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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O INDOMADO / Ronda Thompson
O INDOMADO / Ronda Thompson

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O INDOMADO

 

Fugindo de raivosos aldeões e do homem que a destruiu, a bruxa Lucinda escapa para a floresta para ter seu filho. Mas Lorde Jackson Wulf a caça, acreditando que com sua morte quebrará a maldição de família que o transforma em um monstro.  Ao invés de matar a bruxa, Jackson se comove com a beleza e com a proposta desesperada dela.  E Lucinda agarra-se à chance de encontrar segurança para ela própria e para seu bebe quando um acordo é fechado entre a pária e o homem condenado – e selado pelo casamento deles apenas no nome...

Em troca da proteção dele, Lucinda prometeu que sua mágica pode livrar Jackson de seu tormento. Mas essa linda bruxa logo se encontrará em perigo de ser seduzida pelos encantos de Jackson e pela perseguição do homem que quer ver a ela e seu filho mortos. Pode ela confiar a um Wulf sua segurança e a segurança de seu filho? Pode confiar seu coração a Jackson? Render-se a um Wulf é um risco terrível, por que o amor pode tanto liberar a fera dentro do homem...como finalmente libertá-lo.

 

                       

 

O bosque de Whit Hurch, Inglaterra, 1821.

 

A bala do mosquete tinha passado através do ombro dele. O sangue gotejava da ferida, quente e pegajoso contra a pele de Jackson Wulf. Os camponeses de Whit Hurch eram lunáticos supersticiosos, todos eles. Eles o perseguiam agora, vozes carregadas de raiva, olhos injetados com a sede de sangue de matá-lo. O povo da vila acreditava que ele era algum tipo de fera – homem durante o dia, um lobo quando a lua cheia estava no céu noturno.

 

Malditos idiotas...eles estavam certos.

 

- Aqui está ele!

 

Um mosquete foi acionado. A bala atingiu uma árvore a menos de uma polegada do rosto de Jackson. Sua beleza era o maior dom que lhe foi concedido nessa vida maldita. – No rosto não, seus bastardos malditos! – ele gritou – Em qualquer lugar menos no rosto!

 

Outra bala passou assobiando, mais embaixo. “Aí também não” pensou Jackson e correu novamente. O pedido berrante de uma mulher soou atrás dele.

 

- Papai, não o mate! Eu o amo!

 

Doce Hollis a garçonete da taverna que ele freqüentou nas últimas cinco noites. Seu pai era dono da taverna e dos poucos quartos no andar superior, um dos quais Jackson ocupou na última semana. A filha escorregou para Jackson uma ou duas canecas de cerveja de graça atrás das costas do pai. Ela também deixou transparecer que não se importaria se Jackson escorregasse algo para ela em troca. Jackson se sentiu tentado, as mulheres eram uma de suas muitas fraquezas, mas ele estava focado em sua busca.

 

As mulheres eram a razão de seus problemas e sempre foram. Um ano antes quando viajou para o exterior, Jackson tolamente entregou seu coração a uma jovem senhorita da sociedade. Lady Anne Baldwin incorporava tudo o que um cavalheiro adequado desejava em uma esposa. Beleza, graça, bondade. Ele ficou excitado com ela e sua pronta amizade para com um homem que a maioria da sociedade evitava. No final, a jovem nem soube que havia roubado seu coração ou que trouxera a maldição da família sobre sua cabeça.

 

Séculos atrás, todos os homens Wulf foram amaldiçoados por uma bruxa. Amaldiçoados por uma bruxa, e talvez liberados da mesma maldição através da morte de uma bruxa, Jackson pensava. Boatos o conduziram a vila de Whit Hurch, onde se dizia que uma bruxa morava entre os habitantes. Através de perguntas cuidadosas, Jackson descobriu que a mulher havia desaparecido alguns meses atrás, mas pensava-se que ela estivesse se escondendo nos bosques que cercavam a vila.

 

Jackson ainda não a encontrara, mas ele jurara que encontraria. Seu futuro e o futuro de seus irmãos poderiam estar ligados ao assassinato dela. Uma charada escrita em um poema deixado pelo primeiro Wulf amaldiçoado instruía que os futuros homens Wulf procurassem pelo pior inimigo deles, fossem corajosos e não fugissem. Se Jackson pudesse encontrar a bruxa que vivera anteriormente na vila, matá-la poderia ser o fim da maldição para ele e seus irmãos. Isso é, se ele conseguisse ficar vivo tempo suficiente.

 

Tiros soaram atrás dele. Jackson correu até sua testa estar coberta de suor. Seu ombro doía e a perda de sangue o deixava tonto. Elevando os olhos, ele notou que a noite ainda demoraria a chegar. Normalmente ele não desejava a luz cheia sobre si, mas agora, para conseguir sobreviver, ele precisava do lobo que emergeria nele. 

 

Foi tal transformação, testemunhada por um habitante da vila noite passada quando ele achou que estivesse sozinho no bosque, que o trouxe a essa situação atual. Jackson não podia controlá-la. Talvez ele conseguisse aprender a viver com ela se pudesse, mas como sua fraqueza por bebida e mulheres, no final ele sempre se rendia a uma força mais forte que sua vontade. Nunca mais, ele decidiu.

 

O irmão mais velho de Jackson, Armond, se casou. Um casamento de conveniência, ou assim dizia Armond, mas Jackson não caia nessa. Se Armond ainda não estivesse completamente apaixonado por sua jovem esposa, era apenas uma questão de tempo. Jackson decidiu salvar a todos.

 

Era importante para ele acabar com a maldição que roubou dele e de seus irmãos uma vida normal. A maldição roubara-lhes os pais e o convívio social entre seus pares de Londres. A Jackson nunca foi dado nada de importante para se fazer...nada além disso, e ele seria bem sucedido. Ele encontraria a bruxa e a mataria se isso significasse quebrar a maldição. Mas o bosque era grande, e mesmo com sua superior habilidade de rastreamento ele ainda não havia localizado a mulher que procurava.

 

Exausto, Jackson parou, encostando-se contra o tronco de uma árvore para recuperar o fôlego. Ele secou o suor de sua testa com a manga de seu fino casaco. Uma brisa soprou, e se voltando ele fechou os olhos e permitiu que o ar fresco o reanimasse. Um odor subitamente chegou até ele pelo vento. Era o cheiro de uma mulher. Mesmo estando levemente confuso devido a perda de sangue, Jackson soube que era um odor feminino quando o sentiu. Sua audição era muito mais sintonizada aos sons do que a de um homem normal. Ele prestou atenção.

 

Ele ouviu um leve lamento, um frágil gemido feminino, e então o som de respiração irregular. Barulhos que uma mulher poderia fazer enquanto estivesse com um amante. Seria a bruxa? Jackson custava a acreditar nisso, pois em sua mente a mulher que ele procurava era velha e feia. Com seus cabelos embaraçados e o rosto cheio de verrugas, o único modo de conseguir levar um homem para cama era lançando um feitiço sobre ele.

 

Ainda assim, o cheiro dela atraiu Jackson. O cheiro de mulher, de luz do sol, de terra e chuva e o sutil aroma de madressilva e, de modo estranho, sangue. Os sons de passos através dos arbustos, de vozes que se elevavam na excitação da caçada, sumiram para ele, e tudo o que ouvia era ela. Tudo o que cheirava era ela. Ela o enchia com sua presença, o ninava com os sons que fazia e ele foi para ela de boa vontade, quase como se o destino o comandasse.

 

Esgueirando-se pelas árvores, Jackson lutou contra a dor de seu ferimento, ignorou a sensação de sangue coagulado debaixo de sua camisa e se apressou para frente.  A cabana com a qual se deparou pouco depois era pouco mais do que um barracão, coberta de trepadeiras de tal forma que era quase invisível contra a grossa parede da floresta.

 

Ele não sentiu o cheiro de um fogo aceso, nem viu rastro de fumaça saindo da desmoronada chaminé. Ele não ouvia sons de vida, nem mesmo entre os animais da floresta. Arrepios percorreram sua nuca. O silêncio era assustador.

 

A mulher estava lá dentro; ele o sentia. Jackson procurou pela faca que mantinha pendurada em seu cinto. Ela não estava lá. Sem faca, sem arma. Que assassino ele era. O povo da vila o surpreendeu. Ele mal teve tempo de se vestir e fugir de seu alojamento na taverna quando eles chegaram para matá-lo.

 

Se precisasse, ele a mataria com as próprias mãos, Jackson decidiu-se. Se a mulher fosse, de fato, a bruxa que ele procurava, e se sua morte significasse vida normal para ele e seus irmãos, ele o faria. Com sua decisão fortalecida, Jackson aproximou-se da porta da cabana e a abriu.

 

A iluminação lá dentro era fraca, mas sua visão era superior a dos homens normais. Uma mulher estava jogada em um colchão de palha largado no chão sujo. Seus joelhos estavam dobrados e bem abertos, suas pernas nuas. O grande monte em sua barriga se movia debaixo do vestido sujo dobrado até suas coxas. Ela não estava se encontrando com nenhum amante, mas em trabalho de parto.

 

O olhar de Jackson passeou pelo corpo inchado dela, passando pela enrolada massa de cabelos vermelhos que caiam por sobre os ombros, até o rosto. Seus olhos se encontraram, fixaram-se e nenhum dos dois conseguiu respirar.

 

- Então você me encontrou, afinal – ela sussurrou. – Mate-me, mas não faça mal ao bebê. Ele é inocente.

 

Arrepios subiram pela nuca de Jackson novamente. Se ela sabia por que ele veio, ela era a mulher que procurava. A bruxa. Sua maior inimiga. Mas ela não se parecia com o que ele imaginara. Ela não era velha e corcunda, com verrugas e cabelo no rosto. Ela era linda. Mesmo coberta de transpiração, com seu cabelo bagunçado e sua roupa gasta e suja, sua beleza não deixava de transparecer.

 

Os olhos dela eram de um profundo tom de verde, como a floresta que a protegia. Os cabelos emaranhados que caiam por seus ombros eram vermelhos brilhantes como um por do sol no verão. Embora seu corpo estivesse agora inchado com a gravidez, seus ossos eram pequenos e delicados. Jackson poderia facilmente esmagá-la.

 

- Ainda não – ela disse, como se lesse seus pensamentos. – Deixe-me primeiro ter meu filho. Eu lhe imploro, não o machuque. Depois de me matar, leve-o para uma família na vila. Não diga a eles onde você o arranjou, apenas que ele está só e precisa de alguém para tomar conta dele.

 

Suas palavras deixaram Jackson nervoso. Ela parecia aceitar a tarefa dele. Resignada com seu destino, mas não resignada com o destino de sua criança. E ainda assim, ele não conseguia acreditar que ela era a mulher que procurava.

 

- Você é uma bruxa?

 

Os olhos dela se estreitaram. – Você sabe que eu sou – ela disse. – É por isso que está aqui, não é?

 

A dor nublou os olhos dela antes que ele pudesse responder. Ela mordeu fortemente o cheio lábio inferior, arrancando sangue. Sua barriga dobrou-se e moveu-se e ela levantou os quadris e empurrou, mas, como ele pode ver claramente, sem sucesso.

 

- Ele está preso – ela finalmente conseguiu dizer enquanto se deitava contra o colchão, lutando para respirar. – O bebe precisa ser virado. Deixe-me ver suas mãos.

 

Confuso, tanto pela perda de sangue, quanto pelo conhecimento dela de que ele a procurava, ou simplesmente por testemunhar uma mulher com as pernas abertas em uma situação completamente diferente da que estava acostumado, Jackson levantou as mãos para que ela inspecionasse.

 

- Elas servem – ela anunciou. – Seus dedos são longos e magros, suas mãos delicadas apesar de sua compleição alta. Você deve colocá-las dentro de mim. Você deve virar o bebê para que ele seja capaz de completar seu caminho.

 

Os dedos de Jackson já estiveram dentro de uma mulher antes, com certeza, mas nunca com o objetivo que ela estava sugerindo. Seu pedido não o atraiu de modo algum. Ele franziu as sobrancelhas e sacudiu a cabeça. – Não posso – ele garantiu a ela. – Não entendo nada desses assuntos.

 

Quando a dor a atingiu novamente, ela agarrou um pedaço de madeira e o colocou entre os dentes até a dor passar. – Então não faça nada – ela arquejou. – Fique aí parado e me veja morrer, e a criança junto comigo Será mais fácil do que nos matar mais tarde.

 

O que ela disse era realmente verdade. Jackson nunca levantou a mão com violência para nenhuma mulher em sua vida. Aquele pensamento o provocou durante toda sua busca – a destruição de um inimigo que ele devia encarar e conquistar para quebrar a maldição. Ele sabia que para sair vitorioso, tinha de matá-la, mas o assassinato, ele nunca se permitiu a se fixar sobre isso,,, a questão de se ele seria capaz. Teria o destino brincado com ele? Mas se a natureza roubasse a vida dela e não ele, a maldição ainda seria quebrada?

 

Subitamente ocorreu a Jackson que se havia uma criança, deveria haver um homem. Jackson cheirou o ar, mas não captou nenhum odor além do da mulher que habitava a cabana.

 

- Onde está o pai do bebê? – ele perguntou.

 

Os olhos dela se arregalaram levemente. – Você não sabe? Não foi ele que te enviou?

 

Confuso, ele sacudiu a cabeça. – Não, Vim matá-la por minhas próprias razões. Suas más ações contra minha família, ou pelo menos, as ações das do seu tipo.

 

Sua dor levou qualquer resposta que ela pretendia dar. Suas costas se arquearam. Sua barriga se levantou, ondulando debaixo do vestido. Um baixo lamento escapou dos lábios entreabertos. Ela se esforçou, esforçou, ele percebeu, com todas as forças, que não era muita, e novamente nada aconteceu.

 

- Você tem uma arma? – ela arquejou.

 

Com certo acanhamento ele respondeu. – Não.

 

A mulher franziu a testa. Seus olhos cheios de dor percorreram o corpo dele. – Então pretendia me matar com as próprias mãos. Ela lutou para se apoiar nos cotovelos. – Então faça-o agora. Se você não as colocar dentro de mim, coloque-as ao redor de meu pescoço. Acabe com meu sofrimento. Sem sua ajuda, o bebê e eu estamos condenados mesmo.

 

Morte misericordiosa? Para Jackson, isso soava muito melhor do que assassinato. Ele poderia acabar com o sofrimento dela. Ver a dor dela não lhe dava o menor prazer, nenhum senso de justiça. O deixava enojado. Mas matá-la para que seu sofrimento terminasse...ele poderia viver com isso, não poderia?

 

Ele oscilou levemente com vertigem conforme se aproximava do colchão. Jackson manteve os olhos longes da parte inferior dela, que o teria agradado muito sob outras circunstancias. Ele se ajoelhou ao lado dela. Ela o encarou, a dor estava evidente em seu olhar, mas não o medo. Deus, ela tinha mais coragem do que ele.

 

- Faça – ela o encorajou, então inclinou sua cabeça para trás, permitindo que ele tivesse acesso a sua delgada garganta. – Há muito que suspeitava que minhas diferenças um dia me conduziriam a esse fim. Eu aceito o meu destino.

 

A passividade da mulher o enraiveceu. Onde estava seu instinto de sobrevivência? Onde estava a raiva por ter tido uma vida diferente da dos outros? Por que ela lhe oferecia a garganta quando deveria estar lutando com ele até o amargo final? Talvez ela merecesse morrer. Se dava tão pouco valor à vida, por que não fazer o favor a ela?

 

A pele dela era macia, quente debaixo de seus dedos quando ele os colocou ao redor do pescoço dela. O contato causou uma faísca, como o ar carregado antes de uma tempestade. Ela também a sentiu, porque seus olhos que estavam fechados se abriram repentinamente.

 

- Você é diferente, também. – ela murmurou. – Você não é um homem. Mas também não é uma fera. Você é ambos.

 

Não havia sentido negar suas afirmações, mesmo que Jackson tivesse ficado um pouco nervoso por ela tê-lo visto pelo que era. Seu rosto havia servido para ele no passado – um disfarce para esconder sua natureza obscura.

- Serei um homem novamente – ele garantiu a ela – E nada além de homem quando você morrer pelas minhas mãos.

 

Ela umedeceu os lábios, e ele notou o quanto eles eram perfeitos e rosados apesar dos abusos que ela havia cometido com eles. – Mas que tipo de homem será? – Os olhos delas deslocados, oblíquos, quase felinos, o estudavam. – O tipo que consegue viver consigo mesmo mais tarde? – ela se inclinou para frente e o cheirou. – A bebida que sinto em seu hálito me dá a resposta a minha pergunta. Você se afogará nela. No final, você será ainda menos homem do que é agora.

 

O aperto de Jackson se fortaleceu ao redor do pescoço dela. Suas palavras o atormentaram. A verdade delas, ele supôs. Ele bebeu um gole até mesmo hoje pela manhã quando mal havia levantado. Ele disse a si mesmo que era apenas para afastar a friagem dos ossos. Ele se dizia um monte de coisas desde que seu desejo por bebidas, e por mulheres, dominaram sua vida.

 

Debaixo dele, a mulher arfava de dor. Suas mãos se fecharam sobre as dele. Ela pressionava os dedos dele contra a própria garganta. – Por favor. – ela sussurrou.

 

Mulheres já haviam implorado pela misericórdia dele anteriormente, mas sempre porque estavam rendidas pelo prazer, nunca pela dor. Jackson tentou forçar os dedos a apertarem. Eles não o obedeciam. Era o bebê, ele disse a si mesmo. A bruxa tinha razão. A criança que ela carregava era inocente dos pecados da mãe. Jackson retirou as mãos da garganta dela. Através de olhos cheio de lágrimas, ela o fitou.

 

- Seja você o que for, não é tão mal quanto acabou de se tornar. – ela disse. – Você vai ficar aí sentado preguiçosamente enquanto nos assiste a sofrer por qualquer que seja o pecado que pensa que cometi contra você?

 

- Não – ele assegurou a ela. – Jackson se moveu para baixo, por entre as pernas dela. Era um lugar a que estava muito acostumado a ficar, mas as circunstâncias estavam além de sua compreensão. – Me diga o que fazer.

 

Lucinda queria chorar quando o homem removeu as mãos de sua garganta. A recusa dele de acabar rapidamente com o seu sofrimento não a surpreendeu. Homens, pessoas em geral, pareciam de gostar de vê-la sofrer. Ela era uma bruxa e não tentava disfarçar o termo chamando-se educadamente de curandeira, embora tivesse certa habilidade nessa área. Ela havia sido paga para lançar feitiços, ler a sorte, fazer partos. Sua mãe tinha sido uma bruxa e a mãe dela e assim era por séculos passados.

 

As pessoas evitavam Lucinda durante o dia, mas então iam sorrateiramente à sua cabana na vila sob a proteção da noite. Elas pediam poções para ficarem mais atraentes, a chamavam quando um parto ia mal, para inúmeras coisas, mas ela sabia muito bem que se uma colheita fosse perdida ou se o tempo se tornasse ruim, ela seria a primeira a ser culpada.

 

Agora, quando tudo parecia negro e desesperador, seu coração se elevou com a esperança. Ele a ajudaria...o que não fazia sentido se ele também planejasse matá-la. Lucinda não se importava de morrer, mas o bebê, o inocente que se formara devido ao ato sujo cometido contra ela enquanto jazia inconsciente na mansão do grande senhor, não tinha culpa pelos seus pecados, ou pelos do pai.

 

Ela pensara que Lorde Cantley houvesse mandado esse homem para matá-la - para dispor da criança a fim de que ele um dia não ameaçasse a coroa – mas o estranho tinha suas próprias razões para querê-la morta. Ela aceitaria sua ajuda agora e faria as perguntas depois.

 

- Deslize suas mãos para dentro de mim. Encontre o bebê e o vire. Suspeito que ele esteja tentando vir ao mundo do lado errado.

 

Olhando para baixo por entre as pernas dela, ele estremeceu. – Minhas mãos nunca se ajustarão aí.

 

- Ajustarão sim. – ela insistiu. – Não se preocupe com o dano que me causará. Se eu tiver que morrer de qualquer forma, não há porque ser gentil. A criança. Eu quero que ele viva.

 

O homem levantou uma sobrancelha.  – Ele?

 

- Um filho – ela garantiu – Na cesta ali no canto, há uma garrafa de bebida. Use-a para limpar suas mãos, mas não beba. – ela acrescentou, como se um pensamento a atravessasse. – Pelo menos não até ter feito o parto e me assassinado enquanto eu estiver deitada aqui fraca demais para me proteger. Então certamente pode celebrar sua coragem por ter matado uma mulher indefesa.

 

O homem franziu a testa para ela, mas se arrastou para o canto e encontrou a garrafa conforme ela o havia instruído. Lucinda o observou espalhar o brandy em suas mãos. Ela também o viu olhar para a garrafa com desejo, quase tão lascivo quando o olhar de um homem para uma mulher bonita. Ele colocou a garrafa de volta no cesto e se juntou a ela. O homem tirou o casaco, um casaco muito fino, ela notou, e enrolou as mangas da igualmente fina camisa.

 

- Pensei logo que a vi que você era corajosa – ele disse – Vejo agora que você simplesmente sofre de ignorância. Me implorar tão lindamente pela vida de seu filho, para depois me rebaixar logo em seguida não ajuda muito sua necessidade atual.

 

 Lucinda sempre teve uma língua afiada. Ela nunca foi ensinada a medir as palavras. Ela não era uma dama bem nascida, perita em boas maneiras e em como corar lindamente para encorajar um homem. Lucinda geralmente dizia o que pensava sem se importar com as conseqüências. Não era como se as pessoas devessem pensar bem dela. As pessoas não pensavam bem dela desde que ela nasceu.

 

A dor espantou seus pensamentos. – Agora – ela arquejou. – Alcance dentro de mim e vire o bebê.

 

Ela sentiu a mão dele sondando-a, gentilmente no começo, então com mais urgência quando a dor a fez ofegar e lamentar. Ele estava certo, porém; apenas a presença de uma mão era quase mais do que ela podia suportar. As duas nunca caberiam.

 

- Eu o sinto – ele disse. – Sinto a cabeça, mas não está virada para cima.

 

A notícia deixou Lucinda perplexa. Ela já havia trazido vários bebês ao mundo, tendo começado com a idade de treze anos. Ela estava certa de que a posição do bebê dentro dela devia ser o problema. Outro pensamento lhe ocorreu.

 

- Pode sentir ao redor do pescoço dele? O cordão o está estrangulando e impedindo que ele se mova?

 

 - Cordão? Que diabos significa isso?

 

- Apenas encontre o pescoço – ela insistiu. A terrível dor estava começando novamente, e se ele pudesse desembaraçar o cordão do pescoço do bebê poderia levar o parto adiante. – Você sente algo aí?

 

- Sim – ele finalmente respondeu. – Algo parecido com uma corda, mas pegajosa.

 

- É isso – ela disse. – Consegue soltá-lo?

 

- Vou tentar.

 

Sua tentativa quase a matou. Lucinda agarrou o pedaço de madeira e o colocou entre os dentes para não gritar. O homem poderia parar se soubesse o quanto a estava machucando, mas pensando bem, por que ele pararia? Ele a queria morta. Ela suspeitou que ele nem pensou que poderia matá-la dessa maneira.

 

- Consegui. – sua voz carregada de excitação. – Consegui soltar o cordão do pescoço do bebê.

 

E foi na hora certa. A necessidade de empurrar estava sobre ela e Lucinda não conseguia controlar os instintos naturais do corpo. Ela estava enfraquecida, mas se levantou sobre os cotovelos, e quando não conseguiu mais lutar contra a resposta de seu corpo ela fez força. O bebê se moveu.

 

Ela sentiu a diferença dentro dela, e saber que agora tinha uma chance de lutar para salvar seu filho deu a Lucinda uma explosão de força que ela não sabia ter. Deitando-se, ela descansou por um momento, esperando pela próxima onda de dor. Ela chegou rapidamente, quase rapidamente demais para sua necessidade de descanso.

 

- Empurre com mais força – o homem ordenou.

 

Se Lucinda tivesse forças, ela chutaria e estragaria o lindo rosto dele. A incomodava ter notado a beleza dele, considerando-se as circunstâncias. Mas a beleza dele era difícil de se deixar passar. Ela supunha que somente uma mulher morta continuaria impassível perante aquele rosto.

 

Então Lucinda não teve mais tempo para pensar sobre a impressionante beleza do estranho. Nem nas mechas cor de trigo maduro nos cabelos, na sua pele quente e de tonalidade dourada, a cor de veludo escuro de seus olhos, em seus longos cílios, ou no entalhe que suas covinhas produziam em seu rosto. Era hora de empurrar novamente, e Lucinda tentou com a pouca força que lhe restava.

 

- Mais força! – o homem ordenou – Faça força ou você não viverá para ver o rosto de seu filho. Empurre e eu lhe prometo que providenciarei para que ele seja bem cuidado.

 

A esperança tentou se libertar das ondas de seu desespero. Poderia confiar na palavra de um homem que admitiu ter vindo para matá-la? Lucinda queria poder. Deus, como queria. – Prometa – ela murmurou – Prometa que tomará conta dele. Prometa que ele nunca passará fome, que sempre terá o que vestir, e que nunca ficará sem abrigo.

 

- Eu prometo – disse o homem. – Agora, empurre, droga!

 

Quando a próxima dor veio, ela fez exatamente isso. Lucinda empurrou com tudo o que tinha.

 

- Eu vejo a cabeça! – o homem quase gritou. – Ele está chegando!

 

Lucinda tinha de dar à luz. A pressão era tão intensa que ela se sentiu como se estivesse sendo rasgada. Ela quase gritou, mas se recusou a usar a energia. Ao invés disso ela pressionou com mais força. Mais dois fortes empurrões e a criança deslizou de seu corpo.

 

- Já estou com a coisinha pegajosa; o que faço com ele agora?

 

Tentando recuperar o fôlego, ela instruiu – Segure-o pelos pés. Dê-lhe um tapa no bumbum.

 

Pouco depois, o mais doce som que ela já ouviu encheu a pequena cabana. Um choro de ultraje. Um choro de vida. Seu filho havia nascido. Apoiando-se nos cotovelos, Lucinda observou o estranho enrolar seu filho em seu refinado casaco. Ele olhava para seu filho como se nem se lembrasse que Lucinda existisse, os lindos traços de seu rosto marcados pelo assombro.

 

- Ele é perfeito! – sussurrou.

 

- Ele tem tudo o que é para ter? – ela perguntou, seus instintos maternos assumindo o controle.

 

Ele contou os dedos das mãos e dos pés. – Sim. Um pouco avantajado em suas partes masculinas, porém.

 

Uma irracional necessidade de rir se apoderou dela. Apesar das circunstâncias, Lucinda não devia achar nada do que ele dissesse engraçado. – É normal. Com bebês pequenos.  – ela especificou. – Suponho que eles desenvolvam suas partes masculinas com o tempo. Ou suponho que em alguns casos, eles até mesmo se desenvolvam mais rápidos do que elas.

 

Ele olhou para ela. – Não em todos os casos – ele lhe assegurou.

 

- Você deve cortar o cordão. – ela disse. – Quero segurá-lo.

 

A testa macia do estranho se franziu – Cortar? Com o que? Eu lhe disse que não tenho arma.

 

Era tolice confiar nele, mas que escolha tinha Lucinda? Se ele realmente pretendesse matá-la, ela pediria para segurar seus filhos nos braços antes que ele o fizesse. – A cesta. – Ela apontou para o canto novamente. – Dentro dela tem tudo o que preciso para cuidar de meu filho. A dor me pegou antes da hora e me jogou no chão. Não tive tempo de alcançá-la.

 

O estranho gentilmente colocou seu filho no chão, pegou a cesta e se ajoelhou do seu lado. Lucinda o instruiu sobre o que fazer, como amarrar o cordão, cortá-lo de modo que o bebê não sangrasse até a morte. Havia panos limpos na cesta e ele começou a limpar a criança, enquanto Lucinda se cuidava.

 

O vestido não tinha salvação. Lucinda se virou de costas e não teve outra alternativa a não ser despir as roupas ensangüentadas. Ela tirou da cesta um vestido limpo, calcinhas limpas e trapos grossos para parar o sangramento. Enquanto o estranho estava focalizado no bebê, ela resolveu seus problemas pessoais. Ela mal havia colocado o vestido pela cabeça, a frente ainda aberta pois não havia sido abotoada, quando ele estava subitamente ao lado dela, lhe entregando a criança.

 

A visão de seu filho fez Lucinda se esquecer de todo o resto. Ele era lindo. Era perfeito. Então Lucinda viu a marca sobre sua coxa e seu sangue gelou. Era a marca do pai dele – um pequeno dragão roxo. Era também a morte para a criança.  O Conde de Cantley tinha laços com a coroa. Ele era primo do rei. O lorde da mansão nunca permitiria que um bastado ameaçasse o trono da Inglaterra ou que ameaçasse tudo o que ele iria deixar a seus legítimos herdeiros. Foi por isso que ele havia ordenado a morte dela antes do nascimento do bebê.

 

Tendo trazido dois dos filhos legítimos de Lorde Cantley ao mundo, Lucinda facilmente reconheceu a marca.  Assim como qualquer um que a visse. – Pobre bebê – ela sussurrou, pressionando a criança próxima a seus seios. O bebê chorou, girou para seus seios e finalmente se agarrou ao mamilo. A partir da primeira sugada fraca formou-se um elo.

 

Lucinda olhava para baixo para o bebê, seus olhos cheio de lágrimas, seu coração inchado de amor. Seu instinto de sobrevivência finalmente surgiu dentro dela. Subitamente um senso de proteção feroz se instalou dentro dela. Não apenas pelo bebê, mas também por si mesma. Ela olhou para o estranho por debaixo dos cílios. Ele não estava olhando para ela, mas parecia fascinado pela visão do bebê mamando em seus seios.

 

- Tinha me esquecido de que eles serviam para algo mais além de meu próprio prazer. – ele disse. – Talvez a fascinação masculina com os seios femininos comece no momento em que eles nascem.

 

O olhar dela se desviou para a faca afiada que ele havia deixado no chão ao lado do colchão. – Quem é você? – ela perguntou.

 

Ainda distraído com o bebê, ele respondeu – Lorde Jackson Wulf.

 

Lucinda havia ouvido o nome dele antes, ou melhor, o sobrenome. Mesmo nas vilas a fofoca sobre os altos círculos da sociedade londrina eram assuntos muito comentados. Ela achava que teria sabido que ele era nobre de nascimento mesmo que ele não tivesse tido seu nome. As roupas, a fala, suas maneiras, tudo indicavam alta posição de vida. Lucinda tinha ouvido sobre os Selvagens Wulfs de Londres. Diziam que eram amaldiçoados com a insanidade. Não era verdade, ela compreendeu. Eles eram amaldiçoados com algo muito mais escuro. Mas o que isso tinha a ver com ela?

 

- Por que está em busca de vingança? – ela perguntou. – Não o conheço, nem você me conhece.

 

Talvez relembrá-lo de suas intenções não fosse a coisa mais sábia a se fazer, ela percebeu, tarde demais. O olhar dele se moveu do bebe para o rosto dela. Seus olhos, de repente, tinham um brilho que não possuíam pouco tempo atrás. Pela primeira vez, Lucinda percebeu que ele estava ferido – o sangue que manchava o ombro de sua fina camisa, uma boa quantidade de sangue, ela notou.

 

- Conheço o seu tipo – ele respondeu, sua voz amarga. – Há uma charada. Devo enfrentar meu maior inimigo e sair vitorioso. Foi uma bruxa que nos amaldiçoou cem anos atrás. A morte de uma bruxa poderá nos libertar.

 

Nem todas as de sua espécie eram más e amaldiçoavam homens. Lucinda era uma bruxa branca, como sua mãe a chamava. Ela não podia lançar feitiços maus ou fazer maldades com sua mágica. Ainda assim, uma má ação contra alguém era sempre mais fácil de ser relembrada do que uma boa. Lucinda tentou demonstrar coragem. – Percebo. – disse – Devo parecer ameaçadoramente perigosa para você, deitada aqui semimorta pela perda de sangue e com um pequenino e inocente bebê agarrado aos seios. Se pretende me matar, o que está esperando?

 

Ele olhava para o outro lado e não parecia estar ouvindo – Eles estão vindo.

 

Confusa, pois não ouviu nada além de um estranho silêncio, ela perguntou: - Quem está vindo?

 

O perfil dele era magnífico. Cada traço em seu lindo rosto era nada mais que perfeito. Mesmo a forte linha da mandíbula e o sensual formato dos lábios não estavam em contraste, mas em perfeito e mútuo acordo. Suas sobrancelhas e cílios eram escuros comparados ao cabelo queimado de sol. Mesmo a sombra de sua barba era escura. Escuro e claro. Ele era um homem de contrastes e ela sentia que isso era mais profundo do que apenas sua pele. E ainda, o rosto dele nunca havia conhecido a violência. Não havia cicatrizes para manchar seu lindo rosto.

 

Se ele notou que ela o observava, não demonstrou. Ele estava sentado bem quieto, sua atenção obviamente focada sobre algo além da compreensão dela. Enquanto ele estava distraído, Lucinda vagarosamente moveu a mão em direção à faca, Ela agarrou o cabo e puxou a arma para perto.

 

- Os habitantes da vila – ele finalmente respondeu. – Eles estão me caçando. Me caçando como se eu fosse um animal!

 

O coração de Lucinda disparou. Os aldeões estavam atrás dele? Ele os trouxe à sua porta? Lorde Cantley tinha colocado um preço sobre sua cabeça para ter certeza de que ninguém lhe daria abrigo na vila. Se Jackson Wulf não a matasse, um dos capangas de Lorde Cantley certamente o faria assim que ela fosse entregue em troca da recompensa.

 

- A noite está chegando. – Ele disse as palavras calmamente, mas sua voz soou diferente da de um momento atrás. – Você e seu bebê estão em perigo perto de mim, e eles também.

 

Pela própria admissão dele, Lucinda estava em perigo desde o momento em que ele entrou na cabana. Ela havia sido obrigada a se esconder nesse patético barracão todos esses meses. As condições foram difíceis para ela. Temeu morrer de fome e que o pobre bebê dentro dela fosse tão pequeno que não teria chances de lutar pela vida.

 

- Eles chegarão a qualquer momento. – O estranho olhar de Jackson voltou-se para Lucinda. – A noite chegará para mim mais rápido do que os pés deles os trarão aqui. Se eu matar você agora, isso pode terminar para a minha família.

 

O bebê dormia aninhado contra os seios nus dela. Vagarosamente, Lucinda o deitou ao lado. Ela agarrou a faca apertada contra o punho. A visão dos olhos brilhantes de Jackson a deixava nervosa. Os olhos e o modo como eles eram atraídos para baixo para seus seios nus. Ele a desejava. Não era uma expressão desconhecida para Lucinda.

 

Ela poderia usar a fraqueza dele contra ele, se precisasse, pois Lucinda duvidava que conseguisse esfaqueá-lo sem o elemento surpresa do seu lado.

 

Foi preciso muito mais coragem da que possuía para sussurrar – Toque-os. Toque-me. Se for para morrer, me dê prazer junto com a dor.

 

Novamente, os estranhos olhos brilhantes dele levantaram-se para o rosto dela. Ele não a tocou, mas inclinou-se para ela. Ela se surpreendeu pela faísca que se originou quando a boca dele tocou a dela. A fez pular e sacudir, mas então Lucinda respirou fundo e se inclinou para frente, pressionando os lábios contra os dele. A fagulha ainda estava lá, apenas sombreada por emoções muito mais escuras. Ele tomou o rosto dela nas mãos e gentilmente abriu sua boca.

 

A caricia da língua dele dentro de sua boca fez o pulso dela disparar e espalhou borboletas em seu estômago. Ele também a usou para acalmar as marcas das mordida que ela havia dado no lábio inferior. Ela teria resistido à influência dele se ele não tivesse feito isso. Se ele não tivesse mostrado esse pequeno sinal de compaixão para com ela. Compaixão era uma experiência tão nova para ela como dar um beijo, ao invés de ter algum roubado à força. As mãos dele se enroscaram nos cabelos dela. Ele inclinou a boca de um modo que os trouxe mais perto de alguma forma, permitindo um acesso mais profundo.

 

Era demais para os que os seus sentidos normalmente entorpecidos conseguissem lidar. Ele era demais. Muito masculino. Muito habilidoso. Muito perigoso.  Apesar de tudo o que ela havia sofrido e de tudo o que ele pretendia fazê-la sofrer, a fome cresceu dentro de Lucinda, o desejo – ambas as coisas que ela nunca havia experimentado com um homem, mesmo sendo uma mãe agora.

A vida dela nunca foi de galanterias. Era grosseira e frequentemente vulgar. Qualquer beijo que lhe roubaram à força no passado era sempre igual. Esse homem, essa fera, esse provável assassino, sabia como beijar uma mulher. Como podia um lábio ser firme e gentil? Doce como um purê de maçã, mas forte como o vinho de maçã? Ele a sugava como um redemoinho com um beijo, e agora ela girava sem ajuda rodando e rodando a mercê da água.

 

Ele a afogava em sentimentos desconhecidos e indesejados, e como uma mulher que se afogava, Lucinda lutava para voltar à superfície e respirar novamente. Seus braços deslizaram ao redor do pescoço dele. Timidamente ela tocou a língua dele com a sua. Ele fez um som profundo na garganta que vibrou bem no centro dela. Ela o desprezava por fazê-la sentir essas emoções, se desprezava por sentir outra coisa além de ódio pelo homem que planejava matá-la. Os olhos dele estavam fechados e desse modo não viu a faca que estava na mão dela. Bem devagar, Lucinda ergueu o braço, estabilizou a lâmina e a trouxe para baixo nas costas dele.

 

Jackson sentiu o perigo antes de conseguir clarear a mente o suficiente para reagir. A lâmina penetrou em sua pele, mas com sua súbita retomada de ar a mulher hesitou. Sua hesitação evitou que infligisse um dano significativo. Jackson libertou-se dos braços dela. Tirou a faca de sua mão e a arremessou do outro lado da sala.

 

- Você ia me matar! – ele acusou, surpreso por ter dificuldade de respirar normalmente quando tudo que tinha feito fora beijá-la.

 

- Você disse que ia me matar! – ela gritou em resposta, e, ela também estava sem ar.

 

- Mas fingir que me desejava, isso foi baixo!

 

Ela levantou o queixo. – Não mais baixo do que matar uma mulher que acabou de ter seu primeiro filho!

 

Ela tinha um argumento válido. Mas não havia tempo para ficar comparando pecados. A pele de Jackson já estava começando a coçar. Era o pêlo que estava se formando por debaixo da carne. O pêlo que se espalharia por seu corpo, cobrindo-o como a pele de um animal – um lobo. Ele levantou-se rapidamente, tirando suas roupas. Quando as garras saíssem das pontas de seus dedos, ele arruinaria suas roupas no desespero da fera de removê-las.

 

- O que está fazendo? – a mulher sussurrou.

 

- Preparando-me para a mudança. – ele respondeu. – Pegue o bebê e saia. Terei de matá-la um outro dia.

 

Ela nada disse por um momento. Então deu uma bufada bem pouco feminina. – Pegar e bebê e fugir?  Pensa que tenho força para sair correndo pelo bosque? Acabei de dar a luz!

 

Jackson se ajoelhou ao lado dela. Ele aproximou o rosto do dela. – Se quer viver, se quer que seu filho viva, você a encontrará, e a encontrará rapidamente!

 

 Ela estava prestes a continuar a discussão, mas a dor subitamente atingiu o estômago dele e fez com que ele se dobrasse no meio.

 

- O que aconteceu com você?  – ela perguntou.

 

Balançando para frente e para trás por causa da dor, ele respondeu – Você quer dizer além da bala de mosquete que fez um buraco em meu ombro e agora a facada em minhas costas? Eu estou me transformando – ele disse de modo mais sério. – Saia enquanto ainda pode.

 

Jackson sabia que não faltava muito para que fosse ao chão porque a dor se tornou excruciante. Ele experimentaria quase a mesma dor que ela experimentara. Um nascimento. O nascimento do lobo. Enquanto ainda conseguia pensar, ele se abaixou e removeu as botas. Como não era tímido, ele nem pensou na hora de tirar as calças. Se ele conseguisse sobreviver essa noite, ele gostaria de ter roupas para usar quando a manhã o encontrasse nu e confuso.

 

A mulher continuava deitada no colchão de palha, agora agarrada ao bebê e olhando para Jackson, sua boca inchada pelos beijos ligeiramente entreabertas.

 

- Mova-se! – ele ordenou. – E feche a porta quando sair. Talvez eu consiga distraí-los tempo suficiente para que você fuja.

 

Ela piscou para ele. – Você quer me salvar? Primeiro você quer me matar, e agora quer me salvar?

 

Manter uma conversação normal estava se tornando difícil. Jackson sentia as presas crescendo em sua boca. Talvez ela precisasse vê-las para sair do estupor e sair correndo. – Não posso permitir que outra pessoa a mate – ele explicou. – A tarefa é minha. A dor o rasgou novamente, mandando-o de quatro ao chão. – Vá – ele rosnou. – Fuja enquanto pode!

 

 

Foi a visão dos dentes dele, as presas que brilharam no interior mal iluminado da cabana que fez com que Lucinda se levantasse e fugisse dele. Ela temia não ter forças para se levantar do colchão, mas ela o fez sem pensar em suas limitações.

 

Suas pernas estavam trêmulas debaixo do vestido. Ela precisava desesperadamente de um banho, mas agora não era hora de pensar em luxos. Agora era hora de pensar na sobrevivência. Agora era a hora de pensar em seu filho, dado a ela sem que tivesse escolha, sem nem mesmo a recordação de como o recebera.

 

Ela se afastou do homem que tinha caído de quatro não chão. Muitos se esqueceram de que o mundo é um lugar de milagres brancos e magia negra. Os aldeões ainda eram ligados às velhas superstições. Lucinda os ajudara a pensar assim, sendo uma bruxa como era. A visão de um homem com presas e pêlo crescendo por debaixo da pele certamente a enervava, mas não a surpreendia.

 

Embora fosse de natureza curiosa e Lucinda gostaria de ficar para ver a transformação se completar, ela sabia que demorar-se poderia custa a vida dela e a de seu filho. Ela se inclinou e agarrou a cesta que continha tudo o que possuía. Cautelosamente, enquanto Jackson Wulf continuava a mudar da forma de homem para a de um animal, ela se apoiou na apodrecida parede da cabana em direção à porta.

 

Ela parou na entrada. Um olhar por cima dos ombros quase extraiu um grito de sua garganta. Ele estava em pé agora, de quatro, o homem completamente desaparecido, um lobo em seu lugar. Os olhos dele brilhavam no interior escurecido da cabana, e estavam seriamente focalizados nela. Se ele a matasse enquanto estivesse na forma do lobo, poderia a maldição dele ser, de fato, quebrada?

 

Ou as afirmações dele eram desprovidas de sentido? Como ela podia ser o maior inimigo dele se nunca tinham se encontrado antes de hoje? Lucinda não havia feito mal algum a ele, não lançara feitiços contra ele. Mas ele havia salvado a vida dela, a vida de seu bebê, então ela poderia em sã consciência abandonar Jackson para os aldeões?

 

O bebê em seus braços deixou escapar um leve choro, o que a ajudou a tomar a decisão. Ela tinha outra vida em que pensar agora, não apenas na dela. Esse homem-fera – o que quer que fosse – poderia vir atrás dela se sobrevivesse. Os homens nunca foram uma parte agradável em sua vida. Ela nunca conheceu o próprio pai. Lucinda não tinha sobrenome, nem seu pobre bebê teria. Num momento de fraqueza o estranho a ajudara; ela não podia demonstrar fraqueza em troca.

 

Lucinda rapidamente escapou da cabana e fechou a porta recoberta com palha. À distância, ela ouviu gritos de homens numa caçada. A noite havia caído, mas ela conhecia bem o bosque durante os últimos meses que passara escondida nele. Ela se apressou na direção contrária à da vila, a direção de onde os caçadores se aproximavam. Suas pernas ainda tremiam. Ela reuniu a vontade de continuar, a força de colocar um pé na frente do outro e colocar a maior distância possível entre ela e a cabana.

 

Atrás dela, um uivo soou. Arrepios percorreram sua espinha. Lutando com o bebê em seus braços e a cesta com o pouco que possuía, ela continuou em frente. Sua cabana na vila era muito mais agradável. Ela tinha coisas compradas com as moedas daqueles que queriam bons encantamentos e partos de bebês. Mas então sua própria maldição arruinara tudo pelo que tanto trabalhara. Seu belo rosto atraiu a atenção do grande senhor. Quando Lucinda se recusou a sentir bajulada pelos interesses de um homem casado, ele se viu inclinado a usar sua própria poção contra ela.

 

Lucinda deveria certamente odiar a todos os homens. Eles causaram a ela nada mais do que problemas, e ainda assim ela hesitava no bosque, virando-se para olhar na direção da cabana. Ela ouviu os sons de gritos, depois os mosquetes foram disparados. O barulho fez com que se encolhesse. Muito pior foi o súbito cheiro de fumaça no ar. À distância, chamas saltavam aos céus. Os aldeões tinham posto fogo na cabana de palha.

 

Em algum lugar bem no fundo, ela sentiu um momento de perda. Quase pesar. Por que,  ela não sabia dizer, nem tinha tempo de examinar. Jackson Wulf, o demônio lindo que era, tinha a intenção de matá-la, ele mesmo o admitira. Sua morte devia ser um alivio para ela. Ele não a seguiria. Ele não a ameaçaria novamente.

 

Piscando para afastar as lágrimas traiçoeiras, Lucinda se voltou da visão do céu noturno brilhando com luz amarela na distância. Ocorreu-lhe que não tinha para onde ir, nenhum teto sobre a cabeça de seu pequenino bebê. Jackson Wulf havia prometido que cuidaria da criança. Ele havia assumido a responsabilidade, pelo menos com palavras; ela não tinha como saber se ele as manteria com ações também.

 

Ele tinha família. Os irmãos Wulfs eram uma lenda.

 

E se eram párias entre a sociedade, eles eram ricos. Deveria ir até eles? Contar sobre a morte do irmão deles? Talvez eles ficassem agradecidos a ela. Talvez a pagassem por ter trazido a noticia...ou talvez eles a matassem

 

Londres, três meses depois.

 

A cama era grande demais para uma mulher sozinha. Mas era macia e a roupa de cama era fresca. Lucinda se esticou como uma gatinha alimentada com creme. Ela dormira com uma camisola de algodão macio. Uma fileira de fita de seda decorava o decote. Nunca antes ela sentira seda contra a pele. Um fogo queimava na lareira, lançando um brilho quente ao redor do amplo quarto de dormir. Ela se sentia segura e satisfeita pela primeira vez na vida.

 

No quarto próximo ao dela, seu filho choramingava suavemente. Lucinda quase se levantou instintivamente para caminhar ao quarto ao lado, mas então se lembrou que a ama-de-leite cuidaria das necessidades de Sebastian. O leite de Lucinda havia secado com pouco mais de um mês de vida de seu filho, ajudando-a na corajosa decisão que havia tomado tão logo chegara a Londres.

 

Num piscar de olhos, ela deixou de uma bruxa pobre sem sobrenome para ser uma grande dama. Lucinda deitou de costas nos lençóis e novamente suspirou de satisfação. Seu filho estava quieto agora, sem dúvida mamando nos grandes peitos de Martha. Hawkins, o mordomo da casa, havia encontrado a mulher para Lucinda. Agora ela não tinha com o que se preocupar...pelo menos até os proprietários da residência voltarem para Londres.

 

Mas Lucinda não queria pensar sobre isso. Esses três meses tinham sido o céu na terra. Ela tinha um bom teto sobre a cabeça, comida no estômago, e roupas para usar que eram as mais magníficas que ela já possuíra. Hawkins lhe assegurara que Lady Wulf não se importaria se Lucinda emprestasse qualquer coisa de que necessitasse enquanto a mulher estivesse ausente. Lucinda se perguntava se a mulher estava perambulando pela propriedade de campo, Wulfglen – onde, Lucinda soube, o lorde e a lady haviam viajado em lua de mel – nua.

 

Certamente nenhuma mulher precisaria de tanta roupa quanto Lucinda havia encontrado abandonada no guarda-roupa da mulher.  Colocando-se esses confortos de lado, Lucinda estava mais agradecida pelo fato de seu filho estar seguro dos perigos e não estar passando fome nas ruas.

 

Lorde Cantley nunca pensaria em procurá-la aqui. Ela supunha que já havia fofoca sobre ela correndo em Londres, pois os criados são conhecidos por falar, mas Lucinda já estava acostumada a ser objeto de fofocas. Não, ela não abandonaria esse local um momento antes de ser obrigada, e ela não queria pensar sobre o que aconteceria quando os seus chamados parentes retornassem e soubessem da morte de Jackson Wulf e sobre a mulher e filho do falecido.

 

Lucinda Wulf. Pela primeira vez ela tinha um sobrenome, mesmo que ela o houvesse roubado, ao invés de ser dela de direito. Mas ela não se sentiria culpada com o que fizera. O que mais poderia ter feito? Jackson Wulf admitira que planejava matá-la – tinha prometido que cuidaria de Sebastian. E estava cuidando, por assim dizer.

 

Tranqüilizada pelo barulho do fogo e pelo sentimento de que pelo menos uma vez tudo estava certo em seu mundo, Lucinda se aprofundou debaixo das cobertas e voltou a dormir.

 

 

O movimento do colchão a despertou pouco tempo depois. Ela não teve tempo de acordar completamente antes de um corpo quente se pressionar contra ela. Lucinda ficou tensa no mesmo instante que o corpo ao lado dela. Era o corpo de um homem. Um homem atrevidamente nu. Ela gritou bem alto.

 

- Que diabos está acontecendo?

 

A porta se abriu abruptamente. Lucinda escorregou para fora da cama. O fogo noturno tinha se apagado e ela tinha dificuldade em ver as feições do lunático que invadira a casa, invadira sua cama.

 

- Mova-se e será um homem morto!

 

- Hawkins. Ela soltou um suspiro de alivio e correu para o lado do criado. Ele segurava uma pistola.

 

- Vagarosamente saia da cama e chegue perto da luz onde possa vê-lo. – Hawkins instruiu.

 

Ouviu-se o som de lençol sendo afastado; então, como fora ordenado, o homem se levantou, uma sombra escura no sombrio quarto de dormir. Bem devagar, o homem se dirigiu a luz do pequeno fogo que queimava na lareira. Seu rosto ainda estava escondido nas sombras, mas a luz do fogo brilhava em sua pele nua e dourada, e Lucinda não podia evitar olhar. Bom Deus, quem quer que seja ele, tem um lindo corpo.

 

Uma memória foi despertada nas profundezas de sua mente. Não teria ela visto antes esse homem nu? A resposta chegou a ela segundos antes dele se aproximar do fogo e a fraca luz conseguir iluminar suas belas feições.

 

- Lorde Jackson – Hawkins disse em sua voz sem emoção. – Pensamos que estava morto.

 

Lucinda nunca havia desmaiado na vida, mas agora estava seriamente perto disso. Seus joelhos quase cederam. Ali na frente dela, parado em todo seu esplendor nu, estava o homem que ela havia deixado para morrer. O homem cujo nome ela roubara. O homem que queria matá-la. O homem que era mais do que um homem...o homem que havia se transformado em lobo bem diante de seus olhos.

 

- Nós, Hawkins?

 

O criado indicou Lucinda. – Sua adorável jovem esposa e eu.

 

- Minha esposa?

 

O mundo seguro de Lucinda começou a desmoronar ao redor dela. Mas se ela era uma bruxa e uma pária, ela havia aprendido a defender-se por si mesma nesse mundo. Ela fez a única coisa que conseguiu pensar dadas as circunstâncias. Com um dissimulado grito de alegria, ela correu para o lado de Jackson Wulf e jogou os braços ao redor dele.

 

- Você está vivo! – ela exclamou a favor de Hawkins – Não consigo acreditar nisso!

 

A luz do fogo dançou nos olhos de Jackson quando ele olhou para ela. – Nem eu consigo acreditar que, depois de passar três meses procurando por você, eu finalmente desistiria e voltaria para casa apenas para encontrá-la esperando por mim em minha cama.

 

A pele nua dele a queimava através do fino tecido de sua camisola. Ele era terrivelmente ameaçador, mesmo se a pessoa não soubesse o que ele realmente era. Lucinda tentou se afastar dele, mas ele passou o braço ao redor de sua cintura e a manteve pressionada contra ele.

- Você parece bem melhor do que da última vez que a vi – ele disse, a secura de seu tom irritando os nervos já abalados dela.

 

Os olhos dela procuraram o ombro dele, onde na luz do fogo ela viu a pele enrugada onde ele havia recebido o tiro. Ela imaginou se ele ainda tinha o buraco da facada que ela havia dado nele.

 

- Assim como você – ela completou. – De fato, você está completamente diferente de quando o vi pela última vez.

 

Os olhos dele se encontraram e se confrontaram.

 

Hawkins limpou a garganta. – Vou deixá-los com seu reencontro. – ele anunciou. – Estou feliz de que o senhor esteja, de fato, vivo, Lorde Jackson.

 

Se o homem estava feliz, nada em sua voz ou em sua expressão afável o denunciou. Lucinda viu Hawkins demonstrar sinal de vida apenas na presença de seu filho. Fora isso, ele era terrivelmente ridículo com relação a todas as coisas. A porta foi fechada e ela não teve escolha a não ser enfrentar o que nunca esperara encarar. Seu marido.

 

- Precisamos conversar – disse Jackson Wulf

 

- Você não pode me matar – ela afirmou, olhando desafiadoramente para ele. – Londres inteira acredita que sou sua esposa.

 

 Ele revirou os olhos. – Eles não esperam nada mais do que eu a mate. Os Wulfs não se casam. Nenhuma mulher em seu juízo perfeito aceitaria um de nós.

 

- Seu irmão Armond se casou – ela apontou. – Ele e a esposa, Rosalind, estão aproveitando a lua de mel na propriedade de campo. Hawkins me contou.

 

Ele franziu a testa. – Sim, ele está casado, e se ainda não entregou seu coração a Rosalind, logo o fará. Então a maldição cairá sobre ele. Tinha esperança de acabar com ela antes de arruinar a vida dele, mas agora pode ser tarde demais.

 

- Por que seu coração? Ela estava curiosa, mesmo que debaixo da camisola suas pernas estivessem tremendo. Melhor manter Jackson falando do que estimular qualquer ação que pudesse resultar em sua morte.

 

- A maldição – ele a relembrou. – Para um Wulf entregar seu coração, ele deve sacrificar sua humanidade. O nome de família. Wulf. Ele se torna a fera que nos assombra.

 

O que significava que, se Jackson Wulf já estava amaldiçoado, ele havia entregado seu coração a uma mulher. Ela sabia que ele não tinha esposa. Onde estava a mulher que ele amava? Quem era ela? E por que Lucinda sentiu uma súbita pontada de ciúmes ao saber disso?

 

- Não creio que haja algo de fora do comum na propriedade de campo. – ela contou para ele. – Rosalind mandou uma carta para Hawkins informando-o de que a única razão de não terem retornado é porque Gabriel parece estar desaparecido, e eles suspeitam que se ele reaparecer, lá será o primeiro lugar para onde irá.

 

- Então talvez ainda exista uma chance para salvar Armond. – Jackson considerou, e seu olhar a percorreu. – Você certamente conseguiu se instalar em minha vida em pouco tempo.

 

Ela havia dito muita coisa a ele – o relembrou de que ele havia planejado matá-la e possivelmente ainda planejava. Lucinda não o havia ajudado a desenvolver qualquer outra opinião sobre ela a não ser a má. É claro, sua opinião sobre ele não era melhor. Exceto considerando-se sua aparência exterior, pelo menos.

 

Ela não conseguia manter os olhos no rosto dele. Ele ainda a segurava perto, e ela estava desconfortavelmente ciente da nudez dele. – Você poderia se vestir? – ela perguntou. – Posso não ser uma dama bem nascida, mas sua vulgaridade me ofende da mesma forma.

 

- É mesmo? – ele ondulou uma sobrancelha mais escura do que seu cabelo cor de mel. – Se você se sente ofendida, sugiro que pare de olhar a cada chance que tem.

 

O calor explodiu no rosto dela. Ela lutou para se libertar dos braços dele. – Não estou olhando – assegurou a ele. – E nada me irrita mais do que olhar para você. Tinha certeza de que os aldeões tinham matado você.

 

- Sinto desapontá-la – ele disse. – Um animal se sai melhor naquelas circunstâncias do que um homem, ou assim parece, já que como pode ver, estou bem vivo.

 

Não havia nada que desapontasse em Jackson Wulf...bem, pelo menos não em sua aparência externa. Lucinda nunca havia visto um homem mais abençoado...e em todo o lugar. Para que não se sentisse tentada a baixar os olhos e dar mais uma espiada, ela voltou às costas para ele.

 

- Não tive escolha a não ser fazer isso que fiz. Não tinha para onde ir, nada. Meu bebê, eu tinha que pensar nele e na promessa que me fez em relação a ele. No começo, simplesmente esperei que seus irmãos pudessem me pagar por trazer informações sobre sua morte... mas, bem, nenhum  deles estava aqui, apenas os criados.

 

- Então você mentiu para Hawkins. Você invadiu a casa de minha família como uma ladra, e tudo isso depois que me deixou para morrer.

 

Ele fazia com que soasse tão pior do que ela havia racionalizado quando tomara sua decisão. – Você disse que pretendia me matar – ela o relembrou.

 

- Sim. – ele concordou calmamente. – E ainda devo.

 

Ela se virou para encará-lo. Ele havia vestido as calças enquanto ela estava de costas. As sombras do quarto agora escondiam suas feições dela.

 

- Mas antes de fazer qualquer coisa, pretendo ficar bom e embriagado. – Ele andou até uma mesa de canto onde ela tinha visto uma garrafa e copos. – Sugiro que você aproveite esse tempo para fugir. Talvez eu nuca a encontre.

 

Fugir? Para onde? E o filho dela? Ela não podia mais alimentá-lo, embora ela pensasse que ele já tivesse idade suficiente para comer mingau. Assim mesmo, que tipo de vida poderia dar a ele?

 

- E o meu filho? – ela perguntou a Jackson.

 

Suas costas largas estavam voltadas para ela enquanto servia uma bebida para si. Os músculos ondularam quando ele deu de ombros. – Eu lhe fiz uma promessa; eu a manterei. Deixe-o aqui. Ele será muito bem cuidado.

 

O coração dela parecia que ia se partir no meio. Parte dela sabia que nunca suportaria abandonar Sebastian; a outra parte, a parte racional, dizia que ele estaria melhor sem ela. Lucinda subitamente desejou que Jackson Wulf estivesse morto. Sua vida seria bem menos complicada sem ele.

 

Talvez ele pudesse sofrer um acidente ainda nessa noite. Talvez entorpecido pela bebida ele pudesse cair da escada na escuridão e quebrasse o pescoço.

 

- Você planeja compartilhar minha cama essa noite?

 

A pergunta dele a assustou. Ela o olhou para o outro lado do quarto. Ele agora estava recostado com seus quadris apoiado contra a mesa, bebericando seu drink e olhando para ela de modo estranho.

 

- Dificilmente o farei. – ela respondeu friamente.

 

- Seria estranho. – ele concordou. – Nós dois planejando matar um ao outro e tudo o mais. Ao mesmo tempo, poderia ser excitante. O perigo. A incerteza. Não saber se o outro quer acariciar ou estrangular. Beijar ou matar.

 

Ele teria lido seus pensamentos? Teria ele poderes maiores do que o dom de mudar de forma?

 

- Devo dormir no quarto ao lado com meu filho. – ela disse, e se dirigiu para a porta. Jackson se moveu tão rapidamente que atravessou o quatro num instante, barrando sua fuga.

 

- Se você fosse esperta, você não dormiria essa noite. – ele disse. – Você fugiria enquanto pode. Seus estranhos olhos se suavizaram sobre ela por um momento. – Se fizer diferença, eu não aprecio o pensamento de matar você. Somente o faço para minha própria proteção, e por meus irmãos e o futuro deles.

- E se você estiver errado? – ela perguntou. – E se me matar não mudar nada para você?

 

Ele franziu a testa e bebeu. – Aí é que está a dificuldade. Só saberei depois de fazê-lo. - Subitamente ele se afastou dela e voltou para a mesa para se servir de outra bebida. – Sugiro que parta a toda velocidade. Adeus... Eu nem mesmo sei o seu nome.

 

- Lucinda. – ela o informou.

 

- Lucinda. – ele repetiu, e ela gostou do som na voz dele. – Adeus, Lucinda. Espero que nossos caminhos não se cruzem novamente. Será o melhor para a manutenção de sua saúde se isso acontecer.

 

- Ou talvez da sua, também. – ela se sentiu inclinada a acrescentar. Ele não estava lidando com uma dama, e Lucinda, embora gostasse muito do papel, se recusava a mostrar qualquer fraqueza, qualquer medo. Foi como conseguir sobreviver nos últimos vinte anos. Sua mãe, agora falecida, uma vez lhe disse que ela era uma velha com apenas dez anos.

 

Jackson levantou o copo para ela. – Fomos ambos advertidos. Nunca mais darei minhas costas a você novamente. Embora o gosto de seus doces lábios seja quase digno disso.

 

Ela o odiou por relembrá-la do beijo que um dia trocaram. Ela se odiava mais porque durante os meses que se seguiram ao primeiro encontro dramático deles ela frequentemente pensava sobre aquele beijo. Seu rosto estava queimando novamente, e não querendo que ele visse o efeito que causava nela, ela abriu a porta e se apressou pelo corredor.

 

A ama de leite, Martha, tinha adormecido numa poltrona perto do fogo. Lucinda se aproximou bem quietinha do grande berço que Hawkins tinha tirado do sótão. Ela olhou para o filho. Seu pequeno rosto era rechonchudo e rosado. Ele fez um movimento de sucção com sua boca enquanto dormia. Às vezes, ela ainda não acreditava que ele era dela. Tal presente vindo de algo tão horrível...horrível de pensar, pelo menos, pois Lucinda não se lembrava de nada do ataque à sua pessoa.

 

Ela tinha ido à mansão de campo de Lorde Cantley para ajudar a esposa dele no nascimento do terceiro filho. A condessa tinha tido um longo trabalho de parto, e preocupado que a esposa pudesse vir a morrer antes de lhe dar outro herdeiro, o conde mandou buscar Lucinda. Ele quase esperara demais, mas Lucinda preparou para a mulher uma bebida fortificante, e a criança, uma filha, nasceu tarde da noite.

 

Lady Cantley estava exausta, e muito preocupada, Lucinda pediu a permissão do conde para lhe dar uma bebida para dormir, uma que permitisse que a dama dormisse mesmo se colocassem a criança em seu peito para mamar. Lorde Cantley concordou, e Lucinda pegou a poção em suas coisas. Depois de dar a beberagem para a mulher, Lucinda voltou e recolocou o frasco no lugar. Lorde Cantley a estava observando, mas ele sempre a observava.

 

Ela devia ter suspeitado de que ele estava aprontando alguma coisa, pois quando finalmente saiu do quarto da esposa dele o encontrou lhe servindo uma xícara de chá quente. Agradecida ela bebeu o chá, preparando-se para o longo caminho de volta para a vila. Mas quando acordou pela manhã, ela não se lembrava da longa caminhada até sua cabana.

 

Lucinda não se lembrava de nada a não ser de ter bebido o chá, o tempo todo o conde ficou olhando para ela, sorrindo como se soubesse de algo engraçado que ela não soubesse. A primeira coisa que notou quando acordou em sua cabana era a dor nos seios e, quando se moveu, lá embaixo...a dor lá. Nesse instante ela suspeitou que fizeram algo com ela e suspeitou também quem o tinha feito. Havia vestígio de sangue em suas coxas.

 

Depois de dois meses sem menstruação, Lucinda soube que estava grávida. O conde a drogara, a desvirginara, e então seguira com sua vida como se não tivesse feito nada repreensível. Ela o confrontou. Sem medo, Lucinda não permitiria que ele cometesse um crime contra ela e fingisse ignorância sobre o que havia feito.

 

A princípio, Lorde Cantley negou haver tocado nela. Mas como todo homem que gosta de cometer crimes, no final ele tinha que se gabar para ela. Ele tinha de contar o que havia feito com ela enquanto ela jazia inconsciente. Então o asqueroso tentou fazê-la sentir como se fosse tudo culpa dela. Se ela não o tivesse tentado, se ela não o tivesse provocado, ele não teria sentido a necessidade de possuí-la, por qualquer meio que fosse. Lucinda contou a ele sobre a criança em uma onda de raiva, não que ele não pudesse já ter notado.

 

Seu temperamento era algo contra o qual ela lutara por toda a vida. O cabelo vermelho, a única coisa que o pai lhe dera. Lucinda fez ameaças contra o conde. Disse a ele que teria a criança, um menino, e que algum dia seu filho exigiria tudo o que o conde possuía. Tinha sido um erro.

 

Uma semana depois os homens de Lorde Cantley foram atrás dela. Lucinda, que algumas vezes possuía do dom de saber das coisas antes delas acontecerem, já havia juntado uns poucos pertences e se refugiado na floresta. Mais tarde soube que Cantley havia posto sua cabeça a prêmio. Por roubo, ele dissera. Mas Lucinda sabia que o homem estava começando a se preocupar que sua esposa soubesse de sua infidelidade e sobre o bebê, que um dia poderia ameaçar o trono da Inglaterra se possuísse a marca de seu pai.

 

Sebastian se mexeu e trouxe Lucinda de volta do passado. Ele parecia tão feliz, tão quente, tão bem, tão seguro. Ela não conseguia suportar o pensamento tirá-la dessa vida, de dormir nas ruas e ter de fazer o necessário para que ele pudesse se alimentar. Lágrimas, aquelas estranhas gotas humanas de alegria e tristeza, raramente eram sua companheira, mas a visitaram agora.

 

Ela piscou para afastá-las e caminhou até a cama onde Martha geralmente dormia. Embora duvidasse que o sono viesse até ela, Lucinda se deitou sobre o colchão macio. Ela devia estar fazendo as malas, e o mais rápido possível. Ela devia fugir para a noite, ir a algum lugar onde Jackson Wulf nunca a encontrasse. Mas novamente ela estava dividida.

 

Por que Jackson Wulf tinha de ter voltado dos mortos? Ostentando aquelas covinhas inocentes, expondo aquela pele musculosa e dourada, ficando nu na frente dela como se não tivesse que se envergonhar de nada, nenhum misero defeito físico que ele tivesse de esconder dela? Porque não havia nenhum defeito físico, ela respondeu a sua própria pergunta. Mas ele tinha uma fraqueza. A bebida.  Seu orgulhoso próprio senso de valor. Sua maldição.

 

Você planeja compartilhar minha cama essa noite? Provavelmente tinha sido a primeira vez que uma mulher dissera não a ele. E ele tinha de relembrar Lucinda sobre o beijo que compartilharam quando se conheceram. Ele dissera que seus lábios eram doces. Lucinda inconscientemente traçou o formato de seus lábios. Aquele ali, ela imaginava, diria qualquer coisa para levar uma mulher para a cama. Essa era uma fraqueza, também. Especificamente aquele grande pedaço de carne que balançava entre as pernas dele.

 

Se fosse necessário, Lucinda achava que poderia se oferecer a ele em troca dele não matá-la, permitindo que ela ficasse com a criança. Mas certamente sua maldição significava mais para ele do que ficar com uma mulher desejosa. Teria de haver algo mais entre eles. Teria de haver...amor.

 

Ela se sentou abruptamente. Por que isso não ocorreu a ela antes? Bem, simplesmente porque Lucinda não havia pensado que se encontraria nessa situação com Jackson Wulf. Era tão simples. Tudo o que tinha de fazer era conseguir que o homem se apaixonasse por ela. Se tornasse seu escravo. Cair profundamente em seu encantamento. Mas teria de se apressar, pois os irmãos dele poderiam voltar logo e acabar com os planos dela.

 

Lucinda se levantou e saiu do quarto. Ela parou na porta do quarto onde dormia anteriormente e escutou. Um sorriso curvou seus lábios quando ouviu os roncos bêbados dele. De forma cuidadosa ela abriu a porta e entrou. Ele estava deitado esparramado sobre a cama. Ela parou para estudá-lo. Bom Deus, que perfeição. Que total masculinidade. Uma pena que fosse um alcoólatra e futuro homicida.

 

Agarrando sua cesta de costura, Lucinda pegou uma tesoura. Ela foi para a cama e se inclinou sobre ele. Um pequeno corte e ela conseguiu o que queria. Um cacho do lindo cabelo loiro dele. Ela começaria o ritual essa noite. Pela manhã, Jackson Wulf já estaria meio apaixonado por ela.

 

A bruxa não havia partido. Jackson sentia a presença dela na casa, sentia o encantador cheiro de mulher. Ele estava na cama, de olhos fechados, a cabeça latejando por causa da bebida que consumira na noite passada, e se sentia estranhamente aliviado por ela não ter partido como ele a havia dito para fazer. Por que ele não sabia. Talvez porque se ela tivesse abandonado a criança, Jackson não saberia o que fazer para cumprir a promessa que fizera a ela. Talvez porque se ela ficasse, ele não teria mais de considerar se poderia ou não matá-la.

 

Talvez apenas porque ela o deixava intrigado. Ele não a afetava da maneira que afetava as outras mulheres. Se o fizesse, ele não teria acordado sozinho essa manhã. O fato de que ela podia resistir a ele também o intrigava – isso junto com a razão dela ter cortado um pouco do cabelo dele noite passada. O que ela estava planejando?

 

Uma suave batida soou na porta. Pensando que o chamado fosse de Hawkins trazendo o café da manhã, Jackson ordenou que o mordomo entrasse. A porta se abriu. Mas não foi o cerimonioso Hawkins que entrou, mas uma megera de cabelos vermelhos usando um vestido amarelo claro. O vestido abraçava suas curvas e mostrava a forma que ela havia recuperado em tão pouco tempo. Seus cabelos caiam soltos sobre os ombros, relembrando-o de seda vermelha entrelaçada com fios de ouro.

 

Seu interesse foi imediatamente despertado...ou algo entre a linha de interesse. Ele também estava um pouco zangado por ela não ter feito o que ele lhe mandara na noite passada.

 

- Você é ou muito corajosa ou muito estúpida – ele disse. – Esperava acordar e descobrir que você tinha ido embora.

 

- E um muito bom dia para o senhor também, milorde. – ela disse, o sarcasmo pingando em sua voz. – Eu lhe trouxe o café da manhã. Precisamos conversar.

 

- Conversamos noite passada – ele a relembrou. – Pensei que tinha sido claro com você.

 

Ela colocou a bandeja na mesa perto da cama antes de se sentar próximo dele. Ela parecia nem mesmo considerar a impropriedade de estar no quarto dele, muito menos de se colocar em tal situação comprometedora. Ela podia não ser bem nascida, mas sua beleza física quase o deixava sem ar. Com o sol entrando através das cortinas, brilhando em seus cabelos de fogo, ela se parecia com uma fada espiritual e não uma mulher de carne e osso. Certamente não com uma bruxa.

 

- Eu estive pensando – ela disse, entregando a ele uma xícara de chá de cheiro forte.

 

Jackson olhou para a xícara cautelosamente, então passando por ela colocou a xícara de volta na bandeja. – Obviamente pensando que sou pouco inteligente. – ele disse. – O chá não está cheirando bem.

 

Ela olhou para a xícara em questão. – Queria ter o seu olfato, ou que eu o tivesse tido pelo menos uma vez. Hawkins tem um impressionante jardim de ervas. Eu lhe fiz uma mistura especial para você essa manhã...para ajudar com a dor de cabeça.

 

A cabeça dele estava doendo, com certeza, mas ele não entendia como ela sabia disso. Mas ela era uma bruxa. Talvez ela pudesse ler sua mente, também. – Talvez uma solução permanente? – ele perguntou.

 

Ela suspirou dramaticamente. – Não planejo matá-lo, mas penso que posso ajudá-lo. Quanto a dor de cabeça, presumo que um homem que bebe demais na véspera sofrerá com isso na manhã seguinte. – Lucinda pegou a xícara novamente e a entregou a ele. – Se eu quero ajudá-lo, você deve confiar em mim.

 

Ao invés de pegar a xícara da mão dela, ele a olhou nos olhos. Eles eram claros e verdes com a grama da primavera. Ele não viu motivos obscuros se escondendo ali. Seu olhar se deslocou para o arco de Cupido da boca dela. Os lábios eram cheios e convidativos, e doces, se ele se lembrava corretamente. Seus olhos abaixaram ainda mais, pousando sobre os firmes seios dela. Eles pareciam arredondados e agradáveis, mas não inchados com leite como se espera de uma mãe alimentando um bebê.

 

- Por que você estava dormindo aqui noite passada ao invés de no mesmo quarto que seu filho? Não seria mais fácil para alimentá-lo durante a noite?

 

- Meu rosto está bem mais para cima do que para onde você está olhando. – ela disse.

 

Os olhos dele subiram abruptamente. O rosto dela estava corado com um tom pálido de rosa. Ele não esperava que uma bruxa pudesse corar. Certamente não uma mulher que concebeu um filho fora dos laços do matrimônio.

 

- Não posso mais alimentá-lo. – ela disse. – Isso muito ajudou na minha decisão de me passar por sua esposa, e Sebastian como seu filho. Hawkins arranjou uma ama de leite para ele. Creio que devido a fome que passei quando estava esperando Sebastian. Meu leite secou pouco mais de um mês depois do nascimento dele.

 

- Coitado do bebê. – disse Jackson, mais pensando do que comentando alto. Ele não se importaria de sugar os seios dela.

 

- Você vai aceitar o chá? – Ela o trouxe de volta ao assunto de que estavam tratando. – Você ousaria confiar em mim?

 

Jackson afastou os cabelos do rosto, lembrando-se de que ela havia cortado um cacho deles noite passada. – Há inúmeras coisas que eu ousaria fazer com você, mas confiar minha vida a você não é uma dela. Por que você ainda está aqui, Lucinda?

 

 

O feitiço que Lucinda lançou não parecia estar funcionando. O chá era o teste. Se ele ficasse subitamente tão excitado por ela que sua mente estivesse confusa, ele estaria tão cego pela atração por ela para suspeitar que ela havia colocado algo no chá.  Em fato o chá era uma mistura inofensiva de ervas para ajudar a minimizar os efeitos da bebida, mas ainda assim, ele mantinha o bom senso de desconfiar dela.

 

- Ainda estou aqui porque não tenho para onde ir. – ela respondeu. Lucinda piscou para afastar as lágrimas e endireitou a coluna. – O bebê não se daria bem nas ruas de Londres e eu não posso suportar deixá-lo para trás. Eu ofereço um trato a você. Porto seguro para nós dois e em troca eu o ajudo a quebrar a maldição que assombra você e seus irmãos.

 

Ele trouxe os joelhos para cima, e o fino lençol que cobria a parte inferior dele, se afastou mais para baixo. Ela pode ver que, numa hora qualquer da noite, ele havia tirado as calças que usava e estava agora nu debaixo da coberta. Estranho, mas isso a distraia muito.

 

Lucinda já havia visto muitos homens em vários estágios de nudez devido as suas habilidades de cura. Ela nunca fora afetada pela visão de carne masculina anteriormente...mas então, ela nunca havia visto uma exibição tão impressionante dela antes.

 

- Você realmente acredita que pode quebrar a maldição? – ele perguntou.

 

- Posso tentar. – ela respondeu. – Talvez seja isso que o conduziu a mim, e não a noção que você tinha de ter que me matar para quebrá-la.

 

- Você disse que quer um porto seguro. Por que não vai pedir ajuda ao pai da criança?

 

Ela temia agora ter dito muito a Jackson naquele dia que ele invadiu a cabana e a ajudou no parto de Sebastian. Ele não permitiria que ela ficasse se soubesse que um homem caçava a ela e a seu filho. Outro homem inclinado a matar a ambos. Os que gozam de alta posição na vida são conhecidos por ajudarem uns aos outros. Ela mentiria se tivesse que fazê-lo. Não por si mesma, mas por seu filho.

 

- O pai da criança não nos deseja. Ele teve seu prazer comigo, mas prazer era tudo o que queria. Ele me acusou de roubo e colocou um prêmio por minha cabeça para livrá-lo da suspeita de ser o pai de meu filho.

 

Jackson mudou de posição e o lençol enrolado em seus quadris desceu ainda mais. – Por que ele tomaria tal medida? Tudo o que precisava fazer era negar ser o pai da criança. Homens fazem isso o tempo todo.

 

Ela estava com dificuldades para manter o olhar longe da pele macia do corpo dele. O lençol ainda o cobria, mas muito mal. Ela não havia notado antes a fina linha de pêlos escuros que começava abaixo do umbigo dele e fazia o caminho para baixo. Isso a intrigava agora por alguma razão.

 

- A marca de nascença na coxa de Sebastian. – ela respondeu, recuperando o bom senso. – Se uma criança nasce com ela, como Sebastian nasceu, a marca significa que ele pertence a sua semente. Todos na vila sabem disso, e suponho que o pai pensou que eu usaria tal fato para arrancar dinheiro dele por muitos anos. O homem tem uma esposa, filhos. Ele não precisa de outra boca para alimentar, muito menos de duas.

 

- Você o amava?

 

Seu olhar levantou-se para o dele abruptamente. Na luz do dia, os olhos dele eram escuros, quase negros. Um contraste impressionante com seus cabelos loiros. Apenas à noite eles tinham um brilho azulado. A pergunta dele a surpreendeu. Por que isso importaria a ele? Deveria mentir e assim fazer com que ele tivesse uma idéia melhor sobre ela? A concepção de seu filho não teve sua participação, mas ela duvidava que Jackson Wulf acreditasse nisso. Ele acreditava somente no pior com relação a ela, então por que não permitir que ele o fizesse?

 

- Não. – ela respondeu. – Eu não o amava. Mas amo o meu filho. Quero que ele tenha uma vida melhor do que sozinha posso proporcionar a ele. Se você tivesse filhos, você compreenderia.

 

- Não é necessário que eu tenha filhos para entender – ele disse suavemente. – Eu vi o amor por esse bebê surgir em você na primeira vez em que o segurou. Naquele momento, você parecia um anjo.

 

Ela desviou os olhos dele – Você e eu sabemos que não sou nenhum anjo. Mas você também não o é. Aceita o trato que lhe ofereci?

 

- Meu rosto está aqui em cima.

 

O rosto dela queimou. Ela estava olhando para o lençol novamente, ou melhor, para o que estava embaixo do lençol. Seus olhos voltaram para o rosto dele.

 

- E tudo o que quer em troca é ficar aqui com seu filho? Comida e abrigo até a maldição ser quebrada?

 

Não era tudo o que ela queria, mas Lucinda sabia que era tudo o que poderia pedir. Ela ficaria com seu filho até ele se tornar um homem se tal opção estivesse aberta a ela. Mas ela sabia que não seria possível. Apesar da maldição de Jackson e do mistério e boatos que circundavam sua família, ele e Lucinda eram de mundos separados.

 

- Sim, é tudo o que peço. – ela respondeu.

 

Ele a encarou tempo suficiente para que ela temesse que o que pedia era ainda muito a ser dado. – Concordo. – ele finalmente disse e ela quase afundou de alivio.

 

- Por que você pegou meu cabelo noite passada?

 

A súbita mudança de assunto assustou Lucinda. Ela tinha pensado que ele estava desmaiado pela bebida quando ela fez a ação. Que explicação ela podia dar a ela a não se a verdade? Parecia bobo agora, seu plano de fazê-lo se apaixonar por ela. Tais feitiços raramente duram. E se não fosse pela perspectiva de ficar com seu filho, Lucinda não se importava em ser objeto de afeição de Jackson. Especialmente se sua afeição fosse provocada por magia ao invés de ser dada livremente. Ela não estava pensando com clareza noite passada quando a idéia ocorreu a ela. Ela estava assustada e desesperada.

 

- Queria lançar um feitiço sobre você – ela admitiu, olhando para as mãos, que nervosamente remexia no vestido emprestado. Um vestido muito mais maravilhoso do que tudo que possuía ou iria possuir. – Um feitiço de amor. – ela continuou com a explicação, sentindo que o rosto ficava vermelho novamente.

 

Ele levantou uma sobrancelha escura. – Com que finalidade? – perguntou com curiosidade. – Se queria partilhar minha cama, tudo o que precisava fazer era pedir.

 

Os olhos de Lucinda encontraram-se com os dele. – É isso que você acredita que seja amor? Uma troca física entre duas pessoas? Uma aventura vigorosa debaixo dos lençóis? Não penso que tenha de lançar um feitiço para conseguir que venha para a minha cama. Penso que ser mulher é todo o incentivo de que necessita.

 

Ele colocou a mão sobre o coração. – Você me machuca com essa sua língua afiada. Você não é inocente. Eu não sou um cavalheiro. Seria natural para nós acabarmos na cama, fazendo amor.

Seu conceito a aborrecia enormemente...seu conceito e o fato de não conseguir tirar os olhos de sua pele nua. Parecia tão macia, tão quente, tão atraente. Ela nunca se sentira atraída antes. Talvez tenha sido ele que tenha lançado um feitiço nela.

 

- Que bela palavra você tem para isso. – ela repreendeu, recuperando a compostura. Lucinda se levantou, subitamente percebendo que ela já estava na cama dele. – Não tenho nenhum outro interesse em você além do trato que pedi que fizesse comigo. Certamente você pode encontrar seu prazer em outro lugar. Já aprendi o resultado de tal tolice.

 

- Eu serei cuidadoso. – ele ofereceu.

 

Seu rosto se incendiou novamente. Ela nunca tinha ficado ruborizada um dia em sua vida e agora parecia não conseguir parar. Rubores eram para criadas e damas inocentes. Não para ela.

 

- Uma afirmação que todo homem provavelmente faz para conseguir o que quer – ela zombou. – Partilhar de sua cama não faz parte de nosso acordo.

 

Ele mudou de assunto de forma abrupta novamente. – Como você planeja quebrar a maldição?

 

Essa era a parte complicada. Desfazer a maldição de outra pessoa podia ser difícil. – Há várias coisas que posso tentar. – Lucinda determinou. – Você disse que há uma charada. Devo estudá-la, estudar você. Não é algo que possa fazer rapidamente. Não é uma tarefa fácil. Vou avisá-lo agora. Você deve cooperar completamente comigo. Você está disposto a isso?

 

- De acordo com meus irmãos, pode-se contar comigo em qualquer ocasião. – ele disse secamente.

 

Lucinda estendeu a mão para ele. – Então apertemos nossa mão como fazem os homens ao selar nosso acordo.

 

A mão dela deslizou para a dele quando ele a alcançou. Não era uma mão, ela notou, acostumada ao trabalho pesado. Sua pele era macia e quente, seus dedos longos e esculpidos, como as mãos de um artista ou músico. Era uma mão que seria boa contra a carne de uma mulher. Ao invés de apertar a mão dela, ele a puxou para a cama com ele.

 

- Você não é um homem, Lucinda. – ele disse, seu rosto apenas a milímetros do dela. – Não a tratarei como um. Meu lar, minha proteção, minha confiança – você pede muita coisa. Terei algo seu em troca.

 

Não havia pensamentos escuros sobre estupro para lançar Lucinda no pânico, nenhuma lembrança das humilhações sofridas, mas seu coração se acelerou e um medo repentino a agarrou do mesmo modo. No passado, seu corpo havia sido seu. Ela nunca se sentira tentada a compartilhá-lo com outra pessoa, pois ela sabia que tal ato de intimidade exigiria muito mais compartilhamento do que apenas o do corpo.

 

Ela não tinha coração para abrir a outra pessoa, guardava tudo para Sebastian. Seu coração estava protegido, marcado por palavras e atos cruéis. Para dar, para amar, ela precisaria aprender a ser gentil. Ela não podia ser gentil e sobreviver em tal mundo cruel.

 

- O que quer que seja que deseje de mim você terá de tomar – ela disse, encontrando o olhar dele com o seu endurecido. – Você pode usar o meu corpo, mas nunca tocará a minha alma.

 

Ele tocou o rosto dela e ela automaticamente se amedrontou. Mas ele não a atacou, simplesmente segurou o queixo dela e virou seu rosto para ele.

 

- Não vou tomar nada de você – ele disse. – Quero apenas um beijo. Um dado de boa vontade, sem uma faca mirando em minhas costas. É pedir muito depois de tudo o que você pediu para mim?

 

Olhando para os olhos escuros dele, sua boca sensualmente delineada perto o bastante para que ela sentisse a quentura de sua respiração, Lucinda estava com dificuldades para raciocinar. Um beijo era uma coisinha suficiente. Por um lar para seu filho, um futuro para ele, não era pedir nada. Vagarosamente ela se inclinou na direção de Jackson.

 

Jackson a fez ir até ele. Ele não a encontrou no meio do caminho, embora a distância entre eles dificilmente fosse mais do que a de um fio de cabelo. Ela encostou a boca na dele. Seu sangue imediatamente começou a ferver, aquecendo-se em suas veias. Os lábios dele eram macios, porém firmes e se moldaram aos dela como se suas bocas tivessem sido feitas para se encaixarem. Quando ele não deu sinal de que participaria do beijo, ela compreendeu que ele queria que ela o beijasse.

 

Lucinda nunca beijara um homem de livre e espontânea vontade. Seu passado estava cheio de incidentes desagradáveis de homens tentando agarrá-la, tentando forçar suas bocas pegajosas e com mau-hálito sobre a dela e esmagar seus lábios. A boca de Jackson não era pegajosa nem com mau-hálito, e o contato entre eles era suave como um sussurro. A passividade dele despertava sua coragem e sua curiosidade.

 

Teria sido aquele beijo de três meses atrás na cabana decadente, seu corpo machucado e fraco e sangrando, sua vida e a de seu filho em perigo, realmente tão bom quando ela pensava? Parecia impossível devido às circunstâncias. O desejo deveria ter sido uma emoção mal interpretada, pois nenhuma mulher em seu juízo perfeito desejaria um homem depois de sofrer as dores do parto. Ela se disse isso várias vezes nos últimos meses quando pensava sobre aquele beijo. Agora, ela poderia ter certeza.

 

Ela pressionou com mais força os lábios dele e eles se entreabriram debaixo dela. Suas respirações se misturaram, suas línguas se tocaram. Ela tentou se lembrar o que ele havia feito com a língua em sua boca naquele dia na cabana. Acariciado, sim, era isso que ele tinha feito, então ela fez o mesmo. Dando uma espiada por debaixo dos cílios o pegou olhando para ela. Ela quebrou o contato.

 

- Como é possível que uma mãe, uma mulher que conhece o que acontece entre um homem e uma mulher, beije como se nunca tivesse beijado um homem antes?

 

O maldito rubor subiu pelo seu rosto novamente. Ele pensa que ela é experiente. Ele provavelmente pensa que ela é uma prostituta. Muitos homens pensam desse modo sem qualquer prova para alimentar suas suspeitas. Ela seria tudo o que ele pensava que ela era, pelo menos nesse momento. Lucinda deslizou as mãos por trás do pescoço dele, consciente do toque de seda dos cabelos dele contra as costas de sua mão. Ela o puxou para perto, fechou os olhos e fez o melhor para convencê-lo de que ela era exatamente quem ele pensava que ela era.

 

Quando a língua dela entrou corajosamente dentro da boca dele e ela moveu a cabeça no ritmo do encontro da boca deles, ela espiou pelos cílios novamente. Os olhos dele estavam fechados, os cílios escuros longos e afiados contra as altas maçãs do rosto. Era uma dança, ela compreendeu. O movimento de lábio contra lábio, como o fluxo e refluxo do oceano. Juntando-se, separando-se, junto, separado, enquanto suas línguas realizavam uma dança própria.

 

Como a mão dela veio a pressionar o peito nu dele ela não sabia dizer. Mas ele era bem do jeito que ela achava que seria. Quente, macio, ou sem pêlo ou com um pêlo tão fino e claro que ela não se via nem sentia.

 

O coração dele batia contra sua palma, duro, forte, rápido. As mãos dele agarram atrás da cabeça dela, como ela havia feito com ele. Ele entrelaçou os dedos nos cabelos dela, um aperto firme, mas não dolorido. Então ele se tornou participante do beijo.

 

Ele veio a vida, e a fez viver também. Viver num reino sensual onde ela nunca tinha andado antes. O calor dos corpos se tocando se misturou ao ar frio matinal para criar uma névoa de vapor ao redor deles. A boca dele arrancava respostas da dela querendo ela dá-las ou não. Gemidos suaves, suspiros profundos, pequenos sons na garganta dela que escorregavam sobre suas defesas. As mãos dele deslizaram dos cabelos pelo pescoço para os ombros, espalhando o calor mesmo através do tecido de seu vestido.

 

Ela desejava o toque dele e nunca soube disse até esse momento. Mas tão forte quanto qualquer poção que já criara era sua atração por ele. O modo como ele a fazia ficar fora de si, a ficar de lado e ver uma estranha tomar seu lugar. Uma mulher que só sentia, só desejava, só ansiava, e não podia se defender da emoção. Uma mulher que não podia proteger seu coração contra ele.

 

 As mãos dele se moveram mais para baixo, seguindo os braços até as mãos dela, onde seus dedos se juntaram, as palmas das mãos deles queimando uma contra a outra. Palma contra palma, ele a virou de modo que pudesse facilmente colocá-la na cama ao lado dele; então ele estava por cima dela, usando a habilidade de sua boca, seus dentes, sua língua para inundá-la de sensações e destruir toda a habilidade dela de raciocinar. Ele a deixou sem fôlego, ele a fez queimar e o peso do corpo dele pressionado contra o dela a fez compreender que ele também planejava fazê-la dele.

 

Foi mais difícil do que deveria, mas Lucinda se agarrou selvagemente aos fios de sua sanidade. Ela empurrou contra o peito dele, a grande e sólida extensão dele pressionada contra ela, apenas o fino lençol e seu vestido fino de verão eram a barreira entre seus corpos. – Você em enganou – ela acusou. – Você está tentando me seduzir!

 

Olhando para ela com seus olhos escuros, olhos lavados de desejo, ele disse para ela: - Se eu estivesse tentando com vontade, você já estaria nua debaixo de mim.

 

- Saia de cima de mim! – ela ordenou. – Não vou me render a sua luxúria.

 

- Não vai? – ele perguntou suavemente.

 

- Isso não faz parte de nosso acordo. – Lucinda disse de dentes cerrados.

 

- O quanto você quer ficar com seu filho?

 

Lucinda ficou sem forças debaixo dele. Então, era desse modo que seria? Ela devia ter suspeitado. A vida era assim mesmo. O forte devorando o fraco. A classe alta usando os plebeus para qualquer propósito que precisassem no momento. Ela deveria saber que não podia confiar nele. Ele era um homem...pior, ele era um lobo.

 

- Você sabe que eu faria qualquer coisa por Sebastian. – ela disse. – Pegue o que deseja.

 

Ele a encarou por um momento; então suspirou e saiu de cima dela. – Nunca precisei tomar o que uma mulher está sempre desejosa de dar. Não começarei agora. Imagino que virá para mim com o tempo.

 

A arrogância dele inflamou os nervos dela. – Sem ameaça ou força, eu nunca me renderei a você! – ela assegurou a ele, mas ela não estava tão certa disso. Momentos atrás, ela estava se contorcendo debaixo dele...e não estava se contorcendo para fugir.  – O quão masculino isso deve fazer você se sentir.

 

Ele afastou os cabelos do lindo rosto. – Nunca considerei minha masculinidade um problema. – ele observou. – Meu bom senso é outro assunto completamente diferente. Eu sou um homem guiado pelas emoções. Luxúria e vício já provaram que são as principais.

 

Ele se levantou da cama, impressionando-a por não ter levado o lençol com ele. De traseiro nu ele se dirigiu ao bar e se serviu de uma bebida. Com ele de costas para ela, Lucinda o observou da cabeça aos pés. Sua boca secou.

 

Felizmente, Sebastian começou a choramingar no quarto ao lado, tirando-a do feitiço que a nudez de Jackson havia lançado sobre ela. Lucinda se arrastou para fora da cama e saiu pela porta sem um olhar ou uma palavra de despedida. Ela fechou a porta com força para anunciar sua partida.

 

 

Jackson ergueu o copo até os lábios, notando o leve tremor de sua mão. Não uma reação a necessidade de bebida...uma reação a Lucinda, uma bruxa sem sobrenome. Ele olhou para a confortável profundidade do líquido âmbar por um momento, então, com mais esforço do que gostaria de admitir, colocou o copo intocado de volta na mesa.

 

Foi apenas um beijo, disse a si mesmo. O que em nome dos céus o fazia tremer como um homem que ficou exposto muito tempo ao frio? Não foi apenas um beijo, ele admitiu. Ele já beijou inúmeras mulheres, foi para a cama com inúmeras mulheres. Ele nunca se sentiu da maneira como ela acabara de fazê-lo se sentir. Como se ela tivesse entrado dentro dele e tocado tudo o que ele pensava que estava morto ali. Por um momento ela o trouxera de volta a vida.

 

Ele sacudiu a cabeça e caminhou até o guarda-roupa. Ele mantinha várias mudas de roupa na residência para se poupar de fazer as malas quando decidisse visitar Londres. A propriedade de campo tinha pouco apelo para ele desde que voltara do exterior mudado. Gabriel, seu irmão mais velho, pensou que ele estivesse com preguiça para cuidar da criação dos lindos cavalos que criavam para venda. A verdade era que os cavalos sentiam o lobo debaixo de sua pele e ficavam ariscos perto dele. Levou muito tempo para ele treinar o cavalo que o levou até Whit Hurch a se acostumar com seu cheiro estranho.

 

Jackson temia que Gabriel descobrisse. Tendo caído vítima da maldição e não tendo nem mesmo conseguido a garota na barganha, tinha sido uma vergonha para Jackson. Lady Anne Baldwin, uma criatura doce e gentil, foi a primeira coisa que ele realmente quis na vida que foi negada a ele. E foi com a rejeição dela que tudo o mais surgiu em sua frente. Ele era esnobado pela sociedade. Não era um partido apropriado para uma dama. Bem nascido e rico, ele não era um partido apropriado para uma plebéia também.

 

Jackson se aproximou da cama e se sentou. Ele olhou através do quarto para o copo que estava a pouca distância dele. O sol brilhava através do líquido de cor âmbar. Ele o chamava. Mas não tão fortemente quanto o suave som do canto de Lucinda no quarto ao lado. Ignorando a bebida, Jackson vestiu calças limpas, colocou uma camisa branca por cima da cabeça, e caminhou descalça até o quarto ao lado.

 

Uma mulher rechonchuda, com seios rechonchudos arregalou os olhos ao vê-lo na porta. Ele colocou um dedo no lábio para silenciá-la. A ama seca apressou-se por ele e saiu pelo corredor em direção às escadas que conduziam ao andar inferior. Lucinda estava de costas para ele. Estava sentada numa cadeira de balanço, a borda de um pequeno cobertor caindo por um dos lados. Jackson ficou parado ouvindo-a por um momento. Ela tinha uma voz adorável. Era baixa e rouca e penetrava na alma de um homem. Com cuidado, ele caminhou até ficar atrás dela, olhando por cima de seus ombros.

 

O bebê havia crescido. Sebastian, ela o havia chamado. O rosto da criança era rechonchudo e rosado. Um pequeno pulso estava enrolado nos longos cabelos da mãe e ele olhava para ela com adoração enquanto ela cantava para ele. O olhar do bebê começou a vagar, e quando viu Jackson ele sorriu. Jackson não pode evitar sorrir de volta.

 

Lucinda olhou para trás.

 

- Ele é um menino adorável. – Jackson disse.

 

Os olhos dela estavam tão calmos que ele pensou que se afogaria neles antes dela parecer relembrar para quem estava olhando. Ela afastou os olhos dele.

 

- Sebastian é um bom bebê. Raramente dá escândalo a não ser quando está com fome ou precisa ser trocado.

 

- Ele se parece com o pai? – Jackson estava curioso.

 

Ela ficou em silêncio por um momento. – Sim. Infelizmente ele se parece. Mas não vou deixar que isso pese contra ele.

 

- Então eu também não vou. – Jackson decidiu. – Ele sorriu para mim agora há pouco.

 

Ela fez um som na garganta. – Ele tem de arrotar, presumo. Ele é muito novo para sorrir. Conforme ela dizia isso, Jackson a observou apoiar o bebê sobre o ombro e bater gentilmente nas costas dele. Os esforços dela foram recompensados pouco depois quando a criança arrotou alto e, para o horror de Jackson, um baba branca de leite saiu da boca do bebê caindo nos ombros da mãe.

 

- Bom Deus! – Lucinda exclamou, de modo animado. Ela se levantou e colocou a criança nos braços de Jackson. – Esse vestido não é meu. Devia ter me lembrado de colocar uma fralda sobre o ombro antes de fazê-lo arrotar.

 

Jackson segurou a criança desastradamente por debaixo dos braços. As pequenas pernas de Sebastian chutavam enquanto Lucinda se apressava para a bacia, mergulhava um pano dentro e começava a esfregar a mancha sobre o ombro. Ela olhou na direção dele e franziu a testa.

 

- Você não o está segurando direito. Deite-o sobre os seus braços.

 

Depois de uma série desastradas de tentativas e desistências, Jackson conseguiu fazer como ela o instruíra. Sebastian olhou para ele com os maiores e mais azuis olhos que ele já tinha visto. Um tufo de cabelo escuro cobria a cabeça do bebê. Sebastian riu para ele. Ele riu de volta.

 

- Eu juro, acho mesmo que ele, de fato, está sorrindo para você. – Lucinda comentou, ainda esfregando o ombro do vestido. – Ele gosta de você. Não imagino o por que.

 

- Talvez porque ele saiba que se não fosse eu ele não estaria aqui nesse mundo de Deus.

 

Ele estava apenas provocando, mas com o silêncio de Lucinda Jackson olhou para ela através do quarto. Ela estava absolutamente parada, seu rosto subitamente pálido.

 

- Você tem razão. – ela murmurou. – Não há nada que eu possa fazer para lhe pagar por isso. Por me dar a vida de meu filho.

 

Ser alvo de tamanha estima era um sentimento que Jackson não queria e ao qual não estava acostumado. Ele suspeitava que nunca tivesse feito algo nobre na vida. Considerando o que ele pretendia fazer com a mãe da criança pouco tempo atrás em sua cama, ele entendeu que não era merecedor da súbita reverência dela. Ele deu de ombros.

 

- Tenho certeza de que pensaremos em um modo de você me pagar. – Ele deu a ela um sorriso maroto.

 

A cor retornou com força ao rosto dela. – Grosso. – ela a ouviu resmungar, e ele se sentia muito melhor com os insultos. Ela olhava para a mancha em seu vestido e ele pensou que ela ia chorar. – Eu o estraguei – ela engasgou. – Estraguei o vestido da dama. Não tinha o direito de usá-lo, mas Hawkins tinha certeza de que ela não se importaria e eu não tinha nada além dos trapos que trouxe comigo.

 

O coração dele se torceu. Ele sempre tivera de tudo na vida. Mesmo enterrado em sua autocomiseração sobre a mão do destino que o prejudicava, ele supunha que tudo podia ser pior. – Então temos de remediar isso. Não quero que use trapos. Ou roupas emprestadas. Hawkins, tenho certeza, sabe maneiras de remover as manchas que mesmo a lavanderias mais finas de Londres nunca ouviram falar. Ele vai dar um jeito. Não chore.

 

Ela endireitou as costas. – Não estou chorando. – anunciou. – Eu não choro. Lágrimas são para os fracos. – Ela caminhou até ele e tirou o bebê de seus braços. Quando ela se inclinou na direção dele, ele fechou os olhos por um momento e inalou a doce fragrância dos cabelos dela. Madressilva.

 

- Na verdade nós iremos providenciar seu guarda roupa imediatamente. – ele disse. – Eu mesmo não entendo nada sobre roupas femininas, mas conheço uma pessoa que sabe.

 

Lucinda olhou para ele. Ele estava falando sério? Ele iria comprar roupas para ela? Ela lhe deu um olhar atrevido. – É claro que conhece. – E imaginou que os vestidos que ele providenciaria para ela seriam os das prostitutas.

 

Ele quase sorriu. – Ela é o amor de minha vida – ele a provocou. – Nós iremos visitá-la imediatamente. Troque de vestido e mande esse para que Hawkins o examine. Encontro você lá embaixo.

 

Mendigos não pode se dar ao luxo de escolher, Lucinda se decidiu. Ela e Jackson estavam em uma linda carruagem puxada pelos mais belos cavalos que Lucinda já vira. Era estranho viajar em tão grande estilo, ainda usando outro vestido emprestado do guarda roupa de Rosalind Wulf, sentando na frente do homem que Lucinda supunha ser o mais belo de toda Londres...talvez o mais lindo homem vivo.

 

- Os cavalos. – ela comentou. – Notei que eles se assustaram quando você se aproximou da carruagem. Eles sentem que há algo errado com você?

 

- Uma grande inconveniência considerando-se que cavalos são nosso meio de vida. – ele disse amargamente. – Nós os criamos – ele explicou. – Não temos rivais na Inglaterra como criadores dos melhores cavalos.

 

Lucinda se surpreendeu. – Pensei que vocês tivessem herdado a fortuna. Nascidos com ela.

 

- E assim é. – ele admitiu. – Mas um homem deve ter algo para fazer. Ou pelo menos meus irmãos consideram que os cavalos são um modo honrado de manter a saúde da fortuna da família.

 

- Gosto de pensar nisso. – Lucinda decidiu. – De Sebastian trabalhar com cavalos. Será bom para ele.

 

Jackson sorriu de modo triste. – Eu já gostei muito. Até...

 

- Posso fazer algo sobre isso. – Lucinda se ofereceu. – Um óleo para cobrir sua pele e disfarçar o cheiro do lobo a que os cavalos reagem. Podemos tentar se você quiser.

 

Ele subitamente saiu de seu assento e foi para o lado dela. – Você o sente? Sempre me pergunto se eu tenho um cheiro estranho que os outros possam sentir, como com os cavalos.

 

Ela estava de guarda baixa quando ele de repente se inclinou para ela e tirando o alto colarinho instruiu. – Me cheira.

 

Já pediram para Lucinda fazer muita coisa estranha na vida, mas nunca antes um homem lhe pedira para cheirá-lo. – Tenho certeza de que não tem. – ela lhe assegurou. – Eu... eu teria percebido.

 

- Você poderia estar distraída. – ele sugeriu, uma ponta de sorriso brincando em sua boca perturbadoramente sensual. – Me cheire agora enquanto você está focada somente nisso.

 

Ela queria rolar os olhos. Ao invés disso, ela se curvou na direção dele e pressionou o rosto contra a garganta dele. Ela inspirou o seu cheiro. Não era ruim. Muito pelo contrario, ele cheirava a sabonete e água e talvez um pouco de sândalo.

 

- Você cheira muito bem. – ela disse.

 

- Você também. – A cabeça dele se voltou para os cabelos dela. – Madressilva?

 

Lucinda se endireitou abruptamente. Ela colocou distância entre eles. – Sim. Eu seco as flores, as esmago e as adiciono em meu sabonete.

 

- Muito bom. – ele comentou, sua voz baixa e rouca. – Você cheira bem o suficiente para se comer.

 

Lucinda não estava certa de como encarar o cumprimento. Ela olhou para fora pela janela para as transbordantes ruas de Londres e não disse nada. Ela pensou que o ouviu rir suavemente pouco depois.

 

Ela esperava que a experiência de Jackson Wulf com mulheres e moda os conduziriam talvez aos bordeis escondidos nos subúrbios da cidade. E sentiu o queixo cair quando a carruagem parou diante da maior casa que já havia visto. Parecia mais um castelo. O lacaio abriu a porta para eles. Jackson desceu e estendeu a mão para Lucinda.

 

Ele o fez sem pensar, ela compreendeu. Ele podia dizer que não era um cavalheiro, mas a educação estava aí, querendo ele reconhecer ou não. Ela pegou na mão dele e desceu. Rapidamente ele a conduziu para longe da carruagem e dos cavalos que já estavam começando a sapatear nervosamente. Jackson a levou pelo longo caminho que ia até a porta da frente.

 

- Quem mora em tal lugar? – Lucinda sussurrou, temendo que seus olhos estivessem arregalados e sua boca aberta como diziam os plebeus. – O próprio rei?

 

- Uma amiga. – respondeu Jackson. – E não, não o rei.

 

Ele disse a palavra “amiga” com um calor na voz que provocou uma reação estranha dentro dela. Ela não gostou disso, compreendeu. A familiaridade com que ele falava dessa mulher. Seria uma amante? OH Deus, pior, seria a mulher para quem ele havia entregado o coração?

 

Ela e Jackson chegaram diante da massiva porta da frente e ela se abriu. Um homem, um quase tão empertigado quando Hawkins, os cumprimentou.

 

- Sua graça os espera. – ele disse formalmente. – Por aqui, por favor.

 

- Por que ela está nos esperando? – Lucinda sussurrou enquanto seguiam o homem.

 

- Mandei um bilhete antes de virmos. – Jackson explicou. – Não é apropriado aparecer sem se anunciar.

 

Vendo-o se comportar desse modo apropriado era intrigante. Ele estava imaculadamente vestido. Mesmo em um dos finos vestidos orquídea de Rosalind Wulf, Lucinda se sentia pálida em comparação a Jackson Wulf.

 

Eles foram conduzidos para um grande salão onde uma senhora de idade estava sentada num banco de veludo super estofado. Seus cabelos grisalhos estavam ficando ralos e ela já estava quase careca no topo da cabeça. Havia um brilho nos olhos dela quando olhava para Jackson, contudo, que permitiu que Lucinda visualizasse a garota que ainda vivia dentro do corpo da velha mulher.

 

Ela estendeu as mãos manchadas pela idade. – Jackson, meu garoto. Rezei para que os boatos afirmando que morrera fossem falsos. Partiu meu coração, e ainda fazia muito tempo que havia visto seu lindo rosto.

 

Ele foi para perto da mulher, pegou as mãos dela e se apoio sobre um joelho. – Duquesa, a cada vez que lhe vejo a senhora está mais bonita.

 

Ela riu como uma menininha antes de seu rosto enrugado ficar sério. – Querido menino, o que aconteceu com você? Por onde andou?

 

Lucinda observava Jackson de perto. Que explicações daria a mulher? Ele parecia medir as palavras cuidadosamente.

 

- Estava em uma missão particular. – ele respondeu. – Numa pequena vila. Houve um incêndio. Todos pensaram que morri. Fiquei ferido e levei algum tempo para poder voltar para casa.

 

Os olhos inteligentes da mulher se moveram na direção de Lucinda. – E sobre os boatos de que se casou? De que tem um filho?

 

Agora era hora de testar a palavra de Jackson. Lucinda levantou uma sobrancelha quando ele olhou para ela. Negar que Sebastian fosse seu filho já quebraria o acordo deles. Ele puxou o colarinho. – Existe uma criança. – ele admitiu. – Um filho. Mas não me casei com a mãe dele.

 

A mulher franziu os lábios – E por que não, Jackson?

 

Novamente, seu olhar vagou na direção de Lucinda. – Ela é uma plebéia, sua graça.

 

Quando a dama olhou na direção dela, Lucinda endireitou a coluna. Ela podia ser plebéia, mas tinha orgulho próprio. Era a única coisa que lhe restara.

 

- E ela tem um nome? – a dama perguntou, seus lábios se curvando levemente nos cantos como se dando a Lucinda um sinal de aprovação pela sua postura defensiva.

 

- Lucinda. – ela respondeu suavemente.

 

- E você concorda com isso, Lucinda, que esse homem a leve para a cama, descuidadamente plante a semente dele dentro de você, e não tenha consciência de endireitar seus pecados perante os olhos de Deus?

 

Lucinda não sabia como responder. Ela imaginava ser do único modo que sabia. – Fazer essas coisas, creio, é um hábito das classes superiores, minha senhora.

 

Para sua surpresa, a mulher jogou a cabeça para trás e riu. – Você está absolutamente certa, minha querida, e você deve se dirigir a mim como “sua graça”. Eu sou a duquesa-mãe de Brayberry. Ser comum não é apenas uma condição de nascimento.

 

Que mulher mais estranha, Lucinda pensou. Primeiro compra um cavalo campeão, depois cortas as pernas dele durante a corrida. Mas a mulher demandava respeito. Qualquer um que pudesse fazer Jackson Wulf se contorcer debaixo de suas acusações o ganharia da parte de Lucinda. – Sim, sua graça – ela disse.

 

- Você vai se casar com essa garota, Jackson. – a duquesa disse de modo súbito.

 

Foi difícil dizer qual dos dois parecia mais chocado. Lucinda sentiu a cor fugir de seu rosto. Os olhos de Jackson se arregalaram.

 

- Nem mesmo a senhora, milady, pode exigir tal coisa de minha parte. – ele disse, não mais parecendo o garotinho corado sendo repreendido pela mãe.

 

A mulher colocou a cabeça de lado e o observou. – Não no sentido legal, mas eu prometi a sua mãe que cuidaria de você. Guiá-lo na direção certa quando eu pudesse. Você é um homem sem responsabilidades, Jackson. É chegada a hora de responder pelos seus modos selvagens. Lucinda pode ser realmente uma plebéia, mas você poderia conseguir coisa pior, e imagino que já o fez. – acrescentou friamente.

 

- Lucinda é uma bruxa.

 

Agora foi a hora da dama empalidecer. Seu olhar de aço se voltou para Lucinda. – Esse moço está apenas a insultando ou está falando no sentido literal, querida? – a mulher perguntou a ela.

 

O rosto de Lucinda empalideceu novamente. – Eu sou uma bruxa. – ela respondeu. – Assim como o foi minha mãe, e a mãe dela e a mãe da mãe dela antes disso.

 

A duquesa simplesmente a ficou encarando. Lucinda se preparou para ser expulsa da grande casa, quaisquer pensamentos sobre casamento entre Jackson e ela prontamente abandonados pela mulher. – Que interessante. – ela finalmente respondeu. – Ainda assim, como já disse, ele podia conseguir coisa pior. Você é realmente adorável.

 

Embora sentisse que começava a ficar vermelha, Lucinda lutou contra isso. A mulher estava levando o jogo longe demais, e certamente ela não estava falando a sério, estava apenas implicando com Jackson Wulf. – Penso que eu poderia conseguir algo melhor, também. – ela disse no que esperava ser um tom arrogante. – Que ele cumpra com sua palavra de cuidar de meu filho, fazer com que ele seja criado de maneira apropriada e não seja maltratado é tudo o que me importa.

 

- Só isso, realmente? – a mulher perguntou.

 

- Agora que resolvemos esse assunto, podemos tratar do motivo pelo qual trouxe Lucinda aqui hoje? – Jackson interrompeu, e Lucinda pensou que ele parecia aliviado por se livrar dos assuntos casamento, consciência e dever para com sua mãe. – Lucinda precisa de um novo guarda-roupa e pensei que a senhora poderia ajudá-la a esse respeito, sua graça. – ele disse – Eu não entendendo...

 

- Não tão rápido, meu rapaz. – a duquesa o interrompeu. Voltando-se para Lucinda. – Então, você está me dizendo que não se importa se esse homem lhe tratar, a você, mãe do filho dele, segundo ele mesmo admitiu, como se trata uma prostituta?

 

- É claro que me importo. – Lucinda disse sem pensar. – Mas, - acrescentou rapidamente – nós fizemos um acordo.

 

A mulher levantou uma sobrancelha e olhou para Jackson.

 

- Sim, um acordo. – ele declarou.

 

Lucinda estava pensando que isso não era da conta da mulher. Jackson deu voz a seus pensamentos.

 

- Isso é entre Lucinda e eu.

 

- Tem a ver com a maldição?

 

Jackson arregalou os olhos novamente antes de se recompor. – Como disse, sua graça, e não querendo lhe faltar ao respeito, isso é um assunto particular.

 

- Você acha que ela pode quebrar a maldição. – a mulher subitamente especulou.- É esse o trato entre vocês? Ela irá quebrar a maldição, e em troca, você assumirá a responsabilidade por uma criança pela qual deveria ser responsável de qualquer maneira?

 

O silêncio foi crescendo. Jackson manteve a palavra de assumir Sebastian mesmo perante uma mulher que obviamente mantinha laços estreitos com sua família. Lucinda não tinha tal obrigação. – A criança não é dele. – ela disse. – Quero que Sebastian tenha uma vida melhor do que a que posso dar a ele. Jackson concordou em fazer isso por mim e em troca eu concordei em ajudá-lo com o seu...problema.

 

- Então ele lhe contou sobra a maldição da família? – a duquesa perguntou. – A verdadeira? Não o boato?

 

De repente Jackson se aproximou para encarar a mulher. – Duquesa, o que a senhora está perguntando?

 

A mulher encontrou os olhos dele. – Eu sei da verdade, Jackson. Eu era a melhor amiga de sua mãe e a confidente dela. Sei o que levou sei pai ao suicídio e sua mãe à loucura, e depois a morte.

 

- Então deveria saber que não posso me casar – ele respondeu com rigor, mas Lucinda viu que ele estava visivelmente abalado pela confissão da mulher.

 

Ela acenou com as mãos. – Armond está casado.

 

- E a caminho da ruína. – Jackson atacou. – Vou poupá-lo disso.

 

A mulher estendeu uma mão para ele. – Jackson, Armond e Rosalind estão felizes. Não tenho certeza do que aconteceu entre eles. Eles compareceram a um baile que dei, então fiquei doente e eles partiram para a residência de campo. Armond me enviou um bilhete me prometendo uma longa conversa quando regressassem. O que quer que tenha ficado entre eles, não mais existe, penso eu. Estou rezando.

 

Jackson finalmente pegou a mão que ela lhe estendera. Ele se inclinou em um joelho. – Mas por quanto tempo? E o que dizer das crianças? Os filhos deles? A senhora me acusa de ser irresponsável, e de forma justa, mas eu vou quebrar a maldição que paira sobre minha família. Faço isso por Armond e Gabriel, se não por mim mesmo.

 

Lucinda se sentia como se estivesse se intrometendo num assunto particular. A mulher apertou a mão dele. – É uma busca honrada, Jackson. Mas suas ações não são honradas para com essa mulher que você permitiu viver sob seu teto. Essa mulher cujo filho você vai assumir como seu. Dê a ele o seu nome. Sua mãe iria querer que assim fosse.

 

Ele abaixou sua cabeça loira e fechou os olhos por um momento. Sem olhar para cima, ele disse. – Minha mãe nos abandonou. Não vivo minha vida para agradar aos mortos.

 

- Ou aos vivos. – a duquesa acrescentou com sarcasmo. Os olhos da mulher se suavizaram sobre ele. – Ela amava você, Jackson. Amava todos vocês. Ela era fraca. Você deve ser mais forte, e você o é. Posso ver que você é.

 

Pega nessa troca, Lucinda sentiu que as lágrimas lhe enchiam os olhos. Ver Jackson Wulf ajoelhado perante a mulher, sua dor evidente, a afetou mais do que ela desejava. Parecia que os dois se esqueceram que ela estava na sala. Ele devia lembrar a eles.

 

- Não desejo me casar com Jackson. – disse a eles. – O trato é tudo o que me importa.

 

Jackson olhou a mulher nos olhos um pouco mais antes de liberar a mão dela e se levantar. Ele olhou para Lucinda com rigor. – A duquesa está certa. Nós nos casaremos, mas manteremos nosso acordo. Depois que quebrarmos a maldição, você vai embora.

 

Os joelhos de Lucinda quase entortaram. – Casar? – ela murmurou.

 

- É por sua culpa que a maioria aqui em Londres acredita que já somos casados. – ele relembrou a ela. – Além disso, será melhor para Sebastian. Você quer que as pessoas o chamem de bastardo pelas costas? Você quer que ele viva com essa vergonha?

 

Lucinda viveu com a vergonha por toda sua vida. Poderia se casar com Jackson Wulf? Por Sebastian, ela supunha que sim, desde que Jackson entendesse que o casamento não mudaria nada entre eles. – Apenas no papel. – ela especificou.

 

Ele deu de ombros. – Se for isso o que deseja.

 

- Então está combinado. – a duquesa respirou, parecendo orgulhosa de si mesma.

 

- Obter uma licença especial não será fácil. – Jackson disse a ela.

 

- Encha bem os bolsos do arcebispo e verá que é mais fácil do que pensa, meu rapaz – a mulher afirmou.

 

O estômago de Lucinda se apertou. Ela tentava se assegurar de que o casamento entre eles não mudaria nada. Na realidade, era bom. Bom para Sebastian. Era tudo o que importava, não era?

 

- Agora, o que você estava tentando me dizer sobre um novo guarda-roupa para Lucinda? – sua graça perguntou a Jackson.

 

- Ela precisa de roupas novas. – ele respondeu distraidamente. – Sei que uma costureira não iria a minha casa, certamente não sozinha. Pensei que a senhora poderia ajudar.

 

- É claro. – a mulher estudou Jackson por um momento. – Por que você não vai embora e deixa que Lucinda e eu vejamos isso? Você parece estar precisando de uma bebida bem forte, meu rapaz.

 

O pânico quase inundou Lucinda. Ela não queria ficar sozinha com uma estranha. Mas Jackson também era um quase estranho para ela, também. Ele a deixaria sozinha?

 

Ele concordou com a cabeça. – A senhora tem razão, preciso mesmo de uma bebida.

 

- Mandarei Lucinda para casa em minha carruagem tão logo terminemos. – a mulher disse. – Pode ir embora agora.

 

Lucinda ousaria enviar a Jackson a mensagem de que não se importava em ser deixada só em um ambiente desconhecido num lugar que claramente estava fora de seu elemento? Ele estava olhando para ela, ela percebeu, esperando permissão para sair. Ela não queria que ele pensasse que ela precisava dele, nem por um momento. Sebastian precisava dele, mas Lucinda não. E aonde a bebida o conduziria? Ao braços de uma mulher desejosa? Isso não devia incomodá-la. Ela lhe dissera para procurar prazer em outro lugar. Então por que isso a incomodava?

 

- Ficarei bem – ela mentiu.

 

Seus lábios sensuais se ondularam. – O que mais um homem pode pedir? Uma esposa que alegremente o manda para a boêmia.

 

- Tenho certeza de que você encontraria o caminho facilmente sem minha ajuda. – ela afirmou. – Seu passado é prova disso.

 

Eles se encararam por um longo tempo. Ele finalmente se virou e saiu.

 

- Oh, Deus! – sua graça observou. – Que faíscas maravilhosas há entre vocês dois. Penso que será bom para Jackson, minha querida.

 

Lucinda respirou profundamente. – Não tenho certeza de que será bom para mim.

 

A mulher bateu no assento ao lado dela. – Venha e se sente, minha querida.

 

Lucinda fez como ela mandou. Elas se sentaram em silêncio por um momento, então a mulher se virou para ela.

 

- Você é realmente uma bruxa?

 

Lucinda suspirou. – Sim.

 

- Você poderia me dar algo para os meus cabelos? – a duquesa abaixou a cabeça para que Lucinda visse a careca debaixo dos finos fios que se alojava atrás de sua cabeça. – Não acho que alguém tenha notado, mas estou ficando totalmente careca.

 

Seus lábios estremeceram, Lucinda quase sorriu. Infelizmente, ela não conseguia se lembrar de sorrir muito em sua vida. Quando a mãe ainda estava viva, ela conseguia extrair um sorriso, ou uma risada ocasional dela, mas na maior parte do tempo, Lucinda era uma pessoa muito séria.

 

- Creio que posso fazer uma poção para colocar em seus cabelos que pode ajudar. – ela disse.

 

- Seria maravilhoso, minha querida. – a duquesa disse. – Agora se levante, deixe-me dar outra olhada em você.

 

Lucinda não estava acostumada a fazer o que os outros mandavam. Ela tinha estado sozinha no mundo desde os dezesseis anos, quatro anos agora desde que a mãe morrera. Todavia, ela se levantou do banco como a mulher havia pedido.

 

A duquesa girou o dedo. – Vire-se.

 

Novamente, Lucinda obedeceu.

 

- Ainda bem que você tem muito com o que se trabalhar, Lucinda. Seus cabelos são lindos, mas é claro que vermelho nunca é um sucesso na alta sociedade, Ainda assim, você tem uma silhueta bonita, e sua pele é perfeita. Muitas pessoas que tem seu tom de cabelo sofrem com as sardas, mas você é abençoada com uma pele bem branquinha. Conheço uma costureira em Bond Street que saberá exatamente que cores aumentarão sua beleza, e quais devem ser evitadas. Mandarei um bilhete imediatamente para ela solicitando que venha nos fazer uma visita para prova de roupas.

 

- Hoje? – Lucinda piscou. – Ela virá hoje?

 

- Se eu pedir a ela. – a duquesa respondeu com uma risada. – Eu a paguei muito bem por seus serviços esses anos todos. Ela sabe de que lado do pão está a manteiga.

 

- Isso seria maravilhoso. – Lucinda respondeu.

 

- Estou pensando que você deveria ter um vestido especial para o casamento.

 

O estômago de Lucinda derreteu novamente.  – Não é necessário. – ela argumentou. – Será um casamento curto. Não é necessário colocar sentimento nesse assunto.

 

A duquesa simplesmente a encarou. A encarou por um longo tempo. Tempo suficiente para que Lucinda se incomodasse com as dobras em seu vestido.

 

- Mas você gostaria que fosse mais do que isso, não é?

 

- Não. – ela respondeu automaticamente. – Por que deveria?

 

A dama deu de ombros. – Por que não deveria? O homem aceitou em cuidar do bem estar de seu filho. Será fácil para você ser separada da criança?

 

0 pensamente quase trouxe lágrimas aos olhos de Lucinda. – Não. – ela respondeu. – Me mataria abandoná-lo. Eu o amo tanto.

 

- Então por que não tentar fazer com que o casamento seja de verdade? – a duquesa perguntou. – Você não pode lançar um feitiço sobre o jovem Jackson?

 

Lucinda olhou para as mãos ásperas. – Eu tentei – admitiu. – Parece não estar funcionando.

 

- Espero que se saia melhor com o meu cabelo. – a mulher se preocupou. Ela sacudiu as mãos para dissipar sua preocupação. – Você terá que simplesmente ganhá-lo do velho jeito então. Com beleza e charme e graça.

 

- O que faz a senhora pensar que eu quero Jackson Wulf como um marido de verdade? Ele é arrogante, sem mencionar que é amaldiçoado. Ele é...

 

- Eu sei – a duquesa a cortou. – Ele é um homem de muitas mulheres, e um bêbado, dizem alguns. Mas se você conseguir tirá-lo dos bordéis e da garrafa, ele seria um bom marido. E ele não é ruim de se olhar, isso com certeza. Todos os rapazes Wulf são lindos como o pecado. Se você disser que ele não é agradável aos olhos ou você é mentirosa ou cega.

 

- Eu não sou cega. Ele é muito bonito. – Lucinda admitiu. – Mas sua beleza não é tão importante para mim quanto suas boas ações. Além disso, nós somos diferentes, do resto da sociedade e um do outro. Eu não fui criada como ele foi criado. Eu não sei nada sobre os hábitos e maneiras de uma dama.

 

- Não se preocupe. – a duquesa gargalhou. – Eu a tomarei sob minha proteção, Lucinda. Em pouco tempo, você será tão refinada como as jovens damas que nasceram em berço de ouro. Eu a transformarei na esposa de que Jackson possa se orgulhar.

 

As afirmações da dama a atingiram. Por que Lucinda se importaria se Jackson Wulf a achasse agradável? Se ele fosse se importar com ela, por que não aceitá-la como ela era? Ela sacudiu a cabeça. No que estava pensando? O acordo tinha sido feito. O futuro de seu filho estava estabelecido, e o seu futuro também.

 

- E ele é rico. – a duquesa acrescentou pensativamente. Ela subitamente sorriu. – Vamos gastar muito dinheiro dele enquanto ele está bebendo e, perdoe-me por dizer isso, mas conhecendo Jackson, e saindo com as prostitutas também.

 

O pensamento não devia perturbar Lucinda nem um pouco. Ela lhe dera permissão, afinal. Ela mordeu o lábio inferior e tentou ignorar a pontada de ciúmes que cresceu dentro dela. Um momento depois, ela respirou profundamente, voltou-se para a mulher e sorriu.

 

- Sim, vamos gastar o dinheiro dele.

 

A cabeça de Lucinda estava girando quando a carruagem a deixou na residência. Ela tinha encomendado tudo desde roupa de baixo até acessórios, de finas camisolas a finos vestidos de baile. Bom Deus, ela certamente gastara toda a fortuna dos Wulfs. A duquesa ficava lhe assegurando que tais coisas eram necessárias e que Jackson poderia muito bem gastar para vesti-la com estilo.

 

Agora ela sentia-se enjoada. Se ela fosse ficar com Jackson apenas temporariamente, onde ela usaria as refinadas roupas que foram feitas para ela? Ela poderia vender os vestidos se precisasse, Lucinda decidiu. Ela se surpreendeu por estar chegando à porta da frente e Hawkins não a abrir antes de ela chegar aos degraus. O homem tinha a misteriosa habilidade de saber o que ela precisava antes mesmo de ela pensar em pedir. Ela entrou sozinha.

 

No meio do caminho do hall de entrada, ela ouviu vozes masculinas vindas do salão da frente. O salão da frente era sua sala favorita da casa toda. Ela adora os ricos móveis, a lareira acesa, e o impressionante retrato da família Wulf pendurado sobre a lareira. Era uma sala acolhedora. Ela parou na entrada do salão para ser recebida por uma cena que aquecia o coração. Jackson estava segurando Sebastian sobre o joelho enquanto o geralmente enfezado Hawkins fazia caretas para a criança, obviamente esperando arrancar um sorrido dele. A expressão de Sebastian era séria.

 

- Não acredito que ele sorriu para o senhor, Lorde Jackson. – Hawkins finalmente desistiu do jogo. – Ele me aprecia muito e nunca me olhou de modo diferente da expressão melancólica com que está agora.

 

Lucinda tentou esconder o sorriso ao entrar na sala. – Creio que está na hora de Sebastian dormir. – disse.

 

- Lady Lucinda, não ouvi a carruagem chegar. - Hawkins a olhou como se esperasse levar cinqüenta chicotadas por sua desatenção.

 

- Eu entrei sozinha – ela disse o óbvio.

 

- Vou ver como o cozinheiro está se saindo com o jantar. – Hawkins disse formalmente, saindo apressado do salão.

 

Lucinda entrou e pegou Sebastian do colo de Jackson. Os olhinhos do bebê se iluminaram quando a viram. Ela o abraçou e o beijou.

 

- Como foi a prova de roupas?

 

O estado de animo dela afundou. – Temo que você não tenha mais fortuna para desperdiçar. – ela admitiu, sentindo o maldito do rubor subir em seu rosto. – A duquesa me convenceu de que preciso de muito mais do que deveria possuir por toda a vida.

 

Jackson simplesmente deu de ombros. – Tenho certeza de que se ela pensou que você precisava, então é porque você precisa. A fortuna dos Wulfs pode pagar por muitos grandes guarda-roupas.

 

Lucinda se sentiu um pouco menos culpada.

 

Eles ficaram parados num silêncio estranho por um momento. O que uma mulher diz para um homem que tinha sido obrigado a se casar com ela? O pequeno mundo de Lucinda em Whit Hurch era diferente. Com certeza ela tinha problemas, mas esse mundo era completamente estranho para ela.

 

- O casamento não muda nada. – ela finalmente revelou. – Mas pelo bem de Sebastian, eu agradeço por você concordar em se casar comigo. Você tinha razão, eu não quero que o chamem de bastardo pelas costas.

 

- Bem, há coisas piores do que ser um bastardo. – ele disse calmamente. – Ambos sabemos disso. Também devemos entender que o acordo original ainda está valendo.

 

- Sim. – ela concordou.

 

Outra longa pausa se seguiu.

 

- AH! Quando...

 

- Tão logo eu consiga a licença e você tenha algo de seu para usar. Onde e como eu decido mais tarde.

 

Ela concordou. Voltaram para o silêncio profundo. Sebastian já estava dormindo no ombro dela. Ela tinha a desculpa perfeita para sair.

 

- A poção de que você me falou mais cedo hoje. – Jackson disse subitamente. – Estou ansioso para testá-la. Sinto falta de estar entre os cavalos.

 

Lucinda se sentiu aliviada pela mudança de assunto.

 

- Nada mais é do que gordura, algumas ervas, que acho que encontrarei no jardim de Hawkins, derretidos juntos e se faz sabonetes ou um óleo que você aplica direto sobre a pele. Vou cuidar disso tão logo coloque Sebastian para dormir.

 

Jackson se aproximou e pegou Sebastian do colo dela. – Eu o levo lá para cima. Peça para que o cozinheiro providencie o que você precisar na cozinha.

 

O cozinheiro não ficou feliz por ter uma mulher bisbilhotando em sua cozinha. E era uma cozinha realmente enorme. Lucinda pegou cinco barras de sabão resfriado e uma jarra de óleo feito de gordura animal e várias ervas conhecidas por disfarçar o odor. Como sempre quando está trabalhando, ela ficou com a atenção totalmente focada na tarefa. Ela até mesmo comeu seu jantar ali mesmo na cozinha, apesar da carranca de desaprovação de Hawkins. Agora pegou a jarra de óleo e saiu a procura de Jackson.

 

Ela o encontrou lá em cima no quarto dele. A porta estava aberta. Ele estava sentado na cama, olhando para o que parecia ser um velho pedaço de pergaminho. Lucinda bateu bem baixinho na porta. Ele olhou para ela.

 

- Aqui está o óleo. – ela disse.

 

- Entre. – Ele colocou o pergaminho na cama e se levantou, indo ao encontro dela quando ela entrou no quarto. – Devo esfregá-lo em mim?

 

- No corpo todo. – ela instruiu.

 

Ele levou a jarra até o nariz e cheirou – Não tem cheiro.

 

- Não. – ela concordou. – E fará com que você também não tenha. É também bom para a pele. Por causa do ressecamento. – ela especificou. – Embora sua pele não pareça seca, ou pelo menos o que vi dela.

 

- Você iria aos estábulos comigo depois que eu aplicá-lo para vermos se funciona?

 

- Se você quiser. – ela respondeu. – Enquanto você se despe e espalha a poção, irei ver se Sebastian já está pronto para a noite. – Ela se virou e foi para o quarto ao lado, onde seu filho e a ama de leite dormiam.

 

Quando Lucinda e Jackson firmaram o pacto, ela pediu que o quarto de dormir do outro lado do quarto do filho fosse preparado para ela. Deve ter parecido estranho para Hawkins, mas a expressão do homem não deu nenhuma pista se ele achou estranho um jovem casal dormindo em quartos separados. Talvez entre os ricos não fosse.

 

Nas pequenas cabanas da vila não era raro que marido, esposa e filhos dividissem a mesma cama, pois o espaço era pequeno e as famílias grandes.

 

Sebastian já estava dormindo. Martha estava sentada numa cadeira perto da lareira, sua cabeça curvada sobre a costura. A mulher sorriu para ela, mas não se falaram para não acordar a criança. Lucinda caminhou até o berço e olhou para o filho adormecido. Só de olhar para o bebê a enchia de alegria. Ele era um anjo. Um anjo com a marca do demônio. Mas agora ele estava a salvo do perigo...ou não?

 

Se ela não conseguisse quebrar a maldição, Jackson poderia machucá-lo quando a fera o dominasse. Ela ainda não estava totalmente aliviada por saber que Sebastian seria bem cuidado para se preocupar que o filho pudesse correr perigo perto do homem que prometera cuidar dele. Eles ainda não tinham discutido esse assunto. Certamente o fariam. Acenando com a cabeça para se despedir de Martha, Lucinda saiu apressada do quarto.

 

Ela entrou de forma intempestiva no quarto ao lado sem se lembrar de que Jackson pudesse ainda estar fazendo o que ela mandara e por isso estaria meio despido.

 

- Estou feliz que você esteja aqui. – ele disse. – Não consigo alcançar as costas. – ele estendeu o jarro para ela. – Você se importa?

 

Ela se importava. Tocá-lo a fazia se sentir estranha. Por alguma razão, quando ela o tocava se esquecia de respirar. Assim, como se recusar sem admitir que ele exercia tal efeito sobre ela  coisa que ela preferia não admitir?

 

- Preciso falar com você sobre Sebastian. – ela disse sem responder.

 

Ele caminhou até ela, colocou o jarro em suas mãos e disse – Fale enquanto você passa o óleo.

 

Quando ele voltou as largas costas nuas para ela, o que mais ela podia fazer a não ser obedecer? Ela enfiou os dedos dentro do jarro e os encheu do grosso óleo. No momento que suas mãos tocaram a pele quente, seus joelhos enfraqueceram. Ela amava a cor da pele dele. Havia um pequeno arranhão vermelho onde ela o havia esfaqueado. Ela esfregou mais óleo no arranhão para ajudá-lo a cicatrizar.

 

- O que você queria me falar com relação a Sebastian?

 

Ela levou um momento, perdida em sensações, para clarear a mente. O assunto que ela queria tratar com ele era muito sério, então ela tentou apagar a sensação da pele dele debaixo de suas mãos.

 

- Quanto você estiver à mercê da fera, como você saberá que não ferirá Sebastian?

 

Os músculos nas costas dele endureceram. – Pensei que você fosse quebrar a maldição. – ele a relembrou. – Então não terá razões para se preocupar.

 

- Mas e se eu não conseguir? – ela insistiu. – Ou não conseguir antes da maldição cair sobre você novamente?

 

Subitamente ele se voltou para encará-la. Seus olhos escuros olhando dentro dos dela. – O que quer que pense a meu respeito, saiba que nunca colocarei Sebastian em perigo. Eu sei quando ela está chegando. Acontece sempre quando a lua está cheia. Eu me retiro e passo esses dias sozinho na floresta.

 

Uma vez que as mãos de Lucinda ainda estavam cobertas com o óleo, parecia lógico que ela as pressionassem contra seu peito e continuasse a passar a mistura na pele dele. – Sempre está ligada à lua?

 

Ele concordou com a cabeça. – Uma vez, quando eu estava com muita raiva, o lobo veio a mim e não havia lua para colocá-la em ação. Mas eu não me zango facilmente. E eu sei quando está começando e posso agir com pensamentos humanos até ele me dominar completamente.

 

Curiosa, ela olhou para ele. – E depois que isso acontece, você mantém seus pensamentos?

 

Ele franziu a perturbadora boca. – Não. E isso é o pior de tudo. Não saber o que poderia fazer quando o lobo me domina. Quem poderia ferir. É por isso que nunca me permito ficar perto das pessoas de quem gosto quando sei que a mudança está chegando.

 

A mão dela se moveu para cima do peito dele agora esfregando o óleo no pescoço. – Quanto tempo temos?

 

- Não muito. Por volta de três semanas.

 

A voz dele se tornou muito baixa, muito rouca. Ele a olhou nos olhos e ela viu um brilho azul neles. A noite havia caído, ela compreendeu. Ele estava com a visão noturna.

 

- Se você não terminar, e rapidamente, não serei capaz de ficar aqui parado e continuar passivo por muito tempo. Suas mãos estão me levando à loucura.

 

Lucinda retirou as mãos rapidamente. – Não tive a intenção de; quer dizer eu...

 

- Sei muito bem de que você não deseja me seduzir, Lucinda. – ele interrompeu as explicações dela. – Precisa de muito pouco para me excitar por esses dias. Não é sua culpa.

 

Ela teve a estranha noção de que ele a ofendera. O rosto de Lucinda começou a queimar e ela se voltou para longe dele. – Quer se apressar e se vestir? Estou cansada e desejo me recolher logo.

 

- Eu a ofendi.

 

Ela o ouviu se movimentando e supôs que ele estava se vestindo. – Me ofendeu de que maneira? – ela bancou a ingênua.

 

- A afirmação sobre ficar facilmente excitado. Já faz muito tempo desde que estive com uma mulher, e por isso estou mais excitável do que o normal. Não quis dizer isso para insultar você. Você é muito desejável, Lucinda.

 

O rosto dela ficou ainda mais quente e ela estava contente por ele não ver como ela estava vermelha. – Pensei que você tivesse ido visitar algumas de suas velhas amigas hoje. – ela comentou. Encontrá-lo em casa brincando com Sebastian quando ela chegou foi um choque para ela, mas ela tinha estado fora por um longo tempo. Ela não tinha idéia desde quando ele havia chegado.

 

- O pensamento me ocorreu. – ele admitiu. – Mas então compreendi que a bebida geralmente vem junto com a companhia feminina para mim, e eu decidi voltar para casa. Estou pensando que não devo beber tanto. Daria um mau exemplo para o jovem Sebastian, não daria?

 

A vergonha e a raiva pareceram sair dela como a areia escorre pelos dedos. Ela se voltou para olhá-lo. – Sim, daria. Você tomou uma sábia decisão. – Que ele fizesse isso pelo filho dela, uma criança que não era dele, a pegou totalmente de surpresa.

 

- Vamos? – ele perguntou.

 

Ainda perturbada, ela apenas acenou. Ele se adiantou, pegou-a pelo braço e a dirigiu para fora do quarto.

 

 

Jackson amava o cheiro dos estábulos. Era um cheiro honesto. Cavalos, feno, couro e mesmo estrume. Tudo combinado, o cheiro lhe trazia um sentimento estranho. De volta para casa. Henry, um dos cavalariços, estava servindo feno para os cavalos alinhados nas baias.

 

- Lorde Jackson. – Henry disse ao vê-lo. – Ouvi dizer que o senhor voltou. Não estou acostumado a vê-lo muito por aqui.

 

- Eu faço isso – Jackson acenou na direção do forcado nas mãos de Henry. – Você pode ir para casa agora.

 

Henry pareceu surpreso, mas foi na direção dele. Jackson ainda estava na entrada do estábulo. Ele não sabia como os cavalos reagiriam quando se aproximasse deles e não queria testemunhas para o evento. Ninguém a não ser Lucinda.

 

O cavalariço entregou o forcado a Jackson, tirou o chapéu para cumprimentar Lucinda e foi embora. Jackson entrou no estábulo. Ele apoiou o forcado contra a parede. Os cavalos ficaram parados, cabeças abaixadas sobre os portões de suas baias esperando serem alimentados. Eles o observavam com curiosidade, mas nenhum pareceu nervoso com sua presença. Fortalecido pela reação deles, Jackson se aproximou da primeira baia.

 

Ele vagarosamente aproximou a mão de um garanhão negro.

 

O animal o cheirou, então pressionou o focinho contra a palma da mão de Jackson. Ele esfregou a mão sobre o focinho do animal e depois subiu, para coçar atrás das orelhas dele. Jackson se moveu para a outra cocheira e acariciou o ocupante, e a próxima, fazendo o percurso por toda a longa fila de baias.

 

- Você viu, Lucinda? – ele perguntou excitado, olhando para ela. Ela se encostou à porta de entrada do estábulo o observando.

 

- Sim, eu vi. – ela disse, e ele pensou que o sorriso dela era adorável. Suave e feminino.

 

Jackson se voltou para uma delicada égua cinza e pressionou o rosto contra sua pele acetinada. A égua relinchou suavemente, dando boas vindas à atenção dele. Pelos momentos que ficou ali, enterrou o rosto contra a longa crina da égua, seus olhos nublados. Ele havia se esquecido como era ser aceito pelas criaturas de Deus. Algumas vezes ele se esquecia como era ser apenas um homem.

 

As mulheres o ajudavam a se lembrar, Jackson admitiu. Era porque elas davam as boas vindas em seus braços que ele ia geralmente de bom grado. Ele precisava se sentir como um homem e nada mais do que um homem, embora percebesse que tinha uma vantagem injusta com as mulheres. E ele a usava, também, o que o fazia de certa forma um hipócrita. Jackson não se importava em usar a maldição em sua vantagem, mas desejava que ela se afastasse dele quando não mais servia a seus propósitos.

 

No passado, ocupar-se com a bebida e em espalhar-se entre as pernas de uma mulher havia entorpecido a dor de sua aparentemente inútil vida. Ele ansiava por um modo de se ligar à sociedade que virou as costas para ele. Ele ansiava por um toque, um beijo, um modo de se sentir humano.

 

Uma mulher não parecia se afetada por sua habilidade de facilmente seduzir mulheres. Jackson se afastou da égua e olhou para Lucinda. Ela não tinha fome por seus beijos, seu toque. Ela sabia o que ele era. E talvez fosse porque ela soubesse que ele desejava a atenção dela mais do que das outras antes dela. Poderia ao menos uma mulher aceitá-lo como ele era? Amaldiçoado e tudo?

 

Afastando-se da baia, Jackson caminhou até onde havia deixado o forcado, o agarrou, e começou a alimentar os cavalos.

 

Lucinda olhava Jackson trabalhar. Os músculos dele se moviam debaixo da camisa e ela descobriu que gostava de olhar para ele. No momento ele parecia um homem, mas ele ainda se movia como um animal. Gracioso mesmo enquanto estava fazendo algo tão mundano como mexer com o feno. Havia muitos cavalos e muito feno a ser servido. Ela viu suor escorrendo pela têmpora dele. Na metade da fileira de baias ele parou e tirou a camisa. Ele parecia envolvido pelo trabalho e Lucinda duvidava que ele se lembrasse de que ela o estava observando. Ela engoliu em seco perante a visão de tanta pele masculina. Os músculos dele ondulavam conforme ele trabalhava e uma fina camada de suor cobria sua pele cor de mel.

 

O que havia na visão de um homem trabalhando que fazia com que uma mulher sentisse como se trabalhasse junto com ele? O corpo, os movimentos, a concentração. Ele o fez até a última baia e acabara de servir a última grande porção de feno quando os cavalos começaram a sapatear em suas baias, fazendo barulhos nervosos de relinchos uns para os outros. Jackson olhou para Lucinda com ar interrogativo.

 

- Você está suando. – ela o chamou. – Isso permite que seu cheio retorne.

 

Ele se afastou da baia, movendo-se vagarosamente pela fileira de cavalos. Como os cavalos continuassem a sapatear e a bufar em suas baias, ele apoiou o forcado contra a parede, pegou sua camisa, e caminhou lentamente na direção de Lucinda. Por um momento, quando os olhos dele encontraram os dela, ela também se sentiu intranqüila.

 

Quando ele parou na frente dela, ela também sentiu o cheiro dele. Isso a afetou tão certo quanto aos animais, mas não do mesmo modo. Subitamente sua pele ficou mais quente, o coração dela disparou, os mamilos endureceram, e mais embaixo, entre as pernas, ela ficou úmida e dolorida. Ela não tinha idéia do que ele via enquanto a encarava, mas suspeitava fortemente de que ele sabia o efeito que tinha sobre ele.

 

De repente ela entendeu. – Você o usa a seu favor.

 

Ele colocou uma mão de cada lado da cabeça dela, aprisionando-a contra a parede. As lanternas acesas penduradas nas paredes subitamente diminuíram como se ele exigisse uma iluminação mais íntima.

 

A pouca luz que restou dançava nas longas mechas de seu cabelo e brilhava dourada contra sua pele úmida de suor. Ela lutou contra a necessidade de tocar o peito dele, de correr os dedos pelos contornos macios e quentes. O que estava acontecendo com ela? Ela não estava gostando, ou talvez estivesse.

 

- Há um animal dentro de todos, Lucinda. – ele disse suavemente. – Estou chamando pelo seu, é isso.

 

Ele o fez. Ele clamou por algo dentro dela que nunca havia existido até que ele acordasse a fera adormecida que lá existia. Tentação. Desejo. Pecado. Ele controlava todos eles. Seus poderes, seus dons, como sua mãe os chamavam, pareciam dolorosamente impotentes em comparação.

 

- Você tem uma vantagem injusta entre os homens mortais. – ela acusou.

 

- Tenho umas poucas. – Ele se inclinou para tocar levemente os lábios dela com os dele.

 

O corpo dela derreteu na parede atrás. Seus joelhos fraquejaram, mas ela tentou recuperar o controle sobre suas emoções. – Seu apelo obscuro está sendo desperdiçado comigo. – ela assegurou a ele, embora sua voz soasse sem fôlego, rouca e nem um pouco segura.

 

- Por que você luta contra mim? – Ele gentilmente tocou as orelhas dela com o nariz. – Não é como se você devesse se guardar.

 

Qualquer que fosse o feitiço que ele tivesse lançado foi vencido pelo seu pior inimigo e pela sua maior ferramenta de sedução – sua boca. Ela o empurrou para longe. – Posso não ser uma dama, mas também não sou uma prostituta. – ela disse de forma firme. – Você se daria melhor ao se lembrar de manter a boca fechada na próxima vez que lançar um feitiço sobre uma mulher.

 

Lucinda tinha de fugir dele, e rápido. Ela o empurrou e saiu do estábulo. A noite de verão estava fresca e úmida e a ajudou a recuperar o bom senso. Ela ouviu Jackson fechar as portas do estábulo atrás dela e logo se juntar a ela no caminho para casa.

 

- Eu lhe agradeço pelo presente que me deu essa noite. – ele disse. – Posso ficar entre os cavalos novamente, se eu conseguir não suar enquanto estiver trabalhando com eles.

 

Nem devia suar perto dela, Lucinda decidiu. Ela havia acabado de pensar sobre isso quando uma visão surgiu em sua mente. Uma visão de Jackson se agigantando sobre ela, o corpo dele brilhando de suor, os olhos escuros vivos com o fogo. Lucinda sacudiu a cabeça para expulsar a visão. Algumas vezes ela tinha vislumbres das coisas antes delas acontecerem. Seria uma delas, ou era sua imaginação simplesmente a traindo?

 

- Quando chegarmos a casa, gostaria que você se juntasse a mim em meus aposentos.

 

Ela parou. Colocou as mãos na cintura. – Você nunca desiste? É tão inconcebível para você que uma mulher não o deseje?

 

Ele se virou na direção dela. O céu noturno estava coberto de estrelas atrás dele. Elas dançavam nos olhos dele. – Você disse que precisava ver a charada. Eu a estava lendo antes. Quero entregá-la a você.

 

Ela ficou feliz pela escuridão esconder o rubor de vergonha que sentia queimar suas bochechas. – Oh. – disse calmamente. – É claro que preciso ver a charada.

 

Eles retomaram o caminho. Ela pensou que ele fosse dizer algo mais, talvez provocá-la sobre qual deles não conseguia tirar o ato de fazer amor da cabeça. O silêncio se estendia enquanto caminhavam.

 

- Viu, já estou levando seu conselho em consideração.

 

Ela olhou para ele, mas a escuridão escondia a expressão dele.

 

- Aquele para manter minha boca fechada. – ele respondeu, embora ela não tivesse perguntado.

 

Depois de Lucinda surpreender Jackson com o fato de saber ler, e até mesmo Latim, pois sua mãe, apesar de bruxa, tinha sido uma mulher instruída, Jackson entregou a charada para que ela a estudasse. Era na realidade um poema. Lucinda o estudou durante muito tempo noite adentro, e pela manhã estava com a cabeça pesada e mal humorada por ter dormido pouco. Ela estava para sair da cama para ver como estava Sebastian e tomar o café da manhã quando uma suave batida foi seguida por um homem alto carregando um bebê entrando de forma intempestiva em seu quarto.

 

- Qual sua opinião sobre o poema?

 

Ela queria gritar com Jackson. Suas maneiras eram terríveis, e se ela pensava dessa forma, ela não podia imaginar o que a alta sociedade pensava dele.

 

- Você me dá licença? – ela perguntou, puxando as cobertas até o pescoço. – Ainda não estou vestida.

 

Ele se aproximou da cama e se sentou. Seus olhos escuros passearam sobre ela. – Você não tem nada que já não tenha visto antes. – ele disse. – Na realidade, eu já vi tudo o que você tem, agora que me recordo.

 

O rosto dela queimou. – Agradeço se não se lembrar – ela murmurou brava. – Não é a mesma coisa mesmo.

 

- Não precisa ter vergonha de mim, Lucinda. Nós vamos nos casar.

 

- Apenas no papel. – ela o relembrou, mas sentia dificuldade em continuar nervosa quando Sebastian parecia tão contente aninhado no colo de Jackson. Ela se aproximou do bebê. – Venha aqui, meu amor.

 

- Já que você pediu. – Jackson deslizou pela cama na direção dela, trazendo Sebastian com ele.

 

- Não você. – ela olhou feio para ele. – O convite foi apenas para o meu filho.

 

Jackson entregou Sebastian para ela e franziu a testa. – Você é tão fria, Lucinda. O que é necessário para derreter o gelo que envolve seu coração?

 

- Não é no meu coração que você está interessado. – ela atacou. – Não finja o contrario.

 

- Não. – ele concordou. – Entregar meu coração nunca foi meu maior interesse.

 

Que mulher conseguiu capturar o coração desse homem? Lucinda estava curiosa e, se fosse honesta, talvez com um pouco de ciúmes, também. – Por que você não se casou com ela? Ela não o amava?

 

Ele não respondeu por um momento, e ela pensou que não o faria, quando ele finalmente admitiu: - Ela nem mesmo sabe sobre isso. – Jackson levantou-se da cama. – Trarei seu café enquanto você se veste. Quero discutir suas impressões sobre o poema. A charada dentro dele.

 

O assunto foi fechado. A expressão igualmente fechada dele a avisou disso. – Tudo bem. – ela concordou. – Estou faminta.

 

Ele saiu do quarto, e ainda aconchegando-se a Sebastian mais um tempinho, Lucinda reuniu seus pensamentos sobre o poema.

 

- Maldita seja a bruxa que me amaldiçoou. – ela repetiu a primeira linha do poema. E com essa linha Jackson tinha amaldiçoado Lucinda também. Ivan Wulf, que compusera o poema e fora o primeiro a receber a maldição, não tinha se culpado pela sua tragédia, mas a uma mulher. Uma bruxa. Era um defeito dos homens, culpar os outros pelas próprias más ações. Lucinda sabia disso melhor do que ninguém.

 

Ela deitou Sebastian no meio da cama, então se levantou e se vestiu para o dia. Ela mal tinha passado a escova pelos longos cabelos quando Jackson retornou. Ele não carregava uma bandeja, mas Hawkins o seguiu para dentro do quarto.

 

- Penso que Hawkins pode levar Sebastian de volta para seu quarto onde ele poderá ter seu próprio desjejum. – Jackson explicou.

 

Lucinda rolou os olhos. – Martha está logo no quarto ao lado – ela relembrou a eles.

 

- Hawkins insiste. – Jackson lhe endereçou um olhar significativo que dizia para discutir mais o assunto.

 

- Tudo bem, então. – ela disse. Lucinda se dirigiu para a cama e levantou Sebastian. As pálpebras dele estavam pesadas e ela imaginou que logo ele voltaria a dormir. Quando Hawkins colocou sua travessa com o café da manhã na mesa ao lado da cama, ela lhe entregou o bebê. Um leve sorriso surgiu em sua boca quando ele olhou para a criança; então, de postura rígida, ele saiu do quarto. Jackson foi e fechou a porta atrás dele.

 

- Então, o que achou do poema? – Jackson perguntou.

 

Lucinda se sentou na beira da cama e descobriu os pratos de seu café da manhã. O cheiro flutuou e seu estômago roncou. Ela nunca se esquecia enquanto era servida de boa comida nessa casa de como uma vez se preocupou sobre onde conseguiria a próxima refeição. Ela deu uma garfada nos ovos macios e os saboreou antes de responder.

 

- A mulher que amaldiçoou seu antepassado devia ter uma mágica muito forte para conseguir isso. Lançar um feitiço que dure por todos esses anos. Ela também devia estar muito brava.

 

- Não tive nada a ver com isso. – Jackson disse, sentando-se ao lado dela na cama. – E ainda assim sofro por quaisquer pecados que ele cometeu contra ela.

 

- Ele não pode se casar com ela. – Lucinda explicou. – Por causa da posição dele. – ela explicou adicionalmente.

 

- Eu sei que ele se refere a ela como “essa bruxa que eu amei e não pude me casar. Ele também diz: “traído pelo amor, minha própria língua falsa.” Ele mentiu para ela.

 

O velho pergaminho estava na mesa onde estava a bandeja, Lucinda estendeu a mão e o puxou. – Sim. Ele provavelmente a induziu a acreditar numa mentira, que um dia eles se casariam apesar das diferenças. Assim as linhas “Ah! Nenhuma mulher entende o dever, / seja ele a família, o nome ou a guerra” - ela leu. Olhando para Jackson, ela disse: - Ele obviamente escolheu outra quando chegou a hora de se casar. Uma mulher que se equiparasse a sua alta posição e agradasse a família.

 

- Novamente, não é minha culpa. – Jackson reclamou. – O que você pensa sobre a charada? “procure e encontre seu pior inimigo; / seja bravo e não fuja. / O amor é a maldição que te prende, / mas também é a chave para te libertar”?

 

A charada deixou Lucinda perplexa. Ela não tinha certeza se queria que Jackson soubesse disso. Se ele pensasse que ela não podia quebrar a maldição, ele não teria razão para permitir que ela ficasse. Levaria algum tempo...ela faria disso uma certeza, pois o pensamento de abandonar Sebastian ainda a machucava muito. Mas ela não tinha muito tempo antes de a próxima lua cheia transformar Jackson.

 

- Pode significar muitas coisas. – ela desconversou. – O poema não diz nada sobre matar seu pior inimigo, e mesmo depois seu ancestral diz que lutou batalhas e venceu, e ainda derrotado ele ficou em seu lugar. Acho que a resposta está em descobrir seu pior inimigo, mas talvez derrotá-lo de algum modo que não seja em luta normal ou morte.

 

Jackson parecia pensativo. – E quais são seus planos para tentar quebrar a maldição? O poema diz também que Ivan Wulf não encontrou meios de quebrá-la “nenhuma poção, encantamento ou façanha” o que significa para mim que ele tentou esse mesmo caminho com outra...

 

- Bruxa – ela acrescentou. – Talvez ele tenha. Mas então, a mulher a quem ele procurou não tinha tanto interesse em quebrar a maldição, eu garanto.

 

Os olhos deles se encontraram.

 

- Você não se parece com uma bruxa. – Jackson disse. – Não vi nenhuma prova de que você tenha poderes maiores do que os meus.

 

- Meus poderes não devem ser usados para impressionar ninguém. – ela disse. – Sou uma bruxa de magia branca, e assim estou obrigada a somente praticar boa magia. Se eu pudesse te transformar em sapo, acredite, eu o faria, mas pensando bem, alguém já o fez.

 

 

O temperamento dela era tão ardente quanto seus cabelos. Jackson não era tolo, apesar do que seus irmãos pensavam dele. Ele facilmente acreditou que Lucinda era uma bruxa quando a encontrou na cabana. Mas desde que retornou a Londres e a encontrou passando por sua esposa, ela parecia uma mulher comum. Olhando para sua pele perfeita, seus cabelos de fogo, sua aparência formosa, ele corrigiu seus pensamentos. Ela não era comum, mas seria realmente uma bruxa?

 

Ela fez o óleo para ele noite passada, mas qualquer pessoa que estude plantas facilmente saberia sobre a mistura.

 

- Você tomou o meu nome, me pediu para cuidar de seu filho. Quero provas de que você é quem diz ser.

 

- Tenho algo em mente. – ela disse.  – Dentro de duas noites, haverá uma lua vermelha. Uma lua vermelha é muito poderosa. Já que a lua o amaldiçoa, vou apelar para que ela o liberte. É um ritual que deve ser realizado à meia noite, e não deve ser testemunhado por ninguém.

 

Jackson ainda estava cético. – Mas não saberei se funcionou até a próxima lua cheia, correto?

 

Ela enrugou a testa. – Existem certas características do lobo que você sente dentro de você, mesmo quando a lua não o comanda?

 

Por toda a vida, mesmo antes de a maldição cair sobre ele, Jackson tinha consciência de suas diferenças sobre os outros. Era algo que ele e seus irmãos compartilhavam. Uma audição não natural para Armond; para Gabriel, bem, certamente nenhum homem mortal poderia trabalhar do nascer ao por do sol e ainda ficar com a aparência de alguém que vadiou o dia inteiro sem fazer nada. Todos eles podiam ver bem no escuro.

 

Mulheres. Para Jackson eram as mulheres. Elas vinham para ele como se ele liberasse um cheiro que as atraíssem, e soube pela reação que Lucinda teve noite passada que o que ele há muito suspeitava era realmente um fato. Elas não conseguiam resistir a ele... exceto por Lucinda, e Lady Anne Baldwin, que roubara seu coração e nem tomara conhecimento do fato.

 

- Sim. – ele respondeu. – Suponho que eu saberia antes da lua cheia. Eu me sentiria diferente.

 

- Então veremos. – ela disse. – daqui a duas noites.

 

A noite estava enevoada, mas quente. A neblina subia do chão no circulo mágico de Lucinda. Ela colocara velas nas quatro direções. Cada uma da cor do elemento que representava. Ao Norte ela acendeu a vela negra, ao Sul, a branca, ao Leste, a vermelha e ao Oeste a vela cinza. O circulo que ela erguera se mantinha firme contra os elementos externos. Toda a energia negativa havia sido expulsa do circulo.

 

Ela olhou para o céu, mas a lua escolhera se esconder dela. Ela cantaria para as nuvens, seduzindo-as a se abrirem. Para suplicar que a lua liberasse Jackson, ela precisava vê-la.

 

Lucinda disse as palavras antigas que sua mãe lhe ensinara, faladas numa língua que apenas aqueles de um outro mundo, um outro tempo, ainda entendiam. Bem baixinho, ela começou a cantar. Como sempre fazia ao se comunicar com um elemento da terra, ela fechou os olhos e ergueu o rosto para o céu.

 

A neblina se agitou e se enrolou ao redor dela, mas as nuvens no alto não atenderam a seu comando. Ela cantou com mais paixão, oscilando ao som dos gemidos cheios de sentimento do vento.

 

Lucinda se voltou ao Leste, ao Norte, ao Sul e ao Oeste, concentrando-se mais profundamente. Nos olhos da mente, ela via as nuvens no alto se abrirem, permitindo seu contato direto com a lua. Mas quando abriu os olhos e olhou para os céus, viu que não conseguira seduzir as nuvens e elas se mantinham firmemente contra ela.

 

Suas habilidades de sedução eram fracas, ela admitiu. Desejo, ambos o sentindo e o inspirando propositalmente um no outro, era algo novo para Lucinda. Ele fechou os olhos novamente, mas dessa vez procurou a visão do rosto de Jackson Wulf. Vagarosamente, ela levantou os braços acima da cabeça, estendendo-os na direção do céu como se procurando por um amante. Livrando sua mente de inibições ela oscilou e cantou, dançou e mergulhou profundamente dentro do circulo mágico, o tempo todo com a imagem de Jackson na mente.

 

Com suas barreiras abaixadas, seus pensamentos livres para ir onde ela geralmente não permitia, Lucinda reconheceu os próprios desejos. Ela pensou no modo como a boca dele se movia contra a dela, o modo como sentia a pele dele debaixo dos dedos. Pensou no cheiro dele e no modo como seu próprio corpo reagia a ele. E de repente ela não dançava mais para a lua, mas apenas para ele.

 

 

Jackson observava Lucinda de sua janela. A voz dela, elevada em uma canção, o chamara, o despertara do sono e o trouxera até a janela para olhar para o ritual da meia noite. Ele se lembrou de que ela dissera que o ritual tinha de ser privado, não visto por outros olhos, mas ele não podia desviar os olhos dela. A névoa girava ao redor dela e seu corpo girava numa melodia que ele não conseguia ouvir, mas de qualquer forma compreendia.

 

O balançar sensual dos quadris dela o hipnotizava. Era uma dança velha como o tempo. Uma dança com o propósito de seduzir um homem, e seja qual for o feitiço que ela estava tentando lançar estava funcionando com ele. Seu coração batia pesado e rápido dentro do peito. Sua respiração pesada embaçava a janela, e mais de uma vez ele teve de limpar o vapor para conseguir vê-la. Desejo, vermelho intenso e afiado como uma faca, cresceu dentro dele. Ele deslizou para uma névoa de querer, de precisar, de fome. Não havia lugar para pensamento racional. Não quando ela clamava para os recessos mais profundos e escuros de sua alma.

 

Os braços brancos e magros dela, que ela mantinha para cima na direção dele na escuridão, desceram ao fecho de cada lado do vestido. Como um véu cintilante, o traje deslizou ao chão. Agora ela estava nua na névoa. Uma deusa.

 

Ela era a personificação da feminilidade. Sua pele brilhava na bruma. As chamas bruxuleantes das velas a envolviam, dançando sobre as elevações e vales de sua forma perfeita. Seus seios se erguiam firmemente de sua caixa torácica; seus mamilos, pequenos e rosados e duros, acenavam para ele. Ele estava duro, também. Dolorosamente duro.

 

Sua cintura era pequena, alargando-se graciosamente nos quadris provavelmente maiores do que já foram, mas ainda arredondados e macios e convidativos. Suas pernas eram longas e formosas, seus tornozelos finos e seus pés pequenos e delicados.

 

Ela parecia nascida na noite, Completamente em contraste com ela, mas a vontade com a escuridão. Naquele momento Jackson a quis como nunca quis outra mulher. Ele pressionou as mãos contra os vidros frios, desejando colocá-las na pele dela.  Ela sabia que estava dançando para ele? Seduzindo-o? Ela sabia que chamara pela fera dentro dele, a fera que vive dentro de todo homem? Os últimos vestígios de controle caíram.

 

Tudo o que conseguia pensar era em tê-la. Dominá-la. Possuí-la. Suas narinas se alargaram, como se conseguisse sentir o cheiro dela através do vidro. Então ele se afastou da janela, nu, pois estava dormindo, duro com a necessidade, e sem poder chamar de volta a humanidade. Ele a queria. Ele a teria.

 

 

O corpo dela estava úmido pela transpiração, seus cabelos espalhados ao redor dos ombros, e seu coração batia no ritmo pagão em sua cabeça quando Lucinda sentiu uma presença invadindo seu santuário. Ela girou e parou, abriu os olhos e o viu parado logo ao lado de seu circulo mágico. Ela se perguntou se a mente dela o conjurara. Seria ele feito de bruma e não de carne e osso? Carne, ela respondeu, seu olhar percorrendo o corpo nu dele, parando naturalmente no membro endurecido que se projetava dentre as pernas dele.

 

Era uma visão para fazer uma donzela desmaiar ou uma prostituta sorrir. Lucinda não era nem donzela, nem prostituta. A visão da nudez dele não a envergonhava. Ela se maravilhava com sua perfeição, mesmo aquela que fazia dele um homem. Seu olhar vagueava pelo corpo nu sem embaraço, elevando-se até o rosto dele, onde seus olhos se fixaram nos dele. Eles brilhavam em azul na neblina. Eles falavam de antigos rituais entre homem e mulher, de promessas de prazeres além de sua mais selvagem imaginação.

 

- Venha para mim. – ele ordenou.

 

Lucinda queria obedecer. Ela queria tanto ir para ele que seu corpo vibrava com uma necessidade mais forte do que qualquer coisa que conhecia. Ela deu um passo na direção dele, um que seu pé deu sem a permissão de seu cérebro. Isso não fazia parte do trato deles. Ele já tirou muito dela. Ele lhe tirou a vida, sua alegria, seu filho.

 

- Vá embora. – ela disse suavemente.

 

Ele não foi.

 

- Lucinda.

 

Seu nome nos lábios dele era como um toque, gentil, hipnotizante e ainda assim tão exigente. Ela engoliu em seco e sacudiu a cabeça. – Eu não quero você. – ela disse com mais força.

 

- Você mente. – Ele quase rosnou a acusação, mas novamente, sua voz era macia, obrigando. – Sinto o cheiro de seu desejo na névoa. Vamos acabar com esse jogo entre nós. Venha para mim.

 

Os joelhos dela enfraqueceram, mas ela resistiu – Não.

 

Os olhos dele brilharam ainda mais por um momento. – Então eu vou até você. Ele deu um passo, então atingiu a barreira protetora de seu circulo mágico. Ele colocou as mãos contra ela, como se fosse de vidro. – Deixe-me entrar. – ele instruiu de forma suave.

 

Sentindo-se segura por ele não conseguir entrar no circulo sem sua permissão, Lucinda ando até a barreira. – Você não pode entrar sem meu convite, e eu não vou fazer isso.

 

Uma mão deslizou para baixo contra a barreira, como se ele pudesse tocar o seio dela. Lucinda estava curiosa para sentir como seria ter as mãos dele sobre ela. Ela se aproximou e quando se pressionou contra a barreira sentiu a quentura do toque dele. Sua pele formigou e ela respirou fundo.

 

- Lucinda. – a voz dele era baixa e rouca. – Deixe-me entrar.

 

Ela não ousaria. Lucinda sabia o que poderia acontecer se ela o fizesse. Abaixar suas inibições a tornara vulnerável a ele. Ela se entregaria a ele, se tornaria escrava das paixões dele, bem como das dela. Ele a usaria, como todos os homens usam as mulheres, sem pensar ou se importar com o que o amanhã pudesse trazer ou quem sofreria pelos pecados da noite.

 

Tendo recuperado um pouco do bom senso, Lucinda começou a se afastar. Ele se pressionou contra a barreira e a tentação a colocou novamente em poder o feitiço. Ela imaginava como seria experimentar todo o calor dele, toda a nudez dele pressionada contra ela.

 

Ela teria resistido se a barreira não estivesse ali. Se não tivesse certeza de que ele não passaria por ela. A barreira mais do que a protegia, lhe dava o controle. Lucinda pressionou o corpo contra o dele. O calor dele rapidamente se espalhou sobre ela e a deixou em chamas. Um gemido suave escapou da garganta dela.

 

Não havia nada no mundo como isso, ela subitamente entendeu. O deslizar de pele contra pele. O emocionante elixir da paixão compartilhada e não roubada. A união de mente, espírito e carne uns com os outros. Pela primeira vez ela entendeu o chamado do acasalamento. Ela entendeu a atração sexual e por que poucos conseguem resistir. Era o suficiente para ela por agora, simplesmente sentir, simplesmente entender, mas não era suficiente para ele. O som agudo dos punhos dele atingindo a barreira a arrancou do feitiço.

 

Lucinda se afastou da barreira rapidamente. Jackson a encarava, os olhos brilhando, uma aparência de pura tortura em seu rosto. Entre os lábios entreabertos ela viu o brilho de presas. Sua mão se alojou na garganta num gesto inconsciente. Ela foi andando de costas até parar perto de onde havia deixado o vestido. Sem tirar os olhos dele, ela se inclinou e o agarrou, segurando-o na frente dela como um escudo.

 

Olhando para cima, ela notou que as nuvens ainda encobriam a lua. O que estava acontecendo? Como ela havia atraído a fera para a superfície sem que a lua cheia disparasse a maldição? Ela tinha de mandá-la de volta, tinha de fazer o homem tomar o lugar da fera.

 

- Clamo por você, Jackson Wulf. – ela disse. – Clamo pela fera que reside dentro de você. Deixe-me ver apenas o homem, e rasteje para dentro dele até a noite seja sua para comandar. Eu a expulso desse lugar, fera. Você não é bem vinda aqui.

 

Os punhos dele soaram contra a barreira novamente e Lucinda pulou. Ela tinha de confiar em seus poderes. Hesitar poderia abaixar suas defesas, poderia possivelmente permitir que ele entrasse no circulo. Com o homem se poderia conversar. Com a fera, não. Ela se firmou. O medo enfraquecia o corpo, a alma, a mente. Sozinho, o medo poderia derrotá-la se ela se entregasse a ele.

 

Gradualmente, o brilho foi se apagando nos olhos de Jackson. Suas presas se retraíram. Lucinda não ousou respirar aliviada até que ele se voltasse e se afastasse dela. Quando ele se foi, seus joelhos cederam e ela caiu ao chão. Não era uma maldição comum que assombrava Jackson Wulf. Obviamente, a lua sozinha nem sempre a induzia. Ele dissera que uma vez ela caiu sobre ele sem a ajuda da lua cheia.

 

Ela precisava saber as circunstâncias que provocaram a fera antes. E para encobrir a própria fraqueza essa noite ela deveria lançar um feitiço de esquecimento sobre Jackson Wulf. Amanhã ela teria de fingir de que nada disso aconteceu.

 

Lucinda encontrou Jackson na sala de jantar na manhã seguinte. Ela parou na entrada para juntar seu bom senso. Ele parecia focado em seu prato, mas ela podia ver que ele não comera, nem parecia inclinado a comer. Ela deu uma respirada e entrou.

 

- Bom dia, milorde. – ela disse com falsa animação.

 

Ele olhou para cima, mas não disse nada. Quando ela caminhou até a cadeira do lado dele, ele se levantou e a puxou para ela, mas novamente, parecia distraído, como se simplesmente agisse com cavalheirismo devido ao hábito. Lucinda se sentou. Hawkins entrou apressadamente. O mordomo levantou as tampas de prata para que Lucinda pudesse olhar e escolher. Depois que ela encheu o prato e Hawkins apressou-se para fora da sala, ela olhou para Jackson por debaixo dos cílios.

 

- Você está muito quieto essa manhã. – ela disse.

 

- Tive um sonho muito estranho noite passada. – ele finalmente respondeu. Seu olhar encontrou o dela. – Mas acho que talvez não tenha sido sonho.

 

Que ele se lembrasse baixou a guarda dela. Algumas vezes a força de vontade era muito forte para que se praticasse mágica de forma efetiva com o individuo. Jackson era obviamente uma dessas pessoas. Tal fato não era um bom sinal para ela ou para ele se a fera dentro dele tivesse uma força de vontade que igualasse a do homem. – Você se sente diferente hoje? – ela perguntou para mudar de assunto. Lucinda sabia que o ritual não tinha funcionado, mas ainda assim, ela tinha de perguntar.

 

- Não. – ele confirmou. – Nada mudou. Os olhos escuros dele se firmaram sobre ele. – Eu estava lá, não e? Eu fui até você, mas não consegui lhe alcançar.

 

Lucinda lutou contra o rubor que sentia crescer em seu rosto. Se ele se lembrava de tudo, ele também se lembraria da curiosidade dela, e a que isso conduziu. Uma mulher que não quer acabar na cama dele não dá a um homem como Jackson Wulf tal informação. – O ritual não pode ser repetido. – Ela novamente evitou a pergunta dele. – A lua vermelha acontece apenas por uma noite até a próxima. Temos de tentar outra coisa.

 

- Eu assustei você.

 

Ela tentou desviar os olhos dele, mas ele a alcançou e gentilmente pegou o queixo dela, forçando-a a olhar para ele. – Nunca havia assustado uma mulher antes, pelo menos que eu saiba. Não conseguia me controlar. O que está acontecendo comigo?

 

Pelo menos ela podia responder essa questão. – O lobo tentou assumir noite passada. – ela respondeu, mexendo com os ovos pelos quais não tinha mais apetite também. – Você me contou que já aconteceu antes. Você estava com uma mulher então, também?

 

Ele sacudiu a cabeça. – Não. Eu saí de uma taverna e vi um homem batendo em um podre órfão nas ruas por tentar roubá-lo. Alguma coisa por ver alguém tão grande e forte batendo em alguém tão pequeno e indefeso provocou uma raiva como nunca tinha sentido antes. Eu enfrentei o homem. Ele me bateu, também, e me disse para não me meter nos assuntos dele. Então senti o lobo surgindo, faminto pelo sangue do homem. O que quer que ele viu quando me olhou o assustou, a ele e a criança. Os dois saíram correndo noite adentro.

 

- Então não é apenas a lua que comanda a fera dentro de você. – ela disse. – Raiva e...

 

- Desejo – ele completou o que ela não disse. – Embora nunca tenha sentido um desejo tão forte quanto o da noite passada. Você estava dançando para mim?

 

Desviar o olhar, ficar vermelha, diria mais do que ela queria que ele soubesse. – Não. – Lucinda mentiu, - Seu café está esfriando. – ela disse para desviar o olhar quente dele em cima dela para outro lugar.

 

Ele ergue o garfo. A mão dele tremia tanto que ele rapidamente abaixou o utensílio. Lucinda olhou interrogativamente para ele.

 

- A bebida. – ele explicou. – Ou melhor, a falta dela.

 

Sua fraqueza e o obvio desgosto dele suavizaram o coração dela em relação a ele. Um homem fisicamente tão forte com tantas fraquezas. – Posso fazer uma poção. – ela disse. – Para aliviar...

 

- Não. – ele interrompeu. – Isso é algo que devo combater sozinho. Não vou trocar um vício por outro.

 

Antes de Lucinda pensar, ela se adiantou e colocou a mão sobre a dele. – Sei que você vai conseguir fazer isso. – assegurou a ele.

 

Os olhos dele se suavizaram. Ele trouxe a mão dela aos lábios e beijou os dedos suavemente. O resultado foi uma imediata explosão de calor que se espalhou dos dedos até o braço.

 

- Noite passada, – ele disse, encarando-a nos olhos. – eu sonhei que você veio para mim? Sonhei que você se pressionou contra mim? Sonhei que você me queria?

 

A negação seria melhor, mas Lucinda sentia que ele veria a mentira nos olhos dela. – Estava apenas curiosa, – ela admitiu. – se me sentiria diferente com outro homem.

 

A mandíbula dele ficou tensa. Lucinda compreendeu que não foi a coisa certa a dizer. Ela queria descobrir se ela sentiria nojo como suspeitava que sentiria se Lorde Cantley a tocasse novamente. Talvez ela imaginasse se bem lá no fundo o contato do corpo de Jackson contra o dela não despertaria qualquer recordação do que acontecera a ela na noite em que Lorde Cantley a estuprara. Havia coisas que ela não pensava em compartilhar com Jackson. Sua humilhação nas mãos de outro homem era uma dela.

 

- E se sentiu? – ele perguntou com rigor. – Alguma diferença?

 

- Não sei. – ela respondeu, mas é claro que sabia. Ela não sentira nojo ao sentir o corpo de Jackson contra o dela. Bem longe disso. – E não quero mais falar sobre isso.

 

Ele abriu a boca como para discutir, mas Hawkins subitamente se apressou dentro da sala de jantar. – Um bilhete, Lorde Jackson. – o criado disse formalmente. Hawkins estendeu a altamente polida bandeja de prata na qual estava um delicado bilhete.

 

Jackson pegou o bilhete e abriu a cera que selava o envelope. – É da duquesa. – ele disse a Lucinda. – Reconheço o selo dela.

 

O coração de Lucinda bateu mais depressa. Teria ficado pronto uma parte de seu guarda roupa? Ela ansiava em usar algo que não pertencesse a Rosalind Wulf. Não que a dama não tivesse um bom gosto impecável, mas Lucinda sempre se preocupava em não estragar um dos lindos vestidos que emprestara do guarda roupa de Rosalind.

 

- Sua graça e a costureira chegarão em breve. Os itens mais necessários já estão prontos e a costureira deseja fazer quaisquer alterações de último minuto.

 

Lucinda estava assustada e horrorizada. – Aqui? – ela murmurou. – Elas vêm aqui?

 

Jackson olhou ao redor. – A casa não está tão decadente. Não é tão grande quanto...

 

- Não é isso. – ela interrompeu. Envergonhada pela presença de Hawkins, ela olhou significativamente para o criado. Jackson dispensou o homem e ela continuou. – Eu não sei como entreter uma dama. Onde a receberemos? Devo servir...

 

- Sua graça sabe que você não foi educada sobre esses assuntos. – Jackson garantiu a ela. – Ela não espera que você dê conta de tudo desse modo.

 

Lucinda descobriu algo que nunca pensara sobre si mesma naquele momento. Ela queira dar conta “de tudo desse modo” como Jackson falara. Ela não queria ser uma vergonha nem para Jackson, nem para ela. – Devo servir chá. – ela decidiu.

 

- Hawkins servira chá. – Jackson disse.

 

- E precisamos servir alguns daqueles pequenos bolos gelados. Temos aqui em casa?

 

Ele quase sorriu. – Se não tivermos, mandarei Hawkins ir rapidamente ao Gunter´s para comprar.

 

Esquecendo-se do café da manhã, Lucinda começou a andar de um lado a outro. – Devo prender meus cabelos? Ela nunca fizera isso na vida, mas pensou que poderia lutar para pelo menos colocá-la acima do pescoço.

 

- Adoro seus cabelos soltos. – ele disse suavemente. – O modo como o sol brilha em seus adoráveis cachos fazendo-os brilhar com mechas douradas. Você é muito bonita, Lucinda.

 

Quando ele olhava para ela dessa maneira, Lucinda quase conseguia acreditar nele. Ela não se achava bonita. Ela era muito alta e muito magra e tão comum quanto lama. Se os homens prestavam atenção nela no passado era porque ela era uma mulher sozinha e os boatos diziam que era fácil conquistá-la, como todas as bruxas.

 

- Bajulação não o levará a lugar algum. – ela disse de forma cortante.

 

- Estou começando a perceber. – ele contra atacou. – Você admitiu estar curiosa. Estou curioso também. Por que não resolvemos esse assunto?

 

- Curiosidade matou o gato.

 

- Satisfação o trouxe de volta. – Ele se levantou e caminhou até ela.

 

Lucinda reprimiu a necessidade de fugir. Quando ele parou diante dela, ela teve de levantar a cabeça para olhar para ele. – Satisfazer sua curiosidade não faz parte de nosso acordo. – ela relembrou a ele. – Gosto de pensar que nosso arranjo é como uma sociedade comercial.

 

- Não há nada errado em misturar negócios com prazer. – ele disse, correndo um dedo pela clavícula dela fazendo-a estremecer. – Por que você trouxe a fera para fora?

 

Ele estava perfeitamente sério, ela percebeu. – Presumo que todas as mulheres a tragam para fora no seu caso. – ela respondeu.

 

- Não. – ele disse. – Não dessa forma. Não como noite passada. Você lançou um feitiço em mim?

 

Lucinda pensou na primeira noite quando ele regressara à residência, Poderia o feitiço que ela lançara estar funcionando?  Mas não, ela lançara um feitiço para que ele se apaixonasse por ela. Qualquer mulher sem atrativos poderia provavelmente inspirar a luxuria nele. Mas novamente, talvez tudo o que ele considerasse como amor era desejo. Talvez ele não soubesse a diferença.

 

- Você parece imune aos meus feitiços. – foi a resposta dela.

 

- Como você aos meus. – ele retrucou, e então, talvez apenas para provar que não acreditava em suas palavras por um momento, ele passou o dedo pela clavícula dela novamente.

 

Apesar de tentar, Lucinda não conseguiu evitar outro tremor.

 

Lucinda passou o resto da manhã se preparando para a visita da duquesa. Após o chá no salão principal, Sua Graça e a costureira subiram com Lucinda até o quarto. A duquesa-mãe carregava Sebastian no colo, arrulhando e cacarejando para a criança e fazendo uma grande algazarra com ele.

 

- Acho que mais um ajuste aqui na cintura. – a costureira disse enquanto Lucinda estava parada em frente a um espelho de corpo inteiro admirando o trabalho da mulher. Lucinda usava um vestido de cetim marfim, um que ela sabia que a duquesa havia escolhido para seu casamento. O vestido era belo e delicado.

 

- Com certeza. – a duquesa concordou. – Lucinda deve mostrar esse corpo de ampulheta. Com esse cabelo, essa pele e esse corpo ela vai ser o maior sucesso em Londres, pelo menos com relação aos cavalheiros. – ela acrescentou risada.

 

- Duvido que eu seja aceita na sociedade londrina. – Lucinda disse, desconfortável pela presença da costureira. A mulher continuou a dobrar e a medir como se não estivesse ouvindo a conversa. – Se o que ouvi for verdade, nem mesmo Jackson é aceito.

 

- Talvez. – sua graça concordou, fazendo cócegas no queixo duplo de Sebastian e recebendo nada mais do que um olhar perfurante por seus esforços. – Mas ninguém me diz quem pode freqüentar minhas festas, e eu ainda sou poderosa o suficiente entre a aristocracia que ninguém ousa esnobar meus convites também. Você terá a chance de exibir esses adoráveis vestidos, eu lhe prometo.

 

O pensamento deixou Lucinda um pouco enjoada. Se Lorde Cantley fosse um exemplo da classe superior, ela não queria ter nada a ver com eles. Ela decidiu não se preocupar com o assunto. Ela duvidava que permaneceria tempo suficiente em Londres para freqüentar qualquer festa e duvidada que Jackson desejaria ser visto em público com ela mesmo que ela ficasse.

 

- Pronto. Acho que acabei agora. – a costureira disse, ajudando Lucinda a tirar o vestido. – O resto de seu guarda-roupa estará terminado na próxima semana.

 

- Obrigada. – Lucinda disse a mulher. Seu antes vazio guarda-roupa agora estava com as portas abertas, e contendo uma variedade de lindos vestidos para o dia e trajes para a noite, as gavetas cheias de roupas de baixo de renda, meias e camisolas. Era impressionante pensar que ela agora possuía tantas roupas. A mãe de Lucinda a ensinou a costurar, mas os tecidos grosseiros e os vestidos simples que ela fazia para si própria eram pobres comparados as esses refinados.

 

Colocando um roupão de renda sobre suas novas roupas de baixo, Lucinda se dirigiu para a duquesa e pegou Sebastian. Lucinda sabia que Hawkins estava aguardando em algum lugar perto do topo da escada, esperando para conduzir as damas para baixo e para fora.

 

- Você virá me visitar em breve, não é? – a duquesa a perturbou. – Precisamos começar nossas lições antes de você poder se exibir na sociedade.

 

- É claro. – Lucinda mentiu. Que utilidade ela tinha de boas maneiras? Contudo, ela iria agradar a dama por enquanto. – OH! – balançando Sebastian sobre os quadris, Lucinda subitamente se apressou para sua mesa de vestir e pegou um pote. Ela retornou até a duquesa e entregou a ela. – Para seus cabelos. – ela sussurrou. – Aplique toda a noite e durma com um lenço amarrado à cabeça.

- Você se lembrou. – A velha senhora inclinou-se para frente e a beijou suavemente na face. – Você é menina muito querida.

 

Lucinda estava impressionada pela demonstração de afeição. Ela simplesmente ficou parada observando enquanto a duquesa e a costureira saiam do quarto.

 

- Hawkins, ajude uma velha dama a descer as escadas. – ela ouviu a duquesa chamar.

 

Vagarosamente Lucinda levou a mão até o rosto onde a velha senhora a beijara. Nunca ninguém a tratou com tanta delicadeza. Mesmo aqueles que ela ajudara na vila geralmente apenas acenavam com a cabeça um breve obrigado, seus olhos nunca encontrando com os dela. Eles tinham medo dela, ela compreendia. Até mesmo Lorde Cantley talvez tivesse medo de persegui-la como um homem normalmente persegue uma mulher.

 

Será que pensava que Lucinda o amaldiçoaria? Fizesse sua masculinidade encolher entre suas pernas e cair? Se apenas ela pudesse. A mágica de Lucinda não podia ser usada para prejudicar. Seus dons apenas podiam ser usados para fazer o bem, ou seriam tirados dela.

 

- Gosto muito dessa roupa que você está usando.

 

Assustada, Lucinda olhou para a porta e viu Jackson encostado lá, suas costas pressionadas contra o batente. Ele se afastou da porta e entrou. – Queria ver no que você gastou a fortuna da família. – ele explicou. – Seu olhar a mediu de cima a baixo. – Eu aprovo.

 

O rosto dela estava queimando. A delicada roupa de baixo mais revelava do que escondia. – Você não tem direito de entrar em meu quarto quando bem entender. – Lucinda o relembrou. – As roupas podem legalmente pertencer a você, mas o que está dentro delas não.

 

Ele arqueou uma sobrancelha. – Vamos nos casar. Você sabe o que diz a lei inglesa com relação ao matrimônio? Tudo o que você possui me pertencerá.

 

- Não possuo nada. – ela foi direto ao ponto.

 

- Exceto o que está dentro dessa encantadora roupa de baixo. – Ele caminhou até ela, e sua mão tocou levemente no seio dela durante o processo de tirar Sebastian dos braços dela. Ela pulou como se ele a tivesse queimado. Lucinda deu um passo para trás, imediatamente fechando o cinto com mais força ao redor dela.

 

- Temos um acordo, lembra-se?

 

- Dificilmente consigo esquecer quando você me lembra toda vez que eu chego à distância de um toque. – Ele segurou o bebê em frente a ele e sorriu para a criança, que soltou gritinhos de prazer. – Gostaria que sua mãe gritasse assim para mim. – ele disse à criança.

 

Franzindo a testa, Lucinda se aproximou e tirou a criança dele. – Você o está deixando muito excitado. Está na hora da soneca dele. Pode olhar o meu guarda-roupa o quanto quiser. Levarei Sebastian para Martha.

 

Lucinda queria se afastar de Jackson. Ela continuava a se lembrar da sensação de sua pele contra a dela. O modo perturbador com que seu corpo reagia a ele sempre que ele estava por perto. Ele pensou que ela lançara um feitiço contra ele. Ela tinha uma forte crença de que ele lançara um sobre ela. Ela entrou no quarto do bebê e entregou Sebastian para Martha. Lucinda ficou por ali mais um pouco, pretendendo dar a Jackson uma oportunidade de observar o guarda-roupa e, ela esperava, ter se retirado quando ela voltasse.

 

Martha se sentou na cadeira de balanço, desabotoou o vestido e levou Sebastian a seus grandes seios. A pobre mulher havia perdido o próprio filho, e Lucinda não estava certa de que havia um marido. Ela não queria bisbilhotar.

 

Enquanto observava Sebastian mamando, ela sentiu uma pontada de inveja. Como ela adoraria amamentar o próprio filho. Lucinda foi para o berço de Sebastian e esticou as cobertas, embora Martha já tivesse feito isso. Seus pensamentos voltaram para Jackson. Em seu quarto ali ao lado, os dedos dele tocando os tecidos de seus novos vestidos. Então uma visão surgiu em sua mente. Jackson em seus seios, o que causou uma reação muito diferente da ânsia de se amamentar o filho. Seus mamilos endureceram imediatamente.

 

O calor subiu por seu pescoço e rosto. Por que ela tinha tais pensamentos? E por que ela estava subitamente curiosa para saber como seria sentir a boca de Jackson sobre sua pele? Lucinda não deveria ter se interessado por coisas que eram melhor serem deixadas de lado na noite passada. Já havia tido uma fagulha inicial entre eles quando se conheceram. Por que adicionar combustível ao fogo?

 

Ela olhou para Martha. A ama seca estava com Sebastian apoiado sobre o ombro, batendo em suas costas apesar dos olhos dele estarem fechados no sono. Esperando ter dado tempo suficiente para Jackson pesquisar seu novo guarda-roupa e sair do quarto, Lucinda saiu nas pontas do pé do quarto de criança. Quando entrou no quarto, Jackson estava sentado em sua cama, olhando para as portas abertas do guarda-roupa.

 

- Pensei que já teria olhado até se fartar e já tivesse saído. – ela disse. Lucinda caminhou até o guarda roupa. A visão de todo aquele rico material e os lindos vestidos ainda a deixavam sem fôlego. Ela se voltou para Jackson. – Bem, você aprova?

 

Os olhos dele percorreram o corpo dela. – Como já disse, eu aprovo muitíssimo.

 

Jackson estava tentando enervá-la com seus olhares quentes e comentário sugestivos. Lucinda precisava dar um jeito nele, novamente. Ela se dirigiu para cama bruscamente e parou defronte a ele, mãos nos quadris.

 

- Meu rosto é mais para cima.

 

- Eu sei onde está o seu rosto. – ele disse, nunca olhando para ela. – E é um rosto adorável, mas no momento ele fica num pobre segundo lugar para a visão de seus mamilos pressionados contra sua camisa.

 

Lucinda ainda não havia tirado a visão dele sugando seus seios da mente antes de sair do quarto de criança. Ela devia ter esperado mais um pouco até poder controlar suas emoções. Autoconsciente, ela começou a fechar mais o roupão. Ele a impediu.

 

- Não. – ele disse. – Pelo menos dessa vez, não.

 

Ele segurou as mãos delas presas de cada lado. Ela pensou que ele simplesmente queria ficar olhando, mas ele se inclinou para frente e traçou a forma de seu mamilo através da camisa com a língua. Ela engoliu a arfada que sentiu levantando na garganta. Ele não tinha o direito. Ela podia lutar. Mas não o fez. Talvez a visão tenha sido apenas para avisá-la de que isso aconteceria. Talvez ela quisesse que acontecesse.

 

Às vezes ela se sentia ignorante sobre o que acontecia entre homens e mulheres. Ela frequentemente lidava com os resultados de tal tolice, mas nunca sentiu paixão. Não até encontrar Jackson. Era tão emocionante quanto qualquer poção preparada e tão difícil de resistir. Ela fechou os olhos e se permitiu o pequeno pecado do prazer.

 

Como se sentisse a vitória, Jackson liberou as mãos dela e a puxou mais para perto. Sua boca quente, úmida se fechou sobre o mamilo através do fino tecido de sua camisa. Ele o tomou gentilmente dentro da boca e o sugou. Lucinda não conseguiu controlar o suave gemido que saiu de seus lábios. As mãos dela foram até os cabelos dele, os dedos se enroscando nos cachos sedosos que caiam até seus ombros largos.

 

Sua camisa era fechada no pescoço por uma fita de veludo. Jackson a soltou com os dentes. Suas mãos subiram pela cintura dela, até as costelas e pouco depois ele abaixou a camisa expondo os seios. Lucinda se recusava a abrir os olhos. Atrás das pálpebras fechadas, ela podia fingir que não sabia o que ele estava fazendo.

 

As mãos dele se fecharam sobre os seus seios, e, bem como ela imaginara, elas eram boas contra sua pele. Ele tomou o mamilo em sua boca novamente, o sedoso toque de seus cabelos contra a pele quase tão erótico quanto sua boca sobre o mamilo. As mãos dela se enroscaram com mais força nos cabelos dele. Os joelhos dela tremiam.

 

- Você sabe o quão perfeita é? – ele perguntou, seu rosto se esfregando contra os seios dela. – Quão bonita?

 

Jackson a fazia se sentir perfeita. A fazia se sentir bonita. Ele empurrou a camisa mais para baixo, fazendo com que o fino roupão caísse de seus ombros ficando presos nos cotovelos. A língua dele traçou a forma abaixo de seus seios, então desceram ao estômago traçando uma linha quente. A pergunta sobre onde este estaria indo com aquela língua pecaminosa a fez abrir os olhos. A primeira coisa que Lucinda viu foi a porta aberta. Foi tão eficiente quanto se tivesse jogado um balde de água fria sobre ela.

 

- A porta. – ela ofegou. Lucinda o empurrou para longe, quase tropeçando em seu longo roupão enquanto tentava se afastar dele.

 

- Eu a fecho. – ele disse.

 

Jackson se levantou e se dirigiu até a porta, enquanto Lucinda lutava para se arrumar. Ela fechou com força o roupão ao redor dela e se juntou a ele, impedindo-o antes que ele fechasse a porta.

 

- Ponha-se do outro lado dela. – ela disse, sua voz trêmula. – Eu...nós não devemos.

 

Ele se aproximou e correu um dedo pela frente do roupão dela. – Por que não? Eu estava me divertindo muito, e não acho que você estava se importando muito também. – Ele se inclinou para frente e esfregou a orelha dela com os lábios.

 

As pernas dela tremiam tanto que ela temeu que ele notasse. Lucinda gostava de ter controle sobre sua vida, controle de suas emoções. Lorde Cantley havia lhe tirado o controle, seu direito de dizer não a ele. Jackson podia ser do tipo que não tomava o que uma mulher não desejasse entregar, mas ele não estava acima de seduzi-la para atingir o mesmo objetivo. Ela sabia que o que acabara de acontecer entre eles não era inteiramente culpa dele. Ainda assim, ela precisava lembrar a ele e a si mesma de que isso não fazia parte do acordo.

 

- É o meu corpo. – ela disse. – O que acontecer ou não entre nós será decisão minha.

 

Ele se afastou dela, olhando-a dentro dos olhos. – Nunca disse que não seria,

 

- E ainda assim você propositadamente tentou me seduzir em mais de uma ocasião. – ela acusou.

 

- Nunca disse que não o faria.

A calma dele diante de suas emoções desmanteladas enraiveceu Lucinda. Ele tinha o controle. Ela não. Lucinda se afastou dele. – Por favor, saia.

 

- Por que é tão difícil para você, Lucinda. Se entregar? Ser suave? Você é suave. Sua pele, seu cabelo, tudo menos seu coração.

 

Com as costas voltadas para ele, ela zombou das afirmações dele. – Novamente, você finge estar interessado em meu coração quando nós dois sabemos que não é disso que você está atrás.

 

As mãos dele em seus ombros a fizeram pular. – E se fosse, você o daria para mim, ou seria tão mesquinha com ele como é com o resto de você?

 

O coração de Lucinda estava protegido. Sempre estivera protegido. Apenas Sebastian tinha o direito de reclamá-lo, e assim mesmo, no final até mesmo ele poderia quebrar seu coração, mesmo não querendo. Ela deu um suspiro trêmulo. – Por favor, saia como lhe pedi. Nós temos um trato e nada mais. E isso será tudo o que teremos.

 

Ele tirou as mãos dos ombros dela. – Faça as malas. Nos casaremos amanhã. Vamos sair bem cedinho.

 

Ela se voltou para vê-lo parado na porta. – A licença. – ela o lembrou.

 

- Eu a tenho. E você terá o seu precioso acordo. Espero que ele te mantenha aquecida a noite.

 

A porta se fechou.

 

A estranha paróquia do interior ficava a duas horas de cavalgada de Londres. O vigário concordou em casar Jackson e Lucinda logo que Jackson apresentou a licença necessária. O homem mandou a esposa procurar por testemunhas apropriadas. Lucinda se sentou em uma pequena sala olhando pela janela para um jardim de flores do campo. O dia estava bonito, ensolarado e quente. Ela tirou o vestido marfim da mala, esperando que os amassados pudessem desaparecer com o calor úmido.

 

Era bobagem, mas ela queria parecer particularmente atraente. Ela não tinha véu, mas as lindas flores a chamavam e ela escalou a janela e foi para o jardim. Pegou uma quantidade suficiente para fazer um pequeno buquê, e mais um pouco para fazer uma coroa com as flores para usar ao redor da cabeça. Quando ela voltou pela janela, a esposa do vigário tinha entrado na sala e estava parada espremendo as mãos.

 

- Pensei que tinha mudado de idéia e fugido pela janela. – disse a mulher. – Não queria ter de contar ao belo cavalheiro.

 

Se fugir fosse uma opção, Lucinda supunha que teria feito exatamente isso. Ela tinha de ficar se lembrando que não era um casamento de verdade. Era apenas um acordo.

 

- Encontrei um casal na vila que concordou em ser testemunha de seu casamento.  – a mulher falou. – Está na hora de se aprontar.

 

- Foi difícil? – Lucinda perguntou, sentando-se na fraca cadeira de balanço para confeccionar sua coroa. – Encontrar alguém que testemunhasse por nós?

 

A mulher espremeu mais as mãos. – É por que ele é um Wulf. – a mulher sussurrou. – A família dele tem uma mancha negra sobre o nome. Mas ao olhar para eles você pensa que são anjos. – ela completou, um tanto quanto tristemente.

 

Não deveria surpreender Lucinda que Jackson e suas covinhas já tivessem seduzido a mulher. Com um suspiro, Lucinda voltou sua atenção para a coroa que confeccionava. Ela havia sido ensinada a entrelaçar quando era criança e levou pouco tempo para fazer o enfeite.

 

- Vou me arrumar agora. – ela anunciou, esperando que a mulher se retirasse.

 

- Estou aqui para ajudá-la. – A mulher do vigário olhou para o vestido que Lucinda tinha colocado sobre um pequeno catre na sala. – É um vestido adorável esse que vai usar. Acho que precisa de ajuda para vesti-lo.

 

Uma recusa se formou na língua de Lucinda, pois ela se sentia desconfortável com outras pessoas a ajudando a se vestir ou despir. Ela havia dito isso a Hawkins quando chegou à residência de Londres e ele se preocupara em procurar uma criada de quarto para ela. Mas Lucinda admitia que o vestido poderia se amassar mais sem uma ajuda de mãos extras com os botões nas costas.

 

- Tudo bem, - ela concordou. – Acho que quanto antes me arrumar, mais cedo terminará a cerimônia.

 

Um brilho travesso apareceu nos olhos da mulher. – Ansiosa pela noite de núpcias, não é? – ela riu. – Não posso dizer que a culpo por isso, criança.

 

Não haveria noite de núpcias, pelo menos não no sentido tradicional. Lucinda esperava muito que seu belo noivo se lembrasse disso.

 

 

Jackson descobriu que tinha pouco em comum com o vigário do interior. A conversação forçada acabou, e o casal que estava parado no canto olhava para Jackson como se esperassem que ele entrasse num surto psicótico, pegasse um machado e arrancasse as cabeças deles para servir no banquete de casamento. Ele deveria estar acostumado a ser tratado como um leproso, mas ele admitia que isso ainda o incomodava. Isso mais do que o incomodava. O fazia ficar nervoso.

 

 Ele olhou ao redor da igreja simples, e seu humor azedo imediatamente diminuiu. Lucinda estava parada aprumada na entrada. Ela era uma visão. O belo vestido de cetim era simples, mas abraçava as curvas femininas com perfeição. A coroa de flores do campo que ela usava na cabeça fazia-a parecer com uma fada. Os longos cabelos estavam soltos sobre os ombros, e ela carregava um pequeno buquê. Ele se sentiu um mal educado naquele momento. Ele devia ter se lembrado de apanhar as flores e presenteá-la com elas.

 

Nunca desviando os olhos dela, ele andou até onde ela estava parada, pegou suas mãos e a conduziu até o altar da igreja. O vigário era um homem de bom senso e a cerimônia continuou. Votos foram feitos, a voz de Jackson soando quase tão sagrada quanto a de Lucinda na pequena igreja. Ele pelo menos se lembrou de trazer uma aliança, e Lucinda corou quando ele deslizou a fina argola de ouro sobre seu dedo. Ele ficou um pouco nervoso porque serviu direitinho no dedo dela. Como se lá fosse o seu lugar.

 

Depois de assinarem os nomes nos documentos apropriados, ele pegou sua carteira e pagou o casal de testemunhas, que apenas aceitara esse encargo quando perceberam que ele seria responsável pela sua próxima vaca. Notando que o teto precisava de reparos, bem como o resto da igreja, ele também fez uma generosa doação ao vigário e sua esposa.

 

- Existe alguma estalagem aqui por perto onde podemos passar a noite e conseguir uma refeição? – Jackson perguntou ao vigário.

 

- O Crow´s Foot fica a menos de uma hora daqui. – o homem respondeu. – Embora uma turma encrenqueira freqüente a taverna que fica embaixo.

 

Taverna? A boca de Jackson se encheu de água.

 

- Talvez devêssemos  nos apressar para casa. – Lucinda disse suavemente.

 

Ele a olhou, lançando-lhe um sorriso tenso. – Você já começou a parecer uma esposa.

           

 

O Crow´s Foot realmente possuía uma taverna com fregueses mal encarados. Jackson ficou imaginando que ter cicatrizes era algum tipo de passaporte para poder entrar. Lucinda ainda usava o vestido marfim, e na escura e esfumaçada taverna ela parecia tão deslocada quanto num concurso de agarrar porcos. Ela não havia dito mais nada desde o comentário depreciativo que ele fizera na igreja, e com dificuldade ele tentava fingir que o cheiro de cerveja velha e vinho azedo não o excitavam tanto quanto ela.

 

- Vai querer uma caneca de cerveja, bonitão?

 

Uma garçonete com os seios escapando de sua blusa manchada parou na mesa deles. Ele tentou não notar que as beiras de seus grandes e escuros mamilos podiam ser vistos acima da blusa, já que havia se casado havia apenas uma hora.

 

- Jantar. – ele respondeu. Ele olhou para Lucinda. – Para beber?

 

- Leite. – ela respondeu suavemente.

 

A garçonete olhou feio, mas concordou com a cabeça. – Temos um bom ensopado de carne de cervo com pão duro para o jantar essa noite. O cozinhou pode ter perdidos uns dedos, mas faz um ótimo ensopado.

 

“Contanto que dos dedos não estejam no ensopado”- Jackson pensou. – Está ótimo. – ele disse.

 

- E para beber, milorde?

 

Jackson queria tanto dizer “cerveja” que teve de morder os lábios para evitar cuspir a palavra. – Vou querer leite, também. – finalmente respondeu.

 

Ele odiava leite, mas o leve toque da mão de Lucinda por debaixo da mesa quase valeu por desistir da cerveja. Quase.

 

O olhar de Jackson vagou pelo ambiente, percebendo que eles eram o objeto de atenção de muitos homens na taverna. Ou pelo menos, Lucinda era.

 

- Gostaria que você não fosse tão encantadora. – ele resmungou.

 

- Eu lhe disse que não devíamos ter vindo. – ela sussurrou.

 

Ele se voltou para ela. – Você não pode lançar um feitiço sobre si mesmo para fazer com que todos que a olhem a considerem horrorosa?

 

Ela revirou os olhos. – Se eu pudesse sair por aí lançando feitiços que servisse a quaisquer propósitos que eu desejasse, não teria vivido o tipo de vida que vivi.

 

Lucinda falava pouco sobre seu passado. Jackson estava curioso: - Foi horrível?

 

Lucinda abaixou os cílios. – Nem sempre. – foi tudo o que disse.

 

Pouco depois ela olhou de volta para ele. – E a sua vida?

 

Um pai que virou lobo uma noite durante o jantar e mais tarde se matou? Uma mãe que o seguiu ao túmulo? Um irmão caçula que desapareceu? Dois irmãos mais velhos que ficavam de pé golpe após golpe e nunca derramavam uma lágrima? Sim, Jackson era diferente de todos eles. A ovelha negra. O brincalhão. O bêbado. O mulherengo. Jackson chorou quando os pais morreram. Sozinho, em seu quarto, ele chorou por eles e pelo futuro frio que se estendia adiante.

 

Mas ele aprendeu a encontrar consolo em outras coisas. Coisas tolas, talvez, mas que na verdade salvaram sua sanidade.

 

- Minha vida foi melhor, eu suspeito, do que a sua. – foi a resposta dele.

 

- Aqui está o jantar. – a garçonete colocou uma bandeja na mesa riscada. – E o leite. – ela acrescentou com um ronco. Ela olhou ao redor. – Melhor comerem rápido e darem o fora daqui,

 

- Estamos planejando alugar um quarto lá em cima para passar a noite. – Jackson disse. – Nos casamos hoje.

 

A mulher franziu a testa. – É melhor não ficarem. – Se inclinando, ela abaixou a voz. – Ouvi as conversas nas outras mesas. Alguns estão planejando passar a noite de núpcias com sua noivinha aqui. Quanto mais encherem a cara, mais corajosos eles ficarão. Ouça meu conselho, comam e vão embora pelo mesmo caminho em que entraram.

 

A mulher se afastou. Lucinda, ele percebeu, parecia preocupada. – Pensa que não sou capaz de lhe proteger?

 

- Penso que seria tolice até mesmo se você tentasse, considerando-se as chances. – ela murmurou, colocando um pouco de ensopado em sua boca sedutora. – Digo que devemos seguir o conselho da mulher, comer e sair. Podemos dormir na carruagem a caminho de casa.

 

Apesar de saber que as duas mulheres provavelmente estavam certas, Jackson não queria ser escorraçado. Ele não era covarde. Embora, em seu conhecimento, ele não fosse um lutador também. Deveria sacrificar seu orgulho masculino em favor da segurança de Lucinda? Olhando ao redor da sala para os homens que olhavam lascivamente para sua noiva, ele decidiu que poderia e deveria. Ele tinha a responsabilidade de uma esposa agora...pelo tempo em que ela continuasse a ser sua esposa.

 

- Muito bem. – ele finalmente concordou. – Vamos jantar e seguir nosso caminho.

 

Lucinda estava feliz por Jackson ter mostrado bom senso com relação a partir da estalagem.  Ela sentia os olhos se movendo sobre ela, a despindo. Um homem com a aparência de Jackson e com mãos que nunca conheceram a vida dura não inspirava confiança em suas habilidades de proteção. Suas habilidades de sedução eram outro assunto. Resistir a elas no quarto no andar superior tinha pouco tão apelo para ela quanto os problemas que ela sentia ferver na pequena taverna.

 

Ela terminou o cozido e o pão antes de Jackson, mas controlou a língua para não apressá-lo. Como as feras nas florestas que sentiam o medo e reagiam atacando a presa mais fraca, ela não queria que os homens presentes percebessem que ela estava aterrorizada. Nem queira que Jackson soubesse de sua falta de confiança em sua habilidade de protegê-la.

 

Finalmente, ele afastou a comida, colocou uma moeda sobre a mesa e a ajudou a se levantar. Um coro de sons de apreciação masculino os seguiram através da taverna e porta afora. Jackson olhou com raiva para os homens enquanto saia, mas graças a Deus não desafiou ninguém.

 

O ar noturno estava duas vezes mais doce depois dos cheiros de suor masculino e cerveja rança da taverna. Lucinda respirou profundamente, agora conseguindo relaxar conforme se dirigiam aos fundos da taverna em direção às cocheiras.

 

Eles estavam quase chegando à segurança relativa da cocheira onde o condutor e o lacaio dormiam na carruagem, quando cinco sombras surgiram na noite e bloquearam o caminho deles. Lucinda prendeu a respiração. Jackson a pegou pelo braço o a puxou para detrás dele.

 

- Nós queremos a mulher. – uma das vozes quebrou o súbito silêncio.

 

- Eu a quero, também. – Jackson falou lentamente. – O problema é que a escolha é da dama, e acho que ela prefere a mim, seu marido, do que cinco de vocês.

 

- Nós desejamos fazer com que ela mude de idéia. – outro homem disse, os outros soltaram risos abafados.

 

- Somente sobre o meu cadáver. – Jackson disse, sua voz agora baixa, mortal.

 

Uma faca surgiu na escuridão, brilhando sob a luz da meia lua acima. – Isso pode ser arranjado. – o que segurava a faca garantiu a Jackson.

 

- Deixe-nos em paz. – Lucinda disse ao redor de Jackson, encarando as sombras. – Eu sou uma bruxa e os amaldiçoarei a todos se nos fizerem algum mal.

 

Jackson a puxou para detrás dele novamente.

 

- Não posso responder pelos outros. – o que segurava a faca disse. – Mas eu encararei minhas chances com a bruxa. Me parece que pelo que ela tem debaixo do vestido vale a pena ser amaldiçoado.

 

O estômago de Lucinda deu nó. Jackson atacou.

 

Sua ação rápida a pegou de surpresa, e obviamente aos homens nas sombras também. Ele chutou a faca da mão do líder, seguido de um golpe na cabeça que fez com que o homem cambaleasse para trás. Um rosnado soou na escuridão, mas Lucinda não sabia se partiu de Jackson ou de uma das sombras. Como um bando de animais, as sombras atacaram Jackson. Ela quase gritou quando eles o jogaram no chão. Os homens caíram sobre ele antes dela conseguir expressar seu terror. De algum modo, Jackson conseguiu ficar em pé novamente.

 

Se ela achou a força dele não natural, os homens nas sombras eram mais devagar em suas considerações. Eles partiram para cima de Jackson novamente. E novamente ele os afastou com os pés e os punhos. Na escuridão, uma sombra em um grupo de seis destacava-se claramente. Ela via o brilho azul nos olhos de Jackson. Movidos agora pela sede de sangue, seus atacantes pareciam não perceber que sua vitima não era um homem comum.

 

Jackson lutava com graça e sutileza e Lucinda pensou como ela pudera duvidar de suas habilidades para protegê-la. Era, talvez, o resto da humanidade que precisava de proteção...contra ele. Distraída pela luta, ela não notou que uma sombra tinha se deslizado para longe das outras. Ela sentiu o cheiro dele antes de ele tampar sua boca com uma mão suja.

 

- Vamos nos divertir enquanto os outros estão ocupados. – ele sussurrou cruelmente na orelha dela.

 

Lucinda reconheceu a voz do homem como sendo a do líder. No começo ela estava muito abalada para lutar, mas quando o homem tentou afastá-la dos outros o instinto superou o choque. Ela tentou chutá-lo, seus esforços impedidos pelo longo vestido. Ele tinha um braço ao redor dela, bem debaixo dos seios, quase a impedindo de respirar. Ele viu Lorde Cantley em sua mente e permitiu que toda a raiva que fermentava dentro dela viesse à superfície. Ela não pôde lutar contra ele quando ele a estuprou, mas ela podia lutar agora.

 

- Não. – ela disse. – Nunca mais novamente!

 

Ela arranhou o braço do homem com as unhas. Ela chutou para trás e conseguiu atingir a perna dela, o que não foi tão eficiente por causa de seu sapato delicado. Ainda assim, o homem afrouxou o aperto, lançando um palavrão na orelha dela. Lucinda quase escapou antes de ele se aproximar e agarrá-la pelo ombro, e rasgar o vestido dela na tentativa de puxá-la para ele novamente.

 

Um rosnado baixo soou atrás dela. A mão do homem caiu de seu ombro. Ela não conseguia ver o que estava atrás dela, mas viu o branco dos olhos do homem que a atacara quando ele arregalou os olhos.

 

- Mãe de Deus – ele sussurrou, tropeçando para trás. – O que é ele?

 

Bem devagar, Lucinda se voltou para encarar o que provocara o medo nos olhos e voz do líder. Jackson estava parado na frente dela, seus olhos estranhos ardendo na escuridão, suas presas brilhando a luz da lua. Ela sabia a intenção dele. Sabia pela expressão transtornada em seu rosto. Ele pretendia matar o líder. Ele pretendia rasgar a garganta do homem com os dentes. Embora Lucinda não sentisse grande compaixão em ver poupado um homem que planejava estuprá-la, ela sentia compaixão por Jackson. A fera o comandava agora, mas o homem teria de encarar as conseqüências das ações da fera.

 

Ela se encaminhou para ele. – Não, Jackson. – ela disse calmamente. – Deixe-o ir. Ele rosnou a ela em resposta, mas ela ficou firme. – Você é um homem – ela continuou. – não uma fera sem condições de raciocinar. Volte para mim.

 

Atrás dela, ela ouviu os passos do homem que a atacara enquanto ele fugia deles. A cabeça de Jackson voltou-se naquela direção. Ele começou a persegui-lo, mas novamente Lucinda se colocou entre Jackson e o homem que fugia.

 

- Preciso de você aqui comigo, agora. – ela ordenou. Corajosamente ela deu um passo para frente e passou a mão no rosto dele. Suavemente ela começou a cantar. Uma canção de ninar que ela frequentemente cantava para Sebastian para acalmá-lo. Jackson estava claramente dividido, seu olhar brilhante fixo nela, depois vagando atrás dela onde ele sem duvida ainda via e ouvia o homem fugindo na escuridão.

 

Lucinda continuou a cantar, a atrair seu olhar até que a luz começou a diminuir nos olhos dele. Seus dentes voltaram aos poucos ao normal. O corpo dele reagiu violentamente – tremores súbitos percorrendo todo o corpo dele como se uma batalha entre homem e fera estivesse ocorrendo dentro dele. Ele caiu de joelhos, e Lucinda foi até ele. Lá à luz da lua, ela o envolveu em seus braços e o segurou até que os tremores passassem.

 

Ela não percebeu que também estava tremendo até que ele se levantou, a puxou para bem perto do calor do corpo dele e a carregou de volta até a estalagem. Ela queria protestar por entrar novamente naquele lugar, mas seus dentes estavam subitamente batendo tanto que ela não conseguia falar. Dois homens tropeçaram para fora, permitindo a Jackson deslizar facilmente para dentro da taverna no piso inferior enquanto carregava Lucinda nos braços.

 

Um silêncio mortal caiu sobre os fregueses quando viram Jackson e Lucinda parados lá. Jackson, como um verdadeiro lorde, simplesmente os ignorou, lançando ordens por cima dos ombros enquanto subia as escadas que conduziam ao quartos no andar superior e, sem duvida, esperando que suas ordens fossem obedecidas. Ele entrou em um quarto aberto, uma lâmpada queimava sobre uma mesa arranhada e marcada como as do andar inferior como um sinal de boas vindas. Ele carregou Lucinda para uma cama cheia de grumos e gentilmente a deitou sobre ela.

 

Levantando-se ele tirou seu refinado casaco, que não parecia mais tão refinado quanto antes. Ele gentilmente colocou o casaco sobre ela, e ela se aninhou no calor do corpo dele que permanecia nele.

 

A garçonete de antes apareceu com um jarro e uma bacia, panos para lavagem nos braços. – Disse que tinha problema se formando. – ela murmurou. – Os dois têm sorte de não estarem esticados nos fundos da taverna com as gargantas cortadas.

 

- Deixe a bacia aqui. – Jackson indicou a mesa. – Traga um copo de brandy aquecido.

 

A mulher começou a bufar de raiva, mas Jackson a interrompeu. – Por favor, - ele acrescentou. – Você será recompensada pelo trabalho.

 

A mulher acenou com a cabeça e se apressou em fazer o que foi ordenado.

 

Lucinda observou Jackson despejar água na bacia, molhar um pano, torcê-lo. Ele voltou para perto dela, gentilmente umedecendo seu rosto e pescoço.

 

- Você precisa mais disso do que eu. – ela conseguiu dizer através dos dentes que batiam. – Seu lábio está ensangüentado.

 

- Não é nada. – ele disse. – Estava com tanta raiva de pensar que um deles pudesse tocar em você que nem senti os golpes que conseguiram aplicar em mim.

 

- Eu lhe devo uma desculpa. – ela disse,

 

Ele levantou uma sobrancelha.

 

- Eu não pensei...quer dizer... não tinha muita confiança em você. Estava errada.

 

- Confiança é uma emoção que eu raramente inspiro nas pessoas.  – ele disse. – Nunca deveria ter lhe trazido aqui. Devíamos ter seguido direto para casa como você sugeriu na paróquia.

 

A garçonete e um homem, que pelo jeito parecia ser o proprietário da hospedaria, entraram. A mulher colocou um copo com um liquido dourado na mesa, então foi até uma pequena lareira e se ajoelhou defronte a ela, com a intenção de acender o fogo.

 

- Fiquei muito aflito ao saber que foram emboscados por alguns dos meus rudes fregueses da taverna – o homem disse. – Por favor aceite minhas sinceras desculpas.

 

- Nenhum mal realmente aconteceu. – Jackson disse secamente. – A dama, minha esposa, contudo, ficou muito nervosa com o incidente. Uma boa noite de sono e nós partiremos pela manhã.

 

Jackson caminhou até a cama, pegou sua bolsa de moedas no bolso do casaco, e entregou ao homem uma boa soma. – Confio que seja o suficiente para não sermos mais perturbados essa noite.

 

Os olhos do homem se acenderam com óbvio prazer. – Colocarei meu melhor homem no pé da escada para garantir que ninguém suba. – ele disse. – Embora, ele acrescentou franzindo a testa- será difícil se alguém desejar um quarto para passar a noite.

 

Jackson despejou mais umas moedas e as entregou para o homem. – Você não tem quartos disponíveis. Isso deve pagar pelo andar inteiro. Também, envie alguém de confiança até minha carruagem e traga nossa bagagem aqui em cima e a deixe na porta.

 

O homem inclinou a cabeça. – Como desejar, milorde.

 

Ambos, o dono da estalagem e a garçonete, saíram do quarto. Jackson pegou o copo de brandy. Ele girou o brandy no copo e o cheirou. Lucinda quietamente aguardava que ele bebesse o conteúdo. Ela não podia culpá-lo pelo lapso em sua disciplina considerando o que eles passaram. Ele caminhou até a cama e sentou-se ao lado dela.

 

- Não tem a qualidade que eu esperava, mas beba mesmo assim. Vai eliminar o tremor. – Ele estendeu o copo na direção dela.

 

- Para mim? – ela estava surpresa.

 

- Você não pensou que era para mim, não é? – ele provocou. – Eu não bebo.

 

Ela deveria recusar, pois Lucinda jamais ingeriu bebida alcoólica, mas como poderia? Além disso, ela temia que se recusasse daria a ele razão para beber ele mesmo. Não seria bom se ficasse ali, tentando-o. Ela se esforçou para se apoiar nos cotovelos, afastando o casaco para pegar o copo que ele oferecia. Ela trouxe o copo até os lábios e bebeu um golinho. O licor desceu queimando pela garganta e a fez engasgar.

 

- É bom, não é? – Jackson continuava a provocar.

 

- É horrível. – ela conseguiu arfar.

 

- Mas vai aquecê-la. – ele lhe garantiu. – Beba tudo.

 

Lucinda se apressou e bebeu o copo todo. Ela passou vários minutos tossindo depois, mas ele estava certo; um calor agora queimava em seu estômago. Jackson pegou o copo vazio, levantou-se, e caminhou até a mesa onde o jarro e a bacia estavam. Ele olhou para o copo por um momento, e ela meio que esperou que ele o espremesse para que saísse uma gota, mas ele o colocou de lado. Ele foi até a porta, a abriu, e saiu, voltando um segundo depois com as valises dele e dela.

 

 - Você trouxe uma camisola?

 

Ela sacudiu a cabeça. – Não. Pensei que voltaríamos direto para Londres após a cerimônia. Ele se dirigiu até a mesa em que estavam o jarro e a bacia, então tirou a camisa pela cabeça. Lucinda engasgou, não por causa da quantidade de carne firme e musculosa que se mostrava para ela, mas porque ele tinha vários arranhões e machucados que já estavam ficando roxos em seu torso. Ela jogou o casaco dele de lado e levantou-se, indo até ele.

 

Ela pegou o pano que ele havia mergulhado na bacia e o torceu. – Deixe-me ajudá-lo.

 

- Você deveria estar na cama – ele argumentou. – Isso não é nada. Uns poucos arranhões e alguns machucados.

 

Lucinda ignorou os protestos dele. Ela foi até o sangue nos lábios dele. Tocando leve e gentilmente, os olhos dela focalizados na boca dele, ela mais uma vez ficou intrigada por quão perfeitos eram os lábios dele. O pensamento de seus dentes expandidos anteriormente ela tentou ignorar. Ele comentou o assunto.

 

- Está acontecendo com mais freqüência. – ele disse mansamente. – O que significa? A fera me tomará completamente logo? O homem se perderá?

 

Lucinda tinha uma teoria sobre o assunto. – Só posso presumir que suas emoções estão simplesmente mais entrelaçadas. – ela respondeu. Ela olhou para ele e para a preocupação que se refletia nos olhos escuros. – O homem ainda é o mais forte dos dois. Você provou isso hoje à noite.

 

- Mas mais forte por quanto tempo?

 

A pergunta era dirigida mais a si mesmo do que a Lucinda, então ela não disse nada. O quarto subitamente ficou mais quente enquanto ela esfregava o pano úmido sobre a pele dele. Sua cabeça estava leve. A bebida, ela compreendeu. Não era um sentimento completamente desagradável, ela admitiu. Ela sentiu suas inibições sumindo, e uma vez se esqueceu de usar o pano para molhar a pele dele e ao invés disso, correu as mãos pelas inclinações e contornos do peito dele.

 

- Você está tentando me seduzir, Lucinda? – ele perguntou suavemente.

 

O olhar dela subiu para o rosto dele. – Não. – ela revelou, talvez muito defensivamente. – Eu estou...eu estou bêbada! – ela subitamente compreendeu, balançando levemente até que ele a estabilizou. Suas mãos quentes queimando os ombros dela, um completamente despido, ela percebeu, seu atacante tinha arrancado completamente o tecido.

 

- Vamos despir você e a levar para cama. – disse Jackson.

 

Ela se afastou, ainda cambaleando um pouco. – Você gostaria disso, não é? – ela lançou as palavras. – Entorpecer meus sentidos com a bebida e conseguir me possuir enquanto não consigo me defender?  Você é igual a todos os homens.

 

Jackson se aproximou e a estabilizou novamente. – Não sou como todos os homens e você sabe disso. – ele disse. – Já levei muita mulher alcoolizada para cama, Lucinda, mas elas sempre me fizeram saber que queriam ter intimidades antes de nós...

 

- Que história para contar à esposa na noite de núpcias – ela interrompeu. – Não me admira que sua amada não aceitou se casar com você.

 

- Não é uma noite de núpcias de verdade, Lucinda. – Jackson a relembrou. – Não a menos que você queira que seja.

 

- Você sabe que eu não quero. – ela tentou caminhar, mas tropeçou. Ele a estabilizou novamente. – Você pode ter seduzido muitas mulheres com essa sua língua sedutora, mas a mim você não derrotará com ela.

 

Ele suspirou como se ela lhe tirasse a paciência. Subitamente ele se inclinou e a pegou nos braços, carregando-a para a cama. – Você não faz idéia do que posso fazer com minha língua. – ele disse, e então a depositou sobre a cama.

 

Sua esposa parecia particularmente sedutora com seus cachos vermelhos bagunçados, seus olhos verdes soltando fogo e o ombro do vestido faltando. Como Jackson gostaria de beijá-la até que ela silenciasse... até que se submetesse, mas depois de seu comportamento para com ela na noite do ritual da meia-noite, ele havia se prometido que se controlaria quando se tratasse de Lucinda. Ele especialmente pretendia seguir a promessa hoje à noite, enquanto a fera ainda pairava tão perto da superfície.

 

Lucinda lhe dissera que suas emoções estavam mais entrelaçadas. Estariam mesmo? E se estivessem, por quê? Ela deixara bem claro para ele que não o desejava...ainda assim, às vezes, quando ele olhava para dentro dos olhos dela, ele pensava ver mais do que o frio acordo entre eles. Ele pensava que sentia mais, também. Mais do que a necessidade de acabar com a maldição da família. Mais do que apenas o desejo de se endireitar e se transformar em algo mais do que fora no passado. Seria Lucinda quem o fazia desejar ser um homem melhor? Talvez o feitiço que ela admitira lançar sobre ele na noite em que ele voltara para casa e a encontrara em sua cama estivesse funcionando.

 

Talvez ele simplesmente estivesse sem companhia feminina por tempo demais. Sua escolha, ele entendeu. Novamente, algo fora de seu caráter.

 

- Você me prometeu. – ela disse, mas o fogo havia deixado seus olhos e suas pálpebras pareciam pesadas. – Você me prometeu que não se aproveitaria. Você disse que o casamento seria apenas no papel.

 

- Não. – ele a corrigiu. – Você disse todas essas coisas. Eu meramente disse que obedeceria a suas vontades, fossem quais fossem na época. Nunca prometi que não tentaria fazer com que mudasse de idéia.

 

- Minha mente não está funcionando bem essa noite. – ela disse. – Você entende bem isso, não é?

 

Ele afastou uma mecha de cabelo da testa dela. – Feche os olhos e durma, Lucinda. Você está segura comigo. Pelo menos por essa noite.

 

Ela não queria confiar nele. Ele viu que ela lutava contra os efeitos do cansaço, do choque, e do brandy, mas no final se rendeu ao sono. Ela parecia desconfortável no vestido rasgado. Ele imaginou que ela estava usando um espartilho, pelo menos a maioria das mulheres usavam, e que poderia dormir mais profundamente sem o aperto. Jackson a virou gentilmente até ficar de bruços. Ele vagarosamente desfez os laços nas costas do vestido dela.

 

A pele dela o chamava. Tão pálida e macia e suave, cada toque acidental de seus dedos nas costas dela envia ondas de choque de desejo através dele. Ele tentou evitar as sensações, tentou focalizar na tarefa que fazia e a encarava apenas como uma obrigação que devia ser feita para o conforto dela.

 

Que ele estivesse altamente desconfortável não era para se levar em conta. Ele podia conseguir a confiança dela. Ele podia ser confiável se se concentrasse bastante. O espartilho dela estava amarrado nas costa, e, experiente nos assuntos de despir mulheres, Jackson soltou os laços em um curto espaço de tempo. Ele a virou de costas novamente, então começou a remover o vestido rasgado.

 

A seda da roupa de baixo dela sussurrava contra as mãos dele. Ele imaginava que a pele dela seria ainda mais macia do que a seda e lutou para não tocá-la mais do que o necessário. A fera ainda estava perto demais da superfície para fazer com que a batalha fosse fácil para ele.

 

Ele estava suando quando acabou de remover o vestido e a anágua dela. Ele tirou os sapatos dos pés dela e olhou a fina seda de suas meias. Suas mãos quase tremeram quando ele as correu acima pelas finas pernas dela, debaixo de seu lingerie de seda que chegava à altura dos joelhos, até o lugar acima das coxas onde ficavam bem apertadas para permanecerem no lugar.  Ele tentou ignorar o calor e maciez das coxas dela. Não conseguiu.

 

Uma vez que a tarefa estava cumprida, com os nervos abalados e gritando, ele se levantou e colocou as roupas removidas sobre uma cadeira. Ele reabasteceu a lareira com lenha e ficou parado defronte a ela por uns momentos, olhando para Lucinda através do quarto.

 

Pedaços da noite começaram a passar pela mente dele. A luta, sua raiva por qualquer homem ousar colocar as mãos em Lucinda. Qualquer homem, obviamente, exceto ele. Ele se lembrou de algo que penetrou em sua raiva então. Quando os outros homens fugiram pela escuridão e Lucinda lutara com o líder, ela dissera “Não. Nunca mais novamente!” Nunca mais novamente o que? ele se perguntava.

 

Ela se moveu, deitando-se de lado. Ela trouxe os joelhos para cima mais perto do corpo. Os olhos dele se fixaram nos seios dela, que quase escapavam do decote baixo de sua camisa. Eram perfeitos para ele, enchendo suas mãos, mas não excessivamente grandes. Ele se lembrava do gosto dos pequenos mamilos rosados em sua boca, as mãos dela envolvendo seus cabelos.

 

Jackson se aproximou da cama e olhou para ela. Ele tinha duas opções. Cair na cama com ela e tentar dormir até de manhã...ou vestir uma camisa, descer na taverna e beber descontroladamente.

 

Lucinda acordou com a cabeça doendo e sentindo pele quente e firme pressionada contra ela. Abriu os olhos e gelou. Ela estava meio esparramada sobre Jackson. Tudo o que via era peito nu dele, sua cabeça estava acomodada debaixo do queixo dele. Ela imediatamente tentou se afastar. Sua cabeça bateu no queixo dele. Ela ouviu os dentes dele baterem. Ele falou um palavrão.

 

Levantando-se, ela olhou para ele – O que você fez comigo?

 

Esfregando o queixo ele disse. – Você é que quase me quebra os dentes!

 

- Não estou dizendo agora. – ela bufou de raiva. – Noite passada. O que você fez comigo?

 

O coração dela já estava martelando no peito. A visão de Jackson Wulf, deitado de costas nos lençóis brancos seminu já era o suficiente para que ele disparasse. Ao invés de responder, ele baixou os olhos para os seios dela. Ela olhou para baixo, percebendo que também estava quase despida. E os seios quase saindo pela frente da camisa. Ela fechou a camisa, pensando onde tinha parado a fita de seda que a mantinha fechada.

 

- Você me despiu!– ela acusou

 

- Você parecia desconfortável. – ele respondeu.

 

- Você não tinha o direito!

 

- Sou seu marido!

 

O coração dela gelou, quase parou. Teria ele insinuado que tinha o direito de fazer mais do que despi-la? E que ele exercera esses direitos enquanto ela jazia inconsciente pela bebida? Ela não se sentia mais diferente do que quando se casara, apesar da dor de cabeça. Quer dizer, ela não sentia dores em lugares que sentiu quando Lorde Cantley a estuprara. Mas isso significava alguma coisa?

 

- Você... – Ela parou e respirou fundo. – Você...

 

- Se eu tomei liberdades escusas com você? – ele subitamente se inclinou na direção dela. – Se eu beijei você todinha? Se eu usei minhas mãos em você, minha língua, toda e qualquer coisa para lhe dar prazer?

 

Ela engoliu em seco audivelmente, os olhos deles presos uns nos outros, a boca dele a milímetros da dela.

 

- Se eu consegui passar por suas defesas e a penetrei? Se eu a preenchi, a completei, se a levei a alturas vertiginosas que você nunca tinha alcançado?

 

Novamente, ela engoliu o nó em sua garganta.

 

- Se eu a fiz gritar meu nome quando finalmente encontrou o prazer, e se gritei o seu quando o prazer se tornou tão intenso que eu não pude mais resistir e me entreguei a ele?

 

Ela não conseguia desviar os olhos dele. Era como se ele tivesse lançado outro feitiço contra ela. O rosto dela deveria estar pegando fogo, mas tudo o que sentia era o calor por entre as pernas. – Você fez? – ela sussurrou.

 

Ele se deitou de costas contra os travesseiros. – Não. Mas eu queria. – ele acrescentou. – Passei a noite toda querendo.

 

Eles se sentaram na cama, ainda encarando-se, por um tempo desconfortavelmente longo. Finalmente Lucinda disse. – Quero ir para casa. Estou com saudades de Sebastian.

 

Jackson desviou os olhos dela e o feitiço se quebrou. – Certamente, vamos partir dessa terrível estalagem e voltemos para Londres.

 

Ela começou a se levantar, mas ele envolveu sua mão no braço nu dela. O ar quase vibrou de estática ao toque dele. – Eu cumpri minha parte em nosso acordo. Agora é hora de você cumprir a sua. Quero que essa fera que me controla até mesmo quando a lua não está cheia parta. Quero que ela seja banida da vida de meus irmãos também. Se você me enganou fazendo promessas que não pode cumprir, eu não vou responder por mim mesmo. Entendeu?

 

Vagarosamente, ela concordou com a cabeça. Esse era o lado negro que ele escondia do resto do mundo. Ele não era um homem que podia ser enganado. Esse não era o piadista, o bêbado ou o mulherengo. Esse homem era perigoso. Esse homem tinha o futuro do filho dela em suas mãos.

 

- Eu compreendo. – ela disse.

 

 

Conforme a carruagem passava pela vila da paróquia, Lucinda notou que os aldeões olhavam com temor para o veículo e corriam para suas casas, batendo as portas contra eles. Ela olhou para Jackson do outro lado da carruagem. Ele também estava olhando para fora. Ele lhe deu um sorriso.

 

- Bem vida ao mundo dos condenados.

 

- Não é um mundo completamente desconhecido para mim. – ela garantiu a ele. – Quem pode dizer se eles estão se escondendo de você ou de mim?

 

- O lobo e a bruxa. Formamos uma dupla, não?

 

Pelo menos Jackson tinha esperança. Quando ela quebrasse a maldição, ele não seria mais um lobo. Lucinda sempre seria uma bruxa. Ela havia nascido assim, não podia escolher e não podia mudar quem era. Ela sabia muito bem que se Jackson não fosse amaldiçoado, o destino nunca o conduziria até sua porta e ele não lhe daria um segundo olhar.

 

Ao invés disso, agora era sua esposa. Pelo menos por enquanto. Já que ele voltara a olhar para fora, ela presumiu que ele não estava esperando por resposta. A carruagem diminuiu, e obviamente curioso do por que, Jackson colocou a cabeça para fora da janela. Lucinda fez o mesmo.

 

Um homem estava parado na estrada, acenando com as mãos no ar. Pelas roupas ele era um camponês plebeu, mas seu rosto estava branco e seus olhos pareciam os de um louco.

 

- Por favor, eu imploro sua ajuda! – ele chamou.

 

A carruagem parou pesadamente em frente ao homem. Jackson havia descido antes de o lacaio chegar à porta.

 

- Qual o seu problema, homem? – Jackson se dirigiu a ele.

 

- Minha esposa. – o homem grasnou . Seu olhar selvagem passou por Jackson e foi até a carruagem para Lucinda, que ainda estava com a cabeça para fora da janela. – Por favor, seja ou não bruxa, use qualquer mágica que possua para salvá-la. Ela está em trabalho de parto há dois dias, e o bebê ainda não nasceu. Temo que vá perder os dois.

 

Lucinda desceu do coche num piscar de olhos. – Onde ela está?

 

- Por aqui.

 

O homem se virou e correu pela estrada. Lucinda começou a seguir, mas quando passou por Jackson ele se aproximou e a agarrou pelo braço. – Você é minha esposa agora. – ele a relembrou. – Não uma bruxa plebéia do interior.

 

Suas palavras a surpreenderam. Surpreenderam e enraiveceram. – Oh, percebi – ela disse. – Tudo bem se eu for uma bruxa para sua causa, mas não para ajudar os outros. – Ela puxou os braços do aperto dele. – Posso ser sua esposa agora, mas isso não muda o que sou. Não mais do que ser meu marido muda o que você é. - Ela passou por ele bruscamente e seguiu o homem.

 

Jackson estava ao lado dela pouco depois. Ele não mais discutiu, mas ela podia dizer por sua expressão fechada que ele não estava contente com a decisão dela.

 

A cabana a que chegaram era pequena, mas então Lucinda percebeu que não era menor do que a maioria; apenas assim parecia porque agora ela morava em uma casa enorme. Ela entrou na cabana escurecida e imediatamente sentiu o cheiro da morte. Ela se dirigiu a um pequeno quarto, não se sentindo confortável por ver uma frágil mulher deitada muito quieta na cama. Se a mulher estivesse se movimentando e gemendo seria um sinal melhor.

 

- A senhora deve salvar minha Miranda. – o homem engasgou. – Não é muito que pude dar a ela desde que nos casamos, mas ela sempre teve meu coração. Não posso viver sem ela.

 

Lucinda sorriu suavemente para o homem. – Farei o que puder. – ela prometeu – Acenda um fogo. Está frio aqui dentro.

 

Não estava tão gelado, mas Lucinda queria dar ao homem algo que fazer, algo que o mantivesse ocupado enquanto ela examinava a mulher. Lucinda se arrastou para dentro do quarto e caminhou até a cama que o casal dividia. Ela colocou uma mão contra a testa da mulher. Ela estava fria e úmida. Não era um bom sinal. A jovem mulher abriu os olhos.

 

- Você é o anjo que veio me levar e a meu bebê até o céu?

 

- Não. – Lucinda garantiu a ela. – Estou aqui para ajudá-la e a seu bebê a ficar nesse mundo.

 

- Não estava perguntando a você. – a mulher a surpreendeu dizendo isso – Estava perguntando a ele.

 

Lucinda olhou por sobre os ombros e viu Jackson parado ao lado dela.

 

- Não sou anjo. – Jackson disse a mulher. – Mas sou seu guardião. Seu marido me enviou para proteger você.

 

- Gerard? – ela sussurrou. – Onde ele está? Quero dizer adeus a ele.

 

Lucinda tocou o estômago inchado da mulher. Ela esperou; então, aliviada, sentiu a criança se mover debaixo de sua mão.

 

- Não quero ouvi-la falando sobre adeus. – Jackson se moveu ao lado de Lucinda, pegou a mão da mulher e se sentou na beira da cama. – Seu homem não tem lugar aqui. Ele não poderá ajudá-la, embora ele me pedisse para dizer que a ama.

 

O rosto pálido da mulher se iluminou. – Ele é um bom homem, meu Gerard. Espero lhe dar um bom filho para ajudá-lo nos campos.

 

- E assim será. – os olhos de Jackson encontraram os de Lucinda.

 

Ela havia levantado o lençol e sentido onde precisava sentir. Seus dedos eram gentis, mas a criança ainda não estava a caminho.  A passagem da mulher era muito estreita, a saliência no estômago muito grande. A criança não poderia vir ao mundo. Não do jeito normal. Lucinda tentou transmitir a triste notícia a Jackson com os olhos.

 

Ele olhou de volta para a mulher, sorriu, e Lucinda viu que ele apertou a mão dela gentilmente. – Que nome você escolheu para a criança?

 

- Estamos pensando em Gerard, como o pai se for menino. Claro que o chamaremos de Gerry para não confundir os dois.

 

- Claro – Jackson concordou. – E se a criança for menina?

 

- Elizabeth. – ela respondeu, sua voz falhando. – Como minha mãe.

 

- É um nome muito bonito. – disse Jackson. Quando ele olhou novamente para Lucinda, ela o chamou para perto dela.

 

- Você precisa descansar, Miranda. – ele disse suavemente, soltando a mão dela e colocando-a de lado. – Descanse para recuperar suas forças.

 

A jovem mulher fechou os olhos. Jackson se levantou e se juntou a Lucinda aos pés da cama. – Não há nada que possa fazer por ela? – ele sussurrou. – Nem mesmo mágica?

 

- Apenas a mágica da faca.

 

Os olhos dele se arregalaram. – Da faca?

Lucinda olhou para a mulher adormecida, pegou o braço de Jackson e o conduziu para fora do quarto. O jovem marido da mulher estava parado olhando para o pequeno fogo que havia acendido. Quando os viu, foi em direção a eles.

 

- A senhora pode salvá-la? – ele perguntou a Lucinda.

 

- Talvez. – ela respondeu. – Preciso cortar sua mulher para retirar o bebê. A criança não nascerá sozinha e ambos podem morrer.

 

- Cortá-la? – o homem parecia horrorizado. – A senhora é uma bruxa, como dizem. E o senhor. – ele voltou o olhar enlouquecido sobre Jackson. – Ninguém ao menos sabe o que o senhor é.

 

Jackson se aproximou e agarrou o homem pela garganta. – Eu sei o que sou. Não sou um homem que permite que minha esposa e filho morram por causa de superstição. Se tivesse que vender minha alma ao diabo, eu o faria para salvar alguém que amo.

 

O homem engoliu duro. Jackson o soltou. – Agora, devemos partir, ou ficar e fazer que esse seja um dia feliz para você, ao invés de um dia triste?

 

Esfregando o pescoço, o homem olhou para Lucinda. – Faça o que deve ser feito.

 

O gelo ao redor do coração dela se partiu quando Jackson fez sua declaração apaixonada ao homem. Ela duvidava que tivesse dobrado o fazendeiro sem a ajuda de Jackson.

 

- Preciso de algumas coisas. – ela se despertou e disse ao homem. – Uma faca grande. Afiada. Muitos panos. Uma linha boa e forte e uma agulha grande. E bebida alcoólica. – ela acrescentou.

 

- Tenho tudo isso – o homem respondeu. – Quanto à bebida, não tenho muito na garrafa. Eu a escondo para que Miranda não fique brigando quando bebo um golinho de vez em quando.

 

- Apenas se certifique de que um golinho de vez em quando não se transforme em muitos goles de vez em sempre.  – Jackson disse secamente.

- Preciso lavar as mãos – Lucinda disse. – Você tem um sabão bem forte?

 

O homem conduziu Lucinda até um balde e bacia numa mesa de canto. – Miranda faz um sabão que descasca a pele de sua mão.

 

- Então vamos começar o trabalho. – Lucinda disse, dirigindo-se à bacia.

 

A mão de Lucinda tremeu quando segurou a lâmina contra o estômago da mulher. Devido ao fogo alto no quarto ao lado, a cabana estava quente e Lucinda sentia o suor se juntando em sua testa. Ela tinha tudo o que necessitava. Exceto, talvez, a coragem de seguir com seus planos.

 

- Você já fez isso antes, certo?

 

Parando para passar a manga sobre a testa, ela olhou na direção da beira da cama onde Jackson se sentava próximo à Miranda. – Uma vez. – ela lhe assegurou. – Em uma vaca.

 

Jackson olhou para a mulher adormecida. Lucinda usara metade da bebida para esterilizar as mãos e a faca e fez Jackson forçar a outra metade pela garganta da mulher. Lucinda sabia que ele queria beber também, mas novamente ele se conteve. Sua força de vontade a assombrava.

 

- O bezerro sobreviveu?

 

- Sim. – ela respondeu, posicionando a faca novamente. – Mas a vaca não.

 

Jackson praguejou baixinho. – Você sabe que se você matar essa mulher, sem levar em conta que ela iria morrer de qualquer maneira, eles vão nos crucificar?

 

- É uma chance que devo arriscar. – ela disse. – Se você não estiver disposto a isso, é melhor voltar para a carruagem e fugir ao menor sinal de problema.

 

- Eu não vou fugir. – ele disse. – E não vou deixá-la aqui para enfrentar uma possível crucificação sem mim. O que quer que aconteça, estamos nisso juntos.

Era estranho ouvi-lo falar assim e sentir que não estava totalmente sozinha no mundo. Lucinda o havia sido desde a morte da mãe. Na pequena vila do interior, ninguém ficava amigo da bruxa local sem se tornar objeto de perseguição juntamente com ela. Lucinda nunca teve um amigo. Nem mesmo na infância.

 

- Está na hora de segurá-la. – Lucinda disse. – Ela pode estar dormindo agora, mas num instante, ela irá acordar completamente. A força dela pode surpreendê-lo, então não poupe as suas. Você deve mantê-la parada.

 

Embora não quisesse, Lucinda usou os pedaços de pano para amarrar a mulher aos pilares da cama. Lucinda não podia permitir que ela chutasse e mexesse a parte inferior do corpo, também. Ela cobriu a mulher de forma a permitir alguma dignidade já que Jackson estava presente, mas ele mal podia para além do rosto da mulher, de qualquer maneira. O marido, Lucinda o enviara para procurar várias ervas que cresciam na região e de que ela precisaria mais tarde. Ela não queria o homem na casa, ouvindo os gritos da mulher.

 

- Vou começar. – Lucinda estabilizou a faca em sua mão e pressionou-a contra a pele da mulher, abaixo do volume da criança. O sangue começou a escorrer.

 

Houve um pequeno assobio dos lábios da mulher; então ela acordou. Jackson segurou os ombros dela. Quando Lucinda cortou mais fundo, a mulher gritou. Miranda continuou a gritar, mas devido à força de Jackson, ele conseguiu mantê-la parada o suficiente para que Lucinda trabalhasse. Ela teve de cortar profundamente para atingir o útero. Ela frequentemente tinha de agarrar panos e limpar o sangue durante o processo.

 

A mulher afortunadamente desmaiou devido à dor, mas Jackson ainda a segurava pois ela poderia se recuperar, e de vez em quando falava suavemente com ela. As palavras ajudaram a acalmar Lucinda também. Apenas o som da profunda voz dele. Tranqüilizadora, quase hipnótica.

 

Finalmente, ela havia cortado fundo o suficiente e largo o suficiente para deslizar as mãos para dentro e encontrar o bebê. Puxando o mais gentilmente que podia, ela conseguiu tirar a criança. Ela não gostou da coloração azulada do bebê. Suas mãos estavam escorregadias com o sangue e ela precisava de Jackson. A mulher ainda estava desmaiada, ou pelo menos Lucinda esperava que essa fosse a razão dela não estar gritando ou lutando.

- Preciso que você olhe o bebê. – Lucinda disse a Jackson. Ela rapidamente amarrou e cortou o cordão; agarrando um grande pedaço de pano, ela entregou ambos – o bebê e o pano – para Jackson.

 

- Segure a criança pelos pés, como você fez com Sebastian. – ela instruiu. – Então pegue o pano e esfregue no bebê. Não seja gentil.

 

- Ele está tão quieto. – ele disse suavemente. – Está morto?

 

- Morto não. – ela respondeu. – Apenas ainda não está entre os vivos. Preciso fechar a mulher rapidamente enquanto ela está inconsciente... ela está apenas inconsciente?

 

Jackson se inclinou para o rosto da mulher. – Sim. Ela ainda está respirando, mas superficialmente.

 

- Devemos fazer o melhor que pudermos, Jackson. – Lucinda disse. – Algumas vezes Deus, ou o destino, ou seja quem for que decida sobre tais questões leva uma alma sem se importar com aqueles que lutam para mantê-las nesse mundo. Aprendi isso muito cedo.

 

O bebê subitamente deu um pequeno guincho. Lucinda levantou os olhos da sutura. Jackson sorriu para ela. Ele continuou a esfregar o bebê até que os pequenos guinchos se transformaram em gritos de ultraje. Lucinda lhe sorriu de volta.

 

Ao ouvir os gritos, Miranda se moveu. – É o meu bebe? – ela sussurrou.  Ele está vivo?

 

Jackson enrolou o bebê num pano limpo.  – O bebê está rosado e lindo, e ele é ela. – Jackson segurou a criança perto para que Miranda pudesse ver sua filha. – Elizabeth é tão linda que você terá de guardá-la cuidadosamente. – ele disse. – De homens estúpidos como eu que um dia pensarão em roubá-la de você.

 

Apenas o amor podia obliterar a dor que a jovem mulher devia estar sentindo, porque apesar de ter sido retalhada e aberta e cuidadosamente costurada, seu rosto estava cheio de cor e ela sorria brilhantemente para a criança.

 

- Miranda?

 

O jovem marido subitamente entrou pela porta do quarto. Ele trazia um saco de ervas que escorregou de sua mão e caiu ao chão.

 

- Gerard. – ela sussurrou, dando um sorriso encantador para o marido. – Venha ver sua filha.

 

O homem caiu de joelhos. Ele cobriu o rosto com as mãos e chorou. Jackson aninhou o bebê nos braços da mãe e então foi ajudar Gerard a se levantar.

 

- Seja forte. – disse Jackson. – Você tem uma filha para criar, e ela precisará de sua força e sabedoria. – De repente, ele parecia muito distante e muito triste. – Esteja sempre aí para ela.

 

Gerard acenou com a cabeça, enxugou os olhos e se apressou para o lado da esposa. – Meu Deus, Miranda. – o homem engasgou . – Olhe para ela! Ela é uma beleza realmente.

 

Lucinda terminou de limpar a mulher enquanto ela e o marido faziam caras e bocas para o bebê. Ela olhou para Jackson, que estava encostado contra o batente da porta, observando a família. Ela pensou que ele ainda parecia triste, e um pouco melancólico.

 

- Gerard. – Lucinda disse. – Você deve por uma chaleira sobre o fogo para que eu possa lhe mostrar como preparar a bebida fortificante para sua esposa. E ela deve ficar na cama e descansar. Nada de fazer serviços dentro de casa ou carregar baldes pesados com água, não até estar curada.

 

- Vou buscar a mãe dela para ajudar. – ele disse. – Ela mora a menos de um dia de caminhada daqui.

 

- Bom. – Lucinda empilhou os panos ensangüentados em um balde. – Queime isso. – ela acenou na direção do balde. – Dentro de poucos dias, apenas quando sentir que a ferida está fechada, remova os pontos. Agora, pegue a chaleira. Você encontrou as ervas que pedi?

 

O marido acenou com a cabeça. – Sim, levou algum tempo, mas encontrei.

- Vou lhe mostrar como espremer uma das plantas e misturar uma pomada para Miranda cobrir a ferida. Isso ajudará a curar, embora de hoje em diante ela vá ficar com a cicatriz.

 

O jovem beijou a esposa e a filha na cabeça e se levantou para fazer o que Lucinda ordenara. Ele parou perante Jackson.

 

- Seja você o que for, demônio ou santo, desse dia em diante, eu o chamarei de amigo. E a dama também.

 

Jackson deu uma palmada no ombro do homem. – Acabou de me ocorrer que não tenho amigos. Eu aceito sua amizade e lhe dou a minha em troca.

 

Os olhos de Lucinda ficaram perturbadoramente úmidos vendo a troca de palavras. – Jackson, vá e o ajude. Separe as ervas para mim para que eu possa fervê-las e possamos ir embora. Quero ir para casa.

 

Ela sentia falta de Sebastian ao ponto da loucura, especialmente depois de ver a mulher segurando o próprio bebê tão perto dela, olhando maravilhada para o ser que havia gerado.

 

Jackson conduziu o jovem marido para fora com ele. Terminando seu trabalho lá embaixo, Lucinda se aproximou e se sentou na beira da cama para olhar para o bebê pela primeira vez. Jackson estava certo. Ela parecia uma princesinha, apesar da pobreza que a circundava.

 

- Eu lhe agradeço, senhora, por tudo o que fez por mim hoje. – Miranda disse suavemente. Ela pegou a mão de Lucinda e apertou. – Eu vou contar a Elizabeth  historias sobre o dia em que uma fina dama e um cavalheiro a ajudaram a vir ao mundo.

 

Para encobrir a emoção, Lucinda voltou aos negócios. – Vai doer para se levantar, mas amanhã você deve fazer isso. Não sobrecarregue sua força, mas quanto mais cedo você se movimentar, mas cedo você vencerá a dor em fazer isso. Permita que sua mãe e seu marido tragam a criança para você um pouquinho. Amamente-a, ame-a, mas permita que os outros cuidem dela enquanto você se recupera. Você perdeu muito sangue.

 

- Eu ia morrer, não é? Eu e Elizabeth?

 

Lucinda não viu motivos para responder. Ela se aproximou e correu a mão pelos cabelos loiros do bebê. – Jackson está certo. Você deve proteger essa daqui,

 

Miranda olhou para ela. – Pensei que ele era um anjo, o seu Jackson. – Ela olhou em direção da porta, como se para ter certeza de que eles não a ouviriam. – Não me importaria tanto em morrer, se ele estivesse aqui para me levar com ele. – ela confessou.

 

- Nem todos os anjos são bonitos. – Lucinda disse secamente. – Os demônios também podem ser lindos. Descanse. Preciso ir e ensinar seu marido tudo o que precisa ser feito para cuidar de você.

 

A jovem mulher pegou a mão de Lucinda e a apertou novamente. – Como meu marido, eu a chamarei de amiga. Você sempre será bem vinda em nossa humilde casa.

 

Lucinda se permitiu suavizar. Nunca antes lhe ofereceram um dom tão precioso por seus serviços. Ela apertou a mão da mulher de volta. Lucinda se levantou e foi cuidar dos assuntos da preparação do tônico fortificante e instruir Gerard sobre quais ervas deviam ser usadas para o que.

 

Ela se sentia drenada emocionalmente, e um pouco surpresa por Jackson. Ela acabara de ver um lado dele que ele mantinha escondido dela. Ela acabara de ter um vislumbre de seu coração, e pela primeira vez ela considerou se ele não era verdadeiramente valioso de se ganhar.

 

 

Jackson tentou cutucar Lucinda para acordá-la. Ele a segurara durante todo o caminho para casa enquanto ela dormia, embora ela teria sem duvida lutado contra o arranjo se não estivesse tão exausta. Ele a via sob uma nova luz. Ele via o mundo sob uma nova luz. Ver o jovem casal, tanto amor, abençoados com uma filha, ele compreendeu pela primeira vez o quanto se ressentia com sua vida estranha. Ele daria tudo o que tinha, toda a riqueza dos Wulfs apenas para ser um fazendeiro plebeu com uma esposa que o amasse e filhos que não fossem amaldiçoados.

 

E Lucinda podia ser realmente uma bruxa, de um meio plebeu, mas tinha o dom da cura nela e hoje Jackson vira que dom era esse. Ela havia salvo duas vidas. Ela realizara um milagre. E o fizera com uma força e dignidade que ele duvidava que muitos homens pudessem exibir. Ele gentilmente a cutucou novamente.

 

- Acorde, Lucinda. Estamos em casa.

 

Ela se aninhou mais perto dele. Ele não era tão vaidoso que pensasse que ela queria ficar perto dele. Ela queria o seu calor. Da mesma forma que queria um futuro para seu filho. Lucinda era uma mulher que sabia o que queria e qual a melhor forma de conseguir. Sentimentos suaves, ele imaginava, não faziam parte da equação. E ainda assim ele sabia que ela os tinha. Ela os mostrara a ele em raras ocasiões. Hoje havia sido uma delas.

 

- Sebastian irá pensar que você o abandonou. Acorde para que você possa garantir a ele que não o fez.

 

Ela se mexeu à menção do nome do filho. Ela também ficou tensa quando despertou o suficiente para perceber que estava pressionada contra Jackson. Ela rapidamente se afastou.

 

- Devo ter caído no sono. – ela murmurou. Correndo os dedos pelos longos cabelos, ela olhou na direção da porta da carruagem que estava aberta e para o lacaio que esperava. Sua habilidade de não ser afetada por Jackson desgastou o ego dele. Ao invés de descer primeiro e ajudá-la, ele a fez se espremer para passar por ele, sorrindo para ela quando ela foi forçada a se esfregar nele. Os lábios cheios e perfeitos dela tornaram-se uma fina linha e ela estreitou os olhos na direção dele. Ele continuou a sorrir para ela até que chegou a porta e o lacaio a ajudou a sair.

 

Jackson a seguiu preguiçosamente, observando o balanço dos quadris dela. Era tarde da noite, mas Hawkins, sempre em seu posto, abriu a porta para eles antes deles a atingirem.

 

- Tenho uma bandeja com jantar servido em seus quartos e um bom banho quente para os dois. – ele anunciou.

 

Jackson se perguntava como o homem conseguiu manter o banho quente, mas o pensamento de relaxar os músculos doloridos num banho fumegante era muito prazeroso. Ele seguiu Lucinda escada acima, surpreso por ela não subir os degraus de dois em dois na pressa de ver Sebastian. Ela queria, Jackson percebia. Ele também estava ansioso por ver o bebê.

 

Ela já tinha chegado ao quarto de criança e entrado quando Jackson terminara o primeiro lance. Ele parou na porta aberta e se encostou contra o batente. Ela estava de costas para ele enquanto olhava para o berço, mas enquanto ele a observava cada músculo do corpo dela pareceu relaxar. Ele meio que esperou que ela derretesse até se tornar uma massa disforme no chão. Como ela conseguiria algum dia abandonar essa criança?

 

Como se sentisse que ele a estava encarando, Lucinda se virou. Ela não o convidou a entrar, e ele percebeu que ela considerava sua presença uma intrusão. Ele se afastou do batente e foi para seu quarto.

 

Bem como Hawkins prometera, uma bandeja havia sido deixada para ele com presunto frio, pão e queijo. Sem vinho, Jackson notou. Uma banheira estava soltando vapor no meio do quarto e ele se despiu e entrou nela, suspirando de prazer quando o calor da água quente penetrou em seus músculos rígidos.

 

Enquanto se ensaboava, um pensamento lhe ocorreu com relação a Lucinda e Sebastian. Se ela cumprisse seu trato e quebrasse a maldição da família para Jackson e seus irmãos, ele ainda poderia cuidar dela e de Sebastian. Ele poderia encontrar para eles um bom lugar só deles, garantir que Sebastian tivesse uma educação apropriada e tudo o que a riqueza pudesse lhe proporcionar que sua linhagem não pudesse.

 

Quem era o pai de Sebastian? Lucinda havia dito que era um homem que queria ter prazer com ela e nada mais. Bastardo. Ele a tocara. Ele fizera amor com ela. Ele recebera tudo o que ela negava a Jackson. Seu próprio marido. Pensando ainda mais corajosamente, ocorreu a ele que se Lucinda quebrasse a maldição, ele não precisaria lhe oferecer dinheiro e um lugar para viver onde pudesse criar seu filho...ele poderia oferecer a ela a continuação do arranjo que tinham agora. Ela poderia continuar sua esposa, criar seu filho.

 

Mas então Jackson pensou no casal na pequena cabana. O amor entre eles. Poderia ele se contentar com a frieza de Lucinda quando outra mulher poderia lhe dar seu calor, seu coração, filhos de seu próprio sangue? Ele estava chocado por ter se perdido em tais pensamentos. Antes ele nunca se importara em se ligar a uma mulher ou em crianças, mas agora ele parecia ter pouca escolha nesse assunto.

 

Se Lucinda quebrasse a maldição para sua família, talvez as coisas pudessem mudar para eles. Eles poderiam ser novamente aceitos na sociedade, ter vidas sociais normais. A esposa de Armond, Rosalind, tinha sangue nobre. Ela se adaptaria na sociedade. Mas Lucinda? Ela não era comum; de fato, ela era talvez muito incomum. Jackson não conseguia vê-la se movendo com facilidade pela sociedade com tantas regras, nem, se fosse honesto, podia ver a si mesmo fazendo isso. Não agora. Talvez numa outra época, antes de saber sobre a maldição e a angustia que ela trouxe a sua família.

 

A água havia esfriado mais do que ele gostaria, e Jackson saiu da banheira, enxugou-se e vestiu calças limpas. Ele se dirigiu para a bandeja preparada para ele, pensando que seria melhor se ele e Lucinda dividissem a refeição. Ele tinha uma esposa agora, uma criança para cuidar, e ainda assim se sentia mais sozinho do que nunca nessa casa.

 

Jackson deixou a comida intocada, caminhando para a porta e saindo para o corredor. Silenciosamente ele deslizou para o quarto da criança na porta ao lado. A ama seca roncava suavemente na cama dela. Ele foi até o berço e olhou para baixo. Na suave luz do fogo noturno Sebastian parecia rosado e feliz. O bebê abriu os olhos e olhou para Jackson antes de sorrir seu sorriso sem dentes. Jackson se abaixou e gentilmente pegou Sebastian nos braços.

 

- Também não está conseguindo dormir? – ele perguntou maciamente. Correu a mão pelos cabelos finos e macios do bebê, segurando-o bem próximo. Sebastian tinha o cheiro de sua mãe. O sutil aroma de madressilva de seu sabonete. Jackson fechou os olhos e inalou profundamente. Estranho, apenas esse cheiro conseguia trazer a tona algo muito próximo do desejo dançando na superfície de suas emoções.

 

- Você deve procurar dormir agora, pequenino. – Ele beijou Sebastian na cabeça, deitou-o novamente no berço e o cobriu. – Você é um Wulf agora. Tente trazer mais honra a esse nome do que eu.

 

Ele se virou e viu Lucinda parada na porta. Ela usava sua refinada roupa de seda, seus longos cabelos úmidos do banho. O sutil aroma de madressilvas o provocou e ele pensou há quanto tempo ela estava lá parada, observando. A luz do fogo trouxe um brilho suave aos olhos dela. Ele pensou por um momento, antes dela se virar e procurar a segurança do próprio quarto, que tinha visto desejo nos olhos dela também. Um desejo que combinava com o dele.

 

Estaria ela solitária como ele? Teria ela olhado para o jovem casal na vila, alegres pela vida da criança deles, e sentido que algo vazio e frio repousava dentro dela?

 

Por que ela negava a ele até mesmo o prazer que poderiam encontrar por pouco tempo nos braços um do outro? Ela dissera que nunca se renderia a ele. Nunca se entregaria de vontade própria. O que ela ainda tinha para proteger? Seu coração? Talvez ela tivesse mentido para ele sobre o pai de Sebastian. Talvez ela o tivesse amado e ele tivesse partido seu coração.

 

Jackson saiu do quarto da criança e voltou a seu quarto solitário. Ele voltou-se para a bandeja, levando uma fina fatia de queijo até a boca; então hesitou. Algo acabara de ocorrer a ele.

 

Lucinda havia dito que procurar seu pior inimigo e o derrotar no sentido literal poderia não ser a chave para quebrar a maldição. Se não através de luta, se não através do assassinato, como ele podia derrotar Lucinda? Com o coração dela? Fazendo-a render-se a ele? O pensamento o intrigou.

 

De sedução Jackson era capaz, e muito bem. Até agora ele brincara com ela. Ele não usaria de força de forma alguma; ele havia feito essa promessa depois da noite em que quase perdera o controle com ela durante o ritual da meia noite. Mas ele nunca tivera de forçar mulher alguma antes. Ele nunca tivera de fazer nada a não ser chegar à distância do olfato para conseguir a atenção dela...e frequentemente tudo o mais que queria. Lucinda seria um desafio. Ela não era igual às outras mulheres. Ela não era igual a ninguém que ele conhecesse.

E ele não tinha de se sentir culpado com suas intenções. Lucinda não era uma senhorita virgem. Ele não tomaria nada que ela não tivesse entregado espontaneamente antes. Ela não seria machucada...não, ele faria de tal modo que a rendição dela resultasse apenas em prazer. Ele nunca poderia matá-la.

 

Ele sabia disso agora. Nem mesmo se isso significasse realmente na quebra da maldição para sua família.

 

Mas rendição, sedução de verdade, não a machucaria. E se isso realmente quebrasse a maldição para ele e para seus irmãos, ainda seria ela que conseguiria. Sua dádiva. Sua rendição. Jackson ficou pensando sobre isso enquanto beliscava a comida que Hawkins havia deixado para ele. Algo muito parecido com culpa, com consciência o atormentava. Isso nunca o atormentara antes quando o assunto era mulher.

 

Elas davam. Ele tomava. Mas Lucinda não era igual a essas mulheres. Tudo o que queria dele era o acordo frio que tinham firmado. Mas ela ainda não cumprira sua parte, e ele estava começando a imaginar se ela conseguiria. Tendo tomado sua decisão, ele atacou a bandeja de comida com mais animação. Ele precisaria de suas forças.

 

Dois dias depois, o restante das roupas de Lucinda chegou.  Era impressionante ter tanto quando antigamente tinha tão pouco. A duquesa também passou os últimos dois dias tentando ensinar a Lucinda assuntos nos quais ela não tinha interesse algum. Lucinda não via razão em aprender tudo o que a mulher parecia determinada a ensiná-la, e ensiná-la rapidamente.

 

- Por favor, Sua Graça, se eu olhar para mais um garfo hoje vou começar a gritar.

 

A duquesa suspirou e a conduziu da sala de jantar para o salão. – Quero que esteja preparada, Lucinda.

 

- Preparada para que? – Lucinda tentou conter seu tom cortante. – Qual o sentido disso tudo? Não é como se eu fosse ser convidada...

- Oh, mas você foi. – a duquesa interrompeu. A mulher sorriu para ela de forma convencida.

 

Lucinda sentiu um frio no estômago. – O que?

 

- Desculpe-me é a forma correta de se dizer. – a duquesa a corrigiu. – E sim, uma conhecida minha, uma condessa, não menos, está oferecendo um baile dentro de duas semanas. Eu mencionei que odeio participar de tais festas sozinha e que desejava levar um jovem e sua esposa junto comigo. É claro que ela não podia recusar. Seria rude.

 

- Não posso ir. – Lucinda sussurrou. – Não estou pronta. Nunca estarei pronta. – ela caminhou até onde a mulher estava sentada. – A senhora mencionou quem estava planejando levar consigo para a festa?

 

A dama franziu a testa. – Bem, não, mas ela também não perguntou. A pessoa devia perguntar. – ela continuou. – E é claro que você pode ir. De fato, você deve, no meu modo de pensar. Por Jackson, se não por você mesma. Ele precisa estar entre os seus de vez em quando. Você planeja dar vida normal aos irmãos Wulfs, não é?

 

Lucinda estava pensando sobre isso, e pensando freneticamente. Ela pensara em algo que poderia funcionar...embora Jackson não fosse gostar. Nem um pouco.

 

- Sim, - ela respondeu. – esse é o trato. Também faz parte do trato que eu devo deixar Jackson tão logo quebre a maldição. Penso que quanto menos formos vistos juntos melhor para ele...depois.

 

- Sente-se, Lucinda querida. – a duquesa mãe instruiu. – Você me cansa com toda essa movimentação de cá para lá. Queria ter sua juventude.

 

Lucinda sentou-se na frente dela. O serviço de chá estava pronto e esperando, e Lucinda começou a servir.

 

- Agora, como estava dizendo, Lucinda, você deve comparecer. Se você se tornar tudo o que Jackson procura em uma esposa, se você conseguir ganhar a alta sociedade, com minha ajuda é claro, então por que você teria de partir?

O pensamento de partir despedaçava Lucinda por dentro. Não o pensamento de deixar Jackson, mas o pensamento de abandonar Sebastian. Pelo menos ter visto os dois juntos naquela noite no quarto, vendo o quão gentil Jackson era com seu filho, como ele falava de modo suave com Sebastian, o abraçava forte, até mesmo o beijava na cabeça, tinha aquecido seu coração.

 

Pela primeira vez, ela compreendeu que se ela realmente quebrasse a maldição de Jackson, Sebastian se daria bem em tê-lo como pai. Ela quase se sentiu tentada a se juntar a eles ao lado do berço, mas conseguiu se conter...como ela sempre conseguia se conter para não demonstrar muito suas emoções.

 

- Não quero partir. – ela admitiu. – Me sinto despedaçar ao pensar em ir embora sem meu filho. Não saber o que ele está fazendo. Não ver como ele está crescendo. Preocupada em saber se ele pensa em mim, e para onde fui, e por que o deixei. – As lágrimas se juntaram em seus olhos e ela teve de piscar para afastá-las. – Mas trato é trato.

 

- Do jeito que eu vejo, tratos são feitos para serem quebrados. – a duquesa reagiu. – Além disso, acordos não têm lugar em assuntos do coração. Você acredita que Jackson tenha algum sentimento por você?

 

Jackson tinha sentimentos por ela, certamente, apenas nenhum que tivesse a ver com o coração. Ele estava aprontando alguma coisa. Desde que voltaram da viagem de casamento, ele estava simplesmente charmoso com ela. Frequentemente ela o pegava a encarando. Nessas ocasiões ela se sentia subitamente dispersa. Como se não pudesse pensar ou falar ou fazer qualquer coisa exceto olhar para ele.

 

- Não os sentimentos apropriados que um marido deve ter pela esposa. – ela finalmente conseguiu responder. – Como está o cabelo da senhora? – ela decidiu mudar de assunto.

 

A duquesa ocupou-se com sua xícara de chá e manteve o olhar baixo. – Bem, para ser honesta, não consigo suportar o cheiro da poção que você me deu para usar. Fede tanto que faz com que meus olhos ardam e meu nariz escorra. Decidi que é melhor ficar careca do que me sujeitar a isso novamente.

 

Lucinda escondeu um sorriso atrás da xícara de chá. É claro que a poção não funcionaria; nada funcionava contra a calvície, não importava quantas vezes homens, e mulheres também, perguntassem a ela se tal remédio existia. Ela decidira então fazer algo tão fedido que aqueles que pedissem a poção se resignariam em ficar carecas para não se submeter ao desprazer de usá-la.

 

- Bem, a decisão só cabe a senhora. – ela disse.

 

- Não acho que seja perceptível de qualquer maneira. – a mulher se enervou. Ela se voltou para Lucinda. – Agora, quanto ao baile, você irá, não é? Tudo o que peço é que venha aqui antecipadamente para que eu a ajude a se preparar. Você precisará que minha criada a ajude a arrumar os cabelos. Você deveria ter uma para você.

 

Criada pessoal era uma posição em que Lucinda se imaginava mais do que como dona da casa. Ela não via necessidade de tais coisas. Nunca as tivera no passado. Por que se acostumar a luxos que logo seria forçada a abandonar?

 

- Suponho que se Jackson não se opor, nós compareceremos. – Lucinda desistiu, - Mas temo que demonstrar amizade tão publicamente a dois párias, a fará se tornar uma pária também, Sua Graça.

 

A mulher se aproximou e deu uma palmadinha em sua mão. – Estou muito velha para ser uma pária, querida menina. Você me fez muito feliz. Adoro torcer para o cavalo sem valor.

 

Lucinda simplesmente arqueou a sobrancelha, então bebeu o chá. A dama era tão rude na maioria das vezes quanto ela acusava Jackson de ser. Talvez fosse por isso que se dessem tão bem. Mas Lucinda não conseguia se zangar com a duquesa. Ela descobriu que adorava a velha senhora. Lucinda a tinha como uma amiga, e amigos era algo que Lucinda nunca teve no passado.

 

- Devo vê-la todos os dias até a festa, Lucinda. – a duquesa disse. – Temos pouco tempo para prepará-la para que compareça a sua primeira função social como Lady Lucinda Wulf.

 

O nome surpreendeu Lucinda. De simplesmente Lucinda durante toda a vida para Lady Lucinda Wulf? Como ela conseguiu ser aprisionada nesse mundo tão estranho para ela? Por sua própria culpa, ela admitiu. Ela deveria ter pegado Sebastian e fugido tão logo Jackson retornou para a residência, muito vivo, e muito nu, como se lembrou. Mas onde estaria agora se o tivesse feito? Ela estremeceu ao pensar. Ela estremeceu apenas ao pensar em ser apresentada a uma sociedade que nunca foi mais do que desconfiada e cruel para com ela.

 

Subitamente necessitada de ver Sebastian desesperadamente, Lucinda terminou o chá e desejou bom dia a duquesa. Quando Lucinda chegou à residência, ela levou Sebastian ao próprio quarto para brincar com ele. Olhando pela janela, ela viu Jackson lá embaixo, ao lado do estábulo. Ele estava em uma área cercada trabalhando com um cavalo numa longa corda. Jackson parecia em paz consigo mesmo. Ele obviamente usara o sabonete que entregara a ele. O cavalo parecia aceitá-lo e a seu cheiro, ou antes, a falta de cheiro.

 

Ela não conseguia tirar os olhos dele. Ele era assustadoramente lindo, mesmo a distância. Lucinda se forçou a se afastar da janela. Ela deitou Sebastian na cama e se esticou ao lado dele, olhando seus traços perfeitos. Ela supunha que o pai dele era um homem bonito, embora nunca tivesse notado. Ele era de uma classe muito superior a dela, e casado. E agora aqui estava ela, uma jovem senhora com um título. Ela olhou ao redor para o rico ambiente que a cercava, para o guarda roupa que estava aberto, cheio de vestidos especiais e de uso diário.

 

Algumas vezes as circunstâncias a assombravam. Frequentemente, ela se corrigiu mentalmente. Quando ela se imaginava de volta à vida que sempre conhecera, um sentimento de vazio caia sobre ela. Ela estaria sozinha. Nem mesmo seu filho para abrilhantar seus dias sombrios. Ele arrulhou para ela e ela sorriu.

 

- O que eu farei sem você? – ela sussurrou para ele. Ela beijou seu rosto macio, aninhando-o perto dela, e deitou-se de costas olhando para o teto. – Um trato é um trato – ela disse, talvez para se lembrar. Ela pensava cada vez mais na maldição de Jackson e o que ela devia fazer para quebrá-la.

 

Algo bárbaro lhe veio à mente. Ela não tinha certeza de que conseguiria realizar tal exorcismo. Ainda assim, isso tinha sido usado através das eras para expulsar demônios de seus hospedeiros humanos. Ela devia falar com Jackson sobre isso durante o jantar.

Olhando para Sebastian, Lucinda viu que ele tinha caído no sono aninhado contra ela. Ela fechou os olhos e tentou descansar, tentou se preparar mentalmente se Jackson concordasse em ter a fera expulsa. Ela precisaria de mais força do que possuía.

 

 

Lucinda entrou na sala de jantar para a refeição naquela noite e estacou na porta. Apenas um candelabro com duas velas estava aceso sobre a longa mesa. Geralmente as luzes estavam acesas e Hawkins e um criado da cozinha se moviam de um lado a outro. A sala estava vazia. Mas não, lá nas sombras, ela enxergou a sombra de um homem. Ele deu um passo a frente e a luz da vez dançou em seus cabelos. Ele segurava uma taça de vinho. Lucinda pensou se devia evitar franzir a testa antes que isso acontecesse.

 

Jackson se adiantou e estendeu a taça para ela. Ela a pegou automaticamente. Ele puxou uma cadeira para ela se sentar. Uma voz interior sussurrava para ela não se sentar. Dizia para ela correr...enquanto ainda podia.

 

Ela se sentou. – Onde...onde está Hawkins? – ela perguntou. – Jackson parecia tão suculento. Ele estava de preto, um colete justo e uma calça igualmente justa, botas pretas e uma camisa branca aberta no pescoço.

 

- Eu a servirei essa noite. – ele a informou. – Pensei que Hawkins podia tirar a noite de folga. Eu o dispensei mais cedo.

 

Lucinda não gostou de ouvir isso.

 

- Você parece desconfortável. – Ele puxou uma cadeira bem próxima a dela e se sentou. – Eua a faço se sentir desconfortável, Lucinda?

 

- Não. – ela não o temia. Mas ela temia a habilidade dele em fazê-la perder a cabeça. Desde que fecharam o acordo, Lucinda sentia que ele apenas estava brincando com ela. Como um gato brinca com um rato antes de devorá-lo. Ela tinha a impressão de que ele se cansara de brincar.  – O que o cozinheiro preparou para nós? – ela perguntou, esperando soar casual.

 

Ele se inclinou para mais perto. – Começaremos pela sobremesa.

 

Ela se virou para ele surpresa, apenas para encontrar a boca dele quase tocando a dela. – Sobremesa?

 

Ele se voltou e trouxe uma tigela com morangos maduros para perto deles, e também uma pequena tigela de creme. Ele pegou um grande morango, mergulhou no creme e o trouxe aos lábios dela. Olhando nos olhos dele, ela simplesmente abriu a boca e permitiu que ele colocasse a ponta da fruta dentro. Ao invés de morder, ela instintivamente chupou o creme da ponta. O brilho azul dos olhos dele subitamente incendiou-se.

 

Jackson pegou a mesma fruta, também mergulhou no creme, mas dessa vez o levou aos próprios lábios. Sua língua brincou com a ponta cremosa por um momento antes de enfiá-lo na boca, e como ela, chupar o creme. Os mamilos dela imediatamente endureceram.

 

- Você já percebeu como a fruta se assemelha a homens e mulheres? – ele perguntou suavemente.

 

Lucinda apenas conseguiu negar com a cabeça.

 

Ele ergueu o morango. – A forma. – ele respondeu.

 

- Simbólico para macho e fêmea.  – Mergulhando a ponta da fruta novamente, ele continuou. – Vê como ela se parece com o mamilo de uma mulher?

 

Ela viu que se parecia e quando ele sugou o creme da ponta pela segunda vez sentiu como se ele estivesse fazendo a mesma coisa com ela. Contorcendo-se na cadeira ela se recusou a responder. Sua falta de resposta não o desestimulou. Jackson escolher um morango maior, redondo, e rechonchudo, mergulhou-o, e o levou aos lábios dela novamente. Sua boca se abriu automaticamente e novamente ela pegou a ponta da fruta para roubar o delicioso creme.

 

- Para um homem – ele disse. – essa é a forma da cabeça de seu pênis.

 

Ela mordeu, supôs que devido ao choque dele dizer algo tão vulgar para ela. Jackson hesitou levemente, mas quando ela sentiu o suco doce encher sua boca, ele se inclinou, tirou a fruta, e colocou os lábios sobre os dela. Ela não teve tempo de engolir antes dele separar seus lábios e compartilhar a fruta com ela. Foi a coisa mais sensual que ela já experimentara.

 

Ele demorou-se em seus lábios, sugando, mordiscando e provocando ate deixá-la sem fôlego. – Jackson. – ela tentou adverti-lo, mas ele a calou tomando possessão total de sua boca. Ele a havia beijado antes, mas esse beijo era diferente. Controlando, exigindo, um homem não mais contente em brincar de seduzir. Lucinda com sua limitada experiência com homens não era páreo.

 

Ela sentia como se o chão tivesse aberto sobre seus pés e ela estivesse caindo em um profundo e escuro poço de pecado. Mas ela não se importava em cair. Ele a pôs de pé e se levantou com ela, nunca liberando seus lábios. A mesa de jantar estava pressionada contra a parte de trás das pernas dela e ele a forçou a se sentar. Seu vestido tinha saias cheias o suficiente para permitir que Jackson se colocasse entre suas pernas. Ela sabia que a posição era altamente provocadora e altamente imprópria.

 

Que estranho que ela pudesse examinar a fundo algo que não fosse a sensação da boca dele se movendo sobre a dela, as mãos dele em sua garganta desabotoando o vestido de decote alto que ela usava. Ele não se apressava, desabotoando um botão, seus dedos passeando contra a pele que descobria antes de se dirigir ao próximo. Seus seios incharam, seus mamilos ficando dolorosamente duros com a antecipação. Inocente como era, ela sabia o que ele planejava antes dele fazer.

 

Ele quebrou o contato de suas bocas quando tinha desabotoado o vestido até a cintura. Ele a olhou dentro dos olhos, hipnotizando-a antes de seu olhar vagarosamente se mover para os seios. Um leve puxão na fita liberou o aperto, então os dedos dele vagarosamente deslizaram o tecido para baixo de seus seios doloridos. Ele se ajoelhou entre as pernas dela, pegou um dedo, mergulhou na tigela de creme, e o espalhou sobre o mamilo.

 

Lucinda prendeu a respiração até a língua dele circular seu mamilo, serpenteando o creme antes de o levar até a boca para sugá-lo. Apenas então ela soltou a respiração com um suspiro de alivio. Os dedos dela enroscaram-se nos cabelos dele puxando-o para mais perto. Ela não conseguia pensar além das sensações, e a reputação de Jackson, ela supôs, era bem merecida. Ele provocou um mamilo, depois o outro, até que ela se contorcia contra ele, respirando irregularmente, a pulsação entre suas pernas tão intensa que ela não tinha idéia de como acalmar a necessidade que rugia dentro dela.

 

De algum lugar a voz da razão tentava atraí-la, mas o cheiro dele a abafava. Ele o exalava agora, como o doce veneno feito para paralisar sua vitima. E ela se sentia de alguma forma fora de si mesma. E ainda assim mais viva do que jamais se sentira. As mãos dele estavam subitamente em suas pernas, subindo seu vestido, subindo junto a seda que acariciava suas coxas, enrolando como uma serpente até a cinta em sua cintura. Ela devia dizer algo, protestar, mas a voz e inclinação para lutar estavam suprimidas pelo poder dele sobre ela. O cheiro dele a preenchia, a excitava, a fazia prisioneira de seu desejo, e do dele.

 

A mão dele deslizou pelo topo de sua calcinha. Ela ofegou ao contato dos dedos dele contra sua pela. A boca dele moveu-se vagarosamente sobre seu pescoço e ele se levantou, capturando a boca dela novamente. Com vagar, a mão dele desceu mais para baixo. Os quentes impulsos da língua dele em sua boca tornavam difíceis não apenas protestar contra os avanços dele, mas também realmente querer fazê-lo.  Ela sabia que estava perdendo o controle, e Lucinda temia isso acima de tudo.

 

Uma vez, seu controle havia sido tirado dela. Sua mente a assombrava com isso. Talvez proporcionasse horrores piores do que Lorde Cantley realmente tivesse feito com ela. Era o pensamento de estar indefesa, o pensamento de ser incapaz de controlar sua mente e suas ações que quase desfizeram o encantamento de Jackson. Quase, até que ele a tocou...lá.

 

Seu toque era suave, gentil, nem um pouco parecido com o que ela imaginava que Lorde Cantley tivesse feito com ela. Mas tudo em Jackson Wulf era suave, sua pele, seus cabelos, seus olhos. Ele se pressionou contra ela e ela teve de reformular seu pensamento. Nem tudo.

 

- Não. – ela conseguiu sussurrar contra os lábios dele. – Não estou pronta.

 

Ele a beijou gentilmente, mas não removeu a mão e se afastou dela. – Não vou fazer amor com você com meu corpo. – ele disse. – Eu apenas quero lhe dar prazer.

 

E assim dizendo, ele encontrou o botão escondido dentro dela e o acariciou até que ela se conscientizasse. As unhas dela enterraram-se nos seus ombros. Ela abriu mais a boca para ele e ele a devastou, embora embaixo ele fosse suave... e persistente. Ela se abriu mais para ele lá também, afastando as pernas, pressionando-se contra seus dedos para aumentar o prazer.

 

Ele parecia saber seus pensamentos, seus desejos, o que ela precisava, mesmo que ela não soubesse.

 

A pressão dentro dela aumentava. A fome a arranhava, fazendo-a tremer e se agitar, crescendo, sempre crescendo. Jackson fez uma trilha de beijos até sua orelha. Enquanto seus dedos lhe davam prazer, sua outra mão estava no seio dela, seu dedão esfregando sensualmente seu mamilo.

 

- Você deve se soltar, Lucinda - ele sussurrou. – Renda-se.

 

Apenas essas palavras roucas quase a enviaram à beira da insanidade, mas ela lutou contra a onda de prazer que crescia dentro dela.  Ela sentia como se estivesse perdendo todo o controle. Pânico penetrou no prazer. – Não! – o grito saiu de seus lábios e ela o empurrou. – Não!

 

Ele se afastou para olhar para ela. Sua expressão estava assustada, como se ele pensasse que a machucara sem perceber. Lucinda agarrou a mão dele e a retirou de sua calcinha. Ela o empurrou com todas as forças e ele cambaleou. Com um soluço, ela desceu o vestido pelas pernas e arrumou as pontas caídas de seu corpete.

 

- Eu a machuquei? – ele perguntou.

 

A emoção obstruiu sua garganta. Lágrimas umedeceram seus olhos. – Eu não posso. – foi tudo o que conseguiu dizer.

 

A testa dele enrugou. – Não pode o que, Lucinda? Sentir prazer com o meu toque? Acho que você pode. – ele argumentou. – Acho que você estava. Acho que você estava a um passo de...

 

- Eu não posso perder o controle!

 

Ele deu um passo na direção dela. – É assim que é, Lucinda. É o que acontece quando duas pessoas compartilham seus corpos uma com a outra. Elas trocam controle por emoção. Elas sentem ao invés de pensar. Elas confiam, seja apenas por pouco tempo, elas confiam totalmente uma na outra. Você sabe disse, não é?

 

Ela não sabia nada sobre fazer amor, nada exceto o que ele lhe ensinara, ou melhor, tentara lhe ensinar. Se ela lhe contasse a verdade, se ele soubesse que por ela estar em perigo talvez ela o colocara em perigo também, ele a expulsaria hoje mesmo. Ela não podia deixar Sebastian. Não ainda. Se ela não quebrasse a maldição de Jackson, ela não poderia deixar Sebastian de forma alguma, ela compreendeu. Não com um homem que ela não tinha certeza em poder confiar.

 

- Nosso acordo não inclui você me proporcionar prazer. – ela o relembrou. – Ou eu lhe dar prazer.

 

- Até agora, não incluiu você cumprir sua parte do trato também. – ele disse e sua voz estava contida agora. Raivosa. Ele caminhou até a mesa, golpeou-a com o punho e a fez pular. – Droga, Lucinda. Não posso matá-la, não posso...seduzi-la. Estou começando a ficar frustrado com minhas próprias opções de possivelmente quebrar a maldição e você não está fazendo nada para me ajudar.

 

O coração dela afundou. Mas não antes dela senti-lo sendo perfurado. – Era para isso que tudo aconteceu? O que era para ser desde o inicio? Minha rendição?

 

Ele girou, dando-lhe as costas. – A charada. Você disse que eu devia encontrar outro modo de derrotar meu inimigo. Estou procurando por isso, é tudo.

 

Ela sentiu a bile subir na garganta. Ele nunca a achara bonita. Desejável. Desde o principio, tinha sido ele e sua consumidora busca para quebrar a maldição de sua família.  Ele a usara. Usara de sua aparência e de sua sensual aparência contra ela. Ela se sentia uma tola. Seu coração estava começando a se suavizar para ele. Foi um erro.

 

- Eu odeio você. – ela disse, então saiu da sala tempestuosamente,

Jackson sabia que devia ir atrás dela. Ele estava com raiva quando disse aquelas coisas. Frustrado. Eu odeio você. Nunca uma mulher dissera isso a ele. Bem, ele merecera. Ele transformara a sedução em algo frio e calculado quando nunca tinha sido assim para ele antes. A verdade era que ele não era um grande amante apesar de tudo. Ele nunca tivera de fazer muito esforço. Pois ele sempre escolhera o tipo de mulher que lhe dava prazer por uma hora e em seguida dava prazer a outro homem. Quando sua moeda não conseguia comprar, ele usava seu cheiro para conseguir facilmente.

 

Ele se dirigiu para uma cadeira e se sentou. Ele também não se saíra bem com Lady Anne Baldwin. Ele pensou que, por ela ter passado tempo com ele, rido de suas piadas espertas e parecido genuinamente alegre em vê-lo nas atividades sociais em que a perseguia, ela tinha se apaixonado por ele. Mas ele se apaixonara por ela. Ela era tão gentil e bonita e bem educada. Nada parecida com as prostitutas com as quais ele gastava seu tempo. Ele estava quase conseguindo juntar coragem para se declarar a ela quando ela lhe disse muito amavelmente que o considerava o irmão que nunca teve.  Isso partira seu coração, mas ele nunca disse a ela.

 

Agora ele fizera um estrago com palavras muito mais odiosas. Não que Lucinda tivesse entregado seu coração a ele, mas ela merecia mais do que ele havia feito e dito a ela essa noite. E enquanto ele estava sendo honesto consigo mesmo, Lucinda não era apenas um meio para se atingir um fim. Poderia ter sido no começo, mas ele a via de forma muito diferente agora do que anteriormente. E ele a desejava. Ele ainda estava duro por desejá-la.  Ela era sua esposa, por quanto tempo fosse, e ele a tratara pior do que as prostitutas cujas camas ele freqüentara por muito tempo. Pela droga que elas lhe proporcionavam. Pertencer.

 

Lucinda era como ele, muito embora de mundos diferentes. Talvez por uma vez, ela tinha desejado pertencer também. Nessa casa, numa sociedade que poderia nunca lhe dar um segundo olhar. Ele correu os dedos pelos cabelos. Deveria ir ter com ela? Desculpar-se? Poderia fazer isso sem querer beijá-la novamente? Querer tocá-la? Fazer amor com ela gentilmente? Não, não essa noite, ele decidiu. Ele ainda sentia o gosto e o cheiro dela nele, e apesar de querer não desejá-la ele o fazia. Ao invés disso, o grande amante ia para a cama. Sozinho. Novamente.

 

Lucinda queria se esconder em seu quarto durante o café da manhã, mas não se permitiu. Era uma covardia, e ela nunca tinha sido covarde. Ela estava humilhada e envergonhada por ter permitido que Jackson fosse tão longe em seu jogo de sedução noite passada. Se ela pudesse lançar uma maldição sobre ele, certamente o faria. Uma que fizesse aquele impressionante membro dele encolher até ficar como uma pequena saliência que não arranharia as costas de uma mosca. Mas é claro que ela não podia fazer isso. Ela arrumaria outras formas de punição.

 

Jackson estava de pé quando ela entrou na sala de jantar. Ela lutou contra o rubor quando olhou para a mesa. Ele puxou uma cadeira para ela. Ela lhe lançou um olhar feroz, mas se sentou. Hawkins agitava-se de um lado a outro levantando as tampas quentes e servindo a comida nos pratos. Nem Lucinda nem Jackson trocaram uma palavra um com o outro até Hawkins terminar de servir e se retirar da sala.

 

- Sobre ontem à noite, - Jackson imediatamente começou. – eu...

 

- O que tem? – Lucinda o cortou.

 

- Quero me desculpar. – ele continuou.

 

- Quase nem me lembro de ontem à noite. – ela foi em frente. – Prefiro não falar sobre isso.

 

- Mas sinto que devo. – ele insistiu.

 

- Sei perfeitamente bem qual parte sua sente mais – ela disse secamente. – Disse que prefiro não discutir esse assunto. Vamos discutir sua insatisfação comigo por não cumprir minha parte em nosso acordo. Lembrei-me de algo. Penso que você pode se opor, mas já que parece que nada é desagradável para você quando o assunto é se livrar da maldição, decidi que provavelmente devemos tentar.  Requer um chicote e muita dor. Você está disposto?

 

Ele olhou dentro dos olhos dela, sua expressão vazia de divertimento. – Você está falando série ou simplesmente quer sangue?

 

- Ambos. – ela respondeu honestamente. – Tem sido feito por séculos. Você chicoteia o demônio que atormenta o corpo de alguém. Você o expulsa pela dor.

 

Ele não piscou os olhos. – E se isso não funcionar, pelo menos um de nós se sentirá melhor depois.

 

Ela sorriu. – Exatamente.

 

Elevando a mão ao colarinho alto, Jackson o puxou. Ela tentou não olhar para as mãos dele. Ele era muito bom com elas. – Talvez como um último recurso. – ele concordou.

 

Ela fez cara de descontentamento. – Pensei que poderíamos fazê-lo logo após o café da manhã. O dia está particularmente perfeito para esportes sangrentos.

 

Jackson virou a cabeça de lado e disse: - Onde você aprendeu a falar assim? Está parecendo uma perfeita esnobe.

 

- A duquesa. – ela lhe informou. E então se lembrou de que devia falar com Jackson sobre a festa. Ela planejava dizer a ele que não tinha intenção de ir, de, por favor, recusar o convite de modo a sua graça a deixasse em paz. Agora, Lucinda reconsiderou. Jackson a humilhara noite passada. Talvez ela pudesse humilhá-lo em troca. Talvez ela devesse escurecer os dentes e carregar um caldeirão com cabeça de sapos junto com ela.

 

- Ela quer que participemos de uma festa com ela nesse final de semana. – Lucinda disse. – Eu prometi que pediria a você.

 

- Um acontecimento social. – Ele riu. – Nós dois?

 

Lucinda estreitou os olhos para ele. – Gostaria de ir.

 

Ele se acalmou. – De verdade? Ou você está tentando me punir ainda mais.

 

- Ambos. – ela respondeu honestamente de novo.

 

Suspirando, ele afastou a cadeira da mesa. – Concordarei em participar se você concordar em ouvir minhas desculpas.

 

Ela compreendeu que as feridas que ele causara noite passada ainda estavam muito expostas para ser discutida. – Depois do compromisso você poderá se desculpar comigo. – ela decidiu. – Até lá, desejo que não fale comigo.

 

- Mas...

 

- Começando agora. – ela acrescentou, e levantou o garfo, o correto, e continuou a tomar seu café.

 

Ela não era uma mulher para se provocar. Mas Jackson já sabia disso. Ela parecia adorável, seus lábios ainda inchados pelos beijos da noite passada, seu rosto rubro de raiva. Ele queria beijá-la novamente. Muito.

 

Ao invés disso, ele pegou seu garfo e começou seu café. Ele provavelmente precisaria de tempo para decidir o que dizer a ela com relação a sua decisão de usar de sedução como meio de derrotá-la. Ele não estava arrependido do que acontecera entre eles noite passada, mas ele se arrependia por tê-la ferido daquela maneira. Talvez a fera estivesse se tornando mais dominante. Talvez sempre o fora, pois ele permitia isso.

 

E talvez, apenas talvez, ele realmente fosse um egocêntrico, um bastardo que só ia atrás de prostitutas como todos pensavam que fosse. Pelo menos não era mais bêbado. Mas também não mais satisfeito com a vida que levava.

 

- Lucinda. – ele começou.

 

Ela ergueu o garfo. – Nem uma palavra ou eu lhe garfo. Não confunda com o termo que acredito era o que você usaria com relação ao que planejara fazer comigo ontem à noite, antes de se decidir pela palavra mais suave “seduzir”.

 

Jackson fechou a boca.

 

Os joelhos de Lucinda tremiam embaixo do vestido.  Ela desejava não ter forçado Jackson a comparecer ao baile com a duquesa. Lucinda desejava estar de volta à residência com Sebastian, cantando para ele e brincando com ele. O seu estômago estava dando nó.

 

- Quase terminado, milady . – a criada de Sua Graça arrumava o cabelo de Lucinda. Ela estava sentada bem quieta enquanto a mulher passava ferros quentes em seu cabelo e arrumava os fios sedosos em cachos. Seu vestido estava arrumado sobre a cama para ser colocado tão logo seu cabelo estivesse pronto.

 

A duquesa mãe havia enviado sua carruagem para pegá-la mais cedo, uma vez que o combinado fora de Jackson chegar logo ao anoitecer para acompanhá-las ao baile. Todo o rigoroso treinamento de Lucinda parecia ter evaporado de sua mente. Toda vez que tentava se lembrar da forma correta de se dirigir a alguém, quando fazer reverência ou quando acenar com a cabeça, sobre o que era apropriado conversar e o que não era, ela tinha uma dor de cabeça.

 

Tinha sido um erro, a forte intuição de Lucinda lhe dizia. Ela não devia tentar se passar por uma dama. Ela não era uma dama. Ela era uma plebéia, uma bruxa de uma pequena vila que passou a maior parte da vida sendo ridicularizada por pessoas de uma posição bem mais inferior do que aqueles a quem ela enfrentaria essa noite. Lucinda havia pensado em punir Jackson insistindo para que comparecessem. Que tola ela era.

 

Jackson se entendia com essas pessoas. Ele podia ser excluído por elas, mas ele também fora criado de modo a pelo menos se acomodar entre elas. Lucinda nunca se acomodaria.

 

- Tudo bem, milady, hora de se vestir.

 

Seu estômago dava voltas, Lucinda permitiu que a criada a ajudasse a sair da cadeira. A mulher então apertou os laços do espartilho de Lucinda a ponto de ela não conseguir respirar e a ajudou a entrar no vestido. Era uma peça lindíssima. O vestido era de seda esmeralda, entrelaçado com fita dourada. O corpete abraçava sua cintura fina, agora ainda mais fina devido ao espartilho, revelando uma boa porção de sua pele cor de creme, mas não demais para ser considerado vulgar. A saia ondeava para fora e foram necessárias três anáguas. As mangas curtas e bufantes eram justas nos ombros e Lucinda vestiu um par de longas luvas brancas.

 

A duquesa entrou bem quando a criada estava abotoando os últimos botões nas costas do vestido de Lucinda. A mulher mais velha ofegou levemente.

 

- Oh, minha querida, você está uma visão.

 

Um pouco da tensão de Lucinda se esvaiu com o cumprimento da mulher. Ela sorriu . – A senhora acha que vou atrair a atenção?

 

- Você vai e muito. – a duquesa garantiu a ela. A mulher entrou mais no quarto. Lucinda notou uma caixa preta na mão dela. – Jackson está lá embaixo. Ele me pediu para lhe entregar isso, disse que você desejaria usá-los.

 

Ao abrir a caixa, foi a vez de Lucinda ofegar. Dentro havia uma linda gargantilha de diamantes e brincos balançante combinando.

 

- Eu os reconheço. – a duquesa disse suavemente, - Pertenciam à querida mãe dele. Que gentil da parte de Jackson presenteá-los a você essa noite.

 

As jóias, embora lindas, somente serviam para relembrar a Lucinda como as vidas dela e de Jackson eram diferentes. A mãe de Lucinda nunca possuiu uma jóia em toda sua vida, certamente nunca diamantes. Com as mãos tremendo, Lucinda tirou o lindo colar da caixa de veludo. A duquesa mãe a ajudou a colocar a peça; então Lucinda colocou os brincos nas orelhas.

 

- Perfeito. – a duquesa anunciou. – Você se parece com uma fada princesa, Lucinda. Mal posso esperar para ver a cara de Jackson quando você descer as escadas. Deixe-me ir na frente. – ela sussurrou excitadamente, novamente lembrando a Lucinda da jovem que devia ter sido. – Dê-me um momento, então desça. Geoffrey está com nossos agasalhos perto da porta.

 

A duquesa mãe, parecendo esplendida em seu vestido de brocado rosa, apressou para baixo. Lucinda foi se postar diante de um espelho de corpo inteiro. Ela não reconheceu a mulher que olhou de volta para ela. Seus cabelos estavam arrumados acima de sua cabeça em um arranjo de cachos atraentes. Diamantes brilhavam em seu pescoço e atraiam a atenção para a longa e fina coluna de sua garganta.

 

Lucinda respirou tão profundamente quanto seu espartilho permitia, afastou-se do espelho, pegou uma pequena bolsa de seda que combinava com seu vestido e foi encontrar-se com Jackson e a duquesa lá embaixo.

 

 

O colarinho de Jackson já começava a incomodar. Embora ele se vestisse na maioria das vezes como qualquer cavalheiro, ele não se vestia desse modo há algum tempo. Ele estava em trajes formais, é claro, e seu casaco de seda preta foi confeccionado para ele por Weston em Conduit Street. Ele e Hawkins haviam discutido sobre a escolha dos sapatos de Jackson. Ele queria ter colocado suas botas pretas bem polidas, mas Hawkins insistiu para que Jackson usasse seus sapatos pretos de meio salto e a tradicional meia longa branca. Ele detestava moda. Ele achava isso feminino e não era muito do seu gosto masculino.

 

Olhando para a duquesa mãe e notando o colar de rubis que ela usava, ele se sentiu agradecido pela lembrança de trazer a Lucinda o colar de diamantes de sua mãe. Tinha sido dada a ele depois da morte dela, ela disse que era porque quando ele era um garotinho ele sempre fora fascinado por tudo o que brilhasse.

 

Jackson estava esfregando uma linha imaginária de seu casaco, tinha de ser imaginária, pois Hawkins nunca permitiria que ele saísse com linhas em suas roupas, quando sentiu Sua Graça o cutucar nas costelas. Ele olhou para ela e ela acenou na direção das escadas.

 

Quando ele olhou para cima, Jackson sentiu como se alguém o tivesse chutado no estômago. Nunca, nem uma única vez em sua vida, ele vira uma mulher mais linda do que a se posicionava no alto das escadas. Ele devia ter caminhado até o corrimão, pois sentiu a madeira polida debaixo de sua mão enquanto olhava para Lucinda.

 

Os cabelos dela brilhavam como cobre derretido. O vestido esmeralda que ela usava mostrava sua esplendida figura e combinava com a cor de seus olhos. Ela era uma visão. Quando ela não deu outro passo, ele estendeu sua mão para ela.

 

Vagarosamente, ela desceu os degraus até finalmente sua mão enluvada escorregar para a dele. Ele agarrou seus dedos finos e a conduziu pelo último degrau e para seus braços.

 

- Você está além das palavras. – ele disse suavemente.

 

Ela sorriu para ele. – Você está mais bonito. – ela provocou.

 

- Vocês são um casal impressionante – disse a duquesa, relembrando a Jackson que ela estava parada observando-os.

 

A presença da duquesa mãe era provavelmente uma coisa boa. Jackson estava tentado a pegar Lucinda nos braços, carregá-la para cima e desfazer sua perfeição.

 

- Vamos? – ele perguntou ao invés disso.

 

Lucinda respirou profundamente, o que elevou seus seios deliciosamente acima do decote de seu vestido. – Acho que sim.

 

- Nossas capas, Geoffrey. – a duquesa ordenou.

 

A cabeça de Lucinda estava girando. Depois do silêncio tenso que se formou logo após serem anunciados, tudo o que seguiu depois aconteceu com a velocidade de um tornado. Apresentações foram feitas. Lucinda esperava ter feito reverências quando devia e estendido a mão quando devia; a maior parte ela seguia a condução da duquesa mãe. Jackson estava nervoso. Lucinda já o conhecia muito bem agora para sentir o desconforto dele.

 

- O que está achando até agora, Lucinda?

 

Ela olhou para ele pelo canto dos olhos, muito ocupada absorvendo à nobreza perante ela. – Nunca tinha visto uma demonstração mais vulgar de riqueza. Para ser honesta, me deixa enjoada.

 

Ele riu. – Suponho que seja muito para se absorver. Mesmo para quem nasceu nesse meio. – ele pegou sua mão na dele. – Você odeia tudo isso?

 

Seu toque era confortador e perturbador. Pequenas ondas de prazer corriam por seu braço.

 

- Não tanto quanto deveria. – ela respondeu. – Não é como se eu sempre pertencesse a algum lugar. Eu me sentiria desconfortável até na feira da vila.

 

Ele abriu a boca para dizer algo, mas foram interrompidos.

 

- Jackson Wulf, é você mesmo?

 

Ambos se voltaram para a jovem lady que fizera a pergunta. Lucinda não sabia para quem olhava primeiro, se para o rosto da linda jovem, que possivelmente brilhava de alegria, ou para o de Jackson que quase ficou sem cor.

 

- Lady Anne – ele disse, largando a mão de Lucinda. – Já faz muito tempo.

 

O sorrido da jovem mulher ficou ainda mais brilhante, como se isso fosse possível. – Eu não o vejo desde que voltei para Londres. Você está maravilhoso.

 

Jackson deu um passo à frente, pegou a mão da jovem e a beijou castamente. – E você está tão linda como me sempre me lembro.

 

Lucinda jurou que sentiu o cabelo em sua nuca se levantar. Ela sentiu um estranho desejo de arquear as costas e sibilar para a bela mulher.

 

A jovem lady olhou na direção dela. – Ouvi dizer que se casou.

 

Como se Jackson subitamente se lembrasse de que realmente tinha uma esposa, ele soltou a mão da jovem e se voltou para Lucinda. – Sim, Lady Anne, permita-me apresentar-lhe minha esposa, Lucinda.

 

Preparada para odiar a mulher imediatamente, Lucinda se surpreendeu quando a jovem mulher pegou suas mãos e as apertou de forma quente. – Você é uma mulher de muita sorte – disse Lady Anne. – e também a mais bonita que já vi. Devia saber que Jackson encontraria uma mulher para compartilhar sua vida que fosse nada menos do que perfeita.  Nós nos tornamos muito próximos quando estávamos ambos no exterior ano passado. – ela explicou. – Eu o amo loucamente.

 

Lucinda não tinha a menor noção de como responder. Lady Anne era uma beldade a sua própria maneira, com os suaves olhos castanhos, como os de uma corça. Ela emitia um sentimento genuinamente quente, e a cor ao redor dela era suave. Não havia nenhum veneno ali, nenhum ciúme, exceto talvez da parte de Lucinda.

 

- Não vou ficar e estragar a intimidade de vocês – a jovem lady os provocou. – Tinha de dizer oi para Jackson. E estava ansiosa para conhecê-la, Lucinda.

 

- Sua tia está olhando com cara feia – Jackson disse à jovem mulher. – Você deve ir antes que ela venha aqui e a arraste.

 

Lady Anne revirou os olhos. – Ela sabe que nunca destrato alguém. Ela também sabe que eu escolho meus próprios amigos. Talvez sua adorável esposa permita-me o prazer de dançar com você mais tarde. – Virando-se para Lucinda, ela disse. – Tenho certeza de que sabe que Jackson dança esplendidamente.

 

Lucinda não sabia disso, nem sabia como dançar. Não os movimentos polidos e exagerados que testemunhara os casais dançando aqui essa noite. Ela dançava para a lua com um ritmo primitivo soando em sua cabeça. Agora ela não apenas se sentia inadequada e deslocada, mas não podia jurar que não estava com ciúmes de Lady Anne.

 

A jovem pegou sua mão e apertou novamente, então deu um leve beijo no rosto de Jackson antes de se afastar. Pelo canto do olho, Lucinda observou Jackson seguir Lady Anne com o olhar. Num breve flash de emoção, Lucinda viu algo nos olhos dele que confirmou a suspeita que sentira. Um pequeno vislumbre de dor e desejo. Ela soube então. Era essa a mulher que roubara seu coração e trouxera a maldição sobre ele. A mulher que ele amava.

 

A conscientização atingiu Lucinda mais forte do que ela havia pensado, certamente mais forte do que ela teria desejado. – Ela é adorável.  – viu-se admitindo.

 

Jackson se voltou para olhá-la. – Sim. – ele concordou, o que por alguma razão apenas colaborou com o sentimento de raiva que ela sentia crescendo dentro dela.

 

- E muito doce. – ele acrescentou. – Qualquer outra mulher seria crucificada por se aproximar de dois párias como nós, mas ela não será, porque é de sua natureza abraçar a todos. Ela não sabe como ser uma esnobe.

 

- É ela. – Lucinda disse.

 

- Era ela. – ele corrigiu. – Foi há muito tempo atrás.

 

Lucinda se esqueceu de que eles estavam em uma festa. Era como se tudo e todos tivessem sumido e sua total atenção estava em Jackson. – Ela disse que o amava loucamente.

 

Ele correu uma mão pelos cabelos, que ela estava contente por ver que ele não tinha amarrado para trás. Ela gostava de vê-los sobre os ombros dele. – Ela me disse a mesma coisa um ano atrás em Paris. – ele disse. – Apenas que depois ela acrescentou que me amava como o irmão que nunca teve.

 

O coração dela se doeu por ele e deu um pequeno pulo de alegria. Ela colocou a mão no braço dele. – Sinto muito.

 

Jackson deu de ombros. – Está tudo bem. Estou aqui. – Mesmo quando fez essa declaração, seu olhar vagou pelo salão para onde a jovem dama estava parada conversando com uma mulher de cara azeda. Lucinda suspeitava que era a tia a quem Jackson mencionara.

 

Agora o coração de Lucinda naufragava novamente. Ainda estava nos olhos dele, o coração partido, mesmo se ele não conseguisse reconhecer seus sentimentos

 

- Você quer dançar? – ele subitamente perguntou a Lucinda. – Essas festas são terrivelmente chatas se a pessoa não tem a iniciativa de se divertir.

 

- Não sei dançar. – Lucinda admitiu. – E não quero nos envergonhar tentando aprender nessa festa.

 

Jackson acenou com a cabeça. Eles ficaram quietos por um tempo. A duquesa mãe, mesmo os observando, conversava com um grupo de velhas damas não muito longe deles.

 

- Por que não tira Lady Anne para dançar? – Lucinda finalmente sugeriu, algum orgulho interior lutando com o ciúme e com outros sentimentos profundos que ela não se deu ao trabalho de examinar no momento. – Ela disse que queria dançar com você.

 

- Não quero magoar seus sentimentos. – disse Jackson.

 

Ele já o fizera, mas ela estava além disso. – Não me importo nem um pouco. – garantiu a ele. – Um de nós deve se divertir.

 

Ele a olhou nos olhos por um momento. Talvez ela tivesse conseguido feri-lo também. Ele deu de ombros. – Talvez você prefira mais a companhia da duquesa mãe do que a minha.

 

Assim dizendo, Jackson a pegou pelo braço e a conduziu na direção da duquesa. Uma vez que a velha senhora introduziu Lucinda em seu pequeno grupo, Jackson desapareceu na multidão. Lucinda tentou prestar atenção à chata conversação das velhas senhoras, mas seu olhar ficava vagando pela sala à procura de um alto homem loiro vestido de preto e sem dúvida o homem mais lindo presente nessa noite.

 

- Desculpem-me, senhoras. – ela ouviu a duquesa dizer – Devo ter uma conversa particular com minha jovem protegida.

 

Depois de a duquesa a pegar pelo braço e a afastar do grupo, a mulher se inclinou mais perto e fez um leve som de ronco que fez Lucinda rir.

 

- Terrivelmente chato – a duquesa mãe confidenciou à Lucinda. – Para onde foi Jackson? Espero que não para a mesa das bebidas.

 

- Jackson não bebe mais. – Lucinda sentiu um pouco de orgulho ao dizer isso a duquesa.

 

- Eu lhe disse que se uma mulher o afastasse das bebidas e dos bordéis, ele seria um bom marido. – a duquesa disse, obviamente feliz com as novidades de Lucinda.

 

Foi então que finalmente Lucinda viu Jackson e seu prazer diminuiu. Ele estava dançando com Lady Anne, bem como ela o havia instruído a fazer.

 

- A senhora sabe sobre os sentimentos de Jackson para com ela? – Lucinda perguntou.

 

A dama confirmou. – Temo que foi uma fofoca comum quando Lady Anne voltou para Londres. Jackson, é claro, não sabe por que não se mistura com essa gente. Lady Anne é muito ingênua para saber que, por suas costas, todos estavam sussurrando que Jackson Wulf era apaixonado por ela. Suponho que tudo aconteceu por ela ousar favorecê-lo como fez. O assunto morreu logo e agora temo que será ressuscitado.

 

Será? Lucinda observava-os se moverem juntos. Lady Anne não estava sendo apenas gentil sobre as habilidades de Jackson. Ele se movia com uma graça e perícia que nenhum homem no salão poderia rivalizar. Lady Anne estava rindo para ele quando passaram. Lucinda não podia suportar olhar para eles. Emoções com as quais nunca lidara estavam girando dentro dela. Ela subitamente não conseguia respirar com a multidão da sociedade fechando-se perto dela.

 

- Tenho que sair – ela disse a duquesa, e se virou para fugir. Lucinda deu um esbarrão em um homem em sua afobação. Envergonhada por quase tê-lo derrubado de costas, ela ergueu os olhos para se desculpar. Seu coração disparou no peito e ela congelou.

 

- Estava me aproximando para exigir que Sua Graça nos apresentasse – o homem disse. – E talvez ousadamente perguntar se a senhorita não gostaria de dançar.

 

As palavras não conseguiam passar pela garganta de Lucinda.

 

- Lorde Cantley – a duquesa mãe disse secamente. – Não o vejo em Londres há alguns anos. Como está sua prezada esposa?

 

O homem não desviou os olhos de Lucinda ao se dirigir à duquesa mãe. – No campo com as crianças. – ele respondeu. – Faz tempo que ela prefere a paz do campo em vez da correria de Londres durante a temporada.

 

- Posso lhe apresentar Lady Jackson Wulf – a duquesa mãe fez sua tarefa, ainda que Lucinda percebesse que o fez relutantemente.

 

Lorde Cantley se aproximou, pegou a mão de Lucinda na dele, e a trouxe aos lábios. Ela quase a arrancou. Precisou de toda sua força de vontade, ainda apimentada com uma grande dose de choque, para permitir o contato.

 

Lorde Cantley inclinou a cabeça. – Lady. A senhora me parece familiar. Já nos encontramos antes?

 

- Duvido muito. – a duquesa respondeu, o que fez Lucinda ficar agradecida, uma vez que ainda não recuperara a voz. – A dama ficou escondida na propriedade dos pais no campo a maior parte da vida. Acredito que seu casamento com o jovem Jackson foi arranjado anos atrás.

 

Era uma mentira deslavada, mas Lucinda estava feliz pela dama planejá-la. Estaria Lorde Cantley brincando com ela? Ou ele realmente não a reconhecera em seus trajes de gala? Com certeza, ele nunca esperaria encontrá-la em tal recepção. Ela se perguntava se ele ao menos sabia o nome dela. Ele sempre se referira a ela como a bruxa dos cabelos vermelhos.

 

O olhar dele desceu ao decote do vestido de Lucinda e a pele dela começou a formigar. – Devo me desculpar, mas não danço.  – Lucinda finalmente conseguiu, e ela tentou o mais que pode impor a sua voz o correto sotaque inglês e o correto tom esnobe. – Estava indo para as mesas de aperitivos – ela acrescentou, esperando acabar com o assunto.

 

O homem a pegou pelo braço. – Permita-me acompanhá-la, então. A menos é claro que seu marido pense que seja muita familiaridade. Você disse que o nome dele é Wulf?

 

Ainda confusa, Lucinda permitiu que Lorde Cantley a afastasse da duquesa. Os aldeões de Whit Hurch sabiam o sobrenome de Jackson? Seria simples para o homem somar dois mais dois e chegar à conclusão correta? Ela tinha de perguntar a Jackson, isso é, se conseguisse afastá-lo de Lady Anne para fazê-lo. A menos que fizesse um escândalo, Lucinda não tinha escolha a não ser acompanhar Lorde Cantley até a sala ao lado e às mesas que estavam postas lá.

 

Movendo-se contra a multidão não permitia que falassem um com o outro, o que Lucinda agradecia. O que ela faria quando chegassem a mais vazia sala ao lado ela não sabia dizer. Se ela conseguisse escapar de Lorde Cantley talvez ele nem pensasse mais nela.

 

Se ele tivesse passado algum tempo em Londres, ela compreendeu, ele provavelmente saberia quem ela era. Houve boatos sobre ela, se ele questionasse. Tudo o que Lucinda podia fazer no momento era esperar escapar dele e esperar que uma vez que o fizesse ele não pensaria mais nela.

 

A sala de refeições estava surpreendentemente vazia. Apenas uns poucos cavalheiros conversando em um canto, perto do ponche que ela sabia havia sido batizado com rum.

 

- Posso perturbá-lo para me servir uma taça de ponche, Lorde Cantley, enquanto vou me refrescar um pouco? – Lucinda pediu, garantindo que estivesse a um passo de distância dele.

 

- Seria uma honra. – ele respondeu.

 

- Volto num instante. – Lucinda continuou andando pela sala de refeições, onde ela esperava encontrar um corredor que a conduzisse de volta ao salão de baile e a Jackson. Apenas ficar perto de Cantley lhe embrulhava o estômago de asco e de medo. Ela não temia por si mesma, embora não quisesse nunca mais ficar próxima do homem, mas temia por Sebastian. Lorde Cantley não tinha nenhum escrúpulo, nenhum senso de honra.

 

Subitamente Lucinda parou. Confusa como estava, ela virou num corredor errado e parecia estar se afastando da música ao invés de se aproximar dela. Ela refez os próprios passos. Uma figura lhe bloqueou o caminho.

 

- Lorde Cantley! – ela ofegou. – Eu disse que voltaria num instante.

 

Ele sorriu para ela. – Já cacei o suficiente para saber quando minha presa está fugindo. Por que está medo de mim, Lady Wulf?

 

Embora estivesse tremendo, Lucinda levantou o queixo em um gesto que esperava aparentar confiança.  – Não estou com medo. Deveria estar?

 

Pegando-a com a guarda abaixada, ele se aproximou e a tocou no rosto. Lucinda hesitou e deu um passo para trás.

 

- Uma pele tão macia. Penso que já a senti antes. Muito mais.

 

Com a confiança desmoronando, Lucinda tinha de reunir toda sua força e controle para continuar com o jogo que estava fazendo com Lorde Cantley. – Sou uma mulher casada. – ela disse. – E o senhor está indo longe demais me perseguindo como se eu o tivesse encorajado.

 

O homem simplesmente deu de ombros. – Alguns homens não precisam de encorajamento. – ele deu um passo adiante. – Eles vêem algo que deseja e o toma.

 

Ou drogam uma mulher para que ela não lute, Lucinda queria dizer. Ela suspeitava que Lorde Cantley estivesse esperando que ela dissesse algo como o que acabara de pensar. Ele estava tentando enganá-la. Ela levantou o queixo novamente.

 

- O senhor tem passado muito tempo no campo. O senhor se comporta como um animal no cio. Com licença. – Lucinda pensou em dar a volta por ele, mas ele bloqueou seu caminho.

 

- A senhora me lembra alguém. Mas é claro que ela não poderia estar aqui, casada com um homem de família rica, porém inaceitável, não é? Apesar de ela ser uma bruxa, e eu saber bem demais quão facilmente ela pode lançar um feitiço sobre um homem.

 

Como Lucinda temia, ele sabia quem ela era, mas ela tinha de continuar a fingir o contrário. – Não sei de quem o senhor está falando, mas se não sair de meu caminho, eu abrirei a boca e gritarei, e o senhor será obrigado a explicar por que tentou interpelar uma mulher casada, que nem ao menos o encorajou.

 

O conde subitamente parecia menos confiante em si mesmo. Seu olhar se estreitou observando o rosto dela. – Apenas uma mulher poderia ter olhos dessa cor. Qual seu nome de batismo, Lady Wulf?

 

- Lucinda.

 

Ela não tinha falado o nome dela. Jackson estava parado atrás de Lorde Cantley, parecendo calmo o suficiente, se ela não o conhecesse bem. Seus olhos tinham um débil brilho azulado.

 

- Jackson. – ela suspirou.

 

Lorde Cantley se voltou para encarar o marido dela. – Estava acompanhando sua adorável esposa de volta ao baile. – ele disse. – Parece que ela perdeu o caminho.

 

- Eu a ajudo a encontrá-lo. – Jackson assegurou ao homem.

 

Cada homem mediu o outro.

 

- A dama me parece familiar. – o conde continuou. – Estava apenas tentando me lembrar do por que e de onde poderíamos ter nos visto antes.

 

Jackson passou por Lorde Cantley e se colocou entre o homem e Lucinda. – Duvido que tenha tido a oportunidade de encontrar minha esposa antes dessa noite. Nenhum de nós costuma freqüentar a sociedade. Agora, se nos der licença.

 

Ao invés de se virar e partir, ou de se por de lado e permitir que Jackson e Lucinda pudessem passar, Cantley permaneceu firme, encarando Jackson e Lucinda. – Um homem não se esquece desses olhos. – ele disse. – Ou dessa pele adorável.

 

Mesmo com sua limitada experiência, Lucinda percebeu que Lorde Cantley havia dito um insulto. Um homem não sugere conhecimento íntimo sobre a esposa de outro homem em sua cara. Não sem talvez querer ofender.

 

- O senhor me tenta enormemente a desafiá-lo. – Jackson disse, sua voz baixa e ameaçadora. – Posso perguntar de onde o senhor é?

 

- Minha propriedade de campo circunda por uma grande extensão de terra na parte central do país; a casa grande se situa na área próxima da vila de Whit Hurch. Talvez o senhor e sua adorável esposa tenham estado por essa região anteriormente.

 

Houve um momento de silêncio desconfortável, silêncio no qual Lucinda estava bem consciente de que Jackson fizera a conexão entre ela e Lorde Cantley.

 

- Minha esposa é de Yorkshire, assim como eu. – Jackson falou lentamente. – Novamente, devo insistir em que o senhor não a conhece, e em que o senhor não fale com ela novamente.

 

Lorde Cantley inclinou a cabeça, e Lucinda pensou que era o fim do assunto, embora soubesse que não era o final do assunto entre ela e Jackson. O homem se afastou um pouco pelo corredor, então se voltou.

 

- Estranho, porém – ele disse. – Que essa mulher que eu conheci, e conheci muito bem, veja você, tenha o mesmo nome de sua mulher. O mesmo cabelo vermelho. Os mesmos olhos esmeralda. O mesmo corpo delicioso. Poderiam ser gêmeas, as duas. – então se foi.

 

Jackson não reagiu visivelmente, mas Lucinda viu os músculos de suas costas se contraírem, viu suas mãos se fecharem ao lado dele. Lorde Cantley estava sendo insultuoso em sua familiaridade implícita com ela e merecia uma senhora surra, mas Lucinda não deixaria que Jackson provocasse um escândalo na primeira aparição social deles. Ela deu um passo à frente e colocou a mão no ombro dele.

 

- Deixe estar, Jackson. – disse suavemente. – Ele não vale a pena. E eu também não.

 

Jackson se voltou para ela, e o azul de seus olhos brilhou no corredor mal iluminado. – Você saiu furtivamente com ele?

 

Ela ainda não estava preparada para contar a Jackson sobre Lorde Cantley. Sobre o que ele fizera a ela ou a ameaça que ele representava a eles. Não ainda, não agora, não aqui. – Gostaria de ir para a casa. – ela disse então, e passou por ele.

 

Ele não queria desviar do assunto. – Eu lhe fiz uma pergunta, Lucinda.

 

Agora foi a vez dela de atacar. – Se você não estivesse tão ocupado de outra forma, você saberia o que fiz ou não durante sua ausência. – ela retrucou.

 

- Apenas fiz o que você me mandou fazer. – ele retrucou de volta.

 

- E muito entusiasticamente. – ela murmurou, indo embora. – Há um velho ditado sobre não fazer aos outros o que não quer para si.

 

- Então você se vingou jogando suas próprias indiscrições passadas em minha cara?

 

Ele caminhava ao lado dela agora. Lucinda não precisava olhar para ele para saber que ele ainda estava zangado. – Podemos lidar com seu pequeno ciúme em algum lugar mais privado? Como em casa?

 

Jackson não respondeu, mas pelo calor que sentia saindo dele, o assunto estava longe de acabar. O quanto ela podia contar para ele? E ele ao menos acreditaria na historia dela? Lucinda ficava se dizendo que não era da conta dele, mas era mentira. Ou pelo menos se tornaria uma se Lorde Cantley não desistisse do assunto e a afastasse de sua mente, o que ela sentia era mais do que provável que ele não fizesse.

 

Jackson sabia que seu ciúme era irracional. Ele estava despreparado para isso e lutava para lidar com emoções que eram desconhecidas para ele. Lucinda estava certa. Não era como se ele não tivesse muito mais indiscrições no passado do que ela jamais teria. Mas ele a conhecia agora. Sabia que para levá-la para a cama um homem teria de possuir o coração dela, sem levar em conta o que ela contara a respeito do pai de Sebastian.

 

Os beijos dela no começo foram o suficiente para convencer a Jackson de que qualquer experiência que ela tivera com homens no passado eram bem menos do que as experiências que ele tivera com mulheres. Ela ainda era quase inocente em suas respostas quando ela a beijava ou a tocava. Por que doía tanto pensar nela com outro homem? Ela tinha um filho. É claro que estivera com outros homens... ou pelo menos um.

 

Quanto mais pensava sobre Lorde Cantley, pois a duquesa havia contato a Jackson sobre o homem que acompanhara Lucinda até a sala de refeições, mais os pensamentos de Jackson se voltavam para Sebastian e na semelhança entre eles. Não foi com um fazendeiro plebeu com quem Lucinda se envolveu. Não, Jackson devia saber que com sua beleza ela atrairia a atenção de um homem muito acima de seu status simples. O senhor da mansão. Um conde. Ela não arranjaria nada menos.

 

O olhar de Jackson a transpassava na carruagem. Eles não trocaram uma palavra desde que deixaram a duquesa mãe em casa. Lucinda não parecia se importar se ele dançasse com Lady Anne. Então ele foi, ele supunha, zangado por Lucinda não se importar com o que ele fizesse com outra mulher. Mas enquanto dançava com Lady Anne, a provocava como fizera tanto tempo atrás, e a fazia rir, tudo o que conseguia pensar era em Lucinda e por que ele não conseguia encantá-la ou fazê-la rir.

 

Lucinda não se importava com ele. Não da maneira como ele de repente percebeu que se importava com ela. Talvez agora que o conde a vira em roupas finas, movendo-se facilmente na sociedade, ele a quisesse de volta. Lucinda havia dito que o pai de Sebastian tinha uma esposa. Talvez na ocasião ele não se sentira inclinado a simplesmente tornar Lucinda sua amante e cuidar dela e da criança, mas essa noite ele poderia ter mudado de idéia.

 

A carruagem parou na porta da frente da residência. Jackson permitiu que o lacaio abrisse a porta e ajudasse Lucinda a sair; então saiu atrás dela. Hawkins os esperava na porta, pegando os casacos antes de Jackson o dispensar e seguir Lucinda para cima. Jackson esperou, parado na porta, enquanto ela checava se Sebastian estava bem e se certificava de que o bebê dormia profundamente.

 

Lucinda demorou-se um longo tempo, olhando para o grande berço. Jackson imaginou se rever o pai da criança novamente não a fizera se arrepender da decisão de fugir dele tão rapidamente e amarrar sua vida com a de Jackson.

 

O pensamento causou uma dor em seu peito. Seu coração. Talvez ele soubesse que algum dia a perderia, mas nunca pensara que perderia Sebastian também. Naquele momento, com a possibilidade se agigantando na frente dele, Jackson compreendeu que não queria perder o bebê. Percebeu que não queria perder Lucinda também.

 

Essa percepção o assustou tanto que a raiva que sentia dela se evaporou. Jackson foi para se quarto, entrou e fechou a porta. Ele se dirigiu para o barzinho como de costume. Sua boca se enchia de água de vontade de beber para acalmar seus subitamente frágeis nervos e talvez afogar suas mágoas. Quando ele parou de beber, ele não removeu as garrafas e os copos. Que teste de resistência seria resistir a algo que não estava lá?

 

Ele resistiu ao desejo agora, a ambos – o de se servir de uma bebida e o de invadir o quarto de Lucinda e exigir respostas dela. A maldição invadiu seus pensamentos. O acordo entre eles. Tudo o que era necessário para liberar os dois de suas obrigações era rompê-lo. É claro que ele cumpriria sua promessa com relação a Sebastian, desde que Lucinda não mudasse de idéia sobre isso. Ocorreu a Jackson que agora que ela vira seu amante novamente e soubera que ele ainda estava interessado nela, ela pudesse simplesmente pegar o bebê e fugir. Mas não, Jackson a conhecia bem o suficiente para saber que ela insistiria em cumprir sua parte no trato.

 

O casamento. Ele nunca se preocupara muito com ele. Talvez devesse. Se ele não dormir com Lucinda, uma anulação poderia ser conseguida com tanta facilidade com que se conseguia a licença. Um divórcio estava fora de questão. Lucinda não poderia se casar com seu amante. Mas Jackson, ele poderia a vir se casar um dia se a maldição fosse quebrada para ele e seus irmãos. O pensamento tinha pouco apelo para ele no momento. Ela já tinha uma esposa. Uma esposa que não desejava ficar com ele.

 

O barzinho o chamava novamente. Ele resistiu. Ao invés disso, ele tirou o casaco, seu colarinho e a gravata, jogando-os sobre uma cadeira próxima. Ele se esticou na cama, olhando para o teto, mãos atrás da cabeça. O que ele realmente queria fazer era ir ao quarto de Lucinda, pegá-la nos braços e fazer amor com ela. Deixá-la saber que seus pensamentos essa noite não estavam com Lady Anne e a vida que podiam ter tido juntos se ele não fosse amaldiçoado, mas com Lucinda e em como convencê-la de que tudo o que ela era para ele não estava simplesmente ligado a uma maldição.

 

 

Lucinda estava deitada e não conseguia dormir. A esperada confrontação com Jackson não aconteceu. Por que? Que ele demonstrasse ter ciúme de Lorde Cantley lhe dera uma certa satisfação...de esperança. Se em seu coração ele ainda ansiasse pela bela Lady Anne, por que se incomodaria em sentir ciúmes? Simplesmente por orgulho? Ele não podia levar Lucinda para cama, então não queria que outro homem o fizesse também? Mas isso faria com que sua confissão de pensar em seduzi-la apenas para quebrar a maldição, e persegui-la apenas com esse propósito uma farsa.

 

Ela precisava quebrar a maldição, pois isso esclareceria qualquer confusão sobre o que Jackson Wulf queria ou não com ela. Ao mesmo tempo, isso romperia seus laços com Sebastian. Ela estava dividida. Dividida entre o acordo e seu coração. Dividida, se ela estivesse sendo sincera consigo mesma, não apenas por abandonar seu filho, mas também por abandonar Jackson. E enquanto estava sendo honesta, ela não podia admitir que havia muitas coisas que ela achava agradável sobre seu marido? Não apenas seu rosto e seu belo corpo. Ele a havia protegido na estalagem. Não tirara vantagens que muitos de sua classe social já teriam aproveitado para tirar. Ele era bom para Sebastian. Ele parecia se importar com o filho dela.

 

Ela amava Jackson? Que ela apenas se fizesse essa pergunta mentalmente já assustava Lucinda. Amor, pelo menos entre um homem e uma mulher, era algo que ela nunca pensou em encontrar. Não com sua experiência. Ela sabia por sua reação ao ver Jackson e Lady Anne juntos que ela não estava imune a sentir algo por ele, mesmo que ela não conseguisse admitir a si mesma a possibilidade de estar apaixonada por ele.

 

Já que a honestidade estava em sua pauta, ela também tinha de admitir que Jackson e Lady Anne formavam um par impressionante... um casal muito mais adequado. Poderia a afeição de Lady Anne por Jackson passar a ser mais do que amor fraterno se Lucinda estivesse fora do caminho? Poderia a dama ser uma boa mãe para Sebastian? Embora fosse difícil visualizar a cena sem quase cair no choro, Lucinda sabia em seu coração que Lady Anne seria uma boa mãe. A dama não era nada mais do que bondade e luz positiva.

 

E assim muito difícil para Lucinda odiar.

 

A porta rangeu e Lucinda se sentou rapidamente. Jackson entrou no quarto. Teria ele finalmente vindo perguntar-lhe sobre Lorde Cantley? Ela não estava pronta para contar tudo a Jackson. Mas mentir para ele poderia por não apenas Sebastian em perigo, mas Jackson também.

 

Ele caminhou até a cama e olhou para ela. – Esse novo plano que você teve para quebrar a maldição. O que envolve além de um chicote de uma grande dose de dor?

 

Ela piscou para ele na escuridão. Não era esse o questionamento que ela pensara que ele faria. O fato de que isso tomara precedência sobre sua raiva sugeria que ele também ficara acordado pensando o mesmo que ela. Ele pesara o que era mais importante para ele. Talvez ver Lady Anne o fizesse ficar mais determinado. Lucinda lutou contra o desespero que subitamente a envolvera.

 

- Você deve provar que é mais forte que a fera que está dentro de você. – ela respondeu. – O homem deve agüentar o que a fera não consegue.

 

- O que você está dizendo é que você deve arrancá-lo de dentro de mim a pancada, correto?

 

Ela reprimiu um estremecimento. – Correto.

 

- Passarei essa semana me preparando, e no final da semana nós realizaremos o ritual. Vai ter que ser tarde da noite, quando ninguém estiver por perto.

 

Lucinda de repente desejou que a idéia não lhe tivesse ocorrido. Não importava o quão zangada estivesse com Jackson por tentar seduzi-la apenas por suas razões egoístas em mente, ela não queria fazer isso com ele. – Tudo bem. – ela finalmente concordou. – Isso me dará tempo para preparar as pomadas para curar suas feridas.

 

O horror disso pairou entre eles. Lucinda precisaria da semana para se preparar mentalmente para realizar um ritual de que nunca se julgara capaz. Jackson se virou para a porta. Ela pensou que a conversa tinha terminado, mas ele parou.

 

- Uma coisa. O homem que vi com você essa noite. Ele é o pai de Sebastian?

 

A pergunta não era tão simples. Mas sua resposta foi – Sim. – ela admitiu. – Seu nome é Lorde Cantley. - ela prosseguiu - Ele é primo do rei.

 

Jackson sacudiu a cabeça. Ele riu suavemente, embora ela não soubesse dizer se era um genuíno som de humor. – E eu que pensei que tivesse feito o correto dando meu nome a ele. Ele tem sangue real correndo em suas veias.

 

O que era o motivo dele ser uma ameaça ao futuro da Inglaterra, Lucinda queria acrescentar. Ela tinha de contar a Jackson, ela compreendeu. Esconder seus segredos dele era agora um jogo perigoso. – Eu gostaria de explicar.

 

Ele levantou uma mão. – Agora não. Minha mente deve estar livre de pensamentos obscuros sobre você e ele para que eu possa me preparar para o ritual que virá. Quebrar a maldição deve ter precedência sobre tudo o mais.

 

O que ele disse era verdade. Sua mente tinha de estar limpa, seu corpo forte, para resistir ao ritual. Poderia ela passar mais uma semana sem dizer a ele tudo sobre a situação dela e de Sebastian? Poderia agüentar mais uma semana com ele pensando inverdades sobre sua relação com Lorde Cantley? Talvez o conde os deixassem em paz. Talvez ele já se esquecera dela. Ela rezava por isso.

 

- Você tem razão. Não falaremos sobre isso agora.

 

- Boa noite, Lucinda.

 

Ele nunca estivera em seu quarto sem ao menos dizer algo sugestivo para ela. Ela percebeu que a frieza dele a magoava. E ela não estava tão certa de que poderia deixar Jackson sem conhecer o que até agora perdera com relação a intimidade com um homem. Se alguém pudesse lhe mostrar como devia ser feito, ela suspeitava que ele era o homem.

 

- Boa noite – ela disse suavemente. – Espero que não pense muito mal de mim.

 

Ele deu de ombros. – Você mesma disse que não se deve fazer aos outros o que não quer para você.

 

Quando ele refez seus passos em direção à cama, o coração dela subitamente disparou.

 

- Eu não lhe pedi desculpas pelo que disse na outra noite, por aquilo que fiz a você. Eu lhe peço perdão, Lucinda. Quando tudo isso tiver passado e você...você tiver partido, por favor não pense muito mal de mim também.

 

Antes de ela conseguir responder, ele se afastou rapidamente e saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás dele. Lágrimas encheram os olhos de Lucinda. Ele não havia pedido para ela ficar. Ele aceitara que ela partiria. É claro que ela havia aceitado isso desde o começo, nunca se permitindo a acreditar no contrario. Mas em algum lugar bem lá no fundo dentro dela ela tinha esperança. Ela sonhara. Ela devia ter pensado melhor.

 

Lucinda se deitou de costas no colchão, sua cabeça descansando no travesseiro, lágrimas escorrendo pelo rosto. Ela tinha feito um trato com ele. Sua palavra era tudo o que tinha para dar. Sua palavra e seu coração, seu único filho. Ela daria essa semana para que Jackson se preparasse para o ritual. Ela se prepararia mentalmente também, e então ela contaria tudo para ele, e rezaria para que ele mantivesse sua palavra com relação a Sebastian. Lucinda não podia proteger seu filho, não do modo como Jackson podia. Nem podia sustentar Sebastian. Ela faria muito se conseguisse se sustentar.

 

Ela não ousaria pensar sobre o fim da semana. Ela não ousaria pensar sobre pegar um chicote e chicotear a carne de Jackson, de arrancar a fera dele, ou de tudo o que poderia acontecer se tivesse sucesso...ou se fracassasse, quanto ao assunto.

 

Dois dias se passaram e nada aconteceu. Lucinda estava quase com medo de ter esperanças de que isso representasse o fim da ameaça de Lorde Cantley para eles. Ela não saia da casa com medo de ele estar escondido esperando por ela. Ela dormia com o ouvido voltado para o quarto ao lado, e ao menor ruído que Sebastian fizesse, ela levantava e ia ao quarto dele verificar se estava tudo bem. Seus nervos estavam esticados como a corda de um violino. E enquanto ela se preocupava e temia, Jackson se preparava. Ela o observava agora, trabalhando com um cavalo no cercado ao lado do estábulo.

 

Lucinda estava sentada no chão em cima de um cobertor junto com Sebastian, protegidos do sol pela cerca viva que separava uma propriedade de outra, embora a propriedade ao lado consistisse apenas num terreno escurecido onde antes havia existido uma casa. Hawkins contara a Lucinda que Rosalind Wulf morara naquela casa e que perdera a madrasta e o irmão de criação no incêndio. Lucinda algumas vezes tinha más sensações sobre lugares, e o chão queimado ao lado era um deles. Algo muito ruim acontecera lá.

 

- Com licença.

 

Assustada, Lucinda deu um pulo. Uma adorável jovem se aproximara pelo caminho que conduzia a casa. Primeiramente, Lucinda pensou em se tratar de Lady Anne, mas agora viu que a jovem tinha cachos loiros que balançavam embaixo do chapéu.

 

- Perdoe minha intromissão, mas sou Lady Amélia Sinclair. Sou amiga de Rosalind.  – ela se identificou.

 

Lucinda apanhou Sebastian e se levantou. Seu nervosismo aumentou. O que queria a jovem dama?

 

Um pouco sem ar, Lady Amélia caminhou até Lucinda e imediatamente tirou seu chapéu e se sentou no cobertor. – Está terrivelmente quente hoje. – ela reclamou, se abanando com o chapéu. – Ouvi dizer que a senhora e o jovem Wulf estavam na residência, e tenho de admitir que sou curiosa como um gato. Num capricho, decidi vir aqui e conhecê-la. Sei que é isso terrivelmente rude de se fazer, mas minha mãe não gosta muito de minha amizade com Rosalind. Tenho sempre de agir pelas costas dela quando uma oportunidade aparece.

 

Lucinda nunca conhecera alguém tão direta... ou, ela supunha, de acordo com a etiqueta, tão rude. – Sou Lucinda. – ela se apresentou. – E aquele ali com o cavalo é Jackson.

 

A jovem mulher esticou o pescoço, fazendo sombra sobre os olhos com o chapéu. – Oh sim, ele tem a aparência deles, não é – ela disse. – Bonito como o pecado, ao que parece...todos eles.

 

Lucinda subitamente se sentiu numa posição estranha. Ela se sentou sobre o cobertor. – Esse é meu filho, Sebastian.

 

A jovem dama sorriu para o bebê, sua expressão suave por momentos. – É um lindo bebê. – ela disse, então inclinou a cabeça. – Ele não tem muito da aparência dos Wulfs, porém. Não com esse cabelo escuro.

 

- Não. – Lucinda concordou, não dizendo mais nada. – A senhorita é amiga de Lady Rosalind?

 

- Oh, sim. – Amélia lhe garantiu. – Unidas como irmãs. Sinto muito a falta dela e gostaria que ela voltasse logo da lua de mel, mas se eu estivesse em lua de mel com Armond Wulf, não teria pressa nenhum de voltar também. – o sorrido da jovem era diabólico. – Pensei que deveria me apresentar a você já que Rosalind e eu somos amigas e tenho certeza de que seremos também.

 

Ter uma amiga ainda era um conceito estranho para Lucinda. Ela gostou imediatamente de Amélia Sinclair, contudo. A jovem parecia direta e desinibida. Era uma mudança agradável do conservadorismo que Lucinda testemunhara em seu primeiro “compromisso social”. Uma vez que Lucinda não tinha muita coisa em comum com a jovem, perguntou se ela tinha comparecido ao mesmo baile.

 

- Oh, não. – Amélia respondeu, de um jeito cabisbaixo. – Estou noiva para me casar agora. Não sou mais obrigada a freqüentar uma grande quantidade de festas. Estou fora do mercado de casamento, como se diz, e meu noivo não gosta muito da cena social. Ele prefere a vida no campo, ou pelo menos foi o que me falou.

 

Embora Lucinda raramente tenha parado para pensar em mulheres e homens e suas compatibilidades, ela imediatamente sentiu que esse não era um bom par. Amélia Sinclair parecia cheia de animação e de vida para se confinar no campo. Lucinda conhecia etiqueta o suficiente para saber que não devia falar sobre isso. As duas mulheres ficaram sentadas confortavelmente em silêncio por um tempo, permitindo que Sebastian as encantassem com seus ruídos e sorrisos.

 

Lucinda pensou que Amélia estava pronta para apresentar suas desculpas e partir quando olhando para o cercado viu que Jackson estava caminhando na direção delas. Ele passou a manga da camisa pela testa. Oh Senhor, ele estava suando. Não seria bom ao ser apresentado a Amélia Sinclair.

 

- Você conhece meu marido? – Lucinda se arriscou. – Já o conheceu antes, talvez através de Lady Rosalind?

 

Tendo percebido que Jackson estava se aproximando dela, a jovem dama foi rude o bastante para não tirar os olhos dele, mesmo tendo sido questionada por outra pessoa. – Não, nunca vi esse aí.  – ela comentou. – Eu conheço Armond Wulf, é claro, e uma vez vi Gabriel, em carne e osso. E que visão ele era. – ela pareceu acrescentar inconscientemente.

 

- Quem temos aqui? – Jackson deslizava na direção delas com seus movimentos de pantera, parecendo lindo como uma visão de calças pretas, botas até os joelhos e uma camisa com franjas aberta.

 

Lady Amélia imediatamente pôs-se de pé para ser apresentada. Antes que Lucinda pudesse providenciar, ela mesma se apresentou. – Sou Lady Amélia Sinclair, uma amiga pessoal de sua cunhada. – A jovem estendeu a mão.

 

Jackson pegou a mão dela e a beijou gentilmente, provocando um visível estremecimento na jovem apesar do calor da tarde.

 

- Muito prazer em conhecê-la, Lady Amélia – ele disse, exibindo suas covinhas, o que, na opinião de Lucinda, não era necessário. A jovem dama já estava de boca aberta e encantada por ele.

 

Carregando Sebastian, Lucinda se levantou do cobertor. Moveu-se e colocou o bebê nos braços de Jackson. – Você se importaria em levar Sebastian para dentro da casa? – ela perguntou. – Está ficando muito quente aqui fora para ele, e você precisa entrar para se limpar. Você está todo suado. – ela enfatizou. – Acredito que a jovem estava pronta para se despedir e eu a acompanho até a carruagem.

 

- Sim, eu estou suado. – Jackson concordou, não parecendo arrependido sobre o que estava fazendo com a pobre jovem. – Foi por isso que parei de trabalhar com o cavalo. – ele explicou a Lucinda. – Foi um prazer conhecê-la, Lady Amélia.

 

A mulher não conseguiu nem responder. Apenas acenou com a cabeça. Jackson piscou para Lucinda, o que ela não achou a menor graça, e foi com Sebastian para a casa. Apenas quando ele se afastou a jovem pareceu sair de seu estado letárgico.

 

- Oh, Deus, - ela murmurou. – Acho que o calor me pegou. – Ela se abaixou, pegou o chapéu e começou a se abanar abundantemente.

 

- Sim, o calor – Lucinda resmungou. – Gostaria de entrar para beber alguma coisa. – ocorreu-lhe de perguntar.

 

- Não, obrigada. – Amélia respondeu, ainda parecendo um pouco confusa. – Tenho de ir para casa. Tive de subornar meu condutor e minha acompanhante para não contarem sobre minhas visitas e temo que quanto mais eu os mantiver esperando, mais minha mesada definhará.

 

- Eu a acompanho. – Lucinda disse, abaixando-se para pegar o cobertor que trouxe com ela para por no chão. Ela então pegou o braço de Amélia e a conduziu pelo caminho que levava a casa e a entrada circular onde a carruagem de Amélia sem dúvida a aguardava.

 

- Foi maravilhoso conhecê-la. – Lucinda disse de forma educada. – Talvez possamos nos encontrar novamente antes... – Ela deixou a sentença cair. Ela não podia dizer antes de eu ser forçada a partir.

 

- Se não em algum evento social, em meu casamento – Amélia disse, não percebendo o quase erro de Lucinda. – Quer minha mãe queira ou não, eu convidarei a meus amigos. Farei com que você e seu marido estejam, com certeza, na lista de convidados.

 

Lucinda, a bruxa sem sobrenome, convidada para um casamento na sociedade? Era quase demais para se compreender. Ela acompanhou a jovem pelo caminho, observou-a subir na carruagem, então caminhou até a porta da frente. Hawkins a abriu antes de ela chegar lá e ela sorriu para ele, subindo então para se certificar de que Jackson tinha levado Sebastian para o quarto.

 

Ele estava saindo do quarto da criança. – Você se comportou muito mal com Lady Amélia – ela imediatamente o censurou. – Você devia ser...

 

- Chicoteado? – ele interrompeu erguendo a sobrancelha. – Não se preocupe; você terá a sua chance.

 

Ela não queria pensar sobre isso. Ela não gostava do súbito distanciamento entre eles. Ela não gostava das mentiras entre eles. Antes, ela se sentia desconfortável quando ele fazia comentários sugestivos e tentava seduzi-la. Agora, ela queria muito ouvi-lo provocá-la novamente, vê-lo olhando para ela com desejo nos olhos ao invés dessa indiferença fria. Ela havia invejado Lady Amélia. Invejado por ela sentir a boca dele contra a mão, o olhar provocante que ele lhe lançou. Lucinda percebeu que ele ainda não se lavara. O cheiro estava nele.

 

- Você deveria se lavar. – ela disse.

 

Ele se aproximou, colocando-a de costas contra a parede, colocando uma mão contra a parede ao lado da cabeça dela.  – Estou incomodando você?

 

Ela engoliu com dificuldade. O fogo queimou dentro dela então, uma pequena bola que se formou e seu estômago e espalhou seu calor para fora, por ela inteira. Ele parecia tão bom. Ele cheirava tão bem. Sua boca estava tão perto, tão perturbadora. Ela não conseguia pensar. Não conseguia falar. Não conseguia respirar.

 

- Eu.. – foi tudo o que conseguiu. Sua mente e sua boca não funcionaram, mas suas mãos sim. De repente, ela o estava tocando, suas mãos subindo do peito para o pescoço dele, na nuca, seus dedos brincando com os cabelos dele. Ela o puxou para perto e lá estava ela, a fagulha que ela desejava. A chama que acendia os olhos escuros e os transformavam em fogo azul.

 

- Que se dane! – ele disse roucamente e então a beijou.

 

Não foi um beijo gentil. Nem foi brutal. Ficou entre eles e serviu completamente às necessidades dela. E desde quando ela tinha necessidade quando se tratava de homem? Desde o primeiro momento em que o encontrara. A língua dele experimentou a dela e todos os pensamentos fugiram. Ela entrou no jogo. Ele se comprimiu contra ela, seu desejo evidente em suas calças justas. Ela se pressionou de volta.  Ele separou dos lábios dela com um gemido, pegou-a pela mão e a puxou para o quarto mais próximo, que era o dela. As mãos dele estavam subitamente nos cabelos dela, segurando sua cabeça enquanto explorava sua boca. Então ele a estava conduzindo de costas em direção a cama.

 

Lucinda sabia das intenções dele e pela primeira vez não entrou em pânico. Não sentiu necessidade súbita de fugir, apenas uma aceitação do que era e do que poderia ser. Ele era um homem. Ela era uma mulher. Ele estava certo. Isso era inevitável.

 

Eles caíram sobre a cama juntos, bocas coladas, mãos se movendo. Ela puxou a camisa dele de dentro das calcas enquanto ele trabalhava com os botões na frente do vestido de dia que ela usava. As mãos dele tremiam, seus dedos desajeitados na pressa. Sua súbita falta de jeito a excitava mais do que suas passadas seduções calculadas. Ela o ajudaria, decidiu-se, queimando de vontade de sentir suas mãos e sua boca contra a pele, contra seus seios doloridos. De repente, os dedos dele fecharam-se sobre os dela. Ele liberou a boca dela, respirando pesadamente, sua testa encostada contra a dela, e então a olhou bem dentro dos olhos.

 

- Não. – ele disse. – Não assim. – Ele rolou de cima dela e ficou de pé, olhando para ela.

 

Lucinda quase não conseguia respirar. Ele a estava rejeitando? Talvez pensasse que ela ainda não estivesse disposta. – Mas eu quero...

 

- Você quer o meu cheiro em você. – ele interrompeu. – Isso é tudo o que você quer. – Seu olhar a percorreu, seus olhos ainda brilhando de paixão. – Antes isso era suficiente para mim. Não é mais.

 

Sem acreditar, ela o viu se virar e sair do quarto. Ela ouviu o som das botas dele se movendo pelo corredor para o próprio quarto, então o ouviu fechar a porta.

 

Ela ainda estava pegando fogo, queimando por ele, doendo por ele, não pelo cheiro dele, por ele. Ela começou a se levantar para ir atrás dele. Não era a doce sedução no qual ele era perito que derrubara suas defesas, mas o homem que a provocava, o homem que segurava seu filho nos braços tarde da noite e falava mansamente com ele. O homem que a abandonara quando ela se rendeu completamente porque ele queria mais.

 

Mas que finalidade teria tal confissão para ela? Ela não era uma dama, não como aquela a quem ele primeiro entregou seu coração. Não como aquela, por tudo que Lucinda sabia, ainda possuía seu coração. Jackson podia querê-la em sua cama, mas não a queria em sua vida. Isso seria o suficiente para ela, também?

 

Momentos atrás, quando a paixão comandava a razão, teria sido o suficiente. Agora, ela não tinha certeza. Deveria agarrar o que ele queria dar a ela antes de partir? Ou isso faria com que partir fosse mais difícil? Lucinda não sabia, mas supunha que devia agradecer a Jackson por ter lhe dado tempo para decidir. Embora o tempo, Lucinda sabia muito bem, estava acabando.

 

Foi por acaso que Lucinda percebeu – uma carruagem que passou mais de uma vez em frente à residência enquanto ela olhava pensativa pela janela. Ela nem teria percebido se não fosse pelo ornamento ao lado da carruagem. Ela já o tinha visto antes. Um dragão. Era o brasão de Cantley. Coincidência? Ela não acreditava nisso. Nem por um segundo.

 

Ela tinha de contar tudo a Jackson. Ele não podia continuar acreditando que ela nutria sentimentos por Lorde Cantley além de ódio e medo. Ele tinha de compreender que Sebastian estava em perigo por causa do homem. Que possivelmente todos estivessem em perigo. Mas hoje era o dia – aquele para o qual Jackson estava se preparando física e mentalmente durante a semana. O dia para o qual Lucinda também tentara se preparar.

 

A mente de Jackson tinha que estar livre de preocupações, seu corpo, forte. Poderia esperar mais um dia antes de expor sua alma a ele? E sobre essa noite? Se Lucinda conseguisse exorcizar a fera, ela teria de cumprir sua promessa e partir. Se Lucinda falhasse com Jackson novamente, ela teria de se preocupar não apenas com Lorde Cantley, mas também com a própria ameaça que Jackson representaria quando a lua o dominasse na próxima semana. Ele teria de se retirar para algum lugar afastado, e ela ficaria sozinha com Sebastian, indefesos.

 

O dilema fez com que seu estômago se revirasse o dia todo.  Somado com a dura tarefa que teria, ao cair da noite Lucinda estava se assustando com a própria sombra. Também a preocupava deixar Sebastian sozinho na casa, mas ela não podia simplesmente levá-lo junto com Jackson e ela, não com o que planejavam fazer. Ao invés disso, Lucinda ergueu um circulo mágico em volta do berço de Sebastian. Ela disse a ama para manter os ouvidos abertos para qualquer sinal de problema. Os olhos de Martha se arregalaram de curiosidade, mas Lucinda não podia explicar para ela toda a situação quando ainda não havia conversado com Jackson.

 

A única solução parecia ser realizar o exorcismo o mais rápido possível e, acontecesse o que quer que fosse, contar para Jackson sobre a ameaça de Lorde Cantley. Então decisões poderiam ser tomadas. Ações poderiam ser conduzidas. Finalmente, quando as sombras caíram, uma suave batida soou na porta dela.

 

Lucinda abriu a porta e viu Jackson parado lá. Os olhos deles se encontraram. – Está na hora Lucinda. – ele disse suavemente para não acordar a ama e Sebastian. – Vamos.

 

Ele estendeu a mão e ela a pegou, sentindo-se segura, de algum modo, devido à força quente que sentia fluindo através dele. Eles desceram as escadas e andaram silenciosos como ladrões através da casa, usando a porta dos fundos. Ela se surpreendeu ao ver Hawkins parado lá. Enquanto eles deslizavam para fora, ele não disse nada, mas manteve a posição na porta desprotegida.

 

- O que você disse a ele? – ela perguntou quando saíram, se dirigindo ao caminho que levava ao estábulo.

 

- Que vigiasse a porta. – Jackson respondeu. – Além disso, ele não tem por que perguntar. Ele pode imaginar que estamos indo para um passeio a meia noite, ou para um encontro noturno. Não queria deixar a porta desprotegida, contudo, não em Londres, onde os ladrões rondam a noite procurando por qualquer porta destrancada ou janela quebrada.

 

Pelo menos ela se sentiu um pouco confortada por saber que Hawkins estaria guardando a casa. Agora, podia focalizar apenas na tarefa por fazer. Sua mente se encolhia com isso. Lucinda não se permitia pensar enquanto Jackson a conduzia pela escuridão. Os olhos dele eram muito mais adaptados do que os dela para andar a noite. Ele a conduziu para a alta área cercada onde trabalhava com os cavalos.

 

As paredes eram altas o suficiente para escondê-los, mas ainda assim era aberto e longe o bastante dos estábulos para, ela esperava, não levantar alarmes, nem com o homem encarregado pela vigia noturna, nem com os cavalos. Lucinda ofegou suavemente quando viu o que Jackson fizera no meio do cercado.

 

Um tipo de cadafalso, com grossas correias de couro amarradas sobre a cabeça. Correia de cerca do tamanho do pulso de um homem. Duas lanternas estavam colocadas de cada lado e ele se abaixou para acendê-las, logo provocando um brilho assustador ao redor do cercado. Na luz, ela viu o chicote colocado contra um dos pilares do cadafalso. Lucinda estremeceu.

 

Jackson apanhou o chicote e caminhou até ela. Como ela ficou parada com os braços de lado, ele levantou a mão dela e prendeu o chicote nela. Ele colocou a mão nas costas e retirou uma pistola da cintura da calça.

 

- Você sabe usar uma dessas?

 

Oh sim, a mãe a havia ensinado em tenra idade. Lucinda havia caçado algumas vezes com elas, quando as moedas era poucas para comprar o necessário e ninguém se importava se a bruxa da aldeia e sua filha morressem de fome durante o inverno.

 

- Sim. – ela respondeu.

 

- Bom. – ele a enfiou no bolso do vestido dela. – Se algo sair errado. Se eu partir para cima de você. Atire em mim.

 

Os joelhos dela quase entortaram. Atirar nele? Como poderia atirar nele quando ela... quando ela se importava com ele? – Tem certeza, Jackson? – ela perguntou. – Tem certeza de não querer esperar e ver se eu penso em alguma outra coisa?

 

- Estou cansado de esperar. – ele respondeu, olhando-a dentro dos olhos. – Está na hora de acabar com isso de uma vez por todas.

 

Ela se perguntou se havia duplo sentido em suas palavras. Então ficou com dificuldades para pensar quando ele começou a se despir. Ele puxou a camisa por sobre a cabeça e a atirou ao chão. Suas botas seguiram; depois ele começou a desamarrar as calças.

 

- Você tem de tirar tudo?  - ela perguntou sem fôlego.

 

Ele parou. – Você vai acabar cortando-as em pedaços de qualquer maneira. – ele disse. – E se a fera sair vencedora, não sobrará nada delas mesmo.

 

- A fera não pode vencer. – ela o relembrou. – Você não pode permitir isso.

 

Ele concordou com a cabeça, mas continuou a desamarrar as calças e as desceu pelas longas e musculosas pernas.

 

Lucinda não tentou desviar o olhar. Como poderia se ele era tão perfeito de rosto e de corpo? Tão lindo com o brilho das lanternas dançando sobre sua pele dourada? Ele caminhou descalça e nu até o cadafalso. Ela observou quando ele deslizou a mão pela correia de couro, usando a outra mão para apertar as amarras.

 

- Você terá de amarrar a outra. – ele disso por sobre os ombros.

 

Lutando com a repulsa do que teria de fazer com ele, Lucinda colocou o chicote no chão e caminhou até onde ele estava. Ela não era alta como ele e teve de ficar na ponta dos pés para alcançar o pulso dele, forçando seu corpo contra o dele em seus esforços de amarrar a correia. Ela bateu contra ele várias vezes durante o processo. Não fez bem aos nervos dela.

 

Depois de amarrá-lo, ela deu um passo para trás e olhou para ele. – Está certo disso, Jackson? – ela perguntou novamente.

 

- Sim.

 

- Decidido, porque nós podemos...

 

- Faça, Lucinda. – ele rosnou. – Eu quero ser livre!

 

Livre da fera? Ou livre dela? Com toda possibilidade, livre de ambos. Ela respirou profundamente e se afastou dele, dando a volta por detrás dele para onde tinha largado o chicote. Com as mãos trêmulas, ela se abaixou e recuperou o objeto que serviria para purificá-lo. Ela já vira o que um chicote podia fazer com as costas de um homem.  O administrador de Lorde Cantley não era um homem gentil e usava o chicote frequentemente para dar exemplo aos trabalhadores do campo. Lucinda havia cuidado de muitas costas rasgadas e sangrentas.

 

Olhando agora para a pele macia e sem marcas de Jackson, Lucinda desejava nunca ter mencionado o ritual em sua raiva. Ele já estava tenso esperando os golpes e ela abaixou o chicote, deixando-o dobrado como uma serpente no chão. Ela não conseguia se forçar a pegá-lo, arremessá-lo contra ele e dilacerar sua pele.

 

- O que você está esperando? – ele perguntou por entre os dentes cerrados. – Comece.

 

- Não acho que consiga. – ela sussurrou.

 

- Claro que consegue. – ele rosnou para ela. – Agora é sua chance de se vingar por tudo que lhe fiz.

 

Lucinda tentou reunir sentimentos de vingança. Ela não conseguiu. – Você me deu um nome e um lar. Você me deu roupas finas para usar e proporcionou segurança e proteção para meu filho.

 

- Eu queria matá-la no começo. – ele relembrou a ela. – Quase consegui que nossas gargantas fossem cortadas no dia de nosso casamento. Tentei seduzi-la como um modo de derrotá-la.

 

- Você me protegeu contra aqueles homens na taverna. – ela argumentou. – Você poderia ter tirado proveito de mim mais tarde naquela noite quando o brandy me subiu a cabeça. Você não o fez.

 

- Eu queria. – ele gritou. – Eu a despi, e tudo o que conseguia pensar era em possuí-la. Ainda não consigo pensar em mais nada a não ser em ter você. Está se tornando uma obsessão. Espanque isso para fora de mim.

 

- Você está mentindo. – ela gritou. – Você já poderia ter me possuído. Você sabe disso. Você se afastou.

 

- Eu me afastei de uma cadela no cio! – ele gritou. – No cio por causa do meu cheiro. Sempre foi assim comigo. As mulheres. Elas nunca me queriam; era tudo por causa do cheiro. Você não é nem um pouco diferente.

 

Lucinda deu um passo para trás e sibilou o chicote no ar antes de conseguir parar. Como ele ousava dizer que ela não era diferente! Ela tinha sido diferente toda sua vida. Ela tinha ficado de fora olhando para dentro. Ela tinha passado fome e falavam mal dela. Ela tinha sido drogada e molestada e engravidado. Dado a luz a uma criança que um homem queria matar por causa da marca que carregava.

 

O chicote pousou com um estalo sobre as costas de Jackson.  Ele automaticamente se sacudiu. Sua respiração sibilou entre seus lábios. Abalada pelo que fizera, Lucinda apenas conseguiu ficar parada e observar a marca vermelha que subitamente apareceu na macia pele dele.

 

- É assim que se faz – ele disse. – Bruxa. – ele acrescentou duramente.

 

Ele não a enganaria novamente. Lucinda compreendeu o jogo dele agora. Embora a compreensão tivesse vindo tarde demais. Lucinda jogou o chicote como se ele queimasse sua mão. Ela caminhou até ele e deu a volta para encará-lo.

 

- Não posso fazer isso. – ela disse. – Pensei que pudesse, mas tal crueldade, não importa como tenha sido tratada toda minha vida, não está em minha natureza.

 

- Lucinda. – sua voz se suavizou. – Tenho que conseguir tirar essa fera dentro de mim para que eu encontre apenas o homem que sou. Para que eu possa ser apenas o homem que sou. Quero que ela se afaste de meus irmãos também, para que eles também possam ser apenas homens. Não tire essa chance de mim.

 

- E ela? – ela tinha de perguntar. – Você quer que a fera suma para o bem dela, também?

 

A testa dele se enrugou. – Ela?

 

- Lady Anne. – Lucinda disse impacientemente. – Se você for apenas um homem, se eu sair do caminho, você estará livre para persegui-la.

 

- Se eu a quisesse tanto assim, - ele disse. – teria usado meu cheiro sobre ela há muito tempo. Essa parte de minha vida já passou, Lucinda.

 

O coração dela deu um salto. Poucas palavras soaram tão doces para Lucinda, mas ele ainda não dissera que tinha sentimentos por ela. Ele não perguntara se ela queria ficar. Mas ele também estava enganado sobre seu relacionamento com o conde.

 

- Não era o que você estava pensando. – ela disse. – Lorde Cantley...

 

- Chamou, meu amor?

 

Novamente o coração de Lucinda deu um salto, mas por um motivo diferente. Sabendo que o sangue deve ter sumido de seu rosto, ela deu um passo para o lado e viu Lorde Cantley e dois capangas parados dentro do cercado.

 

- Que gosto mais estranho seu marido tem. – Lorde Cantley falou lentamente, observando a estranha cena perante ele. Ele levantou a sobrancelha. – Ou é idéia sua?

 

- O que você está fazendo aqui? – ela conseguiu arfar, embora agora seu coração estivesse batendo tanto e tão alto dentro do peito que ela pensou que ele sairia do corpo.

 

- Você sabe o que estou fazendo aqui. – Ele se voltou para um dos homens – Vá para a casa e pegue a criança.

 

- Não! – Lucinda gritou, correndo para frente enquanto tentava agarrar a pistola em seu bolso. Ela não conseguiu tirar a arma de dentro das dobras de seu vestido antes de Lorde Cantley estar sobre ela.

 

Ela ofegou de dor quando ele forçou a arma da mão dela e a pistola caiu no chão. Lorde Cantley a agarrou, colocando suas mãos no pescoço dela.

 

- O que está acontecendo? – O grito de Jackson rasgou a noite.

 

Lucinda viu que ele lutava contras as amarras, mas sem sucesso, já que elas estavam seguramente apertadas para mantê-lo no lugar. Lorde Cantley a arrastou até que ambos ficassem de frente para Jackson.

 

- Que joguinho você e a bruxa estão jogando? – Lorde Cantley perguntou. – Ela nunca quis brincar comigo. Se quisesse, eu não teria tido de drogá-la com uma de suas próprias poções para ter meu prazer com ela.

 

Jackson estava lutando contra as amarras, mas subitamente parou. – Você fez o que com ela? – ele exigiu.

 

- Ela não lhe contou? – Lorde Cantley puxou Lucinda mais para perto dele. – Então talvez ela não tenha se importado tanto afinal de contas.

 

Lucinda lutava, mas os dedos dele cruelmente se enterravam em sua garganta.

 

- Tire as mãos de cima dela! – Jackson exigiu.

 

O conde riu. – Já coloquei minhas mãos nela antes. – ele zombou de Jackson. – Nela todinha. É claro que ela estava inconsciente e a emoção foi amortecida pela falta de resposta dela. Tenho pensado muito sobre isso. Considerando em como seria tê-la novamente, quando ela estivesse acordada e totalmente consciente do que eu estivesse fazendo com ela. O que você me diz, Lucinda? Devemos ter outro encontro?

 

Ela pisou no pé dele. Ele amaldiçoou e afrouxou o aperto. Ela quase conseguiu fugir antes dele agarrar seu longo cabelo e puxá-la de volta.

 

- Viu porque eu peguei o caminho mais fácil e a droguei.  – ele disse a Jackson. – Ela é intempestiva. Eu sabia disso sobre ela, mas não esperava que fosse virgem. Isso foi uma agradável surpresa. O bebê.  Isso não foi uma surpresa agradável.

 

- Deixe-o em paz. – Lucinda disse furiosa, ainda lutando, apesar de o homem estar com suas mãos em sua garganta novamente, cortando-lhe o suprimento de ar.

 

- Ele tem a minha marca, não tem? Senão você não o teria pegado e fugido. Como conseguiu fazer com que esse homem casasse com você? Espero que não o tenha traído fazendo-o acreditar que tinha gerado o pirralho.

 

 

 

Jackson estava enfurecido... e indefeso. Lucinda deveria ter lhe contado a verdade, mas por que o conde se importava com Sebastian? Então Jackson se lembrou de Lucinda dizer que o homem era primo do rei. Sangue real. Um bastardo que um dia poderia subir ao trono. A marca provava sua descendência. Agora muitas coisas faziam sentido. Lucinda sabia que Jackson tinha vindo para matá-la aquele dia na cabana, mas ela pensara que era um dos capangas desse homem, vindo para se certificar de que o bebê que ele gerara nunca respiraria.

 

O homem desceu uma mão pelo pescoço de Lucinda e acariciou o seio dela e Jackson viu tudo ficar vermelho. Agora as reações de Lucinda para com ele faziam sentido também. Ela havia sido arrastada e usada por esse homem, e embora parecesse ser era algo de que ela não se lembrava, foi a falta de controle que a incomodou mais do que o próprio ataque. Foi ter ficado indefesa e a mercê desse homem. Ele o mataria.

 

As amarras de couro cortavam os pulsos de Jackson enquanto ele lutava para se libertar. Droga, ele as tinha feito bem fortes para que não conseguisse escapar e se voltar contra Lucinda caso a ira da fera crescesse dentro dele. E estava crescendo agora.

 

- Talvez devêssemos lhe dar o que estava esperando da bruxa. – o homem disse. – Ou talvez ela goste disse. De qualquer modo, não há necessidade de você ou ela não conseguirem o que desejam.

 

O homem acenou com a cabeça na direção atrás de Jackson. O chicote subitamente estalou pelo ar e caiu nas costas de Jackson. Jackson se contorceu com a ferroada dele.

 

- Não. – ele ouviu Lucinda ofegar. – Por favor, não o machuquem. Eu menti para ele. Ele é um inocente no meio disso tudo. Faça o que quiser comigo, mas deixe-o em paz. E meu filho, por favor, não o machuque.

 

- Vê como ela implora lindamente? – o homem perguntou a Jackson. – Não pensei que ela fosse capaz disso. Mulher orgulhosa, especialmente sendo uma bruxa. Me esnobou. Mas não está tão arrogante agora, não é?

 

Lorde Cantley passou a língua pelo rosto de Lucinda. A raiva de Jackson aumentou ainda mais. Ele a deixou vir, deu boas vinda a ela. O chicote estalou novamente, mas ele nem sentiu a dor, tão focado estava em Lucinda e no homem que a ousava tocar, ousava ameaçar a mulher e a criança que estavam sob a proteção de Jackson. Novamente a chicotada caiu, apenas fazendo com que a fera ficasse ainda mais próxima da superfície.

 

- Leve-me com você. – ele ouviu Lucinda implorar novamente. – Farei o que você quiser, serei o que você quiser, se você deixar a ele e a meu filho em paz!

 

- Você o fará de qualquer maneira! – o homem contra atacou. – A criança não pode ficar viva. Você sabe disso. – O homem olhou para Jackson novamente. – Eu a devolverei quando tiver terminado com ela, se é que sobrará alguma coisa de qualquer um de vocês.

 

A força de Jackson aumentou com sua raiva. Ele puxou com todas as forças as amarras ao redor do pulso, conseguindo liberar uma mão. A dor estava em seu estômago agora, não em suas costas onde as chicotadas haviam caído e cortado. O cheiro do próprio sangue apenas trouxe a fera mais próxima da superfície. O rosto de Lorde Cantley empalideceu e ele deu um passo para trás, arrastando Lucinda junto com ele.

 

- Que feitiço você lançou sobre ele, bruxa?

 

- Um que causará a sua morte. – Jackson respondeu ao homem, sua voz baixa e cruel. Ele sentiu seus caninos crescerem dentro da boca, e os exibiu no brilho sinistro da luz da lanterna.

 

- Sua pistola , homem! – Lorde Cantley gritou. – Pegue-a e atire nele!

 

- Você não pode matá-lo! – Lucinda sibilou. – A fera em que ele se transforma está além da morte. Fuja agora, enquanto ainda pode!

 

As garras sobressaíram na mão livre de Jackson. Ele as usou para rasgar as amarras, tentando manter seus pensamentos humanos mesmo enquanto sentia a fera se apressando para dominá-lo. Ele ouviu o som de pés correndo atrás dele.

 

- Covarde! – Lorde Cantley gritou, Jackson apenas pode presumir que era o homem que estava manejando o chicote.

 

Os pensamentos de Jackson ficaram mais difíceis para se formar, para se manter. Ele já quase liberara seu pulso amarrado. Ele sentiu o pêlo surgindo por debaixo de sua pele, sentiu os ossos se expandindo e se retraindo, se rearranjando para a mudança.

 

- Bom Deus, ele é um monstro!

 

Foram as últimas palavras que ele ouviu com os pensamentos coerentes de um homem.

 

Lucinda observava com fascinado horror conforme a mudança ocorria em Jackson. Ela sentia o suor frio do medo de Lorde Cantley agora. Ele a empurrou para longe dele.

 

- Isso ainda não acabou. – ele garantiu a ela; então correu como o covarde que era.

 

Ela ficou paralisada por um momento, hipnotizada pela visão de Jackson, ainda meio homem, meio fera, lutando para se libertar das amarras. Então ela se lembrou de Sebastian. Com um grito, ela correu para a casa. Ela tropeçou na escuridão, mas manteve o caminho. Uma alta presença de súbito surgiu na frente dela.

 

- Não contava com aquele vagabundo guardando a porta. – o homem resmungou. – Me deu um bom golpe na cabeça e me enxotou para fora. Espere; você não devia estar andando por ai livremente. – o homem subitamente percebeu.

 

- Deixe-me passar – Lucinda o avisou. – Seu patrão fugiu como o covarde que é. Se você for esperto, fará o mesmo.

 

- Lorde Cantley disse que era para levar você conosco. Você e o bebê. – ele se aproximou e tentou agarrar Lucinda.

 

Ela se jogou para trás, tropeçou sob uma pedra e caiu com tudo sobre o traseiro. O homem deu risada da falta de jeito dela e deu um passo para frente.

 

- Venha agora, quietinha. – ele avisou. – Não sou contra bater em uma mulher se for preciso.

 

O homem se inclinou sobre ele, mas antes que pudesse agarrá-la, uma forma escura pulou por detrás de Lucinda e jogou o homem de costas no chão. Ela ouviu rosnados, viu os brilhantes olhos azuis da fera e então ouviu o homem gritar. Seus gritos saiam em golfadas de sua garganta e Lucinda pôs-se de pé com esforço, e passou pelo homem caído e pela forma escura que lhe rasgava a garganta. Ela correu para a casa, entrou apressadamente e quase deu de cara com a pistola de Hawkins.

 

- Lady Lucinda. – Hawkins suspirou. – Pensei que fosse o intruso retornando.

 

Lucinda rapidamente fechou a porta e colocou as trancas. Suas mãos tremiam. – Sebastian?

 

- Está bem, milady. – Hawkins lhe garantiu. Ninguém entrou na casa exceto aquele um que golpeei com a pistola e expulsei.

 

Ela tentou acalmar as batidas de seu coração e a controlar a respiração.

 

- Lorde Jackson? – Hawkins inquiriu. – Onde ele está?

 

O que dizer? Aí fora rasgando a garganta de um homem? Lucinda estremeceu. – Ele saiu em perseguição aos ladrões. – ela mentiu.

 

- Talvez eu também deva ir e ajudá-lo. – Hawkins sugeriu.

 

- Não! – Lucinda desejou não ter gritado a palavra. – Quer dizer, ele me disse que era para você ficar na casa e nos proteger até ele voltar.

 

Hawkins franziu a testa. – Muito bem. A senhora parece pálida. Posso lhe trazer algo, milady?

 

- Brandy. – ela disse – Um bom copo de brandy.

 

Hawkins inclinou a cabeça e foi providenciar a bebida. A entrada dos fundos era pela cozinha. Lucinda se dirigiu a uma vigorosa mesa onde os criados faziam suas refeições e se sentou. Ela ainda estava tremendo quando Hawkins voltou com um copo de liquido âmbar. Ela o entornou e bebeu tudo.

 

- O que devemos fazer agora, Lady Lucinda? – Hawkins perguntou.

 

Ela indicou a cadeira na frente dela – Nós esperaremos.

 

 

Hawkins estava cochilando e Lucinda não estava conseguindo manter os olhos abertos quando ouviu uma suave batida na porta dos fundos. Ela se levantou e foi até a porta, colocando uma orelha contra ela. – Jackson? – ela chamou.

 

- Sim, deixe-me entrar. – veio a resposta.

 

Ela lutou contra as pesadas trancas e abriu a porta. Ele entrou, vestido com as roupas que havia usado anteriormente, ensangüentada e amarrotadas.

 

- Você está bem? – ela sussurrou, seu coração disparado.

 

Ele concordou, embora ela notasse o assombro em seus olhos.

 

- Lorde Jackson. – Hawkins acordou com as palavras de alívio. O mordomo rapidamente se levantou e se apressou na direção dele. – O senhor está sangrando!

 

- Não é nada sério. – Jackson garantiu ao homem. – Mas traga água limpa e bandagens até meu quarto. Lucinda pode me ajudar lá em cima.

 

Assim dizendo, Jackson passou um braço ao redor do pescoço dela e permitiu que ela o ajudasse através da casa e pelas escadas. Uma vez no quarto, ele tirou a camisa. Lucinda prendeu a respiração ao ver suas costas sangrentas. Ele tinha quatro chicotadas sangrando e uma marca, aquela que ela lhe infringira com raiva, mas sem a força óbvia das outras quatro.

 

- Deixe-me pegar minhas pomadas. – Ela correu para o próprio quarto para apanhar os remédios que tinha feito para ele em antecipação. Quando retornou, Hawkins estava lá com a bacia de água limpa e bandagens.

 

- Devo ajudá-lo, Lorde Jackson?

 

- Não. Hawkins, Lucinda tem habilidade para essas coisas. Vá para a cama. Foi uma longa noite.

 

- O senhor não deseja que eu fique de guarda pelo resto da noite, Lorde Jackson?

 

- A noite já quase acabou. – ele respondeu, e Lucinda percebeu que ele não se levantou da cama onde se sentara, suas costas protegidas da visão de Hawkins. – Eles não vão voltar. Pelo menos por enquanto. Vá para a cama, Hawkins.

 

- Como desejar. – o homem disse e se retirou do quarto.

 

Lucinda foi até a bacia, pegou panos limpos e os molhou na água fresca. Ela se sentou perto de Jackson na cama, e ele se virou para lhe dar acesso. As feias marcas em suas costas macias quase a deixaram nauseada. Sim, ela já havia tratado de tais feridas anteriormente, mas elas sempre tinham pertencido a alguém a quem ela não estava ligada emocionalmente. Isso era muito mais difícil. Ele não se encolhia enquanto ela limpava as feridas. Eles se sentaram em silêncio, mas ela sabia que o silêncio não duraria muito.

 

Finalmente, ele disse: - Você mentiu para mim.

 

Lucinda escolheu as palavras cuidadosamente. – Eu simplesmente não lhe disse toda a verdade. – ela se defendeu. – Pensei que se você soubesse que o pai de Sebastian pretendia matá-lo, e que o homem tinha ligação com o rei, você não permitiria que ficássemos. Que você não manteria a promessa de cuidar dele.

 

- Ao manter seus segredos, você nos colocou a todos em perigo, Lucinda. Essa noite poderia ter acabado muito pior do que foi.

 

Lágrimas queimavam nos olhos dela. Ele tinha razão. Ela devia ter contado no momento em que ele lhe perguntara sobre Lorde Cantley. – Eu sabia que sua mente tinha de estar limpa para o ritual. Planejei lhe contar depois de nossa tentativa, não importando o que acontecesse.

 

Ele se voltou para ela, erguendo as mãos na frente do rosto dela. – Há sangue em minhas mãos. – ele disse. – Há sujeira debaixo de minhas unhas por enterrar o que sobrou do homem que matei por você.

 

Bile subiu na garganta dela e ela desviou o olhar. – Você vai nos por para fora agora?

 

Ele se levantou da cama e foi até a bacia, mergulhando suas mãos na água para limpá-las antes de pegar uma forte barra de sabonete e esfregá-las. – Deixar que você e Sebastian se defendam sozinhos contra um homem que tem as graças do rei? Um homem que mataria o próprio filho e abusaria da mãe da criança? – ele se voltou para olhar para ela. – Você conviveu comigo debaixo deste teto por tempo suficiente para me conhecer melhor do que isso. Dói-me mais do que as chicotadas que você pense assim.

 

Abaixando a cabeça, ela não podia argumentar com ele. Pouco depois, ela sentiu o suave toque dos dedos dele em seu rosto. Ele levantou o rosto dela para olhar para ele.

 

- Mas talvez eu não tenha lhe dado motivos para confiar em mim. Talvez você fosse sábia em não fazê-lo. Você devia ter me contado sobre Lorde Cantley. Você devia ter me contado o que ele fez com você.

 

- Você teria acreditado em mim? – ela perguntou. – No começo, você teria confiado em minha palavra mais do que eu confiei na sua? Fui chamada de prostituta minha vida toda, mesmo sendo pura quando Lorde Cantley me drogou com uma poção que tinha levado para o parto da mulher dele. Por que eu deveria acreditar por um momento que poderia confiar em você e que você ouviria minhas palavras e as contasse como verdadeiras?

 

A mão dele subiu pelo rosto dela e descansou lá. – Soube na primeira vez em que a beijei que você não era prostituta, Lucinda. Uma prostituta aceita ambiciosamente seu prazer, e mesmo assim você se negava, e a mim o prazer de ensiná-la a alegria que pode ser encontrada no toque de um homem.

 

- Eu tinha medo. – ela admitiu. – A perda de controle que eu sentia infiltrando-se sobre mim. Um sentimento de desamparo contra a traição de meu próprio corpo. Não me lembro do que Lorde Cantley fez comigo enquanto eu jazia inconsciente e indefesa contra ele. Mas minha mente proporciona detalhes que são provavelmente piores do que foram na realidade.

 

- Eu deveria tê-lo matado essa noite. – Jackson disse. Ele tirou a mão do rosto dela e voltou para a bacia. Um jarro com água limpa estava sobre a mesa. Jackson foi até a janela, a abriu, pegou a bacia e jogou a água para fora. Ele enxugou a bacia com um pano limpo, a encheu novamente, e começou a lavar o rosto e a limpar a boca. Lucinda se levantou da cama, pegou sua pomada, e se juntou a ele, cuidadosamente aplicando o remédio nas costas feridas dele enquanto ele terminava sua higiene.

 

- E agora? – ela perguntou. – Não terminou essa noite. Eu iria embora se fosse apenas eu que Lorde Cantley desejasse. Mas Sebastian...

 

Ele se voltou subitamente. – Você não o levará daqui. – ele disse com severidade. – Você não pode protegê-lo, Lucinda. Contra um homem poderoso você não pode nem mesmo se proteger. Nenhum de vocês vai embora, compreendeu?

 

Pela paixão na voz dele, ela apenas acenou coma cabeça. – Mas o que faremos? Ele disse que ainda não acabou. Ele não desistirá tão facilmente, Jackson. Ele é um homem acostumado a conseguir o que quer e a fazer o que deseja.

 

Jackson correu uma mão pelos longos cabelos, tirando-os de suas lindas feições. – Não sei. Tenho que pensar sobre isso.

 

Lucinda ofegou quando viu as marcas em carne viva ao redor dos pulsos dele onde ele lutou com as amarras. Ela untou os dedos com a pomada, levantou um pulso e começou a esfregar o medicamento na pele machucada.

 

- O homem... – Ela parou para respirar. – O que você fez com o corpo dele?

 

- Eu o enterrei bem fundo no terreno ao lado. – ele respondeu. – A fera não me dominou por muito tempo depois de matá-lo. Voltei a mim encarando os olhos sem vida do homem e com o gosto do sangue dele na boca.

 

Ela estremeceu. – Lorde Cantley pode contar ao rei sobre nós. – ela disse. – Podemos os dois sermos queimados vivos.

 

- Mas ele não o fará. – Jackson disse. – Ele quer cuidar de seus negócios escusos ele mesmo. Ele quer apagar a prova de sua indiscrição para que ninguém descubra.

 

- Talvez. – Lucinda concordou, pegando o outro pulso dele para tratar. – Se ele o fizer você deve dizer que eu lancei um feitiço sobre você, Jackson. Você tem riqueza e sua família tem terras e títulos. Eu não sou ninguém. Eu...

 

Ele colocou um dedo contra os lábios dela. – Por que você se diminui, Lucinda? Por que não percebe o quão especial você é? Você usa seus dons para o bem, não para o mal. Você salva vidas. Você se dá e não espera nada em troca, com, suponho, exceção a nosso acordo.

 

Suas palavras a encheram de calor, mas também trouxeram culpa. Ela desviou os olhos para longe dele. – Falhei em nosso acordo. – ela sussurrou. – Hoje à noite, não consegui livrar você da fera.

 

Se aproximando, ele fez com que o rosto dela se voltasse para ele novamente. – É melhor que fiquemos assim por agora. Podemos precisar dela.

 

A boca dela caiu. – Você continuaria amaldiçoado por nós? Uma mulher que te enganou e uma criança que nem sua é?

 

- Até que esse assunto esteja resolvido. – ele respondeu. – Não temos muito tempo para fazer planos. Tenho muito em que pensar. Você está cansada. Vá para a cama.

 

Jackson se dirigiu para a própria cama e se sentou. Ele tirou as botas e ela viu que o esforço lhe causou dor.

 

- Preciso enfaixar suas costas antes. – ela disse. – Fique quieto enquanto faço isso.

 

Dirigindo-se para a mesa, Lucinda pegou as bandagens que Hawkins trouxera. Ela se juntou a Jackson na cama e começou a enrolá-lo cuidadosamente. Ela tentou ser o mais gentil possível. A pele dele estava quente e macia debaixo das mãos dela, menos suas costas. Ele carregaria as cicatrizes dessa noite com ele para sempre. E era culpa dela. Ela não conseguia acreditar que ele colocara a coisa mais importante da vida dele – quebrar a maldição – de lado por ela e por Sebastian.

 

Jackson achava que não tinha honra, mas ele tinha mais honra do que qualquer outro homem que ela conhecera. Ele havia dito que ela era especial. E essa noite Lucinda sentira seu próprio valor pela primeira vez. Cuidando dele, ela percebeu que fosse qual fosse a maldição sobre ela, também poderia ser considerada uma bênção. Ela deu a volta para se ajoelhar na frente de Jackson, cruzando as faixas das costas para o peito para mantê-las firme no lugar. Quando sentiu os olhos dele sobre ela, olhou para cima. Eles se encararam até que ele desviou o olhar.

 

Lucinda se aproximou e voltou o rosto dele para ela. Talvez fosse hora de confiar em alguém. Confiar nele. Ela se inclinou e tocou seus lábios nos dele. Ele permitiu o contato gentil por um momento antes de virar a cabeça.

 

- Você não me deve nada, Lucinda. – ele disse.

 

Aproximando-se, ela virou o rosto dele para ela novamente. – Sim, eu devo. Mais do que posso pagar. Mas isso não tem nada a ver.

 

- E tem a ver com o que? – ele perguntou.

 

Tinha a ver com os sentimentos dela em relação a ele e em se permitir em reconhecê-los. Mas principalmente tinha a ver com... – Deixar acontecer. – ela respondeu. – Ensine-me as alegrias para que não haja somente tristeza em minha mente. Espante-as para longe.

 

Ele afastou o olhar novamente. – Os acontecimentos dessa noite a deixaram muito emocional. Você não sabe o que está pedindo.

 

- Não há nenhum cheiro em você agora. – ela disse. – Nenhuma razão para pedir a não ser a verdadeira. Eu quero você.

 

O olhar dele retornou para ela. Ele a olhou profundamente dentro dos olhos e ela viu a primeira faísca da chama azul. – Você escolheu uma hora estranha para desafiar minha virilidade.

 

Ela abaixou os olhos. – Não quis dizer essa noite. Você está ferido. – Lucinda começou a se levantar, mas as mãos dele agarraram os ombros dela e a mantiveram no lugar.

 

- Podemos não ter um amanhã. – ele disse.

 

Então ele se inclinou para frente e a beijou.

 

 

Os lábios dele eram quentes e firmes, seu hálito fresco com a menta que usara para limpar a boca. Lucinda bebia dele, atraída por sua força e perdeu-se na maravilha da boca dele. As mãos dele subiram por seu rosto, os dedos enroscando-se em seus cabelos como que para segurá-la, o que não era preciso. Ela não queria escapar.

 

As lâmpadas diminuiriam, e novamente Lucinda pensou se ele não tinha o poder de algum modo criar uma iluminação mais íntima...ou se talvez o talento fosse dela. As mãos dele voltaram para os ombros dela e ele a levantou da posição ajoelhada em que se encontrava. A leve contração dele a relembrou de que ele estava ferido e ela sentiu uma ponta de culpa por fazê-lo se esforçar.

 

- Devo ir. – ela sussurrou.

 

- Não. Fique comigo.

 

Por um momento, ela fechou os olhos e fingiu que ele queria dizer mais do que apenas essa noite. Lucinda se assentou na cama perto dele. Ele se esticou, novamente se contraindo quando suas costas encontraram o macio colchão da cama.

 

- Você teme a perda de controle. – ele disse. – Eu lhe dou o controle essa noite. Estou as suas ordens.

 

 Para ele assumir o papel passivo, ela imaginou, era uma tortura adicional. Assim mesmo ele abriria mão de seu poder para aliviar os medos dela. Era a forma mais forte de sedução.

 

Lucinda engatinhou até ele sobre a cama. Inclinando-se sobre ele, ela o beijou no pescoço. Movendo-se para baixo, ela saboreou a pele entre as faixas que cruzavam seu peito. Jackson soltou um pequeno som pela garganta, mas suas mãos continuaram pousadas de lado.

 

Ela refez o caminho para cima até a boca dele, provocando-o com a língua até que ele aceitou o desafio. Permaneceram assim por um tempo, beijando-se, até as mãos dela começarem a passear. Ela correu os dedos pelo peito enfaixado até o umbigo e prosseguiu seguindo a intrigante linha de pêlos escuros que desapareciam dentro da cintura da calça dele. A mão dela deslizou mais para baixo, pela frente das calças dele onde encontrou a prova do evidente desejo dele. Ela o ouviu respirar fundo, mas ela ainda não a tocou.

 

A mão dela voltou para a rígida saliência no cinto dele, onde começou a desamarrar as calças. Ao abri-las, permitiu que ele saltasse para fora, e novamente ela se maravilhou com seu tamanho e magnificência. A mão dela se fechou sobre ele e ele se sacudiu involuntariamente, embora novamente não se aproximasse dela ou a tocasse. Tocá-lo era uma lição sobre contradição. Dureza revestida de pele de veludo, quente e duro em sua mão. Tocá-lo também produziu um estranho efeito sobre ela. Ela queria sentir as mãos dele sobre ela também.

 

 Levantando-se acima dele, Lucinda desabotoou a frente de seu vestido. Jackson a observava como um homem hipnotizado, apenas o subir e descer irregular de seu peito indicava que ela o afetava. Ela desceu o vestido até a cintura e então foi para a fita de seda de sua camisa e vagarosamente a liberou, abaixando as tiras pelos ombros.

 

Jackson a encarava, seus olhos inflamados pelo brilho azul na iluminação fraca, mas ele não a tocou. Não até ela pegar as mãos dele e as guiar até seus seios doloridos. Ele os envolveu, movendo seus dedões sobre os mamilos até que endureceram. Ela deslizou a mão pelos cabelos dele até a nuca, ficando de joelhos entre as pernas dele antes puxar a boca até seus seios. Ele pegou o mamilo em sua boca e o sugou, lambeu, e até mesmo mordeu, embora de forma carinhosa. Jogando a cabeça para trás, Lucinda apreciou a sensação da boca dele se movendo sobre seus seios, provando e provocando até que a suave palpitação entre suas pernas se intensificou.

 

Com os dedos ainda enroscado nos cabelos dele, ela puxou-lhe a cabeça para trás para que ele olhasse para ela. Ela se inclinou para capturar-lhe a boca, abaixando devagarzinho até se sentar sobre ele. O quadril dele se arqueou para ela, uma resposta involuntária, ela percebeu. A fricção não era desagradável. Enquanto suas bocas trabalhavam juntas, lá embaixo a firme pressão das partes masculina e feminina uma contra a outra tornava a respiração mais difícil. Ela subitamente se sentiu em chamas.

 

- Tire a minha roupa. – ela sussurrou.

 

Às ordens dela, Jackson a puxou completamente para cima dele. Usando suas pernas para fechar as dela de modo a empurrar a vestimenta dela para baixo até onde as mãos dele alcançassem e desatar tudo o que encontrasse pelo caminho. Enquanto as bocas ainda estavam unidas, as línguas ainda entrelaçadas, as mãos dele a tocaram em seu traseiro nu, leve o bastante para fazê-la estremecer. Lucinda serpenteou para liberar as roupas ao redor dos quadris.

 

Ela puxou as calças de Jackson, as deslizando por toda a extensão dele para removê-las. Quando se sentou aos pés dele, seu olhar o percorreu, esparramado nu na frente dela. A beleza dele quase a deixou sem fôlego. Vagarosamente, ela passou as mãos subindo pelas pernas dele, suas coxas, musculosas e com o mesmo tom dourado do resto do corpo. Ela estava num impasse.

 

- Não tenho certeza do que fazer a seguir. – ela disse.

 

- O que você quer, Lucinda? – ele perguntou, sua voz baixa e rouca.

 

- Quero que você me toque novamente. – ela respondeu – Do modo que me tocou lá embaixo na sala de jantar.

 

- Venha aqui.

 

Ela se rastejou para cima novamente e se colocou ao lado dele. Primeiro, ele a beijou – um longo e lânguido beijo que quase a fez derreter de encontro a ele. A mão dele deslizou pelo estômago dela, abaixando até chegar ao ninho de pêlos entre as pernas. Com a primeira caricia de seus dedos, ela era dele. Ele foi gentil até que ela se pressionou firme contra seus dedos, arqueando para ele.

 

A pressão continuava aumentando, e entre beijos que tiravam o fôlego ela gemeu o nome dele. Jackson deslizou seu dedo para dentro dela, quase fazendo com que ela lhe rasgasse os ombros com as unhas.

 

- Você é tão quente, tão estreita. – ele disse contra os lábios dela, e até mesmo o som puro de sua voz a levou às alturas.

 

Ela estava quase perdendo o controle, e por um momento lutou para não se entregar, mas Lucinda se lembrou de que era sua escolha, sua vontade. Ela podia confiar nele.

 

- Eu quero mais. – ela sussurrou. A pressão dele contra sua perna era o que ela queria. Ele dentro dela. Que seu corpo soubesse o que sua mente não questionava. Não essa noite. Não agora.

 

- Tem certeza?  - ele perguntou.

 

- Sim. – ela respondeu sem hesitar.

 

Ele a colocou de costas e depois estava em cima dela, separando as pernas dela. Ela se preparou para o que viria a seguir, mas ao invés de se apressar, ele se curvou para beijá-la novamente, deslizando a mão entre eles e continuando a estimulá-la. Ela estava sensível, incapaz de controlar o estremecimento em suas coxas ou o modo como ela se movimentava contra os dedos dele. Ele a levou quase ao ponto de quebra, e então ela o sentiu, ereto e pronto em sua entrada feminina. Ele não investiu precipitadamente, mas gentilmente a penetrou calmamente, um pouco por vez.

 

Lucinda sabia muito sobre o próprio corpo, corpos femininos em geral, já que fora chamada em tenra idade para fazer partos. Normalmente, ele encontraria uma barreira, mas Lorde Cantley tirou isso dela.  Lágrimas se juntaram em seus olhos por ele ter roubado aquilo que teria sido um direito dela em entregar.

 

- Estou te machucando, Lucinda? – os lábios de Jackson tocaram a lágrima que escorrera por seu rosto.

 

Ela sacudiu a cabeça. – Não. E-essa devia ser minha primeira vez!

 

- É a sua primeira vez. – ele disse. – Sua primeira vez comigo. E é a minha primeira vez com você.

 

Ele a beijou, deslizando mais profundamente para dentro dela, expandindo-a tanto que ela ofegou contra a boca dele. Ele era grande e a preencheu completamente. Completamente e ainda mais. Então ele começou a se mover, e a se mover de um modo que a estimulou ainda mais do que seus dedos. Ela pegou o ritmo e se moveu com ele, os profundos gemidos de prazer que ele fazia eram um afrodisíaco que aumentavam ainda mais sua paixão.

 

Eles se moviam juntos, beijavam-se, separavam-se para respirar e beijavam-se novamente sempre que suas respirações permitissem. A pressão dentro dela começou a aumentar novamente, mais forte do que antes. O suor cobriu os corpos deles. O cheiro dele estava nela e algo primitivo surgiu dentro dela. Ela se arqueou contra ele, sua cabeça esparramada no travesseiro até que ele capturou seu rosto com as mãos e a beijou novamente.

 

Quando ela abriu os olhos e olhou para ele, ele estava olhando para ela. Seus olhos eram bolas gêmeas de fogo azul, e apenas a visão deles a levou a uma espiral de perda de controle. Seu corpo se arqueou, convulsionou e um prazer tão intenso que era doloroso a varreu por completo. Ela se uniu a ele, suas unhas enterradas no ombro dele, seus dentes mordendo-o no pescoço. Então ele se impulsionou bem fundo, pareceu se segurar por segundos antes de subitamente se retirar do corpo dela, seu corpo se contorcendo, sua respiração irregular enquanto esparramava sua semente fora do útero dela.

 

Ela o segurou perto dela até que os próprios tremores se acalmassem e ele ficou deitado exausto e respirando com dificuldade contra ela, seus corações batendo em uníssono. As mãos dela se moveram pelas costas dele e ela sentiu o sangue.

 

- Suas costas. – ela ofegou. – Eu o machuquei.

 

Ele acariciou a garganta dela com o nariz. – Não é nada. – ele disse. – Eu poderia morrer agora mesmo e morreria feliz.

 

 Ela sorriu, se sentido tão verdadeiramente no lugar certo na cama desse homem, pele contra pele, coração contra coração. – Você deve me deixar enfaixar novamente. – ela disse, correndo as mãos contra os sedosos e longos cabelos dele.

 

- Não há razão para se fazer isso ainda. – Ele se levantou nos cotovelos, olhou para ela, e a beijou novamente. – Estou prestes a rasgá-las novamente.

 

- Tem certeza disso? – ela perguntou com atrevimento.

 

Ele estava muito sério quando respondeu. – Sim.

 

 

Jackson acordou primeiro com a forte ferroada em suas costas. Ele tentou se mover apenas para encontrar uma mulher meio esparramada sobre ele. A segunda descoberta fez a primeira ser mais suportável.  Ele levantou os cachos vermelhos do rosto de Lucinda e os colocou para trás. Um sorriso sensual curvou os lábios dela enquanto dormia. Jackson a queria novamente imediatamente. Então lhe ocorreu que ela tinha se rendido a ele, e a compreensão o fez olhar para dentro.

 

Ele não se sentia nem um pouco diferente de ontem. Olhando para Lucinda, ele admitiu que não era verdade. A fera ainda vivia dentro dele, mas também viviam sentimentos de paixão e carinho por Lucinda que estavam mais fortes do que no dia anterior. Sim, ele tivera mulheres no passado, muitas mulheres, mas nenhuma como ela.

 

Nenhuma o fizera se sentir como ela o fizera noite passada. Como se fosse a sua primeira vez com uma mulher. Não precisava de bebida para acabar com a dor de sua solidão ou imaginar, quando sóbrio, se ela o quereria sem o magnetismo animal que seu cheiro liberava.

 

Ela não quis o seu cheiro. Ela quis a ele. E sem a bebida para entorpecer seus sentidos ele a quis, mais do que a qualquer mulher antes de ela entrar em sua vida. Apenas Lucinda o fez verdadeiramente sentir como se pertencesse. E talvez fosse apenas um sentimento de pertencer a ela.  Mas era algo de que ele se esquivara durante toda sua vida.

 

- No que está pensando?

 

Ele olhou para baixo e a viu olhando para ele. Jackson passou seu dedo pelo ombro macio dela. – Estou imaginando se minhas costas protestarão muito se eu fizer amor com você novamente essa manhã.

 

- Mais do que suas costas irão protestar. – ela disse. – O que você fez com meu corpo? – ela tentou se mover e gemeu.

 

- Não tanto quanto eu gostaria de ter feito. – ele respondeu, beijando-a no alto da cabeça.

 

- Talvez depois de eu tomar um longo banho e cuidar de suas costas, nós poderemos conversar sobre isso novamente.

 

Ele suspirou. – Tudo bem. Temos outros assuntos para tratar também essa manhã.

 

Os olhos deles se encontraram. Como ele, ele supôs, ela também agradeceu a oportunidade de não pensar sobre a noite passada e o atual dilema deles. Jackson havia matado um homem. Que soubesse, seu primeiro. Mas não fora ele quem rasgara a garganta do homem. A fera o havia feito, mas o homem teria agido de forma diferente se Lucinda estivesse sendo ameaçada? Não. Ele não acreditava nisso.

 

- Preciso ver Sebastian. – ela sussurrou de súbito. – Preciso abraçá-lo.

 

Jackson liberou o peso dela de cima dele, admirado por sentir a pele quente e macia dela, então se levantou da cama. Ele foi até o guarda roupa, pegou calças limpas e as vestiu. Pelo bem de Lucinda, ele tentou não se contrair cada vez que seus movimentos puxassem as chicotadas em suas costas. Colocar a camisa foi tortura pura. Engraçado, ele não se lembrava de suas costas o incomodarem tanto noite passada.

 

- Eu vou buscá-lo. – ele disse. – Fique aí.

 

Lucinda puxou as cobertas para cima e as colocou debaixo dos braços. Ela parecia muito tentadora esperando em sua cama. Quase muito tentadora para se resistir, mas ele devia ter cuidado não apenas com seus próprios ferimentos, mas também com as exigências que já fizera sobre ela por toda noite. Mais tarde, ele se prometeu.

 

A ama de Sebastian sempre o olhava de modo nervoso quando Jackson entrava no quarto. Logo eles não precisariam mais dela. Sebastian estava crescendo e um pouco de cereais e a transferência para leite de cabra estava em seu futuro próximo.

 

- A lady deseja que eu leve seu filho. – Jackson explicou para Martha. A mulher acenou com a cabeça e ficou fora do caminho. Jackson caminhou até o berço e sorriu para o garoto. Ao ver Jackson ele sorriu seu sorriso sem dentes.

 

- Olá, homenzinho. – Jackson disse, então se aproximou e o tirou do berço. O surpreendeu o quão natural se sentia agora enquanto carregava Sebastian. E como alguém tão pequeno pudesse puxar tão fortemente as cordas de seu coração. – Sua mãe deseja dar uma palavrinha com você. – ele disse a Sebastian, carregando-o para fora do quarto de criança na direção do próprio quarto.

 

Lucinda estava com os braços estendidos antes mesmo de ele chegar perto da cama. – Dê ele para mim.

 

Sebastian deu um pequeno grito de excitação ao ver a mãe. Jackson não podia culpar o menino. Ele entregou Sebastian para Lucinda, observando enquanto ela trazia o bebê para perto e espalhava beijos por todo o rostinho.

 

- Ah, ser jovem novamente. – Jackson disse, sorrindo para ela quando ela voltou o olhar para ele.

 

Ela riu. Era delicioso. Seus pensamentos obscuros não podiam ser mais evitados e ele se sentou sobre a cama, observando Lucinda brincar com Sebastian. – Não podemos lidar com Lorde Cantley aqui em Londres – ele disse. – Ele é muito bem protegido.

 

Os pequenos dedos de Sebastian se curvaram sobre o dedo dela, ela olhou para cima para Jackson. – Devemos fugir?

 

- Não gosto de pensar nisso como uma fuga, mas como um modo de atraí-lo para longe.

 

- Para onde? – ela perguntou. – Para a residência de campo?

 

Ele sacudiu a cabeça. – Não levarei esse assunto até Armond e Rosalind.

 

- Mas ele é seu irmão. – ela argumentou. – Ele pode nos ajudar.

 

- E nós podemos muito bem fazer com que ele seja morto também. – ele explicou. – Além disso, a maldição cairá sobre mim logo. Ele não sabe. Prefiro que não saiba, pelo menos por agora.

 

- Isso tem a ver com seu orgulho? – ela perguntou.

 

Era uma boa pergunta, e Jackson pensou muito e com cuidado antes de responder. – Você e Sebastian são minha responsabilidade, Lucinda. Preciso que confie em mim. Preciso que você tenha fé em mim, para que eu possa ter fé em mim mesmo.

 

Ela olhou para baixo para seu filho. Jackson precisava que ela confiasse nele tão desesperadamente. Que acreditasse nele. Mas como ela poderia quando a vida dela e de seu filho estavam em perigo?

 

Quando olhou novamente para ele, seus olhos se suavizaram. – Tudo bem, Jackson. Eu vou confiar em você. Juntos nós conseguiremos montar um plano.

 

Depois que Lucinda tomou um longo banho e dormiu um pouco, ela voltou ao quarto de Jackson com agulha e linha. – Enquanto discutimos sobre planos, vou costurar suas costas. – ela disse. – Senão temo que esses cortes nunca cicatrizarão.

 

Ela notou que a banheira dele ainda estava no centro do quarto. Os cabelos dele estavam úmidos e ele obviamente removera as faixas antes do banho, já que seu peito estava nu. Seu coração saltou ao vê-lo. Seus pensamentos não estavam alinhados com a contínua cura dele. Lucinda subiu na cama e bateu com as mãos no colchão. – Sente-se aqui.

 

- Se você me quiser na cama novamente tudo o que precisa fazer é pedir, Lucinda. – ele provocou.

 

- Agora, chega de besteira. – ela ralhou, mas não conseguiu esconder o sorriso. Ele se sentou e ela parou de sorrir, Os feios cortes gotejavam sangue. – Você já levou pontos antes? – ela perguntou.

 

- Não que me recorde. – ele respondeu. – Ma há uma grande parte de minha vida de que não me lembro nesses anos que passaram.

 

- Vai doer. – ela o avisou.

 

- Penso que seria melhor mentir para seus pacientes em situações como essa. – ele sugeriu.

 

Ela sorriu novamente. – Tudo bem, não vai doer nada.

 

- Tarde demais. – ele resmungou.

 

Lucinda havia escolhido sua menor agulha, ela esperava fazer com que as cicatrizes ficassem menos perceptíveis, mas seria necessário usar de mais força para passá-la entre a pele. Ela respirou fundo e começou. – Podemos discutir nosso plano agora. – ela disse. – Ajudará a desviar sua mente do que estou fazendo.

 

- Meu plano é atrair Lorde Cantley para longe de Londres e matá-lo. – ele disse de forma sucinta.

 

Ela não sentia simpatia por Lorde Cantley, ele era um homem cruel e uma ameaça a seu filho, mas ela não desejava mais mortes e queria evitar que Jackson colocasse a própria vida em risco. Ela não sabia como. Certamente ela tentou lançar feitiços que fizessem com que Lorde Cantley se esquecesse dela enquanto esteve escondida no bosque. Eles não funcionaram. Lucinda não era tão habilidosa como sua mãe havia sido, ainda assim as habilidades de cura de Lucinda eram maiores.

 

- Ele não irá atrás de você sozinho. – Lucinda lhe assegurou. – Tenho de ir junto como isca.

 

- Não. – Jackson argumentou. – Quero você e Sebastian em algum lugar seguro enquanto lido com ele.

 

- Ele não o seguirá se você estiver sozinho. – ela insistiu. – Ele está atrás de mim e de Sebastian. Principalmente Sebastian. – ela acrescentou. – Não o colocarei em perigo, porém.

 

- Não. – Jackson concordou. – Por mais que eu odeie admitir, você provavelmente está certa sobre ele não vir atrás apenas de mim.

 

O silêncio se instalou entre eles enquanto ela costurava. Lucinda sabia que Jackson sentiria mais a agulha se ela não o mantivesse distraído. – Temos de enganá-lo de alguma forma. – ela continuou. – Fazê-lo acreditar numa mentira.

 

- Suponho que possamos fingir que estamos fugindo para a propriedade de campo. – ele disse. – Podemos usar um boneco no lugar de Sebastian e instruir Hawkins e a ama seca para o levarem a algum lugar seguro. Penso que Lorde Cantley enviará alguns capangas para nos atacar na estrada. Ele gostaria de nos levar para sua mansão no interior, ou algum lugar próximo, para lidar conosco.

 

- Não acho que seja uma boa idéia permitir que nos ataquem. – Lucinda falou. – E se Lorde Cantley simplesmente os instruir para nos matar logo que nos avistarem?

 

- Uma vez que perceberem que Sebastian não está conosco, eles terão que manter pelo menos um de nós com vida para torturar e conseguir a localização dele. – Jackson disse. – Você será a provável escolha deles.

 

- Talvez não. – ela disse. – Eles podem presumir que você se importa menos. – Lucinda tinha quase terminado com as costas dele.  Os talhos eram longos, mas não tão profundos como ela havia pensado. Ela lembrou que queria perguntar a Jackson sobre o que pensara na noite em que foram ao baile com a duquesa-mãe.

 

- As pessoas em Whit Hurch sabiam que você era? – ela perguntou. – Você se apresentou a eles com seu nome?

 

- Não, não meu nome verdadeiro. – ele respondeu. – Estava tentando conseguir informações sobre você de uma maneira sutil, e pensei que lhes informar meu nome apenas levantaria suspeitas sobre mim.  Minha família não é desconhecida nem em pequenas aldeias. Por que pergunta?

 

- Eu me preocupei sobre isso quando vi Lorde Cantley no baile. – ela disse. – Estava com medo de que se ele soubesse que era você quem esteve xeretando em Whit Hurch ele somaria dois e dois e perceberia que eu era de fato quem ele pensava. É claro que isso agora não importa. Ele sabe quem eu sou e quem você é.

 

- Mas ele não sabe exatamente o que eu sou. – Jackson disse. – Ele não ficou por tempo suficiente para ver a transformação.

 

- Ele viu o suficiente para ficar esperto. – ela garantiu. Terminando suas suturas, Lucinda se levantou da cama, caminhou até a mesa onde estavam sua pomada e as faixas, as pegou antes de retornar. – Ainda não gosto da idéia de permitir que Lorde Cantley nos capture. Não será bom para nenhum de nós estarmos nas mãos dele.

 

- Não pretendo ser capturado. – Jackson disse. – E eu jamais permitiria que aquele homem colocasse as mãos em você novamente, Lucinda.

 

Lucinda abriu o vidro de pomada e começou a cobrir com o remédio as feridas de Jackson. Suas mãos tremeram levemente apenas por pensar em Lorde Cantley a tocando. Não agora, não depois de saber o que era estar com um homem a quem desejava. E desejava acima de todos os outros. Depois que as costas de Jackson estavam besuntadas, ela começou a enfaixá-lo novamente.

 

- Quando partiremos?

 

- Hoje à tarde. – ele respondeu. – Se não parecermos apressados, Lorde Cantley poderá suspeitar. Melhor que o forcemos a agir rapidamente. Faça uma pequena trouxa, apenas com roupas fáceis para caminhadas. Teremos que voltar à floresta novamente. Tenha isso em mente.

 

- Minhas roupas velhas. – ela decidiu. O que lhe trouxe a mente sua vida antiga. Num ponto, se eles conseguissem atrair Lorde Cantley para longe de Londres, e fugir dos capangas que ele deveria enviar atrás deles, ela deveria retornar ao que fazia antes de Jackson entrar em sua vida. Os sentimentos que essa compreensão fizeram surgir nela lhe disseram outra coisa. Ela não queria voltar. Nunca mais. Mas agora não era hora de se perguntar se a noite passada tinha mudado algo mais do que o trato que fizeram. Um trato que ela não manteve. Um trato que ele abandonara por agora... por ela e por Sebastian.

 

Tendo terminado de enfaixar Jackson, ela pensou em sair da cama, mas ele se voltou e bloqueou sua saída. – Temos um futuro incerto pela frente – ele disse. – Gostaria de fazer amor com você novamente caso a opção não se apresente no futuro.

 

Ela quase se derreteu com o calor dos olhos dele, mas sua mente pratica não permitiu que desfizesse seu trabalho. – Não até você estar melhor. – ela disse. – Não é uma boa hora para você fugir de um homem determinado a matar meu filho, ou abrir suas costas novamente apenas para agradar a uma mulher, Jackson.

 

Ele franziu a testa e ela pensou que era por ela ter se negado a ele, mas ele disse: - Você não pode dizer nosso filho, Lucinda? Ele arrebatou meu coração no momento em que o segurei e o ouvir dar seu primeiro grito de vida. Eu prometi cuidar dele, alimentá-lo, vesti-lo e protegê-lo. Isso não me faz pai dele?

 

Ela não conseguiu evitar o fluxo de lágrimas que umedeceu seus olhos. Se ela já não amasse Jackson antes desse momento, ela o faria agora. Ela sempre o amaria. – Sim.  – ela respondeu. – Para mim, você é o pai dele.

 

Ele pareceu ficar muito satisfeito com a resposta, e se inclinou para frente e a beijou. Como ele conseguia ser convincente, ela decidiu momentos depois quando estava derretendo contra ele e a língua dele se aprofundava em sua boca, deixando seu sangue em chamas. Precisou de um grande esforço para interromper o beijo e afastá-lo.

 

- Suas costas. – ela o relembrou e então sorriu diante da careta dele. – Além disso, se vamos partir logo, temos muito a fazer. Leve-me em segurança aos bosques que circunda Whit Hurch e discutiremos esse assunto mais tarde.

 

- Está me cheirando a suborno. – ele disse, ainda franzindo a testa. – Vou lhe cobrar essa promessa. – garantiu a ela.

 

A provocação cessou quando a tarefa a ser feita se estabeleceu entre eles. Jackson se levantou, pegou a camisa e a deslizou sobre os ombros largos. – É melhor você ir avisar a ama seca sobre o que está acontecendo. Vou conversar com Hawkins.

 

Por um instante, ela desejou voltar com as brincadeiras e esquecer que o perigo espreitava na esquina. Mas ela não podia, e concordando com a cabeça, foi fazer o que ele mandara, sua mente rodando com a súbita preocupação. Talvez devesse ter permitido que ele fizesse amor com ela novamente, os pontos que se danassem. Talvez não houvesse outra oportunidade. Ela fechou os olhos e tentou ver seu futuro, mas havia apenas escuridão.

 

 

Jackson e Lucinda promoveram um grande espetáculo ao arrumarem a bagagem para partirem da residência durante todo o dia. Baús vazios eram carregados na carruagem na frente da casa para que todos que passassem pudessem ver que planejavam viajar. Dentro da casa, Jackson e Lucinda estavam dando a Hawkins e Martha as últimas orientações.

 

Lucinda carregava Sebastian, dando beijos suaves em sua cabeça e olhando para ele como se fosse irromper em lágrimas a qualquer momento. Jackson odiava separá-los, mas era para a segurança de Sebastian que precisava fazê-lo.

 

- Você entendeu o que tem de fazer? – Jackson perguntou a Hawkins.

 

O mordomo acenou com a cabeça. – Essa noite, sob o manto da escuridão, tenho de levar Martha e o jovem Sebastian para a casa da irmã dela no lado leste. Amanhã logo a primeira luz, tenho de alugar uma carruagem de aluguel discreta e devemos partir para a propriedade de campo.

 

Jackson agarrou o braço do mordomo e o levou a uma pequena distância. – E? – ele inquiriu baixinho.

 

Hawkins não o olhou nos olhos. – E se o senhor e sua dama não voltarem para a residência de campo, devo pedir a Lorde e Lady Wulf para criarem Sebastian como se fosse deles.

 

- Bom. – disse Jackson. – E se apenas Lucinda retornar?

 

- Ela deve ter todas as honras e privilégios de ser sua esposa. Como seu primogênito, Sebastian deverá ser seu herdeiro.

 

- Você fará com que isso seja entendido?

 

- Muito certamente. – Hawkins lhe assegurou.

 

Jackson bateu nos ombros dele. – Bom homem. – Ele retornou para perto das mulheres. – Lucinda, está na hora de partirmos.

 

Ela pareceu recuperar suas forças, relutantemente entregando Sebastian de volta à Martha. – Cuide muito bem dele. – ela disse.

 

A ama seca apenas acenou com a cabeça.

 

Mais cedo, Jackson tinha pedido que Hawkins fosse ao centro de Londres comprar uma boneca. Lucinda agora segurava a boneca. Enrolada nos cobertores de Sebastian, a boneca facilmente passaria por verdadeira à distância. Jackson caminhou até a ama, beijou a cabeça de Sebastian, depois pegou o braço de Lucinda e a acompanhou até a porta.

 

Hawkins os seguiu, pois pareceria estranho o mordomo não sair para vê-los partir. Jackson olhou para o condutor.

 

- Lembre-se de suas instruções. – disse Jackson. – Ao primeiro sinal de problema, você deve parar a carruagem, descer e se esconder em algum lugar seguro.

 

Thomas concordou. – Sim, mas saiba que não me importo de lutar a seu lado. – ele acrescentou.

 

- Já falamos sobre isso. – Jackson o lembrou. – Não é opcional.

 

O lacaio, um jovem que também sabia suas instruções, abriu a porta. Enquanto Jackson ajudava Lucinda a subir na carruagem, disse ao jovem. – Guarde bem sua retaguarda. Você é muito jovem para levar uma bala nas costas. – Então Jackson entrou na carruagem atrás de Lucinda, permitindo que o lacaio fechasse a porta. A carruagem partiu. Jackson fechou as cortinas, imediatamente tirando seu colarinho alto e soltando a gravata. Ele tirou o casaco, alcançou sua valise e retirou duas pistolas, que colocou no assento ao lado dele.

 

Seguindo o exemplo dele, Lucinda abriu sua valise e removeu um dos vestidos simples que trouxera com ela para Londres. Vê-la se despir era a pior das distrações, mas ele ficou de ouvido atento para problemas. Ele duvidava que Lorde Cantley tentasse algo antes de eles saírem da cidade, mas não subestimaria o homem.

 

Não muito depois, Lucinda estava sentada em frente a Jackson, seus longos cabelos vermelhos soltos nos ombros, usando um simples vestido de trabalho que já vira dias melhores. Ela o lembrava agora da bruxa a quem procurara meses atrás. Ela era linda, tinha uma aparência física que o agradava. Tinha uma natureza sensual na cama que também o agradava. Ela não era uma mulher de quem ele se cansaria ou com quem se aborreceria.

 

- Pare de me olhar desse jeito. – ela disse calmamente, um sorriso brincando nos lábios cheios. – Sua mente deveria estar em outros assuntos.

 

- Sou tão óbvio? – ele perguntou.

 

O olhar dela passeou sobre ele e se focalizou na frente das calças dele. – Sim. – ela respondeu. – Você é muito óbvio.

 

Agora que Lucinda estava vestida, Jackson abriu a cortina próxima a sua janela. A carruagem de verão não vidros nas janelas para que o ar pudesse circular livremente dentro dela. Ele colocou a cabeça para fora da janela, observando a cidade atrás deles. Logo escureceria. Ele esperava que se Lorde Cantley enviasse capangas atrás dele, ou mesmo viesse em pessoa, eles atacariam antes da noite cair. Seria melhor para Jackson se não o fizessem, devido a sua visão superior no escuro, mas não seria vantajoso para o condutor e o lacaio.

 

O pensamento tinha acabado de lhe ocorrer quando uma bala passou raspando o rosto de Jackson. Ele rapidamente moveu a cabeça para dentro da carruagem e olhou para Lucinda, viu o rosto dela empalidecer; então, como Thomas havia sido instruído, a carruagem começou a parar.

 

- Deite-se no chão. – Jackson disse a Lucinda. – Cubra sua cabeça com as mãos.

 

Ele esperou até ele obedecer; então levantando suas pistolas, ele chutou a porta da carruagem e se jogou para fora. Jackson rolou no chão, tentando ignorar o protesto de suas costas e levantou-se apontando as pistolas para os quatro cavaleiros que cavalgavam para a carruagem. Ele mirou no homem que liderava, puxou o gatilho e o viu cair da sela. Uma bala atingiu o chão próximo ao pé direito de Jackson. Ele mirou com a segunda pistola, e pressionou o gatilho e outro atacante caiu.

 

As chances de Jackson estavam melhorando até que ele ouviu o barulho de cascos se aproximando de outra direção. Ele se voltou rapidamente. Mais quatro cavaleiros cavalgavam para a carruagem. Sem Thomas na condução, os cavalos da carruagem começaram a andar para trás movimentando o coche.

 

- Corra, Jackson!

 

Ele olhou para a carruagem. Lucinda tinha engatinhado até a porta. Ela viu o que estava acontecendo.

 

- Eles são muitos! – ela gritou. – Vá enquanto ainda pode! Corra!

 

- Não vou deixar você aqui com eles! – ele gritou em resposta, rapidamente recarregando suas pistolas. Jackson mirou nos quatro cavaleiros que se aproximavam agora pela frente da carruagem, conseguindo derrubar um dos atacantes.

 

- Eles não me matarão! – Lucinda tentou. – Não quando sou a única que sabe onde Sebastian está! Vá agora, Jackson, e você poderá me ajudar a fugir mais tarde. Fique e não permanecerá vivo para me ajudar!

 

Outra bala passou assobiando, esfolando seu braço direito. Jackson se contraiu com a ferroada.

 

- Jackson! – Lucinda gritou. – Por favor!

 

Ele havia jurado que não deixaria isso acontecer – que ele não deixaria que eles a levassem. Jackson não tinha escolha. Se ele agarrasse Lucinda e ambos tentassem correr, ela poderia ser atingida na troca de tiros. Ela tinha razão. Eles não a machucariam. Lorde Cantley deveria ter dado instruções de a levarem para ele quando fosse capturada. – Ele não a tocará novamente! – Jackson jurou a ela, então correu. Dois cavaleiros se separaram para segui-lo, mas as estradas eram delimitadas com florestas e Jackson progredia mais facilmente através da densa folhagem do que um cavalo e cavaleiro poderiam. Ele deixou seus instintos guiá-lo, corria mais rapidamente, ele sabia, do que um homem normal jamais imaginaria. Sua visão tornou-se mais aguçada e adiante ele viu caminhos que nenhum cavalo conseguiria fazer, caminhos que talvez nenhum homem mortal poderia ver na densa floresta. Ele os percorreu, afastando-se cada vez mais da carruagem, de Lucinda, e sentindo o homem dentro dele se afastando, e a fera se levantando para salvá-lo.

 

Lucinda estava sentada em uma tora perto do fogo. Havia cinco homens se movendo ao redor do acampamento. Ela não reconheceu nenhum deles de Whit Hurch. Eles pareciam brutamontes rudes que Lorde Cantley devia ter contratado nas docas de Londres. Eles obviamente pouco sabiam sobre ela, exceto que devia ser levada para Lorde Cantley. Ela e a criança, que eles já haviam descoberto que não era uma criança, mas uma boneca.

 

Ela estremeceu ao sentir os olhos deles sobre ela. Que dama sendo conduzida numa grande carruagem se vestia dessa forma? Eles estavam curiosos, e pior, estavam interessados nela como mulher. Eles a olhavam libidinosamente, mesmo que, até agora, nenhum deles tivesse ousado tocá-la.

 

- Por que você acha que ele a quer? – um dos homens falou.

 

- Não é da nossa conta. – outro resmungou. – Ele apenas disse para levá-la e a criança até ele e que nenhum deles fosse tocado. Disse que não receberíamos o resto do dinheiro se não fizéssemos exatamente o que ele disse.

 

- Não temos a criança. – outro disse. – Acha que ele ainda nos pagará?

 

- Cala a boca – o resmungão instruiu. – Não temos nada a ver com o fato da criança não estar na carruagem. Ele vai ter que resolver isso com a gracinha lá. Se ele não nos pagar, não receberá a mulher.

 

- Certo. – outro começou. – Se ele não pagar, não fica com ela...então nós ficaremos.

 

- Não vejo por que não ficamos com ela de qualquer maneira. – o homem em frente a ela choramingou. – Ela tem um pirralho. Não é uma donzela. Não tem diferença uma mulher ser usada por um ou por cem depois disso. É sempre a mesma coisa.

 

- Cale-se. – o resmungão rangeu os dentes novamente. – Não fique dando idéias pros outros. Com o dinheiro que ganharemos por entregar essa a ele, podemos ter cem como ela.

 

O chorão se levantou, moveu-se para ficar de pé na frente de Lucinda. Ele pegou um cacho dos cabelos dela entre os dedos. – Não como essa. – ele argumentou. – Olhe para essa pele clara, esses olhos que lançam adagas em mim por ousar tocá-la. Esse cabelo como o sol.

 

Lucinda se contorceu para trás quando a mão suja do homem veio para perto de seu rosto. – Sou uma bruxa – ela expeliu. – Ele lhes disse isso?

 

O homem na frente dela deu um passo para trás. – Uma bruxa? – ele olhou para o resmungão, que Lucinda compreendeu ser o líder desse grupo de gentalha. – Você não disse nada sobre ela ser uma bruxa!

 

O resmungão estava subitamente em pé. Ele se aproximou, agarrou o chorão pelos colarinhos e o jogou longe. – Ela está mentindo. Se ela fosse uma bruxa ela não estaria nessa situação desagradável agora, estaria? Ela nos transformaria em sapos e partiria feliz.

 

Lucinda desejou naquele momento que seus poderes pudessem ser usados para outra coisa além de fazer o bem. Poderia lançar um feitiço nesses homens? Poderia transformá-los em sapos? Fechou os olhos por um momento, mas tudo o que ouviu foi a voz de sua mãe.

 

- Nessa vida, o mal a chamará. Resista a necessidade de se tornar sua criada ou você se perderá no lado negro. Uma vez que se perder, você nunca encontrará o caminho de volta para a luz. Não vá para lá, Lucinda. Prometa-me, seus dons serão usados apenas para o bem, para o amor, para a cura.

 

Lucinda havia prometido. Onde estava Jackson? Ele havia fugido; ela tinha visto com os próprios olhos, aliviada quando os dois cavaleiros retornaram dizendo que o haviam perdido na floresta. Ela tinha de ser paciente.

 

- Você ainda parece um homem para mim, embora você tenha uma certa semelhança com um sapo – o líder provocou o outro homem. – Deixe-a em paz! – ele disse com menos provocação. – Você não vai estragar o guisado enfiando sua colher onde não é chamado.

 

O chorão lançou um olhar pensativo na direção dela, mas se afastou e sentou-se em seu lugar, observando o fogo.  Pouco depois, o líder ordenou que todos fossem se deitar. Um dos homens ficou encarregado de vigiar o acampamento enquanto os outros dormiam. Lucinda foi enfiada em um cobertor sujo, o líder deitou-se não muito longe dela.

 

Ela tentou fechar os olhos e dormir, mas o sono não vinha. Jackson estava em algum lugar na escuridão. Teria conseguido seguir a trilha deles? Quando ele chegaria? Logo, ela esperava, muito em breve. Lucinda ficou deitada acordada por um tempo, ouvindo o crepitar do fogo, os sons da noite, o leve ronco dos homens. Há distância, um galho quebrou. Talvez o homem designado a ficar de guarda estivesse se movimentando. Tão preocupada em ouvir os sons distantes, Lucinda não ouviu um perigo mais perto. Uma mão subitamente envolveu sua boca. O chorão se ajoelhava sobre dela. Ele levantou a outra mão e uma faca brilhou.

 

- Shhhhh – ele sussurrou. – Não faça barulho, ou eu lhe corto.

 

O coração dela batia descompassado no peito. O cheiro dele lhe dava enjôo, isso e a mão suja pressionada fortemente contra sua boca. Ele não escondeu o que queria, levando a faca para baixo para com ela empurrar seu vestido acima dos joelhos. Ela lutou, mas rápido como um gato, ele trouxe a faca para cima e a pressionou contra seu rosto.

 

- Não lute comigo e eu não corto você! – ele murmurou. – Ninguém precisa saber sobre o que fizermos essa noite.

 

Ser retalhada parecia melhor para Lucinda do que se sujeitar ao que ele tinha em mente. Assim decidindo ela se preparou para mordê-lo e gritar assim que ele liberasse sua boca. Ela se preparou para mover-se, mas não estava preparada para aquilo que saltou da escuridão nas costas do homem. O homem tombou de lado, freneticamente tentando se livrar da fera que estava em suas costas.

 

O líder acordou rapidamente. – Que diabos! – ele grasnou, ficando em pé. Um olhar para o homem sendo rasgado pelo lobo e ele agarrou sua pistola. Lucinda olhou para baixo, viu a faca largada no chão e se apressou em reavê-la. Ela não pensou enquanto o homem mirava. Ela simplesmente reagiu. Arremessando-se para frente, ela enterrou a faca no peito do líder. Os olhos dele se arregalaram. Ele olhou para a faca projetando-se de seu peito e cambaleou para trás. O homem desmoronou.

 

Os outros homens acordaram, obviamente confusos pelo que estava acontecendo. Lucinda sabia que devia fugir agora, ela podia não ter outra chance. Ela estava dividida, dividida entre tentar ajudar Jackson – e era Jackson, ela sabia – e escapar enquanto ainda podia. O chorão jazia imóvel. O lobo se voltou para o homem mais perto. Lucinda tinha de confiar em Jackson. Ele pedira isso a ela, estando tão desesperado para que ela acreditasse nele.

 

Com um grito, ela correu para a floresta. Ela não tinha ido muito longe antes de tropeçar e cair, aterrisando em cima de um homem. O guarda. Seus olhos olhavam sem ver as estrelas acima, seu pescoço ensangüentado e quebrado. Ela quase gritou. Arrastando-se, ela se endireitou novamente. Atrás dela, ela ouviu um grito. Um grito de homem.

 

Ela correu o mais rápido que conseguia, embora não tivesse idéia para que direção estava indo e frequentemente arvores ou arbustos rasgavam suas roupas ou lhe arranhavam o rosto. Ela fugia dos bandidos, mas bem dentro dela ela sabia que também fugia de Jackson. Ele disse que não dominava sua mente quando a fera o possuía. Ainda assim, a fera soube seguir o cheiro dos homens, ou o cheiro dela. A fera soube atacar o homem que estava se impondo a Lucinda, ou era apenas porque era o homem que estava se movendo enquanto os outros estavam parados?

 

Mais e mais longe ela corria. Ficou com dor no lado, sua respiração estava irregular e a sede a deixou de boca seca, mas ela não ousava parar, não ousava descansar. A luz do amanhecer era uma visão abençoada. Apenas quando o céu se iluminou do cinza para o azul ela parou para descansar. Lucinda desmoronou numa macia cama de folhas de pinheiro. Ela levantou a mão para afastar o cabelo do rosto e na luz do dia ela viu o sangue que manchava suas mãos. Ela se virou sentindo ânsia de vomito. Ela havia matado um homem. Um que teria matado Jackson, ela se lembrou. Mas bom Deus, e se o lobo fosse simplesmente um lobo?

 

Ela estava se preocupando a toa e sabia disso. Nenhum lobo comum atacaria um grupo de homens, não enquanto o fogo ainda estivesse aceso no acampamento. Era Jackson. Ele invocara o poder da fera, e ela viera até ele. Quando o visse novamente, se o visse novamente, ele seria um homem ou uma fera? Correria alegremente para os braços dele ou fugiria o mais rápido possível para longe dele?

 

O som de um rio correndo à distância chegou até ela enquanto estava sentada, lutando com seus pensamentos e sua culpa por ter matado um homem. Lucinda se levantou e se dirigiu na direção do som. Era mais longe do que pensara, e ela já estava ensopada de suor quando atingiu o riacho murmurante. Ela se ajoelhou e lavou o sangue das mãos primeiro. Apenas depois de ter certeza de que o sangue escorrera rio abaixo ela se curvou e com as mãos em concha bebeu a água. O riacho frio a refrescou imediatamente, e enchendo as mãos ela lavou o rosto e o pescoço.

 

Seu estômago roncou e ela desejou não ter teimosamente recusado a comida que os homens lhe ofereceram noite passada. Foi uma tolice. Quão rapidamente ela se esqueceu de como era passar fome, aceitar qualquer refeição que lhe fosse oferecida por medo de não saber de onde viria a próxima. Mas ela vivera aquela vida, ela se relembrou, e sobrevivera. Sobreviveria agora também.

 

Lucinda esquadrinhou a floresta a procura de frutas. Se fosse preciso, ela também poderia cavar por raízes. Ela se recusou a deixar que pensamentos obscuros dominassem sua mente. Pensamentos sobre Jackson no acampamento noite passada e se ele conseguira sobreviver. Ela não ouvira sons de tiros enquanto fugia, mas ela imaginou que todos os homens estivessem armados com facas. Ele podia ter sido gravemente ferido ou mesmo morto. Não, ela não se permitiria pensar nisso.

 

Ela poderia tentar olhar para o futuro, ver se Jackson ainda estava lá, mas e se tudo o que conseguisse ver fosse a escuridão novamente? A escuridão a deixava nervosa. Significaria que ela não tinha futuro? Significaria simplesmente que seu futuro não estava ainda definido? Talvez significasse que o futuro era ela quem faria e que não estava predeterminado.

 

Assim decidindo, Lucinda levou um momento para mudar de atitude. Ela tinha que encontrar a estrada novamente. Talvez ela encontrasse uma carruagem ou carroça que a levasse até Wulfglen. Ela apenas podia imaginar o que o irmão e a cunhada de Jackson pensariam quando ela chegasse com essa aparência. Não havia outro jeito. Analisando a posição do sol no céu, Lucinda se dirigiu para o oeste, onde esperava ela eventualmente encontraria a estrada novamente.

 

 

Ela já havia andado bastante na parte da tarde antes de senti-la. Uma presença. Como se olhos a estivessem observando na floresta. Lucinda parou. Um galho estalou atrás dela e ela se voltou rapidamente. A princípio não viu nada. Conforme seu olhar percorreu as sombras, ela focalizou em uma alta forma que parecia estar apoiado. Era um homem. Ele entrou na luz do sol e o sol brilhou em seus cabelos loiros, formando um halo ao redor de sua cabeça.

 

- Jackson! – ela suspirou. – Lucinda correu para ele e seus braços. Ele enterrou o rosto nos cabelos dela.

 

- Graças a Deus por esse cheiro! – ele disse. – Foi a madressilva que eu segui.

 

Lucinda ficou abraçada a ele por instantes, alegrando-se com a sólida pressão dele contra ela. Ela se afastou para olhar para ele. Ele estava com roupas simples e carregava um pacote. Seus cabelos estavam úmidos e ela presumiu que ele parara no riacho para se limpar, como ela mesma fizera.

 

- Você está bem, Jackson? – ela perguntou, examinando-o procurando cortes ou buracos de bala.

 

- Não estou ferido. – ele lhe assegurou, embora ela notasse que os olhos dele tinham o mesmo olhar assombrado de quando ele matara um dos capangas de Lorde Cantley em Londres.

 

- Aqueles homens? – ela perguntou abruptamente.

 

- Não virão atrás de nós. – foi tudo o que disse.

 

Ela se aproximou e o tocou no rosto. – Você estava apenas me protegendo, Jackson. Mesmo quando a fera o controla, ela parece saber que estou em perigo e age em meu auxilio.

 

- Age mesmo? – Ele desviou os olhos dela. – Ou você também seria uma vitima dela, se não tivesse fugido? – Era uma pergunta que ela não podia responder. Ela não sabia, mas logo a lua cheia estaria sobre ele e ele não seria capaz de evitar que a fera o dominasse. Então Lucinda supunha que não teria outra escolha a não ser descobrir a resposta.

 

- Precisamos ir. – Jackson disse. – Encontrar a estrada e levá-la de volta para Londres. É mais perto do que Wulfglen. Quero que fique segura e fora do caminho.

 

- Não há tempo para isso. – ela disse. – Se temos de chegar ao bosque que cerca Whit Hurch até a lua cheia, não podemos perder tempo para me mandar de volta a Londres. Tenho que ir com você, Jackson.

 

- Droga! Não quero que você fique a mercê dele, ou a minha!

 

A explosão dele assustou Lucinda, mas ela se manteve firme. – Não temos escolha. Não a menos que você queira perder essa oportunidade. Lorde Cantley retornou a sua mansão. Eu ouvi os homens dizendo que eu tinha de ser levada até sua cabana de caça lá no bosque.

 

A mandíbula de Jackson estava tão tensa que ela pensou que ele poderia quebrar os próprios dentes. – Não sou confiável, Lucinda. Não enquanto a fera domina minha mente. Como posso saber que não atacarei você?

 

Eles estavam perdendo tempo. Lucinda tinha de lhe dar algum tipo de esperança. – Talvez eu consiga criar um feitiço, um que permita que você pense como homem mesmo na forma de lobo.

 

Seus olhos escuros percorreram o rosto dela. – Você acha que isso é possível?

 

- Vou tentar. – ela prometeu. – Agora, precisamos ir. Nunca chegaremos a Whit Hurch a tempo caminhando. Precisamos encontrar a estrada e, com sorte, uma carona.

 

- Meu cheiro assustou os cavalos dos homens, ou teríamos uma condução. – ele murmurou sombriamente.

 

Já que ele não se movia, Lucinda começou a caminha na direção ocidental. – Não chegaremos a lugar algum ficando parados. – Ela tinha dado poucos passos antes de ele se colocar ao lado dela. Lucinda olhou para o pacote que ele carregava. – Por acaso não seria comida o que carrega ai. Estou faminta.

 

Ele trouxe o pacote para frente, remexeu nele e retirou um pão velho, partiu um grande pedaço e o entregou a ela. Nada lhe pareceu tão delicioso por um longo tempo.

 

Encontraram a estrada antes do cair da noite. Estava deserta. Andaram bastante antes de ouvirem o som metálico de arreios. Voltando-se, viram uma caravana com vagões brilhantemente pintados se aproximando.

 

- O que são eles? – Jackson imaginou.

 

- Ciganos. – Lucinda respondeu. – Ou um grupo itinerante. Talvez eles nos dêem uma carona.

 

 

Jackson estava grato pelas roupas simples que ele e Lucinda usavam. Também se alegrou com a idéia de Lucinda de esfregar lama sobre sua pele antes de o grupo se aproximar o suficiente para que os cavalos não sentissem o seu cheiro. Ele estava sujo, estava cansado e preocupado por estar levando Lucinda junto com ele para Whit Hurch, mas ao menos estavam dentro de um vagão. Lucinda estava descansando sobre um catre e ele estava no chão porque estava muito sujo para deitar na cama de alguém.

 

O grupo não era um bando de ciganos, mas uma trupe de artistas. Eles tinham uma aparência muito estranha, mas quem era ele para julgar ou reclamar? Mais tarde nessa noite, quando o grupo acampasse, ele teria de roubar dois cavalos. Jackson não gostava disso, roubar, matar; era bem melhor quando ele era simplesmente bêbado e mulherengo.

 

Olhando do outro lado do vagão para a forma adormecida de Lucinda, ele admitiu que não era melhor antes. Antes de conhecê-la, ele não tinha nenhum objetivo, nenhuma ambição e nenhum futuro. Lucinda o ajudara a encontrar objetivo e ambição, mas e quanto ao futuro? Ela não pedira para ficar com ele. Nenhuma vez. Ela aceitava tão facilmente o trato que fizeram anteriormente, mesmo agora, quando tudo mudara entre eles? Ou nada mudara para ela?

 

Os vagões diminuíram, distraindo seus pensamentos. Eles pularam e balançaram e ele percebeu que deixaram a estrada. Com toda certeza, os artistas encontraram um lugar na floresta para fazerem um circulo e passarem a noite. A lama em sua pele coçava e ele fedia. O que ele não daria por um bom banho quente. Mas ele tinha de usar a lama, ou isso ou assustaria os cavalos, e ele não poderia roubar dois mais tarde se não pudesse chegar perto deles o suficiente para apanhá-los.

 

Engatinhando pelo chão até onde Lucinda dormia, ele a cutucou gentilmente. – Acorde, Lucinda. Os vagões estão parando.

 

- Já? – ele perguntou com sono. Pouco depois ela se sentou, afastando os cabelos do rosto. – Quanto tempo eu dormi?

 

- Não muito. – ele lhe assegurou. – Estamos rodando por cerca de uma hora ou mais. Temos de partir mais tarde essa noite, depois de eu roubar dois dos cavalos deles.

 

- Roubar os cavalos deles? – Ela franziu a testa para ele na escuridão. – Não é um bom modo de pagá-los por nos ter ajudado na estrada.

 

- Não posso evitar. – ele disse. – Não tenho dinheiro comigo. Nada de valor para trocar por eles. Temos que continuar, Lucinda. Não temos muito tempo.

 

Ela se aproximou e o tocou no ombro, espalhando calor no lugar. – Acho que você está certo. Deixe-me olhar suas costas enquanto ainda temos a chance.

 

- Você não pode vê-la de qualquer forma. – ele disse. – E os pontos não resistiram à transformação. Eu me curarei sozinho.

 

A porta foi subitamente aberta. O homem alto com a marca de nascença roxa cobrindo metade do rosto enfiou a cabeça para dentro. Ele se apresentara como Philip.

 

- Logo teremos um fogo e comida. Vocês são bem vindos para compartilharem de nossa refeição e passarem a noite.

 

- Obrigado. – disse Jackson. – Você é muito gentil.

 

- Também já passamos por tempos difíceis. – Philip disse. – Venham e se juntem a nós. Evitem ficar encarando. – ele acrescentou com um sorriso que brilhou branco na escuridão.

 

Jackson pegou a mão de Lucinda e a conduziu para fora do vagão. Um fogo ardia e duas mulheres, uma alta e robusta, a outra que ele pensou ser a principio uma pequena criança, mas era na verdade uma anã, fizeram um espeto. As mulheres agora carregavam o espeto com uma grande ave e dois coelhos sem pele. A boca de Jackson quase se encheu de água.

 

- Nós caçamos essa manhã. – Philip explicou. – É melhor assim, pois quando chega à noite temos uma refeição para cozinhar rapidamente.

 

O homem tinha uma voz forte. Jackson presumiu que uma vez que ele estava no vagão que liderava o grupo, ele fosse o encarregado da trupe. – Encontramos um riacho lá para aqueles lados. – o homem disse apontando. – Sinta-se a vontade para se limpar antes da refeição.

 

Jackson não deixou de notar que o nariz de Philip se enrugou levemente enquanto encarava seu rosto sujo de lama. Era vergonhoso estar tão sujo, e ainda assim Jackson queira manter a cobertura de lama para não assustar os cavalos com seu cheiro.

 

- Obrigada, iremos nos lavar. – Lucinda disse, arrastando Jackson junto com ela.

 

- Eu queria manter a lama. – ele disse enquanto se afastavam do acampamento. – Facilitaria na hora em que fosse roubar os cavalos mais tarde essa noite.

 

- Você não pode jantar com essa aparência. – Lucinda argumentou. – É rude mesmo para a minha classe.

 

Ele olhou para ela. – Você realmente pensa que vejo limites entre nós? Olhe para mim, Lucinda. Já cruzei a linha do que era aceitável até mesmo para mim há algum tempo.

 

Ela o surpreendeu rindo dele. – Mesmo com a lama e as roupas, imagino que se você começasse a dar ordens, todos seguiriam seu comando sem pensar em sua aparência.

 

Eles chegaram ao riacho e se curvaram sobre ele. Jackson tirou a camisa, enfiando as mãos em conchas na água para lavar a lama de seu rosto e pescoço. A água fresca era como o paraíso em sua pele irritada. Lucinda se lavou e se dirigiu para trás dele para examinar suas costas.

 

- Poderia ser pior. – ela murmurou. – Mas ainda assim não é uma visão bonita.

 

Jackson se levantou e se voltou para encará-la, segurando a camisa dobrada sobre um dos braços. Ele se aproximou e tirou um cacho do cabelo dela da frente dos olhos. – Sinto muito, Lucinda. Eu jurei que não deixaria que você fosse capturada, e ainda assim você foi. Você é minha responsabilidade e eu falhei com você.

 

Ela o surpreendeu dando as costas a ele. – Você também me resgatou. – ela apontou. – Não importa em qual forma você o fez. Sei que quando concordou com meus termos no acordo você não tinha idéia de que suas responsabilidades incluiriam arriscar sua vida para me salvar e a Sebastian do homem determinado a nos destruir. O que eu enfrentei é pouco comparado com o que você foi forçado a enfrentar.

 

Teria ele de alguma forma ferido os sentimentos dela? As palavras dela era duras, suas costas voltadas para ele ainda mais dura e Jackson começou a perguntar a ela, mas Lucinda começou a caminhar de volta ao acampamento.

 

- Devemos voltar. – ela chamou. – Veremos o que fazer com relação aos cavalos mais tarde.

 

Jackson puxou a camisa sobre a cabeça e a seguiu.

 

Responsabilidade? Isso era tudo o que era para Jackson? Ela tentou evitar a dor de que os sentimentos dele não eram tão profundos quanto os dela. Ele nunca prometera nada além do que fora acordado no trato deles. Fazer amor com ele talvez tenha sido um erro da parte dela. Lucinda parecia não saber separar o ato físico dos sentimentos emocionais profundos que a conduziram aos braços e a cama dele. Agora, seus sentimentos apenas pareciam mais fortes.

 

Abandonar Sebastian, ela sabia, seria a coisa mais difícil que ela teria de encarar em sua vida, mas ela não havia contado com o sentimento tão devastador que seria deixar Jackson.

 

- Aqui estão nossos convidados! – Philip disse ao ver Jackson e ela retornando. – Venham e sentem-se perto do fogo; a comida estará pronta em breve.

 

O resto dos membros da trupe tinham se juntado ao redor do fogo. Lucinda estava tão ocupada observando-os como eles pareciam estar examinando-a. Havia um homem com uma corcunda nas costas, a mulher robusta que ela vira fixando o espeto, um homem mais velho que deveria ter ido com eles ao riacho para se lavar, a anã, e agora Lucinda via também um anão bem como uma jovem garota, notavelmente bonita entre a estranheza que a cercava.

 

Lucinda se sentou numa tora que havia sido colocada perto do fogo. O cheiro de carne assada fez seu estômago roncar. Jackson se sentou próximo a ela. Todos os olhos se voltaram para ele e pareceram se fixar aí. A boca da menina ficou aberta. Curiosa, Lucinda olhou para Jackson. Ele parecia realmente lindo, com seus cabelos afastados do rosto e seus traços atraentes agora esfregados e limpos.

 

- Ele se parece com Sterling. – a jovem menina sussurrou. – Ele é quase a imagem dele.

 

Jackson subitamente ficou tenso ao lado dela. – O que você acabou de falar?

 

- Desculpe sermos rudes e ficar encarando – Philip se desculpou. – Estamos mais acostumados a sofrermos isso, Mas você lembra muito ele.

 

- Você disse Sterling? – Jackson repetiu, agora se levantando do tronco.

 

- O domador de feras. – a jovem acrescentou. – Sterling. Você se parece com ele.

 

De repente, Jackson se sentou. A cor sumiu de seu rosto. – Vocês sabem onde ele está?

 

Philip se moveu para ficar na frente dele. – No momento não. Mas ele viajou conosco por muitos anos. Sua esposa, Elise, está grande com a gravidez e ele não queria que ela tivesse o bebê na estrada. Nós os deixamos em Liverpool.

 

- Sua esposa? Uma criança?

 

Lucinda se lembrou do retrato da família no salão principal. – Seu irmão caçula. – ela subitamente compreendeu.

 

- Irmão? – Philip trovejou. – Bem, isso explica a semelhança.

 

- Sterling é como um membro de nossa família. – a mulher robusta disse. – Ele e sua doce esposa Elise. Isso faz com que vocês sejam parte da família também.

 

Jackson estava claramente estupefato. – Nós nem sabíamos se ele ainda estava vivo. – finalmente disse. – Eu não o vejo há mais de dez anos.

 

- Oh! Ele está vivo e bem. – a mulher robusta assegurou a Jackson. – Disse que seus dias de artista itinerante terminaram, porém. Com o bebê e tudo, acho que decidiu que era hora de voltar para casa. Ele nunca nos falou muito sobre o passado dele, nem mesmo qual era o seu sobrenome. A criança é menino, isso eu posso dizer. Tenho o dom da visão, sabe.

 

O homem que parecia precisar de um banho riu e se inclinou para frente, golpeando a mulher no traseiro. – Agora, Sarah, não fique dando uma de cigana leitora da sorte para esses jovens. Eles são, como você disse, quase parentes.

 

A mulher colocou as mãos nos quadris. – É um menino, eu lhe digo. Vi em minha mente claro como o dia. Um rapaz forte, também.

 

- Com licença. – Jackson se levantou e se afastou do acampamento.

 

Lucinda também se levantou. – Desculpem-no. – ela disse. – Acho que ele está um pouco chocado.

 

Correndo atrás de Jackson, ela o encontrou andando de um lado a outro não muito longe do acampamento. – Não posso acreditar. – ele disse. – Saber que ele está seguro, vivo, prestes a ser pai, é um choque.

 

Ela foi para perto dele, colocando uma mão sobre seu peito para fazê-lo parar de andar. – Um bom choque, penso eu.

 

- Sim. – ele concordou. – Casado e prestes a ser pai? E a maldição? Será que essa mulher, Elise, conquistou o coração dele?

 

- São coisas que você não pode descobrir nesse momento. – ela disse, - Apenas se alegre em seu coração por saber que seu irmão está vivo, e que pelo menos você tem uma noção de onde o encontrar.

 

- Sim. – ele concordou. – Eu o encontrarei. De repente ele se aproximou e puxou Lucinda para perto. – Sterling está vivo!

 

Ela riu da alegria dele, e por um momento, enquanto ele a encarava, sorrindo, ela o viu como ele era antes de a maldição cair sobre ele. Antes de a bebida o consumir. Antes de as mulheres lhe darem conforto. Ele era tão impressionantemente puro e lindo. Ela não conseguiu evitar ficar nas pontas dos pés e o beijar. Suas bocas se uniram. Ele abriu os lábios dela com sua língua.

 

Lucinda se abriu para ele, permitindo que ele entrasse, permitindo que ele a arrastasse naquele momento. Ela se rendeu completamente a sensação. E quando a emoção cresceu dentro dela, ela não lutou, ou com a perda do controle que ela sentiu fugindo dela.

 

- Devemos voltar e compartilhar a refeição.  – ele disse contra os lábios dela, e era estranho que ele fosse o prático quando tudo o que ela queria era se perder nele e na escuridão.

 

- Sim, devemos. – ela concordou sem fôlego. Ele se afastou dela e ela conseguiu pensar claramente de novo. Jackson pegou a mão dela e juntos voltaram ao acampamento. Eles foram completamente aceitos pelo estranho grupo, e enquanto estavam sentados e comendo, diferentes artistas os regalavam com historias engraçadas sobre Sterling, o domador de feras, e Jackson ria e ela novamente o via como o garoto que tinha dentro dele.

 

Os grandes gatos que viajavam com a caravana tinham sido vendidos para um rico comerciante que desejava os transformar em animais de estimação, Jackson e Lucinda entenderam.

 

Sem Sterling, seria inútil mantê-los. Jackson tinha questões profundas a fazer sobre o irmão, ela percebia, mas não as perguntaria. Ao invés disso eles riram, comeram e conforme a noite ia passando ela soube que a mente de Jackson não se distraíra de sua própria busca e problemas.

 

Philip oferecera a eles o uso de um dos vagões para passarem a noite, mas Jackson recusou dizendo que fariam a cama perto do fogo. A tarefa que tinha a fazer exigia mais dele agora do que antes, ela compreendeu. Roubar de estranhos era uma coisa; roubar de pessoas que diziam considerá-lo parente era outra. Conforme o grupo se dirigia aos vagões para passar a noite, Jackson se levantou do lado do fogo.

 

- Fique aqui. – ele disse a ela antes de se dirigir ao vagão de Philip.

 

 

Jackson não podia roubar dessas pessoas tão boas. Sua consciência não o permitia, não importando o quão desesperado estivesse para acabar com a ameaça de Lorde Cantley sobre Lucinda e Sebastian. Ele tinha de ser honesto.

 

Ele bateu suavemente no vagão de Philip. A porta abriu e o homem com a marca de nascença sobre metade de seu rosto estava em pé olhando para Jackson.

 

- Estou num dilema. – Jackson admitiu. – Preciso de dois de seus cavalos. Não sou ladrão, mas planejava roubá-los de vocês tão logo se recolhessem para dormir.

 

Philip coçou o queixo. – Mas agora não pode roubar de seus parentes?

 

- Sim. – Jackson admitiu.

 

O líder do grupo desceu de seu vagão. Ele bateu no ombro de Jackson. – Soube no momento em que vi Sterling de que ele não era da plebe. Ele levou muito tempo para aprender o que você ainda deve aprender. Muitas pessoas não precisam roubar outras. Tudo o que precisam é ter humildade o suficiente para pedirem o que não possuem.

 

O homem estava certo. O pensamento de simplesmente pedir nunca ocorrera a Jackson até que soube da amizade de seu irmão com essas pessoas. – Humildade é uma lição com a qual ainda estou lutando. – ele admitiu.

 

Philip riu e bateu nas costas dele. – Venha, encontraremos Taylor e ele providenciará para que você e sua linda esposa sigam seu caminho.

 

- Não sei quando poderei devolver os cavalos a você, ou mesmo como encontrá-lo. Para onde estão indo?

 

O homem deu de ombros. – Para onde o vento nos levar. Nos encontraremos de novo algum dia.

 

Jackson nunca conhecera pessoas como essas. Ele compreendeu por que seu irmão ficou com eles por tantos anos. Jackson estava meio tentado a pegar Sebastian e Lucinda e se juntar a caravana. Seria uma vida simples longe do perigo que estava sobre eles. Mas isso era algo que o antigo Jackson faria. Agora ele sabia que tinha de encarar seus problemas face a face e os enfrentar.

 

- Vocês precisarão de comida. – Philip disse enquanto caminhavam pelos vagões. – Pedirei a Sarah Dobbs que lhes providencie uma trouxa.

 

- Você é muito bom. – Jackson disse. – Todos vocês.

 

O homem riu. – Não para todos. Temos nossa cota de problemas. Sempre há problemas, parece, quando um Wulf está por perto.

 

- Sterling disse a você seu nome completo, então?

 

Com os olhos deslizando na direção de Jackson, o homem sorriu. – Não.

 

Lucinda quase desmoronou da sela de exaustão quando Jackson parou os cavalos para descansar. Devido a sua superior visão na escuridão, eles cobriram um bom chão com ele conduzindo o cavalo dela. O sol estava raiando quando ele parou nas profundezas do bosque, o som gorgolejante do riacho que eles vinham seguindo a levando a querer dormir.

 

Jackson desmontou e então veio ajudá-la a desmontar também. Ele parecia tão acabado quanto ela.

 

- Primeiro vamos nos lavar e comer um pouco; depois dormiremos algumas horas.

 

Ela acenou com a cabeça e se dirigiu para o riacho enquanto ele cuidava dos cavalos. A água era gelada nessa parte da floresta, as altas árvores não permitiam que muita luz do sol atingisse o chão. A água a reanimou quando ela lavou o rosto e as mãos, mas ela desejava um bom banho quente e seus sabonetes perfumados. Jackson se juntou a ela pouco depois.

 

Ele tirou a camisa e se lavou o melhor que pode. Suas costas tinham formado crostas e parecia estar se curando...provavelmente se curando mais rápido do que o normal. Ela sabia que animais algumas vezes se curavam mais rapidamente do que humanos e considerou se a fera dentro dele tinha algo a ver com essa habilidade. Pouco depois, Jackson vestiu a camisa, se levantou, ofereceu a mão a ela e a conduziu de volta ao acampamento.

 

Ele havia estendido os cobertores no chão, tirado as selas dos cavalos, e os amarrado em uma área onde a grama era mais abundante. Ela deslizou agradecida em seu cobertor, enfiou a mão no pacote que estava colocado entre eles e removeu pão e queijo e duas maçãs.

 

Jackson se jogou ao lado dela. Ela temia que se não o fizesse comer, e rápido, ele adormeceria antes de ela terminar de servir a comida.

 

- Quanto mais? – ela perguntou, sem ter senso de direção, já que ele havia puxado seu cavalo durante toda a noite e ela cochilara aqui e ali sobre a sela.

 

- Mais uma noite de cavalgada, acho. – ele respondeu. – Você sente saudades de Whit Hurch? – ele perguntou de súbito.

 

O que dizer a ele? Que ela nunca mais queria voltar para a vila ou sua vida antiga? Que tinha sido uma vida solitária, que seria ainda mais solitária sem ele e Sebastian? Lucinda não queria fazer com que Jackson pedisse para ela ficar com ele por culpa. Não importava o que acontecera entre eles ou o que acontecia dentro dela, eles ainda tinham o acordo.

 

- Acho que posso voltar para lá...se Lorde Cantley sumir. – ela disse. – Se não, há muitos lugares como esse para onde posso ir.

 

Ele olhava para ela enquanto levava uma maça a boca e mordia. – E como vai viver?

 

Ela encolheu os ombros. – Como sempre vivi. De moedas ganhas por vender poções e feitiços ou por fazer partos. Do que puder caçar ou plantar com minhas próprias mãos.

 

- Parece ser uma vida dura.

 

Lucinda cortou um pedaço de pão, colocou uma fina fatia de queijo e comeu. Ela esperou até ter mastigado e engolido antes de responder. – Muitos têm uma vida dura. Poucos são privilegiados em nascer ricos. É dura, mas também é simples algumas vezes. Uma pessoa não pode sentir falta do que nunca conheceu. – E então, de algum modo, agora ela estava amaldiçoada também.

 

- E Sebastian?

 

Ela desviou o olhar, sentindo a súbita pontada das lágrimas queimando seus olhos. – Sebastian ficará melhor com você e com tudo o que você pode dar a ele.

 

- O amor de uma mãe vale seu peso em ouro.

 

- E ele sempre terá o meu – ela disse calmamente. – Você deve fazer com ele sempre entenda isso. Eu apenas quero o melhor para ele.

 

- E se a maldição não puder ser quebrada? Eu ainda serei o melhor para ele, Lucinda?

 

- Sua família...

 

- São todos amaldiçoados também. – ele interrompeu. – Há coisas que nem a fortuna dos Wulfs pode comprar.

 

Ela se voltou para ele. – Nós encontraremos um meio de quebrar a maldição. – ela prometeu, embora ainda não tivesse certeza de como fazer. – E vamos acabar com a ameaça de Lorde Cantley, não importando o que precisaremos fazer. Então Sebastian terá tudo o que desejo que tenha na vida. E eu serei feliz. Ficarei contente, não importando o rumo que minha vida tomar depois disso.

 

Ele não disse nada, apenas deu outra dentada na maçã, o olhar perdido na distância. Por um momento, ela pensou ter visto os olhos dele marejados, mas ele estava exausto; os olhos dela estavam lacrimejando pela falta de sono também. Terminaram a leve refeição em silêncio. Jackson se esticou, deitando de lado longe dela. Ela achou que ele pegou no sono imediatamente.

 

Lucinda juntou a comida e a empacotou novamente. Jackson se assegurou de colocar a pistola que o líder da caravana entregou a ele em um canto do cobertor, num local de fácil alcance. Ela se deitou ao lado dele, olhando através das árvores para o céu azul. Quão facilmente ela mentia esses dias. Para Jackson e para si mesma.

 

Ela queria o melhor para Sebastian. Mas não podia dizer a Jackson que também queria o que era melhor para ela. Ficar com seu filho. Ficar com o homem a quem amava. Ele havia feito amor com ela, mas nunca dissera que a amava. E ela não podia forçá-lo a dizer uma mentira. Ela havia forçado o casamento. Ela havia se imposto na vida dele. Ela não tomaria mais nada dele além do que ele estivesse disposto a dar espontaneamente.

 

Enquanto seus olhos iam se fechando, ela pensou em encantamentos e poções mágicas. Quão tentador seria tentar lançar outro feitiço sobre Jackson. Um que o fizesse amá-la eternamente. Um que os uniria por toda a vida. Mas, de novo, seria um feitiço. Ela nunca saberia se ele realmente a amava ou se a amava apenas porque ela assim ordenara. Antes, ela pensava que tais pedidos para feitiços e poções de amor eram besteiras. Agora ela entendia o desespero de uma mulher que desejava que um homem a amasse.

 

Gradualmente, a leve brisa e os sons dos insetos voando entre as árvores a ninaram ao sono. Acordou pouco tempo depois, abraçada a Jackson. Ela olhou para ele. Ele estava deitado de costas, e ela imaginou se ele não se sentia desconfortável considerando suas feridas. Um braço estava colocado sobre seus olhos; o outro estava preso debaixo do pescoço dela. Os lábios dele estavam levemente separados. Pareciam tentadores.

 

A consciência da presença dele aumentou quando a brisa brincou com os cabelos dele. Ele era sensual, até dormindo. Ela correu a mão pelo peito dele, Jackson se mexeu, descendo a mão que cobria os olhos para o lado. Seus cílios eram longos e escuros e abundantes contra sua alta maçã do rosto. Ela não conseguiu se segurar. Colocando-se sobre o cotovelo, ela se curvou e pressionou os lábios contra os dele.

 

Os olhos dele se abriram vagarosamente. Ela se afogou nas profundezas escuras por um momento; então, baixando os cílios, ela encontrou a boca dele novamente. A mão dele deslizou para cima e se posicionou na nuca dela. Devagarzinho, a língua dele penetrou em sua boca...quase relutantemente. Lucinda decidiu que não compreendeu a resposta dele. Jackson Wulf relutante em beijar uma mulher? Nunca.

 

Ela percebeu pouco depois, contudo, que ela parecia ser a que estava realizando o ato de beijar. Ela o provocou com a língua, mordiscou o lábio inferior dele, até mesmo meio que subiu em cima dele e esfregou o corpo contra o dele para conseguir arrancar mais resposta dele. Ele poderia ter escondido o fato de que não estava sendo afetado, se não fosse pela rapidez de sua respiração e pela definida saliência em suas calças.

 

Lucinda separou-se dos lábios dele para beijá-lo no pescoço. Ele fez um som em sua garganta, mas era como se tentasse evitar que saísse. De súbito, ele tirou o peso dela de cima dele e se agigantou sobre ela. Seus olhos agora tinham o fraco brilho azulado.

 

Ele a possuiria? Aqui, no bosque? Debaixo das árvores altas, o sol passando por entre as folhas e galhos? Ela esperava que sim. Seu corpo agora tinha consciência do que ele podia oferecer. Consciência e desejo de ter seus desejos alimentados. Ele ficou olhando para ela por um longo tempo, como se uma batalha silenciosa estivesse acontecendo dentro dele.

 

- Temos de ir. – ele disse subitamente, sua voz baixa e rou