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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Guardião / Dean R. Koontz
O Guardião / Dean R. Koontz

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Guardião

 

 A destemida Laura Shane tem sua vida marcada pela intervenção constante de um personagem misterioso e assustador. A cada situação de perigo, repete-se o intrigante ritual que marcou o seu nascimento: o céu explode em trovões, e relâmpagos anunciam a chegada do estranho. O mesmo que, na tempestuosa noite de janeiro de 1955, a arrancou das mãos de um médico bêbado e irresponsável, garantindo sua entrada no mundo sã e salva. Hoje, casada e com um filho, ainda a persegue a certeza de que forças poderosas estariam controlando seu destino. Quem, afinal, seria aquele estranho? Um anjo ou um demônio disfarçado?

A resposta lhe é revelada na noite do seu trigésimo aniversário, quando mais uma vez o estranho aparece e conta-lhe a verdade sobre seu terrível destino. Assustada, ela percebe que a chave de seu futuro está num passado remoto, onde somente aquele homem pode penetrar. No céu, o relâmpago fulgura mais uma vez, ameaçando a vida de Laura! e do seu filho...

 O Guardião, de Dean R. Koontz, é uma mistura habilidosa de suspense e ficção científica que nos conduz a um universo tão fascinante e assustador que mesmo depois de terminar a leitura ficamos nos indagando até que ponto a engenhosidade humana é capaz de interferir na inevitabilidade do destino.

 

Quando Laura Shane nasceu, uma tempestade açoitou a noite e durante muitos anos as pessoas lembravam a estranheza do tempo.

Quarta-feira, 12 de janeiro de 1955, um dia gélido, cinzento e sombrio. Ao cair da noite, espessos flocos de neve espiralavam do céu, e o povo de Denver preparou-se para a tempestade de neve vinda das montanhas Rochosas. Às dez horas da noite, o vento forte e gelado soprou do oeste, uivando nos vales, como um riso estridente descendo as encostas ásperas e cobertas de árvores. Os flocos de neve foram diminuindo até tornarem-se finos como grãos de areia, com o som abrasivo da areia, quando o vento os atirava contra as janelas do escritório coberto de livros do dr. Paul Markwell.

Markwell, recostado na cadeira atrás de sua mesa, tomava scotch para se aquecer. O frio persistente que o incomodava não era causado por uma corrente de ar, mas por uma frieza interna da mente e do coração.

Desde a morte do seu único filho, Lenny, há quatro anos, de paralisia infantil, Markwell havia começado a beber em excesso. Agora, mesmo estando de plantão para emergências, no County Medicai, apanhou a garrafa e serviu-se de mais Chivas Regai.

Em 1955, um ano de grandes avanços científicos, as crianças estavam tomando a vacina Salk, e logo chegaria o dia em que nenhuma ficaria paralisada nem morreria de poliomielite. Mas Lenny apanhou a doença em 1951, um ano antes de Salk testar sua vacina. Os músculos respiratórios do menino paralisaram-se também, e o caso complicou-se com broncopneumonia. Lenny jamais teve a menor chance.

  Das montanhas do oeste vinha um som abafado que ecoava na noite de inverno, mas, a princípio, Markwell não deu grande importância ao ruído, tão absorto estava em sua dor amarga, que às vezes o fazia ignorar o que acontecia à sua volta.

A fotografia de Lenny estava sobre sua mesa. Mesmo depois de quatro anos o rosto sorridente do garoto ainda o atormentava. Devia ter guardado a fotografia, mas ali estava ela, porque a autoflagelação era o modo de compensar a culpa.

Nenhum colega de Markwell conhecia seu problema com a bebida. Nunca parecia embriagado. Os erros que havia cometido com alguns pacientes eram resultantes de complicações que podiam surgir naturalmente e nunca atribuídos por descuido de sua parte. Mas ele sabia que eram erros, e a perda da auto-estima o fazia beber mais.

O ruído repetiu-se. Dessa vez ele reconheceu o trovão, mas não deu grande importância.

O telefone tocou. Lento e quase insensível por causa da bebida, só atendeu no terceiro toque.

—        Alô?

—        Dr. Markwell? Henry Yamatta. — O residente do County MedicaL parecia nervoso. — Uma das nossas pacientes, Janet Shane, acaba de chegar com o marido. Está em trabalho de parto. Na verdade, a tempestade os atrasou, portanto o trabalho já estava bem adiantado quando chegou aqui.

Markwell continuou a tomar o scotch enquanto ouvia. Então, notando satisfeito que sua voz não estava arrastada, perguntou:

—        Está ainda no primeiro estágio?

—        Está, mas as dores são intensas e estranhamente demoradas para esta fase do processo. O muco vaginal está sanguinolento...

—        Isso é previsível.

Yamatta disse, com impaciência:

—        Não, não. Não é uma exposição normal.

Exposição, ou muco vaginal sanguinolento, eram sinais de que o parto estava iminente. Entretanto, Yamatta havia dito que já estava bem adiantado. Markwell cometera um erro, sugerindo que o residente referia-se a uma exposição normal.

Yamatta disse:

—        Não é uma hemorragia, mas alguma coisa está errada. Inércia urinaria, obstrução da pelve, doença sistêmica...

—        Eu teria notado qualquer anomalia fisiológica que constituís se perigo para a gravidez — disse Markwell secamente. Mas sabia que podia não ter notado... se estivesse bêbado. — O dr. Carlson está de serviço esta noite. Se alguma coisa acontecer antes da minha chegada, ele...

 —       Acabamos de receber quatro vítimas de acidente, duas seriamente feridas. Carlson está ocupado. Precisamos do senhor, dr. Mark well.

—        Estou indo. Vinte minutos.

Markwell desligou, terminou o uísque e tirou uma pastilha de hortelã do bolso. Desde que começou a beber em excesso, levava sempre balas de hortelã com ele. Enquanto desembrulhava a bala e a punha na boca, deixou o escritório e atravessou o hall até o armário dos sobretudos.

Estava bêbado e ia fazer um parto e talvez cometer um grave erro, o que podia significar o fim da sua carreira, a destruição da sua reputação, mas não se importava. Na verdade, antecipava a catástrofe com uma perversa ansiedade.

Estava vestindo o sobretudo quando o estrondo do trovão atravessou a noite. A casa ecoou com o som.

Franziu a testa e olhou pela janela ao lado da porta. Neve fina e seca espiralou contra o vidro, parou no ar, enquanto o vento tomava fôlego, e espiralou outra vez. Uma ou duas vezes havia ouvido trovão durante uma tempestade de neve, mas sempre no começo, sempre suave e distante, nada tão ameaçador como aquilo que ouvia agora.

O relâmpago cortou o céu novamente. A neve que caía tremeluziu sinistramente na luz inconstante, e a janela transformou-se num espelho onde Markwell viu o próprio rosto abatido. O trovão que se seguiu foi o mais forte de todos.

Abriu a porta e espiou curioso a noite turbulenta. O vento forte atirava a neve para baixo do teto da varanda, e a espalhava na parede da frente da casa. Um manto de neve fresca, de uns quatro ou cinco centímetros, cobria o gramado e os galhos dos pinheiros voltados para o vento.

O fulgor intenso do relâmpago ofuscou Markwell. O trovão foi tão tremendo que parecia vir, não só do céu, mas do solo também, como se céu e terra estivessem se abrindo, anunciando o Armagedom. Duas flechas de luz brilhante longas e superpostas cortaram a escuridão. De todos os lados, silhuetas fantasmagóricas saltavam e se contorciam, pulsando. As sombras das cercas, balaústres, árvores, arbustos sem folhas e luzes da rua apareceram tão distorcidos pelo clarão repentino que o mundo de Markwell adquiriu características de surrealismo: a luz sinistra iluminava objetos comuns dando-lhes formas mutantes, alterando-os estranhamente.

Desorientado pelo céu em chamas, pelo trovão, o vento e as cortinas brancas e ondulantes da tempestade, Markwell bruscamente sentiu-se bêbado pela primeira vez naquela noite. Imaginou quanto havia de realidade no bizarro fenômeno e quanto de alucinação alcoólica. Caminhou cuidadosamente pela varanda escorregadia até os degraus que levavam ao caminho coberto de neve na frente da casa e, apoiado numa das colunas da varanda, olhou para cima, para o céu que parecia esfacelado.

Uma seqüência de relâmpagos fez com que o gramado e a rua parecessem saltar várias vezes como a cena em câmara lenta num projetor enguiçado. Toda cor da noite foi queimada deixando apenas o branco ofuscante do relâmpago, o céu sem estrelas, a neve cintilante, sombras trêmulas de profundo negror.

Enquanto olhava com medo e reverência para o estranho espetáculo no céu, outra fenda denteada abriu-se, violenta. A extremidade do raio quente à procura da terra tocou um poste de ferro da rua a vinte metros de distância e Markwell gritou de medo. No momento do contato, a noite tornou-se incandescente e as placas de vidro que protegiam a lâmpada explodiram. O trovão vibrou nos dentes de Markwell; o chão da varanda agitou-se. O ar frio cheirava agora a ozônio e ferro quente.

Silêncio, quietude e escuridão voltaram. Markwell tinha engolido a bala de hortelã. Vizinhos atônitos apareceram nas varandas em toda a rua. Ou talvez tivessem assistido ao tumulto, e ele só os percebesse agora quando voltava a calma relativa de uma tempestade de neve normal. Alguns caminharam pesadamente na neve até o poste atingido, para verificar as avarias. A parte superior parecia completamente derretida. Comentavam em voz alta e dirigiram-se a Markwell, mas ele não respondeu. A terrível exibição não havia dissipado os efeitos da bebida. Com medo de que os vizinhos percebessem que estava bêbado, voltou a entrar na casa.

Além disso, não tinha tempo para conversar sobre o tempo. Precisava atender uma mulher grávida, ajudá-la a dar à luz.

Procurando controlar-se, apanhou um cachecol de lã do armário, enrolou no pescoço, com as pontas cruzadas no peito. Suas mãos tremiam, e os dedos estavam um pouco rígidos, mas conseguiu abotoar o sobretudo. Lutando contra o aturdimento, calçou as galochas.

Markwell estava certo de que aqueles relâmpagos absurdos tinham um significado especial para ele. Um sinal, uma premonição. Tolice. O uísque o confundia. Mas a sensação persistiu quando foi até a garagem, abriu a porta e tirou o carro, as correntes nos pneus mastigando suavemente a neve.

Quando pôs o carro em ponto morto para descer e fechar a garagem, alguém bateu com força no vidro da janela. Sobressaltado, Markwell viu um homem inclinado ao lado do carro, olhando para ele.

O estranho tinha uns 35 anos. Seus traços eram firmes e regulares. Mesmo visto através do vidro meio embaçado, era um homem de boa aparência. Vestia uma jaqueta de marinheiro com a gola levantada. No ar gelado sua respiração transformava-se em vapor, que saía das narinas, e, quando falou, as palavras saíram envoltas em flocos pálidos.

—        Dr. Markwell.

Markwell abriu o vidro do carro.

—        Sim?

—        Dr. Paul Markwell?

—        Sim, sim. Eu já disse. Mas não estou atendendo aqui esta noite e estou saindo para ver uma paciente no hospital.

O estranho tinha olhos muito azuis que lembraram a Markwell um céu claro de inverno refletido no gelo fino de um lago recentemente congelado. Eram impressionantes, belos, mas Markwell compreendeu imediatamente que eram os olhos de um homem perigoso.

Antes que o médico tivesse tempo de dar marcha à ré na direção de onde ele esperava que estivesse a rua, o homem de jaqueta enfiou um revólver pela janela.

—        Não faça nenhuma bobagem.

Quando o cano da arma encostou na carne tenra sob seu queixo, Markwell compreendeu com alguma surpresa que não queria morrer. Há tempos acalentava a idéia de que estava pronto para a morte. Agora, porém, em vez de ficar satisfeito com sua vontade de viver, sentiu-se dominado pela culpa. Abraçar a vida era como trair o filho com o qual podia se juntar somente pela morte.

—        Apague as luzes do carro, doutor. Ótimo. Agora, desligue o motor.

Markwell tirou a chave da ignição.

—        Quem é você?

—        Isso não é importante.

—        É, para mim. O que você quer? O que vai fazer comigo?

—        Coopere e não vai sofrer nada. Mas se tentar fugir, eu estouro seus miolos, depois esvazio a arma no seu corpo morto, só para garantir. — A voz era suave, agradável mesmo, mas decidida. — Dê-me as chaves.

Markwell passou as chaves pela janela do carro.

—        Agora, saia daí.

Aos poucos sentindo que ficava sóbrio, Markwell saiu do carro. O vento cortante fustigou seu rosto. Apertou os olhos para evitar que a neve fina entrasse neles.

—        Antes de fechar a porta, feche a janela. — O estranho aproximou-se muito dele, anulando qualquer possibilidade de fuga. — Muito bem, ótimo. Agora, doutor, vamos até a garagem.

—        Isso é loucura. O que...

—        Ande.

O homem ficou ao lado de Markwell, segurando-o pelo braço esquerdo. Se alguém os visse de uma das casas vizinhas, a escuridão da noite e a neve que caía não deixariam que percebessem a arma.

Na garagem, seguindo as instruções do estranho, Markwell fechou a porta. As dobradiças frias e sem óleo chiaram com um ruído raspante.

—        Se você quer dinheiro...

—        Cale a boca e entre na casa.

—        Escute, uma paciente está em trabalho de parto na cidade...

—        Se não calar a boca, vou usar o cabo desta arma para arreben tar todos os seus dentes, e não vai mais poder falar.

Markwell acreditou. Dois metros de altura, cerca de noventa quilos, o homem era do tamanho de Markwell, mas era presença intimidadora. O cabelo louro estava molhado de neve derretida, e com as gotículas escorrendo pela testa e têmporas parecia não ser humano, uma estátua de gelo num parque de diversões, no inverno. Markwell não tinha dúvida de que num confronto físico o estranho de jaqueta de marinheiro podia derrotar facilmente seus adversários, especialmente um médico de meia-idade, bêbado e fora de forma.

Bob Shane começou a sentir uma sensação de claustrofobia na sala de espera da maternidade. O teto era baixo, de azulejo acústico, paredes verdes e uma única janela emoldurada pelo gelo fino. O ar estava quente demais. As seis cadeiras e duas mesas de centro eram demais para o pequeno espaço. Teve vontade de empurrar as portas, sair para o corredor, correr para a outra extremidade do hospital, atravessar o saguão e sair para a noite fria, onde não havia cheiro de anti-sépticos nem de doença.

Mas ficou na sala de espera, perto de Janet, para o caso de ela precisar de sua companhia. Algo estava errado. Todo parto é doloroso, mas não aquelas contrações demoradas, agonizantes e brutais que Janet estava suportando há tanto tempo. Os médicos não queriam admitir que haviam surgido graves complicações, mas evidentemente estavam preocupados.

Bob descobriu a origem da sua claustrofobia. Não era o medo de que as paredes se fechassem sobre ele. O que começava a se fechar à sua volta era a morte, talvez da sua mulher, talvez da criança ainda não nascida — ou de ambas.

As portas abriram-se para dentro e o dr. Yamatta entrou na sala.

Bob levantou-se, bateu com a perna na mesa de centro, espalhando revistas pelo chão.

— Como está ela, doutor?

 —       Na mesma. — Yamatta era baixo, magro, com rosto bondoso e olhos grandes e tristes. — O dr. Markwell logo estará aqui.

—        Não está esperando a chegada dele para fazer o que é preciso?

—        Não, é claro que não. Ela está sendo bem cuidada. Só achei que ficaria mais tranqüilo sabendo que seu médico está a caminho.

—        Oh, bem, sim... obrigado. Escute doutor, posso vê-la?

—        Ainda não — disse Yamatta.

—        Quando?

—        Quando... ela estiver sofrendo menos.

—        O que quer dizer com isso? Quando ela vai sofrer menos? Quando vai se livrar disso? — Imediatamente arrependeu-se. — Eu... desculpe, doutor. É só que... estou com medo.

—        Eu sei. Eu sei.

Uma porta interna ligava a garagem de Markwell ao resto da casa. Atravessaram a cozinha e seguiram pelo corredor, acendendo as luzes no caminho. A neve derretida das suas botas fazia poças no chão.

O homem com a arma examinou a sala de jantar, a sala de estar, o escritório, o consultório, a sala de espera dos pacientes e então disse:

—        Lá em cima.

No quarto de Markwell o estranho acendeu uma das lâmpadas. Afastou da penteadeira uma cadeira com assento bordado e colocou-a no meio do quarto.

—        Doutor, por favor, tire as luvas, o sobretudo e o cachecol.

Markwell obedeceu, deixando cair no chão as peças que ia tiran do, e, por ordem do homem, sentou na cadeira.

Deixando o revólver na cômoda, o estranho tirou uma corda grossa do bolso. De dentro do sobretudo tirou uma faca curta com lâmina larga, guardada numa bainha presa ao seu cinto. Cortou a corda em pedaços, evidentemente para amarrar Markwell na cadeira.

O médico olhou para o revólver sobre a cômoda, calculando a possibilidade de alcançá-lo antes que o homem o impedisse. Então, seus olhos encontraram os do assaltante e percebeu que o plano era tão evidente para ele quanto o de uma criança.

O homem louro sorriu como se estivesse dizendo vá em frente, apanhe a arma.

Paul Markwell queria viver. Deixou que o intruso atasse seus pés e suas mãos na cadeira.

Os nós eram firmes mas não dolorosos, uma estranha preocupação do homem com sua vítima.

—        Não quero amordaçá-lo. Você está bêbado, e com um pano na boca pode vomitar e morrer sufocado. Portanto, vou confiar em você até certo ponto. Mas se gritar por socorro eu o mato. Entendido?

  —      Sim.

Quando falava mais do que algumas palavras o homem tinha um sotaque, muito vago e leve, que Markwell não conseguia definir. Cortava o fim de algumas palavras e ocasionalmente sua voz tinha um som gutural apenas perceptível.

O estranho sentou na beirada da cama e pôs a mão sobre o telefone.

—        Qual é o número do hospital?

Markwell piscou os olhos.

—        Por quê?

—        Diabo, perguntei o número. Se não me disser, prefiro fazê-lo falar à custa de pancada a procurar na lista.

Markwell deu o número.

—        Quem está de plantão esta noite?

—        Dr. Carlson. Herb Carlson.

—        Ele é bom?

—        O que quer dizer?

—        É um médico melhor do que você... ou um bêbado também?

—        Não sou bêbado. Eu tenho...

—        Você é irresponsável, um farrapo alcoólatra cheio de autopiedade e sabe disso. Responda a minha pergunta, doutor. Posso confiar em Carlson?

Markwell sentiu a náusea, apenas em parte causada pela bebida; era também por reconhecer que o intruso dizia a verdade.

—        É, Herb Carlson é bom. Um ótimo médico.

—        Quem é a enfermeira-chefe esta noite?

Markwell pensou um momento.

—        Ella Hanlow, acho. Não tenho certeza. Se não for Ella, é Virginia Keene.

O estranho telefonou para o hospital e disse que estava falando em nome do dr. Markwell. Pediu para chamar Ella Hanlow.

Uma lufada de vento açoitou a casa, sacudindo uma janela, assobiando nos beirais, e Markwell lembrou da tempestade. Olhando a neve que caía lá fora, sentiu a outra lufada de desorientação. Uma noite tão estranha — o relâmpago, o intruso inexplicável — de repente tudo parecia irreal. Forçou as cordas que o prendiam à cadeira, certo de que eram fragmentos de um sonho alcoólico e que se dissolveriam como teia de aranha, mas não se dissolveram, e o esforço o deixou novamente atordoado.

No telefone, o estranho disse:

—        Enfermeira Hanlow? O dr. Markwell não pode ir ao hospital esta noite. Uma das suas pacientes, Janet Shane, está tendo um parto difícil. Hummmm? Sim, é claro. Ele quer que o dr. Carlson se encarregue do caso. Não, não, não vai ser possível. Não, não por causa do   tempo. Ele está bêbado. Isso mesmo. Seria perigoso para a paciente. Não... está tão bêbado que não adianta falar com ele ao telefone. Desculpe. Ele tem bebido um bocado ultimamente, tem procurado esconder, mas esta noite está pior do que nunca. Hummmm? Sou um vizinho. Certo. Obrigado, enfermeira Hanlow. Até logo.

Markwell ficou furioso e ao mesmo tempo aliviado com a revelação do seu segredo.

—        Seu cretino, você me arruinou.

—        Não, doutor, você se arruinou. O ódio que sente por você mesmo está destruindo sua carreira. E afastou sua mulher. O casamento não ia bem, é certo, mas podia ser salvo se Lenny tivesse vivido, e até mesmo depois da morte dele, se você não tivesse se afastado de todos completamente.

Markwell ficou atônito.

—       Como você sabe o que se passava entre Anna e eu? E como sabe sobre Lenny? Nunca o vi antes. Como pode saber tanto a meu respeito?

Ignorando as perguntas, o homem ajeitou dois travesseiros contra a cabeceira da cama. Pôs as botas molhadas sobre a coberta e deitou-se.

—        Não importa o que você sente, a morte do seu filho não foi culpa sua. Você é só um médico, não faz milagres. Mas perder Anna foi sua culpa. E o que você se tornou... um perigo para seus pacientes... é também sua culpa.

Markwell começou a objetar, depois com um suspiro deixou a cabeça pender para a frente até o queixo encostar no peito.

—        Sabe qual é o seu problema, doutor?

—        Suponho que possa me dizer.

—        Seu problema é que nunca teve de lutar por coisa alguma, jamais conheceu a adversidade. Seu pai estava bem de vida e você tinha tudo o que queria, estudou nas melhores escolas. Teve sucesso com sua profissão, mas nunca precisou de dinheiro. Assim, quando Lenny teve paralisia, você não sabia como enfrentar a adversidade, não tinha prática. Não foi vacinado, portanto, estava sem nenhuma resistência, e sofreu um sério caso de desespero.

Markwell levantou a cabeça, piscou os olhos até clarear sua visão e disse:

—        Não entendo isto.

—        Com todo esse sofrimento, você aprendeu alguma coisa, Markwell, e se ficar sóbrio o tempo suficiente para pensar com clareza, pode reencontrar o caminho. Ainda tem uma chance de se redimir.

—        Talvez eu não queira me redimir.

—        Pode ser verdade. Acho que tem medo de morrer, mas não sei se tem coragem suficiente para continuar vivendo.

   O hálito do médico era azedo, com cheiro de hortelâ e uísque. Sentia a boca seca e a língua inchada. Precisava de um drinque.

Num esforço vago testou as cordas que o prendiam. Finalmente, enjoado com o tom choroso da própria voz, mas incapaz de recuperar a dignidade, disse:

—        O que você quer de mim?

—        Quero evitar que vá ao hospital esta noite. Quero ter certeza de que não vai fazer o parto de Janet Shane. Hoje você é um açougueiro, um assassino em potencial e tem de ser detido, desta vez.

Markwell passou a língua nos lábios secos.

—        Ainda não sei quem é você.

—        E nunca saberá, doutor. Nunca saberá.

 

Bob Shane nunca sentira tanto medo. Continha as lágrimas, pois acreditava que se demonstrasse abertamente o medo tentaria o destino, provocando a morte de Janet e do bebê.

Inclinou-se para a frente na cadeira da sala de espera e rezou em silêncio: Senhor, Janet podia ter escolhido uma pessoa melhor do que eu. Ela é tão bonita e eu sou feio como um trapo velho. Não passo de um dono de armazém e minha loja na esquina nem está dando lucro, mas ela me ama. Senhor, ela é boa, honesta, humilde... não merece morrer. Talvez o Senhor queira levá-la porque é suficientemente boa para o céu. Mas eu ainda não sou, e preciso dela para me ajudar a ser melhor.

Uma das portas da sala foi aberta.

Bob ergueu a cabeça.

Os dois médicos, Carlson e Yamatta, entraram, com seus aventais verdes.

Bob ficou assustado e levantou lentamente da cadeira.

Os olhos de Yamatta estavam mais tristes do que nunca.

O dr. Carlson era alto e forte e com um porte digno, mesmo com a roupa folgada de cirurgião.

—        Sr. Shane... sinto muito. Eu sinto muito, mas sua mulher morreu de parto.

Bob ficou imóvel, como se a notícia terrível tivesse transformado seu corpo em pedra. Ouviu apenas parte do que Carlson dizia:

—        ... grande obstrução uterina... uma dessas mulheres que não podem ter filhos. Não devia ter engravidado. Eu sinto muito... muito mesmo... tudo que foi possível... hemorragia maciça... mas o bebê...

A palavra bebê desfez a paralisia de Bob. Deu um passo hesitante na direção de Carlson.

—        O que disse sobre o bebê?

—        É uma menina — disse Carlson. — Uma menina forte e saudável.

  Bob pensou que tudo estava perdido. Agora, olhou para Carlson, com a esperança de que uma parte de Janet não tivesse morrido e de que não ia ficar completamente só no mundo.

—        É mesmo? Uma menina.

—        Sim — disse Carlson. — Um bebê excepcionalmente bonito.

Nasceu com fartos cabelos castanho-escuros.

Bob olhou para Yamatta e disse:

—        Meu bebê está vivo.

—        Está — afirmou Yamatta. Seu sorriso comovido foi breve. — E deve agradecer ao dr. Carlson. A sra. Shane não tinha nenhuma chance. Em mãos menos experientes, o bebê teria morrido também.

Bob voltou-se para Carlson, incrédulo ainda.

—        O bebê está vivo e devemos agradecer isso, não é mesmo?

Os médicos ficaram em silêncio, embaraçados. Então Yamatta pôs a mão no ombro de Shane, sentindo talvez que o contato serviria de consolo.

Embora Shane fosse dez centímetros mais alto e vinte quilos mais pesado do que o pequeno médico, ele inclinou-se para Yamatta. Dominado pela dor, Bob chorou e Yamatta o abraçou.

O estranho ficou mais uma hora com Markwell, mas não falou, nem para responder às perguntas do médico. Deitado na cama, olhava para o teto, tão absorto nos próprios pensamentos que quase não se movia.

Quando Markwell ficou sóbrio, uma terrível dor de cabeça começou a atormentá-lo. Como sempre, a ressaca era motivo para autopiedade maior do que a que o levara a beber.

Finalmente, o intruso consultou o relógio de pulso.

—        Onze e meia. Vou agora. — Saiu da cama, aproximou-se da cadeira e tirou a faca de dentro do sobretudo.

Markwell ficou tenso.

—        Vou serrar um pouco as cordas, doutor. Se fizer um esforço durante meia hora poderá se libertar. O tempo que preciso para sair daqui.

Quando o homem começou a serrar as cordas, atrás da cadeira, a todo momento Markwell esperava sentir a faca entre suas costelas.

Mas em menos de um minuto o estranho terminou o serviço e foi até a porta do quarto.

—        Tem uma chance para se redimir, doutor. Acho que é fraco demais para isso, mas espero estar enganado.

Então ele saiu.

Markwell lutou durante dez minutos para se libertar, ouvindo alguns ruídos ocasionais no andar térreo. Evidentemente o intruso procurava alguma coisa valiosa para roubar. Com todo seu ar misterioso, talvez não passasse de um ladrão com um estranho método de ação.

Finalmente Markwell libertou-se completamente. Era meia-noite e vinte e cinco. Seus pulsos estavam feridos e sangravam.

Embora há meia hora não ouvisse nenhum barulho, apanhou o revólver da gaveta e desceu a escada cautelosamente. Foi até o consultório, na ala profissional da casa, esperando dar por falta de medicamentos; nenhum dos dois armários altos, com porta de vidro, haviam sido tocados.

Correu para a sala de trabalho, certo de que o cofre fora arrombado. Mas encontrou-o intato.

Intrigado, voltou-se para sair e viu então garrafas vazias de uísque, gim, tequila e vodca na pia do bar. O intruso havia se demorado apenas para localizar as bebidas e esvaziar as garrafas.

Um bilhete estava pregado no espelho do bar, uma mensagem em letras maiúsculas e claras:

 

SE NÃO DEIXAR DE BEBER, SE NÃO APRENDER A ACEITAR A MORTE DE LENNY, VAI PÔR UMA ARMA NA BOCA E EXPLODIR OS MIOLOS DENTRO DE UM ANO. NÃO É UMA PREDIÇÃO, É UM FATO.

 

Segurando o bilhete e a arma, Markwell olhou a sala vazia, como se o estranho ainda estivesse presente, invisível, um fantasma que podia aparecer e desaparecer à vontade.    

 — Quem é você? — perguntou. — Quem é você?

Só o vento na janela respondeu e seu gemido sombrio não fazia sentido.

Às onze horas da manhã seguinte, depois de providenciar o funeral de Janet, Bob Shane voltou ao hospital para ver a filha. Vestiu o avental de algodão, pôs o gorro e a máscara, lavou as mãos, sob a supervisão da enfermeira e entrou no berçário, onde gentilmente tirou Laura do berço.

Havia mais nove recém-nascidos no berçário. Todos bonitinhos, de um modo ou de outro, mas Bob sabia que não estava sendo parcial no seu julgamento. Laura Jean era a mais bonita. Embora a tradição exija que anjos tenham olhos azuis e cabelos louros e os de Laura fossem castanhos, parecia sem dúvida um anjo. Não chorou durante os dez minutos que ele a teve nos braços; piscou os olhos, entrecerrou-os, girou-os de um lado para o outro, bocejou. Parecia também pensativa, como se soubesse que não tinha mãe e estava sozinha, com o pai, num mundo frio e difícil.

Uma das paredes era uma grande janela, pela qual os parentes podiam ver os bebês. Cinco pessoas estavam ali. Quatro delas sorriam, apontavam e faziam caretas para os bebês.

  A quinta pessoa, um homem louro, com jaqueta de marinheiro, estava parado com as mãos nos bolsos. Não sorria, não apontava, não fazia caretas. Olhava fixamente para Laura.

Depois de alguns minutos, vendo que o homem não desviava os olhos, Bob ficou preocupado. Era um homem de boa aparência, bonito mesmo, mas com uma expressão séria, algo que não podia ser definido, que fez Bob pensar que o homem havia visto e feito coisas terríveis.

Pensou nas terríveis histórias de seqüestros, dos jornais, de bebês vendidos no mercado negro. Procurou convencer-se de que estava ficando paranóico, imaginando perigos inexistentes porque, tendo perdido Janet, temia agora perder a filha também. Porém, quanto mais o homem louro observava Laura, mais crescia a preocupação de Bob.

Percebendo essa preocupação, o homem louro ergueu os olhos. Eram olhos extremamente brilhantes e intensos. O medo de Bob cresceu. Apertou mais a filha contra o peito, como se o estranho pudesse quebrar o vidro do berçário e apossar-se dela. Pensou em chamar uma das enfermeiras e sugerir que falasse com o homem, procurasse saber algo sobre ele.

Então, o estranho sorriu. O sorriso largo, caloroso e genuíno transformou seu rosto. Não parecia sinistro agora, mas amistoso. Piscou um olho para Bob e moveu os lábios para dizer, através do vidro: "Linda."     “

Bob sentiu desaparecer a tensão, lembrou que seu sorriso não podia ser visto, por causa da máscara, e agradeceu com um gesto da cabeça.

O estranho olhou para Laura mais uma vez, piscou novamente para Bob e afastou-se da janela.

Mais tarde, depois que Bob foi para casa, um homem alto com roupas escuras, aproximou-se da janela do berçário. Seu nome era Kokoschka. Observou os bebês; então desviou a vista e observou o próprio reflexo no vidro. Tinha o rosto largo, plano, com traços marcados e lábios tão finos e secos que pareciam feitos de osso. Uma cicatriz de duelo, de cinco centímetros, marcava sua face esquerda. Os olhos escuros eram rasos no rosto, como duas esferas de cerâmica pintadas, como os de um tubarão cruzando as sombrias rotas no fundo do mar. Notou com agrado o contraste do próprio rosto com os rostinhos dos bebês do outro lado do vidro; sorriu, uma expressão rara no seu rosto, mas o sorriso não tinha calor e o fazia parecer mais ameaçador.

Outra vez olhou para além do próprio reflexo. Não foi difícil encontrar Laura Shane entre os bebês enrolados nas mantas, pois os sobrenomes estavam escritos em cada berço.

 Por que tanto interesse em você, Laura?, pensou ele. Por que sua vida é tão importante? Por que tanto dispêndio de energia para garantir sua vinda ao mundo sã e salva? Devo matá-la agora e anular o plano do traidor?

Ele seria capaz de matá-la sem nenhum remorso. Já matara crianças antes, embora nenhuma tão nova quanto Laura. Nenhum crime era terrível, se ajudasse a causa à qual devotava sua vida.

O bebê dormia. Uma vez ou outra movia os lábios e o rostinho se contraía, talvez sonhando com o útero, sentindo saudades.

Finalmente ele resolveu não matá-la. Não ainda.

— Posso eliminar você mais tarde, pequenina — murmurou ele —, quando souber que papel você representa nos planos do traidor. Então posso matá-la.

Kokoschka afastou-se da janela. Sabia que durante mais de oito anos não veria mais a menina.

 

Raramente chove na primavera, no verão e no outono, no sul da Califórnia. A verdadeira estação das chuvas geralmente começa em dezembro e termina em março. Mas naquele sábado, 2 de abril de 1963, o céu estava encoberto e era alto o índice de umidade no ar. Abrindo a porta do seu pequeno armazém em Santa Ana, Bob Shane calculou que havia possibilidade de uma última pancada de chuva da estação.

Os fícus no quintal da casa, no outro lado da rua, e a tamareira da esquina estavam imóveis no ar parado e pareciam curvados ao peso da tempestade iminente.

Ao lado da caixa registradora o rádio estava ligado com pouco volume. Os Beach Boys cantavam seu novo sucesso Surfin' U.S.A. Considerando o tempo, a canção era tão apropriada quanto White Christmas em julho.

Bob consultou o relógio: 3:15.

Às três e meia estaria chovendo, pensou ele, e chovendo muito.

A parte da manhã fora boa para os negócios, mas à tarde o movimento diminuiu. Naquele momento não havia nenhum freguês.

O armazém, dirigido pela família, começava a sentir a competição das cadeias de mercado como o 7-Eleven. Bob pretendia fazer da sua loja uma casa de frios variados, alimentos mais frescos, mas estava adiando essa medida porque significava muito mais trabalho.

Se a tempestade iminente fosse violenta, pouco venderia no resto daquela tarde. Talvez fechasse mais cedo, para levar Laura ao cinema.

Voltando-se para dentro do armazém, ele disse:

—Acho melhor apanhar o barco, meu bem.

Laura estava absorta no trabalho, ajoelhada ao lado da caixa registradora. Bob havia tirado quatro caixas de sopa enlatada do depósito e Laura agora encarregava-se da arrumação. Tinha só oito anos, mas era uma menina responsável e gostava de ajudar o pai no armazém. Depois de marcar o preço certo em cada lata, colocava-as nas prateleiras, lembrando-se de girar a mercadoria, colocando as latas novas atrás das mais antigas.

Ela ergueu a cabeça com relutância.

—        Barco? Que barco?

—        Lá em cima, no apartamento. O barco, no armário. Pelo jeito do céu acho que vamos precisar dele para sair mais tarde.

—        Seu bobo — disse ela. — Não temos nenhum barco no armário.

Bob foi para trás do balcão.

—        Um belo barquinho azul.

—        É mesmo? Em qual armário?

Bob começou a dependurar pacotes de Slim Jims no mostruário de metal, ao lado dos pacotes de biscoitos.

—        No armário da biblioteca, é claro.

—        Não temos biblioteca.

—        Não? Ora, está bem, agora que você mencionou, lembrei que o barco não está na biblioteca. Está no armário do quarto do sapo.

Laura riu.

—        Que sapo?

—        Ora, não vai me dizer que não sabe nada sobre o sapo?

Com um largo sorriso, Laura balançou a cabeça.

—        A partir de hoje estamos alugando um quarto para um refina do e importante sapo inglês; um sapo cavalheiro, que está aqui a servi ço da rainha.

O relâmpago cintilou e o trovão estourou no céu de abril. No rádio, a estática juntou-se ao Ritmo da chuva, cantado pelos Cascades.

Laura não deu atenção à tempestade. Não tinha medo de muitas coisas que assustavam as outras crianças. Tinha tanta autoconfiança e tanto controle que às vezes parecia uma mulher idosa fingindo ser criança.

—        Por que a rainha ia querer que um sapo tratasse dos seus negócios?

—        Sapos são ótimos comerciantes — disse ele, abrindo um dos pacotes de Slim Jims e mordendo um pedaço. Desde a morte de Janet e de sua mudança para a Califórnia e a nova vida, Bob engordara 25 quilos. Nunca fora um homem bonito. Agora, com 38 anos, era um homem gordo, que dificilmente atrairia a atenção das mulheres. Também não era um grande sucesso na vida; ninguém fica rico com um pequeno armazém de esquina. Mas Bob não se importava. Tinha Laura, era um bom pai e ela o amava de todo coração, como ele também a amava, portanto o que o resto do mundo pensava dele não tinha importância.

—        Sim, sapos são grandes negociantes. E a família deste sapo serve à rainha há centenas de anos. Na verdade, ele foi armado cavaleiro.

Sir Thomas Sapo.

O relâmpago cortou o céu, mais claro do que antes. O trovão foi também mais forte.

Terminando de arrumar as prateleiras, Laura levantou-se, limpando as mãos no avental que usava sobre a camiseta e a calça jeans. Era uma bela menina; com os cabelos castanhos e olhos grandes da mesma cor, lembrava muito a mãe.

—        E quanto o Sir Sapo paga de aluguel?

—        Seis pence por semana.

—        Está no quarto perto do meu?

—        Está. No quarto do armário onde está o barco.

Laura riu outra vez.

—        Bom, espero que ele não ronque.

—        Ele disse o mesmo de você.

Um Buick velho e enferrujado parou na frente do armazém e, quando o motorista abriu a porta do carro, um terceiro relâmpago abriu uma brecha no céu cada vez mais escuro. O dia estava envolto numa luz difusa que parecia escorrer pelas ruas, espalhando-se como lava sobre o Buick estacionado e os carros que passavam. O trovão sacudiu o prédio, como se o céu tempestuoso estivesse refletido na terra, precipitando um terremoto.

—        Puxa! — exclamou Laura, aproximando-se da janela sem demonstrar medo.

Ainda não chovia, mas o vento do oeste soprava forte, levando folhas e lixo na sua corrida.

O homem que desceu do decrépito Buick azul olhava atônito para o céu.

Relâmpagos seguidos cortavam o céu cheio de nuvens, fragmentavam o ar, refletindo-se incandescentes nas janelas e nos cromados dos automóveis, seguidos de trovões que castigavam o dia com seus punhos.

Os relâmpagos impressionaram Bob e ele disse para Laura:

—        Querida, afaste-se da janela. — A menina correu então até o pai atrás do balcão, e abraçou-o, mais para confortá-lo, do que por medo.

O homem do Buick correu para dentro do armazém. Olhando para o céu violento, disse:

—Viu aquilo, homem? Puxa vida!

O trovão afastou-se. Voltou o silêncio.

Começou a chover; grossos pingos açoitaram, primeiro as janelas sem muita força, e veio depois a cortina espessa e cegante que encobriu o mundo lá fora, além do pequeno armazém.

O homem sorriu.

—        Belo espetáculo, não é mesmo?

Bob ia responder, mas depois de ver o rosto do homem ficou calado, sentindo a proximidade do perigo, como um animal da floresta sente o predador. O homem usava botas de cano médio, jeans sujas e uma jaqueta manchada sobre a camiseta branca. O cabelo despenteado pelo vento era oleoso e a barba por fazer emprestava um tom azulado ao rosto. Os olhos eram congestionados e vermelhos. Um viciado. Aproximando-se do balcão, tirou um revólver de dentro da jaqueta, o que não surpreendeu Bob.

—        Me dá o que você tem aí na caixa, seu cretino.

—        Certo.

—        Trate de andar depressa.

—        Tudo bem, vá com calma.

O homem umedeceu com a língua os lábios pálidos e rachados.

—        Não comece a fazer cera comigo, seu cretino.

—        Tudo bem, tudo bem. Vai ter o que quer — disse Bob, tentando se colocar na frente de Laura.

—        Deixe a garota onde eu possa ver! Quero ver ela. Agora, já, tire ela de trás de você!

—        Certo, não esquenta.

O homem estava tenso e rígido como o esgar de um morto e seu corpo vibrava visivelmente.

—        Onde eu possa ver. E não toque em nada, só na caixa registra dora, não pegue nenhuma arma, senão estouro os seus miolos.

—        Não tenho arma — garantiu Bob.

Olhou para as janelas, para a chuva, esperando que nenhum freguês entrasse naquele momento. O homem parecia tão instável que podia atirar em quem entrasse de repente.

Laura tentou outra vez esconder-se atrás do pai, mas o homem disse:

—        Ei! Não se mexa!

—        Ela tem só oito anos — comentou Bob.

—        É urna cadela. São todas umas cadelas ordinárias, pequenas ou grandes. — A voz estridente era entrecortada. O homem parecia mais assustado ,do que Bob, o que era apavorante.

Embora atento ao homem e ao revólver, Bob quase insanamente ouvia Skeeter Davis no rádio, cantando O fim do mundo, o que parecia sinistramente profético. Com a superstição compreensível num homem que enfrenta uma arma, desejou ardentemente que a canção terminasse antes de, com sua magia, precipitar o fim do seu mundo e o de Laura.

—        Aqui está o dinheiro todo. Pode levar.

O homem guardou o dinheiro no bolso da jaqueta e disse:

—        Você tem um quarto de depósito nos fundos?

—        Por quê?

O assaltante jogou no chão parte da mercadoria que estava sobre o balcão. Aproximou mais a arma de Bob.

—        Seu cretino, você tem um depósito, eu sei. Vamos para lá.

Bob sentiu a boca seca.

—        Olhe, pegue o dinheiro e vá embora. Já tem o que quer. Vá embora. Por favor.

Com um largo sorriso, mais confiante, agora que estava com o dinheiro e encorajado pelo medo evidente de Bob, mas trêmulo ainda, o homem disse:

—        Não tenha medo, não vou matar ninguém. Sou um amante, não um assassino. Só quero um pouquinho daquela cadelinha, depois vou embora.

Bob lamentou então não ter uma arma. Laura agarrava-se a ele, confiando na sua ajuda e não podia fazer nada para salvá-la. A caminho do depósito, podia tentar tirar a arma do assaltante. Estava gordo demais, fora de forma. Sem movimentos rápidos com certeza levaria um tiro e o imundo filho da mãe levaria Laura para o quarto dos fundos, para fazer o que quisesse com ela.

—        Mexa-se — disse o homem. — Agora!

Ouviram um tiro, Laura gritou e Bob a puxou para ele, protegendo-a, mas o alvo foi o assaltante. A bala atingiu sua têmpora esquerda e ele caiu pesadamente sobre a mercadoria espalhada no chão, morto instantaneamente, sem tempo para apertar o gatilho da arma que empunhava.

Atordoado, Bob olhou para a direita e viu um homem alto e louro com uma arma na mão. Evidentemente havia entrado pela porta de serviço, nos fundos, atravessando silenciosamente o quarto de depósito. Atirou no assaltante sem nenhum aviso. Olhava para o homem morto com expressão fria, indiferente, como um matador experiente.

—        Graças a Deus — disse Bob. — Um policial.

—        Não sou da polícia.

Vestia calça esporte cinzenta, camisa branca e paletó cinza-escuro sob o qual era visível o coldre a tiracolo.

Bob, confuso, imaginou se não seria outro assaltante, pronto para continuar o que o primeiro havia interrompido tão violentamente.

  O estranho ergueu os olhos azuis, intensos e diretos. Bob teve certeza de já tê-lo visto antes, mas não lembrava quando nem onde.

O estranho olhou para Laura.

—        Você está bem, querida?

—        Estou — disse ela, sempre agarrada ao pai.

Um cheiro pungente de urina vinha do corpo, no chão.

O estranho atravessou o armazém, passando sobre o corpo, e trancou a porta da frente. Abaixou a persiana interna. Olhou preocupado pura as vitrines pelas quais a chuva escorria, distorcendo a tarde tempestuosa lá fora.

—        Não podemos cobrir aquelas vitrines. Vamos torcer para que ninguém olhe para dentro.

—        O que vai fazer conosco? — perguntou Bob.

—        Eu? Nada. Não sou como aquele infeliz. Não quero nada de vocês. Fechei a porta para resolvermos o que você vai dizer à polícia.

Precisamos combinar tudo, antes que alguém entre e veja o corpo.

—        Por que preciso inventar uma história?

Abaixando-se perto do corpo, o estranho retirou da jaqueta um molho de chaves e o dinheiro de Bob. Disse então:

—        Tudo bem, você vai dizer que eram dois assaltantes. Este aqui queria Laura, mas o outro não gostou da idéia de violentar uma garotinha, só queria ir embora. Então discutiram, enfureceram-se, o outro matou este miserável e foi embora com o dinheiro. É capaz de fazer com que acreditem nisso?

Bob mal podia acreditar que ele e Laura iam ser poupados. Segurava ainda a filha contra o corpo.

—        Eu... não entendo. Você não estava com ele. Não vai ter problemas por matar um assaltante... afinal, ele ia nos matar. Por que não contamos a verdade?

O homem aproximou-se de Bob e devolveu o dinheiro.

—        E qual é a verdade?

—        Bem... você chegou por acaso e viu o que estava acontecendo...

—        Não cheguei por acaso, Bob. Tenho vigiado você e Laura — guardando o revólver no coldre, sob o paletó, olhou para Laura, que o observava espantada. O homem sorriu e murmurou: — Anjo da guarda.

Mas Bob não acreditava em anjos da guarda:

—        Nos vigiando? De onde, por quanto tempo? Por quê?

Com um tom de urgência na voz e um sotaque vago e indefinido, que Bob notou pela primeira vez, ele disse:

—        Não posso responder. — Olhou rapidamente para as vitrines lavadas pela chuva. — E não posso ser interrogado pela polícia. Por- tanto, deve contar a história que inventei.

 —       De onde eu o conheço? — perguntou Bob.

—        Não me conhece.

—        Mas tenho certeza de tê-lo visto antes.

—        Não viu. Não precisa saber. Agora, pelo amor de Deus, esconda esse dinheiro e deixe a caixa vazia; vai parecer estranho se o segundo homem saísse sem o que vieram buscar. Vou deixar o Buick em algum lugar longe daqui, assim pode dar uma descrição do carro. Se quiser, dê também minha descrição. Não tem importância.

O trovão estourou barulhento lá fora, mas longo e distante, não mais com a fúria do começo da tempestade.

O ar úmido ficou mais pesado quando ó cheiro ácido do sangue misturou-se com o de urina.

Nauseado, apoiando-se no balcão mas sem largar Laura, Bob disse:

—        Por que não posso simplesmente contar como você interrompeu o assalto, matou o cara e, para fugir à publicidade, foi embora?

O estranho ergueu a voz impaciente:

—        Um homem armado entra por acaso no meio de um assalto e resolve bancar o herói? Os tiras não vão acreditar numa história tola como essa.

—        Foi o que aconteceu...

—        Mas não vão acreditar! Olhe, vão pensar que foi você quem matou o homem. Como você não tem arma, pelo menos não uma ar ma registrada, vão pensar em porte ilegal e que desfez-se dela depois de atirar neste cara, inventou uma história maluca sobre um justiceiro do tipo Zorro, que chegou de repente e salvou sua pele.

—        Sou um comerciante respeitável, com boa reputação.    Uma tristeza estranha, uma sombra quase sinistra, surgiu nos olhos do estranho.

—        Bob, você é um bom homem... mas um tanto ingênuo, às vezes.

—        O que você...

O estranho ergueu a mão interrompendo-o.

—        Em certas situações, a reputação de um homem pode não va ler coisa alguma. Existe muita gente boa e compassiva capaz de dar o benefício da dúvida, mas existem alguns, uma minoria venenosa, sempre ávidos para ver a desgraça e a ruína dos outros. — Sua voz era agora um murmúrio e embora olhasse para Bob parecia ver outros lugares, outras pessoas. — A inveja, Bob. A inveja os devora. Se você tivesse dinheiro, eles o invejariam por isso. Mas como não tem, eles invejam sua filha tão boa, inteligente e amorosa. Eles o invejam por ser feliz. Por não invejá-los. Uma das grandes desgraças da humanidade é que algumas pessoas não se sentem felizes com o que têm, mas precisam ver a desgraça dos outros.

Bob não podia refutar a acusação de ingenuidade e sabia que o homem tinha razão. Estremeceu.

Depois de um momento de silêncio, a expressão sombria do estranho deu lugar à urgência, outra vez.

—        E quando os tiras resolverem que você está mentindo sobre o justiceiro que o salvou, vão começar a imaginar que talvez o viciado não estivesse aqui para roubar, que talvez você o conhecesse, que tinha alguma coisa contra ele, ou até mesmo que planejou tudo para matá-lo, fazendo com que parecesse um assalto. É assim que os tiras pensam, Bob. Mesmo que não consigam provar sua culpa, vão tentar com tanto afinco que sua vida vai ser um inferno. Quer sujeitar Laura a tudo isso?

—        Não.

—        Então faça as coisas ao meu modo.

Bob fez um gesto afirmativo.

—        Está certo. A seu modo. Mas quem é você?

—        Isso não importa. Além do mais, não temos tempo. — Aproximou-se de Laura, atrás do balcão. — Entendeu o que eu disse ao seu pai? Se a polícia perguntar a você o que aconteceu...

—        Você estava com aquele homem — disse ela, apontando na direção do corpo.

—        Certo.

—        Você era amigo dele, mas então começaram a discutir por minha causa, só que não sei por quê, pois não fiz nada de errado...

—        Não importa por quê, meu bem — disse o estranho.

Laura balançou a cabeça afirmativamente.

—        E então, você atirou nele e fugiu com todo o dinheiro no seu carro e fiquei muito assustada.

O homem olhou para Bob.

—        Oito anos, certo?

—        Ela é uma menina inteligente.

—        Mesmo assim, será melhor que os policiais não a interroguem muito.

—        Não vou deixar.

—        Se me fizerem muitas perguntas, começo a chorar e chorar até desistirem.

O estranho sorriu. Olhou para Laura com tanto carinho que Bob ficou preocupado. Não era a expressão do pervertido que queria levá-la para o quarto dos fundos; era terno e afetuoso. Tocou de leve o rosto dela. Lágrimas apareceram nos seus olhos. O homem piscou rapidamente.

—        Bob, guarde o dinheiro. Lembre-se, eu fugi com ele.

Bob percebeu que estava com o maço de notas ainda na mão. Enfiou no bolso da calça, disfarçando o volume com o avental.

O homem destrancou a porta e levantou a persiana.

— Tome conta dela, Bob. Ela é especial.

Então saiu rapidamente para a chuva, deixando a porta aberta e entrou no Buick. Os pneus cantaram quando ele partiu.

O rádio estava ligado, mas só agora Bob o ouviu, desde O fim do mundo, antes do estranho atirar no viciado. Agora, Shelley Fabares estava cantando Johnny Angel.

De repente, ouviu a chuva outra vez, não apenas como uma música de fundo tamborilada e sibilante, mas real agora, batendo furiosamente nas vidraças e no telhado do apartamento sobre o armazém. Embora o vento entrasse pela porta aberta, o cheiro de sangue e urina parecia mais forte e urgente, como se, só agora saindo do transe de terror, Bob compreendesse o quanto sua preciosa Laura estivera perto da morte. Tomou-a nos braços, levantando-a do chão num abraço apertado, repetindo o nome da filha, acariciando seus cabelos. Encostou o rosto no pescoço dela, sentindo a frescura doce da pele jovem, o pulso da artéria, agradecendo a Deus por ela estar viva.

—        Eu te amo, Laura.

—        Eu também te amo, papai. Amo você por causa de Sir Thomas Sapo e por mais uma porção de coisas. Mas agora temos de chamar a polícia.

—        Sim, é claro — disse ele, soltando o abraço com relutância.

Os olhos de Bob estavam cheios de lágrimas. No seu nervosismo não sabia sequer onde estava o telefone.

Laura tirou o fone do gancho e o deu para o pai.

—        Eu posso telefonar, papai. O número está aqui no telefone.

Quer que eu chame a polícia?

—        Não. Eu chamo, meu bem.

Piscando os olhos para esconder as lágrimas, Bob segurou o fone e sentou na banqueta ao lado da caixa registradora.

Laura pôs a mão no braço do pai, como se entendesse que ele precisava de encorajamento.

Janet era uma mulher emocionalmente forte, mas a força e o autocontrole de Laura eram excepcionais para sua idade. Bob Shane não sabia de quem os havia herdado. Talvez o fato de não ter mãe desse a ela mais autoconfiança.

—        Papai? — disse Laura, batendo no telefone com a ponta do dedo. — A polícia, lembra?

—        Sim, sim — disse Bob, controlando a náusea provocada pelo cheiro de morte que envolvia o armazém. Ligou para o número de emergência da polícia.

  Kokoschka sentado no carro no outro lado da rua, na frente do armazém de Bob, passou os dedos pela cicatriz do rosto, com ar pensativo.

Não chovia mais. A polícia já havia partido. O asfalto escuro, apesar das  luzes da rua e dos luminosos, parecia absorver toda a luz.

Kokoschka chegara ao mesmo tempo que Stefan, o homem louro, o traidor de olhos azuis. Ouviu o tiro e viu Stefan fugir no carro do homem morto. Quando a polícia chegou, juntou-se aos curiosos para se informar sobre o que havia acontecido.

Evidentemente percebeu o absurdo da história de Bob Shane, afirmando que Stefan era um dos assaltantes. Stefan era o guardião voluntário de Bob e Laura e sem dúvida mentira para ocultar sua verdadeira identidade.

Mais uma vez Laura fora salva.

Mas por quê?

Kokoschka tentou imaginar o papel da menina nos planos do trai-dor, mas não tinha idéia. Sabia que de nada adiantaria interrogar a garota, pois era pequena demais para saber alguma coisa. O motivo daquela proteção era um mistério, tanto para ela quanto para Kokoschka.  Estava certo de que Bob não sabia de nada. Obviamente, Stefan estava interessado na menina, não no pai, portanto, este não precisava saber quem era Stefan, nem quais as suas intenções.

Finalmente, Kokoschka foi até o restaurante a alguns quarteirões do armazém, jantou e voltou, quando a noite já ia adiantada. Estacionou o carro numa rua transversal sob os galhos frondosos de uma palmeira. O armazém estava às escuras, mas havia luz nas janelas do apartamento no segundo andar.

Tirou o revólver do bolso da capa de chuva. Era um Colt-Agent 48 de cano curto, compacto, mas potente. Kokoschka gostava de armas bem desenhadas e bem-feitas e especialmente da sensação daquele revólver em sua mão: era a própria Morte sob uma capa de aço.

Kokoschka podia cortar os fios telefônicos dos Shane, arrombar a porta, matar a menina e o pai e fugir antes que a polícia aparecesse, alertada pelos tiros. Tinha talento e afinidade para aquele tipo de trabalho.

Mas se os matasse sem saber por quê, sem saber o papel que desempenhavam nos planos de Stefan, podia descobrir mais tarde que a eliminação dos dois fora um erro. Precisava saber a intenção de Stefan, antes de agir.

Relutantemente guardou o revólver no bolso.

 

No ar parado da noite, a chuva caía perpendicular sobre a cidade, com gotas enormes e pesadas. Tamborilava barulhenta no telhado e no pára-brisa do pequeno carro negro.

À uma hora da manhã daquela terça-feira, no fim de março, as ruas varridas pela chuva, alagadas em alguns cruzamentos, estavam desertas, a não ser por alguns veículos militares. Stefan seguiu por um caminho indireto até o instituto, para evitar os postos de controle, mas temia encontrar alguma patrulha móvel de reconhecimento. Seus papéis estavam em ordem e tinha licença especial da segurança, que o isentava do toque de recolher. Mesmo assim, preferia não se submeter à inspeção da polícia militar. Não podia arriscar uma revista no carro, pois a mala no banco de trás continha fio de cobre, detonadores e explosivos plásticos, para cujo transporte não tinha ordem legal.

Porque sua respiração embaçava o pára-brisa, porque a chuva obscurecia sinistramente a cidade escura, porque os limpadores de pára-brisa estavam gastos e porque os faróis encobertos iluminavam um campo limitado de visão, quase não viu a rua estreita calçada de pedras, que levava aos fundos do instituto. Freou e virou a direção rapidamente. O carro entrou na rua estremecendo e cantando os pneus, derrapando levemente sobre as pedras.

Estacionou no escuro, perto da entrada dos fundos, saiu do carro e apanhou a mala do banco traseiro. O instituto ficava num prédio velho de quatro andares com janelas fechadas com tábuas. O prédio parecia ameaçador, embora não sugerisse a idéia de segredos importantes, capazes de mudar o mundo. A porta de metal tinha dobradiças invisíveis e era pintada de preto. Stefan apertou o botão, ouviu a campainha lá dentro e esperou nervosamente que alguém atendesse.

Estava com botas de borracha e uma jaqueta de couro com a gola levantada, mas sem chapéu nem guarda-chuva. A chuva gelada grudava seus cabelos na cabeça e escorria por dentro da camisa.

Tremendo de frio, olhou pela janelinha, ao lado da porta. Tinha dez centímetros de largura, trinta de altura e o vidro era opaco por fora, espelhado do lado de dentro.

Stefan ouviu pacientemente a chuva batendo no teto do carro, nas poças d'água da rua, entrando barulhenta nos bueiros. Com um chiado frio, castigava as folhas das árvores na calçada.

Uma luz foi acesa acima da porta. A lâmpada, dentro de um cone de metal, lançou sua luz amarelada e forte diretamente sobre Stefan.

Ele sorriu para a janela de observação, para o guarda que não podia ver.

A luz foi apagada, as fechaduras e trancas abertas e a porta abriu 32   pura dentro. Stefan conhecia o guarda, Viktor, um homem forte, de mais ou menos cinqüenta anos, cabelos grisalhos curtos e óculos com aros de aço. Tinha um gênio mais agradável do que aparentava e na verdade preocupava-se com o bem-estar dos amigos e conhecidos.

—        Senhor, o que está fazendo a esta hora, com esta chuva?

—        Não podia dormir.

—        Tempo horrível. Entre, entre! Vai apanhar um resfriado, na certa.

—        Fiquei preocupado com um trabalho que não terminei e achei que seria melhor vir até aqui e acabar logo.

—        Vai morrer antes do tempo de tanto trabalhar, senhor. Pode estar certo.

Stefan entrou na sala de espera e enquanto o guarda trancava a porta tentou lembrar alguma particularidade da vida de Viktor.

—        Por sua aparência acho que sua mulher ainda faz aquelas tortas maravilhosas de que você me falou.

Viktor riu baixinho e bateu na barriga.

—        Juro que ela foi contratada pelo diabo para me fazer pecar, especialmente para me conduzir ao pecado da gula. O que é isso, senhor? Uma mala? Vai se mudar para cá?

Enxugando o rosto com uma das mãos, Stefan disse:

—        Material de pesquisa. Levei para casa há algumas semanas para trabalhar à noite.

—        O senhor não tem vida particular?

—        De quinze em quinze dias, tenho vinte minutos, às quintas- feiras.

Viktor estalou a língua desaprovadoramente. Aproximou-se da mesa que ocupava um terço do espaço da saleta, apanhou o telefone e falou com o outro guarda da noite, que ficava na saleta da frente do prédio. Quando alguém entrava depois do expediente, o guarda sempre avisava o companheiro, em parte para evitar alarmes falsos que podiam provocar a morte acidental de um visitante inocente.

Com a água da roupa pingando na passadeira usada, Stefan foi até a porta interna, apanhando um molho de chaves no bolso. Como a outra porta, era de aço com dobradiças embutidas. Só podia ser aberta com duas chaves usadas ao mesmo tempo — uma do funcionário autorizado, a outra do guarda em serviço. O trabalho realizado no instituto era tão extraordinário e secreto que nem o guarda da noite tinha acesso aos laboratórios e salas de arquivos.

Viktor desligou o telefone.

—        Quanto tempo vai demorar, senhor?

—        Umas duas horas. Alguém está trabalhando esta noite?

—        Não. O senhor é o único mártir. E ninguém gosta muito de mártires, senhor. Vai se matar de tanto trabalhar, pode estar certo, e para quê? Quem se importa?

—        Eliot disse: "Santos e mártires reinam do túmulo.”

—        Eliot? É um poeta ou coisa assim?

—        T. S. Eliot, sim, um poeta.

—        Santos e mártires reinam do túmulo'? Não sei nada sobre esse cara. Não me parece um poeta aprovado. Parece subversivo.

Viktor riu com gosto, aparentemente divertindo-se com a idéia ridícula de que o amigo tão dedicado pudesse ser um traidor. Juntos abriram a porta interna.

Stefan arrastou a mala com explosivos para o corredor do prédio e acendeu as luzes.

—        Se vai fazer um hábito desse trabalho no meio da noite — disse Viktor —, posso trazer uma das tortas da minha mulher para lhe dar energia.

—        Obrigado, Viktor, mas espero não fazer disto um hábito.

O guarda fechou a porta de aço. A fechadura trancou automaticamente.

Sozinho no corredor, Stefan pensou, não pela primeira vez, que tinha sorte por ter aquela aparência: louro, com traços fortes, olhos azuis. Sua aparência em parte explicava o fato de poder entrar no instituto levando explosivos sem ser revistado. Nada era escuro nele, dissimulado ou suspeito; era o homem ideal, de sorriso angélico, e sua devoção ao país jamais seria questionada por homens como Viktor, homens cuja obediência cega ao Estado e cujo patriotismo sentimental os impediam de pensar claramente sobre muitas coisas. Uma porção de coisas.

Tomou o elevador para o terceiro andar e foi diretamente ao seu escritório, onde acendeu uma lâmpada de mesa. Depois de tirar as botas de borracha e a jaqueta de couro, tirou uma pasta do arquivo e arrumou seu conteúdo sobre a mesa, para dar a impressão de que estava trabalhando. Se por acaso outro funcionário resolvesse aparecer no meio da noite, não devia suspeitar de nada.

Levando a mala e uma lanterna que tirou do bolso da jaqueta, subiu a escada até o sótão. A luz da lanterna viu as vigas enormes com um ou outro prego visível. O assoalho era de madeira, mas o sótão não era usado como depósito e estava vazio, com uma camada fina de poeira e teias de aranha. O espaço sob o telhado inclinado permitia que ficasse de pé no centro mas não nas outras partes do sótão.

Tão perto do telhado, o barulho da chuva era forte e constante como uma esquadra de bombardeiros passando sobre o prédio. A imagem foi talvez provocada pelo fato de Stefan pensar que esse seria sem dúvida o destino daquela cidade.

Abriu a mala. Trabalhando com a rapidez e eficiência de um técnico de demolição, colocou os explosivos nos lugares determinados e ajustou a carga a fim de que a explosão se desse para baixo e para dentro. A finalidade não era apenas explodir o telhado, mas pulverizar os andares do meio do prédio, fazendo com que as pesadas vigas caísssem sobre o resto, aumentando a destruição. Colocou os explosivos entre as vigas e nos cantos da longa sala e alguns sob as tábuas do assoalho.

Lá fora, a tempestade amainou por algum tempo. Porém, logo a seguir, o trovão rompeu pela noite e a chuva recomeçou, mais forte do que antes. O vento chegou também dessa vez, assobiando na rua e gemendo sob os beirais; sua voz estranha e profunda parecia ameaçar e lamentar a cidade.

Gelado, ali no sótão sem aquecimento, Stefan trabalhou com mãos cada vez mais trêmulas. Embora estivesse tremendo de frio, o suor brotava de todos os seus poros.

Colocou um detonador em cada carga e estendeu os fios até o canto norte do sótão. Trançou-os, formando um único fio e o enfiou pelo tubo de ventilação que ia até o porão.

As cargas e o fio não seriam notados se alguém abrisse a porta para um exame rápido do sótão. Mas, apenas um exame mais acurado, ou se o espaço fosse usado para depósito, sem dúvida seriam descobertos.

Era essencial que ninguém entrasse no sótão nas próximas 24 horas. Não era pedir muito, considerando que ele fora o único visitante ido lugar nos últimos meses.

Na noite seguinte voltaria com outra mala para colocar cargas de explosivo no porão. O único meio de garantir a completa destruição do prédio era fazê-lo explodir de cima para baixo e de baixo para cima. Só assim reduziria tudo o que ele continha a lascas, poeira e restos inúteis. Depois da explosão e do incêndio, não sobraria nada para prosseguir a perigosa pesquisa que estava sendo feita.

A grande quantidade de explosivos, mesmo colocada cuidadosamente, causaria danos às estruturas que ladeavam o edifício e Stefan temia que pessoas inocentes viessem a morrer. Mas isso não podia ser evitado. Não ousava usar menor quantidade de explosivos porque se não fossem destruídos todos os arquivos, todas as cópias, o projeto poderia ser reiniciado rapidamente. Era um projeto que precisava ser destruído agora, pois a esperança de toda a humanidade dependia disso. Se pessoas inocentes fossem sacrificadas, ele teria de viver com essa culpa.

Terminou o trabalho no sótão alguns minutos depois das três horas.

  Voltou ao escritório no terceiro andar e ficou algum tempo sentado à mesa. Não queria sair antes que seu cabelo molhado de suor estivesse seco e pudesse parar de tremer, pois Viktor podia notar.

Fechou os olhos e viu mentalmente a imagem de Laura. Sempre conseguia se acalmar pensando nela. O mero fato de Laura existir dava-lhe paz e coragem.

 

Os amigos de Bob Shane não queriam que Laura assistisse ao enterro do pai. Achavam que uma menina de 12 anos devia ser poupada desse sofrimento. Mas ela insistiu e, como queria com tanto ardor despedir-se do pai, ninguém conseguiu impedir.

Aquela quinta-feira, 24 de julho de 1967, foi o pior dia de sua vida, mais triste do que a terça-feira anterior, o dia da morte do pai. Parte do choque tinha se dissipado e Laura não mais sentia como se estivesse anestesiada; suas emoções estavam mais perto da superfície e eram controladas com maior facilidade. Começava a compreender a imensidão daquela perda.

Escolheu um vestido azul-escuro, porque não tinha nenhum preto. Calçou sapatos pretos e meias azul-escuras. Achou que as meias curtas a faziam parecer muito infantil, frívola. Mas como jamais usou meias compridas, não julgou conveniente usar pela primeira vez naquela ocasião. Esperava que o pai estivesse olhando lá do céu, durante a cerimônia e queria que a visse como sempre a vira antes. Se a visse com meias compridas, uma criança procurando parecer adulta, podia ficar embaraçado por ela.

Na casa funerária sentou-se na primeira fila entre Cora Lance, dona de um salão de beleza, a um quarteirão do armazém de Shane, e Anita Passadopolis, que havia trabalhado com Bob nas obras de caridade da igreja presbiteriana de Santo André. Ambas tinham mais de cinqüenta anos, eram mulheres do tipo maternal e procuravam dar a Laura uma sensação de segurança, observando-a preocupadas.

Não precisavam se preocupar. Laura não ia chorar, não ia ficar histérica, não ia arrancar os cabelos. Ela compreendia a morte. Todos tinham de morrer. Pessoas, cães, gatos, passarinhos, flores, todos morriam. Até as árvores antigas morriam, cedo ou tarde, embora vivessem trinta vezes mais do que as pessoas, o que não parecia justo. Por outro lado, viver milhares de anos, como as árvores, devia ser mais aborrecido do que viver apenas 42 como um ser humano feliz. Seu pai tinha 42 anos quando seu coração falhou — um ataque repentino — o que era pouca idade para morrer. Mas assim era o mundo, e de nada adiantava chorar. Laura orgulhava-se da própria sensatez.

Além disso, a morte não significava o fim da pessoa. Na verdade, era apenas o começo. Outra vida melhor vinha então. Sabia que era verdade porque seu pai lhe havia dito, e seu pai nunca mentia. Ele era o homem mais sincero, o melhor, o mais carinhoso.

Quando o sacerdote aproximou-se do lado esquerdo do caixão, para dar início à cerimônia, Cora Lance abraçou Laura.

—        Você está bem, querida?

—        Estou. Estou bem — respondeu ela, sem olhar para Cora. Não ousava olhar para ninguém, por isso começou a observar com interes-se as coisas inanimadas.

Era a primeira vez que entrava numa casa funerária e não gostou. O tapete cor de vinho era ridiculamente espesso. As cortinas e as cadeiras eram também cor de vinho, com um fino acabamento dourado, e as lâmpadas tinham cúpulas cor de vinho, de modo que todas as salas pareciam ter sido decoradas por alguém que tinha mania por aquela cor. Que a usava como fetiche.

Fetiche era uma palavra nova para ela e Laura a usava demais, como fazia com todas as palavras novas, mas nesse caso estava certa.

No mês anterior, quando pela primeira vez ouviu a palavra 'seqüestrar', com o sentido de 'isolar, pôr de lado', Laura começou a usá-la com freqüência, até o pai inventar variações absurdas para o termo: "Ei, como vai minha pequena seqüestradora esta manhã?", dizia ele, ou então, "batatas fritas têm muita saída agora, por isso vamos colocá-las na primeira fila, perto da caixa, porque no canto elas ficam um tanto seqüestradas". Ele gostava de fazê-la rir, como quando contava as histórias de Sir Tommy Sapo, um anfíbio britânico que ele havia inventado quando Laura tinha oito anos e cuja biografia cômica ele aperfeiçoava a cada dia. De certo modo, seu pai era mais criança do que ela, e Laura o amava por isso.

O lábio inferior da menina tremeu. Ela o mordeu. Com força. Se chorasse estaria duvidando do que o pai sempre dizia sobre a outra vida, a vida melhor. Chorar seria confirmar sua morte, para sempre, para toda a eternidade, finito.

Laura queria estar seqüestrada no seu quarto sobre o armazém, na cama, a cabeça coberta. A idéia era tão tentadora que imaginou o quanto seria fácil para ela fazer do seqüestro um fetiche.

Da casa funerária foram para o cemitério.

Não havia lajes. Os túmulos eram marcados por placas de bronze sobre bases de mármore enterradas no solo. O gramado verde, com imensos loureiros indianos e pequenas magnólias, parecia um parque, 37   um lugar para brincar, correr e rir — se não fosse pelo túmulo aberto sobre o qual estava suspenso o caixão de Bob Shane.

Na noite anterior Laura havia acordado duas vezes com o som do trovão distante e, semi-adormecida, julgou ver a luz do relâmpago na janela, mas se tempestades haviam passado na escuridão da noite, não havia agora nenhum sinal delas. O dia estava azul, sem nuvens.

Laura ficou entre Cora e Anita, que a tocavam com palavras carinhosas de consolo, mas nada do que diziam a consolava. O frio úmido cada vez mais se apossava dela a cada palavra da prece final, até ter a impressão de estar despida no inverno ártico e não à sombra de uma árvore naquele dia quente, naquela manhã de julho de ar parado.

Foi ativado o suporte do caixão. O corpo de Bob Shane desceu para a terra.

Incapaz de olhar a descida lenta do caixão, quase sem poder respirar, Laura voltou-se, livrou-se das mãos carinhosas das duas mulheres e deu alguns passos pelo cemitério. Estava fria como o mármore; precisava sair da sombra. Parou assim que sentiu o calor do sol morno na sua pele, mas que não fez passar os arrepios.

Laura olhou para a colina longa e suave durante um minuto mais ou menos antes de avistar o homem, de pé, na outra extremidade do cemitério, na sombra de uma moita de loureiros. Ele estava com calça esporte clara e camisa branca que parecia levemente luminosa, como um fantasma que houvesse trocado sua ronda noturna pela luz do sol. O homem a observava e às outras pessoas presentes. Daquela distância, Laura não podia ver o rosto dele, mas percebeu que era alto, forte e louro — e estranhamente familiar.

O homem a intrigou, Laura não sabia por quê. Como que levada por um impulso, desceu a colina, passando entre os túmulos. Quanto mais se aproximava do homem louro, mais acentuava-se a impressão de que o conhecia. A princípio ele não reagiu à aproximação dela, mas Laura tinha certeza de que a observava atentamente; sentia o peso do seu olhar.

Cora e Anita a chamaram, mas Laura as ignorou. Tomada por uma excitação inexplicável, Laura apressou o passo, agora a uns três metros do estranho.

O homem recuou para a sombra das árvores.

Temendo que ele se fosse antes que pudesse ver seu rosto — sem saber por que isso era importante — Laura correu. As solas dos sapatos novos estavam escorregadias e por várias vezes quase caiu. Viu a relva amassada no lugar em que o homem tinha estado, portanto não era um fantasma.

Laura viu um movimento fugidio entre as árvores, o branco espectral da camisa dele. Correu naquela direção. Sob os loureiros pouca relva crescia por falta da luz do sol. Mas raízes expostas e sombras traiçoeiras surgiam por toda a parte. Laura tropeçou, agarrou o tronco de uma árvore, recuperou o equilíbrio e ergueu os olhos — para  que o homem tinha desaparecido.

Os galhos entrelaçados das poucas árvores do pequeno bosque deixavam passar finas faixas douradas de luz, como se o tecido do céu estivesse se desfiando sobre a terra. Laura correu, entrecerrando os olhos na sombra. Várias vezes teve a impressão de avistar o homem, mas era sempre um movimento ilusório, efeito de luz ou de sua imagição. Quando soprou uma brisa, teve certeza de ouvir passos furtivos sobre as folhas caídas, mas quando correu para o som, não conseguiu descobrir de onde vinha.

Depois de alguns minutos, Laura saiu do bosque para uma estrada que servia outra parte do imenso cemitério. Havia carros estacionados, cintilando ao sol e a uns cem metros viu um grupo de pessoas ao lado de um túmulo.

Laura parou ao lado do caminho, ofegante, perguntando a si mesmo para onde o homem teria ido e por que tivera aquele impulso de correr atrás dele.

O sol escaldante, a parada da brisa leve e a volta ao silêncio completo do cemitério, tudo isso a perturbou. O sol parecia passar por ela como se seu corpo fosse transparente e Laura sentia-se leve, quase sem peso e um tanto atordoada. Era como se estivesse num sonho, flutuando nobre uma paisagem irreal.

Vou desmaiar, pensou.

Apoiou a mão no pára-lama dianteiro de um carro e cerrou os dentes com força, lutando para não perder a consciência.

Laura tinha apenas 12 anos mas nem sempre agia como uma criança, e jamais sentia-se como criança — até aquele momento, no cemitério, quando de repente sentiu-se muito nova, fraca e desamparada.

Um Ford bege aproximou-se lentamente, diminuindo mais a marcha, quando passou por ela. O homem de camisa branca o dirigia.

Assim que o viu, Laura compreendeu por que ele parecia familiar. Há quatro anos. O assalto. Seu anjo da guarda. Laura tinha apenas oito anos mas jamais esqueceria aquele rosto.

O homem passou por ela muito devagar, observando-a atentamente. Estavam muito próximos um do outro.

Na janela do carro cada detalhe do rosto bonito aparecia tão claro quanto naquela noite terrível no armazém. Os mesmos olhos azuis brilhantes e penetrantes. Quando encontraram os dela, Laura estremeceu.

O homem não disse nada, não sorriu, mas observou-a atentamente, como se quisesse fixar cada detalhe do seu rosto. Olhava para Laura como quem olha para uma jarra com água depois de atravessar o deserto. Seu silêncio e os olhos fixos assustaram a menina, mas ao mesmo tempo comunicavam uma inexplicável sensação de segurança. O carro continuou lentamente. Laura gritou:

—        Espere!

Correu para o Ford. O estranho acelerou e afastou-se, deixando-a ali sozinha no sol, e então uma voz de homem disse atrás dela:

—        Laura?

Ela voltou-se, mas a princípio não o viu. O homem disse seu nome outra vez, baixinho, e Laura então o viu, a uns três metros, no começo do pequeno bosque, de pé na sombra de um loureiro indiano. Estava com calça preta, camisa da mesma cor e parecia deslocado naquele dia cheio de sol.

Curiosa, intrigada, imaginando se aquele homem tinha algo a ver com seu anjo da guarda, Laura caminhou para ele. Chegou a dois passos do estranho, antes de perceber que a desarmonia entre ele e o dia claro não era motivada apenas pela roupa; a escuridão do inverno era parte integrante da sua pessoa; era como se o frio viesse de dentro dele, como se fosse uma criatura das regiões polares ou das cavernas, nas montanhas cobertas de neve.

Laura parou a menos de um metro dele.

O homem não disse palavra, mas olhou para ela atentamente com uma expressão intrigada.

Laura viu a cicatriz no lado esquerdo do rosto do estranho.

—        Por que você? — perguntou o homem das regiões geladas, dando um passo para a frente com o braço estendido.

Laura recuou, trêmula, assustada demais para gritar. Do meio das árvores, Cora Lance chamou:

—        Laura? Você está bem, Laura?

O estranho, ouvindo a voz tão próxima, deu meia-volta e desapareceu rapidamente entre as árvores, como se não fosse real mas apenas um pedaço da escuridão que tivesse criado vida de repente.

 

Cinco dias após o funeral, na terça-feira, 29 de julho, Laura estava de volta ao seu quarto sobre o armazém, pela primeira vez em uma semana. Fazia as malas e despedia-se do que fora seu lar desde que se conhecia por gente.

Parou para descansar, sentada na cama desfeita, procurando lembrar o quanto fora feliz e tranqüila naquele quarto, até pouco tempo. Uma centena de livros em brochura, a maioria histórias de cães e cavalos, estavam na estante, num dos cantos. Cinqüenta miniaturas de cães e gatos — em vidro, bronze, porcelana, cerâmica — enchiam as estantes acima da cabeceira da cama.

Laura não possuía nenhum animal verdadeiro, pois o código de saúde não permitia que fossem criados num apartamento sobre um armazém. Esperava algum dia ter um cão. Talvez um cavalo. Mais importante ainda, queria ser veterinária para curar animais feridos e doentes.

Seu pai dizia que ela podia ser o que quisesse: veterinária, advogada, estrela de cinema, qualquer coisa. "Pode ser pastora de alces, se quiser, ou bailarina com pernas de pau. Nada pode impedi-la.”

Laura sorriu, lembrando como o pai havia imitado uma bailarina com pernas de pau. Mas lembrou também que ele se fora e foi invadida por um imenso vazio.

 

Tirou as roupas do armário, dobrou cuidadosamente e guardou nas duas grandes malas. Tinha também uma mala-cabine, onde arrumou os livros favoritos, alguns jogos, um ursinho de pelúcia.

Cora e Tom Lane inventariavam o resto do pequeno apartamento e a loja no térreo. Laura ia ficar com eles, embora não estivesse decidido se era um arranjo provisório ou permanente.

Preocupada com a incerteza do futuro, Laura voltou a fazer as malas. Abriu a gaveta da mesa-de-cabeceira e ficou imóvel olhando para as botas minúsculas, o pequeno guarda-chuva e o cachecol de dez centímetros que seu pai havia comprado, para provar a existência de Sir Tommy Sapo no quarto que ele alugava.

Um amigo de Bob que trabalhava com couro havia feito as botas largas nas pontas para acomodar os pés do sapo. O guarda-chuva era de uma loja de miniaturas e o cachecol ele mesmo havia feito, com grande trabalho, colocando franja nas pontas. Quando Laura fez nove anos, ao voltar da escola, encontrou as botas e o guarda-chuva perto da porta e o cachecol dependurado no porta-casacos do hall. "Shhh", murmurou seu pai dramaticamente. "Sir Tommy acaba de chegar de uma árdua viagem ao Equador a serviço da rainha — ela tem uma mina de diamantes lá, você sabe — e ele está exausto. Tenho certeza de que vai dormir durante dias. Porém, pediu-me que transmitisse seus votos de feliz aniversário e deixou um presente lá atrás, no quintal.”

O presente era uma bicicleta Schwinn.

Agora, olhando para aqueles três objetos na gaveta, Laura compreendeu que seu pai não havia morrido sozinho. Tinham partido Sir Tommy Sapo, todos os personagens criados por ele e as fantasias tolas mas maravilhosas com que o pai a distraía. As botas largas nas pontas, o guarda-chuva e o pequeno cachecol pareciam suaves e patéticos;

Laura quase podia acreditar que Sir Tommy fora real e que agora estava num mundo melhor. Deixou escapar um soluço doloroso. Atirou-se na cama, escondeu o rosto no travesseiro, abafando os soluços e pela primeira vez, desde a morte do pai, deixou que a dor a dominasse.

Não queria viver sem ele, mas precisava não só viver, como prosperar, porque cada dia de sua vida seria um testamento para ele. Jovem como era, compreendia que vivendo bem, sendo uma boa pessoa, teria seu pai vivo através dela.

Mas ia ser difícil enfrentar o futuro com otimismo e sentir-se feliz. Sabia agora que a vida era assustadoramente sujeita a tragédias e a mudanças, azul e quente num momento, fria e tempestuosa no outro, e nunca se sabe quando o relâmpago vai atingir alguém que amamos. Nada dura para sempre. A vida é uma vela acesa ao vento. Uma dura lição para tão pouca idade, uma lição que a fez sentir-se velha,   muito velha, uma anciã.

Quando cessou a torrente de lágrimas, Laura retomou o controle, pois não queria que os Lane soubessem que estivera chorando. Se o mundo era duro, cruel e imprevisível, não parecia prudente demonstrar fraqueza.

Embrulhou cuidadosamente as botas, o guarda-chuva e o cachecol em uma toalha de papel e os guardou na mala-cabine.

Depois de esvaziar as estantes, foi até sua mesa de trabalho e encontrou no mata-borrão uma mensagem escrita com letra clara, elegante, quase como se fosse datilografada.

 

Querida Laura, 

Algumas coisas têm de acontecer e ninguém pode evitar. Nem mesmo seu anjo da guarda especial. Deve sentir-se satisfeita por saber que seu pai a amava de todo coração, com um amor que poucas pessoas têm a felicidade de receber. Embora você pense que jamais voltará a ser feliz, está enganada. A felicidade vai chegar para você. Não é uma promessa vazia. É um fato.

 

Não tinha assinatura, mas Laura sabia de quem era: do homem que estava no cemitério, que a havia observado de dentro do carro, que há alguns anos havia impedido que ela e o pai fossem mortos. Ninguém mais se intitulava seu guardião especial. Laura estremeceu, não de medo, mas por causa da estranheza e do mistério que a enchia de curiosidade e espanto.

Foi rapidamente até a janela e abriu a cortina leve do centro, esperando vê-lo na rua, mas não havia ninguém.

O homem de roupa escura também não estava lá, mas Laura não esperava vê-lo. Estava quase convencida de que ele nada tinha a ver com seu guardião, que estava no cemitério por outros motivos. Ele sabia seu nome... mas talvez tivesse ouvido quando Cora a chamou antes, do topo da pequena colina. Laura podia afastá-lo de sua mente porque não desejava que fizesse parte de sua vida, ao passo que desejava ardentemente um guardião especial.

Leu o bilhete de novo.

Embora não soubesse quem era o homem louro, nem por que se interessava por ela, Laura sentiu-se segura com aquele bilhete. Nem sempre é necessário compreender, desde que se possa acreditar.

 

 Na noite seguinte, depois de ter colocado os explosivos no sótão do instituto, Stefan voltou com a mesma mala, dizendo que estava com insônia outra vez. Antecipando a visita depois da meia-noite, Viktor levara metade de uma torta feita por sua mulher. Stefan comeu alguns pedaços da torta enquanto colocava os explosivos. O porão enorme era dividido em duas partes, e, ao contrário do sotão, era usado diariamente pelos empregados. Precisava esconder as cargas com muito cuidado.

A primeira câmara continha arquivos de pesquisas e duas longas mesas de carvalho. Os arquivos tinham dois metros de altura e estavam encostados nas paredes. Stefan colocou os explosivos na parte superior , empurrando-os um pouco para trás, contra a parede, onde nem o funcionário mais alto podia ver.

Estendeu os fios entre os arquivos, abrindo um orifício na parede que separava uma sala da outra, para continuar a linha de detonação. Abriu o buraco num lugar pouco visível e só se percebiam alguns centímetros de fio de cada lado da divisória.

A segunda sala era usada para depósito de material de laboratório e de escritório, além das gaiolas dos animais — vários hamsters, alguns ratos brancos, dois cães, um macaco muito agitado numa jaula grande, com três barras internas para o animal se balançar — que haviam participado das experiências de laboratório e sobrevivido a elas.

Embora não tivessem mais nenhuma utilidade, eram mantidos vivos para observação, caso apresentassem problemas médicos imprevistos, a longo prazo, relacionados com as experiências.

Stefan colocou as cargas atrás das pilhas de material e estendeu os fios até o túnel de ventilação, no qual havia colocado os fios do sótão e enquanto trabalhava percebia a atenção dos animais, como se soubessem que tinham menos de 24 horas de vida. Stefan foi assaltado por um sentimento de culpa, a culpa que não havia sentido quando pensou na possibilidade das vítimas humanas, nos homens que trabalhavam no ins-tituto, talvez porque os animais eram inocentes e os homens não.

Às quatro horas da manhã, terminou o trabalho no porão e no escritório, no terceiro andar. Antes de sair foi até o laboratório principal no andar térreo e observou o portão por alguns minutos.

O portão.

As dezenas de painéis, medidores e gráficos no maquinário de apoio do portão cintilavam suavemente com seu colorido alaranjado, amarelo ou verde, pois a força nunca era desligada. Era uma peça cilíndrica, com três metros e meio de comprimento e dois metros de diâmetro, quase invisível na luz fraca; a parte externa de aço inoxidável refletia a luz das máquinas que ocupavam três paredes da sala.

Stefan havia usado várias vezes o portão, mas ainda admirava seu funcionamento — não apenas por ser uma magnífica descoberta científica, mas por seu potencial maléfico ilimitado. Não era o portão do inferno, mas nas mãos dos homens errados podia vir a ser. E sem dúvida estava nas mãos das pessoas erradas.

Depois de agradecer a Viktor o presente da torta, dizendo que tinha comido toda — embora, na verdade, tivesse dado boa parte para os animais —, Stefan voltou ao seu apartamento.

Pela segunda noite consecutiva a tempestade chegou violenta. A chuva vinha com o vento forte de noroeste. A água espumava na entrada dos bueiros, cantava nos telhados, enchia as ruas e como a cidade estava quase toda às escuras, as poças d'água pareciam lagos de óleo. Apenas alguns militares estavam fora de casa e todos com capas de chuva negras e brilhantes que os faziam parecer criaturas de um romance gótico de Bram Stoker.

Stefan foi diretamente para casa, sem nenhum esforço para evitar os postos de controle da polícia. Seus papéis estavam em ordem; sua isenção do toque de recolher em dia e não transportava agora explosivos ilegais.

No apartamento, ajustou o despertador do grande relógio de cabeceira e adormeceu quase imediatamente. Precisava muito de descanso porque na tarde seguinte ia haver duas jornadas árduas e muita morte. Se não estivesse completamente alerta, podia se encontrar na extremidade errada de uma bala.

Sonhou com Laura, o que para ele era um bom presságio.

 

A CHAMA PERMANENTE

Laura Shane, dos 12 aos 17 anos, foi como uma planta levada pelo vento nos desertos da Califórnia, parando para descansar aqui e ali brevemente, outra vez arrancada e carregada, logo que o vento se erguia.

Não tinha parentes e não podia ficar com os melhores amigos do seu pai, os Lance. Tom tinha 62 anos e Cora 57. Estavam casados há 15 anos e não tinham filhos. A perspectiva de criar uma menina os apavorava.

Laura compreendia, e não os culpava. Em agosto, quando deixou a casa dos Lance na companhia de uma mulher da Agência para o Bem-Estar das Crianças de Orange County, Laura beijou Cora e Tom e garantiu a eles que ia ficar bem. Afastando-se no carro da assistente social, acenou alegremente, esperando que eles se sentissem absolvidos.

Absolvidos. A palavra era uma aquisição recente. Absolvido: livre das conseqüências dos próprios atos; libertar ou liberar de algum dever, obrigação ou responsabilidade. Gostaria de se absolver da obrigação de seguir seu caminho no mundo sem a orientação de um pai amoroso, absolver-se da responsabilidade de viver e levar adiante sua lembrança.

 

Da casa dos Lance foi levada para um abrigo infantil — O Lar Mcllroy —, uma velha e dilapidada mansão vitoriana de 27 quartos, construída por um magnata nos dias da glória agricultura de Orange County. Mais tarde foi convertida em internato para abrigar as crianças órfãs, provisoriamente, entre uma família adotiva e outra.

 Era uma instituição diferente de todas sobre as quais Laura havia lido nas histórias. Para começar, não tinha freiras bondosas com hábitos negros flutuantes.

E havia Willy Sheener.

Laura o viu logo que chegou, quando a sra. Bowmaine mostrava o quarto que ela ia compartilhar com as gêmeas Ackerson e uma menina chamada Tammy. Sheener estava varrendo o hall de azulejo com uma vassoura tipo feiticeira.

Ele era forte, magro, pálido, sardento, tinha mais ou menos trinta anos, cabelos vermelhos e olhos verdes. Sorria e assobiava baixinho enquanto trabalhava.    — Como vai a senhora esta manhã, sra. Bowmaine?

—       Otimamente, Willy. — Era evidente que ela gostava de Sheener. — Esta é Laura Shane, nova aqui. Laura, este é o sr. Sheener.

Sheener olhou para Laura com uma intensidade arrepiante. Quando conseguiu falar, sua voz estava arrastada:

—        Hã... seja bem-vinda a Mcllroy.

Acompanhando a assistente social, Laura olhou para trás, para Sheener. Ele levou a mão à virilha e lentamente começou a se acariciar.

Laura não olhou mais para o homem.

Mais tarde, quando estava desfazendo as malas, procurando fazer com que sua parte do quarto no terceiro andar parecesse o mais possível com sua casa, voltou-se e viu Sheener na porta. Laura estava sozinha pois as outras crianças brincavam no pátio ou na sala de jogos. O sorriso dele não era o mesmo com que tinha cumprimentado a sra. Bowmaine. Era frio e predatório. A luz de uma das duas pequenas janelas refletia-se nos seus olhos, fazendo-os parecer prateados e não verdes, como os olhos opacos de um morto.

Laura tentou falar, mas não conseguiu. Recuou até encostar na parede ao lado da cama.

O homem ficou com os braços ao longo do corpo, imóvel, os punhos fechados.

O Lar Mcllroy não tinha ar-condicionado. As janelas estavam abertas, mas o quarto extremamente quente. Porém, Laura só começou a transpirar depois de ver Willy Sheener. Agora, sua camiseta estava molhada.

Lá fora as crianças gritavam e riam. Estavam tão perto mas pareciam tão distantes.

A respiração áspera e ofegante de Sheener parecia cada vez mais alta, aos poucos abafando as vozes das crianças.

Durante um longo tempo nenhum dos dois se moveu nem falou. Então, bruscamente ele deu meia-volta e foi embora.

Com as pernas bambas, inundada de suor, Laura sentou na beirada da cama. O colchão velho afundou e as molas estalaram sob ela.

Enquanto seu coração voltava ao normal, observou o quarto com uma sensação de desespero. Nos quatro cantos havia camas estreitas de ferro com colchas gastas de chenilha e travesseiros encaroçados. Cada uma tinha uma mesa-de-cabeceira com tampo de fórmica e uma lâmpada de metal. A cômoda arranhada tinha oito gavetas, duas para calo ocupante do quarto. Havia também dois armários e a metade de um deles lhe pertencia. As cortinas eram antigas e desbotadas e pendiam flácidas e sujas das armações enferrujadas. A casa toda era embolorada e sinistra; pairava no ar um cheiro desagradável; e Willy Sheener vagava pelos corredores e pelos quartos como um espírito maligno à espera da lua cheia para os jogos sangrentos que ela inspirava.

Naquela  noite, depois do jantar, as gêmeas Ackerson convidaram Laura para sentar no tapete do quarto, com a porta fechada, e trocar segredos.

A outra menina — uma loura estranha, quieta e frágil, chamada Tammy — não se interessou pela brincadeira. Encostada nos travesseiros, lia um livro, roendo as unhas continuamente, como um ratinho.

Laura gostou imediatamente de Thelma e Ruth Ackerson. Tinham feito 12 anos recentemente e eram apenas alguns meses mais moças do que Laura. Eram bastante sensatas para a idade. Ficaram órfãs aos nove anos e há quase três estavam no abrigo. Era difícil encontrar pais adotivos para crianças naquela idade, especialmente quando se tratava de gêmeas que insistiam em ficar juntas.

Eram idênticas e nada bonitas: cabelos castanhos sem brilho, olhos míopes da mesma cor, rostos largos, queixos redondos, bocas largas. O que faltava em beleza abundava em inteligência, boa disposição e bom gênio.

Ruth estava de pijama azul com rolotê verde nos punhos e na gola e chinelos azuis, o cabelo penteado com um rabo-de-cavalo. O pijama deTelma era cor de cereja e os chinelos amarelos peludos, cada um com dois botões fingindo olhos, o cabelo solto.

O calor insuportável havia melhorado com o cair da noite. Estavam a menos de vinte quilômetros do Pacífico e as brisas do mar refrescavam o ar. Agora, com as janelas abertas, o vento suave agitava as cortinas e circulava pelo quarto.

—        O verão aqui é uma chatice — disse Ruth, quando sentaram no chão. — Não podemos sair da propriedade e o espaço não é suficiente.. E no verão todas as pessoas caridosas estão ocupadas com as férias e viagens para pensar em nós.

—        Mas o Natal é ótimo — retrucou Thelma.

—        Novembro e dezembro são formidáveis — acrescentou Ruth.

—        É isso — disse Thelma. — As festas são boas porque as pes soas caridosas começam a se sentir culpadas por terem tanto, quando nós temos tão pouco e porque usamos casacos de papel, sapatos de papelão e comemos a sopa do ano passado. Então mandam cestos de guloseimas, nos levam para fazer compras e ao cinema, mas nunca para ver bons filmes.

—        Ora, de alguns eu gosto — disse Ruth.

—        O tipo de filmes onde ninguém nunca é exterminado. E nunca um bom namoro. Nunca nos levam para ver um filme onde o cara põe a mão no seio da garota. Filmes para famílias. Chatos, chatos, chatos.

—        Tem de perdoar minha irmã — Ruth disse para Laura. — Ela pensa que está na idade trêmula da puberdade...

—        Eu estou na idade trêmula da puberdade! Sinto meu vigor em crescimento — declarou Thelma, levantando o braço magro acima da cabeça.

—        A falta de orientação dos pais — disse Ruth — está fazendo efeito agora. Thelma não se adaptou ao fato de ser órfã.

—        Tem de perdoar minha irmã — pediu Thelma. — Ela resolveu pular a puberdade e passar diretamente da infância para a senilidade.

—        O que me dizem de Willy Sheener? — Laura perguntou.

As meninas trocaram um olhar significativo e falaram com per feita sincronização, sem perda de um segundo entre as duas opiniões.

—        Oh, um homem perturbado — disse Ruth.

—        Ele é um lixo — opinou Thelma.

—        Precisa de terapia — declarou Ruth.

—        Não, o que precisa é de uma boa pancada na cabeça com um taco de beisebol, uma só não, 12 ou mais e depois ficar preso pelo resto da vida — disse Thelma.

Laura contou a atitude de Sheener na porta do quarto.

—        Ele não disse nada? — perguntou Ruth. — É sinistro. Geral mente ele diz "você é uma garota muito bonita", ou...

—        ... oferece balas — completou Thelma com uma careta. — Pode imaginar! Balas! Que vulgar! É como se tivesse aprendido a ser um ordinário lendo aquelas circulares da polícia para orientar crianças contra os pervertidos.

—        Nada de balas — disse Laura estremecendo ao lembrar os olhos prateados de Sheener e sua respiração ofegante e áspera.

Thelma inclinou-se para a frente e disse em voz muito baixa:

—        Parece que o Enguia Branca perdeu a fala, ficou quente de mais para pensar nas coisas que costuma dizer.

—        Enguia Branca?

—        Sheener — disse Ruth — ou apenas Enguia.

—        Pálido e escorregadio como é — acrescentou Thelma —, o apelido é perfeito. Aposto que o Enguia tem uma queda especial por você.

-Quero dizer, garota, você é bacana.

—        Nada disso — respondeu Laura.

—        Está brincando? — perguntou Ruth. — Esse cabelo castanho, esses olhos imensos.

Laura corou e começou a protestar mas Thelma disse:

—        Escute, Shane, O Duo Deslumbrante... Ruth e moi... não suporta falsa modéstia e nem gabolice. Somos do tipo direto. Conhecemos nossas forças e nos orgulhamos delas. Deus sabe que nenhuma de nós duas vai ser Miss América, mas somos inteligentes, muito inteligentes e não negamos isso. E você é maravilhosa, portanto, pare de se fazer de tímida.

—        Minha irmã às vezes é direta demais e muito explícita — disse Ruth, desculpando-se.

—        E minha irmã — debochou Thelma — está ensaiando para o papel de Melanie em ...E o vento levou. — Com sotaque sulino carregado e exagerada bondade na voz, continuou: — Oh, Scarlett não quer lazer mal a ninguém. Scarlett é uma moça adorável, de verdade. Rhett tem um coração tão bom também, e até os ianques são adoráveis, mesmo os que saquearam Tara, queimaram nossas plantações e fizeram botas com a pele das nossas crianças.

Laura começou a rir antes de Thelma terminar.

—        Portanto, deixe esse ato de mocinha modesta, Shane! Você é linda.

—        Certo, certo. Sei que sou... bonitinha.

—        Garota, quando o Enguia Branca te viu, deu um curto-circuito na cabeça dele.

—        Isso mesmo — disse Ruth —, você o deixou tonto. Por isso ele nem conseguiu lembrar de oferecer as balas que sempre leva nos bolsos.

—        Balas! — exclamou Thelma. — Saquinhos de caramelos, biscoitos!

—        Laura, tenha muito cuidado — avisou Ruth. — Ele é um homem doente...

—        Ele é uma lagartixa! — protestou Thelma. — Um rato de esgoto!

Do outro lado do quarto, Tammy disse com voz suave:

—        Ele não é tão mau assim.

A menina loura era tão quieta, tão magra e sem graça, sempre uma sombra no cenário de fundo, que Laura havia esquecido dela. Tammy deixou o livro que lia e sentou na cama dobrando as pernas contra o peito, e segurando-as com os braços. Tinha dez anos, dois a menos do que suas companheiras de quarto e era pequena para a idade. Com a camisola branca e meias, Tammy era mais uma aparição do que uma pessoa real.

—        Ele nunca machucaria ninguém — disse hesitante, como se o fato de dar sua opinião sobre Sheener, sobre qualquer pessoa ou qualquer coisa, fosse como andar numa corda sem a rede protetora por baixo.

—        Ele machucaria qualquer um se tivesse oportunidade — disse Ruth.

—        Ele é só... — Tammy mordeu os lábios. — Ele é... muito só.

—        Não, meu bem — disse Thelma —, ele não é muito só. Está tão apaixonado por ele mesmo, que jamais fica sozinho.

Tammy desviou os olhos, levantou, calçou o chinelo e murmurou:

—        Está quase na hora de dormir.

Tirou seus objetos de toalete da mesa-de-cabeceira e saiu do quarto fechando a porta, dirigindo-se para um dos banheiros no fim do corredor.

—        Ela aceita as balas — explicou Ruth.

Uma onda gelada de repulsa Invadiu Laura.

—        Oh, não.

—        Sim, ela aceita — disse Thelma. — Não porque quer as balas.

Ela é... confusa. Precisa do tipo de aprovação que o Enguia pode dar.

—        Mas, por quê? — perguntou Laura.

Ruth e Thelma trocaram olhares, como se estivessem debatendo um assunto e chegando a uma decisão em um ou dois segundos, sem nenhuma palavra. Com um suspiro, Ruth explicou:

—        Bem, você compreende, Tammy precisa desse tipo de aprovação porque... o pai a ensinou a precisar dela.

Laura ficou chocada.

—        O próprio pai?

—        Nem todas as crianças em Mcllroy são órfãs — disse Thelma.

— Algumas estão aqui porque os pais cometeram crimes e estão na prisão. Outras sofreram abusos por parte dos pais, físicos ou... sexuais.

O ar que entrava pela janela provavelmente havia esfriado um pouco desde o começo da conversa, mas para Laura era como se de repente um vento misterioso de outono tivesse saltado os meses do ano, infiltrando-se na noite de verão.

—        Mas Tammy na verdade não gosta disso? — Laura quis saber.

—        Acho que não — disse Ruth. — Mas ela é...

—        ... compelida — terminou Thelma. — Não pode evitar. É uma deformação.

Ficaram caladas, pensando no impensável e finalmente Laura disse:

—        Estranho... e tão triste. Não podemos acabar com isso? Não 50   podemos contar para a sra. Bowmaine ou outra assistente social o que Sheener faz?

—        Não ia adiantar — respondeu Thelma. — O Enguia vai negar tudo e Tammy também e não temos nenhuma prova.

—        Mas se ela não for a única, talvez uma das outras...

Ruth balançou a cabeça.

—        Quase todas já foram para lares provisórios ou voltaram para casa. As duas ou três que ainda estão aqui... bem, são como Tammy ou morrem de medo do Enguia, não teriam coragem de acusá-lo.

—        Além disso — disse Thelma —, os adultos não querem saber, não querem tratar desse assunto. Má publicidade para a casa. E vão parecer  idiotas por terem permitido que isso acontecesse bem debaixo do seu nariz sem que tivessem percebido. Além do mais, quem acredita em crianças? — Thelma imitou a sra. Bowmaine com tanta perfeição que Laura reconheceu imediatamente a voz da assistente social.

Oh, minha querida, elas são horríveis, umas criaturinhas extremamente mentirosas. Barulhentas, briguentas, uns animaizinhos incômodos, capazes de destruir a ótima reputação do sr. Sheener só para se divertir. Se ao menos pudessem ser drogadas, dependuradas em cabido na parede e alimentadas endovenosamente, o sistema seria muito mais eficiente, minha cara, e muito melhor para elas também.

—        Então o Enguia estaria livre — disse Ruth —, ia voltar ao trabalho e encontrar meios de nos fazer pagar pela denúncia. Já aconteceu antes com outro pervertido que trabalhava aqui, um cara que chamávamos de Fogel, a Doninha. Pobre Denny Jenkins...

—        Denny denunciou Fogel, a Doninha; contou para a sra. Bowmaine que ele havia abusado dele e de mais dois garotos. Fogel foi suspenso. Mas os outros dois garotos não confirmaram a história de Denny. Tinham medo da Doninha... mas tinham também aquela necessidade doentia da sua aprovação. Quando Bowmaine e os outros interrogaram Denny...

—        Eles praticamente o atacaram com perguntas capciosas, tentando confundir o garoto. Ele ficou confuso, caiu em contradição e eles disseram que estava inventando tudo — completou Ruth, furiosa.

—        E a Doninha voltou ao trabalho — disse Thelma.

—        Ele não teve pressa — continuou Ruth — e então descobriu meios para atormentar a vida de Denny. Perseguiu o garoto incessantemente até que um dia... Denny começou a gritar e não parou mais.

O medico teve de dar uma injeção nele e depois o levaram embora.

Emocionalmente perturbado, disseram — Ruth estava quase chorando. — Nunca mais o vimos.

Thelma pôs a mão no ombro da irmã e disse para Laura:

—        Ruth gostava de Denny. Ele era um bom menino. Pequeno, tímido, um doce... não teve nenhuma chance. Por isso precisamos ser duros com o Enguia Branca. Não podemos deixar que perceba que temos medo. Se ele tentar alguma coisa, grite. E dê um pontapé no meio das pernas dele.

Tammy voltou do banheiro. Sem olhar para as outras meninas, tirou o chinelo e deitou-se sob as cobertas.

Embora chocada com a idéia de Tammy com Sheener, Laura olhou para a frágil garota loura com mais simpatia do que repulsa. Nada podia ser mais patético do que a menina tão pequena, solitária e derrotada, na cama estreita e afundada no meio.

Naquela noite Laura sonhou com Sheener. O homem tinha cabeça humana mas o corpo de uma enguia branca e sempre que Laura corria, ele escorregava para ela, passando por debaixo das portas fechadas e de outros obstáculos.

 

Revoltado com o que acabava de ver, Stefan voltou do laboratório do instituto para seu escritório no terceiro andar. Sentou à mesa com a cabeça nas mãos, tremendo de horror, fúria e medo.

O miserável de cabelos vermelhos, Willy Sheener, ia violentar Laura várias vezes, espancá-la quase até a morte, deixando-a tão traumatizada que a menina jamais voltaria ao normal. Não era uma possibilidade; ia acontecer, se Stefan não evitasse. Ele havia visto o triste resultado: o rosto machucado de Laura, a boca cortada. Os olhos eram impressionantes, sem expressão, semimortos, olhos de uma criança incapaz de sentir alegria ou de ter alguma esperança.

A chuva fria batia nas janelas do escritório e o som vazio parecia ecoar dentro dele, como se as coisas terríveis que havia visto tivessem incinerado seu corpo, deixando apenas uma concha vazia.

Ele havia salvo Laura do viciado no armazém do pai, mas ali estava outro pedófilo. Uma das coisas que Stefan havia aprendido no instituto era que mudar o destino nem sempre é fácil. Era uma luta contra a tentativa de manter o padrão do que estava determinado. Talvez o fato de ser violentada e psicologicamente destruída fosse uma parte tão imutável da vida de Laura que ele não seria capaz de evitar que acontecesse, mais cedo ou mais tarde. Talvez não pudesse salvá-la de Willy Sheener, ou, se conseguisse, outro igual a ele entraria na vida da menina. Mas tinha de tentar.

Aqueles olhos semimortos, privados para sempre de alegria...

 

 Setenta e seis crianças estavam abrigadas no Lar Mcllroy, todas com 12 anos ou menos; quando completavam 13 anos, eram transferidas para Caswell Hall, em Anaheim. Como o refeitório com as paredes urradas de carvalho comportava apenas quarenta, as refeições eram servidas em dois turnos. Laura estava no segundo turno, com as gêmeas Ackerson.

Na fila, entre Thelma e Ruth, na sua primeira manhã na casa, Laura viu que Willy Sheener era um dos quatro empregados que serviam a comida. Estava encarregado do leite e servia pãezinhos doces com unia pinça de cozinha.

Enquanto Laura seguia lentamente na fila, o Enguia passava mais tempo olhando para ela do que para as crianças que servia.

—        Não deixe que ele a intimide — murmurou Thelma.

Laura tentou encontrar os olhos de Sheener, enfrentando-o corajosamente. Mas era sempre a primeira a desviar os olhos.

Quando chegou na frente dele, o homem disse:

—        Bom dia, Laura — colocando na bandeja dela um pãozinho especial, que havia reservado para a menina. Era duas vezes maior do que os outros, com maior número de cerejas e cobertura de creme.

Na quinta-feira, o terceiro dia de Laura no Lar Mcllroy, foi convocada para uma sessão de "como estamos nos ajustando", com a sra. Bowmaine, no escritório do primeiro andar. Etta Bowmaine era uma mulher forte com uma coleção de vestidos estampados que não a embelezavam. Falava com chavões e lugares-comuns, naquele tom de insinceridade melosa tão bem imitada por Thelma, e fez uma porção de perguntas para as quais na verdade não queria respostas sinceras. Laura mentiu, dizendo que estava muito feliz no Lar Mcllroy e as mentiras agradaram extremamente a sra. Bowmaine.

Voltando para seu quarto no terceiro andar, encontrou o Enguia na escada da ala norte. Quando chegou ao segundo andar, ela o viu no lance seguinte da escada, limpando o corrimão de madeira. Uma garrafa de lustra-móveis estava aberta no degrau ao lado dele.

Laura parou com o coração disparado, pois sabia que ele estava à sua espera. O homem devia saber que fora chamada ao escritório da sra. Bowmaine e imaginou que usaria a escada mais próxima para o quarto.

Não havia mais ninguém por perto. A qualquer instante podia aparecer uma criança ou um funcionário da casa, mas no momento estavam sozinhos.

O primeiro impulso de Laura foi voltar e usar a escada da ala sul,    mas lembrou o que Thelma havia dito sobre não se intimidar e que aquele tipo de pessoa só abusava dos fracos. Laura pensou que a melhor coisa seria passar por ele sem uma palavra, mas seus pés pareciam pregados no degrau; não conseguia se mexer.

Olhando para ela, lá de cima, o Enguia sorriu. Era um sorriso horrível. Sua pele era muito branca e os lábios não tinham cor, mas os dentes tortos eram amarelos com manchas marrons, como a casca de uma banana madura. Sob o cabelo despenteado cor de cobre, o rosto era o de um palhaço — não o tipo de palhaço que se vê no circo mas o que a gente encontra numa Noite das Bruxas, o tipo que leva uma serra elétrica e não uma garrafa de refrigerante.

—        Você é uma garota bonita, Laura.

Laura tentou mandá-lo para o inferno, mas não conseguia dizer uma palavra.

—        Gostaria de ser seu amigo — disse ele.

Finalmente ela encontrou forças para continuar subindo na direção dele.

O sorriso do homem ficou mais largo, talvez por pensar que ela correspondia à oferta de amizade. Enfiou a mão no bolso da calça caqui e tirou dois biscoitos com creme.

Laura lembrou a descrição feita por Thelma dos truques estúpidos e sem imaginação do Enguia e de repente o homem não lhe pareceu tão assustador. Oferecendo biscoitos, com aquele sorriso malicioso, Sheener era uma figura ridícula, uma caricatura do mal e Laura teria dado risada se não soubesse o que ele havia feito a Tammy e a outras meninas. Embora sem conseguir achar divertido, a aparência e o modo do homem deram-lhe coragem para passar por ele rapidamente.

Quando Sheener compreendeu que ela não ia aceitar os biscoitos, nem responder à oferta de amizade, pôs a mão no ombro da menina para fazê-la parar.

Laura, furiosa, segurou a mão de Willy e a afastou.

—        Nunca toque em mim, seu lagartixa.

Laura subiu rapidamente a escada, lutando contra a vontade de correr. Se corresse, ele ia saber que estava com medo ainda. O homem não devia ver nenhuma fraqueza na sua atitude, pois isso o encorajaria a continuar o assédio.

Quando faltavam dois degraus para o próximo patamar, Laura imaginou que tinha vencido, impressionando-o com sua força. Então ouviu um ruído inconfundível de um zíper que se abria. Atrás dela, em voz murmurada, ele disse:

—       Olhe, Laura, veja isto. Veja o que tenho para você. — Havia um tom demente e odioso em sua voz. — Olhe, olhe o que está na minha mão agora, Laura.

  Ela não olhou para trás.

Laura chegou ao patamar e começou a subir o outro lance de escada, pensando: "Não há motivo para correr; não se atreva a correr, não corra, não corra.”

Lá embaixo, o Enguia disse:

—        Olhe o grande doce que tenho na minha mão agora, Laura.

É muito maior do que aqueles outros.

No terceiro andar, Laura correu diretamente para o banheiro onde esfregou as mãos vigorosamente. Sentia-se suja depois de ter tocado a mão de Willy para tirá-la do seu ombro.

Mais tarde, quando ela e as gêmeas sentaram no chão do quarto para a reunião habitual, Thelma riu às gargalhadas quando Laura contou o modo com que Willy a convidou a "olhar para o grande doce que tinha na mão". Ela disse:

—        Ele é gozado, não é? Onde será que arranja essas frases? Por acaso a editora Doubleday publica o Livro dos convites clássicos dos pervertidos, ou coisa assim?

—        O caso — retrucou Ruth com ar preocupado — é que ele não se calou quando Laura o enfrentou. Acho que não vai desistir dela como desiste das outras que o enfrentam.

Naquela noite, Laura teve dificuldade para dormir. Pensou no seu guardião especial, imaginando se ele ia aparecer miraculosamente como antes e livrá-la de Willy Sheener. De algum modo, tinha a impressão de não poder contar com ele dessa vez.

 

Durante os dez dias seguintes, os últimos de agosto, o Enguia perseguiu Laura com a regularidade da lua seguindo a terra. Quando ela ia com as gêmeas jogar cartas ou monopólio na sala de jogos, Sheener logo aparecia na sala e começava a lavar os vidros das janelas, polir os móveis ou consertava os suportes das cortinas, mas na verdade sua atenção estava sempre fixa em Laura. Se as meninas refugiavam-se num canto do pátio, atrás da casa, para conversar ou brincar de alguma coisa, Sheener aparecia no pátio, descobrindo alguma planta que precisava ser podada ou fertilizada. E embora o terceiro andar fosse só para meninas, era aberto ao pessoal masculino que trabalhava na casa das dez da manhã às quatro da tarde nos dias de semana, portanto Laura não podia fugir para o quarto durante esse tempo.

Porém, pior do que a constante perseguição era o crescente, evidente e assustador interesse doentio do homem por Laura, a necessidade revelada pelo olhar cada vez mais intenso e pelo cheiro ácido de .suor que emanava dele, quando ficava alguns minutos na mesma sala que ela.

Laura, Ruth e Thelma tentavam se convencer de que o fato de o   homem não ter agido ainda era prova de que a ameaça diminuía, de que ele reconhecia que Laura não era uma presa possível. Mas no íntimo sabiam que estavam apenas tentando matar o dragão com uma esperança. Numa tarde de sábado, no fim de agosto, porém, tiveram de enfrentar toda a extensão real do perigo quando entraram no quarto e encontraram Tammy destruindo os livros de Laura num acesso de ciúme doentio.

Os cinqüenta livros em brochura — os favoritos de Laura escolhidos no apartamento sobre o armazém — estavam embaixo da cama dela. Tammy os havia levado para o centro do quarto e, na sua fúria, já destruíra dois terços da coleção.

Laura ficou chocada demais para agir, mas Ruth e Thelma seguraram Tammy e a afastaram dos livros.

Aquela destruição mortificou Laura profundamente pois, além de se tratar dos seus livros favoritos, comprados por seu pai, um elo entre a menina e Bob, eram um dos seus poucos pertences. O pouco que possuía, Laura compreendeu, era como uma defesa contra as piores crueldades da vida.

Tammy perdeu o interesse pelos livros, agora que o verdadeiro objeto da sua ira estava presente.

—        Eu te odeio! Eu te odeio! — O rosto pálido e magro parecia vivo pela primeira vez, desde que Laura a conhecia, corado e distorcido pela emoção. As olheiras escuras não tinham desaparecido, mas não a faziam agora parecer fraca ou derrotada, e sim selvagem, violenta.

— Eu odeio você, Laura, odeio você!

—        Tammy, meu bem — disse Thelma, lutando para conter a menina —, Laura nunca fez nada para você.

Ofegante, mas deixando de lutar para se livrar de Ruth e Thelma, Tammy gritou para Laura:

—        Ele só fala em você, não se interessa mais por mim, só por você, não pára de falar em você, por que você teve de vir para cá? Eu te odeio!

Não precisaram perguntar a quem ela se referia. O Enguia.

—        Ele não me quer mais. Ninguém me quer agora, ele só me usa para se aproximar de você. Laura, Laura, Laura. Quer que eu a atraia para um lugar onde esteja seguro, mas não vou fazer isso, não vou fazer isso! Porque quando ele tiver você eu não terei ninguém. Ninguém.

O rosto da menina estava extremamente vermelho. Pior do que a raiva era o desespero que a torturava.

Laura correu para fora do quarto, pelo corredor, na direção do lavatório. Atordoada, com nojo e medo, ajoelhou nos ladrilhos quebrados ao lado de um dos vasos e vomitou. Depois foi até um dos lavatórios, enxaguou a boca várias vezes e lavou o rosto com água fria.

Quando ergueu os olhos para o espelho as lágrimas chegaram finalmente.

Não chorava pela própria solidão, nem de medo, chorava por Tammy. O mundo era um lugar incrivelmente cruel onde a vida de uma garota de dez anos podia ser desvalorizada a ponto de só ter como aprovação as palavras de um homem demente que abusava dela, sua única possessão, a única da qual podia se orgulhar, o aspecto sexual imaturo do próprio corpo magro de pré-adolescente.

Laura compreendeu que a situação de Tammy era infinitamente pior que a sua. Mesmo sem seus livros, tinha boas lembranças de um pai amoroso, bom e delicado, que Tammy não tinha. Se tirassem dela as poucas coisas que possuía, Laura podia manter sua mente intata, mas Tammy estava psicologicamente perturbada, talvez sem possibilidade de recuperação.

 

Sheener morava em um bangalô numa rua tranqüila de Santa Ana. Era um daqueles bairros criados depois da Segunda Guerra: casas pequenas e limpas com interessantes detalhes arquitetônicos. Naquele verão de 1967, os vários tipos de fícus haviam chegado à maturidade, estendendo seus ramos protetores sobre as casas; a de Sheener era também rodeada de azaléias, eugênias e hibiscos vermelhos.

Quase à meia-noite Stefan abriu a porta dos fundos da casa com um cartão de plástico e entrou. Enquanto examinava o bangalô, ia acendendo as luzes, sem se preocupar em fechar as cortinas.

A cozinha estava imaculadamente limpa. Os balcões de fórmica azul brilhavam. As peças cromadas, a torneira da pia e as armações de metal das cadeiras cintilavam, sem a menor marca de mãos humanas.

Ele abriu a geladeira, sem saber o que ia encontrar. Talvez alguma indicação do comportamento anormal de Sheener; uma antiga vítima, assassinada e congelada para conservar a lembrança da paixão doentia? Nada tão dramático. Entretanto, era óbvia a mania do homem por limpeza: toda a comida estava guardada em vasilhas de plástico.

A única coisa diferente no conteúdo da geladeira e dos armários era a quantidade de doces: sorvete, biscoitos, bolos, balas, tortas, rosquinhas, até biscoitos de cachorro. Havia também grande variedade de alimentos modernos, como espaguete com molho, latas de sopas de vegetais com macarrão em forma dos personagens de quadrinhos. A despensa de Sheener parecia ter sido arrumada por uma criança, sem a supervisão de um adulto.

 

 

5

 

O confronto provocado pelos livros rasgados foi o bastante para esgotar as forças de Tammy. Não disse nada mais sobre Sheener e parecia não sentir nenhuma animosidade contra Laura. Cada dia mais ensimesmada, não olhava diretamente para ninguém e andava sempre de cabeça baixa; sua voz ficou mais suave.

Laura não sabia ao certo o que era mais enervante — a ameaça diária do Enguia ou ver a personalidade já tão fraca de Tammy diminuir aos poucos, chegando a um estado quase de catatonia. Mas na quinta-feira, 31 de agosto, esses dois fatores sinistros foram eliminados dos ombros de Laura quando ficou sabendo que seria transferida para um lar adotivo em Costa Mesa no dia seguinte, sexta-feira.

Entretanto, sentia deixar as gêmeas Ackerson. Embora as conhecesse há pouco tempo, a amizade formada em circunstâncias extremas solidifica-se com maior rapidez e parece mais duradoura do que outras, feitas em situações diferentes.

Naquela noite, quando as três estavam sentadas no chão do quarto, Thelma disse:

—        Shane, se ficar com uma família boa, um lar feliz, procure se acomodar e aproveite. Se for um bom lugar, esqueça de nós, faça novos amigos, continue sua vida. Mas as lendárias irmãs Ackerson.. Ruth e moi... já passamos por essa experiência três vezes, todas péssimas, portanto, deve saber que se for parar com uma família podre, não precisa ficar.

Ruth acrescentou:

—       É só chorar bastante e fazer com que todo mundo saiba que está infeliz. Se não puder chorar, finja.

—        Fique emburrada — aconselhou Thelma. — Faça tudo errado. Quebre um prato acidentalmente. Procure incomodar os outros.

Laura ficou surpresa:

—        Vocês fizeram tudo isso para voltar para Mcllroy?

—        Isso e mais ainda — disse Ruth.

—        Mas não se sentiam mal, quebrando as coisas dos outros?

—        Foi mais difícil para Ruth do que para mim — respondeu Thelma. — Eu tenho muita maldade em mim, mas Ruth é a reencarnação de uma freira obscura e boazinha do século XIV cujo nome ainda não sabemos.

 

No primeiro dia Laura descobriu que não queria ficar com a família Teagel, mas tentou, por achar que devia ser melhor do que voltar ao Mcllroy.

A vida real era apenas uma enevoada tela de fundo para Flora Teagel, que só se interessava por palavras cruzadas. Passava os dias e parte das noites à mesa da sua cozinha amarela, enrolada num cardigã, fizesse frio ou calor, debruçada sobre os livros de palavras cruzadas, um depois do outro, com uma dedicação espantosa e idiota.

Geralmente só falava com Laura para dar a lista do que a menina devia fazer ou para pedir ajuda com alguma palavra mais complicada. Quando Laura estava lavando os pratos, ela às vezes dizia, por exemplo:

—        Qual é a palavra de sete letras para gato?

A resposta de Laura era sempre a mesma:

—        Não sei.

—        Não sei, não sei, não sei — dizia a sra. Teagel. — Você não sabe nada, menina. Não está prestando atenção às aulas na escola? Não se preocupa com a linguagem, com as palavras?

Laura era fascinada por palavras. Para ela, eram coisas belas, cada uma um pó ou uma poção mágica que podia ser combinada com outras para criar encantamentos de grande força. Mas para Flora Teagel, palavras eram fichas de um jogo, usadas para encher os quadrados vazios das palavras cruzadas, grupos incômodos que a frustravam.

O marido de Flora, Mike, era motorista de caminhão, atarracado c com cara de bebê. Quando estava em casa, à noite, passava o tempo todo lendo o National Enquirer e publicações semelhantes, absorvendo fatos duvidosos de reportagens sobre contatos estranhos e adoração do demônio pelas estrelas do cinema. Seu gosto pelo que chamava de 'notícias exóticas' seria inofensivo se ele fosse tão desligado quanto a mulher, mas geralmente surpreendia Laura, quando ela estava fazendo o serviço de casa ou nos raros momentos em que tinha tempo para os deveres da escola e insistia em ler em voz alta para ela os artigos mais bizarros.

Laura achava aquelas histórias idiotas, sem objetivo, sem lógica, mas não podia dizer isso a ele. Descobriu que Teagel não ficava zangado se dissesse que os jornais que lia eram um lixo. O homem olhava para ela com ar de pena e depois, com uma paciência irritante, um ar de quem sabe tudo, começava a explicar o funcionamento do mundo. Por extenso. Repetidamente.

—        Laura, você tem muito para aprender. Os figurões que mandam nas coisas em Washington, sabem tudo sobre alienígenas e os segredos da Atlântida...

Embora fossem completamente diferentes, Flora e Mike compartilhavam a mesma crença: o objetivo de abrigar uma criança órfã era ter empregada de graça. Laura devia limpar, lavar, passar e cozinhar.

Hazel, filha única deles, era dois anos mais velha do que Laura e extremamente mimada. Jamais cozinhava, lavava pratos, roupa ou    limpava a casa. Com 14 anos mantinha as unhas das mãos e dos pés impecavelmente tratadas e pintadas. Se fossem deduzidas da sua idade as horas que passava na frente do espelho, Hazel teria cinco anos.

—        No dia de lavar roupa — explicou para Laura logo no primeiro dia — você passa minhas roupas primeiro. E tenha sempre cuidado de guardar tudo no guarda-roupa de acordo com as cores.

Já li este livro, já vi este filme, pensou Laura. Puxa vida, me deram o papel principal na Gata Borralheira.

—        Eu vou ser uma grande estrela de cinema ou modelo — disse Hazel. — Portanto, meu rosto, minhas mãos e meu corpo são o meu futuro. Precisam ser protegidos.

Quando a sra. Ince, a assistente social esquelética com cara de coelho, encarregada do caso de Laura, fizesse sua visita à casa dos Teagel na manhã de sábado, 16 de setembro, Laura pretendia pedir para voltar ao Lar Mcllroy. A ameaça representada por Willy Sheener parecia um problema menor do que a vida com os Teagel.

A sra. Ince chegou na data marcada e encontrou Flora lavando os pratos pela primeira vez em duas semanas. Laura estava sentada à mesa da cozinha, aparentemente resolvendo palavras cruzadas, colocadas em suas mãos quando a campainha tocou.

Na entrevista particular com Laura, no seu quarto, a sra. Ince recusou-se a acreditar no que a menina contou sobre o trabalho pesado que tinha de fazer.

—        Mas, minha querida, o sr. e a sra. Teagel são pais adotivos exemplares. Você não parece esgotada de tanto trabalhar. Até engordou um pouco.

—        Eu não os acusei de me fazer passar fome — disse Laura. — Mas nunca tenho tempo para os deveres da escola. Todas as noites vou me deitar exausta...

—        Além disso — interrompeu a sra. Ince — os pais adotivos não só recebem as crianças como também as criam, o que significa que ensinam boas maneiras e comportamento, bons valores e hábitos de trabalho.

A sra. Ince não podia ajudá-la.

Laura recorreu ao plano das irmãs Ackerson para se livrar da família indesejável. Começou a fazer mal a limpeza da casa. Quando acabava de lavar, os pratos estavam manchados e sujos. Ela fazia rugas nas roupas de Hazel.

Por causa da destruição de parte da sua coleção de livros, Laura havia adquirido um profundo respeito pela propriedade e não podia quebrar pratos ou outra coisa qualquer dos Teagel, mas substituiu essa parte do plano por pouco-caso e falta de respeito. Certa vez, Flora perguntou qual seria a palavra de seis letras que significava 'uma espécie de boi', e Laura disse: "Teagel." Quando Mike começou a contar unia história de discos voadores, que tinha lido no Enquirer, Laura interrompeu para contar a história de homens mutantes subterrâneos que viviam secretamente no supermercado local. Sugeriu a Hazel que sua grande entrada no mundo teatral devia ser como substituta de Ernest Borgnine.

—        Você é igualzinha a ele, Hazel. Eles na certa vão te dar o papel!

Esse atrevimento provocou uma sova. Mike, com suas mãos grandes e calosas, não precisava de nenhum outro instrumento. Deu palmadas no lugar certo, mas Laura negou a ele o prazer das suas lágrimas. Observando da porta da cozinha, Flora disse:

—        Mike, chega. Não deixe marcas.

Ele parou com relutância, quando a mulher segurou sua mão.

Naquela noite Laura teve dificuldade para dormir. Pela primeira vez fizera uso do seu amor pelas palavras, do poder da linguagem, para um efeito desejado, e as reações dos Teagel eram prova de que sabia como usar esse poder. Mais excitante ainda era a idéia, nova demais para ser completamente compreendida, de que podia não só defender-se com palavras, como também abrir caminho no mundo por meio delas, talvez até mesmo como escritora do tipo de livros de que tanto gostava. Com o pai falara em ser médica, bailarina, veterinária, mas era apenas conversa. Nenhum desses sonhos a entusiasmava tanto quanto a perspectiva de ser escritora.

Na manhã seguinte, quando desceu para a cozinha e encontrou os três Teagel tomando café, Laura disse:

—        Ei, Mike, acabo de descobrir um polvo inteligente de Marte que mora no vaso do banheiro.

—        O que foi que você disse? — perguntou Mike.

Laura sorriu e respondeu:

—        Notícias exóticas.

 

Dois dias depois Laura voltou ao Mcllroy.

A sala de estar e a sala íntima de Willy Sheener pareciam pertencer a um homem comum. Stefan não sabia ao certo o que esperava encontrar. Evidência de loucura, talvez, mas não aquela ordem impecável. Um dos quartos estava vazio e o outro era sem dúvida estranho. A única cama era um colchão estreito no chão. A roupa de cama era de criança, com desenhos coloridos de coelhinhos. A mesa-de-cabeceira e a penteadeira eram feitas para criança, pintadas de azul, com desenhos de animais nos lados e nas gavetas: girafas, coelhos, esquilos. Sheener tinha uma coleção de Livrinhos Dourados e outros livros infantis, animais empalhados e brinquedos para crianças de seis ou sete anos.

A princípio Stefan pensou que o quarto era usado para seduzir as crianças da vizinhança, acreditando que Sheener era suficientemente instável para procurar suas vítimas perto de onde morava, onde o risco era maior. Mas não havia outra cama na casa, e o armário e as gavetas da cômoda estavam cheios de roupas de homem adulto. Nas paredes viu várias fotografias emolduradas do mesmo garoto de cabelo vermelho, quando era bebê, com sete ou oito anos e o rosto era sem dúvida o de Sheener. Pouco a pouco Stefan compreendeu que a decoração somente beneficiava o próprio Sheener. Era ali que o homem dormia. Evidentemente, quando ia para a cama, voltava para o mundo da sua infância, encontrando naquela regressão sinistra a paz desesperadamente desejada.

De pé no meio daquele quarto estranho, Stefan sentiu tristeza e repulsa. Aparentemente, Sheener molestava crianças não apenas pelo prazer sexual, mas para absorver a infância de suas vítimas, para voltar a ser criança. Através da perversão, mergulhava, não tanto na imoralidade doentia, mas na inocência perdida. Era patético e desprezível, não preparado para os desafios da vida adulta, no entanto, mesmo assim perigoso.    .

Stefan estremeceu. 

 

A cama de Laura no quarto das gêmeas estava ocupada por outra garota. Laura ficou num quarto pequeno com duas camas, na ala norte do terceiro andar, perto da escada. Sua companheira era Eloise Fischer, de nove anos, com rabo-de-cavalo, sardas e um rosto sério demais para a idade.

—        Quando crescer vou ser contadora — disse para Laura. — Gosto muito de números e consigo o mesmo resultado sempre, nas contas.

Não existem surpresas com números; não são como as pessoas.

Os pais de Eloise cumpriam pena por tráfico de drogas e ela estava no Mcllroy esperando a decisão do tribunal sobre sua custódia.

Logo que acabou de desfazer as malas, Laura foi ao quarto das gêmeas. Entrou de repente, exclamando:

—        Mim está livre! Mim está livre!

Tammy e a outra garota olharam para ela sem compreender, mas Ruth e Thelma correram para abraçá-la. Era como estar voltando para casa, para uma família de verdade.

  —- A família adotiva não gostou de você? — perguntou Ruth.

—        Ah, ah! — exclamou Thelma. — Você usou o plano Ackerson!

—        Não, eu assassinei todos eles enquanto dormiam.

—        Isso também funciona — concordou Thelma.

A garota nova, Rebecca Bogner, tinha uns 11 anos. Evidentemente se dava bem com as gêmeas. Ouvindo Laura e as meninas Ackersn, ela dizia sempre "vocês são esquisitas" e "esquisitas demais" "puxa, que gente esquisita", com um ar de superioridade e com tanto desprezo que envenenava o ambiente com a eficiência de uma bomba nuclear.

Laura e as gêmeas foram para um canto do pátio onde podiam compartilhar as novidades das últimas cinco semanas sem os comentários desdenhosos de Rebecca. Estavam no começo de outubro e os dias oram quentes ainda, só esfriando um pouco depois das cinco. Estavam agasalhadas e sentaram nos galhos mais baixos da selva de brinquedo, abandonada àquela hora, porque as crianças mais novas estavam tomando banho, preparando-se para o jantar.

Estavam apenas há cinco minutos no pátio quando Willy Sheener apareceu com um podador elétrico. Começou a trabalhar numa cerca viva a uns dez metros das meninas, mas sua atenção estava toda em Laura.

No jantar, ele estava no seu posto, servindo leite e pedaços de torta de cereja. Guardou o maior pedaço para Laura.

Na segunda-feira Laura entrou para a escola onde as outras meninas já estudavam há quatro semanas. Ruth e Thelma assistiam duas aulas com ela, o que facilitava seu entrosamento, mas Laura lembrou que a principal condição da vida de uma órfã é a instabilidade.

Terça-feira à tarde, quando Laura voltou da escola, a sra. Bowmaine a fez parar no corredor.

—        Laura, posso falar com você no meu escritório?

A sra. Bowmaine estava com um vestido estampado em tons de púrpura, que fazia um contraste gritante com as cortinas e o papel de parede do escritório, em tons rosa e pêssego. Laura sentou numa cadeira cor-de-rosa. A sra. Bowmaine ficou de pé ao lado da mesa, com intenção de falar rapidamente com Laura. Era uma mulher sempre em movimento, apressada.

—        Eloise Fischer nos deixou hoje — disse ela.

—        Quem ganhou a custódia? — perguntou Laura. — Ela gosta da avó.

—        Foi a avó — confirmou a sra. Bowmaine.

Ótimo para Eloise. Laura esperava que a futura contadora de trancinhas e sardas encontrasse algo mais em que confiar além dos números.

—        Agora, você está sem companheira de quarto — disse a sra.

Bowmaine rapidamente — e não temos nenhuma cama vaga, portanto não podemos instalar você com...

—        Posso fazer uma sugestão?

A sra. Bowmaine franziu as sobrancelhas com impaciência e consultou o relógio de pulso. Laura disse:

—        Ruth e Thelma são minhas melhores amigas e suas companheiras de quarto são Tammy Hinsen e Rebecca Bogner. Mas acho que Tammy e Rebecca não se dão muito bem com Ruth e Thelma, assim..- —     Queremos que vocês aprendam a conviver com pessoas diferentes. Ficar sempre com garotas de quem gosta e já conhece não ajuda a construir seu caráter. Seja como for, o caso é que só posso providenciar isso amanhã. Estou muito ocupada hoje. Portanto quero saber se posso confiar em você deixando-a sozinha esta noite no seu quarto.

—        Confiar em mim? — perguntou Laura, confusa.

—        Diga a verdade, menina. Posso confiar em você, deixando-a sozinha por uma noite?

Laura não sabia qual o problema que a assistente social previa deixando uma menina dormir sozinha num quarto da instituição. Talvez pensasse que Laura ia se entrincheirar no quarto e seria preciso chamar a polícia para arrombar a porta, usar gás lacrimogênio e arrastá-la lá de dentro acorrentada.

Laura sentiu-se tão insultada quanto confusa.

—        É claro, está tudo bem. Não sou criança. Vou ficar muito bem.

—        Está certo... está certo. Vai dormir sozinha esta noite, mas amanhã faremos outros planos.

Laura saiu do escritório colorido para os corredores tristonhos e enquanto subia para o terceiro andar pensou de repente: o Enguia Branca! Sheener ia saber que estava sozinha. Ele sabia de tudo que acontecia no Mcllroy, e tinha as chaves, portanto podia voltar à noite. O quarto de Laura ficava perto da escada da ala norte, assim ele podia passar diretamente da escada para dentro e dominá-la em segundos. Podia desacordá-la com uma pancada na cabeça ou usar alguma droga e enfiá-la num saco. Podia trancar sua vítima num porão e ninguém ia saber o que tinha acontecido com ela.

No segundo andar, Laura deu meia-volta e desceu a escada de dois em dois degraus, voltando para o escritório da sra. Bowmaine, mas quando chegou no hall de entrada quase se chocou com o Enguia. O homem carregava uma vassoura de pano e um carrinho com torcedor e o balde cheio de água que cheirava a pinho.

Sheener abriu um largo sorriso. Talvez fosse imaginação, mas Laura ficou certa de que já sabia que ela ia dormir sozinha naquela noite.

Devia ter passado por ele, continuando para o escritório da sra. Bowmaine e pedir uma mudança de acomodação para a noite. Não podia acusar Sheener, do contrário acabaria como Denny Jenkins — desacreditada pelo pessoal da casa, atormentada pelo perseguidor — mas podia ter encontrado uma desculpa plausível para o pedido.

Laura pensou também em derrubar Sheener com um empurrão, jogando-o dentro do balde, dizendo que ela era mais corajosa do que ele, avisando para que não se metesse com ela. Mas Sheener era diferente dos Teagel. Mike, Flora e Hazel eram mesquinhos e ignorantes, mas relativamente sãos. O Enguia era insano e nunca se podia saber como ia reagir a um ataque daquele tipo.

Vendo a menina hesitar, Sheener alargou o sorriso, mostrando os dentes amarelos.

Seu rosto ficou levemente corado e Laura compreendeu que aquilo significava desejo; ficou nauseada.

Afastou-se dele, sem correr, até subir a escada e sair do campo de visão do homem. Então, voou para o quarto das gêmeas.

—        Você dorme aqui esta noite — disse Ruth.

—        É claro — confirmou Thelma. — Fica no seu quarto até ter minar a verificação da noite e depois vem para cá.

Do canto onde fazia o dever de matemática, Rebecca Bogner disse:

—        Temos só quatro camas.

—        Eu durmo no chão — disse Laura.

—        É contra o regulamento — observou Rebecca.

Thelma brandiu o punho fechado para ela.

—        Está certo, tudo bem — concordou Rebecca. — Eu não disse que não queria que ela ficasse. Só lembrei que é contra o regulamento.

Laura esperava que Tammy fizesse alguma objeção, mas a menina, deitada sobre as cobertas, olhando para o teto, parecia absorta nos próprios pensamentos e desinteressada nos planos das outras.

 

No refeitório com lambris de carvalho, tentando comer o jantar impossível de costeletas de porco, purê gelatinoso de batatas e vagem dura como couro — e sob o olhar atento do Enguia —, Thelma disse:

—        Quanto à pergunta de Bowmaine, se podia confiar em você...ela tem medo que você tente o suicídio.

Laura não podia acreditar.

—       Já aconteceu aqui — disse Ruth com tristeza. — Por isso eles amontoam pelo menos duas de nós, mesmo nos quartos muito peque nos. Ficar sozinha por muito tempo... é uma das coisas que parece pro vocar esse impulso.

    —    Não deixam Ruth e eu dormir num dos quartos menores por que, como somos gêmeas idênticas, acham que somos, na verdade, uma única pessoa. Acreditam que, assim que estivermos sozinhas, vamos nos enforcar.

—        Isso é ridículo — disse Laura.

—        É claro — concordou Thelma. — Enforcamento não é bastante dramático. As espantosas irmãs Ackerson, Ruth e moi, têm uma queda para o drama. Certamente íamos preferir o haraquiri, com facas rouba das da cozinha, ou podíamos conseguir uma serra elétrica manual...

As conversas no refeitório eram conduzidas em voz baixa porque monitores adultos controlavam a refeição das crianças. A conselheira residente do terceiro andar, srta. Keist, passou pela mesa de Laura e das gêmeas e Thelma cochichou:

—        Gestapo.

Quando a conselheira se afastou, Ruth disse:

—        A sra. Bowmaine é bem-intencionada, só que não é boa para esse trabalho. Se tivesse se interessado em conhecer você, Laura, não ia pensar que era capaz de cometer suicídio. Você é uma sobrevivente.

Empurrando a comida horrível de um lado para o outro do prato, Thelma disse:

—        Uma vez pegaram Tammy Hinsen no banheiro com um paco te de lâminas, tentando arranjar coragem para cortar os pulsos.

De repente Laura percebeu todo o misto de humor e tragédia, de absurdo e realismo que formava o padrão da vida no Mcllroy. Num momento estavam brincando e rindo; logo depois discutiam as tendências suicidas de garotas que conheciam. Compreendeu que era uma compreensão da vida além da sua idade e resolveu anotar essas novas observações no caderno que tinha começado recentemente.

Ruth conseguiu engolir toda a comida do prato. Disse:

—        Um mês depois do incidente com as lâminas, fizeram uma revista de surpresa nos quartos, procurando objetos perigosos. Encontraram fósforos e uma lata de fluido para isqueiro entre as coisas de Tammy. Ela pretendia ir para o chuveiro, derramar o fluido no corpo e acender um fósforo.

—        Oh, meu Deus! — Laura pensou na garotinha loura e magra, de rosto pálido e olheiras escuras, e era como se o plano de se imolar daquele modo fosse apenas o desejo de acelerar a chama lenta que há tanto tempo a consumia de dentro para fora.

—        Eles a mandaram para terapia intensiva durante meses — disse Ruth.

—        Quando voltou — explicou Thelma —, os adultos comentavam o quanto tinha melhorado, mas para mim e para Ruth, Tammy parece a mesma.

  Dez minutos depois da verificação feita nos quartos pela srta. Keist, Laura saiu da cama. O corredor deserto do terceiro andar estava iluminado apenas por três lâmpadas fracas de segurança. De pijama, carregando o travesseiro e o cobertor, correu descalça para o quarto das gêmeas.

Só a lâmpada ao lado da cama de Ruth estava acesa. Ela sussurrou:

—        Laura, você dorme na minha cama. Já arrumei um lugar para mim no chão.

—        Pois então desarrume e volte para a cama — disse Laura.

Dobrou o cobertor várias vezes e o colocou no chão perto da cama de Ruth. Depois deitou com seu travesseiro.

Rebecca Bogner disse:

—        Nós todas vamos arranjar encrenca por causa disto.

—        O que acha que podem fazer? — perguntou Ruth. — Amarrar a gente no pátio dos fundos, passar mel e nos deixar para as formigas?

Tammy estava dormindo, ou fingindo que dormia. Ruth apagou a luz e elas se acomodaram no escuro. A porta se abriu e a luz central do quarto foi acesa. Com um roupão vermelho e uma expressão furiosa, a srta. Keist entrou.

—        Muito bem! Laura, o que está fazendo aqui?

Rebecca Bogner gemeu:

—        Eu disse que ia dar encrenca.

—        Volte já para seu quarto, mocinha.

A rapidez do aparecimento da srta. Keist era suspeita e Laura olhou para Tammy Hinsen. A garota loura não estava mais fingindo que dormia. Apoiada num cotovelo, sorria. Evidentemente tinha resolvido ajudar o Enguia, talvez na esperança de recuperar o lugar de favorita.

A srta. Keist acompanhou Laura até o quarto dela. Laura deitou na cama e a encarregada observou-a por um momento.

—        Está quente. Vou abrir a janela. — Voltou para perto da cama e olhou para a menina com ar pensativo. — Quer me contar alguma coisa? O que há de errado?

Laura pensou em contar tudo a respeito do Enguia. Mas, e se a srta. Keist tentasse surpreender o homem e ele não aparecesse? Laura nunca mais poderia acusá-lo porque teria uma história de acusação falsa; ninguém ia acreditar. E então, mesmo que Sheener a violentasse, nada mais poderia fazer.

—        Não, está tudo bem — disse ela.

—        Thelma é segura demais para a idade, tão cheia de falsa maturidade. Se você fizer outra vez a bobagem de violar os regulamentos só para uma noite de conversa com suas amigas, escolha alguém que valha o risco.

—        Sim, senhora — concordou Laura, só para se livrar da mulher, já arrependida de ter acreditado por um momento na preocupação real da conselheira.

Depois que a srta. Keist saiu, Laura não fugiu do quarto. Ficou deitada no escuro, certa de que haveria outra verificação dentro de meia hora. Sem dúvida o Enguia não ia aparecer antes da meia-noite, e eram só dez horas; portanto, entre a próxima visita da srta. Keist e a chegada de Sheener, teria muito tempo para procurar um lugar seguro.

Longe, muito longe, o trovão ribombou na noite. Laura sentou na cama. Seu guardião! Jogou para longe as cobertas e foi até a janela. Não viu nenhum relâmpago. O ribombo distante emudeceu. Talvez não fosse trovão. Esperou uns dez minutos, mas nada aconteceu. Desapontada, voltou para a cama.

Logo depois das dez e meia, alguém girou a maçaneta da porta. Laura fechou os olhos, abriu a boca, fingiu que estava dormindo.

Um vulto entrou mansamente no quarto e parou ao lado da cama.

Laura respirou lenta e ritmadamente, mas seu coração estava disparado.

Era Sheener. Laura sabia que era ele. Oh, Deus, tinha esquecido que o homem era louco, imprevisível e agora ali estava ele, muito antes do que ela esperava, e devia estar preparando a seringa com a droga. Ia pôr Laura dentro de um saco e levá-la para longe como um Papai Noel insano que roubava crianças em vez de deixar presentes.

Ouviu o tique-taque do relógio. A brisa fresca balançou as cortinas.

Finalmente o vulto afastou-se. A porta se fechou.

Era a srta. Keist.

Tremendo violentamente, Laura levantou e vestiu o roupão. Dobrou o cobertor e saiu com ele no braço, sem chinelo porque descalça não faria tanto barulho.

Não podia voltar ao quarto das gêmeas. Foi para a escada da ala norte, abriu a porta cautelosamente e entrou no patamar pouco iluminado. Aguçou o ouvido para ver se percebia os passos do Enguia, lá embaixo. Desceu com medo de encontrar Sheener, mas chegou a salvo ao andar térreo.

Tremendo de frio, com os pés descalços nas lajotas geladas, refugiou-se na sala de jogos. Não acendeu as luzes, guiando-se pela luz fantasmagórica das lâmpadas da rua que entrava pela janela desenhando contornos prateados nos móveis. Passou pelas cadeiras e mesa de jogo e arrumou o cobertor no chão atrás do sofá.

Dormiu agitada, acordando repetidamente de pesadelos. A velha casa era cheia de ruídos sinistros à noite: o estalar do assoalho no andar de cima, o ruído surdo do encanamento antigo.

 

 Slefan apagou todas as luzes e esperou no quarto mobiliado para uma criança. Às três e meia da manhã ouviu Sheener chegando. Silenciosamente colocou-se atrás da porta do quarto. Sheener entrou, acendeu a luz e foi direto para o colchão estreito. Fez um som estranho enquanto atravessava o quarto, um misto de suspiro e ganido de animal que escapa do mundo hostil para a segurança da sua toca.

Stefan fechou a porta, e Sheener voltou-se rapidamente, chocado com a invasão do seu ninho.

— Quem... quem é você? Que diabo está fazendo aqui?

 

Dentro do Chevrolet estacionado no outro lado da rua, Kokoschka viu Stefan sair da casa de Willy Sheener. Esperou dez minutos, saiu do carro, deu uma volta na casa, encontrou a porta dos fundos aberta e entrou cautelosamente.

Encontrou Sheener num quarto de criança, espancado e ainda coberto de sangue. O cheiro de urina enchia o ar, pois o homem tinha perdido o controle da bexiga.

Algum dia, pensou Kokoschka com sombria determinação e sadismo, vou machucar Stefan mais do que isto. Ele e aquela maldita garota. Assim que souber a parte que ela desempenha nos planos de Stefan e por que ele está pulando décadas para reformular sua vida, vou fazer com que ambos sofram o tipo de dor que ninguém conhece deste lado do inferno.

Saiu da casa de Sheener. Lá fora, olhou por um momento para o céu estrelado e depois voltou para o instituto.

 

Logo depois do nascer do dia, quando a casa toda ainda dormia, mas o perigo já tinha passado, Laura voltou para o terceiro andar. Tudo no seu quarto estava como havia deixado. Nenhum sinal de intruso.

Exausta, com os olhos ardendo, pensou se não teria dado muito crédito ao Enguia, acreditando que teria coragem para procurá-la no quarto. Sentiu-se um tanto tola.

Arrumou a cama — uma tarefa que todas as crianças do Mcllroy tinham de desempenhar — e quando levantou o travesseiro parou, petrificada com o que viu. Uma única bala.

Naquele dia o Enguia Branca não foi trabalhar. Passara a noite toda preparando-se para raptar Laura e sem dúvida precisava dormir.

—Como é que um homem desse pode dormir? — disse Ruth. — Quero dizer, será que a consciência não tira o sono dele?

—        Ruthie — disse Thelma —, ele não tem consciência.

—        Todo o mundo tem, até as piores pessoas. Deus nos fez assim.

—        Shane — disse Thelma —, prepare-se para me ajudar num exorcismo. Nossa Ruth está outra vez possuída pelo espírito idiota de Gidget.

A sra. Bowmaine, com uma demonstração inusitada de compaixão, mudou Tammy e Rebecca para outro quarto, permitindo que Laura ficasse com as gêmeas. Provisoriamente uma cama ficaria vazia no quarto das três amigas.

—        Vai ser a cama de Paul MacCartney — disse Thelma, enquanto com a irmã ajudava Laura a se instalar. — Sempre que os Beatles estiverem na cidade, Paul pode usar essa cama. E eu posso usar Paul!

—        Às vezes você me deixa embaraçada — disse Ruth.

—        Ora, só estou expressando um saudável desejo sexual.

—        Thelma, você só tem 12 anos! — disse Ruth com impaciência.

—        Depois vêm os 13. A qualquer momento vou ficar menstruada. Vamos acordar de manhã com tanto sangue no quarto que vai parecer um massacre.

—        Thelma!

Sheener não foi trabalhar na sexta-feira também. Seus dias de folga naquela semana eram sexta e sábado, assim, no sábado à noite Laura e as gêmeas comentaram que talvez ele não voltasse, que tinha sido atropelado por um caminhão ou contraído beribéri.

Mas no domingo Sheener estava servindo o café da manhã. Tinha os olhos roxos, a orelha direita envolta em curativo e perdera dois dentes da frente.

—        Talvez tenha mesmo sido atropelado por um caminhão — murmurou Ruth, na fila do café.

Outras crianças comentavam os ferimentos de Sheener, algumas rindo divertidas. Mas todas o temiam, desprezavam ou evitavam, e ninguém falou diretamente com ele sobre o seu estado.

Laura, Ruth e Thelma ficaram em silêncio quando chegou sua vez de serem servidas. Quanto mais perto chegavam, mais Sheener parecia machucado. O roxo dos olhos não era recente, devia ter alguns dias, mas o rosto ainda estava horrivelmente marcado e inchado; sem dúvida, alguns dias antes não podia sequer abrir os olhos. O lábio partido parecia em carne viva. O rosto, onde não estava arranhado ou roxo, tinha uma cor cinzenta, em lugar da palidez de sempre. Era uma figura ridícula com o cabelo cor de cobre — um palhaço de circo depois de um tombo desajeitado.

Não olhava para as crianças que servia, mantendo os olhos no leite e nos doces. Quando chegou a vez de Laura, Sheener ficou tenso, mas não ergueu os olhos.

Laura e as gêmeas sentaram-se de modo a poder observar o Enguia, uma coisa em que não teriam pensado uma hora atrás. Mas agora ele parecia menos ameaçador, mais um objeto de curiosidade. Em vez de evitá-lo, passaram o dia acompanhando-o no seu trabalho, disfarçando, como se só por coincidência estivessem sempre no mesmo lugar que ele, observando-o. Aos poucos perceberam que Sheener percebia intensamente a presença de Laura, mas evitava olhar para ela. Olhava para as outras crianças, parou na sala de jogos para falar suavemente com Tammy Hinsen, mas parecia tão temeroso a olhar para Laura quanto a pôr o dedo numa tomada elétrica.

No fim daquela manhã, Ruth disse:

—        Laura, ele está com medo de você.

- Macacos me mordam se não está — disse Thelma. — Foi você quem bateu nele, Shane. Não contou para a gente que é boa no caratê?

—        É estranho, não é? Por que ele está com medo de mim?

Mas ela sabia. Seu guardião especial. Embora tivesse pensado que teria de enfrentar Sheener sozinha, seu guardião havia se encarregado outra vez, avisando Sheener para ficar longe dela.

Laura não sabia por que relutava em falar sobre seu guardião com as gêmeas. Elas eram suas melhores amigas. Confiava nas duas. Porém, sentia que o segredo do guardião devia continuar como segredo, o pouco que sabia era sagrado e não tinha direito de falar sobre ele com outras pessoas, reduzindo o sagrado a mero comentário.

 

Nas duas semanas seguintes, as escoriações no rosto do Enguia desapareceram e, sem o curativo na orelha, ficaram a descoberto os pontos que evitaram que perdesse aquela parte do corpo. Sheener continuou a manter distância de Laura. Quando a servia, no refeitório, não guardava mais o melhor pedaço para ela e evitava encontrar os olhos da menina.

Entretanto, uma vez ou outra ela o surpreendia observando-a da outra extremidade da sala. Sempre o homem desviava os olhos verdes malignos, mas havia neles algo pior do que o desejo doentio de antes: raiva. Obviamente ele a culpava pelo espancamento sofrido.

Na sexta-feira, 27 de outubro, a sra. Bowmaine informou a Laura que seria transferida para outra casa de família, no dia seguinte. Um casal em Newport Beach, sr. e sra. Dockweiler que nunca havia adotado uma criança e estavam ansiosos para ficar com Laura.

—        Tenho certeza de que será uma situação mais harmoniosa — disse a sra. Bowmaine. — Espero que não se repita o problema que teve com os Teagel.

Naquela noite, no quarto, Laura e as gêmeas tentaram discutir sem sentimentalismo a próxima separação, como haviam discutido sua ida para a casa dos Teagel. Mas a amizade estava agora mais forte e Ruth e Thelma falavam de Laura como se fosse sua irmã. Certa vez Thelma chegou a dizer: "As espantosas irmãs Ackerson, Ruth, Laura e moi" e Laura sentia-se agora mais desejada, mais amada, mais viva do que nunca, desde a morte do pai, há três meses.

—        Eu adoro vocês — disse Laura.

—        Oh, Laura — Ruth desmanchou-se em lágrimas.

Thelma franziu a testa.

—        Você vai voltar logo. Esses Dockweiler devem ser uma gente horrível. Vão fazer você dormir na garagem.

—        Espero que sim — disse Laura.

—        Vão bater em você com canos de borracha...

—        Isso será ótimo.

Dessa vez o relâmpago que atingiu a vida de Laura foi um bom relâmpago, ou pelo menos assim parecia, no começo.

Os Dockweiler moravam numa casa enorme no bairro elegante de Newport Beach. Laura tinha um quarto com vista para o mar, decorado em vários tons de marrom e bege.

Quando mostrou o quarto para Laura, Carl Dockweiler disse:

—        Não sabíamos quais eram suas cores favoritas, por isso o deixamos assim, mas podemos pintar tudo de novo, da cor que você quiser.

Carl Dockweiler tinha uns quarenta anos, era grande como um urso, forte, rosto largo e curtido de sol, que faria lembrar John Way-ne se Wayne tivesse uma expressão mais alegre.

—        Talvez uma menina da sua idade prefira um quarto cor-de-rosa.

—        Oh, não, gosto dele assim! — disse Laura.

Ainda um tanto chocada com a opulência inesperada, foi até a janela e olhou para a maravilhosa vista do porto de Newport, onde os iates balançavam na água dourada de sol.

Nina Dockweiler aproximou-se e pôs a mão no ombro da menina. Era uma mulher bonita de cabelos escuros e olhos cor de violeta, um rosto de boneca de porcelana.

—        Laura, sua ficha diz que você gosta de livros, mas não sabíamos de que tipo, portanto vamos até a livraria para escolher o que quiser.

Na Livraria Waldenbooks Laura escolheu cinco brochuras e os Dockweiler insistiram para que comprasse mais, mas ela sentia-se culpada em gastar o dinheiro deles. Carl e Nina percorreram as estantes retirando livros e lendo para ela as informações das orelhas e contracapas, juntando aos cinco escolhidos todos aqueles pelos quais ela demonstrava algum interesse. Em determinado momento, Carl estava de quatro na seção de jovens-adultos, lendo os títulos na estante mais baixa.

—        Ei, tem um aqui sobre cães. Gosta de histórias de animais? Aqui está uma história de espionagem! — Ele era uma figura cômica. Laura riu.

Quando saíram da loja, tinham comprado cem livros, um caminhão de livros.

O primeiro jantar deles foi numa pizzaria, onde Nina exibiu um talento surpreendente. Como um mágico, tirou um pepperoni da orelha de Laura e o fez desaparecer.

—        Formidável — disse Laura. — Onde aprendeu?

—        Eu tinha uma firma de decoração de interiores, mas tive de desistir dela há alguns anos. Motivos de saúde. Era um trabalho muito estressante. Mas eu não estava acostumada a ficar em casa sem fazer nada e então comecei a fazer tudo aquilo com que sonhava e não tinha tempo antes. Como aprender a fazer mágica.

—        Motivos de saúde? — perguntou Laura.

A segurança era um tapete traiçoeiro que estava sempre sendo puxado de baixo dos seus pés e agora alguém preparava-se para puxá-lo outra vez.

O medo de Laura foi tão evidente que Carl Dockweiler disse:

—        Não se preocupe. Nina nasceu com um coração preguiçoso, um defeito congênito, mas pode viver tanto quanto eu ou você se evitar tensão excessiva.

—        Não pode operar? — perguntou Laura, devolvendo ao prato o pedaço de pizza que ia levar à boca, sentindo desaparecer todo o apetite.

—        A cirurgia cardiovascular tem progredido muito — disse Nina. — Em um ou dois anos, talvez. Mas, meu bem, não precisa se preocupar. Eu sou cuidadosa, especialmente agora com uma filha para mimar!

—        Nós queríamos muito ter filhos — disse Carl —, mas não podemos. Quando resolvemos adotar, descobrimos a condição cardíaca de Nina e as agências de adoção não quiseram nos aprovar.

—        Mas somos qualificados como pais provisórios — disse Nina.

— Portanto, se você quiser, pode ficar para sempre conosco, como se fosse legalmente adotada.

Naquela noite, no quarto espaçoso com vista para o mar —- agora uma vasta extensão escura, quase assustadora —, Laura disse a si mesma que não devia se apegar demais aos Dockweiler, pois a condição cardíaca de Nina anulava qualquer possibilidade de segurança real.

No dia seguinte, domingo, eles a levaram para comprar roupas 73   e teriam gasto uma fortuna se Laura não pedisse para parar com as compras. Com o Mercedes cheio de roupas novas, foram ver uma comédia de Peter Sellers e depois jantaram hambúrgueres numa lanchonete onde os milkshakes eram imensos.

Regando as batatas fritas com catchup, Laura disse:

—        Vocês têm sorte por terem ficado comigo e não com outra criança.

Carl ergueu uma sobrancelha:

—        É mesmo?

—        Bem, vocês são bons, bons demais... e muito mais vulneráveis do que imaginam. Qualquer criança percebe essa vulnerabilidade e pode tirar vantagem. Impiedosamente. Mas podem ficar descansados comigo. Nunca vou me aproveitar de vocês e nunca vão se arrepender de me acolher.

Olharam para ela atônitos.

Finalmente, Carl olhou para Nina e disse:

—        Eles nos enganaram. Ela não tem 12 anos. Deram uma anã para nós.

Naquela noite, na cama, enquanto o sono não vinha, Laura repetiu sua ladainha de autoproteção:

—        Não goste demais deles, não goste demais deles... — Mas já gostava imensamente.

Os Dockweiler a matricularam numa academia onde os professores eram mais exigentes do que nas escolas públicas que Laura havia freqüentado, mas ela gostou da mudança e acompanhou bem a classe. Lentamente começou a fazer amizades. Sentia falta de Thelma e Ruth, mas consolava-se com a certeza de que ficariam felizes sabendo que ela estava satisfeita.

Laura começou a acreditar que podia confiar no futuro e podia ousar ser feliz. Afinal, tinha um guardião especial, não tinha? Talvez até mesmo um anjo da guarda. E qualquer garota abençoada com um anjo da guarda era destinada ao amor, à felicidade e à segurança.

Mas, será que um anjo da guarda daria um tiro na cabeça de alguém? Espancaria alguém cruelmente? Não importava. Tinha um belo guardião, anjo ou não, pais provisórios que a amavam e não podia recusar a felicidade tão prodigamente oferecida.

Na terça-feira, 5 de dezembro, Nina tinha hora marcada com seu cardiologista, assim não havia ninguém em casa quando Laura voltou da escola, naquela tarde. Entrou com sua chave e deixou os livros escolares na mesa Luís XIV no hall, perto da escada.

A enorme sala de estar era decorada em tons creme, pêssego e verde-pálido, um ambiente aconchegante, apesar do tamanho. Laura foi até  a janela e olhando para a linda vista pensou como seria bom se Ruth e Thelma pudessem compartilhar tudo aquilo — e de repente pareceu ;i coisa mais natural a possibilidade de tê-las ali com ela.

Por que não? Carl e Nina gostavam de crianças. Tinham amor suficiente para uma casa cheia delas, para milhares de crianças.

—        Shane — disse ela, em voz alta —, você é um gênio.

Foi até a cozinha e preparou um lanche. Um copo de leite, um croissant de chocolate esquentado no forno e uma maçã. Enquanto fazia isso imaginava um meio de falar sobre as gêmeas com os Dockweiler. O plano parecia tão natural que, quando Laura abriu com o ombro a porta da cozinha que dava para a sala de jantar, já havia imaginado uma variedade de argumentos, todos convincentes.

O Enguia a esperava na sala de jantar. Agarrou Laura e a atirou contra a parede com tanta força que a menina perdeu o fôlego. A maçã e o croissant de chocolate voaram do prato, o prato voou da mão dela. Ele derrubou o copo de leite da sua outra mão, jogando-o contra a mesa. O vidro partiu-se barulhentamente. Sheener puxou Laura para ele e atirou-a novamente contra a parede. Uma dor aguda queimou as costas da menina, sua visão ficou embaçada, sentiu que não podia desmaiar e procurou manter a consciência, tenazmente, embora a dor fosse lancinante, a respiração difícil e estivesse atordoada por uma meia concussão.

Onde estava seu guardião? Onde?

Sheener encostou o rosto no dela e o terror ativou os sentidos de Laura, fazendo-a notar os menores detalhes daquele rosto insano, ainda com as marcas da sutura na orelha, os cravos nojentos em volta do nariz, as marcas de acne na pele oleosa. Os olhos verdes eram estranhos demais para parecerem humanos, olhos ferozes e animalescos.

Seu guardião ia arrancar o Enguia de cima dela a qualquer momento. Ia agarrar o monstro e matá-lo. A qualquer momento.

—        Eu peguei você — disse ele com voz esganiçada de louco. — Agora você é minha e vai me dizer quem era aquele filho da puta, o homem que me espancou. Vou estourar a cabeça dele.

Segurava Laura pelos braços, seus dedos pareciam penetrar a carne dela. Ergueu-a do chão, até a altura dos seus olhos, e a prendeu contra a parede. Os pés da menina dançavam no ar.

—        Quem é o sacana? — Sheener era forte demais para seu tamanho. Afastou Laura da parede e jogou-a contra ela outra vez, mantendo seu rosto na altura do seu. — Diga, meu bem, ou arranco sua orelha.

A qualquer momento agora. A qualquer momento. As costas de Laura latejavam, mas agora conseguiu respirar, embora o que inalou fosse ácido e nojento.

—        Responda, meu bem.

  Laura pensou que podia morrer enquanto esperava a chegada do seu guardião.

Deu um pontapé na virilha de Sheener. Um golpe perfeito. O homem com as pernas abertas, não acostumado a meninas que reagiam contra sua força, não esperava aquele ataque. Arregalou os olhos — por um instante pareceram olhos humanos — e emitiu um som surdo de agonia. Largou Laura, que caiu no chão. Sheener recuou cambaleando, perdeu o equilíbrio e caiu sobre a mesa de jantar, o corpo dobrado deslizando para o tapete chinês.

Quase imobilizada de dor, de choque e de medo, Laura não conseguiu ficar de pé. Suas pernas pareciam feitas de trapos. Completamente flácidas. Então arraste-se. Podia se arrastar. Para longe dele. Freneticamente. Na direção do arco da sala de jantar. Esperando ser capaz de ficar de pé quando chegasse à sala de estar. Sheener agarrou o tornozelo esquerdo de Laura. Ela tentou se libertar dando pontapés. Não adiantou. Suas pernas estavam fracas demais. Sheener continuou segurando. Dedos gelados. Um gelo de morte. O homem guinchou asperamente. Sinistro. Laura apoiou a mão no leite derramado sobre o tapete. Viu os pedaços de vidro. A parte superior do copo estava quebrada, mas a base ficara intata, como uma coroa de pontas cortantes. Gotas de leite grudavam-se nela. Ainda ofegante, semiparalisada de dor, Sheener segurou o outro tornozelo de Laura. Movendo uma mão depois da outra em sua perna foi se aproximando dela. Continuava a guinchar. Como um passarinho ferido. Ia se atirar em cima dela. Prendê-la com seu peso. Laura segurou o fundo do copo quebrado. Cortou o polegar. Nem sentiu. Sheener largou os tornozelos da menina para agarrar suas coxas. Laura contorceu o corpo, de costas no chão. Como se ela fosse a enguia. Estendeu o braço com o fundo cortante do copo para ele, não para feri-lo, mas para procurar fazer com que se afastasse. Mas o homem estava no impulso de se atirar sobre ela e as três pontas de vidro o atingiram no pescoço. Sheener tentou arrancar a estranha arma. Girou-a em desespero. As pontas cortaram sua carne. Engasgado, ofegante, ele a prendeu contra o chão com o peso do seu corpo. O sangue jorrava do nariz dele. Laura contorceu-se. Ele a agarrou, com um dos joelhos apertados contra o quadril da menina. Aproximou a boca do pescoço dela, mordeu, apenas marcando a pele de Laura. Se ela deixasse, da próxima vez a mordida seria mais profunda. Ela procurou se libertar. A respiração assobiava e roncava na garganta ferida do homem. Laura saiu de baixo dele. Ele a segurou. Ela o chutou. Suas pernas estavam mais fortes agora. O pontapé atingiu o alvo. Laura arrastou-se na direção da sala de estar. Segurou o batente do arco de entrada. Ficou de pé. Olhou para trás. O Enguia estava também de pé, segurando uma cadeira com o braço erguido como se fosse um taco. Ele jogou a cadeira. Laura desviou o corpo. A cadeira bateu no batente do arco com um rugido de trovão. Ela cambaleou até a sala de estar, caminhando para o hall, até a porta, para a fuga. Ele atirou a cadeira. Atingiu o ombro de Laura. A menina caiu. Rolou no chão.

Olhou para cima. Sheener estava de pé ao seu lado e segurou seu braço esquerdo. Laura sentiu que perdia as forças. As trevas pulsavam nos limites da sua visão. Ele segurou o outro braço. Estava perdida. Estaria se o vidro no pescoço do homem não tivesse alcançado mais uma artéria. O sangue jorrou de repente do nariz dele. Sheener caiu em cima de Laura, um peso enorme e terrível, morto.

Laura não podia se mover, mal conseguia respirar e lutava para não perder a consciência. Acima do som sinistro dos seus soluços, ouviu uma porta se abrindo. Passos.

—        Laura? Cheguei — era a voz de Nina, clara e alegre a princípio, depois cheia de horror. — Laura? Oh, meu Deus, Laural Laura lutou para tirar o homem morto de cima dela, mas só teve forças para livrar a metade do corpo, o bastante para ver Nina no arco que dava para o hall.

Por um momento, Nina ficou paralisada de horror. Olhou para sua sala em tons creme, pêssego e espuma do mar, a decoração elegante tingida agora de vermelho. Então, os olhos cor de violeta voltaram-se para Laura e ela saiu do transe.

—        Laura. Oh, meu Deus, Laura.

Deu três passos para a frente, parou e dobrou o corpo, abraçando-se como se tivesse sido ferida no estômago. Emitiu um som estranho: "Uh, uh, uh, uh." Tentou endireitar o corpo. Seu rosto crispou-se. Não conseguiu ficar ereta e finalmente desmoronou, sem fazer nenhum som.

Não podia acontecer assim. Não era justo, que diabo.

Novas forças, nascidas do pânico e do seu amor por Nina reanimaram Laura. Libertou-se do corpo de Sheener e arrastou-se rapidamente para a mulher.

Nina estava imóvel, os belos olhos abertos, sem ver nada.

Laura pôs a mão suja de sangue no pescoço de Nina, procurando um pulso. Pensou ter sentido alguma coisa. Fraco, irregular, mas um pulso.

Tirou a almofada de uma cadeira e colocou-a sob a cabeça de Nina, depois correu para a cozinha onde estavam os números dos telefones da polícia e dos bombeiros. Com voz trêmula comunicou o ataque cardíaco de Nina e deu o endereço.

Quando desligou, Laura sabia que tudo ia dar certo porque já perdera o pai de ataque cardíaco e seria absurdo perder agora sua mãe adotiva. A vida tem momentos absurdos, mas apropria vida não é absurda. Era estranha, difícil, miraculosa, preciosa, tênue, misteriosa, mas não completamente absurda. Assim, Nina ia viver, porque sua morte não teria sentido.

Assustada ainda, mas sentindo-se melhor, Laura voltou para a sala e ajoelhou ao lado da mãe adotiva, abraçando-a.

Newport Beach tinha serviços de emergência de primeira classe. A ambulância chegou três ou quatro minutos depois do telefonema de Laura; os dois médicos eram eficientes e estavam bem equipados. Porém, depois de alguns minutos, confirmaram que Nina estava morta, evidentemente desde o momento em que sofreu o colapso.

 

Uma semana depois da volta de Laura para Mcllroy, quando faltavam oito dias para o Natal, a sra. Bowmaine determinou que Tammy Hinsen voltasse para o quarto das gêmeas. Numa conversa particular excepcional com Laura, Ruth e Thelma, ela explicou o motivo. —        Sei que vocês dizem que Tammy não é feliz na sua companhia, mas ela parece sentir-se melhor com vocês do que em qualquer outro lugar. Experimentamos vários quartos, mas as outras crianças não a toleram. Não sei o que faz com que todos a evitem, mas suas companheiras de quarto geralmente acabam por usá-la como saco de pancadas.

De volta ao quarto, antes da chegada de Tammy, Thelma sentou no chão na posição de ioga, as pernas cruzadas, os calcanhares encostados nos quadris. Começou a se interessar pela ioga quando os Beatles recomendaram a meditação oriental, e dizia que quando afinal conhecesse Paul McCartney (que era seu destino, sem dúvida nenhuma) "seria bom termos alguma coisa em comum, o que teremos se eu puder falar com segurança sobre essa tal de ioga".

Naquela noite, em vez de meditar, ela disse:

—        O que aquela vaca teria feito se eu dissesse: "Sra. Bowmaine, as crianças não gostam de Tammy porque ela deixava que o Enguia brincasse com ela e o ajudava a se aproximar de outras garotas vulneráveis. Na opinião de todas, ela é a inimiga." O que a bovina Bowmaine teria dito se eu atirasse isso na cara dela?

—        Ia te chamar de mentirosa e suja — disse Laura, deixando-se cair na cama curva no centro.

—        É claro. Depois ia mandar me cozinhar para o almoço. Não acha incrível o tamanho daquela mulher? Fica maior a cada semana. Uma pessoa tão grande é perigosa, um animal faminto capaz de devorar qualquer criança com ossos e tudo, como se estivesse tomando um sorvete.

Ao lado da janela, olhando para o pátio atrás da casa, Ruth disse:

—        Não é justo o modo como as outras crianças tratam Tammy.

—        A vida não é justa — disse Laura.

—        Também não é um pãozinho quente — observou Thelma. — Puxa, Shane, não venha com filosofia, se quer ser banal. Sabe que odeio banalidades tanto quanto ligar o rádio e ouvir Bobbie Gentfy cantando Ode to Billy Joe.

Uma hora depois, quando Tammy chegou, Laura ficou tensa. Ela matara Sheener e Tammy era tão dependente dele. Esperava que a menina estivesse revoltada e furiosa, mas Tammy a cumprimentou com um sorriso tímido, comovente e sincero.

Depois de dois dias, perceberam que Tammy encarava a perda do  Enguia com mágoa perversa, mas também com alívio. A fúria que havia demonstrado quando rasgou os livros de Laura estava esgotada, li Ia era outra vez a garotinha sem graça, magra e sem cor que no seu primeiro dia no Mcllroy Laura havia comparado a uma aparição, a ponto de dissolver-se em ectoplasma e desaparecer completamente com u primeira brisa.

Depois da morte do Enguia e de Nina Dockweiler, Laura passou a se datar com o psicoterapeuta dr. Boone, em entrevistas de meia hora, As terças e sábados, dias em que ele visitava Mcllroy. Boone não compreendia como Laura pudera absorver o choque do ataque de Sheener c da morte de Nina sem nenhum dano psicológico. Ficou intrigado com us discussões articuladas da menina sobre seus sentimentos e o vocabulário adulto com que descrevia suas reações aos acontecimentos de Newport Beach. Tendo perdido a mãe, depois o pai, enfrentado várias crises e muito terror — mas, acima de tudo, beneficiada pelo maravilhoso amor do seu pai —, ela era resistente como uma esponja, absorvendo o que a vida lhe apresentava. Entretanto, embora pudesse falar sobre Sheener friamente e sobre Nina com afeição e tristeza, para o psiquiatra, aquela adaptação era apenas aparente, não real.

—        Então, você sonha com Willy Sheener? — perguntou ele, sentando ao lado de Laura no sofá do pequeno consultório reservado para aquelas sessões, no Mcllroy.

—        Sonhei com ele só duas vezes. Pesadelos, é claro. Mas todas as crianças têm pesadelos.

—        Sonha com Nina também. São pesadelos?

—        Oh, não! São belos sonhos.

O médico ficou surpreso.

—        Quando pensa em Nina, fica triste?

—        Fico. Mas também... lembro como foi bom fazer compras com ela, experimentar vestidos e suéteres. Lembro do seu sorriso, da sua risada.

—E culpa? Sente culpa pelo que aconteceu com Nina?

—        Não. Talvez Nina não tivesse morrido se eu não fosse morar com eles, atraindo Sheener, mas não posso me sentir culpada por isso.

Tentei ser uma boa filha adotiva para eles e pareciam felizes comigo.

O que aconteceu foi que a vida jogou um grande pastelão em cima de nós e isso não foi por minha culpa; nunca se pode ver o pastelão quando é atirado. Não adianta fazer palhaçadas quando ele está chegando.

—        Pastelão? — perguntou ele, atônito. — Você vê a vida como uma comédia de pastelão? Como os Três Patetas?

—        Em parte.

—        Então a vida não passa de uma piada?

—        Não. A vida é uma coisa séria e uma piada ao mesmo tempo.

—        Como assim?

—        Se o senhor não sabe — disse Laura —, talvez eu deva fazer as perguntas aqui.

Laura encheu várias páginas do seu caderno com observações sobre o dr. Will Boone. Entretanto, não escreveu nenhuma linha sobre seu guardião desconhecido. Procurava também não pensar nele. O guardião havia falhado. Laura chegou a confiar nele; seus esforços heróicos a seu favor fizeram com que se sentisse especial, e esse sentimento a ajudou a enfrentar a vida depois da morte do pai. Agora, sentia-se tola por ter contado com alguém mais, além dela mesma, para a sobrevivência. Guardava ainda o bilhete que ele deixara em sua mesa, depois do enterro do pai, mas não o relia mais. E com o passar do tempo, a intervenção do guardião ia se transformando em fantasia, como Papai Noel, que devia ser superada com a idade.

 

Na tarde do dia de Natal, voltaram para o quarto com os presentes das instituições de caridade e de benfeitores. Começaram a cantar músicas de Natal e surpreenderam-se quando Tammy juntou-se ao coro, com sua voz baixa e hesitante.

Nas duas semanas seguintes, Tammy deixou de roer as unhas. Estava um pouco mais acessível, mas parecia mais calma, mais satisfeita.

— Sem nenhum pervertido por perto — disse Thelma —, talvez ela comece a se sentir limpa outra vez.

Sexta-feira, 12 de janeiro de 1968. Laura completava 13 anos, mas não comemorou o aniversário. Não via nenhuma alegria na ocasião.

Na segunda-feira foi transferida para Caswell Hall, uma instituição para crianças mais velhas, em Anaheim, a sete quilômetros de Mcllroy.

Ruth e Thelma a ajudaram a levar a bagagem até o hall. Laura nunca imaginou que fosse sentir tanto aquela partida de Mcllroy.

—        Em maio estaremos com você — garantiu Thelma. — Fazemos 13 anos no dia dois de maio e então vamos sair daqui. Ficaremos juntas outra vez.

Quando a assistente social de Caswell chegou, Laura não estava nada disposta a acompanhá-la. Mas foi.

Caswell Hall era um antigo ginásio transformado em dormitórios, salas de recreação e escritórios para as assistentes sociais. A atmosfera era mais institucional do que no Mcllroy.

Era também mais perigoso porque as crianças eram mais velhas e muitas delinqüentes juvenis. Maconha e bolinhas podiam ser obtidas e brigas entre garotos — até mesmo entre garotas — eram comuns. Havia grupos como em Mcllroy, mas em Caswell alguns deles eram perigosos, com estrutura e função muito semelhantes às das gangues das ruas. O roubo era comum.

Depois de algumas semanas, Laura compreendeu que havia dois tipos de sobreviventes: aqueles que, como ela própria, possuíam a força necessária, por terem sido, no passado, amados intensamente; e aqueles que, nunca tendo sido amados, aprendiam a vencer por meio do ódio, da suspeita e das parcas recompensas da vingança. Desprezavam a necessidade de sentimentos humanitários e ao mesmo tempo invejavam os que os possuíam.

Laura vivia com cautela em Caswell mas sem permitir que o medo a abatesse. Os valentões eram assustadores, mas também patéticos com suas atitudes e rituais de violência, até mesmo ridículos. Não encontrou ninguém como as gêmeas Ackerson para compartilhar seu humor negro, por isso enchia com ele seus cadernos. Naqueles monólogos bem escritos, Laura voltava-se para si mesma, enquanto esperava que as gêmeas completassem 13 anos; foi um período intensamente rico em autodescoberta e mais compreensão do mundo tragicômico no qual vivia.

No sábado, 30 de março, Laura estava lendo no quarto, em Caswell, quando ouviu uma das suas companheiras de quarto — uma garota manhosa chamada Fran Wickert — conversando com outra menina no corredor sobre um incêndio no qual algumas crianças haviam morrido. Laura ouvia sem interesse até escutar a palavra 'Mcllroy'.

Um arrepio percorreu seu corpo, gelando seu coração, entorpecendo suas mãos. Deixou cair o livro e correu até o corredor, assustando as duas meninas.

—        Quando? Quando foi esse incêndio?

—        Ontem — disse Fran.

—        Quantas crianças mo...morreram?

—        Não muitas, duas, eu acho, talvez só uma, mas disseram que  a gente sentia o cheiro de carne queimada. Foi a coisa mais horrível... Avançando para Fran, Laura perguntou:

—        Os nomes dessas meninas?

—        Ei, me larga.

—        Diga os nomes?

—        Não sei nenhum nome. Cristo, o que há com você?

Laura não se lembrava de ter largado Fran e saído para a rua, mas de repente estava na Katella Avenue, a vários quarteirões de Caswell Hall. Katella era uma rua comercial e em alguns trechos não havia calçada, por isso Laura correu pelo acostamento, para o leste, com o tráfego zumbindo à sua direita. Caswell ficava a sete quilômetros de Mcllroy e Laura não conhecia bem o caminho, mas, confiando no instinto, correu até ficar exausta, depois, quando não podia mais correr, continuou andando.

O mais certo teria sido procurar um dos conselheiros de Caswell e perguntar os nomes das vítimas do incêndio em Mcllroy. Mas Laura tinha a estranha impressão de que o destino das gêmeas Ackerson dependia da sua capacidade de fazer a difícil viagem até Mcllroy, que se perguntasse por elas por telefone iam dizer que estavam mortas, mas que infligindo a si mesma aquele sacrifício da jornada de sete quilômetros ela as encontraria sãs e salvas. Era superstição, mas Laura entregou-se a ela.

A noite chegou. O céu de fim de março encheu-se de luz vermelha e púrpura embaçada, e os contornos das nuvens esparsas pareciam em chamas quando Laura avistou o Lar Mcllroy. Viu com alívio que a frente da velha casa estava intata.

Encharcada de suor e tremendo de exaustão, com uma terrível dor de cabeça, Laura não diminuiu o passo quando viu a casa sem marcas de fogo. Passou por seis crianças no corredor do andar térreo e mais três na escada, e duas delas a reconheceram. Mas não parou para perguntar sobre o incêndio. Precisava ver.

No último lance da escada sentiu cheiro de queimado, o cheiro acre e alcatroado; o cheiro ácido de fumaça. Quando passou pela porta no fim da escada viu que as duas janelas nas extremidades do corredor do terceiro andar estavam abertas e ventiladores elétricos haviam sido instalados no meio, para espalhar o ar viciado.

A porta do quarto das gêmeas tinha um batente novo, não pintado e uma porta também nova, mas a parede estava chamuscada e manchada de fuligem. Um cartaz feito à mão avisava do perigo. Como todas as portas de Mcllroy, aquela não tinha fechadura, e Laura, ignorando o aviso, a abriu e entrou para ver o que temia: destruição.

As lâmpadas do corredor e a fraca luz que vinha de fora não iluminavam bem o quarto, mas Laura viu que os restos dos móveis queimados tinhamtinham sido retirados; tudo estava vazio e repleto com o fantasma malcheiroso do fogo. O assoalho, embora parecesse firme, estava manchado de fuligem e chamuscado. As portas do armário eram apenas cinzas com alguns pedaços de madeira queimada presos às do-bradiças parcialmente derretidas. As duas janelas tinham explodido ou quebrado com a força das chamas e estavam provisoriamente protegidas com pedaços de plástico grudados nas paredes. Felizmente para as outras crianças do Mcllroy o fogo fora para cima, atingindo o teto. Olhou para o sótão da casa, onde vigas maciças eram vagamente visíveis no escuro. Ao que parecia, as chamas foram dominadas antes de atravessar o telhado, pois ela não via o céu.

Laura respirava com dificuldade, ruidosamente, não só por causa da jornada de Caswell até ali, mas também porque um torno de pânico apertava seu coração dolorosamente. E com cada respiração inalava o ar amargo com gosto nauseante de carbono.

Desde o momento em que soube da notícia em Caswell, Laura adivinhou o motivo do fogo, embora sem querer admitir que sabia. Tammy Hinsen fora apanhada certa vez com uma lata de fluido para isqueiro e fósforos que pretendia usar para incendiar o próprio corpo. Quando soube daquela idéia de auto-imolação, Laura compreendeu que Tammy pensava seriamente no assunto, porque era o modo certo de suicídio para ela, uma exteriorização da chama interna que a consumia há anos.

Por favor, meu Deus, faça com que Tammy estivesse sozinha no quarto, por favor.

Sufocada com o cheiro e o sabor da destruição, Laura saiu do quarto até o corredor do terceiro andar.

—        Laura?

Ergueu os olhos e viu Rebecca Bogner. Com a respiração entrecortada e áspera, trêmula e difícil, Laura conseguiu dizer os nomes:

—        Ruth... Thelma?

A expressão sombria de Rebecca destruía a possibilidade das gêmeas terem escapado ilesas, mas Laura repetiu os nomes preciosos, ouvindo na própria voz uma súplica patética.

—        Lá — disse Rebecca, apontando para o lado norte do corre dor. — O penúltimo quarto à esquerda.

Com um ímpeto de esperança, Laura correu para o quarto indicado. Três camas estavam vazias, mas na quarta, revelada pela luz da lâmpada de cabeceira, uma menina estava deitada, voltada para a parede.

—        Ruth? Thelma?

A garota levantou lentamente da cama — uma das gêmeas, ilesa. Usava um vestido cinzento amarrotado e velho, o cabelo estava em desalinho, o rosto inchado, os olhos cheios de lágrimas. Deu um passo para Laura, mas parou. O esforço era demais.

Laura correu para ela e a abraçou.

Com a cabeça no ombro de Laura, o rosto contra o pescoço da amiga, ela disse com voz torturada:

—        Oh, queria que tivesse sido eu, Shane. Se tinha de ser uma de nós, por que não eu?

Até aquele momento, Laura pensava que era Ruth. Recusando aceitar aquele horror, Laura disse:

—        Onde está Ruthie?

—        Foi embora, Ruthie foi embora. Pensei que você soubesse...minha Ruthie está morta.

Laura sentiu que alguma coisa se partia no seu íntimo. Uma dor tão grande que impossibilitava as lágrimas; estava paralisada, amortecida.

Durante uma infinidade de tempo ficaram abraçadas. O crepúsculo transformou-se em noite. Sentaram na beirada da cama.

Duas meninas apareceram na porta. Evidentemente compartilhavam o quarto com Thelma, mas Laura fez sinal para que saíssem.

Olhando para o chão, Thelma disse:

—        Acordei com os gritos, aqueles gritos horríveis... e uma luz tão brilhante que feria meus olhos. Então compreendi que o quarto estava em chamas. Tammy estava em chamas. Ardendo como uma tocha.

Contorcendo-se na cama, queimando, gritando...

Laura passou o braço pelos ombros dela e esperou.

—        ... o fogo saltou do corpo de Tammy, subiu pela parede sibilando, a cama dela estava em chamas, o fogo espalhava-se pelo assoalho, o tapete em chamas...

Laura lembrou de Tammy cantando com elas no Natal e de como parecia mais calma a cada dia, como se gradualmente estivesse encontrando a paz interior. Agora era evidente que essa paz baseava-se na decisão de terminar seu tormento.

—        A cama de Tammy ficava mais perto da porta, a porta estava em chamas, então quebrei a janela ao meu lado. Chamei Ruth, ela...ela disse que estava indo, havia muita fumaça, eu não podia ver nada e então Heather Dorning que estava na sua antiga cama chegou à janela e eu a ajudei a sair. A fumaça saía pela janela e consegui ver alguma coisa. Ruth tentava jogar seu cobertor sobre Tammy para abafar as chamas, mas o cobertor pegou fogo também e vi Ruth... Ruth... em chamas...

Lá fora a última luz púrpura dissolveu-se na escuridão. As sombras se adensaram nos cantos do quarto. O cheiro persistente de queimado pareceu ficar mais forte. — ... e eu ia correr para ela, eu estava indo, mas então o fogo explodiu, estava em todo o quarto e a fumaça era tão negra e espessa  que não consegui mais ver Ruth, não vi mais nada... então ouvi as sirenes, altas e próximas, e tentei me convencer de que chegariam a tempo de ajudar Ruth, o que era uma mentira, uma mentira na qual eu queria acreditar e... eu a deixei lá, Shane. Oh, meu Deus, saí pela janela e deixei Ruthie em chamas, queimando...

—        Não podia fazer mais nada — disse Laura.

—        Eu deixei Ruthie queimando.

—        Você não podia fazer nada.

—        Deixei Ruthie.

—        Não adiantava você morrer também.

—        Deixei Ruthie queimando.

 

Em maio, quando completou 13 anos, Thelma foi transferida para Caswell e ficou no quarto de Laura. As assistentes sociais concordaram porque Thelma estava sofrendo de depressão e não respondia ao tratamento. Talvez encontrasse a ajuda de que precisava na companhia de Laura.

Durante meses Laura desesperou tentando ajudar a amiga. À noite, Thelma era torturada por sonhos e durante o dia consumia-se em auto-recriminação. Finalmente, o tempo a curou, embora o ferimento em sua alma jamais tivesse fechado. Seu senso de humor reapareceu gradualmente, com um espírito mais fino do que nunca, mas havia nela uma nova melancolia.

Laura e Thelma compartilharam um quarto em Caswell por cinco anos, até sair da custódia do Estado para a vida por conta própria. Compartilharam muitas alegrias durante aqueles anos. A vida era boa outra vez, mas não a mesma que conheceram antes do incêndio.

 

 No laboratório principal do instituto o objeto dominante era o portão, através do qual era possível passar para outros tempos. Era um aparelho enorme em forma de barril, com três metros e meio de comprimento e oito metros e meio de diâmetro, a parte externa de aço polido, forrado de cobre polido. A base eram blocos de cobre que o mantinham a quarenta centímetros do solo. Grossos cabos elétricos estavam ligados a ele e dentro do barril correntes estranhas faziam o ar cintilar como se fosse água.

Kokoschka voltou do tempo, sua figura materializando-se dentro do enorme cilindro. Fizera várias viagens naquele dia, seguindo Stefan a tempos e lugares distantes, e finalmente descobriu por que o traidor tinha o obsessão de reformular a vida de Laura Shane. Apressou-se para a boca do portão « desceu até o laboratório, onde dois cientistas e três dos seus homens o esperavam.

—        A garota nada tem a ver com os planos do miserável contra o governo, nada com suas tentativas para destruir o projeto de viagem no tempo — disse Kokoschka. — É um assunto inteiramente à parte, uma cruzada pessoa! dele.

—        Então agora sabemos tudo que ele fez e por quê — disse um dos cientistas. — E você pode eliminá-lo.

—        Certo — concordou Kokoschka, atravessando a sala até o principal painel de programa. — Agora que descobrimos os segredos do traidor, podemos matá-lo.

Sentou na frente do painel de programação, a fim de ajustar o portão para outra viagem no tempo, onde poderia surpreender o traidor, e resolveu matar Laura também. Seria um trabalho fácil, que podia fazer, sozinho, pois teria o elemento surpresa a seu favor; preferia trabalhar sozinho sempre que possível; não gostava de compartilhar seus prazeres. Laura Shane não constituía ameaça ao governo nem aos seus planos para reformular o futuro do mundo, mas ele a mataria primeiro, na frente de Stefan, somente para aumentar o sofrimento do traidor, antes de matá-lo. Além disso, Kokoschka gostava de matar.

 

UMA LUZ NAS TREVAS

 No dia 12 de janeiro de 1977, quando completou 22 anos, Laura Shane recebeu um sapo pelo correio. A caixa onde estava o animal não linha endereço do remetente e nenhum bilhete ou carta. Ela a abriu sobre a mesa ao lado da janela da sala de estar do seu apartamento, e a luz clara do sol daquele inverno pouco rigoroso cintilou na encantadora estatueta. O sapo de cerâmica tinha cinco centímetros de altura e estava sobre uma folha de lírio aquático. Usava cartola e segurava uma bengala.

Duas semanas antes, a revista literária do campus havia publicado "Epopéia anfíbia", um conto de Laura sobre uma menina cujo pai inventava histórias de um sapo imaginário, Sir Tommy da Inglaterra. Só Laura sabia o quanto havia de real naquele trabalho de ficção, mas evidentemente alguém adivinhara, porque o sapo sorridente de cartola estava acondicionado com extremo cuidado, enrolado em algodão e amarrado com uma fita vermelha, depois enrolado em papel de seda dentro da caixa branca simples, num ninho de bolas de algodão, e essa caixa estava num ninho de papel picado, dentro de outra, maior. Ninguém teria tanto trabalho para proteger uma estatueta de cinco dólares a não ser que o remetente soubesse do seu profundo envolvimento emocional com a "Epopéia anfíbia".

Para pagar o aluguel, Laura compartilhava o apartamento fora do campus com duas estudantes, Meg Falcone e Julie Ishimina, e a princípio pensou que o sapo fosse presente de uma delas. Mas era pouco provável, pois Laura não tinha intimidade com as jovens. As três estavam sempre ocupadas com os estudos e com os próprios interesses e  moravam juntas apenas desde setembro do ano anterior. Afirmaram que nada sabiam sobre o presente e pareciam sinceras.

Imaginou se o dr. Matlin, o consultor da revista da universidade, teria mandado a estatueta. Desde seu segundo ano na faculdade, quando fez o curso de redação criativa do dr. Matlin, ele a encorajava a usar seu talento e aperfeiçoar sua técnica de escritora. O dr. Matlin gostou muito do seu pequeno conto, portanto, talvez tivesse mandado o sapo para dizer "muito bem". Mas, por que a falta de endereço do remetente e nenhuma nota, nenhum cartão? Por que o segredo? Não, isso não combinava com o dr. Matlin.

Laura tinha alguns amigos na universidade, mas nenhum muito íntimo, porque não tinha muito tempo para fazer e manter grandes amizades. Entre o estudo, o trabalho e o tempo que passava escrevendo, usava todas as horas do dia não destinadas ao sono e à alimentação. Não podia imaginar quem teria tanto trabalho para mandar o sapo anonimamente. Um mistério.

No dia seguinte, sua primeira aula era às oito horas e a última às duas da tarde. Laura voltou para seu Chevrolet de nove anos de uso, no estacionamento do campus, às quinze para as quatro, abriu a porta, entrou no carro — e viu outro sapo sobre o painel.

Tinha cinco centímetros de altura e quatro de comprimento. Também de cerâmica verde-esmeralda, estava reclinado, a cabeça apoiada numa das mãos e sorria sonhadoramente.

Laura tinha certeza de ter trancado a porta do carro e realmente a encontrara trancada. O enigmático doador de sapos dera-se ao trabalho de abrir o Chevrolet sem ter a chave — um celulóide ou arame enfiado por cima do vidro até a maçaneta interna — para deixar o sapo de modo espetacular.

Em casa, Laura pôs o sapo reclinado ao lado do outro de cartola e bengala, em sua mesa-de-cabeceira. Até a hora de dormir ficou lendo na cama. Uma vez ou outra sua atenção fugia do livro para as figurinhas de cerâmica.

Na manhã seguinte, quando saiu do apartamento, encontrou uma caixinha no lado de fora da porta. Dentro dela havia outro sapo meticulosamente acondicionado. Era de peltre e estava sentado num tronco da árvore, tocando um banjo. O mistério ficava mais profundo.

 

Durante o verão Laura trabalhava em horário integral como garçonete no Hamburger Hamlet, em Costa Mesa, mas durante as aulas tinha tanto trabalho na universidade que só podia trabalhar três noites por semana. O Hamlet era uma lanchonete de boa qualidade, servia boa  comida a preço moderado, num ambiente relativamente elegante — vigas de madeira no teto, muitos lambris nas paredes, grandes poltronas confortáveis — e os fregueses pareciam sempre mais satisfeitos do que nos outros lugares em que já havia trabalhado.

Mesmo que a atmosfera fosse vulgar e os fregueses grosseiros, Laura não teria abandonado o emprego. Precisava do dinheiro. Há quatro anos, quando completou 18 anos, soube que seu pai tinha feito um seguro formado pelos bens liquidados depois de sua morte, e esse seguro não podia ser usado pelo Estado para pagar sua estadia no Mcllroy e em Caswell. Com 18 anos tinha direito a fazer uso do dinheiro e o gastava para viver e para as despesas com os estudos. Seu pai não era rico; deixara somente 12 mil dólares, mesmo depois de seis anos de juros acumulados, o que mal dava para quatro anos de aluguel, comida, roupas e anuidade na universidade, portanto dependia do ordenado de garçonete para compensar a diferença.

Na noite de domingo, 16 de janeiro, estava trabalhando no Hamlet quando o dono da casa conduziu um casal idoso a uma das mesas servidas por Laura. Pediram duas Michelobs enquanto estudavam o cardápio. Alguns minutos mais tarde, quando Laura voltou com a cerveja, viu um sapo de cerâmica sobre a mesa. Quase deixou cair a bandeja. Olhou para o homem, para a mulher, e viu que sorriam para ela, mas não diziam nada. Laura perguntou:

—        Vocês mandaram aqueles sapos para mim? Mas eu nem os conheço... conheço?

—        Oh, você tem outros deste? — perguntou o homem.

—        Este é o quarto. Não trouxeram para mim, trouxeram? Mas não estava aqui há poucos minutos. Quem o deixou na mesa?

O homem piscou um olho para a mulher e ela disse para Laura:

—        Você tem um admirador secreto, querida.

—        Quem?

—        Um rapaz sentado naquela mesa — disse o homem apontando para as mesas servidas pela garçonete Amy Heppleman. A mesa estava vazia; o ajudante acabava de tirar os pratos usados. — Logo que você foi apanhar nossas cervejas, ele veio até aqui e perguntou se podia deixar isto para você.

Era um sapo de Natal, vestido de Papai Noel, sem barba e com um saco de brinquedos nos ombros.

—        Não sabe quem é ele? — perguntou a mulher.

—        Não. Como ele é?

—        Alto — disse o homem. — Muito alto e moreno. Cabelos castanhos.

—        Olhos também castanhos — completou a mulher. — Com voz suave.

Segurando o sapo e olhando para ele, Laura disse:

—        Há alguma coisa estranha nisto tudo... uma coisa que me assusta.

—        Assusta? — disse a mulher. — Mas é só um moço caído por você, querida.

—        Será mesmo? — perguntou Laura.

Procurou Amy no balcão das saladas e pediu uma descrição mais detalhada do homem.

—        Ele comeu uma omelete de cogumelos, torrada de pão integral e tomou uma Coca — disse Amy, enchendo uma vasilha com salada verde, que tirava com uma pinça de aço inoxidável. — Você não o viu ali sentado?

—        Não notei.

—        Um cara alto. De jeans. Camisa xadrez azul. Cabelo bem curto, mas bonitinho, se você gosta do tipo. Não falou muito. Parecia um pouco tímido.

—        Pagou com cartão de crédito?

—        Não. Dinheiro.

—        Droga — resmungou Laura.

Levou o sapo Papai Noel para casa e o colocou ao lado dos outros dois.

Na manhã seguinte, segunda-feira, quando saiu do apartamento encontrou outra caixa branca no degrau da entrada. Abriu-a com relutância. Continha um sapo de vidro.

À tarde, quando Laura voltou da universidade, Julie Ishimina estava sentada à mesa da cozinha, lendo o jornal e tomando café.

—        Você ganhou outro - - disse ela, apontando para uma caixa que estava na bancada da cozinha. — Veio pelo correio.

Laura rasgou o papel que embrulhava caprichosamente a caixa. Eram dois sapos — um saleiro e um porta-pimenta.

Laura pôs os dois ao lado dos outros em sua mesa-de-cabeceira e ficou sentada na cama durante muito tempo, observando a coleção, com a testa franzida.

Às cinco horas daquela tarde, Laura telefonou para Thelma Ackerson em Los Angeles e contou sobre os presentes.

Thelma, sem nenhum seguro para sustentá-la, nem tinha pensado na universidade, mas como disse, não era nenhuma tragédia, porque não estava interessada em instrução. Assim que terminou o ginásio foi diretamente para Los Angeles, com intenção de ingressar no teatro como comediante.

Quase todas as noites, das seis da tarde às duas da manhã, percorria os clubes de comédia — o Improv, o Comedy Store, e todos os outros do mesmo tipo — procurando um papel não remunerado de cinco minutos no palco, fazendo contatos (ou esperando fazer), competindo com uma multidão de jovens comediantes na corrida para a descoberta.

Durante o dia trabalhava para pagar o aluguel, passando de um emprego para outro, alguns bastante estranhos. Entre outras coisas, tinha usado uma fantasia de galinha para cantar e servir mesas num sinistro restaurante de pizza e fora substituta numa passeata de protesto dos membros da Cooperativa dos Escritores do Oeste, que eram obrigados pelo sindicato a comparecer à passeata, mas preferiam pagar alguém para carregar os cartazes e assinar seus nomes na lista do sindicato.

Embora estivessem a noventa minutos de distância, Laura e Thelma só se encontravam duas ou três vezes por ano, geralmente para um longo almoço ou jantar, porque tinham pouco tempo livre. Mas por maior que fosse o intervalo entre as visitas, sentiam-se sempre à vontade uma com a outra e compartilhavam os pensamentos e as experiências mais íntimas.

—        O elo Mcllroy-Caswell — disse Thelma certa vez — é mais forte do que o elo entre irmãos, mais forte do que o compromisso com a Máfia, mais forte do que o elo entre Fred Flintstone e Barney Rubble, e estes dois são unidos.

Agora, depois de ouvir a história de Laura, Thelma disse:

—        Qual é o seu problema, Shane? Para mim parece que um cara tímido e alto está apaixonado por você. Muitas mulheres adoram isso.

—        Mas será que é isso? Um entusiasmo inocente?

—        O que mais?

—        Não sei. Mas é que... me assusta.

—       Assusta? Esses sapos são umas coisinhas bonitas, não são? Nenhum tem uma cara ameaçadora, certo? Nenhum está brandindo uma faca ensangüentada. Ou uma pequena serra elétrica de cerâmica?

 — Não.

—        Ele não mandou nenhum sapo decapitado, mandou?

—        Não, mas...

—        Shane, estes últimos anos foram calmos, embora sua vida tenha sido agitada antes. É normal você pensar que esse cara seja o ir mão de Charles Manson. Mas tenho quase certeza de que é exatamente o que parece... um cara que a admira de longe, talvez um pouco tímido, com uma boa porção de romantismo. Como vai sua vida sexual?

—        Não tenho nenhuma — disse Laura.

—        Por que não? Você não é virgem. Teve aquele cara no ano passado...

—        Bem, você sabe que não deu certo.

—        Ninguém mais desde então?

—        Não. O que você está pensando... que sou promíscua?

—        Puxa vida! Garota, dois amantes em 22 anos não é promiscuidade, nem pela definição do papa. Relaxe um pouco. Deixe de se preocupar tanto. Flutue com a corrente para ver onde ela te leva. Este agora pode ser seu príncipe encantado.

—        Bem... talvez eu faça isso. Acho que tem razão.

—        Mas, Shane?

—        O que é?

—        Só para dar sorte, acho melhor andar com uma Magnum .357.

—        Muito engraçada.

—        Ser engraçada é a minha profissão.

 

Nos três dias seguintes Laura recebeu mais três sapos e no dia 22 de manhã, segunda-feira, continuava confusa, zangada e assustada.

Sem dúvida nenhum admirador seria tão persistente numa brincadeira. Cada sapo recebido parecia um ato de desprezo e não de homenagem. Havia uma sugestão obsessiva naquela inexorabilidade.

Laura passou grande parte da noite de sexta-feira sentada ao lado da grande janela da sala, no escuro. Através das cortinas meio abertas, ela via a varanda coberta do prédio de apartamentos e a área na frente da sua porta. Se ele viesse durante a noite, pretendia surpreendê-lo. Às três e meia da manhã ninguém tinha aparecido, e ela cochilou. Quando acordou não viu nenhuma caixa no degrau de entrada.

Depois do banho e o rápido café da manhã, Laura desceu para os fundos do prédio onde guardava o carro na vaga coberta. Pretendia ir à biblioteca fazer um trabalho de pesquisa e o dia estava bom para ficar dentro de casa. O céu cinzento de inverno anunciava tempestade como um mau presságio — uma sensação que se intensificou quando Laura encontrou outra caixa no painel do seu Chevrolet trancado. Sentiu vontade de gritar de frustração.

Sentada no carro, abriu a caixa. As outras estatuetas eram de pouco valor, não mais de dez ou 15 dólares, algumas talvez de três dólares, mas esta última era uma bela miniatura em porcelana que devia custar uns cinqüenta dólares no mínimo. Mas Laura estava mais interessada na caixa do que na estatueta. Não era simples como as outras, mas trazia o nome de uma loja de presentes — Collectibles — na galeria da South Coast Plaza.

Laura foi diretamente para o centro comercial e chegou 15 minutos antes da loja abrir. Esperou num banco do passeio e foi a primeira a entrar quando as portas se abriram.

— Sim, trabalhamos com essa mercadoria — disse a dona da loja, uma mulher pequena de cabelos grisalhos chamada Eugenia Farvor, depois de ouvir a explicação sucinta de Laura e de examinar a 92   estatueta de porcelana. — E, na verdade, eu mesma vendi esta, ontem, para o jovem.

—        Sabe o nome dele?

—        Sinto muito, não sei.

—        Como é ele?

—        Lembro bem dele por causa do tamanho. Muito alto. Quase dois metros, calculo. Ombros muito largos. Muito bem vestido. Um terno cinzento risca de giz, gravata com listras azuis e cinzentas. Admirei mesmo o terno, e ele disse que não era fácil encontrar roupa do seu tamanho.

—        Pagou em dinheiro?

—        Ummmm... não, acho que usou um cartão de crédito.

—        Será que a senhora tem ainda o comprovante?

—        Tenho sim, geralmente levamos um ou dois dias para organizar os comprovantes para depósito.

A sra. Farvor conduziu Laura pelas vitrines repletas de objetos de porcelana Lalique e cristal Waterford, pratos Wedgwood, estatuetas Hummel e outras mercadorias caras, até o escritório nos fundos da loja. Então, aparentemente hesitou em revelar a identidade do freguês.

—        Se as intenções dele são inocentes, se for apenas um admira dor, e devo dizer, não me pareceu nada assustador; ao contrário, um homem muito agradável, então vou estragar tudo. Com certeza tem um plano para se revelar a você.

Laura tentou convencer a mulher e conquistar sua simpatia. Não se lembrava de ter falado com tanta eloqüência e sentimento, antes; geralmente não era muito boa para expressar o que sentia; fazia isso melhor escrevendo. Lágrimas autênticas reforçaram sua insistência, surpreendendo-a mais do que a Eugenia Farvor.

No comprovante do cartão de crédito ela obteve o nome do homem — Daniel Packard — e o número do seu telefone. Saiu da loja e foi a uma cabine telefônica onde consultou a lista. Havia dois Daniel Packard, e o do número que havia obtido morava na Newport Avenue, em Tustin.

Quando voltou ao estacionamento do centro comercial uma garoa gelada começou a cair. Laura levantou a gola do casaco, mas estava sem chapéu e sem guarda-chuva. Chegou ao carro com o cabelo molhado e tremendo de frio. Sentiu frio durante todo o caminho de Costa Mesa a North Tustin.

Calculou que provavelmente ele estaria em casa. Se era estudante, não tinha aula no sábado. Se trabalhasse no horário normal, das nove às cinco, provavelmente não estaria também no escritório. E o tempo não estava bom para os passeios habituais de fim de semana dos californianos amantes do ar livre.

O endereço era um complexo de prédios tipo espanhol de dois andares, oito ao todo, no meio de um jardim. Por alguns minutos, Laura foi rapidamente de um prédio ao outro, pelas passagens sinuosas sob palmeiras, de cujas folhas a chuva pingava, e outras árvores, procurando o apartamento que queria. Quando o encontrou — no primeiro andar, no canto de um dos prédios, o mais distante da rua — estava com a cabeça completamente molhada. Sentia um frio incrível. O desconforto diminuía o medo e aguçava a zanga, portanto, tocou a campainha sem hesitar.

Evidentemente o homem não tinha olhado pelo visor da porta, porque quando viu Laura ficou paralisado de espanto. Era uns cinco anos mais velho do que ela, muito alto, um metro e noventa, mais ou menos 120 quilos no mínimo, só de músculos. Estava com calça jeans e uma camiseta azul pálido suja de graxa e de outra substância oleosa; os braços fortes pareciam formidáveis. A barba por fazer desenhava uma sombra escura no rosto sujo também de graxa e as mãos estavam negras.

Laura recuou, ficando fora do alcance dele e disse simplesmente:

—        Por quê?

—        Porque... — Ele passou o peso do corpo de um pé para o outro, parecendo grande demais para a porta. — Porque...

—        Estou esperando.

Passou uma das mãos sujas de graxa no cabelo curto sem se preocupar com o que estava fazendo. Desviou os olhos, olhando para o pátio castigado pela chuva:

—        Como... como descobriu?

—        Isso não é importante. O que importa é que não o conheço, nunca o vi antes, mas tenho um zoológico de sapos que você mandou para mim. Você chega no meio da noite e deixa as caixas nos degraus de entrada, arromba meu carro para deixá-las no painel, e isso está acontecendo há semanas, portanto, não acha que está na hora de me dizer do que se trata?

Sem olhar para ela, o homem corou e disse:

—        Bem, é claro, mas eu não... não estava... não achei que estava na hora.

—        Estava na hora há mais de uma semana!

—        Ummmmmm.

Olhando para as mãos sujas de graxa, ele disse em voz baixa:

—        Bem, você compreende...

—        Sim?

—        Eu te amo.

Laura olhou incrédula para ele. Finalmente seus olhos se encontraram. Ela disse:

—        Você me ama? Mas nem me conhece. Como pode amar uma pessoa que não conhece?

Ele desviou os olhos, passou a mão suja outra vez pelo cabelo e deu de ombros:

—        Não sei, mas aconteceu, e eu... bem... ummmm, sinto que, você compreende, sinto que tenho de passar o resto da minha vida com você.

Com a água fria da chuva escorrendo do cabelo pelo pescoço e pelas costas, tendo perdido seu dia na biblioteca — como podia se concentrar depois daquela cena maluca? — e desapontada porque seu admirador era um idiota sujo, suado e inarticulado, Laura disse:

—        Escute, sr. Packard, não quero que me mande mais sapos.

—        Mas, você compreende, eu quero mandar.

—        Mas eu não quero receber. E amanhã vou devolver pelo correio os que mandou. Não, hoje. Vou devolver hoje.

Outra vez seus olhos se encontraram, ele piscou surpreso e disse:

—        Pensei que gostasse de sapos.

Cada vez mais furiosa, Laura disse:

—        Eu gosto de sapos. Adoro sapos. Acho que são as coisas mais engraçadinhas da criação. Neste momento chego a querer ser um sapo, mas não quero os seus sapos. Compreendeu?

—        Ummmmm.

—        Não me perturbe, Packard. Talvez algumas mulheres gostem do seu romantismo pesado e sinistro e do seu charme de macho suado, mas não sou uma delas e sei me proteger, não pense que não sei. Sou muito mais corajosa do que pareço e já lidei com gente pior do que você.

Laura deu meia-volta e saiu da varanda para a chuva, voltou para o carro e para Irvine. Tremeu durante todo o caminho, não só por estar molhada e com frio, mas porque estava furiosa. A ousadia do homem!

No apartamento Laura tirou a roupa molhada, vestiu um roupão acolchoado e fez café para aquecer.

Acabava de tomar o primeiro gole de café quando o telefone tocou. Atendeu na cozinha. Era Packard.

Falando rapidamente, ofegante, ele disse:

—        Por favor, não desligue, você tem razão, sou muito burro com essas coisas, um idiota, mas me dê um minuto para explicar, eu estava consertando a lavadora de pratos quando você chegou, por isso estava tão sujo, cheio de graxa e suado, tive de tirar a máquina de baixo da pia, o senhorio teria mandado consertar mas a burocracia leva mais de uma semana e eu sou bom nessas coisas, posso consertar qualquer coisa, estava chovendo, não tinha nada para fazer, então pensei que eu mesmo poderia consertar, nunca podia imaginar que você ia aparecer. Meu nome é Daniel Packard, mas você já sabe, tenho 28 anos, estive no Exército até 1973, me formei na Universidade da Califórnia, em Irvine, em comércio, há três anos, trabalho como corretor agora, mas estou fazendo alguns cursos noturnos na universidade, foi assim que li sua história sobre o sapo, na revista literária do campus, achei formidável, adorei, uma grande história, de verdade, então fui à biblioteca e procurei nos números atrasados tudo que você já escreveu.

E li tudo, e quase tudo era bom, muito bom. Não tudo, mas quase.

Eu me apaixonei por você então, pela pessoa que eu conhecia daquelas histórias, porque suas histórias são tão bonitas e tão reais. Uma noite eu estava na biblioteca lendo uma das suas histórias — eles não em prestam os números atrasados da revista, estão todos presos e encadernados e a gente tem de ler na biblioteca... e uma bibliotecária passou por mim, viu o que eu estava lendo e perguntou se eu gostava, eu disse que sim e ela falou: "Bem, a autora está bem ali, se quer dizer a ela que gosta do que escreve", e lá estava você a três mesas da minha com uma pilha de livros, fazendo pesquisa, de testa franzida, tomando notas, e você estava linda. Sabe, tinha certeza de que você era linda interiormente pôr causa das suas histórias que são lindas, o sentimento nelas é uma beleza, mas nunca me ocorreu que podia ser linda também por fora, e não consegui me aproximar porque sempre fui tímido e desajeitado com mulheres bonitas, talvez porque minha mãe era bonita mas fria e distante, e agora acho que todas as mulheres bonitas vão me rejeitar também... um pouco de análise de amador... mas sem dúvida teria sido mais fácil para mim se você fosse feia, ou pelo menos não tão bonita. Por causa da sua história, pensei em usar os sapos, imaginei aquela brincadeira de admirador secreto para amaciar você, e pretendia me revelar depois do terceiro ou quarto sapo, é verdade, mas continuei a adiar porque não queria ser rejeitado, eu acho, e sabia que a coisa estava ficando maluca, sapo e mais sapo e mais sapo, mas não podia parar nem esquecer você. É isso. Nunca tive intenção de magoar você, nem assustar, será que me perdoa? Espero que perdoe.

Finalmente ele parou, exausto.

            —Bem — disse Laura.

—        Então, vai sair comigo? — perguntou ele.

Surpresa com a própria resposta, Laura respondeu:

—        Vou.

—        Jantar e cinema?

—        Está bem.

—        Esta noite? Eu te apanho às seis?

—        Tudo bem.

Laura desligou e ficou por alguns momentos olhando para o telefone. Finalmente, disse em voz alta:

—Shane, está biruta? — E depois: — Mas ele disse que minhas histórias são tão bonitas e tão reais.

Foi para o quarto e examinou a coleção de sapos.

—        Num momento ele é silencioso e inarticulado, no outro fala pelos cotovelos. Pode ser um assassino psicopata, Shane. — Depois de algum tempo disse: — É, pode ser, mas é também um grande crítico literário.

Como Packard havia sugerido jantar e cinema, Laura vestiu uma saia cinzenta, blusa branca e suéter marrom, mas ele apareceu com um terno azul-escuro, camisa branca com punhos de abotoadura, gravata azul de seda com prendedor de corrente, lenço de seda no bolso superior do paletó e sapatos pretos de ponta perfurada, muito brilhantes como se fosse à abertura da temporada na ópera. Levava um guarda-chuva e a conduziu até o carro com uma das mãos sob o braço direito de Laura, num gesto tão solene e cuidadoso como se ela fosse se dissolver se atingida por uma gota de chuva, ou desmanchar-se em pedaços se escorregasse no chão molhado.

Considerando a diferença nos trajes e a diferença de tamanho entre os dois — com 25 anos Laura tinha trinta centímetros menos do que ele; com 57 quilos e meio, menos da metade do peso dele —, ela sentiu-se quase como se estivesse saindo com seu pai ou com um irmão mais velho. Laura não era do tipo miúdo, mas de braço com ele e sob o guarda-chuva, sentia-se definitivamente minúscula.

No carro ele ficou calado outra vez, com o pretexto de dar toda atenção ao carro, com aquele tempo. Foram a um pequeno restaurante italiano em Costa Mesa, onde Laura havia feito boas refeições no passado. Sentaram e receberam os cardápios, mas antes mesmo da garçonete perguntar se queriam beber alguma coisa, Daniel disse:

—        Isto não serve. Está tudo errado, vamos procurar outro lugar.

Surpresa, Laura perguntou:

—        Mas por quê? Está ótimo. A comida é muito boa.

—        Não, de verdade, está tudo errado. Não tem atmosfera, nem estilo, não quero que pense que... — e agora estava falando rapidamente, como no telefone, corando também — hã, bem, não serve, não é próprio para nosso primeiro encontro, quero que seja especial — levantou da cadeira — hã, acho que conheço o lugar certo, desculpe, moça — disse para a jovem garçonete atônita. — Espero que não a tenhamos incomodado — puxou a cadeira de Laura, ajudou-a a se levantar. — Conheço o lugar certo, você vai gostar, nunca comi lá mas ouvi dizer que é muito bom, excelente. — Alguns fregueses olhavam para eles, por isso Laura resolveu não protestar. — É perto, uns dois quarteirões daqui.

Voltaram para o carro dele, e depois de dois quarteirões estacionaram na frente de um restaurante de aparência despretensiosa, num shopping.

A essa altura Laura já o conhecia bastante para saber que o senso de cortesia de Packard exigia que esperasse até ele abrir a porta do carro, mas quando foi aberta, viu que Daniel estava com os pés numa poça d'água.

—        Oh, seus sapatos! — ela disse.

—        Vão secar. Tome, segure o guarda-chuva que eu a carrego.

Completamente atônita, Laura deixou que ele a tirasse do carro e carregasse para a calçada como se não pesasse mais que um travesseiro de penas. Depois, sem guarda-chuva, Daniel voltou chapinhando para o carro e fechou a porta.

O restaurante francês tinha menos atmosfera do que o italiano. Foram conduzidos a uma mesa de canto, perto da cozinha, e os sapatos de Daniel chiaram durante toda a travessia da sala.

—        Você vai pegar pneumonia — disse Laura, quando sentaram e pediram dois Dry Sacks com gelo.

—        Não tem perigo. Sou imune a doenças. Nunca fico doente. Uma vez, em Nam, durante a ação, separei-me da minha unidade e quando finalmente descobri o caminho de volta, estava encharcado, mas nem sequer espirrei.

Enquanto tomavam os aperitivos, consultavam o cardápio e faziam os pedidos. Daniel parecia menos tenso, e provou que era um conversador coerente, agradável, até mesmo divertido. Mas quando serviram as entradas, salmão com molho de endro para ela, escalopes com massa para ele, ficou evidente que a comida era terrível, embora os preços fossem duas vezes mais altos que os do restaurante italiano e, um prato depois do outro, enquanto crescia o embaraço de Daniel, sua habilidade para manter a conversa caiu drasticamente. Laura disse que tudo estava delicioso, esforçando-se para não deixar nada no prato, mas não adiantou; Daniel não se deixou enganar.

O serviço da cozinha e das mesas era lento demais. Quando Daniel pagou a conta e a levou de volta ao carro — carregando-a sobre a poça d'água outra vez, como se Laura fosse uma menina — estavam com meia hora de atraso para o cinema.

—        Tudo bem — disse ela — podemos entrar no meio e ficar para a outra sessão.

—        Não, não. É horrível ver um filme assim. Estraga tudo. Eu que ria que esta noite fosse perfeita.

—        Descanse — sugeriu Laura. — Estou me divertindo.

Olhou para ela com ar incrédulo. Laura sorriu, ele sorriu também, mas tristemente.

  —      Se não quer ir ao cinema agora, está bem. Onde resolver ir es tá bem para mim.

Ele fez um gesto afirmativo, ligou o motor e só depois de alguns quilômetros Laura percebeu que estavam indo para sua casa.

Enquanto andavam do carro até a porta do prédio, ele desculpou-se pela noite fracassada, e Laura repetidamente afirmou que nem por um momento ficara desapontada. No apartamento, assim que ela pôs a chave na fechadura, Daniel deu meia-volta e desceu a escada, sem pedir um beijo de despedida e sem dar tempo a ela de convidá-lo para entrar.

Laura olhou para baixo e o viu descendo, e então uma lufada de vento virou o guarda-chuva de Daniel do avesso. Ele lutou para desvirar, quase perdendo o equilíbrio. Quando chegou na calçada, finalmente conseguiu — e o vento imediatamente virou de novo o guarda-chuva. Furioso, ele o atirou sobre uns arbustos e olhou para cima, para Laura. A essa altura, estava encharcado da cabeça aos pés e à luz fraca da rua Laura viu que o terno estava perdido. Daniel era um homem grande, com a força de dois touros, mas facilmente vencido por pequenas coisas — poças d'água, uma lufada de vento — e havia algo de engraçado nisso. Laura sabia que não era direito rir dele,. que não ousava rir, mas não resistiu.

—        Você é bonita demais, Laura Shane! — gritou ele da calçada — Que Deus me ajude, você é bonita demais. — Então, desapareceu na noite.

Achando que não era direito rir, mas rindo assim mesmo, Laura entrou no apartamento e vestiu o pijama. Eram apenas vinte para as nove.

Daniel era completamente maluco ou o homem mais adorável que ela havia conhecido desde seu pai.

Às nove e meia o telefone tocou —         Será que você vai sair de novo comigo algum dia? — disse Daniel.

—        Pensei que nunca ia telefonar.

—        Vai sair comigo?

—        É claro.

—        Jantar e cinema?

—        Parece ótimo.

—        Não vamos voltar àquele horrível restaurante francês. Sinto muito, sinto mesmo.

—        Não me importa aonde vamos — disse Laura —, mas quando estivermos sentados no restaurante, prometa que vamos ficar lá.

—        Sou teimoso com certas coisas. E como já disse... me atrapalho todo com mulheres bonitas.

 Sua mãe.

—        Isso mesmo. Me rejeitou. Rejeitou meu pai. Nunca senti nenhum calor da parte dela. Ela nos abandonou quando eu tinha 11 anos.

—        Deve ter sido doloroso.

—        Você é mais bonita do que ela, e me faz morrer de medo.

—        É muito lisonjeiro.

—        Bem, desculpe, mas a intenção foi elogiar. O caso é que, bonita como você é, não é nem a metade tão bonita quanto o que escreve e isso me assusta mais ainda. Porque o que um gênio como você pode achar num cara como eu — exceto talvez comicidade?

—        Só uma pergunta, Daniel.

—        Danny.

—        Só uma pergunta, Danny. Que tipo de corretor da bolsa você é? É bom?

—        Primeira classe — respondeu com orgulho tão sincero que Laura teve certeza de que dizia a verdade. — Meus clientes confiam em mim, e tenho uma boa carteira que há três anos vem tendo um desempenho melhor que o do mercado geral. Como analista de ações, corretor e conselheiro de investimento, jamais dei ao vento a oportunidade de virar do avesso meu guarda-chuva.

 

  Na tarde seguinte à colocação dos explosivos no porão do instituto, Stefan fez o que esperava que fosse sua penúltima viagem pela Estrada do Relâmpago. Era uma jornada ilícita ao dia 10 de janeiro de 1988, que não constava do programa oficial e conduzida sem conhecimento dos seus colegas.

A neve caía suavemente nas montanhas de San Bernardino quando ele chegou, mas Stefan estava prevenido, com botas de borracha, luvas de couro e japona forrada, da Marinha. Abrigou-se sob um bosque denso de pinheiros, para esperar que passassem os relâmpagos.

Verificou o relógio de pulso à luz bruxuleante do céu e admirou-se por ser tão tarde. Tinha menos de quarenta minutos para chegar até Laura, antes que a matassem. Se chegasse tarde demais, não haveria uma segunda chance.

Com os últimos clarões brancos cortando o céu encoberto, o trovão ecoando ainda no ar dos picos distantes e das cordilheiras, Stefan saiu do abrigo das árvores e desceu por um campo inclinado onde a neve acumulada em tempestades anteriores chegava até os joelhos. Havia uma camada de gelo sobre a neve, que ele quebrava com cada passo, caminhando pesadamente como se estivesse dentro d'água. Caiu  duas vezes e a neve entrou pela parte superior das suas botas, e o vento selvagem o castigou como se fosse consciente e quisesse destruí-lo. Quando chegou ao fim do campo e subiu pela neve empilhada até a estrada estadual de duas pistas que levava a Arrowhead e, na outra direção, para Big Bear, sua roupa estava coberta de neve gelada, os pés quase congelados e tinha perdido mais de cinco minutos.

A estrada recentemente limpa da neve estava livre, a não ser por tênues serpentes brancas de gelo que deslizavam sobre o asfalto, levadas pelo vento. Mas o ritmo da tempestade começava a aumentar. Os flocos eram muito menores e caíam duas vezes mais rápidos do que há alguns minutos. Logo a estrada se tornaria perigosa.

Viu uma placa ao lado da estrada — LAGO ARROWHEAD 1,5 QUILÔMETRO — e ficou chocado ao perceber que estava mais longe de Lau-ra do que pensava.

Entrecerrando os olhos contra o vento, voltado para o norte, viu o tremular da luz elétrica na tarde sombria e cinzenta: um prédio de um andar e carros estacionados a uns dez metros, à direita. Caminhou imediatamente naquela direção, com a cabeça abaixada para se proteger dos dentes gelados do vento.

Precisava encontrar um carro. Laura tinha menos de meia hora de vida e estava a vinte quilômetros de distância.

 

  Cinco meses depois daquele primeiro encontro, no sábado, 16 de julho de 1977, seis semanas depois de sua formatura na UCI, Laura casou com Danny Packard no civil, perante um juiz. Os únicos convidados, que serviram de testemunhas, foram o pai de Danny, Sam Packard e Thelma Ackerson.

Sam era um homem bonito de cabelos prateados, com mais ou menos l,60m de altura, e parecia um anão perto do filho. Durante a breve cerimônia ele chorou e Daniel, virando várias vezes, perguntava: "Está tudo bem, papai?" Sam fazia que sim com a cabeça, assoa-va o nariz e mandava continuar a cerimônia, mas logo depois estava chorando outra vez e Danny perguntando se ele estava bem, e Sam assoava o nariz, como se estivesse imitando o chamado de amor dos gansos. O juiz disse:

— Meu filho, as lágrimas de seu pai são de alegria, portanto, se pudermos continuar... tenho mais três casamentos para realizar.

Mesmo que o pai do noivo não estivesse tremendamente emocionado, e mesmo que o noivo não fosse um gigante com coração de cordeiro, aquele casamento teria sido memorável por causa de Thelma.

   Seu cabelo tinha um corte estranho, arrepiado na frente num pompom pintado de roxo. Em pleno verão — e ainda por cima num casamento — usara sapatos de salto alto, calça justa negra e uma blusa também negra, rasgada — rasgada de propósito, é claro, cuidadosamente — presa na cintura por um pedaço de corrente de aço. Usava maquiagem exagerada nos olhos, roxa também, batom muito vermelho e um brinco que parecia um anzol.

Depois da cerimônia, enquanto Danny conversava com o pai, Thelma levou Laura para um canto do saguão e explicou sua aparência:

—        Chama-se punk. Punk, a última moda na Grã-Bretanha. Ninguém está usando ainda por aqui. Na verdade quase ninguém está usando também na Inglaterra, mas dentro de poucos anos, todo o mundo vai se vestir assim. É formidável para o meu ato. Pareço esquisita, e as pessoas começam a rir logo que entro no palco. É bom também para mim. Quero dizer, vamos dizer a verdade, Shane, eu não estou pro riamente desabrochando com a idade. Droga, se feiúra fosse doença e tivesse uma caridade organizada, eu seria a modelo do pôster. Mas as duas coisas formidáveis com o estilo punk são: primeiro, a gente se esconde sob a maquiagem e o cabelo, e ninguém pode ver o quanto somos feios — e segundo, que diabo, a gente tem mesmo de parecer esquisita. Meu Deus, Shane, Danny é um cara grande mesmo. Você me falou tanto dele no telefone, mas nunca me disse que era tão imenso. Vestido com um traje de Godzilla, solto em Nova York, podem fazer com ele um daqueles filmes sem precisar cenários em miniatura.

Então, você o ama, certo?

—        Eu o adoro — disse Laura. — É tão delicado... talvez por causa da violência que viu e na qual tomou parte no Vietnã, ou talvez por que sempre foi assim. Ele é um doce, Thelma, e atencioso, e acha que sou uma das melhores escritoras que já leu.

—        E quando ele começou a te mandar sapos, você pensou que era um psicopata.

—        Uma pequena falha de julgamento.

Dois policiais uniformizados passaram por elas, conduzindo um jovem de barba com algemas. O prisioneiro olhou Thelma de alto a baixo quando passou e disse:

—        Ei, mama, vamos dar uma voltinha!

—        Ah, o charme Ackerson — disse Thelma para Laura. — Você consegue um cara que é um misto de deus grego, ursinho de pelúcia e Bennett Cerf, e eu consigo propostas indecorosas do lixo da sociedade. Mas pensando bem, nem isso eu consigo, portanto, talvez minha hora não tenha chegado ainda.

—        Você se subestima, Thelma. Sempre fez isso. Algum cara muito especial vai descobrir o tesouro que você é...

—        Charles Manson quando for libertado sob condicional.

—        Não. Algum dia vai ser tão feliz quanto estou agora. Eu sei.

É o destino, Thelma.

—        Nossa, Shane, você virou uma otimista fanática! E o relâmpago? Todas aquelas conversas sérias, sentadas no chão do quarto em Caswell... lembra? Concluímos que a vida não passa de uma comédia absurda, uma vez ou outra interrompida por relâmpagos ou tragédia, para dar equilíbrio, para que o pastelão pareça mais engraçado.

—        Talvez o raio tenha atingido minha vida pela última vez — disse Laura.

Thelma olhou para ela atentamente.

—        Puxa! Eu te conheço, Shane, e tenho certeza de que sabe o grande risco emocional que está correndo, só por desejar tanta felicidade.

Espero que esteja certa, garota, e aposto que está. E que não vai haver mais relâmpagos para você.

—        Obrigada, Thelma.

—        E acho que seu Danny é um amor, uma jóia. Mas vou dizer uma coisa que deve valer muito mais que minha opinião: Ruth também teria gostado dele; Ruthie o teria achado perfeito.

Abraçaram-se e por um momento eram meninas outra vez, desafiadoras mas vulneráveis, repletas de confiança, coragem e de terror do destino que havia moldado suas adolescências compartilhadas.

No dia 24 de julho, domingo, quando voltaram da lua-de-mel de uma semana em Santa Barbara, foram fazer compras e depois prepararam o jantar — salada, pão fermentado, almôndegas e espaguete — no apartamento em Tustin. Laura havia mudado para o apartamento dele poucos dias antes do casamento. Haviam planejado ficar ali por dois anos, talvez três. (Falavam do futuro com tanta freqüência e tão detalhadamente que agora viam as duas palavras — O Plano — com letras maiúsculas, como se estivessem se referindo a um manual cósmico criado com seu casamento, no qual podiam confiar para um quadro exato dos seus destinos como marido e mulher.) Assim, depois de dois anos, talvez três, poderiam dar entrada numa casa sem usar a carteira particular de ações que Danny estava formando e então mudariam dali. Jantaram na pequena mesa na alcova da cozinha, de onde avistavam as palmeiras reais no pátio, à luz dourada do fim de tarde e conversaram sobre a parte principal do Plano, que consistia em Danny arcar com as despesas, enquanto Laura ficava em casa para escrever seu primeiro livro.

—        Quando você for incrivelmente rica e famosa — disse ele, enrolando o espaguete no garfo —, deixo meu trabalho e me dedico apenas a controlar seu dinheiro.

 —       E se eu nunca for rica nem famosa?

—        Vai ser.          .

—        Se nem conseguir publicar meu livro?

—        Então eu me divorcio.       

Laura jogou um pedaço de pão no marido.      

—        Seu animal.

—        Megera.

—        Quer mais carne?

—        Não, se vai jogar em cima de mim.

—        Minha raiva já passou. Faço almôndegas muito boas, não faço?

—        Ótimas — concordou ele.

—        Merece uma comemoração, não acha, o fato de você ter uma mulher que faz almôndegas deliciosas?

—        Definitivamente merece comemoração.

—        Pois então vamos fazer amor.

—        No meio do jantar? — perguntou Danny.

—       Não, na cama — Laura empurrou a cadeira e levantou-se. — Venha. O jantar pode ser requentado.

Naquele primeiro ano fizeram amor freqüentemente, e em sua intimidade Laura encontrou mais do que satisfação sexual, algo muito além do que esperava. Estar com Danny, senti-lo dentro dela, era uma sensação de união tão perfeita que às vezes era como se fossem uma só pessoa — um corpo e uma mente, um espírito, um sonho. Laura o amava sem restrições, mas aquela sensação de unidade era mais do que amor, ou pelo menos era diferente do amor. No primeiro Natal que passaram juntos, compreendeu que pela primeira vez em muito tempo sentia que pertencia a alguma coisa, uma sensação de família; pois aquele era seu marido e ela sua mulher, e, algum dia, dessa união nasceriam filhos — depois de dois ou três anos, de acordo com o Plano — e no abrigo da família havia uma paz que não se encontrava em nenhum outro lugar.

Ela pensou que trabalhar e viver numa felicidade contínua, em harmonia e segurança, talvez conduzisse à letargia mental, que seu trabalho de escritora ia sofrer com tanta felicidade, que precisava de uma vida de altos e baixos, com dias infelizes para manter o nível do seu trabalho. Mas a idéia de que o artista precisa sofrer para produzir era um conceito dos jovens e inexperientes. Quanto mais feliz, melhor ela escrevia.

Seis semanas antes do primeiro aniversário de casamento, Laura terminou o livro Noites de Jerico e enviou uma cópia a um agente literário em Nova York, Spencer Keene, que havia respondido favoravelmente à sua carta, um mês atrás. Duas semanas depois, Keene telefonou dizendo que representaria o livro, esperava uma boa e rápida venda e achava que Laura tinha um esplêndido futuro como escritora. Com uma rapidez que espantou o próprio Keene, o livro foi comprado pela primeira editora que procurou, a Viking, por um adiantamento modesto, mas perfeitamente respeitável de 15 mil dólares e o contrato foi assinado na sexta-feira, 14 de julho de 1978, dois dias antes do aniversário de casamento de Danny e Laura.

 

O lugar que ele havia visto à distância da estrada era um restaurante e taverna à sombra de imensos pinheiros. As árvores tinham 60m de altura, ornadas com conjuntos de cones de 12cm, com a casca dos troncos finamente desenhada e alguns galhos curvados ao peso da neve das tempestades anteriores. O restaurante era feito de troncos de árvores e tão protegido pelas árvores, em três lados, que o telhado tinha mais agulhas de pinheiro do que neve. Os vidros das janelas estavam opacos de vapor ou de geada e a luz que vinha de dentro difundia-se suavemente através da fina camada sobre o vidro.

No estacionamento na frente do restaurante havia duas pickups e um Thunderbird. Certificando-se de que não podia ser visto, Stefan aproximou-se de um dos jipes, abriu a porta que não estava trancada e entrou no carro.

Tirou a Walther PPK/S .380 do coldre a tiracolo que usava por dentro da jaqueta e a colocou no banco ao seu lado.

Estava com os pés doloridos de frio e queria parar e tirar a neve das botas. Mas tinha chegado tarde, atrasando o horário planejado e não queria perder nem um minuto. Embora gelados e doloridos, os pés não estavam congelados, portanto não corria perigo.

A chave não estava na ignição. Stefan empurrou o banco do carro para trás, localizou os fios da partida sob o painel e fez a ligação direta rapidamente.

Stefan ergueu a cabeça do painel no momento em que o dono do jipe, com um terrível bafo de cerveja, abriu a porta do carro:

— Ei, que diabo está fazendo, cara?

Não havia mais ninguém no estacionamento coberto de neve.

Laura estaria morta dentro de 25 minutos.

O dono do jipe estendeu o braço e Stefan deixou que ele o puxasse do banco, apanhando o revólver ao mesmo tempo, quase se entregando às mãos do homem, usando o impulso para jogar o adversário para trás no chão escorregadio. Caíram. Quando tocaram o solo, Stefan estava por cima e encostou o cano da arma sob o queixo do dono do carro.

 —       Pelo amor de Deus, não me mate!

—        Vamos levantar agora. Cuidado, nada de movimentos bruscos.

Ficaram de pé e Stefan colocou-se atrás do homem, segurou o revólver pelo cano e com uma coronhada violenta deixou o homem inconsciente no chão coberto de neve.

Stefan olhou para a taverna. Ninguém havia saído.

Não ouvia ruído de carros na estrada, mas o vento uivante podia abafar o barulho dos motores.

A neve começou a cair com maior intensidade. Stefan guardou o revólver no bolso da jaqueta e arrastou o homem desacordado até o carro mais próximo, o Thunderbird. A porta estava aberta. Pôs o homem no banco traseiro, fechou a porta e correu para o jipe.

O motor tinha morrido. Stefan refez a ligação direta.

Quando saiu do estacionamento para a estrada, o vento sibilava na janela do carro. A neve ficou mais densa, neve de tempestade e nuvens da neve acumulada na véspera erguiam-se do solo espiralando em colunas cintilantes. Os pinheiros gigantescos envoltos em sombras balançavam ao sabor do inverno.

Laura tinha pouco mais de vinte minutos de vida.

 

Comemoraram o contrato para a publicação de Noites de Jerico e a harmonia extraordinária do primeiro ano de casamento no lugar preferido deles — Disneylândia. O céu estava azul e sem nuvens, o ar seco e quente. Praticamente alheios à multidão, andaram nos Piratas do Caribe, tiraram fotografias com Mickey Mouse, rodaram doidamente nas xícaras de chá do Chapeleiro Maluco, caricaturistas fizeram seus retratos, comeram cachorros-quentes, tomaram sorvete e comeram bananas geladas cobertas com chocolate enfiadas em palitos, e à noite dançaram ao som da banda Dixieland em New Orleans Square.

A magia do parque parecia maior ao cair da noite, e viajaram no barco a vapor de Mark Twain dando três voltas na ilha de Tom Saw-yer, os dois no convés superior, olhando para a água, abraçados. Danny disse:

—        Sabe por que gostamos tanto deste lugar? Porque é o mundo ainda não poluído pelo mundo. Como o nosso casamento.

Mais tarde, tomando sundaes de morango no Pavilhão Cravo, sob árvores enfeitadas com lâmpadas de Natal, Laura disse:

—        Quinze mil dólares por um ano de trabalho... não é bem uma fortuna.

—        Também não é salário de escravo. — Danny empurrou a taça  do sundae para o lado e segurou as mãos de Laura sobre a mesa.

—        O dinheiro vai chegar porque você é brilhante, mas não é o dinheiro que me interessa. O importante é você ter algo especial para compartilhar. Não. Não é bem isso. Não se trata apenas de você ter algo especial, você é algo especial. Eu compreendo, de certo modo, mas não sei explicar. Sei que aquilo que você é, quando compartilha do, levará esperança e alegria a muita gente, em muitos lugares, como traz tudo isso para mim, aqui, ao seu lado.

Procurando conter as lágrimas, Laura disse:

—        Eu te amo.

Noites de Jerico foi publicado dez meses depois, em maio de 1979. Danny insistiu para que Laura usasse seu nome de solteira, porque sabia que durante todos os anos difíceis em Mcllroy e Caswell Hall ela conseguira sobreviver porque queria crescer e fazer alguma coisa para oferecer ao pai e talvez também à mãe que não havia conhecido. O livro vendeu poucos exemplares, não foi escolhido por nenhum clube literário e a Viking concedeu licença para sua publicação, em brochura, por um pequeno adiantamento.

—        Não faz mal — disse Danny. — Tudo vai chegar na hora certa. Tudo. Por causa do que você é.

Laura estava no meio do segundo livro, Shadrach. Trabalhando dez horas por dia, seis dias por semana, terminou em julho.

Numa sexta-feira enviou uma cópia para Spencer Keene em Nova York e deu o original para Danny. Ele foi o primeiro a ler o livro. Saiu mais cedo do trabalho e começou a ler às 13 horas de sexta-feira, na sua cadeira da sala de estar, passou para o quarto, dormiu apenas quatro horas e às dez da manhã de sábado estava outra vez na sala, tendo lido dois terços do script. Não fez nenhum comentário. Nem uma palavra.

—        Só quando terminar de ler. Não seria justo para com você analisar e reagir antes de ler todo o livro, antes de compreender toda a trama. E não seria justo para comigo mesmo porque, se começásse mos a discutir, você poderia me contar a história que ainda não li.

Laura o observava para ver se franzia a testa, se sorria, atenta a qualquer reação, e quando Danny reagia, ela imaginava se seria a reação certa. Às dez e meia de sábado Laura não agüentava mais ficar no apartamento e foi de carro até South Costa Plaza, entrou em várias livrarias, almoçou, embora não estivesse com fome, foi até Westminster Mall e olhou as vitrines, tomou iogurte, foi até o Orange Mall, entrou em algumas lojas, comprou um pedaço de bolo de chocolate, comeu a metade. "Shane", disse para si mesma, "vá para casa, senão na hora do jantar vai estar do tamanho de Orson Welles.”

Quando estacionou na garagem do prédio viu que o carro de Danny  não estava na vaga. Entrou no apartamento, chamou por ele mas não teve resposta.

O manuscrito de Shadrach estava na mesa da cozinha.

Laura procurou um bilhete. Não encontrou.

—        Oh, meu Deus — disse ela.

O livro era péssimo. Fedia. Era nojento. Um vomitório. O pobre Danny tinha saído para tomar uma cerveja e arranjar coragem para dizer que ela devia fazer um curso de encanadora enquanto era ainda jovem, para começar uma nova carreira.

Laura sentiu vontade de vomitar. Correu para o banheiro, mas a náusea passou. Lavou o rosto com água fria.

O livro era um vomitório.

Muito bem, teria de viver com aquilo. Para ela Shadrach era muito bom, melhor do que Noites de Jerico, muito melhor, mas evidentemente estava errada. Pois então ia escrever outro.

Foi até a cozinha e abriu uma garrafa de refrigerante. Tinha tomado dois goles quando Danny chegou com uma caixa embrulhada em papel de presente do tamanho certo para conter uma bola de basquete. Pôs a caixa na mesa ao lado do manuscrito, olhou solenemente para Laura e disse:

—        Para você.

Ignorando a caixa, Laura pediu:

—        Diga o que achou.

—        Abra o presente primeiro.

—        Oh, meu Deus, é tão ruim? Tão ruim que precisa amaciar o golpe com um presente? Diga. Eu agüento. Espere! Deixe-me sentar.

— Puxou a cadeira e sentou pesadamente. — Acerte seu melhor golpe, grandalhão. Sou uma sobrevivente.

—        Você tem um senso exagerado de drama, Laura.

—        O que está dizendo? O livro é melodramático?

—        Não o livro. Pelo menos neste momento. Quer, pelo amor de Deus, parar de bancar a jovem artista arrasada e abrir seu presente?

—        Tudo bem, tudo bem, se tenho de abrir o presente antes de ou vir o que tem a dizer, então eu abro o maldito presente.

Com a caixa no colo — era pesada — desamarrou a fita enquanto Danny sentava na frente dela, observando.

A caixa era de uma loja de artigos caros, mas Laura não estava preparada para o que havia dentro dela: uma enorme e maravilhosa tigela de lalique; clara, exceto pelas alças verde-claro de cristal opaco, cada uma formada por dois sapos saltando, quatro sapos ao todo.

Laura ergueu os olhos arregalados.

—        Danny, nunca vi nada igual. É a coisa mais linda que já vi.

—        Gosta, então?

—        Meu Deus, quanto custou?

—        Três mil.

—        Danny, não podemos gastar isso!

—        Oh, sim, podemos.

—        Não podemos, não. Só porque escrevi um livro péssimo e quer me fazer sentir melhor...

—        Você não escreveu nenhum livro péssimo. Escreveu um livro que merece um sapo. Um livro quatro sapos numa escala de um a quatro, sendo quatro o melhor. Podemos comprar essa vasilha exatamente porque você escreveu Shadrach.  Este  livro é lindo,   Laura, infinitamente melhor do que o primeiro e é lindo porque é você. O livro é o que você é, e ele cintila.

No seu entusiasmo e na pressa para abraçar Danny, Laura quase deixou cair a tigela de três mil dólares.

 

A estrada agora estava recoberta por uma camada de neve recente. O jipe com tração nas quatro rodas era equipado com correntes nos pneus, assim Stefan conseguiu fazer a viagem em bom tempo.

Mas não suficiente.

Calculou que a taverna onde roubou o carro ficava a uns vinte quilômetros da casa dos Packard, que ficava numa entrada da estrada 330, alguns quilômetros ao sul de Big Bear. As estradas na montanha eram estreitas, sinuosas, cheias de subidas e descidas, a neve que caiu prejudicava a visibilidade e sua velocidade média não ia além de 65km/h. Não podia ir mais depressa, ou com menor cuidado, pois não seria de nenhuma utilidade para Laura, Danny e Chris se perdesse o controle do jipe, despencando no precipício. Entretanto, naquela velocidade, chegaria à casa dez minutos depois de terem partido.

Sua intenção fora fazer com que ficassem em casa até passar o perigo, mas esse plano não era mais viável.

O céu de janeiro parecia ter descido tanto sob o peso da tempestade que não ultrapassava a altura das fileiras de árvores perenes que flanqueavam a estrada. O vento sacudia as árvores e martelava o jipe. A neve grudava nos limpadores de pára-brisa transformando-se em gelo. Stefan ligou o descongelador e inclinou-se sobre a direção, tentando enxergar melhor.

Quando consultou novamente o relógio, viu que tinha menos de 15 minutos. Laura, Danny e Chris estariam entrando no seu Chevrolet. Talvez já estivessem saindo.

Teria de interceptá-los na estrada, a poucos segundos da Morte. Tentou aumentar um pouco a velocidade sem abrir demais nas curvas.

 

Cinco semanas depois de ter ganhado a tigela de lalique de Danny, no dia 15 de agosto de 1979, alguns minutos depois do meio-dia, Laura estava na cozinha esquentando uma lata de sopa para o almoço quando recebeu um telefonema de Spencer Keene, seu agente literário em Nova York. A Viking estava oferecendo cem mil por Shadrach.

—        Dólares? — perguntou ela.

—        É claro — disse Spencer. — O que pensou que fosse? Rublos russos? O que ia comprar com eles... um chapéu, talvez?

—        Oh, meu Deus — Laura teve de se encostar na bancada da cozinha porque de repente suas pernas ficaram bambas.

Spencer disse:

—        Laura, meu bem, só você sabe o que é melhor, mas a não ser que estejam dispostos a deixar que os cem sejam o lance mínimo num leilão, quero que considere a possibilidade de rejeitar essa oferta.

—        Rejeitar cem mil dólares? — perguntou ela incrédula.

—        Quero enviar o manuscrito para umas seis ou oito editoras, marcar uma data para leilão e ver o que acontece. Acho que sei, Laura, todos vão adorar o livro tanto quanto eu adorei. Por outro lado...talvez não. É uma decisão difícil, e você precisa pensar por algum tempo antes de responder.

Assim que Spencer desligou, Laura telefonou para o escritório de Danny e contou o que o agente havia dito. Danny disse:

—        Se não fizerem da oferta o lance mínimo para leilão, não aceite.

—        Mas Danny, podemos fazer isso? Quero dizer, meu carro tem 11 anos e está caindo aos pedaços. O seu tem quase quatro anos...

—        Escute, o que eu disse sobre o livro? Não disse que ele é você, um reflexo do que você é?

—        Você é um amor, mas...

—        Não aceite. Escute, Laura. Está pensando que rejeitar cem mil é como cuspir no rosto dos deuses da sorte; é como convidar aquele relâmpago de que me falou. Mas você mereceu e o destino não vai tirá-lo das suas mãos.

Laura telefonou para Spencer Keene e comunicou sua decisão.

Agitada, nervosa, já sentindo a perda dos cem mil dólares, Laura voltou para a sala de trabalho, sentou na frente da máquina e ficou olhando por algum tempo para a história inacabada até sentir o cheiro da canja que estava no forno. Correu para a cozinha e viu que metade da sopa tinha se evaporado; macarrão queimado grudara-se no fundo da panela. Às duas e dez, cinco e dez em Nova York, Spencer telefonou novamente para dizer que a Viking tinha concordado em fazer dos cem mil o lance mínimo para leilão.

—        Agora, o mínimo que vai ganhar com Shadrach são cem mil dólares. Acho que vou marcar o leilão para 26 de setembro. Vai ser um grande leilão, Laura. Tenho certeza.

Laura passou o resto da tarde tentando se entusiasmar, mas não conseguiu livrar-se da ansiedade. Shadrach já era um sucesso, independente do que pudesse acontecer no leilão. Não tinha nenhum motivo para ficar ansiosa, mas também não conseguia se livrar da sensação.

Naquela noite Danny chegou com uma garrafa de champanhe, um buquê de rosas e uma caixa de chocolates Godiva. Sentaram no sofá comendo chocolate e falando sobre o futuro, que parecia perfeitamente brilhante; mas a ansiedade não abandonava Laura.

Finalmente ela disse:

—        Não quero chocolate, champanhe nem rosas, nem cem mil dólares. Quero você. Leve-me para a cama.

Fizeram amor por um longo tempo. O sol de inverno aos poucos desapareceu das janelas e a noite chegou antes que os dois se separassem com relutância. Deitado ao lado dela, no escuro, Danny beijou ternamente os seios, o pescoço, os olhos e finalmente os lábios de Laura. A ansiedade finalmente a deixou. Não foi a satisfação sexual que expulsou seus temores. A intimidade, a entrega total e a sensação de esperanças, sonhos e destinos compartilhados eram o verdadeiro remédio; a grande e boa sensação às família que compartilhava com ele era o talismã que realmente afastava a fria má sorte.

 

Na quarta-feira, 26 de setembro, Danny não foi ao escritório, para esperar com Laura as notícias de Nova York.

Às sete e meia da manhã, dez e meia em Nova York, Spencer Keene telefonou para dizer que a Random House havia feito o primeiro lance acima do mínimo.

—        Cento e vinte e cinco mil e estamos a caminho.

Duas horas mais tarde, ele voltou a telefonar.

—        Todos saíram para almoçar, portanto estamos descansando.

Neste momento, já chegamos a 350 mil e seis editoras estão ainda fazendo seus lances.

—        Trezentos e cinqüenta mil? — repetiu Laura.

Danny, que estava lavando a louça, deixou cair um prato.

Laura desligou e olhou para Danny. Ele disse com um largo sorriso:

 —       É impressão minha, ou esse é o livro que você pensou que era um vomitório?

Quatro horas e meia mais tarde, quando estavam sentados à mesa da cozinha aparentemente concentrados num jogo de cartas, a falta de atenção traída pela incapacidade dos dois de manter uma contagem lógica de pontos, Spencer Keene telefonou. Danny ficou ao lado de Laura ouvindo o que ela dizia.

Spencer disse:

—        Está sentada, meu bem?

—        Estou pronta, Spencer. Não preciso de uma cadeira. Pode dizer.

—        Terminou. Simon e Schuster. Um milhão e duzentos e vinte e cinco mil dólares.

Trêmula de emoção, Laura conversou por dez minutos com Spencer e quando desligou não tinha a mínima noção do que tinham falado depois de ele dizer o preço. Danny a observava esperando, e Laura compreendeu que ele não sabia o que tinha acontecido. Disse o nome da editora e a quantia.

Por um momento entreolharam-se em silêncio, e então ela disse:

—        Acho que agora podemos ter um filho.

 

Stefan chegou ao alto de uma colina e olhou para os oitocentos metros de estrada coberta de neve onde o acidente ia acontecer. À esquerda, além da pista que ia para o sul, a encosta arborizada descia íngreme até a estrada. À direita, a pista para o norte tinha um acostamento plano com mais ou menos um metro e meio de largura, e além dele a encosta da montanha descia para um profundo precipício. Não havia grades de proteção naquele lugar perigoso.

No fundo da encosta a estrada virava para a esquerda e desaparecia de vista. Entre aquela curva e o topo de colina que ele acabava de subir, as duas pistas estavam desertas.

Segundo seu relógio, Laura estaria morta em um minuto. Dois minutos no máximo.

De repente, Stefan compreendeu que não devia ter tentado chegar até a casa dos Packard depois do seu atraso na primeira parte da viagem no tempo. Devia ter desistido de impedir que saíssem e identificar e deter o carro dos Robertson mais atrás, na estrada para Arrowhead. Teria funcionado do mesmo modo.

Tarde demais agora.

Stefan não tinha tempo para voltar, nem podia arriscar continuar para o norte, na direção dos Packard. Não sabia o momento exato das  suas mortes, não o segundo exato, e a catástrofe estava muito próxima. Se tentasse seguir por mais uns oitocentos metros e os detivesse antes que chegassem na descida fatal, podia alcançar o fim da encosta e, dando meia-volta, passar por eles indo na direção contrária, sem poder voltar e alcançá-los antes que o caminhão dos Robertson se chocasse de frente com o carro deles.

Freou o carro lentamente e começou a subir a pista que ia para o sul, parando numa parte larga na curva da estrada, na metade da descida, tão perto do acostamento que não podia abrir a porta do seu lado. O coração de Stefan estava disparado quando pôs o carro em ponto morto, puxou o freio de mão, desligou o motor, e desceu pela porta da direita.

A neve e o ar gelado açoitaram seu rosto, e por toda a encosta o vento guinchava e uivava como muitas vozes, talvez as vozes das três parcas do mito grego, zombando da sua tentativa desesperada para evitar o que elas haviam determinado.

 

 Depois de receber as sugestões da editora, Laura começou a fácil revisão de Shadrach, entregando a versão final em meados de dezembro de 1979, e Simon e Shuster programaram o lançamento do livro para setembro de 1980.

Foi um ano tão ocupado para Danny e Laura que ela mal tomou conhecimento da crise dos reféns iranianos e da campanha presidencial, e só vagamente ouviu as notícias dos inúmeros incêndios, acidentes de avião, tráfico de tóxicos, assassinatos em massa, enchentes, terremotos e outras tragédias dos noticiários. Foi o ano da morte do coelho. Foi o ano em que ela e Danny compraram sua primeira casa — quatro quartos, dois banheiros, lavabo, uma construção tipo espanhol em Orange Park — e deixaram o apartamento em Tustin. Laura começou seu terceiro livro, A borda dourada, e certo dia, quando Danny perguntou como ia seu trabalho, ela disse:

—        Vomitório.

E ele disse:

—        Ótimo!

No dia 1º. de setembro, ao receber um cheque substancial pelos direitos de filmagem de Shadrach, vendidos à MGM, Danny deixou o emprego na corretora e tornou-se administrador financeiro da mulher. No sábado, 21 de setembro, três semanas depois de ter chegado às livrarias Shadrach apareceu na lista de bestsellers do New York Times, em décimo segundo lugar. No dia 5 de outubro de 1980, quando  Laura deu à luz Christopher Robert Packard, Shadrach estava na terceira edição, em oitavo lugar na lista do Times, e recebeu o que Spencer Keene chamou de "estrondosamente boa" crítica na página cinco da sessão literária do jornal.

O menino chegou ao mundo às 2h30min da tarde, com uma quantidade de sangue muito maior do que a normal. Com dores lancinantes e hemorragia, Laura recebeu um litro e meio de sangue durante a tarde e a noite. Passou a noite melhor do que esperavam; e de manhã ainda estava dolorida e cansada, mas fora de perigo.

No dia seguinte Thelma Ackerson foi ver o bebê e a nova mãe. Ainda vestida à moda punk e adiantada para a época — cabelo comprido no lado esquerdo, com uma faixa branca como a noiva de Frankenstein, e curto no lado direito, sem a faixa branca —, ela entrou no quarto de Laura, foi diretamente para onde Danny estava e o abraçou com força, dizendo:

—        Meu Deus, você é imenso. Você é um mutante. Admita, Packard, sua mãe talvez fosse humana, mas seu pai era um urso-pardo.

Aproximou-se da cama onde Laura estava apoiada em três travesseiros, beijou-a na testa e depois no rosto.

—        Fui ao berçário e dei uma espiada em Christopher Robert através do vidro, e ele é um amor. Mas acho que você vai precisar dos milhões que ganha com seus livros, garota, porque aquele garoto vai ser igual ao pai, e sua conta de comida vai ser de trinta mil por mês. Até você conseguir ensinar alguma coisa, ele vai estar comendo seus móveis.

—        Estou muito contente com sua visita — disse Laura.

—        Acha que eu ia perder isso? Se eu estivesse trabalhando num clube da Máfia em Bayonne, Nova Jersey, e tivesse de cancelar parte de um compromisso para voar até aqui, talvez então eu não viesse, porque quebrar um contrato com aqueles caras significa ter os polegares cortados e ter de usá-los como supositório. Mas eu estava a oeste do Mississípi quando recebi a notícia ontem à noite, e só uma guerra nuclear ou um encontro com Paul McCartney podiam me impedir de ver vocês.

Há quase dois anos Thelma finalmente havia conseguido algum tempo no palco, no Improv, e foi um sucesso absoluto. Arranjou um agente e começou a conseguir papéis em clubes de terceira classe — e finalmente de segunda classe — em todo o país. Laura e Danny haviam ido de carro duas vezes a Los Angeles para assistir ao número de Thelma e a acharam hilariante; ela mesma escrevia o texto e representava com a comicidade bem dosada que possuía desde a infância e que havia aperfeiçoado durante os anos. Seu ato tinha um aspecto diferente que podia fazer de Thelma um fenômeno nacional ou relegá-la à obscuridade: entremeada com as piadas havia uma forte sensação de melancolia, a sensação da tragédia da vida que existia ao lado da beleza e do humor. Na verdade era muito parecido com o tom dos livros de Laura, mas o que atraía os leitores não tinha a mesma atração para espectadores que pagavam para rir.

Thelma inclinou-se sobre a grade da cama, olhou para Laura atentamente e disse:

—        Ei, você está pálida. E com olheiras...

—        Thelma, minha querida, detesto destruir suas ilusões, mas os bebês não são trazidos pela cegonha. A mãe tem de fazer com que ele saia do próprio útero, e a passagem é bastante estreita.

Thelma olhou demoradamente para Laura, depois para Danny, que estava do outro lado da cama segurando a mão de Laura:

—        O que há de errado por aqui?

Laura suspirou e com uma careta de dor mudou de posição na cama. Disse para o marido:

—        Está vendo? Eu disse que ela tem um faro perfeito.

—        Não foi uma gravidez fácil, foi? — perguntou Thelma.

—        A gravidez foi boa — disse Laura. — O problema foi o parto, —      Você não... esteve à morte ou coisa assim, Shane?

—        Não, não, não — respondeu Laura, e a mão de Danny apertou mais a dela. — Nada tão dramático. Desde o começo sabíamos que ia haver dificuldades, mas tivemos o melhor médico e ele esteve atento o tempo todo. Só que... não posso mais ter filhos. Christopher é o nosso último.

Thelma olhou para Danny, para Laura e disse em voz baixa:

—        É uma pena.

—        Está tudo bem — disse Laura, forçando um sorriso. — Temos o pequeno Chris e ele é lindo.

Seguiu-se um silêncio constrangido, e então Danny disse:

—        Eu ainda não almocei e estou faminto. Vou até a lanchonete e volto daqui a uma hora mais ou menos.

Quando Danny saiu, Thelma observou:

—        Ele não está com fome nenhuma, está? Mas sabe que queremos conversar a sós.

Laura sorriu:

—        Danny é um homem adorável.

Thelma abaixou a grade de um dos lados da cama e disse:

—        Se eu me sentar aí ao seu lado não vou sacudir suas entranhas, vou? Não vai ter uma hemorragia e me sujar de sangue, vai, Shane?

—        Tentarei não fazer isso.

Thelma sentou na beirada da cama. Segurou a mão de Laura entre as suas.

—        Escute, eu li Shadrach e é bom demais. É aquilo que muitos escritores tentam fazer e raramente conseguem.

  - Você é um amor.

— Sou uma mulher durona, cínica, decidida. Escute, estou falando sério. O livro é brilhante. E eu vi a bovina Bowmaine nele, e Tammy. E Boone, o psicólogo. Nomes diferentes, mas eu os vi. Você os capturou com perfeição, Shane. Meu Deus, em certos momentos você traz tudo de volta, e um arrepio subia e descia na minha espinha e eu tinha de largar o livro e sair para andar no sol. E algumas vezes eu ria como uma louca.

Todos os músculos de Laura doíam, todas as juntas. Não tinha força para abraçar a amiga como desejava. Disse apenas:

—        Eu te amo, Thelma.

—        É claro que o Enguia não está lá.

—        Estou reservando para outro livro.

—        E eu, droga. Não estou no livro, e sou o tipo mais interessante que você já conheceu.

—        Estou guardando para um livro só para você — disse Laura.

—        Fala sério, não fala?

—        Sim. Não o que estou escrevendo, mas o que virá depois.

—        Escute, Shane, acho melhor me fazer maravilhosa, ou eu te processo. Está ouvindo?

—        Estou ouvindo.

Thelma mordeu o lábio e depois disse:

—        Será que você...

—        Sim, vou pôr Ruthie também no livro.

Ficaram em silêncio por algum tempo, de mãos dadas. Lágrimas que não chegaram a sair enevoaram os olhos de Laura e viu que Thelma procurava conter as suas também.

—        Não faça isso. Vai escorrer toda essa maquiagem punk.

Thelma levantou um pé.

—Esta bota é esquisita, não acha? Couro negro, ponta fina, calcanhar com botões. Me faz parecer uma dominadora, concorda?  

—Quando você entrou, a primeira coisa que pensei foi quantos homens já chicoteou ultimamente.

Thelma suspirou e fungou.

—        Shane, escute, e escute com atenção. Esse seu talento talvez seja mais precioso do que pensa. Você pode capturar vidas no papel, e quando as pessoas desaparecem, o papel ainda está lá, a vida ainda está lá. Você pode pôr sentimentos no papel e qualquer pessoa, em qualquer lugar, pode sentir o que você descreve, você pode tocar o coração, pode nos fazer lembrar o que significa ser humano num mundo que cada vez mais esquece disso. E um talento e um motivo para viver: muito mais do que muita gente tem. Portanto... bem, eu sei o quanto você deseja uma família... três ou quatro filhos, você dizia... assim,  sei o quanto deve estar sofrendo agora. Mas tem Danny e Christopher e esse talento maravilhoso e isso é muito, muito mesmo. A voz de Laura estava embargada.

—        Às vezes... sinto tanto medo.

—        Medo do quê, meu bem?

—        Eu queria uma família grande porque... seria menor a possibilidade de serem todos tirados de mim.

—        Ninguém vai ser tirado de você.

—        Só com Danny e o pequeno Chris... apenas dois... alguma coisa pode acontecer.

—        Não vai acontecer nada.

—        E então eu ficarei sozinha.

—        Não vai acontecer nada — repetiu Thelma.

—        Algo sempre acontece. É a vida.

Thelma deitou-se ao lado de Laura e encostou a cabeça no ombro da amiga.

—        Quando você disse que foi um parto difícil... e eu a vi tão pálida... fiquei assustada. Tenho amigos em Los Angeles, é claro, mas to dos do mundo teatral. Você é a única pessoa real que está mais perto de mim, embora não nos vejamos muito, e a idéia de que você podia ter estado quase...

—        Mas não estive.

—        Mas podia ter estado — Thelma riu sem alegria. — Que diabo, Shane, uma vez órfã, sempre uma órfã, certo?

Laura a abraçou e acariciou seus cabelos.

Logo depois do primeiro aniversário de Chris, Laura terminou A borda dourada. O livro foi publicado dez meses depois, e quando Chris fez dois anos, era o número um na lista de bestsellers do Times, a primeira vez que um livro de Laura chegava a essa posição.

Danny administrava o dinheiro de Laura com tanta diligência, cautela e brilhantismo que em poucos anos, apesar dos impostos, não só seriam ricos — já eram ricos, por muitos padrões — mas extremamente ricos. Laura não sabia o que pensar a respeito. Jamais esperou ficar rica. Quando pensava nas suas circunstâncias invejáveis, achava que devia ficar entusiasmada ou, considerando a miséria do mundo, chocada, mas não sentia muito nem uma coisa nem outra pelo dinheiro. A segurança que o dinheiro dava era bem-vinda; inspirava confiança. Mas não tinham planos de deixar a casa agradável de quatro quartos, embora pudessem comprar uma mansão. O dinheiro estava ali, isso era tudo; Laura não pensava muito nele. A vida não era dinheiro; a vida era Danny e Chris e, com menor importância, seus livros.

Com um garotinho começando a andar, Laura não tinha mais disposição para trabalhar sessenta horas por semana no seu processador de palavras. Chris estava falando, andando e não apresentava nem o temperamento instável nem a rebeldia que os livros especializados atribuíam aos dois e três anos. Era um prazer estar com ele. Era um menino inteligente e interessado. Laura passava com ele todo o tempo que podia passar sem arriscar estragá-lo com mimos.

As extraordinárias gêmeas Appleby, seu quarto livro, só foi publicado em outubro de 1984, dois anos depois de A borda dourada, mas não teve a diminuição do interesse, comum quando o escritor não publica um livro por ano. O preço do adiantamento pago pela editora foi o maior de todos.

No dia 1o. de outubro, Laura estava com Danny e Chris no sofá da sala de estar, assistindo desenhos animados no vídeo — "Vummm, vummm", Christopher dizia cada vez que o Corredor Maluco acelerava — comendo pipoca, quando Thelma telefonou de Chicago, chorando. Laura atendeu na cozinha, mas na TV, na sala ao lado, o coiote tentava destruir com um sopro seu inimigo, mas só conseguia destruir a si mesmo, por isso Laura disse:

— Danny, acho melhor eu atender na sala de trabalho. Nos quatro anos desde o nascimento de Chris, a carreira de Thelma havia seguido em constante ascensão. Trabalhou em algumas lanchonetes de casinos de Las Vegas ("Ei, Shane, devo ser muito boa porque as garçonetes trabalham quase nuas, só seios e bumbuns, e às vezes os caras na audiência olham para mim e não para elas. Por outro lado, talvez eu só seja atraente para os bichas."). No ano anterior Thelma havia passado para o palco principal no MGM Grand com um ato de abertura para Dean Martin e tinha aparecido quatro vezes no show apresentado por Johnny Carson. Estavam falando em fazer um filme, e até mesmo uma série para televisão, nos quais ela seria a estrela. Assim, Thelma caminhava para o estrelato como comediante. Agora estava em Chicago e ia estrear como atriz principal em um grande clube. Talvez a longa cadeia de fatos positivos em suas vidas fosse o motivo do pânico que Laura sentiu ao ouvir o choro de Thelma. Durante algum tempo estava sempre esperando que o céu desabasse inesperadamente, pegando-a de surpresa. Deixou-se cair na cadeira ao lado da mesa de trabalho e segurou o fone.

—        Thelma? O que aconteceu, o que houve?

—        Acabo de ler... o novo livro.

Laura não sabia o que em As extraordinárias gêmeas Appleby podia afetar Thelma tão profundamente, e então imaginou se alguma coisa em Carrie e Sandra Appleby a havia ofendido. Embora nenhum dos fatos principais da história fosse uma descrição da vida real de Ruthie e Thelma, as Appleby eram, evidentemente, baseadas nas irmãs Ackerson. Mas as duas personagens foram descritas com muito amor e bom humor; sem dúvida nada havia no livro que pudesse ofender Thelma, e em pânico Laura tentou dizer isso.

— Não, não, Shane, sua boba — disse Thelma entre soluços. — Não estou ofendida. Não consigo parar de chorar porque você fez a coisa mais maravilhosa. Carrie Appleby é Ruthie, exatamente como a conheci, mas no seu livro você a deixa viver muitos anos. Você deixa Ruthie viver, Shane, e isso é um trabalho muito melhor do que Deus fez na vida real.

Conversaram durante uma hora, especialmente sobre Ruthie, lembrando o passado, não com muitas lágrimas agora, mas com muita afeição. Danny e Chris apareceram na porta algumas vezes, parecendo abandonados, e Laura jogou beijos para eles, mas continuou no telefone com Thelma porque era um daqueles raros momentos em que a lembrança dos mortos era mais importante do que cuidar dos vivos.

Quinze dias antes do Natal de 1985, quando Chris tinha um pouco mais de cinco anos, a estação chuvosa começou no sul da Califórnia com uma forte tempestade que fazia as folhas das palmeiras estalar como ossos entrechocando-se, tirando as últimas flores dos arbustos e inundando as ruas. Chris não podia brincar lá fora. Seu pai tinha saído para ver um terreno, um provável investimento, e o garoto não estava com vontade de brincar sozinho. Procurava pretextos para interromper o trabalho de Laura e às onze horas ela desistiu de continuar na sua sala de trabalho escrevendo seu livro. Mandou Chris para a cozinha para tirar as assadeiras do armário e prometeu fazer com ele biscoitos de chocolate.

Antes de juntar-se ao filho, Laura tirou da gaveta as botas especiais, o pequeno guarda-chuva e o cachecol em miniatura de Sir Tommy Sapo. A caminho da cozinha, arrumou tudo ao lado da porta de entrada.

Mais tarde, quando estava pondo os biscoitos no forno, mandou Chris verificar se o entregador de encomendas havia deixado alguma coisa na caixa do correio ao lado da porta e Chris voltou corado de excitação:

—        Mamãe, venha ver, venha ver.

No hall de entrada ele mostrou as três peças em miniatura e Laura disse:

—        Acho que são de Sir Tommy. Oh, eu me esqueci de contar a Você que temos um hóspede: um sapo muito educado, da Inglaterra, que está aqui a serviço da rainha.

Laura tinha oito anos quando seu pai inventou Sir Sapo e aceitou o fabuloso sapo como uma fantasia divertida, mas Chris tinha só cinco e levou a coisa mais a sério.

  —      Onde ele vai dormir? No quarto de hóspedes? E o que vamos fazer quando o vovô vier nos visitar?

—        Alugamos um quarto no sótão para Sir Tommy — disse Laura — e não devemos incomodá-lo nem falar a respeito dele com ninguém, exceto com seu pai, porque Sir Tommy está aqui em missão secreta para a rainha.

Chris arregalou os olhos e Laura teve vontade de rir, mas conteve-se. O garoto tinha cabelos e olhos castanhos como a mãe e o pai, mas seus traços eram delicados, mais parecidos com os da mãe. Embora fosse ainda muito pequeno, Laura estava certa de que seria alto e solidamente estruturado como o pai. Chris inclinou-se para a mãe e disse em voz baixa:

—        Sir Tommy é um espião?

Durante a tarde, fizeram biscoitos, arrumaram a cozinha e jogaram cartas, e o tempo todo Chris fazia perguntas sobre Sir Tommy. Laura descobriu que inventar histórias para crianças era, de certa forma, mais difícil do que escrever para adultos.

Quando Danny voltou às quatro e meia, anunciou sua presença em voz alta na porta da garagem.

Chris saltou da mesa onde jogava cartas com Laura e disse para o pai falar baixo.

—        Silêncio, papai, Sir Tommy pode estar dormindo agora, fez uma longa viagem, ele é a rainha da Inglaterra e está espionando no nosso sótão!

Danny franziu a testa.

—        Eu saio de casa por algumas horas e enquanto estou fora so mos invadidos por espiões britânicos?

Naquela noite, na cama, depois de Laura ter feito amor com uma paixão que surpreendeu até ela própria, Danny disse:

—        O que deu em você? Durante toda a noite esteve tão... animada, tão excitada.

Aconchegando-se a ele, sentindo o prazer do corpo nu contra o seu, ela disse:

—        Oh, não sei, é porque estou viva, e Chris está vivo, você está vivo, estamos juntos. E também essa história do Tommy Sapo.

—        Ela te diverte?

—       Sim, me diverte. Mas é mais do que isso. É... que de certo mo do me faz sentir que a vida continua, que o ciclo é sempre renovado... parece bobagem? E que a vida vai continuar para nós, para todos nós, por muito tempo.

—        Bem, é isso, acho que tem razão — disse Danny. — E se você tiver tanta disposição todas as vezes que fizermos amor de agora em diante, acho que vai me matar em três meses.

Em outubro de 1986, quando Chris fez seis anos, foi publicado o quinto livro de Laura, Rio infinito, aclamado pela crítica e com vendas maiores do que todos os outros. Seu editor havia previsto um enorme sucesso: "Tem todo o humor, toda a tensão, toda a tragédia, toda a estranha variedade da obra de Laura Shane, mas não é tão sombrio quanto os outros, o que o torna especialmente atraente.”

Há dois anos Laura e Danny levavam Chris às montanhas San Bernardino pelo menos um fim de semana por mês, ficando no lago Arrowhead e em Big Bear, tanto no verão quanto no inverno, para que o menino soubesse que o mundo não era só os bairros urbanizados de Orange County. Com o florescimento da sua carreira e o sucesso das estratégias de investimento de Danny, e considerando a recente disposição de Laura para viver o otimismo e não apenas senti-lo, resolveram que estava na hora de satisfazer alguns desejos e compraram uma casa nas montanhas.

Era uma construção de pedra e madeira com onze cômodos e trinta acres de terreno, perto da rodovia estadual 330, a poucos quilômetros de Big Bear. Na verdade, era uma casa mais luxuosa que a de Orange Park. A propriedade era coberta de árvores, juníperos, pinho ponderosa, pinho sacarino e o vizinho mais próximo ficava muito distante. No primeiro fim de semana que passaram nas montanhas, quando estavam fazendo um boneco de neve, três gamos apareceram na entrada da floresta, a uns vinte metros, e os observaram com curiosidade.

Chris ficou encantado e naquela noite, na cama, estava certo de que eram gamos de Papai Noel. Era para aquele lugar que o alegre velhinho ia depois do Natal, insistiu ele, e não, como dizia a lenda, para o pólo Norte.

Vento e estrelas foi publicado em outubro de 1987 e teve maior sucesso do que os livros anteriores. O filme baseado em Rio infinito foi lançado no Dia de Ação de Graças daquele ano, o maior sucesso de bilheteria de 1987.

Na sexta-feira, 8 de janeiro de 1988, satisfeitos com o fato de Vento e estrelas, naquele domingo, ocupar o primeiro lugar na lista de best-sellers do Times há uma semana, saíram à tarde para Big Bear, logo que Chris chegou da escola. Na terça-feira seguinte, Laura ia completar 33 anos, e pretendiam comemorar com antecedência, só os três, nas montanhas, com a neve servindo de cobertura do imenso bolo e o vento cantando para ela.

Acostumados com eles, os gamos chegaram muito perto da casa na manhã de domingo. Mas agora Chris tinha sete anos e na escola disseram que Papai Noel não existia, portanto começava a achar que aqueles não passavam de gamos comuns.

O fim de semana foi perfeito, talvez o melhor que já tinham passado nas montanhas, mas tiveram de interromper a estada. Pretendiam sair às seis horas da manhã de segunda-feira de volta a Orange County a tempo de deixar Chris na escola. Porém, uma grande tempestade atingiu a área mais cedo do que esperavam, no fim da tarde de sábado, e embora estivessem a pouco mais de noventa minutos do clima mais ameno da costa, de manhã a neve atingia quase um metro de altura do solo. A fim de não ficarem isolados e impedidos de voltar, o que faria com que Chris perdesse as aulas — uma possibilidade, mesmo com o carro de tração nas quatro rodas — fecharam a grande casa de pedra e madeira e partiram para o sul, na rodovia 330, um pouco depois das quatro horas.

O sul da Califórnia é um dos poucos lugares do mundo onde se pode viajar de um lugar coberto de neve para uma temperatura sub-tropical em menos de duas horas e Laura sempre havia gostado — e admirado — a viagem. Os três estavam com agasalhos para neve — meias de lã, botas, roupa de baixo próprias para o frio, calças pesadas, suéteres, jaquetas — mas dentro de uma hora e pouco estariam num clima mais quente onde ninguém andava agasalhado, e em duas horas estariam em temperatura de mangas de camisa.

Laura dirigia, enquanto Danny, sentado ao lado dela, e Chris, no banco traseiro, brincavam de associação de palavras, como sempre faziam naquelas viagens. A neve caindo rapidamente alcançava até as áreas da estrada protegidas por árvores nos dois lados e onde não havia essa proteção os flocos brancos levados pelo vento forte rodopiavam nas caprichosas correntes de ar das montanhas, às vezes obscurecendo o caminho. Laura dirigia com cautela, sem se importar em fazer a viagem em três horas em vez de duas; como haviam saído cedo, tinham muito tempo, todo o tempo do mundo.

Quando saiu da grande curva, alguns quilômetros ao sul da sua casa e entrou na descida de quinhentos metros, viu um jipe vermelho estacionado no acostamento e um homem com jaqueta de marinheiro no meio da estrada. Ele descia a colina, acenando com os dois braços, fazendo sinal para que parasse.

Inclinando-se para a frente para ver melhor entre os limpadores de pára-brisa, Danny disse:

—        Parece que ele enguiçou, precisa de ajuda.

—        Patrulha Packard em serviço de salvamento! — disse Chris.

Laura diminuiu a marcha e o homem na estrada com gestos nervosos fazia sinal para que parasse no acostamento da direita.

Danny disse preocupado:

—        Há alguma coisa estranha com ele...

Sim, estranha, sem dúvida, pensou Laura. Era seu guardião especial. A presença dele, depois de tantos anos, a assustou.

 

 Stefan mal tinha saído do jipe roubado quando o Blazer apareceu na curva no sopé da colina. Correu para o carro e percebeu que Laura diminuía a marcha, mas estava ainda no meio da estrada, por isso fez sinal para que parasse no acostamento. A princípio ela continuou em marcha muito lenta no meio da estrada, como se não soubesse se se tratava de um motorista com problemas ou um homem perigoso, mas quando chegou mais perto e viu o rosto dele, obedeceu imediatamente. Acelerou o carro levando-o para a parte mais larga do acostamento, a uns sete metros do jipe de Stefan. Ele deu meia-volta e correu para o Blazer, abrindo a porta do lado de Laura.

—        Não sei se vai bastar sair da estrada. Saiam, subam a encosta, rápido, agora

 —       Escute aqui, espere um pouco... — disse Danny.

—        Faça o que ele está dizendo! — gritou Laura. — Chris, venha, saia do carro!

Stefan segurou a mão de Laura e a ajudou a sair do carro. Quando Danny e Chris acabavam de sair também, Stefan ouviu o barulho de um motor mais forte que o zunido do vento. Olhou para o topo da longa subida e viu o enorme caminhão começar a descida na direção deles. Puxando Laura, deu a volta pela frente do Blazer.

 

Seu guardião disse:

- Suba a encosta, venha — e começou a subir pela pilha de neve congelada atirada pelos limpadores de neve, na direção das árvores.

Laura olhou para o topo da colina e viu o caminhão, a quatrocentos metros deles e a uns trinta metros do topo da descida, começar uma longa e terrível derrapagem no asfalto traiçoeiro até ficar de lado na estrada, continuando a deslizar. Se não tivessem parado, se seu guardião não os tivesse interceptado, estariam exatamente na frente do caminhão quando ele perdeu o controle; a essa hora já teriam sido atingidos.

Ao lado dela, com Chris nos seus ombros, Danny obviamente percebeu o perigo. O caminhão podia continuar sua descida descontrolada e atingir o jipe e o Blazer. Arrastando Chris, Danny subiu correndo a encosta coberta de neve, gritando para que Laura corresse também.

Ela subiu, agarrando o que encontrava para apoio, tropeçando. A neve congelada parecia mármore, com rachaduras, partindo-se e soltando pedaços. Varias vezes Laura caiu para trás escorregando até o acostamento. Quando todos se reuniram, seu guardião, Danny, Chris e Laura, três metros acima da estrada, numa plataforma estreita de rocha não coberta de neve, ao lado das árvores, Laura teve a impressão de que a subida levara anos. Mas evidentemente sua noção de tempo estava distorcida pelo medo, pois quando olhou para baixo viu o caminhão ainda deslizando para eles, a cinqüenta metros. Então o carro pesado fez uma volta completa e começou a deslizar de lado outra vez.

Lá vinha ele, sobre a neve, em câmara lenta, o destino sob a forma de algumas toneladas de aço. Carregava um veículo de neve, aparentemente solto no compartimento de carga; o motorista havia confiado na inércia para mantê-lo no lugar. Mas agora o veículo de neve batia de um lado para o outro, para a frente e para trás, no compartimento do caminhão, e durante a derrapagem de quatrocentos metros esse movimento contribuía para desestabilizar o veículo até parecer que o caminhão, completamente inclinado, ia rolar e capotar de um momento para outro.

Laura viu o motorista lutando com a direção e uma mulher ao lado dele, gritando, e pensou: Oh, meu Deus, aquela pobre gente!

Como que adivinhando seu pensamento, seu guardião gritou acima do uivo do vento:

—        Estão bêbados, e sem correntes de neve.

Se você sabe tanto sobre eles, pensou Laura, deve saber quem são, então por que não os fez parar, por que não os salvou também?

Com um estrondo terrível, a frente do caminhão bateu no lado do jipe e a mulher, sem cinto de segurança, foi atirada contra o pára-brisa, ficando com a metade do corpo para dentro do caminhão e a outra metade para fora...

—        Chris! — Laura gritou.

Mas viu que Danny havia tirado o menino dos ombros e o segurava contra o peito para que não visse o que estava acontecendo.

A colisão não parou o caminhão; vinha com muito-impulso e a estrada estava muito escorregadia para os pneus sem correntes. Porém, o impacto brutal desviou a direção da derrapagem; o caminhão virou violentamente para a direita, de frente para a descida, e o veículo de neve explodiu para fora do compartimento de carga, voando e batendo no Blazer, destruindo o pára-brisa do carro. Logo depois, a traseira do caminhão bateu na frente do Blazer, atirando-o para trás, apesar do freio de mão.

Vendo a destruição, lá de cima, Laura segurou com força o braço de Danny, apavorada com a idéia de que sem dúvida teriam sido feridos, talvez mortos se tivessem se refugiado na frente ou atrás do Blazer.

Agora o caminhão ricocheteou no Blazer; a mulher ensangüentada caiu dentro da cabine; e deslizando mais lentamente, porém ainda descontrolado, o caminhão fez uma volta de 360?, num sinistro e gracioso bale da morte, deslizou pelo acostamento, pela pista coberta de neve e despencou do outro lado da estrada, para o vazio, para baixo, desaparecendo.

Nenhum horror podia ser visto agora, mas Laura cobriu o rosto com as mãos, talvez tentando apagar a imagem do caminhão com seus ocupantes escorregando pelas rochas do desfiladeiro por centenas e centenas de metros. O motorista e sua companheira estariam mortos antes de chegar ao fundo. Acima do vento ela ouviu o caminhão bater numa rocha e depois em outra. Mas logo o ruído daquela sinistra descida cessou e só se ouvia o gemido insano da tempestade.

Chocados, desceram a encosta, escorregando e tropeçando até o acostamento entre o jipe e o Blazer, onde pedaços de vidro e metal espalhavam-se pela neve. O líquido quente do radiador do Blazer escorria na neve e a fumaça erguia-se do carro que estalava sob o peso do veículo de neve embebido na sua frente.

Chris chorava. Laura estendeu o braço e o ergueu do chão, encostando a cabeça do filho no seu ombro.

Atordoado, Danny voltou-se para seu salvador.

 — Quem... quem, em nome de Deus, é você?

Laura olhou para seu guardião, mal podendo acreditar que ele estivesse ali. Há mais de vinte anos não o via, desde seus doze anos, no cemitério, no dia do enterro do seu pai sob as árvores copadas. Há quase 25 anos não o via de perto, desde quando ele havia atirado no assaltante do armazém. Quando ele não apareceu para salvá-la do Enguia, quando deixou que ela se defendesse sozinha, perdeu a confiança que sentia e a dúvida aumentou quando ele não apareceu para salvar Nina Dockweiler também — ou Ruthie. Com a passagem do tempo ele havia se tornado uma figura de sonho, mais mito do que realidade, e nos últimos dois anos Laura não tinha pensado nele, deixando de acreditar, como Chris estava deixando de acreditar em Papai Noel. Guardava ainda o bilhete que ele havia deixado em sua mesa depois do enterro do seu pai. Mas há muito tempo estava convencida de que não fora escrito por um guardião mágico, mas talvez por Cora ou Tom Lance, os amigos do seu pai. Agora ele os salvara outra vez, miraculo-samente, e Danny queria saber, em nome de Deus, quem ele era, exatamente o que Laura queria saber também.

O mais estranho era que ele parecia com o homem que atirara no assaltante. Exatamente o mesmo. Laura o reconheceu imediatamente, mesmo depois de tanto tempo, porque ele não tinha envelhecido. Parecia ainda ter trinta e poucos anos. Incrivelmente, os anos não haviam deixado nenhuma marca, nenhum fio branco nos cabelos louros, nenhuma ruga no rosto. Naquele dia do assalto no armazém, seu guardião tinha a idade do seu pai e agora pertencia à geração de Laura. Antes que o homem pudesse responder ou encontrar um meio de evitar a resposta, um carro apareceu no alto da colina descendo pela estrada na direção deles. Era um Pontiac último tipo equipado com correntes nos pneus que chiavam sobre a neve. O motorista evidentemente viu o jipe e o Blazer quase destruídos e as marcas recentes do caminhão, ainda não obliteradas pelo vento e pela neve; diminuiu a marcha — o ruído das correntes tornou-se metálico e áspero — e passou para a pista que ia para o sul. Em vez de sair para o acostamento, o carro continuou para o norte na contramão, parando a três metros deles, perto da traseira do jipe. Quando abriu a porta e o motorista desceu do carro — um homem alto com roupas escuras —, empunhava um objeto que, tarde demais, Laura identificou como uma metralhadora portátil.

O guardião exclamou: — Kokoschka!

Nesse momento Kokoschka atirou.

Embora mais de 15 anos tivessem passado desde o Vietnã, Danny reagiu com o instinto de um soldado. As balas ricochetearam no jipe, na frente deles e no Blazer, atrás, e Danny agarrou Laura e a empurrou, com Chris, para o chão entre os dois carros.

Laura caiu abaixo da linha de fogo e viu Danny ser atingido nas costas. Foi ferido pelo menos uma vez, talvez duas, e Laura teve um movimento convulsivo como se tivesse sido atingida também. Danny caiu de joelhos contra a frente do Blazer.

Laura deu um grito e, segurando Chris com um braço, procurou alcançar o marido com a outra mão.

Danny ainda estava vivo, e voltou-se para ela, sempre de joelhos. Seu rosto estava branco como a neve que caía sobre eles, e Laura teve a estranha e terrível sensação de estar olhando para um fantasma e não um homem vivo.

— Vá para baixo do jipe — disse Danny, empurrando a mão dela. Sua voz parecia espessa e molhada, como se algo tivesse se partido na garganta. — Rápido!       _- Uma das balas havia atravessado seu corpo. O sangue muito vermelho escorria pela frente da jaqueta de esqui azul.

Laura hesitou. Danny moveu-se na direção dela, com as mãos e os joelhos no chão e a empurrou para baixo do jipe. Outra explosão da metralhadora soou no ar gelado. O homem sem dúvida ia se aproximar aos poucos da frente do jipe e liquidar os três. Mas não tinham para onde fugir. Se subissem a encosta na direção das árvores, ele os atingiria antes que chegassem à segurança da floresta; se atravessassem a estrada, seriam mortos antes de chegar ao outro lado, e no outro lado havia apenas a descida para o precipício; se tentassem subir pela estrada, estariam indo na direção dele; para baixo, ficariam de costas para o assassino, alvos fáceis para sua arma.

A metralhadora pipocou. Os vidros dos carros se partiram. Balas atingiram o metal com o ruído seco, ricocheteando.

Arrastando-se para a frente do jipe, levando Chris com ela, Laura viu seu guardião deslizar para o estreito espaço entre o veículo e o acostamento coberto de neve. Ele estava agachado perto do pára-choque, onde não podia ser visto pelo homem chamado Kokoschka. Não mais parecia mágico, não mais o anjo guardião, mas apenas um homem; e na verdade ele não era mais o salvador, mas um agente da Morte, pois sua presença ali havia atraído o assassino.

Obedecendo à insistência de Danny, Laura enfiou-se sob o jipe. Chris a acompanhou, não mais chorando, procurando ser corajoso como o pai; mas não tinha visto o pai ser atingido pelos tiros, porque seu rosto estava apertado contra o seio da mãe, protegido pela jaqueta de Laura. Aparentemente de nada adiantava ficar embaixo do jipe porque Kokoschka os encontraria. Não podia ser tão idiota que não fosse procurar ali, se não os visse em outro lugar, portanto, estavam apenas procurando ganhar tempo, mais um minuto de vida no máximo.

Quando já estava sob o jipe, puxando Chris para ela, procurando protegê-lo com seu corpo, ouviu a voz de Danny vinda da frente do carro:

— Eu te amo.

A angústia a assaltou pois compreendeu que eram palavras de adeus.

Stefan deslizou para a área entre o jipe e a pilha suja de neve sobre o acostamento. Era um espaço estreito, nem dera para ele sair do jipe quando parou, mas suficiente para esgueirar-se na direção do pára-choque traseiro onde Kokoschka não esperava que ele aparecesse e de onde talvez pudesse usar sua arma antes que o assassino desse meia-volta e o abatesse com a metralhadora.

Kokoschka. Stefan jamais ficara tão surpreso em sua vida como quando viu Kokoschka sair do Pontiac. Significava que estavam sabendo de suas atividades contra o instituto. E sabiam também que ele havia se colocado entre Laura e seu verdadeiro destino. Kokoschka havia tomado a Estrada do Relâmpago com a intenção de eliminar o traidor e evidentemente Laura também.

Agora, mantendo a cabeça baixa, Stefan forçou a passagem entre o jipe e o acostamento. A metralhadora entrou em ação, partindo os vidros acima dele. A neve acumulada atrás dele estava coberta de gelo em vários lugares e eram como pontas agudas de facas no seu corpo; quando, enfrentando a dor, comprimia as costas contra elas, o gelo se partia e a neve que estava sob ele comprimia-se dando passagem. O vento zunia no pequeno espaço, uivando entre o metal e a neve, dando a impressão de que não estava sozinho, mas na companhia de uma criatura invisível que sibilava no seu rosto.

Stefan vira Laura e Chris esconderem-se sob o jipe mas sabia que o carro significava uma proteção provisória, de minutos ou segundos. Quando Kokoschka chegasse na frente do jipe e não os encontrasse, iria procurá-los no precário esconderijo, e então bastava o homem se abaixar e abrir fogo, dilacerando os dois.

E Danny? Era um homem tão grande, tão forte, certamente grande demais para entrar embaixo do jipe. E já estava ferido; devia estar congelado de dor. Além disso, não era o tipo de homem que fugia ao perigo, nem mesmo a um perigo como aquele.

Finalmente Stefan chegou ao pára-choque traseiro. Ergueu a cabeça cautelosamente e viu o Pontiac parado a oito metros, na pista que ia para o sul, com a porta esquerda aberta, o motor ligado. Não viu Kokoschka. Com sua Walther PPK/S .380 na mão, Stefan colocou-se atrás do jipe. Agachou e espiou por trás do outro pára-choque.

Kokoschka estava no meio da estrada, movendo-se para a frente do jipe, onde pensava que todos estavam escondidos. Sua arma era uma Uzi com pente de balas saliente, escolhido para aquela missão porque não seria um anacronismo. Quando Kokoschka chegou à abertura entre o jipe e o Blazer, o homem abriu fogo novamente, girando a arma da esquerda para a direita. As balas batiam estridentemente no metal, estouravam os pneus e penetravam com um ruído surdo na neve empilhada.

Stefan atirou e errou.

De repente, com uma coragem insana, Danny Packard atirou-se sobre Kokoschka, saindo do seu esconderijo, apoiado no jipe, tão perto do chão que estava abaixo das balas da metralhadora. Estava ferido mas ainda poderoso e rápido, e por um momento pareceu que ia atacar o assassino e desarmá-lo. Kokoschka estava girando a arma da esquerda para a direita, afastando-se já do alvo, quando viu Danny dirigindo-se para ele. Inverteu o movimento da Uzi. Se estivesse um pouco mais perto do jipe e não no meio da estrada não teria visto Danny a tempo.

— Danny, não! — gritou Stefan, desfechando três tiros em Kokoschka enquanto Danny se atirava contra o homem.

Mas Kokoschka mantinha uma distância segura e apontou a arma diretamente para Danny quando este estava a um ou dois metros de distância. Danny foi atingido e lançado para trás.

Para Stefan, o fato de Kokoschka ter sido ferido ao mesmo tempo que acertava Danny não serviu de consolo. O assassino fora atingido por duas balas da Walther, uma na coxa esquerda, outra no ombro esquerdo. Com o impacto ele caiu. A Uzi saltou de sua mão e rolou pelo asfalto.

Laura, sob o jipe, gritava.

Stefan saiu de trás do pára-lama traseiro do jipe e correu para Kokoschka, que estava no chão perto do Blazer. Ele escorregou na neve, procurando manter o equilíbrio.

Muito ferido, sem dúvida em choque, Kokoschka ainda assim viu Stefan correndo na direção dele. Rolou até a Uzi, perto do pneu do Blazer.

Stefan atirou três vezes enquanto corria, mas sem firmeza por causa do movimento. Além disso, Kokoschka continuava a rolar o corpo e Stefan errou os tiros, escorregou outra vez e caiu, batendo o joelho no meio da estrada com tamanha violência que a dor subiu pela sua coxa até a cintura.

Rolando, Kokoschka alcançou a metralhadora.

Compreendendo que jamais chegaria a tempo, Stefan ajoelhou e ergueu a Walther, segurando-a com as duas mãos. Estava a uns sete metros de Kokoschka. Mas até um bom atirador pode errar a essa distância, dependendo das circunstâncias, e estas eram todas contra Stefan: o estado de pânico, um difícil ângulo de tiro, a força do vento desviando a bala.

Abaixo dele, deitado no chão, Kokoschka abriu fogo, assim que conseguiu pegar a Uzi, antes mesmo de apontar a arma para o alvo, perdendo os primeiros vinte tiros que foram parar debaixo do Blazer, estourando os pneus dianteiros.

Quando Kokoschka girou a arma para ele, Stefan disparou suas últimas três balas. Apesar do ângulo e do vento, tinha de acertar, pois não teria tempo para recarregar.

O primeiro tiro da Walther não acertou o alvo.

Kokoschka continuou a virar a sua arma e o arco de tiro atingiu a frente do jipe. Laura estava debaixo do jipe com Chris, e Kokoschka atirava do chão, portanto, alguns tiros passaram por onde os dois estavam.

Stefan atirou outra vez. A bala atingiu o peito de Kokoschka e a Uzi emudeceu. O último tiro de Stefan acertou a cabeça de Kokoschka. Estava terminado.

De onde estava, embaixo do jipe, Laura viu o arremetido de bravura incrível de Danny, viu quando ele caiu pela segunda vez de costas, viu o marido imóvel e compreendeu que ele estava morto. Dessa vez não havia esperança. Um lampejo de dor como a luz terrível de uma explosão invadiu-a com a previsão de um futuro sem Danny, um cenário tão sombrio e uma dor tão violenta que ela quase desmaiou.

Então pensou em Chris, vivo ainda, abrigando-se contra seu corpo. Isolou seu sofrimento, certa de que voltaria a ele mais tarde — se   sobrevivesse. O importante agora era manter Chris vivo e, se possível, protegê-lo da cena do corpo do pai crivado de balas.

O corpo de Danny bloqueava parte da sua visão, mas viu Kokoschka cair atingido pelas balas. Viu seu guardião aproximando-se do homem caído, e por um momento pareceu que o pior tinha passado. Então, seu guardião escorregou e caiu sobre um joelho, enquanto Kokoschka rolava o corpo na direção da metralhadora que deixara cair. Mais tiros. Muitos em poucos segundos. Um ou dois passaram sob o jipe, assustadoramente próximos, as balas cortando o ar com o murmúrio mortal mais alto do que qualquer outro som do mundo.

O silêncio depois do tiroteio foi, por algum tempo, perfeito. A princípio, Laura não ouviu o vento nem os soluços abafados do filho. Gradualmente esses sons invadiram seus sentidos.

Viu que seu guardião estava vivo, e sentiu um misto de alívio e de fúria irracional, porque ele tinha sobrevivido depois de levar Kokoschka até eles, o homem que havia matado Danny. Por outro lado, Danny, ela e Chris sem dúvida teriam sido mortos na colisão se o guardião não tivesse aparecido. Quem afinal era ele? De onde vinha? Por que interessava-se tanto por ela? Laura estava assustada, furiosa, chocada, magoada e extremamente confusa.

O guardião ferido ergueu-se e cambaleou até Kokoschka. Laura olhou para o sopé da colina, além da cabeça imóvel de Danny. Não podia ver o que seu guardião fazia, mas aparentemente rasgava a roupa de Kokoschka.

Depois de alguns momentos ele começou a subir a estrada carregando alguma coisa que havia tirado do homem morto.

Quando chegou ao jipe, Stefan agachou e olhou para ela.

—        Pode sair. Acabou. — Estava pálido e parecia ter envelhecido pelo menos alguns dos vinte anos que perdera. Ele pigarreou. Com a voz repleta de remorso profundo e genuíno, disse: — Eu sinto muito, Laura. Eu sinto muito.

De bruços no chão, Laura arrastou-se para a traseira do jipe, batendo a cabeça no chassi. Puxou Chris com ela, pois se saísse pela frente o menino veria o corpo do pai. O guardião os ajudou a levantar. Laura encostou no pára-lama traseiro e apertou Chris contra ela.

Com voz trêmula, o garoto disse:

—        Quero papai.

Eu também quero.-pensou Laura. Oh, meu filho, eu o quero tanto, tudo que quero no mundo é seu pai.

A tempestade estava agora violenta, a neve caindo do céu com bastante pressão. A tarde chegara ao fim, a luz desaparecia, e em volta deles o dia cinzento dava lugar à escuridão fosforescente da noite coberta de neve.

Com aquele tempo não devia haver muitos viajantes na estrada, mas Stefan tinha certeza de que alguém ia passar por eles. Não mais de dez minutos tinham passado desde que havia feito parar o Blazer dirigido por Laura, mas mesmo naquela tempestade e naquela estrada rural, não demoraria para aparecer um carro. Precisava conversar com ela e afastar-se antes de ser envolvido pelas conseqüências daquele confronto sangrento.

Agachou na frente dela e do menino, atrás do jipe, e disse:

—        Laura, preciso sair daqui, mas voltarei logo, dentro de alguns dias...

—        Quem é você? — perguntou ela, zangada.

—        Não temos tempo para isso agora.

—        Mas eu quero saber, que diabo. Tenho direito de saber.

—        Sim, tem direito, e vou lhe contar daqui a alguns dias. Mas neste momento precisamos combinar uma história, como naquele dia no armazém. Lembra?

—        Ora, vá para o inferno.

Imperturbável, ele disse:

—        É para o seu bem, Laura. Não pode contar a verdade porque não parece real, não acha? Vão pensar que está mentindo. Especial mente depois de me ver partir... bem, se contar como foi que parti, ficarão certos de que você é cúmplice de assassinato, ou é louca.

Laura olhou zangada para ele, mas não disse nada. Stefan não a culpava por estar zangada. Talvez ela até desejasse sua morte, mas Stefan compreendia isso também. Entretanto, as únicas emoções que sentia eram amor, pena e um profundo respeito.

—        Deve dizer que quando você e Danny saíram da curva, no começo da subida, viram três carros na estrada: o jipe estacionado no acostamento, o Pontiac na contramão, exatamente onde está agora, e outro carro, parado na pista que vai para o norte. Havia... quatro homens, dois deles armados, e aparentemente tinham empurrado o ji pe para fora da estrada. Vocês apareceram na hora errada, foi tudo.

Sob a ameaça da metralhadora foram obrigados a sair da estrada e do carro. Disseram alguma coisa sobre cocaína... drogas, de um modo geral, você não sabe muito bem o quê, mas estavam discutindo sobre drogas e ao que parece, perseguindo o homem do jipe...

—        Traficantes aqui, no meio do nada? — disse ela com desprezo.

—        Pode haver laboratórios ilegais por perto... uma cabana no bosque, para processar PCP talvez. Escute, pelo menos a história tem alguma lógica, eles vão acreditar. A história verdadeira não faz sentido, portanto não deve contá-la. Diga então que os Robertson apareceram no topo da subida, na pickup... naturalmente você não sabe o nome deles... e a estrada estava bloqueada por todos aqueles  carros, e quando ele freou, o caminhão começou a deslizar na neve...

—        Você tem um sotaque — disse ela, furiosa — não muito acentuado, mas dá para perceber. De onde você vem?

—        Eu conto tudo daqui a alguns dias — disse Stefan impaciente, olhando para os dois lados da estrada açoitada pela neve. — Vou contar, mas agora prometa que vai usar esta história falsa, pode elaborar quanto quiser, mas não conte a verdade.

—        Não tenho escolha, tenho?

—        Não — disse ele, aliviado, por ver que Laura compreendia sua posição.

Laura apertou mais o filho contra o peito e ficou calada.

Stefan começava a sentir novamente a dor nos pés quase congelados. O calor da ação dissipara-se e agora tremia de frio. Entregou a Laura o cinto que havia tirado de Kokoschka.

Guarde isto dentro da sua jaqueta. Não deixe que ninguém veja. Quando chegar em casa, guarde bem em algum lugar.

—        O que é isto?

—        Mais tarde. Tentarei voltar dentro de algumas horas. Apenas algumas horas. Não se deixe levar pela curiosidade, não ponha o cinto na cintura e, pelo amor de Deus, não aperte o botão amarelo.

—        Por que não?

—        Porque você não vai querer ir ao lugar para onde ele a levará.

Laura piscou os olhos, confusa.

—        Que ele me levará?

—        Eu explicarei, mas não agora.

—        Por que não o leva com você, seja lá o que for esta coisa?

—        Dois cintos, um corpo, é uma anomalia, provocará uma anormalidade no campo de energia e só Deus sabe onde eu iria parar e em que condições.

—        Não compreendo. Do que está falando?

—        Mais tarde. Porém, Laura, se por qualquer motivo eu não puder voltar, quero que tome certas precauções.

—        Que tipo de precauções?

—        Arranje uma arma. Esteja preparada. Provavelmente não virão procurá-la se me apanharem, mas tudo é possível. Só para me dar uma lição, para me humilhar. Eles vivem da vingança. E se vierem atrás de você... serão muitos homens, bem armados.

             —       Quem são eles?

Sem responder, Stefan levantou-se com um gesto de dor. Recuou alguns passos com um último e longo olhar para Laura. Então, deu meia-volta e a deixou no frio e na neve, encostada no jipe amassado e crivado de balas, com o filho apavorado e o marido morto.

Stefan caminhou lentamente para o meio da estrada, onde a luz 132   parecia vir da neve em movimento e não do céu. Ela o chamou mas Stefan não respondeu.

Guardou a arma sem balas no coldre, dentro da jaqueta. Enfiou a mão dentro da camisa, localizou o botão amarelo do seu cinto e hesitou.

Tinham mandado Kokoschka para matá-lo. Agora deviam estar esperando ansiosamente no instituto, para saber o resultado. Seria detido assim que chegasse. Provavelmente jamais teria oportunidade de viajar pela Estrada do Relâmpago e voltar para Laura, como havia prometido.

A tentação de ficar era muito grande.

Entretanto, se ficasse, mandariam alguém para matá-lo e passaria o resto da vida fugindo dos assassinos — vendo o mundo à sua volta passar por mudanças terríveis demais para suportar. Por outro lado, se voltasse, havia uma pequena possibilidade de conseguir destruir o instituto. O dr. Penlovski e os outros obviamente sabiam tudo sobre sua interferência no fluxo normal da vida daquela mulher, mas talvez não soubessem que Stefan havia colocado explosivos no sótão e no porão do instituto. Nesse caso, se dessem a ele a oportunidade de entrar no seu escritório por um momento, poderia ligar o detonador e explodir o instituto — e todos os seus arquivos — mandando tudo para o inferno, que era seu lugar. Era muito provável que tivessem encontrado os explosivos e desligado o detonador. Mas enquanto existisse uma possibilidade de destruir o projeto e fechar a Estrada do Relâmpago, tinha a obrigação moral de voltar ao instituto mesmo que isso significasse nunca mais ver Laura.

Com o fim do dia a tempestade ficou mais violenta. Nas montanhas, acima da estrada, o vento soava como um lamento entre os enormes pinheiros, e os galhos emitiam um som sinistro, como uma criatura gigantesca de muitas pernas, descendo a encosta. Os flocos de neve eram agora finos e secos, quase como pedacinhos de gelo, raspando o mundo como uma lixa raspa a madeira, até não existir mais picos e vale, nada além de uma planície alta e plana, estendendo-se até onde a vista podia alcançar.

Com a mão ainda dentro da camisa, Stefan apertou o botão amarelo três vezes em rápida sucessão, ligando o raio luminoso. Com pena e medo voltou ao próprio tempo.

 

Abraçada a Chris, que não soluçava mais, Laura sentou no chão, atrás do jipe e viu seu guardião caminhar na neve escorregadia, passando pela traseira do Pontiac de Kokoschka.

Ele parou no meio da estrada e ficou imóvel por um longo momento, de costas para ela e então aconteceu uma coisa incrível. Primeiro, o ar ficou pesado; Laura sentiu uma estranha pressão, algo que jamais sentira antes, como se a atmosfera da terra estivesse condensada num cataclismo cósmico, e de repente teve dificuldade para respirar. Havia um cheiro estranho também, exótico mas familiar, e, depois de alguns segundos, ela identificou como o cheiro típico de fios elétricos aquecidos e isoladores chamuscados, como o da sua cozinha quando a tomada da torradeira entrou em curto, um odor misturado ao cheiro áspero mas não desagradável de ozônio, o cheiro do ar durante uma violenta tempestade. A pressão aumentou, até Laura ter a impressão de estar pregada ao solo e o ar estremeceu e girou em ondas concêntricas como se fosse água. Com o som de um rolha enorme saindo de uma garrafa, o guardião desapareceu no anoitecer cinza-púrpura de inverno, e ao mesmo tempo uma forte lufada de vento cortou o ar, como se quantidades maciças de atmosfera estivessem sendo levadas para preencher um grande vazio. Por um momento Laura sentiu-se presa num vácuo, sem conseguir respirar. Então a pressão diminuiu, o ar cheirava agora a neve e pinho, e tudo voltou ao normal.

Contudo, depois do que acabava de ver, nada mais seria normal para ela.

A noite chegou muito escura. Sem Danny, era a noite mais escura da sua vida. Apenas uma luz iluminava sua luta na direção de uma felicidade distante: Chris. A última luz na escuridão.

Mais tarde apareceu um carro no alto da colina. Os faróis cortaram a noite e a neve que caía pesadamente.

Laura levantou-se com dificuldade e foi com Chris para o meio da estrada. Acenou com os braços, pedindo ajuda.

Quando o carro diminuiu a marcha, Laura imaginou se não ia aparecer outro homem armado de metralhadora, abrindo fogo contra eles. Nunca mais ia sentir-se segura.

 

A CHAMA INTERIOR

No dia 13 de agosto de 1988, sábado, sete meses depois da morte de Danny, Thelma Ackerson chegou à casa da montanha para passar quatro dias.

Laura estava nos fundos, treinando tiro ao alvo com seu Smith & Wesson .38 Chief´s Special. Acabava de recarregar, fechar o cilindro, e ia colocar o protetor nas orelhas, quando ouviu o motor de um carro aproximando-se da casa. Apanhou o binóculo que estava no chão, aos seus pés, e examinou o veículo para certificar-se de que não se tratava de algum visitante indesejável. Quando viu Thelma na direção, abaixou o binóculo e continuou a atirar no alvo — o desenho da cabeça e torso de um homem — pregado num monte de feno.

Chris, sentado na relva perto dela, apanhou seis balas da caixa e as estendeu para a mãe, quando ela deu o último tiro.

Era um dia quente, claro e seco. Flores silvestres coloriam a borda do gramado onde começava o mato rasteiro na estrada da floresta. Até alguns momentos atrás, esquilos brincavam na relva e os pássaros cantavam, mas os tiros os havia assustado.

Laura podia ter associado a casa nas montanhas com a morte do marido e procurado vendê-la. Porém, em vez disso, vendeu a casa em Orange County e transferiu Chris para a escola de San Bernardino. Acreditava que tudo que havia acontecido em janeiro na rodovia 330 podia acontecer em qualquer lugar. A casa nada tinha a ver com isso; a culpa era do destino, das misteriosas forças que regiam sua vida estranhamente acidentada. Sabia intuitivamente que, se o guardião não tivesse aparecido para salvá-la na estrada coberta de neve, teria entrado em sua vida em outro lugar qualquer, em outro momento de crise. Nesse lugar, Kokoschka teria surgido com sua arma e a mesma tragédia teria ocorrido.

A outra casa tinha mais lembranças de Danny do que a de pedra e madeira ao sul de Big Bear. Era mais fácil conviver com a dor nas montanhas do que em Orange County.

Além disso, por estranho que pudesse parecer, sentia-se mais segura nas montanhas. Nos subúrbios muito populosos de Orange County, com as ruas e estradas apinhadas de gente, era mais difícil identificar o inimigo. Nas montanhas, os estranhos eram mais visíveis, especialmente porque a casa ficava quase no centro do terreno de trinta acres.

E Laura não havia esquecido a advertência do guardião: Procure andar armada. Esteja preparada. Se vierem à sua procura... serão muitos homens.

Quando Laura deu o último tiro e retirou os protetores das orelhas, Chris entregou a ela as seis balas. O menino tirou também o protetor que estava usando e correu para o alvo, a fim de verificar a pontaria da mãe.

O alvo estava encostado em fardos de feno empilhados, formando uma parede de dois metros de altura com quatro metros e meio de espessura. Atrás ficavam os bosques de pinheiros, sua propriedade, o que podia tornar questionável a necessidade de tanta proteção. Mas Laura não queria ferir ninguém por engano.

Chris pregou novo alvo e levou o outro para Laura.

—        Acertou quatro, mamãe. Dois mortais, dois ferimentos graves, mas parece que está desviando um pouco para a esquerda.

—        Vamos ver se consigo corrigir isso.

—        Você está ficando cansada, só isso — disse Chris.

Sobre a grama cortada espalhavam-se mais de 150 cápsulas vazias. Os pulsos, braços e ombros de Laura estavam doloridos por causa do tranco da arma, mas ela queria dar mais seis tiros, antes de parar o treino daquele dia.

Perto da casa, Thelma bateu a porta do carro.

Chris colocou os protetores nas orelhas e apanhou o binóculo para observar o alvo, enquanto a mãe atirava.

Laura fez uma pausa e olhou para o filho cheia de pena, não só por ter perdido o pai, mas porque não era justo para uma criança de sete anos saber o quanto a vida era perigosa, naquela constante expectativa de violência. Laura procurava fazer a vida dele tão alegre quanto possível. Brincavam ainda com a história de Tommy Sapo, embora Chris não acreditasse mais na existência do sapo inglês; com uma vasta coleção de livros infantis, Laura ensinava ao filho o prazer e a fuga que se pode encontrar na literatura; até seu treino de tiro era em forma de brincadeira, desviando assim a atenção da necessidade premente de se proteger. Contudo, por enquanto a vida dos dois era dominada pela perda, pelo perigo e pelo medo do desconhecido. A realidade não podia ser escondida do menino, e não podia deixar de ter um efeito profundo e duradouro sobre ele.

Chris abaixou o binóculo e olhou para a mãe, para ver por que ela não estava atirando. Laura sorriu para ele, e o menino retribuiu o sorriso. Era um sorriso tão doce, de partir o coração.

Laura virou para o alvo, ergueu o .38, segurando-o com as duas mãos e apertou o gatilho para o primeiro tiro daquela série.

Quando acabava de dar o quarto tiro, Thelma apareceu atrás dela, com os dedos nos ouvidos e fazendo uma careta.

Laura deu os dois últimos tiros, tirou os protetores das orelhas e Chris foi apanhar o alvo. O estampido soava ainda, ecoando nas montanhas, quando Laura voltou-se e abraçou Thelma.

—        Que negócio é esse de arma? — perguntou Thelma. — Vai es crever filmes para Clint Eastwood? Ou não, coisa melhor ainda, para a versão feminina de Clint Eastwood em Perseguidor implacável. E sou a pessoa ideal para o papel: durona, fria, com um sorriso de desprezo que faria estremecer até Bogart.

—        Não vou me esquecer de você para o papel — disse Laura —, mas o que eu queria de verdade era ver Clint vestido de mulher.

—        Ei, você ainda tem senso de humor, Shane.

—        Pensou que tinha perdido?

Thelma franziu a testa.

—        Eu não sabia o que pensar quando vi você atirando, com cara de má como uma cobra com dor de dente.

—        Autodefesa — disse Laura. — Toda boa moça deve aprender.

—        Você estava atirando como uma profissional. — Thelma olhou para as cápsulas no chão. — Sempre faz isso?

—        Três vezes por semana, umas duas horas de cada vez.

Chris voltou com o alvo.

—        Oi, tia Thelma. Mamãe, você conseguiu quatro mortais desta vez, um bom ferimento e um fora do alvo.

—        Mortais? — perguntou Thelma.

—        Acha que ainda estou desviando para a esquerda? — Laura perguntou para o filho.

Chris mostrou o alvo.

—        Não tanto como da outra vez.

—        Escute, Christopher Robin — disse Thelma —, só vou receber isso: um oi tia Thelma e nada mais?

Chris colocou o alvo na pilha, sobre os outros já usados, e deu um abraço apertado e um beijo em Thelma. Notando que ela não estava fantasiada de punk, perguntou:

—        Puxa, o que aconteceu com você, tia Thelma? Parece normal.

—        Eu pareço normal? O que é isso... um elogio ou um insulto?

Lembre-se, garoto, mesmo que sua tia Thelma pareça normal, ela não é nada disso. Ela é um gênio da comicidade, uma pessoa maravilhosa mente espirituosa, uma lenda no seu próprio álbum de recortes. Seja como for, resolvi que a era do punk já passou.

Escalaram Thelma para ajudar a recolher as cápsulas vazias.

—        Mamãe é uma grande atiradora — disse Chris com orgulho.

—        Acho bom que seja grande, com todo esse treino. Tem metal aqui suficiente para fazer balas para um exército de amazonas.

—        O que quer dizer isso? — Chris perguntou para a mãe.

—        Pergunte outra vez daqui a dez anos — respondeu Laura.

Entraram na casa e Laura trancou os dois fechos embutidos da porta da cozinha. Fechou as persianas para não serem vistos de fora.

Thelma observou com interesse o ritual, mas não disse nada.

Chris pôs Os caçadores da arca perdida no vídeo e sentou na frente da televisão com um saco de pipoca e uma Coca-Cola. Na cozinha Laura e Thelma tomaram café enquanto Laura desmontava e limpava seu .38 Chiefs Special.

A cozinha era grande mas aconchegante, com muita madeira escura, tijolos em duas paredes, uma coifa de cobre, panelas de cobre dependuradas em ganchos e o chão de cerâmica azul-escuro. O tipo de cozinha onde as famílias nos seriados de televisão armam suas crises e chegam a uma revelação transcendental (com sentimento) em trinta minutos, menos os comerciais, todas as semanas. Mesmo para Laura era um lugar estranho para desmontar uma arma cujo objetivo era matar seres humanos.

—        Você está mesmo com medo? — perguntou Thelma.

—        Pode apostar que sim.

—        Mas Danny morreu porque tiveram a pouca sorte de entrar por acaso no meio do comércio de drogas. Aquela gente já se foi há muito tempo, certo?

—        Talvez não.

—        Bem, se tivessem medo de que você os identificasse, teriam vindo há muito tempo.

—        Não quero arriscar.

—        Precisa relaxar, garota. Não pode passar o resto da vida esperando que alguém salte sobre você de repente. Tudo bem, pode ter uma arma. Isso provavelmente é prudente. Mas não vai voltar para o mundo nunca mais? Não pode carregar um revólver para sempre.

—        Posso. Tenho licença.

—        Licença para carregar esse canhão?

—        Levo na bolsa para qualquer lugar.

—        Jesus, como conseguiu porte de arma?

—        Meu marido foi morto em circunstâncias estranhas por pessoas desconhecidas. Os assassinos tentaram matar a mim e ao meu filho... e ainda estão em liberdade. Além disso, sou uma mulher rica e relativamente famosa. Seria estranho se não me dessem a licença.

Thelma ficou em silêncio por um minuto, tomando café, observa       Laura limpar o revólver. Finalmente disse:

—        Isto é meio sinistro, Shane, ver que fala sério, ver você tão tensa. Quero dizer, já faz sete meses... desde a morte de Danny. Mas você está nervosa como se tudo tivesse acontecido ontem. Não pode manter este nível de tensão, de expectativa ou seja lá o que for. É o caminho da loucura. Da paranóia. Deve enfrentar o fato de que não pode passar o resto da vida assim.

—        Posso, se for preciso.

—        É mesmo? O que me diz deste momento? Sua arma está desmontada. E se algum assassino bárbaro, com tatuagem na língua, começasse a dar pontapés na porta da cozinha?

As cadeiras da cozinha tinham pés de borracha. Laura empurrou a sua bruscamente até a bancada ao lado da geladeira. Abriu uma gaveta e tirou dela outro .38 Chiefs Special.

—        O que é isso? Estou sentada no meio de um arsenal? — Thelma perguntou.

Laura guardou o revólver na gaveta.

—        Venha. Vou mostrar a casa.

Thelma a acompanhou até a despensa. Dependurada atrás da porta estava uma Uzi semi-automática.

—        Isso é uma metralhadora. Tem porte legal para ela?

—        Com aprovação federal podem ser compradas em qualquer casa de armas, mas só a semi-automática; é ilegal o uso da arma adaptada para fogo automático.

Thelma olhou para ela e depois suspirou:

—        Esta foi adaptada?

—        Foi. É completamente automática. Mas eu a comprei assim de um vendedor ilegal, não na loja.

—        Isto tudo é muito sinistro, Shane. De verdade.

Laura levou Thelma para a sala de jantar e mostrou o revólver preso no fundo do aparador. Na sala de estar havia um quarto revólver preso na parte inferior de uma mesa de centro, perto de um dos sofás. Outra Uzi adaptada estava atrás da porta do hall na frente da casa. Havia revólveres escondidos na gaveta da mesa de trabalho, no escritório do segundo andar, no banheiro principal e no quarto de Laura, onde havia também uma terceira Uzi.

Olhando para a metralhadora que Laura tirou de baixo da cama, Thelma disse:

—        Cada vez mais sinistro, arrepiante. Se eu não a conhecesse tão bem, Shane, ia pensar que está louca, com uma paranóia por revólveres. Mas, como a conheço, se está realmente tão assustada, deve ter algum motivo. Não é perigoso para Chris viver no meio de tantas armas?

—        Chris sabe que não deve tocar nelas, e eu confio nele. Várias famílias na Suíça têm membros na milícia... quase todos os homens adultos estão preparados para defender o país, sabia disso? E quase todas as casas têm armas, mas têm o menor índice de ferimentos acidentais a bala em todo o mundo. Porque as armas são um meio de vida. As crianças aprendem a respeitá-las desde muito cedo. Não vai acontecer nada ao Chris.

Laura guardou a Uzi sob a cama e Thelma perguntou:

—        Como foi que você encontrou um vendedor ilegal de armas?

—        Sou rica, lembra?

—        E o dinheiro compra tudo? Certo, talvez seja verdade. Mas, ve nha cá, como é que uma garota como você acha um traficante de armas?

Eles não anunciam nos quadros de avisos da Laundromat, suponho.

—        Fiz pesquisas a respeito para vários livros, Thelma. Aprendi a encontrar qualquer pessoa ou qualquer coisa.

Thelma voltou com ela para a cozinha, em silêncio. Da sala de televisão vinha a música heróica que acompanhava Indiana Jones nas suas aventuras. Laura continuou a limpar a arma e Thelma serviu mais duas xícaras de café.

—        Agora, garota, vamos falar sério. Se existe realmente uma ameaça que justifica todo esse armamento, então é maior do que você pode enfrentar sozinha. Por que não um guarda-costas?

—        Não confio em ninguém. A não ser em você e Chris, é claro.

E no pai de Danny, mas ele mora na Flórida.

—        Mas não pode continuar assim sozinha, com medo...

Limpando o cano da arma com uma escova espiral, Laura disse:

—        Estou com medo, certo, mas sinto-me bem, estando prepara da. Durante toda a minha vida fui mera espectadora, enquanto tiravam de mim as pessoas que eu amava. Nada fiz além de suportaria             dor da perda. Muito bem, para o diabo com isso. De agora em diante vou lutar. Se alguém quiser tirar Chris de mim, vai ter de me enfrentar primeiro, vai ter de entrar numa guerra.

—        Laura, sei o que tem passado. Mas escute, deixe que eu banque a psicanalista e diga que está reagindo menos a uma ameaça real 1do que super-reagindo a uma sensação de desamparo em face do destino. Não pode alterar a Providência, garota. Não pode jogar pôquer com Deus e esperar ganhar porque tem um .38 na bolsa. Quero dizer, você perdeu Danny num ato de violência, certo, e talvez possa dizer que Nina Dockweiler estaria viva se alguém tivesse dado um tiro no Enguia logo no começo, mas são os únicos casos em que as pessoas que você amava teriam sobrevivido se alguém tivesse usado uma arma. Sua mãe morreu de parto. Seu pai de um ataque cardíaco. Perdemos Ruthie num incêndio. Acho legal que procure se defender com armas, mas precisa manter a perspectiva, encarar com senso de humor nossa vulnerabilidade como espécie, ou vai acabar num hospício, com gente que fala com árvores e come poeira tirada do umbigo. Deus nos livre, mas e se Chris tiver câncer? Você está preparada para estourar qualquer um que toque nele, mas não pode matar o câncer com um revólver. Parece tão ferozmente decidida a protegê-lo que, se isso acontecer, vai desmoronar por completo, se acontecer alguma coisa contra a qual ninguém pode lutar com sucesso. Eu me preocupo com você, garota. Laura fez um gesto afirmativo, balançando a cabeça, invadida por uma profunda afeição.

—        Eu sei que se preocupa, Thelma. Mas pode ficar descansada.

Durante 33 anos eu apenas suportei as coisas; agora estou lutando do melhor modo possível. Se eu ou Chris tivermos câncer, contratarei os melhores especialistas, procurarei o melhor tratamento. Mas se tudo falhar, se por exemplo, Chris morrer de câncer, então aceitarei a der rota. A luta não exclui a força para suportar o revés. Posso lutar, e se perder a luta, posso ainda sobreviver.

Por um longo tempo Thelma olhou para a amiga. Finalmente fez um gesto afirmativo:

—        Era isso que eu queria ouvir. Certo. Fim da discussão. Vamos passar para outras coisas. Shane, quando pretende comprar um tan que blindado?

—        Vão entregar na segunda-feira.

—        Canhões de cano curto, granadas, bazucas?

—        Na terça. O que me diz do filme do Eddie Murphy?

—        Assinamos o contrato há dois dias — disse Thelma.

—        É mesmo! Minha Thelma vai estrelar um filme com Eddie Murphy?

—        Sua Thelma vai aparecer num filme com Eddie Murphy. Não qualifico ainda como estrela.

—        Você teve uma quarta posição nos créditos do filme com Steve Martin; terceira posição com Chevy Chase. E esta vai ser uma segun da, certo? E quantas vezes foi anfitriã no Tonighti Oito vezes, não foi? Tem de enfrentar a verdade, você é uma estrela.

De pequena magnitude talvez. Não é arrepiante, Shane? Nós duas, vindas do nada, do Lar Mcllroy, e chegamos ao topo. Estranho?

—        Não tão estranho — disse Laura. — A adversidade cria força e a força vence. E sobrevive.

 

Stefan deixou a noite de neve de San Bernardino e num instante estava dentro do portão, na outra extremidade da Estrada do Relâmpago. O portão parecia um grande barril, como os dos parques de diversões, mas sua superfície interna era de cobre polido e não de madeira, e não girava sob os pés das pessoas. O barril tinha dois metros e meio de diâmetro e três metros e meio de comprimento; com poucos passos Stefan saiu de dentro dele para o laboratório do andar térreo do instituto, onde esperava encontrar homens armados. O laboratório estava deserto.

Atônito, ficou parado por um momento e olhou em volta, incrédulo. Três paredes da sala de 9 x 12m eram cobertas, do chão até o teto, por máquinas que zumbiam e estalavam sem nenhuma supervisão. A maioria das lâmpadas estava apagada, e o grande laboratório parecia sinistro. Aquelas máquinas faziam funcionar o portão e as dezenas de mostradores e medidores com suas luzes verdes-pálidas ou alaranjadas que serviam o aparelho — que era uma brecha no tempo, um túnel para qualquer tempo — jamais eram apagadas; uma vez fechado, só podia ser reaberto com muita dificuldade e muito dispêndio de energia, mas uma vez aberto podia ser mantido com relativamente pouco esforço. Naqueles dias, quando o objetivo principal não era mais o desenvolvimento do portão, o pessoal do instituto só ia ao laboratório para manutenção de rotina e, é claro, quando alguma viagem estava em progresso. Se não fosse assim, Stefan jamais poderia ter feito as dezenas de viagens secretas, não autorizadas, para monitorar — e às vezes corrigir — os fatos da vida de Laura.

Porém, embora não fosse incomum encontrar o laboratório deserto durante o dia, era estranho naquele momento, pois tinham enviado Kokoschka para apanhá-lo e sem dúvida deviam estar esperando ansiosamente o resultado da missão naquelas montanhas cobertas de neve da Califórnia. Deviam ter previsto a possibilidade de Kokoschka falhar, a possibilidade do homem errado voltar de 1988 e guardariam o portão até que a situação estivesse resolvida. Onde estava a polícia secreta com suas jaquetas negras de couro com grandes ombreiras? Onde estavam as armas com as quais ele esperava ser recebido?

Olhou para o grande relógio na parede e viu que eram 11:45, hora   local. A hora certa. Stefan começara a viagem quando faltavam cinco minutos para as 11 horas, naquela manhã, e todas as viagens terminavam 11 minutos depois de terem começado. Ninguém sabia por quê, mas independente do tempo passado na outra extremidade da estrada, só 11 minutos se passaram na base. Stefan estivera em San Bernardino quase uma hora e meia, mas somente 11 minutos estavam marcados em sua vida, no seu tempo. Se tivesse ficado meses com Laura, antes de apertar o botão amarelo do seu cinto, ativando o raio de luz, teria voltado para o instituto somente — e exatamente — 11 minutos depois da sua partida.

Mas onde estavam as autoridades, as armas, os colegas furiosos e ofendidos? Depois de descobrir sua intervenção na vida de Laura, depois de enviar Kokoschka para matar a ele e a Laura, por que teriam abandonado o portão quando só precisavam esperar 11 minutos para saber o resultado da missão?

Stefan tirou as botas, a jaqueta e o coldre a tiracolo, e os escondeu num canto, atrás de algum equipamento. Havia deixado o avental branco do laboratório no mesmo lugar, antes de partir, e agora ele o vestiu.

Intrigado, preocupado ainda com a falta de recepção hostil, saiu do laboratório para o corredor do andar térreo e foi procurar encrenca.

 

Às duas e meia da manhã de domingo, Laura estava ao lado do processador de palavras no escritório, ao lado do seu quarto, de pijama e com um roupão tomando suco de maçã e trabalhando no seu novo livro. A única luz era a das letras verdes eletrônicas na tela do computador e da pequena lâmpada de cabeceira focalizada nas páginas impressas na véspera. Um revólver estava na mesa, ao lado do manuscrito.

A porta que dava para o corredor escuro estava aberta. Laura só fechava a porta do banheiro porque, mais cedo ou mais tarde, uma porta fechada podia impedir que ouvisse os passos de um intruso em outra parte da casa. Tinha um sofisticado sistema de alarme, mas mesmo assim deixava abertas as portas internas.

Ouviu Thelma no corredor e voltou-se no momento em que a amiga chegava na porta.

—        Desculpe se algum barulho a impediu de dormir.

—        Nada disso. Nós, que trabalhamos em casas noturnas, não dor mimos cedo. Mas eu durmo até o meio-dia. E você? Geralmente fica acordada até tarde?

—        Não durmo bem. Quatro ou cinco horas chegam para mim.

Em lugar de ficar na cama, virando de um lado para o outro, levanto-me e escrevo.

Thelma puxou uma cadeira e apoiou os pés na mesa de Laura. Seu gosto para roupa de dormir era mais exagerado do que quando era jovem: pijama largo de seda com estampado em vermelho, verde, azul e amarelo, formando desenhos abstratos de quadrados e círculos.

—        Fico feliz por ver que ainda usa chinelo de coelhinho — disse Laura. — Demonstra uma certa constância de personalidade.

—        Essa sou eu. Sólida como uma rocha. Não encontro mais chinelos desse tipo para meu número, portanto tenho de comprar chinelos peludos de adulto e um par de chinelos de criança, arrancar os olhos e as orelhas dos pequenos e costurar nos grandes. O que está escrevendo?

—        Um livro escabroso.

—        Parece uma coisa adequada para um fim de semana na praia.

Laura suspirou e recostou na poltrona forrada.

—        É um livro sobre morte, sobre a injustiça da morte. Um projeto tolo porque estou tentando explicar o inexplicável. Tento explicar a morte para meu leitor ideal, porque assim talvez eu a possa compreender. É um livro sobre a necessidade de continuar a luta, mesmo conhecendo nossa mortalidade, porque devemos lutar e suportar. É um livro negro, sombrio, árido, deprimente, amargo, profundamente perturbador.

—        Existe um grande mercado para isso?

Laura riu:

—        Provavelmente nenhum. Mas quando o escritor é dominado por uma idéia... bem, é como uma chama interior, que a princípio nos aquece e nos faz sentir bem e depois começa a nos devorar vivos, queimando-nos de dentro para fora. Não se pode fugir do fogo; ele continua queimando. O único modo de se livrar dele é escrever um livro maldito. Quando tenho alguma dificuldade com este, passo para um livro infantil que estou escrevendo, todo ele sobre Sir Tommy Sapo.

—        Você é biruta, Shane.

—        Quem está usando chinelos de coelhinho?

Conversaram sobre várias coisas, com a camaradagem descontraída que compartilhavam há vinte anos. Talvez porque sua solidão era agora mais aguda do que nunca, sem Danny, talvez por medo do desconhecido, Laura começou a falar sobre seu guardião. Só Thelma no mundo todo poderia acreditar naquela história. Na verdade, ela ficou encantada, tirou os pés da mesa, inclinou-se para a frente, jamais demonstrando incredulidade, enquanto Laura contava tudo, desde o assalto ao armazém, até o momento em que seu guardião desapareceu na estrada.

Quando Laura apagou aquela chama interior, Thelma disse:

—        Por que não me contou isso... por que não me falou sobre seu guardião antes? Em Mcllroy?

—        Não sei. Parecia algo... mágico. Alguma coisa que devia guardar só para mim, porque se contasse a alguém quebraria o encanto e nunca mais o veria. Depois, quando ele deixou que eu me livrasse sozinha do Enguia, depois que ele nada fez para salvar Ruthie, acho que deixei de acreditar. Nunca contei para Danny porque, quando conheci meu marido, o guardião era tão real para mim quanto Papai Noel. Então, de repente... lá estava ele na estrada.

—        Naquela noite na montanha ele disse que voltaria logo para explicar tudo...

—        Mas não o vi mais. Estou esperando há sete meses e sempre que alguém aparece de repente penso que pode ser meu guardião ou outro Kokoschka com uma metralhadora.

Thelma ficou eletrizada pela história e remexia-se na cadeira como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo. Finalmente começou a andar pela sala.

—        E Kokoschka? Os tiras descobriram alguma coisa sobre ele?

—        Nada. Não tinha nenhuma identificação. O Pontiac era roubado, como o jipe vermelho. Examinaram suas impressões digitais em todos os arquivos possíveis e não descobriram nada. Não se pode interrogar um cadáver. Não sabem quem era, nem de onde veio ou por que queria nos matar.

—        Você teve muito tempo para pensar sobre tudo isso. Alguma idéia? Quem é esse guardião? De onde veio?

—        Não sei. — Laura tinha uma idéia, mas parecia maluca e não se baseava em nenhuma prova concreta. Não contou para Thelma por que parecia por demais egomaníaca. — Não sei.

—        Onde está o cinto que ele deixou?

—        No cofre — disse Laura, indicando com um movimento de cabeça o canto da sala onde o cofre embutido no chão estava escondido sob o tapete.

Juntas soltaram a ponta do tapete, revelando a tampa do cofre que era um cilindro de 25cm de diâmetro e 40cm de profundidade. Continha um único objeto que Laura retirou.

Voltaram para perto da mesa para examinar o misterioso cinto. Laura ajustou a haste flexível da lâmpada.

O cinto tinha l0cm de largura e era feito de tecido negro e elástico, talvez náilon, entremeado de fios de cobre, formando desenhos intrincados e curiosos. Devido à sua largura, tinha duas fivelas de cobre. Costurada no cinto, à esquerda das fivelas, havia uma caixa estreita do tamanho de uma cigarreira antiga — mais ou menos de 8 x 6cm, 145   com l cm de espessura, também de cobre. O mais minucioso exame não revelou nenhum modo de abrir a caixinha na qual havia um botão amarelo com menos de 2cm de diâmetro. Thelma segurou o estranho material.

—        Quer repetir o que ele disse que ia acontecer se apertasse o botão amarelo?

—        Disse apenas que, pelo amor de Deus, não apertasse o botão e quando perguntei por quê, respondeu: "Não vai querer ir para onde ele a levará.”

Ficaram lado a lado, iluminadas pela lâmpada de mesa, olhando para o cinto na mão de Thelma. Passava das quatro horas da manhã e a casa estava silenciosa como uma cratera árida e sem ar da lua.

Finalmente Thelma perguntou:

—        Já pensou em apertar o botão?

—        Não, nunca — respondeu Laura sem hesitar. — Quando ele mencionou o lugar para onde o cinto me levaria... havia uma expressão terrível nos seus olhos. E eu sei que ele voltou para lá contra a vontade. Não sei de onde ele veio, Thelma, mas se não interpretei mal o que vi nos seus olhos: o lugar fica a um passo do inferno.

No sábado à tarde, vestiram shorts e camisetas, estenderam cobertores no gramado dos fundos da casa e fizeram um longo e preguiçoso piquenique de salada de batatas, frios, queijo, frutas frescas, batatas fritas e pãezinhos de canela com nozes raladas. Brincaram com Chris e o garoto divertiu-se muito, especialmente porque Thelma sabia adaptar seus atos cômicos para crianças de oito anos.

Chris viu alguns esquilos brincando no gramado, perto do bosque, e Laura deu um pãozinho de nozes a ele para dar aos animaizinhos.

—        Corte em pedaços pequenos e jogue para eles. Não vão deixar você chegar muito perto. E você fique perto de mim, está ouvindo?

—        Certo, mamãe.

—        Não vá até o bosque. Só até a metade do gramado.

Chris correu e parou a dez metros de onde elas estavam, pouco mais da metade do caminho até as árvores do bosque e ajoelhou na relva. Começou a atirar pedaços de pão para os esquilos, fazendo com que os animaizinhos rápidos e cautelosos chegassem cada vez mais perto para apanhar a guloseima.

—        Ele é um bom garoto — disse Thelma.

—        O melhor — Laura puxou a Uzi para mais perto dela.

—        Chris está apenas a uns dez ou 12 metros de nós!

—        Mas está mais perto do bosque que de mim. — Laura olhou para as sombras do bosque de pinheiros.

Tirando uma batata frita do saco, Thelma disse:

—        Nunca fiz piquenique com uma metralhadora portátil. Acho que gosto. Não preciso me preocupar com os ursos.

—        É boa para formigas também.

Thelma deitou de lado no cobertor, a cabeça apoiada na mão, mas Laura continuou sentada com as pernas cruzadas à moda índia. Borboletas coloridas, brilhantes como raios de sol condensados, cortavam o ar quente de agosto.

—        O garoto parece estar bem adaptado — disse Thelma.

—        Mais ou menos — concordou Laura. — No começo foi difícil.

Ele chorava muito, ficou emocionalmente instável. Mas passou. Nessa idade as crianças são flexíveis, adaptam-se rapidamente, aceitam com facilidade. Mas apesar de tudo parecer bem com ele... temo que exista em sua alma agora algo escuro que não existia antes e que parece não querer ir embora.

—        Não — disse Thelma —, não irá embora. É como uma sombra no coração. Mas ele vai viver, e vai encontrar a felicidade, e em certos momentos nem vai perceber a sombra.

Enquanto Thelma observava Chris com os esquilos, Laura estudava o perfil da amiga.

—        Você ainda sente falta de Ruthie, não sente?

—        Todos os dias, nestes vinte anos. Você não sente falta do seu pai?

—        É claro — disse Laura. — Mas quando penso nele, acho que não sinto o que você sente. Porque esperamos que nossos pais morram antes de nós; mesmo quando sua morte é prematura podemos aceitar, porque sempre soubemos que ia acontecer mais cedo ou mais tarde.

Mas é diferente quando se perde o marido, a mulher, um filho... ou uma irmã. Não esperamos que eles morram, pelo menos não no come ço da vida. Portanto, é mais difícil de enfrentar. Especialmente, eu acho, quando é uma irmã gêmea.

—        Quando tenho alguma boa notícia a respeito da minha carrei ra, meu primeiro pensamento é como Ruthie ficaria feliz. E você, Shane? Está se adaptando?

—        Eu choro à noite.

—        Isso é saudável, por enquanto. Não será tão saudável daqui a um ano.

—        Fico acordada ouvindo as batidas do meu coração e é um som cheio de solidão. Graças a Deus por Chris. Ele me dá motivação para viver. E você. Tenho você e Chris e somos uma uma família, não acha?

—        Não como uma família. Somos uma família. Você e eu..irmãs.

Laura sorriu, estendeu a mão e desmanchou o cabelo de Thelma.

—        Mas — disse Thelma — isso não quer dizer que pode usar minhas roupas.

 

  Nos corredores e pelas portas abertas dos escritórios e laboratórios do instituto, Stefan viu os companheiros trabalhando e nenhum demonstrou interesse especial por sua presença. Tomou o elevador para o terceiro andar e na porta do seu escritório encontrou o dr. Wladyslaw Januskaya, há muito tempo protegido do dr. Vladimir Penlovski, e a segunda autoridade encarregada da pesquisa de viagem no tempo, que originalmente fora chamada de Projeto Foice, mas que há alguns meses havia recebido o nome de Estrada do Relâmpago.

Januskaya tinha quarenta anos, dez menos que seu mentor, mas parecia mais velho do que o enérgico e cheio de vida Penlovski. Baixo, gordo, quase calvo, com a pele manchada e dois dentes de ouro na frente, óculos grossos que faziam seus olhos parecerem dois ovos pintados, Januskaya podia ter sido uma figura cômica. Mas sua crença fanática no Estado e o zelo com que trabalhava para a causa totalitária bastavam para eliminar todo o potencial de comicidade; na verdade ele era um dos homens mais perturbadores envolvido no projeto da Estrada do Relâmpago.

—        Stefan, meu caro Stefan — disse Januskaya. — Quero agradecer a você a sugestão oportuna de outubro passado de instalar um gerador seguro para o suprimento de força do portão. Sua visão salvou o projeto. Se estivéssemos ainda usando a energia da cidade... ora, o portão teria entrado em colapso uma meia dúzia de vezes, e teríamos sofrido um atraso prejudicial.

Tendo voltado ao instituto esperando ser preso, Stefan ficou confuso ao ver que não haviam descoberto sua traição e o elogio daquele verme desprezível o deixou sobressaltado. Sua sugestão sobre o gerador não fora motivada pela vontade de ver o projeto ter sucesso, mas porque não queria que fossem interrompidas suas viagens particulares ao tempo de Laura por falha do fornecimento de força da cidade.

—        Em outubro eu não podia imaginar que a esta altura chegaríamos a uma situação como esta, na qual não se pode confiar nos serviços públicos — disse Januskaya, balançando a cabeça tristemente — a ordem social tão completamente perturbada. O que o povo tem de suportar para ver o triunfo do Estado socialista dos seus sonhos, não é mesmo?

—        Estamos atravessando tempos difíceis — disse Stefan, falando de coisa diferente.

—        Mas triunfaremos — disse Januskaya com entusiasmo. Os olhos aumentados pelas lentes cintilaram com a loucura fanática que Stefan conhecia muito bem. — Com a Estrada do Relâmpago triunfaremos.

Bateu no ombro de Stefan e continuou a andar pelo corredor.

Quando o cientista estava quase na frente dos elevadores, Stefan disse:

—        Oh, sr. Januskaya?

O gordo verme branco voltou-se e olhou para ele:

—        Sim?

—        O senhor já viu Kokoschka hoje?

—        Hoje? Não, hoje ainda não.

—        Ele está aqui, não está?

—        Oh, acho que sim. Está sempre aqui, desde que tenha alguém trabalhando, você sabe. É um homem muito diligente. Se tivéssemos outros como Kokoschka não teríamos dúvida do triunfo final. Precisa falar com ele? Se eu o encontrar digo para procurá-lo?

—        Não, não — disse Stefan. — Não é urgente. Não quero inter romper o trabalho dele. Na certa o verei, mais cedo ou mais tarde.

Januskaya continuou até os elevadores, e Stefan foi para seu escritório, fechando a porta.

Agachou ao lado do arquivo que havia empurrado para o lado, a fim de esconder um terço da grade na entrada do túnel de ventilação. No espaço estreito atrás do arquivo um emaranhado de fios de cobre saía da grade. Os fios estavam ligados a um cronômetro simples, por sua vez ligado a uma tomada na parede, mais atrás do arquivo. Nada fora desligado. Stefan podia ajustar o cronômetro e no espaço de um a cinco minutos, dependendo da volta que desse no marcador, o instituto seria destruído.

Que diabo está acontecendo?, pensou ele. Ficou por algum tempo sentado à sua mesa, olhando para o pedaço de céu visível através de uma das duas janelas: nuvens escuras e esparsas moviam-se preguiçosamente sobre o fundo muito azul.

Finalmente saiu do escritório, subiu a escada da ala norte e passou rapidamente do quarto andar para o sótão. A porta se abriu com um leve rangido. Stefan acendeu a luz e entrou no espaço longo e semi-acabado, pisando cuidadosamente no assoalho de madeira. Verificou três cargas de plástico que havia escondido nas vigas do teto há duas noites. Os explosivos estavam como ele os havia deixado.

Não precisava examinar as cargas do porão. Voltou ao escritório. Obviamente ninguém sabia de suas intenções de destruir o instituto e nem das suas tentativas de evitar as tragédias da vida de Laura programadas pelo destino. Ninguém, exceto Kokoschka. Droga, Kokoschka devia saber, pois tinha aparecido na estrada da montanha com uma Uzi.

Então, por que não contou a ninguém?

Kokoschka era oficial da polícia secreta do Estado, um verdadeiro fanático, servidor entusiasta e obediente do governo, e pessoalmente responsável pela segurança da Estrada do Relâmpago. Tendo descoberto um traidor no instituto, Kokoschka não hesitaria em mandar que um esquadrão de agentes cercasse o prédio, guardando o portão e interrogando todos que estavam lá dentro.

Certamente não teria permitido que Stefan fosse ajudar Laura na estrada da montanha, e depois segui-lo com a intenção de matar a todos. Ele na certa ia querer deter Stefan e interrogá-lo para saber se havia outros conspiradores no instituto.

Kokoschka soubera da interferência de Stefan no curso dos acontecimentos predeterminados na vida de uma mulher. E havia descoberto ou não os explosivos no instituto — provavelmente não descobrira, pois do contrário teria pelo menos desligado as cargas. Então, por motivos pessoais não tinha reagido como um policial, mas como indivíduo. Naquela manhã havia seguido Stefan através do portão até a tarde fria de janeiro de 1988, por motivos que Stefan não podia compreender.

Não fazia sentido. Mas só podia ser assim.

O que Kokoschka pretendia?

Provavelmente Stefan jamais ia saber.

Agora Kokoschka estava morto numa estrada, em 1988, e logo dariam por falta dele no instituto.

Naquela tarde, às duas horas, Stefan devia fazer uma viagem sob a direção de Penlovski e Januskaya. Pretendia explodir o instituto — em dois sentidos — à uma hora, uma hora antes da viagem programa da. Agora, às Ilh43min resolveu que precisava apressar seus planos, antes que dessem pelo desaparecimento de Kokoschka.

 Foi até um dos arquivos, abriu a última gaveta, que estava vazia, retirou-a dos trilhos e do arquivo de aço. Na parte de trás do compartimento da gaveta estava uma pistola Colt Commander 9mm Parabellum com nove balas, adquirida em uma das suas viagens ilegais e levada secretamente para o instituto. De trás de outra gaveta retirou dois silenciadores de alta tecnologia e quatro pentes carregados. Levou tudo para a mesa rapidamente, pois alguém podia entrar sem bater na porta, atarraxou um dos silenciadores no revólver, soltou a trava e distribuiu o resto do material pelos bolsos do avental de trabalho.

Quando deixasse o instituto através do portão pela última vez, não teria certeza de que Penlovski, Januskaya e outros cientistas morreriam na explosão. O prédio seria destruído, bem como todas as máquinas e arquivos, mas, o que aconteceria se um dos pesquisadores sobrevivesse? O conhecimento necessário para construir outro portão estava na cabeça de Penlovski e de Januskaya, portanto Stefan pretendia matá-los, bem como outro homem, Volkaw, antes de ajustar o marcador de tempo dos explosivos e entrar no portão, voltando para Laura.

Com o silenciador, o Commander era longo demais para caber no bolso do avental de trabalho de Stefan, por isso virou o bolso do avesso e rasgou o fundo. Com o dedo no gatilho, enfiou a arma no bolso furado e abriu a porta do escritório.

Seu coração batia descompassadamente. Era a parte mais perigosa do plano, matar aqueles homens, porque muita coisa podia sair errada antes de liquidá-los e voltar ao escritório para ligar os explosivos.

Laura estava muito longe e talvez jamais a visse outra vez.

 

Na tarde de segunda-feira, Laura e Chris vestiram seus joggings cinzentos. Depois que Thelma os ajudou a desenrolar os espessos tatames no pátio, atrás da casa, mãe e filho sentaram e fizeram exercícios respiratórios.

—        Quando é que Bruce Lee vai chegar? — perguntou Thelma.

—        Às duas horas — respondeu Laura.

—        Ele não é Bruce Lee, tia Thelma — disse Chris impaciente. — Você fica dizendo Bruce Lee, mas Bruce Lee está morto.

O sr. Takahami chegou às duas em ponto. Vestia uma roupa de ginástica azul-escura com o emblema da escola de artes marciais nas costas do blusão: FORÇA SILENCIOSA. Quando foi apresentado a Thelma, disse:

—        A senhora é muito engraçada. Adoro seu álbum de discos.

Encantada com o elogio, Thelma respondeu:

—        Pois posso dizer honestamente que gostaria que o Japão tivesse vencido a guerra.

Henry riu:

—        Acho que vencemos.

Sentada numa cadeira de lona, tomando chá gelado, Thelma assistiu à aula de autodefesa.

Henry Takahami tinha quarenta anos, corpo musculoso e pernas fortes. Era mestre de judô e caratê e boxeador experiente. Ensinava uma forma de autodefesa baseada em várias artes marciais, um sistema inventado por ele mesmo. Duas vezes por semana ia de carro de Riverside até a casa nas montanhas e passava três horas com Laura e Chris.

O combate com pontapés, socos, rosnados, torções do corpo e movimentos de impacto era conduzido de modo a não ferir ninguém, mas com força suficiente para treinar os alunos com perfeição. Chris aprendia golpes menos cansativos e violentos do que Laura, e Henry dava ao garoto muitos momentos para descanso. No fim da aula Laura estava sempre banhada de suor e exausta.

Quando Henry partiu, Laura mandou Chris subir para o banho de chuveiro enquanto enrolava os tatames ajudada por Thelma.

—        Ele é engraçadinho — disse Thelma.

—        Henry? Sim, acho que é.

—        Talvez eu resolva ter umas aulas de judô ou caratê.

—        Sua audiência tem estado tão descontente ultimamente?

—        Esse foi um golpe baixo, Shane.

—        Tudo é permitido quando o inimigo é formidável e impiedoso.

No dia seguinte à tarde, quando punha a bagagem no Camaro, pronta para voltar a Beverly Hills, Thelma disse:

—        Ei, Shane, lembra daquela primeira família com que você fi cou quando estávamos no Mcllroy?

—        Os Teagel — disse Laura. — Flora, Hazel e Mike.

Thelma encostou no lado do carro aquecido pelo sol, perto de Laura:

—        Lembra o que contou sobre a fascinação de Mike por certos jornais como o National Enquireri —            Lembro dos Teagel como se os tivesse deixado ontem.

—        Bem — disse Thelma —, tenho pensado muito nas coisas que aconteceram com você... esse guardião, o fato de ele não envelhecer, o modo como desapareceu no ar... e lembrei dos Teagel. Parece uma ironia. Todas aquelas noites no Mcllroy ríamos do velho e biruta Mike Teagel... e agora você está bem no meio de algo que não passa de noticiário exótico.

Laura riu baixinho.

—        Talvez eu deva reconsiderar aquelas histórias de extraterres tres que viviam secretamente em Cleveland, certo?

—        Acho que estou tentando dizer... que a vida é cheia de surpresas e coisas estranhas. Algumas são desagradáveis, e alguns dias tão escuros como o interior da cabeça de um político. Mas há momentos em que compreendo que estamos aqui por algum motivo, por mais enigmático que seja. Nada é sem sentido. Se fosse, não haveria mistério.

Seria monótono e claro como o mecanismo de uma máquina de fazer café.

Laura fez um gesto afirmativo.

—        Meu Deus, veja só! Estou torturando a nossa língua só para fazer declarações filosóficas simplórias que, resumindo, só significam "continue firme, garota".

—        Você não é simplória.

—        Mistério — disse Thelma. — Maravilha. Você está no meio disso, Shane, e isso é a vida. Se parece escuro agora... bem, também vai passar.

 Abraçaram-se, sem precisar dizer mais. Chris saiu correndo da casa com um desenho a lápis que havia feito para Thelma. Era uma cena primitiva mas encantadora, mostrando Tommy Sapo na frente de um cinema, olhando para o cartaz com o nome de Thelma em letras enormes.

Chris estava com os olhos cheios de lágrimas.

—        Você precisa mesmo ir, tia Thelma? Não pode ficar mais um dia?

Thelma o abraçou, depois enrolou o desenho cuidadosamente co mo se fosse uma preciosa obra-prima.

—        Eu gostaria de ficar, Christopher Robin, mas não posso. Meus fãs estão exigindo que eu faça esse filme. Além disso, tenho uma grande hipoteca para pagar.

—        O que é uma hipoteca?

—        A maior motivação do mundo — disse Thelma, beijando o garoto. Entrou no carro, ligou o motor, abaixou o vidro e piscou para Laura. — Notícias exóticas, Shane.

—        Mistério.

—        Maravilha.

Laura ergueu os três dedos, na saudação de Jornada nas estrelas.

Thelma riu.

—        Você vai conseguir, Shane. Apesar das armas e de tudo que fiquei sabendo desde que cheguei na sexta-feira, estou menos preocupada com você agora.

Chris ficou ao lado de Laura olhando o carro de Thelma até ele desaparecer na estrada.

 

O escritório do dr. Vladimir Penlovski era uma suíte no quarto andar do instituto. Quando Stefan entrou na sala de espera, não viu ninguém, mas ouviu vozes que vinham da sala ao lado. Foi até a porta, que estava entreaberta, empurrou-a e viu Penlovski ditando para Anna Kas- par, sua secretária.

Penlovski ergueu os olhos, um pouco surpreso ao ver Stefan. Certamente percebeu a tensão no rosto dele, pois franziu a testa e disse:

—        Alguma coisa errada?

—        Alguma coisa está errada há muito tempo — disse Stefan —, mas acho que tudo vai ficar certo agora.

Penlovski olhou para ele intrigado. Stefan tirou o Commander equipado com silenciador do bolso e deu dois tiros no peito do cientista.

Anna Kaspar saltou da cadeira, deixando cair o lápis e o bloco, com um grito preso na garganta.

Stefan não gostava de matar mulheres — não gostava de matar ninguém — mas não tinha escolha agora, e atirou três vezes, jogando-a contra a mesa, antes que o grito se concretizasse.

Morta, ela escorregou para o chão. Os tiros não fizeram mais barulho do que o rosnado de um gato e a queda do corpo da mulher não deu para chamar a atenção.

Penlovski estava caído para trás na cadeira, olhos e boca abertos, olhando sem ver. Um dos tiros devia ter atingido o coração, pois havia apenas um pequeno ponto de sangue na sua camisa; a circulação fora cortada imediatamente.

Stefan saiu da sala e fechou a porta. Atravessou a sala de espera, passou para o corredor e fechou aquela porta também.

Seu coração estava disparado. Com aqueles dois assassinatos estava desligando-se para sempre do seu tempo, do seu povo. A partir daquele momento a única vida para ele seria no tempo de Laura. Não podia mais voltar atrás.

Segurando a arma num dos bolsos, a outra mão enfiada no outro, foi pelo corredor até o escritório de Januskaya. Quando chegou perto da porta, dois homens saíram do escritório. Disseram alô ao passar por ele e Stefan parou, para ver se iam ao escritório de Penlovski. Se fossem, teria de matá-los também.

Os dois pararam na frente dos elevadores. Stefan ficou aliviado porque, quanto mais matasse, maior seria a possibilidade dos corpos serem encontrados e dado o alarme que o impediria de ligar o detonador e fugir pela Estrada do Relâmpago.

Entrou no escritório de Januskaya, que tinha também uma sala de espera. A secretária, sentada à sua mesa — uma funcionária, como Anna Kaspar, da polícia secreta — ergueu os olhos e sorriu.

     — O dr. Januskaya está no escritório? — perguntou Stefan. — Não. Está na sala de documentos com o dr. Volkaw. Volkaw era o terceiro homem que conhecia o projeto o bastante para precisar ser eliminado. O fato de estar com Wladyslaw Januskaya naquele momento parecia um bom presságio.

Na sala de documentos eram arquivados, para estudo, os vários livros, jornais, revistas e outros materiais recolhidos pelos viajantes do tempo. No momento, os idealizadores da Estrada do Relâmpago dedicavam-se a uma análise urgente dos pontos chaves onde a alteração dos fatos podia provocar as mudanças desejadas no curso da história.

No elevador Stefan trocou o silenciador da arma. O primeiro serviria ainda para uma dúzia de tiros. Mas Stefan não queria arriscar. O segundo silenciador era uma medida adicional de segurança. Substituiu também o pente não todo usado, por outro, completo.

O corredor do primeiro andar era sempre movimentado, com pessoas que iam de um laboratório para outro, de uma sala para outra. Com as mãos nos bolsos, Stefan foi diretamente para a sala de documentos.

Quando Stefan entrou, Januskaya e Volkaw estavam de pé ao lado de uma mesa de carvalho, inclinados sobre uma revista, discutindo calorosamente em voz baixa. Ergueram os olhos e imediatamente continuaram a discussão, supondo que Stefan estava ali para fazer alguma pesquisa.

Stefan atirou duas vezes nas costas de Volkaw. Januskaya reagiu com confusão e choque, quando Volkaw foi atirado sobre a mesa com o impacto dos tiros quase silenciosos.

Stefan atirou no rosto de Januskaya, deu meia-volta e saiu da sala, fechando a porta. Duvidando que pudesse falar com coerência naquele momento, fingiu estar absorto nos seus pensamentos, esperando que isso dissuadisse qualquer pessoa de se dirigir a ele. Foi para os elevadores sem correr, subiu até o terceiro andar, enfiou a mão por trás do arquivo e girou o botão do cronômetro até o fim, dando a si mesmo cinco minutos para chegar ao portão e fugir no tempo, antes que o instituto fosse destruído.

 

Quando começou o ano letivo, Chris concordou em estudar em casa, sob orientação de uma professora reconhecida pelo Estado. Chamava-se Ida Palomar e lembrava um pouco Marjorie Main, a falecida estrela dos filmes de Mãe e Pai Chaleira. Ida era uma mulher grande, um pouco carrancuda, mas de coração generoso, e ótima professora.

No feriado do Dia de Ação de Graças, Laura e Chris já estavam adaptados ao isolamento relativo em que viviam. Na verdade, sentiam prazer na união formada entre os dois devido à convivência com poucas pessoas.

No Dia de Ação de Graças Thelma telefonou de Beverly Hills. Laura atendeu na cozinha repleta do aroma de peru assado. Chris estava na sala de televisão, lendo Shel Silverstein.

—        Além de desejar a vocês um bom feriado — disse Thelma —, estou telefonando para convidar os dois a passar os feriados de Natal comigo e Jason.

—        Jason? — perguntou Laura.

—        Jason Gaines, o diretor — disse Thelma. — O cara que está dirigindo meu filme. Estou morando com ele.

—        Ele já sabe?

 —       Escute, Shane, eu faço as piadas.

—        Desculpe.

—        Ele diz que me ama. Será loucura? Quero dizer, puxa, aqui está este cara decente, cinco anos mais velho do que eu, sem nenhuma mutação visível, um diretor de enorme sucesso, que vale milhões, que pode ter qualquer estrela sensacional, e só quer a mim. Obviamente ele tem alguma deficiência mental, mas não se percebe; conversando com ele, a gente acredita que é normal. Diz que ama em mim especial mente meu cérebro...

—        Ele sabe que esse cérebro é doente?

—        Lá vem você outra vez, Shane. Diz que ama meu cérebro e meu senso de humor, e até fica excitado com meu corpo... se não fica, é o primeiro cara na história capaz de fingir uma ereção.

—        Seu corpo é muito bonito.

—        Bem, começo a considerar a possibilidade de que não é tão ruim quanto eu pensava. Isto é, se considerarmos a magreza como sine qua non da beleza feminina. Porém, embora possa olhar para meu corpo no espelho, agora, vejo sempre esta cava. pousada nos ombros.

—        Você tem um rosto perfeitamente adorável... especialmente agora que não está rodeado de cabelo verde e roxo.

—        Não é o seu rosto, Shane. O que significa que é loucura convidar você para passar o Natal conosco. Jason vai conhecer você e logo eu estarei na lata de lixo. Mas, o que me diz? Você vem? Estamos fil mando em Los Angeles e arredores e devemos terminar no dia 10 de dezembro. Então Jason terá muito trabalho, a edição do filme e todas essas coisas, mas na semana de Natal nós paramos. Gostaríamos que vocês estivessem aqui. Diga que vem.

—        Bem que gostaria de conhecer o homem com bastante inteligência para se apaixonar por você, Thelma, mas não sei. Eu... me sinto segura aqui.

—        Pensa que somos perigosos?

—        Você sabe do que estou falando.

—        Pode trazer uma Uzi.

—        O que Jason vai pensar?

—        Eu digo que você é uma esquerdista radical, do grupo salvem as baleias, acabem com os conservantes tóxicos, liberacionista dos pa pagaios e que você carrega sempre uma Uzi para o caso da revolução estourar sem aviso prévio. Ele vai acreditar. Isto é Hollywood, garota.

A maioria dos atores com quem ele trabalha é mais insana do que isso, politicamente.

De onde estava, Laura via Chris na cadeira, lendo. Ela suspirou:

—        Talvez esteja na hora de a gente sair para o mundo uma vez ou outra. E vai ser um Natal difícil se ficarmos sozinhos, o primeiro sem Danny. Mas fico um tanto apreensiva...

—        Já faz mais de dez meses, Laura — disse Thelma suavemente.

—        Mas não vou relaxar a guarda.

—        Não precisa. Falei sério sobre a Uzi. Traga todo seu arsenal se quiser. Mas venha.

—        Bem... nós vamos.

—        Fantástico! Não vejo a hora de você conhecer Jason.

—        Será que estou vendo sinais de que o amor desse insano figu rão de Hollywood é correspondido?

—        Estou louca por ele — admitiu Thelma.

—        Fico feliz por você, Thelma. Estou aqui de pé com um sorriso de orelha a orelha e há muitos meses não me sentia tão bem.

Era tudo verdade. Mas quando desligou, sentiu mais do que nunca a falta de Danny.

 

Depois de ligar o marcador de tempo atrás do arquivo, Stefan foi para o laboratório principal no andar térreo. Eram 12hl4min e como a viagem estava programada para as duas horas, não havia ninguém no portão. As janelas estavam hermeticamente fechadas e quase todas as luzes apagadas exatamente como há pouco mais de uma hora, quando voltou de San Bernardino. Os inúmeros botões, medidores e gráficos iluminados do aparelho cintilavam verdes e cor de laranja. Mais na sombra do que na luz, o portão esperava por ele. Quatro minutos para a explosão.

Stefan foi diretamente ao painel de programa e ajustou os botões e alavancas, preparando o portão para o destino desejado: sul da Califórnia, perto de Big Bear, às oito horas da noite de 10 de janeiro de 1988, algumas horas depois da morte de Danny Packard. Stefan fizera os cálculos necessários há alguns dias e seguia as próprias anotações numa folha de papel, o que permitiu que programasse a máquina em um minuto.

Se pudesse viajar para a tarde do dia 10, antes do acidente e da troca de tiros com Kokoschka, teria feito isso, evitando assim a morte de Danny. Entretanto tinham aprendido que o viajante do tempo não podia revisitar um local onde pode encontrar a si mesmo numa viagem anterior. Podia voltar a Big Bear depois do dia em que deixara Laura, naquela noite de janeiro, pois, já tendo partido para a estrada, não corria o risco de encontrar a si mesmo. Porém, se regulasse o portão para um tempo onde fosse possível se encontrar, simplesmente seria  lançado de volta ao instituto, sem ir a lugar nenhum. Esse era um dos muitos aspectos misteriosos da viagem no tempo que haviam aprendido, mas que não compreendiam.

Quando terminou a programação, verificou o indicador de latitude e longitude, para garantir que chegaria perto de Big Bear. Então olhou para o relógio que marcava sua hora de chegada e sobressaltou-se vendo que indicava oito horas da noite, 10 de janeiro de 1989 e não 1988. O portão estava agora preparado para levá-lo a Big Bear não algumas horas, mas um ano após a morte de Danny.

Stefan tinha certeza de ter feito os cálculos exatos, com calma e precisão, nas duas últimas semanas. Evidentemente, nervoso como estava, havia cometido um engano ao dar entrada nos números. Teria de reprogramar o portão.

Faltavam menos de três minutos para a explosão.

Piscou os olhos protegendo-se do suor e examinou os números no papel, o produto final dos seus cálculos exaustivos. Quando estendeu a mão para a alavanca do controle, a fim de cancelar o programa e modificar os números, ouviu um grito de alarme no corredor. Gritos pareciam partir da ala norte do prédio, na área da sala de documentos.

Alguém havia encontrado os corpos de Januskaya e Volkaw.

Mais gritos. Pessoas correndo.

Olhando nervosamente para a porta que dava para o corredor, Stefan compreendeu que não teria tempo para reprogramar. Voltaria para Laura um ano depois de tê-la deixado.

Com o Colt Commander munido de silenciador na mão direita, Stefan levantou-se da banqueta de programação e foi para o portão — o barril com 2,5m de altura e 3,5m de comprimento, de aço polido, aberto em uma das extremidades sobre blocos de cobre. Não perdeu tempo nem para apanhar sua jaqueta, que estava num canto da sala.

A comoção no corredor aumentava.

Quando estava a poucos passos da entrada do portão, a porta do laboratório se abriu violentamente, batendo na parede, com força.

— Pare aí!

Stefan reconheceu a voz, mas não podia acreditar. Ergueu o revólver e virou para enfrentar o homem: Kokoschka.

Impossível. Kokoschka estava morto. Kokoschka o seguira até Big Bear na noite de 10 de janeiro de 1988 e Stefan o matara naquela estrada coberta de neve.

Atônito, Stefan atirou duas vezes e errou.

Kokoschka atirou. Uma bala atingiu a parte superior esquerda do peito de Stefan, atirando-o para trás, contra a entrada do portão. Ainda de pé, atirou três vezes em Kokoschka, obrigando-o a se proteger, rolando para trás de uma mesa do laboratório.

Faltavam menos de dois minutos para a explosão. Stefan, em choque, não sentia dor. Mas seu braço esquerdo estava paralisado. Uma sombra insistente insinuava-se à sua frente.

Apenas algumas lâmpadas estavam acesas no teto, mas de repente bruxulearam e se apagaram, deixando a sala vagamente iluminada pelos vários mostradores luminosos. Por um momento Stefan pensou que aquilo era um efeito do seu atordoamento, algo subjetivo, mas então compreendeu que o fornecimento de energia da cidade tinha falhado outra vez, evidentemente obra de sabotadores, pois não se ouvia nenhum sinal de ataque aéreo.

Kokoschka atirou duas vezes no escuro, denunciando sua posição, e Stefan deu os três últimos tiros do seu revólver, sabendo que era impossível atingir Kokoschka, escondido atrás da mesa de mármore.

Agradecendo o fato do portão estar ligado ao gerador e em funcionamento, Stefan jogou longe a pistola e com a mão direita segurou o portal em forma de barril. Entrou e se arrastou freneticamente para o ponto três quartos, onde cruzaria o campo de energia, partindo para Big Bear, 1989.

Enquanto se arrastava de joelhos, apoiado no braço direito, no interior escuro do barril, Stefan lembrou que o cronômetro do detonador no seu escritório estava ligado ao sistema de força municipal. A contagem regressiva fora interrompida com o corte de energia.

Stefan compreendeu então que Kokoschka não estava morto em Big Bear em 1988. Kokoschka não fizera aquela viagem ainda. Só agora ele tomava conhecimento da traição de Stefan, quando descobriu os corpos de Januskaya e Volkaw. Antes que o fornecimento de energia fosse restaurado, Kokoschka revistaria o escritório de Stefan, encontraria o detonador e o desarmaria. O instituto não seria destruído. Stefan hesitou, pensando em voltar.

Ouviu outras vozes no laboratório, outros homens da segurança que chegavam para apoiar Kokoschka.

Continuou a se arrastar para dentro do portão. E Kokoschka? O chefe da segurança evidentemente ia viajar para 10 de janeiro de 1988, para tentar matar Stefan na rodovia 330. Mas só ia conseguir matar Danny, antes de ser morto. Stefan tinha certeza de que a morte de Kokoschka era parte imutável do destino, mas precisava estudar melhor os paradoxos da viagem no tempo e verificar se Kokoschka podia evitar a própria morte em 1988, a morte que Stefan já havia testemunhado.

A complexidade da viagem no tempo era bastante confusa, mesmo quando estudada com mente clara. Naquelas condições, ferido e lutando para permanecer consciente, pensar em tudo aquilo o deixava atordoado. Mais tarde. Podia se preocupar com isso mais tarde.    Atrás dele, no laboratório escuro, alguém começou a atirar para o interior do portão, esperando atingi-lo antes que chegasse ao ponto de partida.

Stefan arrastou-se pelos últimos centímetros. Na direção de Laura. Para a vida num tempo distante. Mas havia planejado fechar para sempre a ponte entre a era que deixava e aquela para onde estava indo. Porém o portão ia permanecer aberto. E eles podiam atravessar o tempo e alcançá-lo,.. e a Laura.

 

Laura e Chris passaram o Natal com Thelma e Jason Gaines, em Be-verly Hills. Era uma casa estilo Tudor, com 22 cômodos, num terreno murado de seis acres, uma área imensa onde o preço do acre era absurdamente alto. Durante a construção, nos idos de 1940 — para um produtor de comédias malucas e filmes de guerra —, nada havia sido economizado em termos de qualidade, e o fino trabalho de arquitetura não poderia ser repetido nem por dez vezes o preço pago na época. Havia tetos em caixotão, alguns de carvalho, outros de cobre; cornijas elaboradamente entalhadas; vitrais cinzelados, tão profundamente encaixados nas espessas paredes que era possível sentar confortavelmen-te nos parapeitos das janelas; lintéis interiores decorados com painéis feitos a mão — parreiras e rosas, querubins e flâmulas, gamos saltando, pássaros com fitas coloridas nos bicos; os exteriores eram de gra-nito entalhado e em dois deles havia grupos de frutas de cerâmica no estilo delia Robbia. O terreno em volta da casa era um parque particular muito bem tratado, onde caminhos calçados com pedras percorriam a paisagem tropical de palmeiras, benjaminas, samambaias, fícus nídia, azaléias carregadas de brilhantes flores vermelhas, aves-do-paraíso e flores da estação tão variadas que Laura só conseguiu identificar metade.

Laura e Chris chegaram no começo da tarde de sábado, antes do Natal, e Thelma os levou para um longo passeio pela casa e pelo terreno. Depois tomaram chocolate com folhados em miniatura feitos pelo cozinheiro e servidos pela empregada no solário que dava para a piscina.

— Não é uma vida maluca, Shane? Dá para acreditar que a garota que passou anos em buracos como o Mcllroy e o Caswell esteja morando aqui sem precisar reencarnar-se numa princesa?

A casa era tão imponente que conferia ao seu dono uma Importância com I maiúsculo, e quem a possuísse precisava evitar cuidadosamente uma atitude pomposa ou presunçosa. Mas quando Jason Gaines chegou, às quatro horas, Laura viu que ele nada tinha de pretensioso, o que era de espantar para um homem que há 17 anos trabalhava no cinema. Jason tinha 38 anos, cinco mais do que Thelma. Parecia um Robert Vaugham jovem, o que era muito melhor do que "uma aparência decente" como Thelma havia dito. Meia hora depois de ter chegado, estava numa das salas de jogos com Chris, brincando com o trem elétrico na plataforma de 5x7m, com cidadezinhas, campos, moinhos, cachoeiras, túneis e pontes.

Naquela noite, quando Chris já dormia no quarto ao lado do de Laura, Thelma visitou a amiga. De pijamas, sentaram na cama com as pernas cruzadas, como duas garotas, comendo pistache torrado e tomando champanhe em vez de biscoitos e leite.

— A coisa mais estranha, Shane, é que, apesar da minha origem, sinto que pertenço a este lugar. Não me sinto deslocada.

Não parecia deslocada. Era ainda Thelma Ackerson, mas tinha mudado nos últimos meses. O cabelo tinha um corte e um penteado mais sofisticados; pela primeira vez na vida Thelma estava bronzeada de sol e tinha o porte de uma mulher e não tanto de uma comediante — procurando a aprovação da platéia com cada gesto e atitude. Seu pijama era menos espalhafatoso e mais feminino: justo, de seda creme, não estampada. Mas com "chinelos de coelhinho.

— Chinelos de coelhinho — disse ela — para lembrar quem sou. Não se pode perder a noção de proporção com chinelos de coelhinho, nem perder a perspectiva, nem agir como uma estrela ou uma dama muito rica. Além disso, eles me dão confiança porque são tão bonitos, é como se dissessem: "Nada do que o mundo fizer pode me levar a ser tola e frívola." Se eu morresse e fosse para o inferno, poderia agüentar se estivesse com meus chinelos de coelhinho.

O dia de Natal foi como um sonho maravilhoso. Jason demonstrou ser um idealista com o encantamento de uma criança. Insistiu para que se reunissem em volta da árvore, todos de pijama e roupão, que abrissem os presentes fazendo estalar as fitas sonoramente e rasgando o papel barulhentamente, com a maior dramaticidade possível; insistiu para que cantassem canções de Natal e enquanto abriam os presentes abandonassem a idéia de um saudável café da manhã a favor de biscoitos, balas, nozes, bolo de frutas e pipoca doce. Provou que não estava apenas tentando ser um bom anfitrião quando passou parte da noite anterior com Chris e os trens, pois no dia de Natal brincou o tempo todo com o garoto e era evidente que gostava de crianças e dava-se bem com elas. Na hora do jantar Laura concluiu que Chris tinha se divertido mais num dia do que nos últimos 11 meses.

Quando o acompanhou até a cama naquela noite, ele disse:

—        Um grande dia, não foi, mamãe?

—        Um dos maiores de todos os tempos — concordou ela.

—        Eu só queria — disse Chris sonolento — era que papai estivesse aqui também.

—        É o que eu também queria, meu querido.

—        Mas, de certo modo ele esteve aqui, porque pensei nele o tem po todo. Será que vou me lembrar dele mesmo depois de dezenas e de zenas de anos, mamãe?

—        Eu o ajudarei a se lembrar, meu bem.

—        Porque já existem algumas coisas que não me lembro bem. Te nho de pensar muito para lembrar. Mas não quero esquecer, porque ele era meu pai.

Depois que ele dormiu, Laura foi para seu quarto. Ficou imensamente aliviada quando Thelma apareceu para outra conversa íntima, porque se ficasse sozinha passaria por algumas horas de tristeza.

—        Se eu tiver filhos, Shane — disse Thelma, sentando na cama de Laura —, acha que poderiam viver na nossa sociedade ou seriam banidos para alguma colônia de crianças feias?

—        Não seja boba.

—        É claro que eu poderia pagar uma cirurgia plástica maciça para eles. Quero dizer, mesmo que fossem de uma espécie questionável, poderia transformá-los em seres humanos passáveis.

—        Às vezes sua autodepreciação me deixa furiosa.

—        Desculpe. Atribua ao fato de não ter tido mãe e pai para solidificar minha auto-estima. Tenho a confiança e a dúvida de uma órfã.

— Ficou calada por algum tempo e então disse, rindo: — Ei, quer saber de uma coisa? Jason quer casar comigo. A princípio pensei que ele estivesse possuído por um demônio, sem poder controlar a língua, mas ele garantiu que não precisa de um exorcista, embora evidentemente deva ter sofrido um pequeno derrame. Então, o que você acha?

—        O que eu acho? Que importância tem o que eu acho? Mas na minha opinião Jason é um cara formidável. Você vai agarrá-lo, não vai?

—        Temo que seja bom demais para mim.

—        Ninguém é bom demais para você. Case com ele.

—        E se não der certo, vou ficar arrasada.

—        E se não tentar, vai ficar mais do que arrasada... vai ficar sozinha.

 

 Stefan sentiu o formigamento familiar e desagradável que acompanhava a viagem no tempo, uma vibração especial que penetrava em sua pele, atravessando a carne, chegando à medula dos ossos, voltando depois rapidamente até a superfície. Com um estalido e barulho de sucção,  ele deixou o portão e no mesmo instante descia aos tropeções uma encosta íngreme coberta de neve, nas montanhas, ao sul da Califórnia, na noite de 10 de janeiro de 1989.

Tropeçou, caiu sobre o lado ferido, rolou para o sopé da encosta, parando encostado a um tronco de árvore caído. Pela primeira vez desde que fora atingido, sentiu dor. Com um grito caiu de costas, mordendo a língua para não desmaiar, os olhos piscando na noite tempestuosa. Outro relâmpago cortou o céu e a luz pareceu pulsar no ferimento aberto. Com a luz espectral da terra coberta de neve e dos ferozes e es-pasmódicos clarões dos relâmpagos, Stefan viu que estava numa clareira na floresta. Árvores negras e nuas estendiam os galhos para o céu como fanáticos adorando um deus violento. Pinheiros, os galhos curvados ao peso da neve, eram sacerdotes solenes de uma religião mais decorosa. Chegando num tempo que não era o seu, o viajante perturbava as forças da natureza com imensa dispersão de tremenda energia. Independente do tempo no local da chegada, o desequilíbrio era compensado pelo espetáculo violento de relâmpagos furiosos e cortantes. Por isso a estrada etérea pela qual transitavam os viajantes do tempo era chamada Estrada do Relâmpago. Por motivos ainda desconhecidos, a volta ao instituto, à era do viajante, não era marcada por aquela pirotécnica celeste.

Os relâmpagos diminuíram, como sempre acontecia, passando de descargas apocalípticas a lampejos distantes. Num minuto a noite estava calma outra vez.

Com a diminuição dos relâmpagos, a dor do ferimento aumentou. Era como se as descargas que haviam rasgado o céu estivessem agora dentro do seu peito, do ombro e braço esquerdos, uma força grande demais para ser suportada por um mortal.

Stefan ficou de joelhos e levantou-se trêmulo, temendo não ter forças para sair vivo do bosque. A não ser pelo brilho fosforescente da clareira coberta de neve, a noite estava negra como breu, assustadora. Embora sem vento, o ar estava gelado e Stefan vestia apenas seu avental do laboratório sobre a camisa e a calça.

O que era pior, talvez estivesse a quilômetros de uma estrada ou de qualquer marco que indicasse sua posição. Se o portão fosse visto como um revólver, sua exatidão era notável em termos da distância percorrida no tempo, mas muito imperfeito na pontaria. Geralmente o viajante chegava num espaço de tempo compreendido entre dez ou 15 minutos do calculado, mas nem sempre com essa exatidão geográfica. Às vezes aterrissava a cem metros do local desejado, mas em outras ocasiões, a uma distância de 15 ou vinte quilômetros, como no dia 10 de janeiro de 1988, quando Stefan viajou para salvar Laura, Danny e Chris do acidente com o caminhão dos Robertson.

Em todas as viagens anteriores levara um mapa da área de chegada e uma bússola, para o caso de parar em algum lugar isolado como o que estava agora. Mas desta vez, tendo deixado a jaqueta no canto do laboratório, não tinha mapa nem bússola e o céu encoberto não permitia que achasse o caminho guiando-se pelas estrelas.

A neve chegava quase aos seus joelhos e Stefan estava com sapatos comuns, não de bota. Precisava se movimentar imediatamente, do contrário ficaria pregado ao solo. Examinou a clareira, à procura de inspiração, intuição, e finalmente escolheu um caminho ao acaso, caminhando para a esquerda, à procura de uma trilha de gamos ou outro curso natural que indicasse a saída da floresta.

Todo o lado esquerdo do seu corpo, do pescoço até a cintura, la-tejava de dor. Esperava que a bala que o havia atravessado não tivesse seccionado nenhuma artéria e que a perda de sangue fosse bastante pequena para que pudesse pelo menos chegar até Laura, ver seu rosto que tanto amava, uma vez ainda, antes de morrer.

 

O primeiro aniversário da morte de Danny caiu numa terça-feira e embora Chris não fizesse nenhum comentário a respeito, sabia a importância da data. O garoto nesse dia estava extremamente quieto. Passou a maior parte do tempo brincando com seus Mestres do Universo, na sala de televisão, um brinquedo com imitações vocais de armas laser, clangor de espadas e motores de naves espaciais. Depois deitou na cama, em seu quarto, lendo revistas de quadrinhos. Resistiu aos esforços de Laura para tirá-lo daquele isolamento voluntário, o que talvez tenha sido bom; qualquer tentativa de Laura para parecer alegre não seria verdadeira, e Chris teria ficado mais deprimido vendo que ela tam¬bém lutava para não pensar na grande perda.

Thelma, que havia telefonado alguns dias antes para comunicar seu casamento com Jason Gaines, telefonou outra vez às 7hl5min da¬quela noite, só para conversar, como se não soubesse da importância da data. Laura atendeu no escritório, onde lutava ainda com o livro sombrio no qual estava trabalhando há quase um ano.

—        Ei, Shane, adivinha só! Conheci Paul McCartney! Ele estava em Los Angeles para um contrato de gravação e nos encontramos numa festa na sexta-feira. Quando o vi pela primeira vez estava enfiando um hors d'oeuvre na boca, disse oi, com migalhas nos lábios, e estava gatíssimo. Disse que assistiu a meus filmes, que gostou muito e conversamos... você acredita? Acho que durante vinte minutos, e aos poucos, a coisa mais estranha aconteceu.

—        Você descobriu que estava despindo Paul McCartney enquanto conversava.

—        Bem, ele ainda é bem bonito, você sabe, com aquela carinha de querubim que adorávamos há vinte anos, mas agora marcada pela experiência, três sofisticado e com um atraente toque de tristeza nos olhos, extremamente interessante e encantador. A princípio acho que tive vontade de tirar a roupa dele e viver finalmente minha fantasia. Mas quanto mais conversávamos, menos ele parecia um deus, era uma pessoa, e em minutos, Shane, o mito evaporou, e Paul McCartney era apenas um homem agradável, atraente, de meia-idade. Então, o que acha disso?

—        O que devo achar?

—        Não sei — disse Thelma. — Estou um pouco perturbada. Não acha que uma lenda viva devia continuar a nos encantar com sua magia, pelo menos durante vinte minutos de conversa? Quero dizer, já conheci muitas estrelas e astros e nenhum deles continuou a parecer um deus, mas aquele era Paul McCartney.

—        Bem, se quer minha opinião, a perda rápida do seu status de deus não depõe em nada contra ele, mas diz muita coisa positiva a seu respeito. Você chegou a uma nova maturidade, Ackerson.

—        Isso quer dizer que devo deixar de assistir aos filmes antigos dos Três Patetas nas manhãs de sábado?

—        Os Três Patetas são permitidos, mas pastelões são definitivamente coisas do passado para você.

Quando Thelma desligou, às dez para as oito, Laura sentiu-se melhor, portanto deixou o livro negro e passou para a história infantil sobre Sir Tommy Sapo. Escreveu duas frases apenas e a noite lá fora foi iluminada por um relâmpago cuja luminosidade dava para provocar pensamentos sombrios de holocausto nuclear. O trovão sacudiu a casa de cima a baixo, como se uma imensa bola de ferro dos demolidores tivesse sido lançada sobre ela. Laura levantou-se de um salto, tão surpresa que nem apertou o botão save no computador. Um segundo relâmpago rasgou a noite, transformando os vidros das janelas em telas de televisão e o trovão foi mais forte do que o primeiro.

—        Mamãe!

Voltou-se e viu Chris de pé na porta.

—        Está tudo bem — disse Laura.

O menino correu para ela. Laura sentou na poltrona e pôs o filho no colo.

—        Está tudo bem. Não tenha medo, meu bem.

—        Mas não está chovendo — disse ele. — Por que esses trovões se não está chovendo?

Lá fora continuou a série incrível de relâmpagos e trovões, durante quase um minuto, depois diminuiu. A força foi tão grande que Laura imaginou que de manhã iam encontrar o céu partido, seus grandes pedaços espalhados, como fragmentos de um ovo imenso.

Stefan não tinha andado nem cinco minutos quando teve de parar para descansar, encostado no tronco de um pinheiro, cujos galhos começavam logo acima da sua cabeça. Suava de dor e ao mesmo tempo tremia no frio cortante de janeiro, atordoado demais para ficar de pé, e com medo de sentar e dormir para sempre. Com os galhos molhados do pinheiro gigantesco acima dele e à sua volta, tinha a impressão de estar refugiado sob o manto negro da Morte, de onde jamais sairia.

 

Antes de levar Chris para a cama, Laura fez sundaes para os dois, com sorvete de coco e amêndoa e calda de caramelo. Comeram na mesa da cozinha e a depressão do garoto aparentemente tinha passado. Talvez por marcar o fim daquele aniversário com tanto drama, o fenômeno estranho afastou os pensamentos de morte, levando-o a pensar em coisas maravilhosas e cheias de mistério. Chris conhecia a história do relâmpago que havia atingido o fio de uma pipa, penetrando no laboratório do dr. Frankenstein no antigo filme de James Whale que vira pela primeira vez uma semana atrás, e sabia também do relâmpago que assustara o Pato Donald numa história em quadrinhos, e sabia da noite tempestuosa em A guerra dos dálmaías quando Cruella de Ville ameaçava selvagemente os filhotes.

Quando Laura o acomodou na cama com um beijo de boa-noite, Chris estava quase dormindo e com um sorriso — um meio sorriso — e não com a expressão tristonha que mostrara durante todo o dia. Laura sentou numa cadeira ao lado da cama até o garoto adormecer, embora ele não estivesse mais com medo e não precisasse de sua presença. Ficou simplesmente porque precisava olhar para o filho por algum tempo.

Laura voltou ao escritório às 9hl5min, mas antes de ir até o processador de palavras, parou perto da janela e olhou para o gramado coberto de neve e para o fio negro do caminho de cascalho que levava à estrada distante, e para cima, para o céu escuro, sem estrelas. Algo sobre aqueles relâmpagos a perturbava; não a estranheza, não seu potencial destruidor, mas o fato de que a força sobrenatural e sem precedentes dos relâmpagos e dos trovões parecia de certa forma... familiar. Tinha a vaga lembrança de já ter visto aquele espetáculo em outra ocasião, mas não sabia quando. Era uma sensação estranha, um déjà vu persistente.

Foi até o quarto e verificou o painel de controle de segurança, certificando-se de que estava ligado o alarme de todas as janelas e portas. Tirou de baixo da cama a Uzi com o pente de balas exóticas, muito leves, recobertas com liga de metal. Levou a arma para o escritório e a deixou no chão, ao lado da cadeira.

Antes que Laura tivesse tempo de sentar, a noite foi outra vez cortada por um relâmpago, assustando-a, seguido imediatamente pelo trovão que ela sentiu nos ossos. Outro relâmpago e mais outro iluminaram as janelas, como uma série de rostos fantasmagóricos formados de luz ectoplásmica.

O céu estremecia com abalos cintilantes. Laura correu para o quarto de Chris. Para sua surpresa, embora os clarões e o ruído fossem mais violentos do que antes, o garoto dormia, talvez porque todo aquele barulho fosse parte de um sonho onde os filhotes de dálmatas enfrentavam a tempestade numa de suas aventuras. Dessa vez também não choveu.

Os relâmpagos e trovões logo cessaram, mas a ansiedade de Laura continuou intensa.

Stefan via estranhas sombras negras na escuridão da floresta, coisas que se esgueiravam entre as árvores e espiavam com olhos mais negros do que seu corpos, mas embora sobressaltado e assustado, sabia que não eram reais, apenas fantasmas criados por sua mente cada vez mais desorientada. Continuou a caminhada difícil, enfrentando o frio exterior, o calor interno, as agulhas dos pinheiros, espinhos agudos, o solo gelado que às vezes fugia sob seus pés e, em outras, rodava como o prato de um toca-discos. A dor no braço, peito e ombro era tão intensa que começou a delirar, vendo ratos roendo sua carne dentro do corpo, embora não pudesse compreender como tinham entrado.

Depois de andar a esmo durante quase uma hora — para Stefan pareciam horas, dias, mas não podiam ser dias porque o sol não tinha nascido — chegou ao perímetro da floresta e, na extremidade de um terreno inclinado coberto de relva e neve, ele viu a casa. As luzes podiam ser vistas vagamente em volta das janelas cobertas pelas persianas. Stefan parou sem acreditar, pensando que a casa não era mais real do que as figuras demoníacas que o haviam acompanhado no bosque. Então começou a caminhar para a miragem — talvez não fosse um delírio, afinal.

Dera alguns passos quando o relâmpago cortou a noite, ferindo o céu. Como um chicote, o clarão estalou várias vezes, como que dirigido por um braço extremamente forte.

A sombra de Stefan saltou e se contorceu na neve à sua frente, embora ele estivesse paralisado de medo. Às vezes tinha duas sombras porque o relâmpago desenhava sua silhueta em duas direções. Caçadores bem treinados haviam seguido seu rastro na Estrada do Relâmpago, dispostos a apanhá-lo antes que pudesse avisar Laura.

Olhou para trás, para as árvores. Sob a claridade estroboscópica do céu, as árvores pareciam saltar sobre ele, recuando depois, saltando novamente. Não viu os caçadores.

Quando a luz cessou, Stefan continuou sua caminhada cambaleante na direção da casa. Caiu duas vezes, levantou-se com dificuldade, continuou a andar, certo de que se caísse outra vez, não poderia mais ficar de pé nem gritar com voz capaz de ser ouvida.

Atenta à tela do computador, tentando pensar em Sir Tommy Sapo, mas pensando nos relâmpagos, Laura de repente lembrou onde vira uma tempestade como aquela: no dia em que seu pai inventou Sir Tommy, o dia em que o toxicômano assaltou o armazém, o dia em que vira seu guardião pela primeira vez, no verão em que tinha oito anos.

Endireitou o corpo na cadeira.

Seu coração começou a bater rapidamente, com força.

Relâmpagos com aquela força sobrenatural significavam problemas específicos para ela. Não se lembrava de relâmpagos no dia da morte de Danny, nem quando o guardião apareceu no cemitério, no enterro do seu pai. Mas com uma certeza absoluta que não era capaz de explicar, sabia que o fenômeno que acabava de assistir naquela noite tinha um significado terrível para ela; um presságio nada bom.

Apanhou a Uzi e percorreu o andar superior da casa, verificando as janelas, o quarto de Chris, certificando-se de que tudo estava como devia. Então, desceu para o andar térreo.

Quando entrou na cozinha alguma coisa bateu com um ruído surdo contra a porta dos fundos. Com uma exclamação abafada de surpresa e medo, Laura virou rapidamente para aquela direção apontando a Uzi e quase abriu fogo.

Mas não era barulho de arrombamento. Era uma pancada surda nada ameaçadora, um pouco mais forte do que uma batida comum, repetida duas vezes. Teve a impressão de ouvir uma voz muito fraca, chamando-a.

Silêncio.

Laura aproximou-se cautelosamente da porta e ficou ouvindo durante meio minuto.

Nada.

A porta era um modelo de alta segurança com uma placa de aço entre tábuas de carvalho de 5cm de espessura, portanto não havia perigo de alguém atirar de fora e atingi-la. Ainda assim, Laura hesitou em se aproximar e olhar pelo olho-mágico, porque temia ver outro olho do lado de fora, tentando espiar para dentro. Quando finalmente criou coragem, viu um homem caído no cimento, os braços abertos, como se tivesse caído para trás depois de bater na porta.

Uma armadilha, pensou. Uma armadilha, um truque.

Acendeu os holofotes externos e foi até a janela que ficava acima da mesa de trabalho embutida. Cuidadosamente ergueu uma lâmina  da persiana. O homem deitado lá fora era seu guardião. Seus sapatos e a calça estavam cheios de neve. Vestia o que parecia ser um avental de laboratório manchado de sangue no peito.

Até onde Laura podia ver, não havia ninguém no pátio nem no gramado, mas ela pensou na possibilidade de terem atirado o corpo ali para que saísse da casa. Abrir a porta à noite, naquelas circunstâncias, era loucura.

Mas não podia deixá-lo lá fora. Não o seu guardião. E ainda por cima ferido, talvez morrendo.

Laura apertou o botão de derivação de circuito ao lado da porta, abriu os fechos embutidos e relutantemente saiu para a noite gelada com a Uzi nas mãos. Ninguém atirou. No gramado fracamente iluminado, até a floresta, nada se movia.

Foi até o homem, ajoelhou ao lado dele e pôs os dedos no seu pulso. Estava vivo. Laura ergueu uma das pálpebras do homem ferido. Inconsciente. O ferimento no alto do peito parecia grave, mas não estava sangrando mais.

O treinamento com Henry Takahami e seu programa de exercícios haviam aumentado intensamente a força de Laura, mas não o bastante para erguer o ferido com um braço. Deixou a Uzi ao lado da porta e verificou que não podia erguê-lo nem com os dois braços. Parecia perigoso mover um homem gravemente ferido, mas era mais perigoso deixá-lo ao relento no frio, ainda mais que tudo indicava que alguém o perseguia. Conseguiu arrastá-lo para a cozinha. Com alívio, apanhou a Uzi, trancou a porta e ligou o alarme.

Ele estava assustadoramente pálido e frio, portanto a primeira providência devia ser tirar seus sapatos e meias endurecidos como gelo. Depois de descalçar o pé esquerdo, Laura começou a desatar o cordão do sapato do pé direito e durante todo o tempo ele murmurava numa língua estranha, com palavras confusas demais para serem identificadas, e em inglês, falava sobre explosivos, portões e "fantasmas nas árvores". Laura sabia que ele estava delirando e provavelmente não ia entender suas palavras, mas disse com voz tranqüilizadora:

—        Tudo bem agora, descanse, vai ficar bom; assim que eu tirar seu pé de dentro deste bloco de gelo vou chamar o médico.

A palavra médico o tirou brevemente da confusão. Segurou o braço dela com dedos fracos, fixou em Laura os olhos cheios de medo.

—        Não médico. Sair... Preciso sair...

—        Não está em condição de ir a lugar nenhum — disse ela. — A não ser de ambulância para o hospital.

—        Preciso sair. Depressa. Eles estão chegando... logo vão chegar...

Laura olhou para a Uzi.

—        Quem está chegando?

—        Assassinos — disse ele, ansioso. — Me matar por vingança.

Matar você, matar Chris. Chegando. Agora.

Nesse momento não havia delírio nos seus olhos nem em sua voz. O rosto pálido, molhado de suor, não estava flácido, mas tenso de terror.

Todo seu treinamento de artes marciais e com armas não parecia mais precauções histéricas.

—        Certo — disse ela —, vamos sair logo que eu tiver examinado esse ferimento para ver se precisa de um curativo.

—        Não! Agora. Sair agora.

— Mas...

—Agora — insistiu ele.

Havia tanto pavor no seu olhar que Laura quase acreditou que os assassinos de quem falava não eram homens comuns, mas criaturas sobrenaturais, demônios com a crueldade e a fúria de seres sem alma.

—        Está bem — ela concordou. — Vamos sair agora.

A mão dele largou o braço de Laura. Seus olhos saíram de foco e Stefan começou a murmurar coisas sem nexo.

Enquanto atravessava a cozinha apressadamente para subir e acordar Chris, Laura ouviu seu guardião falar ansiosa e vagamente de "uma grande, negra e rolante máquina de morte", que não significava nada para ela, mas assim mesmo a assustou.

 

UM EXÉRCITO DE SOMBRAS

 Laura acendeu a lâmpada e sacudiu Chris.

—        Vista-se, meu bem. Depressa.

—        O que está acontecendo? — perguntou ele sonolento, esfregando os olhos.

—        Alguns homens maus estão vindo e precisamos sair antes que cheguem. Agora, ande depressa.

Durante aquele ano, além de lamentar a morte do pai, Chris fora preparado para o momento em que os fatos aparentemente tranqüilos do dia-a-dia fossem abalados por outra inesperada explosão do caos que existe no íntimo da existência humana, o caos que uma vez ou outra entra em erupção como um vulcão ativo, como na noite do assassinato do seu pai. Chris viu a mãe tornar-se uma atiradora capaz, viu o arsenal com que ela se armou, aprendeu autodefesa junto com ela e durante todo esse tempo conservou a mente e as atitudes de uma criança, aparentemente igual a todas as outras crianças, embora um tanto tristonho desde a morte do pai. Mas agora, no momento de crise, não reagiu como um garoto de oito anos; não choramingou, não fez perguntas desnecessárias; não ficou de mau humor nem demorou para obedecer. Afastou as cobertas, saiu da cama imediatamente e correu para o armário.

—        Quando terminar desça para a cozinha — disse Laura.

—        Está bem, mamãe.

Laura ficou orgulhosa com aquela reação e certa de que Chris não ia atrasar a partida, mas, ao mesmo tempo, triste por ver um menino de oito anos compreendendo a brevidade e a dureza da vida o bastante para reagir à crise com a rapidez e tranqüilidade de um adulto.

  Laura estava com uma calça jeans e camisa de flanela xadrez. Quando foi até o quarto, vestiu uma suéter de lã, tirou os sapatos fechados, para caminhadas, e calçou botas forradas com borracha, amarradas de cima a baixo.

Desfizera-se das roupas de Danny, portanto não tinha nada para o homem ferido. Mas apanhou dois cobertores no roupeiro do corredor.

Foi até o escritório e tirou do cofre o cinto negro com fivelas de cobre que seu guardião lhe dera um ano atrás, guardando-o na bolsa tipo sacola.

Desceu e parou no armário do hall onde apanhou um casaco azul-celeste e a Uzi que estava dependurada atrás da porta. Enquanto se movia, Laura estava atenta a qualquer ruído diferente — vozes na noite ou o ruído de um motor — mas tudo estava em silêncio.

Na cozinha, pôs a metralhadora portátil na mesa, ao lado da outra, depois ajoelhou perto do seu guardião, que estava outra vez inconsciente. Desabotoou o avental branco molhado de neve, depois a camisa, e examinou o ferimento a bala no peito dele. Era no ombro esquerdo, bem acima do coração, o que era bom, mas perdera muito sangue; sua roupa estava encharcada.

—        Mamãe? — Chris estava na porta, vestido para uma noite de inverno.

—        Apanhe uma daquelas Uzi e a outra que está atrás da porta da despensa e leve as duas para o jipe.

—        É ele — disse Chris arregalando os olhos, surpreso.

—        Sim, é ele. Apareceu aqui assim, muito ferido. Leve dois revólveres também... o que está naquela gaveta e o outro que está na sala de jantar. E tenha cuidado para que não disparem acidentalmente...

—        Não se preocupe, mamãe — disse ele.

Laura virou o homem ferido cuidadosamente de lado — ele gemeu mas não acordou — para ver se tinha um ferimento de saída de bala nas costas. Sim. A bala atravessara o corpo, saindo sob a omoplata. As costas estavam encharcadas de sangue também, mas nenhum dos dois ferimentos sangrava naquele momento; podia haver uma hemorragia interna, que Laura não tinha meios para detectar nem para tratar.

Sob a camisa ele estava usando o cinto. Laura o tirou. Não coube na parte central da sua sacola e ela o guardou na bolsa de fora fechada com zíper, depois de ter colocado os objetos necessários no mesmo compartimento.

Abotoou a camisa do homem, pensando se devia tirar o paletó molhado. Resolveu que ia ser difícil tirar as mangas dos braços inertes. Rolando Stefan de um lado para o outro, conseguiu pôr um cobertor de lã em volta do seu corpo.

Enquanto Laura enrolava o homem ferido no cobertor, Chris fez duas viagens até o jipe carregando as armas, usando a porta interna que levava da lavanderia para a garagem. Voltou então com um pequeno carrinho de sessenta centímetros de largura e 12 de altura — uma plataforma de madeira sobre rodas — deixado por um entregador de móveis há um ano e meio. Levando-o como se fosse um skate, o menino disse:

—        Temos de levar a caixa de munição, mas é pesada demais para mim. Vou levar neste carrinho.

Satisfeita com aquela demonstração de iniciativa e inteligência, Laura disse:

—        Temos 12 balas nos dois revólveres e mil e duzentas nas três Uzi, portanto acho que não vamos precisar mais do que isso, aconteça o que acontecer. Traga o carrinho para cá. Depressa. Estava imaginando como íamos levá-lo até o jipe sem sacudi-lo demais. Essa parece ser a solução.

Moviam-se rapidamente, como se tivessem sido treinados para aquela emergência, mesmo assim Laura achava que estavam demorando demais. Suas mãos tremiam e sentia um frio no estômago, esperando uma pancada na porta a qualquer momento.

Chris segurou o carrinho enquanto Laura passou o homem ferido para ele. Depois de ter colocado o carrinho sob a cabeça, ombros, costas e nádegas do ferido, segurou as duas pernas dele e puxou como se estivesse levando um carrinho de mão. Chris a seguiu, agachado ao lado das rodas da frente, uma mão no ombro direito do ferido para impedir que caísse. Tiveram alguma dificuldade na porta da lavanderia, mas conseguiram chegar até a garagem para três carros.

O Mercedes estava à esquerda, o jipe à direita e a vaga do meio vazia. Levaram o guardião para o jipe.

Chris abriu a porta traseira e estendeu um pequeno tatami no fundo do carro para servir de colchão.

—        Você é um garoto bacana — disse Laura.

Juntos transferiram o ferido para o jipe.

—        Traga o outro cobertor e os sapatos dele que estão na cozinha — ordenou Laura.

Quando o menino voltou, Laura já havia acomodado o guardião de costas sobre o tatami. Cobriram os pés descalços dele com o segundo cobertor e puseram os sapatos molhados ao lado.

Laura fechou a porta traseira do jipe e disse:

—        Chris, entre no jipe e ponha o cinto de segurança.

Ela voltou correndo para a casa. A bolsa com seus cartões de crédito estava sobre a mesa. Laura passou a alça longa pelo ombro. Apanhou a Uzi e voltou pela lavanderia, mas antes de dar três passos alguma coisa bateu na porta dos fundos com violenta força.

Laura girou o corpo rapidamente apontando a Uzi para a porta.

Mais uma vez alguma coisa bateu na porta, mas a placa de aço e os fechos embutidos não cediam facilmente.

Então começou o pesadelo.

Uma metralhadora começou a atirar e Laura foi para o lado da geladeira, abrigando-se ali. Estavam tentando abrir a porta dos fundos com tiros, mas o centro de aço resistiu ao assalto. A porta tremeu e balas atravessaram os lados da armação reforçada, abrinao buracos na parede.

As janelas da sala de televisão e da cozinha explodiram com o impacto dos tiros. As persianas de metal dançavam em suas bases. As placas de metal zumbiam com a passagem das balas, e algumas se do- ' braram, mas a maior parte do vidro partido ficou dentro das persianas, de onde caía para o chão. As portas dos armários se partiam e estalavam, atingidas, e lascas de tijolo voavam de uma parede, enquanto as balas ricocheteavam no exaustor de cobre sobre o fogão, arranhando e amassando o metal. As panelas de cobre dependuradas em ganchos presos no teto, atingidas, produziam sons metálicos diversos. Uma das lâmpadas estourou. A persiana da janela sobre a mesa de trabalho foi arrancada finalmente e uma meia dúzia de balas atingiu a porta da geladeira a poucos centímetros de Laura.

Seu coração disparou e um fluxo de adrenalina aguçava seus sentidos com força quase dolorosa. Queria correr para o jipe e tentar fugir antes que eles percebessem suas intenções, mas um instinto guerreiro primitivo a mandava ficar onde estava. Espremeu o corpo contra o lado da geladeira, fora da linha direta de fogo, esperando não ser atingida por um ricochete.

Quem são vocês?, pensou ela furiosa.

Os tiros cessaram e Laura viu que seu instinto não a enganara. A barragem de balas foi seguida pelos próprios atiradores. Começaram á invadir a casa. O primeiro entrou pela janela sobre a mesa da cozinha. Laura afastou-se da geladeira e abriu fogo, atirando o homem de volta ao pátio. O segundo, vestido de negro como o primeiro, entrou pela porta de correr da sala de televisão — Laura o viu pelo arco da cozinha um segundo antes de ele a ver — e girou a Uzi para ele, espalhando balas, destruindo a máquina de fazer café, quase derrubando a parede da cozinha ao lado do arco de entrada e partindo o assaltante ao meio, antes que ele pudesse virar sua arma para ela. Há algum tempo não treinava com a Uzi e ficou surpresa com a facilidade com que a controlava. Ficou surpresa também com a sensação desagradável de precisar matar alguém, embora estivessem tentando assassinar a ela e seu filho; a náusea a invadiu como uma onda oleosa, mas Laura conteve o vômito que subia na sua garganta. Outro homem começou a entrar na saleta, e Laura estava pronta para matá-lo e a uma centena de outros iguais a ele, por mais que aquilo a enchesse de náusea, mas o homem atirou-se para trás, fora da linha de fogo quando viu o companheiro morto. Agora, o jipe.

Laura não sabia quantos homens havia lá fora, talvez fossem só três, dois mortos, um vivo, talvez quatro, dez ou uma centena, mas de qualquer modo não esperavam aquela reação, aquele poder de fogo, não de uma mulher e um garoto, e sabiam que seu guardião estava ferido e desarmado. Portanto, naquele momento estavam surpresos e sem dúvida procurando se abrigar para avaliar a situação e planejar o movimento seguinte. Podia ser sua primeira e última chance de chegar ao jipe. Correu para a garagem.

Viu que Chris tinha ligado o motor quando ouviu os tiros; a fumaça azulada saía dos canos de escapamento. Quando Laura correu para o jipe, a porta da garagem começou a se levantar; evidentemente Chris tinha usado o controle remoto para abri-la assim que viu a mãe. Quando ela entrou no carro, apenas um terço da porta estava aberta. Laura engatou a primeira. — Abaixe-se!

Chris obedeceu imediatamente, escorregando no banco para o fundo do jipe. Laura soltou o freio. Levou o acelerador até o fundo, descascou os pneus no concreto e saiu para a noite, passando a dois ou três centímetros da porta, arrancando a antena do rádio.

Os grandes pneus do jipe, embora sem correntes, eram próprios para neve. Enfiados na neve congelada e no cascalho que formava a superfície da entrada de carros da casa, encontravam tração com facilidade, cuspindo granadas de pedra e gelo.

Um vulto escuro, um homem vestido de negro, apareceu correndo à esquerda, atravessando o gramado, chutando neve, a uns 12 ou 13 metros do jipe, uma forma amorfa que podia ser apenas uma sombra, a não ser pelo espocar da metralhadora que abafava o ronco do motor. Balas atingiram o lado do carro e a janela atrás de Laura explodiu, mas a lateral estava intacta, e agora estava saindo do alcance deles, ganhando velocidade, a alguns segundos da segurança, com o vento sibilando pela janela quebrada. Laura rezava para que nenhum dos pneus fosse atingido e ouvia as balas no metal do jipe, ou talvez fossem as pedras e o gelo espirrados pelas rodas.

Quando chegou à estrada no fim da trilha de cascalho, ficou certa de que estava fora do alcance dos tiros. Apertou o freio para fazer a curva fechada para a esquerda, olhou pelo retrovisor e viu ao longe os faróis acesos na porta da garagem. Os assassinos haviam chegado a pé — só Deus sabia como tinham viajado, talvez por meio daqueles  estranhos cintos — e agora iam usar seu Mercedes para persegui-los.

A intenção de Laura era entrar à esquerda na estrada, passar por Running Springs, além da entrada para o lago Arrowhead e seguir na estrada principal até a cidade de San Bernardino, onde havia gente e segurança, onde homens vestidos de negro com armas automáticas não poderiam surpreendê-la com facilidade e onde poderia conseguir assistência médica para seu guardião. Mas quando viu os faróis lá atrás, respondeu a um instinto inato de sobrevivência e entrou à direita na estrada, seguindo para leste-nordeste na direção do lago Big Bear.

Se tivesse entrado à esquerda chegariam ao ponto fatal, àquela subida da estrada onde Danny fora assassinado; e por intuição, Laura sentia — quase por superstição — que o lugar mais perigoso para eles naquele momento era aquela parte inclinada da estrada, com duas pistas de asfalto. Ela e Chris haviam corrido perigo de vida duas vezes naquele trecho; primeiro quando o caminhão dos Robertson derrapou descontrolado; depois, quando Kokoschka começou a atirar neles. Às vezes Laura compreendia que havia padrões benignos e malignos na vida e, quando impedidos de se realizar, o destino procurava fazer com que o padrão fosse obedecido de outro modo. Embora sem poder provar logicamente que morreriam se fossem para Running Springs, no íntimo estava certa de que a morte os esperava naquele lugar.

Quando entraram na estrada, seguindo para Big Bear, com as árvores altas erguendo-se escuras nos dois lados, Chris sentou no banco e olhou para trás.

—        Eles estão vindo — disse Laura —, mas não vão nos alcançar.

—        São os mesmos que mataram papai?

—        Sim, acho que são. Mas naquele dia não sabíamos nada sobre eles e não estávamos preparados.

O Mercedes estava agora na estrada, a maior parte do tempo fora da vista de Laura, por causa das curvas, subidas e descidas. O carro parecia estar a uns duzentos metros, mas provavelmente diminuindo a distância porque tinha um motor maior e muito mais possante.

—        Quem são eles? — perguntou Chris.

—        Não tenho certeza, meu bem. E não sei por que querem nos fazer mal. Mas sei o que eles são. São assassinos, são lixo. Aprendi tudo sobre esse tipo de gente há muito tempo em Caswell Hall, e sei que a única coisa a fazer é enfrentá-los, lutar, porque eles só respeitam isso.

—        Você foi legal lá em casa, mamãe.

—        Você também foi legal paca, garotão. Foi muita esperteza ligar o motor do jipe quando ouviu os tiros e abrir a garagem logo que cheguei. Isso provavelmente nos salvou.

Atrás deles o Mercedes estava agora a uns cem metros. Era um 420 SEL devorador de distâncias, que se portava muito melhor do que o jipe na estrada.

—        Estão vindo depressa, mamãe.

—        Eu sei.

—        Muito depressa.

Aproximando-se da ponta leste do lago, Laura viu-se atrás de uma pickup Dodge muito velha, com uma lâmpada traseira quebrada e o pára-choque que parecia pregado com adesivos com frases supostamente engraçadas — EU PARO PARA LOURAS, CARRO DO PESSOAL DA MÁFIA. O calhambeque ia a 50km/h, abaixo do limite de velocidade. Se Laura hesitasse, o Mercedes diminuiria a distância e quando estivessem perto os assassinos na certa começariam a atirar. Era um trecho de ultrapassagem proibida, mas Laura avistava o bastante para tentar; passou a pickup pela esquerda e depois, acelerando, voltou à faixa da direita. À sua frente estava agora um Buick, a mais ou menos 65km/h. Ela o ultrapassou também, um pouco antes de começarem as curvas fechadas que impediriam o Mercedes de passar pelo Dodge. — Ficaram presos lá atrás! — disse Chris. Laura estava a 90km/h, uma velocidade excessiva para algumas curvas, mas conseguiu controlar o carro e esperava escapar. Mas na estrada havia uma bifurcação para o lago; nem o Buick, nem o Dodge seguiram para a cidade de Big Bear. Os dois carros entraram na estrada para Fawnskin e da praia do norte, deixando o espaço vazio entre o jipe e o Mercedes, que imediatamente começou a se aproximar.

Havia casas em todo o trajeto agora, tanto na encosta, à direita, quanto no vale, à esquerda. Algumas estavam fechadas, provavelmente casas de férias, só usadas nos fins de semana e no verão, mas as luzes das outras eram visíveis entre as árvores.

Laura sabia que podiam entrar em qualquer uma daquelas trilhas e chegar a uma casa onde seriam acolhidos. As pessoas abririam a porta sem hesitação. Não estavam na cidade; naquele ambiente de cidade pequena, nas montanhas, ninguém suspeitava de visitantes noturnos não esperados.

O Mercedes estava a uns cem metros e o motorista começou a piscar os faróis, como se estivesse dizendo alegremente: Ei, aqui vamos nós, Laura, vamos pegar você, somos os bichos papões, os verdadeiros, e ninguém pode fugir de nós para sempre, aqui vamos nós, aqui vamos nós.

Se ela tentasse refugiar-se em uma das casas próximas, os assassinos provavelmente a seguiriam, e iam matar não só Laura e Chris mas as pessoas que os acolhessem. Os miseráveis talvez hesitassem em persegui-la de perto no centro de San Bernardino ou Riverside, ou até mesmo em Redlands, onde podiam ser detidos pela polícia, mas não se intimidariam com um punhado de testemunhas porque, não importava quantas pessoas eles matassem, podiam escapar apertando os botões amarelos nos seus cintos e desaparecer como seu guardião tinha desaparecido um ano atrás. Laura não tinha a menor idéia do lugar para onde iam, mas suspeitava que lá não seriam tocados pela polícia. Não queria arriscar vidas inocentes, por isso passou pelas casas sem diminuir a velocidade.

O Mercedes estava a uns cinqüenta metros, diminuindo a distância rapidamente.

—        Mamãe...

—        Estou vendo, meu bem.

Laura estava indo para a cidade de Big Bear, mas infelizmente o lugar não condizia com o nome. Era menor que uma cidade, menor que uma vila, apenas um pequeno povoado. Não tinha ruas onde pudesse despistar os perseguidores e o número de policiais não era suficiente para deter um par de fanáticos com metralhadoras.

Poucos carros passavam por eles em sentido contrário, e Laura ficou atrás de um carro, um Volvo cinzento, e fez a ultrapassagem num trecho sem nenhuma visibilidade da estrada à sua frente, mas não tinha escolha, porque o Mercedes estava a quarenta metros do jipe. Os assassinos passaram também o Volvo, com a mesma imprudência.

—        Como vai nosso passageiro? — perguntou Laura.

Sem abrir o cinto de segurança, Chris virou para trás.

—        Parece que está bem, eu acho. Sacudindo à beca.

—        Não posso evitar.

—        Quem é ele, mamãe?

—        Não sei muita coisa sobre ele — respondeu Laura. — Mas quando sairmos desta encrenca, vou contar o que sei. Não contei antes por que... acho que eu não sabia o que estava acontecendo, e tinha medo de que fosse perigoso para você saber alguma coisa a respeito dele. Mas não podia ser mais perigoso do que isto, certo? Assim, vou contar tudo mais tarde.

Se houver um mais tarde.

Quando já havia percorrido dois terços do caminho que seguia a margem sul do lago, com o jipe a toda velocidade, o Mercedes a 35 metros de distância, Laura viu a entrada para as montanhas. Era um caminho que atravessava as montanhas, passando por Clark's Sum-mit, 16 quilômetros de estrada que cortava caminho, evitando os cinqüenta ou setenta quilômetros da rodovia 38, e que levava à rodovia de pista dupla ao sul, perto de Barton Flats. Laura lembrava que o desvio era asfaltado no começo e no fim, com nove ou dez quilômetros de terra no meio. Ao contrário do jipe, o Mercedes não tinha tração nas quatro rodas; tinha pneus para neve, mas sem correntes. Os homens no Mercedes provavelmente não conheciam o desvio, ignorando que teriam de passar por uma estrada de terra coberta de gelo e, em alguns lugares, cheia de neve.

—        Segure firme! — disse para Chris.

Laura só usou os freios no último momento, virando para a direita com tanta velocidade que o jipe deslizou para o lado com um chiado dos pneus. O carro estremeceu, como um cavalo velho obrigado a um salto perigoso.

O Mercedes entrou melhor na curva, embora o motorista tivesse sido apanhado de surpresa. À medida que subiam para uma área mais isolada, a distância entre os dois carros diminuiu, chegando a trinta metros.

Vinte e cinco. Vinte.

Reflexos de relâmpagos, como galhos cobertos de espinhos, cortavam o céu ao sul. Não estavam tão próximos quanto os do começo da noite, mas o bastante para transformar a noite em dia. Superando o som do motor, ouvia-se o rugido do trovão.

Olhando atônito para os sinais de tempestade, Chris disse:

—        Mamãe? O que é isso? O que está acontecendo?

—        Não sei — disse Laura, em voz muito alta para ser ouvida acima da cacofonia do motor e do céu que parecia em chamas.

Laura não ouviu os tiros, apenas o impacto das balas no metal do jipe, uma delas atravessando o pára-brisa traseiro e atingindo as costas do banco; Laura ouviu e sentiu o impacto. Começou a girar a direção de um lado para o outro, dificultando a pontaria dos assassinos, o que a deixou atordoada à luz intermitente dos relâmpagos. Tinham parado de atirar ou estavam errando todos os tiros agora. Porém, o movimento ondulante diminuía a velocidade do jipe e o Mercedes aproximava-se cada vez mais.

Laura tinha de usar os espelhos laterais e não o retrovisor central. Embora a maior parte do pára-brisa traseiro estivesse intacta, o vidro parecia uma teia cerrada, translúcida e inútil.

Quinze metros, dez.

Ao sul os relâmpagos e trovões cessaram, como antes.

Laura chegou ao alto de uma subida e viu que o asfalto terminava no meio da descida à sua frente. Parou de girar a direção e acelerou. Quando o jipe saiu do asfalto, vibrou por um momento, como que surpreso com a mudança, mas depois continuou firme na estrada de terra congelada com trechos cobertos de neve. Aos solavancos passaram por um pequeno vale ladeado de árvores e começaram a subir a colina próxima.

Nos espelhos laterais Laura viu o Mercedes atravessar o vale e começar a subir atrás dela. Mas quando chegou no fim da subida, o carro perseguidor começou a falhar. Deslizou de lado, os faróis desviando-se do jipe. O motorista virou a direção para o lado oposto ao da derrapagem, exatamente o que não devia fazer. Os pneus do Mercedes giravam sem sair do lugar. O grande carro deslizou de lado e para trás por uns vinte metros, até a roda direita dianteira cair na vala ao lado da estrada; os faróis ficaram em posição oblíqua, atravessados na estrada de terra.

—        Eles encalharam! — disse Chris.

—        Vão levar meia hora para se livrar — acrescentou Laura.

O jipe continuou seu caminho, descendo a colina na estrada da montanha.

Embora tivesse escapado, Laura não sentiu alegria nem alívio, mas medo. Tinha um pressentimento de que não estavam a salvo ainda e aprendera a confiar no seu instinto desde aquela noite, vinte anos antes, quando pressentiu que o Enguia iria ao quarto onde ia dormir sozinha, no topo da escada do Mcllroy, a noite em que de fato ele havia deixado uma bala sob seu travesseiro. Afinal, intuições eram mensagens do subconsciente, que funcionava freneticamente o tempo todo, processando informação não percebida pelo consciente.

Alguma coisa estava errada. Mas, o quê?

Faziam menos de 35km/h naquela trilha estreita, sinuosa, esburacada e coberta de gelo. Durante algum tempo a estrada acompanhou uma serra rochosa sem árvores, depois desceu pela encosta da montanha até o fundo de um desfiladeiro paralelo, onde o arvoredo era tão espesso, nos dois lados, que a luz dos faróis, ricocheteando nos troncos, parecia revelar falanges de pinheiros tão sólidas quanto muros de madeira.

Na parte de trás do jipe, seu guardião murmurava incoerentemente no delírio da febre. Laura preocupava-se com ele e gostaria de ir mais depressa, mas não ousava.

Chris ficou em silêncio durante os cinco primeiros quilômetros depois de perderem de vista os perseguidores. Finalmente, disse:

—        Lá em casa... você matou algum deles?

Laura hesitou.

—        Sim. Dois.

—        Ótimo.

Perturbada com o tom de sombrio prazer daquela palavra, Laura disse:

—        Não, Chris, não é bom matar. Fiquei doente.

—        Mas eles mereciam morrer — respondeu ele.

—        Sim, mereciam. Mas isso não significa que seja agradável matá- los. Não é. Não há nenhuma satisfação. Apenas... desgosto por ter de fazer isso. E tristeza.

  —      Eu queria ter matado um deles — disse Chris com raiva fria e intensa, perturbadora num garoto daquela idade.

Laura olhou rapidamente para o filho. Com o rosto desenhado pelas sombras e pela pálida luz amarela do painel, parecia muito mais velho e Laura teve uma rápida visão do homem que ia ser.

Quando o solo no fundo do desfiladeiro tornou-se rochoso demais, a estrada subiu outra vez, seguindo uma plataforma na encosta.

Laura estava atenta à trilha primitiva.

—        Meu querido, precisamos conversar sobre isso longamente mais tarde. Agora quero que ouça com atenção e procure entender. Existem muitas filosofias más no mundo. Sabe o que é filosofia?

—        Mais ou menos. Não... acho que não.

—        Então, digamos que muita gente acredita em coisas que não são boas para se acreditar. Mas há duas coisas que diferentes tipos de pessoas consideram piores, mais perigosas, as mais erradas de todas.

Algumas pessoas acreditam que o melhor meio de resolver um problema é a violência: espancam ou matam quem não concorda com elas.

—        Como esses caras que estão atrás de nós.

—        Isso mesmo. Evidentemente são desse tipo. É um pensamento perigoso porque a violência gera violência. Além disso, se resolvermos nossas diferenças com uma arma não pode haver justiça, nenhum mo mento de paz, nenhuma esperança. Está entendendo?

—        Acho que sim. Mas qual é o outro pior modo de pensar?

—        Pacifismo — disse ela. — Exatamente o oposto do primeiro tipo de pensamento prejudicial. Os pacifistas acreditam que nunca de vemos erguer a mão contra outro ser humano, não importa o que ele faça ou o que pretenda fazer. Se um pacifista está ao lado do irmão e vê um homem que vai matar o irmão, avisa o irmão, mandando-o fugir, mas não apanha uma arma para deter o assassino.

—        Ele deixa o cara ir atrás do irmão? — perguntou Chris, atônito.

—        Deixa. Se acontecer o pior, prefere deixar que o irmão seja assassinado a violar os próprios princípios e tornar-se um assassino.

—        Isso é maluquice.

Deram a volta no fim do desfiladeiro e a estrada começou a descer para outro vale. Os galhos dos pinheiros, muito baixos, raspavam a capota do jipe; blocos de neve caíam no capô e no pára-brisa.

Laura ligou os limpadores de pára-brisa e inclinou-se sobre a direção, usando a mudança na estrada como pretexto para não falar, até imaginar um modo de esclarecer melhor seu ponto de vista. Tinham enfrentado muita violência naquela última hora; sem dúvida, mais violência os esperava e ela temia que Chris criasse uma atitude prejudicial a respeito de tudo aquilo. Não queria que ele considerasse armas e músculos como substitutos aceitáveis da razão. Por outro lado, não queria  que fosse traumatizado pela violência e passasse a temê-la, até mesmo à custa da dignidade e da sobrevivência. Finalmente ela disse:

—        Alguns pacifistas são covardes disfarçados, mas outros acre ditam realmente que é direito permitir o assassinato de um inocente em vez de matar para evitá-lo. Estão errados porque, não lutando contra o mal, tornam-se parte dele. São tão culpados quanto o que puxa o gatilho. Talvez isso seja demais para a sua cabeça agora, e talvez tenha de pensar muito para compreender, mas é importante saber que há um modo de vida que fica no meio, entre assassinos e pacifistas. Você tenta evitar a violência. Jamais a provoca. Mas se alguém age com violência, você se defende, e aos seus amigos, sua família, quem estiver em apuros. Quando tive de matar aqueles homens, eu me senti mal. Não sou heroína. Não me orgulho de ter matado duas pessoas, mas também não me envergonho. Não quero que se orgulhe de mim por isso, nem pense que senti alguma satisfação, que a vingança me faz sentir melhor sobre a morte do seu pai. Não faz.

Ele ficou calado.

—        O que estou dizendo é demais para você?

—        Não. Só que tenho de pensar por algum tempo — disse Chris.

— Neste momento acho que estou pensando errado. Porque eu queria que estivessem mortos, todos que tiveram alguma coisa a ver com... o que aconteceu com papai. Mas vou pensar, mamãe. Vou tentar ser uma pessoa melhor.

Laura sorriu:

—        Eu sei que vai Chris, sei que vai.

Durante a conversa com Chris e nos momentos de silêncio depois dela, Laura continuou a se torturar com a impressão de que ainda não estavam livres do perigo iminente. Haviam percorrido uns 12 quilômetros na estrada da montanha e faltavam talvez uns dois quilômetros de estrada de terra e uns três de asfalto, antes de chegarem à rodovia 38. Quanto mais o tempo passava, mais Laura se convencia de que estava esquecendo de alguma coisa e que mais problemas os esperavam.

Parou de repente na lombada de outra cordilheira, um pouco antes da estrada começar a descer novamente — pela última vez — na direção das terras baixas. Desligou o motor e os faróis.

—        O que aconteceu? — perguntou Chris.

—        Nada. Preciso pensar, dar uma espiada no nosso passageiro.

Saiu do jipe e abriu a porta traseira, cujo vidro fora atingido por uma bala. Pedaços de vidro caíram no chão a seus pés. Laura subiu na parte de trás e verificou o pulso do homem ferido. Estava fraco ainda, talvez um pouco mais fraco do que antes, mas regular. Pôs a mão   na testa dele; não estava fria; ele parecia estar fervendo por dentro. Pediu a Chris a lanterna que estava no porta-luvas. Puxou os cobertores para ver se ele estava sangrando mais do que quando o haviam colocado no jipe. O ferimento parecia grave, mas não havia muito sangue, apesar dos solavancos do carro. Tornou a cobri-lo, devolveu a lanterna para Chris, saiu do jipe e fechou a porta traseira.

Laura acabou de quebrar o pára-brisa de trás, bem como da pequena janela traseira do lado do motorista. Completamente sem vidro, a avaria não era tão evidente e talvez não atraísse a atenção de um policial ou de qualquer outra pessoa.

Durante algum tempo ela ficou parada no frio, ao lado do carro, olhando para a floresta escura, tentando forçar uma conexão entre instinto e razão. Por que tinha tanta certeza de que estava indo ao encontro de mais problemas e que a violência daquela noite não havia terminado?

As nuvens esgarçavam-se com a força do vento de grande altitude que as levava para leste, um vento que não tinha ainda chegado ao solo, onde o ar estava estranhamente parado. A luz da lua abria caminho entre os farrapos de nuvens, iluminando fantasmagórica a paisagem coberta de neve de colinas e mais colinas, árvores cobertas pelo negror da noite e formações rochosas.

Laura olhou para o sul onde mais alguns quilômetros de estrada os levariam à 38 e tudo parecia calmo. Olhou para o leste, oeste, depois para o norte, de onde tinham vindo, e em todos os lados, nas montanhas de San Bernardino, não havia sinal de habitação humana, nem uma luz, e tudo parecia existir na pureza e na paz das eras primitivas.

Fazia a si mesma as perguntas que tinham sido parte do seu diálogo interior naquele último ano e dava as mesmas respostas. De onde vinham os homens com os cintos? De outro planeta, outra galáxia? Não. Eram tão humanos quanto ela. Então, talvez viessem da Rússia. Talvez os cintos agissem como transmissores de matéria, aparelhos parecidos com a câmara de teletransporte daquele velho filme, A mosca da cabeça branca. Isso explicaria o sotaque do seu guardião... se fosse teletransportado da Rússia... mas não explicava por que não tinha envelhecido nada durante um quarto de século; além disso, Laura não acreditava que a União Soviética ou qualquer outro país tivesse aperfeiçoado os transmissores de matéria naqueles últimos vinte anos. Assim, só restava a viagem no tempo.

Há alguns meses Laura considerava essa possibilidade, embora sem confiança suficiente na sua análise para mencioná-la para Thelma. Mas se o guardião estava entrando em sua vida nos momentos de crise por meio de viagens pelo tempo, podia fazer essas viagens no espaço de um mês ou uma semana do seu tempo, enquanto muitos anos estariam  passando para ela, por isso não parecia ter envelhecido. Enquanto não fosse possível interrogá-lo e saber a verdade, a teoria da viagem no tempo era a única com a qual podia operar. Seu guardião tinha viajado de algum mundo futuro; e evidentemente era um futuro pouco agradável, porque quando falou sobre o cinto ele disse: "Você não vai querer ir para onde ele a levará", e havia nos seus olhos uma expressão sombria e terrível. Laura não podia imaginar por que um viajante do tempo viria do futuro para protegê-la, a ela, entre tantas pessoas, de viciados assaltantes e caminhões descontrolados, e não tinha tempo para pensar nas possibilidades.

A noite estava quieta, escura e fria.

Estavam caminhando diretamente para uma encrenca.

Laura sabia, mas não podia dizer o que era nem de onde viria.

Quando voltou para o jipe, Chris disse:

—        E agora, o que está acontecendo?

—        Você é louco por Jornada nas estrelas, Guerra nas estrelas, e esse negócio todo, talvez seja o especialista que preciso para escrever um livro. Você é meu especialista para assuntos estranhos.

O motor estava desligado e o interior do jipe iluminado só pelo luar encoberto pelas nuvens. Mas Laura via bem o rosto de Chris porque naqueles minutos fora do carro seus olhos haviam se adaptado à noite. O menino olhou para ela intrigado.

—        Do que está falando?

—        Chris, como eu disse antes, vou contar tudo que sei sobre o homem que está deitado ali atrás, sobre seus outros estranhos aparecimentos na minha vida, mas não temos tempo para isso agora. Por isso, não me sufoque com perguntas, certo? Porém, suponhamos que meu guardião... é assim que o chamo porque ele me protegeu de coisas terríveis, sempre que foi possível... suponhamos que ele seja um via jante no tempo, vindo do futuro. Vamos imaginar que não vem numa grande máquina desajeitada, mas por meio de um cinto que ele usa sob a roupa, e que se materializa no ar quando chega aqui, do futuro.

Está acompanhando meu raciocínio?

Chris olhava para ela arregalado.

—        É isso que ele é?

—        Pode ser, sim.

O menino desafivelou o cinto de segurança e ajoelhou no banco para olhar o homem deitado no compartimento de carga do jipe.

—        Santa merda!

—        Dadas as circunstâncias pouco comuns — disse ela —, vou ignorar sua linguagem.

Chris olhou para ela encabulado.

—        Desculpe. Mas, um viajante do tempo!

  Se Laura estivesse zangada, sua zanga teria se dissipado pois viu nele uma urgência, a excitação infantil, a capacidade para se maravilhar que não via há um ano, nem mesmo no Natal, quando Chris tinha se divertido tanto com Jason Gaines. A perspectiva de conhecer um viajante do tempo o enchia de ânsia da aventura e de alegria. Essa era uma das coisas esplêndidas da vida: cruel mas também misteriosa, repleta de maravilhas e de surpresas; às vezes as surpresas eram tão magníficas que podiam ser chamadas de milagres, e testemunhando esses milagres, uma pessoa deprimida podia encontrar motivo para viver, um cínico podia encontrar o alívio para o tédio e um garoto profundamente ferido podia encontrar a vontade de se curar, o remédio para sua melancolia.

—        Muito bem, suponhamos que quando ele quer voltar ao seu tempo aperte um botão no cinto especial — disse Laura.

—        Posso ver o cinto?

—        Mais tarde. Lembre-se, você prometeu não fazer muitas perguntas agora.

—        Está bem — Chris olhou outra vez para o guardião, depois sentou no banco, prestando atenção ao que a mãe dizia. — Quando ele aperta o botão, o que acontece?

—        Ele desaparece.

—        Puxa! E quando ele chega do futuro, apenas aparece sem mais nem menos?

—        Não sei. Nunca o vi chegar. Mas acho que, por algum motivo, há relâmpagos e trovões.

—        Os relâmpagos desta noite!

—        Sim, mas não é sempre. Tudo bem. Vamos supor que ele volte no tempo para nos ajudar, nos proteger contra certos perigos...

—        Como o caminhão na estrada.

—        Não sabemos por que ele quer nos proteger, só saberemos quando ele nos contar. De qualquer modo, suponhamos que outras pessoas do futuro não querem que ele nos proteja. Não podemos entender seus motivos também. Mas um deles era Kokoschka, o homem que atirou no seu pai...

—        E os caras que assaltaram nossa casa esta noite — disse Chris — também são do futuro.

—        Acho que sim. Queriam matar meu guardião, você e eu. Mas nós matamos alguns deles e deixamos dois atolados com o Mercedes.

Assim... o que eles farão agora, garoto? Você é o especialista das coi sas estranhas. Tem alguma idéia?

—        Deixe-me pensar.

O luar opaco refletia-se no capo sujo do jipe.

O interior do carro estava ficando frio; a respiração dos dois era  feita de plumas geladas, e as janelas começavam a se embaçar. Laura ligou o motor, o aquecimento, o descongelador, mas não os faróis.

—        Bem — disse Chris —, a missão deles falhou, portanto não vão ficar por aqui. Vão voltar para o futuro de onde vieram.

—        Aqueles dois caras no nosso carro?

—        Isso mesmo. Provavelmente já apertaram os botões dos cintos dos caras que você matou e mandaram os corpos para o futuro, e agora não deve ter nenhum cadáver na nossa casa, nenhuma prova de que os viajantes do tempo estiveram aqui. Só talvez um pouco de sangue.

Assim, quando os outros dois ficaram atolados na vala, provavelmente desistiram e foram para casa.

—        Então não estão mais lá atrás, no Mercedes? Não iriam a pé até Big Bear para roubar um carro, talvez, e tentar nos encontrar?

—        Nada disso. Seria muito difícil. Quero dizer, eles têm um meio mais fácil de nos encontrar sem andar por aí à nossa procura como fariam bandidos comuns.

—        Que meio é esse?

O menino franziu a testa e olhou para fora, para a neve, o luar e a escuridão.

—        Veja só, mamãe, assim que nos perderam, apertaram os botões nos cintos, voltaram para o futuro e depois fizeram uma nova viagem ao nosso tempo para armar outra emboscada. Sabem que estamos nesta estrada. Então, o que eu acho que fizeram foi outra viagem ao nosso tempo, mais cedo, esta noite, e prepararam uma armadilha na outra extremidade desta estrada, e agora estão lá à nossa espera. É isso, é lá que eles estão! Aposto que é lá que eles estão!

—        Mas por que não chegaram mais cedo esta noite, mais cedo do que na primeira vez e nos atacaram em casa, antes do meu guardião aparecer para nos avisar?

—        Paradoxo — disse o garoto. — Sabe o que quer dizer isso?

Era uma palavra complexa demais para um menino daquela ida de, mas Laura respondeu:

—        Sim, eu sei o que é um paradoxo. Uma coisa autocontraditória mas possivelmente verdadeira.

—        Veja só, mamãe, o mais formidável é que a viagem no tempo está cheia de paradoxos. Coisas que não poderiam ser verdadeiras, que não deviam ser reais... mas que talvez sejam. — Agora ele falava com o entusiasmo com que costumava descrever as cenas dos seus filmes fantásticos favoritos e das suas histórias em quadrinhos, um entusiasmo mais intenso do que nunca, provavelmente porque não era uma história mas a realidade, mais extraordinária que a ficção. — Assim como se você voltasse no tempo e se casasse com seu avô. Aí você ia ser sua própria avó. Se fosse possível a viagem no tempo, talvez pudesse fazer isso... mas aí, como você podia ter nascido, se sua verdadeira avó nunca se casou com seu avô? Paradoxo! Ou se você voltasse no tempo e conhecesse sua mãe quando ela era pequena e acidentalmente a matasse? Você deixava de existir, pop!,  como se nunca tivesse nascido? Mas se você deixasse de existir... então como podia ter voltado no tempo? Paradoxo! Paradoxo!

Olhando para ele na escuridão pintada de luar, do interior do jipe, Laura via um menino diferente daquele que conhecia. É claro que sabia da fascinação de Chris pelas histórias da era espacial, que pareciam preocupar a maioria das crianças, independente da idade. Mas até então nunca tinha visto o interior daquela mente criada por essas influências. Evidentemente as crianças do fim do século XX não só tinham uma vida interior mais rica em fantasia do que a das crianças de qualquer outra época da história, como também pareciam ter adquirido dessas fantasias algo não fornecido por fadas, duendes e fantasmas, que haviam entretido gerações de crianças antes: a capacidade para pensar em conceitos abstratos como espaço e tempo de um modo muito além das suas idades intelectuais e emocionais. Laura tinha a estranha sensação de estar falando com um garoto e com um cientista de foguetes que existiam no mesmo corpo.

Um tanto confusa, Laura disse:

—        Então... como não conseguiram nos matar em sua primeira viagem esta noite, por que não fizeram outra viagem mais cedo, para nos matar antes que meu guardião nos avisasse?

—        Olhe aqui, seu guardião já apareceu no curso do tempo para nos avisar. Assim, se eles voltassem antes de ele ter avisado... como podíamos ter sido avisados, para começar, e como podíamos estar aqui agora, vivos? Paradoxo!

Chris riu e bateu palmas como um duende satisfeito com algum efeito colateral de um encantamento.

Contrastando com o bom humor do filho, Laura estava ficando com dor de cabeça, tentando entender as complexidades de tudo aquilo.

Chris disse:

—        Muita gente acha que a viagem no tempo é impossível por causa de todos esses paradoxos. Mas muita gente acha que é possível desde que a viagem ao passado não crie um paradoxo. Então, se isso é verdade, os assassinos não podem voltar para um tempo antes daquele da primeira viagem porque dois deles foram mortos. Não podem voltar porque estão mortos e isso seria um paradoxo. Mas os caras que você não matou e talvez outros podem fazer outra viagem e nos esperar no fim da estrada. — Chris inclinou-se para a frente tentando ver através do pára-brisa embaçado. — Por isso vimos todos aqueles relâmpagos no sul quando você estava dançando com o carro para evitar os tiros... mais caras do futuro estavam chegando. É isso, aposto que estão esperando a gente lá embaixo, em algum lugar, no escuro. Laura passou as pontas dos dedos nas têmporas e disse:

—        Mas se voltarmos, se não formos direto para a armadilha, então vão saber que adivinhamos seus planos. E aí vão fazer uma terceira viagem, voltar para o Mercedes e nos matar quando chegarmos lá.

Vão nos pegar, não importa para que lado vamos.

Chris balançou a cabeça vigorosamente.

—        Não. Porque quando perceberem que sabemos do seu plano, talvez daqui a meia hora, nós já passamos pelo Mercedes. — O garoto pulava no banco, excitado. — Então, se eles tentarem fazer uma terceira viagem a tempo para voltar e nos esperar no começo desta estrada, não vão conseguir, porque nós já passamos por lá e vamos estar salvos. Paradoxo! Entenda, mamãe, eles têm de jogar seguindo as regras. Não são mágicos. Têm de seguir as regras, e podem ser vencidos!

Em toda a sua vida Laura jamais tivera uma dor de cabeça que passasse de um leve desconforto para uma dor violenta e latejante em tão pouco tempo como a que sentia agora. Quanto mais procurava entender as dificuldades de evitar uma alcatéia de assassinos viajantes do espaço, mais profunda ficava a dor. Finalmente ela disse:

— Eu desisto. Acho que devia ter assistido Jornada nas estrelas e lido Robert Heinlein durante esses anos, em vez de ser uma pessoa adulta e séria, porque não consigo agora entender nada disto. Então, o que vamos fazer é o seguinte: vou confiar em você para enganá-los. Tem de pensar um passo à frente deles. Eles querem nos matar. Então, como podem tentar nos matar criando um desses paradoxos? Onde vão aparecer agora... e depois? Neste momento vamos voltar, passar pelo Mercedes e, se você estiver certo, ninguém vai estar lá à nossa espera. Então, onde vão aparecer? Será que os veremos outra vez esta noite? Pense nessas coisas e quando tiver alguma idéia me diga.

— Certo, mamãe. — Chris recostou no banco com um largo sorriso por um momento, depois começou a morder o lábio, à medida que se aprofundava no jogo.

Só que na verdade não era um jogo. Suas vidas estavam realmente em perigo. Precisavam enganar os assassinos com habilidades quase sobre-humanas, e estavam colocando todas as esperanças na fertilidade da imaginação de um garoto de oito anos.

Laura ligou o motor, deu marcha à ré até encontrar espaço para fazer a volta. Então, voltaram por onde tinham vindo, na direção do Mercedes atolado, para Big Bear.

Laura estava além do terror. A situação continha em elemento tão grande de desconhecido — e imponderável — que o terror não podia 190   ser mantido. O terror não é como a felicidade ou a depressão; é uma condição aguda que, por sua natureza, deve durar pouco. O terror murcha depressa. Ou sobe numa escalada até a inconsciência, até a morte, a morte pelo medo; a pessoa grita até provocar a ruptura de uma artéria cerebral. Laura não estava gritando, e apesar da dor de cabeça não acreditava que nenhum vaso ia se romper em seu cérebro. O que sentia era um medo discreto, crônico, um pouco mais do que ansiedade.

Que dia aquele. Que ano. Que vida.

Notícias exóticas.

 

Passaram pelo Mercedes encalhado e seguiram para o norte até o fim da estrada sem encontrar ninguém empunhando metralhadora. No cruzamento com a auto-estrada do lago, Laura parou e olhou para Chris.

—        E então?

—        Enquanto estivermos seguindo viagem — disse ele — a cami nho de um lugar onde nunca estivemos, estaremos a salvo. Não po dem nos encontrar se não têm idéia de onde estamos. Como acontece com os safados comuns.

Safados?, pensou ela. O que é isso: H.G. Wells misturado com Hill Street Bluesl Chris disse:

—        Olha, agora que os enganamos, os caras vão voltar para o futuro e olhar os documentos que têm sobre você, mamãe, sua história, e vão planejar onde aparecer desta vez... assim, para ver se você vai querer voltar para a casa da montanha. Ou verificar se vai se esconder durante um ano para escrever outro livro e depois fazer uma viagem de lançamento, então eles aparecem numa livraria onde você esteja autografando seus livros porque, você entende, deve ter um registro de tudo isso no futuro; vão saber onde encontrar você naquela hora, naquele dia.

Laura franziu a testa.

—        Quer dizer que o único jeito de evitar essa gente pelo resto da vida é mudar de nome, ficar fugindo sempre e não deixar nenhum traço de minha presença em documentos públicos, desaparecer da história para sempre?

—        É isso aí, acho que vai ter de fazer isso — disse Chris com entusiasmo.

O garoto era bastante esperto para descobrir o modo de enganar ,um bando de assassinos viajantes no tempo mas não adulto bastante para compreender como seria difícil para eles abandonar tudo que possuíam e recomeçar só com o dinheiro que levavam no bolso. De certo modo ele era como um idiota sábio, extremamente intuitivo e bem-dotado em certa área estreita, mas ingênuo e muito limitado em todas as outras. Em matéria de teorias de viagem no tempo, tinha mil anos, mas para o resto, ia fazer nove.

— Nunca mais poderei escrever — disse Laura — porque preciso entrar em contato com os editores e agentes, nem que seja por telefone. Então os telefonemas podem ser descobertos. E não posso receber royalties porque, não importa quantos disfarces eu use, quantas contas diferentes nos bancos, mais cedo ou mais tarde terei de receber pessoalmente, o que exige registro público. E então eles terão esse registro no futuro, e vão viajar até o banco para acabar comigo. Como vou pôr as mãos no dinheiro que já temos? Como posso descontar um cheque sem deixar registrado para o futuro? — Laura piscou os olhos cansados. — Meus Deus, Chris, estamos numa encrenca!

Foi a vez do garoto ficar confuso. Olhou para ela sem saber ao certo de onde vinha o dinheiro, como era investido para uso futuro, o quanto era difícil ganhá-lo.

—        Bom, por alguns dias podemos andar por aí, dormir em motéis...

—        Só podemos dormir em motel se pagarmos em dinheiro. O registro do cartão de crédito é fácil de ser seguido. Aí eles voltam na noite em que usei o cartão e nos matam no motel.

—        É, então a gente usa dinheiro. Ei, podemos comer no McDonald's sempre! Não é muito caro, e é bom!

 Desceram das montanhas, deixaram a neve e entraram em San Bernardino, uma cidade com cerca de trezentos mil habitantes, sem encontrar nenhum assassino. Laura precisava levar seu guardião a um médico, não só porque devia a vida a ele, mas também porque nunca saberia a verdade sobre o que estava acontecendo e talvez nunca encontrasse uma saída para aquele impasse.

Não podia levá-lo a um hospital, porque os hospitais têm registros que podiam fornecer aos homens do futuro uma pista para encontrá-la. Teria de conseguir cuidados médicos secretamente, com alguém que não exigisse seu nome ou qualquer informação sobre a identidade do paciente.

Um pouco antes da meia-noite, ela parou ao lado de um telefone público perto de um posto de gasolina. O telefone ficava num dos cantos, longe do posto, o que era ideal porque Laura não queria que ninguém notasse os vidros quebrados do jipe, nem visse o homem inconsciente.

Chris dormiu durante uma hora antes de chegarem a San Bernar dino, mas apesar disso e da sua excitação, estava cochilando ainda. No compartimento de carga do jipe, o guardião dormia também, mas não era um sono repousante nem natural. Não murmurava mais, mas há algum tempo sua respiração estava áspera e difícil.

Laura deixou o jipe em ponto morto com o motor ligado e entrou na cabine telefônica para consultar a lista. Arrancou as páginas amarelas com telefones de médicos.

Depois de obter um mapa da cidade de San Bernardino com o atendente do posto de gasolina, ela começou a procurar um médico que não atendesse numa clínica nem num consultório num prédio da cidade, mas no consultório em sua própria casa, como era comum nas cidades pequenas no passado, embora raro agora. Sabia que, quanto mais demorasse, menores eram as chances de sobrevivência do seu guardião.

À 1:15 da manhã, num bairro residencial tranqüilo, de casas antigas, parou na frente de uma casa estilo vitoriano, branca, de dois andares, construída em outra era, numa Califórnia perdida, antes que todas as construções fossem de estuque. Ficava num terreno de esquina, tinha uma garagem para dois carros e era rodeada de amieiros com galhos nus no inverno, o que fazia com que parecesse ter sido transportada com paisagem e tudo do leste do país. Segundo as páginas que tinha arrancado do catálogo, aquele era o endereço do dr. Carter Brenkshaw, e uma pequena tabuleta suspensa entre dois pequenos postes ao lado da entrada confirmava essa informação.

Laura foi até o fim do quarteirão e parou junto da calçada. Saiu do jipe, pegou um punhado de terra úmida de um canteiro na frente de uma casa próxima e passou sobre as placas do jipe.

Quando voltou para o carro, depois de ter limpado as mãos na grama, Chris estava acordado mas sonolento e confuso, depois de um sono de mais de duas horas. Laura bateu de leve no rosto dele, pondo o cabelo do garoto para trás e falando rapidamente para acordá-lo. O ar frio da noite, entrando pelas janelas sem vidro, ajudou.

—        Tudo bem — disse Laura quando certificou-se de que ele estava realmente acordado —, escute com atenção, companheiro. Encontrei um médico. Sabe fingir de doente?

—        É claro. — Fez cara de quem vai vomitar, depois engasgou e gemeu.

—        Não exagere — Laura explicou o que iam fazer.

—        Bom plano, mamãe.

—        Não, é maluco. Mas é o único que eu tenho.

Fez uma volta com o carro e voltou para a casa de Brenkshaw, parando na entrada de carros, bem na frente da garagem fechada, atrás da casa. Chris saiu pela porta da esquerda, e Laura o segurou, encostado nela, com a cabeça no seu ombro. O menino agarrou-se a ela,  assim Laura podia segurá-lo só com o braço esquerdo, embora ele fosse bem pesado; seu bebê não era mais bebê. Na outra mão ela segurava o revólver.

Enquanto carregava Chris, passando pelos amieiros nus, iluminados apenas pelas lâmpadas de mercúrio da rua, Laura esperava que ninguém estivesse na janela de uma das casas vizinhas. Por outro lado, talvez não fosse incomum alguém chegar no meio da noite à casa de um médico, procurando ajuda.

Subiu os degraus da entrada, atravessou a varanda e tocou a campainha três vezes, rapidamente, como qualquer mãe aflita. Esperou alguns segundos e tornou a tocar.

Depois de alguns minutos, quando Laura pensou que não tinha ninguém em casa, as luzes da varanda se acenderam. Ela viu um homem observando-os pela janela em forma de leque, com três vidros, no meio da porta.

—        Por favor — disse ela, com voz aflita, segurando o revólver ao lado do corpo onde não podia ser visto. — Meu filho, veneno, ele tomou veneno!

O homem abriu a porta interna, e Laura recuou um pouco para que ele pudesse abrir a porta de inverno, que se abria para fora.

O homem tinha uns sessenta e poucos anos, cabelos brancos e traços de irlandês, exceto pelo nariz romano e os olhos castanho-escuros. Usava um roupão marrom, pijama branco e chinelos. Olhando para ela por cima dos aros de tartaruga dos óculos, ele disse: —    O que aconteceu?

—        Eu moro a dois quarteirões, o senhor está tão perto, e meu filho... veneno. — No auge da histeria, Laura largou Chris, que se afastou dela rapidamente. Erguendo a arma, ela a apontou para a barriga do homem. — Eu estouro suas entranhas se pedir socorro.

Não tinha intenção de atirar nele, mas aparentemente foi convincente, pois o médico fez um gesto afirmativo sem dizer nada.

—        O senhor é o dr. Brenkshaw? — Outro gesto afirmativo, e Laura perguntou: — Quem mais está na casa, doutor?

—        Ninguém. Estou sozinho.

—        Sua mulher?

—        Sou viúvo.

—        Filhos?

—        Crescidos e não moram aqui.

—        Não minta para mim.

—        Durante toda a vida adquiri o hábito de não mentir — disse ele. — Muitas vezes isso me criou problemas, mas dizer a verdade geralmente simplifica as coisas. Escute, está frio e este roupão é fino.

Pode me intimidar do mesmo jeito lá dentro.

Laura entrou, sempre com a arma encostada na barriga dele empurrando-o com ela. Chris entrou atrás dela.

—        Meu bem — murmurou Laura —, vá examinar a casa. Sem barulho. Comece lá em cima e não deixe passar nenhum quarto. Se houver alguém lá, diga que o doutor tem um caso de emergência e precisa de ajuda.

Chris foi para a escada e Laura manteve Carter Brenkshaw no hall sob a mira da arma. Ali perto um relógio de carrilhão tiquetaqueava suavemente.

—        Quer saber de uma coisa? — disse o médico. — Durante toda a minha vida li romances policiais.

Laura franziu a testa:

—        O que quer dizer?

—        Bem, muitas vezes li sobre a linda vilã que aponta uma arma para o herói. Quase sempre, quando ele finalmente a domina, ela se rende à inevitabilidade do triunfo masculino e então eles fazem amor selvagem e apaixonado. E quando isso acontece comigo, por que já estou velho demais para esperar a segunda parte desta pequena cena?

Laura conteve-se para não sorrir, porque não podia continuar a bancar uma mulher perigosa se sorrisse.

—        Cale a.boca.

—        Tenho certeza de que você pode fazer melhor do que isso,

—        Trate de calar a boca, certo? Cale a boca.

Ele não empalideceu nem tremeu. Sorriu.

Chris voltou do segundo andar.

—        Ninguém, mamãe.

Brenkshaw disse:

—        Gostaria de saber quantos bandidos perigosos têm cúmplices desse tamanho que os chamam de mamãe.

—        Não me subestime, doutor, estou desesperada.

Chris saiu para examinar o andar térreo, acendendo as luzes da casa.

Laura disse para o médico:

—        Tenho um homem ferido no carro...

—        É claro. Ferimento a bala.

—        ... quero que trate dele e fique de boca calada, do contrário voltaremos e acabamos com você.

—        Isto — disse o homem — é perfeitamente delicioso.

Chris voltou, depois de apagar as luzes que havia acendido.

—        Ninguém, mamãe.

—        Tem uma maca? — Laura perguntou ao médico.

Brenkshaw olhou fixamente para ela.

—        Tem mesmo um homem ferido?

—        Que diabo eu estaria fazendo aqui?

—        Muito interessante. Bem, está certo, ele está sangrando muito?

—        Perdeu muito sangue, mas agora não está perdendo tanto. Mas está inconsciente.

—        Se não está perdendo muito sangue, podemos trazê-lo para dentro. Tenho uma cadeira dobrável no meu consultório. Posso apanhar um casaco — disse ele, apontando para o closet do hall — ou bandidos durões como você gostam de ver velhos tremendo de frio só de pijama?

—        Apanhe seu casaco, doutor, mas diabo, não me subestime.

—        Isso mesmo — disse Chris. — Ela já matou dois caras esta noite — imitou o som de uma Uzi. — Ela derrubou os dois e eles nem tocaram nela.

O garoto parecia tão sincero que Brenkshaw olhou para Laura com verdadeira preocupação.

—        Só tenho agasalhos no closet. Guarda-chuvas. Um par de galochas. Não tenho nenhuma arma lá dentro.

—        Tenha cuidado, doutor. Nada de movimentos bruscos.

—        Nada de movimentos bruscos... sim, eu sabia que ia dizer isso. — Embora aparentemente ainda estivesse achando a situação um tanto engraçada, não estava tão tranqüilo quanto antes.

O médico vestiu o sobretudo e os três saíram por uma porta à esquerda do hall. Sem acender nenhuma luz, confiando na que vinha do hall e no seu conhecimento da casa, o dr. Brenkshaw os conduziu por uma sala de espera com cadeiras e umas duas mesinhas. Outra porta levava ao consultório — a mesa, três cadeiras, livros de medicina — onde ele acendeu a luz, e cuja porta levava para os fundos da casa, para a sala de exames.

Laura esperava ver uma mesa de exame e equipamento antigo e bem conservado, um consultório médico aconchegante como um quadro de Norman Rockwell, mas tudo parecia novo. Havia até um aparelho de ECG e na extremidade da sala uma porta com uma tabuleta que dizia: RAIO X: MANTENHA FECHADA QUANDO EM USO.

—        Tem equipamento de raio X aqui? — perguntou ela.

—        É claro. Não é tão caro quanto antes. Todas as clínicas têm equipamento de raio X hoje em dia.

—        Todas as clínicas, certo, mas este é um consultório particular...

—        Posso parecer Barry Fitzgerald no papel de médico num filme antigo, e posso preferir a conveniência antiquada de um consultório em minha casa, mas não trato meus pacientes à moda antiga só para ser diferente. Posso dizer que sou um médico mais sério que o seu desespero.

—        Não aposte — disse Laura secamente, embora estivesse farta de bancar a durona.

—        Não se preocupe — disse ele. — Vou fazer o que quer. Acho que será mais divertido. — Voltou-se para Chris. — Quando passamos no meu consultório, viu uma grande jarra de cerâmica sobre a mesa? Está cheia de balas de laranja e outras, se você quiser.

—        Puxa, obrigado! — disse Chris. — Ah... posso, mamãe?

—        Uma ou duas — disse Laura —, mas não vá ficar doente.

Brenkshaw disse:

—        Acho que quando se trata de dar balas e doces aos jovens pacientes sou ainda antiquado. Nada de chiclete sem açúcar aqui. Que graça tem isso? Gosto de plástico. Se os dentes deles ficam cariados depois da visita ao meu consultório é problema do dentista.

Enquanto falava, ele apanhou a cadeira de rodas dobrável de um canto, armou-a e a levou para o meio da sala. Laura disse:

—        Meu bem, você fica aqui enquanto vamos até o jipe.

—        Tudo bem — respondeu Chris da outra sala onde estava escolhendo a guloseima na jarra de cerâmica.

—        Seu jipe está na entrada da garagem? Então vamos pelos fundos. Mais seguro, eu acho.

Apontando a arma para o médico, mas sentindo-se tola, Laura o acompanhou saindo por uma porta lateral que dava para uma rampa própria para a cadeira de rodas.

—        Entrada para os que não podem subir escadas — explicou Brenkshaw, empurrando a cadeira na direção dos fundos da casa. Seus chinelos faziam um som raspante no concreto da rampa.

A casa do médico ficava no centro de um grande terreno, sem vizinhos próximos. A parte lateral não tinha amieiros como a frente, mas fícus e pinheiros, sempre verdes. Apesar dos galhos espessos e da escuridão da noite, Laura via as janelas da casa vizinha, portanto imaginou que podiam ser vistos também.

O mundo estava envolto no silêncio especial entre a meia-noite e o nascer do dia. Mesmo que não soubesse que eram quase duas horas da manhã, poderia ter adivinhado. Embora os sons fracos da cidade ecoassem à distância, havia ali uma quietude de cemitério que a teria feito sentir-se como uma mulher numa missão secreta, mesmo que estivesse só levando o lixo para fora.

Uma calçada circundava a casa, atravessando outra que ia até os fundos do terreno. Passaram pela varanda dos fundos, por um pátio entre a casa e a garagem e chegaram à entrada de veículos.

Brenkshaw parou atrás do jipe e disse com um riso abafado:

—        Lama nas placas do carro — murmurou. — Um detalhe muito convincente.

Laura abriu a porta traseira do jipe e ele entrou para examinar o ferida Laura olhou para a rua. Tudo silencioso. Tudo quieto.

Mas se uma radiopatrulha de San Bernardino passasse naquele momento, sem dúvida ia parar para ver o que estava acontecendo na casa do velho dr. Brenkshaw com luzes acesas àquela hora...

Brenkshaw já estava saindo do jipe.

—        Meu Deus, você tem mesmo um homem ferido aí dentro.

—        Por que ainda está surpreso? Acha que eu ia fazer tudo isto só para me divertir?

—        Vamos levá-lo para dentro. Depressa — disse o médico.

Ele não podia remover o ferido sozinho. Para ajudá-lo, Laura teve de pôr o .38 no cinto da calça jeans.

Brenkshaw não tentou fugir nem dominá-la para tirar a arma. Logo que puseram o ferido na cadeira, ele o conduziu pela entrada de veículos, pelo pátio, deu a volta na casa até a rampa para deficientes.

Laura apanhou uma das Uzi do banco do jipe e o acompanhou. Não esperava ter de usar a arma, mas sentia-se melhor com ela por perto.

Quinze minutos depois, Brenkshaw voltou-se dando as costas à chapa de raio X que estava examinando na tela iluminada, num canto da sala.

—        A bala não se fragmentou, saiu inteira. Não atingiu nenhum osso, portanto não precisamos nos preocupar com lascas ósseas.

—        Legal — disse Chris da cadeira onde estava, satisfeito chupando um pirulito. Apesar do aquecimento no interior da casa, o menino vestia ainda a jaqueta, como a mãe, porque ela queria que estivessem preparados para sair às pressas.

—        Ele está em coma ou coisa assim? — perguntou Laura.

—        Sim, em estado comatoso. Mas não devido à febre associada a qualquer infecção do ferimento. Cedo demais para isso. E agora que foi tratado, provavelmente não haverá infecção. É coma traumático devido ao ferimento de bala, perda de sangue, choque e tudo o mais.

Ele não devia ter sido removido, você sabe.

—        Não tive escolha. Vai sair do coma?

—       Provavelmente. Neste caso, o estado de coma é um recurso do organismo para conservar energia, facilitando a cicatrização. Não per deu tanto sangue quanto parece; o pulso está bom, portanto, provavelmente não ficará assim por muito tempo. Vendo a camisa e o avental ensopados de sangue, parece que ele perdeu litros, mas não perdeu.

Também não foi pouco. Passou um mau pedaço. Mas nenhum vaso importante foi seccionado, o que agravaria seu estado. Mesmo assim, devia estar num hospital.

—        Já resolvemos isso — disse Laura impaciente. — Não pode mos levá-lo ao hospital.

—        Qual foi o banco que vocês assaltaram? — perguntou o médico em tom de zombaria, mas com maior seriedade do que no princípio.

  Enquanto esperava a revelação das chapas, ele havia limpado o ferimento, desinfetado com iodo, depois com antibiótico em pó e preparado o curativo. Agora, apanhou uma agulha, outro instrumento que Laura não identificou, uma linha grossa e colocou tudo na bandeja presa ao lado da mesa de exame. O homem ferido continuava inconsciente, deitado sobre o lado direito com ajuda de várias almofadas de espuma.

—        O que está fazendo? — perguntou Laura.

—        Esses orifícios são muito grandes, especialmente o de saída.

Se você insiste em arriscar a vida dele, não indo a um hospital, o mínimo que posso fazer é dar alguns pontos.

—        Tudo bem, mas não demore.

—        Espera que os agentes do governo entrem por aquela porta a qualquer momento?

—        Pior do que isso — disse Laura. — Muito pior.

Desde a chegada à casa de Brenkshaw, Laura esperava ouvir relâmpagos e trovões, como os cascos dos cavalos de seres apocalípticos, e o aparecimento de mais viajantes do tempo armados com metralhadoras. Quinze minutos antes, quando o médico tirava a radiografia do seu guardião, teve a impressão de ouvir trovão muito distante, quase inaudível. Correu para a janela procurando no céu o clarão do relâmpago, mas não havia nenhuma luz entre os galhos das árvores, talvez porque o céu sobre San Bernardino estivesse iluminado fracamente pelas luzes da cidade ou talvez porque fora apenas impressão sua. Concluiu que tinha ouvido o barulho de um jato e, no seu pânico, o confundira com o ruído de um trovão.

Brenkshaw suturou os ferimentos, cortou a linha — "as suturas vão ser absorvidas" — e fez os curativos com largas tiras de esparadrapo passadas em volta do peito do ferido.

O cheiro forte de remédio provocou um ligeiro enjôo em Laura, mas não parecia incomodar Chris. O garoto continuava sentado, feliz com seu segundo pirulito.

Enquanto esperava o raio X, Brenkshaw havia administrado também uma injeção de penicilina. Agora foi até os armários brancos e altos de metal e retirou alguns comprimidos de um vidro grande, colocando-os num vidro menor.

—        Tenho aqui alguns medicamentos básicos que vendo aos pacientes mais pobres por um preço acessível, para que não tenham despesa com farmácia.

—        O que é isso? — perguntou Laura quando ele voltou para per to do ferido e estendeu para ela dois pequenos recipientes de plástico.

—        Neste estão comprimidos de penicilina. Três por dia às refeições... se ele puder comer. Acho que vai voltar a si muito em breve.

 

  Do contrário vai começar a se desidratar e precisa de fluido endovenoso. Não se pode administrar líquido pela boca quando o paciente está em coma... provoca sufocação. Este outro é analgésico. Só quando for necessário e nunca mais de dois ao dia.

—        Quero mais desses. Todos que tiver — Laura apontou para os vidros que continham centenas de comprimidos separados pelo médico.

—        Ele não vai precisar tanto de nenhum dos dois. Ele...

—        Não, tenho certeza que não — disse ela —, mas não sei que diabo de problemas vamos ter ainda. Podemos precisar de penicilina e analgésico para mim... ou para meu filho.

Brenkshaw olhou para ela por alguns momentos.

—        Em que tipo de encrenca vocês se meteram? Parece um dos seus livros.

—        Agora quero que me dê... — Laura parou, atônita. — Como um dos meus livros? De um dos meus livros? Oh, meu Deus, você sabe quem eu sou.

—        É claro que sei. Eu a reconheci quando a vi na varanda. Como já disse, leio livros de mistério e embora seus livros não sejam exatamente desse gênero, têm muito suspense, por isso eu os leio também, e sua fotografia aparece na quarta capa. Acredite, sra. Shane, nenhum homem pode esquecer seu rosto, mesmo que o tenha visto só em fotografia, e mesmo que seja um velho como eu.

—        Mas por que não disse...

—        A princípio pensei que fosse uma brincadeira. Afinal, o seu aparecimento melodramático no meio da noite, a arma, o diálogo tão antiquado, agressivo... tudo parecia uma piada. Acredite, tenho alguns amigos capazes de imaginar brincadeiras desse tipo e podiam tê-la convencido a fazer o papel.             Apontando para seu guardião, Laura disse:

—        Mas quando o viu...

—        Então fiquei sabendo que não era uma piada — disse o médico.

Chris correu para perto da mãe e tirou o pirulito da boca:

—        Mamãe, se ele nos denunciar...

Laura tirou o revólver do cinto. Começou a erguer a arma, mas logo a abaixou, compreendendo que o revólver não intimidava mais Brenkshaw; na verdade, nunca o tinha intimidado. Compreendia agora que ele era o tipo de homem que não se deixa intimidar e além disso não podia mais fazer o papel de uma mulher perigosa e fora-da-lei, agora que ele sabia quem ela era realmente.

Na mesa de exame, seu guardião gemeu e tentou mudar de posição, mas Brenkshaw pôs a mão no peito dele, obrigando-o a ficar imóvel.

—        Escute, doutor, se contar a alguém esta visita, se não guardar segredo para o resto da vida, eu e meu filho seremos mortos.

—        Naturalmente a lei exige que os médicos comuniquem quais quer ferimentos a bala.

—        Mas este é um caso especial — disse Laura ansiosamente. — Não estou fugindo da lei, doutor.

—        De quem está fugindo?

—        De certo modo... dos mesmos homens que mataram meu marido, o pai de Chris.

O médico pareceu surpreso e comovido.

—        Seu marido foi assassinado?

—        Deve ter lido nos jornais — disse Laura amargamente. — Foi uma história sensacionalista durante algum tempo, o tipo de coisa que a imprensa adora.

—        Na verdade, não leio jornais nem assisto noticiários na televisão — disse Brenkshaw. — É só incêndios, acidentes e terroristas malucos. Não transmitem um noticiário real, só sangue, tragédia e política.

Sinto muito sobre seu marido. E se esses homens que o mataram, sejam lá quem for, querem matá-la também, devia procurar a polícia.

Laura gostou do médico. Tinham muita coisa em comum. Ele parecia uma pessoa razoável. Mas não esperava convencê-lo a ficar de boca fechada.

—        A polícia não pode me proteger, doutor. Ninguém pode me proteger a não ser eu mesma... e talvez o homem cujos ferimentos acaba de tratar. Essa gente que nos persegue... é do tipo implacável, impiedoso, e estão acima da lei.

Ele balançou a cabeça:

—        Ninguém está acima da lei.

—        Eles estão, doutor. Eu precisaria de uma hora para explicar e mesmo assim você não acreditaria. Mas estou pedindo, a não ser que queira nossas mortes na consciência, não diga nada a ninguém. Não apenas por alguns dias, mas para sempre.

—        Bem...

Olhando para ele, Laura compreendeu que não adiantava. Lembrou do que o médico havia dito quando ela o advertiu para não mentir sobre a presença de outras pessoas na casa: ele não mentia, porque a verdade fazia a vida mais simples; dizer a verdade era um hábito de toda a vida. Agora, passados menos de 45 minutos, ela o conhecia suficientemente para acreditar que era sempre sincero. Mesmo agora, quando Laura pedia para manter em segredo sua visita, o médico não conseguia dizer a mentira que a tranqüilizaria e a faria sair da sua casa. Olhou para Laura, com ar de quem se sente culpado mas sem conseguir formular a mentira. Ele cumpriria seu dever quando Laura saísse, preenchendo o formulário para a polícia. Os policiais iriam procurá-la na casa perto de Big Bear, onde descobririam o sangue, e talvez os corpos dos viajantes do tempo e centenas de balas perdidas, janelas quebradas. No dia seguinte, ou no outro, a história estaria em todos os jornais...

O avião que Laura julgou ouvir há mais de meia hora, talvez não fosse um jato, afinal. Talvez fosse exatamente o que pensou — trovão muito distante, a vinte e poucos ou trinta quilômetros dali.

Mais trovões numa noite sem chuva.

— Doutor, ajude-me a vesti-lo — disse ela, indicando seu guardião. — Faça isso pelo menos para mim, uma vez que vai me trair depois.

O médico ficou chocado com a palavra trair.

Laura havia mandado Chris apanhar no andar superior uma camisa, uma suéter, um paletó, uma calça e um par de meias de Brenkshaw, além de sapatos. O médico não era tão musculoso e magro quanto o guardião, mas tinham quase o mesmo tamanho.

Naquele momento, o ferido estava só com a calça manchada de sangue, mas Laura sabia que não teriam tempo de vesti-lo completamente.

—        Ajude-me a vestir o paletó nele, doutor. Levo o resto para vestir mais tarde. O paletó vai protegê-lo do frio.

O médico, erguendo com relutância a parte superior do corpo do ferido disse:

—        Ele não deve ser removido.

Ignorando Brenkshaw, tentando vestir a manga no braço direito do ferido, Laura disse:

—        Chris, vá até a sala de espera. Está escuro lá. Não acenda a luz. Dê uma espiada na rua, pela janela, e pelo amor de Deus, não deixe que o vejam.

—        Acha que estão aqui? — perguntou o garoto, assustado.

—        Se não estiverem, logo estarão — disse Laura, vestindo a manga do paletó de veludo no braço direito do guardião.

—        Do que estão falando? — perguntou Brenkshaw, quando Chris correu para a sala de espera escura.

Laura não respondeu.

—        Vamos levá-lo para a cadeira.

Juntos, passaram o ferido da mesa para a cadeira, afivelando o cinto de segurança.

Quando Laura recolhia as roupas e os dois vidros de medicamentos, fazendo uma trouxa, com os vidros enrolados nas peças de roupa, amarrando tudo com as mangas da camisa, Chris entrou correndo:

—        Mamãe, estão lá fora, devem ser eles, dois carros cheios de ho mens no outro lado da rua, seis ou oito. O que vamos fazer?

—        Droga — disse ela —, não podemos chegar até o jipe agora. E não podemos sair pela porta lateral porque podem nos ver lá da frente.

Brenkshaw deu uns passos na direção do consultório:

—        Vou chamar a polícia...

—        Não! — Laura colocou a trouxa na cadeira, entre as pernas tio ferido, mais sua bolsa e apanhou a Uzi e o .38 especial. — Diabo, não há tempo. Estarão aqui em poucos minutos e vão nos matar. Tem de me ajudar a sair com a cadeira pelos fundos da casa, pela escada da varanda.

Aparentemente seu terror havia se comunicado ao médico, pois ele não hesitou. Segurou a cadeira e a empurrou rapidamente para o corredor do primeiro andar. Laura e Chris foram atrás dele, atravessaram o corredor fracamente iluminado, depois a cozinha onde a única luz era a do relógio digital no forno e no microondas. A cadeira passou pela soleira da porta que dava para a varanda, sacudindo o ferido, mas ele já havia agüentado coisa pior.

Passando a correia da Uzi pelo ombro e colocando o .38 no cinto, Laura desceu os degraus, e passou por trás de Brenkshaw. Segurou a cadeira pela frente e o ajudou a levá-la para baixo.

Laura olhou para o espaço entre a casa e a garagem, quase esperando ver homens armados correndo para eles e murmurou para o médico:

—        Tem de vir conosco. Eles o matarão se ficar aqui, tenho certeza.

Mais uma vez ele não discutiu e acompanhou Chris na passagem que atravessava o gramado dos fundos até o portão na cerca de madeira no fim do terreno. Tirando a Uzi do ombro, Laura foi atrás, pronta para se virar e abrir fogo se ouvisse algum barulho vindo da casa.

Quando Chris chegou ao portão, este se abriu e um homem vestido de negro apareceu atrás do terreno, mais escuro do que a noite, a não ser pelo rosto redondo e pálido e as mãos muito brancas, tão surpreso quanto eles. Seguira pela rua atrás da casa para cortar a retirada da presa. Na mão esquerda segurava a metralhadora portátil, não em posição de tiro, mas começou a levantá-la — Laura não podia atirar sem atingir Chris — mas o garoto reagiu como Henry Takahami havia ensinado durante meses. Girou o corpo e com um pontapé desarmou o homem — a arma caiu no chão com uma pancada surda —, depois deu outro pontapé na virilha do assassino que, com um gemido de dor, caiu para trás sobre a cerca.

A essa altura, Laura dera a volta na cadeira e estava entre Chris e o adversário. Segurou a Uzi pelo cano e desceu a coronha com força na cabeça do homem, uma, duas vezes. O homem de negro caiu no gramado, fora da passagem, sem ter tempo de gritar.

Tudo acontecia rapidamente agora, depressa demais, estavam numa descida e Chris já atravessava o portão. Laura o seguiu e surpreenderam outro homem de negro, os olhos como buracos no rosto branco, como um vampiro, e desta vez fora do alcance do caratê de Chris. Laura atirou antes que o homem tivesse tempo de usar sua arma. Atirou acima da cabeça de Chris, uma rajada compacta que atingiu o assassino no peito, no pescoço, praticamente decapitando-o e atirando-o violentamente para trás.

Brenkshaw estava atrás deles, empurrando a cadeira, e Laura sentiu ter envolvido o médico em tudo aquilo, mas não podia voltar atrás. A rua era estreita, flanqueada por cercas, com algumas garagens e latas de lixo nos fundos de cada casa, mal-iluminada pelas lâmpadas das ruas transversais, de cada lado do quarteirão.

Laura disse para Brenkshaw:

—        Leve a cadeira pela rua até mais adiante. Se encontrar um portão aberto ponha a cadeira para dentro, onde não possa ser vista. Chris, você vai com eles.

—        E você?

—        Estarei lá em um segundo.

—        Mamãe...

—        Vá, Chris! — disse Laura, pois o médico já estava a uns 15 metros deles.

O menino seguiu o médico relutantemente e Laura voltou para o portão de madeira da casa de Brenkshaw. Chegou a tempo de ver dois vultos escuros esgueirando-se no espaço entre a casa e a garagem, a trinta metros de onde ela estava, quase invisíveis, delatados apenas pelo movimento. Corriam agachados, um na direção da varanda, o outro para o gramado, porque não sabiam exatamente onde estava o problema, de onde haviam partido os tiros.

Laura entrou pelo portão e abriu fogo antes que pudessem vê-la, e a rajada de balas atingiu os fundos da casa. Embora não estivesse exatamente na direção dos alvos, estava à distância de tiro — trinta metros não era longe demais — e abaixou para se proteger. Não sabia se os havia atingido e não continuou a atirar porque, mesmo com um pente de quatrocentas balas usado em rajadas curtas, a Uzi podia se esvaziar rapidamente; e agora era a única arma automática que possuía. Recuou saindo pelo portão e correu atrás de Chris e Brenkshaw. Os dois estavam entrando por um portão de ferro batido nos fundos de um terreno no outro lado da passagem, a duas portas da casa do médico. Quando Laura entrou também atrás dele, viu que antigas eugênias, plantadas nos dois lados do portão, formavam uma espessa cerca viva, impedindo que fossem vistos da passagem a não ser que estivessem na frente do portão.

O médico empurrou a cadeira até os fundos da casa. Era uma construção vitoriana, não no estilo Tudor como a de Brenkshaw, mas bem antiga, com pelo menos quarenta ou cinqüenta anos. O médico seguia pelo lado da casa, na direção da rua principal.

Luzes se acendiam em várias casas próximas. Laura tinha certeza de que havia rostos contra os vidros das janelas, mesmo nas que es- 204   tavam ainda escuras, mas não acreditava que pudessem ver muita coisa. Alcançou Brenkshaw e Chris na frente da casa e os fez parar à sombra de alguns arbustos.

—        Doe, gostaria que esperasse aqui com seu paciente — disse Laura.

O médico tremia e Laura pediu a Deus que ele não tivesse um ataque cardíaco, mas Brenkshaw respondeu:

—        Estarei aqui.

Laura saiu com Chris para a rua, onde estavam estacionados uns vinte carros em todo o quarteirão. À luz azulada das lâmpadas da rua, o garoto tinha péssima aparência, mas não tanto quanto Laura temia, não tão assustado quanto o médico; Chris começava a se acostumar ao terror. Laura disse:

—        Muito bem, vamos experimentar as portas dos carros. Você vai por este lado, eu pelo outro, mais longe. Se a porta estiver aberta, verifique a ignição, examine embaixo do banco do motorista e atrás do visor para ver se as chaves estão no carro.

—        Certo.

Numa pesquisa para um dos seus livros, no qual um dos personagens era ladrão de automóveis, Laura havia aprendido que, em média, um em 17 motoristas deixa as chaves no carro durante a noite. Esperava que essa média fosse mais favorável para eles numa cidade como San Bernardino; afinal, em Nova York, Chicago, Los Angeles e outras cidades grandes, só masoquistas deixavam as chaves no carro, portanto para que a média de um em 17 fosse verdadeira, devia existir gente menos desconfiada entre os americanos.

Laura tentou ficar de olho em Chris enquanto experimentava as portas dos carros no outro lado da rua, mas logo o perdeu de vista. Dos oito primeiros veículos, quatro estavam abertos, mas nenhum com as chaves.

Ouviu o apito das sirenes ao longe.

Isso provavelmente afastaria os homens de negro. De qualquer modo deviam estar ainda procurando na passagem nos fundos da casa de Brenkshaw, movendo-se cautelosamente, esperando nova rajada de balas.

Laura continuou sem se preocupar em ser vista pelas pessoas nas casas próximas. A rua tinha uma fileira de palmeiras adultas, mas pequenas, que a protegiam. Provavelmente, as pessoas acordadas àquela hora da noite estariam nas janelas superiores das casas, não tentando olhar para baixo, para as palmeiras, mas para a outra rua, na direção da casa de Brenkshaw, de onde partira o som dos tiros.

O nono veículo era um Oldsmobile Cutlass, e as chaves estavam sob o banco dianteiro. Assim que Laura ligou o motor e fechou a porta do seu lado, Chris abriu a outra e mostrou as chaves que tinha encontrado.

— Toyota no vinho em folha — disse ele.

— Este vai servir.

As sirenes estavam mais próximas agora.

Chris jogou fora as chaves do Toyota, entrou no carro e foram para a entrada de veículos da casa no outro lado da rua, mais perto da esquina, onde o médico esperava na sombra, na entrada de uma casa ainda às escuras. Talvez estivessem com sorte; talvez a casa estivesse vazia. Ergueram o guardião da cadeira e o acomodaram no banco traseiro do carro.

As sirenes estavam muito perto agora, e uma radiopatrulha apareceu no fim do quarteirão, na rua lateral, as luzes vermelhas girando, indo para o quarteirão de Brenkshaw.

—        Está bem, doutor? — perguntou Laura, fechando a porta traseira do Cutlass.

O médico deixara-se cair na cadeira de rodas.

—        Não vou ter uma apoplexia, se é isso que a preocupa. Que diabo está acontecendo com você, menina?

—        Não tenho tempo, doutor. Preciso correr.

—        Escute — disse ele —, talvez eu não diga nada a ninguém.

—        Vai dizer — respondeu Laura. — Pode pensar que não, mas vai contar tudo. Se não contasse, não haveria registro policial nem notícias nos jornais e sem esses registros no futuro, aqueles atiradores não poderiam me encontrar.

—        Que bobagem está dizendo?

Laura inclinou-se e beijou o rosto dele:

—        Não tenho tempo para explicar, doutor. Obrigada pela ajuda.

E, desculpe, mas acho melhor levar essa cadeira também.

O médico dobrou a cadeira e a colocou na mala do carro. Agora a noite estava repleta de sirenes. Laura entrou no Cutlass, bateu a porta.

—        Cinto de segurança, Chris.

—        Colocado — respondeu ele.

Laura entrou à esquerda e foi até o fim do quarteirão, afastando-se da casa de Brenkshaw, chegando à rua transversal onde vira a radiopatrulha há poucos instantes. Imaginou que, se a polícia estava convergindo em resposta aos chamados por causa dos tiros, devia estar chegando de diferentes áreas da cidade, de diferentes pontos de patrulhamento, portanto, talvez não houvesse nenhum outro carro naquela rua. A avenida estava quase deserta e os veículos que passavam não tinham luzes giratórias. Virou para a direita, afastando-se sempre da casa do médico, atravessou San Bernardino, imaginando onde encontraria um santuário.

 

Laura chegou em Riverside às 3hl5min da manhã, roubou um Buick numa rua residencial, passou o ferido para a cadeira de rodas e depois para o carro, abandonando o Cutlass. Chris dormiu durante toda a operação e teve de ser carregado de um carro para o outro.

Meia hora depois, em outro bairro, exausta e precisando dormir, Laura usou uma chave de parafuso da caixa de ferramentas do Buick para roubar duas placas de um Nissan. Pôs as placas no Buick e as do Buick na mala, porque na certa o número iria parar no relatório da polícia.

O dono do Nissan podia não notar a falta das placas por alguns dias, e quando comunicasse o roubo, a polícia não daria a mesma atenção que dava a carros roubados. As placas geralmente eram tiradas por garotos por puro vandalismo e sua recuperação não figurava na lista de alta prioridade do departamento de polícia, sempre sobrecarregado com crimes maiores. Esse era mais um dos fatos úteis que havia aprendido em suas pesquisas.

Laura parou também para vestir e calçar seu guardião, evitando que ele se resfriasse. Em certo momento ele abriu os olhos, piscou rapidamente, para ver melhor e disse o nome dela. Laura pensou que estava saindo do coma, mas logo mergulhou na inconsciência, murmurando numa língua que Laura não podia identificar porque não ouvia bem as palavras.

De Riverside foram para Yorba Linda, em Orange County, onde Laura parou na extremidade do estacionamento de um supermercado, atrás do posto de Coleta da Boa Vontade, às 4:50 da madrugada. Desligou o motor e os faróis, desafivelou o cinto. Chris estava ainda com o cinto de segurança, encostado na porta, dormindo profundamente. No banco traseiro, seu guardião continuava inconsciente, mas sua respiração parecia mais suave do que antes da visita a Carter Brenkshaw. Laura não acreditava que pudesse dormir; pensou em refazer um pouco as forças e descansar a vista, mas em poucos minutos estava dormindo. Depois de matar pelo menos três homens, de ter sido alvo das balas repetidamente, depois de roubar dois carros, e sobreviver a uma caçada que a levara através de três condados, o normal seria sonhar com a morte, com corpos destroçados, sangue, com o som frio das automáticas como música de fundo do pesadelo. Podia sonhar que tinha perdido Chris, a única luz nas suas trevas, ele e Thelma, e temia a idéia de continuar vivendo sem ele. Mas Laura sonhou com Danny, belos sonhos, não pesadelos. Danny estava vivo outra vez, e estavam revivendo a venda de Shadrach por mais de um milhão de dólares, mas Chris estava no sonho também, e tinha oito anos, embora não fosse nascido naquele tempo, e comemoravam a boa sorte passando o dia na Disneylândia, onde os três foram fotografados com Mickey Mouse, e no Pavilhão dos Cravos Danny disse que a amaria para sempre, enquanto Chris fingia que sabia falar numa língua toda confusa que tinha aprendido com Carl Dockweiler, que estava sentado à mesa próxima com Nina e o pai de Laura, e em outra mesa estavam as maravilhosas gêmeas Ackerson tomando sundaes de morango...

Laura acordou mais de três horas depois, às 8:26, descansada, tanto pelo efeito daquela reunião familiar criada pelo subconsciente quanto pelo sono. O sol no céu sem nuvens cintilava nos cromados do carro e entrava numa faixa luminosa pelo vidro traseiro. Chris dormia ainda. No banco de trás, o homem ferido continuava inconsciente.

Laura arriscou uma pequena caminhada até o telefone público ao lado do supermercado, de onde podia ver o carro. Tirando algumas moedas da bolsa, ligou para Ida Palomar, a professora de Chris em lago Arrowhead, para avisar que não estariam em casa no resto daquela semana. Não queria que a pobre Ida entrasse na casa crivada de balas e suja de sangue perto de Big Bear, onde as equipes de medicina legal da polícia sem dúvida estariam trabalhando. Não disse de onde estava telefonando; de qualquer modo, não pretendia demorar-se em Yorba Linda.

Voltou para o carro e enquanto observava as pessoas que entravam no supermercado, bocejou, espreguiçou e massageou a nuca. Estava com fome. Com olhos sonolentos e hálito pesado, Chris acordou menos de dez minutos depois e Laura deu dinheiro a ele para comprar pãezinhos doces e suco de laranja, não o mais nutritivo café da manhã, mas fornecedor de energia.

—        E ele? — perguntou Chris, mostrando o guardião.

Laura lembrou o que Brenkshaw havia dito sobre o risco de desidratação. Mas sabia também que não era possível obrigá-lo a tomar líquidos enquanto estivesse em estado de coma; ele morreria sufocado.

—        Bem... traga três sucos de laranja. Talvez eu consiga acordá- lo. — Quando Chris saiu do carro, ela disse: — Acho melhor comprar também alguma coisa para o almoço, alguma coisa que não se estrague... digamos um pão e um vidro de creme de amendoim. Compre também um desodorante spray e um vidro de xampu.

Chris deu um largo sorriso.

—        Por que não me deixa comer assim em casa?

—        Porque se não se alimentar bem vai acabar com um cérebro mais deturpado do que já tem, garotão.

—        Mesmo fugindo de assassinos, não sei como você não trouxe um microondas, vegetais frescos e um vidro de vitaminas.

—        Está dizendo que sou uma boa mãe mas muito chata? Elogio anotado, crítica considerada. Agora vá.

Chris começou a fechar a porta.

—        E, Chris... — disse Laura.

—        Já sei — continuou o menino. — Tome cuidado.

Laura ligou o motor e o rádio para ouvir o noticiário das nove. Ouviu uma história a seu respeito: a cena em sua casa perto de Big Bear, o tiroteio em San Bernardino. Como a maioria das reportagens, era inexata, confusa, sem sentido. Mas uma confirmação de que a polícia a procurava por toda a Califórnia. Segundo o repórter, as autoridades esperavam encontrá-la em breve, especialmente porque seu rosto era muito conhecido.

Laura ficara chocada quando Brenkshaw a reconheceu como Laura Shane, famosa escritora. Não se considerava uma celebridade; era apenas uma contadora de histórias, uma tecelã de contos, que usava um tear de palavras, com o qual fabricava um tecido especial. Havia feito uma única turnê para um dos seus primeiros livros e detestou. Não repetiu a experiência. Não aparecia com freqüência na televisão. Nunca patrocinara qualquer produto num comercial, nunca havia apoiado publicamente qualquer político e de um modo geral evitava tomar parte do circo da mídia. Seguia a tradição da fotografia na quarta capa dos seus livros porque parecia inofensiva e aos 33 anos podia admitir, sem nenhum embaraço, que era uma mulher muito bonita, mas nunca imaginou, como dizia a polícia, que seu rosto fosse muito conhecido.

Agora, preocupava-se, não apenas porque a perda do anonimato a fazia presa fácil para a polícia, mas também porque sabia que ser uma celebridade na América significava perder a capacidade de autocrítica e um grave declínio na capacidade artística. Poucos conseguiam ser ao mesmo tempo figuras públicas e bons escritores, mas a maioria era corrompida pela atenção da mídia. Laura temia aquela armadilha tanto quanto temia ser apanhada pela polícia.

De repente compreendeu com alguma surpresa que, se era capaz de se preocupar em ser uma celebridade e perder seu senso artístico, era porque acreditava ainda num futuro em segurança, no qual escreveria outros livros. Certas vezes, durante a noite, havia decidido lutar até a morte, até o fim para proteger o filho, mas naqueles momentos sentira que a situação era praticamente sem esperança, o inimigo poderoso demais e inatingível demais para ser destruído. Agora, alguma coisa havia mudado, levando-a a um otimismo tênue e cauteloso.

Talvez fosse efeito do sonho.

Chris voltou com um pacote de pãezinhos de canela, três sucos de laranja e outras coisas. Comeram os pãezinhos e tomaram o suco, e nunca nada pareceu tão delicioso para os dois.

Quando terminou, Laura passou para o banco de trás e tentou acordar seu guardião. Não conseguiu.

Deu o terceiro suco de laranja para Chris e disse:

—        Guarde para ele. Provavelmente vai acordar logo.

—        Se não pode beber, não pode tomar a penicilina — disse Chris.

—        Não precisa tomar por enquanto. O dr. Brenkshaw deu uma dose bem forte ontem à noite; ainda está fazendo efeito.

Mas Laura estava preocupada. Se ele não recuperasse a consciência, jamais saberiam a verdadeira natureza daquele perigoso labirinto onde estavam perdidos — e talvez nunca encontrassem a saída.

—        E agora? — perguntou Chris.

—        Vamos procurar um posto de gasolina, usar os banheiros, de pois parar numa loja de armas e comprar munição para a Uzi e para o revólver. Depois... vamos procurar um motel, do tipo certo, onde possamos nos esconder.

Quando resolveram parar, deviam estar a pelo menos oitenta quilômetros da casa do dr. Brenkshaw, onde os inimigos os haviam encontrado. Mas será que a distância tinha significado para homens que mediam suas viagens em dias e anos e não em quilômetros?

Certas áreas de Santa Ana, as vizinhanças do sul de Anaheim e arredores ofereciam o maior número de motéis do tipo que Laura procurava. Não queria um moderno e cintilante Red Lion Inn, nem um Howard Johnson's Motor Lodge, com televisão em cores, tapete espesso e piscina aquecida, porque esses estabelecimentos exigiam identidade e cartão de crédito, e não podia correr o risco de deixar uma trilha de papel que servisse de guia para a polícia ou para seus assassinos. Procurava um motel que já não fosse muito limpo, nem muito conservado para atrair turistas, um lugar onde ficavam felizes por conseguir fregueses, ávidos pelo dinheiro, e onde não faziam perguntas . que podiam afugentar os hóspedes.

Sabia que não ia ser fácil encontrar um quarto, e não ficou surpresa ao verificar que os primeiros 12 lugares que procurou não tinham condições de acomodá-la. As únicas pessoas que entravam ou saíam desses motéis eram jovens mexicanas com filhos no colo ou pela mão, e mexicanos de meia-idade de tênis, chinos, camisas de flanela e casacos de sarja ou veludo, alguns com chapéus de palha de caubói e outros com bonés de beisebol, todos com ar vigilante e de suspeita. Muitos motéis decrépitos eram agora pensões para imigrantes ilegais, centenas ou milhares que residiam em Orange County de modo semi-secreto. Famílias inteiras moravam num quarto, cinco, seis ou sete pessoas amontoadas, dormindo na mesma cama com duas cadeiras e um banheiro com o mínimo de capacidade funcional, pagando por isso 150 dólares ou mais por semana, sem roupa de cama nem faxineira, sem nenhum tipo de facilidades, e no meio de milhares de baratas. Sujeitavam-se a essas condições e deixavam que os explorassem como   trabalhadores mal pagos para não voltar para sua terra e viver sob o domínio do "governo revolucinário do povo" que durante décadas só lhes dera a irmandade do desespero.

No 13º. motel, o Pássaro Azul da Felicidade, o dono esperava ainda servir a faixa menos favorecida do comércio de turismo e não havia sucumbido ainda à tentação de ganhar dinheiro à custa do sacrifício e do sangue dos pobres imigrantes. Algumas das 24 unidades estavam alugadas para ilegais, mas o motel fornecia ainda roupa de cama limpa diariamente, serviço de empregada, televisão e dois travesseiros extras em cada closet. Entretanto, o fato de o atendente no balcão aceitar dinheiro, não exigir identidade e evitar olhar Laura de frente, era prova de que cm mais um ano o Pássaro Azul da Felicidade seria outro monumento à burrice política e à avareza humana, num mundo tão repleto desse tipo de monumentos, como qualquer velho cemitério repleto de lápides.

O motel tinha três alas, formando um U, com o estacionamento no centro, e o quarto de Laura ficava no canto direito da ala traseira. Uma grande palmeira em leque erguia-se perto da porta, aparentemente não castigada pelo smog nem limitada pelo pequeno pedaço de solo no meio de tanto asfalto, cheia de brotos mesmo no inverno, como se a natureza a tivesse escolhido para símbolo da sua intenção de retomar cada pedaço de solo depois da passagem do homem.

Laura e Chris armaram a cadeira de rodas e puseram o ferido nela, procurando disfarçar o que estavam fazendo, como se estivessem apenas ajudando uma pessoa deficiente. Completamente vestido, com os curativos cobertos pela roupa, o guardião podia passar por um paraplégico — a não ser pelo modo como sua cabeça rolava nos ombros.

O quarto era pequeno mas relativamente limpo. O tapete esgarçado mas recentemente lavado, e alguns cotões de poeira num canto não eram tão grandes quanto rolos de amaranto feitos pelo vento. A colcha xadrez marrom da cama de casal estava esgarçada nas bordas, e o desenho não chegava a disfarçar dois remendos, mas os lençóis eram engomados e cheiravam a detergente. Passaram o ferido da cadeira para a cama e apoiaram sua cabeça em dois travesseiros.

A televisão de 17 polegadas estava pregada a uma mesa com tampo arranhado e laminado e as pernas traseiras da mesa eram pregadas no chão. Chris sentou em uma das cadeiras, ligou o aparelho e girou o botão à procura de desenhos animados ou reprise de algum bom programa. Escolheu Agente 86, mas queixou-se que era "burro demais para ser engraçado" e Laura imaginou quantos meninos daquela idade pensariam assim.

Ela sentou na outra cadeira.

—        Por que não toma um banho de chuveiro?

—        E depois vestir a mesma roupa? — perguntou ele, hesitante.

   —     Sei que parece besteira, mas tente. Garanto que vai se sentir mais limpo, mesmo sem trocar de roupa.

—        Mas tanto trabalho para tomar banho, depois vestir roupa amarrotada!

—        Não sabia que tinha virado modelo tão exigente que não suporta algumas rugas na roupa.

Chris sorriu, levantou e foi para o banheiro imitando o passo de um modelo —   O rei e a rainha ficariam chocados me vendo deste jeito.

—        Nós arranjaremos vendas para seus olhos quando vierem nos visitar.

Num minuto ele estava de volta.

—        Tem um inseto morto no vaso. Acho que é uma barata, mas não tenho certeza.

—        Importa a espécie? Devemos avisar o parente mais próximo?

Chris riu. Meu Deus, como Laura gostava de ouvir aquela risada.

Ele disse:

—        O que devo fazer... dar a descarga?

—        A não ser que queira pescá-lo, colocar numa caixa de fósforos e o enterrar no canteiro lá fora.

Chris riu outra vez.

—        Nem pensar. Sepultamento no mar.

No banheiro ele cantarolou o toque de silêncio e puxou a descarga.

Enquanto Chris estava no banheiro, o Agente 86 acabou e começou Os Harlem Globetrotters na ilha Gilligan. Laura não estava na verdade olhando para a tela; a televisão estava ligada como um som de fundo, mas há limites para o que até mesmo uma mulher em fuga pode aturar. Mudou para o canal 11 no programa Hour Magazine.

Olhou para seu guardião por algum tempo, mas aquele sono tão pouco natural a deprimia. Sem sair da cadeira, abriu as cortinas algumas vezes, examinando o estacionamento do motel, mas ninguém podia saber onde estavam; não corriam perigo iminente. Então, olhou para a televisão, sem interesse, até ficar praticamente hipnotizada. O apresentador da Hour Magazine estava entrevistando um jovem ator que falava vagarosamente sobre ele mesmo, nem sempre com coerência, e depois de algum tempo Laura notou que ele estava dizendo alguma coisa sobre água, mas agora ela estava cochilando e aquela insistência em falar sobre água era mesmérica e entediante ao mesmo tempo.

—        Mamãe!

Laura piscou os olhos, endireitou o corpo na cadeira e viu Chris na porta do banheiro. Acabava de sair do chuveiro. Estava com o cabelo molhado e só de cueca. Olhando para o corpo magro do menino — só costelas, cotovelos e joelhos — Laura sentiu um aperto no coracão, pois ele parecia tão inocente e vulnerável. Chris parecia tão pequeno e frágil que Laura imaginou como poderia protegê-lo, e o medo apossou-se dela novamente.

—        Mamãe, ele está falando — disse Chris, apontando para o homem na cama. — Não ouviu? Ele está falando.

—        Água — disse o guardião com voz pastosa. — Água.

Laura foi rapidamente até a cama e inclinou-se sobre ele. Não estava mais comatoso. Tentava sentar na cama, mas não tinha forças. Os olhos azuis abertos e congestionados fixaram-se nela, alerta e observadores.

—        Sede — disse ele.

—        Chris...

O menino já estava ali com o copo cheio d'água na mão.

Laura sentou na beirada da cama, ergueu a cabeça do ferido e o ajudou a beber. Obrigou-o a tomar pequenos goles; não queria que se engasgasse. Os lábios dele estavam rachados pela febre e a língua coberta por uma camada branca, como se tivesse comido cinza. Tomou mais de um terço da água, e então fez sinal de que era bastante.  Laura pôs a cabeça dele no travesseiro e a mão na sua testa.

—        Não está tão quente quanto antes.

O guardião girou a cabeça de um lado para o outro, tentando ver o quarto. Apesar da água, sua voz estava seca, crestada pela febre.

—        Onde estamos?

—        A salvo — disse Laura.

—        Nenhum lugar é seguro.

—        Acho que descobrimos mais sobre esta situação do que pode imaginar — disse ela.

—        Isso mesmo — disse Chris, sentando ao lado da mãe. — Sabe mos que você é um viajante do tempo!

O homem olhou para o garoto, conseguiu dar um sorriso muito fraco, fez uma careta de dor.

—        Tenho remédio — disse Laura. — Um analgésico.

—        Não — respondeu ele. — Agora não. Mais tarde, talvez. Mais água.

Laura ergueu a cabeça dele novamente e Stefan tomou toda a água que restava no copo. Laura lembrou-se da penicilina e pôs uma cápsula em sua boca, que foi tomada com os últimos dois goles.

—        De quando você vem? — perguntou Chris, intensamente interessado, sem dar importância às gotas de água do banho que pinga vam do seu cabelo. — De quando?

—        Meu bem — disse Laura —, ele está muito fraco, e não deve mos fazer muitas perguntas ainda.

—        Mas pode dizer pelo menos isso, mamãe — voltou-se para o homem. — De quando você vem?

  O guardião olhou para Chris, depois para Laura e a expressão sombria voltou aos seus olhos.

—        De quando você vem, hem? Do ano 2100? 3000?

Com sua voz seca como papel, o guardião disse:

—        Mil novecentos e quarenta e quatro.

Aqueles minutos de atividade evidentemente o tinham cansado, pois suas pálpebras pareciam pesadas e a voz ficou mais fraca. Laura estava certa de que estava delirando outra vez.

—        Quando? — repetiu Chris, atônito com a resposta.

—        Mil novecentos e quarenta e quatro.

—        Isso é impossível — disse Chris.

—        Berlim — disse o guardião.

—        Está delirando — falou Laura.

A voz do ferido ficou arrastada, enfraquecida pelo cansaço, mas a palavra soou clara: Berlim.

—        Berlim? — disse Chris. — Quer dizer, Berlim... Alemanha?

O sono tomou conta do homem ferido, não o sono do coma, mas o sono repousante, imediatamente marcado por um leve ronco, mas antes de adormecer completamente, ele disse:

—        Alemanha nazista.

 

Uma vida para viver estava passando na televisão, mas Laura e Chris não prestavam atenção ao seriado. Tinham aproximado as cadeiras da cama e observavam o homem adormecido. Chris estava vestido, com o cabelo quase seco, úmido ainda na nuca. Laura queria tomar um banho, mas não ia deixar seu guardião que podia acordar outra vez e falar. Ela e o filho conversavam em voz baixa.

—        Chris, pensei uma coisa. Se esses homens fossem do futuro, por que não teriam armas de raio laser ou coisa assim?

—        Para que não soubessem que vinham do futuro — disse Chris.

— Usariam armas e roupas que não chamassem atenção. Mas, mamãe, ele disse que era da...

—        Eu sei o que ele disse. Mas não faz sentido. Se em 1944 eles tivessem a tecnologia da viagem no tempo, hoje nós saberíamos disso.

À uma e meia o guardião acordou, parecendo um tanto confuso. Pediu mais água e Laura o ajudou a beber. Disse que se sentia um pouco melhor, mas ainda muito fraco e com sono. Pediu para ficar sentado na cama. Chris apanhou os dois travesseiros do closet e ajudou a mãe a erguer um pouco o ferido.

—        Como é o seu nome? — perguntou Laura.

—        Stefan. Stefan Krieger.

Laura repetiu o nome suavemente, não era melódico mas sólido, um nome masculino. Mas não era o nome de um anjo da guarda, e com certo humor ela percebeu que depois de tantos anos, incluindo duas décadas durante as quais dizia a si mesma que não acreditava mais nele, ainda esperava ouvir um nome extremamente musical.

—        E na verdade vem de...

—        Mil novecentos e quarenta e quatro — repetiu ele.

O esforço de mudar de posição na cama fizera aparecer gotas de suor na testa dele — ou talvez fossem provocadas pela lembrança do tempo e do lugar de onde tinha vindo.

—        Berlim, Alemanha. Havia um brilhante cientista polonês, Vladimir Penlovski, considerado louco por muitos, e na verdade talvez fosse... muito louco, eu acho... mas também um gênio. Em Varsóvia ele estudou certas teorias sobre a natureza do tempo durante mais de 25 anos antes da invasão do seu país pela Alemanha e pela Rússia, em 1939...

Penlovski, segundo Stefan Krieger, simpatizava com os nazistas e recebeu com satisfação o Exército de Hitler. Talvez soubesse que Hitler concederia o apoio financeiro para as pesquisas que fazia, o que não conseguia de fontes mais equilibradas. Com patrocínio pessoal de Hitler, Penlovski e seu assistente Wladyslaw Januskaya foram para Berlim a fim de criar o instituto de pesquisa do tempo, um empreendimento tão secreto que nem recebeu um nome. Era chamado simplesmente do instituto. Ali, com ajuda de cientistas alemães tão dedicados e de ampla visão quanto ele, financiados por uma fonte aparentemente inexaurível de fundos do Terceiro Reich, Penlovski descobriu um meio para cortar a artéria do tempo, movimentando-se livremente naquela corrente de dias, meses e anos.

—        Blitzstrasse — disse Stefan.

—        Blitz... isso significa relâmpago — disse Chris. — Como Blitz- kríeg... guerra relâmpago... em todos aqueles filmes antigos.

—       Estrada do Relâmpago, neste caso — disse Stefan. — A estrada no tempo. A estrada para o futuro.

Literalmente podia ser chamada de Zukunfstrasse, ou Estrada do Futuro, explicou Stefan, pois Vladimir Penlovski não conseguiu descobrir um meio de enviar pessoas para o passado com o portão que tinha inventado. Só era possível viajar para a frente, para o futuro, e voltar automaticamente para seu próprio tempo.

—        Parece haver um mecanismo cósmico que impede os viajantes do tempo de interferir nos próprios passados, a fim de alterar as circunstâncias do presente. Vocês compreendem, se pudessem voltar ao passado, seria criada uma série de....

—        Paradoxos! — disse Chris, entusiasmado.

Stefan ficou surpreso vendo o garoto fazer uso daquela palavra. Laura sorriu e disse:

—        Como eu já disse, tivemos uma longa conversa sobre suas possíveis origens, e a viagem no tempo nos pareceu a mais lógica. E aqui você está vendo meu especialista em coisas estranhas.

—        Paradoxo — concordou Stefan. — A mesma palavra em ale mão. Se o viajante do tempo pudesse voltar ao próprio passado e interferir em algum fato histórico, essa mudança teria tremendas ramificações. Poderia alterar o futuro do qual ele vinha. Portanto ele não poderia voltar ao mesmo mundo que havia deixado...

—        Paradoxo! — disse Chris alegremente.

—        Paradoxo — concordou Stefan. — Aparentemente, a natureza detesta paradoxos e de um modo geral não permite que o viajante do tempo provoque essa situação. Graças a Deus. Porque... imaginem se, por exemplo, Hitler enviasse um assassino ao passado para matar Franklin Roosevelt e Winston Churchill, muito antes de chegarem aos cargos de presidente e primeiro-ministro. Outros homens seriam eleitos nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, homens menos brilhantes e mais maleáveis, que teriam conduzido Hitler ao triunfo em 1944, ou antes disso.

Stefan falava agora com uma emoção que seu estado de fraqueza não permitia que mantivesse por muito tempo e Laura percebeu que o estava debilitando rapidamente. A transpiração estava quase seca em sua testa; porém agora, embora ele não estivesse gesticulando, novas gotas de suor começavam a aparecer. As olheiras pareciam mais escuras. Mas não podia mandar que se calasse para descansar, porque queria e precisava saber tudo — e porque ele não permitiria que ela o interrompesse.

—        Suponhamos que der Führer pudesse enviar assassinos ao passado para matar Dwight Eisenhower, George Patton, marechal Montgomery, matá-los no berço, eliminando-os, bem como todas as melhores mentes militares dos aliados. Então, o mundo quase todo seria seu em 1944, e nesse caso os viajantes do tempo estariam voltando ao passado para matar aqueles homens que estavam mortos há muito tempo e não representavam ameaça. Paradoxo, como podem ver. E graças a Deus, a natureza não permite esse paradoxo, não permite interferência com o passado, pois do contrário, Adolf Hitler teria transformado o mundo todo num imenso campo de concentração, um crematório.

Ficaram em silêncio por algum tempo, chocados com a possibilidade daquele inferno. Até Chris compreendeu o quadro que Stefan mostrava, de um mundo diferente, pois era um garoto da década de 1980, quando os vilões no cinema e na televisão eram sempre vorazes habitantes de uma estrela distante ou nazistas. A suástica, o símbolo da caveira prateada e os uniformes negros da SS, o fanático com o estranho bigode, representavam coisas terríveis para Chris, porque faziam parte da mitologia criada pela mídia na qual ele fora criado. Laura sabia que pessoas e eventos reais, uma vez incluídos na mitologia, eram de certo modo mais reais para uma criança do que o pão que ela comia. Stefan disse:

—        Assim, do instituto só podemos viajar para a frente no tempo, mas isso tem muita utilidade também. Podíamos saltar algumas décadas para verificar se a Alemanha conseguiu suportar o tempo difícil da guerra e de certo modo inverter o curso das coisas. Mas é claro, descobrimos que isso não aconteceu, que o Terceiro Reich foi derrota do. Contudo, com esse conhecimento do futuro, não seria possível ainda modificar o resultado final? Sem dúvida Hitler poderia fazer alguma coisa para salvar o Reich, mesmo em 44. E podiam levar para o passa do certas coisas do futuro para vencer a guerra...

—        Assim como bombas atômicas? — perguntou Chris.

—        Ou o conhecimento para fazer essas bombas — disse Stefan.

— O Reich já possuía um programa de pesquisa nuclear, vocês sabem, e se conseguissem todo o conhecimento em tempo, se conseguissem a divisão do átomo...

—        Teriam ganhado a guerra — disse Chris.

Stefan pediu água e tomou meio copo. Tentou segurar o copo mas sua mão tremia demais e a água derramou sobre as cobertas. Laura o ajudou.

Quando voltou a falar, sua voz quase desaparecia às vezes.

—        Uma vez que nenhum viajante do tempo existe fora do tempo durante sua viagem, pode se movimentar, não só no tempo, mas geograficamente também. Imaginem o viajante suspenso sobre a terra, imóvel, enquanto o globo gira sob ele. Não é exatamente o que acontece, mas é mais fácil imaginar isso do que um indivíduo pairando em outra dimensão. Então, enquanto ele está lá em cima, o mundo continua girando, e se sua viagem ao futuro estiver bem controlada, pode chegar a um determinado tempo em Berlim, a mesma cidade da qual partiu anos atrás. Mas se a viagem foi programada para algumas horas a mais ou a menos, o mundo terá girado exatamente aquele tempo e ele chegará a outro lugar. O cálculo para conseguir a chegada no tempo e no lugar exatos é extremamente complexo na minha era, 1944...

—        Mas devem ser mais fáceis hoje — disse Chris — com os computadores.

Apoiado nos travesseiros, numa posição pouco confortável, a mão direita trêmula sobre o ombro esquerdo ferido, como que procurando aliviar a dor, Stefan disse:

—        Equipes de físicos alemães, na companhia da Gestapo, foram enviadas secretamente a várias cidades da Europa e dos Estados Unidos em 1985, para coletar informação vital sobre as armas nucleares. O material que procuravam era difícil de encontrar ou sigiloso. Com o que já sabiam do resultado de suas pesquisas, podiam obter o resto em livros e outras publicações científicas acessíveis nas bibliotecas das principais universidades em 1985. Quatro dias antes da minha partida final do instituto, essas equipes voltaram de 85 para março de 1944, com material que daria ao Reich um arsenal nuclear antes do outono daquele ano. Passariam algumas semanas estudando o material, no instituto, antes de resolver como e onde aplicar aquele conhecimento no programa nuclear alemão sem revelar sua origem. Compreendi então que precisava destruir o instituto e tudo que ele continha, homens-chaves e arquivos, para evitar um futuro moldado por Adolf Hitler.

Laura e Chris ouviam atentos. Stefan Krieger contou como havia colocado os explosivos no instituto, como nos seus últimos dias em 44 tinha eliminado Penlovski, Januskaya e Volkaw, programando o portão para levá-lo a Laura e à América daquele tempo.

Mas algo saiu errado no último momento, quando Stefan se preparava para partir. Falhou o fornecimento de força da cidade, que alimentava o instituto. A RAF havia bombardeado Berlim pela primeira vez em janeiro daquele ano, e os bombardeiros americanos fizeram seus primeiros ataques diurnos em 6 de março, portanto o fornecimento de força fora interrompido várias vezes, não somente devido aos bombardeios, mas também por sabotagem. Por isso o portão era alimentado por um gerador especial. Stefan não ouviu nenhum bombardeio naquele dia quando, ferido por Kokoschka, entrou no portão, portanto, devia ter sido obra dos sabotadores.

—        E o marcador de tempo dos explosivos parou. O portão não foi destruído. Ainda está aberto e eles podem vir atrás de nós. E... ainda podem vencer a guerra.

Laura começava a sentir dor de cabeça outra vez. Levou as mãos às têmporas.

—        Mas, espere. Hitler não pode ter conseguido armas atômicas nem vencido a guerra, porque não vivemos num mundo onde isso aconteceu. Não precisa se preocupar. De certo modo, apesar de todo o conhecimento que acumularam usando o portão, obviamente falharam na construção de um arsenal atômico.

—        Não — disse Stefan. — Falharam até agora, mas não pode mos presumir que continuarão falhando. Para aqueles homens do instituto em Berlim, em 1944, o passado é imutável, como eu já disse.

Não podem voltar no tempo e alterar o próprio passado. Mas podem mudar seu futuro e o nosso, porque o futuro do viajante do tempo é mutável; ele pode alterar o próprio futuro.

  —      Mas o futuro deles é o meu passado — disse Laura. — E se o passado não pode ser mudado, como podem mudar o meu?

—        É isso aí — disse Chris. — Paradoxo.

Laura disse:

—        Escutem, não passei os últimos 34 anos em um mundo governado por Hitler e seus herdeiros; portanto, apesar do portão, Hitler falhou.

Stefan disse com expressão sombria:

—        Se a viagem no tempo fosse inventada agora, em 1989, esse passado do qual você fala., a Segunda Guerra Mundial e tudo o que aconteceu depois... seria inalterável. Não poderia ser mudado pois a natureza não permite a viagem ao passado e os paradoxos da viagem do tempo seriam aplicados. Mas a viagem no tempo não foi descoberta aqui... ou redescoberta. Os viajantes do tempo no instituto de Berlim em 1944 podem mudar o próprio futuro à vontade, aparentemente, e embora com isso alterem simultaneamente o seu passado, nada nas leis da natureza os impediria. E aí temos o maior de todos os paradoxos... o único que a natureza parece permitir.

—        Está dizendo que eles ainda podem fazer armas nucleares em 1944 com a informação obtida em 1985, e vencer a guerra? — indagou Laura.

—        Sim. A não ser que o instituto seja destruído antes disso.

—        E o que ia acontecer então? De repente tudo ia mudar para nós e estaríamos vivendo sob o domínio do nazismo?

—        Isso mesmo. E você nem ia saber o que tinha acontecido, por que não seria a mesma pessoa. Seu passado jamais teria ocorrido. Você teria um passado completamente diferente, e não poderia lembrar de outro qualquer, nada do que aconteceu nesta sua vida porque esta vida jamais teria existido. Ia pensar que o mundo sempre fora assim, que nunca existiu um mundo onde Hitler perdeu a guerra.

Era uma idéia terrível porque fazia a vida parecer mais frágil do que nunca. O mundo sob os pés de Laura parecia menos real do que um mundo de sonho; podia dissolver-se inesperadamente atirando-a em um imenso vazio.

Horrorizada, ela disse:

—        Se eles mudarem o mundo no qual cresci, eu jamais terei Danny, nunca me casarei.

—        Eu não teria nascido — disse Chris.

Laura pôs a mão no braço do filho, não só para tranqüilizá-lo como também para certificar-se da realidade de sua presença.

—        Eu podia não ter nascido. Tudo que eu vi, as coisas boas e más que aconteceram no mundo desde 1944... tudo teria desaparecido como um castelo de areia levado pelo mar e uma nova realidade existiria em seu lugar.

—        Uma nova realidade muito pior — disse Stefan, exausto com o esforço de explicar o que estava em jogo.

—        Nesse novo mundo, eu não teria escrito meus livros.

—        Ou, se escrevesse — disse Stefan — seriam diferentes dos que escreveu nesta vida, obras grotescas, produzidas por uma artista sob o domínio de um governo de opressão, sob o punho de ferro da censu ra nazista.

—        Se aqueles caras construírem a bomba atômica em 1944 — disse Chris — nós todos vamos nos transformar em poeira e seremos leva dos pelo vento.

—        Não literalmente. Mas como poeira, sim — concordou Stefan Krieger. — Desaparecidos sem deixar traço da nossa existência.

—        Temos de impedir os caras — disse Chris.

—        Se pudermos — disse Stefan. — Mas primeiro precisamos nos manter vivos nesta realidade, e isso talvez não seja muito fácil.

 

Laura ajudou Stefan a ir ao banheiro do motel, como uma enfermeira acostumada a lidar com as funções básicas de homens doentes. Quando voltaram e ela o pôs na cama, ficou novamente preocupada; Stefan era forte mas seu corpo parecia flácido, a pele pegajosa e estava assustadoramente fraco.

Laura contou em poucas palavras o tiroteio na casa de Brenkshaw.

—        Se aqueles assassinos vêm do passado e não do futuro, como sabem onde estamos? Como podiam saber em 1944 que estaríamos na casa do dr. Brenkshaw, 45 anos depois?

—        Para encontrá-la — disse Stefan — fizeram duas viagens. Primeiro foram bem adiante no futuro, alguns dias mais tarde, até o próximo fim de semana, talvez, para ver se você havia aparecido em algum lugar. Se não tivesse aparecido... o que provavelmente aconteceu... eles começariam a verificar os registros públicos. Jornais atrasados, por exemplo. Procurariam reportagens sobre o tiroteio em sua casa na noite passada, e essas histórias lhes informariam que você havia levado um homem ferido à casa de Brenkshaw em San Bernardino. Então, simplesmente voltaram a 44 e fizeram outra viagem... dessa vez para a casa de Brenkshaw nas primeiras horas da manhã de 11 de janeiro.

—        Eles podem pular de um lado para o outro em volta de nós — disse Chris. — Podem avançar no tempo para ver onde vamos aparecer, depois escolhem o melhor lugar para a armadilha. É assim como... se a gente fosse caubóis e os índios todos tivessem percepção extra-sensorial.

— Quem era Kokoschka? — perguntou Chris. — Quem era o homem que matou meu pai?

—        Chefe de segurança do instituto — disse Stefan. — Afirmava ser parente distante de Oskar Kokoschka, o famoso pintor expressionista austríaco, mas duvido que seja verdade porque no nosso Kokoschka não existe nem um grão de sensibilidade artística. Standartenführer... que significa coronel... Heinrich Kokoschka era um eficiente matador da Gestapo.

—        Gestapo — disse Chris, apavorado. — Polícia secreta?

—        Polícia do Estado — disse Stefan. — De existência vastamente conhecida, mas com permissão de operar secretamente. Quando ele apareceu na estrada da montanha, em 1988, fiquei tão surpreso quanto vocês. Não houve relâmpagos. Deve ter chegado muito longe de onde estávamos, a uns vinte ou trinta quilômetros de distância, em algum outro vale das montanhas de San Bernardino, por isso não vimos os relâmpagos. — Na verdade, explicou ele, os relâmpagos associados à viagem no tempo constituíam um fenômeno muito localizado. — De pois de Kokoschka ter aparecido nas montanhas, seguindo meus passos, fiquei certo de que ia encontrar todos no instituto furiosos com minha traição, mas, quando cheguei lá, ninguém parecia saber de na da. Fiquei confuso. Então, depois que matei Penlovski e os outros, quando me preparava para a última viagem ao futuro, Heinrich Kokoschka entrou no laboratório e me feriu com um tiro. Ele não estava morto! Não fora morto naquela estrada em 1988! Então compreendi que Kokoschka só soube da minha traição quando encontrou os homens mortos no instituto. Ele viajaria a 1988 e tentaria me matar...

e a todos vocês... mais tarde. O que significava que o portão ficaria aberto para que ele pudesse fazer isso, e que eu não o teria destruído.

Pelo menos não daquela vez.

—        Meu Deus, que dor de cabeça — disse Laura.

Chris aparentemente acompanhava sem dificuldade toda a trama complexa da viagem no tempo. Ele disse:

—        Então, depois que você foi até nossa casa, na noite passada, Kokoschka viajou para 1988 e matou meu pai. Puxa! De certo modo, sr. Krieger, o senhor assassinou Kokoschka 43 anos depois que ele o feriu no laboratório... mas já o tinha matado antes de levar o tiro. É uma loucura, mamãe, não é? Não é bacana?

—        É mesmo — concordou ela. — E como foi que Kokoschka o descobriu naquela estrada da montanha?

—        Depois de descobrir que eu tinha matado Penlovski e fugido pelo portão, Kokoschka deve ter encontrado os explosivos no sótão e no porão. Então, com certeza verificou os registros automáticos da máquina de todas as viagens realizadas. Era uma parte do meu trabalho, por isso ninguém havia notado minhas viagens para interferir em sua vida, Laura. Seja como for, Kokoschka deve ter feito algumas viagens por conta própria, para ver onde eu ia, vigiando-me enquanto eu vigiava você, vendo que eu alterava seu destino para melhor. Certamente estava observando  quando fui ao cemitério no dia do enterro do seu pai, e quando dei aquela sova em Sheener, mas eu jamais o vi. Assim, baseado em todas as viagens e todas as épocas em que eu apenas a observei e as vezes em que a salvei, ele escolheu um lugar para nos matar. Queria me eliminar porque eu era um traidor, e queria matar você e sua família porque... bem, porque compreendeu o quanto eram importantes para mim.

Por quê?, pensou Laura. Por que sou tão importante para você, Stefan Krieger? Por que interferiu no meu destino, tentando me dar uma vida melhor?

Teria feito essas perguntas então, mas Stefan tinha mais coisas para dizer sobre Kokoschka. Suas forças pareciam diminuir rapidamente e Stefan seguia com dificuldade o fio do próprio pensamento. Laura não queria interromper e confundi-lo mais ainda.

—        Lendo os relógios e gráficos no painel programador do portão — disse Stefan —, Kokoschka pode ter descoberto minha meta final:

sua casa, a noite passada. Mas, vejam bem, na verdade minha intenção era voltar na noite da morte de Danny, como prometi, mas voltei só um ano depois porque cometi um erro de cálculo quando programei a máquina. Depois de partir pelo portão, ferido, Heinrich Kokoschka certamente encontrou meus cálculos. Deve ter compreendido meu engano e descoberto onde eu estaria, não só ontem à noite, como também na noite da morte de Danny. De certo modo, quando viajei para evitar o acidente com o caminhão nas montanhas, eu trouxe o assassino