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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O GRANDE CARVALHO / Quim Ferreira
O GRANDE CARVALHO / Quim Ferreira

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

O GRANDE CARVALHO

 

 

- Uuuuh! Uuuuh! Uuuuh! Uuuuuh!

-   Aaaaah! Aaaaah! Aaaaah! Aaaah!

-   Iiiiih! Iiiih! Iiiih! Iiiih!

-   Oooooh! Ooooh! Ooooh! Ooooh! – Ria em altas gargalhadas o grande carvalho no meio daquele bosque onde, para além de outros carvalhos, também se viam sobreiros e medronheiros tão grandes que pareciam árvores.

-   Num dos seus ramos, bem camuflada, estava a dormir a coruja-do-mato, que mal disposta decidiu voar até um ramo mais abaixo para pedir explicações de tal algazarra.

-   Não tens respeito pelos animais que dormem? Pensas que passei a noite na folia? Não te esqueças que toda a noite cacei ratos-do-campo e musaranhos. - Disse em tom de poucos amigos a coruja-do-mato.

- Ah!Ah!Ah! Desculpa coruja....

- Ih!Ih!Ih!Ih!!! – Disse o carvalho às gargalhadas enquanto se agarrava à barriga, ou seja, ao tronco

-   A culpa não é minha. Se olhares bem, hás-de ver as trepadeiras-azuis a descer por mim abaixo e as trepadeiras-comuns a subir por mim acima... Ah!Ah!Ah! Ih!Ih!Ih!

-   Sim, e isso tem alguma piada? – Perguntou a coruja-do-mato.

-   Não é que tenha piada, mas... se reparares bem, todas elas estão à procura dos insectos que se escondem debaixo da minha casca... e isso faz-me muitas cócegas. - Disse ainda a rir o carvalho.

-   -Ei vocês aí!!! – Gritou a coruja para as trepadeiras – Não podiam ter escolhido outro carvalho para catar?

De vez em quando, passavam por ali famintos, uma raposa, uma gineta ou um gato-bravo. Por isso, sempre que ouviam um barulho suspeito, os coelhos corriam a esconder-se nas tocas que lhes serviam de “casa”.

-   AUUU!!! Essa doeu!!! Quem é que me está a picar o rabo? – Gritou o grande carvalho, enquanto a coruja voltava a acordar.

-   Que se passa aqui?! – Perguntou a coruja-do-mato.

-   Nada de especial... – Disse o pica-pau que mais abaixo picava o tronco do carvalho. – Só estou à procura de um insecto maroto que está escondido na casca deste carvalho.

-   E para que queres tu esse insecto? – Perguntou a coruja.

-   Ora, para comer. É um insecto muito apetitoso. Ora cá está ele.... Queres provar? – Perguntou o pica-pau.

-   Blurg!!! – Encolheu-se a coruja enojada. – Podes ficar com ele e bom apetite.

Dito isto, voltou para o seu poiso e, quando se preparava para uma vez mais voltar a dormir, eis que ouve alguém chamar:

-   Doutor!! Ei doutor! Pode aqui chegar por favor?

Virando a sua cabeça, quase até às costas, a coruja abriu um dos seus olhos enormes e reparou num chapim-azul que empoleirado num ramo, chamava curioso o pica-pau.

- Que queres tu chapim? – Perguntou o pica-pau.

- Estou preocupado com este carvalho. – Disse o chapim. – Parece-me que ele está doente...

-   Doente?!? Eu?!? - Exclamou assustado o carvalho enquanto olhava para cima.

-   Sim!! Andava aqui a caçar insectos quando reparei nesta “coisa”.

Olhe bem doutor... – disse o chapim-azul - ...parece uma borbulha em forma de bola. Não acha que o senhor carvalho está doente?

-   Realmente!!! É muito estranho. Nunca vi nada assim. O fruto do carvalho não é, porque esse, eu conheço muito bem: é a bolota. – Disse o pica-pau enquanto auscultava a “coisa” estranha. – Espera aí!!! Estou a ouvir um ruído. Parece que está algo a mexer-se lá dentro.

-   Ei!! Está aqui um buraco!!! – Exclamou o chapim.

De repente, sai pelo buraco uma pequena cabeça curiosa que, ao ver as duas aves, se esconde de novo.

-   Viste aquilo? – Perguntou entusiasmado o pica-pau.

-   Sim, parece uma abelha, mas muito mais pequenina... – disse o chapim-azul.

-   Ei!!! Vocês aí em cima!!! – Exclamou o carvalho. – Eu posso explicar-vos o que se está a passar.

Agarrando-se ao cajado, pois já não conseguia dobrar-se como antigamente, o velho carvalho olhou as curiosas aves e explicou:

- Isso que vocês aí vêem em forma de bola, é um bugalho. Os bugalhos são próprios dos carvalhos e esse surgiu porque um pequeno insecto, parecido com uma vespa muito pequena... decidiu picar a casca de um dos meus ramos tenros e deixar aí um ovo. A partir dessa picada, nasceu uma borbulha...

...que aos poucos se transformou numa bola e guardou dentro de si o ovo da vespa.

Ao fim de algum tempo, saiu do ovo uma nova vespa, através de um buraco que fez no bugalho.

-   Ai o maroto!! Pica o carvalho e ainda por cima recebe um ninho... – diz espantado o chapim.

-   Não faz mal. – Disse o carvalho. – Temos de nos ajudar todos uns aos outros. Além disso, eu nem sinto a picada. Já pensaste como seria chata a minha vida se eu não deixasse que outros animais aqui encontrassem abrigo ou fizessem os seus ninhos?

- Se eu fosse egoísta - continuou o carvalho - vocês não iriam encontrar insectos para se alimentarem nos meus troncos, não é verdade? E as corujas? Como caçariam os ratinhos que encontram no chão e que se escondem debaixo das minhas raízes ou nos buracos dos meus troncos? E o javali? Onde iria encontrar bolotas tão deliciosas?

-   ... e eu não poderia fazer aqui o ninho, tal como os chapins, as trepadeiras ou as corujas... – disse o gaio que há algum tempo assistia à conversa.

-   Sim, realmente... para além de boa também és muito importante para todos nós!!! – comentou o pica-pau.

-   Só é pena que já sejamos tão poucos. – Disse triste o carvalho.

– Há muitos anos havia carvalhos por quase todo o lado. Nessa altura, as florestas eram ricas em animais e plantas. No entanto, os homens começaram a cortar carvalhos... e mais carvalhos... e muitos mais carvalhos.... Chuif!! Chuif!!

-   Calma!! Não vale a pena chorares. – Acudiu a coruja-do-mato. –

Porque é que os homens cortaram assim tantos carvalhos?

-   Por um lado, porque precisavam de terras para praticar a agricultura e, por outro, porque foi muito utilizado nos Invernos para as pessoas se aquecerem à lareira. Por fim, os caminhos de ferro necessitaram de boas madeiras para fazerem os barrotes que aguentam os carris dos comboios. Muitos dos carvalhos estão hoje deitados debaixo desses carris... ao longo de muitos milhares de quilómetros. Chuif!!!... Ninguém nos dá valor…

Antigamente havia quem pegasse nas nossas folhas tenras e fizesse óleo de carvalho; era um excelente remédio para curar as feridas, mas hoje as coisas são muito diferentes... Já ninguém nos liga... –

continuou a lamentar-se o carvalho.

-   Calma!! – Interrompeu o gaio de cima de um dos ramos mais altos.

– Tu hoje estás protegido pela lei dos homens e por isso neste Parque Natural és um privilegiado. Por outro lado, já muita gente sabe que tens uma madeira muito boa para se fazerem móveis. De que te serve estares assim triste? Já olhaste para o chão com atenção?

-   Para o chão? Porquê? – Perguntou o carvalho.

-   Repara ali ao fundo... vês??? – Apontou o gaio – Já viste que uma das tuas bolotas já deu origem a mais um carvalho? E ali do outro lado... e mais ao longe?

- Já viste que aos poucos e com a ajuda dos javalis e de outros animais como eu, as tuas bolotas vão-se espalhando e dando origem a outros carvalhos? - Perguntou animado o gaio.

-   A sério? – Espantou-se o velho carvalho. – Como é que fazem isso?

-   Bem, na verdade isso acontece sem nos apercebermos. – Confessou o gaio. – Umas vezes são os javalis que as vão empurrando sem saber, enquanto fossam o chão à procura de raízes e bolotas. Outras vezes somos nós que as deixamos cair do bico ao voar. Outras são a força do vento que as atira para longe...

-   Obrigado amigos. Estou muito contente com a vossa ajuda!!! –

Exclamou entusiasmado o velho carvalho.

-   Não tens que agradecer – disse o gaio – se cada um de nós ajudar todos os outros, também os outros poderão ajudar cada um de nós. Afinal todos precisamos de todos.

 

                                                                                Quim Ferreira  

 

                      

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