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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O JARDIM DOS ESQUECIDOS P.2 / V. C. Andrews
O JARDIM DOS ESQUECIDOS P.2 / V. C. Andrews

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O JARDIM DOS ESQUECIDOS

Segunda Parte

 

A festa de Natal

            Cumprindo a palavra, pouco depois que os gêmeos adormeceram profundamente, mamãe entrou silenciosamente em nosso quarto. Estava tão linda que meu coração se encheu de orgulho, admiração e, também, de uma ponta de inveja. Seu vestido longo tinha uma saia de esvoaçante chiffon verde; o corpete era de veludo verde mais escuro, bastante decotado para exibir uma boa parte do colo. Sob a pelerine de chiffon verde mais claro, apareciam os cordões brilhantes que amarravam as costas do corpete. Nas orelhas, ela trazia pingentes de esmeraldas. Seu perfume fazia-me lembrar o aroma de um jardim almiscarado em noite enluarada numa região qualquer do Oriente. Não era de admirar que Chris ficasse petrificado, fitando-a como se ofuscado. Suspirei, sonhadora. Por favor, meu Deus, deixe-me ser assim algum dia... deixe-me possuir todas essas curvas harmoniosas que os homens tanto admiram.

           Quando ela se movimentava, o chiffon que lhe cobria os ombros flutuava como asas que nos conduzissem para fora daquela prisão pela primeira vez desde que ali chegáramos. Seguimos mamãe pelos largos e escuros corredores da ala norte da mansão, quase pisando em seus calcanhares calçados de prateado. Ela sussurrou:

           — Existe um lugar onde eu costumava ocultar-me, quando criança, para observar as festas dos adultos sem que meus pais soubessem. Vai ficar apertado para vocês dois, mas é o único local de onde poderão ver sem serem notados. Agora, prometam-me que ficarão calados e, se tiverem sono, voltarão a seu quarto sem se deixarem ver... e não esqueçam o caminho de volta até lá, bem como o modo de entrar.

           Recomendou-nos que não demorássemos mais que uma hora, pois os gêmeos teriam medo se acordassem e percebessem que estavam sozinhos. Nesse caso, era possível que saíssem pelos corredores à nossa procura, e só Deus sabe o que poderia acontecer se o fizessem!

           Fomos escondidos dentro de uma enorme mesa oblonga com armários sob o tampo. O local era desconfortável e muito abafado, mas podíamos enxergar bastante bem através da fina tela de arame no fundo do armário.

           Mamãe se afastou silenciosamente.

           Muito abaixo de nós estava o gigantesco salão brilhantemente iluminado por velas colocadas em cinco filas sobrepostas em cada um dos três imensos lustres de ouro e cristal pendentes de um teto tão alto que não conseguíamos vê-lo. Eu jamais vira tantas velas acesas ao mesmo tempo! O cheiro das velas, o modo como sua luz bruxuleante era captada e brilhava nos prismas de cristal que a espalhavam, refratando raios iridescentes que faziam faiscar todas as jóias usadas pelas mulheres, transformavam a cena num espetáculo de sonho... ou, melhor ainda, num salão de bailes de um filme nítido e colorido, onde Cinderela e o Príncipe Encantado poderiam dançar!

           Centenas de pessoas ricamente trajadas andavam pelo salão, rindo e conversando. E no canto erguia-se, como uma torre, uma árvore de Natal simplesmente inacreditável!

            Devia ter mais de seis metros de altura e brilhava com milhares de lâmpadas douradas que faiscavam nos enfeites coloridos e ofuscavam nossos olhos!

           Dúzias de criados usando uniformes preto e vermelho entravam e saíam do salão carregando bandejas de prata cheias de canapés e colocavam-nas em mesas compridas, sobre cada uma das quais uma gigantesca fonte de cristal espargia um líquido cor de âmbar num receptáculo de prata. Muitos homens e mulheres vinham encher suas taças de cristal com o líquido borbulhante. Havia, também, duas poncheiras de prata com copos do mesmo material completando os jogos; cada uma delas era de tamanho suficiente para uma criança ali tomar banho... Era lindo, encantador, excitante, eufórico... e tão bom saber que continuava a existir vida feliz fora de nossa porta trancada.

           — Cathy — sussurrou-me Chris ao ouvido. — Eu venderia minha alma ao Diabo só para tomar um gole daquela fonte de cristal e prata!

           Era exatamente o que eu também estava pensando!

           Nunca me senti tão faminta, sedenta, frustrada. Não obstante, estávamos ambos encantados, enfeitiçados, ofuscados por todo o esplendor daquilo que a grande riqueza era capaz de comprar e exibir. O assoalho onde os pares dançavam formava desenhos tipo mosaico e estava tão encerado que brilhava como um espelho. Enormes espelhos com molduras douradas refletiam os dançarinos de tal forma que era difícil distinguir entre as imagens e as pessoas reais. As partes de madeira das inúmeras cadeiras e sofás situados ao longo das paredes eram douradas, e os encostos e almofadas feitos de veludo vermelho ou brocado branco. Cadeiras francesas, é claro, estilo Luis XIV ou XV. Puxa vida, que fantástico!

            Chris e eu observamos os pares que, em sua maioria, eram bonitos e jovens. Comentamos suas roupas, penteados, e especulamos sobre os relacionamentos entre eles. Mas, acima de tudo, observávamos nossa mãe, que era o centro das atenções. Ela dançava freqüentemente com um homem alto e bonito, de cabelo escuro e um basto bigode. Foi ele quem lhe serviu taças de bebida e levou um prato de canapés quando se sentaram num sofá de veludo vermelho. Na minha opinião; sentaram-se juntos demais. Desviei momentaneamente o olhar a fim de observar os três chefs que, por trás das compridas mesas, continuavam a preparar o que me pareceu serem panquecas e pequenas salsichas para serem recheadas. O aroma de tudo aquilo chegava até nós, fazendo nossas glândulas salivares trabalharem em excesso.

            Nossas refeições eram monótonas e cansativas: sanduíches, sopas, a perene galinha frita e a eterna salada de batatas. Lá embaixo, víamos uni festim de gourmet com as mais deliciosas iguarias. Lá, a comida era quente, enquanto a nossa raramente era morna. Basta dizer que guardávamos o leite no sótão para que não azedasse e às vezes encontrávamos uma fina camada de gelo na superfície! Se deixássemos a cesta de piquenique com comida na escada do sótão, os ratos desciam para roer tudo.

           De vez em quando, mamãe desaparecia com o homem de cabelo escuro. Aonde iam e o que faziam? Beijavam-se? Estaria ela apaixonando-se por ele?

            Mesmo de minha posição alta e remota no armário da mesa, eu podia perceber que o homem estava fascinado por mamãe. Não conseguia tirar os olhos dela ou deixar de tocá-la com as mãos. E quando dançavam alguma música lenta, ele a segurava de modo a encostar o rosto no dela. Quando paravam de dançar, ele mantinha o braço passado pelos ombros ou pela cintura de mamãe, e uma vez ousou até mesmo tocar-lhe o seio!

            Julguei que ela fosse esbofetear aquele rosto bonito, pois eu o faria! Mamãe, porém, limitou-se a virar-se e sorrir, afastando-o de si e dizendo algo que deve ter sido uma advertência para que não fizesse aquilo em público. Ele sorriu, tomou-lhe a mão e levou-a aos lábios, enquanto seus olhares se encontravam prolongada e significativamente ou, pelo menos, assim julguei.

           — Chris, está vendo aquele homem com mamãe?

           — Claro que estou. Ele é tão alto como papai.

           — Você viu o que ele fez há pouco?

           — Estão comendo, bebendo, rindo, conversando e dançando, como todo mundo. Cathy, pense numa coisa: quando mamãe herdar todo aquele dinheiro, poderemos ter festas assim no Natal e em nossos aniversários. Ora, no futuro poderemos ter até mesmo alguns desses convidados que estamos vendo agora. Vamos mandar convites a todos os nossos amigos de Gladstone. Puxa, ficarão espantados com o que herdamos!

           Naquele instante, mamãe e o tal homem se ergueram do sofá e saíram. Assim, pregamos o olhar na segunda mulher mais fascinante do grupo no salão e tivemos pena, pois como poderia competir com nossa mãe?

           Então nossa avó entrou no salão, andando sem olhar para os lados nem sorrir para os convidados. Não estava vestida de cinzento e isto, por si, bastou para deixar-nos espantados. Seu longo vestido de gala era vermelho rubi, justo na frente e esvoaçante nas costas; trazia os cabelos penteados para cima num elaborado penteado; jóias de rubis e brilhantes faiscavam-lhe no pescoço, orelhas, braços e dedos. Quem jamais imaginaria que aquela mulher de aparência régia que atravessava o salão fosse a mesma avó ameaçadora que nos visitava todos os dias?

           Relutantes, fomos forçados a admitir em sussurros:

           — Ela parece magnífica.

           — Sim, muito impressionante. Grande demais, como uma amazona.

            — Uma amazona malvada.

           — Sim, uma amazona guerreira, pronta para combater armada apenas com o faiscar dos olhos. Na verdade, não precisa de outra arma.

           Foi então que o avistei: nosso desconhecido avô!

           Fiquei sem fôlego ao olhar para o salão e ver um homem tão parecido com nosso pai, se este tivesse vivido até ficar velho e frágil. Sentado a uma cadeira de rodas esmeradamente polida, usava um smoking e sua camisa de gala era branca com pespontos pretos. Os cabelos ralos, antes louros, agora estavam quase totalmente brancos e brilhavam como prata às luzes do salão. Quase não tinha rugas ou, pelo menos, foi essa a nossa impressão lá de cima. Perplexos e, ao mesmo tempo, fascinados, Chris e eu não conseguimos despregar os olhos dele após avistá-lo.

            Tinha aparência frágil, mas era excepcionalmente bonito para um homem na avançada idade de sessenta e sete anos e que estava às portas da morte. De repente, causando-nos arrepios de medo, ele ergueu a cabeça e olhou diretamente para o nosso esconderijo! Por um momento terrível, amedrontador, deu a impressão de saber que estávamos ali, ocultos por detrás da tela de arame! Um leve sorriso lhe brincou nos lábios. Oh, Deus, o que significaria tal sorriso?

            Não obstante, ele não aparentava ser impiedoso como a avó. Poderia ser realmente o tirano cruel e arbitrário que o imaginávamos? A julgar pelos sorrisos gentis e bondosos que distribuía a todos que se aproximavam para cumprimentá-lo, apertar-lhe a mão e dar-lhe palmadinhas no ombro, parecia bastante benigno. Ainda assim, fora ele quem ordenara que nossa mãe fosse despida e açoitada do pescoço aos calcanhares, enquanto ele observava. Portanto, como poderíamos algum dia perdoá-lo por isso?

            — Eu não sabia que era tão parecido com papai — murmurei para Chris.

           — Por que não? Papai era seu meio-irmão mais moço. O avô já era um homem maduro quando nosso pai nasceu; já era casado e tinha dois filhos quando isso aconteceu.

           Lá estava Malcolm Neal Foxworth, o homem que expulsara de casa sua jovem madrasta com um filho pequeno.

           Pobre mamãe! Como podíamos culpá-la por apaixonar-se por seu meio-tio, quando ele era tão jovem, bonito e encantador como fora nosso pai? Tendo pais como ela descrevera, precisava ter alguém para amar, necessitava ser amada em retribuição... Ela amava... ele também.

           O amor surge sem ser chamado.

           Ninguém pode escolher a pessoa por quem se apaixona; as setas do Cupido são atiradas a esmo.

           Eis os comentários que Chris e eu trocávamos.

           Então, repentinamente, calamo-nos ao ouvirmos passos e vozes de duas pessoas que se aproximavam de nosso esconderijo.

           — Corrine não mudou nada — disse um homem que não podíamos ver. — Só se tornou ainda mais linda e misteriosa. É uma mulher verdadeiramente fascinante.

           — Ah! Você diz isso porque sempre teve uma queda por ela, Al — replicou sua companheira. — É pena que ela não estivesse de olho em você, como ocorreu em relação a Christopher Foxworth. Ora, eis um homem que era algo muito especial. Mesmo assim, espanto-me com o fato de aqueles dois preconceituosos lá embaixo se permitirem perdoar Corrine por casar-se com seu meio-tio.

           — Tinham que perdoá-la. Quando sobra apenas uma dentre três filhos, os pais são forçados a recebê-la de volta.

          — Não é engraçado como as coisas evoluem? — comentou a mulher, com a voz pastosa e gutural por excesso de bebida. — Três filhos... e só restou a filha desprezada e rejeitada, que herdará tudo.

           O homem semi-embriagado soltou uma risadinha.

           — Corrine não foi sempre tão desprezada. Lembra-se de como o velho a adorava? Até fugir para casar-se com Christopher, tudo o que ela fazia era correto aos olhos do pai. Mas aquela megera, mãe dela, nunca teve muita paciência com Corrine. Ciúmes, talvez. Mesmo assim, que ameixa viçosa e madura foi cair logo nas mãos de Bartholomew Winslow. Gostaria que fosse minha! — concluiu Al, num tom sonhador.

             — Aposto que gostaria! — replicou sarcasticamente a mulher, pousando em cima de nossa mesa algo que, pelo som, parecia um copo com gelo dentro. — Uma mulher jovem, rica e bonita é mesmo uma ameixa madura para qualquer homem. Demais para um palerma como você, Albert Donne. Corrine Foxworth jamais olhará para você; não olhava quando você era mais moço, muito menos agora. Além disso, você está preso a mim.

           O par, ainda trocando comentários ácidos, afastou-se até deixarmos de escutá-los. Outras vozes fizeram-se ouvir enquanto as longas horas passavam. Meu irmão e eu já estávamos cansados de observar e muito necessitados de ir ao banheiro. Além disso, preocupados com os gêmeos deixados sozinhos no quarto. E se um dos convidados chegasse ao quarto proibido e visse os gêmeos adormecidos? Então, o mundo inteiro, e nosso avô, tomariam conhecimento de que nossa mãe tinha quatro filhos.

           Um grupo se reunira em torno de nosso esconderijo para conversar, rir e beber. Levou uma eternidade para ir embora e dar-nos uma oportunidade de abrir a porta do armário com extrema cautela. Não avistando ninguém, saímos depressa e corremos na direção de onde viéramos. Ofegantes, com as bexigas prestes a estourar, chegamos ao nosso silencioso quarto sem sermos vistos ou ouvidos.

           Nossos gêmeos dormiam profundamente em camas separadas, da mesma maneira como os havíamos deixado. Pareciam duas bonecas frágeis, pálidas e idênticas... como as crianças que ilustravam, há muito tempo, os livros de estórias infantis. Nada tinham em comum com as crianças atuais, embora anteriormente tivessem. E voltariam a ter, jurei para mim mesma!

            A seguir, Chris e eu discutimos a respeito de quem precisava usar o banheiro com maior urgência. E o assunto foi facilmente resolvido: ele simplesmente empurrou-me para cima de uma cama, correu para o banheiro e bateu a porta atrás de si, trancando-a. Furiosa, esperei o que me pareceu uma eternidade até que ele terminasse de esvaziar a bexiga. Puxa, como conseguia reter tal quantidade de líquido?

           Satisfeitas as necessidades fisiológicas e acabadas as discussões, sentamo-nos para comentar o que acabávamos de ver e ouvir.

           — Acha que mamãe pretende casar-se com Bartholomew Winslow? — indaguei, torturada por minhas perenes preocupações e ansiedades.

           — Como vou saber? — redargüiu Chris com indiferença. — Mesmo assim, parece que todos pensam realmente que ela se casará com ele e a conhecem melhor que nós sob esse aspecto.

           Que declaração estranha! Nós, filhos dela, não sabíamos melhor que os outros o que mamãe pensava? Não a conhecíamos melhor?

           — Por que diz isso, Chris?

           — O quê?

           — O que acaba de dizer... a respeito de outras pessoas a conhecerem melhor que nós.

           — As pessoas têm muitas facetas, Cathy. Para nós, mamãe é apenas nossa mãe. Para os outros, é uma viúva linda e sensual, que deverá herdar uma imensa fortuna. Não é de espantar que as mariposas venham todas rodear o tipo de luz brilhante que ela é.

           Puxa! E ele dizia tudo isso com a maior naturalidade, como se não lhe fizesse a mínima diferença — quando eu sabia que fazia. Eu julgava conhecer muito bem meu irmão. Ele devia estar sofrendo por dentro, como eu, pois não queria que nossa mãe tornasse a casar-se. Voltei para ele o meu olhar intuitivo... ah, não estava tão indiferente quanto desejava aparentar, o que me agradou bastante.

           Suspirei, porém, porque gostaria muito de ser uma eterna otimista, como ele. No fundo, eu tinha quase certeza de que a vida sempre me colocaria entre Cila e Charibdis; e dar-me-ia sempre uma opção de Hobson. Eu precisava modificar-me, aperfeiçoar-me e tornar-me como Chris, eternamente animado. Quando sofresse, teria que aprender a dissimular, como ele fazia. Tinha que aprender a sorrir e nunca franzir a testa, a não ser a eterna pitonisa dos maus presságios.

           Já havíamos discutido entre nós a possibilidade de nossa mãe casar-se outra vez e nenhum de nós desejava que isso acontecesse. Considerávamos mamãe ainda pertencente a papai; queríamos que ela permanecesse fiel à lembrança dele, sempre constante para seu primeiro amor. E se ela tornasse a se casar, em que situação ficaríamos nós quatro? Aquele sujeito, Winslow, de rosto bonito e enorme bigode, estaria disposto a aceitar quatro filhos que não eram seus?

           — Cathy — disse Chris, pensativo. — Já lhe ocorreu que esta é a oportunidade perfeita para explorarmos a casa? Nossa porta destrancada, os avós no salão, mamãe ocupada, a ocasião ideal para descobrirmos tudo que for possível a respeito da mansão.

            — Não! — exclamei, assustada. — Suponhamos que a avó descubra? Ela nos esfolaria vivos!

            — Então, você fica com os gêmeos — declarou ele, com espantosa firmeza. — Se eu for apanhado, o que não acontecerá, sofrerei o castigo e assumirei toda a culpa. Encare a coisa sob o seguinte aspecto: talvez precisemos, algum dia, saber como fugir desta casa.

           Um sorriso divertido brincou-lhe nos lábios antes de acrescentar:

           — De todo modo, vou disfarçar-me, para a eventualidade de ser avistado.

            — Disfarçar-se? Como?

           Eu esquecera, porém, o verdadeiro tesouro de roupas velhas que tínhamos no sótão. Chris passou lá apenas alguns minutos antes de descer, usando um terno escuro, de feitio antigo, que não lhe ficava grande demais. Chris era robusto e alto para sua idade. Ajustou sobre os cabelos louros uma peruca escura e velha que encontrou num dos baús. Talvez ele fosse tomado por um homem raquítico, caso a iluminação estivesse bastante fraca; um homem de aparência ridícula!

           Desfilou airosamente diante de mim. Então, curvou-se e imitou o andar de Groucho Marx, segurando um charuto invisível. Parou bem à minha frente, sorrindo encabulado ao fazer uma profunda reverência, tirando da cabeça uma cartola imaginária num amplo e cavalheiresco gesto de respeito. Tive que rir e ele também riu, não apenas com os olhos, antes de endireitar-se e dizer:

           — Agora, diga-me com sinceridade: quem conseguiria reconhecer neste homenzinho moreno e sinistro um membro da família Foxworth?

           Ninguém! Quem já vira um Foxworth como ele? Um homenzinho magro e desajeitado, com feições bem delineadas e cabelos desgrenhados, usando um fino bigodinho pintado a lápis? Nenhuma das fotografias existentes no sótão mostrava algo parecido com aquela figura que se postara diante de mim.

            — Está certo, Chris, deixe de palhaçada. Vá descobrir o que puder, mas não se demore muito. Não gosto de ficar aqui sem você.

            Ele se aproximou para dizer num furtivo e conspiratório sussurro de ator:

           — Voltarei breve, minha beleza loura. E quando regressar trarei comigo todos os segredos sombrios e misteriosos dessa imensa e velha mansão.

           E, de repente, apanhando-me de surpresa, lascou-me um beijo no rosto.

           Segredos? E ele afirmava que eu era dada a exageros! O que havia com ele? Não compreendia que nós éramos os segredos daquela casa?

            Eu já tomara banho, lavara os cabelos e me vestira para deitar. Naturalmente, tratando-se de uma noite de Natal, não podia ir para a cama com uma camisola que já usara anteriormente, em especial quando “Papai Noel” me trouxera várias camisolas novas. Escolhi uma linda, branca, com mangas bufantes franzidas nos pulsos, com franzidos também na frente e costas do corpete, bordada com lindas rosas e folhas delicadamente desenhadas. Era uma linda camisola, que me fazia sentir bela e exótica pelo simples fato de vesti-la.

            Chris baixou O olhar de meus cabelos até meus pés descalços que mal apareciam abaixo da bainha da comprida camisola e seus olhos me disseram algo que jamais haviam expressado antes com tanta eloqüência. Chris fitou-me o rosto e os cabelos que cascateavam até abaixo da cintura, e eu sabia estarem brilhantes de tanto serem escovados diariamente. Meu irmão parecia tão impressionado e ofuscado quanto ao fitar demoradamente o busto cheio de mamãe acima do decote de veludo verde.

           E não era de espantar que ele me tivesse beijado voluntariamente; eu parecia uma princesa.

           Parou junto à porta, hesitante, ainda olhando para mim, e creio que ficou muito feliz por fazer o papel de cavaleiro galante protegendo a bela donzela loura, as crianças pequenas e todos aqueles que confiassem em sua audácia.

           — Tome cuidado até rever-me — sussurrou.

           — Christopher — repliquei, igualmente num sussurro. — Você só precisa de um corcel branco e um escudo.

           — Não — disse ele. — Preciso de um unicórnio e de uma lança com uma cabeça verde de dragão na ponta. Então, voltarei galopando, com minha brilhante armadura branca, enquanto a tempestade de granizo rugir no mês de agosto e for meio-dia. Quando eu desmontar, vereis um cavaleiro com três metros de altura. Portanto, quando falar comigo, fazei-o de modo respeitoso, minha Lady Catherine.

            — Sim, meu Lord: Ide matar o hediondo dragão que se esconde algures, mas não tardeis muito, pois poderei ser vítima dos males que pairam sobre mim e os meus neste castelo frio como pedra, onde todas as pontes levadiças estão recolhidas e as grades fechadas.

           — Adeus — segredou Chris. — Não temais. Logo regressarei para cuidar de vós e dos vossos.

           Dei uma risadinha ao subir na cama para deitar-me ao lado de Carrie. O sono foi, naquela noite, um desconhecido esquivo; pensei em minha mãe e naquele homem, pensei em Chris, em todos os rapazes, em homens, em namoro, e em amor. Ao mergulhar suavemente nos sonhos, embalada pela música que vinha do salão, minha mão se ergueu para tocar o pequeno anel com a pedra de granada em forma de coração que meu pai me pusera no dedo quando eu tinha apenas sete anos de idade. Um anel que já ficara pequeno há muito tempo. Minha pedra de toque. Meu talismã, usado agora num fino cordão de ouro, ao pescoço.

            Feliz Natal, papai.

 

A exploração de Chris e suas repercussões

           De repente, mãos brutas sacudiram-me pelos ombros, despertando-me aos safanões! Chocada, assustada, olhei temerosamente para uma mulher na qual quase não pude reconhecer minha mãe. Olhando-me raivosamente, ela quis saber com voz irada:

           — Onde está seu irmão?

           Perplexa por verificar que ela, tão descontrolada, era capaz de ter no rosto tal expressão e falar daquela maneira, encolhi-me para fugir ao ataque e virei a cabeça para olhar a cama ao lado, a menos de um metro de mim. Estava vazia. Oh, Chris demorara-se demais.

           Deveria eu mentir? Protegê-lo, dizendo que estava no sótão? Não; aquela era nossa mãe, que nos amava, e compreenderia.

           — Chris saiu para examinar os quartos deste andar.

           Franqueza era a melhor política, não era? E jamais mentíamos para nossa mãe ou um para o outro. Só para a avó e, mesmo assim, apenas quando era absolutamente necessário.

           — Diabo, diabo, diabo! — praguejou ela, rubra por nova onda de fúria que agora era dirigida contra mim.

            Certamente o seu precioso primogênito, a quem ela preferia acima dos demais, nunca a trairia sem ser impulsionado por minha influência demoníaca. Sacudiu-me como uma boneca de trapos, até que tive a impressão de que meus olhos rolavam descontroladamente fora das órbitas.

           — Só por causa disto, eu jamais, sob pretexto algum ou em qualquer ocasião especial, tornarei a permitir que você e Chris saiam deste quarto! Ambos deram-me a palavra e não a cumpriram! Agora, como poderei confiar em vocês outra vez? E julguei que podia confiar. Pensei que vocês me amavam, que jamais me atraiçoariam!

           Arregalei ainda mais os olhos. Nós a tínhamos traído? Fiquei chocada por vê-la agir daquela forma. Parecia-me que ela nos traía.

           — Mamãe, não fizemos nada de errado. Ficamos bem quietos no armário embaixo da mesa. Muita gente chegou lá e ninguém percebeu nossa presença. Ficamos quietos. Ninguém sabe que estamos aqui. E você não pode dizer que nunca mais nos deixará sair daqui! Não pode manter-nos escondidos e trancados para sempre.

           Mamãe encarou-me de modo estranho, agoniado, sem responder. Pensei que fosse dar-me um tapa, mas não o fez. Largou-me os ombros e deu meia-volta para sair. O chiffon esvoaçante de seu modelo exclusivo parecia asas batendo com violência, exalando um doce perfume floral que não combinava com a fisionomia enfurecida.

           Exatamente quando ela ia sair do quarto, parecendo disposta a procurar pessoalmente meu irmão, a porta se abriu e Chris entrou furtivamente no quarto. Fechou a porta com muita cautela e depois virou-se, olhando para mim. Seus lábios se abriram para falar. Foi então que avistou nossa mãe e a mais estranha expressão veio-lhe ao rosto.

           Por algum motivo, seus olhos não se iluminaram como de costume ao verem mamãe.

           Movendo-se com rapidez e decisão, mamãe chegou até ele, ergueu a mão e desferiu-lhe uma bofetada seca e violenta no rosto! Então, antes que Chris se recobrasse do choque inicial, a mão esquerda de nossa mãe fez o lado oposto do rosto dele sentir o peso de sua ira!

           Agora, o rosto pálido e atordoado de Chris exibia duas grandes marcas vermelhas.

           — Se você tornar a fazer algo semelhante a isso, Christopher Foxworth, eu o espancarei e a Cathy também!

           O pouco de Cor que ainda restava no rosto muito pálido de Chris abandonou-o por completo, deixando apenas aquelas marcas de bofetadas na pele descolorida, parecendo impressões de sangue.

           Senti meu sangue descer todo para os pés; uma sensação ardente oriunda de um ponto situado atrás de minhas orelhas aumentou à medida que as forças me faltavam.

            Fitei aquela mulher que agora parecia uma desconhecida, uma pessoa que nunca tínhamos visto e que eu não me interessava por conhecer. Onde estava nossa mãe, que só costumava falar-nos com bondade e amor? Aquela mulher era a mãe que compreendia o sofrimento que nos causava aquele confinamento tão prolongado? Estaria a casa provocando-lhe “coisas”, tornando-a tão diferente? O fato ocorreu-me num repente... sim, todas as pequenas coisas se somavam... ela estava mudando. Mamãe já não vinha visitar-nos com a mesma freqüência inicial, nem todo dia e, certamente, não duas vezes por dia, como no princípio. Oh, fiquei amedrontada, como se tudo em que pudéssemos confiar, de quem pudéssemos depender, nos fosse arrancado de sob os pés, deixando-nos apenas os brinquedos, jogos e outros presentes.

            Mamãe deve ter percebido algo na expressão perplexa de Chris, algo que dissolveu sua ira violenta. Abraçou meu irmão, cobrindo-lhe com uma série de beijos rápidos o pobre rosto marcado de vermelho, com o bigodinho pintado a lápis, como se procurasse remediar o mal que cometera. Beijou-o repetidamente, puxou-lhe a cabeça de encontro ao busto cheio e macio, permitindo-lhe afogar-se na sensualidade de ser acalentado contra aquela pele branca e sedosa que devia excitar até mesmo um jovem que mal chegara à puberdade.

           — Sinto muito, querido — murmurou ela, com lágrimas nos olhos e na voz. — Perdoe-me, por favor, perdoe-me. Não fique tão assustado. Como pode ter medo de mim? Não falei de coração a respeito das surras. Eu os amo. Vocês sabem. Eu jamais bateria em você ou em Cathy. Já bati alguma vez? Estou um pouco fora do normal porque agora tudo está a meu favor, a nosso favor. Vocês não podem fazer algo que estrague tudo para nós. E foi esse o único motivo pelo qual lhe bati.

           Tomando o rosto de Chris entre as palmas das mãos, beijou-o em cheio nos lábios que formavam um bico devido à pressão de suas mãos. Os brilhantes e esmeraldas continuavam a faiscar, faiscar... como luzes de sinalização, significando, querendo dizer alguma coisa. Fiquei sentada, observando e sentindo-me, oh... não sei como me sentia... estava confusa, atordoada e era muito, muito jovem. E o mundo que nos cercava era sabido e velho, muito velho.

           É claro que Chris a perdoou, como eu também perdoei. E, naturalmente, precisávamos saber o que estava a favor dela e a nosso favor.

            — Por favor, mamãe, conte-nos o que é. Por favor.

           — Contarei depois — disse ela, terrivelmente apressada para voltar à festa antes que sua ausência fosse notada.

            Mais beijos para nós dois. Então, ocorreu-me que eu nunca sentira o rosto encostado na maciez de seu busto.

           — Depois, talvez amanhã, eu lhes contarei tudo — disse ela, tornando a beijar-nos afobadamente e dizendo outras coisas carinhosas para afugentar nossos temores.

            Debruçou-se por cima de mim para beijar Carrie e depois foi à outra cama beijar Cory.

           — Já me perdoou, Christopher?

           — Sim, mamãe. Eu compreendo. Devíamos permanecer no quarto. Eu nunca deveria ter saído para explorar a casa.

           Ela sorriu, desejando-nos feliz Natal e prometendo voltar em breve. Em seguida, saiu, trancando a porta por fora.

           Nosso primeiro dia de Natal na prisão terminara. O relógio no corredor bateu uma hora. Tínhamos um quarto cheio de presentes, um aparelho de TV, o jogo de xadrez que pedíramos, um triciclo vermelho e outro azul, roupas novas, pesadas e quentes, muitas coisas para comermos, e Chris e eu tínhamos ido a uma magnífica festa, de certo modo. Não obstante, algo novo surgira em nossas vidas: uma faceta do caráter de nossa mãe que ignorávamos até então. Por alguns rápidos instantes, mamãe se parecera exatamente com nossa avó!

           Chris e eu ficamos deitados lado a lado na cama, de mãos dadas, com Carrie dormindo no meu outro lado. O cheiro de Chris era diferente do meu. Pousei a cabeça em seu peito juvenil e percebi que ele estava perdendo peso. Pude ouvir seu coração pulsando como se acompanhasse o ritmo da música que chegava de leve até nós. Chris passava a mão em meus cabelos, anelando interminavelmente uma mecha entre os dedos.

           — Chris, ser adulto é muito complicado, não é?

           — Creio que sim.

           — Sempre pensei que uma pessoa adulta fosse capaz de controlar qualquer situação, nunca tendo dúvidas quanto ao que é certo ou errado. Nunca imaginei que os adultos ficassem confusos, como nós.

           — Se está pensando em mamãe, ela não pretendia dizer ou fazer o que disse e fez. Embora não tenha certeza, creio que, por algum estranho motivo, quando uma pessoa adulta volta a viver na casa dos pais, fica reduzida a ser novamente uma criança, dependente dos pais. Os pais de mamãe puxam-na para um lado e nós a puxamos para o outro. E, agora, surgiu aquele homem de bigode. Também deve estar puxando mamãe para o lado dele.

           — Espero que ela nunca se case outra vez! Nós precisamos mais dela que aquele homem!

            Chris ficou calado.

           — E o aparelho de TV que ela, nos trouxe, esperou até seu pai lhe dar um de presente, quando poderia tê-lo comprado para nós há muitos meses, em vez de gastar tanto dinheiro com roupas para ela mesma! E jóias! Está sempre usando novos anéis, brincos, colares e pulseiras!

           Muito devagar, Chris apresentou uma cuidadosa explicação para os motivos de nossa mãe:

           — Encare as coisas da seguinte maneira, Cathy: se mamãe nos desse o aparelho de TV no primeiro dia que aqui chegamos, passaríamos dias inteiros sentados diante dele, assistindo aos programas. Nesse caso, não teríamos criado um jardim no sótão onde os gêmeos podem brincar satisfeitos. Não teríamos feito nada senão ficarmos sentados vendo os programas da televisão. E veja o quanto aprendemos durante nossos dias tão compridos, como fazer flores e animais, por exemplo. Atualmente, eu pinto melhor que quando cheguei aqui. E lembre-se dos livros que lemos para aperfeiçoar-nos mentalmente. E você também mudou, Cathy.

            — Como? Mudei como? Explique.

           Ele rolou a cabeça de um lado para o outro no travesseiro, exibindo uma espécie de impotência encabulada.

       — Está certo. Não é obrigado a me dizer coisas agradáveis. Todavia, antes de sair desta cama e ir para a sua, conte-me tudo o que descobriu; tudo! Não omita nada, nem mesmo seus pensamentos. Quero que me faça sentir como se o tivesse acompanhado até lá, andando ao seu lado e sentindo o que você sentia.

            Ele virou a cabeça para encarar-me de uma forma muito estranha.

           — Você estava lá, a meu lado. Eu a sentia perto de mim, segurando-me a mão, segredando-me ao ouvido. Isso me fez olhar com ainda mais atenção, a fim de você poder ver o que eu via.

           A gigantesca mansão onde imperava o ogro enfermo que víramos no salão intimidara Chris; percebi por sua voz.

           — É uma casa enorme, Cathy, como um hotel. Existem quartos e mais quartos, todos mobiliados e decorados com objetos bonitos e caros, mas percebe-se que nunca são utilizados. Contei quatorze quartos só neste andar e acho que não localizei alguns quartos menores.

           — Chris! — exclamei desapontada. — Não me conte dessa maneira! Faça-me sentir como se estivesse a seu lado. Comece outra vez e conte tudo o que aconteceu a partir do instante em que saiu de minha visão.

           — Bem — disse ele, suspirando, como se preferisse não aceder. — Caminhei furtivamente pelo corredor desta ala e cheguei ao ponto em que ele desemboca naquela grande rotunda central onde nos escondemos sob a mesa perto da balaustrada. Não me dei o trabalho de examinar os quartos da ala norte. Logo que cheguei a um local onde alguém poderia avistar-me, tive que proceder com cautela. A festa se aproximava do clímax. A barulheira e animação estavam ainda maiores e todos pareciam embriagados. Na verdade, um homem cantava uma tolice a respeito de querer os dois dentes da frente, que perdera em algum lugar. Soava tão engraçado que corri à balaustrada e espiei para o salão. Vistas de cima, as pessoas pareciam esquisitas, encurtadas, e pensei: “Preciso lembrar-me disso quando desenhar pessoas a partir de um ponto de vista mais elevado, a fim de que pareçam naturais”. A perspectiva é o elemento mais importante numa pintura.

           Se me pedissem opinião, a perspectiva era o elemento mais importante em tudo na vida.

           — Naturalmente, a pessoa que eu procurava era mamãe — continuou ele, ante minha insistência. — Mas só consegui reconhecer nossos avós. O avô já aparentava cansaço e, enquanto eu espiava, uma enfermeira chegou a fim de empurrar a cadeira de rodas para fora do meu campo de vista. E prestei atenção, pois isso me informou a direção geral da biblioteca.

            — Ela usava uniforme branco?

           — Claro. Do contrário, como poderia eu adivinhar que era enfermeira?

           — Está bem, prossiga. Não omita nada.

           — Bem, logo depois que o avô saiu, a avó também se retirou e, então, escutei vozes de pessoas que subiam uma das escadas! Você nunca viu alguém se mover tão depressa como eu! Não poderia esconder-me sob a mesa sem que me avistassem antes, de modo que me encolhi num canto onde havia uma armadura antiga em cima de um pedestal. Sabe que aquela armadura deve ter pertencido a um homem adulto e aposto que não serviria em mim; não obstante, tive vontade de experimentá-la. E quanto a quem subia a escada, era mamãe, acompanhada por aquele mesmo homem moreno de bigode.

           — O que fizeram? Por que subiram a este andar?

           — Creio que não me viram escondido na sombra porque estavam tão preocupados um com o outro. Aquele homem queria ver uma cama que mamãe tem no quarto dela.

           — A cama dela... ele queria ver a cama de mamãe? Por quê?

           — É uma cama de tipo especial, Cathy. Ele disse a mamãe: “Vamos, você já se esquivou bastante tempo”. Seu tom parecia provocante. E, logo em seguida, acrescentou: “Já é tempo de me mostrar aquela fabulosa cama de cisne sobre a qual tanto ouvi falar”. Aparentemente, mamãe estava preocupada com a possibilidade de ainda estarmos escondidos sob a mesa. Olhou para o móvel, demonstrando nervosismo. Mas concordou, respondendo: “Está bem, Bart, mas só podemos demorar um pouco, pois você sabe que todo mundo desconfiará se desaparecermos muito tempo”. Ele riu baixinho e brincou: “Não, eu não sei o que todo mundo desconfiará. Diga-me o que desconfiarão os outros?” Para mim, pareceu um desafio para deixar todo mundo pensar o que bem entendesse. Fiquei com raiva quando ouvi aquilo.

           Nesse ponto, Chris fez uma pausa e sua respiração se tornou mais rápida e forte.

           — Você está escondendo alguma coisa — disse eu, conhecendo-o como um livro que já tivesse lido uma centena de vezes. — Está protegendo mamãe! Viu alguma coisa que não quer me contar! Ora, isso não é justo! Sabe que no dia em que viemos para cá combinamos ser sempre francos e dizer toda a verdade um ao outro... agora, conte-me o que viu!

           — Ora essa — replicou ele, mexendo-se e virando a cabeça para o outro lado, recusando-se a enfrentar meu olhar. — Que diferença pode fazer alguns beijos?

           — Alguns beijos? — explodi. — Você viu o homem beijar mamãe mais de uma vez? Que tipo de beijos? Na mão... ou beijos de verdade, boca-a-boca?

           Chris ruborizou-se e até seu peito, onde minha cabeça descansava, aqueceu-se. Cheguei a perceber o fato através de seu pijama.

           — Foram beijos apaixonados, não foram? — insisti raivosamente, convencida mesmo sem a sua confirmação. — Ele a beijou e ela permitiu. Talvez até mesmo o tenha deixado tocar-lhe os seios e acariciar-lhe as nádegas, como vi papai fazer uma vez, quando não sabia que eu estava no quarto, observando tudo! Foi isso que você viu, Christopher?

           — Que diferença faz? — replicou ele com voz engasgada. — Ela não pareceu importar-se com o que ele fez, embora eu tenha sentido nojo.

           Eu também fiquei enojada. Na época, mamãe estava viúva há apenas oito meses. Contudo, às vezes oito meses podem dar a impressão de oito anos-luz e, afinal, que valor tinha o passado quando o presente era tão emocionante e agradável... pois, podem apostar, eu presumia que se passara entre eles muita coisa que Chris jamais me contaria.

           — Ora, Cathy, não sei o que você está pensando, mas mamãe ordenou que ele parasse porque, se não a obedecesse, ela não lhe mostraria o quarto.

           — Puxa vida! Aposto que ele estava fazendo coisas do arco da velha!

           — Beijos — disse Chris, fitando a árvore de Natal. — Apenas beijos e algumas carícias, mas os olhos dela chegavam a brilhar. Então, o tal Bart perguntou a mamãe se a cama de cisne pertencera a alguma cortesã francesa.

           — Em nome de Deus, o que é uma cortesã francesa?

           Chris pigarreou.

           — É um substantivo que procurei no dicionário e significa uma mulher que reserva seus favores aos homens da aristocracia, ou da realeza.

           — Favores... que tipo de favores?

           — O tipo de favores pelos quais os homens ricos pagam caro — respondeu ele, tapando-me a boca com a mão para calar-me, e continuou: — E, naturalmente, mamãe negou que existisse nesta casa uma cama dessa espécie. Declarou que uma cama com reputação pecaminosa seria queimada, por mais linda que fosse. Queimariam-na à noite, orando por sua redenção. A cama de cisne pertencera à sua avó e quando mamãe era menina a coisa que mais desejava neste mundo eram os aposentos da avó. Contudo, seus pais se recusavam a permitir que ela utilizasse os aposentos, temendo que fosse contaminada pelo espírito da avó, que não fora exatamente uma santa, mas, por outro lado, também não fora uma cortesã. Então, mamãe riu, um tanto aguda e amargamente, e disse a Bart que seus pais a julgavam atualmente tão corrompida que nada poderia torná-la pior do que já era. Sabe, Cathy, isso me fez mal. Mamãe não é corrompida, papai a amava... eram casados... e o que as pessoas casadas fazem em particular não é da conta de ninguém.

            Prendi a respiração e não consegui soltá-la. Chris já sabia tudo, absolutamente tudo!

           — Bem, então mamãe disse: “Apenas uma espiada, Bart, e depois voltamos à festa”. Desapareceram numa ala suavemente iluminada e convidativa, o que, naturalmente, forneceu-me a direção geral do quarto de mamãe. Primeiro espiei cuidadosamente em todas as direções, antes de sair do esconderijo. Afastei-me correndo da armadura e abri a primeira porta fechada que encontrei. Entrei depressa, julgando que o aposento, estando escuro, e com a porta fechada, também devia estar desocupado. Fechei a porta bem devagar e depois fiquei absolutamente imóvel, só para absorver o cheiro e impressões do ambiente, como você diz que costuma fazer. Eu levara minha lanterna e poderia acender o facho em qualquer direção, mas desejava saber como você pode ser tão intuitiva, alerta e desconfiada quando tudo me parece perfeitamente normal. E, afinal, você tinha razão. Se as luzes estivessem acesas ou eu utilizasse a lanterna, talvez não percebesse o esquisito cheiro, nada natural, que reinava no local.         Um cheiro que me causou inquietação e um pouco de medo. Então, por Deus, quase caí duro de susto!

           — O que... o quê? — indaguei, empurrando a mão que me tapava a boca. — Viu algum monstro?

          — Monstro? Oh, pode apostar que vi monstros! Dúzias de monstros! Pelo menos, vi suas cabeças empalhadas e penduradas nas paredes. Por toda parte ao meu redor brilhavam olhos amarelos, verdes, cor de topázio e de limão. Puxa, foi de arrepiar os cabelos! A luz que entrava pelas janelas era azulada, por causa da neve, e refletia-se nos dentes brilhantes e nas compridas presas do leão que tinha a boca escancarada e soltava um rugido silencioso. Tinha uma basta juba castanha que lhe tornava a cabeça enorme, com uma muda expressão de angústia ou fúria. E, não sei por que, senti pena dele, decapitado, empalhado, pendurado, transformado em mero objeto de decoração quando deveria ter vivido até o final de seus dias caçando livremente na savana.

           Oh, sim; eu entendia o que ele queria dizer. Minha angústia era sempre como um vulcão de raiva.

           — Era um salão de troféus, Cathy; um enorme salão com muitas cabeças de animais. Havia um tigre. E um elefante com a tromba erguida. Todos os animais da África e Ásia estavam em exibição num dos lados do salão, enquanto a caça pesada da América estava na parede oposta: um urso pardo, um urso comum, um antílope, um leão da montanha, e assim por diante. Nenhuma ave ou peixe na coleção, como se não representassem um desafio digno do caçador que decorou aquele salão com suas vítimas. Uma sala sinistra, mas, mesmo assim, eu gostaria que você a conhecesse. Precisa conhecê-la!

            Oh, diabo, que me importava uma sala de troféus? Eu desejava saber a respeito das pessoas e de seus segredos.

           — Havia uma lareira de pedra com pelo menos seis metros de largura, com uma janela em cada lado, e acima dela estava pendurado um retrato a óleo, em tamanho natural, de um jovem tão parecido com papai que tive vontade de chorar. Mas não era o retrato de papai. Quando me aproximei, vi que o homem era muito semelhante a nosso pai, exceto quanto aos olhos. Usava uma roupa de caça cáqui e uma camisa azul. Estava apoiado no fuzil e tinha a perna sobre um tronco caído ao solo. Conheço um pouco sobre arte, o bastante para saber que aquele retrato e uma obra-prima. O artista conseguiu realmente captar a alma do caçador. Você nunca viu olhos azuis tão duros, frios, cruéis e impiedosos. Isso me bastou para perceber que não se tratava de nosso pai, antes mesmo de ler a pequena placa de metal fixada à parte inferior da grande moldura dourada. Era um retrato de Malcolm Neal Foxworth, o nosso avô. A data mostrava que papai tinha cinco anos de idade quando o retrato foi pintado. E, como você sabe, papai tinha três anos quando foi expulso, com sua mãe, Alicia, de Foxworth Hall. Naquela época, ele e a mãe residiam em Richmond.

           — Prossiga.

           Bem, tive muita sorte por ninguém me avistar quando rondei furtivamente pelo andar, pois, efetivamente, investiguei todos os quartos. E, afinal, encontrei os aposentos de mamãe. Uma porta dupla acima de dois degraus e, quando olhei lá para dentro, julguei estar vendo um palácio! Os outros quartos faziam-me esperar algo esplêndido, mas os aposentos de mamãe estão mesmo além da imaginação! E só podiam ser dela, pois havia a fotografia de papai na mesinha de cabeceira e o ambiente cheirava ao perfume que ela usa. No centro do quarto, sobre um tablado, a fabulosa cama de cisne! Oh! Que cama! Você nunca viu coisa igual! Tem uma bela cabeça de marfim, virada de perfil e parecendo pronta a enfiar-se sob uma asa meio erguida. Possui um olho vermelho e sonolento. As asas curvam-se suavemente para envolver uma cama quase oval. Não sei como conseguem ajustar os lençóis, a menos que sejam feitos sob medida. Os projetistas desenharam as penas das pontas das asas para funcionarem como dedos que afastam as cortinas delicadas e transparentes em todos os tons de rosa, vermelho, violeta e roxo. E mesmo uma cama e tanto... e aquelas cortinas... ela deve sentir-se realmente como uma princesa dormindo ali. O tapete lilás claro é tão espesso que a gente se afunda nele até os tornozelos e sobre ele existe um tapete de pele branca ao lado da cama. Os abajures de cristal, com mais de um metro e vinte de altura, são decorados com ouro e prata e dois deles possuem cúpulas pretas. Há uma poltrona espreguiçadeira de marfim, com almofadas de veludo cor-de-rosa, semelhante a algo que vemos nas orgias romanas. E aos pés da grande cama de cisne, prenda a respiração, pois não vai acreditar, está uma pequena cama estreita com o mesmo formato! Imagine! Junto aos pés da cama, no sentido transversal. Tive que parar para imaginar um motivo pelo qual alguém necessitaria de uma cama enorme e larga e uma caminha estreita aos pés dela. Deve existir um bom motivo além de tirar um cochilo sem desarrumar a cama maior. Cathy, só vendo aquela cama para acreditar!

            Eu sabia que ele vira muito mais coisas, que não mencionava. Mais do que eu veria posteriormente por mim mesma. Vi o bastante para conhecer a razão pela qual ele voltara ao nosso quarto para falar tanto naquela cama, sem me dizer tudo.

           — Esta casa é mais bonita que a nossa em Gladstone? — indaguei, porque para mim a nossa casa de fazenda, com oito cômodos e dois banheiros, mais um lavabo, era a melhor possível.

           Ele hesitou, levando algum tempo para encontrar as palavras adequadas, pois não era de falar atabalhoadamente. Naquela noite, pesava cautelosamente o que dizia e isso, por si, já indicava muita coisa.

           — Não é uma casa bonita. É grandiosa, imensa, cheia de coisas belas, mas eu não diria que é uma casa bonita.

           Julguei entender o que ele queria dizer: bonita era mais ligado a acolhedor que grandioso, lindo e rico, além de imenso.

           E agora nada nos restava dizer senão boa-noite e não deixe as pulgas morderem. Beijei o rosto de Chris e o empurrei para fora da minha cama. Desta feita, ele não reclamou que beijinhos eram coisa de bebês, meninas e maricas. Logo acomodou-se junto a Cory, a um metro de distância de mim.

           No escuro, a pequena árvore de Natal viva, com sessenta centímetros de altura, brilhava com pequenas lâmpadas coloridas, como as lágrimas que eu vira brilhar nos olhos de meu irmão.

Os longos inverno, primavera e verão

 

           Nunca nossa mãe pronunciara palavras tão verdadeiras como ao afirmar que agora possuíamos uma janela através da qual poderíamos observar o resto do mundo e a vida das outras pessoas. Naquele inverno, o aparelho de televisão assumiu o controle de nossas vidas. Como tantos outros, os inválidos, doentes e velhos, comíamos, tomávamos banho e nos vestíamos só para podermos observar outras pessoas viverem vidas imaginárias.

           Durante janeiro, fevereiro e a maior parte de março, o sótão permaneceu frio demais para lá entrarmos. Um vapor gelado pairava no ambiente, embaçando tudo de forma fantasmagórica e podem apostar que era assustador. E horrível; até mesmo Chris foi forçado a admitir o fato.

           Tudo isso tornava-nos muito satisfeitos por podermos ficar no quarto mais aquecido, acomodados muito juntos, assistindo, assistindo, assistindo aos programas da televisão. Os gêmeos adoravam a TV e jamais queriam desligar o aparelho; mesmo à noite, enquanto dormíamos, desejavam que ele ficasse ligado, sabendo que os acordaria na manhã seguinte. Até mesmo os pontinhos que piscavam após os programas da madrugada eram para os gêmeos melhor que o aparelho desligado. Cory, em especial, gostava de acordar e ver as pequenas imagens de pessoas por detrás de mesas anunciando as últimas notícias ou falando sobre a previsão do tempo; não havia dúvida de que as vozes dos locutores acolhiam-no melhor para um novo dia que as janelas escuras e fechadas por cortinas.

           A televisão nos formou, moldou, ensinou a soletrar e pronunciar palavras difíceis. Aprendemos o quanto era importante ser limpo, não ter odores corporais, não deixar cera acumular-se no chão da cozinha; nunca permitir que o vento nos desmanchasse o cabelo e, Deus nos livre, ter caspa! O mundo inteiro nos desprezaria. Em abril, eu completaria treze anos, aproximando-me da idade da acne! Examinava a pele diariamente, a fim de ver que coisas horríveis poderiam brotar dela a qualquer momento. Na verdade, tomávamos os comerciais de televisão ao pé da letra, acreditando em seu valor como um livro de regras que nos conduziriam com segurança através dos perigos que a vida nos reservava.

           Cada dia que passava trazia mudanças em Chris e em mim. Coisas peculiares estavam ocorrendo em nossos corpos. Nasceram cabelos onde não os tínhamos anteriormente, cabelos engraçados, duros, cor de âmbar, mais escuro que os de nossas cabeças. Eu não gostava deles e usava uma pinça para arrancá-los sempre que surgiam, mas eles brotavam com a facilidade de ervas daninhas: quanto mais eu os arrancava, mais eles nasciam. Certo dia, Chris encontrou-me com o braço erguido, procurando diligentemente pegar com a pinça um único fio de cabelo cor de âmbar e arrancá-lo impiedosamente.

          — Que diabo está fazendo? — indagou.

           — Não quero ter necessidade de raspar as axilas e também não quero usar o mesmo creme depilador que mamãe usa, ele fede!

            — Quer dizer que tem arrancado os cabelos que lhe nascem no corpo, sempre que eles aparecem?

           — Claro que sim! Gosto do meu corpo limpo e harmonioso, embora você não goste.

           — Está travando uma batalha perdida — disse ele com um sorriso malvado. — Esses cabelos devem crescer nos locais onde nascem, portanto é melhor deixá-los em paz e parar de pensar em manter-se infantilmente limpa e harmoniosa; comece a pensar que esses cabelos são sexy.

           — Sexy?

           Seios grandes eram sexy; não pêlos duros e encaracolados. Mas preferi ficar calada, pois pequenas maçãs duras estavam começando a brotar-me no peito e eu esperava que Chris não tivesse notado. Agradava-me muito o fato de estar começando a crescer para a frente, quando estava sozinha, num local privado, mas não queria que ninguém mais o percebesse. Tive que abandonar a vã esperança, pois via Chris lançar freqüentes olhares ao meu busto e, por mais folgadas que fossem minhas blusas ou suéteres, creio que aquelas pequenas colinas atraiçoavam meu recato.                                    

            Eu começava a viver, tendo sensações que nunca tivera antes. Dores e anelos estranhos. Querendo algo e não sabendo o que me acordava durante a noite, pulsante, latejante, excitada e sabendo que havia um homem ali comigo, fazendo algo que eu desejava que ele completasse e nunca completando... nunca completando... pois eu sempre acordava cedo demais, antes de atingir as climáticas alturas às quais eu sabia que ele me elevaria, se ao menos eu não acordasse para estragar tudo.

            Então, houve outra coisa intrigante. Era eu quem fazia a cama todas as manhãs, logo depois de nos levantarmos, antes que a velha bruxa chegasse com a cesta de piquenique. Via sempre manchas nos lençóis, mas não eram bastante grandes para indicar outro dos sonhos de Cory com o banheiro. Estavam sempre no lado que Chris ocupava na cama.

           — Pelo amor de Deus, Chris, espero que você não se acostume a sonhar que vai ao banheiro enquanto ainda estiver dormindo na cama!

           Simplesmente não pude acreditar na fantástica explicação que ele deu a respeito de algo que denominava de “polução noturna”!

           — Chris, acho que você deve contar a mamãe, a fim de que ela o leve a um médico. O que você tem talvez seja contagioso, algo que Cory possa contrair, e ele já suja demais a cama sem precisar de outras complicações.

           Ele me lançou um olhar desdenhoso, ao mesmo tempo em que enrubesceu.

           — Não preciso consultar um médico — disse com a maior severidade. — Já escutei meninos mais velhos conversando nas salas de repouso da escola e o que acontece comigo é perfeitamente normal.

           — Não pode ser normal, é sujo demais para isso!

           —Ah! — zombou ele, com os olhos brilhando de riso reprimido. — Sua época de sujar os lençóis está chegando.

           — Que quer dizer com isso?

           — Pergunte a mamãe. Já é tempo de você saber; tenho percebido que você está começando a se desenvolver e isto é um sinal seguro.

           Eu detestava o fato de Chris saber mais que eu a respeito de tudo! Onde aprendera tanto? Nas conversas maldosas com que os meninos matavam o tempo no banheiro da escola? Eu também escutara conversas maldosas no banheiro das meninas, mas preferia morrer a acreditar numa só palavra daquilo tudo. Era grosseiro demais!

           Os gêmeos raramente usavam uma cadeira e não podiam ficar nas camas, pois isso amarrotaria as colchas e a avó insistia em que tudo fosse mantido “impecável”.

            Embora gostassem das novelas da TV, continuavam a brincar, parando ocasionalmente para assistir às cenas mais interessantes. Carrie tinha aquela enorme casa de bonecas, com todas as miniaturas e fascínios, para mantê-la entretida numa constante conversa com os objetos, a ponto de irritar-nos. Eu lhe lançava muitos olhares aborrecidos, esperando que ela se calasse ao menos por alguns segundos e me permitisse assistir televisão sem aquele monólogo maçante, mas nunca lhe fiz qualquer advertência verbal, pois isso provocaria gritos muito piores que o perene murmúrio de suas estranhas conversas.

           Enquanto Carrie mexia nas bonecas, falando pelos homens e pelas mulheres, Cory se distraía com suas inúmeras caixas de brinquedos de armar. Recusava-se a aceitar as instruções que Chris tentava ensiná-lo a cumprir, preferindo construir o que mais lhe convinha e o que construía era sempre alguma coisa na qual ele pudesse bater para extrair notas musicais. Com a televisão para fazer barulho e apresentar uma interminável variedade de cenas, a casa de bonecas e seus muitos encantos para agradar Carrie e os brinquedos de armar que tornavam mais felizes as horas de Cory, os gêmeos conseguiam levar da melhor maneira possível sua vida de confinamento. As crianças são muito adaptáveis; aprendi isso observando os gêmeos.

            Claro que reclamavam um pouco, sobretudo a respeito de duas coisas. Por que mamãe não nos visitava tantas vezes como antes? Aquilo me magoava profundamente, pois eu nada podia fazer para remediar a situação. E havia também o problema da comida: eles nunca gostavam dela. Queriam os sorvetes em casquinha que viam na TV e os cachorros-quentes que as crianças da televisão estavam sempre comendo. Na verdade, desejavam tudo que fosse dirigido a satisfazer o apetite infantil por doces e brinquedos. Tinham os brinquedos, mas não recebiam doces.

            E, enquanto os gêmeos engatinhavam pelo chão ou sentavam-se de pernas cruzadas, sempre fazendo seus irritantes barulhos, Chris e eu procurávamos manter nossas mentes concentradas nas complicadas situações que se desenrolavam diariamente ante nossos olhos. Víamos maridos infiéis enganarem esposas dedicadas, ou esposas do tipo megera, ou esposas por demais preocupadas com os filhos para darem aos maridos as atenções que estes necessitavam. E vice-versa. As mulheres eram capazes de serem tão infiéis quanto os homens, quer para maridos bons quer para maridos maus. Aprendemos que o amor era exatamente como uma bola de sabão, tão brilhante e colorida num dia, desfazendo-se em pleno ar no dia seguinte. Então, vinham as lágrimas, as fisionomias desoladas, a angústia afogada numa infinidade de xícaras de café à mesa da cozinha com um melhor amigo, ou amiga, que também tinha seus próprios problemas e complicações. Todavia, mal um amor terminava, logo surgia outro para lançar no ar aquela brilhante bola de sabão. Oh, com que persistência aquelas pessoas lindas se esforçavam para encontrar o amor perfeito e trancá-lo num lugar seguro, mas nunca conseguiam.

            Uma tarde no final de março, mamãe entrou no quarto com uma grande caixa sob o braço. Estávamos acostumados a vê-la entrar no nosso quarto carregando muitos presentes, não apenas um. E o mais estranho foi que ela meneou a cabeça para Chris, que pareceu entender, pois levantou-se de onde se sentara para estudar, tomou as mãozinhas de nossos gêmeos e subiu com eles para o sótão. Fiquei sem entender nada. Ainda fazia frio lá em cima. Tratar-se-ia de algum segredo? Teria ela trazido um presente só para mim?

            Sentamo-nos lado a lado na cama que Carrie e eu usávamos e, antes que eu pudesse olhar o “presente” trazido especialmente para mim, mamãe declarou que precisávamos ter uma conversa “de mulher para mulher”. Ora, eu já ouvira falar de conversas “de homem para homem” nos velhos firmes da televisão e sabia que esse tipo especial de diálogo tinha alguma relação com crescimento e sexo, de modo que fiquei pensativa e procurei não demonstrar muito interesse, pois isso seria comportamento inadequado a uma moça direita e bem educada; embora, por dentro, eu estivesse morrendo de curiosidade por, afinal, tomar conhecimento de tudo.

           E pensam que ela me contou o que eu esperara tantos anos para saber? Não! Enquanto eu permanecia sentada numa atitude solene, aguardando a exposição que revelaria todas as coisas maliciosas e pecaminosas que os meninos já nasciam conhecendo, segundo uma certa bruxa-avó, fiquei aturdida e incrédula à medida que mamãe explicava como eu deveria, em breve, começar a ter corrimentos sangüíneos!

            Não em decorrência de algum ferimento, mas devido à maneira pela qual Deus projetara o funcionamento do organismo feminino. E, para aumentar meu espanto, eu não apenas sangraria uma vez por mês, a partir de agora até ser uma mulher idosa de cinqüenta anos, como também o sangramento mensal duraria cinco dias!

            — Até eu fazer cinqüenta anos? — indaguei em voz fraca, sumida, com tanto medo de mamãe estar pilheriando às minhas custas.

           Ela sorriu suavemente, com ternura.

           — Às vezes, para antes dos cinqüenta anos, outras vezes continua por mais algum tempo. Não existe prazo definido. Não obstante, em algum ponto dessa faixa de idade você pode esperar a “mudança de vida”. É chamada menopausa.

           — Vai doer? — Era a coisa mais importante que eu desejava saber naquele momento.

           — Seus períodos mensais? Talvez ocorram algumas cólicas, mas não serão fortes e posso afirmar, por experiência própria e de outras mulheres que conheço, que quanto mais medo você tiver, mais forte será a dor.

           Eu sabia! Nunca vi sangue sem sentir dor, a menos que fosse o sangue de outra pessoa. E toda aquela sujeita, dores, cólicas, só para que meu útero se preparasse para receber um “óvulo fertilizado” que se transformaria num bebê. Então, ela me deu a caixa que continha tudo o que eu precisaria para “aquela época do mês”.

           — Espere, mamãe! — exclamei, encontrando um meio de evitar tudo aquilo. — Você se esquece de que tenciono ser bailarina e que as bailarinas nunca devem ter filhos? E eu não quero ter filhos, nunca. Portanto, pode devolver tudo isso à loja e receber seu dinheiro de volta, pois não vou topar essa sujeira periódica mensal!

           Ela deu uma risadinha, abraçou-me com mais força e beijou-me o rosto.

           — Acho que me esqueci de lhe dizer alguma coisa, pois não existem meios de evitar a menstruação. É preciso aceitar a maneira pela qual a natureza altera o corpo de uma menina, transformando-a numa mulher. Certamente, você não vai querer ser uma menina a vida inteira, não é mesmo?

            Titubeei, desejando profundamente ser uma mulher adulta, com todas as curvas que mamãe possuía, e, não obstante, despreparada para o choque de tamanha sujeira uma vez por mês!

            — E, Cathy, por favor, não se sinta envergonhada, ou embaraçada, ou temerosa de algum incômodo e trabalho, pois ter filhos é recompensa mais que suficiente para isso. Algum dia você vai se apaixonar; depois de casada, desejará dar filhos a seu marido, se o amar de verdade.

           — Mamãe, existe alguma coisa que você não está me contando. Se as meninas têm que passar por tudo isso para se tornarem mulheres, o que Chris terá que suportar para tornar-se um homem?

           Ela soltou uma risadinha quase infantil e apertou o rosto contra o meu.

          — Os meninos também passam por alterações, embora nenhuma delas cause sangramento. Chris em breve terá que fazer a barba, e todos os dias também. E existem determinadas outras coisas que ele terá que aprender a conseguir e controlar, com as quais você não terá que se preocupar.

           — O quê? — perguntei, ansiosa para que o gênero masculino compartilhasse de alguns dos problemas do amadurecimento. Quando ela não respondeu, insisti: — Chris lhe pediu para conversar comigo, não foi?

           Ela confirmou com a cabeça, respondendo que ele pedira, embora ela há muito tempo tencionasse contar-me tudo; mas as ocupações no andar inferior não lhe davam folga para fazê-lo.

           — Chris... o que ele sofrerá de doloroso?

           Ela riu, aparentemente divertida.

           — Outro dia conversaremos, Cathy. Agora, guarde suas coisas para usá-las, quando for necessário. Não entre em pânico se a coisa começar quando você estiver dormindo, ou dançando. Eu tinha doze anos quando isso aconteceu e estava andando de bicicleta. Voltei em casa ao menos seis vezes, a fim de trocar as calcinhas, até que minha mãe percebeu e arranjou tempo para explicar-me do que se tratava. Acredite se quiser, mas logo se acostumará aos períodos e estes não farão a mínima diferença em seu modo de vida.

           A despeito das caixas, contendo aquelas coisas detestáveis que eu esperava nunca ter que usar, pois não pretendia ter filhos, a conversa com mamãe foi íntima e muito gostosa para mim.

           Não obstante, quando ela chamou Chris e os gêmeos do sótão e passou a beijar Chris, desmanchando-lhe os cabelos louros encaracolados e brincando com ele de modo provocante, praticamente ignorando os gêmeos, a intimidade de alguns momentos antes começou a desaparecer. Carrie e Cory pareciam pouco à vontade na presença de mamãe. Correram para mim e subiram-me ao colo; abraçados por mim, observaram Chris ser acariciado, beijado e mimado por ela. Preocupava-me profundamente a maneira pela qual ela tratava os gêmeos, como se nem desejasse vê-los. Enquanto Chris e eu ingressamos na puberdade, a caminho de nos tornarmos adultos, os gêmeos estagnaram, permanecendo na mesma.

            O inverno frio e prolongado cedeu lugar à primavera. Paulatinamente, o sótão ficou mais quente. Subimos até lá, todos os quatro, para retirar os flocos de neve de papel e substituí-los por nossas coloridas flores de primavera, alegrando o ambiente.

           Meu aniversário foi em abril e mamãe não deixou de comparecer com presentes, sorvete e um bolo de confeitaria. Sentou-se para passar a tarde de domingo e ensinou-me a bordar com lã e costurar com agulha. Assim, com os materiais que me deu de presente, eu tinha mais uma maneira de encher o tempo.

           Meu aniversário foi seguido pelo dia dos gêmeos: seu sexto aniversário. Mais uma vez, mamãe trouxe o bolo, sorvete e muitos presentes, inclusive instrumentos musicais que fizeram brilhar os olhos azuis de Cory. O menino lançou um demorado olhar de encantamento ao acordeão de brinquedo, apertou-o uma ou duas vezes, acionando as teclas e virando atentamente a cabeça para escutar os sons emitidos. E diabos me levem se ele em breve não estava tocando uma melodia! Nenhum de nós conseguiu acreditar. Então, ficamos ainda mais perplexos quando ele foi ao piano de brinquedo de Carrie e repetiu a façanha, cantando:

           — Parabéns pra você, querida Carrie. Parabéns pra nós dois!

           — Cory tem bom ouvido para música — disse mamãe, parecendo pensativa e nostálgica ao fitar o filho mais moço. — Ambos os meus irmãos eram músicos. A pena é que meu pai não tinha paciência para com as artes ou o tipo de homens que são artistas, não só músicos como também pintores, poetas e assim por diante, julgando-os fracos e efeminados. Obrigou meu irmão mais velho a trabalhar num banco, pouco se importando com o fato de o filho detestar o emprego que não lhe era adequado. Tinha o mesmo nome que meu pai, mas nós o chamávamos de Mal. Era um jovem muito bonito e, nos fins de semana, fugia da vida que detestava e subia as montanhas em sua motocicleta. Em seu retiro particular, uma cabana de troncos que ele mesmo construiu, compunha músicas. Um dia, na chuva, pegou uma curva com velocidade excessiva, saiu da estrada e caiu num abismo de centenas de metros. Tinha vinte e dois anos quando morreu.

            — Meu outro irmão se chamava Joel e fugiu de casa no dia do enterro de Mal. Eram muito unidos e creio que ele não conseguiu suportar a idéia de substituir Mal e herdar o império comercial do pai. Recebemos um único cartão postal de Paris, no qual Joel nos contava que arranjara emprego numa orquestra que excursionava pela Europa. Cerca de três semanas depois, fomos informados de que ele morrera num acidente de automóvel, na Suíça. Tinha dezenove anos. Caiu numa profunda ravina cheia de neve e até hoje seu corpo não foi encontrado.

           Oh, Deus! Fiquei muito perturbada, sentindo-me atordoada interiormente. Tantos acidentes! Dois irmãos mortos e papai também; todos em acidentes. Meu olhar desolado cruzou com o de Chris, que estava muito sério. Tão logo nossa mãe partiu, fugimos para o sótão, procurando conforto em nossos livros.

           — Já lemos tudo isso! — desabafou Chris, profundamente desgostoso, lançando-me um olhar aborrecido.

           Eu não tinha culpa de ele ser capaz de ler um livro inteiro em poucas horas!

           — Podíamos reler aquelas obras de Shakespeare. — sugeri.

            — Não gosto de ler peças teatrais!

           Ora, eu gostava de ler Shakespeare, Eugene O'Neill e qualquer obra que fosse dramática, fantasiosa e cheia de emoções tempestuosas.

           — Vamos ensinar os gêmeos a ler e escrever — sugeri, quase frenética para fazer algo diferente. E, daquele modo, poderíamos dar aos gêmeos mais uma maneira de se divertirem. — Fazendo isso, Chris, evitaremos que eles tenham os cérebros transformados em papa de tanto olharem para aquele tubo luminoso. E também evitaremos que fiquem cegos.

            Descemos, decididos, e fomos direto aos gêmeos, que assistiam a um desenho animado do Coelho Pernalonga.

           — Vamos ensinar vocês dois a ler e escrever — anunciou Chris.

           Ambos começaram a protestar com berros veementes.

           — Não! — gritou Carrie. — Não queremos aprender a ler e escrever! Não escrevemos cartas! Queremos assisti a “Eu amo Lucy”!

           Chris agarrou Carrie e eu peguei Cory, arrastando-os literalmente até o sótão. Fomos obrigados, pois era como se tentássemos segurar duas cobras escorregadias. E uma delas era capaz de mugir como um touro furioso!

           Cory não falava, nem gritava, nem procurava esmurrar-me com os pequenos punhos; limitava-se a agarrar ferozmente o que lhe passasse ao alcance das mãos, usando também as pernas para prender-se em móveis e outros objetos.

           Nunca dois professores amadores tiveram um corpo discente tão relutante. Mas, afinal, por meio de truques, ameaças e contos de fadas, começamos a interessá-los pelo estudo. Talvez tenha sido piedade de nós o que logo os levou a estudar laboriosamente os livros, decorando e recitando enfadonhamente as letras do alfabeto.

            Entregamos a eles um caderno de caligrafia e um livro do primeiro ano de onde copiavam palavras.

           Como não conhecíamos outras crianças da mesma idade que nossos gêmeos, Chris e eu julgávamos que ambos progrediam de modo notável. Embora mamãe não viesse visitar-nos todos os dias, como no início, e nem mesmo dia sim, dia não, costumava aparecer uma ou duas vezes por semana. Com que ansiedade a aguardamos para entregar-lhe o curto bilhete que Cory e Chris escreveram para ela após se certificarem de que cada um tinha exatamente o mesmo número de palavras que o outro para escrever.

           Em letras de fôrma com pelo menos cinco centímetros de altura e muito tortas, o bilhete dizia:

 

       "Querida Mamãe,

       Nós amamos você

       E doces também.

       Adeus,

       Carrie e Cory".

 

            Empregaram tanto esforço e diligência na sua mensagem, sem receberem instruções minhas ou de Chris; uma mensagem redigida por eles próprios, esperando que mamãe a recebesse. E ela não recebeu...

       

Cáries dentárias, naturalmente.

 

            Então, chegou o verão. E, mais uma vez, fazia um calor terrível, muito abafado, embora, por estranho que pareça, não fosse tão insuportável quanto o verão anterior. Chris chegou à conclusão de que nosso sangue estava mais ralo, de modo que podíamos tolerar melhor o calor.

           Nosso verão foi cheio de livros. Aparentemente, mamãe simplesmente pegava livros nas estantes do andar inferior, sem dar importância aos títulos, sem querer saber se o assunto nos interessava ou se a leitura era adequada a mentes jovens e facilmente impressionáveis como as nossas. Na verdade, não fazia diferença. Chris e eu líamos tudo. Um de nossos livros preferidos naquele verão era um romance histórico que fazia a história ficar mais interessante que o modo como era ensinada na escola. Ficamos espantados ao tomar conhecimento de que, nos velhos tempos, as mulheres não iam ao hospital para terem bebês. Tinham-nos em casa, deitadas numa cama estreita, de modo que o médico pudesse alcançá-las com mais facilidade que numa cama larga. E, às vezes, só contavam com a assistência de uma parteira.

            — Uma pequena cama de cisne, para ter bebês — refletiu Chris em voz alta, erguendo a cabeça para fitar o espaço.

           Rolei para ficar deitada de costas e sorri maliciosamente para ele. Estávamos no sótão, deitados em velhos colchões manchados colocados perto das janelas mantidas abertas para deixarem entrar a brisa suave e cálida.

           — E reis e rainhas que recebiam os cortesãos em suas camas, ou aposentos reais, como diziam na época, e tinham coragem de se mostrar inteiramente despidos diante de todos. Você acha que tudo o que está escrito nos livros pode ser totalmente verdadeiro?

           — Claro que não! Mas grande parte é. Afinal, as pessoas não costumavam usar camisolas ou pijamas para dormir. Apenas um barrete para aquecer a cabeça e o resto que se danasse.

           Rimos juntos, imaginando reis e rainhas que não se envergonhavam de ficar despidos diante dos seus nobres e dos dignitários estrangeiros.

          — Naquela época, pele nua não era pecado, era? Nos tempos medievais?

           — Creio que não — replicou Chris.

           — Pecado é o que a gente faz quando está despido, não é?

           — Creio que sim.

           Pela segunda vez, eu estava suportando o suplício que a natureza me infligia para tornar-me mulher; na primeira vez, doeu tanto que passei o dia de cama, alegando sofrer dores nas juntas.

           — Você não acha repugnante o que está acontecendo comigo... acha? — perguntei a Chris.

            Ele enfiou o rosto nos meus cabelos.

           — Cathy, não acho que qualquer coisa relacionada com o corpo humano e seu funcionamento seja repugnante ou revoltante. Creio que é o médico que existe dentro de mim que fala dessa forma. Considero a sua peculiar situação da seguinte maneira: se bastam uns poucos dias por mês dessa coisa para transformar você numa mulher como mamãe, então vale a pena. E se lhe causa dores e você não gosta, lembre-se de que a dança também provoca dores, como você mesma me disse. Não obstante, no caso da dança você julga que o preço que paga vale a pena.

           Abracei-o com mais força quando ele se interrompeu. Depois, acrescentou:

           — E eu também pago um preço por tornar-me homem. Não tenho um homem com quem conversar, como você tem mamãe. Estou completamente sozinho numa situação complicada, cheia de frustrações, e às vezes não sei para que lado me voltar ou de que maneira fugir às tentações. Além disso, tenho muito medo de jamais conseguir formar-me em medicina.

           — Chris — comecei, compreendendo logo que tropeçara num poço de areia movediça. — Você nunca tem dúvidas a respeito dela?

           Vi-o ficar carrancudo e falei depressa, antes que ele pudesse replicar alguma advertência irada:

           — Não acha... esquisito... que ela nos mantenha trancados aqui durante tanto tempo? Ela tem muito dinheiro, Chris; sei que tem. Aquelas jóias todas não são falsas como ela alega para nós. Sei que não são!

           Ele se afastara logo que eu falara “nela”.

           Adorava a sua deusa de toda a perfeição feminina. Todavia, logo voltou a abraçar-me, encostando o rosto em meus cabelos e falando com a voz embargada pela emoção:

           — Às vezes, não sou o eterno otimista cego que você me considera. Às vezes, tenho tantas dúvidas quanto você a respeito do que ela faz. Todavia, lembro-me da época anterior à nossa vinda para cá e sinto que preciso confiar nela, acreditar nela, ser como papai foi em relação a ela. Não se esqueça do que ele costumava dizer: “Existe um bom motivo para tudo que parece estranho. E tudo sempre tende a melhorar”. É por isso que me obrigo a acreditar que... ela tenha bons motivos para manter-nos aqui em vez de enviar-nos às escondidas para algum colégio interno. Ela sabe o que está fazendo, Cathy. E eu a amo tanto. Não posso evitar. Não importa o que ela fizer, sinto que continuarei sempre a amá-la.

           Ele a amava mais que a mim, refleti com amargura.

           Agora, nossa mãe chegava e saía sem qualquer regularidade. Uma vez passou uma semana inteira sem nos visitar. Quando finalmente apareceu, declarou que seu pai estava gravemente enfermo. Vibrei de euforia com a notícia.

           — Ele está piorando? — indaguei, sentindo uma leve pontada de remorso. Sabia que era errado desejar a morte de nosso avô, mas sua morte seria nossa salvação.

           — Sim — respondeu ela solenemente. — Piorando muito. Qualquer dia, agora, Cathy. Qualquer dia. Você não pode imaginar como está pálido, nem as dores que sente; tão logo ele se vá, vocês estarão livres.

          Oh, meus Deus, pensar que era tão malvada a ponto de desejar que o velho morresse naquele mesmo instante! Deus me perdoe. Por outro lado, também não era direito ficarmos trancados o tempo todo; necessitávamos de ar livre, de sol quente; e ficávamos solitários, sem travar novos conhecimentos.

           — Talvez seja a qualquer hora — disse mamãe, levantando-se para ir embora.

           Cantarolei ao arrumar as camas, esperando a chegada da notícia de que nosso avô estava a caminho do céu, se sua riqueza valia alguma coisa, ou do inferno, se fosse impossível subornar o Demônio.

           Mamãe surgiu à porta, com a fisionomia fatigada, enfiando apenas a cabeça no quarto para dizer:

           — Ele superou a crise... Vai recuperar-se, desta vez.

           A porta se fechou e ficamos a sós com nossas esperanças desfeitas.

           Naquela noite, ajeitei os gêmeos na cama, pois agora mamãe raramente aparecia para fazê-lo. Era eu quem os beijava e escutava suas preces. E Chris também cumpria sua parte das tarefas. Os gêmeos nos amavam; era fácil ler isso em seus grandes olhos azuis. Depois que adormeceram, fomos ao calendário riscar um grande "X" sobre mais um dia. Já estávamos outra vez em agosto. Fazia um ano inteiro que vivíamos naquela prisão.

 

Crescendo e aprendendo

           Outro ano se passou, de modo muito semelhante ao primeiro. Mamãe vinha com cada vez menos freqüência, mas sempre trazendo as promessas que mantinham vivas nossas esperanças, fazendo-nos continuar a crer que a libertação era apenas uma questão de semanas. A última coisa que fazíamos cada noite era riscar o dia com um grande "X" vermelho.

           Havia agora três calendários riscados com aqueles X. O primeiro tinha apenas metade dos dias riscados, o segundo estava inteiramente marcado de vermelho e o terceiro já tinha as mesmas marcas além da metade. E o avô moribundo, agora com sessenta e oito anos de idade e sempre prestes a exalar o último suspiro, continuava respirando enquanto esperávamos num limbo. Tudo indicava que ele viveria para completar os sessenta e nove.

           Às quintas-feiras os criados de Foxworth Hall iam à cidade. Era quando Chris e eu saíamos sorrateiramente para o telhado escuro e nos estendíamos nas telhas íngremes, a fim de pegarmos a luz do sol e respirarmos ar puro sob a lua e as estrelas. Embora fosse um local alto e perigoso, era o um lugar onde duas alas se juntavam para formar uma esquina, podíamos firmar os pés numa robusta chaminé e ficar em segurança. Nossa posição no telhado nos ocultava de quem pudesse estar no terreno.

           Uma vez que a ira de nossa avó ainda não se materializara, Chris e eu nos tornamos descuidados. Nem sempre éramos recatados no banheiro, como nem sempre estávamos totalmente vestidos. Era difícil viver em perene confinamento e ocultar do sexo oposto as partes íntimas do corpo.

           E, para usar de toda a franqueza, nenhum de nós se importava muito com quem via o quê.

           Deveríamos importar-nos.

           Deveríamos ter cautela.

           Deveríamos manter viva na lembrança a imagem das costas açoitadas de mamãe e nunca, jamais, esquecê-la. Entretanto, o dia em que ela fora surrada já nos parecia tão distante. Uma eternidade se passara desde então.

           Ali estava eu, uma adolescente, e jamais me vira inteiramente nua, pois o espelho na porta do armário do banheiro estava colocado num local alto demais para permitir uma visão perfeita. Eu nunca vira uma mulher nua, mesmo em fotografia; as pinturas e estátuas de mármore não revelavam detalhes. Assim, esperei uma ocasião em que fiquei sozinha no quarto e me despi completamente diante do armário, mirando-me no espelho da porta, examinando e admirando todo o meu corpo. Era incrível que os hormônios tivessem causado tantas alterações! Não havia dúvida de que eu era mais bonita que quando ali chegara, mesmo em meu rosto, cabelos e pernas, quanto mais no corpo torneado em curvas. Virei-me de lado para lado, mantendo os olhos grudados no espelho enquanto assumia posições de bailarina.

            Uma sensação de arrepio na nuca preveniu-me de que havia alguém por perto, observando-me. Girei subitamente nos calcanhares e apanhei Chris oculto nas profundas sombras do armário que dava para a escada do sótão. Descera silenciosamente até ali. Há quanto tempo estaria me observando? Teria visto todas as coisas tolas e desavergonhadas que eu fizera? Oh, Deus, eu esperava que não!

           Chris parecia petrificado. Uma expressão estranha velava-lhe os olhos azuis, como se nunca me tivesse visto sem roupas, como já vira muitas vezes. Talvez quando os gêmeos estavam presentes, tomando banho de sol conosco, ele mantivesse o pensamento puro e fraternal, sem me olhar de verdade.

           Baixou os olhos de meu rosto corado para os seios e, cada vez mais para baixo, até chegar aos pés e tornar a subir vagarosamente.

           Fiquei trêmula, hesitante, imaginando como agir sem parecer uma tola pudica aos olhos de um irmão mais velho que sabia como zombar de mim quando desejava. Chris parecia-me um desconhecido, mais velho, alguém que eu nunca encontrara antes. Também aparentava fraqueza, aturdimento, perplexidade. Se eu me movesse para vestir-me, roubar-lhe-ia algo que ele tanto ansiava por ver.

           O tempo deu a impressão de parar enquanto ele permanecia no armário e eu continuava em frente ao espelho que lhe revelava também uma visão posterior, pois vi que seus olhos fitavam dissimuladamente a imagem ali refletida.

           — Chris, vá embora, por favor.

           Ele não deu sinal de escutar.

           Limitou-se a fitar.

           Corei da cabeça aos pés, sentindo o suor brotar das axilas e uma pulsação esquisita nas veias. Era como uma criança apanhada com a mão enfiada no vidro de doces, culpada de um crime leve e terrivelmente temerosa de receber um severo castigo por quase nada. Todavia, os olhos de Chris, sua expressão, haviam-me despertado para a vida; meu coração batia feroz e descompassadamente, cheio de temor. Por que ter medo? Era apenas Chris.

           — Não — disse ele, quando peguei o vestido.

           — Você não devia... — gaguejei, tremendo ainda mais.

           — Sei que não devia, mas você é tão linda. É como se eu nunca a tivesse visto antes. Como se tornou tão bela, enquanto estive aqui esse tempo todo?

           Como responder a tal indagação? Só consegui olhar para ele, implorando com os olhos.

           Naquele instante, às minhas costas, uma chave girou na fechadura. Tentei enfiar rapidamente o vestido pela cabeça e puxá-lo para baixo antes que ela entrasse.

            Oh, Deus! Não consegui encontrar as mangas. Minha cabeça ficou coberta pelo vestido, com o resto do corpo exposto, inteiramente nu, e ela estava ali: a avó! Embora não pudesse vê-la, eu a sentia!

           Afinal, encontrei os buracos das mangas e baixei rapidamente o vestido. Todavia, ela me vira em toda a minha beleza nua; estava escrito naqueles implacáveis olhos cinzentos e faiscantes. Tirou os olhos de mim e fitou Chris como se fosse capaz de atravessá-lo com o olhar furioso. Ele continuava no atordoamento que não o deixava fazer o menor gesto.

           — Então! — exclamou ela. — Finalmente os apanhei! Tinha certeza de que os pegaria, mais cedo ou mais tarde!

           Ela nos dirigira antes a palavra. A cena era exatamente como um de meus pesadelos... despida diante da avó e de Deus.

           Chris sacudiu-se da perplexidade e avançou para retorquir:

           — Apanhou-nos? Fazendo o quê? Nada!

           Nada...

                 Nada...

                       Nada...

            Uma palavra que reverberava. Aos olhos dela, fôramos apanhados fazendo tudo!

           — Pecadores! — sibilou ela, voltando novamente para mim os olhos cruéis. Não havia neles o mínimo vestígio de clemência. — Julga-se bonita? Acha que essas curvas novas e jovens são atraentes? Gosta desses louros cabelos que tanto escova e penteia?

           Então sorriu o sorriso mais aterrador que já vi.

            Meus joelhos batiam nervosamente um contra o outro; as mãos se contorciam instintivamente. Sentia-me muito vulnerável sem roupas de baixo e com o zíper aberto nas costas. Lancei um olhar de esguelha a Chris, que avançava vagarosamente, procurando com os olhos algo que lhe servisse como arma.

           — Quantas vezes permitiu que seu irmão usasse seu corpo? — vociferou a avó.

           Só consegui permanecer imóvel, incapaz de falar, sem entender o que ela queria dizer.

           — Usar? Como assim?

           Os olhos dela se transformaram em meros riscos no rosto, que buscaram repentinamente Chris, surpreendendo-lhe no rosto um rubor de vergonha que demonstrava claramente, até mesmo para mim, que ele entendia o significado da pergunta, embora eu não compreendesse.

           — Quero dizer uma coisa — declarou ele, ficando ainda mais vermelho. — Não fizemos nada realmente errado.

           Agora, tinha uma voz adulta, forte e profunda.

           — Vamos, pode me fitar com esses olhos odientos e desconfiados. Acredite o que quiser, mas Cathy e eu nada fizemos de errado, pecaminoso ou malicioso!

           — Sua irmã estava nua. Permitiu que você lhe olhasse o corpo. Portanto, procederam mal.

           Dirigiu o olhar para mim, carregado de ódio, antes de girar nos calcanhares e retirar-se raivosamente do quarto. Eu tremia como vara verde. Chris estava furioso comigo.

           — Cathy, por que se despiu neste quarto? Sabe que ela nos espiona na esperança de pegar-nos cometendo alguma falta!

           Tinha no rosto uma expressão selvagem e agitada que o fazia parecer mais velho, terrivelmente violento.

           — Ela nos castigará. O fato de haver saído sem fazer nada não quer dizer que deixará de voltar.

           Eu sabia... eu sabia. Ela ia voltar com o chicote!

           Sonolentos e irritados, os gêmeos desceram do sótão. Carrie acomodou-se diante da casa de bonecas. Cory agachou-se para assistir a televisão. Pegou sua cara guitarra de profissional e começou a tocá-la. Chris sentou-se na cama, virado para a porta. Eu fiquei alerta, pronta para fugir quando ela voltasse. Correria para o banheiro, trancaria a porta... eu...

           A chave girou na fechadura. A maçaneta se moveu.

            Levantei-me de um pulo, como Chris.

            — Vá para o banheiro, Cathy — disse ele. — E fique lá dentro.

           Nossa avó entrou no quarto, alta como uma árvore a trazia não um chicote, mas uma tesoura, do tipo que as mulheres utilizam para cortar tecido quando costuram: cromada, brilhante, comprida e parecendo muito afiada.

           — Sente-se, menina — ordenou rispidamente. — Vou cortar seus cabelos pela raiz. Então talvez você se orgulhe quando olhar para o espelho.

           Exibiu um sorriso desdenhoso e cruel ao perceber minha surpresa; o primeiro sorriso verdadeiro que eu vira em seu rosto.

           Meu maior temor! Eu preferia ser açoitada! Minha pele cicatrizaria, mas seriam necessários anos e mais anos para ter outra vez os lindos cabelos compridos de que eu tanto gostara e cuidara a partir da primeira vez em que meu pai afirmara achá-los lindos e gostar de meninas com cabelos longos. Oh, amado Deus, como podia ela adivinhar que eu sonhava quase todas as noites que ela entrava sorrateiramente no quarto e me tosquiava como a uma ovelha? E, às vezes, eu não sonhava apenas que ela me cortava os cabelos, como também me amputava os seios!

           Sempre que ela olhava na minha direção, fixava um determinado detalhe. Não me via como um todo, uma pessoa inteira, mas como pedaços que lhe atiçavam a ira... e ela destruía tudo que lhe causava raiva!

           Tentei correr para o banheiro e fechar-me lá dentro com a chave, mas minhas pernas de bailarina, tão bem treinadas, recusavam-se a fazer o mínimo movimento.

            Fiquei paralisada pela ameaça daquela tesoura brilhante e comprida; e, acima dela... os olhos cinzentos da avó faiscavam de ódio, desprezo e repugnância.

           Foi então que Chris declarou com forte voz masculina:

           — Você não tocará numa só mecha dos cabelos de Cathy, avó! Se avançar mais um passo na direção dela, quebro-lhe a cabeça com esta cadeira!

           Chris empunhava uma das cadeiras que usávamos para comer, pronto para cumprir a ameaça. Seus olhos azuis cuspiam fogo, como os olhos cinzentos da avó faiscavam de ódio.

           Ela o encarou com uma expressão devastadora, como se a ameaça de Chris fosse inócua e sua força desprezível jamais pudesse sobrepujar a montanha de aço que ela representava.

           — Muito bem Como prefiram. Ofereço-lhe uma escolha, menina: a perda dos cabelos ou uma semana sem leite e comida.

           — Os gêmeos nada fizeram de errado — implorei. — Chris nada fez de errado. Ele não sabia que eu estava despida quando desceu do sótão. Tudo foi por minha culpa. Posso passar uma semana sem comida ou leite. Não morrerei de fome e, além disso, mamãe não permitirá que faça isso comigo. Elas nos trará comida.

           Todavia, não declarei aquilo com inteira confiança. Mamãe estava sumida há muito tempo. Suas visitas eram raras; eu ia sentir muita fome.

           — Seu cabelo, ou ficarão sem comida uma semana inteira — repetiu ela, empedernida e inflexível.

            — Está agindo errado, velha — disse Chris, aproximando-se com a cadeira erguida. — Peguei Cathy de surpresa. Nada fizemos de pecaminoso. Nunca! Não nos julgue a partir de indícios circunstanciais.

           — Seu cabelo, ou nenhum de vocês receberá comida por uma semana — disse-me ela, ignorando Chris, como sempre. — E caso se tranque no banheiro ou se esconda no sótão, nenhum de vocês comerá durante duas semanas! Ou só quando você aparecer com a cabeça raspada!

           Em seguida, pregou em Chris os olhos frios e calculistas, encarando-o por um momento prolongado e cruciante.

           — Creio que será você quem cortará os cabelos compridos e tão bem cuidados de sua irmã — disse com uma sombra de sorriso, pousando a tesoura em cima da cômoda. — Quando eu voltar e encontrar sua irmã sem cabelo, vocês quatro voltarão a comer.

           Saiu, trancou a porta por fora, deixando-nos num dilema; Chris olhava para mim e eu para ele.

           Sorriu.

           — Ora, Cathy, não passa de um blefe! Mamãe chegará a qualquer hora. Contaremos a ela... não haverá problema. Eu jamais cortarei seu cabelo!

           Aproximou-se, passando o braço pelos meus ombros, e acrescentou:

           — Não foi sorte termos escondido no sótão aquele pacote de bolachas e meio quilo de queijo? E ainda temos a comida de hoje. A velha bruxa não se lembrou do detalhe.

           Raramente comíamos muito. Naquele dia, comemos ainda menos, para o caso de mamãe não aparecer. Economizamos metade do leite e as laranjas. O dia terminou sem a visita de mamãe. Passei a noite inteira rolando e me mexendo na cama, dormindo e acordando com freqüência. Quando adormecia, tinha pesadelos terríveis. Sonhei que Chris e eu estávamos numa densa floresta escura. perdidos, procurando Carrie e Cory. Chamávamos seus nomes na voz silenciosa dos sonhos. Os gêmeos não respondiam. Em pânico, corremos para a mais profunda escuridão.

           Então, de repente, surgiu do escuro uma casa feita com bolo de gengibre! Também tinha queijo e o telhado era de doces; uma alameda de glacê levava à porta de chocolate. A cerca era feita com pirulitos de menta, os arbustos de sorvete com sete sabores diferentes. Comuniquei-me mentalmente com Chris: Não! É um truque! Não devemos entrar!

           Ele respondeu: Precisamos entrar! Temos que salvar os gêmeos!

            Entramos sorrateiramente e vimos as almofadas de pão-de-ló, pingando manteiga derretida, e o sofá era de pão fresco, também com manteiga.

           Na cozinha, estava a bruxa para acabar com todas as bruxas! Nariz adunco, queixo proeminente, boca murcha e desdentada; sua cabeça parecia um pano de chão feito com trapos cinzentos eriçados em todas as direções.

           Segurava nossos gêmeos pelos longos cabelos dourados. Estavam prestes a serem colocados num forno quente! Já tinham sido cobertos com glacê cor-de-rosa e azul; sua carne, mesmo sem ir ao forno, já se transformava em bolo de gengibre e os olhos azuis em passas escuras!

           Gritei! Comecei e não parei mais de gritar!

           A bruxa se voltou bruscamente para me encarar com os maldosos olhos cinzentos e sua boca murcha, fina como um talho de faca, escancarou-se para rir! Histericamente, gargalhou sem parar, enquanto Chris e eu nos encolhíamos de pavor. Ela jogou a cabeça para trás e a, boca escancarada expôs amígdalas semelhantes a caninos e, de forma espantosa, aterradora, começou a deixar de ser a avó. Metamorfoseou-se de lagarta em borboleta, enquanto nós, petrificados, só conseguíamos observar... e daquele horror emergiu nossa mãe!

            Mamãe! Seus cabelos louros caíam como longas fitas, avançando rastejantes pelo chão como serpentes para picar-nos! Anéis escorregadios de seus cabelos subiam-nos pelas pernas, enlaçando-nos, avançando para nossas gargantas... tentando estrangular-nos e silenciar-nos... para que não fôssemos uma ameaça contra sua herança!

           Eu os amo, eu os amo, eu os amo, repetia ela silenciosamente.

            Acordei. Chris continuava a dormir, como os gêmeos.

           Comecei a ficar desesperada à medida que o sono aumentava, querendo envolver-me outra vez. Tentei resistir à terrível sonolência, ao torpor de afogamento, até que tornei a mergulhar profundamente em sonhos, em horríveis pesadelos. Corri loucamente na escuridão e caí numa poça de sangue. Sangue pegajoso como piche, com cheiro de piche. Peixes incrustados de brilhantes, com cabeças de cisne e olhos vermelhos mordiscavam-me os braços e pernas até ficarem dormentes e insensíveis. E os peixes com cabeças de cisne gargalhavam, alegres por me verem combalida e toda ensangüentada. Vejam! Vejam! Gritavam com vozes fanhosas que ecoavam prolongadamente: Você não pode escapar!

           A manhã surgiu, pálida, no outro lado das pesadas cortinas que impediam a entrada da luz amarela da esperança.

           Carrie virou-se dormindo, aconchegando-se a mim.

           — Mamãe — murmurou. — Não gosto dessa casa.

            Seus cabelos sedosos roçando em meu braço davam a impressão de penugem de gansos à medida em que minhas mãos e braços, pés e pernas retornavam à sensação normal.

           Fiquei imóvel na cama enquanto Carrie se mexia, inquieta, querendo que eu a abraçasse; sentia-me tão dopada que não podia mover os braços. O que havia de errado comigo? Tinha a cabeça pesada, como se estivesse cheia de pedras que pressionavam meu cérebro por dentro; a dor era tão grande que meu crânio parecia prestes a estourar! Os dedos das mãos e dos pés ainda formigavam O corpo parecia de chumbo. As paredes avançavam e tornavam a recuar. Não existiam linhas retas verticais.

           Tentei ver minha imagem no armário com espelho, mas quando experimentei virar a cabeça esta não obedeceu. Como sempre fazia antes de dormir, eu espalhava meus cabelos sobre o travesseiro, a fim de poder virar a cabeça e descansar o rosto na perfumada e sedosa maciez de cabelos fortes, saudáveis e bem cuidados. Era uma das coisas sensuais que me causava prazer: a sensação dos cabelos em meu rosto, transportando-me para doces sonhos de amor.

           Todavia, naquela manhã não havia cabelos em meu travesseiro. Onde estava meu cabelo?

           A tesoura continuava em cima da cômoda; eu podia vê-la vagamente. Engolindo repetidamente para abrir caminho na garganta, soltei um grito forçado, chamando por Chris; e não por mamãe. Rezei a Deus que deixasse meu irmão escutar.

           — Chris — consegui sussurrar, afinal, numa voz muito esquisita e áspera. — Estou passando mal.

           Minhas palavras fracas e sussurradas despertaram Chris, embora eu não entenda como ele as escutou. Sentou-se na cama e esfregou os olhos, sonolento.

           — O que deseja, Cathy? — indagou.

           Balbuciei algo que o fez saltar da cama e, no seu pijama azul amarrotado, os cabelos dourados em desalinho, aproximar-se de mim. Estacou bruscamente. Prendeu a respiração, produzindo engasgados sons de choque e horror.

           — Cathy... oh, meu Deus!

           Seu grito me provocou arrepios de medo na espinha.

           — Cathy... oh, Cathy... — gemeu ele.

           Enquanto ele me fitava com olhos esbugalhados e eu tentava imaginar o que lhe provocara tal reação, procurei levantar os braços pesados como chumbo e apalpar a cabeça inchada. De algum modo, consegui levar as mãos à cabeça e então encontrei uma voz alta para gritar! Gritar de verdade! Urrei sem cessar como uma demente, até que Chris correu para tomar-me nos braços.

           — Pare, por favor, pare! — soluçou ele. — Lembre-se dos gêmeos... não os assuste ainda mais... por favor, Cathy, não tome a gritar. Eles já passaram por muita coisa e sei que você não deseja marcá-los permanentemente. É o que acontecerá se você não se acalmar. Tudo bem. Eu a livrarei disso. Prometo-lhe por minha vida que, ainda hoje, darei um jeito de tirar o piche de seus cabelos.

           Chris encontrou no meu braço uma pequena marca vermelha onde a avó aplicara a injeção para manter-me adormecida por meio de alguma droga. E, enquanto eu dormia, ela despejara piche quente nos meus cabelos. Deve tê-los juntado antes de passar o piche, pois nem uma só mecha escapara da maçaroca.

           Chris procurou evitar que eu me olhasse no espelho, mas empurrei-o para um lado e, boquiaberta, com os olhos arregalados, fitei a horrenda bola preta que era a minha cabeça. Como uma grande massa de chicles de bola negro mastigado e cuspido, o piche escorria-me até mesmo pelo rosto, pintando-me as bochechas com lágrimas pretas!

         Ao ver aquilo, compreendi que jamais conseguiria livrar-me do piche. Nunca!

           Cory acordou primeiro, pronto para correr à janela e afastar as cortinas a fim de espiar o sol que se escondia dele. Pulou da cama e ia começar a correr quando me avistou.

           Seus olhos se abriram desmesuradamente. Seus lábios tremeram. Suas pequenas mãos se cerraram em punhos para esfregar os olhos. Depois, tornou a olhar para mim com a mesma expressão de incredulidade.

           — Cathy? — conseguiu dizer. — É você?

           — Acho que sim.

           — Por que seu cabelo está preto?

           Antes que eu pudesse responder, Carrie acordou.

           — Ooooooh! — berrou ela. — Cathy... sua cabeça parece engraçada!

           Grandes lágrimas lhe brilharam nos olhos e escorreram pelo rosto.

           — Não gosto de sua cabeça assim! — gritou, soluçando como se o piche estivesse no seu cabelo.

           — Acalme-se, Carrie — disse Chris no mais natural e corriqueiro tom de voz. — É apenas piche no cabelo de Cathy, e quando ela tomar um banho e lavar a cabeça, ele voltará a ser como ontem. Enquanto ela faz isso, quero que vocês dois comam laranjas como refeição da manhã e assistam à televisão. Mais tarde, faremos todos uma boa refeição, depois que Cathy lavar a cabeça.

            Não mencionou a avó, temendo incutir neles um terror ainda maior que a nossa situação. Assim, os gêmeos sentaram-se no chão como dois aparadores de livros que se escorassem mutuamente, descansando e comendo laranjas, distraindo-se com os desenhos animados, violências e outras tolices da programação matinal de sábado.

           Chris mandou-me entrar na banheira cheia de água quente. Mergulhei repetidamente a cabeça na água quase escaldante, enquanto Chris procurava amolecer o piche com xampu. O piche amoleceu, mas não se soltou para deixar-me os cabelos limpos. Os dedos de Chris se afundavam numa massa úmida de gosma. Ouvi-me choramingar. Chris tentou - oh, como tentou! - retirar o piche sem me arrancar o cabelo todo. E eu só conseguia pensar na tesoura, a brilhante tesoura que a avó deixara em cima da cômoda.

           Ajoelhado junto à banheira, Chris finalmente conseguiu atravessar com os dedos a maçaroca em minha cabeça, mas quando retirou as mãos, os dedos vieram cheios de cabelos negros e pegajosos teimosamente grudados.

           — Terá que usar a tesoura! — gritei, cansada de tudo aquilo depois de duas horas.

           Não, a tesoura era o último recurso. Chris argumentou que devia existir alguma solução química capaz de dissolver o piche sem me estragar o cabelo. Ele possuía um mini-laboratório de química bastante completo, que mamãe lhe dera de presente. Na caixa havia uma severa advertência: “Isto não é um brinquedo. Esta caixa contém substâncias químicas perigosas e só deve ser utilizada por profissionais.”

           — Cathy — disse ele, sentando-se nos calcanhares descalços. — Vou à sala de aulas do sótão, a fim de preparar uma mistura capaz de retirar o piche.

           Sorriu timidamente para mim. A luz do teto incidia sobre o buço que lhe cobria o lábio superior e eu sabia que, mais abaixo no corpo, ele tinha cabelos mais escuros, como eu também.

           — Preciso usar a privada, Cathy. Nunca fiz isso diante de você e estou meio encabulado. Você pode virar as costas e tapar os ouvidos com os dedos. E se você urinar na água, talvez a amônia ajude a dissolver o piche.

           Encarei-o, espantada. O dia assumia proporções de pesadelo. Sentar-me em água quente e usá-la como vaso sanitário para depois lavar o cabelo com aquilo?

            Seria verdade que eu procederia dessa forma enquanto Chris aliviava a bexiga no vaso às minhas costas? Disse comigo mesma que não, era um sonho e não a realidade.

            Carrie e Cory também não usariam o banheiro enquanto eu ali estivesse mergulhando a cabeça em água suja.

         Mas era bastante real. De mãos dadas, Carrie e Cory vieram até a banheira e olharam espantados para mim, desejando saber por que motivo eu me demorava tanto.

           — Cathy, o que é isso na sua cabeça?

           — Piche.

            — Por que passou piche na cabeça?

           — Acho que fiz isso dormindo.

           — Onde encontrou piche?

           — No sótão.

           — Por que quis passar piche no cabelo?

           Eu detestava mentir! Queria dizer a Carrie quem me colocara piche na cabeça, mas não devia revelar às crianças. Ela e Cory já tinham medo suficiente da velha.

           — Volte ao quarto para assistir à televisão, Carrie — repliquei, irritada com tantas perguntas e detestando ver-lhe o rosto magro e encovado e os olhos fundos.

           — Cathy, você não gosta mais de mim?

            — Bem...

           — Gosta?

           — Claro que gosto de você, Cory. Gosto de vocês dois, mas derramei piche no cabelo por engano e agora estou com raiva de mim mesma.

           Carrie afastou-se para ficar sentada perto de Cory. Sussurravam entre si naquela estranha linguagem que só os dois conseguiam entender. Às vezes, penso que eram muito mais sabidos do que eu e Chris suspeitávamos.

           Passei horas na banheira, enquanto Chris preparava uma dúzia de diferentes misturas, experimentando um pouco de cada em meu cabelo. Tentou tudo, fazendo-me trocar a água várias vezes, tornando-a sempre mais quente. Murchei como uma ameixa seca à medida que ele removia, pouco a pouco, a massa gosmenta de minha cabeça.

            Eventualmente, o piche saiu junto com uma enorme porção do cabelo. Todavia, eu tinha muito cabelo e podia perder boa parte dele sem que a diferença fosse notável.

            Quando terminamos, o dia se acabara e nem Chris nem eu tínhamos ingerido uma migalha de comida. Chris dera aos gêmeos queijo e bolachas, mas não tivera tempo para comer.

            Embrulhada numa toalha, sentei-me na cama e sequei os cabelos ralos. O que restava deles era frágil e quebradiço, desbotado até ficar quase cor de platina.

            — Você bem poderia ter economizado tanto esforço — disse eu a Chris, que devorava avidamente duas bolachas com queijo. — Ela não trouxe comida e não trará até que corte o cabelo todo.

           Ele me trouxe um prato com queijo e bolachas, segurando também um copo de água.

           — Coma e beba. Seremos mais espertos que ela. Se ela não trouxer comida amanhã, ou se mamãe não vier, cortarei apenas seu cabelo da frente, logo acima da testa. Então, você poderá envolver a cabeça numa toalha, ou lenço, como se tivesse vergonha de aparecer careca diante dos outros. O cabelo logo voltará a crescer.

           Comi um pouco de queijo com bolachas, sem responder. Tomei um copo de água da torneira do banheiro para completar minha única refeição do dia. Então, Chris escovou os cabelos fracos e descorados que tanto haviam suportado. É engraçado como o destino ajeita as coisas: meu cabelo nunca brilhara tanto, nem fora tão sedoso e senti-me grata por ainda me restar um pouco dele. Deitei-me de costas na cama, exausta, enervada pelas emoções dilacerantes, e observei Chris que, sentado na cama, olhava para mim. Quando adormeci, ele ainda estava ali, fitando-me, segurando uma mecha de meus cabelos sedosos e finos como teia de aranha.

           Naquela noite, acordei e tornei a dormir repetidas vezes, inquieta, atormentada. Sentia-me impotente, furiosa, frustrada.

           Então avistei Chris.

           Continuava com as roupas que usara durante o dia inteiro. Puxara a poltrona mais pesada do quarto, colocando-a de encontro à porta, e cochilava sentado nela, segurando a tesoura comprida e afiada. Barrava o caminho, de modo que a avó não poderia esgueirar-se para dentro do quarto e fazer uso da tesoura. Mesmo dormindo, protegia-me contra ela.

           Enquanto eu o observava, abriu os olhos, sobressaltado, como se não pretendesse dormir e deixar-me desprotegida. Na obscuridade daquele quarto trancado nossos olhos se encontrara e fixaram. Chris sorriu muito vagarosamente.

            — Olá.

           — Volte para a cama, Chris — solucei. — Não pode ficar vigiando para sempre.

           — Posso vigiar enquanto você dorme.

           — Então, deixe-me ficar de sentinela. Faremos um revezamento.

           — Quem é o homem aqui, eu ou você? Além disso, eu como mais que você.

           — Que tem isso a ver com o caso?

           — Você está muito magra atualmente, e passar a noite inteira em claro a emagrecerá ainda mais, enquanto eu posso perder alguns quilos sem que faça diferença.

           Ele também estava muito magro e seu peso diminuto não impediria que a avó forçasse a porta se quisesse realmente entrar no quarto. Levantei-me e fui acomodar-me ao lado dele, embora ele protestasse de forma galante.

           — Shhhh! — sussurrei. — Nós dois poderemos afastá-la melhor e, também, dormir.

           Abraçados, mergulhamos no sono.

           E o dia raiou... sem a presença da avó... sem comida.

           Os dias de fome se arrastaram, intermináveis, cheios de sofrimento e desolação.

           O queijo e as bolachas logo acabaram, embora comêssemos com a maior parcimônia possível. Foi então que começamos realmente a sofrer. Chris e eu tomávamos apenas água, guardando o pouco de leite que restava para os gêmeos.

           Chris se aproximou de mim com a tesoura e, relutante, com lágrimas: nos olhos, cortou-me os cabelos da testa rente ao couro cabeludo. Recusei-me a olhar um espelho depois disso. A parte que continuou comprida eu enrolei na cabeça e, por cima de tudo, coloquei um lenço formando um turbante.

           Então, ocorreu a ironia, a amarga ironia, de constatarmos que a avó não vinha verificar!

           Não nos trouxe comida, nem leite, nem roupas de cama limpas, nem toalhas, nem mesmo sabonetes e pasta de dentes, que acabaram. Até o papel higiênico também terminou. Agora, eu me arrependia e ter jogado fora todos os papéis finos em que nossas roupas novas e caras vinham embrulhadas. Nada nos restava fazer senão arrancar páginas dos livros mais velhos existentes no sótão e utilizá-las no banheiro.

           Então, o vaso sanitário entupiu, transbordou e Cory começou a gritar quando a sujeira extravasou e se espalhou pelo banheiro. Não tínhamos desentupidor.

            Frenéticos, Chris e eu tentamos imaginar uma solução. Enquanto ele corria para apanhar um cabide de arame e esticá-lo, a fim de empurrar pelo cano o que entupira o vaso, subi depressa ao sótão para pegar roupas velhas e limpar a inundação de sujeira.

           Não sei como Chris conseguiu utilizar o arame, mas o vaso voltou a funcionar normalmente. Então, sem dizer uma palavra, Chris se ajoelhou a meu lado e, juntos, passamos a limpar e enxugar o chão com roupas velhas que eu pegara nos baús do sótão.

           Agora, tínhamos uma porção de trapos sujos e fedorentos para encher um baú e acrescentar mais um segredo aos já existentes no sótão.

            Fugimos ao horror de nossa situação evitando mencioná-la. Limitávamo-nos a sair da cama de manhã, lavar o rosto, escovar os dentes com água, beber um pouco de água, andar um pouco pelo quarto e depois deitar para assistir à televisão ou ler; e enfrentar uma encrenca dos diabos se a velha nos pegasse amarrotando as camas durante o dia. Que nos importava, agora?

           Ouvir os gêmeos chorando de fome deixou-me no coração cicatrizes que trago até hoje e carregarei pelo resto da vida. E eu odiava - oh, como eu odiava! - aquela velha, e mamãe também, por submeter-nos àquilo!

           Enquanto as horas das refeições se passavam sem termos comida, nós dormíamos. Dormíamos horas a fio. Adormecidos, não sentíamos dor ou fome, solidão ou amargura. Dormindo, podíamos mergulhar em falsa euforia e, ao acordarmos, não ligávamos para coisa alguma.

           Houve um dia nebuloso e irreal em que estávamos deitados, os quatro, indiferentes a tudo; a única vida que persistia estava confinada no pequeno aparelho de televisão colocado num canto do quarto. Aturdida e fatigada, virei a cabeça sem motivo algum, apenas para fitar Chris e Cory. Continuei deitada e indiferente ao observar Chris pegar seu canivete e cortar o próprio pulso; em seguida, levou o pulso à boca de Cory, obrigando-o a beber o sangue, embora o menino protestasse.

            Depois, foi a vez de Carrie. Os dois gêmeos, que se recusavam terminantemente a comer qualquer coisa encaroçada, granulosa, muito dura ou muito mole, ou simplesmente “esquisita”, beberam o sangue do irmão mais velho e o olharam sem compreender, mas aceitando suas instruções com olhos muito arregalados.

           Virei a cabeça para o outro lado, enjoada ante o que ele tinha de fazer e cheia de admiração por ele ser capaz de fazê-lo. Chris sempre era capaz de solucionar um problema.

           Chris veio até perto de mim, sentou-se na beira da cama e me encarou prolongadamente; então, baixou os olhos para o corte no pulso, que já não sangrava com tanta abundância. Pegou o canivete e preparou-se para fazer outro corte a fim de que eu também pudesse nutrir-me com seu sangue. Detive-o, pegando o canivete e jogando-o para longe. Chris correu para apanhá-lo e desinfetá-lo com álcool, a despeito de meu juramento de que jamais provaria seu sangue e o privaria de forças tão necessárias a nos todos.

           — O que faremos se ela nunca mais voltar, Chris? — indaguei, aturdida. — Ela nos deixará morrer de fome.

            Referia-me à avó, é claro. Havia duas semanas que não a víamos. E Chris exagerara ao dizer que tínhamos meio quilo de queijo escondido. Usávamos o queijo como isca para nossas ratoeiras e fôramos obrigados a pegar as iscas de volta quando tudo o mais acabou. Agora, fazia três dias que não tínhamos no estômago uma migalha de comida e passáramos quatro dias, antes disso, alimentando-nos apenas com um pouco de queijo e bolachas. E o leite que economizáramos para os gêmeos acabara há dez dias.

            — Ela não nos deixará morrer de fome — declarou Chris, deitando-se a meu lado e tomando-me em seus braços enfraquecidos. — Seríamos idiotas e covardes se permitíssemos que ela nos fizesse tal coisa. Amanhã, se ela não trouxer comida e nossa mãe não aparecer, usaremos nossa escada de lençóis de chegar ao solo.

            Com a cabeça apoiada em seu peito, eu podia ouvir-lhe as batidas do coração.

            — Como pode saber o que ela vai fazer? Ela nos detesta. Quer ver-nos mortos. Não diz sempre que jamais deveríamos ter nascido?

            — Cathy, a velha bruxa não é tola. Logo trará comida para nós, antes que mamãe regresse do lugar aonde foi.

            Levantei-me para fazer um curativo em seu pulso cortado. Chris e eu devíamos ter tentado a fuga duas semanas antes, quando ambos ainda tínhamos forças suficientes para fazer a arriscada descida. Se tentássemos agora, certamente cairíamos para a morte, ainda mais com os gêmeos amarrados às nossas costas, para aumentar as dificuldades.

            Todavia, quando o dia seguinte amanheceu e ninguém trouxe comida para nós, Chris obrigou-nos a subir para o sótão. Ele e eu carregamos os gêmeos, que estavam fracos demais para andarem sozinhos. Lá em cima, o ambiente era tórrido. Sonolentos, os gêmeos se deixaram cair no canto da sala de aulas onde os deixamos. Chris começou a improvisar alças com as quais podíamos amarrá-los seguramente às nossas costas. Não mencionamos a possibilidade de estarmos cometendo suicídio, e homicídio também, se caíssemos.

           — Vamos fazer de outra maneira — disse Chris, reconsiderando. — Descerei na frente. Quando eu chegar ao chão, você colocará Cory numa destas armações, amarrando-o bem para que não consiga soltar-se, e o baixará até lá. Em seguida, fará o mesmo com Carrie. E descerá por último. Pelo amor de Deus, faça o maior esforço possível! Peça a Deus que lhe dê forças, não fique apática! Sinta raiva, ira, pense em vingança. Ouvi dizer que uma grande raiva nos dá uma força sobre-humana em caso de emergência!

            — Deixe-me descer primeiro — repliquei debilmente. — Você é mais forte.

           — Não! Quero estar lá, a fim de aparar caso alguém desça depressa demais. Seus braços não têm a força dos meus. Passarei a corda por uma chaminé, de modo que você não precise agüentar o peso todo. Cathy, isto é realmente uma emergência!

           Meu Deus! Eu não podia acreditar no que ele esperava que eu fizesse a seguir!

           Horrorizada, fitei os quatro camundongos mortos em nossas ratoeiras.

           — Precisamos comer esses camundongos para armazenarmos forças — declarou Chris com ar severo. — E se precisamos fazer alguma coisa, podemos fazê-la!

           Carne crua? Ratos crus?

           — Não... — murmurei, repugnada pela visão dos pequenos animais mortos e rígidos.

           Chris tornou-se autoritário, raivoso, declarando que eu podia fazer qualquer coisa que fosse necessária à preservação da vida dos gêmeos e da minha também.

          — Ouça Cathy: comerei os meus primeiro, depois de ir ao quarto buscar sal e pimenta E também preciso apanhar aquele cabide de arame para apertar bem os nós. Alavanca, como você sabe. Minhas mãos não estão funcionando muito bem no momento.

           Claro que não estavam. Achávamo-nos todos em tal estado de fraqueza que mal conseguíamos mover-nos.

           Chris lançou-me um rápido olhar de avaliação.

           — No duro, acho que os camundongos poderiam ficar saborosos com sal e pimenta.

           Saborosos...

           Ele decapitou os ratos e, depois, retirou-lhes a pele e as entranhas. Observei-o abrir as pequenas barrigas e puxar compridos intestinos pegajosos, minúsculos corações e outras “entranhas” em miniatura.

           Eu teria vomitado se tivesse algo no estômago.

           E Chris não correu para buscar sal e pimenta, ou o cabide de arame. Limitou-se a andar devagar, enquanto me confessava que não se sentia ansioso por comer os camundongos.

           Enquanto ele esteve ausente, meus olhos permaneceram pregados nos camundongos pelados que constituiriam nossa próxima refeição. Fechei os olhos e fiz um esforço de vontade para tirar a primeira dentada. Estava faminta, mas não o suficiente para gostar da perspectiva.

           Então pensei nos gêmeos que jaziam no canto com os olhos fechados, abraçados, as testas unidas; refleti que assim deveriam ter ficado no útero da mãe enquanto esperavam a hora de nascer para serem trancafiados num quarto e abandonados para morrerem de fome. Nossos pobres e doces irmãos gêmeos, que outrora tinham pais que os amavam tanto.

           Ainda assim, restava a esperança de que os camundongos dessem a Chris e a mim forças suficientes para levar os gêmeos em segurança até o solo. E de que algum vizinho caridoso que estivesse em casa lhes desse comida; comida para todos nós, se conseguíssemos sobreviver à próxima hora.

           Escutei os passos lentos de Chris, que retornava. Hesitou junto à porta, com um meio sorriso, os olhos azuis encontrando os meus... e brilhando. Com ambas as mãos, carregava a grande cesta de piquenique que tão bem conhecíamos. Estava tão abarrotada de comida que as tampas de madeira nem se fechavam.

           Chris retirou da cesta nossas duas garrafas térmicas: uma com sopa de legumes e outra com leite frio. Senti-me tão aturdida, confusa, esperançosa. Será que mamãe chegara e nos mandara aquilo tudo? Então, por que não nos chamara ao quarto? Ou por que não viera procurar-nos?

           Tive ímpetos de forçar a comida pela garganta de Cory abaixo, a fim de poder logo encher meu estômago faminto. Ele comia tão devagar! Mil e uma indagações me atravessavam o cérebro: Por que hoje? Por que trazer a comida hoje e não ontem, ou anteontem? Como raciocinava a velha?

            Quando, finalmente, consegui comer, estava por demais apática para regozijar-me e desconfiada para sentir-me aliviada.

           Após comer meio sanduíche e tomar um pouco de sopa, Chris abriu um embrulho de papel aluminizado, deixando à mostra quatro roscas cobertas com açúcar. Nós, que jamais ganhávamos doces, recebíamos, pela primeira vez, uma sobremesa da avó. Seria o modo de pedir-nos desculpas? Qualquer que fosse sua intenção, encaramos o fato sob esse aspecto.

            Durante nossa semana de quase inanição, algo peculiar ocorrera entre Chris e eu. Talvez tenha sido naquele dia que passei sentada na banheira de água quente enquanto ele batalhava tão arduamente para remover o piche dos meus cabelos. Antes daquele dia horrível, éramos apenas irmão e irmã, representando o papel de pais para os gêmeos. Agora, nosso relacionamento mudara. Já não representávamos um papel; éramos os verdadeiros pais de Carrie e Cory. Os gêmeos eram nossa obrigação, nossa responsabilidade, e nos dedicamos a eles de corpo e alma. E um ao outro, também.

           Tudo se delineara nitidamente: nossa mãe já não se importava com o que nos acontecesse.

           Chris não precisou dizer como se sentia ao reconhecer tal indiferença por parte dela. Seu olhar desolado revelava o suficiente. Seus movimentos desanimados, ainda mais. Antes conservava a fotografia de mamãe perto da cama; agora a guardara em algum lugar. Sempre acreditara nela mais que eu; portanto, era natural que sofresse mais. E se sofria mais que eu, devia estar passando por uma terrível agonia.

           Pegou-me a mão com ternura, indicando que já podíamos voltar ao quarto. Descemos a escada como fantasmas pálidos e sonolentos, em estado de choque, todos nos sentindo mal, debilitados, especialmente os gêmeos. Eu duvidava que cada um deles pesasse mais que quinze quilos. Podia ver a aparência deles e de Chris, mas não a minha. Olhei para o espelho alto e largo acima a cômoda, esperando ver a imagem e algum fenômeno e circo, com cabelos aparados na testa e compridos nas costas, longos cabelos escorridos e desbotados. Oh... quando olhei para o espelho, ele não estava no lugar!

           Corri ao banheiro e encontrei o espelho do armário quebrado! Voltei correndo ao quarto para erguer o tampo da penteadeira que Chris usava como escrivaninha... e o espelho que havia ali também fora estilhaçado!

           Podíamos olhar para os cacos de espelho e ver nossas imagens distorcidas. Sim, podíamos ver nossos rostos em facetas separadas, como uma mosca os veria, com um lado do nariz mais alto que o outro. Não era uma visão agradável. Dando as costas à cômoda, coloquei a cesta de piquenique no chão, onde estava mais fresco, e fui deitar-me. Não tinha dúvidas quanto ao motivo dos espelhos quebrados e do que fora removido; eu sabia por que ela fizera aquilo. Vaidade era pecado. E, aos olhos dela, Chris e eu éramos pecadores da pior espécie. A fim de castigar-nos, os gêmeos também sofreriam. Contudo, eu não atinava com a razão pela qual ela tornara a nos trazer comida.

            As manhãs se sucederam, sempre com cestas de comida trazidas a nosso quarto. A avó se recusava a olhar para nós. Mantinha os olhos desviados de nós; entrava e saía depressa. Eu usava na cabeça um turbante improvisado com uma toalha cor-de-rosa, que revelava o cabelo cortado acima da testa. Se ela notou, não fez comentários.

            Observávamos seus movimentos, sem indagarmos onde estava mamãe ou quando voltaria. Os que são castigados com facilidade logo aprendem a lição e não falam sem que alguém lhes dirija antes a palavra. Tanto Chris como eu a fitávamos abertamente, com os olhos cheios de raiva e ódio, esperando que ela se voltasse para perceber o que sentíamos. Contudo, os olhos dela não encontravam os nossos. Então, eu chorava para fazê-la ver, para chamar-lhe a atenção sobre os gêmeos, a fim de que visse como estavam magros e as profundas olheiras que traziam em torno dos olhos. Mas ela recusava-se a ver.

           Deitada na cama ao lado de Carrie, examinei-me interiormente e constatei que tornava as coisas piores do que deviam ser. Chris, antes o eterno otimista, agora se transformava aos poucos numa sombria imitação de mim. Eu o desejava de volta ao que fora antes: sorridente e animado, fazendo o pior parecer melhor.

           Estava sentado à penteadeira, com o tampo baixado para formar uma mesa, tendo à sua frente livros de medicina. Mantinha os ombros caídos. Não lia ou fazia anotações; estava apenas sentado ali.

           — Chris — chamei, sentando-me na cama para escovar os cabelos. — Na sua opinião, qual o percentual de adolescentes femininas no mundo inteiro que foram deitar-se com os cabelos limpos e brilhantes, e acordaram transformadas em bonecas de piche?

           Girando no banquinho, ele me olhou, muito surpreso por eu ter mencionado aquele dia terrível.

           — Bem — replicou devagar — na minha opinião, desconfio de que você bem poderia ser a única... um caso ímpar.

           — Ora, não tenho certeza. Lembra-se de quando asfaltaram a nossa rua? Mary Lou Baker e eu entornamos um balde daquele material e fizemos pequenas bonecas de piche, assim como caminhas e casas pretas. Então o encarregado das obras nos expulsou de lá aos gritos.

           — Sim — disse ele. — Lembro-me de você chegar em casa imunda, mastigando um bocado de piche para tornar os dentes mais brancos. Tudo o que conseguiu foi arrancar uma obturação, Cathy.

           — Uma boa coisa a respeito deste quarto é não sermos obrigados a ir ao dentista duas vezes por ano.

           Chris me lançou um olhar esquisito, mas prossegui:

           — E outra coisa boa é dispormos de tanto tempo livre! Completaremos nosso campeonato de Monopólio. O perdedor será obrigado a lavar na banheira todas as nossas roupas de baixo.

           Ele topou de imediato. Detestava debruçar-se sobre a banheira, ajoelhado nos ladrilhos do chão, para lavar as suas roupas e as de Cory também.

           Armamos o jogo, contamos o dinheiro e procuramos pelos gêmeos. Tinham sumido! Aonde poderiam ter ido, senão ao sótão? Jamais iriam lá sem nós e o banheiro estava vazio. Então, ouvimos leves ruídos atrás do aparelho de TV.

           Lá estavam eles, agachados no canto atrás do aparelho, aguardando que as minúsculas pessoas que apareciam na pequena tela saíssem pelos fundos.

           — Pensamos que mamãe estava lá dentro — explicou Carrie.

           — Acho que vou dançar no sótão — declarei, dirigindo-me ao armário embutido.

            — Cathy! E o nosso jogo do campeonato de Monopólio?

           Parei, olhando para ele.

           — Ora, você ganharia. Esqueça o campeonato.

           — Covarde! — provocou ele, como antigamente. — Venha. Vamos jogar.

            Olhou prolongada e severamente para os gêmeos, que sempre eram os nossos banqueiros no jogo.

           — E nada de roubos, desta vez — advertiu, muito sério. — Se eu pegar um de vocês passando dinheiro para Cathy quando pensarem que não estou vendo... comerei sozinho aquelas quatro rosquinhas!

           Só passando por cima do meu cadáver! As rosquinhas eram a melhor parte de nossas refeições e ficavam reservadas para a sobremesa do jantar. Joguei-me no chão, cruzei as pernas e ocupei-me em imaginar meios de poder comprar primeiro os melhores imóveis, ferrovias e serviços públicos; compraria primeiro as casas vermelhas e depois os hotéis. Mostraria a Chris quem era capaz de fazer alguma coisa melhor que ele.

           Jogamos durante horas seguidas, parando apenas para comer ou ir ao banheiro. Quando os gêmeos se cansaram de atuar como banqueiros, nós mesmos contávamos e distribuíamos o dinheiro, observando-nos mutuamente com grande atenção, a fim de verificar se havia alguma trapaça. E Chris ia sempre parar na cadeia, sendo obrigado a perder a vez e pagar multa, tinha que recolher doações à Caixa Comunitária e pagar imposto sobre heranças... mas ainda ganhou!

           No final de agosto, Chris aproximou-se de mim certa noite e segredou-me ao ouvido:

           — Os gêmeos estão dormindo e está muito quente aqui dentro. Não seria formidável se pudéssemos nadar um pouco?

           — Vá embora... deixe-me em paz... Sabe que não podemos ir nadar.

           Naturalmente, eu ainda estava emburrada por perder sempre no jogo de Monopólio.

           Nadar, que idéia idiota! Mesmo se pudéssemos, eu não queria fazer coisa alguma em que ele fosse perito, como natação.

           — Além disso, onde vamos nadar? Na banheira?

           — No lago de que mamãe nos falou. Não fica longe daqui — sussurrou ele. — De todo modo, devíamos treinar a descida pela corda que improvisamos, para a eventualidade de um incêndio. Agora, estamos mais fortes. Podemos chegar ao solo com facilidade e não nos demoraremos muito fora daqui.

           — Os gêmeos podem acordar e não nos encontrarão.

           — Deixaremos um bilhete no banheiro, avisando que estamos no sótão. Além disso, eles nunca acordam antes do amanhecer, nem mesmo para irem ao banheiro.

           Argumentou e suplicou até que me deixei convencer. Subimos ao sótão, saímos para o telhado e Chris amarrou seguramente a corda de lençóis em torno de uma chaminé; a que ficava mais próxima aos fundos da casa. Havia oito chaminés no telhado.

           Enquanto experimentava cada um dos nós, Chris deu-me instruções:

           — Utilize os nós como degraus de uma escada. Mantenha as mãos logo acima do nó superior. Desça devagar, sentindo com os pés o nó seguinte. E lembre-se de manter a corda torcida entre as pernas, a fim de não escorregar e cair.

           Sorrindo confiantemente, Chris segurou a corda e avançou cautelosamente até a beira do telhado. Pela primeira vez em mais de dois anos, íamos descer ao solo.

 

O sabor do paraíso

            Lenta, cautelosamente, mão a mão, pé a pé, Chris desceu para o solo enquanto eu, deitada de bruços, espiava pela beirada do telhado. A lua nascera e brilhava quando ele ergueu a mão e acenou: era o sinal para que eu iniciasse minha descida. Eu o observara com atenção, a fim de poder imitá-lo. Tentei convencer-me de que não era diferente de andar pendurada nas cordas que havíamos estendido nas vigas do sótão. Os nós eram grandes e fortes; judiciosamente, tínhamos procurado espaçá-los regularmente, a cerca de um metro e vinte de distância um do outro. Chris me recomendara não olhar para baixo após deixar o telhado e concentrar-me apenas em prender o pé no nó inferior antes de procurar o nó seguinte com o outro pé. Em menos de dez minutos eu estava no solo, de pé ao lado de Chris.

            — Puxa! — exclamou ele, abraçando-me. — Você desceu melhor que eu!

           Estávamos nos jardins situados nos fundos de Foxworth Hall, onde não havia luzes nos quartos, embora nos alojamentos dos criados, em cima da enorme garagem, todas as janelas estivessem brilhantemente iluminadas.

           — Vai na frente, McDuff, até o lago. Se conhece o caminho — disse-lhe em voz baixa.

           Claro que ele conhecia o caminho. Mamãe nos contara como ela e os irmãos fugiam sorrateiramente de casa para irem nadar no lago com os amigos.

           Chris pegou-me a mão e, nas pontas dos pés, afastamo-nos da imensa mansão. Era uma sensação muito estranha estarmos fora de casa, no solo, numa cálida noite de verão. Deixando nossos irmãozinhos a sós num quarto trancado. Depois de atravessarmos uma pinguela, soubemos que agora estávamos fora da propriedade dos Foxworth e nos sentimos alegres, quase livres. Não obstante, devíamos proceder com cautela e não permitir que alguém nos visse. Corremos para os bosques, na direção do lago de que mamãe nos falara.

           Eram dez horas quando saímos para o telhado; às dez e meia, encontramos o pequeno lago cercado de árvores. Temíamos que houvesse lá outras pessoas para estragar tudo e obrigar-nos a voltar frustrados, mas a superfície da água estava lisa, sem ser perturbada por vento, banhistas ou barcos.

            Ao luar, sob um céu claro e estrelado, olhei para o lago e refleti que nunca vira uma cena tão linda ou sentira no corpo uma noite ao ar livre que me causasse tanto encantamento.

           — Vamos nadar despidos? — perguntou Chris, olhando-me de modo estranho.

           — Não. Vamos nadar com as roupas de baixo.

           O problema era que eu não possuía um soutien. Agora, porém, que já estávamos ali, nenhum pudor tolo me impediria de aproveitar aquela água iluminada pelo luar.

           — Último lá é mulher do padre! — gritei.

           E parti, correndo, em direção a um pequeno cais. Chegando à extremidade, porém, pressenti que a água poderia estar gelada e parei. Cautelosa, quase como se tivesse medo, toquei a superfície do lago com a ponta do dedão do pé; a água estava fria como gelo! Olhei para trás e avistei Chris, que tirava o relógio do pulso e agora avançava velozmente para mim. Tão depressa que, antes mesmo que eu pudesse tomar coragem para mergulhar na água fria, ele me empurrou! Caí de uma só vez, não centímetro a centímetro, como desejava!

           Estremeci ao voltar à superfície e procurei por Chris. Avistei-o subindo numa pedra; por um instante, sua silhueta se projetou contra o fundo mais claro do céu. Ele abriu os braços e, graciosamente, deu um lindo mergulho, com os braços abertos no ar. Prendi a respiração! E se a água não tivesse profundidade suficiente? Se ele batesse no fundo, quebrando o pescoço ou a espinha?

            E então... e então... ele não emergiu! Oh, Deus... estava morto... afogado!

           — Chris! — gritei, soluçando.

           Comecei a nadar na direção do local onde ele desaparecera na água fria.

           De repente, fui segura pelas pernas! Gritei e afundei, puxada por Chris, que deu um forte impulso com as pernas e nos trouxe de volta à superfície, onde rimos e eu lhe joguei água no rosto para me vingar do truque sujo que ele me aplicara.

           — Isso não é melhor que ficarmos trancados naquele maldito quarto quente? — perguntou, pulando na água como se estivesse demente, delirante, desvairado e louco!

           Era como se aqueles poucos momentos de liberdade lhe tivessem subido à cabeça como uma bebida forte, embriagando-o! Começou a nadar em círculos ao redor de mim e tentou pegar-me novamente as pernas a fim de me puxar para baixo. Agora, porém, eu já estava prevenida contra ele. Voltou à superfície e nadou de costas. Depois, de peito, de crawl e de lado, ao estilo indiano. Experimentou todos os tipos de nado.

           — Este é o crawl de costas — anunciou, fazendo uma demonstração.

           Exibiu técnicas que eu jamais vira antes.

           Emergiu após um mergulho e ficou boiando perto de mim.

           — Dança, bailarina, dança... — cantou, jogando-me água no rosto.

           Devolvi-lhe a agressão e ele continuou a cantar:

            — E faz tuas piruetas...

           Então, abraçou-me repentinamente. Rindo e gritando, lutamos como se tivéssemos enlouquecido por podermos voltar a sermos crianças. Oh, Chris era maravilhoso na água, como um bailarino. De repente, fiquei cansada, extremamente cansada; tão cansada que me sentia como um pano de chão encharcado. Chris passou o braço em torno de mim, ajudando-me a subir na margem.

           Deixamo-nos cair no capim e ficamos deitados de costas para conversarmos.

           — Mais uma nadada e depois voltamos aos gêmeos — disse ele, estendido de costas a meu lado no suave declive.

           Fitamos ambos o céu cheio de estrelas cintilantes. A lua crescente, com uma tonalidade prata e ouro, parecia esquivar-se e brincar de esconder com as nuvens compridas e escuras.

           — Supondo que não consigamos voltar ao telhado?

           — Chegaremos porque temos que chegar.

           Aquele era o meu velho e querido Chris, o eterno otimista, estendido a meu lado com o corpo molhado e brilhante, os cabelos dourados colados à testa. Seu nariz igual ao de papai apontado para o céu, os lábios cheios e de formato tão belo que mesmo em repouso pareciam sensuais, o queixo forte e quadrado, com uma covinha no centro, o peito que começava a alargar-se... e aquela colina de masculinidade em desenvolvimento entre suas coxas fortes, que começavam a ficar musculosas. Havia algo que me excitava nas coxas fortes e bem formadas de um homem. Virei a cabeça para o outro lado, incapaz de regalar meus olhos na beleza de Chris sem me sentir culpada e envergonhada.

           Os pássaros tinham ninho nos galhos das árvores acima de nós e emitiam leves pios sonolentos que me faziam lembrar os gêmeos, tornando-me triste e trazendo-me lágrimas aos olhos.

           Os vagalumes surgiam com freqüência, piscando, fazendo sinais de macho para fêmea, ou vice-versa.

           — Chris, o vagalume que pisca é o macho ou a fêmea?

           — Não tenho certeza — replicou ele, como se não estivesse muito interessado. — Acho que ambos piscam, mas ela fica no chão fazendo sinais, enquanto o macho voa à sua procura.

           — Quer dizer, então, que existem coisas sobre as quais você não tem certeza, Dr. Sabe-tudo?

           — Não vamos discutir, Cathy. Eu não sei tudo, muito pelo contrário.

           Virou a cabeça para mim; nossos olhares se encontraram e nenhum de nós parecia capaz de ver outra coisa.

           Sopros suaves da brisa começaram a brincar com meus cabelos, secando os fios grudados em meu rosto. Senti-os roçar-me como leves beijinhos e senti novamente vontade de chorar, sem qualquer motivo além de ser uma noite tão doce, tão bela, e eu estar na idade de ansiar por um romance. E a brisa sussurrava-me palavras de amor ao ouvido... palavras que eu temia que ninguém jamais me dissesse. Ainda assim, a noite era linda sob as árvores à margem da água que faiscava ao luar e eu suspirei. Tinha a impressão de que já estivera ali antes, naquele gramado junto ao lago. Oh, que estranhos pensamentos me passaram pela cabeça enquanto os pássaros noturnos voejavam, os mosquitos zumbiam e uma coruja piava em lugar distante, levando-me de volta à primeira noite em que ali chegáramos, para vivermos como fugitivos, escondidos de um mundo que não nos queria.

           — Chris, você tem quase dezessete anos, a mesma idade que papai tinha quando conheceu mamãe.

           — E você tem quatorze, a mesma idade que ela — replicou ele com voz rouca.

           — Acredita em amor à primeira vista?

           Chris hesitou, ruminando a pergunta... a seu modo, não ao meu.

           — Não sou autoridade no assunto. Sei que, quando estava na escola, via uma pequena bonita pela primeira vez e me apaixonava imediatamente por ela. Então, conversávamos e eu constatava que ela era burra; então, não sentia mais nada por ela. Todavia, se a beleza fosse acompanhada por outros predicados, creio que eu poderia amar à primeira vista, embora já tenha lido em algum lugar que essa espécie de amor não passa de atração física.

           — Acha que sou burra?

           Ele sorriu e estendeu a mão para tocar-me o cabelo.

           — Claro que não. E espero que você não se ache burra, porque não é. Cathy, o seu problema é ter talentos demais; quer ser tudo e isso é impossível.

           — Como soube que eu também gostaria de ser cantora e atriz?

           Ele riu suavemente, baixinho.

           — Menina tola, você passa noventa por cento do tempo representando e canta sozinha quando está satisfeita. Infelizmente, isso não acontece com freqüência.

           — Você fica satisfeito com freqüência?

            — Não.

           Ficamos deitados, em silêncio, olhando ocasionalmente para algo que nos chamasse a atenção, como vagalumes que se encontravam no capim e se acasalavam, ou nuvens que passavam no céu, ou jogo de luz do luar na água. A noite parecia encantada e fez-me pensar novamente na natureza e seus estranhos desígnios. Embora eu não os compreendesse bem, por que sonhava à noite com as coisas que vinha sonhando atualmente? Por que acordava pulsando, ansiando por uma satisfação que nunca conseguia atingir?

           Alegrava-me por ter permitido que Chris me convencesse a vir nadar. Era maravilhoso deitar-me outra vez no capim, sentindo-me fresca e limpa, e, sobretudo, tendo a sensação de estar viva novamente?

           — Chris — comecei cautelosamente, temendo estragar a suave beleza daquela estrelada noite de luar. — Onde você acha que mamãe está?

           Ele continuou a fitar a Estrela Polar.

           — Não faço a menor idéia — respondeu finalmente.

           — Nem desconfia?

           — Claro que sim.

         — Qual é seu palpite?

           — Ela pode estar doente.

           — Não está; mamãe nunca adoece.

            — Pode ter viajado a negócios, para o pai.

           — Então, por que não nos avisou de que iria viajar e quando voltaria?

           — Não sei! — retrucou ele, irritado, como se eu estivesse lhe estragando a noite e, obviamente, ele não podia saber mais que eu sobre o assunto.

           — Chris, você ainda a ama e confia nela como antes?

           — Não me faça tal pergunta! Ela é mãe. É tudo o que tenho. E se espera que eu fique aqui deitado escutando você falar mal dela, está muito enganada! Onde quer que ela esteja esta noite, pensa em nós e vai voltar. Pode estar segura de que ela deve ter um ótimo motivo para ir embora e demorar-se tanto tempo.

           Eu não podia revelar a Chris o que realmente estava pensando, que ela poderia ter arranjado tempo para nos colocar a par de seus planos, pois ele sabia disso tão bem quanto eu.

            Sua voz tinha o tom rouco que só ocorria quando ele estava sentindo dor e não do tipo físico. Desejei corrigir o mal que lhe infligira com minhas perguntas:

            — Chris, na televisão, as moças da minha idade e os rapazes da sua... começam a namorar. Você saberia como agir se saísse com uma pequena?

           — Claro. Tenho assistido muito à televisão.

            — Mas assistir é diferente de fazer.

           — Ainda assim, nos dá uma idéia do que fazer e dizer. Além disso, você ainda não tem idade para namorar.

           — Agora, Sr. Cérebro, permita que eu lhe diga uma coisa: na verdade, uma garota da minha idade é um ano mais velha que um rapaz da sua.

           — Você está louca!

           — Louca? Li isso num artigo de revista escrito por uma autoridade no assunto, um doutor em psicologia — declarei, julgando que ele não poderia deixar de ficar impressionado. — Ele afirma que as moças amadurecem emocionalmente muito mais depressa que os rapazes.

           — O autor do tal artigo estava julgando toda a humanidade com base em sua própria imaturidade.

           — Chris, você acha que sabe tudo, e ninguém pode saber tudo!

           Ele virou a cabeça, encarou-me e franziu a testa, como costumava fazer com freqüência.

           — Tem razão — concordou amavelmente. — Sei apenas o que leio e fico perplexo como uma criança ante o que se passa em meu íntimo. Estou furioso com mamãe pelo que ela nos fez e sinto tantas coisas diferentes, mas não tenho um homem com quem conversar.

           Apoiou-se num cotovelo para olhar-me melhor.

           — Gostaria que seu cabelo não demorasse tanto para tornar a crescer. Agora, estou arrependido de ter usado a tesoura... de todo modo, não adiantou coisa alguma.

           Era melhor quando ele não dizia algo que me fazia relembrar Foxworth Hall. Eu desejava apenas olhar para o céu e sentir o ar fresco da noite na pele úmida. Meu pijama era de fina cambraia branca, bordada com botões de rosa e arrematada com rendas. Colava-se ao meu corpo como uma segunda camada de pele, da mesma forma que a sunga de Chris se grudava nele.

           — Vamos embora, Chris.

           Relutante, ele se ergueu e me estendeu a mão.

           — Mais um mergulho?

           — Não. Vamos voltar.

           Calados, afastamo-nos do lago, caminhando lentamente através do bosque, absorvendo a sensação de estamos ao ar livre, pisando a terra.

           Voltamos às nossas responsabilidades. Paramos por longo tempo ao lado da corda que tínhamos fabricado e prendido a uma chaminé lá no alto. Eu não pensava no modo pelo qual subiríamos, mas tentando imaginar o que havíamos ganho com aquela rápida fuga da prisão à qual precisávamos voltar.

           — Sente-se diferente, Chris?

           — Sim. Não fizemos muito mais que andar e correr na terra, bem como nadar um pouco, mas sinto-me mais vivo e esperançoso.

           — Poderíamos fugir, se quiséssemos, esta noite sem esperarmos mamãe voltar. Podemos subir, fazer alças para carregar os gêmeos e trazê-los para baixo enquanto dormem. Podemos fugir! Ficaríamos livres!

           Ele não respondeu, mas iniciou a subida para o telhado, uma mão de cada vez, mantendo a corda presa entre as pernas, elevando-se com esforço. Tão logo ele chegou ao telhado, comecei a subir, pois não confiávamos na corda para sustentar o peso de duas pessoas. Era muito mais difícil subir que descer. Minhas pernas pareciam muito mais fortes que os braços. Ergui a mão para alcançar o nó superior e levantei a perna direita. De repente, o pé esquerdo escorregou e fiquei solta no ar, pendurada apenas pelas mãos enfraquecidas!

           Um leve grito me escapou dos lábios! Encontrava-me a mais de seis metros do solo!

           — Agüente firme! — disse Chris do telhado. — A corda está diretamente entre suas pernas. Tudo o que tem a fazer é fechá-las depressa!

           Eu não conseguia ver o que fazia. Fui obrigada a obedecer suas instruções. Segurei a corda entre as coxas, tremendo da cabeça aos pés. O medo me diminuía as forças. Quanto mais ficava no mesmo lugar, mais medo eu sentia. Comecei a ofegar, tremendo. Então, vieram as lágrimas... lágrimas estúpidas de criança pequena!

           — Está quase ao alcance de minhas mãos — disse Chris. — Mais alguns palmos e conseguirei segurá-la. Não se afobe, Cathy. Pense no quanto os gêmeos precisam de você! Tente... faça o máximo esforço!

           Precisei convencer-me a soltar uma das mãos para alcançar o nó superior. Repeti mil e uma vezes para mim mesma: “Você pode subir! Pode!”

           Meus pés estavam escorregadios de pisar no capim, mas os de Chris também estavam e ele conseguira subir até o telhado. Se ele podia, eu também poderia.

           Aterrorizada, galguei aos poucos a corda, até chegar a um ponto em que Chris pôde estender as mãos e agarrar-me pelos pulsos. Uma vez segura por suas mãos fortes, senti uma onda de alívio que me fez o sangue formigar nos pés e nas pontas dos dedos. Em poucos segundos, Chris içou-me para o telhado e me abraçou com força.

            Rimos juntos e, depois, quase choramos. Então, engatinhamos pelo telhado íngreme, sempre segurando a corda, até chegarmos à chaminé. Deixando-nos cair em nosso abrigo costumeiro, trememos como varas verdes.

           Oh, que ironia! Contentes por estarmos de volta!

            Chris, deitado na cama, olhou para mim.

           — Cathy, por alguns momentos, quando estávamos deitados na margem do lago, tive a impressão de me encontrar no paraíso. Depois, quando você escorregou, na corda, julguei que também morreria se você caísse. Não podemos repetir a façanha. Você não tem nos braços a mesma força que eu. Desculpe-me por ter esquecido isso.

           A lâmpada fraca do abajur que deixávamos durante a noite lançava uma suave luminosidade rosada no ambiente. Nossos olhares se encontraram.

           — Não me arrependo de termos ido. Estou contente. Fazia tanto tempo que eu não me sentia real.

           — É assim que se sente? — indagou ele. — Eu também... como se me livrasse de um pesadelo que estava demorando demais.

           Tomei a ousar; era preciso.

           — Chris, onde você acha que está nossa mãe? Ela vem se afastando gradativamente de nós e nunca olha de verdade para os gêmeos, como se eles lhe causassem medo. Mas nunca demorou tanto anteriormente. Já faz mais de um mês que não aparece.

           Escutei seu suspiro profundo, pesado.

           — Sinceramente, não sei, Cathy. Simplesmente não sei. Ela não me disse nada que não tenha dito a você, mas pode apostar que existe um bom motivo.

           — Mas que motivo poderia ter ela para ir embora sem uma explicação? Não é o mínimo que poderia ter feito, dar-nos uma explicação?

           — Não sei o que dizer.

           — Se eu tivesse filhos, nunca os abandonaria como ela nos abandona. Nunca trancaria meus filhos num quarto e os abandonaria lá dentro.

           — Você não vai ter filhos, lembra-se?

           — Chris, algum dia vou dançar nos braços de um marido que me ama e, se ele realmente quiser um filho, eu talvez concorde em tê-lo.

           — Claro. Eu sempre soube que você mudaria de idéia quando crescesse mais um pouco.

           — Você acha mesmo que sou bastante bonita para que alguém me ame?

           — Mais que o bastante bonita — replicou ele, parecendo embaraçado.

           — Chris, lembra-se de quando mamãe disse que é o dinheiro que faz o mundo funcionar, não o amor? Ora, acho que ela está enganada.

           — É mesmo? Pois pense melhor no assunto. Por que não podemos ter ambas as coisas ao mesmo tempo?

           Pensei no assunto. Pensei muito. Deitada, fitando o teto que era a minha pista de dança, ruminei idéias a respeito da vida e do amor, digerindo-as bem. E tirei de cada livro que li uma pérola de filosofia, formando com elas um rosário de sabedoria no qual passei a acreditar pelo resto da vida.

           O amor, quando resolvesse bater à minha porta, seria o bastante.

           E quanto ao escritor que afirmava que a fama não era suficiente, que a fama e a riqueza não eram suficientes, que a fama, a riqueza e também o amor... ainda não eram suficientes... puxa, como eu sentia pena dele!

Uma tarde chuvosa

 

           Chris estava à janela, ambas as mãos afastando as pesadas cortinas tipo tapeçaria. O céu cor-de-chumbo despejava chuva como uma lâmina sólida de água. Todas as lâmpadas de nosso quarto estavam acesas e o aparelho de televisão ligado, como de costume. Chris esperava para ver o trem que passaria por volta das quatro horas.

            Ouvíamos o apito lamentoso do trem antes do amanhecer, por volta das quatro da tarde e à noite, se estivéssemos acordados. Era possível ver, de relance, o trem que parecia de brinquedo, tão distante ficava a linha férrea.

           Chris estava em seu mundo e eu no meu. Sentada de pernas cruzadas na cama que Carrie compartilhava comigo, eu recortava ilustrações das revistas de decoração que mamãe trouxera para meu entretenimento antes de partir e demorar tanto a regressar. Cortava cuidadosamente cada fotografia e a colava num grande álbum. Planejava minha casa de sonho, onde eu viveria feliz para sempre com um marido alto, forte e moreno que me amava com exclusividade e não tinha mil e uma namoradas por fora.

           Eu já estabelecera o roteiro de minha vida: primeiro a minha carreira, depois um marido e filhos, quando estivesse disposta a abandonar o palco e dar oportunidade às outras. E quando tivesse a casa dos meus sonhos, instalaria uma enorme banheira de vidro verde-esmeralda sobre uma parte elevada do piso, na qual eu poderia ficar imersa na água perfumada com óleos de beleza durante o dia inteiro, se tivesse vontade e ninguém bateria à porta gritando-me para ter pressa! (Eu nunca tinha oportunidade de me demorar na banheira.) Sairia da banheira cor-de-esmeralda cheirando a perfumes florais, com a pele lisa como cetim e os poros livres para sempre do cheiro podre de madeira seca e velha, misturados com poeira de sótão e todas as misérias de coisas velhas... a tal ponto que nós, jovens, adquiríamos um cheiro de antigüidade igual ao da velha casa.

           — Chris — disse eu, virando-me para fitar as costas de meu irmão. — Por que devemos ficar aqui indefinidamente, esperando o regresso de mamãe e, sobretudo, a morte daquele velho? Agora, que estamos fortes, por que não procuramos um meio de fugir daqui?

            Ele não respondeu, mas percebi que suas mãos agarravam as cortinas com mais força.

           — Chris...

            — Não quero falar nisso! — explodiu ele.

           — Por que está esperando o trem passar, se não pensa em fugir?

           — Não estou esperando pelo trem! Estou apenas olhando para fora, nada mais!

           Chris mantinha a testa encostada na vidraça, como se desafiasse qualquer vizinho mais próximo a olhar para a janela e vê-lo ali.

       — Chris, afaste-se da janela. Alguém pode ver você.

            — Pouco me importa quem me veja!

           Meu primeiro impulso foi correr para ele, abraçá-lo, cobri-lo com milhões de beijos no rosto, os beijos que ele desejava de mamãe e não recebia. Eu lhe puxaria a cabeça de encontro ao seio e o acalentaria ali, como ela costumava fazer; então, ele voltaria a ser o alegre e sorridente otimista, que nunca passava um dia casmurro e raivoso como eu. Eu sabia, porém, que a mesmo que agisse exatamente como mamãe, não seria a mesma coisa para ele. Era ela que ele queria. Depositara todas as suas esperanças, sonhos e fé numa única mulher: mamãe.

            Havia mais de dois meses que ela desaparecera! Não compreendia que, para nós, um dia naquela prisão era equivalente a um mês de vida normal? Não se preocupava conosco, nem se interessava em saber como estávamos passando? Acreditava que Chris sempre a defenderia com denodo, mesmo que ela nos abandonasse sem dar uma explicação, um motivo, uma desculpa? Julgava realmente que o amor, uma vez adquirido, não podia ser dilacerado por dúvidas e temores, a ponto de nunca, nunca mais, se refazer?

           — Cathy — disse Chris repentinamente. — Aonde iria, se tivesse escolha?

           — Para o sul — respondi. — Para alguma praia quente e ensolarada, onde as ondas sejam suaves... não quero rebentação forte, com espuma branca... não quero o mar cinzento estourando nos rochedos... quero ir para um lugar onde o vento nunca sopre com força, mas brisas amenas e cálidas me acariciem o cabelo e me rocem no rosto, enquanto ficarei deitada na areia branca e limpa, absorvendo o sol.

           — Sim — concordou ele, tristonho e sonhador. — Parece lindo, dito à sua maneira. Só que eu não me importaria com rebentação forte; eu gostaria de fazer surf na crista de uma onda grande. Seria como esquiar.

           Larguei a tesoura, as fotografias e o vidro de cola, deixando de lado o álbum de ilustrações para concentrar-me totalmente em Chris, que sentia falta de tantos esportes que adorava, permanecendo trancado num quarto, envelhecendo e tomando-se triste prematuramente. Oh, eu desejava tanto reconfortá-lo, mas não sabia como.

           — Afaste-se da janela, Chris, por favor.

           — Deixe-me em paz! Já estou cansado, enjoado deste maldito lugar! Não façam isso, não façam aquilo! Não falem sem que alguém lhes dirija antes a palavra... comam essas malditas refeições todos os dias, mesmo frias e sem tempero... creio que ela faz isso de propósito, para não termos algo de que possamos gostar, nem mesmo a comida! Então, penso em todo aquele dinheiro, metade deve caber a mamãe e metade a nós. E digo a mim mesmo: “Não importa o que acontecer, vale a pena! Aquele velho não pode viver para sempre!”

            — Todo o dinheiro do mundo não vale os dias de vida que perdemos! — retruquei acaloradamente.

           Chris girou nos calcanhares, o rosto rubro.

           — O diabo que não vale! Talvez você consiga viver à custa do seu talento, mas eu tenho anos a fio de estudo pela frente! Sabe que papai desejava que eu fosse médico e, seja de que modo for, terei o diploma de medicina! E se fugirmos daqui, jamais serei médico, você bem sabe disso. Diga-me o que posso fazer para ganhar o nosso sustento, depressa, faça uma lista dos empregos que posso arranjar sem ser lavador de pratos, bóia-fria ou garçom, algum deles pagará meus estudos preliminares e, depois, a faculdade de medicina? E, além de sustentar-me, terei que cuidar dos gêmeos e de você, uma família sob medida, aos dezesseis anos de idade!

            Senti uma raiva feroz: ele não me dava crédito de ser capaz de contribuir com alguma coisa!

           — Eu também posso trabalhar! — repliquei furiosa. — Juntos, daremos um jeito. Chris, quando estávamos morrendo de fome, você me trouxe quatro camundongos mortos e disse que Deus dá às pessoas força e capacidade extraordinárias em situações de grande aflição e necessidade. Pois bem, eu acredito: Ele dá. Quando sairmos daqui e ficarmos por nossa própria conta no mundo, abriremos caminho de um ou outro jeito e você será médico! Serei capaz de tudo para que você tenha aquele maldito “Doutor” antes do nome!

           — O que pode você fazer? — indagou ele, de um modo detestável e irônico.

           Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu e a avó apareceu! Parou sem entrar no quarto e fixou em Chris um olhar cheio de ódio. E ele, teimoso e tão relutante em cooperar quanto anteriormente, recusou-se a ser intimidado. Não se afastou da janela, mas virou-se para observar novamente a chuva.

           — Menino! — bradou ela. — Afaste-se dessa janela, imediatamente!

           — Meu nome não é “menino”. Chamo-me Christopher. Dirija-se a mim por esse nome, ou não fale comigo, mas nunca mais me chame de “menino”!

           Ela replicou às costas dele:

           — Eu detesto esse nome! Era o nome de seu pai. Pela bondade de meu coração, advoguei a causa dele quando o pai morreu e ela ficou sem lar. Meu marido não o queria aqui, mas tive pena de um jovem órfão, sem meios materiais e privado de tantas coisas. Assim, insisti junto a seu avô até que ele concordou em acolher sob nosso teto o meio-irmão mais moço. E seu pai chegou... inteligente, bonito... e aproveitou-se de nossa generosidade. Traiu-nos! Iludiu-nos! Nós o enviamos às melhores escolas, compramos para ele de tudo o melhor, e ele nos roubou nossa filha, sua meia-sobrinha! Ela era tudo o que nos restava naquela época... a única sobrevivente... e fugiram durante a noite para se casarem, voltando duas semanas depois, sorridentes e felizes, pedindo-nos perdão por se terem apaixonado. Naquela noite, meu marido sofreu o primeiro ataque cardíaco. Sua mãe já lhes contou isso, que ela e aquele homem foram a causa da doença cardíaca do pai dela? Este a expulsou desta casa, disse-lhe para nunca mais voltar, e caiu ao chão.

           Fez uma pausa, procurando recuperar o fôlego, levando à garganta uma mão enorme que faiscava de brilhantes. Chris virou-se da janela para encará-la, como eu estava fazendo. Aquelas palavras eram mais que a soma de todas as outras que ela nos dirigira desde que tínhamos chegado ao quarto, havia uma eternidade.

           — Não somos culpados do que nossos pais fizeram — declarou Chris.

           — São culpados do que você e sua irmã fizeram!

           — O que fizemos de tão pecaminoso? — Quis saber Chris. — Acha que podemos viver no mesmo quarto, ano após ano, e não nos vermos? Você ajudou a trancar-nos aqui. Você isolou esta ala para impedir o acesso dos criados. Você deseja apanhar-nos fazendo algo que considere errado. Você quer que Cathy e eu provemos que sua opinião a respeito do casamento de nossa mãe está correta! Mire-se no espelho, parada aí com esse vestido cinzento, dizendo-se piedosa e santa enquanto deixa criancinhas morrerem de fome!

           — Pare! — exclamei, aterrorizada pela expressão no rosto da avó. — Não diga mais nada, Chris!

           Mas ele já dissera demais. A velha bateu a porta e meu coração veio parar na garganta.

           — Vamos para o sótão — disse Chris, muito calmo. — A covardona tem medo da escada. Estaremos seguros e, caso ela procure matar-nos de fome, usaremos a escada para descermos ao solo.

           A porta se abriu outra vez. A avó entrou, avançando com uma vara de salgueiro na mão e um sinistro brilho de determinação nos olhos cinzentos. Devia manter a vara escondida ali perto, para poder apanhá-la tão depressa.

           — Corram para esconder-se no sótão e passarão mais uma semana sem comida! — bradou ela, estendendo a mão para agarrar o braço de Chris. — E se você resistir, açoitarei também sua irmã e os gêmeos!

           Estávamos em outubro. Em novembro, Chris completaria dezessete anos. Ainda era um menino, em comparação com a enorme corpulência da velha. Pensou em resistir, mas olhou para mim e para os gêmeos que choramingavam, abraçados, e permitiu que a bruxa velha o arrastasse para o banheiro. Ela fechou a porta e passou a chave.

            Ordenou que ele se despisse e se debruçasse sobre a banheira.

           Os gêmeos correram para mim, enterrando os rostos em meu colo.

           — Obrigue-a a parar! — implorou Carrie. — Não permita que ela espanque Chris!

           Chris não emitiu o menor som enquanto a vara lhe cortava a pele nua. Ouvi o barulho da vara verde de salgueiro fustigando-lhe a carne. Senti a dor de cada um dos golpes! Naquele último ano, Chris e eu nos tornáramos como uma só pessoa; ele era como a minha outra faceta, como eu gostaria de ser: forte e decidido, capaz de suportar os açoites sem um gemido. Odiei a velha. Sentei-me na cama e abracei os gêmeos; uma onda de ódio tão violento cresceu dentro de mim que fiquei sem saber como extravasá-lo a não ser gritando. Chris sentia as varadas e eu soltava seus gritos de dor. Esperava que Deus escutasse! Esperava que os criados escutassem! Esperava que aquele avô moribundo escutasse!

           A velha saiu do banheiro empunhando a vara. Atrás dela vinha Chris, com uma toalha amarrada na cintura. Estava pálido como a morte. Não consegui parar de gritar.

           — Cale-se! — ordenou ela, brandindo a vara diante de meus olhos. — Faça silêncio, imediatamente, se não quiser apanhar também!

           Não pude parar de gritar, nem mesmo quando ela me puxou da cama e jogou os gêmeos para o lado quando tentaram proteger-me. Cory mordeu-lhe a perna, mas ela o jogou longe com um safanão. Dominando a histeria, fui para o banheiro, onde também recebi ordens para despir-me. Fiquei imóvel, fitando o broche de brilhantes que ela sempre usava e contando as pedras preciosas: dezessete. O vestido de tafetá cinzento tinha finas listras vermelhas e a gola branca era de crochê. Ela fixou o olhar nos cabelos cortados rente à testa, deixados à mostra pelo turbante improvisado, e seu rosto assumiu uma expressão de zombeteira satisfação.

           — Dispa-se, ou arranco-lhe as roupas.

           Comecei a despir-me, abrindo vagarosamente os botões da blusa. Na época, não usava soutien, embora já precisasse de um. Percebi que ela me fitou os seios e o estômago chato, antes de desviar os olhos, aparentemente ofendida.

           — Algum dia eu irei à forra, velha — declarei. — Chegará o dia em que a indefesa será você e eu terei a vara nas mãos. E na cozinha haverá comida que você nunca chegará a provar, pois, como não se cansa de afirmar, Deus vê tudo e tem seu método de fazer justiça: olho por olho, dente por dente, avó!

           — Nunca mais fale comigo! — bradou ela.

           Então sorriu, confiante de que nunca chegaria o dia em que eu controlaria seu destino. Como uma tola, eu escolhera a pior ocasião possível para falar e ela não hesitou. Enquanto a vara me feria a carne tenra, os gêmeos gritavam do quarto:

           — Faça ela parar, Chris! Não permita que machuque Cathy!

           Caí de joelhos perto da banheira, enroscando-me bem para proteger o rosto e o seio, minhas partes mais vulneráveis. Como uma selvagem descontrolada, ela me espancou até que a vara se partiu. A dor me queimava como fogo. Pensei que tudo acabara quando a vara quebrou, mas a velha pegou uma vassoura de cabo comprido e bateu-me com ela na cabeça e nos ombros. Por mais que tentasse não gritar e imitar o corajoso silêncio de Chris, tive que ceder. Berrei:

           — Você não é uma mulher! É um monstro! Não é humana! Minha recompensa por isso foi uma terrível pancada na parte lateral da cabeça. Tudo escureceu.

           Voltei lentamente à realidade, com o corpo inteiro doendo e a cabeça prestes a estourar. No sótão, alguém colocara um disco: “Rose Adiago”, do balé A Bela Adormecida. Mesmo que eu viva cem anos, jamais esquecerei aquela música e o que senti ao abrir os olhos e ver Chris debruçado sobre mim, aplicando anti-séptico e pedaços de esparadrapo, as lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto e pingando-me no corpo. Quando ele terminou de fazer por mim o que era possível com o inadequado suprimento de remédios de que dispúnhamos, cuidei-lhe das costas marcadas e sangrentas. Estávamos despidos, pois as roupas se colariam às feridas que purgavam. Eu tinha feias equimoses onde ela me atingira cruelmente com a vassoura; na cabeça, um enorme galo que Chris temia ser uma concussão.

            Acabados os curativos, deitamo-nos de lado, de frente um para o outro. Nossos olhares se cruzaram e mesclaram-se num só. Chris tocou-me o rosto na mais suave e amorosa carícia.

           — Não nos divertimos, irmão?... Não nos divertimos? — cantei parodiando a música a respeito de Bill Bailey. — Sentiremos dor o dia inteiro... Você faz os curativos e eu pago o aluguel...

           — Pare! — gritou ele, parecendo magoado e indefeso. — Sei que a culpa foi minha! Fiquei perto da janela. A velha não tinha que bater em você, também!

           — Não importa; mais cedo ou mais tarde ela acabaria fazendo isso. Desde o primeiro dia, ela vem planejando castigar-nos por alguma ninharia. O que me espanta é ela ter demorado tanto a fazer uso da vara.

           — Quando ela estava me batendo, escutei você gritar, e eu não podia gritar. Você o fez por mim, Cathy, e me ajudou muito; não senti minha dor, só a sua.

            Abraçamo-nos com cuidado. Nossos corpos despidos se estreitaram, meus seios se achataram contra o peito dele. Então, Chris murmurou meu nome e, puxando a toalha de minha cabeça, soltou-me os cabelos compridos antes de tomar minha cabeça entre as mãos e puxá-la carinhosamente para perto de seus lábios. Era esquisito ser beijada enquanto jazia nua em seus braços... e não me parecia correto.

           — Pare — sussurrei, temerosa, sentindo sua masculinidade enrijecer-se de encontro a mim. — Isto é exatamente o que ela pensa que fizemos.

           Chris soltou um riso amargo antes de afastar-se, dizendo-me que eu não sabia de nada. Fazer amor era algo mais que beijar e não tínhamos feito mais que beijar-nos.

Nunca.

            — E nunca faremos — disse eu, mas em voz fraca.

           Naquela noite, adormeci pensando no beijo de Chris, sem me lembrar das varadas ou das pancadas com a vassoura. Dentro de nós dois crescia um torvelinho de emoções embaralhadas. Algo que estivera adormecido bem no fundo de mim despertara e se acelerava, exatamente como Aurora dormia até que o Príncipe chegava para dar em seus lábios silenciosos um prolongado beijo de amante.

           Os contos de fada eram sempre assim: terminavam com um beijo e a felicidade para o resto da vida. Tinha que existir algum outro príncipe para proporcionar-me um final feliz.

 

Encontrar um amigo

           Havia alguém gritando na escada do sótão! Acordei sobressaltada e olhei em volta a fim de ver quem estava faltando. Cory!

           — Oh, Deus, o que aconteceu agora?

           Pulei da cama e corri na direção do armário embutido. Ouvi Carrie acordar e juntar seus berros aos de Cory, mesmo sem saber por que motivo ele gritava.

            Chris indagou:

            — Que diabo está acontecendo aqui?

           Atravessei o armário e galguei seis degraus. Estaquei, boquiaberta. Lá estava Cory, de pijama branco, berrando como um louco e não via por que razão.

           — Faça alguma coisa! — urrava ele. — Faça alguma coisa!

           Afinal, apontou para o que lhe causava tamanha perturbação.

           Oh... No degrau estava uma ratoeira, no mesmo lugar onde a armávamos toda noite com uma isca de queijo. Mas, desta feita, o camundongo não morrera. Tentara ser esperto e roubar a isca com a pata dianteira, em vez de usar os dentes; a forte mola de arame prendera-lhe a patinha. O minúsculo rato cinzento roia ferozmente a pata presa a fim de libertar-se, a despeito da dor que isso lhe devia causar.

           — Cathy, faça alguma coisa depressa! — exclamou Cory, atirando-se em meus braços. — Salve a vida dele! Não deixe ele roer o pé! Quero ele vivo! Quero um amigo! Nunca tive um mascote; você bem sabe que nunca tive um animal de estimação! Por que você e Chris sempre matam todos os ratinhos?

           Carrie aproximou-se pela retaguarda e começou a esmurrar-me as costas com os pequenos punhos.

           — Você é malvada, Cathy! Malvada! Malvada! Não deixa Cory ter nada!

           Pelo que me constava, Cory tinha praticamente tudo o que o dinheiro podia comprar, à exceção de um animal de estimação, da liberdade e do ar livre. E, na verdade, Carrie seria capaz de assassinar-me na escada se Chris não acorresse em minha defesa e a obrigasse a abrir as mandíbulas que fechara em minha perna que, felizmente para mim, estava protegida por uma grossa camisola que me chegava aos tornozelos.

           — Parem com isso! — ordenou severamente Chris.

           Curvou-se a fim de utilizar o pano de chão que apanhara às pressas para pegar um camundongo enfurecido e não ser mordido.

           — Cuide dele, Chris — implorou Cory. — Por favor, não deixe ele morrer!

           — Já que você parece desejar tanto este camundongo, Cory, farei o possível para salvar-lhe a pata, embora esteja bastante ferida.

            Oh, quanta confusão e barulheira para salvar a vida de um camundongo, quando já havíamos exterminado centenas deles. Primeiro, Chris teve que levantar cuidadosamente a mola da ratoeira e, quando o fez, o pequeno animal furioso e ferido quase sibilou de alívio. Carrie gritou e Cory virou as costas, soluçando. Então, o camundongo deu a impressão de desmaiar; de alívio, presumo.

          Descemos correndo para o banheiro, onde Chris e eu limpamos o animal quase morto, enquanto Cory o segurava, embrulhado no pano de chão e Chris aconselhava a não apertar com muita força.

           Estendi uma toalha limpa na bancada e coloquei sobre ela todas as medicações disponíveis.

           — Está morto! — gritou Carrie, agredindo Chris. — Você matou a única mascote de Cory!

           — Esse camundongo não está morto — replicou Chris calmamente. — Agora, por favor, todos vocês fiquem calados e não se movam. Cathy, segure-o firme. Tenho que fazer o possível para remediar a carne dilacerada e, depois, imobilizar a pata inteira.

           Em primeiro lugar, Chris empregou anti-séptico para limpar o ferimento, enquanto o camundongo permanecia como morto; apenas os olhos abertos me fitavam de modo a causar-me dó. Em seguida Chris usou gaze, que precisou cortar pela metade no sentido do comprimento a fim de adaptá-la a um membro tão pequeno, e cobriu-a com algodão. Improvisou uma tala com um palito partido pela metade, fixando-a com esparadrapo.

           — Vou chamá-lo de Mickey — anunciou Cory.

           Seus olhos brilharam porque um pequeno camundongo continuaria vivo para ser sua mascote.

           — Talvez seja uma camundonga — disse Chris, lançando um rápido olhar ao ratinho para verificar.

           — Não! Não quero uma camundonga, quero um camundongo Mickey!

           — É mesmo um camundongo macho — confirmou Chris. — Mickey sobreviverá para comer todo o nosso queijo — sentenciou o “médico”, após completar sua primeira cirurgia.

           Fez aquela previsão parecendo, devo admitir, bastante orgulhoso de seu trabalho.

           Lavou o sangue das mãos. Cory e Carrie estavam felizes como se algo maravilhoso tivesse ocorrido em suas vidas, afinal.

           — Agora, deixem-me segurar Mickey! — exclamou Cory.

           — Não, Cory. Deixe que Cathy o segure por mais algum tempo. Como você pode ver, ele se encontra em estado de choque e Cathy tem mãos maiores que as suas, podendo aquecê-lo melhor. E você, por acidente, poderia apertá-lo demais.

           Sentei-me na cadeira de balanço do quarto e acalentei um camundongo cinzento cujo coração batia tão depressa que dava a impressão de estar à beira de um colapso. Enquanto segurava o bichinho, sentindo nas mãos o corpo morno e minúsculo que se esforçava por sobreviver, desejei que não morresse e que se transformasse na mascote de Cory.

           A porta se abriu e a avó entrou. Nenhum de nós estava completamente vestido; na verdade, todos nós ainda usávamos roupas de dormir, sem roupões que ocultassem o que poderia aparecer. Estávamos descalços, com os cabelos despenteados e os rostos por lavar.

           Uma norma violada.

           Cory encolheu-se a meu lado quando a avó correu o olhar penetrante pelo quarto em desordem e em total bagunça (para dizer a verdade). As camas desfeitas, nossas roupas penduradas nas cadeiras, meias espalhadas por todo lado.

           Duas normas violadas.

           Chris estava no banheiro, lavando o rosto de Carrie e ajudando-a a vestir-se, abotoando-lhe o macacão cor-de-rosa.

           Três normas violadas.

           Os dois saíram do banheiro. Carrie com o cabelo penteado para trás num rabo-de-cavalo atado com uma fita cor-de-rosa.

            Assim que avistou a avó, Carrie ficou petrificada, os olhos azuis muito esbugalhados e cheios de medo. Virou-se e procurou proteção, agarrando-se a Chris.

            Este a pegou no colo, trouxe-a até a cadeira de balanço e a colocou no meu colo. Então, foi à mesa sobre a qual estava a cesta de piquenique e começou a retirar a comida que a velha nos trouxera.

           Quando Chris se aproximou, a avó recuou. Chris ignorou-a, esvaziando rapidamente a cesta.

           — Cory — disse ele, encaminhando-se para o armário embutido. — Vou ao sótão procurar uma gaiola adequada. Enquanto faço isso, veja se consegue vestir-se, calçar-se, lavar o rosto e as mãos, sem o auxilio de Cathy.

           A avó permaneceu calada. Continuei sentada na cadeira de balanço, embalando o camundongo doente, e minhas criancinhas se sentaram comigo. Nós três mantivemos os olhos fixos na velha, até que Carrie não agüentou mais e escondeu o rosto em meu ombro. Seu corpinho estremecia da cabeça aos pés.

           Fiquei perturbada por ela não ralhar conosco nem falar nas camas desfeitas, no quarto desarrumado que eu procurava manter sempre em ordem; e por que não admoestara Chris por vestir Carrie? Por que estava ali, olhando e vendo tudo, mas não dizia uma palavra?

           Chris desceu do sótão com uma gaiola e um pedaço de tela de arame que, segundo informou, tornaria a gaiola mais segura.

           Suas palavras levaram a avó a virar a cabeça bruscamente na direção dele. Depois, ela fixou o olhar em mim e no pano de chão azul que eu tinha nas mãos.

           — O que está segurando aí, menina? — perguntou com voz glacial.

           — Um camundongo ferido — respondi num tom tão gelado quanto o dela.

           — Pretendem manter o camundongo como mascote e colocá-lo naquela gaiola?

            — Pretendemos, sim — disse eu, fitando-a desafiadoramente, esperando que ela ousasse fazer alguma coisa. — Cory nunca teve um animal de estimação e já é tempo de arranjarmos um para ele.

          Ela franziu os lábios finos e seus olhos frios pousaram em Cory, que estremeceu, prestes a chorar.

           — Ora, fique com o rato! — disse ela. — Uma mascote dessa espécie é adequada para você.

           Com isso bateu a porta com força. Chris começou a mexer na gaiola, falando enquanto trabalhava.

           — Os arames da gaiola são muito afastados entre si para manterem Mickey preso, Cory. Portanto, precisamos forrar a gaiola com a tela, a fim de evitar que sua mascote fuja.

            Cory sorriu e espiou para ver se Mickey ainda vivia.

           — Está com fome. Está mexendo o focinho.

           A conquista de Mickey, o camundongo de sótão, foi um grande feito. Em primeiro lugar, ele não confiava em nós, a despeito de havermos libertado sua pata da ratoeira. Detestava o confinamento da gaiola. Mancava, em círculos, com a incômoda tala que lhe tínhamos aplicado, procurando um meio de fugir. Cory deixou cair pedacinhos de queijo e pão por entre as grades, para induzi-lo a comer e fortalecer-se. Mickey ignorou o queijo e o pão e, no final, afastou-se o máximo possível, com os olhinhos negros brilhando de medo e o corpo trêmulo quando Cory abriu a porta enferrujada da gaiola para botar lá dentro uma terrina em miniatura contendo água.

           Depois Cory enfiou a mão pela porta e empurrou um pedaço de queijo para perto do animal.

           — Queijo gostoso — disse num tom convidativo, enquanto movimentava um pedaço de pão na direção do trêmulo camundongo, cujos bigodes sacudiam. — Pão gostoso. Você ficará forte e saudável. Coma.

           Passaram-se duas semanas antes que Cory tivesse um camundongo que o adorava e se aproximava ao ouvir seu assovio. Cory escondia pedaços de comida nos bolsos da camisa para tentar Mickey a entrar neles. Quando usava camisa com dois bolsos, Cory escondia um pedaço de queijo no bolso direito e um pedaço de sanduíche de creme de amendoim e geléia no bolso esquerdo. Mickey ficava indeciso no ombro de Cory, mexendo o nariz e sacudindo os bigodes. Logo percebemos que não tínhamos um camundongo gourmet, mas um guloso que desejava comer ao mesmo tempo o conteúdo de ambos os bolsos de Cory.

           Então, quando chegava finalmente a uma conclusão a respeito de que bolso visitar primeiro, Mickey se enfiava rapidamente no bolso que continha o sanduíche, comia de cabeça para baixo e voltava correndo ao ombro de Cory, passando por detrás do pescoço e entrando no bolso onde estava o queijo. Achávamos graça por ele nunca passar diretamente pelo peito de Cory, de um bolso para outro, mas sempre dar a volta por trás do pescoço, fazendo cócegas em Cory.

           A patinha ferida cicatrizou, mas o camundongo nunca mais voltou a andar perfeitamente e não conseguia correr com grande rapidez. Acho que era bastante inteligente ao deixar o queijo para depois, uma vez que podia segurá-lo com as patas dianteiras e roê-lo quase melindrosamente, enquanto o sanduíche lhe sujaria as patas.

           E podem crer que jamais existiu um camundongo que farejasse melhor a comida, onde quer que estivesse escondida. Prazerosamente, Mickey abandonou seus amigos camundongos para juntar-se a seres humanos que o alimentavam tão bem, mimavam-no e o embalavam para dormir embora, por estranho que pareça, Carrie nunca tivesse paciência em relação a ele. Talvez fosse por Mickey encantar-se tanto pela casa de bonecas quanto a própria Carrie. Os pequenos cômodos e escadas adequavam-se perfeitamente ao tamanho dele e, uma vez em liberdade, Mickey corria diretamente para a casa de bonecas. Subia por uma janela e corria pelo interior da casa; bonecos de porcelana, tão bem equilibrados, caíam para todos os lados e a mesa do salão de jantar tombava quando ele resolvia provar-lhe um pedaço.

           Carrie berrava para Cory:

           — Seu Mickey está comendo toda a comida da festa! Leve-o daqui! Tire-o de minha sala de visitas!

           Cory capturava seu camundongo manco, que não conseguia ser muito ligeiro, e o aninhava de encontro ao peito.

           — Precisa aprender a comportar-se, Mickey. Nas casas grandes acontecem coisas ruins. A velha dona da casa espancará você por qualquer coisinha sem importância.

           Cory fazia-me rir baixinho, pois era a primeira vez que eu o ouvia fazer um comentário pouco lisonjeiro a respeito de sua querida irmã gêmea.

           Era muito bom Cory possuir um pequenino e amável camundongo cinzento que mergulhava em seus bolsos para pegar os petiscos que o dono ali escondia. Era uma boa coisa todos nós termos algo com que ocupar nosso tempo e nossas mentes enquanto aguardávamos que mamãe tornasse a aparecer, pois tudo começava a dar a impressão de que ela jamais retornaria ao nosso convívio.

Afinal, mamãe

 

           Chris e eu nunca conversamos sobre o que se passara entre nós, na cama, no dia das surras. Peguei-o muitas vezes olhando para mim, mas logo que meus olhos se dirigiam a ele, os seus se desviavam. E vice-versa.

          Ele e eu crescíamos a cada dia. Meus seios aumentavam de volume, os quadris se alargavam, a cintura diminuía e o cabelo curto acima da testa se tornava mais comprido, anelando-se de forma atraente. Por que eu não adivinhara que ele se encresparia ao crescer, sem peso para puxá-lo para baixo e deixá-lo ondulado?

           Quanto a Chris, seus ombros se alargavam, o peito assumia aspecto mais masculino e adulto, os braços também. Certa vez, apanhei-o no sótão examinando aquela parte de seu corpo que tanto parecia encantá-lo, e medindo-a!

           — Por quê? — indaguei, espantada pelo fato de que o comprimento fizesse uma diferença importante.

           Chris deu-me as costas e explicou que, uma vez, vira papai despido e agora achava que seu órgão não era bastante desenvolvido. Até mesmo sua nuca estava ruborizada quando ele me deu tal explicação. Tentei imaginar que tamanho de soutien mamãe usava!

          — Não faça isso outra vez — murmurei.

            Cory tinha um órgão tão minúsculo, como se sentiria se tivesse visto Chris fazendo aquilo e achando que o dele não tinha um tamanho adequado?

           De repente, parei de polir os tampos das mesas na sala de aulas e fiquei imóvel, pensando em Cory. Virei-me a fim de olhar para ele e Carrie. Oh, Deus, como a proximidade excessiva nos diminui a perspectiva! Havia dois anos e quatro meses que estávamos prisioneiros e os gêmeos continuavam quase iguais ao que eram antes de ali chegarmos! Não há dúvida de que as cabeças tinham aumentado de tamanho e, com isso, reduzido as dimensões dos olhos que, não obstante, ainda pareciam extraordinariamente grandes. Estavam sentados indolentemente nos colchões velhos que tínhamos puxado para perto das janelas. Tive a impressão de que borboletas me voavam no estômago ao estudá-los objetivamente. Seus corpos pareciam frágeis talos de flores, fracos demais para suportar o peso das cabeças.

           Esperei até que adormecessem ao sol fraco e comentei baixinho com Chris:

           — Veja nossos queridinhos. Não crescem. Só as cabeças aumentaram de tamanho.

           Chris suspirou pesadamente, semicerrou as pálpebras e aproximou-se dos gêmeos, observando-os e abaixando-se para tocar-lhes a pele transparente.

           — Se ao menos pudessem sair conosco para o telhado, a fim de aproveitarem o sol e o ar puro... Cathy, por mais que eles resistam e gritem, temos que obrigá-los a sair daqui!

            Como tolos, julgamos que se os carregássemos para o telhado enquanto dormiam, eles acordariam no sol, seguros em nossos braços, sentindo-se bem protegidos. Cautelosamente, Chris pegou Cory no colo e eu me abaixei para erguer o leve corpo de Carrie. Sorrateiramente, aproximamo-nos de uma das janelas abertas. Era quinta-feira, nosso dia de aproveitar o ar livre no telhado, enquanto os criados estavam na cidade. Não havia risco em utilizarmos a parte dos fundos do telhado.

            Mal Chris se afastou do peitoril carregando Cory, este foi despertado bruscamente pelo ar puro e cálido. Olhou em volta e avistou-me com Carrie nos braços, na óbvia intenção de levá-la para o telhado. Soltou um berro! Carrie acordou sobressaltada. Avistou Chris, com Cory, no telhado íngreme. Viu-me e percebeu para onde eu a levava e emitiu um grito que poderia ser ouvido a um quilômetro de distância!

           Chris elevou a voz acima da berraria:

           — Vamos! Temos que fazer isso, para o bem deles!

           Os gêmeos não se limitaram a gritar, mas esperneavam e nos esmurravam com os pequenos punhos débeis! Carrie cravou-me os dentes no braço e eu também gritei. Embora pequenos, os gêmeos tinham a força de quem se sente em extremo perigo. Carrie esmurrava-me o rosto, mal me permitindo enxergar, além de berrar ao meu ouvido!

            Apressadamente dei meia-volta e regressei à janela da sala de aulas. Trêmula e enfraquecida, depositei Carrie ao lado da mesa do professor e me apoiei no tampo da mesa, ofegante e fatigada, agradecendo a Deus por me ter permitido regressar em segurança. Chris devolveu Cory à irmã gêmea. Não adiantava. Forçá-los a sair para o telhado colocava em risco as vidas de todos nós.

            Os gêmeos estavam furiosos. Emburrados, resistiram quando os empurramos na direção das marcas que fizéramos na parede para medir-lhes a altura no primeiro dia que ali estivemos. Chris segurou-os na posição adequada, enquanto eu media o quanto haviam crescido.

           Fiquei perplexa, boquiaberta, sem acreditar que fosse possível. Em todo aquele tempo tinham crescido apenas cinco centímetros? Cinco centímetros, quando Chris e eu crescêramos várias vezes isso entre os cinco e sete anos de idade, mesmo levando em consideração que eram excepcionalmente pequenos ao nascerem, pois Cory pesara dois quilos e duzentos gramas e Carrie cinqüenta gramas a mais que ele.

           Oh! Fui obrigada a esconder o rosto nas mãos para que eles não vissem minha expressão de perplexidade e horror. Quando isso não bastou, virei-lhes as costas e procurei reprimir os soluços que me engasgavam a garganta.

           — Já pode soltá-los — consegui dizer, afinal.

           Voltei-me a tempo de vê-los de relance, como dois camundongos louros, correndo para a escada em busca da amada televisão e da fuga que esta lhe oferecia e do pequeno camundongo que os esperava para alegrarem o confinamento dele.

           Chris ficou parado atrás de mim, esperando.

           — Bem, quanto eles cresceram? — indagou quando me mantive imóvel e incapaz de falar.

           Enxuguei rapidamente as lágrimas antes de me voltar para ele, a fim de poder ver-lhe os olhos quando lhe desse a resposta.

           — Cinco centímetros — declarei num tom indiferente.

           Mas Chris percebeu a angústia em meu olhar.

           Aproximou-se, passando o braço em meus ombros e segurando-me a cabeça contra seu peito. Então, chorei de verdade! Odiava mamãe por ter feito aquilo! Odiava-a de verdade! Ela sabia que as crianças são como as plantas; precisam de sol para crescer. Tremi nos braços de meu irmão tentando convencer-me de que os gêmeos voltariam a ser lindos quando estivéssemos em liberdade. É claro que sim; voltariam ao normal, recuperando os anos perdidos e, tão logo pudessem pegar sol novamente, brotariam como plantas... sim, é claro! Apenas os longos dias de confinamento num ambiente fechado eram a causa da magreza e olheiras. E tudo podia ser remediado, não é mesmo?

            — Bem — comecei numa voz rouca e engasgada, ainda agarrando-me à única pessoa no mundo que parecia realmente importar-se. — É o dinheiro que faz o mundo funcionar, ou é o amor? Se a pessoa que devia dedicar amor aos gêmeos o fizesse, eu teria constatado uma diferença de quinze ou mesmo vinte centímetros, e não apenas cinco!

            Chris e eu descemos à nossa obscura prisão a fim de almoçamos. Como sempre, mandei que os gêmeos fossem ao banheiro lavar as mãos, pois certamente não precisavam de germes de camundongo para aumentar os riscos que já corriam.

           Enquanto estávamos silenciosamente à mesa, comendo nossos sanduíches e tomando goles de sopa morna e de leite, assistindo televisão a uma cena em que dois amantes se encontravam e faziam planos para fugir e abandonar seus respectivos cônjuges, a porta de nosso quarto se abriu. Detestei a idéia de afastar os olhos da tela e perder a seqüência da cena, mas foi o que fiz.

           E nossa mãe entrou alegremente, a passo ligeiro e animado. Usava um belo costume de tecido leve, com os punhos e a gola forrados de pele macia.

           — Queridos! — exclamou, numa entusiástica saudação.

           Então, hesitou, insegura, quando nenhum de nós quatro correu para recebê-la de braços abertos.

           — Aqui estou eu! Não ficam felizes por ver-me? Oh, vocês nem imaginam o quanto me alegro por ver vocês todos outra vez. Senti muitas saudades, pensei em vocês, sonhei com vocês e lhes trouxe muitos presentes lindos, que escolhi com o maior cuidado. Esperem até vê-los! E fui obrigada a ser tão furtiva, como podia explicar que estava comprando presentes para crianças? Desejava compensá-los por ter ficado ausente durante tanto tempo. E quis explicar-lhes o motivo pelo qual viajei, mas era por demais complicado. Além disso, não tinha idéia de quanto tempo me demoraria fora. E, embora tivessem saudades, foram bem cuidados, não é mesmo? Não sofreram, não foi?

           Tínhamos sofrido? Sentíramos apenas saudades dela? Quem era ela, afinal? Pensamentos idiotas me passavam pela cabeça enquanto eu a olhava fixamente e a escutava explicar como quatro crianças escondidas dificultavam a vida alheia. E, muito embora eu desejasse renegá-la, rejeitá-la, nunca mais permitir que voltássemos a ser íntimas, vacilei, desejando profundamente amá-la outra vez e confiar nela.

           Chris se ergueu da cadeira e foi o primeiro a falar, numa voz que se livrara dos falsetes da puberdade e assumira um tom firme, profundo e masculino:

           — Naturalmente que estamos felizes por revê-la, mamãe! E sentimos muita saudade de você! Mas errou ao afastar-se e demorar tanto tempo, a despeito de quaisquer complicações.

           — Christopher — disse ela, arregalando os olhos de surpresa. — Você não parece o mesmo.

           Os olhos de mamãe passaram de Chris para mim e, depois, para os gêmeos. Sua vivacidade murchou.

           — Christopher, aconteceu algo errado?

           — Errado? — repetiu Chris. — Mamãe, o que pode estar certo em vivermos trancados num único quarto? Você disse que não pareço mais o mesmo. Pois olhe para mim. Por acaso sou um menininho? Olhe para Cathy, ela ainda é uma criança? Observe melhor os gêmeos; repare, em especial, no quanto eles cresceram. Depois, tome a olhar para mim e diga-me que eu e Cathy somos crianças que devem ser tratadas como tal, pois não conseguimos entender assuntos de adultos. Ficamos à-toa, rodando os polegares, enquanto você saiu pelo mundo a divertir-se. Através dos livros, Cathy e eu vivemos um milhão de vidas... é o nosso meio substitutivo de nos sentirmos vivos.

            Mamãe fez menção de interromper, mas Chris falou mais alto que ela, impedindo-a. Lançando um olhar desdenhoso aos inúmeros presentes que ela trouxera, acrescentou:

         — Então, você voltou com oferendas de paz, como costuma fazer quando sabe que procedeu errado. Por que insiste em pensar que seus estúpidos presentes podem compensar o que perdemos e continuamos a perder a cada minuto? Naturalmente, antes nós ficávamos deliciados com os jogos, brinquedos e roupas que você trazia à nossa prisão. Agora, porém, estamos mais crescidos; presentes não são o bastante!

           — Christopher, por favor — implorou ela, olhando nervosamente para os gêmeos e desviando rapidamente os olhos da direção deles. — Por favor, não fale como se tivesse deixado de amar-me. Eu não suportaria isso.

           — Eu a amo — foi a resposta de Chris. — Obrigo-me a continuar amando, a despeito do que você faz. Preciso amá-la. Todos nós a amamos, confiamos em você e acreditamos que esteja fazendo tudo para cuidar de nossos melhores interesses. Entretanto, mamãe, olhe para nós e veja-nos realmente. Cathy acha, e eu também, que você se recusa a ver o que está nos fazendo. Chega-se a nós com sorrisos, acenando-nos aos olhos e ouvidos esperanças brilhantes para o futuro, mas elas nunca se realizam. Há muito tempo, quando nos falou pela primeira vez a respeito de seus pais e desta casa, você afirmou que só ficaríamos trancados neste quarto durante uma noite; depois, mudou para poucos dias. Em seguida, foi por mais algumas semanas, então por mais alguns meses... e mais de dois anos já se passaram enquanto aguardamos a morte de um velho que talvez viva para sempre, a julgar pelo modo como os médicos conseguem trazê-lo de volta do túmulo. Este quarto já não está melhorando a nossa saúde. Será que você não vê isso? — concluiu ele, quase aos gritos, o rosto juvenil muito vermelho ao atingir, afinal, o limite do autocontrole.

            Eu julgara que jamais chegaria o dia em que ele atacasse nossa mãe, a sua adorada mãe.

           O tom elevado da voz de Chris deve tê-lo assustado, pois ele baixou a voz e continuou de modo mais calmo, embora suas palavras tivessem o impacto de tiros:

           — Mamãe, quer você herde ou não a imensa fortuna de seu pai, queremos sair deste quarto! Não na próxima semana, ou amanhã, mas hoje! Agora! Neste instante! Entregue-me a chave e nós iremos embora, para muito longe. E você poderá enviar-nos dinheiro, se quiser; nunca mais precisará mandar-nos nada, se preferir. E não terá que voltar a ver-nos, se esta for a sua escolha e a solução para todos os seus problemas; sairemos de sua vida e seu pai nunca precisará saber que existimos, você pode ficar, sozinha, com tudo o que ele lhe deixar como herança.

           Mamãe ficou branca de choque.

           Permaneci sentada na cadeira, sem terminar o almoço. Tive pena de mamãe e, ao mesmo tempo, senti-me traída por minha compaixão. Fechei a porta sobre ela, batendo-a com força, só em pensar naquelas duas semanas em que passamos fome... quatro dias comendo queijo e bolachas, três dias sem uma migalha de comida, tendo apenas água para beber. E as surras, o piche em meus cabelos e, sobretudo, o fato de Chris ser obrigado a cortar o próprio pulso para nutrir os gêmeos com seu sangue.

            E Chris... o que ele dizia a ela, a maneira dura e decidida como ele falava, era obra minha.

           Creio que ela adivinhou, pois me lançou um olhar penetrante, carregado de ressentimento.

           — Não me diga mais nada Christopher. É óbvio que está fora de si.

           Erguendo-me de um salto, postei-me ao lado de Chris.

            — Olhe para nós, mamãe! Observe nossas fisionomias saudáveis e radiantes, exatamente iguais à sua. Olhe com especial atenção para seus filhos menores, os gêmeos. Não parecem debilitados, não acha? Os rostos gordos não parecem abatidos, parecem? Os cabelos não perderam o brilho, perderam? Os olhos não estão sombrios e fundos, estão? Quando você olhar e reparar bem, verá o quanto cresceram, como estão vibrantes de saúde, não é mesmo? Se não consegue ter pena de mim e Christopher, tenha ao menos piedade dos gêmeos!

            — Pare! — gritou ela.

           Levantou-se de um pulo, deixando a cama onde se sentara à espera de que a rodeássemos como outrora. Girou nos calcanhares, a fim de não ser obrigada a ver-nos. Engasgou-se com soluços, mal conseguindo falar.

           — Não têm o direito de falar assim com sua mãe! Se não fosse por mim, estariam morrendo de fome na sarjeta!

           Não conseguiu prosseguir. Virou-se de lado, lançando a Chris um olhar desolado, suplicante.

           — Não fiz o melhor possível por vocês? Em que errei? O que lhes falta? Vocês sabiam como tinha que ser até a morte de seu avô. Concordaram em ficar aqui até ele morrer. E cumpri minha palavra. Vocês vivem num quarto aquecido e seguro. Trago-lhes de tudo o melhor; roupas, livros, jogos, brinquedos, as melhores roupas que o dinheiro pode comprar. Recebem boa alimentação e dispõem de um aparelho de televisão.

           Ficou de frente para nós, estendendo as mãos num gesto de súplica, parecendo prestes a cair de joelhos, implorando-me com o olhar.

           — Escutem, seu avô está tão doente que agora passa o dia inteiro de cama. Nem mesmo lhe permitem sentar-se na cadeira de rodas. Os médicos afirmam que ele não pode durar além de alguns dias ou, no máximo, algumas semanas. No dia em que ele morrer, subirei até aqui, destrancarei a porta e descerei com vocês. Terei dinheiro suficiente para manter vocês quatro numa universidade. Christopher cursará a faculdade de medicina e você, Cathy, terá aulas de dança. Contratarei os melhores professores de música para Cory e farei por Carrie tudo que ela desejar. Vocês querem jogar fora todos os anos que sofreram e suportaram, sem esperarem a recompensa, exatamente quando estão atingindo o objetivo! Lembram-se de como costumavam rir e falar das coisas que fariam quando tivessem a bênção de possuir mais dinheiro do que saberiam como gastar? Esqueceram os planos que fizemos... a nossa casa, onde voltaríamos a viver todos juntos? Não joguem tudo fora perdendo a paciência no momento em que estamos com a vitória nas mãos! Digam-me que me diverti enquanto vocês sofriam e eu admitirei que é verdade. Mas eu os recompensarei regiamente por isso!

           Oh, confesso que fiquei emocionada e desejei muito livrar-me da descrença. Quase consegui confiar nela outra vez, mas estremeci com a desconfiança de que tudo aquilo fosse mentira. Ela não nos dissera desde o início que nosso avô estava exalando o último suspiro... anos e anos exalando aquele último alento? Deveria eu gritar: “Mamãe, não acreditamos mais em você?” Eu queria feri-la, fazê-la sangrar como havíamos sangrado com nossas lágrimas, isolamento e solidão, sem falar nos castigos corporais.

           Todavia, Chris fitou-me severamente, fazendo-me sentir envergonhada. Poderia eu ser tão cavalheiresca quanto ele? Quem me dera ser capaz de ignorá-lo e abrir a boca para gritar tudo o que a avó nos infligira a troco de nada! Por algum estranho motivo fiquei calada. Talvez desejasse evitar que os gêmeos ficassem sabendo demais. Ou talvez esperasse que Chris contasse tudo a ela antes de mim.

            Chris fitava mamãe com suave compaixão, esquecendo o piche em meus cabelos, as semanas sem comer, os camundongos temperados com sal e pimenta e as surras.

            Tremia, indeciso, os olhos atormentados por visões de esperanças e desesperos, observando nossa mãe começar a chorar.

           Os gêmeos vieram agarrar-se furtivamente à minha saia quando mamãe se deixou cair numa das camas, soluçando e esmurrando o travesseiro, como uma criança.

           — Oh, mas vocês são filhos desalmados e sem coração! — lamentou-se, digna de pena. — Fazem isso comigo, sua mãe, a única pessoa que os ama neste mundo! A única que se importa com vocês! Vim procurá-los com tanta alegria, tão feliz por estar novamente com vocês, querendo dar-lhes as boas notícias e compartilhar com vocês minha satisfação... E o que vocês fazem? Atacam-me violenta e injustamente! Fazem-me sentir tão culpada e envergonhada quando, na realidade, tenho feito o melhor possível, e vocês não acreditam!

           Descera ao nosso nível, agora, chorando com o rosto enterrado no travesseiro, como eu fazia tempos atrás e Carrie continuava a fazer.

           Imediata e espontaneamente, Chris e eu nos sentimos contritos e arrependidos. Tudo o que ela dissera era a pura verdade: era a única pessoa que nos amava, que se importava conosco e nela residiam a nossa salvação, as nossas vidas, nossos futuros e nossos sonhos. Corremos para ela, Chris e eu, abraçando-a como pudemos, implorando perdão. Os gêmeos ficaram calados, apenas observando.

           — Mamãe, por favor, pare de chorar! Não quisemos magoar você. Estamos arrependidos, de verdade. Ficaremos. Acreditamos em você. O avô está mesmo moribundo, tem que morrer algum dia, não é mesmo?

           Ela continuava a chorar, inconsolável.

           — Fale conosco, mamãe, por favor! Conte-nos as boas notícias. Queremos saber. Queremos repartir sua alegria. Só dissemos aquelas coisas porque ficamos magoados quando você foi embora sem nos dizer o motivo. Mamãe, por favor. Por favor, mamãe!

           Nossas súplicas, lágrimas e angústias finalmente lhe chegaram ao consciente. De algum modo, conseguiu sentar-se e enxugar os olhos com um lenço de linho branco cercado por uma franja de renda de cinco centímetros de largura e bordado em branco com um enorme monograma "C".

           Empurrou-nos para um lado, livrando-se de nossas mãos como se estas a queimassem, e ficou em pé. Agora, recusava-se a fitar nossos olhos que imploravam, suplicavam, pediam.

           — Abram os presentes que escolhi para vocês com tanto carinho — disse em voz entrecortada por soluços engasgados. — Então, digam-me se não são lembrados e amados por mim. Então, digam-me que não pensei em suas necessidades nem zelei pelos seus melhores interesses. Que não tentei satisfazer-lhes os mínimos desejos. Digam-me que sou egoísta e não me importo com vocês.

            A maquilagem escura dos olhos escorria-lhe pelo rosto. O batom vermelho estava borrado. Os cabelos, que ela sempre mantinha impecavelmente penteados, estavam desfeitos e amassados. Ela entrara em nosso quarto como uma visão de perfeita beleza e agora parecia um manequim quebrado.

           Por que eu tinha sempre que pensar que ela era uma excelente atriz, representando um papel com todo o esforço e talento?

            Olhou para Chris, ignorando-me. E os gêmeos, a julgar pela preocupação que ela demonstrava pelo bem-estar e sensibilidade deles, bem poderiam estar na Cochinchina!

            — Encomendei um novo conjunto de enciclopédias para seu próximo aniversário, Christopher — informou com voz embargada, ainda limpando o rosto e tentando remover as manchas de maquilagem. — Exatamente o que você queria: a melhor enciclopédia já publicada, encadernada em couro genuíno vermelho, gravado a ouro de vinte e quatro quilates e com lombadas de mais de um centímetro de relevo. Fui diretamente à editora, a fim de encomendá-la especialmente para você. Os volumes terão seu nome gravado, assim como a data, mas não serão enviados para cá, a fim de evitar que alguém os veja por acaso.

           Engoliu em seco, guardando o lenço elegante.

           — Pensei muito para escolher o presente que mais lhe agradasse, da mesma maneira que sempre lhe dei o melhor para sua instrução.

           Chris parecia atordoado. O jogo de emoções contraditórias em seu rosto davam-lhe ao olhar uma aparência confusa, perplexa, aturdida e até mesmo indefesa. Oh, Deus, como ele devia amá-la, mesmo depois de tudo que ela nos fizera!

           Minhas emoções eram simples e diretas, sem a menor indecisão: eu ardia de raiva! Agora, ela trazia enciclopédias em couro genuíno, gravado a ouro de vinte e quatro quilates! Livros assim deviam custar mais de mil dólares, talvez dois ou três mil! Por que ela não depositava aquele dinheiro no nosso fundo de fuga? Tive ímpetos de berrar e protestar como Carrie, mas algo nos olhos azuis de Chris me fez continuar calada. Ele sempre quisera possuir uma enciclopédia encadernada em couro genuíno vermelho e mamãe a encomendara para ele; agora, o dinheiro já não tinha significado para ela. E talvez, apenas talvez, o avô morresse hoje ou amanhã e ela não precisasse alugar um apartamento ou comprar uma casa.

           Mamãe pressentiu minhas dúvidas.

           Mamãe ergueu a cabeça numa atitude régia e se voltou para a porta. Não abrira nossos presentes e não pretendia ficar para ver nossas reações. Por que eu chorava intimamente, quando a odiava? Eu não mais a amava... Não mesmo.

           Depois de abrir a porta ela disse:

           — Quando vocês tiverem pensado melhor na dor que me causaram hoje e puderem tratar-me novamente com amor e respeito, eu voltarei. Não antes disso.

           Assim ela chegou.

           E assim se foi.

           Assim ela chegara e partira, sem tocar em Carrie e Cory; sem beijá-los nem mal falar com eles, mas lhes dirigindo um olhar. E eu sabia por que motivo: ela não suportava olhar e ver o que ganhar uma fortuna estava custando aos gêmeos.

           Os dois pularam da mesa e correram para mim, agarrando-se à minha saia e fitando-me o rosto. Seus rostinhos estavam torturados por ansiedade e temor, estudando minha expressão como se também ficassem felizes se eu me sentisse feliz. Ajoelhei-me para dar-lhes todos os beijos e carinhos que ela esquecera, ou se sentira incapaz de dar aos filhos a quem causara tantos males.

           — Estamos esquisitos? — indagou Carrie, preocupada, segurando-me as mãos.

           — Não; claro que não. Você e Cory estão apenas pálidos, por não saírem ao sol.

           — Crescemos muito?

           — Sim, sim; claro que cresceram.

           E sorri, mesmo enquanto mentia. Simulando alegria e usando aquele sorriso falso à guisa de máscara, sentei-me no chão com os gêmeos e Chris. Juntos, começamos os quatro a abrir nossos presentes, como se fosse dia de Natal. Todos os presentes embrulhados com papéis finos caros, ou com papel aluminizado cor de prata e de ouro, e amarrados com vistosos e enormes laços de cetim de todas as cores.

           Rasgar os papéis, jogar fora as fitas e laços, arrancar as tampas das caixas, retirar o papel de seda... ver todas aquelas roupas lindas para cada um de nós. Olhar os livros novos... hurra! Examinar os novos brinquedos, os jogos, os quebra-cabeças... hurra! Oh, meu Deus, que enorme caixa com balas recobertas de açúcar, no formato de folhas!

           Ali, ante nossos olhos, estava a demonstração da preocupação dela. Admito que ela nos conhecia bem: nossos gostos, nossos passatempos prediletos, nossos tamanhos para roupas. Com os presentes, pagava-nos por todos aqueles meses longos e vazios em que fôramos deixados aos cuidados da bruxa avó, que muito gostaria de nos ver mortos e enterrados.

           E ela sabia que tipo de mãe tinha; sabia!

            Por meio de jogos, brinquedos e quebra-cabeças, procurava subornar-nos e obter nosso perdão por fazer algo que, no fundo da alma, sabia ser errado.

           Por meio de balas e doces, esperava tirar de nossas bocas, corações e mentes o amargo da bílis da solidão. Era evidente que, ao seu modo de ver as coisas, ainda não passávamos de crianças, embora Chris já precisasse barbear-se e eu necessitasse de um soutien... Ainda crianças... e ela nos manteria sempre crianças, como bem indicavam os títulos dos livros que trouxera para nós. Livros que já lera muito tempo atrás. Contos de fadas dos Irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen, que conhecíamos de cor. E Morro dos Ventos Uivantes e Jane Eyre, outra vez? Por que ela não fazia uma lista dos livros que já lêramos? Dos que já tínhamos recebido?

           Consegui sorrir ao enfiar pela cabeça de Carrie um novo vestido vermelho e atar-lhe no cabelo uma fita roxa. Agora, ela estava usando, como sempre desejara, suas cores prediletas. Calcei-lhe meias roxas e novos tênis brancos.

            — Você está linda, Carrie.

           E, de certa maneira, estava mesmo linda de tão feliz por ter roupas tão brilhantes e adultas, com as cores da realeza.

           Em seguida ajudei Cory a vestir as calças curtas de um tom vermelho brilhante e uma camisa branca com monograma vermelho bordado no bolso; o nó da gravata ficou a cargo de Chris, que aprendera com papai havia muito tempo.

           — Agora, devo vestir você, Christopher? — indaguei com sarcasmo.

           Ele replicou maliciosamente:

           — Se você quiser, fico nu para que possa me vestir.

           — Não seja indecente!

           Cory tinha um novo instrumento para tocar: um banjo! Oh, Deus, como ele tanto desejava ganhar um banjo! Ela se lembrara. Os olhos de Cory faiscavam:

       

       Oh, Suzana, não chore por mim,

       Pois eu vou pro Alabama,

       Tocando bandolim...

 

           Cory tocava a melodia e Carne cantava a letra. Era uma das músicas alegres prediletas de Cory e ele sabia tocá-la na guitarra, mas não conseguia tirar dela o som adequado. No banjo, ficava perfeita. Deus dotara Cory de dedos mágicos para a música.

           Deus me dotara de pensamentos malvados que me tiravam o prazer de tudo. De que adiantavam roupas lindas se ninguém as via? Eu queria coisas que não vinham embrulhadas em papéis bonitos e amarrados com fitas de cetim na caixa de um loja cara. Eu desejava coisas que o dinheiro não podia comprar. Teria ela notado meus cabelos cortados tão rente na testa? Percebera o quanto estávamos magros? Achara-nos saudáveis apesar da palidez de nossa pele fina?

           Pensamentos amargos, ruins, enquanto eu enfiava um doce na boca ávida de Carrie, depois outro na de Cory e, afinal, um na minha. Olhei raivosamente para as lindas roupas destinadas a mim. Um belo vestido de veludo, próprio para ser usado numa festa. Um conjunto rosa e azul de camisola e peignoir com chinelos combinando.

            Fiquei sentada, com o doce derretendo na boca, e senti o gosto azedo do nó que havia na minha garganta. Enciclopédias! Íamos passar o resto da vida ali dentro?

           Não obstante, doce feito com açúcar de bordo era o meu predileto; sempre fora. Ela trouxera aquela caixa de doces para mim, para mim! E só consegui engolir um pedaço, mesmo assim com grande dificuldade.

           Cory, Carne e Chris estavam sentados no chão, com a caixa de doces no centro do triângulo que formavam. Enfiavam um pedaço atrás do outro na boca, risonhos e satisfeitos.

            — Vocês deviam economizar esse doce — admoestei com amarga antipatia. — Talvez seja a última caixa de doces que verão durante muito, muito tempo.

           Chris olhou para mim; seus olhos azuis brilhavam de felicidade. Era fácil perceber que toda a sua fé e confiança haviam sido restaurados por uma única rápida visita, de mamãe. Por que ele não entendia que os presentes não eram mais que um disfarce, para ocultar o fato de que ela já não se importava conosco? Por que não percebia, como eu, que já não éramos para ela tão reais quanto fôramos outrora? Agora, éramos apenas mais um daqueles assuntos desagradáveis sobre os quais as pessoas evitam conversar, como os ratos no sótão.

           — Fique aí sentada, agindo como tola — disse Chris respingando em mim sua felicidade. — Prive-se do doce enquanto nós três satisfazemos nosso apetite por açúcar antes que os camundongos comam tudo. Cory, Carrie e eu vamos escovar os dentes enquanto você fica aí sentada, chorando, sentindo pena de si mesma e fazendo de conta que poderá alterar nossa situação à custa de sacrificar-se. Vamos, Cathy! Chore! Faça papel de mártir! Sofra! Bata com a cabeça na parede! Grite!

            ...E continuaremos aqui até que o avô morra e todo o doce tenha acabado há muito tempo.

           Detestei-o por zombar de mim! Levantei-me de um salto, corri para o lado oposto do quarto, virei-me de costas para eles e experimentei minhas roupas novas. Enfiei pela cabeça, um atrás do outro, três lindos vestidos. Abotoei-os facilmente na cintura, onde ficavam um pouco folgados. Todavia, o zíper não se fechava nas costas ao chegar à altura do busto. Despi o terceiro vestido e procurei as barbatanas do corpete. Nenhuma! Ela comprara para mim vestidos de menina: roupas infantis, demonstrando de forma gritante que ela se recusava a enxergar! Atirei os três vestidos no chão e pisoteei-os, amarrotando o veludo azul de tal forma que nunca mais poderia ser devolvido à loja.

           E Chris continuava sentado no chão, em companhia dos gêmeos, parecendo diabólico e rindo com um encanto travesso e juvenil que também me faria rir, se eu permitisse.

           — Faça uma lista de compras — pilheriou. — Já é tempo de começar a usar soutien e parar de sacudir-se toda por aí. E, uma vez que está com a mão na massa, tome nota de comprar também cinta.

           Senti ímpetos de esbofetear aquele rosto sorridente! Meu abdômen era uma caverna oca. E se minhas nádegas eram arredondadas e firmes, isso se devia aos exercícios e não à gordura!

           — Cale a boca! — berrei. — Por que preciso fazer uma lista de compras ou pedir alguma coisa a mamãe? Se ela realmente olhasse para mim, saberia que tipo de roupas que tenho e o que deveria usar! Como posso saber que tamanho de soutien devo pedir? E não preciso de cinta! Você é que precisa de uma sunga, e de ter na cabeça um tipo de bom senso que não consta dos livros!

           Fitei-o raivosamente, satisfeita ao ver sua expressão de atordoamento.

           — Christopher! — gritei, incapaz de controlar-me. — Às vezes odeio mamãe! E não é só isso, às vezes odeio você também! Às vezes, odeio todo mundo, sobretudo eu mesma! Às vezes, gostaria de estar morta, porque seria melhor do que estar enterrada viva aqui neste quarto! Não passamos de vegetais que andam, falam e estão apodrecendo!

            Meus pensamentos secretos tinham sido expulsos, vomitados como lixo, fazendo com que ambos os meus irmãos se encolhessem, empalidecendo. E minha irmãzinha tornou-se ainda menor, começando a tremer. Logo que as palavras me escaparam da boca, tive vontade de engoli-las de volta. Embora quase morta de vergonha, fui incapaz de pedir desculpas e retirar o que dissera. Girei nos calcanhares, correndo na direção do armário embutido, procurando a porta alta e estreita que me levaria à escada do sótão. Quando me magoava, e isso acontecia com freqüência, eu corria para a música, as roupas e sapatilhas de balé, nas quais eu podia girar e pular, dançando para afogar meus problemas. E em algum lugar daquele mundo vermelho imaginário onde eu piruetava loucamente, num esforço desvairado e desesperado para me exaurir até ficar insensível, eu via aquele homem, sombrio e distante, meio escondido por detrás das grandes colunas brancas que se elevavam até o céu cor-de-púrpura. Ele dançava comigo um apaixonado pas-de-deux sempre afastado de mim por mais que eu procurasse aproximar-me e lançar-me em seus braços, onde eu me sentiria protegida e amparada... e com ele eu finalmente encontraria um lugar seguro onde viver e amar.

            De repente, a música acabou. Vi-me de volta ao sótão abafado e poeirento, no chão, com uma perna sob o corpo. Eu caíra! Quando tentei levantar-me com grande esforço, mal consegui firmar o pé no chão. Meu joelho doía tanto que lágrimas de outra espécie me saltaram aos olhos. Manquei através do sótão, chegando à sala de aulas, sem me importar se danificara irremediavelmente o joelho, para o resto da vida. Escancarei uma janela e passei para o telhado escuro. Cheia de dor, desci lentamente o forte declive, só parando quando cheguei à beirada das calhas entupidas de folhas secas. Lá embaixo, bem longe, ficava o solo. Com lágrimas de dor e autocomiseração escorrendo pelo rosto e toldando-me a visão, fechei os olhos e deixei-me vacilar para perder o equilíbrio. Num minuto tudo estaria terminado e eu ficaria estendida sobre as roseiras espinhentas.

           A avó e mamãe poderiam alegar que alguma menina desconhecida e idiota subira ao telhado e caíra acidentalmente. Mamãe choraria ao ver-me morta e quebrada, estendida num caixão ainda trajando a malha e o saiote de bailarina azuis. Então, dar-se-ia conta do que fizera, desejaria ter-me de volta, destrancaria a porta para libertar Chris e os gêmeos, permitindo que tomassem a viver de verdade.

           Este era o lado dourado da moeda do suicídio.

           Mas tive que virá-la para ver o lado manchado de azinhavre. E se eu não morresse? Se eu caísse e as roseiras me amortecessem a queda, deixando-me aleijada e cheia de cicatrizes pelo resto da vida?

           Por outro lado, porém, se eu realmente morresse e mamãe não chorasse, não sentisse tristeza ou remorso, mas apenas alegria por ver-se livre de uma peste como eu? Como Chris e os gêmeos conseguiriam sobreviver sem que eu lá estivesse para cuidar deles? Quem faria o papel de mãe para os gêmeos,prodigalizando-lhes a afeição que Chris era às vezes incapaz de demonstrar de modo tão expansivo quanto eu? Quanto a Chris... talvez ele pensasse que não precisava realmente de mim, que livros e a nova enciclopédia encadernada em couro genuíno vermelho gravado a ouro de vinte e quatro quilates bastassem para tomar meu lugar. Quando ele se formasse em medicina e passasse a usar um “Doutor” antes do nome, isto seria o suficiente para satisfazê-lo pelo resto da vida. Contudo, eu sabia que nada daquilo seria o bastante se eu não estivesse a seu lado. E fui salva da morte pela minha capacidade de enxergar os dois lados da moeda.

           Afastei-me cegamente da beira do telhado, sentindo-me tola e infantil, mas ainda chorando. Meu joelho doía tanto que fui obrigada a rastejar pelo telhado, subindo até nosso lugar especial perto da chaminé, onde duas águas do telhado se encontravam para formar um canto seguro. Deitei-me de costas e fitei o céu cego e indiferente. Duvidei que Deus morasse lá em cima; também duvidei que o paraíso fosse lá.

           Deus e o paraíso estavam lá embaixo, no solo, nos jardins, nas florestas, nos parques, nas praias, nos lagos, em percorrer as estradas indo para algum lugar!

           O inferno era exatamente ali, onde eu estava, perseguindo-me insistentemente, tentando derrotar-me e transformar-me no que minha avó me julgava: filha do Demônio.

           Fiquei deitada no duro e frio telhado de ardósia até que a noite chegou e a lua apareceu, as estrelas cintilando raivosamente para mim, como se soubessem o que eu realmente era. Trajava apenas uma roupa de bailarina: malha e um daqueles ridículos saiotes rendados.

            Arrepios de frio encresparam-me a pele dos braços, mas permaneci onde estava a fim de planejar a minha vingança; minha vingança contra todos os que me haviam transformado de boa em má, fazendo de mim o que eu passaria a ser daquele dia em diante. Convenci-me de que ainda chegaria o dia em que minha avó e minha mãe estariam à minha mercê... e eu brandiria o açoite, manipularia o piche e controlaria o suprimento de comida.

           Tentei pensar no que faria exatamente com elas. Qual era o castigo adequado? Deveria trancá-las, ambas, e jogar a chave fora? Matá-las de fome, como haviam tentado fazer comigo?

           Um leve ruído interrompeu o fluxo sombrio e tortuoso de meus pensamentos. Na escuridão do início da noite, Chris chamou baixinho o meu nome. Parecia hesitante. Eu não precisava dele, não precisava de ninguém. Ele me decepcionara ao não compreender e, agora, eu não necessitava dele. Não mais.

           Não obstante, Chris se aproximou e deitou-se a meu lado. Trouxera consigo um pesado capote de lã e o estendeu sobre mim sem dizer uma palavra. Como eu, fitou o céu frio e sinistro. Um silêncio prolongado e amedrontador pairou entre nós. Nada havia em Chris que eu realmente detestasse ou mesmo não gostasse; tive uma vontade imensa de me virar de lado para lhe dizer isso e agradecer-lhe ter trazido o capote para mim, mas não consegui dizer uma só palavra. Queria que ele soubesse que me arrependia de haver agredido verbalmente tanto ele como os gêmeos, quando só Deus sabia que não precisávamos de outro inimigo além dos que já tínhamos. Meus braços, tremendo sob a quentura do capote, ansiavam por abraçá-lo e reconfortá-lo como tantas vezes ele fizera comigo quando eu despertava de mais um pesadelo. Entretanto, só consegui permanecer deitada e esperar que ele compreendesse que me sentia como que amarrada em nós cegos.

           Chris era capaz de sempre acenar a bandeira branca em primeiro lugar e lhe serei sempre grata por isso. Numa voz estranha e rouca, que parecia vir de muito longe, informou que os gêmeos e ele já tinham jantado, mas minha porção estava separada.

           — E só fingimos comer o doce todo, Cathy. Ainda sobrou muito para você.

           Doce. Ele vinha falar de doce! Ainda vivia num mundo infantil em que doce representava algo suficiente para fazer calar o choro? Eu amadurecera mais e perdera o entusiasmo pelos deleites infantis. Desejava o que todos os adolescentes queriam: liberdade para desenvolver-me até ficar adulta; liberdade para assumir o completo controle de minha vida! Embora desejasse dizer isso a Chris, minha voz secara com as lágrimas.

           — Cathy... o que você disse... nunca mais diga coisas tão feias e sem esperanças!

           — Por que não? — repliquei, engasgada. — Cada palavra que eu disse é verdadeira. Só exprimi o que sinto no íntimo, desabafei o que você mantém escondido. Bem, continue a esconder-se de si mesmo e constatará que todas as verdades se transformam em ácidos que nos corroem interiormente!

            — Nunca desejei estar morto! — exclamou ele, com a voz rouca de quem sofre de um resfriado permanente. — Nunca mais diga isso, ou pense na morte! Claro que tenho dúvidas e desconfianças ocultas dentro de mim, mas trato de rir, brincar, e me obrigo a acreditar, porque desejo sobreviver. Se você se matasse, levar-me-ia também. E logo os gêmeos nos seguiriam, pois quem cuidaria deles como verdadeira mãe?

           Aquilo me fez rir. Foi um riso duro, metálico, feio, duplicando o riso de minha mãe quando ela se sentia amarga.

           — Ora, Boneco Christopher, lembre-se de que temos uma mãe carinhosa e dedicada que, acima de tudo, pensa em nossas necessidades. Restaria ela para cuidar dos gêmeos.

           Então, Chris virou-se para mim, segurando-me pelos ombros.

           — Detesto quando você fala assim, como ela também fala às vezes. Acha que não sei que você é mais mãe para Cory e Carrie do que ela tem sido? Acha que não percebi que os gêmeos se limitaram a olhá-la como se fosse uma desconhecida? Cathy, não sou estúpido nem cego. Sei que mamãe cuida de si primeiro e pensa em nós depois.

            A velha lua estava no céu para iluminar-lhe as lágrimas. Sua voz em meu ouvido soara áspera, abafada, vindo do fundo de seu íntimo.

           Chris dissera tudo aquilo sem amargura, apenas com tristeza, da forma direta e sem emoção que os médicos empregam para informar um paciente de que está desenganado.

           Então, a sensação me engolfou como uma onda cataclísmica: eu amava Chris e ele era meu irmão! Ele me completava, dava-me o que me faltava, proporcionando-me estabilidade quando eu tinha ímpetos de me entregar ao frenesi e ao desvario. Que modo perfeito de me vingar de mamãe e dos avós! Deus não veria; fechara os olhos a tudo no dia em que Cristo foi crucificado. Mas papai estava lá em cima, observando-nos, e encolhi-me de vergonha.

           — Olhe para mim, Cathy. Por favor, olhe para mim.

           — Eu não falei sério, Chris; no duro que não falei sério. Você sabe como sou melodramática, desejo viver, tanto quanto qualquer pessoa, mas tenho muito medo de que algo nos aconteça, o tempo todo trancados. Por isso digo coisas horríveis só para sacudir você e obrigá-lo a enxergar. Oh, Chris, morro de vontade de estar cercada de gente. Quero ver novas caras, novos ambientes. Morro de medo pelos gêmeos. Quero sair para fazer compras, montar a cavalo, fazer tudo o que somos impedidos de fazer aqui.

           Na escuridão, deitados no telhado íngreme, procuramo-nos instintivamente. Abraçamo-nos como se fôssemos uma só pessoa, nossos corações batendo com força um de encontro ao outro. Não choramos, não rimos. Já não havíamos chorado um oceano de lágrimas? E de nada adiantara. Já não havíamos rezado um milhão de orações e aguardando em vão o auxílio que não se materializava? E se as lágrimas não adiantavam e nossas preces não eram escutadas, como poderíamos chegar até Deus e obrigá-lo a fazer algo por nós?

           — Chris, eu já disse uma vez e vou dizer novamente: precisamos tomar a iniciativa. Papai não dizia sempre que Deus ajuda a quem cedo madruga?

           Com o rosto colado ao meu, ele refletiu durante longo tempo.

           — Pensarei no assunto, embora, como disse mamãe, talvez herdemos todo aquele dinheiro a qualquer momento.

 

A surpresa de nossa mãe

            A cada dia dos dez que se passaram antes da visita seguinte de mamãe, Chris e eu especulávamos horas a fio a respeito do motivo pelo que ela viajara para a Europa, demorando-se tanto tempo e, sobretudo, qual era a grande novidade que ela reservava para nós?

           Consideramos aqueles dez dias como mais uma forma de punição. Pois era mesmo uma punição, um castigo, sabermos que ela estava na mesma casa e, apesar disso, era capaz de ignorar-nos e deixar-nos trancados, como se fôssemos mesmo camundongos do sótão.

           Portanto, quando ela finalmente apareceu, após todo aquele tempo, estávamos completamente castigados e muito temerosos de que ela jamais tornasse a aparecer caso Chris e eu mostrássemos mais alguma hostilidade ou repetíssemos nossas exigências no sentido de sermos libertados. Permanecemos calados e tímidos, resignados com nosso destino. O que faríamos se ela nunca mais voltasse? Não podíamos fugir utilizando a “escada” feita de lençóis rasgados; não quando os gêmeos ficavam histéricos com o simples fato de saírem para o telhado.

           Assim sendo, sorrimos para mamãe e não dissemos uma só palavra de queixa. Não lhe perguntamos qual o motivo que a levara a castigar-nos mais uma vez ao manter-se afastada durante dez dias, quando já ficara ausente durante meses. Aceitamos o que ela estivesse disposta a dar-nos. Fomos obedientes, como ela afirmara ter aprendido em relação a seu pai; portamo-nos como seus filhos disciplinados, obedientes e passivos. E, o que é mais, ela gostou de nós assim. Voltamos a ser seus “queridos” carinhosos e ternos.

           Já que nos mostramos tão bem comportados, carinhosos e a aprovamos de forma tão respeitosa e aparentemente confiante, ela decidiu que o momento era propício para soltar a sua bomba.

           — Queridos, alegrem-se por mim! Estou tão feliz!

           Riu e rodou sobre si mesma, abraçando-se pelo busto, amando seu próprio corpo ou, pelo menos, essa foi minha impressão.

           — Adivinhem o que aconteceu... Vamos, adivinhem!

           Chris e eu nos entreolhamos.

           — Nosso avô morreu — disse Chris cautelosamente, enquanto meu coração dava cambalhotas, preparando-se para pular de verdade se ela confirmasse a boa nova.

           — Não! — replicou ela bruscamente, como se sua felicidade houvesse diminuído.

           — Foi levado para o hospital — arrisquei como segundo palpite.

           — Não. Na realidade, agora já não odeio meu pai, de modo que não viria aqui para dizer a vocês que me alegro com a sua morte.

           — Então, por que não nos dá logo a boa notícia? — indaguei com indiferença. — Nunca seremos capazes de adivinhar. Agora, não conhecemos bem a vida que você leva.

           Ela ignorou minha insinuação e prosseguiu alegremente:

           — O motivo pelo qual passei tanto tempo afastada e que foi tão difícil explicar a vocês... casei-me com um homem maravilhoso, um advogado de nome Bart Winslow. Vocês gostarão dele. E ele vai adorar vocês todos. É bonito, alto, atlético e tem cabelos escuros. E adora esquiar, como você, Christopher. Joga tênis e é inteligente como você, querido.

           Naturalmente, ela olhava para Chris.

            — É encantador e todos gostam dele, inclusive meu pai. Fomos passar nossa lua-de-mel na Europa e os presentes que eu lhes trouxe foram comprados na Inglaterra, França, Espanha ou Itália.

           E continuou a falar, interminavelmente, sobre o novo marido. Chris e eu permanecemos calados.

           Desde a festa de Natal; Chris e eu comentáramos muitas vezes as nossas suspeitas. Por mais jovens que fôssemos na ocasião da festa, tínhamos discernimento bastante para compreender que uma mulher jovem, bela e tão necessitada de um homem como mamãe não deveria continuar viúva durante muito tempo. Não obstante, haviam-se passado quase dois anos sem um casamento, o que nos dera motivo para pensar que o homem bonito de cabelos escuros e basto bigode não era importante para mamãe; apenas um namorico passageiro, mais um dentre muitos pretendentes. E, no fundo de nossos corações ingênuos e tolos, convencemo-nos de que ela seria para sempre fiel e devotada à lembrança de nosso falecido pai, nosso pai louro de olhos azuis, belo como um deus grego, a quem ela amara tão desvairadamente a ponto de fazer o que fizera: casar-se com um parente tão próximo.

           Fechei os olhos e procurei não escutar sua detestada voz, que nos anunciava o fato de que outro homem tomara o lugar de papai. Agora, ela era esposa de outro homem, um tipo de homem totalmente diferente, que estava em sua cama e dormia com ela, e passaríamos a vê-la ainda menos. Oh, meu bom Deus, quanto tempo ainda ia durar aquilo?

           A notícia e o tom da voz dela fizeram nascer em meu peito um pequeno pássaro cinzento, o pânico, que se debatia desesperadamente na gaiola de minhas costelas... querendo sair, sair, sair!

           — Por favor — implorou mamãe, enquanto seus sorrisos e risadas, alegria e felicidade, lutavam por sobreviver na atmosfera estéril e desolada de nossa reação à notícia. — Tentem compreender e sentir alegria por mim. Vocês sabem que eu amava seu pai, mas ele se foi e há muito tempo; eu precisava amar alguém e necessitava de algum que me amasse.

           Vi Chris abrir a boca para dizer que a amava, que nós todos a amávamos; entretanto, ele comprimiu os lábios, compreendendo, como eu, que a espécie de amor a que ela se referia não era o dos filhos. E eu não a amava mais. Nem mesmo tinha certeza de gostar dela, agora. Contudo, consegui sorrir, simular, pronunciar as palavras para que os gêmeos não se assustassem com a expressão de meu rosto:

           — Sim, mamãe, alegro-me por você. É bom saber que encontrou alguém para amá-la outra vez.

           — Ele está apaixonado por mim há muito tempo, Cathy — prosseguiu ela rapidamente, encorajada e sorrindo confiantemente. — Embora estivesse firmemente decidido a continuar solteiro. E não foi fácil convencê-lo de que precisava de uma esposa. E seu avô nunca desejou que eu me casasse pela segunda vez, como outra punição pelo mal que cometi ao casar-me com o pai de vocês. Mas ele gosta de Bart e, depois que insisti muito, ele permitiu que eu me casasse com Bart e continuasse a ser sua herdeira.

           Fez uma pausa para morder o lábio inferior. Depois engoliu em seco, nervosa. Os dedos ornados de anéis subiram ao pescoço para brincar com o colar de pérolas verdadeiras que ela usava, traindo assim todos os trejeitos de uma mulher angustiada que, apesar de tudo, ainda conseguia sorrir.

           — Naturalmente, não amo Bart tanto quanto amava o pai de vocês.

            Ah! Com que voz fraca declarou isso! Seus olhos faiscantes e a pele radiante revelavam um amor tão grande como ela nunca sentira antes. Suspirei. Pobre papai!

           — Os presentes que você nos trouxe, mamãe... nem todos eles vieram da Europa ou das Ilhas Britânicas. Aquela caixa de doces veio de Vermont. Vocês também estiveram em Vermont? Ele é de lá?

            O riso foi vibrante de prazer, desinibido e até mesmo um pouco sensual, como se Vermont tivesse grande significação para ela.

           — Não, Bart não é de Vermont, Cathy. Mas tem uma irmã que mora lá e passamos um fim-de-semana com ela antes de viajarmos para a Europa. Foi lá que comprei o doce, pois sei como você gosta dele. Bart tem duas outras irmãs que moram no Sul. Ele é de uma pequena cidade da Carolina do Sul... Greenglena, Grenglenna, ou algo semelhante. Mas passou tanto tempo na Nova Inglaterra, onde se formou na Faculdade de Direito da Universidade de Harvard, que fala mais como nortista que como sulista. Vermont é tão lindo no outono; cheguei a perder o fôlego, de verdade. Naturalmente, quando as pessoas estão em lua-de-mel, não desejam a companhia de terceiros. Por isso, fizemos uma visita rápida à irmã de Bart e sua família, e passamos algum tempo no litoral.

           Lançou um rápido olhar de esguelha aos gêmeos e logo o colar de pérolas foi torcido a ponto de parecer prestes a arrebentar. Aparentemente, os colares feitos com pérolas verdadeiras são mais fortes que os de imitação.

            — Gostou dos barquinhos que eu lhe trouxe, Cory?

           — Sim, senhora — replicou o menino de modo muito educado, continuando a encará-la com os olhos grandes e rodeados por sombrias olheiras, como se ela fosse uma desconhecida.

           — Carrie, querida... as bonequinhas, eu as comprei para você na Inglaterra, a fim de aumentar sua coleção. Tentei encontrar outro berço, mas parece que já não fabricam mais berços para casas de bonecas.

           — Tudo bem, mamãe — disse Carrie, fitando o chão. — Chris e Cathy fizeram para mim um berço de papelão e gosto muito dele.

           Oh, Deus, será que ela não via?

           — Seu marido sabe a respeito de nós? — indaguei, muito séria.

           Chris fitou-me raivosamente por ter feito a pergunta, parecendo dizer-me silenciosamente que, naturalmente, nossa mãe não era falsa e nem deixaria de contar ao novo marido que tinha quatro filhos escondidos, que alguém considerava filhos do Demônio.

           Mais uma vez as sombras toldaram a felicidade de mamãe. Mais uma vez eu fizera uma pergunta inadequada.

           — Ainda não, Cathy. Todavia, logo que papai morrer eu falarei com Bart a respeito de vocês quatro. Explicarei nos mínimos detalhes. Ele entenderá; é bondoso e delicado. Vocês gostarão dele.

           Ela já dissera isto mais de uma vez. E eis ali mais uma coisa que teria que esperar pela morte do velho.

           — Cathy, pare de me olhar assim! Eu não podia contar a Bart antes do casamento! Ele é o advogado de seu avô. Eu não podia permitir que tomasse conhecimento de meus filhos. Ainda não. Só depois que o testamento for lido e o dinheiro esteja em meu nome.

           Eu tinha na ponta da língua as palavras para dizer que um homem tinha o direito de saber que sua futura esposa tinha quatro filhos do primeiro casamento.

            Oh, como eu desejava dizer isso! Mas Chris me olhava ferozmente e os gêmeos estavam muito juntos, encolhidos, os grandes olhos azuis fixados no aparelho de televisão. E eu não sabia se devia falar ou ficar calada. Pelo menos, quando se fica calado não se adquire novos inimigos. Além disso, talvez mamãe tivesse razão. Oh, Deus, permita que ela esteja certa! Deixe que minha fé seja renovada. Deixe-me acreditar que ela não é bonita apenas por fora, mas por dentro também.

            Deus não estendeu o braço para pousar em meu ombro a mão cálida e reconfortante. Permaneci sentada e calada, compreendendo que minhas suspeitas esticavam ao máximo a corda entre nós.

           Amor. Com que freqüência essa palavra aparecia nos livros. Insistentemente. Quando a pessoa tinha riqueza, saúde, beleza, talento... não tinha nada se não tivesse amor. O amor transformava tudo o que era comum em algo maravilhoso, poderoso, embriagador, encantador.

           Esse era o caminho seguido pelos meus pensamentos num dia de início do inverno, quando a chuva fustigava o telhado e os gêmeos, sentados no chão do quarto, assistiam à televisão. Chris e eu estávamos no sótão, deitados lado a lado nos velhos colchões colocados perto das janelas da sala de aulas, lendo juntos um dos livros antigos que mamãe trouxera da grande biblioteca no andar térreo da mansão. Em breve o sótão estaria frio como um inverno polar, de modo que passávamos lá o maior tempo possível enquanto a temperatura ainda permitia. Chris gostava de correr os olhos pela página e logo virar para a seguinte. Eu preferia reler as frases mais bonitas, às vezes voltando atrás para tornar a lê-las. Discutíamos incessantemente a esse respeito.

            — Leia mais depressa, Cathy! Você tenta absorver as palavras.

           Hoje ele se mostrava paciente. Virou-se de costas e fitou o teto enquanto eu lia devagar, procurando e demorando-me nas frases belas e bem redigidas, absorvendo a sensação da era vitoriana, em que as pessoas usavam roupas tão lindas, falavam de modo tão elegante e encaravam o amor de forma tão profunda. Desde o primeiro parágrafo, a estória nos cativara com seu encanto místico e romântico. Cada página tecia vagarosa e elaboradamente um complicado enredo envolvendo dois enamorados chamados Lily e Raymond, que se viam obrigados a sobrepujar obstáculos monumentais para encontrarem e alcançarem o mágico lugar onde todos os sonhos se transformam em realidade. Oh, Deus, como eu desejava encontrar aquele lugar! Então, descobri a tragédia da vida deles. Durante todo o tempo eles haviam pisado sobre a mágica grama cor de púrpura... Imaginem! Todo o tempo naquele lugar mágico e nunca tinham baixado o olhar para constatar isso. Eu detestava finais infelizes! Fechei raivosamente o detestável livro e o joguei contra a parede.

           — É a estória mais estúpida, tola, ridícula! — exclamei furiosa para Chris, como se este fosse o autor do livro. — Não importa quem eu amar, aprenderei a perdoar e esquecer! — prossegui, gritando acima do barulho da tempestade que rugia lá fora, eu e a intempérie pulsando no mesmo ritmo crescente. — Ora, por que não poderia ser escrito de modo diferente? Como é possível duas pessoas inteligentes flutuarem com a cabeça nas nuvens, sem entenderem que ignorar a realidade sempre pode trazer má sorte? Nunca, nunca serei como Lily! Nem como Raymond! Tolos idealistas, que não têm o bom senso suficiente para olharem ocasionalmente o chão onde pisam!

           Meu irmão pareceu divertir-se com o fato de eu levar tão a sério uma estória de ficção. Depois, reconsiderando, olhou pensativamente a chuva torrencial que caía lá fora.

           — Talvez os enamorados não devam olhar para o chão. Esse tipo de estória é narrado através de símbolos: a terra representa a realidade, e a realidade representa frustrações, moléstias fortuitas, morte, homicídio, e todas as outras espécies de tragédias. Os enamorados devem olhar para o céu, pois lá em cima as belas ilusões não podem ser destroçadas.

           Carrancuda, amuada, encarei-o pensativamente.

           — Quando eu me apaixonar, erguerei uma montanha que tocará o céu — comecei. — Então, o meu amado e eu teremos o melhor que existe em ambos os mundos: a firme realidade sob nossos pés, a cabeça nas nuvens a fim de mantermos intactas todas as nossas ilusões. E a grama cor-de-púrpura crescerá por todos os lados, chegando-nos à altura dos olhos.

           Chris riu, abraçou-me e beijou-me de leve, com ternura, os olhos muito suaves e carinhosos no ambiente turvo e frio do sótão.

           — Oh, sim, a minha Cathy seria capaz disso: manter todas as suas fantasiosas ilusões, dançando na grama cor-de-púrpura da altura de seus olhos, usando roupas feitas com nuvens. Saltaria, fazendo piruetas, até que seu desajeitado amante também aprendesse a dançar com tanta graça quanto ela.

           Vendo-me colocada em areia movediça, pulei depressa para terreno mais firme:

           — Contudo, é uma estória bonita, a seu modo peculiar. Fico muito triste por Lily e Raymond terem que levar vidas separadas, quando poderia ter sido de outro modo. Quando Lily contou a Raymond toda a verdade, afirmando que fora virtualmente violentada por aquele homem horrível, Raymond não devia acusá-la de seduzi-lo! Ninguém em seu juízo perfeito pensaria em seduzir um homem que tivesse oito filhos.

           — Oh, Cathy, às vezes você é mesmo demais!

           A voz de Chris pareceu-me mais profunda que de costume ao dizer isso. Seu olhar delicado passeou-me vagarosamente pelo rosto, demorando-se nos lábios depois descendo para o busto e as pernas vestidas com a malha branca de bailarina. Sobre a malha eu usava uma saia curta de lã e um suéter também de lã. Então o olhar de Chris tornou a subir até se encontrar com meus olhos surpresos. Corou quando continuei a encará-lo e, pela segunda vez naquele dia, desviou o rosto para o lado. Eu estava bastante próxima dele para ouvir-lhe o coração bater cada vez mais depressa. E, de repente, as batidas de meu coração também se aceleraram, entrando no mesmo ritmo que o dele. Chris lançou-me um olhar de esguelha. Nossos olhos se encontraram. Encaramo-nos. Ele riu nervosamente, tentando disfarçar, fingindo que nada daquilo poderia ser sério.

           — Você estava certa no início, Cathy. Uma estória estúpida, tola. Ridícula! Só gente louca morreria por causa de amor. Aposto cem contra um que essa besteira romântica foi escrita por uma mulher!

           Pouco antes eu desprezara o autor por ter escrito um final tão infeliz, mas apressei-me em fazer sua defesa:

           — T. M. Ellis bem poderia ser um homem! Embora eu duvide que qualquer escritora do século dezenove conseguisse publicar seus livros a menos que usasse iniciais ou um pseudônimo masculino. Por que todos os homens julgam que aquilo que é escrito pelas mulheres é banalidade, besteira, ou não passa de lixo imprestável! Os homens não têm idéias românticas? Não sonham com encontrar o amor perfeito? E, em minha opinião, Raymond era muito mais estúpido que Lily!

           — Não me pergunte como são os homens! — esbravejou Chris com tanta amargura que chegou a parecer fora de si. Prosseguiu raivosamente: — Aqui em cima, vivendo como vivemos, como conseguirei saber algum dia o que um homem costuma sentir? Aqui em cima, sou proibido de ter idéias românticas. Tudo se limita a não fazer isto, não fazer aquilo, manter os olhos afastados, não ver o que desfila à minha frente, exibindo-se, fazer de conta que sou apenas um irmão desprovido de sentimentos e de emoções que não sejam infantis. Tenho a impressão de que algumas moças estúpidas pensam que um futuro médico não tem sexualidade!

           Estendi a mão para tocar-lhe o braço.

           — Chris — murmurei, quase chorando. — Acho que sei exatamente o que você precisa para senti-se homem.

           — Sim — replicou ele, irritado. — E o que você pode fazer a respeito?

           Agora, nem mesmo olhava para mim. Em vez disso, fixou o olhar no teto. Eu sofria por ele. Sabia o que o deprimia; Chris abria mão de seu sonho por minha causa, a fim de poder ser como eu e pouco se importar com o fato de herdarmos ou não uma fortuna. E para ser como eu, tinha que se tornar azedo, amargo, detestar todo mundo e desconfiar das motivações ocultas das outras pessoas.

           Hesitante, estiquei o braço para acariciar-lhe os cabelos.

           — Um corte de cabelo, é o que você precisa. Seu cabelo está bonito e comprido demais. Para sentir-se homem, tem que usá-lo mais curto. No momento, ele está parecido com o meu.

           — E quem lhe disse que seu cabelo é bonito? — perguntou ele, com voz muito tensa. — Talvez fosse bonito antigamente, antes do piche.

            No duro? Pois eu me lembrava perfeitamente das inúmeras ocasiões em que seu olhar dizia que meus cabelos eram mais que simplesmente bonitos. E lembrava-me, também, de sua expressão ao pegar a tesoura para cortar os cabelos tão delicados e quebradiços de minha testa. Cortou-os com tanta relutância que parecia estar amputando os próprios dedos e não apenas cabelos indolores. Então, um dia eu o surpreendera sentado ao sol que penetrava pela janela do sótão, manuseando compridas mechas do cabelo que cortara. Cheirou-as, passou-as no rosto, depois nos lábios, e guardou-as numa caixa que escondia sob o travesseiro.

           Não foi fácil para mim forçar uma risada para iludi-lo e não revelar que o vira fazer aquilo.

           — Oh, Christopher, seus olhos azuis são deveras expressivos! Quando escaparmos dessa prisão e estivermos livres no mundo, terei pena de todas as garotas que se apaixonarão por você. Em especial, terei pena de sua esposa, com um marido tão belo para encantar as clientes e induzi-las a namorá-lo. Se eu fosse sua esposa, seria capaz de matá-lo se soubesse que cometeu uma única infidelidade conjugal! Eu o amaria tanto, sentiria tanto ciúme... Seria até mesmo capaz de obrigá-lo a aposentar-se da medicina aos trinta e cinco anos de idade.

           — Eu nunca disse que seu cabelo era bonito — replicou ele com rispidez, ignorando tudo que eu dissera.

           Acariciei-lhe o rosto bem de leve, sentindo os fios que precisavam ser raspados.

       — Não se mexa daí; vou buscar a tesoura. Sabe, faz muito tempo que não lhe corto o cabelo.

       Por que me incomodar de cortar os cabelos de meus irmãos quando a nossa aparência não influía no tipo de vida que levávamos? Carrie e eu não aparávamos o cabelo desde que ali chegáramos. Só os cabelos de minha testa foram cortados como sinal de submissão a uma velha malvada e impiedosa.

           Enquanto corria para buscar a tesoura, refleti como era esquisito que, embora nenhuma de nossas plantas crescessem, nossos cabelos cresciam depressa e com abundância. Parecia que em todos os contos de fadas que eu já lera as donzelas em perigo eram sempre louras, de cabelos compridos. Alguma morena já fora aprisionada numa torre, se um sótão pudesse ser considerado uma torre?

           Chris sentou-se no chão. Ajoelhei-me atrás dele. Embora os cabelos lhe caíssem até abaixo dos ombros, ele não queria que eu os aparasse muito.

           — Agora, devagar com essa tesoura — advertiu ele nervosamente. — Não corte demais de uma só vez. Sentir-me másculo de uma hora para outra nesse sótão, numa tarde chuvosa, pode ser perigoso — pilheriou sorrindo.

           Então, soltou uma gostosa risada, exibindo dentes regulares, alvos e brilhantes. Eu conseguira trazê-lo de volta ao normal.

            Imitando os barbeiros, prendi-lhe os cabelos com um pente e aparei-os, não me atrevendo a cortar mais que alguns milímetros de cada vez. Tinha uma imagem mental de como queria que ele ficasse, como alguém que eu admirava muito.

           Quando terminei o serviço, escovei os pedaços de cabelos brilhantes que lhe haviam caído nos ombros e recuei para constatar que meu trabalho não fora nada mau.

           — Pronto! — exclamei triunfante, satisfeita por ter dominado o que me parecia uma arte difícil. — Você não só está extremamente bonito, como também excepcionalmente másculo! Embora tenha sido sempre muito másculo, é uma pena que não tivesse consciência do fato.

           Entreguei-lhe o espelho de prata com meu monograma gravado nas costas. O espelho representava um terço do conjunto de prata verdadeira que mamãe me dera como presente de aniversário: escova, pente e espelho, todos três cuidadosamente escondidos, para impedir que a avó tomasse conhecimento de que eu possuía valiosos objetos de vaidade e orgulho.

           — Meu Deus! Você me deixou parecido com um Príncipe Valente louro! De início, não gostei, mas agora estou vendo que mudou um pouco o corte, de modo a não ficar tão quadrado. Fez o penteado em curva, para realçar-me o rosto. Muito obrigado, Catherine. Eu não imaginava que fosse tão hábil cabeleireira.

           — Tenho muitos predicados que você ignora.

           — Começo a desconfiar.

           — E o Príncipe Valente devia ter a sorte de se parecer com meu irmão másculo, bonito e louro — brinquei, sem deixar de admirar minha obra de arte.

           Oh, Deus, algum dia Chris partiria os corações femininos!

           Ele colocou o espelho de lado, num gesto muito natural; antes que eu lhe adivinhasse a intenção, saltou sobre mim como um gato! Lutou comigo, arrastando-me de volta ao chão e, ao mesmo tempo, procurando agarrar a tesoura! Arrancou-a de minha mão e, depois, segurou um punhado do meu cabelo!

           — Agora, minha bela, vamos verificar se não serei capaz de fazer o mesmo por você!

           Gritei, aterrorizada!

           Empurrei-o, jogando-o para trás, e me levantei de um pulo. Ninguém iria cortar um milímetro sequer de meu cabelo! Talvez ele agora estivesse liso e fino demais, talvez não fosse tão sensacional como antes, mas era todo o cabelo que eu possuía e, mesmo agora, mais bonito que o da maioria das jovens. Fugi, correndo, da sala de aulas. Passei pela porta que se abria para o imenso sótão, esgueirando-me por detrás de colunas, rodeando baús velhos, saltando mesinhas, pulando sobre poltronas e sofás cobertos com capas de pano. As flores de papel balançavam loucamente quando eu passava correndo e Chris me perseguia. As chamas das velas grossas e curtas que mantínhamos acesas durante o dia para alegrar e aquecer o vasto espaço frio e sombrio bruxuleavam à nossa passagem, quase se apagando.

           E, por mais depressa que eu corresse, por mais astúcia que empregasse nas minhas esquivas, não conseguia livrar-me do perseguidor! Olhei por cima do ombro e nem consegui reconhecer-lhe o rosto, o que me amedrontou ainda mais. Estirando-se para diante, ele tentou agarrar os cabelos longos que esvoaçavam às minhas costas, parecendo muito decidido a cortá-los!

           Chris passara a detestar-me? Por que gastara um dia inteiro tentando devotadamente salvar-me os cabelos? Apenas para ceifar minha beleza por mero divertimento?

            Corri de volta na direção da sala de aulas, planejando chegar lá antes dele. Então, fecharia a porta com força, passando-lhe a chave; Chris voltaria ao normal e entenderia o absurdo da situação.

           Talvez ele tenha pressentido minha intenção e dado mais velocidade às pernas compridas: pulou para a frente e agarrou minhas longas madeixas louras, fazendo-me gritar quando tropecei e caí de bruços!

           Não caí sozinha: Chris também caiu em cima de mim! Uma dor aguda penetrou-me o flanco! Berrei novamente, desta vez, não de terror mas de choque.

           Chris estava em cima de mim, com as mãos apoiadas no chão, olhando-me com o rosto muito branco e amedrontado.

           — Machucou-se? Oh, Deus! Você está bem, Cathy?

           Eu estava bem? Movendo a cabeça, fitei o fluxo de sangue que me manchava rapidamente o suéter. Chris também viu. Seus olhos azuis ficaram vidrados, desvairados, consternados. Com dedos trêmulos, começou a desabotoar a frente do agasalho, a fim de abri-lo e examinar o ferimento.

           — Oh, Deus... — sussurrou, antes de exalar um suspiro de alívio. — Puxa vida! Graças a Deus... Tive muito medo de que fosse um furo. Uma penetração profunda seria grave, mas é apenas um corte comprido, Cathy. É feio e sangra muito. Não mova um músculo! Fique onde está enquanto vou ao banheiro buscar remédios e curativos.

           Primeiro, beijou-me no rosto e, em seguida, correu como um louco na direção da escada. Eu poderia ter ido com ele e poupado tempo, mas os gêmeos estavam no quarto e veriam o sangue. Bastaria isso para que começassem a berrar.

           Chris voltou correndo, em poucos minutos, com o nosso estojo de pronto-socorro. Deixou-se cair de joelhos ao meu lado, com as mãos ainda úmidas da lavagem rápida que fizera no banheiro, apressado demais para enxugá-las direito.

           Fiquei fascinada ao constatar que ele sabia exatamente o que fazer. Em primeiro lugar, dobrou uma toalha grossa e usou-a para comprimir o comprido talho. Parecendo muito sério e compenetrado, apoiou-se sobre a compressa, verificando a intervalos freqüentes se o sangue estancara. Quando isto aconteceu, Chris aplicou no corte um anti-séptico que ardia como fogo e doía mais que o ferimento.

           — Sei que arde, Cathy... mas não posso evitar... tenho que usar isto para não haver infecção. Gostaria de ter materiais de sutura, mas talvez a cicatriz não seja permanente; rezo para que não seja. Seria tão bom que as pessoas pudessem atravessar a vida inteira sem sofrerem cortes no invólucro perfeito que trazem de nascença. E aqui estou eu, o primeiro a causar uma cicatriz em sua pele. Se você tivesse morrido por minha causa, o que poderia acontecer se a tesoura estivesse num ângulo diferente, eu também desejaria morrer.

           Terminara de fazer o papel de médico e enrolava meticulosamente o restante da gaze antes de tornar a embrulhá-la no papel azul e guardá-la de volta no estojo. Guardou também o esparadrapo e fechou a tampa da caixa.

           Debruçado sobre mim, com o rosto acima do meu, seus olhos pareciam muito inquisitivos, preocupados, intensos. Olhos azuis, iguais aos de toda a família. Entretanto, naquele dia chuvoso, captavam as cores das flores de papel, transformando-se em duas límpidas poças iridescentes. Senti um nó na garganta, imaginando onde estaria o menino que eu conhecera, onde estaria meu irmão e quem seria aquele jovem de barba loura que me fitava nos olhos de modo tão prolongado. Bastava aquele olhar para que eu mergulhasse numa espécie de encantamento. E maior que qualquer dor ou sofrimento pelos quais eu passara antes, ou passaria depois, foi a dor que me causou o sofrimento que divisei nas cores caleidoscópicas dos olhos torturados de meu irmão.

            — Chris — murmurei, sentindo-me irreal, — Não me olhe assim. A culpa não foi sua.

           Peguei-lhe o rosto entre as palmas das mãos e puxei-o de encontro ao seio, como vira mamãe fazer outrora.

            — É apenas um arranhão que não dói (embora doesse terrivelmente). E sei que você não fez de propósito.

           Ele replicou com voz rouca, engasgada:

       — Por que você correu? Persegui-a porque correu. E estava apenas brincando. Seria incapaz de cortar um só fio de seus cabelos; foi só uma brincadeira. E você estava enganada ao dizer que achava seu cabelo bonito. É muito mais que bonito. Acho que você tem os cabelos mais lindos do mundo.

           Senti uma punhalada no coração quando ele ergueu um pouco a cabeça, a fim de espalhar-me os cabelos, formando um leque que cobria o seio desnudo. Percebi que aspirava profundamente o meu cheiro. Permanecemos deitados em silêncio, escutando a chuva de inverno fustigar o telhado pouco acima de nossas cabeças. Silêncio profundo ao redor de nós. Sempre o silêncio. As vozes da natureza eram as únicas que nos chegavam até o sótão. E a natureza raramente falava num tom suave e amistoso.

           A chuva no telhado foi diminuindo gradativamente até que o sol apareceu para incidir sobre nossos cabelos arrancando-lhes reflexos semelhantes a longos e faiscantes fios de brilhantes.

           — Veja — disse eu a Chris. — Uma das tábuas do postigo da janela do oeste caiu.

           — Ótimo — disse ele, parecendo sonolento e satisfeito. — Agora, teremos sol onde não tínhamos antes.

           Então, acrescentou num sussurro:

           — Estou pensando em Raymond e Lily; na busca que empreenderam pelo lugar onde crescia a grama cor-de-púrpura, onde todos os sonhos se tornam realidade.

           — É mesmo? Sob certo aspecto, eu estava pensando na mesma coisa — repliquei, também num sussurro.

           Torci incessantemente em volta do polegar uma mecha de seus cabelos louros, simulando não perceber que uma de suas mãos acariciava-me o seio que não ficara oculto sob sua cabeça. Uma vez que não protestei, ele se atreveu a beijar o bico do seio. Sobressaltei-me, espantada, sem saber por que razão aquilo me proporcionava uma sensação tão estranha, extraordinariamente excitante. O que era um bico de seio senão um montinho mais escuro na pele?

           — Posso imaginar Raymond beijando Lily onde você me beijou — disse eu, sem fôlego, querendo que ele parasse e, ao mesmo tempo, desejando que continuasse. — Mas não consigo imaginá-los fazendo o que vem em seguida.

           Palavras capazes de me fazerem a cabeça explodir. As palavras exatamente adequadas a fazê-lo fitar-me intensamente, com luzes estranhas faiscando nos olhos que pareciam mudar constantemente de cor.

           — Cathy, sabe o que vem em seguida?

           Senti o rosto esquentar.

           — Sim; sei mais ou menos. Você sabe?

            Ele deu uma risadinha seca, como se costuma ler nos romances.

           — Claro que sei. No meu primeiro dia de escola, fui informado no banheiro dos meninos. Os mais velhos não sabiam falar de outra coisa. Escreviam nas paredes palavrões cujo significado eu desconhecia. Mas logo recebi explicações detalhadas. Garotas, beisebol, garotas, futebol, garotas, garotas, garotas. Só sabiam conversar sobre garotas e as diferenças que existiam entre elas e nós. É um assunto fascinante para a maioria dos rapazes e, suponho, dos homens também.

           — Mas não é fascinante para você?

           — Para mim? Não penso em garotas ou sexo, embora preferisse que você não fosse tão malditamente linda! E também ajudaria se você não estivesse sempre tão perto de mim, tão disponível.

           — Então, você pensa em mim? Acha que sou bonita?

           Um gemido abafado escapou-lhe dos lábios, mais como um lamento. Sentou-se num arranco, fitando o que meu suéter aberto deixava à mostra, pois o leque formado com meus cabelos se desfizera. Se eu não tivesse cortado a parte superior da malha de balé, ele não estaria vendo tanta coisa, mas eu fora obrigada a cortar o corpete justo demais para mim.

           Com dedos trêmulos e desajeitados, Chris abotoou a frente do agasalho, mantendo os olhos desviados dos meus.

           — Meta definitivamente uma coisa na cabeça, Cathy: é claro que você é bonita, mas irmãos não consideram as irmãs como garotas, nem sentem por elas qualquer tipo de emoção que não seja tolerância e afeição fraternal, e, às vezes, ódio.

           — Quero que um raio me fulmine neste instante se você sentir ódio por mim, Christopher.

           Ele ergueu as mãos para cobrir o rosto, escondendo-se. Quando baixou a proteção, estava sorrindo, alegre. Pigarreou e disse:

           — Vamos. Já é tempo de descermos para junto dos gêmeos, antes que eles derretam os olhos de tanto fitarem aquele tubo luminoso.

           Senti dor ao levantar-me, embora Chris me amparasse. Abracei-me a ele, com o rosto colado em seu peito. Embora de tentasse afastar-me imediatamente, agarrei-me com mais força.

           — Chris... o que fizemos há pouco... foi pecado?

           Ele tornou a pigarrear.

           — Se você pensar assim, então foi.

           Que espécie de resposta era aquela? Se os pensamentos sobre pecado ficassem de lado, aqueles momentos no chão, quando ele me tocara tão carinhosamente com dedos e lábios mágicos e excitantes, foram os melhores que passei desde que chegáramos à abominável mansão. Ergui os olhos para verificar o que ele estava pensando e vi nos dele aquela estranha expressão. Paradoxalmente, Chris parecia mais feliz e mais triste, mais maduro e mais jovem, mais sábio... ou apenas sentia-se agora um homem? Se fosse isso, eu me alegrava, pouco importando se o que fizéramos era ou não pecaminoso.

            De mãos dadas, descemos para o quarto a fim de nos juntamos aos gêmeos. Cory dedilhava o banjo, com o olhar grudado na televisão. Então, pegou a guitarra e começou a tocar uma de suas composições. O banjo servia apenas para músicas alegres, que mexiam com os pés da gente. A melodia de Cory era como a chuva no telhado: prolongada, triste e monótona. Carrie cantava a letra simples que ele também compusera:

 

           Vou ver o sol,

           Vou encontrar meu lar,

           Vou sentir o vento,

           Vou tornar a ver o sol.

 

            Sentei-me no chão, perto de Cory, e tirei-lhe a guitarra das mãos, pois também sabia tocar um pouco. Ele me ensinara, aliás, ensinara a todos nós. E cantei para ele a triste canção de Dorothy no filme O Mágico de Oz; um filme que os gêmeos adoravam toda vez que era exibido na televisão. Quando terminei de cantar sobre os pássaros que voavam acima do arco-íris, Cory indagou:

           — Não gosta de minha canção, Cathy?

           — Pode apostar que gosto de sua canção, mas é muito triste. Que tal escrever uma letra alegre, com um pouco de esperança?

           O pequeno camundongo estava enfiado no bolso da camisa de Cory, apenas o rabo do lado de fora, catando migalhas de pão que restavam no fundo. Afinal, Mickey torceu o corpo e a cabeça apareceu. Depois, parte do corpo. O ratinho segurava delicadamente nas patas dianteiras um pedaço de pão e começou a roê-lo. A expressão do rosto de Cory quando ele baixou a cabeça para fitar seu primeiro animalzinho de estimação comoveu-me tão profundamente que desviei o rosto para não chorar.

           — Cathy, você sabe que mamãe nunca disse nada a respeito da minha mascote?

           — Não reparou em Mickey, Cory.

           — Por que não reparou?

           Suspirei, sem saber ao certo quem ou o que minha mãe era agora, senão uma desconhecida a quem nós amáramos no passado. Uma coisa eu aprendera: não é só a morte que nos rouba as pessoas que amamos e de quem necessitamos.

           — Mamãe tem um novo marido — disse Chris num tom animado. — Quando a pessoa está apaixonada só repara em sua própria felicidade, mas não na dos outros. Em breve ela notará que você tem um amigo.

           Carrie olhava para o meu agasalho.

           — Cathy, o que é isso no seu suéter?

           — Tinta — respondi sem a menor hesitação. — Chris estava tentando ensinar-me a pintar e ficou zangado quando meu quadro ficou mais bonito do que todos os que ele fez até hoje. Por isso, pegou uma tigelinha com tinta vermelha e jogou em mim.

           Meu irmão mais velho limitou-se a continuar sentado e calado, com a mais esquisita expressão no rosto.

           — Chris, Cathy pinta melhor que você?

           — Se ela diz isso, deve ser verdade.

           — Onde está o quadro dela?

           — No sótão.

           — Quero ver.

           — Então, levante-se e suba para vê-lo. Estou cansado. Quero assistir à televisão enquanto Cory prepara o jantar.

           Lançou-me um rápido olhar de esguelha.

           — Minha querida irmã, por uma simples questão de conveniência, importa-se de vestir um agasalho limpo antes de nos sentarmos à mesa para jantar? A tinta vermelha tem algo que me provoca uma sensação de remorso.

           — Parece sangue — declarou Cory. — Está duro como sangue quando a gente não lava.

           — Tinta de cartazes — replicou Chris, enquanto me levantei para ir ao banheiro vestir um suéter vários números maior que meu tamanho. — As tintas de cartazes endurecem.

           Satisfeito com a explicação, Cory começou a contar a Chris que este perdera os dinossauros na televisão.

           — São maiores que essa casa, Chris! Saíram da água e engoliram o bote com os dois homens! Eu sabia que você ficaria triste por perder o programa!

           — Sim — confirmou Chris com ar sonhador. — Eu gostaria muito de ter assistido.

            Naquela noite, senti-me estranhamente nervosa e inquieta; meus pensamentos sempre voltavam à maneira como Chris me olhara no sótão.

           Então, compreendi qual era o segredo que eu procurara durante tanto tempo, o interruptor secreto que ligava o amor... físico, o desejo sexual. Não era apenas a simples visão de corpos despidos, pois muitas vezes eu dera banho em Cory e vira Chris nu, sem sentir qualquer excitação especial pelo fato de eles terem algo diferente do que Carrie e eu tínhamos. A nudez nada significava.

           Eram os olhos. O segredo do amor estava nos olhos, na maneira de uma pessoa olhar para outra, no modo como os olhos se comunicavam e falavam enquanto os lábios ficavam imóveis.

            Os olhos de Chris tinham-me dito mais do que dez mil palavras conseguiriam dizer.

           E não era apenas a maneira pela qual ele me tocara, com carinho e ternura; era o modo como ele me tocava enquanto me olhava daquele jeito, por isso a avó estabelecera a norma de não olharmos para pessoas do sexo oposto. Oh, imaginar que a velha bruxa conhecia o segredo do amor! Ela jamais poderia ter amado; não, não ela, com seu coração de ferro e espinha de aço...! Seus olhos nunca poderiam ter sido suaves.

           Então, à medida que refletia mais profundamente sobre o assunto, constatei que era o que existia por detrás dos olhos, no cérebro, desejando agradar, satisfazer, fazer feliz, dar prazer e afastar a solidão de nunca ter alguém que nos compreenda como desejamos ser compreendidos.

           O pecado nada tinha a ver com o amor, o verdadeiro amor. Virei a cabeça e percebi que Chris também estava acordado, encolhido de lado, olhando para mim. Sorriu com a maior doçura e tive vontade de chorar por ele e por mim.

           Nossa mãe não nos visitou naquele dia, como não nos visitara na véspera, mas encontramos um meio de alegrar-nos tocando os instrumentos de Cory e cantando juntos. A despeito da ausência de uma mãe que se tornara muito, muito negligente, fomos para a cama mais esperançosos naquela noite. Cantarmos canções alegres durante várias horas convencera-nos todos de que o sol, o amor, o lar e a felicidade estavam logo depois da próxima esquina e nossos longos dias de jornada através de uma floresta densa e escura estavam quase terminando.

            Algo escuro e aterrador se insinuou em meus sonhos alegres. Formas corriqueiras assumiam proporções monstruosas. Com os olhos fechados, vi a avó entrar sorrateiramente no quarto e, julgando-me adormecida, raspar-me completamente a cabeça! Gritei, mas ela não me ouviu; ninguém me escutou. Ela pegou uma comprida faca brilhante e amputou-me os seios, enfiando-os na boca de Chris. E ainda havia mais. Debati-me, esperneei e choraminguei, acordando Chris. Os gêmeos continuavam a dormir Como se já estivessem mortos e enterrados. Sonolento, Chris se aproximou tropeçando e sentou-se na beira da cama. Tateando à procura de minha mão, indagou:

           — Outro pesadelo, Cathy?

            Nãooo! Não se tratava de um pesadelo comum! Era uma previsão, de natureza psíquica, espírita. Eu a sentia na medula dos ossos: algo terrível estava por acontecer. Debilitada e trêmula, contei a Chris o que a avó me fizera.

           — E isso não é tudo. Foi mamãe quem entrou com uma faca e me arrancou o coração! Estava toda enfeitada com jóias de brilhantes!

            — Cathy, sonhos nada significam.

           — Significam, sim!

           Relatei a meu irmão outros sonhos e outros pesadelos. Ele escutava, sorria, comentava que devia ser maravilhoso ter noites como filmes de cinema, mas não era assim. Num cinema, a pessoa senta e olha para uma grande tela, sabendo que está apenas assistindo a uma estória que outra pessoa escreveu. Nos sonhos, eu participava. Fazia parte do sonho, sentindo, sofrendo e, sinto dizer, muito raramente gostando.

           Já que estava tão acostumado a mim e minhas manias estranhas, por que Chris sentava-se imóvel como uma estátua de mármore, como se aquele meu último sonho o afetasse mais que qualquer um dos anteriores? Também estivera sonhando?

           — Cathy, sob minha palavra de honra, vamos fugir desta casa! Fugiremos os quatro! Você me convenceu. Seus sonhos devem ter algum significado, do contrário não se repetiriam com tanta insistência. Está provado que as mulheres são mais intuitivas que os homens. O subconsciente trabalha durante a noite. Não mais aguardaremos que mamãe herde a fortuna de um avô que continua vivendo indefinidamente e se recusa a morrer. Juntos, você e eu encontraremos um meio de fugirmos. A partir desse instante, juro por minha vida, confiaremos apenas em nós dois... e nos seus sonhos.

           Pela maneira intensa como fez a declaração, percebi que meu irmão não estava zombando de mim nem se divertindo; falava sério! Fiquei tão aliviada que tive vontade de gritar. Íamos fugir. Afinal, aquela casa não conseguiria derrotar-nos!

           Na obscuridade e frio daquele quarto sombrio e abarrotado, meu irmão me olhou nos olhos. Talvez me visse como eu o estava vendo, parecendo maior que o tamanho normal, mais delicado que um sonho. Inclinou lentamente a cabeça sobre a minha e beijou-me em cheio nos lábios, como se procurasse selar seu juramento com algo forte e significativo. Foi um beijo tão demorado e peculiar que me senti cair, cair, cair... quando já estava deitada!

           A coisa de que mais necessitávamos era uma chave da porta de nosso quarto. Sabíamos que era a chave-mestre, servindo para todos os outros aposentos da casa. Não podíamos utilizar a escada de lençóis por causa dos gêmeos e ambos sabíamos que nossa avó jamais seria tão descuidada a ponto de largar a chave ao nosso alcance. Ela nunca procedia assim; costumava abrir a porta e guardar imediatamente a chave no bolso do vestido. Seus detestáveis vestidos cinzentos sempre tinham bolsos.

            Nossa mãe, por sua vez, era descuidada, esquecida e indiferente. E não gostava de ter nas roupas bolsos que prejudicassem sua elegante silhueta. Passamos a contar com ela.

           E por que haveria ela de temer algo por parte de nós, os passivos, os obedientes, os silenciosos? Seus cativos “queridinhos” exclusivos, que jamais cresceriam e representariam uma ameaça. Ela estava feliz, apaixonada; seus olhos brilhavam e ela ria com muita freqüência. Era tão pouco observadora que nos dava vontade de gritar para obrigá-la a ver as coisas, ver os gêmeos tão quietos e com aparência tão doentia! Ela nunca mencionou o camundongo; por que não enxergava a mascote? Mickey ficava no ombro de Cory, mordiscando-lhe a orelha, e nossa mãe nunca disse uma palavra a respeito, nem mesmo quando as lágrimas escorriam livremente pelo rosto de Cory porque ela não o elogiava por conquistar o afeto de um ratinho muito teimoso que teria ido embora no início, se pudesse.

            Ela vinha, generosa, duas ou três vezes por mês, sempre trazendo presentes que lhe serviam de alívio, embora não nos mitigassem as aflições. Entrava graciosamente para sentar-se durante algum tempo, usando roupas caras e elegantes, forradas de peles e enfeitada com jóias valiosas.

           Acomodava-se em seu trono como uma rainha e distribuía caixas de tintas para Chris, sapatilhas de balé para mim e roupas sensacionais para todos nós, apropriadas para usarmos no sótão, pois lá em cima pouca importância fazia o fato de que elas raramente nos serviam, sendo grandes ou pequenas demais; nossos sapatos às vezes eram confortáveis, às vezes não; e eu ainda aguardava o soutien que ela continuava a prometer, mas sempre esquecia de trazer.

           — Vou-lhe trazer uma dúzia, ou mais — declarava com um sorriso benevolente. — De todos os tamanhos e todas as cores, para que você experimente todos eles e escolha os que lhe agradarem mais e lhe servirem melhor. Os outros, eu darei às empregadas.

           E não parava de tagarelar animadamente, sempre fiel à sua falsa fachada, simulando que ainda éramos importantes em sua vida.

           Eu me sentava, fixava o olhar em seu rosto e esperava que ela perguntasse pela saúde dos gêmeos. Esquecera-se de que Cory sofria de febre alérgica que lhe provocava uma coriza constante e às vezes ficava com o nariz tão congestionado que só conseguia respirar pela boca? Ela sabia que ele precisava tomar injeções antialérgicas uma vez por mês e já se haviam passado anos desde que tomara a última. Não se magoava ao ver Cory e Carrie agarrados às minhas saias, como se fosse eu quem os dera à luz? Nada conseguia chegar ao seu consciente para fazê-la ver que havia algo errado?

           Se chegava, ela não dava o menor indício de ver-nos senão como perfeitamente normais, embora eu me desse o trabalho de relatar todas as nossas pequenas moléstias: vomitávamos com freqüência, sentíamos dores de cabeça, cãibras no estômago e, às vezes, ficávamos sem energia.

           — Guardem a comida no sótão, onde faz mais frio — replicava ela sem hesitação.

           Tinha a coragem de falar-nos de festas, concertos, teatros, cinemas, bailes e das viagens que fazia com o seu “Bart”.

           — Bart e eu vamos fazer compras em Nova York — anunciava. — Digam-me o que desejam que eu traga. Façam uma lista.

           — Mamãe, depois de fazer as compras de Natal em Nova York, aonde você irá? — indaguei, tendo a cautela de não olhar para a chave que ela largara com tanta displicência em cima da cômoda.

           Ela riu, gostando da pergunta, e cruzou as mãos alvas e esguias antes de iniciar um relatório do que planejava fazer nos dias enfadonhos que se seguiam às festas natalinas.

           — Uma viagem pelo Sul, talvez um cruzeiro, ou mais ou menos um mês na Flórida. E sua avó estará aqui para cuidar bem de vocês.

           Enquanto ela continuava a tagarelar interminavelmente, Chris aproximou-se furtivamente e guardou a chave no bolso das calças. Depois, pediu licença e foi calmamente para o banheiro. Nem precisava preocupar-se; ela não notou sua ausência. Estava cumprindo uma obrigação: visitar os filhos e, graças a Deus, escolhera a cadeira certa para sentar-se. Eu sabia que Chris, no banheiro, apertava a chave contra uma barra de sabão que ali mantinha especialmente preparada para tirar um molde da chave: mais uma das muitas coisas que havíamos aprendido ao assistirmos à televisão por horas e horas a fio.

           Depois que nossa mãe saiu, Chris pegou o pedaço de madeira que escolhera previamente e começou imediatamente a esculpir com o canivete uma tosca chave de madeira. Embora dispuséssemos de metal à vontade nas trancas dos velhos baús, não tínhamos instrumentos adequados para cortá-lo e dar-lhe forma. Chris trabalhou como um escravo, por muitas horas, esculpindo meticulosamente a chave, comparando-a freqüentemente com a impressão que ficara gravada no sabão agora endurecido. Chris selecionara propositadamente uma madeira muito dura, temendo que madeira mais macia pudesse partir-se na fechadura e denunciar nosso plano de fuga. Precisou de três dias de trabalho árduo e cuidadoso antes de conseguir que a chave funcionasse.

           Que euforia, a nossa! Abraçamo-nos, dançando pelo quarto, rindo, beijando-nos, quase chorando. Os gêmeos nos observavam, perplexos por nos verem tão cheios de júbilo devido a uma simples chavinha.

           Tínhamos uma chave! Podíamos abrir a porta de nossa prisão. Todavia, por estranho que pareça, não havíamos planejado nosso futuro além da porta aberta.

           — Dinheiro. Precisamos ter dinheiro — argumentou Chris, estacando no meio do nosso bailado triunfal. — Com muito dinheiro todas as portas se abrirão e poderemos viajar por todas as estradas.

            — Mas onde conseguiremos dinheiro? — indaguei, franzindo a testa e sentindo-me infeliz.

           Refleti que ele arranjara outra desculpa para adiarmos a fuga.

          — Não há outro jeito senão roubarmos de mamãe, do marido dela e da avó.

           Fez a declaração de modo muito tranqüilo, como se o roubo fosse uma profissão tranqüila e honrosa. E talvez fosse, em caso de necessidade premente. Ainda é.

           — Se formos apanhados, seremos todos açoitados, inclusive os gêmeos — ponderei, lançando um olhar aos rostos amedrontados de nossos irmãos menores. — E quando mamãe viajar com o marido, ela poderá tentar matar-nos de fome mais uma vez. Só Deus sabe o que ela é capaz de fazer.

           Chris deixou-se cair no banquinho da penteadeira. Apoiou o queixo nas mãos com ar pensativo e refletiu durante alguns minutos.

           — Uma coisa é certa: não quero que você e os gêmeos sejam castigados. Portanto, eu farei os roubos e assumirei toda a culpa se for apanhado. Mas não serei apanhado; é arriscado demais roubar alguma coisa daquela velha; ela é muito observadora. Não há dúvida de que sabe, até o último centavo, quanto dinheiro tem na bolsa. Mamãe jamais conta o dinheiro. Lembra-se de como papai costumava reclamar disso? — comentou, sorrindo para reconfortar-me. — Serei exatamente como Robin Hood, roubando dos ricos para dar aos pobres e necessitados, nós! E só nas noites em que mamãe nos disser que sairá com o marido.

           — Você quer dizer: quando ela nos avisar — corrigi. — E sempre podemos olhar pela janela, nos dias em que ela não vier aqui.

           Quando nos atrevíamos a espiar pela janela, tínhamos uma boa visão da alameda curva de acesso à casa, que nos permitiria controlar as chegadas e partidas dos automóveis.

           Em breve mamãe nos anunciou que ia a uma festa.

           — Bart não liga muito para a vida social; prefere ficar em casa. Mas eu detesto essa casa. Então ele pergunta por que não vamos morar em nossa própria casa e o que posso responder?

           O que podia ela responder? “Querido, tenho um segredo a lhe contar: tenho quatro filhos escondidos lá em cima, nos confins da ala norte.”

           Foi bastante fácil para Chris encontrar dinheiro no quarto luxuoso e esplêndido de sua mãe. Ela não tinha o menor cuidado do dinheiro. Até mesmo Chris ficou chocado ao constatar com que displicência notas de dez e vinte dólares eram largadas em cima da penteadeira e da cômoda. Franziu a testa, desconfiado. Ela não afirmava estar economizando dinheiro para o dia em que sairíamos da nossa prisão... apesar de agora ter um novo marido? Mais notas em suas muitas bolsas e carteiras. Chris encontrou trocados nos bolsos das calças do marido. Não, ele não era tão descuidado com o dinheiro dele. Todavia, quando Chris procurou embaixo das almofadas da poltrona, encontrou mais de uma dúzia de moedas. Sentia-se como um ladrão, um intruso indesejável no quarto de sua mãe. Viu as roupas lindas, os chinelos forrados de cetim, os négligés com golas e punhos de pele ou plumas de marabu, fazendo com que sua confiança nela diminuísse ainda mais.

           Naquele inverno, Chris visitou repetidamente o quarto da mãe, tornando-se cada vez mais descuidado, já que era tão fácil roubar. Voltava para perto de mim cheio de júbilo, mas, ao mesmo tempo, parecendo triste. Nosso tesouro escondido aumentava dia a dia; que motivo havia para tristeza?

           — Venha comigo na próxima vez — replicou ele, à guisa de explicação. — Veja por si mesma.

           Agora, eu podia ir com a consciência tranqüila, sabendo que os gêmeos não acordariam para se verem sozinhos. Dormiam tão profundamente que até mesmo de manhã acordavam de olhos inchados, preguiçosos, relutando em voltar à realidade. Às vezes, eu sentia medo ao vê-los adormecidos. Duas bonecas que não cresciam, tão mergulhados no esquecimento que mais parecia uma morte parcial que um repouso noturno normal.

            Ir embora, fugir; a primavera estava chegando e precisávamos partir antes que fosse tarde demais. Uma voz interior, intuitiva, repetia-me constantemente tal advertência. Chris riu quando lhe contei.

           — Cathy, você e suas idéias! Precisamos de dinheiro; no mínimo, quinhentos dólares. Para que tanta pressa? Agora, temos comida e não somos surrados; ela não diz uma palavra, até mesmo quando nos encontra semi-despidos.

           Por que a avó deixara de castigar-nos? Não havíamos contado a mamãe os outros castigos que ela nos aplicara, os pecados que cometera contra nós, pois para mim eram pecados que jamais teriam qualquer justificativa. Não obstante, a velha passara a controlar a mão. Trazia-nos diariamente a cesta de piquenique, cheia até a borda de sanduíches, sopas mornas em garrafas térmicas, leite e, sempre, quatro rosquinhas cobertas de açúcar. Por que não variava o nosso cardápio e trazia biscoitos, bolinhos e fatias de torta?

           — Vamos — apressou-me Chris, puxando-me ao longo dos corredores tão escuros e sinistros. — Demorar-nos num só lugar é perigoso. Daremos uma espiada no salão de troféus e depois correremos ao quarto de mamãe.

           Na verdade, bastou-me um rápido olhar ao salão de troféus. Detestei, cheguei a odiar aquele retrato a óleo acima da lareira de pedra; tão parecido com papai e, ao mesmo tempo, tão diferente. Um homem tão cruel e desalmado como Malcolm Foxworth não tinha direito de ser bonito, mesmo quando jovem. Aqueles frios olhos azuis deveriam corromper-lhe o resto do corpo com úlceras e chagas. Vi todas aquelas cabeças empalhadas de animais e as peles de tigre e urso no chão. Refleti que era bem ao feitio do velho desejar um salão como aquele.

            Se Chris permitisse, eu teria entrado em todos os quartos. Mas ele insistiu em ignorar as portas fechadas, deixando-nos apenas dar uma rápida espiada para dentro de uns poucos quartos.

           — Intrometida! — ralhou num sussurro. — Não há nada de interessante aí dentro.

           Tinha razão. Tinha razão em muitas coisas. Naquela noite, compreendi o que Chris quisera dizer ao comentar que aquela casa era grandiosa e rica, mas nada tinha de bonita ou acolhedora. Não obstante, fiquei deveras impressionada. Nossa casa de Gladstone parecia minúscula em comparação.

           Depois de percorrermos silenciosamente muitos corredores compridos e mal iluminados, chegamos finalmente ao grandioso apartamento de nossa mãe. Naturalmente, Chris descrevera em detalhes a grande cama em forma de cisne, com a cama menor atravessada aos pés, mas escutar não era ver! Não se tratava de um quarto, mas de um aposento digno de uma rainha ou princesa! Perdi o fôlego. Louvado seja Deus! Mal consegui acreditar em tamanho esplendor e opulência! Estonteada, corri de um lugar para outro, deslumbrada ao tocar as paredes forradas de damasco, de cor-de-morango mais viva em contraste com o lilás do tapete de cinco centímetros de espessura. Apalpei a macia colcha de pele e atirei-me na cama, rolando sobre ela. Toquei o fino cortinado da cama e as cortinas mais pesadas, feitas de veludo vermelho. Pulei da cama e observei, admirada, o maravilhoso cisne que parecia manter o olho vermelho, sonolento mas vigilante, fixo em mim.

           Então recuei, não gostando de uma cama onde mamãe dormia com um homem que não era nosso pai. Entrei no enorme closet, tendo a impressão de flutuar entre roupas saídas de um sonho de riqueza, que eu jamais possuiria, exceto em sonhos. Ela possuía mais roupas que uma loja de departamentos. Além de sapatos, chapéus e bolsas. Quatro casacos de pele longos, três estolas de pele, uma pelerine de arminho branco, outra de marta escura, além de chapéus e gorros de pele de diferentes feitios e animais, e um casaco de leopardo com lã verde entre os arremates de pele. Négligés, camisolas, conjuntos de pegnoir, de babados, bufantes, enfeitados com fitas, plumas, peles, feitos de veludo, cetim, chiffon, combinações... meu Deus! Ela teria que viver mil anos para usar apenas uma vez cada uma daquelas roupas!

            O que mais me chamava a atenção, eu tirava do closet e levava ao quarto de vestir dourado que Chris me mostrara. Dei uma espiada no banheiro forrado de espelhos, com plantas naturais e dois vasos, um sem tampa (hoje em dia, sei que um deles era o bidê). O banheiro ficava num box à parte,

           — Tudo isso é novo — explicou Chris. — Quando estive aqui pela primeira vez... na festa de Natal, você sabe... não era tão... bem, não era tão opulento como agora.

           Girei nos calcanhares para encará-lo raivosamente, achando que sempre fora assim e ele não me contara. Protegera deliberadamente a mãe, não querendo que eu soubesse a respeito de todas aquelas roupas e peles, além da fabulosa quantidade de jóias que ela escondia num compartimento secreto da comprida penteadeira.

            Não, Chris não mentira, simplesmente omitira. Estava evidente em seus olhos esquivos e no rosto corado, bem como na maneira apressada com que se retirou para fugir às minhas indagações, não era de espantar que ela não quisesse dormir no nosso quarto!

           Fiquei no quarto de vestir, experimentando roupas retiradas do vasto closet de mamãe. Pela primeira vez na vida, calcei meias de nylon e minhas pernas ficaram celestiais, divinas! Não era surpresa que as mulheres gostassem daquilo!

            Em seguida, experimentei pela primeira vez um soutien que, para meu desgosto, era grande demais para mim. Enchi-o com papel de seda, até ficar firme e protuberante. Em seguida, sandálias prateadas, também muito grandes. Coroei meu esplendor com um vestido preto muito decotado na frente para mostrar aquilo que eu não possuía em tamanho adequado.

           Então, chegou a parte divertida, o que eu costumava fazer quando criança, sempre que surgia uma oportunidade. Sentei-me à penteadeira de mamãe e comecei a aplicar seus cosméticos com mão bastante liberal. Ela possuía caminhões de cosméticos. Usei de tudo no rosto: base, ruge, pó de arroz, sombras, batom. Depois, puxei os cabelos para cima, de uma forma que considerei sexy e elegante, prendendo-os com grampos. Em seguida, peguei jóias. E, finalmente, perfume em grande quantidade.

           Vacilando desajeitadamente nos saltos altos, fui procurar Chris.

           — Que tal? — perguntei com ar provocante, sorrindo e piscando os cílios lambuzados.

           Na verdade, esperava elogios. Os espelhos já não me tinham dito que eu estava sensacional?

           Chris revistava cuidadosamente uma gaveta, recolocando tudo no exato lugar onde encontrara, mas olhou por cima do ombro. Seus olhos se arregalaram de espanto e seu rosto ficou carrancudo, enquanto eu balançava para a frente, para trás e para os lados, procurando equilibrar-me sobre os saltos de dez centímetros, e continuava a piscar os cílios. Talvez não soubesse colocar direito os cílios postiços, pois tinha a impressão de estar vendo tudo por entre pernas de aranha.

           — Que tal? — começou ele, sarcástico. — Deixe-me dizer exatamente: você está parecendo uma prostituta de rua, é isso aí!

           Deu-me as costas com repugnância, como se não suportasse mais olhar para mim.

           — Uma prostituta adolescente, é isso aí! Agora, vá lavar a cara e recolocar tudo onde encontrou! E trate de limpar a penteadeira!

           Caminhei com dificuldade até o espelho comprido mais próximo. Tinha dobradiças em ambas as partes laterais, de modo que mamãe podia ajustá-las e mirar-se de todos os ângulos. Diante daqueles três espelhos tão reveladores, pude ver-me sob uma nova perspectiva, e era um espelho realmente fascinante; fechava-se como um livro com folhas de três páginas, transformando-se num painel com uma linda paisagem bucólica francesa.

            Virando-me e contorcendo-me, examinei detalhadamente minha aparência. Não era assim que mamãe ficava naquele mesmo vestido. Qual fora o meu erro? É bem verdade que ela não usava tantas pulseiras ao mesmo tempo, nem três colares diferentes, além de longos pingentes de brilhantes que lhe roçassem os ombros e uma tiara; sem mencionar dois ou três anéis em cada dedo, inclusive os polegares!

           Oh, mas eu estava realmente ofuscante. E meus seios protuberantes eram absolutamente magníficos! A bem da verdade, fui forçada a admitir que exagerara.

           Tirei as dezessete pulseiras, os vinte e seis anéis, os colares, a tiara e o vestido de gala preto, de gaze, que não ficava tão elegante em mim como em mamãe, quando ela o usava com um simples colar de pérolas. Oh, mas as peles... ninguém conseguia deixar de sentir-se bela usando peles como aquelas!

           — Depressa, Cathy! Deixe isso de lado e venha ajudar-me a procurar.

           — Chris, eu adoraria tomar um banho na banheira de mármore negro.

           — Deus do céu! Não dispomos de tempo para isso!

            Despi as roupas de mamãe, o soutien de renda preta, as meias de nylon e as sandálias prateadas. Vesti minhas próprias roupas. Depois, pensando melhor, tirei um simples soutien branco da gaveta onde existiam tantos e o escondi dentro da blusa. Chris não precisava de minha ajuda; já estivera ali tantas vezes que podia encontrar dinheiro sem meu auxílio. Eu desejava saber o que havia dentro de cada gaveta, mas tinha que agir depressa. Abri uma pequena gaveta da mesinha de cabeceira de mamãe, esperando encontrar creme de limpeza e lenços de papel, mas nada de valor que as criadas pudessem roubar. E lá estava o creme de limpeza na gaveta, junto com lenços de papel e dois livros para distraí-la quando estivesse sem sono. (Haveria noites em que ela se mexia nervosamente na cama, sem conseguir adormecer porque pensava em nós?) Sob a duas brochuras estava um pesado livro grosso, encadernado com uma capa colorida. Como Criar Seus Próprios Desenhos de Bordar. Ora, eis um título capaz de causar-me espécie. Mamãe me ensinara alguns pontos de bordado e de crochê em meu primeiro aniversário naquele quarto que nos servia de prisão. Seria interessante eu aprender a desenhar meus próprios bordados.

           Peguei o livro e comecei a folheá-lo a esmo. Atrás de mim, Chris produzia leves ruídos ao abrir e fechar gavetas, movimentando-se a passos macios. Eu esperava encontrar desenhos de flores, tudo, menos o que vi naquelas páginas. Calada, com os olhos esbugalhados, dominada por atordoado fascínio, olhei para as fotografias coloridas. Fotos incríveis de homens e mulheres despidos fazendo... as pessoas faziam realmente coisas assim? Aquilo era fazer amor?

           Chris não fora o único a escutar estórias sussurradas, acompanhadas por muitas risadinhas das meninas mais velhas que se reuniam em grupos no banheiro da escola. Ora, eu acreditava que o amor devia ser feito como coisa sagrada, digna de respeito, na mais completa privacidade, comas portas trancadas. Aquele livro exibia fotos de muitos casais num só quarto, todos nus, todos se penetrando de alguma forma. Contra minha vontade, ou assim preferi pensar, minha mão virava cada página e eu ficava cada vez mais incrédula! Tantas maneiras de fazer aquilo! Tantas posições! Meu Deus! Era aquilo que os enamorados Raymond e Lily tinham em mente desde a primeira página daquele romance vitoriano? Ergui a cabeça e fitei o espaço, sem enxergar. Desde o início de nossas vidas, estávamos todos destinados àquilo?

           Chris me chamou, informando que já coletara dinheiro suficiente. Não podia roubar muito de uma só vez, para que não percebessem. Estava levando apenas umas poucas notas de cinco, muitas de um dólar e todas as moedas que achara Sob as almofadas.

           — O que há com você, Cathy? Ficou surda? Vamos!

           Não pude mover-me. Não podia sair; não podia fechar aquele livro sem olhá-lo da primeira à última página. Já que eu estava tão embevecida e incapaz de responder, ele se aproximou para espiar por cima do meu ombro e verificar o que me mantinha tão hipnotizada. Escutei-o prender bruscamente a respiração. Depois de uma eternidade, tornou a soltá-la num leve assovio. Não disse uma só palavra até que cheguei ao final e fechei o livro. Então, Chris o pegou de minhas mãos e começou da primeira página, examinando cada uma das páginas que deixara de ver. Fiquei a seu lado, vendo tudo outra vez. Havia texto, em tipo pequeno, nas páginas opostas às fotos de página inteira. Mas as fotos não precisavam de explicação, pelo menos, não para mim.

           Chris fechou o livro. Lancei-lhe um olhar rápido. Parecia aturdido. Devolvi o livro à gaveta, colocando as brochuras por cima, exatamente como as encontrara. Chris tomou-me a mão, puxando-me na direção da porta. Tornamos a percorrer em silêncio os longos corredores escuros que levavam de volta à ala norte. Agora, eu compreendia muito bem por que motivo a bruxa avó fizera questão que Chris e eu dormíssemos em camas separadas, pois aquele irresistível apelo da carne era tão forte, tão exigente e tão excitante que podia levar as pessoas a agirem mais como demônios que como santos. Debrucei-me sobre Carrie, fitando-lhe o rosto adormecido que, no sono, recuperava a inocência e infantilidade que a abandonavam quando acordada. Parecia um pequeno querubim, deitada de lado, encolhida, o rosto corado, o cabelo úmido e encaracolado na nuca e na testa. Beijei-a e seu rosto me pareceu quente.

            Então, fui até Cory para tocar-lhe os cabelos crespos e macios, beijando seu rostinho vermelho. Crianças como os gêmeos eram feitas de uma parte do que eu vira naquele livro de fotografias, de modo que nem tudo podia ser pecaminoso, do contrário Deus não teria feito o homem e a mulher como eles eram. Não obstante, sentia-me tão perturbada, tão insegura e, no fundo, tão aturdida e chocada, mas...

           Fechei os olhos e rezei silenciosamente: “Deus, mantenha os gêmeos em segurança e saudáveis até que estejamos longe daqui... permita que vivam até chegarem a um lugar ensolarado e belo, onde não existam portas trancadas... por favor.”

           — Pode usar o banheiro primeiro — disse Chris, sentando-se no seu lado da cama, de costas para mim, com a cabeça baixa.

           Era a sua vez de tomar banho primeiro.

           Como se dominada por uma espécie de feitiço, fui ao banheiro, fiz o que tinha de fazer e voltei ao quarto usando minha camisola mais quente e recatada. Limpara toda a maquilagem do rosto. Meu cabelo recém-lavado ainda estava ligeiramente úmido e sentei-me na beira da cama para escová-lo até ficar ondulado e brilhante.

           Chris se ergueu silenciosamente e entrou no banheiro sem olhar para mim. Quando saiu, muito depois, e eu ainda estava escovando o cabelo, evitou olhar-me. Nem eu queria que ele me olhasse.

           Uma das normas estabelecidas pela avó obrigava-nos a nos ajoelharmos junto à cama todas as noites para fazer nossas preces. Apesar disso, naquela noite nenhum de nós se ajoelhou. Muitas vezes, eu ficava de joelhos ao lado da cama, com as mãos postas sob o queixo, e não sabia o que pedir a Deus, pois já fizera tantas orações e nenhuma delas fora atendida. Limitava a permanecer ajoelhada, com a mente vazia e o coração desolado, mas o corpo e os nervos sentiam tudo e berravam o que eu não tinha coragem de pensar muito menos dizer.

           Estendi-me de costas ao lado de Carrie, sentindo-me imunda e mudada por aquele pesado livro que eu desejava ver de novo e, se pudesse, ler todo o texto. Talvez fosse o mais correto recolocar o livro na gaveta logo que percebi do que se tratava e, sem dúvida, deveria tê-lo fechado quando Chris veio espiar por cima do meu ombro. Eu já sabia que não era uma santa, ou um anjo, ou uma pudica puritana; sentia na medula dos ossos que algum dia, num futuro bem próximo, teria necessidade de saber tudo a respeito das maneiras de utilizarmos os corpos nos atos do amor.

           Devagar, muito devagar, virei a cabeça para espiar através da rósea obscuridade do quarto e ver o que Chris estava fazendo.

           Ele estava deitado de lado, sob as cobertas, olhando para mim. Seus olhos refletiam alguma luz que penetrava através das pesadas cortinas, pois o brilho que neles havia nada tinha de cor-de-rosa.

          — Você está bem? — indagou.

           — Sim, estou sobrevivendo.

           Então, dei-lhe boa-noite numa voz que nem parecia a minha.

           — Boa-noite, Cathy — replicou ele, também em voz estranha.

 

Meu padrasto

            Naquela primavera, Chris adoeceu. Parecia esverdeado em volta da boca e vomitava a cada poucos minutos, cambaleando de volta do banheiro para deixar-se cair molemente na cama. Queria estudar um compêndio de anatomia, mas jogou o livro para o lado, irritando-se consigo mesmo.

            — Deve ter sido alguma coisa que comi — resmungou.

           — Chris, não quero deixar você sozinho — declarei, parando junto à porta e preparando-me para enfiar a chave de madeira na fechadura.

           — Escute aqui, Cathy! — berrou ele. — Já é tempo de você aprender a cuidar-se sozinha! Não precisa de mim a seu lado cada segundo do dia! Esse foi o problema de mamãe: pensar que sempre precisava de um homem no qual se apoiar. Apoíe-se sozinha, Cathy, sempre!

           O medo me encheu o coração, transbordando no olhar. Chris percebeu e acrescentou num tom mais suave:

           — Estou bem, no duro. Posso cuidar-me sozinho. Precisamos do dinheiro, Cathy. Portanto, vá sozinha. Talvez não tenhamos outra oportunidade.

           Corri de volta à cama de Chris, ajoelhando-me e apertando o rosto contra seu peito coberto pelo pijama. Ele me acariciou os cabelos com grande ternura.

           — Vou sobreviver, Cathy, no duro. Não estou tão mal que você precise chorar por mim. Mas tem que entender uma coisa: não importa o que aconteça a um de nós, o que ficar tem que tirar os gêmeos daqui.

           — Não fale assim! — protestei.

           Só pensar que ele pudesse morrer deixava-me doente. Enquanto permanecia ajoelhada, fitando meu irmão, ocorreu-me que ficávamos doentes, um ou outro, com grande freqüência.

           — Cathy, quero que você vá imediatamente. Levante-se. Faça um esforço. E quando estiver lá, pegue apenas as notas de cinco e de um dólar. Deixe de lado as maiores. Mas apanhe também todas as moedas que nosso padrasto deixa cair dos bolsos. E ele guarda no fundo do armário uma lata cheia de moedas. Pegue um punhado delas.

           Chris parecia mais magro e pálido. Beijei-lhe rapidamente o rosto, detestando ser obrigada a sair quando ele estava passando tão mal. Lançando um olhar aos gêmeos adormecidos, recuei na direção da porta, segurando a chave de madeira.

           — Eu o amo, Christopher — declarei em tom brincalhão antes de abrir a porta.

           — Eu também a amo, Catherine — replicou meu irmão. — Boa caçada.

           Soprei-lhe um beijo e saí, trancando a porta. Estaria bastante segura roubando o quarto de mamãe, pois naquela mesma tarde ela nos dissera que iria com o marido a uma festa na casa de um dos vizinhos mais próximos. Ao percorrer furtiva e silenciosamente os corredores, colando-me às paredes e escolhendo os locais mais sombrios, disse com meus botões que eu pegaria ao menos uma nota de vinte e outra de dez. Correria o risco de alguém notar. Talvez até mesmo tirasse algumas das jóias de mamãe. Jóias podiam ser empenhadas e serviam-nos tanto quanto dinheiro. Talvez até mais.

            Firmemente decidida, não perdi tempo examinando o salão dos troféus. Fui direto ao quarto de mamãe, não esperando encontrar a avó, que se recolhia cedo, às nove. Já eram dez horas.

           Cheia de bravura e determinação, entrei pela porta dupla do apartamento, fechando-a silenciosamente às minhas costas. Uma luz fraca estava acesa. Mamãe quase sempre deixava luzes acesas no quarto, às vezes, todas elas, segundo informava Chris. O que importaria a ela a despesa com eletricidade?

           Hesitante e insegura, parei junto à porta e olhei em volta. Então, congelei-me de pavor.

           Ali numa poltrona, com as pernas compridas esticadas diante do corpo e cruzadas nos tornozelos, estava o novo marido de mamãe! Eu estava bem em frente a ele, usando uma transparente camisola azul, muito curta, embora eu também tivesse vestido as calcinhas do conjunto. Meu coração disparou loucamente enquanto eu esperava que o homem soltasse um berro, querendo saber quem eu era e que diabo fazia em seu quarto sem ter sido convidada!

           Mas ele não abriu a boca.

           Trajava um smoking preto e a camisa de peito duro era cor-de-rosa, com babados pespontados de preto. Não berrou nem fez perguntas porque estava cochilando. Quase me virei e tomei a sair, de tanto medo que ele acordasse e me visse.

           Todavia, a curiosidade sobrepujou meus temores. Nas pontas dos pés, avancei sorrateiramente a fim de espiá-lo melhor. Atrevi-me a ficar tão perto dele, ao lado da poltrona, que poderia estender a mão e tocá-lo, se quisesse. Bastante próxima para enfiar-lhe os dedos no bolso e tirar dinheiro, se preferisse. Mas não o fiz.

           Roubo era a última coisa que eu tinha em mente ao fitar o belo rosto adormecido. Espantei-me com o que a proximidade me revelava a respeito do amado Bart de mamãe. Eu o avistara à distância em várias ocasiões: primeiro, na festa de Natal, depois, quando ele estava perto da escada, segurando um casaco para mamãe vestir. Ele a beijara na nuca e atrás da orelha, murmurando algo que a fez sorrir; abraçou-a com muita ternura contra o peito antes de saírem juntos.

           Sim, sim; eu já o vira, já escutara tanto falar dele, sabia onde moravam suas irmãs, onde ele nascera e as escolas que freqüentara, mas nada me havia preparado para o que agora se revelava com tamanha nitidez.

            “Mamãe... como você foi capaz disso? Devia envergonhar-se! Esse homem é mais jovem que você, anos mais moço!”

           Por que ela não nos contara?

           Um segredo. Como ela sabia guardar bem segredos tão importantes! E não era de espantar que o adorasse, idolatrasse, pois ele era o tipo de homem que qualquer mulher desejaria. Bastava olhá-lo naquela posição tão natural, estendido com elegância na poltrona, para adivinhar que era ao mesmo tempo terno e apaixonado ao fazer amor com ela.

           Eu queria odiar o homem adormecido na poltrona, mas, não sei por que motivo, simplesmente não consegui. Mesmo adormecido ele me atraía, fazendo-me bater mais depressa o coração.

           Bartholomew Winslow, sorrindo inocentemente no sono, correspondendo inconscientemente à minha admiração. Um advogado, um daqueles homens que sabia tudo, como os médicos, como Chris. Sem dúvida estava experimentando algo excepcionalmente agradável. O que se passava por detrás daquelas pálpebras cerradas? Tentei adivinhar, também, se tinha olhos azuis ou castanhos. O rosto era comprido e fino, o corpo esbelto, duro, musculoso. A cova em sentido vertical no queixo parecia brincar de esconder ao variar de formato com os vagos sorrisos sonolentos.

       Usava uma larga aliança trabalhada em relevo, naturalmente o par da que mamãe tinha no dedo. No dedo indicador da mão direita, trazia um grande anel de brilhante com lapidação quadrada que faiscava apesar da pouca luminosidade reinante no quarto. No dedo mínimo, um anel do grêmio acadêmico da universidade. Os dedos longos tinham unhas quadradas, bem aparadas e polidas até brilharem como as minhas. Lembrei-me de que mamãe costumava polir as unhas de papai enquanto ambos se provocavam com os olhos.

            Ele era alto... isso eu já sabia. E de tanta coisa que me agradava nele, o que mais me intrigou foram os lábios cheios e sensuais sob o bigode. Uma boca de formato tão lindo e lábios sensuais que deviam beijar minha mãe... em toda parte. Aquele livro de prazeres sexuais educara-me bem quanto ao que os adultos davam ou recebiam quando despidos.

            Fui repentinamente dominada pelo impulso de beijá-lo só para verificar se o bigode provocava cócegas. E para verificar, também, como seria o beijo de um desconhecido que não fosse meu parente consangüíneo.

           Aquele não era proibido. Não seria pecado estender a mão hesitante para acariciar-lhe bem de leve o rosto escanhoado, desafiando-o suavemente a despertar.

           Mas ele continuava adormecido.

           Debrucei-me sobre ele e colei muito de leve meus lábios nos seus. Então, afastei-me depressa, o coração pulsando como uma espécie de medo paralisante. Eu quase desejava que ele acordasse, mas ainda estava temerosa e assustada. Era por demais jovem e insegura do que possuía para acreditar que ele acorresse em minha defesa quanto tinha uma mulher como mamãe loucamente apaixonada por ele. Se eu lhe pegasse o braço e o acordasse, ele permaneceria calmamente sentado a escutar minha estória a respeito de quatro crianças seqüestradas e prisioneiras num quarto solitário e isolado, ano após ano, aguardando com impaciência a morte do avô? Compreenderia, teria piedade de nós e obrigaria mamãe a libertar-nos e abrir mão das esperanças de herdar aquela imensa fortuna?

           Minhas mãos se ergueram nervosamente à garganta, como faziam as de mamãe quando ela se via num dilema, sem saber que direção tomar. Meu instinto berrava: “Acorde-o!” Minhas desconfianças murmuravam astuciosamente: “Fique calada, não o deixe saber; ele não vai querer quatro filhos que não gerou... Vai detestá-los por evitarem que a esposa herde toda a riqueza e os prazeres que o dinheiro pode comprar.”

       Olhei para ele, tão jovem e belo. Embora nossa mãe fosse excepcionalmente bela e estivesse prestes a tornar-se uma das mulheres mais ricas do mundo, ele poderia ter escolhido alguém mais jovem que ela. Uma virgem imaculada, que nunca tivesse amado outro homem, nem dormido com alguém.

           Então, minha indecisão se desfez. A resposta era muito simples: o que eram quatro filhos indesejáveis em comparação com uma fortuna incalculável?

           Nada. Mamãe já me ensinara isso. E uma virgem o entediaria.

           Oh, era injusto! Um jogo desleal! Nossa mãe tinha tudo! Liberdade de ir e vir à vontade! Liberdade para gastar abundantemente e fazer compras nas melhores e mais caras lojas do mundo! Tinha até mesmo o dinheiro suficiente para comprar um homem muito mais jovem a quem amar e com quem dormir. E o que tínhamos Chris e eu senão sonhos desfeitos, promessas quebradas e intermináveis frustrações?

           E o que tinham os gêmeos senão uma casa de bonecas, um camundongo de estimação e uma saúde cada vez mais precária?

           Voltei ao tristonho quarto trancado com lágrimas nos olhos, levando no peito desesperança que me pesava como pedra.

            Encontrei Chris adormecido, com o compêndio de anatomia emborcado sobre o peito. Marquei cuidadosamente a página, fechei o livro e o coloquei de lado.

           Então, deitei-me ao lado de Chris, abraçando-o, e as lágrimas silenciosas me escorreram pelo rosto, molhando-lhe o pijama.

           — Cathy — disse ele, acordando e voltando sonolentamente à realidade. — O que houve? Está chorando? Alguém viu você?

           Não consegui encará-lo e, por algum motivo inexplicável, também não pude relatar o que acontecera. Não consegui pronunciar as palavras que lhe diriam que eu encontrara o novo marido de mamãe cochilando no quarto dela. E muito menos pude contar-lhe que eu fora tão infantilmente romântica a ponto de beijá-lo enquanto ele dormia.

           — E não encontrou uma só moedinha? — indagou ele, incrédulo.

           — Nenhuma — sussurrei em resposta, tentando ocultar o rosto de seu olhar.

            Todavia, Chris colocou a mão sob meu queixo, obrigando-me a virar a cabeça para que ele pudesse ver no fundo de meus olhos. Oh, por que tínhamos que conhecer-nos tão bem? Continuou a fitar-me, enquanto eu procurava manter o olhar inexpressivo, mas não adiantou. Tudo o que consegui fazer foi fechar os olhos e agarrar-me ainda mais a ele, que enfiou o rosto em meus cabelos e me acariciou reconfortantemente as costas.

           — Está bem. Não chore. Você não sabe onde procurar, como eu sei.

           Eu tinha que sair dali, tinha que fugir; e quando fugisse levaria tudo aquilo comigo, não importa aonde fosse ou com quem eu terminasse.

           — Agora, pode voltar à sua cama — disse Chris, com aquela voz rouca. — A avó pode abrir a porta e surpreender-nos, você sabe.

           — Chris, você não tornou a vomitar depois que saí, não é?

            — Não. Estou melhor. Agora, vá, Cathy. Saia daqui.

           — Está mesmo melhor? Ou é só da boca para fora?

           — Não acabei de dizer que estou melhor?

            — Boa-noite, Christopher — repliquei, beijando-lhe o rosto antes de sair de sua cama e ir para a minha, acomodando-me junto a Carrie.

            — Boa-noite, Catherine. Você é uma ótima irmã para mim e mãe para os gêmeos... mas é péssima mentirosa e pior ladra!

           Cada incursão de Chris no quarto de mamãe aumentava nosso tesouro escondido. Estávamos demorando muito a atingir nossa meta de quinhentos dólares. Agora, o verão tornara a chegar. Eu tinha quinze anos e os gêmeos haviam completado oito há pouco tempo. Em breve, agosto marcaria nosso terceiro ano de confinamento. Precisávamos fugir antes do próximo inverno. Olhei para Cory, que comia desanimadamente os grãos de feijão fradinho porque eram “feijão de sorte”. Na primeira vez, um Ano Novo, ele se recusara comê-lo porque não queria “olhinhos” espiando em suas entranhas. Agora, comia-os porque cada grão representava um dia de felicidade, conforme conseguíramos convencê-lo. Chris e eu tínhamos que inventar estórias desse tipo, do contrário Cory não comia coisa alguma exceto as rosquinhas. Terminando a refeição, Cory sentou-se no chão, dedilhando o banjo, com o olhar fixo num tolo desenho animado. Carrie, sentada a seu lado, o mais perto possível dele, observava o rosto do irmão e não a televisão.

           — Cathy — disse-me ela no seu gorjeio de costume, — Cory não está passando bem.

           — Como você sabe?

           — Eu sei.

           — Ele disse que está doente?

           — Não precisa dizer.

           — E como está você?

           — Como sempre.

           — E como é isso?

           — Não sei.

           Oh, sim! Precisávamos fugir e depressa!

           Mais tarde, acomodei os gêmeos numa das camas. Depois que ambos adormecessem, eu pegaria Carrie no colo e a passaria para a nossa cama, mas, por enquanto, era mais reconfortante para Cory pegar no sono com a irmã a seu lado.

           — Não gosto desse lençol cor-de-rosa — declarou Carrie, dirigindo-me uma carranca. — Todos nós gostamos de lençóis brancos. Onde estão nossos lençóis brancos?

          Oh, triste dia em que Chris e eu transformamos o branco na mais segura de todas as cores! Margaridas desenhadas a giz branco no chão do sótão afugentavam os demônios malvados, os monstros e todas as outras coisas que os gêmeos temiam que os pegassem se não houvesse por perto algo branco para protegê-los. Lençóis e fronhas de outras cores, ou mesmo estampados, não eram tolerados... os pequenos pedaços coloridos do estampado proporcionavam aos demônios menores um buraco através do qual podiam enfiar os rabos bifurcados, ou espiar com um olho malévolo, ou picar com uma pequena lança! Rituais, fetiches, hábitos, normas, (oh, Deus!) nós os tínhamos aos milhões! Só para ficarmos seguros.

           — Cathy, por que mamãe gosta tanto de vestidos pretos? — quis saber Carrie, esperando enquanto eu retirava os lençóis cor-de-rosa para substituí-los por brancos.

           — Mamãe é loura e tem a pele muito clara; o preto a torna ainda mais loura e excepcionalmente bonita.

           — Ela não tem medo de preto?

           — Não.

           — Que idade a gente precisa ter para o preto parar de nos morder com dentes compridos?

           — Idade suficiente para saber que essa pergunta é absolutamente tola.

           — Mas todas as sombras pretas no sótão têm dentes brilhantes e afiados — disse Cory, recuando para evitar que os lençóis cor-de-rosa lhe roçassem na pele.

           — Agora, ouçam — disse eu, vendo os olhos risonhos de Chris observarem tudo, à espera da preciosidade que eu sem dúvida inventaria naquele momento. — As sombras pretas não têm dentes brilhantes e afiados a menos que nossa pele seja verde, que nossos olhos sejam vermelhos, que nossos cabelos sejam roxos, e que tenhamos três orelhas em vez de duas. Só então o preto constitui uma ameaça.

            Reconfortados, os gêmeos se enfiaram sob os lençóis e cobertas brancos, adormecendo depressa. Então, tive tempo para tomar banho, lavar o cabelo e vestir um baby-doll transparente. Corri ao sótão para escancarar uma janela, na esperança de pegar uma brisa que refrescasse o ambiente e me desse vontade de dançar, em vez de murchar. Por que o vento só entrava em pleno inverno? Por que não agora, quando mais necessitávamos dele?

            Chris e eu compartilhávamos nossos pensamentos, aspirações, dúvidas e temores. Se eu tivesse pequenos problemas, ele era o meu médico. Felizmente, meus problemas eram de pouca importância: apenas aquelas cólicas mensais, que nunca vinham no período certo e que ele, como meu médico amador, afirmava que era de se esperar. Já que era de natureza quixótica, toda a minha máquina interna devia acompanhar meu comportamento.

           Assim, agora posso escrever a respeito de Chris e do que ocorreu numa noite de setembro, quando eu estava no sótão e ele descera para roubar, como se tivesse presenciado tudo, pois ele descreveu posteriormente, depois que o choque inicial de algo totalmente inesperado diminuiu um pouco, todos os detalhes daquela sua incursão ao grandioso conjunto de luxuosos aposentos de nossa mãe.

           Chris contou-me que aquele livro na gaveta da mesinha de cabeceira sempre o atraía; chamava-o, iludia-o, e viria mais tarde a naufragá-lo, e a mim também.

            Tão logo ele encontrava sua cota de dinheiro, o bastante, mas não demais, dirigia-se à cama e à mesinha, como que magnetizado.

           Enquanto ele contava, eu me indagava: “Por que ele precisa estar sempre olhando o livro, quando eu tenho gravado na mente cada detalhe daquelas páginas?”

           A respeito daquela noite, Chris relatou:

           — E lá estava eu, lendo algumas páginas de texto e pensando a respeito de certo e errado, da natureza e seus estranhos desígnios, das circunstâncias de nossa vida aqui em cima. Pensei em você e em mim, pois estes deveriam ser nossos anos de florescimento, e eu era obrigado a sentir vergonha e remorso de estar crescendo e de desejar o que os outros rapazes da minha idade aproveitam das garotas que se prestam a isso. E quando lá estava, folheando o livro e ardendo interiormente com tantas frustrações, desejando que você jamais tivesse encontrado aquele livro, cujo título banal nunca me chamara a atenção, escutei vozes que se aproximavam pelo corredor. Você sabe quem era: nossa mãe e o marido, voltando ao quarto. Enfiei depressa o livro na gaveta, coloquei sobre ele as duas brochuras que ninguém terminaria de ler, pois os marcadores estavam sempre nas mesmas páginas. Em seguida, corri para o closet de mamãe, você sabe, o maior, que fica mais perto da cama, e me agachei lá no fundo, perto das prateleiras dos sapatos, escondido por detrás dos longos vestidos de gala. Julguei que se ela entrasse não me veria. E duvidei que entrasse. Mas nem cheguei a me sentir em segurança, pois logo me lembrei de que esquecera a porta aberta. Foi então que ouvi a voz de nossa mãe, quando ela entrou no quarto e acendeu a luz, dizendo: “Realmente, Bart, é muito descuido de sua parte esquecer tantas vezes a carteira.” E ele respondeu: “Não posso evitar esquecê-la, pois nunca está no lugar onde a deixo.” Escutei-o mexer nas coisas, abrindo e fechando gavetas. Então, explicou: “Tenho certeza de que a deixei nessa calça... e não vou a parte alguma sem minha carteira de motorista.” Mamãe comentou: “Do modo como você dirige, não posso culpá-lo. Mas chegaremos atrasados novamente. Por mais depressa que você dirija, ainda perderemos o primeiro ato.” “Ei!”, exclamou o marido dela. Sua voz expressava surpresa e gemi interiormente ao me lembrar do que fizera. “Aqui está a carteira, em cima da cômoda. Não me lembro de tê-la deixado aqui. Sou capaz de jurar que estava no bolso das calças.”

            Chris explicou:

           — Na verdade, ele tinha escondido a carteira numa gaveta da cômoda, debaixo das camisas. Quando a encontrei, retirei algumas notas de pequeno valor e a deixei em cima da cômoda para ir olhar aquele livro. Então, mamãe disse, como se perdesse a paciência com ele: “Francamente, Bart!” — E ele replicou: “Vamos sair dessa casa, Corrine. Creio que as empregadas andam nos roubando. Tenho sentido falta de dinheiro e você também. Por exemplo: sei que tinha quatro notas de cinco dólares. Agora, tenho apenas três.” Tomei a gemer por dentro. Pensei que ele tivesse tanto dinheiro que nunca se desse o trabalho de contá-lo. E o fato de mamãe saber quanto dinheiro tinha na bolsa foi realmente chocante para mim. “Que diferença faz uma nota de cinco dólares?”, quis saber nossa mãe, bem a seu feitio, pouco se importando com dinheiro, como no tempo de papai. E acrescentou que os empregados eram mal remunerados e ela não os culpava por se apoderarem do que era deixado tão oportunamente ao seu alcance, “praticamente convidando-os a roubar.” O marido retrucou: “Minha querida esposa, o dinheiro pode ser fácil para você, mas sempre tive que dar duro para ganhar o meu e não admito que me roubem um centavo. Além disso, não posso dizer que o dia começa bem para mim quando vejo a sinistra cara de sua mãe no outro lado da mesa todas as manhãs.”

            — Sabe — continuou Chris — eu nunca tinha pensado no que ele poderia sentir a respeito da bruxa velha. Aparentemente, sente o mesmo que nós. Então, mamãe se irritou um pouco e disse: “Não vamos começar tudo isso outra vez.” Sua voz tinha um tom áspero; nem parecia dela, Cathy. Nunca me ocorreu antes que ela falasse conosco num tom e com as outras pessoas noutro. Depois, acrescentou: “Você sabe que não podemos sair dessa casa, ainda não. Portanto, se vamos ao teatro é melhor irmos logo; já estamos atrasados.” Foi então que nosso padrasto declarou que preferia não ir, já que iam perder o primeiro ato, pois isso estragaria a peça inteira. Além disso, ele achava que poderiam encontrar algo mais interessante para fazer que ficarem sentados numa platéia. Percebi que ele estava sugerindo que poderiam ir para a cama fazer um pouco de amor. Se pensa que isso não me deixou repugnado, então você não me conhece bem. Eu preferia morrer a ficar ali enquanto aquilo acontecia. Entretanto, nossa mãe é capaz de mostrar muita voluntariedade, o que me surpreendeu. Ela mudou, Cathy; está muito diferente do que era com papai. Agora, quem manda é ela e homem algum pode lhe dizer o que deve fazer. E ela disse ao marido: “Como na última vez? Ora, foi realmente embaraçoso, Bart! Você voltou para buscar a carteira, jurando-me que não se demoraria, e acabou adormecendo e deixando-me sozinha na festa, sem um acompanhante!” Foi quando nosso padrasto deu a impressão de irritar-se tanto com as palavras quanto com o tom de nossa mãe. Foi o que julguei e você sabe que é possível perceber muita coisa pela voz das pessoas, mesmo quando não lhes vemos as fisionomias e expressões faciais. “Oh, como você deve ter sofrido!”, replicou ele, parecendo sarcástico. Mas aquilo logo passou, pois ele parece um sujeito jovial. “Quanto a mim, tive o mais lindo sonho e voltaria sempre se tivesse certeza de que uma bela jovem de longos cabelos dourados entraria furtivamente no quarto para me beijar enquanto eu cochilasse. Oh, ela era linda e me olhou com tanto desejo, mas quando abri os olhos já tinha desaparecido e julguei que só podia ser um sonho.”

            — O que ele disse deixou-me estarrecido, Cathy... foi você, não foi? Como pôde ser tão atrevida e indiscreta? Fiquei tão furioso com você que seria capaz de explodir se a mínima coisa acionasse o detonador. Você acha que é a única que sente tensão, não acha? Acha que é a única que tem frustrações, dúvidas, suspeitas e temores. Bem, console-se por saber que também tenho, graças a você. E tive raiva de você. Uma raiva como nunca senti antes. Então, mamãe disse asperamente ao marido: “Oh, Deus! Já estou cansada de ouvir você falar dessa garota e do beijo que ela lhe deu. Ora, ouvindo você falar, é de se pensar que nunca foi beijado antes!” Pensei que fossem discutir e brigar ali mesmo, mas mamãe mudou o tom de voz, mostrando-se carinhosa e apaixonada, como costumava fazer com papai. Entretanto, isso provou que ela estava mais disposta a deixar esta casa que o marido, pois este seria capaz de utilizar a cama de cisne naquele mesmo momento. Mamãe disse. “Venha, Bart. Passaremos a noite num hotel e você não terá que ver a cara de minha mãe amanhã de manhã.” E isso acabou com minha preocupação de encontrar um meio de fugir do quarto enquanto eles usassem a cama de cisne, pois não pretendia ficar ali para escutar ou espiar o que fariam.

           Tudo isso se passou enquanto eu estava no sótão, sentada no peitoril de uma janela, aguardando o regresso de Chris. Pensava na caixa de música de prata que papai me dera e desejava tê-la de volta. Não sabia, então, que o episódio no quarto de mamãe teria repercussões.

            Um rangido atrás de mim! Um passo macio na madeira apodrecida! Sobressaltei-me, assustada, amedrontada, virando-me e esperando deparar com... só Deus sabe o quê! Então, suspirei aliviada, pois era Chris quem estava parado no escuro, olhando silenciosamente para mim. Por quê? Estava mais bonita que de costume? Seria o luar, brilhando através de minhas roupas transparentes?

           Todas as dúvidas esparsas se dissiparam quando ele disse em voz áspera e baixa:

           — Você está linda, sentada assim.

            Pigarreou para livrar-se do sapo que parecia haver em sua garganta.

       — O luar lhe desenha a silhueta em azul-prateado e posso ver as formas de seu corpo sob as roupas.

           Então, assustadoramente, agarrou-me pelos ombros, apertando os dedos com muita força! Doeu.

           — Maldita seja, Cathy! Você beijou aquele homem! Ele poderia acordar, ver você e exigir que se identificasse! E não pensar que você fosse apenas parte de um sonho!

           Ele agia de modo estranho e eu sentia um medo inexplicável.

           — Como sabe o que eu fiz? Você não esteve lá naquela noite; ficou na cama.

           Ele me sacudiu novamente, com os olhos faiscando de fúria. Mais uma vez, pareceu-me um estranho.

           — Ele viu você, Cathy, não estava dormindo!

           — Ele me viu! — exclamei, incrédula; era impossível. Impossível!

           — Sim! — berrou meu irmão, Chris, que costumava controlar tão bem as emoções. — Ele pensa que você foi parte de um sonho! Mas não compreende que mamãe pode adivinhar quem foi, simplesmente somando dois e dois, como eu somei? Ao diabo com você e suas idéias românticas! Agora eles sabem a respeito de nós! Não deixarão dinheiro espalhado, como antes. Ambos estão contando o dinheiro e nós não temos o suficiente, ainda não!

           Tirou-me do peitoril com um arranco! Parecia bastante desvairado e furioso para esbofetear-me e nunca antes, em toda a vida, ele me encostara a mão, embora eu lhe tivesse dado motivos mais que suficientes para isso quando era menor. Entretanto, sacudiu-me até que meus olhos deram a impressão de saltar nas órbitas, até que fiquei tonta e exclamei:

           — Pare! Mamãe sabe que não podemos passar por uma porta trancada!

           Aquele não era Chris... era alguém que eu nunca vira antes... um selvagem, primitivo.

           Gritou algo como:

           — Você é minha, Cathy! Minha! Será sempre minha! Não importa quem surgir em seu futuro, você sempre me pertencerá! Eu tornarei você minha... esta noite... agora!

            Não acreditei; não podia ser Chris!

           Eu não compreendia bem o que ele tinha em mente nem creio que ele soubesse realmente o que dizia, dando crédito ao que afirmou depois, mas a paixão tem o dom de assumir o controle.

           Caímos ambos no chão. Tentei afastá-lo. Lutamos, rolando pelo assoalho, contorcendo-nos em silêncio, num combate frenético da força dele contra a minha.

           Não foi uma batalha demorada.

           Eu tinha as pernas fortes de bailarina, ele possuía os bíceps, o maior peso e altura... e estava muito mais decidido que eu a utilizar algo quente, inchado e exigente, a tal ponto que perdeu todo o raciocínio e sanidade.

           E eu o amava. Queria o que ele queria, certo ou errado, já que ele desejava tanto.

           Não sei como, terminamos sobre aquele velho colchão sujo, fedorento e manchado, que certamente conhecera outros amantes antes daquela noite. E foi onde Chris me possuiu, forçando para dentro de mim aquele seu órgão masculino rígido e inchado, que necessitava de satisfação. Penetrou-me na carne contraída e relutante, que foi rasgada e sangrou.

            Agora, tínhamos feito aquilo que ambos juráramos jamais fazer.

            Agora, estávamos condenados por toda a eternidade, condenados a sermos assados para sempre, nus e pendurados de cabeça para baixo sobre as chamas eternas do inferno. Pecadores, exatamente como a avó previra há tanto tempo.

           Agora eu tinha todas as respostas.

           Agora talvez houvesse um bebê. Um filho para obrigar-nos a pagar em vida, sem esperar pelo inferno e pelo fogo eterno que nos estava destinado.

           Afastamo-nos um do outro, fitando-nos, nossos rostos aturdidos e pálidos de choque, mal conseguindo falar ao nos vestirmos.

           Chris nem precisava dizer que se arrependia... estava escrito nele... no modo como tremia, em suas mãos trêmulas que tanto vacilavam e se atrapalhavam ao abotoarem a roupa.

           Mais tarde, saímos para o telhado.

           Compridas tiras de nuvens eram sopradas pelo vento e passavam de encontro à lua cheia, que dava a impressão de esquivar-se, esconder-se e tornar a aparecer no céu. E no telhado, numa noite feita para os amantes, choramos nos braços um do outro. Chris não tencionara fazer aquilo. E eu não tencionara permiti-lo. O medo do bebê que poderia resultar de um único beijo em lábios cobertos por um bigode subia-me à garganta, hesitando na ponta da língua. Era meu maior receio. Mais que o inferno ou a ira divina, eu temia dar à luz uma criança monstruosa, deformada, imbecil. Contudo, como poderia tocar no assunto? Chris já sofria bastante. Entretanto, seus pensamentos eram mais abalizados que os meus.

           — Todas as probabilidades são contrárias a um bebê — declarou fervorosamente. — Apenas uma vez, não haverá concepção. Juro que não se repetirá, em hipótese alguma!

           Então, puxou-me com tanta força de encontro a ele que me fez doer as costelas.

           — Não me odeie, Cathy. Por favor, não me odeie. Juro por Deus que não pretendia violentá-la. Houve muitas vezes em que não senti tentado, mas sempre consegui dominar-me. Saía do quarto, ia para o banheiro, subia ao sótão ou enfiava o nariz num livro, até voltar ao normal.

           Abracei-o com a maior força possível.

           — Eu não odeio você, Chris — murmurei, apertando a cabeça contra seu peito. — Você não me violentou. Eu poderia impedi-lo, se realmente quisesse. Tudo o que precisava fazer era dar-lhe uma joelhada, como você mesmo me ensinou. A culpa também foi minha.

           Oh, sim, a culpa também fora minha. Deveria ter juízo bastante para não beijar o jovem e belo marido de mamãe. Não deveria usar roupas curtas e transparentes perto de um irmão que sentia todas as fortes necessidades físicas masculinas, e era tão frustrado por tudo e por todos. Eu jogara, brincara com suas necessidades, testando minha feminilidade, sentindo meus próprios anseios ardentes de satisfação.

           Era um tipo peculiar de noite, como se Deus a tivesse planejado muito tempo antes; aquela noite era nosso destino, certo ou errado. Era escuridão rompida por uma lua muito cheia e brilhante, as estrelas parecendo conversar entre si com cintilações em código Morse... o destino cumprido...

           O vento farfalhava nas folhas, produzindo uma estranha música melancólica e sem melodia que, não obstante, ainda era música. Como poderia algo tão humano e cheio de amor ser feio e sujo numa noite tão bela?

           Talvez nos demorássemos demais no telhado.

           A ardósia era fria, dura e áspera. Estávamos no início de setembro. As folhas já começavam a cair e dentro em breve sentiríamos a mão gelada do inverno. Um calor infernal no sótão. No telhado, começava a fazer frio, muito frio.

           Chris e eu nos aconchegamos mais, agarrando-nos mutuamente em busca de segurança e calor. Jovens amantes pecaminosos da pior espécie. Tínhamos caído quilômetros em nossa própria estima, derrotados por anseios tensos demais pela proximidade constante. Ultrapassáramos apenas uma vez a conta da brincadeira com o destino e nossos temperamentos sensuais... e na época eu nem sabia que era sensual, muito menos que ele o era. Julgava que fosse apenas a música bonita que me fazia doer o coração e provocava a estranha sensação de apetite em meu ventre; não imaginava tratar-se de algo muito mais tangível.

           Como se partilhássemos o mesmo coração, martelávamos um terrível ritmo de autoflagelação pelo que fizéramos.

           Uma brisa mais fria ergueu uma folha morta até o telhado e soprou-a alegremente pelo ar até prender-se em meu cabelo. Ela estalou, seca e quebradiça, quando Chris a pegou para fitá-la como se sua própria vida dependesse de conhecer o segredo daquela folha morta e aprender a ser soprado pelo vento. Uma folha seca, sem braços, pernas ou asas... mas capaz de voar depois de morta.

           — Cathy — disse ele numa voz seca que se assemelhava ao estalar da folha morta. — Agora, temos exatamente trezentos e noventa e seis dólares e quarenta e quatro centavos. A neve não demorará muito a começar a cair.          Não possuímos roupas de inverno ou botas adequadas e os gêmeos estão de tal forma debilitados que se resfriam com facilidade e podem passar de um resfriado para uma pneumonia. Acordo à noite preocupado com eles e já vi você acordada olhando para Carrie, de modo que também deve estar preocupada. Duvido muito que, de agora em diante, encontremos dinheiro espalhado no quarto de mamãe. Desconfiam que uma das empregadas esteja roubando, ou desconfiavam, pois é possível que mamãe já suspeite de que foi você... Não sei... Espero que não... Não importa o que eles possam pensar, na próxima vez que descer eu serei forçado a roubar as jóias dela. Farei uma limpeza: apanharei tudo de uma vez e fugiremos em seguida. Tão logo estivermos bastante longe daqui, levaremos os gêmeos a um médico e teremos dinheiro suficiente para pagar as contas.

           Levar as jóias, o que eu implorara a ele o tempo todo! Afinal, Chris concordava em roubar os prêmios que mamãe tanto lutara para conseguir. E, nesse processo, ela nos perderia também, Mas importar-se-ia com isso?

           Uma velha coruja, que talvez fosse a mesma que nos saudara na parada do trem na primeira noite que ali chegáramos, piou a distância, parecendo um fantasma. Enquanto observávamos, nesgas finas e vagarosas de névoa cinzenta começaram a subir do solo úmido, condensadas pelo repentino frio da noite. O nevoeiro engrossou, subindo até o telhado... engolfando-nos como um mar turvo em ondas revoltas.

           E a única coisa que conseguíamos ver por entre as nuvens cinzentas, úmidas e frias era o único e grande olho de Deus brilhando lá em cima, na lua.

           Acordei antes do alvorecer. Olhei para onde Cory e Chris dormiam. No momento em que abri os olhos sonolentos e virei a cabeça, senti que Chris também estava acordado, havia algum tempo. Ele já me fitava e lágrimas brilhantes faiscavam no azul de seus olhos, rolando para pingarem no travesseiro. Batizei-as à medida que escorriam: vergonha, remorso, culpa.

           — Eu o amo, Christopher. Não precisa chorar. Se você puder esquecer, eu também poderei. E nada existe a perdoar.

           Ele meneou a cabeça, sem falar. Mas eu o conhecia bem, até a medula dos ossos. Conhecia seus pensamentos, seus sentimentos, e todos os modos de ferir-lhe fatalmente o ego. Sabia que, por meu intermédio, ele se vingara da mulher que lhe traíra a confiança, a fé e o amor. Bastava-me olhar no espelho de prata com o monograma C.L.F. nas costas para ver o rosto de minha mãe como era quando ela tinha a minha idade.

           Portanto, acontecera exatamente conforme a avó previra. Filhos do Demônio. Criados por sementes ruins plantadas no solo errado, brotando novas plantas que repetiam os erros e pecados dos pais.

           E das mães.

 

Pintem todos os dias de azul,

mas reservem um para o negro

 

           Íamos fugir. A qualquer dia. Tão logo mamãe nos dissesse que pretendia sair à noite, seria despojada de todas as suas posses valiosas e transportáveis. Não voltaríamos a Gladstone, pois lá o inverno durava até maio. Iríamos a Sarasota, onde vivia o pessoal de circo, que tinha fama de ser bondoso para com as pessoas desamparadas. Uma vez que Chris e eu nos acostumáramos a lugares altos, como o telhado e as cordas estendidas nas vigas do sótão, sugeri a Chris em tom de brincadeira:

            — Que tal sermos trapezistas?

           Ele sorriu, achando a idéia ridícula apenas no início, pois logo passou a considerá-la uma inspiração.

         — Puxa! Você ficaria sensacional numa malha cintilante cor-de-rosa, Cathy!

           E começou a cantar:

 

           Ela voa pelos ares como um pássaro,

            A corajosa e bela jovem

           Do trapézio voador...

 

           Cory levantou bruscamente a cabeça loura, com os olhos azuis esbugalhados de pavor.

           — Não!

           Carrie declarou no seu tom mais prático:

           — Seus planos não nos agradam. Não queremos que vocês caiam do trapézio.

           — Jamais caímos — declarou Chris. — Cathy e eu formamos uma dupla imbatível.

           Olhei para ele, relembrando aquela noite na sala de aulas e depois no telhado, quando ele sussurrara: “Nunca amarei ninguém senão você, Cathy. Tenho certeza... uma sensação... só nós dois, para sempre.”

           Eu rira com naturalidade:

           — Não seja tolo; sabe que não me ama essa maneira. E não precisa sentir remorso ou vergonha. A culpa também foi minha. Além disso, podemos fazer de conta que nunca aconteceu e tomar providências para que nunca mais torne a acontecer.

           — Mas, Cathy...

           — Se existissem outras pessoas para você e para mim, nós nunca, nunca nos sentiríamos assim.

           — Mas quero sentir-me assim em relação a você e já é tarde demais para eu amar ou confiar em outra pessoa.

          Como eu me sentia velha, olhando para Chris e os gêmeos, fazendo planos para todos nós, falando com tanta confiança em abrirmos caminho no futuro. Apenas um artifício para consolar os gêmeos e pacificá-los, quando eu sabia que seríamos obrigados a fazer de tudo é qualquer coisa para ganharmos nosso sustento.

            Setembro passou e outubro chegou. Em breve a neve começaria a cair.

           — Esta noite — disse Chris depois que mamãe saiu do nosso quarto, despedindo-se apressadamente e não parando à porta para um último olhar.

           Agora, ela mal conseguia ver-nos.

           Enfiamos uma fronha na outra, para reforçá-la. Naquele saco, Chris meteria as preciosas jóias de mamãe. Eu já arrumara nossas duas malas, que estavam escondidas no sótão, onde mamãe nunca ia atualmente.

            No final da tarde, Cory começou a vomitar repetidamente. No armário de remédios tínhamos medicações caseiras para problemas digestivos.

            Nada do que demos a Cory serviu para aliviar os terríveis vômitos que o tornavam pálido e trêmulo, fazendo-o chorar. Então, ele me abraçou o pescoço, murmurando:

            — Mamãe, não me sinto bem.

            — O que posso fazer para que se sinta melhor Cory? — indaguei, sentindo-me tão jovem e inexperiente.

            — Mickey — sussurrou ele debilmente. — Quero que Mickey durma comigo.

            — Mas você pode rolar na cama e esmagá-lo. Não quer que ele morra, quer?

            — Não — disse ele, apavorado com a idéia.

            Então os terríveis vômitos recomeçaram e ele ficou gelado em meus braços, os cabelos grudados na testa úmida de suor frio, os olhos vagos pousados no meu rosto enquanto ele chamava repetidamente pela mãe:

            — Mamãe, mamãe, sinto dor nos ossos.

            — Está tudo bem — assegurei, pegando-o no colo para levá-lo de volta à cama, onde poderia trocar-lhe o pijama sujo de vômito.

            Como ele podia vomitar outra vez se nada mais lhe restava no estômago?

            — Não se preocupe. Chris vai ajudar você.

            Deitei-me a seu lado, abraçando o corpinho trêmulo e debilitado.

            Chris estava sentado à escrivaninha improvisada, consultando livros de medicina, procurando usar os sintomas de Cory para diagnosticar a misteriosa moléstia que atacava cada um de nós de tempos em tempos. Embora já tivesse quase dezoito anos, ainda estava muito longe de ser médico.

            — Não vão embora deixando Carrie e eu para trás — implorou Cory.

            Mais tarde, exclamou bem alto:

            — Não vá embora, Chris! Fique aqui!

            O que queria ele dizer? Não queria que fugíssemos? Ou referia-se a ir novamente ao quarto de mamãe para roubar? Por que Chris e eu sempre julgávamos que os gêmeos nunca davam muita atenção às nossas conversas? Era evidente que Cory e Carrie sabiam que jamais fugiríamos sem os levarmos conosco; preferíamos morrer antes de fazer tal coisa.

            Uma coisinha sombria, toda vestida de branco, aproximou-se da cama e fixou os grandes olhos azuis lacrimosos no seu irmão gêmeo. Tinha menos de um metro de altura. Era velha e jovem, como uma tenra plantinha mantida numa estufa aquecida, raquítica e murcha.

            — Permitem-me — começou ela, muito educadamente (como tentávamos ensinar-lhe; ela se recusava terminantemente a empregar a gramática que lhe ensinávamos, mas tentou o melhor possível naquela noite das noites) — dormir com Cory? Nada faremos de errado, pecaminoso ou malvado. Quero apenas estar perto dele.

            Que a avó chegasse e fizesse o pior possível! Colocamos Carrie ao lado de Cory. Depois, Chris e eu sentamo-nos em lados opostos da enorme cama e observamos Cory debater-se, inquieto, arquejando para respirar e gritando em seu delírio. Queria o camundongo, queria o pai, queria a mãe, queria Chris e queria a mim. As lágrimas umedeciam a gola de minha camisola e, ao erguer os olhos, percebi que também escorriam pelo rosto de Chris.

            — Carrie... Carrie... Onde está Carrie? — repetia Cory, muito depois que a irmã já adormecera.

            Os dois rostinhos abatidos estavam a apenas poucos centímetros um do outro e ele olhava diretamente para Carrie, mas mesmo assim não conseguia enxergá-la. Quando eu desviava os olhos para olhar Carrie, ela não me parecia em melhor estado de saúde que ele.

            Castigo, pensei. Deus castigava Chris e eu pelo que havíamos feito. A avó nos prevenira... admoestara-nos diariamente, até o dia em que fomos surrados.

            Chris passou a noite inteira lendo um livro de medicina após outro, enquanto eu me levantei e passei a andar pelo quarto.

            — Intoxicação alimentar — disse Chris afinal, erguendo os olhos vermelhos de sangue. — O leite... devia estar azedo.

            — Não tinha gosto nem cheiro de azedo — murmurei em resposta.

            Eu sempre tinha o cuidado de cheirar e provar tudo antes de dar aos gêmeos ou a Chris. Não sei por que, achava que meu paladar era mais aguçado que o de Chris; este gostava e comia de tudo, até mesmo manteiga rançosa.

            — O hambúrguer, então. Achei o gosto esquisito.

            — Para mim, o gosto estava bom.

            E para ele também devia estar, pois comera metade do hambúrguer de Carrie e todo o de Cory. Este não quisera comer nada durante o dia inteiro.

            — Cathy, percebi que você também quase não comeu o dia todo. Está quase tão magra quanto os gêmeos. Ela nos traz comida suficiente. Você não tem necessidade de se privar da alimentação.

            Sempre que me sentia nervosa, ou frustrada, ou preocupada, e agora estava sentindo as três coisas, eu começava exercícios de balé. Apoiei-me de leve na cômoda, que me servia de barra, e comecei a me aquecer fazendo pliés.

            — Precisava fazer isso, Cathy? Já está que é só pele e osso. E não comeu hoje. Também está doente?

           — Cory adora as rosquinhas e elas são a única coisa que tenho vontade de comer. Como ele precisa delas mais que eu...

            A noite se arrastava. Chris voltou aos livros de medicina. Dei água a Cory e ele a vomitou imediatamente. Lavei-lhe o rosto com água fria uma dúzia de vezes e troquei-lhe três vezes o pijama. Carrie continuava a dormir profundamente.

            Alvorada.

            O sol nasceu e ainda tentávamos descobrir o que havia de errado com Cory, quando a avó chegou com a cesta de piquenique contendo a comida daquele dia. Sem dizer uma palavra, trancou a porta, guardou a chave no bolso do vestido e avançou até a mesinha de jogo. Tirou da cesta a grande garrafa térmica de leite, as garrafas menores com sopa, os embrulhos de papel aluminizado contendo sanduíches, galinha frita, salada de batatas e, por último, o embrulho com quatro rosquinhas cobertas com açúcar. Virou-se para sair.

            — Avó — disse eu, hesitante.

            Ela não olhara para Cory. Nem mesmo o vira.

            — Não me dirigi a você — replicou friamente. — Espere até que eu o faça.

            — Não posso esperar — declarei, sentindo a raiva crescer dentro de mim.

            Levantei-me da cama de Cory e avancei para a velha.

            — Cory está doente! Passou o dia de ontem e esta noite inteira vomitando. Precisa de um médico e da mãe dele.

            Ela não olhou para mim nem para Cory. Saiu rigidamente do quarto e trancou a porta por fora. Nenhuma palavra de conforto. Nenhuma confirmação de que nossa mãe seria informada da situação.

            — Destrancarei a porta e irei procurar mamãe — declarou Chris, ainda usando as mesmas roupas da véspera, que não despira para deitar-se.

            — Então elas descobrirão que temos uma chave.

            — Então elas descobrirão!

            Naquele instante, a porta se abriu outra vez e mamãe entrou, seguida de perto pela avó. Debruçaram-se juntas sobre Cory, tocando-lhe o rosto frio e úmido e trocando um olhar. Foram para um canto, onde conversaram em segredo, como se tramassem alguma coisa, lançando olhares ocasionais na direção de Cory, que jazia sobre a cama como à espera da morte. Apenas seu peito se movimentava espasmodicamente. Sons engasgados escapavam-lhe da garganta. Fui até lá enxugar as gotículas que se acumulavam em sua testa. Esquisito como ele podia estar tão frio e, ao mesmo tempo, transpirar.

            A respiração ruidosa e irregular de Cory era o único som audível no quarto.

           E lá estava mamãe, sem fazer nada! Incapaz de tomar uma decisão! Ainda temerosa de permitir que alguém soubesse da existência dos filhos, pois estes não deveriam existir!

            — Por que ficam aí segredando? — berrei. — Que outra escolha vocês têm a não ser levarem Cory para um hospital e o entregarem aos cuidados do melhor médico disponível?

            Olharam-me com raiva, ambas. Pálida, trêmula, com uma expressão sinistra, mamãe fixou em mim seus olhos azuis. Então, desviou-os ansiosamente na direção de Cory. O que ela viu na cama provocou-lhe um tremor nos lábios e nas mãos, bem como um tique nervoso no rosto. Piscou repetidamente, como se tentasse reprimir lágrimas.

            Vigiei atentamente os menores sinais que traíssem seus pensamentos calculistas. Ela avaliava os riscos de Cory ser descoberto e fazê-la perder a herança... pois aquele velho moribundo tinha que morrer um dia, não tinha? Não poderia sobreviver para sempre!

            Gritei:

            — O que há com você, mamãe? Vai ficar aí parada, pensando em si e no dinheiro, enquanto seu filho agoniza e morre naquela cama? Tem que tratar dele! Não lhe importa o que acontecer com ele? Já esqueceu que é mãe dele? Se não esqueceu, maldita seja, trate de agir como mãe! Pare de hesitar! Ele necessita de atenção agora, não amanhã!

           O rosto de minha mãe ficou rubro de cólera. Tornou a olhar para mim.

            — Você! — exclamou, cuspindo as palavras. — Sempre você!

            Ergueu a mão pesada de anéis e esbofeteou-me o rosto! Duas vezes.

            Era a primeira vez na vida que ela me batia no rosto e por um motivo como aquele! Ultrajada, sem pensar direito, revidei com a mesma força!

          A avó se manteve ao largo, observando. Maldosa satisfação contraiu-lhe a boca fina e feia numa linha retorcida.

            Chris correu para segurar-me os braços quando eu ia esbofetear mamãe mais uma vez.

            — Cathy, agindo assim você não está ajudando Cory. Acalme-se. Mamãe fará o que deve fazer.

            Foi bom Chris ter-me segurado os braços, pois eu queria esbofeteá-la novamente e obrigá-la a ver o que estava fazendo!

            O rosto de meu pai surgiu de relance aos meus olhos. Tinha a testa franzida, dizendo-me silenciosamente que eu sempre deveria ter respeito pela mulher que me trouxera ao mundo. Compreendi que ele pensaria assim; não desejaria que eu a agredisse.

            — Que Deus a condene ao inferno, Corrine Foxworth, se você não levar seu filho para um hospital! — berrei a plenos pulmões. — Julga que pode nos fazer o que bem entende e ninguém descobrirá jamais! Pois pode jogar no lixo essa ilusão de segurança, porque juro que encontrarei um meio de vingança, mesmo que isso me tome o resto da vida! Farei você pagar bem caro, muito caro mesmo, se não tomar uma providência imediata para salvar a vida de Cory! Vamos, olhe para mim com raiva, chore e suplique, fale no dinheiro e nas coisas que ele pode comprar. Mas o dinheiro não pode comprar de volta a vida de uma criança morta! E se Cory morrer, não pense que deixarei de encontrar um modo de dizer a seu marido que você mantém quatro filhos escondidos num quarto trancado, dando-lhes como playground o sótão... e prendendo-os lá por anos e anos a fio! Então, veja se ele continuará a amá-la! Observe bem o rosto dele e veja quanto respeito e admiração ele passará a ter por você.

           Ela pestanejou, mas continuou a fixar em mim aquele olhar mortífero. Prossegui:

            — Além disso, procurarei nosso avô e lhe contarei tudo! — berrei ainda mais alto. — Você não herdará um só tostão furado, e eu ficarei feliz, feliz, feliz!

            A julgar pela expressão de seu rosto, ela seria capaz de matar-me. Todavia, por estranho que possa parecer, foi a velha bruxa que interpôs tranqüilamente:

            — A menina está com a razão, Corrine. A criança precisa ir para um hospital.

           Voltaram à noite. As duas. Depois que os criados se retiraram para os alojamentos sobre a enorme garagem. Ambas embrulhadas em pesados capotes, pois, de uma hora para outra, fazia um frio intenso. O céu ficara cinzento, esfriando com um inverno precoce que prometia neve. As duas puxaram Cory de meus braços, envolveram-no numa manta verde, e foi mamãe quem o pegou no colo. Carrie soltou um grito de angústia.

            — Não levem Cory embora! — berrou ela. — Não levem! Não...

            Atirou-se em meus braços, chorando, implorando que eu as detivesse, impedindo que levassem embora o gêmeo do qual ela nunca se separara antes.

            Fitei-lhe o rostinho pálido e molhado de lágrimas.

            — Cory pode ir — declarei, enfrentando o olhar de minha mãe. — Porque eu também irei. Ficarei com Cory enquanto ele permanecer no hospital. Quando as enfermeiras estiverem ocupadas demais para cuidar dele, eu estarei lá. Isso fará com que se recupere mais depressa e Carrie se sentirá melhor sabendo que estou com ele.

            Eu dizia a verdade. Eu sabia que Cory melhoraria mais depressa comigo a seu lado. Agora, a mãe dele era eu, não ela. Cory já não a amava; era de mim que ele necessitava, era a mim que ele queria. As crianças são muito sábias, sob o ponto de vista da intuição; sabem quem as ama de verdade e quem apenas finge amá-las.

           — Cathy tem razão, mamãe — interpôs Chris, fitando-a diretamente nos olhos sem qualquer sinal de afeto. — Cory precisa de Cathy. Por favor, deixem que ela o acompanhe, pois sua presença o ajudará a recuperar-se mais depressa. Além disso, ela pode descrever os sintomas aos médicos melhor que vocês.

          O olhar vago e vidrado de mamãe procurou Chris, como se lutasse por entender o significado de suas palavras. Admito que ela parecia angustiada. Seu olhar passou de Chris para mim, em seguida para sua mãe, depois para Carrie e, afinal, voltou a Cory.

          — Mamãe — disse Chris, com mais firmeza. — Deixe Cathy ir com vocês. Posso cuidar de Carrie, se é isso que a preocupa.

           É claro que não me deixaram ir.

            Nossa mãe carregou Cory para o corredor. A cabeça do menino estava caída para trás, o cabelo da testa balançando no mesmo ritmo que os passos dela, o corpo envolto numa manta verde, da mesma tonalidade que a grama primaveril.

            A avó dirigiu-me um sorriso cruel de triunfo e zombaria, depois fechou e trancou a porta.

            Deixaram Carrie desamparada, berrando, com as lágrimas escorrendo pelo rosto. Seus pequenos punhos me esmurravam como se a culpa me coubesse.

            — Cathy, também quero ir! Obrigue elas a me deixarem ir! Cory não quer ir aonde eu não vou... e esqueceu a guitarra!

            Então, toda a sua raiva se dissipou e ela caiu nos meus braços, soluçando.

            — Por que, Cathy? Por que?

           Por que?

            Era a maior indagação de nossas vidas.

            Aquele foi, sem comparação, o pior e mais longo de nossos dias. Tínhamos pecado e Deus não tardara em aplicar o castigo. Mantinha-se vigilante quanto a nós, como se soubesse desde o início que nos mostraríamos indignos, mais cedo ou mais tarde, exatamente com a avó já sabia.

            Foi como no princípio, antes que o aparelho de televisão viesse ocupar a maior parte de nosso tempo. Passamos o dia inteiro sentados em silêncio, sem ligar a televisão, apenas aguardando notícias de Cory.

            Chris sentou-se na cadeira de balanço e estendeu os braços para nós. Carrie e eu nos sentamos em seu colo e ele balançou vagarosamente a cadeira para frente e para trás, para frente e para trás, fazendo ranger as tábuas do assoalho.

            Não sei por que as pernas de Chris não ficaram dormentes de tanto tempo que passamos sentadas em seu colo. Então, levantei-me para limpar a gaiola de Mickey, dar-lhe comida e água. Segurei-o, fazendo-lhe carinho e dizendo-lhe que seu dono logo estaria de volta. Creio que o camundongo percebia que alguma coisa estava errada, pois, ao contrário do costume, não brincou alegremente na gaiola e, apesar de eu ter deixado a porta aberta, não saiu para passear pelo quarto nem entrou na casa de bonecas de Carrie, que tanto o encantava.

            Arrumei a mesa para as refeições, que mal beliscamos. Depois de terminada a última refeição do dia, o quarto arrumado, tomamos banho e nos preparamos para dormir. Nós três nos ajoelhamos em fila ao lado da cama de Cory e fizemos nossas preces a Deus, pedindo que Cory ficasse bom depressa e voltasse para nós. Se rezamos por alguma outra coisa, não me lembro.

           Dormimos, ou tentamos dormir, os três na mesma cama, Carrie entre Chris e eu. Nunca mais algo indecente se passaria entre nós... nunca, nunca mais.

           Deus, por favor, não castigue Cory como um meio de vingança contra Chris e eu, para fazer-nos sofrer, pois já estamos sofrendo e não pretendíamos fazer o que fizemos.

           Realmente não pretendíamos. Aconteceu por acontecer, e foi uma vez só... e não deu prazer algum. Realmente, nenhum prazer.

            Um novo dia amanheceu, feio, cinzento, ameaçador. Além das cortinas fechadas, começava a vida para os que viviam livres e que não conseguíamos ver. Arrastamo-nos de volta à realidade, andando a esmo pelo quarto, tentando encher o tempo, procurando comer e alegrar Mickey, que parecia tão tristonho sem o menino que deixava trilhas de migalhas de pão para ele seguir.

            Troquei as capas dos colchões com o auxilio de Chris, pois era muito difícil enfiar um colchão enorme na capa acolchoada, o que precisava ser feito com freqüência devido à incontinência urinária de Cory. Depois, Chris e eu fizemos as camas com lençóis limpos e estendemos as colchas. Arrumamos o quarto, enquanto Carrie ficava sentada na cadeira de balanço, fitando o espaço.

            Por volta das dez, nada nos restava fazer senão ficarmos sentados na cama mais próxima à porta do corredor, com os olhos pregados na maçaneta, querendo que ela girasse para dar passagem a mamãe, que nos traria notícias de Cory.

            Pouco depois, mamãe entrou com os olhos vermelhos e inchados de chorar. Atrás dela vinha a avó de olhos de aço, alta, severa, sem sinal de lágrimas.

            Nossa mãe vacilou junto à porta, como se suas pernas fossem ceder e deixá-la cair. Chris e eu nos erguemos de um salto, mas Carrie limitou-se a fitá-la com os olhos vazios de qualquer expressão.

            — Levei Cory a um hospital que fica a quilômetros daqui; o mais próximo, na verdade — explicou nossa mãe numa voz tensa e rouca, que se embargava a intervalos. — Registrei-o sob nome falso, explicando que era meu sobrinho e estava sob minha guarda.

            Mentiras! Sempre mentiras!

            — Mamãe, como está ele? — indaguei impaciente.

            Seus olhos azuis, vidrados, voltaram-se em nossa direção; olhos vazios, que olhavam vagamente; olhos perdidos, à procura de algo que se fora para sempre — talvez a humanidade dela.

            — Cory teve pneumonia — recitou nossa mãe. — Os médicos fizeram todo o possível... mas era... tarde... tarde demais.

            Teve pneumonia?

            Fizeram o possível?

            Era tarde demais?

            Só pretéritos!

            Cory estava morto! Nunca mais o veríamos!

            Chris declarou-me mais tarde que a notícia o atingiu como um pontapé na virilha. Vi-o tropeçar para trás e girar para esconder o rosto, os ombros sacudidos por soluços.

            A princípio, não acreditei nela. Permaneci parada, fitando-a, duvidando. Todavia, a expressão em seu rosto me convenceu; algo grande e oco me cresceu dentro do peito. Caí sentada na cama, aturdida, quase paralisada, sem mesmo perceber que estava chorando até que senti minhas roupas molhadas.

            E mesmo sentada e chorando, ainda não queria acreditar que Cory se fora de nossas vidas. E Carrie, pobre Carrie, ergueu a cabeça, jogou-a para trás, abriu a boca e gritou!

            Gritou e gritou, até perder a voz e não conseguir mais emitir um som. Encaminhou-se vagarosamente ao canto onde Cory deixava a guitarra e o banjo, arrumou meticulosamente todos os pares de surrados sapatos de tênis do irmão. E foi aquele o local que escolheu para sentar-se, junto dos sapatos, dos instrumentos musicais e da gaiola de Mickey. A partir daquele momento, nenhuma palavra lhe saiu dos lábios.

            — Iremos ao enterro dele? — perguntou Chris num tom engasgado, ainda de costas para o quarto.

            — Já foi sepultado — respondeu mamãe. — Mandei gravar um nome falso na lápide.

            Então, muito depressa, fugiu do quarto e de nossas perguntas. A avó foi atrás, os lábios apertados numa linha fina e sinistra.

            Diante de nossos olhos horrorizados, Carrie definhava dia a dia. Eu sentia que seria melhor Deus ter levado Carrie também, sepultando-a ao lado de Cory numa longínqua cova com nome falso, sem o consolo de serem ao menos enterrados perto do pai.

            Nenhum de nós conseguia comer muito. Tornamo-nos indolentes e cansados, sempre cansados. Nada nos interessava. Lágrimas... Chris e eu já tínhamos chorado cinco oceanos de lágrimas. Assumimos toda a culpa. Devíamos ter fugido há muito tempo. Deveríamos ter usado a chave de madeira e ido procurar socorro para Cory. Deixáramos Cory morrer! Ele era responsabilidade nossa, nosso querido menininho calado e tão talentoso, e nós o deixáramos morrer.

            Agora, tínhamos uma irmãzinha encolhida num canto, definhando a cada dia.

            Em voz baixa para que Carrie não conseguisse escutar caso estivesse prestando atenção, embora eu duvidasse (nossa pequena tagarela ficara cega, surda e muda... diabo!), Chris me disse:

            — Precisamos fugir, Cathy, e depressa. Senão morreremos todos como Cory. Há algo errado com todos nós. Ficamos trancados tempo demais. Levamos vidas anormais, como se estivéssemos numa câmara de vácuo livre de micróbio, sem as infecções com que as crianças normais costumam entrar em contato. Não temos resistência às infecções.

            — Não entendo — repliquei.

            Chris sussurrou, enquanto nos encolhíamos na mesma poltrona:

            — Quero dizer, como os marcianos naquele livro A Guerra dos Mundos, podemos morrer todos por causa de um simples micróbio de resfriado.

            Horrorizada, fitei-o sem conseguir falar. Ele sabia tanta coisa mais que eu. Olhei para Carrie, encolhida em seu canto. Seu doce rosto infantil, com olhos grandes demais e cercados de fundas olheiras, fitava o vácuo. Eu sabia que ela olhava para a eternidade, onde estava Cory. Todo o amor que eu dedicara a Cory, transferi agora para Carrie... temendo tanto por ela. Tinha um corpinho esquelético e o pescoço parecia fraco, incapaz de sustentar a cabeça. Seria assim que terminariam todas as “Bonecas de Dresden”?

            — Chris, se tivermos que morrer não será como ratos encurralados. Se os micróbios podem nos matar, então que sejam eles. Portanto, quando você for roubar, esta noite, pegue tudo de valor que conseguir encontrar e que possamos carregar! Embrulharei uma merenda para levarmos. Tirando as roupas de Cory, teremos mais espaço nas malas. Sairemos daqui antes do amanhecer.

            — Não — disse ele. — Só se soubermos que mamãe vai sair com o marido, só então poderei pegar todo o dinheiro e todas as jóias, de um só golpe. Leve apenas aquilo de que temos absoluta necessidade. Nada de jogos ou brinquedos. E, Cathy, talvez mamãe não saia esta noite. Certamente não poderá freqüentar festas enquanto estiver de luto.

            Como poderia ela ficar de luto se sempre precisava manter o marido no escuro a nosso respeito? E ninguém vinha ao quarto, exceto a avó, para contar-nos o que se passava lá fora. E ela se recusava a falar conosco ou mesmo olhar para nós. Quando ela entrou, minha mente já estava no caminho da fuga e eu a olhei como se ela fosse coisa do passado. Agora que o momento da partida estava tão próximo, sentia-me amedrontada. O mundo lá fora era imenso. Estaríamos por nossa conta. O que pensaria o mundo de nós?

            Não éramos lindos como antes; agora, não passávamos de pálidos e doentios camundongos de sótão, com longos cabelos louros, usando roupas elegantes, mas que não nos assentavam bem, como os pés calçados em tênis.

            Chris e eu nos educáramos lendo muitos livros, e a televisão muito nos ensinara a respeito de violência, ambição e imaginação, mas quase nada que fosse prático e útil à nossa preparação para encarar a realidade.

           Sobrevivência. Era isso que a televisão deveria ensinar às crianças inocentes: como viver num mundo em que ninguém se importa a mínima com os outros, exceto os seus e às vezes, nem mesmo os seus!

            Dinheiro. Se aprendêramos alguma coisa naqueles anos de confinamento era que o dinheiro vinha em primeiro lugar e todo o resto depois dele. Como mamãe bem nos dissera tanto tempo atrás: “Não é o amor que faz o mundo funcionar; é o dinheiro.”

            Retirei da mala as roupinhas de Cory, seu segundo melhor par de tênis, dois pijamas e durante todo o tempo as lágrimas me escorriam pelo rosto. Numa das bolsas laterais da mala encontrei folhas pautadas para música, que ele mesmo devia ter arrumado ali. Oh, como doía pegar aqueles papéis e ver as linhas que Cory traçara com uma régua, e as pequenas notas pretas que ele desenhara com traços tortos. Por baixo da partitura (ele aprendera sozinho a escrever notações musicais, usando uma enciclopédia que Chris lhe arranjara), Cory escrevera a letra de uma canção inacabada:

    

            Quero que a noite termine,

            Quero que o dia amanheça,

            Quero que chova ou que neve,

            Ou que o vento sopre,

            Ou que o capim cresça.

            Gostaria que fosse ontem,

            Quando eu podia brincar...

 

            Oh, Deus! Alguma vez existira uma canção tão triste e melancólica? Então, aquela era a letra de uma música que eu o escutara tocar repetidamente. Desejando, sempre desejando algo que não podia ter. Algo que todos os outros meninos aceitavam como normal, como coisa corriqueira em suas vidas.

            Tive vontade de gritar de angústia.

            Adormeci pensando em Cory. E, como sempre acontecia quando estava muito perturbada, comecei a sonhar. Dessa vez, porém, no sonho eu era apenas eu mesma. Vi-me numa serpenteante trilha de terra, tendo à esquerda vastas pastagens planas onde cresciam flores silvestres vermelhas e cor-de-rosa, e à direita flores amarelas e brancas balançavam suavemente à brisa cálida de uma eterna primavera benfazeja. Uma criancinha segurava-me a mão. Baixei os olhos, esperando ver Carrie, mas era Cory!

            Sorridente e feliz, saltitava a meu lado com um buquê de flores silvestres na mão, as perninhas curtas procurando acompanhar-me o passo. Sorriu para mim e estava prestes a falar, quando escutou o gorjeio de muitos pássaros coloridos nas árvores copadas à nossa frente.

            Um homem alto e esbelto, com cabelos dourados e pele bronzeada de sol, avançou de um jardim belíssimo, cheio de árvores e flores radiantes, inclusive rosas de todas as cores. Parou a dez metros de distância e abriu os braços para Cory.

            Mesmo no sonho, meu coração pulou de excitação e alegria! Era papai! Papai viera encontrar Cory, a fim de que este não tivesse que fazer sozinho o resto da jornada. Embora sabendo que devia largar a mãozinha quente de Cory, decidi segurá-la para sempre e mantê-lo comigo.

            Papai me sorriu, sem pena ou censura, mas com orgulho e admiração. Então larguei a mão de Cory e fiquei observando enquanto ele corria feliz, para lançar-se nos braços de papai. Foi levantado pelos braços fortes que outrora costumavam envolver-me e fazer-me sentir que o mundo inteiro era maravilhoso. Resolvi seguir também a trilha e tornar a sentir aqueles braços em torno de mim, permitindo que papai me levasse para onde quisesse.

         — Cathy! Acorde! — disse Chris, sentado na minha cama, sacudindo-me. — Está falando dormindo. Rindo e chorando, dizendo alô e adeus. Por que sonha tanto?

            A narrativa do sonho escapou-me dos lábios aos borbotões, tão depressa que as palavras se misturavam. Chris ficou sentado, olhando para mim da mesma forma que Carrie, que também acordara e escutava. Havia tanto tempo que eu não via meu pai que suas feições tinham-me desbotado na memória; contudo, olhando para Chris, senti-me muito confusa. Ele era muito parecido com papai, apenas mais jovem.

           Aquele sonho Se repetiu muitas vezes, agradável. Proporcionava-me paz. Dava-me conhecimentos que eu não tinha antes. As pessoas nunca morrem realmente. Passam apenas para um lugar melhor, onde aguardam a chegada de seus entes queridos. Então, voltam ao mundo, mais uma vez, como aconteceu no princípio.

 

Fuga

            Dez de novembro. Aquele deveria ser nosso último dia na prisão. Já que Deus não nos libertava, nós nos libertaríamos.

           Logo após as dez da noite, Chris cometeria o roubo final. Nossa mãe fizera-nos uma rápida visita, pouco à vontade em nossa presença, de modo muito evidente.

           — Bart e eu sairemos esta noite. Eu não quero, mas ele insiste. Não entende por que razão pareço tão tristonha.

           Aposto que ele não entendia, mesmo. Chris passou sobre o ombro as duas fronhas nas quais traria de volta as pesadas jóias. Parou no limiar da porta aberta para lançar-nos um demorado olhar antes de fechá-la e usar a chave de madeira para trancá-la, pois não podia deixá-la aberta e revelar nosso segredo à avó, caso ela viesse espionar. Não escutamos os passos de Chris no corredor, porque as paredes eram muito grossas e o tapete muito espesso, abafando todos os ruídos.

           Carrie e eu nos deitamos lado a lado; abracei-a, protegendo-a.

           Se aquele sonho não me tivesse dito que Cory estava bem cuidado, eu choraria por não tê-lo junto a mim. Mesmo assim, não podia deixar de sofrer por saudade de um menininho que me chamava de mamãe sempre que sabia que sua verdadeira mãe não o escutava. Sempre tivera muito medo de que Chris o considerasse um maricas se soubesse quanta saudade e necessidade sentia da mãe, a ponto de precisar substituí-la por mim. Muito embora eu lhe afirmasse que Chris jamais zombaria dele, pois também sentia muita falta da mãe, Cory mantinha a coisa em segredo entre ele, eu e Carrie. Tinha que fazer-se de másculo e convencer-se de que não fazia diferença o fato de não ter mãe ou pai, quando, na verdade, fazia uma diferença enorme.

           Abracei Carrie com força, jurando que se algum dia eu tivesse filhos estes jamais teriam uma necessidade sem que a pressentisse e satisfizesse. Eu seria a melhor mãe do mundo.

           As horas se arrastaram como anos e Chris não regressava de sua última incursão predatória no grandioso apartamento de nossa mãe. Por que se demorava tanto, dessa vez? Acordada e ansiosa, eu sentia lágrimas nos olhos e imaginava as calamidades que poderiam detê-lo.

           Bart Winslow... o marido desconfiado... pegaria Chris! Chamaria a polícia! Mandaria Chris para a cadeia! Mamãe ficaria placidamente de lado, expressando choque e leve surpresa ante o fato de que alguém se atrevesse a roubá-la. Oh, não, é claro que não tinha um filho! Por Deus, todo mundo sabia que ela não tinha filhos! Alguma vez alguém a vira com uma criança? Não conhecia aquele rapaz com olhos azuis tão parecidos com os seus. Afinal, tinha muitos primos espalhados pelo mundo e um ladrão era sempre um ladrão, mesmo que fosse um parente distante, de quinto ou sexto grau!

           E a avó! Se ela o apanhasse... o pior castigo possível!

           O amanhecer não tardou, cinzento, anunciado pelo cantar de um galo.

            O sol pairava, relutante, no horizonte. Em breve seria tarde demais para partirmos. O trem matinal passaria pela parada e necessitávamos de algumas horas de vantagem antes que a avó abrisse a porta do quarto para constatar que tínhamos fugido. Ela mandaria uma turma de busca? Daria queixa à polícia? Ou, mais provavelmente, deixar-nos-ia ir, satisfeita por finalmente ver-se livre de nós?

           Desesperançada, subi ao sótão a fim de olhar para fora, Dia frio, nevoento. A neve que caíra na última semana ainda formava manchas brancas esparsas. Um dia sombrio, misterioso, que parecia incapaz de nos trazer alegria ou liberdade. Escutei o galo cantar outra vez; soava distante e abafado. Rezei silenciosamente para que Chris, onde quer que estivesse, também escutasse o galo e apressasse os passos.

           Lembro-me - oh, como me lembro bem! - de quando Chris regressou ao nosso quarto naquela manhã fria. Deitada ao lado de Carrie, eu cochilava inquieta, de modo que foi fácil despertar de imediato quando a chave girou na fechadura. Eu me deitara inteiramente vestida, pronta para partir, aguardando entre sonhos intermitentes que Chris chegasse para levar-nos embora.

           Chris hesitou junto à porta, fitando-me com olhar vidrado, Então, avançou vagarosamente na minha direção, sem demonstrar a pressa que devia. E eu só conseguia olhar para as fronhas enfiadas uma na outra, tão achatadas! Parecendo tão vazias!

           — Onde estão as jóias? — perguntei. — Por que demorou tanto? Olhe para as janelas: o sol está nascendo! Nunca chegaremos à parada do trem a tempo de pegá-lo!

           Então, minha voz assumiu um tom duro, raivoso:

           — Ficou cavalheiresco novamente, não é? Por isso voltou sem as preciosas jóias de mamãe!

           A essa altura, Chris já estava junto à cama, limitando-se a ficar imóvel, com as fronhas vazias pendentes da mão.

           — Desapareceram — disse com desânimo. — Todas as jóias desapareceram.

           — Desapareceram? — repeti asperamente, certa de que ele mentia, encobria alguma coisa, ainda relutando em roubar as jóias que sua mãe tanto adorava. Então, fitei-o nos olhos. — Desapareceram? Chris, as jóias estão sempre lá. E o que há com você, afinal? — Por que parece tão esquisito?

           Ele se deixou cair de joelhos ao lado da cama, totalmente derreado, baixando a cabeça e apoiando o rosto em meu seio. Então, começou a soluçar. Meu Deus! O que dera errado? Por que ele chorava? É horrível ouvir-se um homem chorar e eu o considerava um homem, não mais um menino.

           Abracei-o, acariciando e alisando seus cabelos, o rosto, os braços, as costas. Depois, beijei-o, num desesperado esforço para remediar algo terrível que lhe ocorrera. Fiz tudo o que vira minha mãe fazer por ele em ocasiões de sofrimento, sabendo intuitivamente que suas paixões não se excitariam para exigir mais do que eu estivesse disposta a dar-lhe.

           Na verdade, precisei forçá-lo a falar, a explicar.

           Chris conteve os soluços, engolindo-os. Limpou as lágrimas e enxugou o rosto com a ponta do lençol. Então, virou a cabeça para fitar as horríveis pinturas que descreviam o inferno e todos os seus tormentos. Suas frases saíram quebradas, desconjuntadas, freqüentemente entrecortadas pelos soluços.

           Foi assim que ele me contou tudo, ajoelhado junto à minha cama, enquanto eu lhe segurava as mãos trêmulas. Seu corpo estremecia e os olhos azuis estavam sombrios e desolados, prevenindo-me de que ficaria chocada. Não obstante estar prevenida, confesso-me despreparada para o que escutei a seguir.

       — Bem — começou ele, respirando fundo. — Percebi que havia algo diferente tão logo entrei no apartamento dela. Sem acender luzes, corri o foco da lanterna pelo ambiente e simplesmente não consegui acreditar! A ironia... a detestável e profunda amargura de termos agido tarde demais! Foram-se, Cathy, mamãe e seu marido se foram! Não apenas a alguma festa na vizinhança, mas foram embora daqui! Levaram consigo todas as pequenas coisas que dão a qualquer aposento um toque pessoal: os enfeites de cima da cômoda, as coisas da penteadeira, cremes, loções, pós, perfumes, tudo que ali estava antes tinha desaparecido! Nada na penteadeira. Fiquei tão furioso que comecei a correr como um demente, de um lugar para outro, abrindo gavetas e esvaziando-as, esperando encontrar algo valioso que pudéssemos empenhar... e não achei nada! Oh, eles fizeram um trabalho perfeito, nem mesmo aquele pequeno pote de porcelana para remédios, ou um dos grandes pesos de papel de cristal veneziano que custam uma fortuna. Corri ao quarto de vestir e abri todas as gavetas. Claro que ela deixou algumas coisas: porcarias, sem nenhum valor para nós ou para qualquer pessoa: batons, cremes de limpeza e coisas desse tipo. Então, abri aquela gaveta especial, no fundo da penteadeira, da qual ela nos falou há muito tempo, nem imaginando que nós poderíamos tentar roubá-la. Retirei a gaveta do lugar e a coloquei no chão. Então, tateei atrás, procurando o botão escondido, que precisa ser apertado numa determinada combinação de números, os números do aniversário dela, do contrário ela acabaria esquecendo a combinação. Lembra-se de como ela riu ao nos contar isso? O compartimento secreto se abriu e deveria conter dúzias de anéis nas bandejas forradas de veludo, mas não havia um só lá dentro, nenhum! E as pulseiras, colares, brincos, tudo desapareceu. Tudo, Cathy, até mesmo aquela tiara que você experimentou. Ora, nem pode imaginar o que senti! Tantas vezes você me pediu que tirasse ao menos um pequeno anel e eu recusei porque acreditava nela!

           — Não chore de novo, Chris — implorei quando se engasgou e tornou a esconder o rosto no meu peito. — Você não podia imaginar que ela partiria tão pouco tempo depois da morte de Cory.

           — Sim, ela está mesmo sofrendo muito, não é? — comentou com amargura, enquanto eu passava os dedos entre seus cabelos.

           — Na verdade, Cathy, descontrolei-me por completo — prosseguiu finalmente. — Corri de um armário para outro arrancando todas as roupas de inverno e logo constatei que as roupas de verão tinham sumido, bem como dois conjuntos de elegantes malas de viagem. Esvaziei caixas de sapatos e as gavetas dos armários, procurei as latas onde ele guarda as moedas. Mas até isso eles levaram, ou esconderam num lugar melhor. Frenético, revistei tudo, procurando qualquer coisa. Até mesmo pensei em roubar um dos abajures, mas verifiquei que pesavam uma tonelada. Ela deixou os casacos de pele e ocorreu-me roubar um deles, mas lembrei-me de que você os experimentara e eram grandes demais para seu tamanho, alguém lá fora ficaria desconfiado de ver uma adolescente com um casaco de arminho grande demais para ela. As estolas de pele tinham sumido e se eu trouxesse um casaco de pele comprido ele sozinho encheria uma de nossas malas; então, ficaríamos sem espaço para levar nossas coisas e os quadros que eu poderia vender lá fora, e vamos precisar de todas as roupas que conseguirmos levar. Na realidade, tive vontade de arrancar os cabelos, tão desesperado estava por encontrar algo de valor. Como poderemos arranjar-nos sem dinheiro? Sabe, naquele instante, quando parei no meio do quarto e pensei na nossa situação, na péssima saúde de Carrie, pouco me importei de vir ou não a ser médico. Tudo o que desejei foi cair fora daqui! Então, quando tudo parecia indicar que não encontraria o que roubar, examinei a gaveta inferior da mesinha de cabeceira. Nunca antes eu abrira aquela gaveta. Dentro dela, Cathy, encontrei uma fotografia de papai numa moldura de prata, a certidão do casamento dele com ela, e uma caixinha de veludo verde, que continha a aliança de casamento de mamãe e o anel de brilhante que papai lhe dera como presente de noivado. Doeu-me pensar que ela levasse tudo e deixasse para trás, como coisas sem valor, a fotografia de papai e os dois anéis que ele lhe dera. Então, ocorreu-me uma idéia muito estranha: talvez ela soubesse quem vinha roubando as coisas de seu quarto e tivesse deixado aquilo ali propositalmente.

            — Nada disso! — zombei, eliminando a delicada hipótese. — Ela já se esqueceu de papai. Agora, tem o seu adorado Bart.

           — Não importa, o fato é que fiquei grato por encontrar alguma coisa. Portanto, o saco não está tão vazio quanto parece. Temos a fotografia de papai e os anéis dela, mas será preciso atravessarmos uma crise insuportável para me obrigar a empenhar qualquer dos dois anéis.

           Percebi a advertência em sua voz, mas não me soou sincera, como deveria. Tive a impressão de que ele apenas simulava ser o velho Christopher, que confiava cegamente em todo mundo.

            — Continue. O que aconteceu a seguir?

           Ele se demorara tanto e o que acabava de contar não lhe tomaria a noite inteira.

           — Raciocinei que se não podia roubar nossa mãe, devia procurar o quarto da avó e tentar encontrar alguma coisa lá.

           “Oh, meu Deus”, refleti, “ele não... não podia!” Não obstante, que vingança perfeita!

           — Como você sabe, ela tem jóias: muitos anéis nos dedos e aquele maldito broche de brilhantes que usa a vida inteira como parte do uniforme, além dos brilhantes e rubis que a vimos usar na festa de Natal. Naturalmente, calculei que ela também teria muito mais coisas que eu poderia trazer. Portanto, percorri furtivamente todos aqueles compridos corredores escuros e, na ponta dos pés, aproximei-me da porta do quarto da avó, que estava fechada.

           Oh, quanta coragem para fazer aquilo. Eu jamais...

           — Uma fina fresta de luz aparecia por baixo da porta, mostrando que ela ainda estava acordada. Isso me deixou amargurado, pois a velha já devia estar dormindo. Em circunstâncias menos prementes, a luz seria o bastante para deter-me e evitar que eu agisse de forma tão arriscada, ou talvez você prefira usar o termo “audaciosa”, agora que tenciona tornar-se algum dia uma mulher de palavras, após ter sido uma mulher de ação.

           — Chris! Não se desvie do assunto! Prossiga! Conte-me que loucura cometeu! Se eu estivesse no seu lugar, daria meia-volta e retornaria diretamente para cá!

           — Ora, mas eu não sou você, minha Catherine; sou eu... Usei muita cautela e, bem devagar, abri um pouco a porta, embora esperasse que ela estalasse ou rangesse a qualquer instante, denunciando minha presença. Todavia, alguém vem mantendo as dobradiças bem lubrificadas e, sem medo de que a velha fosse alertada, colei um olho à fresta e espiei para dentro do quarto.

           — Viu a bruxa velha despida? — interpus.

           — Não! — replicou Chris, impaciente e irritado. — Não a vi despida e me alegro por isso. Ela estava na cama, sob as cobertas, usando uma camisola de mangas compridas de algum tecido pesado, com gola, abotoada na frente até o pescoço. Mas, de certo modo, eu a vi despida. Você conhece aquele cabelo cor-de-aço azulado que tanto detestamos. Pois não estava na cabeça dela! Repousava enviesadamente numa cabeça de manequim sobre a mesa de cabeceira, como se ela quisesse ter certeza de tê-la ao alcance da mão em caso de emergência durante a noite.

           — Ela usa peruca? — indaguei com total espanto, embora devesse ter desconfiado, pois alguém que sempre penteava os cabelos repuxados de tal maneira para trás teria que ficar careca, mais cedo ou mais tarde.

           — Sim, pode apostar que ela usa peruca e que aquele cabelo com que a vimos na festa de Natal também é uma peruca. O pouco cabelo que lhe resta na cabeça é muito ralo, de um branco amarelado, e o couro cabeludo tem zonas em que não cresce cabelo, mas apenas uma fina penugem de bebê sobre manchas avermelhadas. Usava óculos sem aro, pousados quase na ponta daquele nariz comprido; você bem sabe que nunca a vimos de óculos. Seus lábios finos se franziam numa linha de desaprovação enquanto ela corria lentamente os olhos de linha para linha de um enorme livro negro que tinha nas mãos, a Bíblia, naturalmente. Ali estava ela, sentada na cama, lendo a respeito de prostitutas e outros pecadores que lhe franziam a testa numa carranca terrível. E enquanto eu observava, compreendendo que não poderia roubá-la naquele momento, ela deixou a Bíblia de lado, marcou a página com um cartão postal e depois colocou o livro em cima da mesinha de cabeceira. Desceu da cama e ajoelhou-se no chão. Baixou a cabeça, juntando as mãos sob o queixo, exatamente como costumamos fazer, rezando em silêncio por um tempo interminável. Afinal, disse em voz alta: “Perdoa-me, Senhor, por todos os pecados que eu tenha cometido. Sempre agi da maneira que julguei estar certa e se cometi algum erro foi por pensar que agia corretamente. Acredita-me, por favor. Que eu goze sempre de graça perante os teus olhos. Amém.” Tornou a subir para a cama e estendeu a mão para apagar a luz. Fiquei no corredor, imaginando o que fazer. Simplesmente não podia voltar de mãos vazias, pois espero que jamais precisemos empenhar os anéis que papai deu à nossa mãe.

       Então, ergueu as mãos para acariciar-me a cabeça e prosseguiu:

       — Fui à rotunda principal, onde existia aquela mesa perto da balaustrada, e encontrei o quarto de nosso avô. Não sabia se teria coragem de abrir a porta do quarto dele e encarar o homem que está perpetuamente moribundo, ano após ano. Entretanto, seria minha única oportunidade e decidi aproveitá-la da melhor maneira possível. Desse no que desse, corri silenciosamente pela escada abaixo, como um ladrão de verdade, carregando a minha sacola de fronhas. Vi os salões enormes e suntuosos, tão grandiosos e opulentos, e imaginei, como você deve ter imaginado, como seria crescermos num ambiente como aquele, servidos por inúmeros criados que nos fizessem todas as vontades. Oh, Cathy, é uma casa linda e a mobília deve ter sido importada a de palácios da Europa, pois parece frágil demais para ser usada e bonita demais para ser confortável. Os quadros a óleo são originais, conheço o bastante para saber, assim como os bustos e estátuas, a maioria sobre pedestais, além de preciosos tapetes persas e orientais. E, naturalmente, eu conhecia o caminho da biblioteca, já que. você fazia tantas perguntas a mamãe. Sabe de uma coisa, Cathy? Fiquei muito satisfeito por você ter indagado tanta coisa, do contrário eu bem poderia ter-me perdido; muitos corredores partem em todas as direções daquele salão central. Contudo, foi fácil encontrar a biblioteca: um salão escuro, realmente imenso, silencioso como um cemitério. O teto deve ter seis metros de altura. As estantes vão até lá em cima e existe uma escada de ferro em caracol que leva a uma espécie de passarela no nível superior, da qual é possível alcançar as prateleiras de cima. Nos níveis inferiores, há duas escadas de madeira providas de rodas e presas a uma espécie de trilho. Nunca vi tantos livros numa residência particular. Não é de espantar que não dessem falta dos livros que mamãe levava, embora, ao olhar com mais atenção, eu pudesse ver espaços vazios nas prateleiras, como falhas numa dentadura, onde faltavam alguns dos livros encadernados em couro gravado a ouro. Na biblioteca existe uma escrivaninha enorme, maciça, que deve pesar mais de uma tonelada, e uma grande poltrona giratória de espaldar alto. Imaginei nosso avô sentado àquela mesa, dando ordens a torto e a direito, e usando os telefones sobre a mesa, seis telefones, Cathy! Seis! Todavia, quando fui verificá-los, julgando que talvez pudesse trazer um deles, constatei que estavam todos desligados. À esquerda da mesa, uma fileira de janelas estreitas e altas permitia ver um jardim privativo, um panorama espetacular, mesmo à noite. Um arquivo feito em mogno escuro, para combinar com a mobília. Dois sofás macios, muito compridos, afastados cerca de um metro da parede, a fim de permitir livre circulação por trás deles. Poltronas perto da lareira e, naturalmente, uma porção de mesinhas e cadeiras para a gente tropeçar no escuro, além de grande quantidade de outros objetos.

       Suspirei, pois Chris me contava muito do que tanto desejava ouvir e, não obstante, eu continuava a esperar por aquela coisa terrível que me mantinha em suspenso, aguardando a punhalada final.

            — Julguei que houvesse dinheiro escondido na escrivaninha. Usando a lanterna, comecei a examinar todas as gavetas. Estavam todas destrancadas. E não era de espantar, pois estavam todas vazias, totalmente vazias! Aquilo me causou perplexidade, afinal, para que uma mesa de trabalho se não se utilizavam as gavetas?

            Documentos importantes são guardados em cofres de aluguel ou em cofres particulares; não são deixados em gavetas trancadas que qualquer ladrão hábil é capaz de arrombar. Portanto, as gavetas servem para guardar miudezas. E onde estavam os elásticos, clipes de papel, lápis, canetas, blocos de anotações e todas as outras coisas que deveriam estar naquelas gavetas vazias?

            Para que ter uma escrivaninha? Você nem imagina as suspeitas que me passaram pela cabeça. Foi então que tomei uma decisão. De onde estava eu podia olhar através da comprida biblioteca e ver a porta do quarto de nosso avô. Vagarosamente, caminhei naquela direção. Afinal, eu ia vê-lo... estaria cara a cara com o odiado avô que também era nosso meio-tio. Imaginei nosso encontro. Ele estaria na cama, doente, mas ainda implacável, malvado e frio como gelo. Eu abriria a porta com um pontapé, acenderia a luz e ele me avistaria. Prenderia a respiração! Certamente me reconheceria... saberia quem eu era; um olhar seria o bastante para isso. Então, eu diria: “Aqui estou, avô, o neto que você desejava que nunca nascesse. Tenho duas irmãs, trancadas num quarto do andar superior da ala norte. E antes tinha um irmão mais moço, que morreu, e você ajudou a matá-lo!” Eu tinha tudo isso na cabeça, embora duvidasse que fosse capaz de dizer a ele. Você certamente gritaria isso para ele, e Carrie também, se soubesse falar como você. Não obstante, eu talvez chegasse a dizer tudo a ele, só pelo prazer de vê-lo sofrer e, talvez, demonstrar tristeza, piedade ou arrependimento... ou, mais provavelmente, feroz indignação por tomar conhecimento de nossa existência! De uma coisa, porém, tenho absoluta certeza: eu não podia suportar mais um minuto como prisioneiro e ver Carrie morrer como Cory!

            Prendi a respiração. Que coragem a de Chris: defrontar-se com o detestado avô, embora em seu leito de morte, com o caixão já aberto à sua espera. Aguardei ansiosamente o que viria a seguir.

           — Girei cautelosamente a maçaneta, planejando pegá-lo de surpresa, mas logo me envergonhei de minha timidez e resolvi agir abertamente: abri a porta com um pontapé! Lá dentro estava tão escuro que eu não conseguia enxergar nada. E não queria utilizar a lanterna. Estendi a mão e tateei ao longo da parede, procurando um interruptor. Não encontrei. Acendi a lanterna, com o facho dirigido à frente, e vi uma cama de hospital pintada de branco. Fiquei olhando, perplexo, pois via algo que não esperava: o colchão de listras vermelhas e azuis estava enrolado. Quarto vazio, cama vazia. Nenhum avô moribundo, arquejando ao exalar os últimos alentos, ligado a todos os tipos de tubos e aparelhos que o mantinham vivo. Cathy, foi como levar um murro na boca do estômago; ninguém ali, quando eu me preparara tanto para enfrentá-lo! Num canto próximo à cama, uma bengala. Perto da bengala, aquela cadeira de rodas em que o vimos na festa de Natal. Brilhava, parecendo ainda nova, ele não teve ter usado a cadeira muitas vezes. Não havia outros móveis no quarto além de duas cadeiras e uma cômoda... sem nada em cima. Nenhum pente, ou escova, nada. O quarto estava tão vazio e arrumado como o apartamento que mamãe abandonara; só que era um quarto simples, sem adornos, com paredes de lambris. E o quarto de morte do avô dava a impressão de estar desocupado há muito, muito tempo. O ar era abafado, com cheiro de mofo. A poeira se acumulara no tampo da cômoda. Corri em volta, à procura de algum objeto de valor que pudéssemos empenhar mais tarde. Nada, mais uma vez, nada! Fiquei tão frustrado e furioso que corri de volta à biblioteca e procurei a pintura de uma paisagem que, segundo mãe nos informara, ocultava um cofre de parede.

           — Ora, você bem sabe quantas vezes vimos na televisão os ladrões abrirem cofres de parede; pareceu-me coisa fácil quando o arrombador sabe como agir. Basta colar o ouvido à tranca de segredo e girar vagarosamente o disco, prestando atenção aos estalidos reveladores... e contá-los. Foi o que imaginei. Então, de posse dos números, gira-se o tambor corretamente e, voilá!, o cofre está aberto.

           — Interrompi:

            — O avô por que não estava na cama?

            Chris prosseguiu como se não me escutasse:

           — Foi o que fiz, escutando com atenção, ouvindo os estalidos. Pensei: “se eu tiver sorte, o cofre se abrirá, e se estiver vazio, também?” E sabe o que aconteceu, Cathy? Ouvi os estalidos que me revelavam a combinação do segredo, e não consegui contá-los com a rapidez necessária! Mesmo assim, arrisquei-me a girar a roda superior do trinco, na esperança de que, por acaso, acertasse os números adequados na devida seqüência. A porta do cofre não se abriu. Escutei os estalidos e consegui entender. Não se aprende a arrombar cofres lendo enciclopédias, é um dom natural. Então, olhei em volta, procurando algum objeto fino e resistente que eu pudesse enfiar na fechadura do segredo, contando com a possibilidade de soltar ou apertar alguma mola que abrisse a porta. Cathy, foi aí que escutei o barulho de passos!

            — Diabo! — praguejei, frustrada como ele.

            — Isso mesmo! Corri para trás de um dos sofás e deitei-me de bruços. Foi então que me lembrei de que esquecera a lanterna no quartinho do avô.

           — Oh, meu Deus!

           — Isso mesmo! Pensei: “Agora, estou frito.” Mas permaneci imóvel. Um homem e uma mulher entraram na biblioteca. Ela falou primeiro, com uma voz suave de garotinha: “John, juro que não estou imaginando coisas! Ouvi barulhos vindo desta sala.” Uma voz pesada e gutural replicou: “Você está sempre ouvindo alguma coisa.” Era John, o mordomo careca. Em seguida, o par passou uma rápida revista na biblioteca e, ainda discutindo, entrou no quartinho do avô. Prendi a respiração, aguardando que encontrassem minha lanterna. Mas, por algum motivo, não encontraram. Desconfio que tenha sido porque John não queria olhar para coisa alguma exceto aquela mulher. Quando eu já me preparava para sair dali, eles voltaram e, juro por Deus!, se jogaram no sofá atrás do qual eu estava escondido! Apoiei a cabeça nos braços cruzados e me preparei para tirar um cochilo, imaginando que você deveria estar muito preocupada comigo, sem saber o motivo de minha demora. Todavia, já que a porta estava trancada, não temi que saísse à minha procura. Foi bom eu não ter dormido.

            — Por quê?

           — Deixe-me contar a meu modo. Por favor, Cathy. Quando eles voltaram à biblioteca e se acomodaram no sofá, John disse: “Eu não lhe disse que não havia ninguém aqui nem lá dentro?” Parecia confiante, muito satisfeito consigo mesmo, e acrescentou: “Na verdade, Livvy, você fica tão nervosa o tempo todo que estraga nosso prazer.” E ela insistiu: “Mas escutei alguma coisa, John.” Ao que ele replicou: “Como eu disse antes, você está sempre escutando coisas que não existem. Bolas! Ainda hoje de manhã, estava falando novamente de camundongos no sótão e reclamando do barulho que fazem.” John soltou uma risadinha suave e deve ter feito alguma coisa com a pequena, pois ela começou a rir como uma tola e, se protestou, não empregou muita convicção. Então, o tal John resmungou: “Aquela puta velha está matando todos os camundongos do sótão. Leva comida para eles numa cesta de piquenique... em quantidade suficiente para liquidar um exército inteiro de camundongos.”

           Sabem, escutei Chris dizer aquilo e não notei nada de anormal; eu ainda era muito tola, ingênua e confiante.

           Chris pigarreou antes de continuar:

           — Tive uma sensação esquisita no estômago e meu coração começou a fazer tanto barulho que julguei que o casal no sofá acabaria escutando. E Livvy disse: “Sim, ela é uma velha durona e malvada. Para dizer a verdade, eu simpatizava mais com o velho, pelo menos, ele sabia sorrir. Mas ela... ela nunca aprendeu. Às vezes, eu venho fazer a limpeza e encontro a velha no quarto dele... sempre parada ali, olhando para acama vazia, com um leve sorriso tenso e esquisito. Acho que está zombando, porque ele morreu e ela continua viva; está livre dele e não tem mais ninguém para montar nas suas costas e mandá-la fazer ou não fazer as coisas, obrigando-a a obedecer correndo. Puxa! Eu às vezes fico imaginando como os dois conseguiam aturar um ao outro. Mas agora ele morreu e ela ficou com o dinheiro dele.” “Sim, claro que ficou: mas apenas com uma parte”, disse John. “Ela tem dinheiro que herdou da família. Mas quem herdou todos os milhões deixados pelo velho Malcolm Foxworth foi a filha dela.” “Bem,” foi a resposta de Livvy, “aquela velha bruxa não precisa de mais dinheiro. Não culpo o velho por ter deixado a fortuna inteira para a filha. Esta aturou o diabo por parte dele, servindo-o como uma escrava quando ele tinha tantas enfermeiras à disposição e sendo tratada como uma cadela. Mas agora, também está livre e casada com aquele jovem tão bonito. Ela ainda é jovem, bonita e tem dinheiro para jogar fora. Como será que se sente? Há pessoas que têm toda a sorte do mundo. Eu... nunca tive sorte.” “E quanto a mim, Livvy querida? Você me tem, pelo menos até aparecer por aqui outro rostinho bonito.” E lá estava eu, escondido atrás do sofá, ouvindo tudo aquilo e sentindo-me atordoado de choque. Tive vontade de vomitar, mas fiquei muito quieto, escutando o casal conversar interminavelmente no sofá. Eu queria sair correndo e voltar para perto de você, Cathy, a fim de levarmos Carrie para algum lugar bem longe desta casa, antes que fosse tarde demais. Todavia, estava encurralado. Se eu me mexesse, eles me veriam. E o tal John é parente de nossa avó... primo em terceiro grau, segundo mamãe... Não acho que um parente de terceiro grau faça alguma diferença, mas parece que aquele tal John goza da confiança de nossa avó, ou ela não lhe daria tanta liberdade no uso dos automóveis. Você já o viu, Cathy: o homem careca, que usa libré.

           Claro que eu sabia a quem Chris se referia, mas não consegui responder, pois também sentia um aturdimento e choque que me impediam de falar.

           — Assim — prosseguiu Chris, naquele tom monótono que não revelava preocupação, temor ou surpresa — enquanto permanecia escondido atrás do sofá, com o rosto apoiado nos braços, e fechava os olhos tentando evitar que meu coração batesse tão ruidosamente, John e Livvy, a empregada, passaram a um assunto mais sério para eles. Escutei os movimentos quando ele começou a despi-la enquanto ela tirava as roupas dele.

           — Despiram-se um ao outro? — perguntei. — Ela realmente o ajudou a tirar a roupa?

           — Foi o que me pareceu — respondeu Chris secamente.

          — E ela não protestou nem gritou?

           — Claro que não. Gostou muito! E, por Deus, como demoraram! E os barulhos que fizeram, Cathy, você não acreditaria! Ela gemia, gritava, se engasgava, ofegava e ele grunhia como um porco; mas creio que ele deve ser perito no assunto, pois no final ela gritava como louca. Então, acabaram e ficaram deitados, fumando e trocando mexericos sobre o que se passa nessa casa, e pode crer que há pouca coisa que não saibam. Depois, fizeram amor outra vez.

           — Duas vezes na mesma noite?

           — É possível fazer.

           — Chris, por que você parece tão esquisito?

           Ele hesitou, afastando-se um pouco para estudar-me o rosto.

           — Não estava ouvindo, Cathy? Fiz o máximo esforço para lhe contar tudo nos mínimos detalhes, exatamente como aconteceu. Você não escutou?

           Escutar? Claro que eu escutara tudo.

            Ele esperara demais para roubar o monte de jóias colecionadas por mamãe. Devia tê-las tirado aos poucos, como eu recomendara, implorara que fizesse.

           Portanto, mamãe e o marido tinham partido em mais uma viagem de recreio. E isso era alguma novidade? Eles estavam sempre chegando e partindo. Fariam qualquer coisa para se afastarem daquela casa e eu não os censurava por isso. Não estávamos dispostos a fazer o mesmo?

           Franzi a testa, dirigindo a Chris um longo olhar interrogativo. Obviamente, ele sabia algo que não me contara. Continuava a protegê-la, amá-la.

           — Cathy... — começou ele, com voz embargada.

           — Está bem, Chris. Não o censuro. Portanto, nossa doce, querida, devotada e amorosa mãe e seu jovem e belo marido partiram para mais uma viagem de recreio, levando consigo todas as jóias. Nós nos arranjaremos.

           Dizendo adeus à segurança no mundo lá fora! Mas fugiríamos! Trabalharíamos, daríamos um jeito para ganhar nosso sustento e, além disso, pagar os médicos que cuidariam de Carrie. Não nos importava o que fora feito das jóias; não nos importava a indiferença de nossa mãe, partindo sem nos dizer aonde iria e quando regressaria. Naquela altura, já estávamos acostumados à indiferença brutal, à aspereza e à maldade.

            — Por que tantas lágrimas, Chris; por que?

           — Cathy! — explodiu ele, virando o rosto banhado em lágrimas para me fitar nos olhos. — Por que não está ouvindo e reagindo? Onde estão seus ouvidos? Não escutou o que contei? Nosso avô morreu! Há quase um ano!

           Talvez eu não estivesse realmente ouvindo; pelo menos, não com suficiente atenção. Talvez o estado de abalo em que Chris se encontrava não me deixasse escutar direito. Agora, dei-me conta do que ele dissera e, afinal, entendi. Se nosso avô realmente morrera, a notícia era ótima!

            Agora, mamãe herdaria a fortuna! Seríamos ricos! Ela destrancaria a porta, libertando-nos. Já não precisávamos fugir.

            Outras perguntas me assomaram à mente, numa torrente de indagações devastadoras. Mamãe não nos contara que seu pai tinha morrido. Sabendo como aqueles anos foram penosos para nós, por que nos mantivera no escuro, sempre esperando? Por quê? Perplexa, confusa, eu não sabia direito o que sentir: felicidade, alegria ou tristeza. Fui invadida por um medo estranho, paralisante, que dissipou a indecisão.

            — Cathy — sussurrou Chris, embora eu não entendesse por que razão ele falava tão baixo. Carrie não nos ouviria; ela vivia num mundo à parte do nosso, suspensa entre a vida e a morte, inclinando-se cada vez mais no sentido de Cory a cada minuto em que se privava de alimentação, abandonando a vontade de viver sem ter ao lado a sua outra metade. — Nossa mãe nos iludiu deliberadamente, Cathy. O pai dela morreu e o testamento foi homologado alguns meses depois, mas ela manteve segredo e abandonou-nos aqui para apodrecermos. Há nove meses nós éramos muito mais saudáveis que agora! Cory ainda estaria vivo se mamãe nos libertasse no dia em que seu pai morreu, ou mesmo quando o testamento foi homologado.

            Combalida, deixei-me mergulhar no profundo poço de traição que mamãe cavara para afogar-nos. Comecei a chorar.

            — Guarde suas lágrimas para depois — disse Chris, que chorara pouco antes. — Ainda não ouviu tudo e existe mais... muito mais e muito pior.

            — Mais?

            Que mais poderia ele contar? Nossa mãe se revelara uma mentirosa, uma trapaceira, uma ladra que nos roubara a juventude e matara Cory para adquirir uma fortuna que não desejava repartir com filhos que já não amava ou queria. Oh, como ela soubera explicar bem o que nos esperava na noite em que nos deu uma pequena litania para recitarmos quando nos sentíssemos infelizes! Naquela época ela sabia, ou mesmo suspeitava, que se tornaria exatamente a coisa na qual o avô a transformaria?

            Desabei nos braços de Chris, apoiando-me em seu peito.

           — Não me diga mais nada! Já escutei o bastante... não me faça odiá-la ainda mais!

            — Odiar... Você ainda nem começou a aprender o que é odiar. Contudo, antes que eu lhe conte o resto, meta na cabeça que vamos fugir para sempre daqui, aconteça o que acontecer. Iremos para a Flórida, exatamente como planejamos. Viveremos ao sol e arranjaremos nossa vida da melhor maneira possível. Nem por um só momento nos envergonharemos do que somos, ou do que fizemos, pois o que compartilhamos entre nós é muito pequeno comparado com o que fez nossa mãe. Mesmo que você morra antes de mim, recordarei para sempre nossas vidas aqui no sótão. Ver-nos-ei dançando sobre as flores de papel; você tão graciosa e eu tão desajeitado. Sentirei o cheiro de poeira e de madeira apodrecida, e para mim será tão doce como o perfume das rosas, porque sem você tudo seria tão desolado e tão vazio. Você me proporcionou o primeiro sabor do que pode ser o amor. Vamos mudar! Jogaremos fora o que existe de pior em nós e conservaremos o melhor. Mas, aconteça o que acontecer, nós três estaremos sempre juntos, um por todos, todos por um. Cresceremos, Cathy, física, mental e emocionalmente. Não apenas isso, mas atingiremos as metas que estabelecemos para nossas vidas. Eu serei o melhor médico que o mundo já conheceu e você fará Pavlova parecer uma desengonçada filha de camponeses.

            Cansei de ouvir falar de amor e das possibilidades que o futuro nos reservava, quando ainda continuávamos trancados num quarto e a morte estava deitada a meu lado, encolhida na posição fetal, com as pequenas mãos postas em prece mesmo durante o sono.

            — Muito bem, Chris, já me deu um tempo para respirar. Estou preparada para o que der e vier. E muito obrigada por dizer tudo isso, pois também não deixou de ser amado ou admirado.

            Dei-lhe um rápido beijo nos lábios e disse-lhe para prosseguir e desferir o golpe que me deixaria sem sentidos.

            — Na verdade, Chris, sei que você deve ter algo terrível para me contar, portanto, conte logo. Abrace-me enquanto fala e eu poderei suportar tudo que você tenha a dizer.

            Como eu era jovem, tão sem imaginação, tão confiante e presumida!

 

Finais, inícios

           — Adivinhe o que ela disse aos outros — retomou Chris. — Diga-me que motivo ela alegou para não querer que esse quarto fosse arrumado na última sexta-feira de cada mês.

            Como poderia eu adivinhar? Precisaria ter uma mente como a dela. Sacudi a cabeça. Há tanto tempo os criados não subiam ao quarto que eu já esquecera aquelas horríveis semanas iniciais.

            — Camundongos, Cathy — disse Chris, com uma expressão dura e fria nos olhos azuis. — Camundongos! Centenas de camundongos no sótão, inventou nossa avó... camundongos espertos, que usavam a escada para virem ao segundo andar. Pequenos camundongos diabólicos, que a obrigavam a manter esta porta fechada, deixando no quarto comida coberta com arsênico.

            Ouvi aquilo e refleti que era realmente uma desculpa maravilhosa para manter os criados afastados do quarto. O sótão estava cheio de camundongos, que desciam a escada.

            — Arsênico é branco, Cathy, branco! Quando misturado com açúcar, é impossível distinguir-lhe o gosto amargo.

            Meu cérebro começou a girar! Açúcar polvilhado nas quatro rosquinhas diárias! Uma para cada um de nós. Agora, só vinham três na cesta de piquenique!

            — Mas, Chris, sua história não faz sentido. Por que haveria a avó de envenenar-nos aos pouquinhos? Por que não ministrar de uma só vez a quantidade suficiente para matar-nos todos e terminar logo com tudo?

           Seus longos dedos se enfiaram em meus cabelos, até se cruzarem e permitirem que ele me segurasse a cabeça entre as palmas das mãos. Então, explicou em voz baixa:

            — Lembre-se de um velho filme que vimos na televisão. Lembra-se da mulher bonita que trabalhava como governanta para cavalheiros idosos, e ricos, naturalmente, e depois de conquistar-lhes a confiança e afeição, induzia-os a incluí-la nos testamentos; então, ministrava-lhes diariamente pequenas doses de arsênico? Quando a pessoa digere diariamente uma pequena porção de arsênico, o veneno é lentamente absorvido por todo o organismo, de modo que cada dia a vítima se sente um pouco pior, mas não muito. Pequenas dores de cabeça, perturbações digestivas que podem ser facilmente explicadas, de modo que quando a vítima morre, num hospital, digamos, já está magra e anêmica, com um longo histórico de doenças como gripes, resfriados, e assim por diante. E os médicos não desconfiam de envenenamento, não quando a vítima apresenta todos os sintomas de pneumonia, ou simples envelhecimento, como foi o caso do filme.

            — Cory! — exclamei, engasgada. — Cory morreu envenenado por arsênico? Mamãe disse que a pneumonia o matou!

            — Ela não pode dizer-nos o que bem entende? Como podemos saber se diz a verdade? Talvez nem mesmo o tenha levado a um hospital. E se levou, é evidente que os médicos não desconfiaram de que a morte não teve causas normais, pois do contrário ela estaria na cadeia.

            — Mas, Chris — protestei — mamãe não permitiria que a velha nos desse arsênico! Sei que ela deseja o dinheiro e que não gosta de nós como gostava antigamente, mas seria incapaz de matar-nos!

            Chris desviou o rosto.

            — Muito bem. Precisamos fazer um teste. Vamos dar ao camundongo de Cory um pedaço de rosquinha polvilhada com açúcar.

            Não! Não podíamos fazer isso, não com Mickey, que nos adorava e confiava em nós. Cory era louco pelo pequeno camundongo cinzento.

            — Chris, vamos caçar outro camundongo, um bravo, que não confie em nós.

            — Vamos, Cathy, Mickey é um camundongo velho e, ainda mais, aleijado. Você sabe que é difícil pegar um camundongo vivo. Quantos conseguiram sobreviver à ratoeira? E quando formos embora, Mickey não sobreviverá, pois agora é um animal de estimação e depende de nós para alimentar-se.

            — Mas eu pretendia levá-lo conosco...

            — Olhe a coisa sob o seguinte aspecto, Cathy: Cory morreu antes mesmo de começar a viver. Se as rosquinhas não estiverem envenenadas, Mickey não morrerá e nós o levaremos conosco, se você insistir. Uma coisa é certa: precisamos saber a verdade. Pelo bem de Carrie, temos que tirar a prova. Olhe para ela. Não percebe que também está morrendo? Definha dia a dia e nós também.

            Ele se aproximou de nós andando em três patas e arrastando a pata aleijada; nosso querido camundongo mordiscou o dedo de Chris antes de tirar um pedaço da rosquinha. Arrancou um pedacinho e o comeu, confiante, acreditando em nós, seus deuses, seus pais, seus amigos. Doía-me observá-lo.

            Mickey não morreu imediatamente. Tornou-se lento, indiferente, apático. Mais tarde, teve pequenos ataques de dores que o fizeram choramingar. Dentro de poucas horas estava caído de costas, frio e rígido, as patinhas rosadas curvadas em garra, os olhinhos negros embaçados e fundos. Portanto, agora sabíamos com certeza. Não fora Deus quem levara Cory.

            — Podíamos colocar Mickey num saco, com duas rosquinhas, e levá-lo à polícia — começou Chris, hesitante, mantendo o olhar afastado do meu...

            — Eles meteriam a avó na cadeia.

            — Sim — disse ele, dando-me as costas.

            — Chris, você está escondendo alguma coisa. O que é?

            — Mais tarde... depois que fugirmos. No momento, eu já disse tudo o que podia sem vomitar. Partiremos amanhã cedo — concluiu quando fiquei calada.

            Tomou-me ambas as mãos, apertando-as com força.

            — O quanto antes possível, levaremos Carrie a um médico, e nós também iremos.

            Como foi longo aquele dia. Já tínhamos tudo pronto e nada nos restava fazer senão assistir à televisão pela última vez. Carrie em seu canto, cada um de nós em sua cama, assistíamos à nossa novela preferida. Foi quando eu disse:

            — Chris, as pessoas das novelas são como nós, quase nunca saem ao ar livre. E quando o fazem, nós só ouvimos falar, mas nunca vemos. Aparecem em salas de visitas e quartos, sentam-se nas cozinhas para tomar café ou se levantam na sala para preparar martinis, mas nunca, nunca saem à rua diante de nossos olhos. E sempre que alguma coisa boa acontece, sempre que elas pensam que, afinal, serão felizes, ocorre alguma catástrofe para liquidar-lhes as esperanças.

            Não sei como, pressenti uma presença estranha no quarto. Prendi a respiração! Ali estava a avó. Algo em sua postura, nos olhos cinzentos frios e cruéis, revelava-lhe o desdém irônico, zombeteiro, informando que já fazia algum tempo que ela estava ali em pé.

            Disse num tom gelado:

            — Como vocês dois se tornaram sofisticados mesmo isolados do mundo. Acreditam que exageraram, em tom de brincadeira, o modo como é a vida, mas não se trata de exagero. Sua previsão está correta. Nada acontece do jeito que achamos que vai acontecer. No final, sempre somos desapontados.

            Chris e eu a fitamos, arrepiados. Para nós, foi como se a noite invadisse repentinamente o quarto. Ela terminou o que tinha a dizer, deu meia-volta e saiu, trancando a porta. Nós três continuamos nas posições: Carrie encolhida no canto, Chris numa cama e eu na outra.

            — Não se deixe derrotar, Cathy. Ela estava tentando apenas amedrontar-nos. Talvez nada tenha dado certo para ela, mas isso não significa que nós estejamos condenados. Partiremos amanhã, sem muitas esperanças de encontrarmos a perfeição. Então, como esperamos apenas uma pequena parte da felicidade, não nos decepcionaremos.

            Se Chris era capaz de dar-se por satisfeito com uma pequena colina de felicidade, melhor para ele; mas depois de tantos anos de lutar, alimentar esperanças, sonhar e ansiar, eu queria uma montanha bem alta! Uma colina não seria suficiente. Jurei a mim mesma que daquele dia em diante eu assumiria o controle de minha vida. Nem o destino, nem Deus, nem mesmo Chris tornariam algum dia a dizer-me o que fazer ou me dominariam de qualquer forma. Daquele dia em diante, eu pertencia a mim mesma, para pegar o que bem entendesse, quando bem entendesse, dando satisfações somente a mim Eu fora prisioneira, mantida em cativeiro pela ambição e avareza.

            Fora iludida, traída, usada, envenenada... mas tudo aquilo agora estava acabando.

            Eu mal tinha doze anos de idade quando mamãe nos guiara através dos densos bosques de pinheiros numa noite estrelada, de lua prateada... no limiar da puberdade; agora, depois de três anos e quase cinco meses, eu atingira a maturidade. Era mais velha que as montanhas lá fora. A sabedoria do sótão penetrara-me até os ossos, gravando-se em meu cérebro, integrando-se à minha carne.

            Como Chris citara num dia memorável, a Bíblia dizia que havia uma hora certa para tudo. Eu julgava que minha hora de ser feliz estava bem próxima, aguardando por mim.

           Onde estava a frágil boneca de porcelana, com cabelos dourados, que eu fora outrora? Desaparecera. Sumira como a porcelana transformada em aço, metamorfoseada em alguém que sempre conseguiria o que desejasse, não importa quem ou o que se interpusesse em seu caminho. Voltei meu olhar decidido para Carrie, que permanecia encolhida no canto, a cabeça tão baixa que os cabelos compridos lhe ocultavam o rosto. Tinha apenas oito anos e meio, mas estava tão debilitada que andava arrastando os pés, como uma velha decrépita; não comia nem falava. Não brincava com o lindo bebezinho que morava na casa de bonecas. Quando eu lhe perguntava se queria levar consigo algumas daquelas bonecas, limitava-se a continuar de cabeça baixa, sem responder.

            Nem mesmo Carrie, com seu temperamento teimoso e arrogante, poderia derrotar-me agora. Não havia ninguém, em lugar algum, muito menos uma criança de oito anos, capaz de resistir à força de minha vontade.

            Fui ao canto, peguei-a no colo e, embora ela resistisse debilmente, seus esforços para livrar-se foram infrutíferos. Sentei-me à mesa e enfiei-lhe comida na boca, obrigando-a a engolir quando tentava cuspir.

            Levei-lhe um copo de leite aos lábios e, embora ela trincasse os dentes, forcei-a a abri-los e engolir o leite. Ela gritou que eu era malvada. Carreguei-a para o banheiro e limpei-a quando ela se recusou até mesmo a fazer isso.

            Na banheira, lavei-lhe o cabelo com xampu. Depois, vesti com várias camadas de roupas quentes, como eu já estava vestida. E quando seu cabelo secou, escovei-o até brilhar e ficar um pouco como antes, embora muito mais ralo e menos belo.

            E durante as longas horas de espera segurei-a no colo, sussurrando-lhe ao ouvido os planos que Chris e eu fizéramos para o futuro, as vidas felizes que levaríamos ao sol dourado e líquido da Flórida.

            Chris, sentado na cadeira de balanço, totalmente vestido, dedilhava distraidamente a guitarra de Cory.

            — Dança, bailarina, dança... — cantava.

            Sua voz não era nada má. Talvez pudéssemos trabalhar como músicos formando um trio, se Carrie se recobrasse o suficiente para querer cantar outra vez.

            Eu tinha no pulso um relógio suíço de ouro de quatorze quilates que devia ter custado a mamãe várias centenas de dólares. Chris também tinha seu relógio. Não estávamos totalmente sem dinheiro. E tínhamos também a guitarra, o banjo, a máquina fotográfica Polaroid de Chris e suas muitas aquarelas, para vendermos, além dos anéis que papai dera à nossa mãe.

            A manhã seguinte nos reservava a fuga, todavia, por que eu continuava a ter a sensação de que estava esquecendo algo muito importante?

            Repentinamente, dei-me conta de algo! Uma coisa que tanto Chris como eu não leváramos em consideração. Se a avó era capaz de abrir nossa porta trancada e ficar tanto tempo no quarto antes de percebermos sua presença... será que não fizera o mesmo em outras ocasiões? Em caso positivo, ela talvez tivesse conhecimento de nossos planos! E poderia traçar seus próprios planos para impedir nossa fuga!

            Olhei para Chris, refletindo se deveria ou não trazer o assunto à baila. Dessa vez, porém, ele não poderia hesitar e arranjar mais uma desculpa para adiarmos a fuga... portanto, revelei-lhe minhas suspeitas. Ele continuou a dedilhar a guitarra, aparentemente imperturbável.

            — No instante em que a vi aqui dentro, essa idéia me passou pela cabeça — respondeu. — Sei que ela deposita muita confiança naquele mordomo, John, e bem poderia postá-lo de vigia ao pé da escada para impedir nossa saída. Pois ele que tente; nada nem ninguém nos impedirá de sair desta casa amanhã cedo!

           Contudo, a idéia de encontrarmos a avó e o mordomo à nossa espera na escada se recusava a me sair da cabeça e deixar-me em paz. Deixando Carrie adormecida na cama e Chris sentado na cadeira de balanço a dedilhar a guitarra, subi ao sótão para despedir-me.

           Postei-me diretamente embaixo da lâmpada e olhei em volta. Meus pensamentos voaram de volta ao dia em que ali subimos pela primeira vez... vi-nos, os quatro, de mãos dadas, olhando em torno, abismados pelo gigantesco sótão, com sua fantasmagórica mobília e acúmulo de trastes empoeirados.

            Vi Chris lá em cima, na viga, arriscando a vida para pendurar dois balanços destinados ao divertimento de Cory e Carrie. Caminhei até a sala de aulas, olhando as velhas carteiras às quais os gêmeos se sentaram para aprender a ler e escrever. Não olhei para o velho colchão manchado e fedorento para imaginar-nos tomando banho de sol deitados nele. Aquele colchão me trazia à mente outras lembranças. Observei as flores brilhando e a lesma torta e a ameaçadora minhoca roxa, os avisos que Chris e eu tínhamos desenhado, e todo o emaranhado de nosso jardim. Vi-me dançando sozinha, sempre sozinha, exceto quando Chris ficava nas sombras a observar-me, transformando sua dor em minha dor. Pois quando eu dançava valsas com Chris, tornava-o uma pessoa diferente.

            Ele me chamou da escada:

            — Está na hora de irmos, Cathy.

            Voltei correndo à sala de aulas. Usando giz branco, escrevi com letras grandes no quadro-negro:

 

            Vivíamos no sótão,

            Christopher, Cory, Carrie e eu;

           Agora somos apenas três.

 

            Assinei meu nome e escrevi a data. No fundo do coração, sabia que os fantasmas de nós quatro sobrepujariam os fantasmas de todas as outras crianças isoladas numa sala de aulas do sótão. Deixei um enigma para alguém desvendar no futuro.

            Com Mickey enfiado num saco de papel juntamente com duas rosquinhas cobertas de açúcar e guardado em seu bolso, Chris utilizou a chave de madeira para abrir pela última vez a porta de nossa prisão. Lutaríamos até a morte se a avó e o mordomo estivessem de tocaia no andar térreo. Chris carregava as duas malas com nossos objetos pessoais e as roupas que podíamos levar; levava a tiracolo a guitarra e o banjo que Cory tanto adorava. Mostrou o caminho pelos corredores escuros, chegando à escada dos fundos. Carrie estava em meus braços, parcialmente adormecida. Pesava apenas um pouco mais que quando a leváramos pelo mesmo caminho, ao chegarmos à casa, mais de três anos atrás. As duas malas levadas pelo meu irmão eram as mesmas que mamãe carregara naquela noite horrível, havia tanto tempo, quando éramos pequenos, tão amorosos e confiantes.

            Pregados com alfinetes no lado interno de nossas roupas estavam dois saquinhos contendo as notas que Chris roubara no quarto de mamãe, divididas igualmente, para a eventualidade de algo inesperado separar Chris de mim. Então, nenhum dos dois ficaria sem dinheiro. E Carrie certamente estaria com um de nós, devidamente cuidada. As moedas pesadas estavam nas duas malas, também divididas em partes iguais para distribuir o peso.

         Tanto Chris quanto eu estávamos perfeitamente cônscios do que nos esperava lá fora. Não tínhamos passado tantas horas assistindo à televisão sem aprendermos que os sabidos e desalmados ficam de tocaia contra os ingênuos e inocentes. Éramos jovens e vulneráveis, debilitados e meio doentes, mas já não éramos ingênuos ou inocentes.

            Meu coração parou enquanto esperei que Chris destrancasse a porta dos fundos, temendo que alguém aparecesse a qualquer momento para deter-nos. Chris saiu pela porta, sorrindo para mim.

           Fazia frio lá fora. Trechos de neve derretiam-se no solo. Em breve tornaria a nevar. O céu cinzento prenunciava isso. Mesmo assim, não fazia mais frio que no sótão. A terra estava fofa sob nossos pés. Era uma sensação estranha, após passarmos tanto tempo andando em tábuas duras e planas de assoalho. Ainda não me sentia segura, pois John poderia seguir-nos e levar-nos de volta. Ou tentar levar-nos.

           Ergui a cabeça para inspirar o ar puro das montanhas. Era inebriante como champanha. Carreguei Carrie no colo durante algum tempo; depois coloquei-a em pé no solo. Ela tropeçou alguns passos e olhou em volta desorientada e atordoada. Fungou e limpou o narizinho vermelho, tão bem delineado. Oh!... Será que ia pegar logo um resfriado?

            — Cathy — chamou Chris, que se adiantara. — Vocês duas precisam andar mais depressa. Não temos muito tempo e ainda há um bocado de chão a percorrer. Pegue Carrie no colo quando ela se cansar.

            Peguei-a pela mão e puxei-a atrás de mim.

            — Respire bem fundo, Carrie. Antes de você poder notar, o ar puro, a boa alimentação e o sol logo a deixarão forte e bem disposta outra vez.

            Ela ergueu o rostinho pálido para mim; havia em seus olhos, afinal, uma centelha de esperança?

            — Vamos encontrar Cory?

            Era a primeira pergunta que fazia desde o dia trágico em que recebêramos a notícia da morte de Cory. Olhei-a sabendo que o que ela mais desejava era a presença de Cory. Não pude negar. Não tive coragem de apagar mais uma chama de esperança.

            — Cory está num lugar muito, muito longe daqui. Não se lembra quando eu disse que papai está num jardim muito lindo? Não se lembra quando contei que papai pegou Cory no colo e agora vai tomar conta dele? Estão esperando por nós e, algum dia, lá nos encontraremos. Mas só daqui a muito, muito tempo.

            — Mas, Cathy — reclamou ela, franzindo a testa — Cory não vai gostar daquele jardim se eu não estiver lá. E se ele voltar para nos procurar, não vai saber onde estamos.

            Aquela ansiedade me trouxe lágrimas aos olhos. Peguei-a no colo, tentando abraçá-la, mas ela se desvencilhou, arrastando os pés e atrasando-se, torcendo o corpo para olhar a imensa casa que estávamos deixando para trás.

            — Vamos, Carrie, ande mais depressa! Cory nos observa, quer que fujamos! Está ajoelhado, rezando para que consigamos escapar antes que a avó mande alguém para levar-nos de volta e trancar-nos novamente!

            Acompanhamos os passos de Chris ao longo das trilhas tortuosas. E, como eu já previra, ele nos conduziu sem vacilação à pequena parada de trem que consistia apenas de uma coberta de zinco suportada por quatro estacas, protegendo um velho e desengonçado banco pintado de verde.

            A orla do sol nascente espiou pela crista de uma montanha, dissipando a névoa da madrugada. Quando nos aproximamos da parada do trem, o céu assumia uma tonalidade rósea.

            — Depressa, Cathy! — chamou Chris. — Se perdermos este trem, só teremos outro às quatro da tarde!

            Oh, Deus, não podíamos perder aquele trem! Se isso acontecesse, a avó certamente teria tempo de sobra para recapturar-nos!

            Avistamos uma camioneta do correio, um homem alto e magro como um cabo de vassoura em pé ao lado de três malas postais. Ele tirou o boné, exibindo uma carapinha ruiva e sorrindo amavelmente em nossa direção.

            — Vão para Charlottesville?

            — Sim! Vamos para Charlottesville — respondeu Chris, aliviado por poder finalmente pousar as malas no solo.

            — Menina linda, vocês trazem aí — disse o esguio carteiro, observando com um olhar penalizado a pequena Carrie, que se agarrava à minha saia. — Se me perdoam o comentário, ela parece muito magrinha.

            — Está doente — confirmou Chris. — Mas logo ficará boa.

          O carteiro meneou a cabeça, aparentemente convencido do diagnóstico feito por Chris.

            — Têm passagens?

            — Temos dinheiro — respondeu Chris, acrescentando astutamente, à guisa de treinamento para lidar com desconhecidos menos confiáveis: — Mas apenas o suficiente para pagarmos as passagens.

            — Nesse caso, trate de pegá-lo, meu filho, porque aí vem o trem das cinco e quarenta e cinco.

            Enquanto viajávamos no trem da manhã, com destino a Charlottesville, avistamos a mansão dos Foxworth, encarapitada numa encosta. Chris e eu não conseguimos despregar os olhos daquela imensa casa; pela primeira vez víamos nossa prisão pelo lado de fora. Olhamos especialmente para as janelas do sótão, tapadas por postigos negros. Então, minha atenção se transferiu para a ala norte, fixando-se no último quarto do segundo andar. Cutuquei Chris com o cotovelo quando as pesadas cortinas se afastaram e lá surgiu a silhueta sombria e distante de uma velha corpulenta, procurando por nós... mas logo desapareceu.

           É claro que ela podia ver o trem, mas sabíamos que não nos enxergava, da mesma forma que nunca conseguíamos enxergar os passageiros. Não obstante, Chris e eu escorregamos ainda mais nos assentos.

            — O que estará fazendo lá em cima tão cedo? — sussurrei a Chris. — Normalmente, só leva o nosso café às seis e meia.

           Ele riu, num tom que me pareceu amargo.

           — Ora, apenas mais uma de suas tentativas de pegar-nos fazendo algo pecaminoso e proibido.

            Talvez fosse isso, mas desejei conhecer-lhe os pensamentos, o que ela sentiu ao entrar naquele quarto e constatar que estava vazio, que desaparecera roupa do armário e das gavetas. E não escutar vozes ou passos que acorressem rapidamente, se é que nos chamou.

            Em Charlottesville, compramos passagens de ônibus para Sarasota e fomos informados de que dispúnhamos de duas horas até a partida do próximo ônibus para o Sul. Duas horas durante as quais John teria tempo bastante para pegar um dos automóveis e alcançar o vagaroso trem!

            — Não pense no assunto — recomendou Chris. — Você não sabe se ele tem conhecimento de nossa existência. A velha seria uma idiota se lhe contasse, embora ele provavelmente seja bastante bisbilhoteiro para ter descoberto.

            Julgamos que a melhor maneira de evitar que ele nos encontrasse, caso fosse mandato em nossa perseguição, seria mantermo-nos em movimento. De mãos dadas, com Carrie entre nós dois, percorremos as ruas principais daquela cidade, onde sabíamos que os criados de Foxworth Hall vinham visitar os parentes nos dias de folga, bem como fazer compras, ir ao cinema ou divertir-se de outros modos. E se fosse uma quinta-feira, ficaríamos realmente receosos; mas era domingo.

            Devíamos parecer visitantes chegados de outro planeta, com nossas roupas volumosas e mal ajustadas, tênis, cabelos mal aparados e rostos pálidos. Mas ninguém realmente nos deu muita atenção, ao contrário do que eu temia. Fomos aceitos apenas como parte da humanidade, não mais esquisitos que tantas outras pessoas. Era gostoso estarmos outra vez entre gente nas ruas, cada rosto diferente do outro.

            — Onde será que todo mundo está indo com tanta pressa? — indagou Chris, exatamente quando eu estava pensando na mesma coisa.

           Paramos numa esquina, indecisos. Cory devia estar enterrado nas proximidades. Oh, eu desejava tanto encontrar seu túmulo e nele depositar algumas flores...

            Algum outro dia voltaríamos, com rosas amarelas, e nos ajoelharíamos para rezar, quer isto fizesse ou não alguma diferença. Por enquanto, tínhamos que pensar apenas em nos afastarmos para muito, muito longe dali, a fim de não aumentarmos os riscos para Carrie... e sair da Virgínia antes de a levarmos ao médico...

            Foi então que Chris tirou do bolso o saco de papel contendo o camundongo morto e as duas rosquinhas com açúcar. Seu olhar solene encontrou o meu. Ele me exibiu o saco diante dos olhos, interrogando-me mudamente: “Olho por olho?”

            Aquele saco de papel representava tanta coisa: todos os nossos anos perdidos, a instrução, os colegas e amigos que deixáramos de ter, os dias que deveríamos ter tido de risos e não de lágrimas. Naquele saco estavam todas as nossas frustrações, humilhações, toneladas de solidão, além dos castigos e decepções e, sobretudo, aquele saco representava a perda de Cory.

            — Podemos ir à polícia e contar tudo — disse Christopher, mantendo os olhos desviados de mim. — A prefeitura cuidará de você e de Carrie; não precisarão fugir. Talvez sejam enviadas a um pensionato, ou um orfanato. Quanto a mim, não sei...

            Chris nunca falava comigo desviando o olhar, a menos que ocultasse alguma coisa, aquela coisa especial que precisava esperar até que saíssemos de Foxworth Hall.

           — Muito bem, Chris, já fugimos. Agora, desembuche. O que anda escondendo de mim?

           Ele baixou a cabeça e Carrie se aproximou, agarrando-me a saia, embora arregalasse os olhos, fascinada, para observar o fluxo do tráfego e tanta gente que passava depressa sorrindo para ela.

            — É mamãe — disse Chris em voz baixa. — Lembra-se de quando ela nos disse que seria capaz de tudo para reconquistar o pai e herdar sua fortuna? Não sei o que ele a obrigou a jurar, mas escutei os criados conversando. Cathy, alguns dias antes de morrer, nosso avô mandou acrescentar um codicilo ao testamento. Este codicilo estabelece o seguinte: caso fique provado que mamãe teve filhos do primeiro marido, ela será obrigada a abrir mão de tudo o que herdou e a devolver tudo o que comprou com o dinheiro, inclusive roupas, jóias, investimentos... tudo, enfim. E isso não é tudo; ele estabeleceu também que se ela tiver filhos do segundo casamento o mesmo acontecerá. E mamãe julgava que ele a perdoara. Pois não perdoou, nem esqueceu: continua a castigá-la da sepultura.

            Meus olhos se esbugalharam de choque quando comecei a juntar as peças do quebra-cabeças.

            — Quer dizer que foi mamãe...? Foi mamãe, e não a avó?

            Ele sacudiu os ombros com uma indiferença que eu sabia ser simulada.

            — Escutei a velha rezar ajoelhada ao lado da cama. É malvada, mas duvido que fosse capaz de colocar veneno na nossa comida. Ela levava as rosquinhas para nós e sabia que as comíamos, mas sempre nos aconselhou a não comermos doces.

            — Mas não poderia ter sido mamãe, Chris! Ela estava em lua-de-mel quando começamos a receber as rosquinhas.

            Chris exibiu um sorriso amargo, irônico.

           — Sim. Mas o testamento foi homologado há nove meses; nessa época, mamãe já tinha regressado. Só mamãe foi beneficiada pelo testamento de nosso avô; a avó não recebeu um centavo, tem seu próprio dinheiro. Ela apenas nos levava a comida todos os dias.

           Eu tinha muitas perguntas a fazer, mas ali estava Carrie, agarrada à minha saia, olhando para mim. Eu não desejava que ela soubesse que Cory não morrera de causas naturais. Naquele momento, Chris depositou-me nas mãos o saco de papel contendo as provas.

            — Cabe a você decidir. Sua intuição estava correta desde o início. Se eu tivesse escutado o que você dizia, Cory ainda estaria vivo.

            Não existe ódio comparável ao gerado pelo amor traído e meu cérebro clamava por vingança. Sim, eu queria ver mamãe e avó na cadeia, atrás das grades, condenadas por homicídio premeditado, por quatro crimes, se a intenção fosse levada em conta. Não passariam de camundongos engaiolados, trancafiados como nós, mas tendo a vantagem da companhia de viciadas em drogas, de prostitutas e de outras assassinas como elas. Mamãe não poderia ir ao salão de beleza duas vezes por semana; nada de manicures profissionais e apenas um banho semanal. Perderia até mesmo a privacidade das partes mais íntimas de seu corpo.

            Oh, como ela sofreria sem poder usar agasalhos de pele nem jóias, sem cruzeiros de recreio nos mares do sul quando o inverno chegasse. Não teria um marido jovem, belo e apaixonado para rolar com ela na suntuosa cama de cisne.

            Olhei para o céu, onde, supostamente, estava Deus; poderia Ele, à sua maneira, equilibrar a balança e tirar de meus ombros a carga de fazer justiça?

            Achei cruel e injusto que Chris me lançasse nas costas o encargo da decisão. Por quê?

            Porque seria capaz de perdoá-la por tudo, inclusive da morte de Cory e da tentativa de envenenar todos nós? Julgaria que pais como os dela seriam capazes de pressioná-la a fazer qualquer coisa, inclusive cometer homicídio? Haveria no mundo dinheiro suficiente para me obrigar a matar meus próprios filhos?

            Vieram-me à mente cenas anteriores à morte de meu pai. Todos nós no jardim, risonhos e felizes. Na praia nadando ou velejando; nas montanhas, esquiando.

            E mamãe na cozinha, esforçando-se para preparar refeições que nos agradassem a todos.

            Sim, certamente seus pais conheceriam maneiras de matar o amor que ela sentia por nós. Ou Chris pensava, assim como eu, que se fôssemos à polícia apresentar queixa nossas fisionomias seriam estampadas na primeira página de todos os jornais do país? As luzes da publicidade compensariam o que perderíamos com ela? Nossa privacidade, nossa necessidade de permanecermos juntos? Seríamos capazes de perder um ao outro só por vingança?

            Tornei a olhar para o céu. Deus. Não era ele quem redigia os scripts para os minúsculos atores que representavam no palco deste mundo. Nós mesmo redigíamos nossos roteiros com cada dia que vivíamos, com cada palavra que pronunciávamos, com cada pensamento que gravávamos em nossas mentes. E mamãe também redigira o dela; péssimo, por sinal, digno de piedade.

            Em certa época, tivera quatro filhos que considerava perfeitos sob todos os pontos de vista. Agora, não lhe restava nenhum. Outrora, tinha quatro filhos que a amavam, considerando-a perfeita sob todos os pontos de vista; agora nenhum deles a julgava perfeita. E ela nunca mais desejava ter outros filhos. O amor pelas coisas que o dinheiro podia comprar mantê-la-ia fiel para sempre ao cruel codicilo acrescentado ao testamento de seu pai.

            Mamãe ficaria velha; seu marido era anos mais moço que ela. Teria bastante tempo para sentir-se solitária e desejar ter feito tudo de modo diferente. Se seus braços nunca mais ansiassem por abraçar-me, ansiariam por Chris e, talvez, Carrie... e, com toda a certeza, ela desejaria ter consigo os filhos que viríamos a gerar no futuro.

            Daquela cidade, fugiríamos num ônibus para o Sul, a fim de nos tornarmos alguém. Quando voltássemos a ver mamãe, e o destino com certeza tomaria providências nesse sentido, nós a olharíamos diretamente nos olhos e lhe daríamos as costas.

            Larguei o saco de papel na cesta coletora de lixo mais próxima, despedindo-me de Mickey e pedindo-lhe, por favor, que nos desculpasse pelo que lhe fizéramos.

            — Vamos, Cathy — chamou Chris, estendendo-me a mão. — Diga adeus ao passado e alô ao futuro. Estamos perdendo tempo, quando já perdemos tempo demais no passado. Temos tudo pela frente, à nossa espera.

            As palavras exatas para fazer-me sentir real, viva, livre! Suficientemente livre para esquecer idéias de vingança. Ri e girei nos calcanhares para correr até onde ele me esperava com a mão estendida e segurá-la. Com o braço livre, Chris ergueu Carrie para o colo, abraçando-a e beijando-lhe o rostinho magro e abatido.

            — Escutou isso, Carrie? Estamos a caminho de um lugar onde as plantas florescem durante o inverno. Na verdade, lá as plantas florescem durante o ano inteiro. Isso não dá vontade de sorrir?

            Uma sombra de sorriso pairou nos lábios pálidos que pareciam ter esquecido de como sorrir. Mas foi o bastante, por enquanto.

 

            É com alívio que termino o relato dos anos que nos serviram de base, sobre os quais alicerçaríamos o resto de nossas vidas.

          Após fugirmos de Foxworth Hall, abrimos caminho e conseguimos, de algum modo, prosseguir sempre em nossa luta para atingirmos nossos objetivos.

            Nossas vidas seriam sempre tempestuosas, mas ensinaram a Chris e a mim que somos sobreviventes. Quanto a Carrie, foi diferente. Teve de ser persuadida a desejar uma vida sem Cory, embora estivesse cercada de rosas. Mas como conseguimos sobreviver... isso é outra história.

 

                                                                                            V. C. Andrews  

 

                      

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