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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O JIHAD BUTLERIANO / B. Herbert e K. J. Anderson
O JIHAD BUTLERIANO / B. Herbert e K. J. Anderson

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

A princesa Irulan escreve:

Qualquer estudante consciente tem que compreender que a história não tem início. Independentemente de quando comece a história, sempre há heróis e tragédias temporais.

Antes que alguém possa compreender o Muad'Dib ou a atual Jihad que seguiu ao derrocada de meu pai, o imperador Shaddam IV, tem que compreender contra o que lutamos. Por conseguinte, tem que remontar-se a mais de dez mil anos de antigüidade, dez milênios antes do nascimento de Paul Atreides.

É aí onde encontramos a fundação do Império, onde vemos um imperador elevar-se das cinzas da batalha de Corrin para unificar os restos dizimados da humanidade. Investigaremos os documentos históricos mais antigos, os mitos de Duna, na época da a Grande Revolta, mais conhecida como Jihad Butleriano.

A terrível guerra contra as máquinas pensantes foi a gênese de nosso universo político e comercial. Escutem a história dos humanos livres que se rebelaram contra a dominação de robôs, computadores e cimeks. Notem os alicerces da grande traição que transformou a Casa Atreides e a Casa Harkonnen em inimigos mortais, uma violenta inimizade que se prolonga até nossos dias. Conheçam as raízes da irmandade Bene Gesserit, da Confraria Espacial e seus navegantes, dos Professores Espadachins do Ginaz, da Escola de médicos Suk, dos mentat. Presenciem a vida dos zensunni errantes que fugiram do deserto de Arrakis, de onde se converteram em nossos maiores soldados, os Fremen.

Tais acontecimentos conduziram ao nascimento e vida do Muad'Dib.

 

 

 

 

Muito antes do Muad'Dib, nos últimos dias do Império Antigo, a humanidade perdeu seu vigor. A civilização terrestre se pulverizou pelas estrelas, mas chegou a um momento de estancamento. Carente de ambições, a maioria das pessoas permitia que máquinas eficientes se encarregassem de todas as tarefas cotidianas. Pouco a pouco, os humanos deixaram de pensar, sonhar... ou viver.

Então, chegou um homem do longínquo sistema de Thalim, um visionário que adotou o nome do Tlaloc, em honra a um antigo deus da chuva. Falou com as multidões apáticas, tentou reviver seu espírito humano, sem resultado aparente. Mas alguns inadaptados escutaram a mensagem de Tlaloc.

Estes novos pensadores se reuniram em segredo e procuraram formas de mudar o Império, sempre que pudessem derrocar seus estúpidos governantes. Renunciaram a seus nomes de batismo e adotaram os nomes de grandes deuses e heróis. Entre eles sobressaíam o general Agamenon e sua amante Juno, cujo talento para escolher a tática adequada não tinha comparação. Estes dois recrutaram o perito programador Barba Azul, que desenhou um plano para transformar as servis máquinas onipresentes do Império em intrépidos agressores, ao dotar a inteligência artificial de seus cérebros com certas características humanas, incluindo a ambição de conquistar. Depois, vários humanos se uniram aos audazes rebeldes. No total, vinte mentes geniais formaram o núcleo de um movimento revolucionário que derrocou o Império Antigo.

Vitoriosos, se autodenominaram os titãs, em honra aos deuses gregos mais antigos. Guiados pelo visionário Tlaloc, os vinte se distribuíram a administração de planetas e povos, e impuseram sua ditadura graças às agressivas máquinas pensantes da Barba Azul.

Conquistaram quase toda a galáxia conhecida.

Alguns grupos de resistência reagruparam suas defesas na periferia do Império Antigo. Formaram sua própria confederação (a Liga dos Nobres), lutaram contra os Vinte Titãs e, depois de muitas batalhas sangrentas, conservaram sua liberdade. Detiveram o impulso dos titãs e os repeliram.

Tlaloc jurou que algum dia dominaria aqueles indesejáveis, mas ao fim de menos de uma década no poder, o líder visionário morreu em um trágico acidente. O general Agamenon herdou a liderança do Tlaloc, mas a morte de seu amigo e mentor constituía um sombrio aviso da mortalidade dos titãs.

Agamenon e sua amante Juno, que aspiravam governar durante séculos, aceitaram correr um grave risco. Ordenaram que lhes extirpassem o cérebro mediante uma operação cirúrgica e o implantassem em dispositivos que poderiam ser instalados em vários corpos mecânicos. Um a um, quando os titãs restantes sentiram a proximidade da velhice e sua vulnerabilidade, todos foram se convertendo em cimeks, máquinas com mentes humanas.

A Era dos Titãs durou um século. Os usurpadores cimeks governavam seus diversos planetas, e utilizavam computadores e robôs cada vez mais sofisticados para impor a ordem.

Mas em um desventurado dia, o hedonista titã Xerxes, ansioso por dispor de mais tempo para seus prazeres, permitiu um acesso excessivo a sua extensa rede de inteligência artificial.

A rede informatizada consciente se apoderou de todo um planeta, ao que seguiram outros.

A avaria se propagou como um vírus de um planeta a outro, e a “mente” informática cresceu em poder e alcance. A inteligente e regulável rede, que se autodenominou Omnius, conquistou todos os planetas governados pelos titãs antes que os cimeks tivessem tempo de alertar-se mutuamente do perigo.

Continuando, Omnius se dispôs a estabelecer e manter a ordem a sua maneira, muito estruturada, e a oprimir os humilhados cimeks. Donos do Império até aquele momento, Agamenon e seus companheiros se transformaram em servidores reticentes da mente onipotente.

Na época do Jihad Butleriano, fazia mil anos que Omnius e suas máquinas pensantes governavam com mão de ferro os Planetas Sincronizados.


Quando os humanos criaram um computador capaz de armazenar informação e aprender com ela, assinaram a sentença de morte da humanidade.

IRMÃ BECCA

Apesar disso, grupos de humanos livres resistiam nos limites do Império, unidos para assegurar seu mútuo amparo, como espinhos cravados nos flancos das máquinas pensantes. Sempre que eram atacados, a Liga dos Nobres se defendia com eficácia.

Mas as máquinas pensantes sempre estavam desenvolvendo novos planos.

Salusa Secundus pendia como um pendente de uma jóia no deserto do espaço, um oásis de riquezas e campos férteis, plácido e agradável para os sensores ópticos. Por desgraça, estava infestado de humanos em estado selvagem.

A frota robotizada se aproximou do planeta capital da Liga de Nobres. As naves de guerra blindadas estavam carregadas de armas, objetos enormes de uma estranha beleza com suas capas protetoras de liga refletiva, seus adornos de antenas e sensores. Os motores de popa lançavam fogo puro, e propulsionavam as naves até acelerações que teriam esmagado simples passageiros biológicos. As máquinas pensantes não necessitavam de sistemas de manutenção vital nem comodidades físicas. Neste momento, estavam concentradas em destruir a os restos de da resistência humana escondida nos limites exteriores dos Planetas Sincronizados.

No interior de sua nave em forma de pirâmide, o general cimek Agamenon dirigia o ataque. A glória ou a vingança eram alheias à lógica das máquinas pensantes, mas não a Agamenon. Seu cérebro humano, em alerta máxima dentro de seu dispositivo, seguia segundo a segundo o desenvolvimento dos planos.

A frota principal de naves de guerra entrou no sistema infestado de humanos, envolveu as tripulações das surpreendidas naves de vigilância como uma avalanche surda do espaço. Cinco delas abriram fogo para deter os atacantes, mas quase todos os seus projéteis foram muito lentos para alcançar os invasores. Disparos afortunados destruíram ou avariaram um punhado de naves robô, e o mesmo número de naves humanas acabaram desintegradas, não porque constituíram uma ameaça concreta, mas sim porque se interpuseram no caminho dos projéteis.

Só algumas naves de reconhecimento afastadas da refrega conseguiram transmitir a advertência ao vulnerável planeta Salusa Secundus. As naves de guerra robotizadas desintegraram o difuso perímetro interior das defesas humanas, sem reduzir nem um momento sua velocidade, indo atrás do verdadeiro objetivo. A frota de máquinas pensantes, que estremeciam devido à extrema desaceleração, chegaria pouco depois que a capital recebesse a informação do poeta vivo .

Os humanos não teriam tempo de se preparar.

A frota robotizada era dez vezes maior e mais potente que qualquer outra força enviada por Omnius contra a Liga de Nobres. Os humanos se acomodaram, por não ter sofrido nenhuma agressão robotizada em grande escala durante o último século de precária guerra fria. Mas as máquinas podiam esperar muito tempo, e agora Agamenon e seus titãs sobreviventes iriam aproveitar a oportunidade.

Descobertas por diminutas sondas espiãs, a liga tinha instalado a pouco tempo uma série de defesas, em teoria invencíveis, contra máquinas pensantes de circuitos eletrônicos. A imensa frota robô esperaria a uma distância prudente, enquanto Agamenon e sua pequena vanguarda de cimeks se lançavam à missão, talvez suicida, de abrir a porta.

Agamenon não cabia em si de impaciência. Os desventurados humanos já estariam disparando alarmes, preparando defesas... mortos de medo. Graças ao eletrolíquido que mantinha vivo seu cérebro, Agamenon transmitiu uma ordem às tropas de assalto cimeks.

- Vamos destruir o coração da resistência humana. Em frente!

Durante um espantoso milênio, Agamenon e seus titãs se viram obrigados a servir à mente robô, Omnius. Esmagados sob seu controle, os ambiciosos mas derrotados cimeks tinham desviado sua frustração contra a Liga de Nobres. Um dia, o general esperava revoltar-se contra o próprio Omnius, mas até o momento não havia se apresentado uma oportunidade.

A liga tinha disposto novos escudos decodificadores ao redor de Salusa Secundus. Tais campos destruiriam os sofisticados circuitos eletrônicos de todos os computadores com inteligência artificial, mas as mentes humanas poderiam sobreviver. E embora possuíssem sistemas mecânicos e corpos robóticos intercambiáveis, os cimeks ainda tinham cérebros humanos.

Portanto, poderiam atravessar as defesas sem sofrer o menor dano.

Salusa Secundus encheu o campo de visão de Agamenon. O general tinha estudado com detalhe projeções táticas, e aplicado a experiência militar que tinha desenvolvido ao longo dos séculos, além de sua intuição inata para a arte de conquistar. Seus dotes haviam permitido que apenas vinte rebeldes se apoderassem de um império... até que Omnius os despojou de tudo.

Antes de lançar este importante ataque, a supermente tinha insistido em realizar um simulacro atrás de outro, com o fim de desenvolver planos para cada contingência. Agamenon, por sua parte, sabia que era inútil planejar com excessiva precisão no que se referia aos ingovernáveis humanos.

Enquanto a imensa frota robô enfrentava às defesas orbitais e naves periféricas da liga, a mente de Agamenon sondou desde seu dispositivo conectado com os sensores, e sentiu que lhe guiavam como um extensão de seu desaparecido corpo humano. As armas integradas formavam parte dele. Via com um milhar de olhos, e os potentes motores davam a sensação de possuir de novo pernas musculosas e de poder correr como o vento.

- Preparem-se para o ataque terrestre. Assim que nossos blindados penetrem nas defesas salusianas, temos que proceder com celeridade. - Ao recordar as câmaras que gravavam até o último momento da batalha para o posterior escrutínio da supermente, acrescentou: - Arrasaremos este asqueroso planeta pela glória do Omnius. Agamenon diminuiu a velocidade de descida, e os outros o imitaram. - Xerxes, assuma o comando. Envie a frente seus neocimeks.

Xerxes, vacilante como de costume, queixou-se.

- Contarei com seu apoio total? Esta é a parte mais perigosa do...

Agamenon o silenciou.

- Agradeça esta oportunidade de demonstrar seu valor. Mova-se de uma vez! Cada segundo de atraso concede mais tempo aos hrethgir.

Era o termo depreciativo que as máquinas inteligentes e seus lacaios cimeks utilizavam para designar os insetos humanos.

Outra voz soou no comunicador: o robô no comando da frota que lutava contra as força defensivas humanas situadas na órbita da Salusa.

- Esperamos seu sinal, general Agamenon. A resistência humana está se intensificando.

- Vamos agir. Xerxes, obedeça minhas ordens!

Xerxes, que nunca opunha grande resistência, absteve-se de fazer mais comentários e chamou três neocimeks, máquinas de última geração com mente humana. O quarteto de naves em forma de pirâmide apagou seus sistemas auxiliares, e seus transportes blindados penetraram sem guia na atmosfera. Durante alguns perigosos momentos seriam alvo fácil, e as defensas terrestres da liga talvez acertassem alguns, mas a grossa blindagem os protegeria do pior do impacto, e os manteria incólumes inclusive quando aterrissassem com violência nos subúrbios da Zimia, a capital, onde se achavam as principais torres geradoras dos escudos protetores.

 

Até o momento, a Liga de Nobres tinha defendido à humanidade da eficácia organizada de Omnius, mas os selvagens organismos biológicos apenas sabiam governar-se, e normalmente não entravam em acordo na hora de tomar decisões importantes. Assim que Salusa Secundus fosse esmagado, a instável aliança se desintegraria presa do pânico, e a resistência desmoronaria.

Mas os primeiros cimeks de Agamenon tinham que desconectar os escudos protetores. Então, Salusa ficaria indefeso e tremente, preparado para que a frota robô lançasse o golpe mortal, como uma enorme prensa mecânica que esmagasse um inseto.

O líder cimek colocou em posição seu transporte blindado, disposto a dirigir a segunda onda com o resto da frota exterminadora. Agamenon fechou todos os sistemas informatizados e seguiu Xerxes. Seu cérebro flutuava em um limbo dentro do dispositivo de segurança. Cego e surdo, o general não sentiu o calor nem as violentas vibrações quando seu blindado se precipitou para o objetivo desprevenido.


A máquina inteligente é um gênio maligno, escapado de sua garrafa.

BARBA AZUL, Anatomia de uma rebelião

 

Quando a rede de sensores de Salusa detectou a chegada da frota de guerra robotizada, Xavier Harkonnen entrou em ação imediatamente. Uma vez mais, as máquinas pensantes queriam pôr à prova as defesas da humanidade livre.

Embora ostentasse a patente de terceiro na tropa salusiana (o ramo autônomo local da Armada da Liga), Xavier ainda não tinha nascido quando aconteceram as últimas escaramuças reais contra os planetas da liga. A batalha mais recente tinha ocorrido quase cem anos antes.

Depois de tanto tempo, as agressivas máquinas talvez imaginassem que as defesas humanas eram débeis, Xavier jurou que se enganariam.

- Primeiro Meach, recebemos um aviso urgente e imagens tomadas por uma nave de reconhecimento da periferia - disse a seu comandante. Mas a comunicação foi cortada.

- Olhem! - gritou o quinto Wilby quando viu imagens vindas da rede de sensores externos. O oficial de patente menor estava em frente a uma fileira de painéis de instrumentos, junto com outros soldados, dentro do edifício abobadado.

Omnius nunca tinha enviado algo semelhante.

Vannibal Meach, o pequeno, mas vociferante primeiro da tropa salusiana, se encontrava no centro de controle das defesas planetárias, e assimilava com frieza o caudal de informação.

- Nosso último relatório do perímetro é de horas atrás, devido ao atraso com o que chegam os sinais. Nestes momentos, estarão travadas em combate com nossas naves de vigilância, e trataram de aproximar-se mais. Não conseguiram, ao que parece.

Embora esta fosse a primeira advertência da invasão iminente, reagiu como se tivesse esperado que as máquinas aparecessem a qualquer momento.

A luz da sala de controle, o cabelo castanho escuro de Xavier cintilava com tons canela.

Era um jovem sério, propenso à sinceridade e a desprezar os meio termos. Como membro da terceira patente militar, o terceiro Harkonnen era o subcomandante dos postos exteriores da defesa local. Muito admirado por seus superiores, Xavier tinha subido com celeridade. Como seus soldados também lhe respeitavam, era o tipo de homem a que seguiriam à batalha sem pensar duas vezes.

Apesar do tamanho e potência de fogo da força robotizada, obrigou-se a manter a calma, solicitou informes das naves de vigilância mais próximas e pôs em alerta máxima à frota de defesa espacial. Os comandantes das naves de guerra já tinham avisado suas tripulações que estivessem preparadas para a batalha, desde o momento em que ouviram a transmissão urgente das naves de reconhecimento, agora destruídas.

Os sistemas automáticos zumbiam ao redor de Xavier. Enquanto escutava as sirenes flutuantes, a sucessão incessante de ordens e os informes da situação que chegavam à sala de controle, exalou um largo suspiro e estabeleceu uma prioridade de tarefas.

- Podemos detê-los - disse. – Vamos detê-los.

Sua voz transmitia um tom autoritário, como se fosse muito maior e estivesse acostumado a lutar contra Omnius todos os dias. Na realidade, era a primeira vez que ia a enfrentar as máquinas pensantes.

Anos antes, um ataque surpresa cimek tinha acabado com a vida de seus pais e seu irmão maior, quando retornavam de uma inspeção as propriedades familiares em Hagal. As forças mecânicas sempre tinham significado uma ameaça para a Liga de Nobres, mas os humanos e Omnius haviam mantido uma paz precária durante décadas.

- Fique em contato com o segundo Lauderdale, e com todas as naves de guerra da periferia. Diga-lhes que procurem destruir todos inimigos que encontrem em seu caminho - disse o primeiro Meach, e logo suspirou. - Nossos grupos de batalha pesados demorarão meio-dia em aceleração máxima para chegar da periferia, mas é possível que as máquinas estejam tentando abrir caminho ainda nesse momento. Poderia ser um dia de glória para nossos rapazes.

O quarto Young obedeceu a ordem com eficiência. Enviou uma mensagem que demoraria horas para chegar aos subúrbios do sistema.

Meach concordou com ar ausente e repetiu a seqüência tantas vezes ensaiada. Como sempre viviam sob a ameaça das máquinas, a milícia salusiana treinava com regularidade para fazer frente a todas as eventualidades possíveis, assim como todos os destacamentos da Armada em todos os sistemas principais da liga.

- Ative os escudos defensivos Holtzman que rodeiam o planeta e avise todo o tráfico comercial aéreo e espacial. Quero que a potência do transmissor de escudo da cidade funcione a máxima potencializa dentro de dez minutos.

- Isso deveria bastar para fritar os circuitos gelificados de qualquer máquina pensante - disse Xavier com confiança forçada. - Todos vimos os experimentos.

Só que isto não é um experimento.

Assim que o inimigo topasse com as defesas que os salusianos tinham instalado, confiava que se retirariam ao calcular um número excessivo de baixas. As máquinas pensantes não eram aficionadas em correr riscos.

Lançou um olhar a um painel.

Mas há muitas.

Depois, se levantou e comunicou as más noticias.

- Primeiro Meach, se os dados sobre a velocidade da frota robotizada são corretos, inclusive a velocidade de desaceleração se deslocam quase com a mesma rapidez que o sinal de advertência recebido de nossas naves de reconhecimento.

- Já poderiam estar aqui! - Exclamou o quinto Wilby.

Meach reagiu imediatamente.

- Dêem o sinal de evacuação! Abram os refúgios subterrâneos.

- Evacuação em andamento, senhor - informou a quarto Young momentos depois, enquanto seus dedos voavam sobre os painéis. A moça oprimiu um cabo de comunicação fixo a sua têmpora. - Estamos enviando ao vice-rei Butler toda a informação de que dispomos.

Serena está com ele no Parlamento, recordou Xavier quando pensou na jovem de dezenove anos. Estava muito preocupado por ela, mas não se atreveu a revelar seu medo a seus companheiros. Tudo em seu momento e lugar adequados.

Viu em suas mentes os numerosos fios que devia tecer, cumprindo sua missão enquanto o primeiro Meach dirigia a defesa global.

- Quarto Chiry, tome um esquadrão e escolte ao vice-rei Butler, sua filha e a todos os representantes da liga até os refúgios subterrâneos.

- Já teriam que estar em caminho, senhor - disse o oficial.

Xavier lhe dirigiu um sorriso tenso.

- Acredita que os políticos agem com inteligência?

O quarto correu a obedecer a ordem.

 

Quase todas as histórias são escritas pelos vencedores dos conflitos, mas as escritas pelos vencidos (se sobrevivem) costumam ser mais interessantes.

IBLIS GINJO, A paisagem da humanidade

 

Salusa Secundus era um planeta verde de clima temperado, o lar de centenas de milhões de humanos livres alinhados na Liga de Nobres. Os aquedutos transportavam abundante água de um lugar a outro. Ao redor do centro governamental e cultural da Zimia, as colinas ondulantes estavam cobertas de vinhedos e olivas.

Momentos antes que as máquinas pensantes atacassem, Serena Butler subiu ao estrado de discursos do Parlamento. Graças aos serviços públicos que prestava, assim como às argúcias de seu pai, lhe tinham concedido a oportunidade de dirigir-se aos representantes.

O vice-rei Manion Butler tinha aconselhado em privado a sua filha que fosse sutil, que se expressasse com termos simples.

- Passo a passo, querida. O que une a nossa liga não é mais que o fio de um inimigo comum, não uma série de valores ou crenças compartilhados. Nunca ataque o estilo de vida dos nobres.

Era o terceiro discurso de sua breve carreira política. Nos anteriores, expressou-se com brutal sinceridade, pois ainda não compreendia o balé da política, e suas idéias tinham sido recebidas com uma mescla de bocejos e risos provocados por sua ingenuidade. Queria terminar com a prática da escravidão humana, adotada de vez em quando por alguns planetas da liga. Queria que todos os humanos fossem iguais, queria que todos recebessem alimentação e amparo.

- É possível que a verdade ofenda. - Tentava que se sentissem culpados. Sozinho conseguiu que fizessem ouvidos surdos a suas palavras.

Serena tinha suavizado o tom do discurso para incorporar o conselho de seu pai, mas sem renunciar a seus princípios. Passo a passo. Ela também aprenderia com cada passo. Seguindo o conselho de seu pai, tinha falado em privado com representantes que compartilhavam seus pontos de vista, logrado alguns apoios e uns poucos aliados antes da hora da verdade.

Elevou o queixo, procurou que sua expressão fosse mais autoritária que ansiosa e entrou na câmara de gravações que rodeava o estrado como uma cúpula geodésica. Seu coração transbordava de boas intenções. Sentiu uma luz cálida quando o mecanismo de projeção transmitiu imagens ampliadas da área exterior da cúpula.

Uma pequena tela situada sobre o estrado permitia que visse sua imagem projetada: um rosto doce de beleza clássica, hipnóticos olhos lavanda e cabelo castanho de reflexos ambarinos com mechas douradas naturais. Levava na lapela esquerda uma rosa branca procedente de seus jardins, cuidados com mimo. O projetor fazia que Serena parecesse ainda mais jovem, pois o mecanismo havia sido manipulado pelos nobres para dissimular o efeito dos anos sobre suas feições.

O vice-rei Butler, embelezado com seus melhores ornamentos dourados e negros, sorriu com orgulho para sua filha de seu camarote, situado diante do público. O selo da Liga de Nobres adornava sua lapela, uma mão humana aberta debruada em ouro, que representava a liberdade.

Compreendia o otimismo de Serena, pois recordava ambições similares que havia albergado em sua juventude. Sempre tinha sido paciente com as cruzadas de sua filha. Ajudava a jovem a arrecadar recursos para os refugiados de ataques robóticos, permitia que viajasse a outros planetas para atender aos feridos, ou para rebuscar entre os escombros e colaborar na reconstrução dos edifícios incendiados. Serena nunca tinha tido medo de sujar as mãos.

- As mentes estreitas erigem barreiras - havia dito sua mãe em uma ocasião. - Mas contra estas barreiras, as palavras constituem armas formidáveis.

Os dignitários falavam entre sussurros. Alguns sorviam bebidas ou comiam os aperitivos que lhes haviam servido em seus assentos. Um dia como outro qualquer no Parlamento.

Sentadosataoe advert queriam pôr a em suas vilas e mansões, não recebiam de bom grau as mudanças. Entretanto, a possibilidade de ferir seus egos não ia impedir que Serena dissesse o que pensava.

Ativou o sistema de projeção auditiva.

- Muitos de vocês pensam que defendo idéias néscias porque sou jovem, mas talvez os jovens tenham a vista mais aguda, enquanto os velhos se tornam cegos pouco a pouco. Sou néscia e ingênua... ou será que alguns de vós, presunçosos e auto satisfeitos, foram afastados da humanidade? Inclinam-se para o lado do bem ou do mal?

Viu que uma onda de indignação percorria aos reunidos, mesclada com expressões de rechaço visceral. O vice-rei Butler lhe dirigiu um penetrante olhar de desaprovação, mas transmitiu um veloz aviso à sala, solicitando a atenção respeitosa que se concedia a todo orador.

Serena fingiu não perceber. Será que não captavam a idéia fundamental?

- Se queremos sobreviver como espécie, temos que transcender nosso egoísmo. Durante séculos restringimos nossas defesas a um punhado de planetas chave. Embora faça décadas que Omnius não lança um ataque em grande escala, vivemos sob a sombra permanente dessa ameaça.

Serena oprimiu vários botões do estrado e projetou a imagem da abóbada celeste circundante, como um cacho de jóias no teto. Indicou com uma varinha luminosa os planetas da liga e os Planetas Sincronizados, governados por máquinas pensantes. Depois, desviou a vara para regiões mais extensas da galáxia, livres da dominação de humanos organizados ou máquinas.

- Olhem estes pobres Planetas Não Aliados: planetas dispersos como Harmonthep, Tlulax, Arrakis, Anbus IV e Caladan. Devido a dita dispersão, as colônias humanas não são membros de nossa liga, não gozam de nosso amparo militar se em algum momento são ameaçadas... por máquinas ou por outros humanos. Serena fez uma pausa, para deixar que o público assimilasse suas palavras. Muitos dos nossos cometem o engano de saquear estes planetas, com o fim de capturar escravos para alguns planetas da liga.

Seu olhar se cruzou com o do representante do Poritrin, o qual franziu o cenho, porque se estava referindo a ele. O homem respondeu em voz alta e a interrompeu.

- A escravidão é uma prática aceita na liga. Como carecemos de máquinas complexas, não há outro remédio senão aumentar nossa mão de obra. – Olhou para ela com expressão complacente. - Além disso, o próprio Salusa Secundus manteve uma população de escravos zensunni durante quase dois séculos.

- Acabamos com essa prática - replicou Serena com considerável veemência. - A mudança exigiu um pouco de imaginação e força de vontade, mas...

O vice-rei se levantou com a intenção de acalmar os ânimos.

- Cada planeta da liga determina seus próprios costumes, tecnologia e leis. Já temos bastante com um inimigo temível como as máquinas pensantes para iniciar uma guerra civil entre nossos planetas.

Sua voz possuía um tom levemente paternal, uma ligeira reprimenda para que voltasse para ponto principal de seu discurso.

Serena suspirou, sem render-se, e ajustou a vara para que os planetas não aliados brilhassem em sua tela.

- Até assim, não podemos esquecer de todos esses planetas, objetivos ricos em todo tipo de recursos à espera de que Omnius os conquiste.

O oficial de ordem, sentado em uma cadeira alta a um lado, golpeou o chão com seu bastão.

- Tempo.

Aborrecia-se com facilidade, e muito poucas vezes escutava os discursos.

Serena continuou a toda pressa, tentando transmitir suas idéias sem parecer ansiosa.

- Sabemos que as máquinas pensantes querem controlar a galáxia, embora faça quase um século que nos deixam em paz. Foram conquistando de maneira sistemática todos os planetas dos sistemas estelares sincronizados. Não se deixem enganar por seu aparente falta de interesse em nós. Sabemos que voltarão a atacar... mas como e onde? Não deveríamos agir antes que Omnius o faça?

- O que é o que querem, madame Butler? - perguntou com impaciência um dos dignitários. Elevou a voz mas não ficou em pé, como ordenava o protocolo. - Estão defendendo uma espécie de ataque preventivo contra as máquinas pensantes?

- Havemos de trabalhar para incorporar os planetas não aliados à liga, e terminar com a prática do escravismo. - Apontou com a vara à projeção do teto. - Somá-los a nosso bando para aumentar nossa força, e a deles. Todos sairíamos beneficiados! Proponho que enviemos embaixadores e agregados culturais com o propósito rápido de formar novas alianças políticas e militares. Tantas quantas pudermos.

- Quem pagará todo esse esforço diplomático?

- Tempo - repetiu o oficial de ordem.

- Se lhe concedem três minutos mais como turno de réplica, já que o representante de Hagal formulou uma pergunta - disse o vice-rei Butler em tom autoritário.

Serena estava se enfurecendo. Como era possível que aquele representante se preocupasse com quantidades de dinheiro insignificantes, quando o custo final era tão elevado?

- Todos pagaremos, com sangue, se não fizermos isto. Temos que fortalecer a liga e a espécie humana.

Alguns nobres começaram a aplaudir: os representantes que Serena tinha cortejado antes do discurso, de repente, alarmes estridentes ressonaram em todo o edifício e nas ruas.

As sirenes emitiram um tom conhecido estremecedor (que sé se ouvia durante as simulações), convocando todos os reservistas da tropa salusiana.

- As máquinas pensantes penetraram no sistema salusiano - disse uma voz pelos alto-falantes. Avisos semelhantes estariam soando por toda Zimia. - Assim nos advertiram as naves de reconhecimento situadas na periferia e os grupos de vigilância em órbita.

Serena leu os detalhes quando entregaram um resumo urgente e lacônico ao vice-rei.

- Nunca vimos uma frota robô deste tamanho! - Exclamou o ancião. - Quanto tempo faz que as primeiras naves de reconhecimento enviaram o aviso? Quanto tempo resta?

- Estão nos atacando! - Gritou um homem. Os delegados saltaram de seus assentos e se dispersaram como formigas aterrorizadas.

- Preparem-se para evacuar o Parlamento. - O oficial de ordem se transformou em um vulcão de atividade. - Todos os refúgios blindados estão abertos. Representantes, dirijam-se às zonas que lhes tenham sido designadas.

O vice-rei Butler gritou no meio do caos, procurando aparentar serenidade.

- Os escudos Holtzman nos protegerão!

Serena percebeu a angustia de seu padre, ainda que a dissimulasse bem.

Os representantes da liga correram para as saídas. Os inimigos implacáveis da humanidade tinham chegado.

 

Qualquer homem que exija mais autoridade não a merece.

TERCEIRO XAVIER HARKONNEN,

discurso à tropa salusiana

 

- A frota robô acaba de atacar nosso guarda espacial. - Anunciou Xavier Harkonnen de seu posto. – A troca de fogo é intensa.

- Primeiro Meach! - Gritou o quarto Steff Young das telas orbitais. Xavier percebeu o aroma salgado e metálico do suor nervoso do Young. - Senhor, um pequeno destacamento de naves mecânicas se separou da frota robô principal em órbita. Configuração desconhecida, mas se estão preparando para um descida atmosférica.

Assinalou as imagens e fez insistência nas luzes brilhantes que indicavam um grupo de projéteis inativos.

Xavier lançou um olhar aos leitores do perímetro, informação em tempo real transmitida pelos satélites defensivos situados acima dos campos decodificadores do Tio Holtzman. Na resolução mais alta viu um esquadrão de naves piramidais que se entravam na atmosfera, em direção aos campos.

- Vão ter uma desagradável surpresa - disse Young com um sorriso desprovido de alegria. - Nenhuma máquina pensante pode sobreviver a essa aposta.

- Nossa principal preocupação será desviar os restos das naves destruídas - interveio o primeiro Meach. - Não descuidem a vigilância.

Mas os blindados atravessaram os campos decodificadores e continuaram avançando.

- Não apareceram sinais eletrônicos de que tenham penetrado no limite.

- Como passaram?

O quinto Wilby secou o rosto e afastou o cabelo castanho de seus olhos.

- Nenhum computador poderia. - De repente, Xavier compreendeu o que estava acontecendo. - São blindados cegos, senhor!

Young levantou a vista de suas telas, com a respiração entrecortada.

- Impacto em menos de um minuto, primeiro. A segunda onda vem logo atrás. Conto vinte e oito projéteis. - Meneou a cabeça. - Não produzem sinais eletrônicos.

- Rico, Powder - gritou Xavier, - trabalhem com equipes de resposta média e esquadrões de bombeiros. Apresse-os. Ânimo, ensaiamos isso centenas de vezes! Quero que todos os veículos e equipes de resgates móveis e aéreas estejam preparadas para intervir antes que a primeira nave se choque. Destinem defesas para repelir aos invasores assim que aterrissem. - O primeiro Meach baixou a voz e olhou para seus camaradas. - Terceiro Harkonnen, tome uma estação de comunicações portátil e dirija-se ao ponto de aterrissagem. Quero que seja meus olhos no cenário dos fatos. Pressinto que esses blindados contêm algo desagradável.

 

O caos se espalhou pelas ruas, sob um céu semeado de nuvens. Xavier, em meio da confusão, ouviu o uivo metálico da atmosfera torturada quando os projéteis inativos caíram como balas disparadas do espaço.

Uma chuva de blindados piramidais golpearam o chão. Com um estrondo ensurdecedor, as quatro primeiras naves cegas derrubaram edifícios, arrasaram ruas inteiras com a dispersão explosiva da energia cinética, mas sofisticados sistemas de deslocamento de choque protegeram o carregamento mortal que continham.

Xavier correu pela rua com o uniforme enrugado, o cabelo suado colado a cabeça. Deteve-se ante o gigantesco edifício do Parlamento. Embora fosse o lugar-tenente das defesas salusianas, encontrava-se em uma posição insegura, pois devia dar ordens de terra. Não era exatamente o que lhe tinham ensinado nos cursos da academia da Armada, mas o primeiro Meach confiava em seu bom julgamento e capacidade de atuar com independência.

Tocou o comunicador fixo a seu queixo.

- Estou em posição, senhor.

Cinco projéteis mais se chocaram nos subúrbios da cidade, deixando crateras fumegantes. Explosões. Fumaça. Bolas de fogo.

Nos pontos de impacto, os módulos inativos se abriram e revelaram um enorme objeto que recobrava vida dentro de cada um. Unidades mecânicas reativadas afastaram os restos dos escudos carbonizados. Xavier adivinhou, aterrorizado, o que ia ver, compreendeu por que as máquinas inimigas tinham conseguido atravessar os escudos decodificadores. Não eram mentes eletrônicas, eram...

Cimeks.

Horríveis monstruosidades mecânicas surgiram das pirâmides destroçadas, impulsionadas por cérebros humanos extraídos cirurgicamente. Sistemas de mobilidade recobraram vida. Pernas articuladas e armas potencializadas entraram em movimento.

Os corpos cimek emergiram das crateras fumegantes, gladiadores em forma de caranguejo quase tão altos como os edifícios derrubados. Suas pernas eram tão grosas como vigas, cheias de canhões lança-chamas, lança-foguetes e de gás venenoso.

- Soldados cimek, primeiro Meach! - Gritou Xavier pelo comunicador. -Descobriram a forma de atravessar nossas defesas orbitais!

Ao largo e acima de Salusa, desde os subúrbios da Zimia até o continente mais afastado, as tropas planetárias tinham recebido ordens de agir. Já tinham separado naves defensivas desenhadas para combater nas capas atmosféricas inferiores (kindjals), carregadas com projéteis capazes de atravessar qualquer blindagem.

A população fugia pelas ruas, presa do pânico. Alguns cidadãos estavam paralisados por causa do terror, e se limitavam a olhar o que ocorria a seu redor. Xavier descreveu aos gritos o que estava presenciando. Ouviu a voz de Vannibal Meach.

- Quarto Young, dê ordens de distribuir os aparelhos de respiração. Encarregue-se da distribuição de máscaras filtradoras entre a população. Qualquer pessoa que não se ache dentro de um refugio deve levar um respirador.

As máscaras não protegiam dos lança-chamas nem das detonações de alta energia, mas as podiam livrar-se das nuvens venenosas. Enquanto colocava o respirador, Xavier sentiu-se invadido pelo temor de que as precauções da tropa não fossem suficientes.

Os soldados cimek abandonaram seus blindados e avançaram sobre seus monstruosos pés. Lançaram projéteis explosivos, que abrasaram edifícios e a pessoas aterrorizadas. Brotaram chamas das bocas de seus membros dianteiros, que incendiaram a cidade da Zimia. Continuavam caindo blindados do céu, preparados para abrir-se assim que tocassem a terra. Vinte e oito no total.

O jovem terceiro viu uma coluna de fogo e fumaça que caía dando voltas com um rugido ensurdecedor, tão veloz e brilhante que esteve a ponto de queimar suas retinas. O blindado se chocou no recinto militar situado a um quilômetro de distância, desintegrou o centro de controle e o quartel geral da tropa planetária. A onda de choque derrubou Xavier e destruiu as janelas de dúzias de casas.

- Primeiro! - gritou Xavier pelo comunicador. - Primeiro Meach! Centro de comando!

Mas ao ver as ruínas, soube que não ia obter nenhuma resposta do complexo.

Enquanto percorriam as ruas, os cimeks cuspiam uma fumaça verde negra, uma neblina oleosa que, ao assentar-se, produzia um filme tóxico que cobria o chão e os edifícios.

Então, chegou o primeiro esquadrão de bombardeiros kindjal. Lançaram uma chuva de explosivos ao redor dos soldados mecânicos, que derrubou tanto os cimeks como os edifícios.

Xavier ofegava, incapaz de acreditar em seus olhos. Chamou de novo o comandante, mas não obteve resposta. Por fim, os centros subtáticos que rodeavam a cidade entraram em contato com ele para perguntar o que tinha acontecido e pedir que se identificasse.

- Terceiro Harkonnen falando - disse. Então, compreendeu a enormidade do ocorrido. Com um supremo esforço, fez provisão de valor e serenou sua voz. - Sou... sou o atual chefe da tropa salusiana.

Correu para o núcleo de fumaça gordurenta. Os civis desabavam a seu redor, com náuseas. Lançou um olhar aos atacantes aéreos, e ardeu em desejos de deter o comando supremo.

- É possível destruir cimeks - transmitiu aos pilotos kindjal. Depois, tossiu. A máscara não funcionava bem. O peito e a garganta ardiam como se houvesse inalado ácido, mas continuou gritando ordens.

Enquanto o ataque continuava, as naves de emergência salusianas sobrevoaram a zona de batalha, e lançaram contêineres de pós e espuma anti-incêndio. Esquadrões médicos providos de máscaras avançavam sem vacilar.

Indiferentes aos insignificantes esforços dos humanos para defender-se, os cimek continuavam seu avanço, não como um exército, mas sim como indivíduos: cães mecânicos enlouquecidos que semeavam a destruição em qualquer parte. Um soldado mecânico flexionou suas pernas de caranguejo e desintegrou duas naves de resgate que desciam, para seguir seu caminho com movimentos sinistros.

A vanguarda de bombardeiros salusianos lançaram projéteis explosivos contra um dos primeiros cimeks. Dois projéteis alcançaram o corpo blindado, e o terceiro fez impacto em um edifício próximo, o qual desmoronou, sepultando sob os entulhos o corpo mecânico do invasor.

Mas depois que as chamas e a fumaça se dissiparam, o cimek voltou à carga. A máquina assassina se libertou dos entulhos e lançou um contra-ataque contra os kindjals que chegavam do céu.

Xavier estudava os movimentos dos atacantes de longe, utilizando uma tela tática portátil. Era preciso que descobrisse o plano global das máquinas pensantes.

Dava a impressão de que os cimeks tinham um objetivo definido.

Não podia vacilar ou perder o tempo lamentando a morte de seus camaradas. Não podia perguntar ao primeiro Meach o que devia fazer. Tinha que pensar com a mente limpa e tomar decisões instantâneas. Se conseguisse descobrir o objetivo do inimigo...

A frota robótica continuava disparando em órbita sobre a guarda espacial salusiana, embora o inimigo dotado de inteligência artificial não pudesse atravessar os campos Holtzman.

Talvez fossem capazes de derrotar às naves de vigilância e bloquear a capital da liga..., mas o primeiro Meach já tinha chamado aos grupos de batalha periféricos, e logo toda a potência de fogo da Armada oporia uma séria resistência às naves de guerra robôs.

Viu na tela que a frota inimiga mantinha suas posições... como se esperasse algum sinal das tropas de assalto cimek. As idéias se amontoaram em sua mente. O que estavam fazendo?

Um trio de gladiadores mecânicos lançou explosivos contra a asa oeste do Parlamento. A formosa fachada ruiu sobre a rua como uma avalanche de finais da primavera. Alguns escritórios governamentais, já evacuados, ficaram à mostra.

Xavier tossiu por causa da fumaça, forçou a vista e olhou para os olhos do médico que colocava uma nova máscara sobre seu rosto. Os pulmões de Xavier ardiam, como se estivessem empapados de combustível e que tivessem aceso o fogo.

- Vai lhe fazer bem - prometeu o médico em tom pouco convincente, enquanto aplicava uma injeção no pescoço de Xavier.

- Assim espero. - O terceiro voltou a tossir e viu manchas negras diante de seus olhos. - Agora não tenho tempo para morrer.

Xavier se esqueceu de si mesmo e sentiu uma profunda preocupação como Serena. Menos de uma hora antes, tinha que pronunciar um discurso ante a câmara de representantes. Rezou para que estivesse a salvo.

Ficou em pé e afastou ao médico com um gesto, enquanto a injeção fazia efeito.

Conectou sua tela tática portátil e solicitou uma vista do céu, tomada das defesas kindjal. Estudou os caminhos enegrecidos dos graciosos e titânicos cimeks na tela.

Aonde vão?

Em sua mente, reproduziu o caminho seguido pelos monstros mecânicos, as crateras fumegantes e as ruínas do quartel geral da tropa.

Então, compreendeu o que deveria ter visto desde o começo, e amaldiçoou-se baixo.

Omnius sabia que os escudos decodificadores Holtzman destruiriam os circuitos gelificados das máquinas pensantes. Por isso, o grosso da frota robô se mantinha afastada da órbita salusiana. Se os cimeks se apoderassem dos geradores de campo, o planeta ficaria exposto a uma invasão em grande escala.

Xavier enfrentava a uma decisão crítica, mas já a tinha tomado. Gostasse ou não, agora estava no comando. Ao aniquilar ao primeiro Meach e a estrutura de comando da tropa, os cimeks lhe tinham posto à frente da situação, sequer de forma temporária. E sabia o que devia fazer.

Ordenou à tropa salusiana que retrocedesse e concentrasse todos seus esforços em defender o objetivo mais vital, deixando o resto da Zimia a mercê dos cimeks. Embora tivesse que sacrificar uma parte desta importante cidade, devia impedir que as máquinas alcançassem seu objetivo. A todo custo.

Em Corrin, um dos principais Planetas Sincronizados, o robô Erasmo passeava pela praça ladrilhada que havia em frente a sua vila. Movia-se com a agilidade que tinha conseguido imitar depois de séculos de estudar a elegância humana. Seu rosto de metal líquido era como um espelho polido carente de expressão, até que decidia formar uma série de emoções imitadas no filme de polímero metálico, como as antigas máscaras teatrais.

Mediante fibras ópticas implantadas em sua membrana facial, admirou as fontes iridescentes que lhe rodeavam, as quais constituíam um digno complemento da selaria, as estátuas, trabalhadas tapeçarias e as colunas de alabastro esculpidas a laser da vila. Tudo luxuoso e opulento, desenhado por ele. Depois de muitos estudos e análise, tinha chegado a apreciar os patrões da beleza clássica, e estava orgulhoso de seu evidente bom gosto.

Seus escravos humanos se encarregavam de infinidade de tarefas domésticas: polir troféus e objetos artísticos, tirar o pó dos móveis, plantar flores, podar os arbustos ornamentais sob a luz púrpura crepuscular do sol gigante vermelho. Cada escravo tremente fazia uma reverência quando Erasmo passava a seu lado. Reconhecia a todos, mas não se incomodava em identificá-los, embora tomasse nota mental de cada detalhe. O menor dado podia conduzir à compreensão total.

Erasmo tinha uma pele de compostos plastiorgânicos entretecidos com elementos neuroeletrônicos. Gabava-se de que sua sofisticada rede de sensores lhe permitia experimentar sensações físicas reais. Sob a reluzente brasa do gigantesco sol do Corrin, sentia a luz e o calor sobre sua pele, em teoria como se fosse de carne verdadeira. Vestia um grosso manto dourado debruado de adornos carmesins, parte de um elegante vestuário pessoal que lhe diferenciava dos robôs inferiores de Omnius. A vaidade era outra coisa que Erasmo tinha aprendido ao estudar nos humanos, e gostava.

A maioria dos robôs não gozavam de tanta independência como Erasmo. Eram pouco mais que caixas pensantes móveis, meros apêndices da supermente. Erasmo também obedecia as ordens de Omnius, mas gozava de maior liberdade para as interpretar. Ao longo dos séculos, tinha desenvolvido sua própria identidade e algo parecido com um ego. Omnius lhe considerava uma curiosidade.

 

Enquanto o robô continuava andando com graça perfeita, detectou um zumbido. Suas fibras ópticas localizaram uma pequena esfera voadora, um dos muitos espiões móveis de Omnius.

Sempre que Erasmo se afastava das onipresentes telas dispostas em todos os edifícios, os ávidos olhos lhe seguiam, gravavam todos seus movimentos. Os atos da supermente falavam de uma curiosidade insaciável, ou de una paranóia peculiarmente humana....

Muito tempo antes, quando manipulava os primeiros computadores providos de inteligência artificial do Império Antigo, o rebelde Barba Azul tinha acrescentado imitações de certos traços de personalidade e ambições humanas. Por conseguinte, as máquinas haviam evoluído até transformar-se em uma só mente eletrônica que conservou alguns desejos e características humanos.

Na opinião de Omnius, os cimeks biológicos, compostos de cérebros humanos e membros mecânicos, eram incapazes de assimilar as perspectivas históricas que os circuitos gelificados de uma mente robô podiam abranger. Quande Omnius analisava o universo de possibilidades, era como una imensa rede. Havia muitas formas de vencer, e sempre as levava em consideração.

O programa básico de Omnius tinha sido duplicado em todos os planetas conquistados pelas máquinas, e sincronizado mediante o uso de atualizações regulares. Carentes de rosto, mas capazes de ver e comunicar-se através da rede interestelar, existiam cópias quase idênticas de Omnius distribuídas por toda parte, presentes de maneira vigária em inumeráveis olhos espiões, aparelhos e redes de contacto.

No momento atual, dava a impressão de que a mente robô não tinha nada melhor que fazer que bisbilhotar.

- Aonde vai, Erasmo? - Perguntou Omnius de um diminuto alto-falante situado sob o olho espião. - Por que anda tão depressa?

- Você também poderia andar, se te desse vontade. Por que não te concede pernas durante um tempo e adota um corpo artificial, para saber como é? - A máscara de polímero metálico de Erasmo compôs um sorriso. - Poderíamos ir passear juntos.

O olho espião zumbia ao lado do Erasmo. As estações do Corrin eram longas, porque sua órbita se afastava muito do gigantesco sol. Tanto invernos como verões se prolongavam durante milhares de dias. A escarpada paisagem carecia de bosques ou desertos, apenas um punhado de hortas e terrenos de lavoura antigos que não se semearam desde a conquista das máquinas.

Muitos escravos humanos ficaram cegos devido à exposição a potente luz solar. Como conseqüência, Erasmo tinha proporcionado a seus trabalhadores protetores oculares. Era um amo benévolo, preocupado com o bem-estar de seus recursos.

Quando chegou à cancela de sua vila, o robô ajustou seu novo módulo de potencialização sensorial, conectado por pontos neuroeletrônicos a seu núcleo corporal e oculto sob seu manto. O módulo, desenhado pelo próprio Erasmo, permitia-lhe reproduzir os sentidos dos humanos, mas com certas limitações inevitáveis. Queria saber mais do que o módulo permitia, queria sentir mais. Neste aspecto, era possível que os cimeks superassem Erasmo, porém nunca saberia a ciência certa.

Os cimeks, em especial os primeiros titãs, constituíam uma turma de seres brutais e intolerantes, sem a menor avaliação pelos sentidos e sensibilidades que Erasmo tanto se esforçava por alcançar. A brutalidade não era desdenhável, é obvio, mas o sofisticado robô considerava que se tratava de uma faceta mais da conduta humana que valia a pena estudar. Mesmo assim, a violência era interessante, e empregá-la proporcionava prazer com freqüência...

Sentia uma extremada curiosidade por saber o que convertia em humanos aos seres biológicos racionais. Era inteligente e seguro de si mesmo, mas também queria compreender as emoções, a sensibilidade humana e as motivações, os detalhes essenciais que máquinas nunca conseguiam reproduzir com fidelidade.

Durante sua larguíssima investigação, que remontava a séculos atrás, Erasmo havia assimilado a arte, a música, a filosofia e a literatura humanas. Em último extremo, desejava descobrir a epítome e a substância da humanidade, a chama mágica que fazia diferentes esses seres, esses criadores. O que lhes dava... alma?

Entrou em seu salão de banquetes, e o olho voador se elevou até o teto, de onde podia observar tudo. Seis telas de Omnius arrojavam um resplendor cinza leitoso das paredes.

Sua vila imitava o opulento estilo greco romano das propriedades em que tinham vivido os Vinte Titãs antes de renunciar ao corpo humano. Erasmo era o proprietário de imóveis similares em cinco planetas, incluídos Corrin e a Terra. Possuíam instalações adicionais: currais de escravos, salas de dissecação e laboratórios médicos, assim como estufas, galerias de arte, esculturas e fontes. Todas elas lhe permitiam estudar o comportamento e a fisiologia humanas.

Erasmo tomou assento à cabeceira de uma larga mesa provida de prata e castiçais, mas com talheres para um só comensal. Ele. A cadeira de madeira havia pertencido a um nobre humano, Nivny O'Mura, um dos fundadores da Liga de Nobres.

Erasmo tinha estudado a organização dos humanos rebeldes, que tinham erigido fortalezas contra os primeiros ataques dos cimeks e as máquinas. Os engenhosos hrethgir eram capazes de adaptar-se e improvisar, de confundir a seus inimigos de maneiras surpreendentes. Fascinante.

De repente, a voz da supermente ressonou a seu redor, em tom cansado.

- Quando concluirá seus experimentos, Erasmo? Vem aqui dia após dia, e sempre faz o mesmo. Espero ver resultados.

- Há perguntas que me intrigam. Por que os humanos ricos comem com tanta cerimônia? Por que consideram certos mantimentos e bebidas superiores a outros, quando seu valor nutritivo é o mesmo? - A voz do robô adotou um tom erudito. - A resposta, Omnius, está relacionada com a brutal brevidade de suas vidas. Compensam-na com mecanismos sensoriais eficazes capazes de proporcionar sentimentos intensos. Os humanos possuem cinco sentidos básicos, com incontáveis gradações. O sabor da cerveja do Yondair em contraposição com o vinho de Ularda, por exemplo. O tato da estopa de Ecaz comparada com a paraseda, a música de Brahms com...

- Suponho que tido isso é muito interessante, de um ponto de vista esotérico.

- Parece, Omnius. Você continua me estudando, enquanto eu estudo aos humanos.

Erasmo fez um gesto aos escravos que o olhavam, nervosos, de um guichê da porta da cozinha. Uma sonda se estendeu de um módulo embutido no quadril do Erasmo e surgiu por baixo de seu manto. Delicados sensores neuroeletrônicos se agitaram como cobras espectadoras.

- Tolero suas investigações, Erasmo, porque espero que desenvolva um modelo detalhado capaz de predizer o comportamento humano. E de saber como usar a esses seres.

Escravos vestidos de branco saíram da cozinha com bandejas de comida: galinha selvagem de Corrin, boi amendoado do Walgis, inclusive deliciosos salmões do rio Platina do Parmentier.

Erasmo afundou os extremos membranosos de sua sonda em cada prato e os “provou”, utilizando em ocasiões um cúter para perfurar a carne e saborear os sucos internos. Erasmo documentou cada sabor para seu crescente repertório.

Enquanto isso, continuou seu diálogo com Omnius. Dava a impressão de que a supermente distribuía dados e observava as reações de Erasmo.

- Tenho estado aumentando minhas forças militares. Depois de tantos anos, chegou o momento de entrar em ação de novo.

- Seriamente? Ou os titãs lhe estão animando a adotar uma postura mais agressiva? Durante séculos, Agamenon se impacientou com o que ele considera sua falta de ambição.

Erasmo estava mais interessado no bolo de bagos amargos que tinha diante de si. Quando analisou os ingredientes, ficou perplexo ao detectar um forte rastro de saliva humana, e se perguntou se constava na receita original. Ou talvez fosse devido a algum escravo ter cuspido na massa?

- Eu tomo minhas próprias decisões - disse a supermente. - Neste momento, pareceu-me apropriado lançar uma nova ofensiva.

O chef empurrou um carrinho até a mesa e utilizou uma faca para cortar uma parte de filete salusiano. O chef, um homenzinho servil que gaguejava, depositou a suculenta fatia em um prato limpo acrescentou um pingo de molho marrom e a estendeu a Erasmo. A faca caiu da bandeja e ricocheteou contra um pé do Erasmo, deixando um entalhe e uma mancha. O homem, aterrorizado, agachou-se para recuperar a faca, mas Erasmo estendeu uma mão mecânica e agarrou a manga. O elegante robô se endireitou, sem deixar de falar com Omnius.

- Uma nova ofensiva? É uma mera coincidência que o titã Barba Azul a exigisse como recompensa quando derrotou a sua máquina de combate no circo?

- Irrelevante.

O chef contemplou a faca e tartamudeou.

- Eu pe-pessoalmente li-limparei até que pa-pareça novo, lorde Erasmo.

- Os humanos são idiotas, Erasmo - disse Omnius dos alto-falantes da parede.

- Alguns sim - admitiu Erasmo, enquanto movia a faca com movimentos graciosos. O pequeno chef rezou em silêncio uma oração, incapaz de mover-se. - Pergunto-me o que deveria fazer. - Erasmo limpou a faca no avental do tremente homenzinho, e depois contemplou o reflexo distorcido do indivíduo na folha metálica.

– A morte humana é diferente da morte mecânica – disse Omnius com frieza. - Podemos duplicar uma máquina, substituir. Quando os humanos morrem, é para sempre.

Erasmo simulou uma gargalhada estentórea.

- Omnius, embora sempre fale da superioridade das máquinas, nunca reconhece em que nos superam os humanos.

- Não me torture com outro de seus catálogos - disse a supermente. - Recordo nossa última discussão sobre este tema com absoluta precisão. A superioridade reside no olho do observador, e sempre implica filtrar detalhes que não se sobrepõem a uma idéia pré-concebida concreta.

Graças a seus detectores sensoriais, que se agitavam como cílios no ar, Omnius percebeu o fedor de suor do chef.

- Vai matar este? - perguntou Omnius.

Erasmo deixou a faca sobre a mesa e ouviu que o homem emitia um suspiro.

- É fácil matar os humanos de um em um. Mas como espécie, constituem uma provocação muito maior. Quando se sentirem ameaçados, se unem e se transformam em seres mais poderosos, mais ameaçadores. A vezes, é melhor pegá-los de surpresa. - Sem prévio aviso, pegou a faca e a cravou no peito do chef, com força suficiente para atravessar o esterno e afundá-lo no coração. - Assim.

O sangue manchou o uniforme branco, a mesa e o prato do robô.

O humano desencravou a faca e emitiu um gorgolejo. Enquanto Erasmo sustentava a arma, pensou em tentar imitar a expressão de incredulidade de sua vítima com sua máscara dúctil, mas desistiu. Seu rosto de robô continuou sendo um ovalóide inexpressivo e refletivo. Em qualquer caso, Erasmo nunca se veria obrigado a adotar uma expressão semelhante.

Atirou a faca para um e afundou cílios sensores no sangue de seu prato. O sabor era muito interessante e complexo. Perguntou-se se o sangue de vítimas diferentes saberia de maneira diferente.

Guardas robô levaram o cadáver, enquanto outros escravos, aterrorizados, formavam redemoinhos na porta, conscientes de que deveriam se encarregar da limpeza. Erasmo estudou seu medo.

- Agora - disse Omnius, - desejo comunicar algo importante. Meus planos de ataque já foram colocados em prática.

Erasmo fingiu interesse, como em tantas outras ocasiões. Ativou um mecanismo de limpeza que esterilizou a ponta de sua sonda, e logo o ocultou sob o manto.

- Confio em seu bom julgamento, Omnius. Não sou um perito em temas militares.

- Por isso mesmo deveria prestar atenção a minhas palavras. Sempre diz que quer aprender. Quando Barba Azul derrotou meu robô gladiador no combate de exibição, me solicitou autorização para atacar à Liga de Nobres. Os titãs restantes estão convencidos de que sem estes hrethgir, o universo seria infinitamente mais eficaz e ordenado.

- Muito medieval - comentou Erasmo. - O grande Omnius seguiria as sugestões militares de um cimek?

- Barba Azul divertiu-me, e sempre existe a possibilidade de que algum titã acabe morto. Não é algo tão mau, não é verdade?

- É obvio - disse Erasmo, - já que as restrições da programação impedem que atente contra seus criadores de uma maneira direta.

- Com freqüência ocorrem acidentes. Em qualquer caso, nossa ofensiva conquistará os planetas da liga ou exterminará os restos de humanidade que os habitam. Dou por boa qualquer alternativa. Há muito poucos humanos que valha a pena conservar, talvez nenhum.

Erasmo não gostou daquelas palavras.

 

A mente dá ordens ao corpo, e este obedece de imediato. A mente se dá ordens a si mesma, e encontra resistência.

SAN AGUSTÍN, antigo filósofo da Terra

 

Embora o ataque dos cimeks contra Zimia não mais que começar, Xavier Harkonnen sabia que a humanidade livre devia resistir até o último momento. E fazer valer sua vitória.

Os soldados mecânicos carregados de armas avançaram fechando filas. Elevaram seus braços chapeados e lançaram projéteis explosivos, cuspiram chamas, pulverizaram gás venenoso. Com cada muro derrubado, os cimeks se aproximavam mais e mais da central geradora de escudo protetor, uma torre muito alta de curvas parabólicas e persianas complexas.

Nos limites da atmosfera salusiana, um desdobramento orbital de numerosos satélites teceu uma rede com amplificadores em cada nódulo. Em todos os continentes, torres de transmissão alimentaram a substância do campo decodificador Holtzman, até construir uma intrincada malha sobre o planeta, uma tapeçaria de energia impenetrável.

Mas se os cimeks se apoderassem das principais torres da superfície, abrir-se-iam ocos vulneráveis no escudo. Toda a malha protetora viria abaixo.

Xavier tossiu sangue e gritou no comunicador:

- Aqui fala o terceiro Harkonnen, que assume o comando das forças locais. O primeiro Meach e o centro de controle foram desintegrados.

O canal permaneceu em silencio durante vários segundos, como se toda a tropa estivesse aturdida.

Xavier tragou saliva, provou o sabor metálico do sangue em sua boca, e depois lançou a ordem terrível.

- Que todas as forças locais formem um cordão ao redor das torres de transmissão de escudo. Precisamos de recursos para defender o resto da cidade. Repito, retrocedam. Isto vale para todos os veículos de combate e naves de ataque.

Se ouviram os esperados protestos.

- Não pode falar sério, senhor! A cidade está ardendo!

- Zimia caiará indefensa! Isto tem que ser um equivoco!

- Pense bem, senhor! Viu os destroços que esses bastardos cimeks já causaram? Pense nos habitantes de nossa cidade!

- Não reconheço a autoridade de um terceiro que dá ordens tão...

Xavier sossegou todos os protestos.

- O objetivo dos cimeks é evidente: tentam destruir nossos campos decodificadores para que a frota robô possa nos exterminar. Temos que defender as torres a toda costa. Toda costa.

Sem fazer caso de sua ordem, uma dúzia de pilotos continuaram lançando explosivos sobre os cimeks.

Xavier grunhiu em tom inflexível.

- Quem deseja discutir minhas ordens poderá fazê-lo depois... no seu julgamento em um conselho de guerra.

Ou no meu, pensou.

Gotas escarlate mancharam o interior de sua máscara de plaz, e se perguntou pela magnitude dos danos que já teriam provocado os gases tóxicos em seu organismo. Cada vez custava-lhe mais respirar, mas afastou essas preocupações de sua mente. Agora não podia mostrar debilidade.

- Que todas as forças retrocedam e protejam as torres! É uma ordem. Temos que nos reagrupar e mudar de estratégia.

Por fim, as forças terrestres salusianas se retiraram para o complexo transmissor. O resto da cidade ficou tão vulnerável como um cordeiro preparado para o matadouro. E os cimeks se aproveitaram da circunstância com sinistro regozijo.

Quatro soldados mecânicos atravessaram um parque cheio de estátuas e destroçaram obras magníficas. Os monstros mecânicos derrubaram edifícios, pulverizaram e queimaram museus, edifícios de moradias, refúgios. Qualquer objetivo lhes agradava.

- Não cedam terreno - ordenou Xavier em todos os canais, e silenciou os gritos de indignação das tropas. - Os cimeks tentam nos afastar de nosso objetivo.

Os soldados mecânicos dispararam contra um campanário ereto pelo Chusuk para comemorar uma vitória contra as máquinas pensantes, ocorrida quatro séculos antes. Os sinos repicaram quando a torre desabou sobre as pedras de uma praça.

A esta altura, quase toda a população da Zimia tinha fugido para os refúgios blindados. Frotas de médicos e bombeiros se esquivavam do fogo inimigo para lutar contra o desastre. Muitos tentativas de resgate se transformavam em missões suicidas.

Em meio a tropa congregada ao redor das torres de transmissão, Xavier sentiu um indício de dúvida e se perguntou se havia tomado a decisão correta; por hora não se atrevia a mudar de opinião. Ardiam-lhe os olhos por causa da fumaça, e lhe doíam os pulmões cada vez que respirava. Sabia que tinha razão. Estava lutando pelas vidas de todos os habitantes do planeta. Incluída Serena Butler.

- E agora o que, terceiro? - disse o quarto Jaymes Powder atrás dele. Embora o rosto anguloso do subcomandante estivesse oculto em parte por uma máscara, seus olhos revelavam a indignação que sentia.

- Sentamos e observamos como esses bastardos reduzem Zimbia a escombros? Do que serve proteger os transmissores de escudo se não restar nada da cidade?

- Não podemos salvar à cidade se perdermos nossos escudos e abrimos o planeta ao ataque das máquinas - respondeu Xavier.

As tropas salusianas montaram uma defesa ao redor das antenas parabólicas das torres. Tropas terrestres e veículos blindados aguardavam nas ruas e fortificações circundantes. Os kindjals voavam em círculos sobre a cidade, disparavam suas armas e repeliam os cimeks.

Os membros da tropa aferravam suas armas, cheios de ódio. Frustrados os homens ardiam de desejo de carregar contra os atacantes... ou talvez de esquartejar lentamente Xavier.

A cada explosão ou edifício destruído, iradas tropas avançavam um passo mais para o motim.

- Até que cheguem reforços, temos que concentrar nossas forças - disse Xavier, e tossiu.

Powder olhou a máscara de plaz do terceiro e viu sangue no interior.

- Está bem, senhor?

- Não é nada.

Mas Xavier ouvia o fôlego líquido de seus pulmões cada vez que tomava fôlego.

Notou que perdia o equilíbrio, enquanto o veneno continuava queimando suas malhas, e se apoiou em um baluarte de plasmento. Estudou a última posição que tinha estabelecido em pouco tempo e confiou que resistiria.

- Agora que as torre estão protegidas - disse por fim Xavier, - podemos sair caçar de nossos atacantes. Está preparado, quarto Powder?

Powder sorriu, e os soldados lançaram gritos de júbilo. Alguns homens dispararam suas armas para o ar, dispostos a precipitarem-se à destruição. Como um cavaleiro que sujeitasse as rédeas de um corcel, Xavier os conteve.

- Esperem! Prestem atenção. Não podemos utilizar nenhum truque, nem existem pontos fracos que nos permitam ganhar em astúcia dos cimeks. Mas contamos com a vontade e a necessidade de vencer... do contrário perderemos tudo. - Sem fazer caso do sangue em sua máscara, não sabia como era capaz de insuflar confiança em sua voz. - Assim nós os derrotaremos.

Durante as escaramuças iniciais, Xavier tinha visto pelo menos um dos gigantescos invasores destruído por explosões múltiplas e concentradas. Seu corpo articulado já não era mais que uma carcaça fumegante. Entretanto, os bombardeiros e unidades de terra blindadas tinham repartido seus ataques entre muitos objetivos, fazendo inúteis seus esforços.

- Nosso ataque será coordenado. Escolheremos apenas um objetivo e o destruiremos, um cimek por vez. Dispararemos uma e outra vez, até que não fique nada. Depois, nos dedicaremos ao seguinte.

Logo que pode respirar, Xavier quis ir à frente dos esquadrões. Como terceiro, estava acostumado a participar ativamente nos exercícios de treinamento e nos simulacros.

- Senhor? - disse Powder, surpreso. - Não deveria ficar em uma zona segura? Como comandante em chefe, os procedimentos exigem...

- Tem toda a razão, Jaymes - respondeu em voz baixa. – Mesmo assim, vou subir. Nós jogamos uma só carta. Fique aqui e proteja essas torres a todo custo.

Elevadores subterrâneos depositaram mais kindjals na superfície, preparados para o lançamento. Subiu em um dos aparelhos salpicados de cinza e se encerrou na cabine. Os soldados correram para suas naves de ataque, gritando promessas de vingança aos camaradas obrigados a ficar para trás. Depois de transferir o canal de comunicações do kindjal a sua freqüência de comando, Xavier deu novas ordens.

O terceiro Harkonnen ajustou o assento da cabine e lançou seu kindjal. A aceleração o empurrou para trás e dificultou ainda mais sua respiração. Um fio de sangue escorregou pelo canto de sua boca.

As naves o seguiram, enquanto um pequeno grupo de veículos terrestres blindados se afastava das torres de transmissão para interceptar os atacantes. Com as armas carregadas e as bombas preparadas para ser lançadas, os kindjals descenderam para o primeiro cimek eleito como branco, uma das máquinas menores. A voz do Xavier ressonou na cabine de todas as naves.

- Disparem quando eu ordenar... Agora!

Os defensores atacaram o corpo em forma de caranguejo de todas direções, até que a máquina caiu, com as patas articuladas enegrecidas e retorcidas, e o contêiner do cérebro destruído. Gritos de júbilo ressonaram em todos os canais de comunicação.

Xavier elegeu um segundo alvo.

- Sigam-me. O seguinte.

O esquadrão da tropa convergiu sobre o segundo objetivo e golpeou como um martelo. As unidades terrestres móveis abriram fogo da superfície, enquanto os kindjals lançavam bombas do céu.

O segundo cimek captou o ataque iminente e elevou suas patas metálicas para cuspir jorros de chamas. Dois kindjals de Xavier foram abatidos, e se chocaram com edifícios próximos

Já caídos. Bombas erráticas arrasaram toda uma rua da cidade. Mas o resto do ataque concentrado obteve seu objetivo. As múltiplos explosões racharam o corpo robótico, e o cimek ficou destroçado. Um de seus braços metálicos se agitou, e logo caiu sobre os escombros.

- Três a menos - disse Xavier. - Faltam vinte e cinco.

- A menos que fujam antes - respondeu outro piloto.

Os cimeks eram indivíduos, como quase todas as máquinas pensantes de Omnius. Alguns eram sobreviventes dos primeiros titãs. Outros (os neocimeks) eram colaboradores humanos dos Planetas Sincronizados. Todos tinham sacrificado seus corpos físicos para se aproximar mais da suposta perfeição das máquinas pensantes.

Entre as tropas que rodeavam as torres transmissoras, o quarto Powder utilizava tudo quanto havia em seu arsenal para rechaçar quatro cimeks que se aproximaram o suficiente para ameaçar edifícios vitais. Destruiu um guerreiro mecânico e obrigou a outros três a se retirar coxeando para reagrupar. Nesse ínterim, as forças aéreas de Xavier aniquilaram mais dois cimeks.

As voltas estavam mudando.

Os kindjals de Xavier atacaram uma nova onda de invasores. Seguida de veículos terrestres blindados e canhões de artilharia, a milícia salusiana lançou projétil atrás de projétil contra o cimek que estava a frente. O bombardeio danificou as patas mecânicas e neutralizou suas armas. Os kindjals voaram em círculos para atirar o golpe definitivo.

 

Sem aviso prévio, a torre central que continha o cérebro humano do cimek se separou do corpo. O contêiner esférico blindado se elevou para o céu com um brilho luminoso, fora do alcance das armas salusianas.

- Uma cápsula de fuga que contém o cérebro do traidor. - O esforço de falar fez que Xavier cuspisse mais sangue. - Disparem contra ela!

Seus kindjals abriram fogo contra a cápsula, mas sem acertar seu objetivo.

- Maldição!

Os pilotos dispararam contra o rastro de gases de escapamento, mas a cápsula não demorou para perder-se de vista.

- Não esbanjem seus projéteis - disse Xavier pelo comunicador. - Esse já não representa nenhuma ameaça.

Sentia-se enjoado, a ponto de sumir na inconsciência, ou... de morrer.

- Sim, senhor.

Os kindjals deram meia volta para terra e se concentraram no cimek seguinte.

Entretanto, quando o esquadrão de ataque convergiu sobre outro inimigo, o cimek também expulsou sua cápsula de fuga.

- Eh! – Lamentou-se um piloto. - Fugiu antes que pudéssemos derrubá-lo.

- O importante é que fujam - disse Xavier, quase inconsciente. Confiou em não cair. - Sigam-me para o próximo alvo.

Como em resposta a um sinal, todos os cimeks restantes abandonaram seus corpos metálicos. As cápsulas de fuga ascenderam como foguetes, atravessaram a rede decodificadora e se perderam no espaço, em direção à frota atacante.

Quando os cimeks desistiram da invasão, os defensores salusianos sobreviventes prorromperam em vivas.

 

Durante as horas seguintes, os salusianos sobreviventes saíram dos refúgios, e contemplaram o céu impregnado de fumaça com uma mescla de estupor e otimismo.

Depois da retirada dos cimeks, a frota robótica frustrada tinha lançado uma chuva de mísseis contra a terra, mas seus computadores também falharam. Os sistemas antimísseis salusianos deram conta de todos os projéteis antes de que alcançassem seu objetivo.

Por fim, quando os grupos de combate dispersos começaram a convergir sobre a frota atacante do perímetro do sistema Gamma Waiping, as máquinas pensantes calcularam de novo suas possibilidades, e ao ver os resultados, decidiram desistir, deixando os restos das naves destruídas em órbita.

Na superfície, Zimia continuava ardendo, e dezenas de milhares de cadáveres jaziam entre os escombros.

Xavier havia conseguido agüentar durante a batalha, porém no final era incapaz de se manter em pé. Seus pulmões estavam alagados de sangue. Notava um sabor ácido na boca. Tinha insistido que os médicos concentrassem seus esforços nos feridos graves que semeavam as ruas.

De um balcão situado no último piso do maltratado Parlamento, contemplou os horríveis danos. O mundo se tingiu de um vermelho doentio a seu redor, falharam-lhe as pernas e caiu para trás. Ouviu que alguém chamava um médico.

Não posso considerar isto uma vitória, pensou, e depois mergulhou na mais negra inconsciência.

 

No deserto, a linha que separa a vida da morte é afiada e veloz.

Poesia de acampamento

zensunni no Arrakis

Longe das máquinas pensantes e da Liga de Nobres, o deserto nunca mudava. Os descendentes dos zensunni refugiados em Arrakis viviam em covas isoladas, formando comunidades que logo que conseguiam subsistir no hostil deserto. Desfrutavam de escassos prazeres, porém lutavam ferozmente para sobreviver um dia mais.

O sol abrasava o deserto de areia, esquentava as dunas que ondulavam como ondas que rompessem em uma borda imaginária. Algumas rochas negras sobressaíam das ilhas de pó, mas não ofereciam o menor refúgio do calor ou os vermes demoníacos.

Esta paisagem desolada era a última que veria. As pessoas tinham acusado o jovem, que receberia seu castigo. Sua inocência carecia de importância.

- Suma daqui, Selim! - Gritaram das cavernas. – Afaste-se de nós!

Reconheceu a voz de seu jovem amigo (ex-amigo) Ebrahim. Talvez o outro se sentia aliviado, porque havia temido que fosse ele quem confrontasse o exílio e a morte, em lugar de Selim. Mas ninguém choraria pela perda de um órfão, e a versão zensunni da justiça tinha expulsado Selim.

- Que os vermes cuspam sua pele - disse uma voz áspera. Era a anciã Glyffa, que em outro tempo tinha sido como uma mãe para ele. - Ladrão de água!

A tribo começou a jogar pedras das covas. Uma pedra afiada golpeou o tecido que tinha enrolado ao redor de seu cabelo escuro para proteger do sol. Selim se agachou, mas não lhes proporcionou a satisfação de vê-lo encolher-se. Tinham-lhe despojado de quase tudo, mas enquanto respirasse não renunciaria a seu orgulho.

O naib Dhartha, o líder da tribo, apareceu.

- A tribo falou.

Afirmar sua inocência não lhe serviria de nada, nem tampouco desculpas ou explicações. O jovem desceu pelo íngreme atalho sem perder o equilíbrio e se inclinou para agarrar uma pedra de bordas afiadas. Segurou-a na palma e mirou sua gente.

 

Selim sempre tinha tido habilidade para atirar pedras. Caçava corvos, ratos canguru ou lagartos para contribuir com a panela da comunidade. Se tivesse mirado com cuidado, poderia deixar o naib sem um olho. Selim tinha visto Dhartha falar em sussurros com o pai do Ebrahim, tinha-lhes visto forjar o plano para jogar a culpa nele, no lugar do moço culpado. Haviam preferido culpar Selim em vez de defender a verdade.

O naib Dhartha tinha as sobrancelhas escuras e o cabelo negro, apertado em um rabo-de-cavalo que sujeitava com um aro metálico. Uma tatuagem geométrica púrpura de ângulos escuros e linhas retas se destacava em sua face esquerda. Sua esposa havia tatuado em sua cara com a ajuda de uma agulha de aço e o suco de uma tintaparra que os zensunni cultivavam em seus jardins.

O naib olhou para Selim como se lhe desafiasse a lançar a pedra, porque os zensunni responderiam com uma chuva de pedras grandes.

Mas esse castigo o mataria com excessiva rapidez. A tribo tinha optado por expulsar ao Selim de sua fechada comunidade. E em Arrakis ninguém sobrevivia sem ajuda. A existência no deserto exigia colaboração, e cada pessoa contribuía. Os zensunni consideravam o roubo (sobretudo o roubo de água) como o pior delito imaginável.

Selim guardou a pedra. Sem fazer caso dos insultos e os vitupérios, continuou sua tediosa descida para o deserto.

- Selim, que não tem pai nem mãe - entoou Dhartha com uma voz que recordava o uivo grave do vento enfurecido. - Selim, que foi aceito como membro de nossa tribo, foste considerado culpado de roubar água da tribo. Por conseguinte, tem que atravessar a areia. - Dhartha elevou a voz e gritou para que o condenado lhe ouvisse. - Que Shaitan esprema seus ossos.

Durante toda sua vida, Selim não tinha feito outra coisa que trabalhar para outros. Como era de pais desconhecidos, a tribo o exigia. Ninguém lhe ajudava quando estava doente, salvo talvez a anciã Glyffa. Ninguém lhe dava uma mão. Tinha visto alguns de seus companheiros saciar-se com as reservas de água familiares, inclusive ao Ebrahim. E mesmo assim, o outro moço, ao ver meio litrojon de água nauseabunda sem vigilância, tinha-o bebido, com a vã esperança de que ninguém visse. Que fácil tinha sido para Ebrahim culpar seu amigo quando descobriram o roubo...

Depois de expulsar Selim das covas, Dhartha tinha se negado a lhe dar nenhuma gota de água para a viagem, porque se considerava um esbanjamento dos recursos da tribo.

Ninguém esperava que Selim sobrevivesse mais de um dia, embora conseguisse escapar dos temidos monstros do deserto.

Resmungou para si, sabendo de que não podiam ouvir.

- Que sua boca se encha de pó, naib Dhartha.

Selim se afastou dos penhascos, enquanto seu povo continuava amaldiçoando-i do alto.

Uma pedra quase o acertou.

Quando chegou à base da muralha rochosa, que se elevava como um escudo contra o deserto e os vermes de arena, caminhou em linha reta, com a intenção de afastar-se o máximo possível. O calor seco arremetia contra sua cabeça. Os que o observavam se surpreenderiam sem dúvida ao ver que se afastava nas dunas, em lugar de refugiar-se em uma cova.

O que posso perder?

Selim tomou a decisão de que nunca voltaria para suplicar ajuda. Caminharia entre as dunas com a cabeça bem erguida, até afastá-lo o máximo possível. Morreria antes que mendigar o perdão a seus iguais. Ebrahim tinha mentido para proteger sua vida, mas o naib Dhartha tinha cometido um crime muito pior aos olhos do Selim, quando tinha condenado a morte um órfão inocente só porque simplificava a política tribal.

Selim possuía notáveis aptidões para sobreviver no deserto, mas Arrakis constituía um entorno muito duro. Durante as diversas gerações transcorridas da chegada dos zensunni, ninguém tinha retornado do exílio. O deserto os tinha engolido sem deixar rastro. Aventurava-se no desconhecido somente com uma corda pendurada em seu ombro, um faca presa ao cinto e um bastão afilado, um objeto que tinha obtido no depósito de sucata do espaçoporto do Arrakis City.

Talvez Selim conseguisse chegar à cidade e encontrar emprego com os comerciantes extraplanetários, baixando o carregamento das naves que aterrissavam ou penetrando de vagabundo em uma das naves que viajavam de planeta em planeta, e que com freqüência demoravam anos em completar seu périplo. Entretanto, muito poucas naves faziam escala em Arrakis, pois o planeta estava afastado das rotas comerciais principais. Por outra parte, conviver com os estranhos habitantes de outros planetas talvez exigisse muito de Selim. O melhor seria habitar sozinho no deserto... se conseguisse sobreviver.

Recolheu outra pedra afiada que haviam jogado de cima. Quando os contrafortes montanhosos se perderam na distância, encontrou uma terceira pedra que lhe pareceu adequada para lançar. Com certeza, seria obrigado a caçar. Poderia chupar a carne úmida de um lagarto e viver um pouco mais.

Quando entrou no deserto, Selim distinguiu uma larga península rochosa, longe das cavernas zensunni. Ali estaria longe da tribo, mas ainda poderia rir deles cada dia que sobrevivesse em seu exílio. Mofaria-se daqueles aldeões e gritaria sarcasmos que o naib Dhartha não poderia ouvir.

Selim afundou o bastão nas brandas dunas, como se açulasse um inimigo imaginário. Desenhou na areia um símbolo budislâmico depreciativo, com uma flecha que apontava às moradias da montanha. Seu desafio lhe proporcionou uma satisfação especial, embora o vento apagaria o insulto antes de que passasse um dia. Ascendeu uma duna com passo mais vivo e desceu patinando.

Começou a cantarolar uma canção tradicional e acelerou o passo. A península rochosa distante brilhava à luz da tarde, e tentou convencer-se de que seu aspecto era animador. Seus ânimos aumentavam à medida que se afastava de seus torturantes.

Mas quando se encontrava a um quilômetro da rocha negra, Selim notou que a areia solta tremia sob seus pés. Elevou a vista, compreendeu que se estava em perigo e viu as ondulações que indicavam a passagem de um animal grande abaixo das dunas.

Selim correu. Escorregou e engatinhou duna acima, procurando não cair, sabendo que esta duna alta não significaria nenhum obstáculo para o verme de areia que se aproximava. A península rochosa estava muito longe, e o demônio continuava se aproximando.

Selim se obrigou a parar, embora seu coração espremido pelo pânico o animava a continuar correndo. Os vermes seguiam o rastro de qualquer vibração, e ele tinha se deslocado como um menino aterrorizado em vez de ficar petrificado como a astuta lebre do deserto. O gigantesco animal já o teria localizado a esta altura. Quantos antes que ele tinham caído de joelhos para rezar uma última prece, aterrados, antes de ser devorados? Ninguém havia sobrevivido a um encontro com os monstros do deserto.

A menos que pudesse enganá-lo... distraí-lo.

Selim obrigou a suas pernas e pés a adotar uma imobilidade absoluta. Tirou a primeira pedra que havia pego e a lançou o mais longe possível, entre as dunas. Aterrissou com um ruído surdo, e o caminho onipresente do verme se desviou apenas.

 

Lançou outra pedra, e uma terceira, com a intenção de afastar o verme. Selim lançou o resto das pedras, mas a besta se elevou muito perto dele.

Com as mãos vazias, já não contava com mais possibilidades de desorientar o animal.

O verme engoliu areia e pedras, em busca de um pedaço de carne. A areia que pisava Selim desmoronou na beira do caminho da besta, e compreendeu que o monstro o devoraria. Percebeu um detestável fedor de canela procedente do fôlego do verme, viu brilhos de fogo em suas fauces.

Sem dúvida, o naib Dhartha riria da sorte do jovem ladrão. Selim gritou uma maldição. E em lugar de render-se, decidiu atacar.

O aroma de especiaria se intensificava perto da boca cavernosa. O jovem aferrou o bastão metálico e sussurrou uma oração. Quando o verme se ergueu de debaixo da duna, Selim saltou sobre seu lombo curvo. Levantou o bastão como se fosse uma lança e afundou a ponta na pele, que suspeitava dura e coriácea. Ao invés disso, a ponta escorregou entre dois segmentos e perfurou a carne branda e rosada.

A besta reagiu como se lhe tivessem acertado com um canhão maula. elevou-se para atrás, agitou-se e se retorceu.

Selim, surpreso, afundou mais o bastão e o sujeitou com todas as suas forças. Fechou os olhos, apertou os dentes e se preparou para conservar o equilíbrio. Se se soltasse, tudo teria acabado.

Face à violenta reação do verme, era impossível que o pequeno bastão lhe houvesse ferido. Tratava-se de um simples gesto de desafio humano, o anseio de ver uma gota de sangue. Em qualquer momento, o verme se afundaria sob a areia e arrastaria Selim com ele.

Entretanto, o animal correu para frente, erguido sobre as dunas, para que a areia não roçasse no delicado tecido exposto.

Selim, aterrorizado, aferrou-se ao bastão, e depois riu, ao perceber que estava montando em Shaitan. Alguém teria realizado alguma vez tamanha façanha? Em qualquer caso, nenhum homem havia vivido para contar.

Selim selou um pacto entre ele e Budalá: nunca seria derrotado, nem pelo naib Dhartha nem por este demônio do deserto. Fez pressão sobre sua lança improvisada e abriu ainda mais o segmento carnudo, de modo que o verme saltou sobre a areia, como se pudesse correr mais que o molesto parasita montado em seu lombo...

O jovem exilado nunca chegou à franja rochosa onde tinha pensado estabelecer seu acampamento. O verme o arrastou para as profundezas do deserto, longe de sua antiga vida.


Aprendemos algo negativo dos computadores, que fixar as diretrizes é tarefa dos humanos, não das máquinas.

RELL ARKOV,

assembléia fundadora da Liga de Nobres

 

Depois de ser rechaçada em Salusa Secundus, a frota de máquinas pensantes retornou a sua longínqua base de Corrin. A supermente eletrônica não gostaria de escutar o relatório de seu fracasso.

Como lacaios de Omnius, os restantes neocimeks seguiram à frota derrotada. Não obstante, os seis sobreviventes dos primeiros titãs (Agamenon e seu estado maior) preparavam uma manobra de diversão. Era a oportunidade de dar um empurrão em seus planos contra a opressiva supermente...

Enquanto as naves de batalha dispersas sulcavam o espaço transportando seus olhos espiões, Agamenon desviou sua nave em uma rota diferente. Depois de escapar da tropa salusiana, o general tinha transladado seu contêiner cerebral de uma forma bélica móvel a esta elegante nave blindada. Face à derrota, sentia-se alegre e vivo. Sempre haveria outras batalhas que liderar, tanto contra humanos selvagens como contra Omnius.

Os antigos cimeks mantinham seus sistemas de comunicação em silêncio, temerosos de que uma onda eletromagnética extraviada fosse detectada por alguma nave da frota. Haviam pensado em uma rota mais rápida e perigosa, que lhes aproximaria dos obstáculos celestes evitados pelas naves robóticas. O atalho proporcionaria tempo suficiente aos cimeks rebeldes para encontrar-se em privado.

Quando sua rota se cruzou com uma estrela anã vermelha, os titãs se aproximaram de uma rocha disforme que orbitava perto do sol. Um temporal de neve e chuva de vento estelar e partículas ionizadas, combinada com potentes campos magnéticos, os ocultaria dos espiões robóticos. Depois de um milênio de servir a Omnius, Agamenon tinha aprendido maneiras de burlar à maldita supermente.

Os seis cimeks se desviaram para o planetóide utilizando suas habilidades humanas, em lugar dos sistemas de navegação eletrônicos. Agamenon escolheu um lugar situado perto de uma cratera, e os outros titãs aterrissaram junto a sua nave, atrás de detectar terreno estável em uma planície ondulada.

Dentro da nave, Agamenon guiou os braços mecânicos que extraíram o contêiner cerebral de sua cavidade e o instalaram em outro corpo terrestre móvel, provido de seis robustas pernas e um núcleo corporal. Depois de conectar os mentrodos, provou as pernas reluzentes, levantou os pés metálicos e ajustou o sistema hidráulico.

Desceu pela rampa até a rocha branda. Outros titãs se reuniram com ele, todos providos de corpos móveis com órgãos internos visíveis e sistemas de manutenção vital impermeáveis ao calor e a radiação.

O primeiro titã sobrevivente se adiantou para apertar botões sensores sobre o corpo mecânico do general, parecendo uma carícia romântica. Juno era o gênio da estratégia que tinha sido amante de Agamenon quando ambos possuíam corpos humanos. Agora, um milênio depois, continuavam sua relação, pois necessitavam de pouco mais que o afrodisíaco do poder.

- Atuaremos logo, meu amor? - perguntou Juno. - Ou temos que esperar um ou dois séculos mais?

- Tanto não, Juno. Nem muito menos.

A seguir chegou Barba Azul, o mais parecido a um amigo humano que Agamenon tinha conhecido durante os últimos mil anos.

- Cada momento é como uma eternidade - disse.

Durante a conquista inicial dos titãs, Barba Azul tinha descoberto a forma de manipular as onipotentes máquinas pensantes do Império Antigo. Por sorte, o modesto gênio também tinha tido a precaução de implantar restrições de programação que impediam as máquinas pensantes de prejudicar os titãs, restrições que tinham mantido com vida Agamenon e seus companheiros depois de que Omnius tomasse o poder à traição.

- Ainda não sei se prefiro esmagar computadores ou humanos - disse Ajax.

O mais cruel dos velhos cimeks se adiantou a grandes pernadas em uma forma móvel particularmente enorme, como se ainda estivesse flexionando os músculos de seu antigo corpo orgânico.

- Cada vez que arriscamos um plano, temos que apagar nosso rastro duas vezes.

Dante, um contador e burocrata perito, dominava com facilidade os detalhes complexos. Nunca tinha sido o mais chamativo ou atrativo dos titãs, mas a queda do Império Antigo não teria sido possível sem suas inteligentes manipulações dos assuntos burocráticos e administrativos. Carente da fanfarronice de outros conquistadores, Dante tinha levado a cabo uma divisão igualitária da liderança, o que tinha permitido aos titãs governar sem problemas durante um século.

Até que os computadores lhes tinham arrebatado o poder das mãos. Xerxes foi o último cimek que entrou na cratera. O titã de menor patente tinha cometido muito tempo atrás o imperdoável equívoco que permitiu à mente eletrônica recentemente nascida dominar a todos. Embora os titãs ainda necessitavam dele em seu grupo, cada vez mais minguado, Agamenon nunca o tinha perdoado. Durante séculos, o abatido Xerxes não abrigou outro desejo que emendar seu engano. Acreditava que Agamenon lhe aceitaria de novo se encontrasse uma forma de redimir-se, e o general cimek se aproveitava desse entusiasmo.

Agamenon guiou seus cinco camaradas até as sombras da cratera. As máquinas de mente humana se olharam entre rochas esmiuçadas e penhascos meio fundidos para falar de seus traiçoeiros projetos e planejar a vingança. Xerxes, que apesar de seus defeitos, nunca os trairia. Mil anos antes, depois de sua vitória, os primeiros titãs tinham acessado à transformação cirúrgica antes que aceitar a mortalidade, com o fim de que seus cérebros imateriais vivessem eternamente e consolidassem seu domínio. Tinha sido um pacto dramático.

Agora, Omnius recompensava de vez em quando seus seguidores humanos convertendo-os em neocimeks. Em todos os Planetas Sincronizados, milhares de cérebros novos com corpos mecânicos serviam a a supermente. Entretanto, Agamenon não confiava em ninguém que se rendesse às ordens da supermente. O general cimek transmitiu suas palavras em uma banda de freqüência que se conectava diretamente com os centros de processamento mental dos titãs.

- Não somos esperados em Corrin antes de algumas semanas. aproveitei esta oportunidade para criar um plano contra Omnius.

- Já seria hora - grunhiu Ajax.

- Acha que a supermente se acomodou, meu amor, como os humanos do Império Antigo? - Perguntou Juno.

- Não observei o menor sinal de debilidade - interveio Dante, - e sempre estou atento a essas coisas.

- Sempre há debilidades - disse Ajax, enquanto retorcia uma de suas pesadas pernas blindadas e fazia um buraco no chão, - se estiver decidido explorá-las.

Barba Azul golpeou a rocha com uma de suas pernas dianteiras.

- Não se deixem enganar pela inteligência artificial. Os computadores não pensam como os humanos. Inclusive depois de mil anos, Omnius não se descuida. Conta com mais capacidade de processamento e olhos espiões do que imaginamos.

- Suspeita de nós? Duvida Omnius de nossa lealdade? - Xerxes já parecia preocupado, e a reunião só tinha começado. - Se acreditar que estamos conspirando contra ele, por que não nos elimina?

- Às vezes acho que você tem um vazamento no contêiner cerebral - disse Agamenon. - O programa de Omnius contém restrições que o impede de nos matar.

- Não é necessário me insultar. Omnius é tão poderoso que, às vezes, parece capaz de superar tudo o que Barba Azul carregou em seu sistema.

- Ainda não o fez, e nunca o fará. Sei o que me levava fiz, acreditem - disse Barba Azul. – Lembrem-se que Omnius deseja ser eficaz. Não tomará decisões desnecessárias, não desperdiçará recursos. Para ele, nós somos recursos.

- Se Omnius está tão empenhado em governar com eficiência - disse Dante, - por que tem escravos humanos por toda parte? Até os robôs simples e as máquinas com uma inteligência artificial mínima poderiam realizar suas tarefas com menos problemas.

Agamenon saiu das sombras para a luz, e logo voltou sobre seus passos. Os conspiradores esperavam a seu redor como gigantescos insetos metálicos.

- Durante anos, sugeri que exterminássemos os cativos humanos dos Planetas Sincronizados, mas Omnius se nega.

- Talvez se mostre reticente porque os humanos criaram às máquinas pensantes - sugeriu Xerxes.

- Pode que Omnius considere os humanos uma manifestação de Deus.

Agamenon zombou dele.

- Está insinuando que a supermente é religiosa?

O cimek caído em desgraça guardou silêncio.

- Não, não - disse Barba Azul como um professor paciente. - Omnius não deseja investir a energia ou provocar o escândalo que ocasionaria tal medida. Acredita que os humanos são recursos que não devem ser esbanjados.

- Temos tentado convencê-lo do contrário durante séculos - disse Ajax.

Consciente de que o tempo estava acabando, Agamenon abordou a questão principal.

- Temos de encontrar uma forma de provocar uma mudança radical. Se desconectarmos os computadores, os titãs governarão de novo, junto com todos os neocimeks que possamos recrutar. - Fez girar sua torre de sensores. - Tomamos o poder antes e voltaremos a fazê-lo. Quando os titãs humanos tinham conquistado o estagnado Império Antigo, os robôs de combate tinham lutado por eles. Tlaloc, Agamenon e outros rebeldes haviam se limitado a recolher os restos. Desta vez, os titãs teriam que lutar em pessoa.

- Talvez devessemos localizar Hécate - disse Xerxes. - É a única de nós que nunca esteve sob o controle de Omnius. Nosso curinga.

Hécate, a ex-companheira de Ajax, era a única titã que tinha renunciado a governar. Antes da conquista das máquinas pensantes, perdeu-se nas profundidades do espaço, e nunca mais tinham sabido nada dela. Mas Agamenon não podia confiar em Hécate, embora a localizassem, mais do que confiava em Xerxes. Hécate lhes tinha abandonado muito tempo atrás. Não era o aliado que necessitavam.

- Deveríamos procurar ajuda em outra parte - disse Agamenon. - Meu filho Vorian é um dos poucos humanos com acesso permitido ao complexo central da Omnius Terra, e entrega atualizações com regularidade às supermentes de outros Planetas Sincronizados. Talvez possa nos ser útil.

Juno simulou uma gargalhada.

- Deseja confiar em um humano, meu amor? Um dos insetos à que despreza? Há alguns momentos atrás queria exterminar todos os membros da raça.

- Vorian é meu filho genético, e até o momento o melhor de minha origem. Estive observando-o, adestrando-o. Já leu minhas memórias uma dúzia de vezes. Albergo grandes esperanças de que um dia seja meu sucessor.

Juno compreendia Agamenon melhor que outros titãs.

- Disse coisas parecidas sobre seus doze filhos anteriores, se não me engano. Mesmo assim, encontrou desculpas para matar a todos.

- Conservei uma boa quantidade de meu esperma antes de me transformar em cimek, e tenho tempo para fazê-lo bem - respondeu Agamenon. - Mas Vorian... Acredito que Vorian poderia ser o adequado. Um dia, deixarei que se converta em cimek.

Ajax o interrompeu em voz baixa.

- Não podemos lutar contra dois inimigos perigosos ao mesmo tempo. Como Omnius permitiu-nos por fim atacar os hrethgir, graças à vitória de Barba Azul no circo de gladiadores, eu digo que prossigamos a guerra o melhor que possamos. Depois, nos ocuparemos de Omnius.

Imersos nas sombras da cratera, os cimeks murmuraram, meio convencidos. Os humanos da liga tinham escapado do jugo dos titãs séculos antes, e os antigos cimeks sempre lhes tinham odiado. As fibras ópticas de Dante se moviam de um lado a outro enquanto calculavam.

- Enquanto isso, continuaremos procurando uma forma de eliminar Omnius - acrescentou Barba Azul. - Tudo a seu tempo.

- Possivelmente tenha razão - admitiu Agamenon. O general cimek não queria alargar muito mais sua reunião clandestina. Encaminhou-se para as naves seguido pelos outros. - Primeiro, destruiremos a liga humana. Aproveitando esse trampolim, dedicaremos nossa atenção a um competidor mais difícil.

 

A lógica é cega, e com freqüência só conhece seu próprio passado.

Arquivos de Genética da filosofia,

recolhidos pelas feiticeiras do Rossak

 

Às máquinas pensantes não importava em excesso a estética, mas a nave de atualizações de Omnius era, por um acidente de desenho, um veículo esbelto negro e prateado, diminuído pela imensidão do cosmos durante seu trajeto entre os Planetas Sincronizados. Uma vez cumprida sua missão, o Dream Voyager retornava à Terra.

Vorian Atreides se considerava afortunado por ser o responsável por uma tarefa tão vital.

Nascido de uma pulseira fecundada com o esperma conservado de Agamenon, a linhagem de Vorian se remontava a uma época muito anterior a Era dos Titãs, até a casa do Atreus na antiga a Grécia e outro Agamenon famoso. Devido à importância de seu pai, Vorian, de vinte e dois anos, tinha sido criado e educado na Terra pelas máquinas pensantes. Era um dos humanos privilegiados “de confiança” ao serviço do Omnius, e podia mover-se com absoluta liberdade.

Tinha lido todas as histórias de sua gloriosa linhagem nas extensas memórias que seu pai tinha escrito para documentar seus triunfos. Vorian considerava a grande obra do general como algo mais que um monumento literário, algo próximo a um documento histórico sagrado.

Justo diante do terminal de trabalho de Vor, o capitão do Viajante onírico, um robô autônomo, inspecionava os instrumentos sem a menor possibilidade de incorrer em nenhum engano.

A pele de metal acobreado de Seurat cobria um corpo em forma humana composto de peças polimerizadas, suportes de liga, processadores de circuitos gelificados e musculatura de tecido elástico.

Enquanto Seurat estudava os instrumentos, conectava de vez em quando os leitores de comprimento alcance da nave ou olhava pela porteira com suas fibras ópticas. O robô continuava realizando suas múltiplas tarefas enquanto conversava com seu servil co-piloto humano.

Seurat tinha uma desgraçada propensão às piadas ruins.

- Vorian, o que se obtém do cruzamento de um porco com um humano?

- Não sei.

- Um ser que, mesmo assim, come muito, e não trabalha nada!

Vorian dedicou ao capitão uma risada educada. Quase sempre, as piadas de Seurat demonstravam que o robô não compreendia os humanos. Mas se Vor não risse, Seurat contaria outra piada, e outra mais, até obter a reação adequada.

- Não tem medo de cometer um engano ao contar piadas enquanto vigia nossos sistemas de navegação?

- Eu não cometo enganos - disse Seurat com sua voz mecânica.

Vor respirou fundo pela provocação.

- Ah, mas o que aconteceria se eu sabotasse uma das funções vitais da nave? Somos os únicos seres que viajamos a bordo, e afinal, sou um humano falacioso, seu inimigo mortal.

- Estaria bem merecido por essas piadas espantosas.

- Esperaria isso de um escravo pestilento ou um artesão, mas você nunca faria isso, Vorian. Tem muito que perder. - Seurat voltou sua cabeça com um ágil movimento, ainda menos atento aos controles do Viajante onírico. - E embora o fizesse, eu o descobriria.

- Não me subestime, Mente metálica. Meu pai me ensinou que os humanos, apesar de nossas múltiplas debilidades, guardamos na manga o ás de ser imprevisíveis. - Vor, sorridente, aproximou-se do capitão e estudou as telas métricas.

- Por que acha que Omnius pede-me que altere seus minuciosos simulacros cada vez que planeja um ataque contra os hrethgir?

- Você caráter caótico é o único motivo de que possa ganhar em qualquer jogo de estratégia - disse Seurat. - Não tem nada que ver com suas habilidades inatas.

- Um ganhador possui mais habilidades que um perdedor - respondeu Vor, - com independência de como defina a competição.

A nave de atualizações seguia uma rota contínua e regular entre os Planetas Sincronizados. O Viajante onírico, uma de quinze naves idênticas, transportava cópias da versão atual de Omnius com o fim de sincronizar as diferentes supermentes eletrônicas de planetas separados por enormes distância.

As limitações dos circuitos e a velocidade de transmissão eletrônica restringia o tamanho de qualquer máquina. Por conseguinte, a mesma supermente informática não podia expandir-se além de um planeta. Entretanto, existiam cópias de Omnius em todas as partes, como clones mentais. Graças às atualizações regulares que subministravam naves como o Viajante onírico, todas as distintas encarnações de Omnius eram virtualmente idênticas em toda a autarquia das máquinas.

Depois de muitas viagens, Vor sabia pilotar a nave e tinha acesso a todos os bancos de dados, pois utilizava os códigos de Seurat. Com os anos, o capitão robô e ele haviam travado uma amizade que muita gente não podia compreender. Devido à grande quantidade de tempo que compartilhavam nas profundidades do espaço (falando de muitos temas, praticando jogos de habilidade, contando contos), diminuíam o abismo entre máquina e homem.

Às vezes, para divertir-se, Vor e Seurat invertiam os papéis. Vor fingia ser capitão da nave, enquanto Seurat passava a ser seu subordinado, como nos tempos do Império Antigo.

Em uma destas ocasiões, Vor tinha batizado à nave com seu nome atual, uma necessidade poética que Seurat não só tolerava, mas sim conservava.

Por ser uma máquina consciente, Seurat recebia com regularidade novas instruções e transferências de cor de Omnius, mas como passava muito tempo desligado quando viajava entre as estrelas, tinha desenvolvido sua própria personalidade e independência. Na opinião de Vor, Seurat era a melhor mente mecânica que conhecia, embora o robô pudesse ser irritante às vezes. Sobretudo por culpa de seu peculiar senso de humor.

Vor cruzou as mãos e estralou os dedos. Suspirou satisfeito.

- Relaxar é estupendo. Lamento que você não possa fazê-lo.

- Não preciso relaxar.

Vorian não admitia que ele também considerava seu corpo orgânico inferior em muitos sentidos, frágil e propenso aos dores, doenças e feridas que qualquer máquina podia solucionar com facilidade. Confiava que sua forma física agüentasse até ser convertido em neocimek, todos os quais haviam sido humanos de confiança, como ele, um dia, Omnius concederia a permissão a Agamenon, se Vor se esforçasse para servir a supermente.

O Dream Voyager levava muito tempo viajando, e o jovem estava contente de voltar para casa. Logo veria seu pai.

Enquanto o Dream Voyager voava entre as estrelas, Seurat sugeriu uma competição amistosa. Os dois se sentaram em uma mesa e se envolveram em uma de suas diversões habituais, um jogo privado que tinham desenvolvido graças à prática freqüente. A estratégia se centrava em uma batalha espacial imaginária entre duas raças diferentes (os “vorians” e os “seurats”), cada uma provida de uma frota com capacidades e limitações precisas. Apesar de o capitão robô contar com uma memória mecânica perfeita, Vor era um bom competidor, pois sempre imaginava táticas criativas que surpreendiam seu rival.

Enquanto colocavam naves de guerra nos diferentes setores do campo de batalha imaginário, Seurat recitou uma inumerável sucessão de piadas e adivinhações humanas que tinha descoberto em suas velhas bases de dados.

- Tenta me distrair - disse Vor por fim, irritado. - Onde aprendeu todo isso?

- De você, é obvio. - O robô enumerou as incontáveis ocasiões em que Vor tinha zombado dele, ameaçando, sabotando a nave sem a menor intenção de fazê-lo, ou inventando emergências inverossímeis. - Acha que é um engano? De sua parte ou da minha?

A revelação surpreendeu Vor.

- Me entristece pensar que, até brincando, o ensinei a enganar. Envergonho-me de ser humano.

Sem dúvida, Agamenon se decepcionaria.

Depois de duas rondas mais, Vor perdeu a partida. Já não lhe interessava.

 

Todo empenho é um jogo, não é verdade?

IBLIS GINJO,

Opções para a liberação total

 

Em um terraço ajardinado que dominava as ruínas da Zimia, Xavier Harkonnen pensava com temor no iminente desfile da “vitória”. O sol da tarde esquentava seu rosto. O canto dos pássaros tinha substituído os gritos e as explosões. A brisa tinha varrido a fumaça venenosa.

Ainda assim, a liga demoraria muito para se recuperar. Nada voltaria a ser igual.

Embora tivessem transcorrido vários dias do ataque, ainda via fios de fumaça que elevavam-se dos escombros. Mas não sentia o odor dessa fumaça. O gás venenoso havia danificado a tal ponto seus sentidos que nunca recuperaria totalmente os sentidos do olfato e paladar.

Até respirar se transformou em puro ato mecânico.

Mas não podia reclamar da sua sina quando tantos outros haviam perdido muito mais.

Depois do ataque dos cimeks, havia conservado a vida graças aos heróicos esforços de uma equipe médica salusiana. Serena Butler tinha ido vê-lo no hospital, mas só a recordava através de uma bruma de dor, medicamentos e sistemas de manutenção vital. Em tais circunstâncias, Xavier tinha sido objeto de um transplante duplo de pulmão, órgãos sãos proporcionados pelos misteriosos tlulaxa. Sabia que Serena tinha colaborado com os brilhantes cirurgiões, e que um mercado de carne tlulaxa chamado Tuk Keedair lhe havia facilitado o tratamento que necessitava.

Já podia respirar de novo, apesar de ocasionais pontadas de dor. Xavier viveria para lutar contra as máquinas outra vez. Graças aos fármacos e as avançadas técnicas médicas, havia podido abandonar o hospital pouco depois da operação.

No momento do ataque, o mercado de carne Keedair se encontrava na Zimia no curso de uma visita rotineira, e se salvou pelos cabelos. No planeta não aliado do Tlulax, no longínquo sistema solar do Thalim, seu povo administrava granjas de órgãos, onde cultivavam corações, pulmões, rins e outros órgãos vitais humanos a partir de células sãs. Depois que os cimeks foram rechaçados, o misterioso tlulaxa tinha devotado seus produtos biológicos aos médicos do principal hospital da Zimia. Os contêineres criogênicos de sua nave estavam cheios de órgãos. Por sorte, tinha admitido Keedair com um sorriso, pôde ajudar aos cidadãos de Salusa em seu momento de maior necessidade.

Depois da operação, Keedair tinha ido ver Xavier no centro médico. O tlulaxa era um homem de média estatura, fraco, de olhos escuros e rosto anguloso. Uma trança de cabelo escuro pendurava no lado esquerdo de sua cabeça.

- Foi uma sorte que estivesse aqui com órgãos frescos armazenados em sua nave - disse Xavier com voz rouca.

Keedair esfregou suas mãos de dedos compridos.

- Se soubéssemos que os cimeks se dispunham a atacar com tal ferocidade, teria trazido mais material de nossas granjas de órgãos. Teriam sido de grande utilidade a seus sobreviventes, mas as naves não poderão chegar do sistema de Thalim antes de alguns meses.

Antes que o mercador de carne abandonasse o quarto de Xavier, voltou-se para o ferido.

- Considere-se afortunado, terceiro Harkonnen.

 

Os sobreviventes de Zimia, afligidos pela pena, procuraram seus mortos e lhes deram sepultura. À medida que se retiravam os escombros, o número de vítimas aumentava. Recuperaram cadáveres e confeccionaram a lista de desaparecidos. Apesar da dor e da aflição, o ataque fortaleceu a humanidade livre.

O vice-rei Manion Butler tinha insistido em que as pessoas só mostrassem determinação depois do desastre. Nas ruas estavam terminando os preparativos para a celebração de ação de graças. As bandeiras com o símbolo da mão aberta, emblema da liberdade humana, ondeavam ao vento. Homens de aspecto rude, vestidos com jaquetões sujos, se esforçavam por controlar os magníficos corcéis brancos salusianos, nervosos devido ao alvoroço. As crinas dos cavalos estavam adornadas com borlas e campainhas, e agitavam as caudas como cascatas de cabelo muito fino. Os animais, enfeitados com cintas e flores, faziam cambalhotas, preparados para desfilar pela ampla avenida principal, que tinha sido limpa dos entulhos, fuligem e manchas de sangue.

Xavier lançou um olhar vacilante para o céu. Como poderia voltar a contemplar as nuvens, sem o temor de ver mais blindados piramidais atravessar os escudos decodificadores? Já estavam instalando mísseis e novas baterias para proteger o planeta de um ataque espacial.

Patrulhas em estado de alerta máximo vigiavam a periferia do sistema.

Em lugar de assistir um desfile, teria que estar preparando à tropa salusiana para outro ataque, aumentando o número de naves de vigilância e reconhecimento no limite do sistema, elaborando um plano de salvamento e resposta mais eficaz. A volta das máquinas pensantes era só questão de tempo.

A reunião seguinte do Parlamento da liga seria dedicado as medidas e reparações de emergência. Os representantes esboçariam um plano de reconstrução de Zimia. As formas de combate cimeks capturadas seriam desmontadas e analisadas para descobrir seus pontos fracos.

Xavier esperava que a liga mandasse chamar imediatamente o Tio Holtzman, instalado em Poritrin, para que inspecionasse seus escudos decodificadores recém instalados. Só o grande inventor em pessoa podia encontrar o remédio para os defeitos técnicos que os cimeks haviam descoberto.

Quando Xavier falou de suas preocupações ao vice-rei Butler, o líder tinha assentido, mas negou-se a continuar a conversa.

- Antes de qualquer ação, temos de celebrar nosso dia de afirmação nacional, comemorar o fato de que estamos vivos. - Xavier adivinhou uma profunda tristeza atrás da máscara de confiança do vice-rei. - Nós não somos máquinas, Xavier. Em nossas vidas há coisas mais importantes que a guerra e a vingança.

Quando ouviu passos no terraço, Xavier se virou e viu Serena Butler, sorridente, com um brilho secreto nos olhos que podia compartilhar com ele, agora que nada podia vê-los.

- Aqui está meu heróico terceiro.

- Não pode chamar de herói ao homem responsável pela destruição de meia cidade, Serena.

- Não, mas o termo é correto para o homem que salvou o resto do planeta. Como sabe muito bem, se não tivesse tomado uma decisão tão dolorosa, toda Zimia, todo Salusa, teriam sido destruídos. - Apoiou uma mão em seu ombro, muito perto dele. - Não permitirei que se afunde na culpa durante o desfile da vitória. Por um dia não passará nada.

- Por um dia podem acontecer muitas coisas - insistiu Xavier. - Conseguimos a duras penas rechaçar aos atacantes, porque confiávamos muito nos escudos decodificadores, e porque fomos tão cretinos para pensar que Omnius tinha decidido nos deixar em paz depois de tantas décadas. Seria o momento perfeito para voltar a nos atacar.

- E si lançam em uma segunda tentativa?

- Omnius ainda está lambendo as feridas. Duvido que suas forças já tenham retornado aos Planetas Sincronizados.

- As máquinas não lambem as feridas.

- Você é um jovem muito sério. Não pode relaxar um pouco, ao menos enquanto dure o desfile? Nosso povo necessita de um pouco de alegria.

- Seu pai me fez o mesmo discurso.

- Já sabe que, se dois Butler disserem o mesmo, tem que ser verdade.

Deu um forte abraço em Serena, e depois a seguiu até a tribuna de honra, onde se sentaria ao lado do vice-rei.

Desde meninos, Xavier sempre havia se sentido atraído por Serena. Quando cresceram, perceberam a profundidade do sentimento mútuo. Tanto Serena como ele davam por certo que se casariam, uma combinação perfeita de política, linhagens aceitáveis e romance.

Não obstante, devido ao súbito incremento das hostilidades, Xavier se recordou de suas prioridades. Graças ao desastre que tinha acabado com a vida do primeiro Meach, Xavier Harkonnen era comandante em chefe provisório da tropa salusiana, o que o obrigava a confrontar provocações mais importantes. Desejava-o, mas era só um homem.

Uma hora depois, reunidos tomaram assento na tribuna principal da praça central. Andaimes e vigas provisórias cobriam as fachadas destroçadas dos edifícios governamentais. As fontes decorativas já não funcionavam, mas os cidadãos da Zimia sabiam que não existia um lugar mais adequado para tal celebração.

Ainda incendiados e danificados, o aspecto dos altos edifícios era magnífico, construídos em estilo gótico salusiano com coberturas a diversas alturas, vigas e colunas esculpidas. Salusa Secundus era a sede do governo da liga, mas também albergava os principais museus culturais e antropológicos. As moradias dos bairros circundantes eram de uma construção mais simples mas agradável à vista, caiados com cal extraída dos escarpados de rocha.

Os salusianos se orgulhavam de contar com os melhores artesãos da liga. A maior parte de sua produção era manual, em vez de utilizar máquinas automáticas.

Ao longo da rota do desfile, os cidadãos esperavam vestidos em tons magenta, azul e amarelo. As pessoas conversavam e apontavam com admiração os magníficos corcéis, seguidos por músicos e bailarinos. Um monstruoso touro salusiano, drogado até as sobrancelhas, arrastava-se pela rua.

Embora Xavier procurasse tranqüilizar-se, não parava de olhar o chão, as cicatrizes da cidade ferida...

Ao concluir o desfile, Manion Butler pronunciou um discurso onde celebrou a triunfal defesa, mas reconheceu o alto custo da batalha, dezenas de milhares de pessoas feridas ou mortas.

- A recuperação será lenta e longa, mas nosso espírito é indomável, face ao que possam tentar as máquinas pensantes. - O Vice-rei indicou Xavier que se aproximara da plataforma central. – Apresento-lhes seu maior herói, um homem que não retrocedeu ante os cimeks e tomou as decisões necessárias para nos salvar a todos. Muito poucos teriam sido capazes de fazer o mesmo.

Xavier, que se sentia desconjurado, avançou para receber uma medalha militar que estava pendurada de uma fita com raias azuis, vermelhas e douradas. Enquanto ressonavam os vivas, Serena lhe beijou a bochecha. Confiou em que ninguém lhe tivesse visto ruborizar-se.

- Acompanha a esta medalha uma promoção à patente de terceiro, primeiro grau. Xavier Harkonnen, ordeno-lhe estudar táticas defensivas e preparar instalações para toda a Armada de da Liga. Suas obrigações incluirão a a milícia salusiana, além da responsabilidade de melhorar a segurança militar de toda a Liga de Nobres.

O jovem se sentia um pouco violento, mas aceitou a promoção.

- Ardo em desejos de começar a lutar por nossa sobrevivência... e progresso. - Dedicou a Serena um sorriso indulgente. - Depois das festividades de hoje, é obvio.

 

Duna é o planeta natal do verme.

Da “Lenda de Selim Cavaleiro de Vermes”,

poesia de acampamento zensunni

 

Durante todo um dia, até bem entrada a noite, o monstruoso verme de areia atravessou a toda velocidade o deserto, obrigado a atravessar o limite de seus territórios.

Quando as duas luas se elevaram e iluminaram com sua luz peculiar Selim, este se aferrou ao bastão metálico, esgotado. Embora tivesse obtido não ser devorado pelo selvagem e confuso animal, não demoraria para perecer por causa da viagem interminável. Budalá lhe tinha salvado, mas agora dava a impressão de que estava jogando com ele.

Enquanto segurava o bastão oxidado, o jovem se encaixou no oco situado entre os segmentos do verme, com a esperança de que não ficaria sepultado vivo se o demônio mergulhasse sob as dunas. Se ajoelhou contra a carne, que cheirava a podre com um toque de canela. Não sabia o que fazer, mas rezou e meditou, em busca de uma explicação.

Talvez seja uma espécie de prova.

O verme continuava cruzando o deserto, como se seu pequeno cérebro se houvesse resignado a não voltar a encontrar paz ou segurança. A besta desejava inundar-se nas dunas e esconder-se daquele pequeno parasita, mas Selim movia o bastão como se fosse uma alavanca, aprofundando-o na ferida.

O verme só podia continuar em frente. Hora atrás de hora. Selim tinha a garganta seca, os olhos incrustados de pó. Já devia ter atravessado a metade do deserto, e não reconhecia o menor acidente geográfico na monótona aridez. Nunca tinha estado tão longe da cova comunal, nem ele nem ninguém, por isso sabia. Embora conseguisse escapar do gigantesco monstro, estaria condenado no implacável deserto de Arrakis por culpa de uma sentença injusta.

Estava seguro de que seu traidor amigo Ebrahim se delataria um dia, e a verdade sairia à luz. O infame violaria alguma outra norma da tribo, e descobririam que era um ladrão e um mentiroso. Se Selim voltasse a lhe ver algum dia, desafiaria Ebrahim a um duelo de morte, e a honra se imporia.

Talvez a tribo o aplaudiria, pois ninguém, nem sequer nos poemas mais heróicos, havia domado um verme de areia e vivido para contar. Talvez as desavergonhadas jovens zensunni de olhos escuros o olhariam com um sorriso brilhante. Talher de pó, mas com a cabeça bem alta, plantar-se-ia ante o severo naib Dhartha e exigiria que lhe readmitisse na comunidade por ter cavalgado em um demônio do deserto e sobrevivido!

Mas, embora Selim tivesse conseguido sobreviver mais do que esperava, o desenlace era incerto. Que iria fazer agora?

Sob seu corpo, o verme emitia ruídos peculiares, um som débil que se impunha ao sussurro da areia. O cansado animal estremeceu, e um tremor percorreu seu corpo sinuoso.

Selim percebeu o aroma de pederneira e o poderoso aroma da especiaria. Fornos induzidos pela fricção ardiam na garganta do verme, como as profundidades do Sheol.

Quando uma aurora amarelada tingiu o céu, o verme deu mostras de maior desespero. Tentou afundar na areia, mas Selim não permitiu. O monstro golpeou uma duna com a cabeça, e um jorro de areia saltou pelos ares. O jovem teve que apoiar todo seu peso contra o bastão, afundando-o no segmento exposto do verme.

- Está tão dolorido e exausto como eu, não é, Shaitan? - perguntou com uma voz tão fina e seca como papel. - Quase morto de cansaço.

Selim não ousava soltar-se. Assim que saltasse para as dunas, o verme daria meia volta e o devoraria. Não tinha outra alternativa que seguir açulando ao animal. A odisséia parecia interminável.

Quando a luz se intensificou, distinguiu uma leve neblina no horizonte, uma tormenta que arrastava grãos de areia e pó. Mas estava muito longe, e outras preocupações turvavam a mente de Selim.

Por fim, o demônio se deteve não longe de um promontório rochoso, e se negou a continuar.

Com uma convulsão final, sua cabeça de réptil desabou sobre uma duna, agitou-se alguns segundos... e ficou imóvel.

Selim tremia de cansaço, temeroso de que fosse um truque. Talvez o monstro estivesse esperando que baixasse a guarda para devorá-lo. Um verme podia ser tão ardiloso? Era na verdade o Shaitan? Ou o montei até acabar com sua vida?

Selim tirou forças de fraqueza e se endireitou. Seus músculos intumescidos tremeram. Logo que pode mover-se. Sentiu um formigamento quando seus membros recuperaram a circulação.

Por fim, arrancou o bastão metálico da pele rosada.

 

O verme nem sequer se moveu.

Selim deslizou pelo lombo do verme e começou a correr assim que seus pés tocaram a areia. Suas botas levantaram pequenas nuvens de pó quando atravessou a paisagem ondulada. As rochas longínquas eram como montículos de salvação negros que sobressaíam das dunas douradas.

Negou-se a olhar para trás e continuou correndo. Cada fôlego era como fogo seco em sua garganta. Seus ouvidos formigavam, como se antecipasse o vaio da areia, com a proximidade do vingativo animal. Mas o verme de areia continuava imóvel.

Selim correu meio quilômetro a toda a velocidade de suas pernas, impelido por uma energia desesperada. Quando chegou à barreira rochosa, subiu ao topo e desabou por fim. Apoiou os joelhos contra o peito e observou o verme.

Não se movia. Está me enganando Shaitan? Está me pondo a prova Budalá?

Selim sentia uma fome feroz.

- Se me salvou por algum motivo - gritou ao céu, - por que não me oferece um pouco de comida?

Morto de agonia, se pôs a rir.

A Deus não se exige nada.

Então, percebeu que havia comida a seu alcance, em certo modo. Enquanto fugia para o refúgio de rocha, Selim tinha cruzado uma grosa capa ocre de especiaria, veios de melange como as que os zensunni encontravam às vezes quando se aventuravam na areia.

Recolhiam a substância, que utilizavam como aditivo alimentar e estimulante. O naib Dhartha guardava uma pequena reserva na cova, e de vez em quando destilavam com ela uma potente cerveja, que os membros da tribo consumiam em ocasiões especiais e trocavam no espaçoporto de Arrakis City.

Ficou sentado à sombra durante quase uma hora, à espreita de qualquer movimento do verme. Nada. O calor aumentou, e o deserto desapareceu em um preguiçoso silêncio. Dava a impressão de que a tormenta longínqua não se aproximava. Selim tinha a sensação de que o planeta estava contendo o alento.

Depois, ousado de novo (afinal, tinha montado o Shaitan!), Selim desceu das rochas e correu para a mancha de melange. Lançou um olhar temeroso ao detestável vulto do verme.

Arranhou a areia e recolheu o pó vermelho. Engoliu-o, cuspiu uns grãos de areia e experimentou imediatamente o estímulo da especiaria, uma quantidade excessiva para tomar de uma vez. Aturdiu-lhe, mas também lhe provocou uma explosão de energia.

Satisfeito por fim, manteve-se a uma prudente distancia do verme, os braços em brasas.

Logo, agitou as mãos e gritou no silencio absoluto:

- Eu o derrotei, Shaitan! Queria me comer, velha larva, mas eu te dominei! - Moveu os braços de novo. – Está me ouvindo?

Mas não detectou o menor movimento. Eufórico devido à melange, caminhou com ousadia para o corpo comprido e sinuoso caído sobre a duna. A poucos passos de distância, contemplou a cara, a boca cavernosa repleta de dentes cintilantes. As largas presas se assemelhavam a cabelos minúsculos em comparação com o tamanho imenso do ser.

A tormenta de areia se aproximava, acompanhada de brisas quentes. O vento levantava grãos de areia e fragmentos de rocha, jogava-os contra seu rosto como dardos diminutos.

Rajadas de vento assobiavam ao redor do corpo do verme. Era como se o fantasma da besta estivesse desafiando-o, empurrasse-o para diante. A especiaria corria nas veias de Selim.

Aproximou-se das fauces do verme e esquadrinhou o infinito negrume de sua boca. Os fogos internos estavam apagados. Não havia nenhuma brasa.

- Eu o matei, velha larva - gritou de novo. - Sou o assassino de vermes.

O verme não respondeu nem mesmo a esta provocação.

Selim contemplou as presas semelhantes a adagas que flanqueavam a boca fedorenta, Dava a impressão de que Budalá lhe estava animando a continuar, ou talvez fosse seu próprio desejo. Sem fazer caso do sentido comum, Selim subiu ao lábio inferior do verme e agarrou o dente mais próximo.

O jovem exilado o segurou com ambas as mãos e sentiu sua dureza, um material ainda mais forte que o metal. Retorceu-o e moveu de um lado a outro. O corpo do animal era brando, como se as malhas da garganta estivessem se desmoronando. Selim arrancou a presa com um sonoro grunhido. Era tão largo como seu antebraço, curvo, de um branco puro. Seria uma faca excelente.

Retrocedeu sem soltar sua bota de cano longo, aterrorizado pela enormidade do que tinha feito. Um ato sem precedentes, pelo que ele sabia. Quem mais haveria corrido o risco, no solo de montar Shaitan, ou ainda de entrar nas suas fauces? Um pavoroso tremor sacudiu seu corpo. Não acreditava na sua proeza. Nenhuma outra pessoa de Arrakis possuía um tesouro semelhante àquele dente.

Embora as outras presas cristalinas estivessem penduradas como estalactites, aos centos, que poderia vender no espaçoporto de Arrakis City (se algum dia conseguisse retornar), sentiu uma debilidade repentina. O efeito da melange começava a desvanecer-se.

Baixou à areia. Tinha a tormenta quase em cima, o que lhe recordou seu treinamento para sobreviver no deserto. Devia voltar para as rochas e encontrar algum refúgio, ou do contrário estaria morto sobre as dunas, vítima dos elementos.

Mas já não acreditava que isso fosse lhe acontecer. Agora tenho um destino, uma missão de Budalá, se consigo captar seu significado....

Correu para a linha de rochas, com a presa nas mãos. O vento lhe empurrava para frente, como ansioso por afastá-lo da carcaça.

 

Os humanos tentaram desenvolver máquinas inteligentes como sistemas reflexos secundários, e deixaram em mãos dos servos mecânicos as decisões principais. Pouco a pouco, os criadores ficaram com pouca coisa que fazer. Começaram a sentir-se alienados, desumanizados e inclusive manipulados. Por fim, os humanos se transformaram em pouco mais que robôs incapazes de decidir, sem a menor compreensão de sua existência natural.

TLALOC, As debilidades do Império

 

Agamenon não sentia o menor desejo de ver Omnius. Como já tinha vivido mais de mil anos, o general cimek tinha aprendido a ser paciente.

Tão paciente como uma máquina.

Depois da entrevista secreta nas cercanias da anã vermelha, ele e os outros titãs tinham chegado a Corrin depois de uma viagem interestelar de quase dois meses. A frota robô havia atracado com alguns dias de antecedência, e entregado as imagens da batalha captadas pelos olhos espiões. A supermente já estava inteirada da derrota. O único que podia fazer Omnius era distribuir reprimendas e recriminações, em especial a Agamenon, que estava no comando.

Quando posou sua nave sob o gigantesco sol de Corrin, o general cimek estendeu sua rede de sensores e recebeu dados. Omnius estaria esperando, como sempre depois de uma missão.

Talvez a supermente já tivesse aceitado o fracasso.

Uma falsa esperança, como bem sabia Agamenon. O computador não reagia como os humanos.

Antes de sair da nave, o titã escolheu um corpo móvel eficaz, pouco mais que um carro aerodinâmico que transportava seu contêiner cerebral e os sistemas de manutenção vital conectados a armação. O general deslizou sobre as avenidas pavimentadas sob o enorme olho do gigante vermelho. Uma luz púrpura intensa banhava as ruas ladrilhadas e as fachadas brancas.

Milênios antes, a estrela se expandiu, até alcançar tal tamanho que suas capas exteriores tinham engolido os planetas interiores do sistema. Corrin tinha sido um planeta gelado, mas o calor do gigante inchado tinha transformado o planeta em habitável.

 

Depois que a atmosfera esquentasse e os mares evaporassem, a paisagem do Corrin se transformou em uma rocha nua, sobre a qual o Império Antigo estabeleceu uma colônia durante seus anos mais jovens e ambiciosos. Quase todo o ecossistema tinha sido transplantado de outras partes, mas mesmo depois de milhares de anos Corrin parecia um planeta inacabado, pois carecia de muitos detalhes ecológicos necessários para um planeta que fervia de vida. Omnius e seu robô independente, Erasmo, gostavam do planeta, porque parecia novo, sem estar aflito pelo peso da história.

Agamenon avançou pelas ruas, seguido por olhos espiões que lhe vigiavam como cães guardiães eletrônicos. Graças aos monitores e alto-falantes espalhados por toda a cidade, a supermente teria podido conversar com ele em qualquer lugar de Corrin. Não obstante, Omnius insistia em receber o general cimek em um luxuoso pavilhão central construído por escravos humanos. Esta peregrinação de contrição fazia parte da penitência de Agamenon pelo fracasso de Salusa. O potente computador compreendia bem o conceito de dominação.

Os eletrolíquidos que rodeavam seu cérebro se tingiram de azul quando Agamenon preparou sua defesa contra um rigoroso interrogatório. Seu corpo móvel passou sob altas arcadas sustentadas por colunas de metal branco. O robô Erasmo, um poderoso excêntrico, havia copiado ostentosos adornos de gravações históricas de impérios humanos. A intenção do aterrador portal era que os visitantes tremessem, embora o titã duvidasse que Omnius se preocupasse com tais coisas.

O general se deteve no centro de um pátio onde caía água de diversas fontes mediante ocos existentes nos muros. Pardais domesticados revoavam ao redor dos beirais e se aninhavam sobre as colunas. No interior de vasos de terracota, lírios escarlate estalavam em violentas explosões de pétalas.

- Acabei de chegar, lorde Omnius - anunciou Agamenon por meio do sintetizador de voz. Uma mera formalidade, já que não tinham deixado de lhe observar desde que saíra da nave. Esperou.

Não se via em nenhuma parte a cara refletiva de Erasmo. Omnius queria repreender seu general sem o curioso escrutínio do independente e irritante robô. Embora Erasmo se gabasse de compreender as emoções humanas, Agamenon duvidava que o excêntrico robô demonstrasse a menor compaixão.

A voz ressonou de uma dúzia de alto-falantes fixos às paredes, como uma deidade colérica. Não cabia dúvida de que o efeito era intencionado.

- Você e seus cimeks fracassaram, general.

Agamenon já sabia como se desenvolveria a discussão, assim como Omnius. Estava seguro de que a supermente havia realizado simulacros. Entretanto, tinha que seguir a corrente.

- Combatemos com denodo, mas não pudemos alcançar a vitória, lorde Omnius. Os hrethgir opuseram uma resistência encarniçada, e preferiram sacrificar sua cidade que os geradores de escudo. Como já disse muitas vezes, os humanos selvagens são perigosamente imprevisíveis.

Omnius replicou sem vacilar.

- Insistiu muitas vezes que os cimeks são muito superiores aos insetos humanos, pois combinam as melhores características da máquina e do homem. Como é possível, pois, que fossem rechaçados por seres tão incivilizados e inexperientes?

- Neste caso, equivoquei-me. Os humanos perceberam qual era nosso verdadeiro objetivo antes do que eu supunha.

- Vocês não combateram com suficiente arrojo.

- Seis neocimeks foram destruídos. O corpo de gladiador do titã Xerxes foi aniquilado, e este escapou com muita dificuldade em um módulo.

- Sim, mas o resto de seus cimeks sobreviveram. Uma simples perda de vinte e um por cento não confirma suas palavras.

Os pardais voavam pelo pátio, ignorantes da tensão suscitada entre Omnius e seu oficial de maior patente.

- Deveria ter sacrificado todos seus cimeks para destruir os escudos decodificadores.

Agamenon se alegrou de não poder compor expressões humanas, que a mente eletrônica poderia interpretar.

- Lorde Omnius, os cimeks são indivíduos insubstituíveis, ao contrário de vocês máquinas pensantes robóticas. Em minha opinião, correr o perigo de perder seus titãs mais vitais não valia a pena, em troca de um insignificante planeta infestado de humanos selvagens.

- Insignificante? Antes da missão, você insistiu na extrema importância de Salusa Secundus para a Liga de Nobres. Afirmou que sua conquista precipitaria a ruína da humanidade livre. Você estava no comando.

- Mas vale a pena acabar com a liga em troca da destruição de seus titãs restantes? Nós os criamos, estabelecemos os alicerces de seus Planetas Sincronizados. Os titãs deveriam ser utilizados para algo mais que carne de canhão.

Agamenon sentia curiosidade pela resposta da supermente a seu raciocínios.

Talvez se enviasse os titãs a uma morte certa, Omnius poderia burlar as restrições da programação de Barba Azul.

- Deixe que reflita sobre isso - disse Omnius. As telas das paredes do pavilhão projetaram imagens da batalha da Zimia. - Os hrethgir são mais preparados do que imagina. Compreenderam qual era seu objetivo. Cometeu um engano ao supor que vocês cimeks destruiriam suas defesas com facilidade.

- Errei meus cálculos - admitiu Agamenon. - Os humanos contam com um chefe militar inteligente. Suas inesperadas decisões lhes permitiram defender-se com êxito. Agora, ao menos, provamos seus escudos decodificadores.

As explicações de Agamenon não demoraram para degenerar em uma sucessão de racionalizações e desculpas. Omnius as analisou e desprezou, de maneira que o titã se sentiu despido e humilhado.

No plácido pátio, as flores de brilhantes cores se abriam e os pássaros cantavam. As fontes contribuíam a trilha sonora para a cena... e Agamenon continha sua raiva. Nem sequer seu sensível corpo mecânico mostrava a menor agitação. Um milênio antes, ele e os outros titãs tinham controlado estas malditas máquinas pensantes. Nós os criamos, Omnius. Um dia, também os destruiremos.

Embora o visionário Tlaloc e seu grupo de rebeldes não tinham demorado mais de uns poucos anos para conquistar o adormecido Império Antigo, Omnius e suas máquinas pensantes tinham demonstrado ser um adversário muito superior, que nunca dormia, sempre vigilante.

Mas até as máquinas cometiam enganos. Agamenon só precisava se aproveitar deles.

- Algo mais, lorde Omnius? - interrompeu. Mais discussões e desculpas não serviriam de nada. As máquinas procuravam a eficácia acima de tudo.

- Somente minhas instruções, Agamenon. - A voz de Omnius se movia de alto-falante em alto-falante, para dar a impressão de que estava em todas partes de uma vez. – Envio você e seus titãs de volta a Terra. Acompanharão Erasmo, que pretende continuar seus estudos com os cativos humanos.

- Como ordenar, lorde Omnius. Mesmo surpreso, Agamenon não demonstrou. A Terra... Uma viagem muita longa. - Encontraremos outras formas de destruir esta praga de humanos. Os titãs só existem para servi-lo.

Era uma das poucas vantagens da faceta humana de Agamenon: embora a supermente estivesse carregada com uma imensa quantidade de dados, Omnius era incapaz de reconhecer uma simples mentira.

 

De certa perspectiva, a defesa e a ofensiva se nutrem de táticas quase idênticas.

XAVIER HARKONEN, discurso à tropa salusana

 

Novos deveres, novas responsabilidades... e mais despedidas.

Um Xavier Harkonnen quase totalmente recuperado se encontrava com Serena Butler no interior do espaçoporto de Zimia, que se apresentava muito esterilizado, com seus chãos de plaz. Nem sequer a expressão cálida de Serena compensava a frieza do edifício. As cristaleiras davam ao pavimento onde separavam e aterrissavam lançadeiras a cada poucos minutos, em viagens de ida e volta as naves que aguardavam em órbita.

Em uma asa do espaçoporto, equipes de trabalhadores escoravam seções de um hangar prejudicado durante o ataque cimek. Grandes gruas alçavam paredes provisórias.

Xavier, embelezado com um impecável uniforme dourado e negro da Armada, insígnia de sua nova patente, esquadrinhou os olhos lavanda de Serena. Sabia como ela o via. Seus traços faciais não eram nada incomuns (tez corada, nariz bicudo, lábios grossos), mas em conjunto o considerava atraente, sobretudo pelos olhos castanho claro e seu contagioso sorriso, que se prodigalizava muito pouco.

- Oxalá pudéssemos passar mais tempo juntos, Xavier.

A jovem acariciou uma rosa branca que adornava sua lapela. O estrondo de maquinaria, operários e outros operários os rodeava.

Xavier reparou em que Octa, a irmã menor de Serena, estava observando-os. Uma jovem de dezessete anos e longos cabelos loiros, sempre tinha tido um fraco por Xavier. A esbelta Octa era una garota muito agradável, mas nos últimos tempos Xavier desejava que lhes concedesse um pouco mais de intimidade, sobretudo agora que estariam separados durante tanto tempo.

- Eu também desejo isso. Vamos aproveitar estes minutos que nos restam.

Rendeu-se ao desejo que ambos experimentavam e se inclinou para beijá-la, como se uma força magnética atraísse seus lábios. O beijo se prolongou, cada vez mais intenso. Por fim, Xavier se endireitou. Serena pareceu decepcionada, mais pela situação que por ele. Ambos tinham importantes responsabilidades, que exigiam seu tempo e energia.

 

Recém promovido, Xavier ia embarcar com um grupo de especialistas militares em um viagem de inspeção pelas defesas planetárias da liga. Depois do ataque cimek contra Salusa Secundus dois meses antes, comprovaria que não existissem pontos fracos em outros planetas da liga. As máquinas pensantes aproveitariam o defeito mais ínfimo, e os humanos livres não podiam permitir o luxo de perder nenhum de seus lugares fortes.

Nesse ínterim, Serena Butler se concentraria em expandir o domínio da liga. Depois que os médicos tivessem empregado com êxito os órgãos proporcionados pelo Tuk Keedair,

Serena tinha falado com paixão sobre os serviços e recursos que os Planetas Não Aliados, como Tlulaxa, podiam facilitar. Queria que se somassem oficialmente à união de humanos livres.

Mais mercadores de carne tinham chegado a Salusa com seus produtos biológicos. Antes, muitos nobres e cidadãos da liga tinham receado os misteriosos forasteiros, mas agora que os feridos confrontavam terríveis perdas de órgãos e membros, aceitavam de bom grau os substitutos clonados. Os tlulaxa nunca tinham explicado de onde obtinham uma tecnologia biológica tão sofisticada, porém Serena anunciava sua generosidade e recursos.

Em qualquer outro momento, seu discurso no Parlamento teria sido descartado, mas o ataque cimek tinha demonstrado a vulnerabilidade dos Planetas Não Aliados. E se as máquinas decidiam na próxima vez aniquilar o sistema do Thalim, eliminando assim a capacidade dos tlulaxa para devolver a vista a veteranos cegos, e proporcionar novos membros aos entrevados?

Tinha examinada centenas de documentos de inteligência e relatórios diplomáticos, com a intenção de decidir qual dos Planetas Não Aliados era o melhor candidato para somar-se a a irmandade da liga. Unificar os restos da humanidade se transformou em sua paixão, dotar de força suficiente às pessoas livre para rechaçar qualquer agressão das máquinas.

Apesar da sua juventude, já tinha liderado com êxito duas missões de auxílio, a primeira quando só tinha dezessete anos. Em uma delas, tinha levado comida e medicamentos aos refugiados de um planeta sincronizado abandonado, e na outra havia prestado ajuda para vencer uma praga biológica que quase destruiu as granjas do Poritrin.

Nem ela nem Xavier tinham tempo para eles.

- Quando voltar, prometo que o compensarei - disse Serena, com olhos cintilantes. - Vou oferecer um banquete de beijos.

Xavier se permitiu uma de suas escassas gargalhadas.

- Nesse caso, procurarei chegar muito faminto. - Agarrou sua mão e a beijou. - Quando comermos juntos, irei com flores.

Sabia que seu próximo encontro estava a meses de distancia.

Dedicou-lhe um sorriso cálido.

- Gosto muito de flores.

Xavier estava a ponto de abraçar Serena, quando um menino de pele morena os interrompeu: Vergyl Tantor, de oito anos, o irmão do Xavier. Tinham-lhe deixado sair do colégio para se despedir dele. Vergyl se soltou de seu professor e correu para abraçar seu ídolo.

Afundou o rosto na camisa do uniforme.

- Cuide da propriedade durante minha ausência, irmãozinho - disse Xavier, enquanto passava os dedos sobre o cabelo encaracolado do menino. – Você é responsável por de cuidar de meus galgos, compreendido?

Os olhos do menino se abriram de par em par, e assentiu com seriedade.

- Sim.

- E obedeça a seus pais, do contrário não chegará a ser um bom oficial da Armada.

- Farei isso!

Pelos alto-falantes indicaram à equipe de inspeção que se dirigisse à lançadeira. Xavier prometeu que traria algo para Vergyl, Octa e Serena. Enquanto Octa o olhava de longe, com um sorriso esperançoso, abraçou de novo seu irmão pequeno, apertou a mano de Serena e afastou-se com os oficiais e engenheiros.

Serena olhou para o menino e pensou em Xavier Harkonnen. Xavier só tinha seis anos quando as máquinas pensantes tinham matado seus pais naturais e a seu irmão mais velho.

Graças a acordos interfamiliares e ao testamento de Ulf e Katarina Harkonnen, o pequeno Xavier tinha sido criado como filho adotivo dos poderosos Emil e Lucille Tantor, que então não tinham filhos. O nobre casal já tinha tomado medidas para que seus bens fossem administrados por parentes de Tantor, primos e sobrinhos longínquos que não teriam herdado nada em circunstâncias normais. Mas quando Emil Tantor começou a educar Xavier, se apegou ao orfãozinho e o adotou legalmente, embora Xavier conservasse o sobrenome Harkonnen e todos seus direitos de nobreza associados.

Depois da adoção, e de maneira inesperada, Lucille Tantor concebeu um filho, Vergyl, doze anos mais jovem que Xavier. O herdeiro Harkonnen, que não se preocupava com a política dinástica, concentrou-se em um curso de estudos militares, com a intenção de ingressar na Armada da Liga. Com a idade de dezoito anos, recebeu o título legal das propriedades Harkonnen, e um ano depois se transformou em oficial da tropa salusiana. devido a seu comportamento impecável e sua rápida ascensão, todos perceberam que Xavier chegaria muito longe.

Três pessoas que lhe queriam o viram ascender a lançadeira em que viajaria. Vergyl agarrou a mão de Serena com a intenção de consolá-la.

- Xavier voltará são e salvo. Pode confiar nele.

Serena experimentou uma pontada de dor, mas sorriu para o menino.

- Claro que sim.

Não havia outro remédio. O amor era uma das coisas que diferenciavam aos humanos das máquinas.

 

A resposta é um espelho da pergunta.

PENSADORA KWYNA,

Arquivos da Cidade da Introspecção

 

A sala de reuniões temporária dos delegados da liga tinha sido em um princípio o lar do primeiro vice-rei, Bovko Manresa. Antes que os titãs se apoderassem do débil Império Antigo, Manresa tinha construído a mansão no então isolado Salusa Secundus, como uma forma de celebrar a riqueza que lhe proporcionavam suas terras. Mais tarde, quando começaram a chegar refugiados humanos, expulsos pelo cruel governo dos Vinte Titãs, a casa se tinha convertido em sala de reuniões, com cadeiras e um suporte de livro dispostos na majestosa sala de baile, assim como hoje.

Meses antes, depois de poucas horas do ataque cimek, o vice-rei Butler parou sobre uma pilha de escombros, sob a cúpula central destroçada do Parlamento. Enquanto o pó venenoso se assentava sobre as ruas e ainda prosseguiam os incêndios nos edifícios danificados, tinha jurado reparar o venerável edifício que tinha servido à liga durante séculos.

O edifício governamental era algo mais que um edifício. Era um terreno sagrado onde líderes legendários tinham debatido grandes idéias e forjado planos contra as máquinas. Os danos sofridos no teto e nas plantas superiores eram graves, mas a estrutura básica continuava intacta. Igual ao espírito humano que representava.

A manhã era muito fria, e a névoa obscurecia as janelas. As folhas das colinas haviam começado a tingir-se de outono, com tons amarelo, laranja e castanho. Serena e os representantes entraram na sala de reuniões provisória sem desprender-se de seus casacos.

A jovem contemplou as paredes da abarrotada sala de baile, os retratos de líderes mortos muito tempo atrás e quadros que imortalizavam vitórias antigas. Perguntou-se o que traria o futuro, e qual seria seu papel. Ardia em desejos de fazer algo, de colaborar na grande cruzada da humanidade.

Quase toda sua vida tinha sido uma ativista, sempre com o desejo de participar, de ajudar as vítimas de outras tragédias, como catástrofes naturais ou ataques das máquinas. Inclusive em épocas plácidas, tinha trabalhado nos vinhedos e olivais da família na época da colheita.

Sentou na primeira fila, e depois viu que seu pai atravessava a sala em direção ao suporte de livro. Um monge coberto com uma túnica de veludo vermelho, carregado com um contêiner de plexiplaz que guardava um cérebro humano vivo, submerso em um eletrolíquido viscoso, o seguia. O monge depositou com devoção o contêiner sobre uma mesa situada junto ao suporte de livro, e depois permaneceu imóvel a seu lado.

Serena viu que a malha cinza rosado ondulava levemente no interior do líquido azul claro. Isolado dos sentidos e distrações do mundo físico durante mais de um milênio, e estimulado pela contemplação constante, o cérebro da pensadora tinha crescido com o tempo.

- A pensadora Kwyna não abandona com freqüência a Cidade da Introspecção - disse o vice-rei Butler, em tom sério e exaltado ao mesmo tempo. - Mas nestes momentos necessitamos das melhores idéias e conselhos. Se alguma mente for capaz de compreender as máquinas pensantes, será Kwyna.

Via-se em tão poucas ocasiões estes filósofos esotéricos imateriais, que muitos representantes da liga não entendiam como conseguiam comunicar-se. Para aumentar o mistério que lhes rodeava, os pensadores não diziam grande coisa, pois preferiam reservar suas energias e contribuir somente com as idéias mais importantes.

- O subordinado da pensadora falará por Kwyna - disse o vice-rei, - mo caso de que possa nos oferecer alguma idéia.

O monge tirou a tampa do contêiner e deixou a descoberto o líquido viscoso. Piscou várias vezes e esquadrinhou o depósito. Pouco a pouco, o monge introduziu uma mão no interior da sopa. Fechou os olhos, respirou fundo e tocou com cuidado o cérebro. Sua fronte se enrugou de concentração quando o eletrolíquido empapou seus poros, conectando a pensadora com o sistema neural do subordinado, utilizando-o como uma extensão assim como os cimeks utilizavam corpos mecânicos artificiais.

- Não entendo nada disse o monge com voz estranha e distante. - Serena sabia que era o princípio básico que adotavam os pensadores, e os cérebros contemplativos passavam séculos abismados em seus estudos.

Séculos antes dos primeiros titãs, um grupo de humanos espirituais haviam gostado de estudar filosofia e discutir temas esotéricos, mas muitas debilidades e tentações da carne inibiram sua capacidade de concentração. No tédio do Império Antigo, estes eruditos metafísicos tinham sido os primeiros a instalar seus cérebros em sistemas de manutenção vital. Liberados de limitações biológicas, dedicavam todo seu tempo a aprender e pensar. Cada pensador queria estudar toda a filosofia humana, com o fim de reunir os ingredientes necessários para a compreensão do universo. Viviam em suas torres de marfim e meditavam, e raras vezes se molestavam em reparar nas relações superficiais e acontecimentos do mundo exterior.

Kwyna, a pensadora de dois mil anos que residia na Cidade da Introspecção de Salusa, afirmava ser politicamente neutro.

- Estou preparada para interagir - anunciou por meio do monge, que olhava com olhos frágeis os congregados. - Podem começar.

O vice-rei Butler passeou a vista pela sala, e seu olhar posou em diversos rostos, incluído o de sua filha.

- Meus amigos, sempre vivemos sob a ameaça da aniquilação, e agora devo pedir que dediquem vosso tempo, energia e dinheiro a nossa causa.

Rendeu tributo às dezenas de milhares de salusianos que tinham morrido durante o ataque cimek, junto com cinqüenta e um dignitários visitantes.

- A milícia salusiana continua em alerta máxima, e temos enviado naves a todos os planetas da liga para lhes avisar do perigo. Nossa única esperança reside em que outros planetas não sejam atacados.

Continuando, o vice-rei chamou o Tio Holtzman, que acabava de chegar depois de quase um mês de viagem desde seus laboratórios de Poritrin.

- Sábio Holtzman, estamos ansiosos por escutar sua análise das novas defesas.

Holtzman ardia de desejo de inspecionar seus escudos decodificadores, para ver como tinham sido modificados e melhorados. Em Poritrin, o nobre Niko Bludd financiava as investigações do sábio. Devido a seus lucros anteriores, os membros da liga sempre mantinham a esperança de que Holtzman tiraria outro milagre da manga.

Holtzman, de corpo pequeno, vestido com objetos elegantes, movia-se com graça e um grande domínio da situação. O cabelo cinza que caia até seus ombros emoldurava um rosto enxuto. Era um homem muito seguro de si mesmo e egocêntrico, e que se encantava em falar a importantes dignitários do Parlamento, porém neste momento parecia preocupado, coisa estranha nele. Na verdade, custava ao inventor admitir um equívoco. Não cabia dúvida de que seu campo decodificador havia falhado. Os cimeks o haviam transpassado! O que ia dizer a esta gente que tinha acreditado nele?

Quando subiu ao estrado, o homem pigarreou e passeou a vista a seu redor, contemplou a pensadora e o monge que a acompanhava. Era um assunto muito delicado. Como podia se esquivar de sua culpabilidade?

O cientista utilizou sua melhor voz.

- Em uma guerra, quando um bando consegue um avanço tecnológico, o outro tenta superá-lo. Recentemente o experimentamos com meus campos decodificadores atmosféricos. Se não tivessem sido instalados, a frota de máquinas pensantes teria arrasado Salusa. Por desgraça, não levei em conta as capacidades únicas dos cimeks. Descobriram uma falha na blindagem e a aproveitaram.

Ninguém tinha o acusado de nada, mas era o mais próximo da admissão de um engano que Holtzman podia tolerar.

- Precisamos agora superar às máquinas com uma nova idéia. Espero que esta tragédia me inspire, que impulsione minha inspiração até seu limite. - Deu a impressão de que se sentia envergonhado, inclusive constrangido. - Trabalharei nisso assim que retorne a Poritrin. Espero lhes dar uma surpresa o quanto antes possível.

Uma mulher de elevada estatura deslizou para o suporte de livro, atraindo a atenção de todos.

- Talvez possa lhes sugerir algo.

Tinha as sobrancelhas claras e o cabelo branco, assim como uma pele luminosa que lhe conferia uma qualidade etérea, porém impregnada de poder.

- Ouçamos as mulheres de Rossak. Seja bem-vinda Zufa Cenva.

Holtzman, com expressão de alívio, voltou depressa para seu assento e desabou nele.

A mulher tinha um aspecto misterioso. Jóias cintilantes adornavam seu vestido negro e transparente, que revelava a perfeição de seu corpo. Zufa Cenva se deteve em frente ao contêiner do cérebro da pensadora e esquadrinhou seu interior. Sua frente se enrugou ao concentrar-se, e deu a impressão de que o cérebro vibrava. O eletrolíquido redemoinhou, e se formaram borbulhas.

Alarmado, o devoto monge retirou sua mão do líquido.

A mulher relaxou, satisfeita, e subiu ao estrado.

- Devido às peculiaridades de nosso meio, muitas fêmeas nascidas em Rossak gozam de capacidades telepáticas.

As poderosas feiticeiras das selvas apenas habitáveis tinham aproveitado seus poderes mentais para influenciar na política. Os homens de Rossak careciam de tal disposição.

- A Liga de Nobres se formou faz mil anos para contribuir com nossa defesa mútua, primeiro contra os titãs e depois contra Omnius. Após, tentarmos proteger nossos planetas do inimigo. - Os olhos da mulher cintilaram como pedras polidas. - Temos que mudar nossa estratégia. Possivelmente chegou o momento de que atacar aos Planetas Sincronizados. Do contrário, Omnius e seus lacaios nunca nos deixarão viver em paz.

Os representantes da liga murmuraram entre si, com aspecto atemorizado, sobretudo depois da destruição da Zimia. O vice-rei foi o primeiro a contestar.

- Isso é um pouco prematuro, madame Cenva. Não estou seguro de que sejamos capazes.

- Logo que sobrevivemos ao último ataque! - Gritou um homem. - E só enfrentamos um punhado de cimeks.

Manion Butler parecia muito preocupado.

- Atacar Omnius seria uma missão suicida. Que armas utilizaríamos?

Em resposta, a impressionante mulher ergueu os ombros e estendeu as mãos, ao mesmo tempo em que fechava os olhos e se concentrava. Embora todos soubessem que Zufa possuía poderes extra-sensoriais, nunca os tinha exibido ante o Parlamento. Parecia que uma luz interior iluminava sua pele leitosa. A atmosfera da sala se agitou, e a eletricidade estática arrepiou os pelos dos congregados.

Cintilaram relâmpagos nas gemas de seus dedos, como se estivesse contendo uma tormenta em seu interior. Seus cabelos se retorceram como serpentes. Quando Zufa voltou a abrir os olhos, pareciam transbordantes de energia, como se o universo habitasse atrás de suas pupilas.

Os delegados lançaram exclamações afogadas. Serena sentiu a pele arrepiada, como se milhares de aranhas venenosas rastejassem sobre sua mente. A pensadora Kwyna se removeu em seu contêiner.

Então, Zufa relaxou, reprimiu a reação em cadeia de sua energia mental. A feiticeira exalou um longo suspiro e dedicou um sorriso sombrio aos espectadores.

- Temos uma arma.

 

Os olhos da percepção normal não possuem um grande alcance. Com excessiva freqüência, tomamos as decisões mais importantes nos apoiando em informação superficial.

NORMATIZA CENVA, cadernos de laboratório inéditos

 

Depois de pronunciar seu discurso ante a assembléia da Liga de Nobres, Zufa Cenva retornou a Rossak. depois de várias semanas de travessia, sua lançadeira pousou sobre um espesso setor do dossel selvagem que havia sido pavimentado com um polímero para transformar ramos e folhas em uma massa sólida. Com o fim de que as árvores recebessem a umidade e a troca de gases necessários, o polímero era poroso, sintetizado a partir de elementos químicos e orgânicos da selva.

Os oceanos tóxicos faziam que o plancton, kelp e animais arinhos de Rossak fossem venenosos para os humanos. Rachaduras de lava cobriam a maior parte da superfície terrestre do planeta, semeada de gêiseres e lagos de enxofre. Como a química botânica não dependia da clorofila, a cor primitiva de todas as plantas era de um púrpura prateado. Não havia nada fresco e verde.

Na zona tectonicamente estável que circundava o Equador, grandes fendas da placa continental criavam amplos vales onde a água se filtrava e o ar era respirável. Nestes ecossistemas protegidos, os colonos humanos tinham construído sofisticadas cidades caverna, como colméias construídas nos penhascos negros. Nas escarpadas paredes externas cresciam trepadeiras, samambaias e musgo. Aposentos confortáveis dominavam um espesso dossel selvagem que se apertava contra os penhascos. A população podia sair sem problemas aos ramos superiores e descer a a espessa vegetação, onde se cultivavam produtos alimentícios.

Para compensar a falta de vida no resto de Rossak, os vales fervilhavam de formas de vida agressivas: cogumelos, liquens, bagos, flores, parasitas similares a orquídeas e insetos.

Os homens de Rossak, que careciam das capacidades telepáticas de suas mulheres, haviam dedicado seu talento ao desenvolvimento e extração de drogas, produtos farmacêuticos e venenos ocasionais da despensa natural. Todo o planeta era como uma caixa da Pandora apenas entreaberta...

A alta feiticeira viu que seu amante Aurelius Venport, muito mais jovem que ela, cruzava uma ponte suspensa que comunicava os penhascos com as copas das árvores. Suas feições aristocráticas eram belas, o cabelo escuro e encaracolado, o rosto comprido e enxuto. Seguia-lhe, sobre suas pernas rechonchudas, a decepcionante filha de quinze anos de Zufa, fruto de uma relação anterior.

- Dos inadaptados. Não me estranha que se entendam tão bem.

Antes de seduzir Aurelius Venport, a feiticeira tinha mantido relações conjugais com outros quatro homens durante sua época mais fecunda, selecionados por sua linhagem.

Depois de gerações de investigação, desventurados abortos e brotos defeituosos, as mulheres de Rossak tinham recolhido detalhados índices genéticos de diversas famílias. Por culpa das numerosas toxinas e teratógenos ambientais, as possibilidades de que nascessem meninos sãos e fortes eram mínimas, mas para cada monstro ou varão carente de todo talento, podia aparecer uma milagrosa feiticeira de pele clara. Cada vez que uma mulher concebia um filho, era como jogar à roleta. A genética nunca fora uma ciência exata.

Mas Zufa tinha analisado com supremo cuidado cada linhagem. Apenas uma de suas relações conjugais tinha gerado fruto: Norma, uma anã de apenas um metro e vinte de estatura, de traços irregulares, cabelo castanho opaco e caráter aborrecido, além de ser um rato de biblioteca.

Muitos meninos do Rossak nasciam com corpos defeituosos, e inclusive os sãos de aparência poucas vezes exibiam os poderes mentais das feiticeiras. Não obstante, Zufa experimentava uma profunda decepção, e inclusive vergonha, pelo fato de que sua filha não possuísse capacidades telepáticas. A feiticeira viva mais poderosa teria que ter irradiado suas aptidões mentais superiores, e ardia em desejos de que sua filha se somasse à guerra contra as máquinas, mas Norma não dava amostras de ter herdado seu talento.

Além disso, face aos impecáveis créditos genéticos de Aurelius Venport, Zufa nunca havia podido coroar com êxito outra gravidez.

Quantas vezes mais tenho que tentar, antes de lhe substituir por outra semente? Mais uma, decidiu.

Tentaria ficar grávida no curso dos próximos meses. Seria a última chance de Venport.

Zufa também estava decepcionada pela independência e caráter desafiante de Norma. Muito freqüentemente, a adolescente se concentrava em complicados problemas matemáticos que ninguém podia compreender. Norma parecia perdida em seu próprio mundo.

Minha filha, teria que ter sido muito mais brilhante!

Ninguém carregava com o peso de mais responsabilidades que o pequeno clã de feiticeiras do planeta, e a carga da Zufa era a mais pesada de todas. Oxalá pudesse confiar em todos os demais, sobretudo tendo em conta o perigo que representavam os cimeks.

Como a diminuída Norma nunca poderia participar de uma batalha mental, Zufa tinha que concentrar-se em suas irmãs espirituais, aquelas jovens que tinham ganho a “loteria genética” e conseguido capacidades mentais superiores. Zufa as adestraria e incentivaria, ensinaria a destruir ao inimigo.

Viu que Aurelius e a jovem Norma chegavam ao outro lado da ponte e começavam a descer pela complicada rede de escadas que baixavam até o chão. Como dois desterrados satisfeitos, Norma e Aurelius tinham simpatizado, e se utilizavam mutuamente como muletas.

Imersos em suas respectivas preocupações, que nada tinham com a vitória, nenhum deles tinha reparado que Zufa tinha retornado na lançadeira. Sem dúvida, os dois inadaptados passavam horas abrindo-se caminho entre a folhagem em busca de drogas novas, que Aurelius incorporava a seus negócios.

A feiticeira meneou a cabeça, sem compreender suas prioridades. Aquelas drogas que os homens desenvolviam serviam de pouco mais que a misteriosa matemática de Norma. Sim, Aurelius era um homem de negócios perito e inteligente, mas do que servia obter enormes benefícios se a humanidade livre estava condenada a escravidão?

Decepcionada com os dois, consciente de que suas feiticeiras e ela teriam que liberar a verdadeira batalha, Zufa se foi em busca das jovens mais poderosas que tinha recrutado para lhes ensinar a devastadora nova técnica que tinha criado para combater os cimeks.

 

Enquanto Norma lhe seguia através da vegetação, Aurelius consumia cápsulas de um estimulante que seus químicos haviam sintetizado a partir dos feromônios de um escaravelho do tamanho de uma pedra bruta. Venport se sentia mais forte, com a percepção aumentada e os reflexos potencializados.

Não equivalia aos poderes telepáticos da frígida Zufa, mas era melhor que seus capacidades naturais.

Algum dia daria um salto de gigante, e ficaria à altura da poderosa feiticeira. Talvez Norma e ele conseguissem juntos.

Aurelius conservava seu afeto pela severa mãe da menina. Tolerava de bom grado a atitude desdenhosa de Zufa. As mulheres de Rossak se permitiam em muito estranhas ocasiões o luxo do amor romântico.

Embora Aurelius soubesse muito bem que Zufa o tinha escolhido por seu potencial reprodutor, a conhecia melhor do que ela supunha. Treinada em ocultar suas debilidades, a poderosa feiticeira revelava suas dúvidas em ocasiões, temerosa de não estar à altura das responsabilidades que assumira. Uma vez, quando comentou que conhecia seu empenho de ser forte, Zufa se havia sentido furiosa e envergonhada. “Alguém tem que ser forte”, limitou-se a responder.

Como Aurelius não era telepata, Zufa não se interessava muito em conversar com ele.

Possivelmente reconhecia seu talento como homem de negócios, investidor e político, mas não valorizava estas qualidades quando as comparava com seus limitados objetivos. Com freqüência, a feiticeira tentava que se sentisse um fracassado, porém seus escárnios só serviam para esporear Aurelius em suas ambições, sobretudo em seu desejo de descobrir uma droga que lhe proporcionasse poderes telepáticos equivalentes aos de sua companheira.

Existiam outras formas de liberar uma guerra.

A selva oferecia um sem-fim de possibilidades de curar enfermidades, abrir a memória e melhorar as capacidades humanas. As possibilidades eram infinitas, mas Aurelius se decantou por investigar todas. Graças a técnicas de venda e desenvolvimento apropriadas, os produtos de Rossak já lhe tinham posto no caminho de uma grande riqueza. Um bom número de feiticeiras o respeitava, exceto... sua própria companheira.

Como empresário visionário, estava acostumado a explorar alternativas. Como caminhos que atravessassem uma selva espessa, muitas rotas podiam conduzir ao mesmo lugar. Às vezes, bastava abrir caminho com a ajuda de um machado.

Até o momento, não obstante, a droga correta havia lhe escapado.

Por outro lado, tinha distribuído com orgulho os trabalhos matemáticos de Norma entre os círculos científicos. Embora não compreendesse seus teoremas, intuía que ia descobrir algo importante. Talvez já o tivesse feito, mas só olhos peritos perceberiam. Venport gostava da moça, e se comportava com ela como se fosse um irmão maior.

Em sua opinião, Norma era um prodígio da matemática, de maneira que não lhe importavam sua estatura ou sua aparência. Queria lhe conceder uma oportunidade, embora sua mãe nunca o fizesse.

Norma estudava a seu lado o desenho de uma larga folha púrpura, e utilizava um calibrador de raio estreito para medir suas diversas dimensões e as relações entre os ângulos das veias repletas de seiva. A intensidade de sua concentração dotava suas feições com uma expressão ofegante.

- Esta folha foi desenhada e construída pela mãe terra - disse Norma com voz surpreendentemente amadurecida, enquanto se voltava para olhar para ele, - Deus Criador, Budalá ou como quiser chamá-lo. - Elevou a folha, que atravessou com um raio de luz para pôr em relevo os intrincados desenhos celulares. - Configurações dentro de configurações, tudo unido em complexas relações.

Em seu estado eufórico induzido pelas drogas, Aurelius encontrou o desenho hipnótico.

- Deus está em tudo - disse. Ao parecer, o estimulante que tinha tomado sobrecarregava suas sinapse. Examinou a textura iluminada da folha, enquanto a moça assinalava as formas internas.

- Deus é o matemático do universo. Existe uma antiga correlação conhecida como a seção áurea, uma proporção de forma e estrutura que se encontra nesta folha, nas conchas marinhas e nos seres vivos de muitos planetas. É a parte mais diminuta da chave, conhecida desde a época dos gregos e os egípcios da Terra. Utilizaram-na em sua arquitetura e nas pirâmides, em seu pentagrama pitagórico e na seqüência Fibonacci. - A moça jogou a folha. - Mas há muitas coisas mais.

Venport assentiu e tocou com um dedo umedecido uma bolsa de polvilho negro que pendurava de seu cinturão. Esfregou o pó sobre a malha sensível de sua língua e notou que outra droga penetrava em seus sentidos, até mesclar-se com os restos da anterior. Norma continuou falando. Embora Aurelius não compreendesse seu desenvolvimento lógico, estava seguro de que as revelações eram fabulosas.

- Dê-me um exemplo prático - disse, arrastando as palavras. - Algo com uma função que eu possa compreender.

Acostumou-se a que Norma debulhasse em voz alta formulações obscuras. Podia ser que se apoiasse na geometria clássica, mas aplicava seus conhecimentos de maneiras muito mais complexas.

Posso imaginar cálculos até o infinito - disse Norma, como em transe. - Não preciso escrevê-los.

E nem tão sequer necessita de drogas para obtê-lo, maravilhou-se Aurelius.

- Neste preciso momento, imagino um edifício imenso e utilitário, que poderia ser construído por um custo razoável, de uns dez quilômetros de comprimento, e apoiado na proporção da seção áurea.

- Mas quem necessitaria algo tão imenso?

- Não posso esquadrinhar o futuro, Aurelius - brincou Norma. Depois, entrou na selva, ainda intrigada e entusiasmada pelo que poderia descobrir. Seu rosto brilhava de energia. - Mas poderia haver algo... algo no que ainda não pensei.

 

Os preparativos e defesas mais minuciosos jamais podem garantir a vitória. Entretanto, fazer caso omisso de estas precauções é uma receita quase segura para a derrota.

Manual de estratégia da Armada da Liga

 

Durante quatro meses, o terceiro Xavier Harkonnen e suas seis naves de reconhecimento da Armada viajaram seguindo uma rota predeterminada, detiveram-se para inspecionar e analisar as instalações militares e preparativos defensivos dos planetas da liga.

Depois de muitos anos de conhecer somente algumas poucas escaramuças, ninguém sabia onde Omnius atacaria na próxima vez.

Xavier nunca tinha renegado a difícil decisão que tinha tomado durante o ataque cimek contra Zimia. O vice-rei o tinha elogiado por sua têmpera e determinação. Mesmo assim, Manion Butler havia afastado do planeta ao jovem oficial durante o período de reconstrução, com o fim de conceder tempo aos salusianos de curar suas feridas sem procurar um bode expiatório.

Xavier não quis escutar as desculpas dos nobres avaros que não desejavam contribuir com os recursos necessários. Não terei que reparar em gastos. Qualquer planeta livre que caísse nas garras das máquinas significaria uma perda para toda a raça humana.

As naves de reconhecimento viajaram das minas do Hagal às largas planícies banhadas por rios do Poritrin, e logo se dirigiram a Seneca, onde o clima era detestável e a chuva tão corrosiva que até as máquinas pensantes se oxidariam em pouco tempo de conquista.

Continuando, visitaram os planetas do Relicon, Kirana III, depois Richese, com suas indústrias de alta tecnologia que tanto inquietavam os outros nobres da liga. Em teoria, os sofisticados aparelhos de fabricação não funcionavam com informática ou inteligência artificial, mas sempre havia perguntas, sempre havia dúvidas.

Por fim, a equipe de Xavier atracou em sua última escala, Giedi Prime. A excursão estava a ponto de concluir. Poderia voltar para casa, ver Serena de novo, e assim cumprir as promessas que se faziam…

Todos os outros planetas da liga tinham instalado torres decodificadoras. Conhecidas as debilidades dos escudos aproveitadas pelos cimeks não desvirtuavam por completo a engenhosa obra de Holtzman, e as custosas barreiras ainda proporcionavam um amparo substancial contra os ataques das máquinas pensantes. Além disso, todos os planetas humanos tinham acumulado há muito tempo antes enormes reserva de armas atômicas, em caso de uma defesa desesperada. Com tantas cabeças nucleares, um governador planetário decidido podia converter seu planeta em escória antes que entregá-lo a Omnius.

Embora as máquinas pensantes também tivessem acesso a engenhos atômicos, Omnius havia chegado à conclusão de que este tipo de armas constituíam uma forma ineficaz e pouco seletiva de impor o controle, e a posterior limpeza da radiatividade era difícil. Além disso, com seus recursos ilimitados e uma reserva de paciência inesgotável, a supermente não necessitava de tais armas.

Quando Xavier desembarcou da nave no espaçoporto de Giedi City, piscou por causa do sol intenso. A bem conservada metrópole se estendia ante ele, com seus complexos de moradias, edifícios industriais, parques impolutos e canais. As cores eram brilhantes e vivas, e as flores estalavam em leitos decorativos, embora com seus novos pulmões e tecidos tlulaxa logo podia perceber os aromas mais potentes, inclusive quando respirava fundo.

- Gostaria de vir com Serena algum dia - disse com saudade. Se se casasse com ela, talvez este seria o planeta apropriado para passar sua lua de mel. Durante a excursão de inspeção havia mantido os olhos bem abertos, com a esperança de encontrar um lugar adequado.

Depois de quatro meses no espaço, Xavier sentia falta da Serena terrivelmente. Sabia que pareciam um para o outro. Sua vida seguia um caminho bem definido. Quando voltasse para Salusa, prometeu-se que formalizaria sua relação. Era absurdo esperar mais.

O vice-rei Butler já lhe tratava como um filho, e o jovem oficial tinha recebido a bênção de seu pai adotivo, Emil Tantor. Por isso Xavier sabia, todos os membros da liga opinavam que seria uma estupenda união de duas casas nobres.

Sorriu, enquanto pensava no rosto de Serena, em seus intrigantes olhos lavanda... e então viu que o magno Sumi se aproximava das naves. Acompanhavam o líder eleito por votação democrática uma dúzia de membros da tropa local de Giedi Prime.

O magno era um homem magro de idade amadurecida, pele clara e cabelo loiro cinzento que caía até os ombros. Sumi levantou uma mão.

- Ah, terceiro Harkonnen! Damos as boas-vindas à Armada da Liga, ansiosos por saber como pode Giedi Prime melhorar suas defensas contra as máquinas pensantes.

Xavier lhe dedicou uma breve reverência.

- Sua colaboração me agrada, eminência. Contra Omnius não devemos utilizar materiais baratos nem sistemas defensivos que não protejam como é devido a seu povo.

Depois da batalha da Zimia, o corpo de engenheiros do Xavier tinha exigido melhoras estratégicas em toda a liga. Os nobres arranharam os bolsos, aumentaram os impostos de seus súditos e gastaram o dinheiro necessário em potencializar suas defesas. Em cada escala, planeta atrás de planeta, mês atrás de mês, Xavier tinha atribuído a equipes de engenheiros e tropas da Armada aos lugares mais necessitados.

Mas logo voltaria para casa. Logo. À medida que se aproximava o momento, pensava mais e mais em Serena.

Bem vestida e bem armada, a tropa local ficou firme ao redor das naves de reconhecimento. O magno Sumi indicou com um gesto para que Xavier que o seguisse.

- Desejo esclarecer todos os pontos no curso de um suntuoso banquete, terceiro Harkonnen. Ordenei que preparem doze refinados pratos, com bailarinos, música e nossos melhores poetas. Você e eu poderemos relaxar em minha residência governamental enquanto discutimos os planos. Estou seguro de que chegou cansado de sua viagem. Quanto tempo poderão ficar conosco?

Xavier formou um sorriso tenso, e pensou no longe que se encontrava da Salusa Secundus.

Inclusive depois de partir do Giedi Prime, as naves necessitariam de outro mês de viagem para retornar para casa. Quanto antes partisse daqui, antes voltaria a abraçar a Serena.

- Eminência, esta é a última escala de nosso longo périplo. Se não o incomodar, preferiria dedicar menos tempo a festejos e mais à inspeção. - Indicou sua nave. - Temos que cumprir um horário. Temo que só posso conceder dois dias a Giedi Prime. Será melhor que nos concentremos em nosso trabalho.

O magno pareceu decepcionado.

- Sim, suponho que uma celebração não é o mais pertinente depois da tragédia de Salusa Secundus.

 

Durante dois dias, Xavier dedicou às defesas planetárias uma rápida inspeção, quase superficial.

Descobriu que Giedi Prime era um planeta deslumbrante e próspero, talvez inclusive apropriado para estabelecer-se algum dia.

Sua valoração foi positiva, embora acompanhada de uma advertência.

- Se trata sem dúvida de um planeta que as máquinas desejarão conquistar, eminência. - Estudou os planos da cidade e a distribuição dos recursos nos principais continentes. - Qualquer ataque cimek procurará manter as indústrias intactas, para que os robôs possam explorá-las. Omnius prega a eficácia.

A seu lado, o magno Sumi reagiu com orgulho. Apontou subcentrais no diagrama.

- Temos a intenção de instalar torres de transmissão de escudo secundárias em diversos pontos estratégicos. - Enquanto falava, apareceram luzes na tela do plano. - Já construímos uma estação de transmissões em uma das ilhas desabitadas do mar do norte, capaz de proporcionar amparo total de uma projeção polar. Confiamos em tê-la em funcionamento dentro de um mês.

Xavier assentiu, distraído, com a mente cansada depois de muitos meses de atender a detalhes semelhantes.

- Me alegra saber, embora duvide que um segundo complexo transmissor seja necessário.

- Queremos nos sentir seguros, terceiro.

Quando os dois homens passearam abaixo das torres parabólicas que se elevavam sobre o Giedi Prime, Xavier inspecionou os aterros de plasmento que bloqueavam o acesso a veículos de grande tamanho. Não teve a menor duvida de que um guerreiro cimek os destroçaria com facilidade.

- Eminência, sugiro que apostem mais tropas terrestres e obstáculos aqui. Aumentem o número de baterias de mísseis planetárias para lhes proteger de qualquer invasão do espaço. Em Salusa, a estratégia dos cimeks consistiu em concentrar todo seu ataque na destruição das torres, e pode ser que voltem a tentar. - Golpeou com os nódulos a coluna de apoio da torre. - Estes escudos são sua primeira e última linha de defesa, sua barricada mais eficaz contra as máquinas pensantes. Não se descuidem.

- De maneira nenhuma. Nossas fábricas de munições estão construindo artilharia pesada e veículos terrestres blindados. Nossa intenção é rodear o quanto antes este complexo com uma enorme concentração de poder militar.

Quanto à estação geradora secundária incompleta, estava muito isolada para proteger de um ataque maciço, mas dava a impressão de que sua existência tranqüilizava ao magno e seu povo.

- Estupendo - disse Xavier, e depois consultou o cronômetro do bracelete. Tudo ia muito bem, e talvez suas naves poderiam decolar antes da tarde...

O magno continuou, com voz vacilante.

- Terceiro, estão preocupados com as limitadas defesas espaciais de Giedi Prime? Nossa tropa local conta com poucas naves grandes em órbita para repelir um ataque das máquinas, e nossas naves de vigilância e reconhecimento são mínimas. Admito que me sinto vulnerável nesse aspecto. E se Omnius nos atacar da órbita planetária?

- Têm mísseis terra-ar, e sempre demonstraram sua eficácia. - Impaciente, Xavier elevou a vista para o céu azul. - Acredito que o melhor seria proteger seu complexo decodificador terrestre. Nenhuma armada, por numerosa que seja, pode comparar-se com o poder dos escudos decodificadores. Quando a frota robô que atacou Salusa percebeu que não poderiam neutralizar os decodificadores, bateu em retirada.

- Mas e se bloquearem Giedi Prime da órbita?

- Seu planeta é bastante auto-suficiente para resistir qualquer assédio até a chegada das forças da liga. - Ansioso por voltar para o espaçoporto, Xavier decidiu tranqüilizar ao governador. - Não obstante, recomendarei que um ou dois destróieres de classe Javali sejam estacionados nas cercanias de Giedi Prime.

 

Aquela noite, o magno ofereceu um banquete de despedida aos homens da Armada.

- Algum dia - disse - agradeceremos por nos salvar a vida.

Xavier se desculpou na metade do jantar. Era como se a comida e o vinho carecessem de sabor.

- Peço que me desculpe, eminência, mas meu esquadrão tem que aproveitar o momento ótimo de decolagem.

Fez uma reverência na porta, e depois correu para sua nave. Alguns de seus soldados teriam gostado de ficar alguns dias mais, mas a maioria estavam ansiosos por voltar para casa. Esperavam-lhes suas noivas e suas famílias, e haviam ganho mais que uma permissão.

 

Uma vez concluída a excursão de inspeção, Xavier abandonou o delicioso Giedi Prime, acreditando que tinha visto e feito todo o necessário.

Mas inconsciente por completo dos pontos fracos que não se incomodou em descobrir...

 

Durante o processo de nos converter em escravos das máquinas, transferimos-lhes conhecimentos técnicos, em lugar de repartir sistemas de valores apropriados.

PRIMEIRO FAYKAN BUTLER, Memórias da Jihad

 

O Dream Voyager se aproximava da Terra, berço da humanidade e agora o planeta sincronizado central. Mesmo permanecendo atento, Seurat permitiu que Vorian pilotasse a nave.

- Estes riscos me divertem.

Vor soprou, e lançou um olhar à expressão indecifrável da pele acobreada da máquina.

- Já demonstrei ser um piloto muito competente, talvez o melhor de todos os humanos.

- Para ser um humano não está mau, com reflexos lentos e as debilidades de um corpo físico propenso as enfermidades.

- Ao menos, minhas piadas são melhores que as suas.

Vor tomou os controles da nave. Demonstrou sua habilidade quando esquivou de restos procedentes de asteróides, ao mesmo tempo que acelerava em curva aberta ao redor da potente gravidade do Júpiter. Acenderam-se alarmes nos painéis de diagnóstico.

- Vorian, você está nos conduzindo além dos parâmetros aceitáveis. Se não conseguirmos vencer a gravidade do Júpiter, vamos queimar. - O robô se dispôs a recuperar o controle na ponte de comando. - Não tem que pôr em perigo a atualização de Omnius que transportamos...

Vor riu da peça que lhe tinha pregado.

- Peguei você, mente metálica! Quando não estava olhando, alterei a calibração do sensor de alarmes. Comprove com seus instrumentos, e verá que há muito espaço para manobrar.

Afastaram-se com facilidade do gigante gasoso.

- Está certo, Vorian, mas por que fez algo tão imprudente?

- Para ver se um robô é capaz de mijar nas calças. - Vor calculou um vetor de aproximação final entre as estações de vigilância, operadas por robôs, e os satélites que orbitavam em torno da Terra. – Você nunca compreenderá as brincadeiras pesadas.

- Muito bem, Vorian. Continuarei tentando... e praticando.

Vor compreendeu que talvez um dia se arrependeria de ensinar a Seurat aquele tipo de humor.

- Por certo, tenho algo mais que metal em meu cérebro, como todas as máquinas pensantes. Nossos sistemas neuroeletrônicos são feitos das ligas mais exóticas, em uma rede de fibras óticas, polímeros complexos, circuitos gelificados e...

- De qualquer modo, continuarei te chamando de mente metálica. Só porque isso te incomoda.

- Nunca compreenderei a estupidez humana.

Para guardar as aparências, Seurat assumiu o comando quando o Dream Voyager aterrissou no buliçoso espaçoporto.

- Chegamos ao final de outra rota perfeita, Vorian Atreides. - O jovem, sorridente, passou os dedos por seu longo cabelo negro. - Percorremos uma rota circular, Seurat. Um círculo não tem fim. Omnius Terra é o princípio e o fim.

- É muito literal. Por isso eu o venço em tantos jogos de estratégia.

- Só em quarenta e três por cento das vezes, jovenzinho - corrigiu Seurat. Ativou a rampa de saída.

- A metade, mais ou menos. - Vorian encaminhou-se para a escotilha, ansioso por sair a respirar ar fresco. - Não está mal para alguém propenso as enfermidades, as distrações, as debilidades físicas e outros desastres. Estou ganhando terreno, se você examinar a tendência.

Saltou para a pista de plasmento fundido. Robôs de carga se moviam entre grandes peças de maquinaria com inteligência artificial que se moviam sobre campos deslizantes.

Operários de pequeno tamanho se introduziam em escapamentos. Máquinas de manutenção examinavam componentes necessários para reparos. Robôs tanque abasteciam as naves estacionadas, preparando cada uma para a missão que Omnius, em sua infinita inteligência, decidisse.

Enquanto Vorian piscava sob o sol, um cimek gigantesco avançou sobre pernas articuladas. Os mecanismos híbridos internos da máquina se viam com clareza: sistemas hidráulicos, sensores, impulsos nervosos azulados que se transmitiam do eletrolíquido até os mentrodos. No núcleo de seu corpo artificial pendia o contêiner que guardava a mente de um antigo general humano.

O cimek fez girar suas torres sensoras, como se lhe estivesse apontando, e depois se desviou para Vor, ao mesmo tempo em que elevava seus braços. Pesadas tenazes estalaram.

Vorian correu para diante.

- Pai!

Devido as trocas de corpos freqüentes que os cimeks faziam em função das exigências físicas de suas diversas atividades, era difícil distingui-los entre si. Entretanto, o pai de Vor sempre ia recebê-lo quando o Dream Voyager retornava de suas missões.

Muitos escravos humanos viviam nos Planetas Sincronizados, a serviço da supermente, embora nenhum gozasse das prerrogativas de Vorian. Os humanos como ele recebiam um adestramento especial em colégios de elite, e logo ocupavam postos importantes sob o domínio das máquinas.

Vor tinha lido livros sobre as façanhas dos titãs e conhecia as grandes conquista de seu pai. Educado sob o amparo da supermente e treinado por seu pai cimek, o jovem nunca tinha questionado a ordem galáctica nem sua lealdade a Omnius.

Como conhecia o caráter aprazível do capitão robô, Agamenon tinha utilizado seu influencia para colocar seu filho na nave de Seurat, um posto muito cobiçado, sobretudo entre os humanos renegados. Por ser um robô independente, Seurat não desprezava a companhia do jovem, o que sugeria que a personalidade imprevisível de Vor era muito útil para suas missões. Em outras ocasiões, o próprio Omnius pedia a Vor que participasse de jogos para compreender melhor a psicologia dos humanos selvagens.

Vorian cruzou correndo a pista de aterrissagem e parou junto ao cimek carregado de armas, muito mais alto que ele. O jovem contemplou com afeto o contêiner cerebral de seu pai, com seu estranho rosto mecânico na parte inferior.

- Seja bem-vindo. - A voz do Agamenon era profunda e paternal. - Seurat já enviou seu relatório. Uma vez mais, sinto-me orgulhoso de você. Avançando mais um passo na conquista de seus objetivos.

Sua torre deu um giro de cento e oitenta graus, e Vorian correu junto às pernas blindadas quando Agamenon se afastou da nave.

- Sempre que meu débil corpo sobreviva o suficiente para alcançá-los - disse com veemência Vor. Ardo em desejo de ser eleito para neocimek.

- Você só tem vinte anos, Vorian. Muito jovem para mostrar um interesse tão mórbido por sua mortalidade.

Do alto começaram a descer cargueiros abarrotados de material. Caminhões conduzidos por operários humanos se prepararam para distribuir o carregamento, seguindo rígidas instruções. Vor lançou um olhar para os escravos, mas não pensou em sua situação. Cada pessoa tinha uma tarefa independente, pois todos, humanos e máquinas eram peças nos Planetas Sincronizados. Mas Vor era superior a outros, já que algum dia seria como seu pai: um cimek.

Passaram ante armazéns de combustível e fornecimentos. Funcionários humanos distribuíam mantimentos e materiais aos escravos da cidade. Equipes de inspetores, tanto humanos como robóticos, levavam a cabo controles de qualidade e quantidade, em função dos planos do Omnius.

Vor não compreendia a vida dos operários analfabetos que descarregavam pesadas caixas no cais espacial. Os escravos realizavam tarefas que uma simples máquina poderia efetuar com mais rapidez e eficácia. Não obstante, alegrava-se de que pessoas tão inferiores pudessem trabalhar para ganhar seu sustento.

- Seurat contou-me sobre Salusa Secundus, pai. - Caminhou a bom passo para acompanhar as grandes pernadas do cimek. - Sinto que seu ataque não tivesse êxito.

- Foi uma simples prova - disse Agamenon. - Os humanos selvagens contam com um novo sistema defensivo, e agora já o testamos.

Vor sorriu.

- Estou seguro de que encontrará a maneira de submeter todos os hrethgir à vontade de Omnius. Como nos tempos que descreve em suas memórias, quando os titãs detinham o poder absoluto.

O cimek franziu o cenho para si mesmo. As fibras ópticas do Agamenon detectavam numerosos olhos espiões que flutuavam a seu redor enquanto os dois andavam.

- Não sinto falta dos velhos tempos - disse. - Tornou a ler minhas memórias?

- Nunca me canso de suas histórias, pai. A era dos Titãs, o grande Tlaloc, as primeiras rebeliões dos hrethgir... Tudo é fascinante. - Acompanhar o impressionante cimek fazia com que Vor se sentisse especial. Sempre procurava melhorar, dentro dos limites de sua condição. Queria demonstrar que era digno das oportunidades que lhe haviam concedido..., e mais. - Eu gostaria de saber como é esse novo sistema defensivo dos hrethgir, pai. Possivelmente possa ajudar a descobrir um meio de neutralizá-lo.

- Omnius está analisando os dados e decidirá o que se deve fazer. Acabo de chegar à Terra.

Como a ambição era um pouco enraizada em sua psicologia, os titãs sempre estavam projetando edifícios e monumentos dedicados a celebrar os velhos tempos da humanidade e a era dos Titãs. Ordenavam a artistas e arquitetos humanos que desenvolvessem desenhos e esboços originais, que os cimeks modificavam ou aprovavam.

Muito perto deles, enormes máquinas colocavam componentes de arranha-céu e acrescentavam pisos superiores aos complexos já existentes, embora as máquinas pensantes não precisassem expandir-se mais. Em certas ocasiões, Vor imaginava que tais esforços extravagantes serviam como meras desculpas para manter os escravos ocupados...

Não tinha conhecido sua mãe, mas sabia que séculos atrás, antes que os titãs tivessem se transformado em cimeks, Agamenon tinha criado seu próprio banco de esperma, graças ao qual tinha engendrado Vorian. Com o tempo, o general poderia procriar tantos filhos quantos quisesse utilizando mães aceitáveis.

Embora nunca tivesse sabido se tinha mais irmãos, Vorian suspeitava que eles existiam. Se perguntava o que sentiria se os conhecesse, mas em uma sociedade mecânica os vínculos emocionais não eram práticos. Só esperava que seus irmãos não tivessem decepcionado Agamenon.

Quando seu pai partia em suas freqüentes missões, Vorian tentava falar com os outros titãs, intrigado pelos acontecimentos documentados nas célebres e volumosas memórias de Agamenon. Alguns dos cimeks originais, sobretudo Ajax, eram arrogantes e tratavam Vor como se fosse um estorvo. Outros, como Juno ou Barba Azul, consideravam-lhe divertido. Todos falavam com grande paixão de Tlaloc, o primeiro dos grandes titãs, que tinha aceso a chama da revolução.

- Oxalá houvesse conhecido Tlaloc - dizia Vor, com a intenção de prolongar a conversa.

Agamenon gostava de falar dos dias gloriosos.

- Sim, Tlaloc era um sonhador com idéias que eu nunca tinha escutado antes - murmurou o cimek enquanto avançava pelas avenidas. - Em alguns momentos, era um pouco ingênuo, nem sempre compreendia as repercussões práticas de suas idéias. Mas eu as descobria. Por isso formávamos uma grande equipe.

Deu a impressão de que Agamenon caminhava a maior velocidade enquanto falava dos titãs. Cansado de tentar manter seu ritmo, Vorian ofegou em busca de fôlego.

- Tlaloc tomou seu nome de um antigo deus da chuva. Entre os titãs, Tlaloc era nosso visionário, enquanto eu era o chefe militar. Juno era nossa tática e manipuladora. Dante se ocupava das estatísticas, da burocracia e do censo. Barba Azul foi o responsável por reprogramar as máquinas pensantes, com o fim de que seus objetivos fossem os mesmos que os nossos. Dotou-as de ambição.

- Isso é bom - disse Vorian.

Agamenon vacilou, mas não verbalizou nenhuma objeção, preocupado com os olhos espiões.

- Quando visitou a Terra, Tlaloc compreendeu que a raça humana se estagnara, que as pessoas tinham chegado a depender a tal ponto das máquinas que tinha caído na apatia mais absoluta. Seus objetivos se dissiparam, assim como sua energia, sua paixão. Quando não tinham outra coisa para fazer além de dar rédea solta a seus impulsos criativos, eram muito preguiçosos inclusive para esporear sua imaginação.

Seus alto-falantes projetaram um som desagradável.

- Mas Tlaloc era diferente – animou-o Vor.

A voz do cimek adquiriu mais emoção.

- Tlaloc criou-se no sistema de Thalim, em uma colônia exterior onde a vida era difícil, onde se trabalhava com sangue, suor e lágrimas. Teve que esforçar-se muito para ganhar seu posto. Na Terra, viu que o espírito humano estava a ponto de morrer... e as pessoas nem sequer se tinha dado conta!

“Pronunciou discursos com a intenção de reanimar os humanos, de despertar à realidade. Alguns o seguiram com interesse, como se fosse uma novidade. - Agamenon elevou seus poderosos braços metálicos. - Mas só o consideravam uma diversão passageira. Muito em breve, as pessoas voltaram a dedicar-se a seus passatempos hedonistas.”

- Mas você não, pai.

- Minha vida monótona me desagradava. Já tinha conhecido Juno, e nós entesourávamos nossos sonhos. Tlaloc os cristalizou por nós. Depois que Juno e eu nos unimos a ele, pusemos em marcha os acontecimentos que conduziram à queda do Império Antigo.

Pai e filho tinham chegado ao complexo central onde residia Omnius Terra, embora houvesse nódulos da supermente pulverizados por todo o planeta, formando uma rede de câmaras couraçadas e torres elevadas. Vorian seguiu o cimek até o interior do gigantesco edifício, ansioso por interpretar seu papel. Era um ritual que tinha repetido em numerosas ocasiões.

O corpo mecânico percorreu amplos corredores e entrou em uma instalação de manutenção cheia de tubos lubrificantes, cilindros nutrientes borbulhantes, mesas polidas e análise de sistemas oscilantes. Vor extraiu uma maleta de ferramentas, e depois conectou mangueiras pneumáticas e jorros de água a alta pressão, localizou trapos suaves e loções para lustrar. Era a tarefa que considerava mais importante como humano de confiança.

No centro da sala esterilizada, Agamenon se deteve sob um aparelho elevador. Uma mão magnética desceu e se prendeu ao contêiner que guardava seu crânio. Abriram-se pontos de conexão neuronal e surgiram cabos de mentrodos. O braço elevou o contêiner, ainda conectado às baterias provisórias e os sistemas de manutenção vital.

Vorian se adiantou, carregado de aparelhos.

- Sei que não pode sentir, mas eu gosto de pensar que se sentirá mais cômodo e eficiente.

Lançou jorros de ar a alta pressão e água quente sobre os pontos de conexão, e depois utilizou uma camurça molhada para polir cada superfície. O general cimek emitiu murmúrios de agradecimento.

Vor terminou seu trabalho, e depois ajustou cabos e lançou uma vista ao diagnóstico.

- Todas as funções ótimas, pai.

- Não sinto saudades, graças a sua minuciosa manutenção. Obrigado, meu filho. Cuida muito bem de mim.

- É uma honra para mim, pai.

- Um dia, Vorian - disse Agamenon com sua voz sintética, - se continuar me servindo assim, vou recomendá-lo para a maior recompensa. Pedirei a Omnius que o converta em um cimek, como eu.

Ao escutar suas palavras, Vorian voltou a polir o contêiner, e depois olhou com afeto as circunvoluções do cérebro. Tentou dissimular seu rubor de vergonha, mas apareceram lágrimas em seus olhos.

- Isso é o melhor que um humano pode esperar.

 

É fácil esmagar aos humanos, já que são formas físicas frágeis. Representa alguma provocação em especial danificá-los ou aleijá-los?

ERASMO, expedientes de laboratório não cotejados

 

Erasmo não se sentia satisfeito, enquanto contemplava uma vez mais o céu da Terra mediante centenas de fibras ópticas. O robô se encontrava em um elevado campanário de sua vila, atrás de um mirante curvo blindado. A paisagem deste planeta, com seus oceanos, bosques e cidades construídas sobre os ossos de outras cidades, já tinha sido testemunha do auge e decadência de incontáveis civilizações. Suas realizações lhe pareciam muito pequenas e humildes comparados com a amplitude da historia.

Por isso, teria que redobrar seus esforços.

Nem Omnius nem nenhum de seus arquitetos robô compreendiam a autêntica beleza. Para Erasmo, os edifícios e o traçado da cidade reconstruída pareciam componentes de ângulos agudos e bruscas descontinuidades. Uma cidade devia ser algo mais que um diagrama de circuitos prático. Submetido a seu escrutínio multifásico, a metrópole se assemelhava a um complexo mecanismo, desenhado e construído com força utilitária. Possuía suas próprias linhas e eficácia sistemática, o que resultava uma beleza casual... mas carente de delicadeza.

Era decepcionante que a supermente se negasse a viver de acordo com suas infinitas possibilidades. Às vezes, as irreais ambições humanas possuíam certo valor.

Omnius desprezava, ou rechaçava de maneira consciente, a beleza elegante da arquitetura humana da Idade de Ouro. Mas essa superioridade fria e petulante não era lógica. Erasmo reconhecia certa beleza em máquinas e componentes aerodinâmicos. Gostava de sua pele de platina polida, a delicadeza de sua face refletiva com que formava expressões faciais, mas considerava absurdo preservar a fealdade com o fim de desprezar o conceito de beleza de um inimigo.

Como podia uma supermente distribuída entre centenas de planetas exibir sequer um pingo de tolerância? Para Erasmo, devido a sua imparcial e amadurecida compreensão, desenvolvida graças a prolongadas meditações, a atitude de Omnius revelava uma carência absoluta de flexibilidade.

Emitiu o som de um suspiro exagerado, que tinha copiado dos humanos, e transmitiu uma ordem mental que projetou imagens bucólicas de outros planetas sobre a janela. Algo relaxante e plácido.

Deteve-se em frente a um sintetizador de objetos de vestir, escolheu o desenho que desejava e esperou a que lhe confeccionassem a peça. Um blusão tradicional de pintor. Quando esteve preparado, o pôs sobre seu corpo esbelto e se encaminhou para um cavalete onde já havia disposto uma tela em branco, uma paleta e pincéis da melhor qualidade.

Ao mover uma mão, se projetaram na parede imagens ampliadas de obras de mestres da pintura, cada uma pertencente a um gênio diferente. Escolheu Casas do Cordeville, de um antigo artista da Terra, Vincent Van Gogh. Era um quadro ousado e cheio de colorido, mas tosco em sua execução, com traços ineptos e aplicações infantis de pigmento, no que destacavam manchas de pintura e grossas pinceladas de cor. Não obstante, o conjunto possuía uma energia selvagem, um dinamismo primitivo indefinível.

Depois de um momento de intensa concentração, Erasmo pensou que tinha chegado a assimilar certa compreensão da técnica desenvolvida por Van Gogh, mas não conseguia entender por que alguém tinha desejado criar aquela obra.

Embora nunca tivesse pintado, copiou o quadro com exatidão. Pincelada a pincelada, pigmento a pigmento. Quando terminou, Erasmo examinou sua obra.

Louvor em seu estado mais puro.

Um brilho cinza pálido apareceu na parede mais próxima. Omnius tinha observado, como sempre. Erasmo teria que justificar suas atividades, já que a supermente nunca entendia o que estava fazendo o robô independente.

Estudou a pintura de novo. Por que custava tanto compreender a criatividade? Devia mudar algum dos componentes, para depois qualificar a obra de original? Quando o robô terminou seu escrutínio, satisfeito de não ter cometido enganos, de não haver se desviado das pautas que discernia na imagem do quadro, esperou a labareda de compreensão que iluminaria seu esforço.

Pouco a pouco, percebeu que não tinha criado arte, do mesmo modo que uma imprensa não engendrava literatura. Limitou-se a recriar a obra até o último detalhe.

No havia criado nada novo. E ardia em desejos de compreender a diferença.

Erasmo, frustrado, concentrou-se em outro projeto. Chamou com voz implacável três criados e lhes ordenou que transladassem seus utensílios de pintura para um dos laboratórios.

- Tenho a intenção de criar uma nova obra de arte, absolutamente pessoal. Uma espécie de natureza morta. Vocês três participarão de maneira muito direta nela. Regozijem-se com sua boa sorte.

No ambiente esterilizado do laboratório, com a fria colaboração de seus guardas robô pessoais, Erasmo procedeu a viviseccionar o trio de vítimas, indiferente a seus gritos.

- Quero chegar ao coração do assunto - brincou, - à medula da questão.

Estudou os órgãos com suas mãos metálicas, espremeu-os, viu fluir os líquidos e as estruturas celulares. Levou a cabo uma análise superficial, descobriu mecanismos torpes e sistemas circulatórios ineficazes, desnecessariamente complexos e propensos a deterioração.

Depois, ao experimentar uma energia vibrante, uma impulsividade, Erasmo se dispôs a pintar. Uma obra nova, única em seu gênero! Utilizaria filtros diferentes, e cometeria enganos de propósito para imitar melhor a imperfeição e a insegurança humanas.

Por fim, devia estar no caminho correto.

A uma ordem de Erasmo, robôs sentinela trouxeram uma Cuba cheia de sangue humano fresco, porém sem coagular. Começou a extrair os órgãos internos de suas vítimas, ainda quentes ao tato, e indicou a dois lacaios que raspassem o interior dos cadáveres. Enquanto contemplava a disposição dos órgãos, deixou-os cair um após o outro no sangue e viu que se agitavam no líquido, olhos, fígados, rins, corações.

Analisou com atenção cada fase do processo e obedeceu a suas “urgências criativas”.

Um capricho atrás de outro. Erasmo acrescentou mais ingredientes à sinistra receita. Imitando algo que tinha descoberto em Van Gogh, cortou a orelha de um cadáver e a lançou também à Cuba.

Por fim, com as mãos metálicas jorrando sangue, retrocedeu. Uma formosa disposição, fruto de sua originalidade. Não pôde pensar em nenhum artista humano que tivesse trabalhado em um tecido semelhante. Ninguém mais tinha feito algo parecido com isto.

Erasmo secou as mãos e começou a pintar em um tecido branco. Desenhou no centro um dos três corações, reproduzindo com supremo detalhe os ventrículos, as aurículas e a aorta. Mas não desejava que fosse a imagem realista de uma dissecação. Decepcionado, rabiscou algumas linhas para inserir um toque artístico. A verdadeira arte exigia a quantidade exata de incerteza, do mesmo modo que um cozinheiro talentoso necessitava das especiarias e sabores adequados.

Deste modo devia funcionar a criatividade. Enquanto pintava, Erasmo tentou imaginar a relação cinética entre seu cérebro e seus dedos mecânicos, os impulsos mentais que punham os dedos em ação.

- É isso o que os humanos definem como arte? - perguntou Omnius de uma tela mural.

Por uma vez, Erasmo não quis discutir com a supermente. Omnius tinha razão ao mostrar-se cético. Erasmo não tinha alcançado a verdadeira criatividade. Sim, tinha obtido uma disposição original e gráfica, mas na arte humana, a soma dos componentes dava como resultado algo mais que os componentes individuais. O simples feito de arrancar órgãos das vítimas, inundá-los em sangue e pintá-los não lhe aproximava mais da compreensão da inspiração humana. Inclusive embora manipulasse os detalhes, continuava sendo um artista impreciso e carente de inspiração.

De qualquer modo, talvez tivesse avançado um passo na direção correta.

Erasmo foi incapaz de levar este pensamento ao próximo passo lógico, e conseguiu compreender o motivo. O processo não era racional. A criatividade e a precisão de análise se excluíam mutuamente.

O robô, frustrado, apertou o macabro quadro entre suas poderosas mãos, rompeu a tela e reduziu a farrapos o tecido. Teria que melhorar, e muito. Erasmo compôs uma expressão pensativa em seu rosto de polímero metálico. Não havia avançando nem um milímetro na compreensão dos humanos, face a um século de investigações e meditações intensas.

Erasmo caminhou com parcimônia para seu refúgio privado, um jardim botânico onde escutava música clássica emitida através das estruturas celulares das plantas. Rapsódia em azul, um clássico da Velha Terra.

No jardim, o preocupado robô se sentou sob o sol avermelhado e sentiu calor sobre sua pele metálica. Era outra coisa que os humanos pareciam gostar, mas não entendia por que. Já que a seu módulo de potencializarão sensorial, só parecia calor.

E as máquinas aquecidas se avariavam.

 

A tapeçaria do universo é imensa e complexa, com infinitos estampados. Apesar de fibras de tragédia formarem a malha primitiva, a humanidade, com seu inflamado otimismo, ainda consegue bordar pequenos desenhos de felicidade e amor.

PENSADORA KWYNA,

arquivos da Cidade da Introspecção

 

Dentro de seu comprido viaje espacial, Xavier só podia pensar em voltar para casa, aos cálidos braços de Serena Butler.

De licença, retornou à propriedade de Tantor, onde seus pais adotivos e o entusiasta Vergyl, seu meio-irmão, deram-lhe as boas-vindas. Os Tantor formavam um casal de idade avançada, afáveis, inteligentes e doces, de pele escura e cabelo grisalhos. Davam a impressão de que Xavier fora talhado do mesmo patrão, com interesses similares e valores morais elevados. Tinha sido criado nesta confortável e espaçosa mansão, que ainda considerava seu lar. Embora tivesse herdado legalmente outras posses Harkonnen (minas e indústrias em três planetas), muitas habitações da casa ainda estavam destinadas a seu uso exclusivo.

Quando entrou em seus aposentos, Xavier encontrou um par de galgos que lhe esperavam, meneando a cauda. Deixou cair suas bolsas e brincou com os cães. Os animais, maiores que seu irmão menor, sempre tinham vontade de brincar e se alegravam em vê-lo.

Aquela noite, a família o tratou com atenção com a especialidade do cozinheiro, galo selvagem recheado com mel, nozes e azeitonas de Tantor. Por desgraça, depois de ter estado exposto aos gases venenosos dos cimeks, os sutis matizes de sabores e aromas lhe escapavam. O cozinheiro o olhou alarmado quando acrescentou sal e especiarias, que necessitava para saborear o delicioso guisado.

Outra coisa que as máquinas haviam tomado.

Depois, Xavier se acomodou em uma pesada poltrona de carvalho em frente ao fogo da lareira, acompanhado de um copo de vinho tinto dos vinhedos da família, também, por desgraça, sem poder desfrutar de seu sabor. adorava relaxar em casa, longe do protocolo militar. Havia passado quase meio ano a bordo de uma nave da Armada. Esta noite, dormiria como um bebê em sua própria casa.

Um dos galgos cinzas roncava sonoramente, com o focinho apoiado sobre os pés de Xavier. Emil Tantor, com uma orla de cabelo negro ao redor de sua cabeça calva, estava sentado em frente a seu filho adotivo. Emil lhe interrogou a respeito das posições estratégicas dos Planetas Sincronizados e a capacidade militar da Armada.

- Quais são as possibilidades de uma escalada bélica depois do ataque a Zimia? Podemos fazer algo mais que rechaçar ao inimigo?

Xavier terminou seu vinho, serviu-se meia taça e uma inteira ao ancião, e logo se reclinou na poltrona, sem molestar o cão.

- A situação é grave, pai. - Como pouco se recordava de seus pais, sempre havia chamado assim ao senhor de Tantor. - Mas sempre foi grave, desde a Era dos Titãs. Talvez vivêssemos com muita comodidade nos tempos do Império Antigo. Esquecemos de ser nós mesmos, ser dignos de nossas possibilidades, e durante mil anos pagamos o preço. Fomos presa fácil, primeiro de homens malvados, e depois de máquinas carentes de alma.

Emil Tantor sorveu seu vinho e cravou a vista no fogo.

- De modo que ao menos há esperança? Temos que nos aferrar a algo.

Os lábios do Xavier formaram um leve sorriso.

- Somos humanos, pai. Enquanto nos aferrarmos a isso, sempre haverá esperança.

No dia seguinte, Xavier enviou uma mensagem ao escritório de Butler, onde pedia permissão para acompanhar a filha do vice-rei à caçada anual ao javali, que aconteceria dentro de dois dias. Serena já estaria saberia do retorno de Xavier. Suas naves de reconhecimento haviam chegado com muita festa, e Manion Butler estaria esperando sua nota.

Ainda assim, a sociedade salusiana era formal e extravagante. Para cortejar à formosa filha do vice-rei, teria que render-se a certas expectativas.

Avançada a manhã, um mensageiro chamou às portas da mansão Tantor. Vergyl estava ao lado de seu irmão maior, e sorriu quando viu a expressão de Xavier.

- O que é? Posso te acompanhar? O vice-rei concordou?

Xavier compôs uma expressão zombeteira e séria ao mesmo tempo.

- Como poderia rechaçar o homem que salvou Salusa Secundus dos cimeks? Lembre-se disso, Vergyl, se algum dia quiser ganhar o afeto de uma jovem.

- Tenho que salvar o planeta para ter uma noiva? - perguntou o menino com ceticismo, embora procurando não manifestar incredulidade pelas palavras do Xavier.

- Por uma mulher tão maravilhosa como Serena, é justamente o que deve fazer.

Entrou na mansão para contar seus planos a Tantor.

 

No dia seguinte, Xavier se vestiu com uma indumentária eqüestre esplêndida e saiu em direção à propriedade dos Butler. Pediu emprestado a seu pai o corcel salusano cor chocolate, um excelente animal de crina trançada, focinho estreito e olhos brilhantes. As orelhas do cavalo eram grandes, e corria sem o ritmo irregular de animais menos adestrados.

Sobre uma colina coberta de erva se elevava um conjunto de edifícios caiados: a casa propriamente dita, estábulos, aposentos dos criados e abrigos, situados próximos ao perímetro. Enquanto seu cavalo subia, viu a vista impressionante dos prédios de Zimia muito distantes.

Um atalho pavimentado com pedra calcária triturada subia à cúpula. O cascalho rangia sob os cascos do cavalo. Xavier notou o afresco de princípios da primavera, viu folhas nas árvores, flores silvestres que acabavam de arrebentar. Mas não percebeu o aroma do ar.

A colina estava flanqueada de videiras como um manto de veludo cotelê verde, cada videira amarrada a cabos sujeitos entre estacas para que os cachos pendurassem sobre o chão, facilitando assim seu recolhimento. Oliveiras retorcidas rodeavam a casa principal, e seus ramos baixos estavam cheios de flores brancas. Cada ano, as primeiras prensagens de uvas e azeitonas eram causa de festejos em todas as casas salusianas. Os vinhedos competiam entre si para ver qual era capaz de produzir as melhores colheitas.

Quando Xavier entrou no pátio, já o esperavam outros cavaleiros. Os cães ladravam entre as patas dos cavalos, mas o majestoso corcel os desprezou, como se fossem meninos mal educados.

Os caçadores aferraram as rédeas e calaram os cães. Vários cavalos de caça negros mostravam-se tão impacientes como os cães. Dois dos caçadores lançaram sonoros assobios, e outros se reuniram com eles, dispostos a iniciar as festividades do dia.

Manion Butler saiu dos estábulos e convocou seu grupo, como um chefe militar que dispusera a suas tropas para a batalha. Jogou uma olhada ao jovem oficial e levantou uma mão como saudação.

Então, Xavier viu Serena montada em uma égua cinza. Calçava botas altas, calças de montar e uma jaqueta negra. Seus olhos despediram faíscas de eletricidade quando se encontraram com os dele.

Aproximou-se de Xavier, e um sorriso se insinuou nos cantos de sua boca. Face aos cães ruidosos, os cavalos inquietos e os homens que gritavam, Xavier desejava tanto beijá-la que quase não pôde conter-se. Não obstante, Serena permaneceu fria e tranqüila, e estendeu uma mão enluvada como saudação. Ele a agarrou e apertou seus dedos.

Desejou possuir poderes telepáticos como as feiticeiras do Rossak, para lhe enviar seus pensamentos, embora fosse evidente o prazer que transparecia em suas feições, compreendeu que Serena sabia muito bem quais eram seus sentimentos, e os correspondia.

- As viagens espaciais foram muito longas. - disse Xavier. - Sempre estava pensando em você.

- Sempre? Deveria ter se concentrado em suas tarefas. - Ela dedicou-lhe um sorriso cético. - Possivelmente possamos estar um momento a sós durante a caçada, e me contará seus sonhos.

Dirigiu sua égua até o ponto onde se encontrava seu pai. Consciente dos olhos que os observavam, Xavier e ela mantiveram uma distância aceitável. Xavier se aproximou do vice-rei e estreitou sua mão.

- Agradeço por me deixar participar da caçada.

Manion Butler sorriu.

- Alegro-me que tenha podido acudir, terceiro. Estou seguro de que este ano caçaremos um javali. Refugiaram-se nesses bosques, e estou ansioso por comer presunto e chuletas assadas. E bacon, sobretudo. Não há nada comparável.

Serena olhou para ele com olhos travessos.

- Talvez, pai, se levássemos cães menos escandalosos, cavalos a galope e homens desajeitados, seria mais fácil localizar algum desses tímidos animais.

Em resposta, Manion sorriu como se ainda fosse uma menina pequena.

- Me alegro que esteja aqui para protegê-la, jovem - disse para Xavier.

O vice-rei levantou o braço direito. Soaram os chifres de caça e um gongo retumbou nos estábulos. Os cães se precipitaram para a grade. O caminho discorria sob as oliveiras até entrar no bosque salusiano. Dois moços de olhos ansiosos abriram as portas, impacientes por participar de sua primeira caçada.

O grupo entrou em marcha. Os cães foram os primeiros a sair, seguidos pelos cavalos montados por caçadores profissionais. Manion Butler ia com eles. Soprou uma tromba de caça que tinha sido da família desde que Bovko Manresa se estabeleceu em Salusa.

Seus seguidores usavam cavalos de menor tamanho. Seriam os encarregados de montar o acampamento e esfolar as peças abatidas. Também preparariam a festa que se celebraria quando o grupo voltasse para casa.

Os caçadores já se dispersaram, formando grupos com um chefe à frente. Xavier e Serena trotaram sem pressa para o bosque. Um jovem de olhos brilhantes olhou atrás e piscou os olhos para Xavier, como se soubesse que o casal não tinha a menor intenção de juntar-se à caçada.

Xavier esporeou a seu corcel. Serena cavalgou a seu lado, e se dirigiram para o leito lamacento de um riacho. Trocaram um sorriso de cumplicidade e escutaram os latidos longínquos dos cães, assim como o corno do vice-rei.

O bosque privado dos Butler abarcava centenas de hectares, atravessadas por trilhas de caça. Era como uma espécie de reserva natural, com prados e rios, aves e grandes extensões de flores que estalavam em capas sucessivas de cores quando a neve se derretia.

Xavier estava feliz porque afinal estava sozinho com Serena. Enquanto cavalgavam, roçavam-se os braços e os cotovelos de propósito. Ele afastava os ramos de sua cara, e ela assinalava aves e animais pequenos, que ia identificando.

Em seu cômodo traje de caçada, Xavier levava uma adaga cerimoniosa, um látego e uma pistola Chandler que disparava fragmentos de cristal. Serena levava sua faca e uma pistola pequena, mas nenhum dos dois esperava abater peça alguma. Foram decididos a caçar-se mutuamente, e ambos sabiam.

Serena escolheu seu caminho sem vacilar, como se houvesse aproveitado a ausência de Xavier para percorrer o bosque em busca de lugares onde pudessem estar sozinhos. Por fim, guiou-o através de um bosque de pinheiros até um prado de erva alta, flores similares a estrelas e plantas mais altas que elas. As canas rodeavam um lago de águas cristalinas, um pequeno lago criado pela neve derretida e alimentado por uma fonte subterrânea.

- Há borbulhas na água - explicou a jovem. - Fazem cócegas na pele.

- Isso significa que quer nadar?

Xavier sentiu a garganta seca quando pensou na perspectiva.

- Está fria, mas a fonte possui um calor natural. Quero prová-la.

Serena desmontou com um sorriso e deixou que sua égua pastasse. Ouviu um chapinho no lago, mas as canas não deixavam ver.

- Parece que também há muitos peixes - disse Xavier. Desceu de seu corcel, afagou o musculoso pescoço, e o cavalo foi pastar perto da égua.

Serena tirou as botas e as meias, subiu as calças por cima dos joelhos e caminhou descalça sobre a erva.

- Vou a provar a água.

Xavier comprovou os fechos da sela do corcel. Abriu um dos compartimentos de couro e tirou um cantil de água perfumada com limão. Seguiu Serena até as canas, enquanto se imaginava nadando com ela, os dois sós sulcando nus o solitário lago, beijando-se...

De repente, um monstruoso javali saiu de entre as canas a toda velocidade, arrojando barro e água ao ar. Serena lançou um grito, mais alarmada que assustada, e caiu de costas no barro.

O javali chutou a erva com suas patas fendidas. Largas presas sobressaíam de seu focinho, capazes de arrancar árvores jovens de um golpe e estripar inimigos. Os olhos do animal eram grandes e negros. Emitia potentes grunhidos, como se estivesse a ponto de cuspir fogo. Dizia a lenda que muitos homens, cães e cavalos tinham morrido nas caçadas de javalis, mas restavam

poucos deles.

- Pule na água, Serena!

O animal se voltou quando ouviu seu grito. Serena seguiu as instruções do Xavier. Começou a nadar, consciente de que o animal não poderia atacá-la se estivesse na água.

O javali carregou com toda sua raiva. Os dois cavalos relincharam e correram para a bordo do prado.

- Cuidado, Xavier!

Serena, afundada na água até a cintura, desembainhou sua faca de caça, mas sabia que não podia ajudar.

Xavier plantou com firmeza as pernas no chão, com a faca em uma mão e a pistola Chandler na outra. Apontou a arma sem que o pulso tremesse e disparou três vezes na cara do javali. Os projéteis destroçaram o pescoço e a fronte do animal, e arranharam o grosso crânio.

Outro projétil estilhaçou uma das presas, porém o animal continuou carregando para ele, impulsionado por sua velocidade.

Xavier disparou duas vezes mais. O animal sangrava profusamente, ferido de morte, mas nem sequer a iminência do desenlace diminuiu sua velocidade. Quando o animal estava quase em cima de Xavier, este saltou para um lado e o degolou com a afiada faca, abrindo-lhe a jugular e a carótida. O javali deu meia volta e o cobriu de sangre enquanto seu coração parava de pulsar.

 

O peso do animal atirou Xavier ao chão, mas rolou para longe para evitar que a presa restante o atravessasse. Xavier ficou em pé e caminhou alguns passos, tremendo. Sua indumentária de caça estava empapada do sangue da besta.

- Serena!

- Estou bem - respondeu a jovem, enquanto nadava para a borda.

Xavier contemplou seu reflexo no plácido lago, viu sua camisa e sua cara cobertas de sangue. Confiou em que não fosse dele. Enlaçou as mãos e se molhou com água fria, e logo afundou a cabeça para tirar o fedor do cabelo. esfregou as mãos com areia.

Serena se aproximou dele com a roupa empapada e o cabelo colado ao crânio. Utilizou um pedaço da jaqueta para secar o sangue do pescoço e das bochechas de Xavier. Depois, abriu-lhe a camisa e também lhe secou o peito.

- Não tenho nem um arranhão - disse Xavier, sem saber se era certo. Notava a pele do pescoço quente e arranhada, e o peito doía como conseqüência da colisão com o monstro. Atraiu para si a jovem.

- Está segura de que não sofreu nenhum dano? Não se cortou, não quebrou nenhum osso?

- Você me pergunta isso? - zombou ela. – Eu não sou a valente caçadora de javalis.

Serena o beijou. Tinha os lábios frios da água, mas Xavier os reteve contra os seus até que as bocas se abriram um pouco e as línguas se encontraram. Conduziu-a em direção ao prado, longe do animal morto.

Os jovens amantes retiraram o cabelo molhado das orelhas e dos olhos, e voltaram a beijar-se. O contato com a morte fazia que se sentissem intensamente vivos. A pele de Xavier estava quente, e seu coração pulsava com força, embora o perigo tivesse passado. Uma nova emoção estava crescendo. Desejou poder captar melhor o sedutor aroma do perfume da jovem, mas só percebeu uma insinuação fascinante.

As roupas molhadas de Serena estavam frias, e Xavier observou que tinha o pêlo dos braços arrepiados. A única solução era tirar a roupa.

- Venha, vou aquecê-la.

Ajudou-a a desabotoar a jaqueta negra e a blusa, enquanto seus dedos trabalhavam em excesso com a camisa manchada de Xavier.

- Só quero me assegurar de que não está ferido - disse Serena. - Não sei o que teria feito se ele tivesse te matado.

Suas palavras surgiam trêmulas entre um beijo e outro.

- É preciso algo mais que um javali para me afastar de você.

Serena lhe tirou a camisa por cima de seus ombros e lutou com os botões dos punhos para tirá-la por completo. O chão do prado era macio e confortável. Os cavalos pastavam com parcimônia Xavier e Serena deram rédeas soltas a sua paixão reprimida entre sussurros.

A caçada soava muito longínqua, embora Xavier tivesse matado um javali e poderia contar uma história dramática durante a festa. Claro que alguns detalhe deveriam ser omitidos...

No momento, a guerra contra as máquinas pensantes não existia. Nesta breve e apaixonada hora, não eram mais que dois seres humanos, sozinhos e apaixonados.

 

A ciência peca pela arrogância ao acreditar que, quanto mais desenvolvemos a tecnologia e mais aprendemos, melhor será nossa vida.

TLALOC, A Era dos Titãs

 

Qualquer coisa imaginada pode se tornar real... desde que exista o gênio suficiente.

Tio Holtzman tinha repetido a frase em centenas de discursos pronunciados ante o Conselho de Nobres de Poritrin. Suas idéias e lucros alimentavam sonhos e fomentavam a confiança na capacidade tecnológica humana contra as máquinas pensantes.

O mantra também tinha convencido seu protetor, lorde Niko Bludd, e aos representantes da Liga de Nobres. No princípio de sua carreira, Holtzman tinha compreendido que não sempre eram os melhores cientistas quem recebiam os aplausos ou os recursos necessários para suas investigações, e sim os melhores atores, os políticos mais eficazes.

Holtzman era um cientista dotado, disso não havia dúvida. Possuía uma bagagem técnica excepcional e tinha obtido grandes êxitos com suas invenções e sistemas de armamento, todos os quais se utilizaram com êxito contra Omnius, mas as havia divulgado para receber mais publicidade e atenção das que seus inventos mereciam. Graças a seus dotes de oratória e de enfeitar certos detalhes, tinha construído um pedestal de fama sobre o que agora se elevava.

Holtzman tinha se transformado no herói de Poritrin, em vez de ser outro inventor anônimo. Sua habilidade para deslumbrar o público, para iluminar uma chama de esperança e credulidade em sua mente, superava a sua capacidade científica.

Com o fim de alimentar sua mitologia, Holtzman procurava sem cessar novas idéias, o que exigia inspiração e dilatados períodos de meditação ininterrupta. Gostava de deixar que as possibilidades rodassem como calhaus levados pela corrente. Às vezes, os calhaus se detinham em seu carreira, com um pouco de ruído mas sem em contribuir nada. Em outras ocasiões, tais idéias desencadeavam uma avalanche.

Algo imaginado pode se tornar real.

Porém primeiro é necessário imaginá-la.

 

Depois de voltar para casa, depois de presenciar a devastação da Salusa Secundus, havia reservado um camarote privado a bordo de uma luxuosa nave, um dos silenciosos zepelins que partiam da cidade da Starda e derivavam a mercê de correntes de ar quente, sobrevoando as infinitas planícies de Poritrin.

Holtzman estava em pé na cobertura do aparelho, contemplando as pradarias que fluíam em um mar verde e marrom, salpicado de lagos. Abaixo ele, os pássaros voavam como bandos de peixes. O lento aparelho derivava sem pressa, sem horário previsto.

Cravou a vista no horizonte. Distâncias sem limites, possibilidades infinitas. Algo hipnótico, que induzia à meditação... ao nascimento da inspiração. Esses lugares expandiam sua mente, permitiam-lhe seguir idéias loucas e acossá-las como um predador e seu presa.

A barcaça passava sobre formas geométricas similares a tatuagens na terra, parcelas dedicadas ao cultivo de cana de açúcar. Em outros campos cresciam grão e fibras destinadas à fabricação de roupa. Exércitos de escravos humanos trabalhavam nas fazendas e ranchos, como insetos em uma colméia.

Seguindo uma derivação bucólica do navacristianismo, a população de Poritrin havia ilegalizado os aparelhos de colheita eletrônicos para voltar para raízes mais humildes. Sem a sofisticada maquinaria, necessitavam de grande quantidade de mão de obra. Muito tempo antes, Sajak Bludd tinha sido o primeiro nobre da liga em introduzir a escravatura como meio de viabilizar a agricultura em grande escala.

O senhor de Poritrin tinha justificado seu ato ao escolher somente aqueles que estavam em dívida com a humanidade, sobretudo covardes budislâmicos que tinham fugido em vez de lutar contra os titãs e as máquinas pensantes. Se não tivessem tido tanto medo de combater em defesa da humanidade, dizia Sajak Bludd, seu número teria bastado para imprimir um giro de cento e oitenta graus no curso da guerra. Trabalhar nos campos era um preço muito pequeno para seus descendentes...

Holtzman passeou pela cobertura da barcaça, pediu uma taça de suco açucarado a um garçom e meditou enquanto sorvia a bebida. Desfrutou de sua viagem mental ao tempo que contemplava o mar de erva. Nenhuma distração... mas tampouco a menor inspiração.

O grande cientista estava acostumado a empreender travessias similares com o fim de pôr em ordem suas idéias, só olhar e pensar... e trabalhar, embora desse a impressão de que todas as pessoas a bordo estivessem em férias.

Devido aos êxitos anteriores de Holtzman, Niko Bludd tinha lhe concedido liberdade total para desenvolver as defesas e armas inovadoras que sua imaginação concebesse. Por desgraça, durante o ano anterior, o cientista tinha chegado a desagradável conclusão de que estava ficando sem idéias.

O gênio não era nada sem o impulso criativo. O sábio podia viver durante uma temporada de seus triunfos anteriores, mas tinha que contribuir com novos inventos com regularidade, do contrario lord Bludd começaria a duvidar dele.

Holtzman não podia permitir isso. Era uma questão de orgulho.

Sentia-se envergonhado de que os cimeks tivessem atravessado com tanta facilidade seus escudos decodificadores de Salusa Secundus. Como tinha podido, ele e todos os outros engenheiros e técnicos que tinham colaborado no projeto, ter esquecido o fato de que os cimeks tinham mentes humanas, em lugar de circuitos gelificados de inteligência artificial? Era uma falha significativa, assustadora.

De qualquer modo, a fé e esperança depositadas nele (para não falar dos recursos que financiavam seus projetos) submetiam a uma pressão incessante. A população nunca lhe permitiria que se aposentasse neste momento. Tinha que encontrar outra solução, salvar a cara uma vez mais.

Em seus laboratórios de Starda, investigava sem cessar, lia dissertações e documentos teóricos, que examinava em busca de possibilidades plausíveis. Muitos dos informe eram esotéricos, inclusive incompreensíveis, mas de vez em quando esporeavam sua imaginação.

Holtzman havia trazido consigo numerosas gravações para examinar durante seu périplo sobre as planícies de Poritrin. Um documento ambicioso e intrigante tinha sido escrito por uma teórica desconhecida de Rossak, chamada Norma Cenva. Por isso ele sabia, carecia de antecedentes, mas suas idéias eram pouco menos que assombrosas. Pensava em coisas simples de um ponto de vista totalmente diferente. Intuía que havia algo diferente nela. E ninguém a conhecia...

 

Enquanto a luz das estrelas acendia o imenso céu de Poritrin, permaneceu sozinho em seu camarote, bebendo um suco de frutas. Contemplou os cálculos de Norma, repetiu-os em sua memória em busca de erros, enquanto tentava compreender. Dava a impressão de que a jovem e desconhecida matemática não tinha a menor pretensão, como se extraíra das idéias e desejasse compartilhá-las com um homem que considerava seu colega intelectual.

Estupefato por algumas de suas deduções, compreendeu que suas dúvidas surgiam mais por sua falta de capacidade que dos postulados da mulher. Norma Cenva parecia inspirada pela divindade.

Exatamente o que necessitava.

Holtzman esteve pensando durante toda a noite. Por fim, ao iluminar a aurora, relaxou e dormiu uma vez tomada sua decisão. A brisa balançava a barcaça, que continuava derivando sobre a paisagem. Dormiu com um sorriso no rosto.

Logo conheceria Norma. Talvez suas idéias pudessem ser aplicadas aos engenhos que desejava usar contra as máquinas pensantes.

 

Naquela tarde, o sábio escreveu um convite pessoal a Norma Cenva, e a enviou para Rossak mediante um correio da liga. Esta jovem que tinha crescido isolada na selva talvez significasse sua salvação... se dirigisse a situação com diplomacia.

 

As oportunidades constituem um cultivo enganoso, em que as diminutas flores são difíceis de ver e ainda mais difícil de colher.

ANÔNIMO

 

Norma Cenva se encontrava no estúdio de sua mãe, que dominava as árvores púrpura. Sentia-se como uma intrusa. Caía uma fina chuva. Algumas gotas continham impurezas e produtos químicos venenosos procedentes dos vulcões em erupção que se viam a distância. Observou que se nuvens escuras se aproximavam. Não demoraria para chover.

- O que Aurelius Venport queria que encontrasse aqui?

Sua mãe severa vivia em uma austera habitação de paredes caiadas. Um oco albergava as elegantes roupas da feiticeira, artigos muito grandes e formosos para Norma. Zufa Cenva possuía uma beleza intimidante, uma pureza luminosa que a convertia em algo tão perfeito, e tão rígido, como uma escultura clássica. Até sem poderes telepáticos, era capaz de atrair aos homens como abelhas para o mel.

Mas o encanto da chefa das feiticeiras era só superficial, e ocultava uma convicção absoluta sobre determinados temas que dissimulava em frente a Norma. Não que Zufa não confiasse em sua filha. Simplesmente pensava que a moça não seria capaz. Como suas companheiras telepáticas, dava a impressão de que Zufa sentia prazer no segredo.

- Porém Aurelius tinha visto algo na jovem.

- Encontre-o aqui e não se arrependerá, Norma - havia dito, sorridente. - Creio que sua mãe vai lhe contar logo... mas não acredito que considere prioridade.

Eu nunca fui uma de suas prioridades. Intrigada, mas temerosa de que a surpreendessem, Norma continuou o registro.

Seu olhar pousou em uma agenda que descansava sobre uma mesa. O grosso volume tinha uma coberta marrom com palavras indecifráveis, tão misteriosas como as notas matemática que Norma tinha desenvolvido. Em uma ocasião, enquanto escutava as feiticeiras falarem de seus planos complexos, Norma captou que chamavam seu misterioso idioma de “Azhar”.

Desde que tinha retornado de Salusa Secundus, sua mãe se mostrou ainda mais indiferente e áspera do habitual. Devido ao ataque cimek, parecia inclinada a empreender projetos mais grandiosos. Quando Norma lhe perguntou sobre o esforço bélico, ela tinha se limitado a franzir o cenho.

- Nos ocuparemos disso.

A feiticeira passava a maior parte de seu tempo enclausurada com um grupo de mulheres. A Zufa tinha ocorrido uma nova idéia para defender-se das máquinas pensantes. Se sua mãe tivesse pensado que Norma podia contribuir para a causa, teria se apressado em incentivá-la. Em vez disso, Zufa tinha descartado sua filha por completo, sem lhe conceder a menor chance.

As mulheres, por volta de trezentas, tinham estabelecido uma zona de segurança nas profundidades da selva, impedindo o passo aos investigadores farmacêuticos contratados por Aurelius Venport. Qualquer explorador que se aventurasse na zona proibida se encontrava com estranhas barreiras cintilantes.

Sempre alerta, Norma tinha visto explosões inexplicáveis e fogueiras no lugar de onde as feiticeiras escolhidas por Zufa passavam semanas de intenso treinamento. Sua mãe freqüentava em poucas ocasiões seus aposentos...

Norma descobriu duas folhas de papel branco debaixo da agenda o pergaminho utilizado freqüentemente pelos correios da liga. Isso devia ser o que Aurelius desejava que encontrasse.

Aproximou um tamborete da mesa e subiu. Viu o cabeçalho da primeira folha: um documento oficial de Poritrin. Intrigada, e temerosa de que sua mãe aparecesse de um momento para outro, passou as páginas e ficou atônita ao ler em letras negras TIO HOLTZMAN.

Por que motivo o grande inventor teria escrito uma carta para sua mãe? A moça inclinou-se e leu a linha de saudação: “Querida Norma Cenva”. Leu a mensagem, e logo a releu com uma mescla de prazer e ira. Tio Holtzman quer que vá aprender com ele em Poritrin! Acha que sou brilhante? Não posso acreditar.

Sua própria mãe tinha tentado ocultar, ou ao menos atrasar, a mensagem! Zufa não havia dito nada, talvez incapaz de acreditar que o sábio quisesse algo de sua filha. Por sorte, Aurelius havia dito.

Norma correu ao distrito comercial da população. Encontrou Venport em um salão de chá, concluindo uma reunião com um mercador de aspecto maltrapilho. Quando o homem de pele escura se levantou de seu assento, Norma ocupou seu lugar.

Venport sorriu com afeto.

- Você parece nervosa, Norma. Terá encontrado a carta do sábio Holtzman.

A jovem colocou o pergaminho sobre a mesa.

- Minha mãe tentou impedir que eu visse sua oferta!

- Zufa é uma mulher irritante, sei, mas tem que procurar compreendê-la. Como nenhum de nós somos capazes de fazer as coisas que ela mais valoriza, Zufa não tem em conta nossas capacidades. Sim; é consciente de seu talento para a matemática, Norma, e sabe que eu sou um homem de negócios competente, mas isso não tem importância para ela.

Norma se remexeu no assento, sem querer conceder a sua mãe o benefício da dúvida.

- Então, por que escondeu esta carta?

Venport riu.

- A atenção que você recebeu deve envergonhá-la. - Apertou sua mão. - Não se preocupe, intervirei se sua mãe tentar impedir. De fato, como está tão atarefada com as outras feiticeiras, não vejo como poderia opor-se se eu me ocupar da papelada em seu nome.

- Você faria isso? E se minha mãe...?

- Deixe que eu me ocupe de tudo. Acertarei isso com ela. - Deu um abraço em Norma. - Acredito em suas capacidades.

Aurelius Venport enviou uma carta de resposta ao famoso inventor, em que acertava a viagem de Norma. A jovem estudaria com ele em Poritrin e lhe ajudaria em seus laboratórios. Para Norma, era a oportunidade de sua vida.

Se se mudasse, sua mãe nem sequer perceberia.

 

O lar pode estar em qualquer lugar, porque faz parte de nós mesmos.

Dito zensunni

 

Até em pleno deserto, açoitado pelo vento, a sorte não abandonava Selim. A sobrevivência se transformou em um jogo prodigioso.

Deixou atrás de si o verme morto e tratou de encontrar uma gruta ou um terreno baixo entre as rochas, onde poderia refugiar-se da tormenta iminente. Selim, morto de sede, procurou a seu ao redor sinais de habitáculos humanos, embora duvidasse que algum homem tivesse pisado paragens tão afastadas.

Certamente, nenhum tinha vivido para contar.

Depois de vagar de planeta em planeta, os zensunni tinham chegado a Arrakis, onde se dispersaram e fundaram diversos povoados, muito afastados entre si.

Durante várias gerações, tinham vivido com muita dificuldade no deserto, mas só muito de vez em quando se aventuravam fora de suas zonas protegidas, temerosos dos vermes gigantes.

O verme de areia tinha arrastado o Selim para muito longe do espaçoporto, muito longe dos recursos vitais que até os zensunni mais acostumados necessitavam. Suas chances de sobreviver pareciam muito limitadas.

Por isso, quando topou com uma antiga estação de experimentos botânicos, não acreditou na sua boa sorte. Sem dúvida, era um sinal de Budalá. Um milagre!

Parou imóvel em frente o recinto abobadado erigido por ecologistas perdidos que haviam estudado Arrakis. Talvez cientistas do Império Antigo tinham vivido aqui e recolhido dados durante a estação das tormentas. A tosca estrutura consistia em vários edifícios baixos construídos na rocha, meio ocultos pelo tempo e pela areia impulsionada pelo vento.

Enquanto a tormenta lhe aguilhoava com grãos de areia, Selim passeou ao redor da estação abandonada. Viu veletas inclinadas, coletores de vento trincados e outros instrumentos destinados a recolher dados que pareciam avariados. O mais importante, descobriu uma porta de entrada.

 

Selim procurou uma forma de entrar com suas mãos e braços doloridos pela longa viagem nas costas do verme. Afastou pó e areia, em busca de algum mecanismo manual, pois as baterias já teriam perecido. Precisava entrar no refúgio antes que a tormenta caísse sobre ele com toda sua intensidade.

Selim tinha ouvido falar de lugares semelhantes. Aventureiros zensunni tinham encontrado e saqueado alguns. Estas estações autônomas tinham sido construídas em Arrakis nos dias de gloria da humanidade, antes que as máquinas pensantes tomassem o poder, antes que os refugiados budislâmicos fugissem para se salvar. Esta instalação automatizada devia ter mil anos, talvez mais. Mas no deserto, onde o clima não mudava durante milênios, o tempo corria em uma velocidade diferente.

Selim localizou por fim o mecanismo que controlava a porta. Tal como temia, as células de energia tinham perecido, e tão só produziram uma faísca que abriu a porta alguns centímetros.

O vento uivava. A areia levantada pelo vento caia como névoa no horizonte e ocultava o sol. O polvo aguilhoava suas orelhas e rosto, e Selim sabia que logo se transformaria em uma chuva mortal.

Cada vez mais desesperado, fincou a presa na fenda e a utilizou como alavanca. A abertura se alargou um pouco, mas não o suficiente. Surgiu um jorro de ar frio do interior. Utilizou os músculos doloridos de seus braços, apoiou os pés contra a rocha para aplicar todo o peso de seu corpo e empurrou a alavanca improvisada.

A porta se abriu com um último grunhido de resistência. Selim riu e atirou a presa curva para dentro, que se chocou contra o chão com um ruído metálico. Entrou na estação, ao mesmo tempo que ouvia o rugido da tormenta cada vez mais forte. Estava em cima dele.

Embaraçado pelo vento e a areia projetada, Selim agarrou a borda da porta e empurrou com força. A areia que penetrava caiu por um ralo no chão em um receptáculo.

Tinha que ser rápido. O vento se acalmou apenas um segundo, mas foi suficiente. Fechou a porta e se encontrou a salvo da tormenta.

A salvo... incrível. Riu de sua boa sorte, e depois rezou uma oração de agradecimento, mais sincera que nenhuma outra de sua vida. Como podia duvidar de semelhante bênção?

Selim aproveitou o raio de luz para olhar ao seu redor. Por sorte, a estação abandonada tinha janelas de plaz e apesar de estarem arranhadas e gretadas pela larga exposição a intempérie, permitiam entrar um pouco de luz.

 

O lugar era como a cova do tesouro. Guiado pela luz das janelas, encontrou umas tiras luminosas que lhe permitiram ver melhor. Depois registrou gavetas e câmaras de armazenagem. Grande parte do que havia não servia de nada: placas de dados ilegíveis, sistemas de gravação eletrônicos inutilizados, estranhos instrumentos que tinham o nome de empresas arcaicas. Não obstante, encontrou cápsulas de comida bem conservadas que não tinham se deteriorado, apesar do tempo transcorrido.

Abriu uma cápsula e comeu o conteúdo. Embora os sabores fossem estranhos, a comida teve sabor de glória, notou que sua carne esgotada se enchia de energia. Outros contêineres guardavam sucos concentrados, que lhe pareceram com ambrósia. Mas o mais valioso de tudo foi descobrir água destilada, centenas de litrojons. Sem dúvida tinha sido recolhimento ao longo dos séculos por extratores de umidade automáticos, abandonados pela expedição científica.

Constituía uma riqueza pessoal inimaginável. Poderia devolver várias vezes a água salobra que tinham lhe acusado de roubar da tribo. Poderia voltar aos zensunni como um herói. O naib Dhartha teria que lhe perdoar. Mas para começar, Selim não era culpado desse delito.

Descansado e satisfeito, Selim jurou que nunca daria a Dhartha a satisfação de lhe ver retornar. Ebrahim tinha traído sua amizade, e o corrupto naib o tinha condenado falsamente. Seu próprio povo o tinha exilado, convencidos de que ele não sobreviveria.

Agora que tinha descoberto uma maneira de viver por seus próprios meios, para que ia voltar e entregar tudo?

O jovem dormiu durante duas noites seguidas. Ao amanhecer do segundo dia, despertou e abriu mais caixas e armários. Descobriu ferramentas, corda, tecido resistente, material de construção. As possibilidades lhe encheram de alegria, e Selim tirou o chapéu rindo sozinho n o interior da estação botânica.

Estou vivo!

A tormenta tinha passado enquanto dormia, tinha arranhado sem êxito as paredes do refúgio como um monstro que tentasse entrar. Quase toda a areia se desviou, de modo que havia muito pouca amontoada ao redor do recinto. Da janela maior da estação, Selim contemplou o oceano deserto que tinha cruzado nas costas do verme. As dunas eram recentes, sem sinais distintos. Todo rastro do animal morto tinha sido apagado.

Só restava este jovem solitário.

Imaginou a longa viagem que lhe esperava, e pensou que devia aguardar uma missão especial. Porque, senão, teria Budalá tomado tantas moléstias para permitir que o pobre Selim vivesse?

O que quer que faça?

O exilado olhou para o deserto, sorridente, e se perguntou como poderia cruzar de novo aquela infinita extensão. O panorama lhe proporcionou uma sensação de suprema solidão.

Distinguiu algumas rochas na distância, erodidas por ventos eternos. Viu umas poucas plantas resistentes. Pequenos animais corriam a esconder-se em suas tocas. As dunas se fundiam com as dunas, o deserto com o deserto.

Encantado por suas lembranças, com a sensação de ser invulnerável, Selim decidiu o que deveria fazer, cedo ou tarde. A primeira vez tinha sido uma sorte incrível, mas agora sabia melhor como fazê-lo.

Devia montar de novo em um verme de areia. E da próxima vez não seria por acidente.

 

Uma das perguntas que a Jihad Butleriana respondeu com violência foi se o corpo humano é uma simples máquina que uma máquina feita pelo homem pudesse emular. Os resultados da guerra responderam à pergunta.

DOUTOR RAJID SUK,

Análise pós-traumática da espécie humana

 

Com uma nova forma bélica desenhada para aterrorizar aos humanos de Giedi Prime, Agamenon avançou sobre suas patas blindadas através das indústrias destroçadas e das ruínas fumegantes da cidade. Os hrethgir não tiveram a menor chance.

Giedi Prime tinha sido conquistada com facilidade.

As tropas invasoras abriram fogo sobre os complexos residenciais, converteram parques em campos enegrecidos. Seguindo as ordens de Agamenon, a maior honra e glória de Omnius, os neocimeks e os guerreiros robô deixaram intactas quase todas as industrias de Giedi Prime.

Agamenon tinha jurado que Giedi Prime compensaria a humilhação dos cimeks em Salusa. Neste momento, olhos espiões sobrevoavam o terreno e gravavam a chacina, para documentar a eficácia da operação militar liderada pelos dois titãs.

Acompanhado de seu camarada Barba Azul, Agamenon examinou a topografia das metrópoles e localizou a magnífica residência do magno. Era um lugar apropriado para estabelecer o novo centro de um governo sincronizado, um gesto simbólico de autoridade ao mesmo tempo em que uma afronta ao povo derrotado.

A forma bélica do general cimek era o sistema múltiplo mais monstruoso que havia concebido. Descargas elétricas percorriam músculos artificiais, esticavam cabos de fibra e moviam extremidades carregadas de armas. Flexionava suas garras de metal líquido e esmagava blocos de construção, imaginando que eram crânios de inimigos. Barba Azul, com outra configuração de ferocidade semelhante, ria da exibição.

Os cimeks, elevados sobre suas múltiplas pernas, percorriam as ruas semeadas de escombros. Nada se interpunha no caminho dos senhores da guerra. Os dois recordavam situações acontecidas mil anos antes, quando Vinte Titãs tinham conquistado o Império Antigo pisoteando os cadáveres de seus inimigos.

Assim devia ser. Isto não fazia mais que despertar ainda mais seu apetite.

 

Antes do ataque, Agamenon tinha estudado as defesas do Giedi Prime, analisado as imagens tomadas por olhos espiões que atravessava o sistema como diminutos meteoros. A partir daquelas leituras, o general cimek tinha idealizado um movimento tático brilhante, que aproveitaria um ponto fraco das defesas planetárias. Omnius tinha aceito pagar o preço necessário pela conquista de um planeta da liga, que não havia perigo de vida de um só titã, nem sequer de um neocimek inferior. Somente um cruzador robô. Perfeitamente aceitável, na opinião de Agamenon.

Os humanos tinham erguido campos decodificadores como os de Salusa, e haviam concentrado as torres de transmissão em Giedi Prime. Naves de combate kindjal, em teoria inexpugnáveis e veículos terrestres blindados protegiam suas torres. Os humanos tinham aprendido uma lição em Salusa Secundus, mas não era suficiente para protegê-los da aniquilação.

A primeira linha de forças protetoras orbitais tinha sido vaporizada pela força gigantesca da frota. As perdas robóticas foram aceitáveis. Quando Agamenon lançou o ataque das naves cimek, junto com os cruzadores destinados ao sacrifício, os defensores humanos compreenderam que não havia salvação.

Para iniciar o ataque, o gigantesco cruzador robô se colocou sobre Giedi Prime, com as adegas carregadas de explosivos. Dúzias de outros cruzadores se prepararam para o ataque. Guiado pela inteligência de uma máquina pensante, a enorme nave acendeu seus motores e acelerou a toda velocidade para seu objetivo.

- Descida de aproximação em curso - havia informado a mente da nave, ao mesmo tempo que transmitia imagens as forças que aguardavam. Trinta naves de assalto haviam saído disparadas para a superfície, também com a esperança de alcançar o alvo, mas destinadas a ser o objetivo dos mísseis defensivos terra-ar.

O plano se apoiava na força bruta e na supremacia numérica, não na delicadeza. Entretanto, seria efetivo.

Com os motores a toda velocidade, a nave destinada ao sacrifício tinha acelerado até penetrar na atmosfera de Giedi Prime, mais veloz que qualquer míssil defensivo. Outros cruzeiros se aproximaram do escudo decodificador invisível. Nuvens de fumaça brancas e explosões indicavam que os mísseis terra-ar tinham encontrado o objetivo. O número diminuía, assim como a distância. Os humanos jamais poderiam repelir os invasores.

A nave robô condenada enviou as últimas imagens aos olhos espiões, para que Omnius dispusesse de uma gravação completa da conquista do Giedi Prime. Cada nanosegundo... até que atravessou a rede decodificadora, que apagou o cérebro guia de inteligência artificial.

As transmissões se interromperam.

Mesmo assim, o colosso continuou descendendo. Embora com seu cérebro de circuitos gelificados neutralizado, o cruzeiro caía como um martelo do tamanho de um asteróide.

As naves kindjal dispararam contra o cruzador carregado de explosivos, mas era impossível desviá-lo.

O gigantesco cruzeiro se chocou contra as torres transmissoras situadas nos subúrbios de Giedy City. Abrindo uma cratera de meio quilômetro de largura. Os transmissores, as defesas e as zonas habitadas circundantes foram vaporizadas.

As ondas de choque tinham derrubado arranha-céu em quilômetros à volta e destroçado janelas. Os escudos decodificadores Holtzman foram neutralizados em um abrir e fechar de olhos, e a tropa local sofreu muitas baixas.

Depois, os cimeks e os robôs se encarregaram do restante.

 

- Barba Azul, meu amigo, fazemos nossa entrada triunfal? - perguntou Agamenon quando chegaram à residência do magno.

- Como quando entramos com Tlaloc nos salões do Império Antigo - respondeu o outro titã. - Fazia muito tempo que não desfrutava tanto de uma vitória.

Guiaram os entusiasmados neocimeks sem problemas pelas ruas da cidade mártir. Os humanos estupefatos eram incapazes de opor resistência. Depois dos conquistadores cimek partiam tropas robô, encarregadas de colaborar na limpeza de inimigos.

Embora parte da população do Giedi Prime se ocultasse, com o tempo os cidadãos desmoronariam. Possivelmente levariam anos para acabar com as últimas células de resistência feroz. Não havia dúvida de que as máquinas suportariam décadas de ataques de guerrilhas, dirigidos pelos sobreviventes da tropa local, convencidos de que algumas mordidas sem importância obrigariam aos invasores a partir. Formar grupos de resistentes seria uma tarefa inútil, mas sabia que os nativos não se resignariam com facilidade.

Agamenon se perguntou se deveria chamar Ajax para terminar a limpeza. O brutal cimek gostava de caçar humanos, como tinha demonstrado com tanta eficácia durante as revoltas hrethgir de Walgis. Enquanto instalavam uma cópia da supermente nas cinzas de Giedi City, Agamenon transmitiria as devidas recomendações à nova encarnação de Omnius.

Agamenon e Barba Azul derrubaram a fachada da residência do governador, deixando espaço suficiente para seus corpos. Soldados robô, muito menores que os cimeks, seguiram-lhes ao interior do edifício. Ao fim de poucos momentos, os robôs conduziram o magno ante os dois titãs.

- Tomamos posse de seu planeta em nome de Omnius - declarou Barba Azul. - Giedi Prime é agora um planeta sincronizado. Exigimos sua colaboração para consolidar nossa vitória.

O magno Sumi, que tremia de medo, teve não obstante arrestos para cuspir no chão de formosos ladrilhos, que os cimeks tinham esmagado com seu peso.

- Incline-se ante nós - trovejou Barba Azul.

O magno riu.

- Está louco. Eu nunca...

Agamenon girou para um lado um de seus esbeltos braços metálicos. Ainda não tinha testado totalmente seu novo corpo, e desconhecia a magnitude de sua força. Sua intenção era esbofetear ao governador, mas o braço deu-lhe um golpe tão feroz que partiu pela metade o torso do homem. As duas partes do corpo foram parar contra a parede do fundo, entre uma nuvem de sangue.

- De qualquer modo, minha petição era pura formalidade.

Agamenon voltou as fibras ópticas para seu companheiro.

- Comece a trabalhar, Barba Azul. Estes robôs o ajudarão.

O gênio da informática começou a desmantelar os sistemas da residência do governador e a colocar condutos de energia e maquinaria. Acrescentou junções e instalou uma esfera gelificada elástica com a qual carregou a última versão da mente de Omnius.

O processo durou várias horas, durante as quais os invasores se desdobraram pela cidade, apagaram incêndios e escoraram os edifícios industriais que Agamenon considerava importantes para o funcionamento do planeta.

Não obstante, deixaram queimar os edifícios de moradias. Que os humanos as arrumassem como pudessem. A desdita os ajudaria a compreender que sua posição era se desesperada.

Os olhos espiões gravavam tudo sem cessar. Ao menos, desta vez era uma vitória. Agamenon dissimulava sua impaciência com desagrado, sabendo que a resistência contra a supermente era estéril. Por enquanto. Devia escolher o momento e lugar adequados.

Uma vez instalada e ativada, a nova encarnação de Omnius não expressaria gratidão aos dois titãs, na aparência leais, por sua vitória, nem tampouco lamentaria a perda de seu cruzador. Era uma operação militar bem executada, e os Planetas Sincronizados haviam acrescentado mais uma jóia da humanidade ao seu império. Um êxito psicológico e estratégico.

Quando terminou a carga, Agamenon ativou a nova cópia da supermente. Os sistemas ganharam vida e o computador onisciente começou a examinar seus novos domínios.

- Bem-vindo lorde Omnius - disse Agamenon aos alto-falantes. - Ofereço outro planeta como presente.

 

Nossa felicidade é máxima quando planejamos nosso futuro, dando rédea solta a nosso otimismo e imaginação. Por desgraça, o universo nem sempre dá atenção a esses planos.

ABADESSA LIVIA BUTLER, diários pessoais

 

Embora seu matrimônio estivesse cantado de antemão, Serena e Xavier suportaram sem problemas o luxuoso banquete de compromisso oferecido pelo vice-rei Manion Butler em seu palácio.

Emil e Lucille Tantor haviam trazido cestas de maçãs e peras de seus pomares, assim como enormes tonéis de azeite de oliva virgem para encharcar os pãezinhos de compromisso.

Manion Butler ofereceu aos convidados boi assado, galinha recheada e pescados cheios. Serena contribuiu com flores de seus jardins, que tinha cuidado desde sua infância.

Os famosos artistas salusianos ataram cintas aos arbustos do pátio e deram uma exibição de bailes populares. As mulheres prenderam seus cabelos com pentes de prender cabelos adornados com jóias, embelezadas com vestidos brancos bordados. As saias voavam como redemoinhos ao redor de sua cintura, enquanto belos cavalheiros revoavam a seu redor como perus reais. A melancólica música dos balisets se prolongou até a tarde.

Xavier e Serena vestiam trajes impressionantes, dignos de um oficial militar e a inteligente filha do vice-rei da liga. Passearam entre os convidados, e tiveram o bom cuidado de chamar a cada um por seu nome. O casal degustou vinhos de qualidade oferecidos pelos nobres de cada casa. Xavier, que já não podia captar os matizes das colheitas, procurou não embebedar-se muito. A perspectiva de seu iminente matrimonio o aturdia.

A irmã menor de Serena, Octa, dois anos mais jovem, parecia igualmente emocionada. Com seu comprido cabelo castanho adornado com laços, Octa estava fascinada pelo prometido de sua irmã, e fantasiava com a possibilidade de contrair matrimônio algum dia com outro oficial jovem e bem posto.

Para surpresa de todos, a mãe de Serena, Livia, foi passar o fim de semana na mansão dos Butler. A esposa de Manion saía em poucas ocasiões da Cidade da Introspecção, um retiro onde vivia afastada das preocupações e pesadelos do mundo terrestre. O recinto espiritual, propriedade dos Butler, tinha sido criado para estudar e meditar sobre o Zen Hekiganshu de III Delta Pavonis, o Tawrah e o Zbur talmúdico, inclusive o ritual Obeah. Sob a proteção dos Butler, a cidade havia chegado a ser algo que seus similares não tinham conhecido durante milênios.

Xavier não tinha visto com freqüência a mãe de Serena, sobretudo nos últimos anos. Com sua pele bronzeada e rosto enxuto, Livia Butler era uma beleza. Alegrava-se do compromisso de sua filha, e dava a impressão de que desfrutava dançando com seu jovial marido, ou sentada a seu lado à mesa do banquete. Não parecia uma mulher que houvesse renunciado o mundo.

Anos antes, muitas famílias nobres tinham invejado o sólido matrimônio de Livia e Manion. Serena era sua filha maior, porém também tinham dois gêmeos, dois anos mais novos: a tranqüila e tímida Octa, e um menino inteligente e sensível, Fredo. Enquanto Serena se dedicava ao estudo das ciências políticas, os gêmeos cresceram muito unidos, pois nenhum tinha as aspirações de sua irmã maior.

Fredo estava fascinado pelos instrumentos musicais, as canções folclóricas e as tradições dos planetas mais importantes do Império Antigo. Aprendeu música e poesia, enquanto Octa se decantou pela pintura e a escultura. Na sociedade salusiana, se respeitava em grau supremo os artistas e as pessoas criativas, aos que se admirava tanto como aos políticos.

Mas com quatorze anos, Fredo morreu de uma enfermidade galopante. Tinha ido piorado a cada mês que passava, e seus músculos se atrofiaram. Seu sangue não se coagulava, e seu estômago era incapaz de reter qualquer alimento. Os médicos salusianos nunca tinham visto algo semelhante. O vice-rei Butler pediu ajuda à liga, desesperado.

Os homens de Rossak ofereceram certos fármacos experimentais, procedentes de suas selvas ricas em cogumelos. Livia insistiu em provar tudo. Por desgraça, o moço reagiu mal ao terceiro fármaco de Rossak, uma reação alérgica que inchou sua garganta. Fredo sofreu uma série de convulsões e deixou de respirar.

Octa tinha chorado a morte de seu irmão, e chegou a temer por sua vida. Ao fim, opinaram que a enfermidade de Fredo era de tipo genético, o qual significava que seus irmãos também podiam contrair a mesma doença. Octa cuidou de sua saúde e viveu cada dia no temor de que sua vida terminaria igual à de seu irmão, lenta e dolorosamente.

Serena, sempre otimista, tentou consolar sua irmã. Embora nenhuma das irmãs mostrou sintomas da cruel enfermidade, Octa abandonou suas atividades artísticas e se converteu em um ser comedido e meditabundo. Era uma adolescente frágil, aferrada a a esperança de que algo iluminara sua vida.

Embora seu marido fosse um político brilhante, e sua importância aumentasse a cada dia que passava, Livia tinha se retirado da vida pública e apenas abandonava seu retiro espiritual, onde concentrava-se em matérias filosóficas e religiosas. Doava importantes quantias para a construção de centros médicos, templos e bibliotecas. Depois de dedicar incontáveis noites a conversar com a pensadora Kwyna, Livia se transformou na abadessa do monastério.

Depois da tragédia, Manion Butler se entregou em corpo e alma a trabalhar pela liga, enquanto Serena se sentia afligida por um peso crescente e se fixava objetivos mais importantes. Embora não pôde fazer nada para ajudar a seu irmão, desejava aliviar o sofrimento do próximo sempre que podia. Dedicou-se à política, obcecada pela abolição da escravidão, prática habitual nos planetas da liga, e trabalhou por descobrir uma forma de vencer as máquinas pensantes. Ninguém a tinha acusado jamais de falta de perspectiva ou energia...

Embora vivessem separados, Manion e Livia Butler continuavam sendo os pilares da sociedade salusiana, orgulhosos das realizações mútuas. Não estavam divorciados, nem separados do ponto de vista emocional... mas seguiam caminhos diferentes. Xavier sabia que a mãe de Serena voltava de vez em quando para ficar com seu marido, e gostava de passar o fim de semana com suas filhas. Porém sempre retornava à Cidade da Introspecção.

O compromisso de Serena era um acontecimento importante o bastante para que sua mãe saísse à luz pública. Depois que Xavier dançou com sua prometida quatro vezes seguidas, Livia insistiu em compartilhar uma dança com seu futuro genro.

Mais tarde, durante um prolongado concerto acústico de baladas interpretadas por histriões salusianos, Xavier e Serena desapareceram, enquanto Livia chorava, quando recordou que Fredo tinha desejado ser músico. Manion, sentado ao lado de sua esposa, a embalava com doçura.

Xavier e Serena já estavam fartos de saudar os convidados, degustar vinho e comida, de fazer conversar. Riam todas as brincadeiras, fossem sutis ou grosseiras, para não ofender as famílias importantes. A estas alturas, ansiavam passar alguns momentos a sós.

Por fim, fugiram pelos corredores da mansão, até chegar a um pequeno estúdio situado junto à sala do Sol Invernal. No inverno, a luz do sol tingia de arco íris oblíquos esta estância. A família Butler sempre tomava o café da manhã aqui no inverno, enquanto contemplavam o sol nascente. Era um lugar que trazia muitas lembranças a Serena.

Se escondeu com o Xavier no gabinete e o beijou. Ele acariciou-lhe o cabelo e a beijou por sua vez, ansioso por possuí-la.

Quando ouviram passos apressados no corredor, os amantes guardaram silêncio, mas Octa os descobriu com facilidade. Ruborizada, afastou a vista.

- Vocês precisam voltar para a sala de banquetes. Papai está a ponto de servir a sobremesa. Além disso, está a ponto de chegar um mensageiro extra-planetário.

- Um mensageiro? - Xavier perguntou. - De onde?

- Foi a Zimia para solicitar audiência ao Parlamento, mas como quase todos os nobres vieram ao banquete, vem para cá.

Xavier ofereceu um braço a cada irmã.

- Vamos ver o que nos quer comunicar esse mensageiro - disse, em tom frívolo forçado. - Afinal, não comi quase nada. Um prato de nata torrada e outro de ovos roubados não seriam nada mal.

Octa riu, mas Serena olhou-o com expressão zombeteira.

- Suponho que terei que me resignar a viver com um marido obeso.

Entraram na sala, onde os convidados estavam dando conta de uma extensa seleção de sobremesas. Manion e Livia brindaram pelo casal.

Xavier sorveu seu vinho e detectou certa preocupação nos gestos do vice-rei. Todos fingiam indiferença pelas notícias que o mensageiro poderia comunicar, mas quando se ouviu um golpe na porta, toda atividade cessou. O próprio Manion Butler foi abrir a porta, e indicou ao homem que entrasse.

Não era um correio oficial. Tinha o olhar extraviado e o uniforme desalinhado, como se fosse indiferente ao protocolo e as aparências. Xavier reconheceu a insígnia da tropa local de Giedi Prime. Como outros uniformes da liga, exibia o selo dourado da humanidade livre na lapela.

- Trago graves notícias, vice-rei Butler. A nave mais veloz me trouxe para seu lar.

- O que acontece, jovem?

A voz do vice re transparecia temor.

- Giedi Prime caiu em poder das máquinas pensantes! - O oficial elevou a voz para fazer-se ouvir por cima dos gritos incrédulos dos convidados. - Os robô e os cimeks descobriram uma falha em nossas defesas e destruíram nossos escudos decodificadores. Grande parte da população foi exterminada, e os sobreviventes escravizados. Um novo Omnius já foi ativado.

Todos prorromperam em gritos de dor. Xavier aferrou a mão de Serena com tal força que teve medo de lhe machucar. Estava petrificado de estupor.

Acabara de chegar de Giedi Prime, tinha inspecionado as defesas em pessoa. Sim, só pensava em terminar sua viagem de inspeção para voltar para Serena. Tinha passado por cima de algum defeito? Fechou os olhos, enquanto as perguntas e os comentários incrédulos aconteciam. Tinha sido culpa dele? Um simples engano, a impaciência de um jovem apaixonado, tinha provocado a queda de todo um planeta?

Manion Butler apoiou ambas as mãos sobre a mesa para não perder o equilíbrio. Livia pousou a mão sobre o ombro de seu marido, afim de lhe brindar seu apoio silencioso. A mulher fechou os olhos, e moveu os lábios como se rezasse.

O vice-rei falou.

- Outro mundo livre conquistado pelos Planetas Sincronizados, e um de nossos lugares fortes. - Endireitou e respirou fundo. - Devemos convocar imediatamente um conselho de guerra, e chamar todos os representantes. - Dirigiu um olhar significativo a Serena. - Daremos as boas-vindas a qualquer um que deseje falar em nome dos Planetas Não Aliados e deseje somar-se à luta.

 

Todo elemento do universo contém defeitos, incluídos nós. Nem sequer Deus alcança a perfeição em Suas criações. Só a humanidade defende tamanha arrogância.

PENSADORA KWYNA, arquivos da Cidade da Introspecção

 

Seus gritos ressonavam nas silenciosas cidades dos penhascos que dominavam a selva púrpura. Zufa Cenva estava tombada em um colchão em seu quarto. Gritava de dor, com os dentes apertados e os olhos frágeis.

Sozinha. Ninguém ousava aproximar-se de uma feiticeira do Rossak presa do delírio.

Uma cortina metálica que fazia as vezes de porta vibrava por obra de uma força telecinética invisível. As prateleiras das paredes estremeciam depois das explosões psíquicas da Zufa. Potes e lembranças caíam ao chão.

Tinha o longo cabelo branco desgrenhado, sacudido pela energia interna. Suas mãos pálidas aferravam os lados do colchão como garras. Se alguma mulher se aproximasse para acalmá-la, Zufa teria arranhado seu rosto e a lançado contra a parede com sua força mental.

Voltou a gritar. A feiticeira já tinha sofrido abortos em ocasiões anteriores, mas nunca um tão doloroso e dilacerador. Amaldiçoou em silencio Aurelius Venport.

A coluna vertebral da Zufa estremeceu, como se alguém lhe tivesse aplicado uma descarga elétrica. Delicados objetos decorativos flutuaram no ar, como se estivessem suspensos por cabos invisíveis, e logo saíram disparados em todas direções, até romper-se em mil pedaços. Um vaso de flores secas estalou em chamas brancas.

Ofegou quando seu corpo sofreu todo tipo de cãibras e atendeu seus músculos abdominais. Dava a impressão de que aquele feto queria matá-la antes que pudesse expulsá-lo do útero.

Outro fracasso! Tinha tanta vontade de dar a luz uma verdadeira filha, uma sucessora que guiasse suas irmãs feiticeiras para novas cúpulas de poder mental. O índice genético a tinha enganado uma vez mais. Maldito fosse Venport e seus defeitos! Deveria tê-lo abandonado muito tempo antes.

Zufa, louca de dor e desespero, teve vontades de matar o homem que a havia inseminado, apesar que fora ela quem tinha insistido em ficar grávida. Havia efetuado os cálculos de linhagem com tanta atenção, examinado os genes uma e outra vez. Procriar com Venport teria que ter dado como resultado uma descendência de classe superior.

Nada parecido com isto.

Descargas telepáticas ressonaram nos corredores, e as mulheres do Rossak fugiram aterrorizadas. Então, viu Aurelius Venport na soleira, com expressão preocupada.

Mas Zufa sabia que era um falsário.

Venport, indiferente a sua sorte, entrou na habitação, um modelo de paciência, preocupação e tolerância. As descargas mentais de sua amante ressoavam de uma parede a outra do dormitório, derrubavam móveis. Com intenção de lhe desprezar, a feiticeira destroçou um conjunto de diminutas esculturas que lhe tinha presenteado durante seu noivado e análise genética.

Seguiu avançando, como se fosse imune a seus estalos de ferocidade. Do corredor, vozes apagadas lhe aconselharam precaução, mas ele desprezou esses avisos. Aproximou-se do colchão, com um sorriso que projetava compaixão e compreensão.

Venport se ajoelhou ao lado da cama, acariciou sua mão suarenta. Sussurrou em seu ouvido. A feiticeira não podia compreender suas palavras, mas agarrou seus dedos com a esperança de quebrá-los. Mesmo assim, o homem não se deixou intimidar.

Zufa lançou acusações de traição.

- Leio seus pensamentos! Sei que só pensa em você.

Sua imaginação concebia estratagemas, que atribuía à mente tortuosa de Venport. Se a grande Zufa Cenva já não o protegia, quem cuidaria dele como a um animal doméstico? Quem iria querê-lo? Duvidava de que fosse capaz de cuidar de si mesmo.

E depois se perguntou, com maior temor, ele podia?

Venport tinha enviado Norma a Poritrin, pelas costas da Zufa, como se estivesse convencido que um homem como Tio Holtzman desejasse trabalhar com sua filha. O que estava tramando? Apertou os dentes, com o desejo de demonstrar que compreendia suas intenções. Suas ameaças surgiram entre os dentes.

- Não pode... me deixar morrer, bastardo! Ninguém mais... o... aceitaria!

Ele a olhou com ar paternal.

- Você me disse muitas vezes que procedo de uma boa estirpe genética, querida. E não desejo mais nenhuma feiticeira. Prefiro ficar contigo. - Baixou a voz, e olhou-a com um amor intenso, que ela foi incapaz de compreender. – Eu a compreendo melhor que você, Zufa Cenva. Sempre insistente, sempre exigindo mais do que ninguém pode dar. Ninguém, nem sequer você, pode ser perfeita sempre.

Com um grito prolongado final, a feiticeira expulsou o feto disforme e monstruoso. Ao ver o sangue, Venport pediu auxílio aos gritos, e duas valentes parteiras entraram no quarto. Alguém envolveu o feto em uma toalha como se fosse um sudário, enquanto a outra aplicava calmantes naturais na pele de Zufa. Venport foi procurar os melhores fármacos que guardava em seu laboratório.

Por fim, tomou o feto em suas mãos. Tinha a pele escura e estranhas manchas, disseminadas por seu corpo carente de membros, que pareciam olhos. Viu que o feto se agitava uma última vez, e logo deixava de mover-se.

Envolveu-o na toalha, sem fazer caso da lágrima que escapava de seu olho. Venport estendeu o feto a uma das parteiras, sem dizer nada. Elas o levariam para a selva, e ninguém voltaria para vê-lo.

Esgotada-a feiticeira sofria tremores incessantes. Estava voltando a si. E ao desespero. O aborto lhe tinha provocado uma profunda tristeza, que não tinha nada com o programa de reprodução. Quando recuperou a visão, observou a destruição que tinha causado na casa. Uma demonstração de debilidade, de falta de controle.

Era seu terceiro aborto horripilante desde que tinha tomado Venport como marido.

Estava cheia de decepção e raiva.

- Eu o escolhi por sua linhagem, Aurelius - murmurou entre seus lábios ressecados. - Qual foi meu erro?

Ele a olhou, inexpressivo, como curado de sua paixão.

- A genética não é uma ciência exata.

Zufa fechou os olhos.

- Fracassos, sempre fracassos.

Era a grande feiticeira do Rossak, mas tinha suportado muitas decepções. Zufa lançou um suspiro de desagrado quando pensou em sua filha, sem querer acreditar que a feia anã era o melhor que podia dar de si.

Venport meneou a cabeça, sério e impaciente agora que o perigo tinha passado.

- Você teve êxitos, Zufa. O problema é que não quer reconhecê-lo.

A feiticeira se obrigou a descansar, a recuperar-se. Com o tempo, Zufa voltaria a tentar, mas com outro homem.

 

A investigação excessivamente organizada é confusa, e não produz nada novo.

TIO HOLTZMAN, carta a lorde Niko Bludd

 

Quando chegou a Poritrin, depois de sua primeira viagem espacial, Normatiza Cenva se sentiu deslocada. Sua forma diminuta chamava a atenção, mas estava acostumada que as pessoas a olhasse com compaixão. Existiam diversas raças nos Planetas Não Aliados, algumas de pequena estatura. Ela só queria impressionar ao Tio Holtzman.

Antes que Norma partisse de Rossak, sua mãe a tinha tratado com assombro depreciativo. Zufa preferia acreditar que o brilhante sábio tinha cometido um equívoco ou havia interpretado mal algum trabalho teórico de Norma. Esperava que sua filha voltasse para casa ao fim de pouco tempo.

Aurelius Venport se encarregou de todos os trâmites, e pagou de seu bolso um camarote melhor do que Holtzman havia oferecido. Enquanto sua mãe continuava trabalhando com as aprendizas de feiticeira, Venport tinha acompanhado a Norma até a estação espacial de Rossak. Tinha lhe dado um buquê de flores secas, e um casto abraço antes que a moça subisse à nave.

- Nós os fracassado temos que permanecer unidos.

Norma recordou aquele comentário carinhoso, mas ao mesmo tempo inquietante, durante a longa viagem até Poritrin... Quando a lançadeira aterrissou na cidade da Starda, Norma adornou seu cabelo castanho com as flores secas do Venport, um toque de beleza que contrastava com a fealdade de sua cara larga, cabeça grande e nariz redondo. Vestia uma blusa folgada e calças confortáveis, ambos feitos de fibras de samambaias.

A moça só levava uma pequena bolsa de viagem. Desceu pela rampa, ansiosa por conhecer o cientista que mais admirava, um pensador que a levava a sério. Tinha ouvido falar em numerosas ocasiões das proezas matemáticas de Holtzman, e faria o possível para ajudá-lo. Esperava não decepcioná-lo.

Esquadrinhou a multidão e reconheceu imediatamente o eminente cientista. Holtzman era um homem amadurecido, bem barbeado e de cabelo cinza comprido até os ombros. Suas mãos e unhas estavam bem cuidadas, sua indumentária era impecável.

Ele a recebeu com um amplo sorriso e os braços abertos.

- Seja bem-vinda a Poritrin, senhorita Cenva. - Holtzman apoiou ambas as mãos sobre seus ombros, no modo de saudação oficial. Se sentiu-se decepcionado ao ver a estatura e as feições pouco agraciadas de Norma, não demonstrou. - Espero que tenha trazido consigo sua imaginação.

Indicou uma porta.

- Temos que trabalhar muito juntos.

Guiou-a longe dos olhares curiosos, e logo subiram a bordo de uma barcaça que sobrevoou o rio Isana.

- Poritrin é um planeta calmo, onde posso deixar vagar minha mente e pensar em coisas que podem salvar a raça humana. - Holtzman sorriu com orgulho. - Espero que você me ajude.

- Farei o que puder, sábio Holtzman.

- Que mais poderia pedir?

A luz do entardecer pintava de um tom amarelado as nuvens que cobriam os céus de Poritrin. A barcaça deslizou sobre os regatos que rodeavam ilhas e bancos de areia. Navios carregados de cereais e outros produtos sulcavam o largo rio. O fértil Poritrin alimentava muitos planetas menos afortunados, e em troca recebia matérias primas, aparelhos, produtos manufaturados e escravos humanos.

Alguns dos edifícios maiores do espaçoporto eram navios sobre pontes de tábua, ancorados às bases de penhascos de arenito. Os telhados eram compostos por placas de metal azul prateado, fundido nas minas do norte.

O sábio assinalou um penhasco que dominava a cidade da Starda, em cujos edifícios reconheceu Norma a influência da arquitetura navacristiana clássica.

- Meus laboratórios se encontram ali em cima. Edifícios e armazéns, moradias para meus escravos e calculadores, assim como meu lar. Tudo construído no interior desse pico de rocha.

O transporte se desviou por volta de duas seções de pedra, como dedos que se elevassem sobre o leito do rio. Norma viu janelas de plaz, balcões cobertos com toldos e uma passarela que se comunicava com a abóbada de uma torre com os edifícios de outra torre.

Holtzman se sentiu lisonjeado com seu assombro.

- Temos aposentos para você, Norma, além de laboratórios privados e uma equipe de ajudantes que se encarregarão de efetuar os cálculos apoiados em suas teorias. Espero que os mantenha sempre muito ocupados.

Norma olhou para ele, perplexa.

- Haverá outras pessoas que se ocupem dos cálculos matemáticos?

- É obvio! - Holtzman afastou o cabelo do rosto e se envolveu no manto branco.

- Você é uma pessoa de idéias, como eu. Queremos que desenvolva conceitos, mas sem se preocupar em colocá-los em prática. Não deveria perder tempo em tediosos cálculos aritméticos. Qualquer pessoa mais ou menos preparada pode fazê-lo. Para isso existem os escravos.

Quando a barcaça pousou sobre um mole de lajes vidradas, apareceram criados para se ocupar da bagagem de Norma e oferecer a ambos os refrescos. Como um moço ansioso, Holtzman conduziu Norma até seus impressionantes laboratórios. Estavam cheios de relógios de água e esculturas magnéticas, onde orbitavam esferas seguindo caminhos elétricos sem necessidade de cabos ou mecanismos de transmissão. Esboços e desenhos por terminar cobriam tabuleiros eletrostáticos rodeados de cálculos sinuosos sem nenhuma conclusão lógica.

Norma passou a vista ao seu redor e percebeu que Holtzman havia abandonado mais conceitos dos que ela tinha criado em sua vida. Mesmo assim, muitos papéis e desenhos geométricos pareciam um pouco antigos. Estavam quase apagados e os papéis se curvavam nas bordas. Holtzman desprezou os intrigantes objetos com um gesto desdenhoso.

- Simples brinquedos, artefatos inúteis que guardo para me divertir. - Afundou um dedo em uma das bolas flutuantes, o que impulsionou outros modelos de planetas a órbitas perigosas, pois ficaram girando como corpos celestiais descontrolados.

Às vezes, brinco com eles para inspirar-me, porém no genal só conseguem me fazer pensar em outros brinquedos, não em armas de destruição que necessitamos para nos salvar da tirania das máquinas. - Holtzman franziu o cenho e continuou. - O fato de não poder utilizar computadores sofisticados põe travas a meu trabalho. Para efetuar os enormes cálculos necessários para demonstrar uma teoria, não me fica outro remédio senão confiar nas capacidades mentais humanas e esperar o melhor do falível talento para o cálculo de gente adestrada. Venha, vou apresentar os calculadores.

Guiou-a até uma sala bem iluminada, rodeada de ventiladores. Contava com numerosos bancos e mesas idênticas, ocupadas por trabalhadores que utilizavam calculadoras manuais. A julgar por sua roupa ordinária e expressão abatida, Norma deduziu que aqueles homens e mulheres deviam ser escravos.

- Esta é a única maneira de imitar as capacidades de uma máquina pensante - explicou Holtzman. - Um computador é capaz de repetir milhares de milhões de operações. A nós custa mais, mas com gente suficiente trabalhando em conjunto, efetuamos milhões de cálculos sem ajuda. O único problema é que demoramos mais.

Percorreu os estreitos corredores que separavam os calculadores, eles riscavam freneticamente cifras e símbolos matemáticos em tabuletas, conferiam e voltavam a conferir os resultados antes de passar ao seu companheiro de fileira.

- Até a operação matemática mais complicada pode dividir-se em uma seqüência de passos corriqueiros. Cada um destes escravos foi preparado para completar equações concretas, como em uma linha de montagem. Em conjunto, esta mente humana coletiva é capaz de levar a cabo a maravilha.

Holtzman inspecionou a sala como se esperasse que seus calculadores prorrompessem em vivas. Em troca, continuaram estudando sua parte, equação após equação, sem compreender nem o motivo nem o objetivo.

Norma sentiu compaixão por eles, devido a ter sido desprezada e ignorada durante tanto tempo. Sabia que a escravidão era algo normal em muitos planetas da liga, assim como nos planetas governados pelas máquinas. Não obstante, supôs que estes indivíduos preferiam trabalhar com a mente que como agricultores.

- Todos os calculadores estão a sua disposição, Norma - disse o sábio, - sempre que desenvolver uma teoria que seja preciso verificar. O passo seguinte é construir protótipos para o desenvolvimento e análise posterior. Temos muitos laboratórios e instalações experimentais, mas o trabalho mais importante começa aqui.

Bateu o dedo na fronte.

Holtzman sorriu e baixou a voz.

- Sempre existe a possibilidade de cometer enganos, inclusive gente de nossa categoria. Se isso ocorrer, terá que confiar em que lorde Niko Bludd nos permita continuar trabalhando para ele.

 

Só aquelas pessoas de visão estreita não percebem que a definição de impossível é “falta de imaginação e estímulo”.

SERENA BUTLER

 

No salão principal da mansão Butler, Xavier Harkonnen se removia inquieto em um sofá de brocado verde. Seu uniforme não estava pensado para acomodar-se em móveis elegantes.

Quadros de antepassados Butler adornavam as paredes, incluído um que parecia a caricatura de um cavalheiro, com um fino bigodinho e um tricornio.

Tinha aproveitado um momento de descanso para dirigir-se para casa e surpreender Serena. Os criados tinham pedido que esperasse. Octa, ruborizada, apareceu com um refresco. Embora sempre a tivesse visto como a irmã menor de Serena, Xavier percebeu com surpresa de que era uma jovem muito atraente. Agora que Serena acabara de se comprometer, Octa devia estar sonhando com casar-se, se algum dia superasse a adoração adolescente que sentia por ele.

- Serena não o esperava, mas virá em seguida. - Octa desviou a vista. - Está reunida com um grupo de homens e mulheres de aspecto muito sério, ajudantes providos de aparelhos eletrônicos e alguns membros da tropa. Um pouco relacionado com seu trabalho no Parlamento, parece-me.

Xavier lhe dedicou um pálido sorriso.

- Nós dois temos muitos projetos, mas vivemos tempos difíceis.

Enquanto Octa se dedicava a organiza livros e estatuetas em uma estante, Xavier pensou na sessão do Parlamento que tinha presenciado dois dias antes. Abatida pela trágica queda do Giedi Prime, Serena tinha tentado instigar os representantes dos planetas mais poderosos, com a esperança de forjar uma operação de resgate. Sempre tinha desejado fazer algo. Esse era um dos motivos pelos quais Xavier a queria tanto. Enquanto outros aceitavam a derrota e viviam em o temor de que Omnius desejasse prosseguir suas conquistas, Serena queria salvar o mundo.

Qualquer mundo.

Havia falado com apaixonadamente na sede provisória do Parlamento.

- Não podemos abandonar Giedi Prime! As máquinas pensantes burlaram seus campos decodificadores, assassinado o magno, escravizando o povo, e sua presença é cada dia mais numerosa. Tem que haver sobreviventes da tropa local lutando atrás das linhas inimigas, e sabemos que estavam a ponto de concluir a construção de outra estação geradora de escudo protetor. Talvez possa funcionar! Temos que combater antes que as máquinas pensantes estabeleçam sua própria infra-estrutura. Se esperarmos, sua defesa será inexpugnável.

- Pelo que sabemos, já é inexpugnável - grunhiu o representante da Colônia Vertree, um planeta industrial.

- Levar a Armada a Giedi Prime seria um suicídio - acrescentou o representante de Zanbar. - Sem seus escudos decodificadores, não restam defesas, e as máquinas nos aniquilariam em um enfrentamento direto.

Serena agitou um dedo em direção ao nervoso público.

- Não necessariamente. Se pudermos entrar no planeta sem ser vistos e terminar o trabalho no segundo complexo gerador de escudo protetor, com o fim de projetar uma nova capa de campos decodificadores, poderíamos interromper...

Os membros da liga tinham rido da sugestão. Ao ver a expressão contrita de Serena, Xavier se sentiu tão ferido como ela, mas a jovem não havia compreendido a dificuldade de sua ingênua fantasia, a impossibilidade de restaurar os escudos de Giedi Prime diante dos narizes dos conquistadores. Durante sua excursão de inspeção, Xavier tinha averiguado que os engenheiros podiam demorar dias ou semanas, trabalhando nas condições ótimas, para fazer o sistema funcionar.

Mas Serena nunca retrocedia em seu empenho, ao pensar no sofrimento de tantos seres humanos.

A votação significou uma derrota entristecedora para ela.

- Não podemos investir os recursos, potência de fogo ou pessoal necessários em uma missão imprudente para ajudar um planeta que já perdemos. Agora se transformou em uma praça forte das máquinas.

Os nobres temiam por suas próprias defesas.

Esse trabalho ocupava quase todo o tempo de Xavier. Como oficial da Armada, havia celebrado longas reuniões com funcionários e representantes do Parlamento, incluído o vice-rei Butler. Xavier estava decidido a averiguar qual tinha sido a falha das defesas de Giedi Prime, e se tinha sido culpa dele.

Os táticos da Armada haviam estudado os informes de inspeção, e asseguravam que não teria podido fazer nada para impedir a conquista, senão estacionar toda uma frota de naves de guerra em todos os planetas da liga. Se Omnius estava disposto a sacrificar parte de sua força atacante para neutralizar os campos decodificadores, nenhum planeta estava a salvo. Mesmo assim, a informação não tranqüilizou Xavier.

Tio Holtzman estava trabalhando em Poritrin para melhorar o sistema decodificador. Lord Bludd se mostrou otimista e crédulo nos resultados do sábio, sobretudo desde que o inventor tinha contratado outro matemático, a filha da feiticeira Zufa Cenva, para que o ajudasse. Xavier confiava que logo aplicaria melhoras a seu invento...

Encantadora mas afligida, Serena entrou no salão e o abraçou.

- Não tinha nem idéia de que você fosse vir.

Octa saiu pela porta lateral.

Xavier lançou um olhar ao relógio do suporte.

- Queria te fazer uma surpresa, mas tenho que voltar para o trabalho. Esta tarde me espera uma longa reunião.

Ela assentiu, preocupada.

- Desde o ataque contra Giedi Prime, todos somos prisioneiros de nossas reuniões. Acredito que já perdi a conta de todos os comitês que participo.

- Teria que ter sido convidado a esta misteriosa reunião? - brincou Xavier.

Ela lançou uma gargalhada que soou forçada.

- O que acontece? A Armada da Liga não te dá suficiente trabalho, também quer assistir a minhas aborrecidas reuniões? Talvez deveria falar com seu novo comandante.

- Não, obrigado, querida. Preferiria enfrentar dez cimeks que tentar dissuadi-la quando coloca algo na cabeça. - Serena respondeu a seu beijo com surpreendente paixão. Xavier retrocedeu, com a respiração entrecortada, e alisou o uniforme. - Tenho que ir.

- Eu o compensarei esta noite. Um jantar íntimo, só nós dois? - Seus olhos cintilaram. - É importante para mim, sobretudo agora.

- Não faltarei.

 

Serena exalou um suspiro de alívio, depois de ter aplacado as suspeitas de Xavier, e retornou à sala do Sol Invernal, onde sua equipe se reuniu. Secou uma gota de suor da fronte.

Vários rostos se voltaram para ela, e levantou uma mão para acalmar qualquer preocupação. O sol do meio-dia banhava as cadeiras, as superfícies de lajes e uma mesa de café da manhã coberta de planos, mapas e gráficos de recursos.

- Temos de voltar ao trabalho - disse o veterano Ort Wibsen. - Se quer pôr isto em ação, resta pouco tempo.

- Essa é minha intenção, comandante Wibsen. Qualquer que um que tenha dúvidas, teria que ter partido há dias.

O pai de Serena acreditava que ela passava as manhãs na bem iluminada estância lendo, porém durante semanas tinha traçado planos, reunido voluntários, pessoal perito e matérias primas. Ninguém poderia impedir que Serena Butler dedicasse suas energias em trabalhos humanitários.

- Tentei seguir os canais regulamentares e animar à liga a entrar em ação - disse, - mas às vezes temos de obrigar às pessoas a tomar a decisão correta. É necessário dirigi-la, como se fosse um corcel salusiano.

Depois de que o Parlamento rira de sua “ingênua necessidade”, Serena tinha saído da sala provisória sem aceitar a derrota. Decidiu mudar de tática, embora tivesse que organizar e financiar uma missão sem ajuda de ninguém.

Quando Xavier descobrisse seu plano, seria muito tarde para detê-la, esperava que se sentisse orgulhoso dela.

Estudou a equipe que tinha reunido entre os melhores peritos da Armada em operações de comandos: capitães, responsáveis por abastecimentos, inclusive especialistas em infiltração. Os homens e mulheres a observaram. Fechou as persianas do teto com um comando a distância. A luz da habitação diminuiu, embora o sol continuasse filtrando-se.

- Se formos capazes de reconquistar Giedi Prime, significará uma Ária moral muito superior a conseguida pelas máquinas - explicou Serena. – Nós os ensinaremos que não podem nos dominar.

Wibsen tinha aspecto de não ter deixado nunca de lutar, embora fizesse mais de uma década que tinha abandonado o serviço ativo.

- Todos estamos mais que contentes de participar de uma tarefa que obtenha resultados tangíveis. Ardo em desejos de dar um bom golpe nas condenadas máquinas.

Ort Wibsen era um antigo comandante espacial que tinham obrigado a aposentar-se, em teoria por idade, embora o mais provável era que estivesse relacionado com sua personalidade, certa propensão a discutir com seus superiores e todo um histórico de ignorar detalhes das ordens. Apesar de seu mau gênio, era o homem que Serena necessitava para dirigir uma missão que outros membros da liga tinham considerado insensata, ou ao menos imprudente.

- Então, esta é sua oportunidade, comandante - disse Serena.

 

Pinquer Jibb, o mensageiro de cabelo encaracolado e aspecto gasto que tinha fugido da conquista de Giedi Prime para anunciar a terrível noticia, estava sentado muito rígido, e passeava a vista ao redor da sala.

- Eu lhes dei toda a informação necessária. Recolhi informe detalhados. A estação geradora de escudo secundária estava quase terminada quando as máquinas atacaram o planeta. Só precisamos entrar sem ser notados e colocá-la em funcionamento. - Seus olhos flamejaram. - Muitos membros da tropa local devem ter sobrevivido. Farão o que puderem atrás das linhas inimigas, mas não será suficiente a menos que possamos ajudá-los.

- Se conseguimos acionar os geradores secundários, os cimeks e robôs da superfície não conseguirão opor uma resistência coerente à Armada. - Serena olhou para os reunidos. - Acham que podemos conseguir?

Brigit Paterson, uma mulher de aspecto masculino, franziu o cenho.

- O que a faz pensar que a Armada se juntará à luta? Depois que meus engenheiros terminem seu trabalho, como estaremos seguros de que os militares virão a nos salvar o rabo?

Serena lhe dedicou um sombrio sorriso.

- Deixem isso em minhas mãos.

Serena tinha sido educada pelos melhores professores para converter-se em uma líder. Tendo em conta a enormidade do trabalho que faltava fazer, não podia conformar-se em esperar sentada em sua confortável mansão, sem utilizar o poder e a riqueza do vice-rei.

Estava a ponto de pôr a prova dita determinação.

- Comandante Wibsen, têm a informação que solicitei?

O veterano, com seu rosto sulcado de rugas e a voz rouca, parecia mais um homem curtido pela intempérie que um ardiloso estrategista, mas ninguém em Zimia sabia mais sobre operações militares que ele.

- Há aspectos bons e aspectos ruins. Depois de esmagar o governo de Giedi City, as máquinas deixaram uma frota robô em órbita. Um titã e vários de neocimeks dirigem as tarefas de limpeza na superfície. - Tossiu, franziu o cenho e ajustou um dispensador de medicamentos implantado em seu esterno.

- Omnius pode enviar mais máquinas, ou fabricar reforços utilizando as indústrias cativas de Giedi Prime - disse Pinquer Jibb com voz tensa. - A menos que ponhamos em funcionamento o complexo gerador secundário.

- Isso é o que faremos - disse Serena. - A tropa local se dispersou pelo continente habitado, e parece que os regimentos fronteiriços passaram à clandestinidade. Se nos pomos em contato com eles e os organizamos, possivelmente poderíamos combater aos conquistadores.

- Eu posso colaborar nisso - insistiu Jibb. - É nossa única oportunidade.

- Eu continuo dizendo que é uma loucura - interveio Wibsen. - Mas que demônios. Não pensem que fosse me intimidar.

- A nave está preparada? - perguntou Serena.

- Sim, mas existem muitas deficiências nesta operação, se querem saber minha opinião.

- Tenho em meu poder mapas e planos detalhados de todos os aspectos de Giedi Prime e Giedi City - disse Brigit Paterson, - incluindo diagramas funcionais dos geradores de escudo secundários. - Entregou um maço de microfilmagens cheias de informação. - Pinquer diz que estão atualizados.

Serena sempre tinha sido uma perita em organização. Dois anos antes, pôs-se a frente de uma equipe de auxílio enviado a Caladan, um planeta não aliado para onde tinham fugido milhares de refugiados dos Planetas Sincronizados. Em sua cruzada mais recente, um ano antes, tinha entregue três transportes carregados de medicamentos ao isolado Tlulaxa, cujos habitantes padeciam misteriosas enfermidades. Agora que os mercadores de carne da Tlulaxa os tinham proporcionado ajuda médica e órgãos cultivados em suas tanques biológicos (o que tinha salvado seu amado Xavier), pensava que seu esforço tinha recebido uma justa compensação.

Serena tinha pedido que lhe devolvessem o favor com o fim de organizar uma missão que apresentava algumas semelhanças com seus êxitos anteriores. Esperava outro triunfo, face aos perigos.

Serena passeou a vista ao redor da mesa. Onze pessoas que iriam desafiar os conquistadores, apesar das probabilidades contra.

Ort Wibsen tinha manobrado entre os canais habituais para obter um couraçado veloz. Os engenheiros de Paterson tinham equipado a nave com os melhores materiais experimentais que a mulher tinha conseguido subtrair das fábricas de armamento. Serena, utilizando contas pessoais e documentos falsificados, havia pago os gastos do comandante veterano. Desejava que sua impetuosa missão fosse coroada de êxito.

Todas as pessoas da liga tinham perdido um ente querido nos ataques das máquinas pensantes, e agora vamos fazer algo a respeito.

- Ponhamos mãos à obra - disse Pinquer Jibb. - Chegou o dia da vingança.

 

Aquela noite, Serena e Xavier jantaram a sós no majestoso salão. Os garçons iam de um lado a outro com jaquetas de tons vermelhos e dourados e calças negras.

Enquanto dava conta dos pedaços de pato, Xavier falava muito animado dos planos de mobilização da Armada e os métodos de proteger aos planetas da liga.

- Não falemos de trabalho esta noite. - Serena ficou em pé com um sorriso deslumbrante e se sentou a seu lado, muito perto. - Quero saborear cada momento que passo contigo, Xavier - disse, sem revelar seu plano.

Xavier sorriu por sua vez.

- Depois do gás venenoso, pouco posso saborear, mas você é melhor que o banquete mais delicado ou o perfume mais embriagador.

Serena acariciou sua bochecha.

- Acredito que deveríamos ordenar aos criados que voltem para seus aposentos. Meu pai está na cidade minha irmã não voltará nessa noite. Vamos desperdiçar este tempo de que gozamos para estar a sós?

Xavier a aproximou de si e sorriu.

- De qualquer modo, não tenho fome.

- Eu sim.

Beijou-lhe a orelha, a bochecha, e por fim a boca. Xavier passou as mãos por seu cabelo, acariciou sua nuca e a beijou com paixão.

Deixaram os restos do jantar na mesa. Ela agarrou sua mão e os dois correram a seus aposentos. A porta era pesada, e se fechava com facilidade. Serena já tinha aceso um fogo na lareira, que projetava um resplendor alaranjado no quarto. Beijaram-se uma e outra vez, enquanto tentavam desabotoar cordões e botões sem separar-se.

Serena apenas podia controlar seu desejo, não só sentir seus caricias, mas também gravar cada sensação em sua mente. Xavier ignorava que ela ia partir, e ela precisava recordar aquela noite, que compensaria sua separação.

Os dedos de Xavier foram como fogo quando percorreram suas costas nuas. Serena só podia pensar naquele momento, enquanto lhe tirava a camisa.

Com a lembrança do abraço de seu amante ainda vivo nas terminações nervosas de seu corpo, Serena partiu da mansão. Perdeu-se na noite, disposta a reunir-se com sua equipe em uma pista particular situada nos subúrbios do espaçoporto da Zimia.

Ansiosa por partir, a angústia contida por seu otimismo, reuniu-se com os dez voluntários. Partiram depois de uma hora na nave repleta de ferramentas de engenharia, armas e esperança.

 

Uma e outra vez, a religião derrubou impérios, apodrecendo-os por dentro.

IBLIS GINJO, planos preliminares para o Jihad

 

O conquistado planeta Terra parecia ser um esgoto para os grandiosos monumentos que celebravam as glórias fictícias dos titãs.

O capataz da equipe, que passeava sobre uma plataforma de madeira elevada, contemplava outro enorme projeto em construção, desenhado pela imaginação presunçosa dos cimeks. Sua homens eram bons trabalhadores, dedicados de corpo e alma a ele, mas o projeto era muito absurdo. Quando o trabalhado pedestal estivesse acabado e escorado com arcos reforçados, transformar-se-ia na plataforma de uma estátua colossal que representaria a forma idealizada do titã Ajax.

Iblis Ginjo, um dos humanos mais respeitados da Terra, levava seu trabalho muito a sério. Estudou o grupo de escravos que foram de um lado a outro. Tinha-lhes convencido de que fossem entusiastas, e tinha ganho sua atenção com frases bem escolhidas e recompensas, embora Iblis detestasse desperdiçar tanta lealdade e esforço com um valentão brutal como Ajax.

De qualquer modo, cada pessoa interpretava um papel na gigantesca maquinaria da civilização. Iblis tinha que se assegurar que funcionasse bem, ao menos aquilo que estivesse sob seu controle.

O líder da equipe não tinha por que estar presente na obra. Seus subordinados de confiança podiam fiscalizar os trabalhos sob o ardente sol, mas Iblis preferia isto a suas outras responsabilidades. Ao ver que ele os vigiava, parecia que os escravos atacavam suas tarefas com mais vigor. Orgulhava-se do que eram capazes de fazer, se os travava bem, e eles faziam o possível para agradá-lo.

Do contrário, dedicaria intermináveis horas a preparar novos escravos e distribuí-los entre as diversas equipes. Com freqüência, indisciplinados necessitavam de um adestramento especial, ou se rebelavam com violência, problemas que alteravam a tranqüilidade do trabalho cotidiano.

Erasmo, o e excêntrico robô independente, tinha ordenado recentemente que inspecionasse os escravos hrethgir capturados em Giedi Prime, em particular qualquer humano que mostrasse qualidades de independência e liderança. Iblis estaria alerta a descoberta do candidato adequado... sem atrair a atenção sobre si mesmo.

Pouco se importavam com os objetivos de Omnius, mas como capataz gozava de certas mordomias apoiadas na produtividade. Embora essas mordomias tornassem vida passável, distribuía a maior parte das recompensas entre seus empregados.

Iblis, de cara larga e cabelo espesso que caía sobre sua fronte, possuía uma aparência forte e viril. Capaz de fazer seus escravos trabalharem mais que qualquer outro capataz, conhecia as melhores ferramentas e incentivos, a manipulação das promessas ao invés de ameaças.

Comida, dias de descanso, serviços sexuais proporcionados pelas mulheres em idade fértil, o que fosse necessário para motivá-los. Inclusive lhe tinham pedido que divulgasse suas opiniões na escola de serventes humanos, mas suas técnicas não tinham sido adotadas por quase nenhum humano privilegiado.

A maioria dos capatazes se decantavam pelas privações e a tortura, mas Iblis considerava isso um desperdício. Tinha chegado a seu cargo graças à força de sua personalidade e a fidelidade que inspirava em seus escravos. Até os homens mais difíceis sucumbiam a sua vontade.

As máquinas percebiam sua capacidade inata, de modo que Omnius lhe concedia liberdade para trabalhar a seu modo. Iblis contou meia dúzia de monólitos que rodeavam o Foro, construído no alto de uma colina, e cada pedestal sustentava a estátua gigantesca de um dos Vinte Titãs, começando por Tlaloc, seguido de Agamenon, Juno, Barba Azul, e Alexandro. Uma imensa reprodução de Ajax ocuparia o seguinte, não porque Ajax fosse tão importante, a não ser devido a sua violenta impaciência. Dante podia esperar, e Xerxes também.

Iblis era incapaz de recordar de cor o resto dos titãs, pero sempre aprendia mais do que desejava cada vez que se erigia uma estátua. Este trabalho nunca terminava. Iblis havia colaborado na construção de todas as esculturas durante os últimos cinco anos, primeiro como escravo e logo depois como capataz.

O verão chegava a seu fim, mas a temperatura era superior a normal. Seus escravos utilizavam roupas resistentes de cor marrom, cinza e negro, que só precisavam lavar ou remendar esporadicamente.

Sob a plataforma de Iblis, o chefe de uma equipe ladrou ordens. Alguns robôs supervisores perambulavam entre os operários, sem fazer o menor gesto para ajudá-los. Olhos espiões flutuavam no alto, gravando tudo para Omnius. Iblis apenas se lembrava deles. Os humanos eram laboriosos, engenhosos e, ao contrário das máquinas, dóceis, sempre que se concedessem incentivos e recompensas, os orientasse da forma correta e guiasse para o comportamento adequado. As máquinas pensantes não podiam entender as sutilezas, mas Iblis sabia que cada recompensa sem importância multiplicava por dez o rendimento de seus trabalhadores.

O normal era que os escravos entoassem canções de trabalho e se encetassem em competições entre as equipes, mas agora estavam silenciosos, e grunhiam enquanto levantavam blocos, embora às vezes também se queixassem em seus cubículos. Os cimeks estavam ansiosos por ver o pedestal terminado para erigir a estátua de Ajax, que outra equipe estava construindo em outro lugar. Cada parte do projeto seguia um cronograma muito apertado, e os atrasos ou a falta de qualidade não eram permitidos.

No momento, Iblis estava contente de que sua gente pudesse trabalhar em paz, sem o escrutínio aterrador de Ajax. Iblis ignorava onde se encontrava o titã neste momento, mas rezou para que estivesse acossando outros indivíduos indefesos. Tinha que trabalhar e cumprir um programa.

Em sua opinião, os monólitos eram inúteis, enormes obeliscos, colunas, estátuas e fachadas para edifícios vazios e desnecessários, mas não estava em situação de questionar tais projetos. Iblis sabia muito bem que os monumentos agradavam uma necessidade psicológica dos tiranos usurpadores. Além disso, as obras mantinham ocupados os escravos, e se transformavam em resultados visíveis de seu esforço.

Depois da humilhante derrota sofrida nas mãos de Omnius séculos antes, os titãs haviam se esforçado sem trégua por recuperar sua influência perdida. Iblis pensava que os cimeks haviam perdido a razão, por mandar construir estátuas monumentais e pirâmides só para se sentirem importantes. Passeavam em espetaculares mas antiquados corpos mecânicos, e se gabavam de suas conquistas militares.

Iblis se perguntava até que ponto eram verdadeiras. Afinal, quem podia contradizer aqueles que controlavam a história? Era muito provável que os humanos selvagens dos planetas da liga tivessem uma visão muito diferente sobre as conquistas.

Secou o suor da fronte e percebeu o aroma do pó que se elevava da obra. Lançou um olhar à caderneta eletrônica que tinha na mão, e comparou os progressos com o calendário. Tudo corria bem, tal como era de esperar.

Divisou com seus olhos penetrantes um homem apoiado contra uma parede à sombra, que estava tomando um descanso não autorizado. Com um sorriso, Iblis apontou ao indivíduo uma arma “estimulante” e roçou sua perna esquerda com um raio de energia. O escravo deu uma palmada na pele irritada e levantou a vista para Iblis.

- Está tentando me deixar em situação ruim? - gritou Iblis. - E se Ajax aparecesse de repente e o visse cochilando? A quem mataria primeiro, a você ou a mim?

O homem, envergonhado, abriu caminho a cotoveladas entre os operários suados e recomeçou seu trabalho com disposição renovada.

Alguns capatazes consideravam necessário matar escravos para dar exemplo a outros, mas Iblis nunca tinha utilizado essa tática e jurava que nunca o faria. Estava certo de que quebraria o inexplicável feitiço que projetava sobre seus homens. Bastava demonstrar-lhes decepção, e eles trabalhavam mais.

A cada poucos dias pronunciava um discurso improvisado. Em tais ocasiões, os escravos recebiam água e períodos de descanso, o que lhes proporcionava renovadas energias que compensavam o período de ócio. Sua forma de juntar as frases costumava suscitar vivas e entusiasmo, e poucas perguntas por parte dos escravos mais atrevidos, os quais não acabavam de explicar-se por que deviam se sentir emocionados por um monumento mais. O talento do capataz residia no fato que podia ser muito convincente.

Iblis odiava às máquinas, mas ocultava seus sentimentos com tal eficácia que seus superiores confiavam nele. Por um momento imaginou a destruição da supermente, e que ele ocupava seu lugar. Muito mais que um simples escravo humano de confiança. Pobre perspectiva: Iblis Ginjo, dono e senhor absoluto de tudo!

Desprezou a fantasia. A realidade era um professor muito duro, como ver um cimek em um dia bonito. Se Iblis não terminasse obelisco a tempo, Ajax pensaria em algum castigo extravagante para todos eles.

O capataz faria o impossível para cumprir os prazos.

 

Cada um de nós influi nos atos das pessoas que conhecemos.

Xavier HARKONNEN, comentário a seus homens

 

Durante dias, o terceiro Xavier Harkonnen ficou trabalhando até muito tarde da noite nos planos defensivos para a liga. Desde sua doce noite com Serena, uma brilhante promessa de seu futuro, tinha se dedicado de corpo e alma a a proteção da humanidade livre.

Em Salusa, executou simulações de missões, treinou novos combatentes, aumentou o número de naves de vigilância no perímetro do sistema e estendeu a rede de exploração para aumentar a capacidade de alerta. Engenheiros e cientistas desmontaram e estudaram as formas de combate abandonadas pelos cimeks entre as ruínas da Zimia, com a esperança de descobrir defeitos e falhas. Cada vez que respirava com seus pulmões novos, sentia mais ódio contra as máquinas pensantes.

Desejava passar mais tempo com Serena, sonhar com o lugar para onde iriam depois das bodas, mas impulsionado pela raiva e a culpa do que acontera a Giedi Prime, Xavier se inundou no trabalho. Se tivesse se concentrado em sua missão principal, em lugar de fantasiar como um colegial apaixonado, talvez tivesse reparado nos pontos fracos da defensa e ajudado ao magno a preparar-se. Até incentivá-lo a terminar quanto antes o gerador de escudo secundário poderia ter sido fundamental. Mas agora era muito tarde.

Equívocos em teoria sem importância podiam resultar em acontecimentos de enorme transcendência. Xavier prometeu que nunca mais esqueceria suas responsabilidades, por nenhum motivo. Se isso significasse passar menos tempo com Serena, ela compreenderia.

As reuniões de emergência do estado maior tiveram como resultado uma revisão da estrutura militar da Armada, combinando os recursos e numerosas naves de guerra de todas as tropas locais planetárias. Discutiram em detalhe as necessidades defensivas especiais e a importância tática de cada planeta da liga. O recrutamento da Armada aumentou até níveis incomuns. As fábricas trabalhavam dia e noite para produzir mais naves e armas.

Xavier esperava que fosse suficiente.

Em seu escritório, situado no último piso do edifício do alto comando, mapas estelares eletrônicos cobriam as paredes. Todas as mesas estavam semeadas de gráficos e relatórios. Em cada fase do trabalho obtinha a aprovação do comandante supremo, quem por seu vez repassava os elementos chave com o vice-rei Butler.

Quando dormia, Xavier o fazia em seu escritório ou nos barracões subterrâneos.

Ficou dias sem ir a sua mansão de Tantor, embora sua mãe enviasse com freqüência o pequeno Vergyl para lhe entregar pratos preparados especialmente para ele.

Não sabia nada de Serena, e supôs que a filha do vice-rei estaria ocupada em seu próprio trabalho. Os dois jovens amantes eram iguais em sua capacidade em imaginar prioridades a longo prazo... e em sua independência.

Decidido a renovar as defesas da liga, Xavier se mantinha ativo a base de cápsulas e bebidas estimulantes. Logo não reparava em se era dia ou noite, envolvido na próxima reunião de sua agenda. Olhou as ruas tranqüilas e as luzes da cidade da janela de seu escritório. Desde quando tinha anoitecido? As horas se encadeavam umas com outras, e o arrastavam com elas.

Afinal, o que podia fazer um homem sozinho? Alguns planetas da liga já estavam condenados, apesar de seus esforços? Devido às distâncias entre os planetas e a lentidão das viagens espaciais, as comunicações eram lentas, e as noticias podiam chegar com muito atraso a Salusa Secundus.

Seu apego aos estimulantes o fazia sentir nervoso e cansado. Estava acordado, mas tão destroçado pela fadiga que já não podia concentrar-se. Exalou um profundo suspiro e piscou.

Em um canto do escritório, seu ajudante, o quarto Jaymes Powder, tinha aberto um espaço sobre parte de mesa e apoiado a cabeça na madeira polida.

Quando a porta se abriu, o quarto Powder não se moveu, nem sequer roncou, mas continuou dormindo como um morto. Xavier se surpreendeu ao ver o vice-rei Butler entrar, também muito cansado.

- Havemos de pôr em prática o que tenha preparado, Xavier. Os recursos estão garantidos. Com o fim de levantar seu moral, o povo tem que ver que fazemos algo.

- Eu sei, mas necessitamos mais de uma solução, senhor. Que lorde Bludd anime ao sábio Holtzman a apresentar as idéias preliminares que esteja desenvolvendo. - Esfregou os olhos. - No mínimo, são necessárias novas opções para nosso arsenal.

- Já falamos sobre isto ontem à noite, Xavier, extensamente. - O vice-rei olhou para ele de uma forma estranha. - Não se lembra? Tem vários protótipos quase terminados.

- Sim... claro. Só queria lembrá-lo.

Xavier cruzou a sala e se sentou em frente a uma tela de informação interativa, um sistema de alta segurança que flertava com os perigos de um computador. O sistema eletrônico era capaz de organizar e proporcionar dados fundamentais, mas carecia de consciência. Muitos nobres, sobretudo Bludd de Poritrin, rechaçavam o uso desses toscos computadores, mas em momentos como o atual, esses sistemas eram vitais.

Xavier passou a mão sobre a tela, efetuou modificações em seu relatório ao Parlamento, incluindo um compêndio de apêndices com dados específicos de cada planeta, e imprimiu o documento, copias dele seriam enviadas a cada planeta da liga. Entregou a pilha ao vice-rei, que leu as recomendações e assinou sua aprovação. Continuando, o pai de Serena saiu depressa do escritório, deixando a porta aberta.

O quarto Powder se remexeu e despertou, com olhos turvos. Xavier se acomodou na cadeira de sua mesa. Do outro lado da habitação, a tela se acendeu em uma aurora de luz, quando os técnicos a examinaram para comprovar que o sistema não continha inteligência artificial.

Enquanto seu ajudante voltava a cochilar, Xavier sumiu também no sonho. Sonhou que Serena tinha desaparecido, junto com uma nave e uma equipe militar. Pareceu muito surrealista, embora plausível, depois compreendeu sobressaltado que já não estava dormido...

Powder estava de pé em frente a sua mesa com outro oficial, escutando as más notícias.

- Levou um couraçado, senhor! Modificado com blindagens e armas novas. Acompanhada de um comando, sob as ordens de um antigo veterano, Ort Wibsen.

Xavier lutou por liberar-se da confusão induzida pelo cansaço. Depois de esfregar os olhos, ficou surpreso ao ver que Octa estava atrás dos dois homens. Sustentava em sua pálida mão um colar de diamantes negros cintilantes, pendurando de uma cadeia de ouro, que apressou-se a lhe entregar.

- Serena me disse que esperasse cinco dias, e que depois lhe desse isso.

Octa parecia etérea, delicada. Afastou-se para um lado, sem olhar para seus olhos.

Em busca de respostas, Xavier tirou o colar da cadeia. Quando tocou os diamantes negros, o suor de sua mão ativou um diminuto projetor que mostrou uma pequena imagem holográfica de Serena. Olhou-a, estupefato e apavorado. Tinha a impressão de que a imagem olhava somente para ele.

- Xavier, meu amor, fui para Giedi Prime. A liga teria discutido o problema durante meses, enquanto o povo subjugado sofre. Não posso permitir isso. - Seu sorriso era enternecedor, mas esperançoso. - Conto com uma equipe composta pelos melhores engenheiros, comandos e especialistas em infiltração. Temos toda a equipe e experiência necessários para entrar no planeta sem ser localizados e ativar o transmissor de escudo secundário. Terminaremos a construção e instalaremos os sistemas, o que nos permitirá isolar o planeta das naves das máquinas pensantes, ao mesmo tempo que as da superfície ficam presas. Você precisa que vir com a Armada e reconquistar este planeta. Contamos com você. Pense no muito que podemos ajudar à humanidade.

Xavier não acreditava em seus ouvidos. A imagem de Serena continuou recitando a mensagem gravada.

- Vou esperá-lo, Xavier. Sei que não me decepcionará.

Xavier apertou as mãos até que os nódulos empalideceram. Se alguém podia sair triunfante de semelhante missão, era Serena Butler. Era impetuosa, mas ao menos tentava fazer algo. E sabia que sua decisão obrigaria os outros a agir.

Octa começou a chorar em voz baixa a seu lado. O vice-rei Butler entrou no escritório com uma exalação, consternado pelo que tinha ouvido.

- Muito próprio dela - disse Xavier. - Agora, temos que pensar em uma resposta. Não há outro remédio.

 

Pensem na guerra como um comportamento

GENERAL AGAMENON

Memórias

 

Na areia banhada pelo sol abrasador da zona equatorial da Terra, Agamenon se preparava para lutar contra a máquina gladiadora de Omnius. A supermente considerava estes simulacros de combate um desafio para os titãs sobreviventes, uma forma de descarregarem sua agressividade e se manterem ocupados, mas para Agamenon significava a oportunidade de golpear o inimigo verdadeiro.

Duzentos e trinta anos antes, escravos humanos e robôs tinham terminado este coliseu semicircular aberto ao ar livre para as batalhas de Omnius. A supermente gostava de pôr a prova a capacidade destrutiva de diferentes desenhos robóticos. Veículos blindados e sistemas de artilharia conscientes podiam enfrentar-se em circunstâncias controladas.

Muito tempo atrás, o gênio Barba Azul tinha programado gosto pelo combate e sede de conquista à inteligência artificial que evoluiu até transformar-se em Omnius. Nem sequer mil anos depois a supermente tinha perdido seu prazer pela vitória.

Às vezes, nestas competições se enfrentavam homens contra máquinas. Escravos escolhidos ao azar entre equipes de operários recebiam paus, explosivos ou raios cortantes, e saíam para a arena para lutar contra robôs. A violência irracional de humanos desesperados nunca deixava de desafiar à mente calculadora de Omnius. Em outras ocasiões, o computador onipresente preferia demonstrar sua superioridade contra os cimeks.

Pensando no combate, Agamenon tinha dedicado consideráveis esforços para desenhar seu novo corpo de luta. Às vezes, Omnius enviava a lutar contra os titãs seus modelos mais fortes. Em outras, respondia com absurdas monstruosidades que nunca teriam sido práticas em nenhum tipo de luta. Tudo fazia pelo espetáculo.

Meses atrás, quando Barba Azul tinha conseguido uma grande vitória contra Omnius, o cimek tinha solicitado permissão para atacar os humanos livres como recompensa. Embora o ataque contra Salusa Secundus tivesse fracassado, a segunda tentativa dos titãs se saldou com a conquista de Giedi Prime. Barba Azul se encontrava no comando de dúzias de neocimeks encarregados de subjugar à população. De novo um titã se transformava em senhor e dono de um planeta. Ao menos, era um passo na direção certa...

Se hoje conseguia vencer na arena, Agamenon tinha seus próprios planos.

Quando as sirenes soaram para anunciar o evento, Agamenon rodou para diante sobre extremidades flexíveis e passou entre as colunas da Porta dos Desafios. Sentia a energia de seus sistemas de mobilidade, o pulsar da energia que percorria suas conexões neuroelétricas.

No interior da forma de gladiador, o núcleo corporal consistia em um par de esferas reforçadas, uma protegida por uma blindagem opaca, a outra feita de aleocristal transparente.

Dentro do globo transparente estavam os hemisférios branco acinzentados de seu cérebro humano, que flutuava em um eletrolíquido azul pálido, conectado a mentrodos. Tênues descargas de fótons chisparam nos lóbulos cerebrais quando o corpo do cimek avançou, disposto a lutar.

Ao redor da esfera dupla, volumosos motores de impulsão zumbiam no interior de cobertas protetoras. Os motores faziam funcionar o sistema hidráulico de quatro patas preênseis. Cada extremidade articulada terminava em uma massa de polímero metálico, capaz de adaptar a forma de um sem número de armas.

Agamenon tinha construído esta forma feroz sob a vigilância de olhos espiões que controlavam até o menor de seus movimentos. Em teoria, Omnius arquivava parte da informação em uma parte isolada de sua supermente, para não levar uma vantagem injusta no combate. Ao menos, Omnius afirmava isso.

Enquanto Agamenon esperava, seu oponente avançou, controlado pela supermente. Omnius tinha escolhido uma forma provida de uma armadura medieval exagerada: duas pernas enormes, com pés como os alicerces de um edifício e braços que terminavam em punhos enormes, tão grandes como o núcleo corporal. As proporções eram exageradas, como o fanfarrão da classe convocado no pesadelo de um menino. Surgiam puas dos gigantescos nódulos do robô, e descargas apocalípticas saltavam de um lado a outro do punho.

Agamenon avançou ao mesmo tempo que elevava suas extremidades frontais, similares as de um caranguejo, cujas extremidades se transformaram em garras. Embora ganhasse o combate, a supermente não sofreria, nem sequer se sentiria humilhada pela derrota.

Por sua parte, Omnius podia destruir por acidente o contêiner cerebral do titã. Coisas imprevistas ocorriam nesses combates, e talvez Omnius, face à programação que lhe impedia matar de maneira intencional um titã, contasse com isso. Para Agamenon, o combate era muito sério.

Alguns observadores robóticos observavam dos camarotes com fibras ópticas potencializadas, mas guardavam silêncio. Agamenon não necessitava de aplausos. Outros assentos de pedra do coliseu estavam vazios, e refletiam a luz do sol. O grande estádio, como um sepulcro povoado de ecos, contava com espaço suficiente para que os dois inimigos se despachassem a gosto.

Nenhum proclama precedeu o combate, os alto-falantes não ofereceram qualquer informação.

Agamenon foi o primeiro a atacar.

O titã elevou seus braços como chicotes, reforçados com um filme de diamante, e se lançou para frente. Com surpreendente agilidade, o robô de Omnius levantou uma enorme perna e esquivou o ataque.

Agamenon atacou com outra extremidade dianteira, coroada com uma bola destruidora que disparava raios paralisantes. O guerreiro de Omnius estremeceu ao ser alcançado em sistemas vulneráveis. De repente, o gigante girou e golpeou com força brutal o braço segmentado do cimek. Nem sequer o filme de diamante pôde resistir ao impacto, e a extremidade se desprendeu da cavidade flexível. O cimek, indiferente à perda, levantou um braço cortante que se transformou em uma confusão de folhas de diamante.

Agamenon rasgou o torso blindado de seu adversário, e cortou uma série de fibras de controle neuroelétrico. Um líquido esverdeado se derramou dos canais lubrificantes cortados. O robô fez girar seu outro punho cheio de puas, mas Agamenon se afastou para um lado.

A força do golpe fez com que o robô gladiador perdesse o equilíbrio. Agamenon levantou dois braços cortantes e esfaqueou as articulações do braço com ferros incandescentes.

Encontrou pontos vulneráveis com facilidade surpreendente, e o braço direito do gigante pendurou inutilizado, um matagal de fibras neuroelétricas e líquidos condutores.

Omnius fez seu robô retroceder dois passos para analisar os danos. Agamenon aproveitou sua vantagem e diminuiu a distância. Então, recebeu sua primeira grande surpresa.

Uma pequena tampa se abriu em um compartimento oculto dentro do antiquado alojamento do motor, e saíram disparados oito cabos reforçados de fibras condutoras, cada um terminado em uma garra conectora magnética. Os cabos voaram como um ninho de víboras sobressaltadas e se afundaram no robô gigante. Assim que os extremos alcançaram seu objetivo, Agamenon liberou uma poderosa descarrega elétrica.

O general cimek esperava que aquele ataque traiçoeiro acabasse com o robô de combate, mas Omnius devia ter protegido bem seu guerreiro. Agamenon lançou outra descarga, como a picada de um escorpião, porém o gladiador de Omnius não caiu, mas projetou seu punho com a força de uma locomotiva.

O punho cheio de pontas se chocou contra a esfera protetora transparente que continha o cérebro imaterial, e uma tênue teia de rachaduras apareceu no cristal. O eletrolíquido se derramou pelas frestas como sangue azul. Os mentrodos se romperam, e o cérebro caiu de seus cabos suspensores, pendurando exposto no ar quente.

Isso podia significar a morte de Agamenon.

Mas o general cimek tinha enganado Omnius. O cérebro protegido dentro do contêiner transparente não era mais que uma cilada, uma reprodução sintética de seus contornos cerebrais. O cérebro de Agamenon se achava no interior da esfera metálica opaca, de onde controlava a forma do gladiador. Seguro e intacto.

Não obstante, Agamenon estava furioso e estupefato. Omnius tinha demonstrado sua vontade de infligir severos danos ao titã mais poderoso e engenhoso de todos. Pelo visto, os anseia de ganhar de Omnius pareciam capazes de impor-se a suas restrições de programação.

Ou acaso a supermente estaria ciente da cilada do primeiro momento? Agamenon reagiu com furor vingativo.

Ao mesmo tempo em que se afastava na maior velocidade possível, disparou a esfera que continha o falso cérebro contra o núcleo corporal do gigantesco robô.

Depois, Agamenon se agachou, levantou suas extremidades blindadas e baixou seu contêiner cerebral entre as filas de afiadas extremidades para proteger-se, como uma tartaruga escondendo-se dentro da carapaça.

A esfera se chocou contra o gladiador e estalou. O cérebro falso era feito de espuma sólida de alta energia. A explosão decapitou o robô e rasgou seu torso. A onda de choque bastou para derrubar parte do muro do coliseu.

Agamenon havia sobrevivido, e o gladiador de Omnius estava destruído.

- Excelente general! - A voz eletrônica ressonou na arena dos alto-falantes, em tom muito satisfeito. - Uma manobra inédita e agradável.

Agamenon ainda se perguntava se Omnius sabia que o cérebro visível era falso. Ou possivelmente a supermente tinha descoberto uma forma de contornar os bloqueios restritivos que Barba Azul tinha instalado tanto tempo atrás. Nunca mais estaria seguro se a supermente lhe deixaria morrer em combate alguma vez. Talvez Omnius quisesse evitar que os titãs se sentissem muito triunfantes ou supervalorizados, em especial Agamenon.

Somente Omnius sabia com toda certeza.

Entre as chamas e fumaça que se elevavam dos restos da monstruosa máquina, Agamenon elevou sua forma, o vencedor indisputável.

- Eu o derrotei, Omnius. Reclamo minha recompensa.

- Claro, general - respondeu de bom humor o robô. - Não precisa verbalizar seu desejo. Sim, permitirei que você e seus cimeks ataquem os hrethgir mais uma vez. Isso os diverte.

 

Os sobreviventes aprendem a adaptar-se.

ZUFA CENVA, discurso às feiticeiras

 

Na impecável cabine do Viajante onírico, Vorian Atreides e Seurat voltavam a viajar entre sistemas estelares, recolhendo e entregando atualizações de Omnius para manter a congruência da supermente distribuída por todos os Planetas Sincronizados. Trocavam atualizações com outras cópias da supermente, sincronizavam as encarnações de Omnius e partiam com novos dados que distribuiriam entre as redes. Vor adorava ser um humano de confiança.

Os dias transcorriam no espaço, eternamente iguais. O estranho casal realizava seus trabalho com eficácia. Seurat e o pequeno grupo de robôs de manutenção se encarregavam da limpeza e eficácia da cabine, enquanto que Vor deixava de vez em quando manchas de comida e bebida, algumas coisas meio terminar ou desordenadas.

Como de costume, Vor se achava ante um console interativo do apertado compartimento traseiro, investigando na base de dados da nave com o fim de obter mais informação sobre seus destinos. Tinham-lhe ensinado as vantagens de destacar-se sobre outros humanos privilegiados da Terra. O exemplo de seu pai, um homem desconhecido que tinha chegado a ser o maior dos titãs, conquistador do Império Antigo, ensinava-lhe o que um simples humano podia obter.

Ficou surpreso ao ver que a rota normal do Dream Voyager tinha mudado.

- Seurat! Por que não me disse que tínhamos conquistado um novo planeta? Nunca havia ouvido falar deste... Giedi Prime, no sistema de Ophiuchi B. Antes estava catalogado como um sólido planeta da liga.

- Omnius programou esse destino em nossa rota antes que partíssemos da Terra. Esperava que seu pai o tivesse conquistado no momento de nossa chegada. Omnius confia que Agamenon tirará o espinho do fracasso em Salusa Secundus.

Vor se sentiu orgulhoso de que seu pai tivesse tomado outro planeta para as máquinas pensantes.

- Não me cabe dúvida de que tudo terá concluído quando chegarmos, e nossas forças estarão acabando com a resistência.

- Saberemos quando chegarmos - disse Seurat. - Ainda faltam meses.

Em muitas ocasiões se encetavam em competições humanas tradicionais que encontravam nas base de dados, como o pôquer ou o backgammon. Em outras, Vorian inventava um novo jogo, fixava uma série de normas absurdas, e depois começava a vencer Seurat, até que o robô autônomo aprendia a manipular as regras por si mesmo.

Os dois estavam empatados, mas com habilidades muito diferentes. Enquanto Seurat se destacava nos jogos de estratégia e fosse capaz de calcular muitos movimentos antecipadamente, Vor lançava mão freqüentemente de giros inovadores para ganhar. Seurat custava a compreender o comportamento errático do humano.

- Posso seguir as conseqüências de um acontecimento humano em uma progressão lógica, mas não entendo como consegue transformar um comportamento impulsivo e ilógico em uma estratégia eficaz. Não existe relação causa-efeito.

Vor sorriu.

- Detestaria vê-lo calcular uma resposta “irracional”, velha Mente Metálica. Deixe isso para os peritos como eu.

O filho do Agamenon também era um perito em táticas e estratégias militares, um talento que havia desabrochado graças a seus estudos das grandes batalha da história humana antiga, tal como as tinha documentado Agamenon em suas extensas memórias. O general cimek não ocultava que esperava ver seu filho transformado algum dia em um gênio militar.

Sempre que Seurat perdia em alguma luta concreta, insistia em seu irritante hábito de distrair Vor com piadas, trivialidades ou anedotas, com a intenção de interessar o jovem.

Desde que o capitão mecânico conhecia seu co-piloto humano, Seurat tinha acumulado e analisado informação, preparando-a para usos futuros. O capitão robô tinha se acostumado a tirar vantagem de temas que absorviam Vor e enchiam sua cabeça de idéias.

Seurat falava sem cessar da legendária vida de Agamenon, e acrescentava detalhes que Vor nunca tinha lido nas memórias: grandes batalha ganhas pelos titãs, planetas que tinham sido somado aos Planetas Sincronizados, formas de combate que Agamenon havia desenhado para utilizar em combates de gladiadores. Em uma ocasião, o robô inventou uma história absurda a respeito de que o general tinha perdido, literalmente, a cabeça. O contêiner cerebral do cimek se soltou de sua forma móvel e rodou pelo pendente de uma colina, enquanto o corpo mecânico, em programação automática, tinha tido que ir buscá-lo.

Entretanto, Vorian tinha descoberto fazia pouco uma informação mais inquietante que qualquer outra que o robô pudesse revelar. Entre partidas e desafios, investigava as base de dados, relia os fragmentos favoritos das memórias de seu pai, e tentava encontrar um sentido nas minuciosas observações de Omnius. Em uma de tais ocasiões, Vor descobriu que seu pai tinha gerado outros doze filhos. Vorian nunca tinha imaginado que fosse o único, mas... doze irmãos desconhecidos! Era lógico que o grande general quisesse ter descendentes dignos de seu legado.

Pior ainda, descobriu que cada um desses doze filhos tinha constituído um fracasso. Agamenon não encaixava as decepções com alegria, e tinha matado a sua origem inaceitável, embora houvessem sido humano privilegiados como Vor. O último tinha sido executado menos de um século antes. Agora, todas as esperanças de Agamenon estavam depositadas em Vor, mas não era necessariamente a única alternativa. Agamenon devia ter mais esperma armazenado, portanto Vor era tão descartável como os demais.

Depois de averiguar esse dado, Vor ficou imune aos intentos de Seurat em lhe distrair.

Vor estava sentado à mesa, contemplando o tabuleiro de jogo projetado, e refletia sobre seu próximo movimento. Sabia que Seurat não podia decidir o que estava passando no interior da imprevisível mente humana. Apesar de toda sua sofisticação e independência, o robô só acumulava dados externos, mas sem reconhecer as sutilezas.

O humano sorriu apenas, mas o robô percebeu.

- Vai me aprontar alguma sacanagem? Está usando algum poder humano oculto?

Vor continuou sorrindo e olhando o tabuleiro. Era uma competição de multi jogos, que tinha lugar dentro de uma tela tridimensional incrustada na mesa. Dentro de uma ampla seleção de jogos, cada jogador tentava escolher um torneio ou situação que lhe beneficiasse, e depois efetuar um movimento. Estavam empatados, e o próximo ponto decidira a competição.

Os diversos jogos apareciam aleatoriamente, e cada vez Vor só contava com uns poucos segundos para realizar o movimento. Um antigo jogo terráqueo apareceu na paleta de seleções. Não lhe beneficiava. Desfilaram mais opções. Continuando, viu um jogo mais adequado para máquinas, pela quantidade de cor que requeria. Deixou-o passar. Apareceram outros dois jogos que não gostou, seguidos por uma mão de pôquer.

Acreditando na sorte e no instinto, Vor olhou para o capitão robô, que não compreendia a estratégia do instinto nem o “talento” do azar. A expressão de Vor era inescrutável, e riu ao ver a confusão que expressava a cara de Seurat.

- Está perdido - disse Vor. - E perdeu. - Cruzou os braços sobre o peito, satisfeito depois que o robô desse seu braço a torcer.

- Não é só a pontuação, e sim a forma com que tenta ganhar.

Seurat respondeu que não queria jogar mais, e Vor riu dele.

- Ficou zangado, Mente Metálica!

- Estou analisando minha tática.

Vor afagou o ombro de seu adversário, para consolá-lo.

- Porque não fica aqui e pratica, enquanto eu piloto a nave? Giedi Prime está ainda muito longe.

 

Os remorsos são numerosos, e eu já tenho muitos.

SERENA BUTLER, memórias inéditas

 

O couraçado não só era veloz e difícil de ver nos céus escuros de Giedi Prime, como seus sofisticados sistemas permitiam que passasse desapercebido em quase qualquer situação. Serena confiava que Ort Wibsen seria capaz de guiar seu comando até a ilha isolada do mar do norte, onde começaria seu trabalho.

Pinquer Jibb tinha contribuído com os gráficos, planos e códigos de acesso das torres secundárias, para o caso de que algum sistema continuasse intacto. Entretanto, mesmo com os excelentes engenheiros e conselheiros militares, a missão não ia ser simples.

Depois da longa viagem desde Salusa, sulcavam em silêncio o céu escuro ao mesmo tempo que estudavam a massa de terra que sobrevoavam. Os invasores tinham desligado partes desnecessárias do sistema elétrico, e as cidades estavam ocultas em um negrume absoluto. Afinal, as máquinas podiam adaptar seus sensores ópticos à escuridão.

Serena ignorava quantos membros da tropa local tinham sobrevivido. Confiava em que alguns tivessem passado para a clandestinidade depois da conquista das máquinas, tal como tinha prometido o desesperado mensageiro Jibb. Assim que seu comando reativasse os escudos decodificadores, os milicianos sobreviventes teriam um papel crucial na retomada do planeta. Contava que Xavier viria em sua ajuda com naves da Armada, aproveitando sua influência.

Serena estava sentada no compartimento de passageiros da nave, ansiosa por começar. Seu pai já teria reparado em sua ausência, e esperava que Xavier tivesse partido em direção a Giedi Prime no comando de suas forças. Se não viesse, sua missão estaria condenada ao fracasso, assim como ela e sua equipe.

Xavier estaria preocupado por ela, irritado pelo perigo a que tinha se exposto. Mas se tivesse resultados positivos, todos os seus esforços estariam justificados.

A única coisa que importava era a missão.

O velho Wibsen, inclinado para frente na cabine, examinava as regiões polares com o fim de localizar a estação de transmissão inacabada. Serena somente tinha lançado um olhar ao relatório de Xavier, mas sabia que as máquinas, ocupadas em subjugar à população de Giedi Prime, não teriam se incomodado em explorar uma ilha isolada do ártico. Enquanto não chamassem a atenção, talvez os engenheiros de Brigit Paterson poderiam terminar seu trabalho sem ser incomodados.

O veterano estudava um painel de instrumentos, enquanto coçava a barba incipiente que cobria suas bochechas. Depois de sua aposentadoria forçada, Wibsen não tinha mantido uma aparência militar. Agora, ao concluir sua larga travessia espacial, parecia mais desarrumado que nunca, mas Serena não o tinha recrutado por sua vestimenta ou higiene pessoal.

O homem contemplava traços e pontos de luz na tela do explorador.

- Essa tem que ser a ilha. - Emitiu um grunhido de satisfação e começou a apertar botões, como um músico que tocasse um teclado para abrir caminho entre a rede de sensores das máquinas. - O revestimento de camuflagem de nosso casco deve bastar para atravessar seus sistemas de vigilância. Eu diria que temos sessenta ou setenta por cento de chances.

Serena aceitou a sombria realidade.

- Isso é mais do que teve a população de Giedi Prime.

- No momento - replicou Wibsen.

Brigit Paterson entrou na cabine, sem perder o equilíbrio quando as turbulências sacudiram a nave.

- A Armada nunca teria aceito correr este risco. Teriam se esquecido de Giedi Prime até que as circunstâncias fossem favoráveis.

- Teremos que lhes ensinar como se fazem as coisas - disse Wibsen.

Serena desejou que Xavier estivesse a seu lado, para tomarem juntos as decisões.

O couraçado camuflado atravessou a atmosfera e desceu por cima do mar gelado.

- É hora de desaparecer de vista - disse o veterano. – Segurem-se.

A nave afundou sob as águas como um ferro incandescente. A superfície apenas se ondulou. Depois, a nave virou para o norte, em direção às coordenadas da ilha rochosa onde um nervoso magno Sumi tinha construído seus transmissores de escudo secundários.

- Eu diria que estamos o bastante longe do raio de ação de seus sensores - disse Serena. - Podemos respirar tranqüilos por um momento.

Wibsen arqueou as sobrancelhas.

- Eu ainda não tinha começado a suar.

Para contradizer seu comentário, reprimiu um ataque de tosse enquanto dirigia a nave. O ancião amaldiçoou sua saúde e a seringa implantada em seu peito.

- Comandante, não ponha em perigo a missão por culpa de seu orgulho – repreendeu-o Serena.

A nave se inclinou para um lado e rangeu. Algo raspou por baixo de um amparo.

- Malditas turbulências! - Wibsen, congestionado, recuperou o controle da nave, e se voltou para Serena. - Neste momento sou seu chofer. Relaxarei assim que os tiver desembarcado.

A nave deslizou sob a superfície durante uma hora, à profundidade suficiente para se esquivar dos fragmentos de gelo flutuantes das regiões polares, e por fim os conduziu até uma baía protegida. Nas telas da cabine, a ilha parecia nua e rochosa, uma massa de gelo e escarpados negros.

- Não parece um refúgio paradisíaco - comentou Wibsen.

- O magno Sumi não a escolheu por sua beleza - disse Brigit Paterson. - daqui, uma projeção polar é simples e eficaz. Estes transmissores cobrem todas as massas de terra desabitadas.

Wibsen guiou o cruzador até a superfície.

- Continuo dizendo que é um lugar muito feio - grunhiu. Começou a tossir de novo quando penetraram no porto rodeado de escarpados, pior que antes. - Justo no momento preciso. - Parecia mais irritado que preocupado. -Seguiremos o curso em piloto automático.

- Digam ao Jibb que venha. Afinal, conhece o território.

Pinquer Jibb lançou um olhar à ilha, decepcionado ao que parecia quando viu que os trabalhos ainda não tinham terminado. Encarregou-se dos controles e guiou a nave para os moles abandonados da ilha. Depois de desligar os motores, abriu as escotilhas.

Um amanhecer púrpura tingia a parte norte do céu. Serena respirou o ar puro mas gélido, protegida pelo casaco. O aspecto da ilha era detestável, e parecia deserta.

Mais reconfortante foi a visão das torres chapeadas, de lados parabólicos e raios metálicos. Estavam cobertos de gelo e geada, mas dava a impressão que os invasores não as haviam destruído.

- Enquanto as ligarmos, os robôs não saberão o que aconteceu - disse Wibsen quando saiu, recuperado na aparência. Soprou um jorro de vapor em suas mãos.

Serena continuou contemplando as torres, com uma expressão decidida e esperançosa em seu rosto. Brigit Paterson assentiu.

- Até assim, temos muito trabalho para fazer.

 

Em tempos de guerra, todo mundo se gaba de contribuir com o esforço bélico. Alguns o fazem verbalmente, alguns contribuem com ajuda econômica, mas poucos estão dispostos a sacrificar tudo. Por isso, em minha opinião, fomos incapazes de derrotar às máquinas pensantes.

ZUFA CENVA, A arma de Rossak

 

Quando contemplou às quatorze jovens feiticeiras, escolhidas entre as mais potentes e devotas que Rossak tinha formado, Zufa Cenva compreendeu que estas mulheres não eram a única esperança da humanidade. Não eram a única arma de que dispunham contra os terríveis cimeks.

Mas significavam um elemento fundamental no esforço bélico.

Zufa olhou a suas alunas com amor e compaixão. Ninguém, em todos os planetas da liga, confiava mais no triunfo nem lutava mais por alcançar a vitória. Deu a impressão de que seu coração ia explodir quando as viu concentrarem-se no objetivo definitivo. Se todo mundo pudesse fazer o mesmo, não demorariam para derrotar às máquinas pensantes.

Como tinha feito meses antes, Zufa guiou seu grupo de elite para o coração da selva, onde poderiam pôr em prática suas habilidades e convocar o poder. Cada uma destas mulheres era o equivalente a uma ogiva psíquica. Zufa, abençoada desde seu nascimento com mais talentos que qualquer uma delas, havia ensinado seus métodos, as havia empurrado pouco a pouco até seus limites.

Tinha-lhes ensinado a desatar incríveis capacidades telepáticas, e a controlá-las. As mulheres tinham respondido com admirável precisão, superando as expectativas mais otimistas de Zufa.

Mas seus esforços deviam aplicar-se a algo.

Tomou assento sobre um tronco coberto de cogumelos. As taças das árvores formavam um espesso dossel envolto em sombras. A folhagem purpúrea filtrava a água da chuva, e gotas como lágrimas caíam no chão esponjoso, frescas e potáveis. Insetos de bom tamanho e roedores cheios de pontas formigavam por toda parte, indiferentes ao experimento que as feiticeiras estavam a ponto de começar.

- Prestem atenção. Relaxem... mas estejam preparadas para se concentrar com toda sua força quando eu lhes ordenar.

Zufa olhou para as mulheres, todas altas e pálidas, de pele translúcida e cabelo branco reluzente. Pareciam anjos da guarda, seres luminosos enviados para proteger à humanidade das máquinas pensantes. Podia existir outro motivo para que Deus lhes tivesse concedido tais poderes?

Seu olhar escrutinou um rosto atrás de outro: Silin, a intrépida e impulsiva; Camio, a criativa, que improvisava formas de luta; Tirbes, que ainda não tinha descoberto todas as suas possibilidades; Ruça, que sempre se decantava pela integridade; Heoma, com seu poder ainda sem polir... e outras nove. Se Zufa pedisse uma voluntária, todas as suas escolhidas solicitariam a honra.

Sua tarefa consistia em escolher a primeira mártir. Xavier Harkonnen estava ansioso por partir para Giedi Prime.

Amava a suas alunas como se fossem suas filhas... e eram, em um sentido muito real, porque seguiam seus métodos, potenciavam suas possibilidades. Estas jovens eram tão diferentes de Norma...

As quatorze mulheres se erguiam imóveis a sua frente, em aparência contentes e serenas, mas tensas por dentro. Tinham os olhos entrecerrados. Suas narinas se alargavam ao respirar, contavam os batimentos do coração e utilizavam técnicas de bio-regeneração inatas para alterar as funções corporais.

- Comecem a alimentar o poder em sua mente. Sintam-no como eletricidade estática antes de uma tormenta.

Viu que sua expressão se alterava apenas.

- Vão aumentando o poder. Imaginado-o em seu cérebro, porém não percam o controle. Passo a passo. Sintam o aumento da energia, porém, não a liberem. Controlem.

Zufa sentiu que a energia crepitava a seu redor. Sorriu.

Zufa voltou a sentar-se no tronco, debilitada, mas não ousou revelá-lo. Seu recente aborto, quando tinha expulso o monstruoso broto do Aurelius Venport, a tinha deixado sem forças, mas havia muito trabalho que fazer, e não podia postergar-se nem delegar-se. Os planetas da liga dependiam dela, sobretudo agora.

Todo mundo confiava na feiticeira, mas Zufa Cenva tinha carregado outro peso sobre seus ombros. Em cada giro dos acontecimentos, seus planos e sonhos vieram abaixo quando a mente se negava a levar a cabo o esforço ou a correr os riscos necessários. Estas devotas alunas pareciam diferentes, e estava segura de que não a decepcionariam. Com muita freqüência, quando punha a prova outras pessoas, descobria que não estavam à altura de suas expectativas.

- Um pouco mais - disse. - Intensifiquem seu poder. Provem seu alcance, mas sempre com cautela. Um engano neste momento liquidaria a todas, e a raça humana não pode se permitir o luxo de nos perder.

A energia psíquica aumentou. O cabelo claro da feiticeira começou a elevar-se, como se a gravidade tivesse falhado.

- Bem, bem. Continuem.

Seu êxito a agradava.

A auto-exaltação nunca tinha interessado a Zufa. Era uma supervisora rigorosa e difícil, que não tinha paciência nem compaixão para os fracassos de outros. Não necessitava de riquezas como Aurelius Venport, nem louvores como Tio Holtzman, nem sequer um pouco de atenção, como a que Norma parecia desejar ao convencer o sábio para que a tomasse como aprendiz. Se Zufa Cenva era impaciente, tinha direito a sê-lo. Viviam uma época crítica.

A vegetação se agitou quando insetos e roedores fugiram das ondas psíquicas, cada vez mais potentes. As árvores sussurraram, folhas e ramos se desprenderam como se tentassem fugir da selva. Zufa entreabriu os olhos e examinou suas alunas.

Estavam chegando à parte mais perigosa. A energia mental tinha aumentado até o ponto em que seus corpos começaram a brilhar. Zufa teve que utilizar suas habilidades para erigir uma barreira protetora contra a pressão psíquica combinada que sentia em sua mente. Um deslize, e tudo se perderia.

Mas sabia que estas devotas aprendizes jamais cometeriam tal equívoco. Compreendiam o que estava em jogo e as conseqüências. Zufa as olhou com o coração esmigalhado.

Uma das alunas, Heoma, projetava mais energia que suas companheiras, mas ainda mantinha o controle. A força destrutiva poderia abrasar com facilidade suas células cerebrais, mas Heoma a dominava, olhando sem ver enquanto seu cabelo se agitava como uma tormenta.

De repente, caiu do alto uma árvore, um animal recoberto de escamas com dentes afiados como agulhas e grossa blindagem corporal. Desabou entre as jovens com um ruído surdo, enlouquecido pelas ondas mentais. Todo músculo e cartilagem, revolveu-se com seus poderosas mandíbulas e fortes garras.

Tirbes, sobressaltada, deu um coice, e Zufa sentiu uma onda incontrolada de poder que surgia como um jorro de fogo.

- Não! - gritou, e estendeu as mãos, ao mesmo tempo que utilizava seus poderes para emendar o deslize da estudante. – Controle-se!

Heoma, com absoluta calma, apontou com o dedo para a árvore como se estivesse apagando uma mancha de uma tabela magnética. Desenhou uma linha de destruição psíquica passando sobre o corpo do depredador. O animal estalou em chamas, seus ossos se carbonizaram e sua pele se converteu em cinzas. Brotaram chamas das órbitas vazias de seus olhos.

As companheiras de Heoma se esforçaram por controlar seus forças mentais, mas se haviam distraído em um momento crítico e estavam perdendo seu precário controle sobre seus aríetes telepáticos. Heoma e Zufa mantinham uma serenidade sobrenatural, em contraste com os frenéticos esforços das demais. A força psíquica combinada ondulava e se agitava.

- Contenham-se - disse Zufa com lábios trementes. - Temperem o poder. Sepultem em seu interior. Controlem e devolvam a sua mente. É uma bateria, e precisam conservá-la carregada.

Respirou fundo e viu que todas suas guerrilheiras psíquicas a estavam imitando. Pouco a pouco, quando começaram a moderar seus esforços constantes, a eletricidade da atmosfera foi diminuindo.

- Basta por enquanto. Isto é o melhor que já fizeram. - Zufa abriu os olhos e viu que todas as estudantes a estavam olhando, Tirbes pálida e assustada, as demais assombradas pelo perto que tinham estado da autoaniquilação. Heoma, uma ilha à parte, parecia inabalável.

A vegetação estava retorcida e chamuscada, formando um amplo círculo a seu redor. Zufa estudou a folhagem enegrecida, os ramos caídos e os liquens murchos. Um momento mais, e todas teriam se desintegrado em uma bola de chamas telepáticas.

Mas tinham sobrevivido. A prova tinha constituído um êxito terminante.

Uma vez desaparecida a tensão, Zufa se permitiu um sorriso.

- Estou orgulhosa de todas vocês - disse, e falava a sério. Vocês... minhas armas... estarão preparadas assim que a Armada chegar.

 

As respostas matemática nem sempre se expressam de maneira numérica. Como se calcula o valor da humanidade, ou de uma só vida?

PENSADORA KWYNA, arquivos da Cidade da Introspecção

 

Na extravagante casa de Tio Holtzman, situada no alto de um escarpado, Norma Cenva dedicou três dias a acomodar-se em seu extenso laboratório. Tinha muito que fazer, muito que aprender. E o melhor de tudo era que o sábio estava ansioso por escutar suas idéias. Não poderia pedir mais.

A tranqüila Poritrin não recordava em nada às perigosas selvas e canhões de lava de Rossak. Desejava explorar as ruas e canais da Starda, que divisava das janelas.

Pediu permissão a Holtzman para descer ao rio, onde tinha visto muita gente levar a cabo diferentes trabalhos. Até se sentia culpada por tão humilde pedido, em lugar de trabalhar tenazmente para descobrir meios de lutar contra as máquinas pensantes.

- Minha mente está um pouco cansada, sábio Holtzman, e sinto curiosidade.

Em lugar de olhar para ela com ceticismo, o sábio aceitou a idéia de bom grado, contente de encontrar uma desculpa para acompanhá-la.

- Lembre-se que lhe pagam para pensar, Norma. Podemos fazer isso em qualquer lugar. - Afastou para um lado um maço de rascunhos e esboços. - Talvez um pouco de turismo a inspire. Nunca se sabe quando e onde surge a inspiração.

Guiou-a por uma escada que se aferrava a um escarpado sobre o Isana. Norma percebeu o aroma do rio, o limo arrastados das terras altas. Pela primeira vez em sua vida, sentiu-se aturdida pelas possibilidades que lhe ofereciam. O sábio estava muito interessado em sua imaginação, em sua mente, escutava suas sugestões, ao contrário de mãe, sempre desdenhosa.

Norma explicou uma idéia que lhe tinha ocorrido naquela manhã.

- Sábio Holtzman, estudei seus escudos decodificadores. Acredito que entendo seu funcionamento, e me perguntei se seria possível... ampliá-los.

O cientista expressou um interesse cauteloso, como se temeroso de que ela fosse a criticar seu invento.

- Ampliá-los? Já abrangem a atmosfera dos planetas.

- Refiro-me a uma aplicação muito diferente. Seus decodificadores constituem um conceito puramente defensivo. O que aconteceria se utilizássemos os mesmos princípios para um arma ofensiva.

Perscrutou sua expressão, e detectou perplexidade, porém também desejo de escutar.

- Uma arma? Como imagina obter isso?

Norma respondeu depressa.

- E se construíssemos um... projetor? Transmitir o campo para o interior de uma fortaleza das máquinas pensantes, para desorganizar seus cérebros de circuitos gelificados. Quase como o impulso eletromagnético de uma explosão atômica no ar.

O rosto de Holtzman se iluminou.

- Agora entendo! Seu raio de ação seria limitado, e a energia necessária focalizada. Mas talvez... poderia funcionar. O suficiente para neutralizar às máquinas pensantes dentro de um perímetro substancial. - Deu algumas pancadinhas no queixo, entusiasmado pela idéia. - Um projetor... Estupendo, estupendo!

Caminharam pela borda até que chegaram à extensão fedorenta das terras baixas alagadas, salpicada de atoleiros lamacentos. Equipes de escravos seminus chapinhavam nessa zona, alguns descalços, outros com botas altas até as coxas. A intervalos regulares, se viam pontes de tábua sobre as quais descansavam barris metálicos. Os escravos iam e vinham dos barris, de onde extraíam punhados do conteúdo, para logo afundar seus dedos em marcas riscadas no barro.

- O que estão fazendo? - perguntou Norma. Dava a impressão de que se dedicassem a enterrar adornos no barro.

Holtzman forçou a vista, como se nunca tivesse atentado para aqueles detalhes.

- Ah, sim! Estão pulverizando alevinos de almeja, diminutos moluscos que criamos a partir de ovos filtrados da água do rio. A cada primavera, os escravos pulverizam centenas de milhares, talvez milhões. - Encolheu os ombros. - As águas se elevam de novo, cobrem os viveiros, e depois baixam de novo. No outono, as equipes recolhem os moluscos: almejas tão grandes como sua mão. - Elevou sua palma direita. - Deliciosas, sobretudo fritas com manteiga e cogumelos.

Norma franziu o cenho quando olhou para os numerosos escravos que chapinhavam na água. O conceito de operários cativos lhe era muito estranho e desagradável, incluindo os calculadores de Holtzman.

O cientista não ousou aproximar-se em excesso do fedor dos escravos, face a curiosidade de Norma.

- O melhor é manter distância.

- Sábio, não lhe parece... hipócrita lutar para libertar os humanos da dominação das máquinas, enquanto ao mesmo tempo alguns planetas da liga utilizam escravos?

O homem pareceu perplexo.

- Mas como se poderia trabalhar em Poritrin, já que carecemos de máquinas sofisticadas?

Quando reparou por fim na expressão séria de Norma, demorou um momento em compreender o motivo de sua preocupação.

- Ah, tinha esquecido que em Rossak não há escravos! Estou certo?

Norma não quis criticar o estilo de vida de seu anfitrião.

- Não fazem falta, sábio. A população de Rossak é escassa, e há muitos voluntários que vão trabalhar na selva.

- Entendo. Bem, a economia de Poritrin se baseia na mão de obra e no trabalho físico constante. Faz muito tempo, nossos líderes decretaram um decreto proibindo qualquer maquinaria eletrônica, talvez uma medida mais radical que em outros planetas da liga. Não nos restou outra alternativa senão optar pela mão de obra humana. - Sorriu e apontou as equipes. - Não é tão grave, Norma. Nós os vestimos e alimentamos. Entenda que estes operários procedem de planetas primitivos onde levavam uma existência miserável, morriam de enfermidades e desnutrição. Isto é um paraíso para eles.

- Todos são dos Planetas Não Aliados?

- Restos de colônias de fanáticos religiosos que fugiram do Império Antigo. Todos budislâmicos. Reduzidos a desagradáveis níveis de barbárie, logo que civilizados, vivem como animais. Ao menos, a maior parte de nossos escravos recebem uma educação rudimentar, sobretudo os que trabalham para mim.

Norma protegeu os olhos do sol e olhou com ceticismo as formas curvadas que trabalhavam nos pântanos. Os escravos estariam de acordo com a cega definição do cientista?

A expressão de Holtzman endureceu.

- Além disso, esses covardes estão em dívida com a humanidade, por não combater contra as máquinas pensantes como nós. É excessivo pedir a seus descendentes que contribuam para alimentar os sobreviventes e veteranos que mantiveram, e ainda mantêm, as máquinas a distância? Esta gente renunciou a seu direito à liberdade a muito tempo, quando desertaram da raça humana. - Não parecia muito irritado, como se o problema fosse alheio a ele. - Temos um trabalho mais importante a fazer, Norma. Você e eu também temos que pagar uma dívida, e a Liga de Nobres confia em nós.

 

Naquela noite, obstinada ao frio metal do corrimão de liga forjada, a pequena mulher olhava do balcão as luzes da cidade. Os navios e barcaças que flutuavam no Isana pareciam vaga-lumes empapados de água. Na escuridão, balsas iluminadas se afastavam do setor dos escravos, fogueiras móveis que entravam no pântano até desvanecer no negrume.

Holtzman, que cantarolava, aproximou-se para lhe oferecer uma taça de chá, e Norma perguntou sobre as embarcações. O homem forçou a vista, mas demorou um pouco em compreender o que os escravos estavam fazendo.

- Ah, devem ser balsas crematórias. O Isana se leva os corpos da cidade, e as cinzas são arrastadas para o mar. Tudo muito eficaz.

- Mas por que há tantas? - Norma indicou as dúzias de luzes flutuantes. - Tantos escravos morrem a cada dia?

Holtzman franziu o cenho.

- Ouvi falar de uma praga que assola os operários. O pior é que é difícil substituí-los. - Se apressou a tranqüilizá-la, com olhos brilhantes. - Não tem por que preocupar-se. Asseguro-lhe. Contamos com montões de medicamentos, suficiente para atender todos os cidadãos livres de Starda, no caso de também ficarem doentes.

- E o que acontece aos escravos que morrem?

- Lorde Bludd já solicitou substitutos - foi a evasiva resposta do sábio. - Ultimamente, há muita demanda de candidatos sãos. Os mercados de carne da Tlulaxa não param de capturar homens e mulheres nos planetas periféricos. A vida continua em Poritrin.

Afagou o ombro de Norma como se fosse uma menina.

A jovem tentou contar os barcos flutuantes do balcão, mas não demorou para desistir. O chá lhe caiu frio e amargo.

Holtzman continuou falando.

- Gostei muito da sua idéia de utilizar meu escudo decodificador como arma. Já estou pensando na forma de desenhar um projetor portátil que possa funcionar de terra.

- Entendo - disse Norma, vacilante. – Vou me esforçar em sugerir novas idéias.

Antes de partir, Norma não pôde afastar a vista dos barcos funerários que sulcavam o rio. Havia visto escravos nos pântanos pulverizando alevinos de almeja, assim como nos laboratórios, calculando centenas de equações. Agora, estavam morrendo aos montes, vítimas da febre..., mas eles eram fáceis de substituir.

A Liga de Nobres lutava com todas suas forças para não serem escravos das máquinas pensantes. Norma pensou na hipocrisia da situação.

 

Nem todos os homens são criados iguais, e essa é a raiz dos distúrbios sociais.

TLALOC, Era-a dos Titãs

 

A nave de escravos tlulaxa caiu sobre o Harmonthep como um comboio fatigado, em vez de um esquadrão militar. Tuk Keedair ia na nave capitânia, mas tinha permitido que o novato Ryx Hannem se encarregasse de pilotar e disparar. O jovem Hannem, que ainda não estava acostumado a este tipo de operações, estaria ansioso por agradar a Keedair, e o veterano mercador de carne queria ver de que o novato era feito.

Keedair tinha o nariz esmagado, que tinha quebrado duas vezes na sua juventude. Gostava do aspecto rude que contribuía a seu rosto feroz. Levava na orelha direita um pendente de ouro triangular, com um símbolo hieroglífico gravado que se negava a traduzir. Uma trança negra, riscada de cinza, caia entre seus ombros da parte esquerda de sua cabeça: uma marca de orgulho, pois a tradição comercial exigia que um mercador de carne cortasse a trança depois de um ano de perdas. E a de Keedair era muito longa.

- Já temos as coordenadas? - perguntou Hannem, e passeou seus olhos nervosos entre o painel de controle e o pára-brisa da cabine. - Por onde vamos começar, senhor?

- Harmonthep é um planeta não aliado, moço, e os budislâmicos não publicam mapas.

- Buscaremos um povoado, e depois capturaremos seus habitantes. Ninguém leva o censo.

Hannem olhou pelo visor, à busca de aldeias. As naves de Tlulaxa sobrevoavam um continente verde alagado. Nem montanhas nem colinas se elevavam sobre a paisagem de lagos, pântanos e canais fluviais. Dava a impressão de que Harmonthep tinha aversão a elevar suas massas de terra sobre o nível da água. Até os oceanos eram pouco profundos.

Depois de mais algumas caçadas, talvez Keedair pudesse tirar umas longas férias em Tlulax, o planeta isolado de seu povo. Era um magnífico lugar para relaxar, embora estivesse seguro de que não demoraria para se sentir inquieto de novo. Como “fornecedor de recursos humanos”, Keedair não possuía um lar fixo.

A indústria biológica tlulaxa exigia sem cessar material de primeira mão, a partir de novos sujeitos, linhas genéticas desperdiçadas. Graças a rodear suas atividades de um impenetrável segredo, os tlulaxa tinham conseguido enganar seus inocentes clientes da liga. Quando o preço era justo e grande a necessidade, os nobres aceitavam com facilidade histórias de biotanques sofisticados onde se cultivavam órgãos. Inclusive, os dedicados pesquisadores se dedicavam a modificar suas tanques de clonagem com o fim de produzir tais produtos, mas ainda não contavam com a tecnologia adequada.

Era muito mais fácil capturar humanos esquecidos que viviam em planetas remotos. Ninguém sabia dos seqüestros, e se catalogava os cativos segundo suas características genéticas.

No momento, a repentina carência de escravos aptos em Poritrin tinha mudado o objetivo de Keedair. Enquanto a praga não fosse erradicada, era mais benéfico proporcionar cativos vivos, corpos quentes que não era necessário processar...

Quando as naves se aproximaram dos pântanos, Keedair deu alguns golpes sobre o mapa topográfico que aparecia na tela.

- Voe a baixa altitude sobre esse rio largo e siga-o. Por minha experiência, é provável que encontre uma aldeia na confluência dos canais navegáveis.

Quando a nave desceu, distinguiu grandes forma escuras que se moviam nas águas, animais similares a serpentes que descansavam entre as canas. Enormes flores alaranjadas brotavam na extremidade dos caules, abriam-se e fechavam como bocas carnudas. Keetair se alegrou de não ser obrigado a prolongar sua estadia neste planeta desagradável.

- Vejo algo, senhor!

Hannem projetou uma imagem ampliada na tela, e assinalou um grupo de cabanas elevadas sobre postes nos pântanos.

- Estupendo, moço. - Keedair chamou as outras naves. - Será como roubar frutas no jardim de um nobre.

A aldeia não parecia muito extensa. As cabanas redondas eram feitas de canas e barro, solidificadas com uma espécie de cimento plástico. Entre elas pendiam algumas antenas, espelhos e coletores de vento, embora os budislâmicos utilizassem muito pouca tecnologia sofisticada. Duvidou que poderia encher os porões de todas as naves com os exemplares desta única aldeia, mas era sempre otimista. Os negócios marchavam de vento em popa.

 

Três naves de combate flanquearam à nave capitânia de Keedair, enquanto as de carga se afastaram. Ryx Hannem compôs uma expressão inquieta quando se aproximaram do povoado.

- Está seguro de que contamos com muitos armas, senhor? Nunca participei de um ataque com estas características.

Keedair arqueou uma sobrancelha.

- São zensunnis, moço, pacifistas até a medula. Quando chegaram as máquinas pensantes, não tiveram colhões para lutar. Duvido que nos façam um arranhão sequer. Confie em mim, nunca verá mais pranto e ranger de dentes. São patéticos. - Abriu o canal de comunicações e falou com seus homens. - Derrubem os postes de três cabanas e as joguem na água. Eles sairão correndo. Depois, utilizaremos atordoantes. - Sua voz era serena, inclusive um pouco aborrecida. - Teremos muito tempo para capturar os que valerem a pena. Se algum estiver ferido gravemente, recolham-no para as reservas de órgãos, entretanto eu prefiro corpos intactos.

Hannem olhou-o com ar de adoração. Keedair voltou a falar pelo canal de comunicações.

- Haverá benefícios para todos, e uma recompensa por cada macho e fêmea férteis que forem capturados ilesos.

Os pilotos prorromperam em vivas, e depois as quatro naves de combate se lançaram sobre a aldeia indefesa. O jovem Hannem deu um salto quando as naves atacaram. Cortaram os postes com raios desintegradores, e as cabanas sem sustentação afundaram nas águas turvas.

- Bem...

- Abra fogo, moço! - ordenou Keedair.

Hannem disparou suas armas, desintegrou um dos postes, derrubou a parede lateral de uma cabana e incendiou as canas.

- Não tanta destruição - disse Keedair, impondo um pouco de calma a sua impaciência. - Não é para aniquilar os aldeões. Ainda não pudemos ver se valem a pena.

Tal como tinha antecipado, os patéticos zensunni saíram a toda pressa de suas cabanas. Alguns portavam escadas e postes para subir aos barcos presos às suas cabanas.

As duas naves de carga aterrissaram junto ao povoado. Abriram pontes para manter a flutuação das naves, e rampas de carga se estenderam até colinas de aspecto sólido cobertas de erva.

Keedair indicou a Hannem que descesse perto dos grupos que fugiam.

Alguns se afundavam até a cintura na água, enquanto as mulheres arrastavam os meninos até as canas e os jovens brandiam lanças, que pareciam mais adequadas para pescar que para combater.

Os primeiros invasores tlulaxa já tinham saído de suas naves. Quando Keedair pisou em um montículo de erva esmagada com o atordoante em suas mãos, seus camaradas já estavam abrindo fogo, escolhendo seus alvos com precisão.

Os adultos sãos foram os primeiros, porque eram os que se valiam mais no mercado de Poritrin, e porque podiam causar mais problemas, se lhes concedesse a oportunidade.

Keedair entregou a arma a um sorridente mas intimidado Ryx Hannem.

- Será melhor que comece a disparar, moço, se quiser sua parte do botim.

 

O pequeno Ishmael guiava seu barco pela via fluvial, entre o labirinto de arroios e canais.

A vegetação se elevavam por cima de sua cabeça, inclusive quando ficava de pé. As flores laranja se abriam e fechavam com um estalo, cada vez que apanhavam um mosquito.

Ishmael, de oito anos, fazia muito tempo que saia a caça sozinho. Sua avó materna, que lhe tinha criado depois da morte de seus pais, tinha-lhe ensinado bem. Ishmael sabia localizar esconderijos de ovos de qaraa, que nem mesmo as águias gigantes eram capazes de descobrir.

Tinha encontrado uma boa quantidade de folhas para preparar salada e capturado dois peixes, de uma espécie que nunca tinha visto. Sua cesta se agitava, enquanto os seres venenosos presos em seu interior subiam e desciam pelas paredes, e projetavam diminutas patas negras pelos buracos. Ele tinha capturado dezoito percevejos de leite, grandes como sua mão. Esta noite, a família comeria bem!

Mas quando se aproximou da aldeia, Ishmael ouviu gritos, além de estranhos zumbidos. Descargas de estática. Remou com celeridade, mas sem esquecer da prudência. As canas eram muito altas para que visse algo.

Quando dobrou uma curva, viu as naves, um dos maiores temores de sua tribo e o motivo de que tivessem construído a aldeia em um lugar tão isolado. Várias cabanas tinham caído na água, enquanto outras ardiam em chamas. Impossível!

O menino quis gritar e correr para a luta, mas sua razão o aconselhou que fugisse. Ishmael viu que os caçadores apontavam seus atordoantes, abatendo um aldeão atrás de outro. Algumas pessoas tentavam esconder-se em suas casas, mas os atacantes abriam caminho através delas.

Os zensunni não tinham fechaduras em suas portas, nem lugares protegidos onde esconder-se. Como seguidores do Budalá, eram gente pacífica. Nunca tinham surgido guerras entre os povos de Harmonthep. Ao menos, Ishmael não tinha notícia disso.

Seu coração pulsava acelerado. Tal alvoroço atrairia às enguias gigantes, embora os predadores fossem bastante preguiçosos a esta hora do dia. Se os caçadores não levassem todos os aldeões inconscientes caídos na água, as enguias teriam um festim...

Ishmael aproximou o barco de uma das naves. Viu sua prima Taina cair por causa de um disparo, e depois, alguns homens de aspecto sujo carregaram seu corpo imóvel sobre uma balsa metálica.

Ishmael não sabia o que fazer. Ouviu um rugido: o sangue que corria em seus veias, seu fôlego ofegante.

Então, seu avô, Weyop, avançou para o centro das cabanas e plantou cara ao caos.

O ancião carregava um magro gongo de bronze que estava pendurado de um pau, símbolo de seu cargo de porta-voz da tribo. O avô do Ishmael não parecia assustado, e o menino experimentou um grande alívio imediatamente. Tinha fé no homem sábio, que sempre encontrava uma forma de resolver as disputas. Weyop salvaria aos aldeões.

Mas no fundo de seu coração, Ishmael sentia um medo terrível, pois sabia que a situação não se solucionaria com tanta facilidade.

 

Ryx Hannem demonstrou ser um bom elemento. Depois de derrubar seu primeiro cativo, continuou disparando com entusiasmo. Keedair ia contando mentalmente o botim, embora não saberia com segurança até que os corpos inconscientes fossem depositados em ataúdes de êxtase para serem transportados.

Keedair apertou as mandíbulas quando os zensunni suplicaram e gemeram, talvez do mesmo modo que a população de Giedi Prime depois da conquista das máquinas pensantes. Keedair tinha sócios comerciais em Giedi City, mas não acreditava que os veria vivos de novo.

Não sentia a menor compaixão por aqueles bastardos zensunni.

Hannem apontou para um ancião que avançava imperturbável.

- O que ele acredita que está fazendo, senhor? - O velho não parava de golpear um gongo metálico que pendia de um pau comprido. Hannem levantou seu atordoante. – Devemos capturá-lo?

Keedair negou com a cabeça.

- Muito velho. Não desperdice uma descarga com ele.

Dois negreiros acostumados pensaram o mesmo. Quebraram o pau do líder e o jogaram na água, e depois riram quando ele os amaldiçoou em uma mescla de seu jargão natal e galach, o idioma universal dos planetas humanos. O humilhado ancião nadou até a borda.

Os outros aldeões gemiam e soluçavam, mas a maioria dos jovens sãos já estavam nos barcos, inconscientes. As anciãs e os meninos choravam, mas sem expressar o menor gesto de resistência. Keedair olhou para Ryx Hannem.

De repente, um menino saiu correndo da vegetação atrás deles. Lançou paus contra Hannem e Keedair, gritando algo a respeito de seu avô. Keedair se agachou. Uma pedra passou roçando sua cabeça.

Então, o menino agarrou uma cesta que levava em seu barco e a lançou contra Hannem. O frágil vime se rompeu e libertou um enxame de enormes insetos de patas finas, que se equilibraram sobre o peito e o rosto de Hannem. O co-piloto emitiu um grito fraco enquanto esmagava a multidão de atacantes, mas continuaram subindo por seus braços e por sua roupa. Os corpos esmagados segregavam uma substância leitosa que parecia pus.

Keedair se apoderou do atordoante de Hannem e apontou para o menino. Quando o menino caiu, Keedair também acertou seu co-piloto com o raio paralisante. Não era o melhor método, mas ao menos incapacitava os insetos venenosos, além de Hannem. Uma vez a bordo da nave de carga, introduziriam ao caçador ferido em um ataúde de êxtase, junto com os novos cativos. Keedair ignorava se o moço viveria, ou só sofreria pesadelos durante o resto de sua vida.

Gritou para os demais tlulaxa que recolheram os corpos inconscientes. Parecia que iriam necessitar da segunda nave de carga. Não foi nada mal, pensou. Estudou a forma imóvel do menino nativo. Não havia dúvida de que o pequeno zensunni era imprudente e impetuoso. Não serviria de grande coisa para o amo que o comprasse.

Mas isso não preocupava Keedair. Poritrin se encarregaria do problema. Até aturdido e sujo, o menino parecia são e forte, embora talvez um pouco jovem para acompanhar aos outros escravos. Embora só se sentisse irritado, Keedair decidiu incluí-lo no lote. Tinha lhe causado problemas e merecia um castigo, sobretudo se Hannem acabasse morrendo.

O ancião da tribo se achava na borda, empapado, gritavam sutras budislâmicos aos atacantes, descrevia os enganos de seus costumes. Havia corpos flutuando de bruços na água. Alguns dos desesperados aldeões utilizavam paus para aproximar os cadáveres da borda, sem deixar de choramingar e soluçar.

Keedair viu grandes formas sinuosas que se aproximavam pelos canais, atraídas pelo barulho. Uma delas elevou a cabeça da água e exibiu uma boca cheia de presas.

Quando viu o animal, um calafrio percorreu a espinha de Keedair. Quem sabia que outras criaturas viviam?

Ansioso por afastar-se dos pântanos, ordenou a seus homens que se apressassem. Viu como carregavam aos novos escravos nas naves. Tinha vontade de voltar para sua nave. Entretanto, os benefícios que obteria da operação compensariam os inconvenientes e o desconforto.

Uma vez tudo disposto, entrou em sua nave, ligou os motores e elevou os estabilizadores incrustados de barro. Quando se elevou no céu nebuloso, Tuk Keedair olhou para baixo e viu que as enguias gigantes começavam a devorar os cadáveres.

 

A mente governa o universo. Temos que nos assegurar de que seja a mente humana, em lugar da versão das máquinas.

PRIMEIRO FAYKAN BUTLER

Memórias da Jihad

 

Zufa Cenva escolheu a sua aluna mais brilhante para transformá-la na primeira arma de Rossak dirigida contra os cimeks de Giedi Prime. A feiticeira Heoma, enérgica e devotada, parecia mais que disposta a responder a chamada.

Zufa coordenava a operação com a Armada da Liga. A chefa das feiticeiras mordeu o lábio inferior e piscou para reprimir as lágrimas de orgulho que brotavam em seus olhos.

A inesperada e imprudente incursão de Serena Butler proporcionou o ímpeto necessário para que a Armada decidisse passar à ofensiva. Entre as discussões e o ruído de sabres, Xavier Harkonnen tinha esboçado um plano bem organizado para o ataque. Depois, havia convencido seu comandante em chefe que lhe permitisse dirigir o ataque. No céu de Rossak, a frota de naves de guerra estava preparada para zarpar das estações orbitais.

A desforra inicial contra os invasores devia constituir uma vitória radical e absoluta, muito mais que uma escaramuça isolada. Cada planeta influía em outros, como os elos de uma corrente. O terceiro Harkonnen estaria no comando de um grupo de combate, provido com os novos decodificadores portáteis de Tio Holtzman, que deixariam fora de combate às instalações robóticas.

Não obstante, uma feiticeira deveria se encarregar dos cimeks, porque seus cérebros humanos eram imunes às ondas decodificadoras. Heoma tinha aceitado sua tarefa sem a menor vacilação.

Era uma jovem magra de vinte e três anos, cabelo branco, olhos amendoados e feições comuns que desmentiam a energia de sua poderosa mente. Para a Zufa, não só contavam seus poderes mentais. Queria Heoma como a uma filha. Heoma era a maior de cinco irmãs. Mais três já tinham ingressado na ordem.

Zufa apoiou as mãos sobre os ombros de sua protegida.

- Sabe o muito que depende desta missão. Sei que não me decepcionará, nem a mim nem a humanidade.

- Estarei à altura de suas expectativas - prometeu Heoma. - Talvez inclusive mais.

O coração da Zufa se encheu de orgulho. Quando Heoma subiu à lançadeira, a feiticeira disse:

- Não estará sozinha. Todas voaremos com você.

Durante os últimos preparativos, Zufa tinha falado aos homens mais fortes de Rossak com palavras graves e expressão dura, tinha-lhes repreendido por sua incapacidade de desempenhar um papel decisivo no combate crucial. O fato de não possuírem poderes telepáticos não impedia que pudessem participar de outras maneiras. O ataque contra Giedi Prime também necessitava de sua ajuda. A escultural feiticeira tinha convencido seis deles a que acompanhassem Heoma como guarda-costas.

Os homens de Rossak levaram sua reserva particular de estimulantes e sedativos, que Aurelius Venport lhes tinha facilitado. Tinham aprendido a dirigir todo tipo de armas e as técnicas da luta corpo a corpo. Quando chegasse o momento, se transformariam em guerreiros fanáticos, que iriam ao combate indiferentes a sua sobrevivência, sem outro objetivo além de aproximar a feiticeira dos cimeks. Venport tinha preparado as drogas com supremo cuidado, e inventado uma fórmula que permitiria aos homens superar horrores sem conta.

Enquanto via a lançadeira subir para as naves que aguardavam, as idéias amontoaram-se na mente da Zufa, transita de remorsos e impaciência. Tentou conter seus sentimentos atrás de uma muralha de confiança e fidelidade a sua missão.

Aurelius Venport se deteve em silencio a seu lado, como se não soubesse o que dizer. O homem era o bastante sensível para perceber a tristeza de Zufa ao ver partir para sua aluna favorita.

- Tudo sairá bem.

- Não.

- Mas ela triunfará.

O olhar pormenorizado de Venport deu a entender que não se deixava enganar pelo comportamento desdenhoso da feiticeira.

- Sei que teria desejado ser você a primeira arma, minha querida. Heoma possui muito talento, mas você é a melhor de todas. Lembre-se que ainda está se recuperando do aborto, e que sua debilidade poderia fazer fracassar a missão.

- E cabe-me a responsabilidade de preparar às demais. - Zufa viu que a lançadeira desaparecia entre as nuvens. - Só me resta a alternativa de ficar aqui e fazer o que puder.

- É curioso. Eu estava pensando o mesmo a respeito de meu trabalho.

Quando se recordou dos torpes guarda-costas, a feiticeira estudou seu amante com indisfarçado desprezo. Seus olhos aristocráticos eram incisivos, livres de drogas corruptoras, mas sua atitude independente a irritava.

- Por que não se ofereceu como voluntário para a operação, Aurelius? Ou é muito egoísta para isso?

- A minha maneira, sou um patriota. - Venport olhou-a com um sorriso irônico. - Mas não espero que você o compreenda.

A feiticeira ficou sem respostas, e os dois continuaram observando o céu, muito depois de que a lançadeira tivesse chegado à estação orbital.

 

Não acredito que exista isso que chamam de “causa perdida”. Somente gente que carece de seguidores fanáticos.

SERENA BUTLER, discurso no Parlamento da liga

 

Apesar do relatório otimista do magno Sumi, a estação transmissora secundária de Giedi Prime estava muito longe de sua conclusão.

Quando o comando de Serena aterrissou na ilha rochosa açoitada pelos ventos do mar do norte, dedicaram todo um dia a transportar seu equipamento e equipe até a borda, abrir os barracões e voltar a pôr em funcionamento os geradores. As torres parabólicas se erguiam como esqueletos incrustados de geada, mas nenhum dos sistemas funcionava.

Assim que Brigit Paterson fez uma idéia da magnitude de sua tarefa, voltou-se para Serena com o cenho franzido.

- O máximo que posso dizer é que não será impossível terminar o trabalho. - Encolheu seus largos ombros. - A armação e a construção estão terminadas, mas a maioria dos componentes ainda não foram conectado. As sub-estações não estão conectadas, e os cabos nem sequer chegam as vigas mestras mais elevadas.

Indicou as grades que gemiam na brisa.

Serena não sentiu inveja do voluntario que teria de subir para concluir as conexões vitais.

- Não sabemos com exatidão quando Xavier chegará com a Armada para nos resgatar, mas se não tivermos terminado quando as suas naves chegarem, não vale a pena começar. Nós o decepcionaremos, tanto quanto as pessoas de Giedi Prime.

Brigit convocou seus engenheiros para uma reunião de urgência.

- Teremos de consumir muitos estimulantes. Podemos trabalhar dia e noite, desde que montemos luzes para iluminar as plataformas.

- Façam - disse Serena, - e peçam nossa ajuda sempre que for necessário. O comandante Wibsen deseja alguns dias de descanso, mas o tiraremos de sua cama a pancadas, se for preciso, para que colabore.

Brigit lhe dedicou um sorriso irônico.

- Gostaria de ver isso.

Trabalharam durante toda a semana seguinte sem que ninguém os incomodasse. As máquinas pensantes desconheciam sua presença, e o que estavam fazendo. Sem sofrer mais que algumas contusões leves, a equipe finalizou a parte mais perigosa do trabalho. Brigit Paterson anunciou que as fases restantes seriam as que consumiriam mais tempo.

- Temos de examinar todos os componente, e fortalecer os circuitos. devido a sua própria natureza, estas torres transmissoras geram um campo que neutraliza os circuitos gelificados. Temos que nos assegurar de que o sistema resistirá mais de cinco minutos depois de ativado.

Serena mordeu o lábio e assentiu.

- Isso seria estupendo.

- E se os experimentos revelarem nossa presença - continuou Brigit, - alguma máquina pensante poderia adivinhar o que estamos tramando. É um processo delicado.

- Quanto tempo? - perguntou Ort Wibsen, impaciente.

- Uma semana, com sorte. - Brigit franziu o cenho. - Dez dias se algo enguiçar e terá que arrumar peças.

- Oito dias é o mínimo que a Armada demorará para chegar - disse Serena. - Caso Xavier organizasse a força atacante e separasse dois dias depois de receber minha mensagem.

- A liga é incapaz disso - grunhiu Wibsen. - Convocarão reunião atrás de reunião, interrompidas por dilatados banquetes, e logo farão mais reuniões.

Serena suspirou.

- Espero que Xavier possa acelerar os trâmites.

- Sim - disse Wibsen, - e eu espero que os robôs deixem Giedi Prime voluntariamente..., mas não acredito possível.

- Mantenha seus engenheiros ocupados - disse Serena a Brigit Paterson, sem fazer conta do pessimismo do veterano. - O comandante Wibsen e eu subiremos ao couraçado. Atravessaremos a rede de sensores sem ser localizados e trataremos de nos reunir com a Armada. Xavier tem que ser informado do plano, para aproveitar nosso trabalho. Vamos enviar-lhes um cronograma e coordenaremos o ataque.

Wibsen tossiu, e logo franziu o cenho.

- Será melhor que levemos também Pinquer Jibb, se por acaso necessitarmos de um co-piloto.

Jibb passou a vista entre Serena e o veterano, vacilante.

- Acredito que o comandante em chefe deveria ficar aqui. - O veterano cuspiu na terra geada.

- Nem por sonho. A possibilidade de que necessite ajuda é muito remota.

- Como quiserem - respondeu Serena, enquanto dissimulava um sorriso. - Brigit, detectarão a chegada da Armada quando penetrar no sistema?

- Estamos controlando a rede de comunicações das máquinas pensantes. Imagino que quando as naves da Armada se aproximem, os robôs ficarão muito nervosos. Sim, nós saberemos.

O couraçado voltou a sulcar as profundezas do mar do norte.

- Quando começamos a missão - disse Wibsen em tom filosófico, - pensei que você estava louca, Serena Butler.

- Por tentar ajudar essa gente? - A jovem arqueou as sobrancelhas.

- Não. Pensei que estava louca por me conceder outra oportunidade.

Segundo os planos que fizeram, Ort Wibsen tinha identificado pontos fracos na rede de sensores dos robôs, quando atravessaram pela primeira vez a atmosfera. Uma vez que emergissem do mar a uns quarenta graus de latitude norte, poderiam a repetir a jogada com chances razoáveis de não serem detectados. As telas de observação cintilavam de maneira irregular, como focos invisíveis no céu.

- Permaneceremos em silêncio - disse o veterano. Tossiu uma vez mais e deu alguns golpes no injetor do peito, como se fosse um inseto molesto. - Esperaremos até me assegurar de que conheço sua rotina.

- Se podemos afirmar algo sobre as máquinas - pensantes disse Pinquer Jibb, vacilante – é que são previsíveis. Mas os cimeks não.

Quando ainda não tinha transcorrido uma hora, várias naves robô se lançaram sobre o couraçado semi-submergido. Wibsen amaldiçoou, e cuspiu sangue.

- Onze! - exclamou Pinquer Jibb, que olhava a tela. - Como nos localizaram?

- Como é possível que não os visse? - replicou Wibsen.

- Surgiram da água, como nós!

Serena examinou a tela e viu que as naves se precipitavam para eles. Ativou as armas de estibordo e disparou contra os atacantes. Acertou um mas errou outros. Não era uma perita em armamento. Se tivesse suspeitado que teriam que abrir caminho pela força, nunca teriam aceito a provocação de infiltrar-se em Giedi Prime.

- Jibb, assuma os controles e prepare-se para a decolagem! - Wibsen saiu disparado da cabine. - Venderemos cara nossa pele. - Agitou um dedo em direção ao co-piloto. - Quando eu partir, espere sua oportunidade... e não vacile.

- O que você vai fazer? - perguntou Serena. O veterano, em lugar de responder, mergulhou no interior do único salva-vidas.

- O que está fazendo? - perguntou Jibb.

- Agora não há tempo para conduzi-lo a um conselho de guerra.

Serena não podia acreditar que o veterano os abandonava à sua sorte.

Wibsen fechou a escotilha do módulo, e luzes verdes se acenderam a seu redor, indicando que estava preparado para separar.

Serena disparou de novo com as armas de estibordo, as únicas apontadas em direção às máquinas pensantes que se aproximavam. Acertou outra nave, mas os cimeks e robôs dispararam em uníssono contra o couraçado, destroçando os canhões. Serena olhou abatida para os sistemas de controle. Apagaram-se.

Precedido de uma grande explosão, o salva-vidas de Wibsen saiu despedido como uma bala de canhão, roçando apenas a superfície.

- Não durma nos controles. Preparado! - disse o veterano pela freqüência de emergência.

Pinquer Jibb deu mais potencia aos motores para iniciar a ascensão. A nave desenhou um sulco na água.

Wibsen dirigiu o módulo para os atacantes. Desenhado para transportar apenas um sobrevivente de uma explosão catastrófica, o salva-vidas contava com um casco resistente. Quando se chocou contra o inimigo mais próximo, atravessou-o de um extremo a outro e colidiu com o que lhe precedia. O salva-vidas se deteve entre os restos de ambas as naves.

- Em frente! - gritou Serena a Jibb. - Decole!

O couraçado se elevou para o céu. Enquanto subiam, Serena olhou para a tela enfocada na água.

Viu que a escotilha do salva-vidas se abria. Wibsen saiu mancando, mas desafiante, rodeado de fumaça e vapor. Três irados cimeks se equilibraram sobre ele.

O veterano introduziu uma mão no bolso e lançou uma esfera cinza contra a nave cimek mais próxima. A onda expansiva da explosão repeliu o inimigo, e enviou Wibsen para o interior do salva-vidas. Sujeitou com mão tremente um rifle de cartuchos de pulsos, com o qual disparou uma e outra vez, mas três cimeks blindados se precipitaram para ele de suas naves. Serena viu horrorizada que as garras mecânicas articuladas esquartejavam o veterano.

- Cuidado! - gritou Pinquer Jibb, muito tarde. Serena viu que naves robóticas apontavam suas armas pesadas contra o couraçado. - Não posso...

O impacto projetou Serena contra a parede do fundo. As explosões destroçaram os motores da nave, que se precipitou para o oceano, sem que Jibb pudesse fazer nada. O couraçado afundou nas ondas como um trenó descontrolado, levantando uma coluna de espuma branca. A água começou a infiltrar-se pelas rachaduras do casco.

Serena correu para o armário das armas e agarrou um rifle pulsátil. pendurou a arma ao ombro, embora nunca tivesse utilizado um, disposta a defender-se. Pinquer Jibb agarrou outra arma.

Os cimeks penetraram na nave, com ruídos metálicos similares a explosões de torpedos. Abriram caminho através do casco até chegar ao compartimento central, como aves que pretendiam alimentar-se da carne de um molusco.

Jibb abriu fogo quando os primeiros braços chapeados apareceram pelas rachaduras da parede. Um raio danificou o braço de um cimek, mas ricocheteou no interior e abriu a brecha ainda mais.

Outro cimek entrou pela escotilha superior. Serena disparou, e teve a sorte de alcançar o contêiner cerebral. Um cimeck maior apareceu por trás e utilizou o corpo de seu companheiro caído para se proteger dos disparos de Serena.

Perto de Pinquer Jibb, um cimek com forma de escaravelho negro continuava perfurando o casco rachado. O co-piloto se voltou e tratou de disparar uma vez mais, mas o cimek projetou um comprido braço pontiagudo. Jibb deixou cair sua arma quando o braço atravessou seu peito como uma espada. O peitilho de seu uniforme se tingiu de sangue.

O extremo do braço se transformou em dedos similares a garras, que arrancaram o coração de sua vítima e o elevaram como se fosse um troféu.

O cimek maior lançou o corpo inutilizado de seu companheiro contra Serena, que ficou apanhada contra a coberta, incapaz de se mover.

O cimek em forma de escaravelho, de cuja extremidade ainda gotejava sangue, avançou para Serena. Elevou duas patas bicudas sobre o corpo da jovem, mas o cimek maior lhe ordenou que se detivesse.

- Não mate aos dois, do contrário não poderemos oferecer nada a Erasmo. Pediu um membro da resistência de Giedi Prime. Este irá de presente.

Ao ouvir suas palavras, Serena ficou horrorizada. Seu tom detestável a levou a pensar que a morte seria preferível ao que poderia lhe aguardar. Sangrava pelas feridas do braço, das costas e da perna esquerda.

O assassino de Jibb lhe arrebatou o rifle, enquanto o cimek de maior tamanho arrojava fora o cadáver. Estendeu um braço e a aferrou com um punho metálico flexível. O titã a levantou da coberta, e logo aproximou o rosto da cativa de suas fibras ópticas.

- Ah, encantadora. Mesmo depois de mil anos, ainda reconheço a beleza. Se voltasse a ser humano, demonstraria minha admiração sem limites. - Seus sensores projetaram um brilho cruel. - Sou Barba Azul. É uma pena que tenha que enviá-la à Terra, para Erasmo. Para o seu bem, espero que ele a ache interessante.

Extremidades chapeadas a aprisionaram em sua garra, como se fosse uma gigantesca jaula. Serena se debateu, mas não podia fugir. Tinha ouvido falar da Barba Azul, um dos titãs que tinham derrubado o Império Antigo. Mais que tudo, lamentava não ter podido matá-lo, mesmo que tivesse sacrificado sua vida.

- Uma das naves de Omnius parte amanhã em direção à Terra. Encarregar-me-ei de que a conduzam a bordo - disse Barba Azul. – Esqueci de dizer? Erasmo tem laboratórios onde faz... coisas... muito interessantes.

 

Não existe limite para minhas possibilidades. Sou capaz de abranger todo um universo.

Bancos de dados secretos de Omnius, arquivos danificados

 

Dentro de seu programa operativo de comprimento alcance, o recém instalado Omnius de Giedi Prime estudava um mapa tridimensional do universo conhecido. Um modelo preciso, apoiado em extensas compilações de inspeções e dados sensores, combinados com projeções e análise apoiadas em probabilidades.

Infinitas possibilidades.

Com insaciável curiosidade, o novo Omnius estudava nebulosas, sóis gigantes e planetas. Com tempo e esforço contínuo, todos formariam parte da rede de Planetas Sincronizados.

Logo chegaria a próxima nave de atualização, com o qual estaria quase sincronizado com as outras supermentes planetárias. Não tinha podido sincronizar-se desde que o tinham ativado em Giedi Prime. O Omnius de Giedi Prime poderia copiar seus novos pensamentos e compartilhá-los com os outros clones. Expansão, eficácia... Tanto por fazer! A conquista de Giedi Prime era um passo mais no império cósmico das máquinas. O processo havia começado, e logo se aceleraria.

Coberto no núcleo cibernético da antiga cidadela do magno, Omnius carregava imagens tomadas pelos olhos espiões: ruínas em chamas, meninos humanos em câmaras de tortura, imensas fogueiras alimentadas pelos membros restantes da população. Estudava com objetividade cada imagem, absorvia informação, processava-a. Muito tempo antes, o programa modificado de Barba Azul tinha ensinado às máquinas pensantes a saborear a vitória.

Haviam tornado a pôr em funcionamento muitas fábricas de Giedi Prime, assim como aerodeslizadores mineiros e outras instalações. Barba Azul tinha se esforçado muito para adaptar os centros de fabricação humanos às necessidades das máquinas pensantes. Nestas fábricas, a nova supermente tinha descoberto algo que criava relações interessantes, possibilidades extraordinárias.

Os humanos tinham desenhado e começado a construir um novo modelo de sonda espacial de longa distância, um explorador de planetas muito afastados. Tais sondas poderiam ser adaptados como emissários das máquinas pensantes, novas subestações da supermente.

No mapa galáctico, Omnius reparou na duração das viagens que necessitavam as sondas de alta aceleração. Examinou o território denominado “Planetas Não Aliados”, ainda não conquistados pelas máquinas ou pelos insetos humanos. Havia tantos sistemas estelares para explorar, conquistar e desenvolver, e estas sondas tornariam isso possível. A nova supermente considerava uma oportunidade, como fariam seus camaradas dos Planetas Sincronizados.

Se pudesse pulverizar sementes de seu supermente, fábricas autônomas capazes de utilizar recursos locais para construir infra-estruturas automáticas, seria capaz de estabelecer cabeças de praia em inumeráveis planetas habitados. Seria como uma chuva de faíscas sobre madeira, e os hrethgir nunca poderiam deter a expansão de Omnius. Fazia parte de sua natureza básica.

Uma equipe de robôs de manutenção esperava fora do núcleo protegido, preparados para proporcionar assistência técnica. Guiado por sua idéia inovadora, a nova supermente enviou um sinal a um deles. Seus sistemas se ativaram.

 

Durante semanas, enquanto Barba Azul continuava subjugando e reconstruindo Giedi Prime, Omnius guiava suas máquinas de manutenção na construção de sofisticadas sondas de longo alcance, cada uma das quais continha uma cópia de sua mente e sua personalidade agressiva.

Depois de aterrissar, as sondas desdobrariam sistemas automatizados, estabeleceriam fábricas autônomas em cada planeta, unidades que por sua vez construiriam mais robôs de manutenção... colônias mecanizadas muito afastadas dos Planetas Sincronizados, muito longe da Liga de Nobres. Embora as máquinas fossem capazes de colonizar e explorar qualquer planeta, os cimeks insistiam em concentrar-se nos mundos compatíveis com os humanos. Embora os planetas desertos causassem menos problemas, a supermente compreendia que ambos os tipos eram desejáveis.

Quando o trabalho terminou, Omnius utilizou seus olhos espiões para observar os lançamentos. Cinco mil sondas elevaram vôo em uníssono, programadas para pulverizar-se até os limites mais afastados da galáxia, embora demorassem milhares de anos em alcançar seu objetivo. O tempo não importava.

Unidades compactas em forma de bolha, as sondas encheram o céu de luzes cintilantes e colunas de fumaça verde. No futuro, quando considerasse conveniente, Omnius voltaria a conectar-se com cada um daqueles mecanismos, um após o outro.

As máquinas pensantes eram capazes de traçar planos de longo prazo, e viver para colocá-los em prática. Quando os humanos chegassem àqueles longínquos sistemas, Omnius já estaria ali.

Esperando.

 

Todo ser humano é uma máquina temporária.

Poema de acampamento zensunni

 

A salvo no interior da estação de experimentos botânicos, que constituía seu refúgio a meses, Selim se refugiou enquanto outra feroz tormenta de areia assolava o deserto. O clima era o único que viajava nesta zona.

A tormenta durou seis dias e seis noites, levantou pó e areia, e obscureceu a paisagem até dar a impressão de que um ocaso interminável pousou sobre o planeta. Ouviu que açoitava as paredes robustas dos edifícios pré-fabricados.

Não estava assustado. Estava a salvo e protegido..., embora um pouco aborrecido.

Pela primeira vez em sua vida, Selim era auto-suficiente, já não cativo dos caprichos dos aldeões que lhe davam ordens porque era de pais desconhecidos. Compreendia a riqueza que se encontrava ao seu dispor, e ainda não tinha começado a descobrir os estranhos objetos tecnológicos do Império Antigo.

Recordou quando seu falso amigo Ebrahim e ele tinham explorado o deserto com outros zensunni, incluindo o naib Dhartha e seu jovem filho Mahmad. Em uma ocasião, Selim havia descoberto um vulto formado por circuitos fundidos, procedentes sem a menor duvida de uma nave que tinha explodido. A areia o havia transformado em um aglomerado de diversas cores. Tinha desejado dar de presente a Glyffa, a anciã que às vezes cuidava dele, mas Ebrahim havia se apoderado dos componentes fundidos para correr a mostrá-los ao naib Dhartha, e lhe perguntar se podia ficar com eles, o naib o tinha arrebatado e atirado em uma pilha que amontoavam para vender em um mercado de sucata. Ninguém tinha pensado em Selim...

Em todo caso, enquanto o tempo se transformava em semanas, descobriu aspectos e dimensões da solidão. Dia após dia, sentava-se diante das janelas arranhadas, via desvanecer as tormentas, os ocasos avermelhados tintos de outros tons. Olhava as dunas que se ondulavam até perder-se no horizonte. Os imensos montículos se transformavam em algo similar a seres vivos, mas sua essência não se alterou.

Só em metade daquela enorme extensão, parecia impossível que voltasse a ver outro ser humano, porém Budalá lhe enviaria um sinal. Só esperava que fosse logo.

Selim passava a maior parte do tempo dentro da estação deserta, distraído com jogos individuais que tinha aprendido de pequeno. No povo, aqueles cuja linhagem remontava a doze gerações ou mais, inclusive antes que os zensunni chegassem a Arrakis, o tinham condenado ao ostracismo.

Desde muito pequeno, Selim tinha sido criado por diferentes zensunni, mas nenhum o tinha adotado como se fosse de sua família. Sempre tinha sido um pirralho impulsivo e ativo.

Qualquer mãe autêntica teria sido paciente com suas travessuras, mas Selim não tinha mãe. Em Arrakis, onde a sobrevivência dependia de um fio, poucos se preocupavam com um menino que parecia empenhado em não chegar a lugar nenhum.

Em uma ocasião, tinha derramada água sem querer (a ração de todo um dia), enquanto trabalhava em um armazém. Como castigo, o naib Dhartha lhe negou todo tipo de líquidos durante dois dias, e insistiu que devia aprender a lição se queria chegar a fazer parte da tribo. Mas Selim nunca tinha visto que se infligisse tamanho castigo a outros que tinham cometido erros semelhantes.

Quando só tinha oito anos padrão, havia ido explorar rachaduras e rochas, caçar lagartos e procurar ervas de raízes comestíveis. Uma tormenta de areia o tinha apanhado de surpresa, e obrigado a procurar refúgio. Selim recordava o terror que tinha experiente durante os dois dias que tinha passado sozinho. Quando por fim tinha retornado à aldeia, com a esperança de ser recebido com alegria, percebeu que ninguém tinha reparado em sua ausência.

Pelo contrário, Ebrahim, o filho de um respeitado pai da tribo, tinha muitos irmãos para que ninguém prestasse atenção nele. Talvez como compensação, Ebrahim se colocava em muitas confusões, e punha a prova constantemente as restrições do naib, ao mesmo tempo que procurava contar sempre com a companhia de Selim, para o caso de ter que jogar a culpa em alguém.

Por ser um patife indesejável, Selim nunca tinha conhecido o que era a verdadeira camaradagem. Tinha aceitado as manipulações de Ebrahim com ingenuidade, sem pensar na possibilidade de que o outro moço estivesse se aproveitando dele. Selim tinha demorado a aprender a lição, e só conseguiu depois de pagar o preço do exílio no deserto, onde esperavam que morresse.

Mas tinha sobrevivido. Tinha montado em Shaitan, e Budalá lhe tinha guiado até este lugar escondido...

Como as longas tormentas o deixavam nervoso, Selim se decidiu a explorar o centro de investigações. Estudou as fileiras de instrumentos sofisticados e registros, mas não chegou a desvendar as complexidades da tecnologia antiga. Conhecia vagamente a função dos sistemas, mas não compreendia o funcionamento das máquinas instaladas pelos cientistas do Império Antigo. Como a estação se conservou intacta durante centenas, talvez milhares, de anos, as investigações de um jovem curioso não poderiam prejudicá-la...

Algumas células de energia ainda estavam ativas, e conseguiu conectar os sistemas, iluminar os painéis. Por fim, descobriu a forma de ativar um arquivo, a hologravação de um homem alto de estranhas feições, grandes olhos e pele clara. Os ossos de seu rosto eram peculiares, como se fosse de uma raça humana diferente. O cientista imperial vestia roupas de cores brilhantes, algumas metálicas, outras de desenhos incomuns. Ele e outros investigadores haviam sido enviados ao planeta para analisar os recursos do planeta e averiguar se era apto para a colonização. Porém não haviam encontrado nada interessante.

- Esta será nossa última gravação - disse o cientista, em um estranho dialeto do galach que era apenas compreensível para Selim. Passou cinco vezes a gravação até compreender por inteiro mensagem. - Embora nossa missão ainda não tenha terminado, uma nova nave de transporte aterrissou no espaçoporto local. O capitão nos transmitiu uma mensagem urgente, referente aos distúrbios e o caos que se abateram sobre o Império. Uma liga de tiranos tomou o controle de nossas máquinas pensantes, e as utilizaram para se apoderar do governo galáctico. Nossa civilização está perdida! - Atrás dele, os companheiros do cientista murmuravam em voz baixa, nervosos. - O capitão da nave de transporte tem que partir dentro de poucos dias. Não poderemos finalizar nosso trabalho a tempo, mas se não formos agora, os distúrbios podem propagar-se por todo o Império.

Selim contemplou os investigadores, de expressão preocupada e olhar distante.

- Talvez os líderes políticos demorem um tempo para resolver esta disputa e restaurar a normalidade. Nenhum de nós deseja ficar isolado neste espantoso lugar, assim iremos embora com o transporte depois de desconectar todos os sistemas de nossas estações experimentais. Em qualquer caso, pouco fica por descobrir no deserto Arrakis, mas se alguma vez voltamos, tomamos medidas para que as estações permaneçam intactas e operativas, embora transcorram alguns anos.

Quando a gravação terminou, Selim lançou uma risada.

- Passaram-se mais que alguns anos!

Mas as imagens dos cientistas do fenecido Império não responderam, com o olhar perdido em um futuro incerto. Selim teve vontades de compartilhar seu deleite com alguém, mas não pôde. O deserto o retinha prisioneiro. Entretanto, encontraria uma forma de escapar.

 

O perigo diminui à medida que aumenta nossa confiança nos seres humanos.

XAVIER HARKONNEN, discurso militar

 

Sete dias.

Brigit Paterson não tinha desejado limitar tanto o tempo, mas sua equipe tinha trabalhado com dedicação. Verificou uma e outra vez seu trabalho, para assegurar-se de que não tinham cometido enganos. Estava em jogo a sorte de todo um planeta.

Segundo os cálculos mais otimistas de Serena, os engenheiros tinham terminado com o tempo justo.

Depois de verificar o sistema de decodificação e comprovar que funcionava, apesar de suas exigências, Brigit concedeu por fim a sua gente algumas horas de descanso. Alguns ficaram sentados, com a vista cravada no céu cinzento que se via através das janelas de plaz de seus barracões improvisados. Outros dormiram de imediato, como em animação suspensa.

A Armada chegou na manhã do nono dia.

O sistema detector que tinham instalado na rede de sensores de Omnius disparou os alarmes. Brigit despertou a sua equipe e disse que a frota da liga se aproximava do sistema, disposta a reconquistar Giedi Prime. Confiava que Serena haveria interceptado as naves para informar pelo que deviam esperar.

Os cimeks, desdenhosos, não quiseram acreditar que os humanos ousassem atacá-los, enquanto a encarnação de Omnius se esforçava em analisar a situação para encontrar uma resposta.

A frota de máquinas pensantes mantinha em órbita vários patrulheiros, mas quase todas as naves de guerra robô estavam em terra para subjugar à população. Agora que se aproximava a Armada da Liga, o Omnius de Giedi Prime propagou ordens pela rede informática. As naves de combate robóticas esquentaram motores, com o fim de lançar uma enorme força sincronizada contra os invasores hrethgir.

Brigit Paterson escutou os planos e sorriu.

O subchefe dos engenheiros se aproximou correndo.

 

- Não deveríamos conectar os escudos decodificadores? Todos estão preparados. O que está esperando?

Brigit o encarou.

- Estou esperando que esses estúpidos robôs caiam na armadilha.

Viu nas toscas telas instaladas no complexo inconcluso que cem naves de combate separavam-se dos campos de aterrissagem conquistadas. As enormes naves se elevaram do chão, carregadas com uma potência de fogo incrível.

- Não tão depressa.

Por fim, Brigit ativou os escudos decodificadores Holtzman renovados. As torres de transmissão bombearam energia à rede de satélites, e a interrupção se propagou como uma teia, invisível e mortífera para os circuitos gelificados de inteligência artificial.

A frota robô nunca soube o que lhes atingiu.

Incapazes de acreditar que algo pudesse afetar seus planos, as máquinas pensantes colidiram com o fino véu que destruiu imediatamente seus cérebros eletrônicos, sistemas de gravação e unidades de memória. As naves, uma por uma, foram caindo do céu, até chocarem-se contra o chão.

Algumas caíram em zonas desabitadas. Outras, por desgraça, não.

Brigit Paterson não quis nem pensar nos “danos colaterais” que acabava de causar no já devastado planeta. Ao ver seu êxito, os engenheiros prorromperam em vivas. As naves de guerra restantes não poderiam opor-se à força combinada da Armada, nem descer à superfície para provocar danos.

- Ainda não ganhamos - advertiu Brigit, - mas possivelmente não demoraremos muito em partir desta rocha.

A Armada se aproximava de Giedi Prime, com todas as armas preparadas para repelir às máquinas pensantes. Xavier rezou para que o audaz plano de Serena tivesse tido êxito, e se encontrasse sã e salva onde fora.

Tinha insistido em tomar o comando do perigoso ataque, não porque desejasse reclamar a glória de uma vitória que elevasse a moral, mas sim porque desejava com desespero resgatar Serena.

Omnius tinha calculado mal os planos e capacidade dos humanos. depois de debater os prós e as contra, e chegar à conclusão de que a liga contava com poucas chances de vencer, a supermente tinha descartado a ameaça. Nenhum inimigo sensato atacaria com tantas probabilidades contra.

Mas Xavier Harkonnen não se negava nunca a empreender missões desesperadas. E neste caso, a supermente de Giedi Prime não possuía essa informação fundamental. Este Omnius carecia de dados vitais a respeito das feiticeiras de Rossak, acerca dos novos decodificadores portáteis e, confiava Xavier, dos novos transmissores de escudo secundários, agora em funcionamento.

Quando as naves de guerra robóticas em órbita detectaram a chegada da Armada, adotaram a formação habitual para destruir ao inimigo. Xavier ouviu pelo comunicador um relatório de seu segundo, o quarto Powder.

- Senhor, as máquinas pensantes se aproximam. Suas canhoneiras de mísseis estão abertas.

Xavier deu a primeira ordem.

- Enviem as divisões de assalto terrestres... Lancem os transportes blindados de tropas.

As naves transportavam a feiticeira Heoma e seus guarda-costas de Rossak, assim como soldados que utilizariam os decodificadores portáteis contra os robôs de Giedi City.

De repente, o quarto Powder levantou a vista de seu posto, depois de verificar as análise que seus oficiais táticos acabavam de enviar.

- Senhor, parece que os escudos decodificadores se ativaram em todo o planeta!

O coração de Xavier se encheu de esperança.

- Tal como Serena prometeu.

Os soldados lançaram vivas, mas ele sorriu por um motivo muito diferente. Agora, sabia que ela estava viva. Serena tinha obtido o impossível, tal como ocorria freqüentemente.

- As naves robôs estão caindo! Os decodificadores as desconectaram!

- Bom, mas as máquinas pensantes instaladas em terra tentarão desmantelar as torres de transmissão secundárias. Temos que terminar o trabalho enquanto a frota robô esteja apanhada aqui e o resto de máquinas pensantes se acha imobilizada nas cidades. - Xavier não ia permitir que o esforço de Serena fora estéril. - Vamos reconquistar o planeta.

Oito kindjals surgiram das escotilhas de lançamento nave capitânia, flanqueando o transporte da Heoma, todos armados até os dentes e dispostos a bater-se com o inimigo. A missão dos kindjals era causar confusão e caos, distrair aos robôs carentes de imaginação, para que a feiticeira aterrissasse e levasse a seu cabo sua missão.

Ao ver que as naves de guerra robóticas apontavam suas armas, Xavier ordenou aos transportes de tropas que se apressassem. Enxames de naves da Armada de menor tamanho penetraram na atmosfera e se dirigiram para Giedi City.

Xavier fechou os olhos, desejou o melhor a seus camaradas, e se concentrou na ameaça que o aguardava em órbita.

 

Algumas vidas se tomam, enquanto outras se entregam com absoluta liberdade.

ZUFA CENVA, repetida frase de louvor

 

Heoma, rodeada por seis silenciosos homens de Rossak, pilotava o transporte de tropas. Todos os seus guarda-costas vestiam uniformes e casacos acolchoados, que lhes proporcionavam certo amparo contra o fogo de projéteis. Os homens lançaram um olhar ao altímetro, enquanto a nave descia, e engoliram coquetéis de drogas de Rossak. Os potentes estimulantes queimaram como lava suas veias e fibras musculares, ao mesmo tempo em que apaziguavam o medo e a dor.

Graças a sua capacidade telepática, Heoma viu que os homens drogados se transformavam em tormentas humanas, dispostas a lançar raios contra seus inimigos. Olharam-na um a um, comunicaram uma certeza não verbalizada, que estavam prontos a morrer.

O transporte estremecia enquanto cruzava perigosos ventos cortantes. Heoma não era uma piloto perita, mas poderia pousar a nave. Não necessitava uma aterrissagem delicada, somente poder sair por seus próprios pés.

Tinha esperado que naves robô lhes interceptassem, mas Heoma viu que os transportes das máquinas pensantes se chocavam na terra, caindo como pedras sobre edifícios e parques.

Outras naves que tinham conseguido voar baixo o bastante para evitar os piores efeitos dos escudos decodificadores se esforçavam por aterrissar com seus sistemas danificados.

- Não estão em condições de preocupar-se conosco - transmitiu um homem de um dos kindjals. As velozes naves da Armada abriram fogo de artilharia e vaporizaram algumas naves inimizades.

Em órbita, as naves de combate da Armada trocavam furiosos disparos com as naves robôs, que já não podiam descer à superfície para defender Omnius.

O terceiro Harkonnen também tinha enviado uma força de assalto terrestre, depois que Heoma e sua reduzida equipe tivessem seguido sua rota predeterminada. Cada ponta do ataque tinha sua missão concreta, e era preciso controlar todos os detalhes.

 

Heoma fixou a vista nos controles da nave, enquanto contava os segundos. Seu ataque ia ser desesperado. Não gozaria de outra oportunidade. E tinha que terminar antes que os soldados da liga tomassem posições.

Quando atravessaram as nuvens baixas, viu a cidade, casas e altos edifícios construídos por orgulhosos humanos que tinham imaginado um futuro próspero. Ruas inteiras se viam enegrecidas, em especial os complexos residenciais, que pareciam não ter qualquer valor para os desumanos conquistadores.

Recordou o relatório recebido, durante o qual tinha memorizado os únicos planos disponíveis de Giedy City, e localizou a cidadela que tinha sido a residência do governador. Nela, os cimeks tinham instalado uma nova encarnação de Omnius, segundo o mensageiro Pinquer Jibb. A mansão do magno se transformou em uma fortaleza das máquinas pensantes.

Defendida por cimeks.

Os kindjals de escolta pulverizaram nuvens de fumaça e lançaram dispositivos que dispersaram folha seca eletromagnética, partículas de metal ativo que danificaram as capacidades sensoras dos robôs. A nave da Heoma continuou sua descida para o chão, oculta pela fumaça das naves robôs ainda operativas.

Conscientes de que se aproximavam naves, as máquinas pensantes lançaram salvas aleatoriamente. As explosões fizeram oscilar a nave de Heoma, e viu que o trem de aterrissagem tinha sido alcançado. Não obstante, pousou o aparelho no chão, que deslizou a grande velocidade sobre uma ampla rua ladrilhada, projetando fogo, fagulhas e metralha. Por fim, se chocou contra o costado de um edifício de pedra.

Rapidamente, Heoma e seus homens desabotoaram os cintos de segurança e tomaram as armas. A jovem feiticeira abriu uma escotilha lateral e ordenou a seus guarda-costas que limpassem o caminho. Transmitiu o sinal de que tinha passado o perigo a seus kindjals de escolta.

- Aniquilem esses bastardos - respondeu um piloto.

Os kindjals subiram ao céu, em direção à segunda onda de transportes de tropas que depositavam comandos de assalto terrestres na cidade infestada de robôs.

A fase seguinte da missão dependia dela.

Heoma saiu do aparelho fumegante, e depois indicou com um gesto a seus homens que corressem para a cidadela do governador. Saltou atrás deles, com o objetivo muito claro em sua mente.

Atrás da feiticeira, o transporte estalou, obedecendo a sua seqüência de autodestruição programada. Heoma nem sequer se encolheu. Em nenhum momento tinha pensado em deixar uma possibilidade de retirada.

Os guarda-costas levavam lança projeteis e fuzis, dissociadores. Tratava-se de uma artilharia muito pesada para qualquer homem normal, mas graças a seus músculos potencializados quimicamente, os guarda-costas possuíam uma força sobre-humana... ao menos até que as drogas queimassem seus corpos por dentro.

Poderosos robôs de combate, de três metros de altura, guardavam a cidadela de Omnius. Embora em estado de alerta, as máquinas pensantes estavam mais preocupadas com naves de ataque, além dos escudos decodificadores reativados, que com alguns poucos humanos que corriam pelas ruas. O que podiam fazer um punhado de hrethgir comuns contra as invencíveis máquinas pensantes?

Quando os sentinelas avançaram para detê-los, os guarda-costas de Heoma abriram fogo. Sem uma palavra, lançaram projeteis que reduziram os robôs a pedaços.

Olhos espiões sobrevoavam os edifícios, e desceram quando o comando correu para o arco de entrada da mansão do magno. Os olhos espiões seguiram os movimentos de Heoma, informando de tudo ao Omnius de Giedi Prime. Mas a feiticeira não reduziu sua velocidade. Seus guarda-costas desintegravam a todas as máquinas que ficavam a seu alcance.

Nas ruas, os primeiros transportes de tropas tinham aterrissado. Os soldados abriram fogo com pistolas. Estabeleceram um perímetro protegido para que seus técnicos pudessem instalar o primeiro dos dois protótipos de decodificadores portáteis.

O engenho era volumoso e de aspecto tosco, levantado sobre um robusto tripé. Estava conectado mediante cabos à fonte de energia do transporte. Uma só descarga do projetor destruiria o motor da nave, e poria fora de combate aos robôs desprotegidos num raio de meio quilômetro.

- Atenção! - gritou o técnico. Muitos soldados tamparam os ouvidos, como se esperassem uma rajada de artilharia.

Heoma só ouviu um leve gemido agudo, e depois um tênue estalo na malha do ar. Fumaça e faíscas surgiram do projetor Holtzman, e todas as luzes do transporte se apagaram.

Depois, com um ensurdecedor ruído metálico, centenas de olhos espiões caíram ao chão. Os robôs se imobilizaram. Mais naves robôs se precipitaram para as ruas, fora de controle.

Os soldados da Armada, que ainda continuavam saindo dos transportes, prorromperam em vivas, entusiasmados ao ver que tinham estabelecido uma posição firme, uma zona em que a maioria dos inimigos tinham sido eliminados.

Heoma tinha que concluir sua missão antes de pôr em perigo as vidas de outros soldados humanos.

- Para dentro! Depressa!

Seus guarda-costas e ela se internaram nos corredores da cidadela governamental. Como Zufa Cenva lhe tinha ensinado, concentrou-se em fortalecer seus poderes telepáticos até que sua mente se encheu de energia.

No interior da cidadela, o comando de Heoma se encontrou com dois robôs travados, ainda funcionais mas desorientados. Ao que parecia, os grossos muros do edifício os haviam protegido da descarga do projetor. Os robôs se plantaram ante eles, com os braços levantados, mas Heoma lançou uma descarga telecinética que os derrubou para um lado, impotentes contra uma ofensiva que não podiam ver nem compreender. Antes de que pudessem

levantar-se de novo, os guarda costas de Heoma os destruíram com projeteis.

- Quase chegamos.

Correndo a toda a velocidade de suas pernas, guiou aos homens para o coração da cidade, ao mesmo tempo em que se foram disparando alarmes por toda parte. Muitos robôs haviam ficado desativados em habitações ou corredores, mas outros se precipitaram sobre ela.

Portas blindadas foram se fechando nos corredores, para isolar câmaras vitais, mas Heoma compreendeu que não eram importantes. Sabia muito bem onde tinha que ir.

Os cimeks não demorariam para rodeá-la. Tal como tinham planejado.

O formigamento da eletricidade mental aumentou em seu cérebro como um transformador de energia. Tinha a impressão de que a cabeça ia estourar, mas ainda assim não liberou sua energia.

Devia guardar toda sua força até o último momento.

Ouviu que formas de combate similares a caranguejos deslizavam pelos corredores, detestáveis sons de sofisticados corpos mecânicos guiados por cérebros de humanos traidores, diferentes das rígidas pisadas dos guardas robô.

- Quase chegou o momento - anunciou aos homens de Rossak, com voz cheia de entusiasmo e um terror logo reprimido.

Entrou na câmara principal, onde habitava o núcleo protegido da manifestação de Omnius. Numerosos olhos espiões a observaram com suas fibras ópticas.

Una voz resoou de vários alto-falantes.

- Humana, carrega uma bomba, um penoso e débil explosivo com o qual pensa me atacar? Trouxe um de seus artefatos atômicos, ou esse preço da vitória seria muito elevado?

- Não sou tão ingênua, Omnius. - Heoma separou-se da face seu cabelo branco suado. - Uma pessoa não pode machucar a grande supermente eletrônica. Isso exige um ataque militar muito mais pesado. Não sou mais que uma mulher.

Quando os cimeks gigantes se aproximaram vindos de corredores adjacentes, Omnius simulou uma gargalhada.

- Os humanos admitem muito poucas vezes a loucura de seus atos.

- Eu não admiti tal coisa. - A pele da Heoma emitia um brilho avermelhado, abrasada por uma energia sobrenatural. A eletricidade estática fazia que seu cabelo ondulasse como serpentes iradas. - Não compreendeu meu verdadeiro propósito.

As comportas se abriram e três monstruosos cimeks irromperam com passo majestoso, como se saboreassem a captura dos humanos. Os guarda-costas da Heoma se voltaram e abriram fogo, utilizando suas últimas munições para derrubar um neocimek em um só ataque combinado.

O segundo neocimek levantou suas armas integradas e transformou os intrépidos homens de Rossak em nuvens de polpa sanguinolenta. O neocimek avariado jazia no solo, seus braços e pernas se agitavam como um inseto envenenado, não preparado ainda para sucumbir à morte. O titã de maior tamanho avançou.

Heoma estava sozinha frente às máquinas. Sem mover-se, concentrou seus poderes mentais, até o limite de sua capacidade.

- Sou Barba Azul - disse o cimek. - Esmaguei tantos hrethgir que seria necessário um computador para contar todos. Ele e seu companheiro se aproximaram. - Poucas vezes tinha visto tanta arrogância.

- Arrogância? Ou confiança? - Heoma sorriu. - Vale a pena perder a vida em troca de aniquilar um titã.

A energia mental da Heoma não podia danificar os circuitos gelificados de Omnius. Não obstante, as mentes humanas eram mais vulneráveis a sua potência telepática. Sentiu que as chamas de uma energia vingativa cresciam em sua mente, e as liberou em uma tormenta de fogo.

 

A onda expansiva de aniquilação psíquica queimou os cérebros de Barba Azul e seu companheiro, assim como de outros cimeks e seres biológicos que se achavam dentro do complexo da cidadela. Omnius emitiu um uivo de estática e indignação. Heoma só viu um pano branco quando sua energia mental desintegrou os cérebros orgânicos dos generais cimek.

E a supermente recém instalada ficou vulnerável.

No exterior, as tropas terrestres da liga esperaram que a tormenta telepática se desvanecesse, e depois se lançaram ao ataque contra a fortaleza indefesa de Omnius.

A reconquista de Giedi Prime havia terminado.

 

Nada é permanente

Dito dos pensadores

 

Transcorrida uma hora da ativação das torres de transmissão os cimeks e robôs destacados em terra tinham localizado sua origem. Enquanto a batalha continuava em Giedi Prime, inclusive depois da aniquilação da Barba Azul, um esquadrão de neocimeks e robôs foi enviado ao mar do norte. Rodearam a ilha rochosa coberta de gelo para penetrar no recinto e destruir a rede de transmissão de antenas parabólicas.

Com poucas armas, os engenheiros de Brigit Paterson não tinham defesa contra tal ataque, mas tampouco tinham a intenção de render-se. Dentro do centro de controle, a mulher esquadrinhou o céu e o mar.

- Quanto mais tempo resistirmos aqui, mais vidas salvaremos.

Os desesperados engenheiros, pálidos e mortos de terror, armaram-se com granadas, rifles de projéteis de pulsos e um lança-foguetes portátil, e foram guardar os moles e pistas de aterrissagem da ilha.

O esquadrão robô não lançou ultimatos. Começaram o ataque assim que localizaram alvos. Os engenheiros de Brigit estavam preparados e responderam imediatamente. Atiraram com suas armas, com o cuidado de não desperdiçar munição.

Os cimeks e robôs estavam mais interessados em destruir as torres que em matar seus poucos defensores. A maior parte de seu ataque se concentrou nas estruturas que transmitiam energia decodificadora aos céus. Quando um disparo cimek derrubou um transmissor, os escudos começaram a enfraquecer-se, mas Brigit manipulou os controles. Seus dedos voaram sobre o teclado, desviando a energia para seções mais estáveis da torre, e o escudo não demorou em voltar a funcionar. Não sabia quanto duraria.

Ouviu explosões e gritos no exterior, e se perguntou quantos engenheiros pagariam com a vida. As telas flutuaram quando os sensores foram danificados, e viu que se aproximavam mais naves, provavelmente reforços dos atacantes. Todo um esquadrão.

Então, detonações mais potentes ressonaram na água, os cimeks começaram a dispersar-se. Suas naves explodiram, alcançadas por kindjals pilotados por humanos. Ouviu vivas prorrompidos por um número muito escasso de vozes. A Armada da Liga tinha enviado uma força para defender as instalações.

 

Debilitada de alívio, Brigit desabou em sua cadeira, contente de que o arriscado plano tivesse funcionado. Quando voltasse para casa, prometeu-se que compraria para Serena Butler a garrafa de vinho mais cara que pudesse encontrar na Liga de Nobres.

 

Depois que o ataque mental da Heoma destruíra os guardiães cimek, o segundo decodificador portátil Holtzman destruiu os robôs em outra parte da cidade. O núcleo de Omnius estava perdido e vulnerável.

Os robôs sobreviventes opuseram uma feroz resistência, dispostos a sacrificar tudo para impedir que os humanos reconquistassem o planeta e destruíram a supermente. Enquanto Xavier Harkonnen combatia contra as naves robôs com suas gigantescas molas de suspensão, enviou quatro destróieres à superfície. Esquadrão atrás de esquadrão de kindjals disparavam sobre objetivos, destruíam a infra-estrutura embrionária das máquinas e aniquilavam os robôs que se achavam fora do alcance dos decodificadores portáteis.

Os transportes de tropas da Armada depositaram soldados em terra, cuja missão consistia em localizar e sabotar as fortalezas das máquinas pensantes. Naves de reconhecimento enviaram mensagens animando os oprimidos a sublevar-se.

Em resposta, homens, mulheres e crianças aturdidas saíram dos edifícios. Correram pelas ruas com as armas que podiam encontrar, algumas recuperadas dos robôs caídos.

Quando a batalha começou a virar, Xavier deu uma série de ordens, delegando responsabilidades e zonas de limpeza aos subcomandantes da Armada. Continuando, partiu com grupos de elite em busca de Serena Butler.

Voou diretamente à ilha do mar do norte, onde os engenheiros tinham reparado os transmissores. Esperava encontrar Serena ali, pois o plano tinha sido idéia da jovem.

Xavier olhou a seu redor, examinou os cadáveres com temor, mas não encontrou nem rastro de Serena nem do veterano Ort Wibsen. Tampouco viu o couraçado.

Quando encontrou Brigit Paterson, exposta à brisa geada sem que parecesse sentir o frio, a mulher estava exultante pela vitória.

- Conseguimos, terceiro! - exclamou com voz tonante. - Nunca teria apostado nem um crédito nas nossas chances de êxito, mas Serena sabia o que levava em mãos. Não posso acreditar que me arrastasse a isto.

Xavier esteve a ponto de deprimir-se de alívio.

- Onde ela está?

- Não está com a Armada? - Brigit franziu o cenho. - Saiu faz dias para encontrar suas naves e informar o que tínhamos obtido. - Piscou, preocupada de repente. - Pensávamos que lhes tinha irradiado toda a informação.

- Não, viemos pela mensagem que me deixou em Salusa. O medo agarrou o coração de Xavier, e sua voz se transformou em um sussurro. - Algo aconteceu. Deus, espero que não.

 

Xavier assumiu o comando de um pequeno contingente de kindjals com seus melhores pilotos. Serena se encontrava em algum lugar de Giedi Prime. Havia inumeráveis lugares onde esconder-se em um planeta, mas jurou encontrá-la.

Depois de deixar os engenheiros na ilha, preocupou-se? Tinham-na capturado? A folha de serviços do Wibsen demonstrava que era um excelente piloto, e o couraçado adaptado deveria ter funcionado à perfeição. Mas Serena e seus outros comandos não tinham respondido às transmissões da Armada. Podiam ter acontecido muitas coisas.

Coisas ruins.

A Armada tinha ordens concernentes à fase final da operação levada a cabo em Giedi Prime. Os comboios estavam afastando por ar aos sobreviventes do prejudicado complexo governamental de Giedi City. Confiava que Serena não estivesse dentro.

A dez quilômetros de altura, o esquadrão se posicionou sobre a cidadela que tinha sido o lar do magno Sumi, e Xavier compreendeu que tinha chegado o momento. Apenas alguns meses antes, o magno tinha recebido a ele e a sua equipe de inspeção com um banquete.

Terei que extirpar Omnius como se fosse um câncer, arrancá-lo de Giedi Prime.

Xavier vacilou, enquanto voava em círculos sobre a cidade mártir. Sentiu um nó no estômago, e por fim deu a ordem. Os kindjals soltaram suas cargas mortíferas.

Xavier fechou os olhos, e depois se obrigou a presenciar a terrível solução. Era a única forma de assegurar-se. Embora fragmentos da supermente tivessem sido distribuídos em subestações de Giedi Prime, a força de ocupação destruiria todos os restos. No momento, os humanos deviam aniquilar o núcleo eletrônico entrincheirado como uma rainha abelha no complexo da cidadela, afastado de toda sua infra-estrutura, desprovido de proteção.

Através da fumaça e das nuvens, Xavier viu que dúzias de bombas térmicas caiam sobre o centro de Giedi City e desintegravam os edifícios governamentais. Até a pedra se fundiu. O aço se transformou em cinza. O cristal se vaporizou. Nada podia sobreviver.

Uma vitória agridoce... mas vitória afinal.

 

Dois dias depois, durante uma excursão de inspeção, o terceiro Harkonnen e seus oficiais documentaram a destruição de Giedi City. Já sabiam o que iriam encontrar, mas a evidência afligiu-lhes.

Xavier respirou fundo e tratou de aliviar sua consciência recordando-se que Omnius tinha sido derrotado. Os humanos tinham reconquistado o planeta.

Porém não havia nem sinal de Serena.

 

Sempre há uma via de fuga, se souber localizá-la.

VORIAN ATREIDES, informe

 

Quando o Dream Voyager entrou por fim no sistema solar de Ophiuchi B, uma escala mais em sua longa excursão de atualizações, Seurat tentou entrar em contato com a rede de Omnius recém instalada no Giedi Prime. Se o general Agamenon tinha conquistado o planeta hrethgir, tal como tinha prometido, Vor sabia que localizariam a cidadela no centro comercial do planeta. Outro grande capítulo que seu pai incluíra em seus memórias. Vorian estava de pé atrás do capitão robô, estudando o console de instrumentos enquanto se aproximavam.

- Realmente ainda há muito que organizar e reestruturar aí abaixo.

Entusiasmava-lhe a perspectiva de visitar um planeta obrigado a se adaptar ao domínio eficaz das máquinas, depois de um período regido pelo caos humano.

Omnius precisaria rodear-se dos melhores humanos de confiança, os mais leais às máquinas pensantes. Os neocimeks se encarregariam de subjugar a população, e os humanos de confiança chegariam depois, assim que o povo estivesse domado e aceitasse sua nova situação. Mas Vor também se sentia um pouco estranho. Os hrethgir conquistados de Giedi Prime se pareceriam com ele, embora não tivesse nada em comum com eles. Seurat, e seus semelhantes, são como irmãos para mim.

O robô, de pé em frente ao console de controle, tentava receber sinais da cidadela.

- Ainda não estabelecemos contato. Talvez não instalaram ainda todos os sistemas de superfície, ou Agamenon provocou muitos danos durante sua conquista.

Vor vigiava os sistemas de controle.

- Sempre é possível reparar os danos, assim que a conquista se consolidou. - Um sol amarelo pálido iluminava a face diurna de Giedi Prime. Franziu o cenho, preocupado. - Parece que algo não está bem, Seurat.

- Defina suas reservas, Vorian Atreides. Não posso tomar medidas me apoiando em vagas sensações de inquietação.

- Como sempre. Mas... vá com cuidado.

O Dream Voyager sobrevoou a capa atmosférica, internou-se entre as nuvens e partículas dispersas que o sistema de recolhimento da nave analisou como fumaça abundante. Havia a possibilidade de que os hrethgir, cheios de maldade e desespero, tivessem queimado suas próprias cidades? Que seres tão odiosos!

Sentiu um nó no estômago quando os sistemas de alarme da nave dispararam.

Seurat alterou o curso imediatamente e voltou a ganhar altura.

- Parece que os escudos decodificadores continuam intactos em Giedi Prime.

- Quase topamos com eles! - gritou Vor. – Que significa isso...?

- Talvez o general Agamenon não coroou com êxito a conquista. Giedi Prime não se acha tão bem como era de se esperar.

Vor, confiando cegamente na perfeição de seu pai, examinou os controles.

- Os instrumentos captam material militar da liga na superfície, marcas de enormes explosões recentes no Giedi City. - As palavras emudeceram em sua garganta. - O núcleo central e o Omnius local foram destruídos! Parece que também foram aniquilados todos os robôs e cimeks.

- Estou controlando suas emissões de banda larga... Analisando um relatório.

O robô, com una calma enlouquecedora, informou acerca dos decodificadores portáteis, a poderosa feiticeira de Rossak que tinha utilizado seus poderes mentais para destruir os cimeks, e a força esmagadora da Armada da Liga.

- Vorian - disse a seguir Seurat, imperturbável, - uma frota de naves hrethgir se aproxima de nós pela face oculta do planeta. Parece que nos armaram uma emboscada.

Raios alaranjados e azuis passaram roçando a nave, e os sistemas automáticos do Dream Voyager adotaram manobras de evasão. Os kindjals da liga se precipitaram sobre eles como lobos.

- São uns bárbaros - disse Vor. - Ansiosos por destruir todo aquilo que os desagrada.

- Nos atacam – respondeu Seurat. - E o Dream Voyager não é uma nave programada para combater. - Continuava falando em um tom jovial falso, humorístico nesta ocasião. - Algum dia me ocorrerá uma piada sobre a quantidade de humanos necessários para provocar um curto-circuito em Omnius.

 

O terceiro Xavier Harkonnen, avisado de que se aproximava uma nave das máquinas pensantes, tinha transferido seu grupo de batalha orbital até a face mais afastada do planeta.

Ainda choviam restos dispersos das naves de guerra robô destruídas. As forças de Omnius tinham sido aniquiladas por completo.

Xavier pilotava um kindjal individual, acompanhado por um esquadrão armado até os dentes. Viu que a nave de atualização se dirigia para a capital arrasada, e que logo subia com desespero assim que o capitão robô detectou os escudos decodificadores.

- Sigam-me! Não podemos permitir que escapem!

Sedento de vingança, seu esquadrão lhe obedeceu. Ao mesmo tempo, comunicou às forças destacadas na superfície que tinham avistado uma nave inimiga. O Dream Voyager fazia o possível por escapar do fogo da Armada e fugir para o espaço.

De repente, Xavier ficou estupefato para ouvir uma voz humana (ou que parecia humana) pelo comunicador.

- Detenham seu ataque! Esta é uma nave da liga. Meu nome é Vorian Atreides. Abordamos e tomamos o controle de um aparelho robô. Parem de disparar!

 

Xavier tentou deduzir pelo tom se se tratava de uma voz humana ou de uma cópia mecânica. As máquinas pensantes não eram ardilosas... a menos que houvesse a bordo um cérebro conservado. Alguns kindjals se atrasaram, vacilantes.

- Não baixem a guarda - ordenou Xavier a seu esquadrão, - mas parem de disparar até que averigüemos...

Antes que pudesse acabar de falar, a nave suspeita começou a disparar suas armas, projéteis defensivos que pagaram de surpresa os homens da liga. Um kindjal se afastou a toda pressa, com os motores alcançados.

A tela do console de Xavier mostrou um rosto humano de cabelo escuro e olhos fanáticos. Um robô de cara refletiva estava a seu lado, e seu corpo flexível ondulava enquanto manipulava os controles.

Um robô e um humano, trabalhando lado a lado? Xavier não acreditava em seus olhos.

- Abram fogo! - gritou. - Destruam essa nave.

 

- Não é prudente provocá-los em excesso, Vorian - disse Seurat, com uma calma irritante. - Preferiria partir depressa.

- Ganhei alguns segundos preciosos, não é mesmo? Você não teria pensando em blefar.

Vor não pôde reprimir um sorriso. Tinha lido palavras parecidas nas memórias de Agamenon, e estava contente em repeti-las.

Quando o comandante da Armada adotou manobras de evasão e reuniu seus pilotos, lançou insultos a Vor pelo comunicador.

- Você é uma vergonha para a humanidade, traidor!

Vor riu, orgulhoso de sua posição. Citou o que lhe tinham ensinado durante toda sua vida.

- Sou o topo da humanidade, um homem de confiança de Omnius, o filho do general Agamenon.

- Lamento interromper seu ardoroso discurso, Vorian, mas detecto mais naves hrethgir - disse o robô. - Mais do que podemos esquivar. Por conseguinte, vou interromper a comunicação. Nossa principal responsabilidade é proteger a atualização. Temos que apresentar nosso relatório.

- Se já destruíram o Omnius de Giedi Prime - disse em tom sombrio Vor, - jamais conseguiremos uma atualização do armazenado durante os meses de conquista.

- Uma perda lamentável – respondeu Seurat.

O robô guiou o Dream Voyager para a órbita, longe dos escudos decodificadores. A aceleração esmagou Vorian contra seu assento acolchoado, até que esteve a ponto de perder a consciência. Um esquadrão de naves humanas os perseguia, e a nave estremeceu quando um jorro de energia alcançou a seção de popa.

Seurat efetuou uma manobra evasiva, e outra rajada de projéteis danificou a blindagem da nave, que não estava preparada para receber semelhante castigo. Vor ouviu que os sistemas uivavam, quando instalações automáticas efetuaram reparos provisórios das partes danificadas. Outro impacto, pior que os anteriores.

- Somente funcionam os motores de reserva - anunciou Seurat.

Vor examinou os sistemas de diagnóstico para analisar os danos. Uma fumaça acre havia invadido a cabine.

O Dream Voyager deu um inclinação brusca. Estavam rodeados de mais kindjals, que não paravam de disparar sobre eles. Uma explosão sacudiu Vor até os ossos.

- Não poderemos agüentar muito mais - disse Seurat. - Nossos motores funcionam a trinta por cento da potência normal, e vou com a maior rapidez possível.

- Dirija para essa nuvem - disse Vor, quando lhe ocorreu uma idéia de repente. - O vapor de água é bastante espesso para atuar de superfície de projeção.

Seurat obedeceu a seu entusiasta co-piloto. Os motores danificados se esforçaram ao máximo.

Os kindjals continuaram disparando.

Vor utilizou os sofisticados sistemas da nave para projetar cópias virtuais, imagens eletrônicas do Viajante onírico. Tinha esperado utilizar o estratagema em um jogo tático contra Seurat... mas este era um jogo muito diferente. Se não funcionasse, a nave não sobreviveria.

Momentos depois, cem Viajantes oníricos ilusórios pareceram surgir dentre as nuvens, imagens sólidas refletidas no vapor de água. O esquadrão, confuso, perseguiu os chamarizes.

Mas a presa autêntica se afastou, entrou em órbita, os pilotos concentrados em passar despercebidos até estar fora do alcance do fogo inimigo.

 

Inclusive o esperado pode provocar uma terrível surpresa quando aferramos a tênues esperança.

XAVIER HARKONNEN

 

Enquanto os sobreviventes de Giedi Prime contavam seus mortos, documentavam os danos e faziam planos para o futuro, Xavier sentia que suas esperanças se desvaneciam. Parecia que ninguém tinha visto Serena Butler desde que tinha partido da ilha do mar do norte.

Fez turnos duplos nos kindjals de reconhecimento, seguiu pautas regulares sobre os moderados povoados, onde as máquinas pensantes tinham causado a maior destruição. Xavier sabia que a jovem nunca se esconderia, mas sim dedicaria todo seu empenho aos trabalhos de reconstrução.

Enquanto voava neste direção, viu que o sol amarelo ficava a suas costas, tingindo o céu de tons dourados e alaranjados. Violentas rajadas de ar sacudiram sua nave, e lutou por controlá-lo. Xavier se elevou por cima das turbulências, e seu esquadrão o seguiu.

Algum dia, depois de que Serena e ele se casassem, contaria esta historia a seus filhos. Sentiu uma opressão no peito quando pensou nisso, porém continuou sua busca, sem atrever-se a pensar no que faria se algo lhe tivesse lhe acontecido.

Dessa altura, Xavier distinguia o contorno dos continentes e mares. Graças a um potente visor, distinguiu o centro de uma cidade e divisou grupos de luzes que indicavam um acampamento humano. Durante seu breve e brutal domínio, os conquistadores haviam aniquilado muitas pessoas, e milhões haviam fugido para o campo.

Os sobreviventes começavam a retornar a seus lares. Equipes de reconstrução tinham se transladado para os complexos industriais, onde eliminavam as modificações levadas a cabo pelas máquinas e voltavam a pôr em funcionamento as instalações necessárias para reconstruir moradias e distribuir mantimentos e fornecimentos. Em Giedi City, os peritos da Armada analisavam os restos da cidadela onde se entrincheirou Omnius. Só restavam fragmentos retorcidos de suporte físico e mecanismos eletrônicos.

Porém o processo de reconstrução exigiria muito tempo.

Xavier odiava às máquinas mais que tudo, mas também acreditava na honra entre homens. Não podia compreender o traidor Vorian Atreides, que viajava de bom grado junto a um capitão robô em uma nave espiã das máquinas pensantes. Tinham-lhe lavado o cérebro, disso não havia dúvida, mas o comportamento arrogante do jovem sugeria fortes convicções... uma paixão fanática, sincera. O Atreides tinha afirmado ser “filho” de Agamenon, o pior dos titãs.

Uma nave do esquadrão desceu por volta do mar.

- Terceiro Harkonnen, detectei restos metálicos na água.

- Vão verificar - disse Xavier, assaltado por um repentino temor.

Dois kindjals planaram em direção ao mar.

- A massa e configuração sugere que são os restos de uma nave militar da liga - transmitiu um piloto. - Possivelmente um couraçado.

- Perdemos alguma nave dessas características na batalha?

- Não, senhor.

- Recuperem os restos - ordenou Xavier, surpreso pela firmeza de sua voz. – Mandaremos analisá-los.

Não queria dizer, mas sabia que Serena e sua equipe tinham saído para o mar em uma nave desse tipo.

Pensou na imagem de Serena projetada do colar de diamantes negros que Octa tinha lhe dado. A lembrança era tão viva que a formosa mulher parecia estar diante dele, orgulhosa e decidida em sua amalucada idéia de ajudar os habitantes de Giedi Prime.

Quando a tripulação recolheu os restos, Xavier viu que o casco estava pintado de um cinza discreto, com uma cobertura de camuflagem, agora rota e desprendida.

Se sentiu aturdido.

- Precisamos nos assegurar.

 

Mais tarde, quando os restos foram entregues a um acampamento militar improvisado em Giedi City, Xavier Harkonnen ordenou que analisassem minuciosamente os vestígios achados no interior do aparato. Algumas peças pareciam ser de naves robóticas, porém isso não lhe importava. Sua mente e seu corpo estavam paralisados de terror. As conclusões eram inevitáveis.

No interior de um módulo salva-vidas semi-destroçado, descoberto não longe do couraçado, a equipe de busca tinha encontrado também os restos despedaçados de um ancião, identificado como Ort Wibsen. Todas as dúvidas se dissiparam. Esta havia sido a nave de Serena.

Encontraram mais sangre dentro da nave inundada. Era evidente que, ao final, haviam oposto uma resistência encarniçada. Xavier analisou o DNA, com a esperança de obter resultados diferentes dos que temia.

Mas os resultados demonstraram que as outras vítimas eram o mensageiro Pinquer Jibb... e Serena Butler. Serena. Meu amor...

Xavier tentou aferrar-se aos últimos vestígios de esperança. Talvez as máquinas tivessem se limitado a tornar Serena prisioneira. Mas era uma possibilidade estrambótica, irreal... E tendo em conta a brutalidade de robôs e cimeks, era desejável que isso não fosse realidade?

Não, teria que voltar para Salusa Secundus e comunicar a notícia a um abatido Manion Butler.

Não havia a menor dúvida. Serena estava morta.

 

Sejamos ricos, pobres, fortes, débeis, inteligentes ou estúpidos, as máquinas pensantes nos tratam como se fôssemos pedaços de carne. Não compreendem como são os humanos.

IBLIS GINJO, planos preliminares para a Jihad

 

Enquanto outros capatazes humanos fiscalizavam os projetos de monumentos para o Foro, Iblis Ginjo recebeu ordens de distribuir um carregamento de novos escravos. Os cativos vinham de Giedi Prime, e tinham sido conduzidos à Terra por ordem de Omnius. O chefe dos capatazes grunhiu para si, pois suspeitava que os cimeks quereriam construir outro enorme monumento para celebrar a vitória de Giedi Prime, e suas equipes teriam que se encarregar do trabalho...

Ao que parecia, Erasmo tinha interesse particular em uma fêmea, selecionada para ele pelo titã Barba Azul. Iblis tinha lido a documentação e sabia que o novo grupo de prisioneiros eram de índole rebelde, considerando o lugar onde tinham sido capturados.

Quando os desalinhados e desorientados escravos saíram do transporte com suas roupas sujas, Iblis os examinou com olho perito e pensou em que forma os distribuiria: alguns artesãos, alguns operários qualificados, a maioria simples escravos. Destinou um homem musculoso de pele negra ao projeto do pedestal de Ajax. Depois de lhe dedicar um sorriso, enviou outros a equipes necessitadas de mais mão de obra.

Um dos últimos prisioneiros em sair da nave foi uma mulher que, face aos hematomas que cobriam seu rosto e braços, e sua expressão estupefata, caminhava com orgulho, demonstrando uma energia interna em cada movimento. Era a fêmea de Erasmo. Problemas.

Por que o robô estaria interessado nela? Afinal, acabaria viviseccionando-a. Um desperdício. E uma pena.

Iblis a chamou, mas ela ignorou seu tom suave embora autoritário. Por fim, com certa colaboração dos guardas robô, a mulher se plantou em frente a ele. Embora fosse de estatura média, a fêmea tinha olhos de um muito belo tom lavanda, cabelo castanho claro e um rosto que seria formoso uma vez limpo da sujeira e da cólera.

Iblis lhe dirigiu um cálido sorriso, com a intenção de derrubar suas defesas.

- A documentação afirma que você se chama Serena Linné. Sabia muito bem quem era.

Iblis a olhou nos olhos e detectou um brilho desafiante. A mulher sustentou seu olhar, como se fosse sua igual.

- Sim. Meu pai era um funcionário de menor patente de Giedi Prime, moderadamente acomodado.

- Já trabalhou antes como faxineira? - perguntou o capataz.

- Sempre fui uma faxineira... de meu povo.

- A partir de agora, servirá a Omnius. - O homem suavizou a voz. - Prometo que não será muito duro. Aqui tratamos bem nossos trabalhadores. Sobre tudo aos inteligentes como você. Talvez possa aspirar a uma posição privilegiada, de confiança, se contar com a inteligência e personalidade necessárias. - Iblis sorriu. - Entretanto, não seria melhor que utilizássemos seu verdadeiro nome, Serena Butler?

A mulher o transpassou com o olhar. Ao menos, não negou.

- Como sabe?

- Depois de capturá-la, Barba Azul inspecionou os restos da sua nave. Haviam muitas pistas a bordo. Teve sorte de que os cimeks não precisassem interrogá-la a fundo. - Lançou um olhar a suas notas eletrônicas. - Sabemos que é a filha do vice-rei Manion Butler. Tentava ocultar sua identidade por temer que Omnius a utilizasse como chantagem? Asseguro-lhe que a supermente não pensa dessa forma. Omnius jamais consideraria semelhante possibilidade.

Serena elevou o queixo com ar desafiante.

- Meu pai jamais cederia nem um centímetro de território, face ao que me fizessem as máquinas.

- Sim, sim, é muito valente, disso estou seguro. - Iblis dedicou-lhe um sorriso irônico, com o propósito de consolá-la. - O resto depende do robô Erasmo. Solicitou que seja levada a sua vila. Está muito interessado em suas circunstâncias particulares. É um bom sinal.

- Deseja me ajudar?

- Eu não diria tanto - respondeu Iblis com certo tom humorístico. - Estou seguro de que Erasmo deseja falar contigo. Falar sem cessar. Ao final, estou seguro de que a deixará louca com sua famosa curiosidade.

Iblis ordenou a outros escravos que lavassem e vestissem devidamente esta fêmea, e seguiram as ordens do humano como se também fosse uma máquina. Embora seu comportamento projetasse hostilidade e ressentimento, Serena Butler não esbanjou esforços nem opôs resistência. Tinha cérebro, mas sua inteligência e espírito não demorariam para ser esmagados.

Não obstante, a revisão médica comportou uma surpresa. Olhou para Iblis com olhos coléricos, tentando conservar seu muro defensivo de ira, mas um brilho de curiosidade apareceu em seus olhos lavanda.

- Sabia que estava grávida? Ou se trata de um desafortunado acidente? - A julgar por sua reação, compreendeu que não fingia. - Sim, parece que de três meses. Deve ter suspeitado em algum momento.

- Isso não te interessa.

Falou com dureza, como se tentasse agarrar-se a algo estável. A notícia pareceu afetá-la mais que os maus tratos recebidos durante seu cativeiro.

- Até a última célula de seu corpo me interessa, ao menos até que entregue a seu novo amo. Depois, começarei a ter pena de você

Não havia dúvida de que o robô independente pensaria em experimentos interessantes para ela e o feto...

 

A psicologia do animal humano é maleável, pois sua personalidade depende da proximidade de outros membros de sua espécie e da pressão exercida sobre eles.

ERASMO, notas de laboratório

 

A vila de Erasmo consistia em um edifício alto construído sobre uma colina que dominava o mar. Na parte que dava para o interior, a seção principal se abatia sobre uma agradável praça ladrilhada. Para a costa, os recintos dos escravos, onde cativos humanos viviam amontoados como gado, empelotavam-se no lado contrário.

Dos balcões mais elevados, o robô considerava curiosa a dicotomia.

A capa facial de polímero metálico de Erasmo formou um sorriso paternal, enquanto via dois robôs sentinela que atravessavam um recinto atrás de duas meninas as gêmeas que necessitava para sua nova ronda de experimentos. Aterradas as humanas fugiram, mas Erasmo não franziu o cenho. Suas numerosas fibras ópticas analisaram as formas fracas e sujas.

Tinha visto as meninas alguns dias antes, e reparado em seu cabelo negro e curto e seus olhos castanhos, mas tinha a impressão de que se escondiam em algum lugar. Estavam brincando com ele? Os sentinelas entraram por uma porta a um túnel que conduzia a outro recinto.

- Localizamos os dois sujeitos - transmitiram por fim. Bom, pensou Erasmo, impaciente por iniciar o trabalho. Queria ver se podia obrigar uma das gêmeas a matar a outra.

Seria um experimento fundamental, revelador das fronteiras morais e de como as definiam as irmãs.

Gostava de muito trabalhar com gêmeos idênticos. Ao longo dos anos, tinha processado dúzias de gêmeos em seu laboratório, e reunido relatório médico detalhados, assim como estudos psicológicos intensivos. Dedicava grandes esforços a meticulosas autópsias comparadas, analisava as diferenças sutis entre irmãos que eram cópias genéticas. Os capatazes que trabalhavam nos abarrotados recintos tinham instruções de identificar e selecionar qualquer par novo entre a população cativa da Terra.

Por fim, teve às gêmeas a sua frente, sujeitas por robôs. Compôs um sorriso sereno. Uma de as meninas cuspiu na superfície refletiva. Erasmo se perguntou por que a saliva possuía conotações tão negativas para os humanos. Não causava danos e eram fáceis de limpar.

- As formas do desafio humano nunca paravam de assombrá-lo.

Pouco antes que Erasmo abandonasse sua propriedade de Corrin, vinte e dois escravos haviam tirado as capas protetoras oculares e fixado a vista no gigantesco sol vermelho até ficarem cegos. Desobedientes, rebeldes e estúpidos. Do que servia aquele ato desafiante, além de inutilizá-los para trabalhar como escravos?

Tinham imaginado que os matariam, e Erasmo não os decepcionou, mas tampouco desejava que se transformassem em mártires. Ele os tinha separado dos outros escravos, para que seu exemplo não se propagasse. Cegos, não poderiam encontrar nem ganhar comida. A estas alturas, supunha que já teriam morrido de fome em sua escuridão auto-infringida.

Mesmo assim, maravilhava-se de sua coragem, de sua vontade coletiva de desafiá-lo. Embora os humanos constituíssem uma raça molesta, não paravam de fasciná-lo.

Um olho espião zumbiu nas cercanias, emitindo ruídos estranhos. Por fim, Omnius falou por seu intermédio.

- A recente perda de Giedi Prime é sua culpa, Erasmo. Tolero seus incessantes experimentos na esperança de que desconstruas e analise o comportamento humano. Por que não predisse o ataque suicida que aniquilou meus cimeks? Os dados e experiências de minha contraparte de Giedi Prime nunca chegaram a serem carregados. Barba Azul também é insubstituível, pois ele criou minha programação original.

O Omnius da Terra já estava informado da retomada de Giedi Prime, graças a uma bóia de emergência automática lançada pelo robô Seurat, cuja nave de atualização havia topado inesperadamente com o desastre. A mensagem tinha chegado à Terra naquela manhã.

- Não me subministraram dados de que as feiticeiras de Rossak tinham desenvolvido esta capacidade de destruição telepática. - A cara do robô recuperou sua falta de expressividade habitual. - Por que não interroga Vorian Atreides quando retornar à Terra? O filho de Agamenon já nos ajudou em outras ocasiões a replicar um comportamento humano instável.

- Nem sequer suas contribuições teriam podido nos preparar para o que aconteceu em Giedi Prime. Os seres conscientes biológicos são imprevisíveis e temerários.

Quando as sentinelas levaram as gêmeas arrastadas, Erasmo dedicou sua atenção ao olho espião.

- Então, é evidente que tenho mais trabalho a fazer.

- Não, Erasmo, é evidente que suas investigações não dão os frutos desejados. Deveria se esforçar por alcançar a perfeição, em vez de investigar combinações de enganos. Recomendo que substitua seu núcleo mental por um subconjunto de meu programa. Converta-se em uma máquina perfeita. Uma cópia de mim.

- Você seria capaz de sacrificar nossos fascinantes e intermináveis debates? - respondeu Erasmo, esforçando-se por dissimular seu alarme. - Sempre expressou interesse em minha peculiar maneira de pensar. Todas as supermentes desejam acessar seu registro de meus atos.

O zumbido do olho espião se intensificou, o que indicava que Omnius estava pensando. A situação era preocupante. Erasmo não queria perder sua identidade independente, que tanto o havia custado conseguir.

Uma das gêmeas tentou libertar-se dos guardas, e correu em direção à duvidosa segurança dos recintos. Como Erasmo tinha sugerido por antecipado, o guarda elevou sua irmã por um braço, e deixou que se debatesse entre gritos. A outra vacilou, embora pudesse ter chegado com facilidade a seu refúgio provisório. Deteve-se pouco a pouco, derrotada.

Fascinante, pensou Erasmo. E o sentinela nem sequer se viu obrigado a infligir danos celulares a outra menina.

- Talvez se desviasse minha atenção para temas de importância militar - se apressou a continuar, - compreenderia melhor as possibilidades de meu trabalho. Deixe que analise por você a mentalidade destes humanos selvagens. O que impulsiona a auto-imolação, como vimos em Giedi Prime. Se for capaz de conseguir uma explicação, seus Planetas Sincronizados nunca mais serão vulneráveis a ataques imprevisíveis.

O olho espião flutuou no ar, enquanto milhões de possibilidades passavam pela fértil mente de Omnius. Pouco depois, o computador tomou uma decisão.

- Tem minha permissão para continuar. Mas não continue pondo a prova minha paciência.

 

As pessoas necessitam de continuidade

BOVKO MANRESA, primeiro vice-rei da Liga de Nobres

 

Em Poritrin, a virulenta febre fazia estragos nas terras baixas e moles onde os escravos se amontoavam. Face à quarentena e todos os esforços, a enfermidade havia matado certo número de funcionários e mercadores, e também se propagou aos escravos que trabalhavam nos laboratórios de Tio Holtzman, a que provocou problemas aos trabalhos do cientista.

Quando Holtzman reparou pela primeira vez nos sintomas da enfermidade que afetava seus calculadores de equações, ordenou imediatamente que transportassem os doentes para câmaras de isolamento e confinassem a outros. O distraído sábio pensou que os escravos se alegrariam de livrar-se de suas tarefas matemática. Em vez disso, os calculadores gemeram e rezaram, e se perguntaram por que Deus lhes castigava em lugar de seus opressores.

Ao cabo de duas semanas, a metade de seus escravos tinham morrido ou estavam em quarentena. A mudança produzida nas rotinas diárias não ajudava ao trabalho mental do sábio.

Estavam executando vários simulacros em grande escala, seguindo o desenvolvimento gradual de parâmetros estabelecidos pela brilhante Norma Cenva. Holtzman, irritado, sabia que interromper o trabalho requereria novas equipes que começassem do zero. Com o fim de conservar seu prestígio, necessitava de um êxito o quanto antes.

Nos últimos tempos, tinha sido o trabalho de Norma, mais que o seu próprio, que tinha sustentado sua reputação. É obvio, apropriou-se de todo o mérito de haver transformado os geradores decodificadores em armas ofensivas. Lorde Bludd havia apresentado com orgulho os dois protótipos à força de liberação da Armada com o destino a Giedi Prime. A verdade era que os projetores tinham prestado um grande serviço aos planos de resgate, mas os protótipos tinham consumido energia suficiente para deitar em terra dois transportes de tropas, e os engenhos se avariaram, de forma irreparável, depois de utilizá-los apenas uma vez. Além disso, o pulso decodificador tinha produzido resultados inesperados, porque muitos robôs tinham gozado da proteção de paredes, e não haviam sido afetados pelo campo destruidor. De qualquer modo, a idéia era promissora, e os nobres incentivaram Holtzman a melhorar o invento, ignorantes do papel desempenhado por Norma.

Ao menos, a reputação de Holtzman estava a salvo. Por enquanto.

Norma era tranqüila, mas diligente. Como estava muito pouco interessada em diversões e passatempos, trabalhava com esforço e analisava suas idéias. Face aos desejos de Holtzman, insistiu em efetuar os cálculos em pessoa, em lugar de encaminhá-los às equipes de calculadores. Norma era muito independente para entender a economia de delegar tarefas. Sua dedicação a convertia em uma pessoa aborrecida.

Depois de resgatar a jovem prodígio de sua escuridão no Rossak, Holtzman havia acreditado, talvez sem uma base sólida, em que Norma lhe traria inspiração quando menos esperasse. Durante uma festa recente celebrada nas torres cônicas de lorde Bludd, o nobre havia dito em brincadeira a Holtzman que concedesse umas férias a seu brilhantismo habitual.

Embora o comentário o ofendesse, o inventor tinha rido junto com outros nobres. Mesmo assim, abundava na idéia (ao menos em sua opinião) de que fazia tempo que não tinha criado nada original.

Depois de uma noite inquieta de sonhos extravagantes, Holtzman pensou em uma idéia que devia explorar. Se desenvolvesse algumas características eletromagnéticas que tinha utilizado para seus escudos decodificadores, possivelmente poderia criar um “gerador de ressonância modificado”. Sintonizado da maneira apropriada, um indutor de campo térmico se conectaria com metais, os corpos dos robôs, por exemplo, ou inclusive as formas de combate adotadas pelos cimeks.

Uma vez ajustado corretamente, o gerador de ressonância poderia fazer se chocar uns contra outros átomos metálicos selecionados, até gerar um calor enorme que destruiria as máquinas.

A idéia parecia promissora. Holtzman tinha a intenção de atacar seu desenvolvimento com entusiasmo e celeridade.

Mas antes necessitava de mais matemáticos e ajudantes que construiriam o protótipo. Antes, tinha que desperdiçar um dia na tarefa mundana de substituir os escravos que tinham morrido por causa da febre. Saiu dos laboratórios com um suspiro de frustração e seguiu o caminho sinuoso que conduzia à base dos escarpados, onde subiu a uma lancha a motor que cruzou o rio.

Na borda oposta, na parte mais larga do delta, visitou um buliçoso mercado. Havia balsas e barcaças apertadas desde fazia tanto tempo, que já pareciam parte da paisagem. O bairro dos mercados não estava muito longe do espaçoporto de Stardi onde numerosos vendedores ofereciam produtos de outros planetas: drogas de Rossak, madeiras e plantas interessantes de Ecaz, jóias de Hagal, instrumentos musicais de Chusuk.

Em lojas que flanqueavam uma estreita ruela, havia alfaiates que copiavam a última moda salusiana, cortavam e costuravam tecidos exóticos importados e linho de Poritrin. Holtzman havia utilizado muitos desses alfaiates para melhorar sua imagem. Um sábio eminente como ele não podia passar todo o tempo nos laboratórios Afinal, pediam-lhe com freqüência que aparecesse em público para responder a perguntas dos cidadãos, e falava freqüentemente ao comitê de nobres, para convencê-los de sua importância.

Mas hoje, Holtzman não estava interessado nessas lojas. Precisava comprar escravos, não roupa. O cientista viu um letreiro no mole em frente, escrito em galach: RECURSOS HUMANOS. Aproximou de um grupo de balsas onde se amontoavam cativos. Separados por grupos atrás de cercados, os ásperos prisioneiros foram vestidos com uniformes idênticos, embora não fossem de sua talha. Os escravos eram magros e angulosos, como se não estivessem acostumados a comer com regularidade. Estes homens e mulheres procediam de planetas que muito poucos cidadãos livres de Poritrin tinham ouvido falar, e muito menos haviam visitado.

Os traficantes pareciam altivos, como se não tivessem vontade de exibir a mercadoria ou regatear. Depois da recente praga, muitos lares e propriedades precisavam substituir seu pessoal, e os vendedores se aproveitavam.

Outros clientes se apertavam contra os cercas, esquadrinhavam os rostos abatidos, inspecionavam a mercancia. Um velho que segurava um maço de créditos chamou um vendedor e pediu examinar quatro mulheres adultas.

Holtzman não era muito exigente, nem tampouco queria perder tempo. Como necessitava de muitos escravos, sua intenção era adquirir todo um lote. Assim que chegasse a seu imóvel, escolheria os mais inteligentes para ocupar-se dos cálculos, o resto cozinharia, limparia ou cuidaria de sua casa.

Detestava estas tarefas mesquinhas, mas nunca as tinha delegado para outra pessoa. Sorriu, quando percebeu que tinha repreendido Norma por fazer o mesmo, por não querer utilizar matemáticos.

Holtzman, impaciente e ansioso, chamou o traficante mais próximo, agitou a frente de seus narizes a autorização de crédito de Niko Bludd e se abriu passo até a primeira fila.

- Quero um número elevado de escravos.

 

O mercador se aproximou, sorriu e fez uma reverência.

- É obvio, sábio Holtzman! Providenciarei o que desejar. Diga suas necessidades, e eu as satisfarei.

- Necessito de escravos que sejam inteligentes e independentes - replicou Holtzman, temeroso de que tentassem enganá-lo, - mas capazes de seguir instruções. Imagino que com setenta ou oitenta terei suficiente.

Alguns clientes que se empelotavam contra a cerca grunhiram, mas não se atreveram a desafiar ao célebre inventor.

- Um bom pedido - disse o vendedor, - sobretudo nestes tempos de crise. A praga provocou escassez, até entre os mercados de carne de Tlulaxa entreguem mais mercadoria.

- Todos conhecem a importância de meu trabalho - disse Holtzman, ao mesmo tempo em que tirava um cronômetro da ampla manga de seu manto. - Minhas necessidades gozam de prioridade sobre cidadãos ricos que desejam substituir a mulher da limpeza. Se assim o desejarem, obterei uma permissão especial de lorde Bludd.

- Sei que pode fazê-lo, sábio - disse o mercador. Gritou para outros clientes que se amontoavam contra o cerca. - Basta! Se não fosse por este homem, agora estaríamos varrendo o chão das máquinas pensantes! - O vendedor sorriu para Holtzman. - A questão é que os escravos lhes serão de mais utilidade. Acaba de chegar uma nova remessa de Harmonthep, todos zensunni. Dóceis, porém creio que mereçam uma bonificação.

Holtzman franziu o cenho. Preferia gastar sua riqueza em outras coisas, sobretudo considerando o grande investimento necessário para o novo gerador.

- Não tentem me extorquir, senhor.

O homem avermelhou, mas não retrocedeu em seu empenho, intuindo que o sábio tinha pressa.

- Talvez outro grupo lhe seria mais conveniente. Acaba de chegar um do Anbus IV. Indicou uma balsa em que escravos de cabelo negro olhavam com hostilidade para os clientes. São zenshiítas.

- Qual é a diferença? São mais baratos?

- Uma simples questão de filosofia religiosa. - O mercado esperou para ver se ele compreendia suas palavras, e ao ver que não, sorriu aliviado. -Além disso, quem pode compreender os budislâmicos São trabalhadores, e isso é o que conta, não é verdade? Posso-lhes ceder esses zenshiítas a um preço menor, apesar de que são muito inteligentes. Talvez mais educados que os de

Harmonthep. São saudáveis, também. Tenho certificados médicos. Nenhum deles esteve exposto ao vírus da praga.

Holtzman examinou o grupo. Todos tinham subido a manga esquerda, como se fosse uma espécie de distintivo. Na primeira fila, um homem musculoso de olhos ferozes e espessa barba olhou-o com indiferença, como se se considerasse superior a seus captores.

Depois de uma inspeção superficial, Holtzman não distinguiu nada especial nos cativos do Anbus IV. Necessitava com desespero de serventes, assim como técnicos de nível inferior para seus laboratórios. Cada dia era uma luta por encontrar trabalhadores capazes de calcular equações progressivamente mais complexas.

- Mas por que são mais baratos? - perguntou.

- Abundam mais. É uma questão de oferta e demanda. O vendedor sustentou seu olhar. Disse um preço. Muito impaciente para regatear, Holtzman assentiu.

- Levarei oitenta. - Elevou a voz. – Tanto faz de Anbus IV ou de Harmonthep. Agora estão em Poritrin, e trabalham para o sábio Tio Holtzman.

O mercador se voltou para o grupo de cativos e gritou:

- Ouviram? Deveriam estar orgulhosos.

Os cativos se limitaram a olhar para seu novo amo, sem dizer nada. Holtzman sentiu alívio. Devia significar que seriam mais amigáveis.

Entregou a quantidade de créditos solicitada.

- Faça com que sejam lavados e os enviem a minha residência.

O mercador sorridente agradeceu profusamente.

- Não se preocupes, sábio Holtzman. Ficará satisfeito com este lote.

Quando o grande homem se afastou do mercador, outros clientes começaram a gritar e agitar seus cartões de crédito, brigando pelos outros escravos. Ia ser um dia movimentado.

 

Durante o curso da história, a espécie mais forte sempre ganha.

TLALOC

A Era dos Titãs

 

Depois de refugiar-se nos desertos de Arrakis, os zensunni foram pouco mais que nômades, e não muito valentes. Inclusive em suas incursões mais afastadas para procurar objetos úteis, os nômades não se separavam das rochas, para evitar o deserto e os vermes.

Muito tempo atrás, depois de que o químico imperial Shakkad o Sábio houvesse descoberto as propriedades rejuvenescedoras da misteriosa especiaria melange, tinha surgido um pequeno mercado da substância natural entre os forasteiros que faziam escala no espaçoporto de Arrakis City. Entretanto, como o planeta se achava muito longe de pistas de aterrissagem mais conhecidas isso havia impedido que a melange se transformasse em uma mercadoria valiosa. “Uma raridade, não uma mercadoria”, havia dito Aniv Dhartha um desabrido mercador.

Mesmo assim, a especiaria constituía um elemento primitivo da alimentação, e devia ser compilada... mas somente em terrenos próximos às rochas.

Dhartha, à frente de um grupo de seis homens, atravessava uma cordilheira de areia que retinha os rastros de suas pegadas como fossem beijos no pó. Tinham a cabeça coberta com um tecido branco que só deixava descoberto seus olhos. A brisa agitava suas capas, e revelava cinturões com acessórios, ferramentas e armas. Dhartha subiu o tecido sobre o nariz para não respirar pó. Arranhou a tatuagem da bochecha, e depois entreabriu os olhos, sempre alerta ao perigo.

Ninguém pensou em jogar olhar para o céu transparente até que ouviram um leve silvo, que logo se transformou em um uivo. O naib Dhartha o comparou ao grito de uma mulher que acabara de descobrir a morte de seu marido.

Elevou a vista e viu uma bala chapeada que rasgava a atmosfera, em seguida reconheceu o zumbido de impulsores. Um objeto em forma de bolha apareceu no céu, girou sobre si mesmo e oscilou no ar, como se estivesse escolhendo um lugar onde aterrissar. Depois, a menos de um quilômetro do grupo, o objeto se chocou contra as dunas como um punho que golpeara o estômago de um mercador corrupto. Um jorro de areia e pó saiu disparado para o alto.

O naib ficou imóvel e observou, enquanto seus homens começavam a tagarelar entre si. O jovem Ebrahim estava tão entusiasmado como o filho de Dhartha, Mahmad. Ambos os meninos queriam ir correndo investigar.

Mahmad era um bom moço, respeitoso e prudente, mas Dhartha não tinha muito boa opinião de Ebrahim, que gostava de contar histórias e falar de façanhas imaginárias. Lembrou do incidente do roubo da água tribal, um delito imperdoável. À princípio, o naib pensou que havia dois jovens implicados, Ebrahim e Selim, mas Ebrahim tinha se apressado a negar toda responsabilidade e acusar o outro menino. Selim tinha parecido assombrado pela acusação, mas tampouco a tinha negado.

Para cúmulo, o pai de Ebrahim tinha fechado um substancioso trato com Dhartha para salvar seu filho, de maneira que o órfão tinha sido condenado à pena máxima. Tampouco foi uma grande perda para a tribo. Com freqüência, um naib se via obrigado a tomar decisões difíceis.

Enquanto os homens olhavam para Dhartha, com os olhos cintilando entre as dobras de tela, compreendeu que não podia desperdiçar a oportunidade de saquear a nave caída, fosse o que fosse.

- Temos de ir ver o que é isso - gritou.

Seus seguidores correram para a coluna de fumaça que assinalava o impacto, com Ebrahim e Mahmad à frente. Dhartha não tinha a menor vontade de se aventurar longe das rochas, porém o deserto o atraia para um tesouro desconhecido.

Os nômades coroaram uma duna, deslizaram pela sua face e subiram pela outra. Quando chegaram à cratera produzida pelo impacto, todos ofegavam. O naib e seus homens se detiveram na borda da fossa. Manchas vidradas de silício aquecido se pulverizaram sobre a areia como saliva.

No interior da fossa havia um objeto mecânico do tamanho de dois homens, com salientes e componentes que zumbiam e se moviam, acordados agora que o artefato havia aterrissado. O objeto ainda fumegava por causa do calor gerado ao entrar na atmosfera. Talvez uma espaçonave?

Um dos homens de Dhartha retrocedeu e fez um sinal advertência com os dedos. Entretanto, o ansioso Ebrahim se inclinou para frente. O naib apoiou uma mão sobre o braço esquerdo de Mahmad para evitar que cometesse imprudências. Que o outro se arriscasse.

O módulo era muito pequeno para transportar passageiros. As luzes piscaram, e os lados da sonda se abriram como asas de dragão para deixar a descoberto extremidades mecânicas garras articuladas e uma complexa maquinaria interna. Processadores, aparelhos de investigação e destruição. Conversores de energia refletivos se estenderam a luz do sol.

Ebrahim deslizou pela borda do poço.

- Imagine o que isso valerá no espaçoporto, naib! Se eu chegar primeiro, deveria receber uma parte maior.

Dhartha quis discutir com o jovem entusiasta, mas quando percebeu que ninguém, exceto seu filho, parecia ansioso por unir-se a Ebrahim assentiu.

- Se tiver êxito, receberá uma parte extra.

Embora o objeto se avariou por completo, os nômades utilizariam o metal para fins próprios.

O atrevido jovem parou na metade do caminho e olhou para o aparelho com suspeita, pois continuava vibrando e zumbindo Componentes flexíveis projetavam braços e pernas, enquanto lentes e espelhos estranhos giravam nos extremos de tentáculos flexíveis de fibra de carbono. Parecia que a sonda estava examinando o terreno circundante, como se não soubesse onde tinha aterrissado.

A máquina não prestava atenção aos humanos, até que Ebrahim agarrou uma pedra da parede da cratera.

- Ai! Ai! - gritou, e lançou a rocha. Chocou-se contra o material da sonda com um ruído metálico.

O aparelho se imobilizou, e depois suas lentes e exploradores giraram para o humano solitário. Ebrahim flexionou as pernas sobre a areia.

Um raio de luz incandescente brotou de uma lente. Uma língua de fogo envolveu Ebrahim e o projetou para trás, uma nuvem de carne e ossos carbonizados. Fragmentos de roupa, mãos e pés voaram para o alto da cratera.

Mahmad gritou, e Dhartha ordenou imediatamente a seus homens que retrocedessem. Fugiram para um terreno baixo entre as dunas. A meio quilômetro de distância, subiram a uma cúpula de areia bastante alta para observar sem perigo a cratera. Os homens rezaram e fizeram gestos supersticiosos, enquanto Dhartha levantava o punho direito. O temerário Ebrahim tinha chamado a atenção do objeto mecânico e pago com a vida por sua ousadia.

Os homens continuaram vigiando a fossa. A sonda não lhes dava atenção. Parecia que estava se remodelando, e construía estruturas a seu redor. Mãos mecânicas vertiam areia em uma abertura de seu bojo, e projetavam varinhas de vidro que utilizava para sustentar-se. A máquina acrescentou novos componentes, cada vez maiores, e por fim começou a sair do poço, com grande estrépito. Dhartha continuava perplexo. Ainda que fosse o líder de uma tribo, não sabia o que fazer. Não entendia o que ocorria. Talvez o contaria a alguém do espaçoporto, mas detestava relacionar-se com forasteiros. Além disso, o objeto podia ser valioso, e não queria entregar sua descoberta.

- Olhe, pai. - Mahmad apontou para o deserto. - Essa máquina endemoninhada pagará por ter matado meu amigo.

Dhartha viu a conhecida ondulação, o movimento do monstro sob a areia. A sonda continuava produzindo seus movimentos rítmicos, alheia a sua volta. O mecanismo elevou-se, um composto monstruoso de materiais cristalinos e escoras de silicato, reforçados por vigas de fibra de carbono auto-geradas.

O verme de areia se aproximou a toda velocidade, até que sua cabeça se elevou sobre a areia. A boca era maior que a circunferência da cratera.

A sonda robô agitou seus braços sensores e lentes, pressentindo que estava sofrendo um ataque, mas sem saber como. Vários raios de fogo brotaram do chão.

O verme tragou o demônio mecânico. Depois, o monstro do deserto se ocultou debaixo das dunas como uma serpente do mar em busca de águas profundas.

O naib Dhartha e seus homens ficaram petrificados sobre as dunas. Se corressem, as vibrações atrairiam o verme. Ao cabo de pouco tempo, viram que o verme se afastava. A cratera tinha desaparecido, sem que ficasse nem rastro da construção mecânica, nem tampouco do corpo de Ebrahim.

Dhartha meneou a cabeça e se voltou para seus companheiros.

- Isto se transformará em uma história lendária, uma balada que se entoará de noite em nossas cavernas... - Respirou fundo e deu meia volta. - Embora duvide que alguém acredite.

 

O futuro? Eu o odeio, porque não viverei para vê-lo.

JUNO, Vistas dos titãs

 

Depois do inesperado encontro com a Armada da Liga em Giedi Prime, o avariado Dream Voyager demorou um mês para voltar a Terra para ser reparado. Devido à lentidão provocada pelos danos, Seurat enviou imediatamente sua bóia de emergência, com intenção de transmitir a Omnius a notícia de queda do novo planeta sincronizado e a perda do titã Barba Azul. A estas alturas, a supermente já devia estar inteirada de ocorrido.

O capitão robô fez o possível para reparar ou derivar os sistemas danificados e isolar seções para proteger seu frágil co-piloto humano. O general Agamenon não gostaria que seu filho biológico sofresse o menor percalço. Além disso, Seurat tinha desenvolvido certo afeto por Vorian Atreides...

Vor insistiu em vestir um traje isolante e sair da nave para examinar o casco. Seurat o prendeu com dois cabos, enquanto três robôs de inspeção o acompanhavam. Quando o jovem viu a ferida enegrecida provocada pelos disparos dos humanos, sentiu-se envergonhado uma vez mais. Concentrado em entregar as atualizações vitais de Omnius, Seurat não havia lançado nenhuma agressão contra os hrethgir, porém estes o haviam atacado. Os humanos selvagens não tinham honra.

Agamenon e seu amigo Barba Azul tinham entregue a indisciplinada população de Giedi Prime ao domínio de Omnius, mas os hrethgir tinham desprezado a civilização superior dos Planetas Sincronizados, transformando na passagem Barba Azul em um mártir. Seu pai estaria muito afetado pela perda de um amigo tão íntimo, um dos últimos titãs sobreviventes.

O próprio Vor poderia ter morrido, sua branda e frágil forma humana destruída sem ter gozado da oportunidade de transformar-se em um neocimek. Um só disparo da Armada poderia ter acabado com todas as chances de Vor, com seu futuro trabalho. Não podia atualizar ou carregar lembranças e experiências, ao contrário das máquinas. Haveria desaparecido, assim como o Omnius de Giedi Prime. Assim como os outros doze filhos de Agamenon. A idéia o fez estremecer.

Durante sua viagem de volta, Seurat tentou animar Vor com piadas ridículas, como se não tivesse acontecido nada. O robô elogiou seu companheiro por sua rapidez de pensamento e as inovações táticas que tinham permitido enganar o comandante hrethgir. A mentira de Vor, fingindo ser um humano rebelde que tinha capturado uma nave das máquinas pensantes (que astúcia!), tinha concedido alguns segundos preciosos, e as projeções falsas tinham permitido que escapassem. Talvez a ensinariam nas escolas de humanos de confiança da Terra.

Não obstante, Vor estava preocupado pelo que diria seu pai. A aprovação do grande Agamenon era indispensável.

Quando o Dream Voyager aterrissou no espaçoporto central de Terra, Vorian baixou correndo a rampa, com os olhos acesos a expressão ofegante, mas logo ficou decepcionado ao não ver nem sinal do general cimek.

Vor engoliu em seco. A menos que lhe ocupassem assuntos importantes, seu pai sempre ia recebê-lo. Eram escassos os momentos que passavam juntos, quando podiam trocar idéias, falar de planos e sonhos.

Equipes de manutenção e máquinas de reparos se aproximaram para inspecionar a nave danificada. Uma das máquinas falou.

- Vorian Atreides, Agamenon ordena que o encontre na instalação de acondicionamento. Apresente-se ali imediatamente.

O jovem sorriu. Deixou que o robô voltasse para seu trabalho e se afastou a bom passo. Quando já não pôde conter-se mais, começou a correr.

Embora tentasse fazer exercícios durante os longos trajetos com Seurat, os músculos biológicos de Vor eram mais fracos que os de uma máquina, e não demorou para cansar-se. Outro aviso de sua mortalidade, de sua fragilidade, e da inferioridade da biologia natural. Isso somente aumentou seu desejo de receber algum dia um corpo de neocimek e descartar sua forma humana imperfeita.

Vor entrou na câmara de cromo e plaz onde poliam e recarregavam com eletrolíquidos o contêiner cerebral de seu pai. Assim que o jovem entrou na estadia fria e bem iluminada, dois guardas robô se situaram atrás dele para impedi-lo de sair. No centro da habitação se erguia a forma colossal utilizada por Agamenon neste momento. O gigante avançou dois passos, e o chão estremeceu sob seus pés. Tinha três vezes a estatura de Vor.

- Estava te esperando, meu filho. Tido está preparado. Por que se atrasou?

Vor, intimidado, ergueu a vista para o contêiner.

- Vim correndo, pai. Minha nave aterrissou a apenas uma hora.

- Tenho entendido que o Dream Voyager sofreu danos em Giedi Prime, atacado pelos rebeldes humanos que assassinaram Barba Azul e reconquistaram o planeta.

- Sim, senhor. - Vor sabia que não devia perder tempo com detalhes desnecessários. O general já teria recebido um relatório completo. - Responderei todas as perguntas que me faça, pai.

- Eu não faço perguntas, dou ordens.

Em vez de indicar a seu filho que começasse a limpar e tirar seus componentes, Agamenon levantou uma mão enluvada agarrou Vorian pelo peito e o empurrou contra uma mesa vertical.

Vor bateu contra a superfície e sentiu uma onda de dor. Seu pai era tão forte que podia quebrar ossos ou partir a coluna vertebral sem querer.

- Que aconteceu, pai? O que...?

Agamenon imobilizou suas mãos, a cintura e os tornozelos. Vor, indefeso, torceu a cabeça para ver o que seu pai fazia, e reparou nos complicados instrumentos que havia reunido na câmara. Observou, nervoso, cilindros ocos cheios de líquidos azulados, bombeadores neuromecânicos e máquinas ruidosas que agitavam sensores no ar.

- Por favor, pai. - Os piores temores de Vor cruzaram sua mente, aumentando suas dúvidas e terrores. - O que eu fiz?

Agamenon, sem mostrar a menor expressão em sua torre, estendeu uma série de agulhas para o corpo tremulo de seu filho. As pontas perfuraram seu peito, abriram caminho entre as costelas, encontraram por fim os pulmões e o coração. Duas agulhas chapeadas cravaram-se em sua garganta. Brotou sangue por toda parte. Os tendões do pescoço de Vor se incharam quando apertou a mandíbula e os lábios para reprimir um grito.

Mas o grito surgiu assim mesmo.

O cimek manipulou a maquinaria conectada com o corpo de Vor, e aumentou a dor até níveis inimagináveis. Convencido de que tinha falhado em algo, Vor chegou a conclusão de que tinha chegado o momento de sua morte, como seus doze irmãos desconhecidos que lhe tinham precedido. Pelo visto, não tinha estado à altura das expectativas de Agamenon.

A dor era insuportável. Seu grito se transformou em um uivo prolongado, enquanto líquidos de cor ácida eram bombeadas em seu corpo. Ao cabo de pouco, suas cordas vocais se renderam, e o grito só continuou em sua mente... Já não podia agüentar mais. Era incapaz de imaginar a tortura que seu corpo tinha padecido.

 

Quando tudo acabou e Vor voltou a si, não soube quanto tempo tinha permanecido inconsciente, talvez inclusive às portas da morte. Sentia o corpo como se o houvessem transformado em uma bola, para logo estirá-lo até adotar forma humana.

A figura gigantesca de Agamenon se abatia sobre ele. Uma galáxia de fibras ópticas brilhava em seu corpo. Embora os restos da dor ainda ressonavam em seu crânio, Vor se negou a gritar. Afinal, seu pai o tinha conservado com vida, pelo motivo que fosse.

Esquadrinhou o implacável rosto metálico do titã, e confiou em que seu pai não o houvesse revivido para infligir-lhe uma agonia ainda pior.

- O que eu fiz?

Entretanto, o cimek não desejava matá-lo.

- Estou muito satisfeito com seu comportamento a bordo do Viajante onírico, Vorian. Analisei o relatório de Seurat e cheguei à conclusão que sua proeza tática, empregada para escapar da Armada da Liga, foi inovadora e inesperada.

Vorian não entendia aonde seu pai queria chegar. Suas palavras não pareciam ter relação com as torturas que o general havia lhe infligido.

- Nenhuma máquina pensante teria considerado semelhante argúcia. Duvido que outro humano de confiança tivesse sido capaz de pensar com tal rapidez. De fato, o resumo de Omnius conclui que qualquer outra reação teria resultado na captura ou destruição do Viajante onírico. Seurat nunca teria sido capaz de sobreviver por seus próprios meios. Não só salvou a nave, e as atualizações de Omnius, e você as devolveu intactas. - Agamenon fez uma pausa. - Sim, estou muito satisfeito, meu filho. Algum dia, você será, um grande cimek.

A garganta do Vor tremeu quando tentou articular palavras. Tinham-lhe tirado as agulhas, e Agamenon o libertou agora das correias que lhe sujeitavam à superfície da mesa. Os músculos atormentados de Vorian não puderam sustentá-lo, e desabou como um saco, até cair de joelhos no chão. Então perguntou com voz estrangulada.

- Por que me torturou? Por que me castigou?

Agamenon imitou uma gargalhada.

- Quando quiser te castigar, meu filho, você saberá. Foi uma recompensa. Omnius concedeu-me permissão para te fazer este singular presente. De fato, nenhum humano em todos os Planetas Sincronizados já recebeu tal honra.

 

- Mas o que está dizendo, pai? Por favor, me explique. Minha mente ainda está confusa.

Sua voz era vacilante.

- O que são uns breves momentos de dor, comparados com o dom que recebeu? - O colosso passeou de um lado a outro, e as paredes estremeceram. - Por desgraça, não consegui convencer Omnius a transformá-lo em neocimek (é muito jovem), mas estou seguro de que o momento chegará. Eu queria que servisse a meu lado, não como simples humano de confiança, mas sim como meu sucessor. - Suas fibras ópticas brilharam com maior intensidade. - Em vez disso, fiz o que pude por você.

O general cimek explicou que tinha submetido Vorian a um intenso tratamento biotécnico, um sistema de substituição celular que prolongaria radicalmente sua vida humana.

- Especialistas geriátricos desenvolveram a técnica no Império Antigo... embora ignoro com que propósito. Esses idiotas não fizeram nada produtivo durante seu lapso de vida normal, de modo que para que queriam viver durante séculos e obter ainda menos coisas? Mediante proteínas novas, eliminação de radicais livres e mecanismos de regeneração celular mais eficazes, prolongaram suas vidas inúteis. Quase todos eles acabaram mortos durante as rebeliões que consolidaram o controle dos titãs.

Agamenon girou na articulação de seu torso.

Quando ainda tínhamos corpo humano, no início de nosso domínio, os Vinte Titãs nos submetemos a prolongação de vida biotécnica, assim como você, de maneira que conheço muito bem a dor que suportou. Precisávamos viver séculos, porque nos era imprescindível esse tempo para impor uma liderança competente ao Império Antigo. Inclusive depois de nos transformar em cimeks, o procedimento contribuiu para impedir que nossos cérebros biológicos degenerassem, devido a sua avançada idade.

Seu corpo mecânico se aproximou.

- Este processo de alargar a vida é nosso pequeno segredo, Vorian. A Liga de Nobres enlouqueceria se soubesse que possuímos tal tecnologia. - Agamenon emitiu uma espécie de suspiro. - Mas tome cuidado, meu filho: nem sequer esta técnica pode te proteger de acidentes ou de tentativas de assassinato. Como acaba de descobrir Barba Azul, por desgraça.

Vor conseguiu ficar em pé por fim. Localizou um dispensador de água, bebeu uma jarra do frio líquido e notou que seu coração se acalmava.

- Acontecimentos assombrosos o aguardam, meu filho. Sua vida já não é uma vela exposta ao vento. Tem tempo para experimentar muitas coisas, coisas importantes.

O colossal cimek aproximou um arnês e utilizou uma complicada rede de mãos artificiais e braçadeiras que partiam da parede metálica para conectar os mentrodos de seu contêiner cerebral. Braços flexíveis extraíram o cilindro do núcleo corporal e o depositaram sobre um pedestal de cromo.

- Agora, está um pouco mais perto de alcançar seus objetivos, Vorian - disse Agamenon por um alto-falante, arrancado do corpo móvel.

Embora fraco e dolorido, Vorian sabia o que seu pai esperava dele agora. Correu aos aparelhos de acondicionamento e conectou com mãos tremulas os cabos elétricos as tomadas magnéticas do contêiner cerebral. O eletrolíquido azulado parecia cheio de energia mental.

Com a intenção de recuperar certa sensação de normalidade, face à incredulidade produzida pelo que acabava de lhe acontecer, Vor se dedicou a cuidar dos sistemas mecânicos de seu pai. O jovem contemplou com ternura a massa enrugada de cérebro, a memória anciã tão cheia de idéias profundas e decisões difíceis, como expressavam as detalhadas memórias do general. Cada vez que as lia, Vor esperava compreender melhor seu complicado pai.

Perguntou-se se Agamenon o havia mantido ignorante para lhe pregar uma brincadeira cruel, ou para colocar a prova sua força de caráter. Vor sempre aceitaria o que ordenasse o general, nunca tentaria fugir. Agora que a agonia tinha terminado, imaginou que havia superado a prova a que seu pai o tinha submetido.

Enquanto Vor continuava sua tarefa, o general Agamenon falou em um sussurro.

- Você está muito calado, meu filho. O que acha do grande dom que recebeu?

O jovem parou por um momento, sem saber o que responder. Agamenon estava acostumado a ser impulsivo, difícil de compreender, mas muito poucas vezes atuava sem ter um propósito definido em mente. Vor só queria compreender a idéia global.

- Obrigado, pai - disse por fim, - por me conceder mais tempo para obter tudo quanto deseja que eu faça.

 

Por que os humanos dedicam tanto tempo preocupando-se com o que chamam “questões morais”? É um dos muitos mistérios de seu comportamento.

ERASMO, Reflexões sobre os seres biológicos sensíveis

 

As gêmeas idênticas pareciam adormecidas e tranqüilas, estendidas uma ao lado da outra, como anjos em um leito fofo. Apenas se viam os sinuosos exploratórios cerebrais conectados em buracos feitos em seus crânios.

Imobilizadas mediante droga, as meninas inconscientes jaziam sobre uma mesa de laboratório da zona experimental. O rosto gentil como um espelho de Erasmo adotou um cenho exageradamente franzido, como se a severidade de sua expressão pudesse obrigá-las a revelar seus segredos sobre a humanidade.

- Malditos sejam!

Não podia compreender aqueles seres inteligentes que tinham criado Omnius e uma assombrosa civilização de máquinas pensantes. Tratava-se de um golpe de sorte milagroso?

Quanto mais aprendia Erasmo, mais pergunta se acumulavam. O êxito inegável de sua caótica civilização lhe expunha um verdadeiro enigma. Havia diseccionado os cérebros de mais de mil espécimes, jovens e velhos, machos e fêmeas, inteligentes e diminuídos. Havia realizado análise detalhadas e comparações, processado dados através da capacidade ilimitada de Omnius.

Ainda assim, as respostas não eram claras.

Não havia dois cérebros humanos exatamente iguais, nem sequer quando os sujeitos tinham sido criados em circunstâncias similares, nem que fossem gêmeos. Uma massa confusa de variáveis desnecessárias! Nenhum aspecto de sua fisiologia era comum a todas as pessoas.

Exceções irritantes, por toda parte!

Não obstante, Erasmo observava regras. Os humanos estavam infestados de diferenças e surpresas, mas como espécie, seu comportamento se atinha a algumas regras generais. Sob certas condições, sobretudo amontoados em espaços confinados, as pessoas reagiam com mentalidade tribal, seguiam cegamente à massa, renunciavam a sua individualidade.

Às vezes, os humanos eram valentes. Outras, eram covardes. Intrigava em especial a Erasmo ver o que acontecia quando levava a cabo “experimentos de pânico” nos recintos, matando alguns e poupando a vida de outros. Em tais circunstâncias de extrema tensão, surgiam sempre líderes, gente que se comportava com uma energia interior superior à de outros. Erasmo gostava de matar estes indivíduos, para logo observar o efeito devastador que causava no resto.

Talvez o grupo de amostra de sujeitos experimentais utilizado ao longo dos séculos fosse muito pequeno. Possivelmente necessitaria viviseccionar e diseccionar dezenas de milhares mais, antes de chegar a uma conclusão significativa. Uma tarefa monumental, mas por ser uma máquina, Erasmo não tinha limitações de energia ou paciência.

Tocou a bochecha da menina maior com uma de suas sondas pessoais, e tomou seu pulso estável. Tinha a impressão que cada gota de sangue lhe ocultava segredos, como se toda a raça humana estivesse conspirando contra ele. Seria considerado Erasmo o maior idiota de todos os tempos? A sonda fibrosa se recolheu ao interior de seu corpo, mas não sem que antes arranhasse intencionalmente a pele da menina.

Quando o robô independente tinha tirado estas gêmeas idênticas dos recintos, sua mãe o tinha amaldiçoado e chamado de monstro. Os humanos podiam chegar a ser tão curtos de idéias, sem compreender a importância do que estava fazendo.

Com um escalpelo de laser auto-cauterizador, efetuou um corte no cerebelo da menina menor (que media 1,09 centímetros menos e pesava setecentos gramas menos), e viu que a atividade cerebral de sua irmã se desatava: uma reação de simpatia. Fascinante.

Mas as meninas não estavam conectadas fisicamente entre si, nem tampouco mediante uma máquina. Sentia cada uma a dor da outra?

Repreendeu-se por sua falta de previsão e planejamento. Teria que ter posto à mãe na mesma mesa.

Omnius, que falou de um alto-falante mural, interrompeu seus pensamentos.

- Sua nova prisioneira chegou, o último presente do titã Barba Azul. Está à espera na sala de estar.

Erasmo levantou suas mãos ensangüentadas. Tinha esperado com impaciência a chegada da mulher capturada em Giedi Prime, ao que parecia era a filha do vice-rei da liga. Seus vínculos familiares sugeriam uma superioridade genética, e ansiava por lhe formular muitas perguntas acerca do governo dos humanos selvagens.

- Também vai viviseccioná-la?

- Prefiro manter as opções abertas.

Erasmo olhou para as gêmeas, uma já morta por causa da incisão. Uma oportunidade desperdiçada.

- Analisar escravos dóceis trás resultados irrelevantes, Erasmo. Toda idéia de rebelar-se foi extirpada deles. Por conseguinte, qualquer informação que infira é de utilidade militar questionável.

Erasmo molhou suas mãos de plástico orgânico em um solvente, para eliminar o sangue seco. Tinha acesso a milhares de anos de estudos compilados de psicologia humana, mas inclusive com tantos dados não era possível obter uma resposta clara. Muitos auto-proclamados “peritos” ofereciam respostas muito díspares.

A gêmea sobrevivente continuava expressando sua dor e medo.

- Não concordo, Omnius. O ser humano é rebelde por natureza. É uma característica inerente de sua espécie. Os escravos nunca nos serão leais por completo, por mais gerações que tenham passado. De confiança, operários, é a mesma coisa.

- Você superestima sua força de vontade. - A supermente parecia muito confiante. - E ponho a prova suas deduções errôneas.

Picado pela curiosidade, seguro de si mesmo, Erasmo se plantou ante a tela.

- Com tempo suficiente e a incitação adequada, poderia voltar contra nós qualquer trabalhador leal, inclusive o humano de confiança mais privilegiado.

Omnius rebateu com uma litania de dados extraídos de seus bancos. A supermente estava segura de que seus escravos continuariam sendo dóceis, embora talvez tivesse sido muito complacente, inclusive indulgente. Queria que o universo funcionasse com eficácia, e não gostava das surpresas nem das reações imprevisíveis os humanos da liga.

Omnius e Erasmo discutiram com crescente aquecimento, até que o robô independente pôs fim ao debate.

- Nós dois estamos fazendo conjeturas apoiadas em idéias preconcebidas. Portanto, proponho um experimento para determinar a resposta correta. Você escolhe aleatoriamente um grupo de indivíduos que pareçam leais, e eu demonstrarei que posso voltá-los contra as máquinas pensantes.

- O que obterá com isso?

- Demonstrar que é impossível confiar até nos humanos mais confiáveis. É um defeito fundamental de sua programação biológica. Não lhe pareceria uma informação útil?

- Sim, e se sua asserção é correta, Erasmo, nunca mais poderei confiar em meus escravos. Tal resultado exigiria o extermínio de toda raça humana.

Erasmo se sentiu inquieto. Talvez tivesse sido apanhado em própria lógica.

- Pode ser que... essa não seja a única conclusão razoável.

Desejava saber a resposta a uma pergunta retórica, mas também a temia. Como era um robô curioso, isto era muito mais que uma simples aposta com seu superior. Significava uma investigação das motivações mais profundas e os processos de decisões dos seres humanos.

Mas as conseqüências de descobrir as respostas podiam ser terríveis. Necessitava ganhar a discussão, mas de tal forma que Omnius não cancelasse seus experimentos.

- Deixe que reflita na mecânica do experimento – sugeriu Erasmo, e depois saiu muito contente do laboratório para ir conhecer sua nova prisioneira, Serena Butler.

 

O universo é um pátio de recreio onde tudo se improvisa.

Nenhuma pauta externa o controla.

PENSADOR RETICULUS,

Observações da perspectiva de um milênio

 

Cifras e idéias dançavam em seus sonhos, mas cada vez que Norma Cenva tentava manipulá-las, escapavam como flocos de neve que se derretessem em seus dedos. Entrou com passo vacilante em seu laboratório, e contemplou as equações durante horas, até que se transformaram em linhas flutuantes ante seus olhos. Apagou parte do cálculo com um gesto irado sobre o tabuleiro magnético, e depois voltou a começar.

Agora que trabalhava sob o amparo do legendário Holtzman, Norma já não se considerava um fracasso, uma decepção para sua mãe. Graças a seus poderes telepáticos, uma feiticeira tinha conseguido atirar um golpe mortal às máquinas pensantes de Giedi Prime, mas os decodificadores portáteis de Norma também tinham contribuído para a vitória, apesar de o sábio Holtzman não ter destacado seu importante papel na criação da idéia.

Norma não se importava com a fama ou o prestígio. O mais importante sua era contribuição ao esforço bélico. Oxalá pudesse extrair algum significado destas teorias vagas, embora imensamente promissoras...

Norma fantasiava enquanto contemplava o rio Isana dos laboratórios. Às vezes, sentia falta de Aurelius Venport, que sempre a tratava com doçura e afeto. Entretanto, quase sempre dava voltas em sua cabeça a idéias descabeladas, quanto mais estrambóticas melhor. Em Rossak, sua mãe nunca a tinha animado a levar em conta as possibilidades irreais, mas Tio Holtzman não as desdenhava.

Embora os computadores conscientes estivessem proibidos nos planetas da liga, sobretudo no bucólico Poritrin, Norma dedicava grande parte de seu tempo a compreender o funcionamento dos complicados circuitos gelificados. Com o fim de destruí-lo, primeiro tinha que compreender o objetivo.

Holtzman e ela jantavam de vez em quando juntos, comentavam idéias enquanto bebiam vinhos importados e saboreavam pratos exóticos. Norma, que logo que provava a comida, falava com paixão, movia suas pequenas mãos, sentindo falta de um punção e uma tabuleta para poder esboçar suas idéias. Terminava os ágapes depressa com o desejo de retornar quanto antes a seus aposentos, enquanto o grande inventor desfrutava de uma esplêndida sobremesa e escutava música. “Recarregar idéias”, chamava-o.

Holtzman gostava de falar de seus êxitos e hospedagens anteriores, ler as distinções e prêmios que lorde Bludd lhe havia concedido. Por desgraça, nenhuma dessas conversas havia conduzido a nenhuma descoberta importante, na opinião de Norma.

Estava de pé rodeada de luzes brilhantes. Contemplava uma pedra de cristal suspensa do tamanho de um corredor. Estava coberta por um fino filme translúcido que conservava todos seus traços quando anotava pensamentos e idéias. Um artefato tresnoitado, mas para Norma era o melhor método de documentar suas idéias erráticas.

Examinou a equação que tinha escrito, saltou alguns passos e deu saltos intuitivos, até chegar a uma anomalia quântica que ao que parecia, permitia que um objeto estivesse em dois lugares ao mesmo tempo. Um era uma simples imagem do outro, mas nenhum cálculo podia determinar qual era real.

Embora não estivesse segura de que este conceito heterodoxo pudesse ser utilizado como arma, Norma recordou que seu mentor a tinha animado a seguir cada atalho até sua conclusão lógica. Armada com equações e disposta a efetuar um simulacro completo, correu pelos corredores bem iluminados até chegar a sala dos calculadores sobreviventes.

Os técnicos estavam inclinados sobre suas mesas e utilizavam instrumentos de cálculo, inclusive a esta hora tardia. Havia muitos assentos livres, pois um terço dos calculadores tinham sucumbido por causa da febre mortífera. Holtzman tinha comprado um novo grupo de trabalhadores zenshiítas procedentes dos “Recursos Humanos” de Poritrin, mas ainda não estavam bastante preparados para cálculos complicados.

Depois de entregar o novo problema ao capataz da equipe, Norma explicou com paciência suas intenções, e esclareceu que já tinha feito alguns adiantamentos. Apontou os calculadores na direção que desejava, e sublinhou a importância de sua teoria, até que elevou os olhos e viu Tio Holtzman na porta.

O homem conduziu Norma até o pátio com o cenho franzido.

- Perde seu tempo ao tentar fazer amizade com eles. Lembre-se que os escravos calculadores são simples maquinaria orgânica, processadores que proporcionam resultados. Não custa nada substituí-los, assim não lhes dê personalidades nem temperamentos. A única coisa que nos interessa são as soluções. Uma equação carece de personalidade.

Norma preferiu evitar discussões, mas voltou para seus aposentos para continuar sós seus esforços. Opinava que as ordens mais esotéricas da matemática tinham personalidade, que certos teoremas e integrais exigiam uma delicadeza e consideração que a aritmética vulgar nunca necessitava.

Passeou até situar-se atrás da pedra de cristal, para examinar o reverso de suas equações. Os símbolos pareciam absurdos, porém se obrigou a contemplar a questão de uma perspectiva diferente. Os calculadores tinham finalizado o conjunto anterior de tediosos cálculos, e enquanto analisava seu trabalho, o resultado continuava deixando-a perplexa.

Como sabia no fundo qual era a resposta, desprezou o resultado dos escravos e se colocou diante do cristal. Apagou os símbolos e escreveu outros, e logo andou entre a parte anterior e posterior da tabela tentando descobrir uma maneira de sair de seu apuro.

Tio Holtzman arrancou Norma de seu universo teórico. Olhou surpreso.

- Você estava em transe.

- Estava pensando. - Retificou ela.

Holtzman sorriu.

- Do outro lado do cristal?

- Procurava novas possibilidades.

O homem se esfregou o queixo.

- Nunca tinha visto ninguém tão concentrado como você.

Norma encontrou em sua mente a solução que tinha desenvolvido, mas não soube verbalizá-la.

- Sei qual deveria ser o resultado, mas sou incapaz de reproduzi-lo. Os calculadores contribuem com respostas diferentes das que eu espero.

- Cometeram um engano? - perguntou o sábio com ar irritado.

- Se erraram, eu não localizei o erro. Seu trabalho parece correto. Entretanto, pressinto que está errado.

O cientista franziu o cenho.

- A matemática não existe para satisfazer desejos, Norma. Terá que seguir todos os passos e ater-se às leis do universo.

- Você se refere às leis conhecidas do universo, sábio. Eu só desejo ampliar nosso pensamento, alargá-lo e recolocá-lo sobre si mesmo. Estou segura de que há maneiras de resolver o problema. Rodeios intuitivos.

A expressão do sábio parecia paternalista, perplexa, mas incrédula.

- As teorias matemáticas com as quais trabalhamos são esotéricas e difíceis de compreender, mas sempre seguem regras fixas.

Norma se virou, frustrada pelas dúvidas de Holtzman.

- Para começar, a obediência cega às regras permitiu a criação das máquinas pensantes. Seguirmos às regras pode nos impedir de derrotar nossos inimigos. Você mesmo disse sábio. Temos que procurar alternativas.

O homem, ao encontrar-se com um tema que lhe interessava, enlaçou as mãos, e as largas mangas escorregaram sobre suas mãos.

- Com efeito, Norma! Terminei meu desenho do gerador de ressonância, e o protótipo não demorará a ser produzido.

Muito preocupada para mostrar-se diplomática com ele, a moça negou com a cabeça.

- Seu gerador não funcionará. Estudei a fundo seus primeiros desenhos. Acredito que sofrem de uma falha fundamental.

Holtzman olhou-a como se o tivesse esbofeteado.

- Perdão? Repassei todo o trabalho. Os calculadores verificaram cada passo.

A jovem encolheu os ombros, distraída com sua lousa.

- Não obstante, sábio, acho que sua idéia não é viável. Os cálculos corretos nem sempre são corretos, se estiverem apoiados em princípios imperfeitos ou hipóteses incorretas.

Franziu o cenho quando reparou por fim na expressão irritada do homem.

- Por está zangado? Disseram-me que o propósito da ciência é provar idéias e desprezá-las se não funcionam.

- Precisa demonstrar suas objeções - disse o sábio em tom encrespado. – Mostre-me, por favor, nos desenhos onde cometi um engano.

- Não se trata tanto de um engano... - Meneou a cabeça. - É uma intuição.

- Eu não confio em intuição - replicou Holtzman.

Decepcionada por sua atitude, a moça respirou fundo. Zufa Cenva nunca tinha sido partidária da diplomacia, e Norma tampouco. Tinha crescido isolada em Rossak, e quase todos seus conhecidos a tinham deixado de lado, exceto Aurelius Venport.

Parecia que Holtzman não cumpria o que pregava, mas afinal era um cientista, e Norma acreditava que um propósito importante os tinha reunido. Seu dever consistia em denunciar os enganos que acreditava detectar. Ele teria feito o mesmo com ela.

- Ainda acredito que não deveriam dedicar mais esforços nem tempo ao gerador de ressonância.

- Como os recursos são meus e posso administrá-los como quiser - replicou Holtzman, - continuarei fazendo isso, com a esperança de demonstrar que você está enganada.

Saiu da sala feito um touro.

Norma o chamou, com a intenção de aplacar seu ânimo.

- Espero que esteja certo, sábio, acredite.

 

Existe uma certa má vontade na formação dos ordens sociais, uma luta profunda, com despotismo em um extremo e escravidão no outro.

TLALOC, As debilidades do Império

 

O delta fluvial de Poritrin não se parecia em nada com os tranqüilos riachos e pântanos de Harmonthep. Mais que nada, o menino escravo Ishmael desejava voltar para casa... mas ignorava quão longe estava. Pelas noites, despertava freqüentemente gritando no recinto, torturado por pesadelos. Poucos escravos se incomodavam em consolá-lo, já tinham muito com que se preocupar.

Tinham queimado sua aldeia, capturado ou assassinado quase todos os seus habitantes. O menino recordava que seu avô enfrentou os invasores, chamado sutras budislâmicos para convencê-los da baixeza de suas ações. Em resposta, os malvados caçadores tinham ridicularizado o ancião Weyop, como se fosse um ser insignificante e ineficaz. Poderiam ter matado o ancião.

Muito tempo depois de que os caçadores tivessem deixado Ishmael inconsciente, tinha despertado no interior de um ataúde de plaz e pranchas transparentes, uma câmara de êxtase que lhe tinha mantido imóvel, mas vivo. Nenhum escravo teria podido causar problemas durante a viagem da nave da Tlulaxa até chegar a seu estranho destino. Haviam despertado todos os cativos pouco antes de descarregá-los... e os venderam como escravos no mercado de Starda.

Alguns prisioneiros de Harmonthep tinham tentado escapar, sem saber para onde podiam fugir. Os caçadores deixaram sem conhecimento alguns para que parassem de choramingar e revolver-se. Ishmael teve vontades de resistir, mas intuiu que seria melhor observar e aprender, até que descobrisse uma forma mais eficaz de rebelar-se. Antes de tudo, precisava compreender Poritrin. Depois, chegaria a alguma conclusão. Era o que seu sábio avô o teria aconselhado.

Weyop tinha chamado sutras que falavam de uma maldade exterior iminente, de invasores desalmados que acabariam com sua forma de vida. Devido a estas profecias, os zensunni haviam renunciado à companhia de outros homens. No decadente Império Antigo, as pessoas tinham se esquecido de Deus, e sofrido quando as máquinas pensantes tomaram o poder. O povo de Ishmael acreditava que era sua a não ser, o grande Kralizec, a praga que acabaria com o universo, tal como tinha sido predito desde milênios antes. Os seguidores do credo budislâmico haviam escapado, pois sabiam o resultado da batalha desesperada.

Entretanto, a batalha não tinha terminado segundo a profecia. Parte da raça humana tinha sobrevivido aos demônios mecânicos, e agora essa gente se revoltara contra os “covardes” refugiados budislâmicos com ânimo de vingança.

Ishmael não acreditava que as antigas escrituras estivessem equivocadas. Tantos sutras, tantas profecias. Seu avô parecia muito seguro quando falava das lendas... mas seu pacífico povo de Harmonthep tinha sido invadido, e seus membros mais fortes e sãos tomados como escravos. Agora, Ishmael e seus vizinhos se achavam em um planeta estranho, com seu corpo em pedaços.

Como Ishmael era o cativo mais jovem, os mercadores esperavam pouco dele. Ordenaram a seu grupo de trabalho que vigiasse o moço, que comprovasse o cumprimento de suas tarefas, ou em caso de falhar, que recolhessem os despojos.

Apesar de seus músculos doloridos e a pele em carne viva, Ismael trabalhava igual aos demais. Via seus desesperados companheiros perder o tempo com queixas, uma atitude que encolerizava os proprietários e conduzia a castigos desnecessários. Ishmael calava os protestos.

Passou semanas metido até os joelhos em restingas lamacentas onde cordas e estacas limitavam os bancos de moluscos. Recolhia punhados dos diminutos moluscos e corria a transportá-los aos campos úmidos. Se apertava com muita força, destroçava as delicadas conchas, e tal descuido tinha lhe proporcionado um açoite com um látego sônico quando o capataz viu o que tinha feito. O açoite tinha levantado bolhas em sua pele, sem deixar marcas, mas sim uma cicatriz indelével em seu cérebro. Ishmael sabia que faria todo o possível por evitar o castigo novamente.

Decidiu não conceder outra vitória fácil a seus amos. Apesar de se tratar de um assunto insignificante, tentaria controlá-lo ao máximo.

Enquanto contemplava seus companheiros de fadigas, Ishmael quase se alegrou de que seus pais tivessem morrido em uma tormenta, alcançados por um raio no lago poluído quando navegavam em um barco. Ao menos, agora não podiam vê-lo, nem tampouco seu avô...

Depois do primeiro mês em Poritrin, as mãos e pés de Ishmael estavam tão impregnadas de barro negro que nem sequer a higiene constante podia erradicar as manchas. Tinha as unhas rotas e incrustadas de barro.

Em Harmonthep, Ishmael tinha se dedicado a recolher ovos de ninhos de qaraa, pescar insetos tartaruga e arrancar tubérculos osthmir que cresciam nas águas salobras dos brejos. Tinha trabalhado desde muito pequeno, mas não gostava de trabalhar neste planeta, porque não era pela glória do Budalá, nem pela saúde e bem-estar de seu povo, e sim para benefício de outros.

As mulheres cozinhavam no recinto, utilizando os ingredientes e especiarias desconhecidos que lhes cediam. Ishmael tinha saudades o sabor do pescado cozinhado sobre folhas de lírio, e dos canos doces, cujo suco podia embebedar de agradar a um menino.

De noite, a metade das moradias estavam vazias, porque muitos escravos tinham morrido por causa da febre. Quase sempre, Ishmael se arrastava para seu leito e caia dormido. Outras vezes, obrigava-se a permanecer acordado e escutar as histórias que contavam em círculos.

Os homens falavam entre si, discutiam sobre a melhor maneira de escolher um líder para seu grupo. Para alguns, a idéia era absurda. Não havia escapatória, e um líder só poderia impulsioná-los a correr riscos que os conduzissem à morte. Ishmael se sentia triste quando recordava que seu avô tinha esperado nomear algum dia seu sucessor. Os mercadores de carne de Tlulaxa haviam mudado tudo. Incapaz de chegar a uma decisão, os zensunni seguiam falando sem parar.

Ishmael queria mergulhar no esquecimento do sonho.

Gostava mais que os homens contassem contos, ou recitassem as poéticas “Canções do longo êxodo”, que louvavam os zensunni originais, o relato de como seu povo tinha procurado um lar onde estivessem a salvo das máquinas pensantes e dos planetas da liga.

Ishmael não tinha visto jamais um robô, e se perguntava se eram monstros imaginários utilizados para assustar meninos desobedientes. Mas sim tinha visto homens malvados, os invasores que tinham assolado sua aldeia, maltratado seu avô e tomado tantos cativos inocentes.

Sentado na beira da fogueira, Ishmael escutava os relatos de seu povo. Os zensunni estavam acostumados às tribulações, e teriam que suportar gerações de escravismo neste planeta tão afastado de seu lar. Entretanto, seu povo agüentaria o que fosse.

De todas as histórias que escutou, as alianças e as profecias, aferrou-se a uma acima das demais: a promessa de que a desdita terminaria algum dia.

 

Não existe uma clara divisão entre deuses e homens: uns se confundem com outros.

IBLIS GINJO,Opções para a libertação total

 

O pedestal desenhado para sustentar a estátua do titã Ajax estava terminado. O capataz Iblis Ginjo examinou em sua caderneta eletrônica a marcha das obras e o material necessário para sua conclusão. Tinha aberto os olhos de seus escravos ao perigo real, no caso de que o brutal cimek perdesse a paciência. Trabalhavam com esforço, não só por medo de perder a vida, mas sim porque Iblis os tinha inspirado.

Depois, um desastre ocorreu em outra parte do projeto.

Enquanto Iblis fiscalizava a estabilização do robusto pedestal do andaime de observação, viu que a parte superior da estátua quase terminada de Ajax começava a mover-se. O colosso de ferro, polímero e pedra cambaleou de um lado para outro, como se a gravidade estivesse agitando a enorme obra de arte.

De repente, o gigantesco monumento caiu com grande estrépito, acompanhado de gritos e chiados. Quando uma nuvem de pó se elevou para o céu, Iblis compreendeu que os escravos apanhados sob a estátua podiam considerar-se afortunados.

Assim que Ajax soubesse da catástrofe, começaria a verdadeira matança.

Inclusive antes que o pó e os escombros se assentassem, Iblis correu a intervir na furiosa discussão entre neocimeks e capatazes. Ele não era responsável pela parte do monumento que tinha vindo abaixo, mas suas equipes sofreriam as conseqüências dos inevitáveis atrasos. Mesmo assim, Iblis confiava em que sua mediação carismática contribuíra para diminuir o desastre.

Encolerizados os neocimeks consideravam o acidente uma afronta pessoal a seus reverenciados titãs predecessores. Ajax em pessoa tinha esquartejado um capataz membro a membro, e partes ensangüentadas de seu corpo jaziam dispersas no pó.

Iblis Ginjo conseguiu sossegar as queixa dos neocimeks com palavras apaixonadas.

 

- Esperem, esperem! Se me deixarem, tudo se arrumará!

Ajax se erguia em toda sua estatura, mais ameaçador que qualquer outro titã, mas Iblis continuou com prosa aveludada.

- É certo, a enorme estatua padeceu alguns danos, mas tão só arranhões superficiais. Lorde Ajax, este monumento foi pensado para suportar o passar dos séculos. É muito capaz de agüentar alguns golpes sem importância. Seu grande legado é imune a acidentes de pequeno tamanho.

Fez uma pausa, enquanto os cimeks admitiam a verdade de seu veredicto. Depois, assinalou sua zona de trabalho e prosseguiu seu discurso.

- Escutem, minhas equipes quase terminaram o robusto pedestal desenhado para sustentar a estátua. Por que não a erigimos de qualquer modo, para demonstrar ao universo que somos capazes de superar impedimentos sem importância? Meus operários se encarregarão de levar a cabo os reparos necessários no local. Os olhos do Iblis brilharam com entusiasmo artificial. - Não existem motivos para mais atrasos.

Enquanto andava de um lado a outro em seu corpo blindado, Ajax esmagou um capataz que não parava de choramingar sua inocência. Depois, o irado titã se voltou para Iblis, e suas fibras ópticas brilharam como estrelas incandescentes.

- Você aceitou a responsabilidade de que o trabalho continue conforme o cronograma estabelecido. Se sua equipe falhar, a culpa recairá sobre você.

- Por suposto, lorde Ajax.

Iblis não delatou o menor alarma. Podia convencer os escravos de que arcassem com a responsabilidade. Fariam por ele.

- Então, limpem este desastre! - trovejou Ajax, com uma vez que se ouviu até no Foro.

Mais tarde, Iblis fez promessas a seus esgotados e explorados escravos. Fazia tempo que se mostravam descontentes e rebeldes, mas os pôs no bolso com a oferta dos incalculáveis benefícios que receberiam: as melhores pulseiras sexuais, orgias sem conta, dias de descanso na campina.

- Eu não sou como outros humanos de confiança. Alguma vez lhes decepcionei? Prometi recompensas que não entreguei?

Com tais incentivos, para não falar de uma potente dose de medo do titã Ajax, os trabalhadores recomeçaram o trabalho com renovadas energias. No frio da noite, iluminados por holofotes que flutuavam sobre a obra como supernovas, Iblis conseguiu que sua equipe trabalhasse com eficácia. De sua plataforma de madeira, viu que os escravos elevavam a imensa estátua sobre seu pedestal reforçado e a fixavam em seu lugar.

Equipes de artesãos escalaram a superfície curva de ferro pedra, e montaram andaimes improvisados para começar as obras de restauração. O rosto legendário do Ajax tinha o nariz desfigurado e um braço amassado, assim como profundos cortes no uniforme. No fundo de seu coração, Iblis suspeitava que o Ajax humano real tinha sido um indivíduo feio e disforme.

Durante toda a longa noite, Iblis lutou por permanecer acordado, apoiado contra o corrimão. Adormeceu, e logo despertou sobressaltado quando ouviu o zumbido do elevador de carga que subia.

Mas levou uma surpresa ainda maior ao ver que não havia ninguém. Apenas uma pequena folha de metal enrolado, um cilindro de mensagem. Iblis olhou-o com o coração acelerado, mas o elevador de carga não se moveu, como se esperasse. Olhou pela borda, mas não viu quem tinha deixado a mensagem.

Como Iblis ia desdenhá-lo? Apoderou-se do cilindro. Rompeu o selo, desenrolou a folha leu com crescente estupor.

“Representamos um movimento organizado de humanos insatisfeitos. Estamos esperando o momento e o líder adequados para iniciar uma revolta contra os opressores. Você precisa decidir se deseja se unir a nossa causa. Voltaremos a entrar em contato contigo.”

Enquanto Iblis contemplava com incredulidade a mensagem anônima, as letras se apagaram, se transformaram em gotas de óxido corrosivo que devoraram o metal até destruí-lo totalmente.

Era autêntico, ou uma armadilha dos cimeks? Quase todos os humanos odiavam seus amos mecânicos, mas se esforçavam muito para dissimulá-lo. E se existisse um grupo semelhante? Nesse caso, necessitariam de líderes com talento.

A idéia o exaltou. Iblis nunca tinha pensado nessa possibilidade, e ignorava o que havia dito ou feito para revelar seus pensamentos e sentimentos mais ocultos. Por que suspeitavam? Sempre tinha sido respeitoso com seus superiores, sempre tinha sido...

E se tivesse sido demasiado obsequioso? Talvez tivesse exagerado na hora de aparentar lealdade.

Um abaixo de onde se achava, os artesãos continuavam trabalhando nas reparações da estátua de Ajax, como térmites que devorassem um tronco. A aurora iluminou a estátua, e Iblis compreendeu que logo terminariam. As máquinas recompensariam seu esforço.

Como as detestava!

Iblis se debateu com sua consciência. As máquinas pensantes lhe tinham tratado bem, se comparado com outros escravos, mas tão somente uma fina capa de amparo lhe salvava da mesma sorte. Em privado, Iblis refletia freqüentemente no valor da liberdade, e no que faria se lhe concedessem uma oportunidade.

Um grupo rebelde? Logo que podia acreditá-lo. À medida que transcorriam os dias, Iblis se descobriu pensando cada vez mais na possibilidade... e à espera de que voltassem a entrar em contato com ele.

 

Nosso apetite abrange tudo.

PENSADOR EKLO, além da razão humana

 

Com tanto ódio escondido em sua mente, Agamenon tomava precauções especiais quando Omnius estava em condições de espiá-lo. Isto significava quase sempre, e em quase todos os lugares, inclusive quando Agamenon e Juno praticavam sexo com paixão. Ao menos, o que passava por sexo entre os titãs.

Para consumar sua entrevista, corpos móveis transportavam aos dois cimeks até uma câmara de manutenção situada no pavilhão de controle da Terra. Estavam rodeados de tubos cheios de líquidos nutritivos, que serpenteavam até depósitos de armazenamento pendurados do teto. Servidores robô se transladavam desde geradores de manutenção vital até bancos de análise, obtinham dados dos mentrodos, vigiavam que todos os sistemas se mantivessem dentro dos parâmetros normais.

Agamenon e Juno conversavam em uma banda de onda curta privada, giravam seus respectivos sensores e enviavam descargas aos mútuos mentrodos mediante o eletrolíquido.

Uma espécie de estimulação erótica prévia ao ato sexual. Até sem corpo físico, as mentes cimek podiam experimentar um intenso prazer.

Elevadores automáticos desengancharam o contêiner cerebral do corpo móvel de Agamenon, e depois depositaram o núcleo pensante sobre um pedestal de cromo, ao lado do contêiner que albergava o cérebro de Juno. Graças às fibras ópticas e as normas comparativas eletrônicas, reconheceu as dobras e lóbulos da mente de sua amante.

Ainda formosa depois de tantos séculos.

Agamenon recordou sua antiga beleza física: corpo cor obsidiana com reflexos azulados, nariz afilado, rosto estreito, sobrancelhas que se arqueavam de uma maneira misteriosa. Sempre recordava de Cleopatra, outro gênio militar perdido na bruma da história, como o primeiro Agamenon da guerra da Tróia.

Muito tempo antes, durante o brilho de tempo em que tinha usado um frágil corpo humano, Agamenon tinha se apaixonado por esta mulher. Embora Juno fosse muito desejável do ponto de vista sexual, tinha-lhe atraído sua mente antes de conhecê-la em pessoa. Primeiro, tinha reparado nela em uma complexa rede virtual, jogando simulacros táticos e jogos de guerra que tinha praticado com o com os dóceis computadores do Império Antigo. Naquela época os dois eram adolescentes, quando a idade importava.

Agamenon tinha crescido na mimada Terra, com o nome do Andrew Skouros. Seus pais tinham abraçado um estilo de vida hedonista mas desapaixonado, como tantos outros cidadãos. Existiam, vegetavam, mas nenhum vivia realmente. Depois de transcorrido tanto tempo, ainda recordava o rosto de seus pais. Agora, todos os humanos lhe pareciam muito iguais.

Andrew Skouros sempre tinha sido inquieto. Formulava perguntas incômodas que ninguém sabia contestar. Enquanto outros se absorviam em jogos de salão frívolos, o jovem investigava base de dados, onde descobriu histórias e lendas. Encontrou proezas heróicas de gente que tinha existido em um passado tão remoto, que pareciam míticos como a raça dos titãs, os primitivos deuses destronados por Zeus e um panteão de deidades gregas. Analisou as conquistas militares e chegou a compreender as táticas, em um momento em que se tratava de uma habilidade obsoleta para o pacífico Império.

Sob o aliás de Agamenon, interessou-se em jogos de estratégia praticados na rede informática que controlava as atividades da humanidade escravizada pelo tédio. Nela tinha encontrado uma pessoa tão perita e dotada como ele, uma alma gêmea compartilhava seus interesses. As idéias inovadoras e inesperadas do misterioso jogador provocaram que êxitos e fracassos se equilibrassem nas campanhas do jovem, mas seus surpreendentes êxitos mais que compensavam seus espetaculares fracassos. Seu intrigante aliás Juno, tirado da rainha dos deuses romanos, esposa de Júpiter.

Atraídos mutuamente por sua ambição compartilhada, sua relação foi tempestuosa e desafiante, muito mais que sexo. Procuravam prazer desenvolvendo experimentos mentais. A princípio, foi um jogo, mas logo se tornou um pouco mais ambicioso.

Suas vidas deram um giro radical quando ouviram falar com o Tlaloc.

O visionário de outro planeta, com suas duras acusações contra a humanidade complacente da Terra, revelou aos dois intrigantes que seus planos podiam transformar-se em algo mais que aventuras e fantasias.

Juno, cujo nome autêntico era Julianna Parhi, havia reunido os três. Andrew Skouros e ela se encontraram com Tlaloc, o qual se entusiasmou ao descobrir que compartilhavam seus sonhos. “Talvez sejamos poucos - havia dito Tlaloc, - mas nos bosques da Terra cheios de lenha seca, três fósforos bastam para provocar um incêndio.”

O trio rebelde se reunia em segredo para derrubar o Império adormecido. Graças à experiência militar de Andrew, perceberam que um modesto investimento em maquinaria eletrônica e mão de obra bastariam para conquistar muitos planetas caídos em um estupor apático. Com um pouco de sorte e uma tática aceitável, compartilhando a mesma mentalidade poderiam cerrar uma mão de ferro ao redor do Império Antigo. De fato, se os planos fossem colocados em prática da forma correta, os conquistadores obteriam a vitória antes que alguém se desse conta.

- É pelo bem da humanidade - disse Tlaloc com olhos cintilantes.

- E pelo nosso - acrescentou Juno. - Um pouco, ao menos.

Juno imaginou o plano inovador de utilizar a rede de máquinas pensantes e seus robôs servis. Concedeu inteligência artificial aos dóceis computadores para que fiscalizassem todos os aspectos da sociedade humana, mas Julianna os considerava uma invasão já em marcha, desde que fossem capazes programá-los para lhes insuflar ambição humana. Foi então quando somaram a suas forças um especialista em informática chamado Vilhelm Jayther (autodenominado Barba Azul nas redes informáticas), com o fim de que se ocupasse dos detalhes técnicos.

Assim começou a Era dos Titãs, durante a qual um punhado de humanos entusiastas controlou o povo adormecido. Tinham trabalho que fazer, um império a governar.

Durante as fases de planejamento, Julianna Parhi pediu opinião com freqüência a um reticente pensador, Eklo. Durante estas consultas com o ancião, uma das numerosas mentes espirituais que respondiam a perguntas esotéricas, tinha compreendido as possibilidades de viver como um cérebro imaterial. Não só visando a introspecção, mas sim a ação. Percebeu as vantagens que um tirano cimek teria sobre os humanos, capaz de mudar de corpo quando as circunstâncias o aconselhassem.. Como cimeks, os titãs viveriam e governariam durante milhares de anos.

Talvez fosse suficiente.

Agamenon tinha apoiado imediatamente a idéia de Juno, embora alimentasse um temor primitivo para a cirurgia. Juno e ele sabiam que, quando os titãs experimentassem os perigos do universo e a fragilidade de seus corpos humanos, todos acessariam.

Para demonstrar a fé que depositava em sua amante, Agamenon foi o primeiro em submeter-se a transformação em cimek. Juno e ele passaram uma última tórrida noite juntos, com o fim de armazenar lembranças de sensações nervosas que deveriam perdurar durante milênios.

Juno jogou para trás seu cabelo negro como asa dá corvo, deu-lhe um último beijo de despedida e o conduziu até a sala de cirurgia. Aparelhos médicos eletrônicos, cirurgiões robô e dúzias de sistemas de manutenção vital o esperavam.

O pensador Eklo tinha dado os conselhos necessários, instruções precisas para os cirurgiões robô. Juno tinha acompanhado o processo de transformação de seu amante.

Agamenon temia que ela se arrependesse e desistisse de seus planos, mas assim que o cérebro de Agamenon flutuou em um eletrolíquido dinâmico, assim que ativaram os mentrodos e pôde “ver” de novo através de uma galáxia de fibras ópticas, descobriu Juno em frente a ele admirando o contenedor cerebral.

Ela tocou a caixa transparente com seus dedos. Agamenon via tudo, ao mesmo tempo em que enfocava e adaptava seus novos sensores, entusiasmado pela possibilidade de observar tudo ao mesmo tempo.

Uma semana depois, quando estava acostumado a seus novos sistemas mecânicos, Agamenon devolveu-lhe o favor, e não perdeu Juno de vista enquanto os cirurgiões robô abriam o crânio e extraiam seu brilhante cérebro, desprezando para sempre o corpo frágil da Julianna Parhi...

Séculos mais tarde, mas sem corpos biológicos, Juno e ele continuavam juntos sobre pedestais de cromo, conectados mediante receptores e ajuste estimuladores.

Agamenon sabia muito bem que partes do cérebro de Juno devia pulsar para ativar os centros de prazer, e o tempo de estimulação necessário. Ela respondeu do mesmo modo, reproduziu as lembranças armazenadas que Agamenon guardava de quando faziam amor como humanos, e logo amplificou as sensações recuperadas, até lhe assombrar com novos topos de euforia. O titã replicou com una descarrega inesperada, e o cérebro de Juno se estremeceu.

Durante todo o tempo, os olhos espiões de Omnius observaram o intercâmbio, como um olheiro mecânico. Inclusive em momentos como este, Agamenon e Juno nunca estavam sozinhos.

Ela o agradou duas vezes mais. Agamenon queria que parasse para poder descansar, mas também desejava que continuasse. Agamenon correspondeu, até o extremo de arrancar uma leve vibração dos alto-falantes presos aos contêineres, uma estranha música que simbolizava seu orgasmo conjunto. O prazer apenas lhe permitia pensar.

 

Mas sua ira continuava alimentando-se. Embora Omnius permitisse que Juno e ele alcançassem o êxtase tantas vezes como desejassem, Agamenon obteria um prazer muito maior se pudessem escapar por fim do domínio das malditas máquinas pensantes.

 

Temo que Norma nunca chegará a nada. O que revela isso de mim e de meu legado à humanidade?

ZUFA CENVA

 

Durante a aborrecida viagem de um mês pelo espaço para visitar sua filha em Poritrin, Zufa Cenva teve muito tempo para refletir sobre o que diria quando chegasse. Teria preferido passar esses dias e semanas ocupada em seu importante trabalho. A perda da querida Heoma pesava como uma pedra incandescente sobre seu peito. Do primeiro ataque contra os cimeks de Giedi Prime, Zufa tinha planejado mais incursões com suas feiticeiras.

Embora quase todos os membros da liga atribuíssem todo o mérito dos projetores de decodificação portáteis ao sábio Holtzman, tinha ouvido rumores de que Norma havia inspirado o desenho. Era possível que sua excêntrica filha tivesse feito algo tão notável? Não tão notável como uma tormenta psíquica que aniquilasse os cimeks, mas mesmo assim respeitável.

Talvez eu tenha estado cega durante todo este tempo. Zufa nunca tinha desejado que Norma fracassasse, mas já tinha renunciado a toda esperança. Talvez sua relação mudaria. Devo abraçá-la? Merece meu apoio e fôlego, ou obterá que me dela envergonhe?

Corriam tempos inseguros.

Quando Zufa desceu do transporte em Starda, uma delegação a estava esperando, escoltada por um guarda de dragões. Lorde Niko Bludd se achava à frente do grupo, com a barba frisada, roupa perfumada e vistosa.

- É uma honra para Poritrin receber a visita de uma feiticeira.

O nobre avançou sobre o solo coberto por um mosaico. Budd vestia um colorido traje cerimonial com lapelas largas cor carmim, punhos brancos de encaixe e sapatos dourados. Uma espada cerimonial pendurava de sua cintura, embora não parecia que tivesse utilizado jamais um arma branca para algo pouco mais perigoso que cortar queijo.

Norma nunca tinha prestado atenção às ninharias quando havia trabalho de por meio, e a aparição de Bludd a surpreendeu. Tinha esperado concluir seu assunto com Norma de maneira discreta, para depois retornar quanto antes a Rossak. Ela e suas armas psíquicas tinham que preparar outro golpe mental contra os cimeks.

- O capitão da nave nos avisou de sua chegada, madame Cenva - disse Bludd, enquanto a guiava para a saída do terminal. - Apenas tivemos tempo de lhes preparar uma recepção. Imagino que veio para ver sua filha. Lorde - Bludd sorriu. - Estamos muito orgulhosos de sua contribuição aos trabalhos do sábio Holtzman. Ele a considera indispensável.

- É mesmo?

- Zufa tentou controlar um franzimento de sobrancelhas céptico.

- Convidamos Norma a que se reunisse conosco, mas está imersa em um trabalho muito importante para o sábio. Pelo visto, pensava que compreenderia seus motivos.

Foi como se houvessem acertado uma bofetada na feiticeera.

- A viagem durou um mês. Se eu posso encontrar esse tempo, uma simples... ajudante de laboratório deveria ser capaz de vir me receber.

Uma vez fora do espaçoporto, um chofer a conduziu até um elegante iate aéreo, e os dragões tomaram posições nas laterais.

- Nós a transladaremos sem mais demora aos laboratórios de Holtzman.

Quando Bludd se sentou a seu lado, a mulher enrugou o nariz ao receber seus intensos aromas corporais. O homem lhe ofereceu um pequeno pacote, mas Zufa não o aceitou.

Com um suspiro de exasperação, Zufa se sentou muito rígida no assento quando a nave se afastou do espaçoporto. Tirou o papel prateado que envolvia o pacote e encontrou uma garrafa de água de rio, assim como uma toalha de deliciosa confecção.

Apesar da sua falta de interesse, o fátuo nobre insistiu em dar explicações.

- É uma tradição que nossos convidados de honra lavem as mãos com a água do rio Isana e se sequem com nosso melhor tecido.

Zufa não fez o menor movimento por utilizar os presentes. Sob o iate, os navios fluviais sulcavam o rio em direção a enorme cidade do delta, onde se distribuíam grãos, metais e produtos manufaturados aos fornecedores de Poritrin. Centenas de escravos trabalhavam nos pântanos para plantar alevinos de marisco.

- A residência do sábio Holtzman está ali adiante. - Bludd assinalou um penhasco elevado. - Estou seguro que sua filha se alegrará muito em vê-la.

Alguma terá se alegrado em ver-me? - Perguntou-se Zufa. Tentou acalmar-se com exercícios mentais, porém a angustia o impedia.

Desceu do ostentoso iate assim que pousou sobre a mole de aterrissagem de Holtzman.

- Lorde Bludd, tenho que falar de assuntos pessoais com minha filha. Estou seguro de que compreenderão.

Sem mais despedidas, Zufa subiu a escada do pátio que conduzia à mansão, deixando plantado um perplexo Bludd. Agitou seus largos braços para indicar que se afastasse.

Zufa entrou na mansão como se ela lhe pertencesse, com seus sentidos telepáticos afinados. O vestíbulo de Holtzman estava lotado de caixas, livros e instrumentos. Ou os criados não faziam seu trabalho, ou o inventor os tinha proibido que “organizassem” demais.

Zufa abriu caminho entre os obstáculos, entrou em um comprido corredor, investigou em habitações, pediu informação às pessoas com as quais se cruzou e localizou por fim sua filha. A feiticeira entrou em um laboratório auxiliar, onde viu um tamborete alto ante uma mesa cheia de cianotipos. Nem sinal de Norma.

Reparou em uma porta aberta que conduzia a um balcão, viu uma sombra e ouviu algo que se movia. Zufa entrou no balcão e ficou estupefata quando viu sua filha subindo no corrimão. Norma segurava um contêiner de plaz vermelho em suas pequenas mãos.

- O que está fazendo? - perguntou Zufa. - Desça daí!

Norma, sobressaltada, olhou para sua mãe, agarrou o objeto com força e saltou ao vazio.

- Não! - gritou Zufa. Mas já era muito tarde.

Correu para a borda e viu com horror que o balcão dominava um precipício que caia até o rio. A jovem se precipitava irreparavelmente para sua morte.

De repente, Norma parou no ar e girou de uma forma peculiar.

- Funciona, veja! - gritou. – Você chegou a tempo. - Como uma pluma no vento, a moça se elevou. O aparelho vermelho a devolveu ao balcão como uma mão invisível.

Norma chegou à altura do corrimão, e sua irritada mãe puxou-a para dentro.

- Por que faz experimentos tão perigosos? O sábio Holtzman não prefere que utilize ajudantes para este tipo de testes?

Norma franziu o cenho.

- Aqui há escravos, não ajudantes. Além disso, é meu invento, e queria prová-lo eu mesma. Sabia que funcionaria.

Zufa não quis discutir.

- Você veio até Poritrin e utilizou os melhores laboratórios da liga para desenhar uma espécie de... jogo voador?

- Não acredito, mãe. - Norma abriu a tampa do engenho e ajustou os comandos eletrônicos do interior. - É uma variação da teoria do sábio Holtzman, um campo suspensor, ou repelente. Espero que goste.

- É claro que sim, é claro que sim! - O cientista apareceu como por arte de magia e se imobilizou atrás de Zufa. Apresentou-se imediatamente, e depois contemplou o novo invento de Norma. – Vou mostrá-lo a lorde Bludd, e ver o que pensa de suas possibilidades comerciais. Estou certo de que o patenteará em seu nome.

Zufa, que ainda não se recuperara da “queda” de sua filha, continuava examinando o objeto, enquanto tentava imaginar quais seriam suas aplicações práticas.

- Poderia ser modificado para carregar tropas ou objetos pesados?

Norma deixou o gerador sobre una mesa e cruzou a habitação com passo capengante. Subiu em seu tamborete para ficar à altura dos cianotipos e começou a passar páginas.

- Também pensei na maneira de aplicar este principio em aparelhos de iluminação. O campo suspensor pode fazer flutuar luzes e carregá-las de energia residual. Tenho todos os cálculos... em algum lugar.

- Luzes flutuantes? - disse Zufa em tom desdenhoso. - Para que, um lanche campestre? Dezenas de milhares de pessoas morreram no ataque cimek contra Zimia, milhões foram escravizadas em Giedi Prime, e você vive isolada com todas as comodidades... fabricando luzes flutuantes?

Norma dirigiu a sua mãe um olhar condescendente, como se Zufa fosse estúpida.

- Tente ir além do evidente, mãe. Uma guerra precisa de algo mais que armas. Os robôs são capazes de alterar seus sensores ópticos para ver na escuridão, mas os humanos precisam ter luz para ver. Centenas de luzes suspensoras como esta poderiam dispersar-se de noite em uma zona de combate, o que neutralizaria toda vantagem das máquinas pensantes. O sábio Holtzman e eu pensamos em possibilidades similares a cada dia.

O cientista assentiu, ansioso por dar-lhe razão.

- Para usos comerciais, poderiam desenhar-se em diversos estilos, inclusive sintonizadas com qualquer cor ou tom.

Norma estava sentada em seu tamborete como um gnomo em um trono. Seus olhos pardos brilharam de entusiasmo.

- Estou segura de que lorde Bludd se sentirá muito satisfeito.

 

Zufa franziu o cenho. Havia cosas mais importantes nesta guerra que satisfazer um nobre presunçoso.

- Vim de muito longe para vê-la - disse impaciente.

Norma arqueou as sobrancelhas com ceticismo.

- Se tivesse se incomodado em se despedir antes de minha partida de Rossak, mãe, não teria necessitado fazer uma viagem tão longa para acalmar sua culpa. Mas estava muito ocupada para perceber.

Tio Holtzman, embaraçado pela situação, desculpou-se. As duas mulheres apenas repararam em seu desaparecimento.

Não tinha sido a intenção da Zufa iniciar uma discussão, mas agora ficou na defensiva.

- Minhas feiticeiras demonstraram suas habilidades no combate. Podemos exercer um tremendo poder com nossas mentes para erradicar os cimeks. Certo número de candidatas estão se preparando para oferecer o sacrifício definitivo se nos chamarem para liberar outro planeta dominado pelas máquinas. - Seus olhos claros cintilaram, e logo meneou a cabeça. - Mas não se preocupe por isso, Norma, porque você não tem capacidades telepáticas.

- Possuo outros talentos, mãe. Eu também estou fazendo uma valiosa contribuição.

- Sim, suas equações incompreensíveis. - Zufa moveu a cabeça em direção ao gerador de campo suspensor que descansava sobre o chão. - Sua vida não está em jogo. Segura e mimada, passa os dias jogando com estes brinquedos. Deixou-se cegar por êxitos imaginários. - Mas sua filha não era a única. Muita gente vivia rodeada de comodidade e segurança, enquanto Zufa e suas feiticeiras levavam a cabo tarefas perigosas. Como podia Norma comparar seu trabalho com isso? - Quando soube que eu vinha, Norma, não pôde encontrar tempo para me receber no espaçoporto?

Norma falou em um tom falsamente dócil, com os braços cruzados sobre seu pequeno peito.

- Eu não te pedi que viesse, mãe, porque sei que tem coisas mais importantes que fazer. E eu tenho tarefas mais urgentes que receber convidados inesperados. Além disso, sabia que lord Bludd iria recebê-la.

- Os nobres da liga são seus novos meninos dos recados? - Agora que tinha aberto as comportas de sua ira, Zufa não pôde reprimir as palavras seguintes. - Só queria me sentir orgulhosa de ti, Norma, apesar das suas deformidades. Mas nunca chegará a nada. Que sacrifícios faz vivendo aqui rodeada de luxo? Sua visão é muito pequena para que seja útil à humanidade.

Antes, Norma teria desmoronado ante tal ataque, mas o fato de estar trabalhando com Holtzman, e seu evidente êxito nos aspectos técnicos, tinha-lhe proporcionado uma nova perspectiva de si mesma. Olhou com frieza a sua mãe.

- Só porque não coincido com a imagem do que você queria que eu fosse, não significa que minha contribuição deixe de ser essencial. O sábio Holtzman percebe, e Aurelius também. Você é minha mãe. Por que não vê isso?

Zufa soprou ao ouvir o nome de Venport e começou a passear de um lado a outro.

- Aurelius não é mais que um homem sofrendo de alucinações provocadas pelas drogas que ingere.

- Eu havia me esquecido de quanto intolerante você pode ser, mãe - disse Norma com serenidade. - Obrigado por vir me refrescar a memória. - A moça se virou em seu tamborete e continuou com suas planos e equações. - Estou tentada a chamar algum escravo para que a acompanhe até a saída, mas não quero interromper seu trabalho, que é mais importante.

 

Furiosa consigo mesma e com sua filha (e pelo tempo desperdiçado), Zufa retornou ao espaçoporto. Não ficaria nem um momento mais em Poritrin. Para afastar suas preocupações da mente, concentrou-se em exercícios mentais, e pensou em suas amadas alunas da selva que estavam dispostas a sacrificar tudo, sem pensar em considerações pessoais.

Zufa esperou todo um dia o transporte militar que a devolveria a Rossak. Quando se rodeou ondas de seus poderes de clarividência, descobriu uma debilidade corrupta em Poritrin, que não estava relacionada com Norma. Era tão evidente que não podia ignorá-la.

Em Starda, nas zonas de carga próximas ao espaçoporto, nos armazéns e restingas, Zufa detectou a aura individual e coletiva dos explorados trabalhadores. Uma ferida psicológica coletiva, um profundo descontentamento que pareciam alheios aos cidadãos livres de Poritrin.

Esta carga de ressentimento lhe deu mais uma razão para desejar se afastar daquele lugar.

 

A intuição é uma função mediante a qual os humanos vêem o que espreita ao dobrar uma esquina. É útil para pessoas que vivem expostas a condições naturais e perigosas.

ERASMO, Diálogos de Erasmo

 

Educada como filha do vice-rei da liga, Serena Butler estava acostumada a trabalhar com todas as suas forças a serviço da humanidade, com a esperança de caminhar para um futuro brilhante, apesar da cortina de fundo de guerra constante. Nunca tinha imaginado que trabalharia como escrava no lar de um inimigo robô.

Desde que viu Erasmo na praça de entrada da vila pela primeira vez, Serena experimentou uma profunda aversão por ele. Por sua vez, a máquina pensante estava intrigada por ela. Serena suspeitava que dito interesse seria perigoso. O robô se decantava por vestir objetos de qualidade, mantos folgados e esponjosos, peles adornadas que dotavam seu corpo robótico de um aspecto absurdo. O seu rosto refletivo parecia alienígena, e seu comportamento arrepiava os pêlos da jovem. Sua insaciável curiosidade pela humanidade se demonstrava muito perversa e anormal. Quando cruzou o lugar em direção a Serena, sua máscara metálica se transformou em um sorriso satisfeito.

- Você é Serena Butler - disse. - Informaram-lhe que os humanos selvagens reconquistaram Giedi Prime? Que decepção. Por que os humanos estão dispostos a sacrificar tantas coisas para manter seu caos ineficaz?

O coração de Serena se encheu de júbilo ao saber da notícia da liberação, em parte graças a seu esforço. Afinal, Xavier tinha ido com a Armada, e os engenheiros de Brigit Paterson tinham conseguido ativar os transmissores secundários. Mesmo assim Serena continuava sendo uma serva, e estava grávida do filho de Xavier. Ninguém sabia onde estava ou o que tinha sido feito dela. Xavier e seu pai deviam estar loucos de dor, convencidos de que as máquinas a haviam matado.

- Talvez não seja surpreendente que não compreenda os valores ou conceito humano de liberdade - respondeu a jovem. – Apesar de seus complicados circuitos gelificados, é apenas uma máquina. Não foi programado para compreender.

Sentiu que as lágrimas se amontoavam em seus olhos quando pensou no muito que desejava ajudar ao próximo. Em Salusa, nunca tinha dependido da fortuna familiar, porque queria pagar as bênçãos que lhe tinham concedido.

- Por tanto, é inquisitivo ou inquisidor? - perguntou.

- Talvez ambas as coisas. - Inclinou-se para examiná-la, e levantou orgulhoso queixo. - Espero que me ofereça muitos dados. - Tocou sua bochecha com um dedo frio e flexível. - Uma pele adorável.

Serena se obrigou a não retroceder. A resistência tem que servir para algo mais que para demonstrar o orgulho de um cativo, havia dito sua mãe em uma ocasião. Se Serena resistisse, não custaria nada a Erasmo sujeitá-la com sua mão poderosa; ou forçar a colaboração com aparelhos de tortura mecânicos.

- Minha pele não é mais adorável que a sua - disse, - salvo que minha não é sintética. Minha pele foi desenhada pela natureza, não pela mente de una máquina.

O robô lançou uma risada de timbre metálico.

- Espero aprender muito com você.

Guiou-a até suas exuberantes estufas, que a jovem observou com reticente prazer.

Era fascinada pela jardinagem desde a idade de dez anos, e tinha entregue plantas, ervas e frutos exóticos a centros médicos, campos de refugiados e asilos de veteranos, onde também prestava seus serviços. Serena tinha fama em Zimia de cultivar as flores mais formosas. Graças a seus tenros cuidados, floresciam deliciosas rosas immianas, assim como hibiscos de Poritrin e até as delicadas violetas matutinas do longínquo Kaitain.

- Vou atribuir-lhe o cuidado de meus valiosos jardins - disse Erasmo.

- Por que as máquinas não podem se encarregar dessas tarefas? Estou certa de que seriam muito mais eficientes... ou sente prazer obrigando seus “criadores” a se encarregarem do trabalho?

- Você não se considera capacitada para a tarefa?

- Farei o que me ordenar... pelo bem das plantas. – Tocou a flor vermelha e alaranjada de forma estranha, sem fazer caso do robô. - Parece um ave do paraíso, uma variedade pura procedente de uma antiga estirpe. Segundo a lenda, estas plantas eram as favoritas dos reis marinhos da Velha Terra. - Serena voltou-se para o robô com olhar desafiante. - Acabo de lhe ensinar algo, percebeu?

Erasmo riu de novo, como se reproduzisse uma gravação.

- Excelente. Bem, agora me diga no que está pensando realmente.

Serena recordou as palavras de seu pai; O medo convida à agressão. Não o revele ante um predador, e se sentiu encorajada.

- Enquanto falava de uma formosa flor, estava pensando que desprezo você e a toda a sua espécie. Eu era um ser livre e independente, até que vocês me tiraram isso tudo. As máquinas me despojaram de meu lar, minha vida e do homem que amo.

O robô não se sentiu ofendido.

- Ah, seu amante! É o pai da criatura?

Serena olhou para Erasmo, e logo tomou uma decisão. Talvez pudesse aproveitar a curiosidade deste robô para voltá-la contra ele.

- Quanto mais colaborar, mais aprenderá de mim. Posso ensinar coisas que nunca aprenderia por si mesmo.

- Excelente.

O robô parecia muito satisfeito.

A expressão de Serena se endureceu.

- Mas espero algo em troca. Garanta-me a segurança de meu filho. Permita-me que crie o menino em sua casa.

Erasmo sabia que era um imperativo da espécie humana preocupar-se com sua prole, o que lhe proporcionava certa vantagem.

- É arrogante, ou ambiciosa. De qualquer forma, considerarei sua petição, em função da satisfação que derive de nossas discussões e debates.

Erasmo divisou um grosso escaravelho na base de um suporte de vasos terracota e o empurrou com o pé. O inseto tinha desenhos vermelhos na carapaça. A máscara facial de Erasmo passou por várias fases, até adotar uma expressão divertida. Deixou que o escaravelho escapasse, mas antes que conseguisse moveu o pé para impedi-lo. O animal, insistente, virou para outra direção.

- Você e eu temos muito em comum, Serena Butler - disse.

Ativou com um comando a distância um cubo musical de Chusuk conseguido de contrabando, com a esperança de que a melodia revelasse os sentimentos internos da jovem.

- Cada um possui uma mente independente. Respeito essa característica em você porque é uma parte integral da minha personalidade.

A comparação ofendeu Serena, mas mordeu a língua.

Erasmo recolheu o escaravelho com uma mão, mas seu principal interesse continuava concentrado em Serena. Estava intrigado pela persistência dos humanos em ocultar o que sentiam. Talvez, se aplicasse diversas pressões, conseguiria chegar ao núcleo.

Erasmo continuou, com o fundo musical.

- Alguns robôs conservam sua personalidade, em lugar de carregar uma parte da supermente. Eu comecei a ser uma máquina pensante em Corrin, mas decidi não aceitar as atualizações regulares de Omnius que me sincronizariam com a supermente. - Serena viu que o escaravelho estava imóvel em sua palma metálica. perguntou-se se o havia matado. - Mas um evento singular me mudou para sempre - disse Erasmo com voz plácida, como se descrevesse um passeio pelo bosque. - Fui explorar os territórios desabitados de Corrin. Como era curioso e não queria aceitar as análise correntes compiladas por Omnius, aventurei-me sozinho na região. Era acidentada, rochosa e selvagem. Eu nunca tinha visto vegetação, salvo nas zonas onde os terraformadores do Império Antigo tinham plantado novos ecossistemas. Corrin não era um planeta vivo, exceto onde os humanos o haviam colonizado. Por desgraça, cuidar de campos férteis e embelezar a paisagem não era uma prioridade de minha espécie.

Olhou para Serena para saber se estava gostando de seu relato.

- Inesperadamente, longe da cidade e os sistemas de auxílio robóticos, estalou uma tormenta solar. O gigante vermelho do Corrin é muito instável, com atividade freqüente e repentinos furacões radiativos. Tais fenômenos são perigosos para as formas de vida biológicas, mas os colonizadores humanos originais eram resistentes. Não obstante, meus delicados circuitos neuroelétricos eram mais que sensíveis. Deveria ter enviado analisadores de reconhecimento para vigiar a formação de tais tormentas, mas estava muito abismado em minhas investigações. O fluxo radiativo me afetou, e me encontrei desorientado e confuso, longe do complexo central controlado pelo Omnius de Corrin. - Parecia que Erasmo estava envergonhado. - Afastei-me dando tombos... e caí em una rachadura estreita.

Serena olhou surpresa para ele.

- Apesar de não cair até o fundo, meu corpo sofreu danos. - Elevou um braço, olhou seu membro flexível, a pele de polímero orgânico, a capa de metal líquido. - Estava apanhado, fora do campo de transmissão, basicamente imobilizado. Não pude me mover durante um ano inteiro do Corrin... vinte anos padrão terrestres.

“As sombras profundas da rachadura me protegiam das radiações, e meus processos mentais não demoraram a se recuperarem. Estava acordado, mas não podia ir a lugar nenhum. Não podia me mover... só pensar, durante muito, muito tempo. Passei um verão que me pareceu eterno, apanhado entre as rochas, e logo suportei o correspondente inverno, entre capas de gelo compacto. Durante todo esse tempo, duas décadas, não tive outra coisa que fazer senão meditar.

- Sozinho podia falar consigo mesmo - disse Serena. - Pobre e solitário robô.

- Tal odisséia alterou minha natureza fundamental de formas que jamais teria imaginado - disse Erasmo, sem fazer caso do comentário. - De fato, Omnius ainda não me compreende.

Quando por fim outros robôs o descobriram e resgataram, Erasmo já tinha desenvolvido uma personalidade individual. Depois de reintegrar-se na sociedade das máquinas, Omnius tinha perguntado a Erasmo se desejava uma atualização que comportasse traços de caráter normais.

- Uma atualização, - disse comentou Erasmo com ironia. - Rechacei a oferta. Depois de alcançar esse... esclarecimento, negava-me a apagar meus impulsos e idéias, meus pensamentos e lembranças. Seria uma perda muito grande. O Omnius de Corrin não demorou para descobrir que desfrutava com nossas discussões.

Erasmo olhou para o escaravelho imóvel.

- Sou uma celebridade entre as supermentes - disse. – Elas anseiam por receber atualizações que contenham meus atos e declarações, como uma publicação periódica. São conhecidas como os “Diálogos de Erasmo”.

Serena moveu a cabeça em direção ao inseto.

- Incluirá uma discussão a respeito desse escaravelho? Como pode compreender algo que acabou de matar?

- Ele não está morto – tranqüilizou-a. - Detecto um tênue mas inconfundível batimento do coração. O animal quer me fazer acreditar que está morto, para que o liberte. Apesar de seu pequeno tamanho, possui uma poderosa vontade de sobreviver.

Ajoelhou-se e deixou o escaravelho sobre um ladrilho com surpreendente suavidade, e logo retrocedeu. Momentos depois, o inseto correu refugiar-se sob o suporte de vasos.

- Está vendo? Desejo entender todos os seres vivos... inclusive você.

Serena enrijeceu. O robô tinha conseguido surpreende-la.

- Omnius pensa que nunca alcançarei seu nível intelectual - disse Erasmo, - mas continua intrigado com minha agilidade mental, pela forma que minha mente evolui sem cessar para novas e impulsivas direções. Assim como esse escaravelho, sou capaz de recobrar a vida e perseverar.

- Espera se transformar em algo mais que uma máquina?

- Superar a si mesmo é um traço humano, não? - respondeu Erasmo sem ofender-se. - É só o que desejo fazer.

 

Uma direção é tão boa como outra.

Dito da Terra Aberta

 

À décima vez que montou em um verme de areia, Selim era perito o bastante para saborear a experiência. Nenhuma outra emoção podia comparar-se ao poder de um gigante do deserto. Gostava de correr entre as dunas no lombo de um verme, cruzar um oceano de areia em um só dia.

Selim tinha extraído água, roupa, equipamentos e comida da estação tática abandonada. Sua presa de cristal era uma ferramenta valiosa, assim como um símbolo de orgulho pessoal. Às vezes, dentro da estação vazia, tinha contemplado a suave curva leitosa da folha sob a débil luz dos painéis de recarga, e imaginado que o objeto possuía um significado religioso.

Era uma relíquia da prova suprema que tinha superado no deserto, e um símbolo de que Budalá velava por ele. Talvez os vermes estivessem relacionados com seu destino.

Chegou a acreditar que os vermes não eram Shaitan, e sim bênçãos de Budalá, talvez inclusive manifestações tangíveis de Deus.

Depois de meses de recuperar-se e aborrecer-se na antiga instalação, vivendo sem um objetivo definido, Selim soube que devia sair e montar um verme outra vez. Precisava averiguar com exatidão o que Budalá esperava dele.

Tinha feito com supremo cuidado a localização da estação. Por desgraça, como não podia guiar os vermes, sabia que seria um grande desafio retornar a seu refúgio secreto. Depois ao sair, tinha carregado todo o necessário a suas costas.

Era Selim Cavaleiro de Vermes, eleito e guiado por Budalá. Necessitava ajuda dos demais.

 

Depois de matar mais dois vermes, por montá-los até que desabaram de cansaço, Selim descobriu que não era necessário matar um verme para poder fugir sem perigo. Havia a possibilidade de desmontar de uma besta cansada saltando da cauda, para logo depois correr para as rochas. O verme, muito cansado para lhe caçar afundava na areia, amuado.

O que satisfazia Selim, porque não lhe parecia justo destruir os animais que facilitavam seu transporte. Se os vermes eram emissários de Budalá, e anciões do deserto, devia tratá-los com respeito.

Em sua quarta viagem, descobriu a maneira de manipular as bordas sensíveis dos anéis do dragão, utilizando uma espécie pá e a afiada lança metálica para açular o Shaitan na direção que Selim desejava. Era uma idéia simples, mas exigia muito trabalho. Seus músculos doíam quando saltou de um verme esgotado e correu para o refúgio das rochas próximas. Seguia perdido nas profundidades do deserto, mas em um sentido muito real, o deserto lhe pertencia agora. Era invencível! Budalá velava por ele.

Selim ainda guardava uma provisão razoável de água procedente das unidades de destilação da estação, e sua dieta consistia em grandes quantidades de melange, que lhe proporcionava força e energia. Assim que aprendesse a dominar os vermes, poderia viajar para onde quisesse e voltar para a estação abandonada.

Outros zensunni o teriam chamado de louco, assombrados por seu audaz intento de domar aos terríficos vermes, mas ao jovem exilado não importava o que seu povo pensaria dele. Estava em contato com outro reino. Acreditava no fundo de seu coração que tinha nascido para isto.

Sob a luz das duas luas, Selim guiou suas arreios entre as dunas. Horas antes, o animal tinha cessado de tentar desmontar seu cavaleiro, e seguiu adiante, resignado às ordens do demônio que não parava de lhe machucar a pele sensível que tinha entre os anéis. Selim se guiava pelas estrelas, desenhava linhas como flechas entre as constelações. A implacável paisagem começava a lhe parecer familiar, e pensou que já estava perto da estação botânica, seu refúgio. Seu lar.

Naquela solidão, rodeada pelo aroma amargo impregnado de enxofre e a canela, se permitiu pensar e sonhar. Pouco mais podia fazer desde seu exílio. Não tinham começado assim os grandes filósofos?

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