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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O HERDEIRO GUERREIRO / Cinda Williams Chima
O HERDEIRO GUERREIRO / Cinda Williams Chima

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

 

   

                         Condado de Coalton, Ohio, Estados Unidos

                         Junho de 1870

O cheiro de madeira queimada e rosas sempre o leva­va de volta ao menino que fora e que nunca mais seria.

As Rosas vieram buscá-los em seu décimo verão. Naquele tempo, Lee era baixo e franzino, embora o pai sempre dissesse que as mãos e os pés grandes prome­tiam altura e ombros largos quando crescesse. Ele era o caçula, um pouco mimado, o único dos quatro filhos a demonstrar os sinais típicos de uma pedra de mago. Os pais queixavam-se de que ele levava dois dias para fazer o trabalho de um. Não era exatamente preguiçoso, mas bastante inábil.

Fazia apenas duas semanas que haviam voltado, após um mês em fuga. Voltar fora um erro. Lee enten­deu isso mais tarde, mas o pai era fazendeiro, e um fazendeiro não pode ficar longe dos campos por muito tempo durante o período de crescimento. Além do mais, os ataques anteriores das Rosas haviam sido esporádi­cos. Eles percorriam a cidade pelo rio, procuravam nas fazendas remotas e então desapareciam, às vezes por um ano inteiro.

Os vizinhos os chamavam de bandidos, especulan­do que haviam sido soldados na recente Guerra da Rebelião. Apenas sete anos antes, o general confedera­do, John Morgan havia liderado um grupo de invasores por aquelas colinas do sul de Ohio.

A família de Lee sabia que não era isso. Sabia o que esses invasores estavam procurando, e por quê. As Rosas seguiram as linhagens a oeste desde as cida­des portuárias do leste. Caçavam os descendentes do Urso Prateado, recolhendo os que eram dotados para o Mercado. O irmão, Jamie, fora levado quando Lee ainda era um bebê, e a família vivia na Pensilvânia. Jamie era um encantador. Lee não se lembrava dele, na verdade, mas eles sempre acendiam uma vela de cera para Jamie nos dias santos.

Lee estava feliz por estar em casa, de volta àque­las colinas verdes e arredondadas, feitas especialmente para os sonhadores. Naquele dia fatídico, havia saído de casa cedo para evitar que o mandassem fazer algum trabalho. Passara a manhã à margem do rio, o que lhe rendera uma porção de peixes-gatos que pretendia levar para a ceia. Ele caminhou calmamente pela estrada que levava para casa — apenas dois rastros deixados pela carroça, na verdade —, desviando-se sempre que algo lhe despertava o interesse.

Ao chegar perto de casa, sentiu o cheiro forte de madeira queimando. Era estranho, pois era verão e as lareiras de pedra e aquecedores a lenha não eram usa­dos desde abril. Talvez o pai estivesse limpando a terra ou queimando arbustos. Nesse caso, Lee deveria ter fi­cado em casa para ajudar. Pelo ângulo em que estava o sol, sabia que já era tarde para o almoço. A mãe devia estar subindo pelas paredes.

Foi então que ele viu uma coluna escura de fumaça subir aos céus através da copa das árvores à sua fren­te. Pela localização, sabia que estava vindo do terreno da casa. Talvez a cozinha tivesse pegado fogo. Come­çou a correr, os peixes sacudindo desajeitadamente ao seu lado.

 

Acabou descobrindo que era mesmo a cozinha, mais o celeiro e o galpão no jardim. Estava tudo em chamas, construções de madeira e palha fáceis de serem incen­diadas, e metade já havia sido devorada pelo fogo. A casa principal, porém, era de pedra, com telhado de ar­dósia e, portanto, mais resistente. O pai havia quebrado as pedras das colinas em torno para construí-la. Uma bela casa para aquela parte do mundo, e talvez por isso tivesse atraído a atenção. Lee parou à beira da floresta sem saber o que fazer. Os peixes escorregaram dos seus dedos sem que ele percebesse.

Por que não havia ninguém combatendo o fogo, bom­beando água do poço, passando baldes e encharcando a madeira que as chamas ainda não haviam atingi­do? Vasculhou o terreno com os olhos. Não havia nin­guém lá, nem o pai, nem a mãe, nem o irmão de Lee, ninguém.

Mantendo-se sob o abrigo das árvores, ele deu a volta na casa, sabendo que as sebes e muros que entre­meavam os jardins lhe dariam cobertura. O pai viera do Velho Mundo e tinha orgulho daqueles jardins. Eram civilizados, circundados por pedras, como os do lar an­cestral da família.

O instinto lhe dizia para se manter escondido. Agachou-se, desaparecendo na sombra do muro de pe­dra que passava perto da floresta, seguindo-o de volta até a casa. A pele do rosto enrijeceu-se por causa do calor do fogo quando passou junto à cozinha, através da horta, rumo à porta de trás da casa. A porta estava entreaberta. Ele a escancarou com um empurrão.

Estava tudo revirado lá dentro. Era evidente que a fa­mília estava à mesa quando o ataque acontecera. Se ele tivesse voltado a tempo, estaria com eles. A comida esta­va espalhada pelo chão — pães, pedaços de frutas e os bolinhos de canela de que Martin gostava tanto. A mo­bília havia sido quebrada em pedaços e incendiada como lenha, as mesas reviradas, a louça estilhaçada contra a parede. Alguém estava com muita raiva ou queria cha­mar a atenção. Lee desviou-se dos cacos de vidro no chão, lembrando-se de que estava com os pés descalços.

Insinuou-se mais para dentro da casa, mal respi­rando, mantendo-se colado à parede, os ouvidos atentos a qualquer pista que indicasse que os intrusos ainda estavam ali. Ao avançar em direção ao salão principal, ouviu um som, uma batida ritmada. O som aumentou de volume quando Lee se aproximou da frente da casa. Ao deslizar a mão pela parede, tocou algo molhado. Trazendo a mão para junto do rosto, sentiu o cheiro me­tálico de sangue. Havia sangue esparramado por todo o chão e paredes. Poças vermelho-escuro cristalizavam-se entre as pedras do chão. Seu coração martelava no peito; ele teve de lutar para conseguir respirar, mas se forçou a continuar.

Um corpo jazia na entrada do salão. Um homem vestido de maneira refinada demais para ser da região, com colete, camisa de seda e gravata que não eram feitas em casa, como as roupas de Lee. Parecia de meia-idade, mas era provavelmente bem mais velho. Um homem que não carregava arma à vista, e que não precisava de uma. Um mago, com certeza.

O irmão de Lee, Martin, jazia de bruços logo além da entrada, o corpo quase partido em dois. A maior par­te do sangue devia ser dele. Martin era dez anos mais velho do que Lee, alto e de ombros largos, conhecido por trabalhar duro. Prático. Não era um sonhador como Lee, Anaweir, nenhuma magia nele, não era páreo para os magos.

— Martin. — Os lábios de Lee formaram a palavra, mas ele não teve fôlego para emitir qualquer som.

Lee arrastou-se para dentro do quarto, sentindo o sangue pegajoso sob os dedos dos pés. Encontrou os corpos de mais dois magos, e então viu o pai esten­dido na lareira, suas pernas lá dentro, como se tivesse sido jogado.

O pai, que lhe contava histórias de castelos e man­sões do outro lado do oceano. Que podia roubar fogo do ar com os dedos e tecer escudos com a luz do sol. Que o chamava de herdeiro-mago e começara a lhe ensinar os feitiços que moldariam a magia para que ele a usasse. Que fora poderoso e esperto o suficiente para protegê-los de tudo. Até agora.

Lee caiu de joelhos, nauseado, e vomitou o pouco que restava de seu café da manhã. Então ouviu o baru­lho de novo, o som de pancadas.

A mãe estava aconchegada na cadeira de balan­ço junto à lareira, o tricô no colo. O som que ele ouvi­ra eram as batidas da cadeira contra a parede. Agora que estava mais próximo, ele conseguia ver as agu­lhas de tricô, batendo uma contra a outra, ocupadas. Ela, porém, não havia feito ponto algum. Embora ti­vesse novelos de linha na cesta e no colo, não estava tricotando nada.

—        Mãe? — sussurrou ele, chegando-se junto a ela, olhando com cautela ao seu redor. — Foram as Rosas?

Ela fitava a lareira onde o pai jazia, frio e mutilado. Balançava-se e não tricotava nada, não dizia nada. Não precisava. Ele sabia que haviam sido as Rosas; é claro que haviam sido as Rosas. Quem mais poderia ser?

—        Está ferida, mãe? — disse ele de novo, um pouco mais alto. Pôs a mão dentro da dela, mas os dedos da mãe não se fecharam em torno dos dele, e nos olhos dela havia um terrível nada.

Ele conteve um soluço. Nada de chorar. Ele era o homem da casa agora.

—        Onde está Carrie? — perguntou ele. A irmã não estava entre os corpos no chão, o que fazia sentido, já que as Rosas queriam Carrie viva.

A mãe não respondeu. Carrie talvez tivesse sido le­vada, ou podia estar escondida. Se havia sido levada, as Rosas rumariam para o sul em direção ao rio, depois a oeste, para Cincinnati, ou a leste, para Portsmouth, onde poderiam tomar um barco. Se ela tivesse sido le­vada, ele não saberia o que fazer.

Se estivesse escondida, ele sabia onde ela estaria. Saiu da casa pelo mesmo caminho que havia seguido para entrar.

Eles a chamavam de celeiro de hortaliças, mas era, na verdade, uma caverna que formava um túnel na encosta de uma montanha a alguma distância do terreno. Naquele espaço frio e úmido, eles estocavam comida: ba­tatas, nabos, cenouras, feijões secos e ervilhas em sacos.

A boca da caverna era coberta por rosas verme­lhas, trepadeiras e rosas selvagens brancas e rosadas. Estavam todas floridas, um perfume enjoativo. Ele abriu caminho através dos caules espinhosos e entrou.

—        Carrie? — sussurrou ele. — Sou eu.

Por um momento, nada aconteceu. Então houve um súbito movimento na escuridão, e a irmã lançou os braços em torno dele, murmurando:

Lee! Por que veio aqui? É perigoso demais. Você devia ter fugido quando viu que eles voltaram.

Carrie, eles mataram papai e Martin, e há algo errado com a mãe, ela não fala comigo. — As palavras precipitavam-se umas sobre as outras, mais altas do que pretendera.

Carrie inspirou fundo e apertou-o contra si, de modo que o resto do que ele tinha a dizer fosse dito contra o ombro dela. Ela murmurou-lhe palavras de conforto, mas não por muito tempo. Ela endireitou as costas, as mãos descendo até os cotovelos dele.

Agora me escute. — Ela o segurou a curta dis­tância. Vestia calças e uma camisa áspera, a faca em­bainhada na cintura. A mãe detestava ver Carrie vestida como homem, mas às vezes ela o fazia mesmo assim. — Você tem de ser muito corajoso agora.

Não se preocupe. — Ele se empertigou, tentando fazer a voz soar mais grossa, como a de Martin. — O pai me ensinou a proteger você contra os magos.

Carrie engoliu em seco.

—        Bobinho. Você é um mago. Vai ter de ter coragem o bastante para ir buscar ajuda.

Lee tentou interrompê-la, mas ela continuou:

Quero que vá direto para o sul até o rio. Siga o rio até a cidade. Fique escondido e longe das estradas. Quando vir alguém que você conhece, conte o que acon­teceu e peça que mandem ajuda para mamãe.

Você não vem comigo? — Ele já se sentia sozi­nho. Tentou não pensar em Martin e no pai, pois sabia que as lágrimas retornariam.

—        Vou embora por uns tempos — respondeu ela. — É perigoso demais para mim ficar com você e mamãe. As Rosas estão procurando por guerreiros. Não por magos ou Anaweirs. Vão deixar você em paz se eu não estiver por perto. — Ao ver a expressão no rosto dele, apressou--se em tranqüilizá-lo. — Eu volto quando for seguro.

Lee pensou na mãe, quieta e assustada dentro de casa. Sabia que era errado, mas não queria voltar lá sozinho.

—        Leve-me com você, Carrie. Por favor.

Ela sacudiu a cabeça. Era praticamente adulta, mas lágrimas corriam-lhe pelas faces.

—        Você tem de ficar, Lee. Mamãe é Anaweir. Precisa de alguém que tome conta dela.

—        Está bem — disse ele em tom insolente, não querendo que ela soubesse o quão assustado estava. Precisava ir logo, já que tomaria o longo caminho até a cidade. Empurrou as rosas para o lado de novo, espetando-se no processo, e saiu para a fraca luz do sol. E para os braços dos magos que aguardavam ali.

—        Carrie! — gritou ele.

Mãos o agarraram, segurando-o firme, carregando-o para longe da boca da caverna. Ele lutou e chutou, acertando o rosto de alguém com o cotovelo, sentindo a cartilagem ceder e em seguida o jorro de sangue quente. Contorceu-se todo, mas não conseguiu se libertar.

Havia muitos deles, cerca de meia dúzia. Estranhos com barbas, vestidos com roupas de domingo, como o mago morto na entrada do salão. Lee não conhecia nenhum feitiço de ataque, na verdade, mas sabia como encontrar o fogo, então colheu o fogo dos ares e man­dou-o em espiral na direção dos homens ao redor. Ouviu alguém praguejando, e então eles o jogaram no chão.

O mago com o nariz sangrando apontou para Lee, murmurando um feitiço. Um frio terrível o acometeu, e todo o seu corpo se tornou flácido. O mago passou as mãos por sob os braços de Lee, ergueu-o e segurou-o assim, os pés um pouco acima do chão, pendurado como uma marionete.

—        Diga para ela sair — ordenou o mago com o nariz sangrando, lançando chamas sobre Lee com suas mãos quentes.

Os músculos de Lee contorceram-se em espasmos e ele gritou — não conseguiu evitá-lo. Mas logo fechou a boca com obstinação.

—        Não temos o dia todo. A Rosa Branca está logo atrás de nós.

O mago lançou seu poder sobre ele novamente, como metal derretido correndo pelas veias, mas Lee es­tava preparado desta vez. Inspirou fundo, mas não fez nenhum som.

—        Saia ou a gente quebra o pescoço do garoto! — berrou Nariz Sangrando.

As rosas que obscureciam a entrada da caverna tre­meram, e pétalas caíram ao serem empurradas para o lado. Carrie emergiu para a luz meio agachada, de faca em punho. Ao ver Lee nas mãos dos magos, aprumou --se e deixou a faca cair ao chão.

Nariz Sangrando deu uma sacudidela triunfante em Lee.

—        Você nos levou diretamente a ela. Carrie caiu de joelhos, curvando a cabeça.

—        Por favor, soltem o meu irmão. Eu irei com os senhores.

Lee tentou falar, dizer a Carrie para se levantar, que lutariam contra os magos juntos.

Carrie, não... — Seu protesto transformou-se num grito de dor quando Nariz Sangrando lançou cha­mas sobre ele.

Wylie. Chega — disse um mago grisalho, com uma cicatriz na face. Ele parecia estar no comando. — Traga o leitor.

Wylie jogou Lee para o lado como se não pesasse nada e remexeu numa bolsa amarrada à cintura. Re­tirou dela um cone de prata e passou-o para o líder. Dois magos se postaram, um de cada lado de Carrie, agarrando seus braços e colocando-a em pé. O líder arrancou sua camisa para fora das calças e enfiou o cone, roçando a pele dela, até chegar ao peito. Carrie estremeceu, mas virou a cabeça para o lado e não disse nada. Após um momento, ele fez um gesto com a cabeça e retirou a mão.

—        Há uma pedra de guerreiro — disse ele, com um sotaque do Velho Mundo. Satisfeito, devolveu o cone a Wylie. — Deus sabe muito bem o preço que pagamos por ela. Vamos tirar a menina daqui antes que a Rosa Branca nos alcance.

Os magos trouxeram seus cavalos e começaram a montar, enquanto o líder atava as mãos de Carrie à frente do corpo com uma corrente de prata.

Wylie jogou Lee contra o tronco de uma árvore morta. O mago ajoelhou-se ao lado dele, ergueu seu queixo e pôs as pontas dos dedos contra a garganta do garoto. Lee olhou dentro dos olhos cinzentos e soube que estava prestes a morrer.

O líder percebeu.

—        Solte o garoto, Wylie — disse ele com irritação, calçando as luvas de montaria.

Wylie ergueu a cabeça.

Ele é uma testemunha. Nós matamos um mago. Se ficarem sabendo disso no Conselho...

Temos três mortos do nosso lado também — ob­servou o líder. — Se o pai do menino tivesse ficado com sua própria gente, ainda estaria vivo. Esse aí é uma criança. Não tornemos as coisas piores.

Não foi você que matou. Este aqui pode ser um mago, mas tem sangue mestiço. — Wylie apertou os lá­bios com desgosto. — Magos, guerreiros, feiticeiros, até Anaweirs se misturando como iguais. Não é natural.

Talvez eles saibam o que estão fazendo. — O líder apontou para Carrie. — Pelo menos a menina é saudá­vel. O que é mais do que posso dizer sobre guerreiros de nossa terra.

Os dedos de Wylie ainda pressionavam a garganta de Lee, que podia sentir o poder neles, uma leve vibra­ção contra a pele.

—        Eu mandei soltar o garoto — disse o líder. — Já estamos demorando demais.

Wylie finalmente se pôs em pé e se afastou, procu­rando por sua montaria.

Carrie fora colocada sobre um dos cavalos. Os olhos estavam fixos à frente, a boca formando uma linha es­treita, as faces reluzentes. O líder segurou as rédeas do cavalo dela e montou seu próprio animal. Apontou para Lee, neutralizando o feitiço que fora lançado sobre ele, mas Lee permaneceu deitado, com medo de se mover, sabendo agora, com toda a certeza, que era, no fundo do coração, um covarde.

E foi então que aconteceu. Um raio de luz relampe­jou através das árvores, azul e branco, e mortal, deixan­do um rastro de estrelas brilhantes — como os fogos de artifício que Lee tinha visto certa vez em Cincinnati. O ar crepitou com a eletricidade e, mesmo a distância, seu cabelo ficou em pé. O golpe atingiu o alvo com precisão e, por um momento, Carrie e o cavalo que montava pa­receram contornados pelas chamas, como alguns cor­pos celestes ao passarem na frente do sol. Houve uma tremor no ar, um tipo de vibração visual, e então eles desapareceram, cavalo e amazona evaporaram, como se nunca houvessem existido.

—        É a Rosa Branca! — gritou um dos magos. Virando o cavalo, lançou-se ao ataque cavalgando por entre as árvores. Os outros magos deram a volta com os cavalos e o seguiram, bradando em fúria, mas a Rosa Branca já havia feito o que viera fazer e estava em franca retirada.

Em questão de minutos, cavalos e cavaleiros haviam sumido. A poeira assentou lentamente através dos fei­xes de luz solar, e a clareira ficou em silêncio, a não ser pelo som do vento movendo os galhos ao alto.

Quando veio a escuridão, Lee já estava a quilôme­tros de distância, sentado, com as pernas cruzadas à beira do rio. Quando a lua finalmente clareou as árvo­res, brilhou sobre o rio Ohio, que corria como uma fita de prata em ambos os lados. Do outro lado do rio come­çava o Kentucky, uma escuridão misteriosa pontuada pelas luzes dos assentamentos espalhados.

— Não vou ser mais um urso — disse para si mes­mo. Seria mais feroz; seria invencível. — De agora em diante, sou um dragão.

Antes de continuar, pegou a faca da irmã e escreveu uma palavra na lama macia à beira d'água. Escreveu a fim de fixá-la na mente.

A palavra era Wylie.

 

                                   Trinity, Ohio, Estados Unidos

                                   Mais de cem anos depois

O bebê acordou quando Jessamine lhe tirou as co­bertas. Ela pensou que ele fosse chorar, mas ele apenas olhou solenemente para ela com olhos azuis brilhantes, enquanto ela abria sua camisa e examinava a incisão. Estava ainda um pouco avermelhada e inchada nas bordas, mas não havia sinal de infecção. Perfeito. Ela esperara, em parte, que o procedimento o matasse, mas ele parecia estar se recuperando bem. Apenas um mês após a cirurgia, o paciente ganhara peso, a coloração da pele estava boa, o pulso e a respiração, normais.

Nenhuma razão para que não pudesse viajar. Nenhuma mesmo.

Fechou a camisa do bebê, satisfeita consigo mes­ma. Aqueles imbecis do hospital haviam criado dificul­dades e reclamado de tudo: dos métodos dela, do fato de ela ter levado seu próprio pessoal para assisti-la, de não deixar que observassem o procedimento.

Idiotas. Talvez ela devesse ter permitido que al­guns deles entrassem na sala de cirurgia. Talvez tivesse valido a pena ver a cara deles antes de apagar-lhes a memória.

É claro, levaria anos até que ela pudesse ver os re­sultados do experimento. Um tempo considerável inves­tido, caso fracassasse, mas com muito a ser ganho no caso de sucesso. Talvez o fim da escassez de guerreiros. Um suprimento ilimitado para alimentar o Jogo. A vitó­ria final da Rosa Branca.

Jessamine deu uma olhada ao redor. O quarto esta­va cheio de coisas de bebê, mais parafernália do que ela seria capaz de carregar. Ela poderia comprar mais coi­sas quando chegassem ao seu destino. De que um bebê precisaria para viajar? Fraldas e roupas. Uma cadeira de viagem. O que comeria? Leite? Ela deu de ombros. Pediatria não era sua especialidade.

No chão do armário embutido, encontrou uma grande bolsa que já continha fraldas e uma caixa de lenços de papel. Nenhuma mamadeira, porém. Abriu a gaveta de uma cômoda e achou uma pilha de roupinhas. Enfiou algumas das roupas na bolsa, que era decorada por ele­fantes e girafas em cores primárias. Jessamine franziu o cenho e passou as mãos pelo conjunto elegante que vestia. Removeu uma cortina de cabelo escuro da frente do rosto. Não gostava da idéia de andar por aí com uma bolsa de fraldas no ombro e um bebê no colo. Devia ter contratado alguém para tomar conta do fedelho desde o princípio.

Puxou uma cadeirinha de plástico do armário e a colocou no chão junto ao berço. Como a trava resis­tiu quando tentou baixar a grade lateral, Jessamine se debruçou desajeitadamente e ergueu o bebê da cama. Instalou-o no assento e começou a remexer no cinto de segurança.

Como se faz para achar uma babá? Não tinha a menor idéia.

— O que você está fazendo aqui?

Jessamine levou um susto. Linda Downey, uma encantadora, estava em pé junto à porta. Era só uma criança, na verdade, de pés descalços, vestindo jeans e camiseta. Linda era a tia do bebê, lembrou-se Jessamine, e não a mãe Anaweir. Ótimo. Não que isso importasse, mas era preferível evitar uma cena.

Jessamine pôs-se em pé, deixando o bebê na cadei­rinha e o cinto de segurança todo emaranhado.

—        Eu não sabia que tinha alguém em casa — disse ela, em vez de responder à pergunta.

Linda inclinou a cabeça para o lado. Era bem boni­ta, com longos cabelos escuros tramados em uma gros­sa trança. Movia-se com uma graça despreocupada que Jessamine invejava. Por outro lado, se Jess tivesse de escolher um dom em detrimento de outro, sempre esco­lheria o dela própria.

—        É claro que tem alguém em casa — disse a me­nina, com o jeito insolente dos adolescentes. — Não se deixa um bebê sozinho.

Ao menos a aparição súbita e inconveniente da en­cantadora solucionava um problema.

—        Estou feliz que esteja aqui — disse Jessamine imperiosamente, com um gesto de mão elegante. — Preciso que arrume as coisas dele, o suficiente para al­guns dias. Comida, roupas e tudo o mais.

—        Por quê? Aonde pensa que vai com ele? Jessamine suspirou, flexionando os dedos de lon­gas unhas pintadas.

Se precisa mesmo saber, vou levá-lo de volta comigo.

O quê? — As palavras soaram quase como um grito, e o bebê ergueu os braços, assustado. Linda deu um passo à frente. — O que quer dizer com isso?

Estou levando o bebê de volta para a Inglaterra. Não se preocupe — acrescentou ela. — Cuidarão bem dele. Simplesmente não posso me dar ao luxo de deixá-lo por aí.

Do que você está falando? — indagou Linda.

Desde a cirurgia... o valor dele aumentou — dis­se Jessamine com calma.

Linda ajoelhou-se junto ao assento para carro, exa­minando o menino como se pudesse descobrir algo por meio de uma inspeção detalhada. Estendeu um dedo, e o bebê agarrou-o. Ela ergueu os olhos para Jessamine.

O que você fez com ele?

Ele precisava de uma pedra, e eu lhe dei uma. Um milagre. Algo que ninguém jamais fez. Eu salvei a vida dele. — Jessamine sorriu, voltando as palmas para cima. — Só que agora ele é Weirlind.

Um guerreiro? — Linda sussurrou. — Não! Eu falei pra você! Ele é um mago. Ele precisava de uma pedra de mago. — Ela sacudiu a cabeça ao dizê-lo, co­mo se a negativa pudesse mudar as coisas. — Está tudo lá no Livro Weir dele. Ele é um mago — repetiu ela, desolada.

Jessamine sorriu.

—        Não mais, se é que algum dia foi. Seja razoável. Uma pedra de mago é difícil de encontrar. Os magos vivem quase eternamente. Mas os guerreiros... Os guer­reiros morrem cedo, não é verdade? — A última parte foi intencionalmente cruel.

A encantadora levantou-se, os punhos cerrados.

—        Eu deveria saber que não podia confiar em uma maga.

Jessamine empertigou-se. Estava perdendo a pa­ciência com aquela menina inútil.

—        Você não tinha muita escolha, tinha? Se não fos­se por mim, ele estaria morto agora. Meu negócio não é caridade. Eu aceitei o trabalho porque quero usá-lo no Jogo. E acho que você deve se lembrar de com quem está falando e torcer para que eu não perca a calma.

Linda inspirou fundo e deixou o ar sair com um tremor.

O que devo dizer a Becka?

Não me interessa o que vai dizer a ela. Diga que ele morreu. — Os Anaweirs e o que eles pensavam não tinham nenhuma importância.

Mas por que tem de levá-lo agora? Ele não pode disputar um torneio até ter crescido. — A voz da menina suavizou-se, tornou-se persuasiva. — Ele está vivo, mas como você sabe se o poder vai se manifestar nele? E o que vai fazer com ele enquanto isso?

Jessamine sentiu a pressão gentil, o toque do poder de uma encantadora. Deu de ombros.

—        Talvez eu leve você junto para ficar de olho nele. Em um ano ou dois, você poderá ir para o Mercado. — Jess julgava que obteria um bom preço pela menina, também. Encantadores e guerreiros eram difíceis de se encontrar.

Linda deu um passo atrás.

Você não se atreveria!

Então não tente seus truques de encantadora comigo. Já gastei muito do meu tempo com ele. Pre­tendo ficar de olho no meu investimento enquanto ele cresce.

—        Se ele crescer. Se alguém não o apanhar primei­ro. — Linda estendeu as mãos numa súplica. — Todos sabem que você é a procuradora de guerreiros da Rosa Branca. Por quanto tempo acha que ele vai sobreviver se estiver com você?

Nesse ponto a menina tinha razão. A pedra que Jess usara no bebê tinha vindo de uma guerreira de 17 anos de idade que havia sido sua última grande esperança. Uma menina que nunca entraria num torneio. Havia sido massacrada por agentes da Rosa Vermelha quando se viram incapazes de raptá-la. Uma manobra ilegal, mas as regras relativas aos Weir Anamagos haviam sido feitas para serem quebradas.

—        Imagino que você tenha uma sugestão.

—        Deixe-o ser criado pelos pais. Volte e leve-o mais tarde.

O bebê estreitou os olhos e soltou um guincho, o ros­to tomado por uma coloração zangada azul e vermelha. "Criaturas insondáveis, os bebês", pensou Jessamine. Insondáveis, imprevisíveis e bagunceiras.

—        Pode ser difícil lidar com ele mais tarde, se não for criado adequadamente — disse Jessamine.

Linda ergueu as sobrancelhas.

—        Está dizendo que uma maga não vai ser capaz de lidar com um guerreiro?

Jessamine balançou a cabeça, concedendo.

—        E se outra pessoa vier levá-lo para jogar?

—        Em Trinity? Ninguém vai procurar por ele aqui. É perfeito. Você é uma cirurgiã-curandeira. Bloqueie os poderes dele, de modo que não se destaque. — Linda sentou-se junto ao bebê, alisando-lhe a franja de cabelo ruivo dourado. — Você pode ficar de olho nele com fa­cilidade. Os pais são Anaweirs. Fáceis de serem contro­lados. Diga que precisa vê-lo regularmente. Becka fará tudo o que pedir. Você salvou a vida do filho dela.

Jessamine tinha de admitir que a sugestão da en­cantadora tinha seu atrativo. Levaria anos até que o menino fosse de alguma utilidade, e ele não seria nada além de um fardo até lá. Dessa maneira, ela poderia manter o moleque guerreiro longe do perigo e longe de si, até que tivesse idade suficiente para ser treinado.

Ela olhou bem dentro dos olhos azuis e dourados da encantadora.

—        E quanto a você? É controlável? Será capaz de desistir dele quando chegar a hora?

Linda voltou-se para o bebê.

—        Como você mesma disse, não tenho muita esco­lha, tenho?

 

- Jack!

A voz da mãe interrompeu-lhe os sonhos, e ele abriu os olhos com relutância. Era tarde, ele notou. A luz ha­via perdido aqueles tons de aquarela das primeiras ho­ras da manhã e entrava audaciosamente pela janela. Ele havia ficado acordado até tarde na noite anterior, observando as estrelas. Era noite de lua nova, e algu­mas das principais constelações só haviam surgido no horizonte após a meia-noite.

— Já vou! — gritou ele. — Estou quase pronto — mentiu, seus pés tocando o piso de madeira. As calças jeans estavam amontoadas junto à cama no mesmo lu­gar onde as despira na noite anterior. Ele as vestiu às pressas, pegou uma camiseta limpa na gaveta e pendu­rou um par de meias no ombro.

Jack fez uma curva em alta velocidade e entrou no banheiro. Não havia tempo para um banho. Lavou o rosto, molhou os dedos e passou-os no cabelo.

—        Jack! — A voz da mãe tinha aquele tom de último aviso.

Ele desceu saltitando as escadas dos fundos e en­trou na cozinha.

A mãe o esperava com granola e suco de laranja. Devia estar distraída, porque também lhe havia servido uma xícara de café. Ela deixara seu cereal inacabado e estava arrumando uma pilha de papéis.

Assim era Becka. A mãe de Jack era uma mulher de mil paixões. Embora fosse doutora em literatura medie­val e formada em direito, tinha dificuldade em gerenciar a economia doméstica: coisas como agenda escolar, di­nheiro para o almoço e devolver os livros da biblioteca dentro do prazo. Desde uma tenra idade, Jack assumira a tarefa de organizar tanto as suas próprias atividades quanto as da mãe.

Becka olhou para o relógio de pulso e gemeu.

Preciso me vestir! Tenho uma reunião daqui a uma hora. — Ela empurrou um grande frasco azul pela mesa na direção dele. — Não se esqueça de tomar o re­médio. — Enfiou os papéis em uma grande pasta. — Vou estar na biblioteca pela manhã, e no tribunal à tarde.

Não se esqueça de que eu tenho o teste para o time de futebol depois da aula — avisou Jack. — Caso você chegue em casa primeiro.

A mãe vivia preocupada. Sempre dizia que era por­que ele quase morrera quando bebê. Pessoalmente, Jack achava que essas coisas eram inatas. Algumas pessoas sempre se preocupavam, e outras nunca o faziam. Ele supunha que seu pai pertencesse à última categoria. Talvez fosse difícil se preocupar estando a três estados de distância.

—        Teste para o time de futebol — repetiu Becka solenemente, como que para gravar na memória. Então subiu correndo as escadas.

Alguém bateu com força na porta lateral. Jack er­gueu a cabeça, surpreso.

—        Oi, Will. Chegou cedo.

Era Will Childers, reclinando-se para espiar através da tela da porta. Embora Jack fosse alto, Will o supe­rava em altura e era tão robusto que poderia jogar no time de futebol americano da universidade. O estojo do trompete parecia um brinquedo a seu lado.

—        Jack! Vamos! Agora de manhã a gente tem o ensaio da banda de jazz, para o concerto da semana que vem.

Jack deu um tapa na testa e levou a tigela de cereal para a pia. Enfiando os pés dentro dos sapatos sem desamarrá-los, agarrou a mochila com os livros que o esperava junto à porta. Felizmente seu saxofone ficara na escola.

—        As aulas já começam cedo demais nos dias nor­mais — resmungou Jack, seguindo Will até a rua em passo acelerado.

Cortaram caminho pelo gramado da praça e ziguezaguearam por entre os clássicos prédios de arenito da faculdade. Trinity era uma dessas típicas cidades do Meio-Oeste norte-americano, que viviam em função de sua universidade, com ruas ladeadas por majestosas casas vitorianas e velhos carvalhos e bordos[1]. Cheia de gente capaz de recitar de cor cada pecado que Jack já cometera. Ele vivera lá toda a sua vida.

Graças a Will, eles chegaram ao ensaio apenas alguns minutos atrasados. Só quando Jack já estava sentado na sala de chamada (onde os alunos se reuniam ao chegar à escola para receber as comunicações e instruções do dia) e o primeiro sinal já havia tocado foi que ele se deu conta de que havia esquecido de tomar o remédio.

O incrível era que aquilo jamais acontecera antes — proeza obtida, até então, graças à mãe. O remé­dio era a prioridade número um para ela. Ela nunca o havia esquecido, nem mesmo uma única vez, e nem mesmo desta vez. Ele é que tinha pisado na bola.

Jack conhecia bem a história. Jessamine Longbranch, a famosa cirurgiã cardíaca de Londres, atravessara o oceano para tirá-lo das garras da morte. Ela ainda vi­sitava os Estados Unidos uma ou duas vezes ao ano e fazia um exame completo em Jack.

O jeito de ela lidar com os pacientes deixava muito a desejar. Ele se despia da cintura para cima e ela fa­zia um rápido exame, passava as mãos pelos músculos de seus braços, pernas e tórax, auscultava-lhe o cora­ção com um estetoscópio peculiar, em formato cônico, media-lhe a altura, o peso e a pressão sanguínea, e o declarava saudável.

Ele sempre se sentia como um pedaço de carne na­queles encontros com a doutora Longbranch, apalpado e cutucado à cata de gordura e ossos, questionado so­bre suas atividades físicas. O inquilino deles, Nick, dizia que era uma falha comum em cirurgiões: eles preferiam lidar com pessoas anestesiadas.

Todas as visitas terminavam com um lembrete para que ele tomasse o remédio. A doutora Longbranch sem­pre levava um novo estoque em suas visitas, e a mãe de Jack encomendava mais de seu consultório em Londres. O remédio do frasco azul assumira um papel de talismã, o elixir que mantinha o mal a distância.

Não havia ninguém em casa para lhe levar o re­médio, ele sabia. Becka estava na biblioteca da univer­sidade; depois iria para o tribunal e estaria inaces­sível em ambos os lugares. Ela não levava um celular porque estava convencida de que eles causavam tumo­res cerebrais.

Talvez ele pudesse telefonar para Nick em casa ou mesmo no apartamento de Nick. Ele atenderia ao telefone se estivesse trabalhando na casa, embora nunca verifi­casse as mensagens na secretária eletrônica. Ou talvez Jack pudesse convencer Penworthy a deixá-lo voltar para casa para buscar o remédio. Valia a pena tentar. Jack pediu um bilhete de autorização do professor para sair ao saguão no exato instante em que o último sinal tocou.

Leotis Penworthy, o diretor do Colégio de Trinity, estava vistoriando o saguão da escola, interceptando estudantes que ainda não haviam entrado nas classes e tomando os nomes dos infelizes que ainda pingavam pela porta da frente.

Penworthy trajava calças com a bainha nos torno­zelos e um casaco esporte de poliéster azul claro três números menor do que o seu. Sua barriga derrama­va-se sobre um cinto, escondido em algum lugar ali embaixo. O rosto estava sempre afogueado, como se a constrição na cintura forçasse o sangue a subir até as têmporas.

—        SENHOR Fitch! — vociferou Penworthy, pegando pela gola um garoto que tentava passar despercebido por ele. — Sabe que horas são?

Era um embate cômico. As roupas de Fitch eram uma caótica mistura de pechinchas de um bazar de ca­ridade com peças de estilo militar chique em tamanho grande, mangas arregaçadas e calças presas com um cinto para não escorregar do corpo esguio. Ele descolo­rira as pontas de seu cabelo claro e usava três brincos em uma das orelhas.

—        Desculpe, senhor Penworthy. — Fitch fitou Jack de relance por sobre o ombro de Penworthy, depois vol­tou os olhos para o chão outra vez. Os cantos de sua boca se retorceram, mas a voz era solene. — Precisei fazer umas atualizações on-line esta manhã, e acho que acabei perdendo a hora.

Fitch era webmaster do site e administrador de sis­temas não oficial da escola. Uma fonte barata de expe­riência técnica de alto nível.

—        Não pense que pode usar o site como desculpa, senhor Fitch. Nós lhe demos aquele computador para que fizesse o trabalho nas suas horas de folga.

Harmon Fitch vivia atrasado. A mãe trabalhava à noite, e Fitch tinha quatro irmãos e irmãs mais novos para pôr no ônibus escolar.

—        Senhor Penworthy — interrompeu Jack. — Com licença. Eu, ahn, esqueci algo em casa e queria saber se eu poderia ir buscar — declarou, mantendo um tom neutro.

O diretor voltou sua atenção a Jack. Penworthy o detestava, e comunicava essa opinião de cem maneiras diferentes.

Senhor Swift — disse Penworthy, os lábios se abrin­do em um sorriso predatório. — Incrível como um rapaz tão inteligente possa ser terrivelmente desorganizado.

Tem razão — disse Jack, com polidez. — Peço desculpas. Eu estarei de volta antes do fim do período da chamada, se me deixar.

Fitch já estava no meio do corredor. Penworthy não notou. Tinha agora um novo alvo, bem melhor.

—        Lamento — disse o diretor num tom que não la­mentava nada. — Os alunos não podem sair do prédio durante o horário das aulas. É uma questão de respon­sabilidade.

Jack não queria explicar a Penworthy sobre o re­médio. Não era algo de que gostasse de falar. Mas sabia que uma explicação era seu bilhete para casa.

—        Tenho de ir para casa pegar um remédio. É para o meu coração. Esqueci de tomar esta manhã.

Penworthy franziu o rosto, balançando-se sobre os calcanhares como um daqueles bonecos infláveis que logo se põem em pé quando são derrubados. Jack sa­bia que seria difícil lhe negar o pedido (uma questão de responsabilidade). Mas o diretor tinha suas próprias armas.

Muito bem — replicou Penworthy. — Nesse caso, faça o favor de registrar a sua saída na diretoria e vá pa­ra casa buscar esse remédio. Mas esteja preparado para cumprir detenção esta tarde para compensar o tempo perdido.

Mas eu não posso — protestou Jack. — Tenho teste de futebol.

—        Bem, senhor Swift, que isso lhe sirva de lição.

—        Os olhos pálidos de Penworthy brilharam, triunfan­tes. — Nada é melhor para reforçar a memória do que conseqüências.

Jack sabia que estava numa fria. Se não compa­recesse ao teste, não poderia participar do time. E ele achava que tinha condições de entrar pelo menos no time de juniores.

—        Deixa pra lá, então — disse ele, voltando-se para os telefones públicos junto à diretoria da escola. Becka também não permitia que Jack tivesse um telefone celular. — Vou telefonar para casa e ver se consigo que alguém me traga o remédio.

—        Desde que seja um adulto — avisou Penworthy.

—        Temos uma política de tolerância zero em relação a drogas na escola.

Ninguém atendeu em casa nem no apartamento de Nick. Com certeza, algumas horas de atraso para tomar o remédio não fariam mal. Em todos os seus dezesseis anos de vida, Jack não conseguia se lembrar de um úni­co sintoma. A cirurgia o havia curado, até onde sabia. Longbranch nunca explicara exatamente para que a me­dicação servia. A mãe de Jack, geralmente tão cheia de perguntas, tratava o remédio como uma poção mágica.

Ele se sentia bem, de qualquer maneira. Se quais­quer sintomas aparecessem, poderia dizer que estava doente e eles o deixariam ir para casa. Pôs o telefone no gancho e voltou à classe principal.

Menos de um minuto após Jack ter voltado à sua carteira, Ellen Stephenson tocou-lhe o ombro.

—        Que medidas você conseguiu no experimento de respiração? — sussurrou ela. — Eu fiz meu relatório ontem à noite e meus números não bateram.

Jack enfiou a mão na mochila, pegou a pasta de ciências e passou-a para Ellen.

—        Os meus também não. Estava pensando se a má­quina não está descalibrada.

Ela curvou a cabeça sobre a tabela de dados de Jack, espremendo os olhos para ler as anotações des­leixadas, prendendo atrás das orelhas os cabelos casta­nhos curtos. Eram lisos e brilhantes, como um tipo de capacete. Ela virou-se de lado na cadeira, estendendo as longas pernas no corredor entre as carteiras. Havia algo diferente nela hoje, mas Jack não conseguia adivi­nhar o quê.

Batom. Ela estava usando batom cor-de-rosa. Jack não se lembrava de já tê-la visto usando maquiagem antes. Ele tamborilou os dedos de leve sobre a carteira, contemplando os lábios de Ellen de perto enquanto ela lia a página. Fazia muito tempo que ele não olhava para ninguém que não fosse sua ex-namorada, Leesha.

Pelo menos os seus dados variam tanto quan­to os meus — concordou ela, devolvendo-lhe a pasta. Suas mãos colidiram, tocaram-se por um momento, e ela retirou a sua rapidamente. A pasta caiu no chão, espalhando os papéis.

Oh, droga, me desculpe. — Ajoelhando-se ao lado da carteira de Jack, ela arrumou apressadamen­te as folhas numa pilha. Olhou para ele, em silêncio, estendendo-lhe o maço de papéis.

Os olhos dela eram cinza-claro sob uma franja de cílios cor de fumaça, e havia uma pequena saliência no alto de seu nariz, como se tivesse sofrido uma fra­tura no passado. Jack resistiu ao impulso de esten­der a mão e tocá-lo. Em vez disso, enfiou os papéis de volta na pasta e ofereceu a mão para ajudá-la a levantar-se.

Isso pareceu atrapalhá-la de novo. Ellen ajeitou a saia e o cabelo.

Talvez na aula a gente possa perguntar sobre isso ao senhor Marshall.

Perguntar sobre...? Ah. Claro, tudo bem. — Jack pigarreou. — Se você quiser.

O sinal tocou, surpreendentemente alto. Jack co­meçou a guardar os livros e a pasta na mochila.

—        Humm... Jack?

Ele ergueu os olhos e viu Ellen em pé entre ele e a porta, sua própria mochila pendurada no ombro.

—        Eu estava pensando, o que você acha de estudar­mos juntos hoje à noite para a prova de ciências sociais? Eu fiz algumas anotações — acrescentou ela. — Nós... ah... podíamos compará-las...

Jack olhou para ela com surpresa. Ellen nunca mostrara nenhum interesse nele antes, a não ser como padrão de comparação de algum tipo. Ela era nova no Colégio Trinity, mas já possuía a reputação de ti­rar boas notas. Na verdade, ela tirava notas mais altas do que Jack em algumas das matérias em que ele se distinguia.

"Talvez ela não tenha mais o que fazer", pensou Jack. Fora chato para ela mudar de escola um ano antes da formatura. Ellen não saía muito com a tur­ma. Ele não se lembrava de tê-la visto nas festas ou no Corcoran's depois de um jogo.

Ela era mesmo uma graça, e ele não estava namo­rando ninguém. Não desde que Leesha o havia trocado por aquele imbecil, Lobeck. Ele provavelmente estaria no teste de futebol e...

O teste.

Eu adoraria, quero dizer, eu queria poder — disse ele, pendurando a mochila no ombro. — Mas te­nho teste de futebol hoje à noite, e não sei quando vai terminar.

Teste de futebol? — repetiu ela, olhando-o de cima a baixo. — Sério? Você joga?

Jack enviou uma prece aos deuses do futebol.

É o que eu espero.

Tudo bem — disse ela, desviando o olhar para baixo, e corando. — Claro. Talvez outro dia.

Ela deslocou a mochila mais uma vez e rumou para a porta, movendo-se com uma elegância atlética que ti­rou a respiração de Jack.

Stephenson! — chamou ele. Ela parou junto à porta e se virou.

Outro dia, promete? — sorriu ele.

Ela devolveu-lhe um sorriso hesitante e foi-se embora.

"Idiota", resmungou para si mesmo. Grandessíssimo idiota. Sabia por experiência própria que as me­ninas nunca convidavam duas vezes. Ele tinha muitas amigas, conhecia a maioria delas desde que haviam compartilhado suco de maçã e biscoitos de aveia no jar­dim de infância da cooperativa de Trinity. Não era fácil imaginar como ir além disso. Cidades pequenas eram meio... incestuosas.

Leesha Middleton tinha sido diferente. Havia se mudado para Trinity no ano anterior. Você não se tor­na amigo da Leesha. Você se rende. Ela podia namorar quem quisesse, mas Leesha escolheu Jack. E agora ela havia escolhido Lobeck.

Ellen era sangue novo na cidade, também. Agora provavelmente ele teria de dar o próximo passo.

Jack tentou telefonar para casa de novo na hora do almoço. Tentou o escritório também, mas Becka não ti­nha falado com Bernice. Ele estremeceu, imaginando a reação da mãe se recebesse a mensagem no fim da tarde. Com alguma sorte, ele chegaria em casa antes dela. De qualquer maneira, sentia-se bem. Ótimo, na verdade.

Quando Jack e Will chegaram ao campo nos fundos do colégio, alguns dos que foram mais cedo estavam ajudando Ted Slansky, o treinador de futebol, a posicio­nar as traves. O sol emergia por entre as nuvens de vez em quando, mas era um sol frio que parecia sugar mais calor do que fornecer.

A arquibancada estava salpicada de alguns es­pectadores: pais interessados, treinadores da comuni­dade, amigos. Jack protegeu os olhos com a mão e vasculhou os assentos para ver se havia alguém que conhecesse.

—        Hasteai a bandeira — disse Fitch logo atrás dele. — Eis a rainha e sua corte.

Voltando-se, Jack viu um punhado de jogadores do colégio reunidos em um semicírculo reverente numa das extremidades da arquibancada, como planetas apaixo­nados em torno do sol deslumbrante. Leesha.

O que ela está fazendo aqui? — disse Jack, ir­ritado. — Ela odeia futebol. — Jack soube a resposta enquanto ainda estava perguntando.

Não cabe a nós perguntar, mas tão somente ser­vir, admirar e desejar.

Talvez Fitch não tivesse idéia do quão irritante isso era. Talvez.

—        Cale a boca, Fitch.

O sorriso de Fitch desapareceu.

—        Cara, você está numa melhor agora. Pode acre­ditar.

Jack abriu os punhos e deu deliberadamente as costas para a arquibancada.

Muita gente havia aparecido. Jack tentou ser oti­mista. Era um bom jogador, jogando no meio-campo e como atacante na maior parte das vezes, mas nunca fora um astro.

—        Olha só quem apareceu para o teste. Jackson Downey Swift. Ou é Swift Downey Jackson? Fico tão confuso.

A voz zombeteira veio por trás, mas Jack soube quem era imediatamente. Então uma bola de futebol atingiu-o entre as espáduas. Com força.

—        Isso se chama passe — disse Garrett Lobeck. — É melhor prestar atenção, se quiser jogar com os adultos.

Jack se virou. Lobeck tinha um sorriso torto no rosto, achando que tinha feito um comentário muito inteligen­te. Era um dos quatro irmãos conhecidos pela boa apa­rência, maus hábitos e um talento para a violência tanto dentro quanto fora do campo. Aos dezessete anos, Garrett era o caçula e estava a caminho de ser o pior do bando.

Talvez você deva pintar o nome na bunda para que o treinador saiba que a sua mãe está no conselho escolar — continuou Lobeck. — Só desse jeito você con­segue uma vaga.

É uma surpresa ver você aqui também, Lobeck — replicou Jack. — Pensei que tivessem tornado você inelegível depois daquele jogo contra Garfield no ano passado.

Lobeck havia quebrado a perna do goleiro em um pênalti maldoso. As coisas haviam ficado pretas na épo­ca. Mas Lobeck era um zagueiro talentoso, e o pai dele era dono de metade da cidade, de modo que lhe foi per­mitido jogar futebol no outono. Becka fora a única no conselho escolar a votar contra.

Jack ergueu a bola no peito do pé, fez algumas embaixadinhas e passou-a para Fitch.

—        Quer dizer que agressão e violência são permiti­dos. Eles jogaram fora a exigência de boas notas tam­bém? Ou você está em algum programa de recuperação para idiotas?

Houve um certo atraso de resposta enquanto Lobeck processava a frase. A palavra "idiotas" deve tê-lo feito perceber alguma coisa, pois seu rosto foi tomado de uma cor escarlate, e ele deu um passo em direção a Jack.

De repente, Will estava ali.

—        Qual é o problema, Lobeck? Ninguém da quinta série para atormentar?

Lobeck era grandalhão, mas Will era tão alto quan­to ele, e era puro músculo. Lobeck não gostou da mu­dança em suas probabilidades de sucesso.

—        Fica frio, Childers. Não precisa ficar nervosinho. — Lobeck franziu a cara para Jack e correu em direção à linha de fundo.

Eles começaram com exercícios físicos, dribles e passes, arremessos e chutes a gol. Jack estava em pé junto à lateral, esperando sua vez de arremessar, quan­do escutou uma outra voz familiar atrás dele.

—        Jackson — ela pronunciou o nome em duas síla­bas desapontadas —, não vai nem me dizer "oi"?

Ele precisou se virar para não demonstrar que a presença dela o afetava.

—        Oi, Leesha.

Ela estava vestindo um casaco rosa pálido com ca­puz, e os cachos volumosos do cabelo estavam puxados para trás numa presilha. Leesha pôs-lhe a mão no bra­ço. Ele olhou para a mão, tentando ignorar a própria pulsação martelando nos ouvidos.

—        Ainda sinto saudades de vez em quando, Jack. — Sinceros olhos castanhos olhavam fundo nos dele.

Ele era esperto demais para cair nessa armadilha.

Claro que sente, Leesha. — Jack achava que es­tava conseguindo manter a voz branda e firme. Voltou o olhar para o outro lado do campo, sabendo, sem ver, que ela estava fazendo beicinho, uma pequena linha franzi­da entre as sobrancelhas, o lábio inferior projetado para a frente. A mão dela ainda estava em seu braço.

Não tenho certeza quanto ao Garrett — disse ela. — Às vezes ele é tão... possessivo.

Quando Jack não respondeu, Leesha disse:

Você vem à minha festa? Jack piscou e olhou para ela.

O quê?

Você vem à minha festa? É no Clube Lakeside.

A vez de Jack se aproximava. Ele removeu a mão de Leesha de seu braço. Mas ela o segurou pela cami­sa, ergueu-se na ponta dos pés e beijou-o no rosto. Um beijo casto, para ela, mas Jack recuou como se tivesse sido queimado.

—        Vou mandar um convite especial pra você, Jack — prometeu Leesha, soltando-o.

Algo o fez olhar por sobre a cabeça dela, para as ar­quibancadas logo além. Onde Ellen Stephenson estava, olhando para ele e Leesha. Então Ellen lhes deu as cos­tas, pulando com agilidade do assento para o chão. Em poucos passos largos, ela chegou ao portão e foi embora.

Praguejando em voz baixa, Jack voltou-se novamen­te para o campo — e viu Garrett Lobeck observando-o com um ar furioso, como uma nuvem de tempestade se aproximando.

—        Swift!

Era a vez de Jack. Finalmente. Ele fez o arremesso.

Eles começaram uma série de partidas, com mu­danças periódicas de posição.

Jack jogou como zagueiro, meio-campo e, por fim, como atacante. Mentalmente, estava abalado, mas fisi­camente se sentia bem, nem um pouco cansado, embo­ra tivesse estado constantemente no campo. Era bom estar ao ar livre de novo, depois de um longo inverno. O sol de fim de tarde inclinava-se sobre o gramado, qua­se cegando-o quando olhava em sua direção. O campo ainda estava molhado e, após uma hora e meia sendo castigado, estava ficando escorregadio.

Jack tinha acabado de receber um longo passe de Harmon Fitch e girado para levar a bola para a fren­te quando, de repente, sentiu suas pernas sendo var­ridas debaixo de seu corpo. Ele caiu feio, de costas na lama. Precisou de um momento para recuperar o fôlego. Erguendo-se sobre os cotovelos, viu Lobeck indo na di­reção contrária com a bola. Lobeck: o rei do carrinho.

Fitch ajudou-o a levantar-se.

—        Tudo bem com você, Jack?

Jack afastou-lhe a mão bruscamente. Ficou olhando para Lobeck. Talvez fosse hora de lhe dar uma lição. Fitch percebeu.

—        Qual é, Jack? Nesse caminho paira a morbidez e a mortalidade. Você precisa escolher melhor as batalhas. Espere até haver uma maratona de matemática ou coisa assim. Acabe com ele. — Ele sorriu. — Se você quiser, posso entrar no computador da escola e mudar as notas dele, mas duvido que isso faça um grande estrago.

Jack limpou as mãos enlameadas na camisa. Fitch tinha razão. Não havia jeito de ele vencer Lobeck numa briga. Além disso, não estava machucado. Estava en­charcado, mas não sentia frio, apesar do vento. Havia um formigamento nas extremidades, como se o sangue lhe retornasse após longa ausência. Olhou para o cam­po com súbita clareza, julgando os jogadores, mapean­do os obstáculos em seu caminho.

O time de Lobeck tinha feito um gol e reiniciado a partida. Mais uma vez, o time de Jack estava se aproxi­mando do gol. Jack havia conduzido a bola até o canto da área quando Lobeck surgiu à sua frente como uma parede, arreganhando os dentes em expectativa. Jack fintou para a esquerda e partiu pelo centro. Ele sentiu mais do que viu Lobeck logo atrás dele, e pelo canto do olho viu a forma gigantesca vindo em sua direção no exato instante em que Jack chutou a bola. Virou de lado, erguendo as mãos com as palmas para fora, e se preparou para o impacto.

Jack não saberia dizer o que aconteceu a seguir. Enquanto a bola passava pelo goleiro, ele esticou os braços para se defender do ataque. Houve uma explo­são dentro dele, e algo como metal quente jorrou-lhe pelos braços e irrompeu pelas pontas dos dedos. Lobeck gritou e levantou vôo, seguindo a bola até dentro do gol. O impacto foi tão forte que ele quase ricocheteou de vol­ta para o campo. Por uns cinco segundos, Lobeck ficou lá caído, tonto, antes de rolar sobre a barriga e pôr-se de quatro. Ele levou ainda mais um minuto ou dois para recuperar o fôlego. Então, como um motor lentamente retornando à vida, começou a praguejar.

Foi falta! — arquejou ele, apontando um dedo grosso para Jack. — Você me jogou pra dentro do gol. — Lobeck tremia de raiva e indignação, literalmente.

Eu nem toquei em você! — Jack estava suando, quase fumegando. Ainda sentia um formigamento, mas estava estranhamente exausto. Deu uma olhada rápida para a arquibancada. Leesha estava inclinada para a frente, observando tudo com avidez. Leesha achava fu­tebol um tédio, mas adorava uma briga.

Cambaleante, Lobeck se pôs em pé. A testa estava toda coberta de lama, e o lábio estava sangrando.

—        Você me jogou na rede! — Ele virou-se para o goleiro em busca de apoio. — Não foi?

O goleiro deu de ombros. Estivera ocupado tentan­do defender o gol do chute de Jack.

Jack estufou o peito e ergueu as mãos, pronto para rechaçar um ataque. Para sua surpresa, Lobeck hesitou e recuou um passo. E Lobeck era pelo menos uns vinte quilos mais pesado que ele.

—        Desista, Garrett — disse Will. — Tinha anos-luz de distância entre você e o Jack. Você deve ter trope­çado. Além do mais, o chute foi totalmente limpo. Nem pareceu que era atrás da bola que você estava indo.

O treinador Slansky havia seguido a bola até o fim do campo e ficado lá, observando, junto à grande área. Lobeck olhou com o canto dos olhos para o treinador, então fez uma carranca para Jack.

—        Muito bem, rapazes, vamos parar por aqui — dis­se Slansky. — Acho que vi tudo o que precisava ver hoje. Além disso, parece que vai nevar ou coisa assim.

Lobeck apanhou sua bolsa de academia e a gar­rafa d'água e saiu de mansinho do campo. Will e Jack e vários outros jogadores ajudaram Slansky a guar­dar o equipamento. O sol havia deslizado para trás das nuvens, e o horizonte a oeste parecia ameaça­dor. Will e Jack foram buscar suas coisas nos armá­rios e rumaram para o estacionamento. Leesha havia desaparecido.

—        Engraçado — disse Will. — A previsão dizia que ia fazer tempo bom hoje.

Cortaram caminho por entre os prédios até a rua. O vento sacudia freneticamente os balanços quando os dois passaram pelo pátio de recreio da escola primá­ria. As copas dos pinheiros à volta do estacionamento curvavam-se e dançavam. Pedaços de lixo corriam pelo chão. Jack estremeceu, sentindo-se exposto sob o céu turbulento.

—        Grande chute, Jack — Will sorriu. — Queria ter trazido a minha câmera. A expressão na cara de Lobeck foi impagável.

Jack deu de ombros, apertando mais a jaqueta em torno de si.

—        Eu nem vi o que aconteceu, na verdade. Acho que ele tropeçou.

Ele examinou a rua em frente, um túnel vazio sob as árvores ondulantes. Um corredor polonês. Sentiu agulhas espetando-lhe os braços. Por que estava tão nervoso? Lobeck havia partido antes deles, e era im­provável que tentasse uma emboscada. Não com Will por perto.

Olhou para trás à tempo de ver alguém emergir entre duas casas e mover-se rapidamente na direção deles, como se estivesse flutuando por sobre a grama. Alguém trajando um longo casaco que lhe esvoaçava ao redor das pernas, alto e magro demais para ser Garrett Lobeck.

—        Will! — Jack agarrou o braço do amigo.

Will se voltou, seguindo o olhar de Jack. Então sorriu.

—        Ei, Nick! — gritou Will. — De onde você veio?

E as dimensões do estranho mudaram, subitamen­te tornando-se reconhecíveis. Lá estavam a barba apa­rada com cuidado, os olhos negros penetrantes, a franja de cabelos brancos. Por que ele lhe parecera tão estra­nho? Mas quando Nick Snowbeard falou, a voz era tão estranha quanto a imagem.

—        Jack! Vá para casa agora e tome o remédio! Rápido! Sua mãe está esperando por você.

A voz de Nick feria como uma chicotada, fazendo Jack recuar, cambaleante.

—        Nick? — disse Jack, incerto.

—        Eu mandei você ir! Will, assegure-se de que ele chegue lá. Conversaremos mais tarde.

Nick deu-lhes as costas, o rosto feroz e determina­do, olhando para o fim da rua em direção ao colégio. Will agarrou Jack pelo braço, literalmente arrastando-o para casa.

Começaram a correr, lado a lado, os pés ressoando no concreto. Jack lembrou-se da mensagem que deixa­ra na secretária eletrônica. Becka devia ter mandado Nick procurar por ele. Estava zangada por Jack ter ido ao treino de futebol em vez de ter voltado direto para casa. Ele estava frito.

Começou a se perguntar se era boa idéia correr para casa para tomar o remédio para o coração, mas a essa altura estavam dobrando a esquina na rua Jefferson.

A maioria dos vizinhos estava do lado de fora, ape­sar do tempo. Mercedes estava no jardim da frente. Ela vestia uma pesada jaqueta japonesa de algodão. Com pernas longas e finas e rosto pontiagudo, parecia uma espécie de flamingo exótico.

—        Jackson! — Ela parecia muito aliviada por vê-los. — Melhor entrar em casa. Sua mãe está procurando por você.

Íris Bolingame se curvou sobre seu portão da frente para lhe dizer a mesma coisa. Era uma mulher alta e imponente, que usava os longos cabelos loiros em uma única trança grossa decorada com bijuterias de vidro, como alguma deusa nórdica. Até Blaise Highbourne es­tava caminhando pela rua, balançando a cabeça leo­nina de um lado para o outro, procurando-o nas ruas transversais. Era como se a rua inteira o estivesse es­coltando para casa.

Por outro lado, era assim que eram as coisas em uma cidade pequena. Todos sabiam da vida de todos.

Uma chuva misturada com neve caía do outro lado da rua quando ele e Will se despediram na calçada. Jack entrou, pronto a encarar o remédio e a bronca da mãe.

A mãe estava sentada à mesa da cozinha, o rosto manchado pelas lágrimas, cercada por uma guirlanda de lenços de papel, como oferendas em um santuário.

—        Jack! — gritou ela, levantando-se num pulo. — Só cheguei em casa há uma hora. Quando recebi a men­sagem, fiquei tão preocupada. E aí você não chegava... — A voz dela falhou.

Me desculpa, mãe. Eu queria voltar pra casa e tomar o remédio, mas o senhor Penworthy não dei­xou. Quer dizer, ele teria deixado, mas aí eu teria de cumprir detenção. E perderia o teste de futebol. — Ele hesitou, dando-se conta de que estava tornando a situação pior. — Lembra? Eu falei pra você do teste esta tarde.

Teste de futebol! Você devia ter voltado direto pra casa! Eu já telefonei para a escola, o hospital e a delega­cia de polícia. Os vizinhos estão todos procurando por você. — Agora ela estava furiosa mesmo.

Ele assentiu, o rosto quente pelo embaraço.

—        Eu sei. Eu encontrei o Nick.

—        Nick? — Ela piscou, distraída. — Eu nem falei com ele. — Ela se concentrou para voltar ao ataque. — Como pôde ser tão descuidado? E se alguma coisa tivesse acontecido com o seu coração?

—        Sério, mãe, me sinto ótimo.

E era verdade. Apesar do exercício de três horas, de ter sido jogado ao chão e coberto de lama, sentia-se realmente leve. Era difícil de explicar. O mundo pare­cia estranhamente nítido, mais em foco. Havia um lado intenso e primitivo em tudo. O vento uivava, e ele po­dia ouvir o chapinhar do granizo no telhado. As velhas janelas chacoalhavam nos batentes de madeira. Sentia vontade de voltar para fora em meio ao vento, brandir o punho e uivar de volta.

—        Pois está com uma aparência péssima! Tem lama no seu cabelo! — disse ela, puxando-o para um abraço.

Estendeu a mão para pegar o frasco sobre a mesa. — Aqui, tome o remédio logo. A doutora Longbranch disse que se você algum dia esquecesse uma dose, era para tomar assim que se lembrasse.

Ela serviu uma colher de sopa do líquido cor de noz e a passou para Jack. O remédio carregava consigo o cheiro de porões úmidos e papel velho, das folhas do último outono remexidas no fundo de uma pilha. Ele o engoliu.

Agora é melhor subir e tomar um banho. E tal­vez se deitar um pouco antes do jantar. Tenho trabalho para fazer hoje à noite. Quem sabe a gente encomenda comida tailandesa?

Claro. Está ótimo — disse ele, o sabor do remé­dio prolongando-se na parte de trás da língua. Tinha um gosto de velhas tristezas, velhos arrependimentos. Esfregou os olhos com os dedos, assaltado por uma misteriosa sensação de perda.

Becka estava descarregando a maleta.

—        Tia Linda vem amanhã.

É? — Jack levantou a cabeça. Fazia mais de um ano desde a última visita da tia. O mais surpreendente era que ela tivesse telefonado para avisar que vinha. — O que aconteceu?

Não sei — disse Becka. — Ela diz que vem pra ver você.

Ted Slansky estava sentado à surrada mesa da sala de equipamentos, bebendo um refrigerante de ce­reja e revisando suas notas sobre os testes da tarde. Esfregou o queixo, combinando informalmente jogado­res e posições, levemente consciente do fedor de suor e couro que permeava o lugar. Os papéis agitaram-se com um movimento súbito de ar quando a porta se abriu.

Ele ergueu a cabeça, esperando ver um de seus jo­gadores, alguém com a esperança de receber um co­mentário antecipado. Entretanto, dois homens estavam em pé junto à porta, os casacos longos caindo-lhes com folga dos ombros, abertos na frente, como se não sen­tissem o frio. Um era um homem de mais idade, alto e magro, com uma barba de velho sábio. O outro tinha aparência jovem e atlética, com a linha do queixo acen­tuada e cabelo escuro e liso. Eles examinaram a sala rapidamente e depois se voltaram para Slansky.

—        Havia um rapaz aqui? — perguntou o mais velho. Era uma pergunta estranha, e enunciada com um leve sotaque, como o de alguém nascido além-mar.

Slansky quase deu uma risada, mas não o fez. Por algum motivo, não parecia uma boa idéia.

Havia uns trinta rapazes aqui, na verdade, mas acho que todos já foram embora a essa altura — res­pondeu ele. — Vocês olharam lá na frente? Alguns tal­vez ainda estejam esperando por suas caronas.

Não há nenhum lá na frente — disse o mais ve­lho, como se fosse culpa de Slansky.

Slansky encolheu os ombros, inquieto. Havia algo de ameaçador nos dois homens.

Qual deles é o seu? Posso dizer se ele esteve aqui ou não. — Ele pôs a folha de inscrições na frente dele sobre a mesa.

Não sabemos qual deles é — sibilou o mais jo­vem. — É por isso que estamos aqui.

Em resposta a isso, o mais velho ergueu a mão para calar o outro. Ele pegou a folha sobre a mesa, varrendo-a rapidamente com os olhos, então dobrou-a e colo­cou-a no bolso.

—        Ei! — protestou Slansky. — Eu preciso disso.

Ele teria dito mais, mas o homem barbado pôs-lhe a mão no ombro. Slansky sentiu a forma e o peso da mão do homem, seu calor queimando-o através do blusão. Ficou em silêncio, os olhos arregalados, tomado por um medo irracional.

O prédio tremia sob o ataque do vento. O homem mais jovem se empertigou, a cabeça inclinada como se escutasse algo.

Não devia ser tão difícil, se o rapaz não tem trei­namento — grunhiu ele. — Há alguma perturbação, alguém interferindo... — Sua voz diminuiu de volume até sumir.

Por que havia trinta rapazes aqui? — pergun­tou o mais velho com suavidade, dirigindo-se a Slansky. Apertou com mais força o ombro do treinador, que sentiu o coração responder, como se o homem pudesse fazer o órgão parar de bater com um toque. O suor es­correu por entre as espáduas do treinador.

—        Teste de futebol — replicou ele, engolindo em seco.                                                                            

—        Teste de futebol — repetiu o homem, incrédulo.      

Houve uma descarga de poder aqui — continuou ele.      

Quem sabe, uma briga?       

Slansky balançou a cabeça.

—        Às vezes as coisas ficam bem competitivas, mas...      

—        Ele balançou a cabeça de novo. — Nenhuma briga.

—        Notou alguma coisa incomum? Algum dos joga­dores... se destacou? Talvez um jogador novo tenha feito algo notável?

Slansky tentou desesperadamente recordar-se do teste da tarde.

—        Houve algumas boas jogadas, mas... quem sabe se você me disser o que diab... o que vocês estão procu­rando, eu possa ajudar vocês.

O homem de barba fez um gesto impaciente. Puxou a lista de jogadores do bolso e jogou-a para Slansky.

—        Circule o nome dos cinco melhores jogadores — ordenou ele. — Vamos começar por aí.

Quando o treinador terminou de fazê-lo, o estranho enfiou a lista de volta no bolso. O homem mais jovem transferiu o peso do corpo de um pé para o outro, im­paciente para ir embora. O inquiridor moveu a mão do ombro para a cabeça de Slansky. O treinador sentiu al­finetadas por todo o couro cabeludo, como se seu cabelo tivesse ficado todo em pé. Ele tremia, aterrorizado.

—        Ana memorare — sussurrou o homem. Foi assim que lhe soou, como uma frase em latim que Slansky poderia ter lembrado, dos tempos em que estudara na escola católica.

Slansky acordou algum tempo mais tarde e ergueu o rosto da mesa. Deu-se conta de que devia ter caído no sono, pois estava ficando escuro lá fora e a sala estava fria. De alguma maneira, havia derrubado a lata de re­frigerante de cereja. Perguntou-se por que a porta esta­va aberta e onde a lista de inscrição tinha ido parar.

Após o jantar, Jack saiu escondido pela porta de trás e atravessou a entrada de cascalho até a garagem, carregando o livro de ciências sociais e o caderno debai­xo do braço. Subiu as escadas que levavam ao aparta­mento de Nick e estava levantando a mão para bater na porta quando ouviu a voz dele vindo de dentro.

— Entre, Jack.

Como de costume, o apartamento do velho caseiro estava bem arrumado, embora diversos livros estivessem abertos sobre a escrivaninha. Eram apenas três cômodos, e o lugar estava repleto de coisas: livros, aeromodelos, uma máquina a vapor em miniatura que Nick e Jack tinham construído no ano anterior, potes de produtos químicos e extratos vegetais. Ramos de plantas secas pendiam do teto, como um exótico jardim de ponta-cabeça. Havia um grande armário de madeira que fora outrora um mostruá­rio de loja, com uma fileira de pequenas gavetas cheias de ferramentas antigas e objetos recuperados. Um quarto inteiro era dedicado aos livros, arrumados em duas fi­leiras nas estantes do chão ao teto, em cada parede. O apartamento sempre cheirava a tinta, verniz, especiarias e poeira; exótico, como um dos mercados indianos junto à universidade. Nick em casa lembrava a Jack um urso velho em sua toca se preparando para o inverno.

Nick Snowbeard ergueu os olhos de seu jantar solitário.

—        Sente-se, Jack. Chegou bem na hora da sobre­mesa.

Jack sentou-se com cautela na cadeira que lhe foi oferecida. Nick arrastou os pés pelo apartamento, vesti­do em seus trajes habituais: camisa de flanela e calças de trabalho.

A sobremesa era sorvete de chocolate e marsh-mallow. Jack conseguiu esvaziar metade do prato antes que Nick começasse o sermão.

Quer dizer que você se esqueceu de tomar o re­médio — disse Nick abruptamente. — A sua mãe deve ter subido pelas paredes. — Ele ainda parecia brusco e enérgico, o que não lhe era usual.

Suponho que sim. — Jack desviou o olhar para a janela. Uma bandeja rasa fora colocada sobre a mesa. Havia sido coberta com diferentes cores de areia, arru­mada com um ancinho em um desenho intricado, com pequenos objetos espalhados por cima.

Por que não veio para casa e tomou o remédio quando se lembrou? — A voz de Nick interrompeu o devaneio de Jack.

—        O senhor Penworthy disse que eu teria de cumprir detenção depois da última aula se eu saísse da escola pra ir buscar. E eu não queria perder o teste de futebol.

Nick balançou a cabeça, as sobrancelhas exagera­das juntando-se numa carranca.

—        Devia ter voltado para casa mesmo assim, com ou sem detenção. O que a sua mãe está pedindo é bem pouco: que você coopere e tome conta de si mesmo. O que você fez hoje poderia ter tido conseqüências sérias. Você não imagina o que é perder um filho.

O velho falou como se por experiência própria. Jack suspirou, uma explosão frustrada de ar.

—        Você é adolescente. Acha que é imortal. — Nick recolheu os pratos e os levou para a pia. Pôs a chaleira no fogo. — Como foi o teste?

Jack contou a Nick tudo o que havia acontecido com Lobeck. Quando Jack terminou a história, Nick es­tava franzindo a testa de novo.

—        Garrett Lobeck saiu voando pelo ar? E você não tocou nele?

Jack deu de ombros.

—        Não sei o que aconteceu. Ele ficou furioso. Acho que ele só estava procurando um pretexto para anular a jogada.

—        Ele se machucou? — insistiu Nick. Por que o súbito interesse em Lobeck?

—        Ficou com o lábio sangrando. Vai ficar inchado amanhã. Pra combinar com a cabeça dele — acrescen­tou Jack.

Acha que ele vai fazer um escândalo a respeito? Contar a outras pessoas que foi atacado ou algo assim? — Snowbeard inclinou-se para a frente, espalmando as mãos sobre a mesa como para segurá-la no chão. As mãos do velho pareciam suaves e incrivelmente jovens para al­guém da idade dele. Qualquer que fosse a idade dele.

Vai saber! Ele disse que eu fiz falta nele. Fa­lando sério, alguém já devia ter machucado ele há muito tempo.

Nick deu um sorriso contido.

—        Não me entenda mal, Jack. Não é que eu seja contra um bom chute no traseiro quando é merecido.

Nick levantou-se de repente e caminhou até a jane­la, cutucando com o dedo indicador as peças de metal sobre o canteiro de areia.

O que é isso? — perguntou Jack, ansioso por dis­trair Nick, que parecia determinado a interrogá-lo.

Ahn? Isto? Não é nada. Um amuleto contra o mal. Magia antiga. As excentricidades de um velho.

Coisa típica de Nick Snowbeard. Ele era capaz de dizer qualquer absurdo e ninguém reclamaria.

Quando Nick ficou satisfeito com a disposição dos objetos, voltou à mesa. E ao assunto Lobeck.

—        Alguém mais viu o que aconteceu? Havia alguém lá para assistir ao teste?

Jack sacudiu a cabeça.

—        O goleiro é quem estava mais próximo, e acho que ele não viu nada. — Tentou lembrar quem estava na arquibancada. Pensou em Leesha. — Havia algumas pessoas na arquibancada. — Jack olhou para Nick com curiosidade. — Por quê? Acha que ele vai me processar ou coisa assim?

A chaleira apitou. Nick levantou-se, tirando-a do fogo, e encheu o bule com água quente. Serviu em uma xícara de porcelana, com creme e açúcar.

O tempo estava piorando. A chuva misturada à neve pipocava contra o vidro das janelas, e os carvalhos atrás da garagem rangiam em protesto. Um frio úmido pare­cia abrir caminho por centenas de passagens invisíveis, correndo dedos gelados pela espinha de Jack.

Jack ainda estava irritado a respeito do remédio. Hoje ele não o tomara e havia se sentido... diferente. Mais vivo. Agora, sentia-se... anestesiado. Como se esti­vesse sendo sufocado.

—        Não sei qual é o grande problema com o remédio. A doutora Longbranch diz que eu preciso continuar to­mando. Ela nunca faz exame algum, então como é que ela sabe? Eu me sinto ótimo, e me senti bem hoje sem ele. Talvez seja hora de eu começar a diminuir a dosa­gem até parar. Acho que a gente deveria arrumar um outro médico, alguém da região. Eu nunca gostei muito da doutora Longbranch mesmo.

—        Você disse à sua mãe como se sente?

—        Eu tentei, mas ela não quer nem ouvir. É como se ela achasse que a Longbranch fosse um tipo de... maga.

Nick engasgou, cuspindo, respingando chá pela mesa.

—        Tudo bem com você?

—        Perfeito. — Nick secou a barba com um guarda­napo. — Sugiro que converse com sua tia Linda antes de fazer qualquer coisa drástica.

Jack o fitou. Tia Linda? Por que ele precisava que ela desse uma segunda opinião? Becka muitas vezes brincava que Nick tinha sido um presente da tia Linda, já que fora ela quem o recomendara. Todos os presentes que ela dava eram incomuns, desde exóticas esculturas da África até um jogo de química que os pais de Jack haviam vetado quando ele tinha três anos de idade, além de aulas de navegação e fins de semana na praia. Alguns presentes eram perigosos, alguns extravagantes e nada práticos, mas todos interessantes. Nunca uma camisa pólo ou um vale-presente.

Nick nunca falava muito sobre sua história pessoal — se tinha alguma família ou como conhecera a tia Linda. De alguma maneira, ele conseguia se desviar desse tipo de pergunta sem dificuldade. Era do norte da Inglaterra, tinha estudado em Cambridge, embora nun­ca houvesse concluído a pós-graduação. Tia Linda havia estudado numa escola particular na Inglaterra quando tinha a idade de Jack. Talvez tivessem se conhecido lá.

Não importava. Jack estava cansado de ser o me­nino milagroso, o sobrevivente, cansado de engolir o re­médio que era emblemático de sua condição especial.

—        Claro, Nick, o que você quiser. Eu falo com ela. Ela vem aqui amanhã, aliás — disse ele.

Os olhos negros de Nick brilharam sob as grossas sobrancelhas.

—        É mesmo? Isso é bom, creio.

Impaciente, Jack apanhou o livro de ciências sociais e virou as folhas até encontrar a página apropriada.

—        Muito bem. Vamos voltar aos assuntos impor­tantes. Tenho prova de ciências sociais amanhã. Será que você poderia me fazer perguntas a respeito dos exploradores, pra me testar? — Jack empurrou o livro na direção de Nick, com certa rudeza. História era a es­pecialidade de Snowbeard. Às vezes ele falava de even­tos ocorridos havia muito tempo como se houvesse par­ticipado pessoalmente deles.

O velho ficou ali sentado por um momento, batendo um dedo contra os lábios franzidos. Suspirou e girou o livro de forma que pudesse lê-lo. Encontrou o ponto e indicou-o com o dedo.

—        Vasco da Gama — disse ele.

 

Jack acordou, confuso por um momento pelo som de vozes vindo do andar de baixo. Afastou a colcha, de­pois se deitou de costas por algum tempo, arrependido. Outra noite acordado até tarde.

Mas havia algo mais, algum vestígio de um sonho que o fez estremecer. Algo sobre pessoas mortas, alguém procurando por ele. E Nick. Jack franziu a testa. Fazia muito tempo que não tinha um pesadelo. Um de que se lembrasse, pelo menos.

O tempo havia melhorado. O vento finalmente se acalmara, depois de uivar por quase a noite inteira. Havia a promessa de um dia ensolarado no céu lumi­noso. O quintal estava dourado, cada folha tingida de prata com o gelo, reluzindo.

Quando dobrou a curva da escada de trás e entrou na cozinha, lá estava ela, sentada à mesa. Tia Linda.

Desta vez os cabelos dela estavam tingidos de ouro e platina, curtos e espetados para todos os lados. A pele parecia um pouco bronzeada, sem dúvida resultado da recente viagem aos trópicos. Vestia calça jeans e uma camiseta justa, com pesadas botas de couro para caminhadas.

Elas deviam estar falando sobre ele, pois a conversa parou quando ele entrou na cozinha. Houve um peque­no momento de embaraço, até que tia Linda se levantou para abraçá-lo. Jack era bem mais alto do que ela, mas ela curvou o queixo dele para baixo para poder ver-lhe o rosto. Os olhos dela eram azuis salpicados de dourado, como uma pedra exótica.

Você cresceu tanto, Jack — disse ela, largando-lhe o queixo, mas ainda estudando seu rosto. — Acho até que está mais alto do que o seu pai. Parece que os meninos se tornam homens antes que a gente perceba. — Ela parecia um pouco triste por algum motivo, mas Jack se sentiu muito contente, como se a mudança fosse mérito seu.

Eu estava contando as novidades a Linda. Acho que me esqueci de tudo depois do susto de ontem à noi­te. — Becka parecia tão excitada quanto uma criança no Natal. — Ganhei uma bolsa de estudos para uma pesquisa sobre Literatura Inglesa Medieval em Oxford neste verão.

Oxford? Quer dizer, na Inglaterra? Mas e o seu emprego?

Mike Mixon concordou em fazer meu trabalho no tribunal durante o verão. As coisas estão calmas no momento, de qualquer modo. Faz muito tempo desde a última vez que tirei férias de verdade. Não vou ter de trabalhar o tempo todo, e há tanta coisa que quero mos­trar a você! — disse Becka.

Você vai adorar a Inglaterra, Jack — acrescen­tou tia Linda. — Nossa família vem de lá. Tantas vozes antigas, e tanta história sob o solo — disse ela, como se aquele comentário não necessitasse de nenhuma outra explicação.

Bem. — Jack estava dividido entre excitação e apreensão. — Papai disse que talvez nós fôssemos final­mente construir aquele veleiro neste verão.

Tenho certeza de que podemos dar um jeito — disse Becka com suavidade, como se houvesse alguma possibilidade de que aquilo viesse a acontecer.

Talvez a gente possa visitar você para variar — Jack sugeriu a Linda.

Linda desviou o olhar.

—        Eu adoraria que vocês viessem me visitar, mas infelizmente eu subloquei meu apartamento em Londres, já que tenho viajado tanto.

O meio de vida de tia Linda sempre fora um tan­to quanto misterioso. Ela trabalhava com imóveis, di­zia, representando mansões e castelos por todo o Reino Unido. Jack supunha que ela fosse muito boa nisso: ela sempre parecia ter bastante dinheiro e tempo livre para gastá-lo.

—        Mamãe disse que você veio me ver — disse ele, sem rodeios.

Ela assentiu, juntando os dedos da mão num gesto pensativo.

Eu gostaria que você viesse comigo numa viagem de carro.

Uma viagem?

Vou desenterrar alguns parentes mortos — con­tinuou ela — e perguntar a eles onde está o dinheiro da família.

—        Parentes mortos? — Tudo o que ele parecia ser capaz de fazer era repetir o que ela dizia como um papagaio.

Tia Linda riu.

Voltei para os Estados Unidos para fazer um pou­co de pesquisa genealógica. Vou de carro até o condado de Coalton para pesquisar uns registros antigos.

Oh.

Jack tentou não fazer careta. Estranho, ele nunca tinha ouvido tia Linda mencionar nada sobre genealogia antes.

—        Vai ser tão divertido — disse Becka com entu­siasmo. Ela adorava remexer em arquivos velhos e em­poeirados, legais ou de outra natureza. — Queria poder ir também. Jack e eu fomos lá uma vez, mas não en­contramos muita coisa. Talvez vocês dois tenham mais sucesso.

—        Se-e-e-i — disse Jack com ceticismo. Linda sorriu.

—        O que eu preciso mesmo é de músculos para de­senterrar os corpos. Por que você não convida um ou dois amigos? Que tal o Will? É esse o nome dele? Ou quem sabe Harmon Fitch?

Como ela conseguia lembrar os nomes deles? Ela não vinha com muita freqüência, e sua última visita ti­nha sido havia mais de um ano.

Tenho certeza de que viajar para o sul de Ohio para pesquisar a genealogia da minha família vai soar ainda mais fascinante para eles. — Agora ele realmente fez uma careta.

Vamos lá — implorou Linda. — A gente vai se divertir tanto. Ficaremos num hotel com piscina. Vocês vão poder comer porcaria e ficar acordados até tarde. Tudo por minha conta.

Ambos sabiam que todo o diálogo era só uma for­malidade, um ritual pelo qual tinham de passar. Jack jamais fora capaz de lhe dizer não.

Chame os seus amigos agora — disse Linda, em­purrando o prato. — Quero estar na estrada às dez.

Você quer sair agora? — Becka sacudiu a cabe­ça. — Então Jack não pode ir com você. Ele tem de ir à escola.

É mesmo? — Tia Linda parecia confusa, como se a idéia de estarem em período escolar nunca tivesse lhe ocorrido. — Que inconveniente. Eu queria ir até o tribunal hoje. Acho que eles não abrem no fim de sema­na. — Ela pôs três ou quatro colheres de açúcar no chá e mexeu. — Deixa pra lá — declarou ela, de repente. — Iremos após a aula. Está combinado. Jack, convide os meninos esta manhã.

Para a surpresa de Jack, Will parecia disposto a ir. Possivelmente porque seus pais haviam encomendado húmus vegetal suficiente para cobrir cinco metros qua­drados, carga que seria entregue aquela tarde. Parecia um bom fim de semana para estar fora da cidade. Mas o envolvimento de Linda Downey foi o fator decisivo. Will era normalmente tímido com as garotas, mas ficava com a língua absolutamente presa quando Linda estava por perto. "Você sabe que a sua tia é de tirar o fôlego, Jack", dissera ele certa vez, em tom solene, quase como se pedisse desculpas. E Jack tinha de admitir que ela era mesmo.

Jack e Will demoraram-se no vestíbulo junto à dire­toria do colégio, na esperança de que Fitch aparecesse antes de o último sinal tocar.

Penworthy estava no seu posto de costume junto à porta da frente. Estava entretido numa conversa com um homem que Jack nunca vira. O homem estava vestido todo de preto, e era bem mais alto do que Penworthy.

—        Ei! Você! Swift!

Jack virou-se e viu Garrett Lobeck saindo do escri­tório do diretor, ladeado por seus amigos, Jay Harkness e Bruce Leonard. Provavelmente cumprindo detenção antes das aulas. Qualquer um deles era maior do que dois Jacks.

Lobeck aproximou-se até invadir o espaço pessoal de Jack.

—        Precisamos conversar sobre aquela sua jogada podre de ontem — disse Lobeck. Só que soou mais como "convechar" e "chogada", porque os lábios de Lobeck es­tavam tão inchados que pareciam duas vezes maiores do que o normal.

Escute aqui — disse Jack. — Eu chutei para o gol. Só isso. Não tenho culpa se você estava no cami­nho. Vê se esquece isso.

Eu vou ferrar você, Jack, juro que vou. Você só tem de se perguntar quando. — Lobeck tentou fazer uma cara de escárnio, mas desistiu. Aparentemente era doloroso demais. Leonard e Harkness arreganharam os dentes, contudo. Lobeck estava representando para o seu público. Ele tinha de fazer alguma coisa, afinal. Todo mundo no colégio ficaria sabendo da história do futebol antes do fim do dia, com Garrett andando para todos os lados com a evidência exposta no rosto.

Jack não saberia dizer por que decidiu fazer aqui­lo. Algum tipo de impulso suicida, provavelmente. Ele inclinou-se até ficar a poucos centímetros de distância do rosto de Lobeck. Jack era tão alto quanto ele, apesar de não tão corpulento.

—        Vai. Pode vir — disse Jack, com um sorriso ami­gável. — Da próxima vez, quebro o seu nariz, e você pode dizer adeus à sua carreira de modelo.

Lobeck estreitou os olhos como se não pudesse acreditar no que estava ouvindo. Estendeu a mão com a aparente intenção de agarrar a camisa de Jack. Então pareceu mudar de idéia e, em vez disso, mostrou-lhe o dedo médio.

—        SENHOR LOBECK!

Todos tiveram um sobressalto. Era Penworthy, acompanhado do estranho que Jack havia notado antes.

Penworthy enfiou um bilhete de detenção na mão de Lobeck.

—        Senhor Lobeck, parece que o senhor não passou tempo suficiente na detenção esta semana. Mais do que ninguém, o senhor deveria saber que gestos obscenos são expressamente proibidos dentro da escola.

Lobeck vibrava como uma caldeira prestes a explo­dir. Quando finalmente conseguiu pôr a boca para fun­cionar, deixou escapar uma longa seqüência de obsce­nidades. Penworthy continuou destacando bilhetes de detenção até Lobeck ficar sem combustível.

—        Ahn, senhor Penworthy — disse Will, com caute­la para não se meter no meio das detenções voadoras. — A gente só estava indo para a sala de chamada.

Lobeck e seus amigos também pareciam ansiosos para ir embora.

Jack ergueu o olhar e viu o estranho o encarando. Contra a vontade, Jack viu-se paralisado, encarando-o de volta. O homem tinha maçãs do rosto altas e bem definidas, traços aristocráticos que eram prejudicados apenas por um nariz um pouco grande demais. Sua tez era pálida como a de um acadêmico ou de alguém cuja pele não reage ao sol. Olhos incrivelmente verdes eram protegidos por sobrancelhas pesadas e negras demais para alguém de pele tão clara. Jack teve a rápida im­pressão de uma inteligência penetrante e de força física antes que Penworthy interviesse.

—        Antes que se vão, senhores, gostaria que co­nhecessem o senhor Leander Hastings, nosso novo diretor-assistente — apressou-se em dizer. — Ele substituirá o senhor Brumfield. — Pôs a mão no om­bro de cada garoto, um por um. — Senhor Lobeck. Se­nhor Harkness. Senhor Leonard. Senhor Childers. Senhor Swift. — O olhar de Hastings posou por um bre­ve momento sobre cada um deles. — O senhor Hastings vai liderar nosso time de disciplina estudantil e será responsável pelo controle de presença.

—        Não vou gastar todo o meu tempo distribuin­do detenções. — Os lábios de Hastings retorceram-se, como se aquilo fosse uma piada particular. — Na ver­dade, pretendo desenvolver um programa para alguns dos... — Ele fez uma pausa, tentando escolher as pala­vras certas. — Para alguns dos... alunos mais dotados.

Hastings tinha uma presença que parecia não com­binar com a administração de uma escola. Ele lembrava muito... um lobo.

Sim, claro... educação para os dotados... — ir­rompeu Penworthy, como se essa fosse uma enorme e indesejável surpresa. — Uma idéia excelente, presumin­do que tenha tempo para isso.

Mas é claro. Eu arrumarei tempo — replicou Hastings. — Nada é mais importante do que agarrar o talento onde o encontramos e lhe dar o melhor uso. — O olhar dele caiu sobre Jack.

Jack não tinha ouvido falar que Brumfield ia em­bora. Queria perguntar algo a respeito, mas não conse­guiu. Uma profunda sensação de frio surgiu em algum lugar no peito, dificultando a respiração, quanto mais a fala. Teve um forte pressentimento de perigo vindo em sua direção. Certa vez, quando era pequeno, es­tava brincando com Will nos trilhos do trem quando percebeu que o trem se aproximava. Sentiu os trilhos vibrando através das solas dos sapatos, ouviu o som agudo do apito, mas não conseguiu se mover. Então Will agarrou-lhe o braço e puxou-o para o lado da es­trada de ferro.

—        Ahn, a gente tem de ir para a sala de chamada antes do último sinal — disse Will, mais uma vez pu­xando o braço de Jack.

Mas Hastings estava falando de novo, e ninguém se moveu.

Vocês jogam futebol? Algum de vocês está no time?

A gente fez o teste essa semana. — Will fez um gesto, incluindo os outros quatro. — Não sabemos ain­da se conseguimos entrar ou não.

No lugar de onde eu vim, eu era auxiliar técnico — disse Hastings. — Penso em participar do programa aqui.

Jack não teve dúvidas de que isso aconteceria, quer o treinador Slansky gostasse da idéia, quer não.

O último sinal tocou, e foi como se um encanto se rompesse. O grupo virou-se em três direções diferentes: Will e Jack para a ala do primeiro ano, Lobeck e seus amigos para o corredor do segundo ano, e Penworthy e Hastings de volta para o escritório.

Fitch freqüentava a mesma aula de cálculo que Jack, de modo que este pôde lhe perguntar sobre a viagem antes da hora do almoço. Fitch assentiu com tranqüilidade, como se a possibilidade de viajar cente­nas de quilômetros para ver registros antigos de tribu­nal sobre os parentes falecidos de Jack fosse uma forma natural de recreação. Fitch nunca se importava muito com o que outras pessoas pensavam e tinha um talen­to para descobrir um ângulo interessante em qualquer situação. Durante a hora do almoço, ele telefonou para a mãe no trabalho. Ela respondeu que ele podia ir, des­de que a viagem não lhe custasse nada.

Will teve mais dificuldade para se livrar do húmus.

—        Mas vai ser educativo — implorou ele ao telefone. — A tia do Jack é geóloga. Ahn, quero dizer, genealo­gista. E eu vou escrever um relatório a respeito para a escola — acrescentou ele. Esse último comentário devia tê-los convencido, pois Will estava sorrindo ao recolocar o telefone no gancho.

Quando Jack chegou em casa, um Land Rover bran­co desconhecido estava estacionado no fim da rua. Uma escolha surpreendente para tia Linda, que geralmente alugava um carro esporte quando vinha de visita. Jack encontrou Becka na cozinha, dispondo sanduíches em uma caixa térmica.

—        Linda foi visitar o Nick — explicou ela. — Ela me pediu que dissesse a você para fazer as malas.

A bolsa de viagem de Jack estava aberta sobre a cama dele. Junto dela estava um pequeno pacote em­brulhado em papel parafinado com uma estampa azul brilhante. Ele tomou o pacote nas mãos e o examinou com curiosidade. Não pesava quase nada.

—        Mercedes deixou isso pra você — disse tia Linda, em pé junto à porta, pegando-o de surpresa. — Ela dis­se que poderia ser útil na viagem.

Como Mercedes se envolvera nessa história? Será que os planos de viagem deles tinham sido publicados no website da cidade? Ou exibidos no letreiro magnético das áreas públicas da universidade? Jack resmungou, chateado. Às vezes ele detestava morar em uma cidade pequena.

Rasgou o papel. Era um colete sem mangas, teci­do em uma leve fibra cinzenta que lhe parecia familiar. Três botões de prata decoravam a frente. Quando Jack olhou mais de perto, viu que eram rostos de três ursos diferentes, em prata, ouro e cobre.

—        Não é exatamente o meu estilo — resmungou ele, jogando-o na cama. — E nem é meu aniversário. Mas agradeça a ela de qualquer jeito.

O que tinha dado na Mercedes? Ela sabia o tipo de roupas que ele usava. Nunca usava nada mais exótico do que jeans e camisetas. Ela o via praticamente todos os dias da semana.

Linda permanecia à porta, os braços cruzados.

Experimente — disse ela. Jack ergueu os olhos, surpreso. Queria argumentar, mas sabia que, se Linda queria que ele vestisse aquela coisa, não havia como evitar.

Sinto-me um idiota — grunhiu ele, apanhando o colete da cama e vestindo-o por sobre a camiseta. Servia como uma luva. Finalmente se deu conta do que aquilo lhe lembrava. Era feito com lã idêntica à do cobertor de bebê que Mercedes lhe havia feito anos atrás, agora guardado em uma caixa sob a cama.

—        Parece bom — disse Linda.

Ela retorceu uma mecha de cabelo entre o indica­dor e o polegar. Havia uma tensão nela que ele não per­cebera de manhã. Ela havia acabado de voltar do apar­tamento do Nick. Será que o velho caseiro lhe dissera algo que a deixara perturbada?

Quando ele fez menção de tirar o colete, ela ergueu a mão.

—        Não tire.

Jack supôs que deveria ficar feliz pelo colete não ser cor-de-rosa com bolinhas roxas. Will e Fitch teriam um bocado a dizer a respeito daquilo.

—        Muito obrigado, tia Linda. Ouvi dizer que é o que todos os jovens estão vestindo hoje em dia.

Resmungando baixinho, ele abriu a última gaveta e começou a preparar a bagagem.

Linda percebeu sua expressão mal-humorada.

—        Jack, escute-me. Não estou tentando deixar você embaraçado. É só que... Mercedes ficaria muito feliz se você o usasse. Por que não veste uma blusa por cima, se isso o faz se sentir melhor? Está mesmo frio lá fora. — E ela abriu aquele sorriso que sempre fazia com que as pessoas quisessem agradá-la.

Jack se perguntou o quão lisonjeada ficaria Merce­des em saber que ele estava vestindo o precioso colete dela como roupa de baixo. Ele encontrou sua blusa do estado de Ohio no chão, vestiu-a por sobre a cabeça e fechou o zíper da bolsa. Então se lembrou do que pla­nejara lhe contar.

—        Ah, sim. Tanto Will quanto Fitch vêm conosco — disse ele.

Jack achou que ela ficaria contente, mas ela franziu a testa, como se houvesse se esquecido completamente de que os havia convidado.

—        Oh! Talvez seja melhor nós dois irmos sozinhos — sugeriu ela, após uma pausa.

Jack a encarou, sem conseguir acreditar.

—        Você não pode estar falando sério. Foi você quem me disse para convidá-los, pra início de conversa.

Ela passou os braços em torno de si mesma, balançando-se de um lado para outro.

Eu... é só que...

A mãe está empacotando comida suficiente para um batalhão. Ela até fez brownies, pra variar, em vez daquelas barras horríveis de cereal, cenoura e maçã.

Está bem. Deixa pra lá. Só espero que eles che­guem logo. Quero sair daqui o mais rápido possível.

"Nunca a vi tão irritada", pensou Jack. Quando voltaram à cozinha, Becka estava fechando a caixa térmica.

—        Isso deve manter vocês forrados se Linda não pa­rar para comer. Ela parece que está mesmo em algum tipo de missão. Vou guardar o remédio na sua bolsa — disse ela, de modo enfático, enfiando o grande frasco azul entre as roupas de Jack. — Não fique tão entretido com a história da família a ponto de se esquecer de tomar.

E então Will e Fitch chegaram, parecendo tomar todo o espaço da cozinha. Will trajava a jaqueta do co­légio, camiseta e calça jeans. Fitch vestia uma jaque­ta camuflada do exército, uma blusa amarela brilhante com o logotipo de uma estação de rádio de música country bordado na frente e calças de alpinismo verde-cinza com uma gravata vermelha no lugar do cinto.

Jack deu-se conta de que, não importava o que ves­tisse, jamais seria páreo para a combinação de Fitch, que jogava por suas próprias regras e nunca ficava chateado se os colegas o chamassem de excêntrico. "Excêntrico é bom, estranho é ruim", Fitch sempre dizia. Jack sen­tiu-se um pouco melhor.

 

Linda pisava firme no acelerador. Parecia determina­da a compensar pelo menos parte do tempo que haviam desperdiçado na escola. Sempre que Jack, que estava no banco do passageiro, dava uma espiada no velocímetro, o marcador estava em torno de 135 quilômetros por hora. Tivera esperança de que ela fosse lhe pedir que dirigisse, mas compreendeu que eles apenas perderiam tempo com ele ao volante.

Passaram por uma série de velhas cidadezinhas: um semáforo, um posto de combustível ou dois. Ao es­curecer, começaram a ver o entulho de mineração a céu aberto: montes de escória e resíduos. Equipamentos de ferro para a perfuração de petróleo agachavam-se como mosquitos gigantes na poeira, sugando o sangue negro para fora da terra.

—        Algum de vocês já esteve aqui antes? — pergun­tou Will.

—        Minha mãe me trouxe aqui uns anos atrás — admitiu Jack. "Arrastou" teria sido uma palavra mais adequada. Becka o fizera andar por todas aquelas co­linas, procurando pela propriedade da família. Nunca encontraram. — Minha tataravó Susannah viveu aqui. Era uma mulher bem interessante, acho. Tocava banjo e rabeca e fazia um vinho de cerejas pretas fantástico.

Linda continuou a história sem tirar os olhos da estrada:

—        Susannah é quem estamos procurando. Dizem que ela possuía a Segunda Visão. Comungava com os es­píritos, lia a sorte nas cartas e tinha sonhos proféticos.

—        Parece algum tipo de bruxa — comentou Fitch.

—        Minha mãe sempre se interessou por esse tipo de coisa — disse Jack, sorrindo. — Há boatos de que corre magia pela nossa família, sabe?

—        Melhor que alergias — disse Fitch, espirrando.

—        Susannah tinha um séquito considerável por aqui, principalmente de mulheres. — Linda deu uma guinada para não atropelar uma marmota. — Naqueles tempos, sempre parecia que eram os homens que fa­ziam o futuro, e que as mulheres precisavam se prote­ger dele.

Jack olhou pela janela. Essa casa dos ancestrais estava no caminho que ia para lugar nenhum; um lugar de cemitérios, onde se escavava carvão e se enterrava pessoas.

Estava escuro quando chegaram a Coal Grove, a sede do condado, uma cidade sem nenhum semáforo. Um velho tribunal com a fachada ornamentada anco­rava uma das extremidades da praça. As lojas esta­vam todas fechadas, embora vários carros lotassem o estacionamento junto ao cinema; luzes e música es­capavam de um lugar chamado Café Pássaro Azul, na diagonal oposta ao tribunal. Sexta-feira à noite em Coal Grove, pensou Jack. Ainda mais devagar do que Trinity.

Linda entrou com o Land Rover em uma das ruas que dava na praça e estacionou junto ao meio-fio sob um enorme bordo. Não havia postes de luz, e estava completamente escuro à sombra da grande árvore.

Onde estamos? — perguntou Will, confuso. — Não vamos para um hotel?

Preciso ir ao tribunal primeiro — respondeu Linda, erguendo-se do banco da frente do carro.

Linda pendurou uma mochila sobre o ombro e fe­chou a porta do carro com força. O som pareceu mais alto do que seria natural na rua silenciosa.

Jack esticou-se todo fora do carro, sentindo as per­nas um pouco bambas após a longa viagem. O ar da noite era frio e perfumado, e havia um som suave de sapos a alguma distância. Um cachorrinho começou a latir furioso atrás de uma porta de tela em uma casa próxima. A luz da varanda estava acesa, e podiam ver uma silhueta por trás da tela.

Linda guiou-os até o outro lado da rua e entraram no estacionamento atrás do tribunal. Um prédio moder­no de tijolos alojava-se do outro lado do estacionamen­to, distante da praça. Dois carros de polícia estavam estacionados junto ao prédio. Uma luz de vapor de mer­cúrio projetava uma luz pálida sobre a cena.

Mas o tribunal não está fechado? — insistiu Will.

Oh, tenho certeza de que fica aberto nas noites de sexta.

Linda liderou o trio ao longo da parte de trás do pré­dio, entre caçambas de lixo verde-cáqui, adentrando as sombras de uma ruela do lado oposto. Ela seguiu a la­teral do prédio até encontrar o que estava procurando: uma escadaria de concreto, com um corrimão de ferro em estilo antigo, que descia para um andar no subsolo. Ao fim da escadaria havia uma porta.

Linda olhou de um lado para outro da ruela e então desceu as escadas, fazendo um gesto para Jack e seus amigos a seguirem. Remexeu na porta por um momento até que esta se abriu sob ruidosos protestos das dobra­diças. Ela virou-se para trás.

Eu falei que estava aberto! — disse ela, e sumiu lá dentro.

Tenho um mau pressentimento sobre isso! — sussurrou Jack para Fitch.

Fitch deu de ombros. Com Linda no comando, não havia o que fazer a não ser ir atrás.

A entrada levava a um velho porão. O cheiro de pa­pel velho, mofo e terra úmida era opressivo. Tia Linda tirou três lanternas poderosas da mochila. Só que um pouco tarde demais.

—        Ai! — Will já havia batido a cabeça em uma viga baixa do teto.

Jack correu o facho de luz da lanterna pelas pare­des. Estavam cobertas por estantes cheias de enormes livros de registro estampados com letras douradas. Tudo parecia ser de algum tom de cinza fosco, pois estava co­berto com uma grossa camada de pó. Fitch já começava a espirrar. No alto das paredes, acima dos livros, havia fileiras e mais fileiras de caixas de metal.

Uma antiga escada de madeira dava acesso ao piso principal do prédio. Caixas de arquivos estavam empi­lhadas em quase todos os degraus, deixando apenas um estreito caminho para o topo. Linda encontrou um interruptor na parede junto aos degraus, e a sala foi subitamente inundada de luz.

—        O que você está procurando? — perguntou Jack à tia. — E por que a gente não pode voltar amanhã?

Linda já estava levantando um livro da parede. Ela era surpreendentemente forte, considerando seu tama­nho, e moveu o imenso volume para uma mesa inclina­da de leitura no centro da sala. Linda tinha uma man­cha de pó no alto do nariz.

—        Estamos procurando por registros de óbitos — explicou ela. — Temos de encontrar o registro da sua tataravó Downey. Minha estimativa é que ela morreu entre 1900 e 1920. O tribunal não abre amanhã, então é melhor fazermos isso esta noite.

O livro sobre a mesa tinha como título "Livro de Óbitos A". Jack leu por cima do ombro de Linda. As pági­nas estavam repletas de longas colunas de escrita intri­cada. Nome. Data de falecimento. Local de falecimento.

Local de nascimento. As datas no início do livro eram todas do fim da década de 1860. Linda virou rapida­mente as páginas amareladas, examinando-as de cima a baixo até chegar ao fim do livro. Terminava em torno de 1875. Cedo demais.

Não dá pra simplesmente escrever pro pessoal da capital, Columbus, pra conseguir essa informação? — perguntou Fitch, espirrando de novo. — Ou procurar na internet?

Eles não têm registros eletrônicos dessa época — replicou Linda, erguendo o livro com a ajuda de Jack e recolocando-o no lugar. — Além disso, estou com pres­sa. Agora precisamos procurar pelo Livro de Óbitos B ou C.

Os livros de registros nas prateleiras não pareciam estar em uma ordem em particular. O volume junto ao Livro A estava rotulado como BB e era da década de 1950. Eles dividiram-se para examinar as lombadas dos livros por todos os lados da sala. Era uma grande ba­gunça. Processos do Tribunal de Pleitos Comuns. Livros de testamentos. Registros de terras.

Os olhos de Jack ficavam se desviando para a es­cada que levava ao andar principal. Era a delegacia de polícia que tinha visto do outro lado do estacionamento; tinha certeza disso. Será que a paixão por genealogia seria considerada uma boa justificativa para arromba­mento e invasão? Tia Linda sempre parecia inventar suas próprias regras quando precisava, mas nunca a vira desobedecer à lei.

Por outro lado, talvez ele não a conhecesse muito bem.

Will estava vasculhando metodicamente uma pilha de livros, sem dúvida incentivado pela pálida esperança de um jantar no fim da noite.

Ei! — disse ele de repente. — Que datas estamos procurando?

Início de 1900 — respondeu Linda, movendo-se para ver o livro que ele estava examinando. — Pode ser este. — Ela correu o dedo pela folha, então virou várias páginas. — Essa é a época certa!

Aqueles últimos registros incluíam informações sobre a causa da morte, a maioria por doenças de que Jack nunca ouvira falar: escrófula, edema, febre cerebral. Algumas ele tinha visto apenas em livros de história: tísica, febre tifóide, varíola. Algumas mortes eram acidentais, com descrições sumárias: afogamento. Queda do telhado. Coice de cavalo.

Os lábios de Linda moveram-se silenciosamente en­quanto virava as páginas delicadas.

—        Aqui está! — disse ela. — "Susannah Downey. Nascida em 1868; esposa de fazendeiro; morreu em 12 de maio de 1900; causa da morte: acidente."

Eles todos se juntaram em torno para conseguir ler as garatujas.

Ela era bem jovem — observou Jack. — Alguma idéia de como ela morreu? — Estava interessado, ape­sar de tudo.

Não — respondeu Linda, transcrevendo o regis­tro em um caderno que tirou da mochila. — Não diz onde ela viveu nem onde foi enterrada. — Ela parecia desapontada.

Nenhum dos outros tem esse tipo de informação — disse Fitch. — Isso é importante?

Preciso achar a tumba dela — disse tia Linda. — Pra isso precisamos descobrir em que cemitério ela foi enterrada. A não ser que ela tenha sido enterrada na própria propriedade. Nesse caso, teremos de verificar os registros de terras.

Estavam todos tão concentrados no que haviam encontrado que Jack levou alguns segundos para pro­cessar o que estava ouvindo. Ergueu a mão pedindo silêncio e indicou o teto com um movimento de cabe­ça. Lá estava o som inconfundível de passos no andar superior.

Todos ficaram paralisados. Havia um gosto amargo e metálico no fundo da boca de Jack, e seu coração pa­recia um peixe se contorcendo de aflição. Linda inclinou a cabeça como se pudesse ver a sala de cima através das tábuas toscas. Ela soltou a respiração num som fraco e primitivo de medo. Então fechou rapidamente o livro e o pôs de volta em seu nicho. Quase no mesmo momento, uma porta se abriu no topo das escadas e um pálido retângulo de luz apareceu na escadaria escura.

A escada estava entre eles e a porta de saída.

—        Fujam! — sussurrou tia Linda enquanto saltava na direção do interruptor de luz.

O quarto foi mergulhado em trevas. Jack tropeçou na mesa central ao tatear em desespero no escuro até achar o contorno da porta. Tia Linda estava derrubando coisas atrás dele, fazendo uma barulheira infernal. Que diabos ela estava fazendo? Ele podia ouvir Will e Fitch um pouco à frente. Olhou rapidamente para trás e viu uma silhueta alta e negra no topo das escadas, emoldu­rada pelo amarelo sujo das lâmpadas de vapor de mer­cúrio. Não conseguiu distinguir o rosto nem os traços físicos. Jack ainda estava olhando quando a silhueta se voltou para ele.

Jack sentiu o toque daquela atenção como um gol­pe físico. Cambaleou, segurando-se em um armário de arquivos para não cair.

De repente, Linda estava ao lado dele, empurrando-o com força para a frente.

— Você! Ande, saia! Eu encontro vocês no Café Pássaro Azul em meia hora!

Atrás deles, Jack ouviu uma exclamação abafada, o som de algo pesado caindo, depois uma série de pa­lavrões. Will e Fitch deviam ter alcançado a saída, pois uma luz cinzenta jorrava da escadaria. Ele se lançou na direção dos amigos. Assim que alcançou a soleira, ouviu uma explosão. Houve um clarão ofuscante de luz, e algo o atingiu em cheio nas costas, derrubando-o so­bre o bloco de concreto logo além da porta. Ele caiu de quatro e mordeu a língua com força. O sangue tinha um gosto salgado. Então Will e Fitch o agarraram pelos bra­ços e o arrastaram escada acima e até a ruela. Quando finalmente conseguiu se pôr em pé, Jack virou o torso para ver se Linda vinha atrás deles, mas a ruela estava vazia.

A ruela levava de volta à praça principal na frente do tribunal. A rua ainda estava deserta. Cruzaram cor­rendo o gramado e se espremeram entre os arbustos plantados em torno do coreto. Havia cerca de um metro entre os pinheiros e as fundações de cimento do pré­dio. Agacharam-se ali, a respiração acelerada, olhando para o tribunal e depois um para o outro, com os olhos arregalados.

Finalmente, Will disse:

—        Que diabos foi aquilo?

Aquilo o quê? — retrucou Jack. Ele próprio tinha perguntas demais para responder às deles.

Aquele cara esquisito na escada, pra começar — respondeu Fitch. — Aquele com o sabre de luz sinistro.

Sabre de luz? Fala sério. — Jack voltou a olhar para o tribunal.

Sabre de luz. Lança-chamas. Phaser. Desinte­grador eletromagnético. Aquilo que ele usou para atirar em você, cara. — Fitch limpou o sangue do rosto com as costas da mão e tentou um sorriso.

Por que você não está morto? — perguntou Will. — Aquilo devia ter matado você, não entendo por que você não está morto. Tem certeza de que não está ferido?

Não — disse Jack lentamente. — Alguns arra­nhões, talvez.

Havia uma região dolorida entre as espáduas, como se ele tivesse sido atingido nas costas por uma bolada forte. A única outra sensação era uma espécie de formi­gamento por todo o corpo.

Fitch, atrás de Jack, estendeu a mão e deu-lhe um puxão no capuz. O tecido se desintegrou entre seus dedos.

—        Bela camisa — disse ele, entregando a Jack os farrapos carbonizados. Tinham um cheiro de pólvora, como o de rojões logo após serem lançados.

Jack despiu o que sobrara da blusa. Toda a parte de trás desaparecera. Por baixo, o colete novo parecia intei­ro. Na realidade, não parecia ter sofrido qualquer dano.

—        Sorte sua estar usando colete à prova de balas — observou Will com secura. — Pena que ninguém disse a mim e ao Fitch pra trazer os nossos.

Jack voltou-se novamente para o tribunal, ainda iluminado somente pelo brilho pálido da luz de segu­rança. Se alguém havia acionado o alarme, por que ninguém acendera as luzes? E por que o homem no topo das escadas não havia dito nada, não havia se identificado?

Não havia nenhum sinal de perseguição. A praça e o tribunal estavam em silêncio.

—        Escutem — disse Jack, engolindo em seco. — Eu lamento tudo isso. Quando convidei vocês para vir conosco nessa viagem, nunca pensei... Não sei quem era aquela pessoa ou o que tia Linda está traman­do, mas...

Fitch interrompeu-o.

—        Onde ela está?

Ninguém tinha uma resposta para isso. Jack imagi­nou-se explicando para a mãe que eles haviam perdido a irmã dela enquanto cometiam um arrombamento e afastou essa imagem para longe.

Fitch apoiou as costas cautelosamente na base de pedra do coreto e fechou os olhos. O cabelo pálido des­cobriu sua testa quando uma brisa soprou.

—        Estranho que ele não tenha acionado o alarme.

Jack deu de ombros. Já tinha ouvido falar de ba­talhas campais por sítios arqueológicos. Mas genea­logia? No que haviam se metido? Nervoso, olhou para o relógio.

—        Tia Linda disse para a encontrarmos no Pássaro Azul em meia hora. Está na hora.

Ele rezava para que ela aparecesse como prometi­do. Não sabia o que faria se ela não fosse.

Ainda evitando o tribunal, esgueiraram-se pela par­te de trás do coreto até o lado oposto da praça, depois cortaram caminho entre os prédios até a próxima rua. Traçaram um largo círculo em torno do Pássaro Azul. Passava um pouco das nove quando entraram no bar.

Ao entrar, foram assaltados pela música alta, se­guida pelo cheiro de tabaco envelhecido e cerveja. Levou alguns minutos até que os olhos deles se ajustassem à luz. A única iluminação vinha dos anúncios de cerveja em neon. O lugar estava lotado com todos os tipos de cliente: jovens, velhos, alguns bem vestidos e outros que obviamente tinham vindo direto do trabalho. Era, afinal de contas, sexta-feira à noite. Jack tinha a sensação de que todos no lugar se conheciam, enquanto ele e seus amigos eram claramente forasteiros. Além de serem menores de idade, o que lhes foi lembrado imediatamente.

Posso ajudar vocês, meninos? — A moça mos­trava um certo ar de autoridade, embora não parecesse muito mais velha do que eles. Um pássaro azul com um sorriso cheio de dentes erguendo uma cerveja estava bordado no bolso da camisa dela. — Vocês têm docu­mentos?

Não vamos beber — explicou Will. — Será que a gente não pode só se sentar na parte do restaurante? — perguntou ele. — Estamos esperando alguém.

A garçonete estudou-os por um momento, o olhar demorando-se mais em Will. Então encolheu os ombros.

—        Claro, por que não? — Indicou com a cabeça uma mesa vazia no fundo. — Sentem-se. Posso trazer o cardápio, se quiserem.

—        Isso seria ótimo — respondeu Will.

—        Pelo jeito, você tem bom apetite — replicou a gar­çonete, sorrindo para Will enquanto ajeitava o rabo de cavalo. — Você malha?

Descobriram que a garçonete tinha interesse em fisiculturismo. Ela e Will progrediram rapidamente para flexões e exames mútuos de bíceps antes que ela final­mente partisse para buscar os refrigerantes.

Jack olhou feio para Will.

—        Não acredito que você esteja com fome. — Sentia o peso enorme da apreensão em seu coração, o que não o deixava pensar em comida. Ou em qualquer outra coisa.          

Ora, por que não? — disse Will, despreocupado, examinando o cardápio. — Eles não vão nos servir cerveja, e não podemos simplesmente ficar sentados aqui.          

Como sabemos que aquele cara não está aqui? — Fitch estava encolhido, como se quisesse diminuir sua altura.                                                                                

Jack olhou em volta. Não viu nenhum homem alto em casaco longo, não sentiu nenhuma presença gélida e ameaçadora, mas não seria difícil se esconder naquela multidão.

—        Vocês se importam se eu me juntar a vocês?

Jack ergueu os olhos, surpreso, e encontrou um par de olhos azuis e dourados. O cabelo espetado dourado e prateado de tia Linda estava despenteado, e havia a som­bra de um machucado sobre uma das faces. A jaqueta de brim parecia ter sido usada para limpar o chão.

Todos os três começaram a falar ao mesmo tempo. Linda balançou a cabeça, os lábios contraídos. A garço­nete havia voltado.

—        Vejo que encontraram a amiga de vocês — disse ela, distribuindo ruidosamente os copos, olhando para Linda com ciúmes. — Prontos para fazer o pedido?

Jack pediu qualquer coisa, observando Linda. Ela se sentou de frente para a porta; sempre que esta se abria, levantava a cabeça.

"Ela está morta de medo", pensou Jack.

Linda inclinou-se para a frente.

Vocês três estão bem? — Ela estudou cada um deles como se temesse que algum pedaço deles estives­se faltando, parecendo se sentir tão culpada e infeliz que Jack se viu desejando fazer algo para que ela se sentisse melhor. — Jack, eu vi você cair...

Eu estou bem — Jack apressou-se em dizer. Olhou para os outros a seu redor. — Vocês estão todos bem, não estão?

Bom... — Will deu de ombros. — Eu quase mo­lhei as calças quando aquele maluco abriu a porta.

Por que ele atirou na gente? — perguntou Fitch. — Se não era da polícia, nem um vigia noturno, por que estava rondando por lá durante a noite? Não tem nada lá a não ser um monte de velhos registros legais. — Ele fez um redemoinho com o gelo em seu copo e olhou para Linda. — A não ser que estivesse procurando a mesma coisa que nós. Como em Tomb Raider.

Linda não disse nada. A garçonete deu a volta na mesa, distribuindo os pratos à frente de cada um.

—        Só o que ele precisava fazer era pedir — disse Will. — Eu teria dado pra ele o Livro de Óbitos A, sem problemas.

Jack estudou seu sanduíche de carne como se fosse algo desconhecido e não comestível. Fitch brincava com a comida, e Linda ignorou o que estava em seu prato enquanto bebia uma segunda cerveja direto na garrafa. Will era o único que parecia com fome.

—Você acha que ele estava só tentando nos assustar?

— perguntou Jack, sentindo o ferimento em suas costas latejar. — Ou ele viria aqui atrás de nós?

—        Aqui ele não virá — disse Linda, mexendo distraí­da em uma unha quebrada. — Ele sabe que não encon­tramos nada ainda. E agora ele sabe que tudo o que ele tem a fazer é me seguir. — Com isso, ela fechou a boca, como se percebesse que já havia falado demais.

Jack deixou cair os talheres no prato com um ruído alto.

Então você sabe quem era aquele cara? — Mais e mais ele fazia perguntas cujas respostas ele já sabia.

Sim. Eu sei quem ele é. Mas eu não esperava que ele fosse vir até aqui. — Ela olhou para Fitch e Will. — Se eu soubesse, nunca teria trazido vocês dois.

"E quanto a mim? Eu sou dispensável, então?", Jack se perguntava, oscilando entre a raiva e a perple­xidade.

Os alto-falantes retumbavam com o rock enquanto as pessoas lotavam o Café Pássaro Azul. Alguém abriu porta quando o lugar começou a esquentar. Linda olha­va o tempo todo para a porta aberta.

—        Ele está lá fora? — perguntou Jack.

Linda fez que sim com a cabeça.

—        Não muito longe, de qualquer maneira. O lance é o seguinte — disse ela como se continuasse a conversa­ção anterior: estou procurando por uma... uma relíquia de família. Tinha esperança de encontrá-la neste fim de semana. Ele deve estar procurando por ela também. Ou ele seguiu as pistas até Coal Grove por intermédio da genealogia de Susannah, ou me seguiu até aqui. E se ele me seguiu...

Ela se calou. Estava olhando para Jack. Ele se me­xeu no assento, desconfortável.

Will devorou o último pedaço de sanduíche.

—        E que arma era aquela que ele usou?

—        Não sei — disse Linda. — Eu... eu não cheguei a ver nada.

"Ela está mentindo", pensou Jack.

—        Por que a gente não volta simplesmente para casa? — sugeriu Fitch. — Ele não pode ficar por aqui para sempre. A gente sempre pode voltar outro dia.

Linda balançou a cabeça.

O fato de ele estar aqui pode significar que já é tarde demais. Não podemos correr o risco de que ele encontre a relíquia antes de nós. — Ela encarou cada um deles. — Tenho de encontrar a relíquia neste fim de semana ou corro o risco de perder tudo.

Então, qual é o nosso próximo passo? — pergun­tou Fitch.

Não há nenhum próximo passo para vocês dois — disse Linda. — Vou levar vocês para o hotel e vão fi­car lá até que tudo tenha terminado. Eu... eu nem sem­pre planejo bem as coisas... — ela voltou o olhar para as próprias mãos. — Foi um erro envolver vocês. Não vou pôr vocês em risco de novo.

E quanto a mim? — perguntou Jack, percebendo que mais uma vez havia sido excluído.

Ela não era capaz de encará-lo.

—        Se eu conseguir encontrar a relíquia, vou pre­cisar da sua ajuda, Jack. Tenho algumas informações internas que vão nos ajudar. É só que... não sei como faremos para despistar o cara. E se ele nos vir juntos...

Fitch apoiou o queixo nas mãos.

—        Talvez a gente possa ajudar.

Linda inclinou-se em direção ao centro da mesa.

—        Vocês não conhecem eles — murmurou ela. — Isto não é um jogo.

Jack jamais vira a tia, sempre tão irreverente, pa­recer tão séria.

—        Escute só — insistiu Fitch — você disse que esse cara vai seguir você. Assim, você não vai encontrar nada sem que ele fique sabendo.

Tia Linda assentiu com cautela.

Mas ele provavelmente não conseguiu nos ver muito bem no tribunal — continuou ele. — E ele é só um. Aposto que, se tiver de escolher, vai seguir você. É o que eu faria — admitiu ele, corando um pouco.

O que você tem em mente?

E se você o atrair para longe daqui enquanto nós três procuramos pela... coisa? — disse Will. — Se ele estiver seguindo você, não vamos estar em perigo.

Talvez a gente deva mesmo se dividir agora — disse Linda, cedendo. — Se eu levar vocês para o hotel, podemos ser seguidos. O próximo lugar aonde precisa­mos ir é a biblioteca. Deve ser seguro o suficiente.

Jack não gostou disso. Linda conhecia o homem do tribunal e estava com medo dele.

—        Não quero aquele cara seguindo você por aí. Acho que a gente devia ficar junto.

Ela deu de ombros.

Ele me seguiria de qualquer maneira. Não há nada que eu possa fazer a respeito. E, se você estiver comigo, vai estar em perigo. — Era óbvio que ela não os considerava grande proteção contra o que quer que a esperasse lá fora.

Quão importante é que você... vença? — pergun­tou Jack.

Vencer é tudo. — Ela olhou para ele e repetiu: — Tudo.

Algo no jeito como ela o disse levou Jack a se pergun­tar se essa missão desesperada tinha algo a ver com ele.

O plano foi arquitetado à mesa surrada no fundo do Café Pássaro Azul. Tia Linda entregou a Jack um maço de notas, um cartão de crédito e o número de confirma­ção da reserva do hotel. O hotel ficava na rodovia, e eles teriam de chegar lá por conta própria. Linda achou que o retorno dos rapazes ao Land Rover não seria uma boa idéia, se quisessem evitar atrair a atenção do estranho lá fora. Will pôs o celular e o caderno de tia Linda no bolso interno da jaqueta. Ela havia rabiscado algumas instruções lá dentro. Fitch carregava duas das lanternas. Quando tudo estava combinado, ela chamou o garçom. A voz dela assumiu um sotaque local.

—        Sabe o que é? — disse ela ao garçom, com a voz carregada de charme. — Meu ex-marido está lá fora esperando no estacionamento, e estou com medo que possa haver problemas. Ele me seguiu a noite inteira. Estou com medo que haja uma discussão, e não quero meus filhos envolvidos nisso.

O garçom assentiu, compreensivo. Era um homem grandalhão de tez avermelhada, ombros largos e mãos grossas. Se achou que a família dela tinha uma aparên­cia peculiar, ele não disse nada.

—        Será que eles podem sair pelos fundos? — conti­nuou Linda. — A cozinha tem uma saída pra fora?

O homem assentiu novamente.

—        Sem problemas. Sei como são essas coisas. Também tenho uma ex-mulher. — Ele indicou com a cabeça uma porta nos fundos em que estava escrito TOALETES. — Vá por ali e siga sempre em frente. Tem uma porta que leva para o beco.

—        Muito obrigada — disse Linda. — Se você não se incomodar, acho que vou ficar por aqui um pouco até ter certeza de que eles estão a salvo longe daqui.

Sem problemas — disse o garçom, solícito.

Jack e seus amigos levantaram-se da mesa.

Tenham cuidado! — disse Linda ao vê-los partir.

Jack olhou para trás. A tia parecia tão pequena e vulnerável sentada sozinha à mesa.

Eles empurraram a porta de vaivém no fundo do restaurante e se viram em um corredor dilapidado, com piso de linóleo e toaletes em ambos os lados. Havia uma outra porta bem no fundo, sob uma placa de saída.

A porta dava para um beco entre duas grandes ca­çambas. A música do bar parecia irritantemente alta quando abriram a porta. Fecharam-na rapidamente atrás de si e permaneceram junto às caçambas por al­gum tempo. Ninguém apareceu. Então, como fantasmas, os rapazes se esgueiraram pelo beco até a rua adiante.

—        Com licença.

O recepcionista noturno estava empoleirado num banco atrás do balcão, entretido com um minigame. Parecia ter uns vinte e poucos anos, magrelo, com um suprimento generoso de acne pós-adolescente. Depois de dar uma olhada rápida em Jack e seus companhei­ros sem demonstrar interesse ou curiosidade, retornou ao jogo, que tocou uma musiquinha quando ele avan­çou para a fase seguinte.

Jack pigarreou e repetiu:

—        Com licença.

Humm? — Desta vez ele não levantou os olhos da tela. O nome no crachá dizia "Stan".

Temos uma reserva. Em nome de O'Herron — insistiu Jack.

Finalmente, Stan ficou sem vidas, e o jogo chegou a um fim súbito e trágico. Com relutância, ele o desligou e voltou sua atenção a Jack.

—        Não alugamos para adolescentes — disse ele abruptamente. Tomou um longo gole de uma lata de refrigerante. — É melhor irem para casa, meninos.

—        A reserva está em nome da minha tia — continuou Jack, passando-lhe o cartão de crédito e o pedaço de papel com o número de confirmação por cima do balcão. — Ela vem mais tarde.

Por que tia Linda tinha um cartão de crédito com o nome O'Herron? Por algum motivo, não havia pensado em perguntar a ela.

Stan olhou para o cartão com desconfiança.

Sei, e cadê essa sua tia agora?

Ela, ahn, ela encontrou alguém num bar na ci­dade. Disse que ia ficar lá um pouco mais, mas eu e meus primos... a gente estava ficando cansado. — Jack reprimiu um bocejo. — Então ela nos disse pra vir na frente.

Will e Fitch bocejaram também.

Stan balançou-se no banco, cruzando os braços so­bre o peito, o retrato da teimosia. Bem naquela hora, o telefone tocou. Mantendo agora toda sua atenção ao trio que tinha à frente, Stan atendeu e escutou por um instante.

—        É, eles estão aqui — respondeu Stan a algo dito pela pessoa do outro lado da linha —, mas acho que não posso fazer o registro deles sem a sua presença. — Subitamente, ele não parecia tão seguro de si.

Ele escutou por um instante, sacudindo a cabeça como se ela estivesse lá para ver o gesto, então disparou em um débil protesto:

—        Senhorita O'Herron, eu acho melhor vir aqui e fazer o registro... — começou ele, mas em seguida pa­rou, escutando de novo. — Bom, acho que sim, se a senhorita estiver aqui em algumas horas... — Escutou um pouco mais, engolindo rápido, o pomo de Adão su­bindo e descendo. — Claro, qualquer coisa que eu pu­der fazer por você, meu amor, você sabe. — Enfim, com relutância, Stan desligou o telefone: outra vítima do misterioso charme de tia Linda.

Muito bem, acho que não há problema em deixar vocês esperarem por sua tia no quarto — disse Stan, subitamente gentil. Jack teve a sensação de que Stan ficaria por ali bem além do fim do turno dele, esperando que Linda chegasse. — Vocês têm alguma bagagem?

Nossa tia está com o resto das nossas coisas — explicou Fitch.

Eles foram guiados escada acima até uma passagem no segundo andar, do lado oposto do hotel em relação à recepção. O quarto tinha o aspecto confortável de uma casa de programa de habitação popular: duas camas de casal com cabeceiras que imitavam madeira, copos plásticos no banheiro. Havia um fedor persistente de fumaça de tabaco e queimaduras de cigarro no carpete. Eles tentaram ligar a televisão, mas não havia cabo, e a recepção era ruim. Não havia muito mais a fazer, então eles se despiram e foram para cama.

O que você acha que a sua tia está procurando? — Era a voz de Will na escuridão.

Não faço idéia — disse Jack. Tia Linda partilha­va informações em doses mínimas e miseráveis. Ele se perguntava onde ela estaria naquele momento, e se o homem do tribunal a estava seguindo. Deu-se conta de que estava com os punhos cerrados sob o lençol e se forçou a relaxar os dedos. Agora que parara de se mo­ver, as costas haviam se enrijecido. Mudou de posição, tentando ficar confortável sobre o colchão impiedoso.

Não entendo. Por que vocês querem se envolver nisso?

Já estamos envolvidos, não estamos? — obser­vou Fitch.

Eu posso ir à biblioteca sozinho — sugeriu Jack. — Eu sei o nome das famílias. Vocês podiam ficar por aqui. Talvez seja melhor se não nos virem juntos.

Talvez seja mais seguro ficarmos juntos — disse Will.

Jack ergueu-se sobre um cotovelo.

—        Eu posso chamar a minha mãe. Ela poderia vir nos buscar em algumas horas. A gente se livraria disso agora mesmo.

A idéia de explicar tudo isso a Becka o deixava de­primido. Ele talvez nunca visse Linda de novo, a não ser em curtas doses supervisionadas.

Você deixaria Linda aqui sozinha? — Will soou escandalizado.

Aquele homem está atrás dela — acrescentou Fitch. — Ela está com medo. A gente deve ajudar, se puder.

"Ela os encantou", pensou Jack. "Assim como ela fez comigo, a vida inteira."

—        Olha, eu sei que vocês querem ajudar a donze­la em apuros, mas vocês já pararam para pensar que vocês podem se machucar? E, se ela é inocente, por que ela não nos conta o que está acontecendo? Por que ela não chama a polícia?

—        Talvez a polícia não possa ajudar. — Fitch estava claramente lutando para encontrar um sentido em meio àquele caos. — Eu não ia querer ter de lutar com aquele cara do lança-chamas.

—        Pelo menos a polícia tem armas. O que acha que o cara vai fazer quando descobrir o que estamos tramando?

Eles não tinham muito a argumentar contra isso. Houve um longo silêncio desconfortável que não foi rompido até que a respiração regular dos outros dois fez Jack perceber que estavam dormindo.

Jack deitou-se de costas, fitando o teto de gesso falso. O sono parecia distante. Tia Linda era a madrinha dele, mas havia algo mais forte entre os dois, algum vín­culo genético e espiritual que ia além da cerimônia do sacramento. Ele não conseguia se livrar da sensação de que ela o trouxera junto por algum motivo, que essa re­líquia que ela estava caçando tinha algo a ver com ele.

Mas não era só isso. Ele sentia o perigo se aproxi­mando, chegando mais perto a cada respiração. Puxou o fino lençol até o queixo. O hotel parecia uma frágil casca de ovo, um débil escudo contra as trevas. E Jack temeu que todos os seus parentes e amigos não fossem suficientes para salvá-lo.

 

O esqueleto da casa era firme. Fora construído com rochas irregulares extraídas do próprio terreno e ainda estava em pé, pedra sobre pedra, após anos de aban­dono. Mas o esqueleto era só o que restava. O telhado, a varanda e as partes de madeira haviam apodrecido, revelando uma beleza nua e em decomposição. Um conjunto de pedras na parede junto à entrada tinha a inscrição A. Hastynges, 1850. Os vestígios das outras construções estavam quase obscurecidos pelos arbustos: um celeiro, talvez, um galpão, os restos de uma parede de pedras.

Linda estremeceu, passando os braços ao redor do próprio corpo. Não havia sido difícil encontrar de novo esse lugar de antigas tragédias. Lee a havia le­vado ali certa vez, ao tentar explicar-lhe quem ele era. Ela correu as mãos pelas pedras frias, aveludadas pelo musgo, e parou no local onde havia sido a entrada, o olhar voltado para o grande rio. Podia vê-lo cintilar na luz das primeiras horas da manhã, alguns quilômetros ao sul.

Ela havia atraído o mago em uma extensa persegui­ção, ao longo de estreitas estradas tortuosas nas mon­tanhas, rumo às interestaduais, fazendo um grande círculo em torno do condado de Coalton, sem ficar mui­to distante de Jack. Conhecia a região melhor do que o perseguidor e evitou quaisquer armadilhas que ele tivesse preparado para ela. Até aquele momento.

Ela circulou as ruínas, atravessou o mato novo atrás da casa, reconhecendo os restos de um requin­tado jardim, os caules de velhas rosas, queimados pelo inverno, apoiados contra as fundações das velhas pare­des. As folhas dos bordos vermelhos ainda jaziam como sangue no solo. Caminhou de volta à frente da casa.

— Uma flor delicada entre as ruínas. — A voz era como o murmúrio de folhas mortas.

Ela parou onde estava como um animal assustado, um grito preso na garganta.

Ele estava lá, no jardim da frente, alto e magro, bar­budo, vestindo um longo casaco, sem chapéu, reluzin­do de tanto poder. "Wylie", pensou ela, o nome voltou-lhe como se viesse de uma vida passada. Ela jamais o encontrara, mas havia conhecido muitos como ele. Ela tentou se retrair, esconder quem era, sabendo que já era tarde demais. Embora a aparição dele não fosse inesperada, ele a pegara de surpresa.

Ele sorriu, um rearranjo lento e sugestivo do rosto. Ela não disse nada, com medo de que a voz a traísse.

—        Diga-me, quem manda uma encantadora fazer o trabalho de um mago?

Ela sacudiu a cabeça sem dizer uma palavra. Ele a alcançaria em três passos, se não a deixasse sem sen­tidos primeiro.

—        Qual é o seu nome? Quem é o seu responsável? Ele é da Rosa Branca?

Um pergunta atrás da outra, rápido demais para que ela respondesse, mesmo que quisesse. Ele não esperava respostas. Se ela estivesse sob o controle de um mago, ele teria de lhe arrancar essa informação a força.

Então Wylie não sabia quem ela era. Provavelmente havia seguido a pista da espada de algum outro jeito. Já era alguma coisa, mas não serviria para nada se ele a apanhasse.

—        A espada está por aqui em algum lugar? — inda­gou ele. — Esta é a propriedade dos Downey?

Ela sacudiu a cabeça em silêncio. Dizendo a verda­de, de fato.

—        Eu perguntei sobre a espada — murmurou ele. — É melhor cooperar, se não quiser que eu a machu­que. Caso contrário... — Flexionou os dedos, e chamas subiram-lhe pelas mãos e braços. — Vou arrancar suas penas, passarinho. Vou remover suas pétalas, uma por uma, e fazer você gritar. Termos afetuosos típicos dos magos.

Ela não disse nada.

—        Primeiro conversamos, depois brincamos. Faz muito tempo desde que tive... o prazer...

Ele se moveu suavemente em direção a ela, um pre­dador experiente. Entretanto, assim que a bota pousou sobre o jardim, ele ficou rígido e caiu para trás com um espasmo, levando a mão ao rosto e se arranhando. Tombou de costas sobre os arbustos, contorcendo-se de dor, berrando como se estivesse sendo esfolado vivo. Ela o viu rolar desesperado na sujeira e, finalmente, enten­deu o que ele estava dizendo.

—        Me ajude, encantadora! Tem um feitiço de prote­ção! Me tire daqui!

—        Vá pro inferno, mago — replicou ela.

Linda não ousou ficar para ver o resultado da arma­dilha que preparara. Não tinha idéia de quanto tempo a antiga magia resistiria. Virou-se e correu declive abaixo até a estrada de terra onde o Land Rover a esperava, atrás de um trailer. Outro carro, um cupê cinza comum, estava estacionado bem ao lado.

Ela atirou-se no banco do motorista do Rover e en­fiou a chave na ignição com mãos trêmulas. Só após várias tentativas conseguiu dar a partida. Engatou a primeira marcha, girou o volante e desceu, velozmente e aos solavancos, pela rua esburacada que levava à auto-estrada. Quando olhou pelo espelho retrovisor, não viu ninguém a seguindo.

 

A Biblioteca Regional de Coal Grove ficava em um prédio imponente de tijolos vermelhos que havia sido um dia uma escola. Ficava na praça em frente ao tri­bunal, a meia hora de caminhada do hotel. Como era sábado de manhã, a biblioteca já estava cheia quando eles chegaram. Uma mulher com aparência maternal à mesa da recepção indicou-lhes o caminho para a seção de genealogia nos fundos.

Um homem vestindo uma camisa de trabalho azul, calça jeans e botas de caubói estava sentado a uma grande mesa junto à coleção de genealogia. Uma mon­tanha de livros espalhava-se à sua frente, e ele estava ocupado digitando notas em um laptop. Um cabo de ex­tensão cor-de-laranja brilhante serpenteava pelo chão e por trás de uma estante.

—        Cuidado com o cabo, meninos — disse ele, em­purrando os livros para liberar espaço na mesa para que eles pudessem se sentar.

Jack tirou o caderno de tia Linda da bolsa e o pôs sobre a mesa. Os três entreolharam-se, sem saber o que fazer.

O estranho ergueu os olhos do teclado.

Qual é o problema? Não sabem por onde começar?

Não — disseram os três juntos.

Ora, eu acho ótimo ver jovens se interessando por genealogia — disse o homem, sorrindo. — Eu mes­mo só comecei quatro ou cinco anos atrás. Que nomes vocês estão procurando?

Ahn, Taylor — disse Jack rapidamente.

Hmmm, Taylor, Taylor... — Os dedos voaram pelo teclado. — Tenho um Ransom Taylor aqui, nascido em 1830. É esse?

Não sabemos — respondeu Fitch, dando de om­bros. — Somos novos nisso. Ahn, será que você pode nos explicar sobre os livros aqui?

Claro. — O homem pôs-se em pé de imediato, parecendo ansioso em compartilhar o que sabia. — De onde vocês são?

—        Erie, na Pensilvânia — falou Fitch de novo.

O homem assentiu.

Bem, aqui vocês têm livros com a história dos condados, a maior parte dos condados do sul de Ohio e alguns da Virgínia do Oeste. Esta região de Ohio fazia parte da Virgínia, vocês sabem. Aqui — ele arqueou o braço vagamente ao longo das pilhas — estão os dados de recenseamento. Eles têm registros de recenseamento em microfilme de 1830 até 1920 nestes armários. Os dados de estatística vital estão nestas prateleiras de metal: casamentos, nascimentos, mortes e registros de cemitérios.

Registros de cemitérios? — repetiu Will, inte­ressado.

Isso, a sociedade genealógica do condado tem estudado os cemitérios e copiado as lápides há anos. Estão quase terminando. O único problema é que não foram catalogados ainda.

Aqui tem jornais antigos? — perguntou Jack, correndo as mãos pelos livros de registros de cemitérios. Havia três grossos volumes. Ao que parecia, tinham muito trabalho pela frente.

O benfeitor deles confirmou.

—        Temos o Telegrama Postal e o Democrata de Coal Grove em microfilme, desde meados de 1850. Esses também não foram catalogados, mas é uma leitura bem interessante.

Fitch tinha um plano.

—        Muito bem — disse ele, fazendo um gesto de ca­beça para Jack e Will. — Will e eu vamos cada um pegar um desses livros de cemitério e começar a procurar pela sua... ahn... por nossos parentes mortos. Jack, você examina os jornais em microfilme e vê se encontra um obituário ou coisa assim.

Jack escolheu um rolo de microfilme do Telegrama Postal. Susannah Downey morrera em maio de 1900. Ele rolou o filme para a frente até chegar em maio de 1900, e varreu cuidadosamente com os olhos cada pá­gina do jornal buscando qualquer referência ao faleci­mento dela. Após quase uma hora lendo histórias so­bre quem visitou quem e quem andava adoentado, Jack passou do Telegrama Postal para o Democrata de Coal Grove. E lá estava.

—        Vejam isso!

Os rapazes amontoaram-se ao redor de Jack, len­do por cima do ombro dele. Era um texto de notícia: "SRA. DOWNEY MORRE AO CAIR DE CAVALO. Os vizi­nhos em Coal Grove ficaram chocados ao saber da morte inesperada da senhora Susannah Downey, natural do município de Munroe, que morreu ao cair de um cavalo no domingo passado. Lee Hastens, um visitante no mu­nicípio, encontrou-a caída no bosque atrás da fazenda da família à noite. O cavalo estava por perto, espuman­do, como se o tivessem feito cavalgar em alta velocidade por uma longa distância. Embora conhecida por ser uma amazona habilidosa, a senhora Downey caiu contra a estaca de uma cerca. Um corte profundo no peito foi a causa da morte. O reverendo Eugene Cárter presidiu o serviço fúnebre na Primeira Igreja Metodista. A senhora Downey deixa marido e um filho pequeno."

—        Uau — murmurou Will. — Que jeito de morrer.

Jack havia visto fotos da tataravó coloridas à mão no velho baú no sótão. Ela havia sido fotografada com o marido, que parecia severo e solene. Susannah, porém, parecia prestes a cair no riso. Era linda, com pesados cabelos loiro-avermelhados enrolados sobre a cabeça, mãos pequenas e graciosas e traços delicados. Havia uma forte semelhança entre a mulher da fotografia e a bisneta, Becka.

Fitch apertou o botão de imprimir na máquina de microfilme.

Diz aí onde ela foi enterrada? — perguntou Jack.

Não — respondeu Fitch —, mas diz que ela mo­rava no município de Munroe. Os cemitérios não estão listados por município?

Will consultou o índice do livro que estava exami­nando e abriu-o nas últimas páginas.

—        Há oito ou dez cemitérios no município de Munroe -relatou ele. — A maioria deles parece ser pequena.

Correu o dedo página abaixo. — Aqui! Susannah

Downey, esposa de Abraham. De 1868 a 1900. É no velho cemitério metodista.

Estavam falando cada vez mais alto e, de repente, Jack percebeu que o homem com botas de caubói ha­via levantado a cabeça da máquina de microfilme que estava usando e escutava com interesse a tudo o que diziam. Jack lançou um olhar de aviso aos amigos e voltou-se para o livro.

—        Espere aí um minuto! — disse ele. — Essa não pode ser ela. As datas estão todas erradas. Ela teria de ter vivido muito antes disso. — Virou-se subitamente para o homem com o laptop. — E se uma pessoa não estiver no livro de cemitérios? Desde quando são feitos registros de óbito?

O homem sacudiu a cabeça.

—        Não antes de 1867, que é quando o Estado co­meçou a exigir que os condados mantivessem registros. Talvez haja um registro estadual no tribunal, mas isso seria pouco comum no caso de uma mulher. Vocês já estiveram lá?

Havia um brilho de interesse no olhar do homem ao fazer aquela pergunta?

Não — disse Fitch. — Pensamos que qualquer coisa tão antiga assim estaria na biblioteca.

Aqui não tem nenhum registro original — in­dicou o homem. — Apenas catálogos e registros transcritos. Vocês deveriam tentar o tribunal, embo­ra eles não abram no fim de semana. Vão ficar aqui até segunda?

—        Provavelmente, não respondeu Fitch. Temos de voltar pra escola, a menos que a gente consiga con­vencer nossa mãe a nos deixar cabular a segunda. Ela está com a nossa tia Fran acrescentou ele. Conhece Frances Dunlevy, que trabalha na lavanderia do lado da mercearia na praça?

Jack fitou Fitch com surpresa.

—        Claro que conheço a Fran respondeu o ho­mem, confirmando com a cabeça. Foi minha colega de escola no segundo grau, na verdade.

A essa altura, Will tinha copiado a informação do livro de cemitérios em seu caderno. Fitch levantou-se abruptamente.

—        É melhor a gente ir. Dissemos à mamãe que es­taríamos de volta às três disse ele. Vamos trazê-la aqui amanhã. Não estamos chegando a lugar algum assim.

Ele rebobinou o microfilme, tirou o rolo da máqui­na e o colocou de volta na caixa. Will e Jack hesitaram, mas Fitch continuava arrumando rapidamente as coi­sas para sair. Agora absolutamente convencido de que o homem com botas de caubói os estava vigiando, Jack devolveu os livros de cemitérios à estante, e Will guar­dou o caderno de volta na bolsa.

—        Meu nome é Sam Hadley disse o caubói, entregando-lhes um cartão. Sou genealogista autoriza­do e faço pesquisas por encomenda. Digam à sua mãe que pode entrar em contato comigo por intermédio da biblioteca, se achar que precisa de ajuda.

—        Certo replicou Jack. Obrigado pela ajuda. E boa sorte com a sua pesquisa.

Eles pagaram pela cópia que fizeram no balcão da recepção. Fitch apontou com a cabeça o banheiro mas­culino, que ficava junto à porta da frente. Os três en­traram no banheiro. Os dois compartimentos lá dentro estavam vazios.

—        O que você pensa que está fazendo? perguntou Will assim que a porta se fechou. Por que tivemos de sair com tanta pressa? A gente podia ter perguntando àquele tal de Hadley como chegar ao cemitério meto­dista. E por que você estava inventando todas aquelas histórias? Estava com medo de que alguém começasse a nos interrogar?

Fitch removeu os óculos com calma e limpou-os com papel-toalha.

—        O negócio é o seguinte disse ele. Alguma coisa não está certa. O cara disse que conhecia nossa tia Fran. Não existe nenhuma Frances Dunlevy. Por que ele diria que a conhece quando não é verdade?

Will deu de ombros.

—        Vai ver ele é uma dessas pessoas que querem que os outros achem que elas conhecem todo mundo.

—        E se ele for o cara do tribunal? sugeriu Fitch.

Jack comparou a figura alta, magra e implacável na escadaria com a estatura corpulenta de Sam Hadley.

—        Não. A não ser que ele seja algum tipo de meta-morfo.

Todos riram, nervosos.

—        Sem dúvida ele parecia muito interessado no que a gente estava fazendo — disse Fitch, pensativo. — Se bem que esse pessoal de genealogia adora falar sobre esse tipo de coisa. Fico imaginando quanto será que ele ouviu do que a gente estava conversando.

Jack deu de ombros.

Não há nada que se possa fazer agora. Vamos ver se a gente consegue alguém pra informar onde fica esse cemitério.

O livro informava a localização de cada cemité­rio — lembrou Will. Puxou o caderno da bolsa e virou rapidamente as páginas. — Fica na Estrada da Capela Metodista. — Assumiu um ar de sábio. — Faz sentido.

Vamos indo. — Jack apontou para a porta do banheiro com a cabeça.

Abriram a porta bem a tempo de ver o homem com botas de caubói passar apressado, o laptop pendurado no ombro. Eles encolheram-se de volta no banheiro e viram-no sair pela porta da frente da biblioteca. Jack correu até uma das janelas que davam para a frente do prédio. Um Mercedes preto estava estacionado em uma das vagas em frente à biblioteca. O homem abriu uma das portas de trás, jogou o laptop no banco traseiro e en­trou no carro, instalando-se ao volante. O carro deu a ré e disparou em velocidade pela rua, desaparecendo ao contornar uma esquina.

Fitch e Will estavam logo atrás de Jack.

—        Acho que não era um carro da região — ob­servou Fitch. — Estava com uma pressa danada.

E se o cara ouviu tudo e está indo para o cemitério agora mesmo?

—Tia Linda nos disse para descobrir onde Susannah Downey foi enterrada e que então ela nos telefonaria com mais instruções — replicou Jack. — Ele teria de saber mais do que nós.

—        Isso é bem possível, já que a gente não sabe qua­se nada — resmungou Will.

Eles entreolharam-se, aborrecidos. Fitch virou-se sem uma palavra e voltou para dentro da biblioteca. Parou junto ao balcão da recepção e falou com a senho­ra idosa que ali estava. Voltou trazendo um pedaço de papel.

—        Ela me disse como chegar no cemitério metodista — anunciou ele. — Acho que não é longe.

Will arreganhou os dentes.

A bibliotecária está provavelmente em conluio com o caubói — disse ele. — Ela e toda a cidade. Vão todos nos esperar no cemitério com serras elétricas. Como num filme de terror.

Talvez. — Fitch enfiou o papel no bolso das cal­ças. — Mas vão levar algum tempo pra isso. Eu pergun­tei sobre cinco cemitérios diferentes. Isso deve retardar ou dividir os caras, no mínimo. Vamos ter de esperar até que anoiteça, de qualquer jeito, se vamos desenter­rar defuntos. — Ele sorriu, mas havia pouca alegria no sorriso, apenas aquela famosa persistência de Fitch.

"Quem sabe? Com tudo o que já aconteceu, essa bem pode ser a nossa tarefa", pensou Jack.

O sol se escondera enquanto estavam na biblioteca, tornando o clima mais frio. O vento ganhara força tam­bém. Jack lembrou-se com saudades da jaqueta quen­tinha que havia deixado no carro de tia Linda. O que o lembrou de outra coisa.

O frasco do remédio estava ainda na traseira do Land Rover. Havia deixado, mais uma vez, de tomar uma dose pela manhã. Jack revirou os olhos. Becka cairia em cima dele se soubesse que tinha ficado sem remédio duas vezes na mesma semana.

"Não importa", disse ele a si mesmo. Não foi ne­nhum problema da última vez, não vai ser problema desta também. Não havia o que fazer. A vida parecia estar ficando mais complicada.

Em todo caso, sentia-se bem. Incrivelmente bem, como se antes estivesse vendo o mundo através de uma lente embaçada e agora o véu tivesse sido removido. O dia parecia cheio de possibilidades, um presente a ser aberto. Não pôde conter um sorriso.

A voz de Will interrompeu-lhe os pensamentos:

—        O que faremos agora?

Jack olhou para o relógio. Ainda tinham muitas ho­ras de luz do sol pela frente.

A gente vai precisar de algumas coisas. Pás, lan­ternas, agasalhos, coisas assim.

Vamos até ali. — Fitch apontou para a fachada de uma loja no outro lado da praça.

Um cartaz desbotado anunciava: EXÉRCITO E MARINHA DO BICK. Abaixo, lia-se: ARMAS, MUNIÇÃO, CAMUFLAGEM, ROUPAS, ISCAS, LICENÇAS DE CAÇA. Parecia perfeito.

—        Vamos fazer compras disse Jack.

 

Os rapazes estavam matando tempo no Café Pássaro Azul, alimentando a jukebox e flertando com a garçonete por sobre uma segunda leva de sobremesas. Estavam fortalecidos pela comida da taberna e vesti­dos para batalha. Jack vestia uma camiseta de mangas compridas e uma blusa preta com capuz sobre o cole­te da Mercedes. Will escolhera um colete impermeável cheio de bolsos, e Fitch parecia um soldado punk urba­no com uma jaqueta camuflada, uma corrente com pla­cas de identificação militar e pesadas botas. As bolsas de viagem no chão continham lanternas e pás.

O celular tocou; Jack tateou os bolsos até encontrá-lo. Atendeu.

Linda não perdeu tempo com gentilezas.

—        Vocês estão bem? Descobriram alguma coisa hoje?

—        Sim respondeu Jack às duas perguntas, os olhos nos dois amigos. Temos uma localização. O ve­lho cemitério metodista. Num reflexo, olhou em volta. Não havia ninguém perto o bastante para escutá-los, especialmente dado o volume da música. Não sabe­mos onde no cemitério, mas parece que ele é pequeno. Sabemos como chegar lá.

—        Ótimo. — Ela soou aliviada. — Viram alguém suspeito? Alguém seguindo vocês?

Jack hesitou. Afinal, não tinham nenhuma evi­dência concreta de que o caubói estava tramando algo. Provavelmente estavam só sendo paranóicos. Só que...

—        Havia um... um genealogista na biblioteca que pode ter nos escutado falando sobre o cemitério.

Linda emitiu uma exclamação de irritação e medo.

Qual era a aparência dele?

Gordo. Careca. Botas e camisa de caubói. Ele parecia saber um bocado sobre genealogia. Tinha um cartão de visitas e tudo. Ele nos ajudou a achar as coi­sas na biblioteca.

Houve um breve silêncio.

—        Certo — disse ela enfim, como se a descrição a tivesse acalmado. — Mas não viram o homem do tribu­nal? Nem ninguém... parecido com ele?

Era uma coisa estranha, mas por algum motivo Jack sabia exatamente o que ela queria dizer. Não, Sam Hadley não era como o homem do tribunal.

Não — disse ele. — Não o vimos. O que você an­dou fazendo? — Já havia decidido não mencionar o re­médio. Não adiantaria em nada preocupá-la.

Estive viajando por aí — disse Linda de maneira evasiva. A voz dela soava frágil, sem fôlego, quase des­controlada.

Qual é o problema? — indagou Jack. — Aconteceu alguma coisa?

Só estou cansada. Estive acordada a noite toda, dirigindo por todo o sul de Ohio. Nosso amigo está me seguindo.

—        Você não pode parar num hotel e se entocar por lá, dormir um pouco? Ele não vai incomodar você se houver um monte de pessoas por perto. Não foi o que você nos disse?

Ele queria palavras de encorajamento e foi isso que ela lhe forneceu, mas não rápido o bastante para soar convincente.

É uma boa ideia disse ela, com hesitação. Talvez eu faça isso. Onde vocês estão?

No Pássaro Azul disse Jack. Esperando escurecer.

Tenham cuidado. Eu... eu gostaria de poder ir com vocês ao cemitério, mas estou ainda a umas duas horas de distância, perto do rio. Acho... que o despistei, mas não tenho certeza. Ela fez uma pausa. Se ele não me encontrar, talvez vá atrás de vocês. Se vocês desconfiarem de qualquer coisa, por menor que seja, quero que os três voltem para o hotel e esperem até eu voltar. Se eu não estiver de volta até o meio-dia de ama­nhã, telefonem para Becka.

Jack não gostou nada daquele tom. Houve uma longa pausa, mas quando ela voltou a falar, foi em um tom de voz pragmático.

—        Agora ouça com atenção. Vou dizer apenas o que você precisa saber, porque o homem que vimos pode facilmente obrigar você a falar. Não conte a Will e Fitch mais do que precisar.

—        Tudo bem — respondeu Jack, com cautela.

—        O objeto que estão procurando é uma arma. Uma espada. Pertencia a Susannah. Agora pertence a você.

—        Ah... sei. Certo.

Ele precisou se conter para não repetir as palavras de Linda, para não fazer as perguntas que o assalta­vam. Por que Susannah tinha uma espada? Poderia ser uma arma da Guerra Civil, talvez? E por que perten­ceria a ele? Susannah morrera muito antes de ele ter nascido. Parecia-lhe que Becka ou Linda teriam mais direito a ela.

—        Deve estar enterrada atrás da lápide, em algum tipo de estojo. Preste atenção, isto é importante: a pes­soa a abrir o estojo tem de ser você. Ninguém mais. Vou lhe dizer o feitiço que você vai precisar para abrir o es­tojo. — Ela fez uma pausa, como se esperasse uma per­gunta, mas ele não a fez. — Está ouvindo, Jack?

Ele fez que sim com a cabeça sem pensar, e então disse:

—        Estou.

As palavras soavam como latim, uma música suave e familiar, a verdade por trás de todas as línguas que sabia. Jack as repetiu para ela várias vezes, até ela ficar satisfeita, ignorando Will e Fitch, que o fitavam enquan­to ele memorizava a frase.

Não vai esquecer?

Não.

—        Veja se a espada está lá dentro, depois feche e leve o estojo com você para o hotel. Vou buscar vocês lá.

—        Ahn, tia Linda? Ele olhou para os amigos do outro lado da mesa. Talvez eu deva ir sozinho. Era meio uma declaração, meio uma pergunta.

Houve um outro longo silêncio.

Talvez você deva mesmo.

Eles não vão gostar dessa ideia.

Deixe-me falar com eles.

Sem dizer nada, Jack estendeu o celular para Fitch, que ergueu as duas mãos e sacudiu a cabeça.

—        Pode esquecer, Jack. Não vou deixar ela me con­vencer. Eu vou com você, quer você queira, quer não.

Will tinha os braços cruzados diante do peito, parecendo assustado e, ainda assim, teimoso como uma mula.

—        Eles não querem falar com você.

Tia Linda suspirou.

—        Sinto muito, Jack. Eu não devia ter envolvido seus amigos nisso. Ela fez uma pausa. Muito bem. Eles podem ajudar a cavar. Apenas façam o que têm de fazer logo. Voltem para o hotel e esperem. Vou pra lá o mais rápido que puder. Telefono mais tarde.

Estava bem mais frio quando saíram do Pássaro Azul, mas Jack mal notou. As preocupações rema­nescentes foram eclipsadas por uma espécie de eufo­ria. Sentia-se tenso e esperto como um gato, cheio de uma energia que parecia prestes a extravasar. Os me­dos do dia anterior haviam sido esquecidos. Algo antigo se acendera dentro dele, uma clara e poderosa sede de aventuras. Sentia-se invulnerável, como se os estranhos e os planos que eles pudessem ter fossem irrelevantes. Olhou para os dois companheiros e sorriu. Qualquer coisa podia acontecer. E isso parecia bom.

A igreja era uma construção branca e modesta sobre uma faixa estreita de terra plana ao longo da estrada, a uns três quilômetros da cidade. As colinas erguiam-se por trás dela, um denso e negro nada contra o céu mais luminoso. O estilo da construção era metodista, com uma torre tradicional e uma grande porta dupla na frente. Um santuário simples, sem nada de especial. Junto à entrada, havia um cartaz emoldurado em ma­deira branca com letras magnéticas. PASTOR: WILLARD F. GUFFEY. SERMÃO DE DOMINGO: DAS CINZAS ÀS CINZAS, DO PÓ AO PÓ.

Havia um pequeno estacionamento de cascalho en­tre a estrada e a igreja. Estava vazio. Não havia nenhu­ma luz em torno do prédio.

Saíram da estrada e aproximaram-se da frente da igreja. Jack iluminou com a lanterna uma placa de latão sobre as portas duplas. PRIMEIRA IGREJA METODISTA. FUNDADA EM 1850.

O cemitério era separado do resto do pátio da igre­ja por dois pilares de tijolos cerca de seis metros atrás do prédio, provavelmente os suportes do portão de uma cerca que havia muito desaparecera. As primeiras lápi­des estavam agrupadas logo do outro lado das colunas.

Jack olhou de volta para a Estrada da Capela Metodista. Haviam visto muito pouco trânsito, e a igre­ja estava cercada por uma densa floresta. Até onde podia dizer, não tinham sido seguidos. Não havia casas à vista. Uma vez que fossem para trás da igreja, parecia improvável que pudessem ser vistos da estrada.

Passaram por entre os pilares e entraram no cemi­tério. Jack logo percebeu que havia muito mais túmulos do que os listados no livro. Algumas das lápides estavam quebradas, desgastadas e ilegíveis. A grama crescia por sobre algumas delas, e outras haviam desmoronado. As mais velhas e dilapidadas pareciam ser as mais próxi­mas da igreja.

Jack encontrou uma lápide legível junto à velha parede. Ajoelhou-se, apontando a lanterna para a superfície. BRAM WHALEY, 1863, MORTO EM CHANCELLORSVILLE. Uma placa da associação dos vetera­nos da Guerra Civil havia sido colocada ao lado.

Susannah morreu em 1900 — disse ele. Vocês acham que o túmulo dela está mais no fundo, porque é mais antigo?

Talvez disse Fitch. Mas os membros da fa­mília costumavam ser enterrados juntos. Por isso a gen­te pode encontrar túmulos mais novos e mais antigos no mesmo lote.

Como é que você sabe dessas coisas? indagou Jack.

Os três dividiram o cemitério em três seções e pas­saram a examiná-las metodicamente, iluminando as superfícies de pedra fria com as lanternas, raspando o musgo com as unhas, arrancando o mato que es­curecia a base das pedras, às vezes cavando a terra com um graveto para expor as linhas inferiores das inscrições.

Percorreram todo o trajeto desde a igreja até a colina, andando em paralelo, temendo não notar alguma coisa. As árvores cresciam mais próximas umas das outras ao fundo da propriedade e, em alguns casos, as raízes ha­viam empurrado as lápides completamente para fora do solo, dividindo famílias. A lua havia surgido, mas brilha­va fracamente por trás de uma fina cortina de nuvens. Não conseguiam ver nada além do alcance das lanternas. Logo, estavam quase à sombra do penhasco.

—        Aqui tem um Downey — disse Jack baixinho.

Ele estava em uma pequena alameda, bem à es­querda do cemitério. Will e Fitch aproximaram-se para ver. Era uma pequena lápide branca com uma caveira no topo. JOSEPH DOWNEY, 1823-1872.

—        Aqui tem outro — disse Will. Estava perto daque­le que Jack encontrara e era uma criança, JEREMIAH DOWNEY, 18 MESES DE IDADE, FILHO DE JOSEPH E MARTHA, MORTO EM 1860.

Eles esgueiraram-se mais além sob as árvores, exa­minando pedra por pedra.

Foi Will quem a encontrou. Uma grande lápide, um pouco distante das outras, quase contra uma cerca de arame que marcava o fim da propriedade. SUSANNAH HALE DOWNEY, 1868-1900, AMADA ESPOSA DE ABRAHAM, SEMPRE SERÁ LEMBRADA.

—        Vejam isso! — Fitch passou o pé pela grama ren­te que cercava o túmulo. — O lugar todo está coberto por mato, mas o túmulo da sua tataravó está tão bem cuidado quanto um jardim.

A pedra estava livre de musgo e entulho, e plantas de primavera abriam caminho pela relva. Uma pequena árvore havia sido plantada atrás da lápide.

—        Onde está o meu tataravô?

O nome de Susannah era o único na pedra. Talvez Abraham tivesse se casado de novo. Se era o caso, Jack jamais ouvira falar a respeito.

Olha só! — Will recolheu os restos de várias rosas de caule longo que tinham sido espalhadas pelo lote. As pétalas enegrecidas caíram suavemente ao chão quan­do ele as levantou. — Você ainda tem família vivendo por aqui? — perguntou Will, olhando por cima do om­bro como se um parente pudesse aparecer a qualquer momento para desafiá-lo.

Não sei. — Jack meneou a cabeça. Mesmo que houvesse, Susannah morrera havia muito tempo. Não era possível haver alguém ainda vivo que se lembrasse dela. Pensou na jovem risonha das fotografias. SEMPRE SERÁ LEMBRADA. Ela parecia mesmo ser alguém difí­cil de se esquecer.

E agora? — Fitch estremeceu e enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta. — Estou me sentindo como um violador de túmulos.

Jack ajoelhou-se e abriu o zíper da bolsa. Tirou de dentro duas pás.

—        Agora a gente cava. Tia Linda disse que a gente deveria procurar por algo enterrado atrás da lápide.

Will tomou uma das pás de Jack e escolheu um ponto cerca de 30 centímetros atrás da lápide, longe o suficiente para que a pedra não desmoronasse.

Será que a sua tataravó não podia ter manti­do as relíquias da família no sótão, como todo mun­do? — perguntou Fitch, apoiando-se contra a lápide de Susannah. — E como é que a sua tia Linda sabe que tem alguma coisa aqui?

Não sei — respondeu Jack, afundando a pá na terra a curta distância de Will. — Mas acho que isso era algo que a minha tataravó não queria que caísse em mãos erradas.

Como as nossas, talvez — disse Fitch em tom seco.

Parecia que a terra atrás da lápide não fora remexi­da havia um século. Ou nunca. Era feita de argila e xis­to e cheia de raízes. Fitch ficou de guarda enquanto os outros dois manejavam as pás. De vez em quando viam os faróis de um carro passando pela estrada da capela. As árvores nos bosques em ambos os lados queixavam--se quando o vento passava por elas. Fora isso, o único som era o tinir das pás contra a pedra e a respiração ofegante dos cavadores.

Após algum tempo, eles haviam cavado um buraco de tamanho considerável, com quase um metro de com­primento e cerca de um metro de profundidade. Apesar do ar frio, Jack suava com o esforço. De repente, a pá bateu em algo com um som metálico e abafado que era diferente dos anteriores. Isso se repetiu uma, duas vezes. Ele continuou a cavar, retirando pequenas quan­tidades de terra até conseguirem ver o contorno de algo tosco e retangular. Will cavou com energia renovada, aumentando o buraco, tentando achar a outra extremi­dade da caixa, se é que era isso o que era.

Jack removeu a terra das laterais, para que pudes­sem ver quão profunda era a caixa. Agora todas as qua­tro arestas superiores estavam expostas. A caixa tinha cerca de um metro de comprimento e era estreita.

Jack apoiou-se na pá, cansado. Algo estranho es­tava acontecendo. Sentia a cabeça girar e ouvia um murmúrio nos ouvidos, o som de mil vozes ansiosas. Sentou-se pesadamente à beira do buraco, com as per­nas balançando no ar, e pôs as mãos sobre os ouvidos.

—        Ei, você está bem? Fitch iluminou o rosto de Jack com a lanterna. Por que não descansa um mi­nuto? Você fez a maior parte do trabalho. Virou-se e remexeu na mochila, tirando duas garrafas d'água. Jogou uma para Jack e outra para Will. Bebam.

Fitch apanhou a pá e se pôs a trabalhar com afinco, fazendo a terra voar. Will esvaziou a garrafa ruidosa­mente e jogou-a para o lado, continuando a cavar, mo­tivado pelo prêmio que parecia quase ao alcance deles.

Agora Jack conseguia distinguir parte do que as vo­zes diziam.

—        Quem vem reivindicar a espada?

Havia um rumor de tambores, a princípio bem dis­tante, depois mais alto, cada vez mais próximo, mar­telando dentro de sua cabeça. Jack fechou os olhos e reclinou-se contra a lápide de Susannah; sua respira­ção saía em arfadas curtas e fracas, e o coração batia com fúria. O suor jorrava de seu corpo. Lembrou-se do remédio esquecido. Talvez estivesse tendo um ataque cardíaco.

—        Estão ouvindo alguma coisa? Pessoas falando? Tambores? Qualquer coisa?

Will e Fitch pararam de cavar para olhar para Jack.

—        Esquece — ele se apressou a dizer.

Os tambores e as vozes cresceram em volume. E então uma voz de mulher, baixa e calma, surgiu por entre o ruído.

—        Acalmem-se. Ele é o herdeiro — disse ela.

As vozes e os tambores calaram-se. Jack secou o suor do rosto com a manga e respirou com mais tran­quilidade.

A caixa em si tinha apenas 20 centímetros de pro­fundidade, e Fitch e Will logo removeram a terra de três lados. Will conseguiu enfiar a ponta da pá sob ela e tentou forçá-la para fora. O solo relutou em entregar o que havia guardado por tantos anos. Foram necessárias várias tentativas, mas, enfim, um dos cantos se soltou, e Will a apoiou cuidadosamente contra um dos lados do buraco. Não parecia muito pesada. Ele desceu para dentro do buraco e empurrou a caixa para cima. Fitch agarrou a extremidade mais próxima e arrastou-a para fora, por sobre a grama.

—        Devem ter enterrado a caixa dentro de uma bolsa de couro — disse Will.

A bolsa se desintegrara quase por completo, e o couro caiu quando viraram a caixa. Terra e areia ha­viam se incrustado na superfície. Will cuspiu nas mãos e limpou um pouco da sujeira.

—        Está coberta de jóias! — exclamou ele quando a luz se refletiu nelas. — Vocês não acham que são verda­deiras, acham?

Jack recobrara-se o suficiente para levantar-se do túmulo e inclinar-se para a frente a fim de dar uma olhada.

—        Quem ia enterrar jóias valiosas num cemitério? — Fitch correu uma unha por sobre uma das pedras. Era vermelha cor de sangue, lapidada e mais ou menos do tamanho de seu polegar. — Isto é provavelmente o mais próximo que vou chegar de um tesouro enterrado.

Fitch reclinou-se, tateando a lateral do estojo. Jack levou alguns instantes para entender o que ele estava fazendo.

—        Fitch, não!

Tarde demais. Houve um clarão e um estrondo. Fitch voou para trás, aterrissando de costas na grama, a muitos metros de distância. Uma pequena nuvem de fumaça subiu em direção aos céus.

Will correu até ele, mas Fitch já estava se sentando, sacudindo a cabeça.

—        Que diabos foi isso? — Tinha o rosto manchado de fuligem e cuspiu sangue pela boca.

Will e Fitch olharam para o estojo com respeito ran­coroso. Em algum lugar próximo, um cão estava latindo.

Jack se perguntou se o barulho atrairia vizinhos curio­sos. Ou algo pior.

Talvez a gente deva levar isso para um lugar mais seguro — sugeriu Will.

Talvez a gente seja feito em pedacinhos se tentar — replicou Fitch com cautela.

—        Deixem eu tentar — disse Jack.

Os outros dois o fitaram. Pondo-se em pé com es­forço, Jack cambaleou até onde estava a caixa e a to­mou cuidadosamente nos braços. Carregou-a até uma distância segura e a depositou no chão.

—        Por que vocês não enchem o buraco e limpam a área o melhor que puderem, enquanto eu tento enten­der o mecanismo dessa tranca?

—        Tenha cuidado, Jack — avisou Fitch.

Fitch e Will apanharam as pás e começaram a em­purrar a terra de volta para o buraco. Na escuridão, era difícil ver o tamanho da bagunça que haviam feito. Jack suspeitava que de manhã seria bastante óbvio que al­guém andara cavando por ali.

Jack correu as mãos pela tampa decorada até en­contrar o pequeno fecho, bem onde sabia que estaria, como se ele houvesse aberto o estojo uma centena de vezes. As palavras da velha frase lhe voltaram, e ele as sussurrou ao pressionar os dedos contra a fechadura. O estojo se abriu facilmente com um estalo.

Dentro do estojo forrado de veludo, estava uma es­pada embainhada. A bainha era decorada em ouro e prata, e o punho que se projetava dela era moldado em um elaborado desenho espiral em ouro. Um brilhante rubi estava incrustado no punho da espada. Quando Jack aproximou a lanterna, conseguiu ver inscrições pálidas contra o metal polido, símbolos e palavras que não compreendia.

Pôs a lanterna no chão, segurou com cuidado o pu­nho da espada e a desembainhou, notando que o punho cabia em sua mão sem escorregar. A espada criou uma luz própria ao emergir, uma chama prateada que correu ao longo da lâmina. Tinha dois gumes, e o metal parecia ondulado, de um jeito que indicava que havia sido do­brado e redobrado em reforço. Como Jack sabia disso? Ele mesmo não poderia dizer. Após um século enterra­da, não tinha nenhum traço de ferrugem. Parecia pron­ta para ser usada.

Will e Fitch, atraídos pela luz, olharam por cima do ombro de Jack.

Sinistro — murmurou Fitch.

Não — disse Jack. — Não tem nada de sinistro. Jack ergueu a arma com as duas mãos e soube que

ela pertencia a ele, embora houvesse sido forjada muito antes de ele ter nascido. Era mais leve do que imagina­ra, mais leve do que seria de se esperar, considerando--se seu tamanho.

—        Sombra Assassina — sussurrou Jack, como se a arma falasse com ele.

E o poder da lâmina correu-lhe pelas mãos e depois pelos braços como se, de alguma maneira, a espada o estivesse segurando.

—        Jack... — era Will, soando temeroso, incerto.

A espada ardia na mão de Jack ao brandi-la, um ca­samento de homem e metal, carne e aço. Feroz e primi­tivo. Ele se expandiu, estendendo-se ao longo da lâmi­na, e a espada lançou luz e sombra por sobre a grama, iluminando as pedras inclinadas. A lâmina cantava ao cortar a escuridão, uma, duas, três vezes, dividindo-a, deixando um rastro de luz. Matadora da Sombra. Jack girou, segurou o punho com ambas as mãos e balançou a espada, cortando uma planta de cinco centímetros de espessura com apenas um murmúrio de esforço. Ele viu sangue diante dos olhos, e não era o sangue das árvo­res. Precisou de considerável autodisciplina para termi­nar a dança. Quando baixou a espada, sua luz diminuí­ra para um cintilar suave.

É tão doce — disse ele, engolindo em seco, tentan­do pôr a voz sob controle. — Eu... eu não fazia ideia...

Tome cuidado com isso. Tipo, não vá pirar, está bem? — Algo na voz de Fitch deixava transparecer que ele sentia algo mais perigoso ali do que o gume de uma lâmina antiga.

Will olhou para a bainha no estojo, como que recean­do chegar perto.

—        Isso é algum tipo de cinto?

Jack enfiou a lâmina no chão e ergueu a bainha com as duas mãos. Estava atrelada a um cinto leve de malha de metal lavrado de forma inteligente. Havia sido projetado para ser usado de duas maneiras, em torno da cintura ou por sobre o ombro, com um boldrié. Boldrié.

De onde tirara aquela palavra? Em algum lugar dentro dele, uma porta para o conhecimento havia se aberto. Jack pôs o cinto ao redor da cintura e o fechou aperta­do, posicionando a bainha sobre o quadril esquerdo de forma que pudesse puxar a espada com a mão direita num movimento transversal. Caía confortavelmente so­bre os quadris. Tia Linda havia dito para pôr a espada de volta no estojo, mas...

—        O que é aquilo? — Fitch falou baixinho, mas de um jeito que chamou a atenção de Jack.

Ele estava olhando em direção à igreja, com as mãos na cintura. Jack seguiu-lhe o olhar. Um brilho estranho vazava através das janelas traseiras do prédio, criando sombras loucas. Alguém estava caminhando do outro lado da igreja com uma lanterna, e a luz desta se refletia nas janelas de trás.

—        Ei — sussurrou Fitch. — Tem alguém aqui!

Com um movimento rápido, Jack apanhou o estojo e jogou-o para Will.

—        Segura isso aí! Vamos precisar.

Jack arrancou-a espada da terra com a mão direi­ta e segurou-a junto ao corpo com a ponta para bai­xo. Esconderam-se nas sombras atrás da lápide de Susannah, tomando o cuidado de evitar o buraco ainda não tapado.

Alguém dobrara a esquina da igreja, carregando uma poderosa lanterna. A princípio, conseguiram enxer­gar somente uma silhueta corpulenta, por causa do cla­rão. A figura avançou rapidamente em direção ao local onde se escondiam, apontando a lanterna para as lápi­des em seu caminho. Parou a uns três metros de dis­tância, iluminando a lápide de Susannah Downey. Eles ouviram um grunhido de satisfação. E então uma voz.

—        O que estão fazendo aqui fora no escuro, meni­nos? — Era o caubói, Sam Hadley.

Era inútil permanecerem escondidos. Fitch saiu de trás da pedra, protegendo os olhos contra a luz.

—        A gente decidiu ver se algum dos nossos paren­tes está enterrado aqui. Mas acho que começamos meio tarde. É inútil tentar achar qualquer coisa no escuro. Acho que vamos ter de voltar amanhã. — Sacudiu os ombros de forma exagerada.

Quando Hadley falou de novo, tinha um tom cor­tante na voz.

Susannah Downey não era a pessoa que estavam procurando?

Não, era Taylor — respondeu Fitch, enfiando as mãos nos bolsos da jaqueta, tentando afetar tranqui­lidade. — Mas achamos que ela era casada com um Downey. Como a gente falou, esta parece ser a pessoa errada. Nossa Susannah é anterior, e parece que esta se chamava Hale. A gente só achou que seria uma boa ideia vir dar uma olhada no cemitério e ver se algumas dessas lápides nos dariam alguma pista.

Jack percebeu que Fitch estava nervoso porque as palavras jorravam dele como bolas de gude de um saco.

—        A gente já estava indo embora — acrescen­tou Will, movendo-se para junto de Fitch. Ele havia apanhado a bolsa de viagem e segurava o estojo sob o braço em posição horizontal, do jeito mais natural pos­sível, torcendo para que Hadley não conseguisse ver bem no escuro.

Jack permaneceu nas sombras, atrás da lápide de Susannah. Sentia nitidamente uma outra presença se­guindo o caubói, algo ameaçador, sôfrego, aproximan­do-se. Apertou mais forte o punho da espada, o braço formigando todo até o ombro.

—        Vocês querem uma carona até a cidade? per­guntou o caubói.

—        Não, obrigado disse Will.

Nesse momento, Jack saiu das sombras para se juntar aos amigos, postando-se logo atrás deles.

—        O que você tem aí? Havia um tom ríspido na voz de Hadley ao se dirigir a Jack.

Jack tentava manter o corpo entre o caubói e a es­pada, mas o brilho da lâmina se destacava como um farol na escuridão.

—        Ele está com a espada. A nova voz era terrivel­mente fria e estava perto demais para a tranquilidade deles.

Uma sombra mais negra se destacou da lateral da igreja e se aproximou com um andar estranho, flutuan­te. Era um homem, alto e esguio, as roupas tremulando ao redor de si enquanto avançava. Ele ergueu um braço esquelético e apontou para a espada na mão de Jack. A lâmina flamejou em tons vermelhos, como se banha­da em sangue. Era o estranho do tribunal. Mago! O pensamento surgiu, totalmente formado, na mente de Jack, um aviso. Um antigo terror acendeu-se dentro dele.

Os olhos de Hadley voltaram-se nervosamente para o mago e, a seguir, novamente para Jack.

Parece que vocês andaram cavando por aqui disse ele, gesticulando em direção à lápide de Susannah. Parece que roubaram algo que não lhes pertence. Ele olhou com mais atenção para os rapazes. É me­lhor entregarem ao homem e ir pra casa.

Não respondeu Jack, inflando o peito. Se quiser a espada, venha pegar.

Era como se um estranho falasse através dele. Hadley não o assustava. Era o mago que lhe atraía a atenção. Se não fosse pelo colete, o mago o teria matado no tribunal. Linda havia insistido que o vestisse. Como ela soubera que Jack precisaria dele?

O mago aproximou-se, movendo-se como se sen­tisse muita dor. Jack o observou com cautela. A bar­ba cobria-lhe a metade inferior do rosto, mas a metade superior estava vermelha e coberta de feridas, como se houvesse se queimado. A voz era seca e sem emoção, como escamas deslizando sobre rochas.

—        Sem dúvida, esta foi uma aventura excitante para vocês três, mas agora acabou. Me dê a arma. Ele sorriu, um horrível rearranjo do rosto destroçado. Tenho certeza de que podemos achar uma recompensa adequada pelo trabalho que tiveram.

"Ele vai nos matar, assim que tiver a espada", pen­sou Jack. Voltou-se para Will e Fitch, pensando se também haviam entendido. "Eu não devia tê-los deixa­do vir junto." Como se ele estivesse no comando!

—        Onde está a encantadora? Era o mago de novo. Tenho assuntos a resolver com ela.

A maneira como o mago dissera assuntos deixava claro que queria dizer dor e algo mais. Do que ele estava falando? De quem estava falando?

Embora assustado, Jack também se sentia impul­sivo, selvagem e rebelde. Tomara posse da espada; sen­tira seu poder e não tinha intenção alguma de entregá-la sem luta.

Hesitou, sem saber o que fazer, em pé e com uma perna de cada lado dos ossos da tataravó, de costas para a lápide. Uma súbita brisa moveu as folhas acima, sussurrando para ele.

Foi quando teve uma ideia de onde poderiam se re­fugiar. Colocou-se entre os amigos e o mago e gritou:

—        Corram para a igreja!

Will e Fitch não precisavam de mais nenhum estí­mulo. Viraram-se e correram para a construção, pulando lápides como numa corrida de obstáculos. Jack recuou rapidamente, sempre de frente para o mago. Ergueu a espada com ambas as mãos, o lado cego voltado para si. Ela respondeu, flamejante, iluminando a cena.

Não conseguia ver nenhuma arma nas mãos do mago, mas de repente uma cascata de chamas azul--esverdeadas rolou na direção de Jack. Instintivamente, ele usou a espada para aparar o golpe, que explodiu em uma chuva de faíscas que lhe caíram inofensivas sobre os ombros. Duas vezes mais ele se defendeu de ataques semelhantes. O calor das chamas secou-lhe o suor do rosto. O fogo do mago tinha um odor ácido e desconhe­cido, como o gosto de sangue na boca.

O mago, com o horrível rosto queimado, estendeu as mãos na direção dele e começou a falar no mesmo ve­lho latim que Linda havia usado, a linguagem da magia. Jack sabia que tinha de detê-lo, que as palavras con­tinham poder. Desesperadamente, brandiu a Sombra Assassina com ambas as mãos em um arco largo e achatado. Chamas rugiram da ponta afiada da lâmina, e o feitiço permaneceu inacabado, pois o mago se jogou ao chão. As chamas passaram por ele gritando e atingi­ram as árvores atrás dele. As árvores permaneceram em pé por um momento, então tombaram, cortadas de lado a lado na altura do peito de uma pessoa. E, de algum modo, Jack havia chegado à porta da igreja.

Uma instável escadaria de madeira levava em pou­cos degraus à porta de trás da igreja. Fitch e Will já estavam no topo da escada, sem saber o que fazer a seguir. Jack apontou a espada para a porta e a empur­rou. Houve um grande estrondo e a porta se escanca­rou, pendendo torta das dobradiças quebradas. Will e Fitch encolheram-se para entrar. Jack entrou de um salto e virou-se para encarar os atacantes.

Estes estavam um pouco confusos, como se não es­perassem resistência. O mago estava de novo em pé, encarando Jack. O caubói olhou para as árvores cor­tadas, para a abertura irregular no dossel da floresta acima, depois novamente para Jack. Tinha a boca aber­ta e o rosto redondo lustroso com o suor.

O garoto é um demônio — gemeu ele. Fui con­tratado para pesquisar. Lidar com demônios não faz parte do meu contrato.

Não há nenhuma mágica nesse rapaz disse o mago com desdém. O poder está na lâmina. Esse aí é um tolo aventureiro Anaweir que está mais encrencado do que imagina. Jack escutou a palavra "Anaweir" (que lhe soou como a palavra inglesa "unaware", que queria dizer "ignorante, desinformado") sem entender muito bem a escolha de palavras. Agora vá buscar a espada para mim.

Eu é que não entro lá protestou Hadley. Ele vai me fritar vivo.

Magia é inútil no santuário. A espada não tem nenhum poder especial lá dentro.

E, de fato, agora que Jack estava dentro da igreja, a lâmina se apagara, tornara-se mais pesada, de forma que ele precisava das duas mãos para levantá-la. O po­der da espada não ardia mais dentro dele. O que tinha nas mãos não era nada além de metal.

Algo que o mago dissera ecoou na mente de Jack. Magia?

Fitch estava junto dele, armado com um candelabro.

—        Por que não estão vindo atrás de nós? sus­surrou ele, dando uma olhada nervosa ao redor. São warlocks ou vampiros ou coisa assim, e por isso não podem entrar numa igreja?

"Magos", Jack quase murmurou.

Não sei — disse em voz alta. Não sabia se o mago era capaz de entrar, ou se simplesmente preferia man­dar Hadley para enfrentar a espada em uma situação em que magia era ineficaz.

Aquela espada ainda é afiada o suficiente — in­sistiu o caubói. — E eles são três. Eu nunca concordei em enfrentar uma espada, desarmado. — Ele parecia só estar interessado em fugir.

É mesmo? — A voz do mago escorria desdém. — Então teremos de... renegociar.

Ele pôs a mão no ombro de Hadley, e o caubói ber­rou, primeiro arqueando para trás, depois caindo de joelhos, indefeso contra o toque do mago. O mago não recuou, e o caubói gritou como se estivesse sendo es­folado vivo, suplicando por misericórdia e implorando que lhe desse uma nova oportunidade. Quando aquilo finalmente parou, Hadley jazia trêmulo e gemendo no chão. Jack ficou nauseado, sabendo que o objetivo da demonstração era impressioná-lo.

Com o objetivo de confirmar a impressão, o mago se voltou para Jack:

—        Veja que a resistência tem consequências — dis­se ele com frieza. — Entregue a espada ou vocês três morrerão esta noite. E, quando eu tiver acabado com vocês, vão implorar para morrer.

Por um instante, Jack foi dominado pela imagem dele mesmo em pé na entrada da igreja como um herói de cinema, brandindo uma espada, pronto para lutar contra um homem que lançava chamas das mãos nuas, torturava e matava com um toque. Virou o rosto e viu Will e Fitch atrás dele, seus rostos pálidos como perga­minho na escuridão da igreja. Se antes eles não haviam entendido o que estava em jogo, agora sabiam.

Ele fitou a espada em sua mão e então o mago lá fora. De onde vinha isso? Nunca havia sido especial­mente ousado no passado. Devia haver algo na espada interferindo com seu juízo. Limpou o suor do rosto e sacudiu a cabeça.

Era um impasse. Se deixassem o prédio, o mago os mataria e roubaria a Sombra Assassina, pensou ele. Não poderia deixar isso acontecer.

Fitch afastara-se por um momento, e agora estava de volta.

—        O Mercedes está no estacionamento sussur­rou ele.

Jack olhou para trás outra vez. A porta de trás le­vava diretamente ao santuário. Estavam bem atrás do púlpito, na pequena área do coro. Era um salão simples, pintado de branco, com fileiras de bancos de madeira alinhados em ambos os lados de um corredor central. Grandes portas duplas abriam-se para o estacionamen­to no outro extremo.

—        Escutem disse Jack baixinho, voltando-se para Fitch. Provavelmente a gente consegue despis­tá-los no bosque. Eles vão seguir a espada. Você e Will se esgueiram pela porta da frente enquanto eu os mantenho ocupados. Fiquem no bosque e longe da estrada. Quando eu souber que vocês já estão longe, fugirei correndo.

—        Você pirou? O cara está atirando chamas, Jack. Se sabemos que não vão entrar aqui, vamos só esperar. Eles não podem ficar aqui pra sempre.

"Ele não vai esperar para sempre", pensou Jack. "E se nos apanhar..."

Hadley havia se posto em pé e estava se aproxi­mando, instigado pelo mago atrás dele. Agora Jack não sentia nenhuma vontade de machucar Hadley. Tinha pena dele.

—        Não está vendo? O mago dizia a Jack. A encantadora os enfeitiçou, e são vocês que vão pagar por isso. Ela não se importa de sacrificar vocês para conseguir o que quer.

Nesse exato momento, o celular tocou, surpreen­dentemente alto. Com uma mão, Jack o tirou do bolso, mantendo a espada apontada para a entrada.

Era tia Linda.

—        Onde vocês estão?

—        Estamos na igreja no velho cemitério metodista, na Estrada da Capela Metodista. A espada está comigo, mas estamos sendo atacados.

Linda ficou em silêncio por um momento.

—        Estou perto daí disse ela. — Mantenha-os a dis­tância por uns cinco minutos. Deixe o telefone ligado.

O caubói havia avançado até o segundo degrau. Jack deu um passo além do limiar da porta, a fim de ter espaço para se mover, e traçou um arco da esquerda para a direita com a lâmina, emitindo chamas, o bas­tante para afastar o homem sem cortá-lo. Hadley pulou para trás, quase caindo. A magia da espada fluiu para dentro de Jack como uma droga. Exultante, ele des­ceu outro degrau. O caubói desapareceu na escuridão, e restou apenas o mago, lançando uma salva de bolas de fogo após a outra, como em um tipo de videogame frenético. Jack rebateu com chamas em espiral, e seu adversário recuou. Jack avançou para o duelo, em per­seguição. Estava no último degrau e prestes a sair da escada quando ouviu alguém gritando atrás de si.

—        Jack! Você enlouqueceu? Entre aqui! — Era Will.

O encanto, de alguma maneira, se quebrou. Jack se lançou para trás enquanto uma grossa parede de cha­mas do mago rugia em sua direção, grande demais para ser contida com a espada. Will agarrou-lhe os ombros, quase arrastando-o para dentro, para longe do calor terrível. O rosto de Jack ardia, a visão borrada pelas lágrimas, os pulmões queimados pelo golpe que não o atingira por um triz. Apoiou-se na espada, arfando, en­quanto Will ainda o amparava do outro lado.

—        Sou um idiota — sussurrou ele. — Um idiota. Escutou a voz da tia vindo do celular.

—        Estou no estacionamento. Saiam pela porta da frente. Rápido!

Jack endireitou-se, tirando o peso do corpo de cima de Will e da Sombra Assassina, e respirou fundo. A dor que sentiu era a garantia de que ainda estava vivo.

—        Tia Linda está lá fora — disse ele. — Hora de ir. Correram para os fundos da igreja.

—        Cuidado! — gritou Linda, quando Will e Fitch abri­ram a porta da frente e deram de cara com o caubói.

Era difícil dizer quem ficou mais surpreso. Ele ten­tou agarrar Will, o que se revelou um erro. Will vinha passando um tempo considerável na academia de gi­nástica. Ele se livrou de Hadley e, apesar do tamanho do homem, ergueu-o do saguão de entrada da igreja e o arremessou no estacionamento. Hadley deslizou sobre o estômago, com braços e pernas estirados como uma água-viva. Fitch recuperou o estojo, que Will havia dei­xado cair.

O Land Rover estava parado ao lado do Mercedes. Eles dispararam na direção do carro. Will parou junto do Mercedes, esticou o braço pela janela aberta e arran­cou as chaves da ignição. Arremessou-as o mais longe que pôde na escuridão.

Jogaram-se no banco traseiro do Rover, Jack com a espada e Fitch com o estojo. O Rover levantou cas­calho quando saíram do estacionamento. Atrás deles, o caubói se pusera de quatro. Então a igreja saiu de seu campo de visão, e seguiram em alta velocidade pela Estrada da Capela Metodista.


Capítulo Cinco

O Herdeiro Guerreiro

 

Linda estava calma — agindo até de modo metódico, passando o telefone para Fitch a fim de que ele fizes­se reservas em um hotel em Columbus sob um novo nome, pedindo a Will para achar o mapa no porta-luvas e servir como navegador, embora ela conhecesse bem o condado. A voz dela os envolvia, acalmava e relaxava, amainando-lhes o terror e a curiosidade. Como se es­padas em chamas e magos fossem acontecimentos co­tidianos. Ela não disse nenhum feitiço em voz alta, mas agora Jack conseguia perceber como ela usava a voz para enfeitiçar. Por que nunca havia percebido antes?

Ela não deu nenhuma tarefa a Jack. Tendo arran­cado dele cada detalhe sobre o que acontecera no ce­mitério, deixou-o em paz. Ele sentou-se com os ombros caídos no banco, a cabeça jogada para trás, os olhos semicerrados. O corpo inteiro lhe doía, e toda a parte da frente ardia, a não ser sob o colete. A Sombra Assassina estava de volta ao estojo, descansando confortavelmen­te aos pés dele. Às vezes ele flagrava Linda o observando pelo espelho retrovisor.

"Ela é que é a encantadora. É dela que o mago es­tava falando. Talvez o que ele disse seja verdade. Talvez ela só esteja me usando para obter a espada. Ela disse que a espada era minha, não disse?"

O que ele faria se Linda tentasse lhe tomar a espa­da? Aquela era uma pergunta que ele não sabia respon­der. A espada parecia preencher uma necessidade nele que antes ele nem imaginara que existia.

Ele se contorceu, desconfortável, então se virou e se inclinou sobre o banco traseiro para ver se havia algo que poderia usar como travesseiro. Viu sua bolsa de viagem e se lembrou. O remédio! Abriu o zíper e enfiou a mão lá dentro, tateando em busca da forma familiar, o vidro frio em meio às roupas.

"Não quero tomar", pensou ele. "Nunca mais".

Tirou-o da bolsa mesmo assim e girou o frasco azul entre as mãos. Ergueu os olhos e viu tia Linda o obser­vando outra vez.

— Deixe pra lá, Jack — disse ela, com suavidade. — Você não precisa mais tomar. A gente fala sobre isso mais tarde.

Eles ficaram em um hotel de uma rede ao norte de Columbus, com a prometida piscina e banheira de água quente. Ela pediu diversas bandejas de sanduíches e aperitivos pelo serviço de quarto e convenceu o geren­te do clube de ginástica a deixá-los utilizar os apare­lhos até a meia-noite. O homem retornava em intervalos durante a noite para ver se precisavam de alguma coisa e para informar Linda de que ele deixaria o serviço às onze caso ela estivesse interessada em sair para beber alguma coisa. Ela recusou. Várias vezes.

"Ele não sabe com quem está lidando", pensou Jack. Bem como o mago dissera.

Jack estava com a aparência e a sensação de quem havia passado tempo demais ao sol. A piscina teve um efeito relaxante, mas ele não conseguiu aguentar a banheira quente. Deitou-se de costas, cochilando jun­to à piscina, acordou de vez em quando para ouvir os outros conversar.

—        Acha que aqueles homens vão tentar nos encon­trar? perguntava Fitch. Acha que vão tentar recu­perar a espada?

—        Ele está procurando por nós agora disse Linda.

Jack notou que ela usou o singular. "O caubói não conta. Provavelmente está morto."

A voz de Linda continuou a serpentear por entre seus pensamentos.

—        Se tivermos sorte, ele não faz ideia de quem so­mos ou de onde viemos. Nada está no meu nome: o car­ro, o hotel, nada pode ser ligado a mim. Ele vai partir do princípio de que a espada está comigo. Essa é melhor proteção para vocês. E isto.

Enquanto Jack observava por olhos entreabertos, ela estendeu a mão e segurou as de Will e Fitch.

—        Vocês não devem falar nada a ninguém sobre o que aconteceu neste fim de semana, entenderam?

Nem uma pista, nem um murmúrio, nada de se gaba­rem ou se queixarem. — Ela olhou para um e outro. — Está acabado, morto e enterrado. Será o nosso segre­do, uma lembrança partilhada apenas por nós quatro. Compreenderam?

Eles assentiram solenemente, os olhos arregalados, como acólitos de uma nova religião.

"Ótimo", disse Jack a si mesmo. "Minha tia é uma bruxa. O que é que eu vou fazer?" Abandonou os ami­gos ao terno cuidado de Linda, sabendo que não podia ajudá-los. Levantou-se, cambaleou até o quarto e caiu exausto na cama, saudando a fuga temporária que era o sono. A espada estava no estojo, sob seu braço.

Jack dormiu até tarde e, quando acordou, Will e Fitch pareciam razoavelmente normais. Normais demais para que fosse normal, na verdade, pois estavam rela­xados e fazendo piadas sobre as tarefas que os aguar­davam em casa. Não disseram uma só palavra sobre os eventos no cemitério.

Linda só fechou a conta no hotel depois do almoço, e, quando carregaram a bagagem para fora, Jack ficou surpreso ao vê-la pondo as coisas dela em um novo car­ro, um Sedan bastante comum. Parecia algo rotineiro para ela: utilizar identidades falsas, trocar de carros.

Eram quase quatro da tarde quando estaciona­ram diante da casa de Fitch. Ele morava em uma casa destroçada com as peças dispostas uma atrás da ou­tra como vagões de trem, e tão pequena que não pare­cia suficiente nem para acomodar toda a família Fitch.

Quando tia Linda tocou a buzina, foi como mexer num formigueiro. Num instante, ele estava imerso até a cin­tura em um mar de pequenos Fitch. Fitch acenou com tristeza e desapareceu dentro de casa com sua comitiva.

Na casa dos Childer, um considerável monte de hú­mus ainda permanecia na entrada da garagem.

—        Será que você pode dar mais umas voltas no quarteirão? implorou Will, fingindo desespero. Saiu com relutância do carro, arrastando a bolsa de viagem atrás de si. Vejo você amanhã.

E então restaram só os dois. Quando Will já estava longe, tia Linda deu meia-volta e seguiu para o centro.

—        Aonde vamos? perguntou Jack, cauteloso.

—        Acho que a gente devia ter uma conversa antes de eu levar você pra casa respondeu a tia, sem olhar para ele. Espero que você tenha um pouco de tempo.

A Cafeteria Lendas ocupava o primeiro andar de uma mansão vitoriana junto ao lago, a um quarteirão de distância da universidade. Linda escolheu uma mesa no solário com vista para o lago. A luz do sol de fim de tarde entrava pelas janelas. Ela se sentou de costas para o lago e de frente para a porta.

Jack pediu um pãozinho de canela e chocolate quente. Linda pediu chá aromatizado com laranja. Ela quase não falou até que a garçonete terminou de servi-los e se afastou. Então se voltou para Jack.

—        O que acha da espada?

—        É... Jack lembrou-se da sensação de po­der. Buscou um adjetivo apropriado. Eu nunca vi...

senti... nada parecido. Ele a levara para o restauran­te e a apoiara contra a parede, recusando-se a deixá-la no carro.

—        Não achei que você fosse ter de usá-la. Linda sorriu com tristeza. Você se saiu bem. Acho que nos­so amigo nem sabe o que o atingiu. Pelo menos, espero que não saiba!

—        Se você vai continuar fazendo mistério, esqueça

—        reclamou Jack. Por que envolveu a gente nisso, afinal? Ou eu estou ficando louco ou não estou e, seja como for, não estou gostando disso. Ele podia ter ma­tado a gente. E agora você fez alguma coisa com meus amigos, enfeitiçou eles de um jeito que eles nem sabem o bastante pra ter medo.

—        Sou uma encantadora, Jack. Não uma feiticeira.

—        O rosto de Linda não revelava nenhum traço de hu­mor. Feiticeiros se especializam em magia material: venenos, poções, amuletos. Infelizmente, não são muito bons quando se trata de pessoas, então...

Está bem, então você os encantou interrom­peu Jack. Tinha vontade de cobrir as orelhas com as mãos. Chega. Quanto menos eu souber sobre isso, melhor. Aquele cara no cemitério quase me mata de medo.

Eles me metem medo também, Jack disse Linda, baixinho. Ela o olhou com uma simpatia com­preensiva demais.

Quem são eles? perguntou Jack, após um mi­nuto, sem conseguir se conter.

Linda franziu o cenho e tamborilou as unhas na xícara de chá.

—        Não posso contar tudo. E vai ter de ficar satisfei­to por enquanto com o que eu disser.

Jack lambeu o glacê dos dedos e cortou outro peda­ço do pãozinho de canela.

E se eu não ficar satisfeito?

Então vai ter de esperar.

Quando Jack ergueu os olhos, ela estava olhando para a água, o queixo enrijecido.

—        Que seja disse ele, com rancor.

Linda o estudou por um momento.

—        Há algo que você precisa saber sobre nossa fa­mília. Os Downey e os Hale têm um histórico de dons mágicos que data de centenas de anos atrás. Já tinha ouvido falar disso?

Jack pensou a respeito.

—        Bom, tem a Susannah.

Linda assentiu.

—        Ela lia o futuro nas cartas. Esse talento é comum na nossa família. Mas não é o único dom. A princípio, a linhagem era bem pura. As pessoas como nós tendiam a se casar entre si e ter filhos que preservavam a linha­gem. Nossos ancestrais vieram do Reino Unido, que em certa época tinha uma enorme população de Weirs.

—        Weirs?

—        As ordens mágicas. Nossos ancestrais. Tia Linda levantou a xícara e colocou-a de novo no pires, sem beber. Temos a nossa quota de poetas, escritores, revolucionários e visionários. Mas os Weirs herdam ha­bilidades incomuns.

Jack deu de ombros.

—        Tais como...?

Linda estendeu os braços por sobre a mesa, segu-rando-lhe as mãos, e olhou-o nos olhos.

—        Nós herdamos o poder. Nossos ancestrais in­cluem magos, encantadores, adivinhos, feiticeiros e guerreiros.

Jack ficou imóvel, esperando pelo fim da piada. Que nunca veio. Linda o observou como se ele fosse uma bomba prestes a explodir a qualquer minuto.

"Ela realmente acredita nesse negócio", pensou ele. A mãe e a tia sempre tiveram interesse no que Linda chamava de "magia restrita": astrologia, leitura de car­tas, quiromancia e coisas do tipo. Mas ele sempre tivera a impressão de que era mais por entretenimento do que por qualquer outra coisa.

Jack lambeu os lábios.

Certo. Feitiçaria na família. O que isso tem a ver conosco?

Somos herdeiros, você e eu respondeu tia Linda. Como disse antes, sou uma encantadora.

Uma encantadora repetiu Jack. Lembrou-se do que o mago no cemitério dissera. "A encantadora os enfeitiçou, e são vocês que vão pagar por isso." E qual é... o seu dom? perguntou ele.

Ela ficou um tanto corada e torceu um guardanapo entre as mãos.

—        Nós, ahn, temos poder pessoal sobre as pessoas

—        disse ela, afinal. — Somos persuasivos. As pessoas se sentem atraídas por nós, quer gostem quer não. Acho que se pode dizer que somos... irresistíveis. — Ela lhe lançou um olhar como que para avaliar sua reação.

Era verdade. Nunca na vida Jack fora capaz de re­sistir a ela, mas sempre havia pensado que era só... o jeito dela. Lembrou-se de Will e Fitch no hotel.

—        Certo. E quanto a mim?

Linda hesitou.

Você é um guerreiro. Um dos Weirlind, como são chamados.

Guerreiro? — Se o dom de Linda parecia apro­priado, o dele não se encaixava de modo algum, decidiu.

—        Não me soa muito mágico.

Tia Linda suspirou.

As relações nunca foram muito pacíficas entre as diferentes ramificações dos Weirs. Têm havido guerras de tempos em tempos, quando uma facção tenta do­minar as outras. Guerras precisam de guerreiros, que têm... dons apropriados. — Ela fez uma pausa. — Há realmente guerras entre magos. Como eles são a ordem mais poderosa, controlam as outras. Muitas das guer­ras da história britânica se originaram de disputas da nossa família. Em anos recentes, as batalhas continu­aram, sem que aqueles que não são da família sequer percebam do que acontece.

Ainda estão lutando no Reino Unido — disse Jack. — Mas e aqui?

—        Um de nossos ancestrais, um Hale, veio para os Estados Unidos por volta de 1600 para fugir das guer­ras européias. Trouxe com ele muitas centenas de imi­grantes que tinham o dom e que buscavam a paz no Novo Mundo. Fomos esquecidos. Por algum tempo. — Ela desviou o olhar.

Jack alternava os pensamentos entre o passado e o futuro. Pensou na mãe, tão diferente de Linda.

Se você é uma encantadora, quer dizer que a mãe...

Becka não é uma herdeira. Ela e o seu pai não sabem nada a respeito disso. Os Weirs do Novo Mundo se casaram com Anaweirs, aqueles sem dons. Nem to­dos herdam os dons.

Anaweir. O mago no cemitério o chamara disso. Naquele momento, Jack havia entendido que ele havia dito "unaware", ou seja, "desinformado, ignorante" em inglês. O que não deixava de ser apropriado, também.

Por que você não contou à minha mãe sobre esse seu dom? — Ele voltou os olhos para o pôr do sol lá fora.

Jack, acredite ou não, quando eu tinha a idade que você tem hoje, eu achava que sabia de tudo. Mas eu não entendia o meu dom. Por isso estava despreparada quando encontrei meu primeiro mago.

Ele não pôde se conter. Virou-se para ela. Mas ela desviou os olhos para longe.

—        Eu tinha 16 anos. Meus pais não podiam me ajudar. Becka não podia me ajudar. Os Anaweirs não são páreo para os dotados. Mas perderiam a vida ten­tando. Então é melhor que não saibam. — Ela deu um meio sorriso. — Você vai ver. Contar seu segredo a um Anaweir é como puxar um fio solto. Tudo acaba se desatando.

—        O que Susannah tem a ver com isso? — pergun­tou Jack.

Ela era uma guerreira. Como você.

Uma mulher guerreira?

Tia Linda deu de ombros.

Tanto homens como mulheres podem ser guer­reiros, magos ou encantadores. Dizem que ela possuía o dom. Não sei se ela o usava.

Se tenho algum tipo de poder especial, por que nunca notei nada?

Jack fez uma rápida inspeção pessoal só para ter certeza. O corpo doía como se tivesse levado uma surra, e o peso das roupas sobre a pele queimada o incomoda­va. Fora isso, sentia-se diferente: irascível, impaciente, eufórico, vivo. Um ser estranho e imprevisível vivia ago­ra sob sua pele. O que estava acontecendo?

—        Seus poderes foram bloqueados. Aquela medica­ção que você toma desde a cirurgia impede que os seus poderes se manifestem.

Ele levou um momento para compreender o que isso significava.

—        A doutora Longbranch sabe disso?

Jack estava começando a se perguntar se ele era o único a não saber de nada.

Linda inclinou-se para a frente.

O dom é passado de geração para geração por meio de uma pedra ou cristal que fica atrás do coração. Os magos carregam pedras de magos, os encantadores têm pedras de encantadores. Você estava destinado a ser um herdeiro Weir, mas... algo saiu errado. Não havia nenhum cristal. Sem ele, você estava morrendo.

Por que eu não tinha um cristal?

Talvez tenha a ver com a mistura de sangue. Não sei. Mas você estava morrendo. Então eu contatei a doutora Longbranch. Eu... eu a conheci por intermédio de umas pessoas na Inglaterra.

O que você disse à minha mãe?

Até onde ela e Thomas sabem, você nasceu com um defeito no coração, e a doutora Longbranch foi sua ci­rurgiã cardíaca. Que é o que ela é acrescentou Linda.

Uma cirurgiã cardíaca repetiu Jack. E o que mais? — Inclinou-se para trás, esperando pelo resto.

Jessamine Longbranch é uma maga. Ela trouxe uma pedra e implantou em você. Você se recuperou. Só que... Ela desviou o olhar. Só que você deveria ter sido um mago.

Jack pressionou os dedos contra as têmporas.

—        Eu nasci mago, e ela pôs em mim uma pedra de guerreiro?

Linda concordou com um gesto de cabeça.

—        Por que ela faria isso?

Linda fitou a mesa, contraindo um músculo do maxilar.

—        Foi... foi uma experiência. Ela queria ver o que ia acontecer.

"Ela está com raiva", pensou Jack, "mas não quer que eu perceba".

—        E o que é que eu sou, afinal? Mago ou guerreiro?

Linda o encarou, os olhos marejados de lágrimas que não caíam.

—        Não sei, Jack — disse ela, engolindo em seco. — Você é um guerreiro, imagino.

Jack deu de ombros, sem entender por que isso se­ria má notícia.

—        Então por que a doutora Longbranch queria bloque­ar esses poderes de guerreiro, sejam eles quais forem?

—        É importante manter o seu segredo escondido. Embora Linda houvesse iniciado aquela estranha

conversa, Jack se sentia como se tivesse de arrancar as informações dela, um precioso fragmento de cada vez.

—        Escondido de quem? — perguntou Jack.

Pode haver pessoas procurando por você, Jack — disse ela baixinho.

Que pessoas? E por quê? — Jack estava per­plexo.

Magos. Como o homem no tribunal. Eles estão sempre procurando por guerreiros para lutar por eles, ou tentando matar os guerreiros que lutam em nome dos adversários. Eles não querem que o outro lado leve vantagem. O melhor momento para recrutar ou atacar um guerreiro é quando ele ainda não foi treinado, antes que chegue à maioridade.

Jack estremeceu e olhou para o salão em torno. A garçonete havia acendido velas nas mesas enquanto a luz do dia esmorecia. Sombras tremeluziam e dança­vam nas paredes. O lago adquirira uma cor cinza ardó­sia com o escurecer. De repente, o mundo parecia um lugar perigoso.

Mas não estou de lado algum — observou Jack. — Não quero lutar contra ninguém.

Não importa. Eles virão atrás de você mesmo assim.

"Ela não está me contando tudo", pensou Jack. Sentiu como se estivesse espiando pelo buraco da fecha­dura um quarto cheio de demônios e só conseguisse ver aquele que estava mais próximo da porta. Era bem possí­vel que os demais fossem até maiores e mais feios.

—        Será que eu não posso me livrar do cristal de algum jeito?

—        Você morreria — disse tia Linda simplesmente. Os dois ficaram em silêncio por um momento.

—        Qual é a probabilidade de alguém me encontrar em Trinity? — perguntou Jack.

Ela soltou um suspiro suave.

—        Há magos em Trinity agora, procurando por você. Não sei como te encontraram aqui. Não sabíamos a res­peito deles até o teste de futebol. Quando você atirou Garrett Lobeck na rede. Você se esqueceu de tomar o remédio e começou a vazar magia. — Ela hesitou. — Seus poderes estão começando a se manifestar. Com guerreiros, isso costuma acontecer na sua idade.

A voz dela tremeu um pouco. Na verdade, havia uma boa dose de emoção não explicada em toda aquela conversa.

Eles vieram atrás de você naquela tarde, mas você já tinha ido embora. — Linda estremeceu. — Os magos podem detectar o uso do poder e relacionar a uma pedra. O Nick conseguiu... distraí-los.

Nick! — Ele falou mais alto do que pretendera e olhou em volta, sentindo-se culpado. O salão estava quase vazio. Nick. Até o Nick. Um deles. Um de nós? — Quem é ele, na verdade?

O nome dele é Nicodemus Snowbeard. Ele é um mago — replicou Linda. — Ele tem tomado conta de você desde que você nasceu.

Em algum lugar no fundo da mente, Jack sempre se perguntara por que um homem tão inteligente quan­to Nick trabalhava como zelador e faz-tudo em uma pe­quena cidade de Ohio. Mas que tipo de influência Linda poderia ter sobre um mago para persuadi-lo a aceitar esse trabalho?

—        Uma encantadora pode encantar um mago? Ela pensou por um momento e pigarreou.

—        Somos mestres da magia da mente. Os magos são mais poderosos do que os encantadores, por causa do uso de feitiços falados. Mas são vulneráveis a nós também, principalmente se os pegamos desprevenidos. Nem sempre eles conseguem detectar o nosso uso do poder. Podemos mudar de aparência, usar de sedução, fazer com que ajam de modo tolo.

Ela enfiara a parte sobre sedução no meio de todo o resto. "Eu nem quero saber nada disso", Jack dis­se a si mesmo. "Por que é que eu fico fazendo tantas perguntas?"

—        Cada uma das outras ordens tem alguma vanta­gem específica sobre os magos. Por exemplo, um guer­reiro pode derrotar um mago numa luta física, se con­seguir impedir o mago de lançar um feitiço. Como você descobriu no cemitério. Feiticeiros são especialistas em magia material, poções, talismãs, ferramentas mágicas e coisas assim. Pequenas magias. Um feiticeiro pode produzir um artefato que aumente ou limite a magia de um mago. Um encantador pode encantar um mago. A maioria dos Weirs Anamagos, uma vez alertados de sua presença, pode sentir uma pedra de mago, mas os ma­gos não conseguem detectar as outras pedras, a menos que haja uma descarga de poder. Mas os magos podem usar feitiços falados, físicos e a magia da mente, o que os torna mais poderosos do que todos.

Jack se perguntou se deveria estar tomando nota de tudo aquilo.

—        Quer dizer que o mago no cemitério nos seguiu de Trinity até Coal Grove?

Ela sacudiu a cabeça.

—        Não. Graças a Deus. Conheço ele só de ouvir fa­lar. O nome dele é Geoffrey Wylie. Mas parece que ele não sabe quem eu sou e, considerando o que aconte­ceu no cemitério, ele também não sabe quem você é. Ele estava atrás da espada, e o fato de vocês terem se trombado foi uma coincidência. Temos de torcer para que ele não continue seguindo a genealogia. Se desco­brirem quem você é, vai ter de sair de Trinity.

Jack a encarou. Linda se inclinou sobre a mesa, falando com suavidade.

—        Temos de reprimir ou esconder os seus poderes. É aí que entra o novo colete. Ele impede os outros de detectarem a sua pedra, mesmo que haja uma descarga de poder. Além de algumas outras vantagens que, tenho certeza, você já notou.

Deu-se conta da importância disso lentamente.

Quer dizer que a Mercedes está nisso também? A excêntrica Mercedes Forster e suas nuvens de ca­belo cinza encrespado e estranhas roupas feitas à mão. Mercedes e seu jardim cheio de plantas exóticas, algu­mas venenosas demais para serem tocadas.

A Mercedes é uma feiticeira disse Linda, no tom de quem diz algo trivial.

Jack fez um mapa mental da vizinhança.

O Blaise e o Richard?

O Blaise é um adivinho disse tia Linda, não conseguindo evitar o riso diante da expressão no rosto do sobrinho. O Richard é um Anaweir. Um não-herdeiro ela acrescentou.

A Íris?

Maga.

O Hanson e a Sarah?

Anaweirs. Um casal idoso e simpático que adora bebês.

E lá se vai a vizinhança — grunhiu Jack. Massageou a testa com a ponta dos dedos. O que tinha co­meçado como uma pressão agora se tornara uma dor de cabeça terrível. Sentia como se o mundo houvesse virado do avesso. Queria parar e rever cada detalhe de sua vida até então, peneirá-los em busca de pistas que o pudessem ter alertado. — Quer dizer que são todos meus parentes?

Pode-se dizer que sim — respondeu Linda. — Vocês todos carregam o mesmo sangue antigo.

Jack se afastou da mesa, fazendo o chá se derra­mar da xícara de Linda.

Bem, muito obrigado por compartilhar isso tudo comigo. Finalmente. E agora? Vou pra casa e me es­condo embaixo da cama? Espero e vejo se alguém vem atrás de mim?

Não — disse ela. — É tarde demais pra isso. Eles não desistem. É só uma questão de tempo até que des­cubram onde você está. — Aparentemente não gostan­do de algo que viu no rosto dele, Linda se apressou em acrescentar: — É por isso que nós... ahn... eu decidi recuperar a espada da sua tataravó. Nós... quero dizer... eu pensei que, talvez, com algum treinamento...

Treinamento? — Tudo isso era uma loucura, mas havia algo nas maneiras da tia que era absolutamente irresistível, impossível de se ignorar. Talvez aquele fosse o dom dela. Aquela habilidade de capturar uma pessoa e manipulá-la até que ela deixasse de lado as regras do bom senso. "A encantadora os enfeitiçou". Ele olhou dentro dos olhos azul-dourados de Linda e soube que era verda­de. Não tinha como resistir. — Treinamento para o quê?

—        Vamos ensinar você a lutar, Jack. Em uma luta física, pelo menos, você poderá ser páreo para um mago. — Ela fez um gesto em direção ao estojo apoiado con­tra a parede. — A Sombra Assassina é... uma espada lendária. Queremos ter certeza de que, quando vierem atrás de você, vão encontrar um adversário mais perigo­so do que o menino no cemitério.

Jack achara que tinha se saído bem, dadas as cir­cunstâncias.

—        Quem é nós? É você quem vai me ensinar a lutar com a espada? — Achava isso difícil de imaginar, se bem que, àquela altura, nada o surpreenderia.

Linda sacudiu a cabeça.

Achei um treinador pra você. Um mago. Infeliz­mente, não vou estar por aqui.

Quê? Você vai embora?

Jack.

Ela pôs a mão sobre a dele. O poder fluiu para den­tro dele como uma droga potentíssima. Ele tirou a mão como se houvesse sido escaldado.

—        Nem tente isso comigo.

Foi como se ele lhe tivesse dado um tapa.

Tudo bem. Sem magia. Nesse momento, você está bem escondido em uma família Anaweir sem nenhuma feitiçaria. Meu plano é atrair Wylie para longe.

O que quer dizer?

Ela afastou o cabelo que lhe caía sobre o rosto.

—        Ele vai me seguir. Não tem opção. Vai curtir a caçada, mas nunca vai me pegar.

Jack pensou no caubói, berrando sob as mãos de Wylie; lembrou-se do mago e do que ele dissera sobre assuntos a resolver, e estremeceu.

—        Tia Linda. Por favor, não mexa com esse cara. Fique longe dele.

—        Não se preocupe, Jack. Sei tudo sobre magos.

Pelo jeito como falou, ela sabia de coisas que ele não queria saber.

—        Agora me escute. — Era como se ela lesse os itens de uma lista. — Você precisa usar o colete sempre. Isso vai tornar mais difícil para eles detectar a sua pe­dra. Você precisa resistir à tentação de usar seus pode­res, exceto durante o treinamento. Não vai ser fácil. Mas cada vez que usa seus poderes, você manda um sinal para olhos inimigos. — Linda fez uma pausa. — Leve a espada com você. Mantenha-a no estojo quando não a estiver usando. A caixa vai protegê-la de qualquer um que não seja o herdeiro de direito.

Linda tirou três frascos de vidro da mochila. Jack levou um susto ao perceber que eram alguns dos fras­cos que íris fizera para ele quando Jack era só um bebê. Aqueles para sonhos e poções, como contava a história.

—        Pare de tomar o remédio da doutora Longbranch e comece a tomar estes. — Ela passou-lhes os frascos. Jack abriu um deles. O aroma o fulminou com um gol­pe que era quase físico. Era potente e inebriante, como uma bebida alcoólica muito forte. Ele torceu o nariz e repôs a rolha. — Uma colher de chá de cada, uma vez por dia. Você não pode contar aos seus pais sobre a tro­ca e também não deve de forma alguma contar à douto­ra Longbranch.

Longbranch? — Jack ficou confuso. — Ela não está na jogada?

Não exatamente — disse ela. — Não confie em ninguém. A não ser no Nick.

O que o fez pensar em outra coisa.

—        Por que você envolveu o Will e o Fitch nessa his­tória? Eles podiam ter morrido.

Linda baixou os olhos para a mesa, as faces rosa­das de remorso.

—        Nunca tive a intenção de arriscar a vida deles. Às vezes nós, das ordens, somos descuidados em relação aos Anaweirs. Eu não fazia ideia de que havia magos por perto até falar com o Nick. E aí já era tarde demais. — Jack lembrou-se de que ela tentara mudar de ideia, e ele resistira. — Eu tinha planejado deixar os dois no hotel e ir com você apanhar a espada. Sabia que eles nunca diriam nada... se eu pedisse a eles.

—        Se encantasse eles, você quer dizer.

—        Não vou me desculpar pelo que sou — ela disse com suavidade. — Quero que você tenha orgulho de quem você é, também. Sei que isso não é fácil de ou­vir, mas estou feliz de poder finalmente lhe contar a verdade.

—        Mesmo? O que impediu você todo esse tempo?

Linda estremeceu, mas não respondeu. Tirou do bolso da jaqueta um envelope selado, que entregou a ele.

—        A informação sobre o seu treinador está aqui disse ela. Alguma pergunta?

Ele sacudiu a cabeça. Estava furioso e assustado, com os nervos à flor da pele, o sangue quente fluindo por músculos e ossos. Fechou os olhos, lembrando-se do peso da Sombra Assassina em suas mãos.

—        É como eu disse. Não posso contar tudo hoje. Mas isso é o bastante pra começar. Ela olhou para o relógio. É melhor a gente ir, ou a sua mãe vai mandar uma equipe de busca.

Linda deixou algum dinheiro sobre a mesa, e os dois deixaram a cafeteria. Já estava escuro, e Jack podia ver luzes a distância, sobre a água. Voltaram em silêncio no carro para a rua Jefferson, cada um ocupado com os próprios pensamentos. A luz da varanda estava acesa quando Linda estacionou na frente na casa dos Swift. Tia Linda resolveu não entrar.

—        Agradeça a Becka por me emprestar você esse fim de semana.

Jack saiu do carro e tirou a bolsa de viagem do banco de trás. Os três frascos de vidro estavam a salvo ali dentro. Linda passou a caixa com a espada através da janela. Trocaram um olhar, de simpatia de um lado, furioso e um tanto quanto desesperado do outro.

—        Guarde o telefone ordenou tia Linda. Vou manter contato.

—        Claro. Ótimo.

Se o que ela disse era verdade, então ele estava bem encrencado, e a tia era a única corda de salvação que tinha. Ela despejara esse fardo sobre ele e ago­ra ia embora. Jack virou-se para entrar em casa, mas ela segurou-lhe o braço, puxou-o para perto e beijou-o no rosto.

 

Felizmente, Becka não fez muitas perguntas. Rela­tórios legais se espalhavam por toda a mesa da cozinha. Quando ela viu o rosto de Jack sob a luz da lâmpada do teto, exclamou:

—        Essa não! Você esqueceu de levar o filtro solar?

Ele ergueu a mão, tocou a face queimada e fez que sim com a cabeça. Ela perguntou se ele e Linda haviam encontrado novos parentes, e Jack disse:

—        Alguns.

Ela perguntou se a viagem havia sido tediosa no final das contas, e ele disse, com sinceridade:

—        Não.

Isso pareceu satisfazê-la.

Ele pensou em ir até a garagem para falar com Nick, mas mudou de ideia. Já havia visto magos suficientes para um único fim de semana.

Mais tarde, no quarto, Jack guardou os frascos de vidro no fundo da gaveta de roupas de baixo e pôs a cai­xa com a espada embaixo da cama.

O bilhete com a informação sobre o treinador es­tava no bolso da calça jeans. Jack abriu o envelope e desdobrou o papel que havia dentro.

O nome no papel era Leander Hastings. O novo diretor-assistente do Colégio de Trinity.

 

Na manhã seguinte, Jack levou o frasco azul de re­médio para o banheiro no andar de cima, com uma co­lher de medida.

— Vai ser mais fácil me lembrar dele se eu o tomar antes de escovar os dentes — explicou a Becka.

Após o banho, mediu cuidadosamente uma colher de chá do remédio de Longbranch e derramou-o na pia. Então trouxe os frascos de poção que estavam no quarto. Abriu-os e tomou uma colher de chá de cada. Duas das poções tinham gosto forte. A terceira era mais suave, quase agradável. Guardou os frascos de novo na gaveta e vestiu o colete da Mercedes por cima da cabeça. Já se sentia vulnerável sem ele. Imaginou se poderia ser atacado pelos magos quando o tiras­se. Quando estivesse no chuveiro, por exemplo. Ves­tiu uma camisa de flanela por cima. Ainda tinha a aparência de quem passara o dia inteiro no salão de bronzeamento.

A cozinha estava vazia, mas uma tigela de cereal o esperava sobre a mesa, junto de um bilhete: "Fui para a universidade. Tenha um bom dia. Tome o remédio. Com amor, Mãe".

Jack despejou leite sobre o cereal e sentou-se para comer. Um instante depois, Will bateu de leve à porta da cozinha.

—        Entre — disse Jack. — Já estou acabando.

Will entrou. Jack pensou se deveria começar a tran­car a porta, agora que sabia que estava sendo caçado. Soltou um suspiro.

A sua tia já foi? — perguntou Will, olhando em tor­no como se ela pudesse aparecer a qualquer momento.

Ela foi embora.

Melhor assim — disse Will, parecendo um pouco triste. — Não me leve a mal. Eu gosto dela, mas ela pa­rece atrair encrenca.

Jack se perguntou se seria a tia Linda ou ele próprio que atraía problemas. Esperou que Will mencionasse a espada, o cemitério ou o mago, mas ele não o fez.

Em vez disso, Will falou:

Pegou o uniforme de futebol? Se tivermos sorte, talvez tenhamos treino hoje à noite. — Em outras pala­vras, se tivessem sido aceitos no time.

Peguei. — Jack apontou para a bolsa de ginásti­ca junto à porta.

Então é melhor irmos — disse Will. — Penworthy nos aguarda. — Alçou a mochila por sobre o ombro e fez uma careta.

Você também está sentindo dores? — perguntou Jack.

Estou — respondeu Will. — Deve ser de ficar ca­vando túmulos. — Ele sorriu. E isso foi tudo o que foi dito entre eles.

Jack não fazia idéia de como começar o treinamen­to. Será que ele deveria abordar Leander Hastings na escola e dizer: "Pelo que entendi, o senhor vai me en­sinar a ser um guerreiro e usar minha espada mágica. Que horário o senhor tem disponível?".

Ele desejou que tia Linda houvesse ficado para agir como intermediária. Nada parecia muito real, agora que ela partira e ele estava de volta à escola. E Hastings era, sem dúvida, intimidador.

Fora as preocupações, Jack se sentia ótimo. Era di­fícil de explicar. Sentia-se lúcido e concentrado, eman­cipado, como se alguém lhe houvesse varrido os velhos cantos empoeirados da alma. Provavelmente o remédio da doutora Longbranch tinha algum efeito sedativo.

Uma vez na escola, as preocupações sobre magos e guerreiros pareceram exageradas e sem substância, como um pesadelo. Penworthy estava no lugar de cos­tume, mas não havia vestígio de Hastings. Jack e Will tinham algum tempo livre antes do primeiro sinal, por isso foram até o escritório de educação física para ver se a lista do time de futebol já havia saído. Descobriram que sim, e que Jack, Will e Fitch haviam entrado no time principal. Melhor ainda: Garrett Lobeck havia caí­do para o time de juniores.

—        Ele vai ficar furioso — previu Jack, sabendo que, de alguma maneira, ele seria culpado por isso e não daria a mínima. O primeiro treino estava marcado para aquela tarde.

Ainda não havia nenhum sinal do Hastings quan­do caminharam de volta para suas classes. Talvez fosse melhor esperar alguns dias e ver se o diretor-assistente o contatava.

Depois do final das aulas, Jack e Will carregaram as bolsas de ginástica até o vestiário masculino a fim de trocar de roupa para o treino. O dia estava frio, por isso vestiram calças de ginástica sobre as caneleiras e meias. Jack deu uma olhada em volta antes de despir a camisa de flanela. Ainda era cedo, e ele e Will eram os únicos no vestiário. Jack pôs uma camiseta de mangas compridas sobre o colete.

Will o olhava com curiosidade.

Esperando encrenca? — perguntou.

Nunca se sabe — replicou Jack.

Ao se reunirem no campo de treino, os jogadores se cumprimentaram batendo as mãos espalmadas nas dos companheiros, sorrindo, felizes por terem entrado em um ou outro time, dada a competição. A notável exceção era Garrett Lobeck, que, é claro, esperava en­trar no time principal. Harkness e Leonard, amigos de Lobeck, haviam conseguido. Lobeck parecia prestes a explodir, mas estava importunando outro jogador. Sem dúvida, ficara intimidado após o encontro anterior com Jack. O que, para Jack, era ótimo.

Após quinze minutos de exercícios de aquecimen­to, Jack percebeu que não estava nem ao menos respi­rando mais rápido. "Devo estar em melhor forma do que imaginei", disse a si mesmo. Então teve início o coletivo entre o time principal e os juniores.

O time principal marcou primeiro, mas depois disso os juniores conseguiram impedi-los de fazer outro gol até o fim do primeiro tempo de cinco minutos. Jack jo­gou no meio-de-campo no segundo tempo. O time dele tomou posse da bola junto à área dos juniores, e um dos zagueiros passou a bola para Jack, que começou a dri­blar pelo campo, desviando-se sem esforço dos defen­sores do outro time. Ao se aproximar do gol, os junio­res abriram caminho para ele como se tivessem pressa de sair da sua frente. Ele deu o chute quando estava prestes a entrar na grande área. O goleiro praticamente pulou para longe do trajeto da bola, que entrou direto no gol. O time principal vibrou, e Will e Fitch comemo­raram batendo as palmas das mãos.

Jack sentiu um arrepio de medo, como um dedo gelado correndo-lhe espinha abaixo. Havia algo de so­brenatural em ação ali. Agora que não estava toman­do o remédio de Longbranch, manter seus poderes sob controle era mais difícil na prática do que em teoria. Por instinto, passou os olhos pelo público, que era peque­no: apenas alguns pais e namoradas. Eilen Stephenson estava sentada na arquibancada, inclinada para a fren­te, atenta ao jogo. Olhando para todos os lados, menos para Jack.

—        Muito bom, Swift disse o treinador Slansky. Você melhorou bastante desde o ano passado.

Jack foi substituído logo depois do gol. Ficou em pé junto à lateral, sentindo-se miserável. De que jeito ia conseguir jogar toda uma temporada sem chamar a atenção para si?

A primeira coisa que precisa fazer é melhorar o controle. A voz estava praticamente no ouvido de Jack, que deu um pulo e girou nos calcanhares. Era Leander Hastings, vestindo uma blusa vermelha de Harvard e calças caqui, as mãos nos bolsos. Estava próximo o bastante para não ter de falar alto para ser ouvido. Posso ajudá-lo nisso.

Pode? Jack falou no mesmo código. Isso seria ótimo. O que o senhor sugere?

Vejamos Hastings correu a mão pelo cabelo. Haverá treinos de futebol todas as tardes, das três às cinco, esta semana. Vamos marcar para a quarta-feira à tarde, logo após o treino regular. Diga à sua mãe que estará em casa às oito. Hastings tinha as maneiras de um homem acostumado a dar ordens e vê-las obe­decidas.

Jack concordou com a cabeça.

Vamos praticar aqui?

Não respondeu o mago. Vou achar um lugar. Jack hesitou.

—        E quanto a... preciso trazer alguma coisa? Ele teria dificuldade em guardar a Sombra Assassina no armário do vestiário. Além disso, tinha certeza de que espadas eram proibidas na política de tolerância zero do Colégio Trinity em relação a armas.

Havia um traço de sorriso no rosto de Hastings, como se houvesse lido os pensamentos de Jack.

Não. Não desta vez.

Swift! Era o treinador. De volta ao campo!

Jack fez um gesto de cabeça para Hastings e cor­reu de volta ao campo. Muito bem. Acontecesse o que acontecesse, o importante era que ele tinha um plano. Torceria para que tudo desse certo. Hastings o deixava nervoso. Entretanto, a tia o havia escolhido, e Jack su­punha que ela sabia o que estava fazendo.

Só que ela dissera outra coisa. Dissera que ele não podia confiar em ninguém. E agora ele se colocava nas mãos de um estranho.

Quando olhou de novo para a lateral, Hastings ha­via sumido.

 

Muitos dos convidados de Jessamine optaram por vir pela água; não que fosse necessário, mas por causa das reminiscências de uma era mais elegante. Desembarcaram nas docas do Tâmisa e passearam pela alameda de bétulas até o terraço sul da mansão, que estava iluminada pela luz de tochas, cercada por can­teiros de rosas brancas: Glamis Castle, Honor, Penélope, Iceberg e Fair Bianca, entre outras espécies. Velhas ro­sas, rosas-chá híbridas, floribundas e rosas de arbustos.

Os botões apareciam como manchas brancas na escu­ridão, a fragrância uma lembrança sutil de quem con­trolava as ordens.

Servos em uniformes da Rosa Branca circulavam entre a multidão, carregando bandejas de vinho e ca­napés. Cada um dos dotados levara uma comitiva de servos: membros das ordens inferiores para servir como guardas. Alguns dos mais afortunados tinham encanta­dores nos braços. Eram o foco de olhos invejosos e de gestos malevolentes.

Jessamine Longbranch recebeu os convidados no local onde a alameda encontrava o terraço. Ela os es­colhera de propósito; entretenimento era um elemen­to essencial da política dos magos, próprio para extrair informações, intimidar e até causar derramamento de sangue de vez em quando. Vir era um risco, não vir tam­bém. Nenhuma opção era segura.

Os cabelos de Jessamine caíam-lhe sobre os om­bros, confinados em uma rede de minipérolas. O vestido era confeccionado em seda diáfana, com bordados de rosas brancas em locais estratégicos. As mãos que ela estendia para serem beijadas cintilavam de jóias.

Geoffrey Wylie fez-lhe uma reverência. Estava ves­tido de forma discreta, adequada para uma Casa em declínio. O casaco era de um vermelho tão profundo que quase parecia preto; um rubi brilhava no lóbulo de umas das orelhas.

— Jessamine. — Um sussurro de poder roçou na pele da maga. Um gesto, apenas, para informá-la de que ele se sentia em casa. Ele mantinha a cabeça virada de forma que um lado do rosto era iluminado pela luz das tochas e o outro estava sob as sombras.

—        Geoffrey! Pobrezinho! O que aconteceu com seu rosto?

Ela lhe agarrou o queixo, virando-lhe a cabeça a fim de ver melhor. O lado direito do rosto parecia ter sido queimado gravemente desde a linha do queixo até a tes­ta. Ele aplicara um glamour mágico que teria enganado qualquer um menos perspicaz.

Ela estalou a língua.

—        Trombou com algum Dragão furioso? — Aquele era o nome atribuído a um dos líderes demagogos da Ordem dos Servos.

A respiração do mago soou como um sibilo. Queria dizer que ele tivera esperanças de que ela não notasse. Ela sabia que Wylie era vaidoso. Haviam tido um rela­cionamento no passado.

—        Não é nada. Um acidente. — Mas a fúria nos olhos dele dizia que encontrara alguém para culpar, e que aquele alguém ainda não havia morrido. Wylie era poderoso, era o promotor dos guerreiros para a Rosa Vermelha. Poucos se arriscariam a contrariá-lo. Ela ar­quivou a informação na memória.

Jessamine olhou por cima do ombro dele.

Onde está aquele bonitão, o senhor Paige? Eu estava ansiosa por vê-lo de novo.

Simon pede desculpas. — A fúria havia se dissi­pado, sendo substituída por calma impassível. Simon

Paige era o mestre de guerreiros da Rosa Vermelha. Um título um tanto vazio, já que tivera pouco a fazer por muitos anos.

Ele devia ter algo muito importante a fazer, para perder aquele evento. Será que a Rosa Vermelha final­mente encontrara um guerreiro? Se era esse o caso, ha­via coisas importantes demais em jogo para brincar de adivinhação.

Ela passou os olhos pela comitiva de Wylie e encon­trou o que estava procurando. Um belo jovem em uni­forme da Rosa Vermelha que baixou a cabeça quando ela o encarou. Um aprendiz de feiticeiro, talvez (davam em árvores, os aprendizes de feiticeiro). Um servo que sabia o bastante para ter medo dela talvez soubesse de outros segredos também. Ainda sorrindo, Jess fez um gesto para um dos guarda-costas postados discreta­mente junto à parede.

 

O sol havia raiado antes de ela haver terminado com o rapaz. Não porque ele tivesse tanto assim a dizer, mas porque a tarefa era muito prazerosa. Ele se mos­trara ansioso por agradá-la, no fim. Ela estava confian­te de que arrancara dele cada migalha de verdade, as pequenas pistas e vestígios que sugeriam que a Rosa Vermelha poderia lançar um desafio muito em breve.

Jess tomou banho, trocou de roupas e levou o chá para tomar no terraço. A manhã estava fresca e límpida. O rio seguia seu caminho, a antiga estrada dos bretões.

Wylie havia feito ameaças e muito alvoroço, é cla­ro, quando descobrira que seu servo desaparecera. Mas esse era o risco de se trazer uma comitiva para uma reunião de magos. Se as Casas não podiam se atacar diretamente, os servos podiam ser eliminados quando preciso. O que ela podia fazer se o jovem de Wylie havia bebido demais e caíra despercebido no Tâmisa, onde o corpo seria encontrado algum dia, terrivelmente decom­posto?

Pensou no jovem guerreiro que ela deixara nos Estados Unidos. O segredo mais bem guardado de Jessamine. Ela fora extraordinariamente cuidadosa, ha­via minimizado o contato com ele. Mas plantara olhos e ouvidos naquela cidadezinha insípida para vigiar o me­nino, embora nenhum deles soubesse por que ele era importante. Não poderiam revelar o que não sabiam.

Ele já tinha idade suficiente para que seu poder se manifestasse, mas ela o mantivera bloqueado. Jessa­mine mordeu o lábio inferior, pensativa. Precisava optar entre a necessidade de começar o treinamento do me­nino e o desejo de mantê-lo vivo por mais algum tem­po. Talvez fosse hora de reclamá-lo para si, contatar os mestres dos guerreiros e dizer-lhes para prepararem suas ferramentas.

Naquela noite, após o jantar, Jack não conseguia se concentrar na lição de matemática. Depois de brigar com os números por meia hora, apanhou os papéis e seu material e foi para a garagem.

Nick estava ocupado pintando a casinha de um pás­saro azul quando Jack bateu à porta, mas afastou o pro­jeto para o lado e abriu espaço na mesa para a lição de casa de Jack. Era um comportamento rotineiro. Por al­guma razão, era sempre mais fácil se concentrar na cozi­nha de Nick. Mas hoje Jack viera preparado para brigar.

Nick tirou o avental verde com respingos de tinta e pendurou-o no encosto de uma cadeira. Jack recusou a bebida que lhe foi oferecida e sentou-se, olhando feio para a mesa surrada enquanto Nick preparava uma xí­cara de chá para si.

—        E então? disse Nick, ajeitando-se na cadeira diante de Jack. Deu uma olhada na lição de casa into­cada. Você parece que comeu da fruta do conheci­mento e não gostou do sabor.

Jack estudou o homem mais velho, à procura de al­gum sinal de magia. Percebia uma inteligência brilhan­te, nada mais.

Nick o observava de forma penetrante.

—        Como você está, Jack?

—        Ótimo — Jack explodiu. Estou mentindo para a minha mãe, contrariando as ordens da minha médica e sendo caçado por magos. Na verdade, quando não estou sendo caçado por magos, passo meu tempo com eles.

Nick se reclinou na cadeira.

Mas você está com a espada.

Jack assentiu, mal-humorado.

Estou.

Você deveria estar contente, considerando o que enfrentou — disse o velho. — Em um combate entre guerreiros e magos, em geral, o resultado é o oposto.

O que vai impedir que eles tomem a espada de volta?

Eles não podem sentir a presença dela, e não vão violar estas paredes. Eu cuidei disso. — Por um mo­mento, ele pareceu assustador de novo, e então o ros­to voltou ao padrão costumeiro, de linhas sorridentes e história. — Antes, os magos estavam caçando você, e você não fazia idéia. Não só isso: você estava desarma­do. Está em melhor situação agora do que antes.

Acho que eu estava melhor não sabendo de nada.

Não seja tolo! — O tom de Nick era brusco. — A ignorância pode matar você. Ou pior.

Então, por que não me contaram tudo isso an­tes? Vocês me mantiveram no escuro por anos, me ob­servando, me drogando com poções, falando pelas mi­nhas costas. Praticamente toda a vizinhança. Devem ter achado que sou bem estúpido.

Você era uma criança, Jack — disse Nick gentil­mente. — Não era necessário que soubesse. A situação era estável, e não havia razão para você se preocupar com essas coisas. Já existem coisas demais para meter medo nas crianças, como monstros embaixo da cama e coisas assim.

Jack tinha de admitir que tivera uma infância re­lativamente despreocupada. Preocupar-se com magos não a teria melhorado. Mas não se sentia muito genero­so no momento.

—        Bom, estou preocupado agora. E nem a tia Linda explicou de verdade o que está acontecendo.

Nick suspirou, parecendo terrivelmente triste.

Não sei no que isso vai dar. Apenas lembre-se de que sua tia Linda tem feito tudo ao alcance dela para proteger você, desde que você nasceu. Ela é completa­mente devotada a você. Nunca duvide disso.

Ainda não entendo. Se você é um mago, por que aceitou este trabalho? — Jack indicou os arredores com um gesto da mão. — Isso não parece nada excitante, em comparação com o mundo de feitiços e encantamentos.

Nick sorriu.

—        Às vezes, quando ficamos mais velhos, o que é excitante já não tem tanto atrativo. Digamos apenas que tenho um interesse especial em você e na sua tia. Você é importante. O que torna este trabalho importan­te. Além disso, agora que você sabe quem é e o que você é, muitas portas vão se abrir. Tanta coisa foi mantida fora do seu alcance até agora! Venho guardando coi­sas por anos à espera deste dia. — Nick se levantou, apoiando-se na bengala, e desapareceu no quarto que Jack julgara ser a biblioteca. Um instante mais tarde estava de volta, com um grosso livro com capa de couro. — Pode começar com isto aqui — sugeriu o velho mago, passando-o para Jack.

O título da capa estava gravado era alto-relevo, em ouro. "Weir Hale". Mais embaixo, "Jackson Downey Swift". Ele o abriu.

Uma grande parte do livro estava tomada por uma árvore genealógica: páginas e páginas de nomes de pes­soas ligadas entre si e seus filhos. Alguns dos nomes na árvore da família estavam delineados em brilhantes cores metálicas: azul, vermelho, dourado, verde e roxo. O resto estava em letras simples e pretas.

Jack ergueu os olhos para Snowbeard.

O que é isso?

Este é o seu Livro Weir, Jack. Foi criado quando você nasceu. Todos os Weirs têm um. Olhe na última página.

Lá Jack viu seu próprio nome, Jackson Downey Swift, e os nomes dos pais, Thomas Swift e Rebecca Downey. Tudo escrito com a mesma grafia fluente.

—        Os nomes iluminados são herdeiros, e as co­res indicam de que tipo: magos, guerreiros e assim por diante. Os magos estão em dourado.

Jack notou que o nome dele estava em dourado. O guerreiro que deveria ter sido um mago.

—        Tradicionalmente, o livro é feito pela Ordem dos Feiticeiros por encomenda dos pais da criança, usando o Livro Weir da família como modelo. Neste país, as coi­sas se tornaram bem confusas por causa da miscigena­ção. O parente Weir mais próximo se torna o padrinho ou madrinha. A Linda é sua madrinha, como você sabe. Ela pediu a Mercedes Foster para fazer o trabalho.

Não entendo — disse Jack devagar. — Por que os magos são tão mais poderosos que as outras ordens?

Os magos são especiais entre os Weirs porque moldam a magia com palavras. Conseguem executar tarefas bem mais difíceis e sofisticadas por meio de fei­tiços. São limitados somente pela extensão do conheci­mento da linguagem mágica que possuem e pelo poder da pedra que carregam.

Nick apontou para o livro nas mãos de Jack.

—        Passe algum tempo lendo isso. Estude. Especial­mente a parte sobre feitiços e encantamentos. Então vamos tentar algumas coisas. — Mediu Jack com um olhar. — Acho que vale a pena testar para ver se você tem algum talento como mago. Apesar da pedra de guerreiro.

Ótimo. Ele não sabia nem como ser um guerreiro, e agora Nick Snowbeard ia ensiná-lo a ser um mago também.

—        Mas no momento é melhor você terminar a lição de casa — acrescentou Nick.

Magia e cálculo. Jack suspirou, levantou-se, apa­nhou o livro e a lição de casa.

—        Posso estudar matemática na sala de estudos — disse ele. — Vou dar uma olhada no livro depois. Obrigado, Nick.

Mais tarde, no quarto, Jack acendeu a luz de cabe­ceira. Já estava ficando tarde. Pôs o pesado volume no colo e abriu-o na primeira página — papel grosso, ador­nado com a figura estilizada de um urso.

 

                           Jackson Downey Swift

                           Um Herdeiro Mago

                           Um Guerreiro Criado

 

Sob Fundação das Corporações, lia-se:

As Corporações foram fundadas por cinco primos que perambulavam em um vale encantado no norte da Inglaterra. Lá vivia um imenso dragão. O dragão dormia no topo de uma montanha feita de pedras preciosas. Ao descobrir o tesouro, os viajantes, sem perceber o dragão, começaram a lascar pedaços da montanha para levar consigo. O dragão acordou com um rugido, exigindo sa­ber quem se atrevia a lhe roubar o tesouro. A fim de se salvar, os primos engoliram as pedras que haviam rou­bado. Eram pedras mágicas que lhes conferiram pode­res fantásticos, mas que também os tornaram escravos do dragão e os prenderam ao alto vale conhecido como Ravina do Corvo.

Os primos serviram ao dragão por sete longos anos. À noite, conspiravam juntos, embora o dragão dormisse com um olho aberto. O mago escreveu um contrato de proteção mútua que todos assinaram com sangue. O adivinho os avisou de que não deveriam matar o dragão, apenas co­locá-lo para dormir, ou perderiam os poderes que haviam adquirido com as pedras mágicas. O encantador cantou para o dragão, distraindo-o, enquanto o feiticeiro prepara­va uma poderosa poção do sono. Ao guerreiro foi dada a tarefa de derramar a poção na orelha do dragão.

O plano funcionou perfeitamente. Foi somente quan­do os primos celebravam a vitória sobre o mestre de outrora que o mago revelou que o contrato que haviam assinado atribuía aos magos o domínio sobre as outras ordens. Se o contrato fosse rompido, o dragão desperta­ria e exigiria uma terrível vingança de todos eles.

Assim foram fundadas as Cinco Corporações.

 

Jack sentiu como se houvesse entrado em um con­to de fadas. Abriu uma página no meio do livro e leu o seguinte poema:

 

Gareth chegou no auge do verão

Com seus cavallos e seus cavalleiros;

A guerra é sua fortuna e maldicção,

Mil lanças perseguiam os guerreiros.

Seus cabellos brilhavam ao poente;

O fracasso da causa era imminente,

Seu destino, traçado de antemão:

Servo de um mago ele sempre seria;

Seu doce sangue derramado em vão

A Ravina do Corvo regaria.

 

Certo. Isso deixava tudo bem claro.

No fim do livro, havia um compêndio de feitiços, re­ceitas e encantamentos. Reclinou-se para ler. Passava das duas da madrugada quando finalmente apagou a luz, a cabeça fervilhando com o brilho e o mistério da herança genealógica. E, quando adormeceu, um guerreiro de cabelos loiro-avermelhados lutava em seus sonhos.

 

Na manhã seguinte, na sala de chamada, Jack esta­va mais letárgico do que de costume. Sentia-se como se houvesse ficado acordado e lutando a noite toda. Acabou cochilando, esperando pelos anúncios da manhã. O se­gundo grau é incompatível com uma vida secreta, pen­sou ele ao acordar pela terceira ou quarta vez.

Ergueu a cabeça e viu Ellen Stephenson enroscada na carteira, observando-o. O estômago de Jack deu uma espécie de cambalhota acrobática para trás. Jack emper­tigou-se na cadeira, tentando parecer vivo, se não alerta.

—        Você parece exausto disse ela.

Ela, por outro lado, parecia ótima, com uma mini-blusa branca e calça jeans.

—        Ficou até tarde fazendo a lição de matemática?

—        A lição de matemática! grunhiu ele. Certo. Preciso terminar aquilo! "Começar, melhor dizendo".

Jack apanhou a pasta de matemática. Talvez conse­guisse resolver alguns problemas antes de o período da chamada (que era também um horário reservado para estudos e para avisos dos professores) terminar.

Ajuda se eu mostrar pra você o que eu fiz? Eilen lhe estendeu a pasta de matemática.

Não precisa. Acho melhor eu me virar sozinho. Obrigado.

Está bem. — Ela pôs a pasta de volta na mochila e apoiou os braços no encosto da cadeira. Havia tomado sol; a pele dos braços adquirira um leve tom dourado, e algumas sardas haviam surgido nos ombros. — Quer dizer que não estava trabalhando na lição, então. Você tem um emprego de meio período ou coisa assim?

Não. — Jack sacudiu a cabeça. — Estive tra­balhando numas outras coisas. Projetos especiais — acrescentou ele, quando Ellen franziu a testa.

Ellen fazia parte de um programa especial para os melhores alunos, por isso estava na maioria das aulas em que ele estava. Todas as classes em que ele estava, percebeu ele, de repente.

—        Eu estava observando você no treino de futebol — disse ela, as palavras saindo aos borbotões. — Quero dizer, observando o time. Você é muito bom, em especial no meio-de-campo. Mas não os deixe colocarem você na zaga, é o meu conselho.

Jack procurou uma lapiseira e uma resposta pelo menos parcialmente inteligente.

Obrigado. Você parece saber um bocado sobre futebol.

Eu costumava jogar como atacante e goleira na minha outra escola. — respondeu Eilen. — Mas não consegui jogar este ano. Quando me mudei para cá, os testes já tinham acabado. — Futebol feminino era um esporte de outono em Trinity.

Talvez você possa tentar de novo no outono. — "Brilhante. Aposto que ela nunca pensou nisso".

Jack pegou a folha da lição de matemática. Hesitou, batendo a lapiseira de leve contra a página.

—        Você gostaria de ficar até depois do treino de hoje à noite e ir até o Corcoran's depois?

Ela mordeu o lábio, então sorriu.

—        Seria ótimo. Só que... você se importa se o Will for junto?

Will? Jack nem sabia que Eilen e Will se conheciam.

É que eu estava falando com o treinador Slansky e me ofereci para ajudar com o time de futebol, e ele disse que Will estava planejando alguns exercícios com o time de juniores. Nós íamos nos encontrar depois do treino para conversar. Ela deu de ombros. A gente pode fazer isso outro dia, mas...

Não, não tem problema. Vamos todos. Um en­contro a três não era bem o que Jack tinha em mente, mas se Will e Eilen já tinham planos, então...

No treino, Jack não foi nada brilhante. A presença de Ellen não o deixava à vontade, e ele receava desenca­dear algum tipo de demonstração mágica.

Está se sentindo bem, Jack? perguntou Fitch durante um dos intervalos. Você parece meio tenso ou coisa assim.

Acho que machuquei um músculo qualquer no treino de ontem. Vai melhorar.

Foi um alívio quando o treino acabou. Olhou para Ellen, perguntando-se se ela notara o quão mal ele havia jogado. Na verdade, ela estava em pé junto à barraca de comida conversando com Will, fazendo embaixadinhas com uma bola, distraidamente. Era evidente que ela levava jeito.

Escolheram uma mesa no canto do Corcoran's. Pe­diram sanduíches e milk-shakes. Fitch estava sentado junto à janela da frente com Alison, a namorada gótica que estudava no St. Catherine, um colégio católico. Eles viviam rompendo e reatando; ela rompia com ele sem­pre que Marte estava em retrocesso. Ou algo assim.

Ellen e Will iniciaram uma discussão sobre estraté­gia, jogadores e datas e locais possíveis para exercícios. Ellen ficava tentando incluir Jack na conversa, mas ele se contentava em observá-la.

Quando ela conversava com Jack a sós, parecia de­sajeitada e envergonhada, como se navegasse por es­trelas desconhecidas. Mas agora que o assunto era fu­tebol, ela irradiava entusiasmo, rabiscando idéias em uma folha de caderno, brincando sobre o tamanho e o talento atlético de Will.

—        Ele sempre foi grande desse jeito? — ela pergun­tou a Jack, indicando Will com a cabeça. — Ele não tem exatamente o corpo de um jogador de futebol.

Jack estreitou os olhos em direção a Will, medindo-o.

—        Acho que ele era um pouco menor na pré-escola. Mas ele é bom em qualquer esporte. Ele era nomeado capitão, ou o pai dele era o treinador, e me escolhiam para o time. — Ele sorriu. — E então, é claro, a gente vencia.

Ellen estava estudando o cardápio de novo.

—        Vamos pedir sorvetes disse ela.

Will se levantou e pegou a conta dele.

—        Eu preciso ir. Minha mãe está me esperando pro jantar. Inclinou a cabeça para Ellen. A gente tenta nas quintas-feiras, então, a não ser que não se encaixe na agenda do senhor Hastings. A gente se vê, Jack.

Ellen olhou do cardápio para Jack em uma pergun­ta silenciosa.

—        Não tenho planos disse Jack, sorrindo, sa­bendo que Becka voltaria tarde. Quando você tem de estar em casa?

Ela deu de ombros, retribuindo o sorriso. Mais con­fortável do que ele jamais a vira.

Os sorvetes chegaram, com a caixa de coberturas de sundae que era a marca registrada do Corcoran's. Ellen cobriu o dela com calda quente de chocolate, cal­da de caramelo, nozes e chantilly. Jack fez o mesmo.

Alguém se sentou no banco de Jack.

—        Oi, Jackson. Era Leesha Middleton, vestindo um suéter felpudo branco e uma calça apertada de brim cor-de-rosa.

Com relutância, Jack deslizou para o lado, tentan­do criar espaço entre eles.

—        O que você quer, Leesha?

Leesha olhou em volta, inspecionando o público dela.

—        Estava pensando se você gostaria de ir a algum lugar comigo mais tarde.

Estou ocupado.

Não vai ficar ocupado a noite toda, vai?

Leesha lançou a Ellen um sorriso arrogante e pôs a mão na coxa de Jack.

Ele baixou os olhos para a mão dela, depois os er­gueu para encará-la.

—        Lobeck está com gripe ou o quê?

—        Veja quem fala. Sem querer ofender, mas acho que você não quer que as pessoas vejam você com o es­tepe que arrumou. Isso é patético.

Ellen se pôs em pé. Jack achou por um momento que ela ia embora, furiosa. Em vez disso, ela pegou a jarra de calda quente de chocolate e a derramou sobre a calça jeans cor-de-rosa e o suéter branco felpudo de Leesha Middleton.

—        Ops. Ellen se sentou novamente e voltou a tomar o sorvete.

Leesha deu um berro tão alto que poderia ser ou­vido no Canadá. Todos os olhos no Corcoran's estavam voltados para ela. Ela se levantou e passou um guar­danapo no jeans, o que não adiantou de nada. Então afastou o suéter do corpo puxando-o entre o polegar e o indicador para conferir o estrago.

—        Você... você... Não acredito que fez isso!

Eilen lambeu o chantilly das costas da colher e olhou calmamente para Leesha.

Leesha era pequena, mas pareceu se expandir, como um anfíbio inchando de ar. Empertigou-se e res­gatou a bolsa de couro cor-de-rosa do banco junto a Jack. Estava manchada de calda também.

—        Você vai pagar por isso, eu juro — disse Leesha a Ellen em um tom de voz que eriçou os pelos na nuca de Jack. Então ela girou nos calcanhares e saiu do res­taurante.

Por um momento, o Corcoran's ficou em absoluto silêncio.

Eilen olhou para o sundae de Jack, do outro lado da mesa.

—        Você vai terminar isso aí?

 

O dia seguinte era quarta-feira, dia da primeira ses­são de treinamento de Jack como guerreiro. Só isso já bastava para deixá-lo apreensivo. Além disso, a notí­cia sobre os eventos no Corcoran's havia se espalhado como fogo em palha. Eilen era a nova heroína de Fitch. Will não conseguia acreditar que perdera tudo por me­ros minutos. Lobeck andava de um lado a outro do cam­pus, derrubando estudantes do primeiro ano e outros objetos pequenos. Leesha parecia prestes a explodir. Mas Ellen faltara por motivo de doença.

Após o treino da tarde, Jack estava ajudando o treinador Slansky a recolher as bolas quando notou Hastings junto à lateral. Estava vestido para jogar, com agasalho, calção de futebol e tênis esportivos. Jack apa­nhou sua garrafa d'água e a bolsa de ginástica e estava caminhando na direção dele, quando alguém lhe tocou o braço. Era Ellen.

Ele piscou, surpreso.

Pensei que estivesse doente. Ela parecia bem pálida.

Bem... ah... estou melhor, acho disse ela, como se a pergunta a tivesse pegado completamente de surpresa. Escute, será que a gente pode ir a algum lugar e conversar?

Jack olhou para o outro lado do campo, onde Hastings o esperava, e de volta para Eilen.

Desculpe, agora não posso. Vou treinar com o senhor Hastings.

Com o Hastings? Ela olhou de Jack para o mago e de volta para Jack. Não sabia que estava trei­nando com ele.

Hoje é o primeiro dia disse Jack, em tom de desculpas. Posso encontrar você mais tarde, se qui­ser. Não sei quanto tempo vou levar, mas...

Ela sacudiu a cabeça.

—        Não, tudo bem. Eu... eu só tinha algumas per­guntas sobre a lição de casa que eu perdi. Posso pedir ajuda no plantão de dúvidas.

Ela se virou e se afastou rapidamente, os ombros curvados, como que se protegendo contra o mau tempo.

Jack a viu cruzar o campo de futebol em direção ao estacionamento. Depois foi até onde o mago, que sem dúvida assistira a toda a cena, o aguardava.

Quem era essa? indagou Hastings, indicando Ellen com a cabeça.

Ellen Stephenson, uma colega de classe disse Jack, ainda se perguntando o que acontecera.

Hastings franziu a testa, observando-a. Então vol­tou a atenção a Jack.

—        Está pronto para ir? A sua mãe concordou?

Jack assentiu. Becka só voltaria do escritório para casa bem tarde, de qualquer maneira.

Hastings guiou Jack até um Volvo preto com placa de Nova York no estacionamento. Jack atirou a bolsa de ginástica no banco de trás e sentou-se no banco do pas­sageiro. O interior estava limpíssimo. Nenhum adesivo esportivo ou pedaço de papel, nenhum resquício de co­mida no banco de trás. Nenhuma pista que conduzisse ao mistério que cercava aquele homem. Hastings tirou o carro do estacionamento e rumou para a cidade.

O senhor nasceu em Nova York? — perguntou Jack, com polidez.

Eu me mudei muitas vezes — respondeu ele. — Mais recentemente, estive em Nova York.

—        O senhor sempre foi professor?

—        Ensinar tem sido um dos meus papéis, embora não no chamado cenário tradicional.

—        Como conheceu a minha tia?

Pararam em um semáforo. Hastings se virou e o es­tudou atentamente por um momento, como se avaliasse quanto Jack já sabia.

—        Linda e eu somos velhos amigos — disse ele.

—        E o senhor veio a Trinity para ocupar a posi­ção do senhor Brumsfeld? — insistiu Jack. Achava di­fícil conciliar trabalhos rotineiros com o papel de mago. Pensou no mago no cemitério e não conseguiu imaginá-lo trabalhando como, digamos, um contador nos dias de semana.

—        Vim a Trinity para ensinar você, Jack disse Hastings. Meu trabalho no colégio me dá acesso e um disfarce conveniente. Só isso.

Jack o encarou. Aquele homem de aparência mortí­fera tinha vindo de Nova York para Ohio só para ensinar a arte do guerreiro para principiantes?

—        Por que faria uma coisa dessas? indagou Jack, antes de se dar conta do quão rude aquilo soara.

Para a sua surpresa, Hastings enrubesceu um pou­co, como se estivesse embaraçado.

Se quer mesmo saber, acho que foi porque eu não pude dizer não respondeu ele, olhando direto para a frente.

Oh. Linda o havia encantado? Não parecia muito provável. Jack decidiu que era hora de passar para território mais seguro. Aonde estamos indo?

Eu me associei a uma academia de ginástica. Reservei uma das quadras para uso exclusivo.

A academia ficava em um conjunto de prédios de escritório junto ao complexo viário. Dava para ver pes­soas correndo em uma pista circular por uma parede de janelas de vidro no segundo andar.

A área da recepção estava lotada de pessoas que tinham vindo se exercitar após o trabalho. Hastings di­gitou um código em um pequeno teclado no balcão. Eles passaram por um grande salão, entraram em um corre­dor nos fundos paralelo às quadras de raquetebol, às de aeróbica e de musculação. Hastings pegou uma chave e abriu uma das portas.

Parecia com uma quadra de raquetebol com o piso de madeira bem polido, mas tinha uma parede cober­ta por um espelho. Jack largou a bolsa de ginástica no chão.

Para que serve esta sala? — indagou ele.

Hastings sorriu.

Esgrima. Apropriado para nós, não acha?

Jack deu de ombros.

Não sei. Não sei bem que tipo de coisa a gente vai ver aqui. — Ele sabia que soava irritado, mas não se importava. Todo aquele mistério estava começando a lhe dar nos nervos.

Vocês guerreiros são pessoas impulsivas — replicou Hastings, com apenas um leve toque de ris­pidez na voz. — Vai ter de aprender a ter paciência, entre outras coisas. Vamos resolver o seu problema de controle hoje.

Hastings tirou o abrigo. Trajava uma camiseta por baixo. Ele parecera alto e esguio quando Jack o vira na escola. Jack estava surpreso ao descobrir que o diretor-assistente era musculoso, apesar de magro.

Você nunca treinou antes. — Não era uma pergunta.

Isso mesmo. Nada.

Jack removeu a camisa, revelando o colete por bai­xo. Hastings gesticulou com impaciência, e Jack despiu o colete também, ficando só de camiseta.

O mago andou ao redor dele, estudando-o de todos os ângulos.

Há quanto tempo parou de tomar a Antiweir?

Quê?

A poção que a doutora Longbranch deu pra você.

Oh. Uma semana atrás, mais ou menos. Hastings soltou um grunhido.

Já usou seus poderes antes?

Bom... — Jack hesitou. — Sempre que aconte­ceu, foi... acidental.

Quando estava zangado? Fora de controle? — in­sistiu Hastings.

Jack pensou no episódio no cemitério. Era difícil dizer quanto de magia estivera envolvida lá.

—        Zangado ou com medo, acho — admitiu.

Hastings tirou um pequeno objeto do bolso do cal­ção e o levantou para que Jack o visse. Parecia ser um pião, finamente laqueado e decorado com um padrão intricado de símbolos e pictogramas. Hastings o pouso no banco em frente ao espelho.

Faça-o girar — ordenou ele, afastando-se para o lado, as mãos na cintura. Aparentemente, Jack tinha de fazê-lo de onde estava.

O que isso tem a ver com...

A respiração de Hastings sibilou em frustração.

—        Olhe, nosso tempo junto é limitado, e você já está começando bem tarde. Apenas faça o que lhe digo.

Jack olhou para o pião, cheio de dúvidas.

—        Certo — resmungou ele.

Tentou focar toda a atenção no alvo, retesando-se e cerrando os dentes sem nenhuma estratégia em parti­cular. "Mexa-se!", sussurrou ele para si mesmo. O pião se manteve imóvel, irredutível. Jack deu de ombros.

—        Não está funcionando.

—        Tente relaxar. Não segure o fôlego. Imagine o pião girando.

Jack tentou de novo, sentindo o olhar atento do professor sobre si. O pião não se moveu.

—        Vamos tentar outra coisa. Hastings abriu o zíper da bolsa e tirou de dentro dois floretes leves com rolhas nas pontas. Passou um para Jack. Apenas faça o possível para manter a ponta do meu florete longe de você. Sem mais instruções, atingiu Jack com força embaixo das costelas.

Jack ergueu seu florete e tentou se defender dos ataques que agora vinham rápido e com força. Hastings atingiu o alvo mais uma vez, e outra ombro, peito, costas, estômago —, sem fazer esforço. Por mais que se concentrasse, Jack não conseguia se proteger ou ata­car. Gradualmente, Hastings o fez recuar até Jack ficar se defendendo num canto.

Jack foi ficando cada vez mais irritado. Aquele ho­mem devia ser um professor, não? Ele sabia que Jack precisava de treinamento, então por que o humilhava? Jack levou outro duro cutucão nas costelas, e algo nele se soltou. Foi como se uma energia quente tivesse se acumulado sem que ele percebesse em seus braços e nas pontas dos dedos. O braço da espada se ergueu, e chamas irromperam da ponta da lâmina. O florete de Hastings caiu ao chão.

Imediatamente, a outra mão de Hastings apareceu, lançando um arco do que parecia ser ouro em pó. A substância pairou no ar, cintilando.

—        Agora veja! ordenou Hastings. Ele agarrou o cotovelo de Jack e virou-o até que estivesse de frente para o espelho.

Jack estava no centro de uma estrela radiante deli­neada em purpurina, o corpo cercado por um contorno brilhante.

—        Agora desligue isso disse Hastings. Mantendo a atenção focada na imagem no espelho,

Jack começou a inspirar, como se inalando um sonho. Lentamente, a estrela se dissolveu diante de seus olhos, até que somente alguns vestígios de purpurina se refle­tiram sob a luz e apagaram-se.

—        Esse é o processo que queremos. O mago parecia estar se divertindo. Agora você tem de apren­der a concentrar a energia sem precisar ser provoca­do. E a controlar a energia, quando provocado. Use o braço da espada, se for útil. Você precisa perceber o fluxo de energia para controlá-la. É como o vapor se acumulando numa caldeira. Você precisa liberar antes que ocorra a explosão. Apontou novamente para o pião sobre o banco. Tente de novo. Agora você sabe qual é a sensação. Localize a energia. Não é muito difícil. Depois, direcione a energia pelas pontas dos dedos.

Jack fechou os olhos e traçou uma pequena ima­gem do pião no vazio diante de seus olhos. Coloriu-a e acrescentou a misteriosa inscrição na lateral. Depois o fez girar em sua mente, cada vez mais rápido, até que as cores se fundiram em um borrão exótico. Sentiu um formigamento nas mãos, como o sangue retornando, a energia escoando pelos dedos. Quando abriu os olhos, o pião estava girando com firmeza cerca de trinta centí­metros acima do banco.

— Agora faça com que ele pare — instruiu o professor.

Sem fechar os olhos desta vez, Jack conteve a ma­gia, permitindo que o pião pousasse suavemente na su­perfície arranhada do banco de madeira. O pião girou em silêncio por um momento até cair de lado e parar. Hastings lançou o punhado de ouro de novo. Havia um brilho suave em torno de Jack desta vez, menos nítido do que antes. Jack reembainhou as armas, e a imagem se dissipou como antes.

Seguiram-se vários exercícios similares, em que Jack acumulava energia mágica e depois a descarre­gava. Finalmente, passaram algum tempo trabalhando com o florete, começando com movimentos clássicos de esgrima, depois acrescentando magia. Jack apren­deu a conter o poder, canalizá-lo para a lâmina e enviar chamas em espiral a partir da ponta quando queria. Lembrando do modo como se sentira no cemitério, o casamento da carne com o metal, e do ataque bem-sucedido contra o mago, Jack se perguntou quanto havia contribuído para que aquilo ocorresse.

—        Eu tenho uma espada. A Sombra Assassina, esse é o nome dela. O que me pergunto é quanto da magia está em mim e quanto está na espada?

A princípio, Jack achou que não obteria uma res­posta para essa pergunta. Hastings franziu o cenho e passou os dois floretes para Jack sem nenhum co­mentário, indicando que deveria devolvê-los à bolsa. Também lhe entregou o pião e uma pequena bolsa de camurça macia.

—        O pião é um brinquedo dos magos — disse Hastings. — Você pode usar para praticar o controle em casa. Tem mais do pó brilhante na bolsa.

Jack guardou ambos os itens em sua bolsa de gi­nástica.

A autoconsciência é o primeiro passo — conti­nuou Hastings. — A prática é a chave. Logo você vai saber manejar seu poder de forma intuitiva, e isso, mais do que tudo, vai manter você a salvo. Só então vamos passar para outros treinos.

A tia Linda disse para eu não usar meus poderes, disse que isso enviaria alguma espécie de sinal.

Ela quis dizer que você não deve usar os pode­res como entretenimento. É claro que precisa prati­car, ou nunca vai se aprimorar. Magia não é uma fer­ramenta para ser usada de maneira imprudente ou insensata. Precisa ser domada por um intelecto for­te o bastante para mantê-la sob controle. Fale com o Snowbeard. Se ainda não há feitiços de proteção sobre a sua casa, ele pode providenciar isso. — Hastings o fitou com as mãos na cintura. — Você sabe de quem está se escondendo, Jack?

Embaraçado, Jack sacudiu a cabeça.

Hastings franziu a testa e esfregou o queixo com o polegar.

—        Vamos continuar a nos encontrar para trabalhar as suas habilidades nas segundas, quartas e sextas. Estou trabalhando com alguns dos outros jogadores de futebol também, por isso não vai parecer estranho. — O mago estava dando ordens de novo, quase que incons­cientemente.

Hastings se voltou para a porta, mas parou, a alta estatura preencheu a entrada.

—        A Sombra Assassina é uma das Sete Grandes Espadas forjadas pelo feiticeiro Althis Mac, na Ravina do Corvo, há mais cinco séculos. As outras seis foram perdidas. O corpo da espada é um pedaço da Cabeça do Corvo. Há um poder fortíssimo nela, e foi feita para a sua mão. Outros podem brandir a Sombra Assassina, mas não tão bem quanto o herdeiro, quando treinado de modo apropriado. — Ele fez uma pausa. — Há um poder considerável em você também, Jack, apesar de seu histórico incomum. Com a arma que tem e o treina­mento adequado, você pode se tornar... impressionante. Vamos embora.

A lição terminara.

 

Jack avançou implacável contra Hastings, o corpo posicionado de forma a representar um alvo menor, o cotovelo para cima e a espada estendida para impedir uma fuga pela direita, o pequeno escudo protegendo o peito. O mago não lhe dava moleza, obrigando-o a se esforçar a cada passo de sua evolução. Aço encontrou aço com guinchos e faíscas, e, quando Jack pensou que havia encurralado o professor, Hastings girou para lon­ge da parede, a lâmina sibilando em direção a Jack ao nível da cintura. Jack teve de pular para trás para evitá-la, e Hastings estava livre de novo, com espaço às cos­tas e Jack contra a parede.

Esta... sala é... pequena... demais! — Jack ar­quejou, forçando-o a se afastar mais uma vez.

Você nunca chegaria perto de mim numa sala maior — replicou o mago, os dentes brilhando num sorriso, embora estivessem treinando há mais de uma hora. — Nem sempre se consegue escolher onde se luta, ou com quem se luta... ou mesmo... como se luta. Mas dê um jeito para que seja você quem faz a escolha... sempre que puder.

Hastings continuava ensinando, mas agora dava para notar-lhe a respiração. Talvez estivesse mais lento para bloquear os ataques, aparando as chamas. Talvez estivesse sem fôlego, só um pouquinho.

Vamos ter de terminar isso... você sabe. A sua mãe está esperando por você.

Você se rende? — perguntou Jack.

O ombro de Jack estava dormente por causa das centenas de colisões que já absorvera. Sentia os pesos nos pulsos e tornozelos, colocados ali com o intuito de fortalecer os músculos e prepará-lo para uma espada mais pesada. Até o florete estava ficando mais pesado, ou talvez fosse o braço de Jack, agora pesado demais para levantar.

—        A sua mãe pode esperar um pouco mais — res­pondeu Hastings.

Lentamente, Jack empurrou Hastings pela sala até este se encontrar mais uma vez contra um canto. Jack impulsionou o braço da espada para a frente, e Hastings se moveu para aparar. Naquele momento, Jack endirei­tou o braço do escudo, expondo o peito, mas liberan­do a mão não dominante. Chamas voaram em espiral a partir das pontas de seus dedos, e o florete de Hastings caiu ao chão. Hastings ergueu as mãos, capitulando.

—        Eu me rendo, guerreiro — disse ele, sorrindo.

Jack voltou a ponta da espada para o chão.

—        Graças a Deus disse ele.

Jack apanhou uma toalha e esfregou-a no rosto. O cabelo estava colado à cabeça e a camisa, ensopada. O piso estava escorregadio de suor. A sala fedia a suor.

—        Da próxima vez, vamos trabalhar mais com o machado prometeu o mago. Acho que você está começando a aprender a brincar com as duas mãos.

—        A gente estava brincando, não é? Jack sorriu.

—        É a primeira brincadeira que eu venço. Sentiu a necessidade de enfatizar o fato, no caso de Hastings não ter percebido.

—        Você melhorou muito, Jack. Hastings era sempre econômico em elogios e pródigo em cobranças.

—        Como está se saindo com a leitura?

—        Estou tentando.

—        Não pedi pra você tentar.

Jack fez uma careta.

—        É como inglês shakespeariano sem a poesia — queixou-se ele.

As aulas com o mago eram sobretudo físicas, mas Hastings havia lhe dado recentemente um fino volume intitulado Leis de Combate. Era uma espécie de Bíblia da luta no torneio Weir, tratando de elementos da vesti­menta, armamentos e etiqueta de batalha. O armamen­to era explicitamente limitado a armas de mão medie­vais, como espadas, fundas, maças e outras armas do gênero.

Hastings não respondeu, e Jack insistiu:

—        Não entendo por que eles não se atualizaram.

As leis são para os torneios — disse Hastings com paciência, secando os floretes e devolvendo-os ao estojo. — Não foram feitas para serem modernas. Não se permite que as armas ofusquem as habilidades dos guerreiros.

Mas não é verdade que algumas armas são me­lhores que outras? E quanto à Sombra Assassina? O que tem de justo nisso?

Hastings deu de ombros.

Essa é uma peça especial. Mas ainda dentro das regras.

E quanto ao resto? Você não tem como negar que está bem desatualizado. — Ele tirou o livro da bolsa de ginástica e o folheou. — Escute isso: "Os encantado­res foram criados para o entretenimento dos magos". E aqui: "Um mago responsável pode escolher manter e proteger um encantador em troca de serviços presta­dos". Isso não pode estar certo. E as regras governando as relações entre as ordens são injustas. Todas favore­cem os magos. — Ele havia ouvido falar de coisas assim, leis municipais obsoletas que ainda estavam nos livros. Regras que proibiam o casamento inter-racial ou entrar a cavalo em igrejas, por exemplo.

Você não tem de gostar das regras — replicou Hastings. — Foram escritas por magos, então é claro que são parciais. E eu não falei pra você ler a coisa toda. Só o regulamento do torneio.

Esse já é ruim o bastante. Que negócio é esse de chamar guerreiros mortos pra combates de treinamento?

Por que é preciso ter uma regra de que apenas guerrei­ros vivos podem ser usados em batalha?

—        Vamos falar sobre isso quando chegar a hora. — A essa altura já haviam guardado tudo. — É melhor irmos. Você já está atrasado.

Jack percebeu que Hastings estava perdendo a pa­ciência, mas não conseguiu se conter.

Não entendo por que tenho de aprender sobre torneios, afinal. Você acha que um mago vai me desafiar para algum tipo de duelo? É mais provável que eu seja pego de surpresa. Talvez você devesse me ensinar lutas sem armas, como tai chi.

Talvez. Talvez eu faça isso. Mas não vim aqui para discutir com você. Vamos. — Hastings pousou uma mão quente no ombro de Jack, empurrando-o por­ta afora.

Era sempre assim. O mago nunca respondia às per­guntas dele. Hastings era incansável ao ensinar cada aspecto de seu novo talento — armas, equipamento, condicionamento e treinamento físico —, mas não com­partilhava nada sobre o próprio passado.

Jack tentara anteriormente fazer perguntas sobre a família de Hastings, sobre onde ele recebera seu trei­namento. Dera de cara com um muro de pedra. O foco estava sempre em Jack. Às vezes, Jack tinha a sensa­ção de que Hastings lidava com ele como se ele fosse um problema, descascando gradualmente as camadas exte­riores até que se revelasse por inteiro. Ou talvez a pes­soa que ele costumava ser estivesse sendo desmontada.

Jack só não tinha muita certeza de quem estava toman­do seu lugar.

Não tivera notícias de tia Linda desde a viagem a Coal Grove. Ela o abandonara com Hastings. Será que ainda estava fugindo de Wylie? E se ele a tivesse apa­nhado?

Queria poder telefonar para ela. Sentia-se solitário e nervoso. Até seu relacionamento com Nick havia muda­do. Nos velhos tempos, o apartamento sobre a garagem havia sido um refúgio. Agora, certas noites ele ia direta­mente das lições sobre a arte do guerreiro às lições de magia sem nenhum intervalo. Como nesta noite.

A voz de Nick interrompeu seus pensamentos.

Lembre-se de que, de todos os Weirs, só os magos sabem usar feitiços para explorar e controlar a magia. Nas outras ordens, a magia é pessoal e manual. É mais um poder físico. Menos versátil. Está me ouvindo, Jack?

Menos versátil repetiu ele, obediente, morden­do outro biscoito com gotas de chocolate. Andava sem­pre faminto naqueles dias.

Os magos são artesãos sofisticados da magia, e é por isso que têm sido capazes de dominar os outros Weirs por séculos. Nick encontrou uma passagem marcada no Livro Weir de Jack. Agora, vamos repas­sar o que vimos na semana passada. Transformare: a arte de transformar uma coisa em outra.

Estavam estudando o Livro Weir, capítulo a ca­pítulo. Feitiços falados para mover objetos, confun­dir o inimigo, barreiras e feitiços de ataque. Feitiços pequenos o suficiente para testar no apartamento sobre a garagem.

Quando você vai me ensinar alguns encantos de amor? perguntou Jack, pensando em Ellen.

Vamos guardar esses para quando você for mais velho e responsável observou Nick secamente. Encantos de sedução são tentadores demais para o ado­lescente típico. Vai ter de confiar no seu encanto pesso­al por enquanto.

Só estou tentando ser eficiente grunhiu Jack. Com o futebol e a escola, mais o treinamento como guerreiro e mago, além de ler todos os livros que você me dá, não sobra tempo pra muita coisa.

Nick passava livros novos para ele toda semana: en­saios sobre magia, poções e filosofia, volumes empoei­rados que pareciam ter ficado fechados por anos.

Há sempre tempo para as coisas mais importan­tes disse Nick suavemente.

Não me venha com esse papo furado sobre ge­renciamento de tempo. Jack suspirou e enterrou o rosto nas mãos. Só o que faço é estudar e treinar com Hastings. Eu nunca durmo. Minhas notas estão cain­do. O que eu quero saber é se vou ter de estudar assim para sempre.

A magia se manifesta cedo, você se lembra repli­cou Nick. A maioria dos aprendizes começa a trabalhar com isso quando bem jovens. Você tem de recuperar o tempo perdido. Além disso, por causa da pedra de guerrei­ro, os seus poderes de mago são relativamente fracos.

—        Talvez eu deva simplesmente largar a escola, ago­ra que estou aprendendo um ofício. Quando Nick não lhe deu uma resposta, Jack se levantou e começou a ca­minhar pela sala. Não entendo por que tenho de fazer isso tudo. A tia Linda me disse que eu tenho de estar preparado pra me defender contra alguém que possa me atacar. Não sei quem e não sei quando. Francamente, não acho que tenha alguém atrás de mim. Talvez Wylie estivesse atrás da Sombra Assassina e eu simplesmente estava no caminho. Só tenho dezesseis anos, e só faz uns dois meses que comecei a treinar. Um mago teria de ser estúpido pra achar que eu posso ser uma grande ameaça ou um grande aliado.

Ele fez uma pausa.

—        A mãe diz que, quando alguém compra armas ou reúne um exército, começa a procurar um pretexto para fazer uso deles. E mais: torna-se uma ameaça muito maior aos outros. Quanto mais treinamento eu recebo, maior a probabilidade de que alguém venha atrás de mim. É o que eu penso.

Jack olhou de esguelha para Nick, avaliando a reação dele à sua teoria. Estivera pensando naquilo por algum tempo.

—        Certo. Linda não falou pra você sobre o Jogo disse Snowbeard. — Sente-se aqui, Jack.

Jack se sentou na cadeira diante do velho mago. Tinha uma forte premonição de más notícias chegando.

—        O conflito entre os magos é altamente ritualiza-do, por necessidade começou Nick. Caso contrário, nós nos destruiríamos uns aos outros, certo? Na verda­de, quase fizemos isso. A luta é usada para demarcar o poder. Em particular, o controle de artefatos mágicos. As Casas dos Magos ganham poder por meio de uma vitória. Originalmente, havia batalhas de verdade entre exércitos criados e liderados por magos. Mas isso evo­luiu para uma série de torneios. Eles usam os guerrei­ros como substitutos. Chamam isso de o Jogo. Só que, para os guerreiros, não é um jogo coisa nenhuma. É uma luta até a morte.

—        Hoje em dia é difícil achar guerreiros — conti­nuou Nick. — São os mais raros dos Weirs, e estão fi­cando cada vez mais raros, pois são mortos muito ra­pidamente. Poucos torneios acontecem hoje em dia por causa da falta de jogadores. E, quando um lado localiza um guerreiro, o outro lado faz o que pode para matá-lo.

Jack sacudiu a cabeça, incrédulo, enquanto Snowbeard prosseguia:

Há até mesmo um mercado negro de guerreiros e Weirs não magos, que chamamos simplesmente de Mercado. Os guerreiros são vendidos pelos maiores pre­ços. Há também mercadores que trabalham em tempo integral estudando genealogias, seguindo pistas, caçan­do e sequestrando guerreiros para lucrar com a venda. Eles tentam encontrar jovens guerreiros como você, que estão começando a manifestar o poder e ainda não se deram conta de quem são.

Eles compram e vendem pessoas? — Jack estava escandalizado. — Eles não podem fazer isso! É ilegal.

Snowbeard sorriu com tristeza.

—        Queria que isso fosse verdade. Mas qualquer um com poder suficiente pode fazer o que quiser. E os ma­gos são um bando poderoso e arrogante. Na perspectiva de um mago, as outras ordens são uma classe servil com talentos específicos. Aqueles que acreditam nisso pensam nas outras ordens como propriedade e, portan­to, como uma mercadoria negociável.

—        Quantos guerreiros ainda restam? Nick o olhou nos olhos.

—        Bom, neste momento, tem você, que eu saiba disse ele gentilmente. Pode haver outros dos quais eu não saiba.

Jack abriu a boca, mas nenhum som saiu. Tomou subitamente consciência do suor escorrendo entre os ombros, apesar da brisa agradável que entrava pela janela.

Agora as coisas estavam se tornando claras para ele. Porque sua tia estava convencida de que os magos viriam atrás dele, mais dia, menos dia. Porque Leander Hastings viera de tão longe até Trinity para treiná-lo. Porque Nick Snowbeard morava sobre a garagem dos Swifts. Porque a doutora Longbranch iria... Um tremor correu pelo corpo de Jack.

—        A tia Linda disse que a doutora Longbranch im­plantou a pedra de guerreiro em mim porque queria ver o que ia acontecer. Jack se inclinou para a frente, as mãos agarrando os braços da cadeira. Ela estava tentando criar um guerreiro, não é?

Desconfio que sim disse Nick baixinho.

Então eu sou algum tipo de aberração. O Franken­stein do mundo dos magos. Por que a tia Linda não me contou? indagou Jack.

O velho mago coçou a barba.

Linda se sente... responsável por você. Foi ela quem envolveu a doutora Longbranch nessa história. Ela fez isso para salvar a sua vida, Jack. Mas a sua si­tuação tem sido difícil para ela.

Difícil para ela? Jack estava em pé de novo. Difícil para ela? É por isso que você fica por aqui, você e Mercedes e íris e... e todos os outros? Porque eu sou tão valioso? Vocês todos têm planos de lucrar comigo?

Nick permaneceu imóvel, o olhar firme e gentil, até que Jack finalmente se deixou cair novamente na cadei­ra, corado e embaraçado.

—        Apesar de não sermos guerreiros, somos todos pessoas que desaprovam esse sistema. Assim como os que mantinham as rotas clandestinas para a fuga de es­cravos aqui nos Estados Unidos no século XIX. Estamos aqui porque você está em perigo. É por isso que come­çamos o treinamento. Foi o melhor plano que pudemos imaginar. Pode acreditar, é uma vantagem tremenda que você possa usar magia. Não é má ideia ter algu­mas surpresas escondidas na manga. Se quiser sobre­viver, precisa ter armas à sua disposição além das que o Hastings vai dar a você.

Jack cobriu o rosto com as mãos. Quando fechou os olhos, viu uma imagem de si mesmo acorrentado, sendo leiloado em um mercado de escravos. Uma imagem de si mesmo como um gladiador diante de uma multidão sedenta de sangue.

—        O que você sabe sobre Leander Hastings? per­guntou ele abruptamente.

Se Snowbeard ficou surpreso com a pergunta, não demonstrou.

—        Hastings é o que chamamos de um mestre, o que significa que ele é especialista em diversas artes mágicas. São os melhores professores, pois conseguem desenvolver os alunos em várias áreas. É claro, a maio­ria dos mestres têm suas especialidades. A do Hastings é o combate. Mas ele é, acima de tudo, um mago. Uma combinação pouco usual de talentos perfeitamente ade­quada para a sua situação acrescentou ele.

—        Como sabemos que podemos confiar nele?

—        Leander Hastings é o melhor. Tem reputação internacional, embora tenha feito muitos inimigos ao longo do caminho. O velho pigarreou. Acho que não foi fácil para ela fazer essa escolha. Entenda, sua tia Linda e Leander Hastings estavam... ahn.... juntos, anos atrás.

Jack estava chocado. Tentou imaginar os dois jun­tos, sua tia, pequena e radiante, com o alto, sombrio e perigoso Leander Hastings.

Eles não estão mais... Jack não completou a frase, mas nem precisava.

Não o velho replicou rapidamente. Eles não se vêem há anos.

Oh. A raiva de Jack se dissipava, deixando-o com uma devastadora sensação de desespero. Eu perguntei ao senhor Hastings por que ele está fazendo isso, e ele disse algo sobre não ser capaz de dizer não. Não tenho certeza de que ele quer estar aqui.

Hastings não estaria aqui se não quisesse de­clarou Nick. Jack, não tente entender tudo de uma só vez. É muito difícil lidar com tudo isso. Concentre o seu foco. A sua tarefa é aprender a usar todas as ferramen­tas que tem à disposição. Por exemplo...

Mais uma vez, o mago se ergueu com esforço e ar­rastou os pés até o quarto ao lado. Voltou alguns mi­nutos mais tarde com um pacote embrulhado em couro macio. Entregou-o a Jack.

Jack o desembrulhou. Era um espelho, emoldura­do em prata, decorado com dragões e magos. Era fami­liar. Blaise Highbourne lhe dera como presente quando era bebê. Havia sido guardado no baú embaixo da cama de Jack por anos.

Jack o virou entre as mãos.

Onde conseguiu isto?

Isso pode ajudar você, agora que parou de to­mar Antiweir por algum tempo. Blaise é um adivinho. Isto é um espelho que mostra a verdade: no passado, no presente e, às vezes, no futuro.

Já tem coisas assustadoras o bastante no pre­sente disse Jack. Não quero saber o futuro. Ele não olhou para o espelho.

—        Dê uma olhada — sugeriu Nick. — Mas tenha em mente que o significado da imagem nem sempre é claro. É a maldição da profecia.

Com cautela, Jack puxou o espelho para si, virando-o de forma que pudesse ver o lado de vidro.

A imagem clareou, revelando duas figuras em pé sobre uma ribanceira alta junto a um rio. Jack esfregou os olhos, espantado, e voltou a olhar para o espelho.

Viu uma mulher jovem em um vestido longo, o ca­belo louro-avermelhado voando solto, e um homem alto e magro a encarando, de costas para Jack. Estavam dis­cutindo com fúria. A mulher se virou e tentou saltar do penhasco, mas o homem a puxou de volta e derrubou-a no chão, pressionando-a com o corpo. Jack queria des­viar o olhar, mas estava fascinado.

A imagem mudou, focando o rosto da mulher por sobre o ombro do homem, os assustados olhos azuis, os cabelos flamejantes espalhados pela pedra.

—        Não... — sussurrou Jack, mas não desviou o olhar.

O homem no espelho se inclinou para a frente a agarrou os ombros da mulher.

—        Escute-me agora. Você vai dizer onde escondeu o menino, e nós vamos lá buscá-lo. E então vou levar você embora daqui. — A voz era assustadoramente familiar, mas tudo o que Jack podia ver era a nuca do homem.

De repente, a mulher tinha uma faca nas mãos, como se colhida do ar. Girando a lâmina, ela se esfa­queou. O homem a segurou nos braços, ninando-a, ba­lançando-a para a frente e para trás.

Aaaaaaah! — Jack jogou o espelho contra a pare­de. Este não quebrou, mas caiu atrás da estante.

O que você viu?

Eu vi um cara atacando a minha mãe, exigindo saber onde eu estava. E aí ela se matou.

Tem certeza de que era a sua mãe?

Acha que eu não a reconheceria? — Jack estre­meceu. Recuperou o espelho de trás da estante e o pôs sobre a mesa com a face de vidro para baixo. — Agora nem olhar no espelho é seguro.

Como ela estava vestida?

Jack considerou a pergunta.

Como... bom, em algum tipo de roupa de época.

—        Certo. Talvez uma ancestral, então, que apenas se parece com a sua mãe. O espelho vai tentar dizer coi­sas que você precisa saber. Mas você tem de interpretar o que vir.

—        Escute, eu não preciso ver isso, está certo?

—        Tudo bem, Jack. Vamos deixar isso de lado por enquanto.

 

Jack tentou seguir o conselho de Snowbeard nos dias que se seguiram, ao menos quanto a se concentrar na tarefa que tinha a cumprir. Não achava que tivesse es­colha além de ir em frente. A pior parte eram os sonhos. Jack começou a adiar o momento de ir para a cama até que estivesse absolutamente exausto. Todas as noites ele precisava travar batalhas com mercadores e mons­tros, amigos e parentes que se voltavam contra ele e o vendiam pelo valor mais alto. Seus amigos, professores, parentes, vizinhos, todos passavam por seus pesadelos, interpretando diferentes papéis. Durante o dia, sentia-se nervoso e mal-humorado, sempre em guarda.

O relacionamento com os vizinhos mudara. Come­çara a compreender que todos na rua Jefferson haviam investido nele. Quando Mercedes acenava para ele do jardim da frente da casa dela, ele pensava no colete ma­cio junto à pele. Quando íris trazia ervilhas para Becka, sorria para Jack em encorajamento, perguntava como estava, se precisava de alguma coisa. Blaise lhe fez um par de luvas com acabamento em prata, com a inscri­ção A FORÇA ATRAVÉS DA VIRTUDE. Jack sentia-se alternadamente seguro e sufocado na fortaleza da rua Jefferson.

Algo peculiar estava acontecendo com o corpo de Jack. Suas camisas se tornaram apertadas no tórax e nos braços e o jeans, justo nos quadris. Ele disse à mãe que começara um programa de levantamento de pesos na escola. Ela o levou para comprar roupas novas duas vezes em dois meses. Às vezes ele ficava se olhando no espelho após o banho, espantado. Jack sempre fora ma­gro e tivera boa forma física, mas agora se via diante de um estranho musculoso.

Passou a vestir camisas de flanela e jeans largo para ocultar a metamorfose, o que dava certo quando o tempo estava fresco. Não ajudava quando ele estava no campo de futebol ou no vestiário. Seria engraçado, se Jack não estivesse tão apreensivo. Lá estava ele ten­tando esconder o que a maioria dos rapazes na idade dele adoraria exibir. Pareço um garoto-propaganda de esteróides, pensou ele. Considerou todas as poções que estava tomando e se perguntou se conseguiria passar num exame de urina.

O futebol, pelo menos, estava definitivamente me­lhorando, agora que não tinha de se preocupar em man­dar alguém voando para fora do campo. Não que a ideia não fosse tentadora às vezes. Garrett Lobeck parecia ter recuperado a velha arrogância no que se referia a Jack. Ele ainda culpava Jack por não ter entrado no time prin­cipal. E o interesse persistente de Leesha em Jack não o ajudava em nada. Com receio de perder o controle, Jack fazia o possível para evitar um confronto. Naturalmente, Lobeck via isso como um sinal de fraqueza.

Jack estava jogando melhor do que nunca. Estava mais forte, agressivo e veloz — mais disposto a correr riscos. Parecia que as qualidades necessárias na arte do guerreiro eram igualmente úteis em jogos menos mor­tais. O sucesso de Jack não melhorava o estado de es­pírito de Lobeck em nada.

Ironicamente, a estrela de Jack parecia estar em ascensão no gráfico social do Colégio de Trinity. Agora, Jack encontrava seu armário todo decorado antes de cada jogo e tinha o seu próprio grupo de torcida. Meninas que Jack conhecera a vida inteira de repente o achavam totalmente fascinante.

Via Eilen com frequência, mas sempre no meio de um bando de gente. Nos dias em que não se encontrava com Hastings, muitas vezes dava um pulo no Corcoran's depois do treino. Eilen se tornara cliente regular lá des­de que ela e Will começaram os exercícios com o time juvenil.

Will e Eilen formavam uma boa dupla, o contras­te entre eles ressaltando as qualidades de cada um. Will era eternamente paciente com os jogadores menos competentes, enquanto Eilen pregava um jogo agressi­vo, estilo europeu de confronto. Sob a tutela dos dois, a equipe melhorara de modo espetacular. Até alguns dos jogadores do time principal tinham começado a participar.

Will, Fitch e Eilen haviam se juntado à Sociedade Chauceriana, um clube de cultura medieval fundado por Hastings. Estavam planejando um banquete medie­val em um velho teatro no centro da cidade antes do fim das aulas. Jack não participava do clube. Já passava tempo suficiente com Leander Hastings.

Jack se sentia cada vez mais isolado pelo fardo que carregava e pelos segredos que guardava, pela exaustão mental e física e o medo contínuo de que o descobrissem.

Certa tarde, Jack, Will e Fitch permaneceram no Corcoran's após uma vitória sobre o Colégio McKinley. Eilen tinha faltado à aula de novo, e Jack se viu preocupado com a saúde dela. Ela parecera bem no dia anterior.

Leesha tinha acabado de sair, após distribuir convites para sua festa de aniversário.

A Leesha ainda quer você, Jack comentou Fitch. A princesa quer o que não pode ter.   

Ela vai ter de entrar na fila, se quiser tempo com o Jack disse Will devagar. Perdi a conta das meninas que vieram me perguntar de quem ele gosta. E eu nem sei o que dizer pra elas. Estava estendido na ca­deira, as longas pernas esticadas à frente. Você sabe que a Eilen é louca por você.

Jack se sentou com as costas mais eretas.

—        Como assim? Ela disse alguma coisa? Ela não me disse nada. Parece que eu nunca consigo nem con­versar com ela.

Will revirou os olhos.

—        Ela simplesmente não sabe como lidar com a competição. Mas, falando sério, Jack, a gente está se perguntando o que está acontecendo. Ele se inclinou para a frente. Tem algo diferente em você. Fisicamente, parece ótimo. Ganhou um monte de músculo. E está jo­gando muito bem, como nunca vi você jogar antes.

Jack estremeceu e deu uma olhada no restaurante em torno. Estava ficando tarde, e o lugar estava quase vazio. Não havia ninguém em condições de ouvir a con­versa entre eles.

—        Mas é como se você estivesse em outro planeta continuou Will. Você nem escuta o que a gente fala metade do tempo. E está sempre estudando ou se exercitando.

Fitch tinha um lápis na mão e estava rabiscando em um guardanapo.

Você nunca mais está on-line à noite. Uma hora está ligadão e na outra está caindo no sono durante a aula. Eu diria que você está apaixonado, mas as meni­nas se jogam aos seus pés e você nem nota. Seria legal se você mandasse algumas pro meu lado acrescentou ele. Aparentemente, ele e Alison haviam se separado de novo, e Jack nem soubera.

A gente está pensando se isso tem algo a ver com aquele lance do cemitério disse Will baixinho.

Jack desmoronou na cadeira, pousando os coto­velos na mesa. Ele havia subestimado os dois amigos e sua habilidade de chegar tão perto da verdade. "Não confie em ninguém", tia Linda lhe havia dito. Mas fora ela quem envolvera Will e Fitch na história. No final das contas, ele não precisava dizer muito.

Fitch assentiu com a cabeça quando Jack não res­pondeu, como se este houvesse confirmado a sugestão. Ele se recostou na cadeira.

—        A sua tia voltou?

Jack sacudiu a cabeça negativamente, sem falar.

E você não tem dormido bem, aposto disse Will.

Acho que não é um assunto sobre o qual você possa conversar com a sua mãe disse Fitch len­tamente.

Jack ergueu a cabeça de repente. O rosto de Fitch era inescrutável. Os amigos de Jack já estavam em perigo por causa do episódio no cemitério e do relacionamento com ele. E eles não haviam herdado nenhum dom espe­cial. Não tinham armas mágicas à disposição. Quanto menos soubessem, melhor... para o bem de todos.

Olha — disse Jack, cansado. — Agradeço a preocupação. Mesmo. Mas é um problema que vou ter de resolver sozinho.

Não entendo por que não podemos ajudar você nisso — disse Will, com teimosia. Ele sempre confiara que seu tamanho, boa vontade e habilidades diplomáti­cas poderiam resolver qualquer problema.

Fitch pegou um punhado de notas e a conta.

—        Não somos casamenteiros, e eu tenho minha própria vida amorosa com a qual me preocupar. Mas me parece que você não está muito feliz. Por que não tenta se divertir um pouco pra variar? — Ele empurrou a cadeira para trás. — Mal é que não vai fazer.

 

Na noite seguinte, após o treino de futebol, Hastings levou Jack de carro até sua casa para apanhar a espada. Jack tinha a sensação de que toda a rua Jefferson observava quando o Volvo estacionou. Para sua surpresa, Hastings desligou o motor e seguiu Jack até dentro de casa. Becka ergueu os olhos da escrivaninha na sala da frente quando eles entraram. Estava descalça, vestindo calça jeans e uma camiseta, com o cabelo preso no topo da cabeça com um clipe. Estava trabalhando no laptop, com pilhas de papéis espalhados por todo o piso. Ela se levantou e saiu ao saguão da frente.

— Oi, querido. Não achei que fosse voltar pra casa tão cedo. — Ela deu um rápido beijo em Jack, olhando por cima do ombro dele para o homem alto que o acompanhava.

Jack tivera esperanças de conseguir entrar e sair da casa sem ser notado.

—        Ahn, este é o senhor Hastings. Ele é o novo diretor-assistente, eu falei dele pra você. É ele quem está me ajudando no futebol.

—        Ora, é bom conhecer o senhor, afinal — disse Becka, afável. — É muito gentil de sua parte passar tanto tempo trabalhando com Jack. Eu estive em alguns dos jogos e notei quanto ele progrediu. — Ela lhe estendeu a mão.

Hastings tomou a mão dela entre as suas e a segurou por alguns segundos mais do que o necessário.

—        Seu filho tem muito talento natural. — Ele absorveu cada detalhe da aparência de Becka daquele seu jeito intenso, depois passou os olhos pela sala. — Tenho apreciado trabalhar com ele.

Jack estava ansioso para tirar Hastings da casa o mais rápido possível.

—        Vim pegar umas coisas para o treino — explicou ele, embora ninguém parecesse estar escutando. Subiu as escadas dois degraus de cada vez. Ouviu a voz de Hastings atrás dele.

—        Dá pra ver que o seu filho puxou à senhora — ele estava dizendo.

Jack removeu a espada e a bainha da caixa e conseguiu enfiá-las dentro da bolsa de viagem que tirou do armário. Acrescentou algumas toalhas do guarda-roupa para servir como acolchoamento e fechou o zíper. Quando voltou para o andar de baixo, Becka estava inclinada contra o batente da porta, rindo de algo que Hastings dissera, revirando uma mecha de cabelo ao redor do dedo. O mago sorria, mas Jack não conseguiu deixar de imaginar que havia algo de predatório na postura dele.

—        Tudo pronto — disse Jack, bem alto.

—        Vão chegar muito tarde? — Becka olhou de um para o outro.

—        Oito e meia está bem? — indagou Hastings. — Vamos começar com um pouco de atraso hoje.

—        Está ótimo — disse Becka. — Jack e eu somos flexíveis.

E, com isso, Jack e Hastings finalmente deixaram a casa.

Jack pôs a bolsa no banco de trás e subiu no da frente.

—        Aonde vamos? — perguntou ele quando o carro se afastou do meio-fio.

Hastings não respondeu. Parecia perdido em pensamentos. Jack repetiu a pergunta.

—        Pensei em praticarmos ao ar livre desta vez.

Como de costume, Hastings não forneceu uma resposta completa. Jack logo percebeu que iam na direção do Parque Perly. Estivera lá centenas de vezes em sua infância. Era o maior e menos urbanizado parque municipal em Trinity, cheio de bosques e de difícil acesso, com poucas trilhas de caminhada. Ficava longe do lago Erie, e os parques ao longo da costa sempre eram mais freqüentados, em especial na primavera e no verão.

Hastings parecia saber para onde ia. Após dirigir longos quilômetros pela estrada, parou num estacionamento no início de uma das trilhas. Não havia nenhum outro carro no local. Hastings jogou uma pequena mochila sobre o ombro.           

—        Vamos. Traga a espada.  

Caminharam por cerca de dois quilômetros e meio para dentro do bosque. Hastings mantinha uma passada rápida, sem proferir nada além de instruções. Quando um riacho cruzou a trilha, Hastings andou ao longo de seu leito por umas poucas centenas de metros, então virou à direita no bosque novamente até chegarem a uma pequena clareira. Parecia que as árvores ali tinham sido cortadas havia alguns anos. Pequenos arbustos principiavam a preencher o espaço aqui e ali, mas a maior parte era grama alta e alguns espinheiros, como Jack logo descobriu. A luz do final do dia banhava a clareira. Aquele, então, era o destino deles.

Jack pôs a bolsa no chão e abriu-a. Libertou a espada do ninho de toalhas, passou a bainha ao redor da cintura e atou-a, bem apertada. Desembainhou sua arma. Era uma sensação boa tê-la nas mãos de novo. Girou-a de forma a refletir a luz e ensaiou com agilidade as posições praticadas, ajustando-se à espada maior. Como antes, sentia-a leve na mão, sem peso. Hastings observou-o por algum tempo, fazendo uma ou outra sugestão ocasional.

—        Vamos ter de lidar com o seu treinamento de um jeito diferente, agora que está usando a Sombra Assassina — disse ele finalmente. — Eu não posso ser seu oponente. Vamos fazer o melhor possível com as ferramentas que temos. — Um rápido vislumbre de sorriso se estampou no rosto do mago.

Hastings abriu a mochila e pegou algumas estacas de metal e um martelo. Andou em volta da clareira, pregando nove estacas ao todo. Então se pôs em pé ao centro da clareira e falou algumas palavras na agora familiar língua da magia. Jack tentou memorizar as palavras o melhor que pôde. Seguiu-se um silêncio perturbador. Jack percebeu que não conseguia mais ouvir os sons da floresta ao redor. A área fora dos limites marcados pelas estacas se tornou enfumaçada e surreal.

Nick havia dito que Hastings era um mago poderoso, mas o professor nunca havia exibido suas habilidades até agora.

Hastings caminhou de volta até Jack.

—        Isso vai impedir qualquer um de interferir no nosso trabalho — explicou ele. — Vou mandar alguns guerreiros contra você. Sua tarefa é se defender contra eles e matá-los, se puder.

Jack estava perplexo.

—        Guerreiros? Do que você está falando? — Ele olhou assustado para a clareira ao redor.

—        Não se preocupe. Pense nisso como um tipo de videogame, mas... em maior escala.

O mago se postou num canto da clareira, deixando Jack sozinho no centro. Momentos depois, um homem enorme, vestindo uma túnica e perneiras, atravessou a fronteira enfumaçada no lado oposto da clareira. Seu cabelo louro estava preso em tranças que lhe caíam sobre os ombros largos, e ele ostentava uma espessa barba vermelha. Carregava um grande machado em uma mão e uma espada na outra. Não vestia nem armadura nem elmo. Pareceu um pouco desorientado a princípio, mas então seus olhos se concentraram em Jack.

—        O que é isso? Mandam uma mera criança contra mim? Volta para a tua mãe, menino, até teres crescido! — gritou ele.

Sem saber o que fazer, Jack olhou de relance para Hastings, em pé junto às árvores, calmo, os pés separados e os braços cruzados.

Não recebendo nenhuma resposta de Jack, o homem se aproximou, balançando o machado. Parecia leve nas mãos dele, como um brinquedo. Os insultos cresciam em volume e veneno.

—        Volta para aquela que te pariu, antes que eu te mande para o inferno! — bradou o homem.

—        Ele é real? — gritou Jack para Hastings.

Hastings não disse nada.

O homem estava agora perto o bastante para Jack ver as contas que decoravam as tranças em seu cabelo e os largos aros de metal em torno dos braços volumosos. Seu cheiro era opressor, um fedor de suor e metal e pura força física.

—        Ele é real? — gritou Jack de novo em desespero.

Não houve resposta.

E então o homem se lançou sobre ele. Em um momento de pânico, Jack ergueu a espada para bloquear o golpe, mas era tarde demais. O homem erguera o machado e já o estava baixando. Jack sentiu uma dor fria no ombro, e trevas surgiram diante de seus olhos. Quando recuperou a visão, estava caído com o rosto na grama. Havia aterrissado em um espinheiro, e os espinhos lhe furavam palmas e braços. Quando ergueu a cabeça, viu que o homem desaparecera.

—        Veja só, Jack — disse Hastings de seu canto. — Receio que você tenha sido decapitado. Não é um bom começo. — Ele parecia estar se divertindo.

Jack se pôs em pé com esforço, arrancando espinhos da pele e das roupas.

—        Teria sido bom saber as regras antes de começar!

—        queixou-se ele.

—        Mas você sabe as regras do jogo — replicou Hastings. — Estávamos estudando esse tempo todo. As Leis do Combate. Agora você só tem de aplicar o que aprendeu.

—        Ele cortou minha cabeça, mas ainda estou vivo — disse Jack.

Hastings deu de ombros.

—        Essas são as regras deste jogo em particular, sob o feitiço que usei para invocar o guerreiro. Não podemos nos dar ao luxo de perder você durante os treinos. Vamos tentar de novo.

Ele apontou para a extremidade da clareira outra vez. Desta vez apareceu um homem a cavalo, vestindo cota de malha e carregando uma lança.

—        Abra caminho! — rugiu o homem. — Ou morrerás hoje!

De algum modo, Jack sabia que não deveria abrir caminho. Buscou sua espada na grama alta e apanhou-a.

—        Desmonte! — gritou ele em resposta. — Como pode ver, estou a pé!

Torceu para que o homem visse que não havia honra em atropelá-lo.

O cavaleiro desceu de seu cavalo de batalha. Vestia um elmo e uma longa cota de malha, mas tinha a face descoberta. Parecia ter uns vinte ou trinta anos, o rosto barbeado e bastante bonito. O homem se aproximou com a espada desembainhada e uma maça pendendo da outra mão. Jack ergueu sua espada e colocou-se em posição de combate. A Sombra Assassina se incendiou, sedenta de sangue, e Jack ficou surpreso em ver que seu oponente parecia um pouco assustado.

As palavras dele, porém, eram ousadas.

—        Abra caminho, menino. Suponho que sejas o escudeiro de um bravo cavaleiro que vem atrás de ti.

—        Sou só eu — respondeu Jack, desejando fervorosamente ter algum reforço.

—        Então prepara-te para te defenderes!

O homem atacou, a espada estendida, mas Jack estava pronto desta vez e aparou o golpe. Havia tremenda força por trás do golpe, e o braço de Jack sacudiu até o ombro. Jack se abaixou, e a maça cantou ao cortar o ar onde a cabeça dele estivera. Jack lançou chamas de sua espada, que o homem bloqueou com a dele. Jack o arremessou para trás com uma rajada de ar.

Jack se sentia mais confiante agora. Embora o homem fosse definitivamente mais forte, Jack movia-se mais rápido, e a rotina lhe era familiar por causa das sessões na academia. Após vários minutos de um equilibrado combate de espadas, Jack disparou um raio através de sua lâmina, que fez voar a espada do cavaleiro e derrubou-o ao chão. O homem se sentou, estonteado, o braço da espada pendendo, inútil. Ninguém estava mais surpreso do que Jack, que lançou um olhar para Hastings pedindo instruções.

—        Acabe com ele — disse o professor.

—        Não — disse Jack, baixando a espada e recuando.

Foi a vez de o cavaleiro ficar surpreso. Após alguns segundos, o cavaleiro se dissolveu e sumiu. O cavalo também.

Hastings entrou no campo, os olhos brilhando.

—        Fez um excelente trabalho nesse último combate — disse ele. — Excelente trabalho. Mas por que não conseguiu continuar?

—        Não quero matar ninguém — explicou Jack, sacudindo os ombros. Jamais esperara ter de se desculpar por isso.

—        Esse é o seu dom, guerreiro — Hastings o repreendeu. — Matar pessoas. É melhor se acostumar.

—        Talvez eu não queira esse dom — disse Jack. — Nunca pedi por ele. — Enfiou com raiva a espada na terra e cruzou os braços.

A voz do mago se suavizou um pouco.

—        Eu falei pra você pensar nisto como um video-game.

Jack estremeceu, olhando para a clareira em torno, então ergueu o queixo com teimosia.

—        Isto não é um videogame — replicou.

—        Bem, não é nada parecido com uma batalha real — disse Hastings.

Jack ficou impressionado com a amargura na voz dele. Mais uma vez, Jack desejou saber algo mais sobre o professor, de onde viera e o que o motivava. Houve uma pausa breve e desconfortável.

—        Quem são eles? — perguntou Jack, referindo-se aos seus oponentes.

—        Guerreiros — respondeu Hastings. — Campeões do passado, mortos há muito tempo. Segundo as regras, estão aprisionados no mundo pós-morte. Assim, estão disponíveis para nós para o treinamento quando chamo por eles. — Ele esfregou o queixo. — Como você sabe, não sobraram muitos guerreiros para disputar uma justa. Talvez a expressão moderna seja "travar um combate".

Então era isso que aquela passagem nas regras significava. Quer dizer que não há como escapar nunca, pensou Jack. Nem depois de morto.

—        Quem escreveu essas regras, afinal?

—        São parte de um contrato assinado pelos representantes das cinco ordens quando foram fundadas.

Jack se lembrou da história em seu Livro Weir sobre o dragão e os cinco primos.

Hastings pôs a mãos no ombro de Jack, e Jack pôde sentir o poder do professor penetrando-lhe como eletricidade nos ossos.

—        O que você vai fazer, Jack, quando alguém tentar matar você de verdade?

—        Então eu mato de volta — respondeu Jack.

—        Você não vai ter como matar de volta — disse Hastings. — Porque aí já vai estar morto.

Jack compreendeu.

—        Então acho que vou ter de matar antes.

Hastings pareceu satisfeito com aquela resposta.

Quando finalmente deixaram a clareira, Jack havia lutado contra dez oponentes, e estava na frente no placar por seis a quatro.

A partir de então, Jack e Hastings treinaram na clareira pelo menos duas vezes por semana. Às vezes iam num sábado, quando podiam ficar mais tempo. Jack estava sempre arranhado e exausto após esses combates e, com o clima ficando mais quente, descobriu que lutar era um trabalho que dava muito calor e sede.

Hastings nunca o pressionou de novo a matar alguém a quem houvesse subjugado, mas Jack dava e recebia alguns golpes sérios no calor da batalha, alguns dos quais eram "mortais" em ambos os lados. Os cortes aos quais sobrevivia eram dolorosos quando os recebia, por isso supunha que seus adversários sentiam o mesmo. Uma vez que o combate terminava, porém, nada restava além de desconforto e dores. — Parte das regras da invocação — explicou Hastings. O mago carregava um frasco de um líquido picante que dava para Jack beber uma ou duas vezes após um combate particularmente difícil. Era fantástico para reduzir a dor, mas Jack suspeitava que não seria aprovado pela política de tolerância  zero em relação a drogas e álcool no Colégio de Trinity.      

O desempenho de Jack melhorava continuamente, embora Hastings sempre parecesse ter novos desafios para ele. Às vezes, Jack lutava com dois ou três guerreiros de uma vez. Às vezes, os oponentes eram mulheres. Levou um tempo para ele se acostumar a isso, mas descobriu que esses combates eram tão duros quanto qualquer outro. Certa vez, Jack lutou contra um adolescente só um pouco mais velho do que ele, usando roupas de estilo mais moderno, talvez do século XIX. Jack o desarmou rapidamente.

—        Ele era bem jovem — comentou ele com Hastings. — E mal treinado.

—        Sim, era — replicou Hastings.

—        Os guerreiros costumam ser tão jovens quanto eu? — perguntou Jack.

—        Às vezes ainda mais jovens — disse Hastings, em tom soturno. E recusou-se a falar mais sobre isso.

Jack desistira de fazer perguntas sobre muitas coisas. Ainda não entendia como aprender a lutar com uma espada que o protegeria dos magos inimigos. Afinal, ele não poderia andar por Trinity com uma espada na cintura. Sentia que estava sendo preparado para algum tipo de desafio, mas não fazia idéia do quê. Cada vez mais parecia que sua vida estava sob o controle de outras pessoas, em particular de Hastings. Tia Linda o havia abandonado. Ele se sentia como um esquizofrênico, com um pé em cada um dos dois mundos: a delicada normalidade da escola e o risco e mistério do mundo dos Weirs. Uma obediência apática se alternava a uma raiva poderosa que se tornava cada vez mais difícil de controlar.

Sua vida amorosa também estava fora de controle e, ao mesmo tempo, era totalmente insatisfatória. Embora Leesha estivesse oficialmente namorando Lobeck, parecia que ela colocara Jack de volta em sua lista de favoritos. Ela não perdia qualquer oportunidade de flertar com ele, não importando quem estivesse ao redor. Em conseqüência, Jack estava na lista de Lobeck também. Em um tipo de lista diferente.

Ellen parecia tão tensa, preocupada e irritável quanto Jack. Ela aprofundara seu trabalho com a equipe com o passar dos dias, forçando-a praticar de modo cada vez mais intenso. Ela e Hastings funcionavam como auxiliares técnicos, rivalizando entre si.

E, então, no fim do ano escolar, uma rápida sucessão de acontecimentos veio perturbar a nova cadência da vida de Jack.

 

A temporada de futebol continuou em junho, e o time principal de Trinity chegou às finais. Jack era titular, atuando no meio-campo e no ataque. Will jogava na defesa, e Fitch era goleiro e meio-campo. O jogo do campeonato distrital contra o Colégio Benjamin Harrison estava marcado para a mesma noite da festa de aniversário de Leesha. Do meio do campo, Jack fez um lançamento para o gol da vitória, mas torceu o tornozelo. O placar final foi 3 a 2.

O vestiário se esvaziou rapidamente, já que a maior parte do time ia à festa de Leesha. Jack não tinha pressa, não tendo grande interesse em chegar lá. O treinador enfaixou-lhe o tornozelo. Depois de tomar uma ducha e se vestir, Jack notou que estava sozinho. A festa era a alguns quarteirões a oeste, no Clube Lakeside. Jack caminhou mancando até o estacionamento, arrependido por não ter pensado em pedir uma carona e nada entusiasmado com a idéia de andar a pé até a festa de Leesha.

Alguém saiu das sombras na entrada do prédio. Jack recuou e ergueu as mãos em defesa.

—        Jack! Sou eu.

Era Ellen. Tinha as costas apoiadas no poste de luz, o rosto nas sombras.

—        O que você está fazendo aqui? Todo mundo já foi.

—        Eu queria... cumprimentar você pelo jogo, Jack. Você foi incrível.

—        Oh, obrigado! — Ele se sentiu extraordinariamente contente. — Não tinha certeza de que você vinha.

Ela revirou os olhos, como que para dizer, "mas é óbvio que eu vinha!"

—        Como está o tornozelo?

—        Vai ficar bom. Um pouco duro, acho. — Ele girou o pé para demonstrar.

—        Que bom. — Ela se endireitou. — Bem, boa-noite — disse bruscamente, virando-se para ir embora.

—        Espere — disse Jack, e ela deu meia-volta. — Quando a gente pode se encontrar?

Ela olhou em torno, como se houvesse achado que ele estava falando com outra pessoa.

—        Se encontrar?

—        É, você sabe. Sair juntos. Agora que a temporada de futebol acabou, nós dois temos mais tempo.

Ela deu de ombros.

—        O que você está fazendo agora?

—        Eu... ahn... estava indo pra festa da Leesha.

—        Feliz aniversário, Leesha. — Ela se virou novamente.

Jack a segurou pelo braço.

—        Vamos fazer outra coisa.

Ela enfiou as mãos nos bolsos, balançando-se nos calcanhares, olhando-o por sobre o seu longo nariz.

—        Está falando sério? Ela não está esperando por você?

—        Qual é, Ellen?! Leesha e eu não estamos juntos. Ela me dá calafrios.

Ellen olhou para os próprios pés e empurrou uma pedra para um lado e para outro com a ponta do tênis. Então ergueu a cabeça e deu um sorriso torto.

—        Tudo bem. O que você quer fazer?

Jack tentou ter alguma idéia.

—        Eu posso acompanhar você até sua casa.

Ela arqueou uma sobrancelha.

—        Você está machucado.

—        Eu me apoio em você.

Se Jack se apoiou em Ellen mais do que era estritamente necessário, ela não reclamou.

Quando saíram para o estacionamento, o ar estava ameno, quente e úmido, prometendo um verão em breve. Ellen e Jack desceram a rua Bank e rumaram para a praça. Jack se deu conta de que nem sabia onde Ellen morava.

—        Moro perto do lago — explicou ela quando ele perguntou. — Na rua Walnut. Em um daqueles prédios.

Caminharam em silêncio por meio quarteirão, movendo-se devagar, embora o tornozelo de Jack estivesse relaxando.

—        O que quer fazer quando se formar? — indagou Ellen. — Se você pudesse fazer qualquer coisa que quisesse.

—        Eu? — Jack pensou por um momento. — Bom, eu gostava de pensar que ia velejar ao redor do mundo.

—        Você sabe velejar?

Jack assentiu.

—        Meu pai e eu costumávamos velejar sempre. Ele mora em Boston agora. Ele tem um veleiro lá, e a gente vinha falando em construir outro.

—        Vocês devem ser bem unidos.

—        Não exatamente. Não o vejo há quase um ano. — Jack apreciou o fato de Ellen não fazer mais perguntas a respeito. Era uma das coisas de que ele gostava nela. — Você já velejou alguma vez?

Ela sacudiu a cabeça.

—        Eu levo você a algum lugar neste verão, se quiser. Quer dizer, acho que vou estar na Inglaterra na maior parte do verão, mas...

—        Inglaterra! — Ela o encarou. — Você vai com o senhor Hastings?

—        Não, minha mãe vai dar um curso lá. Algo sobre a influência britânica na cultura dos Apalaches. Que história é essa do Hastings?

—        Ele vai levar a Sociedade Chauceriana numa viagem. Will e Fitch vão. Pensei que você soubesse.

Jack sacudiu a cabeça. Estava mesmo perdendo o contato.

—        E você? Não vai também?

Ela sacudiu a cabeça.

—        Não, não posso ir. Vou estar fora durante todo o verão. Num acampamento. — Ela soltou um longo suspiro e olhou para ele, como que se perguntando se deveria continuar ou não. — Talvez eu não volte no outono.

Jack sentiu o peito se contrair de aflição.

—        O quê? Por que não?

—        Meu pai tem um cargo temporário na Ohio Power. — A Ohio Power era uma usina perto de Trinity. — O tempo dele lá está quase acabando. Então é provável que a gente vá embora.

Ele parou de andar e voltou-se para ela.

—        Ellen, sinto muito. Que droga!

—        Eu queria contar pra você antes. Faz algum tempo que sei disso. — Ela deu de ombros. — A gente se muda de cidade um bocado. Estou acostumada.

Jack sempre achara que viver toda a vida num lugar em que todos conheciam a história dele era uma desvantagem. Agora não tinha tanta certeza.

—        Seria bom se ele pudesse ficar num lugar só até você se formar, pelo menos.

—        Pois é. — Ela sacudiu a cabeça. — Fico pensando se vou ver você de novo.

O futuro do próprio Jack parecia meio nebuloso no momento.

—        Temos tempo até eu partir para a Inglaterra, pelo menos. Vamos tentar aproveitar ao máximo.

A essa altura, haviam cruzado a praça e virado na avenida Lake.

—        Você sabe dançar? — perguntou ela quando chegaram ao estacionamento da praia. Ele olhou para ela, surpreso com a pergunta. Ela continuou, apressada. — Quer dizer, eu não sei dançar, e pensei que, se você souber, talvez possa me ensinar. Ou, se você não souber, talvez a gente...

Ela parou no meio da sentença. Jack olhou para cima e viu alguém no estacionamento. Três pessoas. Era Garrett Lobeck e seus dois amigos, Harkness e Leonard. Estavam apoiados contra uma picape com um engrada- do de cerveja aberto na traseira.

—        Ora, se não é o herói do jogo — zombou Lobeck. — A gente procurou por você na festa. A gente queria fazer um brinde.

Ele terminou o que parecia ser mais uma de muitas cervejas, amassou a lata com a mão e jogou-a no chão. Tirou uma outra do engradado, e Jack ouviu um psssss quando ele a abriu. — Leesha estava procurando por você também. Ela estava furiosa.

—        Oh. Certo. Até amanhã — disse Jack. Inclinou a cabeça para Harkness e Leonard, que estavam no time principal. — Bom jogo.

Ele tomou o braço de Ellen e começou a contornar o trio, mas Lobeck se colocou em seu caminho.

—        Quem você pensa que é? Aquela sua jogada suja me tirou do time principal.

—        Se manda, Lobeck — disse Jack, cansado. — Esquece isso.

—        Vou esquecer quando tiver lhe dado o troco.

— Lobeck se lançou para a frente, tentando socar Jack, mas a cerveja e o rápido passo de Jack para o lado combinados fizeram com que o punho de Lobeck voasse além da orelha de Jack. Como um enorme caminhão, Lobeck levou um tempo para conseguir manobrar de volta. — Fique parado e lute! — berrou.

—        Não quero lutar com você, Garrett — replicou Jack. Deu uma olhada de esguelha para Leonard e Harkness, para ver se iam participar. Eles estavam bloqueando o caminho de Jack, mas, por enquanto, só assistiam.

—        Ellen, vá. Por favor.

Ellen cerrou os punhos.

—        Não sejam idiotas. Jack é companheiro de time de vocês. Qual é o problema de vocês? — Ela parecia prestes a esmurrar alguém também.

"Você não está ajudando", pensou Jack. Se houvesse uma briga, não fazia questão de que Ellen a presenciasse.

—        Oh, então agora a namorada vai proteger ele. — Leonard riu, com um som rude e sibilante.

Farejando o sangue na água, eles começavam a circular, como tubarões famintos. O clima não parecia muito bom.

Lobeck o atacou de novo. Jack conseguiu se desviar do golpe uma segunda vez, mas alguém o agarrou por trás e prendeu-lhe os braços. Devia ser Harkness.

—        Acerte-o de uma vez e vamos embora. — A voz veio por cima do ombro de Jack, com um sopro repulsivo cheirando a cerveja.

Lobeck estava a caminho, uma expressão mortífera no rosto, e Jack teve o pressentimento de que ele não erraria dessa vez. Lembrou-se de um feitiço para confundir as pessoas, resultado de suas lições com Nick. Disse as palavras rápido, baixinho, e a expressão de cachorro louco de Lobeck se transformou em uma de espanto. Ele olhou de Jack para Harkness e de volta para Jack.

—        Ahn, o que é que eu estava fazendo? — perguntou ele, completamente perdido. Começou a cambalear sem rumo pela calçada.

—        Ei! — Harkness o chamou. — Vai esmurrar ele ou não?

Lobeck se voltou num giro.

—        O quê? — Os olhos turvos contemplaram a cena. — Oh, claro. — Andou novamente na direção de Jack.

Maravilha. Jack se desvencilhou de Harkness e virou-se em tempo de ver Ellen acertar o joelho direito de Harkness com os dois pés. Os treinos de futebol estavam se mostrando úteis, pelo jeito.

Harkness gritou e caiu para trás, segurando a perna, mas a essa altura Lobeck estava chegando. O punho direito deste se chocou com a bochecha e olho direito de Jack com força estonteante. Na seqüência, o punho esquerdo e depois o direito de Lobeck acertaram o estômago de Jack. Jack viu estrelas e sentiu o sangue fluir, quente e molhado, pelo nariz. Era como se os ossos de seu rosto tivessem sido empurrados para dentro dos olhos. Ele cambaleou para a frente, inspirando desesperadamente a fim de repor o ar que lhe havia sido roubado. E então a fúria e o instinto o dominaram.

Ele estendeu os braços para a frente, os dedos esticados, e uma rajada de ar atingiu o torso de Lobeck, mandando-o pelos ares até aterrissar com força no asfalto.

A raiva ainda queimava dentro de Jack, assim como o poder, branco e quente. Ele arrancou um enorme galho de árvore, segurando-o transversalmente ao corpo como um bastão de luta, e avançou na direção de Lobeck, que estava caído de costas, momentaneamente aturdido. Com o retornar da consciência, o rosto de Lobeck foi tomado pela incredulidade, depois pelo medo. Ergueu-se sobre os cotovelos, lutando para se pôr em pé, tentando se arrastar para trás e para longe do perigo. Trombou com a mureta de pedra que cercava o estacionamento. Não era uma barreira alta, mas era alta o suficiente para detê-lo. Jack estava em pé diante de Lobeck, apoiado com firmeza sobre os pés separados. Uma chama reluzente correu ao longo de sua arma quando ele a ergueu sobre a cabeça, pondo-a na vertical para o golpe mortal.

—        Jack! Não! — A voz de Ellen perturbou-lhe a fúria sanguinária. Ele sacudiu a cabeça com violência, concentrado na tarefa diante de si. Os olhos de Lobeck estavam arregalados e sua boca se movia, Jack não saberia dizer se implorando ou rezando.

—        Jack! Meu Deus, Jack! — Ellen o agarrou pelo cotovelo e puxou-lhe o braço para trás com uma força incrível.

Jack voltou a si, enfim. Consternado, arremessou o galho em chamas para longe. Este voou de um lado a outro num grande arco, atravessando o estacionamento, um catavento flamejante que se extinguiu no lago. Jack respirou com dificuldade e virou-se para os outros.

Harkness estava sentado no asfalto, o corpo dobrado em dois, segurando a perna, praguejando baixinho. Leonard estava boquiaberto, fitando Jack e Lobeck. Não demonstrava nenhuma vontade de se meter naquilo. Ellen parecia pregada ao chão, as mãos erguidas, o rosjto pálido e horrorizado. Lobeck se apoiou nos cotovelos, com a expressão de um péssimo final de dia. Por um longo momento, ninguém se moveu.

O olho de Jack já estava inchando, de forma que ele mal o conseguia abrir. O sangue escorria-lhe do nariz e entrava-lhe pela boca. Jack passou as costas da mão pelo rosto e ela ficou ensangüentada.

— Vamos — murmurou ele a Ellen, usando a outra mão para tomar-lhe o braço. Ela arquejou e recuou ante o toque dele, e ele a soltou de imediato. — Eu... estou bem agora. Prometo. Vamos embora daqui.

Nenhum dos três rapazes fez qualquer movimento para detê-los.

A caminhada até a casa de Ellen foi deprimente. O rosto dele estava em chamas e cada respiração doía. Ele falhara em sua tarefa mais importante: manter seus poderes mágicos em segredo e sob controle. Ellen provavelmente estava morta de medo, e com razão.

Ele estivera a milímetros de matar o bêbado Garrett Lobeck numa briga de rua. No que ele estava se transformando?

Talvez o uso do poder já o houvesse exposto. A sorte dele não duraria para sempre. Era uma bela noite sob uma lua cheia, e a festa em Lakeside acabara havia pouco. Qualquer um poderia estar passeando pelas margens do lago e ter visto o que acontecera. Ele olhou em torno com cautela. Ninguém se movia na rua silenciosa além de Ellen e ele. Suas longas sombras se estendiam à sua frente, encolhiam-se sob as luzes da rua e então se esticavam novamente.

Havia pelo menos quatro testemunhas. A mente humana tem uma habilidade impressionante tanto de descartar o que vê quanto de fazer a realidade se adaptar às expectativas. E Lobeck e seus amigos haviam bebido um bocado de cerveja. Mas essa era a segunda vez que Jack perdia o controle na frente de Lobeck. Era difícil imaginar que conseguiria se safar de novo.

Ellen era outra história. Ela estava perfeitamente sóbria e não era idiota.

Ela não lhe fez nenhuma pergunta. Na verdade, ela não disse coisa alguma no caminho até a rua Walnut. Apenas caminhava com firmeza, a cabeça baixa, as mãos nos bolsos.

—        Ellen, escute, eu...

—        Cale a boca, Jack.

Então Jack se ocupou pensando no que diria a sua mãe.

Quando chegaram à varanda da casa de Ellen, Jack já havia decidido não lhe dar um beijo de boa-noite naquelas circunstâncias, com Ellen se sentindo como se sentia e com o rosto dele na condição em que estava. Antes da briga, ele havia planejado beijá-la.

Ellen olhou nervosa para trás, para o interior escuro do apartamento. Parecia terrivelmente ansiosa para que ele partisse. Jack imaginou que aquela não era uma boa ocasião para se apresentar à família.

—        Boa-noite, Ellen — disse ele, as palavras abafadas na boca machucada. — Sinto muito pelo que aconteceu. Eu me diverti bastante antes daquilo.

Para a surpresa dele, Ellen se inclinou e roçou os lábios sobre sua face não machucada.

—        Boa-noite, Jack — disse ela. — Eu também sinto muito. — Com isso, ela desapareceu dentro do prédio.

Quando ele chegou de volta à rua Jefferson, tinha pouca esperança de que a mãe já tivesse ido para a cama. Ela estivera no jogo, e ele supunha que ela esperaria por ele para uma pequena celebração e uma recapitulação da partida. Estava certo. A casa dos Downey estava iluminada. Um grande cartaz pregado na porta da frente dizia: "Bem-vindo ao lar, herói!". Jack não se sentia muito como um herói naquele momento. Estendeu a mão para a maçaneta, mas a porta se abriu antes que pudesse tocá-la. E a pessoa junto à porta era Linda Downey.

—        Jack! — disse ela, toda animada. — Jack! — disse ela outra vez, agora horrorizada ao ver com clareza o rosto dele sob a luz da varanda.

Becka se aproximou, e a festa de boas-vindas se transformou numa sessão de primeiros socorros e interrogatório.

—        Está me dizendo que se meteu numa briga? Você sabe que eu sempre falei pra você ficar longe de brigas.

Becka sempre tivera fortes laços com o movimento pacifista. Jack se perguntava o que ela diria se visse o que ele andava fazendo na clareira.

—        Pode acreditar, eu tentei cair fora. Não costumo puxar briga com pessoas com o dobro do meu tamanho.

—        Ah, não sei não, Jack — disse tia Linda. — Você parece alguém que seria capaz de enfrentar praticamente qualquer um. — Ela estivera olhando fixamente para ele, e a princípio ele imaginara que era por causa do olho inchado.

—        Você não está ajudando, Linda — Becka a repreendeu.

—        Eles eram três — explicou Jack à tia.

—        Era alguém do Harrison? — indagou Becka, referindo-se ao outro time de futebol. — Ou torcedores do Harrison?

—        Era o Garrett Lobeck e os amigos dele. Eles estão no meu time.

—        Então por que iriam querer bater em você? — Becka parecia perplexa. — Em especial depois da jogada que você fez?

—        É difícil de explicar — murmurou Jack. — É meio complicado.

Becka se levantou.

—        Bom, eu vou telefonar para Bill Lobeck agora mesmo. Cansei de ver os filhos dele aterrorizando a cidade. — Ela apanhou o telefone.

—        Eu não faria isso, mãe — disse Jack, afobado.

—        Quero dizer, não sei como o Garrett está agora. — Ambas as mulheres se viraram para ele. — Eu derrubei ele. E aí a gente foi embora.

—        A gente quem? — perguntou Linda.

—        Lembra da Ellen Stephenson, mãe? Eu a acompanhei até a casa dela.

Becka estava prestes a telefonar para alguém.

—        Talvez a gente deva contatar os pais da Ellen, para ter certeza de que ela está bem — sugeriu ela. — Ela deve ter ficado com muito medo.

—        Oh, eu não diria que ficou com medo, pra falar a verdade — disse Jack. "A não ser de mim", pensou ele. Quase sorriu ao se lembrar de Ellen partindo para cima de Harkness, mas isso fez seu rosto doer. — Escute. Não acho que ele vá me incomodar de novo. Por mim, eu esqueceria a coisa toda. Tenho certeza de que o Garrett sente a mesma coisa.

—        Isso me parece uma boa idéia — apressou-se em dizer Linda. — Além do mais, estamos festejando aqui.

—        Ela apontou para um grande prato de camarões sobre a mesa e garrafas de vinho e suco de uva espumante em baldes de gelo. Um bolo enorme na mesa auxiliar fora decorado com a inscrição "Campeões!" e o desenho de uma bola de futebol.

—        Isto está fantástico — disse Jack, grato pela mudança de assunto. — Quando vocês fizeram tudo isso?

—        Eu tinha esperanças de chegar aqui a tempo do jogo, mas meu avião atrasou — explicou Linda. Então achamos que a festa seria uma boa surpresa.

—        É uma surpresa maravilhosa — disse Jack. — Quanto tempo vai ficar?

—        Não tenho certeza — respondeu tia Linda.

Becka estava servindo o vinho e o suco de uva em cálices.

—        Você chegou na hora certa. Mais tarde você não teria nos encontrado. Jack e eu vamos partir para a Inglaterra assim que acabarem as aulas.

—        Inglaterra! — Linda se recobrou rapidamente, aceitando um cálice de vinho tinto. — Vocês estão indo para a Inglaterra?

Becka confirmou com a cabeça.

—        Não se lembra? Falamos sobre isso na sua última visita. Eu tinha esperanças de que você pudesse nos ajudar a arrumar uma casa, mas não consegui entrar em contato com você. Mas Thomas tem uma amiga que tem um chalé em Oxford. Ela vai passar o verão nos Estados Unidos, por isso vai sublocar a casa pra nós. Se você estiver em casa, a gente pode visitar você, mas não precisa se sentir obrigada.

—        Isso parece... maravilhoso. — Linda tentou sorrir, mas Jack tinha a sensação de que algo a estava incomodando.

 

A manhã seguinte era um sábado e, para comemorar o término das aulas, a classe de Jack havia programado uma excursão a Cedar Point, um parque de diversões junto ao lago. Quando Jack se viu no espelho do banheiro, o lado direito do rosto estava todo roxo, e ele mal conseguia abrir o olho. Fantástico. Vou ter de responder a milhares de perguntas sobre isso hoje. Ele queria poder ficar em casa. Mas Will viria apanhá-lo em meia hora e, após a conversa que haviam tido no Corcoran's, Jack relutava em cancelar.

Tia Linda estava na varanda, bebendo uma xícara de chá.

—        Desculpe por eu ter de sair hoje — disse Jack. — Não teria planejado nada se soubesse que você vinha.

—        A gente conversa à noite, Jack. Divirta-se. — Ela parecia triste, quase como se houvesse chorado. — Eu falei que você está diferente?

Ele assentiu.

—        Eu provavelmente percebo mais do que outras pessoas, por ter estado fora — disse ela. — Você deve estar se exercitando bastante.

—        Três ou quatro vezes por semana.         

—        Com Leander Hastings?

—        É. — Ele pigarreou. — Por onde você andou esse tempo todo? Eu... eu... não sabia o que pensar. Estava com medo de que Wylie tivesse apanhado você ou algo assim.

—        Desculpe-me. Eu armei uma trilha falsa bem longa para ele seguir. E aí tive... de tratar de uns negócios, lá em casa.

—        Você fala como se fizesse esse tipo de coisa o tempo todo. — Jack não pôde reprimir a amargura em sua voz.

—        Eu tenho bastante prática em me esconder de magos, se é isso o que quer dizer. — Ela ia dizer algo mais, quando ouviram uma forte batida na porta da cozinha.

—        Entre! — gritou Jack. — Estamos na varanda.

—        Jack? Onde você estava ontem à noite? A gente... — Will parou no meio da frase quando viu Linda. — Oh, olá — disse para ela. Então viu o rosto de Jack por inteiro. — Minha nossa! O que aconteceu com você?

—        Topei com o Lobeck e os amigos dele depois do jogo ontem à noite. — Essa seria a versão resumida da história, e Jack tinha intenção de aferrar-se a ela.

—        O quê? Você ganha o jogo pra nós e ele dá uma surra em você?

—        Esquece. Acho que ele tinha bebido umas cervejas a mais. Tipo, uma dúzia a mais. O que fez com que ele se lembrasse que não entrou no time principal.

—        É por isso que você não foi à festa da Leesha? Ela achava que você ia. Eu e Fitch ficamos procurando por você.

Jack sacudiu a cabeça.

—        Não. Na verdade, eu estava com a Ellen. Nós... ahn... resolvemos esquecer a festa.

—        Oh. Tudo bem, então. — Will inclinou a cabeça. Pela expressão em seu rosto, ele aprovava a escolha de Jack. — Você não perdeu muita coisa. Tinha um monte de gente bebendo, um monte de gente chapada. — Will passou os dedos pelo cabelo curto e eriçado. — Talvez seja hora de alguém dar uma lição no Lobeck. Talvez eu deva me oferecer como voluntário.

Jack piscou. Os olhos negros de Will estavam furiosos e intensos. Era como se Will seguisse uma trajetória. Como um grande veleiro, virava devagar. Uma vez a caminho, contudo, era melhor sair da frente.

—        Está tudo bem, Will. Sério. Acho que ele não vai me incomodar de novo. — Jack pendurou uma pequena mochila sobre o ombro. — Estou pronto.

Will estudou-o por um momento, sacudindo a cabeça.

—        Se você diz...

Fitch estava esperando no carro, e Jack teve de contar sua história de novo. Aquele seria um longo dia.

Ellen havia prometido encontrá-los por volta do          meio-dia em uma das montanhas-russas. Era um lindo dia, quente e ensolarado, e Jack imaginava que praticamente todas as turmas do primeiro e segundo anos e a maioria dos professores estariam lá.

Tendo chegado ao parque, Jack começou a se animar. Após alguns comentários iniciais, ninguém fez muitas perguntas sobre seu rosto ou a briga com Lobeck. A vitória na final transformara Jack em uma espécie de celebridade. Ele ficou de olho para ver se avistava Leesha, mas não a viu.

Assim que chegaram, foram andar nas montanhas-russas maiores, supondo que o parque ficaria lotado mais tarde. Jack sempre adorara montanhas-russas e estava começando a compreender que o perigo virtual era muito mais atraente do que o real. Quando terminaram de assistir a uns dois espetáculos bregas em estilo circense, já era quase meio-dia, hora de encontrar Ellen.

Ela estava esperando junto à montanha-russa Blue Streak, vestindo uma camiseta branca, shorts e chinelos. Quando Will e Fitch tentaram perguntar-lhe sobre a briga, ela desconversou. Jack tentou captar-lhe a atenção para agradecer-lhe, mas ela se recusava a olhar para ele.

Eles andaram na Blue Streak, depois experimentaram alguns dos fliperamas, e então foram almoçar. Compraram raspadinhas de cereja de sobremesa. Estava ficando quente, e os brinquedos aquáticos pareciam mais atraentes do que nunca.

—        Vamos no Thunder Canyon? — sugeriu Will. — É hora de se molhar. — Ele despiu a camiseta.

—        Não acabei minha raspadinha. — Jack levantou o copo de papel.

—        Vamos deixar as raspadinhas aqui — sugeriu Ellen, apontando para um largo corrimão junto à lagoa. — A fila não está muito comprida agora.

Todos ficaram ensopados no Thunder Canyon. Como a fila não era muito longa, eles foram duas vezes. Emergiram, sacudindo-se como cães, jogando água para todos os lados.

—        Você ainda não está molhado o bastante, Jack!

Ellen apanhou o copo dele e ameaçou esvaziá-lo sobre a cabeça de Jack. Ele ergueu uma mão, estapeando o braço dela, e a maior parte do conteúdo do copo derramou-se no laguinho de peixes abaixo.

—        Veja só o que você fez! — disse Jack, feliz por Ellen ter recobrado o senso de humor. Era praticamente a primeira vez que ela falava com ele o dia todo.

Jack se virou para ver se as carpas na lagoa iriam atrás do gelo. Will também se inclinou por sobre o corrimão, rindo, mas de repente pareceu intrigado. Jack seguiu-lhe o olhar. Peixes mortos subiam à superfície em um círculo crescente em torno da raspadinha que se derretia, as barrigas pálidas reluzindo na água lamacenta do parque de diversões. Centenas deles.

Por um momento, Jack ficou paralisado, tentando entender o que tinha visto. Então seu olhar encontrou o de Will, e o encanto se desfez. Num movimento rápido, Jack apanhou o copo com o que restara de sua bebida e colocou-o dentro do saco plástico que trouxera consigo para as roupas molhadas. Enfiou o saco dentro da mochila, depois passou o braço ao longo do corrimão, derrubando o resto das raspadinhas na lagoa. Ellen e Fitch gemeram em protesto ao verem suas bebidas voarem do corrimão.

—        Desculpem-me — disse Jack. — Minha culpa. Eu compro uma outra rodada. Vamos pegar limonadas desta vez.

E Jack conduziu com firmeza Fitch e Ellen, que ainda protestavam, para longe da água. Will seguiu atrás, sacudindo a cabeça e franzindo o cenho.

—        Isto é interessante — disse Nick Snowbeard, erguendo o olhar do microscópio.

Nick havia armado o que era praticamente um laboratório químico em sua minúscula cozinha. Jack e tia Linda estavam sentados à mesa da cozinha. Jack havia levantado uma barreira mágica de modo que ninguém mais pudesse entrar. Nick estava deixando seu aluno exibir algumas das técnicas que aprendera.

—        É um antigo veneno anglo-saxônico que ataca os nervos. Solúvel em gordura. Bem rápido e eficaz. Difícil de detectar. Uma pequena quantidade é suficiente para matar. — Ele coçou a barba. — Acho que não deve ter sobrado uma carpa viva em Cedar Point.

—        Quem teria esse tipo de veneno? — indagou Jack.

—        Onde ele é encontrado?

—        É um derivado de plantas. Não é difícil de fazer, se tiver os ingredientes certos. Só não é muito conhecido. Deve ter sido alguém da família.

—        Se por família você está falando das Rosas, então acho que acertou na mosca! — explodiu Jack.

—        Quem mais ia querer me matar? — Ele se encolheu na cadeira.

—        Quem mais estava no parque hoje? — perguntou Linda.

—        Todo mundo que conheço — disse Jack. — E um monte de gente que não conheço.

Leesha Middleton provavelmente gostaria de envenená-lo àquela altura.

Tia Linda suspirou, encolhendo os joelhos até encostarem no queixo.

—        Obviamente, alguém sabe do segredo.

Nick estava pensativo.

—        Veneno pode facilmente errar o alvo. Como aconteceu neste caso. É um meio bem... ineficiente de se matar alguém.

Jack bateu a mão na mesa.

—        Eles podem ter envenenado toda a Grande Bacia do Oeste, mas duvido que fossem ficar com dor na consciência por causa disso. Não entendem? Eles sabem quem eu sou! Eles sabem onde eu moro! O que os irá impedir de vir me pegar? Ou de pegar a Sombra Assassina? — Ele se endireitou na cadeira. — Uma das Sete Grandes Espadas está escondida embaixo da minha cama junto      com a minha caixa de figurinhas de beisebol. Quanto tempo acha que eles vão levar pra descobrir isso?   

Jack sentiu o impulso repentino de ir até em casa para certificar-se de que a espada ainda estava lá.

—        Eu coloquei feitiços de proteção ao redor da casa — disse Nick, em tom afável. — Não vai ser fácil vir atrás de você aqui. E eu ficaria muito surpreso se matassem você logo de cara.

—        Isso faz com que eu me sinta bem melhor — resmungou Jack.

—        Pode ter sido algum tipo de aviso. Ou uma tentativa de fazer você entrar em pânico e fugir.

—        Bom, está funcionando.

Linda ergueu os olhos.

—        Nicodemus, como ele está se saindo com a magia?

—        Jack tem uma aptidão surpreendente para a magia, apesar da pedra de guerreiro.

—        Estamos falando de truques de salão ou de algo que possamos usar de verdade?

—        Ele avançou bem mais do que isso — Nick assegurou-lhe. — Ele tem se saído muito bem. Não é o que eu chamaria de um mago poderoso, mas é mais poderoso do que alguns que carregam a pedra. Nunca vi ninguém fora da Ordem dos Magos que consiga fazer o que ele faz.

—        Conte-me sobre o seu treinamento, Jack — disse tia Linda, abruptamente. Jack recapitulou o programa em poucas palavras, começando com as sessões na academia e progredindo para as da clareira. Ela franziu a testa. — Isso é basicamente o treinamento clássico — disse ela. — Ele não tratou de mais nada?

Jack pensou a respeito.

—        Passamos algum tempo treinando com uma funda. Fizemos algumas coisas sem armas, como luta livre e tai chi. Estive levantando pesos por conta própria. Mas passamos a maior parte do tempo com os floretes e com a Sombra Assassina na clareira.

Linda hesitou antes de fazer a próxima pergunta.

—        Como é Leander Hastings como professor?

—        Ele sabe o que está fazendo. Não se importa de passar um bocado de tempo comigo, mas é bem exigente às vezes. — Jack pensou por um momento. — Ele tem de estar totalmente no controle. Ele só responde às perguntas que quer responder.

Linda assentiu, como se aquilo não a surpreendesse.

—        Isso é bem o estilo do Leander.

Jack não pôde evitar pensar que aquilo era bem o estilo de Linda também. Estava ficando irritado com o interrogatório. Ele também tinha perguntas para as quais queria respostas. Linda se levantou e começou a andar de um lado para o outro no pequeno espaço entre a mesa e o balcão.

—        Acho que essa viagem à Inglaterra não é uma boa idéia — disse ela, sem olhar para Jack.

—        Do que você está falando? — indagou Jack, surpreso.

Linda falou rápida e persuasivamente:

—        Se você for, a doutora Longbranch vai querer ver você. E não acho que isso seja uma boa idéia... do jeito que você está agora.       

Jack se levantou, os pés levemente afastados, os braços cruzados.

—        Tia Linda, acho que é hora de ser franca comigo. Tem gente tentando me matar. Acho que mereço saber quem e por quê.

—        Muito bem — disse Linda, pousando as mãos no encosto da cadeira. — Você se lembra que eu falei que os Weirs têm um histórico de luta, especialmente entre si?

Jack fez que sim com a cabeça e se sentou, suspeitando que essa seria uma história longa e desagradável.

—        Há, na verdade, duas ramificações principais da família que têm lutado entre si por centenas de anos. Começou com dois irmãos. Você se lembra da Guerra das Rosas?

—        Uma guerra civil entre duas facções da realeza britânica, Lancaster e York, não é? — Jack se esforçou para se lembrar das aulas de histórica britânica. — Não terminou com a Batalha de Bosworth Field? — Ele e Nick haviam passado um bocado de tempo naquilo. Não era de surpreender que o velho mago fosse um especialista no assunto.

—        Não para nós. Um ramo da nossa família era da Rosa Vermelha e o outro, da Rosa Branca. Durante anos, após Bosworth, a luta continuou, sem que nenhum lado obtivesse a hegemonia — disse Linda. — Lá pelo século XVI, até os magos mais sedentos de sangue em ambas as casas perceberam que as coisas não podiam continuar daquele jeito. Foi nessa época que várias centenas de Weirs migraram para os Estados Unidos, para fugir da guerra que nunca acabava e da dominação dos magos. Entre eles, havia representantes de todas as ordens. Nós descendemos desse grupo de democratas, chamados de o Clã do Urso. Para os que ficaram, um novo sistema foi desenvolvido, um sistema de torneios.

Jack olhou nos olhos dela.

—        Nick me falou sobre o Jogo.

Linda estremeceu, e suas faces coraram de leve.

—        O Jogo — repetiu ela. — Assim os magos não se envolveram mais na luta de fato. A ênfase se transferiu para o recrutamento e treinamento de guerreiros... a procriação visando gerar guerreiros com certos poderes e características que se provariam vantajosas. — Ela olhou para Jack, depois desviou o olhar. — Mas esses esforços saíram pela culatra. Havia tanta ênfase no dom do poder que eles negligenciaram a carne e o sangue que carrega esse poder. Por causa da procriação consanguínea, a linhagem se tornou doente, começou a morrer. Por isso e pelo fato de que os guerreiros morrerem aos montes nos torneios. Até os que tinham sucesso muitas vezes não viviam por tempo suficiente para ter filhos.

—        Por que eles não pararam simplesmente de lutar?

—        Por várias razões. Tradição. Vingança. Controle de um tesouro de artefatos mágicos, os últimos deles.

É verdade — disse ela, notando a reação de Jack. — O vencedor de um torneio passa a controlar o Conselho dos Magos, que governa as ordens. É improvável que aqueles que tenham chegado ao poder por meio desse sistema queiram mudar as coisas. A nossa família é uma aristocracia: privilegiada e ociosa, com pouco a fazer a não ser criar intrigas. Nos idos de 1700, quando começaram a escassear os guerreiros no Velho Mundo, alguém nas ordens européias deve ter se lembrado dos que haviam partido para os Estados Unidos dois séculos antes. Eles têm registros extensos. São maníacos por genealogia. O ramo da família nos Estados Unidos havia rompido os laços com as Rosas, usando o Urso Prateado como emblema. Muitos de nós se casaram com Anaweirs, pessoas sem o dom. Como resultado, nem todos são herdeiros. Talvez seja por isso que você nasceu sem uma pedra. Mas muitas pessoas neste ramo da família carregam o dom e são fisicamente sadias. São vulneráveis, porque não sabem que têm um dom ou não foram treinadas. São os não afiliados, o que significa que estão desprotegidos. Então as Rosas começaram a vir atrás de nós. Eles procuravam pessoas que carregavam cristais, especialmente de guerreiros. E essas pessoas desapareciam. Eles adoram roubar crianças e criar para o Jogo. Levou muito tempo até entendermos o que estava acontecendo. Mas havia alguns de nós na família que estudavam as velhas artes, que conheciam as tradições, que entendiam os significados dos Livros Weir.

— Onde está o resto da família? — indagou Jack.

—        Por todo lado — respondeu Linda —, ainda há várias grandes fortalezas no Reino Unido, mas eles estão espalhados por todo o mundo. São pessoas muito ricas e poderosas, Jack. Pessoas que podem ver o futuro e controlar os outros. Pessoas que não têm nenhuma dificuldade pra ganhar a vida.

Jack pensou na tia, que sempre tivera bastante dinheiro e nenhum meio visível de sustento.

—        Está me dizendo que esses torneios acontecem o tempo todo e que ninguém sabe disso?

—        Nem tantos hoje em dia, por causa da falta de guerreiros. Mas eles continuam, sim. — Linda deu de ombros. — O sistema de torneios tem funcionado muito bem, sob o ponto de vista de um mago. Salva vidas e propriedades. Entenda, os magos não têm permissão de atacar outros magos sob as Leis de Combate, que não foram mudadas desde que foram escritas no século XVI. As outras ordens, é claro, são presas fáceis para eles.

Jack se lembrou do livro de regras de combate que Hastings lhe havia dado.

—        As regras. Oh, certo. Eu tenho aqui.

Sua mochila estava sobre a mesa. Ele enfiou a mão num bolso lateral e retirou o fino volume.

Linda reagiu como se Jack houvesse tirado uma cobra da mochila.

—        Onde conseguiu isso? — indagou ela.

—        O senhor Hastings me deu. Eu andei estudando.

—        Você não vai precisar disso, porque não vai lutar com ninguém — disse a tia categoricamente.

—        Então por que eu tenho de passar por todo esse treinamento? — Jack meteu o livro de volta na mochila, mais confuso do que nunca.

Linda agarrou-lhe o braço, piscando para conter as lágrimas.

—        Jack, eu só estou tentando fazer o melhor que posso, todos os dias, para manter você vivo. Quando você nasceu, tive de envolver Jessamine Longbranch nisso, ou você teria morrido. Ela é a chefe, a Premiê da Rosa Branca. Ela deu a você uma pedra de guerreiro imaginando que um dia você lutaria por eles. Eu consegui convencê-la a deixar você onde estava, dizendo que você poderia ser treinado mais tarde, que seria difícil para a Rosa Vermelha encontrar você em Trinity. — Tia Linda deu-lhe um sorriso pálido. — Você sabe como posso ser persuasiva. E, até recentemente, você ficou escondido. O Premiê da Rosa Vermelha é um homem chamado Geoffrey Wylie. Foi ele que encontramos no cemitério. Já que a Rosa Branca sempre soube que você estava aqui, só posso imaginar que o grupo de Wylie esteja por trás do veneno. Mas isso não faz muito sentido. Se eles sabem quem você é, eles só matariam você como um último recurso.

Nick fez um gesto de cabeça, concordando.

—        Se um mago quisesse matar você, não usaria veneno. Agiria de modo mais direto. Mas Wylie não iria querer matar você. Ele iria capturá-lo e convocar um torneio. Se a Rosa Branca não colocasse um jogador em campo, ele venceria por desistência. — Ele esfregou a barba, pensativo. — Não vi nenhum sinal de magos em Trinity desde o dia do teste de futebol. Se eles ainda estão na cidade, estão se escondendo, talvez por causa do Hastings. Acho que é cedo para entrarmos em pânico.

Linda franziu a testa.

—        Se a doutora Longbranch souber que a Rosa Vermelha achou você, ela vai levar você embora. — Ela notou que Jack não compreendera, e prosseguiu. — Ela vai levar você para ser treinado. Eu sei um pouco sobre como eles treinam os guerreiros para o Jogo. — A voz dela sumiu, como se ela se desse conta, de repente, de com quem estava falando. — Você é quase um adulto, Jack. A doutora Longbranch não vai esperar muito mais para levar você, de qualquer jeito. Por isso eu contatei o Hastings. Foi ele quem sugeriu que a gente recupe¬rasse a espada e treinasse você em segredo. Ele achava que a Sombra Assassina poderia ser um trunfo, nivelar as coisas.

—        Quem é o Hastings, exatamente? — perguntou Jack.

—        Eu o conheço há muito tempo. Ele descende da linhagem do Urso, como nós. É um mago poderoso e sempre teve um grande interesse em guerreiros e treinamento de guerreiros. Ele tem defendido as ordens menores, o que chamamos de Weir Anamagos, ou seja, Weirs que não são magos. Eu sabia que ele seria um professor excelente.

Jack estava começando a entender quão negra era a situação. Trinity não parecia mais segura. Parecia um buraco pequeno demais para se esconder. Talvez fosse hora de deixar a cidade.

—        Tia Linda, eu tenho de ir pra Inglaterra. Minha mãe já comprou as passagens. Ela vem falando há meses sobre todas as coisas que a gente vai fazer.

—        Você pode evitar ver a doutora Longbranch?

—        Acho que ela já telefonou dizendo que a gente vai.

Linda parecia resignada.

—        Então você vai ter de começar a tomar a Antiweir de novo.

—        Não! — Jack se pôs em pé, afastando-se deles. — Não tomo mais aquela coisa. Você prometeu.

—        Mas, Jack, ela vai suspeitar de algo. A mudança em você foi... notável.

—        Sou adolescente. Adolescentes mudam. — Jack sacudiu a cabeça. — Não vou tomar. Estou falando sério. Prefiro morrer. — Ao dizer aquelas palavras, ficou um pouco impressionado consigo mesmo. Não conseguia se lembrar de já ter dito não a Linda.

Linda parecia surpresa também, mas guardou qualquer comentário a respeito para si mesma.

—        Tudo bem, Jack. Se é assim que se sente.

A semana após o passeio em Cedar Point foi semana de provas, a última semana de aulas. Quando Will chegou à casa de Jack naquela manhã de segunda, encontrou a porta da cozinha trancada. Olhando através da tela, conseguiu ver Jack com a cabeça na mesa, adormecido, o cereal deixado de lado. Will teve de bater na porta diversas vezes até que Jack acordasse, os olhos arregalados. Quando Jack viu quem era, levantou-se e deixou Will entrar, trancando de novo a porta atrás dele.

—        Quer dizer que está trancando as portas agora? — comentou Will. Ele fez um gesto para que Jack terminasse de comer o cereal e se serviu de meia tigela. Jack parecia péssimo. O olho roxo estava agora ficando verde e amarelo. Havia olheiras sob o outro olho. Ele podia ter um físico perfeito, mas parecia emocionalmente em frangalhos. — Ficou até tarde estudando ciências sociais ontem à noite?

—        Ciências sociais? Ah, é. — Em movimentos mecânicos, Jack meteu uma colherada do cereal empapa- do na boca.

—        O Fitch disse que pode se encontrar com a gente hoje à noite pra estudar matemática. A Ellen não poderá vir. Parece que uns parentes dela estão de visita a semana toda.

Jack deu de ombros, como se não desse a mínima.

—        Certo.

—        Escute, Jack. — Will hesitou. — Estive pensando se o seu problema é algo em que a polícia pode ajudar.

Aparentemente, demorou alguns segundos até que as palavras de Will se registrassem no cérebro de Jack. Jack encarou-o.

—        O que você quer dizer?

—        Sabe como é, estou pensando se você e a sua tia estão em algum tipo de encrenca. Parece que toda vez que ela vem visitar você, coisas acontecem. — Como Jack não dissesse nada, Will apressou-se em continuar. — Meu tio Ross é sargento da polícia aqui em Trinity. Talvez a gente possa conversar com ele. Só informalmente, entende? Ele poderia dar algum conselho pra você.

Jack sacudiu a cabeça. Havia um ar de resignação nele que incomodava Will.

—        Não, está tudo bem. Vai ficar tudo bem — repetiu Jack, sem nenhuma convicção. — A gente vai partir para a Inglaterra em uma ou duas semanas.

Will assentiu.

—        Você não é o único que vai viajar neste verão. Você sabia que eu e o Fitch também vamos pra Inglaterra?

Isso despertou Jack de sua letargia.

—        Ah, sim. A Ellen me contou. Mas não sei muito a respeito.

—        O senhor Hastings armou tudo. A Sociedade Chauceriana vai passar um mês na Inglaterra. Vamos estar lá no mesmo período que você, já que você vai ficar lá a maior parte do verão, não é?

—        Acho que sim. Mas como é que o Fitch pode pagar uma viagem pra Inglaterra?

—        É um patrocínio de uma empresa privada. O senhor Hastings fez cada um de nós escrever um ensaio. O de Fitch foi impressionante mesmo. Todos nós conseguimos um subsídio, mas ele conseguiu uma bolsa de estudos integral.

Nesse momento, Will ouviu alguém descer as escadas dos fundos até a cozinha. Era Linda Downey. Will olhou-a com uma mistura peculiar de hostilidade e fascinação. Will estava convencido de que a bela tia de Jack era, de algum modo, responsável pelos problemas de Jack.

—        Oi, Jack. Oi, Will. — Linda saudou-os calorosamente, mas o sorriso dela se desfez quando viu a expressão de Will. Jack não percebeu nada. — Eu levo vocês de carro até a escola.

Will estava desapontado. Esperava ter algum tempo para falar em particular com Jack, tentar chegar ao fundo do que acontecera em Cedar Point e persuadi-lo a conversar com o tio Ross. Não conseguia pensar em nenhum outro jeito de ajudar.

—        Está bem — disse Jack, como se não tivesse nenhuma preferência. — Vou pegar minha mochila.

Tia Linda havia alugado um pequeno carro esporte de cor prata para aquela viagem. Normalmente, Will teria implorado para ter a oportunidade de dirigi-lo, mas dessa vez eles atravessaram a curta distância até o Colégio de Trinity em silêncio. Linda estacionou em frente ao colégio. Quando Jack saiu do carro, Linda se inclinou sobre o câmbio em direção a Will, falando de modo que só ele ouvisse.

—        Por favor, fique de olho nele, Will.

Will ergueu os olhos, surpreso. Ela estava perto, muito perto; aqueles olhos impossivelmente azuis estavam fixados nele e ela parecia absolutamente séria, quase implorando.

"Ai, meu Deus", disse ele a si mesmo, sentindo o sangue subir-lhe às faces.

Ela lhe passou um pedaço de papel.

—        Esse é o número do meu celular. Se acontecer alguma coisa incomum, me chame.

—        Claro. Está certo.

Os dedos deles se tocaram quando ele pegou o papel. Com relutância, ele deslizou pelo banco do carro e saiu para a calçada. Ficou ali, hesitante, segurando o papel na mão, vendo o carro de Linda se afastar.

Depois disso, Will achou difícil se concentrar na prova de ciências sociais, e quase ficou aliviado quando o tempo acabou. Ele e Jack entregaram as provas e seguiram para seus armários para pegar o material de matemática. O armário de Jack era do lado do de Will e estava aberto. Parecia ter sido saqueado.

—        Acho que deixei meu armário destrancado — disse Jack a Will, sacudindo a cabeça. — Devo estar ficando maluco.

Penworthy surgiu de repente.

—        Senhor Swift, preciso que venha à diretoria imediatamente. — Penworthy parecia tão nervoso que estava literalmente se contorcendo.

Jack piscou.

—        É sobre o meu armário?

—        Podemos dizer que sim. — A boca do diretor se retorcia em repugnância sempre que parava de falar.

—        Está tudo bem — Jack assegurou-lhe. — Acho que não levaram nada.

—        Eu já lhe disse para vir comigo — repetiu o diretor. — O senhor pode deixar suas coisas aqui.

Algo no tom de voz dele fez Will se voltar para ver. Penworthy estava praticamente empurrando Jack pelo corredor, e Jack tentava se virar para olhar para Will. Perplexo, Will seguiu a uma distância discreta. O diretor conduziu Jack até a frente do prédio e para dentro do escritório da administração. Will entrou no escritório externo bem a tempo de ver a porta da sala interna de Penworthy se fechar. A secretária lançou-lhe um olhar inquisitivo.

— Ahn, estou esperando alguém vir me buscar — disse Will. Ele se sentou numa cadeira junto à porta. — Vão chegar a qualquer minuto.

As palavras de Linda voltaram-lhe à mente. "Fique de olho nele, Will." Ela estava contando com ele. Não tinha nenhuma intenção de sair dali até descobrir o que estava acontecendo.

Quando Jack entrou na sala do diretor, viu dois homens sentados a uma pequena mesa. Estavam trajados de forma casual, em blusas de abrigo e calças jeans. Ambos pareciam ter cerca de trinta anos, e tinham um ar severo. Um era moreno com barba rala, e o outro era loiro e tinha o rosto barbeado, com uma cicatriz proeminente atravessando-lhe o maxilar. Ambos exibiam um físico atlético. Eles se ergueram ao mesmo tempo com expressões idênticas de perplexidade quando Jack entrou na sala.

—        Tem certeza de que é esse aí? — perguntou um deles a Penworthy, indicando Jack com a cabeça.

—        Este é Jackson Swift — disse Penworthy respeitosamente.

O diretor se sentou atrás da escrivaninha e gesticulou para que Jack ocupasse a cadeira vaga à mesa em frente aos dois homens. Jack sentou-se, observando os homens com cautela. Os homens estudavam-no como se estivessem vendo algo inesperado.

Cada um dos dois estranhos tirou do bolso uma carteira em imitação de couro, abrindo-as para revelar um distintivo. O homem moreno falou.

—        Jack, meu nome é Brad Hansford, e este é Mike Sowicky. Trabalhamos na divisão de Narcóticos do Departamento de Polícia de Trinity. A gente gostaria que você respondesse a umas perguntas.

Jack estava desconcertado. Ele conhecia vários policiais de Trinity, inclusive o tio de Will, Ross, mas jamais vira aqueles dois homens. Olhou de um para o outro e depois para Penworthy. As mãos do diretor deixavam pontos úmidos no mata-borrão da escrivaninha.

—        O que está acontecendo?

Sowicky falou pela primeira vez.

—        Jack, a gente fez uma vistoria no seu armário esta manhã e achou isso. — Ele jogou dois sacos plásticos sobre a mesa. Um continha ervas verdes, o outro um punhado de pílulas e cápsulas.

—        Espere aí! — protestou Jack. — Eu nunca vi essas coisas antes.

—        É por isso que a gente quer conversar com você, Jack. Queremos esclarecer isso. — Quem falava era Hansford, o detetive moreno. A voz dele era reconfortante.

A mente de Jack processava devagar, vazia de pensamentos úteis.

—        Por que estavam vistoriando meu armário? — indagou finalmente, a fim de ganhar tempo.

—        Recebemos uma denúncia de que você talvez estivesse envolvido em tráfico de drogas — disse Sowicky. — Então contatamos o senhor Penworthy, aqui. Ele tem sido de grande ajuda. — Sorriu para o diretor, que pareceu embaraçado e orgulhoso ao mesmo tempo.

—        Olha, vocês pegaram a pessoa errada. Eu não vendo drogas! — "Sonhando. Eu devo estar sonhando de novo", disse Jack a si mesmo. Mas como fazer para acordar?

—        Como arranjou esse olho roxo, Jack? — pergun¬tou Sowicky. — Se meteu em algum tipo de encrenca?

Jack começou a dizer alguma coisa, mas mudou de idéia. Sabia que estava com sérios problemas e não entendia por quê. Quem colocaria drogas no armário dele para incriminá-lo? Claro, havia pessoas que o queriam morto e outras que queriam dominá-lo, mas por que alguém iria querer vê-lo na cadeia? Esforçou-se para pensar com clareza, mas o cérebro parecia estranhamente preguiçoso.

Aqueles deviam ser policiais disfarçados, dado o modo como se vestiam. Mas eles não deveriam ter-lhe oferecido um advogado antes de começarem a fazer perguntas? Ele tentou solucionar esse enigma, mas a mente não respondia.    

Hansford estava falando de novo.          

—        Por que não vamos até a delegacia e você responde a algumas perguntas? Já chamamos os seus pais. Eles disseram que vão nos encontrar lá.

—        Mas eu tenho prova em duas horas! — disse Jack, então se sentiu estúpido por ter dito aquilo.

Hansford sorriu. Era, com certeza, o mais amigável dos dois.

—        Com alguma sorte, a gente esclarece isso, e você estará de volta em tempo para a prova.

Jack fechou os olhos. Algo se agitou no fundo de sua mente, como minúsculas asas. Não, não eram asas. Palavras. Uma ladainha reconfortante. "Vá até a delegacia. Converse sobre a questão. Vai ficar tudo bem." Ele se empertigou. Eles disseram que haviam falado com os pais dele. Mas o pai de Jack estava em Boston. Era impossível que tivessem falado com ele. E a mãe dele teria insistido para levá-lo ela mesma à delegacia.

Foi então que caiu em si. Abriu os olhos. Hansford olhava firme para Jack, concentrando-se, e Jack conseguiu sentir o poder que emanava dele. "Vá até a delegacia, vai ficar tudo bem", a voz insistente dizia.

Os homens eram magos.

Jack respirou fundo, lutando contra o pânico. Acima de tudo, sabia que não podia revelar o que sabia sobre o jogo mortal que estavam jogando. Sua única vantagem era o fato de eles pensarem que ele era apenas um garoto destreinado do segundo grau.

"Deve ser a Rosa Vermelha." Pousou o olhar sobre Penworthy. Uma escola cheia de Penworthys não seria o suficiente para detê-los. Jack precisava de ajuda.

Jack se levantou.

—        Acho que vou vomitar — anunciou ele, segurando a barriga. E não estava longe da verdade. — Preciso ir. Volto num minuto.

Os magos se agitaram, descontentes.

—        Por que não vamos logo, Jack? — sugeriu Hansford. — Vai se sentir melhor assim que estiver ao ar livre.

—        Estou falando sério — replicou Jack, erguendo a voz. — Vou vomitar.

Penworthy levantou-se num salto. O carpete do escritório era de uma pálida cor de pêssego.

—        O banheiro é por aqui, na terceira porta. Vocês podem ir com ele, se quiserem.

Com relutância, Hansford e Sowicky seguiram Jack até o escritório externo. Will estava sentado em uma cadeira junto à porta e ergueu a cabeça quando Jack emergiu da sala de Penworthy acompanhado pelos dois "detetives". Will estava prestes a dizer algo, mas naquele momento Jack tropeçou no pé de uma cadeira e caiu praticamente no colo de Will. Com a boca junto ao ouvido de Will, Jack sussurrou:

—        Will, estou com problemas. Encontre o Hastings, rápido. Conte pra ele.

Hansford e Sowicky agarraram um braço de Jack cada um, puseram-no em pé e o levaram para fora da sala.  

 

Will ficou imóvel por um momento, atordoado. Hastings? O que ele tinha a ver com tudo aquilo? Mas Will se levantou rapidamente, lembrando-se do desespero no rosto de Jack.

—        Onde está o senhor Hastings? — indagou ele à senhorita Prentiss, a secretária, que observava a saída de Jack e sua escolta com curiosidade.

—        Não tenho a menor idéia — respondeu ela. — Sei que ele está no prédio, mas é semana de provas, então a agenda de todo mundo está um pouco...

Will ergueu a mão para conter o fluxo de palavras.

—        Escute, é importante. Preciso achar ele agora mesmo.

Penworthy apareceu à porta da sala dele, endireitando nervosamente a gravata.

—        Senhor Childers, não gosto do seu tom de voz. Quando virmos o senhor Hastings, avisaremos que o senhor está procurando por ele.

Will se voltou e olhou feio para o diretor, pondo a mão sobre o ombro dele. Dada a diferença de tamanho entre eles, o gesto era bastante ameaçador.

—        Não estou brincando, senhor Penworthy. Se sabe onde ele está, precisa me dizer, ou... ou todo mundo vai se arrepender.

Tanto a secretária quanto o diretor encaravam Will, que nunca havia levantado a voz para ninguém.

Penworthy recuou um passo, engoliu em seco e pareceu encolher ainda mais.

—        Não sei onde ele está. Talvez esteja ajudando em alguma das provas. O intercomunicador ainda está quebrado, por isso vai ter de procurar por ele.

—        Quem eram aqueles homens e pra onde levaram o Jack? — indagou Will.

—        São policiais. Estão levando-o até o banheiro. Ele não estava se sentindo bem.

—        Se virem o senhor Hastings, digam que Jack Swift precisa da ajuda dele.

Will girou nos calcanhares e correu para fora do escritório.

Parecia uma tarefa impossível. O prédio era imenso, e Hastings poderia estar em qualquer uma da centena de classes do colégio. Como as portas das salas não tinham janelas, seria necessário abrir uma centena de portas. Will seguiu rapidamente pelo corredor, escancarando portas, assustando supervisores e alunos fazendo prova, perguntando a todos que via se sabiam do paradeiro de Hastings. Afinal, dobrou uma esquina e praticamente trombou com Fitch.

—        Opa, cuidado aí, Will. Se atropelar alguém, pode haver mortos e feridos.

Fitch parou de rir quando viu o rosto de Will.

Will explicou a situação, apressado. O tempo passava, e ele não estava chegando a lugar algum.

—        É o seguinte — disse ele a Fitch. — Você continue procurando pelo Hastings. Eu vou telefonar pra Linda. Ela me deu o número do celular dela.    .

Correu até a fileira de telefones públicos do lado de fora da cafeteria e discou. Ela atendeu quase que de imediato. Pelo ruído de fundo, ela parecia estar no carro.

—        Alô, aqui é o Will. O Jack está em algum tipo de encrenca. Ele me mandou procurar pelo senhor Hastings, mas não consigo encontrá-lo.

Houve um momento de silêncio. Então a voz de Linda vibrou no telefone.

—        Onde o Jack está agora?

—        Da última vez que eu o vi, estava saindo da sala do diretor com dois homens.

—        Will, me escute. Estaremos aí assim que pudermos. Encontre o Hastings. — E ela desligou.

Os dois seqüestradores de Jack seguravam-no com força. As mãos deles queimavam-lhe a pele através da camisa. Jack achou que eles pudessem tentar forçá-lo a sair naquele momento mesmo. Vendo que o corredor estava lotado de estudantes, Jack se inclinou, queixando-se em voz alta de que se sentia mal. Alguém que Jack não identificou chamou por ele. Jack não olhou para trás. Os dois magos se encaminharam para o banheiro, aparentemente acreditando na palavra de Jack.

Hansford continuava tentando confundir-lhe a mente. "Você está bem, Jack", dizia a voz dentro de sua cabeça. "Coopere e vai ficar tudo bem." Uma vez no banheiro, Jack se trancou em uma das cabines e fez o maior barulho que pôde, simulando tentativas de vômito. Não fazia idéia do que Will faria com a mensagem dele. E se Will não conseguisse encontrar Hastings? Jack estava decidido a não ir a lugar algum com Hansford e Sowicky. Só que ele não parecia ter saída.

Os magos estavam ficando impacientes.

—        Vamos — disse Sowicky, batendo na porta da cabine. — Está demorando muito.

—        Só mais um minuto — respondeu Jack. — Não quero vomitar no carro de vocês.

—        A gente não liga, Jack — disse Hansford. — É hora de ir. Seus pais devem estar se perguntando onde você está.

—        Escutem — disse Jack em voz fraca. — Quem sabe eu vou com meus pais um pouco mais tarde. Depois da minha prova. Eles vão querer chamar o advogado deles, de qualquer maneira.

—        Você não vai precisar de advogado — disse Sowicky com aspereza. — Porque vai ser uma coisa bem informal — apressou-se em acrescentar. — Agora saia, ou a gente entra pra pegar você.

Jack refletiu sobre suas opções. A porta de uma cabine de banheiro não seguraria os dois magos por muito tempo. Pensou em tentar um dos feitiços de ataque que Nick lhe ensinara. Sabia, contudo, que não era muito poderoso como mago, e não fazia idéia de quem estava enfrentando. Decidiu que seria melhor continuar a bancar o idiota até que estivessem fora do colégio, e então tentar pegá-los de surpresa em um local onde houvesse    menos risco para outras pessoas e mais possibilidades de escapar.

Ele acionou a descarga e destrancou a porta. Mas, assim que saiu, Sowicky segurou-o pela garganta, prendendo-o contra o batente da porta, cortando-lhe o suprimento de ar e silenciando-o com eficácia. Jack ouviu Hansford pronunciar um feitiço, e foi como se metal quente lhe corresse pelas veias. Seus braços e pernas de repente pareciam pesados demais para que pudesse erguê-los. Um feitiço de imobilização, supôs Jack. Tarde demais.

Sowicky puxou-o para longe da parede e o jogou de bruços no chão; o joelho de alguém pressionava as costas de Jack. Seu braço foi torcido para trás com tanta força que teve medo de que seu ombro se quebrasse. O outro braço teve o mesmo destino, e algo se fechou ao redor de seus pulsos, ligando-os bem apertado.

O tempo passava devagar agora, e todos os sentidos de Jack estavam em alerta total. O fedor familiar do banheiro do colégio assaltava-lhe as narinas, o frio da cerâmica atingia o seu rosto arranhado. Havia sujeira no rejunte entre os ladrilhos cinza e vinho do piso, as cores do Colégio de Trinity. Ele teve uma fração de segundo para se perguntar se isso seria a última coisa que veria, se eles o matariam ali mesmo. Então compreendeu que eles provavelmente não atariam suas mãos se planejassem matá-lo.

—        Acabou a brincadeira, Jack — sussurrou alguém.

Era Hansford. O cara legal. Eles o rolaram no chão de modo que ficasse deitado desconfortavelmente sobre os braços amarrados, olhando para o rosto deles, um de cada lado. Sowicky ergueu a camiseta e o colete de Jack para expor-lhe o peito.

Hansford retirou do colarinho da blusa um cone prateado, semelhante ao que a doutora Longbranch usava, só que menor. Colocou-o contra a pele de Jack e segurou-o lá por um momento. Em seguida, fez um gesto brusco de cabeça para o parceiro e guardou o cone dentro da própria blusa. Jack tentou desesperadamente rolar para longe, mas não conseguiu nem se mover.

—        Escute com atenção — disse Sowicky. — Vamos levar você vivo, já que vivo você vale uma fortuna e morto não vale nada. Venha com a gente por bem, e ninguém se machucará. Mas vamos matar qualquer um que se ponha no nosso caminho. Quero que pense nisso antes de fazer uma cena quando a gente sair.

Nesse exato instante, Jack ouviu a porta do banheiro se abrir. Ergueu os olhos e viu Leesha Middleton.

Ele tentou gritar, avisá-la para fugir.

Então se perguntou o que ela estava fazendo no banheiro masculino.

Ela fechou a porta atrás de si e veio na direção deles. Ajoelhou-se ao lado de Jack no piso de ladrilhos.

Leesha sorriu e despenteou o cabelo de Jack como se fosse sua dona.

—        Então vocês o pegaram — disse ela.

Jack abriu e fechou a boca como um peixe fora d'água.

—        Achei que você tinha dito que ele não era treinado — disse Hansford. — Não conseguimos detectar nenhum vazamento de magia. Tivemos de contar com a sua palavra.

—        O que deveria ser o suficiente pra vocês. — Leesha deslizou as pontas dos dedos sob a camisa de Jack, afastando-a de cima do colete. — O que temos aqui? — Ela passou um dedo pelo colete. — Segredos não revelados? A gente acha que conhece uma pessoa...

Jack estava pensando mais ou menos a mesma coisa.

Leesha se sentou no chão ao seu lado e deitou a cabeça dele em seu colo, acariciando-lhe suavemente o rosto.

—        Não está tão bonito quanto da última vez que eu vi você. Parece que o meu namorado deu uma surra em você. É bem-feito, por ter boicotado minha festa. — Ela suspirou de modo dramático. — Oh, Jack, que tola eu fui.

"Eu também."

—        Quem é você? — murmurou Jack. Ele queria poder se mover, um pouquinho que fosse, para aliviar a tensão nos braços. — Para quem você trabalha? — Cada pergunta fazia com que ganhasse um pouco mais de tempo.

—        Eu? Sou maga. A doutora Longbranch me contratou para manter um olho em você no outono passado. Não entendi por que Longbranch considerava você digno de ser observado, então decidi descobrir. Trabalhei duro com você, Jack. Arranquei todos os seus segredos tediosos, mas escolhi a hora errada. Na época, você era totalmente ignorante e não tinha nada a me dizer. E Longbranch mantinha você dopado com Antiweir, por isso seu corpo não vazava magia também.

Jack não se lembrava muito de seus encontros com Leesha. Um borrão bastante prazeroso e nada mais.

—        Agora trabalho pra mim mesma — continuou Leesha. — E mereço o que conseguir desta vez, pode acreditar. Presa neste fim de mundo, sendo legal com caipiras e idiotas. Se bem que nem tudo foi desagradável. — Ela se inclinou e beijou-o. — O que me lembra...

Ela remexeu na bolsa com uma mão e sacou um pequeno frasco. Tirou a rolha com os dentes. Segurando o maxilar de Jack, forçou-o a abrir a boca e despejou o conteúdo, massageando-lhe a garganta para que engolisse a maior parte. Parecia ter prática naquilo.

O gosto era familiar. Leesha confirmou:

—        Antiweir. Pra impedir que o guerreiro apronte alguma sacanagem. Alguns minutos até fazer efeito, e vamos embora.

—        Como você... como descobriu?

—        Bem, devo dizer que a mudança física atraiu meu interesse. E então Leander Hastings apareceu em Trinity, o que indicava que algo estava acontecendo.

—        Conhece o Hastings?        

Leesha chegou mesmo a estremecer.

—        Aquele traidor de coração mole? Todos nós conhecemos. Depois que ele chegou, vocês estavam sempre juntos. Então resolvi pôr alguma coisa na sua bebida na festa, levar você até uma sala nos fundos e ver o que conseguia descobrir. Quando você não apareceu, saí procurando por você. E qual não foi a minha surpresa quando vi você jogar o coitado do Garrett de um lado pro outro no estacionamento. — Ela deu um tapa na própria testa. — Era tão óbvio!

Hansford pigarreou.

—        Falando no Hastings, acho melhor a gente ir.

—        O que vão fazer comigo? — indagou Jack rapidamente. Leesha estava se divertindo, demonstrando o quão estúpido ele havia sido. Talvez ele pudesse adiar o inevitável um pouco mais.

—        Depende. As duas Casas estão ansiosas... ou melhor dizendo, desesperadas pra pôr as mãos em você. Isso deve subir o preço.

—        Vocês são mercadores — disse Jack, entendendo enfim. — Você quer... me vender.

Jack sentiu o estômago se contrair e pensou que vomitaria de verdade. Só que, deitado de costas como estava, incapaz de se mover, ele provavelmente se afogaria. Jack varreu o pensamento da mente.

—        Isso mesmo, Jack. Um negócio como esse e nunca mais vamos precisar trabalhar — disse Sowicky. — Você é o que chamamos de uma mercadoria especial.

Chega de passar horas em bibliotecas empoeiradas e tribunais de cidadezinhas, chega de arrancar adivinhos e feiticeiros medíocres de suas tocas pra vender por uma mixaria.

—        Acho que ele está pronto. — Leesha se levantou e sacudiu o pó da saia. — Preciso ir, Jack. Alicia Middleton não quer ter nada a ver com um suspeito de tráfico de drogas. Mas vejo você mais tarde. Prometo.

Ela se olhou no espelho, retocou o batom, empurrou a porta e foi embora.

Hansford e Sowicky agarraram um braço cada um e puseram Jack em pé, de maneira que ele pendia entre os dois, impotente.

—        Agora vamos sair daqui, rápido e em silêncio — disse Sowicky.

Sowicky pronunciou um feitiço, e Jack sentiu a energia voltando a fluir. Jack esperou um segundo, então baixou a cabeça e arremeteu contra a barriga de Sowicky. O mago caiu de mau jeito, batendo a cabeça contra a parede com um barulho considerável. Jack se retorceu e pulou alto, chutando com o pé direito a virilha de Hansford. Entretanto, com as mãos atadas, Jack não pôde controlar a queda e bateu forte contra a quina da pia. A Antiweir estava funcionando, embotando-lhe os reflexos, pondo-lhe os instintos físicos em desordem.

Alguém, provavelmente Sowicky, agarrou-o pelo cabelo, forçando-lhe a cabeça para trás e para dentro da pia. O mago abriu a torneira ao máximo. Jack estava se afogando, cuspindo e arfando, inspirando água em vez de ar. Sowicky cravou os dedos em seu torso, rasgando-o por dentro com seu poder. Quando Jack tentou gritar, apenas engoliu mais água. Ele se contorceu e girou, mas não pôde evitar o toque do mago.

Depois do que pareceu uma eternidade, eles ergueram-lhe a cabeça da pia e o atiraram de joelhos no chão. Sowicky atingiu-o com força nas costas, e Jack vomitou água sobre os ladrilhos, tanto pelo nariz quanto pela boca. As mãos dos magos sob suas axilas o impediam de cair de rosto no chão.

— Incrível, não é, quanto se pode machucar uma pessoa sem causar nenhum dano real — disse Hansford com suavidade. — Esta é apenas uma demonstração sem grande refinamento, Jack. A gente sabe como fazer você se arrepender de um modo como você nunca imaginou ser possível. Não se meta conosco.

Eles ergueram Jack outra vez. Segurando firme cada braço, praticamente carregaram-no para fora do banheiro. Jack notou com alguma satisfação que Hansford estava mancando feio.

Jack examinou o corredor com os olhos o melhor que pôde, os olhos ainda escorrendo a água em que o haviam submergido e que ele não conseguia secar. Havia ainda um bom número de estudantes por ali. O zumbido de conversas parou gradualmente quando aqueles que vagabundeavam no corredor notaram o trio andando em direção à porta, os dois homens arrastando o prisioneiro entre eles, Jack com o cabelo pingando e colado à cabeça, as mãos amarradas às costas. As

pessoas no corredor abriram caminho para eles, os estudantes recuaram para junto dos armários de ambos os lados como se desejassem se esconder dentro deles. Alguém disse o nome de Jack em uma voz baixa e assustada. Ele não viu quem era.

Então ele viu Will e Penworthy junto à porta do escritório. Jack se perguntou o que Will estava fazendo ali, se havia conseguido achar Hastings, mas não quis lhe perguntar na frente dos mercadores. Penworthy estava boquiaberto. Os dois magos avistaram o diretor, e Hansford pareceu em dúvida sobre oferecer-lhe ou não uma explicação. No final, ele disse, bem alto para que todos ouvissem:

—        Sinto muito. Ele meio que pirou lá dentro. Devem ser as drogas. Está tudo bem agora.

Will deu um passo na direção deles.

—        Jack, o que está acontecendo? — Falava em voz baixa, mas tinha os punhos cerrados e parecia prestes a atacar assim que a ordem fosse dada.

—        Não, Will. — Jack sacudiu a cabeça, lembrando-se muito bem da promessa dos magos no banheiro. — Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Eu preciso ir com eles.

Will avançou outro passo, ameaçando bloquear-lhes o caminho. A porta da rua se abriu, e a mãe de Jack entrou em passos firmes, com tia Linda logo atrás. Jack praguejou baixinho. O que elas estavam fazendo ali? Becka olhou de Penworthy para a cena de Jack sendo arrastado para fora pelos dois magos. A expressão no rosto dela era perigosa. Mas foi Linda quem falou.

—        Parem aí! — ordenou aos mercadores.

Eles se detiveram, encarando-a, como que surpresos demais para fazer outra coisa além de obedecer.

Becka se virou para o diretor.

—        Leotis, acho que você me deve uma explicação.

Leotis Penworthy parecia mais nervoso do que nunca. Ele fez um gesto na direção dos dois homens.

—        Becka, estes são o senhor Hansford e o senhor Sowicky, do departamento de polícia. Eles precisam fazer algumas perguntas ao Jack. Pensei que você fosse se encontrar com eles na delegacia.

—        Eu não sabia nada a respeito disso até que Will Childers me telefonou, 15 minutos atrás. — Jack reconheceu o tom de advogada de Becka. — Quero saber o que está acontecendo aqui.

O coração de Jack se contraiu. A mãe nunca seria intimidada pela polícia. Ela jamais permitiria que eles o levassem sem desafiá-los. Becka podia ser uma temível adversária num tribunal, mas não era páreo para magos. E Linda estava ao lado da irmã, tendo o pleno conhecimento do perigo estampado em seu rosto, tentando decidir o que fazer. "Por favor, meu Deus", rezou Jack. "Isso não." Só ele poderia impedir aquilo.

Concentrou-se na mãe.

—        Mãe, me escute. Estes homens não são da polícia.

Ela olhou para Jack, então desviou o olhar para os dois magos. Sowicky segurou o braço de Jack com mais força, em aviso. Becka colocaria de lado quaisquer preocupações sobre a própria segurança, por isso ele usou o único argumento que sabia que a convenceria.

—        Eles vão me matar se você interferir. Eles podem fazer isso num segundo. Minha única chance é se você me deixar ir com eles. Estou falando sério.

—        Jack — sussurrou ela, a voz falhando na única sílaba —, por favor. Isso tem de ser algum engano. Vocês pegaram a pessoa errada. Não o machuquem.

Jack percebia o movimento atrás dele, o leve deslocamento de corpos que lhe dizia que ainda havia estudantes no corredor.

—        Por favor, mãe. Tia Linda. Deixem-me ir. Façam isso por mim.

Pousou os olhos em Linda, torcendo para que ela também permanecesse onde estava. Ela estudava os dois magos, medindo-os.

—        Levem-me no lugar dele — sugeriu Linda. — Devo valer alguma coisa para o Mercado.

Só a voz dela já era o bastante para derreter corações, e agora Linda brilhava, como se estivesse iluminada por dentro. Jack sentiu uma súbita pressão de poder na direção dos dois magos. Os mercadores praticamente cambalearam diante dessa pressão.

Hansford lançou a mão livre na direção de Linda, e ela voou de costas, atingindo a parede, com força. Ela deve ter perdido a concentração com o impacto, pois o efeito do feitiço se desfez de imediato. Ela ficou lá caída, tonta, por um momento.

—        Vamos levá-la conosco — pediu Sowicky a Hansford, que parecia estar no comando. — A gente troca o menino e fica com a encantadora. Ninguém precisa ficar sabendo.         

Becka olhou para Sowicky e então para Linda, franzindo a testa.

Hansford sacudiu a cabeça.

—        Não. Não quero mais saber de encantadores. Antes que você perceba, ela nos faria cortar a garganta um do outro. Já vamos ter trabalho suficiente com este aqui. Vamos embora antes que ela comece de novo com aquilo.

Os dois homens pareciam nervosos, como se pudessem perder o controle a qualquer momento.

—        Vamos — disse Jack com urgência, torcendo para tirá-los dali antes que mudassem de idéia sobre Linda.

—        Que bom que resolveu ser razoável — resmungou Hansford, empurrando-o na direção das portas da frente.

"Pelo menos até eu chegar ao estacionamento", pensou Jack. A idéia de ser leiloado para as Rosas o fez estremecer. "Vou fazer com que me matem primeiro", prometeu ele para si mesmo, em silêncio.

Quando atravessaram as portas de saída, o calor e a luz do dia de verão atingiram Jack como um golpe físico, desorientando-o por um momento. Alguém gritou:

—        Abaixe-se, Jack!

Com uma espécie de grito de guerra, ele se livrou dos magos e se jogou para trás no asfalto, aterrissando dolorosamente sobre os braços amarrados, arranhando as mãos no concreto áspero. No mesmo instante, algo zuniu pelo ar, logo acima da cabeça dele, algo com cheiro de fogos de artifício e ozônio. Alguém gritou. Hansford ou Sowicky. Ambos, esperava Jack. Ergueu a cabeça.

Hansford jazia de bruços no concreto em frente à porta. Havia sido cortado quase que pela metade, seu corpo contorcido de um jeito incompatível com algo vivo. Sangue se espalhava em uma poça ao redor dele. Sowicky estava em pé ao lado dele, pernas afastadas, olhando para todos os lados em busca da fonte do ataque. O mercador moveu o braço em um arco horizontal, lançando chamas em todas as direções, murmurando feitiços em desespero. Ele se curvou de leve, tentando alcançar Jack onde este jazia no chão, agarrando-o pela frente da camisa, tentando colocá-lo em pé e usá-lo como escudo.

Então houve uma forte rajada, uma explosão sônica, que deixou os ouvidos de Jack zumbindo. Sowicky levantou vôo, braços e pernas esticados, levando a frente da camisa de Jack com ele. Colidiu com um carro a meio caminho do lado oposto do estacionamento com um ruído pavoroso. Sowicky caiu imóvel sobre o capô do carro.

Leander Hastings passou por Jack e cutucou Hansford com o pé. Jack não tinha dúvidas de que Hansford estava morto, e era difícil de acreditar que Sowicky pudesse ter sobrevivido àquela aterrissagem também. Hastings se ajoelhou ao lado de Jack.

—        Você está bem?     

O rosto de Hastings estava sombrio, feroz.      

—        Estou bem — disse Jack, rouco.

Jack rolou para o lado. Agora estava de frente para o mago morto, sangue e carne espalhados pelo chão.

—        Ótimo. Não temos muito tempo.

Hastings passou os olhos rapidamente pelo estacionamento, depois estendeu as mãos sobre o mago aos seus pés. Murmurou algumas palavras, e a energia jorrou-lhe dos dedos. O corpo tremeluziu e pareceu se desfazer diante dos olhos de Jack, dissolvendo-se e infiltrando-se no asfalto. Jack fechou os olhos, tremendo. Após um instante, ouviu Hastings se afastar dele para cuidar do outro mercador.

Jack queria ficar onde estava, mas usou as mãos esfoladas e feridas para se sentar. Não havia sinal de Hansford, nenhuma mancha de sangue no asfalto. Era como se ele houvesse sonhado tudo aquilo. Com esforço, pôs-se em pé. Os limites do estacionamento tinham a aparência enfumaçada que indicava uma muralha mágica. O mundo além dela era indistinto. Hastings estava voltando para junto dele, tendo se desfeito do outro corpo.

—        O que... que você fez com eles? — gaguejou Jack.

—        Estão 15 metros abaixo da superfície. Isso deve ser fundo o bastante. — Ele era duro, frio, implacável, assustador, mas, quando se voltou para Jack, a expressão em seu rosto se suavizou.

Hastings segurou-lhe os cotovelos com cuidado e virou-o. Fechou as mãos sobre as algemas nos pulsos de Jack. Jack sentiu uma pulsação de energia no antebraço, e suas mãos estavam livres. Moveu os ombros em círculos, gemendo de dor. Hastings pousou as mãos sobre eles; o poder infiltrou-se até os músculos, e a dor diminuiu. Jack ouviu a voz do mago atrás dele, inesperadamente gentil.

—        Está tudo bem, Jack. Você está a salvo por ora.

Por alguma razão, o gesto trouxe lágrimas aos olhos de Jack, e ele se viu tremendo. As mãos permaneceram, acalmando-o.

—        Leesha Middleton ainda está lá, acho. Ela trabalha pra doutora Longbranch. Só que é mercadora. Ela sabe quem você é. — Jack sabia que estava falando de modo descontrolado, mas não conseguia evitar.

—        Está tudo bem. Ela provavelmente já se foi. Vou ser a menor das preocupações dela quando a Jessamine descobrir o que ela andava tramando.

Jack se deu conta de que estava ouvindo um som de pancadas repetidas, como alguém batendo nas portas duplas da escola por dentro. Jack se virou para encarar Hastings e viu um sorriso cruzar de leve o rosto do mago.

—        Pensei que você nunca ia sair de lá. Eu não queria começar nada lá dentro, com todas aquelas pessoas. — Hastings gesticulou em direção às portas. — Eu pus uma barreira, para impedir que eles se metessem. Suponho que eu os deva deixar sair antes que a polícia chegue. Está pronto para lidar com eles?

Quando Jack assentiu, Hastings disse:

— Apenas finja que está em choque e deixe que eu dou as explicações. As pessoas não vão esperar coerência de você nesse momento, de qualquer jeito.

De algum lugar não muito distante, Jack ouviu o som de sirenes.

Hastings desfez a muralha mágica e, de repente, as sirenes soaram muito mais alto. Ele fez um gesto em direção ao prédio da escola, pronunciou um feitiço. As portas duplas se escancararam, e Will Childers veio voando por elas, obviamente surpreso quando elas cederam de súbito sob seu ombro. Por pouco não caiu de cara no chão. Becka e Linda vinham logo atrás dele.

Becka soltou um grito quando viu Jack. Ajudou-o a subir os degraus da entrada e fez com que se sentasse. Ela e Linda sentaram-se uma de cada lado dele, cada uma segurando uma de suas mãos ensangüentadas, sujando assim as próprias roupas, mas sem parecer se importar.

Hastings ficou na calçada, fitando Linda. Ela ficava olhando para ele e depois desviando o olhar para longe quando ele a flagrava, em uma espécie de luta de esgrima, ataque e defesa, entre eles. Jack se lembrou do que Nick dissera. "Eles não se vêem há anos."

Fitch aparecera do nada. Ele e Will ficaram de lado, sem dizer nada, ainda alertas, esperando que alguém lhes desse alguma explicação.

Três carros da polícia entraram cantando pneu no estacionamento. Policiais uniformizados saíram dos carros, de armas em punho.

—        Eles foram por ali — disse Hastings, apontando para as quadras de esporte nos fundos da escola.

—        Dois homens vestindo jeans e blusas de abrigo. Um loiro e o outro moreno. Podem estar armados.

Mais carros da polícia chegaram, e policiais passaram por eles, espalhando-se como um enxame pela quadra esportiva e avançando para a vizinhança. Uma multidão de curiosos crescia, estudantes e professores que haviam deixado a escola, além daqueles que chegavam para as provas da tarde. Dois policiais reuniram todos no estacionamento dos professores, atrás de uma barreira de fita amarela. "Todos os policiais de Trinity devem estar aqui", pensou Jack. A força policial simplesmente não era tão grande assim. Ele deixou Becka e Linda cuidarem dele, evitando contato visual com todos.

—        Você está bem, Jack?

Jack levantou a cabeça e viu um homem corpulento de cabelos cor de areia e bigode. Era o tio de Will, Ross Childers.

—        Só arranhado. E esfolado, acho.

—        Gostaria de lhe fazer algumas perguntas que possam nos ajudar a pegar esses caras. E você vai ter de ser examinado. — Ele olhou de relance para Becka. Ela pousou a mão no ombro de Jack, como para protegê-lo.

—        Você conhecia aqueles homens, Jack?

Ele sacudiu a cabeça.

—        Nunca os vi antes. — "Verdade".

—        Algum motivo por que alguém ia querer pegar você? Você se meteu em algum tipo de encrenca?

Ele sacudiu a cabeça de novo. "Mentira."

—        Becka? Você recebeu alguma herança ou coisa assim? Fez novos inimigos no tribunal?

Ela pensou a respeito antes de responder:

—        Nenhuma herança. Ninguém em particular me vem à cabeça.

—        Como foi que você escapou, filho? — perguntou ele.

Alguém falou por cima do ombro de Jack, respondendo à pergunta por ele. Era Hastings.

—        Will Childers me disse que estava havendo um problema no escritório. Vim até o corredor e vi o que estava acontecendo. Então saí pela porta lateral e dei a volta pela frente, na esperança de surpreendê-los quando saíssem, e foi o que eu fiz. Jack conseguiu escapar na confusão, e eles fugiram. — "Tudo verdade, a não ser por aquela última parte".

—        Foi isso mesmo, Will? — Ross fixou os olhos cinzentos no sobrinho.

Will concordou, com um gesto de cabeça, olhando de relance para Hastings.

Becka levantou-se e abraçou Hastings.

—        Senhor Hastings, não tenho palavras para expressar minha gratidão — disse ela. — Se não fosse pelo senhor, não sei o que teria acontecido.

Linda sorriu hesitantemente para Hastings e estendeu-lhe a mão.

—        Obrigada, Lee.

Ele tomou-lhe a mão, encarando-a. Era como assistir a uma tempestade elétrica em pequena escala entre duas pessoas.

 

Nos dias que se seguiram, uma versão da história foi divulgada. Os seqüestradores haviam abandonado no estacionamento da escola uma van que havia sido roubada naquela tarde em um shopping center em Cleveland. Houve uma série de encontros acalorados entre Becka, a polícia e Penworthy. Por que o diretor não exigira melhores identificações dos policiais falsos? Por que não telefonara a Becka quando surgira a questão de vistoriar o armário de Jack? Penworthy não conseguia explicar nada disso. Jack chegou a ficar com pena do homem. Fossem quais fossem os seus defeitos, o diretor não tinha defesa contra magia.

Leesha Middleton nunca voltou à escola. Houve alguma preocupação de que ela pudesse ter se envolvido com os seqüestradores, mas então se soube que os pais dela a haviam transferido para uma escola particular em Boston, onde ficaria mais segura.

A polícia continuou interrogando Jack, que se aferrou à sua versão da história, mas tinha consciência de que, na opinião do tio de Will, algumas coisas não se encaixavam. A advogada Becka acompanhava aquelas sessões de pergunta e resposta e, de vez em quando, passava o braço ao redor de Jack e murmurava:

— Ele é a vítima aqui, Ross, lembra? De sua parte, Jack gostaria de ter a habilidade de Hastings de se desviar de perguntas.

A tia de Jack também era hábil em esconder o jogo. 

Cada testemunha lembrava a oferta de Linda, de ser trocada por Jack, de um jeito diferente. Alguém até se lembrava de ela ter mencionado o Mercado, e de os seqüestradores falarem algo sobre "encantadores", mas ela encarou Ross com um ar perplexo quando ele mencionou o assunto.

— Ross, como é que eu posso saber do que eles estavam falando? Nem faço idéia do que eu disse. Eu só estava tentando convencer os caras a soltarem o Jack.

A história criou um certo estardalhaço na mídia local e até apareceu em algumas reportagens nacionais. Equipes de vídeo de emissoras de Cleveland acamparam em frente à casa deles por alguns dias, mas por algum motivo nenhuma das cenas que filmaram foi transmitida. Linda persuadiu Becka e Jack a se mostrarem rigorosamente inacessíveis aos repórteres, na esperança de que a história morresse logo. Seria um desastre se a notícia do ataque chegasse a Jessamine Longbranch.

Jack acabou conseguindo fazer todas as provas da semana. Todos os dias Hastings ou Nick o levavam de carro para a escola, esperavam no corredor fora da sala de exame e depois o traziam de volta para casa. Will, Fitch e Ellen iam à casa de Jack quase todas as noites para estudar. Havia sempre um mago ao alcance de seus olhos.

Jack se sentia numa prisão. Ele sempre andara livremente por toda a cidade de bicicleta ou a pé, e, mais recentemente, de carro. Agora não podia se mover sem uma escolta. Todo o tempo sabendo que, se a Rosa Vermelha não conseguisse capturá-lo, iria atrás das pessoas a quem amava.

Will, Fitch e Ellen eram os únicos amigos que Jack queria ver, os únicos que não lhe faziam centenas de perguntas, que não tinham planos secretos. Mas ele sabia que, passando tempo com eles, colocava a vida deles em perigo.

Era impossível conseguir um momento a sós com Ellen. Aqueles eram provavelmente os últimos momentos que teriam juntos, e o tempo se esgotava.

As lições de Jack com Hastings foram suspensas; assim Jack pôde passar horas com Nick afiando suas habilidades como mago. Ele ficara perturbado com a facilidade com que os mercadores o haviam imobilizado. Agora se concentrava em defesas contra feitiços.

— A chave para a defesa contra a magia é ficar alerta — aconselhou-o Nick. — O feitiço falado é como qualquer outra arma. Uma adaga, por exemplo. Se o seu inimigo pegar você desprevenido, ele pode enfiar a adaga entre as suas costelas antes que você tenha tempo de reagir. Se um mago lança um feitiço, você precisa pronunciar o contra-feitiço antes que o dele faça efeito. Se não conseguir, precisa interromper o feitiço. Caso contrário, você talvez não tenha outra chance. Felizmente, é muito mais fácil bloquear um feitiço do que lançar um.

Isso era uma boa notícia para Jack, cujos poderes como mago eram limitados. Ele passou horas revisando feitiços e contra-feitiços.

Na noite do último dia de provas, Jack estava deitado na cama lendo ficção científica, tentando se distrair, feliz por haver terminado os estudos naquele dia, quando escutou uma leve batida na porta de seu quarto.   

Era Becka.

—        Posso falar com você um minuto?

Quando ele fez que sim com a cabeça, ela entrou e se sentou ao lado dele na cama.

—        Jack, eu estava pensando... — Ela retorceu as mãos no colo, girando no dedo o anel de opala que pertencera à avó dela. — Tem alguma coisa sobre a qual você gostaria de conversar?

Jack pôs o dedo no livro para marcar onde interrompera a leitura e se sentou mais ereto.

—        Como assim?

—        É que... você parece diferente. Como se estivesse tenso. Você sempre foi... temperamental, mas ultimamente perde a cabeça por coisas que antes não costumavam aborrecer você. De repente, você começou a fazer exercícios o tempo todo. — Ela estendeu a mãos e tocou-lhe gentilmente o bíceps. — Não que haja algo de errado nisso, mas você nunca se interessou por fisiculturismo antes... — A voz dela sumiu. — E... agora isso que aconteceu na escola.

Ela engoliu em seco.

—        Eu sei que seu pai e eu sempre estivemos ocupados com mil coisas, mas você nunca foi de criar problemas. Você parecia estar bem, apesar do divórcio. Mas agora...

—        Qual é, mãe? — disse Jack, sentindo-se desconfortável. — Vocês não me abandonaram ou coisa assim.

—        Eu sei que tenho uma... personalidade forte. — Becka olhou-o de esguelha. — Mas quero que saiba que você pode me contar qualquer coisa.

—        Está bem — disse Jack com cautela. — Qualquer coisa. Vou me lembrar disso.

—        Então, tem alguma coisa que gostaria de me contar? — Becka ergueu os olhos das próprias mãos para Jack.

Jack suspirou, pois estava preso a uma mentira gigantesca que não podia largar. Nunca poderia largar. Iniciou com uma verdade.

—        Eu amo você, mãe — E terminou com uma mentira. — Tenho certeza de que tudo está bem agora.

Algum instinto a impedia de se convencer. O olhar que ela lhe dirigiu dizia isso.

—        Sabe, Jack, estou com medo. Quase perdi você quando você era bebê. Isso teria partido o meu coração, porque eu ficaria sempre imaginando como você seria ao crescer. Mas... se eu perdesse você agora, seria muito pior. Porque agora eu sei como você é especial para mim.

Ela sorriu com tristeza, beijou-o e saiu do quarto.

Linda começava a concordar com Jack: ir para a Inglaterra não seria muito mais arriscado do que ficar em Trinity. Embora fosse do conhecimento de todos que eles iriam, Linda não queria que ninguém soubesse exatamente quando ou como. A tentativa de seqüestro foi uma bênção disfarçada, pois permitiu que ela convencesse Becka a concordar com seus planos. Eles finalmente decidiram que a partida seria uma semana antes do que fora marcado, e que partiriam do aeroporto de Pittsburgh em vez do de Cleveland.

A Sociedade Chauceriana também se preparava para sua viagem ao exterior. Dez membros iriam, com os pais de Will como responsáveis. Fitch andava ocupado tirando livros da biblioteca e fazendo buscas on-line, estudando todos os aspectos da história e da cultura britânicas. O entusiasmo dele era contagioso. Até Jack foi ficando mais entusiasmado com os planos de verão.

Hastings e Linda se encontraram várias vezes naquele período, quando o professor de Jack o buscava em casa ou o trazia da escola, ou passava para uma visita. Eram sempre polidos e corteses um com o outro, mas Jack sentia uma carga de energia no ar quando estavam juntos, como um aquecedor ligado em um dia abafado. Hastings parecia pouco confiante, o que não lhe era característico. Jack às vezes notava-o em pé, observando-a intensamente, a mão segurando o antebraço oposto, como que tentando solucionar um problema.

Quando chegou a hora de Jack fazer as malas para a viagem, não conseguiu se convencer a deixar a Sombra Assassina para trás. Pôs a espada no estojo, que guardou dentro de uma grande mala de mão, lançando um feitiço simples sobre ela para que ninguém mais pudesse abri-la. Jack começava a ver como seus dons lhe poderiam facilitar as coisas, especialmente em se tratando de lidar com os Anaweirs.

Ao arrumar suas outras armas mágicas, Jack lembrou-se de que não havia olhado no espelho de Blaise desde a noite que Nick o devolvera a ele. Tirou o invólucro de couro e revirou-o nas mãos. Enfim, espiou dentro do vidro nebuloso.

A imagem clareou, revelando a nave de uma igreja medieval. Velas derretiam nos cantos, pouco eficazes contra a escuridão. Um corpo jazia em um colchão rústico no chão, coberto por um cobertor áspero. Estava cercado por uma guarda solene de guerreiros. Duas mulheres se ajoelhavam junto ao corpo, as cabeças baixas, rezando; suas vozes suaves eram o único som em meio ao silêncio. Demônios espreitavam nas sombras, circundando o esquife, avançando e recuando. A oração das mulheres mantinha-os a distância.

Jack apertou os olhos, tentando ver quem eram as pessoas. A cena com certeza era do passado. Entretanto, as mulheres pareciam estar vestindo roupas modernas. A imagem se desfez, substituída pelo reflexo do rosto de Jack.

"Obscuro como sempre", pensou Jack. Totalmente inútil. Ainda assim, ele enfiou o espelho de Blaise dentro da mala de mão. Toda ajuda era bem-vinda.

Nick ficaria mais duas semanas para fazer parecer que a casa estava ocupada, então se juntaria a eles em Oxford. O velho zelador não parecia muito entusiasmado com a idéia de visitar a Inglaterra.

—        Lá é muito barulhento — explicou o mago a Jack. — Vai ver o que quero dizer quando chegar lá. Além disso, a comida é ruim. Os ingleses nunca aprenderam a arte da sobremesa.

—        Queria que fosse conosco — admitiu Jack. — Mais do que nunca, preciso de alguém para zelar por mim.

—        Apenas se lembre de quem você é, Jack — disse o velho. — O mundo vai tentar transformar você em outra pessoa. Não deixe. E o melhor conselho que qualquer um pode dar a você.

Jack não contou sobre a mudança de planos a ninguém, nem mesmo a Will, Fitch ou Ellen. Mas ele os convidou para jantar na noite anterior à verdadeira partida. Todas as malas estavam feitas e escondidas, tudo pronto para a manhã seguinte. Eles comeram do lado de fora, na varanda. Tia Linda manteve todos rindo com suas imitações satíricas de várias personalidades de Trinity. Normalmente, Becka tentava conter a irmã irreverente, mas naquela noite ela riu com todos os outros. Nicodemus Snowbeard contou uma história muito antiga e romântica sobre reis e rainhas, mal-entendidos e amor não correspondido. O herói Leander Hastings estava lá como convidado especial, e ele e Becka entraram numa acalorada discussão sobre arte medieval que fez os outros lhes implorarem por uma trégua.

—        Está bem — disse Becka, inclinando o queixo e erguendo o copo. — Desisto, mas não concedo. Gostaria de propor um brinde a Will Childers, Harmon Fitch e Leander Hastings, todos bravos homens, que ajudaram a salvar a vida do meu filho.

Hastings ergueu o copo, sorriu para Becka, e uma certa suspeita insinuou-se nas margens da consciência de Jack.

—        Talvez nos encontremos na Inglaterra, então — disse o mago.

Ao anoitecer, Snowbeard acendeu os lampiões no corrimão da varanda, e os vaga-lumes reluziram nas sombras sob as árvores.

Parecia haver um pouco de magia em todos naquela noite. O ar estava impregnado dela. Jack se recostou numa cadeira de vime contra a casa, calado e alerta a tudo aquilo. Linda e Hastings sentaram-se juntos no balanço, a uma pequena distância, e conversavam. Will e Fitch jogavam uma bola de um para o outro no quintal, a esfera branca quase invisível na luz que diminuía. Jack teve a sensação melancólica de que algo importante estava mudando ou morrendo, que eles talvez nunca ficassem juntos de novo daquele jeito.

Ellen estava sentada na cadeira em frente à dele. Vestia uma longa saia volumosa e um suéter branco sem mangas. Jack não se lembrava de tê-la visto com outras roupas além de calças antes. Desde que o tempo ficara mais quente, a pele dela ganhara uma rica cor dourada por conta do trabalho no jardim. Jardinagem parecia fazer bem a ela, pois ela parecia muito... em forma, pensou Jack.

—        Eu gosto da sua mãe — disse Ellen, em tom melancólico.

Jack olhou de relance para onde Becka estava agora, mergulhada numa conversa com Hastings e Linda.           

—        Ela é bem intensa às vezes — disse ele.

—        É, sim — disse Ellen. Ela nunca exigia longas explicações. Ela balançou as pernas, os dedos nus dos pés aparecendo sob a saia. — Esta cidade é legal. — Ela olhou para a rua Jefferson, onde as lâmpadas a gás começavam a brilhar. O som das crianças brincando vinha de longe no ar suave. — Queria que você não fosse para a Inglaterra.

—        É, eu sei. — Jack fitou a rua. Ellen estava de partida para o Wisconsin no dia seguinte e provavelmente não voltaria no outono. — Você também vai embora, e nem sei se você vai voltar.

—        Pois é — disse ela.

Becka se aproximou.

—        Quer mais alguma coisa pra beber, Ellen?

—        Não. — Ellen se levantou. — Preciso ir. Ainda tenho de acabar de arrumar as malas. Obrigada por me convidar, senhora Downey. O jantar estava ótimo. Espero que tenha um verão maravilhoso.

Jack desceu os degraus com ela até as sombras ao lado da varanda.

Ellen tomou as mãos dele nas dela.

—        Adeus, Jack. Tome cuidado.

Ela o soltou, mas Jack segurou-lhe o pulso e puxou-a para si. Trazendo-a para perto, inclinou-lhe o rosto para cima e a beijou. O primeiro beijo de verdade entre eles e, como ele não queria que fosse o último, beijou-a de novo, sem pressa, perguntando-se por que havia esperado tanto tempo. Quando finalmente se separaram, Ellen permaneceu no lugar, os olhos fechados, o rosto voltado para cima. Como se quisesse prolongar o beijo também.

Pousando a testa contra a dela, ele disse:

— Tchau, Ellen. Mando um e-mail pra você quando chegar lá.

Ela engoliu em seco e se virou. Jack ficou observando enquanto ela atravessava o gramado, o suéter branco pálido contra a escuridão, até que ela dobrou a esquina.

 

Linda havia reservado quartos para ela mesma, Jack e Becka em um hotel pequeno e elegante em Thurloe Place, junto ao Museu Vitória e Alberto e aos Kensington Gardens. O quarto de Jack era iluminado, arejado e dava para um jardim. Ele escancarou as portas do jardim e respirou fundo. Rosas. Empurrou a bolsa com a espada para baixo da cama, pôs feitiços de proteção em torno do quarto e caiu, exausto, na cama.

Desde o momento em que o avião pousara, Jack se sentira dominado por uma sensação de estar de volta ao lar, apesar de nunca ter estado na Inglaterra. As placas de rua, passando pelos ônibus e os gramados, até a arquitetura, tudo lhe parecia incrivelmente familiar. O que era mais desconcertante era o murmúrio constante, uma cacofonia de vozes de Weirlinds mortos havia muito tempo. Estavam em todos os lugares, chamando dos cemitérios de igrejas, dos jardins e dos edifícios antigos.

—        Bem-vindo, guerreiro — sussurravam elas.

Jack começava a entender o que Nick quisera dizer com barulho. Não se sentia como se houvesse entrado na cidade despercebido.

Após desfazerem as malas, ele e Becka almoçaram no restaurante do hotel. Linda tinha outros negócios a resolver, pelo que dissera. Embora tivessem viajado a noite toda, Becka estava cheia de planos.

—        A Harrods é logo aqui, subindo a rua; temos de ir lá. Podemos ir a pé até o Palácio de Kensington, ver os jardins e o lago Serpentine, e caminhar pela Rotten Row. — Ela sacudiu o garfo no ar. — Amanhã vamos até o Palácio de Buckingham de manhã, e quem sabe ver a Torre de tarde. — Ela abriu um sorriso travesso. — Acho que você vai gostar.

—        Parece ótimo, mãe. — Depois de tudo o que havia acontecido, Jack estava verdadeiramente ansioso por se fazer de turista.

Ele e Becka passearam por Kensington e Knightsbridge naquela tarde, e todos os três passaram o dia seguinte vendo a Londres para turistas: o Palácio de Buckingham e o Big Ben, Trafalgar Square e a Torre.

Jack achou a Abadia de Westminster cansativa, e não foi por ainda estar no fuso horário de Ohio. Eles começaram o passeio no túmulo de Eduardo, o Confessor. Um clérigo de expressão carrancuda fazia um longo e tedioso discurso sobre a história da igreja, enquanto guerreiros fantasmas flutuavam sobre seus ombros e sua cabeça, gesticulando nervosamente para Jack. Suas vozes ecoavam nas pedras como um coro desafinado.           

Eles o seguiram através da Capela à Virgem Maria, onde estavam enterradas três grandes adversárias da época dos Tudors: Elisabeth I, Maria Tudor e Maria I da Escócia. PARCEIRAS TANTO NO TRONO QUANTO NO TÚMULO, AQUI JAZEMOS, DUAS IRMÃS, ELISABETH    E MARIA, NA ESPERANÇA DA RESURREIÇÃO.   

Jack parou junto aos túmulos de Henrique VII e          Isabel de York. O casamento deles havia posto fim à Guerra das Rosas. Oficialmente, pelo menos. Ali os Weirlinds estavam quase frenéticos. Um soldado fantasma magérrimo segurou Jack pelo braço. Sua carne cinzenta era quase translúcida. Um grande corte embaixo do queixo se estendia de orelha a orelha.

—        Cuidado, guerreiro! — proferiu ele, lembrando o fantasma de César. — Cuidado com a Ravina!

Jack deixou Becka e Linda seguirem um pouco à frente, então virou-se e sussurrou:

—        Quer me deixar em paz?

—        Cuidado, guerreiro! — repetiu o fantasma. — Eles pregarão uma rosa em teu peito, a Branca de York ou a Vermelha de Lancaster, e enviar-te-ão ao matadouro!

—        Olha, não tenho intenção nenhuma de lutar com ninguém — retorquiu Jack, então tapou a boca. Um casal obeso, de bermudas e regatas combinando, o encarava. Um deles levantou uma câmera digital e tirou uma foto.

—        Jack, você vem? — Becka estava em pé junto à entrada da Capela à Virgem Maria, batendo o pé com impaciência. — Você está tão distraído hoje! 

—        Desculpe. — Jack seguiu-a até a frente do santuário. — Depois do almoço, será que a gente poderia ir a algum lugar onde não tenha tantos fantasmas?

—        Cuidado! — disse o fantasma quando Jack se afastou. Se tivesse uma corrente, ele a teria arrastado.

Durante os dias seguintes, eles mergulharam em Londres. Foram ao teatro, comeram em pubs e restaurantes indianos e pegaram o trem até Kew Gardens. Havia uma excursão de um dia inteiro até Bath, a Catedral de Salisbury e Stonehenge. Stonehenge foi outro daqueles lugares que tinham muito a dizer a Jack...

Jack queria comprar um presente para Ellen, uma camisa de um clube de futebol inglês. Do Manchester United ou do Chelsea? Comprou as duas. Levou uma hora para se decidir sobre o que escrever num cartão postal. Escreveu: "Espero que esteja se divertindo!" e depois riscou. Enfim, fez uma lista de lugares que tinha visto e terminou dizendo: "Sinto saudades. Queria que você estivesse aqui". Enviou o postal para o endereço dela em Trinity, torcendo para que os pais dela o encaminhassem a ela. Mandou-lhe um e-mail a partir de um cibercafé, mas não obteve resposta.

Becka havia marcado uma consulta para Jack com Jessamine Longbranch no último dia deles em Londres. Tanto Linda como Jack estavam tentando não pensar a respeito, mas a data chegou rapidamente mesmo assim. Na noite anterior à consulta, eles jantaram em um restaurante tailandês em Knightsbridge. Perdidos em pensamentos, Linda e Jack falaram pouco. Finalmente, durante a sobremesa, Linda convenceu Becka a visitar a Galeria William Morris enquanto levaria Jack à consulta. Foi feitiçaria, pura e simplesmente. Mas ambos se sentiram melhor com Becka fora de perigo.         

Na manhã seguinte, Jack e Linda tomaram o metrô até St. James Park. O consultório de Longbranch era em Westminster, junto à Praça do Parlamento. Por todo o caminho, Linda se mostrou insegura a respeito de sua decisão de manter a consulta, mesmo depois de eles terem saído do trem e deixado para trás o ar viciado da estação do metrô. Linda tinha certeza de que a doutora Longbranch contataria Becka para remarcar a consulta se eles não aparecessem. Na próxima vez, Becka e Jack poderiam estar sozinhos.

O prédio era antigo, e o elevador era apenas um pouco mais recente, mas o consultório da doutora Longbranch era mobiliado com elegância, com tecidos caros e peças de antiquário. A recepcionista ofereceu-lhes chá, que eles recusaram. Eram os únicos na sala de espera. Logo, uma enfermeira os guiou até uma sala de exame. Esta, na verdade, parecia mais um escritório, não tendo a aparência médica e fria das clínicas norte-americanas com as quais estava acostumado. A enfermeira o fez tirar os sapatos para pesá-lo; a seguir, pediu-lhe que tirasse a camisa e se sentasse sobre a mesa de exame. Jack tirou a camisa e o colete e depositou-os a seu lado sobre a mesa.

Ele baixou os olhos para dar uma espiada em si mesmo. A cicatriz cirúrgica em forma de estrela brilhava de leve sobre o peito. Deu-se conta de que deveria estar bem pálido. O peito não vira a luz do sol por todo o verão. Linda pareceu ainda mais indecisa, vendo as mudanças nele, os músculos que se destacavam nos braços e no peito. Ela andava de um lado para o outro, nervosa.

Finalmente, Jessamine Longbranch irrompeu na sala. Trajava calças de seda e um suéter elegante, um jaleco branco limpíssimo por cima, aquele estetoscópio incomum pendurado ao redor do pescoço. Carregava uma pasta – o prontuário dele, Jack supunha. Jack ficou impressionado pelo fato de ela não parecer nem um pouco mais velha, mas então se lembrou de que os magos não demonstram o avanço da idade como outras pessoas.

Ela parou diante de Jack e o olhou de cima a baixo, segurando a pasta junto ao peito.

- Ora, ora, Jackson – disse ela, pronunciando lentamente o nome dele. – Creio que você cresceu. – Algo no jeito como ela falou fez com que ele se sentisse ainda mais tímido do que antes. Ela olhou de relance para Linda. – A Becka não pôde vir? Que pena!

Ela continuou falando enquanto examinava, os dedos emanando poder, transmitindo-lhe minúsculos choques elétricos ao tocar a pele dele. Ele recuou e cerrou os dentes.

- Vamos lá, não fique tenso, Jack. Assim está melhor. Essa é sua primeira viagem a Londres? Espero que sua mãe e sua tia estejam lhe mostrando a cidade.

Jack assentiu, então ofegou quando ela correu as mãos quentes pelos músculos de suas costas.    

—        Ahn... vimos um bocado de coisas em pouco tempo — ele conseguiu dizer. — Estou me divertindo bastante. — Ele não se lembrava de suas sessões anteriores com Longbranch serem assim tão físicas.           

—        E devia mesmo — disse a médica. — Terra     dos seus ancestrais, não é isso? Você já foi à Torre?

Realmente excitante. Todas aquelas histórias sobre tortura e assassinato.

A doutora Longbranch mantinha a conversa em andamento, fazendo perguntas sobre a estadia deles em Londres enquanto examinava a pressão san¬güínea de Jack e apertava aquele estranho estetoscópio contra o peito dele. Ela o fez descer da mesa e andar de um lado a outro da sala enquanto o observava, de braços cruzados. O exame levou mais tempo do que de costume, mas Jack disse a si mesmo que era porque ele tinha vindo de tão longe para vê-la. Ela jamais demonstrara tanto interesse nele antes. Enfim, a médica deu um passo atrás e o aprovou de cima a baixo.

—        Você está em ótima forma, Jack. Diga, quando parou de tomar o remédio?

A pergunta pegou Jack de surpresa, como uma facada rápida sob as costelas, como Nick diria. Ele levou um momento para responder.

—        Não sei do que a senhora está falando — gaguejou ele.

—        Jack e Becka sempre foram bons em seguir instruções, Jessamine — disse Linda. O rosto dela havia perdido toda a cor.

—        É mesmo, Linda? Eu estava pensando que o Jack aqui parece que gosta de quebrar as regras. Já ouviu falar da Rosa Branca?

Uma outra facada rápida, mas dessa vez Jack estava mais preparado. Pensou por um momento e disse:

—        Não era um emblema de batalha na Guerra das Rosas? York carregava uma rosa branca; Lancaster, a vermelha.

—        Muito bom! — Ela se moveu para o lado da mesa de exame e correu as pontas dos dedos de leve pelo ombro dele. Ele se retesou quando a corrente passou através dele. Ela não parecia estar fazendo qualquer esforço para atenuar os efeitos. — Você andou estudando história. Há muita história nesta parte do mundo. Muito mais do que a maioria das pessoas imagina. E a sua família sempre esteve no centro de tudo, sabia disso? — Agora ela estava acariciando-o, afagando-o como a um cachorro. — Acho que é hora de você se familiarizar com ela. Conheço algumas pessoas que podem ensiná-lo.

A mudança na voz dela o alertou, e, quando o feitiço veio, ele estava preparado. Ela o pronunciou rapidamente, apertando a nuca de Jack com os dedos, um simples feitiço de imobilização. Ele murmurou o contra-feitiço baixinho antes que ela pudesse completá-lo. Então ficou quieto, tentando parecer tão imóvel quanto possível. Ele não tinha de fingir estar assustado.

—        Jessamine, que diabos você está fazendo? — A voz de Linda era severa.

—        Devo lhe dizer que isto é uma surpresa maravilhosa — disse Jessamine. — Pensei que levaria meses para que ele ficasse em condições de lutar, e agora descubro que você fez isso por mim.     

—        Escute — disse Linda com urgência, persuasivamente. — Não sei o que está pensando, mas ele é só um menino. A única razão pela qual ele está vivo hoje é porque esteve escondido. Assim que a Rosa Vermelha souber dele, ele vai ser um alvo.     

Jessamine deu risada.

—        Ele não me parece um menino. Cresceu 15 centímetros e ganhou 20 quilos desde o meu último exame, e é tudo músculo. Ele é de tirar o fôlego. — A voz dela endureceu. — Você se lembra do nosso acordo, não é? É hora de desistir dele, Linda. Temos de começar o treinamento. Não temos mesmo outra escolha. Eu teria de ir buscá-lo em Trinity, se você não o tivesse trazido a mim. A Rosa Vermelha convocou um torneio para o solstício de verão. — Ela fez uma pausa. — Parece que vão apresentar um campeão.

—        Isso é impossível! — exclamou Linda. — Como eles conseguiram isso? Você teria sabido disso antes.

—        Estamos trabalhando na localização e eliminação do jogador deles — disse a doutora Longbranch com frieza. — Mas não podemos excluir a possibilidade de fracasso. Se não pudermos responder ao desafio, teremos de nos render. E isso não vai acontecer. — Ela sorriu. — Se tivermos sucesso em apanhar o jogador deles, a Rosa Vermelha se renderá. E, mesmo que o torneio prossiga, talvez Jack vença. Devo admitir que estou otimista, agora que o vejo pessoalmente.

—        Não há chance de ele estar preparado para um torneio no solstício de verão — insistiu Linda. — Ele não sabe nada sobre luta.

A médica tamborilou as longas unhas sobre o ombro dele.

—        Ele nasceu para isso, Linda. Ele vai dar um jeito. Meus treinadores podem trazer à tona o assassino interior de qualquer um. Só espero que eles não danifiquem muito esse corpo magnífico. — Ela deve ter visto alguma reação àquilo no rosto de Jack, pois segurou-lhe o queixo e virou-lhe o rosto de forma que a encarasse. — Não se assuste, meu mestiço. Eu sei que vai se adaptar logo. — Ela lançou um olhar especulativo. — Dizem que uma raça miscigenada é muitas vezes mais forte do que seus pais. Eu me pergunto se ele vai transmitir a pedra de guerreiro para a prole. Uma pergunta interessante.

Ela continuou, como que pensando alto:

—        Talvez, se ele sobreviver ao torneio, ele possa procriar para nós. Gostaria disso, Jack? — ela perguntou, como se estivesse lhe oferecendo um osso por rolar na grama.

Jack sentiu-se humilhado, e o sangue correu para o seu rosto.

—        Veja, ele está corando — disse ela, como se ele fosse um cãozinho fofinho.

Jack olhou para a tia, enviando-lhe uma mensagem desesperada. "Vamos embora daqui."

—        Chega, Jessamine — avisou Linda. Ela inclinou a cabeça de leve para Jack, e ele deslizou os quadris para a beirada da mesa.

A doutora Longbranch falava rapidamente agora, de um jeito metódico, concentrando-se em Linda.

—        A história é a seguinte: infelizmente, Jack caiu ou pulou no Tâmisa da Ponte Westminster logo após a consulta comigo. Você o viu cair. Vai haver várias outras testemunhas. Eu vou me lembrar de que ele parecia preocupado, deprimido, quando eu o examinei. O corpo nunca vai ser encontrado. Você vai convencer a sua irmã disso. Entendeu?

Estava claro que Jessamine tinha pouco interesse se a história convenceria ou não.

—        Na verdade, eu tinha esperanças de que Becka viesse à consulta com Jack. Nós descobrimos que a presença de membros da família pode ser um grande incentivo durante o treinamento. Mas não tem importância. Tenho algumas pessoas aqui que vão levar Jack para o norte e trabalhar intensamente com ele até o torneio. Há também a questão de localizar uma espada adequada.

Linda acenou com a cabeça para Jack por sobre o ombro da doutora Longbranch, um movimento quase imperceptível. Jack pressionou os dedos contra a clavícula da cirurgiã e descarregou seu poder sobre ela, derrubando-a ao chão.

Jack enfiou os pés nos sapatos e puxou o colete por sobre a cabeça. Saltou da mesa, e os dois correram de volta para o corredor em direção à recepção. Irromperam na elegante sala de espera e viram que a recepcionista havia sumido e que dois homens corpulentos folheavam revistas. A escolta de Jack, pelo jeito. Magos, com cer­teza. Os dois homens ergueram as cabeças, surpresos, e Jack disse:

Deixei minha espada lá fora.

Ele e Linda passaram rapidamente por eles e saí­ram para o corredor. Jack esperava que os magos vol­tassem para ver o que tinha acontecido com a médica, o que os faria perder tempo.

Mas quando abriram as portas sanfonadas, o carro do elevador não estava lá. Podiam ouvi-lo se movendo em algum lugar lá embaixo. Ele sabia que seu feitiço primário não manteria a doutora Longbranch no chão por muito tempo.

As escadas! — exclamou Jack.

O consultório de Jessamine ficava no nono andar. Eles lançaram-se escada abaixo descendo dois degraus de cada vez, contornando as plataformas estreitas, qua­se voando ao fazer as curvas. Jack ouvia claramente e com preocupação o elevador se deslocando no poço junto à escadaria.

Chegaram ao andar térreo bem a tempo de ver a doutora Longbranch e os magos da Rosa Branca sain­do do elevador. Jack e Linda correram em direção à porta da frente, que explodiu em chamas diante deles. Cobrindo os rostos com os braços, eles mergulharam nas chamas e as atravessaram até o ar fresco lá fora.

Estavam na rua Vitória, perto da Praça do Par­lamento.

— Em direção ao rio! — sussurrou Linda.

A calçada estava lotada de turistas e funcionários públicos em hora de almoço. Quando Jack olhou para trás, a entrada ainda estava em chamas, mas nenhum dos Anaweirs parecia notar. Alguns olharam com curio­sidade para Jack, que estava pondo a blusa por cima do colete. Eles fundiram-se ã multidão que tirava fotos do Big Ben e da Ponte Westminster. Ponte Westminster! O local do acidente que a doutora Longbranch havia pla­nejado para ele.

Eles continuaram se movendo junto da multidão em direção à água. Deveriam cruzar o rio? Esconder-se num prédio? Mas Jack não conhecia a área e tinha re­ceio de cair numa armadilha. Estava se inclinando para perto de Linda para perguntar-lhe o que ela pensava quando algo o atingiu com dureza no peito, fazendo-o voar até a calçada. Ele se sentou a tempo de ver os dois magos da sala de espera correndo em sua direção. Eles haviam mirado em Linda, e Jack havia se colocado no caminho no último minuto. Mais uma vez, o colete ha­via amenizado o golpe.

Linda ajudou Jack a se levantar, e eles correram em ziguezague pela praça, mantendo-se juntos. Os magos atiravam somente quando achavam que tinham Linda na mira. Parecia que queriam levar Jack vivo. Os dois grupos criaram uma espécie de onda ao se mover atra­vés da multidão. Não havia armas ã mostra, por isso não houve pânico, mas as pessoas tinham de se afastar às pressas do caminho de perseguidos e perseguidores. Alguém lhes gritou quando passaram:

Olhem pra onde vão, seus idiotas!

Estavam na rua Broad Sanctuary. Isso deu a Jack uma idéia.

A Abadia de Westminster é considerada uma igreja?

A Abadia estava ainda a alguma distância.

Do que você está falando?

Ela é considerada uma igreja?

Boa idéia — disse Linda.

Esquece. Vamos entrar aqui.

Uma igreja menor ficava em frente à própria aba­dia. Uma elaborada dança do mastro se desenrolava no pátio da igreja. Meninas e moças em vestidos medievais trançavam grandes fitas em um padrão intricado ao re­dor do mastro. Jack e Linda se abaixaram sob as fitas e correram para a porta da igreja. Assim que chegaram à entrada, algo atingiu Jack no ombro, onde o colete não o protegia, quase o fazendo rodopiar. Doía terrivelmente, mas ele conseguiu entrar aos tropeços no santuário.

Estava frio e silencioso lá dentro. Turistas se amon­toavam ao redor dos vitrais e dos memoriais em már­more nos corredores laterais. Jack e Linda deixaram-se cair no banco mais próximo, olhando de relance para trás para ver se alguém os tinha seguido até dentro da igreja. Ninguém os seguira.

O ombro de Jack começava a latejar. Quando ele tirou a blusa, contudo, não conseguiu ver nenhum ar­ranhão nem marca onde a pele havia sido ferida.

Uma mulher trajando uma saia e suéter recatados os abordou.

Bem-vindos à Igreja de St. Margaret. Haverá uma excursão começando em dez minutos junto à janela oes­te. — Ela apontou para um elaborado vitral em uma das extremidades da nave.

Será que a gente pode só se sentar aqui por al­guns minutos? -— indagou tia Linda. — Precisamos re­zar um pouco.

A mulher sorriu e se afastou. Jack rezou mesmo um pouco, assim que recuperou o fôlego. Linda se sentava com as costas retas, as mãos apoiadas contra o assento do banco, os olhos fechados. Jack não tinha certeza se ela estava rezando ou não.

Ele se perguntou quantos magos os esperavam lá fora. O bastante para cobrir todas as saídas? "Talvez eu simplesmente fique por aqui." Não era verdade que os fugitivos na época medieval buscavam asilo em igrejas a fim de evitar a lei? Havia algo familiar nos tetos abobadados, no piso de pedra desgastado, na tonalidade da luz. Como se ele houvesse estado lá antes.

Enquanto permaneciam lá, o ombro de Jack enrije­ceu-se, ficando cada vez mais dolorido e perturbando-o como a mordida de um inseto venenoso. Quando não conseguiu mais ignorar a dor, ele cutucou a tia.

Acho que algo me atingiu, fora da igreja. Talvez você deva dar uma olhada.

Ela ergueu sua camisa e tocou seu braço com as pontas dos dedos. A área exibia um tom vermelho bri­lhante agora, inchada e quente ao toque.

Droga! — Linda soltou um longo suspiro. — Deve ter sido um graffe — disse ela. — É um tipo de adaga mágica.

Mas não rompeu a pele — comentou Jack.

Nem precisa. Na verdade, é um encantamento. Muito esperto da parte deles, pra falar a verdade. Só um mago habilidoso pode tratar isso. Eles sabem que não podemos ficar aqui.

Eu pensei... pensei que magia não funcionasse numa igreja.

O dano já foi feito. O seu corpo está simplesmen­te reagindo a ele.

O que acontece se não for tratado? — Essa era daquelas perguntas que Jack tinha de fazer, embora ti­vesse certeza de que não gostaria da resposta.

Você morre.

Sentaram-se em silêncio por alguns minutos. Linda inclinou a cabeça, deixando as mãos entrelaçadas caí­rem entre os joelhos. Os ombros dela tremiam, e ele compreendeu que ela estava chorando.

Não se preocupe — disse ele, afagando o braço dela, sem jeito. — Está tudo bem. Vou pensar em alguma coisa.

Diante disso, Linda se endireitou, secando as lágri­mas com as costas da mão.

Não, Jack — replicou ela. — Eu vou.

Ela pegou o celular, deslizou para a extremidade do banco e começou a discar.

O ombro de Jack vibrava de dor, uma chama fria que se espalhava pelo pescoço. Parecia que não havia jeito de ele se sentir confortável. Tentou falar alguns feitiços de cura e relaxamento, mas nada parecia adian­tar. Ele havia lido em algum lugar que os magos eram incapazes de curar a si mesmos. Em particular os mes­tiços, como a doutora Longbranch o chamara.

As sombras na frente da nave tomaram a forma de meia dúzia de guerreiros fantasmas medievais que mar­chavam solenemente pelo corredor até o banco de Jack, trazendo os elmos sob os braços. Eles se ajoelharam no corredor junto a ele, um semicírculo de homens que parecia ter vindo direto de uma batalha. A faixa etária variava dos 13 anos à meia-idade.

O líder era um homem de barba ruiva em uma túni­ca manchada de sangue, bordada com rosas vermelhas. O punho da espada se salientava sobre o ombro.

Nós não te dissemos para ficar longe, rapaz? Não te avisamos?

Jack lambeu os lábios e olhou em volta. Ninguém mais parecia notar a invasão dos Weirlinds.

Eu tinha de vir.

O guerreiro olhou de volta para seus compa­nheiros.

Ele tinha de vir — repetiu ele, erguendo as mãos, exasperado.

Ele tinha de vir — sussurraram os Weirlinds, as vozes como vento soprando por galhos cobertos de gelo.

Virando-se de novo para Jack, o guerreiro disse:

E onde está a Sombra Assassina?

Eu... eu a deixei no meu quarto — admitiu Jack, sentindo-se sitiado.

O homem de barba ruiva arqueou uma sobran­celha.

Então vieste a terras estrangeiras enfrentar ma­gos com nada a não ser tuas mãos? — Voltou-se para a guarda. — Deixando a espada para trás.

Deixando a espada para trás — disse o eco, como um tipo de coro grego.

Ah, bem — disse o guerreiro. — Agora recebeste um ferimento mortal. — Ele pousou uma mão enluvada no joelho de Jack. — Não te preocupes, rapaz. Manteremos vigília com a dama até o fim. Vigília para o herdeiro guerreiro! — disse ele aos outros.

Vigília para o herdeiro guerreiro!

Jack!

Os guerreiros recuaram, mas não se dispersaram. Jack se virou e viu Linda a seu lado.

Ela tomou a mão dele entre as dela.

Não se preocupe. Eu falei com Hastings. Ele está vindo de Canterbury. Fica a 96 quilômetros daqui.

Quanto tempo leva?

Quer Jack se referisse ao graffe ou à viagem desde Canterbury, a resposta era a mesma.

Não sei — disse a tia.

Grupos de turistas iam e vinham. Jack se sentia cada vez pior. Ele se apoiou contra o canto do banco para não cair. Sentia frio num momento e calor intenso no outro. Pior ainda, estava começando a ver coisas, coi­sas escuras e sombrias como demônios agachados nos cantos da igreja. As paredes se retorciam e trepidavam, avançavam e recuavam. Os Weirlinds se aconchegaram desconsolados no corredor, sussurrando entre eles.

Linda achou um bebedouro na entrada do santuário e trouxe-lhe um pouco d'água num copo de papel, que ele bebeu com avidez. Ela lhe trouxe mais dois copos.

Então alguém se sentou no banco em frente a ele. Era Jessamine Longbranch. Ela parecia reluzen­te e monstruosa para Jack, que mal conseguia focar os olhos. Ele ergueu ambas as mãos, debilmente, para mantê-la a distância. Os Weirlinds estremeceram e res­mungaram.

Jack, você não parece muito bem. Certamente não tão bem quanto parecia no meu consultório esta manhã.

Saia desta igreja, Jessamine, antes que Deus en­contre você aqui — Linda murmurou com ferocidade.

Você sabe o que há de errado com você, Jack? — A voz da médica provavelmente tinha a intenção de ser reconfortante, mas, sem o véu costumeiro de magia, soava somente densa e sinistra.

Graffe de mago — Jack tentou responder, mas era difícil falar com a língua tão pesada na boca.

Venha para fora, Jack, e eu tomo conta de você. Caso contrário, vai morrer antes que o dia acabe. — Ela se voltou para Linda. — Você pelo menos deveria saber o bastante para não tentar esse tipo de truque.

Saia daqui, Jessamine — repetiu Linda.

A doutora Longbranch deu de ombros.

Nós estaremos lá fora. Avise quando estiver pron­ta para desistir dele. — Ela puxou para trás os cabelos escuros. — Já posso ver que Jack é bastante talentoso. Eu detestaria vê-lo desperdiçado.

Ela estendeu a mão para ele, e ele se encolheu no banco como um animal acuado. Ela prendeu uma mecha de cabelo úmido atrás da orelha dele. Então ela se levantou e saiu da igreja, os saltos dos sapatos retinindo secamente no piso de pedra.

O fim do dia significava pôr do sol ou meia-noite? "Pode ser importante", pensou ele, mas já não conse­guia se lembrar por quê. Sabia que havia algo que pre­cisava dizer desesperadamente.

Tia Linda. — A voz saiu como um murmúrio rou­co. Ela chegou-se junto a ele e aninhou a cabeça dele nos seus braços, tomando cuidado com o ombro dele, inclinando-se de forma a poder ouvi-lo. — Tia Linda, por favor, não deixe ela me levar. Por favor. Não me im­porto... com o que acontecer. Prometa.

Linda prometeu, as lágrimas escorrendo-lhe pela face.

 

A mulher que lhes dera as boas-vindas quando en­traram na igreja retornou. Parecia preocupada.

O seu filho está doente? — perguntou ela a Linda.

Sobrinho — Linda corrigiu-a automaticamente.

Ele está doente, mas é um tipo de doença espiritual -explicou.

É mesmo? — A mulher arqueou as sobrancelhas. Jack estava totalmente esticado ao longo do banco duro, a cabeça no colo de Linda. Estava tremendo, delirante, sussurrando para si mesmo. — Tem certeza de que não é melhor levar o garoto para o hospital?

Por favor. Ele precisa ficar aqui — disse Linda em desespero. — Ou vai ser o fim dele.

A mulher hesitou.

Talvez ele possa ficar mais confortável. — Ela desapareceu por alguns minutos e reapareceu com um colchonete fino e cobertores. — Acho que devo me apresentar. Meu nome é Sarah Barham. Sou uma das professoras da igreja, mas também dirijo um progra­ma para os sem-teto — explicou ela. — Nós aceitamos doações aqui na igreja. Por isso temos alguns artigos de cama.

Meu nome é Linda Downey — replicou Linda. — E este é Jack. Agradecemos muito a sua ajuda.

Quando Leander Hastings chegou, meia hora mais tarde, Jack estava deitado no colchonete num canto da igreja. Linda e Sarah Barham se ajoelhavam junto a ele, rezando. Estavam cercados de fantasmas de guerreiros ajoelhados, em vigília. Jack parecia à beira da morte, as sardas destacando-se contra a palidez da pele, a respiração rasa e ineficiente. Os guerreiros se afasta­ram, resmungando descontentes, quando Hastings se aproximou.

Linda pôs-se em pé num salto ao vê-lo.

Depressa, Leander. Eu já tinha quase desistido.

Quando o mago hesitou, ela disse:

Vamos! Não é possível que haja problema em curar uma pessoa dentro de uma igreja!

Hastings se ajoelhou ao lado de Jack e pousou a mão sobre o ombro ferido. Estava vermelho, lustroso e inchado, com longas listras vermelhas que se estendiam desde o braço até o peito. Jack gemeu e tentou recuar, contorcendo-se.

Segurem-no bem.

Linda e Sarah pressionaram os pulsos de Jack contra o chão. Hastings postou as mãos sobre o feri­mento, pronunciando um feitiço devagar e de forma bem articulada. De imediato, a pele se cobriu de bolhas de uma horrível tonalidade verde e amarela, como se o veneno houvesse subido e se acumulado logo abai­xo da pele.

Sarah Barham pigarreou.

Quem é ele, um sacerdote? — perguntou ela a Linda.

Não exatamente — respondeu Linda.

Hastings esperou um minuto, mantendo as mãos no lugar, e proferiu um feitiço diferente. Minutos se pas­saram sem que houvesse mudança. Então, lentamente, Jack foi perdendo a aparência de figura de cera. Sua res­piração tornou-se mais regular e todo o seu corpo relaxou. Hastings sorriu para as duas mulheres. Estava pálido e transpirando, os olhos verdes obscurecidos pela exaus­tão. Ele removeu as mãos; as bolhas haviam diminuído.

A professora da igreja olhou de Jack para Hastings.

Vejam só. Achei que ele ia morrer — admitiu ela.

Eu também — disse Hastings laconicamente. Levantou-se e secou as mãos nas calças. — Existe al­guma outra saída da igreja? — perguntou baixinho. — Além da óbvia?

Há uma outra porta — disse Sarah. — A sudes­te. Mas não costuma ser aberta ao público — acres­centou ela.

Podemos sair por ela? — Hastings sorriu para a mulher. — Por favor? O garoto corre perigo.

Bem... — Ela olhou para Jack, depois novamente para Hastings. — Creio que sim. Vou mostrar a vocês onde fica.

Hastings se virou para Linda.

Preciso que você retarde aqueles magos lá fora pelo maior tempo possível. Eles não devem perceber que Jack foi embora. Melhor ainda, veja se consegue convencê-los de que ele morreu. — Ele esticou a mão e roçou-lhe a face com os nós dos dedos. — Tenha cuida­do. Acho que eles não vão ficar nada felizes.

Magos! — Sarah recuou um passo, levando as mãos à boca como se houvesse percebido de repente que aquele homem alto e estrangeiro tinha mesmo um certo ar sobrenatural.

Por assim dizer — disse Hastings, com um sorriso reconfortante. — O garoto se envolveu com uma seita. — Ele se inclinou e ergueu Jack novamente. Jack franziu a testa e murmurou alguma coisa. — Mais uma coisa. Linda, você consegue ir até Canterbury e tomar conta da minha Sociedade Chauceriana? Eles estão no Albergue Dovecote, na cidade velha. Estamos visitando todos os locais dos grandes assassinatos. Amanhã eles vão querer ver onde Beckett foi morto. São um bando sanguinário, pelo jeito.

Linda assentiu com a cabeça, sem falar.

Hastings seguiu a espantada Sarah Barham até os fundos da igreja e desapareceu. Linda rearranjou as roupas de cama para parecer com uma pessoa deitada e sentou-se junto ao colchonete para esperar.

Sarah Barham deixou que Linda ficasse depois das quatro e meia, horário oficial de fechamento da igreja. A encantadora manteve-se em vigília, sentada no chão, as costas contra a parede. A luz do dia diminuía atrás dos vitrais enquanto as luzes internas eram acesas. Passava das nove da noite quando Jessamine Longbranch en­trou de novo na igreja e encontrou Linda semi-adormecida em seu posto. A maga parou e pôs as mãos na cintura, fitando Linda.

Pelo visto... o menino está morto? — Ela fez um gesto para o arranjo de roupas de cama no chão.

Sim — respondeu Linda.

Sua tola! — As palavras estavam carregadas de veneno. — Não acredito que sacrificou o seu sobrinho desse jeito. Por que não deixá-lo lutar e dar a ele pelo menos uma chance?

Você lançou o graffe, Jessamine, não eu. Você que explique isso para o resto da sua Casa. Jack disse que preferia morrer a acabar em suas mãos. Eu honrei o desejo dele.

Não estou nada contente com isso. Acho que vou fazer uma visitinha à sua irmã Becka. Ela está em Thurloe Place, não é?

A doutora Longbranch saiu da igreja em passos firmes.

Linda tentou telefonar para Becka várias vezes, mas ninguém atendeu. Permaneceu na igreja até cerca de meia-noite e então saiu pela porta de trás.

 

A Sociedade Chauceriana era um grupo flexível. Quando Linda se apresentou como uma especialista em mito e magia medievais que substituiria Leander Hastings por alguns dias, houve apenas um leve mur­múrio de preocupação. Os rapazes, em especial, gos­taram da mudança. As notáveis exceções eram Will e Fitch, que sabiam que a aparição inesperada de Linda Downey significava que problemas a seguiriam.

Linda era uma boa escolha para o trabalho. Ela era uma anglófila apaixonada, e compartilhava o interesse da família por literatura inglesa e estudos me­dievais. Vivera a maior parte de sua vida na Inglaterra e era capaz de adicionar cor e detalhes às informações fornecidas pelo guia oficial da catedral. Ficaram todos adequadamente impressionados com a pura crueldade do assassinato de Beckett numa igreja. "Não estávamos longe disso na noite passada", pensou Linda.

Ela tentou telefonar para Becka várias vezes du­rante o dia, mas ninguém atendia no quarto de hotel em Londres. Becka certamente não partiria para Oxford sem Jack. Linda deixou uma mensagem na Devon House para que Becka lhe telefonasse em Canterbury. A história que havia planejado contar era que eles ha­viam avistado os seqüestradores em Londres e, embora Hastings houvesse levado Jack para um lugar seguro, estavam todos em perigo.

Não havia mensagens para ela quando Linda voltou ao quarto de Hastings. Havia esparsos indícios da pre­sença dele: um livro sobre a mesa, um estojo de couro com material para barbear no banheiro, um suéter dei­xado ao pé da cama. Num impulso, ela pressionou a lã contra o rosto, sentindo o cheiro dele. Embaraçada, ela o deixou cair na cama.

Àquela altura, Becka devia estar desesperada. E se ela telefonasse para a doutora Longbranch? Com cer­teza, agora que a maga achava que Jack estava morto, deixaria Becka em paz, a despeito da ameaça feita na igreja. A menos que Longbranch decidisse usar Becka para se vingar de Linda pela traição.

E onde estavam Jack e Hastings? Hastings possuía uma propriedade em algum lugar em Cúmbria. Talvez tivessem ido para lá. Talvez Hastings tivesse telefona­do para Becka e lhe contado alguma história por conta própria. Qualquer coisa era possível.

Alguém bateu à porta. Quando Linda a abriu, Will e Fitch estavam em pé no corredor, Fitch com uma pasta sob o braço. Pareciam estar numa missão.

Olá, tudo bem? Precisamos falar com você. Está ocupada? — Will transferiu o peso do corpo de um pé para o outro.

De jeito nenhum. Por favor, entrem! Vocês que­rem chá ou alguma outra coisa? — Linda olhou de um para o outro.

Fitch sacudiu a cabeça.

Viemos porque queremos saber por que você está aqui, e o que isso tem a ver com o Jack — disse ele, di­reto ao ponto.

Entendo. Por que não se sentam? — Ela fez um gesto em direção à pequena mesa junto à janela que dava para a rua estreita lá embaixo.

Eles se arranjaram da melhor forma que podiam, parecendo grandes demais para a mesa delicada, com seus cotovelos, joelhos, pernas longas e determinação cheia de desconfiança.

Fitch pôs a pasta na mesa e perguntou:

Onde está o Jack? Por que você está substituin­do o senhor Hastings?

Linda pôs os cotovelos na mesa e apoiou o queixo na ponta dos dedos, estudando os dois rapazes. Eles haviam conquistado o direito à informação. Sem eles, Jack sem dúvida estaria morto ou pior.

Jack teve problemas de novo desde que chegou em Londres. Ele teve de partir com o senhor Hastings. É por isso que estou aqui.

A gente está cansado de não saber de nada. — Will colocou as duas palmas abertas sobre a mesa. — O Jack não nos conta nada. Ele só diz pra gente não se preocupar, que não tem nada que a gente possa fazer, esse tipo de besteira. Achamos que você pode nos con­tar o que está acontecendo.

Eu posso fazer isso. Vocês ê que têm de decidir no que querem acreditar.

Linda poderia fazê-los acreditar que Jack havia sido raptado por alienígenas, se quisesse. Mas, desta vez, preferiu convencê-los por métodos não mágicos. Ela respirou fundo.

Jack deveria ter sido um mago, mas recebeu o implante de uma pedra de guerreiro quando era bebê.

Fitch estreitou os olhos, desconfiado, como que ten­tando decidir se ela estava brincando.

Implante de uma... o quê?

Uma Pedra Weir. Aqueles que carregam uma pe­dra de guerreiro têm certos atributos mágicos que se manifestam quando eles atingem a maioridade...

Certo. — Fitch revirou os olhos. — Jack Swift é... é algum tipo de gladiador com super-poderes. É isso o que está nos dizendo?

Linda assentiu.

Existem outras pedras e outras ordens. A dos ma­gos é a mais poderosa entre elas. Os magos jogam com os guerreiros em um torneio chamado Jogo. Só que não restaram muito guerreiros. Por isso, Jack é o que se pode chamar de um achado raro. Por causa disso, os magos estão atrás dele, tentando capturá-lo ou matá-lo.

Espere aí — disse Will, com uma carranca. — Magos? Como num conto de fadas?

Mais como um pesadelo, imagino. São artesãos da magia, que sabem lançar feitiços, falados ou não. Diferentemente dos guerreiros, os magos não têm ne­nhuma manifestação física específica, mas uma presen­ça poderosa.

Will bateu com as mãos na mesa.

Certo. Se não vai nos contar a verdade, é só dizer e parar de nos fazer perder tempo.

Will — Fitch pôs uma mão no ombro de Will —, lembra-se daquele cara no cemitério, e da espada flamejante e tudo o mais?

Aquele era um mago. Na verdade... — Linda he­sitou, então continuou. — Na verdade, há vários magos morando em Trinity.

Tipo quem? — indagou Fitch, procurando pistas no rosto dela. Então seus olhos se arregalaram atrás dos óculos. — O senhor Hastings, aposto.

Relutantemente, Linda concordou com um gesto de cabeça.

Quem mais? — Fitch empinou o queixo, assu­mindo uma postura de inquisidor.

Bem, tem Nick Snowbeard. E Leesha Middleton.

O Nick? E aquela vaca da Leesha Middleton? A princesa?

É — respondeu Linda. — Ela estava trabalhan­do com aqueles homens que tentaram raptar Jack do colégio.

Sem chance! — Fitch estremeceu.

Não me diga que o Lobeck estava envolvido tam­bém — disse Will.

Linda sacudiu a cabeça.

Um brutamontes e um cretino, talvez, mas não um mago.

Não, a não ser que sejam naturalmente estúpi­dos — acrescentou Fitch. — Vamos poder ver o Jack enquanto estamos aqui?

Linda hesitou.

Não sei. Nem tenho muita certeza de onde ele está neste momento.

Fitch bateu de leve na pasta com as pontas dos dedos.

O que isso tem a ver com a sua bisavó e o ce­mitério?

Susannah tinha o mesmo dom, a mesma pe­dra de Jack. Ela era uma guerreira como ele. Foi a espada dela que vocês desenterraram. Tínhamos esperança de que ele pudesse usar a espada para se proteger.

Uma Pedra Weir pode ser roubada?

Não sem matar a pessoa que carrega a pedra.

Mas ela pode ser roubada? Tipo, se você cortar uma pessoa? Alguém teria algum motivo para fazer isso, talvez para implantar em outra pessoa? Como o Jack?

Linda pensou por um momento.

As Pedras Weir têm algum poder mágico por si mesmas. Os magos às vezes as compram de mercado­res e as usam como talismãs. Jack é a única pessoa de quem ouvi falar que teve uma pedra implantada. Foi porque ele não tinha uma.

Eu estava pensando sobre a tataravó do Jack, Susannah Downey, e em como ela morreu. Sempre que eu vejo aquela cicatriz em forma de estrela no peito do Jack, eu penso nisso.

Do que você está falando? — Linda olhou de um rapaz para o outro. — Ela morreu num acidente. Vocês não disseram que ela caiu do cavalo?

Fitch assentiu e abriu a pasta.

Mas a causa da morte foi um buraco no peito. Dizia no jornal que ela talvez tivesse caído sobre a es­taca de uma cerca ou coisa assim. Olhe. — Ele tirou da pasta uma impressão de microfilme. — Eu acabei fi­cando com isso quando fomos à biblioteca. Soou meio forçado pra mim. Suponho que a ciência forense não fosse muito sofisticada naqueles dias.

Ele passou o papel para Linda. Era o obituário de Susannah. Linda passou os olhos sobre o papel rapida­mente, depois releu mais devagar.

"Lee Hastens, um visitante no município, encontrou-a caída no bosque atrás da fazenda da família à noite. Embora conhecida por ser uma amazona habili­dosa, a senhora Downey caiu contra a estaca de uma cerca. Um corte profundo no peito foi a causa da morte."

A centelha de uma idéia acendeu-se no fundo da mente de Linda. Ardia com intensidade cada vez maior, apesar dos esforços em apagá-la.

Fitch interrompeu-lhe os pensamentos.

Vai ver é porque a gente esteve falando sobre todos esses assassinatos nos últimos dias. E agora as Pedras Weir. É possível que Susannah tenha sido as­sassinada e tenha tido sua pedra roubada? — Fitch pa­rou, olhando para Linda. — Qual é o problema?

É o Jack — Linda murmurou. — Receio que eu tenha cometido um terrível engano.

 

Jack lembrava-se vagamente de suas últimas horas na igreja. Jazia ferido mortalmente, os Weirlinds em vigília ao seu redor. Uma vasta escuridão ameaçava dominá-lo, mas de alguma maneira era mantida a dis­tância pela música de vozes femininas rezando. Ele se agarrou àquele som como a uma boia salva-vidas até que, enfim, havia uma nova voz e uma nova pre­ce; a escuridão recuou e o latejar no ombro diminuiu. Alguém o ergueu, e ele sentiu o ar fresco e a chuva contra o rosto. Foi carregado por alguma distância sob a chuva e, a seguir, acomodado no banco de trás de um carro. Ele se lembrava do cheiro e da sensação de couro contra o rosto. Alguém levantou sua cabeça e despejou um líquido escaldante goela abaixo, e então ele dormiu. Acordou uma vez em meio à escuridão e escutou a batida das portas do carro e o que poderia ser a voz de sua mãe. Tentou chamá-la, mas era im­possível ficar acordado.

Despertou novamente quando a suave luz do dia invadiu-lhe o sono. Ele rolou na cama e enterrou o ros­to no travesseiro para se abrigar da luz. Estava numa cama grande, coberta de lençóis um tanto quanto gros­seiros com uma colcha leve por cima. Vestia roupas que não lhe eram familiares: shorts e uma camiseta. As lem­branças começaram a voltar, e ele se levantou rápido, tão rápido que ficou tonto e teve de se recostar de novo contra os travesseiros.

O quarto era despojado, como se fosse esculpido em rocha, com paredes e piso de pedra, uma lareira e uma única janela sem adornos. Havia uma porta de madeira em arco no outro lado do quarto. Além da cama, a úni­ca mobília era uma cômoda com uma bacia e um jarro, uma mesinha de cabeceira com frascos de feiticeiro ali­nhados em seu topo, duas cadeiras simples de madei­ra e uma cadeira de balanço junto à cama. Um estojo ornado de jóias estava apoiado contra a lareira. Era a Sombra Assassina, a espada de Jack, e, junto dela, so­bre a pedra, estava o espelho de Blaise em seu invólucro de couro. Como haviam chegado lá? Ele os deixara no hotel, sob feitiços de proteção.

Ele tentou desesperadamente se lembrar do que acontecera no fim da longa tarde na igreja. Não sentia nenhuma dor ou desconforto no ombro, nenhum res­quício do graffe de mago. Será que Hastings havia che­gado a tempo, ou será que ele estava agora nas mãos da Rosa Branca? Esse pensamento fez com que se levan­tasse e virasse as pernas para o lado da cama. Sua idéia era apanhar a espada. Se eles eram tolos o bastante para deixar-lhe uma arma, ele tinha intenção de tirar vantagem disso.

Nesse momento, a porta se abriu, e a mãe dele en­trou. Becka vestia calça jeans e um suéter folgado, e estava descalça, apesar do frio chão de pedra. Ela car­regava uma bandeja com um bule de chá e um generoso café da manhã.

Mãe! — Jack estava espantado e felicíssimo em vê-la. Becka depositou a bandeja cuidadosamente na mesinha de cabeceira e o tomou nos braços. Ficaram ali abraçados na beirada da cama por um longo instante.

Enfim, Becka sentou-se e olhou para ele.

Você parece bem melhor, Jack. Eu fiquei tão preocupada quando o Leander veio me buscar. Você pa­recia péssimo.

Havia torrada e geléia, bacon e ovos, e um tipo de peixe defumado. Jack espalhou a geléia na torrada, ganhando tempo enquanto formulava uma pergunta. Jack não sabia como a condição dele havia sido expli­cada a ela.

O senhor Hastings contou o que aconteceu?

Ela franziu a testa, como que se esforçando para lembrar.

Ele disse que você apanhou um... um vírus, e que precisava de descanso, paz e tranqüilidade. Então viemos para cá. — Ela afastou-lhe o cabelo da testa. — Quer que eu vá buscar algo pra você ler? Tem uma biblioteca maravilhosa no andar de baixo.

Jack parou de mastigar e fitou a mãe. Essa não era de maneira alguma a reação que estava esperando. Ele imaginara um milhão de perguntas que ele não poderia responder. Ele se perguntou como Hastings havia lida­do com ela e por que ela não insistira em levá-lo a um hospital. Entretanto, talvez ele já soubesse a resposta para aquela pergunta.

Onde estamos? — indagou ele, olhando o quarto em torno. — E por quanto tempo estive... doente?

Esta é a casa do Leander. Faz três dias que es­tamos aqui.

Jack deu uma nova espiada no quarto. Era tão frugal quanto o próprio homem. A única cor que havia era nos frascos de feiticeiro sobre a mesa. Hastings nunca mencionara qualquer conexão com a Inglaterra, muito menos que tivesse uma casa ali. Mas fazia sentido, se Hastings conhecia tia Linda.

Ainda estamos em Londres? — Alguma coisa no aspecto da luz e no silêncio lá fora lhe dizia que não.

Estamos em Cúmbria. No norte da Inglaterra. Estamos nas montanhas, na verdade, não muito longe da Escócia.

Jack se perguntou como os recentes acontecimentos afetavam o resto do tempo deles na Inglaterra, e se os ma­gos logo não os estariam caçando por todo o Reino Unido.

E quanto a Oxford? Eles não estão esperando por você?

Eu tenho todo o verão pra chegar a Oxford. — Ela falou languidamente, como se não houvesse mais qualquer urgência em chegar lá. Sentou-se na cadeira de balanço. — Jack, tome o seu café da manhã antes que esfrie. Você não come há três dias, e precisa recu­perar as forças.

Por que Hastings havia trazido Becka? Talvez para ajudar a cuidar dele, mas isso com certeza tornava as coisas estranhas. De qualquer jeito, não via como seria possível manter seus problemas em segredo por muito mais tempo. Sentia-se como se toda a sua vida estives­se se desfazendo e ameaçando destruir sua família no processo.

Empurrou o café da manhã para o lado e saiu da cama, que era inesperadamente alta, e os pés de Jack atingiram o chão com um baque. As venezianas da ja­nela estavam abertas, e o ar matutino era fresco. As roupas dele não estavam à vista.

A vista na janela atraiu-lhe a atenção. Estavam tal­vez no terceiro andar, diante de uma linda paisagem de montanhas e colinas verdes envoltas em névoa.

De repente, a porta se abriu, e Leander Hastings entrou. Ele também trajava um suéter pesado para se proteger do frio da manhã. Parecia surpreso de ver Jack em pé e caminhando.

— Becka! — exclamou ele, sorrindo. — Parece que o seu filho está mesmo se recuperando.

Hastings postou-se atrás de Becka, pousando as mãos nos ombros dela. Havia algo que sugeria pos­se naquele gesto que fez com que Jack cerrasse os dentes.

Ele parece bem melhor — concordou Becka, virando-se um pouco para olhar para o rosto do mago. — Mas não consigo fazer com que ele coma muito.

Hastings foi para junto da janela e olhou por sobre o ombro de Jack.

Lindo, não é? Eu me sinto renovado sempre que venho para cá.

Jack deu-lhe as costas com rudeza.

Mãe, acho que gostaria de ler alguma coisa de­pois do café da manhã, afinal. Será que você poderia ir lá embaixo e me trazer alguns livros?

Becka olhou para Hastings como se lhe pedisse aprovação. O mago assentiu.

É uma boa idéia — disse ele. — Jack e eu preci­samos conversar. Eu vou buscar você daqui a pouco.

Becka ergueu-se da cadeira de balanço e beijou Jack na testa.

Tente comer um pouco mais — disse ela, e saiu do quarto.

Hastings seguiu-a com os olhos até que a porta se fechou atrás dela.

Jack estufou o peito, descansando os punhos nos quadris.

O que há de errado com ela?

Hastings sentou-se na cadeira de balanço junto à cama.

Não há nada de errado com a sua mãe. Ela está ótima.

Ele parecia prestes a sorrir, mas desistiu quando viu a expressão no rosto de Jack.

Você colocou um feitiço nela — Jack insistiu. — Ela não está agindo normalmente.

Não usei nenhum feitiço desnecessário nela — replicou Hastings, dando de ombros como um homem inocente. — Embora talvez precise dar a ela... mais ins­truções, agora que você está acordado.

Você nunca deveria tê-la trazido aqui.

Entendo. — Hastings brincava com um anel pe­culiar em seu dedo anular esquerdo. Era uma pedra be­lamente lapidada sobre um engaste de ouro decorado, irradiando luzes em milhares de cores. — Eu mantive a sua mãe a salvo — disse ele. — A esta altura, as Rosas estão com certeza procurando por ela. Não sei o que mais você quer de mim.

Jack não sabia o que mais dizer ao homem que, mais uma vez, havia salvado sua vida. Então não disse nada.

Sente-se, Jack. — Hastings fez um gesto em direção à outra cadeira, com a expressão de alguém que tem uma tarefa desagradável a desempenhar. Relutantemente, Jack se sentou. Hastings indicou com a mão a bandeja do café da manhã. — E melhor comer.

Jack examinou a bandeja e, com rancor, pegou um pedaço de torrada.

Como está se sentindo? — indagou o mago.

Estou bem — admitiu Jack. — É como se eu ti­vesse tido um sonho ruim.

Um sonho bem ruim — concordou Hastings. — O seu ombro deve ficar bom, sem nenhuma rigidez. Desde que o feitiço seja destruído a tempo, tudo se cura.

Não me lembro bem do que aconteceu.

Jack terminou a fatia de torrada e partiu para os ovos.

Depois que o feitiço foi rompido, eu carreguei você até o meu carro. Linda ficou para trás para distrair a doutora Longbranch e os outros. Achei melhor ir buscar a sua mãe. Sabia que ela ficaria preocupada se você e Linda não voltassem, e tive receio de que ela fosse procu­rar a doutora Longbranch. Por isso eu a trouxe para cá.

Eu não sabia que você tinha uma casa aqui.

—- Esta casa é o lar ancestral da minha família, em­bora eu só a tenha adquirido há poucos anos. Aqui é o Lake District, a terra dos poetas, um dos lugares mági­cos do Reino Unido.

Jack ergueu os olhos e viu Hastings ainda o ob­servando, como se o estivesse medindo. Aquilo deixava Jack nervoso.

Por que não me diz o que está acontecendo? — Jack se recostou na cadeira, pondo de lado o café da manhã. — O que você quer de mim?

Já ouviu falar que há um torneio marcado para o solstício de verão? — O rosto de Hastings não revelava nenhuma emoção.

A doutora Longbranch nos contou a respeito. — Jack se esforçou para lembrar. Muita coisa havia acon­tecido desde a visita ao consultório de Longbranch. — Ela disse que a Rosa Vermelha havia feito um desafio, que eles tinham um campeão. Ela quer que eu lute.

Hastings assentiu.

Ela quer, sim. E eu também. — As palavras pai­raram pesadamente no ar entre eles.

A compreensão veio aos poucos, como a mudança da luminosidade que marca o início de um clima tem­pestuoso. Os olhos deles se encontraram brevemente, e Jack sentiu que lhe roubavam a respiração. Tantos enigmas, tantas incongruências, e agora tudo fazia sen­tido. Ficou furioso, com Hastings e com sua própria estupidez.

Esse era o seu plano o tempo todo, não é mes­mo? — A voz dele tremia, apesar de seus esforços para mantê-la firme. Empurrou a bandeja para longe e se inclinou para a frente. — Era pra isso que você estava me preparando, todo o treinamento formal, os combates na clareira, tudo!

Sim.

Hastings não ergueu os olhos, ainda concentrado no anel.

Esta viagem à Inglaterra também foi idéia sua? — A mãe dele havia decidido isso por conta própria, não havia? Jack tentou se lembrar.

O mago estendeu os dedos num gesto de confissão.

Eu teria dado um jeito de você vir à Inglaterra neste verão, de um jeito ou de outro. Eu pensei que tal­vez você pudesse vir com a Sociedade Chauceriana. No final, você veio com a Becka.

Então você mentiu para a tia Linda — Jack con­tinuou. — Fazendo-a acreditar que ela podia me manter fora disso.

Sim, eu menti. — Hastings não se desculpou. — A sua tia me passou a tarefa bastante desafiadora de manter você vivo. Nós simplesmente discordamos sobre o método.

Bem, você escolheu a pessoa errada. Você não pode me obrigar a lutar por você. Se for preciso, eu jogo a toalha na competição.

Não existe isso de "jogar a toalha" no torneio. É uma luta até a morte.

Então vai ter de encontrar outra pessoa pra sa­crificar.

Não se engane. De um jeito ou de outro, você vai ser sacrificado.

Jack o encarou, achando que tinha ouvido uma ameaça. Mas a expressão de Hastings era uma mistura de simpatia e impaciência.

O mago se reclinou e fechou os olhos.

Encare os fatos, Jack. No que diz respeito a você, isto tudo começou há uns três ou quatro meses, com a ida ao cemitério, certo? Nas últimas três semanas, você foi atacado três vezes. Isso é só uma amostra do que está por vir. — Hastings abriu os olhos, fixou Jack com seus olhos verdes. — Lembre-se de que a Rosa Branca deixou você em paz até agora. Assim que descobrirem que você está vivo, virão atrás de você também. Talvez a Rosa Vermelha tenha tentado envenenar você. Mesmo que não tenham sido eles, com certeza sabem quem você é, graças ao incidente na escola. E ainda é preciso levar em consideração os mercadores. Você vale uma fortuna dos diabos. E o mundo está cheio de aventureiros que querem ficar ricos.         

Jack não conseguia mais ficar sentado. Levantou- -se e voltou para junto da janela. A névoa estava se ex­tinguindo nos locais mais baixos, desintegrando-se em fitas irregulares no ar parado. Algumas ovelhas haviam aparecido em uma das colinas distantes. Ele desejou poder voar para longe daquele lugar, de quem ele era, de seu passado e de seu futuro.

Hastings continuou, impiedoso.

Supondo que consiga voltar para casa, o que pensa que vai encontrar lá? Trinity vai se tornar um campo de batalha para os magos. Os seus amigos, cada pessoa na sua família vai ser um ponto de vulnerabili­dade, especialmente os Anaweirs. — Ele fez uma pausa. — Você viu a sua mãe. Eu a trouxe aqui como um exem­plo para você. Tudo o que eu preciso fazer é lançar um feitiço, e ela fará o que eu mandar. Posso demonstrar, se você quiser.

Vá pro inferno — resmungou Jack no ar cristalino.

O que significa que ela vai estar à mercê de qual­quer mago de qualquer das Casas que vá atrás dela. O seu pai, Will e Fitch, ninguém vai estar a salvo. Quantos deles você está disposto a sacrificar? — Hastings se jun­tou a Jack na janela. Sua voz tornou-se mais suave. — Confie em mim, eu sei. Mesmo que você durma com um olho aberto, minha aposta é que você não passa de seis meses ou um ano. E, mesmo que você sobreviva, vai acabar sozinho. Entenda, não existem regras lá fora.

Jack apoiou o rosto contra a pedra fria que emol­durava a janela. Pensou em Trinity, em suas avenidas tranqüilas flanqueadas por árvores, nos prédios de pe­dra da universidade, nas casas vitorianas com decora­ções berrantes da rua Jefferson. E então imaginou uma ruína deserta em seu lugar.

Por que eles fazem isso? Esses torneios, quero dizer?

Hastings falou com paciência, como se estivesse dando uma aula de história.

Eles são pessoas cruéis e poderosas, com mui­to tempo disponível e meios para destruírem uns aos outros. Esse sistema atende a muitas necessidades. Permite que haja disputas com mínimo derramamento de sangue. Os magos alegam ser herdeiros do legado do Dragão da Ravina da Masmorra. Segundo o contra­to, você nos pertence. Desse ponto de vista, os guer­reiros são considerados propriedade. E, portanto, são... descartáveis.

Jack pensou em Jessamine Longbranch e em como ela o havia tratado. Como se ele fosse algum tipo de animal que pudesse ser usado e depois posto para pro- criar. A mão de Jack se infiltrou por sob a camisa, onde estava a cicatriz em forma de estrela.

Eles deviam ter me deixado morrer, naquela épo­ca — sussurrou ele. — Teria sido melhor pra mim.

Bom, eles não deixaram. E agora temos de lidar com isso.

Hastings tocou o braço de Jack, e Jack recuou.

O que você entende sobre isso? Você é um... um...

Eu entendo tudo sobre isso. — A voz de Hastings era tão suave que Jack quase não a ouviu.

"Eu poderia me matar", pensou Jack. Olhou para o peitoril de pedra da janela, mediu a queda até o pátio lá em baixo. Provavelmente, seria o suficiente. É claro, ele poderia acabar paralisado. Então não poderiam obrigá-lo a lutar. Suspirou e pressionou as palmas contra as pálpebras. Até suas mãos tinham calos, por causa do uso da espada. Ele tinha dezesseis anos. Não queria morrer ou ficar aleijado. Queria se formar no colégio, ir para a faculdade e se apaixonar. Nada disso parecia provável agora.

O que acontece se eu lutar?

Jack percebeu que havia ultrapassado um limite.

Todos os guerreiros no Jogo são vinculados a um patrono. Há uma certa proteção concedida a você e a sua família, uma vez que seja declarado. Se você vencer: fama, fortuna. E, baseado na atual carência de guer­reiros, provavelmente uma trégua considerável até que tenha de lutar de novo. — Hastings pigarreou. — Até eu ouvir falar que a Rosa Vermelha estava pondo em campo um campeão, eu tinha esperança de que ninguém fosse capaz de responder ao seu desafio. Se o desafio não é respondido, o Jogo é ganho por desistência. Tão bom quanto uma vitória e não tão sangrento. — Hastings quase sorriu. — Você não tem muita experiência, mas a sua arma pode fazer a diferença.

Vou poder voltar pra casa? Depois?

"Se eu vencer", pensou ele. "Depois que eu matar alguém." Jack sabia que poderia ter matado Garrett Lobeck. Mas ele não estaria enfrentando Garrett Lobeck. Jack varreu aquele pensamento de sua mente.

Hastings pensou um pouco.

Não sei, Jack. Essa é provavelmente uma per­gunta pra você responder. Você já está bem diferen­te do menino que foi até Coal Grove. — Ele correu a mão pelo cabelo e se apoiou contra a parede. — Não é justo, e essas não são opções atraentes. Encare deste jeito: mesmo que perca o torneio, sua família e seus amigos estarão a salvo. — Ele fez uma pausa, por uma fração de segundo. — Mas não tenho a intenção de ver você perder.

O que acontece no torneio?

É uma celebração que dura vários dias: cerimô­nias, apostas e os dois lados fazendo pose e desafian­do um ao outro. Então os campeões lutam entre si em combate um contra um. Tudo é regulamentado pelas Leis de Combate.

Onde acontece?

Aqui em Cúmbria, tradicionalmente, mas é um festival móvel. O último foi na Austrália.

O que você lucra com isso?

Talvez uma chance de mudar o sistema. Talvez uma chance de salvar a sua vida. Não há nenhuma ga­rantia, nem de um nem de outro.

Ele tinha mesmo alguma escolha? Jack não tinha dúvidas de que Hastings poderia forçá-lo a participar, quer ele quisesse quer não. Ele era como qualquer outro mago no que se referia a manipular pessoas. Hastings agia como se seguisse algum tipo de livro pessoal de regras. Se era assim, esse livro era indecifrável para Jack.

Não havia mesmo esperança. O melhor que podia fazer era tentar minimizar o risco para a sua família. Talvez isso fosse mais fácil do que se jogar de uma janela.

O sopro suave das montanhas resfriou-lhe a pele corada, sussurrando-lhe um aviso.

Vou jogar — disse ele, sem tirar os olhos da janela.

Hastings soltou um longo suspiro. Jack se pergun­tou se era um suspiro de alívio.

Achei que faria isso — disse Hastings.

E quanto à tia Linda?

Ela ficaria furiosa com ele, mas não havia nada que ele pudesse fazer. Minha escolha. Minha vida e minha morte.

Estou torcendo para que o torneio termine antes que ela descubra que você está jogando. — Hastings sacudiu a cabeça. — Ela vai ficar bem zangada comi­go. Mas talvez zangada não seja tão ruim quanto indi­ferente.

Hastings olhou pela janela.

Jack não conseguiu se conter.

Mas como pôde...? Vocês não...? — A voz dele se desfez sob o escrutínio dos olhos claros de Hastings.

Sim. Estivemos juntos no passado. — Ele deu um meio sorriso. — Sabe, Jack, todas as mulheres na sua família são cheias de magia, herdem a pedra ou não. Elas estão entre as vítimas dessa guerra. — Com algum esforço, Hastings afastou a melancolia. — Vou tratar dos arranjos para que a gente vá ao torneio, então.

Hastings se virou para sair, mas Jack ainda tinha uma pergunta.

Se a Rosa Vermelha já tem um campeão, supo­nho que vou lutar pela Rosa Branca?

O mago parou e se virou, parecendo surpreso e quase como se achasse aquilo engraçado.

Não, Jack. Pensei que tivesse entendido. Você vai lutar por mim.

 

Jack retornou ao treinamento no dia seguinte à con­versa com Hastings. A rotina era quase reconfortante. A idéia de um prazo era também atraente, em compara­ção com o jogo de gato e rato que se desenrolara por me­ses. Todas as manhãs ele corria quilômetros pela névoa, subindo e descendo as colinas traiçoeiras que cercavam a casa de pedra. Hastings corria com ele.

Depois voltavam para casa e tomavam o café da manhã com Becka. A casa de pedra era quase um cas­telo, com paredes escarpadas como as de uma forta­leza, que davam para uma planície coberta de grama cercada por montes. Jardins naturais se estendiam da porta dos fundos até a área de floresta ao pé das mon­tanhas. O primeiro andar da casa incluía um grande salão, uma biblioteca, uma cozinha e áreas de refeição. Havia pelo menos seis quartos nos andares de cima. Jack nunca viu nenhum empregado por perto, embora parecesse sempre haver comida e bebida disponíveis quando tinham fome. Talvez fosse tudo feito por meio de magia.

Após o café da manhã, praticavam com os floretes na clareira atrás da casa. Agora o foco não estava mais em se defender, mas em atacar, em penetrar as defesas do adversário, em desferir o golpe mortal. Todas as tar­des, Hastings mandava guerreiros contra Jack. Alguns eram novos para ele, outros já eram velhos conhecidos, de combates anteriores.

Agora não havia motivo para erguer uma barreira quando ele lutava, para manter bisbilhoteiros a dis­tância. Ninguém chegava perto, com exceção de algu­ma ovelha que se perdera nas colinas. De algum modo, Hastings mantinha Becka longe dos combates, embora Jack não soubesse dizer se era por intermédio de seu encanto pessoal ou de magia.

Jack percebeu que sua falta de experiência deixa­va Hastings preocupado. Apesar do treinamento rígido e da qualidade de sua arma, era difícil ignorar o fato de que Jack só vinha treinando havia poucos meses. O mesmo talvez se aplicasse ao seu oponente, mas ele não podia contar com isso.

Jack desejava saber mais sobre os guerreiros com quem lutava durante o treinamento; sobre suas vidas anteriores, como haviam se tornado guerreiros, em quantos torneios haviam lutado, como haviam morrido. Bom, talvez não essa última parte...

Na terceira tarde de treinamento, um jovem irrom­peu na clareira: o quinto adversário de Jack naquela tarde. O cabelo castanho do homem estava puxado num rabicho decorado com penas, e ele vestia trajes de camurça com franjas. Carregava uma machadinha em uma mão, uma espada curva na outra e uma faca no cinto. Parecia ser um pioneiro do Novo Mundo, do sécu­lo XVII ou do XVIII. Ele correu em direção a Jack com um rugido de congelar o sangue.

Jack ergueu a mão.

Espere um minuto!

Por um momento, Jack achou que o homem não o tinha ouvido. Ele continuou vindo, a toda velocidade, como se pretendesse arrancar a cabeça de Jack sem diminuir o passo. Finalmente, no último minuto, o ho­mem freou e derrapou até parar um pouco além do al­cance da espada de Jack.

Como assim, espere um minuto? — O homem fez uma carranca indignada. — Você me chamou para um combate, e eu vim, como está estabelecido. Então vá em frente. — Ele esticou os braços para os lados, uma arma em cada mão, pronto para receber o ataque de Jack.

É que... — Jack hesitou — Eu pensei que talvez a gente pudesse conversar um pouco antes.

Conversar um pouco? — O guerreiro fungou e cuspiu no chão. — Que diabos, para quê? Estamos lu­tando, não namorando.

Eu só estava me perguntando de onde você é, como se tornou um guerreiro, coisas desse tipo.

Pelo canto do olho, Jack viu Hastings aguardando, as mãos na cintura, sacudindo a cabeça. Provavelmente revirando os olhos também, mas Jack estava longe de­mais para ver.

Por que se importa com isso? — indagou o guerreiro.

Acho que nós provavelmente temos algo em co­mum — insistiu Jack. — Já que ambos somos guerrei­ros, sabe como é.

O guerreiro olhou-o de cima a baixo, para a blusa de Jack e os tênis esportivos.

Você não se parece com nenhum guerreiro que eu já tenha visto. Se quer mesmo saber, eu comecei lutando contra os franceses quando eu tinha 14 anos. Quando me cansei daquilo, fui viver com os índios shawnee. Então fui capturado por magos. Eles me acorrentaram e me puseram a bordo de um navio de volta para o Velho País. Puseram-me nas mãos dos mestres dos guerreiros. Eu teria sido capaz de cortar a garganta da minha própria mãe quando eles acabaram comigo. Provavelmente lutei uns oito ou dez combates por aqui antes de esticar as pernas. E acho que o que temos em comum é que um mago de uma figa nos tem presos pelas partes genitais. — Ele apontou para Hastings com o polegar. — Agora vá em frente, antes que ele faça algo de que nenhum de nós goste.

Relutantemente, Jack ergueu a ponta de sua espa­da e ficou de prontidão.

Espere um minuto! — Desta vez era Hastings. O mago atravessava o campo em passos decididos.

Agora olhe só o que você fez — resmungou o ou­tro guerreiro para Jack, praguejando baixinho. Ele se virou para encarar Hastings. — Não é minha culpa! — gritou ele, quando Hastings estava ainda a seis metros de distância. — Eu queria lutar, mas ele veio com essa conversa mole. Dê-me uma chance, e eu prometo que faço um bom combate. — Ele secou o suor do rosto com a manga suja e remexeu os pés, nervoso.

Qual é o seu nome? — perguntou Hastings ao guerreiro.

Brooks, meu senhor — respondeu o guerrei­ro, lambendo os lábios. — Jeremiah é o meu primeiro nome, meu senhor.

Eu ouvi você dizer que lutou em alguns tor­neios...

Quando Hastings se aproximou, o guerreiro recuou.

Eu disse isso mesmo, senhor. — Jeremiah Brooks falava com relutância, como se estivesse em dúvida so­bre se deveria admiti-lo ou não.

Ótimo — disse Hastings. — Preciso de você para ajudar meu aluno aqui.

Era exatamente isso o que eu ia fazer, meu se­nhor — disse o guerreiro, voltando-se para Jack e se agachando para pular.

Não! — disse Hastings rapidamente. — Tenho outra coisa em mente. Algo um pouco mais... direto.

Brooks começou a recuar.

Por favor, meu senhor. Eu vim para um combate e estou aqui de bom grado. Não me enfeitice.

Não vou machucar você — Hastings assegu­rou-lhe.

Não convencido, Brooks virou-se para fugir, mas Hastings estendeu as mãos e o ar tremeluziu ao redor do pioneiro. Brooks foi firmemente amarrado, as mãos coladas aos flancos, as armas, inúteis. Ele tentou se li­bertar, contorcendo-se sem sucesso. Os olhos estavam fixos em Hastings, arregalados de medo.

Agora foi a vez de Jack.

Não o machuque — protestou Jack.

Não comece você também — Hastings repreen­deu-o. — Não vou machucar ninguém. Só vou tomar emprestado o que ele sabe para ajudar você. Venha aqui, Jack.

O que você vai fazer? — Jack perguntou, cau­teloso.

Se vamos trabalhar juntos, você vai ter de confiar em mim de vez em quando — grunhiu Hastings. — Eu falei para vir aqui.

Zangado, Jack enfiou a Sombra Assassina na bai­nha e cruzou a distância entre eles, pondo-se ao lado de Brooks. Hastings empurrou os dois para que ficassem de joelhos e se agachou, de frente para eles. Ele pôs as mãos sobre as cabeças deles. Brooks murmurava baixinho para si mesmo, praguejando ou rezando. Praguejando, supôs Jack, baseado no que ouvira até então.

Vou tentar editar isso, Jack, mas é uma arte e não uma ciência, por isso tenha paciência — disse Hastings, sem que Jack entendesse o sentido.

O mago fechou os olhos, concentrando-se, pronun­ciando um feitiço, e então o poder começou a fluir-lhe pelos dedos. Jack sentiu como se seu couro cabeludo estivesse sendo espichado para fora do crânio e como se calor e luz fluíssem para dentro de sua mente, uma invasão. Ele queria se livrar do toque do mago, mas des­cobriu que não podia se mexer.

Sua respiração vinha rápida e rasa, em arfadas ine­ficazes. Achou que havia gritado. As imagens começa­ram a deslizar por seu consciente, devagar a princípio, depois mais rápidas, como quadros brilhantes de uma fita emaranhada de vídeo. Havia paisagens: densas flo­restas verdes, nunca tocadas por um machado, o chão aberto sob um dossel de árvores, uma trilha indígena que serpenteava, seguindo um riacho, batizado com um nome shawnee, que cantava por sobre as rochas ao des­cer até Ohio. Um largo vale, coberto por névoa, cerca­do de montanhas, cheio de ossos, aonde os guerreiros eram levados para lutar.

Havia pessoas: soldados ingleses de casaca verme­lha, colonos imundos que transitavam pela floresta tão bem quanto qualquer shawnee, uma moça numa taberna com cabelos dourados e uma blusa que lhe desliza­va suavemente dos ombros. Magos, de rostos severos e cruéis, com suas artes negras, com suas coleiras e correntes de metal, que o torturavam até que ele implo­rasse pela oportunidade de matar alguém, que o fizeram conhecer o medo pela primeira vez na vida. Os guerrei­ros que vinham até ele, altos e baixos, alguns muito jo­vens, mas nenhum muito velho. Ele lia os rostos deles, podia ver a esperança e então a morte em seus olhos.

E sensações: o cheiro da chuva correndo pelos lagos. O tilintar e as faíscas do aço no aço. O fedor de muitos homens sujos juntos por muito tempo. A dança rápida e mortal do Jogo. Carne e osso se rendendo à sua lâmina, e o som molhado quando a retirava. E, no fim, a vida lhe escapando suavemente enquanto ele jazia de costas, fitando o céu, o sangue jorrando para fora de seu corpo, sabendo que outra pessoa lutaria da próxima vez.

Quando Hastings o soltou, Jack caiu de rosto no chão e ficou lá, tremendo, por um longo tempo. Não queria olhar para os outros dois, pois não queria que eles o vissem chorar. Pôde ouvir Hastings falando bai­xinho — com Brooks, ele presumiu. Quando Jack final­mente levantou a cabeça, o guerreiro havia sumido.

A partir daí, Jack sabia tudo sobre Brooks — até demais. Para todos os efeitos, ele era o herdeiro das experiências do guerreiro. Se isso era bom ou mau, ele não sabia. Ele tinha a memória corporal de derrama­mento de sangue, tanto no Novo Mundo como no Velho. Era capaz de dizer que direção um homem tomaria numa luta só pelo jeito como mudava sua postura ou pela expressão nos olhos. Era capaz de atirar uma machadinha e atingir uma árvore a cem passos de distân­cia. Não precisava tentar, simplesmente sabia que po­dia. Ele temia os magos e suas mãos incandescentes do mesmo modo que alguns homens temem cobras e coi­sas voadoras: com um terror irracional e paralisante.

Havia outras coisas. Ele conhecia o sabor de carne seca, carne de cervo e de esquilo. Foi só quando Becka comentou a respeito que ele se deu conta de que havia adquirido um novo vocabulário nada elegante. Depois disso, ele se esforçou ao máximo para manter a língua sob controle.

Cuidado com o que deseja. Mais uma vez, estava zangado com Hastings, que lhe havia dado uma história que nunca havia pedido. Ao mesmo tempo, reconhecia-o como o presente que era.

Ele venceu os dez combates seguintes em que lutou.

Os dias se passaram, mais do que os poucos que Becka havia prometido, e ainda assim ela ficou. Ela era uma presença quase etérea, movendo-se pelos cor­redores e jardins, lendo no pátio, escrevendo poesia. Como Jack e Hastings passavam muito tempo treinan­do, ela passava um tempo considerável sozinha. Mas nunca se queixava.

Os três sempre jantavam juntos. À noite, após a ceia, Becka e Hastings saíam para longas caminhadas nas colinas. Era nesse período que Jack tirava proveito da biblioteca. Era uma maravilhosa coleção de livros, alguns raros e valiosos: literatura inglesa, estudos de grandes filósofos, trabalhos científicos, volumes sobre misticismo oriental. O conteúdo de uma caixa de vidro em um canto exercia uma fascinação especial em Jack. Era uma coleção de livros sobre magia. Embora fosse protegida por um feitiço de tranca, Jack sabia desfazê-lo com facilidade. Ele passava horas lendo textos antigos, alguns em latim, alguns em inglês médio, alguns em francês (que ele havia estudado na escola, mas o vocabulário era bastante diferente do que estudara). Desejou que Nick estivesse lá para traduzir. Ele bem que precisava de alguns conselhos.

Jack cuidara para não revelar nada a Hastings so­bre seu treinamento em magia. Acreditava que manter aquilo em segredo poderia ser uma vantagem, em um jogo no qual ele tinha poucas.

Depois de lutar durante a maior parte do dia, Jack sempre chegava exausto ao cair da noite e ia cedo para a cama. Nem mesmo sua relutância em deixar a mãe sozinha com Leander Hastings era capaz de mantê-lo acordado.

Jack sentia-se ambivalente em relação à presença de Becka. Sabia muito bem que a mãe nunca aprovaria a decisão dele de lutar no torneio, mas estava contente pela oportunidade de passar o que poderiam ser os seus últimos dias com ela antes do solstício de verão.

Às vezes ele olhava no espelho de Blaise, na espe­rança de que se lhe revelasse alguma coisa. Mas sobre a superfície prateada uma névoa pairava, como a bruma que envolvia as montanhas ao pôr do sol.

Certa noite, dez dias depois da chegada dele a Cúmbria e quatro antes do solstício de verão, Becka e Hastings haviam saído para a caminhada de costume, e Jack estava imerso num livro sobre transformare — ou seja, a arte de transformar uma coisa em outra —, quando ouviu um ruído de uma porta se fechando em al­gum lugar da casa. Pensou que talvez Becka e Hastings houvessem voltado mais cedo. Devolveu o livro rapida­mente à estante, fechou o armário e reaplicou o feitiço de tranca.

Não ouviu nenhuma voz vinda do corredor, nin­guém chamando o seu nome. Curioso, ele se esgueirou até a porta da biblioteca e olhou para o salão de um lado a outro. Vazio. Poderia ter sido o vento? Era improvável que qualquer brisa conseguisse mover as pesadas por­tas de madeira daquele lugar, pensou ele. Um intruso? Talvez os magos da Rosa Vermelha ou da Branca o hou­vessem seguido até ali.

A Sombra Assassina estava no Grande Salão, onde ele a deixara depois do treinamento. Ele seguiu silen­ciosamente pelo salão até a enorme entrada com dois andares de altura e examinou a sala adiante. Estava fracamente iluminada pela luz pálida que vazava pelas janelas da galeria. Não havia nenhum sinal de alguém ou de alguma coisa se movendo no piso principal ou na galeria acima. A espada ainda estava apoiada contra o canto da lareira. Ele respirou fundo e correu por sobre os ladrilhos que o separavam de sua arma. Tinha alcan­çado o degrau de proteção da enorme lareira quando ouviu um ruído atrás de si. Jack apanhou a espada e girou, meio agachado, e se viu cara a cara com Linda Downey.

— Jack! — Ela o agarrou e o abraçou com força, to­mando cuidado para evitar a espada. — Sabia que você não podia estar muito longe da espada. — Ela lhe deu um tapinha no braço da arma, então o soltou e o fitou com atenção. — Você está bem? O ombro está curado?

Jack fez que sim com a cabeça, completamente atrapalhado com aquela reviravolta. Largou a espada de novo na lareira, com cuidado, e recuou até suas cos­tas encostarem contra a estrutura de pedra. As idéias giravam loucamente em sua cabeça. E agora?

Linda não lhe deu muito tempo para pensar. Parecia estar com pressa.

Onde está o Hastings? — indagou ela.

Jack encontrou sua voz.

Saiu para caminhar, acho.

Ótimo. Temos de sair daqui antes que ele volte.

Ela apanhou o estojo e a espada, passando-os para Jack.

C-como nos encontrou? — gaguejou Jack.

Eu sabia que ele tinha uma propriedade aqui. Só levei algum tempo pra encontrar o lugar. Venha, Jack — disse ela com urgência. — Estamos em perigo aqui.

Não posso ir embora sem mais nem menos — protestou Jack.

Podemos escrever para ele quando estivermos longe daqui — replicou Linda, com raiva. — Sem ende­reço de remetente.

Mamãe está aqui — disse Jack, enfim.

Becka? — O tom de Linda era de surpresa. — Eu estava tão preocupada com ela. Ela estava aqui esse tempo todo? Graças a Deus ela está bem. — Linda fez uma pausa e franziu o cenho. — Mas o que ela está fa­zendo aqui?

O Hastings achou que seria melhor se ela não estivesse procurando por mim por toda a cidade, fazen­do perguntas, quem sabe até indo procurar a doutora Longbranch. — Jack deu de ombros de maneira nada convincente.

Ela está na casa? — Linda apressou-se em per­guntar.

Jack sacudiu a cabeça.

Ela saiu para caminhar com ele.

Linda fitou-o por um momento, então pareceu che­gar a uma conclusão.

Deixa pra lá. Preciso levar você pra um lugar seguro, depois eu venho buscar a Becka. O Nick está esperando por nós em Oxford. De lá, vamos achar um lugar melhor. — Havia uma mistura de sedução de en­cantadora e desespero na voz dela. — Por favor, Jack. Você tem de vir comigo agora!

Não pode pelo menos ficar para uma xícara de chá? — A voz veio de junto à porta. — Ou um copo de vinho, em nome dos velhos tempos? — Era Hastings, o braço carregado de lenha, Becka logo atrás dele. — Eu já ia acender o fogo. — Ele se virou para Becka. — Veja, Becka, a sua irmã veio nos visitar.

Linda! — Becka abraçou a irmã. — Como nos encontrou? Eu queria telefonar pra você, mas não tem telefone por aqui. Você viu o Jack? Ele está bem melhor.

Linda se afastou do abraço de Becka o suficiente para olhar com raiva para Hastings.

Lee, isso é bem a sua cara.

Becka fitou-a, olhando da irmã para o mago.

Vocês se conhecem?

Hastings ergueu os olhos da lareira, apoiando os antebraços nos joelhos.

Becka, perdão. Você se importaria de ir buscar um pouco de vinho pra nós?

Becka assentiu, contraindo os lábios, pensativa.

Vou ver se encontro algo na cozinha — disse ela, saindo do salão.

Quer dizer que você abandonou minha Sociedade Chauceriana — disse Hastings, levantando-se. Ele apon­tou para a lenha, que se incendiou. — Espero que eles estejam em boas mãos. — Ele evitava cuidadosamente olhar para a encantadora, o que não teria sido fácil para qualquer homem.

Estão suficientemente seguros — replicou ela. — Os pais de Will estão com eles. Estão de partida para uma excursão pela Escócia e pela Irlanda. O que você deveria saber, já que foi você quem planejou tudo.

Então talvez... talvez você possa ficar alguns dias... — Ele olhou para ela por um instante, depois para o outro lado. Para surpresa de Jack, ele soava es­perançoso, quase ansioso.

Linda não queria nem saber.

Eu agradeço tudo o que fez, mas acho que é hora de Jack e Becka irem a Oxford — disse ela, afetando calma. — Meu carro não está muito longe, e eu vim para buscá-los.

Hastings cruzou os braços com um murmúrio exas­perado.

Você acha mesmo que Jack pode ir a Oxford? Com todos os magos do Reino Unido à caça dele?

Bom, aqui é que ele não pode ficar! — resmun­gou Linda, cerrando os punhos.

Com quem você está preocupada? Jack ou Becka? — Ele ergueu uma mão para impedir um ataque verbal. — Não percebe? A Jessamine sabe quem ele é. O Geoffrey também. Acabou.

Jack não conseguiu mais agüentar aquele jogo.

Eu decidi lutar no torneio, tia Linda — disse ele.

Jack! — Ela se voltou para Hastings. — A idéia era que você impedisse isso! Que tipo de feitiço você pôs nele?

Hastings suspirou.

Se eu quisesse forçá-lo a isso, eu poderia tê-lo levado comigo há muito tempo e me poupado um monte de problemas.

Becka retornou com uma garrafa de vinho e alguns copos. Ela estudou os rostos irados e serviu um copo para Linda primeiro.

Quem sabe você se sinta melhor depois de be­ber um pouco de vinho — sugeriu Becka com calma, passando-lhe o copo.

Há mais de uma maneira de enfeitiçar uma pes­soa — disse Linda, em tom sombrio. Então se conteve, olhando de relance para a irmã. — Becka, eu preciso falar com o Leander em particular.

Becka passou um copo de vinho a Hastings e pou­sou uma mão no braço dele, um gesto de apoio.

Linda, eu quero saber por que está sendo tão rude com ele. Ele salvou a vida de Jack lá em Trinity. Quando Jack ficou doente em Londres, ele nos convi­dou para vir para cá para que Jack pudesse se recupe­rar. Ele tem sido absolutamente generoso com o Jack e comigo. Então você aparece aqui sem avisar e age como se ele fosse um vilão na própria casa dele.

Leander! — Linda vibrava de raiva.

Oh, está bem!

Com relutância, Hastings largou o copo na mesa. Passou um braço em torno de Becka e murmurou bai­xinho algumas palavras. Becka ficou paralisada, olhos e lábios abertos, como se estivesse prestes a dizer algu­ma coisa. Hastings levantou-a e deitou-a gentilmente no sofá. Então pegou seu copo novamente, segurando-o à frente dele como um escudo.

Diga o que tem a dizer, se acha que precisa — disse Hastings a Linda.

Linda se virou para Jack.

Jack, se você participar desse sistema bárbaro, só vai fazer com que ele se perpetue.

Hastings esvaziou o copo num instante e o encheu de novo com o conteúdo da garrafa sobre a mesa.

Linda, não vou deixar que interfira nisso — disse ele com suavidade.

Quer dizer que agora resolveu usar meninos de 16 anos para conseguir sua vingança, não é?

Se eu pudesse fazer isso por conta própria, não acha que eu faria? Você me conhece bem demais para pensar isso.

Jack estava totalmente perdido.

Do que vocês estão falando? — indagou ele. Deixou-se cair pesadamente numa cadeira.

A voz de Linda era fria e seca.

Você não me disse uma vez que o senhor Hastings sempre escolhe sobre o que ele quer falar? Suponho que ele tenha escolhido não contar a você sobre a famí­lia dele.

Jack sacudiu a cabeça, já se sentindo deprimido. Sabia que estava prestes a ouvir outra história antiga. Sentia-se como se sua vida tivesse sido inteiramente ar­ruinada por eventos que haviam ocorrido muito antes de ele ter nascido.

A irmã mais velha de Leander, Carrie, nasceu guerreira. Lee passou a infância mudando-se de um lugar para outro, a família tentando fugir das Rosas.

Linda tomou um gole de vinho. Hastings fitava o fogo. — Não deu certo. Aos 18 anos, ela foi encontrada por Geoffrey Wylie e reivindicada pela Rosa Vermelha.

O tom dela suavizou-se. — Ela nem mesmo chegou a disputar um torneio, porque foi morta antes pela Rosa Branca. O pai e o irmão dele foram mortos, e a mãe nunca mais foi a mesma. Leander tinha dez anos na época.

Wylie? — repetiu Jack.

Ela olhou de relance para Jack.