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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O GRANDE HOSPITAL / Frank G. Slaughter
O GRANDE HOSPITAL / Frank G. Slaughter

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O GRANDE HOSPITAL

 

A Tua Providência eterna designou-me para velar pela vida e pela saúde das Tuas criaturas. Que o amor à minha arte possa guiar-me sempre. Que nem a avareza, nem a cupidez, nem a sede de glória, nem o desejo de uma grande reputação avassalem o meu espírito, pois os inimigos da Verdade e da Filantropia poderiam facilmente enganar-me e fazer-me esquecer o propósito elevado que deve ser o meu e que é fazer o bem a Teus filhos.

Que eu veja sempre no paciente apenas uma criatura que sofre.

Concede-me a força, o tempo e a ocasião de corrigir sem cessar o que adquiri e de alargar o seu domínio, pois o campo do conhecimento é imenso e o espírito do homem pode alargar-se indefinidamente para enriquecer-se todos os dias segundo novas exigências: pode, hoje, descobrir os seus erros de ontem e, amanhã, obter novas luzes sobre aquilo de que hoje se julga firmemente seguro.

Ó Deus, Tu designaste-me para velar pela vida e pela morte das Tuas criaturas. Eis-me pronto a responder à minha vocação.

(Excerto do Juramento e Oração de Maiomonides, médico judeu do século XII)

 

 

O ANOITECER

A ambulância, como um duende que recolhe ao covil, abriu caminho através da circulação da Primeira Avenida, passando rente aos guarda-lamas dos táxis e ignorando a ameaça dos camiões de reboque. Nesses dias, em Nova Iorque, as sereias, por ordem superior, permaneciam mudas. Esta ambulância particular não carecia de qualquer aviso preliminar para conseguir passagem: a inscrição pintada nos seus flancos de cor creme - East Side General Hospital - era uma prova de que a sua corrida era urgente. Os assistentes da ambulância, seguindo, à vontade, de pé, no degrau da retaguarda, olhavam de alto, com desprezo idêntico e imparcial, para os polícias de circulação a pé ou em motocicleta. Semideuses, vestidos de branco e investidos do poder de arrancar a vida do túmulo já aberto, pareciam considerar a sua omnipotência como uma coisa natural.

O rosto do Dr. Anton Korff, sentado dentro da ambulância, perto do ferido, ostentava a mesma expressão. A sua atitude estava de acordo com o ambiente: o fato de amianto habitual nas “recolhas” deste género. Igualmente habituais eram as luvas forradas de chumbo que ainda lhe encerravam os braços até o cotovelo e que testemunhavam o papel que desempenhara junto das duas vítimas de emergência.

Tony já não concedia qualquer olhar àqueles fardos de carne calcinada. Desembaraçara-se dos últimos farrapos de vestuário, quando jaziam nos degraus do armazém. Enquanto um cordão de polícia continha a multidão, instalara-os, com um dispêndio mínimo de movimentos inúteis, nessa ambulância. Um cadáver já com a etiqueta que o destinava ao serviço de patologia... Um outro que ainda respirava e estava pronto para a mesa de operações - se sobrevivesse à passagem pelo exame na sala de serviços de urgência. Para as realidades preceptíveis a olho nu, era tudo. Um interno muito ocupado dificilmente descobriria uma personalidade naqueles restos humanos; tão-pouco se poderia deter para especular as causas da lamentável situação de ambos. O que importava era ganhar a corrida até à sala de operações. Pelo menos, assim pensava Tony, enquanto a ambulância se escapava, roncando, da circulação para meter por uma travessa, entre as casas de operários e a Cervejaria Rilling.

Na verdade, nesse dia, a morte atacara estranhamente, levando imediatamente uma vítima e deixando à outra apenas uma centelha de vida. Durante todos os anos de guerra (e também durante os anos nefastos que a precederam e se lhe seguiram), Tony não se lembrava de ter visto nada que fosse assim tão grotesco. Felizmente, desde a infância que se encontrava couraçado contra o choque emocional. A carapaça que abrigava o verdadeiro Tony Korff contra o inundo exterior desempenhava cabalmente o seu ofício desde há muito tempo.

Sim, era suficiente manter os factos em ordem, até ao momento em que os transcrevesse. Depois disso, tornar-se-ia a encontrar livre para reatar a evocação excitante dos seus projectos e planos de futuro. Como sempre, os seus sonhos cresciam para além do espaço e do tempo, sem se preocuparem com as injustiças esmagadoras que o oprimiam. Era um prazer tão real como o odor vivo do lúpulo que jorrava em grandes baforadas pela porta da Cervejaria Rilling; tão puro como um acorde musical, evocativo de um passado que nunca conseguira esquecer completamente.

Naquele momento, encontrava-se de novo em Munique, na cave do Hofbrau. Era um, entre a legião daqueles que, encafuados no átrio vasto da taverna, berravam o Horst Wessel a ponto de fazerem rebentar os pulmões. Um, com a fé que brilhava ferozmente em todos os olhares; outro, com o furor que erguia cada coração acima do desencorajamento para os fundir no mesmo pulsar formidável... Evidentemente que, naquela época longínqua, não passava de um adolescente, e desde então aprendera, sob o microscópio da ciência, a classificar aquela loucura e agradecia à sua boa estrela ter-lhe escapado a tempo.

Hoje era um americano, na posse da documentação necessária para comprová-lo! Até durante a guerra, os seus galões tinham sido ganhos no lado dos vencedores. Contudo, a América não lhe dera qualquer esperança que pudesse transcender aquela loucura. Nada a que dedicar-se, nenhuma fé a que se consagrar, em substituição desse fervor fanático inicial...

O “caso de urgência” soltou um gemido fraco e Korff inclinou-se para apaziguar o quase-agonizante com essa facilidade que nasce de uma longa prática: esboçou maquinalmente o gesto necessário, enquanto observava a massa do hospital, que surgia à sua frente. Passavam já pelas paredes de tijolos vermelhos do antigo dispensário, local sem sol, dedicado agora à morgue, à casa das ambulâncias e ao laboratório onde os analistas e anátomo-patologistas trabalhavam. Tony deixou escapar um sorriso, ao lembrar-se de Dale Easton, o chefe de serviço, e da tarefa que ele, Tony Korff, ia depor à sua porta. Depois, ergueu o olhar para as seteiras elevadas do edifício principal.

Visto desse ângulo, o East Side General era um colosso cuja massa obliterava o céu a oriente. Os grandes rectângulos de Livingstone, Warburg e Madison (cada um dos pavilhões era consagrado à memória do seu fundador) alinhavam-se ombro a ombro para conseguirem espaço que lhes permitisse mergulharem no esplendor do Sol-poente. O campanário da Schuyler Tower - a torre reservada aos apartamentos privados dos doentes ricos e a alguns quartos do pessoal - remate desse templo de cura, dominava da altura de uns bons dez andares, as construções que marginavam o rio.

Tony Korff franziu o sobrolho, ao contemplar as janelas do anfiteatro no alto dessa falésia imaculada, e perguntou-se se a essa hora tardia o cirurgião-residente ainda ali estaria a trabalhar. Esperava que o Dr. Gray estivesse livre para se encarregar do que ele acabara de descobrir, lá em baixo, nesse armazém abandonado.

A ambulância gemeu ao entrar sob o alpendre, com as grandes portas já abertas para permitir a transferência das duas macas rolantes para o vasto corredor pavimentado de cortiça. Enquanto despia a “casca” de amianto, Tony Korff achou tempo de perguntar-se porque escolhia Andy Gray como ponto de concentração do seu ódio.

Sabendo de antemão a resposta, e professando a ideia de que o ódio refresca a alma, empurrou a primeira maca para as mãos que se haviam estendido para recebê-la. E, enquanto a vítima que ainda respirava rodava para o seu destino, começou a dar as ordens numa linguagem rápida e concisa, que quase perdera as inflexões estrangeiras.

- O morto vai para a “patologia”. Façam favor de não tocar em nada desta ambulância enquanto o doutor Easton não chegar... Eu próprio conduzirei o que ainda respira aos serviços de emergência. Mandem chamar o doutor Gray pelo alto-falante.

Pelo canto do olho, viu o carro da polícia deslizar até a entrada, o sargento de casaco azul sair pesadamente do carro e cortar-lhe o passo. “O sistema está a enredar-se”, pensou e, concedendo um olhar de desprezo ao corpo horroroso estendido sob as suas mãos, meteu a maca dentro de um elevador, que o transportou velozmente à sala de operações de urgência. Durante a rápida subida, sentiu o pulso readquirir o ritmo familiar. “O hospital reclama o que é seu”, pensou, “dá as suas directrizes aos que servem entre as suas paredes e dá-lhes também a sua razão de ser. Mesmo a proscritos e a réprobos, como Tony Korff!”

Durante um curto momento, sentiu no coração uma emoção estranha, quase humana... e chegou a sentir-se capaz de lastimar o Dr. Andy Gray pela prova por que dentro em pouco iria passar.

 

- Doutor Gray. Doutor Andrew Gray. - A voz da telefonista, que brotava do alto-falante, era doce e acariciante, como se implorasse o obséquio de uma resposta imediata. - Doutor Gray, por favor. Doutor Gray.

Já o apelo se infiltrara nos recantos mais afastados de East Side General, ao longo da rede de fios eléctricos que percorriam todo o vasto hospital, até à central telefónica. Penetrara nas instalações dos internos, onde acabava de começar o póquer de todas as noites, nas enfermarias... onde uma centena de enfermeiras evoluía com precisão silenciosa, terminando os últimos aprestos para os tratamentos do anoitecer; no átrio da sala de operações; no serviço de patologia, onde o Dr. Dale Easton acabava de responder ao apelo que lhe respeitava.

Conseguiu por fim atingir o alvo, perto do balcão de bebidas não alcoólicas, ao lado da rotunda central, no momento preciso em que Andy Gray se instalava num banco alto com a intenção de encomendar a sanduíche que havia de constituir o seu jantar dessa noite.

- O doutor Gray está aqui...

- É o doutor Korff que chama.

Enquanto esperava ouvir a voz de Tony no outro extremo do fio, entreteve-se a brincar com o auscultador. Era um hábito que se lhe tornara automático, nesses dias sobrecarregados de trabalho.

- Telefonista... Que é feito do doutor Korff?

- Está agora a falar noutra linha, senhor doutor. Suponho que com o doutor Easton.

- Não disse o que queria?

- Está a chamar do O. R. de urgência. Quer que ligue por outra linha?

- Não, obrigado. Eu próprio vou lá acima.

Contudo, não saiu imediatamente da cabina. Uma lassidão, tornada familiar - e, no seu género, tão perigosa como a hipertensão que começara a espicaçar-lhe os nervos - fê-lo hesitar um momento mais. com que então Korff estava atrapalhado? Pois que Tony fosse procurá-lo directamente, como o exigia o protocolo. Afinal, o residente era ele. Korff era ainda um interno, um interno hábil, sem dúvida, com uma bagagem quase equivalente à sua, mas, em todo o caso, um interno.

Saiu da cabina telefónica, permitindo que os olhos se pousassem, por um instante, na imagem que o espelho do balcão de bebidas não alcoólicas lhe devolvia e cumprimentando vagamente a personagem esgalgada que lhe retribuía o olhar com olhos incompreensivos. “Talvez seja devido à vida que tenho levado”, sugeriu ao seu duplo. “Do meio-dia para cá, quatro operações graves... e outra agora, na marquesa, se bem conheço Korff. Desde quando é que tenho tido tempo para respirar fundo? Desde quando é que tenho disposto de um quarto de hora a que pudesse chamar incontestavelmente meu?”

O diabo é que continuava a gostar daquilo, de operar. Gostava mais daquilo do que de comer, de beber ou de fazer amor. Uma vez as luzes incidindo sobre a marquesa, uma vez o seu espírito monopolizado pelos problemas, já nada do exterior contava. Os seus olhos procuraram uma vez mais o seu duplo, antes de se retirar do balcão de bebidas não alcoólicas e de desistir do jantar à mão, que, por muito frugal que tivesse sido, permaneceria no estado de projecto. Não tivera tempo de encomendá-lo. “A vida de cirurgião é muitas vezes curta, mas raramente boa!”, concluiu para si próprio.

Devia aquelas rugas de preocupação ao Exército e às clínicas; à infantaria da Marinha, que lhe fizera aquela pele tão morena como uma sela velha e bastante usada. Devia-lhes também aqueles olhos, que estudavam, de igual modo, amigo ou inimigo, esses olhos cinzentos como o seu próprio nome, frios como o espaço exterior.

Não censurava de forma alguma o Exército. No fim de contas, vira o mundo à sua custa. Aprendera as suas lições pelo modo difícil - antes de o Exército o ter dispensado do serviço. “Inválido” deveria ter sido a palavra, noutros tempos. Mas, na realidade, ele não era um inválido. Simplesmente, um cirurgião experimentado... um observador demasiado experimentado da loucura humana que, por fim, encontrara o seu ancoradouro. O East Side General era um lugar excelente para se fatigar, sem ter tempo a perder com sonhos...

- Doutor Gray... Doutor Andrew Gray.

Agarrou no auscultador do telefone da cabina e, desta vez, Tony atendeu imediatamente.

- Pode vir para um caso de urgência, Andy?

- Que há?

- Um “engana-morte” que eu próprio acabei de trazer para o hospital.

Porque desconfiaria de Tony, quando este se aventurava a empregar calão? Não havia dúvida que aquilo não se coadunava com o carácter de Tony. O seu assistente gabara-se sempre de resolver depressa e bem os seus próprios casos, até mesmo quando os factos subsequentes demonstravam que devia ter recorrido ao auxílio de um colega.

Andy manteve uma voz calma.

- Desde quando retrocedeu para o serviço das ambulâncias?

- Trata-se da minha especialidade: um “queimado”. - Mesmo pelo telefone, Tony dava a impressão de lamber os lábios. - A bem dizer, de dois queimados. Um já estava morto, antes de eu chegar. Se andarmos depressa, o que se chama depressa, poderemos salvar o outro!

- Não pode andar depressa sem mim? Não estou de serviço.

- Mesmo assim, não acredito que se sinta menos interessado, Andy.

De novo o Dr. Andrew Gray dominou a impaciência: não seria a primeira vez que Korff o teria lisonjeado para o levar a executar um trabalho que ele próprio estava perfeitamente apto a conduzir a bom termo, sem a sua ajuda. Franziu o sobrolho para o telefone, em lugar do qual via o belo interno loiro, com o seu sorriso imutável. Os sorrisos de Tony começavam e acabavam sempre nos olhos. Só o Báltico, pensava Andrew, podia produzir aquele olhar de mármore azul.

- Meteu Dale nisto?

- O doutor Easton concorda. É realmente um caso para si e não para mim - não havia qualquer dúvida sobre o tom de provocação da voz de Tony. - Avisei também o doutor Ash, como é natural. Estaremos ao seu dispor dentro de dez minutos.

- Não pode ser um pouco mais preciso?

Se Tony chamara, por alta recreação, o chefe do hospital, isso significava que estava seguro do seu terreno. O Dr. Ash não era homem que se fosse incomodar, sem mais nem menos.

- Lamento, mas é impossível. O meu diagnóstico é reservado até Dale se pronunciar. Quanto às queimaduras em si... bem, são qualquer coisa que precisará de ver para acreditar.

- Quais são as enfermeiras de serviço?

- Talbot e Ryan, graças a Deus.

Andy ouviu o próprio suspiro de alívio em eco ao de Tony. Eram duas enfermeiras diplomadas, indispensáveis, ao que parecia, num caso do género de que se tratava.

- Você será o assistente, não é verdade?

Já não havia qualquer nota de rancor na voz de Andy. Pouco importava que gritassem um com o outro pelo telefone; ele e Tony Korff nem por isso deixavam de formar uma equipa.

- Evidentemente, Andy - respondeu com igual calma o interno. - Dale também lá estará, a seu próprio pedido.

- vou imediatamente.

- O meu relatório está afixado no quadro do scru-brooml. O O. R. estará pronto quando tiver enfiado a bata.

Andy apercebeu-se de que acabara por pousar com força o auscultador no descanso. Não lamentou esse impulso nem tão-pouco a ânsia que o fez atravessar a rotunda a toda a velocidade e precipitar-se no elevador. A dura pressão de fadiga entre as omoplatas desaparecera. O trabalho esperava-o. Um trabalho de urgência. O trabalho para que nascera.

 

O sargento C. Donnelly, do Trânsito, cujo carro descobriu os corpos, durante a sua ronda, preveniu imediatamente os serviços de urgência. A ambulância 17, sob a minha própria direcção, partiu às 6.43 desta tarde, chegando ao destino quatro minutos mais tarde... Graças à rapidez da decisão do sargento Donnelly, a zona estava isolada por cordas e o comissário de bairro, já avisado, enviava polícias para o local... As duas vítimas, ambas tão violentamente queimadas que se tornava impossível uma identificação, encontravam-se caídas sobre os degraus da entrada do armazém completamente fechado, e há muito tempo desocupado, da Premier Box Company... Nenhum indício de incêndio... ou qualquer outro vestígio de violência... Protegido por luvas, despojei as vítimas de todos os farrapos que ainda as cobriam e averiguei se os próprios corpos não ofereciam perigo... A ambulância chegou aos serviços de urgência às 7.01, transportando ambas as vítimas - uma já morta e a outra moribunda. O Dr. Eastonfoi chamado para fazer a verificação... A ambulância já foi entregue à equipa de desinfecção para uma completa verificação ulterior... Vítima transferida para o O. R. de emergência as 7.03. O Dr. Gray prevenido e preparado para o corte.

O Dr. Dale Easton escovava as unhas ao lado de Andrew Gray ao longo da mesa comprida, contígua à sala de operações. Franziu o sobrolho ao ler o relatório afixado no quadro com um punaise.

Dale - um homem comprido e magro, no princípio da casa dos trinta, com um rosto de mártir melancólico e tendo, por trás dos óculos de grossos aros de osso, um cintilar na vista que desmentia o papel de mártir - Dale estava mais taciturno do que habitualmente e também mais circunspecto. Saudara com um sorriso ao canto dos lábios a chegada de Andrew e esperava pacientemente e em silêncio que este acabasse a leitura do relatório do interno. Como a maioria dos homens de ciência, o Dr. Easton evitava desperdiçar palavras... Quando finalmente Andy falou, Dale limitou-se a encolher ligeiramente os ombros, como se de antemão rebatesse uma opinião.

- Se é um caso radioactivo, porque não mo disse Tony pelo telefone?

O Dr. Easton arreganhou os dentes num sorriso.

- Conseguiu que te encarregasses do caso, não é verdade? Bem, isso é o que importa.

Andy, inclinado sobre a bacia de alumínio, não respondeu. Dale, enquanto observava os movimentos dos músculos do amigo sob a bata de mangas curtas de cirurgião, envolveu os braços numa toalha esterilizada e esperou. “Assim arranjado, devo parecer uma manta religiosa”, pensou lugubremente. “Uma caricatura de gnomo de laboratório, um pouco maior do que o natural e demasiado grotesca para suscitar o riso.”

Conseguia ainda espantar-se com a sua aceitação das circunstâncias - exactamente como se espantava com o modo por que Andrew aceitava o seu papel de curador. O seu espírito continuava na mesma linha, seguindo o pensamento num monólogo silencioso que fazia parte da carreira solitária por ele escolhida:

“Devíamos sem dúvida estar-lhe ambos dedicados desde a nossa criação. Andy continuará a tratar e a curar até ao último alento de vida. Eu, pela minha parte, na hora em que o homem atinge a sua destruição, serei encontrado, naturalmente, debruçado sobre um microscópio.”

Os seus olhos desviaram-se para a sala de operações, onde o Dr. Tony Korff, já escovado e esterilizado, passeava com a solenidade de um acólito diante de um santuário místico, vigiando os últimos pormenores. Devido à mesma vocação, o interno encontrava-se constrangido a desembaraçar o caminho aos seus superiores: verificar os gumes das facas e assegurar-se de que a última enfermeira estava irrepreensivelmente pronta. No intervalo de momentos tão grandes como esse tinha toda a liberdade para corroer o coração com inveja.

A tragédia de Tony Korff, pensou Dale, era, como em toda a parte, a tragédia do homem pequeno desesperadamente desejoso de coisas grandes. Do homem pequeno, mas impulsivo, cabeçudo, demasiado cego para compreender que deveria contentar-se sempre com um segundo papel. Porque a sua formação e os seus estados de guerra eram equivalentes aos de Andrew, Tony continuava a sonhar que suplantaria o cirurgião-residente à mesa de operações, para já não falar na batalha incessante pela promoção, que se propunha ganhar. Nunca admitiria que o seu génio de cirurgião não fosse considerado de primeiro plano, o que pode ousar iniciativas arrojadas, e não génio de segunda classe, cuja habilidade reside sobretudo em fazer planos, em gizar combinações.

E, conduzindo a batalha, segundo a sua natureza e os seus meios, Tony atribuíra a mil inimigos o seu mau êxito, recusando-se a ver que a causa deste residia precisamente dentro de si. O caso dessa noite, por exemplo, era típico. Um observador estranho nunca teria podido adivinhar que era Andy quem estava encarregado da operação e tinha a responsabilidade desta aos ombros. A organização de Tony fora qualquer coisa mais e melhor do que simples eficácia. Graças às disposições que prescrevera imediatamente a respeito da ambulância, fora interrompida uma cadeia de radioactividade, bem ao largo das paredes do hospital. No decurso da última meia hora, lavara inteiramente o seu paciente, preparara-o para a operação e dispusera a própria sala de operações com uma facilidade desprendida, que Dale observava com olhar invejoso. Martin Ash - ou qualquer outro director de hospital num caso semelhante - teria razão para, nessa noite, estar orgulhoso com o mais antigo dos internos.

E, contudo, Dale pensava que esse mesmo interno procedera sabiamente ao chamar André w Gray para efectuar a operação. Esses casos duvidosos em que se trata de salvar uma vida, que está por um fio, não tentavam o refugiado. Sobretudo, quando o fracasso era quase certo. Quando se fizesse o relatório, Tony teria a seu favor uma organização impecável e quase brilhante. E, sem dúvida, Andrew Gray poderia inscrever no seu débito a perda de mais um paciente... O patologista pôs, nessa altura, ponto final ao curso das suas especulações desconfiadas porque, finalmente, ao fim de dois longos minutos de silêncio, Andrew retomava o fio à conversa:

- Um caso radioactivo... radioactivo... mesmo assim é uma grande palavra, Dale.

- Diz antes: uma palavra que encobre uma grande quantidade de pecados. Recordo-me de um caso de rádio que aqui tratámos, antes da guerra. Quando a bomba A, tal como julgamos conhecê-la, não passava ainda de um ponto febril no cérebro de algum físico. Evidentemente que estas queimaduras são muito profundas, mas...

- Mas - interveio Andrew - não te abalanças ainda a tomar uma conclusão, pois não?

- Antes de proceder a exames e a experiências, evidentemente que não.

Andy aprovou com um sinal de cabeça.

- Lembro-me de ter lido uns artigos referentes a esse caso. Não se tratava de um grande roubo, que terminou com uma explosão prematura ou qualquer coisa no género?

- Este caso é capaz de ser igualmente simples - comentou Dale. - Ninguém saberá a proporção em que as nossas provisões e reservas, radioactivas ou não, são pilhadas e expedidas todos os dias para fora do país; nem tão-pouco os sindicatos que dirigem este tráfico; nem como punem os seus janízaros quando pisam o risco...

- Então, se tivesses de dar a priori a tua opinião, dirias que se trata de uma execução que não se consumou inteiramente?

- com efeito, podia muito bem ter sido isso, Andy. Mas não nos pagam para realizarmos esse género de deduções, pois não? Agora, a nossa tarefa é darmos vida suficiente a este moribundo para poder falar com o inspector Hurlbut.

Gray ergueu o sobrolho.

- Se Hurlbut aí vem, é porque deve tratar-se de uma história importante. E que é feito de Ash?

- Conseguiram contactar com a mulher, no Waldorf. Já vem a caminho.

- Não é esta noite que Mrs. Ash dá uma das suas grandes recepções?

Dale encolheu os ombros.

- Ao que parece, ele pouco interesse tinha em comparecer a essa. Quando nos pusemos em contacto com ela, já Ash partira.

Andy meteu os dedos numas luvas de um amarelo-pálido e saiu dali: uma enfermeira, completamente vestida com roupa esterilizada, envolveu-o na bata branca, quase com um só movimento hábil.

Através da gaze, que amortecia a voz, o cirurgião anunciou tranquilamente:

- Vamos começar sem o doutor Ash, meus senhores.

Já ali se encontrava Tony, vivo e preciso, com a voz igualmente velada.

- O paciente já recebeu plasma e, neste momento, como pode verificar, doutor Gray, está a receber sangue total. Estará pronto dentro de alguns segundos. O doutor Easton autorizou uma injecção de A. C. T. H. para atenuar o choque...

Dale Easton recuou um passo ou dois para poder considerar toda a cena em conjunto. Embora o anestesista já estivesse em acção, as luzes, por cima da mesa, estavam reduzidas. Numa outra divisão, para lá do soalho ladrilhado, as duas enfermeiras continuavam os seus preparativos no ritmo familiar aos hospitais, que nunca parece apressado, mas que é seguro e regular, sem um único movimento supérfluo.

Na penumbra, errava uma estagiária tal como uma sombra furtiva e receosa, esperando a ordem de premir o botão eléctrico que poria em andamento o relógio colocado por cima da vitrina de instrumentos situada ao canto da sala. Na antecâmara, por trás das grandes vidraças da porta dupla, avistava-se o rosto de um polícia sonolento, sentado numa poltrona - elemento de um melodrama, em fazenda azul, que se animaria quando, depois da operação, o paciente fosse conduzido de maca para

um quarto...

Naquele momento, o paciente estava totalmente alheio àquelas actividades diversas - massa de carne tumificada, sob um lençol estendido, uma efígie que parecia já resignada à palidez de cera da morte... O frasco de sangue, suspenso por cima da veia grossa do artelho da vítima, contribuía para acentuar a atmosfera estranha, quase inumana, que rodeava a marquesa.

Dale Easton emergiu dos seus sonhos. “Esta vida tornou-se demasiado complexa para mim”, disse sombriamente para consigo. “Estou muito mais à vontade no meu refúgio, ao lado da morgue. O mundo da morte tem os seus inconvenientes, é certo, mas os seus tipos são invariáveis e absolutos. Um homem de ciência pode estabelecer o seu rumo e segui-lo até o fim...”

com um ligeiro esforço, obrigou-se a concentrar a atenção sobre o mundo da vida... neste caso as duas enfermeiras de serviço, que se moviam na obscuridade, para lá da pálida claridade das luzes da sala de operações. “Ryan e Talbot”, pensou com a mesma solenidade trocista, que fora sempre o seu escudo. “Vicki e Júlia.” Distraidamente, perguntou-se se Vicki Ryan ainda seria a diversão de Tony depois das horas de trabalho... E se Júlia Talbot, apesar de toda a pureza da sua consagração à carreira de enfermeira, ainda estaria desesperadamente apaixonada por André w Gray - que, por sua parte, desde há muito tempo, votara o seu amor a uma amante que nenhuma mulher sob o firmamento poderia substituir.

 

No quarto de toilette mais pequeno, a raparigaça alta e audaciosamente bela pegou numa escova e começou, com toda a energia, a passar os pêlos rijos por baixo das unhas.

- É a primeira vez que Dale Easton me encara, durante as horas de trabalho - declarou. - Talvez eu desconheça a minha Própria força.

- Calma, Vicki!

- Julga por ti: repara no olhar de devasso que ele tem naquela máscara de sátiro! Que estranho poder será o que eu tenho sobre os homens?

Júlia Talbot atirou a escova para cima da mesa e encarou a colega:

- Se, por acaso, o doutor Easton olha para o teu lado, podes ter a certeza de que pensa noutra coisa qualquer.

- com os homens nunca se sabe - retorquiu Vicki. - É exactamente nisso que reside o interesse da espécie.

- Diz-me lá, Vicki, quantos escalpes queres pendurar à tua cinta? O teu quadro de caça no hospital deve estar completo.

- Sem Dale, não. E sem o teu ídolo, está bem de ver. Infelizmente, ninguém pode anexar Andy Gray. Nem tu.

Até aqui, tudo aquilo não passava do habitual. As duas colegas tinham-se insultado mutuamente, segundo a inspiração do momento. Vicki Ryan, opulenta de formas como uma Vénus aerodinâmica, e tão generosamente reveladas pela bata fina que todas as enfermeiras usavam no clima tropical da sala de operações, respondeu à amiga sublinhando o seu último sarcasmo com um expressivo movimento das coxas e recomeçou a escovar as unhas.

Júlia Talbot - cuja silhueta não oferecia curvas menos suaves - continuou a olhar pela porta aberta do O. R., sentindo-se feliz por aproveitar a circunstância de Vicki estar de costas viradas para poder deixar cair a máscara.

“Na semana passada ainda tudo aquilo era verdade”, pensou. “Ainda ninguém podia anexar Andy. Era meu... meu para sonhar com ele... Só meu até ao momento em que essa criatura veio instalar-se na Schuyler Tower.” Criatura era uma palavra que Júlia empregava pouco, mas não era possível conceder a Pat Reed a dignidade de quaisquer atributos humanos. Sobretudo, quando imaginava o passado que esses dois deviam ter partilhado...

Que haveria de verdade nos boatos que corriam? Os falatórios referiam-se a uma ardente quinzena passada em Havai, imediatamente depois do regresso de Andrew da sua última viagem em serviço, pela Ásia. Outros rumores insinuavam que Pat fora a sua companheira durante as recentes férias. Contudo, durante os meses que se haviam seguido, não dera sinais de vida e Júlia esperara, contra toda a suposição, que Andy tivesse arquivado a aventura e deixado atrás de si, num passado consumado. E eis que Pat parecia ter reaparecido para um bis ou um ter. Era bem próprio da sua personalidade alegar uma cura de repouso, por ordem do médico, e instalar-se no seu apartamento da Schuyler Tower, enquanto experimentava, uma vez mais, sobre o médico-residente, o arsenal dos seus encantos.

Dando-se por contente pelo facto de Vicki não ter mencionado esses factos na sua discussão preguiçosa e palpitante, mesmo então, com o drama em preparação do outro lado da porta, Júlia pousou a escova e começou a mergulhar os antebraços no lavabo que as duas enfermeiras partilhavam.

- Tony disse-te do que se tratava?

- Apenas que era um corte geral. - Vicki lançou uma olhadela descuidada à mesa, à volta da qual os dois cirurgiões conferenciavam com o anestesista. - O que me espanta é que seja Andy a cortar. Tony sabe de queimaduras; são a sua especialidade desde a sua história no Japão.

- Ouvi dizer que tinha outras especialidades.

- Não sou obrigada a sabê-lo, não é verdade?

O seu riso também nada tinha de extraordinário; fazia parte da rotina. Não constituía qualquer segredo para Júlia que Vicki passava a maior parte das suas horas livres, desde o crepúsculo até o nascer da alvorada, nos aposentos de Tony, a dois passos do sítio onde se preparavam para se vestir. Todavia, no próprio instante em que ria, Júlia espantava-se com a sua facilidade em aceitar essa situação. Natural de uma pequena cidade, de moral saudável, com um fundo tão são e tão puro como uma litografia publicitária, em quadricromia, num semanário nacional, algum tempo antes ter-se-ia arrepiado com o enunciado de um tal horror! Dois anos de vida, à sua própria custa, dois anos como enfermeira especial no O. R., contribuíam muito para ensinar a tolerância. Ou seria a luta perpétua entre a vida e a morte, pela vida contra a morte, que aguçava o gosto de viver - até mesmo quando se estava demasiado fatigado para se ver através do nevoeiro branco-acinzentado da manhã?

- Ora, diz-me cá, Vicki: por que não gostas do doutor Gray?

- Uns homens afectam-me de uma maneira; outros, de outra. De tempos a tempos, aparece um homem que eu não afecto de forma nenhuma. Segundo o que dizem os livros, eu deveria fazer uso de todos os meus encantos, empregar todas as minhas armas, para seduzir exactamente esse tipo. Pois bem! Sinto-me completamente satisfeita por deixar Andy Gray preso à sua carreira. Incidentalmente, aconselho-te a fazeres o mesmo.

Júlia suspirou intimamente, admitindo a lógica do raciocínio da companheira de quarto. Contudo, respondeu, em voz alta, com um ar que podia passar por vivo e manhoso:

- Ontem, depois daquela trepanação que durou quatro horas, sorriu-me. Quem sabe o que será capaz de fazer amanhã?

- Digo-te que está casado com o trabalho - asseverou Vicki. - com este tipo de homem não há nada a fazer. E, a propósito de trabalho, estão, neste momento, a fazer-nos sinal.

Completamente prontas, de batas vestidas e de luvas calçadas, as duas enfermeiras aproximaram-se da mesa. Júlia seguia um passo atrás de Vicki: sempre lhe parecera natural que a bela rapariga, que fora sua guia quando entrara para o hospital com a sua nova touca flamante, caminhasse à sua frente.

Vicki, a melhor das enfermeiras especializadas em cirurgia de todo o hospital, revelara-se uma professora notável em mais de um campo. Júlia sabia que, se Vicki sobrevivera à atmosfera de escândalo - amplamente justificada - que a rodeava, isso se devia à sua habilidade especial. A própria Emily Sloane, a vigilante-geral do O. R., velha solteirona azeda, cujas ideias sobre a disciplina não admitiam qualquer discussão, dava a Vicki toda a liberdade de acção, depois das horas de trabalho.

“Talvez”, pensava Júlia, “eu deva imitar Vicki. Não há nada tão ridículo como cristalizar todos os meus desejos - todos os desejos da minha vida - por um único homem que, ainda por cima, só muito raramente se apercebe da minha existência. Algumas vezes, a virgindade pode ser um fardo, como, por exemplo, quando as primeiras sombras começam a cair de través sobre o que foram os nossos vinte anos! Qual é o cínico que garante que quanto mais se guarda, mais se desvaloriza? Talvez me olhasse mais vezes se ouvisse dizer que outros se interessam por mim...”

Baniu aquele pensamento ignóbil quando os seus olhos encontraram os de Andy, do outro lado da mesa. “Esta noite precisa de mim”, disse firmemente para consigo. “Ainda que se trate de uma necessidade puramente médica, por ora, isso basta-me.”

Pela décima vez nessa semana, formulou interiormente o voto de que Andrew Gray pudesse ter o repouso de que carecia, o repouso de que precisava tão visivelmente. Era evidente ser impossível conceber-se uma sala de operações sem ele quando se tratava de qualquer caso de urgência. Sensível como sempre ao seu humor, depois de tantas horas de tensão e de esforço compartilhadas, olhou-o até o fundo dos olhos, como se esperasse as suas ordens. O instinto disse-lhe que, nessa noite, estava preocupado, não apenas com o trabalho que tinha nas mãos, o bem-estar do paciente, mas também com qualquer coisa que ela não poderia nomear, um imponderável. Quando Andy falou, a sua voz soou muito contida:

- Desta vez, queimaduras graves, pequenas. Teremos de cortar enxertos delgados. Se este tipo sobreviver, será devido ao enxerto imediato e ao A. C. T. H.

- E ainda ao facto de termos, esta noite, a primeira equipa de enfermeiras - sublinhou Tony Korff. - Não esqueça isso, doutor!

com uma pinça já pronta entre os dedos enluvados, o interno piscou o olho a Vicki Ryan.

- Sinto-me sempre contente quando tenho a primeira equipa - murmurou Gray. - Já deviam sabê-lo há muito tempo.

A cada palavra pronunciada, Júlia sentia-o recolher-se cada vez mais profundamente na sombra e solidão dessa cidadela do cirurgião, onde nenhum homem (nem nenhuma mulher!) se arriscaria a viver, mas, apesar disso, arriscou uma pergunta:

- A propósito do tratamento das queimaduras por A. C. T. H., senhor doutor. Em que se baseiam?

- Há cirurgiões de Cleveland que o empregam.

Os seus olhos afloraram-na durante um curto instante, e ela sentiu o leve calor que deles emanava, tal como uma estudante que tivesse feito uma pergunta relativamente inteligente.

- A harmona adrenocorticotrópica, ou A. C. T. H., por abreviatura, realiza verdadeiros milagres. Todos nós o sabemos de há um tempo para cá. Derivada da glândula hipófise, fiscaliza as supra-renais e, dessa forma, amortece o choque. Em Cleveland, chegaram a conservar a vida em vários casos que, de outra forma, estariam perdidos.

Mesmo neste momento, Tony recusava-se a estar sério.

- Em breve o cirurgião não passará de um técnico armado de uma seringa cheia de A. C. T. H. - observou. Aconselham-me a procurar outro emprego?

- Não, enquanto o seu próximo se obstine na autodestruição - respondeu Gray secamente.

Lançou um olhar interrogador para o anestesista, sempre atento à agulha fixada na veia do paciente.

- Já podemos dispor dele?

- Creio que aguentará o golpe, doutor, se operar depressa.

- Qual é o estado?

- Melhorou, espantosamente, depois de o doutor Easton lhe ter dado a última injecção. Não se notava a mínima tensão arterial e considerava-me positivamente certo de que estava perdido. Agora, a tensão já ultrapassa os oito e continua a subir.

- Injectei também cortisona - declarou o Dr. Easton. - Pode ser que as glândulas supra-renais estejam demasiado fatigadas para poderem segregar imediatamente.

Júlia sentiu que acenava solenemente com a cabeça, para marcar a sua concordância com os restos envolvidos em gaze que rodeavam a mesa. A sua pergunta relativa à hormona operadora de milagres fora apenas de memória. Sabia tão bem como Andy que a maior parte do milagre se devia à estimulação exercida sobre as glândulas supra-renais, a essas glandulazinhas situadas acima dos rins: as poderosas substâncias que produzem são hormonas que regulam e fiscalizam verdadeiramente o conjunto de todo o sistema humano, muito particularmente no caso de um choque resultante de queimaduras graves.

- Preparem-se para um espectáculo pouco comum - preveniu Andy.

Enquanto falava, puxou o lençol e descobriu a vítima. A surpresa fez sobressaltar Júlia e arrancou-lhe um grito abafado. Dois anos de serviço cirúrgico tinham-na endurecido à vista de todas as formas de que podia revestir-se o naufrágio humano - pelo menos, assim o julgara até o momento em que se encontrou diante do corpo estendido sobre a mesa.

Tony fizera bem o seu trabalho: a vítima estava pronta para o escalpelo... A coisa mais espantosa era que aquele resto humano ainda respirasse! Ao primeiro olhar, tudo, da cintura para cima desse homem, aparecia como uma massa de carne calcinada: o rosto estava de tal forma queimado que se tornava irreconhecível; o peito e os braços trabalhados por um fogo nue de forma alguma podia pertencer ao nosso mundo. Era, pensava a enfermeira, um arco-íris enlouquecido, como se um pintor fantástico, molhando os pincéis na aurora, tivesse pintado aquela carne ao acaso. Do queixo ao umbigo, o corpo parecia chicoteado, coberto por um emaranhamento de lacerações furiosas. Sem saber porquê, Júlia sentiu que essa pele torturada não fora queimada. Julgava-a antes lambida pelo fogo elementar, o zero absoluto onde as estrelas explodem sem barulho e onde não existe a mínima parcela de vida.

- É impossível que sejam queimaduras de ácido.

Falara sem pensar violando o protocolo hospitalar ao exprimir uma opinião de que ninguém carecia.

Sentindo pousados sobre si os olhos do Dr. Gray, corou até a raiz dos cabelos, enquanto recuava para o seu lugar, ao lado da mesa de instrumentos.

- Até nova ordem, considerá-las-emos queimaduras de ácido - disse suavemente Andrew. - O escalpelo, por favor.

Júlia meteu-lhe o bisturi na palma da mão e esse movimento foi o sinal: as luzes, por cima da mesa de operações, reanimaram-se; a estagiária fez funcionar o comutador e um leve roncar proveniente da parede da frente indicou-lhe que o relógio do O. R. fora posto a funcionar e regularia o trabalho até o último segundo. Do outro lado da mesa, ao lado da consola da esponja, Vicki Ryan ofereceu-lhe o conforto de uma última piscadela de olho antes de ela própria se instalar no ritmo da tarefa comum.

Júlia reparou que até Vicki parecia um pouco abatida: também para ela aquilo devia ser uma novidade. Júlia não se deteve muito tempo a pensar nessa ideia; ocupara-se imediatamente do trabalho e já não pensava em mais nada.

Habilmente envolto em panos por Tony, o corpo “tumificado cedia à magia da faca: Andrew, sem um único movimento inútil, dissecava os tecidos carbonizados. O tempo era terrivelmente precioso, pois não se podia permitir que a carne carbonizada envenenasse, para além de toda a possibilidade de reparação, um corpo já espantosamente danificado.

Do seu posto de observação, Dale Easton exprimiu o sentimento unânime: era a primeira observação pronunciada desde o início da operação e nada tinha de optimista.

- Mesmo com A. C. T. H. e cortisona, custa-me a crer que valha a pena experimentar! Não vejo como poderia viver.

Do fundo da sua concentração, Andy falou calmamente:

- Felizmente, não temos de tomar qualquer decisão nem sequer de considerar a pergunta. Enquanto viver, trabalharemos para prolongar-lhe a vida. Quando morrer, tornar-se-á sua responsabilidade, doutor.

Enquanto falava, um pedaço de pele enrugada, como coiro velho que tivesse secado ao sol, caiu da mesa para dentro de uma bacia de alumínio.

- A partir de agora, esta parte do seu indivíduo pertence-lhe doutor. Poderá, mais tarde, servir-se dela para os seus testes químicos.

Atrás dele, Tony e Vicki, trabalhando com uma eficiência rápida, colocavam, sobre as áreas sem pele, parches húmidos e quentes, que estancavam o fraco correr de sangue. Já o anestesista estava ocupado em substituir o frasco de sangue. Na sala, reinava um silêncio total, quebrado apenas por um sussurro, que bastou para arrepiar a pele, quando um outro pedaço de pele, estranhamente sarapintada, cedeu sob o escalpelo e se rasgou. Um terceiro frasco de sangue substituiu o segundo, enquanto o anestesista verificava uma vez mais a pressão sanguínea do paciente e respondia com um sinal de cabeça afirmativo à pergunta silenciosa de Gray. Quando Júlia ergueu o olhar para o relógio, ficou, como sempre, espantada ao verificar que a operação já começara há mais de uma hora.

A maior parte das zonas queimadas estava agora completamente desnudada. Tony, trabalhando com um dermatomo sobre as regiões intactas das costas, começara a retirar como que lascas de pele sã, delgadas como papel, que foram colocadas com precisão nos lugares em carne viva, tão prontamente que a faca do cirurgião mal tivera tempo de se afastar. A um sinal de Andrew, Júlia juntou o trabalho das suas mãos ao de Vicki, para ligar as compressas que já começavam a dar à cabeça e aos ombros do paciente a aparência de uma múmia em modelo grande. O seu esforço não abrandava; mantinha-se num ritmo constante e regular. “Talvez consiga viver”, pensava ainda, incrédula, mas já pronta a acreditá-lo, “talvez nos diga até o inferno estranho que visitou...” Certamente que num caso como aquele não existia melhor penso que a própria pele da vítima. Mantidas aderentes por pressão, as células vivas dos enxertos iam começar a unir-se à carne viva e nua, estancando a exsudação de plasma por onde se escoa tantas vezes uma vida...

- Passemos agora ao outro lado - disse Andy. - Felizmente aqui os desgastes não são tão profundos...

Os músculos de Júlia estavam dolorosamente contraídos quando voltou para a mesa de instrumentos, mas não tinha consciência dessa dor nem da fadiga que a dominava até a medula dos ossos. Reparou que a amiga ainda estava mais ocupada, mergulhando com os dedos ágeis, de um modo ininterrupto, os pensos em soluções salinas quentes, torcendo-os habilmente, passando-os a Tony e recomeçando... Todo o lado esquerdo do paciente estava agora envolto em várias camadas de gaze, apresentando, aqui e acolá, o relevo sombrio de uma pinça que testemunhava quanto a faca de Gray devia ter mordido profundamente para libertar o tecido são do perigo de envenenamento pelas carnes carbonizadas.

Os ponteiros do relógio patenteavam que a maior parte das duas horas já passara; o peso da longa prova, a tensão do ambiente começavam a oprimir todos os presentes. Só Andy parecia imutável - tal como uma torre de ferro no meio da agitação ordenada e constante das ordens dadas em voz abafada. Como sempre, em momentos como aquele, parecia desprovido de nervos, ignorava a existência destes. Porquê, perguntava Júlia a si mesma, perplexa, porque se mostrava irritável e tenso noutros momentos, em que o homem-médico poderia oferecer-se o luxo da calma?

Enquanto estendia uma nova pinça, os seus olhos passaram por Dale Easton. O patologista, tão sereno como um Buda, de pé à cabeceira da marquesa, estudava-a com uma espécie de interesse desprendido, quase como se tivesse lido nela a sua pergunta não formulada. Easton... Gray... dois icebergues movidos pelas mesmas forças para os mesmos fins... Por que motivo, se compreendia Andy Gray tão claramente, o amava da mesma forma?

- Bastante bem, Tony. Pertence-lhe inteiramente.

Júlia recuou com um sobressalto, quando a voz de Andrew atrevessou o seu sonho. Trabalhando, contrariamente ao seu hábito, apenas com a superfície do espírito, não reparara que o último penso já fora fixado e a última pinça retirada. Naquele momento, o paciente era uma verdadeira múmia, com o repouso ambíguo desta. Nem sequer a ponta do nariz se distinguia sob as ligaduras entrecruzadas; as próprias pálpebras, profundamente envoltas em gaze húmida, pareciam erguer-se como montículos numa superfície de branco regular. A respiração profunda e roncante era uma prova suficiente de que as duas horas de trabalho não tinham sido improfícuas. Andy saiu do cone de luz dura que cobria a mesa e descalçou as luvas.

- bom trabalho, equipa - comentou calmamente, mas com gentileza. - Não faço apostas, mas é possível que ainda volte a andar. Ou, pelo menos, a falar...

Calou a outra metade da frase e, enquanto tirava a máscara, dirigiu uma careta sorridente a Júlia como se já tivessem um segredo comum e pudessem, com o tempo, ter talvez um outro.

- Agora, ponha-o na cama, Tony, se faz favor, e tome as disposições convenientes para que as transfusões continuem pela noite fora. Está claro que será necessário vigiar constantemente os prótidos sanguíneos. E continuem com o A. C. T. H. e com cortisona. Estarei no gabinete do doutor Ash. Pode ser que queira falar também consigo, depois de acabar...

Estava, portanto, acabado. Tão tranquilamente como começara. Júlia mantinha-se imóvel perto da mesa de instrumentos quando Andy, virado para a porta, recuou para dar passagem aos enfermeiros que transportavam a maca rolante. Na sala ninguém se moveu enquanto a múmia roncante era levada ao longo do corredor. O polícia sentado na poltrona interrompeu o seu roncar pessoal para seguir a maca pelo corredor fora. Tony, enquanto tirava a máscara, bocejou prodigiosamente e lançou a Vicki um olhar especulativo... que ela retribuiu com interesse.

- Nada tenho a acrescentar ao meu relatório, doutor declarou o interno. - Acha realmente que o chefe precisará de mim?

- No seu lugar, esperaria, para ter a certeza. O representante da lei far-lhe-á companhia.

Tony encolheu os ombros e acompanhou o polícia que seguia junto à maca. Ao partir, lançou uma última piscadela a Vicki. Se Gray reparou na mímica, não o demonstrou, nada deixou transparecer. Transpondo, por sua vez, a porta, cumprimentou com um gesto de cabeça o Dr. Dale Easton e depois, antes de ele próprio seguir também a maca, virou-se uma vez mais e pousou no braço de Júlia uma mão rápida:

- Queixo para cima, Miss Talbot. É impossível que esteja

tão fatigada como aparenta.

“Desta vez não hei-de corar”, decidiu com firmeza a rapariga. “Não lhe deixarei perceber quanto significa para mim saber que me considera um ser humano.”

Teve de fazer um esforço real, mas conseguiu obrigar a voz a parecer tão impessoal como a dele:

- Não me sinto nada fatigada, senhor doutor. Estou de

serviço esta noite. Se necessitar de mim, estou à sua disposição.

- Necessitarei sempre de si, Júlia. É uma certeza com que

pode contar.

Já se afastava, um pouco curvado sob o peso da própria fadiga.

Levantando o queixo, ao encarar Vicki, Júlia perguntou:

- Então, minha querida, é assim que se lida com os homens?

- Vais aprendendo. Não há nada a dizer, vais aprendendo. Por exemplo, pergunto a mim própria o que ele quereria dizer com necessitar? Um verbo destes, às vezes, pode ser muito activo, bem sabes!...

Júlia verificou que, no fim de contas, ainda podia rir, mesmo ao considerar a desordem pós-operatória que reinava em toda a sala. Lembrava-se como uma vez se arrepiara à vista daquela confusão de esponjas e de pensos encharcados em sangue, misturados, como de costume, com ampolas quebradas e vazias e frascos de sangue manchados de vermelho. Seriam necessárias duas boas horas de trabalho contínuo para pôr aquela sala em estado de receber outro caso urgente. Por uma circunstância extraordinária, sentia um desejo formidável de fugir à inevitável e aborrecida limpeza. Queria estar só no seu quarto da residência das enfermeiras, estendida na cama, sonhando com cada uma das sílabas da breve despedida que Andy lhe fizera.

- Achas que, desta vez, Sloane nos deixará ir embora?

- Se assim não for, arranco-lhe a peruca - declarou Vicki de modo selvagem. - Ela já passou pelo nosso ofício e, ainda que isso tenha sido já há vinte anos, não deve ter esquecido o que significam dores nas costas e nos rins!

A opulenta enfermeira calou-se bruscamente quando a vigilante-chefe entrou na sala.

Aos cinquenta anos, Emily Sloane era tão adstringente como o próprio nome. Nenhum oficial superior teria sido capaz de usar um uniforme melhor ajustado ao corpo que o seu; nenhuma autoridade em todo o hospital, com excepção feita a Martin Ash, era mais inteiramente respeitada... e temida. Como a maioria das boas vigilantes, Emily elevara-se até àquela posição sem favores. Agora já não tinha idade, mas sim um aspecto distanciado, como se tivesse deixado, desde há muito, a vida atrás de si.

Como habitualmente, mantivera-se afastada do local da operação, até o momento de os médicos se terem ido embora. Então, obedecendo a um sexto sentido, que funcionava automaticamente , apresentara-se ali para se encarregar das disposições seguintes.

- Talbot e Ryan, podem retirar-se. - A sua voz fazia parte do comportamento geral: era baixa, evitando escrupulosamente o tom aceitante da autoridade sempre que era escusado servir-se dele. - Qual das duas está de serviço?

- Eu, Miss Sloane - respondeu Júlia, quase mecanicamente, sem sequer pensar. Não fazendo caso das cotoveladas que Vicki lhe dava nas costas, acrescentou: - Se quiser, posso ficar...

Quando Emily sorriu, Júlia pensou numa quantidade de coisas: na sua vergonha quando, estagiária e assistente na sua primeira autópsia, desmaiara, hirta; a crise económica da região que a consumira durante o seu primeiro ano de formação, quando era ainda demasiado jovem para perceber quão subtilmente a rotina hospitalar, o hábito da tarefa regular, podia substituir a necessidade natural de afecto exterior e também demasiado egocentrista para compreender que a vocação que escolhera podia muitas vezes transcender o seu eu; a lenta compreensão da beleza que comporta a arte de curar, etc.

Emily Sloane. na sua pessoa branca e impecável, resumia perfeitamente todas essas lembranças. Por vezes, era difícil lembrar-se de que a vigilante principal era humana, pois, semelhante ao hospital que servia, parecia guiada pelas próprias leis e friamente insensível à agitação do mundo exterior. O seu pior inimigo não poderia negar que representava a função de enfermeira no seu expoente máximo de perfeição, que era o seu próprio símbolo - embora as más-línguas afirmassem que, por fora da sua perfeição branca e engomada, ela não existia e abrigava um termómetro de reserva no sítio onde deveria ter o coração.

- Como toda a enfermeira cirúrgica que se preza - observou Emily - Ryan avisa-a de que nunca deve ser voluntária. Volte para o seu quarto, Talbot. Provavelmente, terá bastante trabalho com que se contentar daqui até amanhã de manhã.

As duas raparigas retiraram-se pelo corredor fora na ponta dos pés: de Emily Sloane emanava alguma coisa que inspirava rapidez e silêncio.

- O espírito de East Side General - murmurou Vicki Ryan.. - mas até Vicki falava agora num sussurro. - Diz-me lá francamente: ficarias surpreendida se um dia a visses entrar por uma porta fechada sem dar a volta à maçaneta?

- Desejava verdadeiramente ficar a ajudá-la - afirmou Júlia. - E, contudo, nada havia que mais me desagradasse fazer do que aquela limpeza, até o momento em que ela entrou na sala. Não, não acho de forma alguma que tenha qualquer coisa de fantasma. E, se queres saber a minha opinião, acho que é muito simplesmente só, solitária, isolada...

- É o que acontece com a maioria das enfermeiras que permanecem enfermeiras durante tempo suficiente para que seja considerado demasiado tempo! É uma carreira solitária... como a de religiosa ou a de faroleiro!

- Fala por ti, minha linda! - interrompeu-a Júlia, rindo. - Não parece que te detenhas muito na tua solidão!

- É porque não me dou tempo para isso - replicou calmamente Vicki. - Emily e eu não temos a mesma maneira de estar ocupadas, e é tudo. Atrevo-me a dizer que tu também tens a tua... Acredita nalguém que sabe o que diz: acabarás mais tarde ou mais cedo como Emily Sloane. Se o trabalho não te matar primeiro, já se sabe, ou se entretanto não encontrares o homem dos teus sonhos.

Enquanto Vicki se explicava, saíram do ascensor e através do corredor de serviço atingiram o quadrado de erva citadina e Poeirenta que separava a residência das enfermeiras do bloco Principal de East Side General. Sem um motivo que pudesse explicar, Júlia Talbot sentiu um arrepio que nada devia àquela noite quente de Verão.

Como sempre, ao chegar ao ar livre, piscou um pouco os olhos; sentiu-se vagamente assustada com o que o ar livre possuía sempre de estranho, ao sair do O. R. Parecia-lhe que se tinha escoado uma eternidade desde que tinham atravessado em sentido inverso essa mesma relva poeirenta para responder à chamada de urgência. Deu o braço a Vicki e obrigou-se a rir sem ter a mínima vontade de fazê-lo. Nesse instante, quanto teria sido capaz de dar para voltar sem demora ao santuário branco de onde haviam acabado de sair, a fim de assegurar-se, embora rapidamente, que, por muita indiferença com que o mundo exterior a considerasse, ali, ela tinha a sua pequena importância.

 

Emily Sloane, apreciando com visível satisfação a desordem febril da sala de operações, soltou um suspiro de contentamento. Encontrava-se agora no seu domínio especial e sentia-se até capaz de afirmar que a sua sensação de bem-estar era completa. Desde manhã que não sentia qualquer dor verdadeira e em virtude disso também era capaz de dizer a si própria que os seus receios eram infundados, embora soubesse o contrário e facilmente adivinhasse o motivo. No dia seguinte, conhecer-se-ia o resultado das análises e seria então a altura de fazer frente a esses receios. Nessa noite, bastava arregaçar as mangas e enfrentar a desordem da sala de operações.

A vigilante cirúrgica poderia ter chamado uma das doze estagiárias e encarregá-la dessa tarefa; ter-lhe-ia bastado para isso pegar no telefone. Contudo, agradava-lhe realizar sozinha precisamente essa tarefa com um desembaraço e perfeição que teriam deixado as jovens estagiárias boquiabertas de admiração estupefacta. Bastante curiosamente, o seu espírito sentia-se sempre mais livre quando se entregava a um trabalho manual e então ria-se desse impulso bizarro que lhe fazia atribuir maior importância à limpeza impecável do que às jóias. Como toda a sua pequena silhueta, as suas salas de operações apresentavam-se sempre impecáveis.

“No fim de contas”, pensava, “a culpa só é minha se, por vezes, me esqueço onde terminam estas coisas impessoais e onde começa Emily Sloane!...” Nunca se poupara; desde o seu primeiro ano de formatura não se poupara a esforços e a razão desse esquecimento de si mesma era-lhe próprio. Desde essa época longínqua, soubera que o amor - ou mesmo a afeição nunca a iludiria. com a mesma certeza, soubera também, desde essa altura ou quase, que encontraria no trabalho um substituto aceitável. Só no ano anterior, quando as dores se tinham tornado difíceis de suportar, começara a duvidar da sensatez da sua imolação voluntária. Só agora, enquanto as mãos voavam, ágeis, no desempenho do trabalho, ousava deter o espírito para considerar esse longo sacrifício, partindo do princípio de que algum sacrifício existia.

Emily, a habitante mais antiga da residência das enfermeiras, nada ignorava dos falatórios que, tanto no passado como no presente, tinham ligado o seu nome a alguns escândalos. Contava-se que alimentava por cada um dos médicos do hospital, incluindo a maioria dos especialistas chamados para consulta, sucessivas paixões secretas; que aqueles seus modos firmes e resolutos representavam uma espécie de compensação para os seus sonhos, sempre iguais, para os seus amores não solicitados; que das suas esperanças frustradas fazia feitiços, acariciando-os como só o pode fazer uma solteirona.

“Esta noite, passa-se qualquer coisa”, pensava, enquanto desembaraçava o soalho do último resíduo. “Alguma coisa que vai muito mais longe que esta operação.” Sentia pairar uma ameaça muito mais sinistra do que a presença do polícia de farda azul com que se cruzara no corredor. Devido aos bairros sórdidos que rodeavam o East Side General e aos ladrões que por ali pululavam, a polícia não era desconhecida no hospital. A própria Emily se encontrara, por mais de uma vez, junto à mesa de operações, enquanto um pequeno ou grande criminoso ali perdia a vida. Podia não ligar importância aos rumores fantasistas que já lhe tinham chegado, à advertência da fatalidade que se inscrevia, clara e visível, do outro lado dessas Paredes... E todavia... quando pensava na conferência que, nesse momento, se realizava no gabinete de Martin Ash, sentia-se absolutamente certa de que a ameaça era real.

Não sentia qualquer crispação de temor. Durante toda a sua vida, praticamente falando, o caos fervilhante, que rodeava as paredes de East Side General, parecera-lhe tão remoto como uma trovoada de Verão. As únicas vezes em que conhecera o medo, fora quando se achara constrangida a despir o uniforme e a lançar-se em carne e osso no meio desse mesmo caos aquando das suas curtas férias, por exemplo, nem pedidas nem desejadas - ou ainda por ocasião das voltas que tivera de dar em Nova Iorque, em serviço. Mal se encontrara de novo entre aquelas paredes, naquela segurança familiar, rira-se das suas angústias.

Por que motivo, desde o momento que trazia dentro de si o agente do seu destino e da sua destruição, tremeria perante as ameaças do exterior? Morreria como vivera - se é que tinha de morrer - no desempenho apaixonado do trabalho que ela tanto amava. Até o fim, sentir-se-ia tranquilizada pela certeza de saber o seu domínio pessoal tão rebrilhante como um alfinete novo e a sua fiscalização absoluta.

Agora tinha a sala de operações quase em ordem e sentia crescer dentro de si essa boa plenitude de cansaço que só conhecia em momentos semelhantes, essa sensação do trabalho bem executado, essa antecipação do repouso bem ganho. “Talvez esta noite consiga adormecer sem tomar qualquer comprimido”, pensava, “embora seja de mais pedir um sono sem sonhos.”

Sentiu então despertar a dor. Sentiu-lhe o roçar suave e familiar, como o de um gato que se tivesse deslocado prudentemente na escuridão, tão prudentemente, tão docemente, que quase fazia esquecer a violência das suas garras.

“Queira Deus que esta noite me deixe em paz!”, suplicava. “Queira Deus que sejam apenas os meus nervos de solteirona que me pregam partidas, que exigem impiedosamente o seu tributo quando tenho ainda à minha frente metade de uma noite a passar e me debato contra a convicção de ter vivido em vão!”

 

O gabinete particular do director de East Side General, bem isolado por uma antecâmara e por uma porta dupla que só abria sob a pressão de um botão colocado sob a secretária do médico, parecia absolutamente vazio no momento em que o relógio da Schuyler Tower bateu dez badaladas. A silhueta em pé, na penumbra próxima da janela, fazia parte da sombra e do silêncio. A única nota de vida parecia residir na fotografia emoldurada, colocada sobre o tampo da grande secretária, e o Dr. Martin Ash, afastando-se dos reposteiros, contemplou demoradamente a risonha e bonita rapariga que o candeeiro aureolava de claridade, mas que, contudo, parecia irradiar ainda mais sob o efeito de uma luz totalmente interior.

“Catherine era maravilhosa, quando casou comigo”, pensou como se fizesse uma descoberta original que o chocasse pelo seu imprevisto. “Custa a acreditar que possa ter sido mais bonita do que é hoje, e estar tão completamente segura, como antes, de ocupar no reino da criação exactamente o lugar que lhe convém.” Aquilo era ainda um enigma que nunca conseguira desvendar. Nove dias em cada dez, chegava a aceitar as aparências como uma realidade e a achar que tudo estava bem e que a vida era boa.

Em conformidade com o hábito, viera dar uma volta até o gabinete, na parte baixa da cidade, antes de a equipa da noite entrar de serviço ao hospital; o problema que o mais antigo dos seus internos acabara de apresentar-lhe era ainda demasiado recente para já lhe ter avassalado o espírito. Enquanto esperava a chegada do inspector Hurlbut, oferecera-se o luxo de considerar um problema mais pessoal.

Mal-humorado, considerou a única folha que resumia, nalgumas linhas dactilografadas, todo o relatório referente à estranha vítima de acidente que o Dr. Anton Korff conduzira aos serviços de emergência. Ash procurava baldadamente arreliar-se de antemão. Enquanto o Dr. Andy Gray operava o paciente, ele, Ash, postara-se atrás do vidro de observação do O- R., de onde seguira o trabalho do princípio até o fim, sem que a sua presença tivesse sido notada por quantos rodeavam a mesa de operações. Visto dali, o caso parecia muito simplesmente consequência de uma das mil e uma catástrofes, de menor ou maior importância, que aconteciam, no decorrer do dia ou da noite, nos bairros sórdidos de qualquer capital. Além disso, a tendência de Anton Korff para dramatizar tudo quanto lhe passasse pelas mãos estava bem documentada nos arquivos do hospital.

À sua frente, espalhadas sobre a secretária, havia cartas que reclamavam a sua assinatura; um monte enorme de correspondência particular, chegada depois do meio-dia, esperava que a lessem; na antecâmara, meia dúzia de máquinas de escrever crepitavam freneticamente para procurar manter em dia a correspondência. O relatório trimestral referente às finanças do hospital, com as suas inscrições imperiosas a tinta vermelha, estava também pronto para a sua inspecção e para o seu recurso eventual a Catherine, recurso esse meio envolto em desculpas... Mais exactamente, aos homens de negócios de Catherine, competentes e informados, que haviam de assegurar ao hospital um outro prazo de vida, a noventa por cento de desconto sobre o imposto de fisco.

Martin Ash obrigou-se a si próprio a instalar-se à secretária, conquanto não conseguisse resolver-se a tocar no correio nem sequer a dar a volta ao comutador eléctrico. Levantado o auscultador do telefone particular, perguntou à telefonista do P.B.X.:

- O doutor Gray sabe que o espero, Ethel?

- Certamente, senhor doutor. Creio que, neste momento, se encontra com o inspector, lá em cima, na sala de cirurgia. Deseja que o mande procurar?

- Não vale a pena - respondeu pesadamente. - Esperarei aqui.

Assim, pois, Andy obrigara Hurlbut a fazer a ronda habitual antes de levá-lo para a conferência. Podia confiar-se nele para prestar antecipadamente todas as informações indispensáveis a fim de poupar-lhe o máximo de tempo possível. O chefe de East Side General balançou-se na poltrona giratória, profundamente acolchoada, e fitou intensamente a fotografia da mulher; mais do que nunca, tinha a certeza de que o lamentava e troçava, ao mesmo tempo.

“Há vinte anos”, pensava ele, “ela queria-me exactamente como uma outra mulher poderia querer um automóvel de importação ou um garanhão puro-sangue. E, como Catherine Parry nunca tolerou qualquer forma de desejo insatisfeito, comprou-me muito simplesmente. Foi assim que aconteceu, bem mais fanfarra ou embaraço do que Catherine ousaria hoje me assinar o seu próximo cheque para o hospital. A circunstância de ter sido uma boa transacção não altera o facto essencial.”

Fora evidentemente uma sorte ficar como interno nesse hospital, depois de três anos em que tivera de fazer milagres para se manter na Escola de Medicina de terceira ordem, cujas despesas seus pais não podiam comportar. Fora evidentemente também uma sorte que, nesse mesmo ano, um esgotamento nervoso tivesse conduzido Catherine Parry à Schuyler Tower. Desde o seu primeiro encontro, jorrara uma centelha que nunca chegara a extinguir-se, mesmo durante as suas querelas mais amargas. Fazendo recuar os seus pensamentos até vinte anos atrás, apercebia-se de que fora a promessa daquele corpo perfeito, que em breve havia de se lhe entregar, que o fascinara... assim como a sua convicção de que nada poderia impedir o seu casamento com um jovem judeu, desconhecido sem dúvida, mas indiscutivelmente brilhante, que, sem a sua ajuda, nunca teria chegado a ganhar a vida.

Fazendo oscilar ainda mais a poltrona, estudou, com as pálpebras semicerradas, o sorriso da mulher: Catherine tivera sempre coragem e raça. Fazia-lhe justiça. Ainda hoje ele não sabia exactamente que estratégia ela devia ter utilizado para obrigar o pai a consentir naquele casamento e sobretudo para forçar esse urso a conceder à filha única um avanço de capital praticamente ilimitado. Nesse tempo, o Dr. Martin era conhecido entre os seus familiares sob o nome de Marty Aschoff; o cheiro das habitações populares ainda lhe estava entranhado no vestuário e na pele, como bolor muito recentemente exposto ao sol purificador. Produto incontestável desses bairros que se estendiam até as paredes do hospital, estivera sempre demasiado ocupado em realizar os desígnios do seu destino para se envergonhar das suas origens. Achara muito natural ver os pais continuarem a viver na mesma casa de habitações operárias, exactamente por trás da Cervejaria Rilling; vê-los recusarem-se mquebrantavelmente a irem viver para uma casa que Catherine, de vez em quando, ameaçava comprar-lhes nos subúrbios da cidade, preferindo fazer as suas vidas no único lar verdadeiro que tinham conhecido.

Ao lado de Catherine, a vida apagara-lhe as últimas sardas suburbanas para substituí-las por um confortável queimado da Florida a fugir para o mogno. Fora Catherine - e o dinheiro de Catherine - que lhe permitira fazer um estágio na clínica Mayo, onde aperfeiçoara a sua habilidade cirúrgica. Fora sua mulher - e a influência de sua mulher - que lhe permitira subir tão rapidamente e por uma forma tão premeditada a escada médica. Por vezes, quando o invadia o desejo de avaliar essa ascensão e a velocidade dessa mesma ascensão, sentia - ainda hoje - vertigens. De cirurgião-chefe a membro do Conselho Administrativo, de vice-presidente a director efectivo e presidente em exercício, cada um desses passos fora dado com a certeza absoluta de que nem podia fracassar nem tropeçar.

Ninguém podia insinuar que ele ou Catherine não tivessem dado ao hospital o que deles se esperava. A própria Catherine não podia queixar-se de que ele se tivesse por alguma forma esquivado a qualquer esforço. Podiam querelar violentamente um com o outro acerca das vias e meios, mas estavam totalmente unidos na mesma dedicação a East Side General e na mesma vontade de o tornarem um hospital modelo. Sem falsa modéstia, poder-se-ia afirmar que nenhum hospital de Nova Iorque poderia gabar-se de ter dois cirurgiões melhores do que o Dr. Andrew Gray e o Dr. Martin Ash. Nenhum outro hospital prestava mais serviços à comunidade - as entradas a tinta vermelha, que figuravam nos seus registos, assim o comprovavam.

Que dera ele a Catherine Parry em troca de todas essas prodigalidades? Desde o início, tentara dar-lhe amor e descobrira que a atracção sexual era, quando muito, um fácil substituto.

Demasiado número das suas diferenças - e algumas eram, na verdade, fundamentais - tinham sido reguladas no altar de Eros - ou adiadas para mais tarde, numa espécie de armistício penoso. Era absurdo dizê-lo, mas, ao fim de mais de vinte anos de casados, a sua vida continuava apoiada na mesma base. Talvez, em suma, a palavra “casamento” fosse demasiado solene para classificar a sua união...

Martin franziu o sobrolho para a fotografia, mas a imagem de Catherine continuava a fitá-lo com os seus grandes olhos transbordantes de confiança... Sentiu quase alívio ao ouvir ressoar, na antecâmara, a voz baixa e sonora de Hurlbut; em levantar-se para acender as luzes e em acolher ao mesmo tempo o inspector e os seus médicos com uma espécie de cordialidade fácil e desprendida que se tornara tão natural como o acto de respirar. Verificou, não sem satisfação, que só as silhuetas de Andrew e de Dale se recortavam atrás do inspector, seguidas, por sua vez, de uma forma maciça, vestida de tweed, que reconheceu instantaneamente.

- Olá, Pete! - saudou com bastante bom humor. - Perguntava a mim mesmo quando o veríamos aparecer.

Pete Collins, repórter do Chronicle, entrou arrastando os pés. Tudo nele fazia lembrar um são-bernardo seguro pela trela. Pete tinha a mesma massa indolente, a mesma camaradagem enganosa. Até onde a memória de Martin Ash podia recuar, fora sempre ele quem escrevera para o seu jornal os artigos referentes a East Side General. Mesmo agora, que subira de posto, continuava a passar quotidianamente pelo hospital, na esperança de desencantar a fugaz centelha de interesse humano que lhe permitiria descobrir o drama sob o facto bruto.

- Alegra-me que isso não o contrarie, doutor - disse Pete Collins. - Ao inspector aborrece-o... terrivelmente.

O rosto de Ash manteve-se impávido e sereno: o sorriso profissional, que oferecia às suas visitas, constituía parte da sua armadura.

- Quando se juntou ele à visita? - inquiriu.

- Desde o princípio - respondeu Andrew e, enquanto falava, deixou abater o corpo enorme e de pernas compridas sobre a melhor poltrona. Dale Easton encontrava-se já instalado no parapeito da janela. - Pete estava a tomar a sua primeira cerveja da noite com Otto, na morgue...

Martin Ash estendeu a mão, acalmando Hurlbut sem soltar uma palavra.

- Não digas mais, Andy. Tenho tanta confiança em Pete, neste caso, como em mim próprio.

O inspector Hurlbut instalou-se, em frente à poltrona de Ash, e perguntou:

- Exactamente até que ponto, doutor Ash?

- Diga-me o que sabe - volveu o director. - Veremos bem como ele reage.

Collins interveio vivamente:

- Primeiramente, deixem-me dizer o que eu sei. Duvido que, neste momento, o inspector saiba mais qualquer coisa. Para começar, Korff apanha os seus dois fardos na entrada do armazém. A esquadra sanitária desloca-se em seguida ao local da cena, com um material completo, com os contadores Geiger e mangueiras. As vítimas são despachadas para os serviços de urgência, despidas e provavelmente descontaminadas. Entretanto, uma delas já está em gelo. A outra está lá em cima, com um registador mecânico e um “chui” para quando - se é que...

- se decidir a parar de ressonar e começar a falar, o que, neste momento, é uma suposição bem presunçosa. Esqueci-me de alguma coisa?

Ash franziu o sobrolho e, com o olhar, interrogou Gray. O cirurgião-residente ergueu as mãos.

- Os desgastes são extensos. Francamente, nem sequer compreendo como ainda está vivo. Graças às nossas injecções, as glândulas endrócrinas funcionam... relativamente bem. Espero conseguir fazê-lo voltar a si, mas nada posso prometer.

Pete Collins abriu sobre os joelhos um bloco de papel.

- Tem a palavra, inspector, se isso o tenta. Sou todo ouvidos.

Martin Ash fez o possível para desviar a guerra que se preparava. Hurlbut dava-lhe mais a impressão de um licenciado insatisfeito do que um especialista das aberrações homicidas do homem. Dos óculos de aros grossos aos vestuário cinzento tinha mais aspecto de estudante do que de cão de caça - com uma generosa suspeita de cinismo sob a atitude fácil, o cinismo do homem mundano, que considerou a maior parte da actividade humana e a achou incoerente ou desprovida de sentimento interior, de qualquer profundidade...

Em contraste, Pete Collins parecia um caloiro, entusiasta, ávido de conhecimentos, fremente de ardor, sentado aos pés do mestre, esperando os seus ensinamentos...

Martin, observando-os mais atentamente, reparou nas olheiras que sublinhavam os olhos do jornalista e no encurvado dos ombros sob o casaco caro de tweed. Hurlbut conservara a sua antiga esbelteza. Pete era um corcovado que começava a envelhecer...

O inspector foi o primeiro a falar, enquanto os olhos de Pete se fixavam no bloco aberto sobre os joelhos:

- Naturalmente, ouviu dizer que eles vinham de Brookhaven, não é verdade?

- Por que razão as vítimas de queimaduras radioactivas de Long Island viriam a aparecer num armazém de Manhattan?

- Brookhaven é o lugar que mencionará no seu artigo, Collins, e procure não esquecê-lo!

- Por ora, não se preocupe com o meu artigo, inspector. Eu estou a pensar em depois de amanhã ou na próxima semana. Não se esqueça de que o Chronicle tem um correspondente em Brookhaven, que não assinalou ali nenhum acidente.

- Podemos ser ainda mais precisos. Por exemplo, essas queimaduras podiam muito bem ter sido causadas por ácido fluorídrico, como sabe.

- Isso é outra patranha que os serviços de informação não engolirão.

- Por que não? Além de você, mais ninguém sabe que se trata de casos radioactivos.

- Peço perdão, inspector. Esse chefe de equipa da descontaminação é um tagarela! Já tinha divulgado toda a história, antes de um dos seus rapazes o ter mandado calar...

- Podemos fazer calar os serviços de informação - interrompeu-o Hurlbut, placidamente. - Exactamente como a si, se for preciso. Amanhã, o Chronicle dá uma notícia de tudo quanto há de mais claro sobre a aventura de dois operários de Brookhaven que caíram sem sentidos quando voltavam do trabalho e que aqui foram recolhidos. Mencionaremos que um deles ainda vive e confiaremos na sorte que o terceiro homem saia do seu esconderijo. Pode ser até que já tenha fugido com o seu pacote de maldade.

- Então, acrescente mais um pouco - disse o repórter. - Partindo do princípio de que o senhor roubasse produtos químicos de primeira categoria, com a intenção, bem firme, de tirar lucro com eles, que tentaria “pinar” primeiramente? Dizem que os Russos abundam em urânio. Que me diz a tritio ou a água-pesada?

Hurlbut suspirou.

- Desça à terra, Collins. A água-pesada não poderia queimar um homem a ponto de matá-lo.

- Seja. E esses compostos ultra-secretos a que ainda nem sequer se ousou dar nome?

- Washington anda agora a tratar disso. No seu lugar, não me meteria no assunto.

- O senhor está aqui no meio de amigos, inspector. Por que não quer reconhecer que o produto se escoa por todos os portos da costa do Atlântico? Ou quererá fazer-nos acreditar que toda a “coisa” está agora metida numa caixa, em qualquer ponto, em pleno centro de Manhattan?

- Isso é uma cretinice pura, bem sabe.

- Seja como for, temos de admitir que essa história do bombardeamento de Nova Iorque é estritamente boa para romances cómicos. É muito possível que, neste momento, uma dessas caixas esteja a tiquetaquear, mesmo em Park Avenue... e qualquer de nós poderá descobrir a morada. Qualquer aluno de Òak Ridge, possuidor de documentos falsos e de um passaporte de imaginação, poderia sem qualquer dificuldade confeccionar uma delas, durante o seu tempo livre, e comprar um bilhete de avião antes de dar-lhe corda.

- Você poderia talvez escrever um desses romances cómicos, hem, Collins?

Ash interveio prontamente:

- Ainda que tudo isso seja verdade, trata-se de alguma coisa que, por ora, não podemos examinar. Até o inspector provar o contrário, suponhamos que se trata simplesmente de outro caso de roubo. Acima de tudo, guardemos as nossas suspeitas para nós mesmos... assim como as notícias que possamos vir a saber.

- As únicas informações que poderemos vir a ter estão no interior do rapaz que tenta respirar lá em cima - disse Collins.

- E tal como o doutor Gray fez notar, há alguns minutos, pode deixar de fazê-lo de um momento para o outro!...

- Colocámos um registador à sua cabeceira. Poderá ouvir a primeira emissão, se aceder em acatar as ordens.

Os cantos da boca de Pete baixaram-se.

- Faço parte da sua equipa, inspector. Quantas vezes será preciso repetir-lho?

- Ou fala - arguiu Hurlbut - ou é um beco sem saída. A não ser que consigamos identificá-lo através da dentadura, pelo lado exterior, não se pode ter a certeza se se trata de um homem ou de um orangotango.

- Em todo o caso, mandou proceder a qualquer inquérito?

- O inquérito já está começado, o que não quer dizer que esperemos descobrir muita coisa. Mal a noite desce, este bairro é tão deserto como uma cratera lunar. Mas talvez cem camiões por hora o utilizem como atalho para chegarem ao túnel do centro da cidade. Até recebermos o resultado da autópsia realizada pelo doutor Easton, nem sequer podemos ter a certeza de que esses dois pássaros pegaram no embrulho em Nova Iorque...

Dale Easton, do seu assento no parapeito da janela, ergueu a mão para interromper Hurlbut:

- Peço perdão, inspector. Isto ainda não é, evidentemente, oficial. Mas apostaria a minha licença em como essas queimaduras eram recentes. E creio que o seu perito será também desta opinião.

- Em todo o caso, trata-se de um inquérito que engloba seis Estados. E, já se sabe, vamos passar o bairro a pente fino para descobrir testemunhas. Pode publicar isso, Collins, ao mesmo tempo que a informação oficial relativa a Brookhaven. E não se esqueça - é tudo quanto há de mais importante! - de mencionar que há um sobrevivente.

-Perdoe-me se pareço dramático - disse o repórter - mas não seria aconselhável colocar alguém, lá em cima, pelo menos até de manhã, a pretexto de proteger esse pé-chato do polícia?

- Se lhes interessa saber, dir-lhes-ei que, neste momento, o hospital está rodeado por um cordão de polícia. É um outro pormenor a que não deve referir-se no seu artigo.

Desta vez, Hurlbut levantou-se, puxou o chapéu para um olho e, instantaneamente, deixou de ter a aparência de um doutor em filosofia. Uma vez de pé, com o crânio calvo coberto e a aba do chapéu virada para baixo, era um detective, desde a cabeça aos pés.

Martin Ash reprimiu um sorriso, ao estender-lhe a mão.

- Passarei por cá de manhã, doutor, quaisquer que sejam as notícias - disse o inspector, deitando a Collins um dos seus olhares mais sombrios. - No seu interesse, espero que tenha sido efectivamente um ajuste de contas entre ladrões, se é que me faço compreender.

Saiu, depois de ter dirigido um cumprimento sóbrio aos dois médicos mais jovens e conservando até o fim a sua expressão impassível de jogador de póquer.

- Julguei que me perguntasse pelo doutor Korff - observou Martin Ash. - Tony ficará magoado.

- O sargento que fez o relatório da polícia sobre esses casos esteve também em Hiroxima. Não havia muito a acrescentar - declarou Collins, que seguiu a pista do inspector com todo o aprumo de um cão de caça um pouco fatigado.

Ia a trautear, quando se deteve, por um instante, no limiar da porta.

- No caso de desejarem saber que ária...

- Reconheço-a - interrompeu-o Ash. - É de Gounod, A Marcha Fúnebre de Uma Marioneta.

- A melodia própria da nossa geração, doutor - observou o jornalista. - Os que insistem em trautear Deus Abençoe a América provam que não têm ouvido para a música! Não saia, inspector. Poderia dar-me uma boleia até lá abaixo.

Ash balançou-se suavemente na cadeira giratória.

- Hurlbut saberá mais do que diz?

Dale riu francamente:

- Por ora, julgo que ainda sabe de menos! Que achas, Andy?

- Responderei a esta pergunta com outra: quantos tipos autopsiaste no mês passado sem lhes poderes dar um nome? Quantos é que o perito da polícia conseguiu identificar, em seguida?

Ash, com um aceno de cabeça, apoiou o cirurgião, baseando-se no registo da própria memória. O crime perfeito, no fim de contas, é um caso de rotina corrente em todos os bairros sórdidos. Nesses sítios aonde o sol não chega, o assassino anónimo, invisível, desconhecido, que desaparece, na noite, sem deixar rasto, é tão familiar como o vizinho do patamar.

Apreciando o peso dessa verdade banal, Ash espantou-se com a sua oposição pertinaz aos planos ambiciosos que Catherine alimentava por East Side General - sem falar no seu próprio futuro. Uma ameaça como a que, nessa noite, pairava sobre eles e sobre todo o bairro seria inconsiderável, se tivessem aceite a última oferta brilhante que lhes tinham feito pela venda do conjunto do terreno e edifícios, mediante a necessária transferência de todo o hospital para a parte alta da cidade; mesmo no alto da cidade, onde, em Maio, as árvores podem com toda a liberdade expor à luz as suas folhas e onde o Sol envia um raio de luz e de calor para cada janela.

- Não o reterei por mais tempo, Andy. Já há várias horas que deveria ter acabado o seu serviço! E você, Dale, estou certo de que tem trabalho na morgue. Mais uma vez obrigado aos dois por não estarem alarmados...

Depois de os assistentes se terem retirado, Ash permaneceu ainda, durante um longo momento, no gabinete. Contudo, nessa noite, sentia-se mais do que nunca incapaz de trabalhar. Não tinha qualquer razão lógica para temor e só sentia desprezo por esses destroços humanos que tinham sido atirados para o seu domínio. E, todavia, não podia negar a si próprio que um frio glacial lhe tolhia o coração.

Quando entrara no gabinete, enfiara por cima do trajo de cerimónia uma enorme bata de cirurgião. Fazia isso sempre que conseguia roubar um pouco de tempo para voltar ao hospital: o linho fresco nunca deixava de lhe dar a sensação de se encontrar no sítio onde devia estar, a serenidade que o abandonava - tão inevitavelmente como a um nadador que perde o pé - sempre que permanecia demasiado tempo na parte alta da cidade... E, todavia, quando despiu a bata de cirurgião e tornou a envergar o casaco de corte londrino não encontrou qualquer observação a fazer à imagem que o espelho lhe devolveu...

“Talvez um pouco pesado para diplomata”, pensou. “Um pouco fatigado exteriormente... alguma coisa como um duplo de Hollywood que teve de posar demasiadas vezes num mesmo dia...”

Mas nem sequer Martin Ashoff podia negar que Martin Ash parecia ter nascido para usar aquele trajo; que, de toda a maneira, merecera o direito a usá-lo, tal como merecera o direito a usar na lapela a roseta da Legião de Honra.

“Sou um actor em dois mundos”, pensava, “e sei de cor as minhas duas séries de réplicas.”

Abandonou aquele pensamento juntamente com os seus papéis sobre a secretária, atravessou rapidamente a antecâmara com as máquinas de escrever cobertas com as suas tampas e desceu os degraus que levavam até a grande rotunda do hospital, envolta em sombras.

Devido à hora adiantada, o corredor de entrada estava muito calmo e só os últimos retardatários provenientes de pavilhões particulares o atravessavam ao saírem do ascensor para se meterem em táxis. As enfermeiras já há muito tinham mandado sair as visitas. Sempre sensível às mudanças de humor do hospital, percorreu automaticamente com o olhar cada uma das três “constantes”: o rectângulo de luz que tombava da central telefónica, a estátua de Jesus que, de mãos abertas, se encontrava na base da rampa que conduzia à capela das enfermeiras e a silhueta na poltrona rolante, exactamente ao lado do P.B.X.

Não se lembrava de ter atravessado uma só vez o átrio de mármore sem encontrar o capelão no seu posto. O padre O’Leary existia desde que East Side General existia, para reconfortar os doentes, sem distinção de idade, sexo ou fé. E, quando o artritismo lhe tolhera por fim as articulações, insistira em continuar a visitar as suas ovelhas. Numa poltrona rolante, naquela mesma poltrona rolante que ocupava agora... Agora e graças a essas mesmas hormonas que, lá em cima, tinham provavelmente salvo a vida a um criminoso, os sofrimentos do padre O’Leary tinham sido largamente aliviados. Pouco faltaria para que desaparecessem completamente.

Nessa noite, o sopro do Verão atravessava suavemente as grandes portas, chapeadas a bronze, que nunca estavam fechadas. Recostado na poltrona, no seu posto, o padre parecia dormir. Martin Ash aproximou-se sem se preocupar em andar na ponta dos pés: conhecia bem o capelão e, ainda antes deste ter falado, com aquela voz sussurrante e todavia clara, que lhe era tão familiar como a madeixa branca pendente sobre a fronte, Martin sentiu distenderem-se-lhe as rugas de fadiga em volta da boca.

- Boa noite, Martin. Não vai um pouco atrasado para a festa de Catherine?

- Quem lhe disse que ela dava esta noite uma festa, padre?

Piscando um olho azul em direcção ao quadro telefónico e à telefonista, o padre respondeu:

- Quem poderia ser senão Ethel? Sua mulher acaba de telefonar-lhe a perguntar quando é que você lá voltaria. E Ethel, fiel e leal, respondeu que ia precisamente a caminho.

Martin Ash sentou-se sobre a curva da balaustrada que separava o posto de observação do padre O’Leary do vasto deserto de mármore constituído pela rotunda.

- Dessa forma, sabe então antecipadamente o que vai acontecer, padre?

- Por que não, visto que me encontro exactamente no centro nervoso?

- E há quantos anos é isso assim, padre? Ou será uma pergunta indiscreta?

- De forma nenhuma. Bem sabe que eu já “aqui” me encontrava quando... o trouxeram... - Não levantou os olhos, enquanto falava. Foi Ash quem olhou para a estátua bondosa e envolta em sombra, colocada no nicho por cima deles. - Sabe tão bem como eu a sua história médica, Martin, e, por conseguinte, sabe a data.

- Os nossos alicerces foram cavados há mais de cinquenta anos. Não é uma estada muito longa numa paróquia?

- Não, se tivermos necessidade dessa paróquia e ela precisar de nós.

O padre estendeu as mãos sobre o grosseiro cobertor de hospital que lhe cobria o corpo frágil até a cintura e Ash ficou impressionado com a sua delgadez quase transparente. O ancião era o único elo entre duas épocas, diferentes a ponto de serem opostas, de tal forma o hospital, cujas primeiras horas conhecera, se parecia pouco com aquele em que ambos se encontravam juntos, nessa noite. Martin tentou imaginá-lo no hospital de sonho de Catherine, na parte alta da cidade, mas pôs de parte esse esforço. Mais de uma vez tentara contar-lhe aquele projecto, explicar-lhe por que motivo as razões de Catherine não eram aceitáveis e, como o idoso sacerdote o escutara, de todas as vezes, sem responder e com o mesmo sorriso paciente, Martin tivera a impressão de pronunciar palavras perdidas. Ora, eis, que o ouvia declarar suavemente:

- Seria como esvaziar o sangue das suas veias - comentou o padre.

Martin Ash ergueu os olhos. Acaso teria expresso em voz alta os seus pensamentos, sem dar por isso? Ou teria o padre O’Leary lido muito simplesmente o que lhe ia no espírito?

- Catherine discutiu os planos consigo, padre?

- De forma nenhuma, Martin. Há já muito tempo que anda afastada de nós. Quer fazer-me o favor de dizer-lhe que sinto a sua falta?

“Está a sentir realmente o que diz”, pensou Martin. “Está pronto a perdoar quem trama o seu desaparecimento deste mundo, pronto a acolher essa pessoa com amizade...”, pois não tinha qualquer ilusão quanto à sorte do padre O’Leary se o hospital fosse transferido para a cidade alta. Tal como o Salvador, que velava sobre a rotunda, o padre tinha raízes profundas, demasiado profundas para poder sobreviver a uma transplantação.

- Catherine possui a maior parte das nossas acções; a maior parte dos membros do nosso Conselho ocupam lugares importantes na cadeia de bancos do pai...

- Todos nós sabemos isso, Martin.

- Então, também deve saber que combati essa ideia. Sempre senti que o meu lugar é aqui. Pertenço a este bairro...

- O lugar de East Side General é aqui. O East Side General pertence a este bairro. Você e o seu hospital formam um todo indissolúvel... Não pode divorciar-se do seu hospital do mesmo modo que não pode divorciar-se de Catherine.

- Acha então que posso ficar com os dois?

- Nem sequer acho que possa ser de outra forma. Teve sempre os dois. Por que motivo não havia de poder continuar a amar o seu trabalho... e a sua mulher!

“Porque não posso ter os dois”, pensava Ash. “Nas minhas condições, é impossível. Nunca, em ano algum do meu casamento, me senti livre para me entregar de todo o coração a este hospital, sem me arriscar a perder Catherine. Como me seria possível negar que de dia para dia nos temos afastado mais um do outro, desde que ela concebeu essa ideia de nos fazer emigrar para a cidade? Como me seria possível negar que se aproxima a hora em que terei de ceder ou de perdê-la completamente?”

Em voz alta, disse apenas:

- Não posso lutar indefinidamente contra ela.

- Certamente que não, Martin... Isso não seria de forma alguma um casamento.

- Então não me teria muito ódio... se eu cedesse... se eu aceitasse a emigração?

- Deve fazer o que achar melhor - disse lentamente o velho padre. - Não tenho qualquer direito a aconselhá-lo.

Deixou cair o queixo na taça formada pela mão e permaneceu durante tanto tempo imóvel que o cirurgião se convenceu que a sua presença fora esquecida.

- Todavia, posso dizer-lhe isto, Martin - continuou a velha voz sábia: - Não force os acontecimentos, não apresse nenhuma decisão; o tempo tem a sua maneira de regular os conflitos. E, muitas vezes, de uma maneira de que não tínhamos a mínima suspeita.

Que sabia ao certo, perguntou-se o cirurgião, que sabia o padre O’Leary acerca do caso das vítimas de queimaduras que Korff trouxera, nessa noite, para o hospital? Faria francamente frente ao perigo ameaçador? Acaso sugeriria que talvez algum engenho fatal escondido tiquetaqueava inexoravelmente, precisamente do lado de fora dessas paredes brancas, e os enviaria a todos, no dia seguinte, a voar até as nuvens?

“Seria uma forma de solução, sem dúvida! O terreno não se desvalorizaria em Manhattan, se uma explosão dispersasse estes bairros sórdidos na atmosfera, juntamente com o hospital que tão fielmente se tem dedicado ao serviço destes mesmos bairros. Talvez a única maneira de estabelecer o nosso mundo de pacotilhas seja arrasá-lo e construí-lo de novo, solidamente, com bons materiais...” Repudiou a imagem insensata e pousou a mão no ombro do idoso sacerdote:

- Devemos conservar o que temos, padre. E devemos manter-nos, seja como for, no lugar a que pertencemos.

O padre O’Leary sorriu, sem levantar a cabeça, e disse ainda:

- Deus o abençoe, Martin. Deus o ajude e vos guie a ambos.

O Dr. Martin Ash atravessou a rotunda com um passo rápido.

Quando chegou à porta, virou-se: uma enfermeira empurrava a cadeira do sacerdote ao longo da rampa que levava aos ascensores, próximos do quarto do padre O’Leary, na Schuyler Tower. O ancião estava imóvel como se fosse de pedra. Os seus olhos azuis pareciam vítreos... e também completamente desprovidos de vida, tal como os olhos da estátua que dominava lá do alto, na sombra.

 

Em pleno centro da massa do hospital, no ponto em que um corredor se bifurcava - para leste, em direcção às salas de cirurgia, e para oeste, na da escada por onde se descia para chegar à morgue - os dois médicos pararam, obedecendo a um comum acordo tácito, como se lhes custasse separarem-se:

- Sê franco, Andy - pediu Dale Easton. - Confessa que estás apavorado! E, de resto, tens razão para isso!

O cirurgião-residente abriu com um pontapé a porta de socorro para o caso de incêndio e dirigiu-se para a frescura nocturna... ou, pelo menos, para a pobre imitação que aquela corrente de ar proporcionava:

- Creio poder roubar um minuto para fumar um cigarro, mas não disponho de tempo para ter medo. com a vida que aqui tenho levado, nestes últimos dias, é impossível.

Dale inclinou-se por entre a porta aberta e estendeu o isqueiro aceso:

- Ash não parecia de forma nenhuma assustado. Também é certo que, ainda que o estivesse, não o deixaria transparecer.

- Fala por ti - disse Gray.

- Pois bem! Pessoalmente, compartilho com Hurlbut da teoria de contrabando: é mais fácil conseguir adormecer com essa ideia do que com uma bomba munida de mecanismos de relojoaria.

- Não! Não consegues fazer-me acreditar que estás resignado a esse grande roubo! - protestou o cirurgião. - Deixa-nos alguns anos de armazenagem e poderemos acumular a energia, atómica ou não, que nos permitirá salvar as nossas vidas. E curar as nossas doenças, para mais...

- Essa não engulo eu! - declarou Easton. - E tu também não. A coisa de que o homem menos necessita, nestes dias, é da panaceia universal!...

- Não achas que estás a tornar-te um pouco profundo, se atendermos ao modo como ganhamos a vida?

O patologista esboçou um sorriso, em volta da pequena claridade estável do cigarro.

- Lá em baixo, com Otto e os cadáveres, ainda se tem tempo para pensar! Demasiado tempo, acho eu. Mas, se insistisses um pouco, era capaz de dizer-te o que anda mal no mundo.

Andrew Gray não sorriu. As opiniões de Dale Easton não eram dignas de menor apreço que as suas autópsias.

- Enquanto for um segredo entre nós dois - respondeu.

- Em primeiro lugar, deixámos escapar a máquina declarou Dale. - Em segundo, a maior parte de nós está-se a marimbar para isso. Em terceiro lugar, hoje em dia, a máquina apoderou-se de tal forma de nós, que, se tentássemos novamente tomar o posto de comando, quebraríamos os ossos. Até aqui, concordas?

- Quererás por acaso pedir ao bruto do aço que dê uma reviravolta e adore o homem.

- Digo que, pelo menos, deveria curvar-se e aceitar as nossas ordens. Mas porque havia de escutá-las? Coisa mais grave ainda: porque havia o homem médio, o meu semelhante, o meu próximo, de desejar que as aceite? No sítio onde está sentado, se por acaso está no lado bom do Atlântico, a vida nunca foi mais fácil, nem mais proveitosa...

- Apesar dos enormes títulos sobre várias colunas?

- Apesar disso. Quem lhe presta a mínima atenção? Os grandes títulos sensacionais, hoje em dia, depois que se tornaram quotidianos, já não causam sensação. A maioria de nós viveu durante tanto tempo em companhia da fatalidade que acredita agora tanto nela como no Pai Natal. Mostra ao americano médio a primeira página do jornal de hoje: sem sequer a olhar, irá direito à rubrica de basebol. Não quero de forma alguma menosprezar os meus concidadãos nem as vantagens do desporto: ninguém pode viver indefinidamente na intimidade da fatalidade sem acabar por pretender que não existe!... Lembra-te como reagimos à “bomba” de Pete Collins acerca de uma bomba-relógio. Para nosso próprio equilíbrio mental, poderíamos ter agido de outro modo?

- E tornas a máquina responsável disso?

- E tu achas que não merece essa censura? Para já não falar no “camelo” que a fabricou!... Porque havíamos de ficar de braços cruzados a vê-la trabalhar para nós... sim, e até pensar por nós? E porque havíamos de esperar que seja demasiado tarde para corarmos desta nossa submissão?

- Lá porque inventaram um cérebro mecânico encarregado de calcular o nosso imposto sobre rendimentos, não é razão suficiente para que deixemos de trabalhar.

- Garanto-te que não vejo melhor razão. Graças à cibernética, conseguiu-se transformar a ameaça da máquina a vapor e da ceifadora mecânica numa espécie de pesadelo surrealista... Um monstro gaguejante que Dali seria capaz de imortalizar na tela...

- Acabas de dizer que os monstros gaguejantes e açulados deixavam à humanidade mais tempo para aproveitar a sua existência.

- A humanidade está hipnotizada pelo monstro! Julga simplesmente que se diverte. E dentro de si própria nunca esteve mais vazia! E nunca, desde que ergueu as falanges do solo, esteve mais assustada.

Andy estudou atentamente o rosto de Easton: por detrás dos óculos de aros grossos, os olhos rebrilhavam-lhe na penumbra.

- Se o caso da humanidade é desesperado a esse ponto, o que é que te faz estar sempre tão alegre?

- Pessoalmente, sou um optimista incurável. Só quando penso no homem em massa, começo a berrar.

- O homem cometeu outros erros, atravessou outras crises e, contudo, sobreviveu.

- Porque dependia das suas próprias forças. E não de uma mise en marche que se faz com o auxílio de um botão. Onde está hoje o seu orgulho em ser humano?

- Ora vejamos: não estás a partir do princípio que, de cada vez que uma máquina realiza o que só o homem antigamente podia fazer, este se encontra diminuído na mesma proporção, pois não?

- Queres que te cite a observação de Thoreau relativa aos caminhos-de-ferro, para falar apenas de um “benefício” outorgado à humanidade?

- Eu também li o Sage of Walden Dale. Não se trata de olhar para lá da cortina de fumo... e descobrir que apenas alguns são transportados e outros esmagados?

- Não me digas que concordas. Esperava uma discussão.

- Concordo contigo até certo ponto: admito que a máquina, de um modo geral, traz mais poder e abundância do que felicidade. Demasiado frequente, o poder é colocado em mãos indignas e a abundância tão mal repartida que a guerra se torna quase inevitável. O russo médio rosnaria baixo se presentemente estivesse tão bem alimentado como o americano médio? E toda essa história da autodestruição humana duraria mais um dia se o homem médio tivesse a certeza de comer mais substancialmente amanhã?

- Não me deste uma resposta - observou Dale.

Andy enviou uma baforada de fumo para as estrelas, que brilhavam sobre Manhattan.

- Há um ponto em que concordo contigo... O homem deseja realmente a panaceia universal... mas esta tem de vir de dentro. Talvez venha a descobrir que lhe será preciso transpor o seu próprio limiar e mergulhar dentro de si próprio para a descobrir no fundo do seu ser. Admito inteiramente que o nível médio de vida deve fornecer mais esforço individual antes de a espécie poder realmente melhorar... Antes de podermos dar ordens à máquina, devemos tornar a descobrir e a reconquistar o nosso orgulho. E admito ainda que esta nova descoberta e reconquista se tornam mais difíceis por cada ano que passa...

- Não perdeste a fé?

- Nem por um instante. E tu?

- Às vezes - confessou Dale. - A minha própria confissão assusta-me mais do que tudo. Nós somos escravos dos acessórios, das descobertas e dos novos inventos. Há apenas alguns anos, o praticante de medicina geral teria suado sangue e água para arrancar um só doente à pneumonia. Hoje, receita penicilina e vira-lhe as costas...

- Há sempre mais doentes do que médicos.

- Isso não faz diferença. Um médico não pode arriscar-se a perder o seu orgulho, tal como um Smith ou um Jones desejosos de se estabelecerem em qualquer ramo! Toma ao acaso um interno... por exemplo, Tony Korff. Desde o início que tem por alvo um consultório e uma clientela na cidade. Geralmente com uma especialidade. O seu fim real é uma garagem para três carros e um casaco de visão para a mulher. Mesmo com os helicópteros, o médico de clínica geral será uma espécie extinta na próxima geração...

- Não afirmes isso tão inconsideradamente - murmurou Andrew Gray. - Tens agora um na tua frente.

- Tu és um cirurgião inato. E se não fosses um tipo que permanece voluntariamente no seu lugar, farias cinquenta mil dólares na cidade, tal como os grandes.

- Concordo que a cirurgia é a minha especialidade, mas não abandonei a minha matéria médica. Digo-te mais até: a partir do instante em que essa túnica do Exército deixar de me roçar os ombros, ponho-me a andar... e sem helicóptero. Se quiseres, levo-te para os meus bosques, mas, na minha opinião, és outro como eu.

- Não me digas que essas altas folhagens ficam na Florida?

- É a minha terra natal. Certamente. Que outra havia de ser? Alegra-me que te recordes que sou um ianque da Florida.

A cada sílaba pronunciada, Andy sentia diminuir o peso que lhe oprimia o coração.

- Uma cidade de que nunca ouviste falar, no golfo do México. Uma cidade de terebintina e de peixe-gato, que já antes da Guerra Civil se bastava a si própria e vive quase num circuito fechado. O meu irmão é o sacerdote da terra. Vamos construir uma clínica em cimento armado com uma igreja contígua. Ele cuidará das almas, ao passo que eu tratarei dos corpos. Trabalharemos juntos e é isso verdadeiramente o que importa. Os meus pequenos crescerão ali, à beira da água, entre verdadeiros homens.

- E ainda por cima morrerão de fome?

- Nesse canto da Florida, ninguém tem fome. A natureza vela por isso, mesmo à soleira da porta.

- Referia-me à fome emotiva e intelectual.

- Outra vez enganado, Dale. Bem vês, sempre desejei adquirir uma verdadeira cultura. Não tive tempo como tu de consegui-lo no colégio; nem sequer tinha pais que me ajudassem e, por conseguinte, precisei de optar pelo caminho mais rápido. Tive de lutar muito para conseguir o meu diploma e ser interno num mínimo de tempo. Presentemente, a minha ambição é aprender a tornar-me um homem. Um ser humano que, por exemplo, me fizesse sentir feliz e tivesse orgulho em conhecer e não simplesmente um instrumento científico.

- Talvez tenhas resumido em ti próprio a nossa discussão.

- Talvez. Nunca ninguém sabe do que é capaz antes de ter experimentado.

- Podes dizer até que é esse o único segredo da felicidade... sentir orgulho não no que se tem, mas no que se é. - O patologista lançou fora para qualquer ponto exterior do escuro o resto do cigarro. - Entre parêntesis, esse sonho está em vias de realização?

- Muito longe disso! Creio que é a primeira vez que o enuncio em voz alta.

com um pontapé, abriu a porta, mas, desta vez, em direcção ao hospital, e tomaram a entrar, baixando naturalmente a voz pela força do hábito.

- Talvez o ponha de parte já amanhã. Talvez até passe para o alto da cidade quando o hospital se mudar e me filie na Associação de Park Avenue.

- com ou sem Pat Reed?

Andy franziu o sobrolho, consultou o relógio de pulso e depois respondeu:

- Ah! Ouviste então dizer que eu tinha a garantia necessária, que a teria mal a quisesse. Perguntava a mim mesmo quanto tempo a história levaria a espalhar-se!

- Vais agora visitar a tua bela enferma?

- Depois de ter terminado a minha visita de inspecção. Como residente, não posso deixar de fazê-lo.

- E eu tenho de ir para esse “queimado”... Apareces mais tarde?

- Se não ficar preso num sítio ou noutro, irei beber um copo de cerveja.

Apressando-se para as salas de cirurgia com o passo nervoso das pernas compridas, Andrew Gray tentava recalcar dentro de si um descontentamento que cada vez se tornava maior. Nunca tivera a intenção de formular os seus projectos e os seus sonhos. Agora, que o fizera, e com uma certa precisão, apercebia-se de que, mesmo aos olhos de Dale Easton, devia passar por um insensato. Uma dedicação à vida maior do que a si próprio nunca poderia ser explicada em termos estritamente práticos a outro ser humano. A busca de fortuna pela fortuna em si foi sempre um princípio americano; a garagem para três automóveis, o ponto culminante das aspirações americanas. Parecer até insinuar que a vida pudesse oferecer recompensas mais preciosas... sem qualquer automóvel... era pior que não-americano... Perguntou a si próprio o que Pat Reed diria se lhe oferecesse a felicidade de partilhar uma existência assim compreendida... e quase desatou a rir!

Não era altura para se lembrar de Pat, nem tão-pouco dos atractivos de Pat, demasiado terrenos. “Até aqui”, pensava, “consegui manter os seus atractivos à distância... à distância de um braço... Se ainda o conseguir esta noite, é pouco provável que teime nesse jogo da caçadora e da presa...”

Ao imaginar o que o esperava no apartamento de Schuyler Tower, sentiu o coração bater violentamente.

Depois disso, por mais que tentasse, não conseguia evocar pormenorizadamente os pinhais da Florida. O murmúrio metálico das palmas ao vento, os tons fortes de cobalto do mar, para lá da varanda do irmão, tornavam-se acessórios de teatro para algum mistério moral impossível... tão irreais como se figurassem reproduzidos a cores numa estampa de alguma enciclopédia.

Passou à sala de cirurgia reservada aos homens e pegou na primeira papeleta. Esse gesto foi suficiente para fazer-lhe esquecer todas as perplexidades.

“Irei para o ano que vem”, prometeu a si próprio, “ou no ano seguinte, ainda que vá só. Entretanto, quem poderá dizer que não sou aqui preciso?”

Os doentes, adormecidos nas compridas filas de camas, estavam tão sossegados que, à primeira vista, tinha-se a impressão de estar entre mortos. Andy percorreu cada fila, verificando a papeleta de cada leito, escutando com ouvido entendido o respirar de algum paciente ainda demasiado mergulhado na anestesia pós-operatória, para ele próprio saber se morrera ou vivia.

“Cancro da próstata”, observou Gray, maquinalmente. “Viverá graças ao nosso conhecimento das hormonas sexuais, porque nos chegou a tempo, às mãos, porque foi atacado a tempo e é até muito possível que saia desta cama completamente curado.”

O leito seguinte, já separado por um biombo do resto da enfermaria, contava silenciosamente a sua história. Pete Revelli, conhecido de uma geração inteira de internos sob o nome de Pete, o Barbeiro, que começara a sua vida como bootlegger de hospital e a terminara como maítre d’hotel de um restaurante famoso; Pete, o bom fornecedor, que estivera tão ocupado em obrigar os seus três filhos, fiéis cumpridores da lei, a fazerem os seus estudos na Universidade de Colúmbia, que não tivera tempo para pensar no estado da bexiga, que o levara nessa tarde à mesa de operações, uivando de dor e demasiado tarde para uma intervenção cirúrgica. Enquanto tornava a tapar suavemente o rosto de Pete, Andy murmurou uma oração por esse velho amigo, antes de assinar a certidão de óbito... “Ao menos”, pensava, “este morreu feliz, tendo sido um cidadão respeitável apesar dos seus começos bizarros, um pai modelo... Deixou no mundo um lugar melhor do que encontrou. Quantos de nós podemos dizer o mesmo?”

Ao dirigir-se para a ala particular, deteve-se por um momento, numa pequena divisão ao fundo do corredor, para verificar o estado do seu doente particular. O rapazinho, deitado na cama de hospital, parecia ainda mais pequeno no meio desse deserto de brancura. O tom azulado da pele mostrava-se muito pronunciado sob a claridade do candeeiro colocado à cabeceira do leito. De pé, ao lado de Gray, a enfermeira informou em voz baixa:

- Acabámos de dar-lhe oxigénio, senhor doutor. Está agora a repousar tranquilamente.

Automaticamente, Andy dirigiu-se à tenda de oxigénio que ainda se encontrava no quarto.

- Conserve-a à mão, para o caso de... E, se houver alguma mudança antes da manhã, chame-me...

Demorou-se ainda, durante um longo momento, à beira da cama do pequeno. Desde que nascera, Jackie Simon fora o que em linguagem popular se chama uma “criança azul” e, contudo, como muitas crianças, semelhantemente afectadas, achara meio de sobreviver até aos seis anos. Agora, parecia realmente demasiado frágil para um habitante deste mundo.

Andy continuou a examinar a papelada pendurada no leito, quadro cilíndrico que lhe era tão claro como uma página do tratado de cirurgia. Quando Jackie ainda não passava de um feixe de células nas entranhas maternas, alguma coisa se soltara do cacho que havia de formar o coração e os vasos sanguíneos imediatamente comunicantes, e, em consequência disso, Jackie sofria do coração, vítima como era do desenvolvimento defeituoso que os médicos classificavam de tetralogia de Fallot.

Criança dos subúrbios da cidade, Jackie era “diferente” sob muitos outros aspectos. Seu pai era uma espécie de músico; sua mãe, mestre-escola tornada inválida demasiado cedo para poder obter a reforma. Desde tenra idade, Jackie evidenciara dons talentosos no domínio paterno: quando o desastre o atacara, já os pais tinham amealhado, pouco a pouco, algum dinheiro e continuavam ainda a fazê-lo, no limite das suas possibilidades, para lhe permitirem o acesso à carreira para a qual parecia predestinado. Nenhum deles se apercebera do verdadeiro estado da criança, até o momento em que, chegada a Primavera, estivera prestes a morrer com uma pneumonia. Logo no primeiro dia da sua presença na sala, o Dr. Gray, ao notar-lhe a coloração azulada da pele fizera o seu diagnóstico, já confirmado por exames posteriores, e oferecera o único meio possível de cura. Graças aos trabalhos dos pioneiros da Universidade Hopkins, o mal de Jackie podia ser curado pelo bisturi, embora se tratasse de uma operação que ainda poucos cirurgiões se atrevessem a realizar. com o consentimento dos pais, Andrew aventurar-se-ia a essa operação, no dia seguinte.

Não escondia a si próprio que se trataria de uma tarefa arriscada e minuciosa, mas era precisamente dessas tarefas que gostava. Um jogo de azar que, a bem dizer, não eravum jogo de azar, pois a vida de Jackie estava irremediavelmente perdida se o coração não fosse posto a funcionar normalmente. Aí, pelo menos, o duelo entre a morte e a vida apresentava-se claramente e a recompensa merecia que se aceitasse o desafio.

Quando saiu do quarto, a calma já lhe voltara. Era o momento de todo o dia que preferia... um panorama de que só ele podia fruir, sem ter que desculpar-se perante alguém da emoção que experimentava quando, considerando o seu trabalho, o achava bom. Mesmo a rapariga da sala de ginecologia a quem na véspera salvara a vida, graças a uma histerectomia que a livrara da infecção subsequente a um... Até o candidato a suicídio a quem ligara em cada um dos pulsos, por entre um feixe de nervos e de tendões, a artéria cortada... Sim, era, verdadeiramente, um mundo estranho e rico, cujo interesse, sempre diferente, era inesgotável; um mundo tão vasto como a própria vida, com as suas paixões e torpezas, as suas alegrias tão vivas e tão difíceis de suportar como os seus desgostos... Tinha-o entranhado no sangue, era uma parte do seu próprio ser e não poderiam arrancar-lho sem, ao mesmo tempo, lhe arrancarem a sua principal razão de existir...

Sem se aperceber, achou-se à saída de um ascensor, no último andar da Schuyler Tower, nesse recanto de apartamentos particulares, com terraços admiravelmente expostos... Sabendo que, dentro de alguns instantes, os seus pés franqueariam o limiar de Pat Reed, tratou de demorar-se um pouco no alpendre todo envidraçado de onde se desfrutava uma vista extasiante de East River e da cidade cinzenta adormecida em baixo.

Permaneceu alguns instantes a contemplar as raras luzes ainda acesas nas casas operárias do norte e do leste e recuou instintivamente quando ouviu no corredor um roçar de rodas de borracha. A poltrona do padre O’Leary em breve apareceu à vista, com o ancião, meio adormecido, nas profundezas de vime entrançado. Andy precisou apenas de um olhar para identificar a silhueta branca que fornecia a “força motriz”. Era bem próprio de Júlia certificar-se de que o capelão do hospital iria descansar à hora devida.

“Mesmo na obscuridade”, pensou, “não nos podemos enganar quanto à sua pureza e à sua vocação.”

Sem nunca o ter perguntado a ninguém, sabia que Júlia Talbot nascera numa região de vastos horizontes, que era filha de uma terra feliz e que a deixara para seguir o destino da sua livre escolha. Desde a primeira vez que os seus atalhos, ali mesmo, se tinham cruzado um com o outro, sentira a profundidade dessa vocação.

“Um Nightingale”, pensara, “ainda com penugem nas asas... Nenhum homem, sob pretexto algum, tinha o direito de divertir-se com uma tal inocência...”

Nenhum homem, repetira a si próprio com convicção. Coisa curiosa: quase todos os homens que tinham conhecido Júlia Talbot, durante os seus anos de hospital, tinham recebido a mesma impressão. A residência das enfermeiras constituíra sempre um alegre terreno de caça, tanto para o pessoal médico como para os doentes. Segundo as ideias normais ou, pelo menos, habituais, uma rapariga tão bonita como Júlia Talbot poderia ter feito a sua escolha entre os médicos e entre os convalescentes... com ou sem a perspectiva de casamento. Contudo, continuara a sua rota serenamente, tanto como estagiária como depois de ter recebido a touca. O seu futuro parecia já delineado pelos mesmos moldes da vida de Emily Sloane.

Seria esse realmente um resultado lógico para uma mulher? Andaria mal em tentar quebrar o muro de reserva em que se fechava a rapariga, em conseguir fazê-lo, antes do hospital a absorver definitivamente? Tendo a seu lado uma companheira como Júlia, poderia voltar para a sua terra sem recear o insucesso. Sem arranjar uma explicação, tinha a certeza de que Júlia compreenderia o seu sonho teimoso de uma vida passada à beira de água, numa terra sossegada; que, nessa luta insana para conseguir uma situação, um homem envelheceria antes de tempo, e que esse procedimento arrebatado seria capaz de levá-lo a procurar outras evasões... Pat Reed, por exemplo...

Júlia poderia salvá-lo de Pat, salvá-lo de tudo quanto implicasse um novo abandono a Pat, definitivo desta vez... Bastava estender-lhe a mão...

Sabendo que o não faria, que isso seria uma forma de capitulação superior às suas forças, acendeu um cigarro e chegou-se à janela estreita de onde se avistava o rio e as grandes pontes ao norte. Sobre Nova Iorque, pesava uma bruma de calor, um calor pesado, viscoso, cheio de promessa de uma chuva que não caía. A noite era como um animal, como um animal prestes a saltar, como um animal que esperasse o momento de arrancar-lhe da alma os últimos escrúpulos.

Nesse instante, sentiu que nunca seria capaz de retroceder pelo caminho poeirento que percorrera. Tal como os da sua geração, não regressaria à sua terra, por muita que fosse a volubilidade de que se servisse para explicar os seus projectos de regresso. Nesse caminho, barrando-lhe a passagem, atravessavam-se demasiadas esperanças desiludidas, demasiada amargura. E, se se quisesse encarar a verdade bem de frente, era forçoso reconhecer uma ambição demasiada para se elevar acima da pobreza que, desde o início, o acompanhara.

Exactamente por cima da sua cabeça, o relógio bateu dez e meia e esse som amortecido pareceu-lhe fazer parte do pulsar do coração de East Side General.

Mais longe, no corredor, a algumas dezenas de metros de distância, Pat Reed deveria estar acordada, enroscada sobre si mesma, no leito de pernas altas, esperando a sua chegada com a certeza confiante de que o faria antes de adormecer; com a certeza confiante também de que, dessa vez, conseguiria constrangê-lo a uma confissão que não lhe era possível adiar por mais tempo... uma confissão à qual já não poderia escapar...

Ter-se-ia apegado à ideia dessa evasão para a Florida como a um antídoto para a longa sedução de Pat? Teria cumulado Júlia Talbot de qualidades e de virtudes imerecidas para contrabalançar Pat Reed e os seus milhões? Os seus lábios distenderam-se num sorriso que os amigos conheciam perfeitamente... uma careta que era mais do que cinismo, que admitia silenciosamente que a carne e o espírito do homem são fracos e que a mulher é um recipiente de fraqueza e de tentação...

Júlia Talbot escolheria o seu marido, na devida altura, quando a penugem tivesse dado lugar às penas sólidas da maturidade. Quanto a ele, graças a Deus, poderia conservar a sua própria integridade enquanto a sua mão fosse capaz de manejar um bisturi. E, quanto às ovelhas da paróquia do irmão - tanto pior para elas! - continuariam a morrer de anquilostomíase e de lepra. É para morrer assim que nascem os pobres diabos.

“A vida”, pensava, “é uma erva. Crescerá muito bem sem mim e sejam quais forem os holocaustos que possam devastar o mundo. Entretanto, sou o cirurgião-residente do East Side General e tenho ainda uma doente à espera da minha visita.”

Já os pés o conduziam pelo corredor e o faziam passar pelo sorriso respeitoso da enfermeira-estagiária. Uma pesada maçaneta de bronze brilhava na porta de Pat. Os seus olhos pousaram-se mecanicamente na manga de coiro que impedia que a porta se fechasse completamente. “É uma medida de segurança que me bastará, esta noite!”, pensou com solenidade.

O rádio de Pat ronronava docemente.

Sem bater, empurrou a porta e entrou com passo decidido.

 

O Dr. Martin Ash pôs-se ao volante do seu descapotável e percorreu a curva do caminho cimentado do hospital. Já notara o polícia desconhecido que conversava placidamente com o guarda do portão; e, enquanto destravava e seguia o plano inclinado que levava até a rua, verificava a presença de outras silhuetas, vestidas de azul, que deambulavam discretamente na sombra, à direita e à esquerda da entrada. “Dir-se-ia que recebemos alguma celebridade!”, pensou, não sem um certo agastamento. “As celebridades não são a minha especialidade, são de Catherine...” Lembrou-se então que Hurlbut lhe prometera um cordão de vigilância, enquanto a segunda vítima continuasse a respirar. Quase fungou então de contentamento ao premir o mise en marche automático.

Como sempre, o ronco forte do Cadillac - um presente de Catherine pelos seus quarenta e seis anos - alegrou-lhe o coração. Era o murmúrio de um gigante despertando para a vida, pronto a satisfazer qualquer capricho, a levá-lo por baixo da cidade, através do Holland Tunnel, até a estrada de Nova Jérsia... e, depois disso, o que o impediria de ir dar finalmente essa volta até as Rockies que, desde a adolescência, prometia a si próprio realizar... em vez de ir ao alto de Nova Iorque e ao Waldorf, onde no vasto salão de baile, sua mulher presidia a uma festa de caridade?

A tentação abandonou-o quando, chegado à rua, abrandou a marcha e parou para dar boas-noites ao porteiro. Contudo, mal se encontrou no piso da rua, não virou para o norte, mas sim para o sul, seguiu ao longo da parede húmida da cervejaria, virou uma vez mais para o sul e meteu por uma rua bafienta, meio beco, meio pátio, entre casas de habitação cheias de gente, barulhentas, que se abriam de cada lado. A rua estava invadida por carrinhos de mão chiantes, cheia de falas roucas e variadas, imunda devido aos caixotes de lixo ainda cheios, colocados desde manhã, sobre os passeios, empestada por emanações do bortsch da semana anterior... e transbordante de juventude ruidosa, tumultuosa e gritante que as habitações despejavam sobre os passeios. Apesar da hora avançada, todo esse recanto fervilhava de vida, de humanidade, em grupos e em cachos, e cabeças tagarelas floreavam todas as janelas.

Martin insinuou-se entre dois carros de mão; em pleno meio de uma querela, arrumou o comprido automóvel, retribuiu a saudação das vendedeiras, provisoriamente acalmadas, e começou a subir até ao único lar de toda a sua vida.

- Eh! Doutor! Como está?

Saudou o pequeno alfaiate que o chamava da sua lojeca situada na cave, e perguntou-se se Rifkin calcularia o preço do seu fato. Não queria isso dizer que o médico e o seu fato fossem desconhecidos na vizinhança! Qualquer que fosse a hora a que Martin Ash saísse do hospital, nunca ia para casa sem primeiramente ir beijar os pais.

Enquanto subia a escada rangente, toda a sua infância o rodeou com os sons e odores traiçoeiros dos outros tempos; toda a algazarra da velha caserna, como um coração gigante que nunca conhecera o sono e o cheiro quente da pobreza, como um miasma que reclamasse com raiva a sua provisão de vítimas.

No patamar seguinte, parou para tomar fôlego, e todas essas lembranças o invadiram sem as solicitar... Naquela noite distante em que subira a correr, aterrorizado pelo sabor quente do sangue no lábio cortado... o embate do soco na cara... e os braços protectores do pai envolvendo-o com ternura quando finalmente chegava ao santuário...

- Papá, ele chamou-me judeu imundo!

- Calma, Martin! Todo o prédio vai ouvir-te!

Nem por isso soluçara menos, enquanto a mãe lhe aplicava sobre o lábio parches húmidos e frios e vituperava o agressor numa linguagem que era mais familiar aos três do que o inglês que ele aprendia na escola.

- Quem foi, Martin?

- Pat Donegan. Atirei-o ao chão. E é muito maior do que eu!...

A voz do pai era calma e doce:

- Não deves jogar à pancada, meu filho!

- Mas ele chamou-me judeu imundo, papá!

- O que é judeu imundo, Martin? Duas palavras, duas únicas palavras, nada mais. Sabes porque as empregou? Sabes Porque te bateu?

- Detesta-me. Todos me detestam. Ah, quanto não daria eu para não ter nascido judeu!...

Martin Ashoff pai erguera a cabeça com toda a solenidade de um profeta pronunciando um juízo:

- Não sabes o que acabas de dizer, meu filho. Estás magoado e aterrorizado, não é? E, quando os homens estão aterrorizados e magoados, fazem e dizem coisas que não sentem. Foi por isso que o pequeno Donegan te bateu, foi por isso que empregou essas palavras. Ele também tem medo de alguma coisa e descarregou os nervos em cima de ti...

- Já não torna a bater-me, papá!

Naquele mesmo instante, lembrava-se que os seus soluços, acalmados pelo orgulho, tinham parado magicamente.

- Sofrerás outros golpes, Marty, muitos outros. Deves aprender a suportá-los. Será mais fácil se atirares para as costas os teus próprios receios. E, acima de tudo, deves aprender a ter orgulho na tua raça. Recorda-te que o Altíssimo fez um acordo com seu pai, o pai da tua raça, Abraão... E esse contrato nunca foi anunciado. Um judeu é sempre um judeu. Onde quer que se encontre, o contrato acompanha-o, vai com ele, é o seu escudo e o seu orgulho...

O Dr. Martin Ash, a caminho do patamar seguinte, ouvia de novo essas palavras. Tinham ficado gravadas no seu íntimo desde esse dia; tinham-no acompanhado em City College, de Nova Iorque, na Faculdade de Medicina e, depois, com as mortificações e maus acolhimentos por que passara durante o seu internato; até mesmo durante aquelas primeiras jornadas abomináveis, em que a família de Catherine travava a sua áspera batalha na esperança de desfazer o noivado e, depois, de desfazer o próprio casamento. Mas nem uma só vez corara por ser judeu. Não experimentava qualquer vergonha, nessa noite, ao empurrar a porta da casa onde seus pais viviam; apenas um orgulho tranquilo.

Ali estava seu pai, à sua frente, com o solidéu negro na cabeça, com um xaile passado em volta dos ombros, apesar do calor que reinava lá fora. Como sempre, Martin Aschoff, com o rádio tocando em surdina próximo do ouvido. Quase cego pelas cataratas, ainda pouco maduras para o escalpelo, o ancião diferençava apenas a claridade da escuridão, embora os seus dedos hábeis e sempre treinados pudessem tocar sem hesitações as suas árias preferidas, esboçar as sinfonias que amava.

- Viva, Martin! Hoje vens tarde!

- Viva, papá!

O director de East Side General inclinou-se sobre a poltrona para beijar a fronte enrugada do pai. Sua mãe já saíra da pequena cozinha com os dois braços estendidos na sua direcção. Pouco importava a frequência das suas visitas; oferecia-lhe sempre as mesmas boas-vindas, o abraço que espera o viajante que regressa de terras longínquas. Nessa noite, contudo, afastou-o dela e manteve-o a distância para admirar-lhe o trajo de cerimónia.

O rosto de Rebeca exprimia verdadeira preocupação.

- Já vais atrasado para a festa de Catherine...

- É apenas um baile de caridade, mãe. Pode muito bem continuar sem mim.

- Mas Catherine não continuará muito bem sem ti, meu filho. Necessita da tua presença junto dela. Agora mesmo.

- Já ia a caminho, mãe. Parei apenas por um instante, para ver como estavam ambos.

- Que tontinho! Como se tivéssemos fugido!

Mas o tom de voz de sua mãe atraiçoava-a. Como igualmente atraiçoava o pai a lenta pressão de mão que exercia sobre a sua. Os Aschoff tinham-se habituado àquelas visitas de todas as noites e já contavam com elas, sem, contudo, ousarem confessá-lo; se ele, nessa noite, se tivesse esquecido de por lá passar, teriam ficado aflitos e magoados. De resto, para eles, o filho representava quase o único elo com o mundo exterior e com a cidade trepidante cujas luzes longínquas coloriam de rosa o horizonte da noite.

- Que música é esta, pai?

- Ach Martin! Depois de tudo quanto te tenho dito, ainda não és capaz de reconhecer Beethoven?

- Certamente que sim. O Luar...

- Que vergonha, Martin! - Martin pai ria nas suas barbas. Era uma graça, tornada clássica na família, assinalar a falta de ouvido e de memória musical do director de East Side General. - Um dia em que tivermos mais tempo, ouviremos juntos as sinfonias...

- Ah, papá! Quem me dera! Ultimamente não tenho tido tempo para nada a não ser para o hospital.

“Nem sequer para Catherine!” E confessou a si próprio que ali fora propositadamente para demorar o seu encontro... Permaneceu, durante um longo momento, ao lado do pai, escutando com ele a profusão de harmonia cheia de paixão doce-amarga do compositor.

- Este homem também conheceu o desespero - disse finalmente, mal se apercebendo de que exprimira o seu pensamento em voz alta.

Desespero perante essa formidável capacidade que caracteriza a humanidade de desdenhar ou até de ignorar o génio. Raiva contra esse mesmo imbecil, o mundo, traduzida numa melodia que sobreviveria ao mundo, que sobreviveria ao país aonde fora criada.

“A minha raiva”, pensava Martin Ash, “apenas pode esgotar as suas forças e debater-se obscuramente contra as paredes de pedra que a aprisionam...” A voz de sua mãe interrompeu o decurso dos seus pensamentos:

- Vem cá ver à cozinha, Martin. Vem ver o que Catherine me mandou. Uma máquina para lavar a loiça!

A cozinha era integralmente moderna. Martin providenciara nesse sentido, vários anos antes. Nessa noite, brilhava com um esplendor ainda mais vivo do que habitualmente - desde o fogão eléctrico até ao duplo lava-louças de porcelana. Ao lado da sólida massa branca do frigorífico estava uma máquina automática para lavar a loiça, o presente mais recente de Catherine. Martin examinava-a e sentia dissolver-se um pouco o seu ressentimento. O afecto de Catherine por seus pais não era novidade nenhuma e não constituía segredo para ninguém. Seria isso talvez a sua última tentativa de corrupção - uma tentativa para diminuir as suas objecções não formuladas à transferência do hospital para a cidade?

- Já te serviste dela, mãe?

Voltando com ele para o minúsculo salão, ela olhou-o com um sorriso quase travesso. Ambos sabiam que a dispendiosa máquina nunca chegaria a servir, a menos que Catherine estivesse presente e, nesse caso, unicamente para não a magoar. No credo pessoal de Rebeca Aschoff, a alimentação fazia parte do amor que se dedicava à família. Servi-la era um privilégio e nunca um aborrecimento. Não se apanhavam as migalhas e os restos de amor para atirá-los para dentro da bocarra escancarada de um monstro ávido.

- Catherine esteve a contar-me - prosseguiu tranquilamente a mãe - como o novo hospital será belo depois de construído. Tens nela uma mulher notável, Martin... - Mas subitamente a sua voz calou-se e não enfrentou firmemente os olhos do filho: - Vais fazer-nos falta!...

Sobrepondo-se aos últimos acordes que se extinguiam, a voz do pai fez-se ouvir, por sua vez:

- Já não estamos no ghetto, Rebeca. Não há nenhuma lei americana que obrigue as famílias a viverem juntas. Martin tem a sua vida. Tem de vivê-la... assim...

- Mas, se for viver para a cidade...

- O nosso rapaz fará sempre o que mais lhe convier.

- O problema está precisamente aí, papá. - Ainda, nessa altura, Martin Ash mal se apercebeu de que falava em voz alta. - O que convém mais?

- O que te tornar mais feliz, meu filho.

- Mas Catherine...

Permitiu que o seu pensamento se desenvolvesse e adquirisse forma própria sem, contudo, traduzi-lo por palavras, por saber que seus pais o compreenderiam mesmo assim. Sua mulher nunca seria capaz de magoá-los conscientemente, nem por palavras nem por acções. À sua maneira, amava-os tanto como ele próprio, embora não os compreendesse. Para ela seriam sempre um vulgar casal de velhotes judeus cujos melhores anos pertenciam ao passado e cujo futuro não comportava outra aventura que não fosse a morte. Por muito que se esforçasse, nunca conseguiria vê-los como ele próprio, nem compreender a necessidade que tinham da proximidade do filho.

- Catherine é tua mulher - murmurou o ancião. - O que ela faz é o que julga ser melhor para ti. Mas, se ela souber que não serás feliz de outra maneira, far-te-á a vontade.

- Ach! Martin! - exclamou a mãe. - Ela é tua mulher. E, se esta noite dá um baile, fá-lo em tua honra. O teu dever é ir para junto dela. Agora mesmo.

Tornou a descer as escadas sem ter achado resposta para o seu problema. A resposta estava ali, esperava-o nas profundezas da sua alma, e ele receava encará-la. Receava admitir, ainda que por um só instante, que estava agora, neste mundo, do mesmo lado que Catherine... Se ela souber que não será feliz de outra maneira, far-te-á a vontade... Como lhe seria possível exprimir em palavras a sua angústia, quando havia já vinte anos que Catherine era o próprio símbolo da sua felicidade?

Trabalhando como uma boa esposa, de dentro para fora, do fundo do coração, fizera dele o homem que agora era. O Marty Aschoff de outrora não passava de um fantasma, de uma ficção nascida da ternura de seus pais, e que só existia nos seus momentos de reunião, nesses momentos roubados. Martin Ash era ele próprio, a sua própria pessoa, e merecia o que havia de melhor porque trabalhara e ganhara o que havia de melhor.

Desequilibrou-se, como sempre, no último degrau, e, como sempre, enviou àquela parte o proprietário que, desde o começo dos tempos, negligenciava mandar arranjar aquela tábua oscilante. O seu Cadillac descapotável estava ali, metido entre as duas carroças, cujas proprietárias ainda não tinham acabado de discutir uma com a outra... Sorriu ao círculo solene dos rapazes do bairro que o rodeavam sem ousarem aproximar-se de forma a poderem tocar nos guarda-lamas reluzentes. Se algum desconhecido tivesse tido a audácia de estacionar naquele sítio, toda a petizada desse grupo de prédios ter-se-ia abatido num instante sobre o carro para lhe arrancar o maior número possível de “recordações”. O Cadillac do Dr. Ash era outra coisa. O Dr. Ash era uma legenda que todos os habitantes desse bairro respeitavam por instinto... e que de todo o coração desejavam igualar.

No fim de contas, talvez Marty Aschoff não fosse um fantasma. Talvez fosse ele que, de todo o coração, também, desejava instalar-se num gabinete de trabalho, mesmo no alto desse arranha-céu, no meio do ar puro de Manhattan; ler a palavra Director por cima da porta da antecâmara; sentir à sua volta o respeito e a inveja - sobretudo a inveja! - dos médicos de Park Avenue... que, todavia, não deixariam de mortificá-lo, de humilhá-lo... se o ousassem! Os médicos cujos nomes figuravam na Vida Mundana e cujos antepassados, cuidadosamente postos de lado, como fatos de Inverno anterior, repousavam sossegadamente, praticamente divinizados, em calmos cemitérios coloniais.

Suspirou e a rua sórdida devolveu-lhe o suspiro como um corpo exausto que sabe que nunca mais terá repouso. Quando o pavimento do subúrbio começou a deslizar-lhe sob as rodas, ergueu o olhar, como sempre fazia, para o milagre da Schuyler Tower, subindo muito direita para o céu, semelhante a um grande jacto de fogo branco, mesmo no extremo da rua... E o Dr. Martin Ash sentiu uma lágrima formar-se-lhe ao canto dos olhos.

O carro seguia já sob o impulso automático. Não ergueu o olhar ao passar por diante da porta de serviço do hospital. Depois, descendo a rampa particular, penetrou na circulação de East River Drive, a fim de ser fiel ao encontro marcado com a mulher que amava, num mundo onde seria sempre um estranho.

 

À hora de Beethoven, quase a terminar, começara o último andamento de O Imperador. Lá no cimo da Schuyler Tower, no apartamento ocupado, já há uma semana, por Pat Reed, os acordes escoavam-se do dispendioso aparelho de rádio portátil que Pat trouxera consigo para suavizar a sua cura de repouso. A rapariga alta, estendida na cama, absorvia a música por todos os seus poros, saboreando as sonorosas harmonias finais como saboreava a presença do Dr. Andrew Gray, nesse momento ocupado a aplicar o cone do seu estetoscópio no vale suave que passava por entre os seus seios...

“Ele também se lembra!”, pensava ela, exultando. “O seu franzir de sobrolho não me engana nem por um instante; nem tão-pouco esse discurso idiota a respeito de dieta e de temperatura. Esta visita profissional tardia e este exame inútil não passam de rotina... É bem próprio dele fazer-se acompanhar de uma enfermeira, para conseguir assim uma fácil defesa, para o caso de, uma vez mais, decidir bater em retirada...”

- Continue o tratamento sem modificações, Miss Eccles. Creio que será o bastante.

Enquanto a enfermeira saía do raio de luz do candeeiro da cabeceira, Pat Reed inquiriu docemente:

- Viverei, doutor?

Ele sabia muito bem por que razão ela ali estava e de que remédio carecia realmente. Ela sabia, por seu lado, que, sob o estetoscópio, ele lhe notara um pulsar de coração, tão forte, firme e regular como seria para desejar.

“Por que”, espantava-se, “por que se retrai quando precisa tanto de mim, como eu dele?”

- Creio que sim, Miss Reed - respondeu gravemente. Tivera sempre o maior cuidado em observar a maior correcção diante do pessoal do hospital. - Evidentemente, a opinião do Dr, Plant tem mais peso do que a minha.

Plant era o médico particular de Pat Reed, um dos primeiros “internos” de Nova Iorque. Fora Plant quem “sugerira” a sua instalação na Schuyler Tower para “a cura de repouso de que carecia desesperadamente”. A fórmula era dela e não de Plant. Neste século, a maioria dos seres humanos tem uma necessidade desesperada de repouso e, todavia, bem raras são as pessoas que presentemente se podem oferecer esse luxo e, ainda para mais, nas condições desejadas.

De pálpebras descidas, esperava que Andrew e a enfermeira tivessem terminado a sua conferênciazinha, aos pés da cama. Até ali, esse jogo divertira-a. Começara, todavia, a achar que se estava a prolongar um pouco demasiadamente. A cama. Uma dieta severa. Calmantes. Um banho de sol de uma hora, todas as tardes. Exames pormenorizados, variados, múltiplos, para chegar mais uma vez à conclusão de que Patrícia Reed era um espécime físico perfeito, capaz de bater qualquer homem no seu próprio jogo e muito disposta a fazê-lo. Em suma, entregava-se assim a um subterfúgio complicado para dar a entender a Andy Gray que a existência sem ele lhe era insuportável, inadmissível .

Quando, desde o berço, fizemos sempre o que nos apeteceu, a situação de espera é dura, seja qual for o objecto por que se espera. E muito particularmente quando esse “objecto” é o pacote de preconceitos assente sobre duas patas que se diz um homem. Não tinha qualquer dúvida sobre a última capitulação de Gay; nenhum homem, que uma vez tivesse podido apreciar os seus favores, poderia deixar de tornar a procurá-los uma segunda. Sentia o coração pulsar precipitadamente ao recordar-se das duas semanas de paixão bravia e ternamente selvagem que tinham passado juntos em Havai. Fazia um dos seus intermináveis - e pouco repousantes - cruzeiros quando, com o segundo marido categoricamente plantado, ali em Reno, encontrara Andy, recentemente licenciado do seu serviço na Ásia, desmobilizado e desiludido, que, à primeira vista, parecia uma matéria demasiado bruta para dar um amante. Observando-o, sem o dar a perceber, através das pálpebras quase juntas, Pat rira à socapa: perita nesse assunto, aprendera, desde há muito tempo, a não julgar um livro pela capa.

Muito antes de ter podido cansar-se dele como de tantos outros, ordens superiores tinham-no chamado a São Francisco, onde os seus documentos de desmobilização definitiva tinham sido assinados. Sentira-se bastante perplexa com a ideia de que Gray experimentara uma certa satisfação com essa ocorrência, e, espicaçada no seu íntimo, mantivera com ele uma correspondência de vários anos; esperava, com fé e convicção, que abandonasse o hospital e voltasse de vez para junto de si. Essa paixão compartilhada flamejara, com um esplendor novo e breve, quando ele se lhe juntara em Quebeque, por ocasião de um festival de Inverno, e ainda durante umas curtas férias passadas nas Bermudas. Contudo, em nenhuma dessas ocasiões parecera considerar que o cuidar em distrair Pat Reed podia por si só constituir uma carreira.

Durante esses anos, Pat conhecera outros amantes, e até durante um Verão, em que vegetara por França, na esperança desiludida de que Andy ali se lhe fosse juntar, quase arranjara um terceiro marido. Contudo, nenhum deles se aproximara de Gray em intensidade, nenhum deles passara de uma diversão, enquanto esperava poder guardá-lo definitivamente, marcá-lo com o seu ferro.

“Marcá-lo”, pensava ela. Era um verbo bastante brutal, mas que descrevia bem o seu efeito sobre os homens que conhecera. com Andy, todavia, procederia mais suavemente; aplicar-lhe-ia o ferro com tanta prudência e habilidade que nem sequer chegaria a senti-lo. “ Que continue a exercer a ” sua cirurgia, já que se empenha tanto nisso.” Graças a ela, Pat Reed chegaria até a ver as suas capacidades reconhecidas como o mereciam... De qualquer forma, fosse qual fosse o aspecto sob o qual considerasse as coisas, o seu casamento com Andy Gray afigurava-se-lhe inteiramente desejável. Representava o apogeu, a conclusão normal de vinte e nove anos de vida trepidante.

Essa união traria também benefícios para Andy: a sua satisfação constituiria um contrapeso perfeito para a probidade intratável do homem e do médico. Não poderia deixar de levá-lo a dilatar e a enriquecer as suas perspectivas, ao mesmo tempo que o poliria, lhe amorteceria os ângulos e suavizaria os contornos. E, evidentemente, o seu dinheiro estaria sempre pronto para aplanar-lhe o caminho...

Abriu os olhos. A enfermeira encontrava-se de pé na entreabertura da porta e os seus lábios distendiam-se num leve sorriso familiar. Durante alguns segundos, Pat teve a convicção de que ele sairia atrás dela para o corredor... mas voltou para junto da cama e tomou nas mãos uma das suas.

- Já não é sem tempo! - observou ela.

- Inteiramente de acordo! Que está aqui a fazer, ao certo?

- Estou a repousar, por ordem do médico.

- Que temos aqui para oferecer-lhe e que deseje?

Pat lançou-lhe o sorriso de Gioconda, que tornava imediatamente lânguido o homem mais coriáceo.

- Por ora, não ando a fazer compras.

- Pelo contrário! Na minha opinião, anda a fazer compras, e de um modo bastante considerável: oitenta e nove dólares por dia, só pelo apartamento!

- Desde que trocámos estas poucas frases, já ganhei mais de oitenta e nove dólares!

- Você... ou as ganadarias do seu avô?

- Que importa isso?

- Na verdade, nada.

- Anda a procurar arranjar discussão por causa do meu avô, Andy? Acaso nos faltam assuntos de querela que nos sejam mais próximos, mais pessoais?

Ele tornara a virar-lhe as costas, mas já ela se agitava mais voluptuosamente nos lençóis e imitava um lagarto que estivesse a banhar-se ao sol.

- Mude de posto, sim? A esta hora, podemos ouvir Wayne King na B.B.C.

Obedientemente, Andy fez girar o ponteiro, fazendo calar os últimos acordes de Beethoven e deixando que o ritmo ultramoderno da orquestra de dança os substituísse. A partir de então, ficou do lado de fora do círculo de luz que rodeava o leito e, na penumbra, os traços atormentados do seu rosto tomaram um aspecto enigmático.

- Convite à Valsa - anunciou ele.

- O que você chama Convite à Valsa, chamava-se O Danúbio Azul, quando eu era rapariguita.

- Isso não impede que seja um convite - ripostou, rabugento - e uma valsa.

- E não impede que seja a nossa valsa - sublinhou Pat. - Ou também se esqueceu disso?

Permaneceram ambos silenciosos, enquanto a melodia acariciadora inundava o quarto com as suas harmonias menores. Pat, de olhos fechados, revia palmeiras ao luar, à volta do terraço do Royal Hawaian e duas formas tão enlaçadas que constituíam uma única silhueta balançando-se ao ritmo da dança. Saíam ambos de um banho da meia-noite e o ruído da ressaca sobre a praia chegava até eles. Lembrava-se dos seus cabelos soltos e do sabor a sal nos lábios que comprimiam os seus.

- Wayne King toca, esta noite, no Waldorf - disse ele. - No baile de caridade de Catherine Ash.

- Que nos importa isso, a si e a mim?

- Uma parábola - volveu ele tranquilamente. - Catherine e Martin Ash. Você e eu. Plus ca change, plus c’est Ia même chose. Rectifique se deve fazê-lo; o seu francês é melhor do que o meu.

- Porque havemos de nos parecer com Catherine e Martin?

- Neste momento, somos quatro da mesma espécie. E é exactamente por isso que mantenho as minhas distâncias.

Pat observou-o de olhos arregalados e, pela primeira vez nessa noite, o seu espanto era autêntico. Conhecia bastante bem Catherine Ash e considerava-a uma criatura bastante tola, mais dotada de bondade do que de discernimento. Em suma, uma fêmea que julgava poder comprar prestígio para o seu macho, integralmente judeu, tão naturalmente como outras fêmeas compram pérolas. Não quer dizer que Pat tivesse qualquer razão de queixa contra Martin, apesar de o seu perfil provir em linha recta do Antigo Testamento. Mas era verdadeiramente bastante grotesco da parte de Catherine imaginar que o dinheiro pode abrir todas as portas.

- Se você se compara, ainda que por um só momento, a Martin Ash...

- Você deseja casar comigo - explicou Andy numa voz melancólica. - Em cada três de cinco dias, também desejo o mesmo, apesar das suas condições. Se você não percebe como é que isso faz “quatro da mesma espécie”!... É capaz de afirmar que esse género de contrato conduz à felicidade?...

- Ainda não lhe ofereci qualquer contrato, Andy.

- Sim, é falta de modéstia da minha parte, bem sei. Mas que outro motivo poderia tê-la cá trazido?

- As ordens do doutor Plant - respondeu ela, trocista. Ou já não se lembra que é o meu médico assistente e que você é apenas o residente de East Side General?

Andy deixara-se ficar a uma distância segura do leito. Falou como se não tivesse ouvido a última e mordaz reflexão:

- Evidentemente... pode ser que sejam idealmente felizes... sem que eu o saiba...

- Está a pensar outra vez em Catherine e em Martin?

- Sem dúvida, provavelmente até sou antiquado... - continuou Andrew em voz baixa. - Mas julgo que um homem deve ganhar a sua própria felicidade. Até o fim.

“Hás-de ganhá-la bem, quando estivermos casados, garanto-to!”, respondeu ela silenciosamente. “Encarregar-me-ei disso, Gray, não te apoquentes!”

- Diga-me o que verdadeiramente deseja, Andy - pediu ela, em voz alta. - Deixe-me ajudá-lo a consegui-lo. Não é para isso que servem as esposas?

- Você fez-me feliz em tempos. Loucamente feliz. Desmedidamente. É muito natural que eu agora deseje ainda mais essa felicidade. Que homem seria capaz de não desejá-la?

- Também me fez feliz - murmurou ela, estendendo-lhe os braços.

Ele deu um passo rápido em frente e ela sentiu o triunfo palpitar-lhe na garganta como uma ave de rapina. Depois, apercebeu-se que, mesmo nesse instante, ele se mostrava desconfiado e circunspecto, pois parara à beira da cama e limitara-se a levar aos lábios uma das mãos oferecidas. “Tenho de ter cuidado!”, pensou ela.

Retendo a mão e apertando-a contra o seio, ela falou com uma vozinha infantil:

- É verdade que voltei por já não poder continuar afastada por mais tempo de si, Andy. Não é por essa mesma razão que esta noite você está aqui?

- Acho - respondeu ele - que devemos aclarar esta história. As enfermeiras e assistentes fazem aposta sobre o resultado final.

Ela encolheu os ombros:

- Inevitavelmente! Qual é a quota?

- Toda a gente espera que eu a ganhe... ou acaso será o contrário?

- Poderia ser mais galante - protestou ela.

Ele prosseguiu lentamente:

- Diga-me uma coisa, Pat: que posso eu dar-lhe... que já não tenhamos tido?...

Ela pôs-se a rir abertamente. Uma vez, certo psicanalista dissera-lhe que ela dominava “todos os seus homens”, amantes e maridos igualmente, por causa da sua “supercompensação”. O desejo ardente, nunca até então confessado, de encontrar um homem que, por sua vez, a transportasse, a arrebatasse. O analista, segundo ela depois descobriu, era um charlatão vítima de próprios impulsos espectaculares. Tinham de resto passado juntos uma semana inteira num apartamento de gelosias corridas do Carlton, em Cannes, uma semana sensacional, mas que não domara o “psiquismo” frenético da jovem mulher.

Acaso a sua vida terminaria com um episódio desse género... um hotel de luxo, com um homem cujo rosto nunca conseguiria relembrar claramente na memória? Passou vivamente os braços em volta do pescoço do cirurgião e beijou-o nos lábios. Não era um beijo de paixão... antes uma última oferta benevolente, com a capitulação no coração.

- Já se sabe que pode julgar que nunca assentarei...

Ele não lhe retribuiu o beijo, pelo menos, não completamente, mas levou muito tempo a retirar-se para a sombra que remava para além da mesinha-de-cabeceira. “Agora está quase pronto a acreditar-me”, pensou ela. “Sangue-frio, Pat, e não exageres a tua excitação.”

- Pergunta-me o que pode dar-me? Acima de tudo une raison d’être, a coisa que o meu dinheiro até aqui não me proporcionou. Um lar em vez de um cruzeiro. Um filho, se os quiser...

- Um filho, Pat!

- A maternidade deve ser uma aventura formidável!

A sua voz vibrava agora com sinceridade. Quase chegara a convencer-se de que esse quadro sintético da felicidade conjugal exprimia verdadeiramente as aspirações do seu coração. Imaginava o quarto das crianças, sem negligenciar o mínimo pormenor: na parede, um papel que contasse a história da “Mamã Gansa...” em desenhos originais, bem entendido, feitos por um bom pintor contemporâneo; uma parede inteira, além disso, reservada à televisão; um par de nurses, agradáveis, mas competentes, que fizessem reinar lá dentro uma ordem sempre impecável... Se o ocupante desse paraíso liliputiano ainda não se apresentara, poderia atirar a responsabilidade aos seus diversos companheiros de jogo.

com Andrew a seu lado e a carreira de Andrew como estrela e como alvo, poderia - estava certa - renascer ao mesmo tempo que nascesse seu filho.

Através desse nevoeiro de pensamentos, todos dirigidos para ela, que quase lhe fizera esquecer o seu fim inicial, a voz de Gray chegou-lhe aos ouvidos:

- Acha que darei um bom pai de família?

O instinto disse-lhe que se tratava agora de jogar a partida até final:

- Acaso estaria aqui, se não o acreditasse? - Depois, rapidamente, sem escolher as palavras: - Há alguma coisa mais inebriante do que fundar família e ajudar o marido a ser o que deve ser?

- É a mim que você quer... ou ao meu êxito?

- Ambos! - Continuava a improvisar: - Mas não acredito que uma mulher possa alguma vez possuí-lo espiritualmente. Está demasiadamente apaixonado pela cirurgia para que uma amante... ou uma esposa... se possa interpor no meio dos dois...

Deixou que a voz se distendesse progressivamente num tremor vibrante, tendo a noção do alcance das palavras proferidas. “Muitíssimas vezes”, pensou ela, “a verdade jorra do calor da paixão!” Acabava de descobrir, ao escutar a sua própria confissão improvisada, a base em que repousava o apelo de Andrew! Apelo! Até a própria palavra não seria desafio?

Até então, os homens que tinham passado na sua vida não lhe haviam proposto qualquer espécie de desafio. Alguns cortejaram-na em atenção à sua conta bancária; outros à lira de Afrodite bem harmonizada que era essencialmente Pat Reed. Andy, que, desde o início, desdenhara o isco dos seus milhões, era de outra raça. Guardara sempre alguma coisa de si próprio: o trabalho que ele nunca lhe permitiria partilhar; os sonhos que, até nas horas em que eram o mais íntimos possível, nunca exprimira. Até conseguir quebrar essas últimas barreiras, até poder realmente e totalmente possuí-lo, ela não se deteria perante nada - tinha a certeza - para tornar o seu casamento uma realidade.

“Obrigá-lo-ei a beijar-me novamente”, pensava, obedecendo ao instinto que a guiara numa dúzia de encontros amorosos. “Mas farei de modo que esse beijo conte e oferecê-lo-ei nas minhas condições.”

- O doutor Plant manda-me amanhã para casa - informou ela.

- Não se esqueça de que leio todos os dias o seu gráfico, Pat - respondeu ele num tom que tinha algo de mestre-escola. - Se esta noite lhe prescrevemos um sedativo é apenas em vista da vida que deverá levar a partir de amanhã.

- Deixe o dia de amanhã em paz!

Antes de ele ter podido pronunciar uma palavra já ela afastara o lençol com um movimento rápido e saltara da cama. Um longo rasto de luar penetrava no quarto, através da janela, e dirigiu-se para ele, com passo indolente, deixando o raio luminoso envolver-lhe inteiramente a silhueta. O silêncio de Andrew pareceu-lhe de bom augúrio.

Ouviu-o dar um passo na sua direcção, depois outro, mas não desviou o olhar das casas banhadas pelo luar, abaixo das suas janelas. Estremeceu quando por fim as mãos do homem a encontraram. E, no segundo seguinte, já ele a beijava como se nunca a tivesse deixado.

- Estamos bem um para o outro, Andy, não queres admiti-lo?

- Bem para isto, é o que queres dizer?

Ela fechou os olhos, perdendo-se uma vez mais num perfume de frangipana, no tanta do tambor de uma orquestra de dança. Não era mais do que um tanta... ou seria o pulsar do próprio coração?... Não era mais do que um tanta... ou alguma pancada leve na porta?...

No auge da raiva, não pôde deixar de admirar o sangue-frio de Andrew. Sem qualquer esforço, sem se precipitar, ergueu-a, depô-la sobre a cama, acomodou-lhe a roupa em volta do corpo com as mãos hábeis do seu ofício, que tinham deixado de ser as do amante, para tornarem às do cirurgião.

- Mantenha-se fora da luz, e, se for possível, arranje um ar inocente - murmurou-lhe.

Depois, virado para a porta, esperou uma segunda pancadinha, tão discreta como a primeira.

- Entre - respondeu, e essa palavra foi pronunciada tão calmamente quanto era natural o balanço que imprimia ao estetoscópio, seguro entre as duas palmas da mão.

Pat, a princípio, perante um tal savoir-faire, uma despreocupação tão perfeita, foi assediada por uma suspeita. Mas o seu sentido do ridículo voltou-lhe e sentiu-se sacudida por um riso interior, enquanto a enfermeira se adiantava com todo o respeito devido aos milhões de Pat Reed - o que a não impediu de perscrutar com uma atenção furtiva, mas apaixonada, o rosto do cirurgião, à procura de eventuais traços de bâton.

- A telefonista chama-o, doutor Gray. Um caso de urgência na Medicina, número três.

- Diga que vou já. - Virado para Pat e com uma deferência impecável: - Se me permite, retiro-me. Passa-se qualquer coisa lá em baixo...

Ela, todavia, reteve-o com o olhar até a enfermeira ter saído.

- Sê sincero, Andy. Estás contente ou aborrecido por teres sido salvo pelo telefone?

- Neste momento, não me arrisco a uma resposta.

- É tudo quanto preciso saber. Nem sequer te peço que voltes mais tarde. Pode muito bem ficar para amanhã.

- Amanhã, vai-se embora.

- E tu também, se as coisas se passarem como quero. Boa noite, querido. Vai salvar outra vida, visto que é preciso.

Ela viu-o deter-se por um instante no limiar da porta para rodear-se de toda a sua autoridade como de uma armadura invisível. Saiu sem proferir palavra, sem sequer se virar, e ela compreendeu que já mergulhara na antecipação do problema que o esperava na sala de operações, de regresso aos segredos tranquilizadores da sua profissão, onde a tentação era desconhecida.

 

Tony Korff estava mergulhado no seu sonho favorito, a que sempre voltava e cujos pontos essenciais não variavam, embora, no que respeitasse a pormenores, o subconsciente, por onde os filtrava, lhes acrescentasse ocasionalmente alguns retoques preciosos ou coloridos. Fundamentalmente, era o próprio sonho de Hitler de domínio do mundo, e, neste caso, tratava-se de um Fiihrer triunfante. Por vezes, Tony era o seu braço direito e, por vezes, era o próprio Fiihrer. As legiões de camisas castanhas continuavam a espalhar-se, orgulhosas e fortes, de Washington ao Pacífico, deixando por conquistar, nesta primeira passagem fulminante, apenas algumas ilhotas obstinadas na resistência. E o grande aparato guerreiro dissolvia-se sempre, numa parada, entre duas pulsações de coração tumultuosas e frenéticas.

Nessa noite, estava sozinho na tribuna, passando revista aos regimentos e aceitando, imóvel e silencioso, com o braço direito, rígido e estendido, a saudação da vitória, a admiração desses milhares de rostos virados só para ele... E, todavia, nesse quadro havia alguma coisa que não estava bem, uma nota discordante que não foi capaz de discernir imediatamente. Quando, por fim, o conseguiu, um arrepio de horror fez-lhe eriçar os pêlos da carne. O exército continuava a desfilar ao ritmo de uma música distante e os pés que até então tinham batido cadenciadamente no solo, davam, nessa noite, a impressão de um murmúrio, de um sussurrar fluido.

Quando ousou baixar’os olhos para os pés das suas legiões, cuidadosamente calçados em botas, viu-os deslizar como um só homem, com uma graça preciosa, a um tempo de valsa. “O Danúbio Azul”, pensou. “Hoje, todavia, é um Danúbio vermelho!”... De repente, completamente desperto, encontrou-se com os olhos abertos, na casa de arrecadações que lhe servia de quarto de cama. Encharcado de suor, na escuridão carregada de terror, procurou às apalpadelas o candeeiro da cabeceira da cama. A almofada exalava ainda um odor persistente. “Harpejo”, pensou amargamente, reconhecendo um presente dado a Vicki por uma cliente rica. “Um dólar o grama.” Praguejou entre dentes, amaldiçoando o bom coração de Vicki Ryan. “Estas mulheres são na realidade tão pouco substanciais como os seus perfumes!...”

Dominado por uma cólera enraivecida, levantou-se, fechou a música de Wayne King, que se escoava do aparelho de rádio, acendeu um cigarro e procurou a garrafa de gim; ainda restavam quatro bons dedos. Arrancando a rolha com os dentes, bebeu, sem respirar e sem parar, até à última gota. O gim, amparo e conforto dos falhados. Uma coisa era certa: aguentava o álcool como um homem! O seu cérebro febril não ficava embrutecido; pelo contrário, nem sequer se lembrava de ter tido pensamentos mais rápidos, mais firmes e mais claros. Era exacto dizer-se que a noite é boa conselheira, mas demasiado frequentemente, para os que não podem dormir, aconselha ao desespero. História dos condenados e dos danados.

“Considera o teu caso, Tony Korff. Considera a tua história... Produto dos bairros sórdidos... e, na realidade, que importância tem que sejam os de Berlim ou de Moscovo, ou do East Side de Manhattan? Concebido por um russo báltico, naturalizado, grão deposto no seio de uma Fraúlein das ruas, criado num orfanato, que outra coisa se poderia esperar de ti senão que odiasses o mundo? E odiaste-o realmente desde que tiveste a consciência de viver.”

Pode dizer-se, sem incorrer em grande risco de errar, que todos os Tony Korff são engendrados no vício e na corrupção, alimentados no ódio e de ódio, e chegam à idade de adultos, na sombra pesada deste mesmo ódio insensato.

“Tu, pelo menos, escapaste às sombras antes que fosse demasiado tarde. A América deu-te tudo... antes e depois da tua passagem pelo Exército. Porque hás-de detestar estes americanos gordos e bem alimentados?... Por que hás-de sentir mais alguma coisa do que desprezo por Andy Gray, que, a seu modo, foi bom para ti?”

Interrompeu-se a meio dessa auto-análise e levou de novo a garrafa aos lábios, esquecendo-se de que já estava vazia... “Valho tanto como os melhores de entre eles”, decidiu, “e diabos levem estas considerações à meia-noite!...”

Dentro de um mês, obteria o seu grau de médico, teria efectuado os anos requeridos de internato e o selo de um hospital nova-iorquino testemunhá-lo-ia sobre pergaminho. Uma ajuda da sorte, faltava-lhe apenas uma ajuda da sorte! O capital indispensável para a compra de uma boa clínica. Ou uma nomeação em qualquer ponto da América onde os pequenos proventos estão ao alcance da mão e fazem os grandes benefícios.

Recusava-se a ouvir a voz discreta que lhe lembrava que o melhor emprego que podia esperar, em qualquer parte, seria o de adjunto do residente. Quanto ao capital, era uma esperança louca desde há muito tempo abandonada e que só lhe voltava nos momentos saturados de gim, como os que vivia nessa altura. Quando essa bruma recusava formar-se para esconder-lhe os aspectos duros da realidade, nada mais lhe restava fazer do que retorcer-se num banho de suor e lamentar não ter morrido aquando da sua primeira batalha nas ruas de Berlim.

Já que, nessa noite, lhe era impossível dormir, talvez fizesse bem ir fazer uma nova visita ao “queimado”. Quando, horas antes, o deixara, o paciente não dava qualquer indício de regresso à vida; assegurara-se de que o registador automático e o seu servente, envergando fazenda grossa azul, estavam correctamente instalados a seu lado, no lugar prescrito. A experiência, todavia, ensinara-lhe que os moribundos recuperam, por vezes uma centelha de vitalidade, durante as horas que decorrem desde a meia-noite ao alvorecer.

O seu espírito virou-se para a conferência que se realizara no gabinete de Ash e na qual pensara poder, dever até, expor os seus pontos de vista sobre o assunto. Em vez disso, porém, durante uma hora, passeara de um lado para o outro nos corredores que conduziam à antecâmara do director, embrenhando-se cada vez mais num amuo sombrio, mandando para o inferno todos os que se encontravam reunidos atrás dessas portas fechadas e chamando-lhes intimamente todos os epítetos que exprimem o embrutecimento e imbecilidade chegados ao expoente máximo da sua perfeição. Sem sombra de dúvida, todos os elogios iriam para o sargento que descobrira os corpos e presumira tratar-se de queimaduras radioactivas.

Já as primeiras edições, que haviam publicado resumos da informação, tinham dado a Tony um antegosto amargo, com as fotografias dos corpos ocultos por um lençol, junto dos quais se encontrava, vigilante e cônscio da sua importância, um sargento Donnelly, de estatura mais alta do que o natural. O Dr. Anton Korff, a quem, nesse momento, já cabia a responsabilidade do paciente, era relegado para um plano secundário, simplesmente citado, e para cúmulo de ultraje, com um nome mal ortografado.

Agora que a sua raiva se acalmava pouco a pouco, reflectia nessa aventura com uma maior atenção. Ninguém acreditaria nessa solene ficção de que o caso começara em Brookhaven. Além disso, a polícia dera uma prova de inteligência, que chegava às raias de genialidade, ao revelar que um dos homens ainda vivia e que se tinham muitas esperanças de obter o seu depoimento.

Se o criminoso de sangue-frio, que se encontrava na origem de todo o caso, lera as primeiras edições - e logicamente não se podia admitir que se tivesse abstido de fazê-lo - essa versão oficial da sua actividade culposa daria possivelmente alguns resultados.

Tony Korff, pela janela do quarto, inspeccionava o pátio do hospital e observava a silhueta azul que quase se fundia na sombra, entre a Schuyler Tower e a ala médica. Durante os seus anos de internato, já tivera a sua grande parte de feridos, vítimas de atentados, e vira a polícia quer estragando-lhe irremediavelmente as suas melhores oportunidades quer precipitando-se com precisão e habilidade sobre indícios na aparência insignificantes, mas exactos. O caso actual era, certamente, “um mistério envolto num enigma”, cuja solução parecia depender unicamente do que a vítima sobrevivente pudesse e quisesse - ou não! - contar. A menos que o assassino - pois Tony estava convencido que na base da história havia um assassínio - ousasse manifestar-se num esforço para abafar para sempre aquela voz.

O interno sentia um formigueiro percorrer-lhe a pele do crânio ao considerar essa possibilidade. Num caso como esse, um intermediário seria muito útil, pensava. Poderia até afirmar-se que uma ajuda do interior era absolutamente indispensável. Talvez, em suma, fosse uma boa coisa o seu nome ter sido citado... apesar de mal ortografado!... Por mais de uma vez aceitara gorjetas - por muito desagradável que pudesse ser o nome! - quando, dentro dessas mesmas paredes, uma vida humana se encontrava na balança e quando uma palavra pronunciada - ainda que in extremis - pudesse provocar alguma catástrofe em altas esferas.

Tinha a certeza de que, dessa vez, o mal tinha uma fonte muito profunda, mas já sondara, sem titubear, essas profundezas, noutras circunstâncias. Compreendia naturalmente as possibilidades dos “maus” muito melhor que todos os que se tinham reunido em conferência, incluindo o inspector Hurlbut. Não vivera, desde a infância, no mal e não aprendera a discernir as suas marcas?

O telefone tocou suavemente a seu lado e Tony Korff quase rosnou como um cão de caça que é chamado quando vai numa pista. Mas era apenas Andy Gray e a sua voz soava bizarramente alegre para aquela hora!

- Desta vez sou eu que tenho o “pássaro raro” - dizia Andy. - Vem à Medicina número três, o mais depressa possível. E, se tens companhia, manda-a para a mãe!

- Estou só - redarguiu secamente Korff, traduzindo do alemão sem sequer dar por isso.

Se estivesse menos preocupado, teria respondido no mesmo tom que o residente: “Desta vez, qual é, Andy?”

- És capaz de não acreditar, mas apesar disso é verdade: Plant em pessoa acaba de trazer Bert Rilling. Parece que ficou até tarde no escritório, retido sem dúvida por qualquer tarefa urgente. - Korff fez a reflexão que Andy parecia tão alegre como um garoto a fazer uma travessura. - Plant julga que se trata de uma embolia femural, e, a priori, estou disposto a crê-lo; os diagnósticos de George Plant costumam bater certo...

“Não é para espantar que pareças tão alegre”, pensou azedamente Korff. A cirurgia vascular era a especialidade de Andrew Gray, que colhera nesse ramo a maioria dos seus triunfos pessoais. Era bem próprio da sorte escandalosa de Gray encontrar-se ali, precisamente, quando transportavam o cervejeiro. A cerveja que corria numa corrente contínua dos depósitos de Rilling não era mais célebre que a sua generosidade filantrópica nem que o poder político que lhe atribuíam tanto em Nova Iorque como em Washington.

“Se o nosso residente, nesta noite, se tivesse ausentado, este caso teria vindo parar-me às mãos e eu ter-me-ia saído igualmente bem dele. E seria eu quem estaria à cabeceira do doente curado e reconhecido... quem teria recebido os seus agradecimentos e os testemunhos da sua gratidão porque eu é que lhe teria salvo a vida. Bert Rilling!”

Tony Korff pronunciou o nome em voz alta e apercebeu-se de que continuava a pensar em alemão. Por que motivo esse nome despertava dentro dele um fraco eco? Pensou que estava a sonhar acordado, como um estudante, e, ao mesmo tempo que enfiava rapidamente a bata de linho de mangas curtas, readquiria a sua atitude profissional.

- Onde estás agora, Andy?

- A caminho da Medicina, número três. Mas já alertei o O. R. Plant assistirá. Todavia, tenho igualmente necessidade de ti. Júlia Talbot estará nos instrumentos.

- Quem prepara o paciente?

- Ramsey é o interno de serviço.

- Ramsey é um imbecil. Manda-o embora. vou imediatamente.

 

Nessa noite, as bandeiras das Nações Unidas decoravam o grande salão de baile do Waldorf. Era uma importação de Catherine Ash - isso, a escolha de uma famosa orquestra e também a ideia de impor uma valsa de três em três danças. Desde o início tudo correra bem, embora os estrangeiros, afastados dos seus hábitos e do seu meio, sejam sempre bastante difíceis de distrair.

Talvez lamentasse, mais ou menos, que as Nações Unidas tivessem voltado à moda depois de um longo eclipse coreano, porque demasiados idiomas falados ao mesmo tempo representam, para uma hospedeira atenta e obsequiosa, a quase certeza de uma enxaqueca... E além disso era irritante ver os franceses, os holandeses e os eslavos fazerem ostensivamente alarde da língua natal, numa altura em que bebiam e comiam à custa da América - ou, mais exactamente, à custa da Comissão para Evitar Novas Guerras, obra social... e militar... que, naquele tempo, absorvia muito particularmente as actividades de Catherine Ash.

Olhou para o mar de cabeças balanceantes e a sua satisfação embaciou-se apenas por um instante. Vistas um pouco de longe, as mulheres causavam tão bom efeito como os homens. Era de resto uma das virtudes universalmente reconhecidas de Nova Iorque, civilizar, ao menos à superfície, todos os que aí chegavam: até a marata que trazia as marcas da sua casta, como um brasão sob as pérolas enroladas à volta da testa, esquecendo as fomes perpétuas da pátria, parecia uma nova-iorquina autêntica; até a princesa negra da Eritreia valsava como se durante toda a vida nunca tivesse feito outra coisa...

Os olhos de Catherine encontraram por fim os de Martin, que dançava ajuizadamente com uma parisiense inteiramente aceitável. O francês do Dr. Ash era agora quase tão bom como o da mulher, graças às suas longas férias na Europa - com duas horas quotidianas de Berlitz para pôr todas as oportunidades do seu lado. Ela nunca lamentara essas lições, como também não lamentara o capital que empregara com os Mayo, quando se tornara necessário assegurar todo o futuro médico de Martin, nem a verdadeira fortuna que enterrara em East Side General para permitir aos seus guarda-livros permanecerem sãos de espírito. Em todas as frentes, Martin Ash justificara as esperanças que nele depositara.

Graças às lições de Arthur Murray, valsava tão bem como o melhor dançarino de qualquer soirée mundana; graças aos alfaiates, que lhe escolhera, podia apresentar-se em qualquer capital europeia com à-vontade como se ali tivesse nascido; graças aos diversos mestres que lhe arranjara, podia dissertar sobre música, poesia contemporânea, romântica ou clássica; o simbolismo era-lhe tão familiar como o surrealismo; adquirira a arte de flirtar delicadamente com uma linda mulher e a de discutir com um general ou um político sem nunca arvorar uma bandeira... “Graças a mim”, pensava ela, “é um autêntico homem mundano e um marido perfeito. Acaso serão numerosas as esposas que podem dizer outro tanto?”

Contudo, uma imediata restrição mental levou-a a acrescentar: “Um marido perfeito... com quem só passo breves horas!” Mas como poderia queixar-se de que a sua vida conjugal parecesse reduzir-se por cada ano que passava? Ela “construíra” Martin, segundo um plano minuciosamente estabelecido. Se ele correspondia a esse plano para além do que ela pudera esperar nos seus sonhos mais optimistas, se, nesse mesmo instante, valsava até demasiado bem, se dirigia à mulher de um diplomata francês cumprimentos que pareciam excessivamente sinceros, Catherine seria a última de todas as esposas do mundo a ter direito a ser ciumenta. “Ultrapassámos esse estado há muito tempo”, respondia a si própria. “Martin é tudo quanto eu queria que ele fosse, tudo quanto eu esperava que ele fosse. Terno e compreensivo quando tem tempo para consagrar-me. Um amante apaixonado ainda hoje... se consegue resistir à chamada telefónica sobre algum caso urgente. Um companheiro (ela sublinhava impacientemente a palavra em espírito) que terei orgulho de apresentar em qualquer parte como meu marido... Ninguém poderia pretender... -não, nem sequer a minha família, tão absurdamente rígida, que se diverte sempre a contar em segredo ridículas histórias de judeus - que a minha fé não foi bem depositada e a minha confiança bem justificada...”

Todavia, embora pudesse desdenhá-la, não podia esquecer o dito espirituoso do velho patriarca Morton Parry, seu pai, que lhe repetira muitas vezes - e nunca se desdissera, inclusivamente, até a hora da morte:

“Aconteça o que acontecer, por muito perfeitamente que ele se saia, será sempre a tua criação que conhecerá o sucesso - e não o homem que ele é, o homem em si. Entregue a si próprio, acabaria talvez os seus dias como parteiro muito apreciado no Bronx. Apesar da melhor boa vontade do mundo, não vejo verdadeiramente outro futuro normal para esse rapaz que teimas em amar.”

Como ela teria desejado, nessa noite, ainda que fosse apenas por breves instantes, dar vida a seu pai. Morton Parry - que apresentara a sua demissão de um clube de Nova Iorque porque um político inscrito no Partido Democrático fora aceite como membro - teria sido o primeiro a admitir com toda a boa fé que o marido de sua filha usava a casaca muito melhor que qualquer outro homem da sala.

De acordo. Fora ela quem comprara o primeiro fato de Martin, pagara o seu primeiro professor de francês, pagara o necessário que lhe permitira ser nomeado para a direcção de East Side General, e mexera todos os cordelinhos possíveis para o fazer chegar ao apogeu da sua profissão, A base, o facto original, a essência, em si, subsistia: Martin Ash era da massa e da têmpera com que se fazem os chefes. A prova ali estava e o fim justificava os meios.

“Elevei-o completamente acima do seu meio estrangeiro”, pensava com um orgulho que computava legítimo. Mal o novo hospital se tornasse realidade, a separação seria completa. Evidentemente, os pais de Ash tinham objectado a esse movimento para fora do círculo previsto. (Nesses silenciosos monólogos interiores, nunca lhes chamava Aschoff!) Evidentemente, sentiam-se isolados nessa indizível habitação de operários, tão longe da vida do filho. Mas ainda? Em toda a parte e em todos os tempos, os pais encontravam-se perante a verdade de que os filhos eram “pessoas” e com existências “pessoais”. Por outro lado, não era realmente por sua culpa que esse estranho casal de anciões teimava em viver num bairro mais ou menos piolhoso.

No íntimo do seu coração, confessava que isso a encantava. Quando um homem rompe com o passado, o rompimento deve ser completo. E, todavia, não podia negar que o próprio Martin se recusava a uma ruptura. Parecia até que bastava apenas essa menção para fazer surgir uma barreira entre os dois.

Não podia permitir que esses pensamentos franqueassem a entrada do seu espírito. “Isto é o mundo”, concluía firmemente, pois era uma mulher de bom senso e nunca se entregava a longas discussões consigo própria. “O meu mundo... e o dele. Unidos e inseparáveis. Um.” E visto que o dinheiro, no fim de contas, não passa de poderio gelado, mas poderio que domina o mundo desde que o dinheiro foi inventado, no tempo das garras e dos dentes, era absurdo pretender que tudo ia de través, aqui e noutra parte, pois que, graças ao dinheiro, o mundo continuava a fazer tiquetaque... sem se preocupar com as contingências.

Todavia, era preferível organizar a vida de tal maneira que ela própria e o marido de futuro estivessem juntos mais vezes e durante mais tempo. Nunca subsistiria entre ambos qualquer nuvem, se ela conseguisse tê-lo só para si, durante o tempo necessário. Para começar, ia opor-se a que ficasse na cidade, durante esse week-end: era absurdo não poder resolver-se a deixar esse hospital por um só instante, sobretudo com um substituto tão esplêndido como o Dr. Gray. Martin dissera muitas vezes que, em caso de divergência de opiniões, preferiria guiar-se pela de Andy do que pela própria. Não havia pois sob o firmamento nenhuma razão para que, no dia seguinte, não a levasse a Parry Point e não ficasse na sua companhia até segunda-feira.

A não ser que - e essa ideia súbita gelou-a até a medula dos ossos - a não ser que existisse outra mulher. Mas não! O trabalho era o único amor de Martin e, com o tempo, ela acabaria por triunfar desse rival.

E, todavia, pela primeira vez, nessa soirée, uma dúvida atravessou-lhe o espírito: porque continuaria Martin a recusar-se a discutir as condições da transferência do hospital, quando nada mais restava do que redigir as diversas actas? Porque - uma vez que admitia os seus argumentos como valiosos se fechava obstinada e silenciosamente dentro de si mesmo, por muito habilmente que ela trouxesse para a conversa a questão do futuro de ambos?

O ritmo da orquestra mudou e, contrariada, apurou o ouvido; se tivesse pensado naquilo a tempo teria proibido as rumbas, nessa noite. Martin nem sempre dançava bem a nimba com um par desconhecido. Mas um olhar - vivo e cheio de inquietação - indicou-lhe que o marido já se não encontrava sob a pista de dança. Acaso teria desaparecido com essa atrevida dos bulevares? Não... essa mulher estava ali, bem à vista, mmflirt descarado com o delegado permanente do Equador, em cujos braços se bamboleava ao ritmo da nimba.

Seu marido, depois de uma aparição tão tardia, não ousaria voltar ao hospital sem a prevenir. Catherine abandonou rapidamente o seu lugar sobre o estrado, costeou pelo lado de fora os pares que dançavam, e precipitou-se para o átrio, inteiramente deserto ou quase, devido à maioria dos convidados o ter abandonado para se dirigir à sala de baile, atraída por essa música diferente. Viu imediatamente o marido a sair de uma cabina telefónica.

- Martin!

Ele dirigiu-se-lhe imediatamente, de mãos estendidas, com o sorriso que ela tão bem conhecia e que era o seu modo de repreender-lhe a veemência, como se tivesse dito: “Às tuas ordens, querida! Agora e sempre...”

Reconfortada pelo aperto das suas mãos, optou, imediatamente, por uma atitude natural:

- Estavas a telefonar para o hospital; adivinho sempre...

- A minha última chamada desta noite, garanto-te.

- Posso contar realmente com isso?

Passou o braço por baixo do braço nu da mulher; durante um momento, encontraram-se ao lado um do outro, nos degraus que conduziam à pista de dança, cumprimentando como dois autómatos, elegantes e requintados, os rostos amigos que, do meio do turbilhão, se levantavam para eles.

- Falei-te da vítima queimada, que temos estado a tratar com A. C. T. H.?...

- Sim, querido. E tenho pena de não compreender melhor.

- Tinha realmente necessidade de certificar-me se haveria qualquer alteração no seu estado. E Andy deu-me outra novidade sensacional: caçámos finalmente Bert Rilling!

Catherine precisou de algum esforço para conservar uma aparente despreocupação. Não tinha a certeza se Martin continuava a ignorar - ou se já sabia - que Bert Rilling prometera cobrir a maior parte das despesas resultantes da transferência do hospital para o alto da cidade.

- Não fales como se fosses caçar doentes com uma carabina para elefantes, querido!

- Plant levou-o para lá, há meia hora. Uma complicação de lesão mitral, julga ele.

Como sempre, servia-se do seu calão com uma rapidez fluente, como se ela acompanhasse o sentido de cada palavra.

- Neste momento, já o têm na mesa. É uma operação que eu próprio gostaria de fazer, embora seja caça privada de Andrew...

- Martin! Tu prometeste...

Sorriu-lhe com aquele modo gaiato que tinha de semicerrar as pálpebras e de inchar um pouco os lábios que ela amava cada vez mais: de resto, era o sinal exterior da obediência que estava pronto a testemunhar-lhe na maior parte das coisas.

- Não me esqueci de que esta é a nossa valsa, Catherine.

Enquanto falava, estendia-lhe os braços, e, sem mais palavras, ela lançou-se neles. Nessa noite, pelo menos, pertencia-lhe completamente. Sabia que tinha de ser prudente e não deixar transparecer o triunfo na voz. Contudo, não pôde resistir ao orgulho de lançar à direita e à esquerda um olhar cheio de desdém, enquanto ele a guiava habilmente através do mar apertado dos pares que dançavam - um olhar que desafiava a terra inteira e proclamava: “Somos o par mais belo de toda esta sala!”

“O mais belo e o mais feliz”, acrescentou numa correcção apressada e, contra sua própria vontade, ansiosa, ao mesmo tempo que levantava os olhos para Martin em busca de uma certeza reconfortante.

O seu triunfo desvaneceu-se instantaneamente quando lhe leu nos olhos uma solidão profunda, absoluta... e compreendeu que o seu espírito não estava ali. Apertada de encontro a ele, ao ritmo da dança, suplicava-lhe em silêncio que voltasse para ela - suplicava-lho com todo o coração e do fundo de uma solidão igual à sua.

 

Tony Korff escovava as mãos, na divisão contígua ao O. R. Andrew Gray lançou um último olhar ao colega e à sua própria enfermeira, já ocupada, sob a luz, em volta da mesa de instrumentos. Nunca chegaria a saber se a sombra branca que deslizara lá em cima, ao fundo do alpendre da Schuyler Tower, quando saíra dos apartamentos privados, seria a de Júlia. Nunca poderia perguntar-lhe se lhe notara ao canto da boca uma leve marca de bâton quando se dirigira para a ala médica. Encontrara-a aí à sua espera, pronta a receber as suas ordens. Sem motivo preciso, sentia que Júlia sabia, desde o primeiro instante, que se encontrava no apartamento de Pat; que ela lhe enviara a estagiária para obrigá-lo a sair dali, mal fora difundida a chamada dos serviços de urgência; que, enfim, por razões pessoais, o arrancara a uma sorte que ela achava pior que a morte.

“Uma sorte pior que a morte.” Riu intimamente ao repetir a frase, pois parecia-lhe ajustar-se perfeitamente ao seu caso. Estivera por um triz a ceder a Pat. A ceder num plano completamente elementar, o que nem por isso deixava de ser ceder. Nessa noite, representava um ganho, mas, no dia seguinte ou no dia imediato, ela possuí-lo-ia tão seguramente, tão totalmente como Mrs. Catherine Ash possuía Martin.

Sorriu a Júlia através do tabique de vidro que dividia em duas partes a sala de toilette e sentiu-se inundado por uma felicidade dificilmente explicável ao ver o seu sorriso retribuído. “Talvez ela me compreenda melhor do que eu próprio...”, pensava. “Talvez seja o destino que quer que terminemos juntos o que resta desta noite. Que importância tem que esta comunhão se realize por cima da carcaça de um cervejeiro milionário?”

Os serventes acabavam de depor a dita carcaça sobre o mármore. O ouvido experimentado de Gray notou imediatamente uma nota trémula muito leve que se atravessava na respiração difícil de Rilling.

- Que sabe ao certo, Tony?

- Rilling tinha ficado a trabalhar até tarde e foi acometido por uma síncope ao dirigir-se do cofre para a secretária.

- Na cervejaria?

- Na cervejaria.

O interno inclinou-se sobre a bacia de anti-séptico, mergulhou nela as mãos e os antebraços e retirou-os, gotejantes da solução.

- Parece que Rilling teve apenas tempo para chegar ao telefone. Plant estará aqui de um momento para o outro. Porque não lhe pergunta os dados de que precisa?

Andy ria à socapa enquanto a enfermeira lhe atava a máscara. Notara o odor a gim no hálito de Korff... e também a sua expressão de mártir inconformado ao suplício. “A marca de Eros”, pensou, “junta à matéria.” Todavia, não tinha quaisquer preocupações quanto às faculdades de trabalho do interno. Já o vira, quase bêbado como um cacho, despertar à chamada da campainha que anunciava um caso urgente e ajaezar-se tão automaticamente como um cavalo de bombeiros à chamada da sineta de incêndio.

- Venha logo que esteja pronto - disse ele. - Concederemos mais alguns minutos à anestesia pré-operatória para actuar.

O Dr. Plant já se encontrava junto à mesa e tagarelava com Júlia. Plant, interno astuto e atencioso, cuja afabilidade e largura de cinta eram igualmente sensacionais, gozava da simpatia e até da preferência de todos os cirurgiões. Cumprimentou Gray com uma inclinação de busto que, por uma espécie de milagre pessoal, nada tinha de grotesco.

- Exactamente o homem indicado para este género de trabalho! - asseverou com um contentamento sincero. - É uma sorte formidável encontrá-lo aqui.

- Tem a certeza de que se trata de uma embolia femural?

- Agravada por uma lesão mitral - afirmou Plant. Verifique o senhor, doutor. Há anos que vigio esse pássaro!

Andy olhou para a forma abatida sobre a mesa. Considerado sob aquele ângulo, Bert Rilling parecia tão formidável como uma das suas barricas. Um teutão louro, com a cabeça semelhante a um pelouro de canhão, com a cor da pele virando já para o cinzento sob a máscara de oxigénio, que o anestesista acabava de fixar por cima da boca e do nariz.

- Se bem compreendi, este coágulo não é o primeiro, pois não?

- Não. Mas os precedentes eram pequenos, não se parecendo em nada com este.

Andy levantou a cabeça. Ainda antes de ter voltado a cobrir com o lençol as pernas do cervejeiro, ficara com uma ideia clara da situação. Um coração afectado pelo reumatismo, uma válvula avariada entre as duas cavidades da esquerda - um órgão atraiçoando o corpo que servira; devido à irritação das paredes, o sangue começara a coagular do lado esquerdo, em vez de permanecer fluido e continuar a circular.

Enfim, os coágulos tinham-se libertado e encaminhado através dos vasos sanguíneos, passando dos maiores para os médios e destes para os mais pequenos, chegando finalmente a um vaso demasiado estreito para permitir-lhes a entrada. Até então, as perturbações da circulação não se tinham revestido de um carácter verdadeiramente dramático. Todavia, nessa noite, um coágulo mais volumoso bloqueara um dos vasos principais e só o bisturi poderia - talvez... - arrancar o paciente à gangrena e à morte.

Alguns anos antes, a amputação teria sido o único recurso, mas, graças aos milagres da cirurgia vascular, podia-se, por vezes, abrir o vaso bloqueado e extrair o coágulo obstruidor, sem danificar os tecidos vizinhos.

- Quando recobrou os sentidos, disse alguma coisa?

- Estava demasiado fraco para ser coerente. É inútil dizer-lhe que cheguei junto dele preparado para o que se me deparou. Enquanto esperávamos a ambulância, demos-lhe adrenalina e digitalina.

Andy murmurou a sua aprovação e começou o exame do paciente; a respiração continuava penosa, o oxigénio não lhe melhorara a coloração da tez e um azul-acinzentado invadia-lhe a pele das pernas quase até à coxas. Os dedos do Dr. Gray seguiram o curso das artérias, desde o artelho à anca, e encontraram rapidamente o que procuravam... a ausência de pulsações da artéria tibial posterior condizia com a mesma ausência na artéria pediosa. O quadro apresentava-se mau. Um coágulo na coxa, bloqueando a própria artéria, abrandava inevitavelmente a corrente de todo o sangue, tornando-o progressivamente estagnante ao longo de todo o percurso, tanto e tão bem que se tornava espesso e que podia prever-se que, num dado momento, a obstrução inicial, passando de um vaso para o outro, sucessivamente, acabaria por atingir o coração.

„- Consegue localizar o coágulo, doutor Gray?

- De forma precisa, não. Mas inclino-me para um trombus em forma de sela, na bifurcação da aorta.

Ouviu Júlia reter a respiração do outro lado da mesa e voltou a sorrir-lhe, esquecendo-se de que o seu sorriso estava agora velado pela gaze esterilizada. Via nos seus olhos arregalados que se apercebera da situação exacta e que esta a horrorizava. O que ele chamara “bifurcação” era a divisão da grande artéria no abdome; um trombus em forma de sela era exactamente um coágulo em “y” cavalgando a divisão da aorta e cujas extensões se prolongavam por cada uma das artérias femurais.

- Está claro que tudo isso quer dizer “embolectomia”?

- Exactamente. Crê que ele possa suportá-la, doutor?

- Que remédio! - respondeu Plant.

- Preveniu a família?

- Que eu saiba, não a tem. Pelo menos, não tem ninguém em Nova Iorque. Tomarei a responsabilidade.

Andrew aprovou com um aceno de cabeça. O seu espírito estava já completamente absorvido pelo trabalho que se anunciava, já demasiado preocupado para se poder prender com pormenores exteriores. Mais tarde, lembrar-se-ia do assobio de apreensão escapado a Plant enquanto se afastava da mesa; do fulgor estranho e duro dos olhos de Tony Korff quando, ao sair do lavabo, fora, por sua vez, inclinar-se sobre o paciente. Nessa altura, registara esses factos inconscientemente; todas as suas forças actuais estavam concentradas na sua tarefa.

- Quer fazer o favor de vir até a vitrina, Miss Talbot?

Júlia segurou o tabuleiro, enquanto ele escolhia nas prateleiras os instrumentos especiais que teria de utilizar: sondas leves equipadas com delicados saca-rolhas de aço, geralmente utilizadas para desalojar os cálculos do ureter; meadas de fios de seda enfiados em agulhas tão finas que dir-se-iam simples raios de luz; agulhas habitualmente utilizadas pela cirurgia nervosa; a válvula alumiadora de Cameron, utilizada na cirurgia abdominal, e que seria de muita utilidade na operação dessa noite...

- Empregaremos a anestesia local com uma injecção de pentotal sódico - disse Gray. - E não interrompa nem por um segundo esse oxigénio, doutor Evans.

Deteve-se ao lado do anestesista e cumprimentou sobriamente cada membro da sua equipa, como capitão que tem a certeza de que as suas ordens serão cumpridas sem discussão.

Tony Korff, vestido e já com a máscara, emergiu do lavabo e o residente notou com satisfação que readquirira o ar normal, onde já não se notava o mínimo de álcool. Não ignorava que Tony era um cirurgião inato.

- Que via de acesso escolheu, Andy?

- A femural direita, acho eu. Poderemos abrir imediatamente abaixo da arcada crural. Tenho quase a certeza de que existe uma obstrução na artéria, deste lado.

- Poderá chegar à bifurcação?

- É possível, se o coágulo não se estender demasiado para cima.

- E se assim for?

- Nesse caso, teremos de abrir o abdome e expor até a aorta.

Tony baixou o olhar para o paciente, que respirava pesadamente, penosamente, e, ainda desta vez, André w notou quanto os olhos do interno se fechavam, se estreitavam por cima da máscara.

- Espera que ele viva até lá?

- Admito que não passa de uma esperança e não de uma convicção. Mas, se não alcançarmos esse coágulo de uma maneira ou de outra, o homem está perdido, sem dúvida alguma.

Quando Gray se encontrou também lavado, escovado e com a devida indumentária, deteve-se por um instante, fora do círculo de luz, para abranger a cena com um simples olhar. Júlia de pé junto ao esterilizador, dava instruções finais à estagiária designada para a ajudar; o Dr. Plant fora para trás do vidro da galeria de observação, deixando o campo livre ao cirurgião em função; Tony deambulava ainda à volta da mesa, continuando a estudar Rilling com a mesma curiosidade intensa; quanto ao paciente, habilmente preparado para a operação, tinha ambas as pernas encerradas quase até a cintura em campos esterilizados. A zona operatória estava exposta: um longo rectângulo de coxa, de virilha e de abdome, uma espécie de planalto de músculos gordos e inchados, brilhantemente carminados pelo anti-séptico.

Quando finalmente se encontrou próximo da mesa, Andy, a um sinal de cabeça do anestesista, avaliou quanto se agravava a cianose da pele, a fatal tinta azul-escura que denunciava a falta de oxigénio. Rilling estava a morrer da cintura para baixo, centímetro por centímetro, em virtude do elemento vivificador já não poder atingir esses tecidos através dos vasos sanguíneos. A agulha de plasma, enterrada na veia de um cotovelo, não podia remediar essa falta, embora ajudasse a sustentar os órgãos vitais até o momento em que o cirurgião viria em ajuda, mas, entretanto, apenas deixava correr um ténue fiozinho, pois teria sido fatal sobrecarregar um coração já tão enfraquecido.

- Tensão, doutor Evans?

- Nove e cinco - volveu o anestesista. - E o pulso não melhorou... Mas já pode começar; não conseguirá melhor estado do que este.

Andy tomou o seu lugar junto do paciente e a mesa de instrumentos foi imediatamente aproximada. Experimentou a familiar contracção de coração, durante o instante precedente ao contacto com o primeiro instrumento - naquela ocorrência, foi a seringa de novocaína que sentiu no côncavo da mão. E, instantaneamente, deixou de ser Andrew Gray, o homem que conhecia tristezas, alegrias, desejos e frustrações, para tornar-se o cirurgião que apenas conhecia o seu paciente. Os seus olhos encontraram os de Júlia, mas esta já não era uma rapariga, nem sequer o anjo branco que o desalojara dos braços de Pat. Tal como a estagiária, tal como Tony Korff, tal como os instrumentos de aço brilhante que, bem alinhados, esperavam o momento de obedecer aos seus dedos, Júlia Talbot fazia parte do mecanismo complexo que ele dirigia, uma máquina que entrara já em funcionamento sem o mínimo ruído, como um carro bem lubrificado.

A fina agulha de novocaína mergulhou, levantando uma curva de pequenas eminências, numa linha colocada a cerca de um terço de distância entre a face interna e a face externa da coxa - linha essa que indicava a situação exacta da fossa ovalis, abertura no forro coriáceo que envolve os músculos da coxa. Era nesse ponto que emergia um ramo da veia femural: era ali que o cirurgião ia tomar acesso. Uma segunda agulha, mais grossa e mergulhando mais longe, despejou uma mistura de novocaína e de adrenalina, em quantidade suficiente para contrair os vasos sanguíneos dessa zona e tornar insensíveis os tecidos vizinhos. Uma última picada na raiz da coxa bloqueou os nervos femural e genito-crural.

- A anestesia local está completa - anunciou Andy. O escalpelo, se faz favor.

Júlia colocou imediatamente a faca na palma da mão de Andy e viu-o fazer rapidamente uma incisão de quinze centímetros de comprimento, na gordura da coxa, com tanta precisão e rapidez como se fosse dotado de uma vida própria.

- Campos esterilizados - pediu.

E Tony começou a fixar os pensos esterilizados nos bordos da incisão, enquanto caía na bacia de zinco o escalpelo que já não tornaria a servir, pois, por muito cuidadosamente que a pele tivesse sido limpa e passada por anti-séptico, continuava a subsistir o perigo de arrastar para dentro da carne alguma bactéria ou folículos pilosos.

Armado com um novo bisturi, Gray empreendeu uma dissecação grave: a faca trabalhava destramente, afastando as camadas de gordura que atraiçoavam o gosto do cervejeiro pela boa mesa... Apenas alguns segundos e apareceu uma forma azulada, que se continuava em profundidade e para baixo em direcção do joelho: a veia safena.

- Podemos segui-la na fossa oval e encontraremos a veia femural no ponto em que se junta a esta grossa veia.

Por cima do ombro de Júlia, a estagiária observava a chaga com olhos arregalados.

- Esta veia, como sabem, transporta o sangue do pé e da perna; a menos que este senhor seja uma peça de museu, encontraremos mesmo ao lado a artéria que é o nosso objectivo.

Passara já um cordão sob a veia safena; levantou-a delicadamente, dissecando em comprimento e cada vez em maior profundidade camadas de gordura compacta. Até então, não houvera o que se pode chamar um derramamento de sangue. Normalmente, o afluxo de sangue é abundante nesta região, e estancá-lo não é problema fácil para o assistente do cirurgião. Dessa vez, devido à obstrução da circulação acima do ponto afectado, a zona estava exangue, como se Bert Rilling já não fosse um paciente à espera de uma operação e sim um cadáver pronto para a autópsia.

- Aqui está a fossa oval. Uma nova injecção...

Tinha já na mão a seringa que Júlia lhe apresentara sob um ângulo tão exactamente calculado que ele meteu, sem ter de procurar, os dedos dos anéis de metal que permitiam dirigir o movimento...

Em breve e em virtude da anatomia de Gray ser impecável, o seu escalpelo abriu, na profundidade dos músculos, uma espécie de canal onde a veia e artéria se dispunham lado a lado. Dessa vez, o quadro era completo e a ameaça já não estava mascarada.

- Lâmpada Cameron, Miss Talbot.

A um sinal de Júlia, uma segunda estagiária apagou a lâmpada que iluminava toda a mesa, ao mesmo tempo que a válvula especial, esterilizada, de claridade penetrante, se acendia na incisão, alargada de forma a permitir-lhe a passagem por baixo da artéria femural: a sua luz, projectando-se em direcção ao joelho, atravessava a parede rosada e tornava perfeitamente visível o sangue líquido que continha. Mais alto, em direcção do tronco, a claridade desaparecia totalmente; a artéria não passava de um traço escuro e não eram necessárias palavras para exprimir uma conclusão que os olhos já por si descobriam.

- Antes de abrir a artéria, vou experimentar alargar a incisão - anunciou calmamente o cirurgião. - É visível que teremos necessidade de espaço.

Sem perda de um segundo, o bisturi alargava, cavava o entalhe onde, a uma profundidade de vinte centímetros, se alongavam os dois grandes vasos - troncos gémeos de cuja estranha inércia o cirurgião se apercebia enquanto trabalhava.

- Nastro, por favor.

O sólido nastro - que habitualmente se utiliza para ligar o cordão umbilical quando a criança acaba de separar-se da mãe - encontrou-se na sua mão. Passou-o sob a artéria femural e lentamente, com precaução, fê-lo subir, tanto quanto possível, em direcção à anca. Toda a equipa sabia que isso seria o que eventualmente - salvaria a vida do doente, quando Gray retirasse o coágulo... se chegasse a tirá-lo... Graças ao nastro, poderia, com efeito, e enquanto esperava o momento de suturar a incisão que ia praticar na parede arterial, estancar imediatamente o afluxo de sangue que adviria mal o golpe de bisturi fosse efectuado.

Prudente e acostumado a praticar a cirurgia vascular, Andrew Gray não limitava os seus pensamentos ao corte da faca e previa o acontecimento. Já trabalhara em demasiadas poças de sangue - formadas num segundo e horrivelmente longas para estancar e fechar - para querer arriscar-se.

- vou começar a abrir a artéria femural, Tony - avisou Andy.

Teve necessidade de aplicar toda a sua destreza para passar as delgadas agulhas curvas acima e abaixo do coágulo e dispor os resistentes, mas quase impalpáveis, fios de seda de tal modo que pudessem ser atados instantaneamente no caso de hemorragia imprevista... Quando tudo ficou pronto desse lado, deixou escapar um suspiro, ao qual respondeu o suspiro de alívio de toda a equipa... mas não ousou ver as horas!...

Munido de novo bisturi, atacou finalmente o cilindro opaco que indicava onde a artéria femural estava bloqueada, campo de batalha onde, daí a poucos instantes, teria salvo ou perdido uma vida.

Como já esperava, a parede desse vaso vital apresentava-se coriácea e resistiu ao primeiro golpe da faca. Quando a abriu, com a clássica incisão de duas polegadas, verificou que atingira o seu primeiro objectivo e que dispunha da extremidade do coágulo. A lenta exsudação escura que apareceu sob a faca, contraste característico com o jacto vermelho e vigoroso que não teria deixado de jorrar de uma artéria livre, contava bem a sua história.

- Como já tínhamos pensado, a obstrução é quase completa. Vamos ver se se deixará, ou não, desalojar facilmente.

Já as pinças inseridas na abertura se fechavam prudentemente sobre a extremidade recortada da massa viscosa e escura que aparecia, dirigida para baixo, no campo operatório. A obstrução libertou-se com uma facilidade enganosa, mas Andy sabia muito bem que essa primeira porção podia ser libertada de um bocado; só os dedos do cirurgião, a sua habilidade e a sua força contavam. Duas polegadas, três polegadas de comprimento e a ruim coisa feia caiu na bacia. Gray sondou mais longe... Como também já esperava, a parte superior recusou-se a ceder. E, também ainda como esperava, os seus dedos apenas tiraram um fragmento do coágulo rasgado. Pela primeira vez, ergueu os olhos da chaga e praguejou com vontade.

- Calma! - recomendou em seguida. - Isto não vai assim.

Era um dos traços do seu carácter rejeitar, mesmo nesse momento, a ideia de um possível insucesso. Muito mais tarde, lembrar-se-ia de que o Dr. George Plant apoiava, nesse instante, a testa contra o vidro da galeria de observação, deixando rolar gotas de suor sobre esse vidro, ao encarar angustiadamente a perda do seu cliente mais proveitoso. Reteria até como uma ilustração a imagem, o rosto desse rapaz caçador de notícias, Pete Collins - e por que diabo Pete Collins andava, àquela hora, pelos corredores do hospital? - ao lado do de Plant, no mesmo posto de observação. Mas, naquele instante, só contava a palpitação de uma vida sob as suas mãos e a habilidade para a arrancarem ainda ao vazio que já se apoderara de metade dela.

- Quer dar-me a sonda de saca-rolhas, Miss Talbot?

Este instrumento - de uso corrente no serviço de urologia, mas quase desconhecido nesses sítios - já estava na sua mão. Introduziu-o na abertura da artéria, fazendo-o subir suavemente, e respirou mais à vontade quando sentiu o ponto de resistência a pouca distância da incisão; a sonda rodou-lhe lentamente entre os dedos, penetrando na extremidade fendida do coágulo, exactamente como um despenseiro experimentado operaria com uma rolha já incapaz de servir de estragada. Uma ligeira sacudidela e uma segunda tentativa persuadiram-no de que achara uma espécie de ponto de apoio. Todavia, continuou pacientemente a sua perfuração, antes de ousar verdadeiramente puxar.

- Esteja a postos ao nastro, Tony. É agora ou nunca.

Toda a equipa - incluindo o cirurgião - reteve a respiração, enquanto, milímetro a milímetro, a sonda puxava o coágulo para fora da incisão. Durante alguns momentos abomináveis, Gray teve a convicção de que a sonda emergiria sem a sua âncora, que o coágulo permaneceria solidamente apegado à artéria... E, depois, um suspiro de alívio escapou-se de todos quantos se agrupavam em volta da mesa... Sob os dedos de Gray, que o guiavam, e sem que exercessem uma tracção violenta sobre o instrumento que o agarrara, o coágulo cedeu e saiu.

Dez centímetros, quinze centímetros, vinte centímetros de uma substância escura e irregular, que tinha a aparência de um órgão e que palpitava como um apêndice prestes a rebentar ou como um intestino cortado... Já começava a acreditar que o coágulo nunca mais acabaria, quando finalmente viu aparecer, saindo lentamente da abertura, a extremidade alongada, esticada, terminada por uma ponta fuselada, que tapara a artéria da outra perna. E, enquanto André w o mantinha erguido por cima da bacia antes de o deixar cair, o êmbolo retomou a sua forma característica... a sua forma de sela, com uma ponta mais comprida que a outra, aquela onde se tinha partido aquando da primeira tentativa.

- O nastro, depressa.

O géiser vermelho e quente que jorrara da chaga era ao mesmo tempo um aviso e uma certeza reconfortante de que, em todo o percurso, a via estava desembaraçada. Uma torção do nastro sólido entre os dedos de Tony Korff e, numa fracção de segundo, a artéria achou-se atada e o fluxo retido. Gray permaneceu imóvel por um instante, observando o interno, que, com a mão livre, esponjava o sangue; depois, entregou-se de novo ao trabalho, com calma e regularidade: o objectivo estava atingido, toda a tensão desaparecera. As suturas ocuparam facilmente o seu lugar, tornando a fechar a artéria femural, acima e abaixo da incisão. Ponto por ponto, como uma costureira atenta e prudente, aproximou, sem deixar um orifício ou fazer uma falsa prega, os dois lábios da chaga numa sutura perfeita, que cicatrizava sem asperezas, sem nada que favorecesse a formação de outro coágulo.

Pela primeira vez, desde o início da operação, Tony falou, no momento em que o cirurgião se afastava:

- Está certo de que o coágulo saiu inteiro? Tem a certeza da outra perna?

- A extremidade parecia verdadeiramente terminal. Só teremos a certeza quando estiver já tudo fechado e a coloração da pele nos elucidar.

Tornar a coser a incisão exterior era simples caso de rotina. Mal o lençol cobriu a outra perna do operado, o resultado foi evidente: uma coloração rosada espalhava-se sobre a pele à medida que o sangue corria de novo nas artérias.

- Quer vir até aqui, doutor Plant - perguntou Andy -, e examinar-lhe o coração?

O médico, gordo e baixo, que recuperara toda a jovialidade e agilidade, encontrou-se rapidamente sob o cone de luz e, embora estivesse protegido pela máscara, Andy deu-se conta do sorriso que lhe iluminava todo o rosto ao retirar o estetoscópio do peito de Rilling.

- Sairá desta como das precedentes, Andy, e, desta vez, graças à sua faca.

- Graças à equipa, doutor - respondeu o outro, sorrindo também. - Sozinho certamente que o não teria conseguido.

- O certo é que lhe salvou a vida. A mim cabe-me abrandar-lhe o movimento para o futuro, impedi-lo de se entregar aos seus excessos habituais.

Pete Collins passou a cabeça pela entreabertura da porta, curiosa intrusão no mundo da medicina:

- Posso dizer que passou uma boa noite, meus senhores? Ou será esta informação prematura?

- Saia da vista, Pete! O doutor Plant dar-lhe-á todos os pormenores. Tenho a certeza.

- Já os tenho todos - replicou o jornalista. - Atribuo-lhe

o papel principal. Em título grande, na primeira página, sobre duas colunas. Nem sequer sente reconhecimento?

- Por ora, estou demasiado fatigado para experimentar mais qualquer coisa que não seja a minha fadiga. Tudo quanto desejo é café, em primeiro lugar, e o direito de dormir, em seguida.

Sentia a reacção prevista, o esgotamento total dos nervos, invadi-lo uma fadiga que lhe chegava à medula dos ossos, enquanto se afastava para o lado para dar passagem às enfermeiras que empurravam a maca. Depois, desatando a máscara, encontrou-se frente a frente com Júlia e verificou que, ao fazê-lo, a sua lassidão o abandonava, como se uma esponja mágica a tivesse apagado.

Parou à porta para conceder-se o tempo de saborear plenamente essa sensação. “Eu próprio podia ser o que desperta do éter e recupera os sentidos”, pensou. “De certo modo, é como se reencontrasse a minha juventude ou, melhor ainda, como se renascesse de uma forma melhor, como se tornasse a descobrir que é bom viver.”

Antes de permitir que a barreira do protocolo hospitalar se interpusesse de novo entre os dois, empregou nas palavras um pouco da sua exuberância.

- Quer tomar uma chávena de café comigo, Miss Talbot? Penso que este terá sido o nosso último drama desta noite.

Embora Júlia se conservasse na penumbra, ele notou-lhe um leve rubor nas faces; porém, quando se aproximou, a sua voz já era calma:

- Certamente, senhor doutor! Durante as operações conservamos sempre uma cafeteira ao lume, na cozinha das dietas.

- Como se eu não o soubesse! - respondeu Andy bem-humorado.

Deixou-a passar à sua frente, ao saírem para o corredor: o rubor das suas faces era indiscutível, mas ele sentia-a contente com a proposta. Demasiado contente, talvez, no seu próprio interesse.

Ao segui-la até o ascensor, repudiou esse último pensamento. Ninguém, a não ser um idiota sentimental do seu género, demasiado ocupado para preocupar-se com sentimentos durante a maior parte das suas horas de vigília, podia contar com o amor de Júlia. E ele certamente que não, se atentasse na diferença das idades e na forma de vida.

E, todavia, apercebeu-se de que, até certa medida, a perturbava, que aquele instante era seu e que podia conduzi-lo a seu modo.

“Dir-se-ia que é a minha noite de conquista!”, pensou. “Seria de toda a justiça contar-lhe o estado verdadeiro e completo das coisas, incluindo Pat Reed, incluindo a oferta, toda em ouro, de Pat Reed, incluindo o facto de eu nada ter para oferecer-lhe a ela, Júlia, à parte as minhas ilusões perdidas e ocasiões que deixei escapar... Evidentemente também esse sonho absurdo de me instalar à beira do Golfo e de arranjar aí clientela... um sonho absurdo que abandonarei sem dúvida amanhã, quando Pat renovar a sua oferta...”

E, no seu íntimo, silenciosamente, aconselhou-a: “Conserva a tua própria vocação inviolada. Conserva os teus sonhos e a tua juventude. Não tenho direito a apossar-me desta ou daqueles. E, apesar de esta noite me teres salvo de mim mesmo, não tenho qualquer direito a pedir-te que te tornes o meu anjo da guarda por um dia, por um ano, por toda a vida...”

 

Júlia saiu da cozinha das dietas segurando em cada mão uma caneca de café quente, e sorriu para a cabeça castanha e desgrenhada que se apoiava às costas da poltrona. A antecâmara onde Andy Gray dormitava, uma espécie de gabinete estreito que dava acesso ao corredor da sala da cirurgia, não podia verdadeiramente ser considerada um lugar de encontro para namorados. Apesar disso e da sua nudez, nessa noite estava adornada com todas as cores do arco-íris.

Detendo-se, debruçada sobre a poltrona, Júlia assegurou-se de que o cirurgião estava profundamente adormecido. “Agora que encontrou um sítio tranquilo onde repousar, até parece dez anos mais novo”, pensou. “Mais novo e mais ajuizado, porque a sua máscara de cinismo caiu-lhe finalmente. É quase como se tivesse voltado para outro mundo, para uma vida mais simples, onde a ambição não preside a cada um dos passos que se dão, onde a vida é a própria recompensa, onde um homem prepara, desde o início, a sua própria sorte, sem a intervenção de uma sereia de pernas compridas para enredar a meada do seu destino.”

Pousou as duas canecas sobre a mesa e sentou-se em frente da poltrona. As suas melhores e mais firmes resoluções não evitavam que o seu coração batesse loucamente; um sexto sentido repetia-lhe que esse instante não se repetiria. “Não foi sem algum motivo que ele me trouxe aqui”, pensava. “Alguma coisa lhe preocupa o espírito - uma preocupação que ambos podemos compartilhar - talvez até um dilema que possamos resolver juntos...”

“Mas talvez eu esteja a sonhar tudo isto... Amanhã, à claridade do dia, tornarei a vê-lo na sua verdadeira perspectiva, e convencer-me-ei, de uma vez para sempre, de que nunca poderei compartilhar o seu futuro.”

Embora a prudência tomasse dessa forma parte no debate, precisou de todo o seu autodomínio para se manter no seu lugar, à distância segura de dois metros daquela cabeça fatigada. Se tivesse cedido ao seu instinto mais profundo, tê-lo-ia apertado contra o peito, embalado e adormecido em paz dando-lhe o repouso que merecia.

Andy abriu os olhos e recebeu em cheio o seu olhar interrogador. Ela sabia que, nesse instante, nesse breve instante que separa o sono do despertar completo, ele estava indefeso. “Posso fazer-te as perguntas que quiser”, disse-lhe ela em silêncio, “que me responderás com sinceridade.”

- Dormi muito tempo?

- Talvez meia hora.

- E conservou o café quente? É uma rapariga cá das minhas!

- Diga-me, Andy - perguntou a si mesma, sem se deter, se já alguma vez o tratara assim -, quando se sentiu pela última vez verdadeiramente repousado?

- É-me fácil responder-lhe com precisão. Há dois anos, aquando das minhas últimas férias na Florida, passadas com meu irmão, à beira do Golfo.

- Neste momento, parece repousado. Gostaria de conhecer o motivo.

- Imagine que eu também já tinha pensado o mesmo e feito a mesma pergunta! Sabe o que estava a sonhar?

- Se se pode saber, conte-mo.

- Sonhava que estava de novo em nossa casa, o que em suma é bastante curioso, visto que na realidade nunca tive “casa”.

- Quer que o lastime?

- Não faça, não diga, não pense o que lhe ocorre naturalmente! Você, o que é que procura aqui?

Ela respondeu quase demasiado depressa:

- Nada que já não tenha! Acontece que sou uma enfermeira que gosta de tratar!

Andy Gray bocejou confortavelmente e, ao fazê-lo, sorriu à jovem:

- Nenhuma nostalgia prolongada? Nenhum desejo de um marido? De uma carreira? Ou de ambas as coisas?

- Sou perfeitamente feliz - declarou, com bastante firmeza. - Lamento se isto parece aborrecido e banal...

- Não acredito numa única palavra - respondeu Andy, placidamente. - E você também não.

- Visto que insiste... Gostaria de, um dia ou outro, ter um lugar a que pudesse chamar “meu”. Não somente um canto meu. Uma clínica em qualquer parte... A mil quilómetros daqui... Um sítio onde se pudesse tratar verdadeiramente dos doentes, sem preocupações de preço... nem de publicidade!

Interrompeu-se bruscamente, vendo-lhe nos olhos uma luz desconhecida, e perguntou-se se teria, inadvertidamente, pisado solo interdito...

- Devia conhecer meu irmão - disse ele. - Timmie arranjava-lhe imediatamente um emprego.

- Sempre ambicionei viver na Florida - confessou ela. Seu irmão também é médico?

Foi como se se tivesse apagado uma candeia em qualquer ponto, nas profundezas do seu espírito. Toda a luz lhe desapareceu do olhar e Júlia seguiu atentamente a importância da sua retirada.

- Timmie é médico das almas.

Agora estava preocupado com a escolha das palavras, como se falasse de um estranho que não tinha o direito de descrever de forma íntima.

- Devia falar dele como do reverendo Timothy Gray, formado em Filosofia e Teologia, de ambos os lados do Atlântico. Suficientes ofertas de grandes paróquias para se tornar famoso. E preferiu erguer o seu altar numa pequena cidade, sede de concelho na Florida, onde, na sua maior parte, os paroquianos não passam de pescadores gregos ou de grosseirões vindos do interior. Está a vê-lo?

- Muito bem: foi o homem que lhe trouxe a paz! Ainda mais me agradaria conhecê-lo.

- Timmie poderia à vontade empregar uma enfermeira categorizada, mas não poderia pagar-lhe salário. Seria capaz de deixar uma vida como esta para ajudá-lo?

- Não voltará, mais cedo ou mais tarde, por instalar-se lá em baixo?

- Não responda a uma pergunta com outra.

- Não tenho qualquer desejo de riqueza, Andy; não tenho qualquer desejo de celebridade. E peço-lhe que não me diga que isto não é americano!

- Continua a não responder!

Ela falou depressa, muito depressa, antes de perder a coragem:

- Se me oferecer emprego, serei sua assistente.

- Assim, muito simplesmente?

- E porque não? Tenho-o visto trabalhar, sei que triunfaria.

- Não nego - volveu Andy lentamente - que já mais de uma vez pensei em voltar. Cheguei até a desenhar os planos do hospital que construiria ao lado da igreja de Timmie. É um sonho bastante inocente, como a maioria dos sonhos. É pena que não seja para nenhum de nós...

- E, porque não, se tem uma razão para oferecer-me?

- Muito simplesmente porque o que disse não é verdade. Você e eu queremos triunfar aqui.

- Não acha que o triunfo de seu irmão é maior?

- Segundo o prisma porque o considera e que é diferente do meu.

- Foi você que disse que seria feliz lá em baixo. Aqui, em East Side, está de tal modo fatigado que nem sequer sabe se vive. - Interrompeu-se, inquieta com a própria audácia. Talvez acabe por aceitar esse emprego... Ainda que você não me indique o caminho...

Ele olhou-a, durante um momento, em silêncio, e ela sentiu-lhe a hostilidade do olhar. “Procura mandar-me embora”, pensou. “Procura ser... uma coisa que não é...”

Finalmente, resolveu-se a falar:

- Gostaria então de voltar à vida simples?

- Não é isso que, no fundo, todos nós desejamos, neste século em que vivemos?

- Não é assim tão fácil como isso, Júlia!

- Disse que eu seria útil; nada mais conta.

- A maior parte de nós deseja sê-lo. A questão reside em saber quando e como.

- Agora tenho a certeza absoluta de que mais cedo ou mais tarde há-de lá voltar.

- Mas não irei. Falarei em lá ir, nos meus momentos de fraqueza e de desânimo. Sou o braço direito de Martin Ash... e sem dúvida durarei aqui até mais tempo do que ele. E você provavelmente acabará por suceder a Emily Sloane. A não ser que seja desembaraçada e despose um dos seus doentes mais ricos...

- Gostaria de ser Martin Ash? Inveja-o realmente?

- Que médico não o invejaria?

Desta vez ainda, ela teve a certeza absoluta de que ele dissera uma coisa pensando noutra muito diferente. Aproveitou-se prontamente da sua vantagem:

- Então a sua ambição é um dia fazer de Deus, num gabinete directorial! Devo dizer que seu irmão é mais modesto!

- Por se contentar em levar Deus aos seus irmãos?

Viu-o afastar as mãos e soube que finalmente o atingira.

- É agora a minha vez de responder a uma pergunta com outra - declarou lentamente. - Acredita sinceramente que o Homo sapiens tenha legitimamente razão de ser?

- Sou enfermeira. Você é médico. Dedicamo-nos ambos à salvação da sua vida. Por que havíamos de ser tão estúpidos, se ele não merecesse realmente ser salvo?

- Porque amamos o nosso trabalho. Porque um e outro estaríamos perdidos se considerássemos os nossos pacientes como seres humanos.

- Não tem o direito de ser tão amargo. Seja o que for que a vida lhe tenha feito, vale, contudo, ser vivida.

- Isso seria sem dúvida exacto - reconheceu ele - se houvesse pessoas como você e Timmie. Infelizmente, são ambos demasiado bons para serem verdadeiros.

- Muito simplesmente porque não temos qualquer sede de glória?

Ele ergueu vivamente os olhos:

- O que é que a levou a dizer essa frase?

- Dá-me bastante satisfação verificar que a reconheceu disse ela. - Quer que cite o resto?

- Se for capaz de se lembrar...

Olhava de novo para o vácuo e Júlia recitou docemente as palavras mágicas, como se elas pudessem chamá-lo, fazê-lo voltar:

- Que o amor à minha arte me possa guiar sempre. Que nem a avareza, nem a cupidez, nem a sede da glória, nem o desejo de uma grande reputação avassalem o meu espírito, pois os inimigos da Verdade e da Filantropia poderiam facilmente enganar-me e fazer-me esquecer o propósito elevado que deve ser o meu e que é fazer o bem a Teus filhos.

- A oração de Maimonides - recordou ele. - Depois que saí da Faculdade de Medicina, não tornei a ouvi-la!

- Mas lembrava-se dela, Andy. E, se não acreditasse nela, não se lembraria.

- Acho evidentemente que deve ser parte da fé de todos os médicos. Irei mais longe; direi até que o médico deve doar-se... como o sacerdote. Acontece, porém, que, na nossa maioria, somos em primeiro lugar, bons comerciantes e, só em seguida, terapeutas. Deus sabe que não estou imunizado contra esta sede de que você falou. Durante toda a minha vida, fui pobre e não tive amigos. Espera que eu continue assim até o fim... tendo possibilidade de comer o pião a Martin Ash?

- Está a discutir comigo ou consigo mesmo?

Via-o ressurgir do fundo do vazio, trazendo no olhar sonhos inconfessados.

- Sabia que Pat Reed e eu pensamos em casar?

“Quer magoar-me”, pensou ela. “Quer escorraçar-me para fora da sua vida. E por cada palavra que profere, mais me atrai para ele.”

- Ouvi os boatos que correm - respondeu ela - mas ninguém me falou em esponsais.

Viu-o endireitar penosamente os ombros. “Tem tudo do criminoso condenado, que se vê obrigado a percorrer o último e longo quilómetro...”

- Posso casar com ela, quando me apetecer - declarou.

- Poderia usar de um pouco mais de galantaria com Pat Reed! Ela é superior a isso!

Júlia passou os braços em volta dos joelhos dobrados e observou-o sem sorrir. Mas ela pensava e ele podia ler-lho nos olhos: “Se isso o diverte, posso fazer esse jogo. E se insiste, posso até fingir que acredito em tudo quanto diz...” Depois, em voz alta:

- Diga-me uma coisa, Andy. Porque é que ela continua a usar o nome de solteira?

- Tem o direito de detestá-la, mas isso não impede que ela seja ainda muito nova, quase uma rapariga.

- Se casasse consigo, continuaria a ser Pat Reed?

- Será sempre Pat Reed. É uma coisa que nenhum homem conseguirá mudar.

- Levava-a para a Florida?

- Ela é que me levava - corrigiu ele. - Para Palm Beach. Nunca para o mesmo lado da península que o meu irmão.

- Exerceria aí a sua profissão?

- Naturalmente! Permitir-lhe-ia até que me comprasse um hospital. Foi o que Catherine Ash fez pelo seu marido...

Levantou-se, depois de ter proferido essas palavras, exactamente como um actor que quase se tivesse esquecido da última réplica.

Júlia não se mexeu. Permaneceu sentada, mas continuava a retê-lo com o olhar. Nunca antes se sentira tão próximo dele como nesse instante em que essa comédia absurda terminara.

- Uma pergunta ainda, doutor Gray. Espera, conta ser feliz com esse casamento?

- Espero, conto estar muito ocupado. De tal modo ocupado que não terei tempo para fazer perguntas a mim mesmo.

- Estou convencida de que seria muito feliz na Florida.

- Talvez um médico não tenha o direito de ser feliz. Certamente que não, se amar suficientemente a sua profissão. Nunca pensou nisso?

“Eu podia tornar-te feliz!”, pensava ela. “E sem qualquer esforço. Conduzir-te-ia facilmente para fora do beco sem saída onde vives. Poderia curar-te dessa tendência furiosa de te destruíres.”

Levantando-se, constrangeu a voz a permanecer neutra como a de uma monja que renunciou para sempre ao mundo:

- Não se esqueceu da oração de Maimonides, não preciso de saber mais nada. Isso basta-me.

Os seus olhares cruzaram-se e ele foi o primeiro a baixar os olhos:

- Se quer acompanhar-me, por uns momentos, na visita às enfermarias, levo-a depois à residência das enfermeiras.

Enquanto percorriam, lado a lado, os intermináveis corredores, banhados por uma luz fantasticamente azul, enquanto atravessavam o deserto branco da enfermaria de cirurgia, tão silenciosa como uma tumba, nessas últimas horas que precedem o nascer da aurora, Júlia não pronunciou mais qualquer palavra. Na sala de observações, no extremo da ala, detiveram-se por um instante à beira da cama onde jazia o “queimado”. A sua respiração era estertorosa e não restavam dúvidas de que estava na agonia. Júlia ergueu para o cirurgião um olhar interrogador, mas, sem dizer palavra, este verificou o gráfico da temperatura e o bom funcionamento do registador automático.

A um canto, semelhante a uma personagem de cera, o polícia continuava sentado e viu-os passar sem pestanejar. Como muitas outras pessoas no hospital, Júlia ouvira os rumores que circulavam a propósito desse estranho caso. Naquele instante, parecia muito provável que esse paciente levasse consigo o seu mistério. Não fez qualquer tentativa para romper, neste ponto, a reserva de Andrew Gray. Por essa noite, já tinha a sua conta de perguntas sem respostas.

Bert Rilling, esse, repousava aparatosamente num espaçoso quarto particular, com uma enfermeira especial à cabeceira; o cervejeiro dormia calmamente, depois de uma última injecção de heparina e de dicumarol, para diminuir as possibilidades coagulantes do sangue e reduzir assim os riscos de complicações ulteriores. Os remédios do próprio Dr. Plant, digitalina e outros cardiotónicos, tinham-lhe sido ministrados uma hora antes. Nada mais restava fazer do que aguardar, esperando que o coração de Bert Rilling reassumisse normalmente a sua função.

Na fachada da Schuyler Tower, o relógio muito alto, por cima das suas cabeças, parecia uma lua pálida. Júlia não ousou olhar para os ponteiros, ao atravessar o rectângulo de relva que separava da residência das enfermeiras a torre reservada aos apartamentos particulares. O dia seguinte era outro dia, e, como habitualmente, esse amanhã já ali estava.

De pé, no degrau inferior da escada, estendeu a mão.

- Irá para a Florida - afirmou-lhe ela. - Para o lado bom da península. Aposto.

- Obrigado pela sua fé - respondeu ele sem sorrir. - Gostaria de poder compartilhá-la.

- Não tem confiança em si, Andy?

- Somente no meu trabalho, creio!

- Não ouvi uma única palavra do que disse esta noite murmurou ela. - Nem uma.

- Não procure fazer de mim o que não sou, Júlia.

- E por que não? Não foi para isso que as mulheres foram inventadas?

A sua mão continuava nas dele, quando desceu o degrau e se encostou de novo no pavimento do pátio. Quando os seus lábios se encontraram, ela não percebeu se fora ele que a puxara a si ou se fora ela própria que se lhe deitara nos braços. Sabia somente que aquele beijo fora espontâneo, que fazia parte do desafio que acabava de lançar-lhe. Pelo menos, durante esse minuto, como durante esse outro em que emergira indefeso do sono, estava disposto a partilhar com ela a sua solidão, o seu orgulho ferido e a sua convicção de que a vida sem amor não tem sentido nem finalidade.

E, todavia, durante esses mesmos instantes em que ela sentia os seus lábios sequiosos, em que se sentia envolvida por dois braços furiosos, teve a certeza de que nada mais podia fazer do que aguardar. Ele ou viria ao seu encontro pelo caminho e hora por ele escolhidos ou nunca viria.

Talvez fosse para Pat Reed e destruísse a sua última esperança de sobreviver dignamente...

Tanto numa eventualidade como noutra, não dispunha de qualquer meio de influenciar essa indecisão torturada.

- Este beijo é por ter tido confiança em mim - disse ele. Não torne a cometer este erro.

Antes mesmo de ter saído dos seus braços, já sentira a sua retirada. Ao vê-lo virar-se e embrenhar-se na sombra, a caminho do hospital, adivinhava que praguejava de dentes cerrados.

“Ele precisa de mim”, repetia. “O seu coração sabe que nenhum homem, sob o céu, tem uma oportunidade sozinho. Mas é demasiado obstinado para dignar-se admitir esta antiga sabedoria do mundo.”

Permaneceu de pé nas escadas da residência até o relógio da Schuyler Tower a fazer voltar à realidade. Subiu a escada que conduzia ao quarto, lutando para reter as lágrimas. Ou talvez contra o desejo mais louco ainda - quem saberia dizê-lo? - de rir alto.

 

A quatro quilómetros dali, no alto da cidade, Martin Ash sentou-se na cama e teve a certeza de que já não voltaria a adormecer. O apartamento dava para um terraço, sobranceiro a East River. Um luar moribundo, fria promessa de uma aurora que levaria algumas horas a nascer, inundava o quarto de uma claridade acinzentada. No leito gémeo, Catherine, tendo nos lábios um sorriso, dormia tão calmamente como uma criança que sonha. Adivinhando o que esse sonho podia ser - e, por isso, odiando e amando ao mesmo tempo a adormecida Martin inclinou-se, alisou a almofada de Catherine e saiu do quarto na ponta dos pés.

Antes de se deitarem, tinham discutido asperamente e a discussão terminara nas formas que fizeram as suas provas no decurso dos séculos. Como sempre, ficara sem saber quem finalmente ganhara. Por sua parte, marcara um ponto e fizera valer a necessidade da sua presença no hospital, durante esse week-end; dessa vez, Catherine dirigir-se-ia sozinha a Long Island. A sua solidão, de resto, comportaria, pelo menos, uma dúzia de convidados que, sem dúvida alguma, haviam de conseguir alegrá-la. Pessoas importantes que, alguns anos antes, teria gostado de conhecer; pessoas que poderiam rir com ela com um riso que já não encontrava eco no seu coração; pessoas ricas muito simplesmente e que não passavam de ricas, mas tão ricas que só pediam que as deixassem subscrever a última folha dos fundos que Catherine recolhia em vista à construção do novo hospital - no alto da cidade.

Sim, dessa vez, ela acedera em deixá-lo livre e, embora, antes de ter mergulhado nesse longo sono povoado de sonhos, se tivesse lastimado amargamente do seu abandono, perdoar-lho-ia, nessa mesma manhã. Perdoar-lhe-ia sempre graciosamente a sua dedicação ao trabalho, admitindo que o trabalho era alguma coisa que ultrapassava o seu próprio poder. Sua mulher, segundo verificava, era da espécie que pode dar tudo para o futuro do seu marido, sem nunca se aperceber da existência de zonas nas quais não tem o direito de se intrometer.

Os planos de Catherine tinham sido sempre tão perfeitos como as suas atitudes em sociedade. O novo hospital seria tão perfeito como o traçado estabelecido pelo arquitecto. A vida que ali levaria, como director augusto e um tanto distante, seria prevista com igual precisão.

Tropeçou na saleta e acendeu a electricidade, em protesto contra esses fantasmagóricos raios de luz, que se estendiam no terraço e penetravam pelas gelosias. Como tudo quanto pertencia a Catherine, essa saleta era a beleza e a perfeição: Luís XV puro, desde os estofos empetit point, das encantadoras cadeiras à escarpa apainelada da chaminé, que para ali fora levada, em todo o seu esplendor de pau-rosa, de um castelo próximo de Tours. Só uma coisa ali faltava - pensava Martin -, o retoque de mão humana.

Evocou as dúzias de quartos que tinham compartilhado, quartos que nunca tinham sido lares: o apartamento da sua viagem de lua-de-mel no velho Majestic, no tempo em que esse navio da Cunard era rei do oceano; o castelo dos Apeninos, que Catherine alugara para passarem o seu primeiro Verão no continente; a lúgubre casa tão distinta de Mayfair, onde conhecera o primeiro duque de sangue real; os quartos de palácios de Hong Kong ao Cairo - escaldantes sob os meios-dias do deserto, e frescos com o azul, reflectido do mar, que os inundava...

Esse também poderia muito bem ser um quarto de hotel: havia anos que o apartamento sobre o terraço era o seu quartel-general, em Nova Iorque - mas nada, entre essas paredes, tinha a sua marca, dele, Martin Ash.

“Se eu fizesse as malas e me fosse embora, esta noite, nada de mim restaria aqui... Tudo é de Catherine... tudo é próprio de Catherine... ela ama até ao mais ínfimo destes pormenores, porque aqui não se encontra uma única peça que não seja de valor, que não seja autêntica, que não seja cara, e porque o seu conjunto, rico, impecável e harmonioso, é para ela um símbolo colectivo de segurança...”

O seu espírito voltou-se para o hospital, para o “queimado” e para a ameaça que este representava. Partindo da suposição de que os seus piores receios fossem justificados, que aconteceria se uma bomba-relógio tiquetaqueasse, inexorável, em qualquer ponto do coração de Manhattan? Quando a hora de ambos soasse, Catherine Ash e o mais miserável habitante do bairro encontrar-se-iam igualmente desarmados; os planos de sua mulher seriam destruídos num abrir e fechar de olhos, assim como essa casa que não era um lar. Se havia alguma coisa que ele não conseguia imaginar era Catherine despojada dos seus bens - e sobretudo, vivendo! O miserável dos bairros, acostumado a viver à sua própria custa, seria de uma fibra mais resistente.

Depois lembrou-se de que, no dia seguinte, Catherine se dirigiria para Long Island, isolando-se assim desse mistério não resolvido. Estaria verdadeiramente em conformidade com a existência de ambos que ela escapasse à ameaça em cuja sombra ele próprio e os pais esperariam impassivelmente; É inteiramente natural que ele pudesse encarar a morte sem sequer avisar o papá e a mamã Aschoff do perigo possível; sabia antecipadamente qual seria a sua resposta.

Houve um ligeiro roçagar de roupa pelo corredor que levava ao quarto: com os olhos pesados de sono, Catherine avançava para a luz. Acordara, achara o leito gémeo vazio, e fora imediatamente à procura do marido, não por receio, mas porque a necessidade da sua presença era demasiado forte. com efeito, por muito longe que fizesse recuar os seus pensamentos, Martin não se recordava de que tivessem passado separados uma só noite inteira. Mesmo quando o trabalho o retinha até muito tarde em East Side General, ela esperava-o de olhos arregalados, recusando-se a adormecer antes de o ter a seu lado. Consequentemente, sabia que, apesar de tudo, na noite do dia seguinte, teria de ir a Long Island, ou esperar que ela viesse buscá-lo.

- Porque não queres dormir, Martin?

Agora, evidentemente, seria a altura de falar, nessa hora lúcida antes do romper da aurora; de afirmar de uma vez para sempre que as suas raízes eram demasiado profundas para permitir a transplantação; que o Marty Aschoff que ela desposara era o único verdadeiro e não a caricatura polida e submissa que lhe impusera em substituição do homem real. Abriu a boca para pronunciar as palavras amargas e sentiu que não podia feri-la assim: Martin Ash era a obra da sua vida e não podia destruir essa criação sem destruir ao mesmo tempo Catherine.

- Vai descansar, querida - disse ele. - Volto daqui a um instante.

- Trata-se de alguma coisa de que devamos conversar os dois, Martin? Alguma coisa que eu tenha feito... ou que tenha omitido fazer?

- Nada disso, Catherine. Simplesmente não consigo dormir. Garanto-te que gostaria de saber por quê.

- E se amanhã confiasses a direcção a Andy Gray? Dois dias na ilha é exactamente do que precisas.

- Não digo o contrário, querida, mas o hospital tem ainda mais necessidade de mim.

- Tens dificuldades lá em baixo, Martin? Se as tens diz-me...

- Alguma vez tive aborrecimentos verdadeiros que não tos tenha comunicado?

“Certamente que não”, pensava ele. “Graças ao teu dinheiro, o meu caminho tem sido desde o início tão liso como cetim; graças aos teus amigos, colocados em lugares importantes, sou desses messias enviados que curam todos os doentes.”

- Contei-te os factos. Temos um “queimado” que me empenho em vigiar pessoalmente, para minha documentação pessoal. E preciso de ver o que Andy conseguiu fazer com esse Rilling...

- Se quiseres, fico também na cidade.

- Não quero ouvir dizer isso, Catherine. E os teus convidados também não.

- Promete-me, ao menos, Martin, que lá irás depois de saíres do hospital...

- Prometo fazer o possível - disse ele, beijando-a ternamente, mas com prudência, cuidadoso em não espevitar a brasa dos desejos partilhados uma hora antes, o que não significava Que o seu interesse por esse corpo esbelto e apaixonadamente cuidado e vigiado tivesse amortecido com os anos. O acto de amar, distinto do amor em si, era na sua vida comum a única força que tinha um sentido. E, todavia, por muito vivamente que pudesse desejá-la - ainda que fosse apenas para enganar a sua solidão - desejava ainda mais poder encarar essa solidão. “Se eu puder aqui ficar, só e tranquilo, à espera do amanhecer”, pensava, “talvez consiga finalmente ver claramente o futuro... talvez até consiga compreender porque nasci...”

- Volta a deitar-te, Catherine. Desta vez, já batalhámos bastante.

- Batalhámos, Martin? Não tinha dado por isso.

- Não voltaste para a cama - replicou friamente. - Bem sabes que à claridade do dia te pertenço. Não podes dormir com os teus louros?

Apercebia-se de que finalmente a magoara e sentia um prazer perverso no sofrimento que infligia. Nesse mesmo instante, o pesadelo que o despertara apresentava-se com precisão. Era um sonho corrente que, já há muito tempo, lhe estragava as noites. Via Catherine deitada num profundo divã de cetim, que se abria para os engolir a ambos... Era um sonho de ódio e não de amor. Subitamente, entre dois beijos, ele repelia-a para longe de si, com uma violência tal e tão súbita que ela nem tinha tempo para gritar. Depois, com uma alegria requintada, via os próprios dedos apertarem-lhe a garganta delgada, abafando-lhe o grito à beira dos lábios, até os olhos se lhe tornarem semelhantes a uvas purpúreas, cheias de sumo, e o sangue lhe escorrer dos lábios como vinho...

Não necessitava de recordações do seu tempo de estudo de psiquiatria para estabelecer o diagnóstico dessa visão. Os homens sonham sempre assim a respeito da mulher que possuem... ou que os possui. Algumas vezes, o sonho quebra os limites do supereu, drenando todos os tormentos uivantes e enlameados e trazendo-os à superfície do espírito. Acontece então que pesadelo e sonho se misturam e se enredam na consciência perturbada e que o homem mata o que ama acima de tudo - porque o amor faz-lhe perder o orgulho da sua virilidade; o direito, devoluto a todos pela hereditariedade, de ser um agente livre.

- Boa noite, Martin. Lembra-te apenas de que te amo... Faças o que fizeres...

Não virou os olhos para a mulher quando esta se retirou para o quarto. Sabia que ficaria, durante algum tempo, acordada, esperando que ele voltasse ainda para o seu lado antes da sua comprida noite em claro. Depois, sem dúvida, dormiria o sono do justo - a boa esposa, a mulher boa, segura dos seus bens, que incluíam esse marido que quase acabara por domar.

Olhou para o relógio de Sèvres: faltavam ainda duas boas horas para o amanhecer. Se cedesse à tentação de engolir um dos comprimidos que trazia consigo, na algibeira do roupão, poderia dormir ali mesmo, deixando o seu problema por resolver. Não seria a primeira vez que se teria deixado adormecer sobre a poltrona, com os membros nas almofadas, como uma criança fatigada.

Segurava a pílula na palma da mão, avaliando o preço do esquecimento. Esse sono, ao menos, seria sem pesadelo. Fenobarbital. O amigo do ancião, o amparo do exilado. “Também eu sou um exilado”, pensou.

E engoliu o comprimido.

 

Nelson, o vigilante nocturno de East Side General, apressou o passo ao ouvir o relógio da Schuyler Tower bater quatro vezes. Ao fundo do túnel que ligava a cirurgia à patologia, o som só chegava atenuado, quase completamente sumido. Acostumado às mudanças de ritmo do hospital, o ouvido do guarda contava automaticamente as quatro badaladas surdas. Quatro horas da manhã. O instante em que a vida “vagueia pela borda”, meio resolvida ao grande mergulho final. Nunca East Side General parecera mais calmo, mais em paz.

No patamar, no sítio onde uma lâmpada brilhava como uma estrela fosca, Nelson parou, retirou a chave do prego, inseriu-a na fechadura do relógio-registador e fez funcionar o mecanismo de impressão: a sua passagem estava devidamente assinalada.

Ao ruído, uma pesada porta de ferro abriu-se prudentemente, deixando escoar uma estreita faixa de luz para a quase escuridão da escada:

- ’tu, Sam?

Era Otto, o vigilante nocturno da morgue.

- Última ronda desta noite - anunciou Nelson.

Isso também fazia parte da rotina. O vigilante e o guarda tinham adquirido o hábito de se encontrarem assim, passadas horas de ter terminado a conferência habitual do estado-maior da patologia. Nelson espantava-se sempre que, a essa hora, a morgue quase parecesse amistosa. Bem organizada também, verificava ele, ao passar o olhar pelas filas brilhantes de geleiras, semelhantes a esquifes em qualquer igloo árctico e sobre as mesas de mármore profundamente escavadas da sala de autópsia. A morte fazia círculo. A morte estava em toda a volta. Mas, àquela hora, a morte não era uma inimiga.

- Tenho cerveja - anunciou Otto.

Também isso estava previsto ao fim da última ronda de Nelson. A cerveja provinha do café grego, no quarteirão seguinte; davam-na ao fim da reunião dos médicos e dos cirurgiões e Otto arranjava sempre meio de recolher algumas garrafas em intenção a Nelson e à sua própria pessoa... e também na de Dale Easton, se se dava o caso de o chefe patologista ter de trabalhar até tarde.

Instalado numa poltrona, reconfortado depois de uma longa golada fresca, Nelson permitiu-se começar a bocejar. “O homem”, pensava ele, “bem pode experimentar modificar os seus hábitos; o homem não é um animal nocturno. Não há dúvida nenhuma sobre este ponto.”

- O doutor está a fazer uma autópsia?

- Está a acabar uma dissecação, Sam. Não te vás, peço-te. Fica onde estás... O doutor e tu são velhos amigos.

- Faz-me lembrar Dale Easton quando começou a fazer parte do estado-maior - disse o vigilante. - Lembra-me até que soube, desde essa altura, que era um dos nossos, um dos que preferem dormir de dia.

- Dizem que tem demasiado amor ao trabalho para deixá-lo. É muito simples. Não somos vampiros, que ficam aterrorizados com o primeiro cantar do galo.

- Mesmo assim, a noite é longa.

O guarda da morgue bebeu pausadamente e limpou os lábios às costas de uma manápula nodosa. Apesar do seu volume, da sua massa imponente, Otto tinha a aparência de um Cérbero benevolente. Devido à cabeça calva e à série de queixos que se dispunham em cascata sobre a gola da bata imaculada, evocava um bebé gigante, se não se lhe notassem os pés-de-galinha aos cantos dos olhos, azuis e tranquilos, e a sabedoria da sua boca cansada.

A noite, é fácil de dizer. Tu também gostas do teu trabalho.

Isto entretém-me - disse Otto. - As pessoas não deixam de morrer.

O vigilante lançou um olhar à fila bem ordenada de geleiras.

- Então, aqueles todos são teus amigos?

- Melhores amigos que podes supor.

- Para que serve a companhia dos mortos? Não podem falar...

- Contam-me coisas, apesar disso.

- E as mulheres? Não me vais dizer que as achas belas?

- Não, Sam. Os mortos nunca são belos, nem as mortas belas. Isso não são mais do que invenções românticas. É também uma invenção romântica isso de dizerem que o homem morre calmamente. O homem luta até o fim pela vida. Mesmo quando o fim foi fácil...

- E então quando foi difícil?

- Vai ver na sala de autópsia. Vai deitar uma olhadela ao cadáver com que o doutor está ocupado. Um inferno que Doré não teria sido capaz de inventar.

- O caso Brookhaven, não é?

Trocaram olhares carregados de cepticismo. Mal a história dos “queimados” começara a circular, ninguém acreditara nos boatos bem preparados.

- Para esse - disse Otto -, a morte foi um verdadeiro terror!

- Essa história horroriza-te, hem?

- Há muito tempo que perdi o medo e não penso nele. Nenhuma cidade é imortal, não é verdade? Nova Iorque acabará como qualquer outra, quando Deus o determinar. Em pó? Em podridão? Quem sabe? Se tenho de passar pela confusão, por que hei-de tentar imaginar a morte, antes de ela chegar?

- Talvez Nova Iorque dure sempre - conjecturou o vigilante da noite. - Desta vez, Deus será talvez mais piedoso. Não posso acreditar que seja destruída. É certo que também não POSSO acreditar que nos vamos mudar para o alto da cidade. No fundo, não devo ter o dom de fazer profecias!...

- Ash combaterá o projecto da mudança - disse Otto. Pode ser que, no fim de contas, ganhe.

- Ora!... - exclamou Nelson, duvidoso. - Não se pode lutar eternamente contra o dinheiro! O dinheiro há-de sobreviver a nós todos.

- Então, irás lá para cima com os outros?

- Acaso tenho por onde escolher? A ti, isso não fará diferença. A tua cave e a tua célula pessoal serão as mesmas, quer aqui quer ali. Mas eu terei de fazer uma hora de caminho, em metropolitano, à ida e outra à volta. E acontecerá o mesmo à maioria do pessoal auxiliar. E então para as pessoas que vão à consulta? Ainda que consigam descobrir-nos, lá em cima, assustá-las-emos. Seremos demasiado limpos, com a nossa opulência de novos-ricos... Não, Otto. Este hospital pertence ao bairro. Seria um pecado mudá-lo daqui...

- É preciso que os bairros sórdidos desapareçam. É uma verdade que todos nós sabemos. É preciso que alguém faça entrar o sol. Se nós não nos encarregarmos disso, como bons americanos, as bombas é que farão o trabalho...

- Que é preciso destruir os bairros sórdidos não se discute - concordou Nelson. - Mas daí a destruir um hospital para dar lugar às casas de amanhã vai uma grande distância! Nunca haverá hospitais de mais... e nunca bastantes médicos como Martin Ash e o nosso jovem Andy Gray. Nem como o doutor Easton - acrescentou com uma olhadela para a porta, por trás da qual o candeeiro de noite do patologista brilhava por cima de uma mesa de autópsia.

- É como Tony Korff? - sugeriu o guarda com um sorriso torcido.

- Desde os dias de Hipócrates que tem havido demasiados Tony Korff s - afirmou o vigilante da noite. - Demasiados Tony Korffs que eram, que são, primeiramente sanguessugas, e, em seguida, se tiverem tempo, médicos...

Interrompeu a frase com precisão e pousou na mesa a garrafa vazia. A campainha acabava de retinir à porta de aço que separava o mundo dos vivos do dos mortos.

Otto suspirou, considerando os pés, levantou-se e soltou a lingueta da porta, dando passagem ao servente de enfermaria que empurrava uma maca de rodas silenciosas.

- Olha! Aí tens mais um amigo para ocupar a tua solidão - verificou Nelson. - Eu vou pôr-me a andar.

Levantara-se enquanto falava e sorriu ao ver que as faces da estagiária, que acompanhava a maca, estavam tão brancas como o lençol esticado sobre o corpo estendido. Os regulamentos do hospital exigiam que essa jovem, que provavelmente assistira à agonia e à morte do paciente, o acompanhasse durante a primeira parte da sombria viagem. O vigilante adivinhou que fora a primeira vez que a rapariga vira alguém morrer. Pelo menos, a primeira, depois da noite descida.

- Volto lá para cima, para as enfermarias - disse ele. - Quer que a acompanhe, enfermeira?

- Obrigada, vigilante.

A rapariga procurava não perder a mínima parcela da sua dignidade; todavia, era visível que se sentia reconhecida por essa proposta.

Percorreram, lado a lado, o comprido túnel, seguidos pelo enfermeiro preocupado. Depois de tê-los visto afastarem-se, Otto fechou a porta contra o mundo exterior. Vira mais de uma enfermeira contrair-se à passagem da maca dos mortos. “Provavelmente é porque são novas”, concluiu intimamente. “É muito natural que as novas receiem a realidade tangível da morte. As velhas, evidentemente, são mais comedidas, se é que se pode chamar comedimento ao que, em geral, é desilusão. Os mortos não podem causar mal a ninguém, nem sequer a si próprios!...”

Observou a forma que se esboçava sob o lençol: puxou este para baixo e considerou o rosto pardo e vazio. “Um homem como eu”, disse vagamente para consigo. “Um pouco mais velho, talvez, e muito mais magro, muito mais infeliz certamente; um vagabundo apanhado num passeio do Bowery, de onde se dirigia, quase sem esperar, para o país onde todas as promessas são cumpridas.”

Otto suspirou, esfregou a fronte calva como que para apagar a imagem do homem estendido sobre o tabuleiro frio de metal, e Pensou: “Nelson tem razão, esta noite é mais comprida do que as outras. Ao fim de sessenta e cinco anos feitos, é demasiado tarde para nos ocuparmos com filosofia.” Voltou a suspirar, sorriu a essa súbita tirada sentimental e dirigiu-se lentamente Para a sala de autópsia.

O Dr. Easton, ainda com o avental especial que os radiógrafos usam como protecção contra radiações, com as mãos e braços revestidos por pesadas luvas isoladoras, que o faziam parecer desajeitado no seu trabalho de dissecação, operava lentamente, pacientemente, com essa espécie de hesitação, quase de relutância, apenas conhecida dos anatomo-patologistas. O cadáver, estendido sob as suas mãos, era agora mais um esqueleto do que um homem. Por muito acostumado que estivesse a esses espectáculos, Otto, depois de o ver, pousou o olhar sobre a parede em frente, antes de falar:

- Um novo doente, senhor doutor - disse repetindo, sem sequer pensar, o velho gracejo.

Dale cortou uma posta de carne ao longo de uma costela e deixou-a cair dentro de uma caixa colocada sobre uma mesa lateral. Já uma outra caixa, maior de que essa, estava cheia e selada. Otto sabia que se destinava aos laboratórios de Brookhaven, enquanto o pequeno recipiente - forrado de chumbo, como o avental e as luvas do anatomo-patologista - se destinava ao uso do próprio hospital. O Dr. Easton era um sábio ao mesmo tempo demasiado prático e demasiado experimentado para negligenciar uma tal ocasião de estudar, à vontade, queimaduras daquela natureza.

- Um novo paciente, Otto?

- Acabado de chegar da enfermaria, senhor doutor.

- Desta vez qual é o diagnóstico? Demasiado Bowery?

- Demasiado Bowery, doutor. A folha indica sífilis cardíaca. É um dos nosso fregueses assíduos.

- Velho ou novo?

- Todos eles parecem velhos, senhor doutor. Mas este deve contar os seus setenta e nove.

Dale fez um aceno de cabeça afirmativo. Ainda não erguera os olhos da dissecação.

- Ponha-o em gelo. Trataremos dele de manhã.

Todavia, tanto um como o outro sabiam que dali nada resultaria de interessante e que se tratava simplesmente de efectuar a autópsia regulamentar.

Depois de Otto se retirar, o anatomo-patologista continuou o seu trabalho durante mais um momento, mas agora uma parte do seu espírito preocupava-se com uma pergunta: por que motivo Otto se dera ao trabalho de ir anunciar-lhe essa nova encomenda, que nada tinha de sensacional? Seria possível que o velho guarda se sentisse subitamente solitário, depois de tantos anos passados na companhia dos mortos? Ou teria pressentido que o próprio Dale necessitava do conforto de uma voz humana entre a noite e o alvorecer? Teriam ambos uma necessidade fugitiva e desacostumada de reconforto, necessidade do som de uma voz humana?

Por fim, descalçou as pesadas luvas de chumbo e foi lavar as mãos e escovar-se conscienciosamente. No dia seguinte, teria tempo de classificar os tecidos colhidos, teria tempo para estudar o efeito das radiações sobre estes, de confrontar as suas conclusões com as de Brookhaven. A ideia de uma dupla análise, conduzida separadamente dos dois lados, fora dele, e o inspector Hurlbut acolhera-a entusiasticamente. Talvez se chegasse a descobrir a natureza exacta do produto químico em causa e, partindo dessa base sólida, a localizar a fonte dos roubos.

Mas Dale Easton adiara esses trabalhos e suposições para o dia seguinte e mantinha firme essa resolução. Quando saiu da sala de toilette, passou à da refrigeração e considerou pensativamente Otto, ocupado a meter no seu leito de gelo o cadáver recém-chegado. Sobre a mesa havia garrafas de cerveja ainda por abrir. Dirigiu-se-lhe, abriu uma e bebeu-a.

Pela primeira vez, fez a reflexão de que a noite se passara sem ter recebido a visita meio prometida de Andrew Gray. Isso não queria dizer que tivesse contado verdadeiramente com a vinda do residente, mas recordava-se de uma época, pouco distante, em que Andy sentia satisfação em ir até à morgue discutir verdades diversas.

Enquanto via formar-se, na parte superior do copo, uma massa compacta, um colar de espuma, Dale perguntou-se se Andy estaria ainda com Pat Reed; se o negócio proposto teria sido finalmente aceite e seriamente concluído. O hospital inteiro sabia que ela tinha a intenção de atrelar solidamente o cirurgião ao seu carro, pelo laço do matrimónio, e que empregaria todos os golpes lícitos para ganhar a partida. Embora se tivessem feito apostas, todo o hospital considerava que só um idiota ou um louco desprezaria tantos milhões... desde que não houvesse muitos cordões do outro lado...

Mesmo com cordões!... Era bem sabido que todos os embrulhos contendo ocasiões excepcionais têm muitas vezes cordões mais resistentes que os artigos neles contidos!...

Mesmo nesse caso, não teria coragem de censurar a capitulação de Andy. “Os cirurgiões”, pensava Dale, “ardem muito raramente com a pura chama da ciência.” Técnicos hábeis, com todos os constrangimentos e exigências da sua profissão, usam os seus talentos à superfície e, como todos os de qualquer profissão que executam lances de bravura, vêem-se a braços com intermináveis conflitos emocionais. Talvez haja até um fundo de verdade na sugestão freudiana que os homens escolhem a cirurgia como válvula de segurança contra algum obscuro impulso sádico...

Dale ouviu bater a gaveta-geleira e, voltando à terra, pôs-se a rir das próprias especulações.

- Acha que os cirurgiões são sádicos, Otto?

O guarda da casa de morte cerrou os lábios e reflectiu. Essa atitude fazia-o parecer mais do que nunca um bebé gigantesco. Um bebé curiosamente robusto e que já tivesse digerido tudo quando excita os apetites humanos, sem, contudo, perder o amor à vida.

- Ouvi o doutor Freud afirmá-lo um dia - respondeu com lentidão.

- Então você e eu somos também psicóticos avançados - declarou Dale Easton. - Necrófilos que encontram prazer em tratar dos mortos.

- É evidente, senhor doutor - respondeu gravemente o guarda. - E é também sensato: eles não podem protestar!

Riram-se ambos do gracejo.

Pareceu-lhes provavelmente ainda melhor por tanto um como o outro lhe admitirem a verdade escondida.


 

Três vezes por dia, com a regularidade de uma maré que tivesse um ritmo de três tempos em vez de dois, um fluxo e refluxo de humanidade passava diante do enorme Cristo de mármore, colocado na sala de espera de East Side General. Nessa manhã, quando a primeira enfermeira, de touca gomada, franqueou com passo rápido as grandes portas de bronze, que nunca se fechavam, o solo brilhava ainda com a espuma de sabão, esperando o banho de abundante água e o polimento final. Montes de revistas e de jornais, atados com guitas, empilhavam-se junto aos ascensores de serviço, com destino à Schuyler Tower e aos outros edifícios particulares. Nos corredores que irradiavam da rotunda central, evoluíam estagiárias, ostentando ainda imaculados os seus uniformes azuis, apresentando a costura das meias bem direita e esticada e caminhando com um aprumo inteiramente militar. Alguns internos dirigiam-se bocejando para as suas rondas matinais, com os olhos ainda pesados de sono em resultado das lutas sustentadas na véspera contra a morte, a menos que se tratasse de uma partida de póquer demasiado tardia e demasiado prolongada. Os cirurgiões que ali iam operar de manhã cedo, antes de se dirigirem aos seus consultórios na cidade, eram reconhecíveis tanto pela sua tranquila concentração como pelo estojo médico que lhes servia de passaporte.

Depois das primeiras chegadas, um pouco espaçadas, terem sido anotadas pela empregada de recepção, as outras verificavam-se como que por enxames.

À medida que penetrava no seio desta corrente regular, o Dr. Martin Ash sentia a rotina familiar envolvê-lo e acalmá-lo como um bálsamo. No seu gabinete, esperava-o uma hora de trabalho árduo e a sua primeira operação estava marcada para as nove horas. Quando, ao meio-dia, despisse a bata de cirurgião, poderia confiar que todo o pessoal conservaria o grau de pressão requerida até ao termo dessa longa jornada. Nesse momento, não sentia a mínima ponta de inveja por qualquer pessoa da sua equipa, incluindo Andrew Gray, que, em virtude de ter operado até tarde e de não ter qualquer operação a realizar de manhã cedo, dormia ainda profundamente.

De caminho para o gabinete, cumprimentou cortesmente, embora um pouco distraído, o porteiro, a empregada de recepção, as telefonistas da central telefónica, situada mesmo ao fim da rotunda, e o batalhão de dactilógrafas que já trabalhavam afanosamente na antecâmara. Contudo, não estava tão preocupado que não se apercebesse do ligeiro espanto com que toda a gente o olhava. De facto, não era costume ver-se o director de East Side General chegar tão cedo, sobretudo na manhã imediata a uma festa dada pela mulher. Não podia realmente explicar-lhes que passara a maior parte da noite no divã da sala, nem que saíra de casa numa espécie de nevoeiro, porque se recusara a prolongar uma discussão que apenas poderia ter um desfecho.

O trajecto ao longo de East River Drive devolvera-lhe magnificamente a serenidade e presença de espírito. Bastava a simples vista das altas paredes brancas do hospital para recuperar o ânimo, para sentir-se inundado por uma calma que lhe parecia haver de durar para sempre. Como médico, sabia que se tratava de pura e simples euforia, da reacção natural à amarga melancolia que, na véspera, o assediara. E, todavia, continuara a flutuar num banho de renovação, sem recair no poço do desespero. Talvez, nesse dia, tudo corresse bem... se Catherine respeitasse as distâncias.

Finalmente instalado à mesa de trabalho, atacou animosamente o correio, mantendo duas secretárias num ritmo de trabalho velocíssimo até deixar resolvidos os problemas mais difíceis. Salvo uma lancinante dor familiar por trás dos olhos, sentia-se repousado, até mesmo remoçado, ao pegar na lista das entradas da véspera à noite. Ao ler o relatório de Andrew Gray respeitante a Bert Rilling, não pôde deixar de rir alto. Só Andy teria sido capaz de arrancar esse bácoro à morte, mil vezes merecida... Evidentemente que, se Bert Rilling tornasse a escapar, isso representaria mais um inimigo a combater quando a história da transferência do hospital voltasse a ser debatida, sem lhe ser possível evitá-la uma vez mais...

- Desculpe, senhor doutor...

Ergueu rapidamente a cabeça. Miss Steele, sua primeira secretária, uma rapariga rígida como uma estaca, fria como o seu próprio nome’ e igualmente eficaz e segura, estudava-o por entre os aros de osso dos óculos.

- Sim, Agnès?

- Está lá fora um inspector da polícia com um agente do F.B.I. Dizem que têm hora marcada.

Hurlbut, outra vez. Martin Ash, que teria preferido adiar essa conferência para o meio-dia, franziu o sobrolho à vista da secretária vazia: não podia alegar qualquer desculpa para se recusar a recebê-lo imediatamente.

- Estão na sala de espera?

- Naturalmente, senhor doutor.

- Diga-lhes que vou imediatamente.

Antes de sair do gabinete, Ash ligou para a sala de cirurgia, a pedir um último relatório sobre o “queimado”. Como já esperava, a situação piorara. Ao abrir a porta do pequeno consultório que utilizava como “sala de espera” para os pacientes mais distintos e para outros que tinham boas razões para chegarem e retirarem-se sem se fazerem notar, ainda não abandonara um ar preocupado.

Apesar de já ter sido prevenido pela secretária, sentiu-se retrair, ao encontrar o olhar perscrutador de Don Saunders, o homem do F.B.I. “Este”, pensou, “é um cão de caça de rosto tão universalmente conhecido como o de uma vedeta de cinema. Se está metido no caso, é porque se trata de alguma coisa verdadeiramente quente...”

Contudo, nenhuma voz poderia ter sido mais suave que a de Saunders quando disse, levantando-se de mão estendida:

- Sei que está muito ocupado, doutor. Faremos o possível por ser breves...

- Encontraram então o vosso homem?

- Muito longe disso! Pode ajudar-nos neste campo?

- Não, Mr. Saunders. O sobrevivente dos dois “queimados”, que foi transportado para aqui, ainda não recobrou os sentidos. Receio muito que morra dentro de pouco tempo...

Quando o homem do F.B.I. sorria, não se produzia qualquer impressão de alegria ou de bom humor. Olhando para essa massa sólida, instalada numa poltrona, Ash evocou instintivamente o pugilista que, encolhido no seu canto, observa o adversário e prevê as suas artimanhas.

- O inspector e eu já fomos ver o tipo. Na minha opinião, é um caso arrumado. Não acha também o mesmo, Hurlbut?

O inspector suspirou e afundou-se ainda mais na poltrona. Nesse dia Hurlbut parecia excepcionalmente calmo. Lembrava a espécie de aquiescência entorpecida que, muitas vezes, se sucede a uma severa bordoada dada de cima.

- Não sei mesmo como é que ainda vive!

Ash reassumiu a autoridade com um encolher de ombros:

- A explicação disso reside nos novos e maravilhosos remédios da medicina moderna. Todavia, não creio que consigam tirar alguma coisa desta fonte.

- Em todo o caso, pode servir, se conduzirmos bem o nosso jogo. - Saunders inclinou-se vivamente para a frente: - É para isso que pedimos a sua ajuda.

- Receio não estar a compreendê-lo...

- Leu certamente os jornais da manhã.

- Apenas os títulos das colunas.

- Como sabe, Hurlbut explicou aos jornalistas que esses tipos eram de Brookhaven. Desta vez, o jornal de Collins fez jogo franco. Não direi outro tanto dos outros. Um redactor já apregoou que um assassino atómico anda em liberdade em Manhattan...

- Acredita isso por um instante que seja?

- O que eu penso não importa - respondeu o homem do serviço federal, ostentando um rosto calmo e doce como um creme, traído apenas pelos olhos. - Num certo sentido, lamento que Hurlbut já tenha dito tanta coisa. Todavia, isso pode ser útil. É indiscutível que um assassino qualquer anda em liberdade. Se leu os artigos dos jornais e os seus comentários, se os ponderou, pode tentar ainda o impossível para reduzir ao silêncio o tipo que está lá em cima.

Hurlbut interveio duramente:

- Todos os jornais disseram que esperávamos encontrar uma pista de um momento para o outro. Parecia ser verdade. Quase acreditei...

O director de East Side General levantou a mão para pedir um instante de silêncio.

- Armou uma ratoeira bem combinada, inspector, mas não vejo de que modo faço parte do isco.

- Não faz, doutor - volveu, irritadamente, Hurlbut. - Mas a ratoeira é East Side General. O cordão de polícia continua estendido, compreende? E passamos a vizinhança a pente fino com todos os meios de que dispomos. Esperamos ainda que o nosso homem, levado pelo pânico, saia do seu esconderijo. Suponha que o faz e que consegue escapar-nos... Suponha ainda que larga o seu mecanismo de relojoaria...

- Quer dizer que seria capaz de fazer saltar um bairro de Nova Iorque apenas para ter a certeza de que o tipo lá de cima se calaria definitivamente?

- Ele pode achar que isso valha a pena. Nenhum de nós pode afirmar que o não pense.

- E sugere, então?

Saunders respondeu vivamente:

- Perguntamos-lhe se gostaria que matássemos a história, matando o homem. Teoricamente, está claro. Dizer aos jornais que morreu sem ter podido pronunciar uma palavra. Isso teria, pelo menos, a vantagem de afastar o perigo da sua porta.

Ash permaneceu silencioso, por um instante, a fim de reflectir devidamente no sentido dessas frases e em tudo quanto poderiam implicar. Depois:

- Antes de responder-lhe, gostaria que me dissessem tudo quanto sabem.

O inspector e o agente do Serviço Federal trocaram um olhar. Foi Saunders que afastou as mãos como um jogador apresentando as cartas.

- Isso não nos será de muita ajuda para tomar uma decisão, doutor, mas tem o direito de saber. Primeiro, o produto foi roubado em Oak Ridge...

- Então, era de facto um produto químico?

- Mas não posso atribuir-lhe um rótulo. Nem sequer para si. Posso dizer-lhe que é líquido, volátil... e radioactivo. Suficientemente violento para que a sua expedição seja feita em cilindros de chumbo. Vários destes cilindros foram apanhados recentemente. Ao que parece, os ladrões dirigiram-se para leste, em camiões. Encontrámos um destes, ontem à meia-noite, num estaleiro naval da parte baixa da cidade. A retaguarda parecia ter sido assada num alto-forno e, em seguida, mascada por um dinossauro.

- Foi então um produto químico que provocou esse efeito? Não teria sido em consequência da explosão de uma bomba?

- Não creio que nos seja possível tirar essa conclusão formal, doutor.

Ash fitou o visitante.

- Não se trataria de hexafluoreto de urânio?

- Não, doutor - respondeu Saunders, pacientemente. -E, se mo permite, proponho que nos deixemos de brincar às adivinhas. É possível que nos amedrontemos a nós próprios, se partirmos do princípio de que se trata da parte de uma bomba, de um seu elemento, e que a sua montagem está a fazer-se debaixo do nosso nariz. Todavia, trata-se de uma possibilidade que não podemos negligenciar. É evidentemente muito mais verosímil que o produto seja exportado ilegalmente. Sabemos que um sindicato se dedica activamente a este género de contrabando, à saída de Nova Iorque, e que a coisa dura já há bastante tempo. Temos de deter a sua actividade. Poderíamos consegui-lo agora, se quisesse fazer jogo connosco.

- Não pode ser mais preciso quanto ao que aconteceu a esse camião antes de o terem abandonado?

- Podemos presumir que o produto se esvaziou pelo caminho ou enquanto o descarregavam. Já lhe disse que na sua forma actual é volátil. Se o selo de um desses recipientes se quebrou acidentalmente, a morte jorrou tão seguramente como de um lança-chamas. Concluímos que o mecânico e o seu ajudante foram queimados vivos, enquanto efectuavam a sua entrega. Qualquer que seja o destinatário em Nova Iorque, estava impossibilitado de chamar um médico para acudir ao caso. Desembaraçou-se pois dos corpos, depois do camião...

- E do produto químico também?

- Esse, infelizmente, continua escondido. A menos que já esteja fora do país, o que parece pouco provável. Toda a cronometração indica que o destinatário era o seu próprio armador... que trabalhava fora desta vizinhança... e que não recuará perante nada para apagar o seu rasto. Não é admissível que o consiga, sobretudo se conseguirmos vencer enquanto se esconde e finge morto.

Martin Ash levantou-se.

- Obrigado, meus senhores. Agora, compreendo perfeitamente o meu papel.

- Continuará então a dizer que o seu “queimado” estará dentro em breve em estado de falar?

Ash caminhou até a janela do gabinete e passeou o olhar pela esplanada do hospital até os portões de ferro da entrada e destes para as habitações operárias situadas do outro lado da rua. Nunca tudo isso lhe parecera tão transbordante de uma vida pujante, tão activa. O seu espírito recusava-se a imaginar um quadro de destruição no lugar de toda essa vida.

- Pede-me muito, Mr. Saunders - disse por fim.

- A parada é enorme, doutor.

O homem do F.B.I. via bem a coisa, e, evidentemente, tinha razão. Já não havia por onde escolher. Pouco importava que o inimigo tivesse permanecido até então anónimo. Devia ser combatido e destruído, em todas as frentes. A segurança do pessoal hospitalar, a segurança de todos os habitantes dessas casas operárias estava fora dos seus meios de acção, fora das suas possibilidades de protecção, fora da sua fiscalização. O director de East Side General aquiesceu lentamente com a cabeça:

- Estaremos consigo, está dito.

Saunders estendeu a mão:

- Obrigado, doutor. É preciso coragem para tomar uma tal decisão.

- Não se esqueçam de que estarão aqui igualmente.

- Mas o perigo faz parte do nosso ofício e não do seu.

- E supondo que o pânico rebente antes do acontecimento?

Hurlbut e Saunders sorriram com ar entendido:

- Ficaria surpreendido se soubesse a facilidade com que o homem vive sob a sombra ameaçadora do próprio destino - retorquiu o homem do F.B.I. - Toda a gente de Nova Iorque lerá, se ainda o não fez, o artigo aterrorizador desse jornalista. E nem por isso deixará de debruçar-se sobre o rádio e aqueles que o não têm esmagar-se-ão nos bares, de encontro uns aos outros, para assistirem à próxima sessão de televisão. Mas não prevejo qualquer pânico. Pelo menos, antes de um facto vir dar corpo a esse artigo e fornecer um motivo ao pânico...

- Escusado é dizer que tenho de prevenir o meu estado-maior.

- Sem dúvida. E providenciarei para que os outros hospitais lhe prestem socorros... se, mais tarde, tiver necessidade de socorro...

Saunders levantou-se lestamente, com o ar de um homem que acaba de tirar de cima dos ombros um pesado fardo.

- Permanecerei em contacto consigo, através dos serviços de Hurlbut. Inspector, se quiser conduzir-me outra vez à porta das traseiras...

Os visitantes tinham partido; Ash encontrava-se ainda junto à janela. Saunders tinha razão: um homem só durante um certo tempo poderia suportar a ameaça precisa da própria dissolução. Não levaria muito tempo ou a endoidecer... ou a mandar para o diabo todos os profetas, bons ou maus... “Pessoalmente, não creio numa única palavra de tudo isso”, pensava Ash. “Mas por uma simples questão de prudência, vou decretar o estado de sítio, daqui a pouco, na reunião do conselho. Se o raio desferido pela mão do homem nos atacar, estaremos prontos para fazer-lhe frente.”

Depois, pensou na mulher e, sozinho, na pequena sala de espera, começou a rir alto; o problema já não existia! Não tomaria parte no seu week-end. O pior de tudo era não poder explicar-lhe porquê. “Talvez eu menospreze voluntariamente o perigo”, pensava. “O velho desejo da morte, o velho apelo à morte, levantar-se-ia de novo para mim? Será por isso que recuso dar um passo enquanto ainda é tempo?”

Em caso de desastre, a sua presença ali não era realmente assim tão necessária. De facto, o melhor seria até delegar plenos poderes de decisão em Andy Gray, cuja experiência do tempo de guerra ultrapassava consideravelmente a sua. Os serviços de urgência estavam tão bem organizados como os exercícios de embarque nos salva-vidas a bordo dos paquetes da linha do Atlântico. Graças a Andy, tudo poderia entrar em funcionamento no mesmo instante em que a ordem fosse dada e sem o mínimo embaraço. Ninguém poderia censurar a Martin Ash que, nesse momento, gozasse o seu week-end habitual. Ninguém, com excepção de Martin Ash, suspeitaria que era precisa mais coragem para voltar à prisão blindada de ouro, partilhada com Catherine, que para ali ficar e esperar a liberdade que, por fim, poderia vir com a destruição.

 

Tony Korff, ao dirigir-se para a sala de cirurgia onde ia fazer a sua visita matinal e verificar os gráficos de temperatura, deteve-se de passagem pela cozinha de dietas, onde encheu uma chávena de café forte e escaldante. De pé, junto à porta aberta da escada de salvação, observava Nova Iorque, estendida a seus pés e a tiritar na bruma da manhã: ao norte e ao sul, sobressaíam manchas de arranha-céus e no alto da cidade, as altivas falésias dos edifícios de grandes apartamentos com os seus terraços privativos lembravam miragens dançando no calor.

“Outro dia de torreira!”, pensou. “Outro dia de tarefas fastidiosas...” Quando o seu espírito se reanimou sob o efeito da corrente de ar escaldante que se estabelecia à sua volta, despertou completamente. Desde que assistira à operação que salvara Bert Rilling, não conseguira dormir um único segundo; fora-lhe necessária toda a força de vontade para se manter afastado do quarto ocupado pelo cervejeiro até o momento em que lhe fosse possível fazê-lo a coberto da rotina regular do hospital. Ainda nesse mesmo instante, tremia à ideia de ir verificar a descoberta que fizera sob a luz crua da sala de operações.

Uma segunda chávena de café, algumas torradas roubadas a uma bandeja “especial”, era tudo de quanto carecia para primeiro-almoço. Sentia-se já disposto ao ataque e pronto a arriscar tudo, baseado na convicção de que Bert Rilling e ele não eram de forma alguma desconhecidos. Sem saber porquê, ao sair da cozinha das dietas, deitou uma olhadela rápida e furtiva à direita e à esquerda - hábito conservado do ghetto de Berlim, num tempo em que os inimigos espreitavam por toda a parte. Depois, avançou prudentemente, colado ao longo da parede, com uma velocidade de doninha.

Como já esperava, o aviso “Proibidas as visitas” estava afixado à porta do quarto do cervejeiro. Muito próximo desta, dois homens sentados num banco, e que calculou serem os vice-presidentes da Silver Cap Rilling Brewery,1 de que Bert já há muito tempo era proprietário, levantaram-se à vista do uniforme branco que anunciava um médico. Sacudiu as suas perguntas, meio formuladas e entrou com ar importante no quarto, tendo o cuidado de deixar a porta deste cuidadosamente fechada. A enfermeira particular já estava de pé ao lado do leito e apresentava-lhe o gráfico. com um ar tão profissional quanto possível, estudou a folha, ao mesmo tempo que uma das suas mãos, introduzida sob a tenda do oxigénio, tomava o pulso do paciente. Achou-o irregular e acelerado, o que traduzia a fibrilação auricular, indício certo da ruína progressiva do próprio coração.

Esforçando-se por concentrar-se nos pormenores e desviando o olhar de perfil emaciado, levemente perceptível através da parede de plástico da tenda, compreendeu que a circulação das pernas se mantinha graças à audaciosa cirurgia de Gray, o que todavia, não passava de uma vitória incompleta: um coração enfermo projectara, em primeiro lugar, vários êmbolos através do circuito sanguíneo e esse mesmo coração perdia presentemente a sua capacidade de funcionar; quase certamente mataria o cervejeiro antes deste poder sair da cama.

“Não morrerás sem que eu te tenha nas mãos”, rosnou interiormente Tony Korff. “Podes ir à vontade para o inferno, mas só quando eu to permitir: não te deixarei morrer!”

Despertou sobressaltadamente dos seus pensamentos ao ouvir o que a enfermeira dizia e repreendeu-se em silêncio: “Pensa na tua dignidade! Não te esqueças que esta visita faz parte simplesmente do serviço corrente. Mais nada, absolutamente.”

- Senhor doutor, quer ver as manchas que tem nos dedos? Notei-as há pouco, ao entrar de serviço aqui. A enfermeira especial da noite disse-me que eram ainda mais aparentes quando voltou da sala de operações...

Tony levantou a pesada mão que, por muito inerte que estivesse, lhe pareceu familiar, e amaldiçoou as dores de cabeça, que continuavam a impedir que o seu espírito raciocinasse convenientemente. Só três dedos estava manchados, mas as manchas eram nítidas. “Princípio de gangrena”, concluiu para si próprio. Reassumindo um ar mais profissional do que nunca, declarou:

- Coágulos localizados, nada mais - disse com severa autoridade. - Estes casos levam sempre à dispersão de numerosos coágulos minúsculos pelo sistema circulatório. Um deles deve ter bloqueado a artéria, na direcção dos dedos; de resto, a circulação neste lado não é excelente...

Instintivamente, pousou a mão na de Rilling para verificar a coloração da pele. O cervejeiro gemeu através do nevoeiro opaco dos calmantes e repeliu a mão de Korff.

- Meu Deus!

Tony sentiu o coração pulsar loucamente. Aquela voz atravessara o decurso dos anos, mantendo intacta toda a sua selvajaria gutural. Na sua memória, projectou-se uma cena, tal como uma fita de cinema desenrolou-se ao contrário: Um beco lamacento nos bairros sórdidos de Berlim-Leste. com o rosto contorcido pela raiva e pelo medo, ele, Korff, estava de pé, de costas apoiadas à parede, e lutava com a coragem do desespero para afastar as mãos que se esforçavam por atirá-lo ao chão enlameado. Dois punhos formidáveis tinham surgido então de qualquer sítio, dispersando o bando feroz. O tirano de ombros largos, maior e mais furioso que a horda de jovens criminosos que o tinham acunhado, salvou-lhe a pele por uma questão de segundos, atirando para a direita e para a esquerda os agressores, já ansiosos por encontrarem um abrigo...

- Meu Deus! O que é isto aqui?

Tony Korff entrelaçou os dedos das mãos para os impedir de tremerem.

- Dê-me a sua lanterna portátil, enfermeira - pediu calmamente. - Quero verificar o aspecto da tez.

No quarto, apenas se ouvia o sussurro do motor da tenda de oxigénio. O jorro de luz, atravessando a parede de plástico, aureolou com uma espécie de nimbo grotesco a cabeça do cervejeiro. A testa e os maxilares pareciam apresentar uma claridade azulada própria, sinal mudo de um coração que enfraquecia. “Silhueta surgida do meu passado...”, pensava Tony. “Está a morrer... e não devo deixá-lo morrer por enquanto...” Como se tivesse tido este pensamento, e tentasse responder-lhe, Rilling abriu os olhos. Durante alguns segundos, o olhar adormecido reconheceu o sombrio perfil atento que se aproximava tanto quanto possível, da janela da tenda. Tony reteve a respiração... mas, em breve, o paciente recaiu no estado de coma.

Nessa altura, estava certo, tão absorto na sua certeza, que mal ousava continuar a respirar. “Kurt Schilling”, pensava. “Kurt Schilling! Simplesmente, agora és Bert Rilling!... No fim de contas, era uma mudança bem fácil de efectuar e a duração da travessia do Atlântico bastava largamente para isso. Desde o nosso primeiro encontro, soube que não te contentarias em reinar num canto desses bairros sórdidos de Berlim... que havias de farejar a doença de Hitler e que mudarias atempo...”

Interrompeu o monólogo silencioso e afastou-se da janela antes de a enfermeira ter tido tempo para ficar desconfiada. Desde esse encontro fortuito na viela, em que Kurt o tomara sob a sua asa e o tinha formado de modo a torná-lo uma espécie de homem de confiança, de satélite, receara e respeitara Schilling em proporções iguais e obedecera às suas ordens sem as discutir. Fora Kurt quem lhe ensinara a deixar de se encolher, a deixar de sucumbir, mas a fazer frente aos inimigos, sem os recear. Graças a Kurt, descobrira que nada substitui a inteligência e que não há pior tirania que a tirania do espírito.

Quando soube que Schilling se fundira na imensa massa americana, não lhe quisera mal por isso. No fim de contas, crescera sem amizade como sem amor, e nada esperara do seu protector para além do facto de que esse tirano de punhos sólidos o utilizaria enquanto lhe achasse utilidade. Além disso, ele próprio já estava profundamente ocupado na preparação da sua fuga da Alemanha... Nesse momento, já não o surpreendia - uma vez acalmado o primeiro choque da descoberta - que as suas vias voltassem a cruzar-se.

Por que motivo o seu antigo companheiro dos bairros sórdidos de Berlim não havia de ter-se tornado um milionário americano? E, sobretudo, por que motivo ele, Korff, havia de querer mal a Rilling-Schiling por ter ascendido a uma espécie de celebridade? Era inevitável que Kurt tivesse feito fortuna como homem de negócios americano tornado político. Existiam ainda, em Nova Iorque, cantos onde os lares nazis, solidamente enraizados, pediam apenas um sopro vigoroso para recomeçarem a flamejar.

Kurt empregara-o; Kurt deveria encarregar-se de tornar a empregá-lo. De resto, se sobrevivesse, não teria por onde escolher e compreenderia, sem necessidade que lho explicassem, o perigo que Tony Korff representaria para a sua nova situação e, implicitamente, o seu direito estrito de pedir-lhe, em troca do silêncio, garantias para o seu próprio futuro.

Fez voltar o olhar ao gráfico, como o requeria a sua condição de médico, de espírito pronto, inteiramente resolvido a salvar uma vida, se não inteiramente, pelo motivo preciso no juramento que prestara no dia em que recebera o diploma. Fibrilação auricular significava evidentemente quinidina. Às vezes, esta droga bastava para produzir um milagre... e Tony Korff, nessa manhã, precisava seriamente de um milagre... Pegou no auscultador do telefone pousado na mesa-de-cabeceira de Rilling e marcou o número de George Plant, rogando fervorosamente para que esse enorme imbecil estivesse, desta vez, ocupado a trabalhar no seu posto.

Quando ouviu a voz do interno ronronar na outra extremidade do fio, Tony quase gritou de alívio:

- Como está, esta manhã, a sua estrela pensionista, Korff?

- Ainda viável, doutor. Gostaria de poder dizer mais alguma coisa.

- A circulação continua a fazer-se?

“Plant”, pensou Tony, “deverá estar igualmente optimista no dia do seu próprio funeral!” Respondeu em tom cortante:

- Acima da cintura a coloração da pele é excelente e deste lado não há indício aparente de nova complicação. Mas, quanto ao pulso, é outra coisa. O meu diagnóstico é fibrilação auricular em formação.

Dissimulou um sorriso ao “ouvir o silêncio” que se fez subitamente no outro extremo da linha e, depois de receber a ordem que esperava, aquiesceu com um movimento de cabeça:

- Quinidina? Excelente sugestão, doutor. vou encomendá-la imediatamente.

Depois de ter ligado para a farmácia, voltou à tenda de oxigénio, seguido pelo olhar respeitoso da enfermeira. Desde o momento que o medicamento fora requisitado, já não podia hesitar; só restava esperar e orar. Concedeu um último olhar ao perfil do cervejeiro, semelhante a uma máscara mortuária no sono provocado pelos calmantes. Esse velho Kurt ficar-lhe-ia reconhecido pelo seu socorro, ainda que mais tarde tivesse de Pagá-lo substancialmente.

A enfermeira postara-se a seu lado. Amaldiçoou-a em silêncio e acabou por afastar-se.

- Posso fazer alguma coisa, senhor doutor?

- Procure dar-lhe a quinidina logo que chegue. Se se produzir qualquer alteração, por muito ligeira que seja, chame-me imediatamente...

No corredor, uma consulta ao relógio indicou-lhe que dispunha de um bom momento para realizar a ronda pela enfermaria. “Necessito absolutamente de estar ocupado!”, pensou. “Preciso a todo o custo de acalmar esta parte do meu cérebro que trabalha para Tony Korff... até me sentir seguro de Rilling e da sua gratidão.”

Obedecendo a um súbito impulso, desceu o corredor da sala de detenção, onde repousava o “queimado”. Como anexo à enfermaria, também fazia parte do seu bailiado.

Ao entrar, verificou que o homem estava in extremis, verdadeiramente a morrer. A enfermeira sentada ao lado do leito - graças a Deus, não era uma especializada, mas uma das enfermeiras do seu serviço, que acatava as ordens sem as discutir - levantou-se cheia de gratidão pela sua chegada.

- Como estou satisfeita que tenha vindo, senhor doutor! Estava quase a pedir um estimulante.

O seu olhar notou sobre a mesinha-de-cabeceira a bandeja coberta por um pano. Muito provavelmente, o pobre diabo já não reagiria a qualquer estimulante, mas, se nada tentasse, mais tarde criticá-lo-iam.

- vou dar-lhe uma injecção de coramina. Tem aí uma seringa?

Enquanto a enfermeira lhe passava o instrumento, pegou na ampola colocada sobre a bandeja... e depois substituiu-a por uma outra de metrazol, estimulante muito mais poderoso. Passou um garrote elástico em volta do braço do moribundo, torceu-o com força para fazer sobressair uma veia, já inchada pela falta de circulação, e com o olhar absorto seguiu o escoamento do líquido para dentro do sangue. “Posso manter as minhas mãos ao serviço de East Side General”, pensou, “mas, esta manhã, o meu cérebro pertence a Tony Korff... e ao brilhante futuro de Tony.”

- Estamos quase sem oxigénio, senhor doutor - informou a enfermeira. - Pode vigiá-lo durante um instante, enquanto vou encomendar outra garrafa?

Tony aquiesceu distraidamente. Desde a adolescência que a morte não passava de um incidente na sua vida. Em todo o caso, achava estranho que esse homem morresse incógnito e sem um ser que o chorasse.

- A polícia ainda está lá fora?

- Já não, senhor doutor. Devem ter perdido a esperança de que falasse.

A enfermeira saiu rapidamente enquanto acabava a frase. Tony continuava a olhar para o “queimado”, mas sem o ver realmente. O seu olhar notou que a coloração da pele, visível nos intervalos das ligaduras de múmia, melhorava ligeiramente; sob o seu dedo o pulso tomava força à medida que o poderoso estimulante atingia os centros cerebrais deprimidos pelo choque. Bruscamente, os músculos meio escondidos do rosto estremeceram, como se o homem fosse falar... Tony, rapidamente desperto dos seus sonhos, achou-se imediatamente médico, com uma tarefa a realizar.

Dessa vez, meteu na seringa duas ampolas cheias de pentaleno. Se esse tipo ia falar, seria então ou nunca e, visto que, de qualquer maneira, devia morrer e já estava com um pé na cova, não havia mal nenhum em galvanizá-lo, se possível... A agulha enterrou-se... e o conteúdo da seringa partiu para o cérebro enfraquecido. Só então Tony ergueu o olhar para se certificar de que a enfermeira ainda não voltara. No corredor, não se ouvia qualquer ruído. Meteu no bolso as duas ampolas vazias e aproximou-se ainda mais do leito.

“Seria preciso um momento mais”, pensou, ouvindo por fim o passo da enfermeira. Tirou-lhe das mãos a garrafa de oxigénio ao mesmo tempo que lhe gritava o pedido de uma agulha para adrenalina. Quando, com um sopro semelhante a um suspiro, a porta se fechou pela segunda vez, teve a certeza de que estava senhor da situação. Só ele ouviria a última mensagem proferida por esses lábios empolados e a polícia ficaria grata a quem lha levasse. Era sempre bom ter a polícia do seu lado, quando se tinha a intenção de montar um consultório numa cidade como Nova Iorque.

Sob as ligaduras, os músculos do rosto tumificado agitavam-se violentamente. Tony olhou para as pernas agitadas por um espasmo - apertadas sob o lençol, dir-se-iam gigantescas navalhas de mola. Só um médico podia saber que essa convulsão, resposta automática às duas ampolas de pentaleno, precedia a morte.

Da boca inchada escapou-se um gemido. Um gemido e depois uma única palavra. com o ouvido apoiado contra o rosto ligado, Tony ouviu-a claramente:

- Silver...

- Continua, dummkopfi - quase gritou Tony, na esperança de que o som atingisse o cérebro afectado.

- Silver... Silver Cap...

Tony debruçou-se ferozmente sobre o corpo agitado por fracas sacudidelas, mas não conseguiu traduzir claramente o que ouvia. Uma vez mais, aproximou-se do ouvido do homem e berrou-lhe uma ordem, sem sequer notar que, na sua excitação, falava em alemão. Sabia, porém, que esse jorro de consciência fora uma resposta sintética, começando e terminando com a estimulação devida às ampolas. Sentiu o pulso palpitar uma ou duas vezes, fracamente e depois desvanecer-se... Seguiu-se uma estranha imobilidade, quebrantada pelo estertor da morte, que se escapava dos pulmões agonizantes...

Antes de ter tido tempo de se afastar do leito, a enfermeira apareceu no limiar da porta. Obedecendo a um outro instinto, dirigiu-se-lhe de mão estendida:

- Depressa... depressa... Dê-me a adrenalina...

Rasgou as ligaduras que cobriam o peito, hesitou um segundo, sentindo-se aterrorizado, mesmo então, ante o aspecto de pesadelo das carnes subitamente expostas à vista, mas o seu espírito não diminuiu de velocidade. Visto que começara esse combate dramático por uma existência, era-lhe preciso continuar, ainda que não fosse senão pelo relatório...

Graças à agulha de adrenalina, o relatório seria correcto. Ninguém teria conhecimento das duas ampolas de pentaleno suplementares que estavam vazias, na algibeira da bata. Enterrou duas vezes a agulha, antes de estar certo do seu objectivo. Da primeira vez, roçou por uma costela; da segunda, o sangue escuro, que subiu para o corpo da seringa, indicou-lhe que a agulha penetrara profundamente nas cavidades do coração. De facto, essa nova injecção teria sido inútil, ainda que o paciente vivesse, mas daria uma boa história, à noite, na sala dos internos.

- Cheguei tarde de mais, senhor doutor?

- Ainda não sei... Recue um pouco...

Deixou cair a agulha na bandeja e procurou um pulso já extinto. O seu espírito, já livre, girava à volta do reflexo de que acabava de ser testemunha, o último soluço, no próprio limiar da morte... Silver Cap... Tratar-se-ia da Silver Cap Rilling Brewery!--- Da cervejaria que dera a Bert Rilling a sua parte do despojo político metropolitano, com todos os proveitos que a coisa comportava? Por muito fantástica que essa suposição parecesse à primeira vista, devia existir qualquer relação entre o amigo da sua juventude e esse fardo de carnes carbonizadas.

Os seus olhos demoraram-se nas ligaduras rasgadas sobre a parte da carne corroída por um produto químico e que ele desnudara para enterrar a agulha. Havia algo de familiar naquela escara de um branco-acinzentado... algo que a sua memória podia identificar instantaneamente... que podia guardar como seu bem pessoal... Num relâmpago, compreendeu que as manchas semelhantes às de gangrena nascente que vira nos dedos de Rilling e as cicatrizes de queimaduras que, nesse momento, observava, tinham a mesma origem, a mesma causa. E, nesse relâmpago também, todo o quadro se iluminou...

Bert Rilling, por uma razão qualquer, estivera em contacto com o produto que queimara os dois homens, matando um imediatamente e o segundo um pouco mais tarde... Mais ninguém, a não ser ele, Tony Korff, que conhecia o antigo bandido berlinense, podia imaginar, com uma precisão gráfica, a cadeia dos acontecimentos. Fora Rilling ou um dos seus empregados quem atirara esses corpos para a escada de entrada desse armazém abandonado. Em qualquer ponto do percurso, Rilling estivera em contacto com o produto que lhes causara a morte.

Cumpriu automaticamente a rotina: auscultou o coração do paciente e, como nada ouvisse, declarou-o morto. Os gestos regulares e necessários pareceram-lhe intermináveis. Atormentava-o o desejo de sair daquele quarto, de se tornar a achar livre, de percorrer o corredor, gozando secretamente a sua descoberta. Antes do meio-dia, não teria tempo de estabelecer planos deliberados... a visita à sala de cirurgia... e, em seguida, um longo constrangimento no O. R.... mas a tarde pertencer-lhe-ia e sabia muito bem como empregá-la exactamente...

Em conformidade com toda a lógica, já decidira que essa informação era um dom pessoal, que não pensava partilhar com ninguém... e muito menos com a polícia. O mesmo instinto que impedira a sua mão de cortar a corrente do registador aconselhava-o também a nada dizer. O tempo e o estado de saúde de Bert Rillig o decidiriam... mas os seus movimentos seriam os de um caçador que está seguro da sua presa e é suficientemente prudente para caçar sozinho.

- Traga-me depois a certidão de óbito, enfermeira. Agora já vou atrasado para a minha visita à enfermaria.

Estava desembaraçado do cadáver. Podia errar, durante um momento, através do hospital, antes que o engenho quotidiano o arrastasse para a sua ronda. Devia apelar para todo o seu autodomínio para impedir-se de soltar um grito de alegria, quando virou uma esquina... e chocou com um dos colegas de internato, por sua parte profundamente enfronhado na leitura de um jornal.

- Não podes levantar a cabeça, Korff?

- Vê para onde vais, sim?

Teve apenas tempo para ver de relance o que lia o jovem Wilson. A parlapatice quotidiana de um jornalista famoso, outrora repórter brilhante, então titular de uma coluna e que desde há muito tempo aprendera que gritos de alarme, sobretudo quando permitem subentender algum fundo venenoso, atraem muitos mais leitores que a clara luz da verdade. Nessa manhã, o título era do estilo mais indicado para causar sensação: uma massa de grandes caracteres vermelhos que marcava a página com um traço de sangue:

ASSASSINO ATÓMICO EM LIBERDADE EM MANHATTAN?

O hospital tem uma vítima e espera outras.

Tony precisou de um instante para avaliar exactamente o sentido dessas linhas e depois desatou a rir sozinho, com um riso louco e inextinguível, que o sacudia de alto a baixo e o fazia cambalear ao longo dos corredores, como se estivesse atacado por forte bebedeira. Sentiu os olhos de Wilson seguirem-no com espanto e, com um encolher de ombros, desembaraçou-se da curiosidade do colega mais novo.

Wilson, intimamente, sempre considerara Tony Korff como um boche de cabeça quadrada e Tony, nesse instante, pouco se importava com o que, com razão ou sem ela, Wilson pudesse pensar.

“Assassino atómico em liberdade em Manhattan?”. Tony repetia alegremente e em silêncio o título. “É humor americano” , pensava, “deste humor americano que foi sempre o culto do exagero. O jornalismo americano desce também ao nível grotesco das suas rubricas ditas cómicas.”

Bert Rilling começara a sua vida como bandido, como se tivesse nascido para isso. com um pouco de sorte, terminá-la-ia como cidadão, se não respeitável, pelo menos respeitado. Nunca, no decurso da sua longa viagem para a riqueza e celebridade, Bert matara sem razão. E, mesmo então, mesmo ali, Tony não podia acreditar que essa absurda enlameadura de tinta vermelha fosse justificada.

Como sempre, sob a superfície e a aparência das coisas, devia encontrar-se uma explicação muito mais simples. Quando Bert emergisse do seu sonho narcótico, teria de contar-lhe tudo. Se se mostrasse relutante a fazê-lo, havia meios de obrigá-lo a falar. Enquanto esperava, Tony podia permitir-se rir francamente ao pensar na vasta rede que a polícia estendia sobre a cidade e na estranha presa que traria das profundezas.

Lembrou-se do cordão de agentes de uniforme azul que continuavam a rodear o hospital, resolvidos a impedirem que o assassino alcançasse a vítima moribunda, sem suspeitarem que a ameaça já caducara. Pensou com um ligeiro desprezo no inspector importante e desmancha-prazeres que, na véspera, estivera demasiado ocupado para mandar chamar e interrogar um simples interno... Sob um certo ponto de vista, seria muito bem feito fazer pagar caro esse erro ao mesmo inspector... se não fosse absolutamente certo que Bert Rilling pagasse ainda mais caro.

Ao entrar na sala de cirurgia, cantarolava uma ária sem Palavras, inconsciente de que era a música de uma canção obscena da marcha que os Camisas Castanhas de Hitler, noutros tempos, tinham berrado à cara de um mundo estupefacto. Caminhava de cabeça erguida e as pernas vestidas de branco quase marchavam ao passo de ganso. Nessa manhã, o mundo era a sua ostra: tinha a liberdade de engoli-la ou de lhe extrair a pérola, à sua vontade, à sua maneira e quando muito bem lhe apetecesse.

 

Nesse instante, e embora sob o mesmo tecto e à distância de um quarteirão inteiro de casas, Bert Rilling, numa nuvem de dores e de calmantes, estava a braços com a realidade. Isso começou com um prudente recuo, não demasiado grande para ser perigoso. Um recuo à súbita flecha de desgraça e de agonia... que poderia ter sido a morte sob uma forma tangível... Podia até lembrar-se do seu sorriso amargo, quando se sentira rodopiar e cambalear sob esse arremesso de sofrimento e reconhecera que esse corpo, por muito couraçado que estivesse, não era todavia imortal. A causa disso estava na vida fácil, na moleza, na opulência que a América lhe concedera desde o início. Sabia que transbordava de gordura e que já era um velho de cinquenta anos, um velho teimoso que se recusava a obedecer ao médico.

Todavia, encarara a morte, no gabinete da sua cervejaria, com a mesma arrogância que aos seus outros inimigos. Verificara a recusa das pernas com tanto desprendimento como se ja fizessem parte do seu corpo. Caído para a frente, estendido sobre o tapete, arrastara-se para o telefone, centímetro por centímetro, utilizando toda a força dos braços robustos e das espáduas maciças. Nenhum homem teria sido capaz de erguer essa carcaça porcina até o telefone. Depois de ter marcado o número de Plant, tinham-lhe ainda restado alguns minutos antes de mergulhar no esquecimento. Uma eternidade que poderia ter empregado para se arrepender dos seus pecados. Em vez disso, chorara, chorara como um verdadeiro velho, como os velhos choram sempre, quando finalmente admitem que vão morrer e que morrerão sem ninguém a seu lado.

Simplesmente, ele não morrera. De certo modo, apercebera-se de que Plant irrompera no gabinete. Recordava-se do som da sereia, enquanto a ambulância rodava até a plataforma de carga, mesmo à sua porta; da procissão dos homens de branco que parecia nunca mais terminar; do arcanjo que, no seu voo, trouxera a salvadora tenda de oxigénio...; do cirurgião alto e magro que o examinara com tanta competência. Lembrava-se até da sala de operações, talvez porque as suas paredes de um verde-pálido lhe tivessem recordado bastante bizarramente A Gruta uma bôite nocturna, que abrira em Munique... tantos anos antes...

Nada havia de familiar, nem sequer de longinquamente familiar, nesses monstros de cirurgia moderna, que, um após outro, se tinham acercado dele... Bem tentara gritar... mas nem um único som quisera sair... Tentara também soerguer-se, apesar das mãos enluvadas que o mantinham ali seguro, contra sua vontade..: Mas já a agulha se lhe enterrara no braço, trazendo-lhe o descanso... Sorrira sonolentamente, resignando-se a essa morte que não era a morte e perfeitamente seguro de que viveria.

Nesse momento, enquanto os olhos de pupilas contraídas pelos narcóticos se ajustavam progressivamente a esse quarto de hospital de persianas baixadas, via que o seu optimismo fora justificado. com os seus milagres, os cirurgiões tinham-no feito voltar da morte, arrancado às consequências da sua própria loucura - essa recusa obstinada em admitir que os seus melhores dias pertenciam ao passado - essa loucura ainda maior de ficar no seu gabinete muito tempo depois das horas de expediente, quando se esperava um camião proveniente do Oeste... Não quer dizer que, ao pensar no desastre que a sua presença evitara, lamentasse essas horas suplementares...

Mas estava demasiado fatigado para permitir ao espírito bater o campo até uma distância tão longa.

Naquele momento, preferia concentrar-se nesse quarto de hospital. A tenda de plástico que o cobria, o banho de oxigénio que lhe escorria sobre a cabeça e os ombros como a própria vida, conferindo-lhe uma inebriante ilusão de juventude e de força, ao mesmo tempo que reconhecia a impossibilidade de soerguer a cabeça da almofada... A silhueta respeitosa da enfermeira, pronta a levantar-se, a um sinal, e a fazer o que ele indicasse... “Talvez”, pensava, “não esteja verdadeiramente vivo... Talvez isto aqui seja um porto de escala no caminho do céu e que tu, vestida de branco, sejas o meu anjo da guarda...” Isso, todavia, era impossível e até no seu semidelírio reconhecia ter, desde há muito, renunciado à esperança do céu. Para cúmulo, Tony Korff estava presente e não era de esperar ver Tony de pé no limiar do paraíso. Infelizmente, como ele próprio, Tony pertencia de direito ao poço mais negro.

Ao emergir do seu estado comatoso, achara completamente natural ver o rosto de Tony a alguns centímetros do seu. Até a lanterna eléctrica e o perfil de nariz pontiagudo, colado à tenda, faziam parte da ratazana de cano de esgoto que conhecera. O seu espírito detinha-se no epíteto, afirmando-se não ser demasiado duro. O ghetto que os engendrara a ambos era o terreno natural dos ratos; na vida que, em tempos, partilhara, o rato era muitas vezes rei. Era curioso pensar que Tony sempre quisera ser médico. Ou cirurgião. Mais curioso ainda, que tivesse roubado e assassinado para pagar os estudos na Faculdade. O mais curioso de tudo era ter tido o bom senso necessário para escapar à derrocada geral da Europa antes que fosse demasiado tarde...

A América e a eclosão da Segunda Guerra Mundial tinham dado a Tony a impulsão exacta de que carecia. Quando Kurt Schilling se tornara Bert Rilling, tomara como ponto de honra seguir à distância a carreira de Tony Korff. Mais de uma vez estivera quase a ceder à tentação de lhe revelar a sua identidade, com a oferta de renovação da antiga aliança. Como braço direito de Bert Rilling, Tony Korff poderia ir longe, mas como cirurgião praticante, em Nova Iorque, nunca passaria de segundo plano. Bert estava certo disso.

Porém, nunca se decidira completamente a dar o primeiro passo tendente a essa reunião. Pelo contrário, sabendo que Tony era interno do hospital fronteiro à cervejaria, tivera sempre o maior cuidado em evitar que os seus caminhos se cruzassem. Sempre soubera que o tempo só serviria para aguçar os apetites de Korff. Conservara a lembrança do rato de esgoto que, em tempos, protegera, e presumia que o encontraria transformado num chacal adulto, ávido do seu sangue... Todavia, Tony reconhecera-o e não se sentia contente nem inquieto com isso. Tinha a bizarra noção fatalista de que esse encontro estava determinado e preparado desde há longa data por um destino contra o qual nada podia.

Não tinha certamente qualquer receio que Tony viesse a atraiçoá-lo. Kurt Schilling ficara para trás, em qualquer ponto no leste de Berlim, e para sempre. Tony seria o primeiro a compreendê-lo e a proteger esse segredo, mediante um preço. Bert Rilling estava certo de que o preço seria elevado, mas Tony valeria o custo. Seria já uma recompensa ter a seu lado um amigo dos dias passados, um homem a quem poderia falar de coração aberto, certo de ser compreendido. Rilling não era o primeiro a saber quanto Nova Iorque pode ser fria para um visitante, até para um visitante que aí tenha feito a sua fortuna.

Quanto à verdadeira origem dessa fortuna, conservá-la-ia secreta até ter estudado bem Tony e ter experimentado a sua natureza. Era-lhe reconfortante saber que, na altura em que lhe fosse indispensável um mensageiro, teria um à própria cabeceira do leito, um correio que nada impediria de chegar ao seu destino, que nada faria recuar. Em resumo, um amigo em quem poderia implicitamente depositar confiança, desde que, nessa confiança, o amigo encontrasse vantagens pessoais.

Bert Rilling, deixando o espírito alongar o seu raio de especulações, examinou a situação de momento sob todos os aspectos. Sentia que, nesse dia, ao menos, tudo corria bem. Nessa noite e no dia seguinte, o caso seria talvez outro... se Tony se mostrasse difícil quanto às condições do negócio. Mas não deixaria que Toni se mostrasse difícil durante muito tempo. De facto, depois que começara a ponderar seriamente as coisas, convencia-se de que já não poderia prescindir de Tony Korff. O que, na véspera, acontecera na cervejaria, poderia suceder a qualquer pessoa que fosse constrangida a depender de outras. Escolhera sempre cuidadosamente os seus agentes. Sempre lhes pagara bem, para além do seu valor comercial a fim de assegurar-se antecipadamente da sua fidelidade. O condutor que levara o grande camião de cerveja até a plataforma de carga era um dos seus empregados mais antigos. Não fora a primeira vez que terminara o dia desse modo, empregando a última hora do seu tempo de trabalho a descarregar pessoalmente o camião. Sabia de antemão, evidentemente, que, àquela hora, o vigilante da noite já teria partido, mas, como empregado de confiança, tinha uma chave para abrir o portão. Normalmente, teria colocado o saco de amostras no gabinete de Rilling, para que este o pudesse inspeccionar logo de manhã, antes de toda a carga ser transferida para os reservatórios.

Sim, era tão simples como isso, de uma rotina igualmente regular, igualmente inalterável... e ao abrigo das falsas manobras.

Em geral, Rilling nem sequer estava presente para verificar a entrega desse inocente saco de lúpulo. com os anos, achara mais simples delegar uma certa autoridade, até uma certa confiança elementar... Contudo, demorara-se no seu gabinete, durante horas, porque se sentia ali como em sua casa, muito mais à vontade em mangas de camisa que em trajo de cerimónia num restaurante da parte alta da cidade.

Recordava-se de que, mal lançara um olhar para fora, ouvira o camião roncar a alguns passos da porta. com efeito, o produto chegava a Tenessi desde há meses, sem a sombra de um embaraço. Nunca teria passado pela cabeça de um inspector de camionagem fazer parar um carregamento de tonéis de cerveja, rodando para o sul... ou de sacos de lúpulo apertadamente amontoados, que esses camiões transportavam para Nova Iorque, na viagem de regresso. Nenhum poderia ter adivinhado que uma garrafinha se encontrava no fundo do saco de amostras, uma simples garrafinha revestida de chumbo e contendo um produto químico que valia, muito literalmente, o seu peso em diamantes. Graças à regularidade e simplicidade dessa organização, acostumara-se a considerar essas entregas garantidas.

Nunca saberia o que podia ter acontecido se, nessa noite, tivesse continuado no gabinete a examinar os registos, se não se tivesse sentido impelido pelo vago desejo de ouvir uma voz humana... Devido a isso, descera até a plataforma, para observar a descarga. Chegara a tempo de se aperceber de que o ajudante do condutor era um novato, um homem que nunca vira, mas sabia que os seus agentes de Tenessi tinham o maior cuidado em filtrar o pessoal e de submeter cada novato a uma cuidadosa e longa prova. O homem mostrava-se nervoso ou negligente... ou ambas as coisas? Ou mãos húmidas de transpiração ou uma consciência culposa tinham-no tornado desajeitado? Quando retirara do camião o saco de amostras para pousá-lo sobre a plataforma, deixara-o escapar das mãos...

Tinham-se produzido duas explosões terrivelmente misturadas. A primeira não tivera consequências graves: uma cascata abundante de grãos de lúpulo espalhara-se para fora do saco, na retaguarda do camião. Entrevira a garrafa, um rectângulo de chumbo, que, segundos antes, repousava em segurança no seio do lúpulo e então rolava em liberdade e quebrava o seu selo de encontro à ferragem da retaguarda... Nesse mesmo instante, produzira-se a segunda explosão - uma espécie de chama prismática, como se um vulcão tivesse feito erupção das profundezas do veículo, como se algum génio diabólico tivesse surgido da origem dos tempos para reconstruir o mundo à sua imagem...

Teve imediatamente a certeza de que a chama dissolvera condutor e ajudante. Depois soube que o fogo se limitara a queimar neles a vida, enquanto ele ali estava, impotente, na plataforma. Uma única coisa o havia preservado de ser também aniquilado: o chumbo da garrafa fundira-se e correra todo unido para o orifício da garrafa, fechando-o de novo, pelo menos durante alguns instantes preciosos, que ele utilizara para correr à oficina e enfiar a vestimenta de amianto que ali estava sempre pendurada para o caso em que explodisse alguma dorna. Tivera ainda tempo para segurar a garrafa com uma chave inglesa passada em volta do gargalo e de martelar o chumbo derretido através deste. A sua mão direita sentia ainda um ligeiro formigueiro, só à lembrança da dor que sentira na extremidade dos dedos, quando algumas gotas do líquido mortal tinham queimado uma passagem através das luvas.

Uma vez a garrafa fechada em segurança no cofre-forte do seu gabinete, o espírito voltara a equilibrar-se. No fim de contas, já mais de uma vez lhe acontecera fazer desaparecer provas acusatórias e sobreviver-lhes para recordá-las... Na outra noite, a coisa tinha sido relativamente simples, pois as ruas nas vizinhanças da cervejaria estavam mergulhadas numa completa escuridão. Ao tornar a pensar naquilo, admitia que fora demasiado apressado, que cometera um erro em desembaraçar-se dos corpos calcinados na primeira ocasião que lhe parecera favorável. O sítio escolhido ficava bastante próximo da cervejaria. Se, nesse momento, tivesse sabido quanto era fácil desfazer-se do camião, teria enviado o veículo e os cadáveres para o mesmo túmulo líquido... e, possivelmente, nada teria sido descoberto.

Arrancara do corpo a vestimenta de amianto que não ousara abandonar e do cais contíguo à cervejaria atirara-a ao mar, à sucção do refluxo. Desgrenhado como estava, banhado por um suor de angústia, não se arriscara a uma grande artéria iluminada, onde teria achado um táxi. Seguira o instinto que lhe adviera da infância e caminhara, colando-se sucessivamente às paredes viscosas de uma dezena de armazéns, através de passagens de que guardara a recordação, desde que a necessidade de se esconder desaparecera há muito da sua vida. Chegara finalmente ao portão da cervejaria e, nesse mesmo instante, tivera o pressentimento do que o esperava. Ignorando propositadamente os primeiros sintomas dolorosos, arrastara-se até a plataforma de carga e varrera-a até fazer desaparecer o menor traço suspeito que pudesse chamar a atenção de alguém e pô-lo na pista do que acontecera nessa noite... Esperara ainda chegar à secretária a tempo de engolir um dos comprimidos que ali guardava sempre. Quando chegara ao gabinete, com o que ainda lhe restava de fôlego, compreendera que o comprimido se lhe tornava inacessível, que nada mais representava do que um socorro ilusório... De resto, de nada lhe serviria uma ajuda tão elementar... Só lhe restara deixar-se cair a todo o comprimento sobre o tapete!...

“Em suma”, pensava, ao rever a sucessão dos acontecimentos, “não me desenvencilhei muito mal... As chapas do camião estão fechadas no meu cofre-forte, juntamente com a garrafa. Ainda que a polícia o descubra, nunca me poderá identificar como seu proprietário...”

Usara sempre o maior cuidado em todas as operações. Nos tempos correntes, um contrabandista internacional, por muito cuidadoso que fosse na escolha dos seus subordinados, nunca o seria de mais.

Bert Rilling sentiu os cabelos eriçarem-se-lhe quando, depois de examinar com uma certa satisfação o passado recente, encarou o futuro e viu claramente representado à sua frente o plano imediato. Cerrou os punhos sob a roupa, como se tivesse tido força para repeli-la, para sair da cama e para voltar sem qualquer ajuda ao seu gabinete. Era bem certo que os lobos solitários vivem mais tempo que os que andam em bando. O seu nome não estava comprometido em qualquer caso de pequenos furtos ou de grandes tráficos. Os homens que tinham deixado a sua vida na plataforma de carga tinham recebido o seu salário a mil quilómetros dali. Todavia, nunca confiara a “entrega” desse contrabando mortal nem a colecta dos seus “honorários” a mãos estranhas.

No passado, o sistema resultara admiravelmente. Quase se poderia dizer que se tratava de uma série de transacções entre amigos que, sob a sua tutela, tinham partido cabeças na Alemanha, relativamente poucos anos atrás. Pouco importava que uns se tivessem tornado diplomatas em polainas do outro lado da Cortina de Ferro ou capitães de cargueiros, mais ou menos enferrujados, que esperavam em Brooklyn pela maré propícia. Até então, ele próprio subira a bordo com o seu despojo - quer o rendez-vous tivesse lugar numa cabina de primeira classe de um paquete de luxo ou no salão de jogo empestado de fumo de tabaco de um barco-cisterna de regresso a qualquer porto de origem, como Estocolmo ou Trieste, Istambul ou Banguecoque.

O que havia de belo nesse sistema de entregas residia na segurança absoluta com que se efectuava. Podia dizer-se que Bert Rilling era cidadão do mundo. Graças aos amigos que granjeara em altos postos, graças à prova indubitável da perfeita cidadania que a sua caderneta de cheques representava, achava-se ao abrigo de toda a suspeita, nesse lado do Atlântico. Quanto à clientela e ao seu sucesso nos portos de destino era uma história muito diferente. Sabia muito bem que bastaria uma simples falha, um defeito ou um atraso de entrega - um encontro frustrado num cais de Brooklyn, uma expedição atrasada no trânsito - para secar a fonte de um rendimento que era o próprio sangue da sua vida. Nesses tempos perigosos e precários, os contrabandistas formavam uma legião; as potências estrangeiras que sacrificavam milhões para fazerem entrar nos próprios arsenais a abundância americana, substituí-lo-iam de um instante para o outro se nessa noite falhasse.

O Baltic Prince era o seu próximo contacto. Um cargueiro de Oslo, com diversas escalas que não figuravam no inocente boletim de carga munido do qual largaria do porto, ao meio-dia.

O Baltic Prince. O nome ressoava no seu cérebro esvaziado pelos calmantes e semelhante a um campanário de onde os próprios morcegos tivessem desertado. Comandante, o capitão ralk. O capitão Falk era um velho amigo; de certo modo, um filósofo, que sabia que a maior parte dos homens era constituída por macacos e a terra era um montão de cinzas, esfriadas. Se, nessa noite, Falk partisse sem a garrafa, o império de Rilling, em Nova Iorque, desmoronar-se-ia tão completamemte como se nunca tivesse existido.

Evidentemente, que ficava Tony Korff. No passado, confiara a Tony Korff missões igualmente audaciosas como essa. O aspecto das coisas parecia indicar que seria obrigado a confiar nele mais uma vez. No fim de contas, não seria difícil pôr Tonv a par do assunto, se houvesse necessidade de fazê-lo, uma vez que ele, Rilling, seria de novo omnipresente.

Os olhos do doente viraram-se para as persianas semicerradas da janela. Os seus sentidos flutuavam no langor tropical do sono: apercebeu-se de que o sol, que brilhava no parapeito da janela, nascera pouco antes.

“Obrigado, meu Deus, por esta hora de descanso”, murmurou, esquecendo-se, nessa oração espontânea, de que renunciara a Deus desde há muitos anos. “Obrigado, meu Deus, pela Providência que trouxe Tony à cabeceira do meu leito, exactamente no momento em que mais precisava dele.”

Mais tarde, quando tivesse recuperado completamente os sentidos, teria uma longa conversa com Tony, em lembrança do passado. Podia contar com Tony para organizar essa visita, tal como podia contar com o próprio instinto para guiar a sua reunião desse dia.

Bert Rilling fechou os olhos e baniu Korff dos seus pensamentos. Não seria a primeira vez que teria convertido numa vantagem certa uma ameaça possível.

 

Catherine Ash, despertando no seu quarto de dormir, mesmo no alto da cidade, dirigiu um sorriso preguiçoso à imagem que lhe devolvia o enorme espelho redondo do toucador. Embora fosse ainda muito cedo, não a espantou encontrar-se sozinha. A lembrança da querela da véspera e da subsequente reconciliação apaixonada deixava-a descontraída, contente, e fê-la soltar um longo suspiro feliz.

Estava só e considerava essa solidão como o próprio sinal da vitória. Sabia que Martin acabara a noite no divã e que, mal rompera a alvorada, se levantara e se fora embora sem fazer ruído. Não era isso uma prova de que sentia quanto ela tinha razão e que preferira abandonar o campo a recomeçar a discussão? Olhou para o relógio e verificou com sincera satisfação que despertara suficientemente cedo para poder telefonar para o hospital ainda antes de Martin iniciar a primeira operação. Não havia necessidade de pensar no que iria dizer-lhe: também isso fazia parte do jogo de ambos.

No fundo, uma querela era uma coisa excelente num lar, desde que não se produzisse com demasiada frequência. As feridas cicatrizavam depressa, sobretudo quando, depois de vários anos de casados, cada um dos esposos sabia de antemão o que o outro diria! O alívio emocional resultante da disputa era apenas o prelúdio para ardores renovados que viriam com a reconciliação...

“Se quiseres, Martin”, preparava já o seu texto e dizia-o como se já tivesse o marido na outra extremidade do fio, “se quiseres, podes trabalhar durante este week-end. Talvez te faça a surpresa de vir beijar-te antes de acabado... Ficavas contente com isso? Talvez até em lugar de vir beijar-te a casa, vá até ao hospital e te traga no carro. Que dizes a isto?...”

com esse plano meio formado no espírito, atirou para o lado o lençol e cobertores, num gesto de súbito abandono, como se o seu sonho tivesse trazido Martin, em carne e osso, para esse mesmo quarto. De pé diante do espelho, cuja moldura dourada a cercava da cabeça aos pés, deixou escorregar sobre o tapete a camisa de noite de renda. “Nada mau para uma mulher de quarenta anos”, decidiu, depois de se ter considerado durante um bom momento. “Examinando-me ponto por ponto, tenho melhor que oferecer que metade das raparigas que conheço... Evidentemente, se tivéssemos tido filhos...”

Se tivéssemos tido filhos. Esse pensamento apresentava-se-lhe como uma censura no limiar do espírito e repeliu-o com impaciência, enquanto continuava a análise minuciosa do corpo. As ancas não estariam um nadinha a mais opulentas? Estava certa de que Martin a preferia ligeiramente cheia... E as finas patas-de-galinha notar-se-iam cruelmente à luz do dia? Essa pequena ruga vertical, preocupada, entre as sobrancelhas? Não, não era coisa que um marido notasse... Todavia, não lhe faria mal nenhum passar a maior parte do dia de segunda-feira no salão de beleza de Madame Annette, que lhe prometera aliviá-la de duas libras de gordura - se se podia chamar gordura - numa só sessão de tratamento. Uma máscara de lama seria excelente contra essas rugas... que ela via e, ao mesmo tempo, esperava que passassem desapercebidas ao marido. Ainda que proviessem de um cérebro muito activo, de um amor demasiado exigente...

Se tivéssemos tido filhos... nada de tudo isso teria metade da importância. Martin era feito para ser pai de família. Isso era próprio da sua raça, exactamente como lhe era natural ter uma mulher que acedia ao mínimo dos seus caprichos... Teria feito mal em recusar-lhe os filhos e filhas que ele desejava?... Fora retida pelo receio do que daria a mestiçagem?... Fora isso que a fizera renunciar a uma vocação de maternidade? Ou seria antes um egoísmo apaixonado?...

Depois de imaginar a pergunta, preferiu ignorá-la a aprofundá-la para chegar à resposta. Foi-lhe de imenso alívio sentar-se ao toucador, sacudir a espessa cabeleira loura e começar a sessão ritual do escovamento... cem golpes de escova, de manhã e à noite nem um a menos...

Nesse instante matinal, depois de passados tantos anos, a voz do pai ainda lhe ressoava aos ouvidos, embora preferisse como sempre ignorar a sua inflexível severidade:

“Se é indispensável, casa com ele, Catherine. És minha filha e sei quando tomas uma resolução. Mas mantenho que lhe darás tudo... salvo a tua pessoa...”

“Nessa altura, eu amava Martin”, respondeu ao ausente. “Hoje amo-o mais do que nunca serei capaz de dizê-lo!... O nosso casamento não deu filhos? E então? Apesar disso, é uma união perfeita... apesar dos humores bizarros e das ideias loucas de Martin...”

Mas a voz do pai insistia na sua memória, sombria e pessimista, como a de todos os profetas:

“Entras com o pé esquerdo, Catherine. Desejas esse rapaz como ele nunca te desejará e, no teu íntimo, terás sempre uma certa vergonha em desejá-lo a esse ponto. Então, procurarás dominá-lo, o que significa que ou humilharás a sua virilidade e o impedirás de ser verdadeiramente um homem ou o perderás completamente. E, como o amas, não quererás que nada se interponha entre vós. E, como te envergonhas das suas origens, nunca lhe darás filhos... não lhe darás sequer um lar de que possa orgulhar-se...”

Catherine levantou-se, deitou o roupão sobre os ombros, como se esse pai morto estivesse em carne e osso no seu quarto e lhe censurasse a nudez; ainda tremia um pouco quando a criada de quarto lhe trouxe o primeiro-almoço com os jornais da manhã...

Bebeu o café sem sequer lhe notar o gosto; constrangeu-se a passar uma vista de olhos pelos jornais, lendo os títulos sem os ver e perguntando-se se seria realmente tarde para ter filhos... Não havia melhor maneira de mandar o fantasma do pai dormir em paz no seu túmulo.

Em suma, não é raro uma mulher ter filhos na casa dos quarenta... ou até mais tarde. Tinha a certeza de que os seus amigos troçá-la-iam, mas sentia-se capaz de suportar as suas troças, pelo amor que votava a Martin... Mãe aos quarenta e um anos... pouco importava! Mas quando o filho frequentasse o colégio, já ela estaria nos sessenta. E Catherine nunca consentiria ter sessenta anos, ainda que devesse morrer centenária.

Quando acabou de tomar o primeiro-almoço, estendeu a mão para tocar a campainha, mas, vendo que já eram boas horas de telefonar para o hospital, não o fez. Enquanto levantava o auscultador, erguera o queixo. Seu pai reconhecera e aplaudira esse gesto de desafio:

- És tu, Martin? Estorvo-te?

- De forma alguma, querida - respondeu com uma voz calma e longínqua.

- Pedi o carro para as dez horas. Tens a certeza de não ter mudado de opinião e de não quereres ir comigo?

- Não leste os jornais, Catherine?

- Poderíamos ir sem o motorista - propôs ela, fazendo-se terna. - Descontrais sempre os nervos quando vais ao volante. Poderíamos até almoçar no caminho. Passarão muito bem sem nós, lá em casa.

- Lê o título, só o título do artigo de Jack Cárter, e compreenderás que é impossível e porquê.

O seu espírito evocou vagamente o texto do título alarmante que percorrera distraidamente, alguns instantes antes:

- Não me digas que acreditas em tais disparates, Martin.

- O chefe do F.B.I. esteve no meu gabinete há uma hora. Pediu-me que pusesse discretamente o hospital em estado de alerta e que estivesse a postos para qualquer eventualidade!

- Não se pode dizer que pareças muito alarmado!

- Hoje, certamente não terei tempo para estar alarmado. A ameaça nem por isso deixa de existir. Preciso de ficar para fazer-lhe frente.

Catherine teve um pequeno sobressalto de incredulidade que se pareceu bastante com uma gargalhada:

- Os maridos não esperam por hoje para procurarem e, por vezes, acharem desculpas estranhas para evitarem um week-end no campo ou uma reunião mundana, meu querido. A que me propões tem realmente tudo da desculpa clássica...

- Afirmo-te que não é uma desculpa e peço-te até que mantenhas rigorosamente secreto o que acabo de dizer-te.

- Certamente, querido! - tranquilizou-o com bom humor. - E continuas verdadeiramente certo de que não poderás vir a Long Island?

- Valha-me Deus, Catherine! Não deste então atenção nenhuma ao que acabo de dizer-te?

Quando lhe acalmou a explosão de desespero, desligou lentamente e soube, sem ter necessidade de verificar, que a ruga existente entre as duas sobrancelhas se sulcava mais profundamente. Isso não queria dizer que receasse pela sorte de Martin. Pouco lhe importava que a polícia invadisse todos os cantos do hospital, nesse mesmo instante. Esse género de coisas não acontecia na América... Afirmou a si própria que, na verdade, os homens eram semelhantes a rapazinhos a quem nada divertia tanto como fazer trabalhar a imaginação, inventar uma ameaça à segurança num sítio em que não existia nenhuma.

Ainda que essa absurda história dos jornais fosse verdadeira, recusava-se terminantemente a ver nela um perigo pessoal. Em todos os tempos se tinham evadido loucos, que acabavam sempre por ser apanhados e reconduzidos à célula acolchoada. Era possível que esse caso particular se ligasse ao hospital de alguma maneira bizarra - o que, porém, era certo era que ela não lhe permitiria prejudicar de forma alguma o futuro de Martin Ash, o futuro que ela preparara para Martin Ash. Martin Ash era seu marido, a sua obra-prima, o seu amante, todos esses atributos combinados num conjunto perfeitamente harmonioso.

Todavia, sentia-se vagamente confusa à ideia de que trinta e tal convidados iam esperá-la na ilha. Era realmente muito romântico que Martin entretanto, depois de tantos anos de rotina sem muitas histórias, colaborasse com o F.B.I. No fundo, teria sido muito mais engraçado se lhe fosse possível ficar na cidade e entrar no jogo.

Repeliu a tentação com um encolher de ombros e dirigiu-se para o terraço soalheiro de onde contemplou o rio estendido a seus pés, ao longe, muito ao longe. À parte uma fila de lentas barcaças e de um magro cargueiro negro, chapeado contra a margem da ilha, a água estava vazia, estranhamente vazia, a essa hora matinal. Durante um instante, ficou-se a olhar distraidamente para a cor do rio, ao mesmo tempo que uma meia dúzia de revoltas, sob formas diversas, se lhe sucediam no espírito... revoltas tão pouco substanciais como as manchas de sol que dançavam na vaga oleosa e negra...

O cargueiro ostentava a bandeira norueguesa; com os olhos semicerrados pelo esforço da concentração, Catherine conseguiu decifrar as letras pintadas à popa: Baltlc Prince, Oslo.

Seguiu o seu vagaroso avanço até o nevoeiro do calor o absorver. Parecia solitário, um pouco perdido, à sombra das poderosas falésias de Manhattan. E, todavia, estava certa de que o Baltic Prince sabia para onde ia e porque o fazia.

Talvez, num futuro bastante próximo, ela e Martin pudessem fazer um grande cruzeiro... Desta vez, não seria num paquete de luxo; seria num simples transporte de bananas; num navio em que se estaria muito naturalmente sentado à mesa do capitão... e onde, com bom tempo, se poderia de vez em quando ter licença de ir ao leme...

Havana... Barbados... Porto de Espanha... alguns portos exóticos no grande sul latino, onde os turistas nunca vão... Sim... Para Martin, isso seria realmente a mudança ideal... e de que tanto precisava.

 

O relógio da parede, mesmo em frente de Martin Ash, impedia-o de esquecer que as oito horas tinham soado, havia largo tempo, mas, depois de ter desligado o telefone, não se dirigiu para a sala de operações. Caminhou para um grupo de elevadores, no átrio de espera, e entrou no primeiro que subia à Schuyler Tower. Certamente que o padre O’Leary estava a pé, há muito tempo; esperava apanhá-lo no quarto antes que começasse a sua visita às salas. Já não era a primeira vez que ia encontrá-lo, tão humildemente como a mais humilde das suas ovelhas, com um problema a resolver.

Tal como esperava, o padre O’Leary estava ainda na sua cadeira de rodas, na estreita varanda, em prolongamento do seu quarto, e atirava migalhas do seu primeiro-almoço a uma rodopiante gaivota.

Martin Ash sentou-se tranquilamente numa poltrona, perante um sorriso silencioso de boas-vindas. Sabia que o velho sacerdote considerava a sua visita como a coisa mais natural do mundo, visto que, por essa hora, quase se tornara um hábito quotidiano.

- Não me diga que se zangou com Catherine - comentou o velho padre. - Recuso-me a acreditá-lo.

O director do East Side General sorriu naturalmente, pela primeira vez nesse dia, e, por trás desse sorriso, sentiu descontraírem-se-lhe os nervos tensos.

- Nós questionamos sempre, inevitavelmente, depois dessas noites de gala, se é que a isso se possa chamar questionar... Mas hoje não venho falar-lhe de questões domésticas.

- Bem sei, Martin.

Ash fitou curiosamente o seu perfil prateado. Até então o padre não tinha desviado os olhos da gaivota que procurava convencer a pousar sobre a balaustrada da varanda.

- Antes que lho diga, já sabe porque vim aqui, padre?

- Não me considere um adivinho ou um clarividente. Vivo já há tanto tempo debaixo deste tecto... É por causa dos “queimados”, não é verdade?

Martin aquiesceu com um sinal de cabeça. As tagarelices do hospital tinham batido todos os recordes, nessa manhã. Graças ao redactor alarmante e à presença de patrulhantes de uniforme azul, rondando as portas, o pessoal não tivera grande dificuldade a tirar as suas conclusões. Pelo menos, não era necessário que conhecessem toda a verdade: podia conservá-la para a sua própria consciência e para o bondoso padre confessor na sua cadeira de rodas.

- Já sabe que a segunda vítima morreu há meia hora?

O sacerdote suspirou:

- __ Estou a tornar-me velho, Martin. A notícia ainda aqui não chegara.

- Há uma razão para isso. Quando Korff veio relatar-me a ocorrência, dei-lhe ordem para que nada dissesse a ninguém. Mantemos em segredo a certidão de óbito, até que o inspector Hurlbut nos dê outras ordens. Por enquanto, este caso é apenas do domínio da polícia. Uma espécie de mascarada solene que, segundo esperam, poderá dar resultado...

Martin Ash fez então um relato sucinto da sua entrevista com Hurlbut e com o homem do F.B.I. e acrescentou:

- Acha que agi acertadamente aceitando em colaborar com eles inteiramente?

Durante alguns instantes, o padre O’Leary não respondeu. A gaivota, tendo acalmado os seus receios, instalara-se sobre a grade da varanda, chegando até a debicar as migalhas de torrada, na bandeja do primeiro-almoço.

- Que outra coisa poderia você fazer, Martin?

- Sou responsável por todas as vidas deste hospital. Terei o direito de pôr em perigo a existência do meu pessoal, não falando já da dos doentes não transportáveis?... Considere, por exemplo, o caso do garoto a quem Andy faz uma “Blalock”, esta manhã...

- O da malformação cardíaca congénita - murmurou o padre.

Embora as suas palavras fossem eco dos pensamentos de Martin, os seus próprios pensamentos estavam bem distantes.

- Se Andy consegue salvar Jackie, será um verdadeiro milagre. Ora parece difícil que um milagre aconteça em vão...

- Exactamente. O pobre garoto estava condenado até que o recente aumento dos conhecimentos cirúrgicos lhe ofereceu uma Possibilidade. Como poderia eu consentir que Gray o operasse com esta ameaça suspensa sobre as nossas cabeças? Deveria ter transferido, antes de mais nada, Jackie para outro hospital?

- Não conseguiria fazê-lo, sem alarmar toda esta gente.

- Talvez seja exactamente o que deva fazer, padre.

- Não vê que a coisa que devemos evitar, neste momento, é o pânico? Há muito que fizemos a nossa escolha: um modo de vida pelo qual vale a pena morrer, se tal for necessário. Quer nos agrade ou não, nesta guerra, estamos todos na primeira linha... e a batalha já começou.

- Sei de quem não estaria de acordo.

- Pese as circunstâncias, Martin: a polícia estabeleceu o seu plano de ataque, a armadilha está preparada e crê que vale a pena tentar. Você não tem mais nada que fazer senão receber as suas ordens e executá-las. Foi o que já fez.

- Mesmo que isso nos envie a todos para o outro mundo?

- Suponha que se trata do último elo de que os outros carecem para a sua bomba de hidrogénio? Se assim fosse, de que valeria, comparativamente, a vida de Jackie?

com o punho direito fechado, Martin socou a palma da mão esquerda:

- E quem são eles, padre?

- Os sem-Deus, que querem refazer o mundo à sua imagem. Não o povo russo, Deus o guarde! Nenhum povo e nenhum lugar... apenas os doidos que pretendem conduzir os povos à sua perda... E serão eles que estão condenados, Martin.

- Desejaria que a minha filsofia fosse tão segura e reconfortante.

- No seu coração, acredita nisso tanto como eu. Tal como eu o sabe e tem a consciência de que agiu como devia agir.

- Sou médico e não um cidadão do mundo.

- Hoje em dia, Martin, todos somos cidadãos do mundo. Essa é também uma coisa que é necessário aprender. Caso contrário, resta-nos perecer.

- Não deixa, por isso, de ser uma pesadíssima escolha que praticamente transforma o hospital num alvo a atingir. Ao menos, admite esse facto?

- Deus dá a responsabilidade a quem crê que pode suportá-la. Pode, porém, acontecer que o fardo seja demasiado pesado. Mas não me parece que esse seja o seu caso.

- Sinto-me feliz por ver que acha que agi bem.

- Ninguém quereria vê-lo agir de outra maneira.

- Nem mesmo Catherine?

- Olhe para mim, Martin. Já conhecia seu pai ainda antes de você nascer. Vi-o crescer, procurar e encontrar. Desde o início, você fez sempre o que considerava bem.,. nem sequer era capaz de evitá-lo. Repare nessa sua questão com Catherine... Não era ela motivada porque você sentia ser necessário permanecer aqui durante este fim-de-semana... e partilhar do perigo comum?

- Em parte. Mas há outras razões.

- A transferência do hospital, por exemplo...

O padre O’Leary recostou-se na sua cadeira de rodas e fechou os olhos.

- Não posso acreditar que este projecto tenha sucesso. Não depende, em larga percentagem, do financiamento de Bert Rilling?

- Prometeu entrar com cerca de quarenta por cento dos fundos necessários. Mais até, se for preciso...

- Conseguirá sobreviver?

Martin Ash ergueu os olhos vivamente.

- O relatório desta manhã assinala-o em estado crítico. Andy conseguiu sair-se bem de uma espantosa operação à trombose, mas receio que isso seja apenas um compasso de espera...

A voz do padre O’Leary não foi mais do que um murmúrio:

- Compreenda-me, Martin. Rezo pela alma de Rilling tão sinceramente como pela sua. Mas custa-me a crer que os herdeiros dele também partilhem da dupla paixão de filantropia e publicidade...

- Ele tem apenas como herdeiros um ou dois bancos...

- Não é isso, exactamente, o que acabo de dizer? Nós estamos sempre no nosso verdadeiro lugar. Rezemos a fim de que nos seja permitido mantê-lo, seja qual for o mal que se desencadeie sobre o mundo.

- Catherine, só por si, pode oferecer-se o luxo de perfazer a totalidade de fundos.

- Catherine é uma avisada mulher de negócios. Apesar de todos os planos que faça, estou convencido de que é um risco que, sozinha, nunca empreenderá. Sem Rilling, a transferência não passará de mais um projecto abandonado. As mulheres como Catherine fazem muitos projectos, Martin.

- Gostaria de ter a sua tranquilidade, padre O’Leary.

com os seus modos doces, porém categóricos, o sacerdote resumira o tipo emocional de Catherine - e, na generalidade, a frustração particular às mulheres demasiadamente ricas. Todavia, qualquer empreendimento em que se lançasse trazia-lhe sistematicamente lucros. O bem-estar dele era a razão de vida dela, tê-lo conquistado era o único triunfo que verdadeiramente lhe importava. Mesmo quando Catherine o asfixiava, o abatia, Martin não podia duvidar da fidelidade da sua dedicação.

- Essa perpétua necessidade de movimento, de acção, essa urgência interior que leva Catherine a conduzir constantemente os outros... e a si própria, perturba-o muito, Martin?

Era incontestavelmente verdade que Catherine nunca falhara nem permitia aos outros que falhassem, porque não podia permitir-se deixar de reflectir. Se recusava deixá-lo para além de certas horas, se insistia em acompanhá-lo para todo o lado, isso era uma parte do seu mal-estar. Todas as Catherines do mundo têm que virar-se para os outros, ocupar-se deles, sem o que se arriscariam a descobrir o seu próprio vácuo... Se o Martin Ash que, com o decorrer dos anos, ela “edificara” com tantos cuidados amistosos e até amorosos, se tornara um outro homem bem diferente daquele que, pessoalmente, ele desejara ser, não lhe dava o direito de a censurar.

- É uma boa mulher, padre - comentou.

- É uma mulher às direitas, meu filho. Teria que procurar muito longe e por muito tempo uma que fosse melhor.

- Acha que não devo intervir, se ela insistir em que nos instalemos no alto da cidade?

- Faça quanto puder por dissuadi-la disso, meu rapaz, e deixe o resto a Deus. Insisto em dizer que Ele escolheu o homem certo para o local devido.

Ash levantou-se pesadamente:

- Opero dentro de cinco minutos, padre. Obrigado pelo conselho.

Os olhos azuis irlandeses abriram-se francamente.

- Não lhe dei nenhum conselho, Martin. Não fiz mais do que confirmar o que lhe ditou a voz da consciência.

Martim Ash pôs a mão sobre o ombro do velho e demorou-a aí por um momento, num gesto de adeus familiar que exprimia uma gratidão mais profunda do que as palavras o teriam podido fazer. Levantou-se, sentindo os membros como se fossem de chumbo, mas notou que se aligeiravam enquanto percorria o corredor e chamava o ascensor que o devolveria ao ambiente da sua esfera familiar.

A parede ao fim do corredor era uma divisão de vidro brilhante, uma espécie de alpendre, enquadrando, ao longe e em profundidade, East River e toda a circulação activa que o enchia desde a primeira das suas três grandes pontes. Enquanto esperava o ascensor, Martin contemplava a escura silhueta de um cargueiro que aproveitava a maré para atracar à margem de Brooklyn, quase em frente à massa pesada e rectangular, semelhante a um forte, da Cervejaria Rilling.

Cinco minutos antes, essa visão teria reanimado o seu sonho de fuga; ter-se-ia visto deslizando através de Brooklyn, escapando a Catherine, subindo a ponte de acesso e comprando um bilhete para parte alguma. Teria até provavelmente cedido ao desejo de acercar-se da janela mais próxima de Schuyler Tower a fim de aí gozar uma melhor vista desse vagabundo enferrujado, transformado por magia num argonauta de largada para aventuras que jamais conhecera.

Mas o padre O’Leary acabava de confirmar e de reforçar a voz da sua consciência: essa grave e severa filha de Deus mantinha-se agora ombro a ombro com ele e recordava-lhe que o dia apenas começara - e já era tempo de começar.

Outra recordação surgiu sem ser chamada da penumbra do seu passado. A imagem de um rapaz torturado, ansioso, envergando ainda o seu uniforme branco, embora já há muitas horas não estivesse de serviço, e que aspergia o rosto de água, lendo os nomes que uma dúzia de proas, mais ou menos enferrujadas, lhe ofereciam ao olhar: o Dr. Martin Ash, nos derradeiros instantes que precediam o seu casamento - o Dr. Martin Ash encantado por esse instinto tão velho como o homem que o incitava a fugir à obrigatoriedade de uma vida partilhada com outrem.

Evidentemente, voltara para o quarto do hospital, tornara a vestir o seu traje escuro de núpcias e fora ao encontro de Catherine na sala de registo do casamento. E se tivesse embarcado num desses cargueiros, abandonando tudo o mais? Agora era-lhe difícil imaginar uma existência diferente daquela que levava. Mais difícil ainda seria imaginar-se partindo ao acaso sobre um convés bem ensaboado. Talvez médico de bordo, cujas mãos desde manhã o gim faria tremer e que, ao cair da noite, o gim totalmente embruteceria. Ou rei de uma ilha desconhecida, em qualquer arquipélago sem nome, progenitor de seis rebentos cor de mel...

Talvez no interior de “Pago-Pago” se tivesse sentido tão vazio e ressequido como hoje sobre a ilha de Manhattan. Pelo menos, aqui o trabalho esperava-o na sua clínica - a famosa clínica Ash, que Catherine fundara em seu nome para assinalar o seu vigésimo aniversário de casamento. Havia sempre, pelo menos, o trabalho com que podia contar para amortecer os ângulos demasiado vivos do seu fracasso, o único conforto que lhe permitiu lembrar-se de que era um homem com uma vocação a satisfazer e não um “zombie” ambulante.

Uma cintilação vermelha indicou a chegada do ascensor e Martin Ash atingiu a ala de cirurgia, onde ia escovar as unhas durante três minutos, antes da sua primeira operação dessa manhã.

 

Andy Gray abriu prudentemente um olho e deitou um olhar furioso ao despertador colocado ao lado da cama. Esse fiel servidor esquecera-se de que, nessa manhã, o amo poderia dormir mais uma hora. O minúsculo quarto de dormir, na parte da ala cirúrgica destinada ao pessoal hospitalar, era tão desprovido de ar como um armário de arrecadações. Dirigiu um olhar cheio de censura à janela que se esquecera de abrir para deixar entrar o ar fresco dessa noite de Verão, ao voltar de madrugada, tão esgotado como um cão perdido ao cabo de um dia de caçada. Pelo menos, tivera sorte numa coisa: mergulhara subitamente num sono sem sonhos, numa reacção instintiva da natureza, arrebatando-lhe o espírito adormecido à infindável ronda dos deveres e da rotina.

Às nove horas em ponto, tal como um bom cavalo de bombeiros que se prepara para partir ao som da sineta de alarme, já estava pronto para um outro dia de trabalho. Tal- vez com um pouco de sorte e concentrando cuidadosamente o pensamento sobre coisas estranhas a si próprio, pudesse escapar ainda durante algum tempo à avidez da grande máquina.

Para começar, um duche gelado, que lhe permitia sentir a circulação ganhar nova vida; uma só passagem ligeira sobre a barba, deixando o corte de cabelo para a semana imediata; enterrar a roupa da véspera no saco, já transbordante, e tirar do armário, partilhado com Tony Korff, a penúltima muda de roupa... Executou estes diversos ritos, um após outro, como se agisse sonhando - um sonho que, afinal de contas, não era desagradável. De um momento para o outro teria de despertar completamente e defrontar esta verdade crua: “marcado, por assim dizer, por uma mulher que se lhe entregara, amava uma outra”. Era um dilema que de forma alguma tinha pressa em abordar, presumindo que jamais poderia encontrar satisfação, não falando já na das mulheres em causa.

Ao fim de alguns instantes de luta com a roupa branca que, como habitualmente, lhe resistia com a dureza de uma armadura, conseguiu dominar as mangas e as calças após uma ginástica individual complicada; mas também isso era ritual e não o forçava a pensar um só momento; apenas os músculos accionavam, acostumados a esses movimentos quotidianos. O olhar que dirigiu ao espelho permitiu-lhe verificar que os cabelos, agora mais compridos, mais acentuavam a sua semelhança com Abraham Lincoln. Era um factor a seu favor: ao Grande Emancipador não tinha faltado contrariedades pessoais e a maioria dos seus problemas tinha ficado sem solução.

Não será próprio da natureza do homem resistir até o fim à emancipação? Não se sentirá feliz apenas quando se entrega inteiramente a qualquer coisa maior do que ele? Um Estado monolítico, uma rotina hospitalar esmagadora, mortífera, a edificação do arranha-céus perfeito, a criação de um poema... ou talvez a perseguição a fugidias utopias como, por exemplo, o governo do mundo ou ainda a perfeição no amor... “É isso mesmo”, comentou rudemente. “Tudo nos volta para o Amor, transformado no mais tirânico de todos os tiranos... como se já não fosse suficientemente tóxico desejar uma mulher com toda a alma e coração! Desejar dois exemplares da mesma espécie, por razões completamente diferentes e, evidentemente, ter de fazer uma escolha e decidir-se por um resultado - não será isso o inferno sobre a Terra?”

Reuniu pausadamente os instrumentos da sua profissão: o estetoscópio, o livro de apontamentos e o relatório da manhã, que um dos enfermeiros lhe colocara sobre a mesinha-de-cabeceira. Exteriormente, era um interno residente modelo, verificando pela última vez o trabalho desse dia, antes de se lançar nele. Interiormente, era um homem assediado por recordações que lhe faziam bater febrilmente o pulso.

O corpo de Pat Reed, de pé, junto à janela, gotejante de luar... Sabia o que era ter aquele corpo nos braços e a voluptuosidade selvagem que o sabia capaz de dar... Essa necessidade obsidiante voltaria, como a necessidade que um intoxicado tem da droga, uma necessidade que detém o pensamento e inunda o corpo de uma exultação estranha a este mundo. E, todavia, ela oferecera-lhe muito mais do que um antídoto para o desejo, enquanto se encontravam frente a frente no quarto de Schuyler Tower. As perspectivas que ela lhe abrira eram praticamente ilimitadas. No fim de contas, bem vistas as coisas, o dinheiro era uma espécie de sexto sentido cuja ausência tornava impossível o gozo dos outros cinco. A tirania de um interminável duelo amoroso, estritamente fora das horas de trabalho, podia valer a pena, se lhe tornasse possível a aquisição da carreira a que aspirava.

A lembrança de Júlia Talbot era igualmente luminosa -, a ardente inocência de um corpo que nunca se dera; o fogo dos lábios que despertava outras e não menos perturbadoras lembranças. Graças a Deus, pudera sair dessa armadilha sem deixar transparecer a sua desordem interior... “Armadilha” era bem o termo que convinha, afirmava a si próprio obstinadamente. Uma armadilha não menos sedutora que o atractivo sedoso de Pat. Para a enfermeira morena, amor e casamento eram complementares, até mesmo sinónimos. com Júlia era tudo ou nada: o melhor dos motivos para o obrigar a uma pronta retirada!

Não fora por acaso nem por acidente que ela reagira tão vivamente à ideia da paróquia floridiana de Timmie, à perspectiva do trabalho que ali poderia desempenhar. Filha de uma pequena cidade, Júlia nascera para ser a mulher de um médico de pequena cidade. Andy Gray, como o testemunhavam as suas folhas de serviço, estava destinado para coisas maiores. Pelo menos, fora o que ele próprio acentuara de madrugada na escada exterior da residência das enfermeiras. A parte principal do seu papel consistira em retrair-se sem glória, mas não sem cinismo, nesse grande momento da cena de renúncia que cuidadosamente preparara. Viesse o que viesse, nunca permitiria que Júlia se queimasse na chama ardente da sua ambição, como também não lhe permitiria que o arrastasse para o nível da generosa mediocridade escolhida por Timmie.

Era tão simples como isso e, ao mesmo tempo, de uma complexidade capaz de despedaçar o coração. Se não amava Júlia com todas as forças do seu coração, ser-lhe-ia pois bem fácil renunciar-lhe agora; se não desejava Pat Reed com todo o seu ser, sem falar na carreira que ela poderia abrir-lhe, seria uma coisa ainda mais simples possuí-la uma vez mais e, em seguida, virar para sempre as costas a essa paixão.

De pé, ao lado de Júlia, nos degraus da entrada, escolhera Pat. O facto de ter formulado a escolha em palavras, no interesse de Júlia, tornava-a inevitável. Obviamente, devia dirigir-se imediatamente à Schuyler Tower e fechar o negócio, antes que Pat lhe escapasse. Já com a mão na maçaneta da porta, notou sobre o tapete um sobrescrito quadrado, caro, onde o seu nome se espraiava numa caligrafia grande, que reconheceu imediatamente.

Apesar de todas as suas firmes resoluções, as mãos tremiam-lhe um pouco ao quebrar o selo. O bilhete era curto, exactamente au point... tal como Pat.

Querido:

Penso que nos compreendemos muito bem.. .E tu? Em todo o caso, já acabei a minha cura de repouso e espero que te tenhas decidido afazer a tua.

A minha enfermeira da noite deixará este bilhete à tua porta. É simplesmente para te dizer que quando o leres, já terei jeito as malas, pago a conta e alugado um quarto no Plazza. Conto passar aí uma boa parte do dia. Estarei lá sem dúvida nenhuma depois das cinco horas e adoraria que por lá Passasses a tomar um cocktail comigo e a participares-me os meus projectos.

O bilhete não estava assinado, o que também condizia absolutamente com a natureza da personagem. Por muito cortesmente que estivesse escrito, não deixava por isso de ser antes uma ordem formal em vez de um convite mundano. “As cartas de Pat estão na mesa”, pensou Andy. “Desafia-me a bater as minhas e a ver quem perde.”

Nem por um só instante acreditou que tivesse saído do hospital. Pat raramente se levantava antes do meio-dia e era pouco verosímil que o fizesse no último dia de uma pretensa cura de repouso. Além disso, estava certo de que esperaria a visita matinal do Dr. Plant, ainda que fosse apenas para salvaguardar as aparências. Segurando na mão o bilhete, sentiu-se tentado a subir directamente ao quarto, mas acabou por convencer-se de que era isso exactamente o que ela esperava, como prova final de vitória, e decidiu não fazê-lo.

“Não quer dizer que ela careça de alguma prova, depois de ontem à noite”, reconheceu amargamente. “A caçadora está segura da sua presa. A mulher de amores múltiplos esperará o macho que escolheu, às cinco horas exactas, em volta dos vermutes...”

Maquinalmente, consultou o despertador. Graças a todas aquelas cogitações, quase ultrapassara a hora de repouso resultante do seu despertar demasiado matinal.

Rasgou o bilhete em mil pedaços e atirou-os para dentro do primeiro cesto de papéis que encontrou. Precisamente antes de entrar na sala de cirurgia, a porta envidraçada da cozinha de dietas, onde tão prudente e atentamente desempenhara o seu papel junto de Júlia algumas horas antes, chamou-lhe a atenção e, desta vez, cedeu ao impulso que o incitava a entrar.

Jackie, o rapazinho de coração enfermo, estava inscrito para as nove horas e meia em ponto. Gray precisava de café, ao menos de café, antes de se lançar nessa dramática aventura.

Vicki Ryan estava empoleirada num banco alto, barrando com manteiga uma torrada, ao lado da cafeteira que nunca se deixava arrefecer. A opulenta enfermeira cirúrgica parecia tão fresca como a própria manhã. Ao murmurar-lhe um “bom dia”, Andrew encontrou-lhe o olhar e retraiu-se vivamente perante o magnetismo animal que dele se desprendia. Ria interiormente de si próprio e da sua extrema prudência. Ali, em todo o caso, tratava-se de amor no sentido clínico de uma palavra mal empregue - o amor sem subsequências nem consequências. Mais de uma vez e sem que houvesse necessidade de um diagrama, Vicki dera-lhe a entender que lhe pertenceria se a quisesse... Uma breve curiosidade fê-lo perguntar-se se Tony Korff, que sempre considerara um nevrótico inato, o tipo exacto do nevrótico, seria no fundo mais sensato do que ele... E aceitou a chávena de café que Vicki lhe oferecia sem, todavia, abandonar o ar carregado.

Júlia foi roubar ovos - explicou Vicki. - Porque não aproveitar a ocasião para tomar o primeiro-almoço, ao menos um dia?

- Receio não ter tempo para fazê-lo.

- Certamente que tem tempo, doutor. Ainda não começaram a preparar Jackie, se é isso que o preocupa. Temos tido uma manhã muito atarefada, neste canto da oficina...

- Em todo o caso, está com um ar fresco e descansado.

- Até aqui, tenho estado livre. Mas agora tenho de ir escovar-me para trabalhar com o doutor Ash. Estou nos instrumentos até ao meio-dia, na sua clínica.

Vicki mirou-o estranhamente, com um trejeito impudente de erguer um sobrolho que já encantara mais de um interno a ponto de torná-lo indiscreto e arrojado.

- E - continuou - já que entrámos no campo das observações pessoais, devo dizer que está com um aspecto de cavalheiro que saísse em último lugar de uma soirée.

- Estivemos com Bert Rilling nos braços, às três horas da manhã.

- Foi o que me disseram. Contaram-me também que se cobriu de glória. Mas já se sabe, isso é o costume...

Inclinou-se enquanto falava, para lhe encher uma segunda chávena de café. Os seus grandes olhos graves e sonolentos, apesar de toda a sua insolência, continuavam a desafiá-lo.

“Não é possível”, pensou. “Devo estar louco. Não é natural que todas as mulheres daqui caiam desmaiadas a meus pés!”

Ocupou um banco em frente ao da rapariga e esforçou-se por recuperar a calma.

- Foi uma operação como tantas outras - justificou-se. - E, além disso, tinha Júlia. Já é de antemão meia batalha ganha.

- Posso contar-lhe que me disse isto? Ou prefere que não?

- É preferível que não - respondeu, estudando-a tranquilamente através do vapor do café.

O momento do desejo passara como uma borrasca primaveril. Sabia que Vicki Ryan, apesar dos seus hábitos, era uma rapariga muito bem; uma rapariga cujo lado mau estava no desejo desmedido, bastante desprovido de selecção, de ser amiga de toda a gente.

“São precisos todos os géneros”, pensou. “Sobretudo num hospital. E, a seu modo, Vicki é a encarnação da enfermeira. Mais ainda do que Júlia. Em resumo, uma mulher em quem a necessidade de dar é mais forte que o bom senso.”

Meditando nesta descoberta, enquanto saboreava o café, concluiu que a profissão de enfermeira devia a sua má fama às raparigas do mau tipo de Vicki, apesar das suas boas intenções. “Não é mais ninfomaníaca do que Júlia”, insistiu para consigo. “Quer simplesmente que as pessoas gostem dela. Pouco importa que seja um cirurgião sem sorte como eu ou um oportunista rematado como Tony...”

com um esforço de vontade, deu atenção ao que Vicki dizia:

- Parece bastante pálido, doutor. Acaso estaremos preocupados com a mesma coisa?

- É possível.

- É verdadeiramente aborrecido que tenham morrido, não é verdade? Ou será, pelo contrário, melhor para nós todos que isso se saiba?

Apesar do seu autodomínio, quase desatou a rir:

- Então, durante este tempo todo, tem estado a pensar no “queimado”?

- Certamente que sim. E o senhor?

- Isso fazia parte do meu relatório da manhã com as observações finais do doutor Korff. Acrescentarei que a coisa deve permanecer secreta e não passar as fronteiras do serviço de cirurgia... O doutor Ash tinha um particular interesse em que esse tipo vivesse. E, quanto ao que o mundo exterior deve saber a esse respeito, ele vive.

- Sou capaz de apostar uma pequena quantia em como Pete Collins já contou a história.

- Hurlbut havia de dizer-lhe das boas, se se tivesse atrevido a fazê-lo. Seria caso para largar a pele, profissionalmente falando.

- Apesar de tudo, eu respiraria mais à vontade se a verdade fosse anunciada pela rádio no comunicado do meio-dia. E o senhor? - Desceu do banco e apoiou uma das mãos no braço do cirurgião. Durante esse instante, ele notou-lhe no olhar um brilho que lhe lembrou nitidamente Pat Reed. - Francamente, teria horror em ser dispersa em mil bocados e nunca saber...

Andy interrompeu-a com uma impudência que não sentia.

- Sinceramente, há alguma coisa que você não saiba?

- Reconsidere, doutor! Se não é capaz de compreender o que quero dizer, paciência.

- Talvez esteja até a compreendê-la demasiado bem.

- Não o desafiarei - continuou ela, quase alegremente. - De resto, vejo que Júlia já ali vem no corredor e sei que perco o meu tempo. Boa sorte para esse coração enfermo, doutor!

Ainda mal acabara a frase e já dali saíra, sorrindo abertamente a Júlia, com quem se cruzou no limiar da porta.

A enfermeira morena entrou na cozinha com um ovo em cada mão e deu os bons-dias a Andrew tão tranquilamente como se sempre se tivessem conhecido.

“Se ela se lembra desse beijo de ontem, à noite”, pensou Andy, “lembrar-se-á dele durante todo o dia. E se admite o facto de que estou rotulado com destino a Pat Reed, ao domicílio, as suas próprias defesas encontram-se perfeitamente asseguradas.”

- Um era para Vicki - disse ela, partindo o ovo para dentro de uma frigideira. - Mas receio que esta manhã ambas tenhamos ignorado a hora do levantar. Quer partilhar do meu primeiro-almoço?

- Ganho o que Vicki perde - gracejou Andrew, satisfeito com o seu equilíbrio. - Mas depois do trabalho desta noite não é justo que esteja a pé tão cedo!

- Sou eu que assisto à operação do coração - anunciou ela. - A pedido de Emily Sloane, nada menos. Ao que parece, esta manhã, todas as regulares estão ocupadas...

- Não é uma razão para sobrecarregá-la com serviço suplementar. ..

- Emily sabe que gosto disto - interrompeu-o tranquilamente a rapariga morena. - Mas, se prefere andar a rebuscar os cantos à procura de outra pessoa...

- Sabe perfeitamente que não prefiro nenhuma outra enfermeira para me assistir.

- Pois bem! Eis-nos de volta ao nosso ponto de partida, não é verdade?

- É. Ao menos, presumo que quer dizer “voltamos a ontem à noite”.

Ele viu-a corar muito levemente enquanto deitava sal nos ovos.

- O lado do “sol” para cima, Andy? - perguntou antes de virar os ovos na frigideira.

- Sim, se faz favor... se todavia não é um jogo de palavras...

- Tem toda a razão em ver, esta manhã, o sol por toda a parte - comentou Júlia. - Amanhã, casa com uma das “dez mais ricas” americanas; depois de amanhã, compra o seu próprio hospital... Pelo menos, foi com esta perspectiva que, esta noite, nos separámos...

- Assim foi, de facto. E você parte para a Florida para ser a assistente social de Timmie. Como vê, a minha memória não é inferior à sua.

- Tem alguma objecção a apresentar?

Como ele não respondesse, inclinou-se sobre a frigideira e concentrou toda a sua atenção no primeiro-almoço. Andy reparou com perversa satisfação que as suas faces, depois de terem passado do branco-rosado ao vermelho, viravam para carmesim.

Permaneceu calado até ela colocar sobre o balcão duas bandejas com ovos e torradas. Julgara que o silêncio lhe tenderia os nervos, mas verificou - coisa curiosa! - que, desde há muito tempo, não se sentia tão calmo. Ao mesmo tempo, teve a certeza de que o seu próximo passo seria mal dado. Todavia, falou:

- Deseja que lhe dê uma carta de apresentação para Timmie?

- Prefiro ser eu própria a apresentar-me - declinou Júlia. - De resto, tenho a certeza de que o doutor Ash prestará todos os esclarecimentos necessários.

- Não está a falar a sério, pois não?

Viu-a tirar uma carta da algibeira.

- Escrevi esta carta, a noite passada, antes de me ter deitado. Gostaria de lê-la?

- Pelo contrário. Tudo quanto importa é ainda não tê-la metido no correio.

- Mas metê-la-ei, Andy, e eu própria irei também, ainda que não possa levá-lo comigo.

- Porquê Júlia, porquê? Já lhe disse que aquilo não é vida para si...

- E se eu lhe disser que tudo quanto me contou a respeito de seu irmão foi-me, pelo contrário, como que uma inspiração?

Por sua vez, Andy dedicou toda a atenção ao primeiro-almoço. “Se queres ser tu a dizer a última palavra, à tua maneira”, pensou, “já estou bastante velho para saber que de nada vale combater o idealismo dos novos.” Desta vez ainda, teve a certeza de que a sua recusa em discutir a pusera na defensiva. Estava por tal modo certo disso que não pronunciou palavra até engolir o último bocado de comida.

- Temos tempo de fumar um pouco, antes de começarmos com Jackie - propôs, acendendo primeiramente o cigarro da rapariga e, em seguida, o seu.

Enquanto lhe estendia a chávena de café para que lha enchesse, censurou-a:

- Não tem o direito de fazer isso, bem sabe. Não é justo para com nenhum de nós dois...

- Continue, Andy...

- Posso auxiliá-la verdadeiramente em Nova Iorque, dar-lhe uma sólida ajuda... E agora deve saber que nunca mais me será possível começar a operar sem um primeiro-almoço como este.

- Isso não se faz, insultar a sua noiva desta maneira!

- Duvido que Pat saiba pôr um ovo a cozer. Ou até pôr água a ferver. Você sabe perfeitamente o que quero dizer.

Júlia, com o olhar modestamente baixado, juntava a louça.

- Compreendo-o perfeitamente. É certo que ainda não enviei a carta...

- E mais certo ainda não enviá-la. Não consentirei que desperdice os seus talentos...

A enfermeira respondeu sem se voltar. O facto de estar a lavar pratos e tigelas na água a ferver que lançava uma auréola de vapor em volta dos seus cabelos escuros nada roubava à sua graça esbelta.

- Você adivinhou muitas coisas a meu respeito, Andy. Permite-me que lhe adivinhe algumas?

- Se eu fosse a si, não me arriscava a fazê-lo...

- Ainda não a pediu em casamento... ou já? “Evidentemente que ainda não”, pensou ele irritadamente.

“Foi Pat quem me pediu que a desposasse. A bem dizer, foi ela que tomou a ofensiva, desde o primeiro instante.” Em voz alta contentou-se em responder:

- Os nossos esponsais são oficiais, Júlia. Só depende dela anunciá-los no momento que ela própria escolher.

- Então enviarei a carta a Timmie no dia em que vir a participação na coluna da vida mundana.

Júlia afastou-se do lava-louças para enxugar as mãos a uma toalha. Andy seguiu-lhe o movimento das mãos, admirando a precisão de cada um dos seus gestos com a parte do cérebro não afectada pela pequena querela entre ambos. “Só uma enfermeira cirúrgica seria capaz de fazer tantas coisas com tão poucos movimentos inúteis. Só uma mulher amada pode sair fresca da água da louça e perturbar-nos o coração.”

- É um desafio ou um negócio, Júlia?

- Admitamos que se trata das duas coisas. Enquanto não vir com os meus olhos a notícia impressa nos jornais, continuarei a dizer e a pensar que continua a ser um dos nossos e que ainda não deixou de nos pertencer. A ela, nunca. E não me repita que depositei erradamente a minha confiança e a minha fé... não quero ouvir nada disso.

- Não posso pertencer às duas?

- Dê você próprio a resposta à pergunta. Quanto a mim, tenho de ir preparar-me para lhe servir de assistente, se é que ainda me quer.

“Hei-de querer-te sempre!”, replicou Andy, em silêncio, e deixando-a retirar-se dali, depois do pequeno triunfo que julgara ter conseguido. Era um alívio ficar ali sentado durante mais alguns instantes, tranquilo e só, gozando os últimos momentos de sossego que conheceria durante todo esse dia de trabalho. “Ao menos, marquei um ponto”, pensou. “Ela sabe agora que estou, a bem dizer, vendido a Pat; que o negócio está fechado.”

Dez minutos mais tarde, quando penetrou na sala de anestesia, contígua ao anfiteatro, onde ia começar o seu dia de trabalho, sentia-se tão calmo como um acólito. “A medicina e a cirurgia”, pensava, “são subterfúgios abençoados para todos os que são incapazes de tomar uma decisão!”

 

Jackie dormia ainda sob a influência da medicação pré-operatória. Andy passou rapidamente em revista o caso no cérebro, sentindo que este órgão habitualmente seguro entrava em funcionamento com a mesma facilidade. Entretanto a sua equipa reunia-se para apoiar o seu assalto à própria cidadela da vida. É fácil dramatizar exageradamente as operações ao coração, mecanismo muitas vezes mais vigoroso que o corpo que serve. Não fora por culpa do pequeno paciente que algo funcionara mal, alguns meses antes do seu nascimento, talvez no próprio momento da sua concepção.

Apesar de todo o seu feiticismo, a ciência ainda não compreendera como e por que motivo o ciclo da vida não seguira o curso normal prescrito por inumeráveis séculos de evolução humana. Um milagre dera ao homem um coração com quatro cavidades, duas aurículas e dois ventrículos, de paredes espessas, recebendo no lado direito o sangue proveniente do tronco, dos membros e da cabeça, e no lado esquerdo o dos pulmões para impeli-lo, a correr, por cada artéria, até as mais pequenas células do corpo. Esse milagre fora, de qualquer modo, recusado a Jackie.

Por qualquer razão que a medicina era ainda incapaz de explicar, essa divisão muito simples da bomba vital não se completara. A artéria que se dirigia para os pulmões estava apertada, a ponto de só deixar passar um delgado fio de sangue... e, ao mesmo tempo, o tabique chamado septo, que devia ter isolado o ventrículo direito do esquerdo, não se fechara completamente. Sangue mal oxigenado e que se amontoava atrás da barreira dos vasos estreitados passava para o lado esquerdo do coração e daí para o corpo sem ter recebido o oxigénio necessário. Durante a curta vida de Jackie, todas as suas actividades tinham sido cruelmente condicionadas por essa falta. Os jogos livres estavam-lhe interditos e o exercício mais moderado consumia imediatamente a sua provisão lastimosamente reduzida de oxigénio. Explicava-se assim que até então tivesse “existido” numa espécie de limbo - nem completamente morto nem verdadeiramente vivo.

Até a um passado muito recente, os enfermos congénitos de coração não tinham qualquer possibilidade de sobreviver à época do parque infantil e, durante esses breves anos, eram a presa patética de todas as doenças infantis. Hoje, graças aos operadores de milagres de Johns Hopkins, que tinham estudado a dolorosa situação das crianças marcadas por essa fatalidade, fora idealizada uma operação tendente a resolver este problema - audacioso feito de virtuosismo cirúrgico. Quando era bem sucedida, lançava o sangue através da artéria pulmonar apertada até o leito rico em oxigénio dos próprios capilares pulmonares, onde poderia reconstituir-se o aprovisionamento vital.

Durante a sua estada em East Side General, o repouso prolongado na cama e um regime reconstituinte tinham operado prodígios em Jackie. Estava agora no estado físico mais indicado para suportar uma operação. Por sua parte, Andrew Gray sabia que o seu corpo fatigado nunca estaria melhor predisposto. E, quanto ao turbilhão que lhe ia no cérebro, podia contar com a sua vontade de ferro para acalmá-lo - e expulsá-lo completamente de si - mal sentisse a faca na mão.

No vestiário, enfiou a bata branca que era o traje de batalha do cirurgião. No lavabo, Júlia, que acabava de escovar as mãos, dirigiu-se-lhe de modo impessoal, com uma voz sem inflexões, sem sexo, própria de todos os membros de uma equipa cirúrgica, mal se encontrassem nos seus locais de trabalho.

- Um dos estudantes está doente esta manhã, doutor Gray; receio que sejamos poucos e que não estejamos prontos quando o estiver.

- Apesar disso, vou preparar-me. Depois, é possível que passe pela clínica a ver como as coisas correm ao doutor Ash.

- Vai levar mais tempo do que supunha. Creio que lhe surgiram complicações imprevistas.

Nessa manhã, o primeiro caso de Martin era uma vesícula biliar. Podia ser um caso levado dos diabos se as pedras já se tivessem introduzido profundamente no canal colédoco. Talvez pudesse ser de assistência útil ao seu sénior. Perdera, desde há muito, a conta às operações que ele próprio terminara na clínica, quando Martin Ash tinha uma manhã verdadeiramente sobrecarregada.

Pegou numa escova, colocada ao lado da comprida bacia, e, no mesmo instante, o alto-falante proferiu o seu nome. Reconheceu as inflexões acariciadoras e praguejou com vontade por trás da máscara. No entanto, pegou no auscultador do telefone:

- Ainda não começou, pois não, Andy?

Visto que o próprio residente atendia o telefone, Tony Korff tirava a dedução lógica.

- Pode vir cá abaixo às urgências?

- Desta vez, o que se passa?

Durante um segundo louco, Andy teve a certeza de que o caso do “queimado” apresentava agora um novo desenrolar, mas o riso abafado de Tony baniu instantaneamente esta esperança.

- Desta vez, é inteiramente respeitável... Um peito esmagado... um guindaste avariado... É muito possível que se trate de um tipo perdido, mas, em todo o caso, gostaria que visse...

Também isso era bem próprio de Tony e, enquanto se encaminhava para o ascensor, Gray maldizia copiosamente Korff. De uma maneira geral, o refugiado estava seguro de si próprio, mas, quando um sexto sentido o advertia de que a vítima estava provavelmente para além de toda a esperança, preferia deixá-la morrer entre outras mãos, sem que a piedade contasse nisso para alguma coisa.

No corredor, Andy evitou por pouco uma colisão de cabeça baixa contra Emily Sloane. Por muito preocupado que estivesse, não pôde deixar de notar quanto a vigilante estava pálida, quanto as suas rugas estavam vincadas. “Imagem clínica perfeita de um mal negligenciado”, pensou. “Tenho de examinar Emily. A trabalhar contra-relógio, durante demasiados anos, estas enfermeiras especializadas da sala de operações chegam ao termo do seu caminho muito antes do tempo.”

- Vá devagar, Emily. Onde está o doutor Ash?

- Ainda se deve demorar uma hora, senhor doutor.

O tom de voz da vigilante era, como sempre, tão seco como os seus próprios modos.

- Não poderia adiar durante algum tempo a utilização desta sala de operações?

- Não somente posso, como devo fazê-lo. Esperam-me nas urgências. Não começaremos nada por aqui enquanto o doutor Ash não estiver preparado para as suturas.

Entrou no ascensor de sobrolho franzido, ao pensar na silhueta branca delgada. Nessa mesma tarde, chamaria Emily ao seu consultório.

No gabinete de observações contíguo à sala de urgência, Gray viu Korff e um interno do primeiro ano inclinados sobre uma maca que uma ambulância acabara de transportar. O paciente lutava desesperadamente para conseguir respirar, pois uma parte da parede torácica arrombada recusava ceder à pressão dos pulmões já exaustos. Sobre a maca, uma garrafa de plasma esperava com a agulha pronta. Apesar de toda a sua habilidade, Tony não conseguia encontrar um ponto de entrada. Adivinhando-lhe o dilema, Andrew precipitou-se para ele.

- Obrigado por ter vindo tão prontamente, Andy. A circulação está quase parada, devido ao choque nervoso.

- Parece-me bem que o pulmão está atingido - declarou Gray concisamente. - Experimentemos a veia do calcanhar.

Andy escovou rapidamente as mãos no lavatório de parede, espantando-se que Tony - sempre calmo e regular em circunstâncias semelhantes - tivesse perdido tempo a procurar no braço uma veia achatada em vez de mandar buscar imediatamente a ferramenta especial, sempre pronta e esterilizada para servir em tais eventualidades: um bisturi, uma pinça e uma agulha oca - chamada cânula por analogia - com o material de sutura necessário.

O tempo escasseava terrivelmente - era visível - e não se podia pensar numa assepsia geral. Por conseguinte, enquanto Gray se escovava, Tony fez uma limpeza asséptica local. O residente verificou que Tony já estava enfronhado no seu ofício, pintando com destreza o sítio onde ia ser dada a injecção, guarnecendo a área com um rectângulo preparado para as transfusões. Qualquer que fosse a sua preocupação interior, Tony dominara-a e tornara a achar-se membro da equipa. Os humores do exilado, tal como a sua solidão, continuavam a ser enigmas para Andrew Gray.

Sem qualquer transição, este encontrou-se junto à maca e praticou uma incisão com o cumprimento de dois centímetros e meio na goteira premaleolar interna. Depois, trocando o bisturi por uma curta pinça curva, separou os tecidos com golpes rápidos e prudentes, até aparecer nas profundezas uma massa alongada de um azul sombrio - a veia que procurava e que parecia inerte sob a sua mão. Graças à sua forma especial, a pinça passava sob o vaso sanguíneo sem um movimento inútil, erguia-a e punha-a bem à vista; dois fios de seda paralelos passaram pelos dois lados da sólida curva de aço - um laço destinado a apertar a veia por trás da cânula; outro para fixar o tubo dentro da veia e para mantê-lo aí.

- Pronto para o plasma?

- Pronto, doutor.

O escalpelo abriu instantaneamente a veia. O tubo de metal seguiu a faca, como se tivesse participado nessa descida pronta e precisa, e uma boa parte do seu comprimento penetrou na veia. Fixado por uma torcedura rápida do fio de seda, manteve-se firmemente no seu lugar. Andy fez recuar o dedo ao longo da veia até encontrar o segundo fio, que apertou firmemente, evitando desse modo qualquer escoamento de sangue pela abertura que acabava de praticar. Já Tony estancava com uma esponja o sangue derramado que a falta de oxigénio quase tornava negro.

Afastando-se da maca, Gray notou que o interno novo também sabia bem o seu papel: já o tubo do plasma estava adaptado à cânula, sem contactar nem com a mão do cirurgião nem com a chaga. E o nível da garrafa, acima das suas cabeças, começava imediatamente a baixar regularmente, ao mesmo tempo que o fluido vital se espalhava por uma circulação tornada cada vez mais lenta.

Andy pôs as suas suturas e colocou um penso folgado sobre a incisão: levantando então os olhos para o relógio pendurado na parede, verificou que a operação, no seu conjunto, não levara mais que três minutos precisos.

- Já fizeram o pedido de sangue?

- Está agora a ser transmitido, doutor Gray.

Andy virou-se para Tony Korff:

- Mande-o conduzir para o anfiteatro C. Ash está a operar, neste momento, na sala principal.

O refugiado aquiesceu com um movimento de cabeça:

- Já avisei a equipa, enquanto estava a fazer as suturas. Estão neste momento a proceder aos preparativos devidos.

Seguiram o paciente ao longo rectângulo do ascensor. Andy começou imediatamente o seu exame preliminar, perscrutando com leves toques a zona lesada do lado direito. Tal como esperava, a nota de percussão ressoava de um modo estranho, um pouco como um tambor. O murmúrio respiratório, escutado ao estetoscópio, era fraco, agudo e demasiado longínquo para ser tranquilizador.

- O quadro não é muito brilhante, Tony.

- Parece-me - respondeu este - que existe um pneumotórax.

- Torna-se nitidamente perceptível. Mas se há verdadeira laceração do pulmão, no ponto em que estamos, a pressão do ar devia parar a hemorragia interna e é exactamente isso que não se produz.

Saíram no piso do O. R. e seguiram o paciente em direcção à porta mais próxima.

- A propósito, temos licença para operá-lo?

- A mulher está na antecâmara. Quer falar-lhe ou prefere que seja eu a fazê-lo?

- Deixe-a comigo - respondeu Andy. O colega, mais novo e demasiado tenso, poderia mostrar-se brusco numa ocasião dessas. - Fique ao pé dele e vigie-o de perto, para o caso de se produzir alguma apneia. Se este pulmão está tão mau como receio, não podemos permitir-nos uma supressão da respiração.

O paciente debateu-se momentaneamente, enquanto se detinham para fazerem passar a maca através das portas de vaivém. Uma tosse rouca soltou-se do peito despedaçado. Andy olhou para o jacto de sangue - pouco abundante, mas indubitável e franziu inquietamente o sobrolho.

- Veja se Evans pode vir fazer a anestesia. Ele compreende maravilhosamente este tipo de acidente. E quanto mais cedo lhe metermos um tubo traqueal, mais depressa me sentirei sossegado.

Não precisava de dizer mais nada. Tony conduzia a maca para o anfiteatro já quase preparado. As lesões daquele género não eram muito correntes, mas o perigo saltava à vista. Era já evidente que a pancada sobre a parede torácica ofendera o tecido esponjoso do pulmão, talvez para além de toda a possibilidade de reparação, mas, devido ao facto da quantidade de sangue existente nessa região, escapara-se já, para dentro da própria cavidade torácica, uma mistura de ar e de sangue, que, a cada inspiração, comprimia o pulmão lesado. À medida que a pressão aumentava, o pulmão intacto e o outro achar-se-iam cada vez mais comprimidos, e, se o alívio não se produzisse dentro de um tempo relativamente curto, não restaria suficiente tecido pulmonar em estado de funcionar para manter a vida.

Poucos instantes foram precisos para persuadir a mulher nova, pálida e angustiada, que esperava na antecâmara, de que a única possibilidade de salvação do marido residia numa operação imediata. Quando Andrew voltou à sala de operações, Tony estava postado ao telefone, dando ordens precisas ao banco de sangue, situado no rés-do-chão. Notou com satisfação que Emily Sloane dirigia, com a sua conhecida prontidão e habitual severidade verbal, um grupo de enfermeiras estagiárias. com saúde ou sem ela, Emily dar-lhe-ia a sala de operaç’ões pronta e impecável antes de ter acabado de enfiar a bata. Seguiu Tony ao lavabo quando este desligou o telefone.

- O que pediu? Grupo O?

- Sim, mil centímetros cúbicos. Não temos tempo para fazer experiências.

- Onde está Miss Talbot?

- Está a tratar do regresso de Jackie à enfermaria. Deixa então a Blalock para mais tarde, se bem entendo.

Andy Gray respondeu afirmativamente com um aceno de cabeça, ao mesmo tempo que começava a escovar as unhas. O coração enfermo de Jackie podia esperar algumas horas mais, sem acréscimo de perigo, enquanto, atrás dessa porta, que ele apercebia através do vapor da água quente, escoava-se uma vida rapidamente.

A cabeça de Emily Sloane passou pela entreabertura da porta:

- Instrumentos especiais, doutor Gray?

- Apenas um garrote para pedículo pulmonar. Preparamo-nos para uma operação torácica.

- A enfermeira Talbot tem um no seu tabuleiro especial.

Andy sorriu por baixo da máscara. Podia contar com Júlia para se lembrar de muitas coisas, tanto das suas últimas palavras numa discussão como do menor objecto que poderia tornar mais segura uma operação delicada.

Enquanto escovava as unhas, vigiava os preliminares na sala de operações. O anestesista - a avaliar pela corpulência, julgou tratar-se do Dr. Evans, tal como pedira - estava já no grupo com um interno a seu lado. Enquanto este soerguia a cabeça do paciente e a segurava nas mãos como numa taça, o anestesista iniciava a inserção metódica de um laringoscópio, comprido instrumento metálico, encerrando uma pequena lâmpada eléctrica, pequena mas potente. Graças a esta iluminação, um tubo semelhante a uma serpente de temperamento explorador foi introduzida suavemente na traqueia. Enquanto o cirurgião operasse, o oxigénio seria fornecido através desse tubo aos pulmões exaustos. Um engenhoso sistema de duplo balão perto da extremidade do tubo permitia igualmente que o gás anestésico penetrasse sob pressão nos pulmões, durante o período crítico em que seria necessário manter aberta a cavidade torácica.

Júlia, devidamente escovada, vestida e pronta, como sempre, três bons minutos antes do cirurgião, avançou para debaixo da luz operatória. Andy viu-a atravessar a sala ladrilhada com mosaicos brancos e, mesmo nesse instante de preocupação intensa, sentiu que o coração falhara uma pulsação.

- A operação de Jackie fica para depois desta operação, senhor doutor?

- Não creio, Miss Talbot - respondeu com igual correcção. - A equipa tem de estar repousada para iniciar uma Blalock. É possível que a façamos lá para o fim da tarde, quando já todos tivermos voltado a respirar.

Tony, a quem uma estagiária ajudara a enfiar a bata, precipitou-se para o paciente a fim de prepará-lo. Secundado por Júlia, puxou para baixo os lençóis que o cobriam até o queixo, expondo o lamentável estado do peito esmagado, a região mais perigosa de todas, onde o cirurgião imprudente se expunha a muitos riscos e perigos. À distância de onde se encontrava, Andy viu que o dano físico não era tão extenso como receara.

Quando Júlia lhe meteu o escalpelo na palma da mão, foi sem hesitação que marcou uma linha operatória ao longo da costela que contava cortar e foi sem hesitação também que ajudou Tony a fixar por meio de pinças a longa franja de pensos que cercava a chaga. Automaticamente notou a ausência quase total de fluxo de sangue e procurou os olhos do anestesista... mas de forma alguma ficou tranquilizado com o encolher de ombros de Evans. O frasco de sangue total esvaziava-se na veia do tornozelo. O melhor que tinham a fazer, durante a meia hora imediata, era agir depressa, rezar e esperar.

O periósteo, dura cobertura sobre a caixa torácica, fendeu-se à passagem de um bisturi fresco, num comprimento de vinte e cinco centímetros. Um raspador, instrumento curvo de gumes relativamente cortantes, encontrou-se na mão de Gray. Fez passar a folha deste por baixo da costela até que a extremidade tornasse a aparecer nitidamente em frente; depois forçou-o ao longo do osso, manobra essa que só de uma vez e sem qualquer sacudidela retirou todo o comprimento do periósteo previamente fendido. Isso constituía uma tarefa cirúrgica de extrema importância, pois esse forro coriáceo serviria de base à nova costela que poderia formar-se.

- Costotómio, por favor.

Ainda não acabara de falar e já Júlia lhe metera o instrumento na palma da mão. Sabia que, desde esse momento, a jovem enfermeira faria parte dele, seria como um prolongamento do seu corpo, e o seu cérebro dirigiria os seus músculos. O costotómio, espécie de guilhotina em miniatura, mordeu, de lado a lado, cada uma das extremidades da costela, depois do que pôde soerguê-la facilmente do seu leito. Sob a incisão, o forro do periósteo formava uma barreira relativamente exangue, através da qual podia penetrar facilmente na própria cavidade torácica.

Ao costotómio sucederam-se umas pinças de Allis, instrumento de dentes delgados que facilitavam a manutenção do periósteo no seu lugar durante a longa incisão seguinte. Ouviu-se um assobio nitidamente perceptível quando a cavidade pleural - espaço em volta dos pulmões - se abriu debaixo das suas mãos. O som assemelhou-se ao barulho que o ar faz ao escapar-se de um pneu furado, de tal modo era forte a pressão do pulmão dilacerado.

À cabeceira da mesa, Evans falou:

- Melhoria de respiração...

Andy ergueu a cabeça e concordou:

- Pode calcular quanto a pressão do pneumotórax impedia a dilatação do pulmão e também como prejudicava o coração.

Falara de modo didáctico, elevando um pouco a voz, em atenção ao microfone suspenso por cima da mesa. Sem olhar o espaço para além das luzes, sabia que a galeria de observação, envidraçada, abundava em estudantes e internos, mal o caso de urgência fora anunciado. Porém, erguera a voz apenas pelo sentimento do dever. Ocupado no seu trabalho, não se preocupava com o público e menos ainda com a sua aprovação.

O anestesista ajustava o débito ao ritmo dos movimentos do cirurgião, diminuindo a pressão do gás que enviava para os pulmões do paciente à medida que a acumulação de ar que os obstruía era progressivamente alijada. Quando Gray inseriu a mão por baixo do pulmão para soerguê-lo, deu-se um jacto de sangue misturado com ar. Tony Korff esponjou-o imediatamente, estancando a hemorragia incipiente, e o cirurgião teve uma clara visão da situação:

- Exactamente o que esperávamos. Uma dilaceração devida à costela partida.

O ponto central do perigo apresentava-se agora no campo operatório, próximo do cimo do lobo inferior: era um rasgão dentado, recortado no tecido esponjoso, com nada se parecendo tanto como com o rebentar de uma laranja que se esmagou no passeio da rua. Uma massa polposa, avermelhada, transbordava, inchada, para fora desse rasgão, e dessa massa transpirava sangue. O seu pulsar era rítmico como se algum metrónomo invisível assegurasse a sua regularidade. Quando Gray apertou na mão a esponja viva, o fluxo achou-se mais retardado do que parado.

- A artéria pulmonar deve estar rasgada, ou, pelo menos, um dos seus ramos principais no interior do pulmão.

- É o fim, não? - inquiriu Tony Korff.

Andy sacudiu vivamente a cabeça. Essa era a fraqueza que nunca poderia perdoar, a tendência de Korff para abandonar a partida quando esta se tornava verdadeiramente difícil de jogar e o sucesso lhe parecia inacessível.

- Perdeu muito terreno, doutor Evans?

- Se há mudança, é uma melhoria depois que aliviou a pressão - respondeu o anestesista. - O sangue corre regularmente na veia e podemos substituí-lo mais depressa do que se perde.

- Nesse caso, correremos o risco - declarou Andy. - Temos de tirar este lobo.

Por muito envolto que estivesse num nevoeiro de intensa concentração, sentiu os observadores agitarem-se na gaiola de vidro. Uma lobectomia de urgência não é um prato de todos os dias; e, no caso presente, era a única cirurgia que poderia salvar o paciente. No fundo da espessura do tecido - essa exsudação, que seguia o bater de um pulso, não era disso menor prova - a delgada parede da artéria pulmonar estava rota, o que era um dano impossível ’de reparar. Não tinha por onde escolher; era obrigado a suprimir a porção lesada. Felizmente, o homem pode viver apenas com a sexta parte da sua massa pulmonar, desde que esteja em bom estado de funcionamento. Nenhum dano permanente resultaria, pois, da supressão de metade do órgão agora visível na chaga.

- Não temos tempo de dissecar o pedículo pulmonar e de isolar os vasos - disse Andy. - com um paciente em profundo estado de choque, é impossível. Garrote pulmonar, por favor, Miss Talbot.

O garrote era um instrumento muito simples, um pouco no género do fio de aço empregado pelos laringologistas para extracção das amígdalas. Comporta um fio de seda firmemente entrançado, que Andy fez passar no hilo do pulmão, no sítio em que a artéria e a veia se reúnem sob a junção da traqueia e dos brônquios. No momento em que apertou o laço, o fluxo de sangue sob a sua mão livre abrandou e depois parou. Por excesso de precaução colocou uma segunda trança de seda, e depois uma terceira que apertou logo a seguir ao garrote. Prendeu cuidadosamente os laços, contando mais com a ponta dos dedos do que com os olhos.

Júlia começou a passar-lhe ganchos por cima da mesa, instrumentos de aço preênsis, capazes de esmagar o pulmão e de segurá-lo firmemente, enquanto o cirurgião cortasse e suturasse. Colocou os maxilares de um dos ganchos através do próprio pedículo pulmonar, mesmo por cima dos laços de seda; depois um outro cerca de meio centímetro mais alto, no pedículo. O lobo lesado foi retirado da chaga, onde o pedículo permaneceu, triplamente seguro pelo garrote, sutura e gancho.

- Vamos ligar este pedículo - disse calmamente Andy, sem sequer ouvir a profundidade do suspiro que percorreu os bancos dos observadores.

A agulha penetrou, precisa e segura, alinhando pequenos pontos cuidadosos, lado a lado, até toda a base do pedículo desaparecer. Era uma tarefa custosa, lenta e monótona, mas necessária. Muitos cirurgiões consideram as laqueações inúteis, depois de tomadas tantas precauções minuciosas. A experiência, todavia, ensinara a Gray que, numa operação pulmonar, todas as precauções são poucas. Até esse pedículo ficar completamente cicatrizado e curado, o perigo de hemorragia subsistiria e a hemorragia, nesse ponto do corpo humano, poderia bastar para causar a morte em poucos minutos.

Quando ergueu o olhar, verificou que apenas metade do frasco de sangue total transitara para a circulação. Evidentemente, todos os passos da operação tinham sido efectuados a uma velocidade recorde. Uma olhadela à cabeceira da mesa e recebeu o sinal de cabeça do anestesista como teria recebido um abraço.

Já a melhoria de estado do ferido era perceptível mesmo à galeria. As pulsações do coração, visíveis através do mediastino, a zona que forma o tabique central da cavidade torácica, eram mais vigorosas e nitidamente menos precipitadas.

- A pressão, doutor Evans?

- Sobe regularmente, doutor.

- É bastante favorável. vou fechar.

Evans fez primeiramente um sinal de assentimento e depois accionou um dos quadrantes da máquina, aumentando a pressão de ar. Imediatamente a porção restante do pulmão, que continuava à vista na caixa torácica ainda aberta, inchou... até atingir duas vezes o seu volume inicial. Júlia pusera na mão de Andrew uma agulha enfiada com corda de tripa. A chaga foi cuidadosamente recosida: as incisões desta natureza têm de ser fechadas com o máximo cuidado; é necessário que fiquem absolutamente impermeáveis ao ar, pois - até o mais novo dos internos que se encontrava na galeria o sabia - nada devia perturbar a pressão normal do lobo intacto.

Quando finalmente terminou, quando a epiderme ficou cosida, Andy afastou-se para ceder o lugar a Tony. Este retirou os ganchos dos últimos pensos e fixou um penso sobre a chaga.

- Lamento ter parecido desistir tão facilmente, doutor - desculpou-se o refugiado. - O seu público nunca mo perdoará.

Andy pestanejou, ergueu a cabeça para as galerias e só então se apercebeu verdadeiramente dos aplausos silenciosos que lhe eram endereçados.

- Será preciso dar-lhe uma segunda garrafa de sangue total - recomendou com voz calma e pousada.

De novo em contacto com o mundo exterior, notava em Tony uma lacuna definitiva, uma retirada do pensamento e da energia para algum jardim privado, muito afastado de East Side General e da tarefa em mãos.

- Penicilina, naturalmente. E tenda de oxigénio até estar fora de perigo. Quer informar a mulher de que suportou bem a operação? Ou quer que vá eu?

- Todo o prazer será meu, doutor - replicou Tony. - Permita-me que o felicite por mais uma vitória brilhante.

Sem esperar resposta, saiu atrás da maca empoleirada sobre as altas rodas. Andy seguiu-o atentamente com o olhar, semicerrando os olhos para vê-lo melhor, esperando quase descobrir-lhe um passo incerto - não teria sido essa a primeira vez que o refugiado, hábil e até brilhante, mas instável, teria comparecido na sala de operações um pouco desequilibrado pelo álcool.

Mas nunca Tony Korff caminhara mais direito.

Nem com uma arrogância mais perfeita.

 

Martin entrou no lavabo enquanto Andy tirava as luvas. O director parecia fatigado, mas nos traços vincados e nos olhos cansados brilhava uma calma satisfação. “A vesícula biliar foi um sucesso”, pensou Andy, sem, todavia, cometer o erro de fazer a pergunta, pois, embora fizessem muito trabalho em comum, o mais velho nunca colocara as suas relações no plano pessoal. Mesmo depois de tantos anos, Andy não sabia exactamente se Martin Ash lhe dedicava antipatia ou se o considerava como um possível rival.

- Tinha ouvido dizer que esta manhã operava o seu coração enfermo, Andy. É pena que tenha sido chamado para outro lado...

- Também valia a pena - disse o outro, sorrindo com o formigueiro do anti-séptico.

- Fez um bom trabalho... mas isso era de esperar.

- Obrigado, senhor doutor. Necessita da minha presença na conferência do meio-dia?

O director de East Side General encostou-se ao alizar da porta e procurou um cigarro. Gray estudava-o atentamente, sem o deixar perceber, enquanto o via acender o caro isqueiro de platina. Embora muito amarrotado como estava... e manchado de sangue, devido a uma manhã árdua, passada na clínica, Ash parecia vibrantemente cheio de vida. “Nunca vi um rosto mais belo!”, pensava Gray. “Nem mais triste! Que bela vida lhe deve dar a encantadora Catherine!”

- Reunir-nos-emos como habitualmente - disse Ash. - Não quero dizer que tenha muita coisa a anunciar a uns e a outros. Desconfio que os falatórios e as más-línguas já se encarregaram das comunicações.

- Cá por mim, tenho estado demasiado ocupada para escutá-los ou sequer ouvi-los.

- Já certamente ouviu dizer que a segunda vítima também se foi?

- Vinha indicado “confidencialmente” no relatório desta manhã.

Viu Ash afastar o cigarro dos lábios e perguntou a si mesmo por que motivo o corpo do seu superior se distendia subitamente, ao mesmo tempo que lançava a baforada de fumo.

- A polícia pediu-me que lho deixasse como isca - declarou lentamente Ash. - Como chamariz! Sabe Deus porquê, mas tinham na ideia que o medo faria sair o lobo da sua toca, se nós déssemos a entender que o outro estava prestes a falar e que se esperava a relação de nomes...

- Compreendo.

- Está também a ver o que poderia ter-se produzido se o plano tivesse resultado?

- Teríamos sido apanhados no meio de um fogo em várias línguas - disse Andy, esboçando um sorriso malicioso. - Sob um fogo poliglota! Reconheço que isso teria sido uma novidade em qualquer país.

- Presentemente o fogo está agora menos alimentado. Em todo o caso, menos imediatamente inquietante.

- Receio não estar a compreender bem...

- Hurlbut telefonou-me no intervalo de duas operações: “Já revelei a segunda morte aos jornais vespertinos.”

- Disse-lhe porquê?

- Instruções superiores, creio eu. De Washington devem ter feito - fizeram-no certamente! - alguma observação ao tom dos artigos publicados pelos jornais de Nova Iorque e dito ser necessário não ofender um antigo aliado do outro lado do mar, ainda que seja hoje a nossa Nemésis não declarada...

- Continuo a não compreendê-lo, senhor doutor...

- É bastante simples, Andy. Neste momento, não podemos revelar que os nossos inimigos embarcam aqui produtos radioactivos, com, bem entendido, cumplicidades do nosso lado... Não podemos sequer presumir que um ou outro destes inimigos poderia fazer saltar um hospital metropolitano inteiro para evitar que a sua identidade fosse revelada.

- Foi por isso que o informaram pela voz da imprensa e pela da rádio, pelo falatório oficial e mexeriqueiro, que já não tem qualquer razão para se inquietar?

- Precisamente. Dizemos que... pelo menos quanto a nós... todo o perigo está afastado do seu caminho, se não do nosso... o que evidentemente não passa de uma verdade muito relativa. Contudo, continuo a lamentar que o “queimado” não tenha falado antes de morrer.

- Hurlbut julga poder apanhar o homem por fora?

- Persiste em afirmar que o trabalho foi feito no bairro. Pensa até ter possibilidade de fazer uma prisão amanhã de manhã. - Ash suspirou. - Nós dois fizemos aqui o nosso internato e sabemos o que um polícia diz sempre... quando se sente no extremo da corda.

- Tenciona contar isto tudo na reunião do meio-dia, doutor? Ou fica entre nous?

- Creio não poder fazer menos do que isso. Ainda não tive tempo para tirar a “temperatura” do hospital. Notou alguns sinais de nervosismo?

Andy fitou o seu superior:

- A maior parte de nós já passou pelo fogo, senhor doutor, em estranhos cantos do mundo... E suponho que os que ainda por ele não passaram, estão prontos para o seu baptismo.

- Não se esqueça de que embora já não sejamos exactamente um alvo, continuamos na zona perigosa...

- Estamos todos a postos, senhor doutor. Creio poder garantir-lho.

Ash deixou cair a mão sobre o ombro de Andy e este sentiu através da roupa a extremidade de uns dedos frios como gelo.

- Você é como sempre um reconforto e um apelo. Gostaria de ter a sua... fortaleza de ânimo...

- Chame-lhe simplesmente hábito - respondeu Gray. - Nunca fui particularmente notável pela minha coragem. Diga, se quiser, e é o que há de mais simples, que estou no lugar que me convém. Quando estou a trabalhar, não reparo em nada do mundo exterior.

- A propósito de trabalho, quando tenciona operar o coração enfermo?

- Antes das cinco horas, não?

- Cinco horas, será perfeito. Se me for possível, estarei na galeria.

Andy baixou os olhos para esconder a confusão que lhe causava. Quando os ergueu, Ash já desaparecera.

A sala de operações estava vazia quando a atravessou a caminho de uma das tarefas desse dia, que, agora, lhe parecia interminável. Tivera uma vaga esperança de um simples pensamento, que tomara a forma de desejo. Júlia oferecera-lhe a sua amizade e fidelidade; insistiria no caminho que se decidira seguir. Era a ele e só a ele que competia decidir se se lhe juntaria no decurso do trajecto.

Foi só quando entrou na sala de cirurgia que se lembrou do seu encontro - unilateral - com Pat Reed. Embora no papel não se tratasse de uma simples sugestão, sabia que ela o esperaria pelas cinco horas e sabia com a mesma certeza que não o esperaria indefinidamente. As raparigas do tipo de Pat tinham companheiros de jogo em toda a parte. Ali, em Nova Iorque, estavam prontos às dúzias a responder ao mais pequeno toque de telefone... E tinha Jackie precisamente para as cinco horas! Desde o momento que o participara a Ash, já não podia tornar a mudar.

Perguntava a si próprio se fizera a escolha instintivamente, ainda que não fosse senão para adiar um pouco o minuto fatídico da decisão. E ao mesmo tempo - ao mesmo tempo! esperava que algum poder independente dele tornasse inevitável uma decisão..

O Dr. Dale Easton saiu da reunião do meio-dia, realizada no gabinete do Dr. Ash, com um suspiro interior. Como já esperava, a reunião dos chefes de serviço de East Side General nada dera... ou dera tudo, consoante o ponto de vista por que fosse considerada. A solidariedade de todo o pessoal, acontecesse o que acontecesse, fora uma coisa assente para além de toda a discussão. Mas isto já se previa de antemão. Já se sabia. Martin Ash nunca tivera a mínima razão para suspeitar de quem quer que fosse, mesmo antes de surgir essa estranha ameaça. Dale, que vivia muito à parte do que não respeitasse ao seu serviço e às suas funções, não experimentara maior alívio ao saber da morte do segundo “queimado” do que ao ler o título melodramático que Otto levara à noite ao laboratório subterrâneo.

Dale ruminava essas coisas enquanto percorria o corredor e esperava Andy junto à escada que conduzia ao seu domínio pessoal. A fria luz da verdade era a única que contava para o Dr. Easton e, fosse qual fosse o ângulo sob o qual o observador considerasse as notícias do dia, não parecia achar nelas uma luz bem aceitável.

Sob o ponto de vista de anátomo-patologista, a vida era um começo e um fim inevitável, embora geralmente não discernível a todos os olhos até o momento em que se produzia, o que, na maior parte das vezes, acontecia por meios violentos. Uma leitura atenta das notícias desse dia, apenas poderia convencê-lo de que a humanidade existente em toda a Terra, repetia o mesmo ciclo, numa escala global. Devido a essa razão convincente, Dale Easton evitava igualmente o jornal e a rádio.

Andy Gray continuava tão descarnado e tão preocupado como nos outros dias. Ao vê-lo sair da antecâmara directorial, Dale esteve quase a ceder ao impulso bem humano de descer a escada e de deixar o amigo seguir sozinho o seu obscuro caminho. Os seus olhares cruzaram-se e viu no franzir de sobrolho de Andrew a necessidade que ele tinha de um momento de repouso longe de todo o bulício... uma necessidade igual à sua.

- Almoçamos juntos, Andy?

- Receio bem que não, Dale. Dentro de um quarto de hora, tenho uma apendicite na clínica e, logo em seguida, um rim.

- Então como é que eles te alimentam? Por intravenosa, enquanto operas?

Andy respondeu com um sorriso breve:

- É uma ideia, essa tua! Quanto tempo poupado! Tinhas alguma coisa de especial para me mostrares?

Durante essas curtas réplicas, por acordo tácito, tinham-se encaminhado juntos para o laboratório.

- Não é grande coisa, mas, em todo o caso, merece ser olhada duas vezes.

Entraram no laboratório pela porta lateral. O anatomo-patologista tirou uma lâmina do suporte e inseriu-a cuidadosamente no grande microscópio colocado em frente à janela.

- Tecido queimado, sem contestação - declarou Andrew, cujo cérebro já registara o desenho pormenorizado que aparecia sob a lente. - É um dos bocados que não mandei para Brookhaven.

Quando, depois de um segundo exame, Gray levantou os olhos para o amigo, nem um nem outro falaram imediatamente. O patologista tornou a colocar a lâmina no suporte e ficou empoleirado no seu alto banco de trabalho. Permitiu-se uma sombra de sorriso, ao formular o pensamento que lhes era comum:

- Queimadura química. Não é o resultado de uma explosão atómica, apesar de uma semelhança superficial.

- Semelhança suficiente para ontem me ter enganado admitiu Gray. - Tenho absoluta certeza que enganou igualmente Tony e os nossos amigos da Defesa Civil.

- Sem dúvida. Mas é mais difícil enganar um microscópio - disse Dale. - O que me lançou na pista foi serem chagas frescas. Como vês, a escara é formidável, mas não apresenta os traços semelhantes a um começo já avançado de gangrena que tinha em Hiroshima e que acabámos por chamar as consequências particulares das radiações atómicas. Não há dúvida de que há um certo grau de radiação que o contador mostra claramente...

- Consegues reconhecer o produto, Dale?

O patologista sacudiu a cabeça:

- Penso que Brookhaven podia fazê-lo, mas, já se sabe, lá em baixo não dizem nada.

- Dirias que este agente químico poderia constituir um dos ingredientes de uma bomba atómica, passada ou futura?

- Não é isso precisamente o que diz Brookhaven... pelo facto de nada dizer?... O relógio da nossa vida é capaz de estar a tiquetaquear à esquina da rua. E, ainda que tenhamos tranquilizado o inimigo, admitindo que as suas duas vítimas estão bem mortas e já não falarão mais, pode ainda dar-se o caso de esse relógio fatídico bater!

- A morte tiquetaqueia sempre à esquina da rua - filosofou, calmamente, André w. - Sob uma forma ou outra. E nós devemos estar constantemente preparados para isso, até que a tenhamos posto a ferros e impossibilitado de prejudicar.

Percorreu a passos largos, uma ou duas vezes, a sala, e depois bateu com o punho da mão na mesa da dissecação:

- Não penso apenas nesta ameaça sobre Nova Iorque - continuou. - Embora a caixa de Pandora esteja aberta, ainda deve conter - e o que importa é encontrá-lo! - um meio de fixar solidamente a tampa.

O sorriso inquieto não desapareceu do rosto de Dale Easton.

- Um governo mundial enérgico seria a solução! A energia acrescentada a um sincero regresso a Deus!

- Bastante exacto. Mas quem abriria a marcha? O Congresso? Ou as Igrejas Federadas da América?

- Hoje estás um tanto amargo, Andy.

- Muito longe disso! Estou simplesmente um pouco espantado pela tua maneira de recitar o credo. Sempre te tomei por um fatalista e eis que, no fim de contas, pareces cristão.

- Acredito na imortalidade do homem e acho que é o menos que se pode dizer.

com o polegar por cima do ombro, indicou o corpo do segundo “queimado” que, sob um lençol branco, esperava a sua vez de dissecação.

- Incluindo estes restos... e pouco importa o género de vida que tenha levado. O homem deve perder a sua vida para a encontrar e, no caso da tua religião estar um pouco enferrujada, nomear-te-ei o autor desta filosofia.

- Posso citar o Novo Testamento tão bem como qualquer outro - protestou Andrew, e Dale espantou-se por ouvir-lhe a voz tornar-se de repente acerba.

- Acaso impediu os nossos colegas do outro lado do Atlântico de constituírem stocks em atenção à morte? Acaso impedirá os nossos grandes espíritos de largarem o primeiro carregamento se não virem meio mais simples para dele se libertarem?

- Estás amargo, meu amigo - observou o Dr. Easton. - Acaso significa isso que acabaste por decidir-te pelo casamento com esse rico banco do alto da cidade?

Andrew Gray afastou-se do microscópio:

- Vai para o inferno, sim? Não decidi nada.

- Então enredaste-te em frios limbos, o que é muito pior. Precisamente no momento em que todos nós andamos a apalpar o pulso e a tornarmo-nos rapidamente religiosos, antes de nos desfazermos numa baforada de fumo.

- Se quiseres, considera as coisas dessa maneira - disse lugubremente o cirurgião - mas subsiste o facto de que não posso continuar indefinidamente neste ritmo. Talvez até acolha com alívio uma dissolução rápida.

- E entretanto não procurarias agarrar um bocadinho de fé entre o polegar e o indicador?

- Mil agradecimentos, Dale. Não utilizo a fé como uma pitada de rapé. E precisamente porque daqui a algumas horas posso estar reduzido a pó, não me vou atirar, de cabeça à religião... e tu também não!

- Pela minha parte, calcula tu, estou convencido de que sempre fomos religiosos.

- Não ouviste dizer que todos os médicos são ateus... e muito especialmente os cirurgiões?

- O que se “ouve dizer”, que eu saiba, nunca provou nada. Creio na existência de uma força que me é exterior e superior. - Lançou nova olhadela à rígida forma branca. - A força que me permite pensar, que inventou o amor, e que emprestou uma centelha de vida a esse pobre bloco de argila ali estendido, debaixo do lençol de Otto... E tu também, doutor Gray, também acreditas nela. Caso contrário, não terias marcado para as cinco horas esse enfermo do coração.

- O que significa que?

- O que significa que, às cinco horas, estás oficialmente livre, e que poderias dispor desse tempo sem o mínimo escrúpulo porque contas, pelo menos, uma boa semana suplementar no teu activo. Esta noite, pensa bem, poderias empregá-la fora do hospital, sem teres que dar satisfação a ninguém, a fazeres amor com a tua herdeira, por exemplo, ou num cinema de programa duplo. Ou ainda a tomar um refresco à sombra dos grandes olmos e, entretanto, estudares a tua alma. Ora, o que é que decidiste? Juntar a tua sorte à nossa. Terei de dizer-te porquê?

- Serias muito esperto, porque eu próprio não sei.

- Certamente que sabes! Ficas no hospital e a trabalhar, esta noite, porque crês em Deus. Estamos inscritos no seu grande livro para jogarmos convenientemente a parada e nos mostrarmos à altura da situação, o melhor que pudermos. Bem sabes que qualquer que seja a forma como isto termine, nenhum de nós continuará “depois” a ser o mesmo, quer o inferno faça ou não explosões sob os pés de Nova Iorque; quer seja para hoje ou para o próximo ano. E tu compreendes que, aconteça o que acontecer, as tuas vistas só podem beneficiar com a mudança.

- Oh! Deixa-me em paz, sim?

- Já disseste isso ou qualquer coisa semelhante.

- Precisas que to repita.

Depois disso, Andrew, obstinado e vexado, saiu do laboratório. Dale Easton riu sozinho enquanto a porta batia. Andrew dissera-lhe tudo quanto ele queria saber...

Eram horas de almoçar, mas a reunião do meio-dia tirara-lhe o apetite. Dale Easton despiu pois o casaco e pôs o avental que era o uniforme do seu comércio. O velho Otto, que ouvira passos no corredor que levava à sala de autópsia, já passara a cabeça pela entreabertura da porta.

- Pronto para o novo paciente, senhor doutor?

- Pronto, Otto. Leva-o para a mesa e acabemos com ele.

Quando o segundo “queimado” se encontrou estendido na laje de mármore, o patologista trabalhou durante muito tempo sem dizer palavra, numa terrível confusão de carnes, esse conjunto que fora um homem e reduzindo, em seguida, cada bocado a outros bocados, conforme a sua natureza e a sua anterior função.

Otto, em conformidade com os seus hábitos, circulava alegremente pela sala, depondo os bocados de carne por diversos recipientes, juntando ou separando estes, rotulando cuidadosamente os frascos onde a carne humana se banhava em formol e alinhando os frascos segundo um método que lhe era próprio. Mais tarde, esses frascos iriam para o laboratório e, mais tarde ainda, depois de os tecidos terem sido metidos em cubos de parafina e cortados em fragmentos de espessura inferior à de uma célula, voltariam a passar pelo microscópio...

A morte continuava a ser o conquistador final? O padre O’Leary pensava diferentemente, evidentemente... mas, aí, penetrava-se no domínio próprio do padre, e o vaso que continha a fé do padre fora fundido, malhado e forjado em fogos especiais. O próprio padre não negava a morte do corpo nem a sua dissolução. Como poderia tê-lo feito? Mas o leigo mais profano, posto à frente do quadro desse choque profundo e das suas consequências, devia fatalmente admitir que o equilíbrio a que se apegava a vida era efectivamente precário. A medicina empregara toda a sua magia para estabilizar o equilíbrio. Até a libertação da energia atómica - e a trágica demonstração do seu poder - o homem acabava de dar as suas primeiras passadas para uma existência verdadeiramente melhor. Alguns tinham chegado a dizer: para uma aceitável substituição da imortalidade.

Seria a bomba, em suma, apenas, uma forma escolhida por Deus para tornar a pôr os cientistas no seu lugar? Ou acaso um Criador Omnisciente retirara-se desta desordem humana, deixando ao homem a liberdade de encontrar uma vez mais a humildade por seus próprios meios?

Soou uma pancada na porta e Pete Collins entrou atrás do seu charuto sem esperar que lhe respondessem. Dale ofereceu-lhe um sorriso distraído e longínquo, indicando-lhe com o queixo um banco vazio. Pete era uma visita frequente e, sobretudo, não faltaria a uma autópsia que saísse das normas habituais.

- Vem mesmo a tempo - disse-lhe o anátomo-patologista. - Estou a braços com um problema. Como é que o Chronicle definiria a vida?

Pete ergueu as sobrancelhas:

- No sentido abstracto? Ou relativo?

- Em relação com a causa e o efeito, já sabe. Eu sei quando e como o pobre diabo morreu. Mas o que era a vida? E porquê?

O repórter espetou os lábios e respondeu como se se tratasse da pergunta mais natural do mundo:

- Todos nós sabemos que a vida é uma série de erros que terminam num erro irreparável. Não é esta a melhor resposta?

- Demasiado simples para ser satisfatória. Pode muito bem ser que tenhamos participado em todos os seus erros e passado por todos os seus caminhos. Se assim foi, não seria justo que participássemos também na sua morte?

- Mas ele está morto, doutor. Tão morto como um arenque pescado ontem. E deu o seu bilhete de saída sem ter falado. Isso quer dizer que nos comprou uma espera... possível... de sobrevivência.

- Verifico - disse Easton, causticamente - que você está a par dos rumores. Pela minha parte, não acreditei, por um só instante, que a nossa Nemésis, mais vagamente designada sob a fórmula de “assassino atómico”, ousasse atacar o hospital, mas creio, por outro lado, que Hurlbut tinha razão em dizer que ronda na nossa vizinhança. Suponho que temos uma possibilidade relativa de apanhá-lo... se ele próprio não desaparecer ao fazer o contacto!

- Então, continuamos em perigo!

- Como toda a gente, em Nova Iorque... ou à superfície do globo.

- Suponhamos que o contacto é feito esta noite... ou amanhã. Suponhamos que somos todos apanhados. Neste instante, estamos vivos; no imediato, deixamos de viver. Qual seria verdadeiramente a diferença?

- A alma abandona o corpo e vai buscar a recompensa que mereceu. Há quanto tempo não vai à igreja?

- Acredita na alma, Pete?

- Certamente! - respondeu o repórter com uma olhadela em direcção a Otto. - E você?

- Na minha juventude, não acreditava. Era capaz de dissecar um nervo cutâneo e localizar a sua função directamente até ao cérebro. Era capaz de provar a mim próprio que tudo nascia neste grande relógio-mestre - da guloseima a Deus, passando pelo amor e amizade e a faculdade de tocar Chopin, de cor. E, quando esse relógio parava, sentia-me bastante disposto a considerar que tudo estava dito. Acreditei durante um tempo Que não havia outra diferença entre a vida e a morte a não ser uma questão de corrente eléctrica. Muitos dos meus amigos ainda não deixaram de acreditá-lo.

- O que é que o levou a mudar?

- O medo, evidentemente! - respondeu Dale, sem levantar os olhos da sua lúgubre tarefa. - O medo, que faz despontar a fé em todo o mundo. Este mesmo medo que o nosso amigo Andrew Gray continua a não querer admitir. Está ainda demasiado coriáceo.

- Então teve tempo para ganhar medo - sublinhou o repórter. - Isso dá-me muito prazer, Dale. Isso prova que, em resumo, você é humano. E você, Otto? Sobreviveu ao medo ao mesmo tempo que à luxúria?

O guarda da casa dos mortos ponderou a resposta:

- O senhor não está realmente a perguntar-me se tenho medo, Mr. Collins. O senhor quer saber se eu conheço a diferença entre a vida e a morte. E eu digo que se trata de uma resposta que cada homem deve encontrar por si próprio. Talvez tivéssemos menos receio da morte se fôssemos mais pressurosos a ter aprendido a viver. Digo isto a mim mesmo de todas as vezes que escuto um sermão.

Pete riu em silêncio e o seu olhar procurou o de Dale:

- Não me diga que lhe “sobra” tempo para ir à igreja?

- Temos aqui aparelho de rádio - respondeu Otto tranquilamente. - Ouço sem me incomodar, com todo o conforto. E essas práticas deixam-me sempre estupefacto. “Sede pessoas de bem”, recomendam eles, “e ireis para o paraíso. E vivereis aí eternamente.” E, todavia quando vêm para o hospital... ora! Têm tanto medo como os outros! Se a morte não passa de degrau para coisas melhores, porque receiam a esse ponto subir o degrau?

- Mas, Otto, está a criticar o modo de viver cristão? - informou-se Dale.

- De forma nenhuma, doutor. Acredito que devemos proceder bem para com toda a gente e fazer todo o bem possível. Mas não para ganhar um passaporte para o paraíso, porque eu sinto-me feliz em estar cá em baixo.

- Otto tem uma certa razão - apoiou o jornalista. - Fazer o bem porque isso melhora a própria natureza de cada um. E não se preocupar com o que acontece depois.

- Muito bem, mas... para onde se vai “depois”? Ainda ninguém me disse isso.

O patologista, depois de ter formulado a pergunta, olhou para Otto, que encolheu os ombros:

- Acha que isso tem muita importância, doutor? Por exemplo, eu gosto do senhor, doutor, e presumo, pelo menos, que também gosta de mim. Dentro de anos, quando tudo o que restar de mim couber num pequeno frasco de formol, provavelmente há-de recordar-se deste Otto. Talvez traga o seu neto e lhe diga, mostrando-lhe o frasco: “Isto era um bom velho, certo Otto, meu preparador. Às vezes chateava-me com o seu falatório insensato. Mas era bom homem, que conhecia o segredo da felicidade: provou a si próprio que o bem que se faz é a própria recompensa.” E desse modo reviverei em si e no seu neto. Não acha que é esta a única forma de eternidade que importa?

- E um velho urso do meu género? - perguntou o jornalista. - Ninguém quereria tomar para exemplo Pete Collins! Um velho bêbedo que corre atrás das mulheres sempre que isso lhe é possível...

- O senhor não conta mentiras, quando faz os seus artigos, Mr. Collins. E lembro-me de que, no ano passado, deu a sua dose de sangue no banco e que o que escreveu em seguida decidiu centenas de outras pessoas... a seguir o seu exemplo, justamente! E os seus artigos a respeito da clínica das crianças, quando tínhamos falta de dinheiro e de camas...

- Não me ponha uma açucena na mão, Otto - gracejou o repórter. - Não faça isso depois de toda a cerveja que bebemos juntos!

- Isso não o impede de ser uma boa pessoa. Pode ser que não chegue ao céu, mas sabe viver...

- E então eu? - inquietou-se Dale. - Também tenho um lado bom?

Otto respondeu, rindo:

- Se eu lhe dissesse que não, era capaz de atirar-me para dentro de uma gaveta de frigorífico. Portanto, prefiro fazer-lhe uma pergunta: o que procura quando retalha os seus mortos?

- Meios de lutar contra a doença e de ajudar os vivos, suponho eu.

- Mas recusou a oferta que lhe fez o doutor Plant de trabalhar com ele, no seu consultório, nos bairros elegantes. Isso dar-lhe-ia muito mais que qualquer hospital e com muito menos trabalho. Não se esconda atrás do avental, doutor; o senhor é um indivíduo que faz o mais que pode. Exactamente como nós todos - disse o jornalista.

- Isso não quer dizer que deseje morrer, esta noite, nem sequer depois de amanhã.

- Então, porque não descobrir que há um doente na sua família e retirar-se para o campo, durante alguns dias, até que o assassino desconhecido seja conhecido... e caçado? Podem apertar o cerco sem a sua presença.

- Por quem me toma?

- Como Mr. Collins há pouco disse - gracejou suavemente o velho Otto - o senhor é um indivíduo que faz o mais que pode. Como nós todos.

Dito isso, dirigiu-se para a galeria.

- E já é mais de que tempo de beber uma cerveja antes de Mr. Collins voltar para o seu jornal. Nada se compara a uma cerveja bem fresca para benfeitores que insistem em ser filósofos.

 

Tony Korff transpôs as grandes portas de bronze de East Side General e, em passo mais acelerado do que o normal, dirigiu-se à estação de autocarros situada do lado de fora do portão principal. Amaldiçoava a rotina das enfermarias, que o prendera durante toda a manhã, a pressa e azáfama da clínica, onde fora obrigado a demorar-se para vigiar os preparativos da sessão da tarde. Graças a Deus, estava agora livre de responsabilidades e, até as cinco horas, o tempo era seu. Mas, no fim de contas, atendendo a tudo quanto tinha a fazer, era bem pouco tempo.

- Quer que o deixe em qualquer lado, doutor?

Parou à beira do passeio e lançou um olhar incrédulo ao carro de onde partia a voz.

Pat Reed fitava-o rindo, por cima do ombro do motorista. Embora se tivesse aventurado a fazer-lhe o flirt enquanto estivera na Schuyler Tower, nunca pensara que pudesse haver a mínima viabilidade nesse sentido. Todo o hospital sabia que essa sereia aerodinâmica andava na pista de Andy Gray.

- Se vai para a parte alta da cidade, aceito - respondeu com a maior correcção e cumprimentando-a cerimoniosamente.

Encantava-o saber que a gabardina azul-pastel, às riscas, que envergava - tirada, sem conhecimento do dono, do armário de um interno - era de um corte perfeito e que o lenço de pescoço azul-pálido estava autenticado com a assinatura de Charvet.

- Onde posso deixá-lo, doutor Korff.

- Pode ser no Chronicle - volveu em tom desprendido, ao mesmo tempo que intimamente lamentava que o trajecto não pudesse ser mais longo.

A sua companheira... ocasional... - com um tailleur impecável que lhe teria custado um ano de vencimentos, e transportando negligentemente ao ombro uma fortuna em marta zibelina - era extremamente excitante... Excitante também as pernas, apesar de magras. As praias do Sul tinham-lhe conferido o colorido quente do mel e eram de uma suavidade demasiado acetinada para que o nylon as pudesse embelezar.

- É agradável estar-se completamente curada? - perguntou ele.

- Nunca estive verdadeiramente doente. Bem o deve saber.

- Uma cura de repouso tem sempre a sua vantagem - comentou ele, contemplando-lhe o rosto, não de frente, mas pelo espelho colocado acima da cabeça do motorista.

O carro parou junto ao cubículo do porteiro. Pat Reed inclinou-se para a frente ao ver sair dali um polícia.

Este, quando viu Tony Korff, bateu pala e fez-lhe sinal para que seguisse.

- Para que é isto?

- Parece que anda pela vizinhança um assassino em liberdade - esclareceu, sorrindo com um bom humor que só ele compreendia. - Pensaram que talvez viesse escondido aqui, mas, quando me reconheceram, puseram de parte essa suspeita.

- Então é uma vantagem ser-se escoltada por um médico.

- É muito lamentável não poder escoltá-la até o fim - disse ele, e acrescentou: - Lamentável para mim.

O riso que lhe respondeu tinha uma certa qualidade, uma tonalidade que o encorajou a olhá-la de frente. Imediatamente sentiu o coração pulsar-lhe violentamente com o fulgor que se desprendia dos olhos semicerrados da rapariga: era uma mensagem que já lera, noutros olhos, ao fundo de ruelas discretas...

- Até onde pode ir, doutor?

- Tenho de tratar de um assunto na cidade e depois preciso de apressar-me a voltar para o hospital.

Respondera com uma voz seca e deliberada, retraindo-se, na esperança de que ela avançasse; tratava-se de uma táctica que dera bom resultado em muitas línguas.

- E eu que pensava que estava livre para o resto do dia! Então um interno não tem qualquer direito?

- Nenhum... Durante as horas de trabalho.

- E quando é que está verdadeiramente livre?

O seu espírito trabalhava depressa, tão depressa que se viu obrigado a atrasar-lhe o passo. “Ou se zangou com Andy ou está resolvida a dar-lhe uma lição!”, pensou. “E eu entrei em cena, sem saber, exactamente no momento em que necessita de um homem de reforço... tal como cheguei precisamente no momento oportuno junto daquele queimado...”

- Duas noites e uma tarde por semana - elucidou fleumaticamente. E acrescentou: - Se está interessada em saber quais são...

Ela examinava-o, meditativãmente, com um olhar distante. Korff procurou decifrar nesse olhar um presságio, e achou-o favorável. Perguntou a si próprio se Pat teria dado instruções ao motorista para que esperasse no parque de estacionamento ao lado do portão principal até o momento da sua saída do hospital. com uma mulher como Pat Reed, todos os subterfúgios eram possíveis, desde o momento que andasse realmente à procura de uma presa.

- Sei quais são - replicou ela.

Os seus olhares cruzaram-se demoradamente e Korff sentiu todo o seu ser penetrado de um magnetismo animal que subitamente lhe atingiu todos os sentidos. Porém, conservou uma voz concisa e dura. “Lança-me um desafio, se te atreves”, pensava. “Encontrarás em mim um antagonista diferente de Andy Gray.”

- Posso perguntar a que se deve esse súbito interesse pelo meu bem-estar?

- Sou uma mulher só na vida...

Embora o seu pulso batesse violentamente, não pôde deixar de admirar a falsa inocência daqueles olhos baixados...

.- Uma viúva remoçada, já que insiste, e que gostou sempre de dar jantares, de organizar reuniões... Tenho sempre emprego para os celibatários, na sua noite de saída.

- No singular ou plural? - inquiriu ele.

- No singular, se são agradáveis.

- Dar-me-ia por muito feliz em prestar provas - admitiu Korff, inclinando-se para a frente para acender-lhe o cigarro.

- Já prestou provas, doutor - decidiu Pat Reed, que se afundou no ângulo da sua limusina com o ar de uma mulher que acaba de inscrever mais uma vítima na sua lista. - Apreciei muito as suas conversas no hospital. Gostaria de voltar a ouvi-lo falar dos seus trabalhos e dos seus projectos. Esta terça-feira, reúno algumas pessoas para um cocktail... no meu apartamento do Plazza. Se quiser juntar-se a nós...?

- Andy Gray estará presente?

- Não faço a mínima ideia.

Agarrou-lhe o pulso e, sem dar-lhe tempo a protestar, curvou-se para beijar-lhe a mão.

- Creio que me disse tudo quanto tenho direito a ouvir - observou pausadamente. - Não está de acordo?

Ela concordou:

- Inteiramente de acordo. Cá chegou ao seu destino, visto que hoje não posso levá-lo mais longe.

Nunca conseguiu lembrar-se como descera para o movimento rápido do passeio exterior ao edifício do Chronicle. Antes mesmo de ter tido tempo para falar, já a limusina se embrenhara na circulação, deixando-lhe apenas a lembrança de um sorriso trocista. Penetrou, com o cérebro cheio de vertigens, no átrio de mármore do jornal, no vasto átrio burguês e antiquado com o seu balcão de charutos pré-diluviano. Entrou num dos ascensores sem idade e sentiu o cérebro iluminar-se como por magia. Pat Reed poderia ser útil mais tarde; entretanto andava na pista de caça mais grossa.

Ao chegar ao comprido corredor que levava aos arquivos a “morgue” dos jornais, onde as novidades mortas eram fechadas tão preciosamente como se o velho Otto estivesse encarregado de fazê-lo - verificou que a imensa série de ficheiros chegava directamente à redacção - colmeia deserta ou quase a essa hora - onde dois redactores estavam ocupados a “tornar a escrever” factos diversos, e outros dois esperavam a sua hora, curvados sobre um tabuleiro de xadrez.

Korff não esperava essa vizinhança; teria gostado de ir e vir despercebidamente, enquanto fazia à vontade as suas consultas especiais. Todavia, dada a escassez de tempo de que dispunha, não tinha por onde escolher, pois que a sua única fonte de informações estava ali. Além das suas colecções completas, o Chronicle era célebre pelos seus arquivos e ficheiros, onde quase nada faltava. Dentro de alguns instantes teria ao seu dispor todos os factos de que carecia. Um vigilante emergiu da sombra dos ficheiros, como uma toupeira da terra, e impediu-lhe a passagem.

- Sou o doutor Korff, de East Side General - declarou pressuroso.

-- Traz o bilhete de identidade, doutor?

Tony apresentou-lho com um gesto amplo.

- Estou aqui para colher alguns dados relativos a um caso de que estou a tratar. Não me demorarei.

O vigilante conduziu-o a um livro de registos, aberto sobre uma secretária:

- Assine aqui, se faz favor. Tem uma mesa livre ao pé da janela e papel de cópia, se quiser tomar notas. O material não sai daqui, já se sabe.

- Evidentemente. Não é a primeira vez que venho aqui.

Não era verdade, mas estava com pressa em sentir um lápis nos dedos.

- Posso consultar tudo quanto possuem relativamente ao cervejeiro Bert Rilling?

- Creio que as suas fichas estão a servir. Esta manhã, andou alguém a escrever um artigo sobre a sua doença.

Tony sentiu o coração falhar-lhe. Quando respondeu, sentiu uma irritabilidade na voz, como se alguma pessoa falasse sem lhe ser possível evitá-lo.

- Sou o médico que o está a tratar e isto é bastante importante. Quer ver se é capaz de as descobrir?

O homem virou-se, com um encolher de ombros descontente, mas o rosto logo se lhe iluminou quando reparou num cesto de correspondência, colocado em cima da sua secretária, cheio de pastas de arquivo.

- Tem sorte, doutor. Ali estão de volta da redacção. Ponha-se à vontade e leve o tempo que quiser a tirar as suas notas. Desde que não leve recortes...

Tony Korff conseguiu dominar o tremor das mãos. Sentiu sobre si o olhar do vigilante da “morgue” e fingiu tomar notas com interesse. Se se julgasse da importância de um homem pelo volume da sua publicidade pessoal; Bert Rilling era indubitavelmente um americano que contava.

As pastas de arquivo estavam cuidadosamente numeradas. A mais antiga datava da chegada de Rilling a Nova Iorque... ou de pouco depois. Havia uma pasta cheia a transbordar de anedotas e de artigos biográficos, que incluía bastantes artigos também aparecidos noutras publicações. Percorreu-os rapidamente detendo-se nos artigos de informação, propriamente dita. Procurava factos e não piedosos floreados sobre o tema do sucesso.

Foi-lhe imediatamente notório que Schilling-Rilling não perdera tempo em conseguir um lugar de destaque mal se afastara da sombra de Hitler. O primeiro artigo relatava a sua eleição na secção de Yorkville de uma sociedade germano-americana que parecia ter por divisa: “Patriotismo plus.” Tony pensara já que Rilling adquirira um interesse maior na Silver Cap Brewery. Graças ao seu espírito arrojado e de empreendimento, arrancara do marasmo definitivo essa ruína bafienta e conseguira prontamente colocar os seus produtos no mesmo plano que os das melhores marcas americanas.

Tony esboçou um delgado - e mau - sorriso, e depois abriu outra pasta. Na sua simplicidade, o quadro era bastante clássico. Rilling trouxera da Europa mais dinheiro do que o necessário para estofar confortavelmente qualquer ninho. Não tinha qualquer dúvida de que se tratava de dinheiro nazi. Mesmo nesses tempos recuados, as pessoas de importância colocavam a sua riqueza com precauções cuidadosas, de maneira a assegurarem uma situação financeira estável qualquer que fosse o resultado da guerra imediata.

Os recortes indicavam uma mudança notável na carreira de Bert Rilling quando a sua pátria adoptiva se embrenhou pelo caminho da Segunda Guerra Mundial. O mesmo instinto que o levara a fugir da Alemanha, colocara-o do lado vitorioso, vários anos antes de os Estados Unidos se terem apercebido da necessidade em que haviam de encontrar-se de lutar para salvar a própria vida. Títulos após títulos celebravam a actividade de Bert Rilling à cabeça da cruzada pela venda dos Títulos de Guerra, que se exercia sobretudo entre os americanos de origem alemã. Muito antes de Pearl Harbour, colocara milhões no fabrico de peças de aeroplanos; fora até mencionado a propósito de uma operação que tivera uma grande repercussão e que consistira em fazer evadir da Europa e em engajar para a América técnicos alemães.

Quando a guerra acabara, a auréola dourada de bom cidadão balançava-se, solidamente suspensa sobre a sua cabeça em bala do emigrado. Tony admitiu que a auréola tivesse sido bem ganha. O sorriso trocista dos seus lábios finos alargou-se quando leu a elevação do seu amigo a uma carreira política... Esse acontecimento fazia também parte de um plano de conjunto, uma parte do lento crescimento de opulência e de influência que o cervejeiro aceitava agora como de diçeito... No princípio de 1952, houvera como que um leve relento de escândalo, quando um comité congressista, violentamente desencadeado numa investigação ao tráfico de estupefacientes em Nova Iorque, provara que três democratas protegidos pelo cervejeiro eram chefes de bando. Rilling fora posto pessoalmente fora de causa, bem entendido, ao passo que os três incautos políticos eram acusados de instrumentos de Moscovo.

A digna aceitação da sua reabilitação e a sua presença ao lado do presidente da câmara municipal em Central Park Hall, entre os principais oradores de Nova Iorque, aquando da jornada anual I am an American, formavam o assunto dos recortes mais recentes relativos a Rilling.

Uma pasta suplementar, com a etiqueta “Corrente”, continha a história desse dia - o desmaio do cervejeiro, a audaciosa operação mediante a qual Andrew Gray lhe salvara a vida. Tinha a assinatura de Pete Collins e Tony leu-a atentamente, perguntando-se se, dessa vez, encontraria qualquer menção ao seu nome. No fim de contas, talvez fosse preferível que Pette Collins o tivesse passado em silêncio; a contar desse instante e em vista dos seus projectos imediatos, o anonimato estrito era primordial.

Apensa à pasta “Corrente”, uma longa prova tipográfica, com a indicação “Óbito”, exalava ainda o odor acre da tinta de impressão. Adivinhou que a “necrologia” fora composta e impressa, nessa mesma manhã, a fim de estar imediatamente pronta para ser publicada, no caso de verificar-se a morte do cervejeiro. Felicitou mentalmente o Chronicle por essa eficácia previdente e pôs-se a desenhar rapidamente na folha de papel de cópia colocada à sua frente... Bert Rilling, com a bandeira suástica numa das mãos e as Stars and Stripes na outra, e depois Bert caindo para dentro de um poço sem fundo, com a mesma carantonha porcina, satisfeita, inalterada. No fim de contas, ninguém tinha o direito de viver eternamente.

A imagem era completa. Dada a sua procura de poder e a sua absoluta falta de escrúpulos, Kurt Schilling não podia chegar a outro fim. Uma coisa era certa: embora tivesse mudado de nome e de nacionalidade, mantivera as antigas relações europeias. A história desse bando de traficantes de drogas era o único requisito de que Tony poderia carecer. Através de cartas que, de tempos a tempos, recebia, sabia que na Alemanha uma boa parte do movimento nazi se tornara subterrânea, na esperança de ver virar o vento político. Grande número dos seus animadores tinham passado a fronteira e trabalhavam para a Rússia, o que Bert não teria deixado de fazer se tivesse sido apanhado em Berlim.

Ainda que, durante os anos de guerra, esses contactos tivessem ficado perdidos, Bert já devia tê-los reatado. Uma vez que a arremetida russa para a conquista do mundo estivesse realmente a fazer-se, encontrar-se-ia apto a fornecer a sua parte de força motriz. Talvez Rilling tivesse estabelecido assim o seu plano a partir do próprio instante em que pousara o pé no continente americano. Certamente não experimentaria qualquer sentimento de deslealdade para com o país que lhe dera riqueza e segurança. No dicionário de Rilling, a lealdade só se exercia para consigo mesmo.

Tony contemplou o esboço de Rilling de cabeça para baixo na direcção do último círculo do inferno; não achara necessário desenhar a mão que dera o empurrão decisivo! Rilling devia renovar a antiga aliança; isso, pelo menos, era uma certeza. Uma vez o negócio concluído e selado, seria Tony Korff quem comandaria. Sempre soubera que o seu espírito era muito mais agudo, mais vivo do que nunca o poderia ser o de Kurt Schilling. Era mais do que tempo de pôr essa certeza à prova.

Pegando finalmente no cesto de correspondência, cheio de pastas e de recortes, levou-o para a mesa do vigilante com algumas rápidas palavras de agradecimento.

Naquele momento, a sua decisão já estava tomada; tinha pressa em chegar ao hospital o mais velozmente possível. Evitou os escritórios dos redactores, notando maior barulho de máquina de escrever do que quando entrara, e apercebendo-se, com uma repulsiva explosão de cólera, que alguém o chamava pelo seu nome. Percorreu rapidamente a dúzia de passos que o separavam do ascensor e da liberdade... e encontrou-se frente a frente com Pete Collins.

O repórter mostrou-se afável, certamente, mas Tony, que já sentira o olhar penetrante de Pete, retraiu-se instintivamente ao ouvi-lo perguntar:

- Este lugar não lhe fica um bocado desviado para o norte, doutor?

- E você, Collins? Julgava-o ainda no hospital.

- Ainda há uma hora lá estava, e até desci as escadas atrás de si. Vi-o entrar na limusina de uma bela dama e desaparecer em grande pompa. E agora, para variar, encontro-o a escavar na nossa morgue. Que dá isso?

Tony não hesitou sequer uma fracção de segundo. Ainda que o motivo da sua passagem pelo Chronicle tivesse sido menos espinhoso, não podia permitir-se alienar Pette Collins. Uma publicidade bem compreendida nunca causara mal a qualquer médico - especialmente a um médico cheio de projectos que talvez nunca chegassem a realizar-se.

- Vim consultar as fichas de um antigo doente. Parte de um relatório sobre o caso - disse ele.

Pete ergueu o sobrolho, com espanto:

- Nunca ouvi dizer que vocês, médicos, fossem tão longe em busca de pormenores para os vossos relatórios. O que é que anda mal nos arquivos do hospital?

O refugiado retribuiu o sorriso do jornalista:

- Nada. Mas os relatórios técnicos... às vezes, são um pouco secos. Até um interno aprecia uma mudança de ar. Posso convidá-lo para uma bebida?

- Quer creia quer não, enquanto trabalho, nunca bebo.

- Então há-de perdoar-me que me vá embora a correr. Já devia estar no hospital; não é a minha tarde de folga...

Tony sentiu pousado sobre si o olhar do jornalista até o momento em que a porta do elevador se fechou. Esperou não ter sido demasiado brusco a despedir-se. Collins era um veterano do meio hospitalar e certamente sabia que um interno deve estar sempre com os olhos no relógio.

Muito antes de o velho ascensor o ter deixado no átrio da entrada, Tony já esquecera o encontro. O seu espírito ágil, ocupado febrilmente com o problema em mente, girava vertiginosamente enquanto esperava no passeio a passagem de um táxi. Não quer dizer que um interno pudesse permitir-se um táxi, mas não fazia tenção de continuar interno por muito tempo.

- Depressa, por favor. Sou médico e recebi uma chamada de urgência.

O motorista baixou a bandeirola.

- Para onde vamos, doutor?

- Para o East Side General, se faz favor.

Tony instalou-se ao canto do carro e amaldiçoou o cérebro trepidante. A partir desse instante e acima de tudo, importava não parecer de forma alguma impaciente, nem sequer pessoalmente interessado. Quando voltasse a encontrar-se com Rilling, devia deixá-lo compreender por si que, tal como o seu encontro, a colaboração comum era inevitável. E, todavia, sentia o pescoço inchar por baixo da gravata cara que subtraíra de algum doente esquecido. Por muito que se esforçasse, não conseguia abrir os punhos cerrados, nem abrandar o bater do sangue nas têmporas... Compreendeu com dificuldade o que o motorista lhe dizia:

- Há ainda muita excitação pelos seus sítios, doutor?

- Não especialmente. Porque o pergunta?

- Então, não há notícias do assassino?

“Hoje mais do que nunca”, pensou Tony “devia ter direito a um motorista surdo e mudo.” Resistiu ao desejo de pedir a esse idiota que se calasse. Uma vez mais e mesmo a tempo, lembrou-se que devia passar despercebido.

- Lamento, não sou da cidade. Que história é essa do assassino?

~- Não leu os jornais? É o tipo que se julga andar à solta em East Side, levando com que fazer ir pelos ares o bairro inteiro. Uma bomba A, nem mais nem menos. Cá na minha opinião, acho que é um expediente para desviar a atenção dos erros do governo...

- Pode muito bem ser - concordou prudentemente Tony Korff.

Mas um riso louco começou a sacudi-lo, interiormente. Era bem certo que um assassino andava à solta em Manhattan. Mas as suas armas eram muito menos espectaculares que a energia atómica. Era um assassino tranquilo e silencioso, que podia permitir-se agir suavemente e escolher o momento que lhe conviesse.

Porquê, então, essa ânsia de chegar à cabeceira de Bert Rilling era de tal ordem que mal a podia suportar?

 

Pete Collins afastou-se da janela da sala de redacção e coçou o restolho de barba que usava como amuleto sempre que andava a tratos com uma “história” importante. Embora superficialmente parecesse muito cordial, por baixo Tony Korff era frio e fugidio como um peixe. Um peixe estranho, aliás, habituado a nadarem águas turvas. Pete apercebera-se disso desde o primeiro contacto que tivera com o refugiado. Além disso, eram demasiado numerosos os médicos estrangeiros dessa índole, que desde o início da guerra ali se tinham instalado. Muitas vezes, técnicos brilhantes, mas sem qualidade humana. Tony, nesse breve encontro, parecera-lhe o perfeito tipo-padrão da espécie.

Pete viu-o saltar para fora do edifício do Chronicle e precipitar-se para dentro de um táxi. Ocorreu-lhe inevitavelmente o pensamento de que Tony era demasiado pobre para permitir-se o luxo de um táxi. Por outro lado, era praticamente certo que o interno estivesse livre até as cinco horas. Que mosca, pois, o morderia? Porque estaria tão apressado em regressar ao hospital, a uma existência que considerava ostensivamente indigna do seu valor? E porque fora precisamente na “morgue” do Chronicle que Pete o encontrara?

Lembrando-se da limusina de Pat Reed e do ar de suprema liberdade com que Korff se instalara ao lado da sereia de pernas compridas, perguntou a si mesmo se o refugiado não estaria a premeditar alguma chantagem delicada. Obedecendo ao instinto que raras vezes o traía, dirigiu-se à “morgue” e consultou o livro dos visitantes. A assinatura audaciosa e bicuda de Korff saltava à vista e, na divisão contígua com a caligrafia miudinha e cuidada do guarda fúnebre, lia-se a indicação: “Bert Rilling, cervejeiro”. com uma ruga de perplexidade cavando-se na testa, entre as sobrancelhas, o jornalista, postado de pé, junto aos ficheiros, chamou;

- Eh! Joe! És capaz de trazer-me as fichas de Bert Rilling?

- Estão mesmo à tua frente, Pete - respondeu o vigilante. - Nesse cesto de rede...

Pete instalou-se à secretária, bocejou e abriu a primeira pasta. Sem que soubesse a razão, nessa “morgue” sentia-se sempre sonolento, descontraído e, apesar de tudo, bizarramente lúcido, como se aqueles montes de textos mortos, que haviam constituído notícias, adormecessem os seus sentidos quotidianos, ao mesmo tempo que o seu odor acre lhe despertava no cérebro um canto habitualmente apático. Verificou que Tony percorrera os recortes à pressa, deixando-os em desordem, mas não parecia que tivesse tirado nenhum. Korff era um alemão báltico, assim como o cervejeiro milionário. Ambos tinham saído da pátria relativamente há pouco tempo. Que velhas recordações o mais novo dos dois refugiados teria ido avivar nesse sítio poeirento?

O jornalista folheou todos os recortes, ao mesmo tempo que no seu espírito se esboçava um traçado claro e perfeito. O plano de uma conjura estabelecida sobre uma base firme e sólida, mas cujo desfecho não conseguia imaginar. Rilling chegara da Alemanha quase há vinte anos - ostensivamente como emigrado bem fornecido de dinheiro, que renegara Hitler e as suas obras. Todavia, em Yorkville, o sucesso fizera-se esperar, mas, uma vez conseguido, a ascensão fora meteórica, demasiado meteórica até, atendendo à generalidade de casos semelhantes.

Havia uma entrevista feita pelo próprio Collins, no apogeu da fama de Rilling, ainda em tempo de guerra. Pete lembrava-se perfeitamente do homem... um teutão de pescoço taurino que não teria necessidade de qualquer maquilhagem ou do mínimo retoque para ter pousado para uma caricatura antigermânica.

Isso não o impedia, apesar da aparência porcina, de ser para a pátria adoptiva um cidadão do melhor quilate. Pete escrevera uma história honesta e sem reservas subentendidas, mas recusara a sua simpatia a Rilling. Por trás desses olhos, havia alguma coisa que denunciava o bárbaro eterno, alguma coisa que uma simples reportagem de actualidades não podia pretender definir. Pensou: “Korff poderia explicar-lhes Rilling com muito maior exactidão do que eu... Alguma coisa levou este refugiado a vir refrescar a memória nas nossas pastas de arquivo... Um passado comum na Alemanha, quando Korff e Rilling projectavam a evasão? Ou será que a visita deste interno ao Chronlcle tem um motivo imediato?”

Fechou o arquivo de Bert Rilling e, em seguida, sem de forma alguma o ver, contemplou com ar absorto o cesto dos recortes... Era fantástico... Demasiado fantástico para ser verdade... Não podia estabelecer-se de modo convincente qualquer elo entre a estranha visita de Korff aos arquivos do jornal, o desmaio de Bert Rilling no gabinete da cervejaria e a história sensacional, que crescera como um cogumelo, a respeito dos dois “queimados”. E, contudo... podia ser que todo o caso fosse precisamente bastante fantástico para ser verdadeiro.

Rilling estava fora de cena - provisoriamente e, segundo todas as probabilidades, definitivamente. Collins tinha sempre o maior cuidado em colher informações de rigorosa precisão relativamente a casos importantes, em East Side General, e o Dr. George Plant dissera-lhe - confidencialmente, claro - que as probabilidades de sobrevivência do cervejeiro eram fracas. Isso deixava Tony como única chave dessa misteriosa história... e também das informações que, nesse momento, além de Rilling, talvez fosse o único a possuir.

Era uma possibilidade... extravagante... mas precisamente do género que Collins explorava com agrado e que sempre se mostrara útil no decurso da sua experiência profissional. Atravessou a parte mais conversadora da redacção, instalou-se à secretária e, procurando fazer movimentos calmos, marcou no telefone o número particular do inspector Hurlbut. “Se for ele próprio a atender”, decidiu, “contar-lhe-ei o que sei. Se tiver saído, esquecerei completamente tudo e nunca mais voltarei a pensar no assunto!”

Apesar desta nobre resolução, sentiu o coração saltar-lhe para fora do peito quando a voz abaritonada e familiar de Hurlbut se fez ouvir no outro extremo do fio.

- Fala Collins, inspector. Quer fazer um acordo comigo?

- Duvido.

Hurlbut parecia de mau humor.

Pete esforçou-se por adoptar uma voz indiferente, constrangendo-se a pronunciar distintamente cada palavra, em separado da seguinte.

- Não prometo apresentar-lhe o homem numa bandeja, mas posso dar-lhe uma indicação...

- Onde está, neste momento, Collins?

- No Chronicle, às voltas com os meus pensamentos. O lugar importa?

- Fale. Estou a ouvir.

- Creio ter falado num acordo?

- Alguma vez o deixei ficar mal?

- Muitas vezes até. Mas, desta, quero ter a certeza da minha parte no negócio.

- Vá - incitou Hurlbut. - Continuo à escuta... sem excesso de atenção.

- Você precisa de uma indicação. Isso percebe-se pela aspereza da sua voz. E eu preciso de uma história...

- Está a jogar à sorte, Pete, ou tem alguma coisa de concreto?

- Vendo-lhe a minha ideia e, se ela render, peço-lhe meia hora de avanço sobre os confrades. É tudo.

- Fale.

Pete, que conhecera esse ladrar autoritário logo nos seus primeiros anos de jornalismo, pigarreou e respondeu seriamente ...

Apesar do seu estranho estado de desapego, quase ouvia entrar em funcionamento o maquinismo cerebral do inspector à medida que fazia o relato rápido e conciso do seu encontro com Tony Korff nos corredores do Chronicle.

- É tudo, Collins?

- Absolutamente tudo. Compra?

- Talvez fizesse bem em voltar aos seus livros cómicos.

- Talvez... mas, em todo o caso, está disposto a vigiar Korff?

- Se me resolver a isso, participar-lho-ei.

Pete sorria ao pousar o auscultador sobre uma linha que se tornara silenciosa. Era um jogo de sorte, evidentemente, e, como todos os lances arriscados, podia dar dividendos espantosos.

“Aconteça o que acontecer”, pensava, “cacei esse refugiado...”

Olhou para o relógio da sala. O táxi de Tony Korff devia rolar na esplanada de East Side General... o interno devia galgar os degraus quatro a quatro... preparando o golpe imediato... Mas os seus dias de “cavaleiro só” estavam terminados... Quando voltasse a sair do hospital, a secção dos Homicídios - e, por extensão, o Chronicle - estaria ao corrente de cada um dos seus movimentos.

O repórter-vedeta do Chronicle suspirou, desapertou o cinto, que lhe comprimia o estômago proeminente, e começou a escrever penosamente à máquina uma história baseada na descoberta recente de corrupção em alto meio. Uma história tão velha como o primeiro parlamento e tão nova como o próximo crime de um bando de gangsters. Uma história que abandonaria num abrir e fechar de olhos, se o seu pressentimento relativo a Korff correspondesse ao que dele esperava.

 

Andy instalou-se na cadeira giratória e pousou os dois pés sobre a secretária. Nunca o compartimento, que lhe servia de gabinete de trabalho, lhe parecera mais tranquilo. Sentiu as pálpebras fecharem-se-lhe e teve a certeza que, se ali se deixasse ficar, adormeceria passados alguns minutos.

Nenhum motivo explicava essa pausa absolutamente excepcional no meio de um dia cheio de trabalho. Martin Ash, que parecia atacado por uma febre de trabalho, decidira fazer a esplenectomia que Gray anteriormente inscrevera no seu quadro pessoal para as quatro e meia. Por muito incrível que a coisa parecesse, nada havia a fazer antes do coração de Jackie que, devido a um congestionamento das salas de operações, fora necessário adiar para as seis horas e meia.

Uma olhadela ao relógio de pulso indicou-lhe que dispunha de duas boas horas. O tempo de telefonar a Pat Reed e propor-lhe transformar esse cocktail num jantar para dois? Ou o tempo de examinar a forma futura da sua vida e banir dela Pat Reed para sempre?

O melhor seria, sem dúvida, ceder às instâncias de um corpo extenuado e aproveitar essas duas horas para dormir. Quando acordasse, talvez até descobrisse que o seu subconsciente, um campo de batalha onde tão frequentemente o desejo e o dever se entregavam a lutas vãs, teria, final e definitivamente, achado a solução para o seu problema.

Deixou fechar as pálpebras... até o momento em que alguém bateu à porta. com uma pressa culposa, baixou os pés para o chão. Esquecera o seu encontro com Emily Sloane, marcado para as quatro horas e trinta. Esquecera até o pressentimento que, subitamente, como que o traspassara, quando, nessa manhã, depois do pulmão dilacerado, ela lhe pedira esse encontro.

- Entre, Miss Sloane.

Aos seus próprios ouvidos, a sua voz adquiria uma ressonância vulgarmente cordial, mas achou que soava a falso, quando a porta se abriu lentamente e Emily Sloane apareceu no seu limiar.

“É quase demasiado imaculada”, pensou. “Quase demasiado sensata e retirada das nossas preocupações materiais. Custa a crer que esteja aqui por sua livre vontade, para pedir um conselho médico.”

Como qualquer outro cirurgião, Andy Gray estava certo de que Emily Sloane era imortal. Até esse fulgor de inquietação que, nessa manhã, lhe fizera notar como ela parecia fatigada, fora esquecido no movimento arrebatado do seu dia de trabalho, que só agora acabara de interromper.

- Então, Emily? De que se trata?

Pergunta tão grotesca como se tivesse pedido a um matemático que lhe recitasse a tabuada de multiplicação! E, todavia, sentia que devia falar ainda que fosse tolamente, simplesmente para romper a calma glacial, quase inumana, da vigilante geral.

“Provavelmente, sente-se extenuada e quer alguns dias de férias...”, pensou. “Ou então trata-se de um problema pessoal, que não respeita ao hospital...”

Embora imaginar Emily com um problema pessoal...

Sempre sem falar, aproximou-se e pousou um cartão sobre a secretária. Andy reconheceu imediatamente um cartão-tipo do serviço de patologia.

Sandra Smith, esfregaço estudado pela técnica de Papanicolaov, Células nitidamente malignas. Sugiro exame e tratamento imediato.

O texto era da mão de Dale Easton.

Emily falou finalmente com a sua voz calma e fria, tão semelhante às suas maneiras.

- Sei que é moeda corrente, doutor Gray, e lamento incomodá-lo...

Ele atirou com o cartão para cima da mesa.

- Não pode tratar-me por Andy, depois de tantos anos? E quem é Sandra Smith?

- Eu.

Andy sentiu o cérebro esvaziar-se da impressão de alívio que acabara de invadi-lo. Num relâmpago compreendeu porque, nessa manhã, olhara tão atentamente para Emily. O seu instinto cirúrgico pressentira alguma coisa e ali estava a prova.

- Quer explicar-se, Emily?

- Eu própria preparei as lâminas e introduzi-as numa colecção destinada ao laboratório. O relatório veio hoje de manhã.

Emily não poderia ser mais impessoal do quê se estivesse a referir-se a um paciente.

- Agora que tenho a certeza, creio que... já o sei há muito tempo... Muitas vezes, sabe-se antes de ser-se avisado, mesmo quando não se têm conhecimentos particulares...

- Porque levou tanto tempo a procurar-me? Se tinha suspeitas, já devia ter vindo há muito tempo!...

Emily Sloane abriu as duas mãos e estendeu-as com as palmas viradas para baixo, num gesto súbito de impotência. Andy compreendeu então muito bem, sem serem necessárias palavras. Nenhuma mulher podia dizer que tinha a certeza do seu próprio estado, a não ser que, desde o início, as coisas se lhe tivessem apresentado desesperadas. O que era certo, o que contava, era que Emily abandonara toda a esperança desde há muito tempo. Tinha verdadeiramente o direito de estar calma, nesse momento estranho em que se misturavam e fundiam desespero e resignação. Porque havia de retrair-se perante a morte, ela, que nunca vivera?

Andy afivelou a máscara profissional, sabendo de antemão que não iludiria Emily por um instante que fosse.

- Venha ao meu consultório, sim? Pode haver um engano...

Ela seguiu-o obedientemente até à porta, parando como o requerem as normas do hospital para deixá-lo passar à sua frente.

- Desejo ser observada por si, doutor, mas não há engano.

Dez minutos mais tarde, foi-lhe forçoso dar razão à paciente, o que de resto, já fizera desde o primeiro instante do exame. A resistência dos órgãos pélvicos, literalmente duros como pedra, nada mais significava do que um cancro avançado no útero. Verificou que a multiplicação maligna já atingira as próprias paredes do abdome e começara a sua extensão para os órgãos superiores. “Abdome gelado” era o termo técnico para o estado de Emily - um mal fora do alcance de todo o socorro...

Verdadeiramente, não havia necessidade de biópsia. Apesar disso, fez uma, ainda que fosse para demorar a palavra inevitável. Introduzindo uma cureta na cavidade uterina, retirou desta vários pedaços de tecido esbranquiçado, semelhante a geleia. Podia fazer o seu diagnóstico de olhos fechados. Ali, como já esperava, reinava a abundância desordenada das células sem obedecer a nenhuma das leis corporais que mantêm os tecidos intactos. O invasor, que a ciência ainda não aprendera a subjugar, abrira caminho à sua vontade, não respeitando qualquer barreira anatómica.

De volta ao gabinete, esperou, nervoso e tenso, enquanto Emily voltava a envergar o uniforme imaculado. Quando finalmente saiu do consultório e se sentou calmamente na cadeira do consultante, Andy ficou comovido com a compaixão que lhe leu no olhar. “Neste momento, ela está aflita por minha causa”, pensou. “Sabe muito bem que entre nós não pode haver qualquer subterfúgio.” Todavia, as primeiras palavras que pronunciou foram automaticamente evasivas, no esforço instintivo que qualquer médico faria para evitar chancelar a sorte de uma outra criatura humana...

- Só receberemos o relatório sobre esta biopsia daqui a uns dias, Emily. Chamá-la-ei quando mo mandarem da patologia.

- Tenho a certeza de que não precisa dele para fazer o seu diagnóstico.

Pela última vez, Andy maravilhou-se com a sua calma. Quando se obrigou a falar, apesar de todo o cuidado que tomara, a certa altura, a voz embargou-se-lhe.

- Fazemos sempre uma biópsia para nos certificarmos.

- Diga-me a verdade, Andy.

Dirigia-se-lhe, pela primeira vez, tratando-o pelo nome próprio. Durante um segundo terrível, a sua mão seca e magra estendeu-se por cima do mata-borrão e pousou-se na do cirurgião. Depois, encostou-se resolutamente para trás e cruzou calmamente as duas mãos sobre os joelhos.

- Foi por saber que ma diria que vim procurá-lo - tornava ela. - Cancro, não é verdade?

- Cancro, Emily.

A maioria dos médicos insistia que nunca se deve pôr um doente ao corrente de uma situação desesperada. Mas que podia ele fazer por uma doente que de antemão assinara a sua condenação à morte?

- E demasiado adiantado para ser curável: também o sei.

- Muito adiantado, com efeito. Mas não inevitavelmente desesperado. Nestes casos, os raios X operam maravilhas..

- Radiações paliativas? - Falava, pela primeira vez, com amargura. - É isso o que me poderia dar, não é verdade? Quando sabe que isso não remedeia...

- Não podemos considerar-nos batidos com essa simplicidade, Emily.

- Porque não... se a hora chegou? - Levantou-se lestamente, enquanto lhe dizia com uma sombra de sorriso: - Lamento, doutor! Foi muito bom.

Andy pegou no memorando.

- vou dar-lhe um bilhetinho para o serviço de radioterapia. Podem começar a fazer-lhe o tratamento imediatamente.

Emily esperou que ele escrevesse o bilhete e arrancasse a folha do bloco. Andy sentia sobre si a sua sombra branca e não levantou os olhos. Se os tivesse levantado e encontrado um fantasma?

- Obrigada, senhor doutor. Obrigada por tudo.

Abriu a boca para responder-lhe, mas não lhe saiu nenhuma palavra. Quando se retirou, olhou fixamente para a porta que ela fechara atrás de si com tanta suavidade silenciosa. Na verdade, havia momentos em que um homem se sentia de tal forma impotente e desarmado que chegava a amaldiçoar a ideia de ter querido seguir medicina. “Ninguém”, pensava, com um furor amargo, “ninguém devia ser posto numa situação destas! É humilhante para o orgulho profissional! Afecta o respeito próprio!...”

Abateu furiosamente o punho fechado sobre o mata-borrão e saltou para fora da poltrona, lembrando-se que não dera a Emily a mínima palavra de conforto.

À saída do gabinete, deteve-se cheio de cólera. Emily fora procurá-lo para obter factos e não em busca de calor humano... e, nesse momento, não era possível segui-la e apanhá-la...

 

O relógio por cima do balcão de bebidas não alcoólicas indicava cinco horas. Vicki Ryan, enquanto sorvia o fundo de um chocolate gelado, examinava o rosto reflectido no espelho rectangular por detrás dos sifões e o seu olhar brilhou de satisfação. “És uma prostituta, Ryan”, disse a si própria com um contentamento amistoso. “És uma prostituta por nascimento e por gosto. A tua desculpa está em teres ainda mais amor ao teu trabalho que ao teu recreio. Quantas estariam dispostas a fazer um turno suplementar na cirurgia em substituição de uma colega em férias, sem uma palavra de queixa? Quantas seriam capazes de sorrir depois de um dia de trabalho como o teu... sem falar da noite passada com Tony Korff?”

Sob um certo ponto de vista, lamentava não assistir à Blalock de Andrew Gray. Como todo o hospital, não pensava senão na cura de Jackie, desde que este ali entrara como paciente gratuito. Por outro lado, estava contente por deixar o terreno a Júlia, o que não queria dizer que esperasse um só momento que a sua colega de quarto aproveitasse plenamente a oportunidade! Júlia estava irrevogavelmente apaixonada por Andrew Gray. Vicki sabia muito bem que as mulheres apaixonadas têm o mau hábito de jogar mal as suas cartas.

Olhou avidamente para o sifão e resistiu heroicamente à tentação de encomendar outro chocolate. A sua linha podia suportá-lo, sem dúvida! Na noite anterior, Tony Korff dissera-lhe que preferia uma mulher que não pudesse abraçar completamente. Andy Gray também, de resto. O olhar aprovativo do residente, nessa manhã, quando estavam sentados na cozinha das dietas, não lhe passara despercebido. E, para completar a equipa, Martin Ash era da mesma opinião! Quase desatou a rir sozinha ao imaginar-se a brincar amorosamente com o director de East Side General. Mas, no fim de contas, esse quadro seria assim tão fantástico? Os homens da sua raça são - a coisa é conhecida! - amantes notáveis. Talvez não estivessem em termos amistosos à data suficientemente recuada para que as suas relações se tornassem mais íntimas...

A seu modo, Vicki gostava muito de Martin Ash... tanto quanto uma mulher do seu género pode amar um homem que lhe é inteiramente oposto. Por muito franca que sempre tivesse sido para com os homens da sua vida - bem entendido, quando uma candura total não comprometia o seu jogo - era ainda mais franca consigo mesma. Admitia que o seu entusiasmo em fazer amor era mais prático do que romântico... A alegria da conquista por amor da conquista... A sua imagem no espelho retribuía-lhe um sorriso imperscrutável e ela conhecia a razão desse sorriso... conhecia-a como aos seus dedos.

“Não sou uma ninfomaníaca”, decidiu firmemente. “A ninfomaníaca está por natureza própria condenada a uivar na pista do companheiro ideal, a experimentar e a rejeitar um milhão de amantes, porque está sempre insatisfeita. Eu sou talhada de melhor pano. Para mim, fazer amor é a coisa mais cordial e mais simpática que dois seres podem fazer juntos.”

E continuava:

“Se Martin me possuísse, havia de diverti-lo. Tenho a certeza de que lhe faria muito bem. Seria uma coisa excelente para ele.”

Revia no espírito as últimas vezes em que tinham tido ocasião de se encontrarem sozinhos e lembrava-se do calor dos seus elogios à sua habilidade e de um fulgor ocasional no olhar... que parecia ir mais além do que a simples camaradagem da sala de operações. Os boatos circulavam ali como em toda a parte, mas estava certa de que a vida de lar do director andava mal e que o seu casamento não estava longe de dissolver-se. Talvez lhe chegasse o momento de procurar alegria e conforto noutra parte... Uma vez que tivesse descoberto quão repousante era a sua enfermeira cirúrgica, era de contar que se mostrasse generoso - a generosidade para com mulheres, amantes ou esposas, era seguramente um dos traços rácicos de Martin. Podia ser que fosse agradável ser-se, durante certo tempo, uma mulher mantida. A profissão de enfermeira era uma profissão árdua, a não ser, evidentemente, que se tivesse uma vocação semelhante à de Júlia ou à de Emily Sloane.

Sem querer, a imagem de Emily Sloane surgiu-lhe no espírito e sentiu como que um frio indizível. Emily Sloane nunca conhecera homem. Vicki seria capaz de apostá-lo. Mas faria isso uma grande diferença no momento em que, uma vez abandonada pelos próprios encantos, já não se podia conservar nenhum? Dessa vez, levantou-se, saiu do balcão e dirigiu-se, ondulando audaciosamente, para o canto oposto, onde se encontrava o fonógrafo... que não a interessava nada. O objectivo dessa manobra era observar-se com atenção - e com prazer - no espelho. O queixo levantado era agradavelmente cheio e nada mais. A curva das pernas era incitante, apesar do uniforme branco do hospital. A confiança em si e a sua vasta colecção de vitórias amorosas banharam-na de uma segurança reconfortante. As numerosas conquistas passadas tranquilizavam-na quanto às futuras. E, quando lhe apetecesse, podia fazer de modo que a conquista escolhida se tornasse permanente.

Mas um outro pensamento, muito menos agradável, assaltou-lhe o espírito: quando Emily Sloane se retirasse, herdaria quase certamente o cargo e as responsabilidades da vigilante-geral. O protocolo hospitalar assim o determinava e não havia qualquer dúvida possível quanto à sua aptidão para o desempenho das novas funções. Mas se se visse assim, de um momento para o outro, imolada à profissão sem sequer o saber e independentemente da sua vontade? Daí a onze anos chegaria aos quarenta e, por muito que cuidasse da dieta, seria gorda como uma gata nédia e grisalha, dado que os seus cabelos eram de um tom que nunca aceitaria favoravelmente a pintura. De acordo com todas as probabilidades, seria modesta e reservada tanto para os residentes como para os pacientes, na esperança de uma proposta honesta que nunca mais chegaria.

“O meu ego está hoje mal disposto. Amanhã, nada disto fará sentido e terei sempre oportunidade de casar com quem me apetecer!”, animou-se.

Júlia Talbot entrou e foi sentar-se no extremo do balcão das bebidas. Vicki viu-a aparecer com satisfação. Essa, ao menos, era uma neófita que poderia aproveitar da sua sabedoria. Carregou no botão do fonógrafo para lhe arrancar uma valsa e foi sentar-se ao lado da companheira de quarto.

- Escolhe o que quiseres, colega! Sou eu quem paga!...

- Capilé com limão, se fazes favor - pediu Júlia.

Vicki estudou-a atentamente e notou-lhe as pálpebras de um vermelho inquietante. “bom! Esta tarde, esteve a chorar sozinha e não preciso de perguntar-lhe porquê!” Em voz alta, declarou:

- No fim de contas, creio que vou tomar uma segunda soda!... Diz-me cá, porque estás de uniforme tão cedo, minha linda?

- vou verificar o anfiteatro C.

- Bem sei... Vais arranjar os instrumentos com as tuas mãos macias e brancas.

Júlia sorriu para dentro do copo. Nesse sorriso, havia uma espécie de confiança que surpreendeu Vicki, sem que fosse capaz de dizer porquê.

- Toma-o assim, se quiseres. Se faço mal em amar o meu trabalho, lamento, mas sou assim.

- Não pensava no teu trabalho.

- Traduzamos por Andy, se insistes.

- E foi por ele que ficaste a choramingar no quarto?

- És minha amiga, Vicki?

- Sou amiga de toda a gente. Chora encostada ao meu ombro se o coração to pede.

- Já ouviste dizer de alguém que chora de felicidade?

Vicki ficou sinceramente embaraçada. Júlia, nesses últimos tempos, andava bastante enigmática, mas aquilo era sem par.

- Que aconteceu ontem à noite? Beijou-te por trás da porta do lavabo?

- Já que queres sabê-lo, seja! Foi à entrada da residência das enfermeiras. - A enfermeira morena esvaziou o copo com uma calma impressionante. - Dir-te-ei ainda mais: está apaixonado por mim, e é tão tolo que não o percebe.

- Não te iludas, minha linda! Ainda que tenha sido tão distraído a ponto de beijar-te! Eu poderia conseguir outro tanto, quando me apetecesse...

- Continua, querida - convidou Júlia, serenamente. - Se ele gostar, não me importo.

- Procuras dar-me a entender que estás noiva?

- Muito longe disso, mas...

- Então, ouve-me. Servi café quente, fora de horas, a dúzias de Andrew Gray... e vi-os irem-se embora em seguida ao encontro das esposas. Os homens não casam com uma bata, luvas de borracha e uma agulha de sutura bem enfiada. Se realmente o desejas, tens de fazer o cerco com outros instrumentos.. . e afastar esse velho cheiro a anti-séptico. Nestes dois anos que se conhecem, já alguma vez saíste com ele?

- Bem sabes que não. E então?

- É de propósito que sou dura, Júlia. Quando ele despe a sua pele branca, é essa mula da Reed que vai procurar... e o pior é estar disposto a desposá-la no mesmo instante em que ela lhe faça uma proposta firme.

- Não, se eu a fizer primeiro! - afiançou-lhe Júlia.

Vicki levantou-se.

- Como quiseres, querida. Simplesmente, não me venhas depois dizer que não te preveni. Não há homem nenhum que mereça uma concentração tão exclusiva... isso só te prejudica perante os outros machos da espécie. Reconheço de bom grado que não valem muito... mas, em todo o caso, têm a sua utilidade.

- Nesse ponto, concordo contigo - admitiu calmamente Júlia. - Faço tenção de utilizar o meu de outra maneira, aí tens. É um único macho da espécie é tudo de quanto preciso.

- Nesse caso só te posso dizer: Felicidades! Vai, minha filha, são horas!

Ao subir para a sala de cirurgia, Vicki perguntava-se, com alguma incerteza, se, no fim de contas tivera a última palavra. Havia algum tempo que Júlia dava mostras de uma curiosa independência... em suma, desde que as suas relações com Andy Gray evoluíam no sentido de uma união pessoal. Não, evidentemente, a palavra união não convinha, era demasiado forte. Júlia Talbot não era o género de rapariga que tivesse uma história de amor mesmo com o homem que contasse desposar. Vicki soltou um profundo suspiro. Quanto mais pensava no seu próprio sexo, mais simples lhe pareciam os homens. Mais simples... e igualmente mais simples de manobrar!

No gabinete contíguo à sala de cirurgia, Vicki recebeu o relatório das mãos da vigilante estagiária cujo serviço acabara. Estava ainda ocupada a pôr a lista em dia, quando Tony Korff entrou negligentemente no gabinete. Pareceu-lhe mais belo do que habitualmente, na sua indumentária branca, engomada. Levantou-se e, enquanto Korff se sentava à mesa, postou-se prontamente de pé, atrás da cadeira, numa atitude de impecável correcção, ao passo que o médico, por sua vez, examinava a lista.

- Não vem adiantado, senhor doutor?

- Se não vir inconveniente, ocupar-me-ei de alguns casos particulares.

Vicki achou que a voz e a atitude de Korff participavam da frescura rígida do uniforme engomado. Só os olhos, brilhantes de febre, o traíam. Julgando adivinhar a causa disso, aproximou-se discretamente até lhe roçar o ombro com um dos cotovelos, num movimento de perita, executado sem pressa, e que, à mais ligeira aprovação, poderia tornar-se em carícia. com a mesma tranquilidade perita, o médico ignorou o convite, inclinando a bela cabeça loura sobre a lista, segundo o ângulo requerido para afastar suavemente o ombro.

- Se desejar, poderemos dar juntos a volta pela enfermaria, Miss Ryan.

- Às suas ordens, senhor doutor.

Levantou-se, afixou o relatório no quadro para notas e saiu do gabinete, seguido à distância de três passos, conforme o regulamento, pela rapariga. Durante uma meia hora, Vicki foi a enfermeira eficaz, pondo toda a sua competência à disposição do interno, o que não a impedia de ferver com raiva concentrada.

“Primeiro, Júlia desprezou os meus conselhos... e agora este maldito refugiado despreza o meu corpo... Será porque já gozou tanto como quis?”

Os seus pensamentos à volta desse tema eram amargos e lamentava ainda o seu movimento de ardor, quando entraram juntos na enfermaria dos homens. Aí, todavia, os sorrisos abertamente admirativos dos doentes confortaram-na, enquanto verificava, um após outro, os gráficos das papeletas colocadas aos pés de cada cama. No fim de contas, nunca precisara de depender de um interno para ter a sua conta de homenagens e sentir-se bem-disposta. O pessoal superior abundava em homens fornecidos com esposas frígidas. Era até curioso pensar no número de médicos que pareciam mal casados! Mas não só médicos; doentes também, nos seus ricos apartamentos particulares, que se tinham sentido felicíssimos por lhe testemunharem a sua gratidão. Não, verdadeiramente, nada se igualava ao pulsar feliz do seu coração, quando evoluía nesse mundo de machos e os sentia todos reanimados, vivos, rodeando-a com o seu desejo silencioso.

Tony deixou-a finalmente na ala dos quartos particulares e entrou sozinho no grande quarto da esquina reservado a Bert Rilling. Vicki voltou para o seu gabinete, encolhendo os ombros à ideia de poder experimentar alguns instantes de desgosto por causa de um Tony Korff...

Alguém se mexia no gabinete. Através do tabique de vidro fosco viu uma silhueta magra e branca. Teria sido capaz de jurar que essa silhueta acabava de transpor a porta fechada a cadeado de acesso ao gabinete dos narcóticos. Depois, quando a porta exterior se abriu, reconheceu a vigilante-geral.

- Boa noite, Miss Ryan.

A voz de Emily Sloane era ao mesmo tempo tensa e embaraçada, como se tivesse dificuldade em concentrar o espírito no mundo exterior. Se Emily fosse uma estranha, Vicki teria jurado que estava demasiado embriagada para se manter de pé.

- Que a traz aqui, esta noite, minha filha?

- Miss Rensselaer está de férias. E, como de costume, estou a substituí-la...

- Agrada-me ouvi-la declarar isso sem amargura, minha querida. Na verdade, não sei o que seria do hospital sem si.

- Ou sem si, Miss Sloane - retribuiu Vicki, deferentemente.

- Somos dois exemplares da mesma espécie, não é verdade? Desposámos o nosso trabalho desde o início...

A vigilante interrompeu bruscamente a frase e lançou a Vicki um sorriso ausente.

- Tem a certeza de não estar doente, Miss Sloane?

- Estou perfeitamente bem, à parte uma terrível dor de cabeça. Acabo de ir buscar uma aspirina à sua farmácia. Boa noite, Miss Ryan. E boa sorte.

Mal o som das suas palavras se extinguira, Emily Sloane já desaparecera, sem mais barulho do que fizera ao vir. E Vicki apercebeu-se de que piscava vivamente os olhos, como que para certificar-se de que fora realmente Miss Sloane, em carne e osso, que vira e não o seu espectro.

“Ah, sim!... Somos então dois exemplares da mesma espécie!”, resmungou. “Acaso a velha fada terá começado a beber depois de tantos anos de virtude? Ou então, com a ignorância de nós todos, será morfinómana?”

Anotou a necessidade de verificar urgentemente a farmácia e depois pôs-se a rir da sua imaginação melodramática. Como todas as solteironas, Emily sofria provavelmente de vapores... e nenhuma virgem recalcada, quaisquer que fossem os seus anos de garrafa, era responsável pelas suas reflexões e pela sua voz, em tais momentos.

E, todavia - o seu espírito tropeçava na incerteza e acabava por recair do lado da angústia -, apesar do seu anormal estado nervoso, Emily tinha razão. “No fundo, somos realmente dois exemplares da mesma espécie! Pouco importa que ela seja um fantasma, cuja chama está quase a apagar-se, ao passo que eu transbordo de mais vida do que aquela que posso partilhar. Praticamente, somos ambas umas não-amadas, daquelas de que não se precisa fora das horas de trabalho, que é a nossa única realidade.”

“Poderei mudar um instante? Poderei conseguir que o meu próximo parceiro seja permanente? Poderei resolver-me a renunciar, para conservá-lo, a todos quantos poderia conquistar depois? Talvez começando pelo princípio, começando pelo zero? Se eu deixasse o East Side General, se procurasse um emprego na parte alta da cidade, para poder fazer sinceramente o jogo, tendo o estado conjugal como único objectivo?...”

Um zumbido levou-a ao quadro das chamadas. Anotou automaticamente na memória o número da cama, tornou a pôr no seu lugar a flecha de metal indicativa e, reformada, num abrir e fechar de olhos, votada novamente à sua profissão, saiu do gabinete e percorreu a longa fila de camas até o fim da enfermaria.

Um assobio muito baixo, mas nitidamente admirativo, seguiu-a durante o trajecto, e a enfermeira surpreendeu-se a sorrir naturalmente.

No fim de contas, fora tola e ridícula em deixar-se perseguir pelas palavras dessa solteirona Emily Sloane. Ainda dispunha de uns bons anos à sua frente, de bons e agradáveis anos para viver. Continuaria como até ali e pensaria no dia de amanhã quando este se lhe apresentasse.

 

Apoiada à porta do quarto, próximo do O.R, Emily Sloane esperou que o coração readquirisse o ritmo normal. Escapara de boa, no gabinete das salas de cirurgia. Ryan não a apanhara em flagrante por um triz. Na algibeira, os seus dedos largaram o pequeno frasco contendo três grãos de morfina subtraídos da farmácia da sala e cujo furto não poderia ter justificado.

Mesmo nesse momento, em que já não corria o risco de ter de dar uma explicação, sentia o rosto vermelho até a raiz dos cabelos, ao pensar na longa série de roubos que levara a cabo. Todavia, nunca antes retirara três grãos inteiros do gabinete dos narcóticos...

Retirou o pequeno tubo da algibeira, um tubo estreito, exactamente calibrado para conter os pequenos comprimidos brancos e, antes de guardá-lo na mesinha-de-cabeceira, estudou-o meditativãmente, durante um longo momento... A seringa estava fechada na gaveta do toucador e a chave andava sempre consigo. Preparou os instrumentos sobre a mesa, ao lado dos utensílios especiais para a preparação das hipodérmicas uma prateleira com uma colher de metal e uma pequena lamparina de álcool para desinfectar a agulha. Emily efectuava esses movimentos sem necessidade da intervenção do espírito para coordená-los. Não era essa a primeira vez que se servia da seringa: as pequenas crateras que lhe constelavam as coxas das ancas até os joelhos, forneciam a prova muda da longa batalha que travara e perdera contra a dor. Visto que já estava pronta não precisava de apressar-se. Encheu a colher com água, metodicamente, aspirou o álcool na seringa e deixou-o ficar aí o tempo necessário para uma desinfecção completa... embora essa esterilização já não tivesse importância. Um após outro, realizou todos os gestos que fizera durante tanto tempo, um número incalculável de vezes, para aliviar os sofrimentos de uma geração de pacientes... Realizou-os como para sua própria satisfação, como se saboreasse os mínimos pormenores... e, enquanto via os comprimidos dissolverem-se prontamente na água a ferver, estava tão absorta no trabalho que dir-se-ia um cozinheiro-chefe, gastrónomo, vigiando a preparação de um prato que se lhe destinasse...

Durante um breve segundo, conheceu o pânico, ocorrendo-lhe subitamente a possibilidade de que a solução viscosa entupisse a agulha, antes de a dose ter sido completamente injectada. Durante toda a vida, Emily Sloane nunca entupira uma injecção e não tencionava fazê-lo agora...

Essa noite era para Emily Sloane a noite da aventura...

A cama estava pronta com o lençol e a colcha dobrados segundo uma precisão geométrica...

Estendida na cama, descontraída, com a cabeça apoiada na almofada, seguia o percurso da vaga inexorável. Já penetrara na subclávia, que transportava o sangue do braço ao coração... escoava-se na aurícula direita, distendida sob a pressão da válvula tricúspida até que o impulso do sangue fosse mais forte e a válvula se abrisse completamente... O narcótico estava agora no próprio centro do seu ser...

Um ou dois décimos de segundo e o ventrículo encheu-se... A bomba fiel, que nunca cessara de realizar regularmente a sua função, enviava o sangue aos pulmões e voltava a trazê-lo ao coração... O pulsar seguinte ia, através da carótida, num bater fremente, levar o sangue até o cérebro... Teve a impressão de que o tempo nunca mais acabava, que cada fracção de segundo era uma eternidade... e de boa vontade teria aceite que isso durasse assim até as trombetas do Juízo...

Já conhecera muitas vezes esse bem-aventurado nirvana e sobrevivera-lhe para em seguida sofrer... Mas, dessa vez, sabia que não haveria um “em seguida” e, na certeza de que não haveria um despertar, aceitava, delicada, o coma que a invadia...

Durante um segundo, precisamente antes que o pleno efeito dos três grãos de morfina lhe atingissem o cérebro, Emily Sloane agarrou-se a um último fragmento de lucidez consciente... E depois o quarto, o hospital, o mundo inteiro tudo se fundiu e se apagou num instante ilimitado... Era, ao mesmo tempo, o começo e o fim da sabedoria...

Durante um certo tempo, o corpo, estendido sobre o leito do hospital impecavelmente aberto, continuou a respirar num ritmo que abrandava regularmente... depois a respiração cessou... Ó coração, conservando mais tempo o ritmo próprio continuou a funcionar ainda um pouco, até mesmo depois de o cérebro ter cessado de comandar... Depois abrandou, por sua vez, e parou para sempre...

Emily Sloane já não tinha consciência que lhe permitisse gozar o seu único triunfo verdadeiro. Porque a “coisa” que se multiplicava loucamente nas suas obras vivas e que nenhuma habilidade, nenhuma consciência médica, podia deter, encontrava-se finalmente sem poder. O afluxo de sangue nesse corpo que a “coisa” empreendera destruir estava cortado na origem e as células loucas deixaram também de se reproduzir e de viver.

A morte fizera o que a vida era impotente para realizar. Dominara e reduzira a “coisa” selvagem que a produzira!...

A morte matara o inimigo da vida.

 

Catherine Ash descia a encosta coberta de relva que conduzia ao terraço sobranceiro ao mar e ajustou ao corpo o roupão de tecido esponja, vestido sobre os dois bocados de seda que constituíam o seu fato de banho. Fazia fresco - quase frio nessa ponta oriental de Long Island; a cidade parecia irreal, semelhante à lembrança de uma miragem.

Era bem aí o lugar que lhe era mais querido de todo o universo pessoal - o lar da sua adolescência, onde Martin Ash a cortejara, onde obtivera a sua primeira grande vitória contra o pai e onde reinava como soberana desde um número de anos suficiente para não desejar evocar-lhe o número.

Como sempre, o week-end que organizara, era um sucesso; tudo caminhava às mil maravilhas. Os gritos dos jogadores de ténis testemunhavam que este jogo não perdera os seus entusiastas e ouvia o riso dos nadadores mais arrojados, que brincavam na praia privativa, no meio das brumas. Mas esse sucesso, habitual, sem a presença de Martin, parecia-lhe vazio, o que também era demasiado habitual para a preocupar.

Apertou mais a si o roupão e permaneceu hesitante no último degrau do terraço - não por recear a brisa fresca que chegava do largo, mas por se sentir invadida por um sentimento súbito de solidão e de fracasso. Quando se encontrava nessa propriedade, nunca experimentava, seriamente, pelo menos, o receio de perder Martin. Essas paredes rococó encerravam demasiadas lembranças comuns. Essa paz bordada pelas vagas impedia-a até de encolerizar-se por ele a abandonar.

... E, todavia...

... E, todavia, continuava a demorar-se à beira dessa parte do campo onde os outros se divertiam sem reservas, a demorar-se aí, lutando contra um terror sem nome...

A propriedade fora desenhada e a casa construída por seu avô. Hoje, em vez do lar de mortais bem instalados na vida, a casa evocava um bolo de casamento da época vitoriana, esquecido ao sol. Nem por isso era menos magnífica, desde as volutas das varandas até o último quadrado de relva, que chegava mesmo à beira-mar e cujo veludo verde um exército de jardineiros tratava com um desvelo amoroso.

Um biombo de cedros e de pinheiros da Noruega cortava o vento e resguardava a vida privada dos habitantes contra toda a incursão indiscreta.

Ali, Catherine encontrava-se no seu reino, todo banhado de sol, refrescado pelo vento e ornamentado pela mão do homem. Mas que prazer pode uma rainha ter num reino privado da presença do seu rei?

Era, evidentemente, absurdo, bem o sabia, mas precisava de certificar-se de que Martin continuava vivo. Quando nessa manhã, em Nova Iorque, vira o carro do marido afastar-se ao longo das verdes alamedas do parque, jurara a si própria que não lhe telefonaria. Mas agora que o longo dia se aproximava do crepúsculo, a tentação, tornava-se irresistível. Sem que soubesse o motivo, sucedia quase sempre assim. A essa hora perfeita em que céu e mar se fundiam numa bruma de um azul doirado, em que o ar, por cima da pérgula, estava literalmente cheio do grito combativo das gaivotas, a ausência de Martin tornava-se-lhe intolerável. Porquê, sim, porquê, quando toda aquela beleza o esperava, quando só lhe bastava querer para a gozar a seu lado, por que se apegava tão obstinadamente a esse hospital cercado de bairros sórdidos, como um barão à torre de menagem cercada de rainúnculos venenosos?

Recusou-se a ouvir um apelo que os nadadores lhe lançavam e encaminhou-se para casa... numa marcha que parecia uma corrida...

... A varanda, cheia de toldos às riscas alegres, depois o grande átrio sombrio e grave, onde o retrato de seu pai, pintado por Sargent, um Sargent do melhor período, a olhava severamente...

Aí os risos que subiam dos campos de ténis e as alegres exclamações dos banhistas folgando na areia ou na água chegavam apenas como um rumor de conjunto, amortecido pela distância e pelas paredes. Estava de novo sozinha, abandonada no meio dos outros... reduzida ao acolhimento de um velho mordomo... Apesar de tantos amigos, a propriedade estava vazia, visto que Martin continuava ausente...

- Nenhuma chamada de Nova Iorque, Burke?

- Nenhuma, minha senhora. Esperava alguma?

- Não precisamente... Quer ir ver se algum dos hóspedes deseja tomar um cocktail?

Esperou que o criado se afastasse para abrir a porta da biblioteca e levantar o auscultador do telefone. Os dedos tremiam-lhe ao marcar o número de chamada de East Hampton... Pediu o número particular de Martin, no hospital. Os nervos tensos fizeram-na achar abominavelmente longo o tempo que a chamada necessitou para percorrer os circuitos de Nova Iorque. Sentia-se igual ao condenado que, com um pé sobre o alçapão fatal revê, num segundo, a existência inteira. Enquanto esperava, sentiu passar-lhe, perante os olhos do espírito, toda a sua vida nessa propriedade demasiado vasta, demasiado confortável, demasiado acolchoada.

Catherine Parry, garota de seis anos, de pé, diante dessa mesma mesa de madeira de teca onde se amontoavam os seus presentes de aniversário: Catherine Parry, adolescente de dezasseis anos, telefonando a algum rapaz - de nome e rosto há muito esquecidos! - para saber do motivo do seu atraso...

Finalmente ouviu o som da campainha retinir ao longe, no gabinete do director de East Side General - e, mesmo tão longe, o som tremulante parecia despertar o silêncio do vazio. Teria mentido ao afirmar que a sua presença no hospital era indispensável? Estaria, nesse momento, entretido com uma das enfermeiras, em qualquer divã, num canto discreto da cidade alta?

Uma coisa era certa: era necessário ser doida para abandonar os convidados e ir fazer essa chamada infrutífera! Muito longe, muito longe, mesmo no fundo do seu cérebro, ouvia vibrar o eco da voz paterna - tão precisa e incisiva como as vibrações da campainha do telefone a cem milhas desse domínio luminoso, no coração dos bairros sórdidos de Nova Iorque.

“- Toda a mulher de médico se sente abandonada, Catherine. Espero que estejas preparada também para isso.

“- Estou preparada para tudo. Nada mais importa que Martin e o seu êxito.

“- Nobre resolução, minha querida. Nobres sentimentos, que te honram. Nunca pensaste talvez que o teu apaixonado judeu se adaptaria de bom grado a um pouco menos de nobreza e a um pouco mais de liberdade?

“- É indispensável ser cínico, pai?

“- Cinismo é uma palavra que a juventude gosta de aplicar no sentido comum, no bom sentido, se assim o preferes. Creio ter-te já repetido, por várias vezes, que o amas mais do que ele te ama. Isto quer dizer que nunca deixarás de envenenar-lhe a existência. Isto quer dizer que as circunstâncias não o predispõem a suportar a trela; isto quer dizer que não tardarás a exasperá-lo, obstinando-te a meteres-te entre ele e o seu trabalho, a chamá-lo quando ele desejaria estar só...”

Esse diálogo com um fantasma extinguiu-se na sua memória e só o toque do telefone perseverou em ferir-lhe o ouvido. Passou prontamente em revista o passado recente de ambos, sondando cada um dos minutos que tinham passado juntos. Que sinais explícitos ignorara, na sua complacência? Não podia negar que ultimamente discutiam um com o outro muito mais frequentemente... Também não podia negar que numerosas tinham sido as noites em que saíra do seu lado e fora terminar sozinho o seu sono... Um ano antes, teria acolhido com um riso de desdém a sugestão de que Martin pudesse ser-lhe infiel, em factos, em palavras ou mesmo em pensamentos...

A telefonista parecia partilhar da sua impaciência, pois a campainha vibrava furiosamente. Se o gabinete estava vazio, onde paravam então, que faziam as suas secretárias?

Acabou por lembrar-se de que era sábado, que era até o fim da tarde de sábado, e que, por conseguinte, desde há muito que a multidão de dactilógrafas devia ter abandonado a antecâmara. Até o cão de guarda pessoal de Martin - que parecia mais um ficheiro do que uma mulher - devia também ter saído do escritório para ir gozar o que ainda restava dessa semana. Só Martin, retido voluntariamente, em qualquer canto do imenso hospital, se estafava em tarefas que cem mãos poderiam ter realizado, pelo menos, tão bem como ele...

Pouco importava a ameaça talvez suspensa, nessa noite, sobre o hospital! A única coisa monstruosa era estarem separados. Quando, por fim, pousou o auscultador no descanso, permaneceu imóvel a olhar, sem ver, as paredes cobertas por prateleiras de livros, hesitando em telefonar directamente para o hospital e em encarregar a telefonista do P. B. X. de descobrir o marido onde quer que ele estivesse... Mas, mesmo no seu actual estado de abatimento, não se sentia disposta a uma tal aceitação de fracasso.

Quando voltou ao terraço, as vozes dos convidados pareceram-lhe tão afastadas, como num sonho. Clara e sobrepondo-se a esse fútil tagarelar, a voz do pai, morto há anos, continuava-lhe no ouvido. Já não tentava qualquer esforço para livrar-se da sua amarga sabedoria. “Amo-o mais do que ele a mim”, pensava. “É verdade. Porque não posso dar-lhe um pouco mais de liberdade? Uma possibilidade de verdadeira felicidade?...”

- Então, Mrs. Ash? Não vem dar um mergulhinho?

Ergueu um olhar reconhecido para o rapaz risonho, de pé, sobre o último dos degraus que conduziam da pérgula à praia. O seu nome não lhe ocorreu imediatamente, nem tão-pouco o motivo que a levava a convidá-lo para a ilha, mas, nesse momento, a admiração, sinceramente confessada, que lhe lia no olhar, bastava-lhe. Esforçou-se por rir, despiu o roupão e correu para a sua mão estendida. Ao menos, sentia-se satisfeita por verificar que o seu queimado cor de mel era ainda mais forte que o do rapaz. Sentia-se também satisfeita por a sua silhueta mais realçada que dissimulada aos olhos de todos, por aqueles bocados de seda - poder rivalizar com a de qualquer mulher ou rapariga que se encontrasse na praia.

- Há uma ressaca forte - avisou o rapaz, enquanto se afastavam, chapinhando juntos, nas cavidades orladas de espuma. - Não vá muito longe, se tem medo...

Recordou-se do nome do rapaz com uma alegria súbita. Era o jovem inglês, delegado das Nações Unidas, que na véspera, à noite, no baile do Waldorf, lhe dirigira uns cumprimentos tão extravagantes. Stanley Potter. Um estudante de Oxford, que preferira a diplomacia ao direito... Avançou para furar a primeira onda imponente que avançava para eles e, enquanto corria para a água profunda, respondeu-lhe, rindo:

- Gostaria de saber porque havia de ter medo? Nasci nesta praia!

O rapaz seguiu-a e, por meio de um mergulho rápido e longo, quando a vaga seguinte rebentou, espumando sobre as suas cabeças, encontrou-se ombro a ombro com ela.

Quando se sentiu envolvida e erguida nos seus braços ao atravessarem a espuma ensoleirada, compreendeu que ele preparara deliberadamente a manobra. “Que me corteje, se quiser”, decidiu, sem fazer qualquer esforço para libertar-se, ao chegarem juntos à superfície.

- Lamento, Mrs. Ash - disse ele, largando-a, finalmente. - Desculpe, mas tinha de ter a certeza!

- A certeza de quê, Sir Stanley?

- De que nadava tão bem como eu, antes de irmos mais para o largo! Seria mal feito deixar afogar-se a dona da casa, compreende!

- Tenho o ar de uma mulher que está a afogar-se?

- Pelo contrário, Catherine! Posso tratá-la assim?

- Porque não, visto que me arrancou a um túmulo líquido? Ela afastou-o batendo-lhe com o calcanhar no estômago e, nadando o crawl a oito tempos, que Martin lhe ensinara num Verão anterior, avançou rapidamente para o largo.

- Oh, Catherine! Não vale afogar um homem antes da sua hora...

Mas ela só abrandou de velocidade quando se achou fora da onda de terra e flutuou à vontade, bem para além da última linha de ressaca. No fundo, era bastante divertido esperar serenamente que Sir Stanley Potter, um autêntico cavaleiro do Reino, chegasse finalmente, cortando a espuma: mais divertido ainda notar-lhe o fulgor do olhar ao admirar-lhe o lento bater das pernas na vaga do Atlântico.

- Obrigada por ter vindo - gracejou. - Estou-lhe muito reconhecida.

- Pelo amor de Deus! Até aqui, não tive a honra de salvá-la de afogamento. À primeira vista, não tenho o sentimento de tê-la salvo seja do que for.

 

Martin Ash trepou as escadas do edifício onde seus pais viviam. Subiu-as lentamente, sem saber ao certo a que impulso obedecia ao ir ali. Quando um homem se aproxima dos cinquenta, é-lhe bastante difícil defrontar as necessidades da infância... a necessidade instintiva da certeza e da confiança que é a herança de cada criança nascida desde Adão. No seu caso, essa necessidade complicava-se com uma reverência profunda para com seu pai, uma reverência que fazia parte do seu sangue - e que nenhuma modificação do género de vida a que o destinara o seu nascimento poderia apagar.

Accionou a maçaneta da porta, sabendo de antemão que a encontraria aberta, na previsão da sua visita sempre possível, e chegou-lhe o som do rádio. As notas de uma ária que em breve atingiria o seu ponto culminante... Durante um segundo, hesitou à entrada da porta... Quando a abriu prudentemente, verificou que a minúscula sala de estar se encontrava, como habitualmente, quase às escuras, iluminada pela curva verde do quadro do rádio. Seu pai encontrava-se ali, ao lado do aparelho, com o seu eterno xaile em volta dos ombros, apesar do calor. Martin Aschoff, pai, virou a cabeça ao ruído que a porta fez ao abrir-se.

- Então, meu rapaz? Julgava-te em Long Island.

- Catherine está lá com os convidados, papá. Fiquei retido no hospital.

- Sim, Martin. Quando soube a novidade, esperei que ficasses.

- Que novidade, pai?

O ancião tocou suavemente no aparelho de rádio, com um movimento que era ao mesmo tempo uma carícia e uma censura.

- A maior parte das vezes, esta caixa mágica devolve-me os meus sonhos. Às vezes, também me fala de realidades e é justo que as ouça. Sei da ameaça que pesa sobre vós, do outro lado da rua, Martin. Vieste cá para me contares mais coisas?

- Nada mais há a contar, papá. Na verdade, tenho a certeza de que já não existe qualquer perigo real para o hospital...

- Então, vieste para nos tranquilizares? Estavas com receio de que estivéssemos inquietos?

- Certamente que não.

“Vim para me renovar, para me refazer junto de ti, mas tu sabe-lo tão bem como eu...”, pensou Martin, que se contentou em inquirir:

- Onde está a mamã?

- Mrs. Hefner, a nossa vizinha do lado, foi buscar o bebé da filha a uma clínica de crianças, do Bronx. A mamã foi com ela para ajudá-la.

- Então fiz bem em ter vindo. vou telefonar para o hospital a mandar que lhe tragam uma bandeja com o jantar.

Martin -Àschoff levantou os olhos numa expressão de doce censura:

- Devias conhecer melhor tua mãe, Martin! Quando é que ela se esqueceu alguma vez do meu jantar? Há no frigorífico cerveja e sanduíches e eu posso muito bem ir buscá-las.

O director do East Side General deixou-se cair na sua poltrona habitual e acendeu um cigarro. Mal se encontrou ali instalado, deixou de sentir qualquer necessidade de explicar porque ali fora. Olhou atentamente para o ancião, na certeza de que não lhe faria uma só pergunta a respeito dessa visita suplementar. Mas já seu pai falava, como se compreendesse o perigo do silêncio:

- Vais ter esta noite com Catherine, filho?

- Não posso fazê-lo antes de podermos considerar realmente o perigo passado. Tem mais de vinte convidados... Não se sentirá só.

- Repetir-te-ei sempre que é de ti que Catherine precisa, Martin. Não te esqueças de que, quando sentes o peso da solidão, tens o teu trabalho. Catherine não tem nada. Nada a não seres tu... e as esperanças que em ti deposita...

- Catherine tem amigos, papá. E mais interesses na vida do que seria capaz de dizer.

- Observa de perto os seus amigos... e interesses.. Verificarás certamente que são apenas passatempos enquanto espera pelo teu regresso. - O velho Martin Aschoff estendeu as mãos por cima do rádio como se pudesse aquecê-las à grande exalação musical que invadia o quarto. - Lembra-te das palavras de Nietzsche: O homem diz “eu quero”; a mulher diz “ele quer”. É esta a sabedoria que todas as esposas aprendem... com o tempo...

- Estou quase constantemente com ela, papá! - Intrigado com esse ataque indirecto, o mais novo dos Aschoff estudava o pai através do fumo do cigarro. - Não é por minha culpa que me é impossível estar com ela, neste momento.

- É-te, na verdade, completamente impossível ires esta noite a Long Island?

- Como poderei abandonar o hospital, enquanto estiver sob a... até sob a sombra de uma ameaça?

- Tens razão, evidentemente, mas a tua razão não torna Catherine menos solitária.

- Um homem só pode partilhar-se até certo ponto.

- E, contudo, para ser um verdadeiro casamento, um homem deve partilhar tudo com sua mulher. É um dilema que nunca pode ser completamente resolvido.

- Que querias que fizesse?

- Partilha o teu trabalho com ela, Martin. Partilha as tuas esperanças e os teus receios. Não apenas o teu amor. No casamento há muitas outras coisas além do amor.

“Partilhar o meu trabalho!”, pensava Martin. “É fácil de dizer, vistas as coisas do alto da tua serenidade...” E depois lembrou-se de que, muitas vezes, ao erguer os olhos para a galeria de observação, no momento em que terminava uma operação difícil, encontrara o rosto apaixonadamente atento de Catherine entre os dos estudantes... Quantas vezes ela ficara ajuizadamente sentada a seu lado - enquanto ele gritava o seu ódio ao mundo que o repelira - ou gozava o triunfo que obtivera sobre outros... Era verdade também que, no seu passado, existiam zonas que ela nunca compreenderia inteiramente, como também nunca compreenderia o seu desejo em conservar ali o hospital, ali, no seu verdadeiro lugar. Contudo, quando ela fracassava, não era por falta de experiência.

Experimentara ele, por sua parte, metade do que ela para lançar uma ponte sobre o abismo que separa os homens das mulheres - tocar-lhe na mão para tranquilizá-la e reconfortá-la, mesmo por pouco tempo?

- Devias ouvir música mais vezes, Martin.

De novo espantado por uma tal penetração, ergueu os olhos para o perfil magro do ancião. Era bem exacto que a música, lançada com prodigalidade pela garganta de ébano do rádio, apagara as suas últimas dúvidas. Lembrava-se de quantas vezes Catherine lhe suplicara que a acompanhasse à Filarmónica ou à Ópera e com que obstinação se refugiara no seu trabalho, se entricheirara atrás do seu trabalho. Coisa verdadeiramente estranha ser-lhe necessário voltar a casa de seu pai para tornar a descobrir a libertação que a grande música pode dar! Mais estranho ainda ter experimentado esse contentamento duradoiro sem dele se ter apercebido antes do momento em que seu pai formulara a sua causa.

-- Que estão agora a tocar?

- O Messias, de Haendel. Não há no mundo maior beleza.

- Gostaria de poder vir mais vezes, papá. Daria muito para escutar mais e pensar menos.

- Só tens que dispor de ti, Martin. Há quanto tempo não pões os pés num teatro ou numa sala de concertos?

- Desde há mais tempo do que quereria confessar.

- E não há mais ainda que não tenhas ficado atento e tranquilo a escutar uma outra voz que não seja a da tua própria ambição?

O Dr. Martin Ash baixou a cabeça sem fazer qualquer tentativa para responder. Seu pai sorriu e afundou-se na poltrona, como se fora a si próprio que fizera a pergunta. Ficaram assim durante muito tempo, no pequeno quarto, cheio de móveis, sobreaquecido, enquanto as sombras desciam na rua miserável e a música se elevava a alturas acessíveis a muitos poucos mortais.

- Sou demasiado ambicioso, papá? Esqueci como devia viver?

- Pergunta-o a Catherine, meu filho.

Sem tentar responder, Martin Ash esticou as pernas compridas. Em qualquer outro dia ou em qualquer outro momento, ter-se-ia aproveitado dessa frase como de um trampolim excelente para saltar em cheio numa discussão.

Mas, nesse momento, não lhe apetecia discutir. Por fim falou:

- Aqui a vida é tão simples! Porque há-de tornar-se difícil mal transponho a porta da rua?

- Talvez que, como todos os americanos, peças demasiado à vida. Aqui, nós pedimos pouco e sentimo-nos felizes com o que nos é dado.

- Porque não posso também ser feliz?

- Porque sabes que tua mulher não está satisfeita, Martin.

- Que queres que eu faça pai? Que concorde com a transferência do hospital para a cidade?

- Para começares, leva-a ao primeiro concerto sinfónico. Mostra-lhe que a amas por ela própria e não pelo poder que a sua riqueza te conferiu. Talvez se resuma aí tudo de quanto o teu casamento carece...

Voltou a reinar um longo silêncio no quarto, interrompido apenas pela sinfonia que se ia amplificando...

- Talvez se eu conseguisse ter confiança na humanidade, pudesse acreditar no meu casamento - confessou Martin.

Falava com dificuldade, como se atrás da sua língua ardente e apressada o seu espírito tropeçasse. Acabou por mostrar o punho fechado ao rádio.

- Como se pode acreditar, em que se pode acreditar, quando um mesmo cérebro pode criar uma tal magia e conceder os planos de destruição da espécie?

- Escuta, Martin, escuta e procura não fazeres demasiadas perguntas. Isto é a voz da alma humana. Ela ajudar-te-á a conheceres e a compreenderes a tua... e a aproximares-te de Deus...

- Um Deus que permite que os homens se destruam uns aos outros?

- Nunca esqueças que estas coisas más resultam do facto de o homem abusar da Lei e dos dons do Altíssimo. O mesmo Deus pôs a música na alma dos homens, ajudou-os a transcrever os seus sonhos em poemas, a dar-lhes cor na tela, a esculpi-los em pedra. O mesmo Deus deu-te essa habilidade para curar que utilizas todos os dias...

- É uma argumentação de que o padre O’Leary se serve muitas vezes. “Não é Deus quem faz o mal, mas sim os que abusam do Seu poder.”

- Podes contestá-lo por um só instante? Antes de responderes, consulta a História. Quanto tempo duraram os grandes impérios depois de se afastarem do Senhor? Podes duvidar que este país e os seus aliados sobrevivam aos homens maus que hoje governam a Rússia? Bastam apenas alguns homens de juízo para que o reino de Jeová volte a florir.

- O Kremlin, neste momento, dispõe de mão-de-obra mais abundante...

- O mal desenvolveu-se e prospera durante um certo tempo; só o bem é eterno. Falas como uma criança, Martin. - E, como o filho abrisse a boca para responder, o ancião ergueu uma mão conciliadora: - De resto, porque não? Às vezes, é bom para o homem falar, e até pensar, como uma criança. O ódio anda hoje demasiado espalhado... e a avidez. Todos nós precisamos de voltar às coisas infantis, ainda que seja apenas para tornarmos a encontrar o atalho que perdemos; ainda que seja apenas para nos lembrarmos de que Deus é amor.

- Temos para isso bastante amor disponível entre nós?

- Tu esqueceste a tua antiga maneira de adorar, meu filho; hoje, és cristão como tua mulher. Deverias lembrar-te dos ensinamentos do homem em quem adoras o Filho de Deus.

Martin arregalou os olhos.

- Então, tu conhece-los? Julgava que tinhas sido sempre ortodoxo.

- Sigo os ensinamentos e o caminho do Deus que falou a Abraão e a Jacob - respondeu o pai. - Mas numerosos são os grandes mestres da história do judaísmo e Jesus, a que chamam Cristo, é um dos maiores. Foi ele que disse que todos nós devemos tornar-nos semelhantes às criancinhas antes de podermos entrar no Reino dos Céus. Direi até que foi ele que, esta noite, te manteve no teu posto...

- Como director de um hospital da cidade? Teria sido muito mais feliz como médico de bairro, com o meu consultório na cave deste prédio, por exemplo!...

- Fizeste o que Deus te destinou, Martin. Obedecerás, esta noite, à Sua vontade. Ele fala-te, neste momento. Abre-Lhe o teu coração e escuta.

Pai e filho ficaram silenciosos, enquanto se desvaneciam os últimos acordes do Messias. Quando a música se calou no quarto, cuja atmosfera ainda vibrava com os seus acordes, Martin permaneceu um longo momento sem se mexer. Quando, por fim, se levantou, inclinou-se por cima das costas da poltrona em que o pai estava sentado e beijou o ancião na fronte.

- Obrigado, papá. Creio que agora posso partir.

Nunca se lembrou como se libertara dos carrinhos de mão que atravancavam sempre as proximidades da casa. A sombra benevolente de Jesus atravessou-se-lhe no caminho ao passar pela sala de espera do hospital para chegar ao seu gabinete de trabalho - esse gabinete de sábado, vazio, e que, uma hora antes, o deprimira sob um peso de solidão. Permaneceu alguns instantes à entrada da porta, certo de ter ouvido extinguir-se o toque do telefone.

Enquanto se dirigia à secretária para abrir a pasta de correspondência a que devia dar despacho, perguntava-se se devia telefonar para Long Island, apenas para saber de Catherine. Porém, quase antes de ter tido tempo para acender o candeeiro da secretária, já estava absorto no trabalho.

E depois aproximou-se a hora do jantar, em que Catherine estaria inteiramente absorvida pelos seus deveres de hospedeira de vinte convidados em trajo de cerimónia. Ela não seria capaz de compreender a paz que ele descobrira naquela miserável habitação, sentado ao lado do pai...

 

Apesar dos estores baixados, o quarto de Bert Rilling estava iluminado pelo reflexo de um sol esplendoroso sobre as águas de East River.

Tony Korff, que acabava de entreabrir a porta, parou um instante, para observar o quadro inteiramente, antes de se atrever a ali entrar pela segunda vez. Sem deter o olhar sobre o leito, sabia por instinto que o paciente, obrigado pela tenda de oxigénio, fingia dormir, reflectindo na melhor maneira de desferir o próximo golpe.

Endireitando os ombros, Tony entrou resolutamente, como um interno modelo que terminasse a ronda de serviço e se sentisse ansioso por completar o relatório sobre o estado do último doente particular que lhe competia visitar. A enfermeira especial que, perto da janela, mergulhara na leitura de um romance, enquanto o doente dormia, levantou-se imediatamente e poisou o livro.

“Pensei em tudo”, dizia Korff para consigo. “Primeiramente, as enfermarias, para o caso de Vicki Ryan estranhar ver-me entrar antes de tempo para o serviço. A primeira visita ritual aqui, simplesmente para permitir ao velho gorila ouvir a minha voz e decidir-se a meu respeito. A partir daqui, dirigirei o jogo à minha vontade.”

- Como vai o doente? - inquiriu.

- Tem passado o melhor possível, senhor doutor. Estou certa de que vai a caminho da cura.

- A última injecção deve ter produzido o seu efeito. vou examiná-lo.

Enquanto falava, aproximava-se do leito, mas sem se apressar, para dar tempo a Rilling. A cabeça, tão redonda como uma bala de canhão e igualmente tão calva, virava-se lentamente por trás da janela de cola de peixe, numa excelente imitação de um homem que despertasse de um profundo sono. A pele do crânio, esticada e brilhante, mostrava-se de um rosa saudável. “Mesmo com esse coração, que ora pára ora palpita, és demasiado coriáceo para morrer!”, disse-lhe silenciosamente Korff.

- Faz favor, enfermeira.

A voz era abafada, mas claramente audível, e um ligeiro gesto dos dedos completou o sentido do pedido: Rilling desejava que lhe tirassem a tenda de oxigénio. A “especial” consultou Korff com o olhar e o médico respondeu com um sinal de aquiescência - mais do que nunca interno modelo bem compenetrado de que um paciente da importância do cervejeiro devia ser satisfeito em todos os seus desejos...

- Levante-lhe um pouco a cabeça, enfermeira, sim?

Enquanto a enfermeira obedecia, afastava-se do leito e observava Rilling sem qualquer mostra de uma recordação. Sob as pálpebras semicerradas, o cervejeiro retribuiu-lhe o olhar; era o olhar de um homem doente, consciente de que vai viver, mas que não sabe exactamente a quem agradecer. Tony deu um passo em frente e pegou-lhe na mão para tomar-lhe o pulso.

- Tem um aspecto excelente - disse ele. - Como se sente?

- Ainda não sei, senhor doutor. Repousado, mas fraco...

A voz de Rilling era uma voz gutural e baixa, e Tony sabia que se devia ao efeito dos narcóticos.

- O doutor Plant já o viu hoje?

Rilling respondeu com um movimento de cabeça, como se o esforço das poucas palavras pronunciadas o tivesse prostrado. Tony sorriu, ao sentir muito quentes, sobre si, os olhos do antigo amigo. Pôs-se em guarda, aconselhando-se a si próprio, como se fosse outra pessoa: “Joga lentamente. Podes permitir-te levar o tempo que quiseres. Mesmo que te berre quando estiverem sós, não esqueças que estás assente sobre os teus dois pés, ao passo que ele está impossibilitado de se mexer.”

A enfermeira interrompeu-lhe o curso dos pensamentos e foi com um rosto atento e cortês que a ouviu:

- O doutor Plant mostrou-se muitíssimo encorajador. Muito optimista. Ordenou interrupções de oxigénio com intervalos progressivamente mais frequentes.

- Examinou Mr. Rilling, bem entendido?

- Aqui estão as suas notas, senhor doutor.

- Por ora, deixemo-las. vou examiná-lo eu próprio, em vista ao nosso relatório.

Enquanto falava, Tony estudava atentamente a rapariga, para descobrir qualquer indício de estranheza que esse procedimento supérfluo e, por conseguinte, irregular, nela suscitasse. Em todo o caso, merecia a pena correr esse risco, ainda que fosse apenas ter Bert Rilling sobre as brasas durante mais alguns instantes.

com a ajuda da enfermeira, fez durar o exame tanto quanto se atreveu, pontuando-o com perguntas numerosas, que o prolongavam. Reparou que a tensão e a temperatura eram quase normais. O doente queixava-se ainda de ligeiras dores nas pernas, mas nada mais compreensível. Andy Gray parecia ter conseguido magistralmente, mais uma vez, pôr de pé uma carcaça já muito estragada e sofredora.

Tony ajeitou cuidadosamente o lençol e a coberta e agradeceu mentalmente do fundo do coração ao colega. Bert estava pronto para ser sabiamente cozinhado.

- Se quiser ir fumar um cigarro lá fora, Miss Lambert, faça o favor - convidou. - Terminei a visita às enfermarias e disponho de todo o tempo necessário para ouvir o que Mr. Rilling ontem não estava em estado de nos contar...

- É muito amável, senhor doutor. Se precisar de mim, estou no alpendre.

Depois de a rapariga sair, Korff fechou sem ruído a porta, mas, quando de novo chegou à beira da cama, o coração pulsava-lhe violentamente. Rilling não se mexera e as suas pálpebras pesadas quase lhe velavam os olhos. Quando falou, fê-lo num tom de camaradagem natural e desprendida, como se a sua separação datasse da véspera.

- Levaste tempo, Tony...

- O tempo para deixá-lo habituar-se progressivamente a mim, Kurt... a menos que, daqui por diante, prefira Bert.

- Esta manhã, sabes... reconheci-te logo.

- Esperava que assim fosse. Não está então muito orgulhoso em reconhecer velhos amigos?

Tony falara muito naturalmente em alemão, empregando o mesmo idioma que o homem deitado.

Adiantou-se e estendeu-lhe a mão. Conhecendo Rilling como conhecia, maravilhava-o o seu sangue-frio. Nem os anos passados, nem o contacto estreito com a morte, que apenas datava da véspera, tinham abalado essa força de aço.

- Não esqueci nada, Tony. A bem dizer, perguntava a mim mesmo quando voltarias a manifestar-te. É muito lamentável que nos tenhamos voltado a encontrar nestas circunstâncias.

“Muito lamentável, para ti”, pensava Korff. “No passado, eras a cabeça e a mão e eu o instrumento que agarravas ou largavas conforme entendias. Hoje, os papéis inverteram-se e tu tens consciência plena desta troca de situações.”

- Está surpreendido por me encontrar médico, Bert?

A mão do outro mantinha Tony solidamente prisioneiro.

- De forma nenhuma! Noutros tempos, já te tinha proposto pagar-te os estudos de Medicina. Não te lembras?

Era perfeitamente exacto. Em tempos, quando se encontrava no auge do poder, em Berlim, Kurt prodigalizava os seus favores. Tony lembrava-se até do motivo que o levara a rejeitar a oferta: calculava que uma ajuda dessa natureza poderia pô-lo para sempre à mercê de Rilling.

- Escolhi a América e ainda não me arrependi.

- Tiveste juízo em abandonares o partido na altura em que o fizeste, Tony.

- Você também, Bert. Primeiro do que eu. Vejo que foi um pouco mais longe.

- No fim de contas, isso de pouco me serviu. Tens o futuro à tua frente. Eu já gastei a minha vida ou, pelo menos, a maior parte dela...

“Lá chegamos”, pensou Korff, dando ao lábio o trejeito familiar. Não julgara que Rilling fizesse um jogo tão rudimentar.

- Não diga isso, Bert. Esteve por um triz, mas conseguimos salvá-lo.

- Tomaste parte na operação?

- Fui o assistente do doutor Gray.

- Ouvi aqui, em East Side General, fazerem-te muito boas referências. Deixas-me ajudar-te quando tiveres todos os teus diplomas?

- Noutros tempos, nunca recusei a sua ajuda, Bert.

- Não me deixaste fazer de ti um médico alemão.

- E bem sabe porquê. Não tinha desejo nenhum de ser incorporado no batalhão da morte. Aqui, é muito diferente.

Rilling sorriu pela primeira vez e Tony notou quanto esse sorriso vulpino lhe alterara a expressão do rosto. Em repouso, a cara do cervejeiro adquiria uma redondeza de lua, o que era a melhor publicidade para os seus produtos: o rosto luzidio e bonacheirão de um bom homem. Nesse momento, em que os seus lábios grossos se levantavam numa careta habitual, parecia subitamente o que era na realidade.

- Eis-nos, pois, dois americanos modelos juntos, hem, Tony!

- Prontos a ajudarmo-nos mutuamente. Isto completa o quadro, não é verdade? Há só uma coisa que não sou capaz de compreender! Se, na verdade, tanto admira a minha carreira de médico e sabia que eu estava a trezentos passos de si, porque não me acenou há mais tempo? Poder-se-ia chegar à conclusão que me evitava...

- Por conseguinte, eis-nos sinceros um para o outro. Pois bem! Eu evitei-te, efectivamente. Tinha o pressentimento de que, tendo-te tornado respeitável, desaprovarias a minha actividade. Estou encantado por ver que me enganei.

“Isto vem mais depressa do que eu seria capaz de esperar”, pensava entretanto o outro. Respondeu:

- Não poderia ter aceite os seus favores, sem nada lhe oferecer em troca...

- Se tivéssemos ficado em Berlim, os dois juntos poderíamos ter ido longe - disse o paciente. - Mas, em comparação com as oportunidades que aqui podemos ter, aquilo não era nada! Queres montar um consultório em Nova Iorque?

- Foi essa, desde o início, a minha intenção.

- Tenho aqui conhecimentos, bem sabes. Conhecimentos excelentes. Abençoarás o dia em que voltaste a encontrar-me, Tony.

- É tudo quanto faz? Excelentes conhecimentos e excelente cerveja?

Depois de ter tornado voluntariamente a voz rude, Tony retribuiu o sorriso do cervejeiro com um sorriso fraterno, e tão bem o fez, que Rilling, um tanto sobressaltado com essa pergunta directa, assumiu um ar que se assemelhava muito a uma aceitação. “Em todo o caso, cessámos uma esgrima fútil”, pensou. “Poderemos desferir reciprocamente golpes directos.” Mas disse’ simplesmente:

- A cerveja pode enriquecer um homem, Tony.

- O contrabando ainda mais - tornou placidamente o interno. - Dá proventos mais avultados e que não figuram na declaração de impostos.

- Chamas-me fraudador, de caras?

- Chamei-lhe nomes piores em Berlim. Não me diga que está a tornar-se susceptível!

- Experimenta, Tony. - Os lábios do cervejeiro apertavam-se. - Experimenta, mas não exageres.

- Continuarei a adivinhar até que me faça parar. Para começar, chegou da Alemanha, com todo o seu dinheiro... e o seu canhenho de moradas. Transportou tudo quanto podia voar ou flutuar, desde os inimigos estrangeiros até a heroína. É um operador hábil a ponto de não ter estrebuchado uma única vez. Até ontem...

Os lábios do cervejeiro desenhavam-se agora a azul sobre a extrema palidez do rosto e o interno receou que a sua tiradazinha tranquila tivesse afectado o coração do paciente. Automaticamente, enquanto prosseguia o seu falatório obstinado, procurou o pulso de Rilling e achou-o na mesma.

- Até aqui, não é verdade? Esse monte de tijolos velhos do outro lado da rua não passa de um disfarce, ainda que consiga inscrever nos seus livros lucros suficientes para explicar o seu género de vida. Um disfarce perfeito para as suas actividades, que se exercem fora das horas de trabalho.

- Ainda é uma sorte não poderes provar uma única palavra dessas, Tony - deixou escapar finalmente Rilling.

- Entre velhos amigos, não há necessidade de provas, Bert... pelo menos, se se compreendem verdadeiramente. Não se esqueça de que sou seu amigo e que você nunca teve demasiados.

Tony calou-se, mas o corpo obeso, estirado no leito do hospital, não buliu. Quando, finalmente, Rilling falou, a sua voz prosseguiu calma:

- Continua, meu tesouro... Cá estou à escuta.

- Aquilo em que ontem à noite mexeu era demasiado... demasiado quente... para deixá-lo tocar por qualquer outra pessoa que não fosse você mesmo... E isso foi realmente o melhor que podia fazer, porque alguma coisa correu mal... A partir daqui, abandono a dedução e mergulho verdadeiramente na adivinha... Todavia, era capaz de apostar forte em como o obstáculo surgiu na própria cervejaria... e que você é a única testemunha viva de uma verdadeira catástrofe...

Sob a mão que o rodeava, o pulso do cervejeiro palpitou como um pássaro que estivesse a morrer. “Ainda que os meus dedos fossem uma antena para descobrir uma mentira”, pensou Korff, “não poderia avaliar mais nitidamente o teu pânico!” Mas, mantendo uma voz tão branda como a do doente, disse:

- Procure manter-se calmo, Bert. Lembre-se que sou seu médico, ao mesmo tempo que seu amigo. Creio que ontem à noite o seu coração lhe pregou uma partida de mau gosto...

- Certamente, Tony...

- Porque o trabalho não estava terminado?

- Di-lo assim, se quiseres; isso poupar-me-á tempo.

- Quer isso dizer que precisa de mim? É mais do que eu teria ousado esperar.

- Não sejas hipócrita, Tony.

- Mas eu desejo ajudá-lo! Como pode duvidar disso por um instante que seja?

- Segundo as tuas condições, não?

O acento tudesco do cervejeiro parecia voltar-lhe, mais pesado a cada aspiração difícil. Por muito habituado que estivesse à algaravia gutural do antigo amigo, Tony era obrigado a dar atenção às palavras.

- Os médicos têm de viver, Bert, tal como os cervejeiros. Realizei outros trabalhos para si, ao seu preço.

- Talvez, no fim de contas, não precise de ti.

- Estaria eu aqui, se assim fosse?

- Sempre o mesmo velho Tony, não é verdade? Tão velhaco como antigamente.

Tony afastou-se do leito. Marcara o seu ponto e sentia o coração impar de triunfo. Porém, era ainda demasiado cedo para permitir que Rilling lesse a intensa exultação que lhe brilhava no olhar.

-- Diga-o à sua maneira, Bert. Estou cansado de adivinhar.

 

A voz cansada do cervejeiro ronronou lentamente, longamente.. . Segundo o que sabia de Rilling, segundo o que soubera ao consultar as pastas de arquivo do Chronicle, Tony sabia que o antigo associado dizia a verdade... ou, pelo menos, verdade suficiente para servir o seu objectivo de momento...

Consequentemente “a coisa” - fosse ela qual fosse! estava fechada no cofre-forte da cervejaria. A entrega deveria ter lugar à meia-noite, a bordo de um cargueiro enferrujado, do outro lado do rio. Tudo quanto lhe competia fazer, em substituição de Rilling, era abrir esse cofre, retirar do interior a garrafa selada, mostrar uma luz na porta que abria sobre a água e esperar o raspar de um croque contra o cais, logo abaixo. Quanto ao resto, o capitão Falk do Baltic Prince tomaria as providências necessárias... “A história é de uma simplicidade clássica”, pensou Tony com uma careta estranha. “Mais três minutos e tudo parecerá cada vez mais simples.”

- O que há dentro da garrafa, Bert?

- É preferível que o não saibas.

- Acho que, por ora, tem razão.

Tony sorriu do seu próprio segredo e permaneceu à janela.

- Falk não ficará surpreendido por não o ver apresentar-se pessoalmente?

- Já fiz outras entregas por mãos de outras pessoas.

Tony ponderou silenciosamente essa flagrante falsidade.

- E se a noite decorrer sem qualquer espécie de sinal?

- O cargueiro já terminou as formalidades alfandegárias. Partirá com a maré.

- E os seus contratos ir-se-ão pela água abaixo se a entrega não for feita a tempo?

- De maneira nenhuma. Será mais simples, todavia, para os diversos interesses que a entrega se realize à hora combinada.

- Ainda há tempo de prevenir o capitão. Diga-lhe que eu e só eu estarei esta noite no cais.

- É preferível que ignore o teu nome, Tony.

- Preferível e muito. Bastar-lhe-á dizer que um homem com a indumentária branca de cirurgião estará à espera com o embrulho e que está autorizado a receber a soma habitual.

- Estou demasiado fraco para escrever, Tony.

- Eu escrevo então o bilhete e você sempre poderá assiná-lo.

Certificou-se pela segunda vez da sua influência, ao sentar-se à mesa, sem que Rilling fizesse qualquer objecção... As palavras brotavam facilmente da caneta para a folha de papel do hospital que tinha por baixo da mão... “O hábito é uma coisa tenaz”, pensava. Nunca teria esperado ver Kurt Schilling assinar sem protesto as suas instruções ao capitão Falk. Todavia, o nome de Bert Rilling, cortando a parte inferior da página, era apenas uma consequência lógica e previsível dos acontecimentos recentes.

- Quer que lhe leia o texto em voz alta?

- Não vale a pena, Tony. Até aí, confio em ti!

- E que farei do dinheiro?

- Podes trazer-mo aqui amanhã. - A voz do cervejeiro era fraca e surda como um eco de além-túmulo. - Dividiremos o bolo ao meio, se te convém.

Tony distendeu o seu sorriso de lobo. Outrora, nos tempos de Berlim, nunca desejara outra coisa, “um pagamento pelos serviços prestados”, um salário de trabalho, em resumo. Dessa vez, metade da receita... Sentiu-se desfalecer, mas soube disfarçar a emoção sob uma aparente indiferença.

- Qual é a tarifa habitual para a entrega?

- O dinheiro virá num sobrescrito branco sem qualquer indicação. Se quiseres, poderás contá-lo em seguida.

- Não me deixe na incerteza, Bert...

- Para esta espécie de... carga... o preço... geralmente... é de cinquenta mil dólares.

Tony reprimiu a tempo uma exclamação de espanto. Não se atrevera a especular sobre o montante financeiro dessa noite. Desde que tinha o resultado ao alcance da mão, sentia apenas um imenso alívio ao pensar que esse favor que ia prestar a Bert Rilling, seria, ao mesmo tempo, um começo e um fim.

- Será capaz de dividir cinquenta mil dólares “ao meio”, Bert?

- Porque não... visto que não tenho por onde escolher? “Não tens por onde escolher, com efeito”, tornou o outro, em silêncio. “Esta noite asseguras e proteges os teus conhecimentos de negócios... e tanto pior para a despesa! Amanhã, ser-te-á fácil eliminares-me por representar uma ameaça para o teu futuro.” Inquiriu:

- Diga-me, Bert: não é muito perigoso jogar-se sozinho?

- Tu e eu nascemos para correr riscos, Tony.

- Não teria então um só ianque em que pudesse confiar para uma tal operação, se não me encontrasse?

- Nunca pensaste que eu te sabia aqui e que talvez te guardasse como reserva, precisamente para uma circunstância deste género?

- Diga a coisa de outro modo. Talvez se encontre no fim dos seus dias e Deus me tenha enviado no momento devido. Ou o diabo... talvez... visto que nem você nem eu acreditamos já em milagres.

Observou que o cervejeiro procurava debilmente soerguer-se, no seu ninho de almofadas, para imediatamente nelas recair. As mãos que acalmaram Bert Rilling não poderiam ter sido nem mais hábeis nem mais impessoais.

- Desculpe, meu amigo - murmurou. - Desculpe. Não faça caso da rudeza da minha linguagem. Há muito que devia estar habituado a ela.

- Posso... tomar... um pouco de água, Tony?

O delgado tubo de vidro e a água encontraram-se quase no mesmo instante na mão do paciente... Enquanto a aspirava avidamente, Tony observava-o a uma imensa distância. Uma parte do seu espírito prendia-se a esse pulso que palpitava como um pássaro, em consequência da inegável cianose que começara a invadir as gordas faces porcinas; a outra parte, a mais activa, avaliava a importância na vida de um interno recentemente licenciado em Medicina, na posse de cinquenta mil dólares, isentos de impostos, e na perspectiva de montar um consultório nas falésias de Manhattan.

- O segredo do cofre, Bert?

- Na minha pasta, com as chaves. Entrarás... pela porta do lado... entre a residência das enfermeiras... e o quarteirão de edifícios para operários.

Tony pegou no gráfico, suspenso aos pés da cama, com um pequeno gesto desprendido. Soubera tudo quanto pessoalmente quisera saber. O que o gráfico lhe diria não passava de rotina profissional.

- Amanhã de manhã, as coisas irão melhor, Bert. Não lamentará ter confiado em mim.

- Tenho a certeza disso, meu tesouro...

- Vejo que o doutor Plant prescreveu um sedativo. Gostaria de tomá-lo já? Adormecer agora e acordar depois do trabalho feito?

Não esperou pela resposta do cervejeiro. Empunhava já a seringa que mantinha disfarçada pelo pano esterilizado que se encontrava na mesinha-de-cabeceira, antes de aperceber o débil sinal de cabeça de Rilling.

- Heparina - murmurou-lhe. - Simplesmente para evitar a formação de um novo coágulo. Não quer dizer, evidentemente, que esperemos que isso aconteça! É uma simples precaução.

Abençoou mais uma vez o tagarelar fluente do hospital, que lhe permitia velar o pensamento sob uma vaga de palavras vãs. Teria desejado dissimular também o tremor dos dedos quando experimentou o funcionamento do êmbolo da seringa.

- Quer de facto tomá-lo agora, Bert? Se prefere, pode esperar a chegada do doutor Plant.

- Esta noite quero dormir. E quanto mais cedo, melhor.

A voz do cervejeiro era um murmúrio rouco, a súplica choraminga e ácida do paciente que espera a injecção e que todos os internos conhecem tão bem.

As mãos de Tony tremiam ainda ao erguer a seringa e ao enchê-la de ar. Ninguém sabia exactamente de que importância devia ser uma embolia gasosa para matar uma pessoa... mas cinquenta centímetros cúbicos deviam bastar. Lançou uma rápida olhadela à porta. A “especial” de Rilling parecia muito experiente. Não acreditava, porém, que entrasse no quarto sem primeiramente bater à porta...

- A injecção, Tony, por amor de Deus, a injecção! “Sofres então verdadeiramente”, pensou, observando o rosto, as faces e o pescoço purpúreos, reclinados sobre a almofada. “Sob um certo ponto de vista, seria mais simples entregares o teu futuro nas mãos do diabo, que se ocuparia muito bem dele... mas cinquenta mil, sempre são cinquenta mil, dê lá por onde der...”

Apressou-se, pois, para junto do leito e com a mão livre colocou o garrote.

- Feche a mão, Bert; é um instante.

O tubo do torniquete mordeu firmemente a carne mole do antebraço; quando Rilling fechou a mão, as veias incharam instantaneamente e, com uma sacudidela rápida da mão direita, o interno repeliu o pano que cobria a enorme seringa, que se apressou a tapar com um movimento do ombro.

A agulha enterrou-se no primeiro vaso sanguíneo, azul, inchado, e, antes de ter podido introduzir o êmbolo na seringa, esta encheu-se parcialmente de um líquido vermelho-escuro. Não era a altura de arriscar um coágulo na agulha, impedindo assim a passagem da injecção mortal.

Entretanto, Korff perguntava-se se Bert reparara que não lhe desinfectara a pele com álcool. Certamente que os micróbios não fariam qualquer mal ao cervejeiro na viagem que estava prestes a empreender.

Os dedos experimentados do interno indicaram-lhe que o ar já começara a semear bolhas na onda sanguínea. Carregou lentamente o êmbolo... O forte pulsar do próprio coração junto à garganta dava-lhe uma sensação de atabafamento... “Pela primeira vez”, pensou, “sou simultaneamente médico e assassino. Ninguém se lembrará de discutir a certidão de óbito que daqui a meia hora assinarei. Embolia pós-operatória, resultante de fibrilação. A única Nemésis que a Medicina não pode ter esperanças de vencer. O próprio Andrew Gray aceitará o meu relatório de olhos fechados.”

- Estás a dar-me morfina, Tony?

Acalmando suavemente Rilling, com a mão livre, fê-lo voltar no travesseiro.

- O melhor remédio do mundo... remédio que apaga todos os sofrimentos...

- Não me dá a impressão habitual da injecção.

- Porque havia de dar, meu amigo? É apenas ar...

- Ar?... Mas isso não vai...

Sentiu sob o polegar o êmbolo chegar ao fim do seu percurso e teve a certeza de que a seringa esvaziara o seu conteúdo gasoso na veia. com um movimento hábil, retirou a agulha dessa carne condenada, deixou-a cair sobre a mesinha-de-cabeceira e, apertando com as duas mãos os ombros de Bert, manteve-o firmemente encostado às almofadas.

- Não vai, Bert... Já?... Não o sente?

O doente afastou os lábios azulados de onde não saiu qualquer som. As mãos de Tony, tão rijas e firmes como pinças de aço, fixavam à cama o corpo fracamente sacudido por convulsões. Viu o braço esquerdo da vítima erguer-se com um estremeção e depois recair inerte e mole - prova certa de que o ar atingira o cérebro.

- Adeus, Kurt. Pense simplesmente no que não deixaria de fazer-me amanhã.

O corpo teve ainda um estremecimento, enquanto os olhos do cervejeiro pareciam querer saltar para fora das órbitas, na enormidade dessa luta final pela vida. Um fiozinho de sangue escorreu do canto da boca de Rilling, no ponto em que mordera o lábio, numa última convulsão.

E depois também o lábio se tornou mole...

Tony Korff afastou-se da cama, pegando de passagem na seringa. Limpou-a cuidadosamente, e colocou-a, tal como a encontrara, debaixo da toalha esterilizada.

O quarto estava tão silencioso como um túmulo e, no corredor, não se ouvia qualquer ruído...

Tony respirou profundamente, reprimiu um formidável berro de triunfo e fez girar a maçaneta da porta...

Uma vez mais, jogara...

E ganhara.

 

Suja por meio século de nevoeiro e de fumo, a montra de Greek dava, quando muito, uma vista amortecida da esplanada e das portas de East Side General. Nessa noite, enquanto o Sol deixava morrer os seus últimos raios sobre as fachadas das habitações operárias, Júlia Talbot já não tinha a certeza se as paredes elevadas e brancas do hospital eram reais ou se seriam apenas uma consequência dos seus sonhos despertos. Sabia que Andrew sairia a tempo da prisão branca e sentara-se confortável e tranquilamente numa box mural do pequenino restaurante que servia a todas as horas o pessoal do hospital.

Ao inclinar-se para deitar açúcar no café quente, ouviu o telegrama estalar dentro da mala usada. Abriu-a e desdobrou a mensagem de Timmie Gray sobre a mesa de mármore - pouco higiénico, verdadeiramente! Não foi por necessitar de tornar a lê-la, pois já quase a sabia de cor, mas porque queria que Andrew a visse mal fosse sentar-se a seu lado. Não esperava que ficasse muito surpreendido. Mal tomara a sua decisão, sentira-se envolvida por uma grande paz, quase por uma vestimenta visível e palpável. Se Andrew se recusasse a partilhar dessa paz, tanto pior... Nada mais podia oferecer-lhe...

- Está à espera há muito tempo?

Encontrava-se finalmente de pé junto à mesa, e Júlia fitava-o com os olhos desconcertados, como se um estranho lhe tivesse dirigido a palavra. Embora apenas algumas horas se tivessem escoado desde o seu último encontro, pareceu-lhe envelhecido... e muito mais fatigado! Tão fatigado como nunca se lembrava de tê-lo visto! Mesmo ali, a bata branca de cirurgião continuava a ser a sua indumentária, sob o casaco de tweed grosso. Sem obedecer a uma vontade precisa, Júlia Talbot estendeu um punho fechado contra a armadura engomada como se tivesse esperança de tocar o coração humano que batia por baixo.

- Não quer sentar-se por um instante ao meu lado?

- Só por um instante - respondeu com uma voz que, tanto como o rosto, traía uma lassidão extrema. - O seu bilhete dizia que era urgente...

- Pelo menos, para mim... - replicou Júlia, esforçando-se por sorrir.

- Por que insistiu em que este encontro se realizasse aqui?

- Achei que era mais do que tempo de nos encontrarmos fora do hospital. Quer perdoar-me se isso lhe parece sentimental?

- Perdoo-lhe tudo - redarguiu Andy, passando a mão pelos olhos. - Tenho tido um dia árduo, cheio de trabalho. Foi um verdadeiro choque perder Rilling, como pode calcular, embora sempre tivesse receado que um coágulo pusesse fim ao meu trabalho. De resto, Korff pensava o mesmo...

Júlia não fez qualquer comentário. Devia ter-se retraído com a indiferença que ele testemunhava à sua proximidade, sobretudo depois de o ter convocado para ali. Mas bastava-lhe senti-lo a seu lado, embora o seu pensamento estivesse longe e absorto.

- Espero que não esteja muito fatigada para “fazer” Jackie comigo, esta noite. Já dispensei Korff como assistente. Não me pareceu muito bem disposto. O doutor Easton vai substituí-lo.

- Bem sabe que, por nada deste mundo, quero perder Jackie.

- Se quiser, poderá tomar Miss Ryan como ajudante. Já a inscrevi para a chamada em caso de necessidade.

- É absolutamente necessário falarmos do hospital, Andy?

- É um hábito difícil de perder-se - desculpou-se, conseguindo esboçar um sorriso. - Sei que devia ser cortês e informar-me da razão que a levou a convocar-me tão bruscamente. Mas estou certo de que ma dirá...

- Queria despedir-me de si - a voz tremia-lhe um pouco, mas o olhar não fraquejou - e queria fazê-lo fora do hospital.

- Então, abandona a profissão enquanto ainda é tempo...

- Não a profissão, Andy; East Side General, apenas.

Estendeu-lhe o telegrama, esperando em silêncio que ele terminasse a sua leitura.

- Como pode ver, não enviei aquela carta. Isto é a confirmação de uma conversa telefónica que tive com seu irmão. Disse-me que eu própria fixasse a data da minha chegada. Neste momento, o meu pedido de demissão já se encontra no gabinete do doutor Ash e Jackie será a minha última ocasião de trabalhar consigo...

- A não ser que eu também vá para a Florida?

A violência com que lhe lançou esta interrupção surpreendeu-a, mas não lhe quebrou o sangue-frio.

- Naturalmente, julga-me completamente doida, não? É um cumprimento que lhe retribuo com os interesses à margem. Vocês aqui, em Nova Iorque, matam-se. Matam-se sistematicamente, porque não conseguem dominar a ambição que os leva a quererem ser um outro Martin Ash... Na Florida, não seria absolutamente impossível que, ao despertar de manhã, descobrisse que está vivo... - A voz acabou por calar-se, mas resistiu heroicamente, um momento mais, escondendo nas mãos um rosto banhado em lágrimas. - É evidentemente pedir demasiado a um homem. Sobretudo a um homem que alguém está disposto a comprar ao preço que ele quiser fixar...

Sentiu os punhos apertados por uns dedos firmes e, enquanto Andy lhe baixava as mãos, fitou-o com os olhos molhados.

- É isso que a faz fugir? Por esse espectáculo ser superior às suas forças?

- Considere essa uma das minhas razões, se assim o quer respondeu vivamente. - Mas eu não fujo. vou para onde têm realmente necessidade de mim...

- Não lhe pedirei que reconsidere, antes de tomar uma decisão - declarou Andy gravemente. - Dir-lhe-ei simplesmente porque cheguei atrasado. Depois disso, voltaremos para o hospital e travaremos a nossa última batalha em comum...

- É fácil de adivinhar! Estava a combinar com Pat Reed um encontro para esta noite, depois da operação de Jackie...

- Pat pediu-me que passasse depois pelo apartamento dela - expôs com a mesma fleuma exasperante. - Todavia, como a nossa conversa telefónica durou apenas um curto momento, não foi isso que motivou o meu atraso. Encontraram, há meia hora, Emily Sloane morta no quarto, e tive de passar uma certidão de óbito... por suicídio.

Júlia olhava-o e as lágrimas secaram-se ao longo das faces, embora a notícia não a espantasse grandemente. Há muito que tinha o pressentimento de ter adivinhado a desgraça da vigilante e o seu motivo provável.

- Não quer que lhe diga por que razão Emily morreu, Júlia? Evidentemente, temos o cancro, em primeiro lugar... já o deve ter suspeitado. Mas ela sofria uma outra espécie de morte lenta. A solidão também a matou. Essa espécie de solidão que só uma mulher activa e ocupada conhece se ninguém precisa dela...

- Por que me conta isso, Andy?

- A moral da história devia saltar-lhe à vista, rapariga. Deixe Timmie arranjar outra enfermeira e fuja, fuja enquanto ainda é tempo... Ainda tem atractivo suficiente para caçar um homem!... - Largou-lhe bruscamente as mãos e pareceu lamentar essa explosão imprevista. - Já se sabe que não ouviu uma única palavra. A seu modo, é tão casmurra como eu!

- Tão casmurra, absolutamente! - concordou Júlia. Vamos trabalhar?

Levantaram-se juntos, atravessaram a sala e penetraram na grande sombra branca do hospital.

“...É uma sombra branca!”, pensou Júlia. “Uma sombra pálida como a morte e pura como o vestido de um anjo!”

- Sente-se de regresso a casa, Andy?

- De regresso ao trabalho. Nos nossos tempos, não acha que já é suficiente?

“Regresso ao trabalho! Nisso é sincero”, monologou silenciosamente Júlia. “Para ele, o trabalho e a vida foram sempre sinónimos. Agora tem demasiada experiência e demasiado bom senso para mudar de opinião, para me ser possível pedir-lhe que ache um sentido independente para cada um.”

- É o único género de lar que terei em toda a minha vida. Creio que sou efectivamente doida em esperar melhor.

- Dá-nos alojamento e alimento. E, às vezes até, deixa-nos sentir como o bom Deus. Ganho, perda ou empate, sempre é alguma coisa a que vale a pena pertencer.

- East Side General... ou o culto de curar!

De comum acordo, detiveram-se à entrada das grandes portas de acesso à vasta sala de espera, dominada pela enorme e benevolente estátua de Cristo. Sem ter necessidade de uma verificação, Júlia teve a certeza de que o padre O’Leary velava, no seu posto habitual, sereno como o próprio tempo e sublimemente seguro de que o futuro do homem está, exactamente como o seu passado, entregue em boas mãos.

- Passemos pela residência das enfermeiras, Andy. Esta noite não me sinto capaz de encarar o padre.

- Porquê? Envergonha-se de abandonar as fileiras?

- Não sou eu que deserto - retorquiu a rapariga, dirigindo-se para a grande curva de caminho cimentado que permitia entrar no hospital pelas traseiras.

Andy só voltou a soltar palavra quando se encontraram na sombra familiar da Schuyler Tower.

- Procure não detestar-me Júlia! O meu lugar é aqui, ainda que já não seja o seu.

“Tu e Martin Ash”, acusou Júlia em silêncio, ao notar a claridade que se escoava pela janela do gabinete do director. Sem precisar de informar-se e sem o mínimo receio de errar, tinha a certeza de que o Dr. Ash estava sentado, exactamente no meio do seu paraíso de ar condicionado, tendo atrás de si um dia cheio de trabalho bem cumprido e à sua frente, como preocupação imediata, os vagabundos apodrecidos de uísque que, nesse mesmo momento, ouvia vociferar na enfermaria dos alcoólicos.

“East Side General é o refúgio universal, um quebra-mar inexpugnável oposto aos ventos da vida... Um abrigo para todos quantos nele se apresentam, sem distinção de idades, de raças ou de religiões...”

- Diga-me uma coisa, Andy. Quando saiu pela última vez?

Sentiu o olhar do médico perscrutá-la profundamente e convenceu-se de que a compreendera, muito antes de se resolver a responder-lhe.

Quando o fez, foi de resto com uma outra pergunta:

- É um ponto essencial?

- Procure responder-lhe sinceramente; é importante.

- Mas por que havia de sair? O meu lugar é aqui, como o de um abade num mosteiro.

- Perdoe-me, mas não consigo ver Pat Reed casada com um abade - troçou.

André w observou tranquilamente:

- Não precisa de ser sarcástica pelo facto de ter encontrado uma linha de retirada.

- Tem a certeza absoluta de não querer fazer o mesmo?

- Escute, Júlia: por esta noite, basta de gracejos! Neste momento, estão a preparar Jackie para o O. R.

- Ainda estamos cá fora. Ainda estamos a tempo de salvar as nossas vidas...

- Tanto pior para as nossas vidas! - respondeu Andrew Gray. - Fomos criados e postos neste mundo para salvarmos a vida dos outros. E sem sede de glória. Ou já se esqueceu disso?

Enquanto falava, pousara-lhe as duas mãos nos ombros e fê-la virar-se lentamente para dar-lhe toda a liberdade de escapar-se antes de a apertar nos braços e de trocarem um desses beijos que pareciam nunca mais acabar. Quando, por fim, a largou, desejou:

- Seja feliz na Florida, Júlia. É mais merecedora de felicidade que a maioria de nós.

Ela olhou-o, desafiando-o a dizer mais coisas, mas ele já recuara um passo para permitir-lhe que o seguisse. Não voltaram a falar, enquanto atravessavam o pátio já banhado pelo crepúsculo. Entraram ainda em silêncio no elevador que os conduziu directamente à cirurgia.

“A nossa guerra privada chegou ao termo”, pensou Júlia. “Quer deponhas ou não as armas, daqui a algumas horas será a ti que competirá decidir e não a mim.”

 

 

Quando o Dr. Andrew Gray chegou finalmente à sala de operações, o relógio colocado por cima da porta acusava sete horas e meia. O residente parou um momento no corredor familiar, revestido de azulejos claros, para ter tempo de se lembrar de que ia transpor o último Rubicão... com Júlia atrás de si, recuperaria uma parte da calma. No fim de contas, se ela insistisse nessa resolução idiota de abandonar o hospital, não seria ele que a impediria de fazê-lo. O tempo, esse miraculoso curandeiro entre todos, curá-la-ia das suas ilusões, incluindo a que a levava a supor que a sua felicidade e a dele, Andrew Gray, cirurgião residente do East Side General, estavam irrevogavelmente dependentes uma da outra.

“Posso dirigir-me a essa mesa quando me apetecer e sem que troquemos mais nenhuma palavra”, afirmou a si próprio silenciosamente. “Mal ela tenha deixado entre nós um milhar de milhas, depressa me esquecerá.”

Durante a hora que acabara de passar-se, fizera ao Dr. Ash uma exposição completa da operação que ia realizar. Jackie, nesse momento, era o único problema que para ele contava, um enigma difícil de resolver e que havia de requerer toda a sua perícia. Entrou com passo firme na sala de operações... e praguejou intimamente por lhe parecer que as luzes incidentes sobre a mesa fraquejavam. Imaginara que teria sempre Júlia a seu lado, a preparar os instrumentos; não previra que os seus olhos se embaciariam à ideia de perdê-la.

Passou ao lavabo, sem ter voltado a encontrar o olhar da rapariga. Uma vez fechada a porta atrás de si, sentiu-se em segurança. Pouco lhe importava que Dale Easton já se encontrasse a escovar as mãos e o considerasse com um olhar pensativo. Mal o seu cotovelo mergulhou no líquido anti-séptico, voltou a si.

- Tens a certeza de que isto não virá sobrecarregar demasiadamente o teu dia de trabalho, Dale?

- Nem penses nisso. - O anátomo-patologista sorriu, sacudindo a escova para unhas. - Estou pronto a reconhecer que me sinto nervoso como uma enfermeira no seu primeiro ano de serviço. Mas como sou um velho passarão, sei que isso me passará. Desde que me instruas agora convenientemente, antes de começarmos...

- Certamente já foste obrigado a autopsiar bastantes casos deste género para estares bem documentado!

- De mais até, Andy! De mais... Mas hás-de confessar que não é bem a mesma coisa! Que esperanças há efectivamente de salvar esse garoto?

- Mais de cinquenta por cento. E não digo mais nada.

À medida que falava, Andrew sentia os nervos acalmarem-se. “Na verdade, sou mais uma máquina do que um homem!”, pensou. “Quando vir Júlia do outro lado da mesa, ela fará parte da máquina sem a comparticipação de qualquer emoção humana. “ E agradeceu a Deus esse desprendimento a que conseguira constranger-se. Aprendera, desde há muito tempo, que, para conseguir salvar vidas, devia poder libertar-se à vontade das suas emoções pessoais. Nessa noite, teria necessidade de um inteiro poder de autodesprendimento...

Dale Easton falava:

- O quadro clínico é claro, evidentemente. Uma atrofia que impede o acesso normal do sangue aos pulmões, além de um defeito nas próprias paredes do coração. Tu propões-te estabelecer uma ligação com o sistema arterial, via artéria pulmonar...

Andy ouvia a voz do amigo sussurrar muito ao longe. “O escalpelo pode operar maravilhas”, pensava. “Pode até fabricar um coração novo, se a mão que o guia for suficientemente perita. Esta noite, ter-me-ia sido possível restaurar o meu próprio coração integralmente, pronunciando apenas meia dúzia de palavras... Em vez disso calei o bico...” Essa voz acusadora hesitou e acabou por extinguir-se em qualquer ponto do seu cérebro. Obrigou-se a dar atenção ao anátomo-patologista. Tinha a certeza de que, nessa noite, a galeria estaria apinhada. Exactamente como Dale, precisava de um estimulante.

- Chama-lhe uma fantasia da natureza, se quiseres - disse ele. - Durante o período de desenvolvimento do feto, existe normalmente neste uma passagem entre a artéria pulmonar e a aorta, a fim de permitir que os pulmões, que ainda não funcionam, recebam, todavia, o sangue que não são capazes de impulsionar. Se essa passagem directa não se fechar convenientemente depois do nascimento, é necessário operar e interromper essa ligação para isolá-la. No caso de Jackie, verifica-se o contrário: é necessário criar artificialmente uma abertura semelhante. A mesma condição, o mesmo estado tanto pode salvar uma vida como pô-la em perigo.

- A filosofia do bisturi, hem?

- Exactamente. Nas mãos de um criminoso ou simplesmente de um inapto, a faca pode matar. Convenientemente utilizada, pode dar vida.

- A energia atómica, igualmente. Todavia, duvido que possamos ver o seu dia.

- Não desesperes tão facilmente da espécie humana! É um insulto ao modo por que ganhas a vida. Lembra-te de que, quando éramos internos, o único tratamento existente para certos bócios, era a cirurgia. Hoje em dia, o doente engole muito simplesmente uma dose de iodo radioactivo e torna-se um isótopo humano. No fim de uma semana ou duas, grande parte do iodo concentrou-se na tiroideia e a cura efectua-se.

- Nem sempre.

- A média vai muito acima de vinte e quatro por cento. É uma percentagem que nunca conseguiríamos obter através da cirurgia e o processo tem a vantagem de ser consideravelmente menos perigoso. Quem sabe se algum dia não se encontrará uma arma análoga contra o cancro? Se a pobre Emily tivesse nascido meio século mais tarde, provavelmente ter-se-ia escapado sã e salva.

Dale Easton, já escovado, começou a meticulosa operação da secagem dos dedos, cada um por sua vez, das mãos e dos braços.

- Não te evadas tão prontamente do teu século! Pode ser que a raça humana não lhe sobreviva... ainda que o iodo seja agora radioactivo.

- Não me digas que há uma hora estavas resignado... a ser reduzido a átomos?...

- Preparado é uma palavra mais exacta, Andy. Julgas que esse tipo, seja ele quem for, a utilizou para se encobrir?

- É o que eu penso, neste momento... embora a polícia não seja desta opinião. Esses agentes do estrangeiro só são tipos brilhantes no momento em que são caçados.

Andy interrompeu-se para sorrir a Vicki Ryan, que abria a porta do lavabo. Não o surpreendera que ela tivesse abandonado a sua enfermaria para assistir à operação de Jackie. Sabia que o suicídio de Emily Sloane abalara profundamente Vicki até ao íntimo do seu ser - mesmo antes de ter compreendido que o manto da vigilante-geral lhe recairia certamente sobre os ombros.

- Dê-nos mais dois minutos, Miss Ryan...

A voz de Vicki era um escudo perfeito para disfarçar o seu tumulto interior:

- O doutor Korff não se prepara para esta operação? Já tinha tirado para fora as suas luvas.

- Tony não se sente bem-disposto. Creio que o Dr. Easton poderá muito bem substituí-lo. Não acha?

A essa tentativa de gracejo, totalmente inesperada, Vicki, surpreendida, ergueu o sobrolho. “Ela percebe porque estou a dizer graças pesadas”, pensou Andy. “Esta noite, East Side General marcou-a com o seu ferro e levar-lhe-á algum tempo a adaptar-se a esta amarga realidade...”

Lançou, por cima do ombro de Vicki, uma olhadela à agitação da sala contínua e, durante um instante, regozijou-se sinceramente por Júlia ter resolvido escapar-se dali.

- Não é uma mudança radical para o doutor Easton? inquiriu a alta enfermeira, sempre tão impessoal como um bloco de gelo. - Que medida de luvas calça o doutor? <,

- O sete e meio serve - respondeu Dale.

Suspirou ao vê-la afastar-se. “

- Pobre Vicki! É um golpe sério pensar que acabará na respeitabilidade!

-- Muito! - concordou Gray.

Virou-se para enfiar a bata branca que uma estagiária lhe oferecia de braços estendidos. “O fato branco do sacerdote”, pensou, “o fato esterilizado do salvador, que se isola, durante um tempo, dos aborrecimentos que assaltam a generalidade dos mortais...”

Finalmente vestido e enluvado, penetrou no seu domínio com as mãos envolvidas numa toalha esterilizada. Bastou-lhe um olhar para verificar que tudo estava a postos. O corpo de Jackie parecia muito mais pequeno, nessa sala alta e abobadada, sob a impiedosa toalha de claridade branca.

Dale terminara os preparativos complicados: o jovem paciente estava deitado de costas, com o lado direito do peito levemente soerguido e com todo o campo operatório pincelado de escarlate. O minúsculo tubo intratraqueal achava-se colocado no seu lugar, alimentando os pulmões da criança com uma mistura de oxigénio e de ciclopropano, a que se adicionara uma leve quantidade de éter. Gray notou que a respiração de Jackie era calma e regular. Como sempre, devido ao coração enfermo, os seus lábios e lobos das orelhas mostravam-se ligeiramente coloridos de azul. Nesse momento, recebia mais oxigénio do que ordinariamente. Graças ao ciclopropano, era até possível administrar uma concentração mais elevada desse precioso elemento do que a existente normalmente na atmosfera.

- Pelo que vejo, ainda está em forma, doutor Easton? Quer fixar o oxímetro?

Recuou um pouco para permitir que o patologista fixasse o instrumento de precisão ao lobo da orelha de Jackie, antes de mudar de luvas. O oxímetro era um desses barómetros modernos, que fornecem ao cirurgião um grande número de informações, durante uma longa operação. Indicando constantemente a cor do sangue, podia assim dar uma informação particular: um aumento de vermelhidão significava uma maior riqueza de oxigénio e uma diminuição, um abaixamento. No caso de Jackie, a indicação inicial estaria bem abaixo do normal: Andrew não a esperava agora.

Encontrou o olhar de Júlia apenas uma vez, enquanto a jovem dispunha sobre o corpo da criança o lençol recortado por uma janela quadrada. Mas foi um olhar que nada lhe disse. Concedeu-se ainda um minuto para inspeccionar minuciosamente, um a um, todos os elementos do seu arsenal de aço - bisturis de lâminas protegidas por aplicações de gaze, pinças destinadas a reter os primeiros afluxos de sangue, raspadores e o costotómio, para o caso de ser necessário efectuar um corte de costelas, o afastador de costelas, provido de fortes mandíbulas, pronto a distender a caixa torácica, a fim de proporcionar ao cirurgião um espaço em que trabalhar, mal penetrasse na cavidade pleural.

Sobre uma mesa maior, alinhadas em filas precisas, encontravam-se as delicadas pinças forradas de cauchu, que serviriam para conter o afluxo de sangue nos vasos sanguíneos, onde a verdadeira operação de curto-circuito seria efectuada. Mesmo ao lado, as frágeis agulhas que passariam fios de seda, semelhantes a raios de luz, através das paredes desses mesmos vasos, estabelecendo a anastomose vital que faria derivar o sangue para o leito rico em oxigénio dos pulmões.

- Quando estiver pronto, já nos achará à sua disposição, senhor doutor.

Fora Júlia que falara. Andrew voltou à mesa de operações de cabeça gravemente inclinada para baixo. Infringindo o princípio que preceitua que um bom actor nunca deve olhar para o público, ergueu os olhos para a parede de vidro da galeria de observação. Esperava uma multidão, pois essa operação raramente se realizava e a própria natureza dessa anastomose entre grossos vasos sanguíneos conferia-lhe um interesse particular. Mas não estava preparado para o espectáculo da galeria, apinhada até o cimo, com uma tripla fila de rostos quase sobrepostos por cima do universo inundado de luz onde ele reinava como senhor supremo... Baixou os olhos para o trabalho e falou pelo microfone, colocado mesmo acima da sua cabeça...

- Temos aqui um caso clássico de tetralogia de Fallot. Já mostrámos que a aorta está na sua posição normal, sobre o lado esquerdo, pelo que faremos a nossa incisão do lado direito do tórax, penetrando, se possível, na cavidade pleural, através do segundo espaço intercostal...

Ouviu a própria voz salmodiar com regularidade e desejou ter a mão igualmente firme, quando desse o primeiro golpe de bisturi. Do outro lado da mesa, os olhos de Vicki, sob a luz incandescente, mostravam-se tão azuis como o azul do gelo de Inverno. De pé, no seu posto, junto à mesa dos instrumentos, Júlia era apenas uma mancha branca na penumbra e até o fim da operação não seria outra coisa para Andrew Gray.

“Agora, Júlia está atrás de mim”, pensava, “no passado, como qualquer coisa que podia ter sido uma realidade e que, sem dúvida, lamentarei até o fim dos meus dias. Júlia escapou-se, libertou-se, mas eu fico preso na ratoeira - e, à minha maneira, tão docilmente como Vicki Ryan.”

- Como hão-de notar, seguiremos a técnica de Blalock. Procuraremos obter o máximo de exposição entre a segunda e a terceira costelas. O nosso fim é fazer a anastomose do ramo subclávio, desde o tronco inominado à artéria pulmonar direita. ..

Pelo canto do olho, notou um brilho de aço: Júlia segurava já o primeiro escalpelo e preparava-se para meter-lho na palma da mão enluvada.

O relógio da parede marcava oito horas.

Virou-se para o anestesista e, a um sinal deste, estendeu a mão sobre a mesa, com a palma virada para cima. O bisturi bateu contra a mão enluvada. Não olhou para Júlia quando se inclinou sobre o paciente e sobre o quadrado de pele carminada que, durante algumas horas, ia ser o seu universo.

A lâmina tocou nesse quadrado de pele, teve uma breve hesitação e depois cortou de um modo rápido e seguro...

 

Tony Korff percorria pela centésima vez o tapete do quarto, constrangendo-se a não olhar para o relógio colocado sobre a mesinha-de-cabeceira. Havia uma hora que o seu pulso funcionava mais rapidamente que o relógio. Sabia que devia passar-se ainda uma eternidade antes de poder arriscar-se a sair, embora, nesse momento, reinasse lá fora a escuridão completa... “Estou esquecido do meu velho ofício!”, pensou, indo instalar-se à secretária, mais para se entreter a mexer num cigarro do que a fumá-lo. “Há dez anos, ter-me-ia encarregado deste trabalho, sem me preocupar a pensar nele!... Mas o meu futuro depende do meu êxito. Por que não consigo acalmar-me, esta noite, quando tudo está calculado com precisão cronométrica?...”

Quando soassem oito horas e meia na Schuyler Tower, pegaria no seu estojo médico, ainda que fosse apenas para manter as aparências. Percorreria o corredor até a escada de salvação e sairia do hospital pelo jardim das enfermeiras para não ser notado nos corredores principais. Era um percurso que seria capaz de realizar de olhos fechados, graças aos seus rendez-vous, nesse mesmo jardim com uma geração de estagiárias. Uma vez fora de vista da ala cirúrgica, ser-lhe-ia fácil penetrar no dédalo de ruas que limitavam o hospital para oeste. Ainda que o cordão de polícia continuasse montado, o estojo preto servir-lhe-ia de passaporte.

Em imaginação, reconstituía facilmente o seu trajecto a partir desse ponto. O melhor que tinha a fazer, seria ficar ali, tranquilamente sentado, com a cabeça metida entre as mãos, a examinar cada um dos riscos que o esperavam; muito melhor do que levantar-se, titubeando, para percorrer um novo lado do tapete, enquanto os seus nervos continuassem a reclamar acção... Directamente ao miserável prédio operário, onde viviam os Aschoff; uma volta brusca para o beco que dava acesso à cervejaria e à extensão de pedras redondas que levavam à plataforma de carga. A porta do gabinete particular de Rilling situava-se precisamente nessa caverna de ferro oxidado onde, a qualquer hora, a escuridão era sempre profunda. Rilling dissera que, nessa noite, não haveria vigilante.

Os seus dedos mergulharam na algibeira do casaco para brincarem com a chave da porta da rua e a chave gémea que lhe daria acesso ao gabinete. O segredo do cofre-forte também se encontrava na sua algibeira, mas não precisava de consultá-lo: os seus algarismos tinham ficado impressos no seu cérebro para sempre... Partindo às oito horas e meia, teria tempo de sobra para abrir o cofre antes da primeira badalada das nove horas soar. Do piso da cervejaria à porta que abria directamente, pelo lado interior, sobre o cais, havia apenas alguns passos a transpor. Ninguém notaria a sua lanterna de algibeira, quando fizesse os sinais, na entreabertura dessa porta. Ninguém, isto é, à parte o capitão Boris Falk, que os esperava do outro lado do rio.

Tony Korff levantou a cabeça, estudou as luzes que se demoravam ainda nas paredes do hospital e depois, sem sequer se aperceber de que se levantara, tornou a percorrer o quarto de um lado para o outro como um tigre enjaulado. “Preciso de encontrar forma de passar esta meia hora de uma maneira ou de outra, pois, caso contrário, enlouqueço. Não posso mostrar-me em qualquer parte deste edifício, visto que, oficialmente, estou incluído na lista dos doentes e não posso tornar a pensar na melhor maneira de gastar esses cinquenta mil dólares, sem me pôr a gritar alto!...”, pensava Korff.

De certo modo, depois de Rilling estar em segurança numa das gavetas da morgue de Otto, lamentava o impulso que o fizera apagar a candeia da vida do cervejeiro... Cinquenta mil davam só para os alfinetes... dinheiro para trazer no bolso... em comparação com as somas enormes com que o seu antigo mentor desnatara a América - e os inimigos da América do outro lado da água. E, todavia, saltava aos olhos que os dias de Rilling estavam contados. Era, sem qualquer dúvida, muito mais seguro deitar a mão a esse maço de notas e deixar desvanecerem-se os benefícios puramente eventuais do futuro.

Cinquenta mil dólares comprar-lhe-iam o consultório que ambicionava desde que, pela primeira vez, pisara o solo de Nova Iorque. Um consultório e um apartamento em Park Avenue, tendo à recepção uma enfermeira tão surpreendente como uma capa de revista... E uma lista de doentes, todos eles pertencendo à mais alta sociedade de Nova Iorque. Estava certo de que, uma vez dado esse primeiro grande passo, o ofício, que residia na ponta dos seus dedos ágeis, lhe asseguraria o sucesso. Daí a três anos, poderia defrontar Andrew Gray e Martin Ash no seu próprio terreno e disputar-lhes os pacientes. Contaria entre os seus íntimos celebridades dos dois continentes e as mais notórias belezas mundiais figurariam na sua lista telefónica particular; quando Pat Reed estivesse na cidade, andaria com a chave da sua porta, por onde entraria e sairia à sua vontade.

Pat Reed. A sua mão cerrou-se sobre o bocal do telefone, ao recordar-se do seu encontro na esplanada do hospital e da provocação que ela lhe fizera... O sussurrar dessa voz de sereia era exactamente do que precisava para acalmar aquele pulsar louco do coração ou, mais exactamente, para derrotar aquelas pancadas violentas e fazê-las adquirir um ritmo mais familiar.

Sim, ia telefonar-lhe. Imediatamente. E pedir a Deus que ela estivesse em casa sem ter nada que fazer. Marcaria um rendez-vous para essa mesma noite, pouco importava a hora. com um pouco de sorte, poderia bater Andy no seu próprio jogo.

A sua voz tremia depois de ter pedido à telefonista o número de Pat Reed, em Nova Iorque.

Mas quando lhe ouviu, no outro extremo da linha, o murmúrio baixo e provocante, sentiu a própria voz tornar-se firme como aço.

“A teu modo”, pensou, “és a minha esperança do céu sobre a terra... e a minha recompensa eventual. E o que ainda é melhor é que te terei daqui a duas horas ou perderei a minha licença!”

 

No escritório do andar inferior, Martin Ash afastou para o lado o seu jornal médico. Já era tempo de confessar a si próprio não ter qualquer motivo verdadeiro para por ali se demorar, enquanto Catherine o esperava em Long Island. Era mais do que tempo de admitir que já estava virtualmente a caminho, que o amor - para dizer francamente as coisas - era, nessa noite, mais forte do que o dever.

Contudo, não fez qualquer movimento para pegar no telefone, enquanto se balançava na cadeira giratória... Uma coisa era admitir o seu desejo por uma mulher, embora essa mulher fosse, desde há muito tempo, a sua. E uma outra, inteiramente diferente, era reconhecer que, nessa noite, teria de voltar para junto dela de joelhos ou não voltar.

“Não é bom um homem ajoelhar-se”, pensava, “salvo em adoração perante o Deus único e vivo.”

Interrompeu a sua tirada muda e dirigiu-se à janela, evitando o telefone com tanto cuidado como se tratasse de uma cobra enroscada. A esplanada do hospital parecia vibrar com vagas de calor, apesar da escuridão que a envolvia cada vez mais. Isolado como estava pelo milagre do ar condicionado, contemplava com olhar melancólico a noite de Verão, como se não pudesse persuadir-se inteiramente da sua existência.

“Na ilha, agora, está fresco”, pensava. “Uma frescura estimulante, carregada do perfume do mar. As janelas do quarto devem estar abertas sobre esse doce ar salgado. Ela espera-me, neste instante, ela espera-me, certa de que não poderei resistir-lhe por mais tempo.”

Nessa noite, Catherine devia esperar mais qualquer coisa do que simples desculpas por essa ausência de um dia inteiro. E a sua querela - se era essa a palavra a empregar - terminaria com a nota ritual. Aceitaria docemente, graciosamente, a sua submissão, subentendendo a sua vitória. Martin Ash desferiu o punho contra o pesado vidro isolador que o separava do hálito escaldante dos bairros sórdidos em volta. Era, evidentemente, culpa sua! Ousar lutar contra uma mulher era como bater contra uma almofada; toda a força de um homem ficava amortecida, tragada, por essa suavidade terrível e mole. Por vezes, desconfiava que a mulher provocasse essas querelas, com um propósito determinado - ainda que fosse apenas para certificar-se de que ele cederia mais cedo ou mais tarde...

Mas, ao mesmo tempo, pensava que, nessa noite, o seu mal-estar era mais profundo. Receava ir à ilha. A capitulação a uma hora dessas significava que o domínio de Catherine era total. A transferência do hospital para o cimo da cidade, esse projecto que desde há tanto tempo e tão corajosamente combatia, seria o penhor visível, tangível, exigido como prova da sua capitulação... Sentiu a mão fechar-se sobre o telefone e como, ao mesmo tempo, repudiava, com todas as forças do seu ser, o desejo de pedir a interurbana, telefonou para seu pai. Sabia que se tratava de uma chamada perfeitamente inútil, mas permitir-lhe-ia resistir, durante mais alguns momentos, à tentação...

A voz do ancião chegou-lhe, doce e calma. Era fácil imaginá-lo, como estava, apenas a algumas centenas de metros, postado junto ao rádio, que se ouvia fracamente em plano de fundo.

- Que há, Martin?

- Estás bem, papá?

A pergunta fazia parte da sua disposição de momento e arrependeu-se imediatamente de tê-la feito, antes mesmo do risinho amistoso do pai lhe ter feito uma afectuosa reprimenda.

- És tal qual tua mãe, Martin. Evidentemente que estou bem.

- Já jantaste?

- Há uma hora. Não viste a rica sanduíche de salame que a tua mamã me preparou e a garrafa de cerveja?

- A mamã ainda não veio?

- Porque havia eu de precisar dela aqui? Tenho a minha música. Tenho tudo de quanto preciso ao alcance da mão. E vocês bem sabem que posso andar muito bem de um lado para o outro do apartamento, sem ir de encontro aos móveis.

- A que horas disse que voltaria?

- Por volta das nove e acabou há pouco de telefonar a confirmá-lo.

- Queres que te mande alguém para que te leia qualquer coisa?

- Não preciso de nenhum leitor, Martin. Neste momento, tenho Beethoven comigo.

- Queres que vá eu?

- Vai para Long Island, meu filho. O que é que te retém aqui?

Martin Ash sentiu a respiração parar-lhe na garganta e sufocá-lo. Na realidade, não esperava que fosse seu pai a dar-lhe o empurrão final para a escravidão!

- Suponho que não me retém aqui nada de precioso. Se tu não necessitas de mim...

- A tua mulher é que necessita de ti! Quantas vezes terei de repetir-to?

- Bem. Partirei então dentro de alguns minutos. Se tens a certeza de que a mamã chegará por volta das nove horas...

De novo o mesmo risinho amistoso o acalmou, apesar do seu pânico interior.

- Bem sabes como a mamã é, filho. Se ela diz nove horas, serão nove horas.

Martin Ash não fez sinal à telefonista de que seu pai já desligara. Depois de ter tomado a sua decisão, sentia-se estranhamente resignado, como se a sua rendição estivesse escrita desde sempre.

Primeiro do que tudo, precisava de chamar Andy Gray para entregar-lhe, nas mãos, até segunda-feira, as rédeas do comando. Depois, pôr-se-ia ao volante do seu descapotável e recusar-se-ia a pensar até deixar completamente para trás de si a espécie de lençol funerário suspenso sobre Nova Iorque...

Ia formar o número da cirurgia, quando se recordou de Jackie e da operação que tornava Andy incomunicável.

Em circunstâncias normais, poderia ter chamado a vigilante geral e deixar-lhe o recado. Mas Emily também se encontrava incomunicável e num sítio onde o telefone não podia alcançá-la e perturbar a sua tranquilidade. Enterrou-se na poltrona e, durante um longo momento, esforçou-se por pensar em Emily Sloane, lamentando sinceramente não poder experimentar uma mágoa pessoal pelo seu suicídio. Evocava com dificuldade a sua imagem, embora tivessem trabalhado, lado-a lado, durante anos. Talvez residisse aí a descoberta mais espantosa de todas: a aceitação, embora contra-vontade, de que Emily fora mais uma máquina do que uma mulher.

Talvez também ele fosse mais admirado do que amado. Uma máquina que desempenhava perfeitamente a sua tarefa e cortava todo o contacto, mal o dia de trabalho terminava. Deu uma última volta pelo gabinete, detendo-se defronte de um quadrado de papel, pousado sobre o mata-borrão: o pedido de demissão de Júlia Talbot “para entrar imediatamente em efeito”.

Isso não lhe causara uma surpresa muito grande. Nos últimos tempos, estudara atentamente a jovem e adivinhara a sua profunda infelicidade. O hospital precisava de Júlia, pensou com um pequeno aperto de coração. Mas Júlia Talbot precisava ainda mais de Andrew Gray. Não conseguia compreender como fora possível que essa máquina pudesse ter desviado Júlia do seu projecto...

Martin Ash sacudiu a última contrariedade, o último contratempo - pelo menos assim o julgava -- dessa noite e acabou por telefonar para sua casa de Long Island, perguntando-se enquanto ouvia o telefone tocar na biblioteca, por que razão a sua submissão não o fazia sentir qualquer espécie de vergonha.

Quando finalmente Burke atendeu, Martin esforçou-se por falar com uma voz calma. Pelo facto de ter-se resolvido a terminar a querela com Catherine, não havia razão para começar outra com um criado.

- Mrs. Ash não está, senhor doutor.

- Deve estar, Burke. Está à minha espera.

- Partiu há duas horas, senhor doutor. De carro, se não me engano.

- Deixou os convidados?

Houve uma ligeira pausa na outra extermidade do fio. Martin imaginou sem dificuldade o ar de triunfo do mordomo.

- A maior parte dos convidados jantou, esta noite, ao ar livre, se me permite a expressão.

“Por conseguinte, não deram ainda pela sua ausência”, pensou Martin. “É o jantar que eles querem e não a pobre-rica-de-coração-solitário.”

Afastou firmemente o ridículo da imagem.

- Partiu só, Burke?

- Certamente que não, senhor doutor. Sir Stanley ia também.

Stanley Potter. O jovem inglês, magro e loiro, apresentou-se-lhe imediatamente à ideia - o tipo amoroso dos sonhos de qualquer mulher. Mas esta imagem afigurou-se-lhe ainda mais irreal e absurda do que a anterior. Uma mulher da idade de Catherine e com os seus hábitos não tomava assim abertamente um amante. Nem sequer para despeitar um marido hesitante!...

- Está, senhor doutor?

- Sim, Burke.

- Se Mrs. Ash telefonar, deverei dizer-lhe que o senhor doutor vem já a caminho?

- Diga-lhe que me telefone para o hospital. Não faço ideia do que terei ainda a fazer.

Não tivera intenção de ser tão glacial para com Burke, mas, ao desligar, não lamentava tê-lo sido. “Sir Stanley pode ter agora a sua vez”, pensou. “Eu terei a minha mais tarde! Por ora, basta-me saber que minha mulher não tem possibilidade de comunicar com o homem da sua eleição. Catherine nunca saberá como escapei por pouco à submissão total!”

Sentou-se tranquilamente à secretária, ainda indeciso quanto ao seu próximo movimento. Se Catherine andasse realmente a passear com um apaixonado, ele seria o último homem no mundo capaz de intervir. O motivo dessa resistência passiva tomou forma gradualmente e a conclusão a que chegou foi-lhe amarga, tão amarga que o seu espírito a rejeitou automaticamente, sem se deter a fazer outras conjecturas.

“Catherine é infeliz”, pensou. “Catherine sente-se só. Só e infeliz, procurou o primeiro e mais fácil substituto do amor, um rapaz recém-saído de Oxford, um membro da equipa das regatas, um rapaz que, sob uma iluminação conveniente, poderia passar por Robert Brooke.”

Acabou por levantar-se e sair para o corredor sombrio que conduzia à rotunda onde o padre O’Leary se encontrava sempre no seu posto, à sombra da estátua do Redentor. Mas, nessa noite, Martin Ash não estava inclinado a redenções.

Dirigiu-se rapidamente para a esquerda e tomou o primeiro ascensor que levava à cirurgia. Andy Gray, seu substituto, devia ter trabalho ainda para duas horas. Certamente acharia um assento entre os internos que se encontravam na galeria e acompanharia daí o trabalho de Andrew, até que o nevoeiro se dissipasse no seu espírito.

 

Levantando os olhos por uma fracção de segundo, Andrew Gray viu uma sombra mover-se e instalar-se na galeria dos estudantes. Por muito incrível que o facto parecesse, era exacto: Martin Ash juntara-se aos seus internos, na galeria de observação. Naquele instante, Andy não soube se deveria sentir-se lisonjeado com a sua presença... No decurso do último mês, o comportamento do director fora demasiado bizarro para se poder tirar dele qualquer conclusão.

Ignorando o recém-chegado, falou pelo micro, sabendo de antemão que Ash aprovaria o tom impessoal:

- Podem ver exposto o hilo do pulmão direito e os grandes vasos sanguíneos.

Por muito intrigado que se sentisse com a presença do seu chefe, Andy permitiu-se um pequeno sorriso. Até ali a parte exposta era tão nítida como um desenho de manual cirúrgico.

- Geralmente, numa altura destas, o melhor a fazer é injectar novocaína no hilo.

Dirigindo-se ao seu assistente, como o prescrevia o hábito, precisou:

- Bloqueia em parte a inervação simpática dos vasos do coração e opõe-se aos espasmos vasculares.

- E, no que se refere ao pericárdio, a novocaína está igualmente indicada? - informou-se Dale.

- Em caso de necessidade, sim, mas neste não é preciso. O coração está calmo e regular.

Esforçando-se por não dar ao gesto um ar demasiado dramático, tirou da palma da mão, que Júlia lhe estendia, a seringa e a comprida agulha delgada, com que injectou uma pequena quantidade de solução anestésica em toda a volta do pedículo pulmonar. Era uma técnica muito arriscada e teve o maior cuidado em não atingir qualquer artéria ou qualquer das veias de paredes delgadas que, nesse sítio, percorriam o tecido pulmonar. Tratava-se de um ponto delicado e até penoso de uma operação que, a bem dizer, ainda não começara.

Dez minutos depois, afastou-se da mesa e estendeu a fronte a uma estagiária, que a limpou com uma esponja. Nesse momento, estava certo de que já fora injectada uma quantidade de novocaína suficiente para bloquear os nervos dessa zona vital.

Durante todo esse tempo, o pulmão continuara a funcionar com a regularidade de um metrónomo. Andrew notou que, depois de ter aberto a cavidade torácica, o pulso diminuíra de amplitude. O anestesista baixara a pressão do gás, modificando, desse modo, o funcionamento do órgão, para facilitar o trabalho do operador.

- Pode insuflar quando quiser, doutor Evans - declarou. - Esperaremos alguns segundos.

Quando voltou a erguer os olhos para a galeria, reparou que Ash desaparecera do grupo dos estudantes. Sem que soubesse a razão, aliviou-o ver que o seu chefe se retirara tão prontamente.

Sob a revelação crua da luz, o pequeno paciente parecia menos humano do que nunca. Graças a uma cirurgia minuciosamente atenta, toda a caixa torácica estava finalmente exposta: afastador e costotómio tinham feito a sua tarefa. A imagem do manual continuava a persistir nesse mesmo momento em que a operação, tão minuciosamente preparada, ia verdadeiramente começar. O cérebro do Dr. Gray teimava em repetir-lhe que o pulmão exposto e a rede complicada de vasos sanguíneos, que o envolvia, constituíam tecidos vivos tão resistentes como o tempo, mas tão delicados como uma flor. Todavia, retraía-se perante o próximo e inevitável golpe de bisturi. No fim de contas, tratava-se de uma obra de arte, criada por mão imortal, e tocar-lhe parecia um sacrilégio.

- Posso colapsar agora o pulmão - propôs o anestesista. A tensão do oxigénio mantém-se bem.

Andy concordou com um sinal de cabeça. A voz tranquila de Evans fazia-o voltar às realidades sem um sacão. Uma comprida pinça, segurando uma esponja solidamente cerrada entre os seus maxilares, chegou-lhe à mão. A sonda de aço evoluiu profundamente no grande rectângulo vermelho onde o pulmão palpitante já se acalmara. Servindo-se da esponja como de uma almofada, desviou para o lado o pedículo pulmonar. O vaso apareceu à vista no sítio exacto onde esperava encontrá-lo: uma veia da grossura do dedo de um homem, encurvando-se por cima do pedículo e repousando encostada à delgada pleura que cobria a parede posterior da caixa torácica.

- A veia ázigo. Temos de cortá-la para imobilizarmos a veia cava. Dispõe-se exactamente por cima desta e cobre parcialmente a artéria pulmonar direita, de que nos serviremos na anastomose.

Até o mais novo dos internos poderia notá-lo: a veia cava superior, a grande veia que transporta o sangue da cabeça e dos membros superiores, durante o seu percurso do trajecto ao coração, estava inteiramente visível no campo operatório, inchando e esvaziando-se a cada pulsação do coração e a cada mudança de pressão respiratória. Uma lesão nesse vaso principal teria sido irreparável.

Ao sinal do Dr. Gray, Dale Easton pegou na pinça que segurava uma esponja e manteve a veia bem no seu lugar, enquanto Andrew fendia a pleura com a ajuda de compridíssimas tesouras curvas, libertando, deste modo, a veia cava superior, numa extensão de várias polegadas. Uma pinça hemostática segurou firmemente a veia ázigo, com vista aos fios que esperavam já na mão estendida de Júlia. Foi tarefa muito fácil cortar a veia e ligar com fortes fios de seda as extremidades separadas. Graças a essa imobilização parcial, Easton conseguiu erguer a veia cava superior bem para cima, expondo assim ainda mais a zona em que Andrew ia travar a sua batalha principal.

Um cordão esbranquiçado viera, nessa altura, colocar-se no campo operatório, exactamente acima do hilo do pulmão: o nervo vago, alongado de encontro ao brônquio principal direito. Enquanto trabalhava, a faca evitava o mínimo contacto directo com esse cordão.

A cirurgia recorre à vagotomia, isto é, ao corte do nervo vago, em certos casos difíceis de úlcera do estômago, pois este nervo parece uma espécie de regulador da formação dos ácidos na zona gástrica. No caso de Jackie, era preferível não lhe tocar. O nervo vago - Gray concordou mais uma vez que o nome era bem merecido - exerce também uma influência importante no sistema nervoso do coração. E, nessa noite, não podia arriscar-se mais do que o necessário no funcionamento desse órgão, já de si anormal.

Depois da ázigo cortada e da veia cava superior colocada no seu lugar, ser-lhe-ia possível deixar o campo livre à faca e permitir-lhe efectuar o seu primeiro trabalho verdadeiramente importante: a libertação de um órgão azulado que fazia parte do pedículo pulmonar, ao lado do grande ramo da árvore brônquica.

Andy tornou a dirigir-se ao microfone, mas estava tão intensamente concentrado no lento e cuidadoso avanço do bisturi sobre o vaso palpitante sob os seus dedos, que mal tinha consciência da sua voz:

- A partir deste ponto, liberto a artéria pulmonar direita. Precisamente abaixo do ponto onde trabalho, mais próximo do coração, encontra-se a massa que impede o afluxo do sangue aos pulmões. Em virtude de não ousarmos entrar no próprio coração, somos obrigados a ignorar esta constrição. Vamos praticar cirurgicamente uma abertura anormal entre um ramo principal da aorta e a artéria pulmonar que, neste momento, exponho. Desta forma, o sangue encontrar-se-á reenviado para os pulmões, graças à forte pressão que se produz na aorta. A malformação achar-se-á ultrapassada e deixada fora do circuito. O sangue será então normalmente oxigenado.

Por um instante, o seu espírito encontrou-se de volta ao texto do tratado que debitava tão correntemente. Sem dúvida nenhuma, era o resumo simplificadíssimo de uma técnica arrojada, difícil e delicada, um golpe de mestre da cirurgia, que requererá longos anos de estudos e de pesquisas. E, contudo, essa mesma operação arrancava centenas de crianças a uma fatalidade muito especial. Tinha, pois, boas razões para esperar que salvasse também Jackie.

A faca prosseguia na dissecação minuciosa, ao longo do pedículo pulmonar direito, seguindo a parede mole da artéria pulmonar mais próxima do coração, trabalhando também junto ao tecido pulmonar, no ponto em que o vaso se divide para enviar ramos para cada lobo. Era de importância vital libertar uma porção suficiente da artéria que lhe permitisse uma anastomose sem tensão - era ainda mais importante proceder sem pressas.

Dez minutos mais tarde, afastava-se da mesa e escorria as luvas na bacia de anti-séptico, que se encontrava colocada fora do calor proveniente das luzes. Terminara a primeira parte da exposição a nu, num intervalo de tempo excepcionalmente breve. O próximo passo a dar seria ainda mais delicado, visto consistir na libertação de um outro vaso que utilizaria para derivar o sangue da aorta para o pulmão.

Dirigiu-se ao microfone num tom vivo e seco, recusando-se a admitir a angústia que lhe oprimia o coração:

- Como certamente estarão lembrados do vosso curso de anatomia, a aorta eleva-se à esquerda do coração e encurva-se normalmente para o mesmo lado, como estão a ver. A artéria carótida esquerda, que leva o sangue ao mesmo lado da cabeça e do cérebro, é um ramo directo da aorta. Da mesma forma, a subclávia, que conduz o sangue ao braço esquerdo. À direita, estas duas artérias nascem num único vaso, o tronco inominado, que se divide seguidamente em carótida direita e subclávia. Se o nosso plano resultar, utilizaremos a artéria subclávia direita para estabelecermos a nossa junção...

Ao mesmo tempo que se dirigia à galeria de observação, Gray libertava a veia cava superior e a curva da aorta, exactamente por baixo daquela. À medida que a veia cava era deslocada no interior da cavidade, tornava-se visível uma outra artéria, que se ia destacando da aorta e dirigindo simultaneamente para cima e para a superfície.

- Eis o tronco inominado - anunciou. - vou libertá-lo parcialmente a fim de podermos passar-lhe uma fita por baixo.

O bisturi, dissecando com pequenos golpes rápidos, isolou o inominado numa extensão de cerca de dois centímetros. Uma pinça romba e curva passou-lhe suavemente por baixo, abriu os maxilares e abocanhou a fita de algodão húmido que Dale Easton lhe estendia, puxando-a seguidamente para debaixo da artéria, em volta da qual foi passada. Assim seguro, o inominado poderia facilmente ser deslocado, conforme o prosseguimento do trabalho o requeresse.

- Todos podem ver aqui o ramo recorrente do pneumogástrico. Evitá-lo-emos com o maior cuidado! Se o esfolássemos, a corda vocal direita achar-se-ia paralisada. A ramificação do inominado deverá encontrar-se precisamente no começo do nervo recorrente.

A faca, deslocando-se ao ritmo das palavras, continuava a dissecar ao longo do vaso palpitante, que André w soergueu por meio do cordão de algodão, a fim de examinar a zona que se estendia por baixo: deparou-se-lhe um pequeno ramo, que agarrou com uma pinça direita de Halsted, antes de cortá-lo e, em seguida, atou solidamente as suas extremidades.

- A tiroideia inferior - anunciou. - Creio que estamos a aproximar-nos do que procuramos.

A tensão nervosa da sala era extrema, quase insuportável, e os olhares seguiam ansiosamente o movimento dos seus dedos que, afastando o pneumogástrico, continuavam o seu trabalho em profundidade e libertavam mais uma polegada do ramo inferior do tronco inominado, a artéria subclávia:

- Como verão, é importante libertá-la, o mais possível, neste ponto, a fim de evitar uma tracção sobre a anastomose que, na pior das hipótese, poderia provocar um afrouxamento das suturas e, na melhor das hipóteses, entravar o escoamento regular do sangue.

Sempre por meio de pequenos golpes, simultaneamente vivos e calmos, libertava a artéria do seu leito, num trajecto ascendente, na direcção do braço. Depois de a ter dissecado e afastado dos tecidos até ao ponto da sua primeira divisão, pôs finalmente termo à interminável e longa dissecação e agarrou na primeira pinça pequena, que Júlia lhe apresentava na palma da mão estendida. Os maxilares dessa pinça estavam forrados com cauchu, que protegia as delicadas paredes das artérias contra a mínima arranhadura. Colocou a pinça com minuciosas precauções e quando o instrumento apertou firmemente a suclávia, exactamente antes da sua extremidade interna, baixou a tira de cauchu e atou as suas duas extremidades, impedindo, dessa forma, que a pinça pudesse escorregar, o que poderia ocasionar uma hemorragia fatal no campo operatório.

- A subclávia está completamente seccionada. Que acontecerá à circulação do braço? - inquiriu Easton, ainda para documentação da galeria.

- A circulação colateral bastar-lhe-á. Felizmente, pois, se assim não fosse, esta operação seria impossível.

Um atilho de seda, firmemente entrançado, encontrou-se na sua mão. Júlia estava apta a prever cada uma das etapas da operação. com a ponta de uma pequena pinça curva, o cirurgião abriu, por baixo da subclávia e até tão longe quanto lhe foi possível, por trás do primeiro grande ramo, uma passagem por onde introduziu a resistente ligadura, que apertou tão fortemente quanto lhe era possível fazê-lo sem prejudicar a parede arterial... e voltou a seccionar o vaso a curta distância da última ligadura. Em virtude de ambas as extremidades da artéria estarem hermeticamente fechadas, uma delas pela última ligadura e a outra pela pinça e nó de cauchu, nem uma só gota de sangue correu em consequência desse corte.

Durante alguns segundos, todos quantos se encontravam na sala retiveram a respiração. Quando, já sem perigo, separou do pneumogástrico e do nervo laríngeo recorrente a artéria seccionada, quando a trouxe ao longo da artéria pulmonar, previamente libertada do pedículo, e quando verificou que não existia qualquer sinal de tensão, André w Gray soltou, quase sem dar por isso, um suspiro de alívio, que encontrou eco em toda a equipa.

Notou-se uma excitação na galeria: os corpos, demasiado tensos, descontraíam-se e os pés mexiam-se lentamente... foi rápido, apenas um ruído, mas nítido e carregado de sentidos, como se todos os observadores tivessem aplaudido.

Até aí, a ciência e a precisão davam dividendos. Se o resto da operação prosseguisse com a mesma regularidade perfeita, não subsistiria qualquer dúvida quanto à cura de Jackie.

- Descansaremos por um momento, logo que eu baixe a túnica adventícia - declarou o Dr. Gray. - Isso permitirá que a circulação se adapte ao trabalho que realizámos até agora.

Foram-lhe necessários apenas alguns minutos para retirar uma espécie de bainha exterior da artéria - e o cirurgião experimentou como que um certo pesar ao deixar cair o bisturi no tabuleiro dos instrumentos utilizados...

Então, afastou-se uma vez mais da mesa...

Desde o início, encarara com angústia essa pausa, essa interrupção no seu entusiasmo, no momento em que emergiria da sua batalha para salvar uma vida, em que se arrancaria à concentração absoluta que, por tanto tempo o isolara de tudo quanto não fosse Jackie, o coração de Jackie, a existência de Jackie...

 “É apenas uma pausa de um instante”, pensou. “Não preciso de arriscar-me a encontrar os olhos de Júlia uma segunda vez...”

O Dr. Easton cobriu com uma grande compressa húmida e quente a grande incisão que se assemelhava a uma caixa aberta e foi juntar-se a Andrew, fora do círculo luminoso e quente, que continuava a aprisionar o corpito da criança.

À cabeceira da mesa, O Dr. Evans acentuara já a pressão do seu aparelho, aproveitando um breve intervalo para alimentar o paciente com a maior concentração possível de oxigénio.

- Até agora ressentiu-se muito?

Evans sacudiu a cabeça e respondeu:

- Não acusou qualquer choque real e o oxímetro pouco variou.

Andrew envolveu as mãos na toalha esterilizada que Vicki Ryan lhe estendia na extremidade de uma enorme pinça, ao mesmo tempo que com um movimento dos joelhos lhe empurrava um banco contra as pernas. Gray murmurou um agradecimento, sentou-se e só então se apercebeu do grau de fadiga a que chegara. Esse relaxamento de nervos, terrivelmente tensos por demasiado tempo, era apenas um indício do que se aproximava.

- Foi uma vantagem termos sido obrigados a esperar por esta hora da noite.

Já toda a gente estava bem repousada observou, percorrendo com o olhar o círculo dos rostos familiares e notando que nunca tinham acusado um extenuamento tão intenso!...

Viu com tranquila satisfação que Júlia se afastara do pequeno grupo para ir ao esterilizador renovar o seu fornecimento de pensos com soro.

“É a minha vez de jogar”, pensou. “Se há ainda alguma coisa a dizer, entre os dois, sou eu quem deve falar primeiro.”

- Então, doutor! Diz-me cá: depois da amostra desta noite, desejas consagrar-te à cirurgia?

Os olhos do anátomo-patologista cintilaram por cima da máscara.

- Como leitor da Bíblia, hás-de recordar-te da resposta do homem rico: “Quase me convenceste a tornar-me cristão.” Quase, mas não completamente...

Chegou-lhes a lamentação abafada de uma sereia, cortando a palavra a Dale Easton. O apelo parecia elevar-se da rua, mesmo por baixo das janelas da sala de operações... e, em breve, um outro uivo semelhante e proveniente do norte lhe respondeu. Andrew Gray sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha ao ouvir esse som bem conhecido e lembrou-se de que Tony Korff constava da lista dos doentes e que, por conseguinte, nessa noite não lhe envenenaria a vida. Formam-se assim, às vezes, julgamentos temerários.. Acima dele, viu as cabeças de todos os internos da galeria levantarem-se ao mesmo tempo... e dois desses jovens saírem para se dirigirem às suas enfermarias.

- Parece-me bem que os serviços de urgência vão ter que fazer!...

- É uma sereia da polícia, Andy.

- Tens razão, agora reparo! Que julgas que possa ser? Terão deitado a mão ao nosso amigo bombista?

O longo queixume desvaneceu-se como se os dois carros tivessem finalmente comparecido ao seu rendez-vous, depois de terem dobrado uma ou várias esquinas da rua. Andrew esqueceu a pergunta, deixada em suspenso; ainda que, nesse instante, a morte tivesse feito a sua aparição a essas janelas, ter-lhe-ia voltado as costas.

O mundo com todas as suas contradições não existia para ele quando voltou à mesa de operações, estendendo a Júlia uma mão enluvada...

 

O queixume solto pelas sereias penetrou fracamente no gabinete do cervejeiro, Tony Korff inteiriçou-se, por um segundo, e depois, expulsando esse som da ideia, inclinou-se sobre o cofre-forte. Até então, não necessitara de utilizar a lanterna eléctrica para guiar-se da rua até a plataforma de carga e desta à porta do gabinete.

Deixara a última aberta, quanto mais não fosse para certificar-se duplamente de se encontrar só na cervejaria.

Do candeeiro da rua, colocado precisamente defronte da entrada, caía suficiente luz cinzenta para ser-lhe possível verificar que, com excepção de algum rato furtivo, era o único ser vivo entre essas paredes. Treinado como fora, durante a sua adolescência, nesse género de aventuras nocturnas, era capaz de distinguir, quase de adivinhar e de prever, o mínimo som, sem ter de desviar os olhos do botão do cofre de Rilling. Abençoava, nesse momento, essa formação, assim como a calma absoluta, desprovida da mínima parcela de nervosismo, que sempre o invadia, mal entrasse em acção.

Seis à esquerda, sete à direita, três à esquerda.

A porta exterior do cofre abriu-se suspirando sobre os gonzos bem lubrificados, revelando a segunda porta com os seus quatro botões interiores. Rilling dissera-lhe que a garrafa se encontrava no compartimento do cimo, à direita. Começou a soletrar o segundo segredo, com as mãos que não tremiam, que não executavam qualquer movimento supérfluo e sentindo já subir-lhe à garganta um gemido surdo e quente de triunfo. Três à direita, três à esquerda, virar ao contrário... Nessa noite, os seus dedos pareciam providos de um cérebro próprio. Korff tinha a certeza de que, mesmo sem esse segundo segredo, teria sido capaz de abrir essa porta interior em poucos minutos suficientemente depressa para ainda lhe restar algum tempo antes da hora aprazada para o sinal sobre o cais...

Fora do gabinete, um rato atravessou o soalho da cervejaria: ouviu as garras do animal contornarem a base circundada a cobre de um dos grandes toneis. Dizia consigo que esses tonéis eram seus amigos por se erguerem à pálida claridade do candeeiro da rua, dissimulando-o desse modo de olhares curiosos. A seu lado, pousado no tapete de Rilling, o seu estojo médico bocejava, esperando que ali guardasse o seu precioso fardo. Três à direita, sete à esquerda. Ria-se sozinho pensando no cumprimento do homem de farda azul, postado à esquina. Daí a meia hora, teria direito ao mesmo cumprimento e aceitá-lo-ia com a mesma serenidade. Todavia, quanto se teria passado entre os dois! Cinquenta mil dólares, em belas notas de banco, entregues pelo capitão Falk, seriam cuidadosamente dispostas - verdes e agradáveis à vista - entre os instrumentos da sua profissão... Esses cinquenta mil dólares seriam a chave da sua emancipação, o “Abre-te Sésamo” de todas as portas que achara fechadas e a que batera em vão.

Quando finalmente o cofre interior se abriu, Korff permaneceu um longo momento ajoelhado e escorado nas ancas, sem ousar explorar o conteúdo. Dessa vez, teve de utilizar a lâmpada eléctrica portátil e, durante um momento de raiva cega, invadiu-o a convicção de que, no fim de contas, fora Rilling que troçara dele. O cilindro de aço parecia conter apenas resíduos velhos jornais impressos em alemão e velhas facturas que se desintegravam sob a exploração das suas garras furiosas; atirava com tudo aquilo da direita para a esquerda, com uma pressa que o aparecimento do medo tornava exasperante. E, de repente, os seus receios desvaneceram-se e quase gritou de alegria - ao fundo, mesmo ao fundo, a garrafa, a escura garrafa atarracada demasiado pesada para ser-lhe possível erguê-la com uma só mão, estava ali, fria como gelo.

Segurou a lâmpada portátil entre os joelhos aproximados, subitamente frouxos como roupa húmida, enquanto, curvado em dois e com passos minúsculos, transferia o recipiente das profundezas do cofre para a secretária. A lâmpada, explorando cuidadosamente todos os contornos da garrafa, mostrou-lhe que o recipiente estava intacto: o selo que Rilling martelara estava firme. Ao sentir voltar-lhe a confiança, rodeou com ambas as mãos a ga