeriu Rosemary.

"Há algo mais." Qwilleran cofiou o bigode. "Tenho um pressentimento..."

"Vamos sair com ele."

"Agora?"

"É. Vamos!"

Em várias ocasiões Koko tinha sido atado à coleira e levado para uma volta. Uma correia de três metros e meio, presenteada por um fotógrafo do Fluxion servia de coleira e dava a ele um largo raio de ação. Frequentemente o nariz inquisidor e a percepção felina de Koko levavam a descobertas que escapavam à observação humana.

A aparição da coleira produziu uma ruidosa demonstração e, quando as fivelas foram apertadas, Koko emitiu uma gama de sons siameses que denotavam excitação. Yum Yum pensou que ele estava sendo torturado e protestou ruidosamente.

Pela primeira vez desde que chegara, Koko saiu da cabana. Fora da varanda, achou a corda pendurada sob o sino de latão, esticou-se até alcançá-la com as garras e deu um repique ou dois. Sem hesitação, voltou-se então para o leste — passou a varanda, depois a cabana em si, deu a volta no retângulo arenoso que cobria a fossa séptica e rumou para a floresta. Quando chegou ao tapete de agulhas de pinheiro, bolotas e folhas de carvalho secas, cada passo era uma experiência farfalhante, crepitante, desconhecida a um gato de cidade. Esquilos, coelhos e tâmias fugiam para a segurança. Um tordo frenético tentou distraí-lo para longe do ninho. Koko simplesmente encaminhou-se resolutamente para a floresta no topo da duna. Atrás de uma moita de cerejas silvestres estava o barracão de ferramentas.

"Ora essa!", segredou Qwilleran a Rosemary. "Ele veio em linha reta para o barracão".

Ele abriu a porta, e Koko atravessou a soleira de um pulo. Deu uma farejada num remo de canoa e duas na lata de lixo. "Depressa, Rosemary, corra e pegue a lanterna. Está pendurada no lado de dentro da porta dos fundos."

Na escuridão do interior do barracão, Koko deu uma olhada na coleção de latas de tinta e foi diretamente ao catre de Tom. Pulando para o cobertor surrado, começou a dar pata-das diligentemente, emitindo o tempo todo ruídos guturais e balançando a cauda em largos arcos. Arranhou o triste arremedo de travesseiro, a parede com as ilustrações esmaecidas de Las Vegas e voltou a dar patadas no cobertor.

"O que está procurando, Koko?" Qwilleran puxou o cobertor para o lado, e Koko mergulhou no colchão fino.

Rosemary voltou a lanterna para o triste quadro. "Ele está muito determinado."

"Pode haver um ninho de camundongos no colchão."

"Vamos puxar essa coisa imunda para o chão."

O colchão deslizou pelas molas chatas do estrado, e com ele veio um grande envelope de papel manilha. Rosemary aproximou a luz. O envelope estava endereçado a Francesca Klingenschoen e tinha data de dois anos atrás. O endereço do remetente era de uma firma imobiliária da Flórida.

"Olhe dentro, Qwill."

"Dinheiro! A maioria de notas de cinquenta."

"Deixe-me contá-las. Estou acostumada a contar dinheiro." Ela estalou as notas com rapidez profissional. A soma total era de quase mil e duzentos dólares. "O que faremos com isto?"

"Pertence ao empregado de Fanny", disse Qwilleran. "Vamos recolocá-las no lugar, arrumar a cama e dar o fora daqui, antes que os mosquitos tragam suas reservas."

Tarde da noite ele estava acordado, pensando no esconderijo de Tom no barracão. Estaria o pobre diabo economizando para dar um sinal num clube de Las Vegas? Onde estava conseguindo o dinheiro? Não de tia Fanny. Aparentemente ela distribuía somente alguns dólares por vez.

Qwilleran ouviu passos pesados no telhado. Desejou que Roger estivesse certo. Esperava que fosse um guaxinim.

 

Na terça de manhã, Qwilleran dirigiu-se à cidade antes do café para comprar ovos. Rosemary insistia que não havia nada melhor do que um ovo quente para a boa digestão. Qwilleran não se lembrava de ter comido um ovo quente desde o tempo em que ficara de cama, no segundo grau, com caxumba. Não obstante, comprou uma dúzia de ovos, e quando retornou Rosemary foi encontrá-lo na porta. Seu rosto estava severo.

"Koko foi peralta", disse ela.

"Peralta!" Jamais alguém acusara Koko de ser peralta. Perverso talvez, ou arrogante, até despótico. Mas ser peralta estava abaixo de sua dignidade. "O que foi que ele fez?"

"Arrancou de novo todas as tulipas negras. Eu o vi. Ralhei muito e tranquei-o no banheiro. Yum Yum está sentada do lado de fora da porta choramingando, mas Koko está muito quieto lá dentro. Tenho certeza que sabe que fez coisa errada."

Qwilleran abriu a porta devagar. A cena parecia causada por uma tempestade de neve. Um rolo de toalhas de papel fora reduzido a confete. A cesta de lixo estava tombada e seu conteúdo espalhado. Uma caixa nova de duzentas toalhas de papel para o rosto estava vazia, o papel higiênico desenrolado e festonado pelo aposento. Sais de banho e pós de limpeza haviam sido liberalmente espalhados sobre tudo.

Koko sentava-se orgulhosamente na caixa de descarga da privada como se tivesse completado um trabalho de arte conceituai e estivesse pronto para uma entrevista com a imprensa.

Qwilleran colocou a mão no rosto para esconder um sorriso malicioso, mas Rosemary rompeu a chorar.

"Não se aborreça", disse ele. "Vá fazer os ovos quentes que eu limpo a sujeira. Acho que ele está tentando nos dizer algo sobre tulipas negras."

A conversa estava tensa na mesa de café. Rosemary perguntou resignadamente: "Quando vamos ver a tia Fanny?"

"Vou lhe telefonar depois do café. Hoje nós deveríamos levar seu carro a Mooseville para consertar o silenciador. Enquanto estivermos lá podemos visitar o museu e almoçar no Nasty Pasty... Também gostaria de sugerir eliminarmos as tulipas negras."

A chamada telefônica para Pickax exigiu a paciência habitual.

"Claro, eu adoraria vê-lo e à sua amiga amanhã", disse a tia Fanny, na sua voz profunda. "Venham para o almoço. Vamos ter costeletas de porco ou fatiazinhas de vitela. Você gosta de suflê de espinafre? Ou prefere couve-flor com molho de queijo? Tenho uma esplêndida receita de suflê. Como está o tempo na praia? Há alguma coisa que Tom possa fazer por você? Eu posso fazer uma torta chiffon de laranja de sobremesa se você..."

"Tia Fanny!"

"Sim, querido?"

"Não faça um almoço grande. Rosemary tem um apetite pequeno. Mas eu poderia usar os serviços de Tom, se não for inconveniente. Temos alguns peixes mortos na praia que devem ser enterrados."

"É claro. Tom gosta de trabalhar na praia. Você está fazendo progressos no seu livro? Estou ansiosa por lê-lo!"

Rosemary ficou excepcionalmente quieta por toda a manhã, e Koko — que era mestre em ficar um passo à frente do adversário — imaginou um meio sutil de pressionar sua vantagem. Seguia-a por toda a cabana e reiteradamente manobrou a cauda para baixo do pé dela. Seus guinchos pavorosos após cada pisada levaram-na a uma perturbação nervosa.

Qwilleran, embora divertido com a inventividade de Koko, começou a ficar com pena de Rosemary. "Vamos sair daqui", disse ele. "Numa batalha com um siamês você sempre perde."

Deixaram o carro dela na oficina, e Qwilleran prestou muita atenção ao modo de falar do mecânico. Comparando à voz da fita, ele tinha o tom certo, mas o timbre e a inflexão errados.

O museu ocupava um teatro lírico do século XIX, quando lenhadores, marinheiros, mineiros e empregados de moinhos pagavam com moedas de dez e vinte e cinco centavos para ver peças musicais. Agora estava repleto de fatos memoráveis de antigas indústrias madeireiras e mercantes. Rosemary ficou absorta com os estojos contendo trabalhos ornamentais e artesanatos executados por marinheiros. Qwilleran foi seduzido pelos modelos em escala de navios históricos que haviam afundado. E dois outros homens também, os quais ele reconheceu. Eles estudavam os modelos dos navios e murmuravam um para o outro.

Um terceiro homem — moço e entusiástico — aproximou-se rapidamente, "sr. Qwilleran, estou feliz que nos tenha honrado com sua visita. Sou o curador do museu. Roger me disse que estava na cidade. Se tiver quaisquer perguntas, terei prazer em respondê-las." Qwilleran notou que o tom, o timbre e a inflexão estavam completamente errados.

Ele disse a Rosemary: "Tenho de fazer uma coisa. Volto em meia hora, e então iremos almoçar".

Foi rapidamente até o centro de visitantes e esperou pacientemente, enquanto cinco turistas perguntavam sobre os ursos do lixão. Depois colocou um pedaço de papel na mesa de Roger. "O que pode me dizer sobre isto?"

Roger leu o contrato de aluguel de barco. "É a assinatura de meu sogro."

"Ele tem um barco?"

"Todo mundo por aqui tem barco, Qwill. Ele gosta de ir pescar sempre que pode se afastar daqueles perus estúpidos."

"Ele alugou o barco para mergulhadores em destroços no verão passado?"

"Não tenho certeza, mas acho que ele faria qualquer coisa por dinheiro." Roger remexeu-se embaraçado. "A verdade é que nos damos muito bem. Sharon era a queridinha do papai e eu cheguei e a roubei. Entendeu a coisa?"

"Sinto muito. Eu também estive na mesma situação... Outra pergunta, Roger. O que sabe sobre as pessoas que dirigem o COMID?"

"São um casal estranho. Ela tem uns cinquenta quilos de excesso de peso, e quando está na caixa registradora, é melhor você contar seu troco. Ele teve algum tipo de acidente de trabalho Lá Embaixo. Quando recebeu a indenização, vieram para cá e compraram o COMID. Isso foi antes do A cair."

"O marido é o cozinheiro? Um homenzinho meio careca."

"Não, Merle é um sujeito grande. Passa todo o tempo no seu barco."

"Onde é que ele fica?"

"Na doca atrás do restaurante... Hei, você viu o disco voador ontem à noite?"

"Não, não vi o disco voador ontem à noite", disse Qwilleran, virando-se para a porta.

"Temos muitos por aqui", disse Roger. Mas Qwilleran já saíra.

Aí estava a oportunidade de verificar a voz de um provável suspeito. O COMID havia despertado sua desconfiança desde o começo — por diversas razões. Algo que não parecia café era frequentemente servido em xícaras de café. Havia quartos para alugar no andar de cima. Os clientes davam sub-repticiamente dinheiro à sra. COMID e recebiam um pedaço de papel em troca. Quanto ao homenzinho meio careca, andava de modo furtivo e fazia pastelões horríveis.

Agora Qwilleran queria conhecer Merle. Deixando Rosemary no museu, dirigiu até o COMID, estacionou no pátio e caminhou até a doca. Um barco de bom tamanho e em ótimo estado balançava-se ao longo do molhe, mas não havia ninguém à vista. Chamou Merle várias vezes, mas não houve resposta.

Quando voltava para o carro, o cozinheiro esgueirou-se pela porta dos fundos, fumando um cigarro. "Procurando alguma coisa?", perguntou.

"Queria ver Merle. Sabe onde ele está?"

"Saiu por aí."

"Quando ele volta?"

"A qualquer hora."

Qwilleran voltou à cidade e levou Rosemary ao Nasty Pasty. Ela se recobrara de seu arrufo com Koko e estava transbordante de conversa. O museu era tão interessante; o curador tão amigável; o restaurante tão habilmente decorado!

Qwilleran, por outro lado, estava desapontado por não encontrar Merle, e fazia tinir três pedrinhas no bolso do suéter.

"O que há, Qwill? Parece nervoso."

"Só estou revirando meus talismãs da sorte." Ele jogou as pedrinhas na mesa. "A verde é jade polido que um colecionador me deu. O inseto de cerâmica é um escaravelho que Koko achou. A ágata é a que Buck Dunfield apanhou na nossa praia — a última ágata que ele achou, coitado."

"E aqui está outra para sua coleção", disse Rosemary, exibindo um disco do tamanho de uma moeda de dez centavos, de marfim amarelado, com a cara de um gato gravada na superfície. "É trabalho feito por marinheiros, e muito antigo."

"Excelente! Onde a achou?"

"Na loja de antiguidades, atrás do museu. O curador me falou dela. Já esteve lá?"

"Não. Vamos lá depois do almoço."

"Um velho capitão do mar a dirige, e estou lhe avisando: é um lugar horrível."

A Bagunça do Capitão era um nome apropriado para a miscelânea de antiguidades e falsificações que enchiam a loja atrás do museu. De fachada pequena, era mais antiga que o próprio teatro lírico, e o primeiro vento noroeste com certeza a derrubaria. A construção estava tão frouxa e desconjuntada que somente a sólida porta de carvalho a mantinha de pé. Quando ela estava aberta, a casa pendia para um lado, e era preciso empurrar o batente de volta à posição antes de poder ser fechada. Qwilleran farejou criticamente. Detectava mofo, uísque e tabaco.

Havia lanternas marítimas, pedaços de cordame, objetos de latão não-polido, navios em garrafas empoeiradas, mapas manchados de água e — sentado no meio da desordem — um velho com uma barba hirsuta e um surrado boné de capitão. Estava fumando um cachimbo entalhado, de algum lugar longínquo, mas seu tabaco era o mais barato que havia na drogaria da esquina. Qwilleran conhecia todos.

"Já de volta?", resmungou o capitão, quando viu Rosemary. "Eu lhe disse: não há trocas. Não devolvo dinheiro."

Qwilleran perguntou: "Ainda vai para o mar, capitão?"

"Não, esses dias acabaram."

"Imagino que navegou à volta do globo mais vezes que pode lembrar."

"É, rodei um bocado."

"Há quanto tempo tem a loja?"

"Há muito tempo."

O tom da voz do homem estava certo; a inflexão quase certa, mas a enunciação não tinha a força da voz na fita. O capitão era muito velho. Qwilleran estava procurando alguém mais moço, mas não muito moço. Remexeu no meio dos trastes e comprou um tinteiro de latão que tinha a garantia de não escorregar da mesa do capitão num mar revolto.

Voltaram à cabana e Rosemary sugeriu uma volta pela praia. Enquanto ela mudava de roupa, Qwilleran caminhava pela propriedade. Sabia que Tom tinha estado lá; o sino de latão estava com um novo brilho, e as pequenas carcaças podres na praia tinham sido enterradas.

Rosemary apareceu numa roupa de praia turquesa. "Eu queria pôr meu novo macacão abricó, mas não consigo achar o batom coral."

"Você está linda", disse Qwilleran. "Gosto dessa cor em você."

Koko olhou-os fixamente em silêncio, quando desceram a ladeira até a praia.

Rosemary disse: "Acho que ele quer que eu vá embora."

"Bobagem", disse Qwilleran, mas a mesma ideia lhe havia cruzado a mente. Koko nunca aprovara as mulheres de sua vida.

Dirigindo-se para leste, caminharam com dificuldade pela areia fofa, em silêncio, para melhor apreciar a quietude da praia deserta. Depois apareceu a fileira de casas de verão no topo da duna. Uma parecia a proa de um navio. Outra, ladeada por barris de cedro, parecia um pássaro de penas arrepiadas. Alguns moradores estavam enterrando seus peixes mortos. Duas moças tomavam sol no deque de uma cabana rústica em forma de A.

"São as modelos que vimos no hotel", disse Rosemary, "e não estão usando a parte de cima dos maiôs, nem as de baixo".

Qwilleran apontou a casa onde Buck havia sido assassinado. "Agora é um mistério ainda maior", disse ele. "No começo eu pensava que havia alguma ligação entre a investigação particular de Buck e a mensagem da fita, mas ele estava na pista de um crime, e os mergulhadores em naufrágios não são criminosos. São oportunistas astutos operando para lucro particular e não no interesse público, mas não estão violando a lei."

Depois passaram pela casa amarela de Mildred e atravessaram outro quilômetro de praia deserta até que um córrego, borbulhando pelo leito de pedras, cortou a areia e barrou-lhes o caminho. Quando voltavam, Mildred acenou de sua varanda, chamando-os com gestos para subirem a duna e oferecendo café e torta de maçã caseira. "Está no congelador", disse ela. "Não leva mais que um minuto para descongelar."

O interior do bangalô era abafado por colchas feitas a mão, penduradas às paredes e cobrindo os móveis.

"Você fez todas? São lindas!", exclamou Rosemary. "Você investiu muito tempo nisso."

"Tenho tempo de sobra para investir", disse Mildred, com um pequeno suspiro. "Vocês viram o disco voador ontem à noite?"

"Não, mas ouvi falar", disse Qwilleran. "O que acha que foi?"

Mildred pareceu surpresa. "Ora, todos sabem o que foi."

Foi a vez de Qwilleran parecer surpreso. "Você acredita realmente que foi um visitante extraterrestre?"

"É claro. Eles vêm o tempo todo — geralmente às duas ou três da manhã. Eu os vejo por causa da minha insônia. Tenho ordens permanentes de telefonar aos Dunfields a qualquer hora, para que possam levantar e olhar."

Tomando nota mentalmente para acompanhar essa excentricidade local, Qwilleran disse: "Você soube da mulher e da irmã de Buck?"

"Elas telefonaram uma vez para pedir que eu adotasse seus gerânios e jogasse fora os perecíveis da geladeira. Não sabem quando voltarão."

"Algum progresso no caso?"

"Os homens do laboratório da polícia estiveram examinando a casa. Betty me contou que Buck devia estar trabalhando na oficina, quando o assassino esgueirou-se e o pegou de surpresa. Havia um castiçal no torno mecânico e muita serragem. Aquelas máquinas faziam tanto barulho que Buck não ouviria alguém entrar, suponho."

"Podemos presumir que o assassino desligou a máquina depois? Foi muito amável da parte dele."

"Ninguém mencionou, e eu não havia pensado nisso."

"Ele deve ter deixado pegadas com serragem fora da casa."

"Não sei. Imagino que sim."

"Buck alguma vez falou sobre os mergulhos nos destroços de naufrágios que acontecem por aqui? Ou aludiu a qualquer atividade criminosa?"

Mildred sacudiu a cabeça, abaixou os olhos e caiu em cismas.

Para despertá-la, Qwilleran disse: "Tudo bem, Mildred, que tal ler as cartas de tarô? Tenho algumas perguntas".

Ela deu um profundo suspiro. "Venham para a mesa de jogo. Vou ler para vocês, um de cada vez. Quem quer ser o primeiro?"

"Você é sincera sobre isso?", perguntou Qwilleran. "Ou é um truque para os fundos do hospital?"

"Sou sincera. Muito sincera", disse ela, "e tenho de estar no estado de espírito certo, ou não funciona. Portanto... sem brincadeiras, por favor."

"As cartas poderiam revelar alguma coisa do assassinato?"

O rosto dela ficou pálido. "Eu não gostaria de perguntar a eles. Não quero entrar nisso."

Rosemary disse: "As cartas são fantasmagóricas — que figuras mais estranhas! Aqui tem um homem pendurado de cabeça para baixo."

"Os símbolos são antigos, mas só revelam pensamentos e introvisões. Você tem alguma pergunta, Rosemary?"

Rosemary quis saber sobre suas expectativas de negócios. Sentou-se em frente de Mildred e embaralhou as cartas. Então Mildred arrumou uma dúzia delas numa configuração e meditou longamente.

"As cartas estão em sincronia com suas perguntas", murmurou ela, e com outras que você não formulou. Tudo aponta para uma mudança. Negócios, casa, romance — todos sujeitos a mudanças em futuro próximo. Você teve sociedades no passado, e as perdeu, de um modo ou de outro. Seu atual sócio é uma mulher, eu acho. Isso vai mudar. Você sempre gostou de mudanças, mas agora está relutante em enfrentar algo novo. Um contrato quebrado a desapontou. Não deixe que isso afete sua energia e entusiasmo. Você fará um contato animador logo. E espere boas novas de um homem jovem de grande ambição. Vejo outra figura nas cartas: um homem maduro de grande inteligência. Você poderá fazer uma longa viagem com ele. Fique alerta para dois perigos: evite conflitos entre a vida de negócios e a pessoal, e cuidado com traições. Tudo terminará bem se você usar seus dotes naturais e mantiver uma direção constante." Ela parou e tomou um profundo fôlego.

"Maravilhoso!", disse Rosemary. "E tudo tão verdadeiro!"

"Pode me desculpar um momento?", disse Mildred, debilmente. "Quero sair um pouco e respirar profundamente antes da próxima leitura."

Ela saiu da sala e Qwilleran e Rosemary se entreolharam.

"O que acha disso, Qwill?", disse ela. "O contrato quebrado é meu aluguel em Maus Haus. Meu sócio no Helthy-Welthy é uma mulher. O jovem ambicioso é meu neto, eu sei. Ele está tentando um estágio muito vantajoso em Montreal."

"E quanto ao outro sujeito? Maduro e inteligente. Isso elimina Max Sorrel."

"Agora você está caçoando. Pressupõe-se que seja sério."

Quando Mildred voltou, Qwilleran tinha arrumado no rosto uma expressão de sinceridade. Ele embaralhou as cartas e fez suas perguntas: "Vou atingir minha meta neste verão? Por que estou empacado em tudo que tento aqui no norte do país?"

"As cartas mostram uma disposição confusa, que poderia resultar em frustração", disse Mildred, serenamente. "Isso faz você espalhar suas forças e desperdiçar as energias em detalhes sem importância. Você tem habilidades, mas não as está usando. Mude de tática. Sua teimosia é o obstáculo. Seja receptivo com a ajuda externa. Vejo um homem e uma mulher nas cartas. A mulher tem bom coração, cabelos claros e gosta de você. O homem é jovem, moreno e inteligente. Deixe-o ajudá-lo. As cartas também preveem um novo envolvimento emocional. Poderão haver algumas más notícias, envolvendo-o em assuntos legais, mas você tirará o melhor partido disso. Seu verão terá sucesso, embora não do modo que planejou."

Qwilleran torceu-se na cadeira. "Estou impressionado, Mildred. Você é muito boa!"

Ela acenou com a cabeça distraidamente e saiu de novo da sala, depois de colocar um aquário na mesa. Estava rotulado Doações para o Hospital e continha uma nota de dez dólares. Qwilleran disse: "Por minha conta, Rosemary", e colocou duas notas de vinte dólares, uma quantia generosa que teria surpreendido seus amigos no Fluxion.

Rosemary disse: "Não gosto da ideia de seu novo envolvimento. É provavelmente aquela loura que ela mencionou."

"Você notou a carta? A loura tinha um gato preto. Parece com a encarregada dos correios. O homem moreno parece seu marido."

"Ou Koko", disse Rosemary.

A caminhada de volta pela praia foi em silêncio, enquanto cada um ponderava sobre os conselhos das cartas. Podia-se ouvir a areia cantando sob seus pés. Qwilleran fez uma observação: "Mildred perdeu o riso nervoso desde a tragédia com seu vizinho".

Na entrada da varanda, eles tocaram o sino de latão somente pelo prazer de ouvir seu tom puro, e quando Qwilleran destrancou a porta e a abriu para Rosemary, Koko estava no limiar, com Yum Yum logo atrás. Koko carregava uma única tulipa vermelha na boca.

"É uma oferta de paz", disse Qwilleran a Rosemary, mas sabia muito bem que Koko nunca se desculpava de nada. O gato estava tentando transmitir uma informação, e não era no campo da horticultura... Tulipas... Tulipas... O bigode de Qwilleran estava enviando sinais. As tulipas vinham dos jardins da prisão. Nick era funcionário da prisão... Deu uma olhada no relógio e agarrou o telefone.

Lori atendeu. "O senhor me pegou bem na hora, sr. Qwilleran. Já estava fechando para ir para casa."

"Quer dizer que vocês realmente trancam o correio em Mooseville?"

"Parece absurdo, não é?", disse ela. "Mas são normas federais."

Ele fez as considerações de praxe sobre o tempo e depois disse: "Você e Nick gostariam de vir amanhã à noitinha tomar uns drinques, conhecer os gatos e olhar o pôr-do-sol? Estou com uma hóspede encantadora de Lá Embaixo, e não sei quanto tempo mais ela irá ficar".

O consentimento de Lori foi quase efusivo demais, e Qwilleran disse a Rosemary mais tarde: "Até parece que foi um convite para a Casa Branca ou o Palácio de Buckingham".

Ela levantou as sobrancelhas. "Será que ouvi dizer que sua hóspede encantadora poderia não ficar por muito tempo?"

"Foi apenas uma inocente mentira social planejada para dar mais autenticidade convincente a um convite alarmantemente abrupto."

"Você deve estar se sentindo bem", disse Rosemary. "Sempre fica tagarela quando está se sentindo bem."

 

"O que devo usar para visitar tia Fanny?", perguntou Rosemary, na quarta de manhã. "Estou toda animada."

"Você fica bem no seu conjunto branco", disse Qwilleran. "Ela estará vestida como Pocahontas ou a imperatriz da China. Eu vou usar meu boné laranja." Ele sabia que Rosemary não gostava muito de seu novo adorno de cabeça.

No caminho para Pickax ele mostrou a fazenda de perus. "Mildred nos trouxe um pouco de peru da fazenda um dia, e foi o melhor que já provei."

"É porque foi criado naturalmente", explicou Rosemary. "E era fresco. Sem conservantes."

Perto da velha mina Dimsdale ele chamou a atenção para um velho e dilapidado vagão de carga que funcionava como bar-restaurante. "Eu o chamo de Bar-Restaurante Melancólico. Vamos jantar lá hoje."

"Ah, Qwill! você está brincando."

Ao se aproximarem de Pickax ele disse: "Tenho um palpite que a tia Fanny vai gostar de você. Você poderia descobrir por que ela alugou a cabana para aqueles mergulhadores no verão passado. E conte a ela que a picareta desapareceu da cabana".

"Por que eu?"

"Eu vou dar uma volta e deixar que vocês, garotas, se conheçam bem. Você poderia mencionar o assassinato de Buck Dunfield e ver como ela reage. Também estou curioso para saber por que uma mulher de oitenta e nove anos, com um guarda-costas que dorme no emprego, carrega uma pistola num condado onde não há crimes."

"Por que você não faz as perguntas e eu dou uma volta?", sugeriu Rosemary. "Não sou boa em bisbilhotar."

"Comigo ela é evasiva. Com outra mulher talvez se abra. Acontece que sei que ela gosta de advogadas e médicas."

Passaram por edificações desmoronando que haviam sido poços de minas, velhas pilhas de entulhos que formavam ressaltos irregulares na paisagem, fileiras de retângulos de pedra que haviam sido fundações de casas de mineiros. Depois a estrada alcançou a crista de uma colina, e Pickax City apareceu no vale abaixo, com o parque circular no centro.

"Fanny mora naquele círculo", disse Qwilleran. "É o melhor local da cidade. Seus ancestrais ganharam um monte de dinheiro com mineração."

Quando estacionaram na entrada da grande casa de pedra, Tom trabalhava no gramado perfeito e sua caminhonete azul estava estacionada em frente à casa da garagem. Qwilleran acenou-lhe e notou que os pelinhos no lábio do rapaz estavam começando a parecer um bigode.

Tia Fanny recebeu-os num robe púrpura esvoaçante, no estilo do Oriente Médio, com bainhas bordadas em prata. Um lenço púrpura estava atado à volta da cabeça, e os brincos pendentes eram cravejados de ametistas. Rosemary ficou fascinada, e tia Fanny foi verbosamente cordial.

Qwilleran ficou despercebido na retaguarda, enquanto a anfitriã os conduziu ao grande e pretensioso salão de refeições para almoçar. Ele tentou energicamente fingir que estava apreciando sua taça de sopa de tomate, meio sanduíche de atum e café fraco. Escutou pasmo, enquanto Rosemary falava efusiva e arrebatadamente, e tia Fanny mostrava que podia responder a perguntas de modo normal.

"Quando foi construída esta linda casa?", perguntou Rosemary.

"Há mais de cem anos", disse tia Fanny. "No tempo das carruagens era considerada a mais grandiosa da cidade. Você gostaria que eu a mostrasse depois do almoço? Meu avô trouxe pedreiros galeses para construí-la, e há um pub inglês no porão, que foi importado de Londres, peça por peça. O terceiro andar deveria ser um salão de baile, mas nunca foi terminado."

"Enquanto vocês fazem a grande excursão", disse Qwilleran, "eu gostaria de ir andando até a cidade, se me permitirem. Quero conhecer os escritórios do> Picayune."

"Oh, vocês jornalistas!", disse tia Fanny, com um sorriso afetado. "Mesmo quando estão em férias não esquecem da profissão. Admiro-os por isso!"

Ao sair da casa, Qwilleran procurou Tom, mas o empregado e a caminhonete azul já tinham ido embora.

A seção comercial da Rua Principal estendia-se por três quarteirões. Lojas, restaurantes, uma pousada, o correio, o escritório do Picayune, uma clínica médica e vários escritórios de advocacia, todos construídos em pedra com mais exuberância do que bom senso. Chalés aninhados entre castelos escoceses e fortes espanhóis. Qwilleran passou ao largo do escritório do Picayune e entrou no de Goodwinter e Goodwinter.

"Não tenho hora marcada", disse à secretária de cabelos grisalhos, "mas talvez o sr. Goodwinter possa me atender. Meu nome é Qwilleran."

A secretária era sem dúvida alguma aparentada; possuía o mesmo rosto estreito dos Goodwinter, "Ele acabou de sair, sr. Qwilleran", disse ela, amavelmente. "Está indo para o aeroporto e só voltará no sábado. Gostaria de falar com sua sócia?"

A sócia minoritária saiu de sua sala numa nuvem de perfume caro, estendeu uma mão bem-tratada e sorriu agradavelmente. "Sr. Qwilleran! Eu sou Penélope. Alex me falou do senhor. Ele foi assistir a uma conferência em Washington. Não quer entrar?"

Ela também tinha o rosto longo e inteligente que Qwilleran havia aprendido a reconhecer, mas era suavizado por um sorriso que revelava covinhas tentadoras.

Qwilleran disse: "Eu entrei só para dar uma informação sobre algo que seu irmão discutiu comigo".

"Sobre as misteriosas compras de bebidas alcoólicas?"

"Sim. Não vejo qualquer indício de que nossa amiga idosa seja beberrona."

"Concordo com o senhor", disse a advogada. "Essa é a teoria particular de meu irmão. Ele acha que ela está desenvolvendo uma voz de uísque, Eu digo que são hormônios."

"Como explica as compras de bebidas alcoólicas do empregado?"

"Ele deve comprar para oferecer aos amigos. Tem um apartamento em cima da garagem, e deve ter algum tipo de vida social, ou seria uma vida muito solitária."

"Ele é um rapaz estranho."

"Mas tranquilo e bastante agradável", disse Penélope. "É muito trabalhador e obedece as ordens à risca, e algumas de nossas famílias ricas seriam capazes de matar para tê-lo."

"Sabe alguma coisa de seu passado?"

"Só que uma amiga de Fanny em Nova Jersey providenciou a vinda de Tom para ajudá-la. Ela não é uma mulher extraordinária? Acumulou sua fortuna muito antes da época em que se reconheceu que as mulheres tinham cérebro."

"Pensei que ela tinha herdado o dinheiro."

"Ah, não! O pai perdeu tudo nos anos vinte. Fanny salvou a propriedade da família e prosseguiu fazendo seus próprios milhões. Ela vai completar noventa anos no próximo mês, e vamos dar uma festa. Espero que compareça. Está gostando de Mooseville?"

"Não posso dizer que é monótono. Imagino que soube do assassinato."

Ela inclinou a cabeça sem qualquer emoção, como se ele houvesse dito: você sabe que hoje é quarta-feira?

"Foi uma coisa chocante para um lugar como Mooseville", disse ele. "Tem alguma teoria?"

Ela sacudiu a cabeça.

Ela sabe de algo, pensou Qwilleran, mas a Cortina Legal havia descido.

"Dunfield não era o chefe de polícia que estava tendo uma rixa com Fanny há alguns anos? Qual era o problema?"

A advogada olhou para o teto antes de responder calmamente. "Apenas política de cidade pequena. Acontece todo o tempo."

Qwilleran gostou do estilo dela. Apreciou a meia hora na companhia de uma moça inteligente, de covinhas e chique. Rosemary era atraente e boa companhia, mas tinha de admitir que ficava cativado com mulheres de trinta anos, que trabalhavam. Ternamente lembrou-se de Zoè, a artista, Co-key, a decoradora, e Mary, a negociante de antiguidades.

Voltando à casa de pedra, viu outro rosto Goodwinter. "Dra. Melinda, o que está fazendo aqui?", disse ele. "Devia estar consertando turistas na clínica Entre-Mancando, de Mooseville."

"Meu dia de folga. Posso lhe pagar uma xícara de café?", ela o guiou até uma lanchonete, virando a esquina. "È o segundo pior café do condado", ela o avisou, "mas todo mundo vem aqui".

Ele provou o café. "Quem está em primeiro lugar? Por que é difícil bater este aqui?"

"As honras vão para o Dimsdale Diner", disse Melinda, com um floreio. "Eles têm o pior café do condado e os piores hambúrgueres de todo o nordeste central dos Estados Unidos. Você devia experimentar. É um velho vagão de carga, na estrada principal, na esquina da Estrada de Ittibittiwassee."

"Não vai me fazer acreditar que existe esse nome."

"Não é brincadeira. É a estrada para o Rio Ittibittiwassee. Os índios tinham uma aldeia lá numa época. Agora são condomínios de propriedade conjunta."

"Diga-me uma coisa, Melinda. Eu vi as ruínas da mina Dimsdale e da mina Goodwinter. Onde fica a mina Klingenschoen?"

Melinda estudou os olhos dele para ver se falava sério. Finalmente disse: "Não há mina Klingenschoen. Nunca houve uma mina Klingenschoen".

"Como o avô de Fanny fez sua fortuna? Em madeiração?"

Ela pareceu divertida. "Não. Ele tinha um botequim."

Qwilleran parou para digerir a informação. "Deve ter sido muito bem-sucedido."

"Sim, mas não muito respeitado. O Bar K teve má reputação por meio século, antes da Primeira Guerra Mundial. O avô de Fanny construiu a casa mais luxuosa da cidade, mas os Klingenschoen nunca foram aceitos socialmente. Na verdade, eram ridicularizados. Os mineiros tinham uma marchinha que dizia o seguinte: Nós minamos a mina e o K nos mina, mas quem mina Minnie qualquer coisa, qualquer coisa, qualquer coisa. Não sei a parte final, e não tenho certeza se quero saber."

"Então Minnie K era..."

"A avó de Fanny, uma senhora muito dada, de acordo com as histórias. Você pode ler sobre isso na seção de história local da biblioteca pública. O pai de Fanny herdou o botequim, mas faliu durante a Lei Seca. Por sorte, Fanny tinha o talento do avô para fazer dinheiro, e quando voltou para cá, com a idade de sessenta e cinco anos, podia comprar ou vender qualquer um no condado."

Ao voltar à casa de pedra, Qwilleran andava com passo elástico. Nada como um bocado de notícias picantes para levantar o moral, mesmo que não estivesse a serviço.

 

Rosemary estava igualmente estimulada, quando ele a apanhou no caminho de volta. Tinha feito uma visita adorável. A casa era adorável — cheia de antiguidades. Francesca tinha-a presenteado com um jarro Staffordshire para sua coleção, e Rosemary achara-o adorável. Qwilleran achou-o feio.

Ele disse: "Estou com fome desde o almoço, e temos de jantar cedo porque Nick e Lori virão às sete horas. Vamos experimentar o Old Stone Mill".

O restaurante era um moinho velho autêntico, com uma roda d'água, e a atmosfera era pitoresca, mas o menu era comum — desde o caldo de galinha com massa até o arroz doce.

"Eu só quero uma salada", disse Rosemary.

"Eu vou pedir costeletas de porco medíocres, uma batata assada encharcada e vagens supercozidas", disse Qwilleran. "É a especialidade do Condado de Moose. Por que você não pede a salada de frango? Provavelmente são alfaces murchas e tomates de mentira com torradinhas de concreto e tiras de frango invisível. Devem servi-la com molho de garrafa de Kansas City e um cheirinho de parmesão ralado com gosto de serragem. Isso era uma serraria, você sabe."

"Oh, Qwill, você é terrível", admoestou Rosemary.

"Do que foi que vocês, mulheres emancipadas, falaram enquanto fui passear?"

"De você. Tia Fanny acha que você é tão talentoso, tão sincero, tão bondoso, tão sensível!... Ela gosta até do seu boné laranja. Acha que o faz ficar vistoso."

"Você contou da picareta que sumiu?"

"Contei. Ela disse que a Sociedade Histórica a queria para seu museu, por isso mandou Tom apanhá-la."

"Ela podia ter me avisado. E sobre os mergulhadores?"

"Eles escreveram para uma firma imobiliária em Mooseville, pedindo para alugar uma casa de verão. Mas foram inquilinos muito complicados. Especialmente as moças que passaram o verão com eles. Ela as chamou de um nome que eu não vou repetir."

"Ah, vamos. Me conte."

"Não."

"Soletre."

"Não, não vou. Você está é me provocando."

Qwilleran riu. Gostava de provocar Rosemary. Ela era o modelo da Dama Impecável de 1902.

Ela disse: "Tenho muito mais coisas a lhe contar, mas não quero falar aqui".

Quando retomaram o caminho para o norte, ele disse: "Tudo bem, desembuche. Você e Fanny parecem ter se dado às mil maravilhas".

"Ela pensa que você e eu estamos noivos, e não desmenti porque queria que falasse. Foi realmente envaidecedor o modo como ela me fez confidências."

"Boa menina! O que ela lhe confiou?"

"Seu método de conseguir o que quer. Ela manipula as pessoas com grandes promessas e pequenas ameaças. Diz que todo mundo quer alguma coisa ou está escondendo alguma coisa. O truque é achar suas fraquezas. Acho que ela faz disso uma espécie de hobby."

"Que velhinha marota! Essa é a técnica da cenoura na ponta da vara."

"Claro, funciona melhor se você tiver um monte de dinheiro."

"Claro. E o que não funciona?"

"Ela me mostrou uma pistola pequena de ouro que carrega. É para intimidar as pessoas. É só uma brincadeira."

"Ela tem um estranho senso de humor. O que disse do assassinato de Buck Dunfield?"

"Nossa! Ela realmente detestava o homem. Ficou tão brava que pensei que ia ter um ataque."

"Buck era a única pessoa que ela não podia manipular."

Rosemary deu um risinho. "Ele a acusou de plantar maconha no seu quintal. Pode imaginar uma coisa dessas?"

"Posso."

"Sobre esse assassinato, ela disse que quem brinca com fogo acaba queimado, e em seguida usou uma linguagem muito feia. Fiquei chocada."

Qwilleran riu sob o bigode. Lembrou-se que Rosemary se chocava facilmente.

"Uma velhinha tão simpática", continuou Rosemary. "Onde é que foi aprender esse vocabulário?"

"Em Nova Jersey, provavelmente."

Havia mais a relatar: sobre a livraria com quatro mil volumes de capa de couro, não lidos; os quatro armários com as roupas espetaculares de tia Fanny; a coleção Staffordshire na sala de café, invejada por três museus importantes; a prata estilo Georgiano na sala de jantar...

"Pare!", gritou Rosemary ao se aproximarem da fazenda de perus. "Vou entrar rapidinho e ver se eles têm um peru recheado. Então poderei cozinhá-lo para você antes de ir embora."

Qwilleran estacionou no pátio da fazenda, ao lado da inevitável caminhonete azul. "Não demore. Já são quase sete horas."

Ao lado do cercado de aves havia um galpão de metal com uma tabuleta na porta: Varejo e Atacado. Alguém estava se movendo ali dentro.

Rosemary entrou correndo na casa e em exatamente dois minutos estava de volta, carregando um objeto volumoso numa sacola plástica. Estava pálida. Atirou o embrulho no banco de trás. "Tire-me daqui antes que eu vomite! O cheiro estava insuportável!"

"Ninguém disse que uma fazenda de perus deveria cheirar como um jardim de rosas", disse Qwilleran.

"Não me diga isso", disse ela indignada. "Cresci numa fazenda. Isso foi muito diferente."

Ela ficou anormalmente quieta até chegarem ao estacionamento da cabana. "Vou trocar de roupa antes deles chegarem", disse ela. "Estou com vontade de usar algo vermelho."

Qwilleran deu-lhe a chave. "Entre e vá se mudar. Eu levo o peru. Só espero que caiba na geladeira."

Ela correu para a cabana e entrou na varanda. No momento seguinte deu um grito.

"Rosemary! O que foi?", bradou Qwilleran, correndo para ela.

"Veja!", gritou, olhando para a porta trancada.

Lá estava um animalzinho balançando, pendurado pelo pescoço, a corda laçada em torno de uma das vigas da varanda.

"Ah, meu Deus!", gemeu Qwilleran. Sentiu-se nauseado. Depois disse espantado: "É um coelho selvagem!"

"Primeiro eu pensei que fosse Yum Yum."

"Eu também."

Era um dos coelhinhos marrons que mordiscavam bolotas de pinheiro, perto do galpão de ferramentas. Levara um tiro e depois fora amarrado a um nó de carrasco.

Qwilleran disse: "Vá para a praia e acalme-se, Rosemary. Eu cuido disto." Ele pensou consigo: será uma ameaça? Ou um aviso? Ou apenas uma brincadeira? Alguém tinha saído do mato no topo da duna — na moita que os gatos estavam sempre olhando. Qualquer pessoa que se aproximasse da cabana sorrateiramente viria daquela direção.

Ele deixou o melancólico embrulhinho de pele pendurado lá e deu a volta na cabana para entrar pelo outro lado. Koko e Yum Yum vieram correndo num estado de extrema excitação nervosa, arremessando-se aqui e ali sem direção nem propósito, Koko rosnando e Yum Yum guinchando. Haviam visto o ladrão de sua janela favorita. Tinham ouvido o tiro e farejado a presença do animal morto.

"Se ao menos você pudesse falar", disse Qwilleran a Koko.

Um veículo vinha resfolegando pelo caminho da casa, e ele saiu para receber os visitantes. Seu rosto estava tão sério que o sorriso feliz de Nick desapareceu instantaneamente.

"Algo errado, sr. Qwilleran?"

"Deixe-me mostrar-lhe algo desagradável."

"Ah, não! Que golpe baixo!", exclamou Nick. "Lori, venha ver isso!"

Ela ficou boquiaberta. "Um pobre coelhinho rabo-de-algodão! Por um momento pensei que fosse um dos seus gatos, sr. Qwilleran."

Nick recomendou chamar o xerife. "Onde está seu telefone? Eu mesmo o chamarei. Não toque na evidência."

Enquanto Nick telefonava, Lori estava de quatro, murmurando para os siameses assustados. Gradualmente eles reagiram à voz confortante e até brincaram com os cabelos louros, que ela usava em duas longas tranças atadas com fitas azuis. Rosemary serviu verduras cruas e um molho de iogurte, e Qwilleran serviu os drinques. Lori disse que gostaria de um scotch.

"Cuidado, menina", avisou-a o marido, com a mão no bocal do telefone. "Você sabe o que o médico disse."

"Estou tentando ficar grávida", explicou ela a Rosemary, "mas até agora só tenho gatinhos."

Nick recolocou o telefone no armário da cozinha. "Tudo bem. O xerife está vindo. E eu vou tomar um bourbon, sr. Qwilleran."

"Chame-me Qwill."

Sentaram-se na varanda e aproveitaram o efeito calmante do plácido lago azul. Koko, que nunca fora dado a ser gato de colo, pulou para o colo de Lori e adormeceu.

"Não tenho certeza se quero ficar em Mooseville", anunciou subitamente Qwilleran. "Se eu sair da cabana, e os gatos estiverem sentados à janela, o que impediria esse maníaco de atirar neles através do vidro? Esse incidente pode ter sido um aviso. Ele pode voltar."

"Ou ela", disse Lori serenamente.

Três rostos indagadores viraram-se em sua direção, e Qwilleran perguntou: "Você tem alguma razão para mudar o sexo?"

"Estou apenas tentando ter vistas largas."

"Imagino que conheça todo mundo no Top o' the Dunes Club", disse-lhe ele.

"Minha mulher conhece todos em todo o distrito postal", disse Nick orgulhosamente, "inclusive quantos selos compram e quem recebe encomendas embrulhadas em simples papel pardo".

Qwilleran disse: "Eu conheço os Hanstables e os Dunfields. Quem são os outros?"

Lori contou nos dedos. "Há três casais de aposentados. E um advogado Lá de Baixo. E um dentista de Pickax. Não vá nele: é um açougueiro. Depois há os dois chalés à venda; estão vazios. Outro está em homologação, e está sendo alugado a dois homens muito bonitões." Ela lançou um olhar malicioso ao marido. "Acho que são professores de algum lugar, fazendo pesquisas sobre naufrágios. O superintendente da escola de Pickax mora na casa de telhas de ardósia, e um antiquário vive na que parece um barco."

"Aquele trapaceiro!", aparteou Nick. "E quanto aos donos do COMID?"

"A casa deles está à venda. Eles a perderam. O banco é dono dela agora... Por falar nisso", disse ela a Qwilleran, "os proprietários de casas na duna estão preocupados com o futuro desta propriedade. A srta. Klingenschoen disse que poderia legá-la ao condado para um parque. Isso seria bom para os negócios em Mooseville, mas rebaixaria os preços das propriedades na duna. Você sabe o que sua tia pretende fazer?"

"Ela não é minha tia", disse Qwilleran, "e eu não sei nada sobre seu testamento, mas se o assunto algum dia vier à baila, já sei quais são as opiniões locais." Ele estava servindo a terceira rodada de drinques. "Não parece que ò xerife esteja vindo. Ele provavelmente pensa que eu sou louco. Chamei-o sobre uma coruja, numa noite dessas, e na semana passada informei sobre um corpo no lago, que todos pensaram ser um pneu velho."

Nick virou-se abruptamente para ele. "Onde você viu esse corpo?"

"Eu estava pescando e o puxei com meu anzol." Qwilleran contou a história do Minnie K com prazer, apreciando a atenção embevecida dos ouvintes.

Nick perguntou: "Qual foi a data? Você se lembra?"

"Na última quinta-feira."

"E quanto às vozes no outro barco? Você podia ouvi-las distintamente?"

"Não todas as palavras, mas suficientemente bem para saber o que estava acontecendo. O motor tinha enguiçado, e eles estavam discutindo como consertá-lo, acho eu. Um dos homens tinha uma voz aguda e dissonante. O nome do outro homem era Jack, e ele tinha o que eu chamaria de um sotaque de inglês de classe baixa."

Nick olhou para Lori. Ela acenou com a cabeça. Então ele disse: "Os ingleses são sempre chamados de Jack por aqui. É um costume que vem dos tempos da mineração. Na semana passada um dos presos pulou o muro. Era um sujeito com sotaque cockney".

Qwilleran olhou para ele com espanto misturado ao triunfo. "Ele estava tentando fugir para o Canadá! Alguém estava transportando-o de barco — na neblina!"

"Todos eles tentam", disse Nick. "É suicídio, mas tentam... Isso é confidencial, Qwill. Todo mundo sabe desse transporte por barco, mas não querem que fique saindo nos jornais. Você conhece a mídia. Eles exploram tudo."

"Muitos presos escapam?"

"A porcentagem usual. Eles nunca vão para o sul. O pobre patife paga a um capitão de barco local para transportá-lo para o Canadá, e quando estão a algumas milhas ao largo... splash! Exatamente como você disse. A água é tão fria que o corpo afunda uma vez e não volta mais à tona."

"Incrível!", disse Qwilleran. "Isso é assassinato em linha de montagem. Você acha que há muitos sujeitos metidos nesse negócio?"

"Tudo aponta para um capitão, que por acaso tem bons contatos lá dentro. Mas até agora nunca conseguiram prendê-lo."

"Ou a ela", disse Lori, suavemente.

"Compreendo", disse Qwilleran, alisando o bigode. "Sem corpos — sem provas — sem pistas."

"Francamente", disse Lori, "eu não acho que as autoridades estão fazendo muita força para pegar alguém".

Nick disse-lhe bruscamente: "Lori, não seja tagarela".

"Como é o problema de drogas lá dentro?", perguntou Qwilleran.

"Não mais do que se espera. É impossível parar totalmente o contrabando."

A mulher falou de novo, com voz esganiçada. "Eles não querem que pare. Maconha e bolinha tornam os presos mais fáceis de controlar. É a bebida alcoólica que dá problemas."

Uma porta de carro bateu. "É um dos homens do xerife", disse Nick, pulando em pé. Qwilleran seguiu-o.

Lori disse a Rosemary: "Você não acha lindos os chapéus que os delegados usam — com duas pequenas borlas na frente? Eu adoraria ter um."

 

Quando o telefone tocou, Koko e Yum Yum estavam sentados no tapete de urso polar, lavando-se após sua lata matinal de carne de siri. Rosemary ocupava-se na cozinha, preparando o peru para o forno. Qwilleran tomava a terceira xícara de café na varanda, quando o telefone baliu seu apelo abafado de dentro do armário da cozinha.

Ele estava tentando reorganizar as ideias. O coelho morto era mais uma peça não ajustada do quebra-cabeças de Mooseville: A revelação de Nick sobre presos fugidos reassegurou-o, no entanto, de que ainda sabia a diferença entre um corpo humano e um pneu de automóvel. Agora estava claro que o contrabando por barco — e não o roubo de destroços de naufrágios — era o foco da investigação particular de Buck; se alguém pudesse identificar o cruel capitão, certamente estaria resolvido o mistério da morte de Buck. Ele (ou ela, como diria Lori) era alguém acostumado a matar.

Qwilleran não tinha meios de saber que pistas a polícia tinha achado na serragem ou que progressos estava fazendo na investigação. No Daily Fluxion, podia contar com o repórter policial para lhe dar informações secretas, mas em Mooseville era apenas um forasteiro que ficara alarmado com uma coruja saqueadora ou um coelho morto ou um corpo fisgado por um anzol. Uma coisa era certa: a voz na neblina era a mesma da fita. Se ele pudesse achar aquela voz em Mooseville, teria informações úteis para os investigadores. No entanto, a mensagem na fita não parecia ter qualquer coisa a ver com os afogamentos premeditados.

Rosemary apareceu na varanda. "Telefone para você, Qwill. É a srta. Goodwinter."

Ele pensou imediatamente em perfume e covinhas, mas o frêmito agradável desapareceu, ao ouvir a voz grave da advogada.

"Pois não, srta. Goodwinter... Não, não estou com o rádio ligado... Não! Foi grave... Santo Deus! Não posso acreditar!... O que está sendo feito?... Há alguma coisa em que eu possa ajudar?... Sim, é claro. Imediatamente. Onde nos encontraremos?... Daqui a uma hora."

"O que aconteceu?", inquiriu Rosemary.

"Más notícias sobre tia Fanny. Na noite passada ela caiu das escadas."

"Oh, Qwill! Que horrível! Ela está... Não pode ter sobrevivido."

Ele balançou a cabeça. "Tom achou-a no fundo das escadas esta manhã. Pobre tia Fanny! Era tão enérgica — tinha uma aparência tão jovem! Apreciava tanto a vida. Nunca se queixou por ser velha."

"E era tão generosa. Imagine, presentear-me com um jarro Staffordshire! Tenho certeza que é valioso."

"Penélope quer que a encontre na casa, o mais depressa possível. Há coisas a discutir. Você não precisa vir comigo, mas apreciaria se o fizesse."

"É claro que vou com você. Vou recolocar o peru no congelador."

Antes de saírem para Pickax, Qwilleran trancou todas as janelas e fechou as persianas interiores, de modo que os gatos não pudessem ser vistos por um ladrão. Trancou as portas da frente e de trás para mantê-los longe das varandas com portas de tela. "Sinto fazer isso com vocês", disse, "mas é o único meio seguro."

Para Rosemary, disse: "Quem pensaria que essas medidas de segurança seriam necessárias num lugar como este? Vou me mudar de volta para a cidade na semana que vem. Agora que tia Fanny se foi, a cabana pode não estar mais disponível para mim, de qualquer modo. Provavelmente é isso que a advogada quer discutir".

"Era muito bom para ser verdade, não?"

"Seria o ideal — sem as complicações. Mas a vida simples do campo não é tão simples assim. Vão zombar de mim quando aparecer no Clube da Imprensa na semana que vem. Nunca vou me reabilitar."

Quando chegaram à casa de pedra em Pickax, Tom estava trabalhando no pátio, mas tinha a cabeça curvada e não acenou seu animado cumprimento habitual.

Penélope atendeu à campainha, e Qwilleran apresentou sua hóspede. "Essa é Rosemary Whiting. Estamos ambos atordoados com a notícia."

Rosemary disse: "Nós almoçamos com ela ontem, e estava tão alegre!"

"Ninguém adivinharia que ia completar noventa anos no mês que vem", disse a advogada.

"Foi aqui que aconteceu?" Qwilleran apontou para as escadas.

Penélope acenou afirmativamente. "Foi uma queda terrível, e ela era uma pessoa tão frágil! Estava tendo desmaios, e Alex e eu insistíamos que se mudasse para uma casa menor, térrea, mas não conseguimos convencê-la. Ela encolheu os ombros derrotada. "Gostariam de uma xícara de chá? Achei alguns saquinhos de chá na cozinha."

Rosemary disse: "Deixe-me fazer o chá enquanto vocês dois conversam".

"É muito gentil, srta. Whiting. Estaremos na sala de música."

Dirigiram-se para a sala com janelas envidraçadas e a enorme cadeira de balanço de vime de tia Fanny. Qwilleran disse: "Fanny chamava isto aqui de sua sala de visitas".

Penélope sorriu. "Quando ela se mudou de volta para cá, depois de anos na Costa Leste, esforçou-se muito para esconder sua sofisticação. Tentava falar como uma vovó velhinha, embora soubéssemos que ela não era nada disso... telefonei a Alex em Washington essa manhã, e ele me disse para contatá-lo, como parente mais próximo. Não há possibilidade dele retornar neste sábado."

"Fanny e eu não éramos aparentados. Ela era uma amiga chegada de minha mãe, e é tudo."

"Mas ela se referia ao senhor como sobrinho e lhe dedicava grande afeição e admiração, sr. Qwilleran. Ela não tem outros parentes, sabe." A advogada abriu a pasta. "Nosso escritório tratava de todos os negócios de Fanny — até sua correspondência, para resguardá-la de cartas com ameaças ou pedidos. Ela depositou um envelope selado em nossos arquivos, especificando suas últimas vontades. Aqui está ele. Sem funerais, sem velório, apenas cremação. O Picayune vai publicar um obituário de página inteira amanhã, e estamos planejando um culto em memória, no sábado."

"Ela participava de alguma igreja?"

"Não, mas fazia contribuições anuais para todas as cinco igrejas, e o culto provavelmente será celebrado na maior delas. Será muito concorrido, tenho certeza — virá gente de todo o Condado de Moose."

Durante a conversa o telefone tocou muitas vezes. "Não estou respondendo", disse Penélope. "São apenas curiosos. Indagações legítimas irão para o escritório."

Qwilleran perguntou: "E quanto ao costume de portas abertas que parece prevalecer por aqui? As pessoas não vão entrar pela casa adentro?"

"Tom tem instruções para manter todos afastados."

A seguir Rosemary serviu o chá, e a conversa desviou-se para reminiscências corteses. Penélope chamou a atenção para a cadeira de balanço favorita de Fanny. Qwilleran comentou sobre seu gosto por roupas exóticas.

Finalmente ele disse: "Bem, parece que está tudo sob controle aqui. Tem certeza de que não há nada que possamos fazer "para ajudar?"

"Há um probleminha que Alex e eu temos de discutir com você." Ela fez uma pausa dramática. "Não temos o testamento de Fanny."

"O quê! Com todo aquele dinheiro e propriedades — ela morreu sem deixar um testamento? Não posso acreditar!"

"Temos certeza que existe um testamento particular. Ela mesma insistiu em escrevê-lo para proteger sua privacidade."

"É um documento legal?"

"Neste estado, sim... se ela o tiver escrito de seu próprio punho, assinado e datado. Não são necessárias testemunhas. Foi assim que ela quis, e ninguém discutia com Fanny! Naturalmente a aconselhamos quanto à terminologia, para evitar ambiguidades e brechas. Sua localização deveria estar anotada na sua carta de instruções, mas infelizmente ..."

"E agora?"

Penélope olhou esperançosa para Qwilleran. "Tudo o que temos a fazer é achá-lo."

"Achá-lo!", disse ele. "É isso que quer que eu faça?"

"Você teria alguma objeção?"

Qwilleran olhou para Rosemary, e ela acenou entusiasticamente. Ela disse: "Fanny me mostrou a casa ontem, e não acho que será difícil".

"Chame-me no escritório, se tiver qualquer problema", disse Penélope, "e não atenda o telefone; só irá se aborrecer."

Em seguida, ela os deixou a sós, e Qwilleran virou-se para Rosemary. "Muito bem! Se você pensa que é tão fácil, por onde começamos?"

"Há uma grande escrivaninha na biblioteca e uma pequena na salinha de Fanny, lá em cima. Também há um baú antigo no seu quarto de dormir."

"Você é surpreendente! Observa tudo, Rosemary. Mas já lhe ocorreu que podem estar trancadas?"

Ela correu para a cozinha e voltou com um punhado de chaves pequenas. "Estavam no bule chinês que usei para o chá. Por que você não começa pela biblioteca? Eu gostaria de atacar o baú."

Aquilo foi um erro, considerando-se a obsessão de Qwilleran pela palavra impressa. Ele ficou pasmo com as fileiras de volumes de capa de couro que iam do chão ao teto. Adivinhou que o avô Klingenschoen escondera alguns clássicos pornográficos na prateleira de cima. Imaginou também que a biblioteca abrigava uma fortuna em primeiras edições. Numa prateleira, achou uma coleção de novelas picantes dos anos vinte, com o marcador de página pessoal de tia Fanny, e estava absorvido em Five Frivolous Femmes de Gladys Gaudi, quando Rosemary entrou correndo na sala.

"Qwill, fiz uma descoberta incrível!"

"O testamento?"

"Não. O testamento ainda não. Mas o baú está cheio de álbuns de recortes de tia Fanny que datam dos seus tempos de colégio. Você imagina que a querida tia Fanny foi uma dançarina de números exóticos em Nova Jersey?"

"Uma dançarina de strip-tease? Em teatros-revista?"

Rosemary parecia jubilosa. "Ela guardou toda a publicidade, algumas 'fotografias artísticas' e várias cartas apaixonadas de fãs. Não admira que quisesse que você escrevesse um livro! Suba comigo. Os álbuns estão todos datados. Eu comecei agora mesmo."

Passaram várias horas explorando o baú, e Qwilleran disse: "Sinto-me como um voyeur. Quando ela me disse que trabalhara em clubes, visualizei clubes com jardins e assistentes de hospital e clubes de leituras à tarde".

Na verdade a carreira dela tinha transcorrido em clubes noturnos de Atlantic City, primeiramente como artista, depois como gerente e finalmente como proprietária, com o auge da atividade nos anos da Lei Seca. Havia trechos de colunas de mexericos, retratos do Clube da Francesca e fotos da própria Francesca posando com políticos, artistas de cinema, heróis de beisebol, e gângsteres. Não havia menção de um casamento, mas havia evidência de um filho. Seus retratos desde criança até ficar homem apareciam num álbum até que — de acordo com recortes de jornal — ele morrera num misterioso acidente na zona portuária de Nova York.

Mas não havia sinal de testamento.

Qwilleran ligou para Penélope, avisando que continuariam a busca no dia seguinte. Fez a tarefa parecer enfadonha e depressiva. Na verdade, a excitação da vida pregressa de Fanny apagava a tristeza da ocasião, e tanto ele como Rosemary estavam estranhamente alvoroçados.

Ela disse: "Vamos fazer uma loucura. Vamos comer no Dimsdale Diner no caminho de casa".

O vagão de carga ficava num trecho ermo da estrada, sem qualquer outra casa por perto — só as vigas apodrecidas do poço da mina Dimsdale. Não havia outros veículos no pasto que servia de estacionamento, mas uma tabuleta na porta dizia ABERTO, contradizendo outra numa janela, que dizia FECHADO.

O lado do vagão de carga estava pontilhado de janelas de vários tipos, dependendo do tamanho e forma disponíveis em algum lixão por perto. O interior estava forrado com pôsteres amarelados e menus desbotados datando dos dias em que o café custava um níquel e os sanduíches, dez centavos. Qwilleran levantou o nariz sensível e farejou. "Repolho cozido, cebolas fritas e maconha", disse. "Não estou vendo o maître. Onde gostaria de sentar-se, Rosemary?"

Ao longo da parede do fundo estendia-se um balcão usado com uma fila de bancos, muitos dos quais eram troncos sem assentos. As mesas e cadeiras datavam da Depressão, provavelmente vindas de cozinhas de mineiros. Havia apenas um sinal de vida, e mesmo assim incerto. Um homem alto e cadavérico, que parecia não comer há uma semana, adiantou-se como um sonâmbulo saindo das sombras lúgubres no fundo do restaurante.

"Lugarzinho simpático este seu", disse Qwilleran, alegremente. "Você tem alguma especialidade?"

"Goulash", disse o homem, numa voz metálica.

"Esperávamos que tivesse vitela cordon bleu. Tem alcachofras?... Não?... Sem alcachofras, Rosemary. Quer ir a algum outro lugar?"

"Eu gostaria de experimentar o goulash", disse ela. "Será que é o verdadeiro goulash húngaro?"

"A madame quer saber se é o verdadeiro goulash húngaro", Qwilleran repetiu para o garçon.

"Não sei."

"Acho que nós dois vamos pedir goulash. Parece ótimo. E você tem alface?"

"Só salada de repolho."

"Excelente! Tenho certeza que é deliciosa."

Rosemary estava olhando para Qwilleran com aquele olhar dúbio, desaprovador, que reservava para os momentos de brincadeira dele. Quando o garçom, que também era o cozinheiro, saiu de seu buraco sombrio, arrastando os pés, com porções generosas de algo derramando em pratos rasos, ela transferiu a mesma expressão para um exame da comida. Segredou a Qwilleran: "Pensei que goulash fosse cubos de carne cozidos com cebolas em vinho tinto, com páprica doce. Isto é macarrão com tomates enlatados e hambúrguer."

"Isto é Mooseville", explicou ele. "Experimente. Não é tão ruim se você não pensar muito."

Quando o cozinheiro trouxe a cafeteira de lata amassada, Qwilleran perguntou afavelmente: "Você é o proprietário deste lugarzinho simpático?"

"Eu e meu companheiro."

"Gostaria de vender? Minha amiga aqui quer abrir um salão de chá e boutique." Falou sem ousar olhar para Rosemary.

"Não sei. Uma velha de Pickax quer comprar. Vai dar um bom dinheiro."

"A srta. Klingenschoen, sem dúvida."

"Ela gosta muito daqui. Vem aqui com aquele rapaz quieto."

Quando Qwilleran e Rosemary continuaram seu caminho para casa, ela disse: "Veja que mau exemplo. Fanny fez promessas irresponsáveis para o pobre homem, e você é tão ruim quanto ela — com suas piadas sobre salões de chá e alcachofras".

"Eu queria comparar a voz dele à da fita", disse Qwilleran. "Não se encaixa no modelo que estou procurando. Se você parar para pensar, ele também não se encaixa no papel de mestre do crime... embora pudesse ser preso por aquele goulash. Meu principal suspeito agora é o dono do COMID."

Quando entraram na estrada particular que levava à cabana, Rosemary disse: "Olhe! Lá está um papa-figo de Baltimore." Ela inspirou profundamente. "Eu adoro este ar do lago. E adoro o jeito que a estrada serpeia por entre as árvores e abre bruscamente para o lago."

Qwilleran parou o carro com um solavanco no centro da clareira. "Os gatos estão na varanda! Como conseguiram sair? Eu os tranquei na cabana!"

Duas máscaras marrom-escuro, de olhos azuis, estavam espiando através das telas e miando em dupla harmonia.

Qwilleran pulou do carro e gritou por cima do ombro: "A porta da cabana está escancarada!" Ele correu para dentro, seguido hesitantemente por Rosemary. "Alguém esteve aqui! Há um banco do bar caído... e sangue no tapete branco! Koko, o que aconteceu? Quem esteve aqui?"

Koko sentou-se nos quadris e lambeu as patas, abrindo os dedos e estendendo as garras.

Do quarto de hóspedes Rosemary chamou: "Esta janela está aberta! Há vidro no chão, e a persiana está pendurada por uma dobradiça. A tela foi cortada!"

Era a janela com vista para a fossa séptica e o topo cheio de mato da duna.

"Alguém arrombou a casa para pegar a fita", disse Qwilleran. "Viu? Ele pegou um banco do bar para alcançar a cabeça do alce. Caiu — ou pulou em pânico — e deu um chute para trás. Aposto que Koko pulou de uma das vigas na cabeça dele. Suas dezoito garras podem estocar como dezoito estiletes, e Koko não olha onde agarra. Há bastante sangue, ele pode ter enterrado as garras numa orelha."

"Santo Deus!", disse Rosemary, estremecendo.

"Então o sujeito correu porta afora — talvez com o gato agarrado à sua cabeça e guinchando. Koko está lambendo as garras desde que chegamos."

"O homem pegou a fita?"

"Não estava lá em cima. Eu a escondi. Não toque em nada. Vou chamar o xerife — de novo."

"Se meu carro estivesse estacionado na clareira, isso não teria acontecido, Qwill. Ele pensaria que tinha alguém em casa."

"Apanharemos seu carro amanhã."

"Vou ter de voltar no domingo. Gostaria que viesse comigo, Qwill. Há um homem perigoso pela redondeza, e ele sabe que você achou a fita cassette. O que vai dizer ao xerife?"

"Vou perguntar se gosta de música, e tocar Little White Lies."

Mais tarde Rosemary e Qwilleran sentaram-se na varanda para olhar o pôr-do-sol transformar o lago de turquesa em roxo. "Já viu um céu como este?", perguntou Rosemary. "Passa do abricó para cor de malva, e para água-marinha, e as nuvens são violeta-escuro."

Koko estava andando inquieto da varanda para a cozinha, para o quarto de hóspedes, e de volta para a varanda.

"Ele está perturbado", explicou Qwilleran, "com sua selvageria instintiva atacou o ladrão. Koko é um gato civilizado, mas ainda é perseguido pela memória ancestral de dias idos e lugares longínquos, onde os de sua raça emboscavam-se nos muros dos palácios e templos e pulavam sobre intrusos para rasgá-los em tiras."

"Ah, Qwill", riu Rosemary, "ele está farejando o peru no forno, só isso."

 

Rosemary apanhou seu carro na oficina de Mooseville, e Qwilleran recolheu correspondência no correio.

"Ouvi as más notícias pelo rádio", disse Lori. "Que modo terrível de morrer!"

"Mas ainda assim apropriado", disse Qwilleran. "Você tem de admitir que foi dramático — o tipo de notícia de imprensa que Fanny gostaria."

"Nick e eu queremos ir ao culto em memória dela amanhã."

Ele disse: "Estamos indo para Pickax agora, e levando os gatos conosco. Arrombaram a cabana ontem, e achamos que Koko atacou o ladrão e o afugentou."

"Não me diga!" Os olhos azuis de Lori arregalaram-se de espanto.

"Havia sangue no tapete, e Koko estava lambendo as garras com uma satisfação incomum. Se algum de seus fregueses postais aparecer de cara arranhada, avise por favor. De qualquer maneira, não vou deixar Koko e Yum Yum sozinhos na cabana até que este assunto seja esclarecido. Estão lá fora no carro, perturbando a paz da Rua Principal."

Rosemary dirigiu o carro de volta à cabana e estacionou na clareira. Em seguida, os quatro tomaram o caminho de Pickax, numa velocidade moderada para não alarmar Yum Yum.

Rosemary contou que o mecânico da oficina ia ao culto também.

"Fanny tinha um verdadeiro fã-clube no Condado de Mouse", disse Qwilleran. "Para um nome que costumava ser desprezado, Klingenschoen fez uma reabilitação espetacular."

Ele desviou-se para não passar por cima de um gambá morto, e os siameses ergueram os focinhos, farejando alertas, orelhas encostadas e bigodes eriçados.

Rosemary disse: "Estive pensando naquele mau cheiro na fazenda de perus. Não era cheiro de terreiro; era um caso terrível de CC. Acho que o fazendeiro tem uma enorme deficiência de dieta. Gostaria de poder sugerir isso à sua mulher, sem ofendê-la."

De repente o carro caiu num buraco, e Yum Yum proferiu uma invectiva de obscenidades em siamês, que se estenderam pelo resto do caminho até Pickax.

Qwilleran estacionou na entrada da imponente casa de pedra com seus três andares de esplendor. "Aqui estamos, de volta a Manderley", gracejou.

"Ah, é este o nome da casa?", perguntou Rosemary, inocentemente.

Os dois animais foram fechados na cozinha, com sua almofada azul, seu lavatório e uma tigela de água, enquanto Qwilleran e Rosemary continuavam a busca pelo testamento.

A escrivaninha da biblioteca era um móvel inglês, maciço e antigo, as gavetas contendo registros de impostos, certidões de nascimento e óbito, apólices de seguro, títulos imobiliários, informações de investimentos, contas pagas, inventários de casas e notas promissórias de cem anos atrás... mas nenhum testamento. A mesa na salinha de tia Fanny era uma graciosa escrivaninha francesa dedicada a correspondência: cartas de amor dos anos vinte; mexericos bobos sobre namorados, escritos pela mãe de Qwilleran quando ela e Fanny estavam na escola; bilhetes curtos do filho de Fanny, do colégio interno; e cartas recentes datilografadas em manchetes do Daily Fluxion. Mas nada de testamento.

"Aqui tem uma coisa interessante, Qwill", disse Rosemary. "De alguém em Atlantic City. É sobre Tom, pedindo a Fanny que o empregue em serviços gerais." Ela percorreu as linhas apressadamente. "Nossa, Qwill! Ele é um ex-condenado! Diz aqui na carta que ele vai sair em condicional... mas precisa de um lugar para ir... e a promessa de um emprego. Ele não é muito inteligente, diz aqui... mas é muito trabalhador... obedece ordens e nunca dá trabalho... Ouça isto, Qwill. Ele foi condenado a dez anos... mas está sendo solto por bom comportamento... Oh, Qwill! que tipo de gente a tia Fanny conhecia em Nova Jersey?"

"Posso imaginar", disse Qwilleran. "Vamos almoçar."

Ele foi verificar os siameses; estavam empoleirados na sua almofada azul, em cima da geladeira, e tão satisfeitos quanto possível, dadas as circunstâncias. Encontrou o caseiro trabalhando no jardim.

"Olá, Tom", disse tristemente. "Foi uma coisa terrível o que aconteceu."

Tom tinha perdido a expressão branda e infantil e parecia vinte anos mais velho. Ele acenou com a cabeça e olhou para a grama.

"Você vai ao culto em memória amanhã?"

"Nunca fui a um. Não sei o que fazer."

"Você apenas vai, senta-se e ouve as músicas e os discursos. É uma maneira de dizer adeus à srta. Klingenschoen. Ela gostaria que você estivesse lá."

Tom inclinou-se sobre o ancinho e curvou a cabeça. Os olhos encheram-se de lágrimas.

Qwilleran disse: "Ela foi boa para você, Tom, mas você também foi uma grande ajuda para ela. Lembre-se disso. Você tornou os últimos anos da vida dela mais fáceis e mais felizes".

O homem enxugou o rosto molhado com a manga. Seu pesar era tão comovente que Qwilleran sentiu — pela primeira vez, desde que ouvira a notícia — um aperto na garganta. Ele tossiu e começou a falar sobre a janela quebrada na cabana. "Eu pus um pedaço de papelão na janela por enquanto, mas se chover forte e o vento soprar do leste..."

"Eu vou consertar", disse Tom, quietamente.

A lanchonete que servia o segundo pior café do Condado de Moose estava apinhada na hora do almoço e alvoroçada com conversas sobre a tragédia Klingenschoen. Nenhuma igreja era suficientemente grande para a multidão esperada, de modo que o culto em memória seria celebrado no ginásio da escola secundária. Pastores de todas as cinco igrejas fariam os panegíricos. O Coral dos Cidadãos Mais Antigos cantaria. Um representante do condado executaria o toque de silêncio numa cometa da Primeira Guerra Mundial. A cadeira de balanço de vime favorita de Fanny Klingenschoen estaria num estrado, e crianças do jardim-de-infância desfilariam por ela, cada uma depositando um único botão de rosa na cadeira vazia.

Havia, é claro, muita especulação sobre o testamento. A grande casa de pedra havia sido prometida à Sociedade Histórica para museu, e a edícula da garagem tinha sido prometida à Sociedade de Arte para uma galeria e estúdio. Corria o rumor que uma soma global iria para a Comissão de Educação, a fim de construir uma piscina Olímpica. De modo geral havia uma atmosfera de tristeza misturada a alvoroço e gratidão entre os clientes da lanchonete, especialmente os mais jovens, muitos dos quais tinham o nome de Francesca.

Qwilleran disse a Rosemary: "Espero que ela tenha se lembrado de Tom no testamento. Espero que tenha lhe deixado a caminhonete azul. Ele cuida dela como se fosse um bebê."

"E se não acharmos o testamento?"

"O governo e os advogados ficarão com tudo."

Depois do almoço, a busca continuou na sala de visitas, onde havia uma mesa de laca chinesa recheada de fotografias, ferrotipias, instantâneos, fotos de estúdios e impressões lustrosas de revistas. Qwilleran queria adivinhar qual sujeito de costeletas era o vovô Klingenschoen, e qual moça de olhos alegres e anéis no cabelo era Minnie K, mas Rosemary arrastou-o dali.

No andar de cima havia cômodas com tampo de mármore, arcas altas e guarda-roupas. Rosemary organizou a busca, ficando ela própria com o quarto de Fanny e enviando Qwilleran para os outros cômodos. Depois compararam notas, sentados no degrau do topo da longa escadaria que havia sido palco do acidente.

Rosemary disse: "Tudo que achei foram roupas. Meias e lingerie de pura seda, imagine! Lenços brancos de linho às dúzias... um monte de luvas de criança amareladas... tudo cheirando a lavanda. O que você achou?"

A lista de Qwilleran era igualmente desapontadora. "Toneladas de lençóis. Cobertores com uma polegada de espessura, cheirando a cedro. Toalhas brancas suficientes para um banho turco. E toalhas de mesa tão grandes que dariam para cobrir uma quadra de squash."

"Onde iremos daqui?"

"Deve haver um cofre", disse ele. "Pode ter sido instalado num móvel ou numa parede almofadada ou escondido atrás de um quadro. Se Fanny estava tão preocupada em esconder a natureza de seu testamento, talvez o tenha guardado num cofre."

"Pode levar semanas até encontrá-lo. Você teria de desmontar a casa toda."

Um gemido distante ecoou nos quartos silenciosos. "É Koko", disse Qwilleran. "Ele não gosta de ficar trancado tanto tempo. Sabe, Rosemary, aquele diabinho tem um sexto sentido sobre este tipo de coisas. Poderíamos deixá-lo vagar pela casa e ver o que chama sua atenção."

Assim que Koko saiu da cozinha, foi da área de serviço até a sala de jantar com a dignidade de um monarca visitante, cabeça erguida regiamente, orelhas dobradas como uma coroa e cauda apontada para cima. Farejou insistentemente os coelhos e faisões entalhados nas portas do enorme apara-dor, mas ele continha apenas terrinas de sopa e travessas de prata. No vestíbulo, ficou enfeitiçado por uma mancha no tapete ao pé das escadas, até que Qwilleran ralhou com ele pelo mau gosto. Na sala de visitas, examinou as chaves do velho piano quadrado e roçou-se contra suas pernas bulbosas. Não havia nada de interesse para ele na biblioteca ou na sala de música, mas achou a escada do porão e liderou o caminho até o pub inglês.

Era uma sala escura de paredes almofadadas, chão de pedra e várias mesas de taverna com cadeiras de madeira toscas. O bar era enorme e tinha o fundo elaboradamente entalhado e montado com vidro interlineado de chumbo. Koko fuçou por trás do bar e depois assumiu uma pose rígida. Em câmara lenta, aproximou-se de um armário embaixo do bar. Esperou, olhando fixamente para o fundo da porta do armário. Qwilleran pôs o dedo nos lábios. Nem ele nem Rosemary ousavam mexer ou respirar. Então Koko pulou. Houve guinchos de terror, e Koko pulou para frente e para trás desapontado.

"Um rato", segredou Qwilleran na direção de Rosemary. Dirigiu-se pé ante pé para trás do bar e abriu a porta do armário. Uma coisinha cinzenta voou para fora, e Koko saiu em perseguição.

"Deixe-o ir", disse Qwilleran. "Achamos!" Dentro do armário estava um velho cofre preto e dourado com fechadura de combinação. "Só há um problema: como vamos abri-lo?"

"Chame Nick."

"Nick e Lori virão à cidade para o culto amanhã. O cofre pode esperar até lá. Vamos para casa comer aquele peru."

Compraram um exemplar do Pickax Picayune e viram que o obituário de Fanny enchia toda a primeira página. Até os anúncios que normalmente ocupavam a coluna um da página tinham sido omitidos. O texto do obituário estava impresso em letras grandes numa cercadura em negrito no centro da página, ladeada por um espaço em branco e, em seguida, outra borda em negrito. Em letras pequenas no fundo da página havia uma menção que o obituário podia ser emoldurado.

Rosemary leu alto no caminho de volta a Mooseville, e Qwilleran classificou-o como uma obra-prima de evasivas e excesso de floreios. "Eles escreviam obituários como este no século XIX. Espere até eu falar com o editor! Não é fácil escrever uma história de página inteira sem dizer nada."

"E não há fotos."

"O Picayune nunca reconheceu a invenção da máquina fotográfica. Leia de novo para mim, Rosemary. Não consigo acreditar."

O título era simples: Grande Dama Chamada de Volta ao Lar.

Rosemary leu:

 

Elevada para as recompensas de uma vida bem vivida, sem sofrer as angústias do declínio ou a tristeza da partida ou a dor da doença, e feliz na consciência de haver cumprido no melhor de sua habilidade seu trabalho para a humanidade, Fanny Klingenschoen, à avançada idade de oitenta e nove anos, deslizou subitamente para o sono do qual não se acorda, durante as primeiras horas da quarta-feira em sua residência palaciana na cidade de Pickax. Nos breves momentos em que a Ceifadeira a chamou de volta, ela deixou para trás a cena de sua alegria e felicidade, fechou os olhos para o inundo e sorriu enquanto a vela bruxuleante da vida se extinguia, lançando uma escuridão sobre o condado tal como raramente, se jamais, foi sentida em tal ocasião.

Nenhuma pena pode descrever a perda irreparável para a comunidade, quando os dedos finos da morte agarraram as cordas do coração que inspirou tantos de seus semelhantes — e por tantos anos — inspirou-os com uma amplitude de liderança, postura, gosto refinado, mente cultivada, franqueza, força de caráter e generosidade.

Nascida de Septimus e Ada Klingenschoen há quase nove décadas, era neta de Gustave e Minnie Klingenschoen, que desbravaram o sertão bravio para trazer melhorias sociais às rudes vidas dos primeiros pioneiros.

Embora seu espírito tenha alçado voo, sua presença forte será sentida na manhã de sábado, às onze horas, quando um grande número de residentes do condado, representando todas as classes sociais, se reunirá na Escola Secundária de Pickax para prestar homenagem a esta mulher de excelsas qualidades e despretensiosa dignidade. O comércio em Pickax ficará suspenso por duas horas.

 

Rosemary disse: "Não sei por que você achou ruim, Qwill. Eu acho que está muito bem escrito — muito sincero — e tocante."

"Eu achei uma baboseira", disse Qwilleran. "Faria Fanny vomitar."

"MIAU!", falou Koko do banco de trás.

"Viu?, ele concorda comigo, Rosemary."

Ela fungou. "Como você sabe se é um sim ou um não?"

Chegaram à cabana a tempo de ouvir o telefone tentando chamar a atenção dentro do armário da cozinha.

"Olá, você", disse uma voz que Qwilleran desdenhava. "Está com minha garota aí? Aqui é seu amigo, Max Sorrel."

Qwilleran encolerizou-se. "Tenho várias garotas aqui. Qual é a sua?"

Depois que Rosemary falou com Max, ficou macambúzia e arredia. Finalmente ela disse: "Tenho de partir amanhã para casa, logo depois do culto."

"MIAU!", falou Koko com mais energia que o usual, e parecia tanto com um grito de aplauso que Qwilleran e Rosemary o olharam desapontados. O gato estava sentado no consolo da lareira, perigosamente junto do jarro Staffordshire. Um menear da cauda e...

"Vamos mudar seu jarro para um lugar seguro", sugeriu Qwilleran. Depois: "Max disse alguma coisa que a aborreceu, Rosemary?"

"Ele decidiu comprar minha parte e ir em frente com o negócio do restaurante, e eu estou nervosa."

"Você não gosta muito dele, não é?"

"Não tanto quanto ele pensa que gosto. É isso que me deixa nervosa. Acho que vou dar uma volta na praia e pensar um pouco."

Com alguma preocupação, Qwilleran a deixou ir. Relutantemente admitiu que não estava tão pesaroso de vê-la mudar-se para Toronto. Tinha sido um solteirão por muito tempo. Na sua idade não podia ajustar-se a dietas supervisionadas e badulaques de Staffordshire. Tinha desistido do cachimbo a pedido de Rosemary, e volta e meia sentia falta de um Groat and Boddle, apesar de suas tentativas de racionalizar. Embora ela fosse atraente — e boa companhia quando estava cansado ou sentindo-se solitário — ele tinha outra disposição de ânimo quando encontrava mulheres mais novas e mais estimulantes. Na companhia delas, sentia-se mais vivo e mais espirituoso. Rosemary não estava afinada com seu senso de humor, e certamente não se afinava com Koko. Ela o tratava como a um gato comum.

O esfriamento da relação foi apenas um acontecimento numas férias que não haviam sido um sucesso. Foram duas semanas de desconforto, perplexidade e frustração, para não mencionar culpa; ele não tinha escrito uma só palavra da planejada novela. Não tinha desfrutado de noites de música nem andado quilômetros na praia ou se refestelado na areia com um bom livro de espionagem, nem dado a devida atenção aos poentes. E agora estava chegando ao fim. Mesmo se os inventariantes da propriedade não o despejassem, ele ia sair. Alguém estava suficientemente desesperado para arrombar a cabana. Alguém tinha sido suficientemente bárbaro para matar um homem a pauladas. Um caçador de coelhos podia sair do mato com um rifle a qualquer momento.

A cabana estava quieta, e Qwilleran ouviu o barulhinho de passos curtos. Koko se divertia com seu brinquedo de erva-de-gato, apanhado de algum canto remoto. Lutava com ele, mandava-o deslizando pelo chão, pulava em cima, agarrava-o com as patas da frente e chutava-o com as poderosas pernas de trás, depois jogava para o alto e corria atrás.

Qwilleran olhava o jogo. "Koko rebate para o campo da direita... está sob ela... pegou... manda ao acaso para o segundo... apanha no voo... caiu, mas conserva a bola... aí vem uma bola curva rápida por cima do quadrilátero... falta à esquerda."

A bola de erva-de-gato desapareceu debaixo do sofá. Koko olhou indagadoramente para o local exato onde tinha sumido sob a saia plissada da capa. O sofá era baixo; só Yum Yum era pequena o bastante para esgueirar-se sob ele.

"Acabou o jogo", disse Qwilleran. "Você perdeu por falta."

Koko achatou-se no chão e estendeu uma longa perna marrom para tatear debaixo do sofá. Flexionou-se, contorceu-se, esticou-se. Inutilmente. Pulou para as costas do sofá e estrilou.

"Diga para sua camarada pescá-lo para você", disse o homem. "Eu estou cansado."

Koko olhou-o ferozmente, os olhos azuis transformando-se em grandes orbes negros. Olhou sem dizer nada.

Só algumas vezes Qwilleran tinha visto aquele olhar, e sempre significava algo sério. Ergueu-se do sofá confortável e foi para a varanda pegar o forcado tosco que estava pendurado ali. Com o cabo deu uma passada sob o móvel e trouxe com ele algumas bolas de poeira e uma de suas meias azul-marinho. Deu outra passada e rolaram para fora o batom coral de Rosemary e uma caneta esferográfica de ouro.

Ambos os gatos estavam agora atentos, divertindo-se com o trabalho.

"Yum Yum, sua ladrazinha!", disse Qwilleran. "O que mais você roubou?"

Mais uma vez varreu sob o sofá com o cabo do forcado. A bola de erva-de-gato apareceu primeiro — depois seu relógio de ouro — e depois algumas notas dobradas num prendedor de dinheiro. "De quem é este dinheiro?", disse, enquanto contava as notas. Trinta e cinco dólares estavam presos no que parecia ser um grande prendedor de ouro brilhante.

Naquele momento Rosemary subiu a duna vinda da praia e entrou cansada na cabana.

"Rosemary, você não vai acreditar no que eu achei", disse Qwilleran. "A caneta de ouro que você me deu! Pensei que Tom a tinha roubado. E seu batom! Yum Yum estava enfiando coisas sob o sofá. Meu relógio, uma de minhas meias e algum dinheiro num prendedor de Ouro.

"Fico contente que você achou a caneta", disse ela séria.

"Você está bem, Rosemary?"

"Estarei depois de um bom sono. Gostaria de ir cedo para a cama."

"Mas nós nem jantamos."

"Não estou com fome. Você me daria licença? Tenho uma longa estrada amanhã."

Qwilleran sentou-se sozinho na varanda, mal notando a arrebentação espumosa e as gaivotas. deslizando. O prendedor de dinheiro, refletia, era do tipo que Roger usava. Roger teria estado na cabana? Se tinha, com que finalidade? O lugar tinha estado trancado por muitos dias. Não, ele se recusava a acreditar que seu jovem amigo estava envolvido em qualquer operação desonesta. Certamente não era sua, a voz na fita.

Ficou sentado na varanda até o cair da noite, depois fez um sanduíche de peru e uma xícara de café. Também cortou um pouco do peru para os gatos. Yum Yum devorou sua parte, mas — surpreendentemente — Koko não mostrou qualquer interesse. Não havia jeito de predizer, entender, ou explicar as rabugices de um siamês.

 

Havia quatro documentos no cofre de tia Fanny. Três eram envelopes selados com lacre vermelho e rotulados Última Vontade e Testamento, na sua caligrafia inconfundível. Estes Qwilleran entregou a Goodwinter & Goodwinter junto com algumas caixas de joias, de veludo, para colocar no cofre dos advogados. O quarto item era um pequeno livro de endereços, com capa de couro verde, que ele enfiou no bolso.

Nick e Lori haviam chegado à casa de pedra uma hora antes do culto em memória, dando a Nick tempo para abrir o cofre e a Rosemary para mostrar a Lori os belos aposentos com seus móveis antigos. Depois, deixando Koko e Yum Yum em cima da geladeira, os quatro se juntaram ao povo na Escola Secundária de Pickax.

Todo mundo estava lá. Qwilleran viu Roger, Sharon e Mildred, o malandro capitão do mar que vendia antiguidades falsas, o velho Sam, a dra. Melinda Goodwinter num conjunto verde-água combinando com os olhos, os dois rapazes do Minnie K, aliás Seagull, o curador do museu, o mecânico da oficina — todos. O cozinheiro descarnado do Dismadale Diner chegou de motocicleta, na garupa de um homem corpulento que usava um grande anel de diamante e uma jaqueta de couro sem mangas. Tom estava lá, encolhido timidamente no banco do fundo. Até os proprietários do COMID estavam presentes com seu cozinheiro sonso.

O editor gerente do Pickax Picayune postava-se nos degraus da frente, anotando a chegada de pessoas importantes.

"Júnior, você se superou!", cumprimentou-o Qwilleran. "Conseguiu setenta e oito numa única sentença! Deve ser um recorde. Quem é o gênio que escreve seus obituários?"

O jovem editor riu da pergunta. "Sei que são esquisitos, mas têm sido escritos desse modo desde 1859, e é isso que nossos leitores querem. Um obituário floreado é símbolo de status para as famílias daqui. Eu lhe disse que fazemos as coisas à nossa moda."

"Você não estava falando sério, espero, quando disse que o obituário de tia Fanny podia ser emoldurado."

"Ah, certamente. Muitas pessoas por aqui colecionam obituários como passatempo. Há uma senhora que tem mais de quinhentos num álbum de recortes. Há um Clube do Obituário com boletim informativo mensal."

Qwilleran sacudiu a cabeça. "Responda outra pergunta, Júnior. Como é que o Dimsdale Diner ainda não fechou? A comida é um atentado, e nunca vi qualquer pessoa por lá."

"Você nunca viu a turma do café? Às sete e às onze da manhã o estacionamento fica cheio de caminhonetes. É lá que vou para arranjar notícias."

Naquele momento a delegação do COMID chegou, e Qwilleran aproveitou a ocasião para falar ao esquivo Merle. Era um homem enorme — alto, obeso, intimidativo, com um olho meio fechado e o outro vesgo.

"Queira me desculpar, senhor", disse Qwilleran. "É o dono do restaurante COMID?"

A esposa, a mulher gorda que estivera no caixa, disse: "Ele não fala mais. Teve um acidente na fábrica." Ela fez um gesto com a mão como se cortasse a garganta. "E agora ele não fala mais."

Qwilleran recuperou-se rápido. "Desculpe. Eu só queria lhe dizer, Merle, que gostei muito do seu restaurante, especialmente dos pastelões. Meus cumprimentos para o cozinheiro. Continuem com o bom serviço."

Merle acenou com a cabeça e tentou sorrir, mas só conseguiu parecer mais sinistro.

Enquanto pastores e políticos prestavam inflamadas homenagens a Fanny Klingenschoen, Qwilleran manuseava o livrinho verde de bolso. Estava relacionado em ordem alfabética e cheio de nomes, mas em vez de endereços havia anotações de conduta ilegal em cidade pequena: furtos em lojas, cheques sem fundos, adultério, suborno, conflitos de interesses, imoralidade, desfalques. Nada estava documentado, mas Fanny parecia saber. Talvez ela também fosse cliente habitual da hora do café no Dimsdale Diner. Era seu passatempo. Assim como uns colecionavam obituários, Fanny colecionava segredos de pessoas. Como utilizava as informações, ele só podia fazer uma ideia. Talvez o livrinho verde fosse a arma que usara para salvar o fórum e conseguir que fossem instalados novos esgotos. Qwilleran decidiu que acenderia a lareira, antes do final do dia.

Depois do culto, Rosemary disse: "Foram dias ótimos, Qwill. Sinto não poder ficar para o almoço, mas tenho uma longa estrada pela frente".

"Você lembrou-se de levar o jarro Staffordshire?"

"Não o esqueceria por nada neste mundo!"

"Escreva contando como dividiram as propriedades."

"Mande seu endereço em Toronto, e não se envolva muito com nosso amigo Max."

Havia um tom de afeição amigável nas despedidas, mas nada do ardor e intimidade de uma semana atrás. Que pena, pensou Qwilleran. Apanhou os siameses e dirigiu de volta à cabana. Estava claro que Koko não gostara de Rosemary. Seu dono sempre fora um homem. Na noite anterior, Koko recusara a comer o peru que Rosemary tinha tão atenciosamente comprado e assado.

"Tudo bem, Koko", disse Qwilleran quando chegaram à cabana. "Ela já se foi. Vamos tentar o peru novamente."

Um sortimento tentador de carne branca e escura estava arrumado no prato favorito dos gatos — um banquete que faria qualquer siamês normal ter ataques de alegria. Yum Yum devorou-o vorazmente, mas Koko olhou o prato com aversão. Arqueou as costas e, pisando rigidamente nas longas pernas esguias, rodeou o repasto como se fosse veneno — não uma, mas três vezes.

Qwilleran alisou o bigode vigorosamente. Nos poucos anos que conhecia Koko, o siamês havia executado duas vezes esse ritual. Na primeira vez, andara em volta de um cadáver; na segunda dança macabra, dera a pista de um crime horrível.

O telefone emitiu seu toque abafado.

"Alô, Qwill, sou eu. Estou ligando de Dove Lake."

"Oh-oh. Problemas com o carro?"

"Não; está tudo bem."

"Esqueceu alguma coisa?"

"Não, mas lembrei-me de algo. Sabe aquele dinheiro que você achou sob o sofá? O prendedor me pareceu familiar, e agora sei por quê."

"A loja de velas tinha para vender. Roger tem um, e eu mesmo tentei comprar um também", disse Qwilleran.

"Talvez, mas lembrei-me que vi um, na fazenda de perus. O homem com aquele problema terrível tirou do bolso um grampeador de dinheiro para me dar um dólar de troco, e parecia um grande prendedor de papel."

Qwilleran alisou o bigode com as pontas dos dedos. Rosemary tinha comprado o peru na quarta-feira. O arrombamento fora na quinta. O prendedor de dinheiro podia ter caído do bolso das calças, quando o homem pulara ou caíra do banco do bar, fugindo daquelas dezoito garras.

"Está me ouvindo, Qwill?"

"Sim, Rosemary. Estou somando dois mais dois. Há algo sobre aquele peru que você comprou — está afetando Koko. Ele está sentindo vibrações. Yum Yum adorou, mas Koko recusa-se a tocá-lo. Acho que está tentando me guiar para aquela fazenda de perus."

"Tome cuidado, Qwill. Não se arrisque. Você sabe o que quase lhe aconteceu em Maus Haus quando se meteu numa situação perigosa."

"Não se preocupe, Rosemary. Obrigado pela informação. Dirija com cuidado, e pare quando sentir sono."

Então essa era a pista! Peru! Qwilleran agarrou o prendedor de dinheiro com os trinta e cinco dólares, trancou os gatos na cabana e precipitou-se para o carro.

Eram poucos quilômetros até a fazenda de perus. Os dorsos de bronze inclinavam-se e ondulavam como de costume. A caminhonete azul estava no pátio. Ele estacionou e encaminhou-se para a porta que anunciava vendas a varejo e no atacado. O vento soprava do noroeste, de modo que havia pouco cheiro de galinheiro, mas assim que entrou na casa ficou atordoado com o fedor.

Não havia o que o explicasse. O recinto estava imaculado: as paredes pintadas de branco, o balcão de madeira com suas balanças de aço inox e facas brilhantes, a serragem limpa no chão à maneira dos açougues antigos. Havia uma sineta no balcão: Toque para chamar. Qwilleran tocou-a três vezes insistentemente.

Quando o homem alto e pesadão saiu de dentro de um enorme congelador, Qwilleran tentou controlar sua reação facial de repulsa. Sentiu a experiência do correio de novo, mas havia mais. O rosto e o pescoço do homem estavam cobertos de arranhões vermelhos e fundos. Tinha um curativo na garganta. Uma orelha estava rasgada. Usava o inevitável gorro de alimentar animais, e o visor aparentemente lhe protegera os olhos quando Koko atacou, mas sua aparência era pior do que Qwilleran imaginara, e o cheiro, nauseabundo.

Olhou para o fazendeiro e o homem devolveu o olhar, impassível e na defensiva. Alguém tinha de dizer algo, e Qwilleran forçou-se em fazer o comentário natural: "Parece que você teve um acidente grave."

"Malditos perus!", disse o homem. "Ficam loucos e se matam entre si. Eu devia aprender a não me meter no meio."

Aquilo foi o suficiente para o ouvido afiado de Qwilleran. Era a voz da fita.

Ele atirou o dinheiro e o prendedor de ouro no balcão. "Isto lhe pertence? Achei na minha cabana. Também tenho uma fita que pode ser sua." Olhou o desfigurado fazendeiro bem nos olhos.

A expressão do homem tornou-se hostil; seus olhos faiscaram; os dentes cerraram-se. Com um berro, pulou por cima do balcão, agarrando uma faca.

Qwilleran arremessou-se para fora, mas tropeçou num encosto de porta e caiu sobre um joelho — seu joelho ruim. Sentiu um braço levantado acima dele, uma faca suspensa sobre a cabeça. Era uma pose congelada, um quadro parado de filme de terror. A faca não desceu.

"Largue isso", disse uma voz branda. "É uma coisa muito feia de se fazer."

A faca caiu no chão coberto de serragem com um barulho abafado.

"Agora vire-se e levante as mãos."

Tom estava de pé no limiar da porta, apontando um revólver para o fazendeiro, uma pequena pistola de cabo dourado. "Agora devemos chamar o xerife", disse suavemente a Qwilleran.

"Seu idiota!", gritou o prisioneiro. "Se você falar, eu também falo!"

Não havia a menor dúvida; aquela era a voz: aguda, timbre metálico, sem inflexão.

Dois policiais levaram Hanstable preso, e Qwilleran concordou em ir à cadeia mais tarde para assinar os papéis.

"O que o levou a aparecer?", perguntou a Tom.

"Eu fui consertar sua janela. A porta estava trancada. Não pude entrar. Então fui a Mooseville comprar um pastelão. Gosto de pastelão."

"E depois?"

"Estava voltando para casa. Vi seu carro lá. Parei para pegar a chave."

"Volte comigo para a cabana e vamos tomar uma cerveja", disse Qwilleran. "Devo dizer que nunca fiquei tão feliz em ver alguém na minha vida! Que belo revólver você tem." Como a pistola da bolsa de tia Fanny fora parar no bolso de Tom era um assunto interessante que Qwilleran resolveu não perseguir no momento.

"É muito bonita. É ouro. Gosto de ouro."

"Como poderei agradecê-lo, Tom? Salvou minha vida."

"O senhor é um homem bom. Não queria que ele o machucasse."

Qwilleran dirigiu de volta à cabana, e o caseiro o seguiu na sua caminhonete azul, brilhando como nova. Sentaram-se na varanda, abrigados pela casa, porque o vento noroeste soprava furiosamente, vergastando árvores e arbustos num frenesi verde.

Qwilleran serviu cerveja e fez um brinde. "A você, Tom. Se não tivesse chegado, eu podia ter virado um cachorro quente de peru." O gracejo, embora bobo, agradou ao senso de humor simples do caseiro. Qwilleran queria pô-lo à vontade, antes de fazer-lhe um bocado de perguntas. Depois de um tempo, indagou casualmente: "Você vai sempre à fazenda de perus, Tom?"

"Não, cheira muito mal."

"O que o fazendeiro quis dizer quando disse que falaria, se você falasse?"

Um sorriso envergonhado apareceu no rosto afável. "É sobre o uísque. Ele me disse para comprar o uísque."

"Para que era o uísque?"

"Para os prisioneiros."

"Os internos da prisão?"

"Tenho pena dos prisioneiros. Estive na prisão uma vez."

Qwilleran disse amavelmente: "Entendo como se sente. Não bebe uísque, não é? Eu também não."

"Tem gosto ruim", disse Tom.

O jornalista sempre tinha sido um entrevistador compreensivo, nunca pressionando com perguntas muito rápidas, sempre travando conversa amigável com os entrevistados. Para abrandar o interrogatório, levantou-se e matou uma aranha e derrubou uma teia, comentando sobre o tamanho da população de aranhas e sua persistência em decorar a cabana, dentro e fora, com seu artesanato. Depois:

"Como é que você entregava uísque para os presos?"

"Ele levava."

"Com licença, Tom. O telefone está tocando."

Era Alexander Goodwinter. Tinha acabado de chegar de Washington e não sabia como expressar sua tristeza pela morte da garbosa senhorita. Ele e Penélope estavam a caminho de Mooseville e gostaria de visitá-lo por meia hora para discutir um certo assunto.

Qwilleran sabia qual era este certo assunto. Como testamenteiros, eles certamente iam querer mil dólares por mês pela cabana. Voltou à varanda. Koko estivera conversando com Tom na sua ausência.

"Ele tem uma voz aguda", disse o caseiro. "Eu o acariciei. Seu pelo é gostoso. É macio."

Qwilleran fez algumas observações sobre as características dos siameses, mencionou o gosto de Koko por peru e depois voltou mansamente às perguntas. "Imagino que você tinha de entregar o uísque na fazenda de perus."

"Eu levava para o cemitério. Ele me disse para deixar no cemitério. Há um lugar lá."

"Espero que ele tenha pago você por isso."

"Ele me deu muito dinheiro. Isso foi bom."

"É sempre bom ter um dinheirinho extra entrando. Aposto que você guardou no banco para comprar um barco ou algo assim."

"Não gosto de bancos. Escondi por aí."

"Bem, apenas certifique-se de que está num lugar seguro. Isso é que é importante. Está pronto para uma cerveja?"

Houve um intervalo para servir e comentar sobre a velocidade do vento e a possibilidade de um tornado. A temperatura estava anormalmente alta, e o céu tinha um tom amarelado. Depois: "Você comprou a bebida em Mooseville? Eles não têm uma boa escolha."

"Ele me disse para comprar em lugares diferentes. Algumas vezes me dizia para comprar uísque. Outras, para comprar gim."

Qwilleran desejou ter um cachimbo com fumo. O trabalho de acender um cachimbo tinha muitas vezes preenchido as pausas e abrandado as arestas de uma entrevista quando a pessoa era tímida ou relutante. Disse a Tom: "Seria interessante saber como o fazendeiro levava a bebida na prisão".

"Levava na sua caminhonete, junto com os perus. Ele me disse para comprar garrafas de meio litro, de modo que coubessem dentro dos perus."

"É uma maneira nova de rechear perus", disse Qwilleran, conseguindo uma reação alegre do caseiro. "Se você não ia à fazenda, como sabia que tipo de bebida comprar?"

"Ele entrava aqui e falava na máquina. Eu ouvia quando ia para o trabalho. Era legal. Eu gostava." Uma coisa ocorreu a Tom, e ele deu um risinho. "Ele deixava atrás do alce."

"Eu sempre pensei que o alce tinha cara de doente, e agora sei porquê."

Tom riu de novo. Estava se divertindo.

"Então você tocava a fita quando vinha aqui."

"Tocava uma música bonita também."

"Por que o fazendeiro não deixava apenas um bilhete para você?" Qwilleran fez um gesto exagerado de escrever. "Caro Tom, traga cinco quartilhos de gim. Espero que esteja muito bem. Tenha um bom dia. Lembranças do amigo Stanley."

O caseiro estava achando muito engraçado. Depois parou de rir e respondeu à pergunta. "Não sei ler. Gostaria de saber ler e escrever. Seria legal."

Qwilleran sempre tinha achado difícil acreditar nas estatísticas sobre analfabetismo nos Estados Unidos, mas aqui estava uma viva, e relutava em aceitá-la quando o telefone tocou de novo.

"Olá, Qwill", disse uma voz que conhecera a vida toda. "Como estão as coisas por aí?"

"Bem, Arch. Recebeu minhas cartas?"

"Recebi duas. Como está o tempo?"

"Você não ligou para falar do tempo, Arch. O que tem em mente?"

"Excelentes notícias, Qwill! Você vai receber uma carta de Percy, mas achei que devia lhe dar a dica. Aquele serviço de que lhe falei — reportagem de investigação — Percy quer que você volte e comece imediatamente. Se o Rampage contratar alguém antes, Percy vai ter um ataque do coração. Você sabe como ele é."

"Hummm", disse Qwilleran.

"O dobro do salário e gastos ilimitados. Também um carro da companhia só para seu uso — um novo. Que tal isso para animar?"

"Gostaria de saber quanto o Rampage está oferecendo."

"Não seja engraçadinho. Você vai receber a carta de Percy daqui a uns dias, mas eu queria ser o primeiro..."

"Obrigado, Arch. Apreciei isso. Você é um cara legal. Pena que seja um editor."

"Outra coisa, Qwill. Sei que você vai precisar de um novo apartamento, e Fran Unger está desistindo do dela para se casar. É perto do escritório, e o aluguel é razoável."

"E as paredes têm papel de rosas cor-de-rosa e girafas galopando."

"Guarde na cabeça de qualquer modo. Vejo-o logo. Diga alô para aquele gato fantasmagórico."

Qwilleran estava tonto com o choque e o entusiasmo, mas Tom estava saindo e tinha de agradecê-lo mais uma vez. Apanhou o tinteiro antigo de latão de cima do bar.

"Tem aqui uma coisa que gostaria de lhe dar, Tom. Precisa de polimento, mas eu sei que você gosta de latão. É um tinteiro que viajou por todo o mundo em navios há cem anos."

"É muito bonito. Nunca tive nada igual. Vou polir todos os dias."

O caseiro mediu a janela quebrada e foi de carro até Mooseville para comprar vidro, enquanto Qwilleran sentava-se para refletir sobre a oferta do Fluxion. Agora que estava deixando este lugar tão bonito, ficava cheio de tristeza. Devia ter passado mais tempo apreciando a verdura, os tons do lago, o orvalho brilhando nas teias de aranha. Agora só podia esperar pelos aborrecimentos diários do escritório; memorandos cor-de-rosa de Percy; apontadores elétricos de lápis sempre quebrados; seis elevadores subindo quando queria descer; auxiliares que atrapalhavam o trabalho, em vez de facilitar. De repente percebeu quanto o joelho o incomodava.

Apoiou a perna numa cadeira. Do encosto de outra cadeira perto, onde um falcão estivera empoleirado certa vez, um par de olhos azuis numa máscara marrom observavam-no atentamente.

"Bem, Koko", disse Qwilleran, "nossas férias não foram o que esperávamos, não é? Mas o tempo não foi perdido. Estouramos "Não vejo qualquer problema", retrucou Penélope. "Você está inventando um, antes de aparecer."

O sócio mais velho lançou-lhe um olhar de censura, limpou a garganta e abriu a pasta. "Como sabe, sr. Qwilleran, Fanny deixou três testamentos no cofre, escritos de próprio punho. Ela escreveu vários testamentos ao longo dos anos, mudando de ideia frequentemente. Apenas os três últimos foram preservados (por nossa recomendação). Estavam datados, é claro, e só o mais recente é válido. A leitura dos três testamentos nos dá uma visão esclarecedora sobre os sentimentos dessa senhora nos últimos anos."

O olhar de Qwilleran desceu do rosto do advogado para seu sapato; o pequeno triângulo marrom de uma cara estava aparecendo sob a saia do sofá. Koko, por outro lado, estava empoleirado na cabeça de alce com a pose de um juiz presidente.

"O testamento mais antigo, que é inválido, deixava todos os bens de Fanny para uma fundação em Atlantic City, com a finalidade de recuperar uma certa zona da cidade que aparentemente tinha significação nostálgica para ela, embora pudesse ser considerada pela maioria de nós como... ah... ofensiva."

A pata de Yum Yum estava saindo furtivamente de seu esconderijo. Penélope tinha percebido a manobra, e seu rosto refletia um esforço heróico para controlar o riso.

Goodwinter continuou. "Menciono o segundo testamento, que também é inválido, apenas para inteirá-lo da mudança das simpatias de Fanny. Esse documento legava metade dos seus bens para a fundação em Atlantic City e a outra metade para escolas, igrejas, organizações culturais e caritativas, hospitais e causas cívicas em Pickax. Considerando-se a dimensão de seus bens, havia o suficiente para distribuir equitativamente, e ela havia prometido somas consideráveis a todos os supramencionados."

Qwilleran verificou o progresso de Yum Yum e deu uma olhada para Penélope, que devolveu o olhar e explodiu numa gargalhada.

"Penélope!", disse o irmão consternado. "Por favor, deixe-me concluir... O testamento mais recente deixa a soma de um dólar para cada um dos beneficiários acima nomeados — uma sábia precaução a nosso ver, no que tange a..."

"Alex, por que não vai logo ao ponto dessa discussão", disse Penélope, agitando alegremente uma das mãos, "e conta ao sr. Qwilleran que ele herda toda a maldita coisa."

"MIAU!", veio um miado nas vizinhanças da cabeça de alce.

Goodwinter deu uma olhada desaprovadora para Penélope e depois para Koko. "Com exceção apenas dos legados simbólicos a que me referi, sr. Qwilleran, o senhor é de fato o único herdeiro dos bens de Fanny Klingenschoen."

Qwilleran ficou atordoado.

"Isso", disse o advogado, "resume o intento e propósito do testamento mais recente, datado de 1º de abril deste ano, revogando desse modo todos os documentos anteriores. A leitura formal do testamento está marcada para a quarta-feira à tarde em nosso escritório."

Qwilleran chacoalhou a cabeça como um cachorro molhado. Não conseguia pensar em nada para dizer. Olhou para Penélope pedindo ajuda, mas ela apenas sorriu estupidamente.

Finalmente ele disse: "É uma brincadeira de primeiro de abril."

Goodwinter disse: "Asseguro-lhe que é legítimo. O problema, como vejo, pode ser o legado, que será contestado pelas numerosas organizações que esperavam somas generosas."

"Eram promessas verbais que Fanny fazia a todos na cidade", lembrou Penélope ao irmão. "O direito do sr. Qwilleran é o único legal."

"Não obstante pode-se prever uma ação judicial coletiva em nome das obras de caridade e instituições cívicas, questionando a capacidade de testar de Fanny, mas eu lhe asseguro..."

"Alex, você esqueceu de mencionar a condição."

"Ah, sim. O ativo — contas em bancos, investimentos, bens imobiliários etc. — serão mantidos em custódia por cinco anos com toda a renda indo para o senhor, sr. Qwilleran, desde que consinta em fazer de Pickax sua residência por aquele período de tempo e em manter a mansão Klingenschoen como seu endereço — e após o referido prazo, o fideicomisso fica dissolvido e a herança será transferida para o senhor na sua totalidade."

Houve silêncio na sala e olhares a toda a volta. Uma janela bateu no quarto de hóspedes.

Goodwinter pareceu sobressaltado. "Há mais alguém na casa?"

"Apenas Tom", disse Qwilleran. "Está consertando uma janela quebrada."

"Bem?", perguntou Penélope. "Não nos deixe em suspenso."

"O que acontece se eu declinar os termos?"

"Nesse caso", disse Goodwinter, "o testamento especifica que todos os bens irão para Atlantic City."

"E se forem para Atlantic City", ajuntou Penélope, "haverá tumulto na cidade de Pickax, e o senhor será linchado, sr. Qwilleran."

"Eu ainda acho que estão brincando comigo", disse ele. "Não há razão para esse... esse gesto inacreditável de Fanny. Até duas semanas atrás eu não a via há quarenta anos ou mais."

Goodwinter procurou na pasta e tirou um envelope coberto com a letra idiossincrática de Fanny. "Ela declara que você é seu afilhado. Sua mãe era uma amiga que ela considerava como irmã."

Penélope deu um risinho. "Venha, Alex, amarre seu cordão de sapato e vamos embora. Tenho um encontro para jantar hoje."

A caminhonete de Tom já havia partido, quando os advogados saíram, depois de apertos de mão e congratulações. Penélope tinha cambaleado um pouco, pensou Qwilleran. Ou ela estava celebrando algo, ou tinha estado afogando seu desapontamento.

Thu-rump... thu-rump... thu-rump. Era o barulho familiar de um gato pulando da cabeça de alce para o chão em três etapas fáceis.

"Bem, Koko", disse Qwilleran, "o que acha disso?"

Koko enrolou-se na base da espinha e lambeu a cauda aplicadamente.

 

Aturdido, Qwilleran preparou um prato de peru para os siameses. Estava tão preocupado com as bombas largadas por Arch Riker e Alexander Goodwinter que preparou uma xícara de café instantâneo para si e esqueceu do ingrediente essencial. Em seguida levou a xícara para a janela do lago e sorveu a água quente, sem perceber que faltava alguma coisa.

Ondas de arrebentação brancas e espumantes golpeavam a areia; o relvado da praia ondulava ao vento; as árvores agitavam freneticamente os ramos; até as pequeninas flores silvestres balançavam as cabeças valentemente sob o céu tumultuoso. Ele nunca vira algo tão violento e, ainda assim, tão belo. Isto poderia ser meu, pensou. Teria alguém jamais se defrontado com tão crucial escolha de carreira? Suas duas metades discutiam o caso:

O Jornalista Dedicado dizia: É a oportunidade de toda a minha carreira. Reportagem de investigação foi sempre o que eu quis fazer.

O Escocês Sagaz se opunha: Você está louco? Trocaria os milhões de Fanny por um emprego num jornal do meio-oeste? Na primeira vez que o Fluxion for processado, Percy mudará de opinião. E onde você estará? De volta aos artigos sobre restaurantes — ou pior.

Mas sou um jornalista. Reportagem é a minha vida! Não é um emprego; é o que eu faço.

Então compre seu próprio jornal com o dinheiro de Fanny... Compre uma cadeia de jornais.

Eu nunca quis ser um magnata de jornal. Gosto de sair em campo, desencavar histórias e batê-las com dois dedos na velha máquina de escrever portátil.

Se você for o dono do jornal, poderá fazer tudo o que bem quiser. Pode até montar os tipos como aquele sujeito do Picayune.

Eu não preciso de muito dinheiro ou posses. Sempre me satisfiz com o que ganhava.

Mas você está ficando velho, e tudo que tem no banco é $1,245.14. Esqueça a pensão do Fluxion; não dá nem para alimentar os gatos com sardinhas.

Eu teria de viver em Pickax, e preciso do estímulo de uma cidade grande. Nunca morei numa cidade pequena.

Você pode voar para Nova York, Paris ou Tóquio a qualquer momento que desejar. Pode até comprar seu próprio avião.

"MIAU!", gritou Koko na sua voz mais reprovadora. Ele ainda estava esperando pela refeição da noite. Qwilleran tinha distraidamente colocado o prato de peru no armário com o telefone.

"Desculpem crianças", disse ele. Esperou pela reação de Koko à comida. Duas vezes este gato extraordinário tinha rejeitado o peru da fazenda de Stanley Hanstable — até que conseguiu passar sua mensagem. Agora devorava com gosto. "Miau... miau, miau... miau", fazia Koko ao devorar a carne branca, deixando a escura para Yum Yum.

Qwilleran sentiu necessidade de falar com alguém com um vocabulário mais variado e telefonou para Roger Mac-Gillivray. "A que horas você sai do escritório?... Por que não dá um pulo aqui para um drinque?... Não, não traga Sharon. Não desta vez. Quero lhe falar em particular."

Koko tinha terminado o repasto e encenava seu bem conhecido ato buliçoso — vagueava incansavelmente grunhindo, chiando, guinchando e murmurando. Inspecionou a lareira, o toca-fitas, as torneiras do banheiro. Apertou duas teclas da máquina de escrever (x e j) e farejou um título da prateleira de baixo (o livro de pássaros). Quando entrou no quarto de hóspedes, Qwilleran o seguiu.

A cama de baixo do beliche era o lugar onde Koko e Yum Yum gostavam de dormir. Durante a visita de Rosemary, tinham sido banidos para a de cima. Agora Koko explorava a de baixo, resmungando para si mesmo e dando patadas diligentemente na colcha. O beliche estava encostado na parede de troncos, e de repente ele meteu a pata entre o colchão e os troncos, tentando primeiro com uma pata depois com a outra, esticando-se ao máximo, até que apanhou a presa — um par de calcinhas transparentes. Mas ainda não estava satisfeito. Pescou na estreita fenda, até que puxou uma pulseira de elos de ouro.

Qwilleran agarrou-a. "É de Mildred! Como veio parar aqui?"

Mildred tinha dito que a pulseira poderia ter caído de seu braço, quando entregava o presente de peru na semana passada. Mildred tinha estado lá naquela ocasião com alguém que fumava Groat and Boddle, embora Buck Dunfield afirmasse que nunca visitara a cabana.

Qwilleran achou o livro de endereços de couro verde de Fanny, ainda no bolso de sua jaqueta, e abriu-o na página marcada H.

HUNT, R.D. — Comprou três fazendas, enquanto era diretor de uma repartição pública; vendeu para o aeroporto seis meses depois.

HANSTABLE, S. — Arrematou por preço muito baixo o contrato dos perus para a prisão. Baixo demais.

HANSTABLE, M. — Dormindo por aí.

Qwilleran virou para a página marcada Q e viu-se descrito como um antigo alcoólatra. Não havia nada sob M para Roger, mas Dunfield estava rotulado como mulherengo, e havia duas páginas sobre os Goodwinters, que pareciam ter cometido todos os pecados do mundo.

Qwilleran jogou o livro na lareira, esvaziou a cesta de lixo por cima, acrescentou alguns gravetos da caixa de carvão e abriu o registro da chaminé. No mesmo instante em que soou o sino de latão na porta do fundo, ele acendeu um fósforo e jogou-o na lareira. Quase imediatamente reconsiderou sobre a perda de um compêndio de escândalos tão seleto. Se decidisse mudar para Pickax, poderia ser útil. Tarde demais! A tremenda tiragem de ar de um dia ventoso tinha transformado o lixo numa labareda instantânea.

Um rapaz subjugado esperava na porta. A pele branca de Roger estava ainda mais branca, e a barba preta parecia mais preta.

"Entre e acomode-se", disse Qwilleran. "Está muito barulho para sentarmos na varanda. O vento deve estar a oitenta quilômetros por hora e a rebentação, ensurdecedora."

Roger afundou-se num dos sofás e ficou olhando para o fogo, em silêncio.

"Eu vi você, Sharon e Mildred no culto para Fanny. O que achou da reunião?"

"O que eu esperava", disse o rapaz numa voz monótona. "Todo mundo estava esperando herdar alguma coisa. A Rainha de Pickax andava por aí fazendo promessas."

"Ela fez alguma promessa a você?"

"Ah, sim. Uns duzentos mil para começar um viveiro subaquático... acho que devo lhe dar os parabéns."

"Por quê?"

"Por herdar metade de Pickax e três quartos de Moose County."

"Como descobriu? Não abriram o testamento até duas horas atrás."

"Tenho de proteger minhas fontes", disse Roger de mau humor.

Qwilleran bufou no bigode. Suspeitava que a secretária dos Goodwinter era mãe ou tia de Júnior; tinha certa semelhança com a família. E Júnior sem dúvida correra para contar a Roger. "Bem, Roger meu filho, eu não aceitei as condições do testamento, por enquanto. Se você tiver sorte, voltarei para o Fluxion, e metade de Pickax e três quartos do Condado de Moose pertencerão a Atlantic City."

"Desculpe", disse Roger. "Não quis parecer mal-humorado, mas estamos todos zangados com as promessas quebradas de sua tia."

"Ela não era minha tia, e além disso eu não moraria aqui por dinheiro algum no mundo. Seu jornal é uma farsa. A estação de rádio devia ser posta fora do ar. Os restaurantes massacram a comida. E todo o condado é de mentalidade estreita e provavelmente endógamo. Nem vou mencionar o que penso dos mosquitos."

"Espere um minuto! Não fique nervoso", disse Roger. "Preferimos que o dinheiro fique aqui com você do que acabe em Nova Jersey, restaurando alguma zona de meretrício."

"Está bem, vamos tomar um drinque e pôr fim às hostilidades. Scotch? Cerveja?"

Conversaram educadamente sobre as comodidades da cabana. "É de bom gosto", disse Roger. "Sharon e eu queremos um lugar como este algum dia. O chalé de Mildred é ótimo, mas é como as casas da cidade. Esta cabana é perfeita para a floresta. Gostaria de saber quem atirou naquele alce." De repente enrijeceu. "Meu Deus! Tem um gato em cima dela! Desconfio de gatos. Fui mordido por um gato de estábulo quando era menino."

"Você provavelmente estava puxando seu rabo e mereceu o que levou", disse Qwilleran. "Está olhando para Koko lá em cima. Ele é inofensivo, se você se comportar. Imagino que sabe o que aconteceu a seu sogro."

Roger sacudiu a cabeça sombriamente. "Sei que ele está na cadeia. Era inevitável, claro. Stanley estava às portas de um desastre há dez anos."

"É uma coisa estranha", admitiu Qwilleran. "Só porque ele é seu sogro e marido de Mildred, senti-me culpado de entregá-lo. Mas ele me perseguiu com uma faca... E mesmo assim detestei fazê-lo."

Roger concordou sem entusiasmo. "É como as coisas são por aqui. Todos sabem o que está acontecendo, mas ninguém quer tomar providências. Todo mundo é parente, ou velho camarada de escola, ou companheiro de guerra, ou membro da agremiação."

"O subdelegado do xerife pediu desculpas a Stanley por prendê-lo. Conheciam-se desde o jardim da infância. Se não se importa que eu diga, isso torna o clima perfeito para a corrupção." Qwilleran atiçou o fogo e atirou mais lenha na lareira. "O que aconteceu a Stanley há dez anos?"

"Eu estava começando a namorar Sharon quando tudo começou. Ele vivia luxuosamente e de repente apanhou esse inacreditável CC. Era como uma maldição. Sua própria família não podia suportá-lo. Mildred não conseguia viver na mesma casa. Sharon e eu tivemos de fugir para casar porque o pai da noiva não podia ser tolerado num casamento normal. O sujeito tornou-se um pária, em resumo."

"Ele não consultou médicos?"

"De todos os tipos. Suspeitaram de abcesso nos pulmões, infecção nas glândulas sudoríparas, envenenamento urêmico crônico, e nem sei mais o quê. Mas nenhum teste foi satisfatório, e nada parecia ajudar. A dra. Melinda — você a conhece — me disse que algumas pessoas têm um mau cheiro idiopático."

"Mildred não pensou em divórcio?"

"Tinha medo de divorciar-se. Ele disse que a mataria, e ela acreditou. Para uma mulher saudável e amorosa como ela, era uma droga de vida, você entende, e ela começou a procurar companhias masculinas."

"Significando Buck Dunfield?"

"Ele não foi o primeiro — apenas o mais azarado."

"Foi por isso que Stanley o matou?"

"Bem, não era segredo que Stanley detestava Buck. Ele sabia o que estava acontecendo."

"A verdadeira razão, eu desconfio, ele descobriu que Buck estava bisbilhotando seu negócio. O de transporte em barco."

"Uma coisa eu não entendi", disse Roger. "Como é que Stanley pôde se esgueirar até Buck sem ser percebido? Foi o que aconteceu, dizem eles."

"Eu sei como. Buck tinha perdido o olfato. Nem os peixes mortos na praia o incomodavam. Mildred suspeitava que ele fosse o assassino?"

"Todos sabiam. A polícia tinha certeza, mas não conseguira obter provas suficientes. Todos esperavam que algo acontecesse."

"Todo mundo sabia! O lema do Condado de Moose devia ser Omnes Sciunt. Qual era a conexão de Stanley com a prisão?"

"Ele fez a oferta mais barata para fornecer perus. Um contrato muito vantajoso. Eles têm cinco mil presos."

"Tinha de ser mais que uma oferta barata, meu chapa. Ele tinha uma clientela lá dentro para bebida e talvez drogas. Também podia contrabandear presos na cabina do seu caminhão, enrolados em lona. Você sabia que ele estava transportando fugitivos até a meio caminho do Canadá?"

"Havia rumores, mas ninguém tinha coragem de fazer nada. Foi preciso um estranho como você."

Qwilleran contou a Roger sobre a fita e seus esforços de compará-lo às vozes em toda a cidade. Pensou consigo mesmo se deveria revelar o papel de Koko na resolução do mistério. O gato tinha achado a fita, dirigido a atenção para a conexão da prisão e, mais tarde, para o fazendeiro de perus, tinha atacado o homem, quando ele arrombou a cabana e desencavado a pista final: o prendedor de dinheiro.

Não, pensou Qwilleran. Roger não acreditaria nessa história fantástica. Disse em voz alta: "Vamos deixar esse assunto deprimente... Você tem visto algum disco voador ultimamente?"

Na hora da saída, Roger disse: "Quase ia me esquecendo. Uma mulher Lá de Baixo ligou para o centro de turistas. Queria saber como chegar a você. Tomei nota do número dela. Pediu para chamá-la assim que puder."

Entregou.uma tira de papel com o número de telefone do Morning Rampage e o nome da mulher que era gerente editorial.

Qwilleran retornou o telefonema, depois foi até Mooseville: primeiro para as formalidades na prisão e depois para jantar no Hotel Aurora Boreal. Sentou-se sozinho num reservado e sentiu saudades do cachimbo. Se decidisse aceitar as condições do testamento de tia Fanny, seu primeiro ato seria encomendar duas latas de Groat and Boddle Número Cinco. E se aceitasse o novo serviço no Fluxion ou no Morning Rampage, logo estaria recordando essas duas semanas no Condado de Moose como uma visita a outro planeta. Seu boné laranja já estava começando a parecer ridículo.

Depois do jantar voltou à cabana dirigindo devagar, saboreando cada canto pitoresco de bétulas, cada pinheiro de forma estranha, cada visão súbita do lago encapelado quando a estrada entrava e saía da floresta. Toda a beleza da paisagem que ele tinha ignorado nas duas últimas semanas agora se tornava um tesouro para guardar na memória. Ele podia nunca mais rever esta região selvagem e maravilhosa, e nunca tinha se preocupado em observar a Aurora Boreal. Ou um disco voador.

Um carro de polícia com a sirene ligada passou por ele na disparada, seguido pelo caminhão vermelho do corpo de bombeiros voluntários. A garganta de Qwilleran apertou-se de medo e acelerou o carro. A cabana! O fogo na lareira! Os gatos!

Quando passou pela entrada da casa Klingenschoen os bombeiros estavam trabalhando num caminhão incendiado que saíra da estrada, perto do local da velha escola de troncos. Muitos carros haviam parado.

"Alguém machucado?", perguntou aos circunstantes. Não, disseram eles. Não havia sinal do motorista, disseram. Que sorte que não começou um incêndio na floresta, disseram, considerando-se a força do vento.

Quando começou a percorrer o longo caminho para casa, um pensamento desagradável lhe ocorreu. A carroceria carbonizada parecia de uma caminhonete azul.

Ao estacionar o carro, ouviu Koko uivando dentro da cabana. Assim que abriu a porta o gato saiu correndo para a varanda e correu freneticamente de um lado para outro, parando apenas para pular na tranca da porta de tela.

Qwilleran pegou a coleira depressa e amarrou-a em volta do ventre retesado do siamês. Depois soltou a longa corda e abriu a porta. Koko arremessou-se imediatamente para o barracão de ferramentas, forçando Qwilleran a uma árdua corrida.

A porta do barracão estava aberta, o que não era comum. O interior da construção sem janelas estava escuro, mas Qwilleran podia ver notas de dinheiro espalhadas pelo chão. Furtivamente o gato espreitou a profunda obscuridade do barracão, e gemidos espectrais saíram das profundezas de seu peito. Uma lufada de vento agitou as notas, e Qwilleran tropeçou numa garrafa vazia de uísque. Então Koko começou a uivar, não a sua expressão enfática costumeira, mas um gemido prolongado e agudo. Qwilleran puxou a coleira e aproximou-se mais das sombras.

Havia uma mancha brilhante na escuridão. Jogada ao chão estava uma pequena pistola com cabo de ouro Florentino. O corpo do caseiro estava atirado no catre.

Agarrando Koko, Qwilleran voltou mancando para a cabana e ligou para a delegacia.

Minutos depois um carro de polícia parou na clareira. "Estávamos logo aqui na estrada", disse o policial. "Uma caminhonete incendiada. Perda total. Parece que foi premeditado."

Depois que o corpo foi levado de ambulância, Koko rondou por toda a cabana, com passadas grandes e objetivas, indo a todos os cantos, um retrato de indecisão. Yum Yum encolheu-se com o lombo arqueado e olhou-o com ansiedade.

Qwilleran estava de pé nas janelas da frente, olhando para centenas de quilômetros de água. Quem poderia compreender os humores e motivos de um pobre diabo como Tom? Ele era tão pronto a obedecer qualquer coisa que lhe mandassem, tão facilmente explorado, tão feliz de receber um serviço, ou um pastelão, ou mesmo uma palavra amiga. Fanny tinha mandado nele e lhe dado um lar; Hanstable lhe dera ordens e um pagamento regular que encorajava seu sonho irreal de comprar um clube noturno. Sem eles, pensou Qwilleran, Tom devia ter se sentido de repente à deriva.

Uma explosão de música interrompeu suas reflexões desconfortáveis. Era a vigorosa introdução ao Concerto Duplo de Brahms seguida pela melodia obsedante do violoncelo. Abruptamente, no meio de uma frase, a música foi substituída por palavras — numa voz branda:

"Eu fiz... Eu a empurrei... Ela era uma boa senhora. Era minha amiga." Houve um soluço reprimido. "Ele me mandou fazer isso. Ele disse que eu ia ganhar muito dinheiro para comprar um clube. Disse que íamos ser sócios... Ela me prometeu dinheiro. Prometeu me deixar tudo. Disse que eu era como filho para ela... Por que ela disse aquilo? Não estava falando a verdade."

A voz extinguiu-se, e o microfone pegou o ruído do vento e das ondas e o uivo de um gato. Depois desapareceu e a música voltou com o tema lamentoso e o solo de violino.

Qwilleran tossiu para dispersar o nó da garganta. O gato estava sentado ao lado do toca-fitas, estudando a luzinha vermelha. Qwilleran afagou a cabeça de Koko. "Ele falou alguma coisa a você, Koko? Disse adeus?"

 

Mooseville, domingo.

 

Caro Arch,

Suas notícias no telefone me deixaram em estado de choque terminal. Agora sou eu quem tem novidades para você! O Rampage me fez uma oferta melhor, e eles têm uma gerente editorial mais bonita. Você acha que Percy está preparado para igualar a oferta deles?

Tem havido muita agitação por aqui. Arrombaram a cabana, e Koko atacou e feriu o ladrão. Eu quase fui esfaqueado pelo mesmo homem. Ele matou um dos nossos vizinhos no último fim de semana. Tia Fanny morreu de repente, na quinta-feira, e seu caseiro suicidou-se ontem no meu barracão de ferramentas. Fora isso, foram umas férias bem tranquilas.

Há um pequeno problema. O novo serviço parece ótimo, mas acabo de descobrir que sou o único herdeiro da considerável fortuna de tia Fanny. Naturalmente existe um porém. Tenho de morar em Pickax. O que eu faço? O que eu faço?

Você não vai acreditar numa só palavra de tudo isto, e não o culpo.

Qwill

 

Ao tirar a folha da máquina de escrever, as duas vozes importunas na sua cabeça ainda estavam debatendo. Seja leal à sua profissão, dizia o Jornalista Dedicado. Pegue o dinheiro e corra, dizia o Escocês Sagaz.

Koko estava sentado na mesa examinando as teclas e alavancas da máquina, enquanto Yum Yum brincava com a cauda dele.

"Diga-me o que fazer, Koko", disse o homem. "Você está sempre certo. Devo pegar o novo serviço?"

Yum Yum estava lambendo as orelhas de Koko agora, e ambos os gatos estavam vesgos de prazer. "Miau", murmurou ele baixinho.

Qwilleran bufou no bigode. Isso era um sim ou era um não?

 

                                                                                 Lilian Jackson  

 

                      

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