Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O HOMEM DISFARÇADO / Fernando Namora
O HOMEM DISFARÇADO / Fernando Namora

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O HOMEM DISFARÇADO

 

Acudam! Acudam-me!

Ele viu a mulher chegar à porta da rua, perfurando com o seu grito o silêncio morno da atmosfera, e retroceder sem demora para dentro. Isso aconteceu precisamente quando o empregado da garagem esfregava com brio profissional as nódoas dos cromados. Ouvido o grito, o rapaz quedou-se, gestos suspensos; subitamente pálido, endireitou o tronco numa lentidão de sonâmbulo, à espera, decerto, que João Eduardo lhe apoiasse a alarmada curiosidade. Mas este ficou indiferente.

- Que teria acontecido, senhor doutor?

João Eduardo encolheu os ombros e o rapaz olhou-o com um espanto em que já não se continha a reprovação. Não podia adivinhar que o cliente, que ele decerto não sabia ser médico, se habituara de tal modo à dor banalizada em espectáculo, a maioria das vezes apenas justificada por um faminto apelo à solidariedade alheia, aproveitando-se de todos os pretextos para a cativar, que só podia sentir-se enfastiado ou divertido com esse sobressalto gratuito.

Várias pessoas espreitaram às portas, estonteadas como pássaros enxotados da gaiola, coscuvilhando a rua à procura de uma pista que os guiasse na sua avidez de compartilhar o acontecimento. A sua sôfrega agitação repercutia na atmosfera, saturando-a de um denso rumor.

- Quem teria sido, senhor doutor? - insistiu o rapaz, já tão desamparado na sua perplexidade como os vizinhos que se iam agrupando na rua.

-Foi ali da frente. Do prédio da esquina. Uma mulher vestida com uma saia verde...

- A província, não?

- É possível... - concordou João Eduardo com bonomia.

- Então foi a porteira!

O rapaz ainda estendeu a camurça a todo o comprimento dos cromados, num gesto mole e contrariado, enquanto lá fora crescia um tumulto informe de frases soltas, de passos sem finalidade, de expectativa suspensa sobre os sentidos.

-Mas quando uma pessoa grita assim...

- Deixe lá a mulher e acabe de me limpar o carro...

- Acaba-se num momento, senhor doutor. Mas ali houve coisa.

-Talvez, mas é com ela.

O rapaz pareceu definitivamente agastado com a impassibilidade do cliente e, de testa franzida, pôs-se a enxugar à toa, por instinto, os faróis do automóvel. Foi então que alguém chegou a uma das varandas do prédio e, fincando os dedos no rosto, exclamou numa voz repassada de horror:

- Que desgraça, meu Deus!

As pessoas correram, sem mais hesitações, para a casa onde se passavam factos extraordinários, que se tornava necessário denunciar à força. O empregado da garagem atirou corajosamente com a camurça e, sem esperar pela concordância do cliente, atravessou a rua. Era inútil tentar sofreá-lo. Começara o festim, pensou João Eduardo. Mas se ele não regressasse dentro de cinco minutos, deixar-lhe-ia o carro e iria a pé para casa. Um passeio de vez em quando só lhe faria bem. Estava a engordar. (Olhou-se de soslaio no brilho da pintura do automóvel, repentinamente esquecido de tudo o mais.) Não devia ter interrompido o ténis: aliviara-o de três quilos.

À entrada do prédio reunira-se, de um minuto para o outro, um mundo de gente. E não havia dúvida de que se passara alguma coisa deveras anormal, pois os curiosos, à medida que tomavam contacto com o acontecimento, recuavam, espavoridos, e punham-se a procurar não se sabia o quê, possivelmente um auxílio que não parecia fácil de encontrar. Embora não o quisesse reconhecer, João Eduardo começou também a inquietar-se.

- Chamem os bombeiros! - clamou alguém.

Tudo isso, no entanto, gritos, terror e burburinho, que se adivinhava excessivo, impedia que a curiosidade se lhe tornasse irrefreável. E como a lembrança dos bombeiros sugeria, naturalmente, um incêndio, imaginou que nalgum dos andares do prédio se levantara uma inocente fumarada, o bastante, porém, para que o povoléu, guloso de tragédia, ampliasse, como era hábito, as proporções do sucedido. As pessoas não gostavam de ser ludibriadas quando exibiam uma adesão de melodrama. E se os outros não lhes justificavam fartamente a generosidade, tomavam eles a iniciativa. Ou, então, a tragédia é um pormenor, cogitava João Eduardo: o que importa é o ensejo de mergulhar, como aves de rapina, na intimidade dos outros, que normalmente lhes foi vedada, e vir de lá com as unhas a escorrer sofrimento ou podridão. Este apoio humano espalhafatoso é um saque que goza de impunidade. Devassa, amargura, corrompe, e retira-se ufano do dever cumprido, como uma enxurrada que foi devastar uma seara com o aparente objectivo de lhe apagar a sede. Não, decididamente o passeio ia desentorpecer-lhe os músculos. Só esperaria mais dois minutos.

Mas ele sabia que esperaria mais tempo. A verdade é que não lhe apetecia nada fatigar-se com a caminhada. Andar a pé, qualquer espécie de pausa nas palavras, ou nos gestos, ou nas tarefas, o expunha logo a uma sensação de desamparo em que se encontrava sozinho perante si próprio. Era por isso que, ao chegar a casa à noite, esgotados todos os recursos de prolongar o aturdimento em que vivia, sob uma espécie de narcose feita de ruído e agitação, tomava sem demora um soporífero, antes que as sombras fossem crescendo da insónia. O volante, o trânsito, a velocidade, eram ainda estonteamento. Não iria a pé para casa. Esperaria.

- Afinal, chamam ou não alguém?! - desafiou um qualquer no meio da multidão, como se acusasse todos os outros de uma cúmplice apatia.

Tudo aquilo por um rolo de fumo! As vidas são monótonas, são tristes, os pequenos dramas, repetidos, já não chegam para satisfazê-las. Toda aquela gente sobressaltada necessitava que acontecessem coisas. Nãoiriam largar a presa tão depressa. Lembrou-se, então, de uma cena semelhante que presenciara em Paris. Ele subira ao seu quarto do hotel, um sórdido hotel, onde os lençóis e as toalhas pareciam ter incorporado o sebo de muitos hóspedes, e, de súbito, ouvira também um alarido na rua: "Fogo! Fogo!" E alguns clientes do hotel tinham conseguido esquecer imediatamente que havia um elevador e uma escada, para escolher a única solução espectacular: saltarem pela janela. Partiriam os ossos, sim, mas valia a pena. De todos os lados, sofregamente eficazes, apareceram ambulâncias, como se um instinto glutão as tivesse guiado; de todas as ruelas desembocava um inferno de sirenas. Quando João Eduardo, já convencido da gravidade do incêndio, descera ao átrio, onde o porteiro, antigo palhaço de circo, se escondera por detrás do balcão, soube logo que tudo se resumira a uma fumarada suspeita que se escoava para a rua através da cave do restaurante contíguo. Apurado o caso, a história tornara-se ainda mais burlesca: nessa noite, o restaurante contratara um pasteleiro que deveria trabalhar até madrugada, pois no dia seguinte servia-se um banquete, e daí aquela fumarada a desoras. A última recordação que lhe ficara do acontecimento havia sido uma sonoríssima bofetada a que assistira da janela, ao subir de novo ao quarto. Ele, o agressor, era um mocetão acolchoado em blusões, cabelos esgrouviados, e ela uma esguia rapariga a quem as calças ajudavam a sugerir uma gazela pernalta. A disputa começara antes, também em plena rua e no auge do bulício, precisamente quando João Eduardo descera ao rés-do-chão, mas ninguém se preocupara com isso. Provavelmente um dos curiosos aproveitara-se das circunstâncias e a gazela ter-se-ia mostrado dócil, embora ali perto a vigiasse o companheiro. Burlada a expectativa do incêndio, os nervos de toda a gente, em especial os do mocetão, exigiam uma desforra. A bofetada fora, assim, oportuna e arrumara as confusões.

Sempre que recordava essa noite, a cena entre o par de namorados surgia-lhe associada ao cómico malogro de uma tragédia que se explicava por um fabrico de pastéis. E no fundo da maioria das tragédias não existiria uma fumarada a escapar-se de um forno, inúteis e aflitas sirenas e um pasteleiro que desperta, atónito, do seu trabalho interrompido?

- Um automóvel! Depressa, depressa!

E a essa voz verdadeiramente ansiosa e transtornada, seguiu-se logo outra, vinda do cruzamento das ruas que desembocavam em frente da garagem:

- Então não há quem acuda a uma desgraça?

João Eduardo estremeceu. Afinal, entre esse brado e os anteriores, tinham-se passado breves segundos - e só agora a evidência do real lhe manifestava o desencontro entre o tempo exterior e o fluir lento e saboroso das suas cogitações.

O homem que lançara o apelo encontrou à frente dos olhos a passividade de João Eduardo, que, ao portão da garagem, de mãos enterradas nos bolsos da gabardina, se encostara a um dos faróis do carro, e encarou-o com irritação agressiva. João Eduardo perturbou-se. E desejou sair dali o mais depressa possível, mas subtilmente, com naturalidade, como se ninguém tivesse dado ainda pela sua presença. Dentro dele, começava a derramar-se aquele ressentimento surdo, feito Í de emoções desperdiçadas e violentadas, sentido para u com todos os que lhe exigiam que fingisse participar de vidas e anseios que não lhe diziam respeito. Estava cansado de fingir - e os outros persistiam em impor-lhe que continuasse fingindo.

Iria a pé, definitivamente. Mas agora teria de esperar que esse histérico dos berros, que ainda não deixara de o fixar, descobrisse outro alvo para a sua censura.

E, de súbito, João Eduardo sentiu-se um homem isolado, perseguido, acossado como uma peça de caça. Eles, os outros, eram todos solidários, com as mesmas alegrias e amarguras, e tinham-se armado de espingardas para o fecharem naquele último reduto da solidão. O incêndio, os berros, a fumarada, haviam sido a armadilha. Ei-lo dentro dela, um réprobo, sem poder escapar-se. O medo apossara-se da sua indiferença, esse terrível pavor que se seguia sempre à falência dos seus esforços em permanecer de lado.

O rapaz da garagem, finalmente, regressou. Mas vinha desfigurado; não havia uma gota de sangue no seu rosto; não havia uma réstia de calor nos seus lábios agónicos. Mais impressionante ainda do que essa palidez era a estranha tranquilidade que lhe imobilizara os gestos.

- Que se passa?

O outro despegou, a custo, os lábios transidos.

- Está uma criança entalada no elevador. Ficou negra.

- Ainda... vive?

- Não se sabe. Mas tem a cabeça inchada e negra. O elevador apertou-a. Desculpe ter demorado.

João Eduardo sentiu repentinamente uma dor sobre a nuca, uma ansiedade dolorosa, logo substituída por um suor gelado e viscoso, por uma repugnância do horror daquela visão - e cerrou os dentes. Todas as suas vísceras se contraíram. Mas era sobretudo uma reacção física, da sua carne revoltada contra a ameaça de um contacto repulsivo. Viva? Morta? Ele era um médico: ainda que todo o auxílio fosse tardio, encontrava-se ali a dois passos e era o seu dever que estava em jogo, quanto mais não fosse o dever de um profissional.

Um segundo de indecisão poderia traduzir-se pelo irremediável; uma vida, enfim, dependeria, certamente, desses instantes em que ele necessitava de dominar o repúdio ou o fastio. Tolices! Era impossível que a criança não estivesse morta. Que ia lá fazer? A sua intervenção não resultaria tão ingénua, tão falsa, como a dessa gentalha alvoroçada que representava um melo­drama?

- Não vai lá, senhor doutor?

Eram como abutres: laceravam-no antes de o devorarem. Para que teimava em permanecer ali, expondo­-se? O rapaz conhecia-o apenas como cliente, um nome qualquer gravado na placa do interior do carro, precedido de um doutor, mas daí a sabê-lo ou supô-lo médi­co ia uma boa distância. A cidade estava cheia de dou­tores, não havia profissão que não se saturasse dessa praga. Portanto, era-lhe fácil escapar-se sem que a sua fuga os indignasse.

- Não vai lá ver? - repetiu o rapaz.

- Não sou curioso. Mas a criança... respira ainda?

- Quem sabe! - exclamou o outro, e a sua emo­ção pareceu aliviar-se com essa oportunidade de se va­lorizar como cronista do acontecimento. - Era um bo­nito garoto...

- E como foi que isso aconteceu?

- Ninguém assistiu ao desastre. Já telefonaram pa­ra o hospital. Estão à espera de uma ambulância.

Morto? Vivo? Mas não bastava atravessar a rua e chegar junto da criança; entre eles, estava o gesto de se exibir como médico, o acto voluntário de se tornar momentaneamente o protagonista de uma história que não lhe pertencia, de se confundir nesse arraial provinciano. E havia ainda o espectáculo de uma criança deformada, um insulto à sua carne, que se eriçava só de imaginá-la assim. A angústia fez-lhe bater os dentes. Sentia-se repassado de frio. A criança estava morta, evidentemente; a sua intervenção seria grotesca. Não lhes ia oferecer esse manjar.

No entanto, não lhe seria custoso aproximar-se da criança sem grande alarde. Mesmo que tivesse de dizer "deixem-me passar, por favor, sou médico", para que lhe permitissem socorrê-la, nessa altura já teria transposto o obstáculo dos curiosos, a promiscuidade afectiva que lhe transmitiam. E, embora inútil, a sua presença significaria um apoio fraterno no meio do desamparo, da indecisão, de que toda aquela gente se achava possuída. Que o impedia então de o fazer?

Dias antes, havia parado o carro em frente de uma leitaria, para tomar à pressa um café antes de subir ao consultório. Um velhote com um papel numa das mãos, que lhe parecera vagamente uma mortalha, batera-lhe nos vidros do automóvel. Não tinha tempo a perder e fingira não reparar no pedinte. Mas depois, ao voltar para o carro, o seu egoísmo dera-lhe uma sensação de incomodidade e aproximara-se do velho. "Era um cigarro o que o senhor queria?" O velho estendera-lhe, em silêncio, o papel. Não era mortalha, não. Nele estava escrito um endereço, que era, aliás, muito longe daquele local. E se ele conduzisse o pobre homem à rua desejada? Era por vezes tão fácil ser prestável aos outros, oferecer-lhes uma ilusão de simpatia humana e receber em troca um pouco de tranquilidade! "Isto fica para o outro lado da cidade. Como veio o senhor aqui parar?" O velho ainda nada dissera dessa vez; os dedos enrolaram vagarosamente o papel, os olhos permaneceram melancólicos e suaves como os de um boi. E, de súbito, João Eduardo viu-lhe a hedionda ferida na garganta: um buraco de bordos inflamados onde existira um cancro. E fugira. Porque lhe acontecia esse pavor, cada vez mais intenso, sempre que, fora do hospital, se lhe deparavam misérias físicas?

Um carro ganiu numa travagem brusca. Era, enfim, a ambulância. João Eduardo recuou para o interior da garagem, no receio de que o cerco de bisbilhoteiros não fosse suficiente para lhe esconder a cena que iria seguir-se: a criança transportada nos braços de alguém para dentro da viatura.

Quando tudo aquilo acabou e as pessoas se dispersaram lentamente, como se alguma coisa ainda as retivesse no local, onde, por momentos, haviam usufruído a oportunidade de mergulhar, de improviso, no convívio alheio, João Eduardo sentiu-se serenado. A ambulância, afinal, não demorara. No espaço de tempo que decorrera entre o grito da mulher e a chegada dos socorros, ninguém teria valido à criança. O que alguém podia ter feito era simplesmente oferecer à mãe do garoto um simulacro de protecção. Mas ele sabia-se incapaz dessa fraternidade gratuita. Bastava que tivesse de iludir aqueles que lhe pagavam para isso.

- A porteira é casada?

Era uma pergunta descabida. Mas ele precisava de se dispersar em pormenores. A sensação de alívio que experimentara à chegada da ambulância começava a desvanecer-se. Vinha corroê-la a memória de cobardias e indecisões anteriores. Que restava de si próprio? Quando, por fim, se separou do garagista, acelerando; destemperadamente o motor, era como se fugisse de: um crime. De um crime que ele tivesse cometido.

Só quando a criada lhe retirou da frente o prato do assado, em que mal tocara, é que João Eduardo teve consciência de que a mulher, pela primeira vez, não insistira para que ele comesse. Ele não teria reparado na melopeia habitual: "Um pouco mais, João: precisas de te alimentar melhor", mas já o molestava que a frase não fosse pronunciada. E era estranho que essas palavras monocórdicas, que Luísa transformara numa ladainha enervante, quase no pretexto de um diálogo impossível, subitamente lhe fizessem falta. Por isso, encarou a mulher com precaução e curiosidade. Luísa tinha os olhos pisados e turvos de insónia, como se não dormisse há muito. E parecia-lhe que esses olhos, outrora grandes, agitados, eram agora miúdos e lentos, como se a indiferença os houvesse gasto. Indiferença? Nem ele o saberia. Talvez fosse resignação, fadiga, abandono, ou qualquer outra coisa que se devorara a si mesma e se esquivava à sua observação apressada. Luísa mudara - reconhecia-o, e com o espanto de quem se vê perante um acontecimento imprevisto. Haviam decorrido anos, que tanto pareciam dias como séculos, a vida modificara-se de um modo tal, que, vista desta outra margem, lhe dava uma sensação de nada ter de permeio onde se apoiar. Estava no cimo de uma montanha; e verificava, de chofre, que para qualquer dos lados, recuando ou avançando, o esperava um espaço vazio. E durante a mudança alucinada eles tinham-se distanciado inacreditavelmente um do outro. Cada um fora obrigado a te­cer o seu mundo e a refugiar-se dentro dele, embora não tivessem premeditado esse isolamento. Mas por­quê? - inquiria agora de si próprio, fixando, absorto, os olhos murchos de Luísa. Ele lutara pelo êxito, ou talvez mais exactamente: pelas aparências desse êxito; e por fim nem ele nem Luísa podiam separar já o que ha­via de artificioso nas suas palavras, nas suas amizades, nos seus sentimentos - prolongando o hábito da simu­lação até nas relações familiares. Anos atrás, no rescal­do dos primeiros desvios, olhavam um para o outro, confusos e doridos, e teria sido então quase fácil um duelo franco de recriminações. («Deve-se sempre ferir por inteiro. É muito menos penoso do que a verdade a prestações», dissera-lhe um dia Silvina. Silvina, a outra, um dos poucos acasos persistentes da sua vida. Silvina era pouco mais do que um animal de instintos - mas há lá maior sabedoria do que a dos ignorantes!) Cada um se acobardara, porém, apaziguando-se com a espe­rança de que a consciência da traição os protegeria de novas ciladas. Depois, esse jogo com a verdade tinha multiplicado os seus ardis, esmorecendo de cada vez que se repetia, até se esgotar. Permanecia, no entanto, o mutismo potencialmente agressivo de Luísa.

João Eduardo queria convencer-se de que nem tudo fora violado, que iria emergir de um momento para o outro da zona de obscuridade onde temia encarar-se, e então interpunha a presença de terceiros para que o silêncio da mulher não fosse explodir, denunciando-os sem remédio; os terceiros eram um escudo através do qual a censura de Luísa se constrangia. Quando João Eduardo comentava com exuberância e truculência os eventos, as pessoas, as farsas que os rodeavam, o ardor que por vezes punha nessa mordacidade era exclusivamente dirigido à mágoa ou à frieza impassível que ia investigando no rosto da mulher. Essa comunicação por intermédio de testemunhas, que lhes deixava os problemas adiados, também por fim gastara os seus recursos. Ficava o silêncio. O silêncio, no fundo do qual adormeciam as reacções que talvez um dia acabassem por apodrecer.

Entre outras razões, fora por isso que Silvina e certas mulheres fortuitas haviam entrado na sua vida. Procurava o amor, mesmo fictício, com a ansiedade de quem busca um acontecimento no deserto. Pouco lhe importava que elas o copiassem na mesma comédia de cinismos, emoções, tragédias, para o impressionarem.

Qualquer delas tinha sido um subterfúgio, um comparsa aliciado para compartilhar da sua solidão. O sarro final, porém, era sempre o mesmo: a náusea de se ter ludibriado. "Onde nos conduz tudo isto?", perguntara-lhe um dia Silvina. "A uma porta fechada." Com Silvina podia, ao menos, ser franco. Daí, as suas relações perdurarem, embora não lhe tivesse amor, nem já atracção carnal, e o apavorasse a ideia de que Luísa viesse a suspeitar dessas relações, que, aliás, só muito fortuitamente haviam passado pela intimidade física, uma intimidade decepcionante, que ambos faziam por varrer da memória. Mas conservando a rapariga na órbita da sua vida, era como se guardasse um trunfo contra o desdém de Luísa.

- Podes dizer à criada que sirva o resto.

- Tens pressa?

Ficara-lhe nos ouvidos a insidiosa ironia instilada na pergunta. Nos últimos tempos, João Eduardo demorava-se em casa o mínimo possível e já não procurava esconder a impaciência. Ali, sentia-se um estranho. O agravo surdo da família mordia-lhe os nervos. Corria para a rua, para o trabalho, para o tumulto, a estontear-se, de modo que lhe fosse difícil encontrar-se a sos consigo. O êxito favorecia-o, anestesiando-o, e oferecia-lhe ainda a justificação para os dias e as noites perdidos longe dos seus. Quando regressava a casa, Luísa dormia, não o embaraçando com perguntas. Nem sempre assim acontecera, pois a mulher, dantes, esperava-o a qualquer hora que chegasse, na pequena saleta, que o seu bom gosto havia transformado num tépido refúgio, onde se iam acumulando recordações de viagens e dos lugares em que tinham vivido, e que ela por vezes afagava com as mãos, como a certificar-se se continuavam válidas no muito que sugeriam. Mas como João Eduardo nem reparasse nessas vigílias, ou as comentasse com uma irritação mal dissimulada, Luísa desistira.

Desde quando o silêncio se tornara irreparável? Desde quando Luísa deixara também de ser a mesma?, Até fisicamente ela mudara. Anos atrás, ainda Luísa,já amadurecida como mulher, fora acometida de um surto de exibição. Já que o marido achava indispensável que ela cuidasse de si, que vestisse bem, que fosse aos espectáculos e às reuniões mundanas misturar-se com gente próspera, Luísa deslumbrara-se episodicamente; com o evidente triunfo da sua beleza. Era uma sensação nova, um vinho delicioso e perturbante, e que, de certo modo, a aturdia num saboroso estouvamento. Mas logo que a curiosidade dos outros se fartara e que a sua presença deixara de atrair os enxames de amigas encantadoramente cínicas e de homens enjoativos e mesureiros, sentira-se como um cavalo adornado, que teima grotescamente em prolongar as cortesias depois de os chavelhos do touro o haverem estropiado. De um dia para o outro, João Eduardo viu nela uma firme recusa em acompanhá-lo ou substituí-lo nesse convívio de gente leviana e desocupada, da qual ele esperava a consagração das suas ambições, e onde se encontravam aquelas clientes rendosas, para quem as doenças eram uma oportunidade dos dramas que nunca aconteciam na aridez das suas vidas e que se agastavam sempre que as amigas não traduziam desde logo a sua solidariedade, queixando-se dos mesmos sintomas e elegendo o mesmo médico. Em tais reuniões era muito fácil encaminhar a conversa para temas de medicina, sempre tão excitantes!, e responder a uma pergunta com tal fausto de pormenores que as senhoras logo reconheciam estar na presença de um médico seguro de si próprio e que, para mais, pertencia à sua tribo, donde se deveriam afastar os intrusos de casta inferior.

Sim, João Eduardo conseguira apagar todas as manchas do seu passado de pobretão. Para o conseguir, chegara a violentar-se. Luísa, como mulher, adaptara-se mais rapidamente, ou então, no seu caso, o caminho a percorrer havia sido mais curto. Nas primeiras surtidas a um mundo que não era o seu, João Eduardo confessara-se-lhe espantado: "Como podes mostrar-te tão tranquila, tão senhora de ti, no meio... deles?" - "Não mereço elogios. Fica sabendo que toda a mulher nasceu para viver indiferentemente entre duquesas ou entre a ralé, conquanto essa capacidade se evidencie melhor quando se trate de duquesas..." Ultimamente, porém, Luísa tinha-se enclausurado na sua concha de melindre e, desde aí, desleixara-se. O cabelo em farripas, vestida de qualquer maneira, desfeada. Encontrava-a quase sempre impaciente por que os filhos regressassem do colégio para se fecharem os três na saleta, à roda da mesa destinada ao jogo, como conspiradores que tivessem por objectivo o isolamento e a tristeza. Enquant ele continuava a perseguir nem sabia já quê, através de vários disfarces e frenesis, Luísa resignara-se, envelhecendo subitamente e sacrificando os filhos à volúpia da sua renúncia.

João Eduardo, enquanto rodava distraidamente o copo entre os dedos, à procura de um pretexto para se levantar da mesa, sentiu de novo a sirena da ambulância, a travagem aguda raspar-lhe nos ouvidos como sobre uma ferida - e os seus olhos foram em busca de Luísa. Foi um apelo irreprimível. Mas o rosto de Luísa estava ausente, havia nele apenas uma severa frustração. O desastre da criança varreu-se-lhe uma vez mais; o que se evidenciava de imediato era ainda esse rosto torturado. Luísa tinha a pele baça, mortiça e, na verdade, os seus olhos não eram os mesmos. Quem sabe se andaria doente? João Eduardo surpreendia-se às vezes de encontrar à sua volta factos, atmosferas, sentimentos que, pensando bem, já lhe haviam beliscado os sentidos, mas que, de chofre, se apresentavam como bruscos achados da sua observação. Como se levasse tempo a assimilá-los; ou como se as suas preocupações fossem tão absorventes que não consentiam que outras, as acessórias, se interpusessem entre si e o único alvo que as poderia justificar. Tais surpresas tornavam-no irrascível. Não as admitia. Sobretudo se era a família a provocá-las.

Que ao menos a família lhe desse uma ilusão de paz, de ter atrás de si, sempre que partia para a luta, um reduto sereno, arrumado, definitivo, onde regressar sem o medo de mudanças. Por outro lado, temia-as pelo quanto lhe iam vasculhar problemas de consciência, que ele desejava ver sedimentados antes de ser coagido a esclarecê-los. Havia amontoado febrilmente emoções, desenganos, perplexidades, e ainda não tivera tempo de classificá-los. Ia adiando sempre. Vagamente, reconhecia que se tornava necessária uma revisão e reconhecia-lhe ainda a urgência pela ácida amargura que por vezes aflorava à vertigem da sua actividade e pelo vazio que lhe encharcava as horas mortas, mas o adiamento sucessivo traduzia um artifício que lhe defendesse o triunfo antes de o sentir definitivamente alicerçado.

Entretanto, insensivelmente, ia-se distanciando da família, que era ainda o único elo sólido que o ligava ao passado - visto que as amizades, os hábitos e os sonhos de outros tempos iam-se esboroando em si próprios, apesar de ter feito muito para os suster. Não havia represa que contivesse o desgaste da torrente.

De súbito, uma vez mais, o ganido dos pneus arrastando-se no alcatrão da rua. A criança agonizante, horrenda - ou talvez não, ou talvez não. As suas mãos presas aos bolsos da gabardina. Precisava de saber sem demora o que acontecera com o garoto!

- Nem ao menos provas estas laranjas?

Ele estremeceu na cadeira como se o tivessem electrizado. "Deixa-me, Luísa! Depois de tantos anos, é tudo o que tens para me dizer?", apetecia retorquir-lhe. Mas, como sempre, não o faria. Luísa, Luísa. Tão próxima e tão distante. Há quanto tempo a conhecera? Onde, quando? Que era feito desses anos e do que haviam significado? "Que é feito de nós, Luísa?!"

Tinha sido há muito, sim, como se fosse numa ou tra vida, e bem longe dali, numa vilória dos confins da província. No entanto, haviam passado somente uns dez anos. Mas o tempo, que, vasto e insaciável, digerira esse e outros factos, não importava; o que importav eram os logros acumulados, os resíduos, as dádivas de si próprio, que ninguém estendia a mão para receber e estimular, a crosta que, por fim, resultara das contradições que ele não soubera vencer, as circunstâncias ali ciadoras que só lhe espreitavam uma fenda na sua pureza interior para o desfigurarem.

Agora, que do nevoeiro do tempo apenas se salien tavam as pessoas e os acontecimentos que realment definiam um ambiente, João Eduardo recordava a rua branca, a praça sem árvores, afogueada por um sol mo lengão, que se estirava sobre as casas como um lagarto e a Sr.a D. Emília. Tinha de começar por evocá-la a regressar da missa com um chapéu aberto ao sol, à chuva ou simplesmente ao receio de uma dessas coisas, cal çando uns incríveis sapatos de comprimento desmedi do, onde os pés chocalhavam, e fazendo emergir da espessa couraça de blusas, casacos, abafos, que a protegiam das gripes, a sua cabeça agitada e magra, de pássaro fechado num corpo de tartaruga.

Quando João Eduardo chegara à vila, ainda D. Emília conservava o marido vivo. O velho, bêbado era, porém, já um inválido; havia anos que não saía da cama, donde insultava meticulosamente, e nos termos mais desbragados, as pessoas que o rodeavam, com um papagaio que, da prisão do poleiro, faz dos insultos o seu canto. Porco, desbocado, truculento, sujando os lençóis por uma refinada malvadez, o ébrio absorvia quase todo o tempo da buliçosa senhora; além das horas da igreja, que ela não perdoava a ninguém, mesmo que, por vezes, lhe custassem umas constipações, pouco lhe sobrava das tarefas de dona de casa e de enfermeira do marido. E era por isso que as suas arremetidas à vida alheia, gulosas e implacáveis, não podiam ter aquela continuidade que lhe refervia no temperamento; mal afastava as cortinas da janela, com a discrição de uma dama de princípios, a fim de inspeccionar os rumores da vila, ou logo que a lavadeira lhe segredava os mexericos mais recentes, o marido urrava do seu poleiro e, para evitar o escândalo, a D. Emília tinha de o atender sem demora.

A Sr.a D. Emília havia sido uma das primeiras clientes de João Eduardo. Começara por lhe mostrar os pés torturados, onde os calos, de uma exuberância coriácea, pareciam prolongar a rijura dos ossos. Era por isso que ela usava os tais sapatos grotescos. E, depois dos calos, vieram os receios das gripes, dos tifos, as pontadas e, de um modo geral, todas as doenças que ela ouvia contar terem acometido as outras senhoras do burgo. Não admitia que alguém, na vila, pudesse gabar-se de uma doença mais merecedora de lamentações e de repetidas visitas médicas do que ela. Porque a D. Emília era uma senhora. A primeira senhora da terra, repetia-o a toda a gente, neta dos maiores suseranos da campina. O casamento com o bêbado fora um acidente. Já que ninguém ousara transpor a distância que ia dos homens casadoiros da região aos pergaminhos que ela podia exibir, aceitara as fanfarronadas do primeiro atrevido que lhe passara à porta. O atrevido tinha sido não se sabia o quê, ajudante de notário, amanuense, misteres de peralvilho - mas era um homem e cantava serenatas com voz melodiosa. Chegara na altura em que para a D. Emília, já órfã, cercada de parentes vorazes, que lhe espreitavam a herança, um homem bastava.

Quando João Eduardo era chamado a observar a senhora, acudiam à porta as criadas, que se mantinham presentes durante toda a visita, como se precisassem de lhe defender o pudor das investidas do estranho. Mesmo depois de essas visitas se terem banalizado até uma certa familiaridade, e que a senhora já não se ralava tanto que a voz avinhada do marido atravessasse a muralha das portas fechadas, ainda ela protestava que o médico, para a auscultar, a obrigasse a despir boa parte das roupas interiores. Numa voz aflita, mas firme, gritava sempre:

- Raparigas!, não saiam agora daqui.

  1. Emília misturava as suas queixas de doente com um rigoroso inquérito sobre os acontecimentos da vila. Tanto que ele devia saber da vida alheia, enfiado como estava em todas as intimidades que se negavam a outros olhos que não fossem os de um médico! Nas suas manhas para ser elucidada, mudava de voz, certa de que os seus sessenta anos ainda poderiam ser insinuantes. Também lhe oferecia qualquer novidade em troca; por vezes, levava-o à janela e, abrindo uma fresta nas cortinas, dizia-lhe:

- Repare quantas vezes aquela mulher passa em frente da padaria. E tudo assim! Cheiram os homens como cadelas. O senhor doutor já ouviu dizer alguma coisa acerca dela?

Do quarto do ébrio rompia uma trovoada:

- Quem é esse cabrão que está aí?!

  1. Emília encolhia-se no xaile, a defender-se da vergonha ou da tormenta, e cruzava as mãos à frente do peito, imitando os santos mártires. Era uma senhora com um vilão dentro de casa.

Foi numa dessas visitas que a D. Emília lhe apontara a rapariga estrangeira na vila. Loura, de longos cabelos atados sobre a nuca, como uma colegial, a cabeça insolente erguida acima dos motejos do burgo. E de calças, meu Deus! Tinha de ser forçosamente estrangeira, lá dos lugares donde o nome de Cristo andava arredio. Nem uma mulher perdida se atreveria a tanto.

- Veja, senhor doutor, veja!

E, na insistência, parecia associá-lo à responsabilidade daquele descaro.

-Não conheço.

- O senhor também não conhece ninguém!

A rapariga hospedara-se na pensão da vila e com ela viera um homem de meia-idade, gordo e asmático, escolhido no concurso para a Secretaria de Finanças. Mulher?, amante?, filha? Tio - diziam eles, um e outro, e tiveram desde logo de esmiuçar mais pormenores, pois a sua reserva poderia ofender excessivamente a legítima curiosidade da terra. A expressão fatigada do homem, que parecia uma destas pessoas amolecidas pelos contratempos, ocultava, por certo, as obscuras circunstâncias em que a sobrinha caíra sob a sua protecção.

A rapariga, sem nada para ocupar os dias, saía da pensão depois de almoçar e vagabundeava sozinha pelos campos. Às vezes surpreendiam-na a assobiar como um rapaz, sorrindo deslavadamente a quem quer que encontrasse pelos caminhos solitários. De uma vez metera conversa com um pobre moço de lavoura, que regressava a casa com um cavalicoque, pedindo que lhe alugasse a besta para uns passeios.

- A besta é do patrão.

- Quem é o teu patrão?

E tivera a desfaçatez de procurar o lavrador, repetindo-lhe o pedido que fizera ao rapaz. É claro que o homem tirara partido da impudência.

- Isto não é animal para uma senhora. Escolha aí entre os cavalos do meu uso. E fico às suas ordens para a acompanhar...

Daí em diante, viram-na algumas vezes com o lavrador, na charneca, bem fora de portas. Depois, de um dia para o outro, essas relações terminaram. O lavrador, instado a explicar o amuo, escusara-se com um sorriso repleto de insinuações.

Uma porca, era evidente. Por isso, decerto, o secretário de Finanças continuava a recusar os convites para aparecer no clube e nem se sentara ainda, uma única vez, nos bancos da praça. Lento, de cabeça baixa, fugia das pessoas decentes para se fechar na pensão. Ele e a sobrinha liam até altas horas. Sabia-se que o dono da pensão se vira obrigado a bater-lhes à porta várias vezes para os admoestar por um tal desregramento de costumes, que se traduzia numa boa conta de electricidade. A rapariga, porém, no dia seguinte, voltava às suas madrugadas de vadiagem, vestida de calças ou de qualquer outra maneira não menos imprópria. Também não frequentavam a missa. Todo esse escárnio dos hábitos respeitáveis da vila exigia uma atitude firme da parte de uma das pessoas gradas; mas o secretário de Finanças, somente acessível nas horas de repartição, tinha por si a autoridade de quem se encontra por detrás de uma banca oficial, e da repartição para casa também não era fácil travar o passo de um homem que apenas respondia com um aceno correcto mas sóbrio aos cumprimentos de quem o saudava.

Foi então que a D. Emília (que aliás se vangloriava de ter voltado a cara a um dos sorrisos da atrevida) sugeriu

que alguém procurasse, de preferência, a rapariga e a fizesse tomar consciência do decoro que devia ao ambiente. E a senhora lembrou-se logo do médico. O médico ia por vezes à pensão acudir a um ou outro dos viajantes beberrões que por lá passavam, e talvez mesmo ele tivesse já os seus entendimentos com a intrometida. Pois não se oferecia ela a todos os homens? Certamente que a D. Emília se lembrara do médico, também um estranho na terra, para misturá-lo capciosamente nessa prevenção para com os desconhecidos que lhes entravam portas adentro.

João Eduardo foi chamado a sua casa. D. Emília, dessa vez, tinha uma bolhinha num dedo e queria saber se dali rebentaria um carbúnculo ou um antraz. Velhacamente, enquanto gania com os apertões do médico, foi insinuando:

- Que mal fiz eu a Deus para adoecer todos os dias! Não me dirá? E há tanta gente que bem merecia o castigo do Senhor!... Aqueles da pensão, por exemplo. Já os tratou de alguma coisa?

- Não sei a quem se refere.

- A essa mulher.

- À Luísa?... - perguntou ele num sorriso divertido.

- Já lhe sabe o nome!

- É natural. É minha vizinha.

- Ah!

E esse "ah!" era como se, finalmente, tivesse encontrado a pista de muita coisa tenebrosa.

- Os deveres de um homem digno - começou a Sr.a D. Emília, como se despejasse um discurso minuciosamente preparado - vão mais longe do que as obrigações profissionais. Devia falar-lhes. Que saiam daqui. Que não ofendam mais as pessoas honestas que cá vivem.

- Tenho-me na conta de honesto e ainda não me ofenderam. A bolhinha não tem importância, senhora dona Emília. Boa tarde.

A senhora ficou emudecida de espanto.

Luísa, na verdade, era uma rapariga singular. Havia nela uma ousadia pretensiosa, ou seria apenas corajosamente simples? Era ainda provável que as suas atitudes azougadas escondessem uma irreprimível infantilidade e boa-fé. Dava-lhe a ideia, muitas vezes, de uma adolescente a exibir uma falsa irreverência. João Eduardo habituara-se a cumprimentá-la furtivamente da janela, desde aquela noite em que fora chamado a cuidar do tio. Este era acometido frequentemente de crises asmáticas, quase sempre nocturnas. João Eduardo ocultara esse acontecimento da velha bisbilhoteira para evitar um aluvião de perguntas. Nessa tal noite, também já com a coscuvilhice que o ambiente lhe ia contagiando, sondara as relações entre os dois. Pareceu-lhe notar uma espécie de secreta submissão da parte da rapariga. Depois disso, não tinham falado mais. Apenas o cumprimento da janela. Mas agora o pitoresco diálogo com a D. Emília viera aguçar-lhe o interesse, embora fosse demasiado bisonho e tímido para provocar um encontro. Foi então que se deu o caso do garoto atacado de difteria.

O pai do doente, um camponês dos arredores, trouxe-o à vila rodeado do aparato do costume. Enrolara-o num cobertor e as pessoas, extasiadas, ouviam a respiração a sufocar-se e vinham espreitar o rosto exausto da criança, os seus olhos mortiços, o espasmo dos músculos do pescoço, onde as veias pareciam estoirar a todo o momento na carne túrgida. E os curiosos quedavam-se a abanar a cabeça, cépticos, agoirando a morte. O pequeno ficou na pensão para que João Eduardo pudesse aplicar-lhe injecções durante o dia e a noite. Quando os vizinhos viam passar o médico, acompanhavam-no até junto do quarto do enfermo e permaneciam ali ainda algum tempo até verificarem, pelos seus próprios olhos, a marcha da doença. A vila inteira participava da ansiedade do pai do garoto e de João Eduardo, mas achar-se-ia por certo compensada se o caso terminasse conforme a negridão dos seus prognósticos. João Eduardo observara de há muito que a solidariedade das pessoas estranhas aos doentes se sentia ludibriada quando as coisas terminavam em bem. A alegria não tinha história, desiludia. Significava, de certo modo, uma traição aos que, alvoroçadamente, haviam partilhado do sofrimento alheio.

Numa das horas da noite em que João Eduardo foi acordado pelo camponês, encontrou Luísa junto do doente. No seu rosto não havia tragédia nem avidez. Apenas uma serena amargura. Pela manhã, ainda lá estava. Ouvia com atenção as recomendações que o médico esmiuçava ao pai da criança e passou a vigiá-las ou a tomar a iniciativa de as executar. De uma das vezes, reparou na expressão fatigada de João Eduardo, que regressava apressadamente de uma visita ao campo para estar à hora determinada junto do doente, e disse:

-Perdeu a noite, senhor doutor. Se quiser ter confiança em mim, poderei talvez substituí-lo durante umas horas. Sei dar injecções. Vê-se bem que precisa de descansar um pedaço...

- Também você perdeu a noite...

- Isso não tem importância. Sofro de excesso de boa vida.

- Agradecido. Mas tenho os nervos de um histérico... Só poderei dormir quando liberto da preocupação deste caso.

Luísa ia para perguntar qualquer coisa, mas ambos tomaram consciência da presença silenciosa e amarfanhada do pai do garoto, que desde a véspera não saíra de junto do leito, mãos nervosas sobre os joelhos, repetindo, de quando em quando, o gesto de aconchegar o lençol ao pescoço do filho. Às vezes esperava-se que ele fosse dizer em voz alta: "Meu filho!", quando a respiração estertorosa deixava entre si longos espaços, durante os quais se julgava que tudo iria acabar, mas da mímica dos lábios escapava-se apenas um discreto gemido.

Pela tarde do novo dia, a criança entrou numa modorra que dir-se-ia definitiva. A respiração era mais sossegada, mas até nisso os entendidos reconheciam u mau prenúncio. João Eduardo foi encontrar Luísa ro deada de uma espessa cortina de mulherio, que parecia rondar-lhe as intenções, e no meio da qual o pai do doente parecia também um intruso. As mulheres sentiam-se simultaneamente subjugadas pelo desembaraç eficaz da rapariga, que tomava todas as iniciativas, também suficientemente desconfiadas e receosas para lhe não deixarem os movimentos livres.

Quando João Eduardo assentou o auscultador ness corpo aparentemente moribundo, sentiu sobre si o peso, o lume, a suspeita de todos os olhares. Aguardavam-lhe, cobiçosas, a sentença inexorável. Por isso prolongou a observação, abrindo mais uma ruga na testa engelhada - e, quando poisou o auscultador, disse a Luísa que preparasse outra injecção. Todo esse ritual se tornava necessário. O ritual e o silêncio. Ele aprendera a precaver-se contra a opinião pública, rodeando cada caso de uma atmosfera de dúvida, de dificuldade, quando não mesmo de angústia. E sabia fazê-lo sem clamores. Um sóbrio gesto de desalento sugeria ou aterrava muito mais do que as palavras. Os camponeses seguiam-lhe o jogo sombrio das sobrancelhas e corriam lá fora a propalar que o doente tinha poucas esperanças de cura. Se a evolução da doença ia desmentir o prognóstico, é evidente que a considerariam um triunfo dos seus méritos. A verdade, porém, é que esse êxito não se traduzia por uma aproximação entre ele e o meio que o cercava. Continuava um estranho. Não havia calor humano nem espontaneidade nas suas relações com os doentes. Ainda mesmo quando algum deles o procurava, de coração repleto de ternura, para lhe transmitir a sua gratidão, alguma coisa se interpunha, e de parte a parte se reprimia uma emoção que já não parecia justificada nem verdadeira.

Luísa administrou o estimulante e João Eduardo de novo assentou o auscultador no peito da criança. Por momentos, isolou-se do ambiente, captando através dos tubos de borracha uma vida a comunicar-lhe a sua ânsia de perdurar, a identificá-lo no drama biológico que o aparelho repercutia, como se fossem também os seus músculos a espremer os alvéolos, onde o ar ficava estagnado, e o seu sangue a injectar-se, aos poucos, de uma vitalidade que se ia renovando. Quando teve a intuição de que o doente vencera a crise, quando pressentiu a vitória na sua própria carne, olhou à volta, a testa encharcada em suor, e pôde surpreender o olhar implorante e solidário da rapariga. No rosto dela, os lábios e os olhos estavam húmidos de expectativa, enquanto na gente que os rodeava havia apenas uma curiosidade glutona e obstinada. Por isso, só Luísa pôde compreender a esperança que ele tinha para transmitir. E, compreen dendo, sorriu. Nunca mais João Eduardo esqueceria esse sorriso e nunca, também, o saberia descrever.

O garoto esteve ainda alguns dias na vila, mas o pai logo que o soubera livre de perigo, levara-o para casa de um parente, a evitar maiores despesas na pensão. Luísa continuava a visitá-lo e calhava às vezes encontrar João Eduardo pelo caminho. Atravessando a rua com a rapariga a seu lado, João Eduardo sentia-se incapaz de falar ou de erguer a cabeça. Por muito que ele, até aí, se tivesse defendido da absorção do ambiente, mais pel seu jeito azedo ou retraído do que pelo vigor da sua personalidade, era incapaz de se rebelar, de impor corajosamente os seus gostos ou as suas convicções. Apavorava-o a ideia de que a sua presença na vila acabasse por ser indesejável; sentia-se fracassado, infeliz, sempre que um comentário lhe beliscava o prestígio. Os seus anos de estudante e os primeiros tempos de médico tinham sido tão duros que lhe parecia impossível recompor a vida em qualquer outro lado. Aquele burgo mesquinho surgira-lhe no seu fadário de aflições económicas de sucessivas frustrações, de agravo perante o meio social, como um acaso impossível de se repetir. Os pais, à custa de heroísmos, haviam-lhe oferecido um curso e essa odisseia apenas lhe evidenciara, desde o início, quanto a luta, para alguns, tem de ser um misto de so bressaltos e de raivas. Todos os dias precisava de solidi ficar o terreno conquistado, sob a ameaça de temerosos imprevistos, sentindo o desespero de que não poderia haver outra oportunidade para si e que mesmo esta iria derruir ao primeiro estremeção. Por isso se fustigava a imaginar repetidamente as desventuras que daí adviriam, sondando, através do instinto em alarme, a atmosfera que o espiava. Em cada doente, a quem ele se dava inteiro, numa emoção que o tempo não banalizava, imiscuía-se, porém, essa vigilância, e por isso já não saberia dizer o que em si havia de espontâneo ou de premeditado. No seu trabalho, ou nas horas de estudo, havia uma impaciente ansiedade. Em certas épocas estudava até ficar extenuado, como se se impusesse um suplício para não esmorecer na sua febre de progredir como médico, instigava-se com o espantalho do dia de amanhã, visto que, se viesse a perder a sua situação no burgo, precisaria de estar bem apetrechado para tentar a sorte noutro lugar. Às vezes, algum lavrador mais experiente dos homens dizia-lhe:

- O senhor doutor não é pessoa para estas terras. - Não diga isso!

A sua resposta era quase gritada, era uma súplica - pois todas as insinuações lhe pareciam corroer a sua frágil estabilidade.

Nas temporadas de euforia, quando os proventos e as atenções da vitória o estimulavam a acreditar em si, achava-se, de súbito, a procurar um motivo para se flagelar de novo, como se temesse ser ludibriado por um inconsequente optimismo. E mais uma vez mergulhava nos livros.

Estudava de preferência ao ar livre, num recanto de uma das quintas da vila, para não desperdiçar a ressonância que as suas qualidades de trabalho, ao serem conhecidas, iriam por certo provocar. Dos tempos em que se vira obrigado a suportar muitas humilhações, dormindo e comendo, algumas vezes, nos albergues dos vadios, para conseguir chegar ao fim a todo o custo, aguçara-se-lhe o sentido prático da vida. Toda a sua actividade e mesmo as suas ideias conduziam a uma fidelidade concreta e imediata. Até na profissão havia nele uma operosidade utilitária; desembaraçava-se das es culações para actuar com uma nervosa objectividade embora tivesse o cérebro atulhado de conhecimentos teóricos, que lhe davam uma euforizadora satisfação intelectual e, por outro lado, segurança em si próprio. Esclareciam-no, libertavam-no do temor de que, por ignorância, estivesse a proceder irreflectidamente, tacteando num caminho de sombras.

Luísa viera corrigir-lhe alguns desses complexos Simples e natural como era, e com a coragem de apresentar como tal, a sua alegria desprevenida fazia regressar, por vezes, ao tempo que não chegara a viver. As circunstâncias tinham-no forçado a um amadurecimento precoce. Aos dezoito anos era já um homenzinho céptico. Mas a adolescência recalcada aflorava certos momentos, impondo tardiamente os seus direitos, traduzindo-se em pequenas e ridículas infantilidades: num irresistível desejo de participar nos folguedos do rapazio da vila, por exemplo, ou em divagações sectárias, em que a sua imaginação transformava uma árvore, uma nuvem, em companheiros de aventuras ou longos e fantásticos diálogos.

Luísa ria e troçava de tudo. Mas um gracejo, na sua boca, não tinha azedume; era confiante em todas as suas atitudes; e sedutoramente imprevista. Os seus olhos, o rosto, passavam de um amuo agarotado para uma explosão de entusiasmo. Essas flutuações deixavam-no atónito, receoso e, por fim, definitivamente seduzido, João Eduardo sabia que, no convívio com a rapariga, arriscava a sua reputação, mas agora, pela primeira vez, dispunha-se enfrentar os seus temores.

  1. Emília, como seria de prever, foi a primeira pessoa a fazer-lhe sentir o desvario. Certo dia chamou-o de propósito para o advertir que receava que ele tivesse errado a posologia de uma receita.

- Mas porquê, minha senhora?

- O senhor doutor anda por aí a portar-se como um rapaz. Sabe-se lá em que pensa quando está a tratar de um doente!... - E terminou com rudeza: - Anda a jogar com a vida dos outros.

João Eduardo não teve resposta para lhe dar. As palavras da velha, reflexo de um ambiente de que ele dependia em todas as circunstâncias, impeliram-no para uma misantropia de alguns dias, durante os quais sentiu a sua vida desmoronada. Saiu deles, bruscamente, para se refugiar com angústia na companhia de Luísa.

Começou então a reparar noutras reacções da vila. As mulheres, agora, só o procuravam no consultório acompanhadas de uma pessoa de família; e de uma vez que, na farmácia, chamou uma cliente ao laboratório do boticário, para lhe observar as conjuntivas desmaiadas, o burgo inteiro foi informado de que ele tivera em mente torvos desígnios.

Tudo isso o empurrava para um retraimento mais condenatório ainda, como se ele próprio achasse justificado o labéu de devasso. Evitava, por exemplo, certas observações médicas mais íntimas e as perguntas que poderiam dar lugar a uma interpretação mal-intencionada. À sua volta havia um rumor surdo, olhares rápidos que se escondiam nos desvãos das portas, crianças que se afastavam quando se sabiam observadas pelos pais.

Luísa, gradualmente, apercebeu o que se passava. - Sei bem que esta gente não me tolera. E receio contagiá-lo.

- Contagiar-me? - disse ele, numa voz melancólica e absorta.

-Receio que, por minha causa, acabem também por não gostar de si.

Estavam na colina dos pinheiros, um pequeno e heróico oásis verde que resistira à enxurrada da campina. A brisa morna, que parecia um sopro de um incêndio, despenteava os cabelos da rapariga, despenhando-os sobre os olhos intensamente negros, intensamente brilhantes e febris.

- O contágio já começou - disse ele ainda, evitando encará-la, e com uma vaga inflexão de censura.

- Então é tempo de terminarmos com estes passeios.

E a testa de Luísa enrugou-se. Às vezes era assim: a testa alta da rapariga perdia toda a luminosa altivez para ficar envelhecida e sombria. Nesses momentos, a sua boca, desfeito o sorriso, surgia repentinamente grande, grosseira e amarga.

- Pelo meu lado, espero continuar.

Nas palavras de João Eduardo havia um obstinado ressentimento. Por eles - os outros? -, ou por ela, que, cativando-o, o arrastara para uma indesejável aventura, de que ele não tinha forças para se libertar?

Luísa voltara a cabeça. Os seus olhos devassavam-no.

- Não. É uma teimosia que não conduz a coisa nenhuma.

- Gosto de si, Luísa. É o que importa - replicou João Eduardo, com o rosto transido. Corajosamente, apertou-lhe os ombros, puxando-a para si; e, com a mesma brusquidão, beijou-a.

Toda a sua vida fora esse misto de prudência, sustos, e também de ousados arrebatamentos.

Luísa acedeu à violência do gesto, sem tentar sequer refreá-lo; mas, quando ele a encarou de novo, viu nela uma estranha solenidade.

- Que sabe de mim? Sou uma desconhecida. Para todos, a começar por si. Se você soubesse... não teria ido tão longe. Fez-me mal.

- Diga-me o que se passa, diga-me! - pediu ele, num sobressalto em que havia tanto de pesar por vê-la magoada como de receio por aquilo que ela lhe pudesse esclarecer.

- Não esperava que isto acontecesse. De contrário, teria sido leal consigo.

João Eduardo lembrou-se das tortuosas histórias que corriam as bocas da vila acerca das relações entre Luísa e o secretário de Finanças e temeu, pela primeira vez, que toda essa malvada imaginação tivesse coincidido com a realidade.

- Mas que se passa, Luísa?

- Sou divorciada. E a minha família nunca me perdoou ter lutado por voltar a ser livre. Consideram-me pouco menos do que uma adúltera. Só este meu irmão, que você conhece, se apiedou da minha situação.

- É tudo o que tem para me contar sobre o que possa afastá-la de mim?

- Sim, é tudo. E pode ser já muito.

Ele apertou-lhe as mãos com alívio e frenesi. Nesse momento ouviram restolhar por detrás das moitas. Alguém os espreitava.

Dois meses depois estavam casados. E João Eduardo teve desde logo a certeza que se ligara a uma mulher decidida, que não o deixaria render-se perante o ambiente. Que fazia tudo para lhe incutir uma confiança jovial, e às vezes absurda, nele próprio - e na vida.

Há quanto tempo tudo isso acontecera? Que havia hoje de comum com essas personagens de ficção que emergiam das cinzas do passado?

Nas raras vezes em que a fadiga lhe interrompia

o desassossego, deixando-o bruscamente desamparado como se lhe tivessem oferecido um espaço demasiado sem nada ter para o ocupar, verificava então, com surpresa, que à sua volta havia transformações em que não participara. Como tinha sido possível? E, além disso, pressentia que a família deixara de sofrer esse afastamento; que entre Luísa e os filhos se estabelecera uma cumplicidade para o deixar de fora. Essa verificação aumentava-lhe a insegurança, mas já era tarde para recomeçar. Eles, os outros, e a própria família, não lho permitiriam. Estava só e devia aprender a bastar-se consigo - ou então continuar num torvelinho, que só terminaria quando caísse de súbito, um cavalo chicoteado que a morte encontra ainda de olhos esgazeados da fúria de correr. Muito tarde. Tarde mesmo para reagir, voltando

o rosto à enxurrada, desafiando-a, visto que essa rebelião exigia um preço que ele já não saberia suportar. Antes de sentir um apoio, mesmo frágil, não poderia retroceder. Construíra, palmo a palmo, de dentes cerrados, o edifício penosíssimo da sua carreira e precisava ainda de concentrar nele toda a capacidade, defendendo-se da insegurança emocional de uma hesitação. Luísa, ele próprio, deveriam saber esperar. E não merecia a sua carreira o sacrifício de todos? Não era a sua carreira, no fim de contas, dedicada à família, um desagravo para as humilhações que, juntos, tinham suportado? Eles, os pais, os avós - as gerações que, lá para trás, nos confins da memória, se haviam igualado na pobreza

e na escravidão? Era necessário que Luísa compreendesse!

Ele bem percebia o que fervilhava nos silêncios da mulher, o que poderia desencadear-se nessa tranquilidade de mágoas e desapegos - mas temia que um deles lançasse a primeira pedra e se encontrassem perante palavras sem remédio ou perante a nudez brutal das suas feridas. Estava decidido a qualquer coisa que pudesse reuni-los de novo, mas só mais tarde, quando as tempestades não o pudessem abalar, quando, enfim, pudesse soltar-se da voracidade da vida que criara. Se Luísa fosse subtil!... Se Luísa reconhecesse que também a ele o assaltava um desejo inadiável de regresso e de paz, que também ele se sentia debicado pelos avejões que o rodeavam, atravessando os dias como quem, de braços apertados contra a carne dilacerada, foge das aves negras que o perseguem até lhe deixarem as veias esvaziadas! Os outros, os abutres - desprezava-os, embora os receasse. E era esse sentimento que mais o inquietava. Quem iniciara esse duelo de suspeitas e precauções? Quando começara? E porquê?

Recordava os anos de aldeia, anos pausados, que permitiam segurar os dias, para neles colher o sabor de cada instante, procurando-se e completando-se até que a vida à sua volta os absorvera, chamando-os a intervir - e então não resistia a pegar no automóvel e a ir, sozinho, a um dos planaltos campestres que vigiavam a cidade, para sentir o odor puro da terra, a sensualidade virgem dos matos, o vento, o balancear lânguido dos arbustos, a profunda e serena presença das coisas simples. Luísa teria gostado de o acompanhar. Mas o convite seria já de si uma insinuação, talvez o primeiro relâmpago de uma tormenta que ele tinha absoluta necessidade de manter sufocada.

Esses passeios purificavam-no. Mas nem sempre.

Por vezes o contraste com a limpidez da natureza fazia -lhe acudir à superfície o rugido dos nervos exaustos. Sentia-se então mais desorientado ainda. Era tão frequentemente obrigado a atitudes de que nunca se julgara capaz que já não sabia distinguir o que havia de coerente ou censurável em si próprio. E a confusão traduzia-se nesse gosto a lodo, na vertigem que a todo o momento o fazia julgar debruçado sobre escarpas. Quando pensava ter denunciado um erro próximo, evidente, e ia a corrigi-lo, já não lhe encontrava nem a proximidade nem a evidência, e corria então a persegui-lo mais longe, mais dentro da bruma, até se confessar rendido. Por fim, até a tortura se fatigava. Os seus exames de consciência terminavam, com efeito, no cansaço e na irresponsabilidade; corria para o alvo com uma ânsia descomandada e ao chegar, as emoções estavam gastas. Ficava o entorpecimento.

- Gostaria tanto que fizesses umas férias, João!.. Precisamos os dois de férias. E os pequenos também. Estou convencida de que te voltaria o apetite.

Férias? Donde vinha essa voz? As palavras estavam retidas nos ouvidos, repercutindo nos tímpanos, como quem bate a uma porta que continua fechada, à espera de uma oportunidade de penetrar. Aconteciam coisas lá fora, palavras, factos, como há pouco o desastre da criança e agora aquela tentativa de diálogo da parte de Luísa, mas aconteciam tão longe que, quando ele se aproximasse, já nada restaria do sucedido. Afinal, Luísa fizera o comentário do costume. Nada se alterara, E sentiu alívio em reconhecê-lo. Nem ele sabia porquê.

Sorriu-lhe, no entanto - e agradecido. Luísa, por certo também surpreendida, sorriu-lhe do mesmo modo. Por instantes, pareceu-lhe que seria muito simples ultrapassar as distâncias que se haviam alongado entre os dois sem que fosse necessário recorrer à ponte tumultuosa das palavras. Um gesto, um nada, e regressariam aonde tinham começado. Um instante bastaria. Um simples sorriso! - insistia João Eduardo, emocionado, com uma súbita e impertinente ternura a obstruir-lhe a garganta. Correu os olhos de Luísa para o Carlitos, a juntá-los na mesma reconciliação, no mesmo afago, e perguntou:

- A Teresinha ainda não chegou?

A Teresinha costumava vir sempre mais tarde. No colégio, as aulas da manhã prolongavam-se muitas vezes até cerca das duas horas. Mas João Eduardo falara naquilo porque sentiu que também a filha deveria ser lembrada no momento em que tão naturalmente recuperavam uma intimidade que parecia desmantelada.

-Ainda não tinhas reparado em que a pequena não estava à mesa?

A ironia da mulher era talvez razoável, mas tão injusta e cruel naquele momento! "Tão injusta, tão despropositada, Luísa!", gritava ele no seu íntimo, desesperadamente, enquanto respondia numa voz incolor e evasiva:

- Desculpa, não era bem o que eu queria dizer. Estava a pensar noutra coisa. Bem sabes quanto ando preocupado, distraído.

Tinha sido uma frase exorbitante para os seus hábitos. Perdera a autenticidade das palavras no convívio mistificado com os outros, um actor que o sucesso condena a repetir indefinidamente o mesmo programa até o confundir com a vida real, e, por isso, em casa, receava que a mistificação continuasse. Preferia, daí, conter as palavras, os sorrisos, qualquer espécie de tradução das suas emoções - para os não expor à última e irremediável deturpação.

- Andas preocupado com o Jaime?

O Jaime, é verdade, que maçada! Esquecera-o completamente e por certo que, a essa hora, já o amigo de veria estar na fase irascível, à beira dos insultos, pelo facto de não o ter visitado nessa manhã. A preocupação, era outra, mas não podia deixar de conceder:

- Com esse, por exemplo.

- Ele telefonou duas vezes.

- Ele?!

- A mãe, é claro. Disse que teve outra hemoptise pela madrugada.

Não pôde esconder o enfado, embora bem percebesse que o olhar de Luísa o perscrutava com uma mordacidade quase provocante. Mas que culpa tinha ele de que o Jaime se encontrasse naquele estado e fosse tão absorvente, tão piegas, que lhe exigisse uma assistência de ama-seca? De noite e de dia aquele maldito telefone, transmitindo-lhe a voz irritantemente lastimosa do amigo, perseguia-o por toda a parte. Para o impressionarem, diziam-lhe sempre que o Jaime estava na agonia. Pois que estivesse, com mil diabos! Ele era um médico e não um espantalho que se pregasse à cabeceira de um moribundo para obrigar a morte a manter-se a distância.

- Vais vê-lo agora?

Olhou o relógio e respondeu:

- Já não tenho tempo. Esperam-me no banco.

E como se a frase substituísse outras explicações para a sua impaciência, levantou-se, enfim, passou os dedos pelo queixo de Carlitos e dirigiu-se para a porta. Ainda reparou uma vez mais no filho. Mas este baixou a cabeça quando se sentiu observado, como se o pai fosse um desconhecido cujas familiaridades se tornassem embaraçosas. João Eduardo sentiu um rolho de angústia a sufocar-lhe a respiração. Tudo nervos, fantasmas. Não havia dúvida que trazia os nervos esfrangalhados: qualquer desconfiança banal, anódina, os inflamava.

- Adeus, Carlitos - insistiu.

O garoto sondou a mãe, à espera de consentimento para retribuir a saudação.

 

Não, não era o Jaime que o preocupava. Nem o ridículo incidente do garoto entalado no elevador - e que o pusera à beira de se deixar contagiar pelo sadismo da populaça. Era preciso que os seus nervos andassem muito estafados para se perturbar tão facilmente. Enfim, já esquecera essa fraqueza. Quanto ao Jaime, o seu sofrimento e a sua tragédia prolongavam-se havia dois anos e seria exigir demasiado que ele aderisse ao drama do amigo com a intensidade do primeiro dia. Pouco a pouco, sem que essa evolução lhe fosse nítida, o caso de Jaime transformava-se num simples caso clínico. E um caso clínico perdido. Mas, agora que o reconhecia, aceitava perfeitamente que assim tivesse acontecido. Era humano. Estava de consciência limpa. Ninguém faria pelo Jaime o que ele fizera já. A começar por um auxílio económico, que a insaciedade daquela família pasmada, encarando a desgraça como uma fatalidade, já recebia com uma impudica aquiescência.

Não, o assunto era outro, perante o qual todas as insignificantes preocupações desse dia lhe pareciam agora de uma fragilidade pueril.

João Eduardo abriu a porta do automóvel, mas decidiu, de súbito, ir a pé até ao hospital, oferecendo-se

espontaneamente a um remoer do problema de que se

afastara por uma hora e do qual de modo nenhum deveria esquivar-se. Era muito importante encontrar uma solução urgente, uma linha de conduta segura e oportuna, que lhe restabelecesse a atmosfera superficial de confiança - e para isso a fúria do volante não estaria indicada. Uma linha de conduta oportuna!... Saberia ele descobri-la, identificá-la, por entre os embustes das relações humanas? Difícil não era a vida, mas sim o convívio com as pessoas. Eram, afinal, as pessoas, e não as tarefas e os seus objectivos, que o obrigavam a uma tensão exaustiva, a uma permanente e insegura vigilância. Nervos, sempre os danados nervos, que pareciam estoirar no minuto seguinte, de tal modo os sentia em iminente erupção! A odiosa cidade, onde até os amigos participavam do festim que deixava as pessoas retalhadas! Mas quando decidia fugir dela por uns dias, assaltava-o uma espécie de pânico, como se o amedrontassem o repouso, as sombras, os ecos que delas se levantavam, como se o seu sangue se tivesse habituado a girar numa tal aceleração que, serenada ou interrompida, ficasse prestes a parar definitivamente.

Ao passar rente à tabacaria, o empregado veio à porta saudá-lo.

- E essa bronquite? - interessou-se João Eduardo. - Muito melhor, senhor doutor. A si o devo. - Cuidado com as cigarradas...

- Agora só os vendo!

- É o melhor que faz...

Lembrou-se que teria de passar junto de três ou quatro casas conhecidas, cumprimentar, dizer coisas amáveis necessárias à sua imagem de pessoa sem prosápias e, daí, afastou-se para o centro da avenida. Estava a saber-lhe bem esse pedaço de ar livre, sob a tranquili dade das árvores, e de tal modo que começava a desprender-se da órbita opressiva dos seus problemas, embhora não se tivesse esforçado por consegui-lo. Por isso olhou com ternura as folhas verdes, que, sem pressas, acompanhavam ao longo da avenida, e sorveu-lhes profundamente o hálito. Uma árvore, um arbusto, mesmo quando plantados à força entre as grades de uma cidade, como um animal de grandes espaços encarcerado num jardim zoológico, desoprimiam a atmosfera, oferecendo-lhe leveza e amplidão. E esse desafogo comunicava-se às pessoas.

Luísa andava de mau parecer, precisava também de ar livre. E até os garotos. Talvez necessitassem de passar os domingos no campo. No próximo domingo... Oxalá lhe fosse possível! Às vezes perguntava a si próprio porque não reduziria as suas ocupações a um limite compatível com uma vida que não fosse escravizada, tanto mais que já não se justificavam os velhos argumentos de que o nível da família, já que estavam condicionados pela prosperidade, tinha de ser mantido. Não, o dinheiro crescia-lhe. E parecia-lhe agora tão fácil obtê-lo que deixara de lhe encontrar significado. Surpreendia-se mesmo de como dantes o valorizava tanto, apesar de haver sentido na carne e na carne dos camponeses, com quem se misturara na luta pela sobrevivência, o que exprimia a sujeição económica, a monstruosa desigualdade social. Todos os dramas lhe tinham parecido desprezíveis em face desse drama maior, ou todos lhe haviam parecido, de longe ou de perto, dele dependentes. Depois, dia a dia, achava-se a encarar essa realidade absorvente através de um imenso deserto, ao termo do qual só poderia ser captada como um tema especulativo já monótono e fastiento. O que tinha agora diante de si era outra odisseia, eternamente repetida e eternamente renovada: a do homem em antagonismo com o ambiente e, por isso mesmo, consigo próprio, inadaptado, furioso, desagregado, perseguindo um alvo nebuloso, abrindo à doida uma clareira na selva da sua desorientação.

Noutros tempos, o dinheiro tinha o valor do esforço, sabia-lhe a uma tradução imediata da sua pertinácia.

Media-o ainda pelos sacrifícios de quem lho entregava e por uma crescente crença no futuro. Libertava-o, enfim, de um sentimento de insegurança. Mas o dinheiro, por fim, deixara de lhe importar, precisamente porque não era obrigado a pensar nele. A motivação do seu frenesi era outra. Continuava cobiçoso de tarefas, de clientes, por lhe ser muito mais difícil recuar do que manter esse fervedouro. Sabia que o cercava uma impiedosa espionagem: não lhe poupariam o mais breve sinal de desistência ou de fracasso. O triunfo escravizava. O triunfo tinha um preço. Era o seu crime perante todos os que o rodeavam. Os que o haviam acompanhado desde o primeiro dia, dantes generosos e solidários, espreitavam-no agora de caninos arreganhados: estamos à espera que tropeces. Os vitoriosos não podem tropeçar.

Era justamente por isso que andava de nervos tensos. Condoía-se do Jaime, é certo, não deixava de se ralar com a situação do amigo, embora o saturasse já tanta lamúria, tanta desgraça a desnudar-se, como quem estende chagas à sensibilidade pública - mas, de momento, preocupava-o muito mais um assunto reles, destas cobrazinhas que se poderiam esborrachar com um pé, mas que, escorregadias e venenosas, conseguem vir morder-nos um órgão vital. A tal luta cobarde em que as emboscadas se sucedem. Era isso que odiava na sua profissão. Todos os dias se pisava um terreno arenoso por debaixo do qual poderia ocultar-se indiferentemente um pântano ou rocha firme. De cada vez que deixava um imprevisto solucionado, um maçador convencido, um doente salvo do perigo, à vasta sensação de alívi juntava-se sempre a convicção de que nunca mais esses dissabores ou angústias se repetiriam. Como se, final mente, fosse viver em tranquilidade o resto dos anos tanto no trabalho como nos lazeres, sem aqueles sobressaltos que lhe revolviam todos os instantes da exis tência. Mas logo se levantava uma surpresa ainda mais desgastadora.

Neste caso que o inquietava agora, mesquinho como tantos outros, teria de assentar efectivamente nu plano rápido, antes que a peçonha dos colegas extravasasse dos muros do hospital. Sempre que a sua reputa ção estava em jogo, perdia a cabeça. Tinha verdadeiro pavor das cascas de laranja, dos insignificantes estremeções que, subitamente, abriam crateras debaixo dos pés. Acontecera apenas que a filha de um artista de cinema de terceira ordem adoecera e que um médico de bairro um pobre diabo analfabeto, diagnosticara em duas pe nadas, com a atrevida inconsciência do costume, um apendicite aguda. Mas esses pobres diabos, para quem as patologias se reduziam a quatro ou cinco diagnósticos possíveis, tinham por vezes a sorte de a doença se encaixar num deles. O artista de cinema correra com a filha ao banco do hospital e procurara João Eduardo conhecido por atender com simpatia a gente dos teatros. Uns saltimbancos, ingénuos e primários, em cujas reuniões, de tempos a tempos, ele concedia em aparecer, por lhe agradar ser referenciado por aquelas pessoas que o público estúpido considerava extravagantes e Inacessíveis. E também, vá lá, porque essa convivência não deixava de ter uma útil repercussão social.

Observara a filha do artista e, afinal, parecera-lhe que a rapariga padecia apenas de uma enterite banal, complicada de uma capacidade hereditária para transformar a dor em melodrama. Lembrava-se de que repetira exactamente essa frase espirituosa a todos os colegas da equipa.

- Sabem qual é o diagnóstico?... O pai é actor. - E, explorando-lhes a curiosidade com uma pausa enigmática, acrescentara por fim: - Capacidade hereditária de transformar a dor em melodrama ou uma enterite em apendicite. Vem a dar no mesmo...

A frase tinha sido um êxito, enquanto a rapariguita, estendida na marquesa, parecia um arbusto magro que um sopro de vento tivesse derrubado. Haveria de lamentar esse sucesso, visto que, dias depois, ainda repetiam a frase pelo hospital, desta vez para lhe ridicularizar a infalibilidade. Era dele esta tirada jactanciosa, que se tornara uma legenda da sua suficiência: "Sempre que um diagnóstico tem por si a força da lógica, se chegar a verificar-se um erro este será da doença e não do médico."

A rapariga fora internada por dois ou três dias na sua enfermaria, para dar ao artista a impressão de que ele não deixara de lhe fazer um acolhimento de compadrio; mas, quando lhe deu alta, o pai pedira-lhe que continuasse a cuidar da filha em casa, até a considerar curada. Furtara-se a esse tempo desperdiçado, pois era evidente que o actor não teria dinheiro para lhe pagar ou nunca, sequer, lhe passaria pela cabeça fazê-lo. E João Eduardo havia muito que estava farto dessa fauna de exploradores. Por isso, arrumara logo a insistência do actorzeco com uma desculpa irredutível:

- Ó homem, calha-me muito mal nesta altura. Tenho os dias ocupados de manhã à noite com uma vaga de doentes. Você desculpe, mas escolha outro médico para tratar a sua filha. É um caso simples, que se resolverá com mais uns dias de repouso. Teria muito prazer, mas bem vê...

- Eu pago-lhe, senhor doutor.

O homenzinho dissera aquilo com uma incrível desfaçatez. E João Eduardo ruborizara-se como se as palavras o tivessem esbofeteado.

- Não é por uma questão de dinheiro.

E já que o tipo fora grosseiro, voltara-lhe as costas.

Aquilo passara, esquecera. Porém, no dia seguinte à noite, a rapariga voltava ao banco acompanhada do tal médico de bairro, que se pusera a berrar por uma intervenção urgente. E o cirurgião de serviço, quando ouvira falar do Dr. João Eduardo, prestara-se imediatamente a colaborar na conspiração. João Eduardo sabia porquê. O cirurgião, o Medeiros, logo que terminara o seu concurso de cirurgia, procurara-o para lhe dizer com os seus modos secos e bruscos de quem atira pedradas a um mundo responsável pelos seus ressentimentos:

- Você bem sabe, João Eduardo, que verdadeiramente começo hoje a minha vida. Preciso, e muito, de ganhar dinheiro, mas não à custa dos conluios do costume. Sentir-me-ia emporcalhado para toda a vida se conquistasse doentes à custa de gorjetas aos colegas de medicina geral que me enviassem os seus clientes. Você não é desses. Por isso venho apelar para a sua camaradagem, se me achar competente para alguns dos casos em que você necessite de um magarefe.

É claro que João Eduardo fizera veementes protestos de o ajudar, mas não podia esquecer que devia atenções ao professor Cunha Ferreira. Este era suficientemente cauteloso para não arriscar o seu nome em negociatas muito flagrantes, mas sabia compensar de outros modos não menos persuasivos. Não dividia os seus honorários de cirurgião com João Eduardo, e nem ele os aceitaria!, mas enviava-lhe com muita regularidade um género particularmente rendoso de doentes: financeiros libidinosos, assustados com a decrepitude, e velhas damas que tinham frequentes achaques àquelas horas em que as visitas médicas triplicam de preço. Em termos realistas, por cada doente encaminhado para a sala de operações do professor Cunha Ferreira, João Eduardo recebia uns milhares de escudos. E o Medeiros nunca poderia recompensá-lo desse modo.

Tempos depois dessa conversa com o Medeiros, as relações entre os dois haviam esfriado. O outro olhava-o com uma fixidez suspeita; parecia querer certificar-se de uma desilusão que o feria e lhe repugnava. Que fosse para o Diabo!

Apendicite, apendicite aguda! - fora o reclamo que, ávido e insidioso, se propagara por todo o hospital. O pai da doente, por seu lado, dizia a quem o queria ouvir - e todos o queriam ouvir - que devia a salvação da filha a um médico que não receara que lhe ficassem a dever os honorários.

Quando o rumor da intriga lhe chegara aos ouvidos, pela mão de um destes colegas que andam sempre com o nariz a chafurdar nas vilezas, sentira dentro de si

o desabar de um mundo. Era a habitual sensação do irremediável perante qualquer contratempo, voltando-se para todos os lados como um náufrago que tem apenas uns minutos para tentar sobreviver. Só alguns dias depois reagia com uma furiosa e eficaz veemência. Apendicite. Podia lá ser! Por mais que meditasse na evolução do caso, chegava sempre à suspeita de que o cirurgião tinha corroborado tal diagnóstico apenas para o achincalhar. Por vingança. Eram uns lobos. Ali dentro do hospital todos se esgadanhavam na conquista de uma posição. No entanto, de modo nenhum poderia insinuar, como defesa, que o Medeiros concordara com a intervenção apenas por velhacaria, visto que essa atitude iria contradizer a sua reputação de sujeito leal, correcto, que não admitia que anavalhassem os colegas na sua frente. Também era conhecido como um dos raros capazes de dar a mão a um principiante. E efectivamente essa característica da sua personalidade, que João Eduardo mantinha à força de lisonjas e silêncios significativos, dera-lhe até aí um prestígio de que extraíra certos proveitos. Nem sempre havia sido fácil conservá-lo, pois cada vez mais o cercava a injúria ou a adulação, de qualquer modo a inveja impiedosa - mas, apesar de tudo, ainda tinha por si a maioria do ambiente hospitalar, desde os empregados mais modestos aos enfermeiros graduados e aos médicos de fresca data. Todos eles se mostravam desvanecidos com a sua inalterável cordialidade. Apendicite. Uma miserável casca de laranja!

João Eduardo tropeçou numa pedra deslocada do passeio e tão alheado ia que esteve prestes a desequilibrar-se.

- Eli lá, amigo! Endireite-se!

Sentiu uma irritada humilhação com o gracejo, mas o hábito de contemporizar levou-o a sorrir, com afabilidade, para o intrometido. Era uma atitude de excelentes resultados. O outro emendou imediatamente:

- Estes tipos da Câmara querem-nos ver de nariz partido.

Ao colega que, de modos melífluos, lhe viera transmitir a notícia, respondera com simplicidade: "Cada vez tenho mais medo das apendicites. Servem-se de todas as máscaras." Cascas de laranja. Aliás, de um modo geral, enfastiavam-no os casos vulgares. Um doente interessava na medida em que a sua história permitisse um jogo de especulações. Chegava a ser com volúpia que, perante os colaboradores embasbacados, enumerava uma longa lista de diagnósticos possíveis, para depois os destroçar, um a um, com a sua dialéctica feroz. Destroçava-os com tão rigorosa minúcia de argumentos que ninguém se atrevia a interpelá-lo. Costumava terminar esses festins de erudição com uma apoteose edificante:

- A complexidade da patologia humana conduz-nos a todo o momento a uma posição de humildade. Aprendamos a ser humildes.

Sabia exibir-se - forçando os outros a admirá-lo sem que ele se comprometesse; como se em todas as circunstâncias pedisse desculpa aos companheiros de saber tanto, de lhes ser superior em argúcia, intuição e sobretudo em prudência. Essa modéstia começava no modo de vestir, apurado mas discreto, na entoação que punha nas palavras, no quanto por vezes sabia apagar-se para que os colegas mais novos se fizessem notados. Nos debates que periodicamente se organizavam à volta de um caso clínico, ele deixava que a vivacidade das discussões atingisse a tempestade para então erguer a sua voz conciliadora, mas sempre autorizada. E a sua mediação parecia ter apenas o propósito de restabelecer o respeito que cada um devia aos camaradas, embora sabendo que o brilho das suas palavras provocaria nos outros um ressentido amargor de inferioridade.

À medida que os anos passavam ele afastava-se do doente como ser humano, para se embriagar com o en canto da erudição. O enfermo era um acidente embaraçoso, enfadonho, no processo clínico. Apetecia emudecê-lo com uma mordaça e torná-lo inofensivo, para que o raciocínio e os estupendos meios de diagnóstico não fossem perturbados com tão desastrada cooperação. Essa mudança, porém, não se dera sem um terrível senti mento de culpa. E recordava então os tempos de província, em que por vezes a ciência, com as suas dúvidas e as suas artimanhas, parecia uma injúria ao sofrimento.

Quando percorrera o hospital, a sondar cautelosa mente as reacções sobre o caso da rapariga, o Medeiros recebera-o com frieza, pegando o assunto de caras.

- Espero que a operação não tenha sido demasiad tarde. Perderam-se três dias, como sabe. Quer ir vê-la

- Mais logo.

Precisava de ficar só para digerir toda a brutal aleivosia do outro: "Perderam-se três dias, como sabe." Era o mesmo que afirmar: "Se ela morrer, é você o responsável.

Medeiros, na sua quase infantil preocupação de rigorismo, de usar palavras que dissessem tudo o que tinham para dizer, chegava a ser inconveniente. No fundo, era um invejoso. Andava ali pelo hospital aos encontrões a toda a gente, às vezes frenético, aos saltinhos, um esbirro que tivesse o encargo de zelar por um código de moralidade, protestando apenas pelo prazer de protestar. Falava-se um pouco lendariamente da sua vida austera, da miséria a que ia sujeitando a família para ser fiel a uns misteriosos princípios, visto que nenhum colega se arriscaria a enviar-lhe um doente, sabendo que no dia seguinte poderia receber um par de coices. O caso da apendicite teria corrido de outro modo se, naquela noite, estivesse de serviço um cirurgião com um conceito menos turbulento e mais eficaz de lealdade. Nenhum outro iria operar a rapariga, por muito que o médico assistente atordoasse o hospital com o seu histerismo, sem o prevenir a ele, João Eduardo, que era, no fim de contas, o responsável pela doente. Mas o Medeiros era um despeitado. Talvez a raparigota tivesse uma apendicite, com efeito, mas nenhum médico consciente poderia defender tal hipótese. Tudo a contrariava. Afinal, o Medeiros levara a doente para a sala de operações apenas porque o pateta do médico de bairro, confundindo-o e amedrontando-o, o incitara a fazê-lo. Não era uma atitude científica. João Eduardo, quando se via cercado da sua corte de estagiários, lembrava-se, com bonomia, dos tempos em que pouco faltava para soluçar ao lado dos doentes e das suas famílias, oferecendo-lhes uma inútil compaixão em vez de drogas, adaptando o receituário aos caprichos e às lástimas dos clientes, iludindo, enfim, a sua ignorância com uma solicitude mistificada. Era disso, porém, que os campónios gostavam, os brutos! Mas esse comportamento estaria bem num curandeiro - nada tinha que ver com a medicina. Não, nisso era irredutível. O Medeiros revelava-se tão traste como os outros, embora andasse por ali como um asceta rugindo num fosso de víboras.

João Eduardo, de resto, compreendia muito bem o temperamento do Medeiros. Todos se sentiam inconformistas quando saíam da Faculdade, ou enquanto os doentes não lhes batiam à porta com uma consoladora regularidade. Era muito fácil ser-se irreverente quando pouco se tinha a perder. O Medeiros incomodava os outros com as suas truculências porque, visto o seu caso friamente, era um falhado. Se o professor Cunha Ferreira lhe atirasse com uns ossos, havia de lambê-los e de lamber também a mão que se apiedara.

A proximidade do hospital, João Eduardo abrandou o passo. Sentia-se oprimido. Vagamente, nessa opressão misturava-se ainda o eco da guinada da ambulância, a sugestão de uma criança agonizante. Como averiguar o que teria acontecido ao garoto? E que lhe importava sabê-lo? Pela primeira vez, palpitava-lhe que, no hospital, iria enfrentar muita coisa a que não estava habituado (E se a ressonância do caso chegasse aos chefões do Banco das índias, onde ele era director clínico e, quem sabe, um dos futuros administradores?) Mas havia certamente um modo de restabelecer toda a inviolabilidade da sua posição. Havia, com certeza. Para já, era entrar de cabeça erguida. Apesar disso, quando o guarda o cumprimentou, conservando o chapéu na mão até que ele desaparecesse no átrio, passou-se qualquer coisa semelhante ao que sentiria se, conscientemente, fosse ao encontro de uma emboscada.

 

O banco do hospital tinha sido reformado nos últimos anos. Essas transformações, porém, não eram nem poderiam ser tão ousadas que lhe modificassem inteiramente o ambiente e a impropriedade arquitectónica. Velhas paredes substituídas ou disfarçadas com azulejos e os ladrilhos do pavimento faziam esquecer aquele nauseabundo corredor de anos atrás, repartido numa série interminável de cubículos, onde, em vez de doentes, se poderia imaginar a presença de presidiários; mas os cubículos, embora mais limpos e retocados, continuavam lá, assim como os tectos altos, conventuais, as colunas de pedra fria e outros corredores que, descortinados a uma distância de penumbra, pareciam terminar em celas de tortura. De qualquer modo, ainda mesmo que as adaptações tivessem sido mais profundas, os regulamentos e os homens permaneceriam os mesmos. Eram os mesmos. Nada se fizera que pudesse corrigir a sordidez que atolava as pessoas logo que se transpunha a porta da rua; era uma atmosfera física, quente e sebosa, colando-se aos sentidos. João Eduardo perguntava a si próprio, algumas vezes, se haveria realmente um meio de mascarar por completo o ambiente de um serviço de urgência hospitalar, que, pela força das suas atribuições, era uma vala comum de sofrimento humano, no que ele tem de mais trágico, primitivo ou abjecto, perante a indiferença rotineira dos que ali são postos como profissionais. Agora, tal como dantes quando chegava ao hospital, vindo de longe com os seus aldeões aterrados, médicos e enfermeiros pareciam encontrar-se naquele lugar assistindo a um espectáculo pitoresco ou absurdo que, de tão repetido, se tornava fastidioso. E ninguém se preocupava já em fingir quem realmente participava do espectáculo. Nessa banalizada exibição da dor humana, a aparição de um novo doente era a pedra lançada a um charco de misérias e odores, revolvendo-o por momentos.

Apenas os rapazes acabados de sair da Faculdade transformavam aquilo numa aventura de colegiais. Vinte e quatro horas fechados naquele presídio, que log procurava contagiá-los com o seu bocejo, mas onde a vida, medonha, anedótica ou simplesmente imprevista não podia deixar de alvoroçá-los, aguçava-lhes o engenho de inventarem diversões para melhor preencher o tempo. Ao lado das irreverências, porém, o contacto brutal com a angústia e a morte obrigava-os a uma alarmada consciência da sua missão e, passado o aturdimento, era-lhes difícil resistir a certas atitudes de ingénua solenidade. Um mundo terrível e ignorado vinha ali gemer a seus pés. Os jactanciosos tornavam-se tímidos; os violentos dóceis. Eles eram os deuses dessa humanidade, para a qual a doença abria a porta a todos os desamparos. Por fim, quando a responsabilidade se afigurava simples e monótona de cumprir, esses rapazelhos mantinham apenas a dignidade exterior; e então passeavam pelos corredores os seus fonendos luzidios, que lhes descaíam dos ombros num desleixo rebuscado, e ao interrogarem os doentes dir-se-ia que presidiam a uma inquirição.

João Eduardo conhecia-os desde os seus tempos de médico provinciano. Eles haviam-no intimidado tanto como aos labregos que vinha acompanhar e que, no seu temor, pareciam entregues a executores de um matadouro. Os rapazes já não eram os mesmos dessa época, mas os colegas que sucessivamente os rendiam prolongavam a ingénua arrogância dos anteriores. Chegara ali muitas vezes a entregar-lhes doentes como quem cumpre um dever de vassalagem, esperando horas lá fora, no átrio, para ser atendido, misturado na onda gemebunda e resignada dessa insólita peregrinação. Quando, por fim, chegava a sua vez, eles observavam-lhe o doente sem cuidar da sua presença, desconhecendo-o ou desdenhando-o ostensivamente, como se ele, um ignorante médico do sertão, fosse apenas um comparsa tolerado nessa história burlesca do sofrimento humano; como se, entregue a oferenda que devia alimentar-lhes a gula ou os caprichos, nada mais lhe fosse exigido.

João Eduardo não esquecera os vexames desses anos e os sentimentos dos doentes que, de chofre, se viam deslocados do meio familiar, onde as suas dores faziam acudir um pequeno mundo, no qual o médico era um elemento íntimo de um conjunto inextricável de pessoas, coisas e parentes. Reses a quem, de súbito, se deparava uma paisagem desconhecida e hostil, em que o próprio médico, seu guia, sua última protecção, se via desautorizado.

Por isso mesmo, logo que a sua posição no hospital lhe permitiu certa influência sobre os jovens colegas, João Eduardo procurou aproximá-los das realidades humanas que ninguém lhes ensinara ainda a respeitar. Mas o seu apostolado, antes mesmo de afrouxar, teria forçosamente de ser pouco eficaz, pois as equipas médicas do banco continuavam a ser chefiadas por um cirurgião e haviam sido inúteis as tentativas de acabar com essa hierarquia afrontosa para os clínicos de medi cina geral. Esboçado o novo regulamento, que deveria completar a renovação das instalações, encabeçando as equipas com um clínico e um cirurgião, logo estes tinham manifestado a sua orgulhosa rebeldia através de pequenos atritos, insidiosos e multiplicados, desde a es colha do quarto de dormir até às desbocadas controvérsias junto dos doentes. O director, por fim, farto de servir de medianeiro, vira-se obrigado a ceder. A verdade é que seriam baldados todos os esforços de corporizar uma equipa sem a conivência tolerante dos cirurgiões. Estes, porém, eram na generalidade uns enfatuados. Com a mentalidade de novos-ricos da medicina, com portavam-se como régulos que, no seu reinado de vinte e quatro horas, usassem de todos os recursos para deixar bem cunhada a majestade do seu poder. João Eduardo, quando o cirurgião-chefe se dignava terminar o seu jantar, que se prolongava por vezes até à meia -noite, surgindo, enfim, na extremidade do corredor entre os seus acólitos reverenciosos, tinha a sensação de olhar um soba de opereta, a quem a prosápia não con sentia um andar de gente. Eles vinham numa passada lenta, bamboleantes, investigando à volta um ensejo de ostentar a sua autoridade. Depois debruçavam-se sobre os casos clínicos mais delicados, concediam uma sugestão, às vezes uma chalaça, e, por fim, terminavam a ronda na sala de operações, que era, por assim dizer a alcova dos eleitos. A cirurgia atingira a arte suprema.

Por seu intermédio, a inteligência e a perícia escarneciam da morte e da vida. Guardiões do templo, os cirurgiões eram a casta inacessível.

Não admirava, pois, que os jovens componentes das equipas fossem seduzidos pelos gestos e conceitos de quem os orientava e procurassem imitá-los. à beira do chefe, os analistas, os clínicos, os especialistas eram apenas gente subsidiária que colaborava no triunfo imediato da cirurgia. João Eduardo, como aliás todos os seus colegas da medicina interna, nem sempre podia calar o ciúme por esses suseranos, que conseguiam subjugar o próprio público à sua prepotência.

João Eduardo chegara já a uma situação hierárquica que o libertava do serviço obrigatório no banco; no entanto, submetia-se à mesma rotina de outros tempos, pois as vinte e quatro horas no serviço de urgência serviam magnificamente para campo de treino profissional, que nenhuma outra experiência poderia igualar. Escolhia, porém, as equipas em que, como a do Medeiros, a camaradagem era zelada, mas, na instabilidade insatisfeita que dia a dia o dominava, acontecia-lhe agora entrar e sair do banco abruptamente, como se a todo o momento se desiludisse de encontrar em qualquer lado um motivo de interesse.

Desta vez, passou de olhos baixos e apressadamente junto do vestíbulo da admissão dos doentes, onde os funcionários reliam os últimos jornais desportivos, sem que parecesse dizer-lhes respeito a expectativa das pessoas que aguardavam que alguém, por fim, as atendesse. Atravessando por entre as filas ansiosas e acabrunhadas do rebanho que esperava, empurrou a porta de acesso ao corredor e, de súbito, sentiu-se impregnado do rumor do ambiente. Ali perto, uma voz mais indiferente do que ríspida repontava pela segunda vez:

- Se quiser, diz-me o seu nome. Se não quiser, vai -se embora. Tenho mais que fazer do que aturá-la.

A rapariga a quem a prevenção era dirigida teria suspeitado no interrogatório minucioso da enfermeira uma devassa policial e, por isso, à pergunta sobre a sua residência, nome, idade, procurava explicar que viera ao banco só por causa de um prego que se lhe espetara no planta do pé.

Tais cenas eram vulgares. A maioria dos doentes não podia compreender que, em vez de surgir de algum lado o remédio para os seus males, viesse um funcionário preencher laboriosos questionários, que cada um interpretava como desprezo pela aflição que os trouxe ali. Em certas situações, o azedume redundava em far sa. De uma vez, um ricaço muito conceituado nos seus sítios viera a Lisboa sacudir o sarro provinciano com emoções dos bares da capital e acabara por se encontrar no banco, bêbado e de cabeça partida. Quando recup rou a lucidez, e portanto a consciência da sua posiçã social afrontada, deu um nome suposto na ficha da admissão e lá dentro, enquanto o observavam, outro nome me ainda. Temia a eventualidade de, no dia seguinte, os jornais, gulosos, lhe reproduzirem a história e os pormenores da libertinagem e por isso, quando entrou na sala da pequena cirurgia, apressou-se a inventar uma terceira personalidade. O excesso de precaução acabou por atraiçoá-lo. E logo que os médicos descobriram a fraude e lhe suspeitaram os motivos, atormentaram-no com a perspectiva de que a polícia viria aí investigar, tornando o escândalo inevitável. O ricaço caiu de joelhos: não era um criminoso, não era um ladrão! Apenas um honesto chefe de família. O escândalo seria a tragédia: a mulher exigindo o divórcio, os inimigos políticos e os rivais explorando impiedosamente as repercussões do enxovalho.

João Eduardo parou uns instantes no átrio, sem razão aparente. Perguntava a si próprio qual seria o primeiro colega que teria de enfrentar. Entre as colunas do lado direito do corredor, severas e nuas, as únicas que restavam da herança monacal do edifício, várias macas preenchiam uma excrescência do velho claustro. Nelas, os corpos, quase inteiramente tapados pelos lençóis, esperavam a oportunidade de ser conduzidos a uma das salas de observação. Um velho, que tossia a todo o momento, erguia-se, sufocado, sobre os cotovelos e, a cada esforço dos músculos do peito, um sangue negro vinha injectar-lhe as faces macilentas. Dois jovens camponeses ladeavam-no. Tinham os rostos e os gestos hirtos, quase ameaçadores, como se estivessem ali para defender o velho da morte ou de alguém que o quisesse maltratar. Junto deles, outro velho, de cabeça atada com ligaduras, parecia mineralizado numa expressão de amargura definitiva. Já não havia impaciência nesse rosto. Gastara-se. Dir-se-ia que esperava naquele lugar desde a véspera ou que iria esperar o resto da vida. Por detrás desse grupo, ainda, como a esconder-se, uma mulher, vestida com um casaco de pijama roto nas costas, acompanhava um garoto que a puxava ansiosamente para a saída.

- Vamos, mãe! Já não tenho nada.

João Eduardo viu, por fim, o primeiro colega. Este procurava convencer um homem de que era impossível

internar o doente que ele viera acompanhar.

- Ouça, tiozinho: o seu amigo não tem doença para aqui.

- Mas não pode andar, senhor doutor. Como posso eu levá-lo para casa nesse estado?

- Que quer que eu lhe faça? - E o médico, considerando o assunto suficientemente esclarecido e arru mado, dirigiu-se a outro doente. O acompanhante, porém, torcendo a pala do boné, humilde mas obstinado continuou no mesmo lugar.

- Leve o homem daqui, já lhe disse! Resolva o assunto de qualquer maneira.

- Mas, senhor doutor, se num hospital não aceita os doentes, a que porta deve uma pessoa bater?

João Eduardo olhou alternadamente os dois. A in sistência do homem enervava-o porque monopolizava atenção do colega, que ainda nem sequer dera pela sua presença, mas, por outro lado, aquelas palavras fizeram-no estremecer. Dominou, porém, imediatamente essa reacção nebulosa. Tornava-se-lhe necessário que o homem se fosse dali. Que todos se fossem dali. Que eram os problemas dos outros senão um cenário incómodo? Que era toda essa humanidade lamurienta? Rostos, gestos, corpos repugnantes. Apenas coisas.

-Você tem uma piada! - retorquiu o médico. Mas, enquanto observava o maxilar de um ébrio, meditou um pouco mais no comentário que acabava de ou vir e, achando-o desta vez ofensivo, gritou: - E e ainda a aturá-lo! O senhor já me chateou de mais. Ó enfermeiro: chame aí um guarda que venha tomar conta deste tipo!

Os seus olhos coléricos descobriram então João Eduardo. Dirigiu-se-lhe:

- O que a gente atura, hem?!

A irritação provavelmente fizera-o esquecer tudo o resto, deduziu João Eduardo. Daí a naturalidade com que o outro lhe falara. No entanto, no seu olhar não teria havido uma restiazinha de surpresa? Não, devia procurar mais alguém, pelo qual pudesse esclarecer-se melhor.

O guarda não precisou de ser chamado. Farejara na cólera do médico, ouvida em todo o corredor, que alguma coisa pedia a sua intervenção, e correu a pegar no braço do homem.

- É este? Como te chamas?

Instantes depois tudo parecera voltar à normalidade, embora o incidente tivesse provocado uma tensa expectativa. João Eduardo, certamente para não ver rectifica­da a reacção anódina do colega, afastou-se, abrindo caminho entre os grupos que, entretanto, haviam en­grossado.

Os enfermos menos urgentes aguardavam sentados nos bancos, ao longo do corredor, ou então passeavam com nervosismo, e mesmo com irritação, no curto espaço que lhes estava reservado. À voz de uma criada ou de uma enfermeira, um deles encaminhava-se à pressa para um dos gabinetes donde partira a chamada e todos os outros se sentiam mais próximos do momento em que seriam atendidos. Os doentes começavam a manter uma reserva entre si, encarando-se como competidores que devessem ser vigiados; mas com o desassossego da espera, com a exaltação do sofrimento, bastava uma palavra espontânea, um queixume, para amolecer o muro de frieza, dando lugar a uma solidariedade um tanto coscuvilheira, pela qual a doença e os problemas pessoais eram prolixamente esmiuçados.

Muitas vezes essa aproximação realizava-se de um modo capcioso, tendo o propósito de justificar a presença num lugar que a tradição considerava destinado aos maltrapilhos, aos ébrios e às prostitutas.

João Eduardo ouviu o cirurgião perguntar lá dentro, numa voz fatigada, se havia muitos doentes; depois viu-o transpor a porta, de cabeça bem erguida, na qual a proeminência do queixo impunhado desde logo uma arrogância de pantomima. O cirurgião inquiriu de criado que empurrava uma maca:

- Que é isso?

Ao dar pela presença de João Eduardo, e já esquecido da pergunta, desanuviou a expressão, anotando com familiaridade:

- Hoje por cá?...

João Eduardo tentou perscrutar nesse cumprimento em que havia a inflexão respeitosa que aos seus ouvidos se vulgarizara, alguns vestígios de velada maledicência, mas retorquiu no seu jeito habitual:

- Os amigos procuram-se sempre...

E acenou amavelmente para os restantes colegas do cortejo, esperando ainda que de algum lado lhe fosse possível surpreender o verdadeiro acolhimento do ambiente. Eram todos uns farsantes, uns pusilânimes!

"Olha, meu filho: os homens estão feitos uns cobardolas. Só vemos salamaleques à nossa volta. Nem têm coragem para dar um par de bofetadas numa mulher. Podes dizer-me porque toda a gente perdeu a coragem?"

Eram palavras de Silvina. Ele explicara-lhe, taciturno: sim, a cobardia tornara-se uma profissão. A única que permitia ter jantar a horas certas.

O Medeiros, ao menos, ainda que desagradável, abria o peito às balas. Dizia o que tinha para dizer. Não se vendia à fácil prosperidade. Era da presença do Medeiros que precisava, captando sem custo na sua atitude a marcha dos acontecimentos, pois seria ele o único que, pela sua impudica rudeza, logo o esclareceria não só sobre o estado actual da rapariga, mas também até que ponto a sua reputação teria sido perigosamente abalada. Não lhe convinha, porém, confessar os seus sobressaltos, perguntando se ele estaria por ali.

Iria vestir a bata, juntando-se de vez ao grupo do cirurgião, tornando assim a sua presença justificada quando o Medeiros surgisse, intempestivo, de algum

lado.

À hora em que João Eduardo entrara no banco, ha­via terminado já o «render da guarda» - substituição do turno de médicos, que fizera serviço de urgência nas últimas vinte e quatro horas. A equipa anterior apresentara os doentes que, por várias circunstâncias, fica­vam retidos nas enfermarias do banco à espera de um rumo definitivo ou de que, resolvido o padecimento passageiro, lhes fosse permitido regressar a casa. Era depois disso que começavam as funções do novo turno. às vezes esse ritual trazia ao de cima rivalidades mal dissimuladas. O cirurgião, ao expor o caso clínico, en­contrava o sorriso complacente do colega, ou até qual­quer frase como esta: «Sim, nós depois veremos isso», significativa do pouco crédito que lhe merecia a actua­ção da equipa rendida.

A equipa iria agora passar revista aos doentes, sepa­rando os casos cirúrgicos que necessitavam de interven­ção urgente. Depois dessa triagem, o cirurgião deixaria aos colegas os restantes enfermos, tal um nababo que se permite desprezar as iguarias menos suculentas.

Um marinheiro inglês, perdido de bêbado, estrebu­chava em cima da maca, tentando soltar as pernas e os braços presos às correias. Reagia por instinto. O cirur­gião parou bruscamente e a sua cabeça olímpica orien­tou-se para vários lados à procura de um subalterno:

- Ó pá! Eu não quero aquele borracho ali amarrado à porta. Enfiem-no lá dentro, a um canto.

O empregado correu a cumprir a ordem e, entretanto, o marinheiro libertou um dos braços, levando imediatamente ao bolso das calças para distribuir moedas, como se a necessidade de oferecer gorjetas se tivesse transformado num reflexo.

- I don't know... I don't know...

E as moedas espalharam-se pelos ladrilhos.

Os doentes levantaram-se dos bancos à passagem dos médicos e, por momentos, suspendeu-se o rum das conversas.

- Não tenho nada! - repetia uma mulherzinha com o rosto escuro pintalgado de manchas de cloasma.

Vestia como uma aldeã, e, quando os médicos entraram no gabinete, o susto emudeceu-a. Alguém a trouxera ao banco, contra o seu desejo, e ela agora sentia-se sequestrada num covil de esbirros. Cada pergunta da médica ou da enfermeira a fazia recuar para o seu reduto de desconfiança.

- Não tenho nada... - mas a sua voz era já menos firme. Acabaria por se render.

- Isso já eu vi! - retorquiu a enfermeira.

A mulher puxava o lenço para a testa, como se, nesse gesto, recolhesse a cabeça numa toca, e, olhando furtivamente os médicos que se distribuíam pelo gabinete, monologava:

-Vinha no carro eléctrico e deu-me uma coisa. Mas já não tenho nada. - E, de súbito, ganiu: - Ai meu filhinho!

A enfermeira obrigava-a a subir para a marquesa: "Deite-se!, deite-se!", e a mulher fazia uma última ten tativa para escapar ao martírio.

- Não façam caso, meus senhores. Costumam dar-me estas coisas na cabeça. Mas já me passou. Vinha no carro e...

- já lhe deu isso outras vezes? - interveio João Eduardo, numa voz persuasiva. Ele sabia, por experiência, que os seus anos de aldeia não tinham sido em vão; e que no seu modo de se dirigir aos doentes boçais harpia ainda alguma coisa de estranha identidade com essa gente a quem o instinto, como aos bichos, prevenia das ciladas. Por vezes uma palavra sua aquietava-os, embora

resultasse de uma solidariedade artificiosa, pois se efectivamente existia nele uma secreta linguagem com os humildes já não a sabia traduzir por sofrimento, ou revolta, ou simples comiseração. A estupidez e a ignorância mordiam-lhe os nervos. De qualquer modo, o hábito de muitos anos devia ter-lhe deixado nos gestos e na voz os resíduos de um parentesco que os sentidos do povo logo apreendiam.

A mulher encarara-o com surpresa.

- Não se aflija comigo, senhor. Passou-me uma coisa na cabeça, mas agora já não sinto nada. - E verificando que ele a escutava sem a ironia pressentida nos outros, prosseguiu, como se desejasse coagi-lo a levar mais longe a sua protecção: - O que eu queria é que o meu filho não morresse. É o amparo da minha casa... Tenho o meu marido aleijado e o meu filho, esse... Tenho quatro filhos...

Um dos médicos interrompeu-lhe as lamentações: - Sente-se lá! Dispa-se, tiazinha. Vamos auscultá-la.

- Não se aflija comigo, senhor doutor.

O médico começou a desabotoar-lhe a blusa, e a mulher, antes de protestar, procurou à roda um rosto feminino que lhe pudesse compreender os pudores.

-Não vesti roupa lavada em casa. Não vinha a contar.

- Está bem, mas agora cale a boca. Tire o casaco e respire fundo.

O cirurgião, que apreciara a cena com uma ironia benévola, trocou um sorriso com João Eduardo e arrastou-o afectadamente pelo braço para outro grupo, onde uma rapariga procurava que a filha se mantivesse quieta em cima da mesa de observações. A criança chora convulsivamente. O choro comunicava-se-lhe a todos os músculos arrepiados.

- Ela tem dores - explicava a mãe. - Não chores, meu tesoiro!

A médica procurava inutilmente sondar esse ventre túrgido; as mãos encontravam os músculos contraídos, tesos como uma tábua da violência do choro.

- Toma lá, querida. - A rapariga oferecia-lhe um pedaço de bolo e a garota, bravia, logo o atirava ao chão.

-...Ela tem andado no médico dos ouvidos.

- Cala-te, chorona, com mil diabos! - desabafa a médica, embora a criança não a pudesse entender.

- Coitadinha, então não se há-de queixar? - co rigiu a mãe. - Do que eu tenho medo é que seja m ningite, senhora doutora! - E na inquietação das palavras implorava um desmentido.

Quando o cirurgião se aproximou, percutindo com os dedos no tórax escavado da criança, a mãe interferiu mais uma vez:

- Está magrinha, não é isso? É de ser miudinha! Mas quando a gente lhe pega assim, pesa! - E, num gesto imprevisto, a rapariga levantou a filha pelos quadris. Sorria de sentir os braços vergarem-se com o peso da filha. Essa expressão, por instantes suavizada, de novo, porém, se sombreou:

- As crianças que têm meningite não choram, não?

O cirurgião ia continuar a visita noutros gabinetes. A mulher de há pouco tinha-se sujeitado, enfim, à observação e agora a enfermeira procurava convencê-la a que tomasse o medicamento.

-Beba o remédio, santinha, que lhe faz bem.

Outra doente, com ares sentenciosos, de pessoa experimentada, auxiliava a enfermeira a vencer a obstinação da mulher:

- Beba. Não lhe tome o gosto.

João Eduardo fora atraído por um ventre inchado, que se destacava do lençol que o cobria e, sem olhar sequer para o rosto do enfermo, iniciou a palpação. Pela sua mente cruzaram-se alguns diagnósticos possíveis e antecipou em seguida o prazer quase voluptuoso de denunciar um deles apenas pela subtileza das suas mãos. Entretanto, ouvia a ladainha da mulher, que protestava ainda:

-Eu não tenho nada. Só quero ir-me embora. Quero ir ver o meu rico filho, que me escreveu a dizer que está doente.

-Mas beba. É num instante. Aperte o nariz e beba.

A mulher, por fim, anuía a repetir a tentativa, mas, em chegando o copo à boca, logo borrifava as outras doentes.

- Você deita tudo fora! Eu já não insisto mais concluía a enfermeira. - Vou dizer ao médico que escreva na ficha que vossemecê recusou o tratamento.

Banalidades. Assim tinham de ser considerados esses sobressaltos do quotidiano, em que por vezes a doença mal aflorava. Num tal vaivém confuso de dramas e comédias, tornava-se necessário isolar o caso clínico do caso humano. João Eduardo reconhecia de há muito que, ali, naquele palco de comparsas fortuito tudo o que não fosse doença tinha de ser desdenhado como supérfluo. Mas em certos momentos, embora a face sórdida da vida o enjoasse, procurando encará-la como situada num mundo que já não era o seu, tod as velhas raízes estremeciam. Que importava que personagens fossem breves, que o convívio humano tivesse a duração de uma hora e aparentemente resultasse inútil? O importante era senti-lo. A comunhão de outros tempos, ainda que dolorosa e fatigante, preenchera-lhe a existência e talvez continuasse a ser a última oportunidade de afugentar a temível solidão interior, busca desorientada de alguma coisa que sempre se lhe escapava das mãos febris e vazias.

Quando o grupo de médicos regressou ao corredor, o número de doentes havia triplicado. E tornara-se mais ansioso ou rezingão. Um rapaz, com a mão golpeada, corria de enfermeiro para enfermeiro, enervando-se com a demora dos médicos que, lá dentro, em conversas que pareciam intermináveis, dir-se-iam alheios às aflições de cada um.

- São como gralhas! - confirmava uma velha que estivera todo aquele tempo a resmungar para si própria. - Onde poisa um, poisam todos! Ainda agora estava aqui tudo cheio deles.

A frase atiçou os protestos de vários outros doen tes. Dois bombeiros que tinham acompanhado um sinistrado acabaram também por anuir ao descontentamento geral. O rapaz, robustecido pelo apoio que o cercava, interpelou com agressividade um enfermeiro que exibia umas estrelas na bata suja:

- Pergunte lá se somos para aqui uns carneiros...

- Sossegue, camarada, não se assuste de ver umas gotas de sangue. Há-de chegar a sua vez.

- Pois é. Apresenta-se aqui um homem e fica a secar até que suas excelências se fartem de lérias.

- A culpa não é minha. Mas vocês mordem todos pelas costas; quando um doutor lhes aparece na frente, ficam logo borrados de medo. - O enfermeiro reparou que se havia excedido na confiança prestada ao refilão e corrigiu sem demora: - Você não está a perder sangue.

-Pois não estou, não!... Olhe aqui!

O enfermeiro aproveitou a aproximação de um bêbado, ferido na testa, donde o sangue, depois, ia coagular nas sobrancelhas emaranhadas, para se libertar do rapaz:

- Que é isso, meu valentaço? Não esteja para aí a cair - e segurou-o pelos ombros.

Um dos médicos que se adiantara, ao reparar na cena, perguntou desinteressadamente:

- Senhor Aníbal: então que temos?

- É este amigo que está a teimar com o centro de gravidade.

- Mude-lhe os prumos.

E satisfeito com o êxito da graçola, olhou com tolerância os doentes que tinham rido.

Os graduados da equipa entravam agora na sala dos casos mais graves. Era ali que habitualmente terminava a ronda do cirurgião, certo de encontrar material abundante para a primeira série de operações dessas fastidiosas horas de clausura. A sala tinha um odor pesado e quente na semiobscuridade em que a deixavam, dava a sensação de que nela se preparava um velório. Os corpos, confundidos na penumbra, postados numa atitude de dor, de resignação ou de inconsciência, eram ainda vivos? Eram já mortos?

Um velho, de olhos fixos e ausentes, estava junto da porta de entrada; dos lábios violáceos escorria uma baba espumosa, que ele aparava de quando em quando no lenço para logo voltar à posição inicial, boca entreaberta, olhos parados no fosco das janelas altas, barba grisalha e imunda. A seu lado, um homem sem idade encostara-se à parede e acabara por adormecer, indiferente aos berros de um dos companheiros, a quem o médico procurava movimentar o braço fracturado para lhe preparar um molde de cartão. O pulso do rapaz, desenhando um ângulo recto com o dorso da mão, parecia prestes a furar a carne.

- Eh, pá!, deixa-te de lamúrias.

Mas todo esse alvoroço não interrompia o sono do outro.

Do lado de lá da parede que separava a sala em três compartimentos, uma rapariga magra, rosto cidrento e mole, onde apenas os olhos negros eram duas labaredas foragidas, queixava-se de uma pontada. A médica reparou nesse rosto sem cor e disse:

- Mas esta mulher está tremendamente aneminada. Perdes sangue?

- Não senhora. Esta cor é de ter estado internada. Tive um filho há oito dias e o médico disse-me para ficar no hospital algum tempo. Que me curava.

A médica ficou pensativa. Parecia esforçar-se por dar nitidez a uma recordação nebulosa.

- Você lembra-se? - perguntou a um colega. João Eduardo centrou também a atenção sobre a doente. Aquele rosto, embora a mulher fosse nova, estava carregado de sombrias sugestões. Sentiu um arrepio, que era por vezes o seu modo de reagir perante as tragédias físicas: um misto de repulsa e compaixão. - Lembra-se desta doente? Tinha uma neoplasia e aconselhámo-la a que se internasse. Nunca mais apareceu, depois de dizer que ia pedir conselho ao marido. Vá, santinha, deita-te ali.

- Neoplasia? - comentou o cirurgião, esfregando a testa.

Ao ouvir o rebate de cancro, a enfermeira, que ajudava a doente a despir-se, pôs nos seus gestos um ritual diferente, em que havia o seu quê de enojada precaução. Das roupas caiu um trapo manchado e fétido.

- Que cheirete! - protestou a enfermeira.

- Sente-se. Vamos auscultá-la primeiro.

João Eduardo interpôs-se, pedindo licença para ser ele a fazê-lo. Os outros afastaram-se pressurosamente. E perante um colega que eles sabiam mais versado e escrupuloso, a auscultação deixou de ser uma rotina sem imprevistos e sem encantos para se transformar numa prática misteriosa, como se aos ouvidos de João Eduardo os dois botões auriculares transmitissem segredos inacessíveis a quaisquer outros. Ele captou imediatamente a reverência e por ela teve a satisfação de confirmar que, na verdade, o seu prestígio permanecia intacto. Também já a sentira pelos colegas mais experimentados que encontrara na sua carreira. Era uma reacção certamente pueril, mas difícil de suster.

A doente lamuriava sempre fazendo gestos bruscos. - Ai o meu pulmão! E uma faca que tenho aí enterrada.

- Esteja quieta - e a médica segurava-lhe brandamente os braços. - A senhora, com essa conversa, está a estragar tudo.

João Eduardo enrolou vagarosamente os tubos de borracha do auscultador. A uma pergunta dos colegas procurou o olhar do cirurgião, como se esse intercâmbio sem palavras bastasse para que dois médicos experientes se elucidassem; e escapou-se à pergunta dizendo:

- Façam-lhe uma observação ginecológica.

A médica calçou as luvas e enquanto a mão esquerda apreciava a frouxidão do ventre da rapariga, a outra sondou o interior.

Fundos de saco apagadíssimos... - e, timidamente, procurava averiguar a reacção de João Eduardo. - Não me castiguem mais! - implorou a doente - Pronto!, pronto! Estou farta de sofrer.

- O senhor doutor quer observá-la com o espéculo? - perguntou a médica ao cirurgião.

- Não, veja você.

Terminado o exame, a médica indagou da rapariga - Oiça lá: quer ser internada? - Se acham que é preciso... No alvoroço à sua volta, a doente pressentia que um perigo obscuro a ameaçava. E essa ameaça obrigava-a a render-se, sem condições, a qualquer espécie de apoio.

- Ah, agora já quer! Vocês o que mereciam era dois açoites bem dados.

- Mas você vai interná-la? - inquiriu o cirurgiã com bonomia.

- Não lhe parece que...

- Está bem, já sabemos. Mas interná-la com metástases? Com este estado geral? Isto não é propriamente um asilo...

- Com metástases?!

- Pois que pensa você que o doutor João Eduardo esteve a auscultar?

João Eduardo assentiu numa leve inclinação de cabeça. O episódio, aparentemente sem relevo, servia-lhe magnificamente. Ali, pelo menos, continuavam a reconhecer-lhe uma indiscutível superioridade. Enquanto uma criada ia limpando os ladrilhos ensanguentados com um esfregão na ponta de uma vassoura, João Eduardo sentiu um reavivar de todas as energias, de toda a capacidade de enfrentar os ciúmes e as ciladas; e não esperou mais tempo para ir desafiar o lobo no seu covil. Subiu à pressa as escadas que comunicavam com as enfermarias, onde acabaria por encontrar o Medeiros ou qualquer dos colegas que o poderiam substituir na peçonha. Quando já ia a meio das escadas, teve, porém, uma hesitação; e, reparando num internista que se ficara a vê-lo subir, perguntou-lhe numa voz que não pôde deixar de ser insegura:

- Por acaso deu entrada no banco um garoto que foi entalado num elevador?

- Não me lembro. Mas se é alguém seu conhecido, eu...

- Não, não é necessário perguntar a ninguém. Obrigado.

- Têm telefonado para o senhor doutor. - Donde?

- De vários lados. De casa de vossa excelência, da parte de um doente chamado Jaime, e também do consultório do senhor professor Cunha Ferreira.

- Está bem.

Mas aquelas palavras, aliás rotineiras na sua vida febril, traziam-lhe de novo uma instabilidade nevrótica.

Ultimamente, a aglomeração de correio, um doente mais no consultório, uma pessoa inesperada para atender, um nada, pareciam vir desmoronar-lhe uma ordem íntima que ele procurava em vão recobrar ou defender. Já não distinguia entre os bons e os maus acontecimentos. Em face de uma tarefa imprevista, fosse qual fosse os seus gestos traduziam logo desordem. Puxava então do maço de cigarros, como de um estimulante que ajudasse a repartir-se por essas múltiplas e ensurdecedoras vozes. E enquanto atendia uma das solicitações, o seu cérebro, os sentidos, estavam já divididos por tudo aquilo que iria seguir-se. Apetecia-lhe infantilmente gritar do fundo das entranhas: "Deixem-me! Não me estim nem me odeiem! Deixem-me, apenas." Fugir-lhes? Mas sempre que se sentia longe, a ansiedade era talvez maior ainda. Parecia-lhe que todos aproveitavam a sua ausência para o enredarem em maquinações ou para se apropriarem abusivamente de um mundo que lhe pertencia, que conquistara, e fora do qual se sentia uma árvore desterrada.

- O professor Cunha Ferreira? Tem a certeza? perguntou, após uns instantes de reflexão.

- Foi ele próprio a telefonar.

- Que disse ele?

- Perguntou apenas por vossa excelência.

Que diabo lhe quereria a velha raposa? E, como sempre que tinha uma dúvida, era levado a relacionar o telefonema com um dissabor.

- Ligue-me para o senhor professor - disse, numa voz lenta e saturada. Começava já a sofrer os efeitos da contrariedade, mesmo antes de a saber confirmada.

Enquanto esperava a ligação, de novo lhe pesou sobre os músculos e a vontade um cansaço que parecia definitivo. Talvez mais ainda renúncia do que fadiga; um torturado a quem já não pode interessar ser redimido, mas apenas que a tortura termine de qualquer mo­do. Perdera todo o ímpeto de arrostar com o Medeiros. E repetia-se aquela ânsia de fuga, de regressar a uma quietude que o confundisse com as fragas, os bichos, com o tempo morto e suspenso; aquele tempo e aquela vida hibernados no pasmo dos seus anos de aldeia.

- O senhor professor já não está no consultório. Parece que vem a caminho do hospital.

Aliviado, concluiu que devia tratar-se de um caso clínico urgente. Esquecera completamente os outros telefonemas. As coisas relacionadas com o seu círculo mais íntimo, por desagradáveis que fossem, poderiam ser adiadas. No fim de contas, era ele a decidi-las; e dificilmente repercutiam no exterior. As outras, é que não; as outras, que lhe exigiam uma vigília ardente e in­fatigável, um alarme de todas as horas, era preciso tê­-las sempre protegidas da ferocidade dos estranhos.

Foi já numa expressão desafogada, quase jovial, que interpelou o enfermeiro:

- E por cá?

- Sem novidades. Não esperávamos que o senhor doutor nos visitasse esta tarde...

- Calhou. Então não há novidades... - insistiu, dando à frase a tonalidade de uma pergunta desprendi­da, mas efectivamente no propósito de sondar até ao fundo a loquacidade do enfermeiro.

- No nosso serviço não me consta. Deseja que eu telefone para casa de vossa excelência?

- Mais tarde. Porque disse «no nosso serviço»? - A resposta pareceu-lhe dúbia, sentira-a imediatamente uma agulha espetada nas suas preocupações. – Nas outras enfermarias aconteceu alguma coisa de especial?...

- Suponho que não.

- Bem - disse com secura, já arrependido de se ter exposto excessivamente. - Vamos dar uma vista de olhos lá dentro.

Entrou na enfermaria. Queria dar tempo a que o professor Cunha Ferreira chegasse ao hospital. Punha agora a hipótese de que o sabidão do professor, como andava em permanente despique com o Medeiros, o quisesse prevenir de qualquer velhacaria relacionada com o caso da apendicite, embora desse gesto projectasse usufruir, como sempre, vantagens pessoais. Se sim era, convinha-lhe reunir todos os trunfos antes de encontrar os receados colegas.

Entretanto, faria uma visita aos doentes da enfermaria. Eram os seus doentes. A sua enfermaria. Um reduto inexpugnável onde a maledicência não se poderia infiltrar.

Uma criança, nascida quinze dias antes, recebia plasma através de uma veia da cabeça. O seu rosto pergaminhado era a máscara de um velho. Sabia-se que estava viva porque gemia como um pássaro moribundo. A doente da cama do lado, num comentário que significava um protesto contra a selvajaria da agulha espetada na cabeça, disse:

- Pobre anjinho! Não faz senão gemer. Mais valia deixarem-no em sossego.

João Eduardo sorriu com afabilidade.

- Numa criança, chorar não significa sofrimento. Significa vida.

O rosto da mulher imobilizou-se numa expressão extasiada: parecia decorar ou decifrar, com enlevo aquelas palavras. Por fim, encarou as companheiras e esse olhar propagou-se até ao cabo da enfermaria, como se entre elas existisse um código secreto.

Para estes doentes simplórios, João Eduardo tinha ainda outras formas de aliciação. Os colegas esqueciam quase sempre que por detrás do doente anónimo, vindo da província para um leito hospitalar, estava um burgo inteiro, para quem as impressões transmitidas pelo doente repercutiam dos modos mais inesperados. O doente que partia da sua terra para o acaso tremendo de um hospital era o herói de uma aventura singular.

Muito tempo depois de um campónio, de quem mais ninguém se lembrava, sair da sua enfermaria, alguém vinha deixar-lhe à porta o agradecimento humilde de uma cesta de fruta, de uma ave doméstica e, o que verdadeiramente importava, um outro doente, estimulado pela recomendação entusiástica do conterrâneo que não esquecera a solicitude com que fora assistido.

Era por isso que João Eduardo estabelecera como norma que todos os doentes da sua enfermaria regressassem à terra com uma carta dirigida ao médico assis­tente, em que os pormenores do caso eram minuciosa­mente relatados. Por vezes, tais cartas provocavam um rodopio abusivo de perguntas e respostas, mas todo o médico de província, afeito ao desdém da cidade, sabia compensar essa surpreendente atenção que lhe dispen­savam. A prosperidade material do consultório de João Eduardo encontrara aí um dos esteios.

Mas essa estratégia, que lhe conspurcava as relações humanas, impunha um preço: a náusea de si próprio. Em face de situações que faziam explodir a sua fome de calor humano, tentava persuadir-se com desespero: «Is­to não foi deliberado! Não tinha qualquer intenção reservada!", visto que nem ele sabia já onde terminava espontaneidade para começar a premeditação. Tornav -se necessário, por isso, defender de si e dos outros que nos seus actos não se corrompera ainda, e ia então procurar uma oportunidade anónima de prestar u serviço a alguém, gozando-a a sós como um garoto saboreia uma guloseima furtada à proibição dos adultos.

Mas, ainda se o quisesse, que outra coisa pode oferecer a essa pobre gente, além da fácil magia das palavras? Superior a todos os apelos, havia uma repulsa difícil de iludir. Repulsa em que até a inteligência acabara por compartilhar. Torturava-se algumas vezes a imaginar o sabor das pestilências, em que a miséria e a doença formavam um todo inseparável, o contacto das chagas imundas e dos sexos ulcerados, encharcando os sentidos da podridão, como a atiçá-los a tornarem o seu nojo irredutível. Os seus sentidos só poisavam, frios, sobre a doença, quando um simples lenço branco a isolava do corpo a que pertencia. A medicina seduzia-o - sim, mas como especulação. Se ele pudesse dispensar o doente, pessoa humana, da colaboração no diagnóstico e na cura!... Eles, esse material de estudo resignado e paciente, pertenciam a uma outra espécie zoológica, que os hábitos e a inteligência repeliam. Restavam, pois, as palavras; e por isso a sua boca so ria, o rosto cobria-se de cordialidade, num jeito decorado pelos músculos, enquanto, intimamente, todo ele enrolava como um verme esquivo.

Depois de perguntar a uma ou outra doente como se sentiam, João Eduardo dirigiu-se à enfermaria dos homens.

Parou junto de um doente a quem a enfermeira administrava uma injecção. O homem, cujos olhos papudos pareciam riscados de sangue, soergueu-se para o cumprimentar.

- Deixe-se estar, senhor Abílio - e impediu-o brandamente com as mãos. Procurava fixar desde o primeiro dia o nome dos doentes. Era o método mais eficaz de estabelecer uma ponte de confiança com esses labregos a quem a vida coagira a uma amedrontada reserva. - Como se sente?

- Estou um cangalho, senhor doutor!

- Agora um cangalho!... - desmentiu o enfer­meiro.

- E água? Posso beber? - Os olhos empurraram as pálpebras edemaciadas, a fim de não perder nada da reacção do médico.

- Água? - repetiu João Eduardo, de pensamento dividido. - Pode, mas muito pouca.

O homem tossiu e fechou os olhos, desiludido. Cansara-se de promessas. Cansara-se de esperanças. O que importava era a realidade presente. A sede. Ele trocaria o pouco de vida que lhe restava pela satisfação plena de beber até que o seu corpo se desse por farto. Todas as suas aspirações se reuniam, por último, nessa obsessão de todas as horas, que lhe subia, insaciável, das entranhas afogueadas. O seu corpo era um deserto de secura, ávido de que um dilúvio lhe caísse em cima. Beber, embora a morte viesse no minuto seguinte!

João Eduardo apreciava as últimas análises do doen­te. Mas a sua atenção estava longe. Começava a ficar in­quieto. A presença do enfermeiro, de olhos postos na sua distracção, irritava-o. Em certos momentos era-lhe insuportável sentir as pessoas junto de si, dependentes de si, coladas, como lesmas, aos seus pensamentos e aos seus gestos. Sanguessugas a sorvê-lo. Os íntimos já lhe conheciam as atitudes bruscas, o modo de afugentar pessoas, como se, subitamente, as não tolerasse mais. Foi no momento em que iria dizer ao enfermeiro qualquer coisa inconveniente, que uma voz metálica lhe gritou pelas costas:

-Até que enfim que o encontro! Tenho andado com uma candeia acesa por essa cidade à sua procura - e o professor Cunha Ferreira avançou com a robusta mão estendida.

Como sempre, o seu sorriso convencional forçava a boca a rasgar-se, num amplo esforço de simpatia que de tão exagerado, resultava num esgar. Em certas circunstâncias viam-se-lhe os olhos de cirurgião ficar duros ou pensativos e, mesmo assim, a boca continuava imobilizada no sorriso adulador.

O professor era um homem grande e sólido, fronte espalmada como se duas mãos erguidas sempre a tivessem amolgado; restava-lhe pouco cabelo, mas nem por isso a sua cabeça deixava de ser imponente. Esfregava as mãos a todo o momento, no jeito de preparar para uma amabilidade ou um diálogo imprvisto, e, a caminhar, debruçava o corpo para a frente numa reverência perpétua, enquanto os olhos, buliçosos, sondavam em todos os lados a eventualidade de um encontro amistoso.

Todo esse jogo de urbanidade cativante era, porém desmentido pelas pálpebras inferiores, moles e soturnas. Havia insónias e descrença e fadiga nessas pálp bras.

- Pois, meu caro, você é mais difícil de encontrar do que agulha em palheiro. Como podia alguém supor que você, a estas horas, viesse ao hospital?! - Mudando abruptamente de rumo, como era seu hábito, prosseguiu:

- Tenho um assuntozinho a conversar consigo. Vamos ali fora dois minutos. - E tomou-lhe vigorosamente do braço.

O professor Cunha Ferreira vangloriava-se, entre muuitas outras coisas, da juventude dos seus músculos. Embora a sua carreira de cirurgião famoso lhe tivesse sacrificado certas inclinações, não pudera coibir-lhe o dos desportos. Mas acabara por descobrir que a tal fraqueza tinha, afinal, vantagens. Como nem sempre havia bons pretextos para que os jornalistas lhe avivassem o nome nas colunas dos periódicos, anunciando as suas comunicações científicas ou as suas viagens ao estrangeiro, nas quais o turismo se embuçava uma olhadela à frontaria de um hospital, ele, então, oferecia-lhes o espectáculo de um professor de cirurgia exibindo o galardão conquistado num campeonato de tiro aos pombos, de vela ou mesmo noutros desportos menos aristocráticos.

Não havia dúvida, ele iria falar-lhe do caso da apendicite, pensou João Eduardo. Todo aquele cenário de frases feitas conduziria a uma das apoteoses dramáticas ou deslumbrantes tão do agrado do professor. Bruscamente, ele premiu mais fundo no braço de João Eduardo e disparou:

- Quer você hoje jantar comigo?

- Não sei se posso, professor, deixe ver...

-Você e a sua mulher, claro está. Uma pequena reunião de amigos. Nós, o casal Medeiros...

João Eduardo encarou-o entre surpreso e aterrado. Mas o outro sorria sempre, impenetrável, um sorriso que, de estampado artificialmente no rosto, parecia impedi-lo de articular as palavras.

Dera-se alguma coisa de muito grave, estava agora certo disso, e o Cunha Ferreira, embora com qualquer intenção provisoriamente escamoteada, divertia-se a in terpretar o papel de medianeiro. "Nós, o casal Medeiros..." Era como se passasse o bico da lanceta sobre carne viva. E aquele farsante bem o sabia! Havia muito de volúpia na sua voz, na sua máscara, nos olhos de uma sensualidade frustrada.

Era pois certo que a campanha do Medeiros tinha ido muito longe. De novo o amarrotava aquela sensa ção de fracasso inexorável, de infelicidade sem lenitivo. E de novo, também, como a um adolescente incom preendido, o impelia a ânsia de encontrar um esconderijo. Um refúgio, meu Deus, e a tranquilidade! Todo o seu instinto de luta, por vezes desvairado, que o fazia sentir-se um cavalo de narinas rasgadas pelo cio, se es boroava, lastimoso, de tão gasto de ser posto à prova. Mas ele, perante os abutres, não podia confessar-se frágil! Que fazer, então? Aceitar a asa humilhante do pro fessor, da qual este cobraria juros em qualquer oportunidade, reduzindo-o mais uma vez àquelas situações tão repetidas na sua vida, de pobre diabo à mercê de um apoio - ou escorar-se sozinho, aceitar a luta com fúria e dignidade? Mas que luta?

- Não sei se me será possível, professor.

- Vai, sim. É um favor, meu caro. Convido também um grande tipo da aristocracia provinciana, a que entendo que devemos operar com certa urgência. O homem atemorizou-se, não sei porquê, e decidiu, como é da praxe, ouvir outra opinião. Caiu no Medeiros, por azar dele e... nosso. Ora o Medeiros é como você sabe. Põe os pés à parede, como um jerico casmurro, e, asnaticamente, garantiu ao homem que ele precisaria de tudo menos de um bisturi. O tipo agora está indeciso, é claro. Lembrei-me, enfim, que a sua opinião de bom médico, que toda a gente respeita, poderia arbitrar este caso. Convidei o doente, convidei o Medeiros, sem que nhum deles saiba quem vai encontrar em minha casa, parecerá certamente natural que, por deformação profissional, falemos dos padecimentos de um dos convidados... Não é verdade? Para lhe ser franco, sinto-me vexado. - Suspendeu-se uns instantes, farejando a acção do interlocutor, e logo o sorriso se exacerbou: Vá, homem, conversaremos um pedaço. São tão raras as vezes que podemos conversar com um amigo!... João Eduardo sentiu um tumulto contraditório dentro de si. Mas nem o quis esclarecer. Por agora, o que acentuava acima de tudo era a certeza de que o seu nome continuava íntegro, que se mantinha, como até suficientemente prestigioso para decidir de uma divergência em que intervinha um professor universitário. embora o convite do cirurgião estivesse repleto de alçapões e da avidez mercantil do costume, apetecia comunicar-lhe uma afectuosa gratidão. -Está bem. Vou fazer o possível. -Você é um bom camarada, meu caro! Os meus respeitos a sua mulher e lá os esperamos. E olhe - admoestava-o amigavelmente com o dedo erguido -, não habitue os doentes a serem visitados fora das horas de serviço!

João Eduardo viu-o despedir-se de repente, desaparecer no corredor, acelerado e inquieto, uma cobra que procura um esconderijo para digerir a presa que acaba de devorar.

A presença fugaz do cirurgião deixara ali um rasto viscoso, um cheiro, uma ameaça. Como pudera alegrar-se com o convite? E, subitamente, sentiu uma inesperada solidariedade pelo Medeiros, um dos raros que em nenhuma circunstância poderia corromper. Parecia-lhe agora impossível que, momentos antes, obcecado pelos seus receios, o tivesse julgado capaz de turvos desígnios no caso da apendicite. O Medeiros suspeitaria, de algum modo, do que ia passar-se nessa noite? Imaginava-o já na sua frente, cigarro pendurado nos dedos nervosos, os olhos claros e límpidos, de uma ingenuidade turbulenta.

Essa evocação era feita com uma impaciente tern ra. Precisava vê-lo quanto antes, transmitir-lhe num abraço, numa frase, ou apenas nessa espécie de emoção mais poderosa e expressiva que as palavras, que nu instante derruba as muralhas da desconfiança, todo desejo de purificar a sua vida pela fraterna simplicidade dos contactos humanos. O Medeiros não estaria mais só na sua luta contra os gananciosos. Mas como lhe aceitaria o Medeiros a camaradagem se o ia procurar de mãos impuras? Um homem como o Medeiros, um rebelde à luta selvática de cabalas e insídias, não baixa os braços perante qualquer episódica manifestação de crise emocional. Nele, a inflexibilidade era uma força também uma defesa. Se João Eduardo sabia que derrubar" era a palavra de ordem contra todo aquele que esperasse a mediocridade, "derrubar" sem escolher armas, o outro não desconhecia, por seu lado, que a selva não admite hesitações e que tinha o direito de se aproveitar das circunstâncias e derrubá-lo também. Restava-lhe então a desistência ou as artimanhas do costume? Restava-lhe mais uma vez, e apenas, a solidão? Mas talvez a sanha do Medeiros lhe fizesse bem. Precisava de ser vergastado por quem tinha autoridade para fazê-lo.

- O doutor Medeiros? - perguntou a um empregado.

- Passou ainda há pouco para a enfermaria.

João Eduardo achou-se na enfermaria do colega sem ter tomado consciência do caminho percorrido. As veias da fronte latejavam-lhe com violência. O outro ergueu a cabeça esgrouviada e disse:

- Venha cá. Olhe ali a nossa amiga. - A sua voz alegre e um tanto infantil não escondia nenhuma insinuação ao apontar-lhe a rapariga da apendicite. - Está famosa. Vai gostar de a ver. Esperávamos que você aparecesse de um momento para o outro.

João Eduardo aproximou-se do leito e a doente acomodou num dos lados da almofada a cabeleira farta e negra. Sorria-lhe com ingénua timidez.

- Estás de óptimo parecer.

As palavras saíram-lhe rouquejadas. Olhou o Medeiros, esperando ainda que ele se preparasse para o esgadanhar como um bicho assanhado, mas na face do outro persistia o mesmo sorriso puro e alvoroçado da rapariga. No Medeiros, naquele instante, havia apenas a alegria do triunfo sobre a doença. Nada a poderia enxovalhar. E essa alegria precisava de ser dividida com todos aqueles que a soubessem compreender. O Medeiros sempre vivera a medicina como uma missão, mas vivia-a como homem e não como apóstolo: com nervos, ansiedade, azedumes, e, até por vezes, com desordenada truculência. Como pudera então esquecer o que se passara à volta do caso da rapariga? Ou seria aquela atitude conciliadora uma forma tortuosa de o humilhar?

- Estás de óptimo aspecto - repetiu João Eduardo.

Mas não era isso que ele queria dizer. Nem isso

nem outra coisa. E levou as mãos aos ombros do Medeiros, aos cabelos macios da rapariga, timidamente, a medo, como a experimentar-lhes a reacção, a certificar -se se efectivamente poderia misturar neles a sua fome de compreensão.

Lembrava-se com frequência da primeira e única vez que fora a casa do Medeiros. Tinha sido uma experiência perturbadora, que continuava a fermentar dentro de si, à espera de ser definida. João Eduardo procurara o professor Cunha Ferreira no hospital, levando-lhe uma doente que precisava de ser operada sem demora. Era uma mulheraça afável e sensível, antiga cozinheira de embaixadas, que ele cuidava periodicamente de um reumatismo avesso às tisanas do ervanário e que, com a mesma periodicidade, lhe retribuía os serviços com um pão-de-ló monumental. A mulher apresentara súbitas hemorragias e demais sintomas de uma úlcera gástrica perfurada. Como o pão-de-ló e o reumatismo tivesse estabelecido entre ambos relações de certa afectividade, foi com verdadeira inquietação que João Eduardo a conduziu ao hospital para a intervenção urgente que se impunha.

- Tenha paciência, professor. Trouxe para a enfermaria um caso de úlcera perfurada. Interesso-me pela mulher e agradecia-lhe que a operasse imediatamente.

O professor afagou várias vezes as sobrancelhas contrariado.

- Oh, diabo; eu ia sair agora mesmo!

- Desculpe, mas o caso é grave.

- Bem, vamos lá ver a mulher.

O cirurgião debruçou-se sobre a cama. A sua atitude era amável, mas, na desordem com que interrogava a doente e sobretudo no olhar acerado, era fácil verificar que a responsabilizava por aquele tempo perdido.

- Meu caro: permita-me que discorde dos seus receios. - E, arrastando-o significativamente para um canto, esclareceu: - Nada a fazer. Trata-se de um cancro do cólon. Adiantadíssimo. Inútil intervir.

João Eduardo não esperava que o outro fosse tão longe no seu brutal egoísmo e, com velado azedume, insistiu

- Mas eu conheço a doente, professor. Sei como tudo evoluiu. É uma úlcera perfurada, asseguro-lhe!

- Você, meu caro, pretende iludir-se. Sei bem o que se passa com qualquer de nós quando nos interessamos de um modo especial por um doente. Infelizmente, não vale a pena intervir.

Seria ingenuidade tentar convencer o outro. Ele recusava-se deliberadamente a uma discussão leal e honesta.

- Mas, pelo menos, dê aí uma facada, professor. Será a maneira de se saber ao certo o que se passa.

O professor já não escondia o enfado. Começara a despir a bata.

- Inútil, meu amigo; só iríamos acelerar a evolução do caso. E, além disso, você desculpe, mas estou cheiíssimo de pressa.

João Eduardo não pudera refrear o gesto de bater com o pé na secretária. Sentia-se revoltado. Era uma revolta que de há muito não lhe acontecia e que simultaneamente o satisfazia e amedrontava.

- Então não repare que leve a doente para morrer em casa.

- A doente é sua, meu caro. Acho muito bem que o faça.

Depois que o professor se retirou, João Eduardo ainda mediu todas as contrariedades que adviriam do incidente, mas, no entanto, elas só o poderiam atiçar. Durante uns dias evitou encontrar-se com o professor: cruzaram-se mais tarde, na rua, cada um no seu autmóvel, e, como lhe pareceu que o outro se fingira traído, João Eduardo, já então preocupado com o provável ressentimento do cirurgião, procurou manobrar o carro de maneira a alinhá-lo com o do outro, forçando-o a uma atitude. O professor, enfim, saudou-o amistosamente e João Eduardo sentiu escorrer pela garganta um rio de frescura. Fora pueril nos seus temores: era de prever que o Cunha Ferreira tivesse mais empenho que ele em que as relações entre ambos continuassem desanuviadas.

João Eduardo levara a doente para uma casa de saúde e o nome do Medeiros foi o primeiro a acudir-lhe à lembrança. No Medeiros podia-se confiar. Não perguntaria se a doente tinha dinheiro, nem nenhum compr misso pessoal o impediria de cumprir o seu dever.

O Medeiros habitava numa ruazinha íngreme, onde a velha e a nova cidade se afrontavam inopinadamente. Como as casas do bairro estariam condenadas a desaparecer, ninguém pensava em retocá-las. A do Medeiros seria por certo demolida em breve, já ameaçada pela vizinhança de um arrogante e moderno edifício de escritórios; e como, entretanto, o aluguer era barato, ele empurrara a família para essa toca imprópria da sua dignidade social. Mas foi ao penetrar no corredor que João Eduardo avaliou, com espanto, toda a sordidez da habitação. As paredes de há muito que não eram limpas e gente vária lhes escrevera frases que quando não eram obscenas para lá caminhavam.

Tocou na primeira campainha. Levaram algum tempo atendê-lo, embora se ouvissem risos e correrias no interior da casa. A pessoa que espreitou pelo ralo da porta ficara provavelmente indecisa ou mesmo sobressaltada; só uns bons minutos depois se decidiram a abri-la. Apareceu-lhe uma mulher jovem e loira, que devia ter sido bonita, com um nervosismo ridículo, que a levava a tentar fazer várias coisas ao mesmo tempo: desembaraçar-se do avental, desdobrar as mangas arregaçadas do vestido e compor, dentro do possível, os cabelos enrolados nos ganchos. - Que deseja?

- Falar com o doutor Medeiros.

- Ah, não se encontra em casa... ainda não chegou.

Não estavam, por certo, muito habituados a que os clientes procurassem o chefe da família. E João Eduardo reflectiu imediatamente se seria então indispensável ao triunfo a série de embustes e transigências a que ele e   o Cunha Ferreira, por exemplo, recorriam. Tornava-se então necessário que cada um se destruísse a si próprio, contemporizando com uma sociedade corrupta, lisonjeando-a e adaptando-se ao seu jogo, para não ser espezinhado economicamente? Seria essa a única saída - cada um estender a mão para as suas ruínas e reconstruir delas qualquer coisa amorfa que os outros moldavam como bem lhes apetecia?

- Se me dá licença, espero. Tenho urgência em falar com ele.

Ela recuou para uma saleta, como se defendesse cada palmo de terreno, e, entretanto, ia ajeitando furtivamente com os pés uma dobra do tapete gasto e desbocado, ou arrumando à toa o que aparecia ao alcance das mãos.

- Entre, entre! As crianças põem tudo fora do lugar.

- É a esposa do Medeiros?

Ela, um pouco surpreendida, acenou que sim.

- Sou colega. O João Eduardo.

- Ah, porque não me disse?... - e pôs-se a limpar as mãos ao avental. De um instante para o outro, ficou tranquila e risonha. - Venha, venha até cá dentro. Ia dar o almoço a estes traquinas.

Uma menina de cabelos loiros irrompeu na saleta. Trazia o rosto pintalgado. À vista do desconhecido, parou de repente. Ao mesmo tempo cessava o ruído pela casa.

- Limpa esse nariz, rapariga!

- Não tenho lenço... - e escondeu as faces no bibe.

A mãe encostou-a a si e disse numa voz imprevista mente segura e pausada:

- O meu marido há-de gostar de o ver aqui. Fala-me muitas vezes do senhor.

João Eduardo reconheceu nessa voz qualquer coisa de curiosamente familiar. Lembrou tudo o que ouvira até aí acerca da mulher do Medeiros: dizia-se que era uma grande companheira desse mocetão bravio, que a enchia de filhos e desenganos; comentava-se a imperturbabilidade com que ela assistia às rebeldias do marido e à sua indiferença por uma situação social que lhes afofasse a existência. Parecia não reparar que os colegas dele tinham criadas, automóveis faustosos, filhos educados em colégios estrangeiros. E sabiam os íntimos que ela colaborava tão inteligente e apaixonadamente nos artigos científicos, que o marido publicava nas revistas, sempre exemplares de escrúpulo e ponderação, que seria custoso dizer até que ponto eles também lhe pertenciam. Quando o Medeiros acordava de noite, alvoreado, aos murros na almofada, sob o pesadelo das cenas do hospital, ela sentava-se na cama, despertava completamente esse adolescente de quarenta anos e fazia-o esvaziar uma vez mais as suas revoltas, as suas fúrias, para que o marido pudesse adormecer de novo.

Se alguém lhe tivesse perguntado se ela não lamentava a penúria económica em que viviam, reflexo da irredutibilidade do marido, talvez ela olhasse o inquiridor com assombro. A identificação com o trabalho, as lutas e esperanças do companheiro, bastava-lhe para que não precisasse de interrogar a vida. Servia-se das próprias dificuldades e problemas familiares como armas contra o desânimo; a todo o momento guardava o marido, e a crença dos dois em qualquer coisa pela qual tudo valia a pena, da alcateia que, do lado de fora, queria forçar a entrada para os perverter. Era a sua missão: conservar o desânimo longe do reduto no qual ambos construíam corajosamente a sua felicidade. "A felicidade é uma conquista infatigável de todos os instantes", dizia ela. E, efectivamente, ela sabia construir e justificar o seu optimismo.

Foi difícil a João Eduardo recusar-lhe compartilhar do almoço. Mais tarde, coincidindo com a chegada do Medeiros, os garotos vieram cumprimentá-lo. Estavam limpos e ufanos de uma compostura que não deveria durar muito tempo. Os seus rostos reluziam à força de serem esfregados. Com a entrada do pai, porém, todos eles desataram a correr, a atropelar-se, visivelmente aliviados de poderem dar por finda a sisudez que a presença do estranho lhes impusera. Mas todo esse bulício não perturbava os pais. A dona da casa continuava serena, numa placidez inalterável, que não era de modo nenhum indiferença. João Eduardo comparou a atmosfera desinibida daquela casa com o silêncio grave, frustrado, da sua, onde todos pareciam viver em bicos de pés, ao lado de um aposento no qual alguém agonizasse. No seu ambiente familiar havia um presságio permanente suspenso sobre todos eles.

- Vamos então, meu velho - disse o Medeiros, assim que se libertou dos filhos. - Logo que não pod ser hoje, você há-de voltar um dia destes para experimentar um empadão em que minha mulher é mestra! João Eduardo saiu dali de coração transido. Havia ternura, dor, ansiedade, nessa reacção. Durante algum tempo fez bons propósitos de voltar a casa do Medei ros, mas acompanhado de Luísa. Previa que essa visita seria benéfica para ambos. Porém, faltava-lhe sempre tempo para tudo; e os adiamentos acabavam por esmorecer as coisas que verdadeiramente o poderiam interessar.

A caminho da casa de saúde, escapou-lhe uma tolice que logo lhe fez morder os lábios:

- Quero preveni-lo, Medeiros, de que a doente não tem dinheiro para lhe pagar. Mas oferecer-lhe-ia com certeza, um pão-de-ló pelo Natal.

- Essa frase poderia ter sido evitada. Suponho que temos de nos conhecer melhor! Quanto ao bolo, avise a mulher que reforce a dose; em minha casa, como viu, há muita gente a comer...

Quando terminou a operação, que evidentemente confirmara o diagnóstico de úlcera perfurada, o Medeiros, consultando o relógio, sugeriu:

- Estava capaz de o convidar a um derivativo nas suas ocupações... Tem umas horas livres?

- Hoje apetece-me ter horas livres...

- Óptimo. De resto, não perderá o seu tempo. Esperava-os um velho e misterioso Ford, conduzido por um motorista fardado. As relações entre este e o Medeiros não pareciam, contudo, cerimoniosas.

- Por onde começamos hoje, senhor doutor?

O Medeiros indicou um nome desconhecido para João Eduardo. O Ford enfiou-se por vielas intermináveis, que pareciam acabar abruptamente em becos sem saída, afinal logo repartidos num labirinto cada vez mais intrincado. Todas as engrenagens do carro estremeciam. Por vezes o motor dir-se-ia surpreso, sacudia-se, engasgava-se, explodia, até que, protestando como um velho rezingão, se tomava de brios insuspeitados e recuperava o fôlego.

Por fim, uma ladeira e o espectáculo insólito de um bairro de casebres. O motorista arrumou o carro numa sombra, abrindo o radiador por onde a água fervente, sufocada, gorgolejou.

- Chegámos.

O Medeiros mostrava-se divertido. Para João Eduardo, porém, nem a rua imunda que começava por uns degraus, nem as filas de casas construídas com toda a espécie de material, a maioria coberta de latas, constituía uma novidade. Tudo isso o fazia regressar aos seus tempos de aldeão. Uns metros além da cidade, da sua gente limpa, fútil e desagregada, das suas habitações confortáveis, havia o passado. Era um pesadelo ou um aceno a persegui-lo?

Uma velha, de xaile pela cabeça, dando a mão a uma criança, que os olhava como um bicho furtivo e assombrado, foi seguindo à frente. Uma rapariga lavava roupa a uma das portas.

- É mais adiante, na rua interior - preveniu a velha, significando que sabia muito bem a que vinham aqueles estrangeiros.

Estrangeiros, sim. Para lá dos degraus, abria-se u mundo interdito. Uma paisagem humana que nada tinha que ver com a deles. Vendedores ambulantes, operários, vadios, ladrões, prostitutas. Toda aquela gent fazia a vida às portas. As casas eram tocas para dormir. João Eduardo teimava em identificar os interiores, que se perscrutavam dificilmente, escuros e nauseabundos como o ambiente seu conhecido das casas aldeãs, onde misturavam homens e bestas - mas a identificação era excessiva. O espectáculo que se lhe deparava ultrapassava as suas experiências. Tinha a garganta apertada; sentia-se preso numa ratoeira de emoções.

Naquele casebre, uma cesta com peixe, oferecida ao mosquedo, denunciava a profissão dos moradores. De súbito, uma habitação mais alta, de paredes crespas. Havia ali uma grotesca distinção social: era a loja do merceeiro. E, mais adiante, outro pormenor caprichoso: numa porta, pintada a vermelho sobre uma mancha de cal, a indicação: CORREIO. Correio! Que era isso nesse mundo excrescente? Uma brutal ironia.

A neta do enfermo encaminhou-se até ao catre. U velho coberto com os restos de uma manta, sentado sobre as tábuas, arfava e tossia como um bronquítico.

- Então que há?

João Eduardo espantou-se com a naturalidade da voz e dos modos do companheiro. Parecia-lhe indecente que os dentes do Medeiros não estivessem tão cerrados como os dele.

O velho lamentava-se da falta de ar, da impossibilidade de dormir. A neta completava-lhe as palavras e ele de olhos baços, interrompia-se docilmente para que a rapariga pudesse explicar.

João Eduardo, enquanto o colega escrevia a receita, fez uma pergunta inesperada:

- Pagam renda desta casa?

Os dois foram em busca do apoio do Medeiros.

Não compreendiam. O Medeiros, porém, sublinhou: - Quanto paga pela sua casa? O velho abrigou-se na manta, repuxando-a para os ombros.

- Pouca coisa. Já cá estou há muitos anos. Mas esses aí - e indicava indistintamente a rua, o céu, o mundo -, esses aí pagam rendas danadas.

Cá fora, João Eduardo, com as ideias em tumulto, inquiriu ainda:

- Que pode você receitar-lhes?

- Como sabe esta assistência é oficial; o receituário, portanto, obedece a um formulário restrito - e emudeceu bruscamente.

- A que título vem você assisti-los?

João Eduardo recordava-se que, certa vez, uma colega lhe falara, com ares clandestinos, num grupo de médicos que visitavam, por iniciativa pessoal, os bairros miseráveis, e convidara-o a associar-se-lhes. Ele fizera uma promessa vaga. Irritava-o essa fauna de profissionais da fraternidade, na maioria uns tipos suspeitos, de emoções, ideias e solidariedades prefabricadas, que lhe batiam à porta terminando os discursos com o pedido de dinheiro para intenções sempre misteriosamente brumosas. Sentia todo esse ritual como um insulto para as odisseias de que se alimentava.

- Pagam-me para isso - foi a resposta cortante do Medeiros. - Sou, portanto, um conivente. Mas, em breve, peço a demissão, embora este dinheiro me faça falta: um homem vive, antes de mais, de dignidade.

- E eles? - E João Eduardo procurava abranger, num gesto breve, quase receoso, as ruas atulhadas de dejectos, os tugúrios, os homens inacreditavelmente idênticos que os olhavam com uma desconfiança ameaçadora.

- Eles nada perdem com a minha demissão. De resto, penso continuar a visitá-los; mas, então, já não serei obrigado a iludi-los.

- Iludi-los?...

O Medeiros olhou-o como um garoto birrento e amuado.

- Há qualquer coisa em si que não está certa, João Eduardo. Tenho pensado nisso algumas vezes. No entanto, no campo profissional, você é um tipo decente. Que nome daria você ao facto de mandarmos um doente destes para o hospital, um cardíaco, por exemplo, e, depois de vencidos os edemas, o remetermos para casa com a recomendação de que faça repouso e dieta? Dieta, hem?... Não é uma burla? E a um tuberculoso a quem injectamos um coagulante e... Você está a obrigar-me a demagogia barata, raios o partam!

João Eduardo foi para junto do Ford, enquanto o Medeiros visitava mais dois doentes. O motorista soprava nas mãos e às vezes aquecia-as sobre o radiador. Ao reparar na palidez de João Eduardo, perguntou num sorriso de desfrute:

- O senhor doutor não conhecia isto?

- Não, não imaginava.

- Há pior.

O motorista encostou-se indolentemente ao automóvel, enfiando as mãos encorpadas na samarra. Depois indicou com o queixo uma rapariguinha que se pusera a observá-los.

-Daqui a pouco talvez apareça aí um ganapo a oferecê-la. "Novinha em folha", e esmiuçará ainda quais os predicados especiais da moça. Aqui tudo dorme a monte, senhor doutor. Durante a noite, creio que nunca chegam a saber ao certo quem lhes põe a mão em cima.

João Eduardo sentiu-se agoniado. Estava por certo muito empalidecido e prestes a vomitar. Foi num alheamento de pesadelo que acompanhou o Medeiros no resto da visita. Tudo aquilo era tão sórdido que seria impossível aderir-lhe. Agonia, só agonia.

O velho Ford, depois, consciente das suas mazelas, parou com prudência a perspectiva de uma ladeira, hesitando antes de acelerar, e decidiu-se, por fim, a descê-la de dentes engrenados. Entrara numa avenida traçada ainda há pouco, cujas margens eram, por enquanto, as areias que restavam de antigas lagoas. A alguns metros do seu leito asfaltado, persistia uma capela abandonada, sem vidros, sem telhas, onde, afinal, viviam dezenas de pessoas. Ao sol, sobre as ervas, secavam farrapos que as trapeiras, nessa madrugada, tinham rebuscado nos caixotes do lixo. Na vertente, pilhas de ferro-velho, banheiras, guarda-lamas, fogões, uma incrível variedade de sucata, nem sempre de rápida identificação, esperava a oportunidade de apodrecer ou de ser ainda útil a alguém. Por entre esse entulho havia gente, não se sabia com que finalidade. Mulheres, sobretudo, que levantaram os olhos inexpressivos para os recém-chegados e logo prosseguiram nas suas indecifráveis ocupações.

A doente aguardava-os no portal, ladeada de uma verdadeira multidão. Parecia tudo menos a visita de u médico. Talvez os tivessem confundido com uma rusga das autoridades. Mas não: o motorista elucidava que a mulher que iam visitar era particularmente estimada; o seu sentido maternal exacerbado fizera dela a mãe adoptiva de dezenas de ganapos que eram hoje aqueles homens secos e tisnados que lhe estabeleciam uma guarda de simpatia.

- Então que há, filha? - perguntara o Medeiros a uma garota que se adiantara para enxotar um cão, que ofegante, de língua tão vermelha que parecia queimado, recuava uns passos para, entretanto, recuperar o fôlego. a acometer depois os intrusos com mais ameaçador autoridade.

- Ela está malzinha. Tenho aqui o "diploma".

Referia-se ao documento que lhe garantia o direit à assistência.

O cão rosnava, de pêlo eriçado.

- Que tal o bicho?

- Ladroento, senhor doutor, mas só ladra às mos cas... Não se arreceie - e acentuou sem demora o objectivo da visita: - A senhora Joaquina não come nada, desta vida.

A doente, gorducha e espapaçada como um Buda, distinguiu essas palavras; e reforçou-as do seu lugar, gemendo lastimosamente:

- É um fastio, senhor doutor! E as dores nas cruzes! Não posso aguentar.

Um dos homens, que se postara a seu lado como um guarda-costas, disse asperamente:

- Não se pode mexer.

Os outros olhavam alternadamente a mulher e os médicos. Pareciam desejar certificar-se se deveriam ser

corteses ou hostis; quanto a João Eduardo, um desconhecido, procuravam adivinhar, com precaução, qual o seu papel naquelas circunstâncias.

- De volta e meia, cá está ela - e a senhora Joaquina acariciava os joelhos deformados.

O Medeiros observou-a demoradamente. Era uma concessão que fazia aos curiosos. E, com ênfase, dirigiu-se ao colega:

- Não lhe parece que iremos aliviar a senhora Joaquina?

A pergunta foi decisiva: os homens mostraram-se logo sorridentes e descontraídos; e um deles, abrindo caminho, à bruta, por entre os companheiros, desapareceu para regressar daí a nada com as mãos cheias de umas guloseimas feitas de mel, nozes e amendoim, que João Eduardo supôs tratar-se da mercadoria que o homem venderia pelas ruas. Os garotos acompanharam com deslumbramento, tristeza e gula o trajecto seguido por essas mãos; viram-nas hesitar ainda e depois estenderem-se num movimento brusco para os dois estranhos.

- É uma lembrança da senhora Joaquina.

O Medeiros deu a entender, num sinal rápido e ansioso, que deveria aceitar. Aceitaria, evidentemente.

Aquele gesto do homem já o vira noutros locais, com várias expressões, e em homens semelhantes. Mas sempre o enternecera. Fosse o que fosse que significava, e ainda que pueril, as pessoas que o recebiam sentiam-se talvez mais puras e felizes.

As restantes visitas haviam-se-lhe diluído da memória. Tinham sido muitas e alucinantes. Uma casa em que, depois de baterem por largo tempo à porta, foram recebidos por duas crianças. Nas águas-furtadas, uma velha e um casal doente com dois filhos gémeos. Um cordel e um trapo separavam as duas famílias. "Desculpem de ser uma casa muito chalada." Outra velha com uma insuficiência cardíaca; mas ralava-a muito mais a ameaça de ser expulsa da sua toca. Uma hóspede internara-a no hospital e, na ausência, conseguira mudar o arrendamento para o seu nome. "Agora quer livrar-se de mim. Empurrou-me pelas escadas. Partiu-me um dedo." Mais crianças, sempre crianças. Uma delas tinha cerca de seis anos, uma cabeça disforme e olhos imensos; parecia um feto no útero, dobrado sobre o ventre com os joelhos ossudos encolhidos. A mãe apresentava uma pasta de sangue na cabeça, mas a sua preocupação era que a conversa com os médicos não lhe fizesse perder de vista a criança, que se desequilibrava quando procurava dar uns passos no aposento. Crianças e gente envelhecida antes de o serem. Pratos de esmalte com uma papa feita de pão e água. Um homem devorado por um cancro, a pele ressequida e amarela tresandando a fumo, a suor, a urina, cheirando a uma decomposição antecipada.

Tenho visto centenas de moribundos - disse o Medeiros, ao descer as escadas, e pela primeira vez não procurava ocultar o quanto se sentia impressionado - mas nunca me cansei de temer e respeitar a morte

- Suponho que acontece o mesmo com todos nós, por mais que a profissão nos banalize o espectáculo.

- Também acontece consigo?... - A pergunta do Medeiros era capciosa. Mas, antes que João Eduardo replicasse, o outro, mudando rapidamente de tom, disse: - Num momento de funda emoção, todo homem é capaz de tomar partido e, a partir daí, já lhe será difícil um recuo. Mas é bom que, previamente, ele conheça os vários caminhos que se podem encontrar...

No regresso, atravessando as serranias alcandoradas sobre a cidade, João Eduardo procurava guiar-se por entre uma floresta confusa de reacções. Agora, lá longe, começava por experimentar alívio, o alívio de quando se sente o contacto fresco de uma camisa impecável depois de se ter caído num atoleiro; mas também um nebuloso sentimento de culpa, misturado com o fervor de agir por qualquer modo. Os dedos acariciavam, nos bolsos, as guloseimas. Ao lado da sua febre de solidariedade, porém, angustiava-o desde já a convicção de que o seu entusiasmo seria uma faúlha breve. "Há qualquer coisa em si que não está certa", dissera o Medeiros. Exacto. A definição fora, aliás, pouco cruel. Qualquer coisa em si não estava estruturada e debatia-se, desastradamente, para o conseguir. Por que motivo o Medeiros o trouxera consigo? Apenas curiosidade em avaliar-lhe as reacções em face de tão crua realidade? Ou um interesse mais fundo por vê-lo "tomar partido"?

Quase em simultaneidade, o velho Ford engasgaliou-se, deixando atrás de si um estrépito de combustões desperdiçadas, e o Medeiros levantou a voz para se fazer ouvir:

- Repare, João Eduardo... - Sabia-lhe sempre a um afago que os outros, ao dirigir-se-lhe, pronunciassem familiarmente o seu nome. - Repare... - e apontava-lhe, ao longe, um imponente monumento. - Você, que acaba de ser documentado, não lhe parece que se vive em plena crise de imaginação? A época é de propaganda, todos lhe obedecemos e a cortejamos, mas tem sido tão mal orientada! - Os dedos tremiam-lhe, possivelmente contrariado por não ter sido bem claro e preciso nos seus comentários. - Estão ali gastos milhares de contos. Se os aplicassem em bairros para pobres, se oferecessem casas a esta gente, e com grandes cartazes a informarem quem tinha sido o benfeitor, que extraordinária propaganda! Falta-lhes ousadia e imaginação.

Não, a discursata traíra-o. Odiava as atitudes. Furioso consigo, berrou para o motorista:

- Esta carripana resolve-se a levar-nos a casa?

João Eduardo, porém, não queria que se lhe esca passem as oportunidades desse instante de aproximação. E ferrou-o:

- Eu devo às vezes parecer-lhe qualquer coisa como um transviado. Seja franco!

O Medeiros baixou o rosto. Era, afinal, um tímido.

- Transviado?... Para isso seria necessário que você começasse por estar comprometido. E creio bem que nunca teve a coragem de se definir. - Estendeu os lábios nervosos numa mímica penosa e indecifrável, e prosseguiu: - Todo o homem verdadeiro traz da juventude uma direcção. Depois, só lhe resta ter vergonha e manter-se-lhe fiel; ou então, apodrecer.

Apodrecer. Era isso. João Eduardo pôs-se imediatamente taciturno.

A última frase do Medeiros, nessa tarde, foi uma pergunta tão imprevista como as outras, que lhe afogueou o rosto:

- Que tal achou a minha petizada?

João Eduardo respondeu com fervor:

- Adoráveis!

Talvez o Medeiros não pudesse avaliar até que ponto essa exclamação abrangia um mundo de coisas.

Agora, que a atitude do Medeiros e o convencimento de que o caso da rapariga seguiria um curso favorável o haviam apaziguado, já poderia arrumar sem angústia os problemas desse dia. Iria começar pelo Jaime. Procuraria ainda saber ao certo o que sucedera com a criança do desastre. Entretanto, porém, precisava de telefonar para casa, a prevenir Luísa do jantar. Talvez tivesse chegado o momento de uma aproximação corajosa e limpa de ressentimentos com a família. Luísa estaria disposta a ajudá-lo? Como eram os dias de Luísa - esses longos e repetidos dias, à espera de um desfecho ou de uma justificação? Que estaria por detrás dos silêncios de Luísa? Às vezes acometia-o uma fúria de lhe sacudir os ombros, o cérebro, a alma, e escancará-los. Haveria só desilusão, desilusão definitiva, na sua mordaz impenetrabilidade? Ou, sendo ela emotiva e caprichosa, toda a sua carne, todo o seu temperamento ardente, estariam avidamente expectantes? Ávidos de um acontecimento, de uma loucura... Ele sabia que isso podia acontecer. E não era a honestidade de Luísa que estava em causa: simplesmente, ela era um ser humano. Também Luísa necessitava, por certo, de uma fuga à solidão, aos pavorosos dias que a fechavam em si mesma. Sim, isso podia acontecer. Daí inquietá-lo toda a familiaridade de Luísa com os amigos da casa. Em cada palavra, em cada olhar, farejava o primeiro sinal desse acontecimento secretamente desejado. A insistência de Luísa em falar de Jaime, por exemplo, abria-lhe um mundo de suspeitas. Jaime estava reduzido a uma agonia física lastimosa, mas João Eduardo sabia quanto as mulheres são atraídas muitas vezes pela compaixão. E o que lhe importava, aliás, eram os sentimentos íntimos de Luísa, essa espécie de infidelidade que não se traduz em actos, mas sim por alvoroços, e que é mais intensa e insaciável do que uma efémera aventura da carne.

Em frente da casa havia também aquele sujeito berbere, untuoso e perseverante, que os visitava com frequência abusiva, pois ninguém o estimulava a fazê-lo. Ele dizia tolices, inventava palhaçadas, como se fosse obrigação sua divertir toda a gente, e João Eduardo reparava que o semblante de Luísa, nesses momentos, recuperava a garridice de outrora.

Ultimamente, João Eduardo ia ao encontro de outra forma de tortura, pondo-se a imaginar o que teria sido a intimidade de Luísa com o primeiro marido. Os anos, em vez de apagarem o passado, reacendiam-no: não podia esquecer que Luísa experimentara os beijos, o convívio, a posse de outro homem. E então achava-se a transformar o ardor sexual num violento desejo de es magar as recordações que essa intimidade sugeria. Mas por mais que ele despertasse e dominasse a carne de Luísa, por vezes com brutalidade, sentia-lhe nos carinhos, nos lábios, no corpo, o cheiro do outro, o ardor do outro, e, sobretudo, o ardor com que ela lhe teria correspondido.

Luísa, certamente, nunca poderia supor que ele a sondava. Que ele se flagelava com ciúmes. Aliás, João Eduardo seria incapaz de uma insinuação, ainda mesmo que viesse a corporizar as desconfianças.

Mas os ciúmes não seriam apenas uma das manifestações da sua intranquilidade? Porque não falar de tudo isso a Luísa, confessar-lhe os seus desvarios, pedir-lhe o seu apoio para que renovassem a confiança em si próprios e na vida que desperdiçavam? Sim!, nessa noite, depois do jantar, iriam juntos a qualquer parte, como dois amantes fugidos às convenções, e uma vida nova começaria. Procuraria esquivar-se ao serão em casa do Cunha Ferreira, com a desculpa de um doente imprevisto.

-Ligue para minha casa, por favor.

E, segundos depois, o enfermeiro viu-o enterrar as mãos nos cabelos, meditabundo, aparentemente esquecido das palavras que proferira.

 

A caminho da casa de Jaime, voltava a obcecá-lo a imagem do professor Cunha Ferreira a despedir-se intempestivamente, como se o tivessem solicitado com urgência ou como se, liberto de uma dificuldade que injustificadamente julgara laboriosa, tivesse pressa de aplicar noutro lugar a sua sedução histriónica.

Por quanto tempo o professor Cunha Ferreira poderia manter uma posição que, nos últimos anos, já iludia o espectador da plateia? Ele devia ser o primeiro a pressentir a queda, lançando mão de todos os meios que logravam ainda atordoar os novatos que chamava para junto de si, ofuscando-os com malabarismos que repetidos, se tornavam ridículos. E, no entanto, ele nada perdera dos seus méritos de cirurgião habilíssim de mãos firmes e minuciosas. Simplesmente, a sua dispersiva actividade profissional e as obrigações mundanas impediam-no de acompanhar a evolução das técnicas. Era tarde para recuperar. Sabendo-se desmascarado por alguns e ultrapassado por muitos, só lhe restava uma guerra subtil contra os que lhe poderiam minar a estabilidade. Mudava de assistentes ao primeiro indício de que eles estavam a caminho de uma reputação, substituindo-os por uma corte de medíocres, perante os quais alardeava um cenário de virtuosismo e erudição, que ia catar apressadamente nas revistas de línguas menos acessíveis, embora as esquecesse no dia seguinte, ficando certo de que eles iriam propalar bem longe esse fausto de conhecimentos invulgares. Certamente o professor conseguiria manter a fidelidade dos aduladores se a sua cupidez por dinheiro o deixasse ser mais generoso. Mas quase todos os assistentes acabavam por se rebelar contra a sua amabilidade sofisticada. Perdoar-lhe-iam as falhas profissionais, mas, ao cabo de algum tempo de expectativa, não se resignavam a assistir-lhe os doentes operados, a coadjuvá-lo nas intervenções, tendo apenas como recompensa o estímulo das boas palavras, dos elogios ou das hipotéticas promessas. Quando o professor Cunha Ferreira chamava alguém para ajudá-lo, prevenia quase invariavelmente de que se tratava de um doente sem recursos.

- Isto hoje é uma borla, meu caro. Sinais dos tempos!...

Terminada a operação, batia nas costas do ajudante, acenando-lhe com um gesto perdulário:

- Um dia destes aparece outro a compensar-nos. E então, já sabe, não me esquecerei de si.

Contava-se que certa vez, não podendo esconder que a intervenção era remunerada, estendera uma cédula de cem escudos ao assistente.

- É a sua parte, meu caro. Não foi possível arrancar-lhe mais.

O outro, vexado e sufocando a réplica que o cirurgião merecia, respondera:

- Se não se importa, professor, deixo esse dinheiro para as raparigas. Espero que as criadas não se ofendam com a quantia.

Aos cinquenta e poucos anos, o professor Cunha Ferreira era ainda um homem desempenado, que as mulheres definiam como "um rapagão terrivelmente encantador". Casara riquíssimo, com uma senhora aristocrata e mesquinha. Ela tão rudemente sublinhara nos primeiros tempos o facto de lhe ter trazido, numa bandeja de ouro, rendimentos que, de eloquentes, submergiam o seu prestígio de médico, que o obrigara a desdobrar-se por todos os processos de fabricar dinheiro, para que nunca o seu lar de futilidades principescas tivesse de recorrer ao dote da mulher. Esse pormenor edificante da sua vida privada, cuja divulgação ele nada fizera para contrariar, servira algumas vezes para que os colegas lhe desculpassem a gula e as leviandades.

Discutiam-se muito as suas faculdades intelectuais. Ora se lhe reconheciam, apenas, uma excelente memória e rara intuição para a cirurgia, ora uma inteligência viva que, cristalizada nos conhecimentos adquiridos na juventude, era porém usada com maleabilidade e impudor. De qualquer modo, há dezenas de anos atrás o professor fizera um treino seguro nos meios científicos alemães e neles sedimentara. Perito em intervenções torácicas, orgulhava-se de uma estatística impressionante e nunca desdenhava uma oportunidade de realizar sem pausas meia dúzia de operações, no fim das quais ostentava uma frescura física que nem os mais novos poderiam imitar. Terminava essa prova de resistência com o mesmo triunfo no sorriso e nos músculos de quan se deixava fotografar após as suas celebradas compe ções desportivas. Daí, chamarem-lhe ambiguamente "campeoníssimo da cirurgia".

Conheciam-se-lhe algumas frases de cartaz, em p ticular quando tinha debaixo da máscara um caso deracoplastia, que a sua experiência transformara numa banalidade para ser praticada de olhos fechados. - Agora já não se fazem toracoplastias. Arrancam-se costelas!

Para essas intervenções reunia um farto auditório, chamando invariavelmente o médico assistente do efermo, os estagiários e até os enfermeiros; como um prestidigitador, ao retirar a primeira costela, os olhos velavam-se-lhe de unção e prevenia com solenidade:

- Eis a subclávia, meus caros. Lá está ela!

Queria assim chamá-los à cumplicidade do instante dramático, à consciência de um perigo que, afinal, as suas mãos ágeis reduziam a uma manobra de rotina, exemplificando seguidamente quão simples e fácil se tornava rodear e vencer o tremendo risco.

Mas nem todos os factos que se rosnavam no hospital, acerca dos casos censuráveis da sua clínica, pertenciam à sua directa responsabilidade. É que também ali, no serviço, repercutiam as contemporizações a que o mundo lá de fora o sujeitava. Seria melindroso, por    exemplo, negar à esposa de um ministro, a um alto funcionário, que ele acolhesse sob a sua asa magnânima um médico desocupado, a maioria das vezes ignorante e imbecil, e cujos erros o professor nem sempre ia a tempo de remediar. Para reforço do empenho, é evidente que se chamava a atenção para a genealogia social do candidato, todos esquecendo, como se se tratasse de singularidades próprias de plebeus, os argumentos    de uma carreira profissional. Desses apadrinhamentos embaraçosos, coubera-lhe, duma vez, uma jovem médica que se pintava como um palhaço, sempre muito espartilhada, embora as cintas não chegassem a aprisionar-lhe todas   as exuberâncias adiposas. Na impossibilidade de lhe entregarem outra tarefa, pois todas as demais experiências tinham fracassado com certo escândalo, o professor fizera-a estagiar nos serviços de anestesia. Ali, pensava ele, não daria nas vistas e, por outro lado calaria também as possíveis reacções do meio aristocrata que a recomendara e que não aceitaria, sem represálias, o enxovalho de ele a dispensar do serviço. Algum tempo depois, a médica telefonara-lhe para casa, prevenindo-o de que a doente que estava marcada para as operações do dia seguinte teria de ser incluída noutro grupo, pois apresentara inesperadamente perturbações cardíacas que contra-indicavam a anestesia.

- Mas que aconteceu?

- A mulher tem o pulso muito rápido e respira com dificuldade. Estou cheia de receio.

- Se assim é, adie a intervenção.

Mas o professor recordou-se, mais tarde, que era aquele precisamente um dos casos que não toleravva um adiamento prolongado e, além disso, se a operação

decorresse com felicidade servir-lhe-ia para uma d, periódicas comunicações na Sociedade de Cirurgia. Decidiu, por isso, ir propositadamente ao hospital avaliar, por si, das complicações ocorridas. Com espanto, verificou que as condições operatórias da doente não se ha'viam modificado.

- Idalina!, marque a operação para as dez horas de amanhã.

A médica não esperava a firmeza daquelas palavras, que nem sequer lhe permitiam uma justificação; pareceu-lhe, daí, que o único trunfo viável para as circunstâncias seria uma crise de choro. O professor, porém, ao primeiro anúncio da farsa, saiu da enfermaria.

O Medeiros, espectador de tudo o que acontecera, filou a oportunidade pelos dentes, gracejando:

- Chore à vontade, colega Idalina... Estou eu aqui para a consolar.

No dia seguinte, tinham já passado trinta minutos da hora marcada quando o professor se aprontou para a intervenção. A médica não escondia uma impaciência histérica, e verificando que ninguém, além dela, parecia interessado em não perder tempo, dirigiu-se corajosamente ao professor:

- Tenho uma necessidade imperiosa de que a operação termine depressa. Ao meio-dia preciso de estar fora do hospital.

O professor olhou-a com mais melancolia do que surpresa. Numa voz cansada, mas agreste, respondeu:

- Hoje dispenso-a do serviço. Pode sair quando quiser.

O Medeiros, porém, bufava de indignação. Não podia tolerar que o professor não fosse suficientemente duro e explícito, para que tal mulher reconhecesse que a sua profissão era incompatível com a frivolidade e que não tinha outra coisa a fazer senão voltar para o meio irresponsável donde viera. Dias depois, ainda ele repetia pelos corredores do hospital que aquela "drogaria ambulante", com uma inconsciência obscena, forjara uma manobra que se traduziria pelo adiamento de uma intervenção, desmoralizando a doente e expondo-a ao risco de ser operada demasiado tarde. E tudo isso por um interesse particular e talvez tão obsceno quanto o seu atrevimento.

Mas, contra a maioria dos prognósticos, a médica continuava ao serviço. Essa cobardia do professor e os respectivos comentários do Medeiros haviam contribuído para o azedume latente entre os dois, que todos pressentiam prestes a explodir.

João Eduardo temia, ao mesmo tempo que o excitava, o encontro dessa noite. Esquecera já que planeara inventar uma desculpa e refugiar-se em qualquer parte com Luísa, os dois fugidos a tudo, ambiente, pessoas, evocações que os tinham separado até aí; pensara, sim numa desculpa, mas já não era por Luísa que o faria.

O que estava em causa era de novo a sua posição.

À    medida que os minutos passavam, reconhecia que efectivamente, a sua adesão ao jantar fora precipitada.

O Cunha Ferreira ia julgar que ele aceitara sem regateio e sem reservas o desempenho de um dos papéis da comédia. O convite do outro exprimia um vexame si gnificativo, que nem se dera ao incómodo de atenuar, espantava-se de só agora se aperceber de toda a exten são do insulto. Consideravam-no já tão abalado, tã vulnerável, que nem receavam propor-lhe uma cumplicidade miserável? Para que lhe tinham servido os disfarces? Que resultara de todos esses anos em que, laboriosamente, ocultara de si e dos outros as rendições do seu carácter? Para quê, então, se tudo ruía ao primeir abalo? O Cunha Ferreira não pretendia somente apoiar-se no seu nome: queria aproveitar-se da sua venalidade. E, se assim procedia, era porque estava certo de que ele se prestava a uma ignomínia, desde que fosse bem dissimulada e... necessária ao seu prestígio.

Agora, ao aproximar-se da casa de Jaime, um amigo da juventude, parecia-lhe ir ao encontro de uma reabilitação. Sempre que se viam juntos, tudo se passava como se recuassem o tempo, e esse regresso os purificasse, reencontrando-se nalgum episódio antigo que tivesse ficado apenas interrompido, à espera que a desilusão os obrigasse a retroceder para os recuperar definitivamente.

Mas era um reencontro que se tornara penoso depois que a doença transformara o fracasso de Jaime numa carne viva de ciúmes e revoltas, que qualquer coisa fazia ensanguentar. O Jaime enxertara-se na sua vida para além de todas as justificações da amizade. Sentiam-se ligados pelo eco das recordações, pela vida em comum nas "repúblicas" de Coimbra, por alguns contratempos e esperanças experimentados solidariamente, pelos hábitos e pelos amuos e, nos últimos tempos, porque o Jaime deturpara todos esses elos através de um despeito agressivo, como se João Eduardo tivesse para com ele uma secreta e inconfessável dívida em aberto que legitimasse toda a espécie de imposições. Não era apenas a saúde de João Eduardo que o ofendia, a ele, um tuberculoso à espera da morte, lutando com furiosa tenacidade por viver uns dias mais; ofendiam-no também a sua prosperidade, o futuro, os filhos, o que no amigo representava sobrevivência. Tudo isso parecia ter-lhe sido usurpado, já que, no começo daquela amizade, ele fora o mais ambicioso, o mais robusto e o mais audaz. Daí, procurava perscrutar no amigo os pontos débeis, as nervuras mais sensíveis, ferindo, enxovalhando e proclamando as suas exigências, como se se tratasse de um direito indiscutível. João Eduardo, agora que a amizade ao companheiro de tantos anos tinha sido desgastada pelas tempestades emocionais que o outro provocava, e para as quais nem sempre a doença podia servir de desculpa, inquiria de si próprio porque se vergava ainda aos abusos do Jaime. Apenas por fidelidade a uma ligação impossível de repetir nos amigos fugazes do presente? Cobardia de ajustar essa amizade aos limites das circunstâncias e do bom senso? Ou, n fim de contas, o desejo de conservar, intacta, uma reli quia de si mesmo, do que em si houvera de capacidad de aderir apaixonadamente a um companheiro?

O Jaime conhecia-lhe o toque da campainha. Com binara-se, entre eles, duas pressões rápidas no botão seguidas de uma pausa; e, por último, uma pressa mais demorada. Era um capricho. Ou mais do que isso - o Jaime impusera a toda a família (e incluía naturalmente o amigo nessa família) um cerimonial rígido, com o seu cortejo de birras e pequenos terrores, que traduziam qualquer coisa de sadismo, o desforço de um inválido que, apesar de o ser, conserva ainda nas mãos a chave dos hábitos dos que o cercam. O ritual da campainha tinha, como os outros, o seu objectivo: sabendo que João Eduardo chegara ao fundo das escadas, o tempo que o amigo demoraria a trepar os quatro andares sobrava-lhe para dispor o quarto em cenário de tragédia. Mandava acentuar o desalinho das roupas e dos móveis, erguia a cabeça, muito magra, acima de duas almofadas e, de olhos fundos e cerrados, cruzava as mãos sobre o peito, como se a morte o tivesse prevenido da sua vinda. Pelo chão, à beira do leito, lá estariam os lenços ensanguentados e a acumulação de roupa ensopada em febre e suor. E por todo o lado remédios ostensivamente desprezados. Tudo isso, enfim, parecia dirigido à incúria do amigo, ao seu egoísmo e provavelmente à sua colaboração tortuosa na desgraça.

A intenção atingia o alvo. João Eduardo, apesar de precavido, ficava logo de nervos crispados.

- Até que enfim, João.

Mas não havia censura nem desafio nesse desabafo. Desta vez, João Eduardo reconheceu imediatamente que o cenário era autêntico. O amigo estava com o tronco dobrado para a frente e o pescoço parecia rebentar do esforço de sorver uns restos de ar para aqueles pulmões desfeitos. Dos cantos da boca escorria uma baba de sangue. Havia sangue por toda a parte: na camisa, nos lençóis, na bacia e ainda nos dedos grosseiros de Rita, mulher de Jaime, que, de pé, olhos sonolentos e abúlicos, parecia aguardar um berro ou simplesmente o fim. E por detrás dela, dois velhos silenciosos, vagamente amedrontados, como crianças assistindo a um ofício religioso.

João Eduardo não se aproximou. Já lhe era impossível sofrear a náusea que o amigo lhe provocava. E, no entanto, nessa reacção havia ainda uma dolorosa solidariedade: como se, através da desagregação do amigo, alguma coisa dele próprio apodrecesse também.

- Não me foi possível vir mais cedo. Deves compreender.

- Compreendo tudo. - E na sua imprevista submissão o Jaime parecia render-se, finalmente, à vontade dos outros, à fatigada benevolência dos outros, pois que a saúde lhes legitimava todos os egoísmos. - Do que eu tenho medo é que as hemoptises voltem. Dá-me uma droga qualquer que ainda não me tenhas experimentado. Eu não quero que elas voltem, João!

Aquelas palavras dilaceravam os ouvidos. Eram demasiado sentidas e verdadeiras. João Eduardo sabia-o, sabia de toda a apavorada angústia do tuberculoso que assiste ao escoar da própria vida em golfadas de sangue. Por isso mesmo, não perdoava que o Jaime, tão lúcido, o não poupasse ao espectáculo desse pavor.

A fim de encaminhar o diálogo numa toada profissional, que o defendesse das ciladas melodramáticas do amigo, voltou-se para a mulher e perguntou:

- Deu-lhe já hoje algum hemostático?

- Dei-lhe, sim... - E fugindo dos olhares do marido acrescentou: - Dei-lhe... alguns. Ele pedia-me.

João Eduardo compreendeu sem dificuldade o que as reticências insinuavam. O marido exigia-lhe um abusivo emprego de estupefacientes e hemostáticos. E bastava que alguém o contrariasse, mesmo cautelosamente, para que ele tivesse uma reacção tempestuosa: lágrimas ou gritos ou uma mistura de tudo isso, o suficiente para lhe despertar um novo acesso de tosse e de falta de ar. E como essas crises eram temidas não só por ele mas por todos, visto que os músculos, contraídos pela cólera, logo espremiam o sangue dos brônquios - procuravam acalmá-lo, satisfazendo-lhe as exigências. O terror de Jaime pelas hemoptises era tal que, ao tossicar, cerrava furiosamente a boca, supondo, talvez, que fechando a saída do hediondo caudal vermelho o impedia de brotar das suas vísceras corroídas.

- Pois é, João. Mas bem sabes que apenas me dão resultado as injecções nas veias. E só tu mas podes dar.

Não era isso, todos o sabiam. Ele queria o amigo junto de si porque a sua presença era o único apoio que a morte respeitava. A morte espreitava-lhe um instante de desamparo. A morte viria quando o sentisse irremediavelmente indefeso; a tosse, as hemoptises, os suores, farejavam a ausência de um médico para lhe apressarem a agonia do corpo em decomposição.

- Vamos então dar-te duas ampolas. Ficas com uma boa dose até amanhã.

- Não poderás cá vir antes da noite?

- Talvez. - Ia para acrescentar: "Tenho hoje um compromisso", mas o Jaime logo concluiria que ele punha as diversões acima da vida de um amigo. Era preferível deixar-lhe uma promessa vaga, uma nesga de esperança que lhe adiaria os tormentos. - Então... que tal?

Na boca de Jaime, a frase era quase um estribilho. Pronunciava-a depois de se sentir apaziguado. Era a curiosidade pelo mundo lá de fora e a maneira benigna, e mesmo carinhosa, de lhe perguntar pelos seus assuntos. João Eduardo, que sabia o significado profundo de cada uma das palavras do amigo, enternecia-se.

- Nada de novo. As mesmas chatices de sempre.

Às vezes inventava dissabores para que a desventura do outro não se sentisse solitária, pretextos para que o amigo saboreasse a amargura alheia em lugar de, a todo o momento, se digerir torturadamente a si próprio. Porém, usava de extremas precauções. A sensibilidade e a desconfiança de Jaime estavam em permanente alerta. Esses olhos ardiam por um motivo de disputa que lhe esvaziasse o rescaldo das longas horas de expectativa e de medo, durante as quais o enfado que ele julgava sentir nos vivos era já o cheiro da morte. Todo o seu temperamento fogoso do passado parecia agora uma lava de crueldade. Martirizava a mulher até que a placidez surda, automatizada, com que ela o atendia, lhe fizesse perder interesse pelo suplício.

- Gorda, ela está gorda como uma vaca.

Apontava-a ao desprezo dos amigos como se fosse uma réproba, visto que a vitalidade da mulher era uma injúria à miséria física que o consumia. Enquanto pudera, misturara-lhe a doença nas fúrias sexuais que o acometiam; não era apenas uma posse, mas sim uma violação premeditada, rancorosa, de tudo o que, na pujança da mulher, havia de sarcasmo à sua doença.

Durante algum tempo ele tinha residido numa casa dos arrabaldes, dentro de uma quinta que pertencia a um médico. Na quinta havia duas moradias: a maior, solarenga, escondida num pequeno bosque de pinheiros, fora destinada ao proprietário; a mais pequena, junto ao rio, acabaria por se arruinar se não fosse habitada. O facto de o Jaime ser um doente não impressionava o dono da quinta. Não deixava de lhe ser agradável reunir, uma vez por outra, os seus préstimos de senhorio aos de médico a quem apetecia reviver a profissão.

João Eduardo empurrara o amigo para essa experiência, acenando-lhe com as vantagens da mudança de ares, para se ver livre dele durante algum tempo. Jaime aceitou a ideia com a mesma ansiosa aquiescência das vezes em que lhe sugeriam um novo remédio para o seu caso. Tudo o que fosse mudar era reacender a esperança.

Também João Eduardo procurava razões evidentes para essa estada no campo, que o libertassem do remorso de ter arrastado o amigo para mais uma ilusão, apenas em benefício da sua comodidade. É claro que a presença de um médico residindo ali na vizinhança, nessa vizinhança serviçal de todo o ambiente aldeão, tinha sido o argumento que mais impressionara Jaime. E, na verdade, durante uma semana João Eduardo foi esquecido. Até que, ao cabo desses dias, o procurou o colega dono da quinta, confessando-lhe que não podia suportar o doente por mais tempo. Jaime não o deixava descansar uma única noite, para já não falar dos seus desmandos durante o dia.

- Ele não é um tuberculoso: é um tirano.

João Eduardo exibiu um tão convincente desagrado pelo que se passava, ao mesmo tempo que insinuava o

choque moral de um regresso sem uma razoável justificação, que o colega acabou por lhe rogar que não interviesse por enquanto.

Depois foi a mulher do Jaime que veio à cidade para um desabafo. Ela apenas sabia exprimir-se com meias frases e sempre numa resignação de serva. Uma vida seriada de dramas obstruíra-lhe a intuição da revolta ou do prazer. Luísa, ao comentar a personalidade da mulher do Jaime, dizia que nunca conhecera ninguém com tanta vocação para o martírio, mas João Eduardo achava-a simplesmente invulnerável a qualquer coisa que não fosse anedótica e circunstancial: por exemplo, um acidente que lhe contrariasse os brios de cozinheira ou um vestido rasgado num prego que ninguém tivesse podido localizar. No entanto, Rita, embora sem exteriorizações espectaculares, sofria a tragédia do marido e era aí que a sua capacidade de reagir aos acontecimentos se manifestava. Mas já as sevícias morais a que ele a ia sujeitando não lhe penetravam para lá da pele ou nem sequer lhes percebia a impiedade.

Desta vez, ela vinha queixar-se de que Jaime continuava a gastar em curtos dias a parca mesada que a família, já à beira da saturação, lhes atribuía. Aquela era uma das realidades cuja evidência e repercussões não lhe poderiam escapar.

-Eu é que me vejo aflita. Ele está sempre com apetites. Manda vir pelo correio, à cobrança, coisas incríveis.

"Mas que tenho eu com isso?!", era o que João Eduardo, de nervos prestes a rebentar, desejaria dizer-lhe, numa rudeza que definisse, de uma vez para sempre, aquela situação paradoxal. "Que tenho eu com os problemas do seu marido ou de outro qualquer?

Com que direito me negam o que me resta de tranquilidade?”

Mas Rita nunca saberia captar-lhe o descontentamento, que, aliás, o hábito de ser amável fechara numa máscara de simpatia. E contava então que o Jaime se tornara odiosamente mesquinho: havendo uma oliveira na cerca que rodeava a moradia, ele obrigava-a a com as azeitonas da árvore e a indemnizá-lo, descontando o ridículo valor dessa colheita na mensalidade que ela era forçada a administrar.

- Mas para quê, Rita?

- Ele julga sempre que eu tenho dinheiro a mais. Está convencido de que me sobra dinheiro e lho escondo.

- A Rita bem sabe que ele é um doente. Tudo isso é doença.

- Também é maldade. Eu concordava que ele me levasse dinheiro pelas azeitonas, vá lá, visto que assim não há necessidade de as comprar cá fora, embora me saibam a fel, mas não posso desculpar-lhe que me engane no preço. Pede-me o dobro do que custam no mercado, e já curtidas.

João Eduardo levara o lenço à boca para abafar o riso. Não se sabia bem o que havia de estupidez ou de ingenuidade nas reacções daquela mulher.

É claro que Rita vinha buscar dinheiro. Não era apenas o marido a achar natural que João Eduardo preenchesse, do seu bolso, as falhas orçamentais da família. João Eduardo estava certo de que o Jaime, ao exagerar nas prodigalidades, tinha muitas vezes em mira, e apenas isso, ratar-lhe as economias. Mesmo antes de adoecer, a todo o passo Jaime comparava, com uma revolta feita de sarcasmo, os recursos financeiros de ambos, como se as disponibilidades crescentes de João Eduardo fossem uma injustiça ultrajante. Certas ocasiões desaparecia da cidade sem o prevenir, levando toda a família consigo, e mandava-lhe depois as contas dos hotéis, dizendo que fora experimentar o sabor de umas férias requintadamente burguesas. "Pensei em ti ao fazê-lo; e, por isso, és tu o responsável. Manda o dinheiro. "

João Eduardo ocultara sempre esses factos de Luísa. Sentia pudor da sua frouxidão no contemporizar com os sombrios recessos do carácter do amigo. De resto, ele nunca tivera a coragem das suas virtudes ou dos seus erros. A todo o momento se justificava perante os outros, sondando-os, cortejando-os, temendo-os e comprando-lhes o aplauso, ou simplesmente a indiferença, com uma adulação de vários matizes. Angustiava-o a ameaça de ser rodeado pela acrimónia. O seu desejo de relações humanas afáveis era mais uma tentativa de, através delas, obter uma íntima serenidade.

- Ele anda morto por voltar para a cidade. Passa a vida a dizer que o João nunca mais lhe faz uma visita. Até de noite me obriga a ir à porta sempre que ouve um automóvel na estrada. Todos lhe parecem o seu.

Aquele Jaime fora sempre um emotivo! Os seus excessos provinham de um temperamento em permanente erupção. Na sua última réstia de vida era ainda de uma amizade o que mais necessitava; mas uma amizade calorosa, turbulenta, que não deixasse dúvidas sobre o afecto que lhe desencadeava as tempestades, e nunca de esmolas de solicitude. João Eduardo, no entanto, tinha apenas para lhe oferecer uma conformada generosidade. E dado que cada um deles participara tão intensamente da vida do outro, com arrufos, alvoroços e raivas, outra espécie de relações seria uma farsa facilmente denunciada. Os dois tinham consciência de que da velha amizade restavam destroços. Jaime, porém, não se resignava também ele, embora por pouco tempo, precisava acreditar até ao fim em alguma coisa e o seu elo com as ilusões era esse amigo. Ele precisava de acreditar em João Eduardo. Daí ser implacável para todos os desvios que, deturpando o amigo, lho roubavam também. No seu modo descontrolado e anacrónico de reagir, es mulara João Eduardo para o êxito, como se quisesse submetê-lo a uma experiência, ou pretendesse que o amigo, afinal o mais válido e o mais saudável, colhesse os frutos que a ambos pertenciam, para depois o invejar e apoucar, transformando-se na voz sem freio e sem perdão da consciência de João Eduardo. A doença dera-lhe uma irritada subtileza para com os embustes dos amigos vindos do tempo em que ele tinha alguma coisa para lhes retribuir. Mas apesar de todas as circunstâncias da vida afastarem progressivamente João Eduardo, tornando incoerentes as razões que fingiam uni-los, João Eduardo permanecia a única presença do passado em que ele se apoiava angustiadamente. Se o vergastava com as suas misérias e censuras, era sobretudo para o reter junto de si, para o fazer recuar ao tempo em que nenhum deles poderia supor que os seus caminhos viriam a ser tão divergentes. Sim! Muitas vezes dava-lhe uma incontível satisfação saber ou pressentir que o amigo, apesar de todas as aparências, ia sendo minado por uma crescente insegurança; por um malogro íntimo bem mais impiedoso do que os escombros que os outros podem verificar. Esse malogro, nivelando-os, certamente que os aproximaria.

Tudo isso, no entanto, era contraditório e confuso.

Sempre que alguém se esforçava por interpretar as reacções de Jaime, era conduzido a um labirinto. João Eduardo nunca chegava a saber se o amigo o invejava, pura e simplesmente, sem rodeios e até com o seu quê de torpeza, ou se pretendia colocá-lo perante os efeitos de uma devassa corajosa em que ele, João Eduardo, fosse posto brutalmente em face da sua imagem reflectida, pois que, quando Jaime o via dolorosamente perplexo, logo se apressava a emendar as palavras proferidas, pondo nessa reconciliação ardor e ternura, todo o arrependimento patético do seu modo de reagir.

Fosse como fosse, porém, e mesmo com a sua conflituosa personalidade exacerbada pela doença, também Jaime era para João Eduardo, em certos momentos, a única voz da solidão. Talvez porque não existisse outra em que se amparar ou talvez porque, também no seu caso, Jaime fosse uma presença dos dias que apetecia reaver. Apesar da sua agressividade, era nesse companheiro que João Eduardo procurava esclarecer-se; as impertinências de Jaime, ásperas mas sinceras, quando joeiradas com serenidade ajudavam-no a avaliar-se a si próprio.

No entanto, tornava-se cada vez mais difícil suportar os caprichos de Jaime e as incomodidades a que a sua situação actual sujeitava os amigos - ele, João Eduardo, em particular. Porquê ele? Indagava frequentemente por que indesejável afinidade despertava relações afectivas e duradoiras sobretudo entre gente frustrada. Não eram apenas os doentes humildes, cada um deles com uma fastidiosa e às vezes grotesca desdita, a entregarem-se-lhe ao primeiro contacto. Acontecia o mesmo com a gente das classes mais precavidas. Uns e outros procuravam-no na rua, no hospital, à saída do consultório, utilizando-o como vazadouro dos seus problemas. Desfiavam os seus dramas com uma minúcia prolixa e lacrimejada, sempre enervante, e quando João Eduardo esperava que eles, enfim, lhe fossem pedir alguma coisa, verificava, com um misto de alívio e desapontamento, que não houvera cálculo nesses desabafos. Eles queriam apenas compreensão. E, escolhendo-o como ouvinte, julgavam encontrá-la.

Também os companheiros mais chegados eram, quase sempre, pessoas com qualquer desventura fora do comum. Dantes, ele próprio os escolhia entre os irreverentes, os pobres, os hostilizados, os que, talvez por não terem conseguido forçar as muralhas que os segregavam, eram leais e generosos. Mas à medida que a vida o ia empurrando para novos ambientes, onde o convivia era sabiamente doseado por uma exteriorização artificiosa, começavam a salientar-se-lhe as inconveniências das velhas relações. Passara a defender-se dos que o acossavam, evitando-lhes os ardis ou deixando de se impressionar quando eles descobriam torvos desígnios no facto de nem sempre lhe sobrar tempo para lhes pagar os jantares. Em todo o caso, não deixava de amargurar-se ao sentir-lhes o ódio surdo ou o desdém, correndo atrás para lhes esmolar um gesto de afeição. Tudo lhe parecia preferível ao isolamento. Por isso, punha nessa descoberta uma dolorosa ansiedade, embora ao primeiro desentendimento recolhesse ao seu covil de desconfiança, que muitos interpretavam como soberba, voltando aos companheiros da véspera mais humilde e insatisfeito do que dantes.

Esses companheiros, porém, já não eram os mesmos. E a alternativa estava precisamente em aceitá-los como a vida os transfigurara, ou renegá-los de vez e começar

tudo de novo. Uma e outra coisa pediam, contudo, uma mutilação deliberada e profunda. De uma das vezes em que imaginara um recurso laborioso que o desembaraçasse de um velho colega de Universidade, depois que ele se despedira, sem um comentário, com qualquer coisa de pungente no andar lento e destroçado - sentira que nesse dia se atolara irremediavelmente na sua solidão.

Essa história continuava a persegui-lo. Rememorava-a muitas vezes, não para encontrar um fundamento para o seu gesto de esquivar-se à incómoda insistência do companheiro que se lhe confiara, mas para se supliciar com progressivo deleite.

Ele, o Magalhães, havia sido seu condiscípulo. Folgazão, talvez a rasar a patetice, entrara na vida atulhado de responsabilidades - mulher, filhos, dívidas -, conduzido por um optimismo irresponsável. João Eduardo ouvira uns rumores de que ele, por fim, começara a beber. Até que, certo dia, no hospital, alguém se sentara na sua frente, no banco dos doentes, e à sua pergunta convencional, feita sem levantar a cabeça: "De que se queixa?", uma voz longinquamente familiar, apesar de adulterada, lhe retorquiu:

- Desde quando desconheces os amigos?...

Era o Magalhães. Tinha a seu lado uma garota que viera à consulta. Ele acompanhara-a à cidade talvez para que lhe desmentissem pessoalmente a tremenda suspeita de tumor da órbita.

Passaram o dia juntos. Durante o jantar, João Eduardo observou, intrigado, que Luísa, à medida que os via tão alegres, tão agarotados, se mostrava também de uma jovialidade desinibida. Ao fim da refeição, as faces dela haviam recuperado todo o colorido de outros tempos. Muito tarde, depois de vadiarem os três por vários lugares, como colegiais à solta, Luísa, ao entrar em casa, abraçara-o numa alegria despropositada.

- Gosto tanto de te ver com os teus velhos amigos! Ficas outro. Vocês são tão engraçados!

João Eduardo procurara depreciar a satisfação que tivera no encontro com o Magalhães, mas Luísa não aceitara que ele a desiludisse.

O Magalhães demorou-se alguns dias na cidade e não foi difícil aperceber-lhe a quebra das suas faculdades intelectuais. Era mais um dos muitos clínicos de aldeia a quem o isolamento e o convívio com labregos boçalizavam. No seu caso, havia ainda o álcool. Os olhos turvos e certo torpor nas conversas bem o denunciava.

- Diz-me cá, de coração nas mãos... Esta vinda a cidade foi um pretextozinho de folia, não?

O Magalhães baixou os olhos, confuso.

- Não me fales nisso. Estou bem preocupado com a garota. Não me sai da cabeça.

Antes do regresso, porém, ele decidiu-se a confessar:

- Nestes dias tenho-me lembrado que talvez me pudesses conseguir aqui um tacho qualquer. Aquilo por lá não anda bem, mal chega para as sopas.

João Eduardo levou uma das mãos à frente, a impedi-lo de entrar em minúcias. A insinuação do amig doía-lhe estranhamente. Mas também o outro parecia contrariado de ter sido tão explícito, e logo desabotoou o casaco, expondo bem o colete janota, de um padrão escocês, de que visivelmente se ufanava; o colete estava ali para desmentir a exiguidade dos seus proventos.

Foi com um empenho febril que João Eduardo auscultou as possibilidades de ser útil ao antigo condiscípulo. Luísa atiçava-o nessas tentativas. Mas seria ingénuo esperar que um joão-semana sem credenciais pudesse competir com os colegas da cidade na corrida para um emprego. Luísa, ao ver o marido esmorecido, dava-lhe novas sugestões e também ela procurava uma solução junto dos seus conhecimentos.

A propósito de uma carta recebida do Magalhães, João Eduardo desabafou:

- Ele julga que na cidade os empregos se encontram aos pontapés, mas a verdade é que é impossível conseguir-lhe seja o que for. E ainda que se conseguisse, que vinha o Magalhães fazer para aqui com dois contos por mês?

- O mesmo que tu fizeste, João.

- Mas da nossa parte não deixou de ser também uma loucura. As coisas correram-nos bem por uma série de circunstâncias que raramente se repetem. Tivemos sorte, mais nada.

- Estás a ser injusto contigo... De resto, não achas que o Magalhães tem o direito de correr os mesmos riscos? Ajuda-o, João; ajuda um amigo.

A atitude de Luísa desnorteava-o. Não era evidentemente o pobre do Magalhães que estava em causa, mas, por certo, razões muito mais fundas e que ele, embora as suspeitasse, preferia não esmiuçar.

Claro: o Magalhães continuava a escrever insistentemente, sôfrego por notícias. Aquele pateta supunha que bastava a João Eduardo mergulhar a mão no cesto para, ao retirá-la, ter já o problema resolvido. E a cada carta recebida, Luísa forçava-o a novos telefonemas, a novos incómodos, a ouvir, uma vez mais, aquelas amáveis promessas de pessoas que não tinham a mínima intenção de sacrificar o seu tempo por um aldeão que, insensatamente, pusera o amigo em apuros.

- Há muita gente que desejaria ser-me prestável; mas ao Magalhães falta tudo para justificar uma preferência. Vou acabar com isto dizendo-lhe que venha ''

pagar-lhe-ei do meu bolso. Ponho-o a fazer qualquer coisa no meu consultório.

- Creio que o teu amigo não pretende de ti uma esmola.

Entretanto, o Magalhães mandou-lhe um farto cabaz com enchidos e frutas - o clássico presente pro vinciano aliciador de consciências. João Eduardo, no entanto, enterneceu-se com essa ingenuidade simplória. Até que Luísa, embora tivesse acabado por silenciar sobre o caso, lhe deu uma novidade:

- Uma das minhas amigas telefonou-me a dizer, que faleceu ontem um dos médicos do Banco das índias. Vem no jornal. Eis a oportunidade.

- Neste momento, já meia Lisboa estabeleceu um cerco aos directores do banco. Sabes lá o que é a caça, ao que chamas "oportunidade".

- Se todos pensassem como tu, ninguém daria um passo.

- Pões tal interesse neste assunto que me leva a pensar que também nós dependemos do emprego de Magalhães.

Quem sabe?... Ser útil a alguém é, pelo menos, sentirmo-nos menos sós. Menos crestados por dentro, João. De contrário, o nosso pequeno espaço humano vai-se fechando, até ficarmos lá dentro tão emparedados que nem um grito se ouvirá cá fora. Já nem valerá a pena gritar, não é isso, João?

- A que propósito vem a prédica?

Luísa não lhe respondera. Nos seus modos havia uma arrogância que o irritou. Era a mesma arrogância da rapariga que, anos atrás, atravessara as ruas da vila preconceituosa vestida com umas calças de mulher adúltera.

No entanto, João Eduardo decidira-se a procurar um dos directores do banco, seu conhecido. Ele tinha acabado de sair. Administrador ou gerente de várias grandes empresas, nem se sabia como poderia conciliar, durante as breves horas da manhã (que as tardes, essas, eram dedicadas a recatados desvelos), todas as importantes tarefas que o solicitavam de múltiplos lados. O seu motorista, porém, era um hábil profissional: lograva rodear de tal modo as dificuldades do tráfego que o ilustre economista sempre conseguia ser visto, quase às mesmas horas, pelos contínuos de meia dúzia de empórios comerciais, desdobrando assim, até à acrobacia, o seu sacrifício pela colectividade.

João Eduardo ainda o lobrigou, já no seu imponente automóvel, a escapulir-se por uma rua transversal. Restava-lhe acertar em qual das outras empresas ele iria agora prosseguir a laboriosa peregrinação. O trajecto que o carro seguira valia, porém, uma pista e, efectivamente, apanhou-o instantes depois de ele ter subido as escadas da Companhia de Fiação do Sul.

O economista recebeu-o com uma deferência para além da amabilidade protocolar. Era um homem calmo, de pele muito branca, modos astutos bem diluídos numa presença aristocrata.

- Porque se incomodou em deslocar-se até aqui?...

Podia ter-me telefonado para nos encontrarmos em qualquer parte. Tomaríamos uma bebida e...

- É que venho pedir-lhe um favor.

- O doutor não pede favores: manda!

- Olhe que pode arrepender-se dessas palavras! Que diria se eu as pusesse à prova?

O eminente financeiro sorriu sem gosto, já na defensiva. Estendeu os braços, apoiando-os sobre os joelhos magros, até cruzar vagarosamente as mãos. A sua expressão esfriara.

- Nos últimos tempos o doutor tem andado arredio...

- A tirania da profissão.

- Bem o sei, bem o sei. Todos acabamos por ser triturados por uma engrenagem absorvente, desumana. Quem detém as rédeas desta caranguejola já não somos nós, mas sim a vida que criámos... - Os seus olhos ergueram-se numa insolência precavida. - Então qual o motivo da sua honrosa visita, meu caro doutor?

- Soube que faleceu um dos seus colegas do Banco das índias...

- Ah, não me fale nisso! - E o economista levou as mãos à testa macilenta. - Teremos de nos reunir sem demora, antes que três ou quatro grandalhões da política nos imponham simultaneamente o seu afilhado. Uma estopada! Tem acontecido sempre o mesmo. É um sarilho dos demónios, para nós, os da direcção, que, enfim, temos todos as nossas relações. Mas o doutor estava interessado?!

- Não sou eu e é precisamente por esse facto que me sinto mais à vontade para rogar a sua interferência. Tenho um condiscípulo na província em dificuldades. Gostaria de lhe valer.

O outro coçou levemente as têmporas. A luz da janela era talvez demasiado intensa e ele foi correr o reposteiro. Era no entanto provável que a pausa tivesse sido premeditada.

- Lamento ter de dizer-lhe que não me parece viável a pretensão do seu amigo. Pelo que deduzi, trata-se de uma pessoa sem grande currículo abonatório, não é verdade? Sendo assim, que argumentos teríamos para o favorecer entre os outros candidatos? É uma situação melindrosa, deve compreender.

- Mas existem já outros candidatos?

- Decerto. Desde há muito. A morte do seu colega, coitado, estava prevista havia cerca de dois anos. No entanto, os tais grandalhões ainda não nos bateram à porta; por isso a direcção vai reunir hoje mesmo, com o objectivo de se esquivar a certas pressões... É mais fácil dizer desde logo que chegaram atrasados...

- Compreendo perfeitamente; e não desejo roubar-lhe mais tempo.

O economista pareceu um tanto desapontado de João Eduardo se confessar rendido sem mais insistência e, daí, observando o relógio veladamente, esperou que João Eduardo se levantasse da cadeira.

- Lamento muito, creia. Como tem passado a sua mulher?

Foi a essa evocação de Luísa que João Eduardo mediu bem o quanto, com a polida recusa do banqueiro, se arrumava um assunto enervante. Por certo que Luísa teria o bom senso de não massacrá-lo mais com o caso do Magalhães. Estava impaciente por chegar a casa e dizer-lho; por escrever ao amigo, falando claro de uma vez para sempre; por fechar a porta a um problema que fora mais incómodo do que inicialmente poderia imaginar.

Ao acompanhá-lo à saída, porém, o economista reteve-o ainda um instante. Com os dedos junto do nariz, afagando as narinas como se aspirasse rapé, desenvolvia provavelmente uma ideia oportuna. João Eduardo apercebeu-se disso. O outro, para lhe ser agradável, cogitava, decerto, numa solução engenhosa - e não soub se deveria sentir-se satisfeito com esse facto. Ser-lhe-ia agora penoso recomeçar tudo de novo, pedir, desperdiçar tempo, reavivar um entusiasmo já gasto.

- Ocorreu-me uma hipótese, doutor. Vamos continuar a conversa. Que deseja tomar? Um café? - Impe liu-o afavelmente para o gabinete, enquanto sibilava umas recomendações ao contínuo. - Já reparou na magnífica paisagem fluvial que se usufrui desta janela? O financeiro deixara de ter pressa. Era quase inquietante essa mudança de atmosfera. - Sabe, doutor, nós também temos o nosso brio, um prestígio a defender. Mesmo sob pressões, não nos agrada escolher um médico qualquer.

João Eduardo enganara-se. O outro pretendia apenas justificar os motivos da recusa, evitando que ele saísse dali agastado.

- Mas sem dúvida. Acho legítimos os vossos escrúpulos.

O outro não gostara de ser interrompido e fixou-o num olhar demorado e matreiro.

- Vou ser franco: pelas suas primeiras palavras julguei que seria o doutor a pretender o lugar; surpreendeu-me, visto que o senhor não precisa de se candidatar, seja a que for; mas dado que o lugar no Banco das índias não ocupa mais do que umas escassas horas por semana, rectifiquei logo a minha surpresa... Sabe o que quero dizer?... - O economista pegou-lhe, sorridente, no braço. - Teríamos imensa honra em nomeá-lo, eis tudo. Ah, lá vem o café. Entra, rapaz. - Eu vim aqui...

- Não é isso que está em causa, doutor - replicou o outro com algum tédio. - Mais açúcar? Asseguro-lhe que o café é delicioso; e, no entanto, é-nos servido por uma espelunca aqui do bairro. - Poisou a xícara numa mesa mais próxima. - Seria insensato propor o seu amigo, em confronto com os fortes candidatos que já temos na bicha; enquanto o senhor, meu Deus!, que prestígio nos daria o seu nome! E quem sabe o que sucederia mais tarde, tendo-o já como membro da nossa família... Por vezes, como sabe, dão-se vagas nos conselhos de administração...

- Não poderia aceitar. Não sou eu que necessito do lugar, mas um amigo que tem mulher e filhos e bem pouco para os manter. Seria atraiçoá-lo!

- Atraiçoá-lo! Que palavrão! Todos nós temos mulher e filhos, doutor. E o banco não é propriamente uma instituição de caridade. Contamos consigo, numa palavra. Respondo pelos meus colegas de direcção.

- Permita-me recusar.

Por um instante desagradado com a firmeza da réplica, o economista logo refez a cordialidade:

- Compreendo os seus melindres, mas faremos tudo muito discretamente. A sua nomeação só será conhecida mais tarde, na data que o doutor julgar aconselhável. Aliás, a questão põe-se assim: em nenhuma circunstância eu iria sujeitar-me ao ridículo de propor o seu joão-semana para o lugar. Ah, não faça essa cara; sabe bem que as coisas são como são. Portanto, o meu caro doutor não estaria a ser menos leal para com o seu amigo caso aceitasse o nosso convite. Ele, em suma, em nada será favorecido com a sua recusa. - O economista viu João Eduardo sorver, meditabundo, as últimas gotas de café, e, cruzando de novo as mãos, certo de que a presa acabaria por se imobilizar nas redes da sua dialéctica de homem habituado a convencer, discorreu - O bicho-homem é bem incongruente, caro doutor. Tem ambições naturais, ou não fosse ele de carne e osso, e, no entanto, mostra pudor em as mostrar. Por convencionalismo, detesta no seu semelhante os dons que asseguram o êxito: sentido das oportunidades, porfia, modo prático de abordar os problemas; e admira, ou diz admirar, aquilo que só pode conduzir ao fracasso: tibieza, um estéril romantismo nesta dura teia que é a vida, onde um homem vence ou é vencido. No entanto, o mundo avança pela mão dos vencedores e são estes, afinal, que acabamos por festejar. Ou não será assim?

A paisagem cinzenta do rio era emoliente. Na manhã búzia os barcos pareciam irreais. Ao grito de uma sirena, João Eduardo sobressaltou-se no sofá. Esfregou os olhos para se convencer de que estava realmente no gabinete do director do banco. O poderoso Banco das índias! De modo nenhum lhe interessavam mais tarefas, novos compromissos, que cada vez o enleavam mais, mas, posto diante das seduções, não lograva coragem suficiente para lhes resistir. Cada uma lhe oferecera um degrau no seu desagravo social, mais um pilar que, num futuro imprevisto, o poderia suster numa queda. E ele não podia admitir um regresso aos anos em que a vida se lhe apresentara tão insegura que, em cada minuto, parecia tornar-se necessário concentrar todas as energias no simples acto de sobreviver. Os pais nunca tinham abrangido a extensão da sua odisseia. Sabiam vagamente que ele dava lições, que aceitara misteres que um estudante poderia sentir humilhantes, mas não suspeitavam da verdade inteira. Quando ele conseguia ainda enviar-lhes algum dinheiro, pensavam, simplesmente, com desvanecimento, que ele era um bom filho, que acontecesse o que acontecesse, saberia chegar ao fim pelos seus próprios meios. Terminado o curso, partira sem demora para as aldeolas que os outros desdenhavam, onde não tivesse de esperar por um lugar ao sol. Fora, talvez, uma caricatura do sonho, mas ele aproveitara-a com desespero. E quanto os outros, suseranos e servos, igualmente impiedosos, perscrutando-lhe a insegurança, a tinham feito sangrar!

Quão diferentes eram agora as perspectivas! "Por vezes, quem sabe, dão-se vagas nos conselhos de administração..." E se um dia... Seria de facto pueril desperdiçar uma oportunidade tão fabulosa! Que parentesco havia entre uma proposta destas, mesmo velada, e as mercês que os senhores feudais, da província, lhe atiravam como sobras da sua mesa? "Tivemos sorte, mais nada." Não era isso, Luísa nunca chegara a compreender as coisas. Não era isso - sublinhava ele agora numa insistência euforizante. Sorte, não, Luísa. Ele é que soubera tirar o melhor partido da sua tenacidade. Mas por que meios? À custa de que mutilações? Verdadeiramente seria impossível obter uma resposta justa para o emaranhado das suas dúvidas. Todo o seu complexo de culpa era talvez excessivo e sempre nebuloso. De médico de campónios, apaixonado pela profissão e sobretudo estudioso, ele soubera filar um momento de audácia e dar o salto decisivo. Tudo partira, afinal, de um acaso aparentemente sem horizontes. Um antigo professor encontrado na rua, um aperto de mão em que se fazia apelo a recordações sempre saborosas de repetir, e um fortuito convite para estagiar por algum tempo como assistente da Faculdade de Medicina. "Você deixou-me a impressão de que deveria ser aproveitado. Não será altura de largar as berças, João Eduardo?..." Representaria, no entanto, uma temeridade deixar-se conduzir por essas palavras acidentais e frívolas (e ele aprendera a considerar antecipadamente todas as palavras como acidentais e frívolas) - mas aí interferira o ânimo ousado, confiante, de Luísa. "A vida começa todos os dias, João, e nunca repete o gesto de nos abrir uma porta. Às vezes penso que te estendeste num esquife à espera que te cubram de terra!" Aceita a aventura, restara-lhe lutar de dentes cerrados, certo de que se lhe haviam fechado todas as estradas do regresso. Esse convencimento angustioso obrigara-o a aprender depressa as regras do jogo e a aplicá-las com intuição e presteza. Mas não o dava a perceber. Nenhum dos colegas o teria julgado, mesmo, um competidor de recear. Quando assistiam aos seus súbitos triunfos, à conquista de posições obtidas com prudência e naturalidade, sem molestar ninguém, todos se rendiam. Seria tarde para o eliminarem. Os seus méritos eram tão evidentes que podiam ser invejados, mas não discutidos. Até que o aluvião o arrastara. Ainda hoje lhe parecia inacreditável que algumas das suas atitudes pudessem ser tão deturpadas pelas circunstâncias, sem que lhe fosse possível interferir; que, de chofre, se visse tão distanciado de um ponto de partida donde, a bem dizer, nem pensara deslocar-se. A torrente tinha sido mais forte do que ele. Acabara por ser incapaz de sustê-la, de frená-la, de colaborar no esforço dolorido de Luísa para que recuperasse a iniciativa de um reencontro consigo próprio. Estava próximo o dia em que, dessa colaboração, apenas restaria um eco de vozes estranguladas e corrosivas.

- Então, doutor, quer dar-me uma esperança?

Na sua vida, todas as posições se iam invertendo. Era o banqueiro a rogar-lhe uma mercê.

Uma semana depois, o Magalhães viera a Lisboa de propósito para lhe ouvir uma explicação reticente mas decisiva sobre a impossibilidade de se conseguir um emprego na cidade. Ainda lhe acenara com a hipótese de um outro condiscípulo, organizador de centros infantis nas capitais de província, mas o Magalhães fechara-se num mutismo cerrado e bronco.

Mais tarde, João Eduardo era nomeado médico-chefe do Banco das índias. Só então Luísa adivinhou o que se teria passado.

Essa história ainda o perseguia, sim, embora reconhecesse que o lugar não fora obtido à custa do Magalhães. Mas o que importava era o que ela significava para si próprio. Sentia-se conspurcado até ao último esconderijo. Estava perdido. E vazio como um boneco de cartão.

Até a doença viera afastá-lo do Jaime, o último dos seus verdadeiros amigos. Sentava-se no tamborete junto da cama, apertando os botões do casaco a fim de evitar qualquer contacto, contendo a respiração enquanto injectava o hemostático, para que os pulmões se defendessem da pestilência de que o ambiente estava impregnado. Cerrava os lábios enquanto o amigo falava, ia lá dentro encharcar as mãos em álcool, incapaz de esconder o mal-estar. Ainda mesmo que o seu procedimento fosse outro, a repulsa, uma repulsa instintiva estampava-se-lhe nos músculos da face. Injectava o líquido atabalhoadamente, com brusquidão, embora soubesse que poderia sujeitar o doente a reacções, ansioso por se afastar para junto da porta.

- Mais devagar, João. Sinto-me afogueado! Tem paciência, mais devagar.

- Como queiras. Estás feito um medricas.

"Estás feito um medricas." O Jaime apercebia-lhe a pressa em desinfectar as mãos que, a medo lhe seguravam o pulso untuoso e mirrado, a pressa em encontrar uma desculpa para se retirar logo que a injecção terminasse; mas precisava dele, ainda que apenas pudesse recorrer à sua caridade.

- Desculpa incomodar-te tantas vezes. Se pudesse pagar a outro médico, não te daria estes fretes.

João Eduardo mordia os lábios para não replicar e Jaime, articulando as palavras de um modo grotesco, visto que ainda não se ajeitara à dentadura postiça, que usava desde que os dentes, com a doença, lhe tinham caído como expulsos dos maxilares de um velho, não perdia o ensejo de esgadanhar mais fundo os nervos do amigo.

- Sabes bem que não tenho dinheiro. Nem para comer, muitas vezes. Desculpa, é já por pouco tempo. Isto não pode durar muito.

Queixava-se como um aldeão. Era uma espécie de melodrama sem dignidade, irritante e estupidamente deliberado, que apenas intentava responsabilizar o ou tro de um modo gratuito. Não havia resposta possível.

- Deixa-te de lérias.

- Pois é. É muito fácil dizer "deixa-te de lérias" Vocês, que têm a barriga cheia, que têm saúde, podem dizer a primeira coisa que lhes salte à boca. Queria ver-vos no meu estado... Egoístas, sacanas.

Chegara aonde desejara. Qualquer comentário lhe teria servido de pretexto. As veias do pescoço ingurgitavam. E o esforço de pronunciar as palavras com uma veemência crescente deixava-o, por fim, prostrado. Ficava-lhe, como último sinal de exaspero, uma baba rosada aos cantos da boca.

- A que propósito vem isso, Jaime? Que queres então que te diga? Achas que te devo aconselhar a que te martirizes o dia inteiro com insultos e agravos sem fundamento?

- Não te canses a falar - advertiu a mulher, antes que o marido se encrespasse de novo.

Jaime fechara os olhos, rendido. E João Eduardo aproveitou a pausa para ensaboar rapidamente as mãos enojadas. Tinha ido até à janela. Mas nem ali se atrevia a encher os pulmões, contidos na sua urgência em respirar.

Jaime, naquela posição, dir-se-ia já morto. As órbitas eram fundas e azuis, e pareciam esvaziadas. De uma vez que João Eduardo o visitara de improviso, não lhe dando tempo a que pusesse a dentadura, também a boca lhe surgira hediondamente transformada. Um rosto todo ele sugado por uma ventosa interior. Não era o Jaime. João Eduardo nada tinha a ver com aquele corpo que injuriava todas as razões por que uma vida merece ser vivida. Era uma injúria e uma fraude.

Jaime, percebendo a intensa impressão que provocara, escondera a boca com o lenço. Mas cometera logo a seguir uma imprudência: supondo que deveria aproveitar a emoção do amigo num sentido utilitário, falara-lhe pela primeira vez do quanto o preocupava a sorte dos velhos.

- Quando eu morrer, não te esqueças dos meus velhos. Se não fores tu, serão uns mendigos. Uns mendigos, não te esqueças! E eu não quero morrer a pensar que os meus pais virão a pedir esmola. Livra-me desse pesadelo.

Não falava da mulher. A mulher viera tarde para a sua vida; viera quase simultaneamente com a doença. Era uma cúmplice, uma intrusa, como instruso e odioso era o sofrimento.

João Eduardo, daí em diante, ficara a associar a ideia dos velhos com o sentimento que lhe provocara o rosto adulterado do amigo. Já não conseguia sentir por eles nenhuma espécie de afecto ou de piedade, como até aí. Quando a mãe de Jaime o vinha receber à porta, baixava os olhos. Não a podia ouvir nem encarar.

A respiração de Jaime era agora mais serena e profunda, mas ele continuava de olhos fechados. João Eduardo via-se obrigado a esperar, com a resignação que lhe era possível, que o amigo se decidisse a colaborar numa oportunidade de se escapar dali. Tentava preencher os pensamentos com assuntos afastados daquele ambiente, como se estivesse a participar de um longo velório que não lhe dissesse respeito. Não tinha coragem para se despedir sem deixar atrás de si tudo serenado. Mas era quase sempre o Jaime, impelido pela mesma necessidade de reconciliação, de afectuosidade e de paz, que ia ao encontro de um desanuviamento.

- Vomito quase tudo o que como. Enfardo, enfardo, até que o estômago se revolta.

João Eduardo sentia-se imediatamente desoprimido. O tema da conversa permitia-lhe derivar para um terreno profissional.

- Faz refeições mais pequenas e menos espaçadas.

- Não tens em casa um tónico que me dês? - Arranja-se. Trago-te amanhã.

Os dois pressentiam os ecos surdos, escamoteados, que estavam por detrás dessas frases que, de tão usadas, já não tinham significação. Rita começara a remexer pelo quarto, dando-lhe um breve aspecto de limpeza. Rompendo o silêncio que voltara a oprimi-los, Jaime disse com aspereza:

- Anda, vai-te embora. Vai à tua vida. - E, bruscamente, de narinas abertas, olhos afogueados, gritou um novo apelo: - Do que eu tenho medo é destas danadas hemoptises! Se não fossem elas, não te incomodava tantas vezes. Não me deixes só nesses momentos, João. Vem logo que te chamem. Pelos teus filhos te peço !

Era como se fosse necessário recorrer a razões, cuja validade não estivesse ainda deteriorada e que substituíssem uma amizade extinta.

Anos atrás, numa idade em que os afectos nasciam de uma espontaneidade que nenhum cálculo vinha desfigurar, já lhe parecia incoerente que a amizade com Jaime fosse tão estreita. Nada havia de coincidente, tanto no feitio como nas tendências, que pudesse aproximá-los. Enquanto João Eduardo procurava a companhia de uns melancólicos candidatos à intelectualidade, que imprimiam versos em papel de embrulho e se embriagavam simbolicamente com chávenas de café na penumbra dos cenáculos, Jaime emborcava copos de vinho nas bodegas do bairro universitário, e, se regressava bêbado a casa, a sua bebedeira nada tinha de imaginada: tresandava a álcool a dois passos de distância.

Esses intelectuais censuravam João Eduardo por ele ser demasiado objectivo nas suas especulações, uma espécie de campónio em quem a lógica bruta do instinto se incompatibilizava com a subtileza dos problemmas. Jaime, por seu lado, insultava-o por ele andar enredado com tal gente, linfática e palavrosa, umas donzelas que não aguentavam dois murros nem uns copos de vinho e que escondiam a sua nulidade num pretensiosismo enjoado que nada legitimava.

Ontem, como agora, João Eduardo não tinha coragem para escolher. Mas, apesar de tudo, era com esses amigos, que pareciam capazes de reformar as artes e o mundo, gritando antecipadamente o seu heroísmo do dia de amanhã e gemendo martírios que nunca teriam virilidade de enfrentar, era com eles que sentia mais afinidades. Vinham coincidir com a sua ânsia de participar numa missão generosa, ofereciam-lhe uma voz para as inquietações informes, mas ardentes, que até aí se traduziam por emoções primárias e extremas, como ódio e o amor. Todos eles desprezavam o dinheiro, opressão, as ambições burguesas; cantavam o povo a fraternidade nos seus versos, embora, num aparente paradoxo, a maioria fosse oriunda da mais intransigente e farta burguesia e nenhum deles conhecesse o povo nem os seus problemas. João Eduardo, porém, tinha o povo no sangue, o povo era toda a sua infância - nunca poderia varrê-lo de si. Mas era um povo diferente, o seu: não o saberia destrinçar das eiras no Estio e dos lagares no Inverno, das histórias assombradas das velhas, das flautas dos pastores, das serras descarnadas, onde o vento corria uivando, do convívio dos serões de aldeia, das ceboladas de bom cheiro com que as pobres viúvas desamparadas iludiam a fome - coisas captadas e reti­das pelos sentidos e pelo coração. Não era um povo bucólico, mas também não era o dos livros escritos pe­los homens da cidade, sábios, esquisitos e de uma luci­dez tão terrível que tudo lhes saía gelado das mãos. O povo era a sua origem, era a terra, a nostalgia de lembranças incoerentes, era ele próprio, coisas que não cabiam nas definições, e toda a vida sentiria, no mais fundo da carne, os seus dramas, embora já nada, hoje, achasse para lhes retribuir. A vida insensibilizara-o e ele reconhecia-se incapaz de forjar uma solidariedade fictí­cia. Nas suas raízes de camponês só lhe parecia sincera uma adesão das entranhas e não aquela espécie de afini­dade que a inteligência precisa de justificar.

Jaime não tinha problemas, e sempre que os compa­nheiros de João Eduardo o olhavam, como se aprecia um bicho de raça inferior, ele queria pôr imediatamente em jogo os seus músculos adestrados em zaragatas me­moráveis, que algumas vezes terminavam no cárcere. Vadiava pela boémia das tascas, das serenatas, das mere­trizes, até alta madrugada, e era de certo modo cioso da sua lenda de truculento beberrão. Aqueles enfermiços amigalhaços de João Eduardo, chamando a si outra es­pécie de fama, que às vezes só estava nos casacões de flanela berrante, partindo de noite ao encontro de hipotéticos revolucionários e fazendo rebentar pelo caminho cartuchos de pólvora, para que alguém pudesse insinuar mais tarde que tinham jogado a vida a transportar terrí­veis munições, esses amigalhaços representavam para Jaime uns incómodos rivais na hegemonia do meio aca­démico e quando os topava no seu caminho a dispu­tarem-lhe a amizade de João Eduardo, logo se lhe rea­cendia a violenta ciumeira.

João Eduardo quisera várias vezes romper com tal absorção; chegava a afastar-se por uns dias, enquanto outro o espreitava como um amante desprezado que precisa de acreditar numa reconciliação, mas à primeira necessidade de um companheiro com quem pudesse dividir as suas preocupações, sem ter de as acertar previamente aos juízos alheios, era com Jaime que se encontrava.

Agora estava longe dele e dos outros. Os amigos intelectuais tinha-os perdido, a vida profissional repartira-os e afastava-os, e quando se cruzavam encaravam ­com pressa e embaraço, como pessoas que sombrias culpas, renúncias e traições tivessem desfigurado e tornasse necessário não dar tempo a que essa transformação se revelasse. Apreciavam-se com desconfiança e crueldade. As circunstâncias adversas haviam-lhe esgotado ou corrompido o sonho, o fervor, a bravura, e en tão precisavam de descobrir nos outros o sinal de um cansaço ou de uma adulteração maiores do que os seus. O que os ligava ainda era, afinal, um odioso motivo de desunião. A maioria aceitara, por fim, a herança bur guesa que lhes estava destinada, os seus ardis e as suas gulas, cada um atordoando na febre do seu caso individual a consciência de que esses fundamentos rangiam como árvores dessoradas prestes a uma inevitável decomposição. Aqueles que nada tinham a herdar, mas sim a conquistar, ou amoleciam-se nas dúvidas, nu antecipado cepticismo que não conduzia a coisa nenhuma, ou gastavam-se no desvario de uma luta do mesmo modo solitária ou, ainda, cruzavam os braços à beira da vida, como se o facto de continuarem a dedilhar versos sobre o povo lhes desse o direito à indolência e a uma romântica frustração.

João Eduardo, porém, continuava a debicar aqui e ali, na transitoriedade das relações da cidade, novas amizades intelectuais, que, por tardias, não exigiam de­vassas ou recuos ao passado. O desalinho pitoresco das suas vidas, o desdém pelas normas, certa firmeza peran­te as forças lôbregas que os submergiam e, para lá da epiderme convencional dessa rebeldia, a descoberta de um rumo exacto para onde convergiam raivas, desenga­nos e triunfos - ofereciam-lhe ainda, apesar de tudo, uma hipótese de redenção. Nesses renovos de convívio todo o seu entusiasmo voltava a avivar-se até que o correr dos dias lhe trazia o rescaldo amargo de mais uma busca malograda. Demasiado alerta e faminta, a sua sensibilidade não se deixava ludibriar. A ele, que não procurava a excentricidade nem o formalismo, mas sim a limpidez e a segurança perdidas que poderiam es­tar para lá, apenas a superfície convencional lhe ficava da experiência. Todos esses letrados não sabiam ou não tinham a coragem de ser, antes de mais, homens, gente veraz. E para João Eduardo as ideias só eram válidas enquanto entranhadas, enquanto assumidas. Reduzidas a palavras, numa premeditação intelectual que lhes rou­basse a autenticidade, as mentiras e as tibiezas rebentariam através dos poros dessa orgia especulativa. Na sua ronda pelos ateliers e pelas tertúlias, onde surgiam cele­bridades de uma hora, ao sabor de secretas conveniên­cias, e onde, no desencanto de noites de pândega, se imitavam as degradações da burguesia, apercebia-se, por outro lado, que os grandes desígnios se reduziam a conjuras tribais. Dir-se-ia que eles esperavam escaquei­rar o mundo velho numa batalha jogada à mesa do café. E o terrível é que eles acreditavam que essa batalha era legítima; que era decisiva, que tinha grandeza. Na cobardia de enfrentarem a sua impotência, criavam mitos, visto que era fácil adorar, e criavam vítimas, visto que era fácil odiar, e criavam novos catecismos, novos conflitos, sempre mais ódios e mais ídolos - mas nenhuma das suas ansiedades se traduzia numa actuação humana, tal como João Eduardo a compreendia. Era u nova forma de burguesia que não tinha a coragem de confessar. Até a arte deles se estiolava num formalismo quase mundano. Dessa ronda, afinal, João Eduardo encontrar a absolvição de tudo o que pretendia varrer de si próprio.

Os rumos de Jaime haviam sido bem diferentes. Correra sete ofícios, numa instabilidade instintiva de quem não se deixa domesticar por nenhum preço. O riso e o choro, nele, conservariam até ao fim a sua virgindade. Talvez ele não tivesse inteira consciência da sua derrota, visto que ia morrer sem ter chegado a contaminar-se com a cupidez dos que o rodeavam; daí, por certo, o descaro com que exigia dos outros uma parcela do que eles colhiam de uma sementeira de contemporizações.

Depois de uma breve passagem pelo comércio, Jaime desaparecera da lembrança dos companheiros para surgir mais tarde como piloto de barcos de aventura, era ainda João Eduardo que viera abonar-lhe a abalada honradez num escândalo de tribunal. Mas o acaso e os riscos continuavam a fasciná-lo. Deixava-se engajar em empresas escuras de contrabando, donde regressava curtido de sóis, com uma insolente virilidade, e de bol­sos atulhados de dinheiro. Esse dinheiro perturbava-o. Tinha pressa em desfazer-se dele. De uma vez entrou em casa de João Eduardo e, despejando os bolsos em cima da secretária, disse-lhe numa voz rouca:

- Fica com isto. É para ti. Não o quero.

Nesse tempo, usava uma camisola de mangas curtas e um boné de marujo, branco, que o envaidecia como a um garoto.

- Foi para esta vida que tiraste um curso? - perguntava-lhe João Eduardo.

- Curso? Que é isso? Vamos daí beber. - E depois de apertar, entre dois dedos irritadiços, a testa gretada de rugas precoces: - Sabes o que tu és? Um camponês agarrado a uma côdea de pão.

Renunciou ao mar quando o barco a que pertencia se submergiu, num incêndio de apoteose, ao largo de um porto da América do Sul. Foi dos raros sobreviventes; devia a si próprio ter escapado da morte. Considerado um herói pela assombrada população do local, só de lá voltou quando nada mais havia a esperar da sua celebridade.

- Propunham-me casamento todos os dias - contava ele, rindo e fazendo rir até às lágrimas. - Quando lá apareceu este vosso amigo de olhos azuis e cabelos loiros, saído do mar como um Neptuno de outra raça, não houve morena que não passasse a língua pelos beiços. Todas elas me garantiam que os pais eram ricos. Fartei-me de comer jantaradas.

- Deixaste por lá descendência?

- Impossível. Elas estabeleciam à minha volta um cordão sanitário de ciúmes. Mas enfim, saltei-lhe por cima algumas vezes.

Por último, sem um centavo para viver, decidira diplomar-se como técnico de rádio. Tinha uma habilidade extraordinária para a mecânica, embora afirmasse a pés juntos que a sua vocação era ser piloto de aviões. Mas haviam-no rejeitado na inspecção. "Uns sacanas."

Empregara-se, por fim, numa grande empresa de rádio

e electricidade e, para surpresa de todos, revelara-se de tal modo activo e cumpridor que a casa lhe oferecera gerência de uma sucursal na província. Serenara, enfim, sem todavia sacrificar a jovialidade e a espontaneidade, multiplicando amizades e pondo brio nas tarefas. O burgo sonolento ia-lhe amortecendo a desordem de impulsos e, o que era importante, sem ele dar por isso. E foi daí que apareceu casado. Um dia telefonou a João Eduardo para que ele lhe testemunhasse o casamento. Na véspera, porém, os dois correram os botequins da cidade e embebedaram-se escandalosamente.

Jaime emagrecera a olhos vistos. Quando teve a primeira hemoptise, os médicos diagnosticaram-lhe uma congestão pulmonar. Entretanto, um dos directores da empresa viera oferecer-lhe sociedade. Parecia ser o fim de um passado de adolescente caprichoso e volúvel. Na euforia da notícia e talvez tão perturbado como no tempo em que os engajadores o aliciavam com perspectivas fabulosas, procurou João Eduardo a rogar-lhe que fosse estabelecer a sua clínica na mesma cidade, pois ele lhe asseguraria várias situações estáveis. O dinheiro incomodava-o. Era incapaz de o suportar sem um cúmplice ou um associado.

Em breve se soube que a oferta da empresa escondera uma burla; de um dia para o outro, Jaime viu-se incluído entre os responsáveis por uma dívida que, de tão espantosa, tornava a acusação ridícula. Enquanto durou uma folhetinesca devassa à manobra financeira que o havia arrastado para uma situação absurda, acabou-se-lhe o dinheiro. Os amigos, que, meses antes, ao verem-no envolvido num saboroso escândalo de milhões, o cortejavam com gracejos como este: "Você, por acaso, tem aí mil contos trocados para me emprestar?...", começaram a achar a sua companhia menos reinadia e conveniente. Foi já num quarto de hotel que os pais, forçados a abrigarem-se no seu tecto, o encontraram. Eram dois velhos tímidos, que pareciam pedir desculpa a toda a gente de terem empobrecido.

O temperamento de Jaime havia sofrido, entretanto, uma brusca viragem. A sua impulsividade era agora quase sempre contundente. João Eduardo, da distância, cada vez ia sabendo menos da sua vida: Jaime escrevia espaçadamente umas curtas linhas, daqui ou dali, como um viajante comercial, insistindo apenas nas referências à sua saúde. Começara a pedir-lhe dinheiro. Da primeira vez, ainda se dera ao trabalho de uma justificação: "Preciso de o mandar à Rita", e João Eduardo concluíra, portanto, que a mulher e os pais do amigo deviam ter ido albergar-se em qualquer parente.

De súbito, num daqueles costumados imprevistos, Jaime apareceu-lhe em Lisboa. O seu primeiro sorriso, ao transpor a porta, foi de uma mordente ironia perante a surpresa de móveis e tapetes de bom preço. Por mais que Luísa e João Eduardo o estimulassem à estouvadice doutros tempos, mostrou-se cerimonioso e sarcástico. Como se os tapetes, os móveis, a atmosfera requintada e convencional que ali o oprimia representassem uma deslealdade. Viera ali, decerto, como quem regressa a um lugar que nunca se deixou de trazer nos olhos e no coração; como quem reteve, durante a ausência, as ruas, as casas e as pessoas tais como elas eram antes da partida, tal como se desejava que elas permanecessem - e depara-se-lhe um ambiente que, de tão adulterado, parece ainda mais estranho do que as terras estranhas e hostis a que nunca se entregou.

Demorou-se poucos dias em casa do amigo. João Eduardo estranhou-lhe a magreza. As feições tinham-se-lhe alterado: malares ossudos, órbitas fundas e, sobretudo, uma melancolia que velava o azulado dos olhos. Tossicava com frequência. João Eduardo gostava de o auscultar, mas as insinuações ao estado físico do amigo não tinham resposta. Receoso, aconselhou Luísa a afastar recatadamente os garotos do convívio do hóspede.

Algum tempo depois, Jaime vinha residir em Lisboa com a família, e João Eduardo verificou, desde o primeiro dia, que ele não tinha a mínima consciência de quanto seria dura a vida que o esperava.

 

Quando João Eduardo, depois de ir ao encontro de Luísa, chegou a casa do professor Cunha Ferreira, já lá estava o capitalista. Este era um homem robusto, embora menos alto do que o dono da casa. Rubicundo, os olhos desigualmente papudos, visto que a pálpebra direita parecia mais cheia ou mais repuxada do que a outra, dir-se-ia alguém que estivesse permanentemente disposto a dormir ou então a beber, pois as suas mãos afagavam com amorosa naturalidade o cálice bojudo que lhe oferecera o cirurgião. Estava irrepreensivelmente vestido. João Eduardo não pôde deixar de o notar, com a mesma quase surpresa que lhe provocara o vestido negro e severo de Luísa. Acontecia muitas vezes, quando a mulher se preparava para o acompanhar a qualquer reunião mundana, sentir-se seduzido pela desdenhosa distinção que Luísa punha no vestir e nos gestos. Era outra mulher. E, perante o espanto da metamorfose, via-se enleado e traído, como se, na sua admiração, estivesse a cometer uma infidelidade.

Ela não discutira o convite do Cunha Ferreira. Uma tal indiferença irritava-o. Quando lhe comunicava um convite desse género ou propunha que fossem a qualquer lado onde se sabia, de antemão, que se encontrariam pessoas com quem era necessário conviver, Luís acedia sem uma palavra. Parecia ter aceitado, por fim como uma condenação que é preciso cumprir, o encar go de ser mostrada. Ao chegar a casa, despia o disfarce e o seu rosto surgia bruscamente mortificado.

Foi essa Luísa estranha e inacessível que João Eduar do encontrou quando ainda não se perdera todo o alvoroço por uma noite que lhes pertencesse. Sim: ele iria arrostar com as represálias do Cunha Ferreira, recusando-lhe o convite; iria apoiar-se em Luísa, no amor de Luísa, na sua compreensão, nos ecos de um passado que era preciso reacender. Mas a Luísa vestida de negro, esfíngica, implacável, não era a Luísa que poderia aproximar-se da sua angústia, dividindo o caminho ao meio, para então o acompanhar num acto de coragem, ainda oportuno.

- Tens aí o jornal da tarde? - perguntou-lhe, à espreita de um pretexto.

O jornal publicara uma curta notícia do desastre: informava que o garoto tinha sido levado para o hospital ainda vivo e que se desconheciam as razões por que a criança fora encontrada no elevador. Ainda vivo? Que se passara depois? Em que hospital ou em que serviço teria sido internado?

- Leste esta notícia?

Os olhos dela permaneceram calmos e indiferentes, não se esforçando por decifrar a pergunta, que fora dita numa esquisita inflexão de desafio.

O capitalista, de tronco muito direito, continuava a vagabundear pela sala, um pouco alheado, enquanto o professor lhe seguia solicitamente os passos, preparando a forma mais azada de enfiar uma chalaça intencional.

- Lembre-se, meu caro, que está em casa do seu médico... Do seu médico, note bem!... Por deformação profissional, sou forçado a aconselhar certa moderação nos aperitivos, esquecendo que é meu convidado...

O capitalista ouviu-o com um olhar neutro e o professor percebeu imediatamente que tinha sido inábil. Como era tarde para recuar, restava-lhe o recurso de um sorriso mais reforçado ainda e qualquer frase graciosa que, sem demora, fizesse esquecer a anterior. A frase, porém, negou-se-lhe e o sorriso acabou por se esbater na imobilidade expectante do rosto do hóspede.

Luísa e a esposa do cirurgião, noutro lugar da sala, esforçavam-se por se interessar por uma banalidade que a segunda havia mostrado, e João Eduardo, para iludir de qualquer modo a flagrante carência de assunto, perguntou:

- O Medeiros?

O professor franziu as sobrancelhas ao consultar o relógio. Na sua expressão não havia vestígios do sorriso habitual. Dir-se-ia, ao ver-se-lhe a face opada e ansiosa, que esse sorriso nunca ali existira.

- O Medeiros deve vir a caminho. É um homem que se faz desejar...

E, rapidamente, aproximou cadeiras, instando os hóspedes a que se juntassem para lhe ouvir uma anedota, a última da sua celebrada colecção. No entanto, era no ingrediente da mímica que ele brilhava como narrador; por isso, cada frase se prenunciava no gesto enfático, já de si cómico ou vibrante. A anedota servia-lhe habitualmente como introdução ao seu tema favorito: pesca e caça, ao qual o capitalista pareceu desde logo reagir. Este, apresentado como o Sr. Álvaro Trigueiros, observava a distância os convidados do cirurgião, e no seu olhar pausado, quase preguiçoso, perpassava, em relâmpagos, uma inquieta perspicácia. Parecia desconfiado, embora à sua personalidade de homem rico fosse fácil um exterior de indiferença.

Agora que as senhoras se tinham acercado, a sua inspecção concentrara-se em Luísa. Luísa agradara-lhe; e talvez por isso, porque, finalmente, valia a pena mostrar-se um pouco loquaz, arredara com um simples gesto a verborreia do professor, chamando as atenções sobre si. Começara a falar de vinhos e de lãs, assuntos um tanto descabidos para o momento, mas em que ele, como experimentado produtor, poderia sobressair naquela assembleia de doutores. Quando se dirigia a João Eduardo, a voz tornava-se menos segura, encarando-o fugazmente.

As senhoras representavam sobriamente o seu entusiasmo pelos meandros do negócio de lãs, e o professor, satisfeito de o vinhateiro ter encontrado ouvintes pacientes, levou o colega para um recanto discreto. Pegando ao acaso num livro, foi indicando, sem palavras, as gravuras do texto e, de súbito, disparou:

- Espero que esteja bem-disposto, meu caro.

- Porque não havia de estar?

- Ainda bem, meu amigo. Agrada-me sabê-lo! É que você tem andado tristonho. Queria vê-lo como dantes, optimista, confiante...

João Eduardo fez uma expressão de amuo e o dono da casa, alerta, imediatamente escolheu outro desvio para atingir o seu destino:

- Pois, você anda farto desta roda-viva, é o que e. Andamos todos. O raio da vida gasta-nos em dois tempos, nem sequer nos permitindo saborear o fruto tão laboriosamente amadurado. Não há pausas, você bem o sabe. Ninguém pode parar, mesmo que tenha o direito de digerir um pouco do que produziu; está logo por detrás quem nos espreita o cansaço. Isto é uma selva demolidora, meu caro João Eduardo. As mudanças de humor, às vezes inexplicáveis, são afinal a campainha de alarme mais benigna de quem é obrigado a participar desta corrida diabólica. São inevitáveis e... salutares. Não é da minha opinião? - Sondou as reacções do colega e, satisfeito, prosseguiu: - Mas já dizia um velhote da minha terra que "um homem sem outro homem vale menos que uma formiga". Queria ele dizer, é claro, à sua maneira, que o homem isolado é uma fácil presa do fracasso. Mesmo nos escassos limites de uma profissão, onde, evidentemente, não podem caber todos os anseios e interesses para que um homem do nosso tempo é solicitado, mesmo aí precisamos de sentir apoios. - Fixou duramente os olhos do interlocutor e logo que as pálpebras se frisaram na máscara de simpatia, concluiu: - Você bem sabe, meu caro, que pode sempre contar comigo. Em se me deparando um colega leal, coisa tão rara nestes atropelados tempos!, abro-me e ofereço-me até às últimas consequências.

O professor, no virtuosismo primário do seu discurso, parecia um mestre preocupado em que o colegial não esquecesse os pontos essenciais do programa e os reavivasse à pressa, antes de ser chamado a exame; antes, por certo, da embaraçosa, mas necessária, chegada do Medeiros. A levíssima amargura que aflorara a espaços, nas suas palavras, e que talvez não tivesse sido premeditada, dera-lhes um estremecimento de emoção, valiosíssimo para o efeito. O professor ficara convicto de ter conduzido subtilmente a manobra, embora talvez mostrando com demasiada clareza o receio de que João Eduardo, no último momento, esquecesse o papel. Por isso lhe insinuara mais uma vez que a sua posição já não podia dispensar certos amparos, os quais, natural mente, deveriam ser retribuídos. Por um lado, e jogando no crédito público de João Eduardo, convenceria o capitalista a uma intervenção cirúrgica que poderia muit bem justificar-se e que deveria render-lhe uma gorda maquia, e, por outro, humilharia um incómodo rival, o Medeiros, perante um doente cuja opinião iria repercutir naqueles meios de abastada respeitabilidade.

A profissão médica, até aí dificilmente permeáve a essa espécie de conluios, acabara por ser dominado, por realidades perante as quais amoleciam alguns dos seus princípios éticos. As novas gerações já não viam motivo para esconder os meandros da luta que lhe impunham.

João Eduardo não esqueceria mais o dia em que, tendo enviado da aldeia uns doentes ao radiologista e ao cirurgião, recebera pela primeira vez um misterioso vale de correio com uma animadora recompensa. Ingenuamente, devolvera o dinheiro na primeira oportunidade. Tinha sido, por certo, um engano. "Venha jantar connosco um dia destes", haviam-lhe respondido os colegas. Entre eles, num restaurante da cidade, fizeram o papel do aldeão estúpido a quem é preciso particularizar até à inconveniência o que deveria quedar-se recatadamente em meias palavras.

- Bem vê, colega, vocês, no campo, trabalham como escravos e toda a gente lhes regateia a retribuição; e, no entanto, é a você que eles devem a saúde, o exemplo, e muitas outras vezes as reivindicações sociais. Mas se procuram qualquer de nós, aqui na cidade, já lhes parece natural que exijamos por um esforço mínimo cinco vezes o que negaram ao médico que lhes atura paciente e desveladamente as ingratidões e os achaques. É uma dívida que fica em aberto. Não lhe parece razoável, pois, que lhe enviemos parte do dinheiro que, de direito, lhe pertence? Para todos os efeitos, e dentro do possível, pretendemos apenas corrigir uma injustiça.

- Mas todos os colegas da cidade procedem desse modo? - insistia João Eduardo, de olhos escancarados, como um escolar simultaneamente emocionado e surpreso.

- Nem todos, é certo. Fazem-no aqueles que, como nós, compreendem o vosso sacrifício. Daí ser também justo que vocês, os clínicos rurais, estabeleçam relações confiantes, de estreita camaradagem...

- E fidelidade... - reforçara o radiologista, enquanto enchia o copo de João Eduardo.

- ...com os colegas da cidade que pretendam apoiar-vos.

- Que prefiram esses, em suma - rematara o outro com certa impaciência. - O doente perdeu alguma coisa com a preferência? Pagou mais por isso? Foi menos bem atendido?

João Eduardo pesava o engodo de tais palavras sabiamente enroupadas. Tinham sedução e lógica. Iam ao encontro de muitos ressentimentos. E, além disso, a percentagem recebida ultrapassava o que lhe poderia render o trabalho duro e inglório de muitos dias. Era um dinheiro tentador e fácil; mas, por muito que fosse habilidosamente justificado, queimava-o, violando-lhe as mãos, os sonhos, o respeito a si próprio. E recusou-o com aspereza.

No regresso à aldeia, sentiu que amava mais do que nunca aquele pequeno mundo, e que o amava como a um ser humano que, de frágil e traído, lhe apetecesse apertar de encontro a si. Compreendia, finalmente, que os desentendimentos entre ele e esse pequeno mund fechado, como defesa, numa concha de hostilidade, mesquinhez e incompreensão, eram afinal a vibração humana, inevitável em vidas que, abalroadas num pequeno reduto, têm forçosamente de se entrechocar.

João Eduardo começava a desejar que o Medeiros não tardasse muito e que toda a farsa acabasse depressa. Como de outras vezes, parecia-lhe que, terminado esse acontecimento indesejável, se seguiria a tranquilidade pelo menos, um arremedo de libertação. O diálogo a sós com o dono da casa servira apenas para lhe tornar a expectativa ainda mais tormentosa, durante a qual todas as inquietações do passado e do presente se reavivam como feridas assanhadas. Os momentos passados em casa do Jaime, por exemplo, emergiam na sua con ciência com uma nitidez brutal, terrivelmente esclarecidos. O amigo morria. Quantos dias lhe restavam? Morria segurando-se às últimas ilusões que mantêm uma vida de pé: a confiança nos outros, o amor às coisas e aos homens, ainda que o azedume possa ser também uma das vozes desse amor. Mas que tinha ele para lançar aos braços estendidos de Jaime, nesses últimos dias da sua dramática agonia? Destroços de um naufrágio. Cansaço e repugnância. Repugnância das suas mãos, do seu rosto, do seu hálito, do pressentimento da morte. A proximidade do fim, tão evidente como uma realidade física que se pudesse avaliar pelos sentidos, apenas lhe trazia uma prévia sensação de alívio. Agora que a doença do Jaime, a correr para o desfecho, não lhe exigiria muitos mais incómodos, nem assim ele descobria dentro de si uns restos de pura adesão. Uns restos - que bastassem para uns magros dias. Todos os seus sentimentos se tinham gangrenado. E nessa gangrena participava uma crescente adaptação às circunstâncias, ao próprio processo degenerativo. A sua amargura, enfim, deixava aos poucos de ser protesto. Era perfeitamente natural, pois, que o Cunha Ferreira lhe propusesse, sem grandes rodeios, um negócio duvidoso. Os outros sabiam muito bem com o que poderiam contar. Que viesse então o Medeiros, para que a fantochada tivesse um remate - o Medeiros truculento, sempre atiçado contra os demais, sem que para tal precisasse de motivo, sentindo-se compensado das suas frustrações quando de nariz mergulhado no fedor alheio. O Cunha Ferreira planeara muito mal o seu jogo. Se lhe avaliara com justeza a frouxidão, iria ter, porém, uma surpresa com o Medeiros. Ao Medeiros não o calavam as conveniências. E João Eduardo antevia já, não sem uma expectativa enervada mas voluptuosa, o momento em que o Medeiros os desmascarasse. E Luísa estaria presente - a última testemunha perante a qual ele seria insensível ao vexame. No dia em que ficasse certo de que Luísa já não teria mais ilusões a seu respeito, nesse dia seria provavelmente o desfecho. O seu jogo de embustes, perante os estranhos e perante Luísa, significava em boa medida a esperança numa reabilitação, que se tornaria imposível se os outros lhe percebessem toda a extensão da queda.

- Meu caro senhor Trigueiros: já que nos apraz ter connosco, esta noite, uma sumidade como o doutor João Eduardo, importa-se que lhe mostremos as suas radiografias? Tenho-as aqui na minha pasta. E você João Eduardo, importa-se também?

Radiografias? Em que mundo se passara a pergun ta? A voz inesperada que a pronunciara, fazendo-o es tremecer, vinha de muito longe. Enquanto regressava à realidade, fazia por adaptar-se à ênfase, ainda brumosa, dessa voz.

- Sim, pode ser.

O dono da casa estava sôfrego de pôr à prova a fidelidade dos parceiros ou o efeito persuasivo da manobra. Por isso, certamente, fora precipitado e de uma inépcia nele invulgar. O vinhateiro aproximara-se vagarosamente.

-Vou então ser julgado?... Mostre, doutor, mostre, se tem empenho em fazê-lo.

Restolhava nas suas palavras uma ironia condescendente, no fundo da qual se percebia, contudo, uma pobre ansiedade.

-julgado, propriamente, não, meu caro... Para um julgamento em forma, falta-nos um delegado do Ministério Público... Mas ele virá!, visto que me lembrei de convidar também, para nos fazer companhia, o nosso endiabrado doutor Medeiros - retorquiu o professor, numa entoação que João Eduardo se esforçou por diagnosticar.

Os olhos do vinhateiro luziram de precaução. Haviam-se tornado frios e acerados como navalhas.

João Eduardo pegara nas radiografias com desenvoltura profissional, erguendo-as contra o candeeiro mais próximo. O próprio dono da casa se sentia vagamente intimidado perante a convicção que o colega punha nessa sondagem. Assim que vestia a sua personalidade de médico, João Eduardo irradiava força, segurança, e nos seus gestos havia desde logo um desdém cortês, mas firme, contra quaisquer reparos que lhe viessem a ser feitos.

Enquanto o financeiro refreava o seu nervosismo, expelindo longas baforadas de fumo pela boca sensualona, Luísa, acompanhada da esposa do professor, aproximou-se recatadamente. O seu andar tinha um lento e fatigado desinteresse. João Eduardo rodava com presteza as radiografias entre os dedos, demorando num pormenor os olhos semicerrados e depois, com certa insolência, apreciou friamente o rosto vermelhaço do doente. Um olhar que, mesmo quando tinha simpatia, significava uma investigação implacável, uma devassa feita com uma eficiência profissional que chegava à crueldade. Dir-se-ia outro, aquele João Eduardo que Luísa viera apreciar, sabendo de antemão que seria subjugada. Era como profissional que sentia o marido viril. Um homem. Mesmo a sua untuosa amabilidade para com os doentes exprimia uma concessão de homem seguro de si próprio.

- Então, meu caro? - espicaçava o dono da casa num sorriso que, nesse momento, era uma ferida arreganhada.

- Falta o delegado do Ministério Público...

O professor, ao ouvir o seu gracejo repetido ironicamente pelo outro, achou-se ridículo e procurou logo um recurso que não lhe traísse o mal-estar.

- Você é um juiz consciencioso, meu caro. Mas não me vá dizer que, enquanto não chega o acusador, proíbe o nosso senhor Trigueiros de tomar outro aperitivo... Para severidade, basto eu.

Mas ninguém reagiu à graçola. O vinhateiro estava taciturno. João Eduardo e Luísa encararam-se. No rosto dela havia ansiedade e uma longínqua ternura; no dele, apreensão. Quando o marido a empurrou suavemente para a cadeira, ela sentiu-lhe os dedos receosos e húmidos. O gesto emocionou-a. Era uma tímida expressão de cumplicidade solidária perante um ambiente e pessoas que não lhes diziam respeito. Um e outro tinham confluído, como de há muito não acontecia, no desejo de estar longe dali, isolados, para se abraçarem horas seguidas, sem palavras, apenas cingidas pelas recordações.

O professor Cunha Ferreira sorria tolamente, desamparado, até que, por fim, a chegada do Medeiros veio pôr termo a esse desperdício de amabilidade.

A aparição do Medeiros e da mulher foi simultaneamente tempestuosa e acanhada. A campainha retiniu lá fora numa insistência desabrida, mas, quando a criada lhes abriu a porta, o Medeiros achou-se subitamente envolvido naquela atmosfera de um convencionalismo pedante e, atarantado, não soube mais do que sacudir os cabelos num gesto furtivo e sorrir como um idiota. Antes de identificar as pessoas reparou que elas estavam cerimoniosamente vestidas, em contraste com o seu casacão desportivo, rematado por umas calças de flanela cinzenta. Iam julgá-lo um grosseirão. Mas como daí a um juízo de excentricidade talvez fosse um curto passo, decidiu explorar esta última alternativa.

O Medeiros não descuidava as aparências só por uma pueril demonstração de irredutibilidade à burguesia: fazia-o sobretudo por lhe estar no temperamento. Um fato de bom corte e de boa fazenda era um colete-de-forças. No entanto, não tolerava que alguém, como agora, pudesse concluir da sua sem-cerimónia que ele não passava de um provinciano desconhecedor das regras elementares do convívio social. Por isso mesmo, iria tomar a ofensiva, e de um modo que fizesse sentir aos outros que lhes reprovava o pretensiosismo deslocado e ridículo.

- Desculpem o à-vontade com que me apresento. Mas julguei que vinha simplesmente cavaquear umas horas num grupo de amigos.

A dona da casa assentiu num sorriso nada contemporizador.

- Pois sem dúvida... - reforçou o marido, de orelhas ruborizadas pela frase deselegante do colega. De cada vez, e em qualquer circunstância, que o outro abria a boca, de antemão o Dr. Cunha Ferreira sentia um espasmo na laringe. Tinha uma alergia visceral àquele homem. Não poderia tolerá-lo por muito mais tempo, mesmo que essa decisão tivesse os seus riscos. Era esse receio que o fazia adiar a ruptura, pois o outro, arguto, grosseirão e sem qualquer espécie de freio, seria um inimigo temível. Já o era, mesmo ainda sob a sua alçada. Detestava-o, em suma. Mas a sua aversão precisava de uma oportunidade. Era preferível tecer-lhe à volta uma armadilha paciente, até que o outro, quando desse pelo perigo, já estivesse algemado. Aí o tinha, desafiador. Não tardaria, porém, que chegasse a sua hora. Vendo-o franzir as sobrancelhas ao deparar-se-lhe o vinhateiro, o anfitrião acrescentou: - Creio que também já conhece de perto o senhor Trigueiros, não é verdade?

O Medeiros, com o copo nos dedos e a outra mão empurrando o fundo do bolso, numa atitude muito sua de quem espera o momento de participar de uma briga, olhava para uns e para outros, sem finalidade, como um rapazinho instável e traquinas. A mulher, na sua inalterável doçura, limitava-se a sublinhar um pouco mais o sorriso quando se lhe dirigiam. Estava ali sem saber que uso fazer da sua alegria. Investigava todas as sombras que ia observando no rosto do marido e havia medo e devoção nessa vigilância. A sua intuição prevenia-a de uma ameaça e era preciso arredá-la do seu companheir antes que ele fosse atingido.

O jantar ia ser um desastre. Todos o pressentiam. Em vão, um ou outro lançava uma ponte cautelosa pela qual se estabelecesse uma proposta de convívio. Luísa no entanto, parecia sentir-se bem junto da mulher do Medeiros e foi nesse grupo que, por fim, o próprio Medeiros buscou um refúgio. Quando a dona da casa os convidou para a sala de mesa, todos reagiram como se os tivessem chamado para o intervalo de uma pugna que ninguém desejava prolongar.

O professor Cunha Ferreira foi tacteando vários temas de conversa, pesquisando nos seus convidados um despertar de interesse. João Eduardo comparou-o a um pianista que procurasse, aflito, a nota inspiradora. E reparando no mutismo agastado do Trigueiros, na sua face bronca e pesada, apeteceu-lhe sugerir: "Carregue nos graves!" A ideia fê-lo sorrir. Como última solução, o professor, a propósito de uma parturiente que acabara de falecer dentro de um automóvel depois de ter sido recusada por vários hospitais, enveredou por um problema de assistência médica que os jornais tinham discutido com mais fraseado do que convicção. Mas nem o escandaloso drama logrou estimular o capitalista ao diálogo, até que ele próprio, por fim, pegando no copo de vinho como um malabarista profissional, inquiriu com solenidade:

- Diga-me, senhor professor, de que colheita é este vinho?

- Porquê: gostou? - retorquiu, alvoroçado, o do­no da casa.

- Esplêndido.

Sentindo a curiosidade convergir sobre si, o finan­ceiro fechou os olhos por um momento, como um aba­de antes de aspergir o seu rebanho com umas gotas de santidade, e sublinhou:

- Sei o que digo.

Durante o tempo que ainda durou o jantar, o ho­mem dissertou sobre vinhos. Os outros ouviam-no au­sentes, de olhos fixos como estátuas, enquanto ele dei­xava longos silêncios entre as palavras, a atiçar o apetite para o que viria depois.

- Um bom vinho é inconfundível. As imitações, tal como as mulheres, só nos enganam quando estão vestidas. Logo que as destapamos, já não há ludíbrio possível - terminou ele, decisivo.

O professor estava radiante. Voltava-se para os co­legas a incitá-los a mostrarem também o seu júbilo pelo facto de o vinhateiro se mostrar loquaz e, portanto, acessível. A dona da casa é que não parecia muito dis­posta a suportar por mais tempo aquela fatigante com­panhia. Tinha o seu pescoço de pássaro esticado para a frente, sob o apoio de um braço descarnado e sardento, e essa atitude tanto poderia ser de cansaço como de os­tensivo desdém.

João Eduardo, abúlico, havia meia hora que procu­rava encontrar uma classificação zoológica para cada um dos presentes. Gostava de comparar as pessoas àqueles bichos que os seus olhos de criança tinham de­corado num atlas escolar. A anfitriã era-lhe especial­mente antipática. Queria encontrar-lhe uma compara­ção impiedosa; mas findo o jantar, ao vê-la de novo de pé, gritou para si próprio: «Não é possível. Ela sugere simplesmente uma pernalta.»

Quando o café foi servido, já na outra sala, João Eduardo farejou, no odor que preenchera de súbito a atmosfera, que o dono da casa iria, enfim, entregar­a voz de comando. O professor devia estar morto por levar a cabo o programa. Os seus gestos eram agora desordenados e esse nervosismo transmitiu-se logo a João Eduardo. Um suor viscoso correu-lhe a epiderme. Como se tivesse estado a aguardar a chegada de alguém que devia ser assassinado e, de chofre, a vítima lhe surgisse a dois passos, sem lhe permitir já uma reflexão, uma cobardia, um arrependimento. Por isso, procurou adiar um segundo que fosse o instante irremediável, embora o crime não pudesse deixar de ser praticado. Dirigindo-se ao Medeiros, perguntou-lhe numa voz ofegante se já tinha concluído o seu estudo sobre cancros brônquicos. O outro sacudiu a cabeça. Parecia dar a entender que um assunto sério não era para ali chamado, que as suas tarefas não deviam ser pretexto para o entretenimento de uma assistência idiota.

João Eduardo, porém, precisava de o aguilhoar, retendo-o mais tempo naquela distância que ainda poderia deter o perigo.

- No seu caso, procuraria dar-lhe uma audiência maior. Você parece apostado em que os outros não conheçam o seu merecimento. Deveria publicar os seus trabalhos nas revistas de maior expansão.

- Para quê?

O Medeiros, agora que encontrara um adversário, ia preparar-se para uma saborosa disputa, quando o pro­fessor, suspeitando que a discussão colocaria aquele ar­ruaceiro num relevo inconveniente, interveio:

- Neste país, as coisas conquistam-se. Um homem que fique parado, à espera que o fruto lhe caia na boca, apenas porque se julga com direito a esse fruto, acabará por morrer de fome. As coisas conquistam-se. Um no­me, um triunfo, uma situação.

- Exacto - confirmou sentenciosamente o finan­ceiro.

O professor, desvanecido com o aplauso, discorreu:

- Bem vê, meu caro, estamos num país, ou vive­mos uma época, como queira, em que a seara é peque­na para tantas bocas. E então vá de liquidar o parceiro. Se ele se agacha, basta passar-lhe os pés por cima e a cova está feita; de contrário, se o competidor é de res­peito, combativo, inteligente, ou seja, perigoso, vigia­-se; atira-se-lhe mesmo um estimulozinho; mas em ele subindo um pouco mais, inventa-se-lhe logo toda a es­pécie de máculas. É uma conspiração subterrânea, mas eficiente, que nunca se sabe donde provém nem como se ramifica. Tem voz, mas não tem corpo. É impossível levar-lhe os dedos ao pescoço. E o espantoso é que a injustiça e a fragilidade em que assentam essas agressões acabam dentro em pouco por nos parecer justificadas. Deixamos de as joeirar; deixamos de pensar se efectiva­mente elas têm uma raiz e uma coerência: o que nos fi­ca diante dos olhos é a lama que atiraram à cara do sujeito. É lama. Já não importa, por fim, se foi ele que se enlameou ou se outros, maldosamente, com turvos propósitos, lhe lançaram a porcaria à traição. Até a própria vítima se perturba e se olha duvidosa de alto a baixo. Percebe? - O professor, de faces enfunadas, abriu uma pausa nessa veemente e quase patética sinceridade das palavras. Humedecendo os lábios e fixando, talvez sem intenção, o rosto pálido de João Eduardo, que o escutava.

Julgar-se-ia que acusava o Medeiros de todas essas torpezas dos invejosos, dos fracassados, dos traidores. O seu desabafo tinha sido um grito da carne.

João Eduardo, de começo, julgara que o fraseado do dono da casa representava uma última advertência a ele endereçada. Mas talvez o próprio Cunha Ferreira, mau grado a sua efusiva suficiência, logo se tivesse identificado com o jogo de palavras, comunicando-lhe uma íntima e apaixonada persuasão.

- A vida dos nossos dias cria estranhos problemas de convívio... - e desta vez o professor já conseguira uma tonalidade impessoal, quase desinteressada. Parecia esquecido que interrompera João Eduardo precisamente para o impedir de derivações. - Que resta ao homem quando verifica que o preço do seu trabalho, da sua crença, do seu entusiasmo, é a hostilidade? Resta o isolamento, onde endurece dia a dia a crosta de desconfiança nos outros homens. É tremendo. Mas haverá para qualquer de nós, os que lutamos, alguma alternativa? E que os incapazes não perdoam. A única maneira de iludirem a sua inutilidade é minar o esforço dos outros. Procuram sobressair demolindo os que lhes fizeram sombra. É tremendo. Todas as tarefas, ideias, esperanças, são corroídas por esta obra de enxovalho e destruição.

A última frase tivera uma ressonância de apoteose. João Eduardo sabia que ele iria mudar de rumo e que estava furioso por não ter sabido refrear-se.

- Mas acha que um homem que mereça verdadeiramente o triunfo se deva impressionar com as insígnias dos que nada valem?; ou dos que, embora dotados, nada construíram? O senhor bem sabe que o efeito da peçonha ou é fulminante ou depressa é dominado. O que afinal permanece é o que o homem deixa de si próprio. O resto é transitório. - João Eduardo, ao interpor esse comentário, obrigava o cirurgião a não se esquivar ao tema de que imprudentemente fora o responsável. Ou talvez não quisesse perder a oportunidade de ouvir uma confirmação para as certezas que tão ardente mas caoticamente buscava. Assim, intervindo como simples espectador, sem se denunciar, esperava que os dois, e muito principalmente o Medeiros, lhe dessem o apoio que tanto lhe era necessário. - Embora muitas aparências o neguem, o que um homem edifica é sempre um produto de solidariedade humana; de apelos e de estímulos de que às vezes nem ele se apercebe, talvez porque as agressões, aos nossos olhos, são sempre mais evidentes do que as provas de estima.

João Eduardo, apreciando à volta a reacção dos convivas, encontrou os olhos intensamente brilhantes e intensamente húmidos de Luísa a encorajá-lo, mas logo os dedos nervosos do professor Cunha Ferreira lhe apertaram o braço.

- Está certo, meu caro, mas um homem é um homem: não pode ser indiferente às pedradas. E você está a desvalorizar o poder dessas vilanias. Isoladamente, bem sabemos que nenhum falhado se atreve a enfrentar um homem lutador. Mas os insidiosos nunca atacam sozinhos. Agrupam-se, enaltecendo-se mutuamente. Repare que os débeis têm o instinto de tribo muito desenvolvido. Tal como acontece com... os pederastas. Agrupam-se sempre. Enquanto o homem forte segue por aí fora confiado em si próprio, abrindo sem ajudas o seu caminho, os inúteis protegem-se com uma escolta. Você já ouviu falar nos mabecos? São uns rafeiros de África, lastimosos, que fogem ao primeiro berro que se lhes atire; pois em matilha atacam e vencem leões. Acredita-me? - Afivelando no rosto o seu sorriso histrião e mais uma vez apaziguado o calor da voz, emendou: - Tudo isto, enfim, nos levou muito longe, Longe de mais... As senhoras devem estar maçadas desta filosofia barata... - Como ninguém o acompanhasse no sorriso, e um tanto desnorteado, concluiu: - Além disso, eu falei de um modo genérico. E a triste verdade é que qualquer de nós, que não pretenda glórias de mártir, tem de aceitar a luta tal como ela se apresenta. Tem de esgadanhar sozinho sem se pe com hipotéticos auxílios. Tem de atacar a fundo. Repare, João Eduardo: nada há que menos se perdoe a um companheiro do que o êxito. É uma dura verdade. O êxito faz uma sombra dos diabos... Incomoda, mexe-nos com as entranhas, obriga-nos a pesquisar onde estarão as nódoas daquele que, ainda na véspera, abraçávamos fraternalmente.

Êxito, êxito! Onde escutara ele essas ou idênticas palavras ditas por outras bocas frenéticas? Êxito. Os seus ouvidos, os seus sonhos, a sua vivência, estavam minados por essa diabólica fascinação. Vendia-se a alma ao sucesso.

O professor, voltando-se rapidamente para o Medeiros, que mastigava, de há muito, uma torrente de protestos, acentuou:

- Por isso eu lhe dizia que, numa selva como esta, ninguém deve ficar à espera que lhe entreguem o fruto. É colhê-lo enquanto é tempo, pelas suas mãos. E depois... depois é prevenir-se contra os salteadores. Percebe?

- Percebo, percebo muito bem! Simplesmente acontece... - e o Medeiros, já engasgado, repetia as palavras saltitando de volta dos interlocutores -, simplesmente acontece que aqueles que abanam a árvore antes do tempo, por inconsciência, por impudor, por sofreguidão, por... Aqueles que abanam a árvore antes do tempo, arriscam-se a comer frutos verdes! Arriscam-se a diarreias.

Ele queria dizer muito mais do que isso. Queria, numa única vergastada, zurzir todas as incongruências do dono da casa e as pieguices de João Eduardo, mas o seu desacordo era tão impetuoso que o sufocava.

A esposa do professor levou as mãos ossudas às flores do jarrão. Era um gesto afectado, que os outros deviam interpretar como uma recusa a estar presente na grosseria.

- Você deforma as intenções dos outros; ou então deforma as palavras.

- As palavras têm obrigação de traduzir objectivamente, e com fidelidade, as intenções. Agora se vocês...

O professor, já inteiramente dominado, interrompeu-o com paternal e irónica bonomia:

- O colega não quererá um brande?... - e dirigiu-se imediatamente à mulher, dando a entender que o assunto, de tão desvirtuado, se tornara indesejável: - Ouve, querida, não nos poderás escolher um pouco de música?

A interrupção significativa do professor tinha desbaratado o assomo do Medeiros. João Eduardo ainda lhe assentou a mão no ombro, discretamente, chamando-lhe a atenção para uma gravura inglesa que pendiasobre o sofá. Naquela atmosfera artificiosa, era toda a solidariedade de que se sentia capaz. A mulher do Medeiros, porém, emergiu da sua penumbra e disse com uma placidez um tanto fatigada:

- Falamos tanto de triunfos, de desesperos, de coisas pessoais!... Falamos tanto de nós!... Mas o difícil é amar os outros sem lhes recear os ódios ou lhes exigir recompensas. O difícil não é a luta pelo êxito, mas sim a luta pela simplicidade.

A voz da mulher do Medeiros parecia ter-se escoado da sombra, possuía uma ressonância envolvente que os ouvidos retinham como uma exótica e sedosa melopeia. Ninguém teve coragem de a aplaudir ou contrariar. Apenas o marido batia com os punhos nos joelhos não se sabia por que razão. João Eduardo sentiu uma nostalgia informe, uma indecifrável desventura; como se todo um edifício, dentro dele, tivesse desmoronado. Efectivamente, que valiam as suas angústias num mundo em que ele era um átomo insignificante? Nas discór dias e também nos afectos que o cercavam, que valiam os seus problemas, que só ele valorizava e dentro dos quais ia definhando?

Durante a pausa que se seguiu, o professor procurou um motivo airoso para, finalmente, regressar ao ponto de partida. Começava a sentir um enervado melindre contra todos eles. O vinhateiro tinha as pálpebras pesadas. Não se sabia se procurava vencer o sono?, ou o tédio. O professor, então, fixou as radiografias que estavam ainda em cima da mesa e, como por acaso, referiu-se-lhes:

- Preciso de não me esquecer destas chapas cá em casa... São do nosso doente, meu caro Medeiros. Você já as viu?

- Bem sabe que sim.

- Ah, pois, desculpe. O nosso amigo João Eduardo esteve também a observá-las há pedaço. Creio que corrobora a minha opinião. Não é verdade, meu caro João Eduardo?

As pálpebras do vinhateiro caíram rápida e definitivamente sobre os olhos. Via-se, ou imaginava-se, apenas uma fenda obliquada pela qual fulgurava uma atenção felina, que não perdia um pormenor do jogo fisionómico dos médicos.

João Eduardo desfez com os pés uma ruga do tapete. Empalidecera. Enquanto o Medeiros, numa expectativa tão intensa que se tornava dolorosa, aguardava a sua resposta, ele procurou uma frase que, sem o comprometer, não desiludisse de todo as esperanças do dono da casa.

- É difícil, evidentemente, afirmar que uma decisão cirúrgica esteja fora de dúvida. Mas, nestes casos, a ela se recorre com frequência.

- Não me digam que isto é uma conferência médica... O meu caso de enfermo não merece que os meus caros doutores lhe sacrifiquem esta agradável reunião.

Tinha carradas de manha, o bebedolas! Para o Cunha Ferreira, ia ser um osso duro de roer, pensou João Eduardo, com satisfação, como se esse facto lhe redimisse a cobardia.

- Tem razão, senhor Trigueiros - acudiu o Medeiros, com o beiço superior trémulo e esticado. - O momento não é próprio. Mas, no entanto, sempre desejaria que o meu colega João Eduardo se explicasse com mais clareza. Não gosto de adiar a decifração de frases sibilinas.

-Mas talvez os outros sejam mais pacientes, senhor doutor Medeiros - interpôs a dona da casa. De testa erguida, o pescoço prolongava-se como a desenroscar-se. Era uma avestruz, desafiando, com desprezo e orgulho, a curiosidade dos visitantes do jardim Zoológico.

Sem ruído, a mulher do Medeiros deslizou por detrás das outras pessoas e surgiu junto do marido. Queria que ele não esquecesse o amparo da sua presença, ou talvez lhe receasse as explosões e tivesse vindo sofreá-las. De qualquer modo, o Medeiros rosnou uma frase inaudível. O seu destemor não chegava para defrontar uma senhora dentro da sua própria casa.

João Eduardo sentia uns dedos coriáceos a apertar-lhe a traqueia. Como se o ar pesado do salão estivesse prestes a esgotar-se. Ia tomar uma atitude, ser ele próprio; ia dar, enfim, um passo na sua libertação. Não precisava de encarar Luísa para saber que ela se sentia suspensa do que iria seguir-se. Não podia desiludi-la uma vez mais.

- Quer que eu seja mais explícito, Medeiros? Pois bem...

O Medeiros, porém, já incapaz de se reprimir, interrompeu-o com brutalidade:

- Deixe-se disso por agora. Uma conferência médica, entre gente tão ilustre, e na qual eu me sinto um intruso, não se paga com um simples jantar. Falaremos do assunto em melhor oportunidade.

No silêncio explosivo que se seguiu, parecia que todos esperavam que um deles, diplomaticamente, iniciasse as despedidas. O professor, sem acertar com uma inspiração, sorria de novo e nunca, como até aí, a sua amabilidade, por inoportuna, se mostrara tão apalhaçada. Luísa, de súbito, começou a falar de cinema e olhava insistentemente o marido, a incitá-lo não se sabia a quê. Mas foi o vinhateiro que, naturalmente, lhe desenvolveu o assunto, iniciando a descrição de umas filmagens a que assistira.

- A propósito, minha senhora...

Tratava-se, naturalmente, de um documentário sobre vinhas.

Quando o nervosismo o deixou falar com alguma dignidade, o Medeiros despediu-se. João Eduardo imitou-o momentos depois. À porta da rua, e arredando-o um pouco de Luísa, o professor repreendeu:

- A sua intervenção, meu caro, teve uma ambiguidade desastrosa. Não compreendo.

João Eduardo sentiu as faces incendiadas. Apetecia-lhe esbofetear o outro até ao esgotamento dos braços. Apetecia-lhe fosse o que fosse, menos contemporizar mais uma vez com as circunstâncias.

Já na rua, puxou de um cigarro. O Medeiros tinha parado na esquina, talvez à espera de transporte. Aproximou-se dele sem aguardar que Luísa o seguisse. Estendendo o maço para o colega, ofereceu:

- Quer?

- Pode ser.

- Ouça, Medeiros - a sua voz estava enrouquecida e ansiosa -, lembra-se de me ter dito, certo dia, que nos deveríamos conhecer um pouco melhor? Temos perdido tempo.

- Talvez. Você, sobretudo.

E enfiando o braço no da mulher, atravessou rapidamente para o outro lado da rua.

 

- Com isto à frente, não vejo nada, é claro. Como só tenho um olho... Mas também... para ver o quê? Ver os meus sapatos, não? Os danados dos sapatos estão todos zaranzas. Ia com pressa para o barco e caí. É tu­do danado de escorregadio: o barco, as pedras, todas estas calçadas. E então com estes sapatos e o olho tapa­do... Não sei para que me puseram este trapo. Eles lá sabem, esses médicos da borra! O certo é que o meu olho está sempre na mesma.

Quando a velha chegou a essa altura da sua torrente de incongruências, dirigindo-se a todos e a ninguém, a companheira do banco olhou-a com reprovação e afastou-se um pouco mais. Mas a velha, balançando as per­nas magras, não reparou no gesto. E nem talvez lhe te­ria dado importância. O que lhe apetecia era falar, falar sem destino, mesmo que nenhuma das pessoas que, co­mo ela, esperavam, havia horas, que uma das enfermei­ras as chamasse, se mostrasse interessada em escutá-la. O monólogo divertia-a, a ela própria, era de há muito o seu único colóquio com um mundo que parecia desconhecer-lhe a existência.

- Queria ver se ainda apanhava o barco. Se o perco, se perco o último barco... Que horas são? Uma pessoa, aqui, até se lhe varrem as horas da cabeça. Gaita, que também chateia esperar tanto! - Ela tinha um fio de sangue na testa, junto ao olho tapado, e às vezes limpava-o com os dedos, sacudindo acusadoramente a cabeça. - Estou tramada com isto. Nunca mais me chamam. Eh, lá, vossemecê que vai aí de fato branco! Morro prà qui ou quê?

- Espere aí, mulher, que a gente já lhe dá um jeito a essa coisa.

- Espere aí, espere aí! Não sabem outra cantiga! O pior é que não os vejo bem. Não vejo, não vejo mesmo a ponta de um chavelho. Os médicos da Santa Casa é que são bons. Se não fossem eles, a estas horas onde teria eu o meu dedo, o meu rico dedinho?... Lembrar-me eu que queriam cortar o meu rico dedo pela raiz!... Ná, os médicos daqui... Uma data de carroceiros. E o dedo está aqui, inteirinho, sãozinho! Os pipis da tabela!... Andam aqui a mostrar-se de bata branca, não servem para outra coisa... Os da Santa Casa é que são bons. Ai!... que sono! Credo, estou aqui cheia de sono. Cheia de sono e de dores. A estas horas já não vou para Cacilhas. Onde estarão esses raios? E queriam cortar-me o dedo!... É o cortas! Pego em cinco escudos e vou prà i dormir numa casa de raparigas. Escorreguei e caí; aquela Rua do Alecrim é danada prá gente dar umas escorregadelas. O raio destes sapatos são mesmo grandes! Já no outro dia... Ena, aqueles tipos quase vinham de encontro à gente! vomecê não viu? - e a velha deu uma cotovelada à vizinha do lado, instigando-a a associar-se ao reparo.

- Chegue-se prà i, mulher! - protestou a outra, com a atenção solicitada por um grupo de bêbados que acabara de desembocar no corredor. Eles tombavam uns sobre os outros, erguendo esforçadamente as pálpebras sonolentas de modo a permitir que os olhos identificassem o ambiente e o enfermeiro berrou para a sala:

- Preparem aí um caixote de coramina para estes amigos!

- Como foi isto? Reunião de família?... - perguntou, daí a pouco, um dos médicos.

- Ora, juntaram uns dinheiros e compraram umas garrafas. É o que diz um deles, o único que tem a memória fresca - explicou o enfermeiro, enquanto, à força, desinfectava o braço do ébrio que lhe estava mais próximo. - Aguenta aí!

Entretanto, um dos outros debruçara-se para vomitar; e agora, recuperando a consciência, punha-se a rir das lamúrias dos parceiros. Espirrou duas vezes seguidas, limpando o nariz e os dedos às mangas do casaco.

De súbito, um doente fez uma aparição espectacular na sala. Entrara à força por ali dentro, pálido, desgrenhado, enquanto a rapariga que o acompanhava repetia a mesma expressão apavorada. O sangue corria-lhe pelas calças e ele, através delas, apertava desesperadamente o sexo.

- Deram-lhe algum pontapé? - perguntou um dos médicos à rapariga.

- Não, senhor doutor - esclareceu ela, de olhos baixos. - Foi... foi alguma veia que se rompeu. - Uma veia?... Mas como?

A rapariga ficara emudecida. As suas faces tornavam-se escarlates.

- Qual veia, senhor doutor! - disse o enfermeiro, entre dentes. - Estes deram-lhe com toda a gana...

- Ah, pois...

Os doentes que esperavam nos bancos do corredor tinham-se levantado, sôfregos de curiosidade e escânda lo. Os comentários eram propagados a meia voz, formando, no seu conjunto, um surdo e agitado rumor.

A velha bexigosa também se levantara do banco. Não compreendia o motivo da agitação que a rodeav e, por isso, inquiriu:

- Mataram alguém? São bem capazes disso. Eu queixar-me aqui a estes médicos? É o queixas! Eles levam este tempo todo a curar-me o olho e... para quê? Pra me botarem uma lambedela de tintura!... Até m vem aqui o cheiro. Só tintura. Eu tenho lá três mil réis para pagar aos médicos! Só para a senha são logo tre mil réis!

- Cale-se, mulher, deixe ouvir! - refilou uma das curiosas. - Vossemecê parece uma grafonola. Fala, fala, e nem a gente ouve o que se passa lá dentro.

- Mataram alguém, está visto. Logo me pareceu. Vou-me embora antes que me façam também alguma. Eu, pagar?! Não tenho dinheiro para estas festanças. Estou desempregada. E demais a mais, com um olho assim... Meter-me aqui no barco, Cais do Sodré, chegar e não chegar são quatro ou cinco horas. Paciência. Vou amanhã de manhã.

Um enfermeiro passou junto do banco, açodado, a velha procurou segurá-lo por um braço.

- Vomecê já me fez a barba hoje, mas nunca mais se resolve ao resto. Nunca mais saio daqui. Vomecê ouviu? Vomecê ou você, tanto faz. - Queria referir-se ao facto de lhe terem rapado as sobrancelhas antes do penso. - Que chatice! Não há modo de me despacharem com o bocado da tintura. Olha quem é este!... Se não é mulher, parece. Tem o cabelo passado a ferro.

O rapaz que conduziam em cima da maca e que despertara o comentário da velha saltou de repente para o chão, num pulo atlético que terminou num passo de dança, e sorrindo, presumido e dengoso, para a assistência, disse:

- Podia ter sido pior.

- Até rasgou os fundilhos - insistiu a velha.

- Que lhe aconteceu? - perguntou um homem.

- Vinha de moto, a cento e vinte.

E glorioso de estar monopolizando a curiosidade daquela fauna miserável, o rapaz do cabelo passado a ferro saiu do corredor como um campeão olímpico. O grotesco das calças esfarrapadas não lhe perturbara a arrogância.

- Parecia uma mulher, o raio do rapaz. Aqui só entram velhas e borrachos. Andam sempre a fazer mudanças ao hospital. Andam sempre a mudar tudo. E depois querem dinheiro. Dá cá três mil réis. É o dás! Quem viu isto dantes!... Já conheço isto desde a idade de um ano, no tempo da vida barata. Andam sempre a mudar.

- Cale-se prà i, mulher! A gente já nem a pode ouvir.

- E depois, que tem vomecê com isso? Ora uma destas!... Médicos, obras, médicos. Só médicos e obras. Mas ligar à gente não é com eles. Que tem você com isso? Falo o que me apetece. Tratem da gente, liguem à gente e já uma pessoa não morre prà qui a falar e a cair de sono. Que vêm eles cá fazer? Para que raio só pensam em obras? Para mostrar à estranja, não? Hei-de falar o que tiver na vontade. Ó senhora enfermeira! - Mas a velha, atentando numa rapariga que acabara de se sentar no banco, esqueceu logo a enfermeira. Sorriu com cumplicidade para a recém-chegada e disse-lhe: - Parece que está a dar leite a uma criança.

- Quem é que está a dar leite a uma criança? - in terveio rudemente a mulher que já havia protestado contra a loquacidade daquela vizinha desmiolada.

- Aquela. Então você não vê como ela está sentada?

A rapariga bateu com o tacão do sapato no soalho enervada de a colocarem no centro das atenções.

Um criado que ia a passar reparou num doente no qual o sofrimento resultava num esgar sardónico.

- Que tem você? Dói-lhe alguma coisa?

O homem vestia uma farda incaracterística; era provavelmente um varredor das ruas, ofício que o criado do hospital considerava lastimável. O convencimento da sua superioridade hierárquica permitia-lhe dirigir-se ao outro com uma autoridade condescendente.

- Dói-me aqui. Aqui mais em baixo.

Talvez o varredor o tivesse confundido com um médico. Era uma sugestão perturbadora.

- Deixe ver.

- Um pouco mais abaixo do ombro.

- Está bem. Daqui a nada é observado.

Deu-lhe uma palmada protectora nas costas e foi-se, antes que a chegada de um médico o desmascarasse.

O homem, mais reconfortado, sentou-se no banco; depois daquela promessa, já lhe custaria menos esperar. E a dor diminuíra de repente.

Mais tarde, um dos estagiários dirigiu-se ao grupo de doentes em que o varredor aguardava a sua vez.

- Você, com essa cara, está a rir-se de mim ou de si?

O varredor olhou para os lados.

- A conversa é consigo! - sublinhou o médico. - Dói-me o ombro, senhor doutor.

- Não parece... Há quanto tempo lhe dói? – e sem atender a resposta, arrastou-o para a sala de observações.

Um caso de tuberculose. Não havia uma fatia de pulmão que valesse um chavo. O médico, indeciso, e ainda vagamente apiedado e vagamente ressentido contra aquele pobre diabo, cuja boca era um riso amargo e imbecil, pôs-se a alisar a folha impressa que devia preencher. O homem colocava-o perante um sarilho sempre indesejável. Que rumo poderia dar-lhe? "Você tosse?, cospe sangue?" Perguntando, ia ganhando tempo para reflectir.

- Bem, espere aí.

O cirurgião que decidisse. No entanto, temia expor-lhe o assunto; nenhum dos chefes de equipa gostava de ser forçado a resolver problemas que eram becos sem saída. Mas alguém deveria tomar a responsabilidade.

O    cirurgião, solicitado, acompanhou-o a passo lento.

- Então, meu velho, que iguaria me reservas? - Um caso de T. P. U. Um varredor. É grave. - E foi para isso que me chamaste?

O    médico novato pôs-se a esfregar o nariz. - É que...

- Bem sei, bem sei todos esses "ques". - E o cirurgião, separando um pouco mais as pernas, numa atitude ostentosa que ameaçava a repetição do discurso habitual, tão do seu agrado quando se via rodeado de noviços, prosseguiu: - Tu achas que o serviço de T. P. do hospital é uma casa mortuária? Achas que devemos

atulhá-lo de moribundos? - Rodeou com o braço o ombro do colega, quase afectuosamente: - Deves aprender, enquanto é tempo, que há uma coisa muito mais importante do que a assistência aos doentes: a estatística, meu velho, essa privilegiada invenção dos políticos de gabinete. Experimenta mandar o teu tísico para qualquer dos hospitais; não o aceitam: o tipo ia estragar-lhes a estatística. Experimenta mandá-lo para um sanatório; não o aceitam, meu velho, a estatística acima de tudo. O teu doente é um intrometido neste mundo de especialistas de estatística.

O médico novato abriu e fechou a caneta várias vezes, pensativo e enfadado. O impresso continuava por preencher.

- ...É duro dizer isto a um rapazola como tu, mas a candura deve terminar na adolescência, tal como os vícios secretos. - O cirurgião tinha-se sentado na cadeira, tomando a iniciativa de escrever no impresso frases que nem o outro, nem certamente ninguém, conseguiria decifrar. - Estou ainda com o jantar a pesar-me no estômago, sabes? Preciso de uma boa aguardente ou então de promover o cozinheiro à reforma. A propósito: és capaz de me chamar o nosso "fotógrafo"?

Quando o estagiário se retirou, o cirurgião percutiu desprendidamente no dorso do varredor.

- És casado? E não tens dinheiro para te tratar, é claro.

O homem, respirando compassadamente, à espera de ser de novo auscultado, acenou que sim. Era casado, pois. E tinha filhos. Explicaria tudo isso mais tarde, quando o médico terminasse a observação. Os médicos impacientavam-se quando lhes faziam perder tempo. Andavam sempre alvoreados. Sobrava-lhe experiência dessas coisas.

- És então casado... Vocês não há maneira de ganharem juízo. - O cirurgião pôs-se de novo de pé e franziu a boca e os olhos. Sentia uma crescente modorra a entorpecer-lhe os movimentos. - Veste-te, homem. Vou escrever aqui o endereço do meu consultório. Aparece por lá.

- Mas eu, senhor doutor...

E    o homem acentuava o riso da sua boca grotesca. - Não sejas pateta, ninguém pensa em te levar dinheiro.

Afastara o colega para que ele não lhe testemunhasse a pieguice. Que lassidão danada por todo o corpo! Iria sentar-se lá dentro, numa boa cadeira, antes que o importunassem com novas complicações. Enfim, lá vinha o técnico da radiologia, a que ele chamara depreciativamente "fotógrafo", num andar saltitante de boneco de corda. Precisava de o despachar em dois tempos.

- Se não fosse pedir muito, eu queria uma radiografia que me deixasse ver as vértebras... Repare nesta chapa que me entregaram lá dentro. É um tórax ou o miradoiro de Alfama?

O técnico, brioso, pôs-se agitadíssimo. Era muito sensível a essas beliscaduras no seu pundonor. Acamando o cabelo farto, retorquiu:

- Tem aqui outras, senhor doutor, em que se vêem perfeitamente as balas. A radiografia tinha de ser feita de maneira que as balas não ficassem com a mesma densidade dos ossos. Eram elas que interessavam - ajuntou, abespinhado.

O cirurgião não esperava uma resposta tão firme; não ia conceder, porém, que aquele presumido se sentisse vitorioso.

- Mas eu preferia ver os ossos... - Fez um sinal brejeiro ao colega, que se ficara murcho por detrás do técnico, e desviou a conversa, incómoda: - Já despachei o seu protegido... o seu romântico caso de T. P.

O outro não fez comentários e seguiu-o até ao corredor.

- Ena! E que sono eu tenho! Ai... - e a velha bocejou demoradamente. - Desconfio que me vou embora. Se fosse homem, já me tinham crescido as barbas. A esta hora, que é dos barcos para Cacilhas? Olhem, lá vem outro. Este, parece que o conheço. Médicos e obras, não sei para quê. Os doentes que esperem. Ná, este conheço-o. É mesmo ele, um tal a quem chamam João Eduardo e que faz boquinhas quando uma pessoa lhe conta o que sente. Não me tratou a vista, mas sei que é ele. Ao menos, este não grita com a gente. Todos gritam; parece que só lhes apetece gritar e bater. Somos prà qui uns carneiros, não? A tratarem-nos por tu e a berrarem por coisa nenhuma!... E depois, deixa cá ver três mil réis. Aonde os vou buscar, não me dizem? Olhe - e a velha puxou o braço à rapariga -, este chamam-lhe o doutor João Eduardo e falta pouco para que os outros pipis lhe cheirem o rabo. Vai já ali adiante. Sou freguesa destes diabos desde os dez anos e ainda não me conhecem. Nem cumprimentam, viu?

A velha não se enganara. João Eduardo voltara efectivamente ao banco. Malograda a oportunidade de uma aproximação com Luísa, e precisamente naquela noite em que dela mais necessitava, restava-lhe fugir de casa, repetindo uma das desordenadas e instintivas perseguições a um encontro humano, a um acontecimento. O mutismo agreste de Luísa, no regresso a casa, indicara-lhe que ela iria ruminar por muito tempo os incidentes do jantar. Ela, sempre que saía do seu sedentarismo, fechava-se depois por longos dias dentro de si, um bicho que digere na sua toca, sem pressas, o que trouxe de uma surtida ao receado mundo exterior. No seu rosto fixo, a desilusão e a amargura já eram hábitos ou um vício. Um vício que lhe dava prazer e orgulho. Só os olhos lhe ardiam. O que nela restava de esperança, doçura, protesto, exilara-se nesses olhos.

- Ainda vais a algum lado? - perguntara-lhe Luísa, vendo-o hesitar em despir a gabardina.

Essa voz desinteressada, mas na qual se insistia em encontrar ironia, tornava mais espesso o silêncio da casa. Mas verdadeiramente terrível era o que ficava por dizer e que estava ali entre eles, oprimindo-os, acusando-os, enervando-os, à espera de se prolongar durante as horas de insónia que se seguiriam.

- Creio que sim. Tenho dois doentes em estado grave.

- Longe?

-Um deles é longe. Não esperes por mim para adormecer.

- E o Jaime? Passas ainda por lá?

Ele sentiu que Luísa calculara friamente a chicotada, guardando-a para aquele momento. No entanto, ferindo-o, ela deixava-o mais livre para fugir do deserto que era aquela casa.

A rua, o acaso? Ao levantar a gola da gabardina, João Eduardo farejava uma direcção. Uma vez mais o banco do hospital? E porque não o Jaime. No ambiente do banco era-lhe mais fácil atordoar-se. Por outro lado, esse gemebundo friso de desconhecidos que vinham ali, aquele esgoto de miséria e desesperos, para que ele ou um qualquer se confundissem com o seu drama, dava-lhe uma exaltante oportunidade de convívio. Verídico, surpreendente, despremeditado.

Simplesmente tudo se passava como se ele estivesse a dois passos do objectivo e lhe faltasse o último alento para o atingir. Tinha-o à sua beira, à mercê do seus sentidos, tão ávido de ser possuído como ele de o possuir, e dentro de si qualquer coisa frustrava a posse. Era uma desesperante forma impotência. Sim: tão gasto como um impotente que conserva a tortura do desejo e não o pode saciar.

Nessa noite, a necessidade de um acontecimento, de qualquer coisa decisiva fora de todas as previsões, tornava-se mais ardente do que nunca. Ele pressentia que a possibilidade de reencontro consigo próprio estaria nesse imprevisto e por isso o procurava como um navio perdido procura no vasto mar uma nesga de terra, seja ela um punhado de areias ou a verdura de um oásis. Muitas vezes o seu interrogatório aos doentes deixava de ser o de um médico para se transformar numa faminta devassa de qualquer esconderijo, maravilhoso ou horrendo, no qual se pudesse fundir. Mas nem o sofrimento conseguia desvendar inteiramente as pessoas. Havia sempre uma zona de alarme que as defendia de serem violadas. O anedótico, o circunstancial, ou simplesmente o medo, não permitiam que, mesmo no cenário rude do hospital, as pessoas se mostrassem como eram. Chegava a supor que fosse a bata branca a impedi-lo. A bata separava dois mundos. Perante essa gente anónima que sofria dores e tormentos, ele era um dos representantes do mundo dos opressores e ainda um profissional que vivia à custa das angústias alheias. Um médico, em suma, era também um burguês. Estava do outro lado.

Por isso mesmo, em certas noites, saía alvoreado do banco e procurava simplesmente a rua, onde se poderia confundir com um qualquer. Eram noites que se estendiam com frequência até ao alvorecer, de ronda em ronda, caminhando sem destino ou percorrendo lugares fortuitos. A madrugada vinha encontrá-lo quase sempre no banco de um jardim, como um desperdício trazido ali pelos braços da ressaca, de cérebro e músculos exaustos de mais uma expectativa fatigante e malograda. Quando se ia deitar, a presença de Luísa, fingindo dormir, fazia-lhe reacender uma aguda sensação de culpa, como se toda a sua inútil vagabundagem tivesse representado um odioso e imperdoável adultério.

O seu regresso ao banco tinha sido, pois, um pretexto; daí, sentir-se incapaz de cumprir a rotina dos outros dias. Encostara-se à secretária, ouvindo, meio sonâmbulo, o tumulto surdo das vozes cruzadas, dos gemidos, e apercebendo, gradualmente, como se se tratasse de um objecto com espessura e forma, a respiração gorda e o odor lascivo daquela multidão. A luz amarelada da sala dava-lhe uma irrealidade absurda.

- Que é que bebeu? - perguntava um colega a um dos muitos ébrios que, como em todas as noites, faziam terminar ali o burlesco espectáculo do seu vício.

- Sangue de Jesus Cristo. Não é vergonha nenhuma. Se Ele bebeu, foi para nos dar o exemplo. Pois, então, bebamos!

No entanto, eram os ébrios que, nesse cenário trágico, abriam uma pausa de pitoresco e humor. Eram os palhaços daquele circo de dramas. Os médicos nunca desperdiçavam o ensejo de lhes acirrar a saborosa verborreia. "O mundo quer rir." E João Eduardo repetia muitas vezes dentro de si: "O mundo quer rir, o mundo quer rir. O riso é um narcótico tão acessível, tão oportuno!" E, obsessivamente, a frase multiplicava-se no seu cérebro entorpecido. Todos estavam fartos de lágrimas e lamúrias. Estavam fartos da dor. Poucos conseguiam atravessá-la e chegar ao outro lado. A doença impregnava-os. Estavam atolados de doença. Queriam rir. Tinham medo do sofrimento, que os punha cruamente perante a urgência das opções, das decisões. Porque não socorrera ele o garoto do elevador? Porque não esbofeteara o Cunha Ferreira para se sentir liberto de uma vez para sempre? Preferira a tudo isso a fuga, este jogo em que o grotesco digeria o drama. E pensou, divertido, que se aquele bêbado houvesse surgido, por artes do Diabo, no jantar do Cunha Ferreira, todos os convivas se teriam aliviado de espectros e inibições. Mesmo Luísa. Mesmo Luísa.

- Foram três. Saltaram sobre mim e desataram aos pontapés. E eu nunca falto aos meus deveres: se me batem... Cautela lá com isso, ó mestre!

O enfermeiro rapava-lhe os pêlos das pernas, antes de cuidar do penso, e o homem, dorido, protestava.

- Vossemecê tem pêlos que chegam para uma casa de família.

- Tirante o meu irmão, somos todos assim; lá isso é verdade: "Que é que vocês querem?", disse eu para os gajos. "Querem roubar aquele que nada tem?" E os tipos, zás!, mais porrada. Admite-se?

- Você tinha bebido uns copos...

- Quem disse uma coisa dessas?! Vinha de casa, muito sossegado da minha vida. Quem foi que disse que eu tinha bebido? Nem antes nem depois. O senhor escusa de estar com essas perguntas; se eu tivesse bebido, dizia.

- Bem se vê...

João Eduardo ria com nervosismo. E, em seguida, um brando torpor de insensibilidade correu-lhe o corpo. Só a espaços a náusea dos vinhos e das palavras do Cunha Ferreira lhe chegava, azeda e ardente, à garganta. O mundo quer rir. Por hábito ou para interferir de algum modo na palhaçada, investigou o pulso do homem.

- Pode ver, camarada - concedeu o homem -, pode ver à vontadinha. Apalpe com força, vá, por favor, ora essa. Faça favor, doutor. É a única coisa que herdei do meu pai: bom pulso. Tenho trabalhado muito e também matutado muito.

- Claro. Que idade tem o senhor?

Era um apelo a que o outro continuasse com as suas baboseiras, os seus ridículos, as suas misérias. Um apelo ao riso doloroso e caricato. E a boca desdentada do Jaime - também não seria a de um palhaço?

- Tenho quarenta e nove, mas parecem cinquenta e três, estes raios! Fui bombeiro municipal. Quê, não acreditam?

- Aqui em Lisboa?

- Sim, senhores. Na Avenida Defensores de Chaves. Ali é que assentei praça, às sete da manhã.

-Em que ano? - e a insistência dava a João Eduardo uma desconhecida volúpia, uma crescente excitação.

- O ano... Deixem ver, o ano... o ano é que o Joaquim Rodrigues não pode agora precisar. Mas espere, doutor. Eu sou um tipo positivo, não pense lá!... - E o homem começou a procurar atabalhoadamente o cartão de identidade no sujo mistério das suas algibeiras. - Aí tem. Sou ou não sou eu? Eh, velhote!... Olhem aqui para o velhote. Gaitas: reparem se eu não era um bonito rapaz!

- Mas este não é o seu filho?...

O homem teve uma brusca expressão de maldade. A ironia de João Eduardo atingira-o para lá da zona enevoada do seu cérebro. Esteve uns segundos sem responder até que a bebedeira foi mais forte do que esse clarão de lucidez.

- Joaquim Rodrigues, aqui e em todo o lado. Sou eu, pois. Doutor: olhe que eu tenho-me na conta de pessoa verdadeira! Sou uma pessoa cuidadosa e amigável de todo. De todo e de tudo. Hem?... - e o ébrio sublinhava a exclamação com um gesto convicto. - De tudo. Não faço mais do que a minha obrigação.

João Eduardo acenou afirmativamente com a cabeça. Mas já não ouvia o homem. Não o poderia suportar mais tempo. O outro, reparando que João Eduardo se afastava, bazofiou para o grupo:

- Tem de ser assim. É preciso a gente saber trabalhar com eles. Este... - e voltava-se, a indicar João Eduardo - não me esquece mais. Caí-lhe no goto. Vocês ouviram o que eu lhe disse? Fui atacado no Campo Pequeno. Saltaram-me de um muro.

- Que é que tu julgas? - contrapunha a velhota, que, alheia a todo o diálogo, continuava resmungando. - Não falta muito para a meia-noite. Se me mandarem para outro hospital, por causa dos curativos, não apareço lá. Ponho-me na alheta. Caí na rua, escorreguei. É o que faz os sapatos serem grandes. Ó menina!, hoje não saio daqui?

- Ora que peninha estar aqui!... Vossemecê também não me vê sair! - repontou a servente a quem a velhota se dirigira.

- E quando chegará a minha vez? - inquiriu uma rapariga que trazia uma criança nos braços e que permanecera de pé todo esse tempo de espera. Tinha uns olhos lentos e aveludados e vestia num apuro ali destoante, que às outras parecia suspeitoso. Havia muito que a encaravam com desconfiança.

- E a minha, não me dirá? É por gosto que uma pessoa está aqui às vossas ordens, não?... - desafiou ainda a servente.

João Eduardo fez sinal à rapariga para que entrasse na sala, enquanto alguém rosnava: "Estas tipas deslavadas governam-se sempre." Estava certo de que aquele rosto lhe era de algum modo familiar.

- É seu filho?

Ela assentiu num sorriso doce e afagou o garoto, afastando-lhe suavemente os cabelos da testa.

- Tem uma doença de pele. Já o trouxe aqui de outra vez.

- Fui eu que o observei anteriormente?

- Eram vários; o senhor doutor também estava entre eles.

- Ah, por isso me parecia tê-la visto já em qualquer parte...

A rapariga baixou os olhos, a expressão de súbito endurecida, enquanto voltava a acarinhar o filho. Depois chegou-o a si, investigando à volta, cada vez mais inquieta, como se estivesse possuída de pânico. Pouco depois, sibilou:

- Tem piorado.

- Pois tem. A doença alastrou muito. Lembro-me agora perfeitamente de o ter observado.

João Eduardo destapara o garoto, embora a mãe não parecesse disposta a cedê-lo a outros braços. A dermatose cobria o peito, o ventre e os ombros da criança, que se esgadanhava com frenesi. João Eduardo começou a preencher distraidamente os impressos. Emergiam-lhe à memória confusas reminiscências. A rapariga, o garoto, a dermatose. Alguma coisa de singular tinha acontecido com eles. Que lhe sugeriam estes modos da rapariga, de uma dengosidade fatigada e profissional?

Ela ataviara-se com uma intenção irreflectida, já sem significado; o tecido amarelo, de bolas estampadas, pertencia ao seu corpo como se se tratasse de uma outra pele. Vestida daquela maneira espectacular, para ninguém ou para nada, por hábito, por cansaço, havia qualquer coisa no seu aspecto que doía observar.

- Creio que será preferível interná-lo. A senhora pode ficar com ele na enfermaria?

- Isso não!

- Mas com esta idade não o podemos internar sem a companhia da mãe.

- Bem sei, mas não posso.

João Eduardo fixou-a para lhe sondar as reacções. E nesse momento, finalmente, avivaram-se-lhe pormenores da consulta anterior. A rapariga aparecera tempos antes com o filho, pedindo que o internassem. A criança vinha esfomeada, berrando os dias e as noites. Os outros hóspedes da casa onde viviam, não suportando a vizinhança, tinham imposto a sua saída da pensão: a rapariga encontrara-se na rua sem ter onde dormir e sem dinheiro, e por isso procurara o banco. Se lhe internassem o filho, teriam de abrigá-la também. Era do regulamento. A doença, porém, nessa altura, não o justificava, e ela, como último recurso, à saída do hospital simulara uma indisposição súbita, desmaiando junto do porteiro. Confessara a farsa e as razões que a haviam trazido ali depois que os médicos, ao observá-la, suspeitaram de uma fraude para a qual, aparentemente, não se via justificação.

- Mas não pode porquê?... - perguntou João Eduardo com uma agreste ironia.

- Tenho doentes em casa e preciso de cuidar deles.

A voz dela era insegura e hostil. João Eduardo previa que a rapariga, assim que pressentisse alguma possibilidade no internamento, daria um endereço falso e sairia dali o mais rapidamente possível, procurando mesmo desnortear lá fora, pelas ruas, algum hipotético perseguidor. Interessava-lhe apenas desembaraçar-se do filho. O estranho era a ternura com que ela o olhava e acariciava. Uma ternura húmida, ávida e autêntica.

- Para que está a mentir?

A rapariga levantou os olhos numa perplexidade aterrada e, de repente, pôs-se a soluçar. João Eduardo levou-a para detrás do biombo e fê-la sentar numa cadeira.

Ela escondeu o rosto no lenço, mordendo-o.

- Eu não queria, senhor doutor, juro-lhe que não queria!

- Aqui não é lugar para comédias; pode ir-se embora quando quiser.

A rapariga ergueu-se lentamente, de olhos já enxutos. Havia neles uma brusca dureza.

- Encontrei um senhor... não tenho culpa. Ele quer viver comigo, mas sem o miúdo. Era a única saída para esta porcaria da minha vida.

- Isso é da sua conta.

Os outros doentes tinham farejado qualquer história sombria naquele diálogo secreto com o médico; e quando a rapariga saiu do gabinete, cada um, ao observá-la, encontrou as suas suspeitas confirmadas.

- Sirigaitas - e a velha pôs-se a tossir uma tosse de escárnio que logo lhe despertou um violento espasmo dos músculos ressequidos. - Ena, que tosse danada. Até me falta o ar. Vejam o andar destas fúfias! Partem-se todas pelo traseiro. Deixa lá que os polícias dão-lhes caça... Já eu vi, pois. A uma hora destas os médicos a darem-lhes trela! E uma pessoa a secar, enquanto eles... E aquele lá ao fundo!... Raparam-no tanto que ficou careca. A estas horas, hem?...

O ébrio estava desde há momentos com os olhos esbugalhados, numa atenção pasmada e incrédula. A melopeia da velha era, no seu cérebro, um turbilhão.

- Andar na rua, não ando. A armar aos cágados, não? A passear na rua!... Era o que faltava. - A tosse voltou a interrompê-la e o homem limpou vagarosamente o cuspo que ela lhe lançara para o rosto; depois do gesto ficou ainda com o pescoço esticado na direcção da velha. - Ai, que frio eu tenho! Fico aqui, pronto, está resolvido. Agora vêm dois carros de uma vez... Parecem porcos para a matança. Vocês já viram que estas macas parece que trazem porcos? De que andará aquela à procura? Se calhar, precisa de ir à retrete. Com este tempo que nos fazem esperar, uma pessoa começa a ter necessidades. Que eu, nisso, venho preparada de casa. Mas é tempo de mais, conho! Olhem para ela... Já não sabe por onde entrou. Engana-se na porta. Ai... cheira a remédios que até agonia!

O bêbado, finalmente, inquiriu de um dos companheiros:

- Que tem estado ela a papaguear? Está-me a parecer que... - e levou um dedo à testa, dando-lhe um movimento de parafuso. O outro encolheu os ombros.

- Se calhar, é isso, sim.

A velha olhou-os um por um e disse:

-Não querem crer? Pois estou mas é cheia de sono.

E nesse momento fechou os olhos, encostando a cabeça à parede. Todos ficaram certos de que ela adormeceria sem demora.

- Você outra vez por aqui?

João Eduardo voltou-se. Era o cirurgião-chefe. Seria na verdade difícil dar-lhe uma explicação convincente.

- Vim acompanhar uma pessoa amiga que teve um desastre. Mais susto do que outra coisa.

Estava viciado em mentir. Aquilo saiu-lhe com perfeita naturalidade.

- Amanhã de manhã é que deve valer a pena aparecer por estes lados... -João Eduardo ergueu interrogativamente as sobrancelhas. - Diz-me o dedo mindinho que podem muito bem acontecer coisas entre o Medeiros e o Cunha Ferreira. Esta manhã foi o prelúdio; o professor tem por norma preparar de véspera as grandes cenas... Você não esteve cá?

- Não, não estive.

Respondera numa voz apressada e indiferente. Passava rapidamente em revista os acontecimentos dessa noite e, agora, depois de ouvir o cirurgião, espantava-se que o Medeiros tivesse aceitado o convite para o jantar, após uma cena desagradável entre ambos. O Medeiros era apenas crédulo, ingénuo, ou divertia-se cinicamente a vê-los estrebuchar na jaula das suas sofreguidões? Ele precisava de encarar o Medeiros como um homem limpo, um símbolo de coisas que ele tinha necessidade de saber invulneráveis, mas também lhe agradaria que o outro pudesse ter uns deslizes confirmativos de que a vida impunha certas contradições.

- Você esteve com eles esta noite, não foi?

- Quem lho disse?

- O meu dedo mindinho é um portento... Nunca falha. Ó Garcia, vê-me ali aquele lamúrias! Está-me a fazer comichão nos ouvidos. - O médico que ele chamara afastou o doente que, insofrido, experimentava as posições mais esquisitas até que uma delas lhe abrandasse a dor. - Este tipo parece um acrobata: já reparou?

João Eduardo olhou o enfermo distraidamente e insistiu:

- E então? Que se passou afinal entre ambos?

- O costume, ou quase... Mas o Cunha Ferreira sabe fazer as coisas: quando o outro levantou a grimpa como um galo assanhado, amansou-o, acabando por convidá-lo para uma jantarada. É um homem que sabe escolher as oportunidades. O papalvo do Medeiros deve ter ficado convencido de que o Cunha Ferreira estava seriamente predisposto às reconciliações. Ou então, sei lá..., ou então também ele tinha a sua fisgada. Você, que decerto lhes arbitrou o jantar, é que nos pode dizer...

- Não aconteceu nada de especial. Aliás, estava muito longe de supor que eles tivessem brigado esta manhã.

- Bem, não foi propriamente uma briga. Você sabe muito bem que o Cunha Ferreira nem sempre passa revista às enfermarias. Percebe?... Um assistente, durante essas visitas, pode fazer uma pergunta de algibeira, discutir um diagnóstico... Enfim, estou a ser indiscreto... - Encarou-o de soslaio, maliciosamente, e depois desatou a rir. - Acho feio que se diga, por exemplo, que o seu amigo Cunha Ferreira...

- Amigo?...

- ...que o professor Cunha Ferreira faz coincidir os dias em que se marcam os tratamentos aos doentes com as datas em que vai operar aos hospitais da província... - Fez nova pausa e disse: - Vamos conversar para um sítio mais sossegado, onde se possa auxiliar a digestão com uma bebida.

O cirurgião levou-o para o refeitório. Encheu-lhe um copo de conhaque.

- Gosta desta marca?

- Todas me servem; não sou apreciador.

- Chega a ser atrevimento oferecer-lhe uma mixórdia destas na mesma noite em que você se regalou com as centenárias aguardentes do professor...

- Ainda não disse o que se passou entre os dois.

- Credo, você está impaciente! Já lhe disse que foi o trivial. O Cunha Ferreira, com qualquer intenção, ou espevitado por uma das galegadas do Medeiros, decidiu-se esta manhã a visitar as enfermarias. Claro: na enfermaria do Medeiros encontrou fartos motivos para reparos; foi-lhe dizendo que ele prolongava injustificadamente os internamentos, com delongas sucessivas. Problemas domésticos, em suma.

- E o Medeiros?

- Quer mais uma pinga? Não o vi fazer caretas à primeira dose...

João Eduardo não esperou que o outro o servisse. Era-lhe indiferente, nessa noite, abusar das bebidas, que sempre o excitavam; de qualquer modo, não dormiria. Sabia desde já que nessa noite não conseguiria adormecer.

- O Medeiros? Você parece muito preocupado com as reacções do Medeiros. Fez-lhe alguma? O Medeiros, evidentemente, atirou-lhe à cara as deficiências de material, as avarias na aparelhagem, a sabotagem da sala de operações pelo próprio Cunha Ferreira, que decidia no último instante operar um doente numa hora já marcada pelo Medeiros. Não lhe disse que era o trivial? Creio que houve também o caso de um doente ensopado num derrame pleural; o Cunha Ferreira, com a ligeireza de movimentos que lhe é peculiar, escrevera dois dias antes na papeleta que tudo marchava às mil maravilhas. O Medeiros, ao verificar à radioscopia as litradas de derrame, escreveu umas observações, nada amáveis, à frente do relatório do professor. Ao nosso Medeiros sempre faltou uma linguagem de salão.

Com que gozo depravado o outro lhe contava aquelas misérias! Como reduzia coisas importantes à simplicidade malévola e pitoresca de uma anedota! E como lhe era fácil consegui-lo! Mas nesse momento espantava-se, sobretudo, de o ter ouvido; de o ter mesmo estimulado a essa bisbilhotice de comadrio. Ele viera ao banco por motivos bem diferentes, e estava a esquecê-los.

Um dos novatos da equipa interrompeu-os com oportunidade:

- Desculpe, senhor doutor, mas está ali um advogado, já há muito tempo. Teve um acidente. Quando lhe perguntámos a profissão é que soubemos de quem se tratava.

- Um advogado! Porque não disse logo quem era? É indecente fazê-lo esperar.

João Eduardo levantou-se da cadeira. O hábito permitia-lhe recuperar a máscara da impassibilidade.

- Agora que bebi o seu conhaque, despeço-me. Desejo-lhe uma noite sossegada.

- Felizardo. Só de pensar que vai daqui direitinho a uma boa cama, enquanto eu passarei este tempo a esfaquear barrigas... Você sabe que a semana passada retirei da pança de um prestidigitador cinquenta escudos em moedas? Desde aí, as minhas digestões são acidentadas...

- As dragonas de general têm o seu preço...

- Qual general! Isto, quando muito, é vida de sargento.

E o cirurgião, enquanto bocejava, espreguiçou-se demorada e voluptuosamente.

- Vamos então cuidar do advogado.

 

Deixara o carro na cerca do hospital, debaixo das árvores, e pelo caminho veio ao seu encontro uma lufada de ar fresco. Parou uns instantes a fim de receber por mais tempo essa brisa que lhe suavizava o latejar das fontes. Não tinha rumo certo. Tal como em outras noites, esperava-o uma vadiagem caótica pelas ruas, após a qual se sentiria desorientado e mais ansioso ainda.

Enfiou o carro por uma das vielas que lhe encurtaria o trajecto para o centro da cidade. A brisa era agora mais forte, fazendo agitar, como bandeiras, os cartazes descolados das paredes. Um homem saía detrás de um tapume, onde fora aliviar-se pudicamente. Quando João Eduardo passou por ele, apertando-o contra o passeio, resmungou qualquer obscenidade.

A viela ia terminar numa grande praça, com os seus cafés barulhentos, automóveis, anúncios luminosos,` gente que não estava disposta a ir cedo para casa. En­costou o carro ao passeio e, antes de descer, pôs-se a observar o trânsito. No centro da praça o bronze dos Neptunos era de um verde-esmeralda irreal. A brisa so­prava para longe a água das fontes, borrifando as pessoas que se reuniam junto das montras ou à porta dos cafés. Os olhos de João Eduardo apreciavam tudo isso, e ainda o perfil nocturno das casas pombalinas, que o clarão breve dos anúncios destacava a intervalos regulares, mas nessa investigação não havia método nem finalidade. Uma mulher atravessou a praça, escolhendo o caminho directo, sem hesitações, como quem tem pressa em chegar ao seu destino: os quadris marcavam-lhe a cadência do andar. Era jovem e esbelta. Mas João Eduardo sabia que a mulher, tal como ele, não tinha efectivamente um destino. Daí a pouco passaria de novo por ali, em sentido oposto, e sempre apressadamente, sempre com o ar afadigado de quem é esperada num certo lugar. Os táxis desembocavam de várias ruas e juntavam-se em frente do teatro. Tomavam posições. A gente, nos passeios, era agora mais densa e também mais inquieta. A atmosfera modificara-se de um momento para o outro. Também em João Eduardo a urgência em comunicar com alguém ia crescendo como uma lava. Saiu finalmente do carro e aproximou-se da montra de uma tabacaria; um dos grupos ali parados mirou-o como a um intrometido.

A recordação da rapariga que, entretanto, se distanciara, estava ainda presente na sua curiosidade. Já não a descortinava. Por onde teria ela desaparecido? E de súbito esfriou-o uma indiferença oca por tudo o que estava ali à beira dos seus sentidos: as luzes, as pessoas, os automóveis, o frémito que se captava na atmosfera. Nada disso o interessava. Também lhe pareciam espantosamente longínquas, e duvidosas, a conversa com o cirurgião, as horas passadas em casa do Cunha Ferreira e no hospital. Medeiros, Luísa, o garoto do elevador - quem era essa gente? Tinha atravessado uma parede e achava-se agora do outro lado. Começou a andar ao longo do asfalto, encaminhando-se depois para uma das avenidas transversais, por onde provavelmente se escapulira a desconhecida. Inebriava-se com a sensação progressiva de ter vestido outra personalidade.

Silvina surgia-lhe como uma hipótese, mas era uma solução ilusória, que não poderia saciá-lo. Ele desejav alguém que viesse confluir na sua vida, trazendo consi go todo o imenso e perturbante mistério de um primeiro encontro. Queria dizer e ouvir palavras que tivessem o pleno sabor de uma revelação; seduzir e ser seduzido pelo enleio das verdades fingidas ou insuspeitadas que, de chofre, não se sabe como, vêm à superfície pela primeira vez; queria mesmo que o agredissem com pedras atiradas ao acaso e que, caprichosamente, vão ensanguentar o alvo. No dia seguinte, tudo estaria desfeito, e certo, mas ao menos nessa noite efémera o que havia em si de submergido no fundo das aparências e das ansiedades domesticadas teria rebentado como uma trovoada. As trovoadas aliviam. Mas quem poderia esbarrar com ele e descer às clausuras ou aos infernos da sua personalidade? Quem lhe escutaria o apelo? Uma pobre prostituta? Outro bobo, como o do hospital? Algum solitário como ele, jogando os mesmos disfarces e as mesmas sinceridades?

Um rapaz dirigiu-se-lhe com bilhetes de lotaria, estendendo a mão num gesto profissional, sem dizer coisa alguma. Tinha uns olhos mansos e inexpressivos. À recusa de João Eduardo, tentou outra espécie de negócio que trazia oculto nas algibeiras. Um automóvel passou lentamente por eles e o rapaz fez um oferecimento sem esperança, com a mão levantada. O automóvel, contudo, parou. Era um capricho. Talvez o condutor tivesse sentido um palpite. As pessoas seguram-se a pressentimentos breves como relâmpagos. O homem recebeu o bilhete de lotaria e entregou o dinheiro:

- Guarde o troco.

Aquela generosidade era uma maneira pueril de se conduzir o acaso.

O rapaz guardou o dinheiro no bolso das calças e o carro foi-se afastando num ruído sincopado.

Não, a rapariga não havia escolhido aquela avenida; ou então, no seu passo lesto, já estaria longe; ou alguém a levara consigo. Que lhe importava, porém, o que acontecera com a desconhecida? Ele, de resto, nunca chegaria a tentar uma aproximação; tê-la-ia perseguido simplesmente, horas e horas, sem objectivo; e não seria a ela, uma mulher que mercadejava o seu corpo, que João Eduardo perseguiria, mas sim a alguém cujo mistério humano se tornava mais acessível através dessa oferta de um simulacro de amor. E a rapariga que levara a criança ao hospital? Poderia muito bem acontecer topá-la, nessa noite, na ronda das ruas. "Encontrei um senhor. Ele quer viver comigo, mas sem o miúdo." Encontrei um senhor. Era tudo o que lhe bastava. "A única saída para esta porcaria da minha vida." Em certo momento, já não interessa escolher a saída. O que é preciso é que surja alguém. Que aconteça seja o que for. Era disso que ele tinha medo: que chegasse o dia em que qualquer saída lhe servisse.

Por entre a densa obscuridade das árvores distinguiu a alvura de uma estátua, tendo a seus pés os arbustos adormecidos, e um lago que, mais longe, se ia despenhar numa breve cascata. Dali já se ouvia o ruído fresco e juvenil das águas. As águas nunca dormiam. João Eduardo recordou as vezes em que lhe apetecia estender o rosto à chuva: a chuva, sobretudo se desabri da, era sempre uma atracção, uma sugestão de suplício purificador. Agora, mais de perto, a claridade da está tua parecia petrificada; não seria fácil distinguir-lhe os olhos esvaziados, recolhidos dentro do mármore, a fim de repousarem.

Poderia, na verdade, suceder que a rapariga do hos pital aparecesse por ali. Talvez fosse mesmo uma da quelas que, a meio da avenida, tinham descido de um táxi, e, depois de uma curta indecisão, haviam escolhido resolutamente uma das ruas próximas, menos devassadas pelos candeeiros. A rapariga tinha uma história e encontrava-se num momento dramático da sua vida. Talvez se ele aparecesse, se interviesse, a pudesse ajud ar a escolher. No hospital, isso fora viável. Há sempre um instante em que alguém pode intervir - e decisivamente. Mas as oportunidades desperdiçavam-se umas sobre outras, até que, por fim, já não se repetiam. Era pertur bante analisar o curso da vida das pessoas. Que forças que acasos, os tinham levado a certas situações. Silvina, por exemplo. Quem poderia ter previsto a sua carreira?

João Eduardo sentou-se no primeiro banco. Em redor, o movimento suspendera-se, isolando-o ainda mais. Todo o seu desespero, então, regurgitou gradualmente à superfície como mancha de óleo que, mesmo sem ser apreciada pelos sentidos, se adivinha escura e espessa. Mas foi só um instante. Agora, seguro à lembrança de Silvina, começava a sentir uma ácida satisfação por saber que, ao cabo dessa noite desperdiçada, lhe restava esse abrigo. Silvina nunca se espantava de o ver entrar no camarim sem ser esperado. Era uma das suas qualidades: aceitar as pessoas, e os seus caprichos, sem mostrar surpresa ou desagrado. Silvina ainda hoje era para ele um livro que guardava algumas páginas por abrir; talvez mesmo nunca chegasse ao fim da leitura; e daí, por certo, a sua sedução. Ela jamais lhe contara exactamente a verdade do seu passado, ou toda a verdade; mas o que se inventa não deixa do mesmo modo de ser autêntico, por corresponder a uma necessidade íntima de veracidade. "Quem se confessa", dissera-lhe João Eduardo certo dia, ao ouvir-lhe pedaços soltos da sua história, "tem como principal objectivo ver-se a si próprio com clareza, livrar-se de uma carga de simulações. "

Silvina nascera num dos arrabaldes. O pai, subjugado pelas tiranias da mulher, era um homem dócil, que, de quando em quando, encarava as suas mãos fortes e grandes como se quisesse descobrir, de uma vez para sempre, o modo de servir-se delas. Os companheiros troçavam-no, troçavam-lhe a moleza e a pusilanimidade. Por fim, ele comprara uma espingarda, sobressaltando a vizinhança com um tiroteio disparatado que, no entanto, acabara por forçar as pessoas a amedrontarem-se. Era tudo o que ele desejava: ser temido. E levara tão longe esse propósito que se transformara num desordeiro e num homem capaz de ferocidades. Depois, a prisão; e duas mulheres sós, ao desamparo. Silvina era já então uma mulherzinha. O ambiente de miséria que a rodeava, atiçando-lhe o instinto da conservação, empurrava-a rapidamente para uma precocidade desesperançada. Certo dia, assistindo a um teatrelho de saltimbancos, alguém se levantou da cadeira para escarnecer da cantora. «Estou roubado, gente! A Silvina, naquele lugar, fazia um vistão e ninguém me exigiria dinheiro para a ouvir.»

Empurrada para o palco, escolheu o fado que mais vezes cantava nas suas horas de desencanto e que os vizinhos aplaudiam sempre de olhos húmidos. Foi o primeiro passo no caminho que ela imaginara de libertação. Os aplausos encarniçados dessa noite iriam repetir-se pela vida fora e pela vida fora se sentiria por eles violada e encurralada. Conduzida de palco em palco por um empresário que dividia com a família a exploração do negócio, depressa aceitou o primeiro amante. Os pais deviam ter-se habituado antecipadamente à ideia de que isso teria de acontecer mais cedo ou mais tarde, pois nenhum deles a recriminou. Só reagiram quando o amante decidiu levá-la para a sua companhia. "Ele é isso?", protestara o pai. "Pensas que nos podes deixar assim no meio da rua?" - "No meio da rua, não, pai. Têm a sua casa." - "Sabes bem do que se trata." E a mãe, lacrimosa, reforçara: "Fizemos por ti todos os sacrifícios." Sacrifícios! Naquele momento de perigo, aliavam-se pela primeira vez, aliavam-se como ratazanas.

As evocações de Silvina paravam ali. João Eduardo nunca chegara a saber que era feito dos pais dela, nem se aquele primeiro amante durara muito tempo. Adivinhara, porém, outros pormenores que lhe tinham moldado um temperamento birrento, mas solidário e terno, à sua maneira.

No entanto, João Eduardo reagia ainda à ideia de que não haveria alternativa para o encontro com Silvina, do qual nada restaria no mesmo instante em que se despedissem. Seria mais um fragmento insignificante dos seus dias, um facto diluído na casualidade dos demais. Ia a levantar-se para regressar ao automóvel quando reparou que um homem de meia-idade se aproximava do banco. Esperou por ele. O homem sentou-se na outra extremidade, depois de a assenar com o lenço. Tinha um sorriso distraído e estático, de pessoa habituada a sofrer. E, assim que se sentou, o seu corpo pareceu encontrar uma posição definitiva, que iria conservar-se por tempo indefinido. O homem plantara-se no banco, plantara-se na avenida, como uma árvore, como uma raiz que vai engrossar e só findará quando tudo à volta findar também. Uma imagem mais de antecipada fusão visceral do que de serenidade.

João Eduardo invejava na maioria das pessoas o facto de saírem de casa despreocupadamente, por prazer, por gosto, sem irem em busca do que quer que fosse; ou as pessoas que podiam sentar-se e apoderar-se do tempo e do ambiente, enquanto se deixavam apoderar por eles. Caminhando ou em repouso, ele ia sempre em busca de alguma coisa, esperava sempre alguma coisa, e todas as vezes com a prévia descrença de não a encontrar.

João Eduardo tossicou para estimular o outro a uma palavra; depois recorreu a um cigarro, fingindo rebuscar, em vão, um fósforo nas algibeiras. O homem voltou o rosto. Essa posição permitia que se lhe apreciassem os olhos de um cinzento frio, quase diluído na palidez das faces exacerbadas pela luz nocturna.

- O senhor tem um fósforo? - O outro estendeu-lhe a caixa. - Não deseja fumar?

- Pode ser, obrigado - e acariciou metodicamente o cigarro, depois de lhe ver a marca. Chegara a sua vez de investigar o companheiro de banco. Um cigarro daquela marca era suspeito; os ricos não se sentam ao ar livre, em poisos onde não é preciso comprar com dinheiro o direito a um lugar.

A desconfiança do homem levou João Eduardo a percorrer-se também de alto a baixo e foi quase com espanto que verificou que o seu fato, as mãos, os cigarros, o apartavam efectivamente do homem; que a sua personalidade exterior era a mesma que, horas antes, havia identificado com o meio social de um Cunha Ferreira. Nesse espanto, julgava estar em presença de uma fraude, de alguém que o perseguia copiando-lhe as aparências, apenas para o impedir de se escapar a si próprio.

- Está fresco - disse João Eduardo.

- Um pouco. Mas sabe bem.

Depois nem um nem outro acharam novo mote para diálogo. O homem tirava agora da carteira papéis de vária origem, catalogando-os minuciosamente; os que lhe pareciam inúteis eram rasgados e cada pedaço lançado ao chão, um de cada vez, dando tempo a que a brisa o levasse para longe. Com o último papel foi-se também a possibilidade de um comentário. O silêncio tornava João Eduardo ofegante, como se a respiração lhe faltasse. Gostaria de dizer ao desconhecido que os homens podiam sempre dialogar, mesmo sem palavras; que quando alguém tem uma amargura devia ficar certo que nem tudo à volta permanece indiferente. Mas para quê? O homem ir-se-ia embora daí a pouco. Nunca mais se encontrariam. As pessoas vêm e fogem - que é que delas se retém? E teria o homem alguma amargura a dividir com os outros?

Finalmente, levantou-se do banco e voltou para o automóvel. A praça estava agora mais cheia. Era o último

fluxo de gente, antes que a noite ficasse apenas em poder dos noctívagos.

Escolheu a rua que o levaria ao bairro dos clubes. Não pensava entrar em nenhum deles, mas ali acorria uma fauna que sempre o atraía e excitava. Porque seria que as pessoas, e ele mais do que a maioria, se sentiam impelidas para o que havia de degradado nas vidas humanas? O letreiro dos bares tinha um halo lascivo, apagava-se e acendia-se, furtivo, secreto e também sedutor. Grupos de marujos e de homens lentos, alguns de andar incerto, seguiam rente às paredes. Às vezes, lá vinha uma voz tresmalhada, logo absorvida pelo silêncio suspeitoso.

Um outro automóvel fez uma manobra rápida a ultrapassá-lo, mas parou logo adiante. Uma cabeça espreitou para fora. João Eduardo parou também. Já sabia o que iria passar-se: eram os vampiros da noite.

Momentos depois, viu a rapariga. Ela andava como distraída, sem se fixar nos que a olhavam, a malinha de mão tropeçando-lhe nas coxas. Ao passar junto do automóvel, o condutor convidou-a. Ela ia aceitar, provavelmente. Mas não: continuou andando. A cabeleira

despenteara-se com um sopro mais forte da aragem que vinha do rio e ela segurou as madeixas soltas com a mão livre. A malinha deixara de repercutir o movimento cadenciado das coxas: a rapariga tinha-a agora suspensa do cotovelo.

Vinha do rio um gosto salgado. Os barcos adivinhavam-se pelas luzes trémulas e fantasmagóricas, que por vezes acompanhavam a ondulação sonolenta das águas. Era aquela a paisagem que o economista do Banco das índias apreciava fugaz e deleitadamente do seu gabinete. João Eduardo voltou o rosto com rapidez, como para se esquivar da lembrança, e foi encontrar uma fila de árvores negras cravadas no passeio por onde prosseguia a rapariga. Por entre os ramos, via-se um pedaço de céu; e esse fundo imóvel revelou-lhe pela primeira vez que os ramos de uma árvore nunca são inteiramente negros nem fixos: tremem, tremem e sussurram a cada instante.

O outro automóvel deslocara-se lentamente, à beira do passeio, acompanhando a passada da mulher, lenta também, mas ritmada e indiferente. O homem repetiu o convite, insistindo, aumentando sempre o valor da proposta. Ela, então, aligeirou o andar: não se rendera. Terminara o cerco. O motor do carro acelerou, afastando-se rapidamente. A distância ia misturá-lo com outros ruídos, outros automóveis, enquanto a rapariga recuperava o andar pausado e indiferente.

Era uma cena repetida a qualquer instante da noite só com a diferença de que, na generalidade dos casos, perseguidor e perseguida acabavam por ficar de acordo. Pouco exigiam um do outro: apenas ilusão. Ou exigiriam muito? De uma vez, acontecera-lhe... Tudo podia acontecer na imensa vastidão da noite, em que as frustrações e os anseios incham como tortulhos ao bafo das maresias.

De uma vez acontecera-lhe... Tinha sido há anos ou há dias? O tempo não tinha medida.

Acontecera que uma desconhecida se fora aproximando da paragem do autocarro, onde João Eduardo fazia companhia a um amigo que ia regressar a casa. O autocarro chegou, o amigo despediu-se, e a rapariga, provavelmente interessada na solidão de João Eduardo, subiu e desceu, sem pressas, o quarteirão da avenida e, por fim, encostou-se de novo à placa da paragem. Vestia um fato preto modesto e não usava meias; o cabelo, mal cuidado, despenhava-se desleixadamente por um dos lados da testa. Às vezes, fitava-o de um modo singular. Não era um convite. O olhar, estranhamente alheado das coisas próximas que se lhe deparavam, tinha dureza e alucinação; e os lábios, um pouco descaídos, pareciam dois retalhos de carne húmida e branda. Por fim, dirigiu-se a um canteiro de goivos, onde havia um chafariz, e bebeu como se tivesse uma sede acumulada há muitas horas. Bebeu desmesuradamente; por esse ou por outro motivo, começou a vomitar logo depois. João Eduardo apressou-se a auxiliá-la.

- Está doente? Precisa de alguma coisa?

Ela tardou em responder. Olhava-o demoradamente, como se primeiro tivesse de certificar-se da realidade da sua presença.

-já estou bem.

João Eduardo procurou ampará-la, mas a rapariga sacudiu-o.

- Não preciso de ajudas.

Era uma noite de sábado, a primeira das festas dos santos populares. Havia por todo o lado uma atmosfera de excitação. O céu estava liso, quente e erótico. A rapariga não deixara ainda de o investigar, sem reservas, impudica e abertamente.

- Você parece desconfiada, mas nada tem a recear de mim.

- Então que está aqui a fazer?

João Eduardo sorriu. A pergunta desarmava-o.

- Nada. Ou julga que esperava por si ou por outra qualquer?...

- Os homens são todos iguais. São todos uns porcos.

- Quer que lhe prove que está enganada? - E como a rapariga ficasse na expectativa de uma explicação, acrescentou: - Não a conheço e certamente não voltarei a vê-la; mas se está preocupada com alguma coisa, pode contar comigo. Se o problema é de dinheiro, ajudá-la-ei no que puder e sem nada lhe pedir em troca; se é de outra natureza, conversarei consigo, se for do seu agrado, e depois irei acompanhá-la a casa. De qualquer modo, nunca mais a importunarei.

Ao ouvir-lhe as últimas palavras, uma expressão de medo ou de ira selvagem transpareceu no olhar da rapariga.

- A casa, não.

João Eduardo sentia-se progressivamente ansioso. A atracção pelo mistério daquele encontro transformava-se numa expectativa que se tornava urgente e doloroso satisfazer. Procurou modular a voz num tom sofredor, macio e persuasivo.

- Todos precisamos, por vezes, de encontrar alguém a quem possamos dizer coisas que se desejam ocultar. É por isso que existem os médicos e os confessores... Se se sentir bem com o desabafo, estou pronto a ouvi-la e... a esquecer. É isso?

Ela pôs-se a lacrimejar. Com brandura, João Eduardo pegou-lhe no braço e impeliu-a a descer a avenida. Ouvia os passos leves e rápidos da mulher que o acompanhava de cabeça inclinada, meditabunda, as mãos escondidas nos bolsos do casaco, transmitindo-lhe uma fragilidade enternecedora, e assaltou-o a curiosa sensação de que a rapariga se identificava com ele, com as suas dúvidas e inquietações, embora nada soubesse a seu respeito, ou justamente por essa razão. Ela, porém, foi-se desprendendo da mão que a guiava e, abruptamente, disparou:

- O senhor ou é muito sincero ou um cínico de todo o tamanho. Diga-me se é um tipo falso!

- Pode insultar-me à vontade... Os homens normalmente têm a epiderme muito sensível, mas em mim essa susceptibilidade está reduzida ao mínimo...

A rapariga deglutiu laboriosamente a resposta e, com brusquidão, disse:

- Sou casada. - Estendeu-lhe a mão com a aliança e imediatamente abriu a carteira e mostrou-lhe um cartão de empregada numa companhia de seguros. - É para saber que não sou uma mulher qualquer.

Talvez fosse oportuno lisonjeá-la; por isso, João Eduardo advertiu:

- Fiquei certo disso desde que a vi.

- Falsos, são todos uns farsantes! Como é que viu isso?

E largou-o de repente. João Eduardo não teve tempo de a reter no passeio. Ela corria para o centro da avenida, e os automóveis a muito custo evitavam atropelá-la.

- Pare aí! Pare aí!

Ele próprio, a persegui-la, se viu emaranhado no trânsito, com as buzinas a espantarem-nos de todos os lados. Depois houve uma guinada mais forte e pareceu-lhe que a rapariga fora colhida por um deles. Mas não: ela surgia agora no meio dos carros que haviam parado, denunciada violentamente pelos faróis como um bicho selvagem a quem, por fim, tivessem completado o cerco.

As pessoas que desciam dos automóveis olhavam acusadoramente João Eduardo, imaginando sem esforço uma cena em que ele tivesse sido o vilão. Para que interviera ele nos destemperos de uma desconhecida?

A perspectiva de se tornar o fulcro daquele burburinho enervou-o e, por isso, arrastou à força a rapariga para o passeio.

- Venha daí! Tenha juízo.

Ela deixou-se conduzir docilmente e acabou por se apoiar no seu braço. Quando chegaram junto do automóvel de João Eduardo, preveniu em voz baixa:

- Preciso de telefonar.

- Qual telefonar! Vou pô-la a casa.

- Não vou para casa, já lhe disse. Não faço nada em casa. Saí de manhã e ainda não voltei. Quero telefonar ao meu padrinho.

João Eduardo, após hesitar uns instantes, aquiesceu. Provavelmente a rapariga tivera uma disputa com o marido e, desmiolada, deixara-se arrastar pelo primeiro impulso. Como iria acabar, para ambos, aquela noite inesperada?

Ela convidou-o a entrar também na cabina telefónica e afastou a mão que lhe oferecia uma moeda. Do outro lado, ninguém respondia. E não seria o telefonema uma mistificação? O telefonema, a tentativa de suicídio e aquele ar espavorido da rapariga? A sua suspeita era, pelo menos, legítima, embora na maioria das circuns tâncias ele reagisse sempre do mesmo modo, precavendo-se com uma dúvida sobre a sinceridade dos outros. Gostaria, no entanto, de ser crédulo, ainda que nem todos merecessem a sua credulidade. A desconfiança era um veneno corrosivo. Lembrou-se, uma vez mais, da' frases de um amigo: "Sou a todo o passo burlado, certo; mas prefiro sê-lo a correr o risco de não acreditar um dia em alguém que verdadeiramente necessite de mim." Essas palavras haviam-se-lhe vincado, mas apenas como mais um motivo de amargurada contradição! entre as intenções e a capacidade de as concretizar. Seria talvez aquele o ensejo de ser útil e de se confiar a alguém. Mas como? Que iria fazer agora da rapariga, de modo a impedir-lhe uma insensatez, mas evitando, também, uma situação que o comprometesse? Levá-la a um hotel e, no dia seguinte, encaminhá-la para um rumo definido? Era, decerto, a solução imediata mais indicada.

- Você precisa de repousar. Amanhã já verá o seu problema com outra clareza.

- Repousar onde?

-Vou levá-la a um hotel e depois despeço-me... até amanhã ou até um dia... se precisar de mim. Ela meditou uns momentos.

- É verdade o que me está a dizer? Não quer nada de mim?

João Eduardo sorriu com indulgência. Sentia dentro de si um apaziguamento de há muito desconhecido. Uma ternura sem objectivo, branda e langorosa.

-já lho disse há pouco.

A rapariga apertou-lhe uma das mãos.

- A gente já não sabe que pensar. Mudamos de um instante para o outro. Não sei porquê, mas já não me apetece morrer.

- Nada há que justifique o empenho em morrer. - Você sabe lá.

Ele rectificou com solenidade:

-Sei.

Ao entrar no carro, sentiu-se tranquilo. Em certas ocasiões, acometia-o um alvoroço informe, uma impaciência por realizar actos urgentes e decisivos; e quando, de chofre, essa impaciência desaparecia, tão volúvel e inconsequente como viera, enchia-se de bem-estar íntimo, igual ao que poderia sentir se a tivesse satisfeito. O amargor da frustração viria mais tarde. Agora, porém, enquanto conduzia, a sua serenidade era completa. Roçava-lhe pelo corpo o corpo da rapariga, o seu hálito, o seu odor, mas era uma sensação de simples presença. Não lhe despertava qualquer estremecimento de desejo. Pelo contrário: o rescaldo do que acabara de passar ia-o isolando numa zona enigmática, lá onde coisas e as pessoas eram sentidas como necessárias, mas também como abusivas. O doseamento dessa contracção era a tal harmonia precária.

Levou-a a um hotel qualquer. Talvez por ser o mais próximo ou o mais discreto. O homem, dono ou empregado, atendeu-os em mangas de camisa e sem tentar sequer, um simulacro de amabilidade. A seu lado, u gato felpudo, de olhos verdes, apoiava-se nas patas dianteiras, perfeitamente imóvel na sua expectativa.

- Cama de casal?

- Não, é só para esta senhora.

O molho das chaves chocalhou nas mãos surpresa do hospedeiro e ele foi seguindo pelo corredor, esperando que os clientes o acompanhassem. A rapariga, no entanto, permaneceu no vestíbulo. Aguardou que o homem se afastasse e disse:

- Não quero assim. Aquele malandro foi sempre respeitado, mas não o merecia. - Referia-se ao marido e a sua voz endureceu: - Não o merecia. Quero ficar consigo esta noite; você foi bom para mim.

João Eduardo não teve tempo de replicar. O homem do hotel retrocedera de mau humor, olhando-os reprovadoramente.

- O quarto é lá no fundo.

O gato roçou-lhe as pernas, convidando-o a despedir os intrusos e a sentar-se de novo.

- Este senhor também fica - esclareceu desafiadoramente a rapariga.

- Porque não disseram logo?!

Enfiou-os noutro quarto com uma janela para o pátio. Havia um odor de espessa animalidade por todo o lado: nas mobílias, nas roupas e nas cortinas de cretone, com flores que teriam sido berrantes e eram agora desmaiadas. Dir-se-ia que alguém, depois de longas horas de luxúria, tinha acabado de sair dali, para dar lugar a novos hóspedes fortuitos, e não houvera tempo para lhe apagar a presença.

A rapariga sentara-se numa cadeira. - Como se chama?

- João. João Eduardo.

- Nunca mais esquecerei o seu nome. - E acrescentou num tom malicioso: - Tenho boa memória... Eu chamo-me Clara.

- Assim já nos sentiremos menos estranhos... Vou lá fora buscar-lhe qualquer coisa de comer. Que prefere?

- Bolos, muitos bolos. Sou tão gulosa! - e levantou-se da cadeira para despir o casaco. Olhava à volta como para encontrar um pretexto de satisfazer os seus hábitos de dona de casa, de imprimir a alguma coisa um carácter íntimo e pessoal. Mas não havia nada a arrumar, a modificar. Na sua sordidez, tudo ali era exacto.

- Eu não fazia ideia que o hotel fosse tão mau - desculpou-se João Eduardo.

- Oh, serve. Que importa isso?

João Eduardo desceu as escadas. O homem ainda o filou à saída:

- Afinal, o senhor fica ou não fica?

- Ainda não resolvi. Volto já.

Entretanto, porém, estendeu-lhe uma nota. O hoteleiro aceitou-a num sorriso trocista: um homem hesitar em servir-se de uma mulher que o empurrara à força para o quarto!

João Eduardo, na pastelaria, esteve indeciso se deveria telefonar para a casa e desculpar-se com um doente grave, se deveria mesmo regressar ao hotel. Não telefonou na convicção de que acabaria por deixar a rapariga sozinha no quarto. Ela vira-o sair sem a mínima dúvida sobre o seu regresso. Confiara. Não poderia desiludi-la, embora, depois, se despedisse sem lhe aceitar a recompensa do seu corpo. A previsão da sua renúncia ao prazer mercenário aumentava-lhe o bem-estar; corria-lhe pelas veias um brando torpor de compassividade.

Clara comeu os dois primeiros bolos num abrir e fechar de olhos. Certamente não se alimentava desde que saíra de casa. Mas, com a mesma brusquidão, deixou de comer, ficando de gestos parados, à espera de serem conduzidos. Podia-se-lhe penetrar muito dentro dos olhos sem nunca encontrar o fim. A humilde obediência da sua atitude comoveu-o. João Eduardo, porém, sentia o odor do quarto a encharcar-lhe progressivamente as narinas, a colar-se-lhe à pele. Olhou o lavatório e desejou o contacto de qualquer coisa que fosse límpida, pura e fresca. Abriu a torneira. A água jorrou, apetecível, e ele despiu o casaco e desfez o nó da gravata para se enxaguar sem demora. Olhando distraidamente a sua imagem reflectida no espelho, reparou nas pálpebras já um tanto opadas, muito mais do que dantes, e sobretudo nos cabelos brancos que progrediam nas têmporas. O tempo corria depressa, deixando cicatrizes - nada mais do que cicatrizes.

-Agora deixo-te aqui.

- Preciso de alguém que me acarinhe. Preciso de companhia.

- Ficarei então mais um pedaço; apenas mais um pedaço.

-...Comprometido?

- Não é isso - respondeu com aspereza. Desagradava-lhe sempre que, naquelas circunstâncias, lhe insinuassem o que lhe ficava para trás: Luísa, os filhos, um mundo de coisas que ele conspurcava, mas que não admitia que fossem profanadas por estranhos. E nesse momento teve a sensação de que Luísa estava junto de si: ouvia-lhe a voz, sentia-lhe o hálito. Empalideceu instantaneamente. - Vou-me embora.

Clara estendeu-lhe os braços, mas logo os retraiu. As suas mãos, agora cruzadas, agrediam-se. As pessoas, em certos momentos, eram capazes de tudo, pensava João Eduardo, mas era necessário que o desespero atingisse uma zona explosiva de irreflexão. Talvez ele pudesse canalizar-lhe o estado emotivo para alguma direcção menos desvairada. Clara observava-o com desalento e tentava inutilmente sorrir. João Eduardo bem sabia que ela lhe percebia a hesitação. Não podia deixar aquela mulher a sós com o seu desvario; mas também não podia...

- Nunca foste infiel?...

- Muitas vezes - respondeu ele surdamente.

- Mas os homens começam por ser levianos e...

- Sujos, porcos, é o que devias dizer!

- ...e acabam, mais cedo do que se julga, por ser

fiéis a uma mulher.

Quando ele saíra para a pastelaria, que teria sentido a rapariga naquele quarto vazio? O terrível sossego das coisas mortas ou desabitadas. Ele sabia o que isso e às vezes, quando pernoitava num hotel. Mas talvez isso não tivesse tido nenhuma importância para Clara. E estivera certa de que ele regressaria; de que ficaria a seu lado. Naquela noite, a única coisa importante para ela era surgir viva e intei'ra no dia seguinte.

A luz que vinha da lâmpada da rua deitava-se sob a colcha carmesim do leito, ensanguentando-a. Aquilo identificou-se imediatamente com o vermelho das compressas embebidas em sangue. Ainda agora, depois de tantos anos, era incapaz de assistir com indiferença a uma operação. O bisturi a rasgar um fino traço sanguíneo na carne impoluta rasgava-lhe também os nervos. A carne entumecia num débil e absurdo protesto contr a violação, mas esse protesto repercutia e ampliava-se dentro dele. Não, deixaria a rapariga no hotel.

- Vou-me embora, já te disse.

Clara, então, num ímpeto, fechou-lhe os braços no pescoço.

-Não te deixo, não te deixo ir. Quero fazer conta que és meu marido... um marido que não tive. Beijou-o com a expressão impregnada de intenso desespero. - Deixa-me acreditar esta noite naquilo que não pode acontecer. Sou uma pobre mulher.

Ele tapou-lhe a boca com as mãos. Os seios dela ofegavam de encontro ao seu peito - uma estranha vi da numa estranha noite. Eram quentes, duros e sôfre gos - e através deles, do seu desejo, ou da febre de desejar, vibrava um fluxo e refluxo de mil coisas recuperadas. Mas neles se derramava também uma inevitável lava de erotismo, que o ia queimando e oprimindo. E então, com brutalidade, procurou-lhe os seios debaixo da blu­sa: estavam nus. Apenas a blusa os cobria. Nus, quentes e famintos nas suas mãos.

Nunca mais a viu. As pessoas vinham e logo desapareciam - que é que delas se poderia reter? Ou era ele que, quando os outros se lhe ofereciam, se via incapaz de retribuir? Por medo, por desconfiança. Medo do desengano. «Sabes o que nos aproxima, meu traste? Ambos somos daqueles que passaram a vida a comer arame farpado.» Palavras de Silvina. Silvina-povo, Silvi­na-sabedoria cicatrizada. Teriam os outros a percepção de que ele nunca chegaria a entregar-se sem uma dú­vida de permeio de que ele fugiria quando os visse es­poliados?

Toda essa fugaz lembrança de Clara e da noite no quarto do hotel era agora uma página anónima e remota. O presente, o automóvel que fora em busca de alguém mais acessível, a rapariga que se negara às pro­postas do perseguidor actuavam como uma onda imen­sa que avançava sobre as recordações, atirando-as sobre uma ilha onde, por fim, delas só restasse a ossatura. Ainda esteve tentado a seguir a desconhecida, que o vampiro, desapontado, acabara por deixar em paz. Gosta­ria de averiguar se a reacção dela seria diferente se ele se lhe dirigisse de outra maneira. Não faria propostas nem ofereceria dinheiro: dir-lhe-ia simplesmente qualquer coisa que a surpreendesse, nada que pudesse insinuar que, como os demais, a considerava uma mulher venal. Mesmo as profissionais áridas e cépticas conservavam um recanto inviolável de dignidade, pelo qual alguém as poderia cativar.

Seguiu-a a distância, discretamente. Esperaria que ela passasse por um local mais solitário, sem testemunhas que o intimidassem. Aos poucos, porém, foi en­curtando a distância que o separava da rapariga, enco­brindo os seus desígnios sempre que um transeunte voltava a cara para presenciar a cena que se previa. A luz dos candeeiros flutuava sobre uma levíssima ne­blina que vinha a deslocar-se lentamente do rio, mas, daí a pouco, se a rapariga enveredasse decididamente pelo bairro ribeirinho, as ruas tornar-se-iam mais den­sas e escuras. Desceria então do carro para lhe falar. Uma frase que a lisonjeasse, expondo-a à perplexidade. Ele gostava de ver as pessoas subitamente desarmadas e mais ainda de as deixar, depois, à espera de qualquer sequência decisiva que não chegava a acontecer.

De repente, a rapariga mudou de direcção. A rua, ali, esgueirava-se, como um verme assustado, por de­baixo de uma arcada. Quando os eléctricos passavam no piso superior faziam estremecer a abóbada e as pes­soas tinham a sensação de caminhar num túnel cavado nas profundezas do subsolo.

Era talvez a oportunidade. Foi esperá-la do outro lado da viela. Quando a rapariga passou sob o candeei­ro, reparou-lhe na expressão opaca e cansada. Assim de perto, era mais velha; as olheiras acentuadas pela pintu­ra e o branco enfarinhado do rosto lembravam um pa­lhaço que tivesse acabado de se caracterizar. Antes que ele, já hesitante, decidisse apear-se do carro, a rapariga escapuliu-se apressadamente por uma porta iluminada. Era um bar. Assim que ela empurrara a porta, uma mistura confusa de vozes, fumo e tédio derramou-se para a rua, como através do rasgão aberto num abcesso.

Não iria mais além, evidentemente. Talvez mesmo, em qualquer circunstância, não tivesse chegado a falar à mulher. Naquele rosto grotesco já não havia esperança: ela não poderia entender outro diálogo se não o dos homens e das companheiras com quem ia encontrar-se no bar.

Pôs o automóvel em marcha. Foi com prazer dolo­roso que ele forçou as rodas a ganirem numa curva sú­bita e apertada. Aumentou a velocidade rapidamente, antes que o motor estivesse preparado para o esforço, retesando os músculos da perna sobre o acelerador. Meio braço ia fora da janela, anestesiado pela brisa que, de instante a instante, se tornava mais penetrante e en­regelada. Cruzavam-se com ele outros faróis, que dir­-se-iam olhos alucinados e monstruosos enxertados na espessura de um charco. Tinha agora a sensação de que o tempo havia recuado de novo; o apelo de uma recor­dação vinha subtilmente desalojar a realidade, substi­tuindo-se-lhe. Não era uma recordação concreta, mas uma reminiscência ainda turva que, revivida, lograva uma surpreendente actualidade. Luísa estava no centro desse apelo. E por detrás surgiam, com uma nitidez progressiva, as duas mulheres que tinham levado a criança ao consultório. A criança chegara ali já meio morta. Era preciso agir depressa, mesmo que tudo o que fizesse diante daquelas mulheres excitadas pareces­se já uma conivência com a morte que se aproximava. Luísa, que, ao fim da tarde, gostava de o visitar no con­sultório, entrara no momento em que uma mosca, vin­da não se sabia donde, poisara nesse corpo arrefecido. Ele ouvia o choro e as lamentações das mulheres como se se tratasse de qualquer coisa abstracta e anónima; os

seus sentidos estavam fixos na pequenina mancha ne­gra, obscena e sacrílega, que era a mosca. Fora então que Luísa sibilara uma pergunta, enquanto lhe estendia as mãos para que ele pudesse sentir um apoio. «É melhor saíres, Luísa; isto não é da tua conta.» A frase martelara-lhe o cérebro durante o resto do dia. «Não é da tua conta, não é da tua conta.» Luísa não voltara mais ao consultório. Cada um se ia enroscando dentro da sua amargura.

Ao trazer à superfície essas sombras, toda a sua luta passada lhe surgia como um esforço solitário e, por isso, desperdiçado. «Não é da tua conta.» De quem seria então? Mas talvez não fosse ainda tarde para ir ao encontro das mãos que se lhe estendiam. No apelo de Luísa havia por vezes uma ardência que parecia dissolver-se em cinza; uma chama à espera de quem a ateasse. Ele iria ateá-la. E Luísa acabaria por compreender que se ele fugia das palavras, evitando-lhes os ardis, se fugia da comunicabilidade teatralizada, era pelo receio de que ambos, postos perante as evidências brutais, já não tivessem coragem de as ultrapassar. De qualquer modo tinha sido bom mergulhar até ao fundo do cansaço para dele poder emergir; esgotar até ao fim a surda fadiga dos últimos anos; o desencanto prévio de tudo, para nunca mais poder experimentá-los. Ou já seria tarde «É melhor saíres, Luísa; isto não é da tua conta.» Nã podia ser, não podia ser. No apelo de Luísa o fogo não se extinguira ainda.

A intensidade da recordação desconcertava-o. Pare­cia-lhe estar ali sozinho no meio da noite, as mãos de Luísa estendidas e ele prestes ao gesto de as receber, sa bendo, porém, que tudo isso sucedia numa zona absur­da, simultaneamente real e alucinatória. Sentia-se de novo perdido e acossado. No peito, uma labareda. No peito, um grito a explodir. Mas por quem gritar? Era-lhe necessário um interlocutor, falar, expandir-se.

Era-lhe necessário alguém que não estivesse comprometido nos lodos que o atolavam e lhos denunciassem as cobardes atenuantes dos que intimamente se sentem comparsas.

Fumara cigarros sobre cigarros, enquanto guiava, sem dar por isso. E também sem dar por isso chegara junto do seu bairro, da garagem, do prédio do elevador onde se dera o desastre. Ao atravessar a rua, um carro surgiu pela direita. O outro travou de repente, deteve­-se, rodopiando como um pião. Era um pequeno auto­móvel conduzido por um homenzinho que usava ócu­los. Ao retomar a marcha, João Eduardo viu o punho do homenzinho a erguer-se ameaçadoramente. Nunca gostara de pessoas que usam óculos.

Lá estava o prédio. Que diria a mulher se ele lhe confessasse que não lhe socorrera o filho, embora pudesse tê-lo feito? Que desprezo ou raivas teria ela para lhe retorquir? Apeou-se. Na rua adormecida o prédio era mais negro e alteroso. A noite tornava-o vazio e medonho. Parecia o lugar escolhido para uma conspira­ção. Se ele acabasse por bater a uma porta, decerto viria ao seu encontro uma luz coada por um lúgubre misté­rio; e, para lá da luz, o pressentimento de coisas suspei­tosas, rumores, sombras, uma atmosfera soturna. Tudo, menos os conspiradores; tudo, menos a revelação do crime. Só o pressentimento - que oprimia muito mais do que a realidade.

Achou-se a retinir a campainha da porta. O som propagou-se ao longo dos dedos, sentiu-lhe as vibrações nas veias quentes da fronte. Quantos minutos se passaram até que alguém, lá do cimo, respondeu ao seu chamado?

- Quem é?

- Quero falar com a porteira.

As palavras subiram a parede e a noite e, ao chegarem à janela donde surgira o vulto, já não lhe perten­ciam. Estava a tempo de recuar. Era fácil recuar.

- A estas horas!... Mas quem é?

- Tenho um recado para a senhora.

- Um momento.

A janela fechou-se. O prédio ficou de novo imenso e deserto: os conspiradores tinham fugido. Só ficara o crime. E o tempo misturava-se com tudo isso, casas, silêncio, expectativa, e actuava como uma levedura, fazendo inchar o fantástico conjunto.

Os passos cautelosos chegaram junto da porta. Depois de fazer girar a fechadura, a mulher espreitou; es­tava assustada.

- Que deseja?

Um imenso vácuo abriu-se dentro de si. Que lhe podia responder? Donde viria a coragem para lhe responder? Era preciso que ela conhecesse a verdade - mas que verdade? Fosse o que fosse que tivesse acontecido ao filho, ele nada poderia ter feito de decisivo, na­da que remediasse o desfecho.

- Sou médico do hospital.

A porta abriu-se repentinamente: os olhos perplexos, incendiados, eram a única coisa evidente no rosto confuso da mulher.

- Que aconteceu?!

O estranho fixava-a de expressão aflita. Os músculos da face pareciam crispados, como se suportassem uma dor que não desejavam confessar. A metade dessa face recebia em cheio o halo do candeeiro; em todo o resto da rua a luz fundia-se na atmosfera negra, tornan­do a obscuridade mais ameaçadora ainda.

A mulher era o acusador que ele desejara para punição das suas misérias, mas que dizer-lhe? - Que notícias tem do seu filho? Ela, aturdida, hesitou um instante. -Não conheço o senhor.

E, de súbito, a porta fechou-se com estrondo e os passos fugiram no interior da casa. João Eduardo sentou-se no rebato da porta. A brisa veio aninhar-se junto dele, como um animal que pressente a proximidade de qualquer coisa que pode revelar-se temível.

Estava de novo só e crescia de momento para momento a sensação de irremediável desamparo. A mulher julgara-o um louco ou um malfeitor. Todos o tomavam por alguma coisa sempre diferente do que era.

Foi caminhando vagarosamente sob as árvores. Devia ir deitar-se; tomar um soporífero e deitar-se. Mas antes que a droga actuasse, naquele brusco mergulho que nunca podia ser previsto, ele sabia muito bem o que era a lúcida angústia de esperar esse instante, de o antecipar, embora inutilmente, à força de emboscadas; durante a meia hora em que cada uma das suas vísceras se contraía à espera de ser narcotizada, todas as reminiscências acudiam numa versão adulterada e sobretudo sob uma clareza impiedosa. Se fixava os pensamentos em qualquer pedaço do seu corpo, um dedo, um braço, uma unha, logo o sentia tão avolumado e disforme que chegava por vezes a acender a luz para se apalpar de olhos bem abertos. Eram as ressacas do dia que ele transportava para a noite e para o sono. Quanto mais as arredava, mais elas perseveravam. Por isso, até ao último instante, ele procurava reconciliar-se consigo para não merecer essa tortura. Deixar tudo arrumado atrás de si. Mas quando?, mas como? - se ele não sabia, sequer, o que desejava, o que lhe era necessário? O Medeiros, por exemplo, sabia-o. Os seus sobressaltos eram de outro género. O Medeiros era um homem livre, usufruía a liberdade de conhecer o seu rumo e lhe ser coerente. Que importavam os outros ao Medeiros, se não o poderiam constranger e domesticar, se não precisava de pactuar com eles?

Não, não iria ainda deitar-se. Mesmo que todas as portas se lhe fechassem. Algures, estaria o acaso a esperá-lo. O acaso decisivo. Mas por quem gritar? Consultou o relógio e, quando os olhos se desviaram, as horas já se lhe tinham varrido da ideia. Porém, não repetiu a observação. Provavelmente teria de se bastar com Silvina. E talvez ele amasse Silvina de há muito e ambos tivessem estado todo aquele tempo demasiado perto para que pudessem descobrir o que verdadeiramente os unia. Seria apenas a tal vivência de arame farpado? Fosse como fosse, ele precisava de amar Silvina. Precisava amar alguém tão sequioso de apoio humano como ele.

Sentia-se exausto. A respiração tornara-se breve e arquejante. Sobre as pálpebras descia agora aquela cortina de irreflexão, de dor pesada, dos momentos em que já não lhe era possível lutar mais contra a fadiga. Para que insistir em permanecer ali? Ninguém viria, não iria acontecer coisa alguma. A não ser efectivamen te Silvina. Mais um logro, enfim: e o logro seria Silvina ou um novo amigo com receitas infalíveis para todos os problemas individuais e colectivos, ou até a rapariga do hospital se ele se substituísse ao senhor que lhe comprava o corpo, mas não o miúdo, ou um novo êxito da sua fedorenta carreira profissional. Ou a noite. Apenas a noite, simultaneamente recolhida e vagabunda, proventura o único comparsa da sua solidão. Que tinha a noite para lhe dar? As árvores, o asfalto húmido e liso como um espelho e uma sugestão de profundidade insondável. No entanto, João Eduardo sabia que as árvores, como o asfalto, como o casario maciço, poderiam ajustar-se a todas as inquietações. Eram personagens vivas e receptivas, identificando-se com o que nelas se desejava encontrar; e mesmo se fossem elas a sobrepor-se aos elementos humanos do cenário, faziam-no de um modo que ninguém se sentia espoliado. As árvores, particularmente. Embora despidas, negras, descarnadas, e ainda que por entre os seus braços magros o vento as esburacasse, pareciam guardar dentro de si esconderijos impolutos, onde se recolhiam, como nos búzios, os rugidos e os clamores.

As árvores estavam sempre presentes na sua vida. Árvores, árvores ao longo das estradas da sua memória; majestosas, selváticas, enrodilhadas como cobras, ou pilares hieráticos da sua solidão. Uma árvore nua, pedras, quilómetros de terra parda; e a madrugada friorenta a despertar por detrás das colinas crespas, por detrás das árvores e da desesperação das terras desoladas. Que caprichos o tinham levado até lá? E que capricho maior ainda o fazia reviver tão agudamente, com uma saudade ilógica e descarnada, esse alvorecer agónico em que a paisagem escolhera uma árvore solitária para cobrir a sua nudez?

Um alvorecer agónico, lá para trás, no passado.

O comboio atravessava a noite longa da província e não se chegava a saber se cobria distâncias, se o tempo: se tinha uma estação como destino ou se o destino era a madrugada. João Eduardo espreitava pela janela, a concentrar a atenção nalguma coisa que o impedisse de adormecer, e encontrava apenas a repetição acabrunha­da de campos rasos, por cima dos quais o céu se ia carregando de presságios negros. À medida que o comboio penetrava no interior, as pessoas escasseavam. Por fim, no compartimento ficaram ele e um homem de ca­belos grisalhos, de expressão ausente. O homem acaba­ra por dormitar.

As estações eram agora mais espaçadas; na paisagem lisa, que um luar azulado tornava quase fictícia, surgia por vezes o assombro de uma luzinha vermelha, e de­pois o vulto perdido de uma estação. Ouviam-se vozes, e sombras breves e nervosas corriam de um extremo ao outro do cais, como se esperassem fugitivos para os abrigar antes da chegada dos perseguidores, até que, de um instante para o outro, a estação e a paisagem se petrificavam de novo, imóveis e pérfidas. O comboio, resfolegando, aventurava-se uma vez mais na distância prevista.

Era a primeira jornada de João Eduardo nos caminhos de um futuro a ser construído pelas suas mãos. Dias antes, recebera, enfim, a resposta do dirigente de uma Misericórdia aldeã que pretendia um médico. Fica­va no cabo do mundo, para lá de todas as paisagens que conhecera até aí, para lá de todas as ambições e apelos previsíveis; mas, de qualquer modo, significava um co­meço de vida que o colocava bruscamente entre si e o seu destino, sem nada de permeio. Embora o alvoroço pela paisagem estranha se tivesse amortecido com as primeiras horas da viagem, a excitação pelo encontro com um povo diferente das suas experiências anteriores mantinha-se virgem e ardente. Ele ia fundir-se com esse povo, tanto mais quanto inesperada e crua fosse a experiência recolhida. Era a sua oportunidade de mergulhar as raízes numa autenticidade viril e repleta.

Agora, no comboio, sempre que um camponês atravessava o corredor à procura das últimas carruagens, imaginava se ele não seria um dos seus futuros clientes, possivelmente um amigo; e achava-se a dirigir-lhe um sorriso amistoso que o persuadisse a não ir mais longe na escolha de um lugar. Ser-lhe-ia tão agradável falar de si, e deles, com um desses desconhecidos! Previa que todos pertenciam à região por onde iria estender-se a sua actividade profissional, que se encontrariam muitas vezes nos dias que se seguiriam. Devia, pois, falar-lhes, abrir-se, comunicar-lhes a sua esfomeada adesão.

O homem dos cabelos grisalhos poderia ter sido o interlocutor mais acessível. O vestuário, as mãos esguias e sobretudo os olhos altivos e reflectidos indicavam que pertencia a uma classe social mais próxima da de João Eduardo; e, além disso, a indiferença com que, a espaços, olhava a paisagem, fazia supor que vivia por aqueles sítios. O desconhecido poderia elucidá-lo sobre muitas dúvidas e perplexidades e serviria de intermediário no convívio com os restantes, que às vezes investigavam João Eduardo com uma mordente curiosidade. Espreitava, por isso, o primeiro ensejo de se lhe dirigir; mas esse ensejo não chegou e a sua timidez não o soube provocar. A certa altura, porém, um revisor cumprimentou o desconhecido:

- O senhor doutor vem de longe?

O    homem estendeu o bilhete, esfregando os olhos com apatia, e só depois respondeu:

- Fui à cidade.

O    revisor demorou-se uns momentos a desfolhar uma agenda. E insistiu:

- À cidade... O comboio hoje trouxe pouca geente de lá, a feira parece que esteve fracota. Anda um andaço no gado; ninguém compra bezerros. O senhor doutor fica nas Sarnadas?

- Fico. Se eu adormecer, acorde-me. Quando fecho os olhos, nunca sei aonde vou parar.

- Não me esquecerei - e o outro pôs-se a sorrir com beatitude.

- Figueiró é antes ou depois das Sarnadas? - inquiriu João Eduardo, forçando o pretexto de intervir no diálogo.

Mas quem lhes respondeu foi o revisor.

-Uma estação adiante - e saiu do comparti mento.

O homem de cabelos grisalhos observou João Eduardo do com um olhar inexpressivo. Com a saída do revisor a distância entre João Eduardo e os companheiros de viagem tornou-se mais evidente e incómoda. O saracoteio pesadão da carruagem amolecia os gestos e talvez o desejo de convívio.

Pouco depois, de novo ficou a sós com aquele a quem tinham chamado "senhor doutor". Palpitava-lhe que seria advogado. Tinha ido à cidade defender uma causa. A pasta, ali ao lado, abarrotava de papéis. O ou tro cruzara os dedos magros e macios sobre o colet desabotoado, cerrando os olhos. As veiazinhas finas violáceas estremeciam-lhe sobre as pálpebras. Podia ser as pálpebras de uma mulher. Também João Eduardo sentiu repentinamente sono. Doíam-lhe os músculos. Calculou as horas, já não deveria tardar. Isso mesmo: faltava uma hora e picos. A alvorada chegaria de um momento para o outro. Uma noite inteira sem dormir deixá-lo-ia estafado para o dia seguinte; e podia acontecer que muitos doentes estivessem já à espera da sua chegada, dos seus serviços, da sua presença solidária. Como seria recebido? Haviam-no informado de que a aldeia nunca tivera médico; a sua vinda representava um acontecimento, uma conquista. Sorriu à ideia de que certamente o esperava a tradicional delegação da gente graúda dos burgos, madrugando propositadamente para receber o médico que iria ser um dos ornamentos da comunidade e um companheiro das horas de aflição. Viriam o padre, o regedor, o mestre-escola, todos de fato domingueiro e porte solene, e atrás deles a charanga barulhenta e desafinada; e, quem sabe, o estandarte de alguma sociedade local, ataviado de fitinhas. Um mundo tão saborosamente ingénuo e verídico! João Eduardo seria conduzido à sede da sociedade, seguido de garotos e povoléu, enquanto o especialista do bombo, que era quase sempre um homenzinho roliço e amador da boa pinga, atroava os ares com a veemência do seu entusiasmo. Sentia já uma emocionada ternura por toda essa manifestação de alvoroço provinciano. João Eduardo era o médico deles, um sonho cumprido; e todas as suas ambições se exprimiam agora numa entrega definitiva ao sonho dessa gente confiada. Seria talvez um degredo, mas fora ele a escolhê-lo. Esse mundo telúrico dar-lhe-ia raízes concretas. O que importava num homem era decidir e ser coerente com essa decisão. Ele decidira - sublinhava João Eduardo com orgulho.

Tanto que lhe apetecia repartir com alguém essa emoção! Mas aquele sujeito de olhos fechados, fastiento e neutro, como se lá fora não existisse paisagem, homens, apelos, mil coisas famintas de serem possuídas e de nos possuir, era uma muralha de frieza. João Eduardo passava as mãos pelos assentos da carruagem, sobre os quais pairava o odor forte de vidas humanas, olhava uma vez mais as vidraças foscas, que, fechadas, pareciam preservar a quente promiscuidade do interior do comboio, e a sua necessidade de diálogo tornava-se dolorosa. Apetecia-lhe sacudir o homem dos cabelos grisalhos, trazê-lo à vida, misturá-lo na sua ânsia de comunicação. Se pudesse dormir também... Mas como, se dentro de si tudo era um tumulto?

No apeadeiro seguinte subiu um camponês. Era escuro como a noite. Entrou para o corredor e lá se ficou, sentado sobre uma trouxa feita de mantas e serapilheiras. Acobardara-se de ficar junto daqueles senhores, embora João Eduardo tivesse feito o gesto de lhe alargar o espaço disponível no compartimento.

Por fim (quando tempo depois?), numa colisão de freios e correntes, o comboio estacou. Era ali. Só então teve consciência de que o amanhecer viera recortar a imobilidade da paisagem, tornando-a mais imóvel ainda. Um amanhecer cruel e lívido. Pela janela, viu alguns camponeses encapotados em gabões pesados e sinistros e, para lá do recinto da gare, uma carroça. O chefe da estação não tivera tempo para abotoar o colarinho. Estava tão agitado e quezilento que poderia julgar-se que a chegada do comboio constituía uma enervante surpresa.

Quem viria esperá-lo? Não via nenhum grupo que sugerisse a tal folclórica embaixada destinada a receber, em festa, o seu médico e dar-lhe as boas-vindas. Por certo que o comboio se antecipara ao horário previsto. Enquanto arrastava as suas malas pelo corredor, o companheiro de viagem acordou. Parecia estonteado.

- Onde estou eu? - E depois de sondar pela janela: - Onde diabo vim eu parar?

- Estamos em Figueiró - esclareceu João Eduardo.

O homem, depois de se certificar da exactidão dessas palavras, correu para a porta da carruagem sem finalidade aparente.

- Só me faltava mais esta! O imbecil do revisor não me preveniu.

- Queria ficar noutra estação?...

- Claro que sim. O pior é que não tenho transporte senão lá para o meio-dia. E com uma caterva de empalamados à minha espera, diabos me levem!

Ao relancear os olhos, fixou João Eduardo com azedume, como se o responsabilizasse da contrariedade. Esse ressentimento logo se transformou em reserva ao reparar que o outro o encarava numa aparvalhada devoção.

- O senhor pelo que disse, é... médico?

- Não é pelo que disse, mas sim por velhacaria de um diploma que me deram já não sei há que séculos. - Médico... daqui?

- Das Sarnadas. O senhor é muito curioso...

- É que... também sou médico. Venho para esta terra exercer a profissão.

- Ah... - e o outro coçou o nariz, entre espantado e divertido. - Desejo-lhe boa sorte.

Desceram ambos. Entretanto, o homem da carroça tinha-se aproximado. Cumprimentou o dos cabelos grisalhos e depois, os olhos teimando em não subir um metro acima do solo, inquiriu de João Eduardo:

- O senhor é que é... o nosso médico? Venho esperá-lo.

O nosso médico! João Eduardo despediu-se à pressa do colega e seguiu o homem. Nada mais importava do que chegar sem demora.

A estrada branca e preguiçosa estendia-se pelos campos cobertos de geada. Quilómetros em redor, apenas os matos virgens cobriam o dorso da terra. As serranias, fechando todos os lados, do horizonte, como muros de uma prisão, inchavam sob a luz do alvorecer.

O homem da carroça apreciava-o de soslaio. Quando não parecia satisfeito com a investigação, espevitava a mula num gesto inútil, mais de protesto que de impaciência, pois a passada da alimária mantinha-se sempre a mesma. As malas, lá atrás, eram o sinal acusador de ir ali um estranho, um estrangeiro. Perante esse estranho de que ninguém podia adivinhar os méritos e a verdadeira identidade, o carroceiro precisava de manter uma cautelosa discrição. As tentativas de João Eduardo de o estimular ao diálogo mais o cerravam em resmungos ou, quando muito, em frases secas, precavidas.

- Ainda é longe?

- Nem por isso.

- Quantos habitantes tem a aldeia?

O homem fez uma expressão de quem pretendia averiguar, antes de mais, se a pergunta era ofensiva.

- Mil almas, talvez. Nunca as contei.

- E a casa para onde irei é...

- Do senhor Martins.

- Há muitas doenças por estes sítios?

- Há sempre doentes em toda a parte. Mas a gente cá se governava.

Não insistiu. Agora a estrada contornava uma colina. E foi então que, na rasura pobre que foram encontrar para lá da outra vertente, os olhos de João Eduardo esbarraram numa árvore exilada. O tronco, desventrado e torcido, parecia que lutava, havia séculos, por subsistir; e o seu último e desesperado alento concentrara-se num galho verde, que devorava toda a seiva que as raízes nodosas e velhas iam buscar não se sabia a que abismos do subsolo. Essa tenacidade degredada num ermo de poeiras transmitiu a João Eduardo contraditórias sensações: isolamento, aridez, abandono, mas também e sobretudo, uma crença indomável na vida e no gosto de a merecer, ainda que as suas raízes tivessem de se afundar nas poeiras, atravessá-las, indo colher a seiva lá onde fosse possível descobri-la. A árvore, por muito tempo, foi a sua companheira das horas desiludidas, em que o seu fervor por dar-se inteiro em cada contacto humano recebia em troca uma mão fechada ou vazia.

A carroça chegou à aldeia ainda a uma hora morta. A rua continuava a estrada até ao adro da igreja, as casas eram raras e escuras. O resto da aldeia amontoava-se na colina, como se os perigos da noite tivessem juntado as pessoas num lugar menos vulnerável e elas ainda não estivessem certas de que nascera um novo dia para lhes afastar a ameaça. Mas os olhos de João Eduardo vinham predispostos a favorecer tudo o que viam; e, por isso, o conjunto do burgo deu-lhe uma sugestão de amplitude, em confronto com as aldeias do litoral, alapadas em sarças e pinhais. O homem conduziu-o directamente para a residência do patrão. Eram as ordens que lhe tinham dado.

- Mas a minha casa não está preparada?

- Disso, não sei. Se calhar, nos primeiros dias ficará hospedado em casa do senhor Martins.

Era um casarão enorme, que devia ter sido sucessivamente acrescentado, pois as janelas, as portas e mesmo o telhado obedeciam a gostos ou caprichos diferentes. João Eduardo esperou que o Sr. Martins, avisado pelo ruído da carroça, surgisse de qualquer parte. Mas o carreiro, sem hesitações, empurrou a porta mais larga e guiou João Eduardo através de um armazém de vinhos. As ratazanas, sobressaltadas, correram para o seus esconderijos. Dali, foram desembocar no pátio, onde de novo se alinhavam pipas e algumas dornas. Quando subiram a escada, que ia terminar numa longa varanda envidraçada, João Eduardo viu, finalmente, a primeira pessoa da casa. Era uma criada cuja curiosidade se tinha acumulado durante o tempo que esperara pelo hóspede e que, de tão embevecida a confrontá-lo como o que dele imaginara, nem conseguira responder aos bons-dias do carreiro.

-Por aqui, senhor doutor.

João Eduardo não obedeceu logo. Refervia-lhe uma pergunta.

- O senhor Martins tem uma adega de respeito. Mas, pelo caminho, não me pareceu região de vinhas...

- Ele negoceia. Compra nuns lados e vende noutros.

E pelo tom de voz dir-se-ia que o carreiro considerara a pergunta indiscreta ou até humilhante.

O interior da casa era sombrio. Embora a saleta para onde a rapariga o levara tivesse uma janela para a rua, a incrível acumulação de móveis e o tecto baixo sorviam a frágil luminosidade do amanhecer. Ficava uma penumbra húmida, onde se julgaria que seria custoso respirar por muito tempo. João Eduardo pensou que não valeria a pena escolher uma das cadeiras almofadadas, visto que o dono da casa entraria de um momento para o outro. Como deveria corresponder ao seu cumprimento? Mostrando-se grato, exuberante? Que atitude estaria indicada a um médico que chega a uma terra desconhecida? Enfim, o importante era deixar-lhe uma boa impressão.

O hospedeiro tardava e todas essas preocupações deixaram de o ralar. Por fim, a sua impaciência concentrou-se no desejo de uma cama. A fadiga de uma noite perdida impusera subitamente os seus direitos e nem a ansiedade lhe resistira. Sentou-se numa das cadeiras (o dono da casa estaria ausente? Teria ido, juntamente com os outros, esperá-lo a um comboio mais tardio?), depois de afastar a almofada, que decerto servia apenas para ornamento, e recostou a cabeça para trás. De olhos fixos numa das muitas fotografias que ensombravam a parede, fez por esquecer o tempo. Não, o Sr. Martins sabia que ele viria naquele comboio, mandara o carreiro ao seu encontro; mas provavelmente não o tinham prevenido de que ele já o esperava naquela sala. De contrário, sem dúvida que se teria apressado em cumprimentá-lo.

No entanto, foi muito depois que o Sr. Martins, finalmente, se decidiu a aparecer. Era um homem encorpado, sólido, com uns belos olhos castanhos que se retinham languidamente nas pessoas. Não mostrou qualquer espécie de embaraço.

- Desculpe a demora, senhor doutor. Tive de fazer umas coisitas. Quem dirige uma casa... Mas o senhor é ainda um rapaz!

João Eduardo não soube se a exclamação exprimia uma surpresa se uma censura. De qualquer modo, o homem não parecia muito contrito de se ter feito esperar durante uma boa meia hora.

- Vamos daí a sua casa, senhor doutor. Decerto que precisa de dormir.

- Não me desagrada a ideia, confesso...

- Pois. Teremos muito tempo para falar das coisas que lhe interessa saber.

Na passagem pela varanda, João Eduardo espreitou de soslaio uma divisão que parecia ser a cozinha. Dese­java dormir, é certo, mas ser-lhe-ia também agradável uma chávena de café bem quente e uma torrada. Mas ninguém pensara nesse pormenor.

Quando o Sr. Martins o deixou na casa que lhe fora destinada («daqui a pouco chega aí a sua governanta, uma velhota, como convém...»), com um mobiliário desses que se compravam nas feiras da sua terra, João Eduardo, antes de se deitar, foi ainda ao pequeno quin­tal que o Sr. Martins lhe indicara pela janela do seu quarto. Eram três palmos de terra, separados do vizi­nho por uma rede improvisada. No outro quintal havia uma árvore; e canteiros de flores vermelhas, que tinham qualquer coisa de escárnio na desolada austeridade do ambiente. João Eduardo, no desamparo para onde o haviam atirado, como um servo, como um objecto, desejou ardentemente que a árvore e as flores fossem o prenúncio de uma presença humana fraterna, tão cré­dula e ansiosa como ele. Não queria admitir uma desi­lusão, nem reconhecer a secura desdenhosa ou descon­fiada dos que o recebiam no seu primeiro passo na vida; não queria supor que teria de refugiar-se em si próprio, construindo uma personalidade fictícia e amar­gurada.

Quando voltou ao quarto, pareceu-lhe que por de­trás dos ramos da árvore espreitava um rosto. E, bom Deus, era com certeza um rosto de mulher!

Ele poderia recordar um mundo de coisas dessa aldeia. A tal mulher que o espreitara por detrás da árvore e que fingira sempre desconhecer-lhe a vizinhança, ape­nas porque seu pai era um competidor do Sr. Martins no comando do burgo. O seu primeiro doente: o ébrio que, horas depois da sua chegada, lhe impusera uma observação urgente da sua hérnia, uma hérnia que ele estimava como uma tatuagem que já não podemos apa­gar, sob o olhar complacente e inquiridor do Sr. Mar­tins. (O Sr. Martins acompanhara-o nos primeiros dias em todas as visitas, no seu papel de empresário ainda inseguro do valor da atracção que se propunha recla­mar.) As surdas rivalidades que se serviam dele como um dos peões, no jogo irredutível de ódios e orgulhos provincianos. Um dia, impressionado com a sorte das crianças da aldeia, definhadas, de ventre inchado como pipos, estruturara timidamente o plano de um pequeno dispensário infantil e, ainda incrédulo, vira-o aprovado pelos que o poderiam concretizar. Tinham-lhe anuncia­do, então, a visita dos mandões da província, os que iriam gritar aos quatro ventos a generosa iniciativa. Aguardara-os toda a tarde no consultório, enervado, vestido com a sua melhor bata conscienciosamente pas­sada a ferro pela velha governanta. Por fim, ouvira um fragor de carros. Eram eles, o governador e a sua comi­tiva. Sempre era verdade que as crianças teriam o dis­pensário. A uns metros do consultório, porém, os car­ros detiveram-se: numa espécie de emboscada, havia saltado ao seu encontro uma delegação de caciques lo­cais - os do partido contrário ao Sr. Martins. O dis­pensário seria uma afronta ao prestígio desses fiéis e prestimosos caciques. Era preciso anular o projecto, naquela mesma hora. E os carros, deixando após si turbilhões de poeira, deram meia volta e regressaram à ci­dade.

Poderia recordar episódios circunstanciados da devassa pública, sôfrega, dos seus passos, dos seus hábitos, das suas crenças; a maledicência, a intriga, os desenganos. Os pais das crianças, que não tinham merecido o dispensário, arrebanhados em camiões para irem sa dar estrepitosamente à cidade os grandes políticos que os haviam sacrificado às conveniências das suas manobras pessoais. (Para não se ser esmagado, tornava-se então necessário copiar-lhes o egoísmo, a gula, as artima nhas?)

Mas de tudo isso, das sujeições, das dúvidas e das pequeninas vitórias que o recuperavam para a sua fé nos homens e na vida, o que se recortava na memória com uma clareza pertinaz era ainda a sua viagem de comboio, a carroça atravessando a madrugada, a árvore exilada e heróica e a recepção do Sr. Martins. O seu primeiro encontro com os homens ficara desde aí enve­nenado.

Há tanto tempo! De novo o passado lhe surgia fabulosamente distante, e ele, que o vivera, um herói inventado. Emocionava-se por vezes rememorando, mas como quem participa de uma ficção suficientemente persuasiva para que acreditemos nela. Chegava a acrescentar-lhe pormenores, para que as evocações se tor­nassem mais dramáticas ou mais apetecíveis, consoante lho pediam as circunstâncias; e, por fim, já ele não sa­bia o que havia de adulterado nessas reminiscências. Utilizava-as, porém, convictamente, e era isso que im­portava. Tinha verificado que as pessoas podiam ficar indiferentes ao que lhes era posto bem perto dos olhos, mas uma viagem ao passado, mesmo a acontecimentos insignificantes, estabelecia logo uma receptividade singular, talvez porque a distância permitia que cada um ajustasse os factos às suas preferências. E o que interessava à maioria das pessoas era reencontrarem-se através de um pretexto alheio.

Agora, que regressava à realidade concreta daquela avenida longa e imóvel, sentia mais evidente o abandono da noite. A fuga ao passado apenas servira para lhe identificar, numa outra margem do tempo, uma das muitas expressões desse desamparo. Havia uma hora da noite que dissolvia as pessoas, recuperando-as depois em moldes fantásticos ou cruéis. Não, não era bem isso. Tornava-se difícil explicar. No hospital, por exemplo, os gritos, as lamúrias, os rumores, paravam de repente. Transformavam-se numa vigília. Corpos, almas, objectos reduziam-se a um simples pressentimento ou deixavam de existir. Era uma hora terrível e, no entanto, as pessoas já nem seriam capazes de a sofrer. Tinham perdido todas as oportunidades.

Era isso precisamente que estava prestes a sentir: a noite ia sorvê-lo, aglutiná-lo. Mas antes que isso acontecesse, ele teria de chegar ao fim da sua perseguição, uma perseguição sem pistas, sem alvo definido. E seria indispensável esse alvo definido?

"Andas à roda de um quarto cheiinho de portas de saída. E, no entanto, continuas aprisionado por não teres a coragem de escolher uma delas, mesmo que te decidas pela pior. Preferes a prisão, é lá contigo."

Silvina dizia sempre o que tinha para dizer; e ia direito ao seu objectivo.

Ele devia ter sabido desde o começo que era Silvina quem procurava. Parecia absurdo como o correr dos dias não conseguia saturá-lo dessa rapariga incómoda e primária. Que poderia atraí-lo? Nem o desejo. Silvina era primária, sim, mas havia nela uma argúcia instintiva, perante a qual as pessoas se sentiam ridiculamente desnudadas. Ora João Eduardo temia aqueles que possuíam esse dom. Logo nele se desencadeava um mecanismo de defesa. Silvina era instável, desabrida, histérica, e ele desejava acima de tudo o convívio de gente sedativa. As suas relações duravam, apesar dessas incongruências, talvez porque nunca iam muito longe. Não as expusera, enfim, a uma desilusão, visto que nunca confiara que pudessem conduzi-los fosse ao que fosse. Silvina era a primeira mulher que não lhe provocara o antecipado sentimento de frustração; com as outras, assim que começava, logo previa como as coisas iriam acabar, embora lhes dedicasse um ardor emocional que, de excessivo, depressa se desbaratava. Silvina, sua confidente, costumava ferroá-lo:

"Tu esvazias as pessoas e nada dás em troca. Ná, meu velho, não te iludas, é assim mesmo como eu te digo. E quando os outros são bastante patetas para largar a pele e os ossos nas tuas mãos, foges. Mas nem ao menos és homem para, à saída, lhes bateres com a porta na cara: foges com solas de borracha, para que ninguém te possa ouvir."

Mas ele chegava a sentir amor, talvez de tanto desejar senti-lo. Sentia-o, sem dúvida, mas apenas enquanto um brusco desejo de libertação, que poderia ser apenas leviandade ou impotência, não descobria pequenos nadas que justificassem um recuo. Saía dessas experiências com o seu amor a Luísa subitamente revelado e reacendido.

"O casamento é uma grande instituição, digam o que disserem. Invejo a tua mulher!"

Sempre a voz mordente e exacta de Silvina. Ela tinha razão. Pelo menos quanto a seu amor a Luísa. Com efeito, antes e depois de cada experiência, o triunfo era sempre de Luísa, embora cada um deles se tivesse progressivamente afastado para um canto solitário, deixando entre si um espaço que precisava de ser ocupado por embustes desse amor.

Silvina, enfim, resistira, porque nunca se sujeitara a ser uma voz artificiosa dos seus verdadeiros sentimentos.

Na época em que se tinham conhecido, João Eduardo aparecia com frequência nos estúdios de artistas plásticos, onde encontrava, por vezes, gente de teatro. As relações com estes últimos conduziam-no a uma nova atracção: a intimidade com a fauna dos camarins. Actrizes, vadios, viciosos, para ele espécies zoológicas que seduziam temporariamente pelo seu rudimentarismo vivencial. A podridão ali encontrada nunca chegara a impressioná-lo: a amoralidade e os desmandos daquela gente assentavam num fundo de candura, que desarmava os que pretendessem aferi-los por uma bitola comum.

Silvina era uma belíssima mulher e sabia valorizar-se. À sua volta fervilhava uma corte de invejas e lisonjas. O dinheiro, a luxúria e uma vez por outra o amor rojavam-se-lhe aos pés, e ela, conquanto de temperamento impulsivo, colhia astuciosamente o melhor partido das oferendas depostas no seu trono de rainha. Mesmo do amor. Mantinha-lhe a confiança na vida.

Os seus dias eram uma alucinação. Talvez, como João Eduardo, sentisse pânico se a tranquilidade lhe entrasse de súbito pela porta sem saber que uso lhe dar. João Eduardo, quando a via presidir a esse rodopio de intrigas, prazeres, ambições, a essa extenuante mistificação da sua glória frágil, pensava quando chegaria o momento em que Silvina, desiludida ou morta de cansaço, confessasse a sua ruína. Mas não. Ela suportava tudo. E a máscara ofuscante que exibia no palco era a mesma que arrastava por entre a fila volúvel dos seus aduladores.

João Eduardo era suficientemente cauteloso para não se familiarizar com a corte que habitava esse meio. Ali, como em todos os outros ambientes, nunca chegara a banalizar-se. E precisamente porque o seu convívio com Silvina teria de misturá-lo com demasiada gente, nunca mostrara interesse ou curiosidade em participar dos desdéns ou das condescendências da rapariga. Um dia, porém, a companhia anunciou um espectáculo em Coimbra e uma das actrizes sugerira a João Eduardo que a levasse no automóvel. À noite, no teatro, Silvina entrou no camarim da colega e pediu que esta a ajudasse a enrolar na cintura uma faixa de toureiro. João' Eduardo, naturalmente, ofereceu-se para a auxiliar.

- Vocês, afinal, já se conhecem? - perguntou a amiga de João Eduardo.

- Conhecemos - respondeu Silvina, com algum azedume. - Mas tenho a impressão que este senhor embirra comigo.

- E eu pensava o mesmo de si.

Ela teve uma expressão quase colérica, mas de súbito pôs-se a rir.

- O raio da vida só tem destas coisas.

- Que coisas?

- Sei lá!... Enganos, confusões... Vá, arranje-me isso depressa.

João Eduardo sorria-lhe com indulgência. Silvina fixara este sorriso já entre portas e disparou:

- Você está a fazer pouco de mim!

E João Eduardo só teve tempo de a ir espreitar em cena, extraordinária de convicção, oferecendo-se e negando-se em cada gesto, repetindo no palco uma lição da vida.

Daí em diante, quando passava no corredor dos camarins, apeteceu-lhe muitas vezes atravessar a muralha que isolava Silvina de qualquer novo competidor. Era uma curiosidade cuja satisfação ele ia adiando sempre, por comodismo ou talvez porque o interesse pela rapariga nunca atingira aquela intensidade caudalosa que, em certas circunstâncias, o impelia a correr todos os riscos e a enfrentar as temíveis convenções.

Por vezes encontravam-se à saída do teatro, de fugida, ela cercada dos seus ferozes guardiões, e um e outro atiravam um sorriso cúmplice, malicioso, por cima dessa matilha de dentes arreganhados. Também certo dia, num café, ele vira-a acompanhada de um conhecido industrial, um homem de rosto desfigurado em que era custoso reconhecer uma boca e um nariz, que compensava o estoicismo das suas amantes com uma liberalidade cujos pormenores se haviam tornado lendários. João Eduardo conhecia-o bem de perto, pois visitara-o algumas vezes na casa de saúde, após o acidente de automóvel responsável pela sua medonha fealdade. Tudo o que o industrial conseguira, depois de correr cirurgiões de toda a parte, é que o seu rosto deixasse de ser hediondo para ser apenas repelente. Por fim, desistira de procurar médicos, odiando-os ainda mais do que ao resto das pessoas testemunhas do seu drama. Contavam-se cenas da rua ou dos restaurantes em que agredira barbaramente os que, impressionados, lhe fixavam a anormalidade. Ele possuía, contudo, uma arma: o dinheiro.

E usava-a com requintes de malvadez. Escolhia as mulheres entre as cortesãs mais disputadas, vergando-as com estonteantes generosidades, e exibia-as depois como a demonstrar aos outros que tudo tinha o seu preço. Era a sua maneira de enxovalhar a beleza que o ofendia.

Silvina, num momento em que pudera escapar à vigilância do companheiro, cumprimentara João Eduardo com um piscar de olhos clandestino e amistoso. Mas João Eduardo fingira não o perceber. Não previa que Silvina levasse tão longe a sua cupidez e sentia-se enojado. Viu-se a esmiuçar o horror daquele rosto que ela olhava com impudica naturalidade: um nariz e uma boca substituídos por crateras. Viu-se a imaginar a intimidade de Silvina com esse monstro. Daí em diante, encarava a rapariga com repugnância, como se a sua perfeição física, contagiada por aquele homem, escondesse forçosamente em qualquer parte uma razão de repulsa.

Para quem se via tão cortejada, a indiferença de João Eduardo era um insulto. Talvez por isso, numa das noites, Silvina forjou um encontro, a que deu uma aparência casual, e convidou-o a entrar no camarim.

- Você quer tomar um uísque comigo? - Ele levou os dedos ao relógio, a sugerir alguma tarefa urgente, mas Silvina nem lhe deu tempo a desculpar-se: - ...De contrário, pensarei que você, efectivamente, não simpatiza comigo.

- Tinha de ir ao hospital, não duvide. Mas já agora, para que não fique a pensar tolices, vou demorar-me uns minutos a beber o seu uísque.

Silvina parecia nervosa e irritada. Preparou as bebidas em silêncio, de costas para ele, enquanto João Eduardo fazia um inventário dos bibelots, fotografias, adornos, que apinhavam o camarim. Respirava-se ali um ambiente íntimo, morno, de coisa habitada, embora um tanto sufocante. Nos teatros não era usual essa atmosfera.

- Vê-se bem que você ocupa há muito este camarim e que não está disposta a trespassá-lo.

Era um gracejo infeliz. Ela fingiu que não o ouvira. Subitamente, entregando-lhe a bebida, disparou:

- Agora seja franco. Fisicamente não me acha piada nenhuma, pois não?

João Eduardo não soube que dizer. A pergunta, de tão inesperada, embaraçou-o.

- Porque diz isso?

- É que você é o primeiro, desses que por aí andam, que ainda não pretendeu dormir comigo.

- E esse facto desagrada-lhe?...

Silvina sentou-se. O copo rodava-lhe entre os dedos finos e agitados. Sentia-se frágil como uma menina caprichosa que perde de um momento para o outro o seu poder de persuasão.

- Para uma mulher como eu, talvez desagrade. Não vê que o meu ofício é leiloar a minha... a minha beleza? Que sou eu neste teatro? Uma mulher que sabe mostrar o corpo.

- Anda sempre tanta gente à sua volta, que eu preferi afastar-me, para não ser atropelado. Não gosto de aglomerações... - Olhou-a minuciosa e descaradamente, acrescentando por fim: - Mas não deixo de apreciá-la como mulher. Seria difícil o contrário...

- Mentiroso! E eu que lhe pedi para ser franco!

- Mesmo que essa franqueza seja... como dizer-lhe?...

-Mesmo que seja humilhante para uma mulher.

- Não é bem isso, mas serve... Pois então, Silvina, eu julguei e julgo que você só se preocupa com jóias, dinheiro, amantes ricos e grandes anúncios nos jornais. A sua beleza, de tão mercadejada, não me impressiona. De resto, ainda que uma mulher seja muito atraente, se não me perturbar logo de começo, nunca mais me perturbará. E então, de duas uma: ou desejo ser seu amigo, ou coisa nenhuma.

- Vá-se embora! Agora, vá-se embora.

Mas quando João Eduardo ia a sair do camarim, Silvina segurou-o pelos ombros, cravando-lhe as unhas afiladas na carne. Soluçando, rogou-lhe com histérica ansiedade:

- Seja então meu amigo! Se soubesse quanto preciso de ter um amigo!

Ficaram realmente amigos. Talvez Silvina fosse a única pessoa com quem ele se abria sem suspeições. Por vezes, passavam horas sentados na mesma sala, sem perguntas, sem palavras, e sem a obrigação de as pronunciar, apenas exigindo um do outro uma acção catalisadora de presença.

João Eduardo tinha um apartamento alugado na linha do Estoril, onde fazia terminar algumas das suas aventuras acidentais ou onde se refugiava nos momentos em que a convivência com as pessoas, ou até com a família, se tornava insuportável. Ali, à beira-mar, inteiramente só, gozava todas as gradações da solidão. Era uma solidão apetecível e integral. Da distância enormizada pelo isolamento e pela vizinhança do mar, os acontecimentos surgiam-lhe esclarecidos, suavizados por uma emocionalidade que, aos poucos, se ia tornando impaciente, coagindo-o a regressar sem demora para corrigir as asperezas cometidas nas suas relações humanas. Nesse momento, existia entre si e a vida uma fácil e definitiva reconciliação. Não a conseguia sentir, porém, se vinha acompanhado. Por isso, certas vezes em que trazia uma mulher consigo, havia um instante em que passava a detestá-la, inculpando-a intimamente de uma profanação que ele não soubera impedir. Apetecia-lhe então expulsá-la a pontapés.

Silvina era a única pessoa que ele não sentia intrusa nesse ambiente, perante a qual não se via forçado às precauções de um bicho refugiado na sua toca. Quando a via acocorada junto da varanda suspensa sobre as escarpas, com a testa procurando a frescura das vidraças, de olhos verdes e fundos e enigmáticos como o oceano que perscrutavam, pressentia que estava bem próximo de a amar. Que necessitava desse amor. Que a ternura, entre eles, se tornara um dever. E beijava-lhe brandamente os cabelos, as faces, as mãos, beijava-os tantas vezes até sentir que o amor ia, enfim, despertar.

- Quantas mulheres tens trazido a esta casa?

Silvina não se deixara iludir, fazendo-lho sentir com brutalidade.

- Algumas. Mas todas bem diferentes de ti. - É um elogio?...

O diálogo ficara em suspenso. Ela encostara-lhe o rosto nos joelhos, pensativa.

Mas noutra tarde passada no refúgio, depois de Silvina ter ido aos rochedos molhar os pés na espuma da ressaca e de os seus olhos exprimirem uma satisfação quase pungente, ela dissera-lhe:

- Não me queres?...

Fizera a pergunta, oferecera-se, como quem está habituada a compensar qualquer espécie de dívida com o seu corpo.

- Nem sei bem se te quero, Silvina. Mas prefiro não o saber. Assim é mais seguro.

Ela no primeiro impulso, mostrou-se agastada.

- Chego a pensar que tu... És um sujeito esquisito por mais que a gente afunde a mão para te vasculhar por dentro... Irritas-me. Toda a gente julga que somos amantes e eu não gosto de parecer o que não sou.

João Eduardo, enervado também com o inesperado rumo da conversa, procurara feri-la de qualquer modo:

- É uma razão importante, sem dúvida, para os teus brios de mulher irresistível; mas eu não tenho dinheiro suficiente para te merecer. Se fosse tão rico como esse Quasímodo que te passeou pelos cafés...

Silvina recolheu imediatamente para dentro de casa, começando a vestir-se com gestos desabridos. Enquanto sacudia os cabelos ao espelho, não muito compenetrada do que estava a fazer, desabafou por fim:

- Ah, é então por isso... Nunca lhe aceitei um tostão, fica sabendo.

- Não, não é por isso. Não sejas estúpida.

A frase de Silvina desarmara-o e sentia-se vexado de não lhe ter ocorrido nada que se parecesse com aquela hipótese.

Instantes depois, de olhos fechados, as mãos trémulas, puxou-a para si. Amaram-se rudemente. Com o violento desespero de que talvez não houvesse uma vez seguinte.

No regresso à cidade, parou bruscamente o carro e,

no escuro, defendido do olhar da rapariga, perguntara

ainda, com agressividade:

- Então porque o acompanhavas? - A quem?

- A ele!

-Ainda estás a pensar nisso?... Acompanhava-o porque ele precisava de mim. Alguém deveria convencê-lo que o seu defeito físico não tinha assim tanta importância. Ele sentia-se só.

Seria Silvina melhor actriz fora do palco? Ou era ele, afinal, congenitamente incapaz de penetrar no que as pessoas tinham de mais verdadeiro, de prever que elas se poderiam violentar de tal modo em favor dos outros? Acompanhá-lo-ia Silvina por isso mesmo, por senti-lo só?

Amuado, acendeu um cigarro e prosseguiu a marcha. Lançara o automóvel numa corrida desvairada. - Vais com pressa...

- Preciso de chegar cedo a casa.

- Todos os teus actos me lembram um adultério contra-relógio. Um minuto mais e a coisa descobre-se! Passas a vida a procurar que esse minuto te não comprometa.

- Às vezes apetece-me esbofetear-te.

-Fazes mal em não passares do desejo à acção. Nunca mais me perdias. Para uma mulher, nada melhor do que uma boa tareia.

Da cidade, já tão próxima, apenas se viam os olhos amarelos, suspensos na noite. Ele teria preferido ir ali sem Silvina. Sem ninguém. Silvina, nas súbitas e desconcertantes mutações do seu temperamento, sugeria-lhe às vezes uma cobra. Até os seus olhos, que reflectiam e absorviam várias cores, conforme as circunstâncias, do cinzento ao verde-esmeralda, lhe pareciam então diabólicos. Capazes de tudo. Capazes de serem malvados. Aliás, sempre que regressavam à cidade, um e outro reconheciam que o sortilégio se tinha quebrado.

 

João Eduardo já não tinha muita esperança de encontrar Silvina no teatro. Era demasiado tarde, conquanto a segunda sessão do espectáculo se prolongasse por vezes até muito depois da meia-noite. A não ser que ela se tivesse demorado com alguns amigos. Silvina gostava muitas vezes de cear no camarim; o próprio empresário tolerava esses e outros caprichos, aceitando resignadamente que ela dispusesse do seu domínio como melhor lhe aprouvesse. Se o porteiro ou a costureira lhe vinham lembrar, de olhos implorantes, que eram horas de retirarem para suas casas, ela atirava-lhes com dinheiro.

- Fiquem mais um bocado. Vocês têm sono porque olham para o relógio...

Dir-se-ia que Silvina desejava experimentar nos outros o poder do dinheiro, talvez para se justificar da sua própria venalidade.

O porteiro respondeu com um resmungo mal-humorado às boas-noites de João Eduardo. O teatro estava efectivamente deserto. Aquela hora até as luzes pareciam exaustas e ansiosas por dormir. "Mas que venho eu aqui fazer?", e embora, a meio do corredor, tivesse hesitado uns instantes, acabou por prosseguir. A porta do camarim estava encostada. Ele empurrou-a discretamente, depois de bater com os nós dos dedos.

- Há aqui lugar para um tresnoitado?...

- Entra.

Era uma voz contrariada.

- Incomodo?

- Olá, João. Entra e fecha a porta.

Não era uma voz contrariada, mas sim repassada de fadiga.

- Que aconteceu?

- Nada. Porque perguntas?

Silvina pôs-se a abrir e fechar gavetas, sem finalidade. Era um pretexto para que ele não a pudesse apreciar de frente.

- Então já percebi.

E, de súbito, João Eduardo, ao assentar-lhe as mãos nos ombros, viu-se aliviado do desassossego e do pânico que o haviam trazido ali. Silvina estava amargurada, mesmo que fosse por uma ninharia, e tudo se passava como se o desassossego ou o pânico se tivessem reduzido às suas devidas proporções ou como se se tivessem deslocado para ela. Sentia-se quase alegre.

Silvina, porém, afastou-lhe as mãos.

- Que é que percebeu?!

Ela estava de facto abalada. Mas a verdade é que ninguém podia levar muito a sério os desgostos de Silvina, na qual se tornava arriscado destrinçar a futilidade do drama. Ela tinha uma tendência espectacular para avolumar fosse o que fosse. Bastava que o agente publicitário do teatro não lhe fizesse imprimir o nome em letras gordas para que se julgasse ferozmente perseguida e infeliz.

- Foi um queridinho que se zangou, aposto...

Ela teve um estremecimento de revolta. Fitou-o depois demoradamente, como se o avaliasse pela primeira vez. De lábios secos, narinas frementes, pôs-se de novo a vasculhar as gavetas.

João Eduardo já não sabia que dizer ou fazer. Esquecera inteiramente os motivos que o haviam trazido à presença de Silvina. Talvez nunca os tivesse podido definir. Dentro de si só havia aridez. Era bom que assim acontecesse: a aridez apaziguava-lhe as torturas através de uma renúncia repousante, afastava-o, já sem dor, de todas as coisas indesejáveis ou daquelas que embora desejadas, ele não sabia ou evitava identificar. Fosse como fosse, essas coisas, umas e outras, ter-iam exigido muito. Demasiado. E o seu pânico provinha certamente de pressentir, por instinto, que não poderia colher em si a dádiva ou a coragem necessária para as merecer. Aridez, aridez. Pois que assim fosse. Seria preferível reconhecê-lo. Era um monte de cacos, de ruínas, de esterco. Não tinha o direito de estar presente numa época que procurava um novo rosto. Era lixo dos que, desagregados, ficavam para trás. Ia cruzar os braços e esperar pacientemente que apodrecesse. Podia ser que, para os outros, fosse útil assistir à sua podridão.

O seu diálogo com Silvina fora estúpido e cruel. Cruel, sobretudo. Não saberia porquê, mas adivinhara-o. Já que nada lhe restava, ia ser estúpido e cruel até ao fim. Era uma experiência fascinante: despir a sua humanidade fictícia e ser reles, mesquinho, árido.

- Eu, que estou de fora, sou de confiança. Que aconteceu, rapariga?

- "Que estou de fora"! Não passas de um traste como os outros.

A reacção de Silvina atiçava-o. Poderia agora refinar-se em pequeninas e voluptuosas torturas. Só de prevê-las, sentia-se decisivamente liberto dos fantasmas dessa e de outras noites.

- Mas, rapariga, como poderia eu deixar de dizer que "estou de fora"? E não é essa a posição indicada para um confidente prestável? Vá, que aconteceu? Qual dos queridos te pregou a partida?

Ela não parecia com forças para reagir mais tempo. - Leva-me daqui, João. Leva-me a um sítio qualquer.

- Diabo, vejo que o caso afinal é grave... Quando te dá para as melancolias...

O porteiro pediu licença para entrar. Embora a presença de João Eduardo manifestamente o constrangesse, decidiu-se:

- Está ali um cavalheiro a esperá-la. Deseja saber se a senhora ainda se demora.

- Diga-lhe que entre.

Quando o porteiro desapareceu, João Eduardo, indeciso quanto à atitude a tomar, disse:

- É ele?... Então, despeço-me, fazendo votos por

uma emocionante reconciliação.

Silvina fechou os olhos para se conter. Parecia definitivamente destroçada.

- Fica, peço-te. Resolvo isto num momento - e pôs-se a empoar rapidamente o rosto como se a tivessem chamado para o palco. Junto dos olhos reforçou a dose de pó-de-arroz. Estava ridícula e feia.

O homem entrou no camarim sem reparar em João Eduardo. A sua saudação foi um reles galanteio:

- Esta noite estás pêssega!

Silvina, em situações idênticas, costumava escolher ao acaso, mas sempre com eficácia, uma frase brejeira ou um sorriso langoroso. Mas dessa vez nem o sorriso profissional lhe chegou ao rosto mascarado.

- Estou acompanhada. Tenho aqui um amigo que me veio buscar.

O homem, ao verificar a presença de uma testemunha, teve uma expressão de quem é apanhado numa ratoeira. Estava aturdido e furioso e bateu com a porta atrás de si. Também João Eduardo reagiu do mesmo modo, embora lhe parecesse que não poderia repetir a retirada e o bater de porta do amigalhaço de Silvina: o outro esgotara os recursos indicados para o momento. Que deveria então fazer que não estivesse desde logo condenado ao ridículo? Silvina continuava a empoar-se e colocara os braços de tal modo que nem através do espelho a poderiam observar. "Que devo fazer?" Irritava-o e humilhava-o participar de um jogo que outros conduziam traiçoeiramente. Exacto: traiçoeiramente. Fosse o que fosse que Silvina tinha na ideia, empurrara-o para uma emboscada. Além disso, sentia-se um tanto amedrontado. Havia certamente uma história por detrás daquilo e Silvina distribuíra-lhe o papel de peão de brega. Não era excessivo imaginar que o homem ficara lá fora a esperá-los com uma navalha pronta a saltar do bolso. Essa sugestão não era nada agradável e antecipava-se através de um prenúncio de dor física. Medo era dor. Silvina surgia-lhe agora mais odiosa pela sua conivência com o perigo que o espreitava lá fora. O mais sensato seria retirar-se sob qualquer pretexto, escamoteando-lhe os planos, deixando-a a digerir as frívolas desditas, e, à saída, tomaria algumas precauções. O homem, se o visse só, certamente que não iria desperdiçar com ele os seus rancores, preferindo acumulá-los para o ajuste de contas com a rapariga. O negócio era lá deles. Resolvessem-no ambos.

A atitude de Silvina, contudo, não deixava de o intrigar: ela sabia dosear muito bem os humores, de modo que os seus destemperos nunca espantassem irremediavelmente os pretendentes; a maneira como sacudira o desconhecido era anormal. Observando-a com mais vagar, foi impressionado pelas olheiras fundas, sofredoras, por qualquer coisa que, de chofre, lhe fez despertar o faro profissional, sempre alerta para intervir nas suas relações humanas. Lembrou-se que ela era mulher para ter suportado duas sessões do espectáculo depois de se entregar, horas antes, à selvajaria de uma parteira. Deu a suspeita por confirmada e, sem tomar consciência da brusca transição, reagiu como médico. Esteve quase para lhe levar os dedos ao pulso. De um instante para o outro, esquecera as suas prevenções contra a rapariga, que o enredara numa cilada, e esquecera o valentaço da navalha no bolso. Era apenas o profissional a perguntar numa ardilosa simpatia:

- Tens cara de doente. Não me achas capaz de ouvir um segredo?

Ela tinha agora as faces limpas de cosméticos. Esfregara-as com um líquido oleoso e já nada lhe ocultava os olhos vermelhos do choro.

- A vida é uma porcaria, João. Tenho ódio à vida! - Há muita gente a pensar o mesmo. Mas reconheço que não são esses que interessam.

-Não troces de mim! Hoje, não. Hoje não o deves fazer.

-já alguma vez trocei de ti?

E ao mesmo tempo que ele se aproximava, numa irrefreável manifestação de apoio, Silvina corria-lhe para os braços, um navio lançando a âncora num porto, soluçando com um frenesi em que as lágrimas explodiam já trituradas.

João Eduardo punha-se de novo a imaginar o que poderia ter acontecido. Não havia dúvida que a rapariga estava abalada. Podia o motivo ser insignificante, mas ela sentia-o profundamente; e embora a sua necessidade de desabafar fosse evidente, alguma coisa, orgulho ou pudor, lho impedia.

- Veste-te depressa. Vamos daí beber um bom par de copos.

Pensou de novo que alguém de maus fígados estaria a rondar-lhes a saída, mas essa hipótese dava-lhe agora um furioso estímulo. Uma briga far-lhe-ia bem. Voltara-lhe a informe e corroedoira ansiedade de horas antes, e uma violência, uma violência bárbara e cega, que terminasse num total obscurecimento dos sentidos, num total despojamento da sua personalidade, apresentava-se-lhe, por fim, como a mais eficaz das soluções.

Afinal, encontrou a rua deserta. Afoitou-se ainda, num recanto onde os cartazes publicitários poderiam acobertar uma traição e, um tanto desiludido, abriu a porta do carro a Silvina. Ela não lhe deixou ir muito longe a expectativa. De chofre, pegando-lhe no braço, despejou:

- Eu, que tanto me tenho sacrificado pela minha filha, soube hoje que ela tem vergonha de mim. Toda a minha ambição, podes crer, era fazer da minha filha uma senhora, uma verdadeira senhora, e ela tem vergonha de mim. Achas que é justo? Eu posso ter sido a pior das mulheres, mas como mãe, João...! Como mãe, tenho a consciência tranquila.

A voz não se lhe alterara. Era branda como um choro furtivo e monótono. E, efectivamente, o choro veio por fim, exprimindo-se por lágrimas sujas que apenas se revelavam por arrastarem consigo os restos da pintura, desenhando sulcos grotescos no rosto empalidecido. João Eduardo sentia-se sufocado. De novo as vísceras se lhe contraíam. Precisava de deglutir a respiração.

Tinha diante de si uma desconhecida. Horas e horas passadas em comum e desconheciam-se tanto como dois estranhos. Mais do que dois estranhos, visto que a distância ainda consente que a imaginação a preencha. Mas essa revelação era reconfortante: as pessoas, todas as pessoas, por mais esgotadas e estéreis que parecessem, guardavam em si disponibilidades surpreendentes de sofrimento, de crença, de redenção. Talvez ele... As pessoas precisavam apenas de confiar ou de ser sacudidas por um estremeção.

- Tu tens uma filha, Silvina?!

- Tive. Agora não sei. Ela tem vergonha de mim. Repetia as palavras como uma obsessão. Ou como se as tivesse gravado num disco.

Apetecia-lhe compensar a amargura de Silvina com uma confidência igualmente amarga. O carro deslizava sem ruído na estrada asfaltada, à beira do rio que vinha sussurrar indolentemente junto dos molhes, a espreguiçar-se pela última vez. O rio e a noite dir-se-iam submersos num luar coagulado.

Silvina contara-lhe, enfim, o seu caso, e nas suas lágrimas já não havia drama. Sugeriam-lhe a chuva que escorre num dia cinzento apenas por conivência com a melancolia do tempo. João Eduardo deixara uma das mãos livres no braço da rapariga. Silvina tinha uma filha, um motivo secreto para viver ou para morrer, um sonho que, mantendo-a de pé, afinal acabara por desmoroná-la - e essa surpresa excitava-o. Não, talvez, pelo facto de aquela rapariga frívola e ambiciosa se ter revelado frágil, e também heróica, mas porque o seu sofrimento lhe dera, a ele, uma oportunidade, que pouco antes lhe parecia inviável, de vibrar por um acontecimento humano. Todos acabavam por se definir, por tomar partido, e no dia em que o percebessem, a cru, já não poderiam recuar. Não havia sido o Medeiros a dizê-lo? Ora ele desejava precisamente chegar a um ponto qualquer e já não poder recuar. Havia algumas constantes na sua vida: a profissão, Jaime, Luísa. Precisava apenas de as recompor dos destroços. Tinha o necessário para não se desperdiçar mais tempo por atalhos.

A dor ia-se gastando em Silvina, bem o pressentia, e por isso todo o seu propósito era canalizá-la para si, recuperando-lhe a intensidade inicial que se perdia na rapariga. A dor em Silvina era agora um rescaldo silencioso e fatigado. Aproveitaria esse silêncio para se flagelar com a revisão de tudo o que Silvina lhe dissera, até que pudesse senti-lo como seu. Depois, o diálogo continuaria.

Ela escondera a existência da filha não por si, mas para a defender do ultraje da sua profissão. Era uma história barata. Leiloava o seu corpo pelos palcos de terceira ordem, por alcovas de libertinos, para que a outra, a mãe, pudesse oferecer à filha um futuro dentro das boas normas da dignidade burguesa. Resguardara-a num dos melhores colégios dos arredores da cidade e quando a visitava pedia de empréstimo um casaco à costureira do teatro, a fim de lhe aparecer com a simplicidade honesta de uma pobre mulher. Passavam as férias foragidas num esconderijo aldeão, nas montanhas da Beira. Escondia-se do mundo, acossada pelo receio de que alguém pudesse identificá-la com a mundana dos teatros da capital.

Silvina pormenorizara tudo isso. Ela tinha, pois, uma aguda e trágica consciência de que a sua celebridade era uma nódoa. Um ferrete. Avaliava-se, assim, através da mentalidade burguesa que ela afrontava para melhor a ludibriar e merecer. Uma história efectivamente sem imaginação.

Na última visita que fizera à filha, esta recusara-se a aparecer-lhe. Por fim, quando a directora do colégio a conseguiu trazer, forçada, à sala de visitas, a garota, com a decisão de uma adolescente que, de súbito, surge adulta, dissera: "Deixe-nos sós, por favor." Não era necessária a recomendação, pois tornara-se habitual irem ambas gastar essas horas tão desejadas no bosque que prolongava a cerca do edifício, mas a frase pretendia traduzir uma vontade que tem urgência em manifestar-se. Silvina foi acometida por um pressentimento. Tinham ficado as duas de pé. A filha começara então uma série de perguntas, ditas friamente, e nos seus modos havia uma austeridade em que a mágoa e o nervosismo procuravam, inutilmente, esconder-se.

- Que mulher és tu?

A pergunta doera-lhe como uma pedrada: era uma estranha ou uma inimiga que a interrogava. Por último, a garota, depois de ouvir a mãe responder-lhe como culpada, escondeu o rosto nas mãos, enterrou os dedos na carne que era preciso torturar, gritou antes de sair da sala:

Não te quero ver mais. Nunca mais, nunca mais! As outras não querem brincar comigo; dizem que sou filha de uma má mulher.

Silvina contara aquilo com a amargura frenética das primeiras reacções, mas, de momento para momento, seguia-se uma dor velada, quase discreta. No dia seguinte ela teria envelhecido alguns anos sobre esta dor.

João Eduardo ia a prolongar o passeio na direcção do seu covil, que nunca lhe parecera tão apropriado como agora para favorecer uma atmosfera de afectividade, mas Silvina impediu-lho.

- Não, não me leves a tua casa.

- Como queiras. - Arrependera-se logo do azedume da frase e corrigiu-a numa voz compadecida: - Há muitos sítios onde se beber. E tu precisas efectivamente de beber.

A insinuação era uma tentativa para que Silvina não se escapasse ao sofrimento. Não podia sentir-se desapoiado nesse clima de tensão emocional; receava fraquejar antes que dele resultasse um objectivo.

- E se fôssemos... - insinuou a rapariga.

- Deixa isso comigo.

Lembrara-se de um retiro de fados. Tinha a certeza de que iria encontrar ali alguns dos seus bons clientes, gente da alta-roda que se apossara dos lugares da ralé, aristocratizando-os sem, porém, habilmente, lhes roubar a excitante ordinarice. Durante dias não se comentaria outra coisa senão ele ter aparecido em público, ostensivamente, com uma amante. Eles caprichavam numa vida reles e irregular, mas não permitiam que os seus servidores, e o médico era um deles, ousassem imitá-los.

Desta vez, porém, ousaria; fora por isso mesmo que escolhera o retiro. Era uma espécie de prova a que se sujeitava.

Entraram justamente no momento em que as luzes se apagavam, substituídas por candeeiros de uma cor funesta, que tornavam a penumbra inquietante. Dir-se-ia que se ia supliciar alguém ou praticar um rito de bruxedo. Ou as duas coisas. As pessoas tinham-se imobilizado de repente. Eram peças agónicas e estáticas de um terrível cenário. Quando João Eduardo, procurando fazer o mínimo ruído possível, alcançou a única mesa vaga, já a cantadeira, no seu papel de sacerdotisa, ocupara o lugar entre os tocadores. E de súbito estalaram os aplausos. A cantadeira agradeceu com sobriedade, conservando a expressão de desgraça que trouxera dos bastidores; quando parou de agradecer, foi o sinal para que a assistência ficasse de novo religiosamente atenta. O rosto caído para trás mergulhou na sombra, misturou-se com o maciço farto da cabeleira, e só a garganta trágica e longa se ofereceu à denúncia dos candeeiros. Começou por um lamento rouco que logo degenerou num uivo de fêmea maltratada. Os circunstantes, de olhos fixos nessa garganta onde se passavam tão pungentes acontecimentos, tornaram-se também roucos, solenes e infelizes.

Um criado atreveu-se a deslizar por entre as mesas, averiguando dos desejos de João Eduardo e da sua companheira.

- Não me parece que tivéssemos acertado na escolha desta igreja para uma bebedeira conscienciosa - ciciou João Eduardo para Silvina.

- A culpa foi tua - e sorriu-lhe ternamente. Mas as palavras, ali, mesmo segredadas, eram uma

heresia. Vários assistentes protestaram.

- Traga-nos conhaque. E uísque também. - E para Silvina: - Agora, porta-te bem.

A cantadeira voltava-se para um e outro lado da sala, numa cadência tão regular que dir-se-ia sincronizada com um relógio ou com um contador de compassos, distribuindo o seu choro equitativamente por todos os clientes. De cada vez que rodava o corpo, os braços aconchegavam o xaile negro sobre o ventre espartilhado. Ela era grossa e imensa; talvez por isso, a tragédia, na sua garganta, era sobretudo o rescaldo insolente de uma bebedeira.

O fim anunciou-se, como sempre, por um ganido demorado, por uma distorção mais acrobática, de pescoço, coincidente com o histerismo dos aplausos e com o regresso da luz. Como se precisassem de ser libertas de uma opressão, as pessoas levaram imediatamente as mãos aos copos. Um homem loiro, decerto estrangeiro, pouco receptivo ao misticismo que o rodeava, enterrara-se numa cadeira e esforçava-se, em vão, por obter um pouco de flexibilidade nas pernas e ficar de pé. Desistindo, por fim, recostou-se ainda mais para trás e repetiu solitariamente os aplausos. Um criado veio, com a sua presença, impor-lhe a devida compostura, mas o ébrio, não lhe percebendo a piedosa intenção, pediu outro conhaque.

João Eduardo, a meio do uísque, recuperava serenidade. Naquele ambiente de artifícios, a história de Silvina parecia-lhe mais artificiosa ainda. Indigna da sua emoção. Era uma história que a fadista, com toda a garantia de triunfo, poderia adoptar no seu reportório. Ou estaria ele a esquivar-se já a uma solidariedade emocional fugazmente desejada? Era talvez necessário substituir esse estímulo por outro mais permanente, mais fundo, mais sólido. Mas antes de lá chegar, para se prevenir contra o desperdício, deveria traumatizar-se e traumatizar quem quer que fosse, com varas bem aguçadas, como a um toiro antes de ser corrido. Ferindo-se e ferindo, abriria um rasgão numa crosta convencional, desventrando lodos e virtudes - até que jorrassem os sentimentos autênticos. Bebera já alguns copos e sentia, para começar, a nebulosidade nauseada do costume. Tinha horror às bebidas. Insistia por vezes em beber como se ingerisse uma droga. Sabia que acabaria por vomitar, mais tarde, mas era a única maneira de manter uma espécie de maldade, de viril domínio dos acontecimentos.

Rodou o copo entre os dedos e despejou-o mais uma vez. Silvina tamborilava no tampo da mesa. Parecia completamente refeita das suas mágoas. A sua tranquilidade podia ser falsa, mas, de qualquer forma, era impudica.

- Tenho um palpite de que a seguir canta o Arnaldo Vinhas - disse ela. Era tudo o que lhe interessava: o Vinhas, com os seus modos de arruaceiro de Alfama, famoso por cuspir no chão e bater nas mulheres. Um fadista genuíno. - Gostas de o ouvir?

- Qualquer um me serve. Ainda estou a pensar na tua história...

- Que história?

- Da tua filha. Desconfio que fui intrujado. Ela lançou-lhe um olhar aturdido.

- Que queres dizer?

- Desconfio que a inventaste para me comover. Gostaria de estar certo do contrário.

Era como se a arranhasse com as unhas afiadas, ao mesmo tempo que ajudava o picador a enterrar bem fundo as varas na sua própria carne. Dava resultado: sentiu logo que havia menos distúrbio nos seus nervos. Lembrou-se dos doentes a quem se abria uma veia: a sangria afrouxava-lhes a rebeldia agressiva perante os que os amimavam.

- Não estás habituado a beber...

- Sei muito bem o que digo. O que não percebo é onde querias chegar com as tuas lamúrias.

Silvina continuava perplexa. Mais perplexa do que sentida.

- Não te respondo.

Em todo o caso, ele ainda esperou que a rapariga se decidisse a insultá-lo, a reagir de qualquer modo, de preferência com uma daquelas memoráveis cenas que, nos seus dias de destrambelho, abalavam o teatro de alto a baixo. Mas de novo ela o deixava só, não compreendendo.

- Bebe mais qualquer coisa, Silvina. E fala-me, fala-me, com mil diabos! Diz-me o que quiseres, mesmo que sejam mentiras!

- Estás bêbado. Vou-me embora.

- Não te permito!

- Estão a olhar para nós.

Dentro dele retiniu uma campainha de alarme. Por muito que o cérebro e os sentidos de João Eduardo estivessem entorpecidos, a frase de Silvina punha em jogo uma série vigilante de reflexos condicionados. Estava em face dos outros, da censura dos outros, daqueles que espreitavam uma razão para lhe derrubar um edifício pacientemente elaborado. Todas as suas fraquezas, até aí, se tinham escondido na penumbra: as aventuras, os teatros e os meios frequentados por desconhecidos ou por gente duvidosa a quem o seu comportamento era indiferente. Ali, porém, ele exibia-se com uma mundana de nome e presença berrantes. Todos os que o rodeavam se sentiriam ufanos em encontrar-se no seu lugar, mas não lhe aceitavam, a ele, o descaro. Iriam pressurosamente badalar o acontecimento, antes mesmo, talvez, do que as suas mulheres. Mas não era isso o que ele tinha desejado? Fazer explodir as cobardias, as indecisões, ir em frente com a certeza de uma direcção, trilhá-la de cabeça erguida? Chegara a altura de tomar partido, e de um modo, como dizia o Medeiros, em que já não pudesse recuar.

Olhou à volta. Não se lembrava de ter visto anteriormente nenhuma daquelas caras, ou então era a bruma dos olhos que lhe impedia um reconhecimento esclarecedor. Isso não obstava a que fossem os outros a reconhecê-lo: ele não podia reter toda a gente que lhe passava pelo consultório ou que, simplesmente, lhe era apresentada nas reuniões; os outros é que, enrolados na vida alheia como gavinhas, levavam muito a sério esses encontros fortuitos e raramente os esqueciam.

De súbito, sentiu uma alegria feroz: essa noite era o começo de um desmoronamento definitivo da sua personalidade desagregada. Era necessário que alguém morresse, dentro de si, que no dia seguinte fosse outro a acordar destemidamente para a vida. Só precisava que um brutal acontecimento lhe completasse a ruína para, então, renascer. Mas quantas coisas sacrificadas a essa destruição ficariam para trás?

O ébrio pôs-se de novo a bater palmas, desejando estimular, por certo, o regresso da cantadeira. João Eduardo bebeu o resto da bebida e, de olhos fixos no interior do copo, recaiu num silêncio de que seria custoso despertá-lo.

As conversas em redor confundiam-se num rumor indistinto e, mesmo quando agitadas, eram discretas. Chegavam até eles fiapos de diálogo, soltos e fugazes,

que, no entanto, não contribuíam para o absorver no ambiente. Ao contrário de João Eduardo, Silvina conhecia de vista algumas daquelas pessoas. Vinha muitas vezes cear ali e rostos e objectos já lhe transmitiam qualquer coisa de familiar. Um rapaz ainda muito jovem que se encostara ao balcão olhava-a com insistência, fazendo gestos eloquentes com a boca. Tinha uma boca efeminada, mas túmida. Apetecível. Enquanto Silvina acendia novo cigarro, as palavras torpes que João Eduardo pronunciara acudiam-lhe à memória, mais torpes ainda do que na altura em que as havia escutado. "Estou a pensar na tua história... Desconfio que fui intrujado." Alguém as repetia sadicamente no seu cérebro: "Desconfio que fui intrujado." Que intenção era a dele, atormentando-a?

- ...E eu identifiquei-o pelo gosto salgado da sua boca. De nada lhe valeu tapar-me os olhos.

A mulher, na mesa ao lado, dissera a frase rindo, mas nesse riso sentia-se um fundo de áspera e cínica impassibilidade. Os companheiros dela olharam uns para os outros à espera que um deles se decidisse a rir também. A mulher, porém, seria indiferente qualquer reacção: tinha posto as mãos em cima da mesa, e de um modo que sugeria que nunca mais pretenderia levantá-las dali. Silvina reparou nessas mãos: as unhas eram mal cuidadas; o esmalte estalara em certos pontos, deixando à vista viciosas manchas de nicotina. Deu-lhe prazer verificá-lo.

O rapaz de boca efeminada tinha mudado de lugar para que Silvina o visse melhor. A sua boca deixara de ser apetecível: agora causava-lhe horror. Uma nova cantadeira, de gestos morosos e conformados, viera encostar-se à parede; parecia alguém à espera de ser executado.

As luzes esmoreceram na sua agonia sanguínea. Pelos olhos semicerrados de Silvina parecia filtrar-se mágica e torturadamente o choro das guitarras. Como ela sentia o fado! Como o lamento primário da melodia lhe comunicava uma infelicidade saturada e envolvente! Sem aquele xaile e aquela luz, a cantadeira seria uma simples rapariga das ruas; ali, com o rosto inundado de uma expressão amarga e ousada, era uma mensageira de sagas e tragédias, uma precursora de destinos, de tudo o que nunca chega a tornar-se realidade. Silvina via-se possuída de um desejo irreparável de entrega, de renúncia, de martírio. Era uma tristeza tão pérfida que foi em busca do companheiro.

- Estás zangado comigo, João? Mas eu é que o deveria estar... - Permanecia em Silvina a voz terna, compadecida e agora também sonolenta. - Não te percebo.

João Eduardo resmungou. Negava-se-lhe. Ele sentia-se ausente e confuso. Os seus pensamentos procuravam afincadamente qualquer coisa boa, já descortinada, que por vezes parecia estar muito perto para logo se afastar, e o esforço da busca aumentava-lhe o entorpecimento. Já que não conseguia chegar aonde queria, iria procurar num sentido oposto; e o seu cérebro pôs-se a perseguir coisas várias e menos fugidias, Jaime, Luísa, o hospital, o Cunha Ferreira, na intenção de corporizar amarguras, preocupações, horrores; mas nem essas coisas mais próximas se tornavam acessíveis. Mesmo os circunstantes, quase reais sob a luz sinistra dos candeeiros, mulheres de cútis opaca, homens de cabelo ensebado ou simplesmente sem cabelo, e todos solenemente estúpidos, existiam para lá de uma zona interdita. Na sua busca, afinal, o que havia de menos brumoso eram os elementos que transpunham uma realidade acontecida para se projectarem em esperanças reveladas: Jaime, Luísa, ou pessoas sem nome e sem história que justificavam a sua presença por um pormenor intensamente vivido.

Dali seguiria para casa do Jaime. Iria acontecer qualquer coisa importante na sua visita ao amigo. Nada estava perdido: tanto nele como no Jaime. Jaime podia curar-se. Nunca se sabia a evolução de um tuberculoso. Ele levaria o amigo a acreditar firmemente na cura, no futuro. Seria fácil consegui-lo se pudesse fazer-lhe crer que também poderia acreditar nele. E depois do Jaime, os outros. Começaria por dizer ao vinhateiro, ou ao Cunha Ferreira, ou ao Medeiros, o que não tinha dito ou podido dizer nessa noite. A antecipação de todas essas libertações tornava-lhe o cérebro e a respiração leves. Sairia de um charco para a atmosfera límpida de uma montanha. O Medeiros seria, daí em diante, o seu grande companheiro.

Vagas lembranças acudiam em seu auxílio e logo se afastavam, num vendaval. Dias antes, depois de lutar em vão contra a agonia de uma criança, viera entregá-la, por fim, aos braços silenciosos dos pais. A criança morreria, talvez, mas, ao passá-la dos seus braços para os dos pais, sentira qualquer coisa como uma oferenda de si próprio entregue também nesse gesto derrotado - a profunda participação num drama alheio. Nunca mais voltaria a desperdiçar e a trair essa emoção.

Quanto a Luísa... Bem, iam acontecer coisas, estava certo disso. A começar nele próprio, bem entendido. Poderia Silvina caber nessa renovação? Certamente. Silvina era uma pobre rapariga; e precisava de um calor humano impossível de esperar da fauna que dela se servia.

Para já, gostaria que ela o acompanhasse nas bebidas.

- Bebe outro uísque. Posso garantir-te a terapêutica...

- Nunca sei quando falas a sério.

Ela estava melada nessa noite. Preferia vê-la de garganta esticada, como a cantadeira.

Entraram novos clientes. Uma mulher alta, feia, ladeada por dois homens, que, à sua ilharga, pareciam duas hastes decepadas de um espectaculoso candelabro. Os olhos da dama, muito negros e vorazes, pesquisaram com eficiente rapidez os diversos grupos. Sempre que encontravam uma presa, tornavam-se inquietos até que o seu cumprimento fosse correspondido, e de cada vez parecia recear que o não fosse. O seu nervosismo revelava-se pelo gesto, desnecessariamente repetido, de ajeitar o chapéu, que, na sua excentricidade, sugeria um boné com a pala revirada para trás, como usavam os ciclistas da geração passada.

- Este estafermo conhece toda a gente, reparaste? Ou força os outros a que a conheçam.

Silvina não reparou na voz empastada do companheiro. Soou-lhe a uma voz carinhosa, apaziguada, e era isso que gostaria de reter.

- Quem é?

- Uma tipa que não se aguentou em ter subido uns furos na chamada escala social. Ao filar à pressa a oportunidade pelos dentes, ficou suspensa, como os acrobatas.

- Mas quem é?

- Pergunta antes quem é o marido. É ele o responsável pela acrobacia.

- Que fez ele?

- Nada. Os outros é que o fizeram administrador de um banco. Altas políticas da finança...

- Nunca te ouvi falar dessa maneira...

João Eduardo passou à frente da interrupção, embora a frase de Silvina começasse logo a roê-lo.

- ...Mesmo essa casta de nobres arrebentados são obrigados a admiti-lo, e aos chapéus da esposa, no seu meio. É uma das concessões que esta aristocracia da borra já não está em condições de recusar. Eles precisam de dinheiro. De muito dinheiro, Silvina. E aquele homenzinho que ali vês, tão constrangido como parece, certamente morto por se ir deitar, que trocaria estes fados e estes uísques e as jantaradas a que o convidam por duas sardinhas assadas, aquele homenzinho pode facilitar-lhes algum.

- Tu hoje estás tão diferente, João - insistiu.

- Nem todos os dias bebo. E nem sempre fui a pessoa amável que tens conhecido. Tal como ao homenzinho banqueiro, ensinaram-me a dissimular.

- E a mulher, a mulher do banqueiro? - desviou rapidamente a rapariga.

- É o que vês. Já te disse que aproveita a sua oportunidade. Toda a vida desejou imitar os que estavam por cima. Nunca desejou outra coisa. Conseguiu-o, embora a experiência a sujeite a algumas humilhações. Mas quem sabe o que quer, suporta muito bem essas contrariedades. - E abruptamente: Nunca mais pensaste na tua filha?

- Porque perguntas?

- Por nada.

- Apetece-me estar só, ir para casa.

- Não te estorvo. Eu, por mim, quero ir bêbado para casa e ainda não bebi o suficiente. Tenho mesmo a impressão que estou muito mais lúcido do que quando entrei nesta espelunca.

Pegou no copo, apertando-o, como se o quisesse estilhaçar entre os dedos. Na névoa dos seus olhos, lá ao longe, infinitamente longe, estava de novo Luísa. Luísa a esperá-lo à entrada da porta. Talvez fossem juntos visitar o Jaime. Ela falava demasiadas vezes no Jaime. "Luísa, venho bêbado, finalmente. Já há mais tempo que isto devia ter acontecido. Não, não penses mal de Silvina: é uma boa camarada e sem ela não teria bebido. Eu precisava de inventar um pedaço de coragem de qualquer maneira. Assim é mais fácil. Quero falar-te, Luísa! Quero falar a toda a gente. Mas é preciso coragem para falar aos outros, mesmo que se trate de ti, Luísa. Bebi para largar a pele. Há uma verdade em qualquer lado, uma coisa que nos mostre que vale a pena. Mas antes disso temos de arrumar uma data de assuntos. Sim, traz os garotos para o pé de nós. Também tenho coisas a dizer-lhes. Vamos falar todos sem temer as palavras. Sou muito bem capaz de dizer a esta tipa que o seu chapéu ficaria bem na cabeça de um palhaço. É um chapéu indecente para a mulher do chefe de uma quadrilha. Isto está danado de divertido, Luísa. Ajuda-me, Luísa"

Luísa estava já ali; estava por detrás dos seus ombros. Se estendesse as mãos, tocá-la-ia. Recordava-se agora que viera numa noite àquela casa de fados, com ela e alguns amigos, e que, ao acabar de dizer uma frase untuosa a um deles, experimentara a sensação de que Luísa o observava de um modo irreparável e intraduzível. Voltara-se de repente para confirmar o pressentimento. Ela nem tentara disfarçar: encarava-o com profunda surpresa, como se alguém o estivesse a esculpir na sua presença de um modo que era uma impiedosa e inesperada revelação. Isso emergia agora não se sabia donde, era alguma coisa que não poderia dizer-se próxima ou afastada, simplesmente uma recordação.

Deu um murro na mesa.

- Tu ficas, Silvina! A bem ou mal, tens de ficar até ao fim. Ainda não estou inteiramente bêbado. Eu sei que ainda não estou bêbado. Só preciso da certeza de que tens realmente uma filha.

- Tenho, já te disse. E mortificas-me falando nisso.

- Nunca me mentiste?

- Talvez... algumas vezes... Uma mulher como eu nem chega a saber quando fala verdade. Mas a ti creio que raramente menti.

- Pois eu menti-te sempre.

- Tu nunca me mentiste, João. Eu sei-o. As mulheres sabem essas coisas.

- Enganas-te. Minto sempre, a toda a gente. Sou um tipo sujo e tu sabe-lo bem; já mo tens dito. Mas nem tu calculas toda a sujidade que tenho por dentro.

- Dizes isso para que me afaste de ti. Mas eu não te peso. Quero ser apenas tua amiga. E sei que és bom.

- Que é isso de ser bom? E para que serve? Acredita no que quiseres, Silvina, se isso ainda te agrada, mas não em mim. Escolhe outra ilusão.

- Foste ter comigo apenas no propósito de me fazeres sofrer. E logo hoje!

- Sofrer?! Pensas que sabes o que é sofrer? Ou projectas passar o resto da vida com a história da tua filha enrolada ao pescoço, para que tenham piedade de ti? Era a piedade dos outros a única coisa que te faltava? Mas olha que uma pessoa pode defender-se contra os insultos, mas nunca contra a piedade.

- Sempre odiei os bêbados, João. Vou odiar-te daqui em diante.

João Eduardo olhou-a com ansiedade. Com terror. Tinha-se partido o último prumo que o sustinha de pé.

"Sempre odiei os bêbados." Era um grito visceral. Vinha dos confins da sua memória. Com os olhos abúlicos, mas frios, fixava o rosto embaciado de João Eduardo; e agora que o associava ferozmente a essa outra Silvina que ela, em vão, soterrara no tempo, a expressão apavorada e cruel que deformava os traços de João Eduardo confundia-se com a de seu pai. O pai, um ébrio desprezível. Não, meu Deus, talvez não fosse desprezível. Ele havia sido, antes, um homem estranho e merecedor de compreensão. Ao evocá-lo, porém, tinha sempre de associar as caricatas inibições do pai, o vinho, os escândalos sórdidos, com tudo aquilo que viera depois: a sua adolescência, a sua vida. A filha. Não, não queria pensar nisso; tinha acontecido com uma outra Silvina. Era preciso que João Eduardo falasse, falasse sempre, mesmo ferindo, mesmo com atitudes que não eram as dele (ou seriam estas as dele e não as outras?), para que ele não lhe permitisse ouvir as vozes subterrâneas. Fez um esforço para lhes cerrar os ouvidos, mas logo reconheceu que seria inútil enquanto se sentisse desamparada. Olhou por um instante o companheiro. Seria a sua vez de atiçá-lo a falar. Viu-o de perfil, silencioso, absorto, tão longe dela que seria quase impossível alcançá-lo. Sentiu um calafrio ao reconhecê-lo, embora a maioria das vezes suspeitasse que bem pouco significava na vida desse homem que tanto lhe parecia acessível, pueril, espontâneo, como enigmático. Quantas mulheres, insignificantes como ela, haveria na sua vida? Ele devia ter uma existência atulhada de mulheres precisamente porque nenhuma delas a preenchera. Fosse como fosse, ela necessitava nesse momento de uma voz humana imediata.

- Ofendi-te, João. Já não sei o que digo.

- É que começamos os dois a ficar bêbados.

- Tenho levado esta noite a pensar numa data de coisas. Coisas velhas e coisas sucedidas nestas últimas horas. É possível viver uma vida inteira em meia dúzia de horas? Hoje...

-já tinha pensado o mesmo. Chego a duvidar de que estive hoje em casa e noutros lugares; que fiz a vida de todos os dias. Foi ainda hoje que almocei em casa, é incrível! E afinal nada aconteceu durante este tempo. Ou talvez tivesse acontecido... Tenho a cabeça pesada.

Silvina estava desejosa de que ele acabasse a interferência nas palavras que ela precisava de dizer. Como uma lava jorrando, até limpar a cratera. Segurou-lhe o braço para que ele se calasse e teve, ao mesmo tempo, a vaga intuição de que a dama do chapéu a elegera como fulcro da sua curiosidade felina.

- ...Não percebi nenhuma das tuas reacções desta noite. É possível que sofras tanto como eu, que tenhas coisas, muitas coisas lá dentro, coisas de que eu não suspeitava, mas quem sofre está vivo. Não é verdade, João, que quem sofre merece viver? - Afastou-o inesperadamente com as mãos e, de olhos esgazeados, acrescentou: - E tu insultavas-me por eu ter deixado de chorar! Tenho medo de ti. Tenho medo, mas quero-te. - Numa inflexão passiva, concluiu: - Agora quero-te de verdade.

- Queres-me?... Desde quando?

O olhar dele era dúbio e matreiro - repugnante!

- Gosto de sentir medo de ti. Acho que me lembras o meu pai. Um dia vi um filme em que uma tipa qualquer, médica, se bem me lembro, dizia que o amor é o encontro com um pedaço de cabelo, um nariz, uma voz, que sugerem alguém da nossa infância. O pai ou a mãe, por exemplo. Não é esquisito o que te estou a dizer? Confesso-me arrependidíssima de não ter ido contigo para o teu "covil". Se lá estivesse, neste momento, iria pensar que era outra, uma das outras, percebes?...

- Cada uma das outras me deixou mais em pedaços.

- Cala-te!, nunca lhes deste nada de ti. Nada! Talvez não sejas tu o culpado, é certo, mas... Ia eu a dizer que... que diabo ia eu a dizer? Se tivesse ido contigo, eu devia ter ido, João!, serias para mim uma pessoa desconhecida que me tivesse levado à força. Um homem capaz de tudo, até mesmo de me atirar às falésias. E a ideia do perigo, de estar perto do fim, sem saber como e em que momento, era tudo o que eu poderia desejar esta noite.

Ele encarou-a suspeitosamente. Depois ficou de expressão estúpida e absorta. Ele é que dissera aquelas palavras e não Silvina. Não; tinha sido Silvina. Ele desejara toda a noite que alguém as pronunciasse, que alguém tivesse compreendido. "Um homem capaz de tudo, até mesmo de a atirar às falésias." Capaz de tudo! Silvina soubera compreender. Ah, como era admirável que alguém tivesse descoberto, que alguém o tivesse ajudado a descobrir! Ia abraçar e beijar Silvina ali mesmo, diante dos snobs, dos clientes, das cantadeiras, dos chapéus.

- Bem, acho que chegou a altura. Vamos daí.

- Não terminas esse copo? Ele sorriu com meiguice. -já não é preciso.

Talvez o amanhecer ainda viesse longe. Mas não queria certificar-se pelo relógio. Ia esperar o novo dia junto da árvore a que se encostara horas antes (havia quanto tempo?), esperá-lo como a um acontecimento solene e infalível, mas do qual não se prevê de que lado surge nem a hora da chegada. No entanto, por cima do perfil desmantelado das casas, esboçava-se já uma levíssima claridade. Podia ser o alvorecer na sua silente caminhada ou qualquer outra coisa mais decisiva ainda. Ele queria imaginar que fosse outra coisa. O que viesse, porém, assim tão subtil e inevitável, vinha para purificá-lo. Vinha para decidi-lo.

Já não era noite, e ainda não era o amanhecer; nessa transição esvaziada a única coisa real e definitiva era a árvore. A árvore, as raízes. Tudo o mais pertencia a um espaço sem limites e distorcido, com a avenida, a cidade e as casas alongadas, feitas de uma pasta mole, esticada de um e outro lado por dedos oblongos; era um espaço sem espessura e sem contornos. João Eduardo sentia-se desfibrado dentro dele. Alguma coisa se rompia dentro de si e espalhava-se quente, doce e imensa.

Às vezes, passava um táxi ou um tresnoitado, ou decerto alguém que madrugara. Passavam por ali, não pertencendo à cidade, nem à brisa, nem às árvores: como se se tivessem perdido no caminho. De resto, o silêncio logo os absorvia. Mas este era um silêncio cheio de apelos e esperanças.

O dia ia nascer, pois, até a brisa o anunciava; iria nascer entre a fantástica e esbranquiçada luz da alvorada, e ele recebê-lo-ia com um sentimento novo e profundo que o faria sentir gostosamente o frio e o cansaço.

Quando abriu a porta de casa, reparou que alguém afastara a cortina de uma das janelas. Luísa veio ao seu encontro. Ia, enfim, dizer-lhe tanta coisa! Mas ficou emudecido pela expressão do seu rosto; não poderia definir essa expressão, nem mesmo depois que ela, numa voz tensa, deixou cair a notícia:

- O Jaime morreu.

 

                                                                                Fernando Namora  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"