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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O HOMEM DE BEIJING / Henning Mankel
O HOMEM DE BEIJING / Henning Mankel

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O HOMEM DE BEIJING

 

                                                                                   O silêncio (2006)

 

Eu, Birgitta Roslin, declaro solenemente que hei de empe­nhar o melhor de meu conhecimento e agir de acordo com mi­nha consciência para julgar sem temor ou parcialidade, seja o acusado rico ou pobre, e conforme as leis e os estatutos da Sué­cia; jamais perverter a lei e tampouco promover injustiça com base em relações de família, amizade, inveja, malevolência ou medo, nem em resposta a subornos ou presentes ou qualquer outra razão, não importando sua natureza; jamais imputar culpa onde haja inocência, nem inocência onde haja culpa. Jamais hei de revelar àqueles que comparecem à Corte, nem antes nem depois de o julgamento ser realizado, deliberações que tenham ocorrido a portas fechadas. Como juíza honesta e sincera, eu me empenharei em respeitar sempre este juramento solene.

                 Código de Procedimento Judicial, Cap. 4, §11, Juramento Judicial

 

                               O epitáfio

Neve congelada, gelo por toda parte. Pleno inverno.

No início de janeiro de 2006, um lobo solitário cruza a fron­teira não marcada e penetra na Suécia vindo de Vauldalen, na Noruega. Um homem numa moto de neve pensa que talvez o te­nha visto de relance nos arredores de Fjallnäs, mas ele é incapaz de identificá-lo com precisão, uma vez que o animal desaparece no meio das árvores rumando para leste. Nas remotas monta­nhas norueguesas de Österdalarna, o lobo havia descoberto uma carcaça de alce congelada, com restos de carne ainda grudados nos ossos. Mas isso foi há mais de dois dias. Agora ele começa a sentir a fisgada da fome e está desesperado atrás de comida.

O lobo é um macho jovem em busca de um território pró­prio. Ele prossegue seu caminho rumo ao leste. Em Nävjarna, ao norte de Linsell, descobre outra carcaça de alce. Durante um dia inteiro fica ali comendo até se satisfazer, antes de retomar seu caminho para leste. Ao chegar a Karböle, ele trota sobre o Ljusnan congelado e aí segue o rio ao longo de seu trajeto sinuo­so em direção ao mar. Numa noite sem luar, ele galopa silencio­samente sobre a ponte em Jarvsö e então se dirige para as vastas florestas que se estendem até a costa.

Ao amanhecer de 13 de janeiro o lobo alcança Hesjövallen, um minúsculo vilarejo ao sul do lago Hansesjön em Hälsingland. Ele dá uma parada e fareja o ar. Detecta cheiro de san­gue. Olha em volta. As casas são habitadas, mas não há sinal de fumaça nas chaminés. Seus ouvidos aguçados não conseguem detectar som nenhum.

Mas o animal não tem dúvidas sobre o sangue. Ele se esgueira pela borda da floresta, focinho no ar. Então segue adian­te, silenciosamente, em meio à neve. O cheiro vem de uma das casas no final da aldeia. Ele agora está alerta — com humanos é essencial ser ao mesmo tempo cuidadoso e paciente. Dá ou­tra parada. O cheiro vem dos fundos da casa. Ele espera. Então recomeça a andar. Quando chega nos fundos da casa, encontra outro cadáver. Arrasta sua enorme refeição para o meio das ár­vores. Ele não foi descoberto, nem sequer os cães do povoado se manifestaram. O silêncio é total nessa manhã gelada.

O lobo põe-se a comer quando chega à beira da floresta. A carne ainda não congelou, as mordidas são fáceis. Agora ele está muito faminto. Tendo arrancado um sapato de couro, iniciou a refeição pelo tornozelo.

A neve caiu a noite inteira, mas parou pouco antes do ama­nhecer. Enquanto o lobo se refestela, flocos de neve retomam sua dança sobre o solo congelado.

 

Quando Karsten Höglin acordou, lembrou-se de ter sonha­do com uma fotografia. Ficou deitado imóvel na cama e sentiu a imagem retornar lentamente, como se o negativo de seu sonho estivesse enviando uma cópia para sua mente consciente. Reco­nheceu a foto. Era uma foto em preto e branco, de um homem sentado numa velha cama de ferro, com um rifle de caça na parede e um urinol a seus pés. Quando a vira pela primeira vez, ficara siderado pelo sorriso melancólico do velho. Percebia algo de temeroso e evasivo no homem. Bem mais tarde Karsten vi­ria a descobrir o que havia por trás daquela figura. Alguns anos antes, ao caçar aves marinhas, o homem acidentalmente atirara e matara seu único filho. Daquele dia em diante o rifle jamais saíra da parede, e o homem havia se tornado um eremita.

Höglin pensou que, entre os milhares de fotos e negativos que já tinha visto, esta era uma que ele jamais esqueceria. Dese­java ter ele próprio tirado a fotografia.

O relógio na mesinha de cabeceira marcava sete e meia. Höglin em geral acordava bem cedo, mas nessa noite havia dor­mido mal, a cama e o colchão eram desconfortáveis. Anotou mentalmente que faria uma queixa ao deixar o hotel.

Era o nono e último dia da sua viagem, uma viagem possi­bilitada por uma bolsa que lhe permitia estudar aldeias desertas e outros pequenos assentamentos que estavam sendo abandona­dos pela população. Chegara até Hudiksvall e restava um vilare­jo para fotografar. Ele escolhera esse vilarejo específico porque lá vivia um velho que lera sobre o seu projeto e lhe mandara uma carta. Hõglin ficara impressionado com a carta e resolvera que aquele seria o lugar para concluir seu estudo.

Levantou-se e abriu as cortinas. Havia nevado durante a noi­te, e o dia estava cinzento, o sol ainda não surgira. Uma mulher superagasalhada passou de bicicleta na rua lá embaixo. Karsten a observou e imaginou como devia estar frio. Cinco graus nega­tivos, talvez sete.

Vestiu-se e pegou o lento elevador até a recepção. Havia estacionado o carro no pátio cercado atrás do hotel. Ali o carro estava seguro. Mesmo assim, levara todo seu equipamento fo­tográfico para o quarto, como de hábito. Seu pior pesadelo era um dia chegar no carro e descobrir que todas as câmeras tinham sumido.

A recepcionista era uma moça jovem, mal saída da adoles­cência. Ele notou sua maquiagem descuidada e desistiu da idéia de reclamar da cama. Afinal, não tinha intenção de algum dia voltar ao hotel.

Na sala do café da manhã alguns hóspedes estavam absortos em seus jornais matutinos. Por um breve momento ele ficou tentado a pegar uma câmera e tirar uma foto. Aquilo lhe dava a sensação de que a Suécia sempre tinha sido exatamente assim. Pessoas quietas, com uma xícara de café e os olhos enfiados nos jornais e, todos absortos em seus pensamentos, seus destinos.

Mas resistiu à tentação, serviu-se de café, passou manteiga em duas fatias de pão e pegou um ovo cozido mole. Sem jornal, comeu rapidamente. Detestava fazer uma refeição sozinho, sem nada para ler.

Estava mais frio do que esperava ao sair do hotel. Ficou na ponta dos pés para ler o termômetro na janela da recepção. Onze graus negativos. E a temperatura caía, ele desconfiou. Aí vem o período de frio que estávamos esperando. Pôs as maletas no banco traseiro, ligou o motor e começou a tirar o gelo do para-brisa. Havia um mapa no banco do passageiro. No dia an­terior, depois de tirar fotos de uma aldeia perto do lago Hassela, havia elaborado o roteiro para chegar ao seu porto final: pegar a estrada principal rumo ao sul, sair na direção de Sörforsa, perto de Iggesund, e aí prosseguir pela costa, leste ou oeste, do lago que uns chamavam Storsjön e outros Langsjön. O sujeito do posto de gasolina no caminho de Hudiksvall lhe avisara que a estrada do leste estava ruim, mas ele decidiu pegá-la mesmo as­sim. Seria mais rápido. E a luz estava tão linda nessa manhã de inverno. Ele já podia visualizar a fumaça saindo das chaminés em direção ao céu.

Levou quarenta minutos para chegar lá. Mas aí já tinha fei­to uma conversão errada, pegando uma estrada que levava para o sul, para Nacksjö.

Hesjövallen situava-se num pequeno vale junto a um lago cujo nome ele não conseguia se lembrar. Hesjön, talvez? As densas florestas estendiam-se por todo o caminho para o vilarejo, de ambos os lados da estreita via que subia até Härjedalen.

Karsten parou na entrada da minúscula aldeia e desceu do carro. Agora havia aberturas nas nuvens. A luz ficaria mais difícil de captar, talvez não tão expressiva. Olhou ao redor. Tudo estava quieto. As casas davam impressão de estar ali desde tempos ime­moriais. Ao longe pôde ouvir o leve ruído de tráfego na estrada principal.

Subitamente sentiu um mal-estar. Conteve a respiração, como sempre fazia ao ser confrontado com algo que não entendia.

Então deu-se conta — as chaminés: não havia fumaça nelas. Não havia sinal de fumaça, que seria uma característica significativa das fotos que pretendia tirar. Seu olhar moveu-se lentamente de uma casa para outra. Alguém já limpou a neve, pensou. Mas por que não acendeu um único fogo? Lembrou-se da carta que recebera do homem que lhe contara sobre a aldeia. Ele havia se referido às chaminés e a como as casas pareciam, de um modo infantil, estar enviando sinais de fumaça umas para as outras.

Suspirou. As pessoas não escrevem a verdade, mas o que pensam que você quer ler. Agora, devo tirar fotos de chaminés sem fumaça ou abandonar a coisa toda? Ninguém o forçava a ti­rar fotografias de Hesjövallen e de seus habitantes. Já tinha fotos de sobra da Suécia que estava desaparecendo: fazendas abando­nadas, povoados remotos cuja única esperança de sobrevivência era que dinamarqueses e alemães comprassem as casas e as trans­formassem em chalés de veraneio. Resolveu ir embora e retor­nou ao carro. Mas não acionou o motor. Já que tinha vindo tão longe, o mínimo que podia fazer era tentar fazer algum retrato dos habitantes locais — ele queria rostos. Com o passar dos anos, Karsten Höglin fora ficando cada vez mais fascinado por pessoas idosas. Queria compilar um álbum: retratos que descrevessem a beleza que se vê apenas nas faces de mulheres muito velhas, suas vidas e provações gravadas na pele como sedimentos numa parede rochosa.

Saiu do carro, puxou o chapéu de pelo até as orelhas, pe­gou uma Leica M6 que vinha usando nos últimos dez anos e dirigiu-se até o grupo de casas mais próximo. Eram dez ao todo, quase todas de macieira e pintadas de vermelho, algumas com rampas anexas. Apenas uma casa era moderna, se é que podia ser chamada de moderna — uma casa deslocada, estilo anos 1950. Ao chegar ao portão, parou e ergueu a câmera. Uma placa indi­cava que ali vivia a família Andrén. Bateu algumas fotos, varian­do a abertura e o tempo de exposição, buscando ângulos diver­sos, embora estivesse óbvio que ainda não havia luz suficiente e que ele obteria apenas um borrão indistinto. Mas nunca se sabe. As fotografias às vezes revelam segredos inesperados.

Höglin era intuitivo com seu trabalho. Não que não des­se importância a medir níveis de luz quando necessário, mas às vezes tirava da cartola resultados surpreendentes sem prestar atenção ao cálculo cuidadoso dos tempos de exposição. A impro­visação fazia parte do seu território.

O portão estava emperrado. Ele teve de empurrar com for­ça para abrir. Não havia marcas de pés na neve recém-caída. E ainda nada de som, nem mesmo um cachorro. Está deserta, ele pensou. Isto não é uma aldeia, é o Holandês Voador.

Ele bateu na porta da frente, esperou, e bateu outra vez. Nada. Começava a ficar intrigado. Alguma coisa estava errada. Bateu de novo, mais forte e mais demoradamente. Então expe­rimentou a maçaneta. Trancada. Pessoas idosas se amedrontam com facilidade, pensou. Trancam as portas, temerosas de que as coisas que leem nos jornais possam acontecer com elas.

Golpeou a porta com força. Nada. Concluiu que não devia haver ninguém em casa.

Atravessou o portão e passou para a casa seguinte. O dia clareava. Era uma casa amarela. A massa de vidro em torno das janelas estava começando a se soltar — provavelmente devido ao forte vento. Antes de bater, experimentou a maçaneta. Tam­bém trancada. Bateu com força, e aí pôs-se a dar pancadas an­tes mesmo de que alguém pudesse ter tido tempo de responder. Mais uma vez, vazia.

Se voltasse para o carro agora, estaria de volta a Piteâ no começo da tarde e deixaria sua esposa feliz. Ela estava convenci­da de que ele já era velho demais para fazer todas essas viagens, apesar de ter apenas sessenta e três anos. Mas fora diagnosticado com sintomas de uma angina iminente. O médico o aconselhara a tomar cuidado com o que comia e a fazer exercício o máximo possível.

Uma última tentativa. Deu a volta até os fundos da casa e experimentou uma porta que parecia abrir para um quarto de serviço atrás da cozinha. Também estava trancada. Foi até a ja­nela mais próxima, ficou na ponta dos pés e espiou para dentro. Por um vão da cortina pôde ver uma sala com um aparelho de televisão. Prosseguiu até a janela seguinte. Era a mesma sala, e ainda conseguia ver a tevê. Uma tapeçaria na parede o informa­va que Jesus é seu melhor amigo. Estava prestes a passar para a próxima janela quando alguma coisa no chão atraiu sua atenção. De início pensou que fosse simplesmente uma bola de lã jogada ali. Aí viu que era uma meia de lã, e que a meia calçava um pé. Deu um passo para trás afastando-se da janela. Seu coração ba­tia forte. Seria realmente um pé? Voltou para a primeira janela, mas não conseguiu ver dentro do quarto tanto quanto do outro ângulo. Retornou à segunda janela. Agora tinha certeza. Era real­mente um pé. Um pé imóvel. Não podia ter certeza se era um pé de homem ou de mulher. O dono do pé podia estar sentado numa cadeira. Era difícil saber — mas então por que a pessoa não tinha se mexido?

Ele bateu na janela com o máximo de força que ousou, mas não houve resposta. Tirou o celular e digitou o número da emer­gência. Não havia sinal. Correu para a terceira casa e golpeou fortemente a porta. Nada. Sentiu-se como se estivesse no meio de um pesadelo. Com um raspador de sapatos, quebrou a fe­chadura e forçou a entrada. Precisava achar um telefone. Havia uma velha senhora deitada no chão da cozinha. Sua cabeça es­tava quase totalmente separada do pescoço. A seu lado jazia o cadáver de um cão, cortado em dois.

Höglin soltou um grito e virou-se para fugir. Ao correr pelo hall encontrou o corpo de um homem estendido no chão da sala de estar, entre a mesa e o sofá vermelho com uma colcha bran­ca. O velho estava nu, as costas cobertas de sangue.

Höglin abandonou a casa correndo. Não conseguia se afas­tar com a rapidez que queria. Deixou a câmera cair ao chegar à estrada, mas não parou para pegá-la. Estava convencido de que alguém ou algo que não podia ver estava prestes a apunhalá-lo pelas costas. Ligou o carro e partiu a toda.

Parou quando alcançou a estrada principal, e aí discou o número da emergência, as mãos tremendo incontrolavelmente. Ao erguer o telefone para aproximá-lo do ouvido sentiu uma dor aguda no peito. Era como se alguém o tivesse alcançado e o apunhalado.

Conseguiu ouvir alguém falando com ele ao telefone, mas foi incapaz de responder. A dor era tão intensa que só pôde emi­tir um sopro débil.

"Não consigo ouvi-lo", disse uma voz feminina.

Ele tentou novamente. Mais uma vez, nada além de um sopro débil. Ele estava morrendo.

"Pode falar um pouco mais alto?", perguntou a mulher. "Não entendo o que você está dizendo."

Ele fez um esforço supremo e articulou umas poucas pa­lavras.

"Estou morrendo", disse engasgado. "Pelo amor de Deus, estou morrendo. Me ajude."

"Onde você está?"

Mas a mulher não obteve resposta. Karsten Höglin estava a caminho de uma escuridão infinita. Numa tentativa desespera­da de escapar da dor excruciante, como um homem se afogan­do que tenta em vão subir à superfície, pisou no acelerador. O carro saltou para o lado errado da estrada. Um caminhão que se dirigia a Hudiksvall, transportando mobília de escritório, não teve como evitar uma colisão frontal. O caminhoneiro pulou da cabine para examinar o motorista do carro no qual havia batido. Höglin estava prostrado sobre o volante.

O motorista, da Bósnia, falava mal sueco.

"Como estar você?", perguntou.

"A aldeia", murmurou Karsten Höglin. "Hesjövallen."

Essas foram suas últimas palavras. Quando a polícia e a ambulância chegaram, Karsten Höglin havia sucumbido a um violento ataque do coração.

Não estava absolutamente claro o que ocorrera. Ninguém conseguia imaginar o motivo para o súbito ataque cardíaco so­frido pelo homem ao volante do Volvo azul-escuro. Só quando o corpo de Karsten Höglin foi levado e os guinchos tentavam re­bocar o caminhão de móveis seriamente danificado foi que um policial se deu ao trabalho de interrogar o motorista bósnio. O nome do policial era Erik Huddén, e ele não gostava de conver­sar com gente que falava mal sueco, a menos que fosse forçado a isso. Era como se suas histórias fossem menos importantes por serem incapazes de articulá-las de forma correta. Naturalmente, o guarda começou com um bafômetro. Mas o motorista estava sóbrio, e sua carteira de habilitação parecia em ordem.

"Ele tenta dizendo alguma coisa", disse o motorista da ca­minhonete.

"O quê?", Huddén perguntou com displicência.

"Alguma coisa sobre Hero. Um lugar, talvez?"

Huddén era da região, e sacudiu a cabeça com impaciência.

"Não há nenhum lugar nas proximidades chamado Herö."

"Talvez eu ouvir errado? Talvez ser alguma coisa com s? Talvez Hersjö?"

"Hesjövallen?"

O motorista fez que sim. "E, ele disse isso."

"E o que ele quis dizer?"

"Eu não saber. Ele morreu."

Huddén pôs a caderneta de lado. Não tinha anotado o que o motorista disse. Meia hora depois, quando os guinchos já ha­viam ido embora e outro carro de polícia levara o motorista bós­nio para a delegacia para mais interrogatórios, Huddén entrou em sua viatura, pronto para retornar a Hudiksvall. Estava acompanhado de seu colega Leif Ytterström, que dirigia.

"Vamos via Hesjövallen", ele disse sem mais nem menos.

"Por quê? Houve algum chamado de emergência?"

"Eu só quero checar uma coisa."

Erik Huddén era o mais velho dos dois. Era conhecido por ser teimoso e pouco comunicativo. Ytterström pegou a estrada de Sörforsa. Quando chegaram a Hesjövallen, Huddén pediu ao colega que cruzasse o vilarejo guiando devagar. Ainda não havia lhe explicado por que resolvera fazer esse desvio.

"Parece deserta", disse Ytterström enquanto passavam len­tamente por uma casa depois da outra.

"Espere aí. Volte", ordenou Huddén. "Devagar."

Então disse para Ytterstrõm parar. Alguma coisa estendida na neve junto a uma das casas chamara sua atenção. Desceu do carro e foi averiguar. De repente se deteve e sacou a arma. Ytterstrõm saltou do carro e também tirou a sua.

"O que está acontecendo?"

Huddén não respondeu. Com cautela, avançou. Então pa­rou de novo e curvou-se como se de repente tivesse sido aco­metido por dores no peito. Ao voltar para o carro, Erik Huddén estava absolutamente pálido.

"Há um homem morto deitado ali", disse. "Ele apanhou até morrer. E está faltando uma coisa."

"O que você quer dizer?"

"Uma das pernas."

Continuaram em pé entreolhando-se, mudos. Então Hu­ddén entrou no carro, pegou o rádio e pediu para falar com Vivi Sundberg, que ele sabia estar de serviço naquele dia. Ela aten­deu imediatamente.

"Aqui é o Erik. Estou em Hesjövallen."

"O que aconteceu?"

"Não sei. Mas há um homem morto estendido na neve."

"Repita."

"Um homem morto. Na neve. Parece que bateram nele até morrer. Está sem uma das pernas."

Eles se conheciam bem. Sundberg sabia que Erik Huddén jamais seria capaz de exagerar, não importa quão incrível pare­cesse o que ele dizia.

"Vamos para aí", disse Sundberg.

"Chame os caras da forense de Gävle."

"Quem está com você?"

"Ytterström."

Ela pensou por um momento.

"Existe alguma explicação plausível para o que aconteceu?"

"Eu nunca vi nada parecido antes."

Ela entenderia. Huddén era policial havia tanto tempo que já se defrontara com situações extremas de sofrimento e violência.

Passaram-se trinta e cinco minutos antes que ouvissem as sirenes se aproximando ao longe. Huddén tentou persuadir Yt­terström a acompanhá-lo até a casa mais próxima de modo a poderem falar com os vizinhos, mas seu colega recusou-se a se mexer até chegarem os reforços. Como Huddén relutava em entrar na casa sozinho, permaneceram no carro. Não disseram nada enquanto esperavam.

Vivi Sundberg desceu da primeira viatura que estacionou ao lado deles. Era uma mulher de compleição vigorosa, cin­qüenta e poucos anos. Aqueles que a conheciam sabiam muito bem que, apesar da corpulência, era muito ágil e possuía consi­derável energia. Apenas alguns meses antes havia perseguido e capturado dois ladrões na casa dos vinte. Os rapazes tinham rido dela antes de iniciarem a fuga. Não estavam mais rindo quando ela os prendeu após uma perseguição de algumas centenas de metros.

Vivi Sundberg tinha cabelo vermelho. Quatro vezes por ano ela visitava o salão de cabeleireiro da filha, e o vermelho voltava reforçado.

Ela nascera numa fazenda nos arredores de Harmanger e cuidara dos pais até ficarem velhos e morrerem. Aí começou a tratar da própria educação, e alguns anos depois candidatou-se para a academia de polícia. Ficou espantada de ter sido aceita. Ninguém foi capaz de explicar como havia conseguido a vaga, dado o tamanho do seu corpo; mas ninguém perguntou nada, e ela também nada disse.

Policial diligente e aplicada, Vivi Sundberg era persistente, além de extraordinária quando se tratava de analisar e seguir a mais leve pista.

Ela passou a mão rapidamente pelo cabelo e olhou duro para Erik Huddén.

"Bem, você vai me mostrar ou não?"

Caminharam juntos até o corpo. Sundberg fez uma careta e se agachou. "O médico já veio?"

"Ela está a caminho."

"Ela?"

"Hugo tem uma sub. Ele vai ser operado. Um tumor."

Vivi Sundberg perdeu momentaneamente o interesse no corpo estendido na neve. "Ele está doente?"

"Está com câncer. Você não sabia?"

"Não. Onde?"

"No estômago. Aparentemente não se espalhou. Em todo caso, tem uma sub de Uppsala. Valentina Miir é o nome dela. Se é que eu pronunciei certo."

Huddén berrou para Ytterström, que estava tomando café num dos carros. Ele confirmou que a médica da polícia estaria lá a qualquer momento.

Sundberg pôs-se a examinar o corpo meticulosamente. Toda vez que se via diante de um cadáver, era dominada pelo mesmo sentimento de inutilidade. Ela era incapaz de despertar os mor­tos, o melhor que podia fazer era procurar as razões para o crime e mandar o assassino para a cadeia ou para um manicômio.

"Alguém enlouqueceu de fúria", disse ela. "E com uma faca muito comprida. Ou uma baioneta. Possivelmente uma es­pada. Posso ver pelo menos dez ferimentos, todos eles potencial­mente fatais. Mas não entendo a perna faltando. Sabemos quem é o homem?"

"Ainda não. Todas as casas parecem estar vazias."

Sundberg levantou-se e observou o povoado. As casas pare­ciam retornar seu olhar atento.

"Você tentou bater nas portas?"

"Pensei que era melhor esperar. Quem fez isso ainda pode estar por aí."

"Tem razão."

Ela acenou para Ytterström, que jogou o copo descartável vazio na neve.

"Vamos entrar", ela disse. "Deve ter gente por aí. Esta não é uma cidade fantasma."

"Não há sinal de ninguém."

Sundberg olhou novamente as casas, os jardins cobertos de neve, a estrada. Sacou a pistola e dirigiu-se à casa mais próxima; os dois homens a seguiram. Passava das onze horas.

O que os três policiais descobriram não tinha precedentes nos anais do crime na Suécia e viria a se tornar parte da história legal sueca. Havia corpos em todas as casas. Cães e gatos haviam sido esfaqueados até a morte, inclusive um papagaio teve a cabe­ça cortada. Encontraram um total de dezenove pessoas mortas, todas elas idosas, exceto um menino que devia ter cerca de onze anos. Alguns tinham sido mortos na cama enquanto dormiam; outros estavam estirados no chão ou sentados em cadeiras junto à mesa da cozinha. Uma velha mulher morrera com um pente na mão, um homem junto ao fogão com uma jarra de café caída ao lado. Numa das casas acharam dois cadáveres, abraçados e amarrados um ao outro. Todos foram vítimas de uma violência frenética. Era como se um furacão sanguinário tivesse assolado o vilarejo exatamente na hora em que os velhos estavam levantan­do. Como os idosos no campo costumam acordar cedo, Sundberg presumiu que os assassinatos haviam ocorrido ao nascer do sol.

Vivi Sundberg sentia como se sua cabeça estivesse sendo submersa em sangue. Deu uma sacudida para espantar a ima­gem, mas sentiu muito frio. Era como se estivesse vendo os cor­pos desfigurados através de um telescópio, o que significava que não precisava se aproximar demais.

E havia também o cheiro. Embora os corpos mal tivessem esfriado, já emanavam um cheiro ao mesmo tempo adocicado e azedo. Dentro das casas, Sundberg tentava respirar pela boca. No momento em que saía, enchia os pulmões de ar fresco. Pas­sar pela porta da casa seguinte era como preparar-se para encarar algo quase insuportável.

Tudo que via, corpo após corpo, era testemunho do mesmo frenesi e dos mesmos ferimentos causados por uma arma extre­mamente afiada. A lista que fez naquele dia, que jamais revelou a ninguém, continha breves anotações do que presenciara:

Casa número um. Homem idoso morto, seminu, pijama em farrapos, chinelos, meio deitado sobre a escada. Cabeça quase separada do corpo, o polegar da mão esquerda a um metro de distância. Mulher idosa morta, camisola, barriga aberta, intesti­nos para fora, dentadura em pedaços.

Casa número dois. Homem morto e mulher morta, ambos pelo menos com oitenta anos. Corpos achados numa cama de casal no primeiro andar. A mulher pode ter sido morta enquanto dormia, com um corte desde o ombro esquerdo, passando pelo peito, até o quadril direito. O homem tentou se defender com um martelo, mas teve um braço arrancado, a garganta cortada. Impressionante, os corpos foram amarrados juntos. Dá a impres­são de que o homem estava vivo quando foi atado à mulher mor­ta. Nenhuma prova, é claro, só uma impressão minha. Menino jovem morto no dormitório pequeno. Talvez dormisse quando foi morto.

Casa número três. Mulher sozinha, morta no chão da cozi­nha. Um cachorro de raça desconhecida esfaqueado até a morte ao lado dela. A espinha da mulher parece estar quebrada em mais de um ponto.

Casa número quatro. Homem morto perto da entrada. Ves­tindo calças e camisa; descalço. Provavelmente tentou resistir. Corpo quase cortado em dois na altura da barriga. Mulher idosa sentada, morta na cozinha. Dois, possivelmente três ferimentos no alto da cabeça.

Casa número sete. Duas mulheres idosas e um homem ido­so mortos em suas camas no andar de cima. Impressão: estavam acordados, conscientes, mas não tiveram tempo de reagir. Gato esfaqueado até a morte na cozinha.

Casa número oito. Homem idoso estendido morto do lado de fora, uma perna faltando. Dois cães decapitados. Mulher mor­ta na escada, estraçalhada.

Casa número nove. Quatro pessoas mortas na sala de estar no primeiro andar. Semivestidos, com xícaras de café, rádio li­gado, estação 1. Três mulheres idosas, um homem idoso. Todos com as cabeças nos joelhos.

Casa número dez. Duas pessoas muito velhas, um homem e uma mulher, mortos em suas camas. Impossível dizer se estavam conscientes do que estava ocorrendo.

Perto do fim da lista, ela já não tinha a força mental para re­gistrar todos os detalhes. No entanto, o que vira era inesquecível, uma visão do próprio inferno.

Numerou as casas conforme a descoberta dos corpos. Não era a mesma ordem da localização das residências ao longo da rua. Quando chegaram à quinta casa a ser vistoriada por aquela inspeção macabra, encontraram sinais de vida. Ouviram uma música vindo de dentro. Ytterström achou que parecia Jimi Hendrix.

Antes de entrar, chamaram mais dois policiais como refor­ço. Aproximaram-se da porta, todos empunhando suas armas. Huddén bateu forte. A porta foi aberta por um homem seminu de cabelos compridos. Ele recuou horrorizado ante a visão de todas aquelas armas. Vivi Sundberg baixou a pistola ao ver que ele estava desarmado.

"Você está sozinho na casa?"

"A minha mulher também está aqui", ele respondeu, voz trêmula.

"Mais ninguém?"

"Ninguém. O que está acontecendo?"

Sundberg guardou a arma no coldre e fez um gesto aos ou­tros para fazerem o mesmo.

"Vamos entrar", ela disse ao homem seminu, que tremia de frio. "Qual é o seu nome?"

"Tom."

"Tom o quê?"

"Hansson."

"Vamos lá, Tom Hansson, vamos entrar. Sair do frio."

A música estava a todo volume. Sundberg tinha a impres­são de haver alto-falantes em cada aposento. Seguiu o homem até uma sala de estar toda bagunçada, onde havia uma mulher encolhida num sofá. Ele baixou o volume e vestiu umas calças que estavam penduradas no encosto de uma cadeira. Hansson e a mulher no sofá tinham cerca de sessenta anos.

"O que aconteceu?", perguntou a mulher, que, claramente amedrontada, falava com um forte sotaque de Estocolmo. Pro­vavelmente eram hippies remanescentes dos anos 1960. Sund­berg decidiu ir direto ao ponto, não havia tempo a perder — tal­vez o responsável por aquela carnificina estivesse a caminho de praticar outro massacre.

"Muitos de seus vizinhos estão mortos", informou Sundberg. "Ocorreram crimes horrendos nesta pequena aldeia du­rante a noite. E importante que vocês respondam a nossas per­guntas. Qual é o seu nome?"

"Ninni", respondeu a mulher. "Herman e Hilda estão mor­tos?"

"Onde eles moram?"

"Na casa da esquerda."

Sundberg confirmou com a cabeça.

"Sim, creio que sim. Eles foram assassinados. Mas não são os únicos."

"Se essa é uma piada, saiba que não tem graça nenhuma", disse Tom Hansson.

Sundberg perdeu a compostura por alguns instantes.

"Por favor, responda logo as minhas perguntas, não temos tempo a perder. Entendo que você duvide que isso tenha acon­tecido, mas aconteceu — é horrível, mas é a verdade. Vocês ou­viram alguma coisa na noite passada?"

O homem sentou-se no sofá ao lado da mulher.

"Nós estávamos dormindo."

"Ouviram alguma coisa esta manhã?"

Ambos negaram com um movimento da cabeça.

"Nem mesmo notaram que o lugar está atulhado de carros de policiais?"

"Não ouvimos nada quando ouvimos música alto."

"Quando foi a última vez que vocês viram seus vizinhos?"

"Se está se referindo a Herman e Hilda, ontem", disse Nin­ni. "Geralmente damos de cara com eles quando saímos com os cachorros."

"Vocês têm um cachorro?"

Tom Hansson fez um meneio na direção da cozinha.

"Ele é bem velho e preguiçoso. Não se incomoda nem em levantar quando temos visitas."

"Ele não latiu durante a noite?"

"Ele nunca late."

"A que horas vocês viram seus vizinhos?"

"Mais ou menos às três da tarde de ontem. Mas só a Hilda."

"Tudo parecia normal?"

"Ela estava com dores nas costas. Herman provavelmente estava na cozinha fazendo palavras cruzadas. Eu não o vi."

"E o resto das pessoas da aldeia?"

"Tudo estava igual ao que sempre é. Aqui só vive gente ve­lha. Elas ficam dentro de casa quando está frio. Nós os vemos com mais freqüência na primavera e no verão."

"Então não existem crianças aqui?"

"Nenhuma."

Sundberg fez uma pausa, pensando no menino morto.

"É verdade mesmo?", indagou a mulher no sofá. Estava as­sustada.

"Sim", confirmou Sundberg. "Pode muito bem ser que to­do mundo na aldeia esteja morto. Exceto vocês."

Huddén estava em pé junto à janela.

"Nem todo mundo", ele disse lentamente.

"O que você quer dizer?"

"Nem todo mundo está morto. Há alguém ali na estrada."

Sundberg correu até a janela e viu lá fora uma mulher para­da na estrada. Era velha, vestia um penhoar e botas de borracha pretas. Suas mãos estavam unidas em oração.

Sundberg conteve a respiração. A mulher estava imóvel.

 

Tom Hansson veio até a janela e postou-se ao lado de Vivi Sundberg.

"É só a Julia", disse. "Às vezes nós a encontramos lá fora no frio sem casaco. Hilda e Herman em geral ficam de olho nela quando a assistência social não está aqui."

"Onde ela mora?", perguntou Sundberg.

Ele apontou para a penúltima casa da aldeia.

"Quando nos mudamos para cá", ele prosseguiu, "Julia era casada. Seu marido, Rune, costumava guiar os veículos da admi­nistração florestal, até que ele teve um ataque cardíaco e morreu na cabine do caminhão. Depois disso ela ficou meio esquisita — vagando por aí com as mãos fechadas dentro dos bolsos, enten­de o que quero dizer? Sempre achamos que ela poderia morrer aqui. Ela tem dois filhos que vêm visitá-la uma vez por ano. Eles estão só esperando a pequena herança e não ligam para ela."

Sundberg e Huddén saíram. A mulher ergueu os olhos quando a policial parou à sua frente, mas não disse nada. Tam­pouco protestou quando Huddén ajudou a levá-la de volta para casa. A casa estava limpa e arrumada. Numa das paredes havia fotos do falecido marido e dos dois filhos que não se importavam com ela.

Sundberg tirou seu caderno de notas pela primeira vez. Huddén examinava um documento com carimbos oficiais que estava sobre a mesa da cozinha.

"Julia Holmgren", disse ele. "Oitenta e sete anos."

"Certifique-se de que alguém telefone para o serviço de as­sistência social. Não interessa de quanto em quanto tempo eles costumam vir vê-la, faça com que venham imediatamente."

A velha senhora sentou-se à mesa da cozinha, olhando pela janela. Havia nuvens pesadas pairando sobre a paisagem.

"Deveríamos fazer algumas perguntas a ela?"

Sundberg sacudiu a cabeça.

"Não vai adiantar. O que é que ela poderia nos dizer?"

Ela fez um sinal com a cabeça para Huddén, indicando que ele deveria deixá-las a sós. Ele saiu para o pátio. Sundberg foi até a sala, parou no meio do cômodo e fechou os olhos. Ten­tava chegar a alguma conclusão sobre o que tinha acontecido.

Havia algo familiar na velha mulher, mas Sundberg foi incapaz de definir o que era. Permaneceu ali parada, abriu os olhos e tentou pensar. O que havia de fato ocorrido naquela ma­nhã de janeiro? Inúmeras pessoas assassinadas num vilarejo mi­núsculo e remoto. E mais vários animais de estimação mortos. Tudo apontava para uma loucura selvagem. Poderia um único atacante ter realmente feito tudo isso? Teriam surgido diversos assassinos no meio da noite, e depois desaparecido novamen­te após empreender aquele brutal massacre? Era cedo demais para dizer. Sundberg não tinha respostas, apenas um conjunto de circunstâncias e muitos corpos. Havia um casal ainda vivo que alguns anos atrás se retirara de Estocolmo para este lugar no meio do nada. E uma velha senil com o hábito de ficar parada na estrada trajando apenas um penhoar.

Mas havia um ponto de partida, ao menos parecia. Nem todo mundo na aldeia estava morto. Três pessoas tinham sobre­vivido. Por quê? Coincidência, ou haveria algum significado?

Sundberg manteve-se imóvel por mais alguns minutos. Pôde ver pela janela que a equipe forense de Gävle havia chega­do, e com ela uma mulher que a policial presumiu ser a médica da polícia. Inspirou profundamente. Ainda era ela a encarrega­da — ao menos por enquanto, mas hoje precisava da ajuda de Estocolmo.

Tirou o telefone celular e ligou para Robertsson, o promo­tor distrital, para explicar a situação.

Sundberg perguntou-se como ele reagiria. Nenhum de nós jamais viu algo assim antes, pensou.

Ela saiu e deparou com os dois funcionários forenses e a médica que estavam a sua espera.

"Vejam com seus próprios olhos. Comecemos pelo homem estendido na neve. Aí vamos percorrer as casas uma a uma. Se acharem que precisam de assistência extra, tudo bem. E uma cena de crime com muitos corpos."

Sundberg esquivou-se das perguntas. Era preciso que exa­minassem por si próprios. Ela conduziu a procissão de uma cena macabra para outra. Quando chegaram à terceira casa, Lönngren, o funcionário forense mais velho, declarou que precisava chamar reforços imediatamente. Na quarta casa, a médica disse a mesma coisa. Telefonemas foram dados. Eles continuaram a inspeção pelas casas restantes e reuniram-se mais uma vez na es­trada. Àquela altura, o primeiro jornalista havia chegado. Sund­berg instruiu Ytterström para não deixar ninguém falar com ele. Ela própria o faria assim que tivesse tempo.

As pessoas que cercavam a policial na estrada coberta de neve estavam pálidas e caladas. Nenhuma delas conseguia ab­sorver o impacto do que tinham acabado de ver.

"Bem, é assim que as coisas estão", começou Sundberg. "A nossa experiência e habilidades coletivas vão ser testadas. Esta investigação vai dominar a mídia, e não só na Suécia. Vamos es­tar sob enorme pressão para produzir resultados já amanhã. No mais tardar. Esperemos que quem quer que tenha sido o respon­sável por tudo isso tenha deixado vestígios que possamos seguir para capturá-lo ou capturá-los de imediato. Precisamos tentar manter a calma e pedir ajuda sempre que necessário. O promo­tor distrital Robertsson está a caminho. Quero que ele mesmo veja tudo e assuma a responsabilidade pela investigação. Alguma pergunta? Se não, temos de mergulhar no trabalho."

"Acho que tenho uma pergunta", disse Lönngren.

Era um sujeito baixinho e magro. Sundberg o considerava um técnico muito eficiente. Mas seu ponto fraco era uma certa morosidade descompassada com aqueles que precisavam desesperadamente ter respostas para ontem.

"Manda ver."

"Existe algum risco de esse maníaco, se é que é isso, atacar de novo?"

"Sim", respondeu Sundberg. "Como não sabemos absolu­tamente nada, temos de admitir que tudo pode acontecer."

"O pânico vai se espalhar por aí", retrucou Lönngren. "Pela primeira vez estou aliviado de morar na cidade."

O grupo se separou logo que Sten Robertsson chegou. O repórter que vagava em torno da área cercada imediatamente se aproximou de Robertsson quando ele desceu do carro.

"Agora não", Sundberg berrou. "Você vai ter de esperar."

"Ah, vamos lá, Vivi! Você não pode dizer nada? Geralmen­te você não é inacessível."

"Neste instante eu sou."

Ela não gostava do repórter, que trabalhava para o Notí­cias de Hudiksvall e com freqüência escrevia artigos criticando os métodos de trabalho da polícia. O que provavelmente mais a irritava é que em geral ele tinha razão em suas críticas.

Robertsson sentia frio — seu paletó era fino demais. Ele é vaidoso, foi o pensamento imediato de Sundberg.

"Bom, então vamos ouvir tudo", disse Robertsson.

"Não. Venha comigo."

Pela terceira vez naquela manhã Vivi Sundberg percorreu a cena do crime inteira. Em duas ocasiões Robertsson foi forçado a sair da casa, a ponto de vomitar. Ela esperou pacientemente por ele. Não tinha certeza de que ele estivesse à altura da tarefa. Mas sabia também que era o melhor dos promotores atualmente disponíveis.

Quando enfim chegaram de volta à estrada, ela sugeriu que se sentassem no carro dela. Conseguira agarrar uma garrafa tér­mica de café antes de saírem da delegacia.

Robertsson estava abalado. A mão que segurava o copo des­cartável de café tremia visivelmente.

"Você alguma vez já viu algo parecido?", ele indagou.

"Nunca."

"Certamente só um doido poderia ter feito isso, não é?"

"E eu sei? Pedi aos caras da forense que solicitassem recur­sos extras se julgassem necessário. E a médica também."

"Quem é ela?"

"Uma substituta. Provavelmente é a sua primeira cena de crime. Ela pediu ajuda."

"E quanto a você?"

"O que você quer dizer?"

"Do que você precisa?"

"Antes de mais nada, e o mais importante, é preciso que você nos oriente se existe alguma coisa em particular na qual de­vamos nos concentrar. E aí temos de convocar o Departamento Nacional de Investigação, é claro."

"No que deveríamos nos concentrar?"

"É você que está encarregado da investigação, não eu."

"Tudo que importa é encontrar o filho da puta responsável por isto."

"Ou filhos da puta. Não podemos excluir a possibilidade de ter sido mais de um."

"Doidos geralmente não trabalham em equipe."

"Mas não podemos excluir a possibilidade."

"Existe algo que possamos excluir?"

"Não. Nada. Nem mesmo a possibilidade de acontecer de novo."

Robertsson assentiu. Ficaram sentados, perdidos em pen­samentos. Pessoas se moviam na estrada e entre as casas. Havia um flash ocasional de câmera. Uma barraca fora erguida sobre o corpo descoberto na neve. Vários fotógrafos e repórteres tinham chegado. E a primeira equipe de televisão.

"Quero que você participe da primeira entrevista coletiva", ela disse. "Não posso aguentá-los sozinha. E temos que fazer a entrevista hoje. Esta tarde."

"Você falou com o Ludde?"

Tobias Ludwig era o chefe de polícia em Hudiksvall. Era jovem e nunca fora um policial de ação. Estudara direito, depois prosseguiu com um curso para futuros chefes de polícia. Nem Sten Robertsson nem Vivi Sundberg gostavam dele. Tinha pou­ca idéia do que representava o trabalho policial prático e passava a maior parte do tempo preocupado com a administração inter­na da polícia.

"Não, ainda não falei com ele", ela respondeu. "E tudo o que ele vai fazer é nos advertir para tomar o maior cuidado ao preencher a papelada."

"Ele não é tão ruim assim", retrucou Robertsson.

"Não, é pior", insistiu Sundberg. "Mas vou ligar para ele."

"Faça isso agora."

Ela ligou para a delegacia em Hudiksvall, mas Tobias Lud­wig estava em Estocolmo, a trabalho. Sundberg pediu à telefo­nista que entrasse em contato com ele pelo celular.

 

Robertsson estava ocupado conversando com os funcioná­rios forenses recém-chegados de Gävle. Sundberg ficou com Tom e Ninni Hansson no quintal deles. Os Hansson haviam cedido seus casacos de pele do Exército e observavam com inte­resse o que estava acontecendo. Comece pelos que ainda estão vivos, pensou Vivi Sundberg. Tom e Ninni Hansson poderiam ter visto algo sem perceber.

Um assassino que decide eliminar todo um povoado deve ter algum tipo de plano de como proceder, mesmo que seja to­talmente louco.

Ela caminhou até a estrada e olhou em volta. O lago con­gelado, a floresta, as montanhas distantes com todos seus picos e vales. De onde será que ele veio?, ela perguntou a si mesma. Acho que quem fez isso não foi uma mulher. Mas ele, ou eles, devem ter vindo de algum lugar, e devem ter ido para algum lugar.

Estava prestes a atravessar o portão da casa quando um car­ro estacionou com um dos cães de patrulha que tinham requi­sitado.

"Só um?", ela perguntou, sem tentar esconder a irritação.

"Bonzo não está se sentindo bem", disse o policial.

"Você está me dizendo que cães de polícia podem estar de licença por motivos de saúde?"

"Evidentemente. Por onde você quer começar? O que acon­teceu?"

"Fale com o Huddén."

O policial estava prestes a lhe perguntar mais alguma coisa, mas ela virou-lhe as costas e conduziu Tom e Ninni Hansson de volta para dentro de casa. Mal se sentaram, seu celular tocou.

"Soube que você está tentando entrar em contato comigo", disse Tobias Ludwig. "Sabe que eu não gosto de ser perturbado quando estou nas reuniões do Comando Nacional de Polícia."

"Creio que desta vez não seja possível evitar."

"O que aconteceu?"

"Temos vários cadáveres em Hesjõvallen."

Ela descreveu a situação com brevidade. Ludwig não disse palavra. Ela esperou.

"Entendi. Vou para aí o mais rápido possível."

Vivi Sundberg deu uma olhada no relógio.

"Precisamos convocar uma entrevista coletiva para a im­prensa", ela disse. "Vamos marcar para as seis da tarde. Até lá vou dizer simplesmente que houve um assassinato. Não vou revelar quantas vítimas. Venha o mais rápido que puder. Mas não bata o carro."

"Vou ver se consigo uma viatura de emergência para me levar até aí."

"De preferência, um helicóptero. Estamos falando de deze­nove pessoas assassinadas, Tobias."

Desligaram. Os Hansson tinham ouvido cada palavra que ela dissera. Ela podia ver a incredulidade em seus rostos.

O pesadelo se expandia o tempo todo. A realidade estava muito distante.

Ela se sentou numa cadeira, afastando um gato adormecido.

"Todo mundo na aldeia está morto. Vocês dois e Julia são os únicos ainda vivos. Até mesmo os animais de estimação das pessoas foram mortos. Posso entender que vocês estejam choca­dos. Mas todos estamos. E eu preciso lhes fazer algumas pergun­tas. Por favor, tentem responder da forma mais acurada possível. Também quero que procurem pensar em coisas que eu deixei de perguntar. Até mesmo o menor detalhe que vocês se lembrem pode ser importante. Estão entendendo?"

A resposta foram dois meneios silenciosos e preocupados. Sundberg resolveu seguir com cuidado. Começou falando so­bre aquela manhã. A que horas tinham acordado? E durante a noite? Acontecera alguma coisa? Houvera algo diferente do habitual? Ela lhes pediu que vasculhassem suas memórias.

Eles se revezaram nas respostas. Um começava a falar e o outro interrompia. Era óbvio que estavam fazendo o melhor que podiam para ajudar.

Ela foi retrocedendo, uma espécie de recuo gelado de pas­sos através de uma paisagem desconhecida. Acontecera algo de especial na noite anterior? Nada. "Tudo estava igual a sempre", eram as palavras recorrentes em quase todas as respostas.

Foram interrompidos por Erik Huddén. O que ele devia fazer com os jornalistas? Eram cada vez mais numerosos, e esta­vam ficando inquietos.

"Agüente só mais um pouco", ela pediu. "Já vou estar lá com você. Diga a eles que vai ter uma coletiva em Hudiksvall hoje às seis da tarde."

"Estaremos prontos até lá?"

"Temos de estar."

Huddén se foi. Sundberg retomou o interrogatório. Mais um passo para trás, para a manhã e a tarde da véspera. Desta vez foi Ninni quem respondeu.

"Tudo estava como sempre ontem", ela disse. "Eu estava meio resfriada. Tom passou o dia todo cortando lenha."

"Vocês falaram com algum dos vizinhos?"

"Tom trocou algumas palavras com Hilda, mas nós já lhe contamos isso."

"Vocês viram algum dos outros?"

"Sim, acho que devemos ter visto. Estava nevando. As pes­soas sempre saem para tirar a neve com as pás e limpar o cami­nho. Sim, eu vi vários deles mas realmente não prestei atenção."

"Você viu mais alguém?"

"O que você quer dizer com 'mais alguém'?"

"Alguém que não more aqui? Ou talvez um carro que você não tenha reconhecido?"

"Não, absolutamente ninguém."

"E no dia anterior?"

"Suponho que tenha sido mais ou menos a mesma coisa. Não acontece muita coisa por aqui."

"Nada de incomum?"

"Absolutamente nada."

Vivi tirou o caderno e um lápis.

"Agora vou ter de lhes pedir algo difícil", avisou. "Preciso dos nomes de todos os vizinhos."

Arrancou uma folha de papel e a colocou sobre a mesa.

"Desenhem um mapa da aldeia", prosseguiu. "A casa de vocês e todas as outras. Aí daremos um número a cada uma. A de vocês é a número um. Quero saber os nomes de todo mundo que morava em cada uma das casas."

A mulher se levantou e pegou uma folha de papel maior. Desenhou um esboço do povoado. Sundberg pôde ver que ela estava acostumada a desenhar.

"Como você ganha a vida?", Sundberg indagou.

"Nós somos pequenos investidores — compramos e vende­mos ações diariamente."

Ocorreu a Vivi Sundberg que nada mais deveria surpreendê-la. Por que não haveria um casal de velhos hippies, num vila­rejo em Hälsingland, lidando com o mercado de ações?

"E conversamos um bocado", acrescentou Ninni. "Conta­mos histórias um para o outro. Nos dias de hoje as pessoas não fazem muito isso."

Sundberg sentiu que a conversa estava se afastando do ponto.

"Os nomes, por favor", insistiu. "De preferência também as idades. Levem o tempo que precisarem para fazer direito."

Ela observou o casal debruçado sobre a folha de papel, tro­cando murmúrios. Um pensamento lhe passou pela cabeça — e se um dos habitantes do lugar fosse o responsável pelo massacre?

Quinze minutos depois, tinha a lista na mão. O número não batia. Faltava um nome. Devia ser o menino. Ficou para­da junto à janela lendo a lista. Parecia haver basicamente três famílias no povoado: os Andersson, os Andrén e duas pessoas com o nome de Magnusson. Enquanto estava ali com a lista na mão, considerou todos os filhos e netos que tinham ido embora, que daqui a algumas horas seriam atingidos pela terrível notícia. Muita, muita gente seria afetada, eles precisariam acionar mui­tos recursos.

Todos os prenomes esvoaçavam por sua mente: Elna, Sara, Brita, August, Herman, Hilda, Johannes, Erik, Gertrud, Vendela... Tentou reproduzir os rostos com o olho interno, mas as ima­gens estavam borradas.

De repente foi tomada por um pensamento, algo que dei­xara inteiramente de levar em conta. Saiu e gritou para Erik Huddén, que conversava com um dos funcionários forenses.

"Erik, quem foi que descobriu tudo isto?"

"Um cara ligou para nós — ele teve um ataque cardíaco e bateu no caminhão de um motorista bósnio."

"Ele poderia ser responsável por tudo isto?"

"Talvez. O carro dele estava cheio de câmeras. Provavel­mente era fotógrafo."

"Descubra o que puder a respeito dele. Aí vamos precisar montar uma espécie de quartel-general naquela casa ali. Temos de repassar a lista de nomes e descobrir os parentes. O que acon­teceu com o motorista do caminhão?"

"Fez o teste do bafômetro, mas estava sóbrio. Falava sueco tão mal que o levaram para Hudiksvall em vez de interrogá-lo no meio da rodovia. Ele parecia não saber de nada."

Huddén se afastou. Enquanto voltava para dentro notou um policial correndo pela estrada na direção da aldeia. Foi até o portão e esperou por ele.

"Achamos a perna", ele disse, claramente abalado. "O ca­chorro a descobriu a mais ou menos uns quinze metros, entre as árvores."

Ele apontou para a beira da floresta. Havia mais, a julgar pela sua expressão.

"Isso é tudo?"

"Acho que é melhor você mesma dar uma olhada", o poli­cial respondeu.

Então virou-se e vomitou. Ela o deixou ali e correu rumo às árvores. Escorregou e caiu duas vezes.

Ao chegar, pôde ver o que havia chocado o policial. Havia pontos em que a carne fora devorada até o osso. O pé fora com­pletamente arrancado a dentadas.

Ela olhou para Ytterstrõm e para o adestrador de cães, para­dos perto do achado.

"Um canibal", disse Ytterström. "É isso que estamos procu­rando? Nós chegamos e estragamos a refeição dele?"

Algo tocou a mão de Sundberg. Ela levou um susto. Mas era apenas um floco de neve, que logo se derreteu.

"Uma tenda", ela ordenou. "Precisamos de uma tenda aqui. Não quero que as pegadas se percam."

Ela fechou os olhos e subitamente viu um mar azul e casas brancas na encosta de um cálido morro. Então voltou para a casa dos investidores em ações e sentou-se na cozinha com a lista de nomes.

Deve haver alguma coisa em algum lugar que eu não tenha notado, pensou.

Começou a trabalhar lentamente ao longo da lista. Era como caminhar por um campo minado.

 

Vivi Sundberg tinha a sensação de estar estudando um me­morial para as vítimas de uma catástrofe gigantesca, um acidente aéreo ou um naufrágio de porte. Mas quem ergueria um memo­rial para as pessoas de Hesjövallen que haviam sido assassinadas numa noite de janeiro de 2006?

Fez deslizar a lista de um lado a outro, olhando suas pró­prias mãos trêmulas. Era incapaz de mantê-las quietas.

Ela estremeceu, e pegou a lista mais uma vez.

 

                 Erik August Andersson

                 Vendela Andersson

                 Hans-Evert Andersson

                 Elsa Andersson

                 Gertrud Andersson

                 Viktoria Andersson

                 Hans Andrén

                 Lars Andrén

                 Klara Andrén

                 Sara Andrén

                 Elna Andrén

                 Brita Andrén

                 August Andrén

                 Herman Andrén

                 Hilda Andrén

                 Johannes Andrén

                 Tora Magnusson

                 Regina Magnusson

 

Dezoito nomes, três famílias. Ela se levantou e entrou na sala onde os Hansson estavam sentados num sofá, cochichando entre si. Pararam quando a viram.

"Vocês disseram que não havia crianças na aldeia. É isso mesmo?"

Ambos assentiram.

"E vocês não viram nenhuma criança durante os últimos dias?"

"Quando os filhos do pessoal mais velho vêm visitar, às ve­zes trazem seus próprios filhos junto. Mas isso não acontece com freqüência."

Sundberg hesitou antes de continuar. "Infelizmente há um menino entre os mortos", ela infor­mou.

Apontou uma das casas. A mulher olhou para ela, os olhos arregalados.

"Você está dizendo que ele também está morto?"

"Sim, ele está morto. Se o que vocês escreveram está certo, ele estava na casa com Hans-Evert e Elsa Andersson. Vocês têm certeza de que não sabem quem ele é?"

Ambos se viraram, se entreolharam, e aí fizeram que não com a cabeça. Sundberg retornou à cozinha. Ele é o deslocado na história, pensou. Ele e o casal que vive nesta casa, e Julia que sofre de demência e não tem noção da catástrofe. Mas, de um jeito ou de outro, é o menino que não se encaixa.

Dobrou a folha de papel, meteu no bolso e saiu. Alguns poucos flocos de neve caíam. Tudo em volta era silêncio. Pertur­bado apenas por uma voz ocasional, uma porta sendo fechada, o tilintar de algum instrumento forense. Erik Huddén aproximou-se dela. Estava muito pálido. Todo mundo estava pálido.

"Onde está a médica?", ela perguntou.

"Examinando a perna."

"Como ela está se saindo?"

"Está chocada. A primeira coisa que fez foi se trancar num banheiro. Aí explodiu numa crise de choro. Mas há mais médi­cos a caminho. O que vamos fazer com os repórteres?"

"Vou falar com eles."

Ela tirou a lista de nomes do bolso.

"O garoto não tem nome. Precisamos descobrir quem é ele. Dê um jeito desta lista ser copiada, mas não a divulgue."

"Uma coisa incrível", disse Huddén. "Dezoito pessoas.".

"Dezenove. O garoto não está na lista."

Ela pegou uma caneta e acrescentou "menino não identifi­cado" no fim da lista.

Aí reuniu num semi-círculo na estrada os repórteres gelados de frio e estarrecidos.

"Vou lhes dar uma breve declaração", começou. "Podem fazer perguntas, mas no momento não temos nenhuma resposta. Haverá uma coletiva de imprensa hoje mais tarde em Hudiksvall. Às seis horas, mas precisamos confirmar. Tudo que posso dizer por enquanto é que vários crimes muito graves foram co­metidos aqui durante a noite. Não posso lhes dar mais detalhes."

Uma moça jovem, a face coberta de sardas, ergueu a mão.

"Mas com certeza você pode nos contar um pouco mais. É óbvio que algo terrível deve ter acontecido para vocês terem passado o cordão de isolamento em volta de uma aldeia inteira."

Sundberg não reconheceu a moça, mas o logotipo no casa­co era o de um grande jornal nacional.

"Vocês podem fazer quantas perguntas quiserem, mas creio que por razões técnicas relacionadas com a investigação eu não possa lhes dizer mais nada neste momento."

Um dos repórteres de televisão enfiou um microfone sob seu nariz. Ela o encontrara muitas vezes antes.

"Você pode repetir o que acabou de dizer?"

Ela repetiu, mas quando ele tentou fazer uma pergunta na seqüência ela virou-lhe as costas e foi embora. Não parou de andar até chegar à última das tendas que haviam sido montadas. De repente sentiu-se muito enjoada. Afastou-se alguns passos para um dos lados e respirou fundo algumas vezes, e só quando passou sua vontade de vomitar é que se aproximou da tenda.

Certa vez, durante um de seus primeiros anos na polícia, havia desmaiado quando ela e um colega entraram numa casa e encontraram um homem pendurado. Ela preferia que isso não acontecesse nunca mais.

A mulher agachada ao lado da perna olhou para cima quan­do Sundberg entrou. Um poderoso holofote aquecia o interior da tenda. Sundberg apresentou-se.

"O que pode me dizer?"

Valentina Miir, provavelmente na casa dos quarenta, falava com um pronunciado sotaque estrangeiro. "Nunca vi uma coisa como esta antes", ela disse. "A gente se depara com membros cortados ou arrancados, mas isto aqui..."

"Alguém andou tentando comer a perna?"

"Provavelmente um animal, é claro. Mas há aspectos que me preocupam."

"Como por exemplo?"

"Os animais comem e cravam os dentes nos ossos de um jei­to específico. E por isso a gente pode ter mais ou menos certeza de que animal se trata. Eu desconfio que neste caso foi um lobo. Mas há uma outra coisa que você precisa ver."

Ela procurou um saco plástico transparente. O saco con­tinha uma bota de couro. "Podemos presumir que o pé estava calçado", ela explicou. "Obviamente, um animal pode ter arran­cado a bota para chegar ao pé. Mas o que me intriga é que os cordões estavam desamarrados."

Sundberg lembrou que a outra bota estava fortemente amarrada no outro pé do homem. A perna pertencia a Lars An-drén.

"Você concluiu alguma coisa?"

"Nada, ainda, é cedo demais."

"Pode vir comigo? Preciso da sua ajuda."

Ambas saíram da tenda e foram para a casa onde o meni­no desconhecido estava deitado com duas outras pessoas que provavelmente eram Hans-Evert e Elsa Andersson. O silêncio lá dentro era estarrecedor.

O menino estava deitado na cama, de barriga para baixo." O quarto era pequeno, com um telhado íngreme. Sundberg cerrou os dentes para não cair no choro. A vida dele mal tinha começa­do, e já acabara.

Ficaram ali paradas, em silêncio.

"Eu não entendo como alguém pode cometer um ataque tão horrendo contra uma criança pequena", acabou dizendo Valentina.

"Você consegue ver quantos ferimentos de facada ele tem?", indagou Sundberg.

A médica se inclinou para a frente e direcionou a lâmpada da cabeceira para o corpo. Levou alguns minutos antes de res­ponder.

"Parece que ele tem um ferimento só. E que o matou ins­tantaneamente."

"Pode explicar um pouco mais?"

"Deve ter sido rápido. Sua coluna foi cortada ao meio."

"Você teve tempo de examinar os outros corpos?"

"Como eu disse, estou esperando reforço."

"Mas você pode dizer assim de cabeça quantas outras víti­mas morreram com um único golpe?"

De início Valentina não pareceu entender a pergunta. De­pois tentou se recordar do que tinha visto.

"Nenhuma delas, eu creio", ela disse lentamente. "A menos que eu esteja muito enganada, todas as outras foram esfaqueadas repetidas vezes."

"E nenhum golpe único teria sido fatal?"

"É cedo demais para afirmar categoricamente, mas é pro­vável que não."

"Muito obrigada."

A médica saiu. Sundberg vasculhou o quarto e as roupas do menino na esperança de encontrar algo que indicasse quem ele era. Mas não achou nada, nem mesmo um bilhete de ôni­bus. Desceu as escadas e saiu para o pátio nos fundos da casa, que dava para o lago gelado. Tentou compreender o verdadeiro significado do que acabara de descobrir. O garoto morrera de um único golpe, mas todos os outros haviam sido sujeitos a uma violência mais sistemática. O que isso poderia significar? Conse­guiu pensar em apenas uma explicação plausível: a pessoa que matou o menino, quem quer que fosse, não quis que ele sofresse. Todos os restantes haviam sido submetidos a uma violência que era uma espécie de tortura prolongada.

Observou as montanhas distantes, imersas na névoa além do lago. Ele quis torturá-los, ela pensou. Quem quer que tivesse manejado aquela espada ou faca queria que eles soubessem que iam morrer.

Por quê? Ela não tinha idéia. Foi distraída pelo som de hélices se aproximando e dirigiu-se para a frente da casa. Um heli­cóptero, vindo das encostas cobertas de florestas, estava descen­do e logo aterrissou num campo, erguendo uma nuvem de neve. Tobias Ludwig saltou para fora e o helicóptero voltou a decolar imediatamente, rumo ao sul.

Sundberg foi ao seu encontro. Ludwig calçava sapatos urba­nos e cambaleou pela neve, que chegou até suas canelas. Olhou para Vivi como um inseto confuso preso na neve, batendo as asas com força.

Encontraram-se na estrada enquanto Ludwig se escovava, buscando se limpar.

"A ficha ainda não caiu", ele foi dizendo. "Quer dizer, o que você me contou."

"Você precisa vê-los. Sten Robertsson está aqui. Eu fiz o má­ximo que pude com os meus recursos. Mas agora é você quem precisa garantir que a gente receba todo o auxílio que necessi­tamos."

"Ainda não consigo entender. Um monte de gente velha morta?"

"Há um menino que destoa dos demais. É muito novo."

Ela percorreu as casas pela quarta vez naquele dia. Ludwig emitiu alguns gemidos enquanto a acompanhava de uma cena de crime para outra. Quando chegaram à tenda onde estava a perna, a médica não estava. Ludwig balançou a cabeça, desam­parado.

"Meu Deus, o que foi isso que aconteceu? Com certeza só um louco poderia ter feito uma coisa como essa."

"Não sabemos se foi um só. Podem ter sido vários."

"Loucos?"

"Ninguém sabe."

Ele olhou duro para ela.

"Existe alguma coisa que a gente saiba?"

"Realmente, não."

"Isso é grande demais para nós. Precisamos de ajuda."

Robertsson veio vindo pela estrada na direção deles.

"Isto é pavoroso, horrível", exclamou Ludwig. "Duvido que algo assim já tenha acontecido alguma vez na Suécia."

Robertsson sacudiu a cabeça. Sundberg observou os dois homens. A sensação de urgência, de que algo ainda pior poderia ocorrer se não agissem com rapidez suficiente, ficou ainda mais forte.

"Vá cuidar desses nomes", ela disse a Tobias Ludwig. "Eu realmente preciso da sua ajuda."

Aí pegou Robertsson pelo braço e o levou para longe pela estrada.

"O que você acha?"

"Estou apavorado. Você não está?"

"Eu não tenho tempo para isso."

Sten Robertsson revirou os olhos.

"Mas você tem alguma coisa em mente, não tem? Você sem­pre tem."

"Não desta vez. Eles podiam ser dez, simplesmente não sabemos no momento. Não dispomos de absolutamente nada para continuar. Aliás, você vai ter de estar presente na coletiva de imprensa."

"Eu detesto falar com jornalistas."

"É uma pena."

Robertsson se foi. Ela estava prestes a ir sentar-se no seu carro quando notou Huddén lhe acenando. Ele se aproximava e tinha algo na mão. Ele deve ter achado a arma do crime, ela pensou. Isso seria um golpe de sorte.

Mas Huddén não estava carregando uma arma. Ele lhe es­tendeu um saco plástico. Dentro havia uma estreita fita ver­melha.

"O cachorro achou isto aqui. Na floresta. A cerca de trinta metros da perna."

"Alguma pegada?"

"Estão procurando — mas quando o cachorro encontrou a fita, não mostrou sinal de querer seguir alguma pista."

Ela ergueu o saco plástico e espiou com atenção.

"E fina", constatou. "Parece seda. Você achou mais alguma coisa?"

"Não, absolutamente nada. A fita parecia cintilar na neve."

Ela lhe devolveu o saco.

"Bom, pelo menos temos alguma coisa", disse. "Na coletiva podemos anunciar que temos dezenove cadáveres e uma pista que consiste numa fita de seda vermelha."

"A gente pode encontrar mais alguma coisa."

Quando Huddén se foi, ela sentou-se em seu carro para pen­sar. Pelo para-brisa pôde ver Julia sendo levada por uma mulher do serviço social. Ignorância é uma bênção, pensou Sundberg.

Fechou os olhos e deixou a lista de nomes rolar por sua mente. Ainda não conseguia relacionar os vários nomes com os rostos que vira, agora já em quatro ocasiões diferentes. Onde te­ria começado?, perguntou-se. Uma casa deve ter sido a primeira, uma outra a última. O assassino, estivesse sozinho ou não, devia saber o que estava fazendo. Não escolheu as casas ao acaso, não fez nenhuma tentativa de invadir a casa dos pequenos investido­res, ou da mulher senil.

Ela abriu os olhos e mirou lá fora, através do para-brisa. Foi algo planejado, pensou. Deve ter sido. Mas será que um louco pode realmente se preparar para esse tipo de ação? A coisa não bate, de jeito nenhum.

Serviu-se das últimas gotas de café da garrafa térmica. O motivo, refletiu. Mesmo um doido precisa ter um motivo. Tal­vez vozes interiores o tenham instigado a matar todo mundo que cruzasse seu caminho. Mas teriam essas vozes lhe indicado Hesjövallen, entre todos os lugares? Se foi assim, por quê? Até que ponto o acaso atuou?

A casa de Julia não estava trancada. Sundberg entrou e leu o documento que Huddén achara sobre a mesa da cozinha. A resposta que encontrou para sua pergunta fez seu coração bater mais rápido. Sentou-se e tentou organizar os pensamentos.

A conclusão a que chegou era improvável, mas podia estar correta mesmo assim. Ligou para Huddén. Ele atendeu imedia­tamente.

"Estou sentada na cozinha de Julia. A mulher que estava parada de penhoar no meio da estrada. Venha já aqui."

"Estou indo."

Huddén sentou à mesa frente a ela. Aí levantou-se de novo e olhou para baixo, examinando o assento da cadeira. Cheirou e trocou de cadeira. Ela o fitou com espanto.

"Urina", ele explicou. "A velha senhora deve ter se mijado toda. O que você queria dizer?"

"Quero testar uma idéia com você. Parece implausível, mas no entanto é algo lógico. Tenho a sensação de que existe alguma lógica subjacente ao que aconteceu aqui esta noite. Quero que você escute, e então me diga se alguma coisa que pensei está errada."

"Tem a ver com os nomes", ela começou. "Nós ainda não sabemos o nome do garoto, mas se me lembro direito ele está re­lacionado com a família Andersson que viveu e morreu na casa onde nós os encontramos. Uma chave para tudo o que acon­teceu aqui na noite passada está nos nomes. Parece que quase todas as pessoas desta aldeia se chamavam Andersson, Andrén ou Magnusson. O sobrenome da Julia é Holmgren. Julia Holmgren. Ela ainda está viva. E aí temos Tom e Ninni Hansson. Eles também estão vivos e têm um sobrenome diferente. Deveria ser possível tirar alguma conclusão disso aí."

"Que quem fez isso, por uma ou outra razão, estava a fim de pegar as pessoas com esses nomes", concluiu Huddén.

"Pense mais um pouco! Este aqui é um vilarejo minúsculo. As pessoas provavelmente não se mudaram. E mais provável que tenha havido casamentos entre as famílias. Não estou falando de incesto, só que há um bom motivo para acreditar que não esta­mos olhando para três famílias, mas talvez duas. Ou talvez até mesmo só uma. Isso poderia explicar por que Julia Holmgren e os Hansson ainda estão vivos."

Sundberg fez uma pausa à espera da reação de Huddén. Não o considerava particularmente inteligente, mas respeitava sua habilidade em usar a intuição.

"Se isso for verdade, deve significar que quem fez isso co­nhecia as pessoas muito bem. Quem faria uma coisa dessa?"

"Talvez um parente?"

"Um parente louco? Por que ele iria querer fazer uma coisa como essa?"

"Nós não sabemos."

"Como você explica a perna separada do corpo?"

"Não explico. Mas penso que temos um começo. Isso e a fita de seda vermelha é tudo o que temos."

"Eu quero que você volte a Hudiksvall", ela propôs. "Tobias deve estar escalando funcionários para ir atrás dos parentes. Cer­tifique-se de que isso vai acontecer. E procure elos entre as três famílias. Mas vamos manter isto entre nós dois por enquanto."

Pouco depois das cinco e meia, alguns policiais veteranos se reuniram no escritório de Tobias Ludwig para discutir a coletiva de imprensa. Ainda que tivessem decidido não divulgar a lista de nomes dos mortos, diriam quantas pessoas haviam sido assassina­das e admitiriam que, até o momento, a polícia não tinha pistas. Qualquer informação que o público em geral pudesse fornecer seria bem-vinda.

Ludwig daria os detalhes preliminares e então Sundberg assumiria.

Antes de entrar na sala abarrotada de repórteres, ela se tran­cou num banheiro. Examinou o rosto no espelho. Se eu pelo menos conseguisse acordar, pensou. E descobrir que todo esse negócio desapareceu.

Saiu, bateu várias vezes o punho contra a parede do corre­dor, com força, então entrou na sala apinhada de gente e quente demais. Caminhou até o pequeno pódio e sentou-se ao lado de Tobias Ludwig.

Ele olhou para ela. Ela aquiesceu. Ele podia começar.

 

                                       A Juíza

Uma mariposa destacou-se da escuridão e voejou inquieta em torno da lâmpada sobre a escrivaninha. Birgitta Roslin pou­sou a caneta, recostou-se na cadeira e observou a vã tentativa da mariposa de abrir caminho através da cúpula de porcelana. O ruído de suas asas lembrava algo de sua infância, mas ela não conseguia identificar o que era.

Sua memória sempre se mostrava especialmente criati­va quando ela estava cansada, como agora. Exatamente como quando dormia, memórias inacessíveis de muito tempo atrás po­diam aflorar do nada.

Como a mariposa.

Ela fechou os olhos e massageou as têmporas com as pontas dos dedos. Passavam alguns minutos da meia-noite. Ouvira o ecoar dos passos dos funcionários da segurança noturna per­correndo os saguões da Corte nas duas rondas que fizeram. Ela gostava de trabalhar até tarde, quando o lugar estava vazio. Anos atrás, quando trabalhava num escritório de advocacia em Värnamo, freqüentemente entrava na sala do tribunal à noite, acendia algumas luzes, sentava-se e escutava o silêncio. Imaginava estar num teatro vazio. Havia ecos nas paredes, vozes sussurrantes ain­da vivas após todos os dramas de julgamentos passados. Assassi­nos haviam sido sentenciados ali, criminosos violentos, ladrões. E homens haviam jurado sua inocência num interminável fluxo de deprimentes casos de paternidade. Outros haviam sido decla­rados inocentes e reabilitados como homens honrados.

Quando Birgitta Roslin completara seu período de expe­riência e lhe fora oferecido o cargo em Vàrnamo, sua intenção fora tornar-se membro da promotoria. Mas, durante seu estágio como escrevente, mudou de rumo e começou a se especializar no que viria a se tornar sua carreira. Em grande parte isso se de­veu a Anker, o velho juiz distrital, que lhe causara uma impres­são indelével. Ele demonstrava exatamente a mesma paciência tanto ao escutar rapazes contando mentira após mentira, numa óbvia tentativa de fugir à responsabilidade em casos de paterni­dade, quanto nas ocasiões em que se defrontava com homens curtidos de violência que não mostravam nenhum remorso por seus atos brutais. Era como se o velho juiz tivesse instilado nela um novo grau de respeito pelo sistema jurídico que ela ante­riormente sempre considerara como ponto pacífico. Agora ela de fato o vivenciava, não só em palavras, mas em atos. Justiça significava ação. Ao deixar Värnamo, ela havia tomado a decisão de se tornar juíza.

Levantou-se e caminhou até a janela. Na rua, um homem urinava contra a parede. Nevara em Helsingborg durante o dia, e uma fina camada de pó de neve agora soprava em redemoinho pela rua. Enquanto observava o homem desinteressadamente, sua mente trabalhava horas extras no julgamento que ela estava preparando. Permitira-se o prazo até o dia seguinte, mas então teria de estar pronto.

O homem lá embaixo seguiu adiante. Roslin voltou para sua mesa e pegou o lápis. Sempre escrevia a lápis até finalizar o trabalho.

Debruçou-se sobre as páginas confusas com todas suas alte­rações e adendos. Era um caso simples e a prova contra o acusa­do era avassaladora; no entanto, ela estava com problemas para fazer seu julgamento.

Queria impor sanções, mas não conseguia.

Um homem e uma mulher tinham se conhecido num res­taurante dançante em Helsingborg. A mulher era jovem, mal completara vinte anos, e bebera demais. O homem estava na casa dos quarenta e havia se proposto a acompanhá-la até sua casa, e então ela o convidou a entrar para tomar um copo de água. A mulher adormecera no sofá. O homem a violentou sem acordá-la, e depois foi embora. Na manhã seguinte a mulher linha apenas uma vaga lembrança do que acontecera no sofá. Procurou um hospital, a examinaram e constataram que houve­ra intercurso sexual. O homem foi acusado. O caso chegou ao tribunal um ano após o incidente ter ocorrido. Birgitta Roslin presidira o julgamento e observara a jovem mulher. Ela havia lido nas anotações preliminares que a mulher ganhava a vida trabalhando como caixa temporária em lojas de alimentos. Com base numa declaração pessoal, ficou evidente que a mulher ti­nha o hábito de beber demais. Também fora julgada culpada de pequenos furtos e uma vez fora despedida por negligenciar de suas obrigações.

Sob muitos aspectos, o acusado era o oposto dela. Traba­lhava como corretor de imóveis, especializado em propriedades comerciais. Todo mundo deu boas referências sobre ele. Não era casado e ganhava um salário alto. Não aparecia nos registros policiais, mas Birgitta Roslin sentia que podia enxergar através dele, sentado estava à sua frente, vestindo um terno caro e bem cortado. Não tinha dúvida de que ele estuprara a mulher enquan­to ela dormia no sofá. Os testes de dna tinham estabelecido sem sombra de dúvida que ocorrera intercurso, mas ele negava o es­tupro. Ela fora uma parceira consensual, ele sustentava, assim como seu defensor, um advogado de Malmo com quem ela já cruzara anteriormente. Era a palavra de um contra a do outro, um irrepreensível corretor imobiliário versus uma balconista bêbada que o convidara a entrar em seu apartamento no meio da noite.

Birgitta estava aborrecida por não poder condená-lo. Não conseguia livrar-se da sensação de que neste caso um homem culpado sairia livre. Não havia nada a fazer.

Como teria julgado Anker, aquela velha sábia coruja? Que conselho teria lhe dado? Certamente teria compartilhado da mi­nha preocupação, pensou Birgitta. Um homem culpado sairia livre. O velho Anker estaria tão aborrecido como eu estou agora. E teria tão pouco a dizer quanto eu tenho. E existe uma área espinhosa para os juizes: temos de obedecer à lei mesmo sabendo que estamos liberando um criminoso sem punição. A mulher pode não ter sido um anjinho, mas teria de viver com essa ultra­jante injustiça pelo resto da vida.

Levantou da cadeira e foi deitar no sofá. Ela o pagara do próprio bolso e o instalara no escritório em lugar da confortá­vel poltrona fornecida pela Administração Judiciária Nacional. Aprendera com Anker a segurar um molho de chaves na mão e fechar os olhos. Quando deixasse as chaves cair, era hora de acordar. Agora precisava de um breve descanso. Depois acabaria de redigir o julgamento, iria para a cama e faria uma versão lim­pa no dia seguinte. Havia elaborado tudo que era possível elabo­rar, e confirmara que deveria descartar o veredicto de culpado.

Ela cochilou e sonhou com seu pai, de quem não tinha memórias pessoais. Ele fora engenheiro naval. Durante uma for­te tempestade em meados de janeiro de 1949, o vapor Runskär linha afundado na baía de Gävle, com toda a tripulação a bordo. Seu corpo jamais foi encontrado. Birgitta Roslin tinha quatro anos na época. A imagem que tinha do pai viera de fotografias. O retrato do qual melhor se lembrava era dele em pé na grade de proteção de um navio, sorrindo com o cabelo ao vento e as mangas da camisa enroladas. Sua mãe lhe dissera que fora um colega do navio quem batera a foto, mas Birgitta sempre imagi­nou que ele estava de fato sorrindo para ela, apesar de a foto ter sido tirada antes de ela nascer. Ele ficava reaparecendo em seus sonhos. Agora sorria para ela, exatamente como na fotografia, mas aí sumiu engolido pela neblina.

Ela acordou assustada. Imediatamente deu-se conta de que linha dormido demais. O truque do molho de chaves não fun­cionara. Ela o deixara cair sem perceber. Sentou-se e olhou o relógio: já eram seis da manhã. Dormira por mais de cinco ho­ras. Estou estressada, pensou. Como a maioria das pessoas, não durmo o suficiente. Há coisas demais na minha vida que me deixam preocupada.

Ligou para o marido, que já começara a imaginar onde ela estaria. Não era algo fora do comum ela passar a noite no sofá do escritório depois de uma briga, mas desta vez não era o caso.

Staffan Roslin estivera um ano a sua frente em Lund, onde ambos estudaram direito. O primeiro encontro deles foi numa festa dada por amigos comuns. Birgitta logo soube que ele era o homem para ela, ficara completamente balançada por seus olhos, sua altura, suas mãos grandes e sua capacidade de enru- bescer.

Porém, após completar os estudos, Staffan não seguiu car­reira em direito. Resolveu fazer um treinamento como condutor ferroviário, e certa manhã apareceu na sala vestido de uniforme azul e vermelho, anunciando que às 12h19 ele seria o responsável pela partida 212, de Malmö para Alvesta, e depois para Växjö e Kalmar.

Ele se tornou uma pessoa muito mais feliz. Na época em que resolveu abandonar a carreira de advogado, eles já tinham quatro filhos: primeiro um menino, depois uma menina e final­mente um par de gêmeas. As crianças haviam chegado em rápida sucessão, e ela ficava espantada quando recordava aqueles dias. Como foi que conseguiram? Quatro filhos em seis anos. Haviam deixado Malmö e se mudado para Helsingborg, onde ela foi indicada juíza distrital.

Agora as crianças estavam crescidas. As gêmeas tinham dei­xado o ninho no ano anterior, indo para Lund, onde dividiam um apartamento. Mas ela ficou contente em saber que não es­tavam estudando para a mesma profissão, e que nenhuma das duas tinha ambições de seguir a carreira jurídica. Siv, que era dezenove minutos mais velha que a irmã Louise, finalmente de­cidira, após muita hesitação, ser veterinária. Louise, que tinha um temperamento mais impetuoso que a irmã, experimentara diversos empregos, chegando a vender roupas numa loja masculina; no final optou por um diploma em ciências políticas e estudos religiosos. Birgitta muitas vezes tentara arrancar da filha o que ela queria fazer da vida, mas ela era a mais retraída dos quatro e raramente dizia alguma coisa sobre seus pensamentos mais íntimos. A mãe desconfiava que Louise era a filha mais pa­recida com ela própria. O filho, David, que trabalhava para uma grande companhia farmacêutica, parecia-se com o pai em quase todos os aspectos. A filha mais velha, Anna, surpreendera os pais ao embarcar em longas viagens para a Ásia, acerca das quais eles sabiam muito pouco.

Minha família, pensou Birgitta. Muitas preocupações, mas um bocado de prazer. Sem ela, a maior parte da minha vida teria sido desperdiçada.

Havia um grande espelho no corredor do lado de fora do es­critório. Ela examinou seu rosto e seu corpo. Seu cabelo escuro preso com firmeza começava a ficar grisalho nas têmporas. Seu hábito de apertar os lábios tendia a lhe conferir uma expressão negativa. Mas o que realmente a preocupava era o fato de ter ganhado peso nos últimos anos. Três, quatro quilos, não mais que isso. Mas o bastante para ser notado.

Não gostou do que viu. Sabia que era basicamente uma mulher atraente. Mas estava começando a perder seu charme. E não estava opondo nenhuma resistência a isso.

Deixou um bilhete sobre a mesa da secretária dizendo que estaria de volta mais tarde naquele dia. Esquentara um pouco, e a neve já começara a derreter. Caminhou em direção ao carro, que estava estacionado na rua lateral.

Mas então mudou de idéia. O que de fato precisava acima de tudo não era dormir. Era mais importante dar um descanso a sua mente e pensar em alguma outra coisa. Deu meia volta, e rumou para o porto. Não havia um pingo de vento. O céu carregado da véspera tinha começado a se abrir. Foi até o cais de onde partiam as balsas para Elsinore. A travessia demorava apenas alguns minutos. Mas ela gostava de ficar sentada a bordo com uma xícara de café ou uma taça de vinho, observando os outros passageiros com suas sacolas de bebidas baratas compra­das na Dinamarca. Sentou-se numa mesa de canto, que estava melada. Sentiu uma irritação crescente e gritou para a moça que limpava as mesas.

"Moça, preciso reclamar", disse ela. "Esta mesa foi desocu­pada, mas não a limparam. Está toda melada."

A moça deu de ombros e passou um pano sobre a mesa. Birgitta Roslin contemplou, enojada, o trapo imundo que èla tinha usado, mas não disse nada. De alguma forma, a moça lhe recordou a jovem mulher que fora estuprada. Não sabia por quê. Seria sua falta de entusiasmo pelo trabalho? Ou talvez uma espécie de impotência que ela não conseguia identificar?

A balsa começou a vibrar. Isso lhe deu a sensação de bem-estar. Lembrava-se da primeira vez que subira a bordo. Ti­nha então dezenove anos. Havia viajado para a Inglaterra com uma amiga para fazer um curso de inglês. A viagem iniciara numa balsa, de Gotenburgo para Londres. Birgitta Roslin jamais esqueceria a sensação de estar em pé no deque, sabendo estar a caminho de algum lugar desconhecido e liberador.

Esta mesma sensação de liberdade freqüentemente tomava conta dela quando cruzava o estreito entre a Suécia e a Dina­marca. Naquele momento, todos os pensamentos sobre o desa­fortunado julgamento que seria obrigada a fazer desapareceram de sua mente.

Já vivi mais da metade da vida. Já ultrapassei o ponto que nem percebemos que ultrapassamos. Não haverá mais tantas de­cisões difíceis para tomar. Com sorte poderei desfrutar da com­panhia dos netos antes que tudo acabe.

Seus pensamentos se desviaram para o marido, e o humor mudou. Seu casamento estava começando a murchar e morrer. Ainda eram bons amigos e podiam dar um ao outro a necessária sensação de segurança. Mas o amor, o prazer sensual de estar na proximidade mútua, sumira completamente.

Em quatro dias faria um ano desde a última vez que se aca­riciaram e fizeram amor antes de dormir. Quanto mais próximo esse aniversário, mais impotente ela se sentia. E agora dependia quase exclusivamente dela. Tentara repetidas vezes falar com Staffan sobre como ela se sentia só. Mas ele não estava pron­to para conversar, recolhia-se em sua concha, tentava adiar a discussão que, apesar de tudo, sabia ser importante. Ele insistia que não se sentia atraído por outra pessoa, simplesmente faltava um sentimento específico que sem dúvida retornaria em breve. Bastava que tivessem paciência.

Ela lamentava a perda da intimidade que compartilhara com o marido, o condutor-chefe de aparência imponente, de mãos grandes e tendência a corar. Mas não tinha intenção de de­sistir. Ainda não queria que o relacionamento fosse apenas uma amizade fraterna e nada mais.

Foi até o balcão encher a xícara e dirigiu-se para uma mesa menos melada. Um grupo de homens jovens, já visivelmente bêbados apesar da hora matinal, discutia se fora Hamlet ou Macbeth quem havia sido aprisionado no castelo de Kronborg, que sobressaía de seu penhasco nos arredores de Elsinore. Ela es­cutou a discussão com divertido interesse e sentiu-se tentada a participar.

Um grupo de garotos estava sentado em outra mesa. Não deviam ter mais de catorze ou quinze anos e provavelmente es­tavam matando aula. E por que não, quando ninguém parecia se importar se tinham aparecido na escola ou não? Ela não tinha absolutamente nenhum sentimento de nostalgia em relação à escola autoritária que freqüentara. Mas recordava-se de um in­cidente do ano anterior. Algo que a deixara transtornada com o estado atual da Justiça sueca, fazendo-a, mais do que nunca, lamentar a falta de seu mentor, o juiz Anker, morto havia trinta anos.

Num conjunto residencial nas redondezas de Helsingborg, uma velha mulher, às vésperas de seu octogésimo aniversário, havia sofrido um agudo ataque cardíaco e caíra num passeio público. Dois rapazes bem jovens, um de treze e outro de catorze anos, se aproximaram. Em vez de ajudar a velha senhora, primeiro roubaram sua bolsa e depois tentaram estuprá-la. Não fosse um homem passeando com seu cachorro, provavelmente a tentativa teria dado certo. A polícia foi atrás dos dois garotos e os prendeu, mas, como eram menores de idade, eles tiveram a permissão de sair livres.

Birgitta Roslin ouvira o incidente da boca de um promotor público, que por sua vez fora informado por um oficial de polí­cia. Ela ficara furiosa e tentou descobrir por que o crime não fora relatado para o serviço social. E aí lhe ocorreu que talvez mais de uma centena de crianças menores de idade cometiam cri­mes na área de Helsingborg todo ano, e não recebiam nenhum tipo de acompanhamento. Ninguém contava aos pais, ninguém informava ao serviço social. Não era apenas o caso fortuito de um pequeno furto, mas assalto e agressão física criminosa, que podiam facilmente terminar em assassinato.

Ela começou a ficar desesperada com o sistema judicial sueco. A quem ela servia de fato? Era uma serva da lei ou da in­diferença? E quais seriam as conseqüências se mais e mais crian­ças se sentissem autorizadas a cometer crimes sem que ninguém se importasse em reagir? Como foi que as coisas desandaram a ponto de a própria base da democracia estar sendo ameaçada por um sistema judicial aleijado?

Tomou seu café e contemplou o fato de que provavelmente precisaria trabalhar por mais dez anos. Teria forças? Seria possí­vel ser uma juíza boa e justa se começasse a duvidar da estrutura legal do país?

Com a intenção de se livrar de perguntas que não podia responder, cruzou o estreito ainda mais uma vez. Quando de­sembarcou no lado sueco, eram nove horas. Atravessou a larga avenida principal que abria caminho para o centro de Helsing­borg. Notou por acaso as manchetes de um dos vespertinos na­cionais, que acabavam de ser entregues. As letras enormes em negrito chamaram sua atenção: Assassinato em massa em Hälsingland. Crime horrendo. Nenhuma pista para a polícia. Número de mortos desconhecido. Assassinato em massa.

Ela continuou andando em direção ao carro. Raramente, quase nunca, comprava os jornais vespertinos. Sentia-se desres­peitada, às vezes ofendida, com os freqüentes ataques à polícia.

Ainda que concordasse com boa parte do que se alegava, tinha pouca simpatia pelo sensacionalismo. O que os repórteres escre­viam geralmente prejudicava a crítica genuína, mesmo que as intenções fossem honradas.

Birgitta Roslin morava em Kjellstorp, uma área residencial valorizada no extremo norte de Helsingborg. A caminho de casa parou numa pequena loja. Era de propriedade de um imigrante paquistanês que sempre a saudava com um largo sorriso. Ele sa­bia que ela era juíza distrital e a tratava com grande respeito. Ela se indagava se haveria juizes mulheres no Paquistão, mas nunca dera um jeito de lhe perguntar.

Ao chegar em casa tomou um banho antes de ir para a ca­ma. Acordou à uma e por fim sentiu-se totalmente descansada. Devorou um par de sanduíches e uma xícara de café e foi para o trabalho. Algumas horas depois imprimiu o julgamento que isentava o homem de culpa, voltou de carro ao tribunal e dei­xou suas conclusões sobre a mesa da secretária. Sua secretária deveria estar freqüentando algum curso de treinamento interno: Birgitta Roslin não fora informada ou, o que era bem possível, esquecera o assunto. Quando voltou para casa, esquentou umas sobras de guisado de galinha do jantar da véspera e deixou um pouco para Staffan na geladeira.

Sentou-se no sofá com uma xícara de café e ligou a televi­são. Lembrou-se das manchetes que vira mais cedo. A polícia não tinha pistas e recusava-se a revelar quantas pessoas haviam sido mortas ou seus nomes, uma vez que os parentes ainda não linham sido contatados.

Um louco, ela concluiu, que ou tinha algum complexo de perseguição ou se sentia muito maltratado pelo mundo.

Seus anos de juíza haviam lhe ensinado que havia muitas formas diferentes de loucura que podiam levar as pessoas a co­meter crimes horríveis. Mas aprendera também que os psiquia­tras forenses nem sempre eram bem-sucedidos em detectar cri­minosos que apenas fingiam ser mentalmente doentes.

Desligou a televisão e desceu para o porão, onde montara uma pequena adega de garrafas de vinho tinto, escolhidas por meio de guias de vinho e listas de diversos importadores. Só alguns anos atrás tinha lhe ocorrido que, graças ao fato de os filhos terem saído de casa, as finanças da família haviam muda­do substancialmente. Agora sentia que podia se dar ao luxo de gastar com algo especial, e resolvera comprar algumas garrafas de vinho tinto todo mês. Gostava de estudar as listas e provar novos vinhos. Pagar quinhentas coroas ou mais por uma garrafa parecia-lhe um prazer quase proibido.

O porão estava frio. Ela verificou que a temperatura era de catorze graus e então sentou-se numa banqueta entre as estan­tes. Lá embaixo, entre as garrafas, podia sentir-se em paz com o mundo. Dada a alternativa de submergir numa piscina morna, ela preferia ficar sentada no porão cercada, neste dia exato, por cento e catorze garrafas dispostas em suas prateleiras.

Mas aí, mais uma vez, será que a paz que ela podia expe­rimentar em seu porão era realmente genuína? Quando era jo­vem, se alguém tivesse lhe sugerido que algum dia ela se tornaria colecionadora de vinhos, jamais teria acreditado. Não só teria negado tal possibilidade, como teria ficado aborrecida. Quando estudante em Lund, simpatizava com os radicais de esquerda que, no final dos anos 1960, haviam questionado a validade da educação universitária e os próprios fundamentos da sociedade à qual ela acabaria servindo. Naqueles dias, colecionar vinhos seria encarado como perda de tempo e energia, um passatempo típico da classe média e, portanto, questionável.

Ainda estava ali perdida em pensamentos quando ouviu Staffan se movendo no chão acima dela. Guardou as listas de vinhos e subiu. Ele acabara de tirar o guisado de galinha da gela­deira. Sobre a mesa, um par de jornais vespertinos que trouxera do trem.

"Você viu isso?"

"Parece que aconteceu algo terrível em Hälsingland."

"Dezenove pessoas assassinadas."

"O teletexto dizia que o número de mortos ainda era des­conhecido."

"Estas são as últimas edições. Mataram praticamente a po­pulação inteira de um povoado. É incrível. Em que pé está o julgamento em que você estava trabalhando?"

"Está terminado. Eu o absolvi. Não tive escolha."

"Os jornais vão chiar."

"Graças a Deus."

"E vão cair de pau em você."

"Posso apostar. Mas posso sugerir aos repórteres que verifi­quem o que diz a lei, e aí decidam se preferem que governemos sob a lei do linchamento aqui na Suécia."

"Esses assassinatos em massa vão desviar a atenção do seu caso.

"Sem dúvida. O que é um estuprozinho de nada compara­do a um brutal assassinato em massa?"

Nessa noite foram para a cama cedo. Ele deveria encarar um trem nas primeiras horas da manhã seguinte, e ela não con­seguira achar nada de interessante na televisão. Também deci­dira que vinho comprar. Uma caixa de Barolo Arione 2002, a du­zentos e cinqüenta e duas coroas a garrafa.

Ela acordou sobressaltada à meia-noite. Staffan dormia a sono solto a seu lado. Ela era freqüentemente despertada por acessos de fome no meio da noite. Vestiu o penhoar, desceu para a cozinha, preparou uma xícara de chá fraco e um sanduíche.

Os jornais vespertinos ainda estavam em cima da mesa da cozinha. Ela folheou um deles distraidamente — era difícil for­mar um quadro claro do que acontecera naquela pequena aldeia em Halsingland. Mas não havia dúvida de que um grande nú­mero de pessoas tinham sido brutalmente assassinadas.

Estava prestes a pôr o jornal de lado quando levou um susto. Entre as pessoas mortas havia diversas com o nome de Andrén. Leu o texto cuidadosamente, depois checou o outro jornal. A mesma coisa.

Olhou firme para a página à sua frente. Seria isso mesmo? Ou estava se confundindo? Foi até seu escritório e tirou da es­crivaninha uma pasta de documentos amarrada com uma fita vermelha. Acendeu a lâmpada da mesa e abriu a pasta. Como não trouxera os óculos do quarto, pegou emprestado o par de Staffan. Não eram tão fortes quanto os seus, mas serviam.

A pasta continha todos os documentos relacionados a seus pais. Sua mãe estava morta havia mais de quinze anos. Fora diagnosticada com câncer no pâncreas e morreu em três meses.

Por fim encontrou num envelope ocre a fotografia que ti­nha procurado. Pegou a lente de aumento e examinou o retrato. Era de um grupo de pessoas em roupas antigas, defronte a uma casa.

Levou a foto consigo até a cozinha. Num dos jornais havia uma vista geral da aldeia onde ocorrera a enorme tragédia. Exa­minou o retrato cuidadosamente através da lente de aumento. Parou na terceira casa e começou a comparar as fotografias.

Ela se lembrara corretamente. Aquele vilarejo atacado por um mal sem precedentes não era apenas um mero lugar antigo. Era a aldeia em que sua mãe crescera. Tudo se encaixava — o sobrenome de sua mãe era Lööf quando criança, mas seus pais eram ambos alcoólatras, e por isso ela fora criada por uma famí­lia chamada Andrén. A mãe de Birgitta raramente mencionava aquela época. Ela fora bem tratada, mas sempre ansiara por con­viver com seus verdadeiros pais. Entretanto, os dois morreram antes de ela completar quinze anos, de modo que precisou per­manecer na aldeia até ter idade suficiente para achar trabalho c cuidar de si mesma. Quando conheceu o pai de Birgitta, os nomes Lööf e Andrén saíram de cena. Mas agora um deles havia retornado em meio a uma explosão.

A fotografia entre os papéis de sua mãe fora tirada na frente de uma das casas da aldeia onde o assassinato em massa fora per­petrado. A fachada da casa, com o entalhe ornamental em torno das janelas, era exatamente a mesma, na velha foto e no jornal.

Não havia dúvida. Algumas noites antes, pessoas haviam sido assassinadas na casa onde sua mãe crescera. Os pais adotivos de sua mãe estariam entre os mortos? Os jornais mencionavam que a maioria dos mortos eram pessoas de idade.

Atualmente os pais adotivos de sua mãe teriam mais de no­venta anos. É, pode ser.

Ela estremeceu com a idéia. Raramente pensava em seus pais. Até mesmo achava difícil relembrar a aparência da mãe. Mas agora o passado vinha correndo a seu encontro.

Staffan entrou na cozinha. Como sempre, quase sem ne­nhum ruído.

"Você me assusta quando não sei que está chegando", ela reclamou.

"Por que você está acordada?"

"Estou com fome."

Ele espiou os jornais em cima da mesa. Ela lhe contou so­bre a conclusão a que chegara, e que estava ficando cada vez mais convencida de que suas suspeitas eram de fato verdade.

"Mas é algo bem remoto", ele disse quando ela acabou. "É muito tênue o fio que liga você a esse pequeno vilarejo."

" Tênue, porém perceptível. Mas você precisa ir dormir."

Ela ficou se virando na cama por uma eternidade antes de adormecer. Aquele tênue fio foi se esticando quase a ponto de se lomper. Teve um sono agitado, perturbado por pensamentos sobre sua mãe. Ainda julgava difícil vislumbrar traços de si mes­ma na mãe.

Finalmente sucumbiu ao sono e quando acordou se depa­rou com Staffan parado ao pé da cama, o cabelo molhado do chuveiro, vestindo o uniforme. Eu sou seu general, ele costu­mava dizer. Sem arma na mão, só com uma caneta para ticar as passagens.

Ela fingiu ainda dormir e esperou até a porta se fechar atrás dele. Aí pulou da cama e ligou o computador no escritório. Per­correu as várias ferramentas de busca, procurando o máximo de informação que conseguisse obter. Os fatos ocorridos em Hälsingland ainda pareciam estar envoltos em névoas. A única coisa aparentemente clara era que a arma usada fora uma faca grande ou algo similar.

Quero saber mais sobre isso, ela pensou. Pelo menos quero saber se os pais adotivos da minha mãe estavam entre as pes­soas assassinadas naquela noite. Fez buscas até as oito da ma­nhã, quando então deixou de lado todos os pensamentos sobre o assassinato em massa para refletir sobre o julgamento do dia referente a dois cidadãos iraquianos acusados de facilitar a entra­da ilegal de pessoas no país.

Foram mais duas horas até ela juntar a papelada, dar uma olhada nas anotações preliminares da investigação e tomar seu lugar na Corte. Ajude-me agora, meu querido velho Anker, a atravessar também este dia, ela suplicou. Então bateu delicada­mente o martelo na mesa a sua frente e pediu à promotoria que desse início aos procedimentos.

Havia janelas altas às suas costas.

Pouco antes de se sentar, notara que o sol começava a ir­romper entre as grossas nuvens que tinham se movido sobre a Suécia durante a noite.

 

Quando o julgamento terminou, dois dias depois, Birgitta Roslin sabia qual seria seu veredicto. Eram culpados, e o mais velho dos dois, Abdul ibn Yamed, que era o líder do grupo, seria sentenciado a três anos e dois meses de prisão. Seu auxiliar mais jovem, Yassir al-Habi, seria condenado a um ano. Ambos seriam deportados após a pena.

As sentenças eram semelhantes ao que já ocorrera anterior­mente. Muitos dos indivíduos trazidos ilegalmente para a Suécia loram ameaçados e agredidos quando se evidenciava que não tinham como pagar o que deviam pela longa viagem e pelos documentos de imigração forjados. Ela tinha adquirido uma especial antipatia pelo mais velho dos dois. Ele apelara a ela e ao promotor com argumentos sentimentais, alegando que nunca retinha nenhuma parte do dinheiro pago pelos refugiados, mas o doava para instituições de caridade em sua terra natal. Durante um intervalo nos procedimentos, o promotor se aproximara para um café e mencionara en passant que Abdul ibn Yamed circula­va numa Mercedes que valia quase um milhão de coroas.

Fora um julgamento extenuante. Os dias foram longos, e ela não teve tempo para mais nada além de comer, dormir e estudar as anotações antes de retornar à sua cadeira. Suas filhas gêmeas telefonaram e a convidaram para ir a Lund, mas ela não tinha tempo. Assim que o caso foi encerrado, ela foi confrontada com outro que envolvia romenos falsificadores de cartões de crédito.

E não teve tempo de manter-se a par do que estava aconte­cendo na pequena aldeia em Halsingland, perdendo os jornais matutinos e os noticiários de tevê à noite.

Na manhã em que devia começar a se preparar para o jul­gamento dos falsificadores da Romênia, Roslin descobriu que tinha uma anotação em sua agenda sobre uma consulta com seu médico para um checkup de rotina. Ela considerou a possibili­dade de adiá-la por algumas semanas. Além de se sentir cansada, estar fora de forma e ocasionalmente sofrer ataques de ansieda­de, não podia imaginar que houvesse algo errado com ela. Era uma pessoa saudável que levava uma vida sem exageros, e dificil­mente se resfriava. Mas não cancelou a consulta.

O consultório não era longe do teatro municipal. Ela dei­xou o carro estacionado e caminhou do tribunal até o consultó­rio. Estava frio, um dia bonito sem vento nenhum. A neve que caíra alguns dias antes já derretera completamente. Ela parou diante de uma vitrine e examinou um vestido. Mas a etiqueta do preço a chocou, e ela seguiu adiante.

Na sala de espera havia um jornal cuja primeira página es­tava repleta de notícias sobre o assassinato em massa em Hälsingland. Ela mal tinha conseguido pegar o jornal quando foi chamada pelo médico. Era um homem mais velho que lembrava o juiz Anker. Roslin era sua paciente havia dez anos. Fora recomendado por uma de suas colegas da área jurídica. Ele per­guntou como ela se sentia, se tinha dores e, tendo anotado suas respostas, encaminhou-a para uma enfermeira que colheu uma amostra de sangue da ponta de um de seus dedos. Roslin então voltou a sentar-se na sala de espera. Outra paciente lia o jornal. Roslin fechou os olhos e esperou. Pensou em sua família, no que cada um estaria fazendo, ou ao menos onde se encontrava na­quele exato momento. Staffan, num trem rumo a Hallsberg, só chegaria em casa bem tarde. David, trabalhando no laboratório da AstraZeneca nas imediações de Gotenburgo. Já onde Anna estaria era menos previsível: a última véz que ela telefonara fora um mês antes, do Nepal. As gêmeas estavam em Lund e que­riam que a mãe as visitasse. Ela cochilou e foi despertada pela enfermeira, que a sacudia pelo ombro.

"Pode entrar de novo, o doutor a espera."

Certamente não estou tão exausta a ponto de precisar co­chilar na sala de espera do médico, Roslin pensou enquanto retornava à consulta. Sentou-se.

Dez minutos depois Birgitta Roslin estava do lado de fora, parada na rua, tentando se conformar com o fato de que não po­deria trabalhar nas próximas duas semanas. O médico introdu­zira um súbito e inesperado transtorno em sua vida. Sua pressão sangüínea estava alta demais e isso, somado a seus ataques de ansiedade, levara o médico a insistir que ela tirasse duas semanas de licença do trabalho.

Caminhou de volta até o tribunal e conversou com o juiz Hans Mattsson, seu superior imediato. Conseguiram fazer um arranjo para poder lidar com os dois casos nos quais estava atual­mente envolvida. Ela falou com sua secretária, despachou algu­mas cartas que escrevera, ligou para uma farmácia para pegar sua nova medicação, entrou no carro e voltou para casa. A falta do que fazer era paralisante.

Preparou um almoço e depois se jogou no sofá com o jornal na mão. As identidades de alguns corpos da chacina de Hesjöval­len ainda não haviam sido divulgadas. Uma detetive chamada Sundberg dera uma declaração insistindo para que o público contatasse a polícia com qualquer informação. Ainda não havia pistas, mas a polícia estava segura de que, por mais que fosse difícil acreditar, estavam à procura de um único assassino.

Em outra página um promotor público de nome Roberts­son afirmava que a investigação ia de vento em popa, e que não descartava nenhuma possibilidade, trabalhando sem idéias pre­concebidas. A polícia de Hudiksvall recebera a assistência que solicitara das autoridades centrais.

Robertsson parecia estar confiante no sucesso: "Vamos pe­gar quem quer que tenha feito isso. Não vamos desistir".

Um artigo na página seguinte falava do temor que se es­palhara pela região florestal de Hálsingland. Muitos povoados da área tinham poucos habitantes. Havia rumores de pessoas adquirindo armas, cachorros, alarmes e fazendo barricadas na porta de casa.

Birgitta Roslin deixou o jornal escorregar para o lado. A casa estava vazia, silenciosa. Seu súbito e indesejado tempo livre viera do nada. Ela desceu para o porão e pegou uma das listas de vinhos. Resolveu encomendar a caixa de Barolo Arione pela in­ternet. Era realmente caro demais, mas ela sentia a necessidade de cuidar de si mesma. Pensou em fazer um pouco de limpeza, uma atividade quase sempre negligenciada em seu lar. Porém, mudou de idéia quando estava prestes a pegar o aspirador de pó. Sentou-se à mesa da cozinha e tentou avaliar a situação. Estava de licença por motivo de doença, embora não estivesse de fato doente. Será que ter pressão alta é estar doente? Quem sabe esti­vesse a ponto de ter um esgotamento, e talvez isso pudesse afetar seu julgamento na Corte.

Olhou o jornal na mesa à sua frente e mais uma vez pensou na mãe e na infância dela em Hãlsingland. Ocorreu-lhe uma idéia. Telefonou para a delegacia de polícia local e pediu para falar com o detetive inspetor-chefe Hugo Malmberg. Eles se co­nheciam havia muitos anos. Uma vez ele tentara ensinar bridge a ela e a Staffan, mas não conseguiu lhes despertar muito entu­siasmo.

Ouviu a voz gentil de Malmberg do outro lado da linha. A maioria das pessoas imagina que os policiais falem de forma grosseira; Hugo as convenceria do contrário. Ele parecia mais um afável aposentado sentado num banco de parque dando co­mida aos pássaros.

Ela perguntou como ele estava e se teria tempo de rece­bê-la. Ele disse que sim. Ela iria até lá a pé.

Uma hora depois, Birgitta Roslin adentrou o escritório de Hugo Malmberg. O policial, diante de sua escrivaninha limpa e arrumada, estava ao telefone, mas fez um gesto convidando-a a sentar-se. O telefonema dizia respeito a uma agressão que ocorrera no dia anterior.

Malmberg desligou e sorriu para ela. "Gostaria de uma xícara de café?"

"Melhor não, obrigada."

"Isto significa o quê?"

"O café da delegacia é tão ruim quanto o chá que servem no tribunal."

Ele se levantou.

"Vamos para a sala de reuniões", ele propôs. "Este telefone não para de tocar. É um sentimento que compartilho com qual­quer outro policial decente na Suécia — que eu sou o único que realmente trabalha duro."

Sentaram-se à mesa oval, cheia de copos de café descartá­veis e garrafas de água. Malmberg sacudiu a cabeça em desapro­vação.

"As pessoas nunca limpam a sujeira que fazem. Todos têm reuniões e, quando elas acabam, o pessoal desaparece e deixa o lixo jogado. Como posso ajudá-la? Você mudou de idéia em relação àquelas aulas de bridge?"

Ela lhe contou o que havia descoberto acerca da sua ligação com os assassinatos em massa.

"Estou curiosa", ela disse. "Tudo que consigo depreender dos jornais e dos noticiários é que há muitas pessoas mortas, e a polícia não tem nenhuma pista."

"Não me importo de admitir que estou contente por não trabalhar naquele distrito atualmente. Eles devem estar passan­do por um verdadeiro inferno. Nunca ouvi nada parecido. De certa forma, é tão sensacional como o assassinato de Palme."

"O que você sabe que não está nos jornais?"

"Não há um único policial por toda a extensão do país que não está se perguntando o que aconteceu. Todo mundo tem uma teoria. Essa história de que os policiais são racionais e care­cem de imaginação não passa de mito. Nós começamos imedia­tamente a especular sobre o que poderia ter acontecido."

"O que você acha que aconteceu?"

Ele deu de ombros e pensou um momento antes de res­ponder.

"Eu sei tanto quanto você. Há uma porção de corpos, foi uma chacina brutal. Mas nada foi roubado, se entendi bem. Eles estão trabalhando com a hipótese de que o responsável é algum sujeito doente. O que está por trás disso, só Deus sabe. Presumo que a polícia esteja examinando uma lista de criminosos violen­tos com problemas psicológicos. Sem dúvida já entraram em contato com a Interpol e a Europol na esperança de achar algu­ma pista, mas essas coisas levam tempo. Isso é tudo que eu sei."

"Você conhece gente da polícia por toda a Suécia. Tem al­gum contato lá em Halsingland? Alguém para quem eu talvez pudesse telefonar?"

"Eu conheci o chefe de polícia de lá", disse Malmberg. "Um homem chamado Ludwig. Para dizer a verdade, não me impressionou muito bem. Como você sabe, não tenho muito tempo para policiais que nunca estiveram em campo, no mundo real. Mas posso ligar para ele e ver o que ele tem a dizer."

"Prometo não incomodá-los desnecessariamente. Só quero saber se foram os pais adotivos da minha mãe que morreram. Ou os filhos deles. Ou se peguei um fio totalmente errado."

"Essa é uma razão mais que justa para telefonar para eles. Vou ver o que posso fazer. Mas agora preciso ir. Tenho uma en­trevista desagradável pela frente, com um homem muito violen­to e asqueroso."

Naquela noite ela contou a Staffan o que tinha acontecido. Sua reação imediata foi que o médico fizera a coisa certa, e ele sugeriu que a mulher viajasse para o sul, para tomar sol. Sua falta de interesse a irritou. Mas não disse nada.

No dia seguinte, logo depois do almoço, quando estava diante do computador examinando ofertas de viagens promocio­nais para a sua folga, o telefone tocou.

"Tenho um nome para você", disse Hugo Malmberg. "Há uma policial chamada Sundberg."

"Eu vi o nome nos jornais, mas não prestei atenção que era uma mulher."

"O primeiro nome dela é Vivian, mas é conhecida como Vivi. Ludwig vai passar o seu nome para ela, para que ela possa te identificar quando você telefonar. Estou com o número aqui."

"Obrigada pela ajuda. Aliás, talvez eu vá para o sul por al­guns dias. Você já esteve em Tenerife?"

"Nunca. Boa sorte."

Roslin discou imediatamente o número que ele lhe deu. Uma secretária eletrônica a convidou a deixar uma mensagem.

Mais uma vez ela pegou o aspirador de pó, mas não con­seguiu usá-lo. Em vez disso, voltou ao computador e aproxima­damente em uma hora decidiu-se por uma viagem a Tenerife partindo de Copenhague dali a dois dias. Desenterrou um velho atlas escolar e começou a sonhar com águas mornas e vinhos espanhóis.

Talvez eu esteja precisando justamente disso, pensou. Uma semana sem Staffan, sem o tribunal, sem a faina diária. Não sou exatamente uma pessoa experiente em confrontar as emoções, na verdade, a vida. Mas na minha idade eu deveria ser capaz de olhar para mim mesma com objetividade, encarar minhas Iraquezas e mudar as coisas, se necessário. Quando eu era moça, costumava sonhar em ser a primeira mulher a dar a volta ao mundo sozinha num veleiro. Isso nunca aconteceu. Mas, mes­mo assim, eu poderia me contentar com alguns dias num velei­ro até a Dinamarca ou passeando por uma praia em Tenerife. Qualquer uma das alternativas pode funcionar, seja pela idade que já está me alcançando, seja para eu me arrastar para fora do buraco em que estou afundando. Lidei muito bem com a menopausa, mas não sei muito bem o que está acontecendo comigo agora. Em primeiro lugar, preciso saber se a pressão alta e os ataques de pânico têm algo a ver com Staffan. Preciso entender que nunca ficaremos bem se não pularmos fora dessa situação absolutamente sem graça.

Ela pôs-se então a planejar a viagem. Havia uma falha no sistema que a impediu de finalizar on-line a reserva da viagem, então mandou um e-mail com seu nome e telefone especifican­do o pacote que a interessava. Teve uma resposta imediata, di­zendo que seria contatada em uma hora.

Quase uma hora depois o telefone tocou. Mas não era a agência de viagens.

"Aqui é Vivi Sundberg. Gostaria de falar com Birgitta Ros­lin."

"Ela mesma."

"Ah. Fui informada de que iria me ligar, mas não sei em que posso ajudá-la. Como pode imaginar, estamos sob forte pres­são neste momento. Você é juíza, não é?"

"Sim, sou. Não quero fazer alarde disso, mas minha mãe, que morreu alguns anos atrás, foi adotada por uma família cha­mada Andrén. Eu vi fotos que sugerem que ela morava numa das casas em Hesjövallen."

"Contatar os parentes não é responsabilidade minha. Sugi­ro que fale com Erik Huddén."

"Mas algumas vítimas tinham de fato o sobrenome Andrén, não tinham?"

"Já que está perguntando, posso lhe dizer que a família An­drén era a maior da aldeia."

"Estão todos mortos?"

"Não posso lhe dizer isso. Tem o prenome dos pais adotivos da sua mãe?"

O arquivo estava na mesa a sua frente; desatou a fita e fo­lheou os papéis.

"Creio que não posso esperar", disse Vivi Sundberg. "Me ligue quando tiver achado os nomes."

"Estou com eles aqui. Brita e August Andrén. Devem ter mais de noventa anos, talvez até noventa e cinco."

Houve uma pausa antes de Sundberg responder. Roslin pôde ouvir o farfalhar de papéis. Então Sundberg pegou nova­mente o telefone.

"Eles estão na lista. Ambos estão mortos, e o mais velho tinha noventa e seis anos. Por favor, não passe essa informação para nenhum jornal."

"Meu Deus, por que eu faria uma coisa dessas?"

"Como juíza, tenho certeza de que sabe o que pode acon­tecer e por que estou pedindo para guardar os detalhes para si."

Birgitta Roslin sabia exatamente a que ela se referia, em­bora já tivesse discutido com colegas sobre como quase nunca eram assediados por jornalistas — os repórteres dificilmente imaginariam que juizes pudessem liberar informações que de­viam ser mantidas em segredo.

"Obviamente, estou interessada no andamento da investi­gação."

"Nem eu nem nenhum de meus colegas temos tempo para fornecer informações específicas. Estamos sitiados pela mídia. Sugiro que fale com Erik Huddén em Hudiksvall."

Vivi Sundberg parecia impaciente e irritada.

"Muito obrigada por ter ligado. Não vou incomodar mais."

Birgitta Roslin desligou e pensou no que tinha acabado de ouvir. Ao menos agora tinha certeza de que os pais adotivos de sua mãe estavam entre os mortos. Como todo mundo, teria de ser paciente enquanto a polícia realizava seu trabalho.

Considerou telefonar para o quartel-general da polícia em Hudiksvall e falar com o tal Erik Huddén. Mas o que ele poderia acrescentar? Resolveu não ligar. Em vez disso, começou a ler com mais cuidado os papéis no arquivo dedicado aos pais. Fazia muitos anos desde que o abrira pela última vez. Deu-se conta, na verdade, de que nunca lera alguns daqueles documentos.

Dividiu o conteúdo da grossa pasta em três pilhas. A primei­ra continha a história de vida de seu pai, cujo corpo descansava no fundo do mar na baía de Gävle. A água no mar Báltico era tão salgada que não corroía os ossos depressa. Em algum lugar no leito arenoso estavam seus ossos e seu crânio. A segunda pi­lha tratava da vida partilhada entre seu pai e sua mãe, e lá ela se incluiu, tanto antes quanto depois de nascer. A terceira pilha era a maior e continha papéis relevantes para Gerda Lööf, sua mãe, que se tornara uma Andrén. Roslin leu tudo bem devagar, so­bretudo ao chegar a documentos referentes à época em que sua mãe fora adotada pela família Andrén. Muitos trechos estavam esmaecidos e eram difíceis de ler, apesar de ela usar sua lente de aumento.

Apanhou um bloco de notas e escreveu seus nomes e ida­des. Ela própria nascera na primavera de 1949. Sua mãe tinha dezessete anos na época, tendo nascido em 1931. Achou também as datas de nascimento de August e Brita Andrén: ela nascera em agosto de 1909, e ele em dezembro de 1910. Então tinham respectivamente vinte e dois e vinte e um anos quando Gerda nasceu, e menos de trinta quando ela viera juntar-se a eles em Hesjövallen.

Não encontrou nada que indicasse que o lugar onde viviam era Hesjövallen, mas a fotografia que ela agora novamente com­parava com a foto do jornal bastou para convencê-la. Não havia engano.

Começou a examinar as pessoas eretas e rígidas, na foto an­tiga. Havia duas pessoas mais jovens, um homem e uma mulher ao lado do casal mais idoso no centro da fotografia. Seriam Brita e August? Não havia data, nada escrito no verso da foto. Roslin tentou deduzir quando a foto teria sido tirada. O que indicavam as roupas? As pessoas obviamente tinham se vestido especial­mente para a ocasião, mas eram gente do campo para quem um terno podia durar a vida inteira.

Ela empurrou as fotos para o lado e voltou-se para os ou­tros documentos e cartas. Em 1942, Brita tivera um problema no estômago e fora tratada no hospital de Hudiksvall. Gerda escreveu-lhe um cartão desejando rápidas melhoras. Na época tinha onze anos e sua caligrafia era péssima. Algumas palavras estão grafadas errado, e ela desenhou uma flor de pétalas irregulares num canto do cartão.

Birgitta ficou comovida ao ler o cartão, surpresa de não lê-lo notado antes. Ele estivera guardado dentro de outra carta. Mas por que nunca a abrira? Seria por causa da dor que sentira quando Gerda morreu, e por isso não quisera tocar em nada que lhe recordasse a mãe?

Reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Ela devia tudo à mãe. Gerda nem sequer terminara a escola, mas sempre instara a filha a continuar os estudos. Agora é a sua vez, ela dissera. Agora é a vez das filhas da classe trabalhadora, são elas que vão conseguir uma educação. E fora exatamente isso que Birgitta Roslin fizera. Durante os anos 1960, quando já não eram apenas os filhos da classe média que freqüentavam as universidades, fora natural que ela tivesse se juntado aos grupos radicais de esquerda. Da vida, não se exigia apenas a compreensão: era preciso mudá-la.

Continuou trabalhando, atravessando a pilha de documen­tos. Descobriu mais uma carta. O envelope era azul-claro, fora remetido dos Estados Unidos. O papel fino estava preenchido com uma escrita minúscula. Direcionou o foco da lâmpada para a carta e com a ajuda da lente tentou descobrir o que dizia. Estava escrita em sueco, mas continha uma porção de palavras em inglês. Alguém chamado Gustaf descreve seu trabalho como criador de porcos. Uma criança chamada Emily tinha acabado de morrer, e há uma "mor tristeza" na casa. Ele pensa em como estariam as coisas na casa lá longe em Halsingland, como estaria a família, as colheitas e os animais. A carta era datada de 19 de junho de 1896. Era endereçada a August Andrén, Hesjövallen, Suécia. Mas o meu avô materno nem era nascido na época, ela pensou. Possivelmente a carta deve ter sido endereçada a seu tataravô, já que fora conservada pela família de Gerda. Mas por que fora passada para ela?

Bem no pé da carta, debaixo da assinatura, havia um en­dereço: sr. Gustaf Andrén, Correio de Minneapolis, Minnesota, Estados Unidos da América.

Ela examinou novamente seu velho atlas escolar. Minne­sota é uma região rural de fazendas. Então um dos membros da família Andrén em Hesjövallen emigrara para lá havia mais de um século.

Mas ela encontrou outra carta que mostrava que outro membro da família havia ido parar em diferentes partes dos Esta­dos Unidos. Seu nome era Jan August, e ele evidentemente tra­balhara na ferrovia que ligava a costa Leste à costa Oeste. A carta perguntava sobre os familiares, vivos e mortos, embora grandes trechos estivessem ilegíveis. A escrita ficara borrada.

O endereço de Jan August era o correio de Reno, Nevada, Estados Unidos da América.

Roslin continuou a ler, mas não achou mais nada na pilha relativa à ligação da mãe com a família Andrén.

Devolveu os documentos ao arquivo, retornou à internet e, sem muita esperança de sucesso, tentou achar o endereço postal em Minneapolis que Gustaf Andrén tinha dado. Como espera­do, chegou a um beco sem saída. Tentou o endereço em Nevada e foi redirecionada para um link de um jornal chamado Reno Gazette-]ournal. Exatamente nesse momento o telefone tocou: era a agência de viagens. Um homem simpático com sotaque dinamarquês forneceu todos os detalhes do pacote e descreveu o hotel. Ela não hesitou. Fez uma reserva preliminar e prometeu confirmar o mais tardar na manhã seguinte.

Voltou ao computador e conectou-se novamente ao link do Reno Gazette-Journal. Estava a ponto de passar para outra página quando se lembrou de que a busca era por Andrén, não meramente seu endereço postal. Então devia haver alguma referência ao nome em alguma edição recente do jornal. Ela co­meçou a ler a lista de artigos e temas, clicando de uma página para outra.

Levou um susto quando a página relevante apareceu. A princípio ela leu sem realmente captar suas implicações. Aí leu de novo, mais devagar, e começou a se perguntar se devia acre­ditar no que lia. Levantou-se e afastou-se do computador. Mas o lexto e as figuras não desapareceram.

Ela os imprimiu e dirigiu-se à cozinha. Leu tudo mais uma vez, bem lentamente.

Em 4 de janeiro um assassinato brutal ocorreu na pequena cidade de Ankersville, a nordeste de Reno. O proprietário de uma oficina e toda sua família foram encontrados mortos naquela ma­nhã por um vizinho, que ficou desconfiado quando a oficina não abriu como de hábito. A polícia ainda não tem nenhuma pista. Mas é evidente que toda a família Andrén — ]ack, sua esposa, Connie, e os dois filhos, Steven e Laurci — foi assassinada com algum tipo de faca ou espada. Não havia nada que indicasse as­salto ou roubo. Nenhum motivo óbvio; a família Andrén era mui­to querida e não tinha inimigos. A polícia está agora procurando algum sujeito mentalmente desequilibrado, ou talvez um viciado em drogas desesperado, que possam estar ligados a esses terríveis assassinatos.

Ela permaneceu sentada imóvel. O barulho de um cami­nhão de lixo vinha da rua abaixo.

Pela primeira vez, sentiu o medo tomando conta dela. Como se estivesse sendo observada e não se desse conta.

Verificou mais uma vez se a porta da frente estava trancada. Depois voltou ao computador e recomeçou a navegar pelos arti­gos do Reno Gazette-Joumal.

O caminhão de lixo seguira adiante. Escurecia.

 

Muito tempo depois, quando a lembrança de tudo que ha­via ocorrido começou a esmaecer, Roslin às vezes se perguntava o que teria acontecido se de fato tivesse ido para Tenerife na­quela licença médica, depois voltado para casa e para o trabalho com a pressão sangüínea regularizada e o cansaço banido. Mas a realidade acabou se revelando bem diferente. Cedo na manhã seguinte ela ligou para a agência de viagens e cancelou a reserva. Como tivera a sensatez de incluir um seguro, o cancelamento custou-lhe apenas umas poucas centenas de coroas.

Staffan voltou para casa tarde da noite, pois seu trem havia parado em decorrência de um defeito no motor. Ele fora obri­gado a passar duas horas acalmando passageiros descontentes, inclusive uma senhora de idade que passara mal. Ao chegar em casa estava cansado e irritado. Roslin o deixou jantar em paz. Depois que ele terminou de comer, ela lhe contou sobre sua descoberta no distante estado de Nevada e como, com toda probabilidade, aquilo estava ligado ao assassinato em massa em Hãlsingland. Pôde perceber que ele não se convenceu, mas não sabia se era porque estava cansado ou por não acreditar em sua teoria. Quando ele foi para a cama, ela retornou ao computador c ficou alternando entre Hälsingland e Nevada. À meia-noite tomou algumas notas num bloco, exatamente como fazia quan­do preparava um julgamento. Não importava quão improvável aquilo pudesse parecer, tinha certeza de que havia uma conexão entre os dois eventos. E além disso tinha consciência de que, de certa forma, também era uma Andrén, ainda que seu nome agora fosse Roslin.

Estaria ela em perigo? Ficou sentada durante horas, curva­da sobre o bloco de notas. Então saiu para a clara noite de janei­ro e olhou as estrelas. Sua mãe certa vez lhe contara que o pai fora um apaixonado observador de estrelas. Ele lhe escrevia es­porádicas cartas e lhe contava que ficava parado horas no convés do navio em lugares distantes. Estudando os astros e suas várias constelações. Ele tinha a estranha crença de que os mortos se transformavam em estrelas. Birgitta Roslin imaginava o que ele estaria pensando quando o Runskär afundou na baía de Gävle. O navio sobrecarregado emborcara sob a pesada tormenta e submergira em menos de um minuto. Somente um sinal de socorro fora enviado antes de o rádio silenciar. Teria ele percebido que estava prestes a morrer? Ou teria a água gelada o apanhado de surpresa, a ponto de não ter tempo de pensar? Apenas um terror súbito, um arrepio gelado, e a morte.

O céu parecia próximo; as estrelas brilhavam naquela noite. Eu consigo ver a superfície, ela pensou. Existe uma ligação, linos fios entretecidos. Mas o que está por trás disso tudo? Qual seria o motivo de matar dezenove pessoas numa pequena aldeia no norte da Suécia, e também eliminar uma família no deser­to de Nevada? Provavelmente apenas o de sempre: vingança, ciúme, cobiça. Mas que injustiça poderia exigir uma vingança tão drástica? Quem obteria ganhos pecuniários assassinando ta­manha quantidade de aposentados num vilarejo rural, pessoas que já estavam bem avançadas em seu caminho rumo à morte? Quem poderia possivelmente ter ciúme delas?

Eram três da manhã quando ela foi para a cama. Deu uma sacudidela em Staffan, que roncava. Quando ele se virou e aquie­tou, Birgitta adormeceu.

Na manhã seguinte lembrou-se do sonho que tivera duran­te a noite. Vira a mãe, que falara com ela sem que Birgitta con­seguisse entender o que dizia. Era como estar atrás de uma redo­ma de vidro. O sonho parecia durar para sempre, a mãe mais e mais aborrecida porque a filha não compreendia o que ela dizia, a filha procurando entender o que as separava.

A memória é como vidro, Birgitta pensou. Uma pessoa que morre ainda pode ser vista na memória. Mas já não consegui­mos estabelecer contato com ela. Morrer é calar; a morte exclui conversas, tolera apenas o silêncio.

Birgitta Roslin levantou-se. Um pensamento começava a tomar forma em sua cabeça. Pegou um mapa rodoviário da Sué­cia. Quando as crianças eram pequenas, todo verão a família costumava viajar de carro, alugando chalés nos mais diversos lugares, em geral por um mês. Muito raramente, como nos dois verões que haviam passado na ilha de Gotland, tinham ido de avião. Mas nunca haviam viajado de trem, e naqueles tempos jamais ocorreria a Staffan que um dia ele trocaria sua vida de advogado pela de condutor de trens.

Birgitta voltou-se para um mapa geral da Suécia. Halsin­gland era bem mais ao norte do que imaginara. Não conseguiu encontrar Hesjövallen. Era um vilarejo tão insignificante que nem constava no mapa.

Ao largar o mapa, tinha tomado sua decisão. Pegaria o carro e viajaria até Hudiksvall — não porque quisesse visitar a cena do crime, mas sobretudo porque queria conhecer o vilarejo onde sua mãe crescera.

Quando era mais nova, sonhava um dia fazer uma grande excursão pela Suécia. "A Grande Viagem pelo País", era como a chamava. Iria a Treriksröset no extremo norte, onde as fronteiras da Suécia, da Noruega e da Finlândia convergiam, e voltaria para o sul até a costa de Skane, onde estaria próxima ao conti­nente, com o restante da Suécia às suas costas. A caminho do norte seguiria pela costa, mas no retorno ao sul pegaria a rota do interior. No entanto, aquela viagem nunca acontecera. Sempre que a mencionava para Staffan, ele não demonstrava interesse. E não fora possível quando as crianças ainda estavam em casa.

Mas agora ela tinha a oportunidade de percorrer pelo me­nos parte daquele trajeto.

Quando Staffan terminou o café da manhã, preparando-se para tomar o trem para Alvesta — o último antes de tirar alguns dias de folga —, ela lhe contou seu plano. Ele não fez objeções, simplesmente perguntou quanto tempo ela estaria fora e se o médico ficaria satisfeito com a tensão que uma viagem de carro tão longa certamente provocaria.

Foi só quando ele já estava junto à porta, com a mão na maçaneta, que ela se chateou. Haviam se despedido na cozinha, mas ela foi atrás dele e jogou o jornal com raiva em cima dele.

"Que raios você está fazendo?"

"Você não tem interesse nenhum em saber o motivo da mi­nha viagem?"

"Mas você me disse o motivo."

"E não lhe ocorre que eu talvez também precise de algum tempo para pensar na nossa relação?"

"Não vamos começar com isso agora. Vou perder o trem."

"Nunca é a hora certa para você! De noite não é bom, de manhã não é bom, você não quer nunca conversar comigo sobre a nossa vida?"

"Você sabe que ela não me incomoda tanto quanto inco­moda você."

"Incomoda a mim? Você acha que fico incomodada en­quanto eu só tento entender por que não fazemos amor há mais de um ano?"

"Não podemos falar sobre isso agora. Eu não tenho tempo."

"Logo você vai ter tempo de sobra."

"E o que isso quer dizer?"

"Talvez a minha paciência tenha se esgotado."

"Isso é uma ameaça?"

"Só sei que não podemos continuar deste jeito. Tchau, vá pegar o seu maldito trem."

Ela virou-lhe as costas, seguiu para a cozinha e ouviu a por­ta de entrada bater. Sentiu-se aliviada por ter dito o que queria dizer havia tempos, mas também estava ansiosa sobre como ele iria reagir.

Ele telefonou naquela noite. Nenhum dos dois mencionou o que havia acontecido de manhã no hall de entrada. Mas ela pôde perceber por seu tom de voz que ele estava abalado. Seria possível agora, a essa altura, conversar sobre o que não podia mais ser ignorado?

 

No dia seguinte, de manhã bem cedo, ela entrou no carro pronta para partir para Helsingborg, e então rumar para o norte. Staffan, que chegara em casa no meio da noite, levou sua valise até o carro e a acomodou no banco de trás.

"Onde você vai se hospedar?"

"Há um hotelzinho em Lindesberg. Vou passar a noite lá.

Prometo telefonar. Estou achando que vou encontrar alguma coisa em Hudiksvall."

Um dia depois ela se viu a uns dez quilômetros de Hudiks­vall. Se rumasse para o interior um pouco mais para o norte, passaria por Hesjövallen. Hesitou por um momento, sentiu-se um pouco como um abutre, mas afastou a imagem. Afinal, tinha bons motivos para ir lá.

Ao alcançar Iggesund pegou a esquerda, depois de novo a esquerda quando chegou a uma bifurcação na estrada para Olsund. Passou por um carro de polícia que ia no sentido oposto, depois por outro. As árvores subitamente deram lugar a um lago. Uma fileira de casas ladeava a estrada, todas elas isoladas pela lita policial vermelha e branca. Havia policiais caminhando ao longo da estrada.

Ela pôde ver uma tenda montada na beirada da floresta, e uma outra no pátio mais próximo. Examinou lentamente a al­deia através de um binóculo que trouxera. Pessoas de uniforme e macacão moviam-se entre as casas, fumando em grupos junto aos portões. Às vezes, como parte de seu trabalho, visitava cenas de crimes e estava familiarizada com a estrutura, embora não em tamanha escala. Sabia que promotores e outros oficiais de justiça não eram especialmente bem-vindos, pois a polícia costumava temer críticas.

Um policial fardado bateu na janela e interrompeu seus pensamentos.

"O que está fazendo aqui?"

"Não percebi que tinha invadido a área isolada."

"Não invadiu. Mas estamos de olho em todo mundo que aparece por aqui. Sobretudo se estiver de binóculo. Nós fazemos as nossas coletivas de imprensa em Hudiksvall, caso você não saiba."

"Eu não sou repórter."

O jovem policial a encarou com suspeita.

"Então é o quê? Uma viciada em cenas de crime?"

"Na verdade, sou uma parente."

O policial tirou um caderno.

"De quem?"

"Brita e August Andrén. Estou a caminho de Hudiksvall, mas não me lembro do nome da pessoa que devo procurar."

"Erik Huddén. É ele o responsável pelos contatos com pa­rentes. Por favor, aceite os meus pêsames."

"Obrigada."

O policial fez uma continência; ela sentiu-se uma idiota, manobrou o carro e partiu. Ao chegar a Hudiksvall deu-se conta de que não era só o batalhão de repórteres que tornava impossí­vel achar um quarto de hotel vago. Uma recepcionista simpática no Hotel Statt lhe disse que lá também havia um congresso com representantes de toda a Suécia para "discutir florestas". Ela estacionou o carro e vagou pela cidadezinha. Tentou mais dois hotéis e um albergue, tudo estava lotado.

Procurou algum lugar para almoçar e achou um pequeno restaurante chinês. Também estava cheio, mas ela conseguiu uma mesinha perto da janela. A sala parecia exatamente igual a todos os outros restaurantes chineses em que estivera. Os mes­mos vasos, leões de porcelana, luminárias com cúpulas coloridas.

Uma chinesa aproximou-se com o cardápio. Birgitta Roslin teve dificuldade em fazer seu pedido; a jovem mulher mal falava sueco.

Após seu apressado almoço, tentou conseguir um quarto e acabou encontrando um no Andbacken Hotel, em Delsbo. Ali também estava ocorrendo um congresso, este de uma empresa de propaganda. Parecia que todo mundo na Suécia estava ocupa­do deslocando-se de hotéis para locais de conferência.

O Andbacken era um grande edifício branco às margens de um lago coberto de neve. Enquanto esperava na fila da recep­ção, leu que o pessoal da propaganda se reuniria naquela tarde em grupos de trabalho. A noite haveria um jantar de gala, com distribuição de prêmios. Deus, por favor, não permita que seja uma noite barulhenta com bêbados subindo e descendo pelos corredores e batendo portas, ela pensou.

Seu quarto dava para o lago congelado e montanhas cober­tas de árvores. Deitou-se na cama e fechou os olhos por alguns instantes, aí se pôs de pé, vestiu o casaco, pegou o carro e se di­rigiu a Hudiksvall. Repórteres e equipes de tevê amontoavam-se diante da delegacia. Finalmente, viu-se frente a frente com uma jovem recepcionista, exausta, e explicou o que queria.

"Vivi Sundberg não tem tempo."

O tom de dispensa da resposta a deixou surpresa.

"Você não vai nem me perguntar sobre o que eu quero falar com ela?"

"Imagino que a senhora queira lhe fazer algumas pergun­tas, como todo mundo, mas vai ter de esperar até a próxima co­letiva de imprensa."

"Eu não sou jornalista. Sou parente de uma das famílias de Hesjövallen."

A mulher atrás do balcão mudou imediatamente de atitude.

"Desculpe. A senhora deve falar com Erik Huddén."

Ela discou um número e disse a Erik que ele tinha uma vi­sita. Evidentemente não era preciso dizer mais. "Visita" era uma palavra em código para "parente".

"Ele já vai descer para recebê-la. Espere ali, perto daquela porta de vidro."

Ela viu um homem jovem parado a seu lado.

"A menos que eu esteja enganado, acho que a ouvi dizer que é parente de uma das vítimas do assassinato. Posso lhe fazer algumas perguntas?"

Birgitta Roslin geralmente mantinha as garras recolhidas. Mas desta vez não.

"Não. Não tenho idéia de quem você é."

"Eu escrevo."

"Para quem?

"Para todo mundo que esteja interessado."

"Não tenho nada a lhe dizer."

"Antes de mais nada, sinto muito pela sua triste perda."

"Não", ela retrucou. "Você não sente nada. Está falando baixinho para não chamar a atenção — para que os outros não percebam que você encontrou uma parente."

A porta de vidro foi aberta por um homem com um crachá informando que era Erik Huddén. Apertaram-se as mãos. Um flash fotográfico refletiu-se na porta de vidro quando ela voltou a se fechar.

Havia gente por toda parte. O ritmo ali era radicalmente diferente do de Hesjõvallen. Entraram numa sala de reuniões onde havia uma mesa coberta de pastas e listas. É aqui que os mortos são reunidos, pensou Birgitta. Huddén a convidou a sentar-se e tomou um assento à sua frente. Ela lhe contou toda a história desde o começo, as duas mudanças de nome e como tinha descoberto que era parente das vítimas. Sentiu que Hu­ddén ficou desapontado ao ver que sua presença não iria ajudar.

"Percebo que você precisa de mais informação", ela disse. "Eu trabalho com a lei e não sou totalmente ignorante dos pro­cedimentos envolvidos."

"Devo dizer que agradeço que tenha nos procurado."

Ele pousou a caneta e a fitou.

"Mas você realmente fez todo esse caminho desde Skane para nos dizer isso? Poderia ter telefonado."

"Eu tenho uma coisa a dizer que é relevante para a investi­gação. Gostaria de falar com Vivi Sundberg."

"Não pode dizer para mim? Ela está extremamente ocu­pada."

"Eu já comecei a falar com ela, e seria proveitoso que con­tinuássemos a partir do ponto em que paramos."

Ele saiu para o corredor e fechou a porta. Birgitta puxou a pasta Brita e August Andrén para perto de si. O que viu a deixou horrorizada. Havia fotos tiradas no interior da casa. Só agora ela percebia a escala da carnificina. Observou as fotos dos corpos fatiados e despedaçados. Era quase impossível identificar a mulher, pois fora atingida por um golpe que quase partira sua face pela metade. Um dos braços do homem estava pendurado, preso apenas por alguns finos tendões.

Fechou a pasta e a empurrou para longe. Mas as imagens ainda estavam lá; ela jamais seria capaz de esquecê-las. Duran­te seus anos no tribunal fora forçada a examinar fotografias de violência sádica, mas nunca vira algo comparável ao que Erik Huddén tinha em seus arquivos.

Ele voltou e fez um sinal para que ela o seguisse.

Vivi Sundberg encontrava-se sentada numa escrivaninha atulhada de documentos. Sua arma e seu celular estavam sobre uma pasta quase estourando de tão cheia. Ela apontou uma ca­deira de visitas.

"Você queria falar comigo", disse Sundberg. "Se estou en­tendendo direito, viajou de Helsingborg até aqui. Deve sentir que o que tem a dizer é importante."

O celular dela tocou. Ela o desligou e fitou a visitante com ar de expectativa.

Birgitta lhe contou sua história sem esmiuçar detalhes. Fre­qüentemente, quando estava sentada em sua cadeira de juíza, pensava em como um promotor ou advogado de defesa, um réu ou uma vítima, deveria ter se expressado. Era perita nesse par­ticular.

"Talvez você já saiba da ocorrência em Nevada", disse ao terminar.

"Não apareceu até agora nas nossas informações."

"O que você acha?"

"Eu não acho nada."

"Pode significar que o assassino que vocês estão procurando não seja um louco."

"Vou avaliar sua informação assim como avalio cada indí­cio ou sugestão. E, creia-me — há um monte deles aqui, tele­fonemas, cartas, e-mails. Tudo que você mencionar nós temos. Talvez alguma coisa possa sair disso."

Ela pegou um bloco de notas e pediu a Birgitta que re­petisse sua história. Quando terminou de anotar, levantou-se e acompanhou a visitante até a saída.

Pouco antes de chegarem à porta de vidro, parou.

"Quer ver a casa onde sua mãe cresceu? Foi por isso que veio até aqui?"

"Posso?"

"Os corpos já não estão mais lá. Pode entrar, se quiser. Vou para lá em meia hora. Mas tem que me prometer não retirar nada da casa. Há pessoas que teriam o maior prazer de simples­mente arrancar um azulejo de um local onde uma pessoa assas­sinada ficou estendida."

"Eu não sou assim."

"Se esperar no seu carro, poderá me seguir."

Vivi Sundberg apertou um botão e a porta de vidro se abriu. Birgitta Roslin saiu correndo para a rua antes que algum dos repórteres ainda reunidos na recepção pudesse vê-la.

Com a mão na ignição do carro, ocorreu-lhe que tinha fracassado. Sundberg não a levara a sério. Era improvável que seguissem a pista de Nevada, e se o fizessem seria sem o menor entusiasmo.

Quem poderia culpá-los? — o salto entre Hesjövallen e Ne­vada era grande demais.

Um carro preto sem identificação de polícia parou a seu lado. Vivi Sundberg acenou. Quando chegaram à aldeia, Sund­berg a conduziu até a casa.

"Vou deixar você aqui, para poder ficar a sós por alguns ins­tantes."

Birgitta Roslin respirou fundo e entrou. Todas as luzes es­tavam acesas.

Foi como aterrissar num palco iluminado. E ela, a única pessoa na peça.

 

Birgitta Roslin ficou parada no hall escutando. Numa casa vazia existe um silêncio que é único, ela pensou. As pessoas se foram e levaram com elas todo o barulho. Não há sequer um relógio batendo.

Ela entrou na sala. O aposento estava impregnado de odo­res antigos, da mobília, dos tapetes, dos esmaecidos vasos de porcelana que atulhavam as prateleiras e se imiscuíam entre os vasos de plantas. Tocou com um dedo a terra de um dos vasos, depois foi até a cozinha, achou um pequeno regador e molhou as plantas que encontrou. Sentou-se numa cadeira e olhou em volta. O que já estaria aqui quando sua mãe viveu na casa? Quase tudo, imaginou. Tudo aqui é velho: a mobília envelhece com as pessoas que a usam.

O chão onde os corpos tinham estado ainda estava coberto por um plástico. Ela subiu as escadas. A cama no dormitório principal estava desfeita. Havia um chinelo jogado debaixo da cama. Ela não conseguiu encontrar o par. Havia mais dois quar­tos no andar de cima. No quarto que dava para o oeste, o papel de parede estava coberto de figuras infantis de animais. Ela tinha a vaga lembrança de sua mãe certa vez ter mencionado o papel de parede. Havia uma cama, um guarda-roupa, um gaveteiro, uma cadeira e, apoiada numa das paredes, uma pilha de tapetinhos feitos de retalhos. Ela abriu o guarda-roupa: prateleiras forradas com folhas de jornal. Um deles datava de 1969. Naquela época sua mãe já tinha ido embora havia mais de vinte anos.

Sentou-se na cadeira e olhou pela janela. Agora já esta­va escuro, os cumes cobertos da floresta do outro lado do lago não eram mais visíveis. Um policial movimentava-se na beira da mata, iluminado pela lanterna de um colega. Volta e meia parava e se abaixava para examinar o solo, como se estivesse à procura de algo.

Birgitta Roslin teve a sensação de que a mãe estava por per­to. Sua mãe sentara-se nesse mesmo lugar muito tempo antes de pensar que um dia Birgitta viria a existir. Aqui, no mesmo quarto, numa outra época. Alguém rabiscara no quadro da jane­la pintado de branco. Talvez sua mãe. Talvez cada marca fosse uma expressão do anseio de ir embora, de achar um novo início.

Levantou-se e desceu. Ao lado da cozinha havia um quar­tinho com uma cama, algumas muletas apoiadas na parede e uma cadeira de rodas antiga. No chão, junto ao criado-mudo, um urinol esmaltado. Dava a impressão de que o recinto não era usado havia muito tempo.

Retornou à sala de estar andando na ponta dos pés, como que receosa de acordar alguém. As gavetas da escrivaninha es­tavam semiabertas. Uma delas estava cheia de guardanapos e toalhas de mesa, outra continha novelos de lã de cores escuras. Na terceira gaveta, perto do chão, havia maços de cartas e cader­nos de capa marrom. Ela pegou um dos cadernos e o abriu. Não havia nenhum nome escrito. Estava completamente preenchi­do com uma caligrafia minúscula. Ela tirou os óculos e tentou dar algum sentido ao que parecia ser um diário. A ortografia era antiga. As anotações tratavam de locomotivas, vagões, trilhos de ferrovias.

Então notou uma palavra que a assustou: Nevada. Ela se enrijeceu e conteve a respiração. Algo subitamente começara a mudar. Aquela casa vazia e silenciosa acabara de lhe enviar uma mensagem. Ela procurou decifrar o que vinha em seguida, mas ouviu a porta de entrada se abrindo. Recolocou o diário no lugar e fechou a gaveta. Vivi Sundberg entrou.

"Sem dúvida você viu onde os corpos estavam", ela come­çou. "Eu não preciso lhe mostrar."

Birgitta Roslin assentiu.

"Nós trancamos as casas à noite. Você tem que sair agora."

"Acharam algum parente do casal que morava aqui?"

"É exatamente isto que eu vim lhe dizer. Parece que Brita e August não tinham filhos, nem outro parente além dos que viviam aqui na aldeia e também estão mortos. A lista de vítimas irá a público amanhã."

"E aí o que vai acontecer com eles?"

"Talvez seja algo em que você tenha de pensar, já que é da lamília."

"Na verdade, não sou parente. Mas de qualquer maneira me importo com eles."

Ambas deixaram a casa. Sundberg trancou a porta e pendurou a chave num prego.

"Não achamos que alguém vá invadir a casa", explicou. "Neste momento a aldeia está tão bem guardada quanto a famí­lia real sueca."

Despediram-se na estrada. Potentes holofotes iluminavam algumas casas. Mais uma vez Birgitta Roslin teve a sensação de estar no palco de um teatro.

"Você vai voltar para casa amanhã?", Vivi Sundberg inda­gou.

"Acho que sim. Pensou mais alguma coisa sobre o que eu lhe contei?"

"Vou passar adiante sua informação amanhã, quando tiver­mos nossa reunião matinal."

"Mas você tem de concordar que parece possível, para não dizer provável, que haja uma conexão."

"É cedo demais para conclusões. Mas eu acho que é me­lhor esquecer."

Birgitta Roslin observou Vivi Sundberg entrar no carro e se afastar. Ela não acredita em mim, disse em voz alta para si mesma no meio do escuro. Ela não acredita em mim — e eu posso entender, claro.

Porém, mais uma vez, ficou chateada. Se ela fosse oficial de polícia, teria dado prioridade a qualquer informação que suge­risse um elo com um evento similar, ainda que tivesse ocorrido em outro continente.

Resolveu conversar com o promotor encarregado da inves­tigação preliminar.

Voltou para Delsbo guiando rápido demais e ainda estava aborrecida quando chegou ao hotel. O jantar dos executivos da propaganda estava em pleno andamento no salão de refeições, e ela foi obrigada a comer num bar às moscas. Pediu um copo de vinho para acompanhar o prato. Era um Shiraz australiano, muito saboroso, mas ela não conseguiu decidir se tinha nuances de chocolate ou alcaçuz, ou quem sabe dos dois.

Após a refeição subiu para o quarto. Sua indignação desapa­recera. Tomou uma das cápsulas de ferro prescritas pelo médico e pensou no diário que tinha visto. Devia ter contado a Vivi Sundberg o que descobrira. Mas, por algum motivo, nada dissera. Ha­via o risco de o diário se tornar só mais um detalhe insignificante numa investigação de grande porte saturada de evidências.

Bons policiais têm um talento especial para estabelecer co­nexões num emaranhado de evidências que para outros podem parecer casuais e caóticas. Que tipo de policial seria Vivi Sund­berg? Uma mulher de meia idade com excesso de peso não dava absolutamente a impressão de ser ágil de espírito.

Birgitta Roslin imediatamente retirou seu julgamento. Era injusto. Ela não sabia nada a respeito de Vivi Sundberg.

Deitou na cama, ligou a televisão e ouviu as vibrações dos contrabaixos no salão de jantar.

O celular de Birgitta tocou, acordando-a. Deu uma espiada no relógio e viu que estivera dormindo por mais de uma hora. Kra Staffan.

"Onde diabos você se meteu? Para onde eu estou ligando?"

"Delsbo."

"E eu sei lá onde é isto?"

"Em Hudiksvall, um pouquinho a oeste. Se minha memória não estiver me pregando alguma peça, antigamente as pessoas costumavam falar de terríveis brigas a faca em Delsbo envolven­do trabalhadores rurais."

Ela lhe contou acerca da visita a Hesjövallen. Podia ouvir um jazz ao fundo. Provavelmente ele está sentindo que é bom ficar sozinho, pensou. Ele pode escutar jazz o quanto quiser, que eu não reclamo.

"E o que vai acontecer em seguida?", ele perguntou quan­do ela terminou a narrativa.

"Vou resolver amanhã. Agora, você pode voltar para sua música."

"É Charlie Mingus."

"Quem?"

"Vai me dizer que esqueceu quem é Charlie Mingus?"

"Às vezes eu acho que todos os seus músicos de jazz têm o mesmo nome."

"Agora você está me ofendendo."

"Não foi minha intenção."

"Tem absoluta certeza disso?"

"Como assim?

"Só estou dizendo que você sente apenas desprezo pela mú­sica de que eu tanto gosto."

"Por que eu haveria de sentir desprezo?"

"É uma pergunta que só você pode responder."

A conversa teve um final abrupto. Ele desligou o telefo­ne na cara dela. Isso a deixou furiosa e ela ligou de volta, mas Staffan não atendeu. Ela desistiu. Eu não sou a única que está esgotada, pensou. Ele sem dúvida acha que eu estou tão fria e distante quanto eu acho que ele está.

Aprontou-se para dormir. Levou algum tempo até adorme­cer. No final da madrugada, ainda escuro, foi despertada por uma porta batendo no corredor. Permaneceu deitada, recordan­do o que havia sonhado. Estava na casa de Brita e August. Eles conversavam com ela, ambos sentados no sofá vermelho-escuro, e ela de pé na frente deles. De repente percebeu que estava nua. Tentou se cobrir e ir embora, mas não conseguia. As pernas pa­reciam paralisadas. Ao olhar para baixo, viu que os pés estavam presos por tábuas do assoalho.

Foi nessa hora que acordou. Aguçou os ouvidos na escuri­dão. Vozes altas, bêbadas, se aproximavam e se afastavam. Es­piou o relógio. Quinze para as cinco. Faltava um bom tempo antes de amanhecer. Ela se ajeitou na cama para voltar a dormir, mas foi assaltada por um pensamento.

A chave pendurada no prego. Ela se sentou na cama. Ob­viamente era algo proibido e disparatado. Apoderar-se daquilo que estava dentro do gaveteiro. E não ficar simplesmente à es­pera de que algum policial talvez viesse a se interessar pelo que havia ali.

Saiu da cama e ficou parada junto à janela. Tudo quieto, deserto. Posso fazer isso, ela pensou. Se tiver sorte posso conse­guir que essa investigação não fique simplesmente encalhada na lama como o pior caso com que já me deparei, o assassinato do nosso primeiro-ministro. Mas estaria tomando a lei nas minhas mãos, e algum zeloso promotor poderia convencer um juiz es­túpido de que estive interferindo numa investigação criminal.

Pior ainda era o vinho que tinha tomado. Seria desastroso sei presa por dirigir embriagada. Tentou calcular quantas horas haviam se passado desde que jantara. A esta altura o álcool já cslaria fora de sua circulação. Mas não tinha certeza.

Eu não deveria fazer isso, raciocinou. Mesmo que o policial de plantão esteja dormindo. Não posso fazer isso.

Então vestiu-se e saiu do quarto. O corredor estava vazio. Kla pôde ouvir vozes dos diversos quartos onde a festa ainda continuava. Chegou a pensar que ouvia um casal fazendo amor.

Na recepção não havia ninguém. Viu de relance as costas de uma mulher loira no recinto atrás do balcão.

O frio a castigou ao sair do hotel. Não havia vento; o céu estava claro; estava muito mais frio que na noite anterior.

Dentro do carro, Birgitta Roslin refletiu melhor. Mas a tentação era simplesmente grande demais. Ela queria ler mais da­quele diário.

Não havia tráfego nenhum na rodovia. A certa altura deu uma freada brusca, pensando ter vislumbrado um alce junto à neve amontoada na beira da estrada, mas era apenas um tronco de árvore.

Ao chegar ao último morro antes da descida para a aldeia, ela parou e desligou os faróis. Sempre trazia uma lanterna no porta-luvas. Pôs-se a caminhar cuidadosamente ao longo da es­trada. Vez ou outra parava para escutar. Uma leve brisa soprava na folhagem das copas invisíveis das árvores. No topo do morro, observou que ainda havia dois holofotes de busca acesos e um carro de polícia estacionado em frente à casa mais próxima das árvores. Poderia aproximar-se da casa de Brita e August sem ser vista. Cerrou a mão em torno da lanterna, passou pelo portão para entrar no quintal da casa vizinha e esgueirou-se até a porta de entrada. Nenhum sinal de vida no carro de polícia. Tateou às escuras até encontrar a chave.

Uma vez dentro da casa, Birgitta Roslin sentiu um arrepio. Tirou uma sacola plástica do bolso do casaco e abriu a gaveta com toda a cautela.

A lanterna se apagou. Roslin a sacudiu, mas não conseguiu trazê-la de volta à vida. Ainda assim, começou a encher a sacola com as cartas e os diários. Um dos maços de cartas escorregou da sua mão, e ela passou um bom tempo apalpando o chão frio até encontrá-lo.

Aí correu de volta para o carro. A recepcionista a fitou estar­recida quando ela entrou novamente no hotel.

Ficou tentada a começar a ler imediatamente, mas resolveu que seria melhor ter uma ou duas horas de sono antes. Às nove da manhã, pegou emprestada uma lupa no balcão da recepção e sentou-se à mesa, que havia empurrado para perto da janela. O pessoal de propaganda estava fazendo suas despedidas antes de se meter nos carros e micro-ônibus. Ela pendurou na maçaneta da porta a placa de não perturbar, e aí voltou sua atenção ao diário que tinha começado a ler. Era um trabalho lento — algu­mas palavras, até mesmo sentenças, ela foi incapaz de decifrar.

O autor não dava nenhum nome, só as iniciais J. A. Por alguma razão, quase nunca usava a primeira pessoa ao referir-se a si mesmo, preferindo as iniciais J. A. Ela lembrou-se da se­gunda carta que havia encontrado entre os papéis de sua mãe. Jan August Andrén. Devia ser ele. Trabalhava como capataz na construção da ferrovia que serpenteava vagarosamente para o leste através do deserto de Nevada, um sujeito que descrevia em detalhes seu papel no empreendimento. Como se submete­ra prontamente aos que estavam acima dele na hierarquia, que o impressionaram com o poder que impunham. Suas doenças, inclusive uma febre persistente que o impediu de trabalhar por um longo tempo.

Em alguns pontos sua caligrafia ficava trêmula. J. A. des­crevia "temperatura elevada, e sangue nos freqüentes e doloro­sos vômitos" que o afligiam. Birgitta Roslin quase podia sentir o medo da morte que irradiava das páginas do diário. Como J. A. não datava a maioria das suas anotações, ela foi incapaz de jul­gar por quanto tempo ele estivera doente. Numa das páginas subsequentes, ele escreveu seu último desejo e testamento: "Ao amigo Herbert J. A. deixa suas melhores botas e outras roupas, e para o sr. Harrison, o rifle e o revólver, e roga a ele que informe os parentes na Suécia que ele faleceu. Dar dinheiro ao padre da ferrovia para ele poder arranjar um funeral decente com pelo menos dois hinos de louvor. Eu não suspeitava que minha vida terminaria tão cedo. Que Deus o ajude".

Porém, J. A. não morreu. Abruptamente, sem nenhum es­tágio de transição evidente, ele está curado e novamente bem.

Assim, J. A. parece ter sido um capataz na Central Pacific Company, que construía uma ferrovia a partir do oceano Pacífi­co até um ponto no meio do continente onde se juntaria com a linha vinda da costa Leste. Às vezes ele se queixa de que os tra­balhadores "são excessivamente preguiçosos", e por isso precisa manter uma atenção estrita sobre eles. Os que o aborrecem mais são os irlandeses, porque bebem muito e começam a trabalhar tarde de manhã. Ele calcula que será forçado a despedir um em cada quatro operários irlandeses, o que haverá de criar graves problemas. É impossível empregar índios americanos, pois eles se recusam a trabalhar da maneira exigida. Os negros são mais fáceis, porém ex-escravos que fugiram ou foram libertados não estão dispostos a obedecer a suas ordens. J. A. escreve que "uma força de trabalho de decentes camponeses suecos seria preferí­vel a todos os pouco confiáveis operários chineses e irlandeses bêbados".

Birgitta Roslin sentiu que seus olhos se ressentiam do es­forço para decifrar o texto, e freqüentemente precisava deitar-se na cama, fechar os olhos e descansar. Resolveu explorar um dos três maços de cartas. Mais uma vez, J. A. A mesma caligrafia quase ilegível. Ele escreve para os pais e conta-lhes como está se saindo. Há uma nítida diferença entre aquilo que J. A. anota no diário e o que escreve em suas cartas para casa. Se o que escreve no diário for verdade, as cartas estão cheias de mentiras. No diá­rio, anotou que seu salário mensal era de onze dólares. Em uma das primeiras cartas para casa, diz que seus "patrões estão tão contentes comigo que estou ganhando agora 25 dólares por mês, que é o que um fiscal de impostos recebe aí na Suécia". Ele está se vangloriando, ela pensa.

Birgitta Roslin leu mais cartas e descobriu mais mentiras, uma mais estarrecedora que a outra. Ele de repente arranja uma noiva, uma cozinheira chamada Laura que vem de "uma família bem posicionada na alta sociedade de Nova York". A julgar pela data da carta, isso foi quando estava perto de morrer e escreveu seu testamento. Talvez Laura tenha aparecido em um de seus sonhos delirantes.

O homem que Birgitta Roslin estava tentando apreender era escorregadio, alguém cjue sempre dava um jeito de escapar.

Ela começou a folhear as cartas e os diários com impaciência cada vez maior.

Entre os diários ela encontrou um documento que presu­miu ser um comprovante de pagamento. Em abril de 1864, Jan August Andrén pagara onze dólares a seus operários. Agora Bir­gitta tinha certeza de que se tratava do mesmo homem que havia escrito a carta que ela encontrara entre os papéis de sua mãe.

Espiou pela janela. Um homem solitário limpava a neve com uma pá. Certa vez um homem solitário chamado Jan Au­gust Andrén emigrou de Hesjövallen, ela refletiu. Acabou em Nevada, trabalhando numa estrada de ferro. Tornou-se capataz e parece não ter se afeiçoado muito àqueles sob seu comando. A noiva que inventou bem que podia ter sido uma daquelas "mu­lheres soltas que gravitam em torno dos canteiros de obras da ferrovia", como detalhava uma das anotações no diário. Doenças venéreas eram correntes entre a mão de obra. Putas que seguiam a ferrovia eram nocivas. Não apenas porque operários com doen­ças venéreas precisavam ser demitidos, mas porque elas eram o pivô de brigas violentas que causavam atrasos na obra.

Num dos casos, J. A. descreve como um irlandês chamado O'Connor fora condenado à morte por assassinar um trabalha­dor escocês. Ambos estavam bêbados e acabaram brigando por causa de uma mulher. O'Connor agora devia ser enforcado, e o juiz que viajara até a obra para presidir o julgamento concorda­ta que o enforcamento não precisava acontecer na cidade mais próxima, mas podia ser levado a cabo num morro perto do ponto que os trilhos da ferrovia haviam alcançado. Jan August Andrén escreve: "Gosto da idéia de todo mundo poder ver o que a bebe­deira e a violência causam".

Ele descreve o irlandês como jovem, com "pouco mais de uma penugem no queixo".

A execução vai ocorrer bem cedo, pouco antes de começar o turno da manhã. Nem mesmo um enforcamento pode justi­ficar um único dormente ou cavilha sendo colocados depois do horário previsto. Ao capataz coube garantir que todos compare­ceriam à execução. Sopra um vento forte. Jan August Andrén amarra um lenço em torno do nariz e da boca ao verificar se sua equipe deixou as barracas em direção ao morro onde ocor­rerá o enforcamento. O cadafalso fica numa plataforma feita de dormentes recém-embebidos em piche. No instante em que O'Connor estiver morto o cadafalso será desmontado e os dor­mentes reenviados ao local onde os trilhos estão sendo assenta­dos. O condenado chega, cercado de guardas armados. Também há um padre presente. Andrén descreve a cena: "Um murmúrio de discordância pode ser ouvido em meio aos homens reunidos. Por um momento seria possível supor que os resmungos são diri­gidos ao carrasco, mas então se percebe que cada um dos presen­tes está aliviado de não ser ele quem terá o pescoço quebrado. Posso imaginar que muitos deles, que detestam a faina diária, sentem agora um bem-aventurado deleite diante da perspectiva de hoje poder carregar trilhos de aço, jogar cascalho com a pá e assentar dormentes".

Ocorre a Birgitta Roslin que Andrén escreve como um repór­ter do noticiário criminal à antiga. Mas estaria escrevendo para si próprio, ou talvez para algum leitor desconhecido no futuro? De outra maneira, por que utilizar termos como "bem-aventu­rado deleite"?

O'Connor se arrasta acorrentado como que num transe, mas de repente se anima aos pés do cadafalso e começa a berrar e brigar por sua vida. O desconforto entre o grupo de homens faz-se mais audível, e Andrén escreve que é "terrível assistir a esse jovem lutando pela vida que ele sabe que está prestes a per­der. Ele é levado até a corda, chutando e gritando, e continua rugindo até o alçapão se abrir e seu pescoço se quebrar". Nesse momento o murmúrio cessa, e segundo Andrén faz-se um "si­lêncio total, como se todos os presentes tivessem ficado mudos, sentindo seus próprios pescoços sendo quebrados".

Ele se expressa bem, pensou Roslin. Um homem com emo­ções, que sabe escrever.

O cadafalso é desmontado, o corpo e os dormentes desapa­recem, um em uma direção, os outros em outra. Há uma briga cnlre vários chineses que querem a corda usada para enforcar O'Connor.

O telefone tocou. Era Sundberg.

"Acordei você?"

"Não."

"Pode dar uma descida? Estou na recepção."

"Do que se trata?"

"Desça e eu lhe digo."

Vivi Sundberg estava esperando junto à lareira.

"Vamos sentar", ela disse, apontando para algumas cadeiras e um sofá em torno de uma mesa num canto.

"Como você sabia que eu estava hospedada aqui?"

"Andei fazendo umas perguntas por aí."

Roslin começou a suspeitar do pior. Sundberg estava reser­vada, fria. Ela foi direto ao assunto.

"Nós não somos totalmente desprovidos de olhos e ouvidos, sabe?", começou. "Mesmo que sejamos apenas policiais provin­cianos. Você sem dúvida sabe do que eu estou falando."

"Não."

"Estamos dando pela falta do conteúdo de um gaveteiro na casa em que eu tive a gentileza de deixá-la entrar. Pedi-lhe que não tocasse em nada. Mas você tocou. Deve ter voltado lá em algum momento durante a noite. Na gaveta que você esva­ziou havia cartas e diários. Vou esperar aqui enquanto você vai pegá-los. Havia cinco ou seis diários? Quantos maços de cartas? Traga tudo para baixo. Quando trouxer, vou ser boazinha o bas­tante para esquecer tudo. E pode ficar contente por eu ter me dado ao trabalho de vir até aqui."

Birgitta Roslin pôde sentir que estava ficando vermelha. Fora apanhada em flagrante, com a mão na cumbuca. Não ha­via nada que pudesse fazer. A juíza fora descoberta.

Levantou-se e foi até o quarto. Por um breve momento sen­tiu-se tentada a manter o diário que estava lendo naquela hora, mas não tinha idéia de quanto exatamente Sundberg sabia. Sua aparente incerteza em relação ao número de diários não era necessariamente significativa — ela podia estar testando a honestidade de Roslin. Levou para a recepção tudo o que pegara. Vivi Sundberg tinha uma sacola de papel onde colocou todas as cartas e diários.

"Por que você fez isso?"

"Eu estava curiosa. Só posso pedir desculpas."

"Há alguma coisa que você não tenha me contado?"

"Não tenho motivos ocultos."

Sundberg a encarou criticamente. Roslin sentiu que enrubesceu mais uma vez. Sundberg levantou-se. Apesar da complei­ção robusta e do excesso de peso, movia-se com agilidade.

"Deixe a polícia cuidar desse negócio", recomendou. "Não vou botar a boca no trombone a respeito da sua excursão no­turna. Vamos esquecer. Agora, vá para casa, e eu vou continuar meu trabalho."

"Peço desculpas."

"Você já pediu."

Sundberg deixou o hotel e entrou no carro de polícia que a esperava. Birgitta Roslin observou o carro se afastar numa nu­vem de neve. Subiu para o quarto, pegou um casaco e saiu para dar uma volta em torno do lago coberto de gelo. O vento soprava em gélidas rajadas. Ela curvou a cabeça. Sentia-se ligeiramente envergonhada.

Deu uma volta ao redor do lago e estava aquecida e suada ao retornar ao hotel. Após tomar um banho e trocar de roupa, pensou no que havia acontecido.

Àquela altura tinha visto o quarto da mãe e sabia que foram os pais adotivos dela que tinham sido assassinados. Era hora de ir para casa.

Desceu para a recepção e pediu para ficar com o quarto por mais uma noite. Então pegou o carro e foi até Hudiksvall, achou uma livraria e comprou um livro sobre vinhos. Pensou em co­mer outra vez no restaurante chinês onde estivera na véspera, mas em vez disso escolheu um restaurante italiano. Demorou-se na refeição e leu os jornais sem se incomodar em ver o que esta­va escrito sobre Hesjövallen.

Guiou de volta para o hotel, leu algumas páginas do livro que havia comprado e foi cedo para a cama.

Foi despertada pelo telefone. Estava escuro como breu. Quando atendeu, não havia ninguém na linha. Nenhum núme­ro no identificador de chamadas.

De repente sentiu-se incomodada. Quem teria telefonado?

Antes de voltar a dormir certificou-se de que a porta estava trancada. Então espiou pela janela. Não havia sinal de ninguém na estradinha que conduzia ao hotel. Voltou para a cama, pen­sando que no dia seguinte faria a única coisa sensata a fazer.

Iria para casa.

 

Estava na sala do café da manhã às sete. As janelas davam para o lago, e ela percebeu que o vento soprava forte. Um ho­mem se aproximou, puxando um pequeno trenó que levava duas crianças bem agasalhadas. Ela se recordou dos dias em que gas­tara tanto tempo e energia arrastando seus filhos morro acima para que eles pudessem deslizar de volta. Fora um dos períodos mais marcantes de sua vida — brincar com os filhos na neve e ao mesmo tempo preocupar-se com o julgamento de algum processo complicado. Os gritos e risos das crianças contrastavam com as assustadoras cenas criminais.

Certa vez fizera as contas e concluíra que no decorrer de sua carreira mandara para a prisão três assassinos e sete pessoas culpadas de homicídio. Para não mencionar os vários outros condenados por lesões corporais graves, que podiam se conside­rar afortunados de seus crimes não terem resultado em morte.

O pensamento a deixou preocupada. Medir suas atividades e esforços em termos do número de pessoas que ela mandara para a prisão — seria este realmente o somatório do trabalho de sua vida?

Enquanto comia evitou olhar os jornais, que naturalmente chafurdavam nos acontecimentos de Hesjövallen. Em vez disso, escolheu um suplemento de negócios e folheou as listas do mer­cado de ações e discussões sobre a porcentagem de mulheres que ocupavam a diretoria das empresas suecas. Não havia muita gente tomando o desjejum. Encheu novamente a xícara de café e imaginou se seria uma boa idéia pegar uma rota diferente na volta para casa. Um pouquinho mais para oeste, quem sabe, tal­vez pelas florestas de Värmland?

Foi interrompida em seus pensamentos por alguém que se dirigiu a ela. Um homem sentado sozinho numa mesa a alguns metros.

"Está falando comigo?"

"Só estou imaginando o que Vivi Sundberg queria."

Ela não reconheceu o sujeito e de fato não entendeu a que a pergunta se referia. Antes de ter oportunidade de responder, ele se levantou e veio até sua mesa. Puxou uma cadeira e sentou.

Tinha por volta de sessenta anos, cara vermelha e sobrepeso, a respiração ofegante.

"Eu gostaria de tomar o meu café da manhã em paz."

"Você já acabou. Só quero lhe fazer algumas perguntas."

"Eu nem mesmo sei quem você é."

"Lars Emanuelsson. Jornalista freelancer. Não sou repórter. Sou mais que isso. Não sou picareta. Faço meu dever de casa, e o que escrevo é meticulosamente pesquisado e escrito com elegância"

"Isso não lhe dá o direito de me impedir de tomar o meu café da manhã em paz."

Lars Emanuelsson levantou-se, e em seguida se sentou à mesa ao lado.

"Melhor assim?"

"Um pouco. Para quem você escreve?"

"Ainda não resolvi. Primeiro preciso ter a história, depois resolvo para quem oferecer. Eu não vendo meu trabalho para qualquer um."

Birgitta ficou irritada com a autoimportância que ele se dava. Também sentiu repulsa por seu odor — devia fazer um bom tempo que ele não tomava banho. Mostrava-se como a ca­ricatura do repórter invasivo.

"Notei que você teve um papo ontem com Vivi Sundberg. Não foi uma troca de idéia especialmente cordial, diria eu. Mais pareciam dois gaios de briga marcando território. Acertei?"

"Errou. Não tenho nada a lhe dizer."

"Mas você não pode negar que falou com ela, pode?"

"Claro que não posso."

"Eu fico pensando o que uma juíza de outra cidade está fazendo aqui. Você deve ter algo a ver com esta investigação. Coisas horríveis acontecem num pequeno povoado no norte, e Birgitta Roslin vem correndo de Helsingborg."

Ela ficou ainda mais cautelosa.

"O que você quer? Como sabe quem eu sou?"

"Tudo se resume a métodos. Nós passamos a vida toda bus­cando a melhor maneira de obter resultados. Presumo que isto também se aplique a juizes. Vocês têm regras e regulamentos. Mas cada um escolhe os próprios métodos. Não sei quantas in­vestigações criminais eu já cobri. Passei um ano inteiro — ou, para ser mais preciso, trezentos e sessenta e seis dias — acompa­nhando a investigação de Palme. Percebi bastante cedo que o assassino nunca seria apanhado porque a investigação encalhou antes mesmo de deslanchar. Era óbvio que a parte culpada ja­mais apareceria perante a Corte porque a polícia e os promoto­res não estavam tentando solucionar o assassinato; estavam mais interessados em aparecer no horário nobre da televisão. Muita gente assumiu que o culpado era Christer Pettersson. Com exce­ção dos investigadores sadios e sensatos que perceberam que essa acusação estava errada, completamente errada. Mas ninguém prestou atenção a eles. Quanto a mim, prefiro rondar pela peri­feria, ver as coisas do lado de fora. Deste modo eu consigo notar coisas que escapam aos outros. Por exemplo, uma juíza receben­do a visita de uma investigadora policial que possivelmente não tem tempo para mais nada a não ser o caso em que está ocupada da manhã até a noite. O que foi que você entregou a ela?"

"Não vou responder a esta pergunta."

"Então eu interpreto que você está profundamente envolvi­da no que aconteceu. Já posso ver a manchete, Juíza de Skane envolvida no drama de Hesjövallen."

Ela bebeu o resto do café e se levantou. Ele a seguiu até a recepção.

"Se me der uma dica, posso retribuir com generosidade."

"Não tenho absolutamente nada a lhe dizer. Não porque tenha segredos, mas porque não sei de nada que pudesse ser do interesse de um repórter."

Lars Emanuelsson fez uma expressão amuada. "Repórter, não. Jornalista freelancer. Vamos encarar os fatos. Eu não cha­mo você de rábula."

"Foi você que me ligou na noite passada?"

"Hein?"

"Então foi. Pelo menos agora eu sei."

"Você está dizendo que o seu celular tocou? No meio da noite? Quando você estava dormindo? Será que é uma pista que eu devo seguir?"

Birgitta não respondeu e apertou o botão para chamar o elevador.

"Há uma coisa que você deveria saber", disse Lars Ema­nuelsson. "A polícia está omitindo um detalhe importante. Se é que você pode chamar uma pessoa de detalhe."

A porta do elevador se abriu; ela entrou.

"Não foram apenas pessoas velhas que morreram. Havia um menino numa das casas."

A porta fechou-se. Quando chegou a seu andar, apertou novamente o botão para descer. Ele estava à sua espera, não se movera um centímetro. Sentaram-se. Lars Emanuelsson acen­deu um cigarro.

"Não é permitido fumar aqui dentro."

"Tenho coisas mais sérias com que me preocupar."

Sobre a mesa havia um vaso de planta que ele usou como cinzeiro.

"Você sempre precisa procurar o que a polícia não conta. O que eles escondem pode revelar o raciocínio deles, a alavanca com que pensam conseguir identificar o responsável. Em meio a todos aqueles mortos havia um garoto de doze anos. Eles sa­bem quem são os familiares do menino, e por que ele estava na aldeia. Mas não estão contando isso ao público em geral."

"E como você sabe?"

"Esse é o meu segredo. Numa investigação como esta há sempre um vazamento em potencial. É uma questão de identifi­cá-lo, e aí escutar com a máxima atenção."

"Quem é o garoto?"

"No momento ele é um fator desconhecido. Eu sei o nome dele, mas não vou dizer. Ele estava visitando parentes. Na ver­dade, deveria estar na escola mas estava convalescendo de uma operação no olho. O pobre menino era estrábico. Endireitaram o olho dele e aí o menino foi morto. Como os velhos na casa em que estava. Mas não foi bem a mesma coisa."

"Qual foi a diferença?"

Emanuelsson recostou-se na cadeira. Sua barriga se esparra­mava sobre o cinto. Roslin o achou totalmente repugnante. Ele sabia disso, mas não se importou.

"Agora é a sua vez. Vivi Sundberg, os cadernos, e as cartas."

"Eu sou parente distante de algumas pessoas que foram mortas. Dei a Sundberg um material que ela pediu."

Ele ergueu os olhos e a encarou. "Você espera que eu acre­dite nisso?"

"Você pode acreditar no que bem entender."

"Que cadernos? Que cartas?"

"Eram sobre situações de família."

"Que família?"

"Brita e August Andrén."

Ele fez um meneio pensativo, depois apagou o cigarro com inesperada energia.

"Casa número dois ou sete. A polícia deu a cada casa um código. A casa número dois é chamada dois barra três — o que obviamente significa que ali encontraram três corpos."

Ele continuou examinando-a atentamente enquanto tirava do maço amarrotado um cigarro fumado pela metade.

"Isso não explica por que a conversa de vocês teve um tom tão frio."

"Ela estava com pressa. O que houve de diferente na morte do garoto?"

"Não consegui descobrir todos os detalhes. Devo admitir que a polícia de Hudiksvall e o pessoal que chamaram do De­partamento de Investigação Criminal de Estocolmo estão man­tendo o bico excepcionalmente fechado. Mas acho que estou certo quando digo que o garoto não foi exposto à violência injustificada."

"O que você quer dizer com isso?"

"Estou dizendo que ele foi morto sem ter de experimentar antes tortura, sofrimento e medo desnecessários. Você pode ti­rar várias conclusões disso, cada uma mais provável porém mais falsa que a anterior. Mas vou deixar você fazer isso sozinha. Se estiver interessada."

Ele se levantou, apagando mais uma vez o cigarro no vaso da planta.

"É melhor eu voltar a circular", disse. "Talvez nos encontre­mos novamente. Quem sabe?"

Ela o observou cruzar a porta. Uma recepcionista passou e parou ao sentir o cheiro de fumaça.

"Não fui eu", disse Birgitta Roslin. "Fumei meu último ci­garro quando tinha trinta e dois anos, deve ter sido mais ou me­nos na época que você nasceu."

Ela subiu ao quarto para empacotar as coisas. Porém parou junto à janela, assistindo ao esforço do persistente pai com o trenó e os filhos. O que dissera exatamente aquele homem de­sagradável? E era mesmo tão desagradável quanto ela achava? Sem dúvida, estava fazendo seu trabalho. E ela não fora particularmente cooperativa. Se o houvesse tratado de forma diferente, talvez ele tivesse mais a lhe contar.

Birgitta sentou-se diante da pequena escrivaninha e come­çou a fazer anotações. Como de hábito, conseguia pensar com mais clareza quando tinha uma caneta na mão. Não havia lido em lugar nenhum que um menino fora assassinado. Ele tinha sido a única pessoa jovem a ser morta, a menos que houves­se outras vítimas desconhecidas do grande público. O que Lars Emanuelsson dissera sobre a violência excessiva só podia signifi­car que os outros da casa tinham sido brutalmente espancados, talvez até mesmo torturados, antes de serem mortos. Por que o menino fora poupado disso? Só por ser novo demais? O assassino levara isso em consideração? Ou haveria algum outro motivo?

Não existiam respostas óbvias. E, de qualquer modo, o pro­blema não era dela. Ainda se sentia envergonhada com o que acontecera no dia anterior. Sua conduta fora indefensável. Não ousava pensar no que teria ocorrido se algum jornalista a tivesse descoberto. Seu retomo a Skane teria sido humilhante, para di­zer o mínimo.

Arrumou sua valise e preparou-se para deixar o quarto. Mas antes ligou a televisão para saber a previsão do tempo, que a ajudaria a resolver que caminho tomar. Deu de cara com a trans­missão de uma coletiva de imprensa no quartel-general da po­lícia em Hudiksvall. Havia três pessoas sentadas num pequeno palanque, e a única mulher era Vivi Sundberg. Seu coração dis­parou — e se Sundberg estivesse prestes a anunciar que uma juí­za de Helsingborg fora descoberta como uma ladrazinha barata? Sentou-se na beirada da cama e aumentou o som. O homem ao centro, Tobias Ludwig, estava falando.

Birgitta percebeu que se tratava de uma transmissão ao vivo. Quando Tobias Ludwig terminou o que tinha a dizer, a terceira pessoa — o promotor Robertsson — puxou o microfone para si e disse que a polícia necessitava desesperadamente de qualquer informação relevante que pudesse obter da população em geral. Carros de fora, estranhos que haviam sido notados na vizinhan­ça, qualquer coisa que parecesse incomum.

Quando o promotor terminou, foi a vez de Vivi Sundberg. Ela segurava um saco plástico. A câmera aproximou-se num zoom. Havia uma fita vermelha dentro. Sundberg disse que a polícia gostaria de saber se alguma pessoa reconhecia aquela fita.

Birgitta Roslin inclinou-se em direção à tela. Não tinha visto uma fita de seda como aquela dentro do saco plástico? Ajoe­lhou-se para ter uma visão melhor. A fita certamente a fazia lem­brar de algo. Vasculhou o cérebro, mas não conseguiu localizar o quê.

A coletiva prosseguiu até o ponto em que os jornalistas co­meçaram a fazer perguntas. A imagem sumiu da tela. A sala da polícia foi substituída por um mapa meteorológico. Precipita­ções de neve castigariam a costa leste vindas do golfo da Fin­lândia.

Birgitta Roslin decidiu pegar a rota pelo interior. Pagou a conta no balcão de entrada e disse à moça em serviço que ti­nha apreciado a estadia. Soprava um vento frio e desagradável quando ela tomou o caminho do carro. Pôs a valise no banco traseiro, estudou o mapa e resolveu passar por dentro da floresta até Järvsö, e dali seguiu rumo ao sul.

Quando chegou à estrada principal, encostou na primeira área de acostamento. Não conseguia parar de pensar na fita ver­melha que vira na tevê. Lembrava-se de ter visto uma fita idênti­ca, mas não localizava onde ou quando. Estava quase chegando lá, mas não conseguia dar o último passo. Se eu vim até aqui, seguramente vou ser capaz de descobrir, ela pensou, e telefonou para a polícia. Caminhões com troncos de árvores rugiam ao passar, levantando densas nuvens de neve que limitavam a visão. Levou algum tempo até o telefone ser atendido. A telefonista que atendeu parecia aflita. Roslin pediu para falar com Erik Huddén.

"Está relacionado com a investigação", explicou. "Hesjöval­len."

"Acho que ele está ocupado. Vou tocar lá."

Quando ele veio ao telefone, ela já tinha começado a ter ou­tros pensamentos. Ele também soou impaciente e sob pressão.

"Huddén."

"Não sei se você se lembra de mim", ela disse. "Sou a juíza que insistiu em falar com Vivi Sundberg."

"Sim, lembro."

Ela se perguntou se Sundberg teria dito alguma coisa sobre o que acontecera naquela noite. Mas teve a nítida impressão de que Huddén não sabia de nada. Talvez Sundberg tivesse real­mente mantido a coisa só para si, como prometera. Quem sabe eu esteja sendo beneficiada pelo fato de ela ter quebrado as re­gras ao meu deixar entrar na casa?

"E sobre a fita vermelha mostrada na tevê", disse.

"Hum, creio que foi um grande erro mostrar aquilo", retru­cou Huddén.

"Por quê?"

"Nossa mesa telefônica praticamente pegou fogo graças a todas as pessoas que alegam ter visto a fita. Geralmente em em­brulhos de presentes de Natal."

"Minha memória me diz algo bem diferente. Penso que a vi."

"Onde?"

"Eu não sei. Mas não tem nada a ver com presentes de Natal."

Ele respirava pesadamente do outro lado da linha e parecia ter dificuldade em tomar uma decisão.

"Posso lhe mostrar a fita", acabou dizendo. "Se você vier imediatamente."

"Em meia hora?"

"Você vai ter dois minutos, não mais."

Encontraram-se na recepção, ele tossia e fungava. O saco plástico com a fita vermelha estava sobre a mesa em sua sala. Ele a tirou do saco e a depositou sobre uma folha de papel branco.

"Ela mede exatamente dezenove centímetros", ele infor­mou. "E um centímetro de largura. Há um furo numa das extre­midades, sugerindo que ela estava presa a alguma coisa. É feita de algodão e poliéster, mas dá a impressão de ser feita de seda. Nós a encontramos na neve. Um dos cães a farejou."

Ela tinha certeza de que a reconhecia, mais ainda não con­seguia se lembrar de onde.

"Eu a vi", insistiu. "Posso jurar que vi. Talvez não especifi­camente esta, mas algo idêntico."

"Onde?"

"Não consigo me lembrar."

"Se você viu uma similar em Skane, pouco vai nos ajudar."

"Não", ela disse com seriedade. "Foi por aqui."

Examinou cuidadosamente a fita enquanto Erik Huddén recostava-se contra a parede, aguardando.

"Ainda não consegue localizar?"

"Não, acho que não."

Ele recolocou a fita dentro do saco plástico e a acompa­nhou de volta à recepção.

"Se sua memória voltar, pode nos telefonar", ele disse. "Mas, se for apenas uma fita em volta de um presente de Natal, não se dê ao trabalho."

Lars Emanuelsson estava parado do lado de fora, à espera dela. Usava um gorro de pele enterrado até a testa. Ficou aborre­cido quando percebeu que ela o tinha desmascarado.

"Por que você está me seguindo?"

"Não estou. Estou circulando, como já disse. Acontece que vi você entrando aqui na central de polícia e achei melhor espe­rar para ver o que acontecia. Neste momento estou imaginando o que significou essa breve visita."

"É algo que você nunca vai saber. Agora me deixe em paz, antes que eu fique realmente aborrecida."

Ela deu meia-volta e se afastou, mas o ouviu dizer ainda: "Não se esqueça do que eu posso escrever".

Ela virou-se zangada.

"Você está me ameaçando?"

"Não, absolutamente."

"Eu lhe disse por que estou aqui. Não há nenhuma razão para me envolver no que está acontecendo."

"O público lê o que está escrito, seja verdade ou não."

Então foi a vez de Lars Emanuelsson dar meia-volta e ir embora. Ela o olhou com repulsa, esperando nunca mais voltar a vê-lo.

Birgitta Roslin voltou para o carro. Tinha acabado de sen­tar-se atrás do volante quando a ficha caiu, e ela se lembrou de onde tinha visto aquela fita vermelha. Simplesmente veio do nada, sem aviso. Poderia estar enganada? Não, ela podia ver tudo com seu olho interno, claro como o dia.

Esperou duas horas, pois o local que queria visitar estava fechado. Matou o tempo vagando sem destino pela cidade, im­paciente por não poder se certificar imediatamente daquilo que julgava ter descoberto.

Eram onze horas quando o restaurante chinês abriu. Bir­gitta Roslin entrou e sentou-se no mesmo lugar que da outra vez. Examinou as luminárias que pendiam sobre as mesas. Eram feitas de material transparente, um plástico fino feito para dar a impressão de lanternas cobertas de papel. Eram finas e compridas, em forma de cilindro. Quatro fitas vermelhas pendiam da parte inferior.

Após sua visita à central de polícia já sabia que cada fita tinha exatamente dezenove centímetros de comprimento. Esta­vam presas ao corpo da lâmpada por um pequeno gancho enfia­do num furo no alto da fita.

A jovem mulher que falava mal sueco trouxe o cardápio.

Sorriu ao reconhecer Birgitta Roslin. Ela escolheu o bufê, ape­sar de não estar com muita fome. Os pratos estavam dispostos para que ela se servisse, e isto lhe deu a oportunidade de exami­nar o salão. Em pouco tempo descobriu o que estava procuran­do, numa mesa para dois num dos cantos do fundo. A luminária pendurada sobre aquela mesa estava sem uma das fitas.

Ela se imobilizou e segurou a respiração.

Alguém estivera sentado ali, ela pensou. Nos fundos, no can­to mais escuro. Então havia se levantado, abandonado as preli­minares e tomado o rumo de Hesjövallen.

Ela olhou de um lado a outro do restaurante. A mulher jovem sorriu. Roslin pôde ouvir vozes vindas da cozinha, em chinês.

Ocorreu-lhe que nem ela nem a polícia tinham a menor idéia do que havia acontecido. Tudo era maior, mais profundo e mais misterioso do que qualquer um deles teria imaginado.

Eles não sabiam de absolutamente nada.

 

                                                                   A Ferrovia (1863)

                                                                                                     Passagem de Loushan

 

                       O vento ocidental geme forte,

                       gansos selvagens choram no céu, a lua da gelada manhã.

                     Gelada a lua da manhã, cascos de cavalos batem forte,

                       abafado o som da cometa...

                                           Mao Tsé-Tung, 1935

 

               O caminho para Cantão

Foi durante o período mais quente do ano de 1863. O se­gundo dia da longa caminhada de San e seus dois irmãos para a costa e a cidade de Cantão. De manhã cedo chegaram a uma encruzilhada onde encontraram três cabeças humanas espe­tadas em varas de bambu enfiadas no chão. Não conseguiram descobrir desde quando as cabeças estavam ali. Wu, o irmão ca­çula, calculava que jaziam havia pelo menos uma semana, pois os olhos e parte das bochechas já haviam sido dilaceradas pelos bicos dos corvos. Guo Si, o mais velho dos dois, insistia que as cabeças tinham sido cortadas apenas uns dois dias antes. Achava que as bocas retorcidas ainda retinham traços do horror diante do que estava para acontecer.

San nada disse. Eles haviam fugido de uma remota aldeia na província de Guangxi. As cabeças cortadas eram como uma advertência de que suas vidas continuariam em perigo.

Afastaram-se do local, que San chamou de Encruzilhada das Três Cabeças. Enquanto Guo Si e Wu discutiam se as ca­beças pertenciam a bandidos executados ou camponeses que haviam provocado o desagrado de algum poderoso senhor de terras, San refletia sobre os fatos que os haviam levado a pegar a estrada. A cada passo, mais longe ficavam suas vidas anteriores. Bem lá no fundo, provavelmente seus irmãos tinham a esperan­ça de que um dia poderiam retornar a Wei Hei, a aldeia onde cresceram. Mas não tinha certeza do que ele próprio esperava. Talvez camponeses pobres como eles jamais pudessem se desli­gar da miséria que tingia suas vidas. O que estaria à espera de­les em Cantão, para onde se dirigiam? Dizia-se que era possível embarcar clandestinamente em um navio e ser levado rumo ao leste pelo oceano, para um país onde havia rios repletos de relu­zentes pepitas de ouro do tamanho de ovos de galinha. Tais ru­mores haviam chegado até a remota aldeia de Wei Hei, aludindo a uma terra habitada por um estranho povo branco, uma terra tão rica que até mesmo gente simples da China poderia escapar da miséria e alcançar inimaginável riqueza e poder.

San não sabia o que pensar. Pessoas pobres sempre sonham com uma vida em que não haja um proprietário de terras a atormentá-las. Ele próprio sempre pensara dessa maneira, desde menino, quando se postava imóvel ao lado da estrada, de cabeça baixa, enquanto algum senhor poderoso passava em sua cadeirinha coberta. Com freqüência se perguntava como era possível que as pessoas tivessem vidas tão diferentes.

Uma vez fizera essa pergunta a seu pai e a resposta que recebeu foi um tapa na orelha. Não se questionava esse tipo de coisa. Os deuses nas árvores, nos rios e nas montanhas haviam criado o mundo em que nós humanos vivemos. Para que esse universo misterioso lograsse o equilíbrio divino, devia haver ricos e pobres, camponeses manejando os arados puxados por búfalos d'água e senhores de terras que raramente punham os pés no chão que lhes dera vida.

Nunca mais ele perguntou aos pais o que sonhavam quan­do se ajoelhavam ante seus ídolos. Eles viviam num estado de ir­remediável servidão. Existiriam pessoas que trabalhassem mais duro e recebessem tão pouco em troca? Ele jamais encontrara alguém a quem pudesse perguntar, uma vez que todos na aldeia eram igualmente pobres e temerosos do invisível senhor das terras, cujos feitores, armados de açoites, forçavam os camponeses a executar suas tarefas diárias. Ele vira pessoas irem do berço ao túmulo constantemente vergadas pela carga do árduo trabalho cotidiano. Era como se as costas das crianças se curvassem ainda antes que elas aprendessem a andar. As pessoas da aldeia dormiam em colchões que eram desenrolados toda noite e estendi­dos sobre o chão frio. Pousavam as cabeças em maços de duras varetas de bambu. Os dias seguiam o ritmo monótono ditado pelas estações. Aravam o solo andando atrás do fleumático búfalo d'água, plantavam arroz. Tinham esperança de que no ano seguinte a próxima colheita bastaria para alimentá-los. Quando a colheita fracassava, não havia praticamente nada para lhes dar sustento. Quando não restava mais arroz, eram obrigados a co­mer folhas.

Ou deitar-se e morrer. Não havia alternativa.

San despertou de seus devaneios. A noite começava a cair. Olhou ao redor em busca de um lugar adequado onde pudes­sem dormir. Havia um nicho de árvores ao lado da estrada, perto de pequenas rochas que pareciam ter sido arrancadas da monta­nha que os espreitava do horizonte a oeste. Desenrolaram seus finos colchões recheados de grama seca e dividiram o arroz que restava, que teria de durar até chegarem a Cantão. San olhou furtivamente para os irmãos. Será que conseguiriam? O que faria ele se um dos dois caísse doente? Ele próprio ainda se sentia forte. Mas não seria capaz de carregar sozinho um dos irmãos, se isso viesse a ser necessário.

Eles não conversavam muito entre si. San dissera que não deveriam desperdiçar em brigas e discussões a pouca energia que lhes restava.

"Cada palavra que você berra rouba de você alguns passos. Não são as palavras que importam, mas os passos que você preci­sa para chegar a Cantão."

Nenhum dos irmãos discordou. San sabia que confiavam nele. Agora que os pais não estavam mais vivos e eles haviam fugido, precisavam acreditar que San estava tomando as decisões corretas.

Eles se encolheram em seus colchões, arrumaram as tranças ao longo das costas e fecharam os olhos. San pôde ouvir como Guo Si adormeceu primeiro, e depois Wu. Embora os dois este­jam agora com vinte anos, com uma diferença de menos de um ano, ainda são menininhos, ele pensou. Eu sou tudo que têm.

Tudo a seu redor exalava lama e medo. Deitou-se de costas e fitou as estrelas.

Muitas vezes, depois de escurecer, sua mãe lhe mostrava o céu. Nessas ocasiões, seu rosto cansado se abria num sorriso. As estrelas proporcionavam algum consolo para a vida dura que ela levava. Normalmente vivia com a cara voltada para o chão, que abraçava seus pés de arroz como que esperando que ela se juntasse a eles algum dia daqueles. Quando olhava para as estrelas, mesmo por um breve momento, não precisava encarar a terra marrom a seus pés.

San deixou o olhar vagar pelo céu noturno. Sua mãe dera nome a algumas estrelas. Uma delas, especialmente brilhante numa constelação que lembrava um dragão, ela chamava de San.

"Aquela é você", dizia. "É de lá que você vem, e é para lá que vai voltar algum dia."

A idéia de ter vindo de uma estrela o deixava assustado. Mas não dizia nada, pois aquela idéia dava muito prazer a sua mãe.

Então pensou nos violentos incidentes que os forçaram a lngir. Um dos novos feitores do dono das terras, um homem chamado Fang, cujos dentes da frente apresentavam um vão enorme, viera reclamar que seus pais não haviam executado apropriadamente o trabalho do dia. San sabia que seu pai vinha sofrendo de fortes dores nas costas, sendo incapaz de suportar o peso do trabalho. A mãe o ajudara, mas mesmo assim não con­seguiram cumprir a tarefa. Agora Fang estava do lado de fora do casebre de barro, a língua deslizando para fora e para dentro entre o vão dos dentes como uma cobra ameaçadora. Fang era jovem, mais ou menos da mesma idade que San, mas os dois vinham de mundos diferentes. Fang se comprazia com os pais de San acocorados à sua frente, os dois de cabeça baixa e cha­péu de palha na mão; como se os considerasse insetos que ele podia esmagar com um pisão quando bem lhe aprouvesse. Se não fizessem o trabalho, seriam expulsos de sua casa e forçados a mendigar.

Durante a noite San ouvira os pais sussurrando entre si. Como era muito raro não adormecerem no instante em que se deitavam, ele escutou — mas não conseguiu entender o que estavam dizendo.

Na manhã seguinte o colchão de pano em que seus pais dormiam estava vazio. Sua reação imediata foi de medo. Todo mundo naquele mísero casebre acordava à mesma hora. Seus pais deviam ter saído em silêncio para não despertar os filhos. Ele se levantou cautelosamente, vestiu as calças esfarrapadas e a única camisa que possuía.

Quando saiu do casebre, o sol ainda não tinha nascido. O horizonte estava banhado por uma luz rosada. Um galo cantou em algum lugar nas proximidades. Os habitantes da aldeia co­meçavam a acordar. Todos, com exceção de seus pais. Eles pen­diam de uma árvore que fornecia sombra no período mais quen­te do ano. Os corpos balançavam lentamente na brisa matutina.

San tinha apenas uma vaga lembrança do que aconteceu a seguir. Não quis que os irmãos vissem os pais pendurados numa corda de boca aberta. Cortou as cordas com a foice que o pai usava no campo. Ambos caíram pesadamente sobre ele, como se quisessem arrastá-lo para a morte.

O ancião da aldeia, o velho Bao, que era meio cego e tremia tanto que mal conseguia ficar de pé, foi chamado pelos vizinhos. Bao aconselhou San e os irmãos a fugir. Fang poderia querer se vingar e jogá-los na cadeia perto de sua casa. Ou poderia exe­cutá-los. Não havia juiz na aldeia, a única lei aplicada era a do senhor das terras, e Fang falava e agia em nome dele.

Eles partiram imediatamente após o funeral dos pais. Ago­ra, ali estava ele, deitado sob as estrelas, os irmãos dormindo a seu lado. Não sabia o que o destino lhes reservava. O velho Bao dissera que deviam rumar para a costa, para a cidade de Cantão, onde poderiam procurar trabalho. San quis saber que tipo de trabalho encontrariam, mas o velho foi incapaz de dizer. Sim­plesmente apontou para o leste com a mão trêmula.

Haviam caminhado até os pés sangrarem e as bocas quei­marem de sede. Os irmãos haviam chorado a morte dos pais, e o destino desconhecido que os aguardava. San tentava consolá-los, mas também os apressava para que não andassem devagar de­mais. Fang era perigoso. Tinha cavalos e homens armados de lanças e espadas afiadas, e ainda poderia alcançá-los.

San continuou a olhar as estrelas no alto. Pensou no se­nhor das terras, que vivia num mundo inteiramente diferente, um mundo no qual os pobres não podiam pôr os pés. Nunca aparecia na aldeia, não passava de uma sombra ameaçadora, indistinguível da escuridão.

Ele acabou adormecendo. Em seus sonhos, as três cabeças cortadas vinham correndo em sua direção. San podia sentir o afiado gume da espada contra seu próprio pescoço. Os irmãos já estavam mortos, as cabeças tendo rolado na areia, sangue jorran­do dos tocos que um dia haviam sido seus pescoços. Repetidas vezes ele acordou para se livrar desse sonho, que todavia retorna­va toda vez que San voltava a dormir.

Partiram bem cedo na manhã seguinte, depois de beberem a água que restava no pequeno cantil amarrado com uma tira de pano em torno do pescoço de Guo Si. Precisavam achar água potável o mais breve possível. Caminharam depressa ao longo da estrada de pedras. As vezes cruzavam com alguém indo para o campo ou carregando uma carga pesada na cabeça e nos om­bros. San começou a se perguntar se essa estrada nunca acaba­ria. Talvez no final dela não encontrassem o mar. Talvez não existisse cidade nenhuma de nome Cantão. Mas nada disse a Guo Si e Wu. Isso lhes dificultaria a jornada.

Um pequeno cachorro preto com uma mancha branca no peito juntou-se ao trio. San não tinha idéia de onde ele viera; o cão simplesmente surgiu do nada. San tentou afugentá-lo, mas ele insistia em acompanhá-los. Tentaram jogar pedras nele. Mas ele persistiu e continuou a segui-los.

"Vamos chamar o cão de Dayang Bi An De Dachengshi, 'a grande cidade do outro lado do mar'", disse San. "Para abreviar, podemos chamá-lo de Dayang."

Ao meio-dia, quando o calor estava quase insuportável, descansaram sob uma árvore num pequeno vilarejo. Os aldeões lhes deram água e eles puderam encher o cantil. O cachorro ficou deitado aos pés de San, suando.

San o observou cuidadosamente. Havia algo especial na­quele cão. Teria sido enviado por sua mãe, um mensageiro do reino dos mortos? San não sabia. Sempre achara difícil crer em Iodos os deuses em que seus pais e os outros camponeses acredi­tavam. Como se podia rezar para uma árvore que era incapaz de responder, que não tinha ouvidos nem boca? Ou para um cão sem dono? Mas, se os deuses de fato existissem, agora era a hora que ele e os irmãos necessitavam de sua ajuda.

Eles continuaram a caminhada durante a tarde. A estrada serpenteava a sua frente, parecendo não ter fim.

Depois de mais três dias começaram a cruzar com mais e mais gente. Carroças passavam ruidosamente carregadas de junco e sacos de milho, enquanto outras vazias rumavam na direção oposta. San reuniu sua coragem e berrou para um homem sen­tado numa das carroças vazias:

"Qual é a distância até o mar?"

"Dois dias. Não mais. Amanhã vocês começam a sentir o cheiro de Cantão. Vai ser inevitável."

Ele riu e seguiu adiante em sua carroça. San o observou sumindo à distância. O que teria querido dizer ao sugerir que seria inevitável sentir o cheiro da cidade?

Na mesma tarde, subitamente deram de encontro a uma densa nuvem de borboletas. Eram amarelas e transparentes, e as asas soavam como farfalhar de papel. San parou no meio do enxame, em transe. Tinha a sensação de ter entrado numa casa com paredes feitas de asas. Eu adoraria ficar aqui, pensou. Gos­taria que esta casa não tivesse portas. Eu poderia ficar aqui, escu­tando o vôo das borboletas, até o dia de cair morto.

Mas seus irmãos estavam ali fora. Não podia abandoná-los. Usou as mãos para abrir uma fenda na parede de borboletas e sorriu para os irmãos. Não os deixaria na mão.

Passaram mais uma noite debaixo de uma árvore depois de comer um pouco do arroz que restava. Estavam famintos quan­do se encolheram para dormir.

No dia seguinte chegaram a Cantão. O cão ainda os acom­panhava. San estava mais e mais convencido de que sua mãe en­viara o animal do reino dos mortos para ficar de olho nos filhos e protegê-los. Jamais acreditara em todos esses absurdos. Mas agora, imóvel diante dos portões da cidade, começou a refletir se as coisas não seriam de fato assim.

Eles entraram na cidade apinhada que anunciava sua pre­sença com uma infinidade de odores desagradáveis, como eles haviam sido prevenidos. San receou perder de vista os irmãos na massa de gente desconhecida que tomava conta das ruas. Amar­rou uma longa corda em torno da cintura e a atou na cintura dos outros irmãos. Agora não havia meio de se perderem, a menos que alguém cortasse a corda. Lentamente avançaram através da multidão, atônitos com todas as enormes casas, templos e bens oferecidos à venda.

A corda que os prendia de repente se esticou. Wu apontou. San viu o que fizera o irmão se deter.

Havia um homem sentado numa liteira. Em geral as corti­nas ocultavam o ocupante, mas neste caso estavam abertas. Não havia dúvida de que o homem agonizava. Estava branco, como se alguém tivesse espalhado um pó branco por sua face. Ou tal­vez ele fosse o Mal? O diabo sempre mandava demônios de cara branca para aterrorizar o mundo. Além disso, não usava trança e tinha um rosto longo e feio, com um nariz grande e curvo.

Wu e Guo Si abriram caminho com os cotovelos e se apro­ximaram de San perguntando-lhe se era um homem ou um de­mônio. San não sabia. Nunca vira nada igual, nem mesmo em seus piores pesadelos.

De repente as cortinas foram cerradas e a liteira foi levada embora. Um homem ao lado de San cuspiu atrás dela.

"Quem era aquele?", perguntou San.

O homem olhou para ele com desdém e pediu-lhe que re­petisse a pergunta. San percebeu que seus dialetos eram muito diferentes.

"O homem na cadeirinha. Quem é ele?"

"Um homem branco dono de muitos navios que visitam nosso porto."

"Ele está doente?"

O homem riu.

"Todos eles têm essa aparência. Brancos como defuntos que deveriam ter sido enterrados há muito tempo."

Os irmãos prosseguiram pela cidade suja e fedorenta. San observava as pessoas a sua volta. Muitas estavam bem vestidas. Não trajavam roupas esfarrapadas como ele. Começou a descon­fiar que o mundo não era bem como imaginara.

Depois de vagar pela cidade por muitas horas, vislumbra­ram água no final das ruelas. Wu soltou-se e correu em direção a ela. Mergulhou e começou a beber — mas parou e cuspiu ao perceber que era salgada. O corpo inchado de um gato passou boiando. San observou toda a sujeira, não só o cadáver do gato, mas também fezes humanas e de animais. Sentiu-se enjoado. Em casa costumavam usar as fezes para fertilizar os pequenos trechos de terra onde cultivavam suas verduras e legumes. Aqui, parecia que as pessoas simplesmente despejavam a merda na água, apesar de nada crescer dentro dela.

Lançou o olhar por sobre a água sem conseguir ver o outro lado. O que chamam de mar ou oceano deve ser um rio real­mente muito largo, pensou.

Sentaram-se sobre um pontão de madeira cercado de tan­tos barcos que era impossível contá-los. Por toda parte ouviam pessoas gritando e berrando. Esta era outra coisa que distinguia a vida na cidade da vida na aldeia. Aqui as pessoas pareciam in­capazes de calar a boca, sempre tinham algo a dizer ou reclamar. San não conseguiu detectar em nenhum lugar o silêncio ao qual estivera habituado.

Comeram a última porção de arroz e partilharam os restos da água no cantil. Wu e Guo Si olharam para ele esperançosos. Ele teria de corresponder a suas expectativas. Mas como acha­ria trabalho para eles nesse ensurdecedor e caótico turbilhão de gente? Onde encontrariam comida? Onde dormiriam? Olhou para o cachorro, deitado com uma pata sobre o focinho. O que eu faço agora?

San precisava ficar sozinho para avaliar a situação. Levantou-se e pediu aos irmãos que esperassem ali, junto ao cão. Para deixá-los sossegados, e convencê-los de que não iria desaparecer no meio da multidão para nunca mais voltar, disse: "Pensem na­quela corda invisível que nos une. Eu volto logo. Se alguém falar com vocês enquanto eu não estiver aqui, respondam com edu­cação, mas não se afastem daqui. Se vocês se afastarem, nunca mais vou conseguir encontrá-los".

Ele explorou vielas e becos, continuamente voltando sobre os seus passos para se lembrar do caminho que fizera. Uma das ruas estreitas de repente se abria para uma praça com um tem­plo. As pessoas faziam reverências e caminhavam de cabeça bai­xa em direção a um altar repleto de oferendas e incenso.

Minha mãe teria corrido para o altar, prostrando-se diante dele, ele pensou. Meu pai também teria se aproximado, um pouco mais hesitante. Não consigo me lembrar de meu pai dar um passo sem hesitar.

Mas agora era ele que precisava decidir o que fazer.

Havia algumas pedras grandes espalhadas em volta que ti­nham caído das paredes do templo. Sentou-se numa delas, sentindo-se um tanto confuso devido ao calor, à massa de gente e à fome que havia tentado ignorar o máximo possível.

Depois de descansar, voltou ao rio das Pérolas e a todos os ancoradouros ao longo de suas margens. Homens curvados por pesadas cargas cambaleavam pelos passadiços de aparência frá­gil. Logo adiante, rio acima, observou grandes navios com mastros os abaixados serem rebocados sob as pontes.

Parou e examinou todos aqueles sujeitos carregando far­dos, um maior do que o outro. Capatazes ficavam postados nos passadiços, marcando todas as cargas que eram embarcadas ou desembarcadas. Davam algumas moedas aos carregadores, que então sumiam entre as vielas.

Ocorreu-lhe uma idéia. Para sobreviver, teriam de carregar. Nós podemos fazer isso, pensou. Meus irmãos e eu, nós somos carregadores. Aqui não há campos nem arrozais. Mas somos ca­pazes de carregar. Somos fortes.

Retornou ao encontro de Wu e Guo Si, que estavam enco­lhidos sobre o pontão. Ficou ali parado algum tempo, observan­do como se agarravam um ao outro.

Nós somos como cães, refletiu. Todo mundo nos chuta, e temos de viver com aquilo que os outros jogam fora.

O cachorro notou sua chegada e correu para saudá-lo.

San não o chutou.

 

Passaram a noite no pontão, pois San não conseguiu pensar em outro lugar melhor para ir. O cão tomou conta deles, rosnando a cada passada silenciosa que se aproximasse. Quando acordaram na manhã seguinte, descobriram que alguém tinha conseguido roubar o cantil. Furioso, San perscrutava o ambien­te. O pobre rouba do pobre, pensou. Até mesmo um cantil de água vazio desperta o desejo de quem não tem nada.

"Ele é um bom cachorro, mas não é grande coisa como cão de guarda", disse San.

"O que vamos fazer agora?", perguntou Wu.

"Vamos tentar achar trabalho", respondeu San.

"Estou com fome", queixou-se Guo Si.

San balançou a cabeça. Guo Si sabia tão bem quanto ele que não tinham comida.

"Não podemos roubar", disse San. "Se roubássemos, pode­ríamos acabar como o trio de cabeças espetadas nas varas na­quela encruzilhada. Precisamos encontrar trabalho, e aí vamos poder comprar alguma coisa para comer."

Ele conduziu os irmãos para o local em que os homens cor­riam de um lado para o outro com cargas nas costas. O cachorro continuava com eles. San ficou um bom tempo parado, obser­vando os homens que davam ordens nos passadiços dos navios. Decidiu-se por abordar um homem baixinho, robusto, que não batia nos carregadores, mesmo quando estes eram lentos demais.

"Nós somos três irmãos", começou. "Somos bons para car­regar coisas."

O homem lançou-lhe um olhar zangado e continuou a exa­minar os carregadores com os pesados fardos nos ombros.

"O que todos esses caipiras estão fazendo em Cantão?", ele berrou. "Por que vocês vêm para cá? Há milhares de campone­ses em busca de trabalho. Já tenho mais do que suficiente. Vão embora! Parem de me perturbar."

Continuaram a pedir serviço de cais em cais, mas a resposta era sempre a mesma. Ninguém queria saber deles. Não tinham serventia para ninguém em Cantão.

Naquele dia não comeram nada além dos imundos restos de legumes pisoteados numa rua próxima ao mercado. Beberam água de uma bomba cercada de gente faminta. Passaram mais uma noite encolhidos no pontão. San não pregou o olho. Apertava os punhos contra a barriga numa tentativa de conter os acessos de fome. Pensou no enxame de borboletas. Era como se todas as borboletas tivessem penetrado em seu corpo e arranhas­sem seus intestinos com suas asas afiadas.

Mais dois dias se passaram sem que eles encontrassem al­guém, em algum embarcadouro, que admitisse que suas costas poderiam ser úteis. Quando o segundo dia ia chegando ao fim, San sabia que não seriam capazes de agüentar muito mais. Não tinham comido absolutamente nada desde os legumes pisoteados. Agora estavam vivendo somente de água. Wu tinha febre, e estava deitado à sombra de uma pilha de barris, tremendo.

San tomou a decisão ao pôr do sol. Ou eles comiam ou morreriam. Levou os irmãos e o cachorro a uma praça aberta onde as pessoas pobres estavam sentadas em torno de fogueiras, comendo aquilo que conseguissem achar.

Agora ele entendia por que sua mãe lhes enviara o cachor­ro. Pegou uma pedra grande e esmagou o crânio do cão. Pes­soas de uma fogueira próxima se acercaram para ver o que se passava, sujeitos cujas faces emaciadas eram recobertas por uma pele esticadíssima. San tomou uma faca emprestada de um dos homens, descarnou o cão e pôs os pedaços numa cumbuca. Es­tavam com tanta fome que não puderam esperar até que a carne estivesse cozida. San repartiu os pedaços entre todos.

Depois de comer, as pessoas se deitaram no chão e fecha­ram os olhos. San era o único que permanecia sentado, os olhos fixos nas chamas. No dia seguinte não teriam nem mesmo um cão para comer.

Com seu olho interno, podia ver os pais naquela terrível manhã pendendo da árvore. A que distância do seu próprio pes­coço estariam agora o galho e a corda? Ele não sabia.

De súbito teve a sensação de estar sendo observado. Perquiriu a noite que o cercava. Realmente havia alguém ali, o branco de uns olhos brilhavam no escuro. O homem se aproximou do fogo. Era mais velho que San, mas não muito velho. Ele sorriu. San achou que devia ser uma daquelas pessoas afortunadas que não precisava ficar sempre andando por aí com fome.

"Eu sou Zi. Vi vocês comendo um cachorro."

San não respondeu. Esperou para ver o que viria a seguir. Algo naquele estranho fazia com que se sentisse inseguro.

"Eu sou Zi Quan Zhao. Quem é você?"

San olhou em volta, pouco à vontade.

"Eu invadi o seu território?"

Zi riu.

"De jeito nenhum. Só estou curioso para saber quem é vo­cê. A curiosidade é uma virtude humana. Qualquer pessoa que não tenha uma mente inquiridora tem pouca possibilidade de levar uma vida satisfatória."

"Meu nome é Wang San."

"De onde você vem?"

San não estava acostumado com perguntas. Começou a fi­car desconfiado. Quem sabe o homem que dizia se chamar Zi fosse um dos poucos escolhidos que tinham o direito de interrogar e punir? Quem sabe ele e os irmãos tivessem transgredido alguma daquelas leis e regulamentos invisíveis que cercam os assolados pela pobreza?

San fez um gesto vago apontando a escuridão.

"Lá de longe. Meus irmãos e eu andamos durante muitos dias. Atravessamos dois grandes rios."

"É ótimo ter irmãos. O que vocês estão fazendo aqui?"

"Estamos procurando trabalho, mas não conseguimos nada."

"Está difícil. Muito difícil. Muitas pessoas são atraídas para a cidade como moscas a um pote de mel. Não está fácil ganhar a vida."

San tinha uma pergunta na ponta da língua, mas resolveu engoli-la. Zi parecia capaz de ver através dele.

"Você imagina o que eu faço para viver, já que não estou vestido de trapos?"

"Não devo ser curioso em relação a meus superiores."

"Isso não me incomoda nem um pouco", disse Zi, sentan­do-se. "Meu pai era dono de sampanas e navegava sua pequena frota mercantil subindo e descendo este rio. Quando morreu, meu irmão e eu assumimos o negócio. Meu terceiro e quarto irmãos emigraram para a terra distante do outro lado do mar, a América. Eles fizeram fortuna lavando as roupas sujas dos ho­mens brancos. A América é um país muito estranho. Em que outro lugar você pode ficar rico com a sujeira dos outros?"

"Já pensei nisso", disse San. "Ir para aquele país."

Zi o mediu de cima a baixo.

"Para isso você precisa de dinheiro. Ninguém navega e atra­vessa um grande oceano por nada. Em todo caso, desejo-lhe boa noite. Espero que você consiga achar trabalho."

Zi levantou-se, fez uma reverência e desapareceu na es­curidão. San ficou deitado perguntando-se se teria imaginado aquela breve conversa. Quem sabe estivera conversando com sua própria sombra? Sonhando que era outra pessoa?

Os irmãos continuaram sua procura vã por trabalho e comi­da, andando por horas a fio pela cidade atulhada. San decidira amarrar-se com a corda aos irmãos, e lhe ocorreu que era como um animal com dois filhotes que ficavam se apertando contra ele no meio de um grande rebanho. Eles buscavam trabalho nos ancoradouros e ruelas apinhadas de gente. San exigia que os irmãos ficassem eretos quando estivessem diante de alguma autoridade que talvez pudesse lhes fornecer trabalho.

"Temos que parecer fortes", dizia. "Ninguém dá trabalho para homens sem força nos braços e nas pernas. Mesmo que vocês estejam cansados e famintos, precisam passar a impressão de que são muito fortes."

A comida que conseguiam eram restos descartados por ou­tras pessoas. Quando se pegaram brigando com cães por um osso abandonado, ocorreu a San que estavam prestes a se tornar ani­mais. Sua mãe havia lhe contado a história de um homem que virou animal, com quatro patas e rabo, porque era preguiçoso e não queria trabalhar. Mas se eles não trabalhavam, não era por preguiça.

Continuaram a dormir no pontão, em meio ao calor e à umidade. Às vezes uma chuva pesada vinda do mar desabava sobre a cidade durante a noite. Eles se abrigavam sob o pontão, enfiando-se entre os pilares de madeira molhados, mas ficavam encharcados mesmo assim. San notou que Guo Si e Wu estavam a ponto de desanimar. Sua energia de viver se reduzia a cada dia que passava, a cada dia de fome, chuva torrencial, e a sensação de que ninguém os notava nem precisava deles.

Certa noite San notou Wu curvado, murmurando confusas preces para os deuses a quem seus pais costumavam orar. Isso o deixou momentaneamente preocupado. Os deuses de seus pais nunca tinham lhes ajudado em nada. Por outro lado, se Wu achava consolo em suas preces, San não tinha o direito de lhe roubar esse sentimento.

San estava cada vez mais convencido de que Cantão era uma cidade de horror. Toda manhã, quando saíam para a inter­minável busca por trabalho, notavam mais e mais gente morta nas sarjetas. Às vezes os ratos e os cães abocanhavam e mastiga­vam as faces dos cadáveres. Toda manhã ele tinha a sórdida sen­sação de que terminaria sua vida na sarjeta de uma das muitas vicias de Cantão.

Depois de mais um dia de calor úmido, San descobriu-se lambém perdendo a esperança. Tinha tanta fome que se sentia tonto e incapaz de pensar direito. Ao deitar-se no pontão ao lado dos irmãos, pela primeira vez pensou que podia muito bem adormecer e não acordar nunca mais.

Não tinha motivo para acordar.

Durante a noite sonhou novamente com as três cabeças cortadas. Elas subitamente começaram a falar, mas ele não con­seguia entender o que diziam.

Ao nascer do dia, quando despertou, viu Zi sentado junto a um poste, fumando cachimbo. Ele sorriu ao perceber que San estava acordado.

"Você não estava dormindo bem", ele disse. "Eu percebi que você sonhava com alguma coisa da qual você queria fugir."

"Eu estava sonhando com cabeças cortadas", explicou San. "Talvez uma delas fosse a minha."

Zi o encarou pensativamente antes de responder.

"Aqueles que têm escolha escolhem. Nem você nem seus irmãos parecem especialmente fortes. É óbvio que estão passan­do fome. Ninguém que precise de gente para carregar ou arras­tar ou puxar escolhe alguém que esteja morrendo de fome. Pelo menos, não enquanto continua chegando gente que ainda tem alguma força sobrando e comida na sacola."

Zi esvaziou o cachimbo antes de prosseguir.

"Toda manhã há corpos mortos que descem o rio boian­do. Pessoas que não têm mais força para tentar. Pessoas que não conseguem mais ver sentido em viver. Elas enchem os bolsos de pedras ou amarram lastro nas pernas para afundar. Cantão virou uma cidade de fantasmas inquietos, as almas das pessoas que tiraram suas próprias vidas."

"Por que você está me contando isso? Já carrego dor sufi­ciente."

Zi ergueu a mão num gesto de descaso.

"Não estou dizendo isso para deixar você preocupado. Não teria dito nada se não tivesse mais uma coisa a acrescentar. Meu primo é dono de uma fábrica, e muitos de seus empregados atualmente estão doentes. Talvez eu possa ajudar você e seus irmãos."

San teve dificuldade em acreditar no que acabara de ouvir.

Mas Zi repetiu. Não queria prometer nada, mas talvez pudesse achar trabalho para eles.

"Por que você está nos escolhendo?"

Zi deu de ombros.

"Por que alguém faz alguma coisa? Ou não faz alguma coi­sa? Talvez eu simplesmente tenha achado que vocês merecem ajuda."

Zi se pôs de pé.

"Volto quando souber", concluiu.

Colocou algumas frutas no chão à frente de San, depois foi embora. San o observou afastar-se ao longo do pontão e desapa­recer no meio da multidão.

Fiel à sua palavra, Zi retornou naquela noite.

"Acorde seus irmãos", ele disse. "Temos de ir. Tenho traba­lho para vocês."

"Wu está doente. Não pode esperar até amanhã?"

"Pela manhã outra pessoa já vai ter se apropriado do servi­ço. Ou vamos agora, ou não vamos mais."

San se apressou em despertar Guo Si e Wu.

"Precisamos ir", explicou. "Amanhã finalmente vamos ter trabalho."

Zi os conduziu pelas ruelas escuras. San notou que pisava sobre pessoas dormindo nas calçadas. Ele dava a mão a Guo Si e mantinha o braço em torno de Wu.

Logo San notou, pelo cheiro, que estavam perto da água. Agora tudo parecia mais fácil.

Aí as coisas aconteceram muito depressa. Estranhos saíram das trevas, agarraram-nos pelos braços e começaram a botar sa­cos em suas cabeças. San levou um soco que o derrubou, mas continuou a lutar. Quando foi novamente pressionado contra o chão, mordeu um braço com toda a força e conseguiu se soltar. Mas imediatamente foi recapturado.

San ouviu Wu gritar de terror não muito longe dele. À luz de uma lanterna que balançava, pôde ver seu irmão deitado de costas. Um homem puxou uma faca de seu peito e então atirou o corpo na água. Wu foi lentamente arrastado pela correnteza.

A arrasadora verdade se fez sentir: Wu estava morto, e San falhara em protegê-lo.

Então levou um golpe forte na nuca. Estava inconsciente quando ele e Guo Si foram carregados para um bote a remo que os conduziu até um navio ancorado ao largo.

Tudo isso ocorreu no verão de 1863. Um ano em que milha­res de camponeses chineses foram raptados e levados pelo mar até a América, que os engoliu com suas insaciáveis mandíbulas. O que lhes estava reservado era a mesma labuta da qual um dia sonharam em fugir.

Eles foram transportados por um imenso mar. Mas a pobre­za os acompanhou o tempo todo.

 

Em 9 de março de 1864, Guo Si e San começaram a cortar a montanha que bloqueava a ferrovia que acabaria por abarcar todo o país norte-americano.

Foi um dos vários invernos na memória viva de Nevada, com dias tão frios que em cada respiração tinha-se a impressão de inalar cristais de gelo em vez de ar.

Antes disso, San e Guo Si haviam trabalhado no extremo oeste, onde era mais fácil preparar o solo e assentar os trilhos. Tinham sido levados para lá no fim de outubro, diretamente do navio. Junto com muitos outros que haviam sido transportados acorrentados de Cantão, foram recebidos por homens chineses que haviam cortado suas tranças, trajavam roupas ocidentais e usavam correntes com relógios no peito. Os irmãos foram re­cebidos por um homem com o mesmo sobrenome que o deles, Wang. Para horror de San, Guo Si — que geralmente não dizia nada — começara a protestar.

"Nós fomos atacados, amarrados e jogados a bordo. Não pedimos para vir para cá."

San pensou que este seria o fim da longa jornada deles. O homem a sua frente jamais aceitaria que alguém falasse com ele dessa maneira. Tiraria a pistola que trazia enfiada no cinto e os mataria.

Mas San estava enganado. Wang caiu na risada, como se Guo Si tivesse acabado de contar uma piada.

"Vocês não passam de cachorros", disse Wang. "Zi me man­dou uns cachorros falantes. Eu sou o dono de vocês até que me paguem a travessia, e a comida, e a viagem de San Francisco até aqui. Vocês vão me pagar trabalhando. Daqui a três anos po­dem fazer o que quiser, mas até lá vocês pertencem a mim. Fora daqui, no deserto, vocês não têm como fugir. Há lobos, ursos e índios que vão cortar suas gargantas, esmagar seus crânios e comer seus miolos como se fossem ovos. Se mesmo assim vocês tentarem escapar, tenho cães capazes de segui-los. Meu chicote vai dançar de felicidade, e vocês vão ter de trabalhar para mim um ano a mais. Então, agora vocês sabem o tamanho da dívida."

San olhou para os homens imóveis atrás de Wang. Eles tra­ziam cães presos a guias e rifles nas mãos. San ficou surpreso de ver esses homens brancos de barbas longas dispostos a obedecer as ordens dadas por um chinês. Tinham vindo para um país muito diferente da China.

Os irmãos foram colocados num acampamento na base de uma profunda ravina. Num dos lados do riacho ficavam os operários chineses, na outra margem uma mistura de irlandeses, alemães e outros europeus. Havia uma enorme tensão entre os dois acampamentos. O rio era uma fronteira que nenhum dos chineses ultrapassava sem necessidade. Os irlandeses, freqüen­temente bêbados, berravam xingamentos e atiravam pedras para o lado chinês. San e Guo Si não entendiam o que diziam, mas as pedras que voavam pelo ar eram duras; não havia motivo para supor que as palavras fossem mais delicadas.

Eles se viram convivendo com outros doze chineses. Ne­nhum deles tinha viajado no mesmo navio. San presumiu que Wang preferia misturar os trabalhadores recém-chegados com os que já vinham trabalhando na ferrovia havia algum tempo e poderiam passar aos novos as regras e rotinas. A barraca única era pequena; quando todos se deitavam, ficavam amontoados uns contra os outros. Isso os ajudava a manter-se aquecidos, mas também gerava uma sensação aflitiva de imobilidade, de aprisionamento.

O encarregado da barraca era Xu. Magro e com os dentes estragados, todos o tratavam com grande respeito. Xu mostrou a San e Guo Si onde podiam dormir. Perguntou de onde vinham, que navio os trouxera, mas nada revelou sobre si mesmo. Ao lado de San dormia Hao, que lhe disse que Xu participava da construção da ferrovia desde o princípio. Viera para a América no início da década de 1850 e começara trabalhando em minas de ouro. Corria o boato de que não conseguira achar ouro nos rios, mas comprara uma cabana de madeira velha e decrépita onde haviam morado diversos prospectores bem-sucedidos. Ninguém conseguia entender como Xu pudera ser tão estúpido a ponto de pagar vinte e cinco dólares por uma choça em que agora nin­guém mais podia morar. Mas Xu varreu toda a sujeira do chão, removeu as tábuas podres do piso e tirou toda a sujeira e poeira que havia debaixo dele. Por fim, acabou filtrando tanto pó de ouro que pôde retornar a San Francisco com uma pequena for­tuna. Resolveu voltar a Cantão e chegou a comprar o bilhete da viagem. Mas, enquanto esperava o navio partir, visitou um dos antros de jogo onde os chineses passavam grande parte do tem­po. Jogou e perdeu. E acabou jogando e perdendo inclusive sua passagem. Foi quando entrou em contato com a Central Pacific e tornou-se um dos primeiros chineses a serem empregados.

Como Hao descobrira tudo isso sem o próprio Xu lhe ter dito nada sobre seu passado, isso San jamais conseguiu compreen­der. Mas Hao insistia que cada palavra era a pura verdade.

Xu falava inglês. Por meio dele os irmãos descobriram o que se berrava por sobre o rio que separava os dois acampamentos. Xu falava com desdém dos homens do outro lado.

"Eles nos chamam de chinas", explicou. "É um termo muito depreciativo para nós. Quando os irlandeses estão bêbados, às vezes nos chamam de porcos, o que significa que somos gau."

"Por que eles não gostam de nós?"

"Nós trabalhamos melhor", respondeu Xu. "Trabalhamos mais duro, não bebemos, não nos esquivamos nem tentamos enganar. E nossa aparência é diferente — a nossa pele e os nossos olhos. Eles não gostam de gente que não se parece com eles."

Toda manhã San e Guo Si escalavam uma íngreme trilha para sair da ravina, cada um com um lampião. Às vezes acontecia de alguém do grupo escorregar na superfície gelada e despencar até embaixo. Dois homens de pernas quebradas ajudavam a preparar a comida dos irmãos quando voltavam depois do longo dia de trabalho. Os chineses trabalhavam a grande distância dos operários que moravam do outro lado do rio. Cada grupo tinha seu próprio caminho ravina acima, e seu próprio local de traba­lho. Capatazes ficavam constantemente de olho para controlar que os grupos não se aproximassem demais. Às vezes irrompiam brigas no meio do riacho, os chineses munidos de porretes, e os irlandeses de facas. Quando isso acontecia, os guardas barba­dos vinham correndo a cavalo para separá-los. Às vezes alguém ficava tão ferido que acabava morrendo. Um chinês que havia partido o crânio de um irlandês foi morto a tiros; um irlandês que havia apunhalado um chinês foi arrastado para longe, acor­rentado. Xu insistia com todos em sua barraca para que não se envolvessem em brigas nem trocassem pedradas. Lembrava-os constantemente de que eram visitas num país estrangeiro.

"Devemos esperar", Xu dizia. "Um dia desses eles vão per­ceber que jamais haverá estrada de ferro se nós, chineses, não a construirmos. Um dia tudo mudará."

Mais tarde, à noite, já deitados, Guo Si perguntou ao irmão o que Xu queria dizer, mas San não tinha nenhuma resposta satisfatória para lhe dar.

Eles vinham viajando do litoral para o interior, rumo ao deserto, onde o sol foi ficando cada vez mais frio. Quando eram despertados pelos berros de Xu, precisavam correr para não dei­xar o capataz insatisfeito, pois ele poderia fazê-los trabalhar mais do que as habituais doze horas. O frio era amargo. Nevava quase todo dia.

Vez por outra viam o temido Wang, que dizia ser dono de­les. Surgia do nada de repente, e aí desaparecia com a mesma rapidez.

O trabalho dos irmãos era preparar o leito sobre o qual os dormentes e os trilhos seriam assentados e presos. Fogueiras ar­diam por todo lado, em parte para permitir-lhes ver o que fa­ziam, mas também para amolecer o solo congelado. Eram cons­tantemente vigiados pelos capatazes montados a cavalo, homens brancos armados que vestiam casacos de pele de lobo com len­ços amarrados sobre os chapéus para se proteger do frio. Xu lhes ensinara a responder sempre com um "Sim, patrão" quando lhes dirigiam a palavra, mesmo que não entendessem o que estava sendo dito.

Fogueiras podiam ser vistas ardendo a quilômetros de distância. Era onde os irlandeses estavam fixando seus trilhos e dormentes. Às vezes se ouviam os silvos das locomotivas soltando vapor. San e Guo Si encaravam aquelas enormes bestas de carga negras como dragões. Ainda que os monstros que soltavam fogo pelas ventas sobre os quais sua mãe lhes contara fossem colori­dos, provavelmente era a esses monstros negros e reluzentes que ela se referia.

A labuta não acabava nunca. Quando terminava o longo dia, mal lhes restavam forças para se arrastar de volta ao pé da ravina, comer e desabar na barraca. Repetidas vezes San tentou fazer Guo Si lavar-se na água fria. San sentia repulsa de seu pró­prio corpo quando estava sujo. Para sua surpresa, quase sempre ficava sozinho no rio, seminu e tremendo. Além dele, os únicos que se lavavam regularmente eram os recém-chegados. A vonta­de de manter-se limpo era erodida pelo trabalho pesado. Enfim, um dia ele também jogou-se na cama sem se lavar. San ficou deitado na tenda em meio ao fedor dos corpos imundos. Era como se, lentamente, ele estivesse sendo transformado num ser sem dignidade, sem sonhos ou anseios. Ao cochilar, visualizava sua mãe e seu pai, e tinha a sensação de que trocara o inferno que fora seu lar por um inferno diferente e ainda pior. Agora eram obrigados a trabalhar como escravos, em condições piores do que as adversidades que seus pais haviam suportado. Era isso que esperavam alcançar quando fugiram e foram para Cantão? Será que não existia uma saída para aqueles a quem a pobreza devastara?

Naquela noite, momentos antes de adormecer, San con­cluiu que sua única chance de sobreviver era escapar. Todo dia ele via algum dos trabalhadores subnutridos desabar e ser carre­gado para longe.

No dia seguinte San discutiu seus planos com Hao, que fi­cou deitado a seu lado escutando atentamente.

"Este é um país grande", disse Hao, "mas não tão grande que um chinês como você ou seu irmão possam simplesmente desaparecer. Se você de fato tem intenção de fazer o que está dizendo, é preciso que fujam de volta para a China. Senão, cedo ou tarde vão acabar pegando vocês. E aí eu não preciso dizer o que vai acontecer."

San pensou longa e profundamente sobre o que Hao disse­ra. Ainda não era a época para fugir, nem mesmo para contar a Guo Si o seu plano.

Mais tarde, em meados de março, uma violenta tempes­tade de neve cobriu o deserto de Nevada. Mais de um metro de neve caiu em menos de doze horas. Quando a tempestade cessou, a temperatura desabou. Na manhã seguinte tiveram que cavar para sair da barraca. Os irlandeses do outro lado do rio congelado tinham se dado melhor, pois a barraca deles ficara do lado protegido do temporal. Agora ali estavam eles, rindo dos chineses que lutavam para tirar a neve da barraca e das trilhas que levavam ao alto da ravina.

Não temos nada de graça, pensou San. Nem mesmo a neve é dividida de forma justa.

Ele pôde ver que Guo Si estava cansado. Às vezes mal tinha força para erguer a pá. Mas San já tomara sua decisão. Até o próximo Ano-Novo do homem branco eles manteriam vivos um ao outro.

No final de março chegaram os primeiros homens negros à aldeia ferroviária na ravina. Eles montaram suas barracas do mesmo lado do rio que os chineses. Nenhum dos irmãos nunca vira um homem negro. Eles vestiam roupas esfarrapadas e so­friam com o frio mais do que San jamais vira uma pessoa sofrer. Muitos deles morreram durante os primeiros dias na ravina e na ferrovia. Estavam tão fracos que caíam no escuro e só foram descobertos muito mais tarde, quando a neve começou a derreter na primavera. Os negros eram ainda mais maltratados que os chineses, e "crioulos" era um termo pronunciado com uma entonação ainda pior do que a usada para os "chinas". Até mesmo Xu, que sempre pregava que era preciso conter-se ao falar das outras pessoas que trabalhavam na ferrovia, não fazia segredo de seu desprezo pelos negros.

"Os brancos os chamam de anjos caídos", disse Xu. "Criou­los são bichos sem alma, e ninguém sente falta deles quando morrem. Em vez de cérebro eles têm chumaços de carne podre."

O frio excepcionalmente severo recaía sobre a ravina e o canteiro de obras como um cobertor de ferro. Certa noite, quan­do estavam sentados para a refeição noturna em volta de uma fogueira pequena e ineficaz, Xu anunciou que no dia seguinte eles se mudariam para um novo acampamento e outro local de trabalho, perto da montanha que agora escavariam e explodi­riam para atravessar.

Puseram-se a caminho bem cedo. San não se lembrava de ter alguma vez sentido algo parecido com o frio daquele dia. Instruiu Guo Si que mantivesse a dianteira, pois queria ter certeza de que, se caísse, o irmão não seria deixado para trás. Eles se­guiram o traçado da ferrovia até chegar ao ponto onde os trilhos acabavam e aí, algumas centenas de metros adiante, terminava o próprio leito da estrada. Mas Xu insistiu que seguissem adian­te. As luzes bruxuleantes dos lampiões penetravam nas trevas. San sabia que agora estavam muito perto das montanhas que os brancos chamavam de Sierra Nevada. Era lá que eles teriam de começar a cavar túneis para que a ferrovia pudesse continuar.

Xu parou quando chegaram à crista mais baixa. Havia bar­racas montadas e fogueiras acesas. Os homens que tinham ca­minhado todo o percurso desde a ravina agacharam-se junto ao calor das chamas. San ajoelhou-se e esticou as mãos congeladas, envoltas em trapos. Nesse exato instante ouviu uma voz atrás de si. Virou-se e viu um homem branco parado ali, com cabelos até os ombros e um lenço enrolado em volta da cara, conferindo-lhe a ganância de um bandido mascarado. Ele segurava um rifle. Vestia um casaco de pele e tinha uma cauda de raposa penden­do do chapéu, que também era revestido de pele. Seus olhos lembravam os olhos de Zi quando este os encarou naquele dia no passado.

O homem branco subitamente ergueu o rifle e deu um tiro na escuridão. Os sujeitos que se aqueciam ao fogo encolhe­ram-se em posição fetal.

"Levantem-se!", berrou Xu. "Tirem o que estiverem usando na cabeça!"

San o fitou surpreso. Deviam tirar os chapéus que haviam forrado de grama seca e pedaços de pano?

"Tirem, tirem!", Xu voltou a berrar, parecendo apavorado com o homem do rifle. "Nada na cabeça!"

San tirou o chapéu e com um gesto sinalizou a Guo Si para que fizesse o mesmo. O homem do rifle baixou o lenço para revelar a face. Ele tinha um bigode espesso. Embora estivesse a alguns metros de distância, San pôde sentir o forte cheiro de be­bida. Ficou imediatamente em guarda. Homens brancos chei­rando a álcool sempre eram mais imprevisíveis que os sóbrios.

O homem começou a falar numa voz estridente. San achou que ele soava como uma mulher zangada. Xu fez um grande esforço para traduzir o que ele dizia.

"Foi preciso que tirassem o chapéu para ouvir melhor", Xu disse.

Sua voz estava quase tão estridente quanto a voz do homem do rifle.

"Seus ouvidos estão tão cheios de merda que vocês não con­seguiriam me ouvir se continuassem de chapéu", foi a versão de Xu para o que o homem disse. "Sou conhecido como J. A., mas vocês devem me chamar simplesmente de Patrão. Quando eu falar com vocês, tirem os chapéus. Respondam as minhas per­guntas, mas nunca perguntem nada. Entendido?"

San murmurou junto com os outros. Era óbvio que o ho­mem diante deles não gostava de chineses.

O homem conhecido como J. A. prosseguiu aos gritos e berros.

"Vocês têm aqui uma parede de pedra. A tarefa de vocês é partir esta montanha ao meio, num corte suficientemente largo para a ferrovia passar. Vocês foram escolhidos porque mostraram que sabem trabalhar duro. Nós não queremos aqueles crioulos de merda nem aqueles irlandeses bêbados. Esta é uma monta­nha feita para os chineses. E por isso que vocês vieram. E eu es­tou aqui para assegurar que vocês façam o que é preciso. Aquele que não der tudo de si, que mostrar que é preguiçoso, vai preferir nunca ter nascido. Entendido? Eu quero o compromisso verbal de cada um de vocês. Depois podem pôr os chapéus de volta. Vocês podem pegar suas picaretas com o Brown — ele fica completamente louco nas noites de lua cheia. E adora comer chinês cru. Fora isso, é manso como um cordeiro."

Todos aquiesceram, cada um com um murmúrio.

O céu começava a clarear quando se viram parados com as picaretas nas mãos na frente do penhasco, que pairava quase perpendicularmente diante deles. Suas bocas soltavam vapor. J. A. entregou seu rifle a Brown por um momento, agarrou uma picareta e entalhou duas marcas na parte inferior da rocha. San pôde ver que o buraco que deveriam produzir tinha mais de oito metros de largura.

Não havia sinal de blocos de pedra caídos, nem montes de cascalho. A montanha ofereceria uma resistência ferrenha. Cada fragmento de pedra a ser solto e retirado exigiria um esfor­ço que nenhum deles havia experimentado antes.

De um jeito ou de outro eles haviam desafiado os deuses, que agora lhes enviavam os testes com que se defrontavam. Te­riam de abrir caminho através da montanha para se tornarem homens livres, e não mais os desprezados "chinas" na região sel­vagem americana.

San foi acometido de um sentimento de absoluto desespe­ro. O único consolo que o mantinha ativo era o pensamento de que um dia ele e Guo Si fugiriam.

Tentou imaginar que a montanha a sua frente era na verda­de uma parede que o separava da China. Apenas alguns metros para dentro e o frio sumiria, e surgiriam ameixeiras em flor.

Naquela manhã começaram a trabalhar a face da rocha. O novo capataz os vigiava feito um falcão. Mesmo quando lhes virava as costas, parecia ser capaz de ver se alguém baixava a pi­careta nem que fosse por um segundo. Em torno de seus pulsos, trazia atadas tiras de couro que arrancavam a pele do rosto de qualquer pobre alma que o irritasse. Não demorou muito para todo mundo odiar o homem do rifle. Sonhavam matá-lo. San pensou na relação entre J. A. e Wang. Era Wang o dono de J. A., ou vice-versa?

  1. A. parecia aliado da montanha, extremamente relutante em soltar o mais ínfimo fragmento de granito, nem mesmo uma lasca. Levaram quase um mês para abrir uma fenda do tamanho exigido. A essa altura, um deles já tinha morrido. Durante a noi­te saíra silenciosamente da cama e se arrastara para fora da barra­ca. Despira as roupas e se deitara na neve para morrer. Quando J. A. descobriu o chinês morto, ficou furioso.

"Vocês não têm motivo para lamentar esse suicídio", ele guinchou com sua voz estridente. "O que devem lamentar é que agora são vocês que vão ter de fazer o trabalho que cabia a ele."

Ao voltarem da montanha, o corpo havia desaparecido.

Quando começaram a explodir a montanha com nitroglicerina, os homens passaram a morrer, e San percebeu que era hora de fugir. Não importava o que estivesse à espera deles na imensidão desértica, nada poderia ser pior do que aquilo que enfrentavam agora. Eles fugiriam, e sossegariam apenas quando pisassem na China.

Fugiram quatro semanas depois. Abandonaram a tenda na calada da noite, seguiram os trilhos da ferrovia, roubaram dois cavalos de um depósito de trilhos e rumaram para o oeste. Só quando sentiram que tinham viajado para bem longe de Sierra Nevada é que pararam e repousaram junto a uma fogueira; e depois retomaram a fuga. Chegaram a um rio e cavalgaram nas margens para ocultar os rastros.

Freqüentemente paravam para olhar em volta. Mas não ha­via nada para ver; ninguém os seguia.

Aos poucos San começou a considerar a possibilidade de que talvez conseguissem encontrar o caminho de volta para casa. Mas suas esperanças eram tênues.

 

San sonhou que cada dormente sob os trilhos no leito da ferrovia era uma costela humana, talvez dele próprio. Sentia o peito se esvaziar e era incapaz de repôr oxigênio em seus pul­mões. Tentava se debater, chutando para se livrar do peso que o pressionava e esmagava seu corpo, mas não conseguia.

Abriu os olhos. Guo Si estava em cima dele para manter-se aquecido. San o empurrou com delicadeza e cobriu-o com um cobertor. Sentou-se, esfregou as articulações rijas, depois alimen­tou o fogo que ardia dentro de um círculo de pedras que haviam reunido.

Esticou as mãos em direção às chamas. Era a terceira noite desde que tinham fugido da montanha. San não esquecera o que Wang dissera acerca de qualquer um que fosse tolo o bas­tante para fugir. Ficaria condenado a trabalhar na montanha por tanto tempo que seria praticamente impossível sobreviver.

Ainda não tinham visto ninguém no encalço deles. San sus­peitava que os capatazes presumiriam que os irmãos não fossem espertos o bastante para usar cavalos ao fugir. Às vezes acontecia de bandos de assaltantes roubarem cavalos dos depósitos, e se tivessem sorte as buscas ainda estariam concentradas nas vizinhanças do acampamento.

Mas aí um dos cavalos morreu. O pequeno pônei índio de San parecia ser tão forte quanto o cavalo malhado que Guo Si montava. Mas subitamente o animal tropeçou e caiu. Já estava morto ao chegar ao solo. San não entendia nada de cavalos e imaginou que seu coração simplesmente tinha parado de bater, como às vezes ocorre com corações humanos.

Abandonaram o animal, não sem antes fatiar um grande pedaço de carne de sua traseira. Para confundir possíveis perse­guidores mudaram de rumo, dirigindo-se mais para o sul. Du­rante dezenas de quilômetros San caminhou depois de Guo Si, arrastando atrás de si alguns galhos para apagar o rastro.

San foi despertado por um estrondo que quase fez sua cabe­ça explodir. Quando abriu os olhos, seu ouvido esquerdo latejando de dor, viu-se encarando a face que mais temia. Ainda estava escuro, apenas um pálido brilho rosado podia ser vislumbrado acima da distante Sierra Nevada. J. A. estava ali parado, com um rifle fumegante na mão. Ele havia disparado junto ao ouvido de San.

  1. A. não estava só. A seu lado estavam Brown e vários índios com cães de caça. J. A. deu o rifle a Brown e puxou o revólver. Apontou para a cabeça de San. Aí desviou um pouco para o lado e atirou perto de seu ouvido direito. Quando se levantou, San viu que J. A. estava gritando alguma coisa, mas não conseguia ouvir uma única palavra do que dizia. Sua cabeça estava toma­da por um tremendo zumbido. J. A. apontou o revólver para a cabeça de Guo Si. San viu o terror na expressão do irmão, mas nada pôde fazer para ajudar. J. A. deu dois tiros, um ao lado de cada ouvido. San viu as lágrimas nos olhos de Guo Si causadas pela dor.

A fuga tinha terminado. Brown amarrou as mãos de ambos atrás das costas e atou laços corrediços em torno do pescoço de cada um, e deram início ao caminho de volta para o leste.

Ao chegarem à montanha, J. A. desfilou com os dois fugi­tivos diante dos demais trabalhadores, as mãos ainda amarradas atrás das costas e os laços em torno do pescoço. San procurou por Wang, mas não conseguiu avistá-lo. Como nenhum dos dois havia recuperado a audição, podiam apenas imaginar o que J. A. estava falando, empoleirado no lombo de seu cavalo. Quando acabou seu discurso, desmontou, e na frente dos trabalhadores reunidos deu um soco na cara de cada um dos irmãos. San caiu. Por um breve momento teve a sensação de que jamais voltaria a se levantar.

Mas levantou-se. Uma vez mais.

Após a fuga fracassada, o que San esperava que acontecesse de fato aconteceu. Eles não foram enforcados, mas toda vez que se usava nitroglicerina para explodir pedaços relutantes de mon­tanha, San e Guo Si eram guindados para os cestos da morte, como os operários chineses os chamavam. Mesmo após um mês, os irmãos ainda estavam praticamente surdos. San começou a achar que passariam o resto da vida com o zumbido nos ouvidos.

O verão, longo e quente, enfim chegara. Com enorme custo físico iam penetrando no interior da montanha, abrindo cami­nho na massa rochosa que não cedia um único centímetro sem exigir o máximo de esforço. Toda manhã San tinha a sensação que não agüentaria mais um único dia sequer.

San odiava J. A. Um ódio que foi crescendo à medida que o tempo passava. Não era pela brutalidade física, nem mesmo por serem guindados dia após dia para os nichos potencialmente fatais. Era pelo fato de serem exibidos como animais, forçados a ficar diante dos outros operários da ferrovia com os laços em volta do pescoço.

"Eu vou matar esse homem", San prometeu a Guo Si. "Não vou sair desta montanha sem primeiro tê-lo matado. Eu hei de matá-lo."

"Isso significa que nós também vamos morrer."

San era insistente.

"Eu vou matá-lo na hora certa. Não antes. Na hora certa."

O verão ficava cada vez mais quente. Eles davam duro sob o sol escaldante, do amanhecer ao cair da tarde. As horas de traba­lho aumentavam à medida que os dias ficavam mais compridos. Muitos trabalhadores sofreram de insolação; outros morreram de exaustão. Mas parecia haver sempre mais chineses para subs­tituir os que morriam.

Os chineses chegavam em intermináveis procissões de car­roças. Toda vez que um recém-chegado surgia na porta da bar­raca era bombardeado de perguntas. De onde vinha, que navio o transportara pelo mar? Havia uma fome insaciável de notícias da China.

Durante esses meses de verão, à medida que a audição dos irmãos voltava, J. A. foi acometido de uma febre e ficou um tem­po sem aparecer. Certa manhã Brown declarou que, enquanto o capataz estivesse indisposto, os dois irmãos não seriam guinda­dos nos cestos da morte. E não tentou explicar por que os estava liberando parcialmente da perigosa tarefa. Talvez porque muitas vezes o capataz tratasse Brown tão mal quanto tratava os chine­ses. San procurou cautelosamente conhecer melhor Brown.

Muitas vezes San se perguntava acerca daquele povo castanho-avermelhado de cabelo preto e comprido, quase sempre en­feitado com penas: seus traços faciais faziam-no lembrar os seus.

Uma noite perguntou a Brown, que sabia um pouco de chi­nês, sobre eles.

"Os índios vermelhos nos odeiam", disse Brown. "Tanto quanto vocês. Essa é a única semelhança que eu vejo."

"Mas, mesmo assim, são eles que nos vigiam."

"Nós lhes damos comida. Nós lhes damos rifles. Deixamos que eles fiquem um degrau acima de vocês. E dois degraus aci­ma dos crioulos. Eles pensam que têm poder. Mas na verdade são escravos, como todo mundo."

"Todo mundo?"

Brown sacudiu a cabeça. San não obteria resposta para sua última pergunta.

Estavam sentados no escuro. Vez ou outra o brilho dos ca­chimbos iluminava suas faces. Brown dera a San um dos seus velhos cachimbos e também um pouco de tabaco. San esta­va constantemente em estado de alerta. Ainda não sabia o que Brown queria em troca. Talvez quisesse apenas companhia para quebrar a infinita solidão do deserto, agora que o capataz estava doente.

San acabou se atrevendo a perguntar sobre J. A.

Quem era aquele homem que nunca desistira até encontrar San e seu irmão e arruinar seus ouvidos? Quem era aquele ho­mem que tinha prazer em torturar outras pessoas?

"Eu ouvi umas coisas", disse Brown, mordendo com força a haste do cachimbo. "O que se conta é que os homens ricos de San Francisco que investiram dinheiro nesta ferrovia deram-lhe o emprego de guarda. Ele era bom — caçava os fugitivos e era suficientemente sagaz para usar cachorros e índios. Por isso o transformaram em capataz. Mas às vezes, como no caso de vo­cês, ele regride à situação de caçador de fugitivos. Dizem que nunca ninguém conseguiu se safar dele, a menos que se leve em conta os que morreram no deserto. Nesses casos, ele corta as mãos deles e lhes tira os escalpos, como fazem os índios, para mostrar que apesar de tudo os localizou. Um monte de gente acha que ele não é humano. Os índios dizem que consegue en­xergar no escuro. É por isso que o chamam de Barba Longa que Vê à Noite."

San pensou no que Brown acabara de dizer.

"Ele não fala como você. O que ele diz soa diferente. De onde ele vem?"

"Não sei ao certo. De algum lugar da Europa. De um país lá longe no norte, alguém disse, mas não tenho certeza."

"Ele alguma vez revelou algo de si mesmo?"

"Nunca. Esse negócio de um país lá longe no norte pode não ser verdade."

"Ele é inglês?"

Brown sacudiu a cabeça. "Esse homem vem do inferno. E é para lá que ele vai voltar um dia desses."

San quis fazer mais perguntas, mas Brown relutou.

"Chega de falar dele. Ele vai voltar logo. A febre está pas­sando, e ele não está mais pondo os intestinos para fora. Quando voltar, não vai ter nada que eu possa fazer para impedir que vo­cês dancem com a morte dentro daqueles cestos."

Alguns dias depois J. A. retornava ao dever. Estava mais pá­lido e mais magro do que antes, porém mais brutal. Logo no pri­meiro dia socou dois chineses que trabalhavam ao lado de San e Guo Si só porque achou que eles não o tinham cumprimentado com suficiente polidez quando apeara. E não estava satisfeito com o progresso feito enquanto estivera doente.

Os irmãos voltaram a ser alçados nos cestos. Não podiam mais contar com o apoio de Brown.

Eles foram se aprofundando mais e mais na montanha, explodindo e escavando, assentando pedregulhos e areia com­primida para assentar o leito sobre o qual seriam colocados os trilhos. Com esforços sobre-humanos conquistaram a monta­nha, metro após metro. Ao longe podiam avistar as locomotivas trazendo trilhos, dormentes e bandos de operários.

Com o avanço do outono, à medida que as noites foram ficando mais frias, Guo Si adoeceu. Certa manhã acordou com fortes cólicas. Saiu correndo da barraca e mal conseguiu arriar as calças antes de suas entranhas explodirem.

Os colegas de trabalho tinham medo de ser infectados, de modo que o deixaram sozinho na tenda. San lhe trouxe água, e um negro velho chamado Hoss ficou umedecendo sua testa e limpando a imundície líquida que vazava de seu corpo. Hoss passara tanto tempo cuidando dos enfermos que nada mais pare­cia ameaçá-lo. Ele tinha apenas um braço; perdera o outro num desmoronamento de terra.

  1. A. estava impaciente. Olhou enojado para o homem dei­tado em suas próprias fezes.

"Você vai morrer ou não vai?", perguntou.

Guo Si tentou se sentar, mas não teve forças.

"Eu preciso desta barraca", disse J. A. "Por que vocês chine­ses sempre custam tanto para morrer?"

Os dias foram ficando mais curtos, e, à medida que o outo­no foi cedendo lugar ao inverno, milagrosamente Guo Si come­çou a melhorar.

Depois de quatro anos, eles tinham cumprido o prazo do contrato e podiam deixar a ferrovia como homens livres. San ou­viu falar de um sujeito chamado Samuel Acheson que planejava conduzir um comboio de carroças para o leste. Ele precisava de alguém para preparar sua comida e lavar suas roupas, e prometeu pagar pelo trabalho. Fizera fortuna garimpando ouro no rio Yukon. Agora iria atravessar o continente para visitar a irmã, sua única parente viva, que morava em Nova York.

Acheson concordou em dar emprego a San e Guo Si. Ne­nhum dos dois se arrependeria de se juntar ao comboio. Samuel Acheson tratava bem as pessoas, independentemente da cor da pele.

Cruzar o continente inteiro, as intermináveis planícies, le­vou muito mais tempo do que San tinha previsto. Em duas oca­siões Acheson adoeceu e ficou confinado à cama por vários me­ses. Ele não parecia assolado por doenças físicas; era sua mente que mergulhava numa melancolia tão escura que ele se ocultava na barraca e não saía até a depressão ter passado. Duas vezes por dia San servia comida a Acheson, prostrado no fundo da barraca, a face afastada do mundo.

Mas nas duas vezes ele se recuperou, a depressão cedeu e puderam continuar a longa jornada. Ele poderia ter se permitido viajar de trem, mas Acheson preferia seus fleumáticos bois e as desconfortáveis carroças cobertas.

Naquelas vastas pradarias, San amiúde ficava deitado, acor­dado, no começo da noite, e se punha a fitar o céu infinito. Ten­tava localizar a mãe, o pai e Wu, em vão.

Por fim chegaram a Nova York. Acheson encontrou com sua irmã, e depois que San e Guo Si receberam o pagamento, os irmãos foram procurar um navio que os levasse para a Ingla­terra. San sabia que essa era a única rota possível, pois não havia navios que zarpassem diretamente de Nova York para Cantão ou Shanghai. Encontraram lugar no convés de um navio que rumava para Liverpool.

Isso foi em março de 1867. Na manhã em que deixaram Nova York, o porto estava imerso em espessa neblina. Sirenes trombeteavam por todo lado. San e Guo Si estavam parados no parapeito.

"Estamos indo para casa", disse Guo Si.

"Sim", concordou San. "Agora estamos a caminho de casa."

 

                                             A pena e a pedra

Em 5 de julho de 1867, os dois irmãos partiram de Liverpool num navio chamado Nellie.

San logo descobriu que ele e Guo Si eram os únicos chine­ses a bordo. A eles foram concedidos lugares para dormir bem na frente da proa da velha embarcação, que emanava um cheiro podre. A bordo do Nellie aplicavam-se as mesmas regras que em Cantão: não havia paredes, mas cada passageiro reconhecia o espaço privado, seu e do outro.

Ainda antes de o navio desatracar, San notou dois desem­baraçados passageiros de cabelo claro que freqüentemente se ajoelhavam no convés para rezar. Pareciam alheios a tudo que se passava em torno deles — marinheiros puxando e empurrando, oficiais os apressando e berrando ordens. Os dois homens fica­vam imersos em suas orações e então se levantavam em silêncio.

Os dois loiros viraram-se para San e se curvaram. San deu um passo atrás, como se tivesse sido ameaçado. Jamais um ho­mem branco se curvara para ele. Homens brancos não se cur­vavam diante de chineses; apenas lhes davam chutes. Voltou apressado para o local onde ele e o irmão iriam dormir e ficaram imaginando quem seriam aqueles dois homens.

Naquela tarde as cordas de atracação foram soltas, o navio foi rebocado para fora do porto e as velas içadas. Uma fresca brisa do norte soprava. O navio zarpou para o leste num ritmo acelerado.

San segurou-se na grade e deixou o vento frio soprar em seu rosto. Os dois irmãos estavam finalmente a caminho de casa, completando sua viagem ao redor do mundo. Era essencial manter-se saudável durante a viagem. San não tinha a menor idéia do que aconteceria quando chegassem à China, mas estava determinado a não afundar de novo na miséria.

Alguns dias depois de terem partido, já em alto-mar, os dois homens de cabelo loiro dirigiram-se a San. Traziam consigo um membro mais velho da tripulação que falava chinês. San teve medo de que ele e Guo Si tivessem feito algo errado, mas o tripulante, sr. Mott, explicou que os dois homens eram mis­sionários suecos a caminho da China. Apresentou-os como sr. Elgstrand e sr. Lodin.

A pronúncia chinesa do sr. Mott era difícil de entender, mas San e Guo Si compreenderam o suficiente para descobrir que os dois homens eram religiosos que haviam dedicado a vida a tra­balhar na missão cristã na China. Agora estavam a caminho de Fuzhou com o objetivo de fundar uma comunidade na qual pu­dessem começar a converter chineses para a religião verdadeira. Combateriam o paganismo e indicariam o caminho para o reino de Deus, que era o destino final de todos os seres humanos.

Será que San e Guo Si considerariam ajudar os cavalheiros a melhorar a fluência em chinês, que era uma língua tão difícil? Eles já possuíam algumas noções, mas queriam trabalhar com afinco durante a viagem para estar bem preparados quando de­sembarcassem na costa chinesa.

San pensou por um momento. Não viu motivo para não aceitar a remuneração que os homens loiros estavam dispostos a pagar. Isso tornaria mais fácil o seu próprio retorno à China.

Ele se curvou.

"Será um grande prazer para mim e Guo Si ajudar os cava­lheiros a se familiarizar mais com a língua chinesa."

Começaram a trabalhar já no dia seguinte. Elgstrand e Lo­din queriam convidar San e Guo Si para suas instalações no navio, mas San recusou. Preferia permanecer na proa.

Foi San quem se tornou o professor dos missionários. Guo Si passava a maior parte do tempo de lado, apenas escutando.

Os dois missionários suecos trataram os irmãos como iguais. San ficou surpreso ao saber que eles não estavam empreenden­do a viagem para achar trabalho, ou porque tinham sido força­dos a deixar seu país. O que guiava esses homens jovens era um genuíno desejo e a determinação de salvar almas da danação eterna. Elgstrand e Lodin estavam preparados para sacrificar a vida pela fé. Elgstrand vinha de uma família simples de agri­cultores, ao passo que o pai de Lodin fora ministro religioso na área rural. Eles indicaram num mapa de onde tinham vindo. Falavam abertamente, sem tentar ocultar suas origens simples.

Quando San observou o mapa-múndi, deu-se conta de toda a extensão de sua jornada.

Elgstrand e Lodin eram alunos aplicados. Esforçavam-se arduamente e aprendiam depressa. Quando o navio passou pela baía de Biscaia, já tinham estabelecido uma rotina que incluía aulas pela manhã e no final da tarde. San começou a fazer per­guntas sobre a fé e o Deus deles. Queria entender alguns pontos acerca de sua mãe, dados que estiveram sempre além de sua compreensão. Ela nada sabia do Deus cristão, mas costumava orar para outros poderes superiores invisíveis. Como podia uma pessoa estar pronta a sacrificar a vida para fazer outros acredita­rem no Deus em que ela própria acreditava?

Elgstrand falava com mais freqüência, reforçando a men­sagem de que todos os homens são pecadores, mas podiam ser salvos e entrar no paraíso.

San pensou no ódio que sentia por Zi, por Wang (que pro­vavelmente estava morto) e por J. A. Elgstrand sustentava que o Deus cristão ensinava que o pior crime que um homem podia cometer era matar um semelhante.

San não gostou nada dessa idéia; seu bom senso lhe dizia que Elgstrand e Lodin não podiam estar certos. Falavam o tem­po todo sobre o que estava reservado após a morte, mas nunca sobre como a vida humana podia ser mudada enquanto estivesse sendo vivida.

Elgstrand amiúde retornava à idéia de que todos os seres humanos são iguais. Aos olhos de Deus, todo mundo não pas­sava de um pobre pecador. Mas San não conseguia entender como ele e Zi e J. A. podiam ser avaliados igualmente quando chegasse o Dia do Juízo Final.

San tinha enormes dúvidas. Mas ao mesmo tempo estava agradavelmente surpreso com a gentileza e a paciência ilimita­da que os dois homens da Suécia mostravam em relação a ele e Guo Si. Podia ver também que o irmão, que muitas vezes tinha conversas particulares com Lodin, parecia impressionado com o que ouvia. Em respeito, San jamais começou qualquer discussão com Guo Si acerca de sua opinião sobre o Deus branco.

Elgstrand e Lodin partilhavam sua comida com os irmãos. San não podia saber o que era verdade e o que não era quando se tratava do Deus deles, mas não tinha dúvida de que os dois homens viviam de acordo com aquilo que pregavam.

Após trinta e dois dias no mar, o Nellie atracou na Cidade do Cabo para se reabastecer de víveres e baixou âncora à sombra da Table Mountain antes de prosseguir para o sul. Ao chegarem ao cabo da Boa Esperança foram atingidos por uma forte tem­pestade meridional. O Nellie vagou por quatro dias com as velas recolhidas, cavalgando as ondas. San ficou aterrorizado ante a idéia de que o navio pudesse afundar, e pôde ver que a tripula­ção estava igualmente apavorada. As únicas pessoas a bordo que permaneceram absolutamente calmas foram Elgstrand e Lodin. Ou talvez tivessem dissimulado muito bem o medo.

Se San estava com medo, seu irmão estava completamente em pânico. Lodin ficou sentado com Guo Si durante todo o tempo que durou a tempestade. Quando ela amainou, Guo Si pôs-se de joelhos e disse que queria declarar sua crença no Deus que os homens brancos iam apresentar a seus irmãos chineses.

San encheu-se de uma admiração ainda maior pelos missio­nários por se manterem calmos enquanto a tormenta rugia. Mas não conseguiu dispor-se a fazer o que o irmão fizera, ajoelhando-se para rezar a um Deus que para ele ainda era misterioso e evasivo.

Circundaram o cabo da Boa Esperança, e ventos favoráveis auxiliaram a passagem pelo oceano Indico. O clima ficou mais quente, mais fácil de suportar. San continuava com suas aulas, e todo dia Guo Si se afastava com Lodin para conversas íntimas em voz baixa.

Mas San não sabia nada do que o futuro guardava. Um dia Guo Si subitamente adoeceu. Ele despertou San durante a noite e sussurrou que havia começado a tossir sangue. Guo Si estava tremendo, mortalmente pálido. San pediu a um dos marinhei­ros de plantão à noite que buscasse os missionários. O homem, que vinha da América e tinha mãe negra e pai branco, olhou nos olhos de Guo Si.

"Você está sugerindo que eu deva acordar um dos cavalhei­ros só porque um oriental está sangrando?"

"Se não fizer isso, eles vão castigar você amanhã."

O marinheiro franziu o cenho. Foi buscar Elgstrand e Lo­din. Eles carregaram Guo Si para sua cabine e o deitaram num dos beliches. Dos dois, Lodin parecia ser aquele que mais sabia acerca de cuidados médicos, e ministrou diferentes medicamen­tos. San acocorou-se apoiado na parede na apertada cabine. A luz trêmula do lampião lançava sombras nas paredes. O navio avançava lentamente pelas ondas.

O fim veio rápido. Guo Si morreu ao raiar do dia. Antes do último suspiro, Elgstrand e Lodin prometeram que ele seria enviado a Deus se confessasse seus pecados e afirmasse sua cren­ça. Seguraram as mãos dele e oraram juntos. San ficou sentado sozinho no canto do quarto. Não havia nada que pudesse fazer. Seu segundo irmão o deixara. Mas não pôde deixar de notar que os missionários deram a Guo Si uma paz e uma segurança que ele nunca experimentara na vida.

San teve dificuldade de entender as últimas palavras de Guo Si. Mas teve a sensação de que ele não estava com medo da morte.

"Estou deixando você agora", Guo Si disse. "Estou andando sobre a água, como o homem que eles chamam de Jesus. Estou a caminho de um mundo diferente e melhor. Wu está lá me esperando. E um dia você virá se juntar a nós."

Quando Guo Si morreu, San permaneceu sentado com a cabeça entre os joelhos e as mãos sobre os ouvidos. Sacudiu a ca­beça quando Elgstrand tentou falar com ele. Ninguém podia ajudá-lo, foi tomado por um descomunal sentimento de impo­tência e solidão.

Voltou a seu lugar na proa do navio. Dois membros da tri­pulação puseram o corpo de Guo Si em uma antiga vela, junta­mente com vários pregos de ferro para servirem de pesos.

Elgstrand disse a San que o capitão conduziria um funeral marítimo algumas horas mais tarde.

"Eu quero fazer companhia a meu irmão", disse San. "Não quero que ele fique estendido ali no convés antes de o jogarem no mar."

Elgstrand e Lodin carregaram o corpo em sua mortalha de vela de volta para a cabine deles e deixaram San a sós com o ir­mão. Guo Si jamais retornaria à China, mas as crenças tradicio­nais diziam ser essencial que parte de seu corpo fosse enterrada lá. San pegou uma faca da mesinha e, abrindo cuidadosamente a parte inferior do saco, cortou o pé esquerdo de Guo Si. Teve a cautela de se assegurar de que nenhum sangue fosse derrama­do no chão, depois amarrou um pedaço de pano em torno da perna, embrulhou o pé em outro pano e o colocou dentro da própria camisa. Em seguida, consertou a abertura na vela. Nin­guém seria capaz de dizer que fora violada.

O capitão e a tripulação reuniram-se ao lado do parapeito do navio. A mortalha de vela contendo o corpo de Guo Si foi posta numa plataforma apoiada em cavaletes. O capitão tirou o boné. Leu um trecho da Bíblia, depois entoou um hino. Elgs­trand e Lodin o acompanharam com voz forte. No exato instante em que o capitão daria o sinal para que os marinheiros lanças­sem o corpo, Elgstrand ergueu a mão.

"Este homem chinês simples, Wang Guo Si, viu a luz antes de morrer. Ainda que seu corpo em breve esteja a caminho das profundezas do oceano, sua alma está livre e já paira sobre nos­sas cabeças. Oremos para Deus, que zela pelos mortos e libera suas almas. Amém."

Quando o capitão deu o sinal, San fechou os olhos. Ouviu um forte ruído quando o corpo atingiu a água.

San retornou ao lugar que ele e o irmão haviam ocupado durante a viagem. Ainda não conseguia registrar que Guo Si es­tava morto. Justamente quando pensava que a vontade de viver do irmão fora reforçada, ao menos pelo encontro com os dois missionários, ele fora levado embora por uma doença desconhe­cida.

Na noite após o funeral marítimo, San começou a desagra­dável tarefa de cortar fora a pele, os tendões e os músculos do pé de Guo Si. A única ferramenta de que dispunha era um parafuso de ferro que encontrara no convés. Jogou os pedaços de carne ao mar. Quando os ossos estavam limpos, esfregou-os com um trapo para secá-los e os escondeu numa sacola.

Passou a semana seguinte num pranto solitário. Havia horas em que achava que a melhor coisa a fazer era subir na amurada e sob a proteção da noite mergulhar no mar. Mas precisava levar os ossos do irmão morto para casa.

Quando recomeçaram suas aulas com os missionários, não podia jamais deixar de pensar o quanto eles tinham significado para Guo Si. O irmão não adentrara o caminho da morte aos berros; ele se mantivera calmo. Elgstrand e Lodin haviam dado a Guo Si a coisa mais estratégica que existe: a coragem para morrer.

Durante o resto da viagem, primeiro para Java, onde o na­vio voltou a se reabastecer, e depois na esticada final até Cantão, San fez uma porção de perguntas sobre o Deus que era capaz de trazer conforto aos moribundos e que oferecia o paraíso a todos, independentemente de serem ricos ou pobres.

Mas a pergunta-chave foi por que esse Deus permitira que Guo Si morresse exatamente quando ele e San estavam a ca­minho de casa, depois de tantas dificuldades. Nem Elgstrand nem Lodin puderam dar uma resposta satisfatória. Os desígnios do Deus cristão eram inescrutáveis, disse Elgstrand. O que significava isso? Que a vida nada mais era do que esperar pelo que vinha a seguir? Que a fé era, na verdade, uma charada?

San refletia à medida que o navio se aproximava de Cantão. Ele jamais esqueceria nada daquilo por que passara. Agora que­ria aprender a escrever, de modo a poder registrar o que sucede­ra em sua vida junto com os irmãos mortos, desde aquela manhã em que descobrira os pais pendurados numa árvore.

Alguns dias antes de avistarem a costa chinesa, Elgstrand e Lodin vieram sentar-se a seu lado no convés, desejando saber de seus planos ao chegar a Cantão.

Ele não tinha resposta.

"Nós não queremos perder o contato com você", disse Elgs­trand. "Nós nos tornamos próximos ao longo desta viagem. Sem você, nosso conhecimento de chinês teria sido muito mais rudi­mentar. Gostaríamos que se juntasse a nós. Nós lhe pagaremos um salário, e você nos ajudará a construir a grande comunidade cristã que sonhamos."

San permaneceu um bom tempo sentado em silêncio an­tes de responder. Ao tomar sua decisão, levantou-se e curvou-se duas vezes ante os missionários.

Iria com eles. Talvez algum dia conseguisse ter a percepção que tornara mais belos os últimos dias de Guo Si.

Em 12 de setembro de 1867, San desembarcou em Cantão. Em sua sacola estavam os ossos do pé do irmão morto. Isso era tudo que tinha para mostrar da longa jornada.

Perscrutou o cais. Estaria procurando Zi ou Wu? Ele não sabia.

Alguns dias depois San acompanhou os dois missionários suecos num barco até a cidade de Fuzhou. Contemplou os cam­pos flutuando lentamente ao longo deles. Procurava um lugar para enterrar os restos de Guo Si.

Era algo que ele queria fazer sozinho. Era um assunto entre ele, seus pais e os espíritos dos ancestrais.

O barco navegava lentamente rumo ao norte. Sapos canta­vam nas margens.

San voltara para casa.

 

No outono de 1868, San começou, com considerável esfor­ço, a registrar sua história e a de seus dois irmãos mortos. Cinco anos haviam se passado desde que ele e Guo Si tinham sido seqüestrados por Zi, e agora já fazia um ano desde que San re­tornara a Cantão com o pé de Guo Si num saco. Durante esse ano ele acompanhara Elgstrand e Lodin até Fuzhou, estivera a serviço deles como criado pessoal e, graças a um professor que Lodin lhe arranjara, aprendera a escrever.

Na noite em que San sentou-se e começou a escrever a his­tória de sua vida, um forte vento chacoalhava as janelas da casa onde ele tinha um quarto. Sentou-se com o lápis na mão, atento aos sons e imaginando-se de volta ao mar.

Somente agora estava começando a captar o significado de tudo por que passara. Tomou a decisão de relembrar e registrar cada detalhe, sem pular nada.

No entanto, quem leria sua história?

Ele não tinha ninguém para quem escrever. Todavia, que­ria fazê-lo. Se realmente houvesse um criador governando os vivos e os mortos, ele sem dúvida providenciaria para que aquilo que San escrevesse, fosse o que fosse, acabasse nas mãos de al­guém que quisesse ler.

San começou, lenta e laboriosamente, enquanto os ventos faziam as paredes estalar. Ele balançava para frente e para trás no banquinho em que estava sentado. Em breve, o quarto se transformou num navio, com o chão movendo-se sob seus pés.

Ele arrumara várias pilhas de papel sobre a mesa a sua fren­te. Tal qual um caranguejo no leito do rio, tencionava abrir ca­minho de volta até o ponto em que vira os pais balançando na ponta das cordas, oscilando ao vento. Mas queria começar com a viagem para o lugar onde estava neste momento. Era isso que estava mais vívido em sua memória.

Elgstrand e Lodin estavam ambos exultantes e nervosos quando desembarcaram em Cantão. A massa de gente caótica, os odores estranhos e sua incapacidade de entender o dialeto hakka falado na cidade os deixaram inseguros. Eles eram espera­dos — um missionário sueco de nome Tomas Hamberg deveria recebê-los: ele trabalhava para uma sociedade religiosa alemã dedicada a difundir traduções chinesas de textos bíblicos. Ham­berg foi muito hospitaleiro e os deixou ficar na casa da legação alemã onde tinha escritório e apartamento. San cumpriu o pa­pel de criado silencioso que resolvera assumir. Encarregou-se dos chineses responsáveis por levar a bagagem dos missionários, lavava as roupas dos patrões e cuidava das necessidades deles todas as horas do dia e da noite. Embora nada dissesse e se manti­vesse sempre em segundo plano, escutava atentamente tudo que era dito. Hamberg falava chinês melhor que Elgstrand e Lodin, e muitas vezes conversava com eles para ajudá-los a melhorar o domínio do idioma. Por uma porta entreaberta, San ouviu Ham­berg perguntar a Lodin como haviam estabelecido contato com ele. San ficou surpreso ao ouvir Hamberg advertindo Lodin a não depositar confiança excessiva num criado chinês.

Era a primeira vez que San ouvia um dos missionários dizer alguma coisa negativa sobre um chinês. Mas acreditava que nem Elgstrand nem Lodin pensariam da mesma forma que Hamberg.

Após alguns dias de intensivos preparatórios deixaram Can­tão e navegaram ao longo da costa para depois subir o rio Min Jiang até Fuzhou, a Cidade dos Pagodes Pretos e Brancos. Ham­berg providenciara uma carta de apresentação deles para o prin­cipal mandarim da cidade, que anteriormente se mostrara com boa disposição para os missionários cristãos. Para seu espanto, San viu que nenhum dos dois hesitou em se ajoelhar e se prostrar, até tocar a testa no chão, ante o mandarim. Este lhes deu permissão de trabalhar na cidade, e após uma meticulosa busca acharam uma base adequada a seus propósitos. Era um conjunto cercado, composto de diversas casas.

No dia em que se mudaram para lá, os dois missionários se ajoelharam e abençoaram o conjunto de casas que seria seu futuro lar. San também dobrou os joelhos, mas não proferiu ne­nhuma bênção. Ocorreu-lhe que ainda não tinha encontrado um local apropriado para sepultar o pé de Guo Si.

Passaram-se vários meses até que achasse um local perto do rio onde o sol vespertino brilhava sobre as copas das árvores, quando então o solo era lentamente engolido pela sombra. San visitou o lugar diversas vezes e sempre sentia muita paz quando se sentava ali, as costas apoiadas numa rocha. O rio corria vaga­rosamente no sopé da suave encosta a sua frente. Mesmo agora, embora o outono já tivesse chegado, havia flores desabrochando nas margens do rio.

Aqui poderia se sentar e conversar com os irmãos. Era aqui que eles podiam vir e ficar com ele. Era aqui que podiam estar juntos. A linha divisória entre a vida e a morte desaparecia.

Cavou um buraco fundo na terra e enterrou os ossos do pé do irmão. Preencheu o buraco cuidadosamente, removendo todos os vestígios, e naquele ponto colocou uma pedra que trou­xera do deserto americano.

San pensou que talvez devesse recitar alguma das preces que aprendera com os missionários; mas uma vez que Wu, que de certo modo também estava ali, não tivera contato com o Deus a quem as preces seriam dirigidas, ele apenas mencionou seus nomes. Ele juntou asas a suas almas e lhes deu o poder de voar para longe.

Elgstrand e Lodin geravam energia impressionante. San ti­nha cada vez mais respeito por seus incansáveis esforços de der­rubar todas as barreiras e persuadir as pessoas a ajudá-los a cons­truir a missão. Também tinham dinheiro, é claro. Precisavam de dinheiro para levar o trabalho adiante. Elgstrand tinha um acordo com uma companhia de transportes inglesa que visitava Fuzhou regularmente trazendo remessas de dinheiro da Suécia. San ficava surpreso de perceber que os missionários nunca pa­reciam se preocupar com ladrões, que não hesitariam em matar para ter acesso àquelas riquezas. Elgstrand mantinha o dinheiro e notas de câmbio debaixo do travesseiro. Quando nem ele nem Lodin estavam por perto, era San o responsável.

Certa ocasião, San contou secretamente o dinheiro, manti­do num saquinho de couro. Ficou surpreso com a quantia. Por um breve momento sentiu-se tentado a pegar o dinheiro e fugir. Havia o suficiente para ele viajar até Beijing e viver como um homem rico, às custas dos juros que a fortuna geraria.

Mas a tentação foi dominada quando pensou na gentileza e no cuidado que os missionários haviam demonstrado durante os dias finais de seu irmão nesta terra.

San estava levando uma vida que jamais teria imaginado. Dispunha de um quarto próprio com cama, roupas limpas, co­mida à vontade. Vindo do degrau mais baixo, agora supervisio­nava todos os criados da casa. Era rigoroso e determinado, po­rém nunca recorria a punições físicas quando alguém cometia um erro.

Apenas algumas semanas depois de terem chegado a Fu­zhou, Elgstrand e Lodin abriram as portas para todos. O pátio ficou repleto de gente. San permaneceu ao fundo e escutou Elgstrand falar, em seu chinês vacilante, a respeito do notável Deus que enviara seu Filho Único para ser crucificado. Lodin distribuiu figuras coloridas que a congregação passou de mão em mão.

Quando Elgstrand terminou, o pátio se esvaziou rapida­mente. Mas no dia seguinte aconteceu a mesma coisa, e as pes­soas vieram de novo, algumas trazendo amigos e conhecidos. A cidade inteira começou a falar sobre os extraordinários homens brancos que tinham vindo morar entre eles. O que era mais difí­cil para os chineses entenderem era que Elgstrand e Lodin não estavam montando um negócio. Não tinham nada para vender, e não havia nada que quisessem comprar. Simplesmente fica­vam ali, falando num chinês ruim sobre um deus que tratava todos os seres humanos como iguais.

Nesses primeiros dias não havia limite para os esforços dos missionários. Pregaram ideogramas chineses no arco de entrada do pátio, declarando que esse era o Templo do Deus Único e Verdadeiro. Os dois homens pareciam não dormir nunca, esta­vam em permanente atividade. As vezes San os ouvia empregar uma expressão chinesa que significava "idolatria degradante", afirmando que se devia resistir a ela. Espantava-se com o fato de os missionários ousarem acreditar que podiam persuadir pessoas chinesas comuns a abandonar as idéias e crenças com as quais viviam havia gerações. Como podia um Deus que permitia que seu único filho fosse pregado numa cruz ser capaz de dar a um camponês chinês conforto espiritual ou vontade de viver?

Algumas semanas depois de terem chegado, numa manhã bem cedo San tirou os ferrolhos, abriu a pesada porta de entrada em madeira e se viu diante de uma mulher jovem, que se curvou e anunciou chamar-se Lou Qi. Vinha de um vilarejo localizado rio Min acima, não distante de Shuikou. Seus pais eram campo­neses pobres, e ela fugira do vilarejo quando o pai decretara que ela seria vendida como concubina a um homem de setenta anos em Nanchang. Ela havia implorado ao pai que a liberasse de tal obrigação, pois corriam rumores que várias das concubinas ante­riores do homem haviam sido mortas quando ele se cansava de­las. O pai se recusara a dar ouvidos a seus protestos, de modo que ela foi obrigada a fugir. Um missionário alemão sediado no posto avançado de Gou Sihan lhe dissera que havia uma missão em Fuzhou onde havia caridade cristã para todos que a buscavam.

Quando ela terminou a história, San a examinou de cima a baixo. Fez algumas perguntas sobre o que ela sabia fazer, depois a deixou entrar. Permitiu que ela, a título de experiência, auxi­liasse as mulheres e o cozinheiro responsáveis por alimentar os que residiam na missão. Se as coisas dessem certo, ele lhe ofereceria um emprego na equipe doméstica.

E ficou comovido com a felicidade que iluminou sua face.

Qi fez um bom trabalho, e San permitiu que trabalhasse com eles. Ela morava com as outras criadas, e todos gostavam dela porque era sempre serena e nunca tentava evitar os serviços para os quais era designada. San costumava observá-la enquanto trabalhava na cozinha ou corria pelo pátio com uma ou outra incumbência. Seus olhares ocasionalmente se cruzavam, mas ele nunca a tratou de forma diferenciada.

Um dia, pouco antes do Natal, Elgstrand lhe pediu para alugar um barco e indicar alguns remadores. Iam descer o rio para visitar um navio inglês que acabara de chegar de Londres. O cônsul britânico em Fuzhou tinha informado Elgstrand de que havia um pacote para a missão.

"É melhor você vir conosco", disse Elgstrand com um sor­riso. "Preciso do meu melhor homem quando vou apanhar uma sacola cheia de dinheiro."

San descobriu uma equipe de remadores que aceitou a ta­refa. No dia seguinte, Elgstrand e San entraram no barco. Um pouco antes, San havia cochichado ao patrão que era melhor não dizer nada sobre o conteúdo do pacote que iam buscar no navio inglês.

Elgstrand sorriu.

"Eu sem dúvida sou muito crédulo", ele disse, "mas não tão ingênuo quanto você pensa."

Os remadores levaram três horas para alcançar o navio e atracar a seu lado. Elgstrand subiu a escada com San. Um capi­tão calvo de nome John Dunn os recebeu. Olhou para os rema­dores com extrema desconfiança. Então lançou a San um olhar semelhante e fez um comentário que San não entendeu. Elgs­trand balançou a cabeça e explicou a San que o capitão Dunn não tinha muita paciência com os chineses.

"Ele acha que vocês são todos ladrões e trapaceiros", disse rindo. "Um dia desses vai perceber o quanto está enganado."

Dunn e Elgstrand desapareceram na cabine do capitão. Após um breve tempo Elgstrand ressurgiu com uma valise de couro, que entregou ostensivamente a San.

"O capitão Dunn pensa que sou louco por confiar em você. É triste dizer, mas ele é uma pessoa extremamente vulgar que sem dúvida sabe muita coisa sobre navios, ventos e oceanos, mas não entende nada de gente."

Desceram de volta para o barco a remo e retornaram ao pos­to da missão. Já era noite quando chegaram. San pagou ao chefe dos remadores. A medida que caminhavam pelas ruelas escuras, San começou a sentir um desconforto. Lembrava da noite em Cantão em que Zi o ludibriara junto com os irmãos, atraindo-o para a armadilha. Mas dessa vez nada aconteceu. Elgstrand foi para sua sala com a valise enquanto San travava a porta com o ferrolho e acordava o vigia noturno, que adormecera de costas para o muro externo.

"Você é pago para ficar de guarda", disse San, "não para dormir."

Disse isso num tom amigável, mesmo sabendo que o vigia era preguiçoso e logo voltaria a cair no sono. Mas o sujeito tinha um monte de filhos para cuidar e uma esposa que fora grave­mente queimada por água fervente e ficara confinada à cama por anos, muitas vezes berrando de dor.

Sou um capataz com os dois pés no chão, San pensou. Não fico sentado no lombo de um cavalo como J. A. E durmo como um cão de guarda, com um olho aberto.

Ele se dirigiu a seu quarto. No caminho notou que havia luz no cômodo onde dormiam as criadas. Franziu o cenho. Era proibido deixar velas acesas à noite, pois o risco de incêndio era muito grande. Foi até a janela e espiou cuidadosamente por uma fresta entre as finas cortinas. Havia três mulheres no quar­to. Uma delas, a mais velha das criadas, dormia, mas Qi e outra mulher jovem chamada Na estavam sentadas na cama que divi­diam, conversando. Havia um lampião ao lado da cama. Como era uma noite quente, Qi havia desabotoado a parte superior da camisola, deixando os seios expostos. San olhou seu corpo, fascinado. Não podia ouvir as vozes e imaginou que estavam co­chichando para não acordar a mulher mais velha.

Qi subitamente se virou e olhou para a janela. San recuou e se encolheu. Será que ela o teria visto? Ele retrocedeu até as sombras e aguardou. Mas Qi não ajeitou as cortinas. San retor­nou à janela e ficou observando até Na soprar a vela, deixando o quarto no escuro.

San não se mexeu. Um dos cães que corria solto pelo con­junto de casas durante a noite para afugentar ladrões veio até ele e farejou suas mãos.

"Eu não sou ladrão", sussurrou San. "Sou um homem co­mum com desejo por uma mulher que um dia pode ser minha."

Daquele momento em diante, San fixou seu coração em Qi. Teve muito cuidado quanto a isso, pois não queria assustá-la. Tampouco queria que seu interesse fosse óbvio demais a ponto de os outros criados perceberem. O ciúme é sempre propenso a se espalhar depressa.

Levou um bom tempo até Qi compreender os cautelosos si­nais que ele lhe enviava. Começaram a se encontrar no escuro do lado de fora do quarto dela, depois de Na ter prometido não fazer mexericos sobre o assunto. Em troca disso, Na ganhou um par de sapatos novos. Por fim, quase meio ano depois, Qi começou a passar parte da noite no quarto de San. Quando faziam amor, San experimentava uma sensação de alegria que espan­tava todas as sombras e memórias dolorosas que geralmente o cercavam.

San e Qi não tinham dúvida de que queriam passar o resto de suas vidas juntos.

San resolveu falar com Elgstrand e Lodin e pedir permissão para se casar. Foi visitar os dois missionários numa manhã depois de eles terem terminado o desjejum, mas antes de voltarem suas atenções para as tarefas que preenchiam seus dias. Explicou o que queria. Lodin nada disse; Elgstrand foi quem falou.

"Por que você quer se casar com ela?"

"Ela é simpática e atenciosa. E trabalhadora."

"Ela é uma mulher muito simples que não tem condições de chegar nem perto de tudo que você aprendeu. E não mostra nenhum interesse por nossa mensagem cristã."

"Ela ainda é muito jovem."

"Há quem afirme que ela é ladra."

"Os criados sempre fazem mexericos. Ninguém escapa. Todo mundo acusa todo mundo de tudo. Eu sei o que é verdade e o que não é. Qi nunca roubou nada."

Elgstrand voltou-se para Lodin. San não tinha idéia do que disseram numa língua que ele não entendia.

"Nós pensamos que você deve esperar", disse Elgstrand. "Se vai se casar, queremos que seja um casamento cristão. O primei­ro que vamos realizar aqui no posto da missão. Mas nenhum de vocês dois ainda está maduro. Queremos que espere."

San fez uma reverência e saiu da sala. Estava extremamen­te desapontado. Mas Elgstrand não lhe dera um não definitivo. Um dia ele e Qi se tornariam um casal.

Alguns meses depois Qi contou a San que estava grávida. San ficou radiante e imediatamente decidiu que, se fosse um menino, o chamaria de Guo Si. Mas ao mesmo tempo deu-se conta de que tal notícia causaria problemas — a religião cristã insistia que o casal contraísse matrimônio antes de ter filhos. Ter relações sexuais antes do casamento era considerado um gran­de pecado. Não conseguiu achar solução. A barriga que crescia podia ser escondida por algum tempo, mas San seria obrigado a tomar alguma atitude antes que a verdade se revelasse.

Um dia San foi informado de que Lodin iria precisar de um grupo de remadores para uma viagem vários quilômetros rio acima, até uma missão dirigida por alemães. Como sempre acontecia nessas travessias a barco, San iria junto. Na noite an­terior à viagem ele despediu-se de Qi e prometeu que resolveria tudo na volta.

Quando ele e Lodin retornaram quatro dias depois, San foi convocado por Elgstrand, que queria lhe falar. O missionário estava sentado à sua escrivaninha, no escritório. Geralmente convidava San a tomar assento, mas desta vez não o fez. San desconfiou de que algo acontecera.

A voz de Elgstrand estava mais branda do que o habitual.

"Como foi a viagem?"

"Tudo dentro do esperado."

Elgstrand fez um meneio e lançou a San um olhar inqui­ridor.

"Estou decepcionado", ele disse. "Até o último momento tinha esperança de que o boato que havia chegado a meus ou­vidos não fosse verdade. Mas no final fui obrigado a agir. Você entende do que eu estou falando?"

San entendia, mas mesmo assim disse que não.

"Isso me deixa ainda mais decepcionado", Elgstrand pros­seguiu. "Quando uma pessoa diz uma mentira, significa que o diabo achou seu caminho na mente dela. Estou me referindo, é claro, ao fato de que a mulher com quem você queria se casar está grávida. Vou lhe dar mais uma oportunidade de me contar a verdade."

San baixou a cabeça, mas não disse nada. Podia sentir o coração acelerado.

"Pela primeira vez desde que nos conhecemos no navio que nos trouxe até aqui, você me decepcionou", continuou Elgstrand. "Você tem sido uma das pessoas que deram a mim e ao irmão Lodin a sensação de que mesmo os chineses podem ser alçados a um nível espiritual superior. Os últimos dias têm sido muito difíceis. Tenho rezado por você e decidi que posso permitir que continue. Mas precisa dedicar ainda mais tempo e esforço para progredir a ponto de poder declarar sua submissão ao Deus que compartilhamos."

San ficou parado, cabeça baixa, esperando o que viria em seguida. Não veio nada.

"Isto é tudo", encerrou Elgstrand. "Volte aos seus afazeres."

Ao chegar à porta, ouviu a voz de Elgstrand nas suas costas.

"Você compreende, é claro, que Qi não podia ficar aqui. Ela nos deixou."

San estava arrasado ao sair para o pátio. Sentia a mesma coisa que experimentara quando o irmão morreu. Mais uma vez derrubado. Encontrou Na, agarrou-a pelos cabelos e a arrastou para fora da cozinha. Era a primeira vez que San era violento com um dos criados. Na gritou e jogou-se ao chão. San perce­beu que não fora ela quem fizera mexericos, mas que a velha tinha escutado Qi confessar a situação a Na. San conseguiu se conter para não agredi-la também. Isso acarretaria sua expulsão da missão. Levou Na para o quarto e a fez sentar-se num banquinho.

"Onde está Qi?"

"Ela foi embora faz dois dias."

"Para onde ela foi?"

"Eu não sei. Estava muito aborrecida. Saiu daqui cor­rendo."

"Ela deve ter dito alguma coisa sobre aonde ia."

"Acho que ela não sabia, mas pode ter ido até o rio para esperar você lá."

San ergueu-se de um salto, saiu correndo do quarto, atra­vessou o portão e desceu até o ancoradouro. Mas não conseguiu encontrá-la. Passou a maior parte do dia procurando por ela, perguntando a todos com quem cruzava, mas ninguém a vira. Falou com os remadores, e eles prometeram informá-lo se Qi aparecesse.

Quando voltou para a missão e encontrou Elgstrand nova­mente, foi como se o sueco já tivesse esquecido o que sucedera. Estava se preparando para o ofício que seria celebrado no dia seguinte.

"Você não acha que o pátio precisa ser varrido?", Elgstrand perguntou num tom amigável.

"Vou providenciar para que seja a primeira coisa a ser feita amanhã de manhã, antes que as visitas cheguem."

Elgstrand aquiesceu, e San se curvou. O missionário ob­viamente considerava o pecado de Qi tão sério que não havia redenção possível para ela.

San simplesmente não conseguia entender que houvesse gente que jamais obteria a graça de Deus por ter cometido o pecado de amar outro ser humano.

Observou os dois missionários conversando na varanda em frente ao escritório.

Era como se os estivesse enxergando pela primeira vez sob sua verdadeira luz.

Dois dias depois, San recebeu uma mensagem de um de seus amigos no embarcadouro. Foi correndo para lá, tendo que abrir caminho a cotoveladas através da multidão. Qi estava dei­tada numa prancha. Apesar da pesada corrente de ferro em tor­no da sua cintura, ela emergira das profundezas. A corrente se enroscara num leme que ergueu o corpo para a superfície. Sua pele estava de um branco azulado, os olhos fechados. San foi o único a perceber que sua barriga continha uma criança.

Mais uma vez ele estava só.

San deu dinheiro ao homem que lhe mandara a mensagem sobre o que havia acontecido. Aquilo bastava para cremar o cor­po. Dois dias depois, sepultou as cinzas no mesmo lugar onde já repousava Guo Si.

Então foi isso que eu consegui na vida, ele pensou. Eu crio e aí preencho o meu próprio cemitério. Os espíritos de quatro pessoas já repousam aqui, e uma delas nem sequer nasceu.

Ajoelhou-se e bateu a cabeça repetidas vezes no chão. A tristeza se avolumava dentro dele. E foi incapaz de resistir. Uivou como um animal. Nunca se sentira tão desamparado como naquele momento. Um dia já fora capaz de cuidar de seus ir­mãos: agora era a mera sombra de um homem, a desmanchar.

Ao retornar à missão, tarde da noite, o vigia noturno lhe disse que Elgstrand estivera à sua procura. San bateu à porta do escritório, onde o missionário estava sentado, escrevendo à luz de um lampião.

"Senti sua falta", Elgstrand disse. "Você esteve fora o dia todo. Rezei a Deus na esperança de que nada tivesse lhe acon­tecido."

"Não aconteceu nada", disse San curvando-se. "Tive uma pequena dor de dente, que curei com ajuda de algumas ervas."

"Que bom. Não podemos fazer nada sem você. Vá dormir um pouco."

San nunca contou a Elgstrand e Lodin que Qi tirara a pró­pria vida. Uma moça nova foi indicada. San trancou a tristeza dentro de si e continuou por muitos meses a ser o servo insubs­tituível dos missionários. Nunca disse nada acerca do que estava pensando, nem como agora escutava os sermões com uma atitu­de diferente de antes.

Foi mais ou menos nessa época que sentiu que já dominava a escrita suficientemente bem para começar a história de si mes­mo e dos irmãos. Ainda não sabia para quem estava escrevendo. Talvez apenas para o vento. Mas, se esse fosse o caso, forçaria o vento a escutar.

Ele escrevia tarde da noite, dormia cada vez menos, mas sem deixar que isso afetasse seus deveres. Era sempre amistoso, disposto a ajudar, tomar decisões, administrar os criados e facili­tar a conversão dos chineses para os missionários.

Passara-se quase um ano desde que chegara a Fuzhou. San estava bem cônscio de que levaria um bom tempo para criar o reino de Deus sonhado pelos missionários. Após doze meses, dezenove pessoas haviam se convertido e aceitado a fé cristã.

Ele escrevia o tempo todo, pensando nos motivos que o le­varam inicialmente a deixar sua aldeia natal.

Uma das funções de San era limpar e arrumar o escritório de Elgstrand. Ninguém mais tinha permissão de entrar lá. Certo dia, quando San estava espanando cuidadosamente a escrivani­nha e ajeitando os papéis, notou uma carta que Elgstrand escre­vera em chinês, endereçada a um dos amigos missionários em Cantão — eles também procuravam praticar seu conhecimento do idioma.

Elgstrand confidenciava ao amigo como se segue: "Como você sabe, os chineses são incrivelmente laboriosos e conseguem agüentar a miséria da mesma maneira que mulas e asnos agüen­tam ser chutados e chicoteados. Mas não se deve esquecer que os chineses também são vis e ardilosos mentirosos e vigaristas; são arrogantes e gananciosos, e têm uma sensualidade bestial que às vezes me enoja. De modo geral, são um povo que não vale nada. A única esperança é que um dia o amor de Deus possa penetrar na sua horrenda aspereza e crueldade".

San leu a carta uma segunda vez. Então acabou de limpar a sala e saiu.

Continuou a trabalhar como se nada tivesse acontecido, es­crevia toda noite e escutava os sermões durante o dia.

Uma noite, no outono de 1868, deixou a missão sem nin­guém notar. Tinha empacotado todos os pertences numa sim­ples sacola de pano. Era um dia chuvoso, de vento forte. O vigia noturno dormia junto ao portão e não ouviu San se evadir. Empoleirado no alto do portão, San arrancou a placa que dizia ser aquela a entrada do Templo do Deus Único e Verdadeiro. Em seguida, jogou-a na lama.

A rua estava deserta. Caía um aguaceiro.

San foi engolido pelas trevas, e sumiu.

 

Ya Ru gostava de ficar sentado sozinho no escritório à noite. O arranha-céu no centro de Beijing, onde ele ocupava toda a cobertura com janelas do chão ao teto com vista para a cidade, estava praticamente vazio àquela altura. Apenas os guardas de segurança no térreo e a equipe de limpeza ainda estavam por lá. Sua secretária, a sra. Shen, estava à disposição na antessala: ela sempre ficava enquanto ele achasse que poderia precisar dela — às vezes até o amanhecer.

Aquele dia de dezembro de 2005 era o trigésimo oitavo ani­versário de Ya Ru. Ele concordava com o filósofo ocidental que uma vez escrevera que aquela idade marcava a metade da vida de um sujeito. Ele tinha muitos amigos que, à medida que se aproximavam dos quarenta, sentiam a velhice como uma brisa fria na nuca. Ya Ru não tinha tais preocupações; quando estu­dante tomara a decisão de nunca perder tempo e energia preocupando-se com coisas em relação às quais nada podia fazer. A passagem do tempo era inexorável e caprichosa, e no final sem­pre se perdia a batalha. A única resistência que um homem po­dia oferecer era aproveitar o tempo ao máximo, explorá-lo sem tentar impedir seu avanço.

Ya Ru pressionou o nariz contra a vidraça fria. Costumava manter a temperatura baixa em seu amplo conjunto de escritó­rios, onde toda a mobília era em tons de preto e vermelho-sangue, de muito bom gosto. A temperatura era constantemente de dezessete graus Celsius, tanto durante a estação fria como no verão, quando tempestades de areia e ventos quentes sopravam sobre Beijing. Era a temperatura que lhe agradava. Ele sempre fora a favor de reflexões frias. Fazer negócios e tomar decisões políticas eram uma espécie de guerra, e tudo que importava eram os cálculos frios e racionais. Não era à toa que era conhe­cido como Tou Nao Leng — O Frio.

Sem dúvida havia aqueles que o julgavam perigoso. Era verdade que diversas vezes, mais cedo na vida, havia se descon­trolado e machucado fisicamente as pessoas, mas isso não ocor­ria mais. Não se importava que muita gente tivesse medo dele. Mais importante era não perder o controle sobre a raiva que às vezes corria através dele.

Ocasionalmente, muito cedo pela manhã, Ya Ru saía de seu apartamento por uma porta dos fundos secreta. Ia para um parque próximo e executava os concentrados exercícios de gi­nástica conhecidos como tai chi. Isso fazia com que se sentisse uma parte minúscula, insignificante da grande e anônima mas­sa do povo chinês. Ninguém sabia quem ele era ou qual o seu nome. Às vezes achava que era como dar a si mesmo um banho completo. Quando mais tarde voltava ao apartamento e reassu­mia sua identidade, sempre se sentia mais forte.

Meia-noite se aproximava. Esperava duas visitas naquela noite. Tinha prazer em marcar reuniões no meio da noite ou no romper do dia. Ter controle do tempo dava-lhe uma vantagem: numa sala fria, na pálida luz do amanhecer, era mais fácil obter o que queria.

Lançou um olhar sobre a cidade. Em 1967, quando a Re­volução Cultural estava mais tempestuosa do que nunca, ele nascera num hospital qualquer em meio àquelas luzes cintilan­tes lá embaixo. Seu pai não estivera presente; como professor universitário, fora apanhado nos frenéticos expurgos da Guarda Vermelha e banido para o campo para cuidar de uma criação de porcos. Ya Ru jamais veio a conhecê-lo. Ele desaparecera e nunca mais se ouviu falar dele. Mais tarde na vida, Ya Ru man­dara alguns de seus amigos mais próximos para o lugar onde se acreditava que o pai estivesse exilado, mas sem êxito. Ninguém se lembrava do homem. E tampouco havia vestígio dele nos caó­ticos arquivos daquele período. O pai de Ya Ru submergira na enorme onda política que Mao havia deflagrado.

Fora uma época difícil para sua mãe, sozinha com o filho e a filha mais velha, Hong Qiu. Sua primeira lembrança era da mãe chorando. Uma lembrança desfocada, que ele jamais esquecera. Anos depois, no começo da década de 1980, quando a situação já estava melhor e sua mãe conseguira de volta o emprego de professora de física teórica numa das universidades em Beijing, Ya Ru já tinha uma compreensão melhor do caos que reinava quando ele nasceu. Mao tentara criar um novo universo. Da mesma forma que o universo havia sido criado, uma nova Chi­na emergiria do tumulto de massas que Mao tinha provocado.

Ya Ru cedo percebeu que a única garantia de sucesso era aprender onde estava o centro do poder numa determinada épo­ca. Uma avaliação das várias tendências na vida política e eco­nômica era essencial para galgar ao nível no qual ele agora se achava.

Quando houve a abertura de mercado na China, eu estava pronto, pensou Ya Ru. Eu era um daqueles gatos aos quais Deng se referiu — aqueles que não precisavam ser pretos ou cinzentos, contanto que caçassem ratos. Agora sou um dos homens mais ricos da minha geração. Assegurei minha posição graças a contatos profundos na Cidade Proibida desta nova era, onde reinam os círculos de poder mais restritos do Partido Comunista. Sou eu que pago suas viagens ao exterior; sou eu que trago os estilistas de moda para suas esposas. Sou eu que consigo vagas nas melho­res universidades dos Estados Unidos para seus filhos e construo as casas para seus pais. Em troca, tenho a minha liberdade.

Ya Ru interrompeu sua linha de pensamento e verificou a hora. Quase meia-noite. Foi até sua mesa e pressionou o botão do interfone. A sra. Shen atendeu imediatamente.

"Estou esperando uma visita", ele disse, "daqui a mais ou menos dez minutos. Deixe-a esperando por meia hora. Eu interfono para ela entrar."

Ya Ru sentou-se à escrivaninha. Ele sempre a deixava vazia quando ia embora à noite. Cada novo dia devia ser saudado por um tampo limpo sobre o qual seriam espalhados novos desafios.

Nesse momento havia sobre a mesa um livro velho e bem manuseado cuja capa estava gasta. Às vezes Ya Ru pensava que devia contratar um artesão habilidoso para remontar o livro an­tes que ele se desfizesse em pedaços. Mas resolvera deixar como estava; o conteúdo ainda se mantinha intacto após todos os anos que haviam passado desde que fora escrito.

Afastou o livro cuidadosamente para o lado, apertou um bo­tão sob a mesa e uma tela de computador ergueu-se sem esforço. Digitou alguns caracteres, e a árvore genealógica de sua família apareceu na tela cintilante. Fora preciso um bocado de tempo e dinheiro para montar esse quadro, ao menos as conexões das quais podia ter certeza. Durante a violenta e sanguinária história da China, não foram apenas tesouros culturais que haviam se perdido; muitos arquivos tinham sido destruídos. Havia lacunas na árvore que Ya Ru fitava, lacunas que ele jamais poderia preen­cher.

Ainda assim, os nomes fundamentais estavam ali. Inclusive, o mais importante, o nome do homem que escrevera o diário que estava sobre sua mesa.

Ya Ru buscara a casa onde seu ancestral se sentara para es­crever à luz de uma vela de sebo. Mas não restara nada dela. O lugar onde Wang San vivera estava agora coberto por uma rede de rodovias.

San escrevera em seu diário que suas palavras se destina­vam ao vento e a seus filhos. Ya Ru jamais compreendera o que significava o vento ler o livro. Presumivelmente, no fundo de seu coração San fora um romântico, apesar da vida brutal que fora obrigado a levar e da necessidade de vingança que jamais o abandonara. Mas os filhos estavam ali, acima de tudo um filho chamado Guo Si. Guo Si nascera em 1882. Um dos primeiros líderes do Partido Comunista, fora morto pelos japoneses na guerra com a China.

Ya Ru muitas vezes achava que o diário escrito por San se destinava a ele. Embora mais de um século tivesse se passado en­tre a redação do diário e a noite em que ele sentara para lê-lo, era como se San estivesse falando diretamente com Ya Ru. O ódio que seu ancestral sentira tanto tempo atrás ainda estava vivo dentro de Ya Ru. Primeiro San, depois Guo Si e agora ele próprio.

Havia uma fotografia de Guo Si, filho de San, do início dos anos 1930, posando com vários outros homens numa paisagem montanhosa. Ya Ru escaneara a foto para o computador. Sem­pre que a olhava, tinha a impressão de estar muito próximo de Guo Si, parado logo atrás do homem com um sorriso no rosto e uma verruga na bochecha. Ele estava tão perto do poder absolu­to, pensou Ya Ru. E eu, seu descendente, também cheguei perto do poder na minha vida.

Ouviu-se um leve zumbido no interfone. A primeira visita chegara, mas ele queria fazê-la esperar. Muito tempo atrás ele havia lido sobre um líder político que transformara em fina arte a classificação de seus amigos e inimigos segundo o tempo que eram obrigados a esperar antes de serem recebidos. Podiam en­tão comparar os tempos de espera entre si e deduzir a distância que cada um estava do círculo interno do líder.

Ya Ru desligou o computador, e a tela desapareceu com o mesmo ruído suave com que surgira. Serviu-se de um copo de água de um jarro sobre a mesa. A água vinha da Itália e era produzida especialmente para ele por uma companhia que per­tencia parcialmente a uma das suas próprias empresas.

Água e petróleo, ele pensou, eu me cerco de líquidos. Hoje, petróleo, amanhã quem sabe o direito de extrair água de vários rios e lagos.

Foi mais uma vez até a janela e olhou para o distrito onde ficava a Cidade Proibida. Gostava de ir lá, visitar os amigos de cujo dinheiro cuidava e multiplicava. Hoje em dia o trono do imperador estava vazio. Mas o poder ainda se concentrava den­tro dos muros da antiga cidade imperial. Deng dissera uma vez que a antiga dinastia imperial teria invejado o poder do Partido Comunista. Não havia outro país no mundo com uma base de poder comparável. Neste exato momento, uma em cada cinco pessoas respirando sobre a terra dependia do que o líder do par­tido, praticamente um imperador, decidisse.

Ya Ru sabia que era um homem de sorte. Jamais se esque­cia disso. No momento em que se sentisse garantido nessa situa­ção, em pouco tempo começaria a perder sua influência e sua prosperidade. Ele era a eminência parda entre essa elite dona do poder. Era membro do Partido Comunista; tinha sólidas conexões no próprio centro dos círculos internos, onde as mais importantes decisões eram tomadas. Era também conselheiro do partido, e toda vez sondava o caminho com suas antenas para evitar armadilhas, buscando sempre os canais seguros.

Hoje, dia de seu aniversário, sabia estar no meio do período mais importante que a China passava desde a Revolução Cul­tural. Tendo se preocupado consigo mesma durante séculos, a China estava no processo de abrir os olhos para o resto do mundo. Mesmo havendo uma luta dramática no comitê central sobre que rumo tomar, Ya Ru não tinha dúvida do desfecho. Era impossível mudar a rota que a China já tomara. A cada dia que passava, mais e mais de seus conterrâneos se achavam em situa­ção melhor do que antes. Mesmo que o vão entre os habitantes urbanos e os camponeses se alargasse cada vez mais, uma pe­quena porção dessa nova prosperidade respingava para as regiões mais assoladas pela miséria. Seria pura loucura tentar desviar esse desenvolvimento de uma maneira que lembrasse o passado. E assim a caça aos mercados e matérias-primas estrangeiras pre­cisava se tornar cada vez mais intensa.

Viu de relance sua face refletida da grande vidraça. Wang San podia muito bem ter aquela aparência.

Mais de cento e trinta e cinco anos se passaram, pensou Ya Ru. San jamais poderia ter imaginado a vida que eu levo hoje. Mas posso visualizar a vida que ele levou, e posso entender sua raiva. Toda a China foi obscurecida pela injustiça do passado.

Ya Ru verificou novamente a hora; embora ainda não tives­se passado meia hora, estava pronto para receber a primeira de suas visitas.

Uma porta oculta na parede se abriu, e sua irmã Hong Qiu entrou. Uma visão, ela irradiava beleza.

Encontraram-se no meio da sala.

"E então, meu irmãozinho", ela disse. "Você está um pouco mais velho do que ontem. Um dia desses você vai me alcançar."

"Não", respondeu Ya Ru. "Não vou. Mas nenhum de nós dois sabe quem vai enterrar o outro."

"Por que mencionar isso agora? Afinal, é seu aniversário!"

"Se você tem algum bom senso, sabe que a morte está sem­pre rondando pelos cantos."

Ele a levou até um conjunto de poltronas no outro extremo da sala. Como ela não bebia álcool, serviu-lhe chá de uma cha­leira dourada. Continuou tomando água.

Hong Qiu sorriu novamente. Aí, de súbito ficou séria.

"Eu trouxe um presente para você. Mas antes quero saber se o boato que eu ouvi é verdade."

Ya Ru abriu largamente os braços.

"Eu estou sempre cercado de boatos. Como todos os ho­mens proeminentes, para não mencionar as mulheres proemi­nentes. Como você, minha cara irmã."

"Quero saber se é verdade que houve suborno nos contratos de licitação para a construção das dependências das Olimpía­das." Hong Qiu bateu a xícara com força sobre a mesa. "Você compreende as implicações disso? Suborno e corrupção?"

Ya Ru perdeu a paciência. Geralmente achava as conversas da irmã agradáveis, pois ela era inteligente e cáustica na forma de se expressar. Também apreciava a oportunidade de afiar seus próprios argumentos ao discutir com ela. Ela simbolizava uma abordagem antiga baseada em ideais que já não significavam mais nada. Solidariedade era um bem de mercado como qual­quer outro. O comunismo clássico fracassara em sobreviver às pressões impostas por uma realidade com que os velhos teóricos jamais puderam realmente se atracar. O fato de Karl Marx ter estado certo em relação a muitos fundamentos de economia e política, ou de Mao ter demonstrado que mesmo camponeses pobres podiam se erguer acima da sua miséria, não significava que os grandes desafios que agora confrontavam a China pudes­sem ser superados recorrendo-se aos métodos clássicos.

Hong Qiu estava sentada de costas em seu cavalo à medida que ele trotava para o futuro. Ya Ru sabia que ela se daria mal.

"Nós nunca seremos inimigos", ele disse. "Os membros da nossa família foram pioneiros quando se dispuseram a sair da decadência e da ruína. É só que temos pontos de vista diferentes quanto aos métodos a serem usados. Mas é claro que eu não su­borno ninguém, da mesma forma que não permito que ninguém compre favores de mim."

"Você só pensa em si mesmo, em mais ninguém. Acho difí­cil acreditar que você esteja me dizendo a verdade."

Ya Ru ficou zangado. "O que você estava pensando dezes­seis anos atrás, quando aplaudiu os velhos líderes do partido que ordenaram que os tanques esmagassem os manifestantes na pra­ça Tiananmen? Quais eram suas idéias? Será que lhe ocorreu que eu podia muito bem estar entre eles? Eu tinha vinte e dois anos na época."

"Era preciso tomar uma atitude. A estabilidade do país es­tava ameaçada."

"Por mil estudantes? Vamos lá, Hong Qiu. Vocês tinham medo de algo bem diferente."

"Do quê?"

Ya Ru se inclinou para frente e sussurrou no ouvido da irmã: "Dos camponeses. Vocês estavam com medo de que eles ficassem a favor dos estudantes. Em vez de pensar em novas for­mas de fazer nosso país progredir, vocês recorreram às armas. Em vez de resolver o problema, vocês tentaram ocultá-lo".

Hong Qiu não respondeu. Olhou o irmão nos olhos sem piscar. Ocorreu a Ya Ru que ambos vinham da mesma família c|ue apenas poucas gerações atrás jamais teria ousado olhar um mandarim nos olhos.

"Você não deve nunca sorrir para um lobo", disse Hong Qiu. "Se fizer isso, o lobo pensa que você tem intenção de atacar."

Ela se levantou e depositou sobre a mesinha um pacote amarrado com uma fita vermelha.

"Estou preocupada com o caminho que você está seguin­do, irmãozinho. Vou fazer tudo que puder para que nosso país não seja transformado de maneira a nos envergonhar. A grande luta de classes vai voltar. De que lado você está? Do seu, não do povo."

"O que estou me perguntando no momento é qual de nós é o lobo", disse Ya Ru.

Ele se encaminhou para a irmã, mas ela virou-se e se dirigiu à porta. Parou diante da parede vazia. Ya Ru foi até sua mesa e apertou o botão que abria a porta oculta.

Retornou à mesinha e desembrulhou o pacote que Hong Qiu lhe dera. Continha uma pequena caixa feita de jade. Den­tro dela, uma pena branca e uma pedra.

Não era incomum que ele e Hong Qiu trocassem presen­tes que incorporavam mensagens ou charadas particulares. Ele compreendeu de imediato o significado do presente. Referia-se a um poema de Mao. A pena simbolizava uma vida jogada fora, a pedra, uma vida — e uma morte — com significado.

Minha irmã está me dando um aviso, pensou Ya Ru. Ou talvez me desafiando. Que caminho devo escolher para seguir pelo resto da vida?

Ele sorriu diante do presente e resolveu que para o próxi­mo aniversário dela encomendaria um belo lobo esculpido em mármore.

Ya Ru respeitava sua teimosia. Era realmente sua irmã, ao menos no que dizia respeito ao caráter e à força de vontade. Ela continuaria opondo-se a ele e aos do governo que seguiam o mesmo caminho. Mas estava errada em condenar o desenvolvi­mento que ele apoiava, que voltaria a transformar a China no país mais poderoso do mundo.

Sentou-se à sua escrivaninha e acendeu a lâmpada. Enfiou nas mãos um par de luvas brancas de algodão com todo cuida­do. Então começou novamente a folhear o livro que Wang San escrevera e que fora passado de geração em geração. Hong Qiu também o lera, mas não fora capturada por ele da mesma forma que o irmão.

Ya Ru voltou à página final do diário. A essa altura, Wang San tinha oitenta e três anos, estava muito doente e morreria em breve. Suas últimas palavras expressavam a preocupação em partir sem ter feito tudo que prometera aos irmãos.

Logo vou morrer. Mas mesmo que vivesse até os mil anos, ainda assim morreria cedo demais, pois não teria conseguido re­cuperar a honra da nossa família. Fiz o que pude, mas não foi o bastante.

Ya Ru fechou o diário e o guardou numa gaveta, que em seguida trancou. Descalçou as luvas. Abriu outra gaveta e tirou um grosso envelope. Em seguida apertou o botão do interfone. A sra. Shen atendeu de imediato.

"Minha visita chegou?"

"Sim, ele está aqui."

"Peça para entrar."

A porta na parede se abriu. O homem que entrou na sala era alto e magro. Moveu-se com delicadeza e agilidade sobre o grosso tapete. Saudou Ya Ru com uma reverência.

"É hora de você partir, Liu Xin", disse Ya Ru. "O início do Ano-Novo ocidental é a hora mais apropriada para executar sua tarefa. Tudo que você precisa está neste envelope. Quero você de volta em fevereiro, para o nosso Ano-Novo."

Ya Ru estendeu o envelope. O homem o pegou e fez nova reverência.

"Liu Xin", prosseguiu Ya Ru. "A tarefa que lhe dei é mais importante do que qualquer outra coisa que eu já lhe pedi. Tem a ver com minha própria vida, com minha própria família."

"Hei de fazer o que me pede."

"Sei que você fará. Mas, se falhar, peço que não volte aqui. Se voltar, vou ter que matá-lo."

"Não vou falhar."

Ya Ru assentiu. A conversa tinha terminado. Liu Xin deixou a sala, e a porta se fechou silenciosamente. Pela última vez na­quela noite, Ya Ru falou com a sra. Shen.

"Um homem acabou de sair da minha sala", Ya Ru disse.

"Ele era muito taciturno, mas amistoso."

"Mas não esteve aqui esta noite para falar comigo."

"Claro que não."

"Só a minha irmã, Hon Qiu, esteve aqui."

"Eu não vi mais ninguém. Nem anotei no diário nenhum outro nome exceto o de Hong Qiu."

"Pode ir para casa agora. Vou ficar mais algumas horas."

A conversa estava terminada. Ya Ru sabia que a sra. Shen ficaria até ele ir embora. Ela não tinha família, nenhuma vida além do trabalho que realizava para ele. Era a entidade guardiã da sua porta.

Ya Ru voltou à janela e observou a cidade que dormia. Pas­sava bastante da meia-noite. Sentia-se exultante. Fora um bom aniversário, mesmo que sua conversa com Hong Qiu não tivesse se desenrolado como ele esperava. Ela não entendia mais o que estava acontecendo no mundo. Recusava-se a reconhecer que os tempos estavam mudando. Ele se sentiu triste ao perceber que os dois se afastariam cada vez mais. Mas era necessário. Pelo bem do país. Talvez algum dia ela viesse a compreender, apesar de tudo.

No entanto, o mais importante era que aquela noite re­presentava o fim de todos os preparativos, todas as complicadas buscas e planejamentos. Ya Ru levara dez anos para estabelecer com exatidão o que acontecera no passado e traçar seu plano.

Quase desistira em muitas ocasiões. Mas sempre que lia o diário de Wang San, fora capaz de reunir a força necessária mais uma vez. Ele tinha o poder de fazer o que San não havia conseguido.

Havia algumas páginas vazias no fim do diário. Era aí que Ya Ru escreveria o capítulo final quando tudo estivesse acabado. Ele escolhera o dia de seu aniversário como o momento de en­viar Liu Xin para o mundo, para fazer o que tinha de ser feito. Agora sentia-se aliviado.

Ficou parado imóvel junto à janela por um longo tempo. Então apagou as luzes e foi embora por uma porta dos fundos que dava para o elevador privativo.

Ao entrar no carro, à sua espera no estacionamento no sub­solo, pediu ao chofer para parar na praça Tiananmen. Pelo vidro escurecido pôde ver a praça deserta, com exceção da presença permanente dos soldados em seus uniformes verdes.

É aqui que Mao proclamou o nascimento da nova Repúbli­ca da China. Na época, Ya Ru nem sequer havia nascido.

Os grandes acontecimentos que ocorreriam em breve não seriam proclamados nesta praça no Reino do Meio.

A nova ordem mundial se desenvolveria no mais profundo silêncio. Até não ser mais possível impedir o que estaria prestes a ocorrer.

 

                                                                             A fita vermelha (2006)

 

Onde quer que se travem batalhas, existem baixas e a morte é uma ocorrência comum. Mas o que está mais perto de nossos corações são os melhores interesses do povo e o sofrimento da vasta maioria, e, quando morremos pelo povo, essa é uma morte honrada. Não obstante, devemos fazer o melhor para evitar bai­xas desnecessárias.

                                         Mao Tsé-Tung, 1944

 

                                 Os Rebeldes

Birgitta Roslin descobriu o que procurava num canto dos fundos do restaurante chinês. Estava faltando uma das fitas ver­melhas da luminária pendurada sobre a mesa.

Ela ficou absolutamente imóvel e prendeu a respiração.

Alguém sentara ali, ela pensou. E de lá dirigiu-se para Hesjövallen.

Deve ter sido um homem. Decididamente, um homem.

Olhou em volta pelo restaurante. A jovem garçonete sorriu. Vozes chinesas em alto volume chegavam da cozinha.

Ocorreu-lhe que nem ela nem a polícia tinham sequer come­çado a compreender o alcance do que havia acontecido. Era maior, mais profundo, mais misterioso do que tinham imaginado.

Na verdade, não sabiam de nada.

Sentou-se à mesa, olhando distraidamente para a comida do bufê. Ainda era a única cliente do restaurante. Voltou-se para a garçonete e apontou a luminária.

"Está faltando uma fita", ela disse.

De início a garçonete pareceu não entender a que ela se referia. Birgitta apontou novamente. A garçonete fez um me- neio de surpresa. Não sabia nada a respeito da fita que faltava. Abaixou-se e olhou por baixo da mesa, caso a fita tivesse caído lá.

"Sumiu", ela disse. "Eu não ver."

"Sumiu há muito tempo?", perguntou Birgitta.

A garçonete olhou para ela, confusa. Birgitta repetiu a per­gunta, achando que a moça não tinha entendido.

A garçonete sacudiu a cabeça com impaciência. "Não sabe. Se mesa não está boa, favor trocar."

Antes de Birgitta poder responder, a moça se foi para aten­der a um grupo de clientes que tinham acabado de entrar. Supôs que fossem funcionários públicos locais. Ao ouvi-los, percebeu que eram delegados da conferência discutindo os elevados níveis de desemprego em Hälsingland. Birgitta continuou cutucando e mordiscando sua comida enquanto o restaurante enchia. A jo­vem garçonete teria muito com que se preocupar. Finalmente, um homem surgiu da cozinha e foi ajudá-la a tirar as mesas e limpá-las.

Duas horas depois, o movimento começou a sossegar. Bir­gitta ainda brincava com sua comida, mas pediu uma xícara de chá verde e passou o tempo refletindo sobre tudo que acontecera desde que chegara a Hälsingland.

A garçonete retornou e perguntou se ela desejava algo mais. Birgitta disse: "Quero lhe fazer algumas perguntas".

Ainda havia alguns clientes. A garçonete falou com o ho­mem que a ajudara, depois voltou para a mesa de Birgitta.

"Se quer comprar a luminária, posso consertar", ela disse com um sorriso.

Birgitta Roslin sorriu de volta.

"Nada de luminária", disse. "Vocês estavam abertos no Ano-Novo?"

"Sempre abertos", respondeu a garçonete. "Horas de traba­lho chinês. Sempre abertos quando outros estão fechados."

"Você consegue se lembrar dos clientes?", Roslin indagou, sem esperar resposta.

"Você esteve aqui antes", disse a garçonete. "Eu lembro clientes."

"Pode se lembrar se havia alguém sentado nesta mesa no Ano-Novo?"

A moça sacudiu a cabeça.

"Esta é mesa boa. Aqui sempre há clientes. Você está senta­da aqui agora. Amanhã outra pessoa vai sentar aqui."

Birgitta Roslin percebeu que não adiantava nada fazer per­guntas tão vagas. Tinha de ser mais precisa. Após uma breve pausa, ocorreu-lhe como proceder.

"No Ano-Novo", começou, "apareceu algum cliente que você nunca tivesse visto antes?"

"Nunca?"

"Nunca. Nem antes nem depois."

Ela percebeu que a garçonete vasculhava sua memória.

Os últimos clientes do almoço saíam. O telefone sobre o balcão estrilou. A garçonete atendeu e anotou um pedido para viagem. Depois voltou para a mesa de Birgitta. Nesse meio-tempo, alguém na cozinha botara uma música para tocar.

"Bela música", disse a garçonete, sorrindo. "Música chine­sa. Você gosta?"

"Bonita", Birgitta Roslin respondeu. "Muito bonita."

A garçonete vacilou. Finalmente fez um meneio, hesitante de início, mas depois mais confiante.

"Homem chinês", disse.

"Sentado aqui?"

"Na mesma cadeira que você. Comeu jantar."

"Quando foi isso?"

A moça pensou por um instante. "Em janeiro. Mas não no Ano-Novo. Depois." "Quanto tempo depois?" "Talvez nove, dez dias?"

Roslin mordeu o lábio. A data encaixava. A violência em Hesjövallen ocorreu durante a noite de 12 para 13 de janeiro. "Pode ter sido poucos dias depois?"

A garçonete foi pegar um diário onde estavam registradas as reservas.

"Doze de janeiro", ela informou. "Ele sentou aqui. Ele não reservou mesa, mas eu lembro de outros clientes que estiveram aqui."

"Como ele era?"

"Chinês. Magro."

"O que ele disse?"

A resposta da garçonete foi imediata e a deixou surpresa.

"Nada. Ele apontou o que queria."

"Mas era chinês, sem dúvida?"

"Eu tentei falar chinês com ele, mas ele só disse 'quieta'. E apontou. Acho que queria ficar sozinho. Ele comeu. Sopa, rolinhos primavera, nasi goring e sobremesa. Tinha muita fome."

"Ele bebeu alguma coisa?"

"Água e chá."

"E não disse nada do começo ao fim?"

"Ele queria ficar sozinho."

"E aí, o que aconteceu?"

"Ele pagou. Dinheiro sueco. Depois foi embora."

"E nunca mais voltou?"

"Não."

"Foi ele quem tirou a fita vermelha?"

A garçonete riu. "Por que pergunta isso?"

"Essa fita vermelha tem algum significado especial?"

"É fita vermelha. O que pode significar?"

"Aconteceu mais alguma coisa?"

"O que quer dizer?"

"Depois que ele saiu?"

"Você faz muitas perguntas estranhas. É fiscal? Ele não tra­balha aqui. Nós pagamos imposto. Todo mundo que trabalha aqui tem documentos."

"Só quis saber. Você alguma vez o viu de novo?"

A garçonete apontou para a janela.

"Ele foi para a direita. Tinha neve. Aí sumiu. Nunca mais voltou. Por que pergunta?"

"Pode ser que eu o conheça", respondeu Birgitta Roslin.

Ela pagou e deixou o restaurante. Ao sair, virou à direita. Chegou a um cruzamento e parou para olhar em volta. Numa das ruas laterais havia várias butiques e um estacionamento. A outra era uma rua sem saída. No final havia um hotelzinho com uma placa de vidro quebrada. Ela olhou mais uma vez em todas as direções e examinou de novo a placa do hotel.

Voltou ao restaurante chinês. A garçonete estava sentada, fumando, e levou um susto quando a porta se abriu. Imediata­mente apagou o cigarro.

"Tenho mais uma pergunta", disse Birgitta. "O homem sen­tado naquela mesa do canto — ele estava vestindo um sobretu­do, ou algum outro tipo de roupa?"

A garçonete pensou por um instante. "Não, nenhum casa­co", respondeu. "Como você sabe isso?"

"Eu não sabia. Termine seu cigarro. Obrigada pela ajuda."

A porta do hotel estava quebrada. Alguém tinha tentado arrombá-la, e a fechadura parecia ter sido consertada de modo im­provisado. Ela deu alguns passos até a recepção, que não passava de um balcão na frente de um corredor. Não havia ninguém ali. Chamou em voz alta. Nada. Descobriu uma campainha e esta­va prestes a tocá-la quando subitamente percebeu que havia al­guém parado atrás dela. Era um homem, quase transparente de tão magro, como se estivesse gravemente enfermo. Usava óculos grossos e cheirava a álcool.

"Está procurando um quarto?"

Ela detectou traços do dialeto de Gotemburgo em sua voz.

"Só quero fazer umas perguntas. Sobre um amigo meu que acho que ficou aqui."

O homem se afastou arrastando os pés, os chinelos fazendo um ruído a cada passo. Postou-se atrás da mesa. Com as mãos trêmulas, tirou um livro de registros do hotel. Birgitta jamais imaginaria que ainda existissem hotéis como este onde ela agora se encontrava. Tinha a sensação de ter sido transportada de volta no tempo para um filme dos anos 1940.

"Qual é o nome do hóspede?"

"Só sei que ele é chinês."

O homem empurrou o livro de registros para o lado, olhou firme para ela e balançou a cabeça. Roslin supôs que ele sofria de mal de Parkinson.

"É normal saber o nome dos amigos. Mesmo que sejam chineses."

"Ele é amigo de um amigo."

"Quando ele esteve aqui?"

Quantos hóspedes chineses você já teve aqui?, ela se per­guntou. Se houve apenas um, você deve saber muito bem.

"No começo de janeiro."

"Eu estava no hospital na época. Um sobrinho meu tomou conta do hotel enquanto estive fora."

"Você poderia chamá-lo?"

"Sinto muito, no momento ele está num cruzeiro pelo Ár­tico."

O homem espiou de perto as páginas do registro.

"De fato tivemos um homem da China que ficou aqui", ele disse de repente. "Um tal de sr. Wang Min Hao, de Beijing. Ele ficou por uma noite. No dia 12 de janeiro. É esse o homem que está procurando?"

"Sim", disse Birgitta Roslin, mal conseguindo conter sua excitação. "É ele mesmo."

O homem virou-lhe o registro para que ela pudesse ler. Ela tirou um pedaço de papel da bolsa e anotou os detalhes. Nome, número de passaporte e algo que supostamente seria um ende­reço em Beijing.

"Obrigada", disse Birgitta Roslin. "Você me deu uma gran­de ajuda. Ele deixou alguma coisa no hotel?"

"Meu nome é Sture Hermansson", disse o homem. "Minha esposa e eu estamos tocando este hotel desde 1946. Ela já mor­reu. E eu também vou morrer logo mais. Este é o último ano que o hotel existe. O prédio vai ser demolido."

"É triste quando as coisas acabam desse jeito."

Hermansson grunhiu uma desaprovação.

"O que tem isso de triste? O lugar está em ruínas. Eu tam­bém sou uma ruína. Não há nada de estranho em gente velha morrendo. Mas acho que esse chinês de fato deixou algo aqui."

Ele desapareceu dentro da sala por trás do balcão. Birgitta Roslin esperou.

Estava se perguntando se o homem tinha morrido quando ele finalmente reapareceu. Trazia uma revista na mão.

"Isto estava num cesto de lixo quando voltei do hospital. Uma mulher russa faz a limpeza para mim. Como só tenho oito quartos, ela dá conta sozinha. Mas é descuidada. Quando voltei do hospital dei uma verificada geral no hotel. Isto ainda estava no quarto do chinês."

Sture Hermansson lhe entregou a revista. Era uma publica­ção chinesa sobre paisagens e pessoas da China. Ela desconfiou que se tratava de uma brochura de relações públicas de alguma empresa, e não de uma revista de verdade. Na parte de trás, ha­via ideogramas chineses escritos a tinta, displicentemente.

"Eu agradeço se você levá-la", disse Hermansson. "Não sei ler chinês."

Ela pôs a revista na bolsa e preparou-se para sair.

"Muito obrigada pela ajuda."

Hermansson sorriu. "Não foi nada. Está satisfeita?"

"Mais que satisfeita."

Estava se dirigindo para a saída quando ouviu a voz de Her­mansson a suas costas.

"Acho que tenho mais alguma coisa para você. Mas parece que você está com pressa. Será que não teria mais um tempinho?"

Birgitta Roslin voltou ao balcão. Hermansson sorriu. De­pois apontou para alguma coisa atrás de sua cabeça. De início Birgitta não compreendeu o que era. Havia um relógio na pare­de e um calendário de uma oficina mecânica prometendo servi­ço rápido e eficiente em carros Ford.

"Não estou entendendo o que você quer dizer."

"A sua vista deve ser pior que a minha", disse Hermansson.

Ele tirou um bastão de madeira de sob o balcão.

"O relógio atrasa", explicou. "Eu uso este bastão para acer­tar os ponteiros. Não é uma boa idéia um velho raquítico como eu ficar de pé numa escada."

Apontou para a parede, ao lado do relógio. Tudo que ela viu foi um ventilador. Ainda não estava entendendo o que ele tentava lhe mostrar. Então percebeu: não era um ventilador, e sim uma abertura na parede para a lente de uma câmera.

"Nós podemos descobrir como era a aparência desse ho­mem", disse Sture Hermansson, parecendo satisfeito consigo mesmo.

"É uma câmera de vigilância?"

"Exatamente. Eu mesmo a fiz."

"Então você tira fotos de todo mundo que fica no seu hotel?"

"Vídeos. Nem sei se é uma coisa dentro da lei. Mas tenho aqui no balcão um botão que eu aperto. A câmera filma quem estiver parado aí."

Ele a encarou com um sorriso divertido.

"Por exemplo, eu acabei de filmar você", ele disse. "Você está justamente no lugar certo para render uma bela imagem."

Birgitta o acompanhou para a sala atrás do balcão. Era evidentemente o lugar onde dormia, bem como seu escritório. Através de uma porta aberta, ela pôde ver uma velha cozinha onde uma mulher lavava os pratos.

"Essa é a Natasha", comentou Hermansson. "O nome dela é meio diferente, mas acho que todas as mulheres russas deviam se chamar Natasha."

Ele olhou para Birgitta, e seu rosto se anuviou.

"Espero que você não seja da polícia", ele disse.

"Claro que não."

"Eu não acredito que ela tenha todos os documentos em ordem. Mas entendo que esse deve ser o caso da maioria dos nossos imigrantes que trabalham."

"Não creio que isso seja verdade", retrucou Birgitta Roslin. "Mas eu não sou da polícia."

Ele começou a procurar entre as fitas de vídeo, todas elas datadas.

"Espero que meu sobrinho tenha se lembrado de apertar o botão", ele disse. "Não verifico os filmes desde o começo de janeiro. Não tivemos quase nenhum hóspede."

Depois de um bom tempo revirando as fitas, o que fez com que Birgitta tivesse vontade de arrancá-las de suas mãos e procu­rar ela mesma, acabou achando a fita certa e ligou o aparelho de tevê. Natasha deslizou pela sala como uma sombra silenciosa, e desapareceu.

Hermansson apertou o play. Birgitta inclinou-se para a fren­te. A imagem era surpreendentemente clara. Um homem com um grande chapéu de pele estava parado diante do balcão.

"Lundgren de Järvsö", explicou Hermansson. "Ele vem aqui uma vez por mês para ficar sozinho e beber até cair no quarto. Quando está bêbado, ele canta hinos religiosos. Depois volta para casa. Um bom homem. Negocia com sucata. Ele vem aqui já faz quase trinta anos. Eu lhe dou um desconto."

A tela da televisão começou a piscar. Quando a imagem voltou a ficar clara, havia duas mulheres de meia-idade em fren­te ao balcão.

"Amigas de Natasha", anunciou Hermansson solenemente. "Elas vêm de vez em quando. Eu prefiro não pensar o que elas fazem para ganhar a vida. Mas elas não têm autorização de en­treter os hóspedes no meu hotel. Mesmo assim, desconfio que façam isso quando estou dormindo."

"Elas também têm desconto?"

"Todo mundo tem desconto. Não tenho preços fixos. O ho­tel vem operando com prejuízo desde o final dos anos 1960. Na verdade eu vivo de um pequeno fundo de ações. Basicamente em silvicultura e indústria pesada. Eu só tenho um conselho a dar para os meus amigos de confiança."

"Qual seria?"

"Ações da indústria sueca. Elas são imbatíveis."

Uma nova imagem surgiu na tela. Birgitta Roslin endirei­tou-se no assento e prestou atenção. A imagem do homem era muito clara. Um homem chinês, vestindo um sobretudo escuro. Olhou para cima, para a câmera. Era quase como se a estivesse olhando no olho. Jovem, ela pensou. Não mais de trinta anos, a menos que a câmera estivesse mentindo. Ele pegou sua chave e desapareceu da tela, que se apagou.

"Meus olhos não são muito bons", disse Hermansson. "É esse o homem que você está procurando?"

"Foi em 12 de janeiro?"

"Acho que sim. Mas posso verificar no registro e ver se ele deu entrada depois das nossas amigas russas."

Levantou-se e foi até o balcão da recepção. Enquanto estava lá, Birgitta Roslin conseguiu passar a fita do homem chinês vá­rias vezes. Congelou a imagem no momento em que ele olhou diretamente para a câmera. Ele percebeu, ela pensou. Aí ele olha para baixo e vira a cara. Chega a mudar a postura para que seu rosto não seja visto. Tudo se passou muito depressa. Ela rebobinou a fita e assistiu à seqüência outra vez. Agora podia perceber que ele estava alerta o tempo todo, procurando a câmera. Con­gelou a imagem novamente. Um homem com o cabelo bem curto, olhos intensos, lábios apertados. Movimentos rápidos, em estado de alerta. Talvez mais velho do que ela inicialmente ima­ginara.

Hermansson voltou.

"Parece que estamos certos", ele informou. "Duas senhoras russas deram entrada usando nomes falsos, como sempre. E aí veio esse homem, o sr. Wang Min Hao, de Beijing."

"Seria possível tirar uma cópia da fita?"

Hermansson deu de ombros.

"Pode ficar com ela. Que serventia tem para mim? Eu ins­talei a câmera e o equipamento de vídeo para me divertir. Apago as fitas a cada seis meses. Pode levar."

Ele pôs a fita cassete na caixa e a entregou a Birgitta. Os dois voltaram para a entrada. Natasha estava limpando os globos das lâmpadas que iluminavam a entrada do hotel.

Sture Hermansson deu um aperto amigável no braço de Birgitta Roslin.

"Você vai me contar agora por que está tão interessada nesse chinês? Ele lhe deve dinheiro?"

"Por que haveria de me dever?"

"Todo mundo deve alguma coisa a alguém. Se alguém co­meça a perguntar sobre as pessoas, geralmente há dinheiro en­volvido."

"Eu acho que esse homem tem as respostas para determi­nadas perguntas", disse Birgitta. "Mas não posso lhe dizer quais são elas."

"E você não é da polícia?"

"Não."

"Mas você não é daqui, é?"

"Não, não sou. Meu nome é Birgitta Roslin e eu venho de Helsingborg. Eu agradeceria se você entrasse em contato, caso ele apareça de novo."

Ela escreveu seu endereço e número de telefone num pe­daço de papel, e entregou-o a Sture Hermansson.

Quando saiu de novo para a rua, notou que estava suando. Os olhos do chinês ainda a seguiam. Colocou a fita cassete na bolsa e olhou ao redor, incerta do que fazer a seguir. Realmente devia estar a caminho de Helsingborg — a tarde já ia avançada. Entrou numa igreja próxima e sentou-se num banco na primeira fila. Estava gelado. Havia um homem de joelhos junto a uma das grossas paredes, reparando uma emenda de gesso. Ela ten­tou pensar com calma. Uma fita vermelha fora encontrada em Hesjövallen, jogada na neve. Por coincidência, ela conseguira traçar sua origem num restaurante chinês. Um homem chinês tinha jantado lá na noite de 12 de janeiro. Mais tarde, naquela mesma noite ou na madrugada seguinte, um grande número de pessoas havia morrido em Hesjövallen.

Ela pensou na imagem do vídeo de Sture Hermansson. Seria realmente viável que um único homem tivesse cometi­do todos aqueles assassinatos? Haveria outros envolvidos e ela ainda não sabia? Ou teria a fita vermelha acabado na neve de Hesjõvallen por uma razão totalmente diferente?

Não encontrou resposta. Em vez disso, tirou a brochura que fora deixada na cesta de lixo. Isso também a fez duvidar se ha­veria alguma relação entre Wang Min Hao e o que acontecera em Hesjövallen. Será que um assassino realmente deixaria uma pista tão óbvia?

A luz dentro da igreja era fraca. Ela pôs os óculos e folheou a brochura. Uma das páginas duplas era a foto de um arranha-céu em Beijing com caracteres chineses. Nas outras páginas havia colunas de números e fotografias de chineses sorridentes.

O que mais a interessou foi a anotação no verso da brochu­ra. Trazia Wang Min Hao para muito perto dela. Fora provavel­mente ele quem escrevera. Lembrete de algo? Ou havia outra razão?

Quem era capaz de ler aquilo? No instante em que se fez a pergunta, soube a resposta. Sua distante e revolucionária juven­tude vermelha veio-lhe à mente. Deixou a igreja e parou no pá­tio com o celular na mão. Karin Wiman, uma amiga dos tempos de estudante em Lund, era sinóloga e trabalhava na Universida­de de Copenhague. Ninguém atendeu, mas Roslin deixou uma mensagem pedindo a Karin que retornasse a ligação. Depois vol­tou ao carro e achou um grande hotel no centro de Hudiksvall com quartos vagos. Pegou um quarto espaçoso no último andar. Ligou a televisão e viu no teletexto que havia previsão de neve para aquela noite.

Ficou deitada na cama, esperando. Ouviu um homem rin­do num dos quartos vizinhos.

O toque do telefone a despertou. Era Karin Wiman, que parecia um tanto espantada. Quando Birgitta Roslin explicou o que queria, a amiga lhe orientou a procurar um fax e lhe mandar a página com os ideogramas.

Ela usou o fax da recepção do hotel, depois voltou ao quarto e esperou. Agora já tinha escurecido lá fora. Dali a pouco ligaria para casa e explicaria que, pelo fato de o tempo ter piorado, fica­ria mais uma noite.

Karin Wiman telefonou às sete e meia.

"Os ideogramas estão desenhados com displicência, mas acho que consegui descobrir o que querem dizer."

Birgitta Roslin segurou a respiração.

"É o nome de um hospital. Eu fui atrás. É em Beijing. Um hospital chamado Longfu. Fica no centro da cidade, numa rua chamada Mei Shuguan Hutong. Não muito distante da maior galeria de arte chinesa. Posso lhe mandar um mapa se você quiser."

"Por favor, mande."

"Tudo bem, agora você pode me dizer por que quer saber tudo isso? Estou muito curiosa. Será que seu interesse pela Chi­na ressuscitou?"

"Talvez. Eu lhe conto mais tarde. Você pode me mandar o mapa para o número do fax que eu usei?"

"Vai estar na sua mão em alguns minutos. Mas você está muito misteriosa."

"Tenha só um pouquinho de paciência. Vou lhe contar tudo."

"Devíamos nos encontrar."

"Eu sei. Nós nos vemos muito pouco."

Birgitta Roslin desceu até a recepção e esperou. O mapa do centro de Beijing chegou em poucos minutos. Karin o havia destacado com uma seta.

Roslin notou que estava faminta. O hotel não tinha restau­rante, de modo que agarrou seu casaco e saiu. Estudaria o mapa quando voltasse.

Estava escuro na cidade, poucos carros, quase nenhum pe­destre. O homem na recepção havia recomendado um restau­rante italiano na vizinhança. Ela foi para lá e jantou no salão esparsamente ocupado.

Quando saiu nevava. Pôs-se a caminhar de volta para o hotel.

De repente parou. Por algum motivo, teve a sensação de estar sendo observada. Olhou ao redor e não conseguiu ver nin­guém.

Voltou apressadamente ao hotel e trancou a porta do quar­to, passando inclusive a corrente de segurança. Aí pôs-se atrás da cortina e olhou para baixo, para a rua.

O mesmo que antes. Ninguém à vista. Apenas a neve cain­do, mais e mais densamente.

 

Birgitta Roslin dormiu mal naquela noite. Acordou várias vezes e foi até a janela. Ainda nevava. O vento formava fortes correntes de neve ao longo das paredes das casas. As ruas estavam desertas. Por volta das sete foi definitivamente acordada pelas batidas dos flocos de neve.

Antes de ir para a cama ela telefonara para casa dando o endereço e o telefone do hotel onde tinha se hospedado. Staffan prestara atenção, mas não dissera muita coisa.

O fato de ele não ter manifestado surpresa por ela não estar a caminho de casa deixou-a zangada e desapontada ao mesmo tempo. Houve uma época em que aprendemos a não mergulhar fundo demais na vida emocional um do outro, pensou. Todo mundo precisa de um espaço seu. Mas isso não deveria se transformar em indiferença. É para lá que estamos nos encaminhan­do? Ou será que já chegamos?

Havia uma chaleira elétrica no quarto. Ela preparou uma xícara de chá e sentou-se com o mapa que Karin Wiman lhe enviara. O quarto estava na penumbra, a única luz vinha de uma lâmpada de leitura e da televisão sem som. Era um mapa difícil de ler, mas ela encontrou a Cidade Proibida e a praça Tiananmen, o que lhe trouxe recordações.

Birgitta deixou o mapa de lado e pensou nas filhas e na geração delas. A conversa com Karin a fizera lembrar da pessoa que ela própria fora um dia. Tão perto e mesmo assim tão dis­tante, pensou.

Foram dias cruciais. No meio de todo meu ingênuo caos, eu estava convencida de que o caminho para um mundo melhor era por via da solidariedade e da libertação. Nunca me esqueci daquela sensação de estar no centro do mundo, numa época em que era possível mudar tudo.

Mas eu nunca correspondi às percepções que tive naquela época. Nos meus piores momentos, me senti como uma traido­ra. No mínimo em relação a minha mãe, que me incentivou a me rebelar. Mas suponho que, se for sincera comigo mesma, minha vontade política na verdade não passava de uma espécie de verniz que espalhei sobre minha existência. A única coisa que realmente penetrou foi minha determinação de ser uma juíza honesta. Isso é algo que ninguém pode me tirar, ela concluiu.

Tomou seu chá e planejou o dia. Iria outra vez à polícia e contaria o que havia descoberto. Desta vez teriam de escutar. Até o momento não tinham realmente feito nenhum progresso significativo na investigação. Ao dar entrada no hotel, ouvira uns alemães no saguão discutindo o que acontecera em Hesjövallen. O fato fora notícia também no exterior. Um borrão no caderno da inocente Suécia, pensou. Assassinato em massa é algo que não cabe neste país. Tais coisas só acontecem nos Estados Uni­dos, ou de vez em quando na Rússia, mas não aqui, numa remo­ta e pacífica aldeia nas profundezas das florestas suecas.

 

Continuava a nevar quando Birgitta Roslin foi novamente à delegacia. A temperatura tinha caído. O termômetro do lado de fora do hotel indicava sete graus negativos. Ainda não tinham limpado a neve das calçadas. Ela caminhou com o máximo cui­dado para não escorregar.

O silêncio reinava na recepção da delegacia. Um policial solitário lia as mensagens no quadro de avisos. A operadora da central telefônica estava imóvel, fitando o vazio.

Birgitta teve a impressão de que o massacre de Hesjövallen nunca tinha ocorrido, que a coisa toda era uma fantasia que al­guém inventara.

"Estou procurando Vivi Sundberg."

"Ela está em reunião."

"Erik Huddén?"

"Em reunião também."

"Todo mundo está em reunião?"

"Todo mundo. Menos eu."

"Quanto tempo a reunião vai demorar?"

"Impossível saber. Talvez o dia todo."

A mulher na recepção abriu a porta para que o policial que estava lendo o quadro de avisos pudesse entrar.

"Acho que houve alguma descoberta importante", ela disse em voz baixa, e saiu.

Birgitta Roslin sentou-se e folheou o jornal. Vez ou outra aparecia algum policial e passava pela porta de vidro. Chegaram jornalistas e uma equipe de tevê. Ela meio que esperava ver Lars Emanuelsson.

Nove e quinze. Ela fechou os olhos e se recostou contra a parede. Aí levou um susto ao ouvir uma voz conhecida. Vivi Sundberg estava parada a sua frente. Parecia muito cansada, com ar exausto e olheiras.

"Você queria falar comigo?"

"Se não for incômodo para você."

"Claro que é um incômodo, mas suponho que seja impor­tante. A esta altura você já conhece as regras."

Birgitta Roslin a seguiu pela porta de vidro até um escritó­rio vazio.

"Esta sala não é minha, mas podemos conversar aqui."

Birgitta Roslin sentou-se numa desconfortável cadeira para visitas. Vivi Sundberg permaneceu de pé, encostada numa es­tante coberta de pastas vermelhas.

A juíza cruzou os braços, achando a situação ridícula. Sund­berg já decidira que qualquer coisa que ela tivesse a dizer seria irrelevante para a investigação.

"Acho que descobri uma coisa. Uma pista, imagino que você chame assim."

A face de Sundberg manteve-se sem expressão. Birgitta sen­tiu-se provocada.

"O que tenho a dizer é tão importante que você deveria pedir a mais alguém para estar presente."

"Por que?

"Estou convencida disso."

Vivi Sundberg saiu da sala e voltou rapidamente com um homem que se apresentou como promotor distrital Robertsson.

"Eu estou encarregado da investigação preliminar. Vivi está me dizendo que você tem algo a nos contar. É juíza em Helsing­borg, certo?"

"Certo."

"O promotor Halmberg ainda está lá?"

"Ele se aposentou."

"Mas ainda mora em Helsingborg, não é?"

"Acho que ele se mudou para a França. Antibes."

"Homem de sorte. Aquele cara gostava de um charuto de­cente. Em geral os jurados desmaiavam quando ele acendia o charuto na sala dos fundos, nos intervalos de um julgamento. Começou a perder casos quando introduziram a proibição de fumar. Ele explicava que era por causa da melancolia e da pri­vação de charutos."

"Ouvi histórias sobre isso."

O promotor sentou-se à mesa. Sundberg retornara a seu lu­gar junto à estante. Birgitta Roslin descreveu em detalhe o que havia descoberto. Como tinha reconhecido a fita vermelha, re­lacionado a fita com o restaurante, tendo em seguida descoberto que um homem chinês visitara Hudiksvall. Colocou a fita de vídeo sobre a mesa bem como a brochura em chinês, e explicou o que os ideogramas grosseiramente desenhados no verso que­riam dizer.

Robertsson a encarava duramente. Vivi Sundberg exami­nava suas próprias mãos. Então Robertsson agarrou a fita e se levantou.

"Vamos dar uma olhada nisso. Agora, imediatamente."

Foram a uma sala de reuniões onde uma senhora asiática retirava copos de café e sacos de papel. Birgitta Roslin ficou arre­piada com a maneira brusca de Vivi Sundberg mandar a faxinei­ra sair da sala. Após grande dificuldade e uma sucessão de xingamentos, Robertsson acabou conseguindo fazer o VCR funcionar.

Alguém bateu à porta. Robertsson ergueu a voz e disse que não podiam ser perturbados. As mulheres russas apareceram na leia, mas logo sumiram. A imagem piscou. Wang Min Hao ocu­pou o centro do palco, olhou para a câmera, depois sumiu. Ro­bertsson rebobinou a fita e congelou a imagem no momento em que Wang encarou a câmera. Sundberg agora também começa­ra a se interessar. Fechou as persianas da janela mais próxima, e a imagem ficou mais clara.

"Wang Min Hao", disse Birgitta Roslin. "Presumindo que seja seu nome verdadeiro. Ele surge do nada aqui em Hudiksvall em 12 de janeiro. Passa a noite num hotelzinho, depois de arran­car uma fita vermelha de uma luminária pendurada sobre uma mesa num restaurante. A fita mais tarde é encontrada na cena do crime em Hesjövallen."

Robertsson estava em pé diante da tela, debruçando-se so­bre ela. Voltou a sentar-se. Vivi Sundberg abriu uma garrafa de água mineral.

"Estranho", disse Robertsson. "Você certamente verificou se a fita vermelha proveio de fato daquele restaurante."

"Tenho certeza que sim."

"O que está acontecendo?", questionou Sundberg com vee­mência. "Você está conduzindo alguma investigação particular?"

"Eu não quero atrapalhar vocês", retrucou Birgitta. "Sei que vocês estão muito ocupados."

De súbito Sundberg saiu da sala.

"Pedi que me trouxessem a luminária do restaurante", ela informou ao voltar.

"Eles só abrem às onze", disse Roslin.

"Esta é uma cidade pequena. Vamos achar o dono e mandá-lo abrir."

"Assegure-se de que a mídia não fique sabendo disso", ad­vertiu Robertsson. "Imagine só as manchetes se descobrirem:

 

                 CHINÊS POR TRÁS DO MASSACRE DE HESJÖVALLEN

 

"Isso é bem pouco provável após nossa coletiva de imprensa esta tarde", contestou Sundberg.

Então a telefonista tinha razão, pensou Birgitta. Alguma coisa aconteceu e virá a público esta tarde. É por isso que só estão interessados pela metade.

Robertsson começou a tossir. Foi um ataque de tosse violen­to, e ele ficou completamente vermelho.

"Cigarros", explicou. "Já fumei tantos cigarros que se fos­sem colocados um ao lado do outro se estenderiam num percur­so do centro de Estocolmo até algum lugar ao sul de Södertälje. De Botkyra em diante teriam filtro, não que ajude muita coisa."

"Vamos conversar sobre isso", disse Vivi Sundberg, sentan­do-se. "Você causou um bocado de problemas e irritação aqui neste prédio."

Pronto, agora ela vai retomar o assunto dos diários, supôs Birgitta. O dia de hoje vai acabar com Robertsson cavando algu­ma coisa para me acusar. Dificilmente obstrução à justiça, mas existem outras possibilidades.

Porém, Sundberg não fez nenhuma menção aos diários, e Birgitta Roslin teve a sensação de que havia um entendimento mútuo entre ambas, apesar da atitude da policial. O que acon­tecera não era nada que seu colega que tossia precisasse saber.

"Decididamente vamos dar uma olhada nisso", recomeçou Robertsson. "Não temos idéias preconcebidas, mas não há ou­tras pistas que indiquem um homem chinês."

"E quanto à arma?", indagou Birgitta. "Vocês a encontra­ram?"

Nenhum dos dois respondeu. Encontraram, concluiu Bir­gitta. É isto que vai ser anunciado hoje à tarde. Claro que é.

"Não podemos comentar isso neste momento", acabou sen­do a resposta do promotor. "Vamos esperar a luminária chegar e comparar as fitas. Se forem de fato iguais, então essa informação passa a ser uma parte séria das evidências. Nós vamos ficar com o vídeo, é claro."

Pegou um bloco de papel e começou a escrever.

"Quem viu esse homem chinês?"

"A garçonete do restaurante."

"Eu como lá com freqüência. A moça ou a velha? Ou o velho ranzinza da cozinha? Aquele com a verruga na testa?"

"A moça."

"Ela varia de modestamente tímida a abertamente assanha­da. Acho que não agüenta de tanto tédio. Mais alguém?"

"Mais alguém que fez o quê?"

Robertsson suspirou.

"Minha cara colega, você nos surpreendeu a todos com esse chinês que tirou da cartola. Quem mais viu o homem? A per­gunta não poderia ser mais clara."

"Um sobrinho do dono do hotel. Não sei o nome dele, mas Sture Hermansson disse que está no Ártico."

"Em outras palavras, esta investigação está começando a assumir proporções geográficas inesperadas. Primeiro você apa­rece com um chinês misterioso. Agora nos diz que há uma tes­temunha no Ártico. Eles têm escrito sobre esse assunto na Time e na Newsweek, o Guardian me telefonou de Londres, e o Los Angeles Times manifestou interesse. Alguém mais viu essa pessoa chinesa? Espero que o próximo envolvido não esteja atualmente na planícies australianas."

"Há uma empregada no hotel. Ela é russa."

Robertsson soou quase triunfante ao ouvir a resposta.

"O que foi que eu disse? Agora também temos uma russa envolvida. Qual é o nome dela?"

"É conhecida como Natasha. Mas segundo Sture Hermans­son o nome dela é outro."

"Talvez esteja aqui ilegalmente", disse Vivi Sundberg. "Às vezes encontramos russos e poloneses que não deveriam estar aqui."

"Mas isso não é relevante no momento", replicou Roberts­son. "Há mais alguém que tenha visto esse chinês?"

"Eu não sei de ninguém. Mas ele deve ter chegado e ido embora de alguma maneira. De ônibus? De táxi? Certamente alguém deve tê-lo notado."

"Vamos atrás disso", encerrou Robertsson baixando a cane­ta. "Presumindo que acabe se revelando importante."

No que você certamente não acredita, disse Birgitta para si mesma. Qualquer que seja a outra linha de investigação de vocês, vocês pensam que é mais importante.

Sundberg e Robertsson deixaram a sala. Birgitta sentia-se cansada. A probabilidade de que aquilo que descobrira tivesse a ver com o caso era pequena, e ia se reduzindo cada vez mais. Por sua própria experiência, fatos estranhos geralmente tendiam a ser pistas falsas.

Enquanto esperava, mais e mais impaciente, andava de um lado a outro pela sala de reuniões. Já tinha se deparado na vida com muitos promotores como Robertsson. Sundberg também era uma representante típica das policiais mulheres que apre­sentavam provas na sua Corte, mas raramente tinham cabelo vermelho como o dela.

Sundberg voltou, logo seguida de Robertsson e Tobias Ludwig. Ele segurava um saco plástico contendo a fita vermelha, e Vivi Sundberg carregava a luminária do restaurante.

As fitas foram dispostas sobre a mesa e comparadas. Não havia dúvida de que eram idênticas.

Sentaram-se novamente em torno da mesa. Robertsson resumiu o que Birgitta lhes contara. Ele sabe como fazer boas apresentações, ela notou.

Quando terminou, ninguém tinha perguntas. O único a fa­lar foi Tobias Ludwig.

"Isso muda alguma coisa em relação à entrevista coletiva que vamos dar hoje à tarde?"

"Não", disse Robertsson. "Vamos dar uma olhada nisso. Mas no devido momento."

Robertsson declarou a reunião encerrada. Apertaram-se as mãos e ele saiu. Quando Birgitta Roslin se levantou, recebeu um olhar de Vivi Sundberg que interpretou como significando que devia ficar mais um pouco.

Quando estavam sós, Sundberg fechou a porta e foi direto ao assunto.

"Estou surpresa de você ainda estar se envolvendo nessa in­vestigação. Obviamente, o que você descobriu é digno de nota. Nós vamos investigar. Mas creio que você já deduziu que temos outras prioridades no momento."

"Pode me dizer alguma coisa?"

Sundberg fez que não.

"Absolutamente nada?"

"Nada."

"Vocês têm algum suspeito?"

"Como eu já disse, vamos anunciar um dado novo na co­letiva da tarde. Eu quis que você ficasse por um motivo bem diferente."

Levantou-se e saiu da sala. Ao voltar, trazia os diários que Birgitta fora forçada a lhe devolver dois dias antes.

"Lemos os diários", explicou Sundberg. "Resolvi que são irrelevantes para a investigação. Então pensei em demonstrar minha boa vontade permitindo que você os pegue emprestados. Você vai ter que assinar que recebeu. A única condição é que você os devolva quando nós os pedirmos."

Birgitta ponderou por um instante se estava em vias de cair numa cilada. O que Sundberg estava fazendo não era permitido, ainda que não fosse algo criminoso. Ela nada tinha a ver com a investigação. O que poderia acontecer se aceitasse levá-los?

Sundberg notou que ela hesitava.

"Falei com Robertsson. Ele disse que não tinha nada contra desde que você assinasse um recibo."

"Pelo que li até agora, os diários contêm informação sobre os chineses que trabalharam na ferrovia transcontinental nos Es­tados Unidos."

"Na década de 1860? Foi há quase cento e cinqüenta anos."

Sundberg pôs os diários numa sacola plástica sobre a mesa. No bolso trazia um recibo que Birgitta assinou devidamente.

A policial a acompanhou até a recepção. Apertaram-se as mãos junto à porta de vidro. Birgitta perguntou para que horas estava programada a entrevista coletiva.

"Duas da tarde. Daqui a quatro horas. Se você arranjar um crachá de imprensa pode entrar. Vai estar atulhado de gente. É um crime grande demais para uma cidadezinha como a nossa."

"Espero que vocês tenham descoberto algo importante."

Sundberg refletiu antes de responder.

"Sim", acabou dizendo. "Penso que estamos a caminho de um resultado."

Fez um gesto lento com a cabeça, como que enfatizando o que dizia.

"Sabemos agora que todas as pessoas na aldeia eram paren­tes. Quer dizer, todos os mortos. Existe uma ligação familiar."

"Todo mundo exceto o menino?"

"Ele também era da família. Mas estava só de visita."

Birgitta Roslin deixou a delegacia de polícia, pensando se­riamente no que estava para ser anunciado dali a algumas horas.

Um homem emparelhou a seu lado na calçada coberta de neve.

Lars Emanuelsson sorriu. Birgitta Roslin sentiu vontade de lhe dar um tabefe. Ao mesmo tempo, não podia deixar de se im­pressionar com a persistência do homem.

"E não é que nos encontramos de novo?", ele começou. "Você vive visitando a polícia. A juíza de Helsingborg paira infatigavelmente na periferia da investigação. Você deve entender por que estou curioso."

"Faça suas perguntas à polícia, não a mim."

Lars Emanuelsson ficou sério.

"Fique tranqüila, eu já fiz. Mas ainda não obtive nenhuma resposta, o que é muito chato. Sou forçado a especular. O que uma juíza de Helsingborg está fazendo em Hudiksvall? Como é que ela está envolvida nas coisas horríveis que aconteceram aqui?"

"Eu não tenho nada a dizer."

"Só me diga por que você é tão desagradável e sem consi­deração."

"Porque você não me deixa em paz."

Lars Emanuelsson apontou com a cabeça na direção da sa­cola de plástico.

"Notei que você estava de mãos vazias quando entrou na delegacia esta manhã. E agora está saindo com uma pesada sa­cola de plástico. O que é que há aí dentro? Documentos? Arqui­vos? Alguma outra coisa?"

"Não é da sua conta."

"Nunca fale desse jeito com um jornalista. Tudo é da mi­nha conta. O que há na sacola, o que não há. Por que você não quer responder?"

Quando Birgitta Roslin começou a se afastar, escorregou e caiu na neve. Um dos velhos diários caiu fora da sacola. Lars Emanuelsson correu para ajudar, mas ela empurrou seu braço enquanto punha o caderno de volta. Seu rosto estava vermelho de raiva ao se afastar apressadamente.

"Livros velhos", Emanuelsson berrou às suas costas. "Cedo ou tarde vou descobrir a importância deles."

Ela não parou para limpar a neve da roupa antes de chegar ao carro. Deu partida e ligou o aquecedor. Ao entrar na rua prin­cipal, começou a se acalmar. Tirou Lars Emanuelsson e Vivi Sundberg da cabeça, pegou a rota pelo interior, parou em Borlänge para comer, aí entrou num estacionamento nos arredores de Ludvika pouco antes das duas horas.

O boletim de notícias do rádio foi breve. A coletiva de im­prensa recém começara. Segundo o que fora divulgado, a polícia prendera um homem sob suspeita do assassinato em massa de Hesjövallen. Mais informações no próximo boletim.

Birgitta Roslin retomou a viagem, e voltou a parar uma hora depois. Estacionou cuidadosamente numa plataforma de madeira, temerosa de que a neve estivesse tão funda que o car­ro pudesse encalhar. Ligou o rádio. A primeira coisa que ouviu foi a voz de Robertsson. Um suspeito estava sendo interrogado. Robertsson esperava poder acusá-lo nessa tarde ou no início da noite. No momento, era tudo que podia dizer.

Um forte alarido tomou conta do rádio quando ele acabou de falar, mas Robertsson se negou a fazer mais comentários.

Quando o boletim de notícias terminou, ela desligou o rá­dio. Alguns flocos de neve pesados desabaram de uma árvore próxima ao carro. Ela soltou o cinto de segurança e saiu. A tem­peratura estava caindo. Ela tremia. O que Robertsson dissera? Um homem suspeito. Mais nada. Mas parecia confiante, assim como Sundberg dera a impressão de que um grande progresso fora obtido.

Não é o chinês, ela pensou.

Deu partida no carro novamente e continuou a viagem. Esqueceu-se do boletim seguinte.

Parou em Orebro e pegou um quarto para a noite. Deixou a sacola com os diários no carro.

Antes de adormecer, sentiu uma falta irresistível de outro ser humano. Staffan. Mas ele não estava lá. Ela mal conseguia se lembrar de como eram as mãos dele.

No dia seguinte, mais ou menos às três da tarde, chegou em casa, em Helsingborg. Colocou a sacola com os diários em seu escritório.

A essa altura, já sabia que um homem na casa dos quarenta, cujo nome ainda não fora revelado, fora acusado pelo promotor Robertsson. Mas não havia detalhes — a mídia se queixava da falta de informações.

Ninguém sabia quem era ele. Todo mundo aguardava.

Naquela noite Birgitta Roslin assistiu ao noticiário da tevê junto com o marido. O promotor Robertsson falou de uma des­coberta que implicava significativo avanço na investigação. Vivi Sundberg circulava ao fundo. A coletiva de imprensa foi caótica. Tobias Ludwig fracassou em manter os repórteres sob controle, e eles por pouco não tombaram sobre o pódio onde Robertsson estava instalado. Ele foi o único que conservou a calma. No fi­nal, foi entrevistado sozinho diante da câmera e explicou o que havia acontecido. Um homem de quarenta e cinco anos fora detido em sua casa nos arredores de Hudiksvall. Não houvera nenhum drama, mas por medida de segurança tinham chamado reforços. Sobre o homem recaía a suspeita de envolvimento no massacre de Hesjövallen. Por razões técnicas, Robertsson não estava preparado para revelar a identidade dele.

"Por que ele não pode revelar?", indagou Staffan.

"Poderia servir de aviso para alguma outra pessoa envolvida e provocar destruição de provas", respondeu Birgitta, fazendo um sinal para que se calasse.

Robertsson não liberou detalhes, mas a importante des­coberta era oriunda de várias dicas dadas pelo grande público. Estavam checando as várias pistas e já tinham feito um interro­gatório preliminar.

O entrevistador pressionou Robertsson com mais per­guntas.

Ele confessou?

Não.

Ele admitiu qualquer coisa que seja?

Não posso falar sobre isso.

Por que não?

Estamos num estágio crucial da investigação.

Ele ficou surpreso ao ser detido?

Sem comentários.

Ele tem família?

Sem comentários.

Mas vive em Hudiksvall.

Sim.

Em que ele trabalha?

Sem comentários.

De que forma ele está ligado a todas as pessoas que foram mortas?

Você deve entender que eu não posso falar sobre isso.

Mas o senhor também deve entender que nossos espectadores estão interessados no que aconteceu. Este é o segundo mais sério episódio de violência que já ocorreu na Suécia.

Robertsson ergueu a sobrancelha, surpreso.

Qual foi o pior?

O Banho de Sangue de Estocolmo.[1]

Robertsson não pôde evitar rir alto. Birgitta Roslin resmun­gou do descaramento do entrevistador.

Os dois eventos dificilmente podem ser comparados. Mas não vou discutir com você.

O que vai acontecer agora?

Vamos interrogar o suspeito novamente.

Quem é o advogado de defesa dele?

Ele requisitou Tomas Bodstrõm, mas provavelmente não vai conseguir.

Tem certeza de que prenderam o homem certo?

É cedo para dizer. Mas por enquanto estou feliz por ele ter sido acusado.

A entrevista foi encerrada. Birgitta tirou o som da tevê. Staffan olhou para ela.

"Bem, o que a juíza tem a dizer sobre isso?"

"Eles obviamente tem alguma evidência, ou jamais teriam tido autorização para acusá-lo. Mas ele está preso com base em suspeita. Ou Robertsson está sendo cauteloso, ou não tem nada de mais concreto."

"Foi só um homem que fez tudo aquilo?"

"Não quer dizer necessariamente que ele estava sozinho só porque foi a única pessoa presa."

"Pode ser realmente apenas um ato de loucura?"

Birgitta ficou em silêncio por um instante, antes de res­ponder.

"Será que um ato de loucura pode ser meticulosamente planejado? A sua resposta é tão boa quanto a minha."

"Então vamos ter de esperar para ver."

Tomaram chá e foram cedo para a cama. Ele estendeu a mão e tocou seu rosto.

"No que é que você está pensando?"

"Estou pensando sobre o quanto de floresta existe aqui na Suécia.

"Eu pensei que você podia estar pensando em como é bom fugir de tudo."

"De tudo o quê? De você?"

"De mim. E dos julgamentos. Uma pequena crise de meia-idade."

Ela se achegou.

"Às vezes eu penso: o que está acontecendo? Não é justo, sabe? Você, os filhos, meu emprego, o que mais eu posso pedir? Mas há outras coisas. Aquilo que nos fazia vibrar quando éramos mais jovens. Não só compreender, mas fazer uma diferença. Se você der uma olhada em volta, o mundo só ficou pior."

"Nem tudo. Nós fumamos menos, temos computadores, celulares."

"É como se o mundo inteiro estivesse desmoronando. E os nossos tribunais são bastante inúteis quando se trata de preservar algum tipo de decência moral neste país."

"Era nisso que você estava pensando quando estava lá no norte?"

"Acho que sim. Estou meio deprimida. Mas talvez a gente tenha de ficar deprimida de vez em quando."

Ficaram ali deitados sem falar. Ela esperou que ele a tocas­se, mas nada aconteceu.

Ainda não chegamos lá, ela pensou, desapontada. Mas ao mesmo tempo não conseguia entender por que ela própria não se sentia capaz de tomar a iniciativa.

"Nós devíamos sair um pouco", ele acabou dizendo. "Algu­mas conversas são melhores durante o dia do que bem na hora de dormir."

"Talvez a gente devesse fazer uma peregrinação. Fazer o que a tradição manda, fazer a rota de Santiago de Compostela. Pôr pedras nas mochilas, cada uma representando um problema com o qual estamos lutando. Aí, depois de acharmos as soluções, depositamos as pedras ao longo da estrada, uma a uma."

"Você está falando sério?"

"É claro. Mas não sei se meus joelhos agüentam."

"Carregar pedras pesadas demais pode provocar esporões."

"O que é isso?"

"Uma coisa desagradável com os calcanhares. Um amigo meu teve isso. Ture, o veterinário. Foi um inferno para ele."

"Devíamos virar peregrinos", ela murmurou. "Mas ainda não. Preciso dormir um pouco. E você também."

No dia seguinte, Birgitta Roslin entrou em contato com seu médico para confirmar a consulta de retorno dali a cinco dias. Depois, deu uma bela limpada na casa, e nem chegou perto da sacola com os diários. Falou com os filhos, programando uma festa surpresa para o aniversário de Staffan. Todo mundo concordou que era uma ótima idéia, e ela ligou para convidar os amigos. Vez por outra escutou os boletins de notícias de Hudiksvall. As informações que pingavam da central de polícia em pé de guerra eram escassas, para dizer o mínimo.

Foi só no fim da tarde que ela se sentou à sua mesa e pegou os diários. Agora que um homem fora acusado dos assassinatos, suas teorias pareciam menos importantes. Ela folheou o primei­ro deles, até chegar à última página que lera.

O telefone tocou. Era Karin Wiman. Combinaram que Bir­gitta a visitaria no dia seguinte.

Em suas anotações, J. A. continuava se queixando de qua­se todo mundo com quem tinha de trabalhar e por quem era responsável. Os irlandeses são bêbados preguiçosos, os poucos negros que a companhia ferroviária emprega são fortes, mas sem disposição para qualquer esforço. J. A. anseia pelos escravos das ilhas do Caribe, de que tinha ouvido falar. Apenas chicotadas conseguem induzir esses homens fortes a realmente fazer uso de sua força. Ele gostaria de poder açoitá-los como se chicoteiam bois ou burros. Birgitta Roslin foi incapaz de discernir qual raça ele mais detestava. Talvez os "índios vermelhos", os americanos nativos pelos quais tinha tanto desprezo. A relutância deles em trabalhar, suas artimanhas de duas caras, eram piores do que qualquer outra coisa com que houvesse deparado no meio da gentalha que era forçado a manter submissa por meio de chutes e pancadas, de modo a garantir o avanço da ferrovia rumo ao leste. Também escrevia regularmente sobre os chineses: ele adora­ria levá-los ao oceano Pacífico e fazê-los escolher entre afogar-se e nadar de volta para a China. Mas não pode negar que os chi­neses sejam bons trabalhadores. Não ingerem bebidas alcoólicas fortes, são limpos e obedecem às regras. Sua única fraqueza é a predileção pelo jogo e estranhas cerimônias religiosas. J. A. tenta continuamente justificar suas razões para não gostar dessa gente, que na verdade torna o seu trabalho mais fácil. Algumas linhas eram quase impossíveis de compreender, mas Birgitta Roslin imaginou que ele devia estar sugerindo que os industriosos chi­neses eram talhados para esse trabalho, e nada mais. Haviam alcançado um nível que jamais seria superado

As pessoas que J. A. tem em mais alta conta são os escandina­vos. O exército de trabalhadores que constrói a ferrovia contém uma pequena colônia de operários nórdicos: alguns noruegueses e dinamarqueses, suecos e finlandeses em maior número. Eu confio nessa gente. Eles não tentam me passar a perna, contanto que eu fique de olho neles. E não têm medo do trabalho pesado. Mas, se eu viro as costas, transformam-se no mesmo bando de vadios como todos os outros.

Birgitta Roslin pôs o diário de lado e se levantou. Quem quer que tenha sido esse capataz da ferrovia, ela o achava cada vez mais repulsivo. Um homem de origem simples que havia emigrado para a América subitamente viu-se dono de enorme poder sobre outras pessoas. Uma pessoa brutal que se tornara um pequeno tirano. Ela se vestiu para sair e foi dar um passeio pela cidade, tentando se livrar da repulsa que sentia.

Eram seis horas quando ela ligou o rádio da cozinha. O no­ticiário começou com uma declaração de Robertsson. Ela ficou estática, como que transfixa, escutando. Ao fundo, o ruído dos flashes e cadeiras sendo arrastadas.

Como nas ocasiões anteriores, ele foi claro e preciso. O sus­peito da véspera havia confessado que ele, e ele sozinho, havia cometido todos os assassinatos em Hesjövallen. As onze horas da manhã ele solicitara, por meio de seu advogado, falar novamen­te com a policial que o interrogara pela primeira vez. Também pedira que o promotor estivesse presente. Seu motivo, disse ele, fora vingança. Haveria ainda diversos interrogatórios antes de se estabelecer exatamente do que ele estava se vingando.

Robertsson concluiu com os detalhes que todo mundo es­tava esperando.

"O acusado é Lars-Erik Valfridsson. Ele é solteiro, emprega­do numa firma que executa escavações e operações de explosão de rochas. Já foi condenado diversas vezes no passado por ofensa e agressão."

Os flashes continuavam a pipocar. Robertsson passou a res­ponder às perguntas da barragem de artilharia disparada contra ele pela massa de jornalistas. A locutora reduziu o volume da voz de Robertsson e embarcou num sumário do que acontecera até o momento. Birgitta deixou o rádio ligado, mas voltou sua aten­ção ao teletexto. Não havia nada de novo, apenas um resumo do que Robertsson havia dito. Ela desligou tanto o rádio como a televisão, e sentou-se no sofá. O tom de Robertsson a convence­ra de que ele estava seguro de terem descoberto o assassino. Já escutara muitos promotores na vida para poder tirar conclusões sobre a sinceridade do que fora dito. Ele estava convencido de ter o assassino. E promotores honestos jamais baseavam seus indiciamentos em revelações ou palpites, mas em fatos.

Era cedo demais para tirar conclusões. Mas mesmo assim ela o fez. O homem que fora preso e acusado certamente não era chinês. Ela voltou ao escritório e recolocou os diários na sacola. Não havia mais necessidade de estudar esses apontamentos de­sagradáveis, racistas e misantrópicos, de mais de cem anos antes.

De noite ela e Staffan jantaram tarde. Apenas referiram-se de passagem ao que tinha acontecido. Os jornais vespertinos que cie trouxera do trem nada tinham a acrescentar ao que ela já sabia. Numa das fotografias da entrevista coletiva ela notou Lars Emanuelsson com a mão erguida, querendo fazer uma pergun­ta. Estremeceu ao lembrar de seus encontros com ele. Mencio­nou que faria uma visita a Karin Wiman no dia seguinte e que provavelmente passaria a noite lá. Staffan conhecia Karin e tam­bém conhecera seu falecido marido.

"Vá mesmo", disse ele. "Vai lhe fazer bem. Quando é que você precisa ir de novo ao médico?"

"Daqui a alguns dias. É bem provável que ele diga para eu voltar ao trabalho."

Na manhã seguinte o telefone tocou pouco depois de Sta­ffan sair para a estação, quando ela já estava pegando sua valise. Era Lars Emanuelsson.

"O que você quer? Como conseguiu este número? Não está na lista!"

Emanuelsson bufou. "Um jornalista que não sabe como conseguir um número de telefone, por mais secreto que seja, deveria seguir outra profissão."

"O que você quer?"

"Um comentário. Fatos que são verdadeiros terremotos estão ocorrendo em Hudiksvall. Um promotor que não parece nem um pouco confiante apesar de nos olhar direto no olho. O que você me diz disso?"

"Nada."

O tom amistoso de Lars Emanuelsson, artificial ou não, de­sapareceu. Sua voz ficou mais afiada, mais impaciente.

"Vamos deixar de besteira. Responda a minhas perguntas. Senão, vou começar a escrever sobre você."

"Eu não tenho absolutamente nenhuma informação sobre o que o promotor anunciou. Estou tão surpresa quanto o resto do país."

"Surpresa?"

"Use a palavra que quiser. Surpresa, aliviada, indiferente, pode escolher."

"Agora vou lhe fazer algumas perguntas bem simples."

"Eu vou desligar."

"Se você fizer isso eu escrevo que uma juíza de Helsingborg, que recentemente deixou Hudiksvall com pressa, recusa-se a responder a qualquer pergunta. Você já teve alguma vez sua casa sitiada pelos paparazzi? É muito fácil fazer isso acontecer. Nos velhos tempos, neste país, alguns boatos bem colocados po­diam provocar rapidamente bandos de linchamento. Uma ma­nada de jornalistas excitados lembra muito um bando desses."

"O que você quer?"

"Respostas. Por que você estava em Hudiksvall?"

"Sou parente de algumas vítimas. Não vou dizer quais."

Ela podia ouvi-lo recuperar o fôlego enquanto pensava no que tinha ouvido, ou talvez estivesse tomando nota.

"Isso provavelmente é verdade. Por que você foi embora?"

"Porque queria voltar para casa."

"O que eram aqueles velhos livros na sacola de plástico que você levou da delegacia?"

Ela pensou brevemente antes de responder.

"Alguns diários que pertenciam a um dos meus parentes."

"Isso é verdade?"

"É verdade. Se você vier aqui para Helsingborg, eu seguro um deles na mão para você verificar do lado de fora da porta. Estou ansiosa para que você venha."

"Eu acredito. Você precisa entender que só estou fazendo o meu trabalho."

"Então, é isso aí?"

"Sim, é isso aí."

Birgitta Roslin bateu o telefone com força. O telefonema a fizera suar. As respostas que dera tinham sido verdadeiras e nem um pouco evasivas. Lars Emanuelsson não teria nada sobre o que escrever. Mas estava impressionada com a persistência dele.

 

Embora tivesse sido mais fácil pegar a balsa para Elsinore, ela foi de carro até Malmö e atravessou a longa ponte que costu­mava cruzar apenas de ônibus. Karin Wiman vivia em Gentofte, ao norte de Copenhague. Birgitta Roslin perdeu-se duas vezes antes de finalmente conseguir pegar a rodovia certa e daí a costa para o norte. Fazia frio e ventava, mas o céu estava claro. Eram onze horas quando ela encontrou a bela casa de Karin. Era a casa onde morava quando se casou, e a casa onde seu marido morrera dez anos antes. Era um sobrado branco, cercado de um grande e frondoso jardim. Birgitta lembrou-se de que do andar superior era possível ver o mar por sobre os telhados.

Karin Wiman surgiu na porta de entrada para recebê-la. Ela emagrecera e estava mais pálida do que Birgitta recordava. Estaria doente, talvez? Abraçaram-se, entraram, Karin deixou a maleta de Birgitta no quarto onde ela iria dormir e passearam pela casa. Quase nada mudara desde que Birgitta estivera ali da última vez. Karin evidentemente queria deixar tudo como estava quando o marido ainda vivia. O que teria feito Birgitta em tal situação? Ela não sabia. Mas ela e Karin Wiman eram muito di­ferentes. Sua duradoura amizade baseava-se nesse fato. Haviam desenvolvido armaduras que absorviam ou desviavam os golpes metafóricos que às vezes desferiam uma contra a outra.

Karin tinha preparado o almoço. Sentaram-se numa estu­fa cheia de plantas e perfumes. Quase imediatamente, após as primeiras frases de reconhecimento, puseram-se a falar dos anos de estudantes em Lund. Karin, cujos pais tinham um haras em Skane, havia se matriculado em 1966; Birgitta, no ano seguinte. Haviam se conhecido no grêmio durante uma leitura de poesia e logo tornaram-se amigas, apesar das diferenças. Karin, dada sua origem, era auto-confiante. Birgitta, por outro lado, era insegura e tateante.

Elas se envolveram nas atividades da Frente Nacional de Li­bertação, ficavam caladas como ratinhos escutando os oradores, geralmente rapazes jovens que pareciam saber tudo, discorrer sobre a necessidade de se rebelar e gerar conflitos. Mas o que mais as inspirava era a fantástica sensação de poder criar uma nova ordem mundial, uma nova realidade — estavam envolvi­das em modelar o futuro. E não era apenas a FNL que lhes dava fundamentos em agitação política. Havia um monte de outras organizações expressando solidariedade com os movimentos li­bertários que proliferavam nos países em desenvolvimento asso­lados pela pobreza, agindo para expulsar os poderes coloniais. É um estado de espírito similar dominava a política local. Jovens suecos rebelavam-se contra tudo que era antigo e obsoleto. Era, para cunhar a frase, um tempo maravilhoso de se viver.

Ambas haviam aderido a um grupo radical de esquerda na política sueca conhecido como Rebeldes. Por alguns agitados meses tinham cultuado uma existência que se apoiava numa au­tocrítica brutal e na adesão dogmática às interpretações da teoria revolucionária de Mao Tsé-Tung. Haviam se desligado de todas as outras alternativas de esquerda, que encaravam com desprezo. Tinham destruído seus discos de música, esvaziado as prateleiras de livros, levando uma vida nos moldes da Guarda Vermelha de Mao na China.

Karin perguntou a Birgitta se ela se lembrava da famosa vi­sita ao balneário de Tylõsand. Ela lembrava, claro. A célula dos Rebeldes à qual pertenciam fizera uma reunião. O camarada Moses Hom — que mais tarde se tornou médico mas foi cas­sado porque não só tomava drogas como as fornecia aos outros — propusera que deviam "infiltrar-se nos decadentes grupos de sexo burgueses que passavam o verão tomando banhos de mar e de sol em Tylösand". Após extensas discussões, no começo de julho, dezenove camaradas alugaram um ônibus e foram para Halmstad e Tylösand. Desfilando sob um retrato de Mao, cer­cados de bandeiras vermelhas, desceram marchando até a praia, passando por todos os estarrecidos banhistas. Entoavam slogans, agitando nas mãos o Livro vermelho de Mao, e depois entraram nadando no mar com o retrato de Mao erguido. Aí reuniram-se na praia, cantaram "A Bandeira Vermelha", condenaram a Sué­cia fascista num pequeno discurso, e incentivaram os operários a unir-se, armar-se e preparar-se para a revolução que já estava próxima, logo ali. Voltaram para casa e passaram os dias seguin­tes fazendo a avaliação do "ataque".

"Do que você mais se lembra?", perguntou Karin.

"Do Moses. Que sustentava que a invasão de Tylösand en­traria para os anais da história da revolução iminente."

"O que eu mais lembro é que a água estava mesmo muito fria."

"Mas não tenho lembrança do que nós pensávamos na época."

"Nós não pensávamos nada. A questão era essa. Seguíamos os pensamentos dos outros. Não percebíamos que queriam que agíssemos como robôs para libertar a humanidade." Karin sacu­diu a cabeça e caiu na gargalhada. "Nós éramos umas crianci­nhas. E nos levávamos muito a sério. Alegávamos que o marxis­mo era uma ciência, tão verdadeira quanto qualquer coisa dita por Newton, Copérnico ou Einstein. Mas também éramos cren­tes. O Livro vermelho de Mao era a nossa bíblia. Não percebía­mos que estávamos agitando nas mãos não a palavra de Deus, mas um coleção de citações de um grande revolucionário."

"Eu lembro de ter dúvidas", disse Birgitta. "Bem lá no fun­do. Exatamente como tive quando visitei a Alemanha Oriental. Eu lembro de ter pensado: isto é absurdo, não dá para conti­nuar por muito mais tempo. Mas não disse nada. Tinha medo de que minha incerteza fosse notada. Então sempre berrei os slogans mais alto que todo mundo."

"Nós vivíamos num estado de autoilusão sem paralelos, mesmo que a intenção fosse boa. Como é que podíamos acre­ditar que operários suecos curtindo um pouco de sol estariam preparados para se armar e derrubar o sistema para começar algo novo?"

Karin Wiman acendeu um cigarro. Birgitta lembrou-se de que ela própria fora fumante, e sempre estendia instintivamente a mão em busca de um maço de cigarros e uma caixa de fósforos.

Continuaram conversando até de noite sobre amigos antigos e o que acontecera com eles. Aí saíram para dar um passeio pela cidadezinha. Birgitta notou que tanto ela quanto Karin tinham a mesma necessidade de recorrer ao passado para compreender mais da vida presente.

"E todavia nem tudo era ingenuidade e loucura", disse Bir­gitta. "A idéia de um mundo calcado na solidariedade ainda está muito viva dentro de mim até hoje. Gosto de pensar que, apesar de tudo, nós nos levantamos para sermos considerados, questio­namos as convenções e tradições que poderiam ter empurrado o mundo ainda mais para a direita."

"Eu parei de votar", disse Karin. "Não gosto disso, mas não consigo vislumbrar nenhuma verdade política com a qual eu me identifique. Mas tento, sim, apoiar os movimentos nos quais acredito. E eles ainda existem, apesar de tudo, ainda fortes e combativos. Quanta gente hoje você acha que se importa com o sistema feudal num paizinho como o Nepal? Eu me importo. Assino petições e mando dinheiro."

"Eu mal sei onde fica o Nepal. Devo admitir que fiquei pre­guiçosa. Mas às vezes ainda sinto falta da sensação de boa vontade que havia em toda parte. Não éramos apenas estudantes malu­cos que pensavam estar no centro do mundo, onde nada era impossível. Havia mesmo uma coisa chamada solidariedade."

Karin caiu na risada.

Prepararam o jantar juntas. Karin comentou que na sema­na seguinte iria para a China participar de uma importante conferência sobre a antiga dinastia Qin, cujo primeiro imperador assentou os alicerces para a unificação do reino.

"Como foi sua primeira visita à terra de seus sonhos?", per­guntou Birgitta.

"Eu tinha vinte e nove anos. Mao já tinha partido, e tudo estava mudando. Foi uma decepção muito grande, difícil de en­golir. Beijing era uma cidade fria, úmida. Milhares e milhares de bicicletas que soavam como um enxame de gafanhotos, mas eu percebi que, mesmo assim, havia ocorrido uma enorme mudan­ça. As pessoas tinham roupas para vestir. Sapatos nos pés. Nunca vi ninguém em Beijing passando fome, nenhum mendigo. Lem­bro de ter sentido vergonha. Eu tinha voado para aquele país, me afastara de todas as riquezas que para nós são ponto pacífico; eu não tinha nenhum direito de encarar o desenvolvimento na China com desprezo ou arrogância. Comecei a me apaixonar pela idéia de que os chineses tinham vencido o teste de força no qual foram enredados. Foi quando finalmente me decidi sobre o que fazer da minha vida: tornar-me sinóloga. Antes disso, eu linha pensado em outras atividades."

"Como o quê?'

"Você nunca vai acreditar."

"Diga logo!"

"Pensei em virar militar."

"Para quê?"

"Você virou juíza. Como é que a gente toma essas deci­sões?"

Depois do jantar, voltaram para a estufa. As luzes faziam brilhar a neve do lado de fora. Karin lhe emprestara um suéter, pois estava esfriando bastante. Haviam tomado vinho no jantar. E Birgitta estava um pouquinho embriagada.

"Venha para a China comigo", disse Karin. "A viagem não custa praticamente nada hoje em dia. Acredito que me deem um quarto de hotel grande. Podemos dividir. Já fizemos isso an­tes. Lembro dos acampamentos de verão quando você e eu e mais três dividimos uma barraca pequena. A gente deitava prati­camente uma em cima da outra."

"Não posso", respondeu Birgitta. "Provavelmente vou estar liberada para voltar ao trabalho."

"Venha comigo para a China. O trabalho pode esperar."

"Eu bem que gostaria. Mas alguma hora você vai voltar de novo para lá, não vai?"

"Claro que vou. Mas quando se chega à nossa idade não devemos adiar as coisas, a não ser que seja necessário."

"Nós ainda vamos viver bastante. Vamos morrer velhas."

Karin não disse nada. Birgitta percebeu que havia metido o dedo na ferida. O marido de Karin morrera aos quarenta e um. Desde então ela era viúva.

Karin compreendeu o que a amiga estava pensando. Esten­deu a mão e tocou o joelho de Birgitta.

"Tudo bem."

Continuaram a conversar. Era quase meia-noite quando se recolheram. Birgitta deitou-se na cama com o celular na mão. Staffan devia estar de volta à meia-noite e prometera telefonar.

Já estava quase cochilando quando a mão começou a vibrar.

"Acordei você?"

"Quase."

"Correu tudo bem?"

"Conversamos sem parar por mais de doze horas."

"Você volta amanhã?"

"Vou dormir o máximo que puder. Depois volto para casa."

"Você ouviu o que aconteceu? Ele disse como fez a coisa."

"Quem?"

"O homem de Hudiksvall."

Ela sentou-se imediatamente.

"Não estou sabendo de nada. Me conte!"

"Lars-Erik Valfridsson. O homem que acusaram. A polícia está procurando a arma neste exato momento. Evidentemente ele lhes contou onde tinha enterrado. Uma espada de samurai feita à mão, segundo o noticiário."

"É verdade?"

"Por que eu lhe contaria uma coisa que não é verdade?"

"Claro que não. Bom, mesmo assim. Ele disse por quê?"

"Ninguém disse nada além do fato de ter sido vingança."

Quando desligaram, ela permaneceu sentada. Durante todo o dia com Karin não pensara sequer um momento em Hesjõ­vallen. Agora, tudo que havia acontecido lhe voltava à mente nu­ma enxurrada.

Será que a fita vermelha tinha algum significado que nin­guém previra?

Por que Lars-Erik Valfridsson não poderia ter também jan­tado naquele mesmo restaurante?

Ela se deitou e apagou a luz. No dia seguinte, voltaria para casa. Devolveria os diários para Vivi Sundberg e retomaria o tra­balho.

Não havia como ir à China com Karin, mesmo sendo a coisa que ela mais gostaria no mundo.

Quando Birgitta Roslin acordou na manhã seguinte, Karin Wiman já havia saído para Copenhague, pois dava uma aula logo cedo. Ela deixara um bilhete sobre a mesa da cozinha.

 

Birgitta, às vezes penso que tenho um caminho dentro da minha cabeça. A cada dia que passa ele fica um pouco mais comprido e penetra mais fundo numa paisagem desconhecida onde vou aca­bar sumindo um dia desses. Mas esse caminho também vagueia para trás. Às vezes eu me viro, como ontem durante as horas que ficamos conversando, e vejo coisas das quais me esqueci, ou me impedia de lembrar. Eu queria continuar com essas conversas. Os amigos são tudo que nos resta. Ou melhor, talvez, a última linha de defesa que podemos lutar para manter.

Karin

 

Birgitta pôs a carta na bolsa, tomou uma xícara de café e preparou-se para partir. Quando estava prestes a fechar a porta de entrada, viu umas passagens em cima da mesinha no hall de entrada. Notou que Karin viajaria de Finnair, de Helsinki a Beijing.

Na volta, acabou tomando a balsa em Elsinore. Ventava muito. Depois de desembarcar parou numa lojinha de conve­niência na qual várias publicações traziam manchetes com a confissão de Lars-Erik Valfridsson. Comprou diversos jornais e rumou para casa. Sua reservada e taciturna faxineira polonesa estava a sua espera no hall. Birgitta esquecera que era o dia mar­cado para ela vir. Trocaram algumas palavras em inglês enquanto Birgitta lhe pagava a diária. Quando se viu finalmente sozinha, sentou-se para ler os jornais. Como sempre, ficou pasma com a quantidade de páginas que os jornais vespertinos eram capazes de dedicar a fatos extremamente escassos. No breve telefonema da noite anterior, Staffan lhe passara praticamente toda a informa­ção alardeada pelos jornais.

O único item novo era uma fotografia do homem que ha­via assumido ter cometido os crimes. Era provavelmente uma ampliação da foto de seu passaporte ou da carteira de motorista, mostrando um homem de rosto inexpressivo, boca estreita, testa larga e cabelo fino. Ela achou difícil imaginar esse sujeito cometendo os bárbaros assassinatos em Hesjövallen. Ele parece um pastor do baixo clero, pensou. Dificilmente um homem com um inferno na cabeça e nas mãos. Mas por experiência ela sabia que tudo era possível. Já vira no tribunal um número enorme cie criminosos cuja aparência nem de longe sugeria que eles haviam cometido os crimes de que eram acusados.

Foi só quando descartou os jornais e leu o teletexto na tevê que o seu interesse realmente despertou. O tópico principal, ali, era a descoberta da presumível arma do crime. A localização exata não fora revelada, mas a polícia tinha cavado no local onde Lars-Erik Valfridsson dissera que a arma estaria enterrada. Era uma pobre réplica caseira de uma espada de samurai japonesa. Mas extremamente afiada. A arma estava sendo examinada na­quele momento na esperança de que encontrassem impressões digitais e, acima de tudo, vestígios de sangue.

Algo não se encaixava. Ela trouxera na bolsa um panfleto de propaganda do restaurante chinês. Ligou para o número e reconheceu a voz da garçonete com quem conversara. Explicou quem era. A garçonete levou alguns segundos para entender.

"Você viu os jornais? O retrato do homem que assassinou Iodas aquelas pessoas?"

"Sim. Homem terrível."

"Você se lembra se ele alguma vez comeu no seu restau­rante?"

"Não, nunca."

"Tem certeza?"

"Nunca durante meu turno. Mas outros dias minha irmã ou meu primo é que trabalha. Eles moram em Söderhamn. Eles têm restaurante lá. Nós revezamos. Firma de família."

"Você faria uma coisa para mim? Peça para eles darem uma olhada nos jornais. Se eles reconhecerem o homem, por favor, ligue para mim."

A garçonete anotou o número do telefone de Birgitta.

"Qual é o seu nome?", Birgitta perguntou. "Li."

"O meu é Birgitta. Obrigada por me ajudar."

"Não está em Hudiksvall?"

"Não, estou em casa, em Helsingborg."

"Helsingborg? Nós temos restaurante aí. Também da famí­lia. Chama Shangai. Comida boa como aqui."

"Alguma hora vou comer lá. Mas você precisa me ajudar."

Ela permaneceu sentada junto ao telefone, ansiosa. Quan­do o aparelho tocou, era seu filho. Ela lhe pediu para telefonar mais tarde, pois esperava uma ligação. Meia hora depois, a liga­ção veio.

"Talvez", disse Li.

"Talvez?"

"Meu primo pensa que talvez o homem tenha ido no res­taurante uma vez."

"Quando?"

"Ano passado."

"Mas ele não tem certeza?"

"Não."

"Você pode me dizer o nome dele?"

Birgitta anotou o nome e o número do telefone do restau­rante em Söderhamn, depois desligou. Após uma breve pausa para organizar as idéias, chamou a central de polícia em Hudiks­vall e pediu para falar com Vivi Sundberg. Ela esperava ter de deixar um recado, de modo que ficou surpresa quando Sund­berg atendeu o telefone.

"Como está indo com os diários?", ela perguntou. "Ainda está achando interessante?"

"Não são fáceis de ler. Mas eu tenho tempo. Em todo caso, parabéns pela grande descoberta. Se estou entendendo as coi­sas corretamente, vocês têm uma confissão e a possível arma do crime."

"Duvido muito que este seja o motivo do seu telefonema."

"Claro que não. Eu queria trazer mais uma vez a sua aten­ção de volta ao meu restaurante chinês."

Birgitta contou a Vivi acerca do primo chinês em Soderhamn, e que talvez Lars-Erik Valfridsson tivesse comido no res­taurante em Hudiksvall.

"Isso poderia explicar a fita vermelha", concluiu Birgitta. "Um fio solto."

Vivi Sundberg pareceu apenas vagamente interessada.

"Não estamos preocupados com a fita neste momento. Acho que você pode entender."

"Mas mesmo assim eu quis lhe contar. Posso lhe dar o no­me do garçom que talvez o tenha atendido, e número de telefo­ne dele."

"Obrigada por nos informar."

Depois de terminar a conversa, Birgitta ligou para seu che­fe, Hans Mattsson. Teve de esperar algum tempo até ele atender. Ela lhe disse que esperava estar liberada para trabalhar quando fosse à nova consulta médica, dali a dois dias.

"Estamos afogados", contou Mattsson. "Ou talvez fosse mais exato dizer que estamos sendo sufocados. Todos os cortes de or­çamento estrangularam os tribunais suecos. Nunca pensei que losse viver para ver isso."

"Ver o quê?"

"O preço a ser pago por ter um Estado governado pela lei. Não pensava que fosse possível dar um valor monetário à de­mocracia. Se você não tem um Estado que funcione com base na lei, você não tem democracia. Nós estamos de joelhos. Há rangidos, arranhões e grunhidos vindos de baixo do assoalho da nossa sociedade. Estou realmente preocupado."

"Dificilmente vou poder dar conta de todas essas coisas de que você está falando, mas prometo voltar a cuidar dos meus próprios julgamentos."

"É mais do que bem-vinda."

Naquela noite ela jantou sozinha, pois Staffan teria de per­noitar em Hallsberg entre dois turnos. Continuou a folhear os diários. Os únicos parágrafos que ela parou para ler direito foram os do final do último volume. Era junho de 1862. J. A. já era um homem velho. Vivia numa pequena casa em San Diego, sofrendo de dores nas pernas e nas costas. Após muito regatear, acabou comprando ervas e unguentos de um velho feiticeiro in­dígena; ele descobriu que eram os únicos remédios capazes de ajudá-lo. Escrevia sobre sua extrema solidão, sobre a morte da esposa, e dos filhos que tinham se mudado para longe — um de seus filhos morava agora nas regiões selvagens do Canadá. Nunca mencionava a ferrovia.

O diário terminava no meio de uma frase. Era 19 de junho de 1862. Ele escreve que chovera durante a noite. As costas doem mais do que o usual. Ele teve um sonho.

E aí terminam suas anotações. Nem Birgitta Roslin nem ninguém no mundo jamais saberia o que ele tinha sonhado.

Ela folheou o diário de trás para a frente. Não havia nada que indicasse que ele sabia que o fim estava próximo, nada em suas notas pavimentava o caminho para o que em breve iria acontecer. Uma vida, ela pensou. Minha morte poderia ser igual, meu diário, se eu tivesse um, ficaria inacabado. Agora, vamos e venhamos, quem é que consegue concluir a própria história, escrever um parágrafo final antes de se deitar e morrer?

Pôs os diários de volta na sacola de plástico e resolveu des­pachá-los no dia seguinte. Acompanharia o que estava ocorren­do em Hudiksvall do mesmo jeito que todo mundo.

Examinou uma lista de juizes titulares nas diferentes re­giões da Suécia. O juiz titular no distrito de Hudiksvall era Tage Porsén. Vai ser o julgamento da vida dele, ela pensou. Espero que seja um juiz que goste de publicidade. Birgitta sabia que alguns de seus colegas odiavam, ao mesmo tempo que temiam, ser confrontados por jornalistas e câmeras de televisão.

Pelo menos era o caso dos juizes da sua geração e dos mais velhos. Desconhecia o que a geração mais nova pensava sobre a publicidade.

O termômetro do lado de fora da janela da cozinha indica­va que a temperatura caíra. Ela ligou a tevê para assistir ao noti­ciário da noite. Depois iria para a cama. O dia que passara com Karin fora muito agitado, e também muito cansativo.

Havia perdido o começo do noticiário, mas era óbvio que ocorrera algo dramático em relação ao caso de Hesjövallen. Um repórter entrevistava um criminologista prolixo, porém muito sério. Ela tentou entender o que se passava.

Quando o especialista terminou de falar, a tela se encheu de imagens do Líbano. Ela soltou um palavrão, mudou para o Icletexto e imediatamente descobriu o que havia acontecido.

Lars-Erik Valfridsson se suicidara. Apesar de estar sob cons­tante vigilância, conseguira rasgar a camisa em tiras, fazer um laço e se enforcar. Embora tivesse sido socorrido quase imedia­tamente, não fora possível ressuscitá-lo.

Birgitta Roslin desligou a tevê. Sua cabeça nadava num turbilhão. Teria ele sido incapaz de conviver com toda aquela culpa que lhe pesava? Ou seria mentalmente insano?

Alguma coisa não bate, ela pensou. Não deve ser ele. Por que ele se matou, por que confessou, e por que levou a polícia até a espada de samurai enterrada?

Simplesmente não faz sentido.

Sentou-se na poltrona que costumava usar para ler, mas desligou a lâmpada. A sala ficou na penumbra. Alguém riu pas­sando pela rua. Freqüentemente sentava-se ali para refletir sobre seu trabalho.

Birgitta Roslin recapitulou desde o início. Era demais, pen­sou. Talvez não demais para um homem rude e obcecado le­var a cabo. Mas demais para um homem de Hälsingland com um histórico criminal que não passava de uns poucos casos de agressão. Ele confessa um crime que não cometeu. Aí dá para a polícia uma arma que ele mesmo fez e enforca-se na cela. Posso estar errada, é claro, mas acho que as coisas não batem. Eles o prenderam depressa demais. E qual poderia ser a tal vingança que ele alegou como motivo?

Era meia-noite quando ela finalmente se levantou da pol­trona. Pensou se deveria telefonar para Staffan, mas ele talvez já estivesse dormindo. Foi para a cama e apagou a luz. Em seus pensamentos, via-se vagando mais uma vez pela aldeia. Repe­tidamente visualizava a fita vermelha encontrada na neve e a imagem do homem chinês captada pela câmera doméstica de vigilância do hotel. A polícia deve saber de algo que eu não sei: por que Lars-Erik Valfridsson foi detido e qual pode ter sido um motivo plausível. Mas estão cometendo um erro em se fechar numa única linha de investigação.

Não conseguia dormir. Quando não aguentou mais ficar se mexendo e virando na cama, vestiu o penhoar e desceu. Sen­tou-se à escrivaninha e escreveu um resumo de todos os fatos que a ligavam a Hesjövallen. Levou quase três horas revivendo em detalhes tudo que sabia. Enquanto escrevia, era incomodada pela sensação de que havia algo que lhe escapara, uma conexão que não vira. Sua caneta lhe dava a impressão de uma serra elé­trica limpando a vegetação rasteira numa floresta, e ela precisa­va ter cuidado caso houvesse algum jovem cervo escondido ali. Quando enfim se endireitou e esticou os braços sobre a cabeça, eram quatro da manhã. Foi até a poltrona, ajustou a lâmpada e começou a ler, buscando algo que pudesse ter esquecido. Mas nada de incomum atraiu sua atenção, nenhum elo que deveria ler notado antes.

Estava, porém, convencida: não podia ser obra de um luná­tico. Era muito bem organizada, por demais a sangue frio para ter sido executada por alguém que não fosse um assassino abso­lutamente calmo e glacial. Possivelmente, ela anotou na mar­gem, alguém devia se perguntar se o homem já estivera no local. Estava escuro como o breu, o sujeito devia carregar uma lanter­na potente. Muitas portas estavam trancadas. Ele devia saber exatamente quem vivia onde, e é provável que também tivesse as chaves. Seus motivos devem ter sido bem poderosos, pois ele jamais hesitou nem sequer por um segundo.

De repente, foi tomada por um pensamento, algo que não lhe ocorrera antes. Teria o assassino mostrado sua face às pessoas sobre quem ergueu sua espada ou sabre? Será que queria que o vissem?

Esta é uma pergunta para Vivi Sundberg, pensou. A luz dos quartos onde os corpos foram encontrados estava acesa? Teriam as pessoas olhado a face da morte antes de a espada cair?

Ela afastou as notas; eram quase cinco horas. Verificou o termômetro e constatou que a temperatura caíra a oito graus negativos. Tomou um copo de água e voltou para a cama. Esta­va quase adormecendo quando aflorou novamente à superfície. Havia algo que ela não tinha visto. Dois dos corpos tinham sido amarrados um ao outro. Onde vira uma imagem como essa an­tes? Sentou na cama, no escuro, subitamente bem desperta. Em algum lugar, ela vira a descrição de uma cena similar.

Os diários. Ela desceu as escadas, espalhou os cadernos so­bre a mesa e começou a procurar. Achou o trecho que buscava quase de imediato.

É o ano de 1865. A ferrovia serpenteia para leste, cada dor­mente, cada trilho é uma tortura. Os operários são derrubados por doenças. Caem como moscas. Mas a enchente de operários substitutos asiáticos significa que o trabalho pode prosseguir na velocidade que é essencial para que o gigantesco programa ferroviário não seja prejudicado por colapso financeiro. Numa oca­sião, para ser mais preciso, em 9 de novembro, J. A. fica saben­do que um navio de escravos chineses está a caminho vindo de Cantão. E um velho navio a vela, agora só usado para transportar até a Califórnia chineses raptados. Os problemas eclodem quan­do comida e água começam a escassear devido a uma calmaria mais longa que a usual. Para conter a revolta, o capitão recorre a métodos de crueldade sem paralelos. Mesmo J. A., que não hesi­ta em usar os punhos e chicotes para fazer os operários trabalha­rem mais duro, acha aflitivo o que chega a seu conhecimento. O capitão pega alguns dos líderes criadores de problemas, mata-os e os amarra a outros chineses ainda vivos, de dois em dois. Aí os pares são forçados a se deitar no convés, um dos sujeitos morren­do lentamente de fome, o outro em decomposição. J. A. anota em seu diário que "a punição é excessiva".

Haveria alguma ligação? Talvez algum deles em Hesjõ­vallen tenha sido forçado a ficar deitado com um cadáver amar­rado ao próprio corpo? Por uma hora inteira, talvez menos, tal­vez mais? Antes do golpe final libertador?

Eu deixei isso escapar, ela pensou. Será que a polícia de Hudiksvall também deixou? Eles não devem ter lido o diário com tanto cuidado antes de me emprestarem.

Mas outra pergunta se apresentava, ainda que parecesse ba­sicamente implausível. Teria o assassino conhecimento dos fatos descritos no diário de J. A.? Haveria algum elo digno de nota unindo tempo e espaço?

Talvez Vivi Sundberg fosse ainda mais astuta do que Birgitta pensava.

Talvez Vivi Sundberg até tivesse apreciado sua teimosia. Kra uma mulher que provavelmente tinha experimentado pro­blemas com seus incômodos colegas masculinos.

Birgitta Roslin dormiu até as dez, levantou-se e viu pela es­cala de Staffan que ele deveria estar de volta a Helsingborg por volta das três da tarde. Estava prestes a telefonar para Sundberg quando a campainha tocou. Quando Birgitta atendeu, viu um chinês baixinho parado, segurando uma embalagem para via­gem embrulhada num plástico.

"Eu não pedi nada", disse Birgitta Roslin, surpresa.

"De Li em Hudiksvall", disse o homem com um sorriso. "Não custa nada. Ela quer que você ligue. Nós somos negócios de família."

"O restaurante Shangai?"

O homem sorriu.

"Restaurante Shangai. Comida muito boa."

Ele fez uma reverência, entregou o pacote e saiu pelo portão.

Birgitta desembrulhou a comida, sentiu e gostou do aroma, depois a guardou na geladeira. Então telefonou para Li. Desta vez quem atendeu foi o homem irritadiço. Ela presumiu que fosse um pai temperamental que ditava as regras na cozinha. Ele deu um grito e Li veio ao telefone.

"Muito obrigada pela comida", disse Birgitta Roslin. "Foi uma agradável surpresa."

"Você já provou?"

"Ainda não. Estou esperando meu marido chegar em casa."

"Ele também gosta de comida chinesa?"

"Sim, gosta muito. Você pediu que eu ligasse."

"Falei com a mãe sobre a luminária", Li disse. "Aquela que falta a fita vermelha."

"Acho que não conheci sua mãe."

"Ela fica em casa. Às vezes vem limpar. Mas ela anota tudo quando está aqui. Em 12 de janeiro ela fez limpeza. De manhã antes de abrir."

Birgitta Roslin reteve a respiração.

"Ela diz que nesse mesmo dia espanou todas as luminárias de papel no restaurante, e tem certeza que não faltava fita ne­nhuma. Ela notaria se faltasse."

"Será que ela não poderia ter se enganado?"

"Não minha mãe. É importante?", perguntou Li.

"Pode ser muito importante", respondeu Birgitta. "Muito obrigada por me contar."

Recolocou o fone no gancho. Imediatamente voltou a cha­mar. Desta vez era Lars Emanuelsson.

"Não desligue", ele foi logo dizendo.

"O que você quer?"

"A sua opinião sobre o que aconteceu."

"Não tenho nada a dizer."

"Ficou surpresa?"

"Com o quê?"

"Que ele acabou virando suspeito? Lars-Erik Valfridsson?"

"Eu não sei nada a respeito dele fora aquilo que li nos jor­nais."

"Mas está tudo impresso ali."

Ele a estava instigando. Ela ficou curiosa.

"Ele agredia suas duas ex-mulheres", explicou Lars Ema­nuelsson. "A primeira conseguiu fugir. Aí ele achou uma senho­ra das Filipinas e a atraiu para cá por meio de um calhamaço de falsos pretextos. Aí ele quase a matou de porrada antes de alguns vizinhos descobrirem e o denunciarem, e ele foi devidamente condenado. Mas ele fez coisas piores que isso."

"O quê?"

"Assassinato. Já em 1977. Ainda era um rapaz jovem. Hou­ve uma briga por causa de uma pequena motocicleta. Ele deu uma pancada na cabeça do outro rapaz com uma pedra enor­me, e a morte foi instantânea. Lars-Erik foi examinado por um psiquiatra forense que julgou que ele podia muito bem recorrer à violência mais uma vez. Pode-se presumir que ele pertencia àquele pequeno grupo de pessoas consideradas potencialmente perigosas para a sociedade. Estou na expectativa de que a polícia e o promotor pensem que acharam o homem certo."

"Você não é dessa opinião?"

"O tempo dirá. Mas você pode muito bem deduzir o que estou pensando. Isso deve bastar como resposta a sua pergunta. E eu me pergunto, quais são as conclusões que você tirou? Você concorda comigo?"

"Não tenho prestado mais atenção ao caso do que qualquer outra pessoa do grande público. Você já deve ter percebido que me cansei de seus telefonemas já faz um bom tempo."

Lars Emanuelsson pareceu não ouvir o que ela disse. "Con­te-me sobre os diários. Eles devem ter algo a ver com o caso."

"Não quero mais receber telefonemas seus."

Ela desligou. O telefone voltou a tocar imediatamente. Ela o ignorou. Depois de cinco minutos, ligou para a central de polícia em Hudiksvall. Levou um bom tempo para chegar à telefonista, cuja voz ela reconheceu. A moça parecia ao mesmo tempo nervosa e cansada. Sundberg não podia atender. Birgitta Roslin deixou o nome e o número do telefone.

"Não posso prometer nada", disse a moça. "Isto aqui está um caos."

"Posso entender. Por favor, peça a Vivi Sundberg para me ligar quando tiver uma oportunidade."

"É importante?"

"Ela sabe quem eu sou. Isso é suficiente para responder a sua pergunta."

Vivi Sundberg ligou no dia seguinte. O noticiário estava dominado pelos escandalosos acontecimentos na cadeia de Hu­diksvall. O ministro da Justiça abandonara as formalidades para prometer uma investigação das circunstâncias e descobrir quem fora o responsável. Tobias Ludwig fez o melhor que pôde em suas sessões com os jornalistas e câmeras de tevê. Mas era con­senso que o suicídio jamais devia ter acontecido.

Vivi Sundberg parecia cansada. Birgitta Roslin decidiu não fazer perguntas sobre a evolução recente dos fatos. Em vez disso, explicou o que ficara sabendo sobre a fita vermelha e explicitou as idéias que registrara em suas anotações.

Vivi Sundberg escutou sem comentar. Birgitta podia ouvir vozes ao fundo e não invejou Sundberg pela tensão que devia estar dominando a central de polícia.

"As suas suspeitas são de fato justificadas", disse Vivi. "Te­mos pensado bastante sobre isso. Todas as luzes estavam acesas. Em todos os quartos, com exceção de um."

"O quarto do menino morto?"

"Isso mesmo."

"Você tem alguma explicação?"

"Por favor, não posso discutir isso com você por telefone."

"É óbvio que não. Peço desculpas."

"Tudo bem. Mas gostaria de lhe pedir uma coisa. Anote tudo o que sabe e pensa sobre o que aconteceu em Hesjövallen. Eu vou me encarregar pessoalmente de verificar a questão da fita vermelha. Mas todo o resto, anote tudo e mande para mim."

"Não foi Lars-Erik Valfridsson quem cometeu esses assassi­natos", afirmou Birgitta Roslin.

Essas palavras saíram do nada. Ela ficou tão surpresa quan­to Vivi Sundberg provavelmente ficara.

"Anote tudo e mande para mim", repetiu Vivi Sundberg. "Obrigada por entrar em contato."

"E quanto aos diários?"

"Creio que agora seja melhor você também mandá-los de volta para nós."

Quando a ligação terminou, Birgitta sentiu-se aliviada. Ape­sar de tudo, seus esforços não tinham sido em vão. Agora podia passar tudo para outra pessoa. Com sorte a polícia descobriria o verdadeiro assassino, e se tinha agido só ou com cúmplices. E não ficaria nem um pouco surpresa se houvesse um homem da China envolvido.

 

No dia seguinte Birgitta Roslin foi para sua consulta médi­ca. Era um dia de inverno com ventania, as rajadas sopravam do estreito oceânico. Ela se sentia impaciente, não agüentava mais esperar para retornar ao trabalho.

Precisou aguardar apenas alguns minutos antes de chegar sua vez. O médico perguntou como ela estava, e ela disse que se sentia plenamente recuperada. A enfermeira colheu uma amostra de sangue, e Birgitta sentou-se mais uma vez na sala de espera.

Quando foi chamada para a sala de exames, o médico tirou sua pressão e foi direto ao assunto.

"Você parece estar em boa forma, mas a sua pressão ainda está muito alta. Vamos ter de tentar identificar a causa. Vou pror­rogar sua licença médica por mais duas semanas, e também vou mandá-la a um especialista."

Foi só quando já estava de novo na rua, atingida por um vento gelado, que os dados penetraram em sua cabeça. Ficou mui­to preocupada com a possibilidade de estar seriamente doente, apesar de o médico garantir o contrário.

Ficou parada no meio da praça com o vento batendo-lhe nas costas. Pela primeira vez em muitos anos sentia-se impoten­te. Enquanto estava ali, imóvel, sentiu o celular vibrando no bolso do casaco. Era Karin, que queria agradecer a Birgitta por tê-la visitado.

"O que você está fazendo?", ela perguntou.

"Estou parada no meio da praça", foi a resposta. "Neste exa­to momento não tenho a menor idéia do que vou fazer com o resto da minha vida."

Contou a Karin sobre a consulta médica. Foi uma ligação gelada. Ela prometeu ligar de novo antes de Karin partir para a China.

Ao chegar em casa e abrir o portão, começou a nevar e o vento soprou mais forte.

Nesse mesmo dia ela foi à Corte distrital falar com Hans Mattsson. Ela percebeu que ele ficou preocupado e abatido quando ela lhe disse que ainda estava de licença médica.

Ele a observou pensativamente por cima dos óculos.

"Isso não soa bem. Estou começando a ficar preocupado com você."

"Não precisa ficar, segundo meu médico. A contagem de glóbulos no sangue não está como deveria, e minha pressão pre­cisa baixar. Vou consultar um especialista. Mas não me sinto doente, só um pouco cansada."

"E não estamos todos?", disse Mattsson. "Tenho me sentido c ansado nos últimos trinta anos. Atualmente o maior prazer que lenho é esperar os dias em que posso ficar dormindo."

"Vou ficar fora por mais duas semanas. Então é torcer para que as coisas se resolvam."

"Tome o tempo que precisar. Vou falar com a Administra­ção Judiciária Nacional e ver o que eles podem fazer para nos ajudar. Como sabe, você não é a única que está afastada. Klas I lansson está de licença para comandar um inquérito para a União Européia em Bruxelas. Duvido que algum dia ele volte. Sempre desconfiei que fica tentado por coisas mais grandiosas do que presidir uma Corte doméstica."

"Lamento causar-lhe problemas."

"Você não está me causando problemas. É a sua pressão sangüínea que está lhe causando problema. Descanse. Cuide das suas rosas e volte quando estiver de novo saudável."

Ela o encarou surpresa. "Eu não cultivo rosas. Certamente não tenho mão para jardinagem."

"É o que minha avó costumava dizer. Quando falavam para não trabalhar tanto, ela achava que a gente devia se concentrar em cultivar rosas imaginárias. Creio que é uma bela imagem. Minha avó nasceu em 1879. No mesmo ano em que Strindberg publicou O quarto vermelho. Estranha associação. A única coisa que ela fez na vida, além de gerar filhos, foi cerzir meias."

"Pois bem, vou fazer isso", disse Birgitta Roslin. "Vou para casa cuidar das rosas."

No dia seguinte ela despachou os diários e as anotações para Hudiksvall. Ao entregar o pacote e pegar o recibo de envio, teve a sensação de estar fechando uma porta para os acontecimentos de Hesjövallen. Sentiu-se aliviada e se concentrou nos preparativos para a festa de aniversário de Staffan.

Quase toda a família, além de vários amigos, estava reunida quando Staffan Roslin chegou em casa após ter se encarregado do trem da tarde de Alvesta para Malmö, e então viajar, já fora de serviço, para Helsingborg. Ficou parado na soleira da porta em seu uniforme acrescido de um roto chapéu de pele, abobalhado, enquanto os convidados cantavam "Parabéns pra você". Foi um alívio para Birgitta ver todos em volta da mesa. O que acontece­ra em Hälsingland, bem como sua pressão sangüínea elevada, parecia menos importante quando ela conseguia se embeber do sentimento de calma que somente os seus podiam lhe dar. Naturalmente gostaria que Anna tivesse podido vir da Ásia, mas ela declinara do convite quando Birgitta finalmente conseguiu contatá-la por meio de uma barulhenta conexão por celular na Tailândia. Era bem tarde quando os convidados se foram, resta­vam apenas os membros da família. Seus filhos eram tagarelas, adoravam passar momentos juntos. Ela e o marido sentaram-se no sofá, escutando as conversas com prazer e interesse. De vez em quando ela voltava a encher os copos de todos. As gêmeas, Siv e Louise, dormiriam no quarto extra, mas David pegara um quarto num hotel, apesar dos protestos de Birgitta. Eram quatro da manhã quando a festa terminou. Apenas os pais ficaram para limpar, encher a lava-louças e pôr as garrafas vazias na garagem.

"Foi realmente uma bela surpresa", disse Staffan quando fi­nalmente se sentaram à mesa da cozinha. "Nunca vou esquecer. Estou me sentindo energizado. Um pouco antes eu estava me sentindo de saco cheio de ficar viajando de lá para cá em vagões de trem. Passo o tempo todo viajando, mas nunca chego a lu­gar nenhum. Essa é a maldição dos condutores e cobradores de trem. Passamos todo o nosso tempo em nossas bolhas de vidro."

"Devíamos fazer isso com mais freqüência. Vamos dizer a verdade, é em momentos assim que a vida assume um significa­do diferente. Não só deveres e fazer o que precisa ser feito."

"E agora?"

"O que você quer dizer?"

"Você vai estar de licença por mais duas semanas. O que é que você pretende fazer?"

"Hans Mattsson fala apaixonadamente sobre seu desejo de dormir. Talvez eu deva fazer isso por alguns dias."

"Vá para algum lugar quente por uma semana. Leve uma de suas amigas com você."

Ela balançou a cabeça em dúvida. "Não sei. Talvez. Mas quem?"

"Karin Wiman?"

"Ela vai para a China, a trabalho."

"Não há mais ninguém que você possa convidar? E se você viajasse com uma das gêmeas?"

Era uma idéia tentadora. "Vou ver o que elas têm a dizer. Mas antes preciso descobrir se realmente vou poder viajar para algum lugar. Não esqueça que devo consultar um especialista."

Ele esticou a mão e a colocou no braço dela. "Espero que você esteja me contando tudo. Eu preciso me preocupar?"

"Não. A menos que meu médico esteja mentindo para mim. Mas acho que não está."

Ficaram sentados por mais um tempo antes de irem para a cama. Quando ela acordou na manhã seguinte, Staffan já se fora. E também as gêmeas. Ela dormira até as onze e meia. Uma manhã de Hans Mattsson, pensou.

Depois do almoço, conversou por telefone com Siv e Louise, mas nenhuma das duas tinha tempo para viajar, embora am­bas tivessem adorado a idéia de passar uns dias de folga com a mãe. Também recebeu um telefonema informando que, devido a um cancelamento, poderia ser atendida pelo especialista já no dia seguinte.

Por volta das quatro horas a campainha da porta tocou. Ela se perguntou se estaria recebendo outra refeição chinesa gra­tuita. Mas, ao abrir, deu de cara com o inspetor detetive-chefe Hugo Malmberg com neve no cabelo e suas antiquadas galochas nos pés.

"Acabei de encontrar Hans Mattsson. Ele mencionou que você não estava bem — em confiança, é claro, pois sabe que somos velhos amigos."

Ela o convidou a entrar. Apesar de seu tamanho enorme, não teve problema em se curvar e tirar as galochas.

Sentaram-se na cozinha e tomaram café. Ela lhe falou da pressão alta e da contagem de glóbulos do sangue, e que isso não era algo incomum para mulheres da sua idade.

"Minha pressão alta está fazendo tique-taque como uma bomba-relógio dentro de mim", disse Malmberg sombriamente. "Tomo remédio, e meu médico diz que os índices estão satisfa­tórios; mas mesmo assim fico preocupado. Ninguém da minha família nunca morreu de tumor. Todo mundo, homens e mu­lheres, morreu de derrame ou ataque cardíaco. Todo dia preciso fazer o maior esforço para superar minhas preocupações."

"Eu estive em Hudiksvall", contou Birgitta. "Foi você que me deu o nome de Vivi Sundberg. Você sabia que fui até lá?"

"Não tinha idéia."

"Você se lembra das circunstâncias? Descobri que era meio parente de uma das famílias assassinadas em Hesjõvallen. Desde então ficou claro que todas as vítimas de assassinato eram apa­rentadas por casamento. Você tem um tempo?"

"Minha secretária eletrônica diz que eu estou em trabalho externo pelo resto do dia. Como não estou de plantão, posso ficar sentado aqui a noite toda se preciso."

"Até o dia amanhecer? É isso?"

"Ou até os cavaleiros do Apocalipse passarem rugindo e nos aniquilando a todos. Vamos lá, entretenha-me com todos os hor­rores com os quais eu não preciso me envolver."

"Você está bancando o cínico?"

Ele franziu o cenho, e rosnou. "Pensei que você me conhe­cesse! Depois de tantos anos! Estou ofendido."

"Não tive intenção."

"Manda bala. Estou escutando."

Como ele parecia genuinamente interessado, Birgitta contou-lhe tudo em detalhes. Ele escutou atentamente, interpolando uma ou outra pergunta, mas parecia convencido de que ela estava sendo meticulosa. Quando ela acabou, Malmberg ficou um tempo sentado sem falar, olhando as mãos. Birgitta sabia que Hugo Malmberg era considerado um policial excepcionalmen­te competente, que combinava paciência e rapidez, abordagem metódica e intuição. Ela ouvira dizer que Malmberg era um dos professores mais requisitados da Academia de Polícia Sueca. Embora o trabalho diário fosse em Helsingborg, com freqüência era chamado pelo Conselho Nacional para prestar auxílio em casos especialmente difíceis em outras partes do país.

De repente ocorreu à juíza ser estranho que ele não tivesse sido convocado para ajudar na investigação dos assassinatos de Hesjövallen.

Ela apontou o fato diretamente, e ele sorriu.

"Na verdade eles pediram ajuda. Mas ninguém me contou que você estava envolvida e que fez algumas descobertas extraor­dinárias."

"Acho que não gostam de mim", explicou Birgitta Roslin.

"Policiais tendem a ser muito ciosos de suas fontes. Estavam ansiosos por minha presença e meus conselhos, mas perderam o interesse quando Valfridsson foi preso."

"Agora ele está morto."

"Mas a investigação continua", suspirou Malmberg.

"No entanto, agora você sabe que não foi ele."

"Eu sei?"

"Você ouviu o que eu tinha a dizer." Ela olhou seriamente para o detetive.

"Fatos plausíveis, acontecimentos dignos de nota. Coisas que decerto deveriam ser pesquisadas. Mas a linha de investiga­ção principal, Valfridsson, não se torna pior só porque o homem resolveu cometer suicídio."

"Não foi ele. O que aconteceu naquela noite entre 12 e 13 de janeiro foi muito maior do que poderia fazer um sujeito com algumas condenações por agressão e um antigo homicídio."

"Pode ser que você esteja certa. Mas também pode ser que esteja errada. Acontece reiteradamente de peixes maiores nadarem em lagoas mais plácidas. Ladrões de bicicletas viram assaltantes de bancos; arruaceiros viram agressores profissionais dispostos a matar qualquer um por qualquer quantia. Então, por que um sujeito que se embebeda e bate em algumas pessoas, e até chega a matar, não haveria de destrambelhar e cometer um crime horrendo como o de Hesjövallen?"

"Mas não havia motivo", ela insistiu.

"O promotor está falando de vingança."

"Vingança de quê? O que poderia justificar vingança con­tra uma aldeia inteira? Simplesmente não faz sentido."

"Se o crime não faz sentido, o motivo também não precisa fazer", ele retrucou.

"Seja lá o que for, eu acho que o Valfridsson foi uma pista falsa."

"É uma pista falsa. O que foi que eu disse? A investigação continua mesmo que ele esteja morto. Vou lhe fazer uma per­gunta. A sua idéia de um chinês misterioso ser responsável pelos crimes por acaso é mais plausível? Como, meu Deus, você pode associar toda uma aldeiazinha do norte da Suécia com um motivo chinês?"

"Não sei."

"Vamos esperar para ver. E você precisa fazer de tudo para sarar depressa."

Estava nevando ainda mais forte quando ele se preparou para sair.

"Por que não tira umas férias? Não viaja para algum lugar quente?"

"Todo mundo me diz isso. Primeiro preciso perguntar ao meu médico."

Ela o observou desaparecer no meio do turbilhão de neve. Ficou tocada de pensar que ele reservara um tempo para visitá-la.

No dia seguinte a neve prosseguia. Ela foi à consulta com o especialista, colheu amostras de sangue e foi informada de que levaria uma semana ou mais até que todos os resultados ficassem prontos.

"Tenho alguma restrição?", ela perguntou ao novo médico.

"Evite esforços desnecessários."

"Posso viajar de férias?"

"Faria bem a você."

"Tenho mais uma pergunta. Devo ficar com medo?"

"Não. Como você não tem outros sintomas, não tem razão para se preocupar."

"Então não vou morrer?"

"Claro que vai. Vai acabar morrendo. Eu também. Mas vai estar bem enquanto pudermos manter sua pressão dentro de li­mites razoáveis."

Quando saiu para a rua, reconheceu que estivera ansiosa, para não dizer com medo. Agora sentia-se aliviada. Resolveu dar uma longa caminhada. Mas não andara muito quando parou.

A idéia ocorreu-lhe sem mais nem menos. Ou talvez já ti­vesse tomado a decisão sem saber. Entrou num café e telefonou para Karin Wiman. A linha estava ocupada. Esperou com im­paciência, pediu um café, folheou o jornal. Tentou novamente. Ainda ocupado. Só conseguiu resposta na quinta tentativa.

"Vou com você para Beijing."

 

Birgitta não conseguiu pegar o mesmo voo — chegaria um dia depois. Staffan concordou com a idéia, ficou até mesmo con­tente por ela.

Na noite anterior à partida, Birgitta remexeu um caixote de papelão na garagem. Bem lá no fundo encontrou o que procu­rava: seu velho e manuseado Livro vermelho de Mao. Na contra­capa vermelha de plástico ela escrevera uma data: 19 de abril de 1966.

Na época eu era uma menininha, ela pensou. Inocente sob quase todos os aspectos. Só tinha estado uma vez com um rapaz, Tore, de Borstahusen, que sonhava se tornar existencialista e la­mentava não ter uma barba adequada. Perdi minha virgindade com ele, num barracão de jardim gelado cheirando a mofo. Só me lembro que foi quase que insuportavelmente desconfortável. Depois, toda aquela meleca grudenta nos nossos corpos foi um constrangimento tão grande que nos separamos o mais depressa possível e nunca mais nos olhamos nos olhos. Ainda fico imagi­nando o que ele disse aos amigos. E aí veio a tempestade política que me arrastou. Mas nunca consegui viver de acordo com a compreensão do mundo que aqueles anos me deram. Depois de um tempo com os Rebeldes, eu me afastei e me escondi. Jamais entendi por que me permiti ser atraída para algo que era quase um culto religioso. Karin entrou para o Partido Comunista. Eu me liguei à Anistia Internacional, e agora não tenho mais ligação política nenhuma.

Sentou-se numa pilha de pneus velhos e percorreu o Livro vermelho. Deparou com uma fotografia entre duas páginas: ela e Karin Wiman. Lembrou-se da ocasião. Haviam se apertado numa cabine fotográfica na estação ferroviária de Lund — como sempre, idéia de Karin. Birgitta riu alto ao ver a foto, mas também se assustou quando fez as contas de quanto tempo se pas­sara.

O vento frio, ela pensou. A velhice está começando a rastejar atrás de mim. Meteu o livro de citações no bolso e saiu da garagem. Staffan acabara de chegar em casa. Ela se sentou a sua frente na cozinha enquanto ele comia o jantar que ela havia preparado.

"Então, a minha esposa Guarda Vermelha está pronta para ir?", ele perguntou.

"Acabei de pegar meu Livro vermelho."

"Temperos", ele disse. "Se você quiser trazer um presente, traga alguns temperos. Eu sempre digo que na China há cheiros e sabores que não se encontram em nenhum outro lugar."

"O que mais você quer?"

"Você, saudável e feliz."

"Acho que isso eu posso trazer."

Ele se ofereceu para ir com ela a Copenhague no dia se­guinte, mas ela achou que bastava levá-la até a estação.

Era um belo e claro dia de inverno quando Staffan Roslin acompanhou sua esposa até a estação de trem e lhe acenou da plataforma. No aeroporto de Kastrup ela fez o check-in sem dificuldade e reservou os assentos que queria, no corredor, para ambos os voos, para Helsinque e Beijing. Quando o avião decolou, ela teve a sensação de estar saindo de um quarto trancado c sorriu para o finlandês idoso sentado a seu lado. Ela fechou os olhos, recusou qualquer coisa para comer ou beber até chegar a Helsinque, e lembrou do tempo em que a China fora seu paraí­so, tanto na terra como nos sonhos.

Despertou quando o avião começou a descer em Helsin­que. O trem de pouso encostou no concreto na pista de aterris­sagem. Agora Birgitta tinha duas horas a preencher até a partida do vôo para Beijing. Sentou-se num banco sob um antigo avião pendurado no teto da sala de embarque. Estava frio. Pelas am­plas janelas que davam para a pista, ela podia ver o vapor da respiração das equipes de solo. Pensou na última conversa que tivera com Vivi Sundberg dois dias antes. Birgitta lhe perguntara se tinham extraído alguma foto do filme doméstico da câmera de vigilância. Tinham tirado sim, e a policial nem sequer pisca­ra, quando Birgitta pedira uma cópia da foto do homem chinês. No dia seguinte, uma ampliação da foto fora enviada para sua caixa postal. Agora estava na sua bolsa. Ela pegou a foto.

Então você é uma entre um bilhão de faces, pensou Birgi­tta. Nunca vou achar você. Nunca vou descobrir quem você é. E nem se o nome que você deu é verdadeiro. E, acima de tudo, o que você fez.

Lentamente ela se dirigiu ao portão de embarque para o voo para Beijing. Uma fila já ia se formando. É aqui que começa a Ásia, ela pensou. As fronteiras são distorcidas pelos aeroportos, mais próximas e ao mesmo tempo tão distantes.

Seu assento era o 22C. A seu lado estava um homem de pele escura que trabalhava para uma companhia britânica na capital chinesa. Trocaram algumas gentilezas, mas nenhum dos dois quis se envolver numa conversa mais séria. Ela se enrolou em seu cobertor. Seu excitamento agora dera lugar a uma sensa­ção de ter embarcado numa viagem sem estar devidamente pre­parada. O que realmente faria em Beijing? Vagaria pelas ruas, olharia as pessoas e visitaria museus? Era quase certo que Karin Wiman não teria muito tempo para ficar com Birgitta. Refletiu se algo da Rebelde insegura ainda sobrevivia dentro dela.

No meio do voo, exatamente ao cruzarem a fronteira da China, o capitão anunciou que uma tempestade de areia tornara impossível aterrissar em Beijing. Pousariam numa cidade cha­mada Taiwan e esperariam o tempo melhorar. Depois de aterris­sar foram transportados de ônibus para um terminal supergelado onde chineses bem agasalhados esperavam em silêncio. O fuso horário a fazia sentir-se cansada e confusa em relação a suas pri­meiras impressões sobre a China. Os campos estavam cobertos de neve, o aeroporto cercado por montanhas, e numa rua próxi­ma ela pôde ver ônibus e carros de boi.

Duas horas mais tarde a tempestade de areia em Beijing linha se acalmado. O avião decolou, e mais adiante pousou. De­pois de passar por todos os controles, viu Karin à sua espera.

"A Rebelde aterrissou", ela disse. "Bem-vinda a Beijing!"

"Obrigada. Ainda não registrei que estou de fato aqui."

"Você está no Reino do Meio. No centro do mundo. No centro da vida."

Naquela primeira noite, ela se viu parada no décimo nono andar do hotel, no quarto que dividia com Karin. Espiou para lora, por cima da gigantesca e cintilante cidade, e sentiu um arrepio de expectativa.

 

No mesmo instante, em outro arranha-céu, um homem olhava a mesma cidade e as mesmas luzes que Birgitta Roslin.

Ele segurava uma fita vermelha na mão. Ao ouvir a fraca batida na porta atrás de si, virou-se devagar para receber o visi­tante que impacientemente esperara.

 

                           O jogo chinês

Em sua primeira manhã em Beijing, Birgitta Roslin saiu cedo. Tomou café da manhã na imensa sala de refeições com Karin Wiman, que em seguida saiu correndo para participar de uma conferência, tendo explicado como estava ansiosa para ou­vir o que tinham a dizer sobre os antigos imperadores. Para Karin, a história era sob muitos aspectos mais viva do que o mundo real em que vivia.

Birgitta recebeu na recepção um mapa de uma jovem se­nhora, muito linda e que falava um inglês quase perfeito. Veio-lhe à mente uma citação. "A presente escalada da revolta camponesa é de enorme significância." Era uma das frases de Mao que sempre vinha à tona nos acalorados debates na prima­vera de 1968.

A presente escalada da revolta camponesa é de enorme sig­nificância. As palavras ecoavam em sua cabeça ao deixar o hotel e passar pelos homens silenciosos e muito jovens que guardavam a entrada. A avenida a sua frente era larga, com muitas pistas de tráfego. Carros por toda parte, pouquíssimas bicicletas. A rua era ladeada de imponentes prédios de bancos, e também por uma livraria de cinco andares. As pessoas paradas do lado de fora da loja seguravam grandes sacolas de plástico cheias de garrafas de água. Bastou dar alguns passos e Birgitta sentiu a poluição na garganta e no nariz, bem como o gosto de metal na boca. Em locais ainda não ocupados por edifícios, os braços de enormes guindastes estavam em constante movimento. Era óbvio que aquela cidade passava por uma febril e fundamental transfor­mação.

Um homem puxava uma carroça supercarregada de objetos semelhantes a gaiolas para galinhas, mas vazias; parecia estar no século errado. Com exceção dessa personagem, ela poderia muito bem estar em qualquer outro lugar do mundo.

Quando era moça, pensou, via com meu olho mental uma infinita massa de camponeses chineses em roupas idênticas ta­bulando com pás e picaretas, cercados de revolucionários en­toando hinos e agitando bandeiras vermelhas, transformando montanhas rochosas em campos férteis. As multidões abundantes ainda estão aqui, mas pelo menos em Beijing, na rua onde estou neste momento, as pessoas não são como eu imaginava. Nem sequer estão de bicicleta; elas têm carros, e as mulheres calçam elegantes sapatos de salto.

Durante aqueles dias em que as massas suecas se prepa­ravam para se reunir nas praças urbanas recitando as frases do grande líder chinês, na imaginação de Birgitta todo o povo chi­nês trajava uniformes largos e de cor cinza-azulada, idênticos, com bonés idênticos, sobrancelhas largas e cabelo cortado rente.

Vez ou outra, no final da década de 1960, ao receber algum número da revista ilustrada China, ficava surpresa com toda aquela gente de aparência saudável, de bochechas vivas e olhos brilhantes, erguendo os braços para o deus que descera do céu, o Grande Timoneiro, o Eterno Mestre, e todos os outros nomes que lhe foram dados, o misterioso Mao. Mas na verdade ele não era misterioso. Isso ia ficando mais claro com o passar do tempo. Era um político com a arguta sensação do que se passava no gi­gantesco império chinês. Até a independência, em 1949, fora um daqueles líderes especiais que a história muito ocasionalmente produz. Mas depois de chegar ao poder provocou muito sofri­mento, caos e confusão. Não obstante, ninguém podia negar o fato de que, tal qual um imperador moderno, ele ressuscitara a China, que àquela altura estava a caminho de se tornar uma potência mundial.

Parada agora diante de seu hotel cintilante, com seus por­tais de mármore e recepcionistas elegantemente vestidas falando um inglês impecável, sentia-se como se tivesse sido transportada para um mundo do qual nada sabia. Era esta realmente a socie­dade na qual a escalada da revolta camponesa constituíra evento tão significativo?

Isso fora quarenta anos antes, ela pensou. Mais de uma ge­ração. Na época eu era atraída, feito uma mosca a um pote de mel, por algo que lembrava um culto religioso oferecendo sal­vação. Nós não éramos incentivados a cometer suicídio coletivo porque o Dia do Juízo Final estava próximo, mas a abrir mão de nossa individualidade em benefício de uma intoxicação coleti­va, em cujo coração estava o Livro vermelho que substituíra todas as outras formas de iluminação. O livro continha toda a sabedo­ria, as respostas a todas as perguntas, expressões de todas as visões sociais e políticas de que o mundo necessitava para progredir de seu presente estado para a instalação definitiva do paraíso na ter­ra, e não de um paraíso em algum remoto reino no céu. Mas o que nós nem mesmo havíamos começado a compreender é que as citações continham palavras vivas. Não estavam gravadas em pedra. Descreviam a realidade. Nós líamos as frases sem interpretá-las. Como se o Livro vermelho fosse um catecismo morto, lima liturgia revolucionária.

Birgitta Roslin levou mais de uma hora para chegar à praça Tiananmen. Era a maior praça que já vira. Aproximou-se através de uma passagem para pedestres sob a Jianguomennei Dajie. O lugar estava apinhado de gente. Para qualquer lado que se virasse havia gente tirando fotos, agitando bandeiras, vendendo garrafas de água e cartões-postais.

Ela parou e olhou em volta. O céu estava nublado. Faltava alguma coisa. Levou algum tempo até ela descobrir o quê.

Não havia pássaros. Pessoas circulavam por todo lado, pes­soas que não notariam se ela ficasse parada ou fosse embora.

Lembrou-se das imagens de 1989, quando os jovens estu­dantes haviam feito manifestações em prol de poder pensar e falar livremente, e a solução final quando tanques rolaram pela praça e muitos manifestantes foram massacrados. Foi exatamente aqui que um rapaz ficou imóvel com um saco plástico branco na mão, ela pensou. O mundo inteiro o viu na televisão, e as pessoas pararam de respirar. Ele ficou em frente a um tanque, recusou-se a sair. Como um insignificante soldadinho de lata, ele personificou toda a resistência de que o ser humano é capaz. Quando tentaram passar a seu lado, ele também se deslocou literalmente. Ela não sabia como a história tinha terminado. Nunca chegara a ver uma foto do final. Mas todos os que foram esmagados pelas esteiras dos tanques ou mortos pelos soldados foram pessoas reais.

Esses fatos eram seu segundo ponto de partida para sua rela­ção com a China. O período compreendido entre 1968, quando era uma Rebelde que invocava Mao Tsé-Tung para proclamar absurdamente que a revolução já havia começado entre os es­tudantes suecos, e 1989, dominado pela imagem do rapaz pa­rado em frente ao tanque, constituía grande parte de sua vida. Em pouco mais de vinte anos ela evoluíra de jovem estudante idealista para mãe de quatro filhos e juíza distrital. O conceito de China sempre tinha sido parte dela. Primeiro como sonho, depois como algo que ela não chegava a compreender, por ser tão grande e cheio de contradições. Descobriu que seus filhos tinham uma idéia diferente da China. Eles associavam o país a enormes possibilidades futuras, assim como o sonho america­no caracterizara sua própria geração e a de seus pais. Para sua surpresa, David recentemente lhe contara que quando tivesse filhos tentaria contratar uma babá chinesa para que eles pudes­sem aprender a língua desde pequenos.

Ela passeou pela praça, observando as pessoas tirando fo­tos e a presença constante da polícia. Ao fundo estava o prédio onde, em 1949, Mao proclamou o nascimento da República. Quando começou a sentir frio, percorreu todo o caminho de volta até o hotel. Karin prometera faltar aos almoços formais e comer com ela.

Havia um restaurante no último andar do arranha-céu onde estavam hospedadas. Pegaram uma mesa com vista para a vasta cidade. Birgitta contou-lhe a respeito do longo passeio até a enorme praça e suas reflexões sobre a juventude de ambas.

Comeram vários pequenos pratos chineses e encerraram a refeição com um chá. Birgitta tirou a brochura com os ideogra­mas chineses escritos à mão que Karin havia decifrado como sendo o nome do hospital Longfu.

"Eu pretendo dedicar minha tarde a visitar esse hospital", ela disse.

"Por quê?"

"É sempre uma boa idéia ter algo específico para fazer quan­do se está vagando por uma cidade que você não conhece. Qual­quer coisa serve. Se você não tem um plano, seus pés se cansam.

Eu não tenho ninguém para visitar e nada em particular que eu queira ver. Mas quem sabe eu talvez encontre alguma placa com estes caracteres. Pode ser que eu volte aqui e lhe diga que você estava certa."

Separaram-se na entrada do elevador. Karin precisava correr de volta para a conferência. Birgitta foi até o quarto no déci­mo nono andar e deitou-se para descansar.

Ela começara a sentir aquilo durante o passeio matinal pe­las ruas — uma sensação de indiferença que ela não conseguia identificar direito. Cercada de gente, ou sozinha naquele hotel anônimo na gigantesca cidade, sentia sua identidade começar a se desfazer. Quem choraria sua falta se ela se perdesse? Quem notaria que ela existia?

Ela já tivera uma experiência similar muito tempo antes, quando bem jovem. De repente parar de existir, perder o domí­nio de sua identidade.

Sentiu-se impaciente e se levantou. Ficou parada junto à janela. Lá longe, embaixo, estava a cidade, toda aquela gente, cada um com seus sonhos, dos quais Birgitta nada sabia.

Juntou as roupas espalhadas pelo quarto e trancou a porta atrás de si. Na verdade estava procurando desfazer-se do senti­mento de inquietação que ia ficando cada vez mais difícil de aturar. Sentia necessidade de se mover, de conhecer a cidade. Karin prometera levá-la a uma apresentação da Ópera de Beijing naquela noite.

Segundo o mapa, chegar a Longfu era uma verdadeira via­gem. Mas ela tinha tempo de sobra. Caminhou pelas ruas retas e aparentemente infindáveis até finalmente encontrar o hospital, depois de passar por uma grande galeria de arte.

Longfu consistia em dois prédios. Ela contou sete andares, tudo em branco e cinza. As janelas no térreo eram protegidas por grades. As persianas estavam fechadas, e velhos vasos de flores cheios de folhas murchas ocupavam os beirais das janelas. As árvores do lado de fora estavam desfolhadas; os gramados, marrons e ressecados, cobertos de cocô de cachorro. Sua primeira impressão foi de que Longfu mais parecia uma prisão do que um hospital. Ela entrou na área, sendo ultrapassada por uma ambulância, depois outra. Perto da entrada principal havia um aviso em chinês. Ela o comparou com o que estava escrito na brochura — viera ao lugar certo. Um médico de jaleco branco estava parado na entrada, fumando e falando alto ao celular.

Ela voltou para a rua e vagou pela ampla área residencial. Para todo lado que olhasse, via velhos sentados na calçada com tabuleiros de jogos.

Foi quando chegou ao canto da extensa área do hospital que registrou o que vislumbrara sem ter se dado conta. Do ou­tro lado da rua havia um edifício novo. Ela tirou a brochura do bolso. O edifício era aquele. Não restava dúvida. No último andar havia um terraço. Ela nunca vira nada parecido, pois ele se projetava da lateral do prédio como um castelo de proa de um navio. A fachada do arranha-céu era coberta de painéis de vidro escurecido. Seguranças armados postavam-se do lado de fora da alta entrada. Provavelmente era um edifício de escritórios, e não de apartamentos residenciais. Ela permaneceu sob a proteção de uma árvore, onde ficava parcialmente protegida do vento ge­lado. Viu alguns homens saindo pelo portal que parecia feito de cobre, entrando a seguir em carros pretos que os aguardavam. Ocorreu-lhe uma idéia tentadora. Verificou se ainda trazia a foto de Wang Min Hao no bolso. Se de alguma forma ele estives­se relacionado com esse prédio, talvez um dos guardas pudesse reconhecê-lo. Mas o que ela diria se eles afirmassem que ele estava de fato ali?

Não conseguia se decidir quanto ao que fazer. Antes de mos­trar a foto a alguém, devia conceber uma razão para querer vê-lo. Obviamente, não podia mencionar os assassinatos em Hesjövallen. Mas, fosse o que fosse, precisaria dizer algo plausível.

Um rapaz parou a seu lado. Disse algo que ela não conse­guiu entender. Aí percebeu que ele estava falando inglês com ela.

"Você está perdida? Posso ajudar?"

"Estou só olhando aquele lindo prédio ali. Você sabe quem é o dono?"

O rapaz negou com a cabeça, surpreso.

"Eu estudo para ser veterinário. Não sei nada de prédios altos. Posso ajudar? Eu tento me esforçar para aprender melhor inglês."

"Seu inglês é muito bom." Ela apontou para o terraço que se projetava. "Quem será que mora lá?"

"Alguém que é muito rico."

"Você pode me ajudar?", ela pediu. Tirou a fotografia de Wang Min Hao. "Você pode ir até aqueles guardas e perguntar se eles conhecem este homem? Se perguntarem por que você quer saber, simplesmente diga que alguém pediu para você lhe dar um recado."

"Que recado?"

"Diga que você vai pegar o bilhete. Então volte aqui. Eu espero na entrada do hospital."

"Por que você mesma não vai lá e pergunta?"

"Sou muito tímida. Não acho que uma mulher ocidental sozinha deva perguntar sobre um homem chinês."

"Você o conhece?"

"Sim."

Ela tentou parecer o mais natural possível, mas estava co­meçando a lamentar o estratagema. No entanto, o rapaz pegou a foto e estava prestes a ir.

"Mais uma coisa", ela disse. "Pergunte a eles quem mora lá, no último andar. Parece um apartamento com um terraço enorme.

"Meu nome é Huo", ele disse. "Vou perguntar."

"Meu nome é Birgitta. Simplesmente fínja que está inte­ressado."

"De onde você é? Estados Unidos?"

"Suécia. Ruidian, acho que é o nome em chinês."

"Eu não sei onde é isso."

"É quase impossível explicar."

Quando o rapaz atravessou a rua, ela se virou e voltou de­pressa para a entrada do hospital.

Um velho de muletas saía devagarzinho pela porta de entra­da. Subitamente ela teve a sensação de que estava se expondo ao perigo. Acalmou-se observando que a rua estava cheia de gente. Um homem que matara um monte de pessoas no norte da Sué­cia talvez pudesse se safar. Mas não alguém que matasse um turista ocidental numa rua movimentada. Em plena luz do dia. A China não podia se permitir uma coisa dessas.

O homem de muletas de repente caiu. Os jovens policiais de guarda na entrada não se moveram. Ela hesitou, mas aca­bou ajudando o homem a se levantar. Um turbilhão de palavras explodiu de sua boca, mas ela não entendeu, nem conseguiu saber se ele estava grato ou zangado. Exalava um cheiro forte de temperos — ou álcool. Continuou andando pela área em direção à rua.

Huo voltou. Parecia calmo e não olhava furtivamente ao redor. Birgitta foi encontrá-lo.

Ele balançou a cabeça.

"Ninguém viu esse homem."

"Ninguém sabia quem ele é?"

"Ninguém."

"Para quem você mostrou o retrato?"

"Para os guardas. Outro homem também veio. De dentro do prédio. Usava óculos escuros. Estou pronunciando direito? Óculos escuros?"

"Muito bem. Quem mora no último andar?"

"Eles não responderam."

"Mas alguém mora lá?"

"Acho que sim. Eles não gostaram da pergunta."

"Por que não?"

"Disseram para eu ir embora."

"E aí, o que você fez?"

Ele a olhou surpreso.

"Eu obedeci."

Ela tirou da bolsa uma nota de dez dólares americanos. De início, ele não quis aceitar. Devolveu a foto de Wang Min Hao e perguntou em que hotel ela estava hospedada, certificou-se de que ela sabia o caminho do hotel, aí fez uma reverência e se despediu.

No caminho para o hotel teve mais uma vez a vertiginosa sensação de que podia ser engolida pela massa humana a qual­quer momento, e nunca mais ser encontrada. Sentiu tanta tontura que foi obrigada a encostar-se num muro. Havia uma casa de chá não muito longe dali. Ela entrou, pediu chá com biscoitos e procurou respirar fundo, inspirando demoradamente. Ali estava de novo o sentimento de pânico que vez por outra a acometia nos últimos anos. A longa viagem a Beijing não proporcionara nenhum alívio para as preocupações que a vinham oprimindo.

Pensou novamente em Wang. Consegui rastreá-lo até aqui, mas não mais que isso.

Pagou a conta, surpresa com o preço alto, depois apertou os braços em torno do corpo para enfrentar o vento gelado.

Naquela noite, foram a um teatro localizado dentro do enorme Hotel Qianmen Jianguo. Havia fones de ouvido à dis­posição, porém Karin Wiman arrumou uma intérprete. Durante todo o espetáculo, que durou quatro horas, Birgitta sentou-se inclinada para um dos lados, escutando a jovem mulher resu­mir, de maneira quase sempre incompreensível, o que estava se passando no palco. Tanto ela como Karin ficaram desapontadas, pois logo perceberam que a apresentação consistia em trechos de várias óperas clássicas de Beijing, sem dúvida de primeira classe, mas destinadas exclusivamente a turistas. Quando o es­petáculo terminou e enfim saíram do auditório gelado de frio, ambas estavam com o pescoço rijo.

Fora do teatro, esperaram pelo carro que a conferência pu­sera à disposição de Karin. A certa altura Birgitta teve a impres­são de que vislumbrara o jovem Huo, que se dirigira a ela em inglês no meio da balbúrdia da rua.

Aconteceu tão depressa que Birgitta nem chegou a registrar sua face, e ela já desapareceu.

Quando chegaram ao hotel, a juíza olhou por sobre o om­bro, mas não havia ninguém — pelo menos ninguém que ela tivesse reconhecido.

Ela estremeceu. O medo que sentiu parecia ter vindo do nada. Mas era Huo quem ela tinha visto na frente do teatro; tinha certeza.

Karin perguntou se ela topava uma última bebida, ela con­cordou.

Uma hora depois, Karin dormia. Birgitta estava parada jun­to à janela, espiando as cintilantes luzes de neon.

Ainda estava preocupada. Como Huo sabia que ela estava lá? Por que a teria seguido?

Quando finalmente se meteu na cama ao lado da amiga adormecida, estava arrependida de ter mostrado a fotografia de Wang Min Hao.

Sentia frio. Ficou deitada desperta por muitas horas. O frio na noite de inverno de Beijing a abraçou.

Havia rajadas de neve no dia seguinte. Karin acordara às seis para repassar a palestra que daria mais tarde. Birgitta desper­tou e viu a amiga numa cadeira ao lado da janela, lendo à luz de uma lâmpada comum; lá fora ainda estava escuro. Experi­mentou uma vaga sensação de inveja. Karin escolhera uma vida que envolvia viagens e contato com culturas estrangeiras. A vida dela própria se passava em tribunais onde ocorria um constante duelo entre verdades e mentiras, decisões arbitrárias e justiça: os resultados geralmente eram incertos e muitas vezes frustrantes.

Karin notou que Birgitta estava acordada.

"Está nevando", disse. "Não muito. Nunca ocorrem nevascas pesadas em Beijing. É uma neve porosa, mas muito afiada, como grãos de areia no deserto."

"Você é uma abelhinha operária. Tão cedo e já acordada."

"Estou nervosa. Vai ter tanta gente ouvindo o que eu tenho a dizer, debruçando-se para achar erros."

Birgitta sentou-se na cama e mexeu a cabeça com cuidado.

"Ainda estou com o pescoço duro."

"As óperas de Beijing exigem um alto nível de energia."

"Eu não me importaria de assistir a mais uma. Mas sem intérprete."

Karin saiu pouco depois das sete. Combinaram se encon­trar de novo naquela noite. Birgitta dormiu mais uma hora, e ao terminar o café eram nove horas. Suas preocupações do dia anterior tinham sumido. O rosto que ela julgava ter reconhecido na frente do teatro devia ser produto da sua imaginação. A gama de suas fantasias às vezes a surpreendia, embora já devesse estar acostumada.

Sentou-se na larga área da recepção, onde empregados si­lenciosos armados de espanadores estavam ocupados limpando as colunas de mármore. Ela sentiu-se desagradavelmente ociosa e resolveu procurar uma loja de departamentos onde pudesse comprar um jogo de tabuleiro. E também prometera alguns temperos a Staffan. Um recepcionista marcou em seu mapa o caminho para uma loja em que encontraria o que queria. Ela trocou algum dinheiro no hotel e saiu. Não estava tão frio como antes. Flocos de neve ocasionais rodopiavam no ar ao seu redor. Puxou o cachecol para cobrir a boca e o nariz, e partiu.

Levou quase uma hora para chegar à loja. Situava-se numa rua chamada Wangfuijing Dajie, ocupando todo um quarteirão. Quando passou pelas imponentes portas de entrada, sentiu-se num gigantesco labirinto. Imediatamente foi apanhada no aglo­merado de gente. Notou pessoas de todos os lados lançando-lhe olhares curiosos e comentando suas roupas e sua aparência. Pro­curou em vão alguma placa em inglês. Ao se dirigir para uma das escadas rolantes, ouviu vários vendedores gritando para ela em péssimo inglês.

No terceiro andar achou uma seção onde eram vendidos livros, artigos de papelaria e brinquedos. Dirigiu-se a uma jovem auxiliar de vendas, mas, ao contrário do pessoal do hotel, ela não entendeu o que Birgitta dizia. A moça falou alguma coisa pelo interfone, e em poucos segundos um senhor mais velho apare­ceu ao seu lado e sorriu.

"Jogos de tabuleiro", disse Birgitta. "Onde posso encontrar?"

"Mahjong?"

Ele a conduziu a outro piso, onde subitamente se viu cer­cada de prateleiras contendo todos os tipos de jogos de tabuleiro. Escolheu dois, agradeceu ao homem pela ajuda e foi até uma das caixas. Uma vez embrulhados os jogos e colocados numa grande sacola plástica colorida, encontrou sozinha o caminho para a seção de alimentos. Podia sentir o cheiro dos temperos e logo encontrou uma ampla seleção deles em pequenos e bem-feitos pacotes de papel. Depois de comprar alguns, sentou-se na cafeteria perto da entrada. Tomou chá e comeu um bolo chinês tão doce que ela mal conseguiu engolir. Duas criancinhas se aproximaram e ficaram olhando para ela até que a mãe, sentada numa mesa próxima, as chamou rispidamente de volta.

Pouco antes de sair, Birgitta teve a sensação de estar sendo observada. Olhou em volta, tentando examinar as várias faces, mas não havia ninguém que ela pudesse reconhecer. Ficou abor­recida com essas fantasias e saiu da loja. A sacola estava pesada, de modo que ela pegou um táxi de volta para o hotel e ficou pen­sando no que fazer o resto do dia. Só veria Karin tarde da noite - a amiga tinha um jantar formal ao qual gostaria de faltar, mas não podia. Birgitta resolveu visitar a galeria de arte por onde passara na véspera. Sabia o caminho, e lembrava-se de ter visto diversos restaurantes onde poderia comer caso sentisse fome. Ti­nha parado de nevar, o céu se abrira. Ela se sentiu mais jovem, com mais energia do que de manhã. Nesse exato instante, sou aquela pedra que rola livre, aquela que sonhávamos ser quando jovens, pensou. Uma pedra que rola com o pescoço duro.

A construção principal da galeria parecia uma típica tor­re chinesa com pequenas plataformas e detalhes de telhados projetando-se para fora. Os visitantes entravam através de duas portas majestosas e imponentes. Como a galeria era grande, ela resolveu restringir-se ao piso térreo. Havia uma exposição do uso da arte como propaganda pelo Exército Popular de Libertação. A maioria das pinturas correspondia à lembrança que tinha das revistas chinesas ilustradas dos anos 1960. Mas havia também pinturas não figurativas retratando guerra e caos em cores vivas.

Onde quer que fosse, estava cercada de guardas e guias, principalmente mulheres jovens em uniformes azul-escuros. Nenhuma delas falava inglês.

Passou algumas horas na galeria. Eram quase três da tarde quando saiu, olhando de relance para o hospital e, atrás dele, o arranha-céu com o terraço que se projetava. Bem perto da gale­ria havia um restaurante simples; deram-lhe uma mesa de canto depois de ela apontar vários pratos de comida em outras mesas. Também indicou uma garrafa de cerveja e só notou o quanto estava com sede quando começou a beber. Acabou comendo demais, depois tomou duas xícaras de chá forte para vencer a sonolência enquanto examinava os diversos cartões-postais que havia comprado na galeria.

De repente percebeu. Já estava cheia de Beijing, embora estivesse ali havia apenas dois dias. Estava inquieta, sentia falta do trabalho e tinha a sensação de que o tempo estava simples­mente escorregando por entre seus dedos. Não podia continuar vagando sem rumo pelas ruas. Necessitava de algo específico para fazer, agora que os jogos de tabuleiro e os temperos já ti­nham sido comprados. Primeiro precisava voltar ao hotel e des­cansar, depois conceber um plano adequado — tinha mais três dias, dois dos quais passaria sozinha.

Ao sair do restaurante, o sol desaparecera novamente atrás das nuvens e estava bem mais frio. Apertou o casaco contra o corpo e enrolou o cachecol em volta da boca e do nariz.

Um homem vinha em sua direção com um pedaço de papel e uma pequena tesoura na mão. Num inglês gaguejante pediu-lhe que o deixasse fazer um desenho dela. Mostrou uma pasta contendo esboços. Sua primeira reação foi dizer não, po­rém mudou de idéia e tirou o gorro de lã, o cachecol e posou de perfil.

O desenho feito pelo homem era impressionantemente bom. Ele pediu cinco dólares, mas ela lhe deu dez.

Era um homem idoso e tinha uma cicatriz na face. Ela te­ria adorado ouvir sua história de vida, se fosse possível. Enfiou o desenho na sacola, ambos se curvaram e cada um seguiu seu caminho.

Ela não tinha a menor idéia do que estava acontecendo quando ocorreu o ataque. Sentiu um braço em volta do pescoço, puxando-a para trás, ao mesmo tempo que alguém arrancava sua bolsa. Quando gritou tentando segurá-la, o aperto em torno do pescoço ficou mais forte. Levou um soco na barriga que a deixou sem fôlego. Ela tombou na calçada. Tudo acontecera muito de­pressa, não durara mais de dez ou quinze segundos. Um ciclista que passava parou tentando ajudá-la a se levantar, junto com uma mulher que deixou no chão suas pesadas sacolas de verdu­ras. Mas Birgitta Roslin não conseguia se levantar. Ela caiu de joelhos e apagou.

Ao recobrar a consciência estava numa maca dentro de uma ambulância com a sirene ligada. Um médico pressionava um estetoscópio contra seu peito. Tudo era só um borrão. Ela se lembrava de terem roubado sua bolsa. Mas por que estava numa ambulância? Tentou perguntar ao médico do estetoscó­pio. Mas ele respondeu em chinês: ela deduziu de seus gestos que queria mantê-la quieta, sem se mexer. Sua garganta parecia estar muito sensível. Será que tinha sido ferida com gravidade? O pensamento a deixou rija de preocupação. Poderia ter sido morta. Quem quer que a tenha atacado não hesitara em fazê-lo, apesar da luz do dia numa rua movimentada.

Começou a chorar. O médico reagiu tomando seu pulso. Enquanto o fazia, a ambulância parou e a porta de trás se abriu. Ela foi transferida para outra maca e levada por um corredor com luzes muito claras. Soluçava incontrolavelmente e não notou quando lhe deram um tranqüilizante. Ela sentiu-se on­dulando como num vagalhão, cercada de rostos chineses que pareciam estar nadando nas mesmas águas que ela: suas cabe­ças, aflorando e mergulhando nas ondas, estavam se preparando para aceitar o Grande Timoneiro que se aproximava da margem depois de nadar longas e cansativas braçadas.

Ao recuperar a consciência estava numa sala com luzes opa­cas e cortinas fechadas. Um homem uniformizado estava senta­do numa cadeira próxima à porta. Quando viu que ela abrira os olhos, levantou-se e saiu do quarto. Pouco depois dois outros homens de uniforme entraram, acompanhados por um médico que lhe falou em inglês com forte sotaque americano.

"Como está se sentindo?"

"Não sei. Eu estou cansada. Minha garganta dói."

"Nós a examinamos com todo cuidado. Você sobreviveu a esse infeliz incidente sem nenhum ferimento sério."

"Onde estou? Quero voltar para o hotel."

O médico se curvou, aproximando-se da sua face.

"A polícia precisa falar com você primeiro. Nós não gos­tamos quando visitantes do exterior são maltratados em nosso país. Ficamos envergonhados. Quem quer que a tenha atacado precisa ser pego."

"Mas eu não vi nada."

"Não é comigo que você vai conversar sobre isso."

O médico ergueu-se e fez um sinal com a cabeça para os dois homens de uniforme. Eles trouxeram duas cadeiras para perto da cama e se sentaram. Um deles, o intérprete, era jovem, mas o homem que fez as perguntas estava na casa dos sessenta. Usava óculos escuros, impedindo-a de ver seus olhos. Começou a fazer as perguntas sem que nenhum dos dois lhe fosse apresen­tado. Ela teve a vaga impressão de que o homem mais velho não gostava nada, nada dela.

"Precisamos saber o que viu."

"Eu não vi nada. Tudo aconteceu muito depressa."

"Todas as testemunhas concordaram que os dois homens não estavam de máscara."

"Eu nem sabia que foram dois."

"O que conseguiu registrar?"

"Senti um braço em volta do meu pescoço. Eles me ataca­ram por trás. Agarraram minha bolsa e me deram um soco no estômago."

"Precisamos saber tudo que possa nos dizer sobre esses dois homens."

"Mas eu não vi nada."

"Nenhum rosto?"

"Não."

"Ouviu suas vozes?"

"Eu nem sei se disseram alguma coisa."

"O que aconteceu um pouco antes de ser atacada?"

"Um homem desenhou a minha silhueta. Eu tinha acaba­do de pagar e já ia embora."

"Enquanto ele desenhava, viu alguma coisa?"

"Como o quê, por exemplo?"

"Alguém esperando?"

"Quantas vezes vou ter de dizer que eu não vi absolutamen­te nada?"

Quando o intérprete traduziu a resposta, o policial se cur­vou e ergueu a voz.

"Estamos fazendo essas perguntas porque queremos pegar os homens que a atacaram e roubaram sua bolsa. É por isso que deve responder sem se irritar."

As palavras a amansaram. "Só estou contando como foi."

"O que havia na bolsa?"

"Algum dinheiro, não muito, dinheiro chinês e alguns dóla­res americanos. Um pente, um lenço, alguns comprimidos, uma caneta, nada importante."

"Nós achamos seu passaporte no bolso interno do seu casa­co. Concluo que seja sueca. Por que está na China?"

"Eu vim de férias, com uma amiga."

O homem idoso refletiu sobre a resposta, a fisionomia total­mente inexpressiva.

"Nós não achamos o desenho", acabou dizendo.

"Estava na minha bolsa."

"Isso não foi dito quando eu perguntei. Há mais alguma coisa que tenha esquecido?"

Ela pensou um momento, depois sacudiu a cabeça. O in­terrogatório terminara. O policial mais velho disse algo, depois saiu do quarto.

"Quando se sentir melhor nós a levaremos de volta ao ho­tel. Voltaremos mais tarde para fazer mais algumas perguntas."

O intérprete citou o nome do hotel sem que ela o tivesse dito.

"Como você sabe o nome do hotel onde estou? A chave estava na minha bolsa."

"Nós sabemos essas coisas."

Fez uma reverência e se foi. Antes que a porta se fechasse, o médico de sotaque americano voltou.

"Nós só vamos precisar de você por mais uns minutos", ele informou. "Alguns exames de sangue e uma avaliação da sua radiografia."

Meu relógio, ela se lembrou. Eles não o levaram. Ela veri­ficou as horas. Quinze para as cinco.

"Quando vou poder voltar para o hotel?"

"Logo mais."

"Minha amiga vai ficar preocupada se não me encontrar lá."

"Nós vamos lhe arranjar transporte para lá. Somos muito cuidadosos e queremos ter certeza que os hóspedes estrangeiros não se decepcionem com nossa hospitalidade, apesar de que in­cidentes infelizes como esse às vezes ocorrem."

Ela foi deixada sozinha no quarto. Em algum lugar ao longe ouviu alguém gritar, um grito solitário ecoando pelo corredor.

Ela ruminou o que acontecera. Todo o episódio parecia surreal — o choque súbito de ser agarrada por trás, o soco na barriga e as pessoas que a ajudaram.

Mas eles devem ter visto alguma coisa, ela pensou. Será que a polícia perguntou a eles? Ainda estavam lá quando a ambulân­cia chegou? Ou foi a polícia que veio antes?

Nunca fora atacada desse jeito em toda sua vida. Já fora ameaçada, mas nunca agredida fisicamente. Era a primeira vez que a vítima era ela.

Estava com medo, mas sabia que isso era comum depois de uma pessoa ter sido atacada. Medo, mas também raiva, um sen­timento de ter sido humilhada, aflição. E um desejo de vingan­ça. Nesse momento, deitada nessa cama, não teria protestado se os dois homens que a atacaram fossem obrigados a se ajoelhar para levar um tiro na nuca.

Uma enfermeira entrou no quarto e a ajudou a vestir-se. Tinha uma dor no estômago e um esfolado no joelho. Quando a enfermeira lhe deu um pente e segurou um espelho à sua frente, viu o quanto estava pálida. Então é assim que a gente fica quan­do está assustada, ela pensou. Não vou esquecer.

O médico retornou quando ela estava sentada na cama, es­perando para voltar ao hotel.

"A dor no pescoço vai passar, provavelmente já amanhã", ele disse.

"Obrigada por tudo que fizeram por mim."

Três policiais estavam parados no corredor, à sua espera. Um deles carregava uma arma automática de aparência assus­tadora. Ela desceu pelo elevador na companhia deles e entrou num carro de polícia. Não tinha idéia de onde estava, nem sabia o nome do hospital onde fora tratada. A certa altura pensou ter reconhecido um dos muros da Cidade Proibida, mas não tinha certeza.

As sirenes estavam desligadas. Ficou grata de não ser obri­gada a voltar para o hotel num carro com luzes azuis piscando. Reconheceu a entrada do hotel e desceu do carro, que foi em­bora antes que ela tivesse tempo de se virar. Ainda se perguntava como sabiam onde ela estava hospedada.

Explicou na recepção que perdera a chave e lhe deram ou­tra sem mais perguntas. Foi tão rápido que ela se deu conta de que isso devia ter sido arranjado de antemão. A mulher atrás do balcão sorriu. Ela sabe, pensou Birgitta. A polícia esteve aqui, contou ao pessoal que fui assaltada e os preparou para meu re­torno sem chave.

Enquanto rumava para os elevadores, pensou que deveria sentir-se grata, mas em vez disso experimentou certo desconfor­to. Essa sensação não desapareceu quando ela entrou no quarto. Era evidente que alguém estivera lá. Se bem que a arrumadeira tinha vindo. E claro que havia a possibilidade de Karin ter dado uma rápida passada para pegar alguma coisa ou trocar de roupa. Mas o que poderia impedir a polícia de fazer uma discreta bus­ca? Ou então alguma outra pessoa?

O que traiu o visitante desconhecido foi a sacola de plástico com os jogos. Ela notou imediatamente que não estava onde ela a deixara. Olhou em volta pelo quarto, lentamente, de modo que nada lhe escapasse. Mas somente a sacola fora retirada e não recolocada no lugar.

Foi até o banheiro. Sua frasqueira estava exatamente onde ela tinha deixado de manhã. Não faltava nada.

Voltou ao quarto e sentou-se na cadeira junto à janela. A mala estava com o fecho aberto. Ela foi examinar o conteúdo, erguendo cada peça de roupa, uma por uma. Se alguém tinha vasculhado a mala, ele o fizera com o maior cuidado, evitando ser detectado.

Somente quando chegou ao fundo da mala foi que con­gelou, estática. Ali deveria estar uma lanterna e uma caixa de fósforos. Ela sempre as levava em suas viagens, desde o ano ante­rior ao casamento, quando visitara a ilha da Madeira e houvera uma falta de energia elétrica que durara mais de um dia. Ela saíra para um passeio noturno perto dos íngremes penhascos nos arredores de Funchal quando tudo se apagou. Ela tateou horas até encontrar o caminho de volta ao hotel. Desde então, sem­pre carregava uma lanterna e uma caixa de fósforos na mala. A lanterna estava lá, mas nem sinal dos fósforos. A caixa tinha um rótulo verde e era de um restaurante de Helsingborg.

Ela revirou as roupas mais uma vez, nada da caixa. Teria colocado na bolsa? Às vezes fazia isso, mas não se recordava de tê-la tirado da mala. Mas quem surrupiaria uma caixa de fósforos de um quarto vasculhado subrepticiamente?

Sentou-se novamente junto à janela. A última hora no hos­pital, ela recapitulou. Naquela hora tive a sensação de que es­tava sendo mantida lá desnecessariamente. Que resultados eles estavam esperando? Será que o motivo real era que me queriam fora do caminho enquanto a polícia fazia uma busca no meu quarto? Mas por quê? Afinal, eu é que fui assaltada.

Uma batida na porta. Birgitta levou um susto. Pôde ver pelo olho mágico que havia policiais no corredor. Ela abriu a porta ansiosamente. Eram policiais novos, não os que haviam estado com ela no hospital. Um deles era uma mulher, baixa, mais ou menos da mesma idade que Birgitta. Foi ela que tomou a iniciativa de falar.

"Só queremos nos certificar de que está tudo em ordem."

"Obrigada."

A policial indicou que queria entrar no quarto. Birgitta afas­tou-se para o lado. Um dos homens permaneceu do lado de fora, o outro entrou junto. A mulher se dirigiu às cadeiras próximas à janela e colocou uma maleta sobre a mesa. Algo no seu compor­tamento surpreendeu Birgitta Roslin, sem que ela conseguisse identificar o que era.

"Gostaria que examinasse algumas fotos. Temos informa­ções de algumas testemunhas e talvez possamos saber quem exe­cutou o ataque."

"Mas eu não vi nada. Um braço, talvez? Como posso iden­tificar um braço?"

A policial não escutou. Tirou algumas fotografias e as co­locou na mesa em frente a Birgitta Roslin. Eram todos rapazes jovens.

"Talvez tenha visto algo sem registrar."

Obviamente não havia sentido em protestar. Birgitta olhou as fotos e ocorreu-lhe que aqueles rapazes talvez tivessem co­metido algum crime que resultaria em sua execução. Natural­mente, não reconheceu nenhum deles. Ela fez que não com a cabeça.

"Eu nunca vi nenhum deles antes."

"Tem certeza?"

"Certeza."

"Nenhum deles?"

"Nenhum."

A policial guardou as fotos na maleta. Birgitta notou que suas unhas estavam completamente roídas.

"Nós vamos pegar as pessoas responsáveis pelo ataque", dis­se a mulher. "Quanto tempo mais ficará em Beijing?"

"Três dias."

A policial assentiu, curvou-se e deixou o quarto.

Você sabia disso, Birgitta pensou enquanto passava a cor­rente de segurança. Sabia que eu ia ficar mais três dias. Por que perguntar uma coisa que você já sabia? Você não pode me fazer de boba com tanta facilidade.

Fechou os olhos e pensou em ligar para casa.

Quando acordou, estava escuro lá fora. A dor no pescoço começava a melhorar. Mas agora o ataque parecia ainda mais ameaçador. Tinha a estranha sensação de que o pior ainda não havia acontecido. Pegou o celular e ligou para Helsingborg. Staffan não estava em casa, e tampouco atendeu o celular. Ela dei­xou uma mensagem, então considerou ligar para os filhos, mas mudou de idéia.

Repassou mentalmente, mais uma vez, o conteúdo de sua bolsa. Perdera sessenta dólares. A maior parte de seu dinheiro estava trancada no pequeno cofre no guarda-roupa. Levantou-se e foi checar o cofre. Ainda estava trancado. Ela digitou o segre­do e examinou o conteúdo. Não faltava nada. Fechou o cofre e voltou a trancá-lo. Ainda estava tentando descobrir o que achara estranho no comportamento da policial. Ficou parada junto à porta, tentando reconstituir a cena. Em vão. Deitou-se nova­mente. Pensou outra vez nas fotos que a mulher trouxera.

De súbito sentou-se. Ela abrira a porta. A policial indicara que queria entrar e Birgitta se afastara para o lado. Aí a mulher caminhou diretamente em direção às cadeiras junto à janela. Nem sequer lançara os olhos para a porta do banheiro aberta, ou para a parte do quarto com a grande cama dupla.

Birgitta Roslin só conseguiu pensar numa única explicação. A policial tinha estado no quarto antes. Não precisava olhar em torno. Já sabia onde estava tudo.

Birgitta olhou para a mesa onde haviam estado a maleta e as fotos. Não reconhecera nenhum dos rostos que fora solicitada a examinar. Mas seria isso o que a polícia realmente queria veri­ficar? Que ela não conseguia identificar ninguém nas fotos? Não era uma questão de ser capaz de reconhecer um dos agressores. Ao contrário. A polícia queria se certificar de que ela realmente não tinha visto nada.

Mas por quê? Ficou parada junto à janela. Um pensamen­to que tivera quando ainda estava em Hudiksvall voltou-lhe à mente.

O que aconteceu é grande, grande demais só para mim.

O medo a inundou antes que ela tivesse tempo de se prepa­rar. Passou-se mais de uma hora antes que ela reunisse coragem para pegar o elevador para a sala de jantar.

Antes de passar pelas portas de vidro, olhou em volta. Mas não havia ninguém ali.

 

Birgitta Roslin chorava enquanto dormia. Karin Wiman sen­tou-se na cama e delicadamente tocou seu ombro para desper­tá-la.

Karin chegou muito tarde naquela noite. Para se assegurar de que não passaria horas acordada, Birgitta tomara um com­primido para dormir, que raramente usava mas trazia sempre consigo.

"Acho que você estava sonhando", disse Karin. "Alguma coisa triste fez você chorar."

Birgitta não conseguiu se lembrar de nenhum sonho. A pai­sagem interna que ela acabara de deixar estava completamente vazia.

"Que horas são?"

"Quase cinco. Estou cansada, preciso dormir um pouco mais. Por que você estava chorando?"

"Não sei. Devia estar sonhando, mas não me lembro."

Karin voltou a deitar-se. Em pouco tempo adormeceu. Bir­gitta levantou-se e abriu uma pequena fresta na cortina. O trá­fego matinal já estava movimentado. Algumas bandeiras tremu­lando na fachada lhe disseram que seria mais um dia de vento forte em Beijing.

O medo de ser novamente atacada voltou. Mas resolveu lutar contra ele, da mesma forma que lutava quando recebia ameaças como juíza. Mais uma vez, repassou mentalmente o que acontecera, mas agora de modo o mais crítico possível. No final, ficou com a constrangedora sensação de que sua fanta­sia levara a melhor. Suspeitava de conspiração a cada instante, uma cadeia de eventos que ela inventara, quando na realidade os eventos não estavam interligados. Ela fora atacada; sua bolsa tinha sido roubada. O motivo de a polícia poder estar envolvida no ataque parecia algo além de sua compreensão — sem dúvida estavam fazendo o máximo que podiam para ajudar. Quem sabe ela não estava chorando por si mesma e suas fantasias?

Acendeu a lâmpada e a virou para o outro lado, evitando assim iluminar a parte da cama onde estava Karin. Então co­meçou a folhear o guia de Beijing que trouxera. Assinalou nas margens as coisas que queria ver durante os dias que restavam. Antes de tudo, queria visitar a Cidade Proibida sobre a qual ti­nha lido tanto e que a fascinara desde a primeira vez que havia se interessado pela China. Numa outra ocasião queria visitar um dos templos budistas da cidade. Ela e Staffan muitas vezes concordaram que, se por acaso algum dia sentissem necessidade de uma maior proximidade com o mundo espiritual, somente o budismo poderia satisfazê-los. Staffan ressaltara que era a única religião que nunca tinha recorrido à guerra ou à violência para difundir sua mensagem. Para Birgitta era importante o fato de o budismo reconhecer apenas o deus que cada um tinha latente dentro de si. Compreender esse credo significava despertar lentamente esse deus interior.

Voltou para a cama e dormiu mais umas poucas horas, en­tão acordou e viu Karin nua, alongando-se e espreguiçando-se no meio do quarto. Uma velha Rebelde com um corpo ainda bem preservado, pensou.

"Eis aí uma bela visão", ela disse.

Karin se assustou, como se tivesse sido surpreendida fazen­do algo errado.

"Pensei que você estivesse dormindo."

"Estava até um minuto atrás. Desta vez acordei sem estar chorando."

"Você sonhou?"

"Acho que sim. Mas não lembro de nada. Os sonhos esca­param e se esconderam. Sem dúvida eu era uma adolescente infeliz no amor."

"Eu nunca sonho com minha juventude. Mas às vezes me imagino muito velha."

"Não estamos muito longe disso."

"Ainda tem chão. Estou me concentrando nas palestras que espero sejam interessantes."

Karin entrou no banheiro, e quando voltou já estava com­pletamente vestida.

Birgitta não mencionara o ataque. Refletiu se deveria falar sobre o assunto. Em meio a todas as emoções que cercavam o fato, havia uma sensação de constrangimento, como se ela de­vesse ter sido capaz de evitar o acontecido. Normalmente, cos­tumava ser uma pessoa muito alerta.

"Esta noite eu também vou chegar bem tarde", informou Karin. "Mas amanhã terá acabado. Aí poderemos fazer alguma coisa juntas."

"Eu preparei uma lista longa. Hoje vou à Cidade Proibida."

"Mao costumava morar lá. Algumas pessoas afirmam que ele tentava conscientemente imitar um dos velhos imperadores. Provavelmente Qin, de quem falamos dia após dia. Mas acho que é uma calúnia maldosa. Uma calúnia política."

"O espírito dele sem dúvida paira sobre o congresso", co­mentou Birgitta. "Agora vá; trabalhe bastante e tenha idéias in­teligentes."

Karin se foi, cheia de energia. Em vez de se render à in­veja, Birgitta pulou da cama, fez algumas flexões não muito convincentes, preparando-se para passar um dia em Beijing sem conspirações ou suspeitas de perseguição. Dedicou a manhã a explorar o misterioso labirinto que constituía a Cidade Proibida. No muro rosa vivido, sobre o portão do meio, usado em outros tempos apenas pelos imperadores, havia um enorme retrato de Mao. Birgitta notou que todos os chineses que passavam pelos portões vermelhos tocavam suas guarnições douradas. Imaginou que fosse algum tipo de superstição. Talvez Karin pudesse explicar.

Caminhou sobre as pedras gastas que pavimentavam o pá­tio interno do palácio e lembrou-se de que, quando era uma Rebelde Vermelha, lera que a Cidade Proibida continha 9999 aposentos e meio. Como o Divino Deus tinha 10000 aposentos, naturalmente o Divino Filho não podia ter mais. Ela duvidava que fosse verdade.

Havia montes de visitantes, apesar do vento frio. A maioria era de chineses, passando com reverência pelos aposentos cuja entrada fora negada a seus ancestrais durante gerações. Quão gigantesca foi essa revolução, pensou Birgitta. Quando um povo se liberta, cada indivíduo adquire o direito de ter seus próprios sonhos e passa a ter acesso aos aposentos proibidos onde a opres­são foi criada.

Uma em cada cinco pessoas no mundo é chinesa. Quando minha família se reúne, se fôssemos o mundo, um de nós se­ria chinês. Então, afinal de contas estávamos certos quando jo­vens. Nossos profetas revolucionários vermelhos, especialmente o camarada Moses, que teoricamente era mais culto, viviam nos lembrando que era impossível discutir o futuro sem levar em consideração a China.

Quando estava prestes a deixar a Cidade Proibida, desco­briu, para sua surpresa, um café pertencente a uma rede ameri­cana. A placa sobressaía numa parede de tijolos vermelhos. Ela observou a forma como os transeuntes chineses reagiam. Alguns paravam e apontavam, outros entravam, enquanto a maioria pa­recia nem notar aquilo que Birgitta considerou um sacrilégio. A China se tornara um tipo diferente de mistério desde a primeira vez que tentara entender o Reino do Meio. Mas não está certo, disse a si mesma. Deve ter um jeito de entender como é possí­vel existir um café americano na Cidade Proibida, considerando como o mundo avança.

Almoçou num pequeno restaurante e mais uma vez sur­preendeu-se com o valor alto da conta. Resolveu então procurar um jornal em inglês no hotel e tomar um café no enorme sa­guão de entrada. Achou um exemplar do Guardian na banca de jornais e sentou-se num canto onde havia uma lareira ardendo alegremente. Alguns turistas americanos levantaram-se e anun­ciaram em voz alta que iam conhecer a Grande Muralha da China. Birgitta foi tomada de uma aversão instantânea por eles.

Quando iria ver a Muralha? Talvez Karin tivesse tempo no último dia antes do voo de volta. Como era possível visitar a Chi­na e não ver a Muralha, que, de acordo com a lenda moderna, era uma das poucas construções humanas que podia ser vista do espaço?

A Muralha é realmente uma coisa especial. Eu preciso vê-la, pensou. Sem dúvida Karin já esteve lá. Mas ela vai ter de ir de novo, nem que seja só por minha causa.

Subitamente surgiu uma mulher diante de sua mesa. Tinha aproximadamente a mesma idade que Birgitta e cabelos lisos. Ela sorriu dando a impressão de grande dignidade. Dirigiu-se a Birgitta num inglês impecável.

"Sra. Roslin?"

"Sou eu."

"Importa-se se eu me sentar a seu lado? Tenho uma incum­bência importante."

A mulher vestia um conjunto azul-escuro que parecia ser muito caro.

Ela sentou-se.

"Meu nome é Hong Qiu", começou. "Não pensaria pertur­bá-la se não tivesse algo muito importante a dizer."

Fez um gesto discreto a um homem que vagava pelo fundo. Ele aproximou-se e pôs a bolsa de Birgitta sobre a mesa, como se fosse um presente extremamente valioso, antes de fazer uma reverência e se retirar.

Birgitta olhou surpresa para Hong Qiu.

"A polícia encontrou sua bolsa", explicou. "Para nós é hu­milhante reconhecer que uma de nossas hóspedes foi exposta a um infeliz incidente, então me solicitaram que devolvesse a bolsa."

"Você é da polícia?"

Hong Qiu continuou a sorrir.

"Não, de jeito nenhum. Mas às vezes sou solicitada a rea­lizar certos serviços para as autoridades. Está faltando alguma coisa?"

Birgitta abriu a bolsa. Estava tudo lá, exceto o dinheiro. Para sua surpresa, descobriu também que a caixa de fósforos que não conseguira encontrar na mala estava de fato na bolsa.

"Está faltando o dinheiro."

"Estamos otimistas quanto a captura dos criminosos. Eles serão severamente punidos."

"Mas não condenados à morte, espero."

Birgitta notou uma reação quase imperceptível na fisiono­mia de Hong Qiu.

"Nossas leis são muito rigorosas. Se eles já cometeram crimes sérios, é possível que recebam sentença de morte. Mas, se mostrarem sinais de reabilitação, poderão se safar com a prisão."

"Mas o que acontecerá se eles não manifestarem arrepen­dimento?"

A resposta foi evasiva. "Nossas leis são claras e diretas. Mas nada é indiscutível. Os julgamentos são efetuados de acordo com as particularidades de cada caso. Punições distribuídas se­gundo rotinas nunca podem ser justificadas."

"Eu trabalho com a lei — sou juíza. Só um sistema legal muito primitivo recorre a punições capitais que raramente, qua­se nunca, geram efeito preventivo."

Birgitta Roslin lamentou o tom intrometido de seus co­mentários. Hong Qiu escutou com atenção, porém seu sorriso desapareceu. Uma garçonete se aproximou, mas Hong Qiu a dispensou com um meneio de cabeça. Birgitta Roslin teve a níti­da impressão de que havia um padrão que estava sendo repetido. Hong Qiu não reagiu à notícia de que Birgitta era juíza — ela já sabia disso.

Neste país eles sabem tudo a meu respeito, pensou. Ou será que estou imaginando coisas?

"Naturalmente estou satisfeita de ter a bolsa de volta. Mas você precisa entender que estou surpresa com a forma como isso aconteceu. Você a traz para mim, mas não é da polícia — eu não sei quem você é. As pessoas que roubaram a minha bolsa foram presas, ou entendi mal o que você disse? Alguém encontrou a bolsa depois que os agressores a jogaram fora?"

"Ninguém foi preso, mas a polícia tem suas suspeitas. A bol­sa foi encontrada perto de onde foi roubada."

Hong Qiu ameaçou se levantar. Birgitta Roslin a impediu.

"Diga-me quem é você. Uma mulher desconhecida de re­pente aparece sem mais nem menos e devolve minha bolsa."

"Eu trabalho em questões de segurança. Como falo inglês e francês, às vezes me pedem que faça certos serviços."

"Segurança? Então na verdade você é da polícia. Apesar de ter dito que não."

Hong Qiu negou com a cabeça.

"Segurança vai além da responsabilidade da polícia. É mais profundo, está nas próprias raízes da sociedade. Estou certa de que em seu país isso também é verdade."

"Quem lhe pediu para me procurar e devolver minha bolsa?"

"Um funcionário do escritório central de achados e perdi­dos em Beijing."

"Achados e perdidos? Quem foi que encontrou minha bolsa?"

"Não sei."

"Como podiam saber que a bolsa me pertencia? Não havia nenhum cartão de identidade nem nada em meu nome."

"Presumo que tenham sido informados por autoridades po­liciais encarregadas de investigar o caso."

"Você está dizendo que há mais de um departamento que cuida de agressões?"

"É normal que policiais de diferentes especialidades traba­lhem juntos."

"Para achar uma bolsa perdida?"

"Para solucionar um ataque sério a uma hóspede em nosso país."

Ela está dando voltas e mais voltas, pensou Birgitta. Nunca vou conseguir uma resposta decente dela.

"Eu sou juíza", repetiu Birgitta Roslin. "Vou ficar em Bei­jing por mais alguns dias. Como vocês parecem saber tudo a meu respeito, não preciso lhe dizer que vim com uma amiga que faz diariamente palestras sobre o seu primeiro imperador num congresso internacional."

"O conhecimento da dinastia Qin é importante para com­preender meu país. Mas está enganada se pensa que sei muita coisa a seu respeito ou sobre a razão que a trouxe a Beijing."

"Já que foi capaz de fazer aparecer a bolsa que perdi, vou lhe pedir um conselho. O que preciso fazer para conseguir en­trar num tribunal chinês? Não precisa ser nenhum julgamento especial, só quero acompanhar os procedimentos e talvez fazer algumas perguntas."

"Posso arrumar isso para amanhã. E posso acompanhá-la."

A resposta imediata deixou Birgitta Roslin espantada. "Não quero ser um estorvo. Você parece ter muita coisa para fazer."

"Eu é que decido o que é importante." Hong Qiu levantou-se. "Entrarei em contato esta tarde para lhe dizer onde po­deremos nos encontrar."

Birgitta ia mencionar o número do quarto, mas imediata­mente lhe ocorreu que Hong Qiu sem dúvida já sabia.

Observou a mulher passar pelo bar até chegar à entrada. O homem que trouxera a bolsa e um outro juntaram-se a ela antes de desaparecerem de vista.

Olhou para a bolsa e explodiu numa gargalhada. Há uma entrada, pensou, e também uma saída. Uma bolsa é perdida, depois encontrada. Mas não tenho a menor idéia do que sucede nesse meio-tempo. Existe o risco de que eu não seja capaz de discernir entre o que se passa na minha cabeça e o que acontece na realidade.

Hong Qiu ligou uma hora mais tarde, logo depois de Birgi­tta retornar ao quarto. Nada mais a surpreendia. Era como se pessoas invisíveis observassem cada movimento seu, podendo di­zer exatamente onde ela estava a cada momento. Como agora. Ela entrou no quarto, e o telefone em seguida tocou.

"Nove horas amanhã de manhã", disse Hong Qiu.

"Onde?"

"Eu vou apanhá-la. Vamos visitar um tribunal num subúr­bio afastado de Beijing. Eu o escolhi porque amanhã uma juíza estará em serviço."

"Agradeço muito."

"Quero fazer tudo que puder para compensar o triste inci­dente."

Após o telefonema, Birgitta esvaziou a bolsa em cima da cama. Ainda achava difícil aceitar que a caixa de fósforos estives­se lá, e não no fundo da mala. Abriu a caixa. Estava meio vazia. Alguém havia fumado, pensou. Quando pus a caixa na mala, estava cheia. Ela tirou os fósforos e olhou dentro. Realmente não sabia o que esperava encontrar. Não passa de uma caixa de fós­foros, ela pensou. Sentiu-se incomodada ao recolocar os fósforos de volta e devolver a caixa para dentro da bolsa. Mais uma vez já estava indo longe demais. Sua imaginação a estava deixando fora de si.

Dedicou o resto do dia a um templo budista e a um longo jantar num restaurante não distante do hotel. Estava dormindo quando Karin entrou no quarto na ponta dos pés, e apenas virou de lado quando a luz se acendeu.

No dia seguinte ambas acordaram à mesma hora. Como Karin estava atrasada, só teve tempo de confirmar que a con­ferência terminaria às duas da tarde. Depois disso, estaria livre. Birgitta lhe contou sobre a visita que faria a uma corte chinesa, mas não fez menção do assalto.

Hong Qiu estava à sua espera na recepção. Vestia um casa­co de pele branco; a seu lado, Birgitta sentiu-se quase que constrangedoramente mal vestida. Mas Hong Qiu comentou que a juíza estava usando uma roupa quente o bastante.

"Nossos tribunais podem ser muito gelados", ela disse.

"Como os teatros?"

Hong Qiu sorriu. Ela não podia saber que assistimos a uma ópera de Beijing noites atrás, Birgitta pensou — ou podia?

"A China ainda é um país muito pobre. Estamos cami­nhando para o futuro com grande humildade e trabalho árduo."

Nem todo mundo é pobre, pensou Birgitta cinicamente. Até meu olhar destreinado pode ver que seu casaco de pele é legítimo e extremamente caro.

Um carro com chofer as aguardava diante do hotel. Birgitta teve um vago sentimento de relutância. O que de fato sabia so­bre essa mulher com quem estava entrando num carro, com um motorista desconhecido ao volante?

Persuadiu a si mesma de que não havia perigo. Por que não podia simplesmente ser grata pela gentileza e consideração com que a estavam cercando? Hong Qiu sentou-se calada, de olhos fechados, num canto do banco traseiro. Percorreram velozmente uma rua muito longa. Após alguns minutos Birgitta Roslin não tinha a mínima idéia de onde estava, em que parte da cidade.

Pararam diante de um edifício baixo de concreto com dois policiais guardando a entrada. Sobre a porta havia uma fileira de caracteres chineses em vermelho.

"O nome da Corte distrital", disse Hong Qiu, ao notar o que Birgitta estava olhando.

Ao subirem as escadas até a entrada, os dois policiais apre­sentaram armas. Hong Qiu pareceu não reagir. Birgitta Roslin perguntou-se quem de fato era sua acompanhante. Dificilmente era uma simples garota de recados, cujo trabalho era devolver bolsas roubadas de visitantes estrangeiros.

Prosseguiram por um corredor deserto e chegaram à sala do tribunal propriamente dita, que era forrada de madeira e muito austera. Num estrado alto estavam sentados dois homens unifor­mizados. O lugar entre os dois estava vazio. Não havia público presente. Hong Qiu a conduziu ao banco da frente, onde ha­viam sido colocadas duas almofadas. Foi tudo preparado, pensou Birgitta. O espetáculo pode começar. Ou será que estou apenas sendo recebida com cortesia, inclusive neste tribunal?

Mal tinham se sentado quando o réu foi conduzido para dentro por dois guardas de segurança. Um homem de meia-ida­de com o cabelo cortado rente, trajando um uniforme de prisão azul-escuro. Estava de cabeça baixa. A seu lado, o advogado de defesa. Sentado em outra mesa, o homem que Birgitta presumiu ser o promotor. Vestia roupas civis, um homem mais velho, cal­vo, de rosto marcado. A juíza entrou na corte pela porta atrás do pódio. Estava na casa dos sessenta anos, era pequena e robusta. Quando tomou assento, parecia quase uma criança sentada à mesa.

"Shu Fu é o líder de uma gangue criminosa especializada em roubar carros", contou Hong Qiu em voz baixa. "Os outros já foram condenados. Como Shu é o líder, e reincidente, pro­vavelmente vai levar uma sentença mais dura. No passado ele foi tratado com muita suavidade, mas, por ter traído a confiança depositada nele e continuado com suas atividades criminosas, a corte deverá lhe aplicar uma punição mais severa."

"Mas pena de morte não, não é?"

"Claro que não."

Hong Qiu não gostou da pergunta. A resposta soou impa­ciente, quase desrespeitosa. O sorriso em seu rosto se apagou, pensou Birgitta. Mas será que é um julgamento de verdade ou a coisa toda está só sendo encenada e a sentença já foi decidida?

As vozes eram estridentes e ecoavam pela sala. O único que não disse nada em momento nenhum foi o réu, que ficou ali sentado, olhando para o chão. Vez por outra Hong Qiu traduzia o que era dito. O advogado de defesa não fazia grande esforço para dar apoio ao cliente — é mas isso também não era incomum numa Corte sueca, pensou Birgitta. O julgamento todo virou um diálogo entre o promotor e a juíza. Ela não conseguiu entender a função dos dois assistentes sentados no pódio.

A sessão terminou em menos de meia hora.

"Ele deve ser condenado a uns dez anos de trabalhos força­dos", explicou Hong Qiu.

"Eu não ouvi a juíza dizer nada que soasse como uma sen­tença."

Hong Qiu não fez comentário. Quando a juíza se levantou, todo mundo acompanhou. O condenado foi levado embora. Bir­gitta não chegou a ver seus olhos.

"Agora vamos conhecer a juíza", disse Hong Qiu. "Ela nos convidou para um chá em sua sala. Seu nome é Min Ta. Quan­do não está trabalhando, passa o tempo cuidando dos dois netos."

"Qual é a reputação dela?"

Hong Qiu não entendeu a pergunta.

"Todos os juizes têm uma reputação, que corresponde mais ou menos à verdade. Raramente se distancia da verdade. Eu te­nho a reputação de ser uma juíza branda, mas firme", explicou Birgitta.

"Min Ta segue a lei. Tem orgulho de ser juíza. E assim é também uma legítima representante de nosso país."

Foram recebidas por Min Ta em sua sala espartana e ge­lada. Um funcionário serviu chá. Elas se sentaram. Min Ta co­meçou imediatamente a falar com a mesma voz estridente que empregara na corte. Quando terminou, Hong Qiu traduziu o que ela dissera.

"É uma grande honra conhecer uma colega da Suécia. Ela ouviu muitos comentários positivos sobre o sistema legal sueco. Infelizmente tem outro julgamento pela frente, senão adoraria discutir o sistema legal sueco."

"Por favor, agradeça a ela o convite", disse Birgitta Roslin. "Pergunte-lhe qual será a sentença. Você estava certa ao adivi­nhar que seriam dez anos?"

"Eu nunca entro num tribunal sem estar meticulosamente preparada", disse Min Ta ao ouvir a tradução da pergunta. "E meu dever usar meu tempo e o dos outros funcionários da lei eficientemente. Neste caso, não havia dúvida. O homem tinha confessado; era reincidente; não havia circunstâncias atenuan­tes. Penso que vou lhe dar de sete a dez anos de prisão, mas vou ponderar com cuidado antes de decidir."

Foi a única pergunta que Birgitta pôde fazer. Então foi a vez de Min Ta disparar uma série de perguntas. Birgitta pergun­tou-se sobre a exatidão das traduções de Hong Qiu. Quem sabe ela e Min Ta não estariam tendo uma conversa sobre assuntos completamente diferentes?

Depois de vinte minutos, Min Ta se levantou e explicou que teria de retornar ao tribunal. Um homem entrou com uma câmera. Min Ta colocou-se ao lado de Birgitta Roslin e uma foto foi tirada. Hong Qiu permaneceu de lado, fora do enquadra­mento da câmera. As duas juízas apertaram-se as mãos, e ambas encaminharam-se juntas para o corredor. Quando Min Ta abriu a porta, Birgitta notou que agora a sala estava lotada.

Voltaram ao carro, que partiu em alta velocidade. Quando pararam, não foi diante do hotel e sim em uma casa de chá em lorma de pagode numa ilha num lago artificial.

"Está frio", disse Hong Qiu. "O chá vai aquecer."

Hong Qiu a conduziu a uma sala separada do restante do estabelecimento. Duas xícaras já estavam sobre a mesa, uma garçonete já estava a postos com uma chaleira na mão. Tudo que acontecia com Birgitta aquele dia fora meticulosamente plane­jado. De simples turista, ela se transformara numa importante visitante da China. Ainda não sabia por quê.

Subitamente Hong Qiu começou a falar sobre o sistema legal da Suécia. Deu a impressão de estar muito bem informada. Fez perguntas sobre os assassinatos de Olof Palme e Anna Lindh.

"Numa sociedade aberta nunca se pode garantir a seguran­ça da pessoa cem por cento", explicou Birgitta. "Em todas as sociedades há um preço a pagar. Liberdade e segurança estão sempre brigando para saber quem leva a melhor."

"Se você realmente tem a intenção de assassinar alguém, não dá para impedir", respondeu Hong Qiu. "Nem mesmo um presidente americano consegue estar protegido."

Birgitta Roslin detectou um segundo sentido no que Hong Qiu acabara de dizer, mas foi incapaz de identificar o que era.

"Nós não ouvimos falar da Suécia com muita freqüência", disse Hong Qiu. "Mas recentemente chegaram notícias aos jor­nais sobre um terrível assassinato em massa."

"Eu sei um pouquinho sobre o assunto. Ainda que não este­ja envolvida. Um suspeito foi preso, mas ele se suicidou. O que por si só já é um escândalo, não importa como tenha acontecido."

Como Hong Qiu demonstrou um polido interesse, Birgi­tta descreveu o que acontecera em detalhes. Hong Qiu escutou com atenção, fez perguntas, mas de vez em quando pedia que repetisse algo.

"Um louco", concluiu Birgitta Roslin. "Que conseguiu ti­rar a própria vida. Ou algum outro louco que a polícia ainda não chegou a encontrar. Ou então ocorreu algo totalmente dife­rente, o criminoso teve um motivo e elaborou um plano brutal, executado a sangue frio."

"E o que seria?"

"Como nada parece ter sido roubado, deve ser uma combi­nação de ódio e vingança."

"O que você acha?"

"Quem eles deviam estar procurando, é a isso que você se refere? Não sei. Mas acho difícil aceitar a teoria de um louco agin­do sozinho."

Birgitta desenvolveu o que passou a chamar de pista chi­nesa. Começou do início, quando descobriu ser aparentada de algumas vítimas, e a assombrosa fase seguinte envolvendo um visitante chinês a Hudiksvall. Quando notou que Hong Qiu a escutava atentamente, não conseguiu parar. No final, pegou a fotografia e mostrou a Hong Qiu.

Hong Qiu assentiu lentamente. Por um instante pareceu perdida nos próprios pensamentos. De repente ocorreu a Birgi­tta que Hong Qiu reconhecera o rosto. Mas isso era implausível. Um rosto em um bilhão?

Hong Qiu sorriu, devolveu a foto e perguntou o que Birgi­tta pretendia fazer com o resto de seu tempo em Beijing.

"Amanhã espero que minha amiga possa me levar à Grande Muralha. Depois pegamos o voo de volta no dia seguinte."

"Pena que vou estar ocupada e não poderei ajudá-la."

"Já fez mais do que eu podia ter pedido."

"Em todo caso, virei me despedir antes de você ir embora."

Saudaram-se diante do hotel. Birgitta Roslin observou o carro com Hong Qiu sair pelos portões do hotel.

Karin voltou às três da tarde e, com um suspiro de alívio, jogou a maior parte do material da conferência na cesta de lixo. Quando Birgitta sugeriu uma ida à Grande Muralha no dia se­guinte, Karin concordou de imediato. Mas naquela tarde que­ria fazer umas compras. Birgitta a acompanhou de loja em loja, pelo mercado informal nas ruelas e butiques mal iluminadas, coalhadas de pechinchas de todos os tipos, desde velhas lâmpa­das até esculturas de madeira com caras de demônio. Carrega­das de pacotes e embrulhos, tomaram um táxi quando começou a escurecer. Karin estava cansada, então acabaram jantando no hotel. Birgitta agenciou na recepção uma viagem até a Muralha no dia seguinte.

Karin dormiu assim que deitou, porém Birgitta aboletou-se numa cadeira para ver tevê chinesa sem som. Vez por outra sen­tia pontadas de medo causadas pelos fatos do dia anterior. Mas decidiu-se de uma vez por todas a não dizer nada, nem mesmo para Karin.

No dia seguinte foram de carro até a Grande Muralha. Não havia sequer um sopro de vento, e o frio seco parecia menos invasivo. Vagaram pela muralha, impressionadas, tiraram fotos uma da outra ou às vezes as duas juntas, quando pediam a uma pessoa simpática para fotografá-las.

"Então, no final acabamos vindo para cá", disse Karin. "De câmera na mão, não com o Livro vermelho de Mao."

"Deve ter acontecido um milagre neste país", respondeu Birgitta. "Realizado não por deuses, mas por gente de coragem incrível."

"Ao menos nas cidades. Mas a miséria aparentemente ainda está muito espalhada no campo. O que farão quando as centenas de milhões de camponeses finalmente resolverem que basta?"

"A escalada atual da revolta camponesa é de extrema im­portância.' Quem sabe esse mantra não contenha uma verdade fundamental inerente, apesar de tudo?"

"Ninguém naqueles dias me disse que na China fazia tanto frio. Eu quase congelei até a morte."

Retornaram ao carro que estava à espera delas. Quando Bir­gitta descia os degraus, espiou para trás por cima do ombro, para dar uma última olhada na muralha.

Em vez disso, o que viu foi um dos homens de Hong Qiu lendo um guia turístico. Não havia dúvida que era um deles. O sujeito que viera até a mesa para devolver-lhe a bolsa.

Karin acenava impaciente do carro. Estava com frio e que­ria ir logo embora.

Quando Birgitta virou-se novamente, o homem tinha su­mido.

 

Na última noite em Beijing, Birgitta Roslin e Karin Wiman permaneceram no hotel. Ficaram no bar tomando coquetéis de vodca, discutindo possíveis formas de concluir a visita à China. Mas a vodca as deixou ligeiramente altas e cansadas, de modo que resolveram comer no hotel. Em seguida, passaram horas conversando sobre os rumos que suas vidas tinham tomado. Era como se as coisas tivessem sido predeterminadas por seus sonhos revolucionários de juventude de uma China Vermelha. Agora linham de fato feito a viagem e encontraram um país que passara por transformações fundamentais, mas que talvez não tivesse se tornado aquilo que elas um dia imaginaram que seria. Foram as últimas a sair do salão de jantar do hotel. Havia diversas fitas de seda azuis pendentes da cúpula de uma luminária sobre a mesa. Birgitta inclinou-se em direção a Karin e sussurrou que talvez cada uma delas devesse levar uma daquelas fitas como lembran­ça da viagem. Karin usou uma tesourinha de unha para cortar um par de tiras quando não havia nenhum garçom olhando.

Karin adormeceu quando terminaram de arrumar as ma­las. A conferência fora muito cansativa. Birgitta ficou sentada no sofá com quase todas as luzes apagadas. De repente sentiu-se velha. Ela chegara até aqui; restava ainda um pouco mais a per­correr, e então o caminho subitamente se esgotaria e ela seria consumida pelas trevas. Já percebera que o caminho começara a descer, ainda que apenas suavemente; mas o aspecto signifi­cativo era que ela nada podia fazer para reverter essa tendência. Pense em dez coisas que você ainda quer fazer, ela sussurrou a si mesma. Dez coisas que ainda restam para você fazer. Sentou-se à pequena escrivaninha e começou a escrever num caderno.

O que ela queria realmente experimentar? Uma das coisas pelas quais ansiava era ver e curtir um neto, talvez vários. Além disso, ela e Staffan sempre falavam em visitar diversas ilhas. As únicas onde tinham estado até então eram a Islândia e Creta. Uma das viagens de seus sonhos era para Galápagos, outra para a ilha de Pitcaim, onde ainda corria, nas veias de seus habitantes, o sangue dos amotinados do navio Bounty. Aprender mais algu­mas línguas? Ou ao menos melhorar o francês, idioma que um dia ela já falara tão bem.

Mas o mais importante era que ela e Staffan conseguissem reavivar o relacionamento. As vezes sentia-se cansada quando lhe ocorria a possibilidade de declinarem para a velhice sem que restasse nada da antiga paixão.

Viagem nenhuma valia mais que isso.

Arrancou a folha de papel, amassou-a e jogou-a no cesto de lixo. Para que anotar o que já sabia de forma clara e inequívoca.

Despiu-se e enfiou-se sob as cobertas. Karin respirava cal­mamente na outra cama. De repente teve a sensação de que estava na hora de ir para casa, de voltar ao trabalho. Sem sua rotina diária jamais poderia realizar quaisquer dos sonhos que a aguardavam.

Hesitou por um instante, depois pegou o celular e mandou uma mensagem de texto ao marido. "A caminho de casa. Toda via­gem começa com um primeiro passo adiante. Inclusive a viagem para casa."

Birgitta acordou às sete. Embora não tivesse dormido mais do que cinco horas, sentia-se desperta e disposta. Uma leve dor de cabeça a lembrava dos coquetéis de vodca da noite anterior. Karin ainda dormia, enrolada nos lençóis, uma das mãos pen­dendo para fora. Birgitta cuidadosamente a colocou sob o lençol.

A sala do café da manhã já estava bem movimentada, ape­sar de ainda ser cedo. Birgitta olhou em volta para ver se re­conhecia algum rosto. Não tinha dúvida de que o homem que reconhecera na Grande Muralha era do séquito de Hong Qiu. Mas será que o Estado chinês não a guardara sob suas asas para assegurar-se de que não ocorreriam outros acidentes?

Ela tomou o desjejum, folheou um jornal em inglês e esta­va prestes a retornar ao quarto quando Hong Qiu subitamente surgiu à sua mesa. Não estava sozinha. A seu lado, dois homens que Birgitta ainda não vira. Hong Qiu lhes fez um sinal, e ambos recuaram e se sentaram. Ela disse algo à garçonete e logo em seguida serviram-lhe um copo de água.

"Espero que esteja tudo bem", disse Hong Qiu. "Como foi sua viagem até a Muralha?"

"A Grande Muralha é impressionante. Mas estava frio."

Olhou Hong Qiu nos olhos com ar de provocação, espe­rando ver por sua reação se ela sabia que o espião fora notado. Mas a expressão de Hong Qiu manteve-se inexpressiva. Ela não mostrava suas cartas.

"Há um homem à sua espera numa sala anexa a este refeitó­rio", informou Hong Qiu. "Seu nome é Chan Bing."

"E o que ele quer?"

"Quer informá-la que a polícia deteve um homem envolvi­do no ataque em que você perdeu a bolsa."

Birgitta teve uma espécie de taquicardia. Havia algo de si­nistro no que Hong Qiu dizia.

"E por que ele mesmo não vem, já que quer falar comigo?"

"Ele está de uniforme. Não quer perturbar o seu café da manhã."

Birgitta Roslin abriu os braços, resignada. "Não tenho pro­blema em falar com um homem uniformizado."

Levantou-se e pôs o guardanapo sobre a mesa. Nesse exato instante Karin entrou no refeitório e olhou para elas, surpresa. Birgitta foi obrigada a explicar o que havia acontecido, e apre­sentou Hong Qiu.

"Eu realmente não sei o que está ocorrendo", ela disse a Karin. "A polícia evidentemente capturou um dos homens que me agrediu. Tome seu café em paz. Eu volto quando souber o que a polícia tem a dizer."

"Por que você não me contou nada disso antes?"

"Não quis deixar você preocupada."

"E, está me deixando preocupada agora. Acho que estou ficando brava."

"Não precisa ficar."

"Nós temos que partir para o aeroporto às dez."

"Ainda faltam duas horas."

Birgitta seguiu Hong Qiu. Os dois homens ainda pairavam nos arredores. As duas desceram pelo corredor que levava aos elevadores e pararam diante de uma porta entreaberta. Ao en­trarem, Birgitta percebeu que se tratava de uma pequena sala de reuniões. Na extremidade da mesa oval estava sentado um ho­mem mais velho, que fumava um cigarro. Trajava um uniforme azul com uma porção de insígnias. O boné estava sobre a mesa à sua frente. Ele se levantou e fez uma reverência, apontando uma cadeira a seu lado. Hong Qiu ficou parada junto à janela ao fundo.

Chan Bing tinha os olhos vermelhos e o cabelo penteado para trás. Birgitta Roslin teve a impressão de que o homem sen­tado perto dela era muito perigoso. Ele tragou fundo o cigarro. Já havia três bitucas no cinzeiro.

Hong Qiu disse alguma coisa. Chan aquiesceu. Birgitta tentou se lembrar se havia conhecido alguém com mais estrelas vermelhas nos ombros do que esse homem.

A voz de Chan Bing saiu rouca quando falou: "Nós pren­demos um dos dois homens que a atacaram. Pedimos que venha reconhecê-lo".

O inglês de Chan Bing era vacilante, mas ele sabia se fazer entender.

"Mas eu não vi nada."

"Sempre se vê mais do que se pensa."

"Eles ficaram por trás de mim o tempo todo. Eu não tenho olhos na nuca."

A fisionomia de Chan manteve-se inexpressiva.

"Na verdade, tem sim. Em situações tensas, de perigo, a gente consegue ver pela nuca."

"Isso pode ser verdade na China, mas não na Suécia. Nunca soube de um acusado ser considerado culpado porque alguém o viu pelos olhos da nuca."

"Há outras testemunhas. Não é só você que vai apontar o agressor. Outras testemunhas também vão identificá-lo."

Birgitta olhou com ar suplicante para Hong Qiu, que fitava um ponto acima de sua cabeça.

"Preciso pegar meu vôo para casa", disse Birgitta. "Minha amiga e eu temos de deixar o hotel em duas horas para ir ao ae­roporto. Vocês já me devolveram a bolsa. A ajuda que recebi da polícia deste país foi excelente. Sou capaz de escrever um artigo para uma revista sueca especializada em direito descrevendo as minhas experiências e a gratidão que devo à China. Mas não vou poder identificar um possível agressor."

"Nosso pedido para sua cooperação é bastante razoável. As leis de nosso país dizem que é preciso ficar à disposição da polí­cia quando ela está solucionando um crime sério."

"Mas eu preciso ir para casa. Quanto tempo isso vai levar?"

"É pouco provável que seja mais de um dia."

"Isso não vai ser possível."

Hong Qiu tinha se aproximado sem que Birgitta notasse. "Nós naturalmente a ajudaremos a remarcar sua passagem", ela disse.

Birgitta Roslin bateu a mão na mesa. "Vou para casa hoje. Eu me recuso a estender a minha permanência por mais um dia."

"Chan Bing é um oficial de polícia de alta patente. O que ele diz, vale. Ele pode forçá-la a ficar na China."

"Então exijo falar com a minha embaixada."

"Como quiser."

Hong Qiu colocou um celular sobre a mesa diante de Bir­gitta, junto com um pedaço de papel com um número de tele­fone. "A embaixada abre daqui a uma hora."

"Por que eu deveria ser obrigada a concordar com isso?"

"Nós não queremos punir um homem inocente, mas tam­bém não queremos que um homem culpado fique impune."

Birgitta Roslin a fitou e deu-se conta de que seria forçada a ficar em Beijing por mais um dia, pelo menos. Eles tinham resolvido mantê-la em Beijing. O melhor que tinha a fazer era aceitar a situação, pensou. Mas ninguém iria obrigá-la a identifi­car um agressor que nunca havia visto.

"Preciso falar com minha amiga", comunicou. "O que vai acontecer com minha bagagem?"

"O quarto vai permanecer reservado em seu nome", res­pondeu Hong Qiu.

"Suponho que vocês já cuidaram disso. Quando é que foi decidido que eu seria forçada a ficar? Ontem? Anteontem? Esta noite?"

Não obteve resposta. Chan Bing acendeu outro cigarro e disse algo a Hong Qiu.

"O que foi que ele disse?", perguntou Birgitta.

"Que precisamos nos apressar. Chan Bing é um homem ocupado."

"Quem é ele?"

Hong Qiu deu a explicação enquanto caminhavam pelo corredor. "Chan Bing é um investigador muito experiente. Ele é responsável por incidentes que afetam pessoas como vocês, hós­pedes em nosso país."

"Não gostei dele."

"Por quê?"

Birgitta Roslin se deteve. "Já que vou ter de ficar mais um dia, quero você comigo. Senão, não saio do hotel até que a em­baixada abra e eu fale com alguém de lá."

"Vou ficar a seu lado."

Prosseguiram até o refeitório. Karin Wiman estava prestes a se levantar da mesa quando chegaram. Birgitta explicou o que acabara de acontecer. Karin olhou para ela com curiosidade ain­da maior.

"Por que você não disse nada sobre isso antes? Aí estaríamos preparadas para algo deste tipo, que você talvez fosse obrigada a ficar."

"Como eu já disse, não quis deixar você preocupada. E também eu mesma não quis ficar preocupada. Pensei que estava tudo acabado. Me deram a bolsa de volta. Mas agora vou ter que ficar até amanhã."

"Precisa mesmo?"

"O policial com quem acabei de falar não parece do tipo que muda de idéia."

"Você quer que eu também fique?"

"Não, você vai. Eu sigo amanhã. Ligo para casa e explico o que aconteceu."

Karin ainda hesitava. Birgitta a levou até a saída.

"Vá. Eu vou ficar e resolver esse negócio. Parece que as leis deste país dizem que não tenho permissão de sair antes de ajudá-los."

"Mas você declarou que não viu quem a atacou."

"E é isso que eu vou dizer a eles, e bater pé firme. Agora vá! Quando eu voltar para casa, vamos nos encontrar e ver juntas nossas fotos da Muralha."

Birgitta observou Karin dirigir-se aos elevadores. Como tinha levado o casaco para o refeitório, estava pronta para sair imediatamente.

Viajou no mesmo carro que Hong Qiu e Chan Bing. Bate­dores com sirenes ligadas abriam caminho através do tráfego in­tenso. Passaram pela praça Tiananmen e seguiram por uma das largas avenidas centrais até a entrada de uma garagem subter­rânea guardada por policiais. Ao saírem do carro, pegaram um elevador para o décimo quarto andar, percorreram um corredor ladeado por homens fardados que a observaram com curiosida­de. Agora quem caminhava a seu lado era Chan Bing, não Hong Qiu. Ela não é a pessoa mais importante neste edifício, pensou Birgitta. Aqui é o sr. Chan quem dita as regras.

Chegaram à antessala de um grande escritório, onde os po­liciais saltaram para a posição de sentido. A porta fechou-se a suas costas dentro da sala que ela imaginou pertencer a Chan. Um retrato do presidente pendia numa parede atrás da escriva­ninha. Ele indicou uma cadeira. Birgitta sentou-se. Hong Qiu permanecera na antessala.

"Lao San", disse Chan Bing. "Esse é o nome do homem que verá em breve e apontará em meio a outros nove."

"Quantas vezes tenho que repetir que não vi os homens que me atacaram?"

De repente sentiu medo. Tarde demais lhe ocorreu que tanto Hong Qiu como Chan Bing podiam saber que ela tinha andado à procura de Wang Min Hao. Era por isso que estava aqui. De alguma maneira, tinha se transformado num perigo. A pergunta era: perigo para quem?

Ambos sabem, ela pensou. Hong Qiu não está presente por­que já sabe sobre o que Chan Bing vai conversar comigo.

A fotografia ainda estava no bolso interno de seu casaco. Ela ponderou se devia sacá-la e explicar a Chan Bing por que tinha ido ao local onde fora atacada. Mas algo lhe disse para não fazê-lo. Naquele momento Chan Bing estava no papel do gato, e ela no do rato.

Chan remexeu alguns papéis sobre sua mesa — não porque fosse lê-los, ela percebeu, mas para ganhar tempo enquanto de­cidia o que dizer.

"Quanto dinheiro foi roubado?", ele perguntou.

"Sessenta dólares americanos. E menos ainda em dinheiro chinês.

"Anéis? Jóias? Cartão de crédito?"

"Todo o resto me foi devolvido."

Houve um zumbido vindo do telefone sobre a mesa. Chan atendeu, escutou e desligou.

"Estão prontos", disse. "Agora vai ver o homem que a ata­cou."

"Mas não foi mais de um?"

"Só um dos homens que a atacou ainda pode ser interro­gado."

Então o outro está morto, pensou Birgitta, começando a sentir enjôo. Gostaria de não estar aqui em Beijing. Deveria ter insistido em voltar com Karin Wiman. Tinha caído em alguma armadilha.

Percorreram um corredor, desceram alguns degraus e pas­saram por uma porta. A sala estava na penumbra. Havia um po­licial parado junto a uma cortina.

"Vou deixá-la sozinha", disse Chan Bing. "Entenda que os homens não podem vê-la. Fale no microfone sobre a mesa se quiser que alguém dê um passo à frente ou vire-se para ficar de perfil."

"Vou falar com quem?"

"Comigo. Leve o tempo que precisar."

"Não vai adiantar. Não sei quantas vezes vou ter que dizer que não vi o rosto de nenhum dos agressores."

Chan Bing não respondeu. A cortina foi puxada para um dos lados, e Birgitta ficou sozinha. Do outro lado do espelho uni­lateral estavam alguns homens na casa dos trinta anos, vestidos de forma simples, alguns extremamente magros. Os rostos eram novos para ela. Não reconheceu nenhum deles — mesmo que por um breve momento tivesse achado que o homem na extre­ma esquerda fosse um pouquinho parecido com aquele captado pela câmera de vigilância de Sture Hermansson em Hudiksvall. Mas não era ele. O rosto desse homem era mais redondo, os lábios mais grossos.

A voz de Chan Bing chegou de um alto-falante invisível. "Olhe com calma."

"Nunca vi nenhum desses homens antes."

"Espere um pouco, para que sua percepção amadureça."

"Mesmo que eu fique aqui até amanhã, nenhuma das mi­nhas impressões mudará."

Chan Bing não deu resposta. Ela apertou o botão do micro­fone, aborrecida.

"Nunca vi nenhum desses homens antes."

"Tem certeza?"

"Tenho."

"Agora olhe cuidadosamente para este aqui."

O quarto homem a partir da esquerda deu um passo adian­te. Vestia uma jaqueta acolchoada e calças com remendos. Seu rosto magro não estava barbeado.

A voz de Chan Bing soou tensa. "Você já viu este homem antes?"

"Nunca."

"Ele é um dos que a atacaram. Lao San, vinte e nove anos, punido anteriormente por muitos crimes. O pai dele foi execu­tado por assassinato."

"Nunca o vi antes."

"Ele confessou o crime."

"Então vocês não precisam mais de mim, não é?"

Um policial que estava oculto na sombra atrás dela avançou e fechou a cortina. Fez um gesto para que ela o seguisse. Retor­naram à sala onde Chan Bing já aguardava. Não havia sinal de Hong Qiu.

"Queremos lhe agradecer por sua ajuda", disse Chan. "Ago­ra só resta uma formalidade. Estamos fazendo um boletim por escrito."

"Um boletim de quê?"

"Da confrontação com o criminoso."

"O que vai acontecer com ele?"

"Eu não sou juiz. O que aconteceria com ele no seu país?"

"Depende das circunstâncias."

"Naturalmente, nosso sistema legal funciona do mesmo modo. Nós julgamos o criminoso, sua disposição em confessar e as circunstâncias específicas."

"Existe algum risco de que ele seja condenado à morte?"

"Dificilmente", Chan respondeu em tom seco. "É precon­ceito ocidental achar que em nosso país nós condenamos sim­ples ladrões à morte. Se ele tivesse usado alguma arma, seria diferente."

"Mas o cúmplice está morto?"

"Ele resistiu à prisão. Os dois policiais que ele atacou estão sob cuidados intensivos."

"Como sabem que ele era culpado?"

"Ele resistiu à prisão."

"Ele podia ter outras razões para isso."

"O homem que acabou de ver, Lao San, confessou que o outro era seu cúmplice."

"Mas não há prova?"

"Há uma confissão."

Para Birgitta estava claro que ela jamais seria capaz de esgo­tar a paciência de Chan. Resolveu fazer o que lhe fora pedido e depois deixar a China o mais depressa possível.

Uma policial fardada entrou com uma pasta. Teve o cuida­do de evitar olhar para Birgitta.

Chan Bing leu em voz alta o que estava escrito no boletim. Birgitta teve a impressão de que agora ele estava com pressa. Sua paciência está no fim, ela pensou. Ou é alguma outra coisa. Ele já tem o que quer, talvez seja isso.

Num documento rebuscado, Chan Bing confirmava que a sra. Birgitta Roslin, cidadã sueca, fora incapaz de identificar Lao San, o perpetrador de um sério assalto do qual ela fora vítima.

Chan Bing acabou de ler e lhe passou o documento. Estava escrito em inglês.

"Assine", disse Chan Bing. "Aí poderá ir para casa."

Birgitta Roslin leu as duas páginas com todo cuidado antes de colocar sua assinatura. Chan Bing acendeu um cigarro. Já parecia ter esquecido que ela estava ali.

Hong Qiu entrou na sala. "Podemos ir agora", disse. "Aca­bou."

Birgitta não disse nada no caminho de volta para o hotel.

"Suponho que não havia nenhum vôo adequado hoje para mim, certo?"

"Creio que tenha de esperar até amanhã."

Na recepção encontrou um recado para ela dizendo que seu vôo fora remarcado com a Finnair para o dia seguinte. Es­tava prestes a se despedir quando Hong Qiu se ofereceu para vir pegá-la para jantar. Birgitta aceitou de imediato. Ficar sozinha em Beijing era a última coisa que ela queria agora.

Pegou o elevador e pensou em Karin, a caminho de casa, invisível nas alturas do céu.

Ligou para casa assim que chegou ao quarto, mas teve pro­blemas em calcular a diferença de fuso horário. Quando Staffan atendeu, percebeu que o tinha acordado.

"Onde você está?"

"Em Beijing."

"Por quê?"

"Tive um contratempo."

"Que horas são?"

"Aqui é uma da tarde."

"Não está agora a caminho de Copenhague?"

"Desculpe ter te acordado. Vou chegar na mesma hora que estava programada, só que um dia depois."

"Está tudo bem?"

"Tudo em ordem."

A ligação caiu. Ela tentou ligar de novo, mas não conse­guiu. Mandou uma mensagem de texto confirmando a mudan­ça de planos.

Ao terminar, olhou em volta e teve a sensação de que al­guém entrara no quarto enquanto estava detida na polícia. Sua mala estava aberta. As roupas não estavam do jeito que arrumara. Na noite anterior, fechara o zíper para se assegurar de que nada o estava prendendo. Tentou fechá-lo agora, mas não conseguiu.

Foi então que se deu conta — identificar o agressor não passara de um meio de tirá-la do quarto do hotel. Tudo sucedera com extrema rapidez depois que Chan Bing terminara de ler o boletim. Provavelmente fora informado de que a busca pelo quarto já estava encerrada.

Não se trata do ataque que sofri, ela pensou. A polícia vas­culhou meu quarto por outras razões. Do mesmo jeito que Hong Qiu de repente surge do nada na frente da minha mesa.

Só há uma explicação possível. Alguém quer saber o que estou fazendo com a foto de um homem desconhecido na frente de um arranha-céu perto do hospital. Quem sabe o homem não seja tão misterioso assim.

O medo que sentira antes agora a atingiu com toda força. Começou a buscar câmeras e microfones ocultos, olhar atrás dos quadros, examinar os lustres, mas não encontrou nada.

Na hora combinada encontrou-se com Hong Qiu no sa­guão. Hong Qiu sugeriu que fossem a um restaurante famoso, mas Birgitta não queria deixar o hotel.

"Estou cansada", explicou. "O sr. Chan Bing é um homem muito cansativo. Eu só quero comer alguma coisa rápida e ir dormir. Amanhã eu volto para casa."

A última frase teve a entonação de uma pergunta. Hong Qiu assentiu.

"Sim, amanhã você volta para casa."

Sentaram-se junto a uma das altas janelas. Um pianista tocava num pequeno palco no meio do enorme salão, que era decorado por aquários e fontes.

"Estou reconhecendo esta música", disse Birgitta Roslin. "E uma canção inglesa da Segunda Guerra. We'll meet again, don't know where, don't know when. Quem sabe não somos nós duas?"

"Eu sempre quis visitar os países nórdicos. Quem sabe?"

Birgitta tomou seu vinho tinto, que a deixou tonta por cau­sa do estômago vazio.

"Agora acabou", disse. "Posso voltar para casa. Recuperei a bolsa e visitei a Grande Muralha. Eu me convenci de que a re­volta dos camponeses chineses deu enormes passos para frente. O que aconteceu neste país é simplesmente um milagre huma­no. Quando eu era jovem eu ansiava por ser uma daquelas que marchavam com o Livro vermelho de Mao na mão, cercada de milhares de jovens. Nós duas temos a mesma idade. Com que você sonhava?"

"Eu era uma das que marchavam."

"Com convicção?"

"Sim, todos tínhamos. Você nunca viu um circo ou um teatro cheio de crianças? Elas gritam de pura alegria. Não ne­cessariamente por causa do que estão vendo, mas porque estão com mil outras crianças sob uma lona ou num teatro. Nada de pais, nada de professores. São elas que comandam o mundo. Se forem em número suficiente, podem estar convencidas de qualquer coisa."

"Isso não responde a minha pergunta."

"Vou responder agora. Eu era como uma dessas crianças sob a lona. Mas também estava convencida de que sem Mao Tsé-Tung a China nunca teria sido capaz de se erguer acima da pobreza. Ser comunista significava lutar contra a privação e a miséria."

"E o que aconteceu depois?"

"Aquilo contra o que Mao constantemente advertiu. Que a inquietação e o descontentamento sempre estariam aí. Mas a insatisfação foi causada pela diferença de expectativas. Somente um tolo acha que podemos entrar duas vezes no mesmo rio. Hoje, posso ver claramente quanto Mao conseguiu prever o futuro."

"Você ainda é comunista?"

"Sou. Até agora nada me convenceu de que existe outro meio de combater a miséria, ainda tão espalhada por nosso país, que não trabalhar junto com os meus camaradas."

Birgitta fez um gesto e acidentalmente derrubou sua taça de vinho, espirrando algumas gotas sobre a toalha da mesa.

"Este hotel. Quando acordo e olho em volta, sinto que po­deria estar em qualquer lugar do mundo."

"Ainda há um longo caminho a percorrer."

A comida foi servida. O pianista tinha parado de tocar. Bir­gitta se debatia com seus pensamentos. Acabou pousando faca e garfo sobre a mesa e olhou para Hong Qiu, que imediatamente parou de comer.

"Agora me diga a verdade. Estou voltando para casa. Não precisa mais ficar fazendo joguinhos comigo. Quem é você? Por que fui mantida sob vigilância o tempo todo? Quem é Chan Bing? Quem era o homem que eu devia ter reconhecido? Não acredito nessa história absurda, que queria investigar o sumiço da bolsa de uma estrangeira vítima de um ataque infeliz."

Esperava que Hong Qiu tivesse alguma reação, que deixas­se cair algumas das defesas atrás das quais estivera se esconden­do, mas ela se manteve impassível.

"Do que mais poderia se tratar, além do ataque?"

"Alguém vasculhou meu quarto."

"Está faltando alguma coisa?"

"Não. Mas sei que alguém esteve lá."

"Se quiser, posso falar com o chefe da segurança do hotel."

"Quero que você responda a minha pergunta. O que está acontecendo?"

"Nada, além do fato de querermos que nossos visitantes se sintam seguros em nosso país."

"Devo realmente acreditar nisso?"

"Sim. Quero que acredite no que eu digo."

Algo em sua voz fez com que Birgitta Roslin perdesse a von­tade de fazer mais perguntas. Ela sabia que não obteria respostas. Nunca saberia se fora Hong Qiu ou Chan Bing que a mantivera sob vigilância o tempo todo. Havia uma porta de entrada e uma de saída, e Birgitta corria de um lado a outro no corredor entre as duas portas, com uma venda nos olhos.

Hong Qiu a acompanhou de volta até o quarto. Birgitta se­gurou no pulso de Hong Qiu.

"Mais alguma objeção? Mais algum agressor? Mais alguém que eu reconheça surgindo de repente?"

"Eu a pegarei ao meio-dia."

Birgitta Roslin teve um sono agitado. Acordou com o raiar do dia e tomou um rápido desjejum no refeitório. Não reconhe­ceu nenhum dos hóspedes nem dos garçons. Antes de sair do quarto ela deixara pendurado o aviso de não perturbar e salpica­ra um pouco de sal de banho na parte interna próxima à soleira da porta. Ao voltar, constatou que ninguém estivera no quarto.

Conforme o combinado, foi apanhada por Hong Qiu. Ao chegarem ao aeroporto, Hong Qiu lhe entregou um pacotinho.

"Um presente da China."

"Seu ou do seu país?"

"De ambos."

Birgitta perguntou-se se afinal não teria sido injusta com Hong Qiu. Talvez ela estivesse fazendo apenas o melhor para ajudar uma visitante estrangeira a esquecer o ataque.

"Tenha um bom vôo", desejou Hong Qiu. "Talvez nos veja­mos novamente um dia desses."

Birgitta passou pelo controle de passaportes. Ao se virar, Hong Qiu já tinha desaparecido.

Só depois que se acomodou em seu assento e o avião deco­lou foi que abriu o pacote. Era uma miniatura em porcelana de uma moça segurando o Livro vermelho de Mao sobre a cabeça.

Birgitta pôs o presente na bolsa e fechou os olhos. Seu alí­vio de estar finalmente voltando a fez sentir-se muito cansada.

Ao chegar a Copenhague, Staffan estava ali para recebê-la. Nessa noite sentou-se ao lado dele no sofá e lhe contou histórias sobre a viagem. Mas não disse nada sobre o ataque.

Karin Wiman telefonou. Birgitta prometeu visitá-la em Co­penhague o mais breve possível.

Um dia depois de chegar, foi ao médico. Sua pressão tinha baixado. Se se mantivesse estável, ela poderia voltar ao trabalho em poucos dias.

Nevava levemente quando ela saiu para a rua. Mal podia esperar para voltar ao trabalho.

No dia seguinte, estava no escritório às sete da manhã e co­meçou a passar os olhos pela papelada que se avolumara em sua escrivaninha, embora oficialmente ainda não estivesse de volta.

Agora a neve caía mais forte, uma camada que se tornava mais grossa no beiral da janela.

Colocou perto do telefone a estatueta que Hong Qiu lhe dera, a moça que tinha bochechas vermelhas e um grande sor­riso de vitória. Pegou a foto do homem chinês e a guardou no fundo de uma gaveta da escrivaninha.

Quando fechou a gaveta, teve a sensação de que enfim tudo terminara.

 

                                                                                Os colonizadores (2006)

 

Em sua luta pela libertação total dos povos oprimidos, con­fie antes de tudo e principalmente nos próprios esforços deles, e depois — e somente depois — na ajuda internacional. Os povos que tiveram êxito em sua própria revolução auxiliam aqueles que ainda lutam por liberdade. Esse é o nosso dever internacional.

                 Mao Tsé-Tung, conversas com amigos africanos, 8 de agosto de 1963

 

                           Casca de árvore arrancada por elefantes

A uns cinqüenta quilômetros a oeste de Beijing, não dis­tante das ruínas do palácio do Imperador Amarelo, cercados de muros altos havia vários edifícios que às vezes eram usados pe­los líderes do Partido Comunista Chinês. Por fora não pareciam nem um pouco imponentes e dispunham de grandes salas de conferências, cozinha e restaurante; as salas eram circundadas por áreas onde os delegados podiam esticar as pernas e manter conversas íntimas e particulares. Apenas aqueles que pertences­sem aos círculos mais internos do partido sabiam que esses edifí­cios, que sempre eram mencionados como Imperador Amarelo, eram utilizados para abrigar as discussões mais importantes so­bre o futuro da China.

E era precisamente isso que estava ocorrendo num dia de inverno de 2006. De manhã cedo, numerosos carros pretos pas­saram em alta velocidade pelos portões do muro, que imediata­mente voltaram a se fechar. Na maior das salas de conferências ardia uma lareira. Ali estavam reunidos dezenove homens e três mulheres. A maioria deles com mais de sessenta anos, o mais jovem com trinta e cinco. Todo mundo conhecia todo mundo. Como grupo, formavam a elite que na prática governava a Chi­na, tanto política como economicamente. O presidente e o co­mandante em chefe das Forças Armadas estavam ausentes. Po­rém, delegados fariam relatórios a ambos quando a conferência terminasse, apresentando as propostas em torno das quais todos haviam concordado.

Havia apenas um item na agenda do dia. Fora formulado como tópico de grande sigilo, e todos os presentes haviam jurado silêncio. E não havia a menor dúvida de que qualquer um que quebrasse o juramento desapareceria da vista pública sem deixar vestígio.

Numa das salas de reuniões privadas, um homem inquieto, na casa dos quarenta, andava de um lado a outro. Em suas mãos, o discurso em que trabalhara durante meses estava programado para ser lido naquela manhã. Ele sabia que era um dos docu­mentos mais importantes já apresentados ao círculo interno do partido desde que a China se tornara independente, em 1949.

Yan Ba, que trabalhava com futurologia na Universidade de Beijing, recebera essa incumbência dois anos antes, do próprio presidente da China. Daquele dia em diante, fora liberado de seus deveres profissionais e ganhara uma equipe de trinta assis­tentes. Todo o projeto estivera envolto em segredo absoluto e fora supervisionado pelo serviço de segurança pessoal do presi­dente. O discurso havia sido escrito num único computador, ao qual apenas Yan Ba tinha acesso. Ninguém mais vira o texto que ele agora tinha nas mãos.

Nem um único som penetrava as paredes. Segundo um boa­to, essa sala um dia fora um dormitório usado pela esposa de Mao, Jiang Qing. Depois da morte do grande líder, ela foi presa junto com outros três — a chamada Camarilha dos Quatro —, levada a julgamento e posteriormente se suicidou na prisão. Ela exigia silêncio em qualquer lugar que dormisse. Construtores e decoradores sempre viajavam antes para cuidar do isolamento de seu quarto; soldados eram mandados para matar cães que pu­dessem latir no raio de audição de qualquer aposento, mesmo temporário, onde ela estivesse acomodada.

Yan Ba checou o relógio. Faltavam dez minutos para as nove. Ele daria início à apresentação precisamente às nove e quinze. As sete da manhã tomara um comprimido que seu médi­co lhe prescrevera, que deveria acalmá-lo sem deixá-lo sonolento. Ele podia sentir que o nervosismo realmente estava cedendo. Se aquilo que estava escrito nos papéis que tinha nas mãos viesse efetivamente a se tornar realidade, as conseqüências abalariam o mundo todo, não somente a China. Mas ninguém jamais sabe­ria que ele era a pessoa que idealizara e formulara as propostas a serem postas em prática. Ele simplesmente regressaria à sua vida de professor e aos seus alunos. Seu salário aumentaria, e ele já se mudara para um apartamento maior na região central de Beijing. O compromisso de sigilo que ele assinara o afetaria pelo resto da vida. A responsabilidade, a crítica e talvez também os elogios pelo que sucedesse iriam para os políticos relevantes a quem ele, assim como todos os outros cidadãos, devia lealdade.

Sentou-se à janela e tomou um copo de água. As grandes mudanças não ocorrem no campo de batalha, pensou. Ocorrem atrás de portas fechadas. Juntamente com os líderes dos Estados Unidos e da Rússia, o presidente da China é o homem mais po­deroso do mundo. Ele precisa agora tomar decisões portentosas. As pessoas aqui reunidas são seus ouvidos. Escutarão o que Yan Ba tem a dizer e farão seus julgamentos. O resultado escoará len­tamente para fora do Imperador Amarelo e ganhará o mundo.

Yan Ba recordou-se de uma viagem que fizera alguns anos antes com um geólogo amigo. Percorreram as regiões montanho­sas mais remotas onde se localiza a fonte do rio Yang-Tsé. Acom­panharam a correnteza sinuosa e cada vez mais estreita até um ponto onde não havia mais do que um fio d'água.

Seu amigo pusera o pé na água, dizendo: "Agora estou detendo o poderoso Yang-Tsé em seu curso".

A memória desse incidente o estimulara ao longo dos la­boriosos meses em que estivera preparando sua palestra sobre o futuro da China. Agora era ele a pessoa com o poder de mudar o curso do possante rio.

 

Yang Ba pegou a lista dos delegados que começavam a to­mar posto na sala de conferências. Todos os nomes lhe eram familiares, e ele admirava-se com o fato de estarem se reunin­do para escutá-lo. Era um grupo das pessoas mais poderosas da China: políticos, alguns militares, economistas, filósofos e, não menos importantes, os chamados mandarins pardos, que ideali­zavam as estratégias políticas que eram constantemente confron­tadas com a realidade. Havia também alguns dos mais impor­tantes analistas de assuntos internacionais e representantes das organizações de segurança. Todos faziam parte da engenhosa composição que constituía o centro do poder na China, com sua população de mais de um bilhão de habitantes.

Uma porta abriu-se silenciosamente e uma garçonete vesti­da de branco entrou com a xícara de chá que ele havia pedido. A moça era muito jovem e linda. Sem uma palavra, depositou a bandeja e saiu.

Quando finalmente chegou a hora, ele examinou seu rosto no espelho e sorriu. Estava pronto para pôr o pé no rio e deter o seu curso.

 

O silêncio era total quando Yan Ba ocupou seu lugar no púlpito. Ajustou o microfone, arrumou os papéis e lançou um olhar para a platéia, que parecia sombria na penumbra.

Começou a falar sobre o futuro: a razão de estar ali, por que o presidente e o comitê central o haviam chamado para explicar que agora eram necessárias mudanças fundamentais. Contou para a platéia o que o presidente lhe dissera quando o incumbira dessa tarefa.

"Nós chegamos a um ponto em que uma nova e dramática mudança se impõe. Se não fizermos a mudan