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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O JARDIM DO ÉDEN / Ernest Hemingway
O JARDIM DO ÉDEN / Ernest Hemingway

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O JARDIM DO ÉDEN

 

Viviam nessa altura em Le Grau du Roi e o hotel ficava sobre o canal que descia da cidade murada de Aigues Mortes direito ao mar. Avistavam as torres de Aigues Mortes do outro lado da planície da Camarga e costumavam ir até lá de bicicleta quase todos os dias, pela estrada branca que ladeava o canal.

Nos fins de tarde e de manhã, quando a maré subia, as percas do mar apareciam e eles entretinham-se a observar os pulos assustados dos mugens para lhes escaparem e os redemoinhos de água provocados pelo ataque das percas.

Havia um molhe que entrava pelo mar azul e eles iam ali pescar e nadavam na praia e todos os dias ajudavam os pescadores a puxarem a rede comprida com peixe pelo areal íngreme. Tomavam aperitivos no café da esquina que dava para o mar e observavam as velas dos barcos que pescavam no golfo de Lião. Aproximava-se o fim da Primavera, era a época das migrações das cavalas e os pescadores do porto não tinham mãos a medir. Era uma cidade alegre e simpática e o jovem casal gostava do hotel, que tinha quatro quartos no andar de cima e um restaurante e duas mesas de bilhar no de baixo, voltados para o canal e para o farol. O quarto onde viviam parecia-se com o quadro que representava o quarto de Van Gogh em Arles, mas o deles tinha uma cama de casal e duas enormes janelas pelas quais podia ver-se, do outro lado da água, do pântano e das dunas, a cidade branca e a praia luminosa de Palavas.

Estavam sempre esfomeados à hora do pequeno-almoço, que tomavam no café, e encomendavam os brioches, café com leite e ovos, escolhiam o tipo de compota que desejavam, e as recomendações que davam para a forma como queriam os ovos constituíam motivo de entusiasmo. Estavam sempre tão esfomeados ao pequeno-almoço que a rapariga sofria frequentemente de dores de cabeça até ser servido o café. Mas o café tirava-lhas. Tomava-o sem açúcar, e o jovem começava a aprender a lembrar-se disso.

Naquela manhã havia brioches e compota de framboesa, os ovos eram cozidos e tinham por cima um fio de manteiga que derretia quando os mexiam e temperavam nos copos com uma pitada de sal e pimenta moída. Eram ovos grandes e frescos, e os da rapariga menos cozidos que os do jovem. Disto lembrava-se ele bem, e era com satisfação que mergulhava a colher nos seus, deixando que a manteiga os humedecesse, e saboreava os grãos de pimenta grosseiramente moída e bebia o café fumegante e a chávena de café com leite rescendente a chicória.

Os barcos de pesca estavam muito ao largo. Tinham saído de noite, com o primeiro sopro da brisa, e o jovem e a rapariga tinham acordado ao ouvi-los e depois tinham-se enroscado juntos sob o lençol e readormecido. Tinham feito amor quando estavam apenas meio adormecidos, com a luz brilhante lá fora mas o quarto ainda obscurecido, e depois tinham ficado deitados, felizes e cansados, e voltado a fazer amor. Depois, sentiram-se tão esfomeados que pensaram não sobreviver até ao pequeno-almoço, mas agora encontravam-se no café a comer e a ver o mar e as velas e era outra vez um novo dia.

- Em que estás a pensar? - perguntou a rapariga.

- Em nada.

- Tens de estar a pensar em alguma coisa.

- Estava só a sentir-me.

- Como?

- Feliz.

- Mas eu fico tão esfomeada. Achas que é normal? Ficamos sempre tão esfomeados quando fazemos amor?

- Quando amamos alguém.

- Oh, percebes muito disso.

- Não.

- Não interessa. Adoro isto e não temos que nos preocupar com nada, pois não?

- Não.

- Que vamos fazer?

- Não sei - disse ele. - E tu?

- Tanto se me dá. Se te apetecer pescar, eu vou escrever uma carta, ou talvez duas, e depois podíamos ir nadar antes do almoço.

- Para ficarmos esfomeados?

- Não digas isso, já estou a ficar com fome e ainda não acabámos o pequeno-almoço.

- Podemos pensar no almoço.

- E depois do almoço?

- Dormimos uma soneca como bons meninos.

- Essa é uma ideia completamente nova - disse ele. - Por que razão nunca pensámos nisso?

- Sou eu que tenho estes assomos de intuição. Sou do tipo inventivo.

- E eu sou do tipo destrutivo - disse ela. - E vou destruir-te. Até vão pôr uma placa na parede à porta do quarto. Vou acordar durante a noite e fazer-te uma coisa de que nunca ouviste falar e com que nunca sonhaste. Tencionava fazê-lo ontem à noite, mas estava cheia de sono.

- Tens demasiado sono para seres perigosa.

- Não te convenças muito disso. Oh, querido, vamos fazer com que o tempo passe depressa para ser hora de almoço.

 

Vestiam camisas de pescador às riscas e calções que tinham comprado no armazém que vendia artigos marítimos e estavam muito bronzeados e tinham o cabelo manchado pelo sol e pelo mar. A maior parte das pessoas pensavam que eram irmãos, até eles dizerem que eram casados. Alguns não acreditavam nisso, o que agradava bastante à rapariga.

Nessa época, pouca gente ia para o Mediterrâneo durante o Verão, e, exceptuando algumas pessoas de Nimes, ninguém ia para Le Grau du Roi. Não havia casino nem diversões, e, tirando os meses mais quentes em que apareciam pessoas para nadar, não havia ninguém no hotel.

Nessa época ninguém usava camisas de pescador e a rapariga com quem casara fora a primeira que ele vira com uma camisa daquelas. Comprara as camisas para ambos e lavara-as no lavatório do hotel para lhes tirar a goma. Eram ásperas e feitas para durar, mas as lavagens amaciaram-nas e agora estavam tão macias e puídas que quando se olhava para a rapariga os seus seios desenhavam-se deliciosamente sob o tecido gasto. Nos arredores da aldeia também ninguém usava calções e a rapariga não os podia vestir quando andavam de bicicleta. Mas na aldeia não fazia mal, porque as pessoas eram cordiais e só o padre não aprovava. Mas ela ia à missa ao domingo, com uma saia e uma camisola de mangas compridas e um lenço na cabeça, e o rapaz ficava ao fundo da igreja com os homens. Davam vinte francos, o que nessa altura era mais de um dólar, e, uma vez que era o próprio padre quem fazia a colecta, a atitude deles em relação à igreja foi divulgada e o facto de usarem calções na aldeia Passou a ser visto mais como uma excentricidade de estrangeiros que como uma afronta à moral dos portos da Camarga.

O padre não lhes falava quando usavam calções, mas também não os recriminava, e quando vestiam calças à noite e se encontravam cumprimentavam-se mutuamente com um aceno de cabeça.

- Vou lá para cima escrever cartas - disse a rapariga, levantando-se, sorrindo Para o criado e saindo do café.

- Monsieur vai pescar? - perguntou o criado quando o jovem, que se chamava David Bourne, o chamou para pagar a despesa.

- Acho que sim. Como está a maré?

- A maré está muito boa - respondeu o criado. – Tenho iscas, se quiser.

- Posso arranjar na estrada.

- Não. Utilize estas. São minhocas e há muitas.

- Você pode vir?

- Agora estou de serviço. Mas talvez possa aparecer por lá e ver como lhe correm as coisas. Tem aí os utensílios?

- Estão no hotel,

- Não se esqueça de vir buscar as minhocas.

No hotel, o jovem teve vontade de subir até ao quarto e juntar-se à rapariga, mas em vez disso agarrou na cana comprida e articulada de bambu e no cesto com os apetrechos que estava atrás da recepção, junto às chaves dos quartos, e regressou à claridade da rua e ao café e ao brilho do molhe. O sol estava quente mas soprava uma brisa fresca e a maré começava a vazar. Desejou ter levado uma cana de arremesso e iscas artificiais que pudesse atirar para a água do canal sobre as rochas, mas em vez disso preparou a comprida cana de pescar, colocando-lhe a bóia e o anzol e espetando a minhoca, mergulhando-a numa profundidade onde pensava que os peixes se poderiam ir alimentar.

 

Pescou durante mais algum tempo sem sorte e observou os barcos de pesca de cavalas, de um lado para o outro no mar azul, e a sombra que as nuvens altas faziam na água.

Então a bóia submergiu abruptamente e ele puxou a cana contra a força de um peixe que era forte e se debatia doidamente, fazendo com que a linha ziguezagueasse através da água. Tentou agarrá-la o mais que pôde e a cana estava quase a partir-se porque o peixe continuava a fazer força em direcção ao alto mar. O jovem acompanhou-o ao longo da água para aliviar a pressão, mas o peixe continuou a fazer força até que um quarto da cana ficou submersa.

O criado tinha vindo de café e estava muito excitado. Colocou-se ao lado do jovem e disse:

- Segure-o. Segure-o com muita calma. Não o deixe fugir. Calma com ele. Calma. Calma.

Mas o rapaz não podia fazer isso sem ter de se meter dentro de água, o que não fazia sentido pois o canal era muito fundo.

«Se ao menos eu pudesse acompanhá-lo ao longo da margem», pensou. Mas tinham chegado ao fim do molhe e mais de metade da cana encontrava-se já debaixo de água.

- Segure-o com força - insistiu o criado.

O peixe mergulhou profundamente, ziguezagueou e a comprida cana de bambu curvou-se ao peso e à força dele. Voltou novamente à superfície, debatendo-se, mergulhou outra vez e o jovem concluiu que, embora o peixe se sentisse cheio de forças, a violência trágica diminuíra - e agora conseguia conduzi-lo até ao extremo do molhe.

- Com calma vai-se lá - dizia o criado. - Calma, agora. Muita calma.

O peixe tentou fazer-se ao mar por duas vezes, e por duas vezes o jovem o puxou para trás, acabando por conseguir levá-lo ao longo do molhe em direcção ao café.

- Como está ele? - perguntou o criado.

- Está bem, mas vencemo-lo.

- Não diga isso. Temos de o cansar. É preciso cansá-lo.

- Ele é que já me cansou a mim.

- Quer que eu segure a cana? - perguntou o criado, cheio de vontade.

- Não.

- Então, mantenha-se calmo. Cuidado, muito cuidado.

O rapaz atravessou o terraço do café em direcção ao canal. O peixe nadava quase à superfície, mas ainda tinha muita força e o rapaz perguntou-se se teria de percorrer todo o canal ao longo da cidade. Tinham-se juntado muitas pessoas e, quando passaram pelo hotel, a rapariga viu-os da janela e gritou:

- Que belo peixe! Esperem por mim! Esperem por mim! Lá de cima avistara nitidamente o brilho do peixe na água e o marido todo curvado e a procissão de gente que o seguia. Quando chegou a correr à margem do canal a procissão tinha parado. O criado do hotel encontrava-se na borda da água e o marido conduzia o peixe lentamente para junto da margem. O peixe encontrava-se agora à superfície e o criado curvou-se e agarrou-o, enfiando os polegares nas guelras. Era pesado e o criado transportou-o junto ao peito com a cabeça sob o queixo e a cauda a bater-lhe entre as pernas.

Vários homens felicitaram o jovem com pancadas nas costas e abraços, e uma peixeira beijou-o. Depois, a rapariga rodeou-o com os braços e beijou-o e ele perguntou:

- Viste-o? Depois, foram todos admirar o peixe, prateado como um salmão e com um brilho metálico no dorso. Era um peixe bem constituído, com grandes olhos vivos, e respirava lenta e espaçadamente.

- Que peixe é?

- Um loup. Uma perca do mar. Também lhe chamam bar. É um peixe óptimo. Nunca vi um tão grande como este.

O criado, que se chamava André, aproximou-se, abraçou e beijou David e em seguida beijou a rapariga.

- Madame, tinha de fazer isto - disse. - Nunca ninguém apanhou um peixe assim com uma cana tão artesanal

- É melhor pesá-lo - disse David. Encontravam-se agora no café. O jovem pusera de lado a cana de pesca, lavara-se e o peixe tinha sido colocado sobre um bloco de gelo que chegara num camião vindo de Nimes. Pesava mais de sete quilos.

Sobre o gelo ainda era belo e mantinha a cor prateada, mas a cor do dorso tornara-se acinzentada. Só os olhos se conservavam vivos. Os barcos de pesca das cavalas estavam a chegar e as mulheres descarregavam os peixes de um azul esverdeado brilhante e colocavam-nos em canastras que punham à cabeça. A pesca fora boa e todos estavam satisfeitos.

- Que vamos fazer com este peixe? - perguntou a rapariga.

- Eles vão levá-lo para o vender - respondeu o jovem. - É grande de mais para ser cozinhado aqui e dizem que é mal empregado parti-lo em postas. Talvez vá directamente para Paris. Talvez acabe nalgum restaurante importante, ou então algum ricaço o comprará.

- Era tão bonito dentro de água - disse a rapariga. - E também quando o André pegou nele. Nem queria acreditar quando vos vi da janela com aquela multidão atrás.

- Vamos arranjar um mais pequeno para comer. Estes peixes são óptimos. Os pequenos devem ser grelhados com manteiga e ervas aromáticas.

- Estou muito excitada por causa do peixe - disse a rapariga.

Estamos a divertir-nos imenso, não achas? Estavam esfomeados e a garrafa de vinho branco estava gelada quando a beberam, enquanto comiam a rémoulade de aipos e os rabanetes e os cogumelos caseiros em vinagre. A perca tinha sido grelhada e viam-se as marcas da grelha sobre a pele prateada e a manteiga derretia na travessa quente. Havia rodelas de limão para espremer sobre o peixe e pão fresco da padaria e o vinho refrescava-lhes a língua do ardor das batatas fritas. O vinho era leve e seco, de uma marca desconhecida.

- Não somos grandes conversadores às refeições - disse a rapariga. - Aborreço-te, querido?

O jovem riu-se.

- Não rias de mim, David.

- Não estava a rir-me de ti. Não. Não me aborreces. Seria feliz só a olhar para ti, mesmo que não dissesses uma palavra.

Encheu-lhe de novo o copo e serviu-se também.

- Tenho uma grande surpresa. Ainda não te disse, pois não?

- Que surpresa?

- Oh, é muito simples e ao mesmo tempo muito complicado.

- Diz-me.

- Não. Podias gostar. E daí, talvez não.

- Parece perigoso.

- É perigoso - disse a rapariga. - Mas não me faças perguntas. Agora vou para o quarto.

O jovem pagou o almoço e acabou de beber o vinho que se encontrava na garrafa. Depois, subiu também para o quarto. As roupas da jovem estavam dobradas sobre uma das cadeiras de Van Gogh e ela estava à espera dele dentro da cama, tapada com o lençol. Tinha o cabelo espalhado sobre a almofada e os olhos risonhos. Ele levantou o lençol e disse:

- Olá, querida. Gostaste do almoço?

 

Mais tarde deixaram-se ficar deitados, o braço dele debaixo da cabeça dela, felizes e preguiçosos, e ele sentiu-a voltar a cabeça de um lado para o outro contra o seu rosto. O cabelo era sedoso, não tinha a aspereza provocada pelo sol e pelo mar. Depois, com o cabelo sobre o rosto de modo a roçar-lhe quando movia a cabeça, começou a tocá-lo suavemente, explorando-lhe o corpo, e perguntou:

- Amas-me?

- Ele assentiu e beijou-lhe a cabeça e depois voltou-a e beijou-lhe os lábios.

- Oh! - exclamou ela. - Oh! Passado bastante tempo estavam deitados, abraçados, e ela perguntou:

- Amas-me assim como sou? Tens a certeza?

- Sim - respondeu ele. - Certeza absoluta.

- É porque eu vou mudar. Não. Não. Mudar, não. Vou - disse ela. - Por ti. E por mim, também, não vou negar. Mas a ti também vai fazer bem. Tenho a certeza, mas não o devia dizer.

- Gosto de surpresas, mas também gosto das coisas como estão neste momento.

- Então, talvez eu não o deva fazer - disse ela. - Oh, estou triste. Era uma surpresa tão maravilhosa e perigosa. Ando a pensar nela há tanto tempo e só esta manhã é que me decidi.

- Se é uma coisa que queres assim tanto...

- É - disse ela. - E vou fazê-lo. Até agora tens gostado de tudo o que temos feito, não tens?

- Tenho.

- Então, está bem. Saiu da cama e ficou em pé, com as pernas esguias e bronzeadas e o corpo maravilhoso uniformemente bronzeado na praia para onde iam e onde nadavam sem fatos de banho. Puxou os ombros para trás, ergueu o queixo e abanou a cabeça com tanta força que o cabelo forte e trigueiro lhe bateu nas faces e depois caiu para a frente, tapando-lhe o rosto. Enfiou a camisa às riscas, voltou a abanar a cabeça e sentou-se em frente ao espelho da cómoda escovando o cabelo, ao mesmo tempo que o examinava com ar crítico. Chegava-lhe aos ombros. Vestiu os calções, pôs o cinto e calçou os sapatos de corda de um azul já desmaiado.

- Tenho de ir a Aigues Mortes - disse.

- Óptimo - disse ele. - Também vou.

- Não, preciso de ir sozinha. É por causa da surpresa.

Beijou-o e saiu do quarto e ele ficou a vê-la montar a bicicleta e seguir pela estrada acima, o cabelo a esvoaçar ao vento. O sol da tarde batia na janela e o quarto estava a ficar demasiado quente. O jovem lavou-se e vestiu-se e foi até à praia. Sabia que devia nadar mas estava muito cansado e, depois de ter passeado na praia e seguido por um caminho relvado que levava para o porto, dirigiu-se para o café. Ali, agarrou no jornal e mandou vir un fine à l’eau, pois sentia-se vazio e cansado depois de ter feito amor.

Tinham casado havia três semanas e depois tinham-se metido num comboio de Paris a Avinham, com as bicicletas, uma mala com roupa, uma mochila e um saco. Pernoitaram num bom hotel, em Avinham, deixaram lá a mala e pensaram em seguir de bicicleta até Pont du Gard. Mas soprava o mistral e eles acompanharam-no até Nimes, pernoitaram lá no Imperador e depois seguiram de bicicleta para Aigues Mortes com o vento forte e seco a acompanhá-los. Depois, tinham ido para Grau du Roi, onde ainda se encontravam.

Fora maravilhoso, tinham-se sentido verdadeiramente felizes e ele não imaginara que fosse possível amar alguém de tal maneira que nada mais importava e tudo o resto parecia não existir.

Tinha muitos problemas na altura em que casara, mas ali não se lembrara ainda de nenhum deles, nem de nada a não ser da rapariga que amava e com quem casara, e nem sequer sentia a súbita e cruel claridade que costumava seguir-se ao acto do amor. Essa sensação desaparecera. Agora, depois de fazerem amor, comiam, bebiam e voltavam a fazer amor. Era um mundo muito simples e ele nunca fora verdadeiramente feliz noutro. Pensava que com ela se passava o mesmo, pelo menos a sua atitude assim o demonstrava, mas hoje acontecera aquela coisa sobre a mudança e a surpresa. Mas talvez fosse uma mudança feliz e uma boa surpresa. Enquanto bebia o brande e a água e lia o jornal ansiava por saber o que seria.

Era a primeira vez durante a lua-de-mel que tomava um brande ou uísque sozinho. Mas não estava a trabalhar e a única regra a que obedecia era não beber quando trabalhava. Seria bom recomeçar a trabalhar, mas teria tempo para isso e não podia esquecer-se de não ser egoísta e de mostrar claramente que não apreciava a solidão forçada. Sabia que ela não se importava, pois era capaz de se entreter sozinha, mas detestava pensar em começar a trabalhar. Claro que nunca poderia começar sem a claridade e perguntou-se se ela o saberia e se seria essa a razão por que ela queria ir além do que já tinham e conseguir algo novo que nada pudesse interromper. Mas que poderia ser? Certamente que não seria possível estarem mais juntos que agora, em que nada os perturbava. Era só felicidade e amor e fome e saciedade e depois começava tudo outra vez.

Reparou que já tinha bebido o fine à l’eau e que começava a fazer-se tarde. Mandou vir outro e concentrou-se no jornal. Mas este não o interessou, e olhava para o mar naquele fim de tarde quando a ouviu entrar no café e dizer, na sua voz gutural:

- Olá, querido. Ela aproximou-se rapidamente da mesa, sentou-se e ergueu o rosto para ele com olhos risonhos e a face queimada salpicada de pequenas sardas. Tinha o cabelo tão curto como o de um rapaz. Fora cortado sem contemplações. Estava puxado para trás, abundante como sempre, mas tinha sido rapado dos lados e viam-se bem as orelhas, e tinha um aspecto macio, bem junto à cabeça.

Virou a cabeça, empinou os seios e disse:

- Beija-me. Ele beijou-a, olhou-lhe o rosto e o cabelo e voltou a beijá-la.

- Gostas? Vê como está macio. Apalpa - disse.

Ele tocou-lhe na nuca.

- Agora toca nas faces e junto às orelhas. Passa os dedos pelos lados. Estás a ver - disse ela. - É esta a surpresa. Sou uma rapariga. Mas agora também sou um rapaz e posso fazer tudo, tudo, tudo o que quiser.

- Senta-te aqui - disse ele. - Que tomas, irmão?

- Oh, obrigada - disse ela. - Tomo o mesmo que tu. Estás a perceber a razão por que é perigoso, não estás?

- Sim, estou.

- Mas não foi uma boa ideia?

- Talvez.

- Talvez, não. Não. Pensei nisto. Pensei muito nisto. Por que razão teremos de seguir as regras estabelecidas pelos outros? Nós somos nós.

- Estamos a divertir-nos e não me tenho sentido preso a regras nenhumas.

- Passa-me a mão pelo cabelo outra vez.

Ele obedeceu e beijou-a.

- Oh, és tão querido - disse ela.     E gostas. Sinto que gostas. Não precisas de adorar Para mim já é suficiente que gostes.

- Gosto - disse ele. - E tu tens uma cabeça tão bem feita que condiz tão bem como as feições maravilhosas do teu rosto.

- Não gostas aqui dos lados? - perguntou ela. - Não é a fingir. é mesmo um corte à rapaz, à barbeiro e não à cabeleireiro.

- Quem to cortou?

- O barbeiro em Aigues Mortes. O mesmo que te cortou o cabelo há uma semana. Na altura, disseste-lhe como querias o cabelo cortado e eu cheguei lá e disse-lhe que queria um corte igual ao teu. Ele foi muito simpático e não ficou nada admirado. Nem preocupado. Perguntou se o queria exactamente como o teu. E eu disse que sim. Isto não te diz nada, David?

- Sim.

- As pessoas estúpidas vão pensar que é estranho. Mas temos de nos orgulhar. Eu gosto de ter orgulho.

- Eu também - disse ele. - Começaremos agora.

Ficaram sentados no café a observar o reflexo do pôr do Sol na água e o crepúsculo enquanto bebiam o fine à 1’eau. As pessoas aproximavam-se, sem serem rudes, para ver a rapariga porque eles eram os únicos estrangeiros na aldeia e estavam ali havia quase três semanas, ela era uma beleza e eles gostavam dela. Depois, também havia a história do peixe enorme que em circunstâncias normais teria dado motivo para grandes falatórios, mas aquele é que era um verdadeiro acontecimento. Ali na aldeia as raparigas decentes não usavam o cabelo tão curto, e até em Paris era raro, e podia ser bonito mas também muito feio. Podia querer dizer muito ou podia unicamente mostrar a forma perfeita de uma cabeça que de outro modo não se veria.

Comeram um óptimo bife ao jantar com puré de batata e feijão verde e salada e a rapariga perguntou se poderiam beber Tavel.

- É um vinho óptimo para quem está apaixonado - disse. Ela sempre aparentara ter exactamente a idade que tinha agora pensou ele. - Vinte e um anos. Ele sempre se orgulhara disso. Mas nessa noite ela não parecia tê-los. As feições eram mais nítidas que nunca, ela sorria e o seu rosto era irresistível.

O quarto estava às escuras, só com uma pequena claridade que vinha lá de fora. Estava mais fresco devido à brisa e o lençol de cima fora retirado da cama.

- Dave, tu não te importas se formos para o inferno, pois não?

- Não, rapariga - disse ele.

- Não me chames rapariga.

- Aqui, por onde te estou a pegar, és uma rapariga - respondeu ele.

Rodeou-lhe os seios com os braços e começou a abrir e a fechar os dedos, sentindo-a e sentindo a frescura rija dos mamilos.

- Isso é um dos meus atributos - disse ela. - Mas a novidade é a surpresa. Sente. Não, deixa-os. Não vão fugir. Sente a minha face e a minha nuca. Oh, sabe tão bem e é tão fresco! Por favor, David, ama-me tal como sou. Por favor, compreende-me e ama-me.

Ele tinha os olhos fechados e sentia o peso leve dela, os seios contra o seu corpo, os lábios contra os seus. Deixou-se ficar ali deitado e então sentiu algo e a mão dela a mexer-lhe em baixo e ele a guiá-la, e ali ficaram às escuras, sem pensar, unicamente a sentir, e ela perguntou:

- Agora não se sabe quem é quem, pois não?

- Não.

- Estás a mudar - disse ela. - Oh, sim, estás. Estás mesmo e és a minha Catherine. Queres ser a minha rapariga e deixar-me possuir-te?

- Tu é que és a Catherine.

- Não. Sou o Peter. Tu és a minha bela Catherine. És a minha maravilhosa Catherine. Foste tão bom em mudar. Oh, muito obrigada, Catherine. Por favor, compreende. Por favor, entende. Vou fazer amor contigo para sempre.

No fim sentiram-se os dois exaustos e vazios, mas ainda não era o fim. Estavam deitados lado a lado, às escuras, com as pernas a tocarem-se e a cabeça dela sobre o braço dele. A Lua nascera e havia mais luz no quarto. Ela passou a mão pela barriga dele, sem Olhar, e disse:

- Achas que sou perversa?

- Claro que não. Mas há quanto tempo andavas a pensar nisto?

- Não há muito. Mas pensei muito nisto. Foste tão maravilhoso em deixar que isto acontecesse.

 

O jovem abraçou-a com força, sentindo os seios dela contra o seu peito, e beijou-lhe a boca. Abraçou-a com força e dentro de si disse: «Adeus, adeus, adeus».

Deixemo-nos ficar aqui quietos e abraçados, sem pensar

disse ele, e dentro do coração disse: «Adeus, Catherine, adeus, meu amor, adeus, boa sorte e adeus».

 

Ele levantou-se e olhou em volta da praia, tapou o frasco de óleo, enfiou-o numa bolsa da mochila e dirigiu-se para o mar, sentindo a areia molhada sob os pés. Olhou para a rapariga,, estendida de costas sobre a areia, olhos fechados, os braços ao longo do corpo, e atrás dela as barracas de lona e os primeiros tufos de ervas. Não devia ficar muito tempo naquela posição, com o sol a dar-lhe em cheio, pensou ele. Continuou a andar e mergulhou logo na água límpida e fria, voltou-se de costas e nadou para longe, observando a praia.

Virou-se, mergulhou até ao fundo, tocou na areia grossa, sentindo os sulcos profundos, e depois voltou à superfície e nadou calmamente a ver o ritmo de braçada que conseguia. Saiu da água, aproximou-se da rapariga e verificou que ela estava a dormir. Procurou o relógio dentro da mochila para ver a que horas a deveria acordar. Havia uma garrafa de vinho branco fresco embrulhada em jornais e nas toalhas. Retirou-lhe a rolha sem remover os jornais e as toalhas e bebeu um trago daquela estranha trouxa. Depois, sentou-se a observar a rapariga e a olhar para o mar.

«Este mar é mais frio do que parecia», pensou ele. Não aquecia a não ser a meio do Verão, excepto nas praias mais baixas. Aquela praia decaía subitamente e a água tinha-se mantido muito fria até que a natação o aquecera. Olhou para o mar e para as nuvens altas e reparou que os barcos de pesca se dirigiam lá longe para oeste. Depois olhou para a rapariga, que dormia sobre a areia, que já estava seca e começava a levantar-se levemente devido ao vento.

Durante a noite sentira as mãos dela tocarem-lhe. E quando acordara havia luar e ela fizera novamente a magia da mudança e ele não dissera que não quando ela lhe fizera perguntas e sentira tanto a mudança que até lhe doera. E quando acabara tinham-se sentido exaustos os dois, ela tremia e sussurrara-lhe:

- Agora conseguimos fazê-lo. Sim, pensara ele. Agora conseguimos fazê-lo. E, quando ela adormecera subitamente como uma criança cansada, ali bem junto, com o luar a mostrar a bela e estranha nova forma da sua cabeça, ele curvara-se sobre ela e dissera para si:

- Estou contigo. O que quer que tenhas na cabeça estou contigo e amo-te.

De manhã acordara cheio de fome, mas tinha esperado que ela despertasse. Finalmente, beijara-a e ela acordara, sorrira e levantara-se, sonolenta, lavara-se na grande bacia, inclinara o corpo em frente ao espelho do guarda-fatos e escovara o cabelo, fixando o espelho sem sorrir, e depois sorrira e tocara nas faces com as pontas dos dedos, enfiara uma blusa às riscas e beijara-o. Colocara-se muito direita contra o corpo dele e dissera:

- Não te preocupes, David. Sou outra vez a tua rapariga. Mas ele estava preocupado e pensava: «Que há-de ser de nós, se as coisas já foram tão longe, tão depressa e tão perigosamente? Que poderá existir que não arda num fogo escaldante como este? Éramos felizes e tenho a certeza de que ela era feliz. Mas quem sabe? E quem és tu para julgar depois de teres participado e aceitado a mudança? Se é isso que ela quer, quem és tu para lho negares? Tens sorte em ter uma mulher como ela, e pecado é sentires-te mal. Não, com o vinho não te sentes mal. E que vais beber quando o vinho não resultar?», interrogou-se ele.

Tirou o frasco de óleo da mochila e espalhou algum pelo queixo, pelas faces e pelo nariz da rapariga e encontrou um lenço azul desbotado no bolso da mochila e colocou-o sobre os seios dela.

- Tenho que parar? - perguntou ela. - Estou a ter um sonho maravilhoso.

- Acaba o sonho - disse ele.

- Obrigada. Passados alguns minutos ela inspirou profundamente, abanou a cabeça e levantou-se.

- Vamos para a água - disse. Entraram juntos no mar e nadaram e brincaram debaixo de água como golfinhos. Quando regressaram secaram-se um ao outro com toalhas e ele passou-lhe a garrafa de vinho que ainda estava fresca, embrulhada em jornais, e os dois beberam e ela olhou para ele e riu-se.

- É bom beber quando se tem sede - disse ela. - Não te importas que sejamos irmãos, pois não?

- Não. Ele pôs-lhe óleo na testa e no nariz e depois nas faces e no queixo e depois, cuidadosamente, acima e atrás das orelhas.

- Quero ficar bronzeada atrás das orelhas, e no pescoço e em todos os novos sítios.

- Estás terrivelmente bronzeado, irmão - disse ele. - Nem calculas quanto.

- Eu gosto - disse a rapariga. - Mas ainda quero ficar mais. Estenderam-se sobre a areia dura, que já estava seca mas ainda fresca após a maré ter descido. O jovem colocou um bocado de óleo na palma da mão e espalhou-o sobre as pernas da rapariga, que ficaram brilhantes. Continuou a espalhá-lo sobre a barriga e os seios e ela disse, sonolenta:

- Não parecemos muito irmãos quando estamos assim, pois não?

- Não.

- Estou a tentar ser uma boa menina. Não tens de te preocupar até à noite, querido. Não vamos deixar que as coisas da noite aconteçam durante o dia.

 

No hotel, o carteiro tomava uma bebida enquanto esperava que a rapariga assinasse um envelope largo e pesado que continha cartas do seu banco em Paris. Também havia três cartas reendereçadas do banco dele. Era o primeiro correio que recebiam desde que tinham comunicado a morada do hotel. O jovem deu cinco francos ao carteiro e convidou-o a beber outro copo de vinho ao balcão. A rapariga retirou a chave da recepção e disse:

- Vou-me arranjar e depois vou ter contigo ao café. Depois de ter acabado a bebida, o jovem despediu-se do carteiro e desceu o canal em direcção ao café. Era agradável ficar sentado à sombra depois de ter caminhado na praia ao sol, e o café estava fresco. Encomendou um vermute com soda, retirou a navalha do bolso e começou a abrir as cartas. Os três envelopes eram do seu editor e dois estavam cheios de recortes com críticas. Deu uma vista de olhos aos recortes e depois leu a carta enorme. Era calorosa e optimista. Ainda era muito cedo para dizer alguma coisa sobre as vendas do livro, mas parecia que tudo se encaminhava bem. A maior parte das críticas eram excelentes. Claro que também havia as outras, mas isso já seria de esperar. Algumas das frases estavam sublinhadas, provavelmente para serem utilizadas em publicidade futura. O editor gostaria de fornecer mais elementos sobre o livro, mas nunca fazia previsões com respeito às vendas. Era um bom hábito. Mas na verdade o livro não podia ter sido melhor recebido. Fora uma sensação, como ele teria oportunidade de verificar pelos recortes. A primeira tiragem fora de cinco mil exemplares, e, devido às críticas, já estava outra a caminho. A publicidade a sair levaria a frase: «Agora em segunda edição». O editor esperava que ele se sentisse tão satisfeito como merecia e que estivesse a gozar bem as merecidas férias. A mulher enviava cumprimentos.

O jovem pediu um lápis ao criado e começou a multiplicar dois dólares e cinquenta por mil. Era fácil. Dez por cento daquilo dava duzentos e cinquenta dólares. Multiplicando por cinco dava mil duzentos e cinquenta dólares. Deduzindo setecentos e cinquenta dólares de avanço ficavam quinhentos dólares ganhos com primeira edição. E agora ia haver a segunda edição. Supondo que avanço era de dois mil, dava doze e meio por cento de cinco mil dólares. Se é que o contrato ia ser assim. Seriam seiscentos e vinte e cinco dólares. Mas talvez não chegasse aos doze e meio por cento antes dos dez mil. Bem, ainda assim eram quinhentos dólares. Ainda ficava com mil.

Começou a ler as críticas e reparou que bebera o vermute sem se dar conta. Mandou vir outro e devolveu o lápis ao criado. Ainda estava a ler as críticas quando a rapariga entrou com a sua correspondência.

- Não sabia que tinha vindo isso - disse. - Deixa-me ver. Por favor, deixa-me ver.

O criado serviu-lhe um vermute e, quando o pousava, viu a fotografia nas mãos da rapariga.

- É Monsieur? - perguntou.

- Sim, é - respondeu ela, erguendo a fotografia para ele ver.

- Mas está vestido de maneira diferente - continuou o criado. - Eles falam do casamento? Posso ver uma fotografia de Madame?

- Não falam do casamento, não. São críticas ao livro de Monsieur.

- Magnífico - comentou o criado profundamente comovido. - Madame também escreve?

- Não - respondeu a rapariga sem tirar os olhos dos recortes. - Madame é dona de casa.

O criado riu-se, orgulhosamente.

- Se calhar Madame faz cinema. Ficaram os dois a ler recortes e depois a rapariga baixou o que estava a ler e disse:

- Eles assustam-me e as coisas que dizem também. Como podemos ser nós a ter as coisas que temos e fazer as coisas que fazemos e ser-se o que dizem nos recortes?

- Também os tive antes - disse o jovem. - Fazem-nos mal mas passa depressa.

- É terrível - disse ela. - Podem destruir-nos se acreditarmos. Não pensas que casei contigo por seres quem eles dizem que és nestes recortes, pois não?

- Não. Quero acabar de os ler e depois fechamo-los num envelope.

- Eu sei que os tens de ler. Não quero ser estúpida. Mas mesmo dentro do envelope é horrível ficarmos com eles. É como trazer as cinzas de alguém dentro de um frasco.

- Muitas mulheres ficariam satisfeitas se os raios dos maridos tivessem boas críticas.

- Eu não sou como muitas mulheres e tu não és um raio de um marido. Não vamos discutir, por favor.

- Não vamos, não. Tu vais lê-los e se houver alguma coisa boa dizes-me e se reparares nalgum pormenor inteligente dizes-me. Mas o livro já fez algum dinheiro.

Que bom. Estou tão contente. Sabemos que o livro é bom. Se a crítica tivesse dito que não valia nada e mesmo que não fizesse um tostão, eu sentir-me-ia na mesma orgulhosa e feliz.

«Eu não», pensou o rapaz. Mas não o disse. Continuou a ler as críticas, desdobrando-as, dobrando-as e voltando a guardá-las no envelope. A rapariga estava sentada distraidamente a abrir envelopes e a ler cartas. Depois, olhou para o mar. O seu rosto tinha o tom castanho-doirado e escovava o cabelo, mantendo a forma que o mar lhe impusera quando saíra da água. Olhava para o mar e os seus olhos estavam muito tristes. Depois, retomou a leitura das cartas. O rapaz olhou para ela e pensou que ela parecia tão pequenina como se estivesse a descascar ervilhas.

- Que havia nas cartas? - perguntou ele.

- Nalgumas havia cheques.

- Grandes?

- Dois.

- Óptimo - disse ele.

- Não te afastes assim. Sempre disseste que não tinha importância.

- Eu disse alguma coisa?

- Não, mas tornaste-te distante.

- Desculpa - disse ele. - Eram muito grandes os cheques?

- Não muito, mas ser-nos-ão úteis. Foram depositados. É por eu ser casada. já te disse que foi muito bom termos casado. Sei que não é grande coisa como capital, mas dá para gastar. Podemos gastar o dinheiro sem afectar ninguém. Não tem nada a ver com uma mesada fixa nem é preciso que eu viva até aos vinte e cinco anos ou até aos trinta. Este dinheiro é para fazermos o que quisermos. Durante algum tempo não precisamos de nos preocupar com os balanços.

- O livro já deu para pagar o avanço e já fez dois mil dólares - disse ele.

- É óptimo, pois saiu há tão pouco tempo, não é?

- Não é mau. Queres outro?

- Vamos beber outra coisa.

- Quantos vermutes já bebeste?

- Só um. E não me soube muito bem.

- Eu bebi dois e nem os saboreei.

- Que haverá que seja real? - perguntou ela.

- Já bebeste Armagnac com soda? É bem real.

- Óptimo. Vamos lá experimentar.

O criado trouxe o Armagnac e o jovem pediu-lhe uma garrafa fresca de Perrier em vez do sifão. O criado serviu-lhes duas doses generosas e o jovem colocou cubos de gelo nos cálices enormes e depois juntou-lhes Perrier.

- Assim, está bem - disse -, embora não seja grande ideia beber antes de almoço.

A rapariga deu um gole.

- É bom. Tem um horroroso sabor fresco e saudável. Bebeu mais um trago e continuou.

- Sabe-me mesmo a isso. E a ti?

- A mim também - respondeu ele, bebendo um gole. Também me sabe.

A rapariga bebeu mais um trago e sorriu e apareceram-lhe rugas ao canto dos olhos. A água fria tornara o brande mais leve.

- Isto é para heróis - disse ele.

- Não me importo de ser heroína - respondeu ela. - Não somos iguais às outras pessoas. Não precisamos de nos tratar por «queridos» ou «meu amor». «Querido», «meu muito querido» e meu mais que tudo» são expressões obscenas, e nós tratamo-nos pelo nome próprio. Percebes o que quero dizer. Por que havemos de fazer as coisas como toda a gente?

- És uma rapariga muito inteligente.

- Está bem, Davie - disse ela. - Por que razão havemos de nos arreliar? Por que não continuamos agora que é muito mais divertido? Faremos tudo o que quiseres. Se fosses um europeu com um advogado, o meu dinheiro seria teu de qualquer modo. E é teu.

- Para o diabo com isso.

- Está bem. Para o diabo. Mas vamos gastá-lo e vai ser maravilhoso. E tu podes escrever depois. Assim, podemos divertir-nos antes de eu ter um bebé. E como é que eu sei se terei um bebé? Não estou a gostar da conversa. Por que não aproveita-mos em vez de estar com conversas?

- E se eu quiser escrever? Quando estiveres sem fazer nada, provavelmente vais-te lembrar de algo que queres fazer.

- Então escreve, estúpido. Não disseste que não irias escrever. Ninguém disse isso. Pois não?

Mas algures algo tinha sido dito e agora ele não se lembrava.

- Se queres, escreve, que eu divirto-me sozinha. Não tenho de te deixar sozinho quando estás a escrever, pois não?

- Mas para onde queres que vamos quando as pessoas começarem a vir para aqui?

- Onde tu quiseres. Vamos, David?

- Por quanto tempo?

- Enquanto ambos o quisermos. Seis meses. Nove meses. Um ano.

- Está bem - disse ele.

- A sério?

- A sério.

- És uma jóia. Se não te amasse por outras razões, amar-te-ia só pelas tuas decisões.

- São fáceis de tomar quando ainda não se viu o resultado de muitas delas.

Bebeu a bebida dos heróis mas não lhe soube tão bem e mandou vir outra garrafa fresca de Perrier e preparou uma bebida com gelo.

- Prepara-me também uma, por favor. Pequena, como a tua. E depois vamos ao almoço.

Nessa noite, na cama, quando ainda estavam acordados, ela disse no escuro:

- Não precisamos de fazer sempre as mesmas coisas. Quero que saibas isso.

- Eu sei.

- Gosto muito de como éramos e sou sempre a tua rapariga. Nunca ficarás sozinho. Sabe-lo bem. Sou como tu queres mas também sou como eu quero. Não precisas de falar. Só te estou a contar uma história para adormeceres porque és o meu querido marido e meu irmão também. Amo-te e quando formos para África também serei a tua rapariga africana.

- Vamos para África?

- Então não vamos? Não te lembras? A conversa de hoje foi sobre isso. Para que pudéssemos ir para onde quiséssemos. Não era para aí que íamos? Por que não o disseste?

- Não quis interferir. E disse que ia para onde tu quisesses. Mas pensei que era para ali que querias ir.

- É cedo de mais para ir para África. É a época das chuvas e depois a erva cresce muito e faz muito frio.

- Podíamos ir para a cama e ficávamos muito quentinhos a ouvir a chuva cair sobre um telhado de zinco.

- Não, é cedo de mais. As estradas estão cheias de lama, os campos parecem pântanos e a erva está tão alta que não se consegue ver.

- Então, para onde devemos ir?

- Podemos ir para a Espanha, mas Sevilha já não dá nada, nem San Isidro, em Madrid, e também é muito cedo para ir até lá. É muito cedo para a Costa Brava. Ainda há chuva e frio. Nesta altura, chove em todo o lado.

- Não há um sítio quente onde possamos nadar como aqui?

- Em Espanha não sei se se pode nadar como aqui o fazemos. Éramos logo presos.

- Que chatice. Então não vamos já para lá porque eu quero ficar mais escura.

- Para quê?

- Não sei. Por que razão se quer qualquer coisa? Neste momento é o que mais quero de entre aquilo que não tenho. Não te excita o facto de eu ficar mais morena?

- Não, porque tu és loura. Mas consigo ficar escura porque sou da cor dos leões e eles escurecem. Quero que todas as partes do meu corpo fiquem escuras e já estou a ficar assim e tu ficarás mais escuro que um índio e isso tornar-nos-á ainda mais diferentes das outras pessoas. Estás a perceber por que é importante.

- E que seremos?

- Não sei. Talvez só nós mesmos. Mas mudados. Talvez seja o melhor. E vamos continuar, não vamos?

- Claro. Podemos ir até Esterel e arranjar outro sítio como arranjámos este.

- Pois é. Há muitos sítios isolados onde nunca vai ninguém no Verão. Podíamos arranjar um carro e ir a todo o lado. Também a Espanha, quando quiséssemos. Depois de estarmos bem queimados não será difícil manter a cor, a menos que passemos a viver em cidades. Mas não queremos viver em cidades durante o Verão.

- Queres ficar muito bronzeada?

- O mais possível. Veremos. Quem me dera ter sangue índio. Vou ficar tão queimada que até vais ficar impressionado. Estou ansiosa por ir para a praia amanhã.

 

Adormeceu assim, com a cabeça puxada para trás e o queixo levantado, como se estivesse ao sol, deitada na areia, respirando suavemente, e depois enroscou-se nele, que se deixou ficar acordado a pensar no dia.

«E bem possível que eu não consiga começar a trabalhar», pensou, «e provavelmente o melhor é não pensar nisso e aproveitar o que temos. Quando for necessário trabalharei. Não me poderá impedir de o fazer. O último livro é bom e o próximo tem de ser melhor. Estes disparates que fazemos são engraçados, embora eu não saiba bem onde acabam os disparates e começam as coisas sérias. Beber brande à noite não é nada bom e até já nem o raio de um simples aperitivo tem qualquer significado. Não é um bom sinal. Ela transforma-se em rapaz e de novo em rapariga sem qualquer preocupação. Dorme calmamente e tu também vais dormir, pois sabes que te sentes bem. Não foi preciso vender nada para ter o dinheiro. Tudo o que ela disse sobre o dinheiro é verdade. De facto, tudo é verdade.» Durante algum tempo, tudo estaria contra eles.

Que dissera ela sobre a destruição? Não se conseguia lembrar. Ela dissera-o mas ele não se lembrava.

Cansou de tentar lembrar-se, olhou para a rapariga, beijou-a na face levemente e ela não acordou. Amava-a muito e adormeceu a pensar na face dela contra os seus lábios e em como no dia seguinte estariam ambos mais queimados pelo sol. «Até que ponto conseguirá ela bronzear-se», pensou ele.

 

Era fim de tarde e o pequeno automóvel descia pela estrada asfaltada, passando por colinas e promontórios, com o oceano azul profundo à direita e uma avenida deserta que dava para uma praia de areia amarela com um quilómetro de comprimento, em Hendaia. À frente, junto ao oceano, ficava um enorme hotel e um casino, e à esquerda havia árvores de plantação recente e villas bascas caiadas de branco e com telhados de madeira e jardins à volta. Os dois jovens dentro do carro seguiam lentamente, olhando para a praia magnífica e para as montanhas de Espanha, que pareciam azuis quando passavam junto ao casino e ao hotel enorme e continuavam até ao fim da avenida. À frente ficava o leito do rio que ia desaguar ao oceano. A maré estava baixa e do outro lado da areia brilhante avistavam a antiga cidade espanhola e as colinas verdes para lá da baía, e, mais ao fundo, o farol. Pararam o carro.

- Este sitio é lindo - disse a rapariga.

- Há um café com mesas sob as árvores - disse o jovem. - Árvores antigas.

- As árvores são estranhas - disse a rapariga. - As plantações são todas recentes. Por que será que plantaram mimosas?

- Para competir com o local de onde vimos.

- Suponho que deve ser por isso. Tem tudo um aspecto tão terrivelmente novo. Mas a praia é maravilhosa. Nunca vi uma praia tão grande em França, nem uma areia tão fina e macia. Biarritz é um horror. Vamos até ao café.

Seguiram pelo lado direito da estrada. O jovem encostou o carro ao passeio e desligou a ignição. Entraram no café e foi muito agradável comerem sozinhos e repararem nas pessoas que não conheciam e que comiam noutras mesas.

Nessa noite levantou-se vento, e num dos quartos altos do hotel ouviram o cair pesado das ondas na areia. Às escuras, o jovem colocou um cobertor leve sobre o lençol e a rapariga disse:

- Não estás satisfeito por termos decidido ficar?

- Gosto de ouvir o barulho da rebentação.

- Eu também. Ficaram ali enroscados a ouvir o mar. Ela tinha a cabeça sobre o peito dele e passou-a para o queixo e ergueu-se um pouco e pressionou-a contra o rosto dele. Beijou-o e ele sentiu a mão dela tocar-lhe.

- É bom - disse ela, no escuro. - Sabe bem. De certeza que não queres que eu mude?

- Agora não. Tenho frio. Abraça-me.

- Gosto quando tens frio e te aqueço.

- Se continuar a fazer frio teremos de vestir casacos de pijama. Vai ser divertido tomar o pequeno-almoço na cama.

- É o oceano Atlântico - disse ela. - Ouve. Vamos divertir-nos enquanto aqui estivermos - disse ele.

- Se quiseres, ficamos durante uns tempos. Se quiseres, vamos embora. Há muitos sítios para onde ir.

- Podíamos experimentar ficar alguns dias.

- Óptimo. Se ficarmos, gostava de começar a escrever.

- Isso seria óptimo. Amanhã vamos dar uma volta. Tu consegues trabalhar aqui no quarto se eu sair, não consegues? Quer dizer, até arranjarmos outro sítio?

- Claro.

- Não deves nunca preocupar-te comigo porque eu amo-te, e somos os dois contra todos os outros. Por favor, beija-me - disse ela.

Ele beijou-a.

- Sabes que não nos fiz mal nenhum. Tinha de fazer o que fiz. Sabes isso.

Ele não respondeu e ficou a ouvir o rebentar das ondas na noite sobre a areia húmida.

Na manhã seguinte ainda havia bastante rebentação e a chuva caiu em aguaceiros. Não conseguiram avistar a costa espanhola e quando o tempo começou a abrir por entre a chuva avistaram, do outro lado do mar em fúria, nuvens pesadas que desciam sobre a base das montanhas. Catherine saíra com uma gabardina a seguir ao pequeno-almoço e deixara-o a trabalhar. Correra tudo tão bem e com tanta facilidade que ele até pensava que provavelmente não valia nada. «Tem cuidado», disse para si próprio, «tu. sabes escrever com simplicidade. E, quanto mais simples, melhor. Mas não comeces a pensar de uma forma tão estupidamente simplista. Elabora as coisas com cuidado e depois expõe-nas de forma simples. Pensas que os tempos de Grau du Roi foram simples porque os conseguiste escrever com simplicidade?»

Continuou a escrever com o lápis no caderno escolar com linhas, que se chamava cahier e que já estava numerado com um «1», à romana. Finalmente parou, enfiou o caderno na pasta que continha o estojo dos lápis e o apara-lápis, deixando cinco para afiar no dia seguinte, agarrou na gabardina e desceu as escadas até ao átrio do hotel. Olhou para o bar, que tinha um ar aconchegado e onde já se encontravam alguns clientes, e entregou a chave na recepção. O recepcionista deu-lhe um envelope e disse:

- Madame deixou isto para Monsieur. Abriu o bilhete, que dizia: «David, não quero perturbar-te. Estou no café. Amo-te. Catherine». Vestiu o casaco, encontrou uma boina no bolso e saiu para a chuva.

Ela estava sentada numa mesa do canto, no pequeno café, e tinha à sua frente uma bebida amarelada e um prato com um caranguejo vermelho-escuro e restos de outros.

- Por onde tens andado, estranha mulher?

Aí pela rua. Ele reparou que ela tinha o rosto molhado pela chuva e concentrou-se no efeito da chuva sobre a pele bem bronzeada. Estava muito bonita e ele sentiu-se feliz por a ver assim.

- Como correram as coisas? - perguntou ela.

- Bem.

- Quer dizer que trabalhaste. Óptimo.

O criado acabara de servir três espanhóis que estavam sentados na mesa ao lado da porta. Aproximou-se com um copo, uma garrafa de Pernod e um pequeno jarro de água. Havia pedaços de gelo na água.

- Monsieur vai querer o mesmo? - perguntou.

- Sim - respondeu o jovem. - Por favor.

O criado encheu os copos altos até meio com o líquido amarelo e começou a verter a água, lentamente, no copo da rapariga. Mas o jovem disse:

- Eu faço isso.

O criado retirou-se, levando a garrafa. Pareceu aliviado e o jovem verteu a água em fio e a rapariga ficou a observar a nuvem opalescente de absinto. O copo estava cálido quando ela lhe pegou e depois, quando começou a perder a cor amarela e a ficar leitoso, arrefeceu bruscamente e o jovem deixou cair a água gota a gota.

- Por que razão vertes isso tão lentamente? - perguntou a rapariga.

- Se a água for deitada muito depressa o gelo fica desfeito explicou ele. - E então a bebida fica mole e sem graça. Devia haver um copo com gelo por cima e um buraquinho para a água cair.

- Tive de beber a outra muito depressa porque entraram dois G. N. - disse a rapariga.

- G. N2

- Os guardas nacionais ou lá o que é. Vestidos de caqui, com culatras de couro pretas e montados em bicicletas. Tive de engolir a prova.

- Engolir?

- Desculpa. Já nem consigo dizer.

- Tens de ter cuidado a beber absinto.

- Faz-me ver as coisas mais leves.

- E mais nada o consegue? Ele acabou de lhe preparar o absinto.

- Bebe - disse-lhe. - Não esperes por mim.

Ela deu um gole longo e então ele retirou-lhe o copo da mão e bebeu também.

- Obrigado, minha senhora. Isto até dá coração novo a um homem.

- Então prepara um para ti, meu leitor de recortes.

- Que disseste? -- perguntou ele.

- Não disse. Mas dissera-o e ele retorquiu:

- Por que não te calas com isso dos recortes?

- Porquê? - perguntou ela, curvando-se sobre ele e falando demasiado alto. - Por que razão me deveria calar? Só por que passaste a escrever? Pensas que casei contigo porque és escritor? Tu e as tuas escritas.

- Pronto - disse o jovem. - Dizes-me o resto quando estivermos sozinhos, sim?

- Não penses que me calo - disse ela.

- Também acho que não.

- Não aches. Podes ter a certeza. David Bourne levantou-se, foi até ao cabide, retirou a gabardina e saiu sem olhar para trás.

 

Sentada à mesa, Catherine ergueu o copo e provou cuidadosamente o absinto, saboreando-o em pequenos goles.

A porta abriu-se e David voltou a entrar, dirigindo-se à mesa. Trazia o casaco vestido e a boina puxada sobre a testa.

- Tens as chaves do carro?

- Sim - respondeu ela.

- Dás-mas? Ela entregou-lhas e disse:

- Não sejas estúpido, David. Foi por causa da chuva e de teres sido o único a trabalhar. Senta-te.

- Queres mesmo que me sente?

- Por favor - pediu ela. Ele sentou-se. «Não faz muito sentido», pensou. «Levantaste-te para pegares no raio do carro e saíres. E agora voltas, pedes as chaves e sentas-te aí como um palerma.» Agarrou no copo e bebeu. Era bom.

- Que vais fazer ao almoço? - perguntou.

- Diz onde e eu almoço contigo. Ainda me amas?

- Não sejas pateta.

- Foi uma discussão muito estúpida - disse Catherine.

- A primeira também.

- A culpa foi minha por ter falado nos recortes.

- Não falemos disso.

- Mas foi tudo por causa disso.

- Foi porque pensaste neles quando bebias. Lembraste-te porque estavas a beber.

- Parece regurgitação - disse ela. - Horrível. Na verdade, foi a língua que deslizou.

- Mas para falares deles é porque os tinhas na cabeça.

- Está bem - disse ela. - Pensei que o caso estava arrumado.

- E está.                                                    

- Então porque insistes no mesmo?

- Não devíamos ter tomado esta bebida.

- Não. Claro que não. Principalmente, eu. Mas tu bem que precisavas dela. Achas que te vai fazer bem?

- Temos de fazer isto agora? - perguntou ele.

- Eu vou parar. Já estou chateada.

- Isso é um raio de uma palavra que não suporto.

- Que sorte, ser só esta que não suportas.

- Oh, merda - disse ele. - Almoças sozinha.

- Não. Não vou almoçar só. Vamos comer juntos e comportarmo-nos como seres humanos.

- Está bem.

- Desculpa. Foi só uma brincadeira de mau gosto. A sério, David, foi só isso.

A maré estava baixa quando David Bourne acordou, o Sol brilhava sobre a praia e o mar estava azul-escuro. As montanhas estavam verdes e as nuvens já tinham desaparecido. Catherine ainda dormia e ele pôs-se a observar-lhe a respiração regular e a luz do Sol sobre o rosto dela e a pensar que era estranho que ela não acordasse com a luz a bater-lhe nos olhos.

Depois de ter tomado banho, lavado os dentes e feito a barba, estava morto por tomar o pequeno-almoço, mas vestiu uns calções e uma camisola, agarrou no bloco, nos lápis e no afia-lápis e sentou-se à mesa, junto à janela onde se via o estuário do rio. Começou a escrever e esqueceu Catherine e a paisagem que se avistava da janela, e a escrita saía-lhe como acontecia sempre que tinha sorte.

Trabalhava havia algum tempo quando olhou para Catherine, que ainda dormia, com os lábios abertos num sorriso e o rectângulo de luz a cair-lhe sobre o corpo, iluminando-lhe o rosto moreno e a cabeça tisnada contra o branco amarfanhado do lençol e da almofada não utilizada. «Agora já é tarde para o pequeno-almoço», pensou ele. «Deixo um bilhete e vou até ao café tomar um café-crème ou qualquer coisa.» Mas enquanto guardava o trabalho Catherine acordou e aproximou-se quando ele fechava a pasta, abraçou-o e beijou-o na nuca e disse:

- Sou a tua esposa preguiçosa e nua.

- Para que acordaste?

- Não sei. Mas diz-me para onde vais que eu vou lá ter daqui a dez minutos.

- Vou até ao café tomar o pequeno-almoço.

- Vai, que já lá vou ter. Trabalhaste?

- Claro.

-   Desde ontem que és tão maravilhoso. Estou orgulhosa de ti. Beija-me e olha para nós ao espelho da porta da casa de banho.

Ele beijou-a e olharam ambos para o espelho.

- É tão bom não sentir roupa em cima do corpo - disse ela.

- Porta-te bem e não arranjes problemas. Manda vir para mim um oeuf au jambon. Mas vai comendo. Desculpa ter-te feito esperar tanto pelo pequeno-almoço.

No café, encontrou um jornal do dia e os jornais parisienses do dia anterior e tomou o seu café com leite e o presunto de Baiona com um enorme ovo fresco que salpicou de pimenta e de mostarda antes de quebrar a gema. Quando viu que Catherine não aparecia e o ovo dela estava a ficar frio, comeu-o também, limpando o prato com um bocado de pão.

- Aí vem Madame - disse o criado. - Vou fazer outro prato para ela.

Vestira uma saia e uma camisola de caxemira, pusera um colar de pérolas e trazia o cabelo molhado envolto numa toalha, de forma que a cor trigueira não contrastava com o rosto incrivelmente bronzeado.

- Está um lindo dia - disse. - Que pena ter chegado atrasada.

- Vestiste-te para ir aonde?

- A Biarritz. Queres lá ir?

- Mas tu preferes ir sozinha.

- Pois prefiro - disse ela. - Mas podes vir. Enquanto ele se levantava, ela disse:

- Vou trazer-te uma surpresa.

- Não, não tragas.

- Trago, sim, e vais gostar.

- Deixa-me ir para te impedir de cometer alguma loucura.

- Não. É melhor eu ir sozinha. Estou de volta logo à tarde. Não contes comigo para almoçar.

 

David leu os jornais e deu uma volta pela cidade à procura de vivendas que estivessem para alugar ou de um sítio onde fosse bom viver e encontrou a área residencial moderna e achou-a agradável, se bem que triste.

Adorou a vista da baía e do estuário do lado de Espanha, as velhas pedras cinzentas de Fuenterrabia, as casas brancas e brilhantes que se espalhavam e as montanhas castanhas com sombras azuis. Perguntou-se por que razão a tempestade teria passado tão rapidamente e concluiu que devia ter sido só na ponta norte e passado no golfo da Biscaia. Biscaia era Vizcaia, mas essa era a província basca mais para baixo da costa, para lá de São Sebastião. As montanhas que avistava para lá dos telhados de Irum ficavam em Guipúscoa e mais para além seria Navarra, e Navarra era Navarra. «E que estamos nós a fazer aqui», pensou ele, «e que ando eu a fazer numa cidade com praia, a olhar para magnólias recém-plantadas e para o raio das mimosas, à procura de letreiros a dizer “aluga-se” em feias víllas bascas? Não trabalhaste assim tanto hoje de manhã para teres ficado tão parado, ou ainda é a ressaca de ontem? Na verdade, não trabalhaste mesmo nada. E é melhor que comeces a fazê-lo, porque tudo está a correr depressa de mais e tu vais atrás e, antes que te dês conta, tudo estará acabado. Talvez até já o esteja. Pronto. Não comeces. Pelo menos, ainda te lembras.»

E atravessou a cidade, a visão agitada pela angústia e temperada com a beleza cinzenta do dia.

A brisa marítima entrava pelo quarto dentro e ele estava a ler com duas almofadas a apoiarem-lhe as costas e outra atrás da cabeça. Sentira-se sonolento depois de almoço mas queria esperá-la e pôs-se a ler. Então ouviu a porta abrir-se e ela entrou e a princípio ele não a reconheceu. Ela ficou à porta, com as mãos debaixo dos seios sobre a camisola de caxemira, arfando como se tivesse vindo a correr.

- Oh, não - disse ela. - Não. Depois atirou-se para a cama encostando a cabeça à dele, dizendo:

- Não. Não. Por favor, David. Não gostas mesmo nada? Ele apertou-lhe a cabeça contra o peito e sentiu-a macia e ela encostou-se cada vez mais a ele.

- Que fizeste, Demónio? Ela ergueu a cabeça e olhou para ele, os seus lábios comprimiram os dele, e deitou-se na cama, pressionando o corpo contra o dele.

- Agora, sei - disse ela. - Estou tão feliz. Foi um risco muito grande. Sou a tua nova rapariga e é bom que me olhes.

- Deixa-me ver.

- Eu mostro-te, mas espera um minuto. Regressou e ficou junto à cama, com o sol a bater-lhe por detrás. Tinha deixado cair a saia, estava descalça e só trazia as pérolas e a camisola.

- Olha bem, porque é assim que eu sou - disse. Ele olhou longamente para as pernas compridas e bronzeadas, para o corpo esguio e para a cabeça trigueira e escultural e ela olhou para ele e disse:

- Obrigada.

- Como fizeste isso?

- Posso contar-te na cama.

- Se me contares depressa.

- Não. Depressa não. Deixa-me contar. Primeiro, tive a ideia, na estrada, algures depois de Aix-en-Provence. Em Nimes, quando passeávamos no jardim, pensei. Mas não sabia se iria resultar nem como o iria fazer. Depois, voltei a pensar e ontem decidi.

 

David passou-lhe a mão sobre a cabeça, até ao pescoço e depois até à testa.

- Deixa-me contar - continuou ela. - Sabia que devia haver bons cabeleireiros em Biarritz por causa dos ingleses. Por isso, quando lá cheguei fui ao melhor e disse ao cabeleireiro que queria tudo penteado para a frente e ele penteou e chegou-me até ao nariz, e eu mal podia ver e então disse-lhe que queria o cabelo cortado como o dos rapazinhos que vão para as escolas privadas. Ele perguntou-me qual era a escola e eu respondi «Eton ou Winchester», pois eram as únicas duas de que me lembrava, excepto a de Rughy, e como essa eu não queria. Ele perguntou qual delas. Então eu disse: «Eton, mas todo para a frente». Quando ele acabou e eu parecia a rapariga mais atraente que algum dia frequentou Eton, disse-lhe para continuar a cortar. Então ele respondeu-me zangado: «Isto não é corte à Eton, Mademoiselle». E eu disse: «Não quero um corte à Eton, Monsieur». Foi a única maneira de conseguir explicar o que queria e disse-lhe que era «Madame, e não Mademoiselle». Por isso, ele foi cortando, cortando, e das duas uma: ou ficou muito bem, ou horrível. Não te importas que me caia sobre a testa? Quando estava à Eton caía-me sobre o olho.

- Está uma maravilha. É muito clássico - disse ela. - Mas parece o pêlo de um animal. Apalpa.

Ele apalpou.

- Não te preocupes por estar demasiado clássico - disse ela.

- Agora, podemos fazer amor?

 

Dobrou a cabeça e ele puxou-lhe a camisola e desapertou o fecho do colar.

- Não. Deixa-o. Deitou-se ao comprido na cama, as pernas bronzeadas muito juntas e a cabeça contra o lençol, as pérolas movendo-se ao ritmo da elevação dos seios. Tinha os olhos fechados e os braços esticados ao longo do corpo. Era uma outra rapariga e viu que a boca também estava diferente. Respirou cuidadosamente e disse:

- Faz tudo. Desde o principio. Desde o princípio dos princípios.

- Isto é o princípio?

- Oh, sim. E não demores muito. Não, não demores.

À noite, enroscou-se nele, com a cabeça sobre o peito dele, acariciando-o, e ergueu os lábios, abraçou-o e disse:

- És tão belo e tão leal quando estás a dormir, e não acordas nem por nada. És-me tão fiel. Achas que foi um sonho? Não despertes. Vou dormir, mas se não adormecer serei uma rapariga selvagem. Fico acordada a velar por ti. Dorme que eu estou aqui. Por favor, dorme.

 

De manhã, quando ele acordou, lá estava o corpo tão maravilhoso que ele conhecia, bem junto ao seu, e pôs-se a olhar para os ombros escuros e macios, para o pescoço e para a cabeça loira e sedosa, como a de um pequeno animal, e voltou-se e beijou-lhe a testa sobre os cabelos, depois os olhos e depois a boca.

- Estou a dormir.

- Eu também estava.

- Eu sei. Que estranho. Toda a noite foi maravilhosa e estranha.

- Estranha, não.

- Está bem, se assim queres. Oh, condizemos tão bem um com o outro.

- Por que não vamos dormir?

- Queres dormir?

- Quero que durmamos os dois.

- Vou tentar.

- Estás a dormir?

- Não.

- Por favor, tenta.

- Estou a tentar.

- Então, fecha os olhos. Como podes adormecer se não fechares os olhos?

- Gosto de te olhar de manhã, diferente e estranha.

- Foi bom ter-me inventado?

- Não fales.

- É a única forma de tornar as coisas mais lentas. Eu já o consegui. Não percebeste? Claro que percebeste. Não vês que os nossos corações batem ao mesmo tempo, e isso é que conta, e nós não. E é tão maravilhoso e tão bom, tão maravilhoso...

 

Ela regressou ao quarto e sentou-se ao espelho a escovar o cabelo e a olhar-se com ar crítico.

- Vamos tomar o pequeno-almoço na cama - disse. - E podemos tomar champanhe? Têm Lanson e Perrier-Jouet. Posso tocar?

- Podes - respondeu ele, dirigindo-se para o chuveiro. Antes de abrir a torneira ainda a ouviu falar ao telefone.

Quando voltou, ela estava encostada muito formalmente a duas almofadas e colocou mais duas ao cimo da cama.

- Fico bem com a cabeça molhada?

- Só está húmida. Secaste-a com a toalha.

- Posso cortá-lo mais na testa. Ou então, corta-lo tu.

- Gosto que te caia sobre os olhos,

- Talvez venha a cair - disse ela. - Quem sabe? Talvez me canse de ser clássica. E hoje vamos passar toda a tarde na praia. Vamos lá para o fundo e poderemos bronzear-nos todos quando as pessoas vierem almoçar; e depois, quando tivermos fome, vamos comer ao Bar Basco, a Sr. Jean. Mas primeiro precisamos de ir à praia.

- Óptimo. David puxou uma cadeira e pousou a mão sobre a dela e ela olhou-o e disse:

- Há dois dias entendi tudo mas depois o absinto deu-me volta à cabeça.

- Eu sei - disse-lhe David. - Não o pudeste evitar.

- Mas magoei-te com aquilo dos recortes.

- Não - disse ele. - Tentaste. Mas não conseguiste.

- Lamento, David. Por favor, acredita em mim.

- Toda a gente liga importância a coisas estranhas. Não tiveste culpa.

- Não - disse a rapariga abanando a cabeça.

- Está bem - disse David. - Não chores. Está tudo bem.

- Nunca choro - disse ela. - Mas não o pude evitar.

- Eu sei e ficas linda quando choras.

- Não. Não digas isso. Nunca chorei antes, pois não?

- Nunca.

- Será mau para ti se ficarmos aqui só dois dias na praia? Ainda não tivemos oportunidade de nadar e seria estupidez ter estado aqui e não ter nadado. Para onde vamos quando sairmos daqui? Oh! Ainda não decidimos. Talvez decidamos hoje à noite ou amanhã de manhã. Para onde sugeres que vamos?

- Para mim, qualquer sítio está bem - disse David.

- Então, talvez vamos para aí.

- É um sítio enorme.

- Mas é bom estarmos sozinhos e eu vou fazer as malas.

- Não há muito a fazer, a não ser guardar os objectos de toilette e fechar dois sacos.

- Se quiseres podemos partir logo de manhã. Não quero fazer nada que exerça mau efeito em ti.

O criado bateu à porta.

- Como já não havia Perrier-Jouet, Madame, trouxe Lanson. Ela tinha parado de chorar e a mão de David ainda se encontrava sobre a sua e ele disse:

- Eu sei.

 

Tinham passado a manhã no Prado e encontravam-se agora sentados num café situado num edifício de grossas paredes de pedra. Era fresco e muito antigo, havia cascos com vinho à volta das janelas. As mesas eram antigas e grossas e as cadeiras estavam gastas. A luz entrava pela porta. O criado trouxe-lhes um copo de manzanilla das planícies perto de Cádis, chamadas marismas, com finas fatias de jamón serrano, um presunto fumado e curado, proveniente de porcos alimentados com cereais, e um salchichón vermelho-vivo, apimentado, outro enchido ainda mais condimentado, de uma cidade chamada Vic, e anchovas e azeitonas em alho. Comeram e beberam mais manzanilla, que era leve e saborosa.

Catherine tinha perto de si um livro de aprendizagem de inglês-espanhol, de capa verde, e David uma pilha de jornais da manhã. Era um dia quente mas estava fresco dentro do café e o criado, que era velho, perguntou, enchendo-lhes novamente os copos:

- Querem gazpacho?

- Acha que a senhorita gosta?

- É experimentar - respondeu gravemente o criado, como se estivessem a falar de uma égua.

Trouxeram-no numa tigela enorme com gelo a flutuar e rodelas de pepino, tomate, pão de alho e pimentos e o liquido apimentado, que sabia ligeiramente a azeitonas e vinagre.

- É uma sopa-salada - disse Catherine. - Deliciosa.

- Es gazpacho - disse o criado. Beberam Valdepefias, que começou a trepar devido à mistura com o marísma, temperado unicamente com a diluição do gazpacho, que diminuía o efeito.

- Que vinho é este? - perguntou Catherine.

- É um vinho africano - respondeu David.

- Costuma dizer-se que a África começa nos Pirenéus - disse Catherine. - Lembro-me como fiquei impressionada a primeira vez que ouvi isto.

- Isso é uma daquelas coisas que se dizem - comentou David. - É bastante mais complicado que isso. Bebe.

- Mas como é que eu hei-de saber onde começa a África se nunca lá estive? As pessoas estão sempre a enganar-nos.

- Claro. Isso já se sabe.

- O País Basco de certeza que não se parecia com a África nem com nada do que eu ouvi dizer sobre a África.

- Nem as Astúrias ou a Galiza, mas da costa litoral à África é um salto.

- Mas por que razão nunca pintaram o país? - perguntou Catherine. - Em todos os fundos aparecem sempre as montanhas e o Escorial.

- A sierra - disse David. - Ninguém queria comprar quadros com a Castela que tu viste. Nunca tiveram pintores de paisagens. Os pintores pintavam o que lhes mandavam.

- Excepto o caso de Toledo, de Greco. É horrível ter-se um país tão maravilhoso e não haver bons pintores que o pintem.

- Que vamos comer a seguir ao gazpacho? - perguntou David. O proprietário, um homem pequeno e atarracado, de meia idade, aproximara-se.

- Ele pensa que devemos comer carne.

- Hay solômillo muy bueno - insistiu o dono.

- Não, por favor - disse Catherine. - Só uma salada.

- Então, pelo menos, bebam mais um vinhito - disse ele, enchendo o jarro directamente do casco que se encontrava atrás.

- Eu não devia beber - disse Catherine. - Desculpa, estou a falar de mais. Desculpa se disse disparates. Habitualmente, digo.

- Falaste muitíssimo bem para um dia quente como este. O vinho torna-te faladora?

- Provoca uma reacção diferente da do absinto - disse Catherine. - Não me faz sentir perigosa. Comecei a minha nova vida e estou a ler e a olhar para a frente e a tentar não pensar mui- to em mim e vou continuar assim, mas não devíamos estar em nenhuma cidade nesta altura do ano. Talvez partamos. A caminho daqui vi coisas maravilhosas para pintar, mas nunca soube pintar.

- Sei de coisas maravilhosas para escrever e nem sequer consigo escrever uma carta que não seja estúpida. Nunca quis ser pintora nem escritora até chegar a este país. Agora, é como estar-se sempre esfomeado e não haver maneira de o remediar.

- O país está aqui. Não precisas de fazer nada. Estará sempre aqui. O Prado está aqui - disse David.

- Nada existe a não ser através de nós - disse ela. - E eu não quero morrer e que isto desapareça.

- Tens todos os quilómetros que percorremos. A paisagem amarela, as montanhas brancas, os cereais a ondularem e as compridas filas de choupos ao longo da estrada. Sabes o que viste e o que sentes e tudo isso te pertence. Não tens Le Grau du Roi e Aigues Mortes e toda a Camarga, por onde passámos de bicicleta? Isto é a mesma coisa.

- Mas e quando eu morrer?

- Quando morreres, morres.

- Mas não suporto essa ideia.

- Então não deixes que aconteça até ter de acontecer. Olha para as coisas e ouve e sente.

- E se não me conseguir lembrar?

- Ele falara da morte como se ela não importasse. Ela bebeu o vinho e olhou para as paredes grossas de pedra, onde havia pequenas janelas com barras que davam para uma rua estreita onde o sol não brilhava. A entrada, contudo, dava para uma arcada e a luz viva do Sol batia sobre as pedras gastas do pátio.

- Quando se começa a viver fora de nós - disse Catherine - é perigoso. Talvez fosse melhor eu voltar para o nosso mundo, o meu e o teu, que eu inventei, que inventámos, quero dizer. Esse é que era um mundo bom. Foi só há quatro semanas. Talvez ainda voltemos.

Chegou a salada e só se viam verduras sobre a mesa escura e o sol no pátio atrás da arcada.

- Sentes-te melhor? - perguntou David.

- Sim - respondeu ela. - Estava a pensar tanto em mim que me estava a tornar de novo impossível, como um pintor e como se eu fosse o meu próprio quadro. Era horrível. Agora que estou boa outra vez, espero que dure.

Chovera copiosamente e o tempo arrefecera. Encontravam-se na penumbra fresca e abrigada do quarto enorme do Palace, tinham tomado banho na água profunda da banheira e depois tinham retirado a tampa e a água escorrera com toda a força, molhando-os. Esfregaram-se mutuamente com os toalhões e depois foram para a cama. Ali, corria uma brisa fresca que entrava por entre as frestas das persianas. Catherine estava apoiada nos cotovelos e tinha o queixo sobre as mãos.

- Achas que seria engraçado se eu voltasse a ser um rapaz? Não custava nada.

- Gosto de ti tal como és agora.

- É tentador. Mas não devo fazê-lo em Espanha. É um país tão formal.

- Deixa-te ficar como estás.

- Por que razão a tua voz fica diferente quando dizes isso? Acho que vou fazê-lo.

- Não. Agora não.

- Obrigada pelo agora não. Devo então, desta vez, fazer amor como uma rapariga?

- És uma rapariga. És uma rapariga. És a minha querida Catherine.

- Sim, sou a tua rapariga e amo-te e amo-te e amo-te.

- Não fales.

- Falo, sim. Sou a tua Catherine e amo-te, e amar-te-ei sempre, sempre, sempre...

- Não precisas de o estar sempre a dizer. Eu sei.

- Gosto de o dizer e tenho de o dizer e tenho sido boa rapariga e continuarei a sê-lo. Prometo que sim.

- Não precisas de prometer.

- Oh, sim, preciso. Digo-o e disse-o e tu também o disseste. Agora, diz tu, por favor. Agora tu.

Ficaram imóveis durante um grande bocado e ela disse:

- Amo-te tanto. És tão bom marido.

- Querida.

- Fui aquilo que querias?

- Que te parece?

- Espero que sim.

- Foste.

- Prometo por tudo que continuarei a sê-lo. Agora, posso ser de novo rapaz?

- Porquê?

- Só por um bocadinho.

- Mas porquê?

- Porque gostei, e não me faz falta mas gostaria de o ser novamente, à noite, na cama, se tu não te importares. Posso? Não te importas?

- Para o diabo, que me importe ou não.

- Então, posso?

- Queres mesmo? Ele evitou perguntar: «Tens mesmo de o fazer?». E ela disse:

- Não, não tenho, mas gostaria. Posso?

- Podes. Beijou-a e apertou-a contra si.

- Ninguém saberá como sou, excepto nós. Só serei rapaz à noite, por isso não ficarás embaraçado. Não te preocupes, por favor.

- Está bem, rapaz.

- Menti-te quando disse que não tinha de o fazer. Apareceu-me hoje, de repente, a vontade.

Ele fechou os olhos e não pensou e ela beijou-o e ele sentiu o desespero.

- Agora muda. Por favor. Não me faças mudar-te. Tenho de o fazer? Está bem, faço-o. já estás mudado. Estás, sim. Também mudaste. Sim, eu mudei, mas tu também. Sim, mudaste. És o meu amor, Catherine. És a minha querida e doce Catherine. És a minha única rapariga. Oh, obrigada. Obrigada, minha rapariga...

Ela deixou-se ficar ali quieta durante muito tempo e ele pensou que ela tinha adormecido. Então, ela moveu-se muito lentamente, ergueu-se ligeiramente sobre os cotovelos e disse:

- Tenho uma surpresa maravilhosa para mim, amanhã. Vou ao Prado ver os quadros todos como um rapaz.

- Desisto - disse David.

 

De manhã, ele levantou-se enquanto ela ainda dormia e saiu para o ar fresco. Subiu a rua até à Plaza Santa Ana, tomou o pequeno-almoço num café e leu os jornais locais. Catherine queria estar no Prado às dez, quando abrisse, e antes de sair ele pôs o relógio a despertar para as nove. Cá fora, na rua, enquanto subia a colina pensava nela, a dormir, na bela cabeça desgrenhada que parecia uma moeda antiga contra a brancura do lençol, a almofada empurrada para o lado, o lençol de cima mostrando-lhe as curvas do corpo. Durou um mês, pensou ele, ou quase. E da outra vez, de Le Grau du Roi a Hendaia, tinham sido dois meses. Não, menos, pois ela começara a pensar naquilo em Nimes. Não chegou a dois meses. «Estamos casados há três meses e duas semanas, e espero fazê-la feliz, mas a este respeito acho que ninguém é capaz de tomar conta de ninguém. É suficiente participar. A diferença é que desta vez ela Pediu», disse ele para si mesmo. «Ela pediu.»

Quando acabou de ler os jornais e pagou o pequeno-almoço e saiu para o calor, que regressara ao planalto quando o vento mudara de direcção, dirigiu-se para a polidez fria e formal do banco, onde levantou o correio que lhe tinha sido enviado de Paris. Abriu-o e leu-o enquanto aguardava e passava pelas diversas formalidades do acto de descontar um cheque que fora enviado do seu banco para aquela filial em Madrid.

Finalmente, com o grosso maço de notas enfiado no bolso do casaco, saiu cá para fora e dirigiu-se a um quiosque onde comprou jornais ingleses e americanos que tinham chegado de manhã, no Sud-Express. Comprou umas revistas sobre corridas de touros para embrulhar os jornais e depois desceu a Carrera de San Gerónimo, apanhando o ar frio da manhã, até ao Buffet Italiano. Ainda não se encontrava lá ninguém e lembrou-se que não tinha combinado nada com Catherine.

- Que vai beber? - perguntou-lhe o criado.

- Cerveja - respondeu.

- Isto não é nenhuma cervejaria.

- Não têm cerveja?

- Temos, mas isto não é uma cervejaria.

- Pelo cu acima - disse ele e, enrolando novamente os jornais, saiu e atravessou a rua, virando à esquerda para a Calle Álvarez. Sentou-se a uma mesa sob um toldo e bebeu uma caneca de cerveja gelada.

Se calhar o criado estava só a fazer conversa, pensou, e o que o homem dissera até era verdade. «Isto não é nenhuma cervejaria.» Estava só a ser literal. Não estava a ser insolente. Fora mal educado e não tinha desculpa. Fora uma grande má-criação. Bebeu em seguida uma segunda cerveja e chamou o criado para pagar.

- Y la senhora? - perguntou o criado.

- Está no Museo del Prado. Vou lá buscá-la.

- Então, até à volta - disse o criado. Regressou ao hotel tomando um atalho. A chave estava na recepção e ele subiu até ao quarto, deixou os papéis e o correio sobre a mesa e guardou a maior parte do dinheiro na mala. A cama já tinha sido feita e as gelosias estavam corridas para não deixar entrar o calor. Levantou-se, verificou o correio e retirou quatro cartas que enfiou no bolso. Levou as edições parisienses do New York Herald, do Chicago Tribune e do London Daly Mail e foi até ao bar, detendo-se na recepção para deixar a chave e pedir ao empregado que informasse Madame, quando chegasse, de que ele se encontrava no bar. Sentou-se num banco ao balcão, encomendou um marisimo e leu as cartas enquanto comia as azeitonas que o criado tinha posto à sua frente, que sabiam a alho. Uma das cartas continha dois recortes com críticas ao seu livro, publicadas em revistas mensais, e ele leu-as como se não tivessem nada a ver com ele ou com qualquer coisa que tivesse escrito.

Voltou a colocar os recortes dentro do envelope. Eram críticas simpáticas e inteligentes mas não lhe diziam nada. Leu a carta do editor com igual desprendimento. O livro estava a vender bem e pensavam que assim continuaria até ao Outono, embora nunca se pudesse ter a certeza em relação a estas coisas. Claro que até ali tinha sido muito bem recebido pela crítica e estava aberto o caminho para novo livro. Era uma grande vantagem que aquele fosse o seu segundo romance e não o primeiro. Era trágica a frequência com que os primeiros romances de escritores americanos eram os únicos bons. Mas este, continuava o editor, o segundo, só reforçava a promessa que o primeiro representara. Estava um Verão pouco normal em Nova Iorque, frio e húmido. «Oh, meu Deus», pensou David, «que me interessa o tempo em Nova Iorque?» E para o diabo com aquele estupor de lábios finos, o Coolidge, a pescar trutas metido num colarinho apertado, no viveiro de Black Hills, que roubámos aos Sioux e aos Cheyeries. E para o diabo com a promessa que ele confirmara ser. Que promessa e feita a quem? Ao Dial, ao Bookman, ao New Republic? Não, ele demonstrara-o. «Deixem-me mostrar-vos. Que merda!»

- Olá, meu jovem - disse uma voz. - Por que parece tão indignado?

- Olá, coronel - disse David, sentindo-se subitamente feliz. Que raio está aqui a fazer?

O coronel, que tinha os olhos escuros, cabelo claro e um rosto bronzeado, que parecia ter sido moldado em pedra por um escultor cansado, agarrou no copo de David e provou o marismo.

- Traga-me uma garrafa disto que este jovem está a beber disse para o criado. - Bem gelada. Não é preciso gelo. Traga-a já.

- Sim, senhor - disse o criado.

- Venha daí - disse o coronel para David, conduzindo-o para uma mesa num canto da sala. - Está com muito bom aspecto.

- Você também.

O coronel John Boyle trazia vestido um fato azul-escuro de um pano que parecia rijo mas fresco, uma camisa azul e gravata preta.

- Estou sempre bem - disse. - Queres um emprego?

- Não - disse David.

- Assim mesmo. Nem perguntas o que é - comentou o coronel com voz rouca.

Chegou o vinho e o criado encheu dois copos e pousou sobre a mesa pratinhos com azeitonas temperadas com alho e nozes.

- Não há anchovas? - perguntou o coronel. - Mas que jonda é esta?

O criado sorriu e foi buscar as anchovas.

- Excelente vinho - disse o coronel. - De primeira. Sempre esperei que o teu gosto melhorasse. Então, por que razão não queres um emprego? Acabaste agora um livro.

- Estou em lua-de-mel.

- Que expressão pateta - disse o coronel. - Nunca gostei dela. Soa mal. Por que não disseste que estás casado há pouco tempo? Não faz diferença alguma.

- Qual era o trabalho?

- Não vale a pena falar disso, agora. Com quem casaste? Alguém que eu conheça?

- Catherine Hill.

- Conheci o pai dela. Um tipo muito estranho. Matou-se num carro. A mulher também.

- Não cheguei a conhecê-los.

- Não o conheceste?

- Não.

- Estranho. Mas muito compreensível. Não é grande perda como sogro. Dizem que a mãe dela era uma mulher muito só. Maneira estúpida de dois adultos morrerem. Onde conheceste a rapariga?

- Em Paris.

- Ela tem um tio meio pateta que lá vive. Não vale nada. Conhece-lo?

- Já o vi nas corridas.

- Em Longchamps e Auteuil. Como pudeste fazê-lo?

- Não casei com a família dela.

- Claro que não. Mas acabamos sempre por fazê-lo. Mortos ou vivos.

- Não com os tios e tias.

- Bem, de qualquer maneira, diverte-te. Sabes, gostei do livro. Tem vendido bem?

- Muito bem.

- Comoveu-me profundamente - disse o coronel. - És um filho da puta de um aldrabão.

- Também tu, John.

- Espero bem que sim - disse o coronel. David avistou Catherine à porta e levantou-se. Ela aproximou-se deles e David disse:

- Este é o coronel Boyle.

-           Como está, minha cara?

-           Catherine olhou para ele, sorriu e sentou-se à mesa. David observou-a e pareceu-lhe que ela estava a suster a respiração.

- Estás cansada? - perguntou David. -

- Acho que sim.

- Beba um copo disto - disse o coronel.

- Será que posso tomar um absinto?

- Com certeza - disse David. - Eu também tomo um.

- Para mim, não - disse o coronel. - Esta garrafa já não está fresca. Ponha-a no gelo e traga-me um copo cheio bem fresco disse para o criado.

- Gosta do verdadeiro Pernod? - perguntou o coronel a Catherine.

- Gosto - respondeu ela. - Sou tímida com as pessoas, e o Pernod ajuda-me.

- É uma bebida excelente - disse ele. - Acompanhá-la-ia, mas tenho de trabalhar depois do almoço.

- Desculpa não ter combinado nada contigo - disse David.

- Isto é muito agradável.

- Fui ao banco buscar o correio. Há muitas cartas para ti. Deixei-as no quarto.

- Não quero saber - disse ela.

- Via-a no Prado a admirar os Grecos - disse o coronel.

- Também o vi a si - respondeu ela. - Olha sempre para os quadros como se fosse dono deles e estivesse a decidir qual a melhor maneira de os pendurar?

- Provavelmente - disse o coronel. - E você olha sempre para eles como se fosse o jovem chefe de uma tribo guerreira que se perdeu e admira a estátua Leda e o Osne?

Catherine corou sob a pele bronzeada, olhou para David e depois para o coronel.

- Gosto de si - comentou. - Diga-me mais coisas.

- Também gosto de si - disse ele. - E invejo David. Ele é tudo o que você queria?

- Não sabe?

- Para mim, o mundo visível é visível - disse o coronel. Agora, vá lá, beba mais um trago desse soro da verdade com sabor a absinto.

- Neste momento não preciso.

- Já não se sente envergonhada? Beba. Faz-lhe bem. É a rapariga mais morena que vi até hoje. O seu pai também era muito escuro.

- Devo ter herdado a pele dele. A minha mãe era loira.

- Não a conheci.

- Conheceu bem o meu pai?

- Muito bem.

- Como era ele?

- Era um homem difícil e encantador. Você é mesmo tímida.

- Sou. Pergunte ao David.

- Mas ultrapassou isso com muita facilidade.

- Você ajudou. Como era o meu pai?

- Era o homem mais tímido que conheci e às vezes era também o mais encantador.

- Ele também precisava de beber Pernod?

- Precisava de tudo.

- Faço-lhe lembrar o meu pai?

- De maneira alguma.

- Óptimo. E o David?

- Também não.

- Ainda melhor. Como é que soube que eu era um rapaz no Prado?

- Por que não haveria de ser?

- Só recomecei isso ontem à noite. Fui uma rapariga durante quase um mês. Pergunte ao David.

- Não precisa de me mandar perguntar ao David. Quem é você neste momento?

- Um rapaz, se não se importar.

- Por mim está bem. Mas não é.

- Só queria dizê-lo. Agora, que já o disse, não preciso de o ser. Mas foi maravilhoso no Prado. Por isso é que eu queria contar ao David.

- Tem muito tempo para contar ao David.

- Sim - disse ela. - Temos tempo para as coisas.

- Diga-me onde se bronzeou tanto - pediu o coronel. Sabe como está bronzeada?

- Foi em Le Grau du Rol, perto de Napoule. Havia uma cova e um pequeno caminho que dava para o pinhal. Não se avistava da estrada.

- Quanto tempo levou a bronzear-se assim?

- Cerca de três meses.

- E que vai fazer com isso?

- Usá-lo - respondeu ela.     muito atraente na cama.

- Não me pareceu que você gostasse de o perder na cidade.

- No Prado não perco. Também não o uso. Sou eu. Sou mesmo assim escura. O Sol só acentua. Quem me dera ser mais escura.

- Então, provavelmente vai ser - disse o coronel. - Também há outras coisas que anseie?

- Todos os dias - respondeu Catherine. - Anseio pelo dia seguinte.

- E hoje tem sido um bom dia?

- Sim. Sabe que sim. Esteve lá.

- Você e o David querem almoçar comigo?

- Está bem - disse Catherine. - Vou lá acima mudar de roupa. Esperam por mim?

- Não acabas a bebida? - perguntou David.

- Não me apetece - disse ela. - Não te preocupes comigo. Não serei tímida.

Dirigiu-se para a porta e ambos ficaram a olhá-la.

- Fui muito rude? - perguntou o coronel. - Espero que não. Ela é uma jóia de rapariga.

- Só espero estar à altura dela.

- E estás. Como te tens sentido?

- Bem, acho eu.

- És feliz?

- Muito.

- Lembra-te que tudo corre bem até começar a correr mal. Dar-te-ás conta quando estiver a correr mal.

- Acha que sim?

- Tenho a certeza. Se não te aperceberes, não interessa. Nessa altura, nada interessará.

- E será rápido?

- Não falei em velocidades. De que estás a falar?

- Desculpe. E o que tens, por isso diverte-te.

- E o que temos feito. Está bem. Só há uma coisa.

- O quê?

- Trata bem dela.

- É só isso que tem para me dizer?

- Mais uma coisa: as mudanças não prestam. Não há ainda nenhuma mudança. É mais simpático matá-las. Melhor. Falaram durante um bocado sobre as pessoas e depois David viu Catherine aparecer à porta com um vestido branco que realçava o seu bronzeado.

- Está lindíssima - disse o coronel. - Mas tem de tentar ficar mais bronzeada.

- Obrigada - disse Catherine. - É o que vou fazer. Não temos que sair agora para o calor, pois não? Não podemos ficar aqui ao fresco? Podemos comer no grill.

- Vão almoçar comigo - disse o coronel.

- Não, por favor. Você é que vai almoçar connosco. David levantou-se hesitante. Havia agora mais gente no bar. Olhando para a mesa reparou que também tinha tomado a bebida de Catherine. Não se lembrava de ter bebido nenhuma delas.

 

Era a hora da siesta, estavam estendidos na cama e David lia iluminado pela luz que entrava pela janela à esquerda da cama. A luz reflectia-se do edifício do outro lado da rua. A cortina não estava suficientemente puxada para deixar ver o céu.

- O coronel gostou de me ver tão bronzeada - disse Catherine. - Temos de voltar para o mar. Preciso de manter a cor.

- Iremos quando quiseres.

- Será maravilhoso. Posso dizer-te uma coisa? Tenho de dizer.

- O quê?

- Não voltei a ser rapariga. Portei-me bem?

- Não voltaste?

- Não. Importas-te? Mas agora sou o teu rapaz e faço tudo por ti.

David continuou a ler.

- Estás zangado?

- Não. «Estou sóbrio», pensou ele.

- Agora é mais simples.

- Não acho.

- Então, vou ser cuidadoso. Hoje de manhã tudo o que fiz pareceu tão certo e tão bom à luz do dia. Não podia tentar agora para vermos?

- Preferia que não.

- Posso beijar-te e tentar?

- Não se fores um rapaz, porque eu sou um rapaz. Sentia o peito como se tivesse uma barra de ferro a prendê-lo de um lado ao outro.

- Não devias ter dito nada ao coronel.

- Mas ele viu-me, David. Foi ele quem puxou o assunto e entendeu tudo. Não foi estupidez dizer-lhe. Foi melhor. Ele é nosso amigo. Se lhe dissesse, ele não falaria. Se não lhe dissesse nada, tinha todo o direito de o fazer.

- Não se pode confiar assim nas pessoas.

Não me interessam as pessoas. Só me interessas tu. Não iria provocar escândalos com outras pessoas.

- Parece que tenho o peito apertado por um ferro.

- Que pena. O meu está tão feliz.

- Querida Catherine.

- Que bom. Chama-me Catherine sempre que queiras. Também sou a tua Catherine. Sou sempre a Catherine quando precisares dela. Vamos dormir, ou é melhor começar e ver o que acontece?

- Primeiro, vamos ficar aqui estendidos às escuras - disse David, baixando o estore. Ali ficaram deitados lado a lado, no quarto enorme do Palace, em Madrid, onde Catherine entrara no Museo del Prado à luz do dia como um rapaz e agora mostraria as coisas obscuras à luz, e parecia-lhe a ele que a mudança nunca mais teria fim.

 

De manhã, no Buen Retiro estava tão fresco como se fosse floresta. Tudo era verde e os troncos das árvores eram escuros e as distâncias eram novas. O largo já não estava no mesmo sítio e quando o avistaram por entre as árvores estava diferente.

- Vai andando - disse ela. - Quero olhar para ti. Então afastou-se dela, foi até junto de um banco e sentou-se. À distância, via um lago, mas encontrava-se longe de mais para ir até lá a pé. Sentou-se no banco e ela sentou-se a seu lado e disse:

- Pronto. Mas o remorso perseguira-o ali no Retiro e agora era tão forte que ele disse a Catherine que se encontraria com ela no café do Palace.

- Estás bem? Queres que vá contigo?

- Não. Estou bem. Preciso de ir.

- Então, encontramo-nos lá - disse ela. Estava particularmente bonita nessa manhã e sorriu ao pensar no segredo deles e ele sorriu-lhe e levou os seus remorsos para o café. Pensava que não iria conseguir mas conseguiu e quando Catherine apareceu ele terminava o segundo absinto e o remorso tinha desaparecido.

- Como estás, Demónio? - perguntou.

- Sou o teu demónio? - perguntou ela. - Posso tomar uma coisa dessas, também?

O criado desapareceu, satisfeito por vê-la tão bonita e feliz e ela perguntou:

- Que se passou?

- Senti-me mal, mas agora já passou.

- Foi mau?

- Não - mentiu ele.

Ela abanou a cabeça.

- Lamento. Esperava que não se passasse nada de mal. - Já passou.

- Ainda bem. Não é maravilhoso estar aqui no Verão e não haver ninguém? Lembrei-me de uma coisa.

- Já?

- Podemos ficar e não ir para o mar. Isto é novo, agora. A cidade e isto. Podíamos ficar aqui e depois seguir directamente para La Napoule.

- Não podemos ir a muitos mais sítios.

- Não digas isso. Ainda agora começámos.

- Sim... Podemos sempre voltar onde começámos.

- Claro que sim e é o que faremos.

- Não vamos falar nisso agora - disse ele. Sentira aquilo de novo e bebeu um bom trago.

- É uma coisa muito estranha - disse ele. - Esta bebida tem exactamente o sabor do remorso. Tem o verdadeiro sabor e ao mesmo tempo leva-o.

- Não gosto que vejas as coisas assim. Não somos assim. Não devemos ser.

- Talvez eu seja.

- Não deves ser. Ela bebeu um trago do copo e mais outro e olhou à volta e depois para ele. _ Eu posso fazê-lo. Olha para mim e vê. Aqui no café do Palace, em Madrid, e podes ver o Prado, a rua e as árvores, e é tão real. É terrivelmente brusco. Mas consigo fazê-lo. Podes ver. Olha. Os lábios são outra vez da tua rapariga e eu sou tudo o que queres que eu seja. Não consegui? Diz-me.

- Não precisavas.

- Gostas de mim como rapariga - disse ela com ar sério e depois sorriu.

- Sim.

- Ainda bem - disse ela. - Ainda bem que alguém gosta, pois às vezes é muito aborrecido.

- Então, não o faças.

- Não me ouviste dizer que o fazia? Não me viste fazê-lo? Queres que eu me parta em dois só porque não te consegues decidir? Só porque não te decides?

- Não te podes calar?

- Por que razão me haveria de calar? Queres uma rapariga, não queres? Então, não queres tudo o que faz parte dela? Cenas, histeria, falsas acusações, temperamento, não é? Estou a conter-me. Não vou fazer cenas em frente do criado. Vou ler o raio do correio. Podes mandar buscar o meu correio?

- Vou lá eu buscá-lo.

- Não. Eu não devo ficar aqui sozinha.

- Pois não - disse ele.

- Estás a ver? Por isso é que eu disse para o mandares buscar.

- Eles não dariam a chave do quarto a um botones. Por isso é que eu disse que iria.

- Estou farta - disse Catherine. - Não vou agir assim. Por que haveria de agir assim contigo? Fui ridícula e indigna. Fui tão pateta que nem te vou pedir desculpa. Aliás disso, tenho de ir ao quarto, de qualquer maneira.

- Agora?

- Porque sou uma mulher como deve ser. Pensei que, se fosse uma rapariga e permanecesse rapariga, ao menos poderia ter um bebé. Nem sequer isso.

- A culpa pode ser minha.

- Não falemos de culpas. Tu ficas aqui e eu trago-te o correio. Leremos as cartas e seremos turistas americanos inteligentes e simpáticos que estão desiludidos porque vieram para Madrid na época errada.

 

Ao almoço, Catherine disse:

- Vamos voltar para La Napoule. Não está lá ninguém, teremos calma e será bom, trabalharemos e tomaremos conta um do outro. Podemos ir até Aix e visitar a região de Cézanne. Não ficámos lá o tempo suficiente.

- Vai ser maravilhoso.

- Não é cedo de mais para recomeçares a trabalhar, pois não?

- Não. Seria bom começar agora.

- Vai ser maravilhoso e eu estudarei espanhol, para quando cá voltarmos. E tenho tanto para ler.

- Temos imenso que fazer.

- E fá-lo-emos, também.

 

O novo plano durou pouco mais de um mês. Ficaram com três quartos ao fundo da casa cor-de-rosa de estilo provençal, onde já tinham ficado antes. Estava situada entre os pinheiros do lado de Lá Napoule que dava para Esterel. Das janelas via-se o mar e do jardim frente à casa, onde faziam as refeições, sob as árvores, avistavam as praias vazias, a erva alta no delta de um ribeiro, e do outro lado da baía ficava a curva de Cannes com as colinas e as montanhas distantes, atrás. Não havia mais hóspedes na casa e tanto o proprietário como a mulher estavam satisfeitos por os terem ali. O quarto deles era o maior ao fundo. Tinha janelas em três lados e estava fresco. À noite aspiravam o cheiro dos pinheiros e do mar. David trabalhava no quarto mais ao fundo. Começava de manhã cedo e quando acabava ia ter com Catherine e, juntos, iam até à gruta nas rochas, onde havia areia para se estenderem e mar para nadarem.

Às vezes, Catherine tinha saído de carro e então ele esperava por ela e tomava uma bebida no terraço. Era impossível beber licor depois do absinto, e ele habituara-se a beber uísque com água Perrier. Isto agradava ao proprietário, que estava a fazer um bom negócio com a presença do casal Bourne numa época morta. Não contratara nenhuma cozinheira e era a sua mulher quem preparava as refeições. Uma criada limpava os quartos, e um sobrinho, que era aprendiz de criado de mesa, servia-os. Catherine gostava de conduzir o pequeno automóvel e fazia muitas viagens de compras a Cannes e a Nice. As grandes lojas de Inverno estavam fechadas, mas descobriu onde se comiam petiscos e onde havia coisas para beber, assim como locais onde podia comprar livros e revistas.

David trabalhara arduamente durante quatro dias. Tinham passado toda a tarde ao sol, na nova gruta, e tinham estado na água até se sentirem cansados. Depois, à tardinha, regressaram a casa, com sal nos corpos e nos cabelos, tomaram uma bebida, um duche e mudaram de roupa. A brisa do mar entrava pela janela, fazia fresco e eles estavam estendidos sobre a cama, lado a lado, cobertos com o lençol, e Catherine disse:

- Tu disseste que eu é que devia dizer.

- Eu sei. Curvou-se sobre ele, agarrou-lhe a cabeça e beijou-o.

- Quero tanto. Posso? Posso?

- Claro.

- Estou tão feliz. Fiz tantos planos - disse ela. - E desta vez não me vou portar mal.

- Que tipo de planos?

- Posso dizer-te, mas seria melhor mostrar-te. Podemos fazê-lo amanhã. Queres ir comigo?

- Aonde?

- A Cannes, onde fui da última vez que aqui estivemos. Ele é um óptimo cabeleireiro. Somos amigos e ainda é melhor do que em Biarritz, porque percebeu logo.

- Que tens andado a fazer?

- Fui falar com ele esta manhã enquanto estavas a trabalhar, expliquei-lhe e ele analisou e disse que estava óptimo. Disse-lhe que ainda não tinha resolvido, mas se resolvesse tentaria que tu cortasses o teu da mesma maneira.

- Como é o corte?

- Vais ver. Vamos os dois. Ele está muito entusiasmado. Acho que é por ele ser maluco pelo Bugatti. Tens medo?

- Não.

- Estou ansiosa. Ele quer aclará-lo mas tivemos medo que não gostasses.

- O sol e a água do mar aclaram-no.

- Mas assim ficaria muito mais loiro. Ele disse que o poria tão loiro como o dos Escandinavos. Imagina como ficaria bem com a nossa pele bronzeada. E também podíamos aclarar o teu.

- Não. Sentir-me-ia esquisito.

- Quem conheces aqui para que possa fazer diferença? De qualquer modo, ele já está mais claro devido à água do mar.

Ele não respondeu e ela disse:

- Não tens de o fazer. Faço só eu e depois talvez também queiras. Veremos.

- Não faças planos, Demónio. Amanhã levanto-me muito cedo para trabalhar e tu ficas a dormir o tempo que quiseres.

- Então escreve também por mim - disse ela. - Não interessa que digas que fui má. Põe lá que te amo muito.

- Já vou quase no fim.

- Vais publicá-lo ou seria mau fazê-lo?

- Só tentei escrevê-lo.

- Poderei ler?

- Se conseguir pô-lo bem.

- Já me sinto tão orgulhosa e ainda não temos livros à venda, nem para os críticos, e então não vai haver recortes dos jornais e tu nunca terás consciência disso e ficaremos com isto para nós.

 

David Bourne acordou com a claridade, vestiu calções e uma camisa e saiu. A brisa morrera. O mar estava calmo e o dia cheirava a orvalho e pinheiros. Atravessou descalço o terraço em direcção ao quarto de trabalho e sentou-se à secretária. As janelas tinham ficado abertas de noite e o quarto estava fresco e cheio de promessas matinais.

Estava a escrever acerca da estrada que ia de Madrid a Saragoça e do subir e descer da estrada à medida que a velocidade aumentava e entravam na região de flores encarnadas, e o carrito, na estrada poeirenta, apanhou o comboio Expresso, e Catherine foi ultrapassando delicadamente cada carruagem e depois a maquina e então virara para a esquerda e o comboio desaparecera no túnel.

- Tive-o - dissera. - Mas desapareceu. Diz-me se conseguirei tê-lo de novo.

Ele olhara para o mapa Michelin e dissera:

- Durante um bocado, não.

- Então, vamos ver a paisagem. À medida que a estrada se foi tornando íngreme, viam-se choupos ao longo do rio e a estrada tornou-se mais íngreme e ele sentiu o carro adaptar-se-lhe e depois o piso tornar-se regular.

Mais tarde, quando ouviu a voz dela no jardim, parou de escrever. Guardou os manuscritos na pasta e saiu, fechando a porta atrás de si. A empregada utilizaria a sua chave para fazer a limpeza.

Catherine estava sentada no terraço a tomar o pequeno-almoço. Sobre a mesa havia uma toalha aos quadrados vermelhos e brancos.

Trazia vestida a velha camisa às riscas de Le Grau du Rol, lavada e já gasta, calças novas de flanela cinzenta e alpercatas.

- Olá - disse. - Não consegui dormir até tarde.

- Estás linda.

- Obrigada. Sinto-me linda.

- Onde arranjaste essas calças?

- Mandei-as fazer em Nice, a um bom alfaiate. Estão bem?

- Estão muito bem cortadas. Parecem novas. Vais usá-las na cidade?

- Não é cidade. Cannes está na época baixa. Para o ano toda a gente as usará. As pessoas estão agora a usar as nossas camisas. Não ficam bem com saias. Não te importas, pois não?

- Não. Têm muito bom aspecto. E estão tão bem passadas a ferro!

Após o pequeno-almoço, enquanto David se barbeava e tomava banho e vestia um velho par de calças de flanela e a camisa de pescador e procurava as suas alpercatas, Catherine vestiu uma camisa de linho azul aberta à frente e uma saia branca e pesada de linho

- Estamos melhor assim. Ainda que possa usar as calças aqui, dão muito nas vistas, numa manhã destas. Vou poupá-las.

O cabeleireiro era muito simpático mas muito profissional. Monsieur Jean, que devia ter a mesma idade de David e parecia mais italiano que francês, disse:

- Vou cortar como ela quer. Concorda, Monsieur?

- Não pertenço ao sindicato - respondeu David. - Isso é com vocês os dois.

- Talvez devêssemos experimentar em Monsieur - disse Monsieur Jean. - Só para o caso de alguma coisa correr mal.

Mas Monsieur Jean começou a cortar cuidadosa e habilmente o cabelo de Catherine e David pôs-se a observar aquele rosto sério e bronzeado sobre o lenço que trazia atado ao pescoço. Ela olhou pelo espelho de mão e viu o pente e a tesoura erguerem se e cortarem. O homem trabalhava como um escultor, absorto e sério.

- Pensei muito durante toda a noite e esta manhã - disse o cabeleireiro. - Pode não acreditar, Monsieur, que eu não levo a mal. Mas isto é tão importante para mim quanto a sua profissão é para si.

Recuou para observar a forma. Depois, deu mais umas tesouradas e finalmente voltou a cadeira de modo que o espelho grande ficou reflectido no pequeno que Catherine segurava.

- Quere-o assim por cima das orelhas? - perguntou ela ao cabeleireiro.

- Como quiser. Posso pô-lo mais dégagé, se lhe agradar. Mas vai ficar belíssimo, uma vez que o vamos pôr mesmo loiro.

- Quero-o loiro. Ele sorriu.

- Madame e eu já tínhamos falado disto. Mas eu disse que deveria ser Monsieur a decidir.

- Monsieur já decidiu - disse Catherine.

- Como é que Monsieur o deseja?

- O mais loiro possível - disse ela.

- Não diga isso - disse Monsieur Jean. - Tem de me explicar.

- Tão claro como as minhas pérolas - disse Catherine. já as viu muitas vezes.

 

David aproximara-se e observava Monsieur Jean, mexendo um frasco de champô com uma colher de pau.

- Mando fazer os champôs com sabonetes de castile - disse o cabeleireiro. - É quente. Por favor, venha até ao lavatório. Incline-se para a frente - acrescentou - e ponha esta toalha sobre a testa.

- Mas não é um corte de rapaz - disse Catherine. - Queria-o conforme combinámos. Está tudo mal.

- Não podia ser mais à rapaz. Acredite-me. Ele cobria-lhe agora a cabeça com a espuma do champô, que tinha um cheiro acre.

Depois de o cabeleireiro ter esfregado a cabeça várias vezes com champô e de ter passado por água repetidas vezes, pareceu a David que o cabelo já não tinha cor e a água mostrava só uma palidez húmida. O cabeleireiro enrolou-lhe uma toalha na cabeça e esfregou-a com suavidade. Estava muito seguro de si.

Não desespere, Madame - disse ele. - Por que razão iria eu fazer algo contra a sua beleza?

- Estou desesperada e não há beleza nenhuma. Ele secou-lhe gentilmente a cabeça e começou a secá-la com um secador, penteando-lhe o cabelo para a frente.

- Agora, veja - disse. À medida que o cabelo secava ia-se tornando mais prateado e ficaram a vê-lo mudar de cor.

- Não devia ter desesperado - disse Monsieur Jean, sem acrescentar a palavra Madame, e depois, lembrando-se: - Madame queria-o loiro?

- Está melhor que as pérolas - disse ela. - Você é um grande homem e eu sou horrível. Depois, ele untou as mãos com algo que tirou de um frasco.

- Só um bocadinho disto - disse. Sorriu satisfeito para Catherine e passou-lhe as mãos, ao de leve, pela cabeça.

Catherine levantou-se e olhou-se ao espelho. Nunca tivera o rosto tão moreno e o cabelo era como a casca branca de um vidoeiro.

- Gosto tanto - disse. - Tanto. Olhou para o espelho como se nunca tivesse visto a rapariga que tinha à sua frente.

- Agora, vamos tratar de Monsieur - disse o cabeleireiro. Monsieur deseja cortar? É muito conservador mas ao mesmo tempo desportivo.

- O corte - disse David. - Acho que já não corto o cabelo há um mês.

- Por favor, faz um corte igual ao meu - pediu Catherine.

- Mas mais curto - disse David.

- Não. Igual, por favor. Depois de ter o cabelo cortado, David levantou-se e passou a mão pela cabeça. Sentia-se fresco e confortável!

- Não vais deixar que ele to ponha mais claro?

- Não. Já chega de milagres num só dia.

- Só um pouquinho?

- Não. David olhou para Catherine e depois para o seu próprio rosto, pelo espelho. Estava tão bronzeado quanto ela e tinha o mesmo corte de cabelo. - Queres assim tanto?

- Quero, sim, David. Muito. Só um bocadinho, por favor. Ele olhou mais uma vez para o espelho e depois sentou-se. O cabeleireiro olhou para Catherine.

- Vá lá, faça - disse ela.

 

O patrão estava sentado numa das mesas do terraço da casa comprida com uma garrafa de vinho, um copo e uma chávena vazia e lia o Éclaireur de Níce, quando o automóvel azul apareceu apressado e Catherine e David saíram, dirigindo-se para o terraço. Não os esperava tão cedo e estava quase a dormir, mas levantou-se e disse a primeira coisa que lhe veio à cabeça:

- Monsieur et Madame ont fait, colorer les cheveux. Cest’bien.

- Merci, Monsieur. On le fait toujours dans le mois ripât.

- C’est bien. C’ést três bien.

- Que simpático - disse Catherine para David. - Nós somos bons clientes. E o que o bom cliente faz é sempre três bien. Tu és três bien. E és mesmo.

O quarto deles estava frio e corria uma agradável brisa vinda do mar.

- Adoro essa camisa azul - disse David. - Deixa-te ficar aí para eu olhar.

- É da cor do carro - disse ela. - Achas que ficava melhor sem a saia?

- Tudo em ti fica melhor sem saia - disse ele. - Vou lá fora falar com aquele bode velho e ser ainda um cliente melhor.

Voltou com um balde de gelo e uma garrafa de champanhe que o proprietário tinha encomendado e que eles tinham bebido tão poucas vezes e trazia também dois copos na outra mão.

- Isto é um bom aviso para eles - disse.

- Não precisamos disso - disse Catherine.

- Podemos experimentar. Não leva quinze minutos a arrefecer.

- Não me arrelies. Por favor, vem para a cama e deixa-me verte e sentir-te.

Ela puxou-lhe a camisa sobre a cabeça e ele levantou-se para a ajudar.

Depois de ela ter adormecido, David levantou-se e olhou-se ao espelho do quarto de banho. Agarrou mima escova e escovou o cabelo. Da maneira que estava cortado não podia escovar de outra forma. Tinha de cair assim e a cor era igual à do cabelo de Catherine. Foi até à porta e olhou para ela, na cama. Depois, voltou para trás e agarrou no grande espelho de mão.

«Então é assim», disse para si próprio. «Fizeste isso ao cabelo e cortaste-o igual ao dela, ao da tua rapariga. E como te sentes?», perguntou para o espelho. «Como te sentes? DIZ.»

Gostas», respondeu. Olhou para o espelho e foi outra pessoa que viu, mas menos estranha agora.

Pronto. Gostas», disse ele. «Agora, avança com o resto, o que quer que seja, e nunca digas que alguém te tentou ou te obrigou.»

Olhou para o rosto que já não lhe era estranho, mas era o seu, e disse:

«Gostas. Lembra-te disso. Mete isso na cabeça. Sabes bem qual é o teu aspecto e como te sentes.»

Claro que não sabia bem como se sentia. Mas fez um esforço, ajudado pelo que vira no espelho.

Nessa noite, comeram o jantar no terraço em frente à casa, estavam muito excitados e divertiram-se a olhar um para o outro à luz fraca da mesa. Depois do jantar, Catherine disse para o rapaz que trouxera o café:

- Vá buscar o balde de gelo ao nosso quarto e ponha lá outra garrafa, por favor.

- Queremos outra? - perguntou David.

- Acho que sim. Tu não queres?

- Claro.

- Não és obrigado a beber.

- Queres un fine?

- Não. Prefiro beber vinho.

- Tens de trabalhar amanhã?

- Veremos.

- Se te apetece, por favor trabalha. E esta noite? já tratamos desta noite. Foi um dia tão árduo.

A noite estava muito escura e eles ouviam o barulho do vento nos pinheiros.

- David?

- SIM.

- Como estás, rapariga?

- Estou óptimo.

- Deixa-me sentir o teu cabelo, rapariga. Quem o cortou? Foi Jean? Está tão bem cortado, e igual ao meu. Deixa-me beijar-te, rapariga. Oh, tens uns lábios tão belos. Fecha os olhos, rapariga.

Ele não fechou os olhos mas estava escuro no quarto e lá fora o vento soprava sobre as árvores

- Sabes, não é fácil ser rapariga, quando se é uma de verdade. Quando se sentem verdadeiramente as coisas.

- Eu sei.

- Ninguém sabe. Digo-te quando fores a minha rapariga. Não é que sejas insaciável. Eu sacio-me com facilidade. Só que alguns sentem e outros não. Acho que as pessoas mentem em relação a isso. Mas é tão bom sentir-te e abraçar-te. Sou tão feliz. Sê a minha rapariga e ama-me como eu te amo. Ama-me mais. O mais que puderes, agora. Tu, agora. Sim, tu. Por favor, tu.

Desciam a colina em direcção a Cannes e o vento soprava com força enquanto entravam nas praias planas e desertas, a erva alta curvando-se quando atravessavam a ponte sobre o rio e ganhavam velocidade no último troço de estrada antes da cidade. David pegou na garrafa que estava fresca e envolta numa toalha, bebeu um trago e sentiu o carro acompanhar a pequena inclinação da estrada. Não trabalhara nessa manhã, e agora, quando já tinham passado a cidade e se encontravam de novo no campo, ele desarrolhou a garrafa e bebeu mais um trago e ofereceu-lhe.

- Não preciso - disse Catherine.

- Sinto-me tão bem.

- Muito bem.

 

Passaram por Golfe-juan e pelo bistrô e pelo pequeno bar e depois atravessaram o pinhal e seguiram ao longo da praia amarela de Juan-les-Pins. Atravessaram a pequena península, passaram por Antibes, seguindo ao lado da via férrea e depois novamente pela cidade e junto ao porto e pela muralha quadrada, e saíram novamente para campo aberto.

- Nunca dura muito - disse ela.

- Faço sempre este bocado depressa de mais. Pararam e almoçaram ao abrigo de um antigo muro de pedra que fazia parte das ruínas de algum edifício, e ao lado corria um ribeiro límpido que saía das montanhas e atravessava a planície em direcção ao mar. O vento soprava com força vindo das montanhas. Estenderam um cobertor no chão, sentaram-se junto ao muro e admiraram a paisagem, que incluía o mar ondulado pelo vento.

- Não foi um grande sítio para vir - disse Catherine. Não sei do que estava à espera.

Levantaram-se e olharam para as colinas com as suas aldeias e para as montanhas cinzentas e purpúreas, lá atrás. O vento fustigou-lhes os cabelos e Catherine apontou para uma estrada por onde uma vez já conduzira.

- Podíamos ter ido lá para cima - disse. - Mas é tão fechado e pitoresco. Detesto aquelas aldeias encravadas.

- Este sítio é bom - disse David. - Tem um ribeiro óptimo e não podíamos ter arranjado um muro melhor.

- Estás a ser simpático. Não precisas. É um bom abrigo e eu gosto do sítio. Viramos as costas a tudo o que seja pitoresco.

Comeram ovos recheados, frango assado e pão fresco, que barraram com mostarda Savora, e beberam rosé.

- Sentes-te bem, agora? - perguntou Catherine.

- Claro.

- E não te sentiste mal?

- Não.

- Nem em relação a alguma coisa que eu disse?

David bebeu um trago de vinho e respondeu:

- Não, nem sequer pensei nisso. Ela levantou-se e ficou contra o vento, que lhe colou a camisola aos seios e fustigou o cabelo, e olhou para ele com o rosto tisnado e sorriu. Virou-se e olhou para o mar, que ondulava, devido ao vento.

- Vamos a Cannes comprar os jornais e lê-los no café - disse ela.

- Tu queres é mostrar-te.

- E porque não? É a primeira vez que saímos juntos. Importas-te?

- Não, Demónio. Por que razão haveria de me importar?

- Se tu não quisesses, eu também não queria.

- Mas disseste que sim.

- Quero fazer o que tu quiseres. Não posso ser mais condescendente do que isto, pois não?

- Ninguém quer que sejas condescendente.

- Vamos parar com isto. Só queria portar-me bem, hoje. Porquê estragar tudo? Vamos limpar isto para irmos embora.

- Para onde?

- Para qualquer lado. Para o raio do café.

 

Compraram os jornais em Cannes e a última Vogue francesa, o Chasseur Français e o Miroir des Sports e sentaram-se numa mesa em frente ao café, resguardados do vento, e tomaram duas bebidas, novamente amigos. David bebeu Haig e Perrier e Catherine Armagnac e Perrier.

Duas raparigas que tinham estacionado o carro na rua aproximaram-se do café, sentaram-se e mandaram vir um Chambery Cassis e umfine à 1’eau.

- Quem são aquelas duas? - perguntou Catherine. Sabes?

- Nunca as vi.

- Eu já. Devem viver aqui perto, vi-as em Nice.

- Uma delas é bonita - disse David. - E tem umas belas pernas.

- São irmãs - disse Catherine. - E são as duas bonitas.

- Uma delas é mais que a outra. Não são americanas. As raparigas discutiam e Catherine disse para David:

- Acho que é uma grande discussão.

- Como soubeste que eram irmãs?

- Pensei que vivessem em Nice. Agora, não tenho a certeza.

O carro tem matrícula suíça.

É um velho lsotta. Vamos ficar a ver o que acontece? Há muito que não assistimos a nenhum drama.

- Acho que é uma discussão à italiana.

- Deve ser a sério, pois estão as duas muito calmas.

- Mas vai aquecer. Aquela ali é terrivelmente bonita.

- Pois é. Aí vem ela.

- Desculpem - disse a rapariga, em inglês. - Por favor, desculpem.

- Sente-se - disse David.

- Quer sentar-se? - perguntou Catherine.

- Não devia. A minha amiga está furiosa comigo. Mas eu disse-lhe que vocês compreendiam. Desculpam-me?

- Desculpamo-la? - perguntou Catherine a David.

- Sim, vamos desculpá-la.

- Eu sabia que iam entender - disse a rapariga. - Só quero que me digam onde cortaram o cabelo. - Corou e acrescentou: Ou será como copiar um modelo? A minha amiga disse que ainda era mais ofensivo.

- Vou escrever-lhe a morada - disse Catherine.

- Estou muito envergonhada - disse a rapariga. - Não se ofenderam?

- Claro que não - respondeu Catherine. - Quer tomar uma bebida connosco?

- Não devia. Posso chamar a minha amiga? Regressou à mesa e houve uma troca de palavras desagradáveis em voz baixa.

- A minha amiga lamenta mas não pode vir - disse a rapariga. - Mas espero que nos voltemos a encontrar. Foram tão simpáticos.

- E esta? - perguntou Catherine quando a rapariga voltou para junto da amiga. - Ela vai voltar para perguntar onde mandaste fazer as calças.

A discussão continuava na outra mesa. Depois, levantaram-se as duas e aproximaram-se.

- Posso apresentar a minha amiga...

- Sou a Nina.

- O nosso nome é Bourne - disse David. - Que simpáticas em se juntarem a nós.

- Vocês é que foram simpáticos em nos convidar - disse a mais bonita. - Fomos muito atrevidas - disse, corando.

- É muito lisonjeador - disse Catherine. - Mas ele é um bom cabeleireiro.

- Deve ser - disse a mais bonita. Tinha uma forma ofegante de falar e voltou a corar. - Vimo-la em Nice - disse para Catherine. - Nessa altura, quis perguntar-lhe.

Ela não vai corar outra vez», pensou David. Mas corou.

- Qual de vocês vai cortar o cabelo? - perguntou Catherine.

- Sou eu - disse a mais bonita.

- Eu também, minha estúpida - disse Nina.

- Disseste que não.

- Mudei de ideias.

- Eu vou cortar mesmo - disse a mais bonita. - Temos de ir, agora. Vocês costumam vir aqui ao café?

- Às vezes - respondeu Catherine.

- Então espero voltar a vê-los - disse a mais bonita. Adeus e obrigada por terem sido tão gentis.

As raparigas foram para a sua mesa. Nina chamou o criado, pagaram a conta e saíram.

- Não são italianas - disse David. - Uma delas é bonita mas cora demasiado.

- Está apaixonada por ti.

- Claro. Foi a mim que ela encontrou em Nice.

- Bem, se for por mim, não tenho culpa. Não é a primeira rapariga que se apaixona por mim.

- E a Nina?

- Essa cabra... - disse Catherine.

- Ela era um lobo. julguei que era divertido.

- Não achei nada divertido - disse Catherine. - Achei triste.

- Eu também. - Arranjamos outro café- disse ela. - De qualquer modo, elas já foram embora.

- Eram muito estranhas.

- Eu sei - disse ela. - Mas uma delas era simpática. Tinha uns olhos lindos. Reparaste?

- Mas corava muito.

- Gostei dela. Tu não?

- Acho que sim.

- As pessoas que não coram não valem nada.

- Nina corou uma vez - disse David.

- Eu podia ser muito rude com Nina.

- Isso não a afectaria.

- Não. Ela está bem couraçada.

- Queres beber mais alguma coisa antes de voltarmos para casa?

- Não preciso. Bebe tu.

- Não preciso.

- Bebe outra. Costumas tomar duas bebidas ao fim da tarde. Eu tomo uma pequenina para te fazer companhia.

- Não. Vamos para casa.

 

De noite, ele acordou e ouviu o rugir do vento e puxou o lençol para cima e fechou novamente os olhos. Sentiu a respiração dela e voltou a fechar os olhos. Sentiu a respiração dela, suave e regular, e depois voltou a adormecer.

Era o segundo dia de ventania. Ele interrompeu a narrativa da viagem, para escrever uma história que lhe ocorrera quatro ou cinco dias antes e que provavelmente desenvolvera, pensou, nas duas últimas noites enquanto dormia. Sabia que não era bom interromper um trabalho iniciado, mas sentia-se confiante e seguro, e decidiu deixar a narrativa para mais tarde e escrever a história antes que a ocasião fugisse.

A história começava sem dificuldade, como acontece com as histórias que estão prontas a ser escritas, e chegou ao meio e pensou que era melhor interromper até ao dia seguinte. Se não conseguisse manter-se afastado dela durante o intervalo, então retomá-la-ia. Mas esperava conseguir aguentar-se até ao dia seguinte. Era uma boa história e agora lembrava-se que já tencionava escrevê-la havia muito. Não lhe viera à cabeça nos últimos dias. Aí a sua memória falhava. O que lhe acontecera fora a necessidade de escrever. Agora sabia como havia de acabar a história. Sempre soubera o que era o vento e os ossos branqueados pela areia, mas tinham desaparecido, e agora estava a inventar tudo. Era agora verdade, porque lhe tinha acontecido quando escrevera, e só os ossos estavam mortos e espalhados atrás de si.

Sentia-se cansado e feliz com o seu trabalho quando deu com o bilhete de Catherine dizendo que não o quisera incomodar, que fora dar um passeio e que estaria de volta à hora do almoço. Saiu do quarto, encomendou o pequeno-almoço e, enquanto esperava, Monsieur Aurol, o proprietário, aproximou-se e falaram acerca do tempo. Monsieur Aurol disse que o vento às vezes soprava assim. Não era um verdadeiro mistral, a época assim o garantia, mas provavelmente iria soprar durante três dias. O tempo andava irregular, Monsieur com certeza já tinha reparado. Se alguém fosse verificar, dar-se-ia conta de que não voltara a ser normal desde a guerra.

David respondeu que não tinha podido verificar porque andara em viagem, mas que sem dúvida o tempo andava estranho. Não só o tempo, acrescentara Monsieur Aurol, tudo estava mudado e o que não estava para lá se encaminhava rapidamente. Talvez até fosse tudo para melhor e ele não tinha nada a opor. Monsieur, como homem do mundo que era, naturalmente também via as coisas assim.

- Sem dúvida - disse David, procurando uma imbecilidade definitiva. - É necessário rever os cadres.

- Precisamente - disse Monsieur Aurol. Ficaram as coisas neste pé, e David acabou o seu café-crème, leu o Miroir des Sports e começou a sentir a falta de Catherine. Foi para o quarto e pegou no Far away and long ago, saiu para o terraço e instalou-se ao sol, abrigado do vento, a ler aquele livro maravilhoso. Catherine mandara vir da Calignani em Paris a edição da Dent para lhe oferecer e quando os livros tinham chegado ele sentira-se verdadeiramente rico. Os números na conta do banco, as contas em francos e dólares pareciam-lhe desde Grau du Roi completamente irreais e nunca encarara aquilo como dinheiro a sério. Mas os livros de W H. Hudson tinham-no feito sentir-se rico e quando disse isto a Catherine ela ficou muito satisfeita.

Passada uma hora começou a sentir terrivelmente a ausência de Catherine e pediu ao rapaz que servia à mesa para lhe trazer um uísque e Perrier. Algum tempo depois bebeu outro. Passava bem da hora do almoço quando ouviu o barulho do carro.

Subiram o passeio e ele ouviu-lhes as vozes. Estavam excitadas e felizes, depois a rapariga calou-se subitamente e Catherine disse:

- Olha quem eu trouxe para te visitar.

- Eu sei que não devia ter vindo - disse a rapariga. Era a morena mais bonita das duas que tinha conhecido no café no dia anterior, aquela que corava.

- Como está? - perguntou David. Era visível que fora ao cabeleireiro e tinha cortado o cabelo como o de Catherine em Biarritz. - Vejo que encontrou o sítio.

A rapariga corou e olhou para Catherine, pedindo auxílio.

- Olha para ela - disse Catherine. - Apalpa-lhe a cabeça.

- Oh, Catherine - disse a rapariga. Depois voltou-se para David: - Se quiser, pode fazê-lo.

- Não se assuste - disse ele. - Pensa que se meteu nalgum sarilho?

- Não sei - respondeu ela. - Sinto-me muito feliz por estar aqui.

- Por onde andaram? - perguntou David a Catherine. Estivemos no Jean. Depois, tomámos uma bebida e eu convidei a Marita para almoçar. Não estás satisfeito?

- Encantado. Querem tomar outra bebida?

- Podes preparar Martinis? - pediu Catherine. - Um não te faz mal - disse para a rapariga.

- Não, por favor. Tenho de conduzir.

- Queres um xerez?

- Não, obrigada. David foi até ao bar e preparou dois Martinis com gelo.

- Provo do teu se não te importas - disse a rapariga. - já não tens medo, pois não? - perguntou Catherine.

- Não - respondeu ela, corando. - Sabe muito bem mas é muito forte.

- Estão fortes - concordou David. - Mas o vento também está forte hoje, e nós bebemos de acordo com o vento.

- Oh! - exclamou a rapariga. - Todos os americanos fazem isso?

- Só as famílias mais antigas - respondeu Catherine. Nós, os Morgans, os Woolworths, os Jelks, os Jukes, esses assim.

- É terrível nos meses de furacões - disse David. - Às vezes pergunto-me se sobreviveremos ao equinócio do Outono.

- Gostaria de experimentar um Martini quando não tiver de conduzir - disse a rapariga.

- Não tens de beber só porque nós bebemos - disse Catherine. - E não ligues, pois passamos a vida a brincar. Olha para ela, David. Não estás contente por eu a ter trazido?

- Foste gentil em ter vindo - disse David. Quando estavam a almoçar David perguntou:

- E a tua amiga Nina?

- Foi-se embora.

- Era bonita - disse David.

- Pois era. Tivemos uma grande discussão e ela foi-se embora.

- Era uma cabra - disse Catherine. - Mas acho que toda a gente é assim. _ A maior parte das vezes é - disse a rapariga. - Espero sempre que não, mas verifico que sim.

- Conheço muitas mulheres que não são cabras - disse David.

- Sim, deves conhecer - disse a rapariga.

- A Nina era feliz? - perguntou Catherine.

- Espero que seja feliz - respondeu a rapariga. - A felicidade nas pessoas inteligentes é a coisa mais rara que conheço.

- Não tiveste ainda muito tempo para o constatar. Quando se cometem erros, descobre-se mais depressa disse a rapariga.

- Tens estado feliz toda a manhã - disse Catherine. Divertimo-nos imenso.

- Não precisas de me dizer. Não me lembro de me sentir tão feliz como agora.

Mais tarde, quando comiam a salada, David perguntou à rapariga:

- Estás hospedada muito longe daqui?

- Acho que me vou embora.

- A sério? Que pena - disse ele, sentindo a tensão que se estabelecera. Olhou para a rapariga, que tinha os olhos postos no chão, e depois para Catherine, que o olhou de frente, e disse:

- Ela ia para Paris e eu perguntei-lhe se não queria ficar aqui, desde que o Aurol tivesse um quarto. Disse-lhe para vir cá almoçar e ver se o David gostava dela e se ela gostava do sítio. David, gostas dela?

- Isto não é um clube - disse David. - É um hotel. Catherine afastou o olhar e ele apressou-se a ajudá-la, como se não tivesse dito nada.

- Gostamos muito de ti e estou certo que o Aurol tem um quarto vago. Vai ficar todo satisfeito por ter cá mais alguém.

A rapariga continuou sentada com os olhos no chão. - Acho melhor ir embora.

- Por favor, fica cá uns dias - disse Catherine. - David e eu adoraríamos ter-te cá. Não tenho quem me faça companhia quando ele trabalha. Divertir-nos-emos como hoje de manhã. Diz-lhe, David.

«Para o diabo com ela», pensou David. «Que se lixe.»

- Não sejas pateta - disse ele. - Chama Monsieur Aurol, por favor - pediu ao rapaz que servia à mesa. - já vamos saber se há quarto.

- A sério que não te importas? - perguntou a rapariga.

- Se nos importássemos não te teríamos convidado - disse David. - Gostamos de ti e achamos que és muito decorativa.

- Serei útil no que puder - disse a rapariga. - Só espero é saber como.

- Mantém-te feliz - disse-lhe David. - Assim já és útil.

- Estou feliz neste momento - disse a rapariga. - Quem me dera tomar o Martini, agora que já não vou conduzir.

- Tomas um logo à noite - disse Catherine.

- Óptimo. Podemos agora ir ver os quartos e resolver isto? David fora com ela buscar os sacos e o velho Isotta convertível, que tinha ficado estacionado em Cannes, frente ao café.

No caminho, ela disse:

- A tua mulher é maravilhosa e eu estou apaixonada por ela. Ia sentada ao lado de David e este não olhou para ver se ela tinha corado.

- Também estou - disse David.

- Também estou apaixonada por ti - disse ela. - Faz mal? Ele rodeou-lhe o ombro com o braço e ela encostou-se a ele.

- Veremos - disse.

- Ainda bem que sou mais pequena.

- Mais pequena que quem?

- Que a Catherine - respondeu ela.

- Que raio de coisa para dizer.

- Quer dizer, pensei que gostasses de alguém com o meu tamanho. Ou só gostas de raparigas altas?

- Catherine não é alta.

- Claro que não. Eu só queria dizer que não sou tão alta como ela.

- Pois, e também és muito morena.

- Sim. Vamos parecer bem juntos.

- Quem?

- Catherine e eu e tu e eu.

- Teremos de parecer.

- Que quer isso dizer?

- Quer dizer que não podemos fugir a parecer bem juntos, pois não, se na verdade temos bom aspecto e estamos juntos?

- Agora estamos juntos.

- Não. Ele conduzia com uma só mão no volante e curvara-se para olhar para a estrada, na junção com a número sete. Ela pousara a mão sobre ele.

- Só vamos no mesmo carro - disse ele.

Mas sinto que gostas de mim.

- Sim. Mas isso não quer dizer nada. Só o que diz.

- Que coisa bonita de se dizer - disse ela e não disse mais nada nem retirou a mão até voltarem no boulevard e encostarem atrás do velho Isotta Franchini estacionado em frente ao café, debaixo das velhas árvores. Depois sorriu-lhe e saiu do pequeno automóvel azul.

 

Agora, no hotel, os pinheiros a serem ainda fustigados pelo vento, David e Catherine estavam sozinhos no quarto, depois de esta ter instalado a rapariga nos dois quartos que reservara.

- Acho que vai ficar bem - disse Catherine. - Claro que o melhor quarto além do nosso é aquele ao fundo onde tu trabalhas.

- E vou continuar a trabalhar lá - disse David. - Vou mesmo e não estou para mudar de quarto de trabalho por causa de uma puta importada!

- Por que estás a ser tão violento? - perguntou Catherine. Ninguém pediu para saíres. Só disse que era o melhor. Mas os outros dois aqui ao lado também são bons.

- Afinal, quem é a rapariga?

- Não sejas tão violento. É uma rapariga simpática e gosto dela. Sei que foi imperdoável tê-la trazido sem ter falado contigo antes e lamento. Mas fi-lo e está feito. Pensei que gostarias que eu andasse com alguém bonito e agradável enquanto trabalhas.

- Se queres alguém, está bem.

- Não quero alguém. Acontece que encontrei uma pessoa que me agradou e para quem será agradável passar aqui uns tempos.

- Mas quem é ela?

- Não lhe examinei os documentos. Se quiseres, interroga-a tu.

- Bem, pelo menos é decorativa. Mas afinal, de quem é a rapariga?

- Não sejas rude. Ela não é de ninguém,

- Diz-me lá.

- Está bem. Ou sou eu que estou maluca ou ela está apaixonada por nós.

- Não estás maluca.

- Talvez ainda não.

- E qual é a sensação?

- Não sei - disse Catherine.

- Eu também não.

- É divertido e estranho ao mesmo tempo. Eu cá não sei - disse David. - Queres ir nadar? Ontem não fomos.

- Vamos nadar. Convidamo-la? Seria delicado.

- Teríamos de usar fatos de banho.

- Com este vento não faz diferença. Não é dia para bronzear.

- Detesto ter de usar fato de banho quando estou contigo. Mas talvez amanhã já não haja vento.

 

Mais tarde seguiam no carro com David ao volante do velho Isotta, forçando os travões e apercebendo-se do trabalho que o motor estava a pedir, iam os três juntos e Catherine disse:

- Há duas ou três covas diferentes onde costumamos nadar despidos quando estamos sós. É a única maneira de nos bronzearmos a valer.

- Hoje não está bom para nos bronzearmos - disse David.

- Faz muito vento.

- Se quiseres, podemos nadar na mesma sem fatos de banho - disse Catherine para a rapariga. - Se o David não se importar. Podia ser engraçado.

- Eu adoraria - disse a rapariga, - Importas-te? - perguntou para David.

À tardinha, David preparou Martinis e a rapariga disse:

- É tudo sempre tão maravilhoso como foi hoje?

- Foi um dia agradável - disse David. Catherine ainda não descera do quarto e ele e a rapariga estavam sentados em frente do pequeno bar que Monsieur Aurol instalara no Inverno anterior, num dos cantos da enorme sala provençal.

- Quando bebo fico com vontade de dizer coisas que nunca devia dizer - disse a rapariga.

- Então, não as digas.

- E aí de que serve beber?

- Não é disto. Ainda só bebeste uma.

- Ficaste embaraçado quando nadámos?

- Não. Deveria ter ficado?

- Não - disse ela. - Adorei ver-te.

- Ainda bem - disse ele. - Como está o Martini?

- Está forte, mas eu gosto. Tu e a Catherine nunca tinham nadado assim com ninguém?

- Não. Por que razão deveríamos tê-lo feito?

- Vou ficar mesmo bronzeada.

- Tenho a certeza que sim.

- Preferias que eu não estivesse?

- Tens uma cor bonita. Bronzeia-te à vontade.

- Pensei que talvez quisesses que uma das tuas raparigas fosse mais clara do que a outra.

- Não és minha rapariga.

- Sou - disse ela. - já to tinha dito.

- Já não coras.

- Ultrapassei isso quando fomos nadar. Espero que não volte a corar tão cedo. Por isso é que falei tanto, para ultrapassar. Por isso te disse.

- Ficas bem com essa camisola de caxemira. - Catherine disse que a usaríamos as duas. Não deixas de gostar de mim por eu te ter dito?

- Esqueci-me do que me disseste.

- Que te amo.

- Não digas asneiras.

- Não acreditas que isto possa acontecer às pessoas? Assim como aconteceu em relação a vocês os dois?

- Ninguém se apaixona por duas pessoas ao mesmo tempo.

- Tu não sabes - disse ela.

- É um disparate - disse ele. - Uma maneira de falar.

- Não é. É verdade.

- Pensas que é. É um disparate.

- Está bem - disse ela.     É um disparate, mas eu estou aqui.

- Sim. Estás aqui - disse ele, observando Catherine que atravessava a sala, sorridente e feliz.

- Olá, nadadores - disse ela. - Oh, que vergonha. Não estive aqui para ver a Marita tomar o primeiro Martini.

- Ainda é o primeiro - disse a rapariga.

- E em que é que a afectou, David?

- Fê-la dizer disparates.

- Vamos começar com outra bebida. Que bom terem ressuscitado este bar. Temos de arranjar um espelho. Um bar não presta se não tiver um espelho.

- Amanhã arranjamos um - disse a rapariga. - Gostava de ser eu a arranjá-lo.

- Vamos as duas arranjá-lo - disse Catherine - e depois podemos ver-nos uma à outra quando dissermos disparates e sabemos a gravidade deles. Não se consegue enganar um espelho.

- É quando começo a parecer ridículo num espelho que sei que perdi - disse David.

- Nunca perdes. Como podes perder com duas raparigas? perguntou Catherine.

- Eu tentei dizer-lhe - disse a rapariga, corando pela primeira vez nessa noite.

- Ela é a tua rapariga e eu sou a tua rapariga - disse Catherine. - Agora, deixa de ser chato e trata de ser simpático com as tuas raparigas. Não gostas do aspecto delas? Eu sou aquela muito loura com quem casaste.

- És mais escura e mais loira que aquela com quem casei.

- Também tu e eu trouxe-te uma rapariga morena de presente. Não gostas do presente?

- Gosto muito do meu presente.

- E do teu futuro?

- Não sei nada do meu futuro.

- Não é um futuro sombrio, pois não? - perguntou a rapariga.

- Muito bem - disse Catherine. - Ela não é só bonita e rica e saudável e afectuosa. Também sabe brincar. Não estás contente com o que te trouxe?

- Prefiro ser um presente escuro a um futuro escuro - disse a rapariga.

- Lá está ela outra vez - disse Catherine. - Dá-lhe um beijo, David. David abraçou a rapariga e beijou-a e ela começou a beijá-lo e depois afastou a cabeça. Começou a chorar, com a cabeça para baixo e ambas as mãos agarradas ao balcão.

- Diz lá agora uma boa piada - disse David para Catherine.

- Estou bem - disse a rapariga. - Não olhem para mim. Estou bem.

Catherine abraçou-a e beijou-a e acariciou-lhe a cabeça.

- Isto passa já - disse a rapariga. - Por favor, eu sei que isto passa já.

- Desculpa - disse Catherine.

- Deixem-me sair, por favor - disse a rapariga. - Tenho de sair.

- Bem - disse David depois de a rapariga ter saído e de Catherine ter regressado ao bar.

- Não precisas de dizer - disse Catherine. - Desculpa, David.

- Ela vai voltar.

- Achas que ela poderá estar a fingir?

- Estava a chorar a sério, se é a isso que te referes.

- Não sejas estúpido. Tu não és estúpido.

- Beijei-a com muito cuidado.

- Sim. Na boca.

- Onde querias que a beijasse?

- Está bem. Não te estou a criticar.

- Ainda bem que não me pediste que a beijasse quando estávamos na praia.

- Pensei nisso - disse Catherine. Riu-se e foi como nos velhos tempos antes de alguém ter aparecido na vida deles. Pensaste que te ia pedir?

- Pensei, por isso dei um mergulho.

- Fizeste bem. Riram-se novamente.

- Bem, já nos animámos - disse Catherine.

- Graças a Deus - disse David. - Amo-te, Demónio, e não a beijei para provocar.

- Não precisas de me dizer - respondeu Catherine. - Eu Vi-te. Foi um esforço miserável.

- Oxalá ela se vá embora.

- Não sejas cruel - disse Catherine. - E eu encorajei-a.

- Eu tentei que não o fizesses.

- Animei-a em relação a ti. Vou ter com ela.

- Não. Espera um bocadinho. Ela está muito segura de si.

- Como podes dizer isso, David? Despedaçaste-lhe o coração.

- Não fiz nada disso.

- Bem, alguma coisa o fez. Vou buscá-la. Mas não foi necessário porque a rapariga reuniu-se-lhes no bar e corou e disse:

- Desculpem. Tinha lavado a cara e escovado o cabelo e aproximou-se de David e beijou-o na boca muito rapidamente e disse:

- Gosto do meu presente. Alguém levou a minha bebida?

- Deite-a fora - disse Catherine. - O David prepara-te outra.

- Espero que ainda gostes de ter duas raparigas - disse ela. Porque eu sou tua e também vou ser de Catherine.

- Não vou com raparigas - disse Catherine. Estava tudo muito calmo e a voz dela não lhe soou bem, nem a David.

- Nunca?

- Nunca fui.

- Se quiseres uma rapariga, posso ser eu, e de David também.

- Não achas que isso é de mais?

- Por isso é que vim para aqui - disse a rapariga. - Pensei que era isso que querias.

- Nunca estive com uma rapariga - disse Catherine.

- Sou tão estúpida - disse a rapariga. - Não sabia. É verdade? Não estás a brincar comigo?

- Não estou a brincar contigo.

- Não percebo como pude ser tão estúpida - disse a rapariga.

«Ela quer dizer enganada», pensou David e Catherine também.

À noite, na cama, Catherine disse: Nunca te devia ter metido nisto. Nunca.

- Quem me dera que nunca a tivéssemos visto.

- Podia ter sido pior. Talvez ir com isto para a frente e resolver o assunto seja o melhor.

- Podias mandá-la embora.

- Não acho que essa seja a forma de resolver a questão. Ela não mexe contigo?

- Oh, claro que sim.

- Eu sabia. Mas amo-te e isto não é nada. Tu também o sabes.

- Não sei nada disso, Demónio.

- Bem, não vamos ser solenes.

 

Era o terceiro dia de ventania, mas já não tão forte, e ele sentou-se à mesa e leu a história desde o principio até onde ficara, corrigindo à medida que lia. Continuou com a história sem pensar em mais nada, e quando ouviu as vozes das duas raparigas cá fora não prestou atenção. Quando passaram pela janela, ergueu a mão e acenou-lhes. Elas corresponderam e a rapariga morena sorriu e Catherine levou os dedos aos lábios. A rapariga estava muito bonita logo de manhã, o rosto brilhante e com boas cores. Catherine estava bela como sempre. Ele ouviu o ruído do motor e reparou que era o Bugatti. Voltou à história. Era uma boa história e acabou-a ao fim da tarde.

Era demasiado tarde para tomar o pequeno-almoço e sentia-se cansado e não queria levar o velho Isotta até à cidade, por causa dos travões e do motor, embora as chaves estivessem junto ao bilhete que Catherine deixara, dizendo que tinham ido a Nice e se reuniriam com ele no café a caminho de casa. «Do que eu gostaria», pensou ele, «era de um litro de cerveja gelada numa caneca de vidro grosso e de uma pomme à l’Uíle, grãos de pimenta por cima. » Mas a cerveja naquela costa não prestava e ele pensou com satisfação em Paris e noutros locais onde estivera e sentiu-se contente por ter escrito algo que sabia ser bom e por ter conseguido acabar. Era o primeiro texto que acabava desde que tinha casado. «O que tens a fazer é acabar as coisas», pensou ele. «Se não acabares, não vale nada. Amanhã, retomo a narrativa onde a deixei e continuo com ela até acabar. E como vais acabá-la? Como vais acabá-la agora?»

Logo que começava a pensar para além do trabalho, tudo o que tinha afastado da mente quando começara a escrever lhe veio à cabeça. Pensou na noite anterior e em Catherine. Não, amanhã, não. Que maneira de ser! Amanhã. «Vai e começa já.» Enfiou o bilhete e a chave no bolso e voltou para o quarto de trabalho, sentou-se e escreveu o primeiro parágrafo de uma nova história cuja escrita vinha adiando desde que sabia o que era uma história. Escreveu-a de forma simples, em frases declarativas, com todos os problemas à frente para serem vividos e tomarem vida.

O começo já estava escrito e agora só tinha de continuar. «É só isto», disse ele. «Vês como é simples aquilo que não consegues fazer?» Então foi até ao terraço, sentou-se e mandou vir um uísque e uma água Perrier.

O jovem sobrinho do proprietário trouxe as garrafas e gelo e disse:

- Monsieur não tomou o pequeno-almoço.

- Trabalhei até muito tarde.

- C’est dommage - disse o rapaz. - Quer que lhe traga alguma coisa? Uma sanduíche?

- Junto à nossa bagagem está uma lata de Maquereau Vin Blaric Capitaine Cook. Abra-a e traga-me duas num prato.

- Não estão frescos.

- Não faz diferença. Traga-os na mesma.

 

Ali ficou sentado a comer o Maquereau Vin Blanc e a beber o uisque e a agua mineral. Fazia diferença que não estivessem frescos. Leu o jornal da manhã enquanto comia.

Sempre comera peixe fresco em Le Grau du Roi, pensou, mas isso fora há muito tempo. Começou a recordar Grau du Roi e então ouviu o carro a subir a elevação.

- Leve isto - disse para o rapaz e em seguida levantou-se, foi até ao bar e serviu-se de uísque, pôs-lhe gelo e encheu o copo com Perrier. Tinha na boca o sabor do peixe com gosto a vinho e especiarias e bebeu água directamente da garrafa.

Ouviu as vozes delas e viu-as à porta contentes e felizes como no dia anterior. Viu a cabeça brilhante de Catherine e o seu rosto moreno, amoroso e contente e a outra rapariga, de cabelo ao vento, os olhos brilhantes e subitamente tímida quando se aproximou.

- Não parámos quando vimos que não estavas no café - disse Catherine.

- Trabalhei até tarde. Como estás, Demónio?

- Muito bem. Não me perguntes como está esta aqui.

- Trabalhaste bem, David? - perguntou a rapariga.

- Que rica esposa eu sou - disse Catherine. - Esqueci-me de perguntar.

- Que fizeram em Nice?

- Podemos tomar uma bebida e depois contar? Estavam junto a ele, uma de cada lado e sentia-as.

- Trabalhaste bem? - voltou ela a perguntar.

- Claro que sim - disse Catherine. - Ele só trabalha assim, minha estúpida.

- É verdade, David?

- Sim - disse ele, despenteando-a. - Obrigado.

- Então não bebemos nada? - perguntou Catherine. Não trabalhámos. Limitámo-nos a comprar umas coisas, encomendar outras e armar escândalo.

- Não armámos nenhum escândalo a sério.

- Não sei - disse Catherine. - Nem me interessa.

- Qual foi o escândalo? - perguntou David.

- Não foi nada - disse a rapariga.

- Eu não me importei - disse Catherine. - Gostei.

- Alguém disse alguma coisa acerca das calças dela em Nice.

- Não é nenhum escândalo - disse David. - É uma cidade grande. Era de esperar.

- Pareço diferente? - perguntou Catherine. - Quem me dera que me tivessem trazido um espelho. Pareço-te diferente?

- Não. David olhou para ela. Estava muito bem e despenteada e mais escura que nunca e excitada e desafiadora.

- Ainda bem - disse ela. - Porque tentei.

- Não fizeste nada - disse a rapariga.

- Fiz e gostei e quero outra bebida.

- Ela não fez nada, David - disse a rapariga.

- Esta manhã parei o carro no meio da estrada e beijei-a e ela beijou-me, e também quando vínhamos de Nice e agora quando saímos do carro.

Catherine olhou-o com amor mas também com rebeldia e então disse:

- Foi divertido e gostei. Agora beija-a tu, David. O rapaz não está aqui.

David voltou-se para a rapariga e ela agarrou-se a ele e beijaram-se. Não tencionava beijá-la e também não sabia que ia ser assim quando o fez.

- Chega - disse Catherine.

- Como estás? - perguntou David à rapariga, que estava de novo tímida e feliz.

- Sinto-me feliz como tu me disseste para ser - disse a rapariga para ele.

- Todos estamos felizes, agora - disse Catherine. - Todos partilhámos a culpa.

 

Comeram um bom almoço e beberam Tavel fresco com os hors-d’Ouvres, a galinha e a ratatouille, a salada, a fruta e o queijo. Estavam todos esfomeados, brincaram e nenhum foi solene.

- Há uma surpresa óptima para o jantar ou até antes - disse Catherine. - David, ela gasta dinheiro como um homem do petróleo.

- São simpáticos? - perguntou a rapariga. - Ou são como os marajás?

- O David diz-te. Ele é de Oklahoma.

- Julguei que era do Leste de África.

- Não. Alguns dos seus antepassados escaparam de Oclahoma e levaram-no para o Leste de África quando ele era muito novo.

- Deve ter sido excitante.

- Ele escreveu um romance sobre isso quando era rapaz.

- Eu sei.

- Leste-o? - perguntou-lhe David.

- Li - disse ela.

- Queres fazer-me perguntas?

- Não - disse ele. - Lembro-me bem.

- Fez-me chorar - disse ela. - Era o teu pai que lá aparecia?

- Às vezes.

- Deves tê-lo amado muito.

- Amei.

- Nunca me falaste dele - disse Catherine.

- Nunca me perguntaste.

- E terias falado se eu perguntasse?

- Não - disse ele.

- Adorei o livro - disse a rapariga.

- Não exageres - disse Catherine.

- Não estava a exagerar.

- Quando o beijaste.

- Tu é que pediste.

- O que eu queria dizer quando me interrompeste - continuou Catherine - é se pensaste nele como escritor quando o beijaste.

David encheu um copo com Tavel e bebeu.

- Não sei - disse a rapariga. - Não pensei.

- Ainda bem - disse Catherine. - Tive medo que fosse como a história dos recortes.

A rapariga pareceu confundida e Catherine explicou:

- Os recortes da imprensa sobre o segundo livro. É que ele escreveu dois, sabes.

- Só. A Fenda.

- O segundo é sobre voar. Na guerra. É a única coisa que até hoje foi escrita sobre voar.

- Gaita! - disse David.

- Espera até leres - disse Catherine. - Para escrever esse livro era preciso morrer e ser-se completamente destruído. Não penses que não conheço os livros dele só porque não penso que ele é escritor quando o beijo.

- Acho que devíamos fazer uma siesta - disse David. Devias dormir um sono, Demónio. Estás cansada.

- Falei de mais - disse Catherine. - O almoço estava óptimo e desculpem se falei de mais.

- Gostei muito quando falaste dos livros - disse a rapariga.

- Foste admirável.

- Não me sinto admirável. Sinto-me cansada - disse Catherine. - Tens muito para ler, Marita?

- Ainda tenho dois livros - disse a rapariga. - Depois, peço-te emprestado.

- Posso ir ter contigo mais tarde?

- Se quiseres - disse a rapariga. David não olhou para ela nem ela olhou para ele.

- Não te vou incomodar? - perguntou Catherine.

- Nada do que eu faço é importante - disse a rapariga.

 

Catherine e David estavam deitados lado a lado, com o vento a soprar cá fora e não era a sesta dos velhos tempos.

- Posso contar-te agora?

- Preferia que não.

- Deixa-me contar. Esta manhã, quando pus o carro a trabalhar, estava assustada e tentei conduzir bem e por dentro sentia-me mal. Depois, avistei Cannes lá em cima e a estrada estava deserta, e lá em baixo o mar, e olhei para trás e não vi ninguém e encostei de repente. Beijei-a e ela beijou-me e ficámos sentadas e senti-me muito estranha e depois seguimos para Nice e não sei se as pessoas percebiam ou não. Não me importava e fomos a todo o lado e comprámos tudo. Ela adora comprar coisas. Alguém fez um comentário rude mas não foi nada de especial. Depois, parámos no caminho de volta e ela disse que era melhor que eu fosse a sua rapariga e eu disse que tanto me fazia e que estava satisfeita porque agora sou uma rapariga e não sabia o que fazer. Nunca me tinha sentido sem saber. Mas ela é gentil como nós às vezes somos, ou eu para ti, ou os dois, e eu disse que não conseguia guiar se ela fizesse isso e então parámos. Só a beijei, mas sei que aconteceu comigo. Então, ficámos ali durante um bocado e depois viemos directamente para aqui. Beijei-a antes de chegarmos e sentimo-nos felizes e eu gostei e ainda gosto.

- Então, agora fizeste-o - disse David cuidadosamente – e já está.

- Não, não está. Gostei e vou fazê-lo a sério.

- Não. Não precisas de o fazer.

- Vou fazê-lo até ao fim e até ultrapassar isto.

- Quem diz que o vais ultrapassar?

- Digo eu. Mas tenho mesmo de o fazer, David. Não sabia que iria ser assim.

Ele não disse nada.

- Eu volto - disse ela. - Tenho a certeza que vou ultrapassar isto. Por favor, confia em mim.

Ele não disse nada.

- Ela está à minha espera. Não me ouviste perguntar-lhe? como parar a meio de qualquer coisa.

- Vou para Paris - disse David. - Podes contactar-me através do banco.

- Não - disse ela. - Não. Tens de me ajudar.

- Não te posso ajudar.

- Podes sim. Não vás embora. Se fosses, eu não ia aguentar.

- Não quero estar com ela. É só uma coisa que tenho de fazer. Entendes? Por favor, entende. Sempre entendeste.

- Isto, não.

- Por favor, tenta. Sempre me compreendeste. Em tudo, não é verdade?

- Sim. Antes.

- Começou só connosco e só seremos nós quando eu terminar isto. Não estou apaixonada por mais ninguém.

- Não o faças.

- Tenho de o fazer. Desde que entrei para o liceu tive várias ocasiões para o fazer e pessoas que queriam fazê-lo comigo. E nunca o fiz. Mas agora tenho de o fazer.

Ele não disse nada.

- Por favor, entende. Ele continuou sem dizer nada.

- De qualquer modo ela está apaixonada por ti e podes tê-la e apagar tudo dessa maneira.

- És mesmo louca, Demónio.

- Eu sei - disse ela. - Vou deixar de ser.

- Dorme um sono - disse ele. - Deita-te e tem calma e dormiremos os dois.

- Amo-te tanto - disse ela. - E és o meu verdadeiro companheiro, tal como eu disse a ela. Disse-lhe de mais acerca de ti, mas é só do que ela gosta de falar. Agora, estou calma e vou.

- Não, não vás.

- Sim - disse ela. - Espera por mim. Não demoro.

Quando regressou ao quarto, David não estava lá e ela ficou a olhar para a cama durante muito tempo e abriu a porta do quarto de banho e olhou para o espelho. O seu rosto não tinha expressão e olhou-se da cabeça aos pés sem qualquer expressão no rosto. já quase não havia luz quando entrou no quarto de banho, fechando a porta atrás de si.

 

David regressou de Cannes ao crepúsculo. O vento parara e ele deixou o carro no local habitual e subiu o caminho até ao pátio, de onde vinha luz. Marita apareceu à entrada e dirigiu-se a ele.

- Catherine sente-se muito mal - disse ela. - Por favor, sê gentil.

- Vão as duas para o diabo - disse David.

- Eu, está bem. Mas ela não. Não deves fazer isso, David.

- Não me digas o que devo ou não fazer.

- Não queres tomar conta dela? Não especialmente. Eu quero. Não há dúvida que já o fizeste. Não sejas pateta - disse ela. - Não és nenhum palerma. Isto é um caso sério.

- Onde está ela?

- Lá dentro, à tua espera.

David entrou. Catherine estava sentada junto ao bar, vazio.

- Olá - disse ela. - Não trouxeram o espelho.

- Olá, Demónio - disse ele. - Desculpa ter chegado tarde. Ele ficou chocado com o ar abatido dela e a voz fraca.

- Pensei que te tinhas ido embora - disse ela.

- Não reparaste que não levei nada?

- Não olhei. Para ires embora não precisavas de ter levado nada.

- Não - disse David. - Só fui à cidade.

- Oh - disse ela, olhando para a parede.

- O vento está a passar - disse ele. - Amanhã vai estar bom tempo.

- Não me interessa o amanhã.

- Claro que sim.

- Não, não me interessa. Não me peças isso.

- Não te vou pedir - disse ele. - já tomaste uma bebida?

- Não.

- Vou preparar-te uma.

- Não adianta.

- Pode ser que sim. Ainda somos nós. Ele preparara a bebida e ela observou-o mecanicamente enquanto a mexia e a vertia para os copos.

- Põe uma azeitona - pediu ela. Ele estendeu-lhe um dos copos, ergueu-o e com ele tocou no dela.

- À nossa.

Ela entornou o copo sobre o balcão e ficou a ver o líquido a escorrer na madeira. Depois, agarrou na azeitona e meteu-a na boca.

- Já não somos nós - disse. David retirou um lenço do bolso, limpou o balcão e preparou nova bebida.

- É tudo uma merda - disse Catherine. David entregou-lhe a bebida e ela verteu-a novamente sobre o balcão. David limpou outra vez com o lenço. Depois, bebeu o seu Martini e preparou mais dois.

- Este vais bebê-lo - disse. - Bebe.

- Bebe - repetiu ela. Ergueu o copo e disse: - Aqui vai, a ti e ao teu lenço.

Esvaziou o copo e depois ergueu-o e David teve a certeza que ela lho ia atirar à cara. Então, ela pousou-o, retirou a azeitona, comeu-a cuidadosamente e entregou o caroço a David.

- Pedra semipreciosa - disse. - Mete-a no bolso. Tomo outro, se o preparares.

- Mas bebe devagar.

- Oh, já estou muito bem - disse Catherine. - Provavelmente nem notarás a diferença. Isto acontece a toda a gente.

- Sentes-te melhor?

- Muito melhor. É como perder qualquer coisa que desaparece. Aquilo que perdemos é aquilo que possuímos. Mas arranjamos mais. Não há problema, pois não?

- Tens fome?

- Não. Mas tenho a certeza que tudo ficará bem. Tu disseste que sim, não disseste?

- Claro que sim.

- Quem me dera lembrar-me o que foi que perdemos. Mas não interessa, pois não? Disseste que não interessava.

- Não.

- Então, alegremo-nos. O que quer que fosse, já passou.

- Deve ter sido algo que esquecemos - disse ele. - Encontrá-lo-emos.

- Sei que fiz alguma coisa. Mas já passou.

- Ainda bem.

- O que quer que fosse, não foi culpa de ninguém.

- Não fales em culpas. - já sei o que foi - sorriu ela. - Mas não fui inflei. A sério, David. Como poderia ser? Não podia ser, sabes bem. Como pudeste dizer que fui? Por que o disseste?

- Não foste.

- Claro que não fui. Mas antes não o tivesses dito.

- Não o disse, Demónio.

- Alguém disse. Mas não fui eu. Eu só fiz o que disse que iria fazer. Onde está a Marita?

- Acho que está no quarto dela.

- Estou satisfeita por estar novamente bem. Depois de tudo acabar fiquei bem. Antes tivesses sido tu a fazê-lo para eu te poder culpar. Somos nós outra vez, não somos? Não matei o que havia entre nós, pois não?

- Não. Ela sorriu.

- Ainda bem. Vou buscá-la. Importas-te? Estava preocupada comigo. Antes de tu chegares.

- Estava?

- Fartei-me de falar - disse Catherine. - Falo sempre de mais. Ela é terrivelmente simpática, David. Foi muito boa para mim.

- Para o diabo com ela.

- Não. Retiraste tudo isso. Lembras-te? Não tenho que ouvir tudo de novo, pois não? É demasiado confuso, a sério.

- Está bem, vai buscá-la. Vai ficar satisfeita por ver que estás melhor.

- Sei que sim e tens de a pôr à vontade, também.

- Claro. Ela sente-se mal?

- Só quando eu me sentia. Quando eu sabia que estava a ser infiel. Nunca tinha sido, sabes. Vai lá buscá-la, David. Para ela não se sentir mal. Não te incomodes, vou eu.

Catherine saiu e David ficou a olhar para ela. Os seus movimentos eram menos mecânicos e a voz estava melhor. Quando regressou, sorria e a voz estava quase normal.

- Ela vem já - disse. - É um amor, David.

- Ainda bem que a trouxeste.

A rapariga entrou e David disse:

- Estávamos à tua espera. Ela fixou-o e depois desviou os olhos. Então, olhou de novo para ele e disse:

- Desculpem ter-me atrasado.

- Estás muito bonita - disse David, e era verdade, mas ela tinha os olhos mais tristes que ele já vira.

- Prepara-lhe uma bebida, por favor, David. Eu já tomei duas - disse Catherine para a rapariga.

- Ainda bem que te sentes melhor - disse a rapariga.

- O David fez-me sentir novamente bem - disse Catherine.

- Contei-lhe tudo, e como foi maravilhoso, e ele compreende perfeitamente. E aprova.

A rapariga olhou para David e ele reparou na forma como mordia o lábio superior com os dentes e no que lhe dizia com os olhos.

- Aborreci-me na cidade - disse ele. - Senti a falta da natação.

- Nem sabes do que sentiste a falta - disse Catherine. Sentiste a falta de tudo. Era o que eu sempre quis fazer e agora fi-lo e adorei.

A rapariga olhava para o copo.

- E o mais maravilhoso é que me sinto tão crescida. Mas é esgotante. Claro que é o que eu queria e agora fi-lo e sei que sou aprendiz, mas não o vou ser sempre.

- Pede-se licença de aprendiz - disse David e depois acrescentou, animado: - Não sabes falar de outros assuntos? As perversões são aborrecidas e fora de moda. Eu nem sabia que pessoas como nós as praticavam.

- Acho que só é interessante a primeira vez que o fazemos - disse Catherine.

- E unicamente para a pessoa que o faz e uma tremenda chatice para todos os outros - disse David. - Concordas, Herdeira?

- Por que razão lhe chamas Herdeira? - perguntou Catherine.

- É um nome engraçado.

- Não dá muito jeito chamar-lhe «senhora» ou «alteza» disse David. - Concordas, Herdeira? Com o que eu disse sobre a perverssão.

- Sempre pensei que era estúpido - disse ela. - É uma coisa que as raparigas fazem quando não têm melhor para fazer.

- Mas a primeira vez de qualquer coisa é sempre interessante disse Catherine.

- Sim - disse David. - Mas gostarias de passar a vida a falar no teu primeiro passeio em Steeplechase Park ou em como tu, pessoalmente, viajaste sozinha num avião, longe da terra e em direcção ao céu?

- Estou envergonhada - disse Catherine. - Olha para mim e vê lá se não estou envergonhada.

David abraçou-a.

- Não estejas - disse. - Lembra-te como gostarias de ouvir aqui a Herdeira contar como foi sozinha naquele avião, só ela e o avião, sem nada entre ela e a Terra, imagina a Terra com um T grande, e só o avião dela, e podiam ter morrido e ficado em pedaços, e ele perdia o dinheiro, a saúde e a sanidade e a Vida, com V grande, e aqueles que ama, eu ou tu, ou Jesus, todos com letras maiúsculas, se se «despenhasse», põe a palavra despenhasse entre aspas.

- Já te aconteceu, Herdeira?

- Não - disse a rapariga. - Agora não preciso. Mas queria outra bebida. Amo-te, David.

- Beija-a como da outra vez - disse Catherine.

- Agora não - disse David. - Estou a preparar as bebidas.

- Estou tão contente por sermos todos amigos e por tudo estar bem - disse Catherine’ muito animada e com a voz normal - Esqueci-me da surpresa que a Herdeira comprou esta manhã. Vou buscá-la.

 

Quando Catherine saiu, a rapariga agarrou na mão de David, apertou-a e beijou-a. Sentaram-se e ficaram a olhar um para o outro. Ela tocou distraidamente com os dedos na mão dele. Entrelaçou os dedos nos dele e depois largou-os.

- Não precisamos de falar - disse. - Não queres que eu te faça um discurso, pois não?

- Não. Mas temos que falar qualquer dia.

- Queres que me vá embora?

- Seria melhor.

- Beijas-me para eu saber se não faço mal em ficar? Catherine regressou acompanhada do jovem criado, que trazia uma lata grande de caviar dentro de um recipiente com gelo e um prato com tostas.

- Esse foi um beijo maravilhoso - disse ela. - Toda a gente o viu, por isso não há que recear nenhum escândalo nem nada.

Catherine disse:

- Estão a cortar claras de ovos e cebola.

O caviar era cinzento e rijo e Catherine colocou-o sobre as tostas finas.

- A Herdeira comprou-te uma caixa de Bollinger Brut 1915 e há algum gelado. Não achas que devíamos beber uma garrafa com isto?

- Claro - disse David. - Bebemo-la com a refeição.

- Não é uma sorte que a Herdeira e eu sejamos tão ricas que não terás de te preocupar com nada? Vamos tomar bem conta dele, não vamos, Herdeira?

Temos de nos esforçar - disse a rapariga. - Estou a tentar estudar as necessidades dele. Hoje só consegui descobrir isso.

 

Dormia há cerca de duas horas quando a luz do dia o despertou e olhou para Catherine, que dormia com ar feliz. Deixou-a com o seu ar belo, jovem e intocado e foi até ao quarto de banho, tomou um duche, vestiu uns calções e atravessou descalço o jardim até ao quarto onde trabalhava. O céu estava limpo, era uma manhã fresca de um dia que prenunciava o fim do Verão.

Recomeçou a trabalhar na nova e difícil história, pegando nas coisas que durante anos evitara encarar. Trabalhou quase até às sete horas e quando acabou fechou o quarto, saiu e encontrou as duas raparigas a jogarem xadrez no jardim. Ambas estavam com bom aspecto, jovens e atraentes.

- Ela está a ganhar-me outra vez - disse Catherine. Como estás, David?

A rapariga sorriu-lhe timidamente. «São as duas raparigas mais bonitas que já vi», pensou David. «E agora, que trará este dia?»

- Como estão as duas? - perguntou.

- Muito bem - disse a rapariga. - Tiveste sorte?

- Tem sido difícil, mas está a correr bem - disse ele.

- Não tomaste pequeno-almoço. -

- Já é tarde de mais para o pequeno-almoço - disse David.

- Disparate - disse Catherine. - Hoje és tu a esposa de serviço, Herdeira. Dá-lhe o pequeno-almoço.

- Queres café e fruta, David? - perguntou a rapariga. Devias comer qualquer coisa.

- Tomo café simples - disse David.

- Vou arranjar-te qualquer coisa - disse a rapariga, dirigindo-se para o hotel.

David sentou-se ao lado de Catherine, que colocou o tabuleiro e as peças em cima de uma cadeira. Despenteou-lhe o cabelo e disse:

- Esqueceste-te que tens uma cabeça prateada como a minha?

- Sim - disse ele.

- Vai ficar cada vez mais claro e cada vez mais loiro e o corpo cada vez mais escuro.

- Que bom. A bela rapariga morena apareceu, trazendo um tabuleiro com uma pequena taça com caviar, meio limão, uma colher e duas tostas, e o jovem criado aproximou-se com uma garrafa de Bollinger dentro de um balde de gelo e uma bandeja com três copos.

- Isto vai fazer bem ao David - disse a rapariga. - Depois, podemos ir nadar antes do almoço.

Depois de terem nadado e apanhado sol na praia e de terem comido um grande almoço com mais Bollinger, Catherine disse:

- Estou cansada e cheia de sono.

- Nadámos muito - disse David.

- Vamos fazer uma siesta.

- Eu quero mesmo dormir - disse Catherine.

- Sentes-te bem, Catherine? - perguntou a rapariga.

- Sim. Só tenho muito sono.

- Vamos meter-te na cama - disse David. - Tens um termómetro? - perguntou à rapariga.

- Não tenho febre - disse Catherine. - Só quero dormir muito.

Quando já estava na cama, a rapariga trouxe o termómetro, e David tirou a temperatura a Catherine e mediu-lhe o pulso. A temperatura estava normal e o pulso dava cento e cinco.

- A pulsação está ligeiramente alta - disse ele. - Mas não sei qual é o teu normal.

- Eu também não, mas provavelmente é acelerado.

- Acho que a pulsação não quer dizer nada, quando a temperatura é normal - disse David. - Mas se tens febre vou a Cannes buscar um médico.

- Não quero médico nenhum - disse Catherine. - Só quero dormir. Posso dormir agora?

- Sim, minha beleza. Se precisares, chama-me.

Ficaram a vê-la adormecer e depois retiraram-se cuidadosamente e David espreitou pela janela. Catherine dormia calmamente e a sua respiração era regular. Ele foi buscar duas cadeiras e uma mesa e sentaram-se à sombra junto da janela de Catherine e ele olhou através dos pinheiros, para o mar.

- Que pensas? - perguntou David.

- Não sei. Ela estava feliz de manhã, tal como a viste quando acabaste de escrever.

- E agora?

- Talvez seja só uma reacção ao dia de ontem. Ela é uma rapariga muito natural, David, e isto é natural.

- Ontem foi como amar alguém quando alguém morreu - disse ele. - Não está certo.

Levantou-se, foi até à janela e espreitou. Catherine dormia na mesma posição e respirava levemente.

- Está a dormir bem - disse ele para a rapariga. - Não queres dormir uma sesta?

- Acho que sim.

- Vou para o meu quarto de trabalho - disse ele. - Tem uma porta que dá para o teu, que tranca dos dois lados.

Entrou no quarto e destrancou a porta que ligava os dois quartos. Ficou à espera e depois ouviu o barulho da fechadura do outro lado e a porta abriu-se. Sentaram-se lado a lado na cama e ele abraçou-a.

- Beija-me - disse David.

- Adoro beijar-te - disse ela. - Gosto tanto. Mas não posso fazer o resto.

- Não?

- Não, não posso. Depois ela disse:

- Queres que faça alguma coisa? Estou tão envergonhada acerca do resto, mas sabes que isso podia acabar num problema.

- Fica aqui deitada a meu lado.

- Gostaria muito.

- Então faz aquilo que gostas.

- Está bem - disse ela. - E tu também. Faremos o que pudermos.

Catherine dormiu durante toda a tarde e até à noitinha. David e a rapariga estavam sentados no bar a tomar uma bebida e a rapariga disse:

- Nunca chegaram a trazer o espelho.

- Falaste nisso ao velho Aurol?

- Sim. Achou bem.

- Tenho de lhe pagar o trabalho de servir as garrafas de Bollinger.

- Dei-lhe quatro garrafas e mais duas define. já tratei dele. Madame é que me preocupava.

- E tinhas razão.

- Não quero arranjar problemas, David.

- Não - disse ele. - Acho que não queres.

O jovem criado apareceu com mais gelo e David preparou dois Martinis e entregou-lhe um. O criado colocou as azeitonas e dirigiu-se para a cozinha.

- Vou ver como está a Catherine - disse a rapariga. - Ou as coisas se resolvem ou não.

Demorou-se dez minutos e ele apalpou o copo dela e resolveu tomar a bebida antes que aquecesse. Agarrou no copo, levou-o aos lábios e descobriu que lhe dava prazer tocá-lo com os lábios porque era dela. Era claro e inegável. Era só o que lhe faltava, pensou. «E só o que te falta para tornares as coisas perfeitas. Apaixonares-te pelas duas. Que te aconteceu desde Maio? Quem és tu agora?» Mas levou novamente o copo aos lábios e experimentou a mesma sensação que antes. «Está bem», disse ele, «lembra-te de trabalhar. O trabalho é aquilo que te resta. É melhor entregares-te ao trabalho.»

A rapariga regressou e, quando a viu entrar, teve a certeza do que sentia em relação a ela.

- Está a vestir-se - disse a rapariga. - Não é óptimo?

- Sim - respondeu ele, amando Catherine como sempre.

- Que aconteceu à minha bebida?

- Bebi-a - disse ele -, porque era tua. -

- A sério, David? Ela corou e sentiu-se feliz.

- A sério - disse ele. - Tens aqui outra. Ela provou e passou levemente os lábios pela borda do copo e passou-lho e ele fez o mesmo e bebeu um trago.

- És linda - disse ele: - E amo-te.

 

Ouviu o ruído do motor do Bugatti, que lhe pareceu como uma intrusão, pois não havia ruídos de motores no campo onde estava a viver. Tinha-se desligado completamente de tudo, excepto da história que estava a escrever, e vivia-a à medida que ia escrevendo. Enfrentava agora uma a uma as partes difíceis que receara, e as pessoas, as paisagens, os dias, as noites, e o tempo estavam lá enquanto escrevia. Continuou a trabalhar e sentiu-se tão cansado como se tivesse passado a noite a atravessar o deserto vulcânico e o sol o tivesse apanhado e aos outros através dos lagos secos que se estendiam à sua frente. Sentia o peso da pesada espingarda que carregava ao ombro, levava a mão na boca da arma e tinha a boca a saber a seixos. Para lá da luminosidade vinda dos lagos secos avistava o azul distante das escarpas. À sua frente não se via ninguém e atrás seguia a enorme fila de carregadores, que sabiam ter chegado àquele ponto com três horas de atraso.

Não fora ele, claro, quem ali estivera naquela manhã, nem sequer usara o remendado casaco de belbetina já debotado e agora quase banco, os sovacos gastos pelo suor, que despira e entregara ao criado Kimba e ao irmão, que compartilhavam com ele o conhecimento e a culpa da demora, vendo-o cheirar o odor avinagrado e abanar a cabeça, desgastado, e depois fazer uma careta enquanto punha o casaco sobre o ombro, segurando-o pelas mangas, e seguiam pelo lago seco, a boca das armas nas mãos direitas, os canos a balançarem-lhes nos ombros, as coronhas a apontarem em direcção à fila de carregadores.

Não fora ele, mas agora, enquanto escrevia, era-o e, quando alguém lesse, por fim, seria quem quer que lesse e aquilo que encontrassem quando chegassem à escarpa, se lá chegassem, e ele fá-los-ia chegar lá ao fim desse dia; então, quem quer que lesse descobriria o que havia a descobrir e conservá-lo-ia sempre. «Tudo o que teu pai descobriu, descobriu também para ti», pensou ele, «o bom, o maravilhoso, o mau, o muito mau, o terrivelmente mau e até muito pior.» Era uma pena que um homem com tanta propensão para o mau e para o bom tivesse seguido o caminho que ele seguiu, pensou. Sempre se sentira feliz ao lembrar-se do pai e sabia que este teria gostado da história. Era tarde quando saiu do quarto e pisou descalço as pedras do pátio até à entrada do hotel. No salão, alguns operários colocavam um espelho na parede atrás do bar. Monsieur Aurol e o jovem criado encontravam-se lá, e ele falou-lhes e seguiu para a cozinha, onde encontrou Madame.

- Tem a cerveja, Madame? - perguntou.

- Mais certainement, Monsieur Bourne - disse ela, retirando uma garrafa gelada da arca.

- Bebo directamente da garrafa - disse ele.

- Como Monsieur quiser - disse ela. - Acho que as senhoras foram até Nice. Monsieur conseguiu trabalhar?

- Muito bem.

- Monsieur trabalha de mais. Não faz bem passar sem o pequeno-almoço.

- Ainda há algum caviar na lata?

- Acho que sim.

- Então como umas colheradas.

- Monsieur é estranho - disse Madame. - Ontem, comeu-o com champanhe. Hoje, com cerveja.

- Sabe se a minha bicicleta está na remise?

- Deve estar - respondeu Madame. David comeu uma colher de caviar e ofereceu a lata a Madame.

- Prove. É muito bom.

- Não devia - disse ela.

- Não seja tonta - respondeu ele. - Prove. Tem aqui tostas. Beba uma taça de champanhe. Há algum no frigorífico.

Madame retirou uma colher de caviar que espalhou sobre uma tosta que sobrara do pequeno-almoço e serviu-se de um copo de rosé.

- Óptimo - disse. - Agora, vamos guardar isto.

- Soube-lhe bem? - perguntou David. - Vou comer mais um pouco.

- Ah, Monsieur! Não seja tão brincalhão.

- Porque não? - perguntou David. - As minhas companheiras de brincadeira não estão cá. Se essas duas esplêndidas mulheres voltarem, diga-lhes que fui nadar, está bem?

- Com certeza. A pequenina é uma beleza. Claro que não é tão bonita como Madame.

- Também não a acho muito mal - disse David.

- É uma beleza, Monsieur, e encantadora.

- Serve, até aparecer outra coisa - disse David. - Se acha que ela é bonita.

- Monsieur - disse ela em tom reprovador.

- Que são aquelas reformas arquitecturais? - perguntou David.

- O novo miroir para o bar? É um acrescento encantador.

- Toda a gente é encantadora - disse David. - Encanto e ovos de esturjão. Peça ao rapaz para verificar os meus pneus enquanto calço qualquer coisa e ponho um casaco, está bem?

- Monsieur gosta de andar descalço. Eu também, no Verão.

- Qualquer dia vamos andar os dois descalços.

- Monsieur... - disse ela.

- O Aurol é ciumento?

- Sans blague - disse ela. - Eu digo às duas belas senhoras que foi nadar.

- Esconda o caviar do Aurol - disse David. - bientôt, chère Madame.

- À tout à l’heure, Monsieur.

 

Na estrada negra e brilhante que subia em direcção ao pinhal sentiu o esforço dos braços e ombros e o impulso dos pés contra os pedais, enquanto pedalava sob o sol quente com o cheiro dos pinheiros e a leve brisa que soprava do mar. Curvou-se para a frente, fez um pouco de força contra as mãos e sentiu a cedência à medida que avançava. Lá em cima a estrada bordejava o mar e ele desmontou, colocou a bicicleta sobre o ombro e tomou o caminho para a praia. Encostou-a a um pinheiro que rescendia a resina e desceu as rochas, despiu-se e mergulhou no mar claro e fundo. Quando veio à superfície abanou a cabeça para retirar a água dos ouvidos e depois nadou pelo mar dentro. Deitou-se de costas e flutuou e observou o céu e as primeiras nuvens brancas que a brisa trazia.

Regressou à praia, trepou as rochas vermelho-escuras e sentou-se ao sol a olhar para o mar.

Sentia-se feliz por estar sozinho e por ter acabado o trabalho. Depois, a solidão que sempre experimentava depois do trabalho apoderou-se dele, e começou a pensar nas raparigas e a sentir a falta delas; não a falta de uma ou de outra, mas das duas. Depois pensou nelas, não criticamente, não como um problema de amor, não como uma obrigação ou no que acontecera e estaria para acontecer, nem em nenhuma questão de conduta presente ou futura, mas simplesmente sentiu a ausência delas. Tinha saudades das duas, sós e juntas, e queria-as a ambas.

Sentado ao sol a olhar para o mar, teve consciência de que era errado querer as duas, mas continuou a querer. «Nada que tenha a ver com aquelas duas ou contigo pode acabar bem», pensou. «Mas não comeces a culpar aqueles que amas nem a medir culpas. Isso será medido em devido tempo e não por ti.» Olhou para o mar e tentou ver claramente qual era a situação, mas não conseguiu. O pior era o que acontecera a Catherine. O pior a seguir era que ele começara a gostar de outra rapariga. Não precisava de examinar a consciência para saber que amava Catherine e que era errado amar duas mulheres e que dali não podia vir nada de bom. Ainda não sabia quão horrível podia ser. Só sabia que aquilo começara. «Vocês os três já estão enrolados como três rodas dentadas», disse para consigo, «e uma delas já está bastante afectada.» Mergulhou bem fundo na água onde não sentia a falta de ninguém, veio à superfície e abanou a cabeça e nadou para mais longe e depois regressou à praia.

Vestiu-se, ainda húmido da água do mar, enfiou o boné no bolso e subiu o caminho com a bicicleta às costas e depois montou, conduzindo a máquina pela colina acima, sentindo nas pernas a falta de treino enquanto premia as solas dos pés contra os pedais, ganhando uma marcha que o levava estrada acima como se ele e a bicicleta fossem animais de uma carroça. Depois, desceu, as mãos tocando os travões, descrevendo curvas rápidas, passando veloz pelos pinheiros, até às traseiras do hotel, onde o mar brilhava azul para lá das árvores.

As raparigas ainda não tinham regressado e ele foi até ao quarto, tomou um duche, vestiu camisa e calças lavadas e foi até ao bar, que tinha um belo espelho novo. Pediu ao criado que lhe trouxesse um limão, uma faca e algum gelo e mostrou-lhe como se fazia um Tom Collins. Depois, sentou-se no banco do bar e olhou para o espelho enquanto erguia o copo alto. «Não sei se tomaria uma bebida contigo se te tivesse conhecido há quatro meses», pensou.

O rapaz trouxe-lhe o Éclatreur de Nice e ele leu-o enquanto esperava. Ficara desiludido por não ter encontrado as raparigas, sentia a falta delas e começava a ficar preocupado.

Quando, finalmente, elas entraram, Catherine vinha muito satisfeita e eufórica e a rapariga calma.

- Olá, querido - disse Catherine para David. - Oh, olha o espelho, sempre o puseram. E é bom, mas terrivelmente crítico. Vou-me arranjar para o almoço. Desculpa-nos o atraso.

- Parámos na cidade e tomámos uma bebida - disse a rapariga para David. - Desculpa termos-te feito esperar.

- Uma bebida? - perguntou David. A rapariga ergueu dois dedos. Levantou o rosto, beijou David e desapareceu. David continuou a ler o jornal. Quando Catherine regressou, vestia a camisa de linho azul-escura de que David gostava e calças compridas e disse:

- Espero que não estejas zangado, querido. A culpa não foi nossa. Encontrei o Jean e convidei-o para tomar uma bebida connosco e foi muito agradável.

- O cabeleireiro?

- Jean. Claro. Que outro Jean conheço eu em Cannes? Foi tão simpático e perguntou por ti. Posso tomar um Martini, querido? Só tomei um.

- O almoço já deve estar pronto.

- Só um, querido. Só cá estamos nós para almoçar. David preparou calmamente dois Martinis e a rapariga entrou. Trazia um vestido branco brilhante e tinha um ar fresco.

- Posso tomar um também, David? Esteve um dia muito quente. E aqui?

- Devias ter ficado em casa a tomar conta dele - disse Catherine.

- Não me dei mal - disse David. - O mar estava óptimo.

- Usas uns adjectivos tão interessantes - disse Catherine. Tornam tudo tão real.

- Desculpa - disse David.

- Essa é outra palavra afectada - disse Catherine. - Explica o que isto quer dizer à tua nova rapariga. É um americanismo.

- Acho que sei - disse a rapariga. - É a terceira palavra em Yankee Doodle Dandy. Não te zangues, Catherine.

- Não estou zangada - disse Catherine. - Mas há dois dias, quando te atiraste a mim, foi simplesmente dandy (Dandy no original. (N. da T), mas hoje, se por acaso eu me sentisse assim, tinhas de agir como se eu fosse não sei o quê.

- Desculpa, Catherine - disse a rapariga.

- Mais desculpas - disse Catherine. - Como se não me tivesses ensinado o pouco que sei.

- Vamos almoçar? - disse David. - O dia esteve muito quente, Demónio, e tu estás cansada.

- Estou cansada de toda a gente - disse Catherine. - Por favor, perdoa-me.

- Não há nada a perdoar - disse a rapariga. - Desculpa-me se fui maçadora. Foi sem querer.

Aproximou-se de Catherine e beijou-a ao de leve e gentilmente.

- Agora, sê uma boa menina - disse. - Vamos para a mesa?

- Mas não almoçámos já? - perguntou Catherine.

- Não, Demónio - respondeu David. - Vamos almoçar agora.

No final do almoço, Catherine, que tinha estado muito calma mas um pouco distraída, disse:

- Por favor, desculpem-me, mas acho que devia ir dormir.

- Deixa-me ir contigo e ver-te dormir - pediu a rapariga.

- Na verdade, acho que bebi de mais - disse Catherine.

- Também vou dormir uma sesta - disse David.

- Não, por favor, David. Se quiseres, vai quando eu já estiver a dormir.

Passada meia hora a rapariga saiu do quarto.

- Ela está bem - disse. - Mas temos que ter muita paciência e atenção com ela.

Catherine estava acordada quando David entrou e se sentou na cama.

- Não sou nenhuma inválida - disse ela. - Bebi de mais, sei muito bem. Desculpa ter-te mentido. Como pude fazer uma coisa dessas, David?

- Não te lembraste.

- Não. Fi-lo propositadamente. Aceitas-me novamente? já passou a maldade.

- Nunca te afastaste.

- Só quero que me aceites de novo. Serei verdadeiramente a tua rapariga. Queres?

Ele beijou-a.

- Beija-me a sério.

- Oh - disse ela. - Por favor, vai devagar.

 

Nadaram no sítio para onde tinham ido no primeiro dia. David tinha planeado mandar as suas raparigas para a praia e ir no velho lsotta até Cannes para mandar arranjar os travões e a ignição. Mas Catherine pedira-lhe por favor para nadar com elas e tratar do carro no dia seguinte e parecera de novo tão satisfeita e feliz depois da sesta e Marita pedira, muito séria:

- Vens, por favor? E ele conduzira-as até à praia e mostrara-lhes como era perigoso andar com os travões naquele estado.

- Ainda te matavas com este carro - disse para Marita. É um crime conduzi-lo no estado em que está.

- Devia arranjar um novo? - perguntou ela.

- Não é preciso. Para começar, deixas-me arranjar os pneus.

- Precisamos de um carro maior para todos - disse Catherine.

- Este carro é óptimo - disse David. - Só precisa de uns grandes arranjos. Mas é demasiado grande para ti.

- Vê se o pões em condições - disse a rapariga. - Se não conseguirem, arranjaremos o carro que vocês quiserem.

Depois puseram-se a bronzear e David disse, preguiçosamente:

- Venham nadar.

- Deita-me água em cima da cabeça - pediu Catherine. Trouxe um balde na mochila.

- Oh, que bom - disse ela. - Podes deitar mais? Na cara também.

 

Esticou-se ao sol, com o seu vestido branco, e David e a rapariga foram nadar à volta das rochas. A rapariga ia à frente e David apanhou-a. Agarrou-lhe um pé e depois abraçou-a e beijou-a. Ela sentiu-se estranha e a escorregar na água e pareciam ter a mesma altura, com os corpos unidos. Depois, ela mergulhou e ele curvou-se e ela apareceu a rir e a sacudir a cabeça e colou os lábios contra os dele e beijaram-se até ficarem imersos. Lado a lado flutuaram, tocando-se e beijando-se e voltaram a mergulhar.

- Não tenho nenhuma preocupação agora - disse ela, quando voltaram de novo à superfície. - E tu também não deves ter.

- Não tenho - disse ele, e nadaram mais. É melhor molhares-te, Demónio - disse ele para Catherine. - A tua cabeça está a ficar quente de mais.

- Está bem. Vamos lá - disse ela. - A Herdeira que fique a bronzear-se. Vou untá-la com óleo.

- Não muito - disse a rapariga. - Podes despejar-me um balde de água na cabeça, também?

- A tua cabeça já está toda molhada - disse Catherine.

- Só queria sentir - disse a rapariga.

- Vai lá buscar um balde de água fresca, David - disse Catherine.

Depois de ele ter despejado a água fresca do mar sobre a cabeça de Marita, deixaram-na deitada com o rosto sobre os braços e nadaram. Flutuaram com facilidade, como dois animais marinhos, e Catherine disse:

- Não era maravilhoso se eu não fosse maluca?

- Não és maluca.

- Esta tarde, não - disse ela. - Pelo menos, até agora. Podemos nadar até mais longe?

- Já estamos muito longe, Demónio.

- Está bem. Voltemos, então. Mas a água profunda é maravilhosa aqui.

- Queres mergulhar antes de sairmos?

- Só uma vez - disse ela. - Aqui, na parte mais funda.

- Vamos nadar até nos cansarmos.

 

Ele acordou e havia luz suficiente para distinguir o tronco dos pinheiros e saltou da cama com cuidado, para não acordar Catherine, vestiu os calções e saiu, as plantas dos pés frescas devido à humidade do chão, até ao quarto de trabalho. Quando abriu a porta sentiu novamente a aragem que vinha do mar e que prometia o que o dia iria ser.

Quando se sentou, o Sol não tinha nascido e sentiu que compensara bem algum tempo que perdera com a história. Mas à medida que relia a escrita legível e as palavras o transportavam bem longe, para outro país, perdeu essa vantagem e ficou com o mesmo problema, e quando o Sol nasceu no mar, para ele tinha nascido há mais tempo antes e sentia-se bem a atravessar os lagos secos e cinzentos com as suas botas agora brancas devido ao sal incrustado. Sentiu o peso do sol sobre a cabeça, o pescoço e as costas. Tinha a camisa molhada e sentia o suor escorrer-lhe pelas costas abaixo e entre as pernas. Quando se endireitou e descansou, respirando lentamente, e a camisa se descolou dos ombros, sentiu-a secar ao sol e reparou nas manchas brancas que o sal do seu corpo provocara. Conseguia sentir-se e ver-se ali e sabia que nada havia a fazer senão continuar.

Às dez e meia já tinha passado os lagos e encontrava-se junto do rio e das figueiras onde iriam acampar. As cascas dos troncos eram verdes e amarelas e os ramos pesados. Os macacos tinham comido os figos selvagens e viam-se no chão detritos e figos esmagados. O cheiro era horrível.

Mas as dez e meia deram no seu relógio de pulso quando olhou para ele, sentado à secretária a sentir a brisa marítima, e já era noitinha e ele estava sentado contra a base amarelo-acinzentada de uma árvore com um copo de uísque e água na mão e a ver os carregadores esquartejarem o kongoní que ele matara a tiro no primeiro campo de erva por onde tinham passado antes de chegarem ao rio.

«Vou dar-lhe carne», pensou, «e assim vai ser uma boa noite e não importa o que possa acontecer depois.» Guardou os lápis e os blocos, fechou a pasta e caminhou sobre as pedras agora quentes e secas até ao pátio do hotel.

A rapariga estava sentada a uma das mesas a ler um livro. Vestia uma camisa de pescador às riscas, saia de ténis e alpercatas e quando o viu ergueu a cabeça e David pensou que ela ia corar e ela deve ter-se apercebido e disse:

- Bom dia, David. Trabalhaste bem?

- Sim, minha beleza - respondeu ele. Ela levantou-se e beijou-o e disse:

- Então, estou muito feliz. Catherine foi a Cannes. Disse-me para te levar a nadar.

- Não quis que fosses com ela à cidade?

- Não. Quis que eu ficasse. Disse que te tinhas levantado muito cedo para trabalhar e que talvez te sentisses só quando acabasses. Posso mandar vir o pequeno-almoço. Não devias passar sem ele.

A rapariga foi até à cozinha e voltou com oeufi auplatavecjambon e mostarda inglesa e Savora.

- Foi difícil hoje? - perguntou ela.

- Não - disse ele. - É sempre difícil mas também é fácil. Correu muito bem.

- Quem me dera ajudar. Mas posso ajudar noutras coisas, não posso

Ele começou a dizer que não havia outras coisas mas interrom-peu-se e disse:

- Podes e ajudas. Limpou com um bocado de pão o resto de ovo e mostarda e bebeu um pouco de chá.

- Dormiste bem? - perguntou.

Muito bem - disse a rapariga. - Espero que isto não seja desleal Não. É inteligente.

- Não podemos parar de ser tão educados? - perguntou a rapariga. - Estava tudo tão bem até agora.

- Sim, vamos parar, Vamos parar até com aquele disparate «não posso, David».

- Está bem - disse ela, levantando-se.

- Se quiseres ir nadar estou no quarto. Ele levantou-se.

- Por favor, não te vás embora - disse. - Já deixei de ser pateta.

- Por mim, não deixas - disse ela. - Oh, David, como podemos meter-nos numa coisa destas? Pobre David. O que as mulheres te fazem!

Ela acariciou-lhe a cabeça e sorriu.

- Vou buscar as coisas. Se queres ir nadar.

-Óptimo - disse ele. - Eu vou calçar as alpercatas.

Deitaram-se na areia sobre os roupões e toalhas que David estendera à sombra de uma rocha encarnada e a rapariga disse:

- Vai tu nadar e depois vou eu. Ele ergueu-se cuidadosamente, foi até ao mar e mergulhou onde a água estava fria e nadou para longe. Quando voltou à superfície, nadou contra a brisa e depois para junto da rapariga, que tinha a água pela cintura, a cabeça negra molhada, o corpo castanho a pingar. Abraçou-a e as ondas levaram-nos.

Beijaram-se e ela disse:

- Tudo de nós foi levado pelo mar.

- Temos de voltar.

- Vamos mergulhar mais uma vez abraçados.

Quando regressaram ao hotel, Catherine ainda não tinha chegado e, depois de tomarem banho e mudarem de roupa, David e Marita sentaram-se no bar com dois Martinis. Olharam um para o outro pelo espelho. Observaram-se atentamente e David passou o dedo sob o nariz enquanto olhava para ela e ela sorriu.

- Quero ter mais coisas destas - disse ela. - Coisas que só nós temos e por isso não precisarei de ter ciúmes.

- Se fosse a ti não punha muitas âncoras - disse ele. - Podes enredar as amarras.

- Farei coisas que te prendam.

- És uma Herdeira muito prática - disse ele.

- Quem me dera mudar esse nome. Tu, não?

- Os nomes têm que ver com as pessoas - disse ele.

- Então, vamos mudar o meu - disse ela. - Importas-te?

- Não... Haya.

- Diz novamente, por favor.

- Haya.

- É bom?

- Muito bom. É um nome só para nós. Para mais ninguém.

- Que quer dizer Haya?

- Aquela que cora. A que é modesta. Ele abraçou-a e ela apertou-se bem contra ele, pousando a cabeça sobre o ombro.

- Beija-me - disse ela. Catherine entrou na sala, despenteada, excitada e cheia de alegria.

- Levaste-o a nadar - disse. - Vocês os dois estão com bom aspecto, ainda que molhados do duche. Deixem-me olhar-vos.

- Deixa-me olhar-te - disse a rapariga. - Que fizeste ao cabelo?

- E cendre - disse Catherine. - Gostas? É uma tinta que o Jean está a experimentar.

- É lindo - disse a rapariga.

O cabelo de Catherine tinha uma cor estranha e sobressaía contra o seu rosto moreno. Agarrou na bebida de Marita, provou-a e, observando-se ao espelho, disse:

- Divertiram-se a nadar?

- Demos umas boas braçadas - disse a rapariga. - Mas não demorámos tanto como ontem.

- Que bebida boa, David - disse Catherine. - Por que é que os Martinis que preparas são melhores que os outros?

- É do gim - disse David.

- Preparas-me um, por favor?

- Agora não tomas nada, Demónio. Vamos almoçar.

- Tomo, sim - disse ela. - E depois do almoço vou dormir. É que tu não tiveste que passar por colorações e colorações. É cansativo.

- Afinal, de que cor é agora o teu cabelo? - perguntou David.

- É quase branco - disse ela. - Vais gostar. Quero manter esta cor para ver quanto tempo vai durar. É muito branco? - perguntou David.

- É como bolhas de sabão - disse ela. - Lembras-te?

À tarde, Catherine estava completamente diferente. Estava sentada no banco do bar quando eles regressaram da praia. A rapariga foi ao quarto e David entrou na sala e perguntou:

- Que fizeste agora, Demónio?

- Lavei esta porcaria toda - disse ela. - Deixava nódoas cinzentas na almofada.

- És muito bonita - disse ele. - Mas gostava que nunca tivesses tocado no cabelo.

- Agora é demasiado tarde. Posso dizer-te uma coisa?

- Claro.

- Amanhã não vou beber e vou estudar espanhol e voltar a ler e deixar de pensar só em mim.

- Meu Deus - disse David. - Que dia! Deixa-me arranjar uma bebida e mudar de roupa.

- Espero aqui - disse Catherine. - Veste aquela camisa azul-escura, está bem? Aquela que é igual à minha.

 

David tomou banho e mudou de roupa e quando regressou as duas raparigas estavam juntas no bar e ele desejou ter um quadro pintado com elas.

- Estive a falar à Herdeira sobre os meus novos propósitos disse Catherine. - Daquela folha que acabei de virar e de como eu quero que tu também a ames e cases com ela se ela quiser.

- Podíamos ir para África se eu estivesse registado como maometano. Lá pode-se ter três mulheres.

- Acho que seria muito mais agradável se fôssemos todos casados - disse Catherine. - Assim, ninguém nos criticaria. Queres casar com ele, Herdeira?

- Sim - disse a rapariga.

- Estou tão contente - disse Catherine.

- As coisas que me preocupavam são agora tão simples.

- Queres mesmo? - perguntou David.

- Sim - disse ela. - Pede-me. David olhou para ela.

Estava muito séria e excitada. Pensou no rosto dela com os olhos fechados sob o sol e a cabeça morena contra a brancura do roupão turco sobre a areia amarela, quando, por fim, tinham feito amor.

- Eu peço-te - disse ele -, mas não no raio do bar.

- Isto não é um raio de um bar - disse Catherine. - E é o nosso bar e até comprámos um espelho. Quem me dera poder casar contigo esta noite.

- Não digas disparates - disse David.

- Não estou a dizer - respondeu Catherine. - Falei a sério.

- Queres uma bebida? - perguntou David.

- Não - disse Catherine. - Quero primeiro esclarecer as coisas. Olhem para mim.

A rapariga baixou os olhos e David olhou para Catherine.

- Estive a pensar durante a tarde - disse ela. - A sério. Não te falei nisso, Marita?

- Ela falou - disse a rapariga.

David viu que ela estava a falar a sério e que tinham chegado a um entendimento que ele desconhecia.

- Ainda sou a tua mulher - disse Catherine. - Começaremos por nós. Quero também que Marita seja tua mulher para me ajudar e para depois herdar de mim.

- Por que razão ela tem que herdar?

- As pessoas fazem testamentos - disse ela. - E isto é mais importante que um testamento.

- Que pensas tu? - perguntou David à rapariga.

- Eu quero se tu me ajudares.

- Óptimo - disse ele. - Importam-se que eu tome uma bebida?

- Por favor - disse Catherine. - Não quero estragar-te a vida só porque sou maluca e incapaz de decidir. Também não me vou calar. Ela ama-te e tu ama-la um bocadinho. Posso ver isso. Nunca encontrarás ninguém como ela e eu não quero que procures nenhuma puta nem te sintas só.

Anda lá, anima-te - disse David. - És saudável como uma cabra.

- Bem, vamos fazê-lo - disse Catherine. - Vamos resolver tudo.

 

O sol brilhava agora no quarto e era um novo dia. «É melhor ires trabalhar», disse para consigo. «Não podes alterar nada. Só uma pessoa pode alterar a situação e ela não pode saber como acordará ou se lá estará quando acordar. Como te sentes, não interessa. É melhor ires trabalhar. Tens que conseguir fazer sentido nisso, já que não fazes em mais nenhuma coisa. Nada te ajudará. Nem te ajudaria desde que tudo começou.»

Quando finalmente regressou à história, o Sol já ia alto e já se tinha esquecido das duas raparigas. Tinha sido necessário pensar no que o pai teria pensado ali sentado, com as costas contra o tronco amarelo-esverdeado da figueira e uma caneca com uísque e água na mão. O pai lidara tão ao de leve com o mal, não lhe dando qualquer hipótese e negando-lhe qualquer importância, de forma que não possuía qualquer estatuto, forma ou dignidade. Tratava o mal como um velho amigo, pensou David, e o mal, mesmo quando vencia, ignorava-o. Sabia que o pai não era invulnerável e, ao contrário da maior parte das pessoas que conhecera, só a morte o podia matar. Por fim, soube o que o pai pensara e, sabendo-o, não o pôs na história. Só escreveu o que o pai fizera e como se sentira e no meio de tudo isto tornou-se no pai e o que o pai dissera a Molo foi o que ele disse. Dormiu bem no chão sob a árvore e acordou e ouviu o leopardo rugir. Mais tarde não ouviu o leopardo no acampamento mas sabia que ele lá estava e voltou a adormecer. O leopardo andava atrás de carne e como havia muita não constituía problema. De manhã, antes do romper do dia, sentado junto às cinzas do fogo, a beber chá pela caneca de latão, perguntara a Molo se o leopardo levara carne e Molo dissera: «Ndiyi». E ele dissera: «Há muita no sítio para onde vamos». «Acorda-os para começarmos a trepar.» Já era o segundo dia em que seguiam através do bosque por cima da escarpa, quando ele finalmente parou e se sentiu feliz com a paisagem, com o dia e com a distância que já tinham percorrido. Tinha a capacidade do pai para esquecer e não recear nada do que estivesse para vir. Quando parara tinha mais um dia e mais uma noite à frente naquela nova região e vivera dois dias e uma noite naquele dia. Agora que saíra daquele sítio, o pai estava com ele mesmo quando fechou a porta e voltou ao salão e ao bar. Disse ao criado que não queria pequeno-almoço e que lhe trouxesse um uísque e Perrier e o jornal da manhã. Já passava do meio-dia e tencionava levar a Cannes o velho Isotta para reparar, mas sabia que as garagens estavam fechadas e já era muito tarde. Em vez disso, deixou-se ficar no bar porque lá é que teria encontrado o pai àquela hora, e, tendo regressado da montanha, sentia a sua falta. Cá fora, o céu estava muito parecido com o céu de onde ele viera. Era bem azul e as nuvens brancas e aceitou bem a presença do pai no bar até que olhou para o espelho e viu que estava sozinho. Tencionara fazer duas perguntas ao pai. O pai, que orientara a sua vida mais desastrosamente do que qualquer homem que ele já conhecera, dava óptimos conselhos. Retirava-os de erros já cometidos, com a frescura adicional de novos erros que estava para cometer, e dava-os com o rigor e precisão que caracterizavam a autoridade de um homem que já ouvira as piores provisões da sua sentença, sem, no entanto, lhes dar mais importância do que a um bilhete de barco. Teve pena que o pai não tivesse ficado, mas ouviu claramente o conselho e sorriu. O pai tê-lo-ia dado com maior exactidão, mas ele, David, parara de escrever porque estava cansado, e cansado não era capaz de fazer justiça ao estilo do pai. Na verdade, ninguém era capaz, e às vezes o pai também não. Sabia agora, melhor que nunca, a razão por que adiara escrever aquela história e sabia que não podia pensar nela, agora que a abandonara, caso contrário prejudicaria a sua capacidade de a escrever.

«Não te deves preocupar antes de começares ou depois de passares», disse para si mesmo. «És um felizardo por a teres e não comeces agora a arranjar problemas. Se não consegues respeitar a forma como conduzes a tua vida, respeita ao menos o teu trabalho. Disso, pelo menos, sabes.» Mas na verdade era uma hipótese horrível. Por Deus, que era. Bebeu o uísque e a água Perrier e olhou, através da porta, para aquele dia de Verão. Estava a arrefecer, como sempre acontecia, e o gigante assassino ajudava. Perguntou-se onde estariam as raparigas. Estavam de novo atrasadas e esperou que, desta vez, não tivesse acontecido nada de mau.

Não era uma personagem trágica, o pai e o facto de ser escritor tinham-no impedido disso, e à medida que acabava o uísque e a água sentia-se ainda menos. Não se lembrava de nenhuma manhã em que não tivesse acordado feliz até que a enormidade do dia o afectara e aceitava agora este dia, tal como aceitara os outros todos. Perdera a capacidade de sofrimento pessoal, ou pensava que a perdera, e só podia sofrer com o que acontecia aos outros. Acreditava nisto, erradamente, claro, uma vez que não sabia como é que as capacidades de cada um se alteram, ou os outros, mas era uma crença confortável. Pensou nas duas raparigas e desejou que elas aparecessem. Estava a ficar demasiado tarde para irem nadar antes do almoço, mas tinha vontade de as ver. Pensou nas duas. Depois foi até ao seu quarto e de Catherine, tomou banho e fez a barba. Estava ainda a fazê-la quando ouviu o ruído do carro e sentiu um súbito vazio. Depois, ouviu as vozes e o riso delas e vestiu uns calções e uma camisa lavada e veio até cá fora ver como paravam as coisas.

Os três tomaram calmamente uma bebida e depois almoçaram um almoço leve mas agradável e beberam Tavel e quando estavam a comer queijo e fruta Catherine perguntou:

- Digo-lhe.

- Se quiseres - respondeu a rapariga. Agarrou no copo de vinho e bebeu parte dele.

- Esqueci-me como se diz - disse Catherine. - Esperámos tempo de mais.

- Não te lembras? - disse a rapariga.

- Não, esqueci-me e era maravilhoso. Tínhamos tudo preparado e era maravilhoso.

David serviu-se de outro copo de Tavel.

- Queres tentar só pelo contentamento factual? - perguntou ele.

- Conheço o contentamento factual - disse Catherine. que ontem fizeste a siesta comigo e depois foste ter com a Marita ao quarto e hoje podes ir logo para lá. Mas já estraguei tudo e agora quem me dera que pudéssemos fazer a siesta juntos.

- A siesta não - ouviu-se David dizer.

- Acho que não - disse Catherine. - Bem, lamento ter dito tudo ao contrário e não pude deixar de dizer o que queria.

No quarto, ele disse para Catherine:

- Ela que vá para o diabo.

- Não, David. Ela queria fazer o que lhe pedi. Talvez te consiga dizer.

- Que se foda!

- Bem, tu já o fizeste - disse ela. - Mas isso não interessa. Vai lá falar com ela, David. E se a quiseres foder, então dá-lhe uma por mim.

- Não sejas ordinária.

- Tu é que costumavas ser. Eu só paguei da mesma moeda.

- Está bem - disse David. - Que tem ela para me dizer?

- O meu discurso - disse Catherine. - Aquele que esqueci. Não me olhes tão sério, ou não te deixo ir. És terrivelmente atraente quando estás sério. É melhor ires antes que ela se esqueça do discurso.

- Para o diabo contigo, também.

- Isso é bom. Agora estás a reagir melhor. Gosto de ti quando estás mais distraído. Dá-me um beijo de adeus. Quer dizer, de boa tarde. É melhor ires antes que ela esqueça o discurso. Não vês que sou tão razoável e boazinha?

- Não és razoável nem boazinha.

- Gostas que eu seja dura.

- Claro.

- Queres que te conte um segredo?

- Um novo?

- Um velho.

- Está bem.

- Não és muito difícil de corromper e é muito divertido corromper-te.

- Tu lá sabes.

- Foi só uma brincadeira. Não há corrupção nenhuma. Só nos divertimos. Vai lá para ela te fazer o discurso antes que se esqueça. Vai lá e sê bom rapazinho, David.

No quarto, David, deitado em cima da cama, perguntou:

- Afinal, o que é?

- É o que ela disse ontem à noite - disse a rapariga. - Falou a sério. Nem calculas como ela falou a sério.

- Disseste-lhe que tínhamos feito amor?

- Não.

- Ela sabe.

- Isso importa?

- Pareceu-me que não.

- Bebe um copo de vinho, David, e põe-te à vontade - disse ela. - Não sou indiferente. Espero que o saibas.

- Eu também não sou. Então os seus lábios uniram-se e ele sentiu o corpo dela contra o seu, os seios dela contra o peito e os lábios bem contra os dele, e depois abriram-se, a cabeça dela moveu-se de um lado para o outro e ele sentiu a respiração dela e a fivela do cinto contra a sua barriga.

Estavam deitados na praia e David observava o céu e o movimento das nuvens e não pensava em nada. Pensar não adiantava e quando se deitara pensara que, se não pensassem em nada, então tudo o que estava errado desapareceria. As raparigas conversavam mas ele não as ouvia. Deixou-se estar deitado a admirar o céu de Setembro e quando as raparigas se calaram ele começou a pensar, e sem olhar para a rapariga, perguntou:

- Em que estás a pensar?

- Em nada - disse ela.

- Pergunta-me a mim - disse Catherine.

- Sei no que estás a pensar.

- Não sabes, não. Estava a pensar no Prado. --já lá estiveste? - perguntou David à rapariga.

- Ainda não - disse ela.

- Havemos de lá ir - disse Catherine.

- Quando podemos ir, David?

- Em qualquer altura - disse David. - Primeiro, quero acabar a história.

- Vais trabalhar muito na história?

- É o que tenho estado a fazer. Não posso trabalhar ainda mais.

- Não estava a dizer para a apressares.

- Nem apresso - disse ele. - Se vocês estão aborrecidas, vão à frente que eu vou lá ter.

- Não quero fazer isso - disse Marita.

- Não sejas pateta - disse Catherine. - Ele está a ser nobre.

- Não. Podem ir.

- Sem ti, não tinha piada nenhuma - disse Catherine. - Sabe-lo bem. Nós as duas em Espanha não nos divertiríamos.

- Ele está a trabalhar, Catherine - disse Marita.

- Podia trabalhar em Espanha - disse Catherine. - Muitos escritores espanhóis devem ter trabalhado em Espanha. Aposto que escreveria bem em Espanha se fosse escritora.

- Posso escrever em Espanha - disse David. - Quando querem ir?

- Raios te partam, Catherine - disse Marita. - Ele está a meio de uma história.

- Está a escrevê-la já há mais de seis semanas - disse Catherine. - Por que razão não podemos ir para Madrid?

- Eu disse que podíamos - disse David.

- Não te atrevas - disse a rapariga para Catherine. - Não atrevas a fazer isso. Não tens consciência?

- Tu és a pessoa indicada para falar de consciência - disse Catherine.

- Em relação a algumas coisas tenho consciência.

- Óptimo. Fico muito feliz por saber. Agora queres ser educada e não interferir quando alguém está a tentar resolver as coisas pelo melhor?

- Vou nadar - disse David. A rapariga levantou-se e seguiu-o e quando já estavam dentro de água disse:

- Ela é maluca.

- Então, não a culpes.

- Mas que vais fazer? - Acabar a história e começar outra.

- E então tu e eu que fazemos?

- O que pudermos.

 

Ele acabou a história em quatro dias. Pôs nela toda a pressão que acumulara enquanto escrevia e o seu lado modesto receava que não fosse tão boa quanto ele pensava ser. O lado frio e calculista sabia que era melhor.

- Como correu hoje? - perguntou a rapariga.

- Acabei.

- Posso ler?

- Se quiseres.

- Não te importas?

- Está nos dois cadernos dentro da pasta. Ele deu-lhe a chave e sentou-se no bar a beber uísque e Perrier e a ler o jornal da manhã. Ela regressou e sentou-se num banco um pouco afastado dele a ler a história.

Quando acabou, recomeçou a ler e ele serviu-se de um segundo uísque com soda e observou-a. Quando ela acabou de ler pela segunda vez, ele perguntou:

- Gostaste?

- Não é coisa de que se goste ou não - disse ela. - É o teu pai que aparece nela?

- Sim.

- Isto foi quando deixaste de o amar?

- Não. Sempre o amei. Isso foi quando o passei a conhecer.

- É uma história terrível e maravilhosa.

- Ainda bem que gostaste - disse ele.

- Vou lá pô-la agora - disse ela. - Gosto de ir ao quarto quando a porta está fechada.

- Temos isso - disse David.

Quando voltaram da praia encontraram Catherine no jardim.

- Então, voltaram - disse ela.

- Sim - disse David. - Demos umas boas braçadas. Gostava que lá tivesses estado.

- Pois bem, não estive - disse ela. - Se é que isso interessa a algum de vocês.

- Onde foste? - perguntou David.

- Fui a Cannes tratar de uns assuntos meus - disse ela. Vêm ambos atrasados para o almoço.

- Desculpa - disse David. - Queres tomar alguma coisa

antes do almoço?

- Desculpa-me, Catherine - disse Marita. - Volto já.

- Ainda bebes antes do almoço? - perguntou Catherine a David.

- Sim - disse ele. - Acho que não tem importância, quando se faz muito exercício.

- Havia um copo de uísque vazio no bar quando entrei.

- Sim - disse David. - Na verdade, bebi dois uísques.

- Na verdade? - imitou ela. - Estás muito britânico hoje.

- A sério? - disse ele. - Não me senti muito britânico. Senti-me até meio taitiano.

- É a tua forma de falar que me irrita - disse ela. - A tua escolha de palavras.

- Percebo - disse ele. - Queres entornar algum antes de trazerem a comida?

- Não precisas de ser um palhaço.

- Os melhores palhaços não falam - disse ele.

- Ninguém te acusou de seres o melhor dos palhaços - disse ela. - Sim. Quero uma bebida se isso não for muito trabalhoso.

Ele preparou três Martinis, medindo-os separadamente e colocando-os no misturador, onde havia gelo, e depois agitando-o.

- Para quem é a terceira bebida?

- Para a Marita.

- O teu paraamor?

- O meu quê?

- Paraamor.

- Disseste-a mesmo - disse David. - Nunca tinha ouvido pronunciar essa palavra e já não tinha esperança de a ouvir nesta vida. Es mesmo uma maravilha.

- É uma palavra perfeitamente vulgar.

- Isso é - disse David. - Mas tens a coragem nua e crua de a utilizar em conversa... Demónio, porta-te bem agora. Não podias ter dito «o teu crepuscular amor»?

Catherine desviou os olhos enquanto erguia o copo.

- E eu que costumava achar divertido este tipo de conversa - disse ela.

- Queres tentar ser decente? - perguntou David. - Vamos ser os dois decentes?

- Não - disse ela. - Aí vem a tua qualquer coisa, tão querida e inocente como sempre. Devo dizer que me sinto satisfeita por a ter tido antes de ti. Querida Marita, diz-me, o David hoje trabalhou antes de começar a beber?

- Trabalhaste, David? - perguntou Marita.

- Acabei uma história - disse David.

- E suponho que a Marita já a terá lido.

- Sim. Leu.

- Sabes, nunca li nenhuma história de David. Nunca interfiro. Só tentei tornar-lhe economicamente possível fazer o melhor trabalho de que for capaz.

 

David bebeu um trago e olhou para ela. Era a mesma maravilhosa rapariga morena de sempre e o cabelo branco-mármore era como uma cicatriz na testa. Só os olhos tinham mudado e os lábios diziam coisas que eram incapazes de dizer.

- Achei a história muito boa - disse Marita. - Estranha e, como se diz, pastoral. Depois, tornou-se terrível de uma forma que não consigo explicar. Acho que é magnifique.

- Bem... - disse Catherine. - Todos falamos francês, sabes? Podias ter tido todo esse desabafo emocional em francês.

- Fiquei muito comovida com a história - disse Marita.

- Por que foi o David que a escreveu ou porque tinha qualidade?

- Pelas duas coisas - disse a rapariga.

- Bem - disse Catherine -, há alguma razão para que eu não possa ler essa história tão extraordinária? Entrei com dinheiro para ela.

- Fizeste o quê? - perguntou David. - Talvez não seja exactamente assim. Tu tinhas mil e quinhentos dólares quando casaste comigo e esse livro sobre os aviadores loucos tem-se vendido, não tem? Nunca me disseste quanto. Mas eu avancei com uma quantia substancial e temos que admitir que tens vivido mais confortavelmente agora do que antes de casares comigo.

A rapariga não disse nada e David pôs-se a observar o criado a pôr a mesa no terraço. Olhou para o relógio. Faltavam vinte minutos para a hora a que habitualmente almoçavam.

- Gostava de me ir arranjar, se não se importam - disse ele.

- Não sejas tão estupidamente educado - disse Catherine.

- Por que razão não posso ler a história?

- Está escrita a lápis. Nem sequer foi ainda copiada. Não a vais querer ler assim.

- A Marita leu-a.

- Então lê-a depois de almoço.

- Quero lê-la agora, David.

- Eu não a leria antes do almoço.

- Nojenta? uma história sobre África antes da guerra de 1914. Do tempo da guerra Maji-Maji. A rebelião nativa de 1905 no Tanganhica.

- Não sabia que escrevias romances históricos.

- Agradecia que deixasses isso - disse Davíd. - É uma história passada em África quando eu tinha oito anos.

- Quero lê-la.

 

David encontrava-se ao fundo do bar a baralhar dados dentro de um copo de pele. A rapariga estava sentada num banco ao lado de Catherine. Ele observou-a a olhar Catherine enquanto esta lia.

- Começa muito bem - disse ela. - Embora a tua caligrafia seja horrível. A paisagem é soberba. A passagem. Aquilo a que Marita chamou erradamente parte pastoral.

Poisou o primeiro caderno e a rapariga agarrou nele e colocou-o sobre o regaço, o olhar ainda fixo em Catherine.

Catherine continuou a ler sem dizer nada. já ia a meio da segunda parte.

Depois, rasgou o caderno em dois e atirou-o para o chão.

- É horrível - disse. - É animal. Então, o teu pai era assim.

- Não - disse David. - Mas essa é uma das facetas dele. Não acabaste de ler.

- Nada me faria acabar.

- Também nunca quis que a lesses.

- Não. Ambos conspiraram para me obrigar a lê-la.

- Dás-me a chave para os ir guardar, David? - perguntou a rapariga. Apanhara do chão as metades rasgadas do caderno. Estavam só rasgadas ao meio. David deu-lhe a chave.

- Ainda é mais horrível escrito nesse caderno de criança disse Catherine. - És um monstro.

- Foi uma rebelião muito estranha - disse David.

- E tu és uma pessoa muito estranha para escreveres sobre isto disse ela.

- Pedi-te que não lesses a história. Ela começou a chorar.

- Odeio-te - disse.

Encontravam-se no quarto à noite e era tarde.

- Ela vai-se embora e tu internas-me ou mandas-me embora - disse Catherine.

- Não. Não é verdade.

- Mas sugeriste que fôssemos para a Suíça.

- Se estiveres preocupada podemos consultar um bom médico. Da mesma forma que iríamos ao dentista.

- Não. Eles internavam-me, sei bem. Aquilo que é inocente para nós é loucura para eles. Conheço muito bem esses sítios,

- É um passeio fácil e maravilhoso. íamos por Aix e St. Remy, até ao Ródano, e depois de Lião para Genebra. Consultávamos o médico, trazíamos bons conselhos e ainda nos divertíamos.

- Não vou.

- Um médico inteligente que...

- Não vou. Não me ouviste? Não vou. Não vou. Queres que comece a gritar?

- Está bem. Não penses nisso agora. Tenta dormir.

- Só se não tiver que ir.

- Não temos que ir.

- Então, vou dormir. Vais trabalhar amanhã de manhã?

- Sim. Acho que vou.

- Vais trabalhar bem - disse ela. - Sei que vais. Boa noite, David. Dorme bem.

Ele levou bastante tempo a adormecer e, quando por fim caiu no sono, sonhou com África. Foram sonhos bons até àquele que o acordou. Levantou-se e passou directamente do sonho para o trabalho. Já estava bem enfronhado na história antes de o Sol romper no mar e não ergueu os olhos para ver como estava vermelho. Na história encontrava-se à espera que a Lua nascesse e sentiu o pêlo do cão eriçar-se sob a sua mão enquanto o acariciava para o acalmar e depois ficaram ambos à escuta, enquanto a Lua subia e lhes dava sombras. Tinha agora o braço à volta do pescoço do cão e sentia-o tremer. Todos os sons da noite tinham parado. Não ouviram o elefante e David não o viu até que o cão voltou a cabeça e pareceu saltar para o colo de David. Depois a sombra do elefante cobriu-os e ele moveu-se sem fazer barulho e sentiram-lhe o cheiro por entre a brisa que vinha da montanha. Tinha um cheiro muito forte, velho e acre e, quando passou, David viu que o dente esquerdo era tão grande que parecia chegar ao chão. Aguardaram, mas não apareceram mais elefantes, e então David e o cão começaram a correr ao luar. O cão seguia junto a ele e, quando David parou, o cão encostou o focinho contra o joelho dele. David avistou novamente o animal e alcançaram-no ao fundo da floresta. Dirigia-se para a montanha, movendo-se lentamente no meio da brisa nocturna. Teve medo de se aproximar mais com o cão e puxou-o para junto de uma árvore, tentando fazê-lo entender. Pensou que o cão ia ficar quieto, e ficou, mas quando David se dirigiu para o elefante sentiu-lhe novamente o focinho contra os joelhos.

Os dois seguiram o elefante até que este chegou a uma clareira. Ali ficou movendo as orelhas enormes. Tinha o corpo na sombra mas a Lua iluminava-lhe a cabeça. David rodeou delicadamente com a mão o focinho do cão e depois moveu-se para a direita sustendo a respiração e sentindo no rosto a brisa nocturna, até que viu a cabeça do elefante e as orelhas enormes movendo-se lentamente. O dente direito era tão grosso como a perna e curvava-se quase até ao chão.

Ele e o cão recuaram, o vento a dar-lhe agora no pescoço, e saíram da floresta para a clareira. O cão seguia à frente dele e deteve-se onde David deixara duas lanças de caça quando tinham seguido o elefante. Colocou-as sobre o ombro, enfiadas em protecções de couro, e, com a melhor lança que conservara todo o tempo na mão, começaram a subir o trilho para a shamba. A Lua ia alta e perguntou-se por que razão não se ouviam os tambores da shamba. Era estranho que o seu pai se encontrasse lá e não se ouvissem os tambores.

 

Estavam deitados sobre a areia firme da mais pequena das três praias para onde iam sempre que estavam sozinhos e a rapariga disse:

- Ela não vai para a Suíça.

- Também não devia ir para Madrid. Espanha é um mau sítio para uma depressão.

- Sinto-me como se tivéssemos sido sempre casados e não tivesse havido nada senão problemas.

Ela afastou-lhe o cabelo da testa e beijou-o.

- Queres nadar, agora?

- Sim. Vamos mergulhar do penhasco. Daquele alto.

- Vai tu - disse ela. - Eu nado até lá e tu mergulhas sobre a minha cabeça.

- Está bem. Mas mantém-te quieta quando eu mergulhar.

- Põe-te o mais perto possível. Erguendo os olhos, ela viu-o colocar-se sobre a rocha e arquear o corpo bronzeado contra o céu azul. Depois, ele mergulhou na direcção dela e a água esguichou de um buraco por detrás do ombro dela. Ele virou-se debaixo de água, apareceu à frente dela e abanou a cabeça.

- Vim muito a direito - disse. Nadaram e depois voltaram para trás e secaram-se um ao outro e vestiram-se na praia.

- Gostaste que eu mergulhasse tão perto?

- Adorei. Ele beijou-a e ela sentiu-se fresca e ainda sabia a mar.

Catherine apareceu quando ainda estavam sentados no bar. Estava cansada, calma, e falou educadamente.

À mesa, disse:

- Fui até Nice e depois parei sobre Villefranche e fiquei a ver um cruzador de guerra e quando dei conta era tarde.

- Não chegaste muito tarde - disse Marita.

- Mas foi muito estranho - disse Catherine. - As cores eram todas muito brilhantes. Até os cinzentos eram. As oliveiras reluziam.

- Isso é da luz do meio-dia - disse David.

- Não. Acho que não é - disse ela. - Não foi muito agradável mas foi maravilhoso quando parei para ver o navio. Não parecia um barco de guerra. _ Por favor, come um pouco de carne - disse David. - Não comeste praticamente nada.

- Desculpa - disse ela. - É bom. Gosto de tornedós.

- Preferes outra coisa em vez de carne?

- Não. Como a salada. Achas que podíamos beber uma garrafa de Perrier-Jouet?

- Claro que sim.

- Foi sempre um vinho tão bom - disse ela. - E sentimo-nos sempre tão felizes, depois de o bebermos.

Mais tarde, no quarto, Catherine disse:

- Não te preocupes, David. Tudo se precipitou ultimamente.

- Como? - perguntou ele, acariciando-lhe a testa.

- Não sei. De repente, senti-me velha esta manhã e nem sequer era essa a altura do ano. As cores começaram a ser falsas. Fiquei preocupada e quis que tivesses alguém para tomar conta de ti.

- Tu tomas muito bem conta de toda a gente.

- É o que vou fazer, mas estava tão cansada e não havia tempo e eu sabia que seria humilhante se o dinheiro acabasse e tivesses que pedir emprestado, e eu não tinha tratado de nada nem assinado nada. Depois preocupei-me com o teu cão.

- O meu cão? sim, o teu cão em África, o da história. Fui ao quarto ver se precisavas de alguma coisa e li a história. Enquanto tu e a Marita conversavam no outro quarto. Não ouvi. Deixaste as chaves no bolso dos calções que despiste.

- Ainda vai a meio - disse ele. É maravilhosa - disse ela. - Mas assustas-me. O elefante era tão estranho e o teu pai também. Nunca gostei dele e gosto mais do cão que qualquer outra pessoa, excepto tu, David, e estou tão preocupada com ele.

- Era um óptimo cão. Mas agora está na shamba e não precisas de te preocupar com ele.

- Se ele está bem, não continuo a ler até voltares a falar dele. Kibo. Tinha um lindo nome.

- É o nome de uma montanha. A outra parte chama-se Mawenzi.

- Tu e Kibo. Amo-vos tanto. São tão parecidos.

- Estás a sentir-te melhor, Demónio.

- Provavelmente - disse Catherine. - Espero que sim. Mas não vai durar muito. Quando conduzia hoje, senti-me muito feliz e de repente envelheci e já não me importava com nada.

- Não és velha.

- Sim, sou. Sou mais velha que os trapos mais velhos da minha mãe e não vou sobreviver ao teu cão. Nem sequer numa história.

 

David acabara de escrever e sentia-se vazio por ter ultrapassado em muito o ponto onde deveria ter parado. Achava que não tinha importância naquele dia porque era a parte de exaustão da história e por isso tinha sentido o cansaço logo que tinham retomado o caminho. Durante muito tempo sentira-se mais fresco e em melhor forma que os outros dois homens e impaciente devido à lentidão com que caminhavam e às pausas que o seu pai fazia de hora a hora. Poderia ter ultrapassado Juma e o pai, mas quando começara a cansar-se eles estavam na mesma e ao meio-dia só tiraram os habituais cinco minutos de descanso e verificara que Juma acelerara ligeiramente o passo. E daí, talvez não. Talvez só o tivesse parecido, mas os excrementos estavam frescos, embora não quentes ao tacto. juma passou-lhe a espingarda depois de terem chegado ao último monte de excrementos, mas passada uma hora olhou para ele e retirou-a. Tinham subido a encosta de uma montanha, mas agora o trilho descia e por entre uma brecha da floresta avistou a paisagem à frente.

- É aqui que começa a parte mais difícil, Davey - disse-lhe o pai.

Foi então que ele soube que deveria ser mandado de volta à shamba depois de os ter encaminhado. Juma sabia-o há muito tempo. O pai tinha sabido naquele momento e não havia nada a fazer. Fora outro dos seus erros e agora não havia nada a fazer senão arriscar. David olhou para a pegada circular do elefante e viu onde os fetos tinham sido pisados e onde se encontrava um ramo em flor partido. Juma apanhou-o e examinou-o à luz do Sol. Juma entregou o ramo quebrado ao pai de David, que o enrolou entre os dedos. David reparou nas flores brancas, que estavam murchas e sem vida. Mas não tinham ainda secado ao sol nem deixado cair as pétalas.

- Vai ser muito difícil - disse o pai. - Continuemos. Ao fim da tarde continuavam a caminhar. Sentira-se bastante sonolento e, enquanto observava os dois homens, sabia que a sonolência era o seu verdadeiro inimigo e seguiu-lhes os passos e tentou combater o sono que se apoderara dele. Os dois homens revezavam-se de hora a hora e o que ia em segundo lugar olhava para trás a intervalos regulares para se certificar de que ele os seguia. Quando à noitinha acamparam na floresta, adormeceu logo que se sentou e acordou com juma a segurar-lhe os sapatos e a procurar bolhas nos seus pés descalços. O pai cobrira-o com o casaco e estava sentado ao seu lado com um pedaço de carne cozida e dois biscoitos na mão. Entregou-lhe uma garrafa com chá frio.

- Ele vai ter que se alimentar, Davey - disse-lhe o pai. - Os teus pés estão em boa forma, tão bons como os de Juma. Come isto devagar, bebe um pouco de chá e dorme. Não há problema.

- Desculpem ter tanto sono.

- Tu e Kibo caçaram e andaram toda a noite. Por que razão não havias de te sentir sonolento? Podes comer mais um pouco de carne se quiseres.

- Não tenho fome.

- Óptimo. Temos condições para mais três dias. Amanhã, chegaremos novamente à água. Há muitas nascentes que vêm da montanha.

- Para onde se dirige ele?

- Juma pensa que sabe.

- É mau?

- Não é muito mau, Davey.

- Vou dormir - dissera David. - Não preciso do seu casaco.

- Juma e eu estamos bem - dissera-lhe o pai. - Sabes, consigo sempre dormir aquecido.

David adormecera antes de o pai ter tempo de dizer boa noite. Acordou uma vez com o luar a bater-lhe no rosto e pensou no elefante, com as enormes orelhas a abanar, na floresta, a cabeça baixa devido ao peso dos dentes. David pensou então à noite que a exaustão que sentia quando se lembrara dele se devia ao facto de acordar com fome. Mas não era e constatou-o nos três dias que se seguiram.

Na história, novamente tentara dar vida ao elefante, quando ele e Kibo o tinham visto à noite, quando a Lua nascera. «Talvez consiga», pensou David, «talvez consiga», mas, quando deu por encerrado o dia de trabalho e saiu do quarto e fechou a porta disse para si próprio: «Não, não consegues fazê-lo. O elefante era velho e se não fosse o teu pai teria sido outra pessoa. Não podes escrever nada, excepto contar como foi. Por isso, deves escrever melhor cada dia e utilizar o desgosto que agora sentes para te fazer saber a sua origem. E deves lembrar-te sempre das coisas em que acreditaste porque se as souberes elas estarão presentes na tua escrita e não as trairás. A escrita é o único progresso que fazes».

Foi atrás do bar, retirou a garrafa de Haig e meia garrafa de Perrier gelada, preparou uma bebida e foi até à cozinha à procura de Madame. Disse-lhe que ia a Cannes e que não estaria de volta para almoçar. Ela ralhou-lhe por beber uísque com o estômago vazio e ele perguntou-lhe se tinha alguma comida fria que pudesse meter no estômago para acompanhar o uísque. Ela trouxe galinha fria que colocou num prato e fez salada de endivas e ele foi até ao bar preparar outra bebida e quando voltou sentou-se à mesa da cozinha.

- Não beba isso antes de comer, Monsieur - disse Madame.

- Faz-me bem - respondeu ele. - Na guerra, bebíamo-lo como vinho, lá na messe.

- É de admirar que não tenham todos dado em bêbedos. Como os franceses - disse ele e ficaram a discutir os hábitos alcoólicos da classe trabalhadora e concordaram os dois e ela arreliou-o dizendo que as suas mulheres o tinham abandonado. Ele disse que estava cansado de ambas, e não queria ela substituí-las? Não, disse ela, ele teria que mostrar mais provas da sua masculinidade até conseguir excitar uma mulher do Midi. Ele disse que ia a Cannes, onde conseguiria comer uma refeição decente e que voltaria como um leão e deixaria as mulheres do Sul a tomarem conta.

Beijaram-se afectuosamente com o beijo do cliente preferido e da corajosa femme e depois David foi tomar banho, barbear-se e mudar de roupa.

O duche fê-lo sentir-se bem e ficou mais animado depois de ter falado com Madame. «Que diria ela se soubesse o que se passa?», pensou ele. As coisas tinham mudado desde a guerra e tanto.

Monsieur como Madame tinham a noção do estilo e gostavam de acompanhar a evolução. «Nós, os três clientes, somos de gens três bien. Enquanto isso compensar e não for violento, não tem nada de mal. Os russos já se foram, os ingleses começaram a ficar pobres, os alemães estão arruinados, e agora há este desrespeito em relação às regras estabelecidas que pode muito bem ser a salvação de toda a costa. Somos pioneiros da abertura da época de Verão, o que é ainda considerado uma loucura.»

Examinou o rosto, com uma das faces barbeada. assim, disse para si mesmo: «Não precisas de levar tão longe o teu pioneirismo e não barbear o outro lado». E então reparou com desgosto crítico na brancura quase prateada do seu cabelo.

Ouviu o Bugatti subir a encosta, dar a curva e parar. Catherine entrou no quarto. Trazia um lenço sobre a cabeça e óculos de sol. Retirou-os e beijou David. Ele abraçou-a e perguntou:

- Como estás?

- Não muito bem - disse ela. - Estava muito calor. - Sorriu-lhe e poisou a testa sobre o ombro dele. - Estou contente por estar em casa.

 

Ele saiu para preparar um Tom Collins e trouxe-lho quando ela acabava de tomar um duche frio. Agarrou no copo comprido e frio, bebeu um trago e depois encostou-o à pele macia e escura de barriga. Levou o copo aos bicos de cada seio, que se tornaram erectos, bebeu um trago longo e voltou a encostar o copo frio à barriga maravilhoso - disse. Ele beijou-a e ela disse:

- Oh, é bom, já me tinha esquecido. Não vejo razão para desistir disso. Tu vês?

- Não.

- Pois - disse ela. - Não te vou entregar prematuramente a outra pessoa. Foi uma ideia parva.

- Veste-te e vamos sair - disse David.

- Não. Quero divertír-me contigo como nos velhos tempos.

- Como?

- Tu sabes. Fazer-te feliz.

- Feliz, como?

- Assim.

- Tem cuidado - disse ele.

- Por favor.

- Está bem, se assim o queres.

- Igual ao que foi em Grau du Roi, da primeira vez que aconteceu?

- Se quiseres.

- Obrigado por concordares desta vez, porque...

- Não fales.

- É como em Grau du Roi, mas é melhor porque é de dia e amamo-nos mais porque eu me tinha ido embora. Por favor, devagar, devagar, devagar.

- Sim, devagar.

- TU...?

- Sim?

- A sério?

- Se quiseres.

- Oh, eu quero tanto e tu és e eu tenho. Por favor, vai devagar e deixa-me guardá-lo.

- Dou-te.

- Sim, tenho-o. Oh, sim, tenho. Por favor, vem-te comigo. Por favor, agora...

Ficaram estendidos sobre os lençóis. Catherine, com a perna bronzeada sobre a dele, tocando-lhe ao de leve com as pontas dos dedos dos pés, apoiou-se sobre os cotovelos, afastou a boca da dele e perguntou:

- Estás satisfeito por me teres de novo?

- Tu - disse ele. - Tu voltaste.

- Não pensaste que eu voltava. Ontem, tudo tinha acabado e hoje aqui estou. Sentes-te feliz?

- Sim.

- Lembras-te quando tudo o que eu queria era ser muito escura e agora sou a rapariga branca mais escura do mundo.

- E a mais loura. Pareces marfim. É assim que te vejo e também és macia como marfim.

- Estou tão feliz e quero divertir-me contigo como antigamente. Mas o que é meu é meu. Não te vou entregar a ela como o estava a fazer e ficar sem nada. Isso acabou.

- Não é assim tão claro - disse David. - Mas já estás boa, não estás?

- Estou mesmo - disse Catherine. - Não estou sombria, nem mórbida nem nada.

- És linda e maravilhosa.

- Está tudo maravilhoso e mudado. Vamos fazer por turnos - disse Catherine. - És meu hoje e amanhã. És de Marita nos dois dias a seguir. Meu Deus, estou esfomeada. É a primeira vez, numa semana, que me sinto esfomeada.

Quando David e Catherine regressaram de nadar, ao fim da tarde, foram a Cannes buscar os jornais e depois sentaram-se no café a ler e a conversar antes de regressarem a casa. Depois de terem mudado de roupa, David encontrou Marita a ler, sentada no bar. Reconheceu o livro como o seu. Aquele que ela não tinha lido.

- Foi uma boa natação? - perguntou ela.

- Sim. Nadámos imenso.

- Mergulharam das rochas?

- Não.

- Ainda bem - disse ela. - Como está a Catherine?

- Mais animada.

- Sim. Ela é muito inteligente.

- Como estás tu? Estás bem?

- Muito bem. Estou a ler este livro.

- Como é?

- Só te posso dizer depois de amanhã. Estou a lê-lo muito devagar para durar.

- Que é isso? O pacto?

- Acho que sim. Mas não me preocuparia muito com o livro nem com o que sinto por ti. Não se alterou.

- Está bem - disse David. - Mas senti muito a tua falta esta manhã.

- Depois de amanhã - disse ela. - Não te preocupes.

 

O dia seguinte da história foi muito mau, pois muito antes do meio da manhã ele descobriu que não era só a necessidade do sono que fazia a diferença entre um rapaz e um homem. Durante as primeiras três horas sentiu-se mais fresco que eles e pediu a Juma que lhe deixasse levar a espingarda 303 mas Juma abanou a cabeça. Não sorriu e fora sempre o melhor amigo de David e ensinara-o a caçar.

«Ofereceu-ma ontem», pensou David, «e hoje estou em muito melhor forma que ontem.» Ele também estava; mas por volta das dez horas já sabia que o dia seria mau ou pior que o anterior. Era tão estúpido pensar que conseguia acompanhar o passo do pai como pensar que podia lutar contra ele. Também sabia que não se devia só ao facto de eles serem homens. Eram caçadores profissionais e percebeu nesse momento que essa era a razão por que Juma não desperdiçava sequer um sorriso. Sabiam tudo o que o elefante tinha feito, apontavam os sinais um ao outro sem falar e quando o rasto se tornava imperceptível o pai berrava com Juma. Quando pararam junto de um ribeiro para encherem as garrafas, o pai disse:

- É o último dia, Davey. Depois, quando já tinham entrado na floresta, o rasto do elefante virou para a direita. Viu que o pai e Juma falavam e quando se levantou e se preparava para se lhes reunir viu Juma olhar para trás, para lá de onde tinham vindo, e depois para uma longínqua ilha de pedras.

O Juma sabe para onde vai agora - explicou o pai. Antes, julgava que sabia mas depois deu com isto.

Olhou para trás, para o caminho que tinham percorrido durante o dia.

Para onde ele se dirige é bom, mas vamos ter que subir.

Subiram até ao escurecer e depois acamparam novamente. David matara com a fisga aves selvagens, que faziam parte de um bando que se lhes atravessara no caminho antes do pôr do Sol. As aves tinham poisado, caminhando empertigadas, e, quando a pedra partiu o pescoço de uma delas que começou a cambalear e a bater as asas, a outra ave avançou para dar uma picada e David lançou outra pedra contra o peito da segunda. Quando corria para as apanhar, as outras levantaram voo. Juma olhara para trás e desta vez sorrira e David apanhara os pássaros, quentes e anafados, e passara-lhes as cabeças contra o cabo da faca de caça.

Agora tinham acampado para passar a noite e o pai de David disse:

- Nunca vi esse tipo de francolim voar tão alto. Fizeste bem em apanhar dois.

Juma cozinhou os pássaros num espeto sobre a pequena fogueira. O pai bebeu uísque e água pela tampa do frasco enquanto observavam Juma a cozinhar, Depois Juma deu um peito a cada um, com o coração, e ele comeu os dois pescoços e as pernas.

- Faz uma grande diferença, Davey - disse-lhe o pai. Agora já estamos melhor de mantimentos.

- Ainda vamos muito atrás dele? - perguntou David.

- Por acaso já estamos bastante perto - disse o pai. - Tudo depende de ele continuar a andar quando a Lua subir. Hoje é uma hora mais tarde, duas horas mais tarde que quando o encontrámos.

- Por que é que Juma pensa que sabe para onde ele vai?

- Ele feriu-o e matou o seu askarí aqui perto.

- Quando?

- Ele diz que foi há cinco anos. Isso pode querer dizer qualquer altura. Ele diz que foi quando tu ainda eras um toto.

- E tem andado sozinho desde então?

- Ele diz que sim. Não o viu. Só o ouviu.

- E de que tamanho é que ele diz que é?

- Perto de duzentos. Maior que tudo o que já viu. Ele diz que só houve um elefante maior, também vindo daqui.

- É melhor ir dormir - disse David. - Espero estar melhor amanhã.

- Foste óptimo hoje - disse-lhe o pai. - Sinto-me muito orgulhoso de ti. E o Juma também.

 

De noite, quando acordou, já a Lua ia alta, teve a certeza de que eles não se sentiam nada orgulhosos dele, excepto talvez quando mostrara tanta destreza ao matar os pássaros. Encontrara o elefante à noite e seguira-o para se certificar de que tinha os dois dentes e depois voltara para junto dos dois homens e colocara-os no rasto. David sabia que eles tinham ficado orgulhosos disso. Mas quando começara a matança, ele fora-lhes inútil e um perigo para o êxito do trabalho, tal como Kibo o fora quando ele se aproximara do elefante à noite, e pensou que eles se deviam ter odiado por não o terem mandado embora enquanto era tempo. Os dentes do elefante pesavam cem quilos cada um. Desde que tinham ultrapassado o tamanho normal que constituíam um fardo para o elefante e agora os três iam matá-lo. David tinha a certeza disso porque ele próprio resistira ao dia. Por isto, talvez também se sentissem orgulhosos. Mas não trouxera nada de útil à caçada e teriam ficado muito melhor sem ele. Muitas vezes durante o dia desejara não ter traído o elefante e à tarde lembrava-se de ter desejado nunca o ter visto. Acordado, ao luar, sabia que isto não era verdade.

Toda a manhã, enquanto escrevia, tentara lembrar-se como se sentira de facto e o que tinha realmente acontecido nesse dia. O mais difícil era lembrar-se como se sentira e conseguir distinguir isso de como se sentira mais tarde. Os pormenores da paisagem estavam nítidos e descrevera-os bem. Mas as suas sensações em relação ao elefante tinham constituído a parte mais difícil e sabia que tinha de se afastar e depois voltar, não mais tarde mas naquele dia, para ter a certeza de como fora. Sabia que a sensação começara a formar-se, mas estava demasiado exausto para a recordar com exactidão.

Ainda envolvido neste problema e a viver a história, fechou a pasta e saiu do quarto, atravessando o pátio até ao terraço, onde Marita estava sentada numa cadeira sob os pinheiros e em frente ao mar. Estava a ler e como ele caminhasse descalço não o ouviu. David olhou para ela, satisfeito por vê-la. Depois lembrou-se do absurdo da situação e voltou para trás, dirigindo-se ao seu quarto e de Catherine. Ela não estava lá, e, sentindo que África era real e tudo aquilo era irreal e falso, foi até ao terraço falar com Marita.

- Bom dia - disse. - Viste a Catherine?

- Foi não sei onde - disse a rapariga. - Pediu-me para te dizer que voltaria.

De repente tudo deixou de ser irreal.

- Não sabes onde foi?

- Não - disse a rapariga. - Saiu de bicicleta.

- Meu Deus - disse David. - Ela não anda de bicicleta desde que comprámos o Bug.

- Foi o que ela disse. Foi praticar. Tiveste uma boa manhã?

- Não sei. Sabê-lo-ei amanhã.

- Vais tomar o pequeno-almoço?

- Não sei. É tarde.

- Devias tomar.

- Vou lá dentro arranjar-me - disse ele. Tinha tomado um duche e estava a barbear-se quando Catherine entrou. Trazia vestida uma velha camisa de Grau du Roi e calças de linho apanhadas abaixo dos joelhos e estava corada e tinha a camisa molhada.

- É maravilhoso - disse ela. - Mas já me tinha esquecido das dores nas pernas.

- Foste muito longe?

- Seis quilómetros - disse ela. - Não foi nada, mas tinha-me esquecido das dores...

- Está muito quente para andar de bicicleta, a não ser que se ande de manhã - disse David. - Mas estou contente por teres recomeçado.

Ela encontrava-se agora debaixo do chuveiro e quando saiu disse:

- Vê como estamos ambos queimados tal como planeámos.

- Tu estás mais.

- Não muito. Tu também. Olha para nós juntos. Olharam-se e tocaram-se em frente do espelho da porta.

- Oh, tu gostas de nós - disse ela. - É bom. Eu também. Toca-me aqui e verás.

Pôs-se muito direita e colocou a mão dele sobre os seios.

- Vou vestir uma das minhas camisas mais justas para que tu percebas o que penso acerca das coisas - disse ela. - É engraçado que o nosso cabelo não tenha cor quando está molhado, não é branco como espuma do mar.

Pegou num pente e penteou o cabelo para trás, de forma que parecia ter acabado de sair do mar.

- Agora vou usá-lo assim - disse -, como em Grau du Roi e aqui, na Primavera.

- Gosto de to ver sobre a testa.

- Já estou farta disso, Mas posso trazê-lo assim, se quiseres. Achas que podíamos ir à cidade tomar o pequeno-almoço no café?

- Não tomaste pequeno-almoço?

- Quis esperar por ti.

- Está bem - disse ele. - Vamos lá. Também tenho fome. Tomaram um bom pequeno-almoço de café com leite, brioches, compota de morangos e oeufs au plat avec jambon e quando acabaram Catherine perguntou:

- Queres ir comigo ao Jean? É o dia de lavar o cabelo e vou cortá-lo.

- Espero aqui por ti.

- Não queres vir, por favor? Da outra vez vieste.

- Não, Demónio. Fui uma vez, mas só uma. Foi como ser tatuado. Não me peças para ir.

- Não significa nada a não ser para mim. Quero que sejamos iguais.

- Não podemos ser iguais.

- Podemos sim, se tu deixares.

- Na verdade não quero.

- Mesmo se eu disser que é tudo quanto quero?

- Por que razão não queres uma coisa que não faça sentido?

- Quero. Mas quero que sejamos iguais e tu quase és, e não te daria trabalho nenhum sê-lo. O mar fez o principal. - Então deixa o mar fazê-lo.

- Mas quero hoje.

- E depois ficarás feliz?

- Estou feliz agora porque tu vais fazê-lo e vou ficar feliz. Tu gostas do meu aspecto. Sei que gostas. Pensa dessa maneira.

- É pateta.

- Não, não é. Não, quando és tu a fazer para me agradar.

- Sentir-te-ás muito mal se não o fizer?

- Muito.

- Está bem - disse ele. - Tem assim tanto significado para ti?

- Sim - disse ela. - Oh, obrigado. Desta vez não demorará muito. Eu disse ao Jean que iríamos lá e ele está à espera.

- Continuas a confiar que eu faça as coisas?

- Sabia que o farias se soubesses que eu queria muito.

- Eu queria muito não o fazer. Não me devias ter pedido.

- Não te vais importar. Não é nada e depois até vai ser divertido. Não te preocupes com a Marita.

- Que há com ela?

- Ela disse que, se tu não o fizesses por mim, te pedisse para o fazeres por ela.

- Não inventes coisas.

- Não. Ela disse-o esta manhã.

- Gostava que te pudesses ver - disse Catherine.

- Ainda bem que não posso.

- Gostava que te visses ao espelho.

- Não consigo.

- Olha para mim. É assim que estás e eu também e agora não podes fazer nada.

- Não devíamos ter feito isto - disse David. - Não devíamos ter ficado iguais.

- Pois ficámos - disse Catherine. - Portanto, é melhor começares a gostar.

- Não podemos ter feito isso, Demónio.

- Sim, fizemos. Tu sabia-lo. Só não quiseste olhar. E agora somos danados. Eu já era e agora és tu. Olha para mim e vê como gostas.

David olhou os olhos que amava e o rosto moreno e aquela cor de cabelo incrivelmente branca e viu como ela estava feliz e começou a perceber a coisa completamente estúpida que tinha permitido.

 

Pensava que não conseguia continuar com a história nessa manhã e que durante algum tempo não o conseguiria. Mas sabia que tinha de o fazer e finalmente começou e já seguiam o rasto do elefante por cima de um rasto já antigo que era uma estrada de terra batida e gasta através da floresta. Parecia que os elefantes por ali tinham passado desde que a lava que descera da montanha arrefecera e as primeiras árvores tinham crescido. Juma sentia-se muito confiante e movia-se com ligeireza. Tanto o pai como Juma pareciam muito seguros de si e a locomoção na estrada era tão fácil que Juma lhe passou a 303 para a mão enquanto atravessaram a floresta. Depois, perderam o rasto coberto por montes fumegantes de excrementos frescos e de pegadas de uma manada que tinha saído da floresta. Juma retirara, zangado, a 303 das mãos de David. Quando conseguiram chegar junto da manada já era tarde e viam-se os corpanzis cinzentos por entre as árvores e o movimento das enormes orelhas e as trombas enroscando-se e desenroscando-se, o estalar dos troncos partidos, o cair das árvores derrubadas e o ruído dos montes de excremento a caírem.

Finalmente, deram com o rasto do velho animal e, quando este virou para um caminho mais estreito, Juma olhara para o pai de David e sorrira, mostrando os dentes, e o pai abanara a cabeça. Parecia que partilhavam um segredo sujo, tal como naquela noite em que os encontrara na shamba. Não demorou muito tempo a chegarem ao segredo. Ficava à direita da floresta e as pegadas do elefante conduziam até lá. Era um crânio tão alto como o peito de David e branco devido ao sol e às chuvas. Tinha uma depressão funda na testa e vincos que desciam dos buracos vazios dos olhos até às fendas onde os dentes tinham sido arrancados. Juma apontou para o sítio onde se detivera o elefante que perseguiam, enquanto olhava para o crânio e para o local onde o corpo tinha sido desviado. Mostrou a David o único buraco na grande depressão do osso da testa e depois os quatro buracos junto ao ouvido. Sorriu para David e para o pai dele, retirou uma sólida 303 do bolso e encaixou o cano no buraco da testa.

- Foi aqui que Juma atingiu o grande elefante - disse o pai. Este foi o seu askarí. O seu amigo, pois era muito grande. Ele atacou e Juma abateu-o e acabou com ele disparando sobre o ouvido.

Juma apontava para os ossos espalhados e explicava como a besta tinha andado pelo meio deles.

Juma e o pai de David estavam muito satisfeitos com o que tinham encontrado.

- Quanto tempo acha que ele e o amigo estiveram juntos? perguntou David ao pai.

- Não faço a menor ideia - respondeu este. - Pergunta ao Juma.

- Pergunte-lhe o pai, por favor.

O pai e Juma trocaram algumas palavras e Juma olhou para David e riu-se.

- Provavelmente quatro ou cinco vezes a tua vida, diz ele respondeu o pai de David. - Ele não sabe ao certo nem se preocupa com isso.

«Eu preocupo-me», pensou David. «Vi-o ao luar e ele estava sozinho, mas eu tinha Kibo. Kíbo também me tem a mim. O animal não fazia mal a ninguém e agora perseguimo-lo até onde ele veio ver o amigo morto e agora vamos matá-lo. A culpa é minha. Traí-o.»

Nesse momento Juma fez sinal ao pai de David e retomaram o caminho.

«O meu pai não precisa de matar elefantes para viver», pensou David. «Juma não o teria encontrado se eu não o tivesse visto. Teve a sua oportunidade e o que fez foi feri-lo e matar-lhe o amigo. Kibo e eu encontrámo-lo e eu nunca lhes devia ter dito e devia ter guardado segredo e deixá-los embebedar-se com os seus bibis na shamba. Juma estava tão bêbedo que não o conseguimos acordar. A partir de agora vou guardar segredos. Nunca mais lhes digo nada. Se o matarem, Juma gastará a sua parte do marfim a beber ou então comprará uma faca nova. Por que não ajudaste o elefante quando o podias ter feito? Só precisavas de não os ter acompanhado no segundo dia. Não, isso não os iria deter. Juma teria continuado. Nunca, nunca mais lhes digas. Tenta lembrar-te disso. Nunca mais digas nada a ninguém. Nunca mais digas nada a ninguém.»

O pai esperou que ele aparecesse e disse gentilmente:

- Ele descansou aqui. Já não anda tão depressa. Devemos estar a dar com ele.

- Raios partam a caça ao elefante - disse David muito calmamente.

- O quê? - perguntou o pai.

- Raios partam a caça ao elefante - repetiu David, suavemente.

- Tem cuidado para não estragares tudo - disse-lhe o pai, olhando-o com severidade.

«Pronto», pensou David. «Ele não é estúpido. Sabe o que se passa e não volta a confiar em mim. Ainda bem. Também não quero que ele o faça, pois nunca mais lhe digo, nem a ninguém, o que quer que seja. Nunca, nunca, nunca mais.»

Fora ali que ele interrompera a caçada, nessa manhã. Sabia que não tinha apanhado tudo, ainda. Não tinha abarcado bem a enormidade do crânio quando o tinham encontrado, nem os túneis debaixo dele, na terra, que os escaravelhos tinham feito e que pareciam galerias desertas ou catacumbas onde o elefante movera a cabeça. Não apanhara todo o significado dos ossos brancos nem de como o elefante se movera naquele cenário de morte e de como tinha podido ver o elefante à medida que se movia e depois tinha visto o que o elefante vira. Não apreendera o sentido da largura do rasto do elefante, que era uma estrada perfeita na floresta, nem das árvores gastas, nem dos trilhos que se cruzavam de tal modo que pareciam o mapa do metro de Paris. Nem se dera bem conta da luz na floresta, onde as cúpulas das árvores se juntavam, e não tinha ainda clarificado certas coisas que deveria reproduzir como tinham sido e não como as recordava agora. As distâncias não tinham importância uma vez que todas as distâncias mudam e lembramo-nos delas como realmente são. Mas a mudança de sentimentos em relação a Juma e ao pai e ao elefante era complicada pela exaustão que arrastava consigo. O cansaço trazia o início da compreensão. Começava a compreender e apercebia-se disso à medida que escrevia. Mas a verdadeira e terrível compreensão ainda estava para vir e não devia mostrá-lo através de arbitrárias afirmações de retórica, mas pela lembrança real das coisas que a tinham provocado. Amanhã poria as coisas no seu lugar e continuaria.

Guardou os cadernos do manuscrito na pasta, fechou-a, saiu do quarto e dirigiu-se para a frente do hotel, onde Marita se encontrava a ler.

- Queres o pequeno-almoço? - perguntou ela.

- Acho que quero uma bebida.

- Vamos Tomá-la no bar - disse ela.

- É mais fresco. Entraram e sentaram-se ao balcão e David encheu um copo com Haig e água Perrier gelada.

- Que é feito de Catherine?

- Saiu muito feliz e contente.

- E como estás tu?

- Feliz e tímida e muito calma.

- Demasiado tímida para eu te poder beijar? Abraçaram-se e ele sentiu-se de novo inteiro. Não se tinha ainda apercebido como estivera dividido e separado, porque desde que começara a trabalhar que escrevia de um círculo interior que não podia ser afectado nem tocado. Apercebeu-se disso e essa era a sua força.

 

Sentaram-se no bar enquanto o rapaz punha a mesa e o primeiro frio do Outono vinha da brisa do mar e depois, sentados à mesa sob os pinheiros, sentiram-na enquanto comiam e bebiam.

- Esta brisa fresca vem do Kurdistão - disse David. - As tempestades do equinócio em breve estarão aqui.

- Hoje não vêm - disse a rapariga. - Hoje não temos que nos preocupar com isso.

- Não há vento de nenhuma espécie desde que nos encontrámos no café em Cannes.

- Ainda te lembras de coisas que se passaram há tanto tempo?

- Parece mais longínquo que a guerra.

- Estive em guerra durante estes últimos três dias - disse a rapariga. - Saí dela esta manhã.

- Nunca penso nisso - disse David.

- Agora, já li - disse-lhe Marita. - Mas não te entendo. Nunca explicaste bem aquilo em que acreditavas.

Ele encheu-lhe o copo e serviu-se de novo.

Só o soube mais tarde - disse. - Por isso não tentei agir como se o soubesse. Deixei de pensar nisso enquanto acontecia.

- Só senti e vi e agi tacitamente. É por isso que o livro não é melhor. Porque eu não fui mais inteligente.

- O livro é muito bom. As partes que metem voos são muito boas e os sentimentos em relação às outras pessoas e até aos próprios aviões.

- Sou bom a falar de outras pessoas em coisas tácticas e técnicas - disse David. - Não estou a armar-me. Mas, Marita, ninguém sabe de si quando está verdadeiramente envolvido. Nesse momento a nossa pessoa não é digna de consideração. Seria vergonhoso.

- Mas depois sabes.

- Sim. Às vezes.

- Posso ler a narrativa? David voltou a encher os copos.

- Que te contou ela?

- Disse que me tinha contado tudo. Ela conta muito bem, sabes?

- Preferia que não lesses - disse David. - Só irias arranjar problemas. Quando escrevi, não sabia que tu ias aparecer e não pude deixar de lhe dizer coisas, mas não tenho de tas dar a ler.

- Então, não devo lê-las?

- Preferia que não. Não quero dar-te ordens,

- Então, tenho de te dizer - disse a rapariga.

- Ela deixou-te ler?

- Sim. Disse que eu devia fazê-lo.

- Raios a partam.

- Não o fez por mal. Foi quando andava preocupada.

- Então leste tudo?

- Sim. É maravilhoso, Muito melhor que o último livro e agora as histórias são melhores que tudo o resto.

- E a parte de Madrid? Ele olhou para ela e ela para ele e depois humedeceu os lábios e não afastou os olhos e disse, cuidadosamente:

- Entendi tudo porque sou como tu.

Quando estavam deitados, Marita disse:

- Não pensas nela quando fazes amor comigo?

- Não, minha estúpida.

- Não queres que eu faça o que ela faz? Porque eu sei fazê-lo.

- Pára de falar e sente.

- Posso fazer melhor que ela.

- Pára de falar e sente.

- Não achas que...

- Não fales.

- Mas não tens de...

- Ninguém tem de... Ficaram bem abraçados e por fim Marita disse, gentilmente:

- Tenho de sair mas volto. Por favor, dorme por mim. Beijou-o e quando regressou ele estava a dormir. Tencionara esperar por ela mas acabara por adormecer. Ela estendeu-se ao lado dele, beijou-o ao de leve, começou a mexer-lhe muito gentilmente e pressionou os seios contra ele. Ele mexeu-se e ela pousou a cabeça sobre o peito dele e mexeu-lhe delicadamente, explorando-lhe as pequenas intimidades e descobertas.

A tarde estava fria e David dormia e, quando acordou, Marita tinha desaparecido e ele ouviu as vozes das duas raparigas no terraço

Vestiu-se, abriu a porta do quarto de trabalho e saiu para o pátio. Não havia ninguém no terraço a não ser o criado, que levantava as coisas do chá, e encontrou as raparigas no bar.

 

As duas raparigas estavam sentadas no bar com uma garrafa de Perrier Jouet metida num balde de gelo e ambas tinham um ar fresco e adorável.

- É como encontrar um ex-marido - disse Catherine. Faz-me sentir muito sofisticada.

Nunca estivera tão contente nem tão bela.

- Devo dizer que está de acordo contigo - disse, olhando para David com aprovação trocista.

- Achas que ele está bem? - perguntou Marita. Olhou para David e corou.

- E tu coraste - disse Catherine. - Olha para ela, David.

- Está com muito bom aspecto - disse David. - E tu também.

- Parece que tens dezasseis anos - disse Catherine. - Ela disse-me que já sabias que ela tinha lido a narrativa.

- Devias ter-me pedido - disse David.

- Sei que devia - disse Catherine. - Mas eu própria a comecei a ler e achei tão interessante que pensei que a Herdeira também devia lê-la.

- Eu teria dito que não.

- O que interessa, Marita - disse Catherine -, é saberes que, quando ele disser não em relação a qualquer coisa, não deves desistir. Não quer dizer nada.

- Não acredito - disse Marita, sorrindo para David.

- Isso é porque ele ainda não acabou a narrativa. Quando acabar, sabê-lo-ás.

- Estou farto de narrativa - disse David.

- Isso é sujo - disse Catherine. - Era o meu presente e o nosso projecto.

- Tens de escrever, David - disse a rapariga. - Vais fazê-lo, não vais?

- Ela quer aparecer lá, David - disse Catherine. - E ficará muito melhor quando lá puseres também uma rapariga morena.

David serviu-se de uma taça de champanhe. Viu que Marita olhava para ele, avisando-o, e disse para Catherine:

- Continuarei com ela quando acabar as histórias. Que fizeste hoje?

- Tive um dia óptimo. Tomei decisões e fiz planos.

- Oh, Deus! - disse David.

- São planos muito simples - disse Catherine. - Não precisas de resmungar. Passaste o dia a fazer aquilo que querias e eu estou satisfeita. Mas tenho o direito de fazer alguns planos.

- Que tipo de planos? - perguntou David.

- Primeiro, temos que começar a pensar em fazer sair o livro. Vou ter de mandar dactilografar os manuscritos e arranjar ilustrações. Tenho de falar com os artistas e fazer as combinações.

- Percebo. E se eu não o quiser mandar dactilografar já?

- Não queres que ele saia? Então, alguém tem de se preocupar com os aspectos práticos.

- Quem são os artistas que arranjaste?

- Artistas diferentes para diferentes partes. Mari e Laurencin, Pascen, Derain, Dufy e Picasso.

- Derain, por amor de Deus!

- Ainda não viste uma pintura feita por Laurencin de Marita e eu no carro quando parámos a primeira vez junto ao Loup, a caminho de Cannes?

- Ninguém escreveu isso.

- Então, vamos escrever. É muito mais interessante e instrutivo que um bando de nativos num kraal, ou lá como se chama, cobertos de mosquitos e feridas, na África Central, com o bêbedo do teu pai aos tropeções, a cheirar a cerveja, sem saber quais os pequenos horrores que tinha gerado.

- Lá vamos nós - disse David.

- Que disseste, David? - perguntou Marita.

- Disse muito obrigado por teres almoçado comigo - respondeu David.

- Por que não lhe agradeces o resto? - disse Catherine. Ela deve ter feito qualquer coisa importante para te pôr a dormir que nem uma pedra até ao fim da tarde. Ao menos, agradece-lhe isso.

- Obrigado por teres ido nadar - disse David para a rapariga.

- Oh, foram nadar? - perguntou Catherine. - Ainda bem.

- Nadámos até bem longe - disse Marita. - E almoçámos muito bem. Almoçaste bem, Catherine?

- Acho que sim - disse ela. - Não me lembro.

- Onde estiveste? - perguntou Marita, gentilmente.

- Em Sr. Raphael - disse Catherine. - Lembro-me de parar lá mas não me consigo lembrar do almoço. Nunca reparo quando como sozinha. Mas estou certa que almocei lá. já tencionava fazê-lo.

- Foi agradável a viagem de volta? - perguntou Marita. Esteve uma tarde tão fresca e tão bonita.

- Não sei - disse Catherine. - Não reparei. Estava a pensar no livro. Temos que o pôr cá fora. Não percebo por que razão David começou a ser difícil no momento em que eu quis pôr uma certa ordem nisto. Tudo isto se tem arrastado tão ao acaso que de repente senti vergonha por todos nós.

- Pobre Catherine - disse Marita. - Mas agora que tens tudo planeado deves sentir-te melhor.

- E sinto - disse Catherine. - Sentia-me tão feliz quando entrei. Sabia que nos ias fazer felizes e que também tinha feito algo de prático, e então David fez-me sentir como uma idiota ou leprosa. Não posso evitar ser prática e sensível.

- Eu sei, Demónio - disse David. - Só não quis o trabalho baralhado.

- Mas foste tu quem o baralhou - disse Catherine. - Não entendes? Saltar para a frente e para trás tentando escrever histórias quando o que tinhas a fazer era continuar a narrativa que tem tanto significado para nós. Estava tudo a correr tão bem e estávamos a chegar às partes mais excitantes. Alguém tem de te mostrar que as histórias são a tua forma de fugires ao dever.

Marita olhou para ele e ele percebeu o que ela tentava dizer-lhe e respondeu:

- Preciso de me arranjar. Vai falando nisso com a Marita que eu volto já.

- Temos outras coisas para falar - disse Catherine. - Desculpa ter sido rude contigo e com Marita. Na verdade, não me podia sentir mais feliz pelos dois.

David levou para o quarto de banho tudo o que tinha sido dito. Tomou um duche e vestiu calças e uma camisa de pescador lavadas. Fazia já bastante frio e Marita estava sentada no bar a ler a Vogue.

- Ela foi ao teu quarto - disse Marita.

- Como está?

- E como hei-de saber, David? Agora é uma grande editora. Desinteressou-se do sexo. É infantil, ela própria o diz. Não sabe como é que alguma vez isso teve significado para ela. Mas se lhe apetecer pode voltar a ter uma ligação com outra mulher. Fala muito noutra mulher.

- Meu Deus, nunca pensei que as coisas tomassem este rumo.

- Deixa - disse Marita. - Seja como for ou aconteça o que acontecer, amo-te e amanhã vais escrever.

Catherine entrou e disse:

- Vocês ficam tão bem juntos e sinto-me tão orgulhosa. Sinto-me como se vos tivesse inventado. Ele portou-se bem hoje, Marita?

- Tivemos um almoço agradável - disse Marita. - Por favor, sê justa, Catherine.

- Oh, eu sei que ele é um amante satisfatório - disse Catherine. - Sempre foi. Tal como os Martinis que prepara e a maneira como nada ou esquia ou voou. Nunca o vi num avião. Toda a gente diz que era maravilhoso. Suponho que deve ser como os acrobatas. Não estou muito interessada. _ Foste muito boa em nos deixar passar a noite juntos, Catherine - disse Marita.

- Podem passar juntos o resto das vossas vidas - disse Catherine. - Desde que não se aborreçam mutuamente. já não preciso de nenhum de vós.

David observava-a pelo espelho e ela parecia calma e normal Reparou que Marita o olhava com tristeza.

- No entanto, gosto de olhar para vocês e de vos ouvir falar sem abrirem a boca.

- Como estás? - disse David.

- Foi um bom esforço - disse Catherine. - Estou muito bem.

- Tens alguns planos! - perguntou David. Sentia-se como se estivesse a saudar um navio.

- Só o que já vos disse - continuou Catherine. - Provavelmente vão-me manter ocupada.

- Que conversa era aquela sobre outra mulher? Sentiu Marita dar-lhe um pontapé e colocou o pé sobre o dela como forma de reconhecimento.

- Não é conversa - disse Catherine. - Quero ter mais uma experiência para ver se me escapou alguma coisa.

- Todos nós somos falíveis - disse David e Marita deu-lhe de novo um pontapé.

- Quero ver - disse Catherine. - Agora já sei o suficiente para poder contar. Não te preocupes com a tua morena. Não é o meu tipo, de forma alguma. É tua. É como tu gostas e muito agradável, mas não para mim. Não me atrai o tipo rapariguinha.

- Talvez eu seja uma rapariguinha - disse Marita.

- Essa é uma palavra muito delicada.

- Mas também sou muito mais mulher do que tu, Catherine.

- Vá lá, mostra ao David o tipo de rapariguinha que és. Ele havia de gostar.

- Ele sabe o tipo de mulher que sou.

- Esplêndido - disse Catherine. - Ainda bem que finalmente encontraram a língua. Prefiro conversar.

- Não és mulher - disse Marita.

- Eu sei - disse Catherine. - Tentei explicar isso ao David várias vezes. Não é verdade, David?

David olhou para ela e não disse nada.

- Não é? É - disse ele. Tentei mais que tudo ser uma rapariga em Madrid e fiquei desfeita - disse Catherine. - Agora, não sou nada. Tu és uma rapariga e um rapaz. Não precisas de mudar, não te faz diferença. E agora, não sou nada. Só queria que tu e o David fossem felizes. Tudo o resto invento.

Marita disse:

- Eu sei e tentei dizê-lo ao David.

- Sei que tentaste. Mas não me deves lealdade. Não o faças. Ninguém o faria, e tu provavelmente também não. Quero que sejas feliz e que o faças feliz. Tu podes fazê-lo e eu não.

- És a melhor rapariga que há - disse Marita.

- Não sou. Estou acabada antes de ter começado.

- Não. A culpa é minha - disse Marita. - Fui estúpida e horrível.

- Não foste estúpida. Tudo o que disseste é verdade. Vamos deixar de falar e ser amigas. Pode ser?

- Sim, por favor? - pediu-lhe Marita.

- Eu também quero - disse Catherine. - E não quero ser uma palerma trágica. Por favor, dedica ao livro o tempo que for preciso, David. Sabes que quero que escrevas o melhor que possas. Foi assim que começámos. E agora acabei.

- Estavas cansada - disse David. - Acho que não deves ter almoçado.

- Provavelmente, não - disse Catherine. - Mas se calhar almocei. Vamos esquecer tudo isto e ser só amigos, está bem?

 

E assim ficaram amigos, o que quer que os amigos sejam, pensou David, e tentou não pensar, mas falou e ouviu na irrealidade que a realidade se tornara. Ouvira cada uma falar da outra e sabia que cada uma devia saber o que a outra pensava e provavelmente também o que cada uma dissera. Nesse sentido eram realmente amigas, compreendendo a discordância básica, confiando na completa desconfiança e desfrutando da companhia recíproca. Ele também gostava da companhia delas, mas naquele momento já estava farto.

Amanhã tinha que voltar para o seu território, aquele de que Catherine tinha ciúmes e que Marita amava e respeitava. Fora feliz no território da história e sabia que era bom de mais para durar, e agora regressara daquilo que lhe interessava no vazio extremo da loucura, que tomara, agora, a nova forma do pragmatismo exagerado. Estava cansado disso e farto de ver Marita colaborar com a sua inimiga. Catherine não era inimiga dele, excepto no que ela era ele próprio na procura impossível que era o amor, e por isso era a sua própria inimiga. «Precisa tanto de um inimigo que tem que manter um perto e ela é a mais próxima e a mais fácil de atacar, conhecendo as fraquezas e forças e os erros das nossas defesas. Ela dá-me a volta tão habilmente e a última luta é sempre num turbilhão e o pó que se levanta é o nosso pó. »

Catherine quis jogar gamão com Marita depois do jantar. Jogavam sempre a sério, a dinheiro, e quando Catherine foi buscar o quadro Marita disse para David:

- Por favor, esta noite não venhas ao meu quarto.

- Óptimo.

- Entendes?

- Mudemos de conversa - disse David. A sua frieza aumentara à medida que se aproximava a hora de trabalhar.

- Estás zangado?

- Sim - disse David.

- Comigo?

- Não.

- Não te podes zangar como uma pessoa que está doente.

- Ainda não viveste muito - disse David. - É exactamente com isso que toda a gente está zangada. Adoece e verás.

- Não te queria ver zangado.

Quem me dera nunca ter conhecido nenhuma de vocês.

- Por favor, não digas isso, David.

- Sabes que não é verdade. Só me estou a preparar para ir trabalhar.

 

Foi até ao quarto, acendeu o candeeiro do seu lado da cama, instalou-se e leu um dos livros de W H. Hudson. Era Nature on Downland e decidira lê-lo porque o título não era nada atractivo. Sabia que iria chegar a altura em que precisaria de todos os livros e estava a guardar os melhores. Mas, passado o título, este livro não o aborreceu. Sentiu-se feliz por lê-lo e regressou à sua vida com Hudson e o irmão, cavalgando ao luar, e, gradualmente, o chocalhar do gelo e o som baixo das vozes das raparigas foram-se tornando reais e quando, passado um bocado, ele saiu para preparar um uísque com Perrier, viu-as jogar e pareceram-lhe dois seres humanos a fazerem uma coisa normal e não personagens de uma peça inverosímil a que ele fora assistir contra a sua vontade.

Voltou para o quarto e leu e bebeu uísque com Perrier, muito lentamente, e tinha-se despido e apagado a luz quando ouviu Catherine entrar. Pareceu-lhe que ela se demorara muito tempo no quarto de banho, até que a sentiu deitar-se e deixou-se ficar a respirar pausadamente, desejando adormecer.

- Estás acordado, David? - perguntou ela. - Acho que sim.

- Não acordes - disse ela. - Obrigado por dormires aqui. É o que costumo fazer. Mas não tens de o fazer.

- Tenho, sim.

- Ainda bem que o fizeste. Boa noite.

- Boa noite.

- Dás-me um beijo?

- Claro. Ele beijou-a e era de novo a Catherine de antes, quando parecera ter regressado para ele.

- Desculpa ter-te deixado ficar mal, outra vez.

- Não falemos nisso.

- Odeias-me?

- Não.

- Podemos recomeçar como tínhamos planeado? -

- Acho que não.

- Então por que vieste para aqui?

- Porque aqui é o meu lugar.

- Não há outra razão?

- Pensei que te podias sentir só.

- E senti.

- Toda a gente se sente só - disse David.

- É terrível uma pessoa estar junta na cama e sentir-se só.

- Não há solução - disse David. - Todos os planos e esquemas não valem nada.

- Não tentei.

- De qualquer modo, era uma loucura. Estou farto de loucuras. Não és a única que fica destruída.

- Eu sei. Mas não podemos tentar mais uma vez, que eu porto-me bem? Consigo fazê-lo. Quase o fiz.

- Estou farto, Demónio. Farto até à ponta dos cabelos.

- Não queres tentar só mais uma vez, por ela e por mim?

- Não resulta e estou farto.

- Ela disse que tinhas passado um dia óptimo e que estavas animado e não deprimido. Não queres tentar uma vez mais por nós os dois? Queria tanto.

- Queres sempre tudo tanto e quando o tens não te importas nada.

- Desta vez estava confiante de mais e depois torno-me insuportável. Por favor, podemos tentar de novo?

- Vamos dormir, Demónio, não fales nisso.

- Beija-me outra vez, por favor - disse Catherine. – Vou dormir porque sei que o vais fazer. Fazes sempre tudo o que eu quero porque queres mesmo fazê-lo.

- Só queres coisas para ti, Demónio.

- Não é verdade, David. De qualquer modo, eu sou tu e ela. Foi por isso que o fiz. Sou toda a gente. Sabes isso, não sabes?

- Dorme, Demónio.

- Vou dormir. Mas, por favor, beija-me mais uma vez para não nos sentirmos sós.

 

De manhã já se encontrava novamente na encosta mais longínqua da montanha. O elefante já tinha alterado a marcha e movia-se agora sem destino, alimentando-se de vez em quando, e David apercebeu-se de que se estavam a aproximar dele. Tentou lembrar-se como se tinha sentido. Ainda não sentia amor pelo elefante. Tinha de lembrar-se disso. Só sentia uma certa tristeza que vinha do seu próprio cansaço, que trouxera uma compreensão da idade. Embora fosse muito novo tinha aprendido como deveria ser-se velho de mais. Tinha saudades de Kibo e o facto de pensar que Juma matara o amigo do elefante virara-o contra Juma e tornara o elefante seu irmão. Apercebeu-se então de como significara para ele ter visto o elefante ao luar e tê-lo seguido, juntamente com Kibo, aproximando-se dele na clareira, de forma que tinha podido ver os dois enormes dentes. Mas ignorava que nada voltaria a ser tão bom. Agora sabia que iriam matar o elefante e não podia fazer nada para o evitar. Traíra o elefante quando voltara para trás e lhes dissera na shamba. «Matar-me-iam e matariam Kíbo também se tivéssemos marfim», tinha ele pensado e sabia bem que não era verdade. Provavelmente o elefante vai ter ao sítio onde nasceu e matá-lo-ão lá. É só o que falta para tornarem o acto perfeito. Eles gostariam de o matar onde tinham morto o seu amigo. Seria divertido. T er-lhes-ia agradado. O raio dos amigos assassinos.

Tinham caminhado mais para a ponta e o elefante seguia pouco à frente. David sentia-lhe o cheiro e ouviam-no derrubar os ramos. O pai pousou a mão sobre os ombros de David para o fazer recuar e depois retirou do bolso uma mão cheia de cinza que atirou para o ar. A cinza mal lhes tocou quando caiu e o pai acenou para Juma e curvou-se para o seguir. David a vê-los afastarem-se de costas até desaparecerem de vista. Não os ouvia moverem-se.

David ficara quieto e ouvia o elefante a alimentar-se. Sentia-lhe nitidamente o cheiro, tal como acontecera na noite de luar quando o seguira de perto e lhe vira os dentes maravilhosos. Então, enquanto ali estava, fez-se silêncio e deixou de cheirar o elefante. Depois ouviram-se guinchos e um estrondo e um tiro da 303, depois o eco pesado da 450 do pai, depois o barulho continuou, ele avançou e encontrou juma abalado e a sangrar da testa e o pai pálido e zangado.

- Ele atirou-se a juma e derrubou-o - dissera-lhe o pai.

O Juma atingiu-o na cabeça.

- Onde lhe acertaste?

- Onde pude - respondera-lhe o pai. - Vê o rasto de sangue.

Havia muito sangue. Uma corrente da altura da cabeça de David que escorrera pelos troncos e folhas e outra bastante mais baixa que era escura e trazia o conteúdo do estômago.

- Atingido nos pulmões e intestinos - disse o pai. - Encontrá-lo-emos derrubado ou escondido - acrescentou.

Encontraram-no escondido, no meio de tal sofrimento e desespero que não se podia mexer. Caíra sobre o abrigo onde estivera a comer e atravessara uma área de floresta aberta e David e o pai tinham seguido o rasto de sangue. Depois, o elefante tinha entrado na floresta densa e David avistara-o à frente, cinzento e enorme contra o tronco de uma árvore. David só via que ele estava rígido e então o pai avançara e ele seguira-o e tinham-se posto ao lado do elefante como se ele fosse um navio. E David viu o sangue escorrer-lhe dos flancos e então o pai erguera a espingarda e disparara e o elefante voltara a cabeça com os grandes dentes movendo-se pesada e lentamente e olhara para eles. E quando o pai disparara o segundo tiro o elefante oscilou com uma árvore e caiu-lhes pesadamente aos pés. Mas não estava morto. Fora derrubado e partira a espinha. Não se movia mas os olhos tinham vida e olharam para David. Tinha pestanas muito compridas e os seus olhos eram a coisa mais viva que David alguma vez vira.

- Atira-lhe para o ouvido com a Três Zero Três - disse-lhe o pai. - Vá lá.

- Dispara tu - disse David. Juma aproximara-se ensanguentado e a coxear, a pele da testa a cair-lhe sobre o olho esquerdo, o osso do nariz descarnado e uma orelha ferida e retirara a espingarda a David sem uma palavra, colocara-a bem junto ao ouvido e disparara duas vezes. O olho do elefante arregalara-se ao primeiro tiro e depois começara a ficar vidrado e jorrara-lhe sangue do ouvido. Era um sangue com uma coloração diferente e David pensara: «Tenho de me lembrar disto». E sempre o fizera mas não lhe servira de nada. Agora, toda a dignidade e majestade e toda a beleza tinham desaparecido e o elefante era uma montanha enrugada.

- Apanhámo-lo, David, graças a ti - tinha-lhe dito o pai. Agora é melhor acendermos uma fogueira para eu tratar de Juma. Vem cá, Humpty Dumpty. Esses dentes não caem.

Juma aproximara-se sorridente, arrastando a cauda do elefante, que não tinha pelos nenhuns. Trocaram uma piada suja e depois o pai de David começou a perguntar rapidamente em swaih a que distância estavam da água. «Onde se vai arranjar gente para retirar os dentes daqui? Como estás, meu velho estupor? Tens alguma coisa partida?»

Depois, já com as respostas, o pai dissera: «Tu e eu vamos buscar os sacos onde os deixámos quando viemos atrás dele. O Juma vai arranjar lenha e fazer uma fogueira. O estojo de primeiros-socorros está no meu saco. Temos que ir buscá-los antes de escurecer. Isso não vai infectar. Não é como as feridas provocadas por garras. Vamos».

O pai apercebera-se do que ele sentia em relação ao elefante e nessa noite e nos dias que se seguiram tentara que ele voltasse a ser o rapaz que era antes de se dar conta de que detestava caçar elefantes. David não comentara a intenção do pai, que nunca fora afirmada, na história, limitando-se a usar os acontecimentos, os desgostos, as sensações da carnificina, o arrancar dos dentes e a rude cirurgia praticada em Juma, disfarçadas pela troça a fim de conter as dores e as reduzir, uma vez que não havia drogas. A responsabilidade adicional e a confiança que tinham sido depositadas em

David e não aceites, isso ele pusera na história sem referir o seu significado. Tentara dar vida ao elefante, debaixo da árvore, na agonia final, mergulhado no sangue que escorrera tantas vezes mas sempre estancara, e agora apoderara-se dele de tal maneira que não conseguia respirar, o enorme coração a bater enquanto observava o homem que ia acabar com ele. David sentia-se tão satisfeito por o elefante ter cheirado Juma e o ter agredido. Teria matado Juma se o pai não tivesse disparado, teria atirado com Juma para as árvores e tê-lo-ia pisado, com a morte dentro de si, sentindo-a como outra ferida até deixar de respirar. Nessa noite, sentado junto à fogueira, David olhara para Juma, com o rosto cosido e as costelas partidas, e perguntou-se se o elefante o teria reconhecido quando ele tentara matá-lo. Esperava que sim. O elefante era agora o seu ídolo, tal como o pai o fora durante muito tempo, e ele pensara: «Não acreditei que ele fosse capaz de fazer isto, já tão velho e cansado. Também teria matado Juma. Mas não me olhou como se quisesse matar-me. Estava triste, tal como eu». Visitou o velho amigo no dia em que morreu. Era uma história de rapazinho muito novo, verificou-o quando acabou de escrever. Releu-a e viu os espaços que teria de preencher para que quem quer que a lesse sentisse que aquilo estava mesmo a acontecer e tomou alguns apontamentos à margem.

Lembrou-se como o elefante tinha perdido toda a dignidade logo que o olho deixara de ter vida e como já começara a inchar, mesmo com o frio da tarde, quando ele e o pai regressavam com os sacos. já não existia um elefante de verdade, só um corpo cinzento, inchado e rugoso e os enormes dentes amarelados, causa da sua morte. Os dentes estavam sujos com sangue seco e ele arrancou algum com a unha do polegar, seco como cera, e meteu-o no bolso da camisa. Foi tudo o que retirou do elefante, excepto o começo o do conhecimento da solidão.

Depois da carnificina, o pai tentara falar com ele, à noite, junto à fogueira.

- Ele era um assassino, sabes, Davey - dissera. - Juma diz que ninguém sabe quantas pessoas matou.

- Mas todas tentavam matá-lo, não era?

- Naturalmente - respondeu o pai. - Com aquele par de dentes.

- Então como podia ele ser um assassino? É como quiseres - dissera-lhe o pai. - Lamento que tenhas ficado tão sentido.

- Quem me dera que ele tivesse morto o Juma - dissera David.

- Isso é levar as coisas longe de mais - dissera-lhe o pai.

O Juma é teu amigo.

- Já não é.

- Não precisas de lho dizer.

- Ele sabe-o - dissera David.

- Acho que fazes um juízo errado dele - dissera o pai, dando por concluído o assunto.

 

Mais tarde, já tinham regressado em segurança e os dentes estavam encostados à parede da cabana de canas e lama, tão compridos e grossos que ninguém acreditava, nem quando lhes tocavam, e nem sequer o seu pai conseguia chegar lá acima, e Juma e o pai e ele eram heróis e Kibo o cão de um herói, e os homens que tinham transportado os dentes eram heróis, embora fossem heróis ligeiramente bêbedos. E o pai, ainda mais bêbedo, dissera:

- Queres fazer as pazes, David?

- Está bem - respondera ele porque sabia que aquilo era o começo de nunca mais dizer nada.

- Ainda bem - disse o pai. - É muito mais simples e melhor.

Depois sentaram-se em velhos bancos sob a sombra da grande figueira, com os dentes encostados à parede da cabana, e beberam cerveja nativa por cabaças, servida por uma miúda e pelo irmão, já não empecilhos mas criados de heróis, sentados ao crepúsculo ao lado do cão heróico de um herói. Ali ficaram a beber cerveja enquanto o tambor grande rufava e o Ngoma começava.

Saiu do quarto de trabalho, feliz e vazio e orgulhoso, e Marita estava à espera dele no terraço, a apanhar o sol daquela manhã de Outono, cuja existência ele desconhecia. Era uma manhã perfeita, calma e fria. O mar cá em baixo estava calmo e do outro lado da baía ficava a curva branca de Cannes com as montanhas escuras atrás.

- Amo-te tanto - disse ele para a rapariga morena quando ela se levantou. Abraçou-a e ela disse:

- Acabaste.

- Sim - disse ele. - Por que não?

- Amo-te e estou tão orgulhosa - disse ela. Caminharam e ficaram a olhar para o mar, com os braços à volta um do outro.

- Como estás tu, rapariga?

- Estou muito bem e muito feliz - disse Marita. - Aquilo de me amares foi a sério ou foi da manhã?

- Foi da manhã - disse David, beijando-a novamente.

- Posso ler a história?

- Está um dia demasiado belo para isso.

- Não posso lê-la para me sentir como tu e não unicamente feliz, como um cão, só porque tu estás feliz?

Ele deu-lhe a chave e quando ela trouxe os cadernos e leu a história no bar, David leu-a sentado ao lado dela. Sabia que era má-educação, e estupidez. Nunca fizera aquilo com ninguém e era contra tudo aquilo em que ele acreditava acerca da escrita, mas não pensou nisso, excepto no momento em que abraçou a rapariga e olhou para a escrita no papel de linhas. Não pôde evitar a vontade de ler e não pôde deixar de partilhar o que nunca partilhara e que acreditava não podia nem devia ser partilhado.

Quando ela acabou de ler, abraçou-o e beijou-o com tanta for- ça que lhe fez sangue nos lábios. Ele olhou para ela, chupou, distraído, o sangue e sorriu.

- Desculpa, David - disse ela. - Perdoa-me, por favor. Estou tão feliz e mais orgulhosa do que tu.

- Está bem? - perguntou ele. - Consegues cheirar a sbamba e a cabana e sentir a maciez das cadeiras dos homens? A cabana está mesmo limpa e o chão varrido.

- Claro que sim. já o tinhas posto na outra história. Também a cabeça de Kibo, o cão heróico. Foste um herói tão belo. O sangue fez alguma mancha na tua camisa

- Sim. Saiu mais quando suei.

- Vamos à cidade comemorar - disse Marita. - Há um monte de coisas que podemos fazer hoje.

 

David deteve-se no bar, verteu Haig Pinch e depois Perrier gela- da para um copo que levou para o quarto e bebeu metade quando tomava um duche frio. Depois, vestiu umas calças e calçou alpercatas para ir à cidade. Sentia que a história era boa e sentia-se ainda melhor em relação a Marita. Nada saíra diminuído pelo aguçar da percepção que tinha agora, a claridade viera sem tristeza.

Catherine estava a fazer fosse o que fosse. Olhou lá para fora e sentiu-se descuidadamente feliz. Estava um dia para voar. Desejou que houvesse um aeródromo onde pudesse alugar um avião para levar Marita e lhe mostrar o que se podia fazer num dia daqueles. «Ela. haveria de gostar. Mas não há aqui aeródromo. Esquece. Seria divertido. Esquiar, também. Só faltam dois meses, se o quiseres fazer.» Deus, era bom ter acabado e tê-la ali. Marita ali, sem ciúmes do trabalho, e poder dizer-lhe até onde se queria chegar. «Ela entende mesmo, não é fingida. Amo-a, e repara bem, uísque, e tu sê minha testemunha, Perrier, tenho-te sido fiel à minha maneira. É bom a gente sentir-se tão bem. É uma sensação estúpida mas adequa-se a este dia.»

- Vamos lá, rapariga - disse para Marita, à porta do quarto dela. - Que te está a reter além dessas pernas maravilhosas?

- Estou pronta, David - disse ela. Vestira uma camisola justa e umas calças e tinha o rosto resplandecente. Escovou o cabelo escuro e olhou para ele.

- É maravilhoso estares tão contente. Está um dia tão bonito - disse ele. - E temos tanta sorte. Achas? - perguntou ela, enquanto se dirigiam para o carro. - Achas mesmo que temos sorte?

- Sim - disse ele. - Acho que mudou esta manhã ou até mesmo de noite.

 

Quando chegaram, o carro de Catherine estava à entrada do hotel, estacionado do lado direito. David estacionou o velho lsotta atrás e ele e Marita saíram e passaram pelo pequeno e vazio carro azul e atravessaram o pátio sem falar. Passaram pelo quarto de David, com a porta fechada e as janelas abertas, e Marita deteve-se à porta do seu quarto e disse:

- Adeus.

- Que vais fazer esta tarde? - perguntou ele.

- Não sei - disse ela. - Estarei por aqui. Ele atravessou o pátio e entrou pela porta principal. Catherine estava sentada no bar a ler oParis Herald com um copo e uma garrafa ao lado. Olhou para ele.

- Que te trouxe de volta? - perguntou.

- Almoçámos na cidade e viemos - disse David.

- Como está a tua puta? - Ainda não arranjei nenhuma.

- Refiro-me àquela para quem escreves as histórias.

- Oh! As histórias.

- Sim. As histórias. Aquelas histórias horríveis sobre a tua adolescência, com o falso do bêbedo do teu pai.

- Não era assim tão falso.

- Então não enganou a mulher e todos os amigos?

- Não. Na verdade, só se enganou a si próprio.

- Mas tornaste-o desprezível nestes últimos textos ou anedotas inúteis que escreveste sobre ele.

- Referes-te às histórias.

- Tu chamas-lhes histórias - disse Catherine.

- Sim - disse David, servindo-se de um copo de vinho gelado, naquele dia brilhante, na sala agradável e iluminada do confortável hotel, e, bebendo-o, viu que não conseguia animar o seu coração frio.

- Queres que eu me vá embora e vá buscar a Herdeira? disse Catherine. - Não vale a pena ela ficar a pensar que tivemos uma discussão sobre de quem é o dia, ou então que nos dedicámos solitariamente à bebida.

- Não precisas de a ir buscar

- Mas gostaria de o fazer. Ela tomou conta de ti hoje, eu não. Olha, David, ainda não sou uma cabra. Só me comporto e falo como tal.

 

Enquanto David esperava por Catherine, bebeu outro copo de champanhe e leu a edição parisiense do New York Herakí que ela tinha deixado sobre o balcão. Beber sozinho não tinha o mesmo sabor e foi à cozinha buscar uma rolha para tapar a garrafa antes de a meter no frigorífico. Mas a garrafa não lhe pareceu pesada e, examinando-a contra a luz, viu que tinha pouco vinho e, assim, bebeu o resto e deixou a garrafa vazia no chão de tijoleira. Mesmo quando bebeu rapidamente não lhe fez qualquer efeito.

Graças a Deus que tinha conseguido escrever as histórias. O que tornara bom o último livro tinham sido as pessoas lá presentes, e o rigor dos pormenores é que o tinha tornado plausível. Na verdade, só precisava de se lembrar com exactidão e a forma aparecia. Depois, claro, ele fechá-la-ia como o diafragma de uma máquina fotográfica e intensificava-a para que ficasse concentrada ao ponto onde o calor apertava e o fumo começava a aparecer. Sabia que agora estava a consegui-lo.

Aquilo que Catherine dissera sobre as histórias quando tentara magoá-lo fizera-o pensar no pai e em todas as coisas que tentara fazer em relação a ele. «Agora», disse para si próprio, «tens que fazer um esforço para crescer de novo e enfrentar o que tens a enfrentar sem te mostrares irritável ou te sentires magoado por alguém não ter entendido nem apreciado o que escreveste. Ela cada vez entende menos. Mas trabalhaste bem e nada te pode afectar enquanto conseguires trabalhar. Tenta esquecê-la e esquecer-te. Amanhã tens de rever a história e torná-la perfeita.»

Mas David não queria pensar na história. Importava-lhe a escrita mais do que tudo o resto e importavam-lhe muitas outras coisas, mas sabia que quando estava a fazer aquilo não se devia preocupar nem mexer muito, como se se tratasse de abrir a porta de uma câmara escura para revelar um negativo. «Deixa isso», disse para consigo. «És um palerma e sabe-lo.»

Os seus pensamentos voltaram-se para as duas raparigas e ele perguntou-se se deveria ir ter com elas e perguntar-lhes o que queriam fazer ou se queriam ir nadar. Afinal, era o dia de Marita e ela podia estar à espera. Talvez ainda se salvasse alguma coisa do dia. Devia ir ter com elas e perguntar o que queriam fazer. «Então, vai», disse para consigo. «Não fiques aí a pensar. Vai à procura delas.»

A porta do quarto de Marita estava fechada e ele bateu. Estavam a falar e, quando se ouviu a pancada, a conversa parou.

- Quem é? - perguntou Marita. Ouviu Catherine rir-se e dizer:

- Entre, quem quer que seja. Ouviu Marita dizer algo a Catherine e depois esta disse:

- Entra, David. Abriu a porta. Estavam em cima da cama, estendidas lado a lado, com o lençol puxado até ao queixo.

- Entra, David - disse Catherine. - Temos estado à tua espera.

David olhou para elas, para a rapariga morena e séria e para a loira risonha. Marita olhou para ele, tentando dizer-lhe alguma coisa. Catherine ria-se.

- Não queres vir para aqui, também, David?

- Vim saber se querem ir nadar - disse David.

- Eu não quero - disse Catherine. - A Herdeira estava a dormir e eu meti-me na cama com ela. Foi muito boa e pediu-me para sair. Ela não te é infiel nem um bocadinho, David. Mas não queres entrar para então te sermos as duas fiéis?

- Não - disse David.

- Por favor, David - disse Catherine. - Está um dia tão bonito.

- Queres ir nadar? - perguntou David a Marita.

- Gostava muito - disse a rapariga, por cima do lençol.

- Vocês são dois puritanos - disse Catherine. - Por favor, sejam ambos razoáveis e tu vem para a cama, David.

- Quero ir nadar - disse Marita. - Por favor, sai, David.

- Por que razão ele não te pode ver? - perguntou Catherine.

- Vê-te sempre na praia.

- Ele vê-me lá - disse Marita. - Por favor, sai, David. David saiu e fechou a porta sem olhar para trás, ouvindo Marita falar em voz baixa com Catherine e depois o riso desta. Atravessou o pátio até à frente do hotel e pôs-se a olhar para o mar. Corria uma leve brisa e ficou a ver três barcos de guerra e um cruzador, claramente desenhados contra o mar azul. Estavam muito longe e David ficou a vê-los até as raparigas se aproximarem.

- Por favor, não estejas zangado - disse Catherine. Estavam vestidas para a praia e Catherine pousou um saco com as toalhas e os roupões sobre uma cadeira de ferro.

- Também vais nadar? - perguntou-lhe David.

- Se não estiveres zangado comigo. David não disse nada e ficou a ver os navios mudarem de rumo e outro barco de guerra sair da linha, começando a deitar fumo.

- Foi só uma brincadeira - disse Catherine. - Tu e eu temos tido umas brincadeiras tão rudes.

- Que estão eles a fazer, David? - perguntou Marita.

- Manobras anti-submarinos, suponho - respondeu ele. Talvez haja submarinos a trabalhar com eles. Provavelmente são de Toulon.

- Estavam em Sainte-Maxime ou Saint-Raphael - disse Catherine. - Vi-os noutro dia.

- Agora não se vêem com a cortina de fumo - disse David.

- Deve haver outros navios que não conseguimos ver.

- Aí estão os aviões - disse Marita. - Não são maravilhosos?

Eram hidroaviões muito pequenos e três deles andavam às voltas a baixa altitude, sobre a água.

- Quando aqui estivemos no começo do Verão, andavam em manobras de guerra em Porquerolles e foi formidável - disse Catherine. - Até as janelas abanaram. Também vão usar agora bombas de profundidade, David?

- Não sei. Se estão a trabalhar com submarinos a sério, acho que não.

- Também posso ir nadar, não posso, David? - perguntou Catherine.

- Vou-me embora e depois vocês já podem nadar à vontade. Perguntei-te se querias ir nadar - disse David.

- É verdade - disse Catherine. - Perguntaste. Então, vamos e sejamos todos amigos e felizes. Se os aviões se aproximarem poderão ver-nos na praia e isso animá-los-á.

Os aviões aproximaram-se enquanto David e Marita nadavam e Catherine se bronzeava. Passaram rapidamente, três esquadrilhas de três, com os motores ruidosos, e afastaram-se em direcção a Sainte-Maxime.

David e Marita saíram da água e sentaram-se na areia ao lado de Catherine.

- Nem sequer olharam para mim - disse Catherine. Devem ser rapazes muito sérios.

- Que esperavas? Fotografias aéreas? - perguntou-lhe David. Marita falara muito pouco desde que tinham saído do hotel e não respondeu a isto.

- Era muito engraçado quando David vivia comigo - disse-lhe Catherine. - Lembro-me de quando gostava das mesmas coisas que o David. Deves tentar também gostar das mesmas coisas que ele, Herdeira. Isto é, se é que ele ainda gosta de algumas.

- Gostas, David? - perguntou Marita.

- Ele trocou tudo o que tinha naquelas histórias - disse Catherine. - Tinha tanta coisa. Espero sinceramente que gostes de histórias, Herdeira.

- Gosto - disse Marita. Não olhou para David mas ele viu o seu rosto sereno, o cabelo molhado do mar e a pele macia e o corpo maravilhoso.

- Ainda bem - disse Catherine, preguiçosamente, inspirando com força, enquanto se estendia sobre o roupão de turco, na areia ainda quente do sol. - Porque é o que vais ter. Ele costuma fazer tantas coisas e fazia-as tão bem. Tinha uma vida maravilhosa e agora só pensa na África e no bêbedo do pai e nos recortes de imprensa. Os seus recortes. Ele já tos mostrou, Herdeira?

- Não, Catherine - disse Marita.

- Vai mostrar - disse Catherine. - Tentou mostrar-mos uma vez em Le Grau du Roi, mas fi-lo parar logo com isso. Havia centenas deles e quase todos traziam a mesma fotografia. É pior do que andar com postais obscenos. Acho que os lê sozinho e me é infiel com eles. Num cesto de papéis. Ele próprio disse que era a coisa mais importante que um escritor...

- Vamos nadar, Catherine - disse Marita. - Acho que está a ficar frio.

- Estava a dizer que o cesto de papéis é a coisa mais importante para um escritor - disse Catherine. - Até cheguei a pensar em lhe arranjar um bem bonito que fosse digno dele. Mas ele nunca põe nada do que escreve no cesto dos papéis. Escreve naqueles ridículos cadernos de criança e não deita nada fora. Tudo isto é uma fraude. Ele dá erros ortográficos e também de gramática. Sabias que ele não sabe gramática, Marita?

- Pobre David - disse Marita.

- Claro que o francês dele ainda é pior - continuou Catherine. - Nunca o viste escrever. Na conversação ainda disfarça e é engraçado com o calão. Mas, na verdade, ele é ignorante.

- Que pena! - disse David.

- Eu achei que ele era maravilhoso - disse Catherine. - Até que descobri que ele não era capaz de escrever correctamente nem sequer um bilhete. Mas tu escreves por ele em francês.

- Ta queule - disse David, animadamente.

Ele é bom neste tipo de coisas - disse Catherine. - Pedaços de calão que provavelmente até já nem se usam. Fala um francês idiomático mas não o sabe escrever. Ele é mesmo ignorante, Marita, tem de encarar isso. A caligrafia dele também é horrível. Não sabe escrever como um cavalheiro, em nenhuma língua. Principalmente na dele.

- Pobre David - disse Marita.

- Não posso dizer que lhe dei os melhores anos da minha vida - continuou Catherine - porque só vivo com ele desde Março, mas dei-lhe sem dúvida os melhores meses da minha vida. Aqueles em que me diverti mais e ele também contribuiu para isso. Quem me dera que não tivesse acabado numa desilusão completa. Mas que se há-de fazer quando se descobre que o homem é ignorante e se dedica à prática do vício solitário num cesto de papéis cheio de recortes de uma coisa chamada The Original Romeikâ, sejam lá quais forem? Qualquer rapariga se desencorajaria, e, francamente, não vou aturar isso.

- Pega nos recortes e queima-os - disse David. - Ainda seria o mais sensato. Não queres ir nadar, Demónio?

- Como sabes que o fiz? - perguntou.

- Fizeste o quê?

- Queimei os recortes

- Queimaste, Catherine? - disse Marita.

- Claro que queimei - disse Catherine. David pôs-se a olhar para ela; sentia-se completamente vazio. Era como ter dado uma curva numa estrada de montanha e depois a estrada desaparecer e só lá estar um precipício. Marita encontrava-se agora em pé. Catherine olhava para eles, com o rosto calmo.

- Vamos nadar - disse Marita. - Vamos até além e voltamos para trás.

- Ainda bem que finalmente és simpática - disse Catherine. Estava com vontade de ir há já algum tempo. Está a ficar frio. Esquecemo-nos que estamos em Setembro.

 

Vestiram-se na praia e subiram o caminho, com David a carregar o saco com as coisas, e dirigiram-se para o carro. Entraram e David conduziu até ao hotel. Catherine ia muito calada e para alguém que passasse poderia estar de regresso de uma tarde passada nalguma das praias desertas de Esterel. Já não se viam os barcos de guerra quando estacionaram o carro, e o mar, para lá dos Pinheiros, era azul e calmo. A tarde estava tão maravilhosa e clara como estivera a manhã.

Entraram no hotel e David deixou o saco de praia no vestiário.

- Deixa-me levá-lo - disse Catherine. - preciso pôr as coisas a secar.

- Desculpa - disse David, dirigindo-se para o seu quarto de trabalho num dos extremos do hotel. Lá dentro, abriu a grande mala Vuitton. O monte de cadernos onde escrevera a história tinha desaparecido, tal como quatro grandes envelopes que continham os recortes da imprensa. O monte de cadernos onde escrevera a narrativa estava intacto. Fechou a mala e revistou todas as gavetas dos armários e o quarto. Não acreditava que as histórias tivessem desaparecido. Não acreditava que ela o pudesse fazer. Na praia pensara que sim, mas depois parecera-lhe impossível e não acreditara verdadeiramente. Tinham-se mostrado calmos, cuidadosos e contidos, como se estivessem treinados para enfrentar o perigo, mas não parecia possível que aquilo tivesse realmente acontecido.

Agora sabia que acontecera, mas tinha ainda a esperança de que pudesse ser alguma brincadeira. E assim, com o coração morto e vazio, voltou a abrir a mala e a procurar e depois disso revistou novamente o quarto. Agora não havia perigo nem emergência. Só desastre. Mas não podia ser. Ela devia tê-los escondido algures. Podiam estar no vestiário, ou no quarto deles, ou até no quarto de Marita. Não podia tê-los destruído. Nenhum ser humano seria capaz de fazer isso a outro ser humano. Ainda não acreditava que ela o tivesse feito, mas sentia-se doente quando fechou a porta.

As duas raparigas estavam no bar quando David entrou. Mariita olhou para ele e viu logo como as coisas estavam e Catherine viu-o chegar pelo espelho. Não olhou para ele, unicamente para o seu reflexo no espelho.

- Onde os puseste, Demónio? - perguntou David. Ela desviou os olhos do espelho e olhou para ele.

- Não te digo - respondeu. - Tratei deles.

- Gostava que me dissesses - insistiu David. - Preciso muito deles.

- Não precisas nada - disse ela. - Não valiam nada e eu detestava-os.

- Aquele sobre Kibo, não - disse David. - Tu gostavas muito de Kíbo. Não te lembras?

- Também teve de ir. Eu ia guardá-lo mas não o encontrei. De qualquer forma, tu disseste que ele tinha morrido.

David viu Marita olhar para ela e desviar o olhar. Depois, olhou novamente.

- Onde os queimaste, Catherine?

- Também não te digo - respondeu Catherine. - Fazes parte da mesma coisa. - Queimaste-os juntamente com os recortes? - perguntou David.

- Não te digo - disse Catherine. - Pareces um polícia ou um professor.

- Diz-me, Demónio. Só quero saber.

- Paguei-os - disse Catherine. - Paguei o dinheiro para os fazeres.

- Eu sei - disse David. - Foste muito generosa. Onde os queimaste, Demónio?

- Não lhe digo a ela.

- Não. Só a mim.

- Diz-lhe para se ir embora.

- Tenho mesmo que ir - disse Marita. - Até logo, Catherine.

- Óptimo - disse Catherine. - A culpa não foi tua, Herdeira.

David sentou-se no banco ao lado de Catherine e esta ficou a ver Marita pelo espelho.

- Onde os queimaste, Demónio? - perguntou David. Agora podes dizer-me.

- Ela não entende - disse Catherine. - Por isso quis que se fosse embora.

- Eu sei - disse David. - Onde os queimaste, Demónio?

- No contentor de ferro com buracos que Madame utiliza para queimar o lixo - disse Catherine.

- Ardeu tudo?

- Sim. Deitei-lhe gasolina de um bidão na remise. Fez um grande fogo e ardeu tudo. Fi-lo por ti, David, e por todos nós.

- Claro que sim - disse David. - E ardeu tudo?

- Oh, sim. Podemos ir lá para veres, se quiseres, mas não é necessário. Os papéis arderam até ficarem negros e mexi-os com um pau.

- Vou lá fora dar uma vista de olhos - disse David.

- Mas voltas - disse Catherine.

- Claro - disse David. Os papéis tinham sido queimados no incinerador, que era um velho bidão de gasolina com buracos. O pau utilizado para desfazer as cinzas era um velho pau de vassoura inutilizada. O bidão encontrava-se no alpendre de pedra e continha querosene. Lá dentro viam-se alguns pedaços identificáveis das capas verdes dos cadernos e David encontrou bocados queimados de jornais e dois pedaços de papel cor-de-rosa que identificou como o utilizado pelo serviço de recortes Romeike. As cinzas tinham sido bem remexidas, mas teria sem dúvida encontrado mais material por queimar se se tivesse dado ao trabalho de procurar com cuidado. Rasgou o papel cor-de-rosa, que dizia «Providence, RI», e deitou os pedaços dentro do velho bidão de gasolina. Ocorreu-lhe que nunca tinha estado em Providence, Rhode Island, e, ao repor o pau de vassoura no alpendre de pedra, reparou na presença da sua bicicleta de corrida, cujos pneus precisavam de ar, e entrou na cozinha do hotel, que estava vazia, dirigindo-se para o salão, onde se reuniu à sua mulher, Catherine, que estava no bar.

- Não foi como eu disse? - perguntou Catherine.

- Sim - disse David, sentando-se num dos bancos e colocando os cotovelos sobre o balcão.

- Provavelmente teria sido suficiente queimar os recortes - disse Catherine - mas pensei que devia fazer uma limpeza.

- Lá isso, fizeste - disse David.

- Agora já podes continuar com a narrativa e não haverá interrupções. Podes começar amanhã de manhã.

- Claro - disse David.

- Ainda bem que estás a ser razoável - disse Catherine. Nem calculas como aquilo não prestava. Tive de to mostrar.

-Não podias ter guardado aquele texto sobre o Kibo, de que gostavas? já te disse que o procurei. Mas se o quiseres reescrever, eu digo-te palavra a palavra.

- Será divertido.

- Pois será. Vais ver. Queres que to dite agora?

- Não - disse David. - Agora, não. És capaz de o escrever?

- Não sei escrever coisas, David, sabes isso muito bem. Mas posso ditar-te quando quiseres. Não te importas com os outros, pois não? Não valiam nada.

- Por que razão o fizeste?

- Para te ajudar. Podes ir à África e escrevê-los de novo quando os teus pontos de vista tiverem amadurecido. O país não deve ter mudado muito. Acho que seria mais agradável se escrevesses sobre a Espanha. Disseste que é parecida com África e aí terias a vantagem de uma língua civilizada.

David serviu-se de um uísque a que juntou um pouco de Perrier. Lembrou-se do dia em que tinham passado pelo local onde era engarrafada a água Perrier, a caminho de Aigues Mortes, e de como...

- Não vamos falar de escrita - disse ele para Catherine.

- Mas eu gostava - disse Catherine. - Gosto quando é construtivo e tem um objectivo válido. Sempre escreveste tão bem até teres começado com essas histórias. O pior era o lixo e as moscas e a crueldade e a bestialidade. Parecias rebolar-te nisso. E aquela horrível sobre o massacre na cratera e a crueldade do teu pai?

- Podemos não falar nisso? - perguntou David.

- Quero falar nisso - disse Catherine. - Quero que entendas a razão por que foi necessário queimá-las.

- Então, escreve - disse David. - Agora preferia não ouvir nada.

- Mas não sei escrever coisas, David.

- Aprendes - disse David.

- Não. Mas dito-as a alguém que as saiba escrever - disse Catherine. - Se fosses meu amigo, escrevê-las-ias tu. Se me amasses, até sentirias prazer em fazê-lo.

- O que quero fazer é matar-te - disse David. - E a única razão por que não o faço é porque és maluca.

- Não me podes falar assim, David.

- Não?

- Não, não podes. Estás a ouvir?

- Ouço.

- Então ouve eu dizer-te que não podes dizer essas coisas. Não me podes dizer essas coisas horríveis.

- Ouvi-te - disse David.

- Não podes dizê-las. Não admito. Divorcio-me de ti.

- Isso seria bem-vindo.

- Então continuo casada contigo e nunca te darei o divórcio.

- Havia de ser bonito.

- Faço contigo o que me apetecer.

- É o que tens feito,

- Mato-te. Estou-me nas tintas - disse David. Nem sequer és capaz de falar como um cavalheiro numa altura destas.

- Que diria um cavalheiro numa altura destas?

- Pedia desculpa.

- Está bem - disse David. - Desculpa. Lamento ter-te conhecido. Lamento ter casado contigo...

- Eu também.

- Cala-te, por favor. Podes dizê-lo a alguém que seja capaz de o escrever. Lamento que a tua mãe tenha conhecido o teu pai e que te tenham concebido. Lamento que tenhas nascido e crescido. Lamento tudo o que fizemos, bom ou mau.

- Não lamentas.

- Não - disse ele. - Vou-me calar. Não tencionava fazer um discurso.

- Estás é com pena de ti próprio.

- É possível - disse David. - Mas, merda, Demónio, por que havias de ter queimado as histórias?

- Tive de o fazer, David   disse ela. - Lamento que não compreendas.

Na verdade, ele compreendera até antes de a ter interrogado e a pergunta fora meramente retórica. Não gostava de retórica e desconfiava daqueles que a utilizavam e sentia-se envergonhado por ter caído nisso. Bebeu o uísque com Perrier, lentamente, enquanto pensava em como era falso que tudo o que era compreendido fosse perdoado, e cingiu-se à sua disciplina tão conscienciosamente como teria trabalhado nos velhos tempos com o mecânico e o armeiro a verificarem o avião, a máquina e as armas.

Nessa altura não fora necessário porque eles tinham realizado um trabalho perfeito, mas era uma forma de não pensar e era até reconfortante. Agora era necessário porque aquilo que dissera a Catherine sobre matá-la dissera-o a sério, e não retoricamente. Sentia-se envergonhado com o discurso que se seguira à afirmação. Mas não podia fazer nada em relação à afirmação, que fora verdadeira, excepto apertar a disciplina de forma a não perder autodomínio. Serviu-se de outro uísque com Perrier e ficou a ver as bolhinhas formarem-se e desaparecerem. «Raios a partam», pensou.

- Desculpa estar a ser casmurro - disse. - Claro que entendo.

- Estou tão contente, David - disse ela. - Vou-me embora de manhã.

- Para onde?

- Para Hendaia e depois para Paris, a fim de falar com os artistas sobre o livro.

- A sério?

- Sim. Acho que devo fazê-lo. já perdemos muito tempo e hoje avancei tanto que quero manter o ritmo.

- Como vais?

- Levo o Bug.

- Não devias conduzir sozinha.

- Mas quero.

- Não devias, Demónio. Eu não devia deixar-te.

- Posso ir de comboio? Há um para Baiona. Posso alugar um carro lá ou em Biarritz.

- Podemos falar nisso de manhã.

- Quero falar agora.

- Não devias ir, Demónio.

- Vou - disse ela. - Não me vais impedir.

- Só estou a pensar na melhor forma.

- Não estás, não. Estás a ver se me impedes.

- Se esperares, vamos juntos.

- Não quero ir junta. Quero ir amanhã e levar o Bug. Se não concordares, vou de comboio. Não me podes impedir de ir de comboio. Sou maior e, lá por ser casada contigo, não sou tua escrava. Vou e não me impedirás.

- E voltas?

- Tenciono voltar.

- Percebo.

- Não percebes nada, mas também não faz diferença. Este é um projecto pensado e coordenado. Estas coisas não se atiram assim... Para o cesto dos papéis - disse David e depois lembrou-se da disciplina e bebeu um trago de uísque com Perrier. - Vais visitar os teus advogados em Paris? - perguntou.

- Se tiver alguma coisa a tratar com eles, vou. Costumo avistar-me com eles. Lá porque não tens advogados, não quer dizer que os outros não os tenham e não os consultem. Queres que os meus advogados te tratem de alguma coisa?

- Não - disse David. - Quero que se lixem.

- Tens muito dinheiro?

- Estou bem de dinheiro.

- A sério, David? Então as histórias não valiam muito? Isso tem-me incomodado bastante e conheço as minhas responsabilidades. Vou ver o que tenho a fazer.

- Vais quê?

- Ver o que tenho a fazer e fazê-lo.

- E que tencionas fazer?

- Vou mandar determinar o seu valor e dar ordem ao meu banco para te pagar o dobro.

- Parece generoso - disse David. - Sempre foste generosa.

- Quero ser justa, David, e é possível que elas tivessem maior valor financeiro que reconhecimento público.

- Quem reconhece estas coisas?

- Há pessoas que o fazem. Há pessoas que reconhecem tudo.

- Que tipo de pessoas?

- Não sei, David. Mas imagino, por exemplo, o editor da Atlantíc Mont My, da Harper, da Nouvelle Revue Franfaise.

- Vou sair por um bocado - disse David. - Sentes-te bem?

- Exceptuando o facto de sentir que se calhar te fiz muito mal e que tenho de compor o que estraguei, sinto-me bem - disse Catherine. - Era uma das razões por que ia a Paris. Não quis dizer-te.

- Não vamos discutir os danos - disse David. - Então queres ir de comboio?

- Não. Quero levar o Bug.

- Está bem. Levas o Bug. Mas conduz com cuidado e não vás pela montanha.

- Conduzo como me ensinaste e faço de conta que vais comigo e falo contigo e contas-me histórias e invento histórias sobre como te salvei a vida. Invento sempre essas. E contigo tudo parecerá muito mais rápido e sem esforço e a velocidade não o parecerá. Vou divertir-me.

- Óptimo - disse David. - Leva as coisas com calma. Dorme em Nimes a primeira noite, a não ser que saias cedo. Conhecem-nos no Imperador.

- Pensei em ir até Carcassona.

- Não, Demónio, por favor.

- Talvez eu consiga sair cedo e chegar até Carcassona. Iria por Arles e Mompellier e não perderia tempo em Nimes.

- Se saíres tarde, pára em Nimes.

- Parece tão infantil - disse ela.

- Vou contigo - disse ele. - Devia ir.

- Não, por favor. É importante que eu faça isto sozinha. A sério. Não quero que vás comigo.

- Está bem - disse ele. - Mas devia ir.

- Não, por favor. Tens de confiar em mim, David. Vou conduzir com cuidado e parto já.

- Não podes, Demónio, agora escurece cedo.

- Não te preocupes. Foste muito querido em me deixares ir disse Catherine. - Mas também sempre foste assim. Se fiz alguma coisa que não devia, espero que me perdoes. Vou sentir muito a tua falta. já a sinto. A próxima vez iremos juntos.

- Tiveste um dia muito movimentado - disse David. Estás cansada. Pelo menos deixa-me levar o Bugatti até à cidade para fazer uma revisão.

Deteve-se à porta do quarto de Marita e perguntou:

- Queres ir dar um passeio?

- Sim - disse ela.

- Então, vem.

 

David entrou no carro e Marita sentou-se ao seu lado. David levou-o até um pedaço de estrada coberta por areia da praia e depois recuou, observando a relva à esquerda, a praia vazia e o mar

À direita e a estrada asfaltada à frente. Voltou a pôr o carro na estrada até que avistou a ponte branca, aproximando-se rapidamente, e então reduziu a velocidade enquanto calculava a distância e premiu deliberadamente o travão. O carro não ziguezagueou, mantendo-se firme. Antes da ponte parou o carro, meteu a mudança e voltou a pô-lo na estrada, subindo disciplinadamente a estrada número seis, que conduzia a Cannes.

- Ela queimou-os todos - disse ele.

- Oh, David - disse Marita e seguiram para Cannes, onde as luzes já estavam acesas.

David estacionou o carro sob as árvores em frente do café onde se tinham conhecido.

- Não preferes ir a outro sítio? - perguntou Marita.

- Não me importo - disse David. - Não me faz diferença nenhuma.

- Se queres continuar... - disse Marita.

- Não. Prefiro refrescar-me - disse David. - Só queria verificar se o carro estava em condições de ela o conduzir.

- Ela vai?

- Diz que sim. Estavam sentados a uma mesa no terraço, à sombra das árvores. O criado trouxe para Marita um Tío Pepe e para David um uísque com Perrier.

- Queres que vá com ela? - perguntou Marita.

- Não achas que lhe vai acontecer alguma coisa, pois não?

- Não, Davíd. Acho que ela já fez a si mesma mal que chegasse para uns tempos.

- Pode ser - disse David. - Queimou-me o raio dos papéis, excepto a narrativa. O texto sobre ela.

- É uma narrativa maravilhosa - disse Marita. Não me lixes - disse David. - Escrevia-a e escrevi o que ela queimou. Não me dês a palha com que alimentam as tropas.

- Podes escrever novamente.

- Não - disse David. - Quando está bem, uma pessoa não consegue lembrar-se. Cada vez que se lê de novo, aparece como uma grande e incrível surpresa. Só se faz cada coisa uma vez. E só nos são permitidas algumas na vida.

- Algumas quê? - Algumas coisas boas.

- Mas consegues lembrar-te delas. Deves lembrar-te.

- Nem eu, nem tu, nem ninguém. Desapareceram. Depois de as ter capitado, desapareceram.

- Ela foi má para ti.

- Não - disse David.

- Então o quê?

- Apressada - disse David. - Tudo o que se passou hoje foi porque ela já estava apressada.

- Espero que sejas assim compreensivo comigo.

- Mantém-te por aqui e não me deixes matá-la. Sabes o que ela vai fazer, não sabes? Vai pagar-me as histórias para que eu não fique a perder.

- Não.

- Vai, sim. Vai fazer com que os advogados calculem o prejuízo, de alguma maneira fantástica, e depois vai pagar-me o dobro do preço avaliado.

- A sério, David? Ela não disse nada disso.

Disse sim. Só falta acertar os pormenores e pagar o dobro. Torna-a generosa e dá-lhe prazer.

- Não podes deixá-la guiar sozinha, David.

- Eu sei.

- Que vais fazer?

- Não sei. Mas deixemo-nos ficar aqui mais um bocado disse David. - Agora, já não há pressa. Ela deve ter ido dormir. Eu também gostava de ir dormir, contigo, e acordar e encontrar aquele material todo e pôr-me novamente a trabalhar.

- Vamos dormir, e um dia, quando acordares, vais trabalhar tão bem como esta manhã.

- És uma jóia - disse David. - Mas foste meter-te num sarilho quando apareceste aqui naquela noite, não foi?

- Não tentes pôr-me de lado - disse Marita. - Sei muito bem onde me meti.

- Claro - disse David. - Ambos sabemos. Queres outra bebida?

- Se tu tomares - disse Marita, e depois acrescentou: Quando vim, não sabia que ia haver uma batalha.

- Nem eu.

- Contigo, és mesmo só tu contra o tempo.

- Não o tempo que pertence a Catherine.

- Só porque o tempo dela é diferente. Está aterrorizada por ele. Disse-te esta noite que todo o dia, hoje, foi só pressa. Não é verdade, mas compreendeste. E durante tanto tempo ganhaste ao tempo.

 

Muito mais tarde ele chamou o criado, pagou as bebidas, deixou uma gorjeta e tinha posto o carro a trabalhar e ligado os faróis quando lhe veio à cabeça tudo o que tinha acontecido. Veio-lhe nítida e claramente, tal como olhara pela primeira vez para o incinerador e vira as cinzas mexidas por um pau de vassoura. Conduziu cuidadosamente com os faróis a penetrarem na noite calma e vazia da cidade. Sentiu o ombro de Marita ao seu lado e ouviu-a dizer:

- Eu sei, David. Também me atingiu.

- Não deixes que isso te aconteça.

- Ainda bem que aconteceu. Não há nada a fazer, mas fá-lo-emos.

- Óptimo.

- Fá-lo-emos de verdade. Tol et moí.

No hotel, Madame apareceu, vinda da cozinha, quando David e Marita entraram no salão. Trazia uma carta na mão.

- Madame apanhou o comboio para Biarritz - disse ela. Deixou esta carta para Monsieur.

- Quando partiu? - perguntou David.

- Logo a seguir a Monsieur e Madame terem saído - respondeu Madame Aurol. - Mandou o rapaz à estação comprar o bilhete e mandou reservar um wagon-lit.

David começou a ler a carta.

- Querem comer? - perguntou Madame. - Galinha fria e salada? Uma omoleta para começar. Também há borrego, se Monsieur preferir. Que vai ele comer, Madame?

Marita e Madame Aurol conversaram enquanto David acabava de ler a carta. Meteu-a no bolso e olhou para Madame Aurol.

- Parecia normal quando saiu?

- Talvez não, Monsieur.

- Ela volta - disse David.

- Sim, Monsieur.

- Tomaremos conta dela.

- Sim, Monsieur. Começou a chorar enquanto virava a omoleta e David abraçou-a e beijou-a.

- Vá conversar com Madame - disse ela - e deixe-me pôr a mesa. Aurol e o rapaz estão em Napoule a misturar belote com política.

- Eu ponho a mesa - disse Marita. - David, por favor, abre a garrafa de vinho. Não achas que devíamos beber Lanson?

Ele fechou a porta do frigorífico e, segurando a garrafa fria, retirou-lhe o selo e o fio e depois cuidadosamente rodou a rolha entre o polegar e o indicador, sentindo a capa de metal contra o dedo e a promessa redonda e fresca da garrafa. Retirou gentilmente a rolha e encheu três copos. Madame afastou-se do forno e todos ergueram os copos. David não sabia a que havia de beber, por isso disse as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça e que foram: «À Nous et à la Liberté».

Todos beberam e Madame serviu a omoleta e beberam novamente sem fazerem nenhum brinde.

- Come, David, por favor - disse Marita.

- Está bem - disse ele, bebendo algum vinho e comendo lentamente um pouco da omoleta.

- Come só um bocadinho - disse Marita. - Faz-te bem. Madame olhou para Marita e abanou a cabeça.

- Não resolve nada não comendo - disse-lhe Madame.

- Claro - respondeu David e comeu lentamente e bebeu o champanhe, que ganhava vida cada vez que ele enchia o copo. Onde deixou ela o carro? - perguntou ele.

- Na estação - respondeu Madame. - O rapaz foi com ela e trouxe a chave. Está no seu quarto.

- O wagon-lit ia cheio?

- Não. Ele acompanhou-a lá dentro. Levava poucos passageiros. Ela teve lugar.

- O comboio não é mau - disse David.

- Coma um pouco de galinha - disse Madame - e beba mais um bocadinho de vinho. Abra outra garrafa. As suas mulheres estão cheias de sede.

- Eu não tenho sede - disse Marita.

- Tem, sim - disse Madame. - Bebam e levem a garrafa. Conheço esse aí. Faz-lhe bem beber bom vinho.

- Não quero beber de mais, chéríe - disse David para Madame -, pois amanhã vai ser um dia mau e eu não quero sentir-me mal -

- Não vai sentir-se. Sei bem. Coma lá para me fazer a vontade. Ela desculpou-se por alguns minutos e desapareceu durante um quarto de hora. Davíd comeu a galinha toda e a salada e depois de ela ter regressado beberam juntos um copo de vinho e depois David e Marita disseram boa noite a Madame, que foi muito formal, e saíram para o terraço e admiraram a noite. Estavam ambos apressados e David levou uma garrafa de vinho e um balde de gelo. Pousou-a, tomou Marita nos braços e beijou-a. Ficaram abraçados sem nada dizer, e então David agarrou no balde de gelo e dirigiram-se para o quarto de Marita.

A cama tinha sido feita para duas pessoas e David pousou o balde de gelo no chão e disse:

- Madame.

- Sim - disse Marita. - Naturalmente.

 

Ficaram juntos e a noite cá fora estava fresca e corria uma brisa vinda do mar e Marita disse:

- Amo-te, David, e tenho tanta certeza, agora. «Certeza», pensou David. «Certeza. Nada é certo.»

- Antes - disse Marita -, antes de poder dormir toda a noite contigo, pensei e repensei que não gostarias do tipo de mulher que não consegue dormir.

- E que tipo de mulher és tu?

- Verás. Agora, sou uma mulher feliz. Depois, sentiu que levou muito tempo a adormecer, mas na verdade não levou, e quando acordou, com a primeira luz da manhã, viu Marita na cama, ao seu lado, e sentiu-se feliz, até que se lembrou do que tinha acontecido. Teve muito cuidado para não a despertar, mas, quando ela se mexeu, beijou-a antes de sair da cama. Ela sorriu e disse:

- Bom dia, David.

Ele respondeu:

- Continua a dormir, meu querido amor.

Ela disse:

- Está bem.

E voltou-se para o outro lado como um pequeno animal e, de cabeça morena, ficou enroscada com os olhos fechados, desviados da luz, e as pestanas pretas, compridas e brilhantes, contrastando com o tom rosado da pele.

David olhou para ela e pensou em como era bela e como se via bem que o espírito não lhe saía do corpo enquanto dormia. Era adorável e a cor, assim como o macio da pele, parecia de Java. Observou o colorido do rosto a acentuar-se à medida que a luz entrava no quarto. Depois, abanou a cabeça, e, levando a roupa no braço, abriu e fechou a porta e saiu para a manhã, descalço, pisando as pedras, que estavam ainda molhadas da humidade.

No quarto dele e de Catherine tomou um duche, barbeou-se, vestiu uma camisola lavada e calções e olhou à volta do quarto vazio. Era a primeira manhã que lá entrava sem encontrar Catherine e depois foi até à cozinha e encontrou uma lata de Maquereau Vin Blaric Capitaine Cook, abriu-a e levou-a para o bar, juntamente com uma garrafa fria de Tuborg.

Abriu a cerveja, colocou a tampa entre o polegar direito e o indicador e curvou-a até ficar direita e meteu-a no bolso, uma vez que não havia qualquer recipiente para a colocar, ergueu a garrafa, que ainda estava fria, e, cheirando o aroma da lata de cavalas marinada e condimentada, bebeu um longo trago da cerveja, colocou-a sobre o balcão e do bolso retirou um envelope. Abriu a carta de Catherine e começou a relê-la:

 

David, de repente percebi que devias saber como foi terrível. Pior do que atropelar alguém, pior, é atropelar uma criança.

O bater no carro, ou até talvez uma pequena mossa, e depois tudo o resto a acontecer e a multidão aos gritos. A francesa a gritar é écraseuse , mesmo tendo a culpa sido da criança. Fui eu que o fiz e sei que o fiz e não o posso desfazer. É terrível de mais para compreender, mas aconteceu. Vou ser rápida. Voltarei e trataremos das coisas o melhor possível. Não te preocupes. Eu telegrafo e escrevo e farei tudo pelo meu livro, por isso se alguma vez o acabares eu só tentarei fazer isto, Tive de queimar as outras coisas. O pior foi estar certa quanto a isso, mas não preciso de to dizer. Não peço perdão, mas, por favor, tem boa sorte e farei tudo o melhor possível. A Herdeira tem sido boa para ti e para mim e não a odeio. Não vou acabar como gostaria, pois poderia parecer ridículo, mas vou dizê-lo, de qualquer maneira, pois fui rude e ridícula ultimamente, como ambos sabemos, e amo-te e amar-te-ei sempre e lamento. Que palavra inútil.

Catherine

 

Depois de acabar, voltou a lê-la. Nunca lera nenhuma outra carta de Catherine, porque, desde que se tinham encontrado no Hotel Crillon, em Paris, até se casarem na igreja americana da Avenida Hoche, tinham-se visto todos os dias, e, ao ler esta primeira carta pela terceira vez, verificou que ainda se conseguia comover.

Guardou a carta no bolso e comeu outra cavala miniatura, ensopada no molho aromático de vinho branco, e acabou de beber a cerveja. Depois, foi à cozinha buscar outra garrafa de cerveja e pão para ensopar o molho da lata. Iria tentar trabalhar, mas quase de certeza que não conseguiria. Houvera demasiada emoção, demasiados danos, demasiado tudo, e a mudança de fidelidade; por muito sensata que parecesse, por muito que lhe pudesse simplificar as coisas, era uma coisa grave e violenta, e aquela carta era um exemplo vivo da gravidade e da violência.

«Está bem, Bourne», pensou, enquanto bebia a segunda cerveja, «não percas muito tempo a pensar como as coisas estão más, pois já sabes. Tens três hipóteses. Tenta lembrar-te do que desapareceu e escrevê-lo de novo. Outra hipótese é escreveres uma nova, e a terceira é continuares com o raio da narrativa. Portanto, escolhe a melhor. Sempre arriscaste. “Nunca se aposta em nada que falhe”, disse o teu pai: “E tu disseste. Excepto tu próprio”. E ele disse: “Eu não, Davey, mas pensa nisso, meu estupor de coração de ferro”. Ele tinha querido dizer “coração frio”, mas gentilmente utilizara outra expressão. Ou talvez o tivesse dito. Não te encharques em cerveja Tuborg.

«Pega na melhor e escreve uma nova, o melhor que fores capaz. E lembra-te, que Marita foi tão afectada como tu. Talvez mais. Por isso, arrisca e joga. Ela dá tanta importância como tu ao que perdemos.»

 

Quando finalmente deu por finda a escrita nesse dia, era tarde. Começara uma frase logo que entrara no quarto de trabalho e completara-a, mas depois disso não conseguira escrever mais nada. Riscou-a e começou outra frase e de novo se viu incapaz de continuar. Não conseguia escrever a frase que se seguia, embora a soubesse- Escreveu novamente uma declarativa simples e foi-lhe impossível colocar no papel a frase seguinte. Passadas duas horas continuava na mesma. Não conseguia escrever mais do que uma simples frase, e as frases eram cada vez mais simples e completamente desinteressantes. Continuou a tentar durante horas, até concluir que a decisão nada valia contra o que tinha acontecido. Admitiu isto sem aceitar, fechou o caderno com as linhas riscadas e foi ter com a rapariga.

Estava no terraço, ao sol, a ler, e quando olhou para ele disse:

- Não?

- Pior que não.

- Mesmo nada?

- Nada de nada.

- Vamos beber um copo - disse Marita.

- Vamos. Estavam dentro do bar e o dia chegara com eles. Estava tão bom como no dia anterior ou talvez melhor, uma vez que o Verão já deveria ter ido embora e cada dia quente era uma coisa extra. «Não devemos desperdiçá-lo», pensou David. «Devemos tentar aproveitá-lo e viver o melhor que pudermos.» Misturou os Martinis e serviu-os e quando os provaram estavam gelados e secos.

- Fizeste bem em tentar esta manhã - disse Marita. - Mas não pensemos mais nisso.

- Está bem - disse ele.

Agarrou na garrafa de Gordon, na de Noilly Prat e no misturador, escorreu a água do gelo e, servindo-se do seu próprio copo, começou a medir mais duas bebidas.

- O dia está óptimo - disse ele. - Que vamos fazer?

- Vamos nadar agora - disse Marita. - Para não perdermos o dia.

- Óptimo - disse David. - Comunico à Madame que viremos almoçar tarde?

- Ela arranjou um almoço frio - disse Marita. - Pensou que irias querer nadar, de qualquer maneira.

- Pensamento inteligente - disse David. - Como está a Madame?

Tem um olho ligeiramente descolorido - disse Marita.

- Não.

Marita riu-se. Subiram a estrada, contornando o promontório através do pinhal, e deixaram o carro à sombra dos pinheiros, levando o cesto do almoço. Corria uma brisa ligeira vinda de leste e o mar estava escuro e azul. As rochas estavam vermelhas e a areia na cova era amarela, enrugada pela água. Pousaram o cesto e a mochila à sombra da rocha maior e despediram-se e David subiu ao penhasco para mergulhar. Deixou-se ficar ali nu e bronzeado ao sol, olhando para o mar.

- Queres mergulhar? - gritou.

Ela abanou a cabeça.

- Espero por ti.

- Não - gritou ela, entrando na água.

- Como está? - perguntou David.

- Mais fresca do que é costume. Quase fria.

- Óptimo - disse ele e ela ficou a vê-lo e a água dava-lhe pela barriga e tocava-lhe nos seios.

 

Ele endireitou-se, pôs-se em bicos de pés, pareceu pairar e depois mergulhou a pique, provocando um borbulhar na água. Ela nadou em direcção àquele círculo de água e ele levantou-se junto dela, abraçou-a e depois colocou a sua boca salgada contra a dela.

- Elle est bonne, la mer - disse ele. - Toi aussi. Nadaram até águas profundas, deitaram-se de costas e flutuaram. A água estava mais fria que o habitual mas a superfície estava mais quente e Maríta flutuou arqueando as costas, a cabeça debaixo de água, excepto o nariz e os seios bronzeados, a oscilarem delicadamente devido à ondulação. Tinha os olhos fechados por causa do sol e David encontrava-se a seu lado. Rodeou-lhe a cabeça com um braço e depois beijou o bico do seio esquerdo e em seguida o outro.

- Sabem a mar - disse.

- Vamos dormir aqui.

- Eras capaz?

- É muito difícil manter as costas arqueadas. Vamos nadar até longe e depois voltar. Está bem. Nadaram até bem longe, até onde nunca tinham ido anteriormente, tão longe que até avistaram terra e do outro lado a linha purpúrea das montanhas, atrás da floresta. Bolaram na água e admiraram a costa. Depois, nadaram lentamente em direcção à praia. Pararam para descansar quando deixaram de ver as montanhas e novamente quando deixaram de ver terra e então nadaram lentamente com braçadas fortes até chegarem à praia.

- Estás cansada? - perguntou David.

- Muito - respondeu Marita. - Nunca nadara até tão longe.

- Ainda tens o coração a bater?

- Estou óptima.

David caminhou até ao rochedo e trouxe uma das garrafas de Tavel e duas toalhas.

- Pareces uma foca - disse David, sentando-se na praia ao lado dela.

Passou-lhe o vinho e ela bebeu directamente da garrafa e depois passou-lha. Ele bebeu um trago e depois estendeu-se ao sol, com o cesto do almoço ao lado e o vinho fresco na garrafa, e Marita disse:

- Catherine nem sequer se teria cansado.

- O raio é que não teria. Nunca nadou tão longe.

- A sério?

- Nadámos muito, rapariga. Nunca cheguei ao ponto de onde avistámos as montanhas.

- Está bem - disse ela. - Não há nada que possamos fazer por ela, hoje, e não vamos pensar nisso, está bem, David?

- Sim.

- Ainda me amas?

- Sim. Muito.

- Talvez eu tenha cometido um grande erro contigo e tu agora estejas a ser simpático para mim.

- Não cometeste nenhum erro e não estou a ser simpático contigo.

 

Marita agarrou uma mão-cheia de rabanetes e comeu-os lentamente, enquanto bebia algum vinho. Os rabanetes eram tenros e saborosos.

- Não tens que te preocupar com o trabalho - disse ela. Sei que tudo vai correr bem.

- Claro - disse David. Arrancou com o garfo um dos corações de alcachofra e comeu-o, ensopado no molho de mostarda que Madame preparara.

- Passas-me o vinho? - pediu Marita. Bebeu um bom bocado e pousou a garrafa ao lado de David, fincando a base na areia e encostando-a ao cesto. - Não foi um óptimo almoço o que Madame nos preparou, David?

- Óptimo. Foi o Aurol quem lhe pôs o olho negro?

- Não foi a sério.

- Ela não o trata lá muito bem.

- Há diferença de idades e ele tinha o direito de lhe bater se ela o insultou. Ela assim o disse. No fim. E mandou-te mensagens.

- Que mensagens?

- Mensagens de amor.

- Ela ama-te é a ti - disse David.

- Não, estúpido. O que ela está é do meu lado.

- Já não existem lados - disse David.

- Não - disse Marita. - E não fizemos nada para haver lados. Aconteceu, simplesmente.

E aconteceu bem. David passou-lhe o frasco com as alcachofras e o molho e foi buscar a segunda garrafa de Tavel. Ainda estava fresca. Bebeu um longo trago.

- Fomos queimados - disse ele. - Aquela mulher maluca queimou os Bournes.

- Somos nós os Bournes?

- Claro. Somos os Bournes. Vai levar algum tempo a arranjar os papéis. Mas é isso que somos. Queres que escreva? Acho que podia escrever isso.

- Não precisas de escrever.

- Escrevo na areia - disse David.

 

Dormiram bem durante a tarde e quando o Sol já ia baixo Marita acordou e viu David deitado na cama a seu lado. Tinha os lábios fechados e respirava muito lentamente e ela olhou para o rosto dele e para os olhos fechados, que só vira assim duas vezes, e observou-lhe o peito, o corpo e os braços estendidos. Foi até à porta do quarto de banho e viu-se ao espelho. Depois, sorriu. Quando já estava vestida foi até à cozinha conversar com Madame. Mais tarde, David ainda dormia e ela sentou-se na cama a seu lado.

Ao lusco-fusco o seu cabelo parecia branco contra o rosto moreno e ela ficou à espera que ele acordasse.

Estavam sentados no bar a beber Haig Pinch com Perrier. Marita bebia com muito cuidado.

- Acho que devias ir todos os dias à cidade sozinho buscar os jornais e tomar uma bebida. Devia haver um clube ou um café a sério onde te pudesses encontrar com os teus amigos.

- Não há.

- Bem, eu acho que te faria muito bem passares todos os dias um bocado longe de mim quando estás a escrever. Tens andado muito com raparigas. Vou fazer sempre com que tenhas amigos homens. Esse foi um dos grandes erros de Catherine.

- Não foi de propósito e a culpa é minha.

- Talvez seja. Mas achas que teremos amigos? Bons amigos?

- Já nos temos a nós.

- Mas teremos outros?

- Talvez.

- Afastar-te-ão de mim porque sabem mais do que eu?

- Não saberão mais.

- Serão novos e cheios de ideias e cansar-te-ás de mim?

- Não serão e não me cansarei de ti.

- Se isso acontecer, mato-os. Não te vou oferecer a ninguém, como ela fez.

- Ainda bem.

- Quero que tenhas amigos homens e amigos da guerra, com

quem vás à caça e jogues às cartas. Mas não precisas de ter amigas mulheres, pois não? Novas, que se apaixonarão por ti e te compreenderão e isso tudo.

- Não ando por aí com mulheres. Sabe-lo bem.

- Há muitas mulheres novas - disse Marita. - Aparecem mulheres novas todos os dias. Nunca se está suficientemente prevenido. Tu, muito menos.

- Amo-te - disse David - e és também a minha sócia. Mas tem calma. Só quero que estejas comigo.

- Estou contigo.

- Eu sei e adoro olhar para ti e saber que aqui estás e que dormiremos juntos e seremos felizes.

 

No escuro, Marita estava deitada ao lado dele e ele sentiu os seios dela contra o seu peito e o braço dela rodeando-lhe a cabeça e a sua mão tocando-o e os seus lábios contra os dele.

- Sou a tua rapariga - disse, no escuro. - A tua rapariga. Aconteça o que acontecer, serei sempre a tua rapariga, que te ama.

- Sim, meu querido amor. Dorme. Dorme. Dorme bem.

- Dorme tu primeiro - disse Marita. - Eu volto já. Ele estava a dormir quando ela voltou e se meteu debaixo do lençol, a seu lado. Dormia sobre o lado direito e respirava calma e compassadamente.

 

David acordou com a primeira luz da manhã. Lá fora ainda estava cinzento e os troncos dos pinheiros eram diferentes do que ele costumava ver e havia uma distância mais profunda entre eles e o mar. Tinha o braço direito rígido, porque dormira sobre ele. Depois, esperto, viu que estava numa cama estranha e viu Marita a dormir ao seu lado. Lembrou-se de tudo e olhou-a amorosamente, cobrindo-lhe o corpo bronzeado com o lençol e beijando-a ao de leve. Vestiu o roupão e saiu para o ar húmido da manhã, levando consigo a imagem de como ela parecia no quarto. Tomou um duche frio, barbeou-se, vestiu uma camisa e uns calções e dirigiu-se ao quarto de trabalho. Deteve-se à porta do quarto de Marita e abriu-a cuidadosamente, Viu-a a dormir, fechou a porta e voltou ao quarto de trabalho. Tirou os lápis e um caderno novo, afiou os cinco lápis e começou a escrever a história do seu pai e do ataque no ano da rebelião Maji-Majl que começara com a passagem pelo lago. Fez a travessia e completou a terrível viagem do primeiro dia, em que o nascer do Sol os apanhara com parte do que tinha de ser feito às escuras inacabada, e as miragens já aconteceram à medida que o calor se ia tornando insuportável.

Quando a manhã já ia alta e uma forte brisa, vinda do mar, soprava entre os pinheiros, já ele tinha acabado a noite no primeiro acampamento, sob as figueiras, onde a água caía da escarpa e saía do acampamento de manhãzinha, subindo ao longo do caminho que dava para o desfiladeiro cortado na escarpa.

Descobriu que sabia muito mais do pai do que quando começou para a escrever a história e também sabia que podia medir os progressos pelas pequenas coisas que tornavam o pai mais palpável e com uma dimensão diferente da que tivera na história anterior. Era um felizardo por seu pai não ser um homem simples.

David escrevia com firmeza e as frases que construíra antes apareceram-lhe à frente inteiras e completas, e escreveu-as, corrigindo-as e cortando-as como se estivesse a fazer uma correcção de provas. Não faltava nem uma frase e havia muitas que ele escrevia sem alterar, tal como lhe ocorriam. Às duas horas já corrigira e melhorara o que originalmente lhe levara cinco dias a escrever. Escreveu durante mais um bocado e não havia sinais de que algo pudesse deixar de lhe ocorrer intacto.

 

                                                                                Ernest Hemingway  

 

                      

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