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O IMPÉRIO DAS TREVAS / Christian Jacq
O IMPÉRIO DAS TREVAS / Christian Jacq

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O IMPÉRIO DAS TREVAS

 

Maneton era um sacerdote egípcio que viveu no século III a. C. A sua obra principal, os Aegyptiaca, relatava a história das dinastias egípcias. Perdeu-se, infelizmente, e dele apenas se conhecem extractos citados pelos autores antigos.
Tebas, última zona livre do território egípcio, 1690 antes de Jesus Cristo.

 

Imóvel há mais de meia hora, Ah-hotep viu o último guarda passar diante da porta principal do palácio. Aproveitando os poucos momentos de demora antes do render da guarda, a bela jovem morena de dezoito anos saltou para um maciço de tamargueiras onde se escondeu até ao cair do dia.

 

Filha da Rainha Teti, a Pequena, Ah-hotep recebera um nome estranho que se podia traduzir de múltiplas formas: ”A Lua está satisfeita”, ”A Lua está serena” ou então ”Guerra e Paz”, porque, de acordo com os sábios, a Lua era um deus guerreiro que trazia em si o mistério da morte e da ressurreição.

 

A guerra... Não havia outra solução para se desembaraçar dos invasores hicsos que controlavam o país, com excepção de Tebas, a cidade santa do deus Amon. Graças à sua protecção, o templo de Karnak e a cidade próxima tinham sido poupados pelos bárbaros, mas por quanto tempo ainda?

 

Os hicsos tinham vindo pelo Delta, há quarenta anos, mais numerosos que uma nuvem de gafanhotos! Asiáticos, árabes, cananeus, sírios, caucasianos, minóicos, cipriotas, iranianos, anatólios e outros povos, o corpo blindado! Utilizavam estranhas criaturas de quatro patas, com uma grande cabeça, mais altas e mais rápidas do que os burros. Esses cavalos puxavam caixas montadas sobre rodas que avançavam a uma velocidade incrível e tinham permitido aos agressores exterminar os soldados do Faraó.

 

Ah-hotep insurgia-se contra a indolência e a cobardia do pobre exército tebano. É um facto que este era incapaz de se opor às tropas potentes e numerosas do ocupante, dotadas de armas novas e terríveis, mas a inacção conduzia directamente ao aniquilamento!

 

Quando Apópis, o chefe supremo dos Hicsos, decidisse arrasar Tebas, os soldados egípcios fugiriam e a população seria massacrada, com excepção das mulheres bonitas, oferecidas para o prazer dos soldados da velha guarda, e as crianças robustas, transformadas em escravos.

 

Os últimos homens livres da terra dos faraós curvavam a cabeça, incapazes de reagir.

 

Que restava do maravilhoso reino dos construtores de pirâmides? Uma província dividida entre o ocupante do Norte e os seus aliados núbios do Sul, um templo construído por Senuseret I e deixado ao abandono, e um palácio que já nada tinha de real!

 

Sem a obstinação de Teti, a Pequena, teriam mesmo suprimido a Casa da Rainha e os tebanos, como os outros egípcios, tornar-se-iam servidores dos Hicsos.

 

Demasiado isolada, a mãe de Ah-hotep começava a enfraquecer e os partidários da independência de Tebas viam o seu número reduzir-se dia-a-dia.

 

Se não restasse senão uma a resistir, seria Ah-hotep.

 

A jovem não receava nem o combate, nem o sofrimento, nem a morte. Mesmo com o punhal sobre a garganta, recusar-se-ia ainda vergar-se ao jugo dos Hicsos.

 

Os cortesãos troçavam dela e tratavam-na como uma louca, mais divertida do que perigosa.

 

Estavam enganados.

 

Hoje começava a guerra de libertação.

 

Tendo como único soldado uma revoltada de dezoito anos e como única arma uma faca de sílex bem afiada.

 

Realizara-se o render da guarda; Tebas adormecia. Há já muito tempo que não eram organizados banquetes na sala de recepções com pinturas desbotadas e que ninguém lá tocava música.

 

E já nenhum Faraó subia a um trono desesperadamente vazio.

 

Ah-hotep quis esquecer aquela visão que lhe dilacerava o coração e correu em direcção ao embarcadouro.

 

No cais, um barco de carga fora de uso, uma barca de velas que servira outrora para transportar blocos provenientes das pedreiras de grés fechadas pelo ocupante, e vários barquinhos pequenos.

 

Entre eles, uma barca em bom estado.

 

O meio de transporte que Ah-hotep tencionava utilizar a fim de sair do reduto tebano.

 

Com agilidade, a jovem desceu para a barca e apoderou-se dos remos. Como navegaria para norte, a força da corrente ser-lhe-ia favorável.

 

Ninguém andava no rio durante a noite, porque os perigos eram inúmeros: hipopótamos, crocodilos, remoinhos... Ah-hotep não tinha opção. ”E, quando não temos escolha, tinha ela o costume de proclamar alto e bom som, somos livres!”

 

Com determinação, a princesa começou a remar.

 

Visto que ninguém era capaz de lhe indicar com precisão onde terminava a zona livre e começava o território ocupado, descobri-lo-ia por si própria. Os mais medrosos dos conselheiros supunham que os Hicsos tinham avançado muito desde a recente tomada do poder por Apopi, cuja reputação de crueldade ultrapassava a dos seus antecessores. E pressionavam Teti, a Pequena a abandonar Tebas sem demora.

 

Mas onde poderia viver em segurança?

 

Segundo Ah-hotep, o único refúgio era o ataque. A primeira escaramuça verificar-se-ia na linha de demarcação e, se fosse necessário, seria a própria princesa a comandar os restos de regimentos egípcios!

 

Nos últimos quarenta anos, milhares dos seus compatriotas tinham sido massacrados. Os Hicsos acreditavam poder agir com completa impunidade e continuar a fazer reinar o terror sobre as Duas Terras. Ah-hotep em breve lhes demonstraria o contrário.

 

Nunca uma princesa egípcia, habituada ao luxo da corte, fora obrigada a manejar assim pesados remos, com risco de estragar as mãos. Mas a sobrevivência do país estava em jogo e a linda morena só pensava no fim a atingir.

 

Algo chocou com a barca, por pouco não a fazendo voltar. Por sorte, o equilíbrio restabeleceu-se naturalmente. Ah-hotep entreviu uma massa sombria afastar-se, batendo na água uma feroz pancada de cauda.

 

Um crocodilo importunado.

 

Recusando o medo, Ah-hotep continuou. Graças à excelência da sua vista e à luz irradiada pela Lua cheia, evitou os restos de um barco e uma ilhota coberta de erva onde dormiam pelicanos.

 

Nas margens, casas abandonadas. Receando a chegada dos invasores, os camponeses tinham-se refugiado em Tebas.

 

Ao longe, fumo.

 

Ah-hotep abrandou o andamento, dirigiu-se para a margem e dissimulou a barca num maciço de papiros de onde saltaram garças-reais, incomodadas no seu sono.

 

Receando que os seus gritos dessem o alarme, esperou antes de escalar o talude para se encontrar num campo de trigo abandonado.

 

O fumo era proveniente de uma quinta incendiada ou de um bivaque hicso? Tanto num caso como no outro, o inimigo estava próximo.

 

Diz lá, rapariga interrogou uma voz agressiva o que fazes tu aqui?

 

Sem qualquer hesitação, Ah-hotep voltou-se e, com a faca de sílex na mão direita, lançou-se sobre o adversário.


Mata-o ordenou Apopi, o chefe supremo dos Hicsos.

 

O jovem jumento viu aproximar-se a sua morte.

 

Nos seus grandes olhos doces, uma total incompreensão. Porque o abatiam, a ele, que desde os seis meses transportava cargas tão pesadas que lhe tinham curvado a coluna, a ele, que tinha guiado pelos carreiros os seus companheiros de infortúnio sem nunca se enganar, a ele, que sempre obedecera às ordens sem recalcitrar?

 

Mas o seu patrão era um vendedor da península arábica ao serviço dos Hicsos e acabava de falecer na sequência de uma embolia. Ora, entre os ocupantes, sacrificavam-se os melhores burros de um caravaneiro para lançar os seus despojos num túmulo simples.

 

indiferente ao massacre, Apopi subiu lentamente os degraus que conduziam ao seu palácio fortificado, no coração da cidadela que dominava a sua capital, Auaris, implantada numa zona fértil do nordeste do Delta.

 

Alto, com o rosto dominado por um nariz proeminente, bochechas moles, ventre volumoso e pernas pesadas, Apopi era um quinquagenário glacial, de voz rouca, cuja simples presença causava medo. Esqueciam a sua fealdade para se concentrarem no seu olhar indecifrável, que apanhava o interlocutor por baixo e penetrava nele como a lâmina de um punhal. Era impossível saber o que pensava o senhor dos Hicsos, que há vinte anos tiranizava o Egipto.


Que arrebatamentos de orgulho, quando Apopi pensava na invasão hicsa! Não pusera fim a treze séculos de independência egípcia? Desconhecidos do exército do Faraó, os carros e os cavalos vindos da Ásia tinham espalhado o pânico, tornando a conquista fácil e rápida, tanto mais que numerosos colaboradores, como os cananeus, não tinham hesitado em trair para conquistar as boas graças dos vencedores.

 

Apesar de serem bem pagos, os mercenários tinham voltado as armas contra a infantaria egípcia, atacada assim tanto do interior como do exterior. E não eram os fortins do Delta, pouco numerosos, que podiam servir de dique à onda de invasores.

 

Lindo dia, senhor! exclamou o controlador-geral Khamudi, curvando-se.

 

Khamudi, de rosto lunar, cabelos negros colados ao crânio redondo, olhos ligeiramente rasgados, mãos e pés gorduchos, ossatura pesada, parecia ter muito mais idade do que os seus trinta anos. Ocultava a agressividade sob uma untuosidade fingida, mas todos sabiam que não hesitaria em matar quem quer que se atravessasse no seu caminho.

 

Terminaram os incidentes?

 

Sim, senhor! afirmou o controlador-geral com um largo sorriso. Mais nenhum camponês ousará revoltar-se, podeis ter a certeza.

 

Quanto a Apopi, nunca sorria.

 

O seu rosto só se alegrava numa circunstância: quando assistia à agonia de um adversário suficientemente louco para se opor ao domínio hicso.

 

Precisamente, uma pequena aldeia próxima da nova capital acabava de protestar contra o peso insuportável dos impostos. Khamudi soltara imediatamente os seus cães ferozes, piratas cipriotas que os Hicsos tinham libertado das prisões egípcias.

 

Apesar das ordens, nem sequer as crianças poupavam. Depois da sua passagem, nada mais restava da localidade atacada.

 

As colheitas?

 

Khamudi fez uma cara preocupada.

 

Segundo os primeiros relatórios, não são famosas...

 

Uma cólera fria animou os olhos de Apopi.

 

Serão menos abundantes do que as do ano passado?

 

Receio que sim, senhor.

 

Os camponeses estão a fazer troça de nós!

 

Mandarei queimar algumas aldeias. Vão então compreender que...

 

Não, Khamudi, é inútil suprimir escravos cujos braços nos serão úteis. Encontremos outra solução.

 

Podeis crer que ficarão aterrorizados!

 

Talvez de mais.

 

Khamudi ficou desconcertado.

 

O chefe supremo retomou a subida, seguido pelo controlador-geral, um passo atrás do seu senhor.

 

O medo é bom conselheiro continuou Apopi mas o pavor pode paralisar. Ora nós precisamos de mais trigo e cevada para alimentar os nossos funcionários e soldados.

 

Nem uns nem outros aceitarão trabalhar nos campos!

 

Não precisas de me lembrar isso, Khamudi.

 

O alto dignitário mordeu os lábios. Grande comedor, apreciador de vinhos capitosos e de mulheres exuberantes, tinha por vezes tendência para falar de mais.

 

Conquistámos o Egipto lembrou Apopi e não será com certeza o miserável enclave tebano, povoado por cobardes e velhos, que poderá ameaçar-nos de qualquer maneira.

 

Ia justamente propor-vos que o destruíssemos sem demora.

 

Erro, meu migo, grave erro.

 

Eu... eu não compreendo.

 

Soldados armados com lanças curvaram-se à passagem dos dois homens. Metendo por um corredor baixo e estreito iluminado por tochas, chegaram a um pequeno compartimento preparado no centro da fortaleza.

 

Ali, Apopi tinha a certeza que ninguém os ouviria.

 

Sentou-se num assento baixo de madeira de sicômoro, sem qualquer ornamento. Khamudi permaneceu em pé.

 

Nem todos os nossos aliados são seguros. Confio em ti, amigo eficaz e dedicado, para pôr ordem na nossa própria casa.

 

Podeis estar tranquilo, senhor!

 

Todos os meios serão bons... Disse bem: todos. Sejam quais forem as circunstâncias, aprovarei e justificarei a tua forma de agir. Apenas o resultado me interessa: não quero voltar a ouvir uma única voz discordante na coligação hicsa.

 

Khamudi salivava de prazer. Os que tinham ousado criticá-lo, mesmo em pensamento, estavam condenados à morte.

 

Resta-nos ainda muito trabalho a realizar para apagar completamente os vestígios do antigo regime dos faraós e afirmar a supremacia da revolução hicsa, sem qualquer esperança de recuo continuou Apopi.

 

Portanto, Tebas deve desaparecer!

 

Com certeza, mas, antes, tem de servir os meus planos sem se aperceber. A chave da vitória total é a colaboração. Traidores ajudaram-nos a invadir o Egipto, outros traidores ajudar-nos-ão a subjugá-lo. Deixemos crer aos últimos patriotas que Tebas representa uma real esperança, introduzindo a lagarta no fruto.

 

Os camponeses...

 

Se esperarem uma libertação, mesmo longínqua, trabalharão com um ardor renovado sem compreenderem que nem uma espiga de trigo chegará aos resistentes. Mostra-te perito na arte da mentira e da desinformação, meu amigo; organiza falsas redes de opositores, prende alguns membros para que não subsista qualquer dúvida e estimula o ardor dos campónios!

 

Serei então obrigado a suprimir alguns dos nossos próprios oficiais...

 

Escolhe principalmente cananeus; são um pouco barulhentos de mais para o meu gosto.

 

Às vossas ordens, senhor.

 

Khamudi...

 

O tom do chefe supremo fez estremecer o controlador-geral.

 

... és o único a conhecer as minhas verdadeiras intenções. Não o esqueças.

 

É um privilégio imenso de que saberei mostrar-me digno, senhor.


Louca de inquietação, Teti, a Pequena, tinha que render-se à evidência: a sua filha Ah-hotep desaparecera. A rebelde não se encontrava nem no seu quarto, nem na biblioteca, onde passava horas a ler romances escritos durante o glorioso período do Império Médio, nem no jardim, onde gostava de brincar com o seu enorme cão, uma verdadeira fera que só obedecia à jovem. Na sua ausência, os guardas tinham prendido o molosso ao tronco de um sicômoro.

 

Mas tu, Qaris, sabes com certeza onde ela foi!

 

Qaris era a gentileza feita homem. Volumoso, de faces redondas, mantinha a calma em todas as circunstâncias e assumia a tarefa difícil, mesmo impossível, que consistia em manter um aparente conforto no palácio real de Tebas, condenado a uma rápida degradação.

 

Infelizmente não, Majestade.

 

Tenho a certeza que recebeste as suas confidências e que não a queres trair.

 

Não sei realmente nada, Majestade. A polícia foi alertada.

 

A polícia... Um bando de poltrões que morrerão de medo mesmo antes da chegada dos Hicsos!

 

O intendente não podia contradizer a Rainha.

 

Também preveni o exército. Teti, a Pequena, suspirou.

 

Ainda será viva?

 

Majestade...

 

Trata do almoço, Qaris; continuemos a fingir viver como uma corte real.

 

De ombros curvados, o intendente seguiu para as suas ocupações. Há já muito tempo que não tentava reconfortar a soberana com boas palavras, nas quais ele próprio não acreditava.

 

Cansada, a Rainha dirigiu-se à sala do trono, arranjada à pressa quarenta anos antes, quando a corte fugira da região de Mênfis para se refugiar na pequena cidade de Tebas, ”a Heliópolis do Sul”, sem qualquer importância económica.

 

Por morte do marido, um faraó sem poder, Teti, a Pequena, não aceitara ser coroada e suceder-lhe. Para que havia de sobrecarregar-se com títulos pomposos, que teriam sem dúvida desencadeado a cólera dos Hicsos, demasiado ocupados a sangrar o país nas quatro veias para esmagarem com o calcanhar a miserável província tebana?

 

A estratégia da Rainha revelara-se eficaz, visto que os invasores tinham esquecido a cidade sagrada de Amon, convencidos de que apenas velhos sacerdotes inofensivos ali celebravam cultos ultrapassados. E era precisamente essa mensagem que Teti, aPequena, queria transmitir à nova capital, Auaris, esperando que os Hicsos deixassem morrer em paz os últimos egípcios livres.

 

Que outra política teria podido desenvolver? O exército tebano não passava de uma cambada de incapazes com armamento ultrapassado. O treino dos soldados resumia-se a grotescas paradas que já nem sequer as crianças divertiam, os oficiais de carreira tinham perdido toda a esperança e contentavam-se em manter em funcionamento a caserna onde residiam.

 

Quando os Hicsos atacassem, soldados e polícias deporiam as armas e tentariam fazer-se passar por civis para escaparem ao massacre. E não seria o general-chefe, um velho de saúde periclitante, a manter uma aparência de coesão entre as suas tropas.

 

De tempos a tempos, Teti, a Pequena, reunia um conselho fantoche onde era evocado sem risos um ”reino tebano” de que dependiam, em teoria, algumas províncias arruinadas, ainda providas de um potentado local e de um arauto encarregado de anunciar os decretos do Faraó. Mas já ninguém acreditava naquela mascarada. Ao menor sinal ameaçador do ocupante, os chefes afirmariam que não apoiavam Tebas de forma nenhuma e que a sua Rainha era uma dissidente passível das piores sanções.

 

Teti, a Pequena, estava rodeada apenas por personagens grotescas, incompetentes e corruptas. Nem sequer nomeara vizir, já que este não teria à sua disposição qualquer meio de agir. Apenas subsistiam as funções de ministro da Agricultura e da Economia, ocupadas por cortesãos idosos que dirigiam indolentemente uma administração descarnada.

 

A lealdade tinha desaparecido, cada um só pensava em si mesmo. Por milagre, os tebanos aceitavam manter a família real, na verdade reduzida ao mínimo, como se recusassem esquecer o passado. Graças ao incansável Qaris, Teti, a Pequena, a sua filha Ah-hotep e os seus próximos não passavam fome, embora a ementa tivesse parecido irrisória aos monarcas das épocas gloriosas.

 

Todos os dias a Rainha chorava.

 

Encerrada no seu pobre palácio, que se assemelhava cada vez mais a uma prisão, vivia de recordações e de sonhos nos quais o futuro não tinha qualquer lugar.

 

Teti, a Pequena, curvou-se diante do trono vazio que mais nenhum faraó ocuparia. Hórus, o falcão cósmico, afastara-se da terra e já não descia do seu paraíso celeste. Simbolizado pela união das plantas do Norte e do Sul, a felicidade das Duas Terras não passava de uma miragem.

 

Já por várias vezes, a formosa pequena mulher, sempre cuidadosamente maquilhada apesar da escassez dos produtos de beleza, pensara em matar-se. Para que servia uma Rainha sem coroa, impotente diante de uma revolução bárbara?

 

Só a contemplação das estrelas lhe dava coragem para sobreviver. Nelas brilhavam as almas imortais dos reis ressuscitados, que traçavam para sempre o caminho da rectidão, para além das dúvidas e do desespero. E assim, Teti, a Pequena, continuava a sua obscura existência, ela, a última Rainha do Egipto.

 

Majestade...

 

O que é, Qaris?

 

A voz do intendente tremia.

 

A polícia quer falar convosco.

 

Trata disso.

 

O chefe só quer falar apenas convosco.

 

Manda-o entrar na sala de audiências. Qaris olhava fixamente o trono vazio.

 

Majestade... Pensareis em...

 

Teti, a Pequena, esboçou um sorriso triste.

 

Claro que não.

 

Se tivéssemos de novo um Faraó...

 

Não penses nisso, Qaris.

 

A Rainha fechou lentamente a porta da sala, agora votada ao silêncio.

 

Se desejardes que eu limpe o chão e tente refrescar as pinturas... propôs o intendente.

 

Não é necessário.

 

A viúva passou pelo quarto para se olhar num espelho de bronze e se toucar com um fino diadema de ouro que, antes dela, tinham usado outras Grandes Esposas Reais. Quando a sua última criada de quarto tentara roubá-lo, Teti, a Pequena, contentara-se em despedi-la.

 

A soberana do enclave tebano devia continuar a velar pela sua elegância. Felizmente, restavam-lhe alguns vestidos dignos da sua posição, com os quais tinha os maiores cuidados; escolheu o de linho cor-de-rosa e calçou as sandálias douradas.

 

Só uma certa pose podia ainda impô-la às forças de segurança e fazê-las acreditar na existência de uma autoridade, mesmo limitada.

 

A Rainha imaginou por um instante que a sua província era um verdadeiro país e que se ia dirigir a um verdadeiro representante da ordem.

 

Surpreendido pelo aprumo de Teti, a Pequena, o polícia ficou mudo durante alguns segundos.

 

Majestade...

 

O que queres?

 

Trata-se de um assunto grave, Vossa Majestade, muito grave.

 

A segurança de Tebas estará em causa?

 

Receio que sim. A vossa filha... A Rainha empalideceu.

 

Encontraste-a?

 

Eu não, mas um guarda da fronteira.

 

Está... viva?

 

Lá isso está, Majestade, o mais viva possível! O guarda é que foi ferido num braço com a faca manejada pela princesa.

 

Uma faca... Divagas!

 

O relatório é formal. A princesa Ah-hotep tentou matar o meu subordinado, que acabava de prendê-la. Estava de tal maneira fora de si que ele teve que chamar reforços para a dominar.

 

Teti, a Pequena, afligiu-se.

 

Ah-hotep foi molestada?

 

Não, Majestade, porque se identificou imediatamente! A princípio, os guardas não acreditaram nela, mas a sua veemência abalou-os. Com medo de cometerem um erro, decidiram atá-la e trazer-ma.

 

Esse ridículo assunto está portanto encerrado.

 

Receio que não, Majestade.

 

O que queres dizer?

 

Não podemos considerar esse grave incidente como uma simples altercação.

 

E então porquê?

 

Porque é evidente que a vossa filha abandonava o território tebano para se juntar aos Hicsos.

 

Atreves-te...

 

Os guardas e eu próprio acusamos a princesa Ah-hotep de alta traição. Considerando a sua posição, deve ser convocado com urgência um tribunal excepcional.

 

Compreendes que...

 

Será condenada à pena de morte precisou o chefe da polícia, com o olhar brilhante. O que há de mais normal? Se não fizermos dela um exemplo, será a debandada.

 

Teti, a Pequena, desfaleceu.

 

Não, é impossível... Enganas-te, com certeza!

 

Factos são factos, Majestade.

 

Quero ver a minha filha.

 

O interrogatório foi bem conduzido, tranquilizai-vos.

 

Ah-hotep confessou?

 

Em breve teremos uma confissão completa. Teti, a Pequena, ergueu-se em toda a sua altura.

 

Sou a Rainha de Tebas e exijo ver a minha filha imediatamente!


O contraste era flagrante entre as duas mulheres.

 

Teti, a Pequena, adornada como uma estatueta preciosa, tão esguia que parecia quebrar-se; Ah-hotep, grande, majestosa, com os cabelos desgrenhados, os olhos de um verde-luminoso e agressivo.

 

Tão belas uma como a outra, mas sem qualquer ponto comum além de pertencerem a uma família real observada pelos olhares divertidos e cruéis do chefe da polícia e de quatro dos seus esbirros, que mantinham a princesa atada e amordaçada.

 

Soltem a minha filha! ordenou a Rainha.

 

É perigosa, Majestade. Não podemos correr riscos.

 

Teti, a Pequena, tinha consciência de travar um combate decisivo. Se perdesse, os partidários da colaboração com os Hicsos retirar-lhe-iam as últimas prerrogativas e entregariam a cidade de Amon ao ocupante.

 

Acabo de dar uma ordem lembrou secamente a Rainha.

 

O chefe da polícia hesitou. Com um gesto de mão, podia varrer aquela frágil criatura, incapaz de se defender, e apoderar-se das últimas riquezas do palácio. Mas esse golpe de Estado chocaria com a hostilidade dos militares e dos sacerdotes. Ninguém sairia vencedor desse conflito interno.

 

Sejamos prudentes, Majestade, e contentemo-nos em retirar a mordaça

 

Dois polícias desataram o pedaço de linho grosseiro.

 

Estás ferida, Ah-hotep? perguntou-lhe a mãe.

 

Apenas pela estupidez destes incapazes! Cinco para me dominar... Que façanha!

 

Acusam-te de tentativa de fuga e de traição.

 

Todos esperavam uma explosão de cólera, mas a jovem permaneceu estranhamente calma.

 

Encarou um a um os polícias que, impressionados, recuaram um passo.

 

Quem ousa mentir tão descaradamente?

 

Não podeis negar a vossa tentativa de fuga avançou o chefe da polícia.

 

Estes homens são guardas da fronteira?

 

Sim, mas...

 

E fui presa no Cabeço das Codornizes?

 

É verdade, mas...

 

A fronteira fica assim tão perto de Tebas?

 

Claro que não!

 

Então, explica-me a presença dos teus guardas nesse local. E porque tinham eles acendido uma fogueira?

 

Um dos homens postos em causa não conseguiu conter a língua.

 

Estávamos lá por ordem do chefe... Nós não somos responsáveis por nada.

 

Em que consistia essa ordem? perguntou Ah-hotep, veemente.

 

Calem-se, imbecis! exigiu o chefe da polícia.

 

Pilharam e queimaram uma quinta, não é verdade? Em vez de cumprirem o vosso dever e assegurarem os postos avançados, aproveitam o uniforme para saquear os infelizes que se refugiaram na zona livre!

 

Os guardas da fronteira aproximaram-se uns dos outros, enquanto o seu superior tirava da bainha uma espada curta.

 

Não ides ter medo destas duas mulheres, não é verdade?

 

Tu é que és culpado de alta traição decretou Ah-hotep e a Rainha ordena que te inclines perante ela.

 

Teti, a Pequena, lançou um olhar de desprezo ao acusado.

 

Mete a espada na bainha e cheira o chão à minha frente.

 

O interpelado desatou a rir.

 

Já não sois nada, Majestade, e a vossa filha tem as mãos atadas! Agradecei-me por vos proporcionar uma morte rápida.

 

Um rugido ameaçador alertou o velho soldado. Voltando-se, reconheceu o molosso de Ah-hotep.

 

Levantou a arma, mas o ataque foi tão rápido que o seu gesto foi inútil. O cão cravou as presas no antebraço da sua vítima, que gritou de dor.

 

Libertem-me imediatamente ordenou Ah-hotep. Os guardas da fronteira obedeceram.

 

A princesa acariciou o seu cão, que a contemplava com infinita doçura e um sorriso satisfeito, de tal forma estava orgulhoso da sua nova façanha.

 

Como conseguiu esta fera libertar-se? gemeu o ferido.

 

Será reunido de urgência um tribunal anunciou-lhe a princesa mas para te julgar a ti, um traidor que ousou levantar a mão para a sua Rainha e ameaçá-la de morte.

 

O chefe da polícia soluçou.

 

Tendes de perdoar-me... Eu não queria mal nenhuma a Sua Majestade!

 

Um traidor e um cobarde... Atirem esse verme para a prisão! Felizes por se safarem tão bem, os guardas da fronteira não se fizeram rogados.

 

Com a língua pendente, Risonho poisou delicadamente as duas enormes patas nos ombros da princesa.

 

Então, tinham-te prendido e tu conseguiste escapar! Como o cão não tinha o hábito de mentir, Ah-hotep leu no seu olhar que beneficiara de uma ajuda indispensável.

 

Vou resolver este enigma prometeu ela.

 

Ah-hotep... murmurou Teti, a Pequena.

 

Vendo que a mãe estava quase a desfalecer, a princesa ajudou-a a sentar-se.

 

Tanta violência aqui, no meu palácio... Já não tenho força para suportar semelhantes horrores.

 

Claro que sim! Não te devias alegrar?

 

Alegrar-me... Mas de quê?

 

Do passo em falso dado pelo chefe da polícia! Esse inútil mostrou-te finalmente do que era capaz. Substitui-o o mais depressa possível!

 

Teti, a Pequena, descobria a filha.

 

Embora fosse já uma mulher, e das mais sedutoras, a Rainha considerara-a até agora como uma criança indisciplinada, pensando apenas em atordoar-se para esquecer a agonia do seu país.

 

Ah-hotep... Estou tão cansada.

 

Majestade, não tendes nem direito nem tempo para isso! O Egipto só sobrevive através da vossa pessoa. Se renunciardes, o inimigo terá conseguido a vitória sem sequer combater.

 

Como seria doce fechar definitivamente os olhos, pensou a Rainha.

 

Mas a filha tinha razão.

 

Acreditas verdadeiramente que temos ainda a possibilidade de enfrentar um inimigo com a força dos Hicsos?

 

Se quisermos, podemos!

 

Porque te aventuraste tão longe do palácio, Ah-hotep?

 

Para saber onde se situava exactamente a fronteira desse que ousamos chamar ”o reino tebano”. Como não o consegui, recomeçarei.

 

É demasiado perigoso!

 

No entanto, é indispensável, Majestade. É impossível organizar a resistência se não conhecermos as posições do adversário.

 

Teti, a Pequena, tirou o diadema e poisou-o nos joelhos.

 

A situação é desesperada, Ah-hotep. Não temos nem Faraó nem exército e a nossa única hipótese de sobrevivência consiste em persuadir os Hicsos que Tebas é apenas uma aldeola povoada por velhos inofensivos que passam o tempo a rezar a deuses mortos.

 

Excelente considerou a jovem. Enquanto o ocupante nos considerar como quantidade negligenciável, não nos atacará.

 

Mas nós somos uma quantidade negligenciável! Possa a deusa Céu permitir-nos morrer aqui, na nossa terra, numa ilusão de liberdade.

 

Recuso-me.

 

A Rainha olhou a filha com espanto.

 

Recuso-me a aceitar uma fatalidade que não o é na realidade continuou Ah-hotep com paixão. Se Amon preservou a independência de Tebas, não terá sido para lhe confiar uma missão? Enovelando-nos e tremendo de medo, fechamos os ouvidos e deixamos de ouvir a sua voz.

 

Nem um único homem terá a coragem de lutar contra os Hicsos considerou Teti, a Pequena.

 

Então, serão as mulheres!

 

Não perdeste a cabeça?

 

Tu, minha mãe, não és a representante de Maet nesta terra? A Rainha esboçou um fraco sorriso.

 

Maet, a deusa da harmonia, da rectidão e da justiça; Maet, incarnada por uma mulher tendo na cabeça a rectriz, a pluma que permitia aos pássaros orientar-se; Maet, a base sobre a qual os Faraós tinham fundado a sua civilização e sobre a qual se erguiam as estátuas dos ressuscitados, a quem os ritualistas abriam os olhos, a boca e os ouvidos.

 

Nem mesmo Tebas é já um local de acolhimento para Maet lamentou Teti, a Pequena.

 

Claro que é, visto que tu és a Rainha e que Maet incarna na função que tu exerces!

 

Não passa de um sonho, Ah-hotep, um sonho distante, quase apagado...

 

Maet não se alimenta de sonho mas de realidade! É por isso que temos de reconquistar o nosso território para lho oferecer.

 

A princesa ajoelhou diante da mãe.

 

Majestade, peguei em armas. Apenas disponho de uma faca de sílex, mas não é um começo assim tão mau. Bem manejada, revela-se eficaz.

 

Ah-hotep! Não estás a pensar em lutar?

 

Acabo de fazê-lo, Majestade, e recomeçarei.

 

És uma jovem, não um soldado!

 

Onde estão os nossos valorosos soldados? Se ninguém os fizer sair do seu torpor, adormecerão para sempre! Compete-nos despertá-los.

 

Teti, a Pequena, fechou os olhos.

 

É insensato, minha filha querida... Esqueçamos todas essas loucuras.

 

A princesa levantou-se.

 

São a minha única razão de viver.

 

Será a tua determinação inabalável?

 

É tão sólida como o granito. A Rainha suspirou.

 

Já que assim é, Ah-hotep, ajudar-te-ei com todas as minhas forças.


Uma dezena de camponeses de cabelos compridos, mal barbeados, vestidos apenas com um saiote de junco, avançava lentamente num pântano não longe da nova capital dos Hicsos. Puxavam quatro grandes bois na direcção de uma ilhota onde cresciam juncos bem tenros.

 

Avança mais depressa resmungou o chefe, de grandes bigodes, apostrofando um retardatário.

 

Ainda não deixaste de fazer de guarda das galés?

 

Mais vale olharem para a frente recomendou um terceiro homem, coberto de lama para se proteger dos mosquitos. Num lindo dia como este, com o céu limpo e um ligeiro vento do norte, para que nos havemos de enervar?

 

Porque os ocupantes me confiscaram os campos! respondeu o Bigodes.

 

Não acabamos por nos habituar a tudo? Tratar dos bois não é assim tão desagradável.

 

Sem liberdade, nada é bom.

 

O Bigodes pensou nas longas horas consagradas a irrigar, a cuidar das alfaias, a semear, a colher, a discutir com os escribas do Tesouro para fazer baixar os impostos... Quantos trabalhos e que luta constante com a natureza, simultaneamente generosa e implacável! Queixava-se constantemente da sua sorte, ignorando o que o futuro lhe reservava.

 

Não contentes por o terem espoliado, os Hicsos obrigavam-no a dingir aquele grupo de miseráveis, habituados a levar a pastar os bois numa zona frequentemente inundada. As rixas eram frequentes e a atmosfera sufocante.

 

- Vamos comer peixe grelhado anunciou um bochechudo passando a língua pelos lábios. Pesquei-o antes do amanhecer e este não vai ser declarado ao oficial!

 

Todas as manhãs e todas as noites, os soldados hicsos controlavam os boieiros. Em troca do seu trabalho, apenas tinham direito a um pão de espelta, cebolas e, uma vez por semana, peixe seco, muitas vezes intragável.

 

Se eles vêem o fumo, seremos espancados!

 

Estamos demasiado longe no pântano para eles o poderem ver. Todos ficaram com água na boca à ideia do festim.

 

Atenção, rapazes... Há alguém na ilhota!

 

Sentado num bote de papiro, um estranho homem, de cabelos cobertos por um turbante e rosto devorado por uma barba negra, assava um rato do rio.

 

Que fulano estranho constatou o Bigodes.

 

Um génio mau do pântano, pela certa... Vamos embora!

 

Aproveitemos antes a sua fogueira recomendou o Bochechas. Não tem peso contra nós todos.

 

Os boieiros aproximaram-se.

 

O homem levantou-se lentamente e enfrentou os recém-chegados.

 

Fujamos, digo-vos eu... Não é um ser humano!

 

O estrangeiro brandiu uma funda. Quando o camponês em pânico voltou as costas, a arma girou a uma velocidade incrível, uma pedra saltou e foi bater na nuca do fugitivo.

 

O ferido abateu-se na água glauca. Se o Bigodes não o tivesse agarrado pelos cabelos, ter-se-ia afogado.

 

Vinde até mim, meus amigos... Não tendes nada a temer. Mortos de medo, os boieiros tinham dificuldade em acreditar. O Bochechas preferiu obedecer, os camaradas seguiram-no.

 

Não esqueçam os vossos bois recomendou o anfitrião, com um sorriso irónico.

 

Fatigado, um dos quadrúpedes mugiu e recusou-se a avançar. Umas pauladas no lombo fizeram-no mudar de opinião.

 

Um a um, os camponeses subiram para a ilhota. Os animais sacudiram-se e puderam finalmente pastar.

 

Quem é o vosso chefe? interrogou o barbudo.

 

É ele! respondeu o Bochechas, apontando o Bigodes. E tu, quem és?

 

Chamem-me o Afegão.

 

Os camponeses entreolharam-se. Nenhum deles conhecia aquela palavra.

 

O que é um afegão?

 

O estrangeiro procurou no bolso da sua túnica castanha e tirou dele uma pedra azul que parecia conter partículas de ouro. A maravilha deslumbrou os boieiros.

 

Isso deve valer uma fortuna! Parece... lápis-lazúli!

 

Não existe nenhum mais belo afirmou o Afegão. Onde viste já uma pedra como esta?

 

O meu primo era sacerdote do deus Ptah. Quando morreu, os colegas ofereceram-lhe um escaravelho de coração em lápis-lazúli e fui autorizado a admirá-lo antes de ser colocado sobre a múmia. Como poderia esquecer semelhante esplendor?

 

O lápis-lazúli provém do meu país, o Afeganistão. Quando um faraó reinava no Egipto, os meus compatriotas entregavam-lhe grande quantidade dele, que trocavam por ouro. Apenas os templos estavam autorizados a trabalhá-lo. Hoje, tudo mudou. O ocupante hicso não se preocupa nem com rituais nem com símbolos e a compra do lápis-lazúli já não lhes interessa. Haveria que dar-Iho, como o resto! Por causa dele, o Afeganistão está privado da sua principal fonte de riqueza.

 

Então és um inimigo dos Hicsos?

 

Sou inimigo de quem me empobrece. A minha família é proprietária do principal jazigo de lápis-lazúli. Vivia numa moradia sumptuosa, empregava numerosos criados e possuía tantas cabeças de gado que nem as conseguia contar. Desde que o comércio com o Egipto foi interrompido, é a pobreza. O ano passado, a minha mãe morreu de desespero e eu jurei a mim mesmo vingar-me dos responsáveis pela sua morte.

 

Queres dizer... os Hicsos?

 

Arruinaram-me e condenaram os meus à miséria. Pertenço a um povo de guerreiros que não suportam semelhantes afrontas.

 

Fazias”melhor em voltar para a tua terra aconselhou o Bochechas. O exército do Faraó foi aniquilado e já não existe nenhuma oposição ao ocupante.

 

Esqueces Tebas? espantou-se o Bigodes.

 

Tebas... Não passa de uma miragem.

 

Não é a cidade sagrada do deus Amon? interrogou o Afegão.

 

Com efeito, mas abriga apenas uma Rainha sem poder e alguns velhos sacerdotes conservados em devoção. Pelo menos, é o que dizem.

 

Não será verdade?

 

Espero que não!

 

Existe uma resistência organizada?

 

Se assim fosse cortou o Bochechas saber-se-ia! E porque é que isso te apaixona tanto, estrangeiro?

 

Ainda não compreendeste, egípcio... Quero vender o meu lápis-lazúli, tornar a ser rico e restaurar o prestígio do meu clã. É o meu único objectivo e consagrar-lhe-ei a minha existência, sejam quais forem os riscos. Se os Hicsos fossem comerciantes honestos, ter-me-ia entendido com eles. Mas nunca farão um tratado comercial, porque são predadores sem fé nem lei. Há uma única solução: expulsá-los e favorecer o regresso de um Faraó que não modificará as regras do jogo à sua vontade.

 

O Bochechas desatou a rir.

 

És um cómico sem igual, Afegão. No teu país ninguém se deve aborrecer.

 

O meu pai forneceu lápis-lazúli a Tebas e foi muito bem pago. Ouvi dizer que Amon não era o único deus da região e que tinha como aliado Montu, incarnado num touro vigoroso e capaz de vencer qualquer adversário.

 

Os deuses abandonaram as Duas Terras considerou o Bigodes.

 

Porque não hão-de regressar?

 

Porque em breve já não haverá ninguém para os acolher.

 

Nem mesmo o príncipe de Tebas?

 

É uma Rainha que controla a cidade, mas ninguém sabe se ainda está viva.

 

Então a revolta nascerá aqui, neste pântano.

 

Com quem? inquietou-se o Bochechas.

 

Com aqueles de vós que aceitarem ajudar-me.

 

Mas. és completamente louco!

 

Nenhum inimigo é invencível, sobretudo quando se considera todo-poderoso. O dardo de uma pequena vespa não provoca uma violenta dor ao colosso que consegue picar?

 

O Bigodes estava intrigado.

 

Quais são os teus projectos?

 

Formar uma multidão. Mas sentem-se e fumemos uma planta do meu país, que descontrai o espírito e o torna mais clarividente.

 

Deixando o rato do rio, demasiado cozido, ao Bochechas, que o engoliu de uma vez só, perante a desaprovação dos seus camaradas, o Afegão acendeu pequenos rolos de haxixe que distribuiu aos camponeses.

 

Aspirem lentamente, deixem o fumo sair pelas narinas e pela boca... Pouco a pouco, esquecerão o medo.

 

Começaram todos por tossir, mas em breve adoptaram o ritmo certo.

 

Já não é um pântano mas sim um sereno jardim constatou o Bochechas.

 

Vários boieiros concordaram com ele. Apenas o Bigodes parecia reticente.

 

Fumar esta planta não só abre as portas do sonho afirmou o Afegão. Ela possui outra qualidade que nos será muito útil.

 

Qual? perguntou o Bochechas, cujas pupilas se tinham dilatado.

 

Obriga os traidores a denunciarem-se.

 

Ah, bem... E como?

 

Perdem o sangue-frio, suam com grossas gotas, gaguejam explicações inconsistentes e acabam por confessar... Confessar que espiam os seus camaradas por conta dos Hicsos. Como tu, por exemplo.

 

Eu? Mas como...? Dizes... dizes o que te vem à cabeça!

 

Vi-te ontem, em companhia de um oficial. Tomaram-me por um mendigo e não desconfiaram de mim. Prometeste-lhe denunciar um a um os boieiros como resistentes, a fim de receberes um bónus.

 

Olhares de ódio convergiram sobre o Bochechas.

 

Não, não é verdade... Enfim, não é completamente verdade... Têm de me compreender... Menti a esse oficial, como é evidente... Nunca vos teria vendido e...

 

Punhos vingativos agarraram-no pela cabeleira e mergulharam-no no pântano.

 

O Bochechas debateu-se apenas alguns instantes e o seu cadáver enterrou-se no lodo.

 

Agora declarou o Afegão podemos falar do futuro em segurança. Todos os que estamos aqui presentes somos resistentes e arriscamo-nos portanto à prisão, à tortura e à morte. Mas se formos vencedores, tornar-nos-emos muito ricos.
Sou eu o

responsável! declarou

orgulhosamente um jovem, barrando a passagem à Rainha e à princesa Ah-hotep, que saíam do palácio sob a protecção de Risonho, o molosso.

 

Para surpresa da dona, este não mostrou os dentes.

 

Chamo-me Seken, princesa, e fui eu que soltei o vosso cão para que ele viesse em vosso auxílio. Vê-lo assim impotente fez-me compreender que estáveis em perigo. Portanto, entrei em acção.

 

Tímido e nervoso, Seken debitou o seu discurso com precipitação. Mais ou menos da mesma idade de Ah-hotep, era magro e só tinha a seu favor a profundidade do olhar, que fazia esquecer um rosto desengraçado e uma testa demasiado grande.

 

As minhas felicitações... Salvaste a vida de Sua Majestade.

 

E a vossa também, princesa!

 

Não te devias inclinar perante a Rainha do Egipto? O jovem obedeceu desajeitadamente.

 

Levanta-te ordenou Teti, a Pequena. Nunca te vi no palácio, meu rapaz; onde vives?

 

No bairro sul. Vim do campo para aprender a lutar.

 

Foste admitido na caserna? interrogou fogosamente Ah-hotep.

 

Infelizmente, não... Parece que não sou suficientemente forte. Então, fui contratado como ajudante de jardineiro. O meu patrão faz-me trabalhar duramente e estou encantado com isso! Daqui a algum tempo, vou ter os músculos necessários.

 

Como sabias que se tratava do meu cão?

 

Foi o meu patrão que me disse. Aconselhou-me a voltar para minha casa e esquecer que tinha visto o chefe da polícia prendê-lo a uma árvore.

 

O molosso poisou uma enorme pata sobre o peito de Seken e quase o derrubou. Era evidente que Risonho não tinha a memória curta.

 

Suponho que não deves estar bem alojado, não é verdade?

 

Não me queixo, princesa. A viúva que me aluga um quarto é uma idosa senhora encantadora e gosto de a ouvir quando fala dos tempos felizes.

 

Se Sua Majestade consentir propôs Ah-hotep vais habitar a partir de agora numa dependência do palácio e ocupar-te-ás das gaiolas, dos gatos, dos burros reservados à intendência e, bem entendido, do meu cão.

 

Seken pareceu ferido por um raio.

 

Princesa, eu...

 

Aprovado decidiu Teti, a Pequena.

 

Começas imediatamente afirmou Ah-hotep. Risonho precisa de um longo passeio.

 

Ainda sob o efeito do choque, o jovem mal sentiu uma grossa língua bem rosada lamber-lhe suavemente a mão.

 

O Risonho não gosta de andar com trela acrescentou a princesa mas mesmo assim leva uma, para o caso de ele se cruzar com alguém desagradável. É um cão bastante expansivo e não está habituado a dissimular os seus sentimentos.

 

Ah-hotep vivia um momento de graça.

 

Não apenas a Rainha não a tinha afastado, como estava decidida a fazê-la beneficiar da sua experiência para reformar o governo tebano e preparar a reconquista do Egipto. Como a princesa tivera razão em lançar-se na aventura! Com a sua simples atitude, despertava forças adormecidas e reanimava a vontade de Teti, a Pequena.

 

Por onde começamos, Majestade?

 

Pelo essencial.

 

Vamos nomear finalmente um verdadeiro general-chefe?

 

Falo-te do essencial, Ah-hotep.

 

O que há mais importante, hoje, do que um bom chefe e um bom exército?

 

Hoje, como ontem e como amanhã, o mais importante é o templo. Se persistes em empreender essa luta insensata, deves penetrar no seu coração. Mas não deixa de ser perigoso.

 

Estou pronta a correr todos os riscos!

 

Os antigos Faraós construíam moradas para os deuses e sabiam dialogar com eles. Ao lado desses gigantes, somos mais fracas do que anãs.

 

Ah-hotep conteve o seu ímpeto. Pressentia o carácter terrível da prova evocada pela Rainha.

 

Renunciar não seria uma cobardia considerou Teti, a Pequena.

 

Como devo preparar-me?

 

Outrora, terias tido oportunidade de falar com os sábios... Mas hoje, o tempo urge.

 

Ah-hotep nunca ouvira a mãe exprimir-se de forma tão firme.

 

Sigo-vos, Majestade.

 

Desde a idade de ouro das grandes pirâmides, o lugar de Tebas fora considerado sagrado; mas fora preciso esperar pelo reinado do primeiro dos Senuseret, para ver Karnak tornar-se um templo digno desse nome, embora muito menos imponente do que os edifícios de Heliópolis, de Mênfis ou de Elefantina.

 

Por causa da invasão hicsa, o impulso dos construtores fora quebrado. Visto que o Faraó já não reinava, os estaleiros tinham

 

1 Foram os faraós do Império Médio, os Mentuhotep, que fundaram Karnak ou, mais provavelmente, desenvolveram um antigo santuário erigido naquele lugar. Amenemhat I (1991-1962 a. C.) construiu ali um templo, depois Senuseret I (1962-1928 a. C.) criou notáveis monumentos que vamos evocar. Subsiste deles a célebre e magnífica ”capela branca”, reconstituída graças aos blocos encontrados no terceiro pilone de Karnak.

 

sido interrompidos; tal como os outros santuários, mesmo grandiosos, o modesto Karnak mergulhava num sono mortal.

 

De acordo com os ensinamentos dos sábios, com efeito, qualquer edifício era olhado como um ser vivo em perpétuo crescimento; era por isso que cada Rei devia prolongar e amplificar a obra dos seus predecessores e era por isso que um santuário nunca era considerado acabado.

 

Mas o canto das ferramentas já não ressoava e nem um único talhador de pedra estava a trabalhar. Apenas viviam em Karnak quatro ”Servidores do deus”, quatro ritualistas e dez ”sacerdotes de mãos puras”, encarregados de efectuar as tarefas materiais, todos idosos e tão pouco preocupados com o mundo exterior que há vários anos não franqueavam a cerca de tijolos crus.

 

Teti imobilizou-se diante da porta em cedro do Líbano.

 

Há tanto tempo que ela não se abre para deixar sair a estátua divina! E há tanto tempo que um Faraó não celebra, de madrugada, o despertar da energia divina... No entanto, Amon continua presente porque alguns fiéis o veneram ainda.

 

Que perigo poderia ameaçar-me neste lugar de paz e de meditação? espantou-se Ah-hotep.

 

Conheces o nome da esposa de Amon?

 

A deusa Mut, a mãe universal.

 

O seu nome significa igualmente ”a morte” revelou a Rainha. Também é representada sob a forma de uma leoa de cóleras terríveis. Concentraram-se na sua estátua forças de destruição que não expurgámos desde a invasão.

 

Porque não podemos utilizá-las contra os invasores?

 

Porque destruiriam tudo à sua passagem, incluindo Tebas.

 

E, no entanto, é Mut que eu devo enfrentar?

 

Só se o desejares, Ah-hotep. Que outra força te tornaria capaz de combater um inimigo que não tens qualquer hipótese de vencer? Infelizmente, essa força é demasiado violenta para ser controlada.

 

Assim, a Rainha conduzira a filha ao limiar do templo a fim de a fazer compreender a inutilidade dos seus projectos.

 

Querias dar-me uma boa lição, não é verdade?

 

Não serás suficientemente inteligente para admitir que a tua revolta apenas conduziria a um sangrento fracasso?

 

Ah-hotep contemplou demoradamente a cerca do templo.

 

É-me proibido encontrar a deusa Mut? Teti, a Pequena, ficou carrancuda.

 

Os meus avisos são portanto vãos...

 

Quero lutar, Majestade! E visto que uma divindade me pode ajudar, porque haveria de recusar o seu auxílio?

 

És louca, minha filha! Mut aniquilar-te-á.

 

Morrer às mãos de uma deusa não será um belo destino? Resignada, a Rainha guiou Ah-hotep até uma pequena porta guardada por um sacerdote de mãos puras.

 

Conduz a princesa até junto de Mut ordenou-lhe a soberana.

 

Majestade... Não falais seriamente?

 

Obedece.

 

Mas sabeis perfeitamente que...

 

É essa a vontade da princesa Ah-hotep e ninguém a fará mudar de ideia.

 

Impressionado, o sacerdote de mãos puras fez com que a princesa se descalçasse, depois lavou-lhe os pés e as mãos com água tirada do lago sagrado.

 

Devo prevenir o superior. Esperai-me aqui.

 

Descobrir o interior do templo de Karnak encantava Ah-hotep, embora o medo de enfrentar Mut lhe apertasse a garganta.

 

Adeus, minha filha disse Teti, a Pequena, perturbada. Tu, pelo menos, não conhecerás a humilhação da última vaga da invasão hicsa que submergirá Tebas.

 

Não me dás verdadeiramente nenhuma hipótese?

 

Adeus, Ah-hotep. Que a eternidade te seja doce. A mãe beijou ternamente a filha.

 

Enquanto a Rainha se afastava, um velho que caminhava com uma bengala aproximou-se da jovem.

 

És tu a princesa que ousa desafiar a deusa com olhos de fogo?

 

Não a desafio, peço-lhe a sua força.

 

Perdeste o juízo?

 

Pelo contrário! Não existe solução mais sensata para que Tebas reencontre a sua dignidade e a sua coragem.

 

A ti não te faltam... A menos que se trate de inconsciência!

 

Os sacerdotes são sempre assim tão faladores? O velho apertou o punho da bengala.

 

Como queiras, princesa. Encontra a leoa sanguinária, pois que é essa a tua decisão. Antes, contempla uma última vez o Sol.

 

Por instantes, Ah-hotep foi apenas uma rapariguinha assustada, receando perder a vida numa aventura insensata. Mas quando viu esboçar-se um sorriso irónico nos lábios do velho sacerdote, esqueceu os seus receios.

 

Não afirmam os hinos que o Sol se ergue todas as manhãs para os justos?

 

Tens a pretensão de fazer parte deles, princesa?

 

Com certeza, visto que o meu único desejo é libertar o meu país!

 

Então segue-me.

 

Batendo com a bengala no solo, o servidor do deus passou por uma magnífica capela de calcário cujos baixos-relevos, de uma perfeição de cortar a respiração, eram consagrados à festa da regeneração de Senuseret I. Neles, o Faraó comunicava com as divindades que lhe davam a força indispensável para transformar o Um em múltiplo e criar assim as províncias do Egipto, simultaneamente diversas e indissociáveis.

 

Gostaria de parar aqui uns instantes.

 

Não há tempo, princesa.

 

Com pena, Ah-hotep seguiu o sacerdote até um jardim preparado diante do templo principal de Karnak, formado por dois pórticos construídos por Senuseret I, um com pilones quadrados, o outro com pilones que serviam de suporte a colossos de Osíris, de braços cruzados sobre o peito e segurando ceptros de ressurreição.

Aqui, antes da invasão hicsa, o Rei agia como ”mestre da realização dos rituais” e, pela madrugada, despertava o deus oculto, Amon, que se unia a Ré, a luz criadora da origem.

 

Contempla o Oriente eterno presente sobre esta terra, princesa, a ilha da chama onde, longe da presença humana, Maet continua a vencer a injustiça, o mal e o caos.

 

Então, nada está perdido!

 

Nenhum Faraó foi coroado desde que as Duas Terras estão prisioneiras das trevas. É por isso que este templo funciona sozinho, como se nós não existíssemos. Ninguém hoje sabe controlar a magia das divindades.

 

Porque não tentar?

 

Porque a deusa Mut ergueu barreiras intransponíveis. Por causa da nossa cobardia e da nossa incapacidade, a que era a nossa mão tornou-se a nossa morte.

 

E aceitais essa degradação sem reagir?

 

Somos apenas ritualistas, princesa; é-nos impossível modificar o destino. Se ousares penetrar nesse santuário, não voltarás a sair. A cólera de Mut queimar-te-á e de ti apenas restarão cinzas.

 

Ah-hotep estava fascinada pela nobreza dos colossos osirianos, prova do triunfo da vida sobre o nada. A própria força divina guiara a mão dos escultores.

 

A jovem avançou para a porta axial em granito rosa.

 

Não vás mais longe, princesa! suplicou o sacerdote.

 

A minha mãe disse-me adeus. Visto que já estou morta a seus olhos, nada mais receio.

 

Quando Ah-hotep penetrou no templo, o velho deu meia volta e regressou à sua morada oficial, junto do lago sagrado. Ver assim sacrificadas a juventude e a beleza apertava-lhe o coração, mas nada podia fazer para salvar a princesa.

 

O silêncio.

 

O verdadeiro silêncio, sem um murmúrio, sem um sopro. Oprimida, Ah-hotep explorava um universo desconhecido, onde reinavam o calcário e o granito. Descobrir as cenas de coroação do Faraó, cujo nome estava inscrito na árvore da vida, encorajara-a a prosseguir o seu caminho.

 

É certo que as mesas de oferendas estavam vazias, mas os alimentos gravados na pedra continuavam a alimentar o invisível. E a barca de ouro, poisada no seu suporte, vogava em espaços inacessíveis aos humanos.

 

Sim, aquele templo vivia uma vida intensa, para além da desgraça e das baixezas. Difundia-se por si própria, em circuito fechado, e Ah-hotep tinha a impressão de ser uma intrusa que o edifício não tardaria a repelir com violência.

 

No entanto, não bateu em retirada.

 

A sua simples presença não quebrava um tabu que condenava Tebas ao imobilismo?

 

Ah-hotep franqueou uma nova porta de granito, que lhe deu acesso a uma sala de colunas em parte a céu aberto. Reinava ali uma claridade difusa, quase irreal, propícia ao recolhimento.

 

O local era tão calmo que a jovem não sentia vontade de sair de lá. Não estaria ali a felicidade, no coração daquelas pedras tão vivas? Bastava sentar-se, esquecer a realidade exterior e deixar o tempo abolir-se por si mesmo

 

A primeira armadilha!

 

Ah-hotep levantou-se, furiosa contra a sua sonolência. Talvez um velho sábio, no entardecer da vida, tivesse o direito de saborear um momento como aquele, mas ela não!

 

Arrancando-se ao entorpecimento, a princesa empurrou a porta do templo coberto onde reinava a obscuridade.

 

Consciente de abordar outro mundo cujas leis lhe eram desconhecidas, estacou no limiar.

 

Instintivamente, curvou-se diante do invisível.

 

Meu pai Amon, sei que não nos abandonaste! Mas porque não se manifesta a tua voz com vigor?

 

Apenas o silêncio lhe respondeu.

 

Mas não se tratava de um mutismo, porque Ah-hotep detectou uma presença semelhante à de uma paisagem que dominava a alma pronunciando palavras que só um coração amante podia entender.

 

O santuário habituava-se a ela, não a expulsava.

 

Naquele instante, a princesa vacilou.

 

Ignorava as palavras de força que lhe teriam permitido abrir as portas de três capelas e ver as divindades incarnadas nas suas estátuas. Sem a celebração de um ritual exacto, não se comportaria como uma profanadora?

 

Abrir aquelas últimas portas arriscava-se a desencadear um fogo destruidor que arrasaria Tebas com mais raiva do que qualquer invasão. Mas voltar para trás seria outra forma de derrota, ainda mais imperdoável, e Ah-hotep nunca saberia se as forças divinas consentiam em tornar-se suas aliadas.

 

A capela central... Devia ser reservada a Amon, que permanecia em mistério enquanto a sua cidade não fosse vitoriosa.

 

A princesa escolheu a porta situada à direita do deus oculto. Quebrou o selo colocado no ferrolho, que puxou lentamente.

 

Ah-hotep hesitou.

 

Não falavam as lendas de terríveis guardas, com cabeça de crocodilo ou de serpente, que cortavam a cabeça dos curiosos com um único golpe de lâmina?

 

Não eram mais cruéis do que os invasores... E, pelo menos, morreria no interior de um templo intacto, num local inviolado!

 

Ah-hotep empurrou a porta da capela.

 

Horrorizada, descobriu uma leoa prestes a devorá-la!

 

Mas os olhos da grande fera, esculpidos com incrível realismo, contentaram-se em fixá-la com ferocidade.

 

Venho em paz, Mut! Dá-me a tua força, para que Tebas possa por fim lutar contra o império das trevas!

 

Caindo de uma lucarna escavada numa das lajes do tecto, um raio de luz iluminava a estátua de granito, maior do que a princesa. Sobre a túnica de Mut, estrelas de cinco pontas desenhadas no interior de um círculo. A deusa segurava um ceptro em ouro cuja cabeça era a do deus Set, enquanto a sua extremidade inferior tinha a forma de uma forquilha.

 

O ceptro uas, ”força”, que dera o seu nome à cidade de Tebas, Uaset, a Forte.

 

Ah-hotep contemplava o símbolo sagrado da cidade santa de Amon, que apenas as divindades estavam aptas a manejar.

 

Mut, permites-me utilizar este ceptro? Os olhos da leoa ficaram rubros.

 

Farei dele bom uso, juro-te!

 

No instante em que Ah-hotep tentou retirar o símbolo da mão de Mut, uma queimadura atroz obrigou-a a largá-lo. E a boca da fera abriu-se para devorar a imprudente.

 

Deveríeis comer um pouco, Majestade sugeriu o intendente Qaris.

 

A minha filha suicidou-se e queres que eu tenha fome!

 

Talvez a deusa tenha tido piedade da sua juventude e da sua beleza..

 

Acreditas realmente que a chama de Mut tem esse género de sentimentos?

 

O intendente baixou a cabeça. Ah-hotep fora o último sorriso de uma corte real que agonizava. Sem ela, Teti, a Pequena, não tardaria a depor o diadema e os partidários dos Hicsos poderiam finalmente oferecer Tebas ao ocupante.

 

Incapaz de ajudar a Rainha, Qaris preferiu eclipsar-se.

 

Ao sair dos aposentos da soberana, esbarrou com Seken, que estava de guarda com Risonho.

 

Um sacerdote de Karnak deseja ver Sua Majestade!

 

Vou preveni-la.

 

Teti, a Pequena, recebeu imediatamente o velho de rosto fechado.

 

Fala, depressa!

 

Os deuses são os deuses, Majestade, e ninguém pode transgredir as suas leis.

 

A minha filha...

 

Ela não sabia os riscos da sua insensata iniciativa?

 

A Rainha quase rebentou em soluços, mas dominou-se pensando na necessária dignidade da sua função.

 

Seja qual for o estado do seu cadáver, quero vê-lo. E eu própria dirigirei os seus funerais.
Apopi podia estar orgulhoso de Auaris, a capital do Império hicso. Estendendo-se por mais de duzentos e cinquenta hectares, era a maior cidade do Egipto e do Próximo Oriente. Dominada por uma cidadela inacessível, cuja simples vista aterraria um eventual agressor, Auaris ocupava uma posição estratégica que fazia dela a porta nordeste do Delta. Construída na margem oriental das ”águas de Ré”, o braço pelusíaco do Nilo, situava-se no ponto de junção entre as rotas terrestres e marítimas que davam acesso ao Mediterrâneo oriental, à Siro-Palestina e ao Baixo Egipto. A norte, uma abertura no vasto sistema de drenagem preparado pelos antigos no seio de uma sucessão de lagos permitia atingir o caminho de Hórus que conduzia ao Sinai.

 

Controlar Auaris era reinar sobre o mundo.

 

Desde a chegada dos Hicsos, a colónia estrangeira que residia no pequeno burgo colaborara com entusiasmo. E os novos senhores do país tinham oferecido os monumentos e o bairro egípcio como pasto para os ”corredores das areias”, inimigos jurados do poder faraónico.

 

O novo templo principal era dedicado a Set, divindade do raio, expressão da força absoluta que ninguém podia vencer. Compreendendo que a violência era a melhor das políticas, os Hicsos

 

1 Em egípcio, Hutueret, -o grande palácio- ou ”a fundação real do distrito”.

 

tinham aniquilado uma civilização milenar. Apopi bebia no ímpeto setiano a capacidade de aterrorizar qualquer inimigo.

 

Do alto da cidadela, contemplava as ruas em ângulo recto. O rígido quadriculado facilitava a vigilância dos amontoados de casas, as menos feias das quais eram reservadas aos militares de alta patente.

 

O porto fluvial de Auaris, o mais importante do Egipto, abrigava navios de guerra e navios mercantes, cujo movimento incessante tinha consagrado a movimentada cidade como centro comercial do império.

 

Aos olhos de Apopi, nada era mais belo do que a formidável cidadela, cujos muros com contrafortes tinham a largura de nove metros na base! Gostava de subir ao cimo da torre de vigia que guardava o acesso norte daquela fortaleza construída sobre uma plataforma e, lá do alto, estender o olhar pelos seus domínios. Ele, o filho-de-ninguém, o asiático sem linhagem e sem fortuna, tornara-se o senhor do Egipto e aumentava constantemente a sua zona de influência.

 

Um ligeiro sorriso iluminou-lhe o rosto ingrato, de nariz proeminente, quando os olhos se fixaram no jardim plantado de árvores criado no pátio interior, ao abrigo das fortificações. Um capricho da esposa, uma egípcia do Delta, colaboradora emérita, que detestava os seus compatriotas.

 

Em breve, Apopi receberia embaixadores estrangeiros, provenientes dos quatro cantos do Império. Prosternar-se-iam diante dele, admitindo assim a sua supremacia e a sua espantosa vitória. Esse feliz acontecimento seria acompanhado por uma decisão espectacular que levaria o chefe dos invasores ao topo da fama.

 

Por sorte, a noite estava escura. As nuvens ocultavam a Lua nascente e era preciso conhecer bem a zona dos silos de cereais, próxima do porto de Auaris, para não se perder.

 

O Corcunda nascera ali e recordava os mínimos recantos do bairro onde facilmente eram trocadas mercadorias às escondidas dos agentes do fisco. A administração faraónica não era simpática, mas a dos Hicsos revelava-se francamente sinistra! Sangrando até à última os trabalhadores, reduzia-os a uma miséria larvar.

 

Excelente negociante, o Corcunda montara uma rede de trocas cuja existência o ocupante ignorava. Ignorava também que tecidos, sandálias e unguentos, é um facto que em muito pequena quantidade, se destinavam à última cidade livre: Tebas.

 

Embora a mãe fosse síria, o Corcunda dedicava um verdadeiro culto ao Egipto e odiava os invasores, um bando de militarões que empobreciam o povo cada dia mais e só pensavam em reforçar a sua ditadura militar.

 

Viver em Auaris estava a tornar-se um pesadelo. Assim, quando um habitante de Edfu, fiel à causa tebana, contactara o Corcunda para tentar entregar cereais à resistência, este ficara entusiasmado.

 

E, naquela noite, ia partir o primeiro carregamento num velho barco que, segundo os papiros de contabilidade, transportava cerâmicas. A tripulação era segura, com excepção de um remador cananeu que seria eliminado no decurso da viagem.

 

Há já muitos anos que o Corcunda não passava horas tão exaltantes! Por fim, alguns egípcios levantavam a cabeça. Uma minoria irrisória, é verdade, mas os seus primeiros êxitos suscitariam certamente vocações.

 

Primeira proeza em vista: abrir as portas de vários silos anexos, retirar uma parte das reservas de cereais e enviá-la para Tebas, que tinha falta de tudo. E, depois, repetir a operação tantas vezes quantas fosse possível.

 

Uma coruja piou.

 

Ou, mais exactamente, alguém imitou o piar da ave da noite.

 

O Corcunda respondeu da mesma maneira, forçando os agudos.

 

O outro retorquiu, acentuando os graves.

 

O Corcunda e o seu contacto dirigiram-se um para o outro.

 

Tens as chaves certas? perguntou-lhe o habitante de Edfu.

 

1 Cidade do Alto Egipto, a sul de Tebas.

 

As certas e os papéis em ordem para o transporte. O barco passará sem problemas as barragens militares e a grande alfândega de Hermópolis.

 

A tripulação está pronta a embarcar os cereais. Não percamos nem mais um instante.

 

Os dois homens meteram por uma ruela que ia dar ao cais.

 

Não compreendo espantou-se o resistente. O barco está ali, mas onde estão os marinheiros?

 

Talvez tenham ficado a bordo sugeriu o Corcunda.

 

No entanto, as minhas instruções eram bem precisas! Apareceu um homem na passarela, descendo em passo lento. O remador cananeu.

 

Olá, amigos! É muito tarde para vaguear por estas bandas, não? Diz lá, Corcunda, para que te serve esse molho de chaves?

 

Tetanizado, o interpelado permaneceu mudo.

 

Não seria para abrir os silos, por acaso? Um verdadeiro delito, como sabes... E tu, o seu cúmplice, não serás aquele habitante de Edfu que tenta aliciar pobres loucos para a causa tebana? Ah, pois, estão a pensar nos marinheiros desta espelunca! Foram todos presos e serão executados ao amanhecer diante da cidadela.

 

O Corcunda e o seu aliado tentaram fugir, mas cerca de cinquenta soldados hicsos cortaram-lhes a passagem.

 

Um oficial colocou-lhes as algemas de madeira e depois cuspiu-lhes na cara.

 

Que imbecis! exclamou o marinheiro cananeu. Como haveis podido supor um só instante que escaparíeis à vigilância de Apopi?

 

Outros nos substituirão retorquiu o Corcunda.

 

Desengana-te, aleijado! Identificámos todos os grupúsculos rebeldes. Quando o Sol nascer, não subsistirá um único.

 

Foi com evidente prazer que o cananeu cortou a garganta ao habitante de Edfu, um perturbador particularmente hábil atrás do qual corria há já três anos.

 

Mata-me também, seu cobarde! exigiu o Corcunda.

 

O marinheiro erguia de novo a adaga quando os soldados se afastaram para dar passagem a Khamudi, o braço direito de Apopi.

 

Senhor... Que feliz surpresa! Como podeis constatar, o meu plano é um êxito total.

 

Prendam esse traidor ordenou Khamudi.

 

Senhor... Mas porquê?

 

Porque és cúmplice dos resistentes. O cananeu protestou.

 

Misturando-me com eles para os desmascarar, respeitei rigorosamente as ordens!

 

Ganhaste amizade a essa gente e traficaste com eles. É por isso que acabas de apunhalar o que te ia denunciar.

 

Enganais-vos, senhor!

 

Eu, enganar-me?

 

Não, eu queria dizer que...

 

Insultando-me, agravas o teu caso constatou Khamudi.

 

Juro-vos que sou fiel ao nosso grande Rei Apopi, que executei as ordens, que...

 

Levem-no.

 

Indiferentes aos gritos do marinheiro, os hicsos amarraram-no e fizeram-no avançar dando-lhe pontapés nos rins.

 

Que agradável noite comentou o controlador-geral, passando a mão pelos negros cabelos luzidios de óleo de linho. Tive um jantar excelente e ofereço a mim próprio como sobremesa a exterminação de uma rede pro-tebana. Não te alegras, Corcunda?

 

Aquele verme do cananeu tinha razão: enganais-vos. Khamudi esbofeteou-o.

 

Não sejas tu também insolente!

 

Nunca renunciaremos a combater-vos.

 

A resistência está definitivamente decapitada e todos sabem que será necessário colaborar ou desaparecer.

 

Todos saberão sobretudo que infiltrais espiões nas nossas redes e a desconfiança será regra a partir de agora. Em breve estareis cegos e surdos!

 

Khamudi de boa vontade abriria a cabeça do Corcunda, mas aquele fanático merecia melhor.

 

Acreditas verdadeiramente naquilo que dizes?

 

O sopro de Amon varrerá os Hicsos!

 

Lutaste para nada e morrerás para nada! Mas antes, vais dar-me o nome de todos os teus cúmplices O palácio tem extraordinários especialistas da tortura. Se tenho um conselho a dar-te, é o de falares antes de lhes seres entregue.
A vossa filha está viva, Majestade revelou o médico do palácio. A voz do coração é profunda e regular. Não distingo qualquer sinal de doença grave.

 

Porque continua inanimada? espantou-se Teti, a Pequena.

 

Sou incapaz de explicar isso.

 

Tem que haver com certeza um remédio para a despertar!

 

Vou consultar os antigos tratados.

 

Apressa-te!

 

Ah-hotep estava estendida na cama, com os olhos abertos e fixos. Um ritualista de Karnak descobrira-a deitada no limiar da capela de Mut e os sacerdotes tinham trazido o seu corpo até ao posto da guarda da residência real.

 

O espantoso diagnóstico do médico não tranquilizava Teti, a Pequena; se Ah-hotep não saísse daquela horrível letargia, poder-se-ia afirmar que estava viva?

 

Um ruído surdo fê-la sobressaltar. Mais um, depois outro ainda, como pancadas de aríete desferidas contra a porta do quarto!

 

A soberana abriu e só teve tempo de se afastar para deixar passar Risonho, que se veio agachar ao pé da cama, rosnando.

 

A partir de agora, mais ninguém se poderia aproximar da princesa.

 

Na esplanada precedente à álea que conduzia ao templo de Set estavam formadas várias centenas de soldados em fileiras cerradas. As couraças e as lanças cintilavam ao sol. Orgulhosos por simbolizarem a força hicsa, continham a multidão ávida do espectáculo prometido pelos arautos. Boa parte da população de Auaris reunira-se a fim de assistir à execução da última rede de resistentes.

 

Quando Apopi apareceu, envergando uma túnica grená e seguido pelo seu fiel Khamudi, brotaram as aclamações. De carácter taciturno e pouco atraído por festividades, o senhor do Império não detestava, de tempos a tempos, ser alvo do fervor popular.

 

Considerando os seus grandes projectos, aquela cerimónia vinha mesmo na ocasião propícia: mais nenhum egípcio ignoraria que o poder supremo era exercido com o mais extremo rigor.

 

Quantos cananeus prendeste, Khamudi?

 

Quatro. Bons agentes de informação que nos permitiram identificar uma centena de revoltosos.

 

No momento de morrer, não irão guinchar?

 

Não há perigo, senhor: mandei-lhes cortar a língua. Apopi apreciou a eficácia do seu braço direito, que sabia tomar

 

iniciativas sem se intrometer no poder absoluto do seu senhor.

 

O Corcunda falou?

 

Bastou meia hora de tortura.

 

Revelações interessantes?

 

Nada que não saibamos já... Apenas confirmações.

 

A resistência foi finalmente erradicada?

 

Já não existe nenhuma rede organizada, nem em Auaris, nem no Delta. Talvez alguns indivíduos isolados tentem reagrupar-se, mas as disposições que tomei e a delação permitir-nos-ão destruí-los.

 

Tanto Apopi como Khamudi detestavam o Sol e o calor, que faziam inchar as pernas do primeiro e palpitar o coração do segundo. O discurso do senhor do Império foi, por isso, bastante breve.

 

Povo de Auaris, infames criminosos tentaram pôr em perigo a ordem hicsa. Vão ser supliciados diante dos vossos olhos e a mesma sorte será reservada a todos os que seguirem o seu funesto exemplo. Obedeçam-me e nada tereis a recear.

A um sinal dos oficiais, a multidão aclamou de novo Apopi, que se retirava enquanto uma corte de carrascos acabava de afiar os machados.

 

Foi gritando o nome de ”Tebas!” que o Corcunda foi o primeiro a ser decapitado.

 

Os carrascos recolhiam cabeças e cadáveres para os lançar aos abutres. Nenhum egípcio tinha direito a mumificação, mesmo sumária.

 

Viste isto disse o Bigodes de lágrimas nos olhos. Os Hicsos são mais ferozes do que os monstros do deserto. Ninguém os conseguirá vencer.

 

Não te deixes invadir pelo desespero recomendou o Afegão que, com o seu pequeno grupo, assistira ao massacre. De momento, eles são os mais fortes, mas hão-de ter forçosamente pontos fracos.

 

Mas viste...

 

Foi necessário ver este horror. Devemos endurecer-nos, estando plenamente conscientes do perigo que nos espreita a cada instante.

 

Não sou um guerreiro, Afegãof

 

Eu sou. E tu tornar-te-ás também. Eu quero ficar rico; tu queres vingar os teus e expulsar os invasores. Os nossos interesses convergem, é o essencial.

 

Sem problemas de consciência, os funcionários do templo de Set lavavam com água em abundância o pavimento ensanguentado.

 

A expressão despeitada do médico bastou a Teti, a Pequena, para compreender que não descobrira qualquer remédio.

 

Lamento, Majestade, mas o caso da princesa não é da minha competência.

 

Consultaste os sacerdotes de Karnak?

 

São categóricos: a vossa filha foi muito imprudente.

 

Não existe nenhuma fórmula contra a maldição lançada pela deusa Mut?

 

Que eu conheça, não.

 

Se Ah-hotep não se alimentar, vai morrer!

 

A constituição da princesa é de uma excepcional robustez.

 

Um mágico deveria conseguir quebrar esta letargia!

 

Tende cuidado para não caírdes nas mãos dos charlatães, Majestade. Deveis render-vos à evidência: a nossa ciência é incapaz de curar a princesa.

 

Sai daqui!

 

Vexado, o terapeuta curvou-se rigidamente antes de desaparecer. Risonho continuava de guarda, recusando qualquer alimento. Nem mesmo a Rainha se podia aproximar de Ah-hotep.

 

O vosso quarto está preparado para a noite, Majestade anunciou o intendente Qaris.

 

Fico aqui.

 

Majestade, deveis repousar.

 

Ah-hotep pode precisar de mim.

 

Devo trazer-vos uma cama?

 

Bastar-me-á um cadeirão.

 

Majestade...

 

O intendente parecia perturbado.

 

O que é, Qaris?

 

Segundo os rumores espalhados pelos marinheiros, acabam de ocorrer atrozes acontecimentos em Auaris. Mas talvez não desejeis saber...

 

Fala.

Quando o desespero lhe oprimia o coração, Teti, a Pequena, maquilhava-se. Se a sua filha desaparecesse, não teria mais nenhuma razão para continuar uma luta perdida de antemão, como provavam as revelações do intendente Qaris.

 

Esforçando-se por pensar nos raros momentos de felicidade que tivera, a Rainha retirou de uma corbelha oval um pente de madeira, uma agulha de desenriçar de alabastro, um tampão para maquilhagem e uma concha nacarada na qual misturou unguentos. Já não lhe restava muitos dos produtos de primeira qualidade que os laboratórios dos templos, outrora, demoravam uma quarentena de dias a fabricar.

 

O unguento preferido de Teti, a Pequena, à base de galena moída, purificava-lhe a pele e protegia-a das agressões do sol; tinha também a vantagem de afastar os insectos, ao mesmo tempo que sublinhava a delicadeza das feições da soberana.

 

Antigamente, uma maquilhadora, uma cabeleireira, uma manicura e uma pedicura ter-se-iam ocupado dela com respeito e competência; mas hoje, era a própria Teti, a Pequena, que espalhava o ocre vermelho nos lábios.

 

Majestade... Vinde depressa!

 

Qaris! Como ousas...

 

Perdoai esta intrusão, mas é a princesa... Teti, a Pequena, saltou.

 

Ah-hotep... Não, Ah-hotep não deve morrer, é tão jovem!

 

A princesa acaba, de despertar, Majestade! A Rainha ficou rígida.

 

Não me mintas, Qaris. Seria demasiado cruel. Vinde, peço-vos.

 

Como uma sonâmbula, Teti, a Pequena, seguiu o intendente. Sentada na cama, Ah-hotep acariciava a cabeça do seu cão, que lambia conscienciosamente as patas.

 

Onde está o ceptro da deusa? perguntou ela, numa voz com um timbre estranho.

 

Ah-hotep... Estás viva!

 

A princesa olhou a mãe com expressão admirada.

 

Claro que estou viva! Tu, pelo contrário, tens um ar esgotado.

 

Adeusa Mut...

 

Não me poupou, mas consegui agarrar o ceptro ”força”!

 

Segundo os sacerdotes de Karnak precisou Qaris em voz calma a deusa recuperou a sua posse, princesa. Que tenhais saído de um coma profundo é um verdadeiro milagre.

 

É desse ceptro que precisamos para lutar, tenho a certeza! Ah-hotep levantou-se e o intendente desviou os olhos. Teti,

 

a Pequena, cobriu com uma túnica de linho o corpo magnífico da filha e deu-lhe de beber.

 

Não sofres de vertigens?

 

Não sofro de nada, mãe! Se a chama da deusa Mut não me queimou, se me mostrou o caminho da verdadeira força, foi para me confiar uma missão.

 

Não sejas tão entusiasta, Ah-hotep.

 

E por que não hei-de ser?

 

Porque a situação não nos permite qualquer esperança. Ah-hotep agarrou a Rainha pelos ombros.

 

Quero saber tudo.

 

Tens a certeza?

 

Arrisquei a minha vida e arriscá-la-ei de novo. Não me ocultes nada!

 

Como queiras. Podes falar, Qaris.

 

Qaris... Porquê ele?

 

Porque o encarreguei de recolher informações provenientes dos nossos últimos partidários na zona ocupada.

 

Ah-hotep ficou estupefacta.

 

Tu, Qaris, correste semelhantes riscos?

 

Estou ao serviço da Rainha e do nosso país declarou com orgulho o intendente.

 

Então, também acreditas que a vitória ainda é possível! A tristeza invadiu o olhar de Qaris.

 

Sê sincero exigiu Teti, a Pequena.

 

As palavras dos sábios desapareceram lamentou o intendente as divindades já não reconhecem o Egipto. As barcas do dia e da noite deixaram de circular, o percurso do Sol está perturbado e o astro acabará por se afastar para sempre. Maet deixou de reinar sobre as Duas Terras, a desolação cobre todas as províncias, o mal impõe a sua ditadura.

 

São apenas palavras desoladoras! protestou Ah-hotep. Só os factos interessam.

 

A economia tradicional deixou de funcionar, princesa. Já nenhum dos produtos chega aos templos e a redistribuição não está garantida. Os que produzem não ganham nada, apenas enriquecem os intermediários a soldo dos Hicsos. As oficinas de tecelagem estão fechadas, já não se fabricam roupas de linho, há falta de perucas e mesmo de sandálias; a sujidade não é combatida, os lavadeiros recusam-se a lavar a roupa, os padeiros a fazer o pão e os cervejeiros a cerveja. O ladrão tornou-se rico e a injustiça triunfa.

 

Essa desgraça é apenas passageira... E resta-nos Tebas!

 

A nossa cidade está tão isolada, princesa!

 

Como podes ter a certeza disso?

 

Vou mostrar-vos.

 

Precedendo a Rainha e a filha, o intendente guiou-as até um pequeno compartimento contíguo ao seu quarto, com mobiliário bastante reduzido. Correu uma cortina para deixar à vista uma maqueta de madeira disposta sobre uma mesa baixa.

 

Fabuloso! exclamou Ah-hotep. Esta flor de lótus, é o Delta, o Baixo Egipto... E esta haste que serpenteia é o vale do Nilo, o Alto Egipto... A sul de Assuão, a Núbia.

 

Distinguem-se todas as províncias, com a sua capital e templos observou Teti, a Pequena. Agrimensores e geógrafos fizeram um excelente trabalho. Graças aos nossos informadores, pudemos seguir a progressão do inimigo.

 

Tebas é livre, é o essencial!

 

Tebas não passa de uma ilhota de liberdade rectificou Qaris. Os Hicsos controlam a totalidade das províncias do Norte, ocupam Mênfis, o principal centro económico do país, e instalaram uma alfândega em Hermópolis.

 

A cidade santa de Abidos caiu nas suas mãos?

 

É provável, princesa. Mas há mais grave: a quarenta quilómetros a norte de Tebas, a cidade de Coptos deixou de ser segura. Em Gebelein, trinta quilómetros a sul, os Hicsos erigiram uma nova fortaleza.

 

Por outras palavras constatou Ah-hotep estamos cercados. Mas não temos um fiel aliado em Edfu, mais a sul?

 

O governador Emheb é um homem de palavra, com efeito; mas estará ainda vivo? Quanto a Elefantina, a capital da primeira província do Alto Egipto e a cidade que faz fronteira com a Núbia, está sob o jugo do inimigo.

 

Os Núbios são aliados incondicionais dos Hicsos acrescentou Teti, a Pequena, e estes não param de estender o seu império. Já não recebemos ouro da Núbia, nem cedro e pinheiro do Líbano, somos incapazes de organizar expedições comerciais ou de irmos às pedreiras porque os meios e as vias de comunicação estão sob o controlo hicso.

 

Já não existe nenhuma província fiel a Tebas? perguntou Ah-hotep.

 

Desfizeram-se em pequenos principados explicou Qaris e cada potentado local está às ordens de um oficial hicso que dirige uma milícia. Apopi conseguiu tecer uma teia de aranha à qual nenhum aglomerado pode escapar.

 

Tebas está condenada à morte concluiu a Rainha. Morrerá sufocada... a menos que Apopi decida esmagá-la com o seu pé.

 

Os nossos recursos agrícolas não estão incólumes?

 

A sua gestão tornou-se tão deplorável que em breves seremos vítimas da fome. E ninguém é capaz de interromper esta degradação.

 

Até agora, lutei com uma ínfima esperança confessou Qaris. Mas a nossa última rede de resistentes acaba de ser aniquilada e não disporemos de mais nenhuma informação. Surdos e cegos, como poderemos lutar?

 

É o fim declarou Teti, a Pequena, que o intendente aprovou com um movimento de cabeça.

 

Ah-hotep girou lentamente em redor da maqueta.

 

É o fim da nossa passividade afirmou. Foi por não termos tentado nada que nos arriscamos a desaparecer.

 

A realidade, princesa...

 

A realidade, Qaris, não a conhecemos! Pelo menos, não completamente. As informações são apenas parciais e não posso acreditar que não exista uma única rede de resistentes. É com eles que precisamos de entrar em contacto. Mas, antes de tudo, precisamos do ceptro ”força”.


Teti, a Pequena, empalideceu.

 

Ah-hotep... Não tencionas desafiar a deusa Mut uma segunda vez, não é verdade?

 

Não tenho opção, mãe.

 

Ela nunca aceitará dar-te o seu ceptro! Desta vez, o seu fogo aniquilar-te-á, podes ter a certeza!

 

Mais vale essa morte do que a cobardia.

 

Talvez haja outra solução avançou Qaris. O rosto de Ah-hotep iluminou-se.

 

Em que estás a pensar?

 

Apenas as divindades estão aptas a empunhar o ceptro força”... Mas há uma excepção: o agrimensor cego que, depois da cheia, restabelece a colocação exacta dos marcos que delimitam as propriedades. Como se torna intérprete da justiça divina e não pode favorecer ninguém, tem o direito de empunhar um bastão de madeira com a forma do ceptro sagrado. Mas possuirá as suas virtudes?

 

Onde está esse homem?

 

Ignoro-o, princesa. Há vários anos que ele não desempenha a sua função. É por isso que os litígios se multiplicam. Hoje, o forte domina o fraco e a mentira triunfa.

 

Pára de te lamentar, Qaris! De que serviço administrativo dependia?

 

Do gabinete do cadastro.

 

Vamos lá agora.

 

Não longe do templo de Karnak, os edifícios do cadastro tinham um triste aspecto. Construídos em tijolos crus branqueados com cal, a maior parte deles ameaçava ruína. Nem um único funcionário, apenas cães vadios que se dispersaram à aproximação de Ah-hotep e Qaris.

 

Está aí alguém? perguntou Qaris em voz forte. Respondeu-lhe uma rajada de vento.

 

Uma rajada tão forte que dois ramos de um velho tamarindo quebraram com um estalido sinistro que fez o intendente sobressaltar-se.

 

Vamos embora, princesa.

 

Mas... quem se ocupa do cadastro?

 

Ninguém, como vedes. As queixas acumulam-se, sem resposta.

 

Porque não intervém o ministro da Agricultura?

 

Tal como os seus colegas, só pensa em salvaguardar os seus últimos privilégios.

 

Ah-hotep cerrou os punhos.

 

É preciso metê-lo na prisão imediatamente!

 

Antes, seria necessário julgá-lo objectou Qaris e apresentar a prova da sua incompetência. E, como o ministro compraria os jurados, isso não seria suficiente.

 

De repente, os cães vadios começaram a ladrar, formando um círculo ameaçador em redor da princesa e do intendente. Quando Qaris tentou quebrar o cerco, um dos cérberos mostrou-lhe os dentes e obrigou-o a recuar.

 

Se atacarem, como nos havemos de defender?

 

De momento, contentam-se em manter-nos em respeito considerou Ah-hotep. Não nos mexamos.

 

Saindo a passos muito lentos do edifício principal, um homem idoso dirigiu-se para os intrusos.

 

De cabelo ralo e traços angulosos, vestia um saiote comprido que, outrora, fora um traje de luxo. Segurava na mão direita um bastão nodoso.

 

Quem sois vós? perguntou em voz grave.

 

Sou a princesa Ah-hotep, acompanhada pelo chanceler Qaris.

 

Ah-hotep... A filha da Rainha Teti?

 

A própria. E tu, quem és?

 

O dono dos cães que guardam estes lugares para impedirem os ladrões de se apoderarem dos documentos do cadastro tebano.

 

Ousarias considerar-nos como tal?

 

Regressai ao vosso palácio, princesa; este lugar já só guarda velhos arquivos.

 

No entanto, arriscas a tua vida para os proteger! O homem sorriu.

 

A minha vida já não tem qualquer valor, princesa, visto que já não me é possível exercer a minha profissão.

 

Ah-hotep observava o seu interlocutor com insistência.

 

Mas... és cego!

 

Sim, de nascença.

 

Também és... agrimensor?

 

O último agrimensor cego de Tebas, com efeito. Durante vários anos coloquei no seu lugar os marcos que a cheia deslocara. Mas, nesse tempo, reinava a justiça... Hoje, já não tenho lugar.

 

Ah-hotep passou entre dois cães que se contentaram em rosnar e depois tocou nas mãos do cego.

 

Continuas a possuir o ceptro ”temível” que és o único a poder empunhar?

 

É o meu bem mais precioso.

 

Aceitas confiar-mo?

 

Não posso ver-vos, princesa, mas sei que sois bela, muito bela. Porque haveis de arriscar ser destruída?

 

Porque quero libertar o Egipto.

 

Libertar o Egipto... Esperai-me aqui.

 

Sem hesitar, o cego dirigiu-se para um alpendre com o tecto formado por hastes de papiros.

 

Quando voltou a sair, alguns minutos mais tarde, brandia um estranho ceptro de madeira.

 

Ao vê-lo, os cães dispersaram.

 

Sentemo-nos no banco, além indicou o agrimensor.

 

O ceptro fascinava Ah-hotep.

 

A cabeça deste bastão sagrado é a do deus Set de olhos de fogo revelou o cego. É ele que vê o caminho correcto, o liberta dos obstáculos e vence a mentira. Mas Set faz pagar muito caro os seus serviços! O vaidoso que se julgar senhor da sua força será fulminado pela cólera do céu. Ninguém pode utilizar uma divindade em seu proveito, menos do que qualquer outra, ele que domina as forças do céu e da terra.

 

Tenho necessidade dele afirmou Ah-hotep. Se o seu ceptro guiar o meu exército, ele será vitorioso!

 

Set é imprevisível, princesa. Está habituado à minha mão e não à vossa.

 

Corro o risco.

 

Não será uma loucura?

 

A única loucura é abdicar perante o invasor. O cego levantou-se. Ah-hotep imitou-o.

 

Voltai-vos, princesa.

 

O velho vendou os olhos da jovem com um pano de linho, agarrou-lhe nas mãos e conduziu-a até um campo deixado ao abandono.

 

O proprietário deste terreno morreu há um mês. A cheia levou os marcos e os herdeiros não tardarão a lutar uns com os outros. Não tinha intenção de intervir, visto que nenhum funcionário do palácio registaria a minha peritagem. Hoje, é diferente, visto que estais pronta a tentar a aventura e que o testemunho do intendente Qaris terá um valor oficial. Mas estais verdadeiramente decidida?

 

Renunciai, princesa! aconselhou Qaris. O bastão de Set está carregado de uma energia que poderia destruir-vos.

 

Graças a esta venda, não estou protegida de qualquer agressão vinda do exterior? Dai-me o ceptro, agrimensor.

 

Se ele vos tolerar, princesa, deixai-vos guiar por ele. Ah-hotep não tremia.

 

Os seus dedos fecharam-se sobre o bastão, tão quente que lhe arrancou um grito de dor.

 

Mas a princesa não o largou e viu de repente um céu nocturno onde uma estrela brilhava mais do que as outras.

 

Ah-hotep dirigiu-se para ela e a cintilação atenuou-se.

 

Por três vezes se verificou o mesmo fenómeno. E de cada vez a jovem se deslocou.

 

O céu e o fogo do bastão desapareceram, a venda caiu por si própria.

 

A agrimensura terrestre foi efectuada de acordo com as leis celestes declarou o velho cego. Os marcos deste campo estão de novo implantados no lugar certo. Possa a princesa Ah-hotep conservar o ceptro de Set e fazer a agrimensura de todo o Egipto.


Por cima do templo de Set de Auaris o céu estava negro. Provenientes do norte, tinham-se acumulado densas nuvens para ameaçar a capital hicsa.

 

O seu santuário principal estava longe do esplendor dos edifícios egípcios. Construído em tijolos e não em pedra, era dedicado ao deus do raio e a Hadad, divindade síria da tempestade. Diante do templo, um altar rectangular rodeado de carvalhos e de fossas cheias de ossos calcinados de animais sacrificados.

 

Era ali que tinham marcado encontro uma dezena de conjurados, o mais eminente dos quais era um asiático, chefe da guarda pessoal de Apopi. Depois de longas e prudentes conversações, conseguira reunir um general cananeu, vários oficiais originários da Anatólia e a dama Aberia, filha de um cipriota e de uma grega, encarregada pelo tirano de reduzir à escravidão as egípcias abastadas.

 

Ocupavam todos um lugar importante e tinham enriquecido ao serviço do novo senhor do Egipto, sem nunca discutirem a menor das suas ordens. Mas, há alguns meses, a situação evoluíra por causa da ascensão de Khamudi, transformado no único confidente de Apopi. Os dignitários da corte perdiam a sua influência e o novo braço direito do déspota multiplicava as iniciativas destinadas a reforçar o seu poder.

 

É verdade que Khamudi se mostrara particularmente eficaz ao destruir a última rede da resistência; mas não se murmurava que se aproveitara disso para mandar abater fiéis partidários de Apopi, considerados demasiado ambiciosos?

 

O chefe da guarda colocara então a si próprio uma angustiante pergunta: Quem será o próximo? E a sua interrogação acabara por despertar o interesse de alguns. Apopi e Khamudi não preparariam uma operação de limpeza que os desembaraçaria de aliados incómodos? Substituí-los-iam arrivistas prontos a executar as piores tarefas.

 

O oficial anatólio encarregado do treino dos archeiros verificou que o lugar era seguro. Durante a noite, os oficiantes do culto de Set alojavam-se em cabanas afastadas do templo e vigiadas por um corpo de polícias controlado por um dos conspiradores. Não existia realmente melhor lugar para construírem com toda a segurança o seu plano de acção

 

Se entrássemos no templo? propôs o general cananeu.

 

Evitemos o olhar de Set recomendou o asiático. Sentemo-nos perto do altar, ao abrigo das árvores.

 

Os conjurados formaram um círculo.

 

Disponho actualmente de informações seguras declarou o general cananeu. Por ordem de Apopi, Khamudi mandou assassinar os nossos próprios agentes que se tinham infiltrado numa rede de resistentes.

 

Por que razão? espantou-se a dama Aberia, de estatura imponente e mãos maiores do que as de um homem.

 

Ignoro-o... Mas sei também que vários dignitários morreram subitamente nestas últimas semanas e que foram substituídos por fiéis de Khamudi, líbios e piratas cipriotas e anatólios. Por outras palavras, assassinos sem problemas de consciência. E sublinho: são factos, não são rumores.

 

Um silêncio consternado sucedeu a estas declarações.

 

Seremos os seus próximos alvos? inquietou-se Aberia, visivelmente alarmada.

 

Creio que sim respondeu o general cananeu. Nenhum de nós é um dos próximos do controlador-geral e essa falta é imperdoável.

 

Porque não o suprimimos? sugeriu um oficial.

 

Tocar em Khamudi é pôr Apopi em causa.

 

Então temos de suprimir os dois!

 

Nem penses nisso! objectou um dos seus colegas. Informemos o nosso chefe supremo das manobras de Khamudi, será o suficiente.

 

Esqueces que ele executa as ordens de Apopi? A verdade é que estamos todos condenados a desaparecer!

 

Apopi está fora do nosso alcance.

 

Devo lembrar-vos que sou o chefe da sua guarda pessoal? interveio o asiático. Khamudi não me aprecia muito, mas Apopi ainda tem confiança em mim.

 

O que propões? interrogou o general.

 

Eu encarrego-me de Apopi; tu, de Khamudi. Os outros, da polícia que, como é habitual, se curvará à vontade do mais forte. É preciso agir depressa e em conjunto. A nossa coordenação deve ser perfeita e não deixar nada ao acaso.

 

Se fracassarmos... avançou um oficial em voz sufocada.

 

Se nada tentarmos, seremos massacrados. É imperativo tomar a iniciativa.

 

Quem sucederá a Apopi? perguntou Aberia.

 

A pergunta semeou a perturbação. O asiático e o general cananeu trocaram olhares suspicazes.

 

Temos tempo de ver preconizou outro oficial.

 

De maneira nenhuma! cortou o general. Qualquer improvisação seria fatal. Por consequência, escolhamos desde já o nosso chefe, o que sucederá ao tirano Apopi.

 

Quanto mais riscos corremos disse o asiático mais bela deve ser a recompensa. Como chefe da guarda pessoal de Apopi, não serei eu a correr o maior perigo ao tentar suprimi-lo?

 

Ninguém negará o teu brilharete considerou o general mas governar o Império hicso exige outras qualidades, a começar pelo controlo do exército.

 

Vários oficiais abanaram a cabeça afirmativamente.

 

Só os soldados cananeus te obedecerão objectou o asiático e esses são apenas uma minoria. O melhor federador não será o herói que tiver suprimido Apopi?

 

Porque havemos de escolher entre vós dois? protestou

 

um oficial anatólio. Os guerreiros das nossas montanhas não têm igual e só um deles conseguirá a confiança das nossas tropas. Porque não um pirata? exclamou o general, furioso. Se perdemos a cabeça antes mesmo de começarmos esta delicada ”operação, é fracasso garantido! Que cada um faça o que sabe fazer

 

’e venceremos.

 

Tendes razão reconheceu o asiático e, sobretudo, não nos devemos dividir.

 

Um oficial anatólio sobressaltou-se. Ouvi um ruído...

 

Os conjurados ficaram estáticos.

 

Vai ver, ordenou o general, desembainhando o seu punhal.

 

A ausência do soldado pareceu interminável. Até o general cananeu sentia dificuldade em respirar. Por fim, o vigia regressou.

 

Nada a assinalar.

 

Foi perceptível o alívio de todos.

 

Se não nos conseguimos entender recomeçou o general desistamos.

 

Isso está fora de questão declarou o asiático. Fomos longe de mais. Portanto, não hesitemos mais! Eu matarei Apopi, os oficiais anatólios encarregar-se-ão de Khamudi e o general tomará o comando do exército hicso. Em seguida, reuniremos os altos dignitários e escolheremos o nosso chefe.

 

De acordo aprovou o cananeu, imitado pelos outros conjurados.

 

Iluminada pela luz da Lua que acabava de aparecer entre duas [nuvens, Aberia levantou-se e aproximou-se do general. As minhas felicitações disse ela. Haveis-nos persuadido a tentar esta louca aventura e haveis conseguido apagar as nossas divergências. Por isso, mereceis uma recompensa.

 

Aberia poisou as mãos nos ombros do cananeu, que pensou que aquela mulher escultural o ia beijar.

 

Qual não foi a sua surpresa quando os potentes dedos de Aberia se lhe enterraram na carne do pescoço!

 

Morre, cão sarnento!

 

O general tentou escapar à fúria, mas agitou-se em vão.

 

Ela estrangulou-o.

 

Com a espada na mão, o asiático precipitou-se sobre Aberia.

 

Mas uma saraivada de flechas cravou-se nas costas do chefe da guarda pessoal de Apopi, ao mesmo tempo que cerca de vinte piratas cipriotas surgiam das trevas para cair sobre os conjurados, que massacraram à punhalada. Apesar da sua valentia, os oficiais anatólios sucumbiram ao número.

 

No momento em que o general cananeu expirava, Khamudi apareceu.

 

Bom trabalho constatou com expressão satisfeita. Esta conspiração foi sufocada no ovo.

 

Aberia cuspiu sobre o cadáver e depois esfregou as mãos.

 

O nosso grande Rei Apopi deverá ficar satisfeito... E, para mim, foi um prazer.
Do cimo da cidadela, Apopi contemplava o porto de Auaris, fervilhante de barcos que milhares de marinheiros descarregavam cheios de entusiasmo. Os armazéns regurgitavam de vinho, óleos, madeiras preciosas, bronze e grande quantidade de outros produtos que faziam da capital hicsa uma cidade riquíssima, onde tudo se podia vender ou comprar. Os negócios expandiam-se, toda a gente só pensava em enriquecer sem se esquecer de curvar a cabeça diante do novo senhor do país.

 

Baseada na redistribuição e na solidariedade, a velha economia dos Faraós estava aniquilada. Em breve circulariam em todas as províncias do Egipto os jarros importados de Chipre, reconhecíveis pelo seu negro brilhante decorado com incisões brancas. Para garantir a sua propagação forçada, da qual recebia substanciais lucros, Apopi mandara fechar as oficinas de olaria tradicionais e oferecera os artesãos como escravos aos seus oficiais.

 

Khamudi curvou-se.

 

Senhor, aproxima-se a hora. Eis os dois objectos que me haveis pedido.

 

Entregou a Apopi uma adaga e uma cabaça.

 

Fabricada por um artesão de Micenas, a adaga tinha um cabo de ouro com flores de lótus em prata incisas e uma lâmina de bronze triangular de ponta afiada.

 

No bojo da cabaça de faiança azul com duas pequenas asas, um mapa do Egipto.

 

O miniaturista realizara um trabalho excepcional, conseguindo mesmo indicar a localização da capital de cada província.

 

Esta adaga torna-me invulnerável declarou Apopi. Possui poderes que nenhum adversário pode aniquilar. Lembra-te disso, Khamudi, e faz com que se saiba. Quanto a esta cabaça... Queres saber para que me serve?

 

O interpelado sentiu medo.

 

Talvez não seja necessário, senhor...

 

Não és o meu fiel servidor, aquele que nunca me trairá? Então, olha.

 

Apopi tocou com o indicador a palavra ”Auaris”, que começou a brilhar com uma inquietante luz avermelhada. Assustado, Khamudi recuou.

 

Não tenhas medo, meu bravo amigo. Podes constatar que me basta um dedo para controlar à minha vontade qualquer parte deste país que se julgava protegido pelos deuses. Nem uma parcela da terra dos Faraós me escapará.

 

Nem mesmo Tebas?

 

Apopi sorriu.

 

A loucura de Tebas distrai-me e é-me útil... por agora. Tudo o que lá se passa é do meu conhecimento e nenhuma das suas iniciativas, aliás irrisórias, pode ter êxito.

 

Khamudi compreendeu que o Imperador hicso não era um tirano como os outros. Não só dispunha de um exército numeroso e forte, como também de poderes sobrenaturais contra os quais o melhor dos guerreiros estava de antemão vencido.

 

Hoje é um dia tão importante como o da invasão do Egipto declarou Apopi com a sua voz rouca que fazia gelar o sangue.

 

Os Egípcios vão finalmente compreender que sou o seu Rei e que se devem submeter sem a menor esperança de recuperar uma liberdade perdida para sempre. E, como qualquer povo de escravos, acabarão por me idolatrar. Comecemos por receber a homenagem dos nossos vassalos.

 

Envergando um longo manto vermelho apertado na cintura por um cinto adornado com motivos geométricos, Apopi penetrou lentamente na sala de recepções de seis colunas, cheia de embaixadores vindos de todas as regiões do Império hicso.

 

Cada um deles era rigorosamente vigiado por um esbirro de Khamudi e ninguém poderia esboçar um gesto ameaçador sem ser imediatamente abatido.

 

Apopi sentou-se no seu trono, um modesto assento de pinho.

 

Simplicidade e austeridade: o Imperador reforçava assim a sua reputação de gestor preocupado com o bem público.

 

Começou imediatamente a procissão dos embaixadores.

 

Cada um por sua vez, depositaram aos pés de Apopi as riquezas características da sua região. Amontoaram-se pedras preciosas, potes de unguentos, braceletes de archeiro, escudos, punhais... Mas Apopi não manifestava qualquer sinal de interesse, de tal forma estava impaciente por ver os presentes do embaixador cretense. A grande ilha fizera um tratado de aliança com os Hicsos, mas de que valia a sua palavra? Apenas o peso dos presentes traduziria a realidade do seu compromisso.

 

O diplomata avançou, seguido por uma dezena dos seus companheiros de cabelos negros e nariz direito. Usavam um saiote recortado, debruado com galão e decorado com losangos.

 

O embaixador fez as saudações.

 

Que o nosso soberano receba a homenagem de Creta, que o reconhece como Imperador do mais vasto território que um monarca jamais dominou. Possa Apopi governá-lo com grandeza.

 

Os cretenses ofereceram lingotes e anéis de ouro, espadas, taças e copos em prata, alguns dos quais com a forma de cabeças de leão e de touro.

 

Murmúrios de admiração percorreram a assistência. Era um fabuloso tesouro.

 

Aceito esta homenagem declarou Apopi. A partir de agora, Creta nada terá a recear do exército hicso. Que me sejam regularmente trazidos os tributos e serei o melhor defensor dos meus vassalos cretenses.

 

Os Faraós conservavam na corte apenas dez por cento dos tributos e lançavam o resto no circuito comercial. Apopi fazia exactamente o contrário, de forma a enriquecer a casta dirigente para garantir a sua devoção. Bem entendido, esse segredo de Estado era um dos mais bem guardados e Khamudi não cessava de gabar a generosidade do seu senhor e a sua vontade inquebrantável de colocar os mais humildes ao abrigo de necessidades.

 

Naquele instante, Apopi não pensava nos lucros que lhe proporcionava a sua posição, mas no imenso Império de que se tornava senhor.

 

Reinava sobre o Egipto, a Núbia, a Palestina, o Líbano, a Síria, Chipre, as Cíclades, Creta, a Anatólia e uma parte da Ásia. Em todas essas regiões circulavam jarros ovóides de tipo cananeu, com uma capacidade média de trinta litros, cuja presença marcava a supremacia comercial dos Hicsos. Bastava serem vistos para se saber que Apopi detinha o poder e não tolerava qualquer insubmissão.

 

Governarei sem Maet, a deusa dos vencidos anunciou e imporei por toda a parte a força de Set, que só eu sei controlar. Os Hicsos venceram os Egípcios e eu, Apopi, sou o novo Faraó, o fundador de uma linhagem que eclipsará as precedentes. Os meus nomes de coroação são ”o Amado de Set”, ”Grande é o poder de Ré”, ”Grande é o seu valor vitorioso”, porque mesmo o Sol obedece aos meus desejos. Torno-me assim Rei do Alto e do Baixo Egipto e, de cada vez que o meu nome for escrito ou pronunciado, será seguido do triplo voto: ”Vida, desenvolvimento, coerência.”

 

Tendo o cuidado de não levantar os olhos para o seu senhor, Khamudi apresentou-lhe um amuleto ankh em forma de cruz com asas, que Apopi prendeu na corrente de ouro que tinha à volta do pescoço.

 

Este amuleto em lápis-lázuli revela-me os segredos do céu e da terra afirmou o Imperador e confere-me o direito de vida e de morte sobre os meus súbditos.

 

A assistência estava consternada.

 

1 Ankh, udja, seneb, muitas vezes traduzido de forma aproximada por -Vida, saúde, força”.

 

Quem teria podido imaginar que Apopi se proclamaria Faraó adoptando nomes e títulos tradicionais, infligindo assim um último golpe na alma egípcia?

 

Todos compreenderam que se encontravam em presença de um chefe de guerra implacável, decidido a erradicar a antiga cultura depois de a ter espoliado. Era evidente que mais valia submeter-se do que provocar a sua ira, tanto mais que o exército hicso se reforçava constantemente, tanto em homens como em material.

 

Uma era nova se abria, no decurso da qual a força dominaria, quer fosse militar ou económica. E como Apopi era o senhor absoluto, não restava outra opção senão obedecer-lhe.

 

Apenas o velho embaixador da Núbia ousou formular uma reticência.

 

Para serdes um autêntico Faraó, Majestade, não basta escolher nomes de coroação. Ainda é necessário fazê-los reconhecer pelos deuses, inscrevendo-os na árvore do conhecimento, em Heliópolis.

 

Khamudi de boa vontade cortaria a língua do insolente, mas os núbios eram desconfiados e Apopi tinha interesse, por algum tempo ainda, em tratá-los com deferência.

 

O Imperador hicso manteve a calma.

 

Tens razão, meu amigo. É essa a tradição, com efeito.

 

Mas então, Majestade... Tencionais segui-la?

 

O meu reinado começará com brilho e eclipsará os que o precederam, porque os deuses me protegem. A partir de amanhã, dirigir-me-ei a Heliópolis onde o meu nome será tornado imortal.


Eliminados os elementos duvidosos, era agora Khamudi em pessoa que comandava a impressionante guarda pessoal do Faraó Apopi. Protegido no seu carro coberto com um dossel, o soberano não podia ser atingido nem por uma flecha nem por uma pedra proveniente de uma funda.

 

À entrada da velha cidade santa de Heliópolis, o exército hicso reunira algumas centenas de camponeses egípcios, obrigando-os a aclamar o seu Rei. Os que não gritassem suficientemente forte seriam deportados para as minas de cobre do Sinai.

 

Fora ali, na cidade do Sol criador, que ganhara corpo a espiritualidade egípcia. Fora ali que os sábios haviam redigido os textos gravados no interior das pirâmides de Sakara para garantir a ressurreição e as mutações incessantes da alma real.

 

Apopi não mandara destruir a biblioteca de Heliópolis porque tencionava tirar proveito do saber dos vencidos, a fim de melhor os dominar e ampliar cada dia mais as suas conquistas. Demasiado empenhados na sua pesquisa da sabedoria e da harmonia social, os Egípcios tinham esquecido o essencial: apenas a força dava a vitória.

 

No vestíbulo interior do templo principal de Heliópolis, sozinho ao sol, esperava o Sumo Sacerdote.

 

Com o crânio rapado, vestido com uma pele de pantera ornada com dezenas de estrelas de ouro, segurava na mão direita um ceptro de consagração.

 

Apopi desceu do carro.

 

O que sabemos deste insolente? perguntou a Khamudi.

 

É um erudito ligado às antigas crenças e considerado pelos seus pares como o guardião da tradição.

 

Ele que se curve diante do seu Rei.

 

Khamudi transmitiu a ordem, mas o velho sacerdote permaneceu direito como uma estátua do Império Antigo.

 

Controlando dificilmente o seu furor, Apopi avançou.

 

Ignoras o castigo a que te expões?

 

Apenas me curvo diante de um Faraó respondeu o Sumo Sacerdote.

 

Pois bem, eu sou um Faraó! E venho precisamente inscrever os meus nomes de reinado na árvore do conhecimento.

 

Se sois o que pretendeis ser, é realmente esse o vosso dever. Segui-me.

 

Eu e os meus homens acompanhamo-vos interveio Khamudi.

 

Está fora de questão objectou o Sumo Sacerdote. Apenas o Faraó se pode aproximar da árvore sagrada.

 

Como ousas...

 

Deixa, Khamudi! Eu, Apopi, conformar-me-ei com os usos.

- É demasiado perigoso, senhor!

 

Se perpetrassem um atentado contra a minha pessoa, o Sumo Sacerdote de Heliópolis sabe que todos os templos seriam arrasados e os ritualistas executados.

 

O velho abanou a cabeça.

 

Sigo-te, Sumo Sacerdote.

 

Apopi não sentiu qualquer emoção ao penetrar no grandioso santuário que acolhera no seu seio todos os Faraós do Império Antigo e Médio.

 

Por alguns instantes, a atmosfera recolhida daquele local onde ainda se venerava Maet, deusa da rectidão, provocou-lhe uma ligeira perturbação; para a dissipar, o Imperador hicso evitou olhar os baixos-relevos e as colunas de hieróglifos que, mesmo sem a presença humana, afirmavam a presença das forças criadoras e celebravam o ritual.

 

O Sumo Sacerdote avançou por um vasto pátio a céu aberto no centro do qual reinava uma perséa gigante de folhas lanceoladas.

 

Esta árvore foi plantada no início do reinado do Faraó Djoser, o criador da pirâmide em degraus explicou o Sumo Sacerdote e a sua longevidade desafia o tempo. Nas folhas de um dos seus ramos principais estão inscritos os nomes dos Faraós cujo reinado foi aprovado pelas divindades.

 

Acaba com os discursos! Dá-me com que inscrever o meu.

 

Trata-se de um ritual de exigências precisas: deveis usar a coifa antiga, colocar na fronte um uraeus de ouro, vestir um saiote curto, prostrar-vos e...

 

Pára de divagar, velho! O Imperador hicso não se submete a rituais ultrapassados. Dá-me com que escrever nas folhas e isso bastará.

 

Para que a haste dos milhões de anos continue a crescer, deveis utilizar o pincel do deus Tot. Aceitais fazê-lo?

 

Apopi encolheu os ombros.

 

O velho sacerdote afastou-se lentamente.

 

Onde vais?

 

Buscar o pincel ao tesouro do templo.

 

Não me faças uma partida, caso contrário...

 

Apopi lamentou ter-se privado de qualquer protecção. No lugar do Sumo Sacerdote, teria improvisado uma emboscada. Mas os adeptos dos antigos cultos desaprovavam o crime. Estagnavam no seu mundo irreal onde a ilusão de Maet continuava a fazê-los sonhar!

 

O velho regressou, trazendo um cofre de acácia.

 

No interior, material de escriba: uma paleta com orifícios para as tintas vermelha e preta, godés cheios de água e um pincel.

 

Diluí o pequeno pão de tinta preta com um pouco de água, molhai o vosso pincel e escrevei.

 

Encarrega-te tu dessas tarefas medíocres!

 

Posso preparar o pincel, mas é a vós que compete manejá-lo.

 

Apopi agarrou nele e tentou escrever o seu primeiro nome, ”o Amado de Set”, numa folha larga e comprida.

 

Mas nenhum sinal ficou inscrito.

 

A tua tinta é de má qualidade!

 

Garanto-vos que não!

 

Dilui tinta vermelha.

 

O Sumo Sacerdote obedeceu, mas o resultado foi idêntico.

 

Estás a troçar de mim, velho!

 

Tendes de render-vos à evidência: a árvore do conhecimento recusa os vossos nomes, porque os deuses não vos admitem na linhagem dos Faraós.

 

Vai imediatamente buscar pães de tinta novos.

 

Como quiserdes...

 

Apopi não se impacientou muito tempo. Verificou que o novo pão de tinta preta nunca tinha servido.

 

Nunca mais tentes enganar-me com produtos defeituosos, velho! Neste dia de glória para os Hicsos, perdoo-te a malevolência, mas nunca mais contes com a minha clemência.

 

A nova tentativa de inscrição na folha da árvore saldou-se por um novo fracasso.

 

A tinta não é responsável observou o Sumo Sacerdote. Não sois Faraó e nunca o sereis.

 

Apopi olhou o egípcio com um ódio glacial.

 

Lanças-me um malefício com o teu ceptro... É isso, não é verdade?

 

O hicso arrancou-o das mãos do velho e quebrou-o em dois.

 

Eis o que eu faço da tua pobre magia! Agora, a árvore aceitar-me-á.

 

Mas o pincel deslizou sobre a folha sem deixar qualquer traço. Apopi esmagou-o com o calcanhar.

 

Quem está autorizado a entrar neste pátio e a ler os nomes dos Faraós?

 

Apenas o Sumo Sacerdote de Heliópolis.

 

Consentes em fazer figurar o meu nome nos anais deste templo?

 

É impossível.

 

Não tens amor à vida, velho?

 

Mais vale morrer em rectidão do que viver em perjúrio.

 

És a única testemunha da recusa da árvore... Deves portanto desaparecer.

 

Apopi desembainhou a sua adaga e cravou-a no coração do Sumo Sacerdote, que não esboçara um gesto de defesa.

 

Começava a estar inquieto, senhor... Correu tudo bem?

 

Às maravilhas, Khamudi. O meu nome está a partir de agora preservado para a eternidade na árvore do conhecimento, em letras bem maiores do que os dos meus antecessores. As divindades prostraram-se perante mim e não temos nada mais a recear dos sortilégios egípcios. Que sejam organizadas festiv idades para que o povo possa aclamar o seu novo Faraó.

 

Ocupar-me-ei disso imediatamente. Nada mais, senhor?

 

Faz desaparecer todos os sacerdotes deste templo, fecha as suas portas e que mais ninguém nele penetre. Assim, os meus nomes de coroação ficarão fora do alcance dos olhares humanos.


Ah-hotep prendeu os cabelos negros com uma faixa verde cuja cor era idêntica à dos seus olhos. Adornada com discretas flores de lótus, fora-lhe oferecida pela mãe quando tivera as primeiras regras.

 

Vestida como uma camponesa, dirigiu-se para o embarcadouro.

 

Princesa... a...

 

O que queres, Seken?

 

Se partis em viagem, é preferível evitar o Nilo. Está encolerizado, nestes últimos dias. A melhor solução são os caminhos do campo. Para transportar o necessário, disponho do melhor auxiliar de toda a região.

 

Seken apontou para um soberbo burro cinzento com o focinho e o ventre brancos. As narinas eram largas, as orelhas imensas e os olhos de viva inteligência.

 

Vento do Norte é um colosso. Pesa perto de trezentos quilos, transporta uma centena sem se fatigar e viverá mais de quarenta anos. Sabe adivinhar o melhor itinerário e detectar uma presença hostil. Nos dois cestos coloquei esteiras, cobertas, sandálias, pão, peixe seco, cebolas e odres de água.

 

Então emprestas-me o teu burro?

 

Ele só a mim obedece, princesa.

 

Vou a Coptos e depois a Gebelein. É perigoso, Seken.

 

Já vos disse que queria lutar e não mudei de opinião, antes pelo contrário. Passaremos por um casal de camponeses e seremos muito menos visíveis do que uma jovem sozinha. E, se tivermos maus encontros, defender-vos-ei.

 

Como o conseguiria este rapaz, magro e tímido?, interrogou-se Ah-hotep.

 

Mas o seu argumento em relação ao casal tinha peso.

 

Risonho guardará a vossa mãe durante a nossa ausência acrescentou Seken. Sob a sua protecção, não corre nenhum perigo.

 

A caminho decidiu Ah-hotep.

 

As orelhas de Vento do Norte endireitaram-se, o burro estacou.

 

Ao longe, na margem direita do Nilo, no lugar onde o rio descrevia uma larga curva para leste, estendia-se a cidade de Coptos, colocada sob a protecção do deus Min, garante da fertilidade da natureza e senhor dos exploradores do deserto.

 

Situada a duzentos quilómetros do Mar Vermelho, porta do Este africano e da península arábica, Coptos era o principal entreposto de minerais da região. Aí se encontrava quartzo, jaspe, esmeraldas, obsidianas, brechas, pórfiros, e se negociava também malaquite, aromas, resinas e mesmo marfim.

 

Porque se recusa Vento do Norte a avançar? perguntou Ah-hotep.

 

Seken acariciou a cabeça do burro, mas este permaneceu imóvel.

 

Há perigo perto; mais vale mudar de direcção.

 

Quero saber se Coptos está nas mãos dos Hicsos.

 

Então, esperai por mim aqui.

 

Não devemos comportar-nos como um casal, Seken?

 

Vou falar com o Vento do Norte.

 

No final de longo palavreado, o burro acedeu a avançar, mas em passo muito lento.

 

Junto de um maciço de tamargueiras, uma dezena de homens armados.

 

Polícias egípcios.

 

Alfândega de Coptos declarou um oficial. Se querem seguir para norte, todos têm que pagar: homens, mulheres, crianças e até mesmo os burros. Só é gratuito para os soldados do Imperador.

 

Só queremos ir à cidade disse Seken em voz humilde.

 

Por que motivo?

 

Trocar esteiras por legumes.

 

Se pensam escapar à alfândega passando pela cidade, não tenham essa esperança! Os meus colegas estão presentes em todas as saídas. E a tarifa não é melhor.

 

Qual é o melhor caminho para Coptos?

 

Voltem para trás e metam pelo primeiro carreiro à vossa direita. Levar-vos-á à estrada principal que vai dar à grande entrada da cidade.

 

Sem pressa, o casal de camponeses afastou-se sob o olhar desiludido do oficial da alfândega, que de boa vontade teria revistado a linda morena.

 

Ah-hotep esperava uma cidade fervilhante de comerciantes e de pesquisadores de minerais, com mercados animados por discussões de negócios e passagem de caravanas de partida para o deserto... Mas Coptos estava meio vazia e a quase totalidade das suas famosas tabernas fechada.

 

Nas ruelas, os raros passantes caminhavam depressa e recusavam-se a fazer conversa.

 

Aqui e além, pequenos grupos de soldados egípcios.

 

Mas nem um único hicso.

 

Tenho um mau pressentimento, princesa. Não fiquemos aqui.

 

Ainda não soubemos nada! E deve haver uma estalagem aberta.

 

A norte de Coptos erguia-se o grande templo de Min e de ísis, rodeado por uma cerca de tijolos crus, mas o bairro estava tão sonolento como os outros. Embora uma das portas laterais do edifício estivesse aberta, nem sacerdotes nem artesãos entravam ou saíam.

 

Além! disse Ah-hotep. Um mercador entrega jarros...

 

Era realmente uma ”casa de cerveja”, bastante sórdida, com as paredes nojentas e o tecto enegrecido pelo fumo. Num canto, duas raparigas pouco atraentes tatuavam lagartos nas coxas.

 

Um homem gorducho e com mau hálito colocou-se em frente do casal.

 

O que querem?

 

Beber cerveja respondeu Seken.

 

Têm com que pagar?

 

Uma esteira nova.

 

Mostrem.

 

Seken tirou-a de um dos cestos, acariciando Vento do Norte que não simpatizava com o estalajadeiro.

 

Tem ar de ser de boa qualidade, amigo... Tal como o teu burro! Mas que lindo animal... Não o vendes?

 

É-me muito útil.

 

Pena... E esta linda rapariga, não procuras trabalho para ela? Eu arranjava-lho. E posso jurar-te que tanto ela como nós faríamos fortuna! Se o seu corpo é tão soberbo como o seu rosto, terá a melhor clientela de Coptos.

 

Só queremos beber cerveja.

 

Como queiras... Mas, mesmo assim, reflecte.

 

O casal instalou-se perto da entrada. As prostitutas lançaram olhares invejosos a Ah-hotep, enquanto o gorducho enchia duas taças de um líquido duvidoso.

 

Não sabia que Coptos era uma cidade tão tranquila disse a princesa, sorrindo.

 

As coisas mudaram muito por aqui. Dantes, havia tanta gente que nem conseguíamos ouvir-nos a falar! Partiam caravanas, chegavam caravanas, nem sequer tínhamos tempo de tirar um dia de descanso. Mas isso era nos bons tempos e ganhávamos bem a vida. Agora, é o marasmo. Só restam três tabernas e cada vez menos clientes. De onde vêm vocês os dois?

 

Dos campos tebanos.

 

O estalajadeiro engasgou-se.

 

Principalmente, nunca pronunciem o nome de ”Tebas” recomendou em voz baixa. Há espiões hicsos por toda a parte!

 

Quem reina nesta cidade? perguntou Ah-hotep.

 

O senhor Titi.

 

Está a soldo dos Hicsos?

 

O rosto do estalajadeiro fechou-se.

 

Quem são vocês, para fazerem perguntas dessas? Não sei nada e não tenho nada a dizer-vos! São resistentes tebanos, é isso? Saiam de minha casa, imediatamente! Nunca houve resistentes na minha taberna e nunca haverá, podem dizer alto e bom som! Vá, fora!

 

Um potente zurro fez sobressaltar Seken.

 

Vento do Norte!

 

Ao mesmo tempo que este saltava para franquear o limiar, o rapaz apanhou uma paulada no estômago. Sem poder respirar, desfaleceu.

 

Ajoelhando-se para o socorrer, Ah-hotep descobriu uma dezena de soldados bastante nervosos.

 

A quem pertence este burro? perguntou um deles.

 

A nós respondeu a princesa.

 

Com um coice partiu o braço de um oficial! Sigam-me ao posto.

 

O estalajadeiro empurrou Ah-hotep e inclinou-se profundamente diante do miliciano.

 

É um casal de resistentes tebanos que me ameaçou e que conspira contra a vida do nosso senhor Titi!

 

Ah-hotep e Seken levantaram-se.

 

Uma bela colheita considerou o miliciano com um sorriso feroz. Vamos levá-los ao palácio.

 

O estalajadeiro segurou o miliciano pela manga da túnica.

 

E a minha recompensa?

 

Com uma paulada, o soldado fez o estalajadeiro cair.

 

Vendes a tua cerveja demasiado cara, porco de um raio!


Dois resistentes tebanos na minha boa cidade... Mas que interessante! considerou Titi, o governador de Coptos.

 

Barbudo, de pança volumosa, a voz carregada de agressividade, passava o tempo a amaldiçoar soldados, polícias e criados no antigo palácio real transformado em caserna.

 

Com as mãos cruzadas atrás das costas, passeou em redor de Ah-hotep e de Seken, aos quais os milicianos tinham posto algemas de madeira.

 

Quem são vocês... realmente?

 

Camponeses respondeu Seken.

 

Tu, talvez, mas ela de certeza que não! Com uma cara e umas mãos tão bem tratadas, é uma filha de família... de muito boa família.

 

Aceito falar disse Ah-hotep mas a sós. E na condição de que não façam mal nenhum ao meu companheiro.

 

Interessante... Uma resistente que põe condições, muito interessante. Tu divertes-me, pequena. Saiam todos daqui e metam-me esse rapaz na prisão.

 

A sala de interrogatórios era sinistra.

 

Paredes decrépitas, camas de madeira sujas com manchas de sangue seco, chicotes pendurados na parede... Mas Ah-hotep conseguia dominar o seu medo. Não enfrentara a deusa Mut para acabar torturada num lugar daqueles e estava farta de ser prisioneira no seu próprio país.

 

Liberta-me imediatamente!

 

O governador de Coptos apalpou o queixo.

 

Por que razão te havia de obedecer, minha menina?

 

Porque sou a princesa Ah-hotep, filha da Rainha Teti, a Pequena, tua soberana.

 

Estupefacto, Titi observou demoradamente a magnífica jovem.

 

Se és realmente quem pretendes ser, deves poder descrever-me o palácio de Tebas e escrever o início da Aventura de Sinuhe, que o teu preceptor te fez ler com certeza.

 

Liberta-me e satisfarei o teu pedido.

 

Primeiro, tenho que te revistar.

 

Se ousares tocar-me, arrepender-te-ás!

 

Subjugado pelo aprumo de Ah-hotep, Titi levou a advertência a sério.

 

Então, descreve-me o palácio. A princesa obedeceu.

 

O nome do intendente?

 

Qaris.

 

O governador retirou as algemas e depois apresentou à jovem um bocado de papiro e um pincel.

 

Com uma escrita fina, rápida e correcta, Ah-hotep desenhou os hieróglifos que formavam o início do célebre Sinuhe, o romance de aventuras que contava a fuga de um dignitário que receava ser injustamente acusado de ter participado numa conspiração contra o Rei.

 

Vamos para um lugar mais agradável propôs Titi.

 

Manda imediatamente libertar o meu companheiro.

 

Os meus polícias vão tirá-lo da cela e dar-lhe de comer.

 

O antigo palácio real de Coptos estava muito danificado. Há muito tempo que um Faraó não parava naquela cidade e a maior parte dos compartimentos, desocupada, não fora alvo de qualquer reparação.

 

O governador contentava-se com uma pequena sala de audiências de duas colunas, um gabinete e um quarto de dormir cujas janelas davam para o pátio onde acampava o seu corpo da guarda

 

Datando da feliz e próspera XII dinastia, o mobiliário era admirável: cadeiras e poltronas de formas sóbrias, elegantes mesas baixas, suportes de lâmpadas de rara delicadeza.

 

Estou comovido por encontrar a nossa última princesa declarou Titi, deitando cerveja fresca em duas taças. Para dizer a verdade, tinha ouvido pronunciar o vosso nome, mas perguntava a mim mesmo se existíeis realmente. Perdoai pela qualidade deplorável desta beberagem, mas os melhores cervejeiros da cidade foram requisitados pelo Imperador.

 

Coptos está ocupada pelos Hicsos?

 

Contentam-se com visitas de inspecção, porque consegui fazer-lhes crer que era um aliado muito seguro. Mas eles não são estúpidos a ponto de me concederem uma confiança total! É por isso que eles próprios organizam as expedições ao deserto sem me concederem sequer um olhar sobre os minerais recolhidos. Receio que Coptos, como a maior parte das cidades importantes do país, se torne em breve uma cidade militar. Os mercados estão a morrer e os habitantes pouco têm de comer. Graças às minhas boas relações com o Império, ainda consigo uma quantidade suficiente de cereais, mas por quanto tempo?

 

Organizaste uma rede de resistentes?

 

É impossível, princesa. Há espiões por toda a parte, incluindo no palácio. No mês passado, dez camponeses suspeitos de serem pró-tebanos foram decapitados. Essa barbaridade espalhou o terror e mais ninguém tem vontade de se armar em herói. Tudo o que posso fazer, é fingir amizade com o ocupante para poupar mais desgraças à população. No ano passado, ainda consegui celebrar a grande festa de Min, mas em segredo, no interior do templo e com alguns sacerdotes capazes de guardar silêncio. Essas curtas horas tinham-nos devolvido a esperança de ver florescer de novo as nossas tradições, mesmo num futuro longínquo, mas esta em breve se desvaneceu. Cada dia a ocupação se torna mais dura.

 

É por isso que não podemos continuar passivos decretou Ah-hotep.

 

O que preconizais, princesa?

 

Tebas vai levantar a cabeça e as outras cidades seguí-la-ão

 

Tebas... Mas de que meios militares dispõe?

 

Parecem irrisórios porque nenhum espírito de corpo anima as nossas tropas. Mas a situação vai mudar, garanto-te! Estou convencida de que homens corajosos não faltam e que é simplesmente preciso insuflar-lhes o desejo de lutar.

 

É essa a intenção da Rainha?

 

Saberei convencê-la.

 

É um projecto audacioso, princesa... Direi mesmo: insensato. As fracas forças tebanas rapidamente serão esmagadas pelo exército hicso.

 

Não imagino um choque frontal! É preciso primeiro fazer circular a informação: Tebas não renuncia a lutar e a resistência ampliar-se-á. Estás pronto a ajudar-me, Titi?

 

Repito-vos: é insensato. Mas quem não seria seduzido pelo vosso entusiasmo? Ouvindo-vos, tenho a impressão de voltar a ser jovem!

 

O sorriso de Ah-hotep não teria vencido as reticências dos mais cépticos?

 

Continua a fazer crer aos Hicsos que és seu aliado recomendou ela e rodeia-te de patriotas prontos a dar a vida para libertar o Egipto.

 

Não vai ser fácil...

 

Até à queda do tirano, nada será fácil! Mas é preciso ir em frente, custe o que custar. Não poderias tentar ligar à nossa causa as aldeias em redor de Coptos?

 

É arriscado, muito arriscado!

 

Quando eu voltar, reuniremos os nossos partidários no templo e prepararemos um avanço para norte.

 

Os deuses vos oiçam, princesa! Titi pareceu contrariado.

 

Se sairdes livre deste palácio, vós e o vosso servidor disse ele um espião hicso não deixaria de prevenir os seus superiores. Sou portanto obrigado a mandar-vos expulsar da cidade pelos meus soldados, como sendo mercadores indesejáveis. Sobretudo, princesa... não demoreis a regressar!

 

Eram quatro.

 

Quatro grandalhões mal barbeados, armados com espadas curtas, que enquadravam Ah-hotep e Seken, seguidos por Vento do Norte.

 

À sua passagem, os habitantes de Coptos fecharam as portas. Assustada, uma mulher e o filho fugiram.

 

Onde nos levais? perguntou Seken.

 

À saída sul da cidade. Lá temos a certeza que não haverá espiões hicsos. Pôr-vos-emos no caminho para Tebas e regressareis tranquilamente a casa... desde que não tenham maus encontros!

 

Os seus três acólitos rebentaram em grandes gargalhadas.

 

Felizmente que vos acompanhamos, porque a zona não é realmente segura. Com todos esses egípcios cobardes que só pensam em roubar os viajantes...

 

Seken revoltou-se.

 

O que estás a dizer?

 

Não ouviste bem, amigo?

 

De onde vens, soldado?

 

O interpelado esboçou um sorriso irónico.

 

Bem... Tal como os meus camaradas, de uma caserna de Auaris onde nos ensinaram que os bons egípcios eram os egípcios mortos.

 

De cabeça baixa, Vento do Norte atacou um miliciano hicso e quebrou-lhe os rins. Depois, com um coice bem calculado, rebentou o peito do vizinho. Surpreendidos, os outros dois voltaram-se para o burro, dando a Seken tempo para se apoderar de um punhal e cortar a garganta do tagarela.

 

O último miliciano tentou fugir, mas Seken lançou-se sobre ele. Apesar da diferença de peso, conseguiu derrubá-lo, com a cara no chão, e cravar-lhe a lança na nuca.
Seken levantou-se, muito calmo. Ah-hotep saltou-lhe ao pescoço.

 

Foste um herói!

 

Sem a intervenção do Vento do Norte, teríamos sucumbido. A princesa afastou-se e olhou o jovem com outros olhos.

 

É a tua primeira vitória, Seken.

 

Não tive tempo de ter medo, de tal forma estava louco de raiva contra aquele canalha do Titi! Foi ele que nos vendeu a esses milicianos hicsos. Regressemos a Coptos e suprimamo-lo.

 

E se ele não fosse culpado?

 

Não podeis negar a evidência, princesa!

 

Pereceu-me sincero e decidido a executar o plano que concebemos. Não terá sido traído pelos seus próprios homens, que julgava fiéis? Os Hicsos infiltraram-se por toda a parte e o próprio Titi me revelou que Coptos estava cheia de espiões.

 

Seken ficou abalado.

 

Então, não terá sido ele a organizar esta cilada?

 

Talvez não...

 

Mesmo assim, tendes algumas dúvidas!

 

Não tenho o direito de ser ingénua, Seken.

 

Com gravidade, a princesa contemplou os quatro cadáveres.

 

A primeira batalha em que vencemos o inimigo: não é um momento extraordinário? Estes hicsos tomavam-nos por presas fáceis, condenadas ao matadouro, e são eles que jazem ali, sem vida. Possa o seu maldito Imperador cometer o mesmo erro!

 

O nosso exército ainda só é composto por uma princesa, um burro e um guerreiro noviço lembrou Seken.

 

Ah-hotep poisou docemente as mãos nos ombros do rapaz.

 

Não compreendes que a magia acaba de mudar de campo? Nós já não suportamos, nós lutamos e ganhamos!

 

Uma estranha perturbação invadiu Seken.

 

Princesa, eu...

 

Mas estás a tremer! A reacção depois do combate... Isso vai passar.

 

Princesa, queria dizer-vos...

 

Não deixemos estes corpos à vista. Arrastemo-los para os juncos, na margem do Nilo. Abutres, crocodilos e roedores encarregar-se-ão de os fazer desaparecer.

 

Precedido por Vento do Norte, o casal passou a leste de Tebas, no limite entre o deserto e os campos de cultura, e depois o trio obliquou para o rio, na esperança de apanhar uma barca que os conduziria a Gebelein, cerca de trinta quilómetros a sul.

 

Ah-hotep ficou espantada por ver tão poucos camponeses a trabalhar. A grande maioria dos campos parecia ao abandono e não se ouvia nenhum dos flautistas que, outrora, ritmavam os trabalhos agrícolas. Era evidente que os exploradores não estavam interessados na produção e se contentavam com o mínimo.

 

Os viajantes não se cruzaram nem com militares nem com polícias. A região tebana estava entregue a si própria, sem qualquer protecção. Quando os Hicsos decidissem atacar a cidade do deus Amon, não encontrariam a menor resistência.

 

Consternada e furiosa, Ah-hotep tomava consciência da gravidade da situação. A última província livre do Egipto curvara a cabeça, vencida de antemão enquanto esperava o avanço dos invasores.

 

Vento do Norte saiu de um carreiro demasiado aberto para abrir caminho através dos maciços de papiros. Imobilizou-se a poucos passos do rio, bem oculto por uma cortina vegetal.

 

Ah-hotep e Seken compreenderam rapidamente a razão daquela prudência: no meio do Nilo vogava um barco de guerra hicso! À proa e à popa, vários vigias observavam as margens.

 

Então, a marinha do ocupante circulava sem qualquer oposição em direcção ao grande sul e à Núbia e passava, desafiadora, diante de uma Tebas impotente!

 

Sigamos por uma pista do deserto aconselhou Seken. No rio, em breve seríamos detectados.

 

Com a altura de uma dezena de metros, uma alfarrobeira de densa folhagem ofereceu aos dois tebanos e ao burro um abrigo ideal para observarem a fortaleza hicsa de Gebelein.

 

Deitados lado-a-lado, Ah-hotep e Seken estavam espantados.

 

Como podiam ter imaginado semelhante monstruosidade tão próximo de Tebas?

 

Muros grossos, um caminho de ronda, torres quadradas, fossos... assim se apresentava a impressionante construção diante da qual asiáticos se exercitavam no manejo da lança.

 

Nunca o Egipto conhecera fortificações tão massivas.

 

E não é senão Gebelein murmurou Seken. Imaginais Auaris, princesa?

 

Pelo menos, sabemos com o que contamos.

 

Esta fortaleza é inexpugnável... E quantas haverá como ela, através de todo o país?

 

Destruí-las-emos uma a uma.

 

Dois asiáticos pararam de treinar e olharam na direcção da alfarrobeira.

 

Deram por nós!

 

A folhagem oculta-nos perfeitamente objectou Ah-hotep. Não nos mexamos.

 

Os dois hicsos dirigiram-se para a árvore.

 

Se tentarmos fugir murmurou Seken atacar-nos-ão pelas costas. E se aqui ficarmos, pregar-nos-ão ao solo.

 

Encarrega-te do maior, eu trato do outro.

 

O combate vai atrair os camaradas, não temos qualquer hipótese. Mas defender-vos-ei até ao fim, como prometi, porque... porque vos amo.

 

Uma borboleta de um amarelo-alaranjado, com a cabeça preta salpicada de manchas brancas, poisou na testa de Ah-hotep.

 

Os asiáticos estavam apenas a uma dezena de passos.

 

Ah-hotep agarrou ternamente na mão de Seken, que foi brutalmente arrastado para um sonho. Esqueceu o perigo, no entanto tão próximo, e fechou os olhos para melhor saborear aquele instante inesperado.

 

Depois de terem trocado algumas palavras, os dois hicsos deram meia volta.

 

Esta borboleta chama-se o monarca explicou Ah-hotep. Os pássaros não a atacam nem a comem. Ao poisar sobre mim, tornou-me indetectável!

 

Visto que acabavam de escapar a um grade perigo, os dois jovens seguiram a tradição beijando quatro vezes as costas da mão. Permaneceram um ao lado do outro até ao pôr do Sol, que viu os soldados hicsos regressar à sua fortaleza.

 

Tens consciência daquilo que disseste, Seken? Demonstrando uma coragem de que nunca se julgara capaz,

 

o rapaz tornou a agarrar na mão da princesa.

 

O que sinto por vós assemelha-se a todos os sóis. Um sentimento simultaneamente exaltante como o da madrugada que torna a dar a vida, ardente como o do meio-dia e suave como o da tarde. Amei-vos desde que tive a sorte de vos ver.

 

Amar... É ainda possível amar quando o Egipto sofre mil mortes?

 

Sem o amor, teremos nós a força de lutar até à morte? Será pelo meu país que combaterei, mas também por vós.

 

Partamos daqui decidiu a princesa.

 

Vento do Norte fez deslizar tão delicadamente os cascos sobre o solo que não fizeram barulho nenhum.

 

Com todos os sentidos alerta, Ah-hotep e Seken receavam chocar quer com uma patrulha hicsa, quer com camponeses egípcios que, considerando-se ameaçados, os atacariam sem se preocuparem com a sua identidade. E era também preciso desconfiar das serpentes à caça.

 

Por várias vezes, o burro estacou para aspirar o ar com as narinas.

 

Com os nervos ao rubro, Seken sentia-se capaz de vencer gigantes para salvar a vida da princesa. E prometeu a si mesmo, se regressasse indemne a Tebas, treinar com tanta intensidade e rigor que se tornaria o melhor soldado do Egipto.

 

Finalmente, os arredores da cidade de Amon.

 

Apesar do medo, Seken lamentava que aquela viagem não durasse sempre. Tinha vivido com ela, perto dela, e ela nunca mais lhe concederia um tal privilégio. Como tinha sido insensato, ele, o homem do povo, revelando assim os seus sentimentos a uma princesa! Chocada com a sua insolência, expulsá-lo-ia do palácio.

 

Banhada pela luz da Lua, Ah-hotep estava de uma beleza divina.

 

Os guardas da residência real saudaram-na.

 

Dá de comer ao Vento do Norte e vai descansar disse ela a Seken. Eu preciso de reflectir.
O Afegão e o seu braço direito, o Bigodes, lançaram os cachos de uvas no lagar e depois entraram nele para as esmagarem com os pés. O sumo começou a escorrer por uma abertura lateral e um vinhateiro, membro da sua rede, recolheu-o num jarro de terracota.

 

Os membros do pequeno grupo de resistência tinham deixado Auaris, onde a malha policial era tão apertada que já não lhes permitia reunirem-se sem se arriscarem a ser denunciados e presos. O Afegão deixara no entanto em cada bairro alguns informadores, que contactaria a intervalos irregulares a fim de não atrair a atenção da polícia hicsa.

 

Na capital, controlada com pulso de ferro pelos esbirros de Khamudi, quase todos os egípcios, reduzidos à escravidão, tinham perdido a esperança. Mas restavam ainda alguns decididos a bater-se até ao fim.

 

Nos campos do Delta, a crueldade da ocupação não era menor, mas os camponeses revelavam-se mais difíceis de controlar do que os citadinos. O Afegão ficara surpreendido pela sua recusa da tirania e a sua vontade inquebrantável de se livrarem dela. Infelizmente, não eram soldados e não poderiam formar senão um exército irrisório face aos regimentos hicsos.

 

Como repetia muitas vezes aos membros a sua rede, a única estratégia razoável era a paciência, acompanhada de uma vigilância sem falha. Era preciso convencer pouco a pouco os chefes das aldeias, os pequenos senhores das explorações agrícolas, sondar cada candidato à resistência para saber se possuía as disposições exigidas e se não se tratava de um espião hicso tentando infiltrar-se.

 

Seguido pelos seus homens, o Afegão preferia um pequeno grupo sólido e seguro a um grande número de partidários incontroláveis e fáceis de detectar.

 

Prioritariamente, era essencial eliminar o máximo de informadores hicsos a fim de que o Imperador se tornasse progressivamente surdo e cego.

 

Vai ser um bom vinho previu o Bigodes. Infelizmente, a quase totalidade da produção é destinada ao ocupante e à exportação. Os Egípcios são condenados aos trabalhos forçados, obrigados a produzir cada dia mais, e morrem de fome!

 

Não te lamentes, amigo.

 

Apopi acaba de se fazer coroar Faraó e nunca esteve tão forte! O seu Império não cessa de crescer e o seu exército de se reforçar.

 

Tens razão.

 

Como podes permanecer assim tão sólido como uma rocha?

 

Se quero recuperar a minha fortuna e restabelecer um comércio normal entre o meu país e o Egipto, não há outra solução a não ser vencer os hicsos. E sou mais teimoso do que um burro empacado.

 

No fundo de ti mesmo, sabes bem que não temos qualquer hipótese.

 

É uma questão que não coloco a mim mesmo e deverias imitar-me. O nosso homem já chegou?

 

Acaba de trazer os sacos.

 

Belo recruta em perspectiva, não?

 

Podes bem dizê-lo! Possui três barcos, duzentas vacas, um palmar, e dá trabalho a mais de cento e cinquenta camponeses que lhe obedecem como um só homem. Oferece-nos um abrigo seguro e uma forja onde poderemos fabricar armas.

 

O Afegão e o Bigodes saíram do lagar. O egípcio não resistiu ao prazer de beber sumo de uva enquanto o companheiro se limpava.

 

Próximo, estava uma cuba destinada a recolher o líquido que escorreria dos sacos nos quais era prensado o mosto de acordo com uma técnica ancestral.

 

O futuro resistente era um sexagenário de cabelos brancos e rosto autoritário.

 

És tu o Afegão?

 

Sou eu.

 

E foste tu, um estrangeiro, que te colocaste à frente de uma rede de resistência egípcia!

 

Desagrada-te?

 

Lamento que nenhum de entre nós tenha essa coragem... Sabes a que te arriscas?

 

Não há nada pior do que a pobreza e a desonra. No meu país, eu era um homem rico e considerado. Por causa dos Hicsos, perdi tudo. Vão pagar-me bem caro.

 

Não estás a visar demasiado alto?

 

Vê-se que não conheces os afegãos! Nunca ninguém os venceu nem ninguém os vencerá alguma vez. Vá lá... Devíamos continuar a trabalhar. O lugar parece tranquilo, mas eu desconfio.

 

O Bigodes prendeu um saco cheio de mosto nas extremidades de duas hastes compridas.

 

Como se faz? perguntou o Afegão.

 

Dispomos as hastes em cruz e fazemo-las girar sobre a cuba.

 

E é preciso manter o correcto afastamento entre elas precisou o sexagenário. Há já muito tempo que não me divertia com este género de exercício... Assim, teremos o aspecto de três perfeitos vinhateiros!

 

Com agilidade, trepou para as hastes seguras pelos dois resistentes, afastou-as fixando bem os pés e manteve o equilíbrio agarrando-se a uma delas.

 

Agora, façam-nas girar! O saco será comprimido e servirá de filtro para o escoamento do mosto.

 

A princípio pouco hábil, o Afegão guiou-se pelo companheiro.

 

E tu perguntou ao egípcio estás consciente dos riscos que corres? És um notável, o ocupante tolera-te e, no entanto, pré-lançar-te numa aventura onde tens mais hipóteses de perder tudo do que de triunfar.

 

Até agora, andei com rodeios. Basta. Compreendi que esta ocupação conduzia o Egipto à ruína e que, tanto eu como os outros, acabaremos por ser esmagados sob o pé hicso. Atenção, não girem demasiado depressa! Por pouco não perdia o equilíbrio...

 

Tens a certeza dos teus camponeses?

 

As suas famílias servem a minha há várias gerações e todos odeiam os Hicsos. Os Egípcios não são guerreiros, admito, mas o excesso de sofrimento dar-lhes-á a força que lhes falta ainda.

 

A tua forja... Está à nossa disposição?

 

Temos que ser astuciosos. A milícia hicsa que inspecciona as minhas terras utiliza-a para reparar as suas armas, mas mesmo assim conseguiremos fabricar as nossas.

 

Tens o metal necessário?

 

Uma pequena reserva.

 

Como a arranjaste? O egípcio hesitou.

 

Se não contarmos tudo e se não tivermos uma confiança total uns nos outros precisou o Afegão não vale a pena continuar. Estou pronto a ceder-te o comando da rede, mas prova-me que és capaz de o assumir.

 

Agora, as hastes giravam com perfeita regularidade e o mosto escorria.

 

Tinha um contacto em Auaris confessou o egípcio. Um primo que trabalhava na grande forja da capital e que conseguira desviar algum cobre. Na sequência de um controlo inesperado, foi preso.

 

Como arranjaremos a matéria-prima? inquietou-se o Bigodes.

 

Arranjaremos uma solução prometeu o seu compatriota. Por exemplo, falsificando as notas de remessa hicsas.

 

O Afegão foi incisivo.

 

Não terás tido a visita recente de um dignitário?

 

Sim... Mas como sabes isso?

 

Quando nos preparamos para recrutar um novo resistente, vigiamo-lo. Uma questão de segurança...

 

Claro, compreendo...

 

Eu, o que compreendo menos insistiu oAfegão é a tua entrevista com Khamudi, a alma danada de Apopi.

 

É muito simples protestou o egípcio. Khamudi visitou todas as forjas da região a fim de controlar rigorosamente a produção de armas.

 

É falso! Só visitou a tua e esteve muito tempo à conversa contigo.

 

O Afegão largou bruscamente a sua haste e o proprietário caiu pesadamente no chão.

 

A minha nuca... gemeu. Dói-me, dói-me muito... Mas porque...

 

Porque és um traidor.

 

Enganas-te... Juro que te enganas!

 

Claro que não retorquiu o Afegão, que tornou a agarrar na sua haste para apoiar uma das extremidades na garganta do ferido. Evitavas referir a tua amizade com Khamudi... Ora foi ele que te deu ordem para te infiltrares na nossa rede, tu que és um dos colaboradores mais dedicados do ocupante! Um pouco evidente de mais, nojento... O teu patrão julga que somos ingénuos, mas está enganado.

 

Juro-te...

 

Que valor se pode dar à palavra de um traidor?

 

Foi o Bigodes que, com toda a sua força, enterrou a haste na garganta do espião hicso.

 

Com a laringe esmagada, morreu em poucos instantes.

 

A candidatura deste fulano era boa de mais para ser verdade comentou o Afegão. Pelo menos, o nosso sistema de segurança funcionou. Não podemos deixar de o reforçar cada vez mais.


A enorme língua do molosso lambeu o rosto de Seken, que dormia ao lado do seu burro.

 

Ah, és tu, Risonho..

 

O cão tentou sentar-se na barriga do rapaz. Receando ser esmagado sob o seu peso, Seken rolou para o lado e levantou-se.

 

O Sol já ia alto no céu.

 

Confuso, Seken não sabia se devia dirigir-se ao palácio ou abandonar a cidade para escapar à cólera da família real. Se implorasse o perdão de Ah-hotep, talvez ela lho concedesse... Mas porque se havia de humilhar assim? Por muito insensato que fosse, o seu amor nada tinha de condenável! E ele não era homem para rugir como um cobarde.

 

Anda, Risonho, vamos a casa da tua dona

 

Pouco maquilhada, envergando um longo vestido verde-pálido, a princesa lia hinos compostos pelos sábios em louvor das coroas reais, consideradas como seres vivos que projectavam um fogo capaz de vencer as forças das trevas.

 

Trago-vos Risonho declarou Seken com expressão sombria Autorizais-me a permanecer em Tebas?

 

Ah-hotep não levantou os olhos do papiro.

 

Os teus sentimentos mudaram?

 

Os meus sentimentos...

 

A tua longa noite fez-te esquecer as tuas absurdas declarações?

 

Não, claro que não!

 

Devias ter reflectido e compreendido que és vítima de uma miragem.

 

Não sois uma miragem, princesa, mas sim a mulher que eu amo.

 

Tens a certeza?

 

Juro pela vida do Faraó!

 

Já não há Faraó, Seken.

 

Os que vivem para sempre no céu são testemunhas da minha sinceridade.

 

Ah-hotep poisou o papiro sobre uma mesa baixa e fitou o rapaz a direito nos olhos.

 

Esta noite, não dormi porque pensei constantemente em ti confessou ela. Sentia a tua falta.

 

O coração de Seken disparou.

 

Mas, então...

 

É possível que te ame. Mas o casamento é muito mais grave. Já estiveste com uma rapariga?

 

Não, Ah-hotep.

 

Eu, não conheci nenhum rapaz. És capaz de oferecer o presente da virgem a uma princesa, ou seja, camas, cadeiras, cofres de arrumação, caixas para jóias e pinturas, braceletes e anéis, vasos preciosos e tecidos de primeira qualidade que, por sua morte, lhe servirão de mortalha?

 

Seken estava esmagado.

 

Bem sabeis que não.

 

Tanto pior, passarei sem isso. A minha mãe vai protestar, mas saberei convencê-la. Assentemos agora o que exijo do meu futuro marido: que não seja ganancioso, nem vaidoso, nem estúpido, nem desonesto, nem de espírito tacanho, que não queira andar na boa vida e que não seja surdo à voz dos deuses.

 

Comprometo-me a fazer o melhor que puder, mas não sei se...

 

Comprometes-te, é o essencial. Vamos ao mais importante: quero dois filhos o mais depressa possível. A luta contra os Hicsos vai ser longa e educá-los-ei no amor pelo seu país e na vontade de o libertar. Se tu e eu desaparecermos, continuarão o nosso combate.

 

Seken sorriu.

 

Aceito todas essas condições.

 

Os lábios dos dois aproximaram-se.

 

Não sou uma mulher como as outras, Seken, e estou proibida de o vir a ser. Mesmo que sejamos felizes juntos, a nossa existência será sempre tumultuosa.

 

Já me haveis ensinado a não ser um homem como os outros. Para viver convosco, estou pronto a todos os sacrifícios.

 

Deram o seu primeiro beijo, a princípio hesitante, depois intenso.

 

As mãos trémulas de Seken fizeram deslizar o vestido ao longo do corpo perfeito de Ah-hotep, ousaram tocar a sua pele perfumada e aventuraram-se a uma primeira carícia que a fez vibrar com todo o seu ser.

 

Ela, a conquistadora e a lutadora, abandonou-se nos braços daquele amante que reinventava os gestos da paixão.

 

E entregaram-se um ao outro, esquecendo tudo o que não fosse o seu desejo.

 

Embora ligeiramente adoentada, Teti, a Pequena, recebeu a filha, na presença do intendente Qaris.

 

Nunca estiveste tão deslumbrante, Ah-hotep. Trazes boas notícias da tua expedição?

 

Infelizmente não, Majestade. Em Gebelein foi construída uma fortaleza que parece inatacável, no Nilo circulam livremente barcos de guerra hicsos, e os campos tebanos não gozam de qualquer protecção militar.

 

Haveis chegado a Coptos? perguntou Qaris.

 

Encontrei-me com o governador da cidade.

 

Titi?

 

Ele próprio. Um estranho homem, bastante desiludido, ao qual espero ter devolvido o gosto pela luta.

 

É um dos nossos mais fiéis aliados declarou o intendente mas a sua rede de resistentes foi destruída e Titi só escapou à morte fingindo-se vassalo do Imperador.

 

Acreditas que teria dado ordem para ser massacrada por milicianos a soldo dos Hicsos?

 

Impossível, princesa!

 

Coptos será em breve uma cidade morta predisse Ah-hotep e os Hicsos construirão lá provavelmente uma fortaleza comparável à de Gebelein. Titi já não dispõe senão de uma pequena guarda pessoal e não pode celebrar a festa de Min a não ser em segredo.

 

Qaris estava acabrunhado.

 

Tal como pensava, estamos cercados. O reduto tebano não tardará a sucumbir.

 

Estou convencida do contrário: é preciso suscitar vocações, organizar a resistência e alargar pouco a pouco o torno.

 

Tive notícias de Auaris revelou Qaris. Apopi acaba de se proclamar Faraó e os seus nomes de coroação foram inscritos na árvore sagrada de Heliópolis.

 

Ele não se atreveu... balbuciou Teti, a Pequena, ferida no coração.

 

Dentro em pouco, Majestade, deveremos reconhecer a sua soberania e jurar-lhe fidelidade. Tebas, como o resto das Duas Terras, não pertence ao Rei do Alto e do Baixo Egipto?

 

A Rainha estava à beira das lágrimas.

 

Deixem-me, os dois.

 

Vem comigo, mãe. Vou provar-te que a esperança subsiste. Dando o braço à Rainha, Ah-hotep conduziu-a até ao seu

quarto, cuja porta abriu com estrondo.

 

Deitado sobre a cama, com os olhos no céu, Seken ficou tão surpreendido que mal teve tempo de se tapar.

 

Ah-hotep! Isto não significa que...

 

Claro que sim, mãe. Seken e eu fizemos amor pela primeira vez. Viveremos daqui em diante juntos sob o mesmo tecto e somos portanto marido e mulher. O meu esposo contar-te-á pessoalmente como, com a ajuda do seu burro, venceu quatro milicianos hicsos que nos queriam executar. A nossa primeira vitória, Majestade!

Ah-hotep, tu...

 

Seken não pertence a uma grande família, mas que importância tem isso? As princesas egípcias desposam aqueles que amam, seja qual for a sua origem. Não tem qualquer fortuna e não pode portanto oferecer-me o presente da virgem... Mas não estamos em tempo de guerra? As nossas almas e os nossos corpos estão em harmonia, estamos decididos a bater-nos até à morte. Não é o essencial?

 

Vocês... vocês querem ter filhos?

 

Teremos dois filhos e serão guerreiros tão valentes como o pai.

 

Bem, bem...

 

Dás-nos a tua aprovação, mãe?

 

Quer dizer...

 

Com entusiasmo, Ah-hotep beijou a Rainha nas duas faces.


Com raiva, a dama Tani atirou o espelho de encontro à parede, na esperança de o quebrar. Mas o magnífico disco de cobre resistiu ao choque e a esposa do Imperador dos Hicsos encarniçou-se em pisá-lo.

 

Nascida no Delta, próximo de Auaris, Tani tivera a sorte de agradar ao Imperador, cuja fealdade a fascinava. Mas não suportava que evocassem a sua própria fealdade ou que troçassem dela pelos corredores do palácio. Baixa e gorda, tentara tudo: remédios para emagrecer, produtos de beleza, aplicações de lama... Uma sucessão de fracassos, mais pungentes uns do que outros.

 

Apreciando apenas a cozinha gordurosa, os pratos com molho e os bolos, Tani recusava renunciar a isso e chamava charlatães aos médicos do palácio.

 

Demasiado ocupado pelo poder, o seu poderoso marido não se interessava por mulheres. O sangue gelado que lhe corria nas veias não o incitava aos jogos de amor e, se violava de tempos a tempos uma jovem nobre egípcia reduzida à escravidão, era unicamente para mostrar que exercia um poder absoluto sobre os seus súbditos.

 

De origem modesta, Tani tinha grande prazer em martirizar as grandes damas agora ao seu serviço e de quem teria sido, sem a invasão hicsa, a humilde serva. Não perdia uma ocasião de as humilhar e rebaixar mais baixas do que a terra. Nenhuma lhe podia desobedecer e muito menos revoltar-se porque, a uma simples palavra da esposa do Imperador, a insolente era primeiro açoitada e depois decapitada. Não passava uma semana sem que a dama Tani tivesse vivo prazer num espectáculo desse género de execução.

 

A única sombra no quadro era a chegada ao palácio da esposa de Khamudi, uma loura opulenta que não cessava de fazer trejeitos e de abanar a cabeça como uma gansa, sobretudo na presença do Imperador. Mas Yima, aquela peste, sabia que o marido não suportaria a mínima escorregadela. Não estrangulara Khamudi com as próprias mãos a sua esposa anterior, que encontrara em casa nos braços de um amante?

 

A dama Tani, à qual Apopi recusava os títulos de imperatriz e de Rainha do Egipto, apreciava Khamudi. Era violento, ambicioso, sem piedade, calculista e mentiroso. Em suma, as qualidades indispensáveis para se tornar um dignitário hicso. É verdade que nunca conseguiria chegar aos calcanhares do seu mestre Apopi e tinha interesse em continuar a ser o seu auxiliar. Caso contrário, a própria Tani se encarregaria de pôr fim à sua brilhante carreira.

 

Maquilha-me correctamente ordenou ela secamente a uma das suas criadas, cuja família tinha sido das mais ricas da cidade de Sais.

 

Apesar da habilidade da maquilhadora, o resultado foi desastroso. Querendo atenuar a falta de graça das feições e as características viris do rosto, a infeliz apenas conseguira acentuá-las.

 

Estás a fazer troça de mim! berrou a dama Tani, batendo-Ihe com o espelho.

 

Ferida, a criada desmaiou.

 

Desembaracem-me disto exigiu ela das outras, mudas de horror e lavem-me o rosto. Tenho que ir a casa do Imperador.

 

Sê rápida e concisa, Tani. O grande conselho está à minha espera.

 

Não me meto em política, mas tenho uma informação interessante.

 

Muito bem, pára de fazer rodeios e fala.


Uma das minhas criadas confessou sob tortura que os Egípcios continuam a fazer presentes uns aos outros sem os declararem ao fisco. Fiz uma lista de culpados.

 

Bom trabalho, Tani.

 

O Imperador saiu do gabinete para se sentar numa cadeira de transportadores que o conduziu ao templo de Set, sob rigorosa vigilância da sua guarda pessoal. Seria sob a protecção do deus da tempestade que anunciaria aos altos funcionários hicsos as directivas económicas que deveriam ser aplicadas com dureza.

 

Graças à esposa, constatava que as regras da velha economia egípcia continuavam vivas e que ainda seria necessário tempo para as aniquilar. Quanto mais rico se é, mais se oferece, afirmavam os Faraós, aplicando esta lei a si próprios. A generosidade era uma obrigação social e o lucro não podia ser um objectivo. Um grande desprovido de generosidade destruía a sua reputação, saía do domínio de Maet e tornava-se fatalmente um medíocre, condenado a perder o que julgava adquirido.

 

A qualidade de um produto era considerada como mais importante do que o seu valor comercial e competia aos templos verificá-la, garantindo a boa circulação das oferendas a fim de que se realizasse um dos principais deveres do Estado faraónico: a coerência social ligada ao bem-estar de cada indivíduo.

 

Todos eram livres de fabricar pessoalmente aquilo de que tinham necessidade, em função das suas aptidões manuais, e arranjavam o restante graças à troca, que se estendia aos serviços. Por exemplo, o escriba desejoso de mandar construir uma casa redigia o correio do pedreiro em troca das horas de trabalho do artesão.

 

Assim, na comunidade egípcia das Duas Terras, qualquer indivíduo era simultaneamente devedor e credor de vários outros parceiros económicos. O Faraó velava pela reciprocidade dos dons e a circulação da generosidade. O que recebia devia dar, mesmo em menor quantidade, mesmo com atraso. E o Rei, que tanto recebera dos deuses, devia dar ao seu povo a prosperidade espiritual e material.

 

Apopi execrava essa lei de Maet, essa solidariedade que ligava os seres cá em baixo e no além. Os Hicsos tinham compreendido que ela era um obstáculo ao pleno exercício do poder e ao enriquecimento da casta dirigente.

 

No vestíbulo do templo de Set, Khamudi esperava o seu senhor.

 

Senhor, foram tomadas todas as medidas de segurança. Um silêncio pesado reinava no interior do edifício. Não faltava

 

nem um general, nem um governador de província, nem um chefe de serviço administrativo. Apertados uns aos outros e ansiosos, receavam a sorte que lhes reservava o Imperador.

 

Este saboreou demoradamente o medo que inspirava antes de revelar as suas decisões.

 

A lei de Maet é definitivamente abolida declarou. Portanto, deixamos de ter necessidade de vizires e de magistrados. A justiça será feita por mim mesmo e pelos meus ministros, o mais importante dos quais usará o título de grande tesoureiro do Baixo Egipto. Confio essa função primordial ao meu fiel Khamudi, que será também o meu porta-voz. Mandará redigir os meus decretos em papiros e difundi-los-á por todo o Império a fim de que ninguém os ignore.

 

Khamudi sorriu, satisfeito. Tornava-se oficialmente a segunda personagem do Estado e imaginava já os fabulosos benefícios que conseguiria controlando a indústria dos papiros. Espalhar por escrito as directivas do seu senhor não era uma tarefa exaltante? Amanhã, todos os habitantes do império pensariam como era mister que pensassem e os contestatários deixariam de ter direito à palavra.

 

Mostrámo-nos demasiado tolerantes com os vencidos continuou o Imperador e essa brandura deve acabar. A nova lei é simples: ou colaboram, ou são condenados quer à escravatura, quer aos trabalhos forçados nas minas. Quanto aos ricos proprietários de terras, aos artesãos e aos comerciantes, deverão declarar ao grande tesoureiro tudo o que possuem, e digo bem tudo, incluindo o mais modesto objecto ou o menor pedaço de tecido. Serão então taxados pela sua fortuna e os que tiverem mentido serão severamente castigados. As brigadas de Khamudi procederão a verificações frequentes e pormenorizadas. Bem entendido, os membros do clã dirigente não terão que pagar este imposto.

 

Todos os dignitários contiveram um suspiro de alívio.

 

Não quero que a palavra ”liberdade” seja nunca mais pronunciada no meu império decretou Apopi. Serão promulgadas leis para reger todo o comportamento social e individual, e todos deverão observar esse novo código do qual sereis os garantes. Exijo relatórios pormenorizados sobre qualquer pessoa que exerça uma responsabilidade a fim de ser informado sem demora sobre seja quem for que falte à lealdade em relação a mim. Enquanto me obedecerdes cegamente, vós, os altos funcionários do Império Hicso, sereis ricos e poderosos.

 

Um cananeu pediu a palavra.

 

Majestade, podemos aumentar os impostos em todas as províncias?

 

É indispensável, com efeito. Fixo-os em vinte por cento e todos os rendimentos.

 

Perdoai, Majestade... Mas não é excessivo?

 

Iremos muito mais longe, podes crer. E o povo pagará, sob pena de represálias. Sabei igualmente que qualquer navio deverá dez por cento da sua carga ao palácio: é esse o preço do direito de circulação no Nilo e nos canais.

 

Khamudi sentia crescer água na boca.

 

Não há mais perguntas?

 

Sim, Majestade interveio um general sírio. O que resta da resistência?

 

Está quase aniquilada. É certo que subsistem ainda alguns insensatos, mas serão tomadas as medidas necessárias.

 

Porque não arrasamos Tebas?

 

Tebas está sob controlo afirmou Apopi. Sirvo-me dela como de uma armadilha para atrair os últimos resistentes e deixar um falso clarão de esperança aos Egípcios. O escravo desesperado é menos produtivo do que o que acredita num futuro, mesmo distante. Acrescento que a imigração massiva e os casamentos forçados modificarão profundamente a população. Dentro de alguns decénios, a antiga civilização estará extinta e o Egipto será definitivamente hicsa.
O Sumo Sacerdote de Karnak não conseguia dormir.

 

Decidiu então levantar-se, sair da sua pequena casa construída na margem do lago sagrado e dar alguns passos nos domínios do deus Amon.

 

Como teria desejado que fossem realizados grandes trabalhos, como teria gostado de ver o templo crescer e embelezar-se! Mas Tebas estava exangue e já não havia Faraó. Karnak mergulhava num sono mortal.

 

A noite estava esplêndida.

 

O décimo quarto dia da Lua crescente, o olho esquerdo de Hórus, chegava ao fim; uma vez mais, Set tentara em vão cortá-lo em pedaços. Tot, o deus do conhecimento, pescara o olho com uma rede no oceano de energia a fim de que brilhasse de novo e fizesse com que se desenvolvessem os minerais e as plantas. Não era a Lua reconstituída a imagem do vigor vivificante e o símbolo do Egipto feliz, dotado da totalidade das suas províncias?

 

O Sumo Sacerdote esfregou os olhos.

 

O que via não podia passar de uma miragem. No entanto, estava perfeitamente acordado e não sofria de qualquer perturbação ocular.

 

Para ter a certeza de que não se enganava, contemplou aquela Lua cheia durante longos minutos.

 

Certo do que vira, dirigiu-se para o palácio tão depressa quanto lhe permitiam as suas velhas pernas.

 

Perdoai que vos arranque ao sono, intendente, mas é muito importante!

 

Não estava a dormir, Sumo Sacerdote.

 

É preciso alertar Sua Majestade.

 

Está muito fatigada afirmou Qaris e tem necessidade de repouso.

 

Olhai a Lua, olhai-a bem!

 

De uma das janelas do palácio, Qaris descobriu o incrível espectáculo.

 

Perturbado, correu até ao quarto da Rainha e despertou-a com cuidado.

 

O que se passa, Qaris?

 

Um acontecimento extraordinário, Majestade! O Sumo Sacerdote e eu próprio somos testemunhas, mas só vós podeis decidir se os nossos olhos não nos enganam. Bastar-vos-á observar a Lua cheia.

 

Teti, a Pequena, contemplou por sua vez a mensagem do céu.

 

Ah-hotep murmurou, estupefacta é o rosto de Ah-hotep!

 

A Rainha e o intendente juntaram-se ao Sumo Sacerdote.

 

O oráculo manifestou-se, Majestade; que a princesa veja também e saberemos como interpretá-lo.

 

Risonho guarda os seus aposentos lembrou Qaris. Não deixará entrar ninguém.

 

É demasiado importante... Corro o risco, ficai atrás de mim. Quando o Sumo Sacerdote se aproximou, o molosso abriu os olhos e levantou a pesada cabeça poisada sobre uma confortável almofada.

 

O céu falou, é preciso que a tua dona oiça a sua voz.

 

Risonho emitiu uma espécie de queixume que a princesa reconheceu imediatamente. Depois de ter beijado ternamente Seken na testa, vestiu uma túnica e abriu a porta do seu quarto.

 

Sumo Sacerdote... O que fazeis vós aqui?

 

Olhai a Lua cheia, princesa.

 

Está esplêndida, o olho está cheio de novo, o Sol da noite dissipa as trevas.

 

Nada mais?

 

Não é o sinal de esperança que nos deve incitar a continuar a luta?

 

Apareceram Teti, a Pequena, e Qaris.

 

Olha bem insistiu a Rainha.

 

Mas o que deveria ver?

 

O oráculo expressou-se repetiu o Sumo Sacerdote e agora conhecemos a vontade do céu. Compete-vos a vós tirar as conclusões.

 

Recuso declarou Ah-hotep. Tu és a Rainha legítima e deves continuar a sê-lo.

 

Fomos três a ver o teu rosto na Lua cheia precisou Teti, a Pequena, e tu não te reconheceste. O significado de um sinal tão extraordinário não deixa qualquer dúvida: o teu papel consiste em incarnar na terra a sua força regeneradora. Chegou o momento de me apagar, Ah-hotep; sinto-me velha e cansada. Só uma Rainha jovem, dotada da magia desta função, poderá talvez devolver a Tebas o vigor que lhe falta.

 

Não quero tomar o teu lugar, mãe!

 

Não é disso que se trata. O invisível manifestou-se, o Sumo Sacerdote autentificou o oráculo. Vais revoltar-te contra a palavra do céu, onde vivem as almas dos Faraós que veneras?

 

Quero consultar a deusa Mut.

 

Olho da luz divina, portadora da dupla coroa, esposa do Príncipe, alimentada por Maet, simultaneamente fêmea e macho, Mut apareceu a Ah-hotep no lugar do silêncio.

 

Ah-hotep ousou olhar a estátua fracamente iluminada por um raio de luz que passava por uma pequena abertura feita no tecto da capela.

 

Permitiste-te tocar no teu ceptro e fizeste-me provar a tua força. Graças a ti, travei os meus primeiros combates e sinto-me pronta a continuar a luta, sejam quais forem os perigos. Mas o Sol da noite exige mais ainda: que eu me torne Rainha do Egipto. Eu não desejo essa carga. Parece-me demasiado pesada para os meus ombros. Ora desafiar o oráculo e recusar a vontade dos deuses agravaria ainda mais a infelicidade de Tebas e os resistentes perderiam toda a esperança. Neste instante, estou perdida e preciso de ti para traçares meu caminho. Responde à minha pergunta: devo aceitar a decisão da Lua cheia?

 

Os olhos da estátua brilharam com um fulgor vermelho, o sorriso da leoa acentuou-se.

 

E a cabeça de granito inclinou-se da frente para trás, muito lentamente, por três vezes.

 

Do terraço do palácio, Teti, a Pequena, e Ah-hotep contemplavam a margem oeste de Tebas, onde o Sol não tardaria a pôr-se para enfrentar a prova da morte e preparar a sua ressurreição. Já nascida, a Lua brilhava com um fulgor pouco habitual.

 

O que é uma Rainha do Egipto, minha filha? A soberana das Duas Terras de lindo rosto, cheio de graça, a doce amorosa que acalma a divindade, a que possui o encanto, dispõe de uma voz apaixonada quando canta os rituais, a das mãos puras quando maneja os sistros, a mágica que enche o palácio com o seu perfume e o seu orvalho e não pronuncia palavras inúteis... A única capaz de ver Hórus e Set serenados, conhece os segredos do eterno combate que travam os dois irmãos no cosmos. Cada um deles vive de ouvir a Rainha, porque ela consegue conciliar os contrários e fazer reinar Maet e Hathor, a rectidão e o amor.

 

São tarefas impossíveis, mãe!

 

No entanto, são as que os sábios do tempo das pirâmides confiavam a uma Rainha do Egipto. Muitas das que me precederam conseguiram executá-las; eu, fracassei. Tu, que me vais suceder, nunca as percas de vista. Quanto mais subimos na hierarquia, maiores são os deveres; tu, que ocuparás o topo, não mais terás repouso nem desculpa.

 

Ah-hotep sentiu medo.

 

Um medo mais intenso e mais profundo do que todos os sentidos até àquele instante. A princesa teria preferido encontrar-se diante de vários soldados hicsos do que daquela pequena mulher frágil cuja grandeza acabava de lhe ser revelada.

 

A Casa da Rainha está a morrer, minha filha. Vais ter de a reconstruir, rodear-te de pessoas competentes e fiéis, dirigir sem ferir, tornar próspero tudo aquilo em que tocares. Lamento que o céu seja tão implacável para contigo atribuindo-te uma tão pesada função na hora em que o nosso país parece prestes a desaparecer. És a nossa última hipótese, Ah-hotep.

 

De repente, a esplêndida morena sentiu vontade de ser de novo uma criança, de prolongar a sua adolescência, gozar a sua beleza, aproveitar os prazeres da existência antes das trevas assassinas cobrirem Tebas.

 

Tarde de mais disse a Rainha, que lia os pensamentos da filha. O oráculo falou, obtiveste o acordo da deusa Mut e o teu destino gravou-se na pedra da sua estátua. Um único acontecimento poderia impedi-lo de se realizar.

 

Qual, mãe?

 

Não sobreviveres à tua iniciação.


Quando a princesa Ah-hotep se aproximou do lago sagrado de Karnak, milhares de andorinhas dançaram no céu azul. Entre elas, as almas dos ressuscitados, vindas do outro lado da vida para saudar a iniciação de uma Rainha do Egipto.

 

A jovem estava tão recolhida que cada palavra ritual se gravava no seu coração e o Sumo Sacerdote tão comovido que gaguejava. Nunca teria suposto que os deuses tivessem decidido confiar a esta rebelde uma função tão perigosa. Mas a profundidade do olhar de Ah-hotep provou-lhe que não se tinham enganado.

 

Fazei a oferenda, princesa.

 

Ah-hotep ajoelhou-se de face para o Oriente onde o Sol acabava de travar um combate vitorioso na ilha da chama. Dos seus lábios saiu a antiga oração da madrugada, hino ao milagre da vida que, uma vez mais, acabava de vencer a morte e o dragão das trevas.

 

Que a purificação seja realizada.

 

Duas cantoras de Amon despiram o vestido branco de Ah-hotep. Nua, desceu lentamente a escada de canto do lago sagrado e penetrou na água serena, imagem terrestre do Nun celeste, o oceano de energia onde nasciam todas as formas de vida.

 

Que o mal e a destruição se afastem de ti disse um ritualista. Que a água divina te purifique, que te tornes filha da luz e das estrelas.

 

Ah-hotep teria gostado que o tempo parasse. Sentia-se protegida, ao abrigo de qualquer perigo, em comunhão perfeita com a força invisível que a fazia renascer.

 

Os teus membros foram purificados no campo das oferendas continuou o ritualista nenhum deles está em estado de perda ou de falta. Todo o ser está rejuvenescido, a tua alma pode voar no céu. Agora, precisas de penetrar na sala de Maet e fazer com que o teu coração seja reconhecido como justo.

 

Com pena, a jovem saiu do lago sagrado. Quando o Sol lhe tivesse secado a pele, as cantoras de Amon tornariam a vesti-la com uma túnica de linho antigo de brancura imaculada.

 

Foi com hesitação que seguiu o ritualista que lhe abriu a porta de uma capela. Como podia Ah-hotep ter a certeza de nunca ter violado a lei de Maet?

 

Numa parede, a representação do deus Osíris, o juiz supremo. Em frente da princesa, a Rainha segurando na mão direita uma pena de avestruz em ouro, símbolo da justiça celeste.

 

Ah-hotep sentiu que não se dirigia à mãe, mas à representante terrestre da deusa da rectidão.

 

Tu, que me julgas declarou ela conheces o meu coração. Nunca procurei cometer o mal e só tenho um desejo: libertar o Egipto e o seu povo para que Maet seja de novo o nosso leme.

 

Estás pronta, Ah-hotep, para enfrentar a injustiça, a violência, o ódio, a mentira e a ingratidão sem encher com eles o vaso do teu coração?

 

Estou.

 

Sabes que no dia do julgamento o teu coração será pesado e que deverá estar tão leve como a pluma de uma avestruz?

 

Sei.

 

Que a pedra de Maet seja a base sobre a qual construirás o teu reino. Alimenta-te de Maet, vive dela e com ela. Céu e terra não te repelirão, as divindades moldarão o teu ser. Vai para a Luz, Ah-hotep.

 

Embora os gestos rituais fossem realizados com lentidão, a princesa teve o sentimento que os episódios da sua iniciação se desenrolavam a uma velocidade quase sufocante. Atravessou a matriz estelar, desceu às profundidades onde o artesão divino, Ptah, modelou os seus membros, entrou na barca de Osíris, viu Ré no seu erguer e Aton no seu crepúsculo, bebeu a água da inundação e o leite da vaca celeste.

 

Depois de a terem vestido com o traje branco de cerimónia tecido pela deusa Maiet, Ah-hotep foi perfumada e adornada com um grande colar e pulseiras.

 

Franqueaste o espaço como o vento constatou o Sumo Sacerdote e uniste-te à Luz no horizonte. Que Hórus, o protector da realeza, e Tot, o senhor do conhecimento, te dêem vida como Rainha.

 

Ah-hotep foi convidada a ficar de pé sobre uma mesa de oferendas. Dois sacerdotes, um com uma máscara de falcão e o outro de íbis, elevaram vasos acima da sua cabeça.

 

Dois raios saíram deles e banharam a jovem com uma claridade irreal.

 

O seu coração dilatou-se e o seu olhar fixou-se ao longe, como o de uma ave de rapina.

 

Sacerdotisas cobriram-lhe a cabeça com uma coifa de tecido imitando os restos mortais de um abutre, símbolo da mãe cósmica, sobre a qual poisaram a coroa tradicional das Rainhas do Egipto, formada por duas altas plumas.

 

Teti, a Pequena, entregou-lhe o ceptro floral com cabo flexível, insígnia do poder feminino.

 

Qaris organizara um modesto banquete num pátio do templo, ao abrigo dos olhares.

 

Perdoai a falta de brilho desta cerimónia, Majestade disse ele a Ah-hotep mas a vossa coroação deve permanecer secreta durante o máximo de tempo possível. No palácio, há demasiados ouvidos curiosos. Se os Hicsos soubessem que Tebas escolheu uma jovem Rainha para a governar, a sua reacção arriscar-se-ia a ser violenta.

 

Também eu reforçou Teti, a Pequena, lamento esta coroação clandestina, mas estamos na resistência e era indispensável que assim fosse.

 

Trazendo um arco e quatro flechas, o Sumo Sacerdote avançou para Ah-hotep.

 

Estamos num lugar de paz, Majestade, mas o nosso país está ocupado e só vós representais a partir de agora a esperança de uma libertação. Oferecendo-vos estas armas, peço-vos para incarnardes a deusa da cidade de Tebas, a fim de que esta última retome finalmente a luta.

 

Ah-hotep nunca manejara o grande arco. No entanto, a fé que a habitava permitiu-lhe encontrar espontaneamente os gestos certos. E atirou a primeira flecha para Norte, a segunda para Sul, a terceira para Este e a quarta para Oeste.

 

Possais vós conquistar os quatro orientes, Majestade; eles sabem quem sois e o que desejais. Que o espaço atravessado pela Lua, vossa protectora, inspire as vossas acções.

 

Sensíveis à gravidade do momento, os poucos convivas não tinham vontade de saborear os pratos preparados pela cozinheira do Sumo Sacerdote.

 

Acompanhado por Risonho, Seken foi autorizado a sentar-se perto da esposa. Quanto ao molosso, fez honras aos pombos assados e à perca do Nilo.

 

Nada de anormal no palácio? perguntou Teti, a Pequena.

 

Está tudo calmo. Os rumores pretendem que vós e a vossa filha rogais ao deus Amon para proteger a cidade do furor hicso.

 

O assistente do Sumo Sacerdote trouxe um jarro de vinho.

 

Eis um óptimo vinho que data do ano anterior à invasão revelou ele. Ainda tem o gosto da liberdade. Mas, antes de o beberem, gostaria de vos cantar um texto antigo, acompanhando-me à harpa.

 

A voz elevou-se, quase entrecortada, mas exacta nas suas intonações:

 

”Quando uma forma incarna, está condenada a desaparecer. Os espíritos luminosos farão viver o teu nome e terás um belo lugar no Ocidente. Mas a corrente do rio não se interrompe jamais e cada um se vai na sua hora. Os túmulos dos nobres desapareceram, as suas paredes ruíram como se nunca tivessem existido. Tem um dia feliz, Rainha do Egipto, alegra-te com este momento, segue o teu coração durante o tempo da tua existência, perfuma-te, adorna o teu pescoço de grinaldas de lótus, esquece a tristeza enquanto os que amas estiverem sentados a teu lado. Lembra-te desta felicidade até ao momento em que abordares o país do silêncio eterno.”

 

Todos ficaram impressionados pelo sombrio tom destas palavras, que retirou qualquer alegria àquelas pobres festividades. O vinho foi no entanto deitado nas taças e Seken esperou que a bebida dissipasse a melancolia ambiente.

 

Risonho ergueu-se a toda a sua altura e, com uma patada, voltou a taça que Ah-hotep levava aos lábios. Depois, voltou-se para o harpista, rosnando.

 

Indiferente ao incidente, este bebeu com ostentação.

 

A jovem Rainha ergueu-se.

 

Envenenaste este vinho, não é verdade?

 

Sim, Majestade.

 

Estás ao serviço dos Hicsos?

 

Não, Majestade. Considero simplesmente insensata a vossa decisão, porque estou persuadido que apenas provocará infelicidade e destruições. Era por isso que desejava que morrêssemos juntos, no final deste banquete, a fim de evitar ao país novos sofrimentos. Mas o vosso cão decidiu de outra forma...

 

Os lábios do harpista ficaram brancos, faltou-lhe a respiração, os olhos tornaram-se fixos e a cabeça caiu para o lado. Ah-hotep olhou o céu.

 

Observai a Lua... O seu nome, iah, é masculino porque o génio que a habita é o deus do combate. A partir de agora, o disco de prata na sua barca será o sinal de ligação dos resistentes.

 

Na palma da sua mão esquerda, a Rainha desenhou ao mesmo tempo o princípio do seu nome e o seu programa de reinado:


Reconhecível pela coifa em forma de cogumelo envolvendo a cabeça pontiaguda e a cabeleira encaracolada, o asiático Jannas não estava descontente por regressar a Auaris no seu navio-almirante. Nomeado comandante da marinha de guerra hicsa, comandava com pulso de ferro os piratas anatólios, fenícios e cipriotas, cuja reputação de valentia e crueldade não era usurpada.

 

Quem encontrasse Jannas pela primeira vez não sentiria o mínimo receio, antes pelo contrário. De estatura mediana, mais para o enfezado, a palavra e os gestos lentos, dava a imagem de um homem tranquilo em quem se podia confiar.

 

Os que tinham acreditado naquela aparência enganadora estavam mortos. Dotado de uma agressividade tanto mais temível quanto apenas se exprimia em combate, Jannas era considerado o maior herói dos Hicsos. Tinha triunfado nos quatro cantos do Império e trepado os degraus da hierarquia militar antes de ser nomeado por Apopi para ficar à frente da sua frota, cuja incessante melhoria era a sua obsessão. Conhecia todos os marinheiros, inspeccionava pessoalmente cada barco, exigia manobras quotidianas e não tolerava qualquer abrandamento da disciplina.

 

Persuadido de que o Império continuaria a crescer porque se baseava no exército, o único valor que merecia ser exaltado, Jannas mostrava-se de uma fidelidade absoluta para com Apopi. Pois não transformara a capital numa gigantesca caserna onde era agradável viver?

 

O almirante raramente repousava porque se deslocava em pessoa ao mínimo alerta, fosse qual fosse o local onde os seus informadores lhe assinalassem uma tentativa de sedição, mesmo mínima. O aparecimento da marinha de guerra hicsa bastava para apagar os fogos cada vez mais vacilantes da revolta. Com a submissão de Creta, Apopi conseguira uma vitória decisiva, prelúdio de outras conquistas de que Jannas seria o ferro de lança.

 

Durante uma semana, a menos que se verificasse um incidente imprevisível, o almirante saborearia a tranquilidade da sua mansão oficial e aproveitaria para se fazer massajar. Mas em breve se aborreceria e não deixaria de ir quotidianamente ao porto.

 

Almirante disse um capitão cipriota no momento em que Jannas poisava o pé no cais passa-se qualquer coisa de bizarro.

 

Onde?

 

No armazém que deixámos de utilizar. Gritos agudos, como se torturassem mulheres... Montei um cordão de segurança e esperamos as vossas ordens.

 

Resistentes que capturaram hicsos e lhes infligem sevícias, supôs Jannas, deliciado com a ideia de os deter pessoalmente e lhes fazer pagar de imediato o seu crime.

 

À aproximação do armazém, um odor de carne assada.

 

Metam a porta dentro exigiu o almirante.

 

Um simples ataque de dez marinheiros empunhando um barrote foi suficiente.

 

O espectáculo que Jannas descobriu deixou-o de boca aberta.

 

Quatro raparigas, nuas e amarradas, estavam deitadas no chão. Sentada numa cadeira, uma mulher loira e volumosa soltava uma risada esporádica enquanto um homem, com um prazer evidente, marcava as suas vítimas com ferretes de bronze ao rubro.

 

E esse homem não era um qualquer.

 

Vós sois... o grande tesoureiro? Khamudi não pareceu nada perturbado.

 

Em pessoa. E apresento-vos a minha esposa, Yima.

 

O loira balançou a cabeça e sorriu ao almirante como se tentasse seduzi-lo.

 

Suponho que estais a interrogar suspeitas, não?

 

Suspeitas? De maneira nenhuma, almirante! A minha mulher e eu divertimo-nos com estas escravas vindas do campo. O meu intendente descobriu velhos ferretes de bronze em forma de ganso, o animal sagrado do deus Amon, ou de cabeça de leoa. Quis ver se ainda eram eficazes e estou a imprimi-los na pele destas jovens idiotas. Gritam muito, mas é esse o interesse do jogo.

 

O Imperador está ao corrente destas práticas?

 

Mandai sair os vossos homens, almirante. A um sinal de Jannas, estes eclipsaram-se.

 

O nosso bem-amado Apopi não ignora nada daquilo que eu faço precisou Khamudi, irritado.

 

A tortura é indispensável para fazer falar os resistentes reconheceu o almirante mas vós mesmo haveis dito que estas raparigas...

 

Tenho prazer como muito bem entendo, Jannas. Está suficientemente claro?

 

Muito claro, grande tesoureiro.

 

Quer tenhais ficado chocado ou não, não me interessa. Não tenteis no entanto utilizar esta situação contra mim, pois morderíeis os dedos. Continuo a ser bastante claro?

 

Jannas abanou afirmativamente a cabeça.

 

Continua a divertir-te, querida disse Khamudi à esposa. Eu tenho que ouvir o relatório do almirante.

 

Yima imprimiu o ferrete em forma de cabeça de leoa nas nádegas da mais jovem das camponesas, cujos gritos rasgaram os tímpanos de Jannas.

 

Vamos até ao cais propôs ele. Khamudi vestiu-se sem pressa.

 

O que se passa com a nossa base recuada na Palestina, almirante?

 

A cidade de Charuhen está perfeitamente fortificada. Situada na embocadura das ribeiras e dos ueds, controla a região, cuja submissão ao Imperador é total. A guarnição é composta por soldados de elite e mandei preparar um vasto porto para os nossos barcos de guerra, que estão prontos a intervir a qualquer momento. Se me derdes autorização, o estaleiro naval que me preparo para organizar construirá outros novos.

 

Tendes a autorização. As vossas relações com o chefe da guarnição são boas?

 

Excelentes. É um cananeu cuja competência e fidelidade não podem ser postas em dúvida.

 

Quem haveis nomeado responsável pela frota local?

 

Um dos meus auxiliares, que não fará nada sem uma ordem formal da minha parte... e, portanto, da vossa.

 

Garantis então a solidez de Charuhen?

 

Essa cidade é um dos pilares indestrutíveis do Império garantiu Jannas.

 

Passemos a Mênfis.

 

No que diz respeito à antiga capital dos Faraós, sou muito mais reservado.

 

Quais as razões?

 

Charuhen é uma cidade que moldámos à nossa maneira e os Cananeus são inimigos ancestrais dos Egípcios. O caso de Mênfis é bem diferente.

 

Criticareis as medidas que tomei?

 

Certamente que não, grande tesoureiro, visto que são eficazes. A administração está bem instalada, a polícia patrulha todos os bairros, o arsenal produz armas de primeira qualidade e a minha marinha controla os movimentos do mais pequeno barco.

 

O que mais podemos pedir?

 

O que me inquieta são os resultados obtidos pelos nossos informadores. Não se passa um dia sem que seja detido um ou mais revoltados.

 

Resistentes? perguntou Khamudi.

 

Não, pessoas simples mas que recusam reconhecer o facto consumado e que ousam ainda protestar contra o que chamam ocupação.

 

Porque se recusam esses imbecis a compreender?

 

Nada os consegue persuadir que o seu Egipto está morto e que são agora súbditos do Faraó Apopi.

 

Espero que os mandeis executar, não é verdade?

 

As execuções são feitas em público e o exército obriga os menfitas a assistir. Infelizmente, o fogo não está extinto.

 

Khamudi levou muito a sério o relatório do almirante Jannas. Não estava muito espantado, pois já discutira longamente o assunto com o Imperador. A capacidade de resistência de Mênfis revelava-se mais forte do que fora previsto e seria portanto necessário, tal como pressentira, recorrer a um tipo de acção mais radical.

 

Esta situação é inadmissível, almirante. Na sua sabedoria, o Imperador tinha admitido que alguns egípcios fossem suficientemente loucos para acreditarem ainda na sua passada glória; ides portanto regressar imediatamente a Mênfis com as seguintes instruções.

 

Ao escutar as ordens, Jannas não manifestou qualquer emoção. No entanto, o que o grande tesoureiro exigia tinha um carácter monstruoso. Mas um hicso e, ainda para mais, almirante, não podia levar em conta esse género de considerações.

 

Satisfeito, Khamudi voltou para o armazém de onde ainda saíam gritos. Certamente que a sua terna Yima lhe guardara um ferrete de fogo a fim de que fosse ele a terminar o trabalho.


Estou grávida declarou Ah-hotep.

 

Já! Mas como podes ter a certeza? interrogou Teti, a Pequena. Tens de fazer os testes e...

 

Os testes confirmarão: estou grávida e é um rapaz.

 

Está bem, está bem... Tens de comer carne vermelha, repousar muito...

 

Tudo bem quanto à carne vermelha, mas não quanto ao repouso. Espera-me um enorme trabalho, bem sabes, e o meu filho deve habituar-se ao esforço. Reconstituir a Casa da Rainha, como me pediste, não parece fácil... Tanto mais que temos de agir em segredo!

 

Não sejas tão exaltada, Ah-hotep, não...

 

Sou ou não a Rainha do Egipto?

 

Teti, a Pequena, viu um fulgor novo brilhar nos olhos da sua filha.

 

A minha primeira decisão consiste em reatar a tradição dos nossos antepassados e, portanto, exercer plenamente a minha função cumprindo o primeiro dever que me incumbe.

 

A Rainha-Mãe julgou ter compreendido mal.

 

Não queres dizer que...

 

Claro que sim: é exactamente isso que estás a pensar.

 

Sob o olhar sereno do seu burro, Seken dedicava-se a todos os exercícios militares que, em algumas semanas, fariam dele um soldado aceitável.

 

Archeiro medíocre devido a um excesso de nervosismo que o seu instrutor lhe ensinava progressivamente a controlar, possuía, em contrapartida, um sentido inato do manejo do machado leve e da maça. Muito vivo, esquivava-se aos mais traiçoeiros ataques e surpreendia os seus adversários com a rapidez das suas respostas.

 

A musculatura do jovem enfezado desenvolvia-se a olhos vistos. Levantar pesos, correr, nadar... Nada desagradava a Seken, que saboreava cada noite mais o momento divino em que Ah-hotep lhe cobria o corpo com um unguento de virtudes mágicas. Não apenas lhe tirava todos os vestígios de fadiga, como ainda lhe devolvia o ardor necessário para se lançar em novos torneios amorosos onde não havia vencedor nem vencido. Loucamente apaixonado pela jovem Rainha, Seken agradecia todas as manhãs aos deuses a felicidade que eles lhe ofereciam.

 

Podes fabricar-me uma arma original? pediu ao seu instrutor.

 

Descreve-ma.

 

Uma maça de cabeça oval, mais comprida do que a média. No cabo estaria solidamente fixa a lâmina de uma faca.

 

Poderias quebrar as cabeças e cortar as gargantas... Nada mal pensado, isso. Vou-te preparar um modelo em madeira, que experimentarás contra um camponês que se quer alistar na milícia tebana. Sobretudo, não o magoes muito. Os recrutas são cada vez mais raros.

 

O modelo agradou a Seken.

 

Na sua frente, no pequeno pátio da caserna, um robusto rapagão de ombros largos e testa baixa.

 

Olá, amigo! Queres aprender a lutar?

 

Se quiserem. És mesmo o príncipe Seken?

 

Sim, sou realmente eu.

 

Parece que queres combater os Hicsos.

 

Tu não?

 

Não exactamente, meu príncipe. O homem brandiu uma espada curta.

 

Durante o exercício lembrou-lhe Seken deves utilizar uma arma de madeira.

 

Isto não é um exercício, meu príncipe, mas o teu primeiro e último combate.

 

Seken voltou-se para pedir auxílio ao seu instrutor, mas este tinha desaparecido.

 

Fugir exigia escalar um muro. Seken não teria tempo.

 

Tens medo, meu príncipe? É normal... Não é agradável morrer tão novo.

 

O assassino aproximava-se lentamente, Seken recuava.

 

Quem és tu?

 

Um bom soldado pago para te eliminar.

 

Se me deres o nome do teu mandante e me poupares, tornar-te-ás rico.

 

Os Hicsos não me dariam tempo para gozar essa fortuna... que tu és incapaz de me oferecer! Devias ter permanecido camponês, meu príncipe, e não te meteres no que não te dizia respeito.

 

Seken parou de recuar.

 

Ajoelha-te diante do teu superior, soldado. O agressor ficou estupefacto.

 

Perdeste a cabeça, meu príncipe!

 

Visto que pertences ao exército tebano do qual eu assumo o comando, deves-me respeito e obediência. Aceito esquecer esta rebelião, desde que me entregues imediatamente a tua arma.

 

Vou cravar-te esta espada no ventre! O agressor atacou, Seken esquivou-se.

 

De passagem, bateu-lhe na nuca com a maça de madeira. Mal o soldado se voltara já o jovem, enraivecido, lhe esmagava o nariz com um soco preciso antes de lhe cortar a garganta com a faca fixa no cabo.

 

Devias ter dado ouvidos ao teu príncipe, incapaz.

 

Mais rápido do que o fugitivo, Seken conseguira apanhar o instrutor, cuja pista lhe fora indicada por alguns basbaques, surpreendidos por verem um homem sair a toda a velocidade da caserna. Com um golpe de espada, trespassara-lhe a coxa, prendendo-o assim ao chão.

 

Perante a fúria do que ameaçava matá-lo, o instrutor falou abundantemente: sim, pagara a um traidor para o suprimir; não, não era mandatado pelos Hicsos mas por vários nobres tebanos que defendiam a colaboração com o ocupante e tinham o cuidado de matar no ovo qualquer veleidade de resistência. Com o acordo da Rainha, Seken prendeu pessoalmente esses traidores, que um esquadrão de soldados fiéis à família real conduziu para o deserto de Oeste ao cair da noite. Sem armas e sem provisões, os miseráveis seriam as presas sonhadas pelos monstros ávidos de sangue que assombravam aquelas zonas temíveis.

 

A tua segunda vitória! constatou Ah-hotep. E só podias contar contigo mesmo...

 

Tebas está gangrenada. Antes de iniciarmos qualquer acção, precisamos primeiro ter a certeza dos que nos rodeiam e daqueles que querem combater a nosso lado.

 

Essa será, com efeito, a nossa segunda decisão

 

E... a primeira?

 

Vamos ao templo.

 

Ao templo... Queres explicar-me?

 

A hora já não é para explicações. Intrigado, Seken seguiu a Rainha até Karnak.

 

Na capela de Mut apenas estavam presentes Teti, a Pequena, e o Sumo Sacerdote de Amon. Uma lâmpada iluminava o santuário.

 

Como soberana das Duas Terras declarou Ah-hotep vejo Hórus e Set reunidos no mesmo ser. Para que a reconciliação se realize, é preciso que esse ser incarne na pessoa do Faraó. É por isso que te reconheço como tal, Sekenenré, ”o que castiga como Ré” O teu segundo nome será ”o grande pão”, sinónimo de ”a grande terra”, a fim de que nos devolvas um e outra. Tornas-te ao mesmo tempo ”o da abelha” que conhece os mistérios do fogo e do ar, e ”o do junco”, os da água e da terra.

 

Ah-hotep coroou o seu esposo com a coifa-nemes, um dos mais antigos adornos reais. Permitia ao pensamento do Faraó atravessar o céu e realizar a união entre a vida e a morte, entre a luz do dia e a da noite, entre Ré e Osíris.

 

Seken estava de tal forma estupefacto que nenhum protesto franqueou a barreira dos seus lábios. Era evidente que não era ele que se encontrava naquela capela e em breve ia sair daquele sonho incrível.

 

Esta cerimónia foi reduzida ao mínimo e a tua coroação permanecerá secreta tanto tempo quanto for necessário, mas isso não modifica a dimensão da tua função, Rei do Alto e do Baixo Egipto. Sê simultaneamente o arquitecto, o legislador, o guerreiro e o que torna a terra fértil. Espalha o fogo criador graças ao qual vivemos e o fogo destruidor contra os nossos inimigos. Sê o dique e a muralha protectores, a sala fresca no Verão, quente no Inverno. Faz reinar Maet, repele a injustiça e a tirania.

 

O Sumo Sacerdote desenrolou o papiro que, de acordo com os escritos do deus Tot, anunciava um novo reinado.

 

Teti, a Pequena, e Ah-hotep magnetizaram o jovem Faraó pronunciando as fórmulas mágicas que lhe insuflavam a energia indispensável para realizar o programa de governo contido no nome de Seken: valentia e capacidade de vencer.

 

O Faraó ressuscitou declarou Teti, a Pequena, mas o segredo deve ser bem guardado até que Tebas se torne segura.

 

Tudo mudou constatou o Sumo Sacerdote, comovido até às lágrimas. Tudo mudou, visto que o Egipto dispõe de novo de um par real. Será ele que nos dará a força de levantar finalmente a cabeça.


Não havia certamente razão para embandeirar em arco, mas os resultados das últimas semanas devolviam a moral aos mais desapontados.

 

Em Auaris, não fora detido nenhum resistente. Os que permaneciam na capital a fim de obter informações só as podiam transmitir com infinitas precauções, mas a rede de comunicação criada pelo Bigodes, mais desconfiado do que um felino, dava as suas provas. Tinham sido eliminados os elementos duvidosos e as palavras de passe e os códigos mudavam frequentemente.

 

Em Mênfis, as perspectivas melhoravam. Vários espiões hicsos tinham sido identificados e as pequenas células de resistentes revelavam-se finalmente impenetráveis. Tinham falta de armas, de estratégia e de chefe, mas falavam de futuro e persuadiam-se de que a liberdade não estava ainda morta.

 

O Afegão continuava a aplicar o seu método: privar o Imperador de um máximo de olhos e de orelhas. Logo que era detectado um espião hicso, o resistente organizava uma emboscada com dois ou três camaradas e eliminava o cancro. Prudente, demorava o tempo necessário e não hesitava em adiar uma operação em caso de dúvida, mesmo mínima; meticuloso, não deixava qualquer vestígio atrás de si. O Bigodes, a princípio impaciente, acabara por reconhecer a eficácia deste trabalho de formiga.

 

Graças aos progressos realizados, a cabeça da rede pudera instalar-se no coração da cidade, perto do grande templo de Ptah. O Afegão, o Bigodes e os seus auxiliares mais directos viviam numa velha casa de dois andares, encaixada no meio de oficinas de marceneiros.

 

Quando a polícia hicsa inspeccionava o bairro, os resistentes eram imediatamente prevenidos por um vigia, instalado no terraço da casa da esquina da ruela, ou por um velho, sentado em frente, que levantava a bengala. Última medida de segurança, um cão não deixava de ladrar de forma especial.

 

Apesar da vigilância do ocupante, a resistência conseguia tecer a sua teia. Cada vez mais oprimida, a população de Mênfis odiava os Hicsos. A maioria tinha demasiado medo para se revoltar, mas estavam todos prontos a auxiliar os que se mostravam decididos a reconquistar a liberdade. Manifestavam-se vocações tanto entre os velhos como entre os jovens; mas quais se revelariam verdadeiramente sólidas?

 

Um sacerdote de Ptah deseja ver-nos disse o Bigodes.

 

Quem o recomenda?

 

Um padeiro do templo. Contacto muito seguro.

 

Mandaste seguir esse sacerdote?

 

Claro que sim.

 

O padeiro que lhe marque encontro na primeira ruela a norte do templo. Serei eu a ir ter com ele, tu esconder-te-ás com dois dos nossos homens. Ao mínimo incidente, mata o sacerdote. Se os hicsos forem demasiado numerosos, foge.

 

Não te abandonarei.

 

Se for uma cilada, terás de o fazer.

 

Embora não detectasse nada de anormal, o Afegão continuava desconfiado. Voltou para trás, fingiu afastar-se, depois avançou de novo em direcção ao homem sentado num tamborete, com os olhos fechados.

 

És tu o sacerdote?

 

Três são todos os deuses. Conheces o deserto?

 

Só gosto da terra negra.

 

As fórmulas de identificação tinham sido correctamente trocadas. O Afegão sentou-se à esquerda do egípcio, que lhe ofereceu cebolas para trincar.

 

O que tens a propor-nos, sacerdote?

 

O levantamento do bairro norte de Mênfis e da maioria dos estivadores. Penetraremos no arsenal e retiraremos uma boa quantidade de armas e apoderar-nos-emos a seguir de vários barcos hicsos.

 

É muito perigoso... Mesmo em caso de êxito, será um banho de sangue.

 

Tenho consciência disso.

 

Quem comandará?

 

O Sumo Sacerdote de Ptah em pessoa. Precisa da tua rede para eliminar as sentinelas hicsas que vigiam o arsenal e provocar distúrbios no bairro sul. A polícia deslocar-se-á para lá em massa e, entretanto, nós atacamos o porto.

 

Arriscamo-nos a ser exterminados.

 

Sê-lo-emos de qualquer maneira, mais tarde ou mais cedo... Mesmo que só tenhamos uma hipótese em mil de recuperar Mênfis, mais vale tentar.

 

Tens razão, sacerdote. Data da operação?

 

Daqui a três dias, ao crepúsculo.

 

A partir desta noite, reunirei os principais membros da rede. Tornamos a ver-nos aqui, amanhã de madrugada, e explicar-te-ei o nosso plano.

 

Na casa dos resistentes, a noite fora longa e entusiástica. Apesar das reservas do Afegão e do Bigodes, os seus camaradas tinham pressa de enfrentar os Hicsos e de lhes infligirem uma expressiva derrota. A decisão do Sumo Sacerdote de Ptah era de importância fundamental: os outros Servidores dos deuses imitá-lo-iam e a revolta em breve se espalharia a todo o país.

 

Tentando manter a cabeça fria, o Bigodes preparara minuciosamente as manobras de diversão e eliminação das sentinelas. Tivera que acalmar alguns exaltados que se viam já a atacar Apopi em pessoa. Todos acabaram por aceitar as ordens rigorosas e tinham dispersado com a esperança no coração.

 

Vamos tomar um pouco de ar no terraço propôs o Afegão.

 

O leste começava a avermelhar, algumas nuvens atrasavam o novo triunfo do Sol ressuscitado.

 

O vigia da esquina não está no seu posto notou oAfegão. O Bigodes debruçou-se.

 

O velho também não... Foram dormir.

 

Os dois ao mesmo tempo? É contrário às regras de segurança!

 

Latidos perturbaram o silêncio.

 

Sucederam-lhes imediatamente os gemidos de dor do cão mortalmente ferido.

 

Mataram o cão, bem como os vigias... Fujamos daqui, Bigodes, venderam-nos! Não, pela ruela não... Só nos restam os telhados.

 

O almirante Jannas decidira lançar o ataque de madrugada, no momento em que os sacerdotes celebravam os primeiros rituais invocando a presença de um Faraó que não assimilavam de forma alguma a Apopi. Visto que os religiosos mergulhavam nessa dissidência espiritual e davam apoio material aos terroristas, a melhor solução consistia em quebrar-lhes a espinha.

 

Jannas considerava que as prisões e o encerramento dos templos bastaria, mas Khamudi, porta-voz do Imperador, exigira muito mais: a morte dos religiosos e a destruição dos edifícios sagrados da velha capital.

 

Sem que compreendesse porquê, esta ordem chocara o almirante. No entanto ele, um guerreiro hicso, estava habituado a espalhar o terror e a desolação. Talvez vitórias demasiado fáceis e a doçura da vida egípcia o tivessem amolecido. Também já não devia ter ficado chocado com o comportamento de Khamudi para com as escravas.

 

Meter na ordem a orgulhosa Mênfis apagaria essas fraquezas.

 

Almirante, como distinguimos os sumos sacerdotes dos seus subordinados? perguntou-lhe um oficial.

 

Não distinguimos. Matem todos os que encontrarem nos templos e queimem os cadáveres.

 

Pilhagem autorizada?

 

Certamente. Não quero tornar a ver de pé nenhum dos templos de Mênfis.

 

E... as mulheres?

 

Os soldados que se sirvam delas. Ao pôr do Sol, todos os oficiais apresentam relatório.

 

Alagado em suor, o Bigodes tinha dificuldade em recuperar o fôlego.

 

Detectados pelos polícias hicsos, o Afegão e o Bigodes tinham tido que saltar de telhado em telhado, com risco de partirem o pescoço. Uma flecha rasara mesmo a têmpora do Bigodes, mas os dois resistentes tinham-se mostrado mais ágeis do que os seus perseguidores e tinham conseguido despistá-los.

 

Além, Afegão, olha além! Chamas, chamas gigantescas!

 

É o grande templo de Ptah que está a arder. O egípcio soluçou.

 

O grande templo de Ptah... Não é possível, eles não se atreveram!

 

Muitos egípcios vão morrer hoje e Mênfis será esmagada. Teremos que encontrar outra base depois de termos recuperado os nossos que tiverem escapado ao massacre.

 

A menos de três dias... Mas como soube esse demónio do Apopi que era necessário lançar este ataque preventivo?

 

Precisamente porque é um demónio.

 

Então, é inútil continuar.

 

Até mesmo os demónios têm as suas fraquezas, meu amigo. Nas minhas montanhas estamos habituados a combatê-los. Podes crer que nem sempre saem vencedores.
Abrigado do sol debaixo de um alpendre cujo tecto era sustido por duas finas colunas em forma de lótus, o Faraó Apopi e o grande tesoureiro Khamudi saboreavam os pratos preparados pelo cozinheiro pessoal do Imperador, um egípcio obrigado a provar cada iguaria na sua presença. Apopi exigira antílope estufado acompanhado por lentilhas e ervilhas de quebrar.

 

Três escravos faziam mover leques formados por um cabo de acácia e plumas de avestruz, a fim de que o soberano e o seu convidado não fossem importunados nem pelo calor nem pelas moscas.

 

Este vinho tinto é excelente declarou Apopi, que polvilhava a comida com cominhos para digerir bem.

 

Khamudi preferia o zimbro, estimulante, laxativo e diurético.

 

Este jarro veio da cave do Sumo Sacerdote de Ptah, Majestade; esses óptimos vinhos encontram-se agora na vossa.

 

Uma expedição satisfatória, não te parece?

 

Êxito total! afirmou Khamudi. Mênfis está definitivamente de joelhos. Os templos foram incendiados e desmantelados, os sacerdotes e os seus cúmplices executados. Todos sabem qual o castigo que se abate sobre os revoltados.

 

O almirante Jannas trabalhou bem. Manda transportar os blocos dos templos para Auaris; servir-nos-ão para construir cais. Quero que Mênfis seja uma cidade morta e que a sua actividade económica seja transferida para a minha capital.

 

O cozinheiro serviu a sobremesa, uma compota de tâmaras com mel.

 

Prova ordenou o Imperador. O egípcio pareceu sentir-se mal.

 

O puré estará ácido? ironizou Apopi.

 

De maneira nenhuma, senhor... Dormi mal e estou cansado. Este puré está excelente, garanto-vos.

 

O cozinheiro readquiria a cor normal.

 

O Imperador não deve correr qualquer risco. Manda executar este incapaz, Khamudi, e substitui-o.

 

A um sinal do grande tesoureiro, dois piratas cipriotas levaram o infeliz, indiferentes aos seus protestos.

 

Estes Egípcios são uns choramingas considerou o Imperador. É por isso que são incapazes de lutar. Como vai o nosso novo Ministério da Informação?

 

Khamudi passou a mão pelos cabelos pretos, engordurados com óleo de rícino.

 

Avancei muito, Majestade! Os meios de correspondência clássicos estão sob controlo, como é evidente, mas inventei outro que vos deverá agradar. Antes de o descrever, permiti que vos faça este presente.

 

Khamudi ofereceu a Apopi um magnífico escaravelho em ametista montado num anel de ouro que o Imperador colocou no dedo mindinho da mão esquerda.

 

Linda peça... Explica-te.

 

Para os Egípcios, este escaravelho é um símbolo de felicidade. Incarna as metamorfoses incessantes, tanto na terra como no Além. É também um hieróglifo que significa ”nascer, evoluir, transformar-se”. E o que usais pertencia a um ilustre Faraó cuja glória não é contudo mais do que uma ilusão ao lado da vossa. Graças a esta jóia, afirmais-vos como o soberano que traz a felicidade aos seus súbditos. À simples vista deste símbolo, muitos notáveis egípcios ficarão persuadidos que apenas vós incarnais o futuro. E eis então a minha ideia: produzamos milhares de escaravelhos e reutilizemos os antigos como suporte para as nossas mensagens oficiais!

De um saco, Khamudi retirou cinco escaravelhos de tamanhos diferentes e fabricados em materiais diversos, indo do calcário à faiança.

 

Na base continuou o grande tesoureiro os meus escribas escreverão os textos que eu lhes ditarei. Fáceis de transportar, estes pequenos objectos inundarão em breve o Império com as informações que quisermos dar-lhe. E os Egípcios considerarão as nossas mensagens nos escaravelhos como sinais de felicidade.

 

Brilhante, Khamudi, muito brilhante... Mas quero ler cada uma dessas mensagens. Nenhuma será emitida sem o meu acordo explícito.

 

Sempre assim pensei, Majestade.

 

A propaganda é uma arma tão decisiva como um carro de guerra, meu amigo. Com ele, matamos os corpos; com ela, as almas. Manda substituir os manejadores dos leques... Estes mandriões estão sem forças, falta-me o ar.

 

Felizes por escaparem com vida, os escravos cederam o seu lugar a uma nova equipa.

 

Apopi acariciou a cabaça onde estava desenhado um mapa do Egipto.

 

Apesar da destruição dos templos de Mênfis, existem ainda pequenos grupos de resistentes, tanto mais perigosos quanto são muito móveis. Levados ao desespero, poderiam cometer actos terroristas que muito me irritariam. Como esses indivíduos não se renderão e são muito difíceis de identificar, é preciso levá-los a sair das suas tocas e a reagruparem-se.

 

De que forma, Majestade?

 

Desinformando-os, Khamudi. Vamos fazer-lhes crer que Tebas representa uma real esperança e que devem ir o mais depressa possível para a cidade do deus Amon. Vais portanto redigir uma carta nesse sentido e confiá-la a um carteiro especial que irá de taberna em taberna proclamando, com o disfarce da embriaguez, que leva uma mensagem muito importante destinada à fortaleza de Gebelein.

 

Por que região começaremos?

 

Apopi olhou intensamente a sua cabaça.

 

Pelo sul de Mênfis... É lá que eles se escondem! E será um pouco mais abaixo, por altura da velha cidade de Heracleópolis, que soldados de elite esperarão os resistentes a caminho de Tebas. Sinto que entre eles há alguém muito perigoso.

 

Khamudi ficou espantado.

 

Ninguém tem já capacidade para nos vencer!

 

Fica a saber que um indivíduo pode ser por vezes mais temível do que um exército. Esse homem deve ser suprimido o mais depressa possível.

 

Seken sofrera um tal choque com a sua coroação, aliada ao anúncio da futura paternidade, que Ah-hotep lhe concedera algumas horas de repouso nos campos tebanos, Sob a protecção de Risonho, os dois jovens tinham então saboreado um longo passeio através dos campos para atingir um canal orlado de grandes salgueiros.

 

Não devias, Ah-hotep, não devias...

 

Claro que sim! Como teria eu podido passar a minha vida com um medíocre? O primeiro dever de uma Rainha é dar nascimento a um Faraó. Fi-lo, portanto. E ele será pai do meu filho.

 

Mas sabes bem que...

 

Se não fosses capaz de assumir essas responsabilidades, teria renunciado. Mas és, Seken! É certo que precisas de algum tempo para desenvolveres todas as tuas capacidades de acção e não vamos saltar etapas. Enfim, não demasiado.

 

Ela beijou-o com paixão e o seu desejo inflamou-se.

 

Vamos estender-nos à sombra dos salgueiros propôs ela. Aquele recanto tranquilo era um pequeno paraíso, propício aos jogos de amor. Seken tirou o saiote e estendeu-o na margem. Aquele leito improvisado agradou à jovem, que recebeu deliciada o corpo de um amante febril. Tal como ela, Seken era um ser entusiasta que ignorava os meios termos. E aquele ser possuía as qualidades de um rei.

 

E se tu pescasses? propôs ela.

 

Seken confeccionou uma cana de pesca rudimentar com juncos e serviu-se de uma minhoca bem gorda como isco.

 

Segundo a minha mãe, o último homem forte de Tebas é o ministro da Agricultura. Descendente de uma velha e rica família, possui numerosas terras e tem apenas um ideal: preservar a sua fortuna. É por isso que ordena aos camponeses para não se alistarem no exército e continuarem a trabalhar para ele. Por várias vezes a minha mãe tentou convencê-lo que esse imobilismo condenava Tebas a desaparecer, e ele iria com ela. Mas não a acreditou e manteve as suas posições. Como a totalidade dos nobres lhe dá ouvidos, nada muda e comportamo-nos como fiéis súbditos do Imperador.

 

O que tencionas fazer, Ah-hotep?

 

Ou ele me obedece, ou demito-o das suas funções.

 

Parece que o fulano é tão pretensioso como casmurro... Nunca se submeterá a uma mulher!

 

É indispensável ultrapassar esse obstáculo. Enquanto esse ministro estiver no seu posto, seremos impotentes.

 

Embora parecesse profundamente adormecido, com a cabeça poisada sobre as patas cruzadas, Risonho mobilizou todas as suas energias num instante e saltou sobre Seken.

 

Sob o impacto, o jovem foi atirado para longe do lugar onde estava um segundo antes.

 

E foi no vácuo que se fecharam as mandíbulas de um crocodilo que, sem a intervenção do cão, teriam devorado as pernas do Rei.

 

Despeitado, o crocodilo pensou atacar, mas os latidos do molosso e as pedras que Ah-hotep lhe atirava dissuadiram-no disso.

 

Tinhas pescado o maior dos peixe constatou Ah-hotep.

 

Os encarregados dos canais não têm feito o seu trabalho lamentou Seken. Outrora, nenhum crocodilo teria podido aventurar-se neles.

 

Há uma coisa mais grave, muito mais grave... A agressão desse monstro prova que o mau-olhado caiu sobre nós. Devemos esconjurá-lo imediatamente.
Tens razão, Ah-hotep constatou Teti, a Pequena. O mau-olhado caiu sobre nós e, mais particularmente, sobre o nosso novo Rei.

 

Como poderemos livrá-lo dele?

 

É preciso que ele e tu possuam o heka, essa força mágica que desvia os efeitos perniciosos dos acontecimentos. Sem ele, nenhum êxito será possível. O mau-olhado cortar-vos-á o caminho... Felizmente, a forma como se manifestou trai a sua origem! O salgueiro é a árvore sagrada do templo de Dendera. Sem dúvida sofreu graves danos e os deuses consideram o Faraó responsável.

 

Vamos repará-los decidiu a Rainha.

 

Dendera fica na zona ocupada, Ah-hotep!

 

Um casal de camponeses e o seu burro não despeitarão a desconfiança dos Hicsos.

 

Sem defesa, o casal real pelos caminhos controlados pelo ocupante! Uma loucura à qual Teti, a Pequena, não tinha poder para se opor.

 

À aproximação da alfândega de Coptos, Vento do Norte não abrandou o passo. Isso significava que os agentes da alfândega não causariam qualquer dificuldade aos viajantes.

 

De facto, apáticos sob o Sol do meio-dia, contentaram-se em inspeccionar rapidamente os sacos que o burro transportava e tirar dois pares de sandálias novas como montante da portagem.

 

Construído no tempo das pirâmides e perdido numa região afastada, o templo de Dendera era dedicado à deusa Hathor. O estado de abandono dos jardins que precediam o edifício provava que não havia sacerdotes e funcionários suficientes para tratarem convenientemente dele.

 

Vento do Norte imobilizou-se e aspirou longamente o ar. Tranquilizado, recomeçou a andar com rapidez.

 

Não há hicsos por perto concluiu Ah-hotep. Uma mulher de idade apareceu no átrio.

 

Sou a Superiora deste templo declarou. Actualmente, é demasiado pobre para acolher e alimentar viajantes. Peço-vos portanto que continueis o vosso caminho.

 

Não queremos mendigar respondeu Ah-hotep. Vimos ver o salgueiro.

 

A nossa árvore sagrada está a morrer, como o resto do país. Nem vós nem eu podemos fazer nada.

 

Não é essa a minha opinião, Superiora.

 

Mas quem sois vós?

 

Ah-hotep, soberana das Duas Terras.

 

Morreu Teti, a Pequena?

 

A minha mãe está bem viva, mas legou-me o poder.

 

O poder, Majestade... Mas que poder?

 

Talvez o de regenerar o salgueiro de Dendera.

 

É impossível, infelizmente! Nem sequer vos podereis aproximar dele.

 

Insisto, Superiora.

 

Em passo fatigado, a idosa mulher guiou os seus dois visitantes até às traseiras do templo.

 

No meio de um lago, um grande salgueiro de folhas murchas estava tão inclinado que não tardaria a cair.

 

Quando Ah-hotep passava sobre o murinho de vedação para ver a árvore de perto, a água começou a fervilhar e a bocarra de um crocodilo ameaçou a intrusa, que bateu em retirada.

 

O nosso génio protector voltou-se contra nós revelou a Superiora. Quando o salgueiro cair, terá sido o triunfo do mau-olhado.

 

Endireitá-lo-ei decidiu Seken, movido por uma força imperiosa.

 

Não arrisqueis a vossa vida recomendou a Superiora.

 

Conheceis ainda as fórmulas da erecção do salgueiro? perguntou-lhe Ah-hotep.

 

Certamente, mas trata-se de um ritual real que há muito tempo não é praticado.

 

Recitai-as. Eu magnetizo Seken.

 

Ah-hotep assumiu a postura das deusas cujas mãos emitiam ondas vivificantes para os seus protegidos, enquanto a grande sacerdotisa fazia vibrar os sons dos textos antigos. Celebravam o momento em que, sob o efeito do Sol no seu zénite, a árvore sagrada erguia para o céu toda a sua altura.

 

Recusando o medo, Seken penetrou no lago.

 

Se o crocodilo o atacasse, Ah-hotep voaria em seu socorro.

 

Mas o réptil recuou. Furiosa, a sua cauda chicoteou a água; depois, os movimentos pararam e Seken chegou ao pé do salgueiro.

 

Curvou-se, mergulhou a mão e retirou do lago um pequeno crocodilo de madeira.

 

Eis o monstro dominado!

 

Olhai a árvore! exclamou a grande sacerdotisa.

 

O salgueiro erguia-se lentamente, as folhas viravam-se para oferecer à luz as suas faces interiores de um belo tom prateado.

 

O mau-olhado foi vencido constatou Ah-hotep.

 

Como é possível? espantou-se a grande sacerdotisa. Apenas um Faraó legítimo pode realizar semelhante façanha!

 

Silenciosos e recolhidos, Ah-hotep e Seken olhavam para ela.

 

Vós, a Rainha do Egipto... E vós, o seu esposo, o Rei... É verdade, não é? Mas não tendes nem escolta nem servidores e pareceis dois camponeses!

 

De outra forma, seria impossível deslocarmo-nos na zona ocupada afirmou Ah-hotep. Visto que o malefício foi quebrado, dai-nos o heka.

 

1 Os egípcios classificavam os crocodilos como fazendo parte dos peixes.

É a Heliópolis que vos deveis dirigir para adquirir o mais forte.

 

Essa cidade santa fica demasiado próxima da capital hicsa

 

objectou Ah-hotep. Seremos presos antes de lá chegar.

 

Então, Majestade, devereis contentar-vos com o heka da deusa Hathor. Por causa do mau-olhado e da fraqueza do salgueiro, essa energia já nem sequer chegava ao templo. Esperemos que o reerguer da árvore tenha restabelecido a harmonia.

 

O casal seguiu a Superiora no interior do santuário, até à capela do oriente que abrigava um nãos de granito rosa. Logo que ela abriu as portas, uma suave claridade brotou da estatueta em ouro da vaca Hathor.

 

Deixai-vos banhar pelo heka aconselhou a Superiora.

 

É a força da luz que o Princípio criou quando pôs o universo em ordem. Graças a esta força, realizareis acções úteis e escapareis aos ataques do destino.

 

De mão dada, Ah-hotep e Seken esqueceram o tempo e viveram o amor da deusa.

 

OAfegão, o Bigodes e uma dezena de resistentes comiam peixe seco e pão duro no seu esconderijo rústico, a sul de Mênfis. Não fora detectado nenhum movimento de tropas hicsas desde a devastadora expedição do almirante Jannas.

 

Um vigia anuncia a aproximação de um amigo preveniu o Bigodes.

 

Todos agarraram nas armas.

 

É o filho do estalajadeiro. O rapaz estafa sem fôlego.

 

Está um fulano esquisito a beber cerveja lá em casa declarou. Afirma ser carteiro e portador de uma mensagem especial.

 

Nós tratamos disso, meu rapaz.

 

Os resistentes esperaram que o carteiro saísse da estalagem e se afastasse o suficiente para verem se não dispunha de protecção à distância.

 

O mensageiro parecia só.

 

Quando meteu por um caminho que conduzia à aldeia próxima, o Bigodes caiu-lhe em cima e abateu-o com um simples soco. A revista foi rápida.

 

Uma carta de Auaris fechada com um selo! O egípcio quebrou-o e desenrolou o papiro.

 

Apaixonante constatou o Bigodes. Uma mensagem de Khamudi dirigida ao comandante da fortaleza de Gebelein! Revela-Ihe que Tebas continua livre e que reúne os revoltosos. Fabuloso! Sabemos agora o que nos resta fazer. Reunamos os resistentes e partamos para a cidade de Amon. Todos juntos, seremos mais fortes!

 

Ninguém sai daqui decretou o Afegão.

 

Mas... não ouviste o que eu disse?

 

Pelo contrário, ouvi com a maior atenção.

 

Então, porque havemos de hesitar?

 

Porque é uma cilada. Um carteiro hicso que viaja só, se faz notado numa taberna e não beneficia de nenhuma protecção militar... Isso não te surpreende?

 

Visto dessa maneira...

 

Não temos notícias de Tebas, que provavelmente sofreu a mesma sorte que Mênfis. O Imperador quer atrair-nos lá para eliminar os últimos resistentes, que cairão numa armadilha montada no caminho que conduz à cidade de Amon.

 

Com raiva, o Bigodes rasgou o papiro em mil pedaços.


O médico examinou a cor dos olhos de Ah-hotep, depois a pele e verificou por fim que as condutas do peito estavam firmes e não soltas.

 

A gravidez corre maravilhosamente concluiu e o parto não será nem atrasado nem adiantado. Sobretudo, continuai a ser massajada quotidianamente.

 

E... o resultado dos testes? perguntou a Rainha.

 

A vossa urina fez germinar a cevada antes do trigo e o frumento antes da espelta. Não há portanto dúvida: tereis um rapaz.

 

Ah-hotep saiu do quarto para se precipitar nos braços de Seken.

 

Um filho... Um filho que combaterá ao teu lado!

 

Teria preferido uma rapariga, tão bela como a mãe.

 

Lembra-te que decidi que teríamos dois filhos; por agora, Tebas precisa de guerreiros e de chefes. Volta para a caserna que eu vou ao mercado.

 

Não deverias repousar mais, Ah-hotep? A tua gravidez...

 

Sou eu que faço este filho e ele será vigoroso, podes crer! Vai depressa treinar os nossos homens.

 

Os alegres regateios tinham desaparecido há muito tempo do mercado de Tebas, que se assemelhava ao de uma terra de província. Discutiam-se ainda os preços por hábito, mas as pessoas preocupavam-se sobretudo com os rumores que anunciassem um ataque hicso. Alguns afirmavam que Mênfis fora arrasada e que a mesma sorte estaria em breve reservada à cidade de Amon.

 

Apenas alguns vendedores de sacos de trigo e de legumes exibiam um sorriso satisfeito. Dispunham de uma mercadoria abundante e, mais cedo ou mais tarde, a clientela tinha de comprar os seus produtos, os mais caros do mercado.

 

Pesavam-nos com uma série de pesos em calcário, em forma de tronco de cone, que iam de cinquenta gramas a vários quilos.

 

Sentindo-se observado por Ah-hotep, um deles, de rosto vermelhusco, acabou por interpelá-la.

 

Aproxima-te, menina! O que desejas tu?

 

Verificar os vossos pesos.

 

O vermelhusco quase se engasgou.

 

Ora essa... Por quem te tomas?

 

Tu e os teus colegas trabalham para o ministro da Agricultura?

 

Isso incomoda-te?

 

Tenho vários padrões de medida que pesam cada um noventa gramas e vou controlar os vossos pesos.

 

Desaparece imediatamente daqui, pequena!

 

Abrindo caminho na multidão de basbaques que se amontoavam, Risonho chegou junto da dona. Com os beiços arreganhados, mostrou as presas e emitiu um rosnado que fez gelar o sangue do vermelhusco.

 

Nada de tolices, hein... Impede esse monstro de atacar! Com rapidez, Ah-hotep poisou três lingotes de cobre num prato da balança e, no outro, um peso marcado ”270 gramas”. Para estupefacção geral, os pratos não ficaram em equilíbrio.

 

O teu peso está falsificado constatou Ah-hotep. Vendes uma quantidade menor do que a anunciada e roubas portanto todos os compradores. Verifiquemos os outros pesos.

 

Os mercadores quiseram opor-se, mas as exigências de uma multidão encolerizada obrigaram-nos a ceder. Todos os pesos estavam falsificados.

 

Reconheço-a, é a princesa Ah-hotep, a filha da Rainha Teti, a Pequena! exclamou um funcionário do palácio. Graças a ela, não voltaremos a ser roubados!

 

A jovem foi aclamada.

 

Tu disse ela a uma velha camponesa que vendia alhos-porros serás a controladora dos pesos utilizados neste mercado. Quem tentar fazer batota deverá oferecer gratuitamente os seus produtos durante um mês. Em caso de reincidência, será excluído do círculo dos mercadores.

 

Até mesmo Herai pensava em desistir. No entanto, considerado o melhor padeiro tebano, gostava de tal maneira da sua profissão que conseguira, até agora, obter uma qualidade aceitável de pães e bolos apesar da falta de mão-de-obra e dos pagamentos cada vez mais irregulares.

 

Mas, naquela manhã, era o golpe de misericórdia.

 

O Ministério da Agricultura entregara-lhe uma farinha tão medíocre que Herai não a podia utilizar.

 

Em desespero de causa, alertara o intendente do palácio. Como era costume, responder-lhe-iam que a situação era a situação e que o ministro tinha plenos poderes no seu domínio.

 

Herai deixou cair os seus cem quilos sobre um tamborete, tão fatigado como ele.

 

Hoje não acenderia o forno.

 

Chegaram-lhe da ruela ruídos insólitos. O padeiro saiu e esbarrou com um burro colossal.

 

És o Herai? perguntou-lhe uma esplêndida rapariga morena.

 

Princesa Ah-hotep! Sim, sou eu.

 

Eis a resposta do palácio: Vento do Norte traz-te farinha de primeira qualidade.

 

De onde... de onde vem ela?

 

Dos celeiros do ministro da Agricultura. Outros burros chegarão em breve, terás a quantidade necessária para o palácio e para a caserna. Contrata já outros padeiros e prepara-os para te substituírem.

 

- Substituir-me porquê?

 

- Porque és nomeado Superintendente dos Celeiros.

 

Numa grande cuba, os cervejeiros misturavam pães de cevada, licor de tâmaras e água a fim de obterem um caldo que deixavam repousar até à fermentação. Em seguida, filtravam-no antes de o deitarem em jarros cujas paredes interiores eram barradas com argila, de forma a garantirem a conservação da cerveja.

 

Mas os cervejeiros não cessavam de clamar o seu descontentamento. Como podiam produzir boa cerveja com cevada medíocre? Além disso, quase todos os jarros deveriam ter sido renovados. Era por isso que já ninguém tinha gosto em fabricar cerveja impossível de beber.

 

Um pontapé nas costelas acordou o mestre cervejeiro.

 

Não pode ser assim! Mas o que é isto?... Uma mulher...

 

Sou a princesa Ah-hotep. Impressionado, o artesão levantou-se.

 

Desculpai, estava a descansar um pouco, eu...

 

Tu tens muito trabalho em perspectiva e deverás duplicar as tuas equipas. O novo Superintendente dos Celeiros, Herai, far-te-á entregar cevada de excelente qualidade e receberás a partir de amanhã novos jarros que o Ministério da Agricultura põe à tua disposição. O palácio exige cerveja muito boa.

 

Com a maior alegria, princesa.

 

O ministro da Agricultura tinha uma cabeça em forma de ovo de pata. De manhã, prolongava a noite debaixo de um guarda-sol, na orla do seu lago de lótus. À tarde, ouvia os relatórios dos seus intendentes. Encantado, constatava dia após dia que nada mudava e que continuava a ser o notável mais rico de Tebas.

 

Como o cozinheiro o amimava, tinha tendência para aumentar de peso. No futuro, só comeria um prato de estufado à noite.

 

Desde que fora nomeado, a sua política não variara: conservar as vantagens adquiridas. Graças à fraqueza da Rainha, não tinha qualquer dificuldade em consegui-lo.

 

Facto insólito, o seu secretário particular pedia para o ver antes do almoço.

 

Devo referir-vos incidentes de extrema gravidade.

 

Não nos inflamemos e mantenhamos a calma!

 

O padeiro Herai acaba de ser nomeado Superintendente dos Celeiros.

 

Que importância tem isso? É preciso distribuir títulos honoríficos de tempos a tempos.

 

Haveis-me compreendido mal... Torna-se Superior de todos os celeiros, incluindo dos vossos!

 

Espero que estejas a brincar!

 

Infelizmente, não. Por ordem do palácio, grandes quantidades de cevada foram retiradas das vossas reservas e entregues à padaria e à cervejaria principais.

 

O ministro da Agricultura já não tinha o mínimo desejo de dormitar.

 

Teti, a Pequena, ousa desafiar-me!

 

Não, é a sua filha, a princesa Ah-hotep.


Exasperado, o ministro da Agricultura andava de um lado para outro diante da porta da sala de audiências da Rainha. Teti, aPequena, iria pagar-lhe caro aquela nova afronta. Não apenas lhe restituiria os seus bens, como ainda a forçaria a oferecer-lhe terras cultiváveis à laia de indemnização. Não tinha nada a ver que a sua filha tivesse ficado louca; a soberana oficial de Tebas não tinha senão que se ocupar melhor da sua progenitura.

 

Sua Majestade espera-vos anunciou o intendente Qaris, muito calmo.

 

Já não é sem tempo!

 

O ministro notou que a pequena sala tinha sido pintada de novo.

 

Sentada num trono de madeira dourada cujos pés imitavam os cascos de um touro, a princesa Ah-hotep, envergando um vestido branco. Nos pulsos, pulseiras de ouro.

 

Não sois vós que eu quero ver, mas sim a Rainha!

 

Estás a vê-la.

 

O que significa isto?

 

Curva-te diante da soberana das Duas Terras.

 

A soberana...

 

Curva-te ou mando-te prender por injúria à função real!

 

O tom da jovem era tão imperioso que o ministro sentiu medo.

 

Eu não sabia, Majestade, eu...


Agora já sabes. Eis as minhas primeiras decisões: suprimo diversos postos que se tornaram inúteis em tempo de guerra. Herai, o Superintendente dos Celeiros, ocupar-se-á da agricultura.

 

Quereis dizer... que já não sou ministro?

 

Compreendeste bem.

 

Esse Herai não é ninguém, Majestade, é um simples padeiro incapaz de gerir as riquezas da nossa província!

 

Herai é um homem honesto. A fim de apoiar o esforço de guerra, as tuas terras e os teus bens são requisitados. Deixo-te uma única mansão, a mais modesta. Criarás lá aves de capoeira para os meus soldados. E procura fazer as coisas como devem ser, se não queres descer ainda mais baixo.

 

Majestade...

 

A audiência terminou.

 

O ex-ministro reunira os seus próximos a fim de preparar uma vigorosa resposta. Mas nenhum lhe queria seguir as pisadas.

 

Porquê esse pânico? insurgiu-se o alto dignitário. Ah-hotep está só e é inofensiva!

 

Não é tanto assim objectou o seu secretário particular. Ah-hotep tem o apoio incondicional de Teti, a Pequena, que todos os tebanos veneram, e está a reanimar a caserna onde acabam de ser alistados numerosos camponeses que antes trabalhavam por vossa conta. Não passa de um exército de miseráveis, é verdade, mas são mais bem pagos que nas vossas terras e obedecem-lhe.

 

Estou desolado por ter de vos deixar tão cedo lamentou o ministro da Economia mas fui convocado para ir ao palácio no fim da manhã e Ah-hotep não gosta de esperar.

 

Os outros funcionários imitaram-no, cada um invocando uma tarefa urgente.

 

Que bando de cobardes! Felizmente tu, meu secretário particular, permaneces-me fiel! Juntos, preparemos uma contra-ofensiva.

 

Lamento, mas sou escriba e não tenho o mínimo gosto pela criação de aves. Herai propôs-me um posto mais de acordo com as minhas competências.

 

Sai daqui, malandro!

 

À beira de uma crise de nervos, o ministro esvaziou metade de um pequeno jarro de licor de tâmaras.

 

Como conseguira aquela garota destruir tão rapidamente o seu feudo e voltar a seu favor homens experientes cuja carreira fora feita por ele?

 

Serenando, chegou a uma conclusão inquietante: aquela jovem Rainha era realmente perigosa e, portanto, capaz de outras proezas.

 

Devia por isso informar o mais depressa possível os seus amigos hicsos que informava há muito tempo sobre tudo o que se passava em Tebas.

 

Tebas que já não era a sua pátria e a cuja destruição assistiria com grande prazer.

 

Foi com um alívio evidente que o ministro da Economia acolheu a notícia da supressão do seu posto. O idoso homem aspirava apenas a uma reforma tranquila e agradeceu à Rainha por lha conceder.

 

Em menos de uma semana, Ah-hotep conseguira desmantelar um governo fantoche para concentrar os poderes no reduzido círculo composto pela mãe, o marido, o intendente Qaris e o Superintendente dos Celeiros Herai. Não escolhera este último por acaso: desde sempre protestara contra a ocupação hicsa e Qaris adoptara-o como auxiliar.

 

Faltava resolver o problema do general-chefe do exército tebano, tão fantomático como as toalhas de bruma matinais do Outono, rapidamente dissipadas pelo sol.

 

Embora fosse o mais idoso dos dignitários, o oficial superior ainda tinha um belo porte.

 

Estou às vossas ordens, Majestade.

 

De quantos homens dispomos?

 

Em teoria, de quinhentos. Na realidade, não mais de quarenta verdadeiros soldados. Porque havia eu de recrutar outros se Tebas não tenciona resistir aos Hicsos?

Não é esse o caso actualmente rectificou Ah-hotep.

 

Tanto melhor, Majestade! Posso dar-vos um conselho?

 

Oiço-te.

 

Deixai bem à vista um bando de incapazes que se exibirão como o exército oficial. Esse engodo continuará a fazer sorrir os Hicsos. Criai uma unidade secreta onde serão formados verdadeiros guerreiros, aptos a manejar todos os tipos de armas. Será demorado, mas eficaz. E não vejo outro meio para preparar um autêntico exército de libertação.

 

Queres encarregar-te dessa tarefa?

 

Já não tenho forças para isso, Majestade. A doença corrói-me e só lhe resistia na esperança louca de que alguém devolvesse a Tebas o seu orgulho perdido. Visto que existis, posso morrer tranquilo.

 

Nessa mesma noite, o velho general expirava e Seken era nomeado chefe do exército.

 

Depois de ter hesitado demoradamente, o ex-ministro da Agricultura tomara a única decisão que se impunha: dirigir-se pessoalmente a Auaris para informar o Imperador. A irrisória revolução tebana não iria certamente longe, mas Apopi ficaria grato pela sua plena e total fidelidade.

 

Desde a sua queda em desgraça, o ex-ministro fora abandonado por todos e já não tinha confiança em ninguém. Confiar uma mensagem a um correio, mesmo muito bem pago, seria demasiado perigoso. Deixar Tebas, as suas terras e os seus bens exasperava-o, mas em breve regressaria aqui com o exército hicso e vingar-se-ia com uma crueldade que a orgulhosa Ah-hotep nem sequer imaginava.

 

Posto de controlo à vista anunciou um dos transportadores.

 

Parai ordenou o ex-ministro, que desceu da cadeira e avançou para os soldados.

Tão perto de Coptos, deviam tratar-se de elementos pró-hicsos; caso contrário, o fugitivo voltaria para trás e passaria noutra pista.

 

Milícia do Imperador declarou um rapagão armado com uma lança.

 

Sou o ministro tebano da Agricultura e devo dirigir-me o mais depressa possível a Auaris para encontrar o nosso soberano.

 

Tu, um tebano, reconheces a autoridade de Apopi?

 

Trabalho para ele há muito tempo! Sou eu que sou os seus olhos e os seus ouvidos em Tebas. Se me escoltardes até à capital, recebereis uma bela recompensa.

 

Portanto disse a voz grave de Seken, surgindo por trás do ex-ministro Ah-hotep tinha razão: és realmente um traidor.


O ex-ministro quase desfaleceu.

 

Não somos milicianos hicsos informou Seken mas fiéis servidores da Rainha. Seguimos-te desde a tua partida para saber onde ias e te interceptarmos antes da tua passagem para o inimigo.

 

O traidor ajoelhou-se.

 

Não me faças mal, peço-te! Lamento, lamento tanto...

 

Dá-me os nomes dos teus cúmplices.

 

Eu... eu não tenho!

 

Ainda te atreves a mentir!

 

Não, juro-te... Eu, e eu só, informava o Imperador, mas apenas para pequenas coisas, coisas muito pequenas, e no interesse de Tebas.

 

Seken e os seus homens arrastaram o ex-ministro até à margem do Nilo.

 

O Faraó lançou à água um crocodilo em cera.

 

Menos de um minuto mais tarde, a água fervilhou. Surgiu a bocarra escancarada de um enorme réptil.

 

Se não falares, eis o teu carrasco.

 

Tremendo de medo, o traidor denunciou todos os seus cúmplices, entre os quais figuravam um lavadeiro do palácio e um oficial que lhe servia de correio.

 

Que o deus Sobek decida a tua sorte.

 

Os tebanos agarraram o traidor pelos tornozelos e atiraram-no ao rio, em breve avermelhado pelo seu sangue.

 

Seken tomou Ah-hotep nos braços.

 

Não te tinhas enganado. Os membros da rede hicsa em Tebas foram detidos e executados. A partir de agora, o Imperador está surdo e cego.

 

Com uma condição: que continue a julgar o ministro vivo e em actividade. Vamos portanto fazer-lhe chegar regularmente mensagens informando que Tebas continua a morrer pouco a pouco, sem qualquer vontade de lhe resistir.

 

Teti, a Pequena, interrompeu-os.

 

Uma carta oficial de Auaris: Apopi exige que Tebas lhe envie uma esteia afirmando que a cidade do deus Amon o reconhece como Faraó do Alto e Baixo Egipto.

 

Nunca! exclamou Seken. O que lhe vamos enviar é uma declaração de guerra!

 

Estamos tão longe de estar preparados lamentou Ah-hotep. Se quer uma esteia, tê-la-á. Mas o escultor modificará a maior parte dos hieróglifos com tanta habilidade que apenas um olho prevenido detectará. Quebrará a asa dos pássaros, pregará as serpentes ao solo e impedirá os sóis de brilhar. Ninguém abrirá a boca dessa esteia, ninguém a tornará viva. Será uma pedra morta que o Imperador receberá.

 

Apopi contemplou a esteia com uma expressão de desdém.

 

A arte dos Senuseret está bem extinta... Os escultores de Tebas já não têm nenhum talento. O que pensas disto, Tani?

 

A esposa do Imperador mastigava um bolo maciço e oleoso.

 

Detesto a arte egípcia sob todas as suas formas! É mesmo de um povo de escravos.

 

No entanto, saíste dele lembrou-lhe Ventosa, a soberba irmã mais nova de Apopi.

 

1 Tradução hipotética do egípcio Tjarudjet.

 

Alta, muito esguia, de tipo eurasiático, Ventosa encarregava-se de mobilar o palácio de Auaris com obras-primas provenientes das cidades do Delta. Taças de faiança azul decoradas com flores de lótus, queimadores de perfume, lâmpadas em forma de lírio, camas adornadas com divindades protectoras do sono, assentos em sicômoro de uma inegável elegância... Embora indiferente a essas maravilhas, Apopi podia considerar-se como um verdadeiro Faraó.

 

Actualmente sou uma hicsa! protestou a dama Tani. Graças a mim, as egípcias ricas e arrogantes não passam de escravas. Essas pretensiosas prostram-se diante de mim.

 

Ventosa encolheu os ombros. Sentia apenas desprezo pela horrorosa esposa de Apopi.

 

As egípcias estavam pervertidas pela sua liberdade lembrou o Imperador. A nossa lei exige que qualquer fêmea se submeta a um macho, o único capaz de tomar decisões.

 

Não é a leoa que caça e traz comida?

 

Não me desafies, querida irmã: estarás a tomar a defesa das nossas escravas?

 

A política não me interessa. Só me preocupo com a beleza.

 

Perfeito. Continua assim.

 

Lançando um olhar desdenhoso sobre a gorda Tani, Ventosa eclipsou-se, deixando na sua esteira um perfume de lótus.

 

A tua irmã detesta-me queixou-se ela. Devias mandá-la de novo para a Ásia.

 

Presta-me serviço revelou o Imperador.

 

Ah... De que forma?

 

Ventosa ama o amor e nenhum homem lhe resiste. Como gosta de estar no Egipto, impus-lhe as minhas condições para que possa aqui ficar: ir para a cama com os principais dignitários do império e conseguir as suas confidências no travesseiro. Assim, conheço todos os seus vícios e ambições. Se um deles me critica, desaparece.

 

Então, vai ficar muito tempo em Auaris?

 

Tanto tempo quanto me der satisfação.

 

O meu trabalho não é menos eficaz!

 

Eu sei, Tani, eu sei... Sobretudo, não abrandes os teus esforços.

 

A esposa do Imperador esboçou um sorriso feroz.

 

Ontem, a minha grande amiga Aberia prendeu a viúva do governador de Sais que se ocultava sob os ouropéis de uma criada. Procurávamos há meses essa terrorista que foi denunciada por uma das suas antigas criadas.

 

Pertencia a uma rede de resistentes?

 

Não. A dama Aberia torturou-a com as suas próprias mãos antes de a estrangular e essa vadia não lhe ocultou nada, podes ter a certeza. Disponho de uma lista de nobres egípcias que se mantêm ainda ocultas, com a insensata esperança de nos escapar. Mas Aberia há-de encontrá-las.

 

A esteia proveniente de Tebas foi exposta no templo de Set, onde se reunia o grande conselho de que todos os membros eram portadores de excelentes notícias. A expansão do Império Hicso avançava mesmo sem os seus exércitos terem de combater, as novas práticas comerciais enriqueciam os ambiciosos e mantinham o povo num estado de submissão de onde nunca mais sairia, o Ministério da Informação produzia impressionantes quantidades de escaravelhos que faziam chegar o pensamento do Imperador às mais pequenas localidades.

 

O mundo tornava-se hicso.

 

Os conquistadores deviam esse triunfo a Apopi, que inspirava a cada um dos seus interlocutores um medo visceral. Quem lhe desagradasse via a sua carreira interrompida e, por vezes, a sua vida. Os mais corajosos não podiam impedir-se de tremer enquanto esperavam a voz rouca do Imperador anunciar decisões que ninguém pensava em contestar.

 

Khamudi bebia as palavras do seu senhor e apressava-se a traduzir os seus desejos em actos. Mais rico de dia para dia graças à indústria de papiros e escaravelhos, a alma danada do Imperador constatava com alegria o poder da fortuna. Comprava quem queria e quando queria.

 

Quais são os resultados da nossa cilada? perguntou-lhe Apopi.

 

Foram interceptados e decapitados vários resistentes em Heracleópolis, Majestade. Tentavam dirigir-se a Tebas.

 

Mantém a armadilha montada ordenou o Imperador. Não tenho a certeza que o homem mais perigoso tenha caído na rede.

 

A esteia enviada por Tebas prova que desapareceu toda a veleidade de insubmissão alegrou-se Khamudi. A última carta do ministro da Agricultura confirma aliás que Teti, a Pequena, está incapaz de agir.

 

Vamos controlar as receitas fiscais, grande tesoureiro. Tenho a sensação que algumas províncias andam a fugir aos impostos.


Tinham sido necessárias longas semanas ao Afegão e ao Bigodes para reagrupar os resistentes que haviam escapado ao massacre de Mênfis. Estavam todos desmoralizados, a maior parte deles queriam voltar para casa e submeter-se ao ocupante. O Bigodes conseguira convencê-los que teriam assim assinado a sua sentença de morte e que esta só lhes seria concedida depois de longas torturas.

 

Pouco a pouco emergira um espírito de corpo. O Afegão não deixava ninguém em repouso e submetia o seu grupo a um treino físico intensivo onde a luta com mãos nuas ocupava o primeiro lugar. Durante o esforço, não pensavam senão na realização do gesto certo, evitando ferimentos e golpes baixos.

 

Os resistentes não passavam mais de uma semana na mesma quinta. Explorados e maltratados pelo ocupante, os camponeses acolhiam calorosamente os que acreditavam ainda na liberdade. O Afegão recomeçava assim a tecer a teia rasgada em Mênfis, arranjando lugares seguros para comerem e repousarem. Insistia na diferença essencial entre os simpatizantes e os verdadeiros membros da rede. Os primeiros pareciam cada vez mais numerosos, mas era ilusório contar com eles em caso de conflito; e, para formar os segundos, seriam necessários vários meses.

 

Tão desconfiado como o Afegão, o Bigodes submetia os postulantes a múltiplas provas antes de os aceitar no grupo. Tomava igualmente cuidado em seccionar a rede a fim de evitar a sua destruição no caso de um espião de Apopi se conseguir introduzir nela.

 

E a informação chegou até eles: os Hicsos tinham realmente organizado uma cilada por altura de Heracleópolis. Todos os que tentavam dirigir-se a Tebas eram presos.

 

E nós queixou-se o Bigodes estamos entalados entre os hicsos a norte e os hicsos a sul! Vamos morrer como animais selvagens no fundo da sua toca.

 

Certamente que não, meu amigo. Estamos a tratar de alargar essa toca. E se morrermos, será em combate.

 

Ainda acreditas nisso...

 

Tu também, e no mais profundo de ti mesmo. Hoje, o adversário é mil vezes mais forte do que nós e seria loucura enfrentá-lo de rosto descoberto. Mas não há-se ser sempre assim... Aprende a paciência, é a única virtude que te falta.

 

Um dos tenentes do Bigodes interrompeu-os.

 

Passam-se estranhas coisas na aldeia vizinha: polícias hicsos deitaram a mão a um viajante e preparam-se para o torturar na forja. Talvez devêssemos intervir...

 

É demasiado arriscado considerou o Afegão.

 

E se esse infeliz pertencer a uma rede que tenta contactar-nos?

 

Ele tem razão disse o Bigodes. Eu vou lá.

 

Não sem mim retorquiu o Afegão.

 

Os seis polícias hicsos eram especialistas em interrogatórios. Ligados à vigilância da pista da orla do deserto, tinham interpelado o estranho viajante que vinha do sul.

 

De aparência bastante enfezada, o indivíduo revelara-se mais coriáceo do que parecia. Nem as saraivadas de socos nem os profundos ferimentos infligidos pelo chicote tinham conseguido fazê-lo falar. No entanto, o chefe do destacamento conhecia um método que tornaria um mudo falador.

 

Estás a ver a fornalha desta forja, porco espião? Tem umas belas brasas... Se persistires em calar-te, vais prová-las! Depois disso, deixarás de ter rosto.

 

O prisioneiro ergueu os olhos assustados para o seu carrasco.

 

Eu não sei nada, nada de nada!

 

Tanto pior para ti.

 

O cheiro da carne queimada foi acompanhado por gritos de tal forma insuportáveis que um hicso rebentou o crânio do supliciado com uma pedra.

 

Mataste-o, imbecil! protestou o chefe. Como queres que fale agora?

 

O torcionário não teve tempo de responder, porque uma flecha se lhe cravou no peito.

 

Só à sua conta, o Afegão abateu mais dois hicsos enquanto o Bigodes cravava a sua lança nos rins de um quarto, antes de estrangular um quinto dando vazão à sua raiva.

 

Único sobrevivente, o chefe voltou-se de frente para o Afegão, cujo olhar o aterrorizou.

 

Sou um polícia do Imperador... Se me tocares, serás condenado!

 

Deixa-o para mim exigiu o Bigodes.

 

O polícia tentou fugir, mas o egípcio era muito mais rápido do que ele. Agarrou-o e puxou-o pelos cabelos até à forja.

 

Chegou a tua vez de provar este fogo.

 

O chefe do destacamento hicso debateu-se em vão. Com o rosto encostado às brasas, ficou com a língua queimada ao abrir a boca para gritar.

 

Indiferente à sua horrível agonia, o Afegão examinava o cadáver do egípcio.

 

Anda cá ver, Bigodes... Coseram-lhe um bocado de linho no interior da túnica. E desenharam um sinal estranho a tinta vermelha.

 

Dir-se-ia o disco da Lua na sua barca.

 

É sem dúvida uma mensagem... Mas este infeliz já não pode revelar-nos o sentido dela. Em todo o caso, correu o máximo de riscos para a transmitir.

 

Quem seria o destinatário?

 

Certamente que não eram os Hicsos.

 

Então avançou o Bigodes procurava resistentes! Imagina que se trate de um enviado de Tebas!

 

Nada de muitos optimismos, mas guardemos este sinal na memória

 

OAfegão rasgou o pedaço de linho e queimou-o Se, por acaso, se tratasse de um código de ligação, devia permanecer secreto o máximo de tempo possível.

 

Haverá outro mensageiro? inquietou-se o Bigodes. Talvez a cidade de Amon lançasse o seu último pedido de socorro.

 

A Lua será o seu símbolo?

 

Que eu saiba, não.

 

Esqueçamos Tebas e pensemos antes num pequeno grupo de insurrectos que tenta dar-se a conhecer.

 

Como os havemos de encontrar?

 

Só há uma solução: ir mais para sul.

 

Vamos encontrar as patrulhas hicsas!

 

Assim, ficamos a saber onde estão.

 

Apesar de uma barriga que crescia cada dia mais, Ah-hotep continuava sempre activa. Revivificando os circuitos económicos tradicionais no enclave tebano e castigando os contrabandistas, restabelecera a confiança. Os tebanos já não passavam o tempo a espiar-se uns aos outros ou a fecharem-se com medo do amanhã; restabeleciam-se laços de amizade e gabavam-se os méritos de Ah-hotep, que visitava os doentes e arranjava comida aos mais desfavorecidos. Consciente que a hora não era para grandes discursos, a jovem Rainha preocupava-se primeiro com o quotidiano.

 

Tens notícias dos nossos mensageiros? perguntou a Qaris. O rosto do intendente ensombrou-se.

 

Infelizmente, nenhuma, Majestade. Com certeza nenhum sobreviveu. Receio que seja impossível ultrapassar as barreiras sucessivas implantadas pelos Hicsos. E, provavelmente, já não existe mais nenhum resistente a norte de Coptos.

 

Estou convencida do contrário, Qaris! Que os cobardes, os medrosos e os colaboradores sejam a maioria, admito... Mas alguns, mesmo oprimidos, mesmo perseguidos, nunca curvarão a cabeça. São esses que é necessário contactar.

 

Enviar mais homens para uma morte certa parece-me posto de parte, Majestade.

 

Temos de romper o nosso isolamento e saber com quem contar. Sem comunicação com o exterior, Tebas estiolará.

 

Qaris hesitou.

 

Talvez um dos nossos últimos aliados, se ainda for deste mundo, nos pudesse ajudar... Mas não vos quereria dar muita esperança.

 

Em quem estás a pensar?

 

Em Babai, o velho sábio de El-Kab, que dispunha outrora de excelentes mensageiros. Se ainda estão aptos para realizar missões, ser-nos-iam muito úteis.

 

Parto imediatamente para El-Kab.

 

Majestade, no vosso estado...

 

Só um estado me preocupa, Qaris: o do meu país.


Ah-hotep e Seken tinham metido pelo carreiro que seguia ao longo dos campos cultivados para se dirigirem a El-Kab. Eram escoltados por dez jovens soldados prontos a dar a vida para salvar a da Rainha que, quando a fadiga a vencia, acedia a sentar-se numa cadeira de transportadores em madeira de sicômoro.

 

Durante a viagem em marcha forçada, o pequeno grupo não foi vítima de nenhuma má surpresa. Cruzou-se apenas com alguns camponeses amedrontados que evitaram fazer a mínima pergunta e se refugiaram nas suas miseráveis cabanas de terra.

 

Era evidente que a província estava quase totalmente desertificada e os Hicsos desdenhavam-na a ponto de nem sequer lá deixarem qualquer unidade de ocupação.

 

Os arredores da velha cidade de El-Kab não tinham nada de atraente: árvores abatidas, pastagens abandonadas, cadáveres de vacas... A felicidade parecia ter abandonado definitivamente aquelas paragens.

 

Façamos meia volta recomendou Seken. Esta cidade deve ser apenas ruínas.

 

Verifiquemos exigiu Ah-hotep.

 

Talvez isto esteja ocupado por ladrões e nós não somos numerosos.

 

Quero saber se Babai ainda é vivo.

 

1 A antiga Nekheb, oitenta quilómetros a Sul de Tebas.

 

Seken foi o primeiro a franquear a grande porta aberta na muralha. Os batentes tinham sido arrancados e o posto de guarda destruído.

 

A meio da rua principal, um cão morto.

 

Dois batedores ordenou Seken. Um pela esquerda e outro pela direita.

 

Aqui e além, uma casa incendiada. Por toda a parte, restos de cerâmica, pedaços de móveis quebrados à machadada, farrapos de vestuário.

 

Mas nem vivalma.

 

O antiquíssimo templo da deusa Nekhbet, a mãe do Faraó que lhe dava o nome, não fora poupado. Estátuas quebradas e colunas degradadas testemunhavam os seus sofrimentos.

 

Além, uma pessoa! gritou um batedor.

 

Sentado na soleira do templo coberto, um homem muito velho lia um papiro.

 

À aproximação dos visitantes, nem sequer levantou a cabeça, indiferente à sorte que o esperava.

 

És Babai o Sábio? perguntou Ah-hotep. O velho não respondeu.

 

Afastai-vos ordenou ela aos soldados.

 

Logo que ficaram a razoável distância, a jovem utilizou o seu principal argumento.

 

O Faraó Seken e a Rainha Ah-hotep precisam do teu auxílio para salvar o Egipto.

 

Com uma lentidão quase insuportável, o velho começou a enrolar o papiro.

 

A luz divina colocou o Faraó na terra para pôr a harmonia no lugar da desordem, tornar os deuses favoráveis, executar a justiça e repelir a injustiça lembrou Babai. Não se situa acima de Maet, mas deve ser o seu servidor e proteger os que a praticam. Era assim antes da invasão. Hoje, já não há Faraó na terra do Egipto.

 

Enganas-te objectou Ah-hotep. Seken foi coroado em Karnak.

 

O velho sábio concedeu um olhar dubitativo ao jovem casal.

 

Os Hicsos destruíram Karnak.

 

Garanto-te que não, Babai! A minha mãe, Teti, a Pequena, preservou a independência de Tebas cujo templo está intacto. Os Hicsos julgam-nos dominados e inofensivos, enquanto trabalhamos na sombra a fim de preparar a reconquista.

 

A Rainha Ah-hotep... Que o deus Lua te proteja e te dê a noção do combate. Então, vós sois o novo par real, sem exército nem país.

 

Formaremos os nossos soldados um por um prometeu Seken.

 

O velho rasgou o papiro.

 

Ajudem-me a levantar.

 

Apesar da sua avançada idade, Babai era robusto e pesado.

 

O Faraó Seken e a Rainha Ah-hotep... Antes de desaparecer, terei feito o mais belo dos sonhos!

 

O que se passou em El-Kab? perguntou Ah-hotep.

 

Três barcos de guerra hicsos acostaram há dois meses. Os invasores devastaram os campos e a cidade, mataram os raros resistentes e levaram a população para norte, onde será submetida à escravatura. Pouparam-me a fim de que escreva o relato do castigo infligido a quem ousar erguer-se contra o Imperador. Acabo de destruir esse relato. Vamos para minha casa.

 

Babai conduziu o casal real até à sua morada, uma pequena casa de dois andares, situada na proximidade do templo.

 

Antes de entrar, o velho contemplou a sua cidade devastada.

 

Se sois realmente um Rei e uma Rainha, não negocieis nunca com os bárbaros que destruíram esta cidade e martirizaram os seus habitantes.

 

As pilhagens não tinham deixado mais do que uma esteira e uma paleta de escriba usada. Babai sentou-se.

 

Estou fatigado... demasiado fatigado para pegar em armas.

 

Qaris, o nosso intendente, está convencido que vós podeis ajudar-nos avançou Ah-hotep. Segundo ele, disporíeis de excelentes mensageiros.

 

Babai sorriu.

 

Excelentes e eficazes, é verdade... Mas devem provavelmente ter sido abatidos.

 

Não tendes a certeza?

 

Já não recorro a eles há muito tempo. Subamos ao terraço, vou chamar o seu chefe.

 

O velho assobiou uma área ritmada, com graves e agudos bem marcados.

 

Em breve apareceu um magnífico pombo branco e bege que poisou aos pés de Babai.

 

Ainda estás vivo, Larápio! Traz-me os outros.

 

O pássaro retomou o caminho do céu. Pouco tempo depois, regressou com outros seis pombos correios.

 

Todos ilesos! exclamou Babai, comovido. Então os deuses não nos abandonaram... Demorei mais de um ano a treiná-los e devo ensinar-vos a dar-lhes directivas exactas. Quando o vosso espírito comunicar com o deles, irão onde lhes disserdes para ir e voltarão ao seu ponto de partida.

 

Desde as primeiras experiências, Ah-hotep verificou que a inteligência daqueles pássaros era excepcional. Compreenderam rapidamente que a Rainha substituía Babai e que, a partir de agora, deveriam ouvir as suas ordens.

 

Concedei-me uma semana, Majestade, e estes pombos tornar-se-ão fiéis mensageiros que nunca vos trairão.

 

Capazes de percorrer mil e duzentos quilómetros de uma vez, os alunos de Babai deslocavam-se à velocidade de oitenta quilómetros por hora sem perder o norte graças à sua capacidade inata de orientação, em função do magnetismo terrestre. O seu pequeno número não passava de um contratempo passageiro, porque uma fêmea punha dois ovos cerca de dez dias depois do acasalamento e não era preciso mais do que um mês depois de sair da casca para que o pombo aprendiz começasse a trabalhar.

 

Que recrutas formidáveis! entusiasmou-se Seken. Graças a eles, o bloqueio hicso será ineficaz.

 

Não deveis permanecer aqui disse Ah-hotep ao velho. Vamos levar-vos para Tebas.

 

Isso está fora de questão, Majestade. Nasci aqui e aqui passei toda a minha existência. Para mim, não existe lugar mais belo. Um dia, se respeitardes a lei de Maet e se fordes suficientemente forte para triunfar dos obstáculos, das derrotas e das traições, regressareis a El-Kab e devolver-lhe-eis o seu esplendor passado.

 

Não podemos abandonar-vos insistiu Seken.

 

Oferecei-me um pouco de vinho, Majestade.

 

O velho bebeu pelo gargalo da ânfora, poisou-a e descansou a cabeça nas almofadas.

 

Sereno, Babai acabava de exalar o último suspiro.


O Gordo, o Magro, o Barbudo, o Sanguíneo, o Impaciente e os colegas tinham um ponto comum: praguejavam todos contra Ah-hotep, que os tinha arrancado à sua rotina para lhes atribuir postos de lavadeiros. Tinham de mergulhar vestidos, toalhas e tecidos diversos em grandes caldeirões, passar por água limpa, torcer a roupa, batê-la com pás de madeira, pendurá-la para que secasse, dobrá-la de maneira impecável e às vezes até perfumá-la. As donas de casa tebanas tinham reencontrado o gosto pela limpeza e a cidade inteira voltava pouco a pouco a ter um aspecto agradável, incluindo os bairros populares.

 

O trabalho era de tal forma penoso que os lavadeiros esqueciam a ameaça hicsa e só pensavam nas suas condições de trabalho, que tencionavam melhorar queixando-se junto do seu contramestre.

 

Vamos parar decidiu o Sanguíneo.

 

Eu não corro esse género de risco declarou o Magro. A princesa é capaz de mandar a polícia.

 

Paramos porque temos falta de sabão. Portanto, não é possível lavar correctamente.

 

Ele não deixa de ter razão concordou o Gordo.

 

O Impaciente abandonou a sua pilha de roupa suja feminina. Como delegado do pessoal, emitiu vivos protestos que o contramestre, encarregado dos frágeis vestidos de linho, ouviu com atenção.

 

Estava previsto revelou.

 

O que é que estava previsto...? O nosso protesto legítimo?

 

Não, a falta de sabão!

 

Já que é assim, não retomamos o trabalho.

 

Podem descansar até o virem entregar. Ah! Aqui está.

 

Em passo tranquilo, Vento do Norte trazia aos lavadeiras uma boa quantidade de sabões à base de calcário e de gorduras vegetais.

 

O burro não vinha só. Mesmo atrás dele, uma Ah-hotep resplandecente no seu vestido amarelo-claro.

 

Ao vê-la, até mesmo o Impaciente ficou sem respiração.

 

Por todos os deuses, como é bela! murmurou o Sanguíneo. De um dos sacos que o burro transportava, Ah-hotep tirou um jarro.

 

Aqui têm boa cerveja para o vosso almoço. Como o palácio está satisfeito com o vosso trabalho, sereis todos aumentados. Além disso, o contramestre fica autorizado a contratar aprendizes de forma que a sobrecarga de trabalho seja suportável.

 

Já ninguém tinha vontade de protestar.

 

Beberemos à vossa saúde, Majestade prometeu o Gordo e à da criança que trazeis em vós!

 

Ah-hotep restabelecera rigorosas regras de higiene. Do seu ponto de vista, era a base da luta armada. Quando a sujidade vencia, a moral esboroava-se, o medo e a preguiça invadiam as almas. Dia após dia, cada tebano devia reconquistar a sua dignidade e esta dependia da limpeza do seu corpo, dos seus fatos e da sua casa. Equipas de limpeza das ruas e das ruelas completavam os esforços dos particulares e a transformação fora rapidamente perceptível. Os tebanos residiam novamente numa cidade bonita.

 

Essa modesta vitória sobre o desespero dava um novo sentido à sua existência. Em vez de se fecharem, começavam a falar e a ajudarem-se uns aos outros.

 

As mulheres recomeçaram a maquilhar-se e a enfeitar-se fez notar Teti, a Pequena.

 

Tanto melhor! afirmou Ah-hotep. A sua beleza também servirá para reconstruir a nossa vontade de sermos livres.

 

Infelizmente, em breve teremos falta de cosméticos. As reservas do palácio estão quase esgotadas e os fabricantes trocaram Tebas por Edfu.

 

Edfu, a uma centena de quilómetros para sul, actualmente em zona ocupada...

 

O governador Emheb era um dos nossos mais fiéis apoiantes referiu Qaris. Como poderemos saber se ainda está vivo? Supondo que esteja, de que autonomia disporá? É impossível utilizar os pombos sem um contacto prévio.

 

Só há uma solução: ir lá ver.

 

Tu não, Ah-hotep! protestou Teti, a Pequena.

 

Quem desconfiará de um pobre pescador e da sua mulher grávida?

 

A barca era modesta, a vela remendada, os remos gastos, mas o vento do norte soprava com regularidade e permitia a Seken e Ah-hotep avançarem em boa velocidade na direcção de Edfu.

 

O jovem Faraó mudara muito.

 

À força de treino e de exercícios intensivos, o rapaz franzino adquirira uma envergadura de atleta.

 

Sentes-te preparado para ser pai?

 

Graças a ti, sinto-me preparado para travar todos os combates.

 

O jovem casal passou uma noite encantadora na pouco confortável barca, oculta num bosquezinho de papiros. Sós no mundo durante algumas horas, sabiam que o seu amor, violento como a tempestade e terno como a luz de Outono, lhes daria uma força que nenhuma provação desgastaria.

 

Pela madrugada, voltaram a partir.

 

Foi na proximidade de Edfu que um barco de guerra hicso os intimou a parar. Seken baixou a vela e curvou as costas, como um escravo submisso.

 

Quem és e de onde vens? perguntou um oficial de olhos rasgados.

 

Sou um pescador de Edfu e volto para casa.

 

Essa mulher é a tua?

 

Concordas em ajudar-nos?

 

Eu, não. A minha existência não é alegre, mas prezo-a muito. Talvez o meu irmão aceite acompanhar-vos como sendo pescadores que fossem vender peixes ao mercado. Ele paga à polícia para poder trabalhar.

 

O irmão aceitou.

 

Vendo o casal afastar-se com ele na direcção da cidade, o hirsuto fez uma careta de incompreensão. Porque se lançavam assim na boca de um monstro aquele jovem e a sua linda esposa grávida?

 

Os subúrbios de Edfu estavam quase silenciosos. Trocavam-se mercadorias reduzindo ao mínimo o processo de permuta e mantinha-se sempre um olho nos polícias hicsos que percorriam sem cessar as ruelas e as praças. Prendiam não importa quem sob não importa que pretexto e ninguém saía indemne dos seus interrogatórios. Na melhor das hipóteses, o indivíduo ficava com os membros partidos; na pior, era deportado para uma mina de cobre.

 

O irmão do pescador abandonara Ah-hotep e Seken perto do templo de Hórus. Grades de madeira obstruíam-lhe a entrada, porque o Imperador proibira que fosse celebrado o culto do falcão divino, protector do Faraó. A partir de agora, apenas Set de Auaris devia ser considerado como tal.

 

Um mercador de amuletos, tão feios como ineficazes, aproximou-se do casal.

 

Não são caros e protegerão o vosso filho. Dou-vos quatro pelo preço de dois.

 

Procuramos o governador Emheb disse Seken. O mercador afastou-se a passos apressados.

 

Porque recusam todos falar do seu governador interrogou Ah-hotep se não for por ele se ter vendido aos Hicsos?

 

Temos a resposta que tínhamos vindo procurar concluiu Seken. Vamos embora.

 

O casal contornou o muro sul do templo e depois dirigiu-se para os subúrbios.

 

Mas, desta vez, na porta de este encontravam-se polícias hicsos armados com espadas e cacetes. Qualquer tentativa de fuga seria votada ao fracasso.

 

Alguns camponeses saíram da aldeia sem serem interrogados. Seken e Ah-hotep seguiram-nos.

 

Vocês os dois perguntou um polícia onde vão?

 

Para a nossa barca respondeu Seken. Somos pescadores.

 

Parece que andam a fazer perguntas sobre o governador...

 

Teríamos gostado de o ver reconheceu Ah-hotep.

 

Por que razão?

 

Para lhe suplicarmos que nos oferecesse uma barca nova. A nossa está podre.

 

Essa história não tem pés nem cabeça. Sigam-nos.

 

Seken talvez tivesse podido desembaraçar-se dos três polícias que os conduziam para o centro de Edfu, mas receava que Ah-hotep fosse ferida durante a refrega. Adoptara portanto uma estratégia: quando fosse levado à presença de Emheb, tomá-lo-ia como refém.

 

Porque, como o Rei jurara a si próprio, a Rainha e ele sairiam indemnes daquela cidade.

 

O palácio do governador assemelhava-se ao de Titi de Coptos. Havia escribas preenchendo papiros nas suas vetustas secretárias, polícias a limparem indolentemente as armas e gatos vadios espreitando a mais pequena parcela de comida.

 

Entrem para aí.

 

Um cubículo, escuro e sujo.

 

Quando veremos o governador? perguntou Seken.

 

Tu és teimoso! Descansa que o vais ver! A porta fechou-se.

 

Amontoadas num solo de terra batida, sandálias gastas e roupa suja.

 

Seken examinou o local e notou um buraco na parede do fundo.

 

Posso aumentá-lo. Fugiremos por ali!

 

Nem penses retorquiu Ah-hotep. Temos de enfrentar esse Emheb.

 

E se eles só nos fizerem sair daqui para nos executarem?

 

O governador receber-nos-á, tenho a certeza. Ajoelhar-me-ei diante dele, tirar-lhe-ei a arma e ameaçá-lo-ei de lhe cortar a garganta se não nos der um barco que nos leve aos três para Tebas. Esse traidor ainda não sabe, mas já é nosso prisioneiro.

 

Seken apertou a esposa nos braços. A doçura da sua pele perfumada fê-lo esquecer a malcheirosa prisão.

 

Quando a porta se abriu, continuavam enlaçados. Sigam-me, pombinhos! ordenou um polícia.

 

Vamos por fim ver o governador? interrogou Seken com uma vozinha medrosa.

 

Avancem e depressa!

 

No centro do pátio, um cepo no qual estava cravado um machado.

 

Seken teria tempo de se apoderar dele para abater o carrasco?

 

Por aqui!

 

Afastaram-se do lugar do suplício e foram empurrados para uma sala de audiências com quatro colunas, cujas pinturas estavam descoradas

 

Um homem de espantosa corpulência colocou-se diante dos prisioneiros. Nele, tudo era grande: os olhos, o nariz, os ombros e até mesmo as orelhas! De pança volumosa, tinha o aspecto de um amigo da pândega, mas um olhar duro desmentia essa aparência.

 

É a mim que procuram, meus jovens?

 

Se sois o governador Emheb, sim! respondeu Seken.

 

Tu, rapariga, mostra-me as tuas mãos. Ah-hotep obedeceu.

 

São finas, bonitas e não cheiram a peixe.

 

É o meu marido que pesca.

 

Com uma vivacidade surpreendente para um homem tão volumoso, Emheb rasgou a parte superior da túnica de Seken.

 

Isto também não cheira a peixe! Quem são vocês realmente?

 

O governador não tinha armas e os polícias estavam demasiado longe de Seken para que ele pudesse agarrar nas deles sem luta. Teriam tempo para alertar os colegas e o Rei sucumbiria perante o seu número. E, tendo em conta o pescoço de Emheb, era impossível estrangulá-lo!

 

Porque traíste o teu país? perguntou Ah-hotep com gravidade.

 

A intensidade do seu olhar perturbou o governador.

 

Sois tebanos, não é verdade?

 

É o teu dia de glória, Emheb. Tu e os hicsos ides assassinar Ah-hotep, soberana das Duas Terras. Apenas solicito um favor: poupa o camponês que foi obrigado a acompanhar-me.

 

Ah-hotep esperava salvar Seken, Seken não deixaria os ladrões hicsos pôr as mãos na esposa.

 

O governador de Edfu ajoelhou-se.

 

Sou vosso servidor, Majestade. Mandai e eu obedecerei. Os polícias imitaram Emheb.

 

Não são hicsos explicou ele mas sim egípcios. Um a um, fiz eliminar os esbirros do ocupante para os substituir pelos meus homens, fazendo crer ao Imperador que a cidade lhe estava totalmente submetida. Visto que me proclamei como seu aliado, atribuiu-me a tarefa de limpar a região e lançar impostos cada vez mais pesados. A minha única esperança consistia em lançar uma ofensiva, evidentemente votada ao fracasso mas que nos permitiria morrer dignamente.

 

Ergue-te, governador.

 

A emoção de Emheb era perceptível.

 

Devo compreender, Majestade, que Tebas está intacta e pronta a combater?

 

Esquece o teu ataque suicida. Para formar um verdadeiro exército, precisamos de paciência e respeito pelo segredo.

 

Sou o vosso homem, Majestade!

 

Não apenas o meu, Emheb. Estás na presença do meu esposo, o Faraó Seken.

 

Ah-hotep julgou que o corpulento governador ia desfalecer.

 

Um Rei... Temos um Rei! Majestade, sois portadora de milagres!

 

Para já, precisamos de unguentos, maquilhagens e técnicos capazes de as produzir.

 

Um amplo sorriso iluminou o rosto alegre de Emheb.

 

Apesar das suas buscas, os Hicsos nunca encontraram os meus esconderijos de incenso e estoraque! Disponho também de uma boa reserva de unguentos de diversas qualidades e podereis fornecer tanto o templo como os particulares. Quanto aos fabricantes, os melhores do Egipto residem mesmo em Edfu. Vários partirão para Tebas convosco. Vinde ver os meus tesouros... Apenas esperavam um novo par real!

 

Com um entusiasmo comunicativo, o governador mostrou aos seus hóspedes as criptas do santuário onde tinham sido preservados incensadores, vasos e boiões de unguentos.

 

Não modifiquemos nada decidiu Ah-hotep. Os Hicsos devem continuar a acreditar que El-Kab está morta e que Edfu agoniza.


Seken andava de um lado para outro no pavilhão de parto. As parteiras são realmente competentes? perguntou a Qaris, quase tão nervoso como ele.

 

São as melhores de Tebas, Majestade. Não vos angustieis.

 

Ah-hotep estava a sofrer muito! Nestas últimas semanas devia ter repousado. A viagem a Edfu esgotou-a.

 

Com o devido respeito, Majestade, foi coroada de tal êxito que o futuro se iluminou!

 

Eu sei, Qaris, eu sei... Mas a Rainha deveria ter-se poupado mais.

 

Uma Rainha do Egipto é uma Rainha do Egipto lembrou Qaris, fatalista. E quando se chama Ah-hotep...

 

Um parto não é assim tão demorado!

 

As nossas especialistas sabem enfrentar as situações mais difíceis.

 

No tempo das pirâmides, sem dúvida, mas com certeza que não na Tebas de hoje! Em caso de incidente grave, nem Ah-hotep nem o nosso filho sobreviverão.

 

O intendente não teve coragem para o desmentir. Seken recomeçou as suas idas e vindas.

 

Na hora em que o Sol atingia o topo do céu, Teti, a Pequena, saiu da sala de parto com um bebé nos braços.

 

É um magnífico rapaz] Seken não se atreveu a tocar-lhe. E Ah-hotep?

 

Está radiante de felicidade.

 

Eram três, uma morena, uma ruiva e uma de cabelos castanhos-claros. Três viúvas cujos maridos, proprietários de grandes patrimónios no Delta, tinham sido deportados pelos Hicsos. Como tantas outras, poderiam ter-se afundado na tristeza. Mas, para honrar a memória dos desaparecidos, haviam decidido comportar-se como autênticas egípcias.

 

Primeiro, elas próprias haviam assumido a função de sacerdotisas funerárias a fim de que o ka dos maridos continuasse a viver. Em seguida, tinham-se ocupado da gestão dos bens, unindo as suas competências. Apesar do aumento dos impostos, as três mulheres conseguiam manter o conjunto do seu pessoal e garantir-lhe uma existência decente. A sua reputação crescera em todo o Baixo Egipto, a ponto de chegar aos ouvidos da esposa do Imperador.

 

Quando a escultural Aberia, com mãos maiores do que as de um robusto camponês, se apresentou à entrada da grande mansão onde viviam as três viúvas, o porteiro ficou impressionado.

 

As tuas patroas estão aqui?

 

Com certeza. Procuras emprego?

 

Tu, deixaste de o ter.

 

As mãos da dama Aberia fecharam-se em redor do pescoço do porteiro e quebraram-lhe a laringe. Abandonando o cadáver como um fantoche, esbarrou com os caseiros.

 

Vimos tudo, és uma criminosa!

 

Cerca de cinquenta soldados hicsos invadiram a propriedade. Massacraram os que tentavam fugir e espancaram os outros.

 

Descontraída, Aberia tinha entrado no gabinete onde as três viúvas, apavoradas, mantinham agarrados a si os papiros da contabilidade.

 

Então sois vós, as últimas mulheres de negócios do país dos vencidos... Ignorais que as vossas práticas são contrárias às leis? Mulheres como vós devem estar submetidas a um homem e não tomar qualquer iniciativa. A partir deste instante, as vossas propriedades e os vossos bens estão requisitados.

 

Pagamos regularmente os impostos protestou a ruiva e nós...

 

Aberia esbofeteou-a tão violentamente que ela caiu, semi-inconsciente.

 

Apanhem essa galdéria ordenou às outras duas viúvas e sigam os soldados. O Imperador atribuiu-vos outro trabalho.

 

A ideia da esposa agradara muito a Apopi: reunir em Auaris belas egípcias outrora ricas, fechá-las numa prisão composta por quartos de conforto rudimentar e oferecê-las aos dignitários que tivessem vontade de gozar uma fêmea um minuto ou um dia.

 

Ter entrada no harém imperial seria, a partir de agora, um dos favores mais apreciados.

 

A dama Tani encarregara-se pessoalmente da selecção, eliminando as demasiado velhas, que a dama Aberia tinha ficado encantada por estrangular antes de queimar os seus cadáveres.

 

O regulamento do harém era simples: as aristocratas egípcias deviam satisfazer todos os desejos da casta dirigente. A que choramingasse, protestasse ou adoecesse, acabava nas mãos de Aberia.

 

E a esposa do Imperador, sempre em busca de uma maquilhagem que atenuasse a sua fealdade, sentia vivo prazer ao ver assim aviltadas a juventude e a beleza dessas mulheres das quais ela deveria ter sido a criada.

 

Apopi estava mal do fígado e os seus gordos tornozelos tinham tendência para inchar. Esses problemas eram consequência de uma viva contrariedade provocada pelo relatório de Khamudi sobre a Núbia.

 

O povo de guerreiros negros era seu vassalo, é verdade, e congratulava-se com a queda de um Egipto que detestava. Mas as tribos acabavam de escolher um jovem rei, Nedjeh, cuja reputação de bravura e crueldade tinha chegado até Auaris.

 

Levando a sério esse rumores desagradáveis, o Imperador convocara o seu embaixador, que lhe enviava regularmente informações sobre a evolução dos seus aliados negros. O diplomata era um espião de primeira qualidade e não ignorava nada do que se passava no longínquo Sul. Ex-general de infantaria, tinha tanto sangue nas mãos que nenhuma acção brutal o repugnava.

 

Não fora um inimigo que o tornara zarolho, mas uma pequena peste. Uma garota espancada até à morte porque não lhe dava prazer suficiente. A núbia tivera a força suficiente para lhe cravar um alfinete de osso no olho esquerdo antes de morrer.

 

Que ideia fabulosa, este harém! exclamou o Zarolho quando o Imperador entrou na sala de recepções onde o embaixador esvaziava o seu segundo jarro de vinho branco. Não saí de lá durante três dias e ofereci a mim mesmo já nem sei quantas soberbas egípcias, tão requintadas que julgava estar a sonhar... Fez-me realmente sair da rotina! Majestade, sois um génio.

 

A lisonja não desagradava a Apopi, mas estava demasiado preocupado para a apreciar.

 

O relatório de Khamudi não é demasiado pessimista?

 

Não fez mais do que repetir as minhas opiniões. O vosso braço direito é eficaz e implacável, entendemo-nos às maravilhas.

 

Tanto melhor, Zarolho, tanto melhor... Mas conheci-te menos receoso face às tribos negras.

 

Tenho um princípio: nunca atacar quando não tenho a certeza de ganhar. Para exterminar esses animais selvagens, precisaria de tropas mais numerosas e mais aguerridas do que as do adversário. Hoje em dia, não é esse o caso.

 

Ter-te-ás deixado ultrapassar?

 

De certa forma, sim, Majestade. Não vi crescer esse Nedjeh, ao qual os meus informadores não previam qualquer futuro. Eu próprio empalei um deles diante dos colegas para lhes mostrar que estava particularmente descontente. Ao apresentar-me perante vós, sei que me condenareis à morte, e com razão. Foi por isso que aproveitei o harém até ao esgotamento.

 

Apopi reflectiu.

 

É um facto que os seus subordinados não tinham direito a fracassar. Mas não seria fácil substituir o Zarolho. Além disso, este iria ter cuidado em não cometer mais qualquer erro. A versão oficial seria portanto uma adaptação da realidade: se Nedjeh tinha sido nomeado chefe dos núbios, fora com a bênção do Imperador.

 

Vais sair daqui vivo anunciou Apopi. Como embaixador hicso, felicitarás em meu nome o homem que federou os clãs.

 

O Zarolho nem queria acreditar nos seus ouvidos.

 

Enviar-me-eis um exército para o aniquilar, Majestade?

 

Combater os Núbios no seu território apresenta grandes dificuldades, sabes melhor do que eu. E não tenho ainda nenhuma razão para declarar guerra aos meus súbditos do Grande Sul.

 

A norte do seu território, Nedjeh não controla senão Elefantina, mas não se deterá aí.

 

É um imbecil?

 

Não creio.

 

Então, Zarolho, sabe que provocar a cólera dos Hicsos seria um erro fatal. Procura com certeza reforçar o seu poder na Núbia. Um dia, utilizaremos os seus talentos. Se se tornar incómodo, interviremos. Regressa para lá, acaricia-o no sentido do pêlo, e informa-te dos seus mínimos actos e gestos. E, desta vez, nem um passo em falso.

 

Estupefacto por se ter safado tão bem daquela, o embaixador prometeu a si mesmo uma noite no harém antes de voltar a partir no seu barco.


O Faraó Seken estava amargurado.

 

Os impostos exigidos pelos Hicsos eram ainda mais pesados do que os do ano anterior. O Imperador não se satisfaria com uma nova esteia à sua glória e os seus inspectores fiscais verificariam cada saco de cereais com o prazer sádico de condenar os tebanos à fome. Os que pensavam festejar o novo ano deveriam renunciar às celebrações.

 

É verdade que, graças à reorganização da agricultura tebana que lhe ocupava todo o tempo, Seken conseguia responder às exigências do ocupante. Mas esses esforços consideráveis apenas podiam conduzir ao descalabro, porque a população do último enclave livre começava a perder a esperança.

 

Há mais de dois anos que a Rainha Ah-hotep morria lentamente de uma doença que os médicos tebanos eram incapazes de curar. A jovem dormia cerca de quinze horas, tentava levantar-se, vacilava e era obrigada a deitar-se de novo. As ideias confundiam-se-lhe ao fim de alguns minutos e mergulhava numa letargia de onde voltava a sair cada vez mais esgotada.

 

Apenas a esfuziante alegria do pequeno Kamés proporcionava ainda um pouco de felicidade a um palácio que se afundava no desespero. Ah-hotep tivera razão em escolher para ele aquele nome que significava ”É florescente a forma de Ré”, porque o garoto desenvolvia-se a olhos vistos.

 

Seken pensava por vezes que a saúde da esposa passara para o corpo do filho, mas como poderia censurar-lho? Houvera tanta alegria na altura daquele nascimento, sinónimo de futuro!

 

Na companhia de Qaris, Seken observava a maqueta. Quase todo o Egipto se tornara hicso e a existência de pequenos grupos de resistentes no Norte continuava a ser uma ilusão.

 

Não será provavelmente neste palácio que o meu filho celebrará o seu próximo aniversário... Mas para onde havemos de ir? Para o Norte não, mas também não para o Sul! Segundo as informações fornecidas pelo governador Emheb, os núbios torturam e executam os egípcios que recusam colaborar. Tornaram-se donos das nossas antigas fortalezas e o seu rei, Nedjeh, sonha alargar o seu território.

 

Apopi impedi-los-á!

 

Compreendo hoje por que razão ele não arrasa a nossa cidade: é a armadilha que prepara a Nedjeh. Se o núbio atacar Tebas, o exército hicso aniquilá-lo-á.

 

Teti, a Pequena, interrompeu os dois homens.

 

Vem depressa, Seken. Ah-hotep chama-te. Pálido, o Faraó precipitou-se para o quarto da esposa. Ah-hotep expirava.

 

Ele apertou-lhe a mão com tanta força que regressou aos seus olhos um pouco de luz.

 

É este demónio que me rouba a vida... Apopi, o Imperador das trevas.

 

Ataco Auaris e mato-o!

 

Leva-me a Karnak... Amanhã é o ano novo, não é verdade?

 

Sim, mas...

 

Desenha-me o signo da Lua sobre o coração e confia-me ao que me pode salvar.

 

O Nilo turbilhonava, a cheia crescia a uma velocidade inquietante e a violência do sol de Julho obrigava animais e homens a abrigar-se.

 

À hora do meio-dia, transportando a esposa nos braços, Seken subiu lentamente a escada que conduzia ao telhado do templo de Osíris, senhor da morte e da ressurreição. Poisou sobre as lajes o corpo nu da Rainha do Egipto, expondo-o assim aos raios de Ré, o único capaz de vencer as trevas.

 

Ah-hotep dera tanto de si mesma que os canais do seu organismo se tinham esvaziado de toda a energia. Como os objectos rituais que os sacerdotes recarregavam no ano novo depois de doze meses de utilização, a Rainha esperava ser regenerada. Ela, filha da Lua, implorava ao Sol que realizasse o impossível casamento de onde surgiria uma vida nova.

 

Entregar a esposa à violência de uma radiação tão intensa não seria insensato? Rei sem coroa, Seken seria incapaz de continuar a luta sem Ah-hotep. A alma do combate era ela.

 

Inteiramente habitado pela presença do sol, o corpo da Rainha transformou-se em luz.

 

Receando ficar com os olhos queimados, Seken voltou-se. Revoltado com a sua própria cobardia, correu para ela a fim de fazer cessar o seu suplício.

 

A pele de Ah-hotep estava escaldante.

 

Não deves permanecer aqui disse-lhe ele.

 

Tem confiança, Seken.

 

Implacável, o Sol continuou a irradiar até os canais da jovem ficarem cheios da sua seiva. Por fim, Ah-hotep ergueu-se.

 

O Imperador das trevas não me matou. É o primeiro golpe que lhe inflijo.

 

Apopi soltou um pequeno grito de dor.

 

O seu barbeiro acabava de o cortar ao barbeá-lo.

 

Aterrado, ajoelhou-se.

 

Mil perdões, Majestade... Não é grave, garanto-vos!

 

Trabalhar no palácio exige excelência.

 

Este incidente nunca mais se repetirá, juro-vos!

 

Os juramentos não passam de mentiras afirmou o Imperador. Um cão que mordeu, voltará a morder; um incapaz será sempre um incapaz. As minhas minas de cobre são grandes consumidoras de pessoal... Acabarás lá os teus dias.

Dois guardas agarraram no barbeiro, cujas lamúrias exasperavam Apopi. O assistente do infeliz limpou o ligeiro ferimento com linho e cobriu-o com uma compressa de mel.

 

A cicatrização será muito rápida, Majestade.

 

Arranja-me depressa outro barbeiro.

 

Aquele dia começava mal. Irritado, o Imperador esperava notícias do corpo expedicionário que enviara à Síria a fim de queimar uma aldeia que tivera o descaramento de protestar contra os impostos excessivos. Quanto à sua marinha de guerra, perseguia piratas cipriotas suficientemente loucos para atacarem barcos de mercadorias hicsos.

 

Foi um Khamudi alegre que solicitou audiência.

 

Triunfo total, Majestade! Os sírios revoltados e os piratas cipriotas foram exterminados. Uma vez mais, o almirante Jannas provou a sua eficácia. Ordenei que os cadáveres dos sírios fossem exibidos nas aldeias vizinhas a fim de evitar outras desordens.

 

O Imperador estava satisfeito com o seu braço direito. Rico, depravado e odiado, Khamudi venerava o seu senhor todo-poderoso e obedecia-lhe sem pestanejar. Enquanto se mantivesse no seu lugar, Apopi cobriria as suas piores façanhas.

 

O império continuava a estender-se, mas era necessária a mais extrema vigilância. Aqui ou além, havia insensatos que esboçavam movimentos de revolta que Khamudi reprimia com a máxima crueldade. Em todos os territórios controlados por Apopi elevavam-se piras compostas por corpos de homens, mulheres, crianças e animais. Mesmo quando uma província parecia pacificada, Khamudi organizava uma razia preventiva. Ver torturar os notáveis locais e desaparecer uma povoação nas chamas acalmava os ardores de eventuais dissidentes.

 

Não nos esqueçamos de vigiar os cretenses, Majestade. Não tenho provas, mas talvez tenham comanditado a agressão contra os nossos barcos. Todos os meus informadores estão em estado de alerta.

 

Que a frota de Jannas esteja pronta a aparelhar. Khamudi imaginava já com antecipado prazer a destruição da grande ilha.

 

Recebeste um relatório do Zarolho?

 

Segundo o nosso embaixador na Núbia, Majestade, o reizinho preto parece manter-se tranquilo. Mas continuo persuadido que acabará por lançar-se sobre Tebas. A presa é demasiado tentadora.

 

Ser-lhe-á necessário primeiro eliminar os polícias que controlam Edfu.

 

É por essa razão que não lhes envio reforços afirmou Khamudi. Edfu é o último ferrolho antes de Tebas. Fazendo-o saltar, Nedjeh julgar-se-á mais forte do que os Hicsos, aos quais terá assim declarado guerra. Aniquilá-lo-emos então na batalha de Tebas, que será riscada do mapa, e colonizaremos a Núbia à nossa vontade.
Tenho medo confessou Cara de Rato.

 

Também eu reconheceu Nariz Torto mas não há perigo nenhum. Sabes bem que estamos bem cobertos a alto nível. A Rainha Teti está gaga, a filha moribunda e Tebas agonizante. Nós, enriquecemos e vamos embora. Não há mesmo nada a recear.

 

De acordo, mas mesmo assim... Pilhar um túmulo... Tenho medo!

 

Não arriscamos nada, estou-te a dizer! Aqui, na margem oeste de Tebas, já só há alguns camponeses que morrem de fome e túmulos bem escondidos que contêm tesouros. Imaginas o que poderemos arrecadar?

 

E se nos prendem?

 

Impossível! Anda, não percamos mais tempo. O informador esperava-os na base de uma colina.

 

O melhor túmulo é por ali indicou com um braço hesitante. Têm tudo o que é preciso?

 

Não te preocupes e mostra-nos.

 

Os primeiros degraus da escada que conduzia à sepultura de um nobre estavam à vista.

 

Foi eu que os pus a descoberto explicou o informador. O meu pai conhecia a localização e tinha prometido ao defunto nunca a revelar a ninguém. Mas os tempos são duros...

 

Os tempos são como são. Vamos.

 

Com barras de mina em cobre, Cara de Rato e Nariz Torto demoliram um murinho de protecção, entraram num corredor e acenderam uma tocha. A porta do túmulo não lhes resistiu muito tempo e penetraram na câmara funerária.

 

Ao lado do sarcófago, assentos e cofres contendo jóias, fatos, sandálias e utensílios de toilette que Nariz Torto meteu em sacos.

 

Vamos embora depressa recomendou Cara de Rato. Tenho a certeza que a alma do morto nos observa.

 

Falta o mais importante: o sarcófago!

 

Não, isso não!

 

Tem com certeza um colar de ouro e belos amuletos...

 

Vamos ficar ricos!

 

Nariz Torto quebrou a tampa do sarcófago.

 

A múmia estava em perfeito estado de conservação. No peito, um colar de flores secas.

 

Nariz Torto agarrou nas faixas.

 

Horrorizado, o seu cúmplice voltou para o corredor para não assistir àquela profanação. Quando ouviu alegres exclamações, os seus remorsos desapareceram.

 

Amuletos de ouro, um grande escaravelho em lápis-lázuli e anéis! Ajuda-me a encher os nossos sacos.

 

Sem se atrever a olhar para a múmia martirizada, Cara de Rato deu mesmo assim uma ajudinha.

 

Ao sair do túmulo, teve um sobressalto.

 

Eis-vos enfim! Boa colheita? perguntou o informador.

 

Fabuloso! Dividimos já?

 

Com certeza.

 

Enquanto Nariz Torto exibia um amuleto em forma de perna, o informador cravou-lhe um punhal no ventre e tentou fazer com que o companheiro tivesse a mesma sorte. Mas Cara de Rato teve um reflexo salvador e só ficou ferido na anca.

 

Embora perdesse muito sangue, conseguiu fugir esperando que o seu agressor não o apanhasse.

 

O homem está morto disse o intendente Qaris. Chamava-se Cara de Rato e, apesar da gravidade do seu ferimento, conseguiu atravessar o Nilo e chegar ao palácio para nos contar tudo.

 

Ladrões de túmulos! espantou-se Ah-hotep. Como podem ser tão vis... Esses criminosos ignoram que a alma do morto os castigará?

 

A atracção do lucro é tão forte que nada os detém. E não é tudo...

 

A Rainha ainda está frágil lembrou Seken. Evitemos-lhe um novo choque.

 

Não me ocultem nada ordenou a jovem.

 

Então, compete-me a mim dizer-to: Cara de Rato revelou a identidade do homem que lhes garantiu a impunidade. Esse criminoso é o responsável pela caserna no qual eu tinha inteira confiança.

 

A informação consternou a Rainha.

 

Mais grave ainda acrescentou Qaris o partido dos colaboradores não desiste. A certeza da vossa morte reforçou-o mesmo.

 

Por outras palavras concluiu Seken todos os meus esforços para criar um verdadeiro exército tebano estão reduzidos a nada. Nunca poderemos lutar contra o Imperador.

 

Claro que sim! protestou Ah-hotep. Temos simplesmente que mudar de estratégia. Foi o velho general, hoje desaparecido, que nos deu a solução: criar uma base secreta.

 

No enclave tebano haverá certamente olhos para a descobrir!

 

Visto que a energia circula de novo nas minhas veias declarou Ah-hotep vou ocupar-me ostensivamente do bem-estar dos tebanos. A caserna continuará a ser o que é e abrigará apenas polícias que garantirão a ordem. Os partidários da colaboração ficarão assim persuadidos que as nossas ambições, muito limitadas, não os ameaçarão. Tu, Seken, ficarás com as mãos livres para recrutar os nossos futuros soldados e formá-los.

 

Mas... onde?

 

Na margem oeste, claro! Faremos saber à população que os ladrões tentaram pilhar lá os túmulos dos nossos antepassados. Portanto, colocamos forças de segurança em torno da necrópole e proibimos qualquer presença estranha. Apenas as almas dos mortos, magicamente protegidas, aí terão direito de cidadania.

 

A Rainha curvou-se sobre a maqueta de Qaris.

 

Por prudência, estabeleceremos a nossa base secreta aqui, no deserto, a norte de Tebas. No caso de os curiosos conseguirem aventurar-se naquelas paragens, os nossos vigias eliminá-los-ão.

 

Majestade objectou Qaris é um empreendimento difícil e de longo fôlego!

 

Demorar-nos-á vários anos, tenho consciência disso. Se tivermos êxito, combater deixará de ser impossível.

 

Dentro de meio-dia, a caravana proveniente do oásis de Bahareia sairia do deserto e abordaria as franjas verdejantes do oásis de Faium, um pequeno paraíso onde homens e animais repousariam antes de retomar a pista em direcção a Auaris.

 

O chefe dos caravaneiros, Adafi, o Ladrão, sempre estivera a soldo dos Hicsos. Inimigo jurado dos Egípcios, que tinham humilhado o seu povo desde a noite dos tempos, alegrava-se cada dia mais com os benefícios da ocupação. Pouco a pouco, a terra dos Faraós esvaziava-se do seu sangue para se tornar uma das províncias do Imperador.

 

Adafi, o Ladrão, admirava Apopi. Tal como ele, apenas acreditava no uso da força. Não tinha sido assassinando três outros caravaneiros que pudera apoderar-se dos seus burros e surgir assim como um dos comerciantes mais ricos da Líbia?

 

Prazer suplementar, capturara recentemente um egípcio vindo do sul ao qual ele próprio cortara as orelhas e a língua. Como um nobre, fazia-o transportar as suas sandálias e o leque, que o escravo devia agitar constantemente para proporcionar ar fresco ao seu senhor.

 

1 Trata-se do lugar de Deir el Bailas.

 

Adafi conduzia para Auaris jarros de bom vinho, sal e tâmaras de uma excepcional qualidade. Era tudo destinado ao grande tesoureiro Khamudi, que não pagava nada mas autorizava o líbio a retirar para si próprio uma parte da produção dos oásis.

 

Apesar da hora matinal, o calor tornava-se já abrasador.

 

Mais ar, preguiçoso!

 

O escravo egípcio aproximou-se do burro no qual estava instalado o seu senhor para melhor o abanar. Não se poupava, na esperança de que o coração cedesse o mais depressa possível e a morte pusesse fim ao seu suplício.

 

De repente, a caravana imobilizou-se.

 

Adafi, o Ladrão, pôs o pé em terra. O seu ajudante não tardou a juntar-se-lhe.

 

O burro da frente parou explicou ele. Há um cadáver atravessado na estrada.

 

Que importância tem? Pisamo-lo e continuamos!

 

No cadáver há um colar e pulseiras. Além disso, o saiote e as sandálias parecem de boa qualidade..

 

Eu trato disso.

 

Seguido pelo seu porta-leque, o líbio seguiu até ao princípio da coluna. Com o saque não se brincava. O chefe servia-se primeiro.

 

Estendido de costas, o morto parecia jovem. Tinha um belo bigode e, sobretudo, belas jóias.

 

Salivando de cobiça, Adafi, o Ladrão, curvou-se para arrancar o colar.

 

Brutalmente ressuscitado, o Bigodes agarrou num punhal dissimulado na areia e cortou a garganta do profanador de cadáveres.

 

Ao ataque! gritou, levantando-se.


Obedecendo às ordens, os resistentes não tinham dado tréguas. Há mais de dois anos que atacavam as pequenas caravanas, ora no deserto de Oeste, ora no de Este. As operações não eram fáceis de preparar, porque precisavam de obter informações seguras e correr um mínimo de riscos. Quando a caravana se revelava demasiado importante ou protegida por soldados hicsos, oAfegão e o Bigodes preferiam desistir.

 

Tinham no entanto acrescentado algumas belas presas ao seu quadro de caça e amontoado reservas de alimentos, bem como de roupa e diversos objectos que trocavam em caso de necessidade. Esta caravana era a sua presa maior.

 

A resistência está a enriquecer! constatou o Bigodes. Porque fazes essa cara, Afegão?

 

Porque fomos longe de mais. No cadáver do ladrão que mataste encontrei um escaravelho assinado por Khamudi. Esta caravana era-lhe destinada e vai desencadear um inquérito.

 

A alegria do Bigodes esfumou-se.

 

É preciso sobretudo que ele não fique a saber da nossa existência... Talvez pense numa incursão de beduínos, não?

 

Os corredores das areias são aliados dos Hicsos e nunca se atreveriam a atacar uma caravana oficial. Em caso de erro, o seu primeiro reflexo consistiria em levar a sua presa a Auaris para implorar o perdão das autoridades.

 

Estamos em bons lençóis!

 

Só há uma solução decidiu o Afegão: fazer crer que os mercadores se mataram uns aos outros. Deixaremos portanto no local o máximo de produtos e levaremos apenas alguns burros.

 

Os resistentes dispuseram os corpos de maneira a tornar evidente uma briga generalizada.

 

Olha para este disse o Bigodes ao Afegão. Cortaram-lhe as orelhas e a língua. Mas há uma coisa mais interessante: é circuncidado à egípcia e, por baixo da axila esquerda, tatuaram-lhe o signo da Lua na barca!

 

Um sinal de reconhecimento, é evidente. Este coitado foi feito prisioneiro, podíamos tê-lo poupado.

 

Como podíamos saber?

 

Há com certeza outra rede de resistência algures considerou o Afegão.

 

Tebas agoniza, Edfu está nas mãos dos Hicsos, Elefantina sob o jugo núbio. Quer nos agrade ou não, estamos sós.

 

Este sinal de reconhecimento existe, no entanto, e já é a segunda vez que o vimos.

 

O Bigodes vacilou.

 

Queres ir ao Sul, depois de ter quebrado a barreira de Heracleópolis?

 

Ainda não chegámos a isso, embora o nosso balanço não seja assim muito mau. A nossa rede aumenta mês após mês, temos várias bases seguras, os camponeses apoiam-nos e informam-nos, dispomos de uma forja para fabricar armas e comemos à vontade. O nosso domínio é reduzido, é verdade, mas nele estamos em segurança. Quando estivermos preparados, podes ter a certeza, ocupar-nos-emos de Heracleópolis.

 

Vem para junto de mim, meu querido suplicou a dama Yima, que descolorara os cabelos a fim de parecer ainda mais loura.

 

Com os seios descobertos, envolta apenas num xaile, ronronava em cima da cama.

 

Khamudi esbofeteou-a.

 

Não passas de uma cadela com cio... O Imperador está à minha espera.

 

Yima choramingou. Sabia bem que os seus sortilégios cativavam o seu macho e que ele não poderia passar sem ela muito tempo. Na próxima noite, oferecer-lhe-ia uma jovem cananeia que, depois de ter atingido o êxtase, serviria de alimento aos crocodilos. Yima prestava-se a qualquer divertimento, na condição de ser ela a organizadora.

 

Khamudi avançou a passos pesados para o pequeno compartimento da fortaleza onde podia falar com Apopi sem ninguém os ouvir. Não era aquela ridícula história da caravana que o contrariava; os imbecis dos ladrões tinham-se matado uns aos outros, certamente por causa da cobiça de Adafi, mas as mercadorias tinham acabado por chegar-lhe às mãos. Muito mais séria era a situação ao largo de Creta.

 

Segundo um dos seus espiões, tinham sido realmente os cretenses a comanditar os piratas cipriotas com a firme intenção de se apoderarem de vários barcos de mercadorias hicsos. É certo que faltava a prova formal, mas não deveria Apopi reagir o mais rapidamente possível?

 

A frota de guerra do almirante Jannas estava fundeada à vista da grande ilha, pronta a atacar. Ser-lhe-iam enviados transportes de tropas antes do assalto.

 

Khamudi detestava os cretenses. Altivos, imbuídos do seu passado e da sua cultura, não se comportavam como verdadeiros vassalos. Durante algum tempo, pensara organizar um falso atentado contra Jannas, atribuindo a sua paternidade aos cretenses; mas essa montagem exigia muitas cumplicidades e o grande tesoureiro não tinha direito ao erro.

 

O erro, tinham sido os próprios cretenses a cometê-lo! Conhecendo Apopi, Khamudi sabia que a sua cólera fria seria terrível e que apenas a destruição da ilha a acalmaria.

 

O Imperador estava a ser barbeado por um novo barbeiro que tinha dificuldade em reprimir um ligeiro tremor quando fazia deslizar o fio da navalha sobre a face do senhor do mundo.

 

Boas notícias, Khamudi?

 

A situação é delicada, Majestade.

 

Despacha-te a terminar, barbeiro.

 

Nervoso, este apressou-se com o medo de cometer um erro. Felizmente, barbeou perfeitamente o Imperador sem o ferir e eclipsou-se com o seu material.

 

O almirante Jannas deve atacar Creta preconizou Khamudi. Essa ilha orgulhosa merece ser castigada.

 

Ficaste então com a certeza que os Cretenses ameaçam a nossa frota comercial?

 

Não tenho dúvidas, com efeito.

 

Torna-se portanto indispensável agir.

 

Transmito imediatamente as vossas ordens ao almirante Jannas!

 

Espera primeiro para as conheceres... Os Cretenses são duros guerreiros que não venceremos facilmente.

 

Khamudi ficou espantado.

 

Serão esmagados pelo número!

 

Bem entendido, e eles sabem isso. Por isso teriam interesse em satisfazer as minhas exigências. Manda duplicar-lhes os tributos, que me enviem dois mil mercenários e cinquenta barcos e que os seus melhores pintores se dirijam a Auaris para decorar o meu palácio. Se uma única destas condições não for cumprida, sentir-me-ei ofendido e Jannas intervirá.

 

Khamudi estava encantado.

 

Os Cretenses nunca aceitariam semelhante humilhação.

 

Afável e simpático, o Superintendente dos Celeiros Herai conhecia todos os tebanos e, de acordo com as instruções de Ah-hotep, fornecia gratuitamente pão e cerveja às famílias mais pobres. Graças à sua vigilância, ninguém passava fome. E, como era amado pelos seus subordinados, que tratava com respeito, estes realizavam as suas tarefas sem falhar. Nunca os celeiros tebanos tinham sido tão bem geridos.

 

Quem teria desconfiado de Herai? Acalmava as angústias, desfazia os conflitos e nunca se mostrava avaro de histórias engraçadas que divertiam os espíritos mais rabugentos. As famílias ricas sentiam-se honradas por recebê-lo e de boa vontade desabafavam com ele. Conquistara assim a confiança tanto das mulheres como dos homens, dos jovens como dos velhos, dos crédulos como dos cépticos.

 

Tenho a sensação que a cidade não tem segredos para ti avançou Ah-hotep enquanto passeava na sua companhia pelo jardim do palácio, sob a vigilância de Risonho.

 

Majestade, identifiquei os principais partidários da colaboração com os Hicsos. São uns fracos, é certo, mas confesso-vos a minha decepção e a minha inquietação, pois são muito mais numerosos do que supunha. Tebas está minada pelo medo, o egoísmo e a cobardia.

 

O contrário ter-me-ia surpreendido. Agora, sabemos com certeza que apenas a base secreta nos permitirá preparar um exército. Conto contigo para fazer crer aos colaboradores que renunciámos a qualquer iniciativa perigosa. Explica-lhes bem que a minha única ambição consiste em ter um segundo filho e viver tranquilamente no palácio, aproveitando os meus últimos privilégios.

 

Saberei adormecê-los, Majestade. Risonho farejou o ar.

 

Primeiro em guarda, acabou por deitar-se no chão, com as patas da frente bem estendidas, pronto para brincar. E emitiu ganidos de alegria quando o pequeno Kamés correu na sua direcção.

 

Quando o cão lhe lambeu a testa, o garoto rebentou a rir e depois fingiu estar assustado.

 

Mamã, mamã! Salva-me!

 

Ah-hotep tomou a criança nos braços e elevou-a acima da cabeça.

 

Um dia, meu filho, seremos livres.


Ao sair do estábulo onde acabava de nascer um vitelo que a mãe se apressara a lamber, Ah-hotep inspeccionou os terrenos que os seus proprietários tinham deixado vários anos ao abandono. Sob o impulso da Rainha, cujas iniciativas eram prolongadas por Herai, a criação de gado desenvolvia-se, enquanto os transportadores de água vinham regularmente irrigar os pomares. Graças à vasa depositada pelo Nilo durante a cheia, os camponeses fertilizavam os solos e obtinham soberbas colheitas.

 

Ah-hotep velava também pela manutenção dos diques e a preparação de novas bacias de retenção, de maneira a que a província tebana, mesmo na estação seca, não tivesse falta de água.

 

Está tudo pronto, Majestade anunciou Herai.

 

Como os vinhateiros tinham trabalhado bem e a qualidade dos vinhos se anunciava excelente, Ah-hotep decidira celebrar uma festa em pleno campo e na presença dos notáveis. Embora a ameaça hicsa fosse lancinante, todos apreciaram aquele momento arrancado à angústia e saborearam sem reserva o vinho novo. Como era exaltante agradecer ao deus da prensa, fazer conversas fúteis e acreditar no futuro, nem que fosse apenas por um instante!

 

O intendente Qaris pediu silêncio.

 

Muitos se admiram por não ver aqui Sua Majestade Teti, a Pequena. A nossa soberana está de todo o coração connosco, mas a sua saúde frágil não a autoriza a sair do palácio. Encarregou-me de vos anunciar que renuncia oficialmente à sua tarefa e que a sua filha Ah-hotep assume a partir de agora a totalidade dos deveres de uma Rainha do Egipto.

 

Aclamações saudaram esta notícia.

 

Um notável tomou a palavra.

 

Felicitamo-nos por essa escolha, mas o que pensará dela o Faraó Apopi?

 

Na carta oficial que acaba de lhe ser dirigida, a sua muito respeitosa serva Ah-hotep solicita a sua aprovação e pede-lhe que continue a proteger a sua boa cidade de Tebas.

 

Membro do partido dos colaboradores, o notável sorriu de satisfação.

 

Numerosos camponeses, pelo contrário, deploraram aquela atitude. A jovem sofria por não lhes poder dizer a verdade, mas era preciso que a população tebana ficasse convencida que a sua nova Rainha renunciara definitivamente a combater os Hicsos.

 

Quanto aos que se revoltavam, eram contactados por Herai e os seus agentes. Depois de um período de experiência, sugeriam-lhes que anunciassem alto e bom som que abandonavam Tebas a miserável para tentar a sua sorte noutro lugar.

 

E juntavam-se à base secreta da margem oeste, onde um treino implacável os submetia a rude prova.

 

Foi com tristeza que os presentes na festa dispersaram.

 

Paciência, Majestade sugeriu Qaris à Rainha, cuja frustração compreendia.

 

A outra carta seguiu?

 

Foi entregue na alfândega de Coptos, que a fará chegar ao Imperador. Como é habitual, imitei a escrita do defunto ministro da Agricultura e coloquei o seu selo. O traidor informa Apopi que, à imagem da vossa mãe, sois uma Rainha de pacotilha e uma sobrevivente folclórica que diverte o bom povo. Considerando a vossa juventude, a vossa inexperiência, o vosso amor pelas crianças e a vossa falta de interesse pela coisa pública, não há rigorosamente nada a recear de vós.

Se Apopi soubesse rir, não se teria privado de o fazer. Uma mulher... Tebas escolhera uma mulher e, mais ainda, uma garota para a governar! Mas o que havia ali para governar? Um bando de miseráveis mortos de medo com a ideia de ver aparecer o exército hicso. Como ficariam surpreendidos quando caíssem sobre eles os guerreiros núbios!

 

Por agora, Apopi estava-se nas tintas para a ridícula cidade de Tebas. Apenas o eventual confronto com Creta ocupava os seus pensamentos. Se atacasse, o golpe deveria ser decisivo. Provaria a todos os seus súbditos presentes e futuros que ninguém podia contestar a sua autoridade. Por isso colocou três linhas de barcos ao largo da grande ilha: primeiro, aqueles onde se encontravam os archeiros de elite e fundas gigantes; em seguida, os transportes de soldados; por fim, os cargueiros da intendência. Segundo as estimativas de Jannas, os soldados hicsos eram cinco vezes mais numerosos do que os cretenses.

 

No entanto, o Imperador mostrava-se menos optimista do que Khamudi. A batalha seria dura e, depois do desembarque, teriam de se apoderar de uma capital cretense bem fortificada. Portanto, Apopi preparava já uma segunda vaga de assalto que comandaria pessoalmente.

 

De ilha dos revoltados não restaria nada.

 

Nem um humano, nem um animal, nem uma árvore.

 

Até que enfim, Khamudi! Então?

 

O almirante Jannas transmitiu as vossas exigências aos Cretenses. Pediram para negociar, ele obviamente recusou e deu-lhes vinte e quatro horas para responderem.

 

Jannas às vezes é muito conciliatório considerou o Imperador. A segunda vaga de assalto está pronta para partir?

 

Está às vossas ordens, Majestade.

 

OAfegõo permanecia céptico.

 

Segundo uma mensagem proveniente de Auaris, a quase totalidade dos barcos de guerra prepara-se para deixar o porto.

 

Com que destino? perguntou o Bigodes, intrigado.

 

Segundo os rumores, os Hicsos teriam intenção de invadir Creta.

 

Isso não tem pés nem cabeça! A grande ilha é sua aliada.

 

O nosso informador precisa que o próprio Imperador encabeçará a expedição.

 

O teu homem tem a certeza?

 

Conhece-lo melhor do que eu: é um dos fiéis de armazém do arsenal de Auaris que tu próprio recrutaste. Arrisca a vida e a do seu mensageiro comunicando-nos este género de informação.

 

O Bigodes trincou uma cebola fresca.

 

Quem vai reinar sobre o Egipto durante a ausência do Imperador?

 

Provavelmente, o seu fiel Khamudi.

 

E se tentássemos suprimi-lo? Com ele desaparecido, provocaríamos um levantamento dos camponeses do Delta!

 

Bela perspectiva, admito... Mas é demasiado belo para ser verdade, não te parece? Supondo que o Imperador esteja realmente ausente, não deixou a sua capital sem protecção. Uma soberba armadilha, não achas?

 

O Bigodes até sentia vontade de chorar, mas tinha que render-se à evidência. Não era um punhado de resistentes que se podiam apoderar de Auaris.

 

Apoiada no braço da filha, Teti, a Pequena, estava encantada por visitar a sua cidade. Ficou espantada com a limpeza das ruas e a quantidade de belos legumes expostos no mercado. Todos ficaram felizes por rever a Rainha-Mãe, que teve grande prazer em conversar com uns e com outros antes de admirar os utensílios de cozinha fabricados pelas oficinas reabertas há pouco. Depois de terem amassado argila molhada com água, os artesãos faziam secar a pasta ao sol e coziam-na a baixa temperatura. Moldavam pratos, vasos e taças que cobriam com um revestimento, tornando-os impermeáveis.

 

A idosa dama interessou-se também pelos simples cestos entrançados com juncos flexíveis que se prestavam a ser arqueados, coloridos de vermelho, azul ou amarelo. Os que eram destinados a conter objectos pesados tinham o fundo reforçado com duas barras de madeira dispostas em cruz.

 

Se este cesto vermelho vos agrada, Majestade disse um dos artesãos à Rainha-Mãe permiti que vos ofereça.

 

Em troca, receberás um pote de unguento.

 

Teti, a Pequena, só abriu o seu presente no palácio.

 

Felizmente, o cesto estava vazio. Segundo o código combinado entre Seken e Herai, isso significava que a segurança da base secreta estava perfeitamente garantida e que nenhum colaborador representava um perigo imediato. Em caso contrário, um pequeno papiro teria informado a Rainha-Mãe e Ah-hotep das disposições a tomar.

 

Esta tarde declarou Teti, a Pequena, beberei um pouco de vinho branco. Este passeio deu-me forças.


Do alto da cidadela, Apopi viu regressar ao porto o navio-almirante, seguido pelas outras embarcações da frota de guerra e de um barco de comércio pesadamente carregado.

 

No cais, a polícia impedia qualquer manifestação popular. O Imperador proibira o regozijo que outrora acompanhava o regresso dos marinheiros. Em todas as circunstâncias, os soldados hicsos deviam mostrar-se disciplinados e prontos para o combate.

 

Apopi recebeu Jannas na grande sala de audiências do palácio, na presença de um Khamudi carrancudo e dos dignitários do regime.

 

Os Cretenses ter-se-ão mostrado razoáveis, almirante?

 

Para melhor vos satisfazer, triplicaram os seus tributos e enviar-vos-ão nas próximas semanas os barcos e os mercenários que haveis exigido. O rei da grande ilha apresenta-vos as suas desculpas e promete-os que o lamentável incidente que provocou a nossa intervenção não se repetirá. Deplora ter sido enganado por conselheiros medíocres que foram lançados às feras.

 

E os artistas?

 

Os melhores pintores cretenses estão à vossa disposição. Viajam no barco de mercadorias, primeiro presente de Creta, decidida a selar o seu estatuto de vassalo fiel e dedicado.

 

Mandem-nos entrar.

 

Eram dez, de cabeleira encaracolada e túnicas coloridas. O mais velho tinha cerca de quarenta anos e o mais jovem vinte e cinco.

 

Ajoelhai diante do Imperador e baixai os olhos ordenou Khamudi.

 

Graças àqueles homens, Apopi apagaria em Auaris qualquer vestígio da cultura egípcia.

 

Decorareis o meu palácio à cretense. Quero que seja mais belo do que o de Cnossos e que cada pintura seja deslumbrante. Se conseguirdes, tereis a vida salva. Caso contrário, considerarei o vosso fracasso como um insulto à minha pessoa.

 

Não passa ainda de um embrião de exército disse Seken a Ah-hotep mas cada um dos meus primeiros soldados se torna pouco a pouco um verdadeiro guerreiro, capaz de vencer não importa que adversário no corpo-a-corpo. As condições de existência são muito rudes, mas assim está bem. Porque o que os espera é mais rude ainda.

 

Nus, à sombra de um sicômoro cuja folhagem proporcionava uma doce frescura, os dois jovens tinham feito amor apaixonadamente. No entanto, uma sombra de tristeza velava o olhar da Rainha.

 

Não compreendo confessou ela. Embora a minha mãe me tenha oferecido uma concha contra a esterilidade e o mau-olhado, não consigo ficar grávida. Comes suficiente aipo?

 

Seken sorriu.

 

Achas que preciso dele para te provar o meu desejo? Um único dia longe de ti e morro de saudades!

 

Quero um segundo rapaz.

 

Seria uma grande felicidade, mas não devemos aceitar a decisão dos deuses?

 

Kamés terá um irmão, eu sei!

 

Seken não ousou formular a mínima objecção. As carícias da esposa fizeram-no esquecer tudo o que não fosse aquele corpo perfeito, tão dotado para o amor.

 

O pequeno Kamés gostava de aprender os rudimentos de luta com o pai, passear com Risonho e deixar-se amimar pela mãe, ouvindo belas histórias em que a justiça triunfava. Mas o que preferia era brincar com a avó. Quando lhe pregava uma partida, Teti, a Pequena, não lhe ralhava; tentava pregar-lhe outra, por sua vez, e a divertida batalha acabava, num concerto de risadas adoçada com guloseimas que a própria Rainha-Mãe preparava com um inegável talento. No contacto com esse garoto de surpreendente vitalidade, Teti, a Pequena, reencontrava uma nova juventude. O seu apetite espantava o cozinheiro do palácio, um agente de Herai, tanto mais que ela não aumentava um grama.

 

Sempre orgulhosa e elegante, a Rainha-Mãe não deixava de aparecer no mercado pelo menos uma vez por mês para grande alegria da população, que acabava por pensar que a sua cidade escaparia à destruição.

 

Os cestos e as corbelhas oferecidas a Teti, a Pequena, continuavam vazios.

 

Não só a rede de vigilância de Herai se revelava muito eficaz mesmo em Tebas, como ainda a Rainha-Mãe tinha o cuidado de recordar regularmente o necessário respeito pela alma dos defuntos que repousavam na necrópole da margem oeste. Ela e Qaris propagavam aterradoras histórias de almas do outro mundo e demónios que devoravam os imprudentes suficientemente loucos para se aventurarem no domínio dos mortos.

 

As frequentes ausências de Seken só eram conhecidas do pessoal do palácio, inteiramente dedicado à resistência. Os rumores espalhados por Teti, a Pequena, e o seu intendente tinham solidamente estabelecido a reputação de caçador e pescador de um jovem estouvado que não parava quieto.

 

Do lado dos partidários da colaboração, a questão estava decidida: a família reinante não tinha qualquer desejo de guerra e aceitava sem vacilação a ordem hicsa. Melhor ainda, desde a entrada em função de Ah-hotep, conseguira melhorar o nível de vida dos tebanos, do que ninguém se queixava.

 

No entanto, o mercador de vasos Chomu continuava insatisfeito. Nascido de pai egípcio e de mãe cananeia, tivera muitas dificuldades em conquistar a consideração dos seus concidadãos, desconfiados e reservados a seu respeito. O desaparecimento do seu inimigo mais influente, o ministro da Agricultura, permitira a Chomu estabelecer contactos com outros comerciantes que partilhavam as suas ideias: a dinastia tebana não tinha qualquer futuro e a província do Sul devia ligar-se de maneira mais clara ao círculo de influência do Imperador. Quem senão Apopi, com efeito, podia tornar a cidade de Amon novamente próspera?

 

O comportamento de Ah-hotep surpreendera Chomu e os seus amigos. Estava persuadido que aquela cabeça no ar ia atrair sobre eles o furor do Imperador, mas os factos tinham-no desiludido. Ao fundar uma família, a jovem parecia saborear as virtudes da submissão.

 

Os revoltados contra a grande potência hicsa preferiam abandonar Tebas, onde nenhum partidário da colaboração fora castigado pelas suas opiniões. E não seriam nem a velha Rainha-Mãe nem o fantoche Seken que conduziriam os tebanos à luta.

 

Não havia nada que levasse a supor que havia um fogo oculto sob as cinzas. No entanto, Chomu sentia-se pouco à-vontade. É certo que, graças à ligeira retoma da actividade económica, ele ia vivendo menos mal; mas porque não tinha o Imperador expulsado Teti, a Pequena, e a filha? Os amigos respondiam-lhe que elas geriam correctamente o enclave e que os seus resultados satisfaziam o novo Faraó. Afinal, Tebas não passava de uma aldeola de província, longe de Auaris, e não figurava entre os centros de interesse do Imperador.

 

Visto que cada um comia à-vontade, porque não se haviam de contentar com a benevolência dos Hicsos que era evidente que tinham esquecido aquela pequena cidade agonizante?

 

Chomu remexeu nos pêlos da barba ruiva.

 

Era necessário que o Imperador soubesse da existência de um homem como ele e lhe confiasse responsabilidades de acordo com a sua dedicação. Mas como havia de entrar em contacto com Apopi? Era muito arriscado sair do enclave tebano e Chomu não tinha gosto pelo perigo.

 

Para já, competia-lhe convencer mais tebanos a aderirem ao partido dos colaboradores.

Tens a certeza, a certeza absoluta? perguntou Emheb ao vigia.

 

Absoluta. Tratavam-se realmente de dois guerreiros núbios. Mudaram várias vezes de posto de observação de forma a estudarem a nossa cidade sob diversos ângulos.

 

Portanto, o que o governador de Edfu tanto receava estava prestes a acontecer. Os Núbios tinham decidido estender o seu território para além de Elefantina, avançando para norte.

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