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O JÚRI / Jonh Grisham
O JÚRI / Jonh Grisham

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O JÚRI

 

O rosto de Nicholas Easter estava parcialmente escondido por um mostruário cheio de elegantes telefones sem fios e não olhava directamente para a câmara oculta, mas um pouco mais para a esquerda, talvez para um cliente, ou para o balcão, onde um grupo de jovens apreciava as novidades de jogos electrónicos importados da Ásia. Embora tirada a uma distância de quarenta metros, por um homem que tinha de se desviar constantemente dos transeuntes no passeio, a fotografia era clara e mostrava um rosto simpático, bem barbeado, com traços fortes e uma beleza quase infantil. Easter tinha vinte e sete anos: sobre isso não havia dúvida. Não usava óculos, piercing no nariz, nem sequer um penteado estranho. Nada indicava que fosse um daqueles fanáticos por computadores que trabalham numa loja de informática a troco de um salário miserável. Na ficha a seu respeito apenas constava que estava ali há quatro meses e que era estudante, embora não tivessem encontrado nenhum registo de matrícula em qualquer uma das escolas situadas num raio de quatrocentos quilómetros. Sobre este assunto, tinham a certeza de que mentia.

Tinha de ser mentira. O seu serviço de espionagem e informações era óptimo e, se o rapaz fosse realmente estudante, já teria sido descoberto onde, há quanto tempo, em que área, se tinha boas ou más notas.

Easter trabalhava num centro comercial numa Computer Hut, uma loja de informática. Nada mais, nada menos. Talvez tivesse intenção de matricular-se. Talvez tivesse sido obrigado a abandonar os estudos mas continuasse a gostar de se dizer estudante. Provavelmente essa ideia fazia com que se sentisse melhor, dando-lhe uma espécie de objectivo na vida; além de que soava bem.

Easter não era estudante de nada, nem naquele preciso momento nem num passado recente. E, assim sendo, seria possível confiar nele? A questão fora debatida na sala nas duas vezes em que chegaram ao nome de Easter incluído na lista principal de potenciais jurados e viram o seu rosto projectado no ecrã. Tinham quase decidido que se tratava de uma mentira sem importância.

Não fumava. A loja tinha regras estritas a esse respeito, mas Easter foi visto (mas não fotografado) a comer um taco no Food Garden com uma colega de trabalho que fumou dois cigarros enquanto bebia uma limonada. Aparentemente o fumo do cigarro não o incomodava. Pelo menos não era anti-tabagista fanático.

Na fotografia aparecia um rosto magro, bronzeado pelo sol, sorrindo levemente com os lábios fechados. Sob o casaco vermelho da farda da loja usava uma camisa branca, com colarinho sem botão, e uma discreta gravata às riscas. Parecia limpo, em boa forma, e o homem que tirou as fotografias chegou a falar com ele, fingindo que estava à procura de uma peça obsoleta de computador. Disse que tinha um discurso articulado, que era atencioso, conhecia bem o ramo, em resumo, que era um jovem simpático. No seu "crachá" lia-se "Subgerente", mas foram vistos em simultâneo na loja outros dois rapazes com o mesmo título nos "crachás".

No dia seguinte ao da foto, uma jovem atraente, vestida de jeans, entrou na loja e, enquanto examinava material de software, acendeu um cigarro. Por acaso. Nicholas Easter era o subgerente que se encontrava mais próximo e, delicadamente, pediu à rapariga para apagar o cigarro. Ela parecia frustrada. Até mesmo insultada e tentou provocá-lo. Nicholas manteve uma atitude diplomática, explicando que era estritamente proibido fumar na loja. Podia fumar em qualquer outro lugar, menos ali

- O tabaco incomoda-o? - perguntou ela, dando uma passa.

- Francamente, não - respondeu. - Mas incomoda o dono da loja. - E voltou a sugerir-lhe que apagasse o cigarro.

A rapariga disse que queria comprar um rádio digital e pediu-lhe que arranjasse um cinzeiro. Nicholas tirou de baixo do balcão uma garrafa vazia de refrigerante, tirou-lhe o cigarro da mão e apagou-o. Du-

rante vinte minutos, enquanto escolhia o modelo de rádio que ia comprar, falaram sobre rádios. A rapariga tinha uma atitude abertamente provocante e Nicholas entrou no jogo. Depois de pagar o rádio, a rapariga deu-lhe um papel com o número de telefone. Nicholas prometeu telefonar-lhe.

O episódio durou vinte e quatro minutos e foi registado por um gravador escondido na carteira dela. A gravação foi ouvida nas duas vezes em que o rosto de Nicholas foi projectado na parede e estudado pelos advogados e assessores. O relatório da jovem sobre o incidente estava arquivado, seis páginas dactilografadas sobre tudo o que tinha observado, desde os sapatos (uns Nike velhos), ao hálito (pastilha elástica de canela), ao vocabulário (colegial) e à forma como tinha agarrado o cigarro. Na sua opinião, e era entendida na matéria, Nicholas nunca tinha fumado.

Ouviram a agradável voz de Nicholas, apreciaram o seu profissionalismo como vendedor, o encanto da sua conversa e gostaram dele. Era inteligente e não odiava tabaco. Não se encaixava no modelo de jurado, mas merecia certamente ser observado. O problema com Easter, potencial jurado número cinquenta e seis, era o pouco que sabiam sobre ele. Tinha chegado à Costa do Golfo há menos de um ano e não tinham uma pista sequer sobre o local de onde viera. O seu passado era um completo mistério. Alugou um TO oito quarteirões adiante do prédio do tribunal de Biloxi - tinham fotografias do prédio - e, primeiro, trabalhou como empregado de mesa num casino na praia. Rapidamente foi promovido a croupier, mas deixou o casino quatro meses depois.

Assim que o jogo foi legalizado no estado do Mississipi, da noite para o dia, surgiram na costa uma dezena de casinos, e aos casinos seguiu-se uma intensa onda de prosperidade. De todos os lados chegaram pretendentes aos novos empregos e seria lógico supor que Nicholas Easter tivesse chegado a Biloxi pelo mesmo motivo que milhares de outros. A respeito da sua mudança para Biloxi, a única coisa estranha a registar era a pressa com que se tinha recenseado como eleitor.

Nicholas tinha um carocha de 1969 e uma fotografia do carro substituiu o seu rosto na parede. Nada de mais. Um homem de vinte e sete anos, solteiro, supostamente estudante - o tipo perfeito para ter aquele tipo de carro. Nenhum autocolante nos pára-choques. Nada que indicasse filiação política, consciência social ou preferência por algum clube desportivo. Não tinha sequer um autocolante do parque de estacionamento da faculdade. Nem mesmo um autocolante desbotado do stand que lhe vendera o carro. O carro não tinha qualquer tipo de significado para aquela investigação. Nada, a não ser denunciar um estado de quase pobreza.

O homem que manuseava o projector, e que se encarregava da maior parte da apresentação, era Cari Nussman, um advogado de Chicago que deixara de exercer para abrir uma firma de consultoria de júris. Por uma pequena fortuna, Cari Nussman e a sua firma podiam escolher o júri perfeito. Coligiam dados, tiravam fotografias, gravavam vozes, contratavam louras com jeans justos para situações adequadas. Cari e os sócios movimentavam-se muito perto dos limites da lei e da ética, mas era impossível incriminá-los. Na verdade, não há nada de ilegal em fotografar possíveis jurados. Em Harrison County tinham feito investigações exaustivas por telefone, a primeira vez há seis meses, a segunda há dois e, a última, passado um mês, tudo para aferir a opinião da comunidade sobre o fumo e para esquematizar diferentes modelos de jurados perfeitos. Não ficou por tirar nenhuma possível fotografia e não houve nenhum "podre" de algum dos potenciais jurados que tivesse ficado esquecido ou que não tivesse sido classificado. Tinham um dossier completo sobre cada um dos potenciais jurados.

Cari apertou um botão e o carocha foi substituído pela fotografia de um prédio com a pintura desbotada onde, num dos apartamentos, vivia Nicholas Easter. Pressionado outro botão, apareceu de novo o rosto de Nicholas Easter.

- Assim, apenas temos estas três fotografias do número cinquenta e seis - disse Cari, num tom ligeiramente frustrado, voltando-se com um olhar de censura para o fotógrafo, um dos seus inúmeros espiões particulares que, apesar disso, explicou as circunstâncias arriscadas em que conseguira fotografar o rapaz, todas passíveis de o denunciarem. O fotógrafo estava numa cadeira encostada à parede, de frente para a longa mesa dos advogados, assistentes e especialistas em júris. Parecia entediado e pronto para sair. Eram sete horas de uma noite de sexta-feira. O número cinquenta e seis estava projectado na parede e .linda faltava analisar cento e quarenta. Ia ter um fim de semana horrível. Precisava absolutamente de uma bebida.

Uma meia dúzia de advogados com camisas amarrotadas e mangas arregaçadas, tomando infindáveis notas, olhava ocasionalmente para o rosto de Nicholas Easter projectado na parede atrás de Cari. Especialistas emjúris de quase todos os géneros - psicanalistas, sociólogos, grafólogos, professores de Direito e assim por diante -arrumavam papéis e consultavam pilhas de folhas de dois centímetros de espessura com textos impressos em computador. Não sabiam ao certo o que fazer com Easter. Era um mentiroso que escondia o passado mas, mesmo assim, parecia-lhes bem, tanto no papel como na parede.

Talvez não mentisse propriamente. Era perfeitamente possível que no ano anterior tivesse estado matriculado numa faculdade barata no Leste do Arizona, e não tivessem conseguido descobri-lo.

Dêem uma oportunidade ao rapaz, pensou o fotógrafo, mas continuou calado. A sua opinião seria a última a ser lavada em linha de conta naquela sala cheia de homens instruídos e bem pagos. Não era pago para dar opiniões.

Cari pigarreou e, olhando outra vez para o fotógrafo, disse:

- Número cinquenta e sete. - Apareceu projectado na parede o rosto suado de uma jovem mãe e pelo menos duas pessoas deixaram escapar uma gargalhada discreta. - Traci Wilkes - disse Cari, como se Traci fosse agora uma velha amiga. Levemente, moveram-se papéis sobre a mesa.

-Idade: trinta e três, casada, dois filhos, marido médico, dois "coun-try" clubes, dois ginásios e uma lista completa de clubes sociais.

Cari descrevia os itens de memória enquanto girava o botão do projector. O rosto vermelho de Traci foi substituído por uma outra fotografia sua a correr num passeio, esplêndida, com um fato brilhante muito justo, em tons de rosa e negro, ténis Reebok impecavelmente limpos, o último modelo de óculos escuros desportivos e o cabelo longo preso num perfeito rabo-de-cavalo. Empurrava um carrinho próprio para correr com um bebé a acompanhá-la. Traci vivia para suar. Bronzeada pelo sol, estava em perfeita forma física, mas não exactamente magra como seria de esperar. Traci tinha alguns maus hábitos. Outra fotografia de Traci na sua carrinha Mercedes preta, com crianças e cães em todas as janelas. Outra, ainda, em que arrumava os sacos das compras na mesma carrinha, com outros ténis, calções justos e a exacta aparência de quem pretende ficar jovem e atlética para sempre. Foi fácil segui-la porque estava sempre atarefada, quase à beira da exaustão, e nunca parava o tempo suficiente para olhar à sua volta.

Cari projectou as fotografias da casa dos Wilkes, uma construção sólida de três andares nos subúrbios, com a palavra "Médico" carimbada por toda a parte. Não se demorou muito nessas fotografias, deixando o melhor para o fim. Traci apareceu novamente encharcada em suor, a bicicleta de marca ao lado, sentada debaixo de uma árvore no parque, longe de todos, meio escondida - a fumar um cigarro!

O fotógrafo sorriu como um idiota. Essa fotografia, tirada a cem metros de distância, da mulher do médico a fumar às escondidas, era o seu melhor trabalho. Nunca imaginou que ela pudesse fumar! Estava ele calmamente a fumar um cigarro, perto da paragem para peões, quando ela passou rápida. Só depois de meia hora de passeio pelo parque é que parou e tirou uma coisa do cesto da bicicleta.

Por momentos, enquanto olhavam Traci debaixo da árvore, a atmosfera na sala aliviou. Então, Cari disse:

- Nem é preciso dizer que vamos aceitar a número cinquenta e sete - tirou umas notas numa folha de papel e bebeu um gole de café de um copo de plástico. É claro que escolheriam Traci Wilkes! Quem é que ia recusar a mulher de um médico no júri, sobretudo quando os advogados de acusação pediam milhões a título de indemnização. O facto de ela gostar de fumar não passava de um pequeno bónus.

O número cinquenta e oito era um estivador da Ingalls, em Pasca-goula-cinquenta anos, branco, divorciado, sindicalista. Cari projectou uma fotografia dapickup Ford do homem, e ia começar a fazer um resumo da sua vida quando a porta se abriu e o senhor Rankin Fitch entrou na sala. Cari parou. Os advogados sentaram-se erectos nas cadeiras. Começaram a escrever furiosamente nos seus blocos de apontamentos como se nunca mais fossem ver aquele veículo. Os consultores de júri também entraram em acção e, avidamente, e procurando não olhar para o homem, também começaram a tomar notas.

Fitch estava de volta. Fitch estava na sala.

Fechou a porta devagar, deu alguns passos em direcção à cabeceira da mesa e olhou carrancudo para todos os que se encontravam sentados à sua volta. Mais do que olhar, rosnava. As rugas da testa, horizontais e profundas, juntaram-se. O peito largo subiu e desceu lentamente e, por um ou dois segundos, Fitch era a única pessoa que respirava na sala. Os seus lábios abriam para comer e beber e, ocasionalmente, para falar, mas nunca para sorrir.

Como sempre, Fitch estava zangado. E isto, só por si, não constituía novidade, já que até a dormir o homem estava em estado de hostilidade. Que atitude iria tomar: praguejar e ameaçar, atirar coisas pelo ar ou simplesmente manter-se em estado de ebulição? Com Fitch nunca se sabia. Parou na cabeceira da mesa entre dois jovens advogados, sócios recentes e que, nessa qualidade, já ganhavam confortáveis salários de seis dígitos. Ao contrário dos jovens advogados, que já estavam perfeitamente integrados naquela empresa, Fitch era um estranho de Washington, um intruso que há um mês rosnava e latia nos seus corredores. Os dois jovens advogados não ousavam olhar para ele.

- Número? - perguntou a Cari.

- Cinquenta e oito. - Cari respondeu rapidamente, ansioso por agradar.

- Volte para o cinquenta e seis - ordenou Fitch, e Cari voltou rapidamente até o rosto de Nicholas Easter aparecer outra vez na parede. Ouviu-se o barulhinho de papéis a farfalhar por cima da mesa.

- O que é que vocês sabem? - perguntou Fitch.

- O mesmo - disse Cari, desviando os olhos.

- Formidável. Entre os cento e noventa e seis, quantos é que ainda são um mistério?

- Oito.

Fitch bufou, balançou a cabeça lentamente e todos esperaram por uma explosão. Mas, por segundos, limitou-se a alisar a barbicha grisalha meticulosamente aparada, depois, olhou para Cari, esperou que todos sentissem a seriedade do momento e então disse:

- Hoje trabalham até à meia noite. Regressam às sete da manhã. No domingo a mesma coisa. - Girou o corpo gordo e saiu da sala.

A porta bateu com força. O ar ficou consideravelmente mais leve e então, em uníssono, os advogados, consultores, Cari e todos os outros consultaram os relógios. Tinham acabado de receber ordem para passar trinta e nove das próximas cinquenta e três horas naquela sala, olhando para fotografias ampliadas de rostos que já tinham visto, memorizando nomes, datas de nascimento e estatísticas vitais de quase duzen-tas pessoas.

E não havia a menor dúvida de que todos fariam exactamente o que fora mandado.

Fitch desceu pelas escadas para o primeiro andar onde era esperado pelo seu motorista, um homem grande chamado José. José vestia um fato preto, botas pretas de cowboy e óculos escuros que só tirava quando entrava no chuveiro ou quando dormia. Fitch abriu uma porta sem bater e interrompeu uma reunião que se prolongava há horas. Quatro advogados e as respectivas equipas de apoio assistiam aos depoimentos em vídeo das primeiras testemunhas do queixoso. A gravação parou segundos antes de Fitch invadir a sala. Falou brevemente com um dos advogados e saiu. Seguido por José, atravessou uma pequena biblioteca e chegou a outro corredor, onde entrou intempestivamente por outra porta e assustou outro grupo de advogados.

Com oito advogados, a firma de Whitney & Cable & White era a maior da Costa do Golfo. Foi escolhida a dedo pelo próprio Fitch e, só por causa de ter sido escolhida, ia ganhar milhões de dólares em honorários. Porém, para merecer esse dinheiro, a firma tinha de suportar a tirania e o mau humor de Rankin Fitch.

Seguro que o prédio inteiro estava ciente da sua presença e apavorado com as suas movimentações, Fitch saiu. Parou na rua, no ar morno de Outubro, e esperou por José. Três quarteirões adiante, em metade do último andar de um velho banco, via-se um escritório com as luzes acesas. O inimigo ainda estava a trabalhar. Os advogados do queixoso estavam lá em cima, reunidos em várias salas, conversando com especialistas, vendo fotografias cheias de grão e fazendo as mesmas coisas que os seus homens. O julgamento ia começar na segunda-feira com a selecção do júri e Fitch sabia que, também ali, estavam a queimar as pestanas com nomes, caras e imaginando quem seria Nicholas Easter e de onde teria vindo. E Ramon Caro e Lucas Miller, Andrew Lamb, Barbara Furrow e Delroes DeBoe? Quem era essa gente? Só num Estado tão atrasado como o Mississipi é que ainda era possível encontrar listas tão desactualizadas de potenciais jurados. Antes deste, Fitch já tinha orientado a defesa de outros casos em oito Estados diferentes, onde eram usados computadores. Por isso, quando os funcionários judiciais entregavam a lista de potenciais jurados, não era preciso preocupar-se se alguma das pessoas incluídas naquela lista já tinha morrido: as listas estavam sempre automaticamente actualizadas.

Fitch olhou para as luzes distantes imaginando como é que os tubarões gananciosos iam dividir o dinheiro se por acaso vencessem. Como é que seria possível chegar a um acordo na divisão da carcaça? O julgamento ia ser uma pequena escaramuça, comparado com a luta de morte que se lhe seguiria se conseguissem o veredicto que desejavam e as respectivas indemnizações.

Detestava-os e cuspiu no passeio. Acendeu um cigarro, segurando-o com força entres os dedos grossos.

José parou junto do passeio o Suburban alugado, brilhante e com vidros escuros. Fitch, como sempre, sentou-se ao lado do motorista. Quando passaram, José também olhou para o escritório dos advogados inimigos, mas não disse nada porque o patrão não tolerava conversa fiada. Passaram pelo prédio do tribunal de Biloxi e por uma loja de preços módicos, agora abandonada, onde Fitch e os sócios mantinham uma suite secreta de escritórios com serradura fresca no chão e móveis alugados.

Seguiram ao longo da praia para oeste, pela Estrada 90, e entraram no tráfego intenso. Era noite de sexta-feira e os casinos estavam cheios de gente que jogava o dinheiro da comida, com grandes planos para recuperá-lo no dia seguinte. Lentamente, saíram de Biloxi, atravessaram Gulfport, Long Beach e Pass Christian. Assim que abandonaram a marginal passaram por um posto de segurança perto de uma lagoa.

 

A casa na praia era moderna, espaçosa e dava para uma praia particular. Um pontão de madeira branca avançava para a água parada e escurecida pelas algas que vinham da baía. A areia mais próxima ficava a três quilómetros. Um barco de pesca de vinte pés estava ancorado no pontão. A casa era alugada e pertencia a um industrial de petróleo de Nova Orleães - três meses, pagamento em dinheiro, sem perguntas. Estava a ser usada provisoriamente como retiro, como esconderijo para gente muito importante, ou apenas como um lugar para passar uma noite.

Num deck acima da água, quatro cavalheiros saboreavam bebidas e conversavam sobre coisas sem importância, enquanto esperavam pelo seu visitante. Embora geralmente os seus negócios exigissem que fossem inimigos acirrados, naquela tarde tinham jogado dezoito buracos de golfe, comido churrasco de camarões e ostras. Naquele momento estavam a beber e a olhar para a água escura debaixo deles. Detestavam o facto de, numa noite de sexta-feira, estar na Costa do Golfo, muito longe de suas casas.

Mas tinham negócios em andamento, assuntos cruciais que exigiam uma trégua o que tornava o golfo quase agradável. Cada um dos quatro era director executivo de uma grande empresa. As quatro empresas estavam na lista da Fortune 500 e cotadas na Bolsa de Valores de Nova Iorque. A mais pequena tinha vendido seiscentos milhões no ano anterior, a maior quatro mil milhões. Eram todas recordistas de lucros, obtinham grandes dividendos, accionistas felizes e directores executivos que ganhavam milhões pelo seu desempenho.

Cada uma destas empresas era uma espécie de conglomerado de diferentes áreas de negócio e de um número variado de produtos, grandes orçamentos para publicidade e nomes insípidos como Trellco e Smith Greer, nomes usados para desviar a atenção do facto de que, na verdade, eram pouco mais do que empresas negociantes de tabaco. Cada uma delas, As Quatro Grandes, como eram conhecidas nos círculos comerciais, podia facilmente traçar as suas raízes até aos corretores de tabaco do século XIX nas Carolinas e na Virgínia. Juntas fabricavam noventa e oito por cento dos cigarros vendidos nos Estados Unidos e no Canadá. Também fabricavam coisas como gazuas, flocos de milho e tinta para cabelo, mas bastava escavar um pouco abaixo da superfície para verificar que os seus lucros tinham origem no tabaco.

Tinha havido fusões, mudanças de nomes e esforços de vários tipos para granjear uma boa imagem pública, mas as Quatro Grandes já tinham sido atacadas e difamadas por grupos de consumidores, médicos e até por políticos.

Agora, os advogados andavam atrás delas. Os sobreviventes estavam espalhados pelo país a mover-lhes processos judiciais e exigindo somas astronómicas porque, segundo alegavam, o tabaco provocava cancro. Até à data, a Big Tobacco tinha conseguido vencer os dezasseis julgamentos em que fora arguida, mas a pressão crescia. Da primeira vez que um júri atribuísse, a título de indemnização, alguns milhões a uma viúva, as portas do inferno iam abrir-se. Os advogados iam entusiasmar-se e começar uma propaganda interminável, pedindo aos fumadores e aos sobreviventes dos fumadores para se associarem a uma campanha judicial contra as tabaqueiras, aproveitando enquanto a maré estivesse a seu favor.

Normalmente, quando estavam sozinhos, os quatro homens falavam de outras coisas, mas a bebida soltava-lhes as línguas e as amarguras começaram a vir ao de cima. Debruçados sobre a balaustrada do deck, olhando para a água, começaram a amaldiçoar os advogados e o Direito Civil americano. As suas empresas gastavam milhões em Washington, com vários grupos que tentavam revogar as leis de indemnização por danos, para que as empresas responsáveis, como as Quatro Grandes, ficassem protegidas contra eventuais processos. Precisavam de um escudo contra os insensatos ataques das supostas vítimas. Mas, ao que parece, as coisas não estavam a correr bem. Ali estavam eles, num escondido local do atrasado Mississipi, enfrentando com dificuldade outro julgamento.

Em resposta à crescente investida dos tribunais, as Quatro Grandes juntaram esforços e recursos através de uma estrutura a que simplesmente chamaram O Fundo. Não tinha limite e não deixava rasto. Era como se não existisse. O Fundo era usado para tácticas heróicas nos processos judiciais,para contratar os melhores e mais duros advogados de defesa, os especialistas mais hábeis e os mais sofisticados consultores de júri. Não havia nenhuma restrição ao que O Fundo podia fazer. Depois de dezasseis vitórias seguidas chegavam a perguntar-se se havia alguma coisa que O Fundo não conseguisse fazer. Cada uma das empresas investia cerca de três milhões por ano num produto que não existia e, por caminbs tortuosos, o dinheiro acabava n'O Fundo. Ninguém sabia da existência d' O Fundo, e nenhum auditor, nenhum contabilista, nem nenhumlegislador tinha sequer uma leve desconfiança sobre a existência d'O Fundo.

O Fundo era administrado por Rankin Fitch, um homem que todos desprezavam, mas aquém ouviam e até obedeciam quando necessário. Por ordem dele, e sob o seu comando, dispersavam e voltavam a reunir-se. Toleravam estar sempre à sua disposição desde que Fitch continuasse a ganhar. Já tinha orientado oito julgamentos sem perder nenhum. Por meiosmenos lícitos, também tinha conseguido a anulação de outros dois mas,é claro, ninguém tinha provas disso.

Chegou ao deckim empregado com uma bandeja de bebidas, preparadas segundo osgostos de cada um dos quatro homens. Estavam a servir-se quando alguém disse: "O Fitch já chegou." Num movimento sincronizado os copos subiram e desceram e os quatro beberam goles mais do que generosos.

Entraram rapidamente na sala, enquanto Fitch mandava José ficar à frente da porta. Um empregado trouxe-lhe um copo com água mineral sem gelo. Fitch nãobebia, embora em tempos já tivesse sido um consumidor mais do que ocasional. Sem agradecer ao empregado, e fingindo que nem sequer se tinha apercebido da sua presença, caminhou para a lareira falsa e esperou que os quatro se reunissem à sua volta nos sofás. Outro empregado fez menção de avançar com o que restava dos camarões e das ostras numa bandeja, mas Fitch levantou a mão recusando. Diziamque às vezes comia, mas a verdade é que nunca tinha sido apanhado a fazê-lo. No entanto, o seu corpo quadrado era a maior evidência deque comia: o peito largo, a cintura ampla e um rolo de carne debaixo da barbicha. Usava sempre fatos escuros com os casacos abotoados esabia movimentar com importância o corpo pesado.

- Um breve resumo dos últimos acontecimentos - disse ele, quando achou que tinha dado tempo suficiente para que os outros tivessem tomado os seus lugares. - Neste momento, toda a equipa de defesa está a trabalhar sem descanso. E isso inclui o fim de semana. A pesquisa sobre o júri está dentro do prazo. Os advogados que vão à barra estão prontos; todas as testemunhas preparadas; todos os especialistas na cidade. Ainda não encontrámos nada fora do normal.

Houve uma pausa, um pequeno intervalo, enquanto esperavam para ter certeza de que Fitch tinha terminado.

- E aqueles jurados?-perguntou D. Martin Jankle, o mais nervoso do grupo. Dirigia a Pynex, nome conquistado depois de uma operação plástica de marketing, mas geralmente conhecida por U-Tab, abreviatura para uma antiga companhia, a Union Tabacco. O processo em questão era Wood contra Pynex, portanto Jankle estava na berlinda. A Pynex era a terceira empresa, com vendas de quase dois mil milhões no ano anterior. Desde há três meses que apresentava a melhor liquidez no sector. Por isso mesmo, aquele era o pior momento para um processo judicial. Com um pouco de azar, podiam ser mostrados ao júri quadros ampliados sobre a situação financeira da Pynex, quadros com belas e bem ordenadas colunas indicando um lucro líquido de oitocentos milhões de dólares.

- Estamos a trabalhar nisso - disse Fitch. - Temos dados favoráveis sobre oito. Quatro deles podem estar mortos ou desaparecidos. Os outros quatro estão vivos e devem apresentar-se no tribunal na segunda-feira.

- Um jurado de duvidosa honestidade pode ser veneno - disse Jankle.

Jankle tinha sido advogado num escritório em Louisville antes de entrar para a U-Tab e, por isso, nunca perdia a oportunidade para frisar a Fitch que era mais conhecedor de leis do que os outros três.

- Eu sei isso perfeitamente - disse Fitch de modo seco. - Temos de conhecer essas pessoas.

- Estamos a fazer o melhor possível. Não temos culpa se a lista de jurados é mais desactualizada do que nos outros Estados.

Jankle tomou um longo gole da sua bebida e olhou para Fitch. Afinal de contas, Fitch não passava de um segurança muito bem pago e não chegava aos pés do director executivo de uma grande empresa. Podiam chamar-lhe o que quisessem - consultor, agente, empreiteiro -, mas o facto era que Fitch trabalhava para eles. Sem dúvida que naquele momento Fitch tinha conquistado alguma autoridade, agia com arrogância e agressividade, mas que diabo, não passava de um bruto glorificado. Jankle não exteriorizou estes pensamentos.

- Mais alguma coisa? - perguntou Fitch a Jankle, como se a pergunta deste não tivesse a mais pequena importância e insinuando que, se não tinha nada de produtivo para dizer, era melhor ficar calado.

-Você confia naqueles advogados? - perguntou Jankle. Já não era a primeira nem a segunda vez que Jankle fazia aquela pergunta.

- Já tratámos disso - respondeu Fitch.

- Se eu quiser, podemos sempre voltar a tratar.

- Porque é que está tão preocupado com os seus advogados? - perguntou Fitch.

- Bem... porque são todos desta área.

- Estou aperceber... Achava mais prudente se trouxéssemos alguns advogados de Nova Iorque para falar com o júri? Ou de Boston, talvez?

- Não, não é só isso. A verdade é que nunca defenderam um caso deste tipo.

- De que é que estava à espera? Nunca houve um processo deste

tipo na Costa.

- Não estava à espera de nada. Estou só preocupado com eles.

É tudo!

- Contratámos os melhores advogados deste estado - disse Fitch.

- Então como é que se compreende que cobrem tão pouco?

- Pouco? Na semana passada, estava preocupado com os honorários da defesa. Agora, a defesa não se cobra como deve ser. Acho melhor que clarifique as ideias e decida de uma vez por todas o que é que quer.

- No ano passado pagámos quatrocentos dólares por hora aos advogados de Pittsburgh. Estes trabalham por duzentos. É óbvio que isso me preocupa.

Fitch franziu o sobrolho para Luther Vandemeer, director executivo daTrellco.

- Será que há alguma coisa que me está a escapar? - perguntou. - Está a falar a sério, ou isto é uma brincadeira de mau gosto? Passa

pela cabeça de alguém que estou a fazer economias quando temos em mãos um processo que envolve cinco milhões?-Fitch sacudiu a mão na direcção de Jankle. Vandemeer sorriu e tomou a sua bebida.

- Gastámos seis milhões em Oklahoma - disse Jankle.

- E ganhámos. Não me lembro de nenhuma reclamação depois do veredicto.

- Não estou a queixar-me. Só estou a verbalizar a minha preocupação.

- Óptimo! Vou voltar para o escritório, reunir os advogados todos e dizer que os meus clientes estão preocupados com os seus honorários. Vou dizer-lhes: "Meus amigos, sei perfeitamente que estão a enriquecer à nossa custa, mas isso não é suficiente. Os meus clientes querem que cobrem mais. Estão de acordo? Podem mesmo explorar--nos. Estão a trabalhar por muito pouco." Parece-lhe uma boa ideia?

- Tenha calma, Martin - disse Vandemeer -, o julgamento ainda nem sequer começou. Tenho certeza de que, ainda antes de conseguirmos sair daqui, já estamos fartos dos nossos advogados.

- Com certeza, mas este julgamento é diferente. E todos nós sabemos isso - Jankle levou o copo aos lábios. Dos quatro, Jankle era o único com problemas com o álcool. Seis meses antes, discretamente, a empresa tinha-o ajudado a recuperar desse vício, mas a tensão do processo era demasiado forte. Fitch, que também tinha sido alcoólico, percebia perfeitamente que Jankle estava com problemas. E o pior é que dentro de algumas semanas seria chamado a depor.

Fitch, como se não tivesse nada mais com que se preocupar, agora ainda tinha o encargo de manter D. Martin Jankle sóbrio até à data do julgamento. Odiava-o por essa fraqueza.

- Suponho então que os advogados da acusação estão prontos - perguntou outro director.

- É uma suposição lógica - disse Fitch, encolhendo os ombros. - Também, com a quantidade de advogados de acusação que há neste

processo, era o que faltava que não estivessem...

A última vez que tinham contado os advogados de acusação enumeraram oito. Supostamente, oito dos maiores escritórios de advocacia do país tinham investido oito milhões de dólares no processo, um milhão cada, para financiar este espectáculo com a indústria tabaqueira. Primeiro, escolheram um queixoso: a viúva de um homem chamado Jacob L. Wood. Depois, escolheram a comarca: a da Costa do Golfo, no Mississipi, porque o Direito Civil neste estado regia-se por leis que lhes podiam ser favoráveis e porque era sabido que os júris em Biloxi podiam ser particularmente generosos. Só não escolheram o juiz, mas não podiam ter tido mais sorte. O Meritíssimo Frederick Harkin fora advogado de defesa até um enfarte o levar à magistratura.

Aquele não era um mero processo contra os fabricantes de tabaco e todos na sala o sabiam.

- Quanto é que eles gastaram?

- Não tenho acesso a essa informação - disse Fitch. - Ouvi dizer que já não têm tanto dinheiro como dizem, talvez tenham tido que pagar adiantado a alguns advogados. Sejacomo for, gastaram milhões. E têm uma dezena de grupos de consumidores prontos para contribuir.

Jankle mexeu o gelo no copo e tomou o que restava da bebida. Era a sua quarta bebida. Por um momento, enquanto Fitch esperava de pé e os directores executivos contemplavam a carpete, a sala ficou em silêncio.

- Vai demorar quanto tempo? - perguntou Jankle finalmente.

- De quatro a seis semanas. Aqui, a selecção do júri é rápida. Provavelmente teremos ojúri jánaquarta-feira.

- O de Allentown durou três meses - disse Jankle.

- Isto não é o Kansas. Mas porquê? Quer um julgamento de três meses?

- Não. Eu só estava, bem... - o resto da frase ficou tristemente perdido no ar.

- Temos de ficar na cidade por quanto tempo? - Instintivamente Vandemeer consultou o relógio.

- A mim tanto me faz. Podem ir agora, ou podem esperar até à escolha do júri. Se precisar de os contactar, sei onde encontrá-los. - Fitch pôs o copo com água na moldura da lareira e olhou em volta. Estava pronto para partir. - Mais alguma coisa?

Silêncio absoluto.

- Óptimo.

Quando abriu a porta da frente e saiu, disse alguma coisa a José. Em silêncio, olharam todos para a carpete, preocupados com segunda-feira e preocupados com muitas outras coisas. Jankle, com as mãos levemente trémulas, acendeu um cigarro.

Wendall Rohr fez a sua primeira fortuna no jogo do Direito Civil quando dois operários da Shell sofreram queimaduras numa plata-forma, ao largo da Costa do Golfo. A sua parte foi de quase dois milhões e imediatamente passou a considerar-se um importante advogado de processos civis. Aplicou o dinheiro, escolheu mais alguns casos e aos quarenta anos era dono de um escritório agressivo, com boa reputação, e reconhecido nos tribunais como grande lutador. Foi por essa altura que as drogas, um divórcio e alguns investimentos infelizes o arruinaram. Aos cinquenta anos, como milhares de outros advogados, verificava títulos de propriedade e defendia raptos de automóveis. Quando uma onda de processos contra a indústria do amianto varreu a Costa do Golfo, Wendall estava outra vez no lugar certo. Fez a sua segunda fortuna e prometeu a si mesmo que não a perderia. Constituiu uma sociedade, recuperou um andar para escritórios e até chegou a arranjar uma mulher jovem. Livre do álcool e dos comprimidos, Rohr empenhou toda a sua considerável energia em processos contra a indústria americana e a favor dos lesados. Na segunda fase favorável da vida, subiu ainda mais depressa nos circuitos do Direito Civil. Deixou crescer a barba, passou a usar gel no cabelo, tornou-se radical e era adorado pelas pessoas mais informadas.

Rohr conheceu Celeste Wood, a viúva de Jacob Wood, através de um jovem advogado que tinha preparado o testamento de Jacob, um pouco antes da sua morte. Jacob Wood morreu com cinquenta e um anos depois de fumar três maços de cigarros por dia durante quase trinta anos. À data da morte, Jacob era supervisor de produção numa fábrica de barcos, ganhando quarenta mil dólares por ano.

Aos olhos de um advogado menos ambicioso, o caso não pareceria mais do que o de um fumador morto: um entre tantos outros. Mas Rohr tinha formado um círculo de conhecidos com os maiores sonhos já sonhados por advogados de barra. Todos eram especialistas em qualidade de produtos; todos tinham ganho milhões na defesa de casos de implantes de seios e de amianto. Reuniam-se várias vezes por ano e planeavam a melhor forma de minar e aproveitar o filão que eram os prejuízos causados por produtos nocivos na América. Não havia outro produto em toda a história da humanidade que, fabricado legalmente, matasse tanta gente como o tabaco. E os seus fabricantes tinham bolsos tão fundos que o dinheiro chegava a criar bolor.

Rohr ganhou o seu primeiro milhão, a que imediatamente se seguiram mais sete. Sem esforço, o grupo conseguiu recrutar ajuda da Força de Trabalho contra o Fumo, da Aliança para um Mundo Sem Cigarros e do Fundo de Responsabilidade do Tabaco, para além de um punhado de outros grupos de consumidores e vigilantes das indústrias. Constituiu-se um conselho para planear o julgamento dos lesados, conselho obviamente presidido por Wendall Rohr que era também o grande trunfo em tribunal. Quatro anos antes, com a maior mediatização possível, o grupo de Rohr tinha entrado com um processo na comarca de Harrison County, Mississipi.

De acordo com os dados recolhidos por Fitch, o caso de Wood contra Pynex era o quinquagésimo quinto deste tipo. Por vários motivos, trinta e seis não tinham chegado a tribunal. Dezasseis foram a julgamento e terminaram com veredicto a favor das tabaqueiras. Dois foram anulados sem que tenham sido repetidos. Não havia memória de a indústria tabaqueira ter pago um centavo que fosse a um queixoso.

Segundo a teoria de Rohr, nenhum dos outros cinquenta e quatro tinha sido apoiado por um grupo tão poderoso de queixosos. Nunca o queixoso fora representado por advogados com dinheiro suficiente para igualar a força dos dois lados.

Fitch admitia esta interpretação.

A longo prazo, a estratégia de Rohr era simples e brilhante. Havia cem milhões de fumadores no país, nem todos com cancro de pulmão mas, sem dúvida, em número suficiente para o manter ocupado até à reforma. Ganhar o primeiro processo, e sentar-se depois à espera das repercussões. Todas as cidades do país tinham pelo menos uma viúva chorosa que haveria de telefonar a contar o seu caso de cancro de pulmão. Rohr e o seu grupo poderiam escolher à vontade.

Trabalhava num escritório que ocupava os três últimos andares do antigo prédio de um banco, não muito distante do tribunal. Na sexta-feira à tarde abriu a porta de uma sala escura e ficou de pé, encostado à parede do fundo, enquanto Jonathan Kotlack, de San Diego, lidava com um projector. Kotlack estava encarregado da investigação e selecção do júri, embora a maior parte do interrogatório ficasse por conta de Rohr. A mesa longa ao centro da sala estava cheia de copos de café e

pilhas de papéis. As pessoas à volta da mesa, com os olhos cansados, examinavam outro rosto projectado na parede.

Nelle Robert (pronuncia-se à francesa, "Ró-ber"), de quarenta e seis anos, divorciada, violada uma vez, caixa num banco, não fuma, mas como tem excesso de peso, de acordo com a filosofia de Rohr sobre a selecção de júris, é desqualificada. Rohr nunca escolhia uma mulher gorda. Não lhe importava a opinião dos especialistas, nem o que Kotlack pensava sobre o assunto. Nunca escolhia uma gorda, especialmente se fosse solteira. Achava-as geralmente mesquinhas e insensíveis.

Rohr conhecia de cor os nomes e os rostos e já não aguentava mais. Tinha estudado aquela gente até ficar farto de todos. Saiu da sala, esfregou os olhos no corredor e desceu a escada do seu majestoso escritório em direcção à sala de conferências, onde o Comité de Documentos organizava os papéis, sob a supervisão de André Durond, de Nova Orleães. Naquele momento, quase às dez horas da noite de sexta-feira, mais de quarenta pessoas trabalhavam arduamente no escritório de advocacia de Wendall H. Rohr.

Ele e Durond conversaram durante alguns minutos, observando o trabalho dos assistentes e estagiários. Rohr saiu e, com passo mais rápido, foi para outra sala. Sentia-se cheio de adrenalina.

Os advogados das tabaqueiras estavam no outro lado da rua, a trabalhar com o mesmo afinco.

Não havia nada que pudesse ser comparado à emoção de um litígio daquela importância.

 

A sala principal do tribunal de Biloxi ficava no segundo andar, com acesso por uma escada de mosaicos que ia dar a um átrio banhado de sol. As paredes, recentemente pintadas, eram brancas e o soalho encerado brilhava.

Às oito horas de segunda-feira já havia uma multidão no átrio do lado de fora das grandes portas de madeira da sala do tribunal. Num canto, estava um pequeno grupo de jovens com fatos escuros, estranhamente parecidos uns com os outros. A maior parte usava óculos. Estavam todos bem penteados, tinham os cabelos curtos com gel e, sob elegantes casacos, viam-se suspensórios. Eram os analistas financeiros de Wall Street, especialistas nas carteiras de acções das tabaqueiras e que tinham sido enviados ao Sul para acompanhar o processo Wood contra Pynex.

Outro grupo, maior, e que crescia a cada minuto que passava, estava no centro do átrio. Neste grupo, toda a gente segurava na mão um papel: a convocação para servir como jurado. Poucos se conheciam, mas os papéis serviam de identificação e a conversa corria fácil. Vozes nervosas mas discretas enchiam o átrio do lado de fora da sala do tribunal. Os fatos escuros do primeiro grupo, imóveis, observavam os potenciais jurados. O terceiro grupo, carrancudo e de uniforme, guardava a porta. Eram pelo menos sete os polícias responsáveis por manter a segurança no primeiro dia do julgamento. Em frente da porta, dois dos polícias empunhavam um detector de metais. Outros dois, atrás de uma mesa improvisada, mexiam em rimas de papéis. Esperava-se que a sala enchesse. Os outros três polícias tomavam café em copos de papel e observavam a rapidez com que a multidão crescia.

Exactamente às oito e meia, os seguranças abriram as portas do tribunal; verificaram uma a uma as intimações dos jurados; fizeram-nos entrar na sala, um a um, passando pelo detector de metais e disseram

público que devia esperar mais alguns minutos. Tal como os analistas e até mesmo os jornalistas.

A sala, com filas de cadeiras de armar montadas nas passadeiras ao lado das cadeiras estofadas, ficava com capacidade para cerca de trezentas pessoas. Do outro lado da balaustrada de madeira que dividia a sala, em volta das mesas dos advogados, estavam agrupadas mais umas trinta cadeiras. A oficial de justiça daquela comarca, eleita pelo povo, verificava as intimações, sorria, chegou a abraçar alguns dos jurados seus conhecidos e, com grande eficiência, conduziu-os aos seus lugares. Glória Lane era oficial de justiça da comarca de Harrison County há onze anos e nem lhe passaria pela cabeça perder a oportunidade de apontar, orientar, juntar rostos aos nomes, dar apertos de mãos, agir com diplomacia e desfrutar, por breve que fosse o momento, das luzes da ribalta do mais notável julgamento em que tinha estado presente. Glória tinha três assistentes, três jovens mulheres do seu escritório e, às nove horas, os jurados estavam todos devidamente instalados, sentados em sequência numérica e ocupados a preencher uma série de formulários.

Só faltaram dois. Aparentemente, Ernest Duly tinha mudado para a Flórida, onde morreu, e não havia o mais pequeno sinal da senhora Tella Gail Ridehouser, registada como eleitora em 1959, mas que não votava desde que Carter venceu Ford. Glória Lane declarou os dois ausentes. À sua esquerda, da primeira à décima segunda fila, estavam instalados cento e quarenta e quatro potenciais jurados e, à sua direita, entre a fila treze e a dezasseis, os restantes cinquenta. Glória consultou um agente da polícia armado e, obedecendo a uma ordem escrita do juiz Harkin, foram admitidos quarenta espectadores que se sentaram nas últimas filas da sala do tribunal.

Os questionários foram preenchidos rapidamente, recolhidos pelas assistentes de Glória e, às dez horas, os primeiros dos vários advogados começaram a entrar na sala. Não entravam pela porta principal, mas por um outro lugar situado atrás da cadeira do juiz, onde duas portas conduziam a um labirinto de pequenas salas e escritórios. Todos, sem excepção, usavam fatos escuros, tinham ar sério e inteligente e tentavam a impossível façanha de examinar avidamente os jurados, fingindo ao mesmo tempo desinteresse. Todos procuravam em vão parecer preocupados com outros assuntos mais importantes, examinando pastas e papéis e conferenciando em voz baixa em volta das mesas. Aos poucos foram entrando e tomando os seus lugares. À direita estava a mesa da acusação. A da defesa ao seu lado. Não havia espaços vagos. Nem um centímetro. O espaço que mediava entre as mesas e a grade baixa de madeira que separava os advogados do público estava ocupado com cadeiras muito juntas umas das outras.

Também por ordem de Harkin a fila número dezassete estava vazia e os rapazes de Wall Street sentavam-se muito rígidos na fila dezoito, observando as costas dos jurados. Atrás deles estavam alguns jornalistas, depois uma fila de advogados da zona e outros curiosos. Rankin Fitch fingia ler um jornal na última fila.

Entraram mais advogados. Os consultores de júri de ambos os lados tomaram posição nas cadeiras espremidas entre a divisão de madeira e as mesas dos advogados. Começaram a desagradável tarefa de examinar atentamente os rostos de cento e noventa e quatro desconhecidos. Os consultores estudavam os jurados porque, primeiro, era para isso que lhes pagavam regiamente e, segundo, porque afirmavam ser capazes de analisar profundamente uma pessoa através da sua reveladora linguagem corporal. Observavam, esperando ansiosos um movimento de braços cruzados sobre o peito, de dedos a limpar nervosamente os dentes, de cabeças inclinadas para um lado, uma centena de gestos que supostamente desnudavam a pessoa, exteriorizando os seus mais secretos preconceitos.

Em silêncio, examinavam os rostos e tomavam notas. O jurado número cinquenta e seis, Nicholas Easter, foi alvo de grande número de olhares preocupados. Era um jovem de boa aparência, estava no meio da quinta fila, com as calças bem engomadas e uma camisa desportiva. Ocasionalmente olhava para a sala, mas com a atenção presa num livro que segurava nas mãos. Mais ninguém tinha pensado em levar consigo um livro.

Foram ocupadas mais cadeiras ao lado da balaustrada de madeira. A defesa tinha, nada mais, nada menos, do que seis especialistas em júris examinando tiques faciais e pontadas de hemorróidas. A acusação tinha apenas quatro.

Geralmente, aquele exame não agradava aos potenciais jurados e durante quinze desconfortáveis minutos retribuíram os olhares com rostos carrancudos. Um advogado contou uma piada ao lado da bancada e o riso aliviou a tensão. Os advogados conversavam em voz baixa, mas os jurados tinham medo de falar.

Como seria de esperar, o último advogado a entrar na sala foi Wendall Rohr e, como sempre, foi ouvido antes de ser visto. Como não tinha fato escuro, vestia a sua roupa favorita para um primeiro dia de julgamento: um casaco desportivo de xadrez cinzento, umas calças desportivas noutro tom de cinzento, um colete branco, camisa azul e gravata vermelha e amarela. Passou à frente dos advogados de defesa ignorando-os e falando ao mesmo tempo zangado com um assistente como se estivesse a acabar de o repreender. Disse uma coisa qualquer em voz alta para outro advogado de acusação e, depois de captar a atenção da sala, olhou para os potenciais jurados. Aquela era a sua gente. Aquele caso era o seu caso, julgado na sua cidade natal, e ali estava para tentar obter justiça para o seu povo. Cumprimentou um ou dois com uma inclinação de cabeça, piscou um olho a outro. Conhecia aquela gente. Juntos, iam encontrar a verdade.

A sua entrada agitou os especialistas de júri do lado da defesa, que não conheciam pessoalmente Wendall Rohr, mas que conheciam extensivamente a sua reputação. Viram os sorrisos de alguns jurados, pessoas que o conheciam. Leram a linguagem corporal quando todo o grupo de jurados pareceu descontrair-se, respondendo à presença de um rosto familiar. Rohr era uma lenda local. Fitch, na última fila da sala, amaldiçoou-o.

Finalmente, às dez e meia, um polícia saiu da porta atrás da cadeira do juiz e gritou: "Todos de pé!" Trezentas pessoas levantaram-se com um salto e o Meritíssimo Frederick Harkin subiu ao estrado e pediu a todos que se sentassem.

Era bastante jovem para juiz: cinquenta anos, democrata, nomeado pelo governador para terminar um mandato interrompido e, depois, eleito pelo povo. Pelo facto de ter sido advogado de acusação, era agora considerado "juiz de acusação", embora obviamente o não fosse. Isto era o que corria como boato entre o grupo de advogados de defesa. Na verdade, Harkin começara a sua vida laboral como praticante de Direito geral num pequeno escritório, sem que se lhe tenha conhecido em tribunal qualquer vitória digna de nota. Era muito trabalhador, mas a sua paixão sempre fora a política local, um jogo para o qual tinha grande habilidade. A sorte premiou-o com uma nomeação para a magistratura, onde agora ganhava oitenta mil dólares por ano, muito mais do que alguma vez tinha ganho como advogado.

O espectáculo de um tribunal repleto de eleitores qualificados era o bastante para aquecer o coração de qualquer detentor de um cargo de eleição e o Meritíssimo não conteve um largo sorriso ao receber o jurados nos seus domínios, como se fossem todos voluntários. O sorriso desapareceu lentamente quando terminou o breve discurso de boas-vin-das, enfatizando a importância das suas presenças. Harkin não se distinguia nem pelo calor humano que irradiava nem pelo bom humor, e rapidamente ficou sério.

Aliás, tinha uma boa razão para isso. À sua frente estavam mais advogados do que geralmente se via nas mesas de acusação e defesa. Os autos do tribunal tinham averbada uma relação de oito advogados de acusação e nove de defesa. Quatro dias antes, num tribunal fechado, Harkin tinha designado os lugares para ambos os lados. Uma vez escolhido o júri, apenas os advogados de cada uma das partes teriam assento naquelas mesas. Os outros teriam de ficar na fila de cadeiras onde os consultores de júri se sentavam agora, muito atentos. Também estipulou lugares para as partes: Celeste Wood, a viúva, e o representante da Pynex. A disposição dos lugares foi anotada por escrito e incluída num pequeno caderno de regras redigido especialmente para a ocasião pelo Meritíssimo.

Desde que tinha dado entrada na justiça que o processo era activamente acompanhado e defendido. Passados quatro anos ocupava onze caixas de arquivo de processos. Para chegar até ali, cada uma das partes gastara milhões. O julgamento deveria durar pelo menos um mês. Naquele exacto momento, e naquela sala do tribunal, estavam reunidos alguns dos maiores egos e das mentes mais brilhantes do país. Fred Harkin estava resolvido a dirigir o julgamento com mão de ferro.

Falando ao microfone, e apenas com o propósito de informar, fez uma rápida sinopse do julgamento. Era importante assegurar que todos percebessem porque estavam ali. Disse que o julgamento devia durar algumas semanas e que os jurados não seriam isolados. Explicou ainda que havia uma legislação especial para isentar um jurado do seu dever e perguntou se por acaso o computador tinha deixado passar alguém com mais de sessenta e cinco anos. Ergueram-se seis mãos.

Parecendo surpreendido, Harkin olhou para Glória Lane que encolheu os ombros como se fosse uma ocorrência apenas normal. Desde que quisessem, podiam sair imediatamente. Cinco aceitaram. Restavam por isso cento e oitenta e nove potenciais jurados. Os consultores tomaram nota e riscaram os cinco nomes. Os advogados, muito sérios, também tomaram notas.

- Agora, está presente algum cego? - perguntou o juiz. - Quero dizer, legalmente cego? - Era uma pergunta bem-humorada e provocou alguns sorrisos. Porque razão haveria um cego de se apresentar como jurado? Não havia precedentes na matéria.

Lentamente, levantou-se uma mão no seio do grupo, a meio da sétima fila. O jurado número sessenta e três, senhor Herman Grimes, ci nquenta e nove anos, programador de computadores, branco, casado, sem filhos. Que diabo era aquilo? Os especialistas, em ambos os lados, juntaram as cabeças. As fotografias do processo de Herman Grimes mostravam a sua casa e havia uma ou duas dele na varanda da frente. Morava no bairro há mais ou menos três anos. Os formulários a seu respeito não indicavam nenhuma deficiência física.

- Levante-se, por favor - disse o juiz.

O senhor Herman Grimes, vestido informalmente, levantou-se devagar, as mãos nos bolsos e com óculos aparentemente normais. Não parecia cego.

- O seu número, por favor - pediu o juiz. Ao contrário dos advogados e dos seus consultores, o juiz não tinha necessidade de memorizar as informações sobre cada um dos jurados.

- Hum, sessenta e três.

- E o seu nome é? - O juiz folheava a pilha de impressos de computador.

- Herman Grimes.

Harkin encontrou o nome e ergueu os olhos para o mar de rostos.

- E o senhor é legalmente cego?

- Sim, senhor.

- Muito bem, senhor Grimes, de acordo com a nossa lei, está dispensado do dever de jurado. Pode ir.

Herman Grimes não se mexeu, não saiu. Olhou para o pouco que podia ver e disse.

- Porquê?

-Desculpe?

- Por que é que tenho de me ir embora?

- Porque o senhor é cego.

- Isso sei eu.

- Bem, as pessoas cegas não podem servir como jurados - disse Harkin, olhando para a direita, depois para a esquerda. - Pode ir, senhor Grimes.

Herman Grimes hesitou, pensando numa resposta. A sala estava silenciosa. Finalmente perguntou.

- Quem é que disse que os cegos não podem ser jurados?

Harkin estendeu a mão para um livro de Direito. O Meritíssimo preparara-se escrupulosamente para aquele julgamento. Há precisamente um mês que não presidia a nenhum outro caso e, isolado na sua sala, dedicou-se ao estudo de petições, de procedimentos probatórios, da lei aplicável e de tudo o que de mais recente havia nas normas de procedimentos no tribunal. Tinha escolhido dezenas de júris, todos os tipos de júris, para todos os tipos de casos, e achava que tinha visto de tudo. E agora estava a ser encostado à parede nos primeiros dez minutos da escolha do júri. E, como se não bastasse, o tribunal estava superlotado.

- O senhor quer ser jurado, senhor Grimes? -perguntou ele, forçando uma atitude bem-humorada enquanto folheava as páginas do livro e olhava para a riqueza de talentos legais à sua frente.

O senhor Grimes começava a demonstrar hostilidade.

- Quero que me diga porque é que um cego não pode ser jurado. Se estiver escrito na lei, então a lei é discriminatória e eu movo um processo. Se não está escrito na lei, e é apenas uma questão de uso, então movo um outro processo, e mais rapidamente ainda.

Não restaram dúvidas de que o senhor Grimes tinha alguns conhecimentos sobre litígios judiciais.

De um lado da balaustrada de madeira estavam duzentas pessoas comuns, pessoas levadas ao tribunal pela atracção do poder da lei. Do outro estava a própria lei - o juiz, numa cadeira mais alta do que as do resto da sala, as arrogantes equipas de advogados, os funcionários do tribunal, os polícias, os meirinhos. Em nome dos convocados, o senhor Herman Grimes acabava de desferir um tremendo golpe contra o sistema e foi recompensado com risos abafados e risotas dos seus colegas. Grimes não pareceu importar-se.

Do outro lado, os advogados sorriam porque os potenciais jurados

pulavam a sorrir, a mexer-se nas cadeiras e a coçar a cabeça. Murmuravam  uns para os outros: "Nunca vi nada assim."

A lei dizia que uma pessoa cega. podia ser dispensada do júri e,assim que o juiz viu a palavra PODIA, resolveu rapidamente acalmar o senhor Grimes e deixar o seu caso para mais tarde. Não fazia sentido ser processado no seu próprio tribunal. Havia outros meios de excluí-lo do Júri . Discutiria isso mais tarde com os advogados.

- Pensando melhor, senhor Grimes, acho que o senhor seria um excente jurado. Agora sente-se, por favor.

Herman Grimes fez um gesto afirmativo, sorriu e disse cortesmente.

- Muito obrigado, senhor doutor juiz.

Como é que se avalia um jurado cego? Os especialistas ruminavam a questão, enquanto viam Grimes curvar lentamente o corpo e sentar-se. Quais seriam os preconceitos de um cego? Que lado iria ele favorecer? Num jogo sem regras, um axioma muito conhecido dizia que as pessoas com deficiências e desvantagens eram óptimos jurados para os queixosos porque compreendiam melhor o significado do sofrimento. Mas havia inúmeras excepções.

Na última fila, Rankin Fitch esticou o pescoço para a direita, na tentativa vã de captar a atenção de Cari Nussman, o homem que já havia recebido um milhão e duzentos mil dólares para escolher o júri perfeito. Nussman estava no meio dos seus consultores, segurando um bloco de notas e estudando os rostos, como se desde o princípio soubesse que Herman Grimes era cego. Acontece que isso não era verdade, e Fitch sabia-o perfeitamente. Era apenas um facto sem importância que havia escapado na sua vasta teia de investigação. Que mais terão eles deixado passar, pensou Fitch. E ia esfolar Nussman vivo, e logo no primeiro intervalo do julgamento.

- Agora, senhoras e senhores - continuou o juiz, de repente com a voz agressiva e, agora que o perigo de um processo imediato de discriminação tinha passado, ansioso por prosseguir - entramos na primeira fase da selecção do júri, fase que deverá levar algum tempo. Trataremos de doenças físicas que podem excluir algum dos convocados. Não vamos embaraçar ninguém, mas se houver algum caso de deficiência física, temos de discuti-la. Começaremos com a primeira fila.

Glória Lane ficou de pé ao lado da primeira fila e um homem de uns sessenta anos ergueu o braço, levantou-se e saiu pelo pequeno portão que dividia a sala em duas partes. Um meirinho conduziu-o ao banco das testemunhas e empurrou o microfone para longe. O juiz sentou-se na ponta da cadeira e inclinou-se para falar em voz baixa com o homem. Dois advogados, um de cada lado, tomaram posição em frente da cadeira da testemunha, tapando a vista do público. A estenógrafa completou o grupo fechado e o juiz perguntou suavemente qual era o problema do homem.

Era uma hérnia discal e tinha uma carta do médico. Foi dispensado e saiu apressadamente da sala.

Quando Harkin interrompeu os trabalhos para almoço, já tinha dispensado treze pessoas por motivos médicos. O tédio era geral. Recomeçariam à uma e meia, para fazer mais ou menos a mesma coisa.

Nicholas Easter saiu sozinho do tribunal, andou seis quarteirões até um Burger King, onde pediu um Whooper e uma coca-cola. Sentou-se ao lado da janela, vendo as crianças a andar de baloiço, lendo o USA Today e comendo devagar porque tinha uma hora e meia.

A mesma loura que tinha estado na Computer Hut com jeans muito justos vestia agora uns calções e uma camisa largos, Nikes novos e um pequeno saco de ginástica pendurado ao ombro. Encontrou Nicholas pela segunda vez quando passou pela sua mesa com a bandeja e parou.

- Nicholas - disse ela, fingindo incerteza.

Nicholas olhou para ela e, por uma embaraçosa fracção de segundo, teve certeza de já a ter visto em algum lugar, mas não se lembrava do nome.

- Não se lembra de mim? - disse ela, com um sorriso simpático. - Estive na Computer Hut há duas semanas, à procura de ....

- Sim, sim, claro que me lembro - olhou rapidamente para as pernas bronzeadas de sol --, comprou um rádio digital.

- Isso mesmo. Chamo-me Amanda. Se não estou em erro, até lhe dei o meu número de telefone. Aposto que o perdeu...

- Não se quer sentar?

- Obrigada - sentou-se rapidamente e pegou numa batata frita.

- Ainda tenho o seu número de telefone -• disse ele. - Na verdade...

- Não se preocupe. Tenho a certeza de que ligou várias vezes. O meu atendedor de chamadas está avariado.

- Não. Ainda não telefonei. Mas estava a pensar telefonar.

- Imagino - disse ela, e quase riu. Tinha uns dentes perfeitos que mostrava com prazer e o cabelo preso num rabo-de-cavalo. Era graciosa e bem feita demais para praticar corrida. E, além disso, não tinha o mais pequeno sinal de suor na cara.

- Então, o que faz por aqui? - perguntou-lhe ele.

- Vou para a minha aula de aeróbica.

- E come batatas fritas antes da aeróbica?

- Porque é que não havia de comer?

- Não sei. Parece um bocado esquisito.

- Também é preciso comer hidrates de carbono.

- Claro. E também fuma antes da aeróbica?

- Às vezes. Por isso é que não me telefonou? Porque eu fumo?

- Na verdade, não.

- Diga lá a verdade, Nicholas. Não me vou ofender - disse ela, sempre sorrindo e tentando parecer tímida.

- Tudo bem, passou-me isso pela cabeça.

- Foi o que pensei. Já alguma vez namorou com uma fumadora?

- Que me lembre, não. -Porquê?

- Sei lá, talvez não queira ser fumador passivo. Não sei, nunca pensei muito nisso.

- E você? Já alguma vez fumou? - Mordeu outra batata frita, observando-o atentamente.

- Claro. Todo os miúdos experimentam fumar. Quando tinha dez anos, roubei um maço de Camels a um canalizador que tinha ido a minha casa arranjar umas coisas. Em dois dias fumei o maço todo, e pensei que ia morrer de cancro - comeu um bocado da sanduíche.

-E foi tudo? Ele mastigou e pensou um pouco antes de responder.

- Acho que sim. Que me lembre... Porque começou a fumar?

- Por idiotice. Estou a tentar deixar.

- Óptimo. Ainda é muito jovem.

- Obrigada. Deixe-me adivinhar. Quando deixar de fumar, você liga-me...

-Talvez telefone de qualquer maneira.

- Já ouvi isso tantas vezes - disse ela, toda cheia de dentes e de provocação. Bebeu um longo gole pela palhinha e disse: - Posso perguntar-lhe o que é que está a fazer por aqui?

- Estou a comer um Whopper. E a Amanda?

- Já disse. Estou a caminho do ginásio.

- Ah, é verdade. Estou só de passagem, tenho uns negócios no centro, tive fome e entrei.

- Porque é que trabalha na Computer Hut?

- O que me quer perguntar é porque é que desperdiço a minha vida a trabalhar numa loj a para ganhar uma miséria? É isso?

- Mais ou menos...

- Sou estudante.

- Ai sim? E está a estudar onde?

- Em sítio nenhum. Estou em trânsito entre uma escola e outra.

- E qual foi a última?

- No Norte do Texas.

- E a próxima, onde é?

- Provavelmente no Sul do Mississipi.

- O que é que está a estudar?

- Informática. A Amanda gosta muito de fazer perguntas...

- Mas são todas de resposta fácil, não acha? -- Sim, acho que sim. Onde é que trabalha?

- Não trabalho. Divorciei-me de um homem rico. Não tenho filhos. Tenho vinte e oito anos, voltei a ser solteira e pretendo continuar assim, mas um namoro de vez em quando também pode ser interessante. Porque é que não me telefona?

- Rico, como? Muito rico? Ela riu e olhou para o relógio.

- Tenho de ir. A minha aula começa daqui a dez minutos. - Levantou-se, pegou no saco, deixou o tabuleiro na mesa. - Adeus.

Saiu e foi-se embora no seu pequeno BMW.

O resto dos doentes foi rapidamente dispensado do júri e, às três da tarde, o número de jurados estava reduzido a 159. Ojuiz Harkin deu ordem para um intervalo de quinze minutos e, quando voltaram a reunir-se na sala de audiências, informou que ia começar a segunda fase de selecção do júri. Fez um longo discurso sobre a responsabilidade cívica, e praticamente desafiou cada um dos potenciais jurados a declarar uma dificuldade não médica. A primeira tentativa partiu do atarefado executivo de uma empresa que se sentou no banco das testemunhas e explicou em voz baixa ao juiz, aos dois advogados e à estenógrafa que trabalhava oitenta horas por semana para uma grande empresa, que estava a perder muito dinheiro e que qualquer bocadinho fora do escritório era um autêntico desastre. O juiz mandou-o voltar

para o lugar e esperar por uma decisão.

A segunda tentativa foi a de uma mulher de meia-idade que dirigia em sua casa uma creche, aliás, sem alvará.

- A minha vida é tomar conta de crianças, Meritíssimo - murmurou ela, esforçando-se para não chorar. - É tudo o que posso e sei fazer. Ganho duzentos dólares por semana, que mal me dão para viver. Se tiver de ficar no júri, tenho de contratar uma estranha para tomar conta das crianças. Os pais não vão gostar e, além disso, não tenho meios para pagar a mais ninguém. Fico completamente arruinada.

Os potenciais jurados observaram-na com grande interesse quando desceu do banco das testemunhas, passou pela fila onde antes estava sentada e saiu da sala. A sua história devia ser muito boa.

Às cinco e meia, já tinham sido dispensadas onze pessoas e outras dezasseis, falhada a tentativa de comover o juiz, tinham sido mandadas regressar aos seus lugares. O juiz mandou Glória Lane distribuir um outro questionário, mais longo do que os anteriores, e disse aos restantes jurados que o deviam entregar devidamente preenchido na manhã seguinte. Dispensou-os com uma firme advertência sobre a desvantagem de discutir o caso com estranhos.

Naquela tarde de segunda-feira, Rankin Fitch não estava na sala quando o juiz encerrou a sessão. Estava no escritório no outro lado da rua. Não havia qualquer registo de Nicholas Easter em nenhuma das faculdade do Norte do Texas. A loura tinha gravado a curta conversa no Burger King e Fitch ouviu a cassete duas vezes. A decisão daquele segundo encontro provocado tinha sido dele. Era arriscado, mas funcionou. Naquele momento, ela já estava num avião de regresso a Washington. O atendedor de chamadas de Biloxi ia continuar ligado até acabar a selecção do júri. Se Easter resolvesse telefonar, o que Fitch duvidava, não ia encontrá-la.

 

O questionário tinha perguntas do tipo "Actualmente, fuma? Em caso afirmativo, quantos maços por dia? Em caso afirmativo, há quanto tempo fuma? Em caso afirmativo, quer deixar de fumar? Já fumou por vício? Algum membro da sua família, ou alguém que conhece bem, sofreu de alguma doença directamente associada ao fumo? Em caso afirmativo, quem? (Espaço abaixo. Por favor, indique o nome da pessoa, a doença e se se curou). Acredita que o tabaco causa a) cancro do pulmão; è) doenças cardíacas; c) hipertensão; d) nenhuma das enunciadas; e} todas as enunciadas?"

Na página três estavam os assuntos mais complexos. Qual é a sua opinião sobre a utilização do imposto sobre o tabaco para a manutenção de centros médicos destinados ao tratamento dos problemas de saúde com ele relacionados? Dê a sua opinião sobre a utilização do imposto sobre o tabaco para subsidiar os plantadores de tabaco. Dê a sua opinião sobre se se deve proibir o fumo em todos os locais públicos. Na sua opinião, quais os direitos dos fumadores? Grandes espaços em branco na folha destinavam-se a essas respostas.

Na página quatro estavam os nomes de dezassete advogados inscritos para o julgamento e seguia-se-lhe arelação de oitenta ligados, de um modo ou de outro, aos primeiros dezassete. Conhece pessoalmente algum destes advogados? Já esteve envolvido em algum processo com qualquer um deles?

Não. Não. Não. Nicholas marcou as respostas rapidamente.

Na página cinco estavam os nomes de potenciais testemunhas, sessenta e duas pessoas, incluindo Celeste Wood, a viúva e queixosa. Conhece algumas dessas pessoas? Não.

Preparou outra chávena de café instantâneo e acrescentou dois pacotes de açúcar. Na noite anterior tinha ficado a trabalhar naquelas perguntas durante duas horas. Como não conseguiu acabar, ainda teve de trabalhar durante uma hora de manhã, bem cedo, assim que o sol despontou. Comeu uma banana ao pequeno-almoço. Pensou na última pergunta e respondeu a lápis, com uma letra perfeita, quase perfeita demais: tudo em letra de forma, porque a sua escrita era quase ilegível. Sabia que, ainda antes do fim do dia, as suas palavras seriam estudadas por um grupo de grafólogos de ambas as partes, grupo que pouco se importaria com o seu sentido, centrando a atenção na maneira como desenhava as letras. Nicholas queria parecer ordeiro e cuidadoso, inteligente e de mente aberta. Capaz de ouvir com os dois ouvidos e decidir com justiça, um árbitro que as partes disputassem como jurado.

Nicholas tinha lido três livros sobre análise grafológica.

Voltou para a questão do imposto sobre o tabaco porque era a mais difícil. Tinha a resposta pronta porque havia pensado muito no assunto e queria escrever com clareza. Ou talvez vagamente. Ou, talvez ainda, de um modo que não traísse os seus sentimentos, não assustando nenhum dos lados.

Muitas daquelas perguntas tinham sido usadas no caso Cimmino, no ano anterior, em Allentown, Pennsylvania. Naquele tempo, Nicholas era David, David Lancaster, um estudante de cinema, com uma verdadeira barba negra, que trabalhava numa loja de vídeo. No segundo dia da selecção do júri, copiou o questionário antes de o entregar. Era um caso semelhante, mas com uma viúva e uma tabaqueira diferentes e, embora tivesse cem advogados envolvidos, eram todos diferentes dos desse julgamento. Apenas Fitch se mantinha.

Nicholas/David conseguiu passar nas duas eliminatórias, mas estava quatro filas atrás quando o júri foi escolhido. Rapou a barba, deitou fora os óculos comprados numa farmácia e, um mês depois, saiu da cidade.

A mesa de jogo, de armar, vibrava levemente quando escrevia. Aquela também era a sua mobília de jantar: a mesa e as três cadeiras diferentes. Na salinha à direita havia uma frágil cadeira de baloiço, uma televisão em cima de uma caixa de madeira e um sofá empoeirado, comprado numa feira por quinze dólares. Provavelmente podia alugar um mobiliário melhor, mas isso exigiria formulários e era uma pista. Lá fora, praticamente revistavam o lixo que fazia para descobrirem quem ele era.

Pensou na loura e imaginou onde iria aparecer nesse dia, sem dúvida com um cigarro na mão e ansiosa para outra conversa sobre tabaco. Nem sequer lhe passou pela cabeça a ideia de telefonar, mas gostaria de saber para qual dos lados trabalhava. Provavelmente, para as tabaqueiras: era exactamente o tipo de pessoa que Fitch gostava de usar.

Nicholas conhecia suficientemente a lei para saber que era contra a ética contratar a loura, ou qualquer outra pessoa, para abordar directamente um potencial jurado. Também sabia que Fitch tinha dinheiro suficiente para fazer a loura desaparecer sem deixar traço e reaparecer noutro julgamento como ruiva, com um penteado diferente e interessada em horticultura. Há certas coisas que não são passíveis de prova.

O único quarto era quase todo ocupado por um colchão de tamanho familiar, sem estrado, também comprado numa feira. Uma série de caixas de papelão servia de cómoda. As peças de roupa espalhavam-se pelo chão.

Era uma casa provisória, do tipo das que se usam por um mês ou dois antes de sair da cidade a meio da noite, que era exactamente o que pretendia fazer. Estava ali há seis meses e o apartamento era a sua morada oficial, pelo menos a que constava no registo de eleitor e na carta de condução do Mississipi. Tinha um apartamento melhor a seis quilómetros de Biloxi, mas não podia arriscar-se a que alguém o visse lá.

Assim, vivia feliz na pobreza, outro estudante sem dinheiro, sem bens e com poucas responsabilidades. Tinha quase a certeza de que os espiões de Fitch não tinham entrado no seu apartamento, mas não queria arriscar. Era um apartamento barato, mas cuidadosamente arrumado. Não encontrariam nada de revelador.

Às oito horas terminou o questionário e fez a última revisão. O do caso Cimmino fora respondido à mão, num estilo completamente diferente. Depois de meses de prática para mudar a letra, tinha a certeza de que não poderiam encontrar nenhuma semelhança. No caso Cimmino, havia trezentos potenciais jurados; agora, eram quase duzentos. Por que razão alguém haveria de suspeitar que ele se encontrava em ambas as listas da convocatória?

Através da fronha que cobria a janela da cozinha examinou rapidamente o estacionamento para se certificar de que não havia fotógrafos nem intrusos. Três semanas antes Nicholas tinha visto um, afundado no banco de uma pickup.

Hoje, nem sombras de espiões. Trancou a porta do apartamento e saiu a pé.

No segundo dia, Glória Lane foi muito mais eficiente na tarefa de determinar os lugares. Os cento e quarenta e oito jurados restantes ficaram do lado direito, doze em cada uma das doze filas, com quatro na passagem. Com todos no mesmo lado da sala era mais fácil comandá-los. Os questionários foram recolhidos à entrada, rapidamente copiados e distribuídos a ambas as partes. Naquele momento, em salas fechadas e sem janelas, as respostas já estavam a ser analisadas pelos consultores.

No outro lado da passagem, um grupo bem comportado de jovens da área das finanças, repórteres, curiosos e outro tipo de público olhavam para os enormes grupos de advogados que, por sua vez, estudavam os potenciais jurados. Fitch estava agora na primeira fila, mais perto da sua equipa de defesa, com um acólito bem vestido de cada lado, ambos prontos para obedecer às suas ordens.

Na terça-feira, o juiz Harkin era um homem numa missão e levou menos de uma hora para completar o exame dos impedimentos não médicos. Foram dispensados mais seis, deixando ao todo cento e quarenta e dois jurados.

Finalmente chegou a hora do espectáculo. Wendall Rohr, com o que parecia ser o mesmo casaco desportivo de xadrez, o mesmo colete branco e a mesma gravata vermelha e amarela, levantou-se e caminhou para a balaustrada para se dirigir ao "seu" público. Estalou os dedos ruidosamente, abriu as mãos e disse com um sorriso largo e quase sombrio.

- Sejam bem-vindos - disse dramaticamente, como se o que estava para acontecer fosse algo cuja lembrança guardariam para sempre com carinho. Apresentou-se, depois apresentou os membros da sua equipa que iam participar no julgamento e só então pediu à queixosa, Celeste Wood, para ficar de pé. Enquanto a apresentava aos potenciais jurados, conseguiu usar duas vezes a palavra "viúva". Celeste era uma mulher pequena, de cinquenta e cinco anos, com vestido preto, meias e sapatos pretos que não podiam ser vistos debaixo da balaustrada e um leve e doloroso sorriso de quem ainda está de luto, embora o marido já estivesse morto há quatro anos. Na verdade, já tinha estado quase para casar de novo, acontecimento que Wendall se apressou a cancelar. Tudo bem, pode amar o homem, explicou-lhe, mas faça-o discretamente e, seja como for, não pode casar antes do fim do julgamento. O factor simpatia. Supostamente, a senhora está a sofrer, disse ele.

Fitch tinha conhecimento do casamento adiado, mas também sabia que havia poucas probabilidades de o facto ser tornado público.

Depois de apresentar todos os que estavam no seu lado da sala, Rohr fez um rápido sumário do caso, uma exposição ouvida com muito interesse pelos advogados da defesa e pelo juiz. Parecia que estavam todos prestes a atacar se Rohr ultrapassasse a barreira invisível entre o facto e o argumento. Ele não a ultrapassou, mas divertiu-se sobremaneira com o suspense que criou.

Seguiu-se um longo pedido para que os jurados fossem honestos, sinceros, sem medo de levantar as suas tímidas mãozinhas se tivessem a mais pequena dúvida que fosse. "Nós, os advogados, precisamos absolutamente de perceber as vossas dúvidas para podermos conduzir os interrogatórios no sentido de vos satisfazer."

Compreendem que não podemos saber o que estão a pensar olhando simplesmente para as vossas caras - disse ele, com outro flash de dentes. Naquele momento, pelo menos oitenta pessoas na sala do tribunal tentavam desesperadamente interpretar cada sobrancelha erguida, cada lábio franzido.

Para acelerar o processo, Rohr consultou um bloco de notas e disse:

-Algum dos presentes já foi jurado noutro processo de Direito Civil? As pessoas que estej am nestas circunstâncias, por favor, levantem a mão. - Ergueu-se uma dezena de mãos obedientemente. Rohr examinou o grupo e escolheu uma mulher na primeira fila. - Senhora D. Millwood, estou certo? - Ela corou e fez um gesto afirmativo. Toda a gente na sala estava a olhar para ela, ou a esforçar-se para conseguir vê-la.

- Se não me engano, a senhora fez parte de um júri num processo de Direito Civil há alguns anos - disse Rohr, com simpatia.

- Sim - pigarreou ela, preparando-se para falar mais alto.

- Que tipo de caso foi? - É óbvio que ele conhecia o caso ao mais ínfimo pormenor: tinha sido há sete anos, naquele mesmo tribunal. Era outro juiz e o queixoso não recebeu nada. O arquivo fora copiado há algumas semanas. Rohr tinha até falado com o advogado do queixoso, que era seu amigo. Começou com aquela pergunta e com aquela jurada porque era uma forma fácil de aquecimento, uma nota suave para mostrar aos outros como era indolor levantar a mão e falar sobre o assunto.

- Foi um acidente de automóvel - disse ela.

- Onde foi o julgamento?

- Aqui mesmo.

- Ah, neste tribunal - Wendall parecia surpreendido, mas os advogados de defesa sabiam que estava a fingir.

- O júri chegou a um veredicto nesse caso? -Sim.

-E qual foi?

- Foi a favor do réu.

- E o queixoso?

- Na nossa opinião, não foi gravemente ferido.

- Compreendo. Acha que estar nesse júri foi uma experiência agradável para si?

Ela pensou por um momento e depois disse:

- Não foi mau. O pior foi o tempo perdido. Muito tempo perdido, o senhor sabe, quando os advogados se põem a discutir sobre isto, ou sobre aquilo.

Um grande sorriso.

- Sim, sim, costumamos fazer isso muitas vezes. Não há nada desse caso que influencie a sua capacidade para julgar este?

- Não, acho que não. -Muito obrigado, D. Millwood.

O marido da senhora Millwood era contabilista num pequeno hospital que fechou as portas depois de ser apanhado num caso de negligência médica. A senhora Millwood tinha toda a razão para secretamente detestar grandes veredictos. Jonathan Kotlack, o advogado da acusação encarregado da selecção final do júri, há muito tempo que tinha retirado o nome dela da lista.

Entretanto, em volta da mesa, a menos de dez passos de Kotlack, os advogados de defesa consideravam que ela tinha grandes probabilidades de ser escolhida. Joann Millwood seria um valor acrescido para a defesa.

Rohr fez as mesmas perguntas aos outros veteranos de júris e a repetição fez com que a sessão fosse monótona. Foi aí que passou para o assunto delicado da reforma das leis civis, com uma série de perguntas sobre os direitos das vítimas, os processos judiciais frívolos e o preço dos seguros. Algumas daquelas perguntas deram origem a pequenas discussões, mas ele conseguiu evitar que provocassem problemas. Era quase hora do almoço e os jurados perderam o interesse. O juiz

 Harkin determinou um intervalo de uma hora e os seguranças evacuaram a sala.

Os advogados ficaram. Glória Lane e a sua equipa distribuíram caixas com pequenas sanduíches amassadas e maçãs vermelhas. Ia ser um almoço de trabalho. Precisavam de resolver moções pendentes, de todo tipo, e o Meritíssimo estava pronto para a discussão. Foram servidos café e chá gelado.

O recurso aos questionários era uma grande ajuda para a selecção do júri. Enquanto Rohr fazia perguntas na sala do tribunal, dezenas de pessoas, noutras salas, examinavam as respostas escritas e marcavam nomes nas suas listas. A irmã de um dos potenciais jurados tinha morrido de cancro do pulmão. Sete outros tinham amigos ou parentes com sérios problemas de saúde, problemas que os potenciais jurados atribuíam ao tabaco. Pelo menos metade fumava ou já tinha fumado. A maior parte dos primeiros admitia ter vontade de deixar de fumar.

Os dados foram analisados, passados para o computador e, no meio da tarde do segundo dia, os impressos estavam a ser distribuídos e revistos. Depois de ordenar um primeiro intervalo às quatro e meia, o juiz Harkin mandou outra vez evacuar a sala e dirigiu a análise dos dados. Durante quase três horas, as respostas escritas foram discutidas e debatidas e, no final, foram retirados da lista mais trinta e um nomes. Glória Lane recebeu ordem para telefonar imediatamente a essas pessoas dando-lhes a boa-nova.

Harkin estava decidido a terminar a selecção na quarta-feira. As apresentações de abertura estavam marcadas para a manhã de quinta. Chegou mesmo a insinuar que deviam trabalhar algumas horas no sábado.

Às oito da noite de terça-feira ouviu a última moção, bem curta, e mandou os advogados para casa. Os advogados da Pynex encontravam-se com Fitch nos escritórios de Whitney & Cable & White, onde um  delicioso banquete de sanduíches frias e batatas fritas engorduradas os esperava. Fitch queria trabalhar e enquanto os advogados exaustos serviam lentamente os seus pratos de papel, dois assistentes distribuíam cópias das últimas análises grafológicas. "Comam depressa “ mandou Fitch, como se alguém pudesse pensar em saborear aquela comida. O número de jurados era agora de cento e onze e a escolha começaria no dia seguinte.

A manhã pertenceu a Durwood Cable, ou Durr, como era conhecido em toda a Costa, de onde realmente nunca saiu nos seus sessenta e um anos de vida. Como sócio mandatário da Whitney & Cable & White, Sir Durr fora cuidadosamente escolhido por Fitch para se encarregar da maior parte do trabalho de defesa da Pynex. Como advogado, depois juíz,  e agora outra vez advogado, Durr tinha passado grande parte dos últimos trinta anos a olhar para jurados e a falar-lhes. Para ele, o ambiente do tribunal era relaxante porque era um palco - nada de telefone, nem transeuntes, nem secretárias atarefadas -, cada um tinha um papel, todos seguiam um guião, com os advogados como estrelas. Movimentava-se e falava com grande convicção, mas entre os passos e as sentenças os olhos não perdiam rigorosamente nada. Enquanto o seu adversário Rohr era espalhafatoso, gregário e teatral, Durr tinha uma atitude formal e bastante fria. O obrigatório fato escuro, uma gravata dou rada bastante ousada, a camisa branca, contrastando agradavelmente como rosto bronzeado. Durr era apaixonado por pesca de alto mar e passava muitas horas no seu barco, ao sol. O alto da sua cabeça era cal vo e muito bronzeado.

Houve uma época em que esteve seis anos sem perder um caso. Foi aí que Rohr, seu inimigo, e às vezes seu amigo, o venceu num caso de acidente de dois milhões.

Aproximou-se da balaustrada e olhou sério para as cento e onze pessoas sentadas nos bancos. Sabia onde morava cada uma delas, quantos filhos e netos tinha. Cruzou os braços, levou dois dedos ao queixo, como um professor pensativo e disse com voz sonora e agradável:

- O meu nome é Durwood Cable e represento a Pynex, uma antiga tabaqueira que fabrica cigarros há oitenta anos. - Pronto! Ele não se envergonhava disso! Durante dez minutos falou sobre a Pynex, apresentando-a magistralmente como uma entidade não agressiva, cheia de calor humano, quase digna de simpatia.

Passou então destemidamente para o assunto da escolha. Enquanto Rohr tinha insistido no tema do vício, ele falou sobre a livre escolha.

- Podemos concordar com o facto de que o tabaco em excesso é perigoso? - perguntou, e viu a maioria das cabeças fazer um gesto afirmativo. - Quem é que pode negá-lo? Muito bem, então. Agora, uma vez que isso é do conhecimento geral, também podemos concordar que os fumadores devem conhecer os perigos do tabaco? - Mais gestos afirmativos, ninguém levantou a mão. Cable observou os rostos, especialmente o rosto inexpressivo de Nicholas Easter, agora na terceira fila, o oitavo a partir da passagem. Devido às dispensas dos potenciais jurados, Easter tinha deixado de ser o jurado número cinquenta e seis para passar a ser o número trinta e dois, avançando mais em cada sessão. O seu rosto não revelava nada, além de uma total atenção ao que se passava.

- Esta é uma questão muito importante - disse Cable em voz lenta, as palavras ecoando no silêncio. .Com o dedo em riste, apontou-o delicadamente e continuou. - Por acaso, há alguém neste júri que não ache que quem fuma deve conhecer os perigos do tabaco?

Esperou, observando atentamente todos os rostos e, finalmente, apanhou um. Houve alguém na quarta fila que levantou a mão. Cable sorriu, deu um passo para a frente e disse: - Sim. Se não me engano é a senhora D. Tutwiler. Levante-se, por favor. - A sua provável satisfação por encontrar um voluntário durou pouco. A senhora Tutwiler era uma mulher frágil de sessenta anos e parecia muito zangada. Ficou de pé, com as costas muito direitas, levantou o queixo e disse:

- Tenho uma pergunta para o senhor, doutor Cable.

- Certamente.

- Se todos sabem que o tabaco é perigoso, porque é que os seus clientes o continuam a fabricar?

Alguns dos jurados sorriram. Todos os olhos se voltaram para Dur-wood Cable que continuou sorrindo, calmo e impassível.

- Excelente pergunta - respondeu ele, em voz alta. Não tinha intenção de responder. - Senhora Tutwiler, a senhora acha que a produção de cigarros devia ser proibida?

- Acho.

- Mesmo quando as pessoas desejam exercer o seu direito de fumar, ou de não fumar?

- Fumar é um vício, doutor Cable, e o senhor sabe-o perfeitamente.

- Muito obrigado, senhora Tutwiler.

- Os fabricantes exageram na nicotina, viciam as pessoas e, além disso, fazem campanhas publicitárias para continuar a vender os seus produtos.

- Muito obrigado senhora Tutwiler.

- Ainda não acabei - disse ela em voz alta, segurando com força a cadeira à sua frente e parecendo mais alta. - Os fabricantes sempre negaram que o tabaco vicia. É uma mentira, e o senhor sabe isso muito bem. Porque é que não o dizem nos maços de cigarros?

O rosto de Durr continuou impassível. Esperou pacientemente e, depois, perguntou com extrema delicadeza.

- Já acabou, senhora Tutwiler?

Ela ainda queria dizer outras coisas, mas de repente pensou que talvez aquele não fosse o lugar.

- Sim - respondeu, quase num murmúrio.

-Muito obrigado. Reacções como a sua são vitais para o processo da selecção do júri. Muito obrigado. Já pode sentar-se minha senhora.

Ela olhou à sua volta para ver se alguém se ia levantar para discutir a sua opinião, mas como ninguém se manifestou, sentou-se pesadamente. A senhora Tutwiler podia perfeitamente ter ido para casa naquele momento.

Cable passou de imediato para assuntos mais delicados. Fez uma quantidade de perguntas, provocou muitas respostas e deu aos especialistas em linguagem corporal muito material para trabalhar. Terminou ao meio dia, com tempo para um rápido almoço. Harkin pediu aos jurados para voltarem às três horas mas, para os advogados, a ordem foi para almoçar depressa e regressar dentro de 45 minutos.

À uma da tarde, com a sala vazia, as portas fechadas e os advogados amontoados em volta das mesas, Jonathan Kotlack levantou-se e i nformou o tribunal.

- A acusação aceita o jurado número um.

Não foi surpresa para ninguém. O número um era Rikki Coleman, uma jovem mulher, mãe de dois filhos, que nunca tinha fumado e que trabalhava na gestão de arquivos num hospital. Kotlack e a sua equipa tinham-lhe dado nota sete, numa escala de um a dez, baseando-se nas suas respostas ao questionário, no seu trabalho na área de saúde, no facto de ter completado o curso liceal e no grande interesse demonstrado por tudo o que havia sido dito até ali. A defesa deu-lhe seis como nota, não fosse uma série de indesejáveis que seguiam o seu nome na lista, tê-la-ia recusado."

-Essa foi fácil-resmungou Harkin.-Continuando: jurado número dois, Raymond C. La Monette.

O senhor La Monette foi a primeira escaramuça estratégica na selecção do júri. Nenhuma das partes o queria-ambas lhe tinham dado quatro e meio. Fumava mui to, mas estava desesperado para deixar de fumar. As suas respostas eram completamente indecifráveis e inúteis. Os especialistas em linguagem corporal, dos dois lados, declararam que o senhor LaMonette detestava todos os advogados e tudo o que com eles estivesse relacionado. Alguns anos antes quase fora morto por um motorista bêbedo. E o processo que lhe movera não deu em nada.

De acordo com as regras de selecção de júris, cada lado tinha direito a um determinado número de impugnações peremptórias, ou eliminações, como eram chamadas, por meio das quais podia recusar um jurado sem apresentar nenhuma razão. Devido à importância do caso, o juiz Harkin tinha concedido dez impugnações para cada lado, em lugar das quatro habituais. Os dois lados queriam cortar La Monette, mas precisavam de guardar as suas impugnações para outros jurados menos desejáveis.

Foi pedido à acusação para falar primeiro e, depois de uma pequena demora, Kotlack disse:

- A acusação impugna o número dois.

- Impugnação peremptória número um da acusação - disse Harkin, enquanto tomava nota.

Uma pequena vitória para a defesa. Baseado numa decisão de última hora, Durr Cable ia recusá-lo também.

A acusação usou outra impugnação para o jurado número três, a mulher do executivo de uma companhia, e também para o número quatro. As impugnações estratégicas continuaram e praticamente dizimaram a primeira fila. Só dois jurados sobreviveram. A carnificina foi menor na segunda fila, com cinco sobreviventes às várias impugnações, duas delas do próprio tribunal. Quando a selecção passou para a terceira fila estavam escolhidos sete jurados. O oitavo na fila, Nicholas Easter, jurado número trinta e dois, era matéria desconhecida; até  aquele momento tinha prestado bastante atenção e, decerto modo, parecia desejável, embora provocasse em ambos os lados verdadeiros arrepios. Wendall Rohr, falando agora pela acusação, porque Kotlack estava em conferência com um especialista sobre dois jurados da quarta fila, usou uma das suas impugnações peremptórias para o número vinte e cinco. Era a nona impugnação da acusação. A última estava reservada para um republicano muito temido e notório, na quarta fila, se chegassem até lá. A defesa rejeitou o número vinte e seis, queimando a sua oitava impugnação peremptória. Os jurados números vinte e sete, vinte e oito e vinte e nove foram aceites. O número trinta foi impugnado pela defesa com causa válida, um pedido ao tribunal para o dispensar por motivos mútuos, sem ter sido preciso usar a impugnação de nenhum dos lados. Durr Cable pediu ao tribunal que não constasse dos autos algo que queria discutir em particular. Rohr ficou um tanto perplexo, mas não se opôs. A estenógrafa do tribunal parou de escrever. Cable entregou uma pasta fina a Rohr e outra igual ao juiz. Baixando a voz, disse:

- Meritíssimo, soubemos, por meio de certas fontes, que a jurada numero trinta, Bonnie Tyus, é viciada em Ativan. Nunca foi tratada, nunca foi presa, nunca admitiu sequer ter um problema. Certamente não o revelou nos questionários nem nos nossos breves interrogatórios. Vive discretamente, tem um emprego e um marido... embora seja já o terceiro.

- Como é que sabe isso tudo? - perguntou Harkin.

- Através de uma investigação extensiva que fizemos a todos os potenciais jurados. Meritíssimo, posso garantir que não houve qualquer contacto não autorizado com a senhora Tyus.

A descoberta fora de Fitch. Encontraram o segundo marido da senhora Tyus em Nashville, onde lavava trailers de tractores numa estação de serviço que funcionava vinte e quatro horas por dia. Por cem dólares, em dinheiro vivo, contou alegremente tudo aquilo de que se lembrava sobre a sua ex-mulher.

- Tem alguma coisa a dizer, doutor Rohr? - perguntou Harkin.

Sem hesitar um segundo, Rohr mentiu.

- Temos a mesma informação, Meritíssimo. Olhou amavelmente para Joríathan Kotlack que, por sua vez, olhou zangado para outro advogado, encarregado do grupo que incluía a senhora Tyus. Já haviam gasto mais de um milhão para a selecção do júri e deixaram passar um facto crucial!

- Muito bem. A jurada número trinta está dispensada por causa justificada. De volta aos autos. Jurado trinta e um?

- Meritíssimo, pode conceder-nos alguns minutos?-pediu Rohr.

- Sim. Mas seja breve.

Depois de trinta nomes examinados, dez tinham sido escolhidos, nove eliminados pela acusação, oito pela defesa e três dispensados pelo tribunal. Era pouco provável que chegassem à quarta fila, pelo que Rohr, restando-lhe uma única impugnação, olhou atentamente para os jurados trinta e um, trinta e dois, trinta e três, trinta e quatro, trinta e cinco e trinta e seis e murmurou para seu grupo:

- Qual é o mais indesejável? - Os dedos apontaram unanimemente para o trinta e quatro, uma mulher branca, grande e com cara de má, que desde o primeiro dia os assustava. Chamava-se WildaHaney e há já um mês que todos tinham resolvido evitar a vasta Wilda. Estudaram novamente a sua ficha mais alguns segundos e concordaram em aceitar os números trinta e um, trinta e dois, trinta e três e trinta e cinco e, embora nenhum deles fosse muito atraente, pareciam melhores do que a imensa Wilda.

Num grupo mais cerrado, a poucos metros deles, Cable e seus homens resolveram eliminar o trinta e um, aceitar o trinta e dois, impugnar o trinta e três - Herman Grimes, o cego -, aceitar o trinta e quatro, WildaHaney, e eliminar, se necessário, o trinta e cinco.

Foi assim que Nicholas Easter se tornou no décimo primeiro jurado escolhido para ouvir Wood contra Pynex. Quando o tribunal reabriu às três horas, com a presença do júri, o juiz começou a chamar os nomes dos doze escolhidos. Passaram pela pequena porta e sentaram-se nas cadeiras dos jurados. Nicholas ficou com a cadeira número dois, na primeira fila. Com vinte e sete anos, era o segundo jurado mais jovem. Eram nove brancos, três negros, sete mulheres, cinco homens, um deles cego. Três eventuais substitutos sentaram-se nas cadeiras de armar, muito juntas umas das outras, num canto do banco dos jurados. Então, durante meia hora, o juiz Harkin fez severas advertências aos jurados e aos advogados das partes envolvidas no julgamento. Qualquer tipo de contacto com jurados era passível de rigorosas sanções, penalidades monetárias e, talvez, de anulação do julgamento, eventual expulsão da Ordem de Advogados, e morte.

Proibiu os jurados de discutir o caso com qualquer pessoa, mesmo cônjuges ou companheiros e, com um sorriso alegre, despediu-se de todos, tenham uma boa-noite, vemo-nos amanhã de manhã, às nove em ponto.

Os advogados ouviam, desejando ardentemente poder sair com os jurados. Mas tinham muito que fazer. Quando todos saíram, excepto os advogados e os funcionários do tribunal, o Meritíssimo disse:

- Meus senhores, agora vamos discutir as moções que me foram apresentadas.

 

Nicholas Easter, por um lado devido a uma combinação de impaciência e tédio e, por outro, por causa da sensação de que alguém estava à sua espera, entrou discretamente pela porta das traseiras do prédio do tribunal, porta que não estava fechada à chave. Subiu a escada raramente usada e entrou num corredor estreito por trás da sala de audiências. A maior parte dos departamentos da Câmara Municipal abria às oito e já havia movimento e ruído no primeiro andar. Mas, no segundo, havia muito pouco. Nicholas Easter espreitou para dentro da sala do tribunal: estava vazia. As pastas com papéis já tinham chegado e estavam espalhadas em desordem sobre as mesas. Os advogados, provavelmente, estariam nas traseiras da sala, perto da máquina de café, contando anedotas e preparando-se para a batalha.

Nicholas Easter conhecia bem o terreno. Três semanas antes, um dia depois de ter recebido a intimação para fazer parte do júri, tinha estado perto da sala de audiências. Como estava vazia, aproveitara para explorar os corredores e os espaços à sua volta: o pequeno escritório do juiz, a sala de café - onde os advogados conversavam, sentados em frente das mesas antigas cheias de revistas e jornais -, as salas das testemunhas - com cadeiras de armar e sem janelas -, a sala onde os acusados perigosos e algemados esperavam as sentenças e, é claro, a sala do júri.

Nessa manhã, a sua intuição estava certa e dava pelo nome de Lou Dell, uma mulher atarracada de sessenta anos, com calças depoliester, ténis velhos e uma franja grisalha caída sobre os olhos. Estava sentada no corredor ao lado da porta da sala do júri, lendo um velho livro de ficção e esperando que alguém entrasse nos seus domínios. Levantou--se de um salto, pegou numa folha de papel sobre a qual estava sentada e disse.

- Bom-dia. Posso ajudá-lo? - O rosto maciço parecia um só sorriso. Os olhos brilhavam maliciosos.

- Nicholas Easter - disse ele, segurando a mão que ela lhe estendia. Ela apertou a dele com força, sacudiu-a vigorosamente e encontrou o nome. Outro largo sorriso - Bem-vindo à sala dos jurados. É o seu primeiro julgamento?

-Sim.

- Entre - disse ela, empurrando-o praticamente para dentro da sala. - Há ali café e bolinhos - puxou o braço dele e apontou para um canto. - Fui eu que os fiz - disse com orgulho, levantando um cesto com pãezinhos negros e engordurados. - É uma espécie de tradição. Trago sempre estes pãezinhos no primeiro dia. Até lhes chamo pãezinhos do júri. Prove um.

A mesa estava cheia de vários tipos de pão dispostos em bandejas, dois bules cheios de café ainda deitavam vapor. Pratos e chávenas, colheres e garfos, açúcar, natas, adoçantes de vários tipos. E, no centro da mesa, estavam os pãezinhos do júri. Nicholas tirou um: aliás, não teve outra alternativa senão tirar um.

- Faço estes pãezinhos há dezoito anos - disse ela. - Dantes punha-lhes passas, mas tive de desistir... -Revirou os olhos, como se o resto da história fosse escandaloso demais.

- Porquê?- perguntou ele.

- Fazem gases. Sabe que às vezes, na sala de audiências, o silêncio é tão grande que se conseguem ouvir os mais pequenos ruídos. Está a perceber a que é que me refiro?

- Acho que sim.

- Café?

- Muito obrigado. Bebo lá fora.

- Como queira - rodou o corpo e apontou para uma pilha de papéis no centro de uma mesa comprida.-Está ali uma lista de folhas de instruções do juiz Harkin. Ele quer que cada um dos jurados fique com uma: leia atentamente e assine por baixo. Eu depois recolho a folha com as assinaturas.

- Obrigado.

- Se precisar de mim, estou no corredor, perto da porta. É onde fico. Imagine que desta vez vão pôr um maldito polícia ao pé de mim. Quando me disseram, nem queria acreditar. Até me mete nojo. Deve ser algum incapaz, um estúpido qualquer que não consegue acertar num celeiro com uma espingarda. Mas, pronto, também é verdade que este é o maior julgamento que já aqui tivemos. Ou melhor, como processo civil. Não imagina os criminosos que já aqui estiveram. - Segurou a maçaneta da porta e puxou-a. - Se precisar de mim, estou aqui fora, querido.

A porta fechou-se e Nicholas olhou para o pão doce. Com muito cuidado deu-lhe uma pequena mordidela. Era quase só farelo e açúcar e, por segundos, pensou nos sons da sala de audiências. Voltou a pôr o pão no cesto e deitou um café num copo de plástico. Os copos de plástico tinham de desaparecer. Se queriam obrigá-lo a acampar ali quatro ou seis semanas, tinham de arranjar chávenas de vidro. E se o tribunal podia pagar aqueles bolinhos, também podia pagar croissants.

Não havia descafeinado. Nicholas deu logo conta. E também não havia água quente para o chá, para o caso de algum dos jurados não gostar de café. O almoço tinha de ser muito bom. Não ia passar seis semanas a comer salada de atum.

As doze cadeiras estavam dispostas ordenadamente em volta da mesa disposta no centro da sala. A espessa camada de poeira de que se tinha apercebido há três semanas fora limpa. A sala estava muito mais limpa e pronta para ser usada. Numa das paredes estava pregado um grande quadro negro, com giz novo e apagadores. Na parede oposta, do chão ao tecto, havia três janelas que davam para o jardim do tribunal, cheio de relva verde e fresca, embora o Verão já tivesse acabado há um mês. Nicholas olhou através de uma das janelas para o movimento nos passeios.

A lista do juiz Harkin versava sobre algumas coisas que deviam ser feitas e sobre uma série de coisas que deviam ser evitadas. Organizem-se. Elejam um líder e, se não for possível, notifiquem o juiz, que escolherá o vosso líder. Usem os botões vermelhos e brancos de jurados durante todo o julgamento. Lou Dell é a pessoa responsável pela distribuição dos botões. Tragam alguma coisa para ler. Não hesitem em pedir qualquer coisa. Não discutam o caso entre vocês enquanto não forem instruídos para isso pelo juiz. Não discutam o caso com ninguém. Ninguém mesmo. Não saiam do edifício do tribunal sem permissão expressa. Não usem o telefone sem autorização. O almoço será trazido de fora e servido na sala do júri. Todos os dias, antes do julgamento

rcomeçar às nove horas, ser-lhes-á apresentado um menu. Notifiquem i mediatamente o tribunal se virem ou ouvirem qualquer coisa suspeita que possa, ou não, estar relacionada com os seus deveres de jurado neste caso.

Estranhas advertências as duas últimas. Mas Nicholas conhecia os pormenores de um julgamento contra tabaqueiras no Leste do Texas, um julgamento que estourou no fim da primeira semana, quando descobriram que agentes misteriosos percorriam a pequena cidade oferecendo enormes quantias em dinheiro aos familiares e parentes dos jurados. Os agentes desapareceram antes de serem apanhados e nunca se soube para qual dos lados trabalhavam, embora as acusações partissem dos dois lados. Cabeças mais frias apostavam que era trabalho dos homens do tabaco. Aparentemente, o júri tinha grande simpatia por eles e a defesa ficou muito feliz quando o julgamento foi anulado.

Embora sem meios para o provar, Nicholas tinha a certeza de que Kankin Fitch era o fantasma responsável pelo subornos.

Assinou o papel e deixou-o em cima da mesa. Ouviu vozes no corredor: Lou Dell estava a cumprimentar outro jurado. A porta abriu-se com uma pancada surda e o senhor Herman Grimes entrou com a

bengala batendo àsua frente. A sua mulher acompanhava-o, atrás dele e sem o tocar, mas examinando a sala e descrevendo-a ao marido em voz baixa.

- Sala comprida, sete e meio por quatro e meio. Estás de frente para o comprimento; mesa longa no sentido do comprimento, no centro da sala, com cadeiras em volta; a cadeira mais próxima está a dois metros e meio de ti. - Ele ouvia, imóvel, movendo apenas a cabeça em cada direcção que ela descrevia. Lou Dell estava parada à porta, com as mãos na cintura, e cheia de vontade de dar um pãozinho-doce ao homem cego.

Nicholas avançou alguns passos e apresentou-se. Segurou a mão estendida de Herman e trocaram amabilidades. Cumprimentou a senhora Grimes, depois conduziu Herman para a mesa onde a comida estava disposta, serviu-lhe café num copo de plástico, pôs açúcar e natas, mexeu com a colher

e descreveu os bolinhos e os pães, desafiando Lou Dell que continuava à porta. Herman não estava com fome.

- O meu tio favorito é cego - disse Nicholas, dirigindo-se aos três. - Será uma honra se me permitir ajudá-lo durante o julgamento.

- Sou perfeitamente capaz de me defender sozinho - disse Her-man com um leve traço de indignação, mas a mulher não conseguiu disfarçar um sorriso de simpatia. Depois, piscou um olho e meneou a cabeça afirmativamente.

- Tenho a certeza de que pode - disse Nicholas. - Mas sei que há uma quantidade de pequenas coisas em que talvez lhe possa valer. Só quero ajudar.

- Muito obrigado - respondeu ele depois de uma breve pausa. - Muito obrigada-disse a mulher.

- Se precisarem de mim, estou no corredor - disse Lou Dell.

- A que horas é que queres que te venha buscar? - perguntou a senhora Grimes.

- Às cinco. Se acabar antes, telefono.-Quando acabou de falar, Lou Dell já tinha fechado a porta.

Os olhos de Herman estavam cobertos pelos óculos escuros. Tinha cabelo espesso, bem penteado, castanho a começar a ficar grisalho.

Quando ficaram sozinhos, Nicholas disse: - Temos de tratar de alguns papéis. Sente-se na cadeira que está à sua frente que eu explico-lhe do que se trata.

Herman procurou a mesa com a mão, apoiou o copo sobre a mesa e depois procurou a cadeira. Examinou-a com as pontas dos dedos, orientou-se e sentou-se. Nicholas pegou numa das folhas com as instruções e começou a ler.

Depois de se terem gasto fortunas na selecção do júri, as opiniões eram praticamente dadas de graça: todos tinham opinião. Os especialistas da defesa congratulavam-se por terem escolhido um júri tão bom, embora a maior parte das demonstrações de júbilo fossem em prole da legião de advogados que trabalhavam "24 horas por dia". Durr Cable tinha visto júris piores, mas também já tinha visto outros muito mais amigáveis. Aprendera há muitos anos que era praticamente impossível prever as acções de qualquer júri. Fitch estava feliz, ou tão feliz quanto se podia permitir, embora isso não o impedisse de discutir e resmungar contra tudo. Havia quatro fumadores no júri. Fitch prendia-se à crença tácita de que a Costa do Golfo, com as suas casas de topless, os casinos

e a proximidade de Nova Orleães, não era um mau lugar para se estar naquele momento, sobretudo tendo em conta a tolerância da região para com o vício em geral.

No outro lado da rua, Wendall Rohr e o seu grupo de advogados declararam-se satisfeitos com a composição do júri. Estavam especialmente felizes com a inesperada presença do senhor Grimes, o primeiro

jurado cego na história: pelo menos, tanto quanto conseguiam lembrar-se. () senhor Grimes insistiu em ser avaliado exactamente como os que possuíam visão e ameaçou processar o tribunal se o tratassem de modo diferente. A sua volúvel confiança nos processos aqueceu os corações de Rohr e companhia e a sua deficiência física era o sonho de qualquer advogado de acusação. A defesa apresentou todos os tipos possíveis de objecção, incluindo a incapacidade de ver as provas que seriam exibidas. O juiz Harkin permitiu que os advogados submetessem o senhor Grimes a um teste discreto, e ele garantiu que poderia ver se as provas fossem correctamente identificadas por escrito. O Meritíssimo decidiu então que um dos relatores do tribunal ficaria incumbido de descrever as provas exibidas. Inserir-se-ia uma disquete no computador em braille do senhor Grimes e, à noite, ele poderia ler essas descrições. O senhor Grimes ficou muito feliz com isso e parou de falar de processos contra a discriminação. A defesa amaciou um pouco, especialmente quando soube que o senhor Grimes tinha fumado durante muitos anos e que não tinha qualquer problema em relação à presença de fumadores.

Assim, as duas partes estavam cautelosamente satisfeitas com o

júri. Não tinham escolhido nenhum radical. Não foi detectada nenhuma atitude reprovável. Os doze tinham terminado o ensino secundário, dois eram licenciados e três tinham cursos médios. As respostas escritas de Easter faziam perceber que tinha de facto terminado o ensino secundário, mas não fora possível deslindar que tipo de formação teria posteriormente adquirido.

Os advogados, enquanto se preparavam para o primeiro dia de julgamento, meditavam sobre a grande questão, cuja resposta gostariam de adivinhar. Olhando para os mapas da posição dos jurados e estudando os rostos pela milionésima vez, interrogavam-se: "Quem será o líder?"

Todos os júris têm um líder e dele depende o veredicto. Iria aparecer imediatamente ou esperaria para tomar o controlo durante a deliberação? Naquela altura, nem os jurados o sabiam.

Às dez horas em ponto, o juiz Harkin olhou para a sala cheia e resolveu que tudo estava em ordem. Bateu levemente com o martelo e os murmúrios cessaram. Todos estavam prontos. Inclinou a cabeça na direcção do seu velho meirinho com o uniforme castanho desbotado e disse:

—Traga o juri.

Todos os olhos se voltaram para a porta ao lado do banco dos jurados. Lou Dell apareceu primeiro, conduzindo o grupo como uma galinha mãe, depois os doze seleccionados entraram em fila e ocuparam os seus lugares. Os três substitutos tomaram as suas posições nas cadeiras desdobráveis. Depois de todos se acomodarem — ajeitando as almofadas e as bainhas das saias, pondo malas e livros no chão —, os jurados pararam os seus movimentos e, evidentemente, notaram que estavam a ser examinados com ávida atenção.

—Bom-dia—disse o Meritíssimo com voz sonora e um largo sorriso. Quase todos inclinaram as cabeças em resposta.

— Vejo que todos encontraram a sala do júri e espero que se tenham organizado. — Fez-se uma pausa enquanto ele se levantava da mesa para receber os quinze formulários distribuídos e recolhidos por Lou Dell, devidamente assinados. — Já têm um líder? — perguntou.

Os doze menearam a cabeça afirmativamente ao mesmo tempo.

— Óptimo. Quem é?

—Sou eu, Meritíssimo — disse Herman Grimes, na primeira fila, e por uma fracção de segundo a defesa, todos os advogados, consultores de júri e representantes da companhia, sentiram uma pontada colectiva no peito. Depois, respiraram lentamente, sem a menor indicação de nada para além de um grande amor e afeição pelo jurado cego que era agora o líder do júri. Talvez os outros onze sentissem pena dele.

— Muito bem—disse o Meritíssimo, satisfeito com a prova de que o seu júri havia chegado a essa escolha de rotina sem aparente acrimó-nia. Já tinha visto coisas muito piores. Um júri, meio branco, meio negro, não tinha conseguido eleger um líder e acabara por zangar-se por causa do menu do almoço.

— Espero que tenham lido as minhas instruções. E continuou, lançando-se numa palestra detalhada, durante a qual repetiu por duas vezes tudo o que já havia escrito.

Nicholas Easter estava na primeira fila, segunda cadeira a partir da esquerda. Com o rosto inexpressivo, enquanto Harkin se expandia na sua lengalenga examinava os outros actores. Com um leve movimento da cabeça os seus olhos percorreram a sala. Os advogados, amontoados em volta das mesas como abutres, prontos para mergulhar sobre a mesa, sem excepção, examinavam os jurados. Iriam certamente cançar-se disso muito em breve.

Rankin Fitch estava na segunda fila, atrás da defesa, com o rosto gordo e a barbicha sinistra, olhando fixamente para os ombros do homem à sua frente. Tentava ignorar as instruções de Harkin e fingia não ter o mínimo interesse no júri, mas Nicholas não se deixou enganar. Fitch não perdia pitada.

Catorze meses antes, Nicholas tinha-o visto no tribunal que julgava

o caso Cimmino, em Allentown, Pennsylvania, exactamente como estava agora, maciço e misterioso. E tinha-o visto no passeio, em frente do tribunal em Broken Arrow, Oklahoma, durante o julgamento do caso Glavine. Ver Fitch duas vezes era mais do que suficiente. Nicholas estava informado de que agora Fitch sabia que nunca tinha estudado na Universidade do Norte do Texas. Sabia que Fitch estava mais preocupado com ele do que com qualquer outro jurado e que tinha razões para isso.

Atrás de Fitch estavam duas filas de fatos completos, clones elegantemente vestidos e com ar arrogante. Nicholas sabia que eram os rapazes preocupados de Wall Street. De acordo com o jornal da manhã, o mercado tinha resolvido não apresentar nenhuma reacção à composição do júri. As acções da Pynex mantinham-se estáveis, a oito dólares cada uma. Nicholas não conseguiu conter um sorriso. Se se levantasse de repente gritando: «Acho que a queixosa deve receber milhões!», os clones sairiam a correr da sala e, à hora do almoço, a Pynex teria sofrido uma queda de dez pontos.

As outras três — Trellco, Smith Greer e ConPack — também se mantinham estáveis no mercado de acções.

Nas primeiras filas estavam os pequenos grupos de almas-penadas que Nicholas achava que deviam ser especialistas em júris. Agora que a selecção estava feita, movimentavam-se para a fase seguinte: a da vigilância. Eram encarregados da desagradável tarefa de ouvir cada palavra de cada testemunha e prever como o júri absorvia cada depoimento. A estratégia baseava-se no princípio de que quando uma determinada testemunha causava no júri uma impressão considerada prejudicial, por mais leve que fosse, devia ser imediatamente mandada para casa. Talvez fosse possível usar outra testemunha mais forte para reparar o dano causado. Nicholas não estava muito certo disso. Tinha lido o suficiente sobre os consultores de júri, chegou a assistir a um seminário em St. Louis, onde os advogados de barra contavam histórias de guerra sobre grandes veredictos, mas não estava convencido de que aqueles especialistas em aparar as arestas fossem mais do que artistas de uma farsa.

Afirmavam que eram capazes de avaliar os jurados apenas observando as suas reacções corporais ao que era dito no tribunal, por menores que fossem. Nicholas sorriu outra vez. E se enfiasse o dedo no nariz e o deixasse ali cinco minutos? Como seria interpretada essa pequena expressão de linguagem corporal?

Não conseguiu classificar o resto dos espectadores. Sem dúvida havia muitos repórteres e a habitual colecção de entediados advogados locais e de outros frequentadores dos tribunais. A mulher de Herman Grimes estava numa fila do centro, sorrindo beatificamente, cheia de orgulho pelo facto de o marido ter sido escolhido para uma posição tão importante. O juiz Harkin terminou a sua ladainha e apontou para Wendall Rohr que se levantou devagar, abotoou o casaco de xadrez e, com todos os dentes falsos à mostra para os jurados, caminhou para a barra com um passo imponente. Era a sua exposição de abertura, na qual, conforme explicou, pretendia resumir o seu caso. A sala ficou em silêncio.

Provaria que o tabaco provoca cancro de pulmão e, mais exactamente, que o falecido senhor Jacob Wood, uma óptima pessoa, teve cancro de pulmão depois de fumar cigarros Bristol durante mais de trinta anos. Os cigarros mataram-no, anunciou Rohr solenemente, puxando a barbicha grisalha. A sua voz era rasante mas clara, capaz de flutuar para cima e para baixo, para alcançar o melhor tom dramático.

Rohr era um artista, um actor experiente, e o seu laçarote sempre enviesado, os dentes estalando e a roupa mal combinada eram artifícios destinados a fazer despertar a simpatia do homem comum. Não era perfeito. Deixava para os advogados de defesa, com os seus fatos escuros impecáveis e as suas caras gravatas de seda, a tarefa de se dirigir aos jurados do alto da sua importância. Mas Rohr não o fazia. Aquela era a sua gente.

Como provar que o tabaco provoca cancro? Na verdade, iriam observar um grande número de provas. Para começar, levariam a tribunal os mais eminentes especialistas e investigadores de cancro do país. Sim, isso mesmo, esses grandes homens estavam a caminho de Biloxi para se sentarem ali e conversar com o júri. Para explicarem inequivocamente e com inúmeras estatísticas que o tabaco, de facto, provoca o cancro.

Em seguida, e Rohr permitiu-se um sorriso malicioso ao preparar a revelação seguinte, a acusação apresentaria ao júri pessoas que haviam trabalhado na indústria do tabaco. A "roupa suja" ia ser lavada no tribunal, ali, naquela sala. Estavam a caminho provas indiscutíveis.

Resumindo, a acusação provaria que o tabaco, por conter substâncias cancerígenas naturais, pesticidas e partículas radioactivas, provoca cancro do pulmão.

Nesse momento havia poucas dúvidas no tribunal de que Wendall Kohr não só podia prová-lo como o iria fazer com relativa facilidade. Fez uma pausa, ajeitou as pontas do seu laçarote com os dez dedos gordos consultou os seus apontamentos e, com voz solene, começou a falar sobre Jacob Wood, o falecido. Pai adorado e homem de família, trabalhador, católico devoto, membro da equipa de softball da igreja, um veterano. Começou a fumar quando era ainda garoto e, tal como a maior parte das pessoas naquele tempo, desconhecia os perigos do fumo. Avô... e assim por diante.

Por momentos, Rohr exagerou o dramatismo mas parecia estar perfeitamente consciente disso. Discorreu brevemente sobre a área danificada e anunciou que essa avaliação era de enorme importância A acusação preparava-se certamente para pedir uma grande soma. Não só uma indemnização à família pelo valor económico da vida de Jacob Wood e pela perda do seu amor e afeição, mas também uma indemnização punitiva.

Rohr estendeu-se um pouco sobre a indemnização punitiva, perdeu o fio à meada por uma ou duas vezes e ficou claro, para a maior parte dos jurados, que estava tão confiante numa grande indemnização punitiva que perdeu a concentração.

O juiz Harkin, nas suas instruções escritas, concedia uma hora a cada uma das partes para a apresentação de abertura e prometia, por escrito, interromper qualquer advogado que excedesse esse tempo. Embora, como todos os advogados, Rohr tivesse tendência para reforçar exageradamente os seus argumentos, sabia que não era prudente desobedecer ao relógio do juiz. Terminou em cinquenta e cinco minutos com um apelo sombrio à justiça, agradeceu a atenção dos jurados, sorriu, estalou os dentes e sentou-se.

Cinquenta minutos numa cadeira, sem conversar e quase sem se mexer, são como horas e o juiz Harkin sabia disso. Anunciou um intervalo de quinze minutos, depois do qual a defesa faria a sua apresentação inicial.

Durwood Cable terminou a sua exposição em menos de trinta minutos. Fria e deliberadamente garantiu aos jurados que a Pynex tinha os seus próprios especialistas, cientistas e investigadores que explicariam com clareza que o tabaco não é responsável pelo cancro do pulmão. O cepticismo dos jurados estava previsto e Cable pediu apenas paciência e abertura de espírito. Sir Durr falou sem consultar qualquer apontamento e cada palavra proferida foi deliberadamente gravada nos olhos de um jurado: os seus olhos moviam-se pela primeira fila, depois erguiam-se levemente para a segunda, ao encontro dos olhares curiosos, um de cada vez. A sua voz e o seu olhar eram quase hipnóticos, mas honestos. Dava vontade de acreditar nele.

 

A primeira crise ocorreu à hora do almoço. O juiz Harkin determinou o intervalo às doze e dez e todos esperaram em silêncio que os Jurados saíssem da sala. Lou Dell esperava-os no corredor estreito e *conduziu-os imediatamente à sala do júri.

— Sentem-se. — disse ela — O café foi feito agora e o almoço será servido em breve.

Quando os doze já estavam na sala, Lou Dell fechou a porta e foi ao encontro dos três substitutos, separados numa sala mais pequena ao fundo do corredor. Com os quinze nos seus respectivos lugares, voltou ao seu posto e olhou carrancuda para Willis, o polícia de serviço com uma arma carregada no cinto.

Lentamente, os jurados espalharam-se pela sala, uns espreguiçando-se ou bocejando, outros continuando as apresentações formais — a maioria conversando sobre o tempo. Os movimentos e a conversa eram um tanto forçados, facto perfeitamente compreensível entre pessoas que, de um momento para o outro, se vêem fechadas numa sala com completos estranhos. Sem nada para fazer a não ser almoçar, a refeição parecia ser um acontecimento importante. O que seria o almoço? Qualquer coisa decente, com certeza!

Herman Grimes sentou-se à cabeceira da mesa, o lugar apropriado para o líder, pensou, e começou a conversar com Millie Dupree, uma boa alma de cinquenta anos que conhecia outra pessoa cega. Nicholas Easter apresentou-se a Lonnie Shaver: era o único homem negro do júri e estava visivelmente contrariado com aquela responsabilidade. Shaver dirigia um supermercado de uma grande cadeia e era o negro com a mais alta posição na empresa. Era nervoso e tenso e tinha dificuldade em descontrair. A ideia de passar as próximas quatro semanas longe do supermercado era-lhe assustadora.

Passaram-se vinte minutos sem que o almoço aparecesse. Exactamente ao meio dia e meia, Nicholas disse do outro lado da sala:

- Herman, onde é que está o almoço?

- Sou apenas o líder - respondeu Herman com um sorriso para todos que, de repente, ficaram muito quietos.

Nicholas foi até à porta, abriu-a e chamou Lou Dell.

- Estamos com fome - disse ele.

Lou Dell baixou lentamente o livro que estava a ler, olhou para os outros onze rostos e disse:

- Está a chegar.

- De onde vem? - perguntou Nicholas.

- Da O'Reilly's Deli. É já ali, na esquina. - Lou Dell não gostou das perguntas.

- Escute: estamos aqui presos como se fôssemos animais de estimação... - Disse Nicholas. - Não podemos sair para comer como gente normal. Não compreendo por que razão não confiam em nós para atravessar a rua e saborear um bom almoço. - Nicholas deu um passo para ela e olhou zangado para a franja grisalha sobre os olhos de Lou Dell. - O almoço não vai ser uma luta todos os dias, pois não?

- Não.

- Sugiro que telefone e descubra onde está o nosso almoço, ou terei de resolver o assunto com o juiz Harkin.

-Tudo bem. A porta fechou-se e Nicholas foi até à cafeteira.

- Você foi um bocado indelicado, não acha? - perguntou Millie Dupree. Os outros ouviram com atenção.

- Talvez tenha sido, e talvez deva pedir desculpa. Mas se não acertarmos as coisas desde o início, vão esquecer-se de nós.

- A culpa não é dela - disse Herman.

- A obrigação dela é tomar conta de nós. - Nicholas foi até à mesa e sentou-se ao lado de Herman. - Sabia que em quase todos os outros julgamentos os jurados estão autorizados a sair para comer? - Os outros aproximaram-se deles.

- Como é que você sabe? - perguntou Millie Dupree, do outro lado da mesa.

Nicholas encolheu os ombros, como se soubesse muita coisa que não podia dizer

- Sei um pouco sobre o sistema.

- E como é que sabe? — perguntou Herman. Depois de uma pausa, Nicholas falou.

— Frequentei a faculdade de Direito durante dois anos. — Tomou um longo gole de café enquanto os outros avaliavam essa interessante informação.

A estatura de Easter entre os seus pares aumentou imediatamente.

Era amistoso e prestativo, cortês e inteligente. Mas agora foi silenciosamente elevado de posto porque conhecia a lei.

Ao meio dia e quarenta e cinco, o almoço ainda não tinha chegado. Nicholas calou-se bruscamente e abriu a porta. Lou Dell estava a olhar para o relógio no corredor.

— Eu mandei o Willis saber... — disse, nervosa. — Deve estar mesmo a chegar. Lamento imenso.

— Onde é a casa de banho dos homens? — perguntou Nicholas.

— É já ali, à direita — respondeu ela com alívio, apontando. Nicholas não parou na casa de banho, seguiu em frente, desceu as

escadas de serviço e saiu para a rua. Andou dois quarteirões na rua Lamuese até chegar ao Vieux Marche, uma galeria pedonal com lojas elegantes, ao lado do que era antigamente o Centro Comercial de Biloxi. Conhecia bem a zona porque ficava a quatrocentos metros do seu apartamento. Gostava dos cafés e das pastelarias do Vieux Marche. Havia tambem uma boa livraria.

Nicholas virou à esquerda e entrou num prédio grande e branco onde ficava o Mary Mahoney 's, um restaurante famoso onde grande parte da comunidade dos profissionais de direito se reunia para almoçar quando havia audiências. Uma semana antes, Nicholas tinha ensaiado este passeio e chegou até a almoçar numa mesa perto do Meritíssimo Frederick Harkin.

Nicholas entrou no restaurante e perguntou à primeira empregada que viu se o juiz Harkin estava. Sim. «E onde está ele?» A rapariga apontou e Nicholas passou rapidamente pelo bar, atravessou um pequeno pátio e entrou na espaçosa sala do restaurante com janelas, muito sol e muitas flores frescas. Estava repleto mas viu o Meritíssimo numa mesa de quatro lugares. Harkin viu-o chegar e o seu garfo parou no ar com um camarão grelhado espetado na ponta. Reconheceu um dos seus jurados.

—Desculpe a interrupção, doutor... — disse Nicholas, parando perto da mesa cheia de pão quente, saladas verdes e copos grandes de chá gelado. Glória Lane, a secretária da circunscrição, também ficou muda por um momento. A outra mulher era a estenógrafa do tribunal e a terceira a secretária particular de Harkin.

— O que é que está aqui a fazer? — perguntou Harkin, com um pedaço de queijo de cabra no lábio inferior.

— Estou aqui em representação do júri.

— Qual é o problema?

Nicholas inclinou-se para evitar escândalos.

— Estamos com fome — afirmou com uma aparente fúria contida nos dentes cerrados e claramente absorvida pelos quatro rostos espantados. — Enquanto vocês estão aqui a saborear um bom almoço, nós estamos sentados numa sala apertada à espera da comida que, por algum motivo desconhecido, não consegue encontrar o caminho do tribunal. Com todo o respeito, estamos com fome, senhor juiz. E estamos zangados.

O garfo de Harkin bateu no prato com força e o camarão foi para o chão. Atirou o guardanapo sobre a mesa, resmungando qualquer coisa ininteligível. Olhou para as três mulheres, levantou as sobrancelhas e disse:

—Muito bem, vamos ver isso.

Levantou-se, seguido pelas três mulheres, e os cinco saíram do restaurante.

Lou Dell e Willis não estavam nos seus postos quando Nicholas, o juiz Harkin e as três mulheres entraram no corredor e abriram a porta da sala do júri. A mesa estava vazia — não havia o mais pequeno sinal de comida. Faltavam cinco minutos para a uma hora. Os jurados pararam de falar e olharam para o juiz.

— Já passou quase uma hora — disse Nicholas, apontando para a mesa vazia.

A surpresa dos outros jurados ao verem o juiz transformou-se imediatamente em fúria.

— Temos direito a um tratamento digno — disse Lonnie Shaver, irritado, desarmando completamente o juiz Harkin.

— Onde está Lou Dell? — perguntou o juiz, olhando na direcção das três mulheres. Todos olharam para a porta no momento em que Lou Dell entrou a correr. Parou de repente quando viu o juiz. Harkin olhou-a, furioso.

— O que é que se passa aqui? — perguntou com voz firme.

— Acabo de falar com o restaurante —justificou-se Lou Dell ofegante e assustada, com gotas de suor no rosto. — Houve uma confusão. Dizem que alguém telefonou a dizer para não trazerem o almoço antes da uma e meia.

— Estas pessoas estão com fome — respondeu Harkin, como se Lou Dell não o soubesse. — Uma e meia?

— Foi só um engano. Alguém fez confusão.

— Qual é o restaurante?

— O'Reilly's.

—Lembre-me de falar com o dono.

— Sim, senhor.

O juiz voltou-se para os jurados.

—As minhas desculpas. Isto não voltará a repetir-se. — Parou por um segundo, consultou o relógio e disse com um sorriso: — Convido-os para almoçar comigo no Mary Mahoney 's. — Virou-se para a secretária e disse: — Telefone para o Bob Mahoney e mande preparar a sala do fundo.

Almoçaram tortas de caranguejo e peixe grelhado, ostras frescas e o famoso bolo do Mahoney. Nicholas Easter era o homem do momento. Quando terminaram a sobremesa, alguns minutos depois das duas e meia, acompanharam o juiz Harkin, num passo descansado, até ao tribunal. Quando o júri estava apostos para a sessão da tarde, já todos os presentes tinham ouvido a história do seu esplêndido almoço.

Neal O'Reilly, dono do restaurante em falta, encontrou-se mais tarde com o juiz Harkin e jurou sobre a Bíblia que alguém, uma mulher jovem, que afirmou ser do tribunal, deu instruções específicas para que o almoço fosse enviado exactamente à uma e meia.

A primeira testemunha do julgamento foi o falecido Jacob Wood, num depoimento gravado em vídeo, alguns meses antes da sua morte. Dois monitores de vinte polegadas foram instalados diante do júri e outros seis em volta da sala. A instalação foi efectuada enquanto o júri se banqueteava no Mary Mahoney.

Jacob Wood estava apoiado em travesseiros, no que parecia ser uma cama de hospital. Vestia uma t-shirt branca simples e estava coberto com um lençol da cintura para baixo. Magro e pálido, recebia oxigénio por um pequeno tubo que ia da parte posterior do pescoço esquelético até ao nariz. Quando lhe disseram para começar o depoimento olhou para a câmara e disse o seu nome e morada. Tinha uma voz áspera e doentia. Sofria também de efisema.

Embora estivesse rodeado de advogados, o rosto de Jacob era o único que aparecia. Ocasionalmente ouvia-se uma pequena discussão entre os advogados, em off, mas Jacob não se alterava com isso. Tinha cinquenta e um anos, parecia dez anos mais velho e estava claramente às portas da morte.

Orientado pelo seu advogado, Wendall Rohr, começou por contar a sua história desde o nascimento, o que lhe levou quase uma hora. Infância, primeiros estudos, amigos, moradas. A Marinha, o casamento, os empregos, filhos, hábitos, passatempos, amigos adultos, viagens, férias, netos, planos para a reforma. Ver um homem morto a falar era de certa forma fascinante, a princípio, mas os jurados cedo se aperceberam que a vida daquele homem fora tão monótona como a deles. Começou a digestão do almoço pesado e logo o júri começou a mexer--se impaciente. Cérebros e pálpebras ficaram preguiçosos. Até Her-man, que só podia ouvir a voz e imaginar o rosto, ficou entediado. Felizmente, o Meritíssimo também começou a sentir os efeitos do almoço e, depois de uma hora e vinte minutos, anunciou um breve intervalo.

Os quatro fumadores do júri precisavam de um intervalo e Lou Dell, cheia de boa vontade, conduziu-os a uma sala com a janela aberta, perto da casa de banho dos homens, um cubículo normalmente usado por delinquentes juvenis à espera de comparecer perante o juiz.

— Se não deixarem de fumar depois deste julgamento, alguma coisa está errada — disse ela, tentando fazer humor. Nem um sorriso dos quatro. Saiu e fechou a porta. Jerry Fernandez, trinta e oito anos, vendedor de automóveis, com uma grande dívida nos casinos e um péssimo casamento, foi o primeiro a acender o cigarro e depois, com o seu isqueiro, acendeu os cigarros das três mulheres. Todos deram grandes passas, soltando nuvens de fumo na direcção da janela.

— A Jacob Wood—brindou Jerry.                                      ,;

As três mulheres ficaram caladas. Estavam demasiado ocupadas: Fumavam.

Grimes, o líder, já havia feito uma breve palestra sobre a ilegalidade de discutir o caso. O juiz Harkin insistira tanto nesse ponto que ele seria obrigado a não tolerar qualquer discussão sobre o assunto. Mas Herman estava na outra sala e Jerry era curioso.

— Será que o velho Jacob alguma vez tentou largar o tabaco? — disse ele para a plateia.

Sylvia Taylor-Tatum, dando uma furiosa passa num cigarro muito fino, respondeu:

— Tenho a certeza de que em breve o saberemos. — Soltou uma corrente de fumo azulado pelo nariz longo e pontiagudo.

Jerry adorava alcunhas e para ele Sylvia já era «a Poodle», por causa do rosto estreito, do nariz fino e grande e do cabelo grisalho muito crespo dividido ao meio da cabeça e caindo em camadas espessas até aos ombros. Devia ter pelo menos um metro e oitenta, era muito angulosa e a testa constantemente franzida não convidava a qualquer aproximação. A Poodle queria que a deixassem sozinha.

— Imagino quem será o próximo — disse Jerry, tentando começar uma conversa.

— Acho que todos aqueles médicos — respondeu Poodle, olhando pelajanela.

As outras duas mulheres fumavam sem qualquer reacção e Jerry desistiu.

O nome da mulher era Marlee, pelo menos esse era o nome que tinha escolhido para aquele período da sua vida. Tinha trinta anos, cabelo castanho, curto, olhos castanhos e estatura média. Era magra e tinha o cuidado de se vestir discretamente para não chamar a atenção. Ficava muito bem comjeans justos e saias curtas. Na verdade, ficava bem com roupa ou sem ela, mas nesse momento não queria dar nas vistas. Era a terceira vez que entrava naquele tribunal: a primeira, há duas semanas, durante outro julgamento, e a segunda durante a selecção do júri, neste julgamento das tabaqueiras. Conhecia bem o tribunal e os arredores, sabia onde ficava o escritório do juiz e onde Harkin almoçava. Sabia os nomes dos advogados da acusação e da defesa, o que não era fácil, dado o seu exagerado número. Tinha lido os autos e sabia em que hotel Rankin Fitch se escondia enquanto durasse o julgamento.

Durante o intervalo, Marlee entrou pela porta da frente, passando pelo detector de metais, e chegou à fila de trás da sala do tribunal. Os espectadores espreguiçavam-se e os advogados conspiravam em grupos. Viu Fitch de pé num canto, conversando com duas pessoas que deviam ser consultores de júri. Ele não a viu. Havia cerca de cem pessoas na sala.

Passaram-se alguns minutos. Observava atentamente a porta perto da cadeira do juiz e, quando a estenógrafa entrou na sala com uma chávena de café, Marlee compreendeu que o juiz não ia demorar. Tirou um envelope da bolsa, esperou um segundo e deu alguns passos na direcção de um dos seguranças que guardavam a porta. Com um sorriso encantador, falou-lhe.

— Pode fazer-me um favor? Ele quase sorriu e viu o envelope.

— Posso tentar.

— Preciso de sair. Podia entregar isto ao cavalheiro que está naquele canto? Não quero interromper a conversa dele.

O segurança olhou na direcção apontada, esforçando os olhos.

— Qual deles?

— O homem grande do meio, com a barba, casaco escuro. Nesse momento o meirinho entrou e gritou.

— Ordem na sala!

Ela entregou o envelope e apontou para o nome escrito.

— Rankin Fitch. Obrigada. — Bateu de leve no braço dele e saiu da sala.

Fitch inclinou-se, disse qualquer coisa em voz baixa a um dos seus homens, e foi para o fundo da sala quando o júri entrou. Normalmente, depois da escolha do júri, Fitch passava pouco tempo na sala de audiências. Não precisava. Tinha outros meios para assistir ao julgamento.

O segurança deteve-o à porta e entregou-lhe o envelope. Fitch sobressaltou-se ao ver o seu nome escrito. Era um desconhecido, uma sombra sem nome que não se apresentava a ninguém e que vivia sob um nome falso. A sua empresa chamava-se Arlington West Associates, tão inofensiva e impessoal quanto podia ser. Ninguém sabia o seu nome — excepto, é claro, os seus empregados, os seus clientes e alguns dos advogados que contratava. Olhou para o segurança sem um agradecimento e foi para o átrio olhando incrédulo para o envelope. A letra era sem dúvida feminina. Abriu o envelope e tirou a única folha de papel branco que lá estava dentro. Bem no centro da folha estava escrita a seguinte mensagem: «Caro senhor Fitch. Amanhã, o jurado número dois, Easter, vai usar uma camisola cinzenta com uma risca vermelha, umas calças caqui engomadas e sapatos de pele castanhos com atacadores.»

José, o motorista, afastou-se do chafariz público e ficou ao lado do chefe como um cão de guarda obediente. Fitch releu o bilhete e olhou para José. Foi até aporta, abriu-a ligeiramente e pediu ao segurança para sair da sala.

— Qual é o problema? — perguntou o segurança, consciente de que o seu lugar era lá dentro, encostado à porta. O segurança era um homem que obedecia a ordens.

— Quem é que lhe deu isto? — perguntou Fitch, com a maior delicadeza de que era capaz. Os dois seguranças encarregados do detector de metais observavam curiosos.

— Uma mulher. Não sei o nome dela.

— Quando?

— Um pouco antes de o senhor sair. Há um minuto. Fitch olhou em volta.

— Ainda aqui está?

— Não — respondeu, depois de olhar rapidamente para os lados.

— Pode descrevê-la?

Ele era um polícia e os polícias são treinados para reparar nas coisas.

— Claro. Vinte e poucos anos. Um metro e setenta, talvez um e setenta e cinco. Cabelo castanho curto. Olhos castanhos. Magra. Bonita !

— Como é que estava vestida?

Não tinha notado mas não podia admiti-lo.

—Hum... um vestido de cor clara, beige, algodão, abotoado à frente.

Fitch pensou um segundo e perguntou.

— Que é que ela lhe disse?                                             

— Nada de especial. Pediu-me para lhe entregar o envelope e foi-se embora.

— Alguma característica especial no modo de falar?              

— Não. Agora tenho de voltar para a sala.                           

— Claro. Obrigado.

Fitch e José desceram pela escada e passaram pelos corredores do primeiro andar. Saíram e andaram em volta do prédio do tribunal, fumando, como se estivessem ali para respirar um pouco de ar fresco.

O depoimento de Jacob Wood gravado em vídeo quando estava vivo durou dois dias e meio. O juiz Harkin, depois de cortar as brigas entre os advogados, as interrupções das enfermeiras e as partes irrelevantes do testemunho, reduziu-o a duas horas e trinta e um minutos.

Duas horas e meia que pareceram dias. Até certo ponto, era interessante ouvir o pobre homem contar a sua história de fumador... mas os jurados cedo começaram a desejar que Harkin tivesse feito mais cortes. Jacob começou a fumar Redtops aos dezasseis anos porque todos os seus amigos fumavam Redtops. Rapidamente passou a fumar dois maços por dia. Deixou o Redtops quando saiu da Marinha porque casou e a mulher o convenceu a fumar um cigarro com filtro. Ela queria que ele parasse de fumar. Ele não podia e começou a fumar Bristol, porque os anúncios diziam que tinha baixo teor de nicotina. Com vinte e cinco anos fumava três maços por dia. Lembrava-se bem disso porque o seu primeiro filho nasceu quando Jacob tinha vinte e cinco anos e Celeste Wood disse que se ele não deixasse de fumar não viveria para ver os netos. Ela recusava-se a comprar cigarros quando fazia as compras. Por isso, o próprio Jacob comprava o tabaco. Fumava uma média de dois pacotes por semana, vinte maços, e geralmente comprava um ou dois maços entre pacotes.

Estava desesperado para largar o tabaco. Certa vez, depois de duas semanas sem fumar, levantou-se da cama no meio da noite para voltar ao tabaco. Muitas vezes reduziu a dose: passou para dois maços por dia, depois para um maço, e chegou a procurar a ajuda de um hipnotizador. Tentou a acupunctura e até umas pastilhas elásticas de nicotina. Mas simplesmente não conseguiu. Não conseguiu deixar depois de diagnosticado o enfisema, e não deixou quando soube que tinha cancro.

Foi a coisa mais idiota de toda a sua vida, e agora, com cinquenta e um anos, estava a morrer por causa dos cigarros. Por favor, implorou entre acessos de tosse, se fumam, parem já.

Jerry Fernandez e Poodle trocaram um olhar.

Melancolicamente, Jacob começou a falar do que lhe fazia mais falta. Falou da mulher, dos filhos, netos, amigos, da pesca em Ship Is-land, etc. Celeste, ao lado de Rohr, começou a chorar baixinho e logo Mi11ie Dupree, jurada número três, ao lado de Nicholas Easter, começou a enxugar as lágrimas com um lenço de papel.

Por fim, a primeira testemunha disse as suas últimas palavras e os monitores ficaram vazios. O Meritíssimo agradeceu ao júri a sua óptima prestação no primeiro dia de audiências e prometeu outra agradável sessão no dia seguinte. Depois, muito sério, fez uma severa advertência a respeito de não poderem discutir o caso com ninguém, nem com o cônjuge ou companheiro. Além disso, e mais importante, se alguém tentar estabelecer qualquer tipo de contacto com um jurado, este deverá imediatamente informar o tribunal. Insistiu neste ponto uns bons dez minutos. Depois, dispensou-os até às nove horas da manhã seguinte.

Haja algum tempo que Fitch andava a pensar revistar o apartamento de Easter e agora era mesmo necessário. Seria fácil. Mandou José e um agente chamado Doyle ao prédio em que Easter morava. Nesse momento, é claro, Easter estava no banco dos jurados, sofrendo com a desventura de Jacob Wood. Era vigiado por dois homens de Fitch, para a eventualidade de um intervalo inesperado.

José ficou no carro, vigiando a porta da frente e Doyle entrou. Subiu um lance de escadas e encontrou o apartamento 312, no fim do corredor pouco iluminado. Não se ouvia nenhum som dos apartamentos vizinhos. Estavam todos fora: todos trabalhavam.

Sacudiu a maçaneta frouxa, depois agarrou-a com firmeza e inseriu uma fita de plástico de oito polegadas entre a porta e o batente. A fechadura estalou, a maçaneta girou. Abriu cuidadosamente a porta: alguns centímetros apenas. Esperou, para o caso de haver um alarme ou bip. Nada. O prédio era velho, os apartamentos baratos e o facto de Easter não ter um sistema de alarme não o surpreendeu.

Num instante estava lá dentro. Usando uma máquina pequena com flash, fotografou rapidamente a cozinha, a sala, a casa de banho e o quarto. Tirou fotografias pormenorizadas das revistas dispostas sobre a mesa, dos livros empilhados no chão, dos CD em cima da aparelhagem e do software disperso em volta de um PC bastante sofisticado. Tendo cuidado para não tocar em nada, encontrou uma camisola cinzenta com uma risca vermelha pendurada no armário e fotografou-a. Abriu o frigorífico e fotografou o interior, depois os armários da cozinha.

O apartamento era pequeno, com móveis baratos, mas notava-se um esforço para o manter limpo. O ar condicionado estava estragado. Doyle fotografou o termostato. Ficou menos de dez minutos no apartamento, tempo suficiente para tirar dois rolos de fotografias e determinar que Easter, de facto, morava sozinho. Não havia o menor sinal de outra pessoa, muito menos de uma mulher.

Doyle trancou a porta com cuidado e saiu silenciosamente. Dez minutos depois estava no escritório de Fitch.

Nicholas saiu do tribunal a pé e, por coincidência, parou no balcão do O'Reilly's, no Vieux Marche, onde comprou 250 gramas de peru fumado e uma dose de salada de macarrão. Voltou para casa sem pressa, aproveitando o sol depois de um dia fechado no tribunal. Comprou uma garrafa de água mineral no armazém da esquina e bebeu-a enquanto caminhava. Parou para ver os meninos negros num jogo feroz de basquetebol, no estacionamento de uma igreja. Entrou num pequeno parque e, por momentos, quase despistou o homem que o seguia. Mas saiu do outro lado, ainda bebendo a água pela garrafa, certo agora de que estava a ser seguido. Um dos mercenários de Fitch, Pang, um pequeno asiático com boné de basebol, quase entrou em pânico no parque. Nicholas viu-o através de uma cerca alta de buxo.

À porta do apartamento, tirou um pequeno cartão magnético e digitou o código de quatro números. A pequena luz vermelha ficou verde e ele abriu a porta.

A câmara de vigilância estava escondida num ventilador de ar, mesmo por cima do frigorífico, e abrangia toda a cozinha, a sala e a porta da casa de banho. Nicholas foi direito ao computador e em poucos segundos verificou que ninguém tinha tentado ligá-lo e que uma «entrada Não Autorizada no Apartamento — havia ocorrido exactamente às dezasseis horas e cinquenta e dois minutos.

Nicholas respirou fundo, olhou em volta e resolveu revistar o apartamento. Não esperava encontrar nenhuma prova da invasão. A porta não parecia diferente, a maçaneta frouxa, fácil de ser aberta. A cozinha e a sala estavam exactamente como as tinha deixado. Os únicos objectos de valor — aparelhagem estereofónica e CD, a televisão, o computador — pareciam intocados. No quarto, não encontrou sinal nem de ladrão nem de crime. De volta ao computador, sustendo a respiração, esperou o show. Procurou entre uma série de arquivos, encontrou o programa e desligou o vídeo de vigilância. Carregou em dois botões para fazer o vídeo voltar para as quatro e cinquenta e dois da tarde. Voilà! A preto e branco, no monitor de dezasseis polegadas, a porta do apartamento abriu-se e a câmara virou-se directamente para ela. Abriu muito pouco, enquanto o visitante esperava o alarme. Nenhum alarme, a porta abriu-se mais e o homem entrou. Nicholas parou o vídeo e examinou o rosto no monitor. Nunca o tinha visto antes.

O vídeo continuou. O homem tirou a máquina do bolso e o flash começou a piscar. Andou por todo apartamento, desapareceu por um momento no quarto, onde continuou a tirar fotografias. Examinou o computador por um momento, mas não tocou nele. Nicholas sorriu. Era impossível entrar no seu computador. Aquele gorila não era sequer capaz de encontrar o interruptor.

O homem permaneceu no apartamento durante nove minutos e treze segundos e Nicholas não podia imaginar porque só tinha aparecido nesse dia. O mais provável era que Fitch soubesse que o apartamento estaria vazio enquanto estava no tribunal.

A visita não era assustadora, mas inesperada. Nicholas estudou o vídeo outra vez, riu baixinho, depois guardou-o para utilização futura.

 

Fitch estava na parte de trás da carrinha de vigilância às oito horas da manhã seguinte, quando Nicholas Easter saiu para o sol e olhou à volta do estacionamento. A carrinha tinha o logotipo de um canalizador na porta e um número de telefone fictício em letras verdes.

- Lá está ele. - Doyle anunciou e todos se agitaram.

Fitch pegou no telescópio, focou rapidamente através de uma das janelas pintadas de negro e disse. -Bolas!

- O que foi? - perguntou Pang, o técnico coreano que seguira Nicholas na véspera.

Fitch inclinou-se para a janela redonda, com a boca aberta, o lábio superior dobrado para baixo.

-Macacos me mordam. Camisola cinzenta, calça caqui, meiabranca, sapatos de couro castanhos.

- A mesma camisa da fotografia? - perguntou Doyle.

- A mesma.

Pang apertou um botão no rádio portátil e alertou outro homem que estava a dois quarteirões dali. Easter ia a pé, provavelmente caminhava na direcção do tribunal.

Easter comprou um copo grande de café e um jornal no armazém da esquina e sentou-se no parque durante vinte minutos a ler as notícias. Usava óculos escuros e estava atento a qualquer pessoa que passasse por perto.

Fitch foi directamente para o escritório, na mesma rua do tribunal, para conferenciar com Doyle, Pang e um ex-agente do FBI chamado Swanson.

- Temos de encontrar a rapariga - repetiu Fitch várias vezes.

Planearam deixar um homem na última fila de cadeiras do tribunal, outro no lado de fora, perto da escada, outro perto da máquina de refrigerantes no primeiro andar e outro ainda na rua, com um rádio. A cada intervalo, trocariam de posto. A descrição imprecisa da mulher foi passada  adiante. Fitch resolveu sentar-se no lugar que ocupara no dia anterior e fazer as mesmas coisas.

Swanson, especialista em vigilância, não estava muito seguro da eficácia do plano.

- Não vai funcionar - disse Swanson.

- porquê? - interrogou Fitch.

- Porque ela é que o vai descobrir a si. Ela quer dizer-lhe alguma coisa, portanto acabará por fazer o próximo movimento.

- Talvez. Mas quero saber quem ela é.

- Relaxe. Ela encontra-o.

Fitch discutiu com ele quase até às nove horas, depois dirigiu-se apressadamente para o tribunal. Doyle falou com o segurança e convenceu-o a indicar-lhe a rapariga se ela aparecesse outra vez.

Nicholas tinha escolhido Rikki Coleman para conversar enquanto i(miavam café e comiam croissants, na sexta-feira de manhã. Rikki tinha trinta anos e era engraçadinha, casada, dois filhos e trabalhava como arquivista num hospital particular em Gulfport. Era fanática por ..u ide e evitava cafeína, álcool e, claro, nicotina. O cabelo louro curto, com corte masculino, e os belos olhos azuis pareciam ainda mais boni-tos atrás dos óculos. Estava sentada num canto, com um sumo de laranja à sua frente e lia o USA Today quando Nicholas se aproximou e lhe dirigiu uma frase simpática.

- Bom-dia. Acho que ontem não nos apresentámos oficialmente. Ela sorriu, uma coisa que fazia com facilidade, e estendeu a mão.

- Rikki Coleman.

- Nicholas Easter. Muito prazer.

- Obrigada pelo almoço de ontem - disse ela, com uma risada curta.

-Não tem de quê. Posso? - perguntou ele, indicando com a cabeça a cadeira ao lado dela.

- Claro. - Pôs o jornal no colo.

Os doze jurados estavam acomodados quase todos em pequenos ;• inpos numa descontraída conversa matinal. Herman Grimes estava so/,inho na sua querida cadeira na cabeceira da mesa, segurando o café com as duas mãos e sem dúvida atento para ouvir qualquer palavra indiscreta sobre o julgamento. Lonnie Shaver também estava sozinho sentado à mesa, examinando impressos de computador do seu supermercado. Jerry Fernandez estava com a Poodle no corredor os dois a fumar.

— Então, o que acha de ser jurada?— perguntou Nicholas.

— Acho que é fácil.

— Alguém tentou suborná-la na noite passada?    —Não. E a si?

— Não. É uma pena, porque o juiz Harkin vai ficar terrivelmente desapontado se ninguém nos tentar subornar.

— Porque será que ele insiste tanto na ilegalidade desse contacto? Nicholas inclinou-se um pouco para a frente, mas não demais Ela

fez o mesmo, olhando de soslaio para o líder, como se pudesse vê-los Com o prazer normal da proximidade e privacidade de duas pessoas atraentes, continuaram a conversa. Apenas umflirt inocente sem consequências.                                                                   

- Já aconteceu antes. Várias vezes — disse ele, quase num murmúrio.

Ao lado dos bules de café, as senhoras Gladys Card e Stella Hulic riram alto de alguma coisa que viram no jornal.

— O que é que já aconteceu antes? — perguntou Rikki.

— Contaminação do júri em casos contra fabricantes de cigarros Na verdade, acontece quase sempre, e é em geral um problema provocado pela defesa.

— Não compreendo — disse ela, acreditando e querendo mais informação do rapaz com dois anos de faculdade de Direito

—Houve vários casos em todo o país e a indústria do tabaco ainda não foi atingida por um veredicto desfavorável. Gastam milhões com a defesa porque não podem perder. Um único grande veredicto a favor da acusação e os diques abrem-se. — Parou de falar, olhou em volta e bebeu um gole no café. — É por isso que usam todo o tipo de truques

— Por exemplo?

— Por exemplo, oferecer dinheiro a membros das famílias dos jurados. Espalhando boatos na comunidade do falecido, que tinha quatro amantes, que batia na mulher, que roubava os amigos, que ia à igreja só aos funerais e que tinha um filho homossexual.

Ela franziu a testa incrédula e ele continuou:

— É verdade e é um facto conhecido em todos os círculos legais. O juiz Harkin sabe disso, tenho a certeza, por isso é que insiste tanto no assunto.

— Não podem ser desmascarados?

— Ainda não. São muito espertos, muito astutos, muito desonestos e não deixam nenhuma pista. Além disso, têm milhões. — Fez uma pausa e Rikki olhou para ele atentamente. — Espiaram-nos antes da selecção do júri.

— Não!

— É claro que sim. É o procedimento habitual nos grandes julgamentos. A lei proíbe-os de ter contacto directo com qualquer possível jurado antes da selecção, por isso fazem tudo o que é possível sem precisar desse contacto. Provavelmente fotografaram a sua casa, o seu carro, os seus filhos, o seu marido, o seu posto de trabalho. Podem ter falado com os seus colegas, escutado as conversas no escritório ou no restaurante onde costuma almoçar. Nunca se sabe.

Ela pôs o copo de sumo de laranja no parapeito da janela.

— Isso parece ilegal, ou contra a ética, ou coisa parecida.

— Coisa parecida. Mas eles conseguem, porque você não tem a mínima ideia do que estão a fazer.

— Mas você sabia?

— Sabia. Vi um fotógrafo num carro, em frente da minha casa, e mandaram uma mulher à loja onde trabalho para provocar uma discussão sobre a nossa campanha contra o fumo. Eu sabia exactamente o que estavam a fazer.

— Mas você disse que o contacto directo é proibido.

— Sim, mas não disse que eles fazem jogo limpo. É justamente o contrário: passam por cima de qualquer lei para ganhar o caso.

— Porque é que não disse isso ao juiz?

— Porque era uma coisa inofensiva e porque sabia o que eles estavam a fazer. Agora no júri estou atento a cada movimento deles.

Tendo despertado a curiosidade dela, Nicholas achou melhor deixar o resto para mais tarde. Consultou o relógio e levantou-se rapidamente.

— Vou até à casa de banho antes de começar a sessão.

Lou Dell entrou intempestivamente na sala, fazendo a porta estremecer nas dobradiças.

— Está na hora — disse ela, com voz firme, como uma conselheira de acampamento com menos autoridade do que procurava demonstrar.

O número de espectadores estava reduzido a metade. Nicholas examinou os rostos, enquanto os jurados se sentavam e ajeitavam as velhas almofadas. Fitch estava no mesmo lugar, agora com a cabeça parcialmente escondida por um jornal, como se não tivesse nenhum interesse no júri, como se pouco se importasse com o que Easter vestia. Mais tarde iria examinar Easter com atenção. Não havia nenhum repórter na sala, mas um ou outro apareceu durante o dia. Os homens de Wall Street pareciam extremamente entediados já àquela hora. Eram todos jovens, recém-formados, mandados para o Sul porque eram principiantes e os seus chefes tinham coisas mais importantes para fazer. A senhora Herman Grimes estava no mesmo lugar e Nicholas interrogou-se sobre se ela iria comparecer todos os dias, ouvindo tudo e sempre pronta para ajudar o marido na sua tarefa.

Nicholas esperava ver o invasor do seu apartamento, talvez não nesse dia, mas noutro momento qualquer. Naquela manhã não estava na sala.

— Bom-dia — disse o juiz Harkin calorosamente para o júri, quando todos estavam nos seus lugares. Sorrisos por toda a parte, do juiz, dos funcionários — até dos advogados, que interromperam as suas

efabulações em voz baixa para brindar o júri com sorrisos falsos.__

Espero que estejam todos bem. —Parou, esperando os gestos afirmativos um tanto constrangidos dos quinze jurados. — Óptimo. A encarregada informou-me que estão todos preparados para um dia cheio.__

Era difícil imaginar Lou Dell como encarregada de alguma coisa.

O Meritíssimo ergueu então uma folha de papel com a lista de questões que os jurados iriam aprender a odiar. Parou de sorrir e disse:

— Agora, senhoras e senhores do júri, vou fazer uma série de perguntas, todas muito importantes, e quero que respondam se acharem necessário. Quero lembrar também que a omissão da resposta, quando for o caso, pode ser considerada como um acto de desacato punível com prisão.

Esperou que a advertência severa flutuasse na sala. Os jurados sentiram-se culpados só de ouvi-la. Convencido de que atingira o seu objectivo, começou as perguntas. Alguém tentou falar-vos sobre este julgamento? Receberam algum telefonema fora do habitual desde o intervalo de ontem? Algum estranho os vigiou a vocês ou a algum membro da vossa família? Ouviram rumores ou boatos sobre qualquer membro deste julgamento? Sobre um dos advogados? Sobre as testemunhas? Desde o intervalo de ontem, alguém entrou em contacto com os vossos amigos ou parentes para falar sobre o julgamento? Viram ou receberam material escrito relacionado de algum modo com este julgamento?

Entre uma pergunta e outra, o juiz fazia uma pausa e olhava para cadajurado, depois, aparentemente desapontado, voltava à lista.

O que pareceu estranho aos jurados foi a expectativa que parecia envolver as perguntas. Os advogados ouviam todas as palavras, certos de que iam ouvir respostas abomináveis. Os funcionários do tribunal, geralmente ocupados com papéis ou provas a exibir, ou fazendo uma porção de coisas que nada tinham a ver com o julgamento, estavam completamente imóveis e atentos, à espera da confissão de algum jurado. A expressão severa do juiz e as sobrancelhas erguidas depois de cada pergunta desafiavam a integridade de cadajurado, como se considerasse cada silêncio como uma prova de má-fé. Quando terminou, disse suavemente:

— Muito obrigado. —E toda a sala respirou. Os jurados sentiram-se agredidos. O Meritíssimo bebeu alguns goles de café de uma chávena

alta e sorriu para Wendall Rohr.

— Chame a sua próxima testemunha, doutor Rohr.

Rohr levantou-se, com uma mancha castanha no centro da camisa amarrotada, o laçarote torto como sempre, os sapatos largos e cada dia mais sujos. Inclinou a cabeça e sorriu calorosamente para os jurados. Quase instintivamente, todos lhe sorriram.

Rohr tinha um consultor de júri encarregado de anotar tudo o que os jurados vestiam. Se um dos homens estivesse com botas à cowboy, Rohr tinha um par de reserva. Na verdade, dois pares — com ponta fina ou redonda. Estava preparado para usar ténis no momento oportuno.

Fez isso uma vez, quando apareceram ténis no banco dos jurados. O juiz, não Harkin, chamou-lhe a atenção em particular, no seu escritório. Rohr explicou que tinha um problema nos pés e mostrou uma carta do especialista que o tratava. Podia usar calças engomadas, gravatas de malha, casacos desportivos de poliester, cintos de cowboy, meias brancas, mocassins baratos (engraxados ou muito usados). O seu guarda-roupa ecléctico era propositado, para um contacto mais íntimo com aqueles que tinham de sentar-se ali e ouvi-lo falar seis horas por dia.

— Gostaríamos de chamar o doutor Milton Fricke — anunciou Rohr. O doutor Fricke fez o juramento, sentou-se e o meirinho ajustou o

microfone. Ficaram logo todos a saber que o seu currículo podia ser medido ao quilo — um grande número de diplomas de várias escolas, centenas de artigos publicados, dezassete livros, experiência de anos como professor universitário, décadas de pesquisa sobre os efeitos do fumo. Era um homem pequeno com rosto perfeitamente redondo e óculos de aros negros. Parecia um génio. Rohr levou quase uma hora a apresentar aquela espantosa colecção de credenciais. Quando finalmente todos estavam convencidos de que Fricke conhecia a fundo o assunto, Durr Cable não quis fazer nenhuma pergunta.

— Estipulámos que o doutor Fricke é especialista na sua área — disse Cable. Sem dúvida uma classificação bastante atenuada do verdadeiro valor da testemunha.

Com a passagem do tempo, a sua área de actividade ficou mais limitada e agora o doutor Fricke passava dez horas por dia a estudar os efeitos do tabaco no corpo humano. Era director do Instituto de Pesquisas Contra o Tabaco, em Rochester, Nova Iorque. O júri ficou a saber que fora contratado por Rohr, muito antes da morte de Jacob Wood, e que esteve presente na autópsia realizada ao senhor Wood, horas depois da sua morte. E que tinha tirado algumas fotografias da autópsia.

Rohr acentuou a existência das fotografias, sem deixar dúvida alguma de que os jurados as veriam mais cedo ou mais tarde. Mas Rohr ainda não estava pronto. Precisava de passar mais tempo com aquele extraordinário especialista na química e na farmacologia dos efeitos do fumo. Fricke demonstrou que era um óptimo professor. Discorreu cautelosamente sobre ponderosos estudos médicos e científicos, evitando as palavras difíceis e dando aos jurados o que podiam entender. Sempre calmo e completamente confiante.

Quando o juiz anunciou o intervalo para almoço, Rohr informou o tribunal de que o doutor Fricke ocuparia o banco das testemunhas durante o resto do dia,

O almoço esperava-os na sala dos jurados, servido pelo próprio senhor O'Reilly, que pediu desculpas pelo que tinha acontecido na véspera.                     ;

Pratos de papel e garfos de plástico? — disse Nicholas, quando todos, menos ele, estavam sentados.

O senhor O'Reilly olhou para Lou Dell que perguntou:

— Qual é o problema?

— O problema é que deixámos bem claro que queríamos comer em pratos de louça com garfos a sério. Não foi isto que conversámos? — Nicholas estava a levantar a voz e alguns jurados desviaram o olhar. Tudo o que queriam era comer.

— Qual é o problema destes pratos? — perguntou Lou Dell, nervosa, com a franja a tremer.

— Absorvem a gordura, certo? Ficam esponjosos e deixam manchas na mesa, compreende? Por isso pedi especificamente pratos de louça. E garfos. — Pegou num garfo de plástico, partiu-o e deitou-o no lixo. — E o que me deixa realmente furioso, Lou Dell, é o facto de que neste momento o juiz, todos os advogados e os seus clientes, as testemunhas, os funcionários do tribunal, o público espectador e todas as

pessoas relacionadas com o julgamento estão a almoçar num bom restaurante, com pratos e copos verdadeiros e garfos que não se partem. E estão a escolher comida boa de entre um menu variado. É isso que me deixa danado. E nós, os jurados, as pessoas mais importantes em todo o maldito julgamento, estamos aqui presos como crianças no jardim  de infância, à espera dos nossos biscoitos e das nossas limonadas.

— A comida é muito boa — disse o senhor O'Reilly, defendendo a sua parte.

— Eu acho que está a exagerar — respondeu a senhora Gladys, uma senhora pequena e empertigada com cabelo branco e voz suave.

— Pois então, coma a sua sanduíche gordurosa e não se meta — disse Nicholas asperamente, com muita agressividade.

— Será que me vai mostrar o traseiro todos os dias à hora do almoço? — perguntou Frank Herrera, um coronel reformado, de uma terra qualquer no Norte. Herrera era baixo e gordo, com mãos pequenas e, até então, com opinião formada sobre quase tudo. Foi o único que ficou realmente decepcionado por não ter sido escolhido para líder do júri.

Jerry Fernandez já o tinha apelidado de Napoleão. Nap, para abreviar. Coronel Retardado era uma alternativa.

- Ontem não ouvi ninguém reclamar — respondeu Nicholas.

- Vamos comer. Estou esfomeado — respondeu Herrera, desembrulhando uma sanduíche. Alguns outros fizeram o mesmo.

O aroma da galinha assada e das batatas fritas encheu o ar. Quando o senhor O'Reilly acabou de desembrulhar um prato com salada de macarrão, disse:

- Não há problema: na segunda-feira, terei muito prazer em trazer

pratos e garfos.

Nicholas disse «obrigado» em voz baixa e sentou-se para almoçar.

O acordo foi fácil, os pormenores foram resolvidos entre dois velhos amigos, durante um almoço de três horas, no Clube 21, na rua cinquenta e dois. Luther Vandemeer, director executivo da Trellco e seu antigo protegido, Larry Zell, agora director executivo da Listing Foods, tinham discutido as bases por telefone, mas precisavam de se encontrar enquanto comiam e bebiam onde ninguém pudesse ouvi-los. Vandemeer descreveu os pontos básicos da última grande e séria ameaça em Biloxi e não escondeu a sua preocupação. A Trellco não era uma das acusadas, mas toda a indústria estava sob fogo cerrado e as Quatro Grandes continuavam firmes. Zell sabia disso. Trabalhara dezassete anos na Trellco e há muito tempo que tinha aprendido a odiar advogados.

Uma pequena cadeia de supermercados, a Hadley Brothers, em Pensacola, tinha algumas lojas ao longo da costa do Mississipi. Uma delas ficava em Biloxi e o seu gerente era um jovem negro inteligente chamado Lonnie Shaver. Acontece que Lonnie Shaver fazia parte do júri em Biloxi. Vandemeer queria que a SuperHouse, uma cadeia de supermercados muito maior, na Georgia e nas Carolinas, comprasse a Hadley Brothers. A SuperHouse era uma das vinte e poucas divisões da Listing Foods. Seria uma transacção pequena — a equipa de Vandemeer já havia feito os cálculos — que não custaria à Listing mais de seis milhões. A Hadley Brothers era uma empresa particular, de modo que o negócio não chamaria muito a atenção. No ano anterior a Listing Foods tivera um lucro bruto de dois mil milhões, portanto seis milhões não seriam problema. A empresa tinha oito milhões em dinheiro e poucas dívidas. E para adoçar a transacção, Vandemeer prometeu que a Trellco compraria discretamente a Hadley Brothers dentro de dois anos se Zell quisesse desfazer-se dela.

Nada podia falhar. A Listing e a Trellco eram completamente independentes uma da outra. A Listing já era dona de outras cadeias de supermercados. A Trellco não estava envolvida directamente no litígio em Biloxi. Era um simples aperto de mão para selar um acordo entre dois amigos.

Mais tarde, é claro, teriam de fazer algumas modificações nos funcionários da Hadley Brothers, os ajustes normais inerentes a qualquer compra ou fusão. Vandemeer daria a Zell algumas instruções para pressionar Lonnie Shaver.

E tudo tinha de ser feito rapidamente. O julgamento tinha o fim previsto para dali a quatro semanas. A primeira semana terminaria dentro de poucas horas.

Depois de um breve repouso no seu escritório no centro de Manhatan, Luther Vandemeer telefonou para Biloxi e pediu a Rankin Fitch para telefonar a Hamptons no fim de semana.

O escritório de Fitch ficava nas traseiras de uma loja de preços baixos, fechada há alguns anos. O aluguer era barato, o estacionamento fácil, ninguém notava o local e ficava a pequena distância do tribunal. Fitch tinha cinco salas grandes, todas construídas apressadamente com divisórias de madeira prensada, sem pintura. A serradura ainda estava no chão. Os móveis baratos, alugados, consistiam especialmente em mesas dobráveis e cadeiras de plástico. A iluminação estava a cargo de um grande número de lâmpadas fluorescentes. As portas externas reforçadas. Dois homens armados guardavam ininterruptamente o conjunto de salas.

Se tinham economizado na adaptação das salas, nada foi poupado no equipamento. Havia computadores e monitores por toda a parte. Fios para faxes, copiadoras e, sem utilidade aparente, estendiam-se telefones pelo chão. Fitch tinha a tecnologia mais moderna e as pessoas certas para manipular os aparelhos.

As paredes de uma das salas estavam cobertas com grandes fotografias dos quinze jurados. Havia impressos de computador presos com punaises numa outra parede e um funcionário acrescentava dados num bloco, debaixo do nome de Gladys Card.

A sala das traseiras era a menor e o seu acesso estritamente proibido aos funcionários comuns, embora todos soubessem o que acontecia lá dentro. A porta trancava automaticamente do lado de dentro e Fitch tinha a única chave que existia. Era uma sala de projecção, sem janelas, um ecrã gigante na parede e meia dúzia de poltronas confortáveis. Na tarde de sexta-feira, Fitch e dois especialistas em júris sentaram-seno escuro, olhando para o ecrã. Os consultores preferiam não perder tempo em conversas inúteis com Fitch e este não estava disposto a fazer sala com eles. Silêncio.

A câmara era uma Yumara XLT-2, uma pequena unidade que se encaixava quase em qualquer sítio. A lente tinha meia polegada de diâmetro e amáquina toda pesava menos de meio quilo. Meticulosamente instalada por um dos homens de Fitch, estava agora numa velha pasta de couro, no chão da sala do tribunal, debaixo da mesa da defesa, vigiada discretamente por Oliver McAdoo, um advogado de Washington e o único estrangeiro escolhido por Fitch para se sentar ao lado de Cable. A tarefa de McAdoo consistia em pensar na estratégia, sorrir para os jurados e fornecer documentos a Cable. A sua verdadeira missão, conhecida somente por Fitch e poucos outros, era entrar no tribunal todos os dias sobrecarregado com os instrumentos da luta, incluindo duas grandes malas castanhas em tudo idênticas, uma das quais continha a máquina, e sentar-se mais ou menos sempre no mesmo lugar, ao lado da mesa da defesa. Era o primeiro advogado da defesa a entrar na sala todas as manhãs. Instalava a câmara na pasta de couro, de pé, virada para o banco dos jurados e ligava rapidamente para Fitch, de um telemóvel, para ajustar o foco.

Durante o julgamento, havia sempre cerca de vinte malas espalhadas pela sala, a maior parte em cima ou debaixo da mesa dos advogados, mais algumas reunidas perto da cadeira da estenógrafa, outras debaixo das cadeiras onde trabalhavam os advogados de segunda linha, outras ainda encostadas à balaustrada de madeira, aparentemente abandonadas. Embora de tamanhos e cores diversas, todas se pareciam, incluindo a de McAdoo que, ocasionalmente, abria uma das suas para retirar papéis. Mas a outra, a que continha a câmara, era fechada tão hermeticamente que só com um explosivo poderia ser aberta. A estratégia de Fitch era simples — se, por algum motivo, a câmara atraísse a atenção de alguém, na confusão que se seguiria, McAdoo simplesmente trocava as malas e esperava que nada mais acontecesse.

A possibilidade de ser descoberta era mui to remota. A câmara não fazia ruído algum e os sinais que enviava não eram detectados por ouvidos humanos. A pasta ficava perto de várias outras e ocasionalmente era empurrada ou até chutada, mas era fácil fazer o reajustamento. McAdoo simplesmente procurava um lugar tranquilo e telefonava para Fitch. Tinham aperfeiçoado o sistema durante o julgamento de ('immino no ano anterior, em Allentown.

A tecnologia era fantástica. A pequena lente capturava a largura e a profundidade do banco dos jurados e enviava os quinze rostos, a cores, para o outro lado da rua, para a pequena sala de projecção de Fitch i onde dois consultores de júri passavam o dia todo a estudar cada pequeno gesto, cada bocejo.

Conforme o que acontecia no banco dos jurados, Fitch tinha uma conversa com Durr Cable, informando-o de que a sua equipa havia verificado isto ou aquilo. Nem Cable nem os advogados da defesa jamais saberiam da existência da câmara.

A câmara gravou reacções dramáticas na tarde de sexta-feira. In-Iclizmente estava com o foco fixo no banco dos jurados. Os japoneses ainda estavam para fabricar uma câmara capaz de abranger, de dentro de uma mala fechada, vários pontos de interesse. Assim, a câmara não podia ver as fotos ampliadas dos pulmões murchos e escuros de Jacob Wood, mas os jurados sem dúvida que as viam. Enquanto Rohr e o i doutor Fricke continuavam com o seu roteiro, os jurados, sem excepção,  olhavam com horror para a devastação impressionante infligida durante trinta e cinco anos.

Rohr sabia escolher o momento certo. As duas fotos estavam montadas num grande tripé diante dos jurados e quando o doutor Fricke terminou o seu testemunho, às cinco e quinze, estava na hora do intervalo para o fim da semana. A última imagem que os jurados levariam com eles, a imagem na qual iriam pensar nos próximos dois dias e da qual não poderiam livrar-se, era a dos pulmões calcinados, retirados do corpo e colocados sobre um lençol branco.

 

Durante o fim de semana Easter fez um caminho fácil de seguir. Saiu do tribunal na sexta-feira e, uma vez mais, foi a pé até a O'Reilly's Deli, onde conversou algum tempo com o senhor O'Reilly. Os dois sorriam. Easter comprou alimentos e bebidas. Foi direito ao apartamento e não saiu mais. Às oito horas da manhã de sábado foi de carro até à loja e trabalhou num turno de doze horas vendendo computadores e acessórios. Comeu tacos e feijões fritos no Food Garden com Kevin, um adolescente que trabalhava com ele.

Não comunicou de modo visível com nenhuma mulher que tivesse alguma semelhança com a rapariga que procuravam. Voltou para casa depois do trabalho e não saiu mais.

O domingo trouxe uma agradável surpresa. Às oito horas da manhã saiu de casa e foi de carro até à marina de barcos pequenos em Biloxi, onde se encontrou com Jerry Fernandez. A última vez que os viram estavam a sair do pontão num barco de pesca de trinta pés com dois outros pescadores, supostamente amigos de Jerry. Voltaram oito horas e meia depois, muito corados, com uma caixa cheia de peixes e o barco cheio de latas de cerveja vazias.

A pesca era o primeiro passatempo de Nicholas Easter que descobriam. E Jerry o primeiro amigo que aparecia.

Nenhum sinal da rapariga. Não que Fitch tivesse esperança de a encontrar. A sua primeira pequena pista era sem dúvida a preparação para a segunda e a terceira. A espera era um tormento.

Entretanto, Swanson, o ex-agente do FBI, estava convencido de que ela ia aparecer durante aquela semana. O seu plano, fosse qual fosse, indicava a intenção de outros contactos.

Ela esperou somente até segunda-feira de manhã, trinta minutos antes do reinicio do julgamento. Os advogados já estavam na sala, confabulando em pequenos grupos. O juiz Harkin estava no seu escritório tratando de um assunto urgente relacionado com um caso criminal. Os jurados estavam a chegar à sala do júri. Fitch no escritório, no outro lado da rua, no seu bunker de comando. Um dos seus assistentes, um jovem chamado Konrad, génio em telefones, fios, cassetes e instrumentos de vigilância de alta tecnologia, entrou no gabinete e disse:

— Há um telefonema que acho que vai querer atender.

Fitch, como sempre, olhou para Konrad e analisou a situação. Todos os telefonemas, até do seu secretário de confiança em Washington, eram atendidos na mesa da frente e passados para ele por meio do sistema de intercomunicador instalado nos telefones. Funcionava sempre assim.

— Porquê? — perguntou, desconfiado.

— Ela diz que tem outra mensagem para si.

— O nome dela?

—Não quis dizer. Parece muito tímida, mas insiste que é importante.

Outra longa pausa e Fitch olhou para a luz que piscava num dos telefones.

— Alguma ideia de como conseguiu o número do telefone?

— Não.

— Está a tentar localizar a chamada?

— Estou. Dê-nos um minuto. Faça com que ela fique na linha. Fitch carregou no botão e levantou o auscultador.

—Sim... — disse, o mais delicadamente possível.

— É o senhor Fitch? — perguntou ela com cortesia.

— Sim. Quem fala? —-Marlee.

Um nome! Ele ficou em silêncio um segundo. Todas as chamadas eram gravadas automaticamente, para que pudesse analisá-las depois.

— Bom-dia, Marlee. Também tem apelido?

— Tenho. O jurado número doze, Fernandez, vai entrar na sala do tribunal dentro de uns vinte minutos com um exemplar do Sports Illus-trated. É o número de 12 de Outubro com Dan Marino na capa.

— Sim... — respondeu ele, como se estivesse a tomar notas. — Mais alguma coisa?

— Por enquanto, mais nada...

—Vai telefonar-me outra vez?

— Não sei. — Como conseguiu este número?

— Foi fácil. Não se esqueça: número doze, Fernandez... — Um clique e desapareceu.

Fitch carregou noutro botão, depois um código de dois dígitos. Toda a conversa foi repetida num altifalante por cima dos telefones. Konrad entrou apressado com um impresso.

— De um telefone público em Gulfport, uma loja de conveniência. -— Que surpresa — respondeu Fitch, pegando no casaco e compondo a gravata. — Acho que vou a correr para o tribunal.

Nicholas esperou uma pausa nas conversas, quando quase todos os jurados estavam sentados à mesa, ou perto dela, e disse em voz alta: —Muito bem, alguém foi subornado ou seguido este fim de semana? Alguns sorrisos e gargalhadas mas nenhuma confissão.

— O meu voto não está à venda, mas pode ser alugado — disse Jerry Fernandez, repetindo a piada de Nicholas durante a pesca, na véspera. Todos acharam graça, menos Herman Grimes.

— Porque é que ele está sempre a insistir neste assunto? — perguntou Milhe Dupree, evidentemente satisfeita por alguém ter quebrado o gelo e ansiosa por uma intriga. Os outros aproximaram-se, inclinados para a frente, para ouvir a opinião do ex-estudante de Direito. Rikki Coleman ficou no seu canto com o jornal. Já conhecia a história.

— Já foram julgados antes casos como este... — explicou Nicholas, relutante — e houve certas interferências com os jurados.

— Acho que não devemos falar nisso — disse Herman.

— Porquê? Não faz mal nenhum. Não estamos a discutir provas nem testemunhos. — Nicholas foi autoritário. Herman não estava muito seguro.

— O juiz disse para não falar sobre o julgamento. — Protestou, esperando que alguém ficasse do seu lado. Não apareceu nenhum voluntário. Nicholas tinha a palavra e usou-a.

— Descontraia-se, Herman. Isto não é sobre provas nem acerca de coisas sobre as quais temos de deliberar. Isto é sobre... — hesitou um segundo, para produzir mais efeito, e continuou: — Isto é sobre interferir com o júri.                                          ,

Lonnie Shaver baixou o impresso de computador com o inventário do supermercado e aproximou-se da mesa. Rikki agora estava atenta. Jerry Fernandez tinha ouvido tudo no barco, no dia anterior, mas o assunto era irresistível.

— Houve um julgamento sobre tabaco, parecido com este em Quitman County, Mississipi, há uns sete anos, lá em cima, no Delta. Alguns de vocês devem estar lembrados. Era outra empresa, mas os actores são os mesmos. Dos dois lados. E houve um comportamento abusivo, tanto antes da escolha do júri, como no início do julgamento. () juiz Harkin, é claro, já ouviu todas as histórias e está a vigiar-nos de perto. Muita gente está a vigiar-nos.

Millie olhou para os outros jurados um segundo.

— Quem? — perguntou.

— As duas partes. — Nicholas resolveu fazer jogo limpo, porque os dois lados tinham sido culpados de conduta irregular nos outros julgamentos. — Os dois lados contratam esses homens a que chamam consultores de júri e vêm de todos os cantos do país para ajudar a escolher

O júri perfeito. É claro que o júri perfeito para eles não é o que julga

com justiça, mas o que dá o veredicto que eles desejam. Eles estudam-nos antes da selecção. Eles...

— Como é que fazem isso? — interrompeu a senhora Gladys Card.

— Bem, fotografam as nossas casas e escritórios, os nossos carros, os vizinhos, os filhos e as suas bicicletas, até a nós próprios. Isso é i legal e contra a ética, mas embora chegando muito perto, não ultrapassam os limites da legalidade. Verificam registos públicos, como arquivos do tribunal e cadastro de contribuinte, procurando saber tudo a i nosso respeito. Chegam até a falar com os nossos amigos e colegas de trabalho. Hoje em dia, isso acontece em todos os grandes julgamentos.

Os onze ouviam atentos, aproximando-se e tentando lembrar-se de algum estranho escondido nos cantos, com uma máquina fotográfica. N icholas bebeu um gole de café e continuou:

— Depois de o júri ter sido escolhido, mudam de táctica. O número é reduzido de centenas para quinze e a vigilância é muito mais fácil, durante o julgamento, cada parte interessada tem sempre um grupo de consultores na sala do tribunal, observando os jurados e tentando interpretar as suas reacções. Geralmente sentam-se nas primeiras filas, mas movimentam-se bastante.

— Você sabe quem são? — perguntou Millie, incrédula.

— Não sei os nomes, mas é fácil identificá-los. Estão todos bem vestidos e não tiram os olhos de nós.

— Pensei que fossem repórteres — disse o coronel reformado Frank Herrera, incapaz de ignorar a conversa.

—Eu não notei—disse Herman Grimes e todos sorriram, até Poodle.

— Observem hoje—respondeu Nicholas. — Geralmente no princípio ficam atrás do grupo de advogados do lado para que trabalham. Na verdade, tenho uma ideia. Há uma mulher que é consultora da defesa, tenho a certeza. Mais ou menos quarenta anos, forte, com cabelo curto. Até agora, todas as manhãs se senta na primeira fila atrás de Durwood Cable. Quando entrarmos hoje, vamos todos olhar para ela. Vamos todos olhar fixamente até ela ficar nervosa.

— Até eu? — perguntou Herman.

— Sim, Herman, até você. Vire apenas a cabeça no sentido das dez horas e olhe para ela como todos nós.

— Porquê essa brincadeira? — perguntou Sylvia «Poodle» Taylor-Tatum.

— E porque não? Temos mais alguma coisa para fazer durante oito horas?

— Gosto da ideia — disse Jerry Fernandez. — Talvez isso os faça parar de olhar para nós.

— Vamos olhar por quanto tempo? — perguntou Millie.

— Enquanto o juiz estiver a ler as advertências. Uns dez minutos. Concordaram com Nicholas.

Lou Dell apareceu às nove em ponto e saíram da sala do júri. Nicholas levava duas revistas — uma delas era o número de 12 de Outubro da Sports Illustrated. Caminhou ao lado de Jerry Fernandez até chegarem à porta do tribunal e, quando começaram a entrar em fila, voltou-se casualmente para o novo amigo e disse:

— Quer alguma coisa para ler? A revista apertada contra o seu peito e Jerry aceitou-a e disse:

—Claro, obrigado.

 Entraram na sala do tribunal.

Fitch sabia que Fernandez, o número doze, estaria com a revista, mas mesmo assim foi um golpe. Viu-o caminhar para a fila de trás e sentar-se. Fitch tinha visto a capa numa banca a quatro quarteirões do

tribunal e sabia que era Marino, o número treze da equipa, com o braço curvado, pronto para lançar.

A surpresa deu lugar à animação de uma boa ideia. Marlee trabalhava do lado de fora enquanto um dos jurados trabalhava do lado de dentro. Talvez dois, três ou quatro jurados estivesse feitos com ela. Tanto fazia para Fitch. Quanto mais melhor. Essa gente estava a pôr as cartas na mesa e Fitch estava pronto a fazer negócio.

O nome da consultora de júri era Ginger e trabalhava para a firma de Cari Nussman, em Chicago. Tinha assistido a dezenas de julgamentos. Em geral passava metade do dia no tribunal, mudando de lugar durante os intervalos, tirando o casaco ou os óculos. Era uma veterana no estudo de júris e já tinha visto de tudo. Estava na primeira fila, atrás dos advogados da defesa e um seu companheiro de trabalho na mesma fila a ler um jornal quando os jurados entraram.

Ginger olhou para o júri e esperou o cumprimento do Meritíssimo. A maioria dos jurados inclinou a cabeça, em resposta, e sorriu para o juiz. Então, todos eles, todos, incluindo o homem cego, olharam para ela. Um ou dois estavam a sorrir, mas a maioria parecia perturbada com alguma coisa.

Ela desviou o olhar.

O juiz Harkin, fiel ao seu guião — uma pergunta ultrajante depois da outra—, não tardou em notar que o seu júri estava preocupado com um dos espectadores.

Todos olhavam na mesma direcção.

Nicholas continha-se para não gritar. A sua sorte era incrível. Cerca de vinte pessoas estavam sentadas no lado esquerdo da sala, atrás dos advogados de defesa e duas filas atrás de Ginger via-se a enorme figura de Rankin Fitch. Do banco do júri, Fitch estava na mesma linha de visão que Ginger e a uma distância de cinco metros era difícil dizer para qual dos dois os jurados estavam a olhar.

Ginger achou certamente que era para ela. Começou a estudar algumas notas, enquanto Fitch mudava de lugar apressadamente.

Fitch sentiu-se despido sob os olhares dos doze jurados. Pequenas gotas de suor brotaram acima das suas sobrancelhas. O juiz fez mais perguntas. Alguns advogados olharam para trás, embaraçados.

— Continuem a olhar — disse Nicholas em voz baixa, sem mexer os lábios.

Wendall Rohr olhou para trás para ver quem era o alvo dos olhares. Ginger voltou a sua atenção para os atacadores dos sapatos. Continuaram a olhar.

Não havia nenhum precedente de um juiz ter de pedir a atenção do júri. Harkin já se sentira tentado a fazer isso antes, mas geralmente tratava-se de um membro do júri tão entediado com a testemunha que adormecia e começava a roncar. Por isso continuou apressadamente com as perguntas que restavam, depois disse em voz alta:

—Muito obrigado, senhoras e senhores, Agora, continuaremos com o doutor Milton Fricke.

De repente, Ginger precisou de ir à casa de banho e saiu da sala quando o doutor Fricke entrou pela porta lateral e voltou para o banco das testemunhas.

Cable disse cortesmente, com grande deferência para com o doutor Fricke, que tinha poucas perguntas. Não ia discutir ciência com um cientista, mas esperava marcar alguns pequenos pontos com o júri. Fricke admitiu que nem todos os danos causados aos pulmões do senhor Wood podiam ser atribuídos ao cigarro Bristol fumado durante quase trinta anos. Jacob Wood trabalhou muitos anos num escritório com outros fumadores e, é verdade, que uma parte da destruição dos seus pulmões podia ter sido causada por exposição a outros fumadores.

— Mas a causa continua a ser o tabaco — lembrou o doutor Fricke a Cable, que concordou imediatamente.

E a poluição do ar? É possível que o facto de respirar ar poluído durante trinta anos tenha contribuído para o estado dos pulmões? O doutor Fricke admitiu que era possível.

Cable fez uma pergunta perigosa e teve bom resultado.

— Doutor Fricke, considerando as causas possíveis — fumo directo de cigarros, fumo indirecto, poluição do ar e todas as outras que não mencionamos —, o senhor poderia determinar quanto do dano causado aos pulmões da vítima pode ser atribuído ao facto de ter fumado Bristol!

O doutor Fricke pensou um momento e disse:

— A maior parte.

— Quanto? Sessenta por cento, oitenta por cento? É possível um médico cientista como o senhor calcular uma percentagem aproximada?

Não era possível e Cable sabia-o. Ele tinha dois especialistas prontos a refutar se o doutor Fricke ultrapassasse os limites e exagerasse a especulação.

— Infelizmente não posso fazer isso — respondeu Fricke.

— Muito obrigado. Uma última pergunta, doutor. Qual a percentagem de fumadores que sofre de cancro de pulmão?

— Depende da pesquisa que o senhor fizer.

— O senhor não sabe?

— Tenho uma ideia.

— Então, responda à pergunta.

— Cerca de dez por cento.

— Não tenho mais perguntas.

-— Doutor Fricke, o senhor está dispensado — disse o Meritíssimo. — Doutor Rohr, por favor, chame a sua próxima testemunha.

— Doutor Robert Bronsky.

No momento em que as testemunhas se cruzavam à frente do juiz, (Ginger entrou na sala e sentou-se na última fila, o mais distante possível dos jurados. Fitch aproveitou o breve intervalo para sair. Chamou José para o átrio e os dois saíram apressadamente do tribunal, voltando para

o escritório na antiga loja.

Bronsky também era soberbamente credenciado na área de pesquisas médicas quase com o mesmo número de diplomas e de artigos publicados de Fricke. Conheciam-se bem os dois porque trabalhavam juntos no centro de pesquisas em Rochester. Com grande prazer, Rohr conduziu o doutor Bronsky através do seu maravilhoso currículo. Uma vez qualificado como especialista, enveredaram pelos pontos clínicos básicos.

O fumo é um composto extremamente complexo, com mais de quatro mil componentes identificados. Um total de dezasseis carcinógé-nios e numerosos outros componentes com actividade biológica conhecida. O fumo do cigarro é uma mistura de gases em minúsculas gotas, e quando a pessoa inala, cerca de cinquenta por cento do fumo

inalado é retido pelos pulmões e algumas gotículas ficam depositadas directamente nas paredes dos brônquios.

Dois advogados da equipa de Rohr armaram rapidamente um tripé no centro da sala e o doutor Bronsky desceu da cadeira das testemunhas para fazer uma pequena palestra. O primeiro gráfico era uma lista de todos os componentes conhecidos do fumo. Não disse o nome de todos porque não precisava. Cada nome parecia ameaçador e, quando considerados como um grupo, pareciam sem dúvida mortais.

O gráfico seguinte era uma lista dos carcinogénios conhecidos e Bronsky fez um sumário acerca de cada um deles. Além daqueles dezasseis, disse ele, batendo com a vareta na mão esquerda, pode muito bem haver outros carcinogénios ainda não detectados. E é possível que dois, ou mais, actuem em combinação, reforçando-se mutuamente para provocar cancro.

O assunto ocupou toda a manhã. A cada gráfico mostrado, Jerry Fernandez e as três mulheres fumadoras ficavam mais e mais nauseados e quando deixaram o tribunal, para o almoço, Sylvia «Poodle» sentia a cabeça vazia. Como era de esperar, os quatro foram imediatamente para «o buraco de fumo», como Lou Dell lhe chamava, para uma passa rápida antes de se juntarem aos outros.

O almoço estava servido e todas as arestas aparadas: a mesa posta com pratos de louça e o chá gelado em copos de vidro. O senhor O'Reilly serviu sanduíches especiais para os que pediram e grandes pratos de vegetais e macarrão quente para os outros. Nicholas não poupou elogios.

Fitch estava na sala de projecção com dois dos seus consultores, quando Konrad bateu à porta, nervoso. Todos tinham ordens estritas para não se aproximarem da sala sem autorização expressa de Fitch.

— É Marlee, na linha quatro — murmurou Konrad e Fitch, tenso, foi rapidamente para o seu escritório, passando por um corredor improvisado.

— Localize a chamada — disse Fitch.

— É o que estamos a fazer.

— Tenho a certeza de que é de um telefone público. Fitch carregou no botão do seu telefone e disse:

— Estou. . — Senhor Fitch? — perguntou a voz familiar.

— Sim.

- Sabe por que motivo eles estão a olhar para si?

— Não.

— Amanhã conto-lhe.

— Conte agora.

— Não. Porque vocês estão a tentar localizar a chamada. E se continuarem a fazer isso, deixo de lhe telefonar.

—Tudo bem. Não se repetirá.

— Está à espera que eu acredite nisso?

— Diga-me o que quer.

— Mais tarde, Fitch. — Desligou.

Fitch repetiu a conversa no gravador, enquanto esperava que o telefonema fosse localizado. Konrad apareceu dizendo, como era de esperar, que era de um telefone público, numa loj a em Gautier, a trinta minutos dali.

Fitch recostou-se na grande cadeira giratória alugada e olhou para a parede por um momento.

— Ela não estava no tribunal esta manhã — disse, em voz baixa, pensando alto, puxando a ponta da barbicha. — Então, como é que sabia que estavam a olhar para mim?

— Quem é que estava a olhar? — perguntou Konrad. As suas tarefas não incluíam montar guarda no tribunal. Nunca saía do escritório improvisado. Fitch explicou o curioso incidente daquela manhã.

— Então, quem é que a está a informar? — perguntou Konrad.

— Essa é que é a questão.

A tarde foi dedicada à nicotina. Da uma e meia até às três horas, depois das três e meia até ao intervalo das cinco, os jurados aprenderam mais do que queriam sobre nicotina. É um veneno contido no fumo do cigarro e para os fumadores que engolem o fumo, como Jacob Wood, mais de noventa por cento é absorvida pelos pulmões. O doutor Bronsky passou a maior parte do tempo de pé, apontando para várias partes do corpo humano mostradas num desenho de tamanho real, colorido, montado no tripé. Explicou pormenorizadamente como a nicotina provoca constrição dos vasos superficiais nos braços e pernas, aumenta a tensão e a pulsação, faz o coração trabalhar mais. Os efeitos no aparelho digestivo são insidiosos e complexos. Pode provocar náusea e vómito, especialmente quando se começa a fumar. A secreção da saliva e os movimentos do estômago e intestinos são primeiro estimulados, depois reprimidos. A nicotina age como estimulante no sistema nervoso central. Bronsky foi metódico mas sincero. Fez com que um único cigarro parecesse uma dose de veneno letal.

E a pior coisa sobre a nicotina é que ela vicia. A última hora — mais uma vez num cálculo perfeito de Rohr—foi usada para convencer os jurados de que a nicotina vicia e de que esse facto é conhecido há pelo menos quatro décadas.

Os níveis de nicotina podem ser facilmente manipulados durante o processo de fabricação.

Se, e Bronsky acentuou o «se», os níveis de nicotina fossem especificamente aumentados, então os fumadores naturalmente viciar-se-iam muito mais depressa. Mais fumadores viciados significa mais cigarros vendidos.

Era o pensamento perfeito para terminar o dia.

 

Na manhã da terça-feira, Nicholas chegou cedo à sala do júri. Lou Dell estava a preparar o primeiro bule de descafeinado do dia e, ao mesmo tempo, a dispor bolinhos e pães-doces numa travessa. Ao lado da comida, estava empilhada uma colecção de chávenas e pires novos e cintilantes. Nicholas tinha dito que detestava tomar café em copos de plástico e, felizmente, outros dois membros do júri tinham dito a mesma coisa. O juiz aprovou de imediato uma lista de compras feita para satisfazer os pedidos dos jurados.

Quando entrou, Lou Dell terminou apressadamente as suas tarefas. Cumprimentou-a com um sorriso amável, mas Lou ainda estava ressentida com as desavenças anteriores. Nicholas serviu-se de café e abriu um jornal.

Enquanto esperava, chegou o coronel reformado Frank Herrera.

Depois das oito, mas ainda assim, com quase uma hora de antecedência. Trazia dois jornais, um deles o The Wall Street Journal. Queria estar sozinho na sala, mas sorriu para Easter.

— Bom-dia, coronel — disse Nicholas calorosamente, — chegou cedo.

—  Você também.

—  Não consegui dormir. Sonhei com nicotina e pulmões negros a noite toda. — Nicholas olhou para a página desportiva.

Herrera mexeu o açúcar no café e sentou-se no outro lado da mesa.

—  Fumei durante anos, quando estava no exército — disse ele, sentando-se com as costas muito direitas, o queixo erguido. — Mas

tive o bom senso de parar a tempo.

— Há pessoas que não conseguem. Olhe o caso de Jacob Wood.

O coronel bufou com desprezo e abriu um jornal. Para ele, abandonar um vício não era mais do que um simples acto de força de vontade. Quem tem a cabeça no lugar pode fazer qualquer coisa com o próprio corpo.

Nicholas virou uma página e disse:

— Por que deixou de fumar?

— Porque faz mal à saúde. Não é preciso ser génio para saber isso. O tabaco é mortal. Toda a gente sabe.

Nicholas lembrava-se bem das perguntas dos questionários, e se Herrera tivesse sido tão agressivo assim a responder-lhes, não estaria agora ali sentado. A convicção determinada de Herrera só podia ter um significado: ele quis ser jurado. Provavelmente vivia entediado com a sua vida de reformado, talvez estivesse farto da mulher e procurasse um entretenimento. Mas isso não era tudo: era óbvio que o coronel vivia com alguns ressentimentos.

—  Acha que o tabaco devia ser proibido? — perguntou Nicholas. Com gestos lentos, Herrera pousou o jornal sobre a mesa e bebeu

um longo gole de café.

—  Não. Acho que as pessoas devem ter juízo suficiente para não fumar mais de três maços por dia durante trinta anos. Quem fuma assim o que é que pode esperar? Uma saúde de ferro? — O tom era sarcástico e não deixava dúvidas de que Herrera tinha entrado para o júri com a opinião já formada.

— Desde quando é que pensa assim?

— Desde sempre.                                                                

— Devia ter dito isso por ocasião do voire dire.

— O que é o voire direi

— O processo de selecção do júri. As perguntas cobrem todos esses assuntos. Não me lembro de o ter ouvido dizer uma única palavra a esse respeito.

—  Nunca tive vontade de dizer.

—  Mas devia ter dito.                                                           

Herrera ficou corado, mas hesitou um segundo. Afinal, Easter conhecia a lei ou, pelo menos, conhecia-a melhor do que os restantes jurados. Talvez tivesse feito alguma coisa errada. Talvez Easter pudesse denunciá-lo e expulsá-lo do júri. Talvez fosse acusado de desacato e condenado a prisão ou ao pagamento de uma multa.

Foi aí que teve uma ideia. Não deviam estar a falar naquele assunto, pois não? Então, Easter não podia denunciá-lo ao juiz! Se Easter repetisse o que ali fora dito, havia de arranjar problemas com o juiz. Herrera ficou menos tenso.

—  Deixe-me adivinhar. O senhor vai forçar as coisas a favor de uma decisão favorável à acusação... Já deve estar a sonhar com um veredicto espectacular, com várias indemnizações.

—  Está enganado, senhor Herrera. Ao contrário de si, ainda não tenho opinião formada. Ainda só ouvimos três testemunhas, todas da acusação, portanto ainda temos muita coisa pela frente. Acho que vou esperar pelo fim dos depoimentos, e só aí é que começo a organizar as ideias. Aliás, acho que foi isso que prometemos fazer.

— Foi. Eu pelo menos prometi que agiria desse modo. E é o que vou fazer. — De repente, o coronel ficou muito interessado no editorial do jornal.

A porta abriu-se violentamente e o senhor Herman Crimes entrou com a bengala a bater no chão. Lou Dell e a senhora Crimes vinham atrás. Como sempre, Nicholas levantou-se para preparar o café do seu líder.

Fitch ficou ao lado dos telefones até às nove horas. Ela tinha mencionado um possível telefonema nesse dia.

Não se contentava em brincar com ele, mas também mentia. Fitch não queria ser outra vez alvo dos olhares do júri. Por isso, trancou a porta do escritório e foi para a sala de projecção onde dois dos seus consultores estavam sentados no escuro, olhando para uma estranha cena no monitor. Alguém tinha empurrado a pasta de McAdoo e a câmara foi parar a três metros da posição ideal. Os jurados número um, dois, sete e oito estavam fora do enquadramento e Millie Dupree e Rikki Coleman só apareciam pela metade.

O júri já estava sentado há dez minutos, por isso, McAdoo, preso à sua cadeira, não podia usar o telemóvel. Não sabia que alguém tinha empurrado a sua pasta para debaixo da mesa. Fitch praguejou e voltou para o escritório. Escreveu um bilhete à pressa e entregou-o a um bem vestido moço de recados que atravessou a rua a correr, entrou na sala do tribunal como um dos vários jovens assistentes e fez deslizar o papel sobre a mesa da defesa.

A câmara foi desviada um pouco para a esquerda e todo o júri ficou visível. McAdoo empurrou a pasta com um pouco de força a mais e cortou metade a Jerry Fernandez. Fitch praguejou outra vez e resolveu telefonar para McAdoo no primeiro intervalo da manhã.

O doutor Bronsky estava repousado e pronto para outro dia de palestra sobre os malefícios do tabaco. Tendo já falado sobre os produtos cancerígenos do tabaco e sobre a nicotina, ia agora passar aos outros componentes de interesse médico, os irritantes.

Rohr dava o tom e Bronsky executava a música. O tabaco contém uma variedade de componentes com efeitos irritantes sobre a membrana mucosa. Mais uma vez, Bronsky deixou o banco das testemunhas e foi até um diagrama da parte superior do dorso e da cabeça de um ser humano. O diagrama mostrava ao júri as vias respiratórias superiores, a garganta, os brônquios e os pulmões. Nesta área do corpo, o fumo estimula a secreção de muco. Ao mesmo tempo, retarda a remoção do muco, dificultando a acção dos cílios que forram os brônquios.

Com grande habilidade, Bronsky estava a conseguir manter os termos médicos num nível acessível para um leigo, especialmente na parte em que explicou o que acontece aos brônquios quando o fumo do cigarro é inalado. Dois outros diagramas, grandes e coloridos, foram montados em frente dos jurados, e Bronsky começou a explicar, indicando com um ponteiro. Explicou que os brônquios são forrados por uma membrana equipada com fibras da espessura de fios de cabelo chamadas cílios, que ondulam em uníssono e controlam o movimento do muco na superfície da membrana. Este movimento dos cílios tem como objectivo livrar os pulmões de praticamente toda a poeira e de todos os germes inalados.

O fumo, é claro, cria um verdadeiro caos neste processo. Tendo-se certificado, na medida do possível, de que os jurados entendiam o procedimento normal das coisas, Bronsky e Rohr passaram rapidamente à explicação do modo pelo qual o fumo irrita o processo de filtragem e provoca todo o tipo de danos no aparelho respiratório.

Continuaram a discorrer sobre muco, membranas e cílios.

O primeiro bocejo visível foi de Jerry Fernandez na fila de trás. Fernandez tinha passado a noite de segunda-feira num dos casinos. Fumava dois maços por dia e não tinha dúvida de que era um hábito pouco saudável. Mas, naquele momento, precisava de um cigarro.

Seguiram-se outros bocejos e às onze e meia o juiz Harkin dispensou-os por duas bem merecidas horas.

O passeio pelo centro de Biloxi foi ideia de Nicholas, proposta numa carta ao juiz Harkin, na segunda-feira. Parecia absurdo mante-los con-fi nados o dia todo numa pequena e mal arej ada sala. Afinal, se saíssem para dar uma volta, não corriam perigo de vida, nem iam ser assaltados. Bastava assegurar-lhes companhia, definir o itinerário e proibir os jurados de falar com outras pessoas. Parecia uma ideia inofensiva e, depois de pensar no assunto, o juiz Harkin adoptou-a como sua.

Nicholas mostrou a carta a Lou Dell e, assim, enquanto acabavam de almoçar, ela explicou que o passeio fora planeado graças ao senhor Easter, que tinha escrito ao juiz. Parecia uma ideia humilde demais para merecer tanta admiração.

O dia estava lindo: Lou Dell e Willis iam na frente, apreciando a amena temperatura — abaixo dos 26 graus — e o ar fresco. Os quatro fumadores —- Fernandez, Poodle, Stella Hulic e Angel Weese—ficaram atrás, apreciando os cigarros. Estavam fartos de ouvir as deprimentes conversas de Bronsky sobre muco e membranas. E, verdadeiramente, queriam que Fricke e as fotografias pegajosas dos pulmões negros do senhor Wood fossem para o diabo. Estavam fora de casa. A luz e o ar livre eram as condições ideais para um cigarro.

Fitch mandou Doyle e um agente local chamado Joe Boy tirar fotografias a uma certa distância.

À medida que a tarde passava, Bronsky começou a cansar-se. Perdeu o talento para apresentar as coisas de modo simples e os jurados foram derrotados na luta para continuar atentos. Os diagramas e os mapas, rebuscados e obviamente dispendiosos, confundiam-se, assim como as partes do corpo e os componentes e venenos do tabaco. Não eram necessárias as opiniões dos consultores de júri, soberbamente treinados e extremamente bem pagos, para saber que os jurados estavam fartos, e que Rohr estava a fazer aquilo que os advogados simplesmente não conseguem evitar: o excesso de informação e de provas.

O Meritíssimo deu por encerrada a sessão mais cedo, às quatro horas, alegando que precisava de duas horas para ouvir algumas moções e outras coisas não relacionadas com o júri. Dispensou os jurados com as mesmas advertências rigorosas, que agora já sabiam de cor. Estavam felizes por escapar da sala e do julgamento.

Lonnie Shaver ficou especialmente feliz por sair mais cedo. Foi directo para o seu supermercado que ficava a dez minutos de carro. Estacionou nas traseiras do prédio e entrou pela porta do armazém esperando apanhar um empregado a dormir ao lado das caixas de alface. O seu escritório ficava no segundo andar, em cima dos lacticínios e das carnes e, pelo espelho de duas faces, podia ver quase todo o primeiro andar.

Lonnie era o único gerente negro numa cadeia de dezassete supermercados. Ganhava quarenta mil dólares por ano, com seguro de saúde e plano de poupança reforma. Esperava ser aumentado dentro de três meses. Também se havia insinuado que seria promovido a supervisor distrital, desde que o seu desempenho como gerente tivesse resultados satisfatórios. A empresa estava ansiosa de promover um negro. Pelo menos, foi o que lhe disseram. Mas, é claro, nenhum desses compromissos estava escrito.

O seu gabinete, sempre aberto, era geralmente ocupado por qualquer um dos seus seis subordinados. Um gerente assistente recebeu-o e depois foi até uma porta.

— Temos visitas — disse, com ar preocupado.

Lonnie hesitou e olhou para a porta fechada: dava para uma sala grande e multifuncional —festas de aniversário, reunião de pessoal, visitas dos chefes, etc.

—  Quem é? — perguntou.

—  São da sede. Estão à sua procura..

Lonnie bateu à porta e, ao mesmo tempo, entrou. Afinal de contas, aquele escritório era seu. Três homens, com as mangas arregaçadas, estavam sentados à mesa, entre uma pilha de papéis e impressos de computador. Os três levantaram-se um pouco constrangidos.

—  Lonnie, ainda bem que veio — disse Troy Hadley, filho de um dos donos da cadeia e o único que Lonnie conhecia. Trocaram apertos de mãos enquanto Hadley fazia rapidamente as apresentações. Os outros dois homens eram Ken e Ben. Tinham planeado que Lonnie se sentasse na cabeceira da mesa, com Ken de um lado e Ben do outro, na cadeira desocupada rapidamente pelo jovem Hadley.

Troy começou a conversa e parecia um tanto nervoso.

— Que tal é ser jurado?

— Uma chatice.

— Claro. Lonnie, estamos aqui porque Ken e Ben são de uma organização chamada SuperHouse, uma grande cadeia com sede em Charlotte e, por diversos motivos, o meu pai e eu resolvemos vender a nossa companhia à SuperHouse. Toda a cadeia. As dezassete lojas e os três armazéns.

Lonnie notou que Ken e Ben estavam atentos à sua respiração. Por isso, tentou receber a notícia friamente, até com um leve erguer de ombros, como quem diz «E o que é que eu tenho com isso?» Mas estava com dificuldade em engolir.

—  Porquê? — Conseguiu dizer.

— Por vários motivos, mas o principal é por causa da idade do meu pai. Já tem sessenta e oito anos e acaba de sair de uma cirurgia. O facto de a SuperHouse oferecer um preço justo — esfregou as mãos, como se mal pudesse esperar para gastar o dinheiro — também pesou. Decidimos vender, Lonnie, pura e simplesmente.

— Estou surpreendido, eu nunca...

— Tem razão. Quarenta anos no negócio é muito tempo. Não nos podemos esquecer que começámos com uma mercearia e hoje temos filiais em cinco estados e que no ano passado facturámos sessenta milhões. Não tem sido fácil. — Troy não conseguia fingir emoção. E Lonnie sabia bem porquê. Troy era um cretino, um menino rico que jogava golfe todos os dias, enquanto tentava projectar socialmente a i magem de um patrão de indústria trabalhador e rigoroso. O pai devia ter decidido vender enquanto era tempo: dali a poucos anos, Troy tomaria as rédeas e quarenta anos de trabalho árduo e prudente seriam dissipados em barcos de corrida e casas na praia.

Fez-se uma pausa e Ben e Ken continuaram a olhar para Lonnie. Ela tinha quarenta e poucos anos, cabelo mal cortado e o bolso cheio de canetas baratas. Talvez fosse o Ben. O outro era um pouco mais novo, rosto magro, tipo executivo, roupa de melhor qualidade e olhos frios. Lonnie olhou para eles e percebeu que era a sua vez de dizer alguma coisa.

— Vão mesmo fechar este supermercado? — perguntou, quase derrotado.

Troy esperava a pergunta.                                     

—  Por outras palavras, o Lonnie quer saber o que lhe vai acontecer, não é? Muito bem, posso garantir-lhe que recomendei que seja mantido no seu cargo. — Ben, ou Ken, fez um gesto afirmativo. Troy pegou no casaco. — Mas, como compreende, essa decisão já não é da nossa competência. Vou sair por um momento, para que possam conversar mais à vontade. — Troy saiu apressadamente da sala.

A saída dele provocou sorrisos em Ken e Ben e Lonnie aproveitou para perguntar:

—  Têm aí à mão os vossos cartões de visita?

—  Claro — disseram os dois, tirando os cartões dos bolsos e fazendo-os deslizar sobre a mesa. Ben era o mais velho, Ken o mais novo.

Ken liderava a reunião.

— Vou falar-lhe um pouco sobre a nossa companhia. A nossa sede é em Charlotte, com oito postos de venda nas Carolinas e na Georgia. A SuperHouse é uma divisão da Listing Foods, uma holding com sede em Scarsdale. No ano passado tivemos um volume de vendas de dois milhões. Somos uma companhia pública, com acções cotadas na NASDAQ. Provavelmente já ouviu falar de nós. Sou vice-presidente de operações da SuperHouse. O Ben é vice-presidente regional. Estamos a expandir para sul e para oeste e Hadley Brothers parece-nos interessante. É por isso que aqui estamos.

— Então vão manter esta filial?

— Sim, pelo menos por enquanto — olhou para Ben, como se tivesse muito mais para dizer.

—  E o que é que me vai acontecer? — perguntou Lonnie.

Os dois literalmente contorceram-se quase ao mesmo tempo e Ben pegou numa das esferográficas da sua colecção. Ken era o orador.

— Bem, tem de compreender, senhor Shaver...

— Por favor, chame-me Lonnie.

— Claro, Lonnie. Quando se faz uma compra, é normal que haja reajustamentos. Faz parte do negócio. Há empregos perdidos, empregos ganhos, há pessoas transferidas...

—  E o meu lugar? — insistiu Lonnie. Pressentia o pior e queria acabar rapidamente com aquilo.

Deliberadamente, Ken pegou numa folha de papel e fingiu que estava a ler:

— Bem — disse ele, sacudindo o papel —, você tem um currículo sólido.

-— E recomendações muito boas — acrescentou Ben, solícito.

— Gostaríamos de mantê-lo no seu cargo, pelo menos por enquanto.

— Por enquanto? O que é que isso significa?

Ken pôs o papel sobre a mesa e inclinou-se para a frente, apoiado nos cotovelos.

—  Vamos ser francos, Lonnie. Vemos um futuro para si na nossa empresa.

— E é uma empresa muito melhor do que esta onde você estava. — acrescentou Ben. Os dois funcionavam perfeitamente como equipa. — Oferecemos salários mais altos, benefícios melhores, direito à subscrição de acções da empresa.

— Lonnie, para nossa vergonha, não temos nenhum afro-americano num cargo de direcção. Nós e a nossa administração queremos mudar este estado de coisas o mais rápido possível. E queremos fazer essa mudança consigo.

Lonnie estudou a expressão dos dois homens com a cabeça repleta de perguntas. Em menos de um minuto tinha passado de quase desempregado para quase promovido.

—  Eu não sou licenciado. Há um limite para...

—  Não há limite nenhum. — Disse Ken — Você ainda andou dois anos na faculdade e, se for necessário, até pode acabar o curso. A empresa pode pagar as propinas.

Lonnie não conteve um sorriso, de alívio e de satisfação, mas resolveu prosseguir com cautela. Estava a lidar com estranhos.

— Estou a ouvi-los com muito interesse — disse ele. Ken tinha todas as respostas.

— Estudámos o pessoal da Hadley Brothers e seleccionámo-lo a si e a outro jovem gerente de Mobile. Gostaríamos que fossem a Charlotte, assim que for possível, para passar uns dias connosco. Vão conhecer a empresa, as pessoas, aprender tudo e depois logo se conversa sobre o futuro. Mas tenho de avisá-lo: se quiser subir na vida não pode passar o resto dos seus dias aqui em Biloxi. Tem de encarar a hipótese de trabalhar noutras cidades.

— Não tenho problemas com isso..

—  Foi o que pensámos. Quando é que pode vir a Charlotte?

A imagem de Lou Dell fechando aporta da sala dos jurados passou à frente dos olhos de Lonnie. Respirou profundamente e disse frustrado:

—  Bem, neste momento não. Faço parte de um júri. O Troy deve ter-lhes dito.

Ken e Ben ficaram aparentemente confusos.

—  Quanto tempo é que isso demora? Para aí um dia ou dois, não?

— Não. O julgamento deve durar um mês, e ainda só vai na segunda semana.

—  Um mês? — Ben não perdeu a deixa. — Que tipo de julgamento é esse?

—  A viúva de um fumador processou uma tabaqueira.

As reacções foram quase idênticas, não deixando margem para dúvidas sobre o que pensavam destes processos.

— Eu fiz tudo para me livrar — disse Lonnie, tentando suavizar as coisas.

—  Um processo para responsabilizar produtores? — perguntou Ken, visivelmente aborrecido.

—  De certa maneira, sim....

—  E ainda dura mais três semanas? — perguntou Ben.

—  Foi o que disseram. Até me custa a acreditar como é que me apanharam — disse Lonnie, de si para si.

Seguiu-se uma longa pausa, durante a qual Ben abriu um maço de Bristol e acendeu um cigarro.

—  Processos — disse ele, amargamente. — Estamos sempre a ser processados por zés-ninguéns. Tropeçam, caem e põem a culpa no vinagre ou nas uvas. No mês passado, explodiu uma garrafa de água com gás numa festa em Rock Mount. Adivinhe quem vendeu a garrafa? Adivinhe quem foi processado na semana passada por dez milhões? Nós e o fabricante da garrafa. Má qualidade do produto. — Ben estava a ferver: deu uma longa passa e, depois, roeu uma unha.— Uma mulher de setenta anos, em Athens, alegou que distendeu um músculo das costas quando tentou agarrar uma lata de óleo para móveis que estava muito alta. O pior é que o advogado acha que ela tem direito a uns dois milhões.

Ken olhou para Ben como se quisesse que ele calasse a boca mas, era evidente, Ben tinha pavio curto quando se tratava daquele assunto.

— Malditos advogados. — disse soltando o fumo pelas narinas. — No ano passado pagámos mais de três milhões de seguro sobre produtos, dinheiro deitado fora por causa dos advogados famintos que vivem para nos tramar.

— Já chega desse assunto — disse Ben.

— Desculpe.

— E aos fins de semana? — perguntou Lonnie, ansioso. — Estou livre desde sexta-feira à tarde até domingo à noite.

—  Estava a pensar nisso. Vamos fazer o seguinte: no sábado de manhã mandamos um dos nossos aviões vir buscá-lo. Você e a sua mulher vão até Charlotte. Mostramos-lhe os escritórios da sede e apresentamo-los aos nossos chefes. Quase todos trabalham ao sábado. Pode ir neste fim de semana?

—  Claro.

— Está combinado: vou tratar do avião.

— Tem a certeza de que não vai interferir com o julgamento? — perguntou Ben.

—  Que eu saiba, não.

 

Até quarta-feira, o julgamento prosseguiu com uma impressionante pontualidade. Mas nesse dia aconteceu um importante obstáculo. A defesa entrou com uma moção para proibir o depoimento do doutor Hilo Kilvan, de Montreal. Este suposto especialista em análise estatística sobre a incidência do cancro de pulmão provocou uma pequena batalha entre as partes. Wendall Rohr e a sua equipa ficaram furiosos com a táctica da defesa que, desde o início, tentava impedir o depoimento de todos os especialistas da acusação. Rohr estava tão irado que chegou a acusar a defesa de ter estado quatro anos a impedir o decurso do seu trabalho e apelou ao juiz Harkin para que impusesse sanções à defesa. A guerra das sanções, com as partes a exigirem a aplicação de coimas monetárias e o juiz a negá-las, era feroz. E isto tinha começado quase em simultâneo com a entrada do processo em juízo. Neste, como na maioria dos grandes casos de Direito Civil, a submanobra das sanções geralmente consumia tanto tempo como os assuntos de facto.

Rohr esbracejava furioso em frente do banco vazio dos jurados, explicando que aquela era a septuagésima primeira moção da defesa — «Podem contar, setenta e uma!» — apresentada pela tabaqueira, numa clara tentativa de impedir a exibição de evidências.

— Já tivemos moções para excluir a referência a outras doenças provocadas pelo tabaco, moções para evitar a apresentação dos resultados de estudos epidemiológicos, moções para evitar a apresentação de análises estatísticas, moções para proibir a referência a patentes não usadas pelo acusado, moções para excluir a referência a medidas subsequentes ou terapêuticas tomadas pela tabaqueira, moções para excluir grandes partes do relatório da autópsia, moções para excluir testemunhos de vício, moções...

—  Eu vi as moções, doutor Rohr — interrompeu o Meritíssimo, antes que Rohr as citasse todas.

Rohr, quase sem respirar, continuou:

— Meritíssimo, além das setenta e uma — pode contar, setenta e uma! — moções para excluir depoimentos e apresentação de resultados de estudos e investigações, ainda deram entrada dezoito moções, exactamente dezoito, para a anulação do julgamento.

— Estou ao corrente, doutor Rohr. Por favor, prossiga com o caso. Rohr foi até à sua mesa atafulhada de papéis e arrancou uma pasta

grossa das mãos de um dos seus advogados.

— E é claro, cada vez que a defesa apresenta uma moção, fá-la acompanhar com estas malditas coisas — disse em voz alta, atirando a pasta para cima da mesa. — Como o senhor muito bem sabe, não temos tempo para ler isto. Estamos muito ocupados com o julgamento. A defesa tem milhares de advogados, a quem aliás paga à hora, e que por isso pode desperdiçar tempo e levar dias a preparar moções. É quase certo que enquanto estamos aqui a ter esta discussão, há advogados da defesa que estão a redigir novas moções, novas moções idiotas que hão-de pesar aproximadamente três quilos e que só têm o mérito de nos fazer perder tempo.

— Não se importa de se concentrar na questão central, doutor Rohr? Rohr não ouviu e continuou.

—  E, uma vez que não temos tempo para ler estas coisas, Meritíssimo, limitamo-nos a pesá-las e a responder de forma resumida: «Por favor, parem de fazer moções pesadas e frívolas.»

Sempre que o júri estava fora do tribunal, advogados, funcionários, polícias, etc., dispensavam-se de agir de forma cortês ou de, simplesmente, sorrir. A tensão era evidente nos rostos de todos os actores. Até os funcionários do tribunal e a estenógrafa pareciam tensos.

O lendário temperamento explosivo de Rohr estava em acção, mas i sso não representava perda para o lado da acusação. Há muitos anos, Rohr tinha aprendido a tirar vantagens das suas explosões de mau humor. Cable, de quem ocasionalmente era amigo, mantinha uma certa distância, mas sem se calar. E os dois ocasionais amigos protagonizavam uma luta pouco digna de uma sala de tribunal.

Às nove e meia, o Meritíssimo mandou avisar Lou Dell que deveria informar os jurados de que o julgamento começaria dentro de poucos minutos, provavelmente às dez horas, já que estava quase a terminar a análise de uma moção. Como aquele tinha sido o primeiro atraso, a primeira vez que os jurados tinham tido que esperar para entrar na sala, não houve reclamações. Refizeram pequenos grupos e retomaram o fio de conversas normais para quem está contra vontade à espera. Os grupos organizavam-se naturalmente por sexo e não por raça. Normalmente, os homens ficavam juntos numa extremidade da sala e as mulheres na outra. Os fumadores não paravam de entrar e sair. O único que mantinha sempre a mesma posição, à cabeceira da mesa, era Her-man Grimes. Aproveitava esses momentos para «ler» no seu computador os documentos que entretanto tinham sido passados para braile. O seu empenho era de tal forma grande que tinha chegado a fazer serões para se pôr a par do que era mostrado no tribunal e que, nos dias em que o doutor Bronsky tinha apresentado diagramas, vira-se obrigado a estudá-los até altas horas da madrugada.

Havia outro computador instalado por cima de três cadeiras desdobráveis: este equipamento constituía o escritório de Lonnie Shaver que, ali mesmo, analisava impressos do supermercado, inventários, verificava contas, etc. Por isso, normalmente preferia que os outros o ignorassem. Não por uma questão de antipatia, mas simplesmente porque não tinha tempo a perder.

Frank Herrera, sentado perto do computador em braile, lia as cotações da bolsa no Wall Street Journal e, ocasionalmente, trocava algumas palavras com Jerry Fernandez que, no outro lado da mesa, lia as últimas notícias de Las Vegas. O único homem que gostava de conversar com as mulheres era Nicholas Easter. Nessa quarta-feira estava a conversar sobre o caso, em voz baixa, com Loreen Duke, uma mulher negra grande e bem-disposta, secretária na base da Força Aérea de Keesler. Como jurado número um, sentava-se ao lado de Nicholas e, durante as sessões, os dois costumavam fazer comentários em voz baixa acerca da maioria das pessoas presentes. Loreen era uma mulher de trinta e dois anos, sem marido, com dois filhos e um bom emprego federal. Apesar disso, confessou que não gostava do emprego e que a desorganização era tão grande que, ainda que se ausentasse durante um ano, ninguém se importava. Nicholas contava-lhe histórias de procedimentos incorrectos de tabaqueiras no decurso de outros processos judiciais e chegou a confessar-lhe que o assunto lhe interessava tanto que, durante os dois anos de frequência na faculdade de Direito, se tinha dedicado à pesquisa sobre este tipo de atitudes e processos. Quando

el a l he perguntou por que razão tinha abandonado a faculdade, Nicholas justificou-se dizendo que tinha tido problemas financeiros. Os dois conversavam sempre suficientemente baixo para que Herman Grimes, em luta com o teclado do seu computador, não os pudesse ouvir.

O tempo foi passando e, às dez horas em ponto, Nicholas foi até à porta e interrompeu a leitura de Lou Dell. Infelizmente, Lou não fazia a mais pequena ideia a que horas o juiz pretendia chamá-los e não havia mais nada que pudessem fazer senão esperar.

Nicholas sentou-se à mesa e começou a delinear uma estratégia com Hennan. Não era justo mantê-los presos daquela maneira de cada vez que o tribunal se atrasasse. Na opinião de Nicholas, o mínimo que

o tribunal podia fazer era autorizá-los a sair do edifício, ainda que com acompanhantes, para darem um passeio matinal. Já não era a primeira vez, e Nicholas apontava como exemplo o passeio da véspera, à hora do almoço. Os dois combinaram que Nicholas ia redigir um pedido e que, durante o intervalo, o apresentariam ao juiz.

Finalmente, às dez e meia tiveram autorização para entrar na sala de audiências. O ambiente ainda estava pesado e carregado com a tensão do combate ali travado logo pela manhã. A primeira pessoa que Nicholas avistou foi o homem que invadira o seu apartamento. Estava na terceira fila, do lado da acusação, com camisa e gravata, um jornal aberto e apoiado nas costas da cadeira da frente. Estava sozinho e, quando os jurados entraram, mal os olhou. Nicholas não o fixou com insistência. Dois olhares rápidos foram suficientes para o identificar sem margem para dúvidas.

Apesar da sua reconhecida malícia, às vezes Fitch fazia coisas de uma ingenuidade impensável. Nicholas não conseguia perceber como é que Fitch tinha autorizado que aquele brutamontes entrasse no tribunal . Era demasiado arriscado e Nicholas não conseguia perceber que vantagens é que aquela presença podia trazer à acusação.

Embora tivesse ficado surpreendido por ver o homem na sala de audiências, Nicholas já tinha pensado na eventualidade de se cruzar com ele e tinha chegado ao ponto de delinear vários planos de acção a pôr em marcha em conformidade com o sítio em que o encontrasse.

Por isso, em poucos segundos, Nicholas tomou uma decisão: tinha de arranjar maneira de fazer chegar aos ouvidos do juiz que um dos bandidos que tanto o preocupavam estava sentado na sala de audiências. Era importante que Harkin reparasse na cara do homem para que o reconhecesse mais tarde no vídeo.

A primeira testemunha a ser chamada foi o doutor Bronsky. Aquele era o terceiro dia seguido em que depunha, mas o primeiro de interrogatório indirecto. Sir Durr começou, lenta e amavelmente, como se estivesse impressionado com a presença e discursos daquele reputado especialista, e fez algumas perguntas básicas a que, até a grande maioria dos jurados, poderia ter respondido. Mas, as coisas mudaram rapidamente. Ao contrário da atitude de deferência que tinha adoptado em relação ao doutor Milton Fricke, Durr estava decidido a atacar Bronsky.

Começou pelos mais de quatro mil componentes identificados no fumo dos cigarros. Aparentemente ao acaso, escolheu um e perguntou qual o seu efeito nos pulmões. Bronsky disse que não sabia e tentou explicar que era impossível medir a extensão dos danos causados por um único componente. E quanto aos brônquios, às membranas e aos cílios? O que é que aquele componente lhes provoca? Pela segunda vez, Bronsky tentou explicar que a pesquisa não podia determinar o efeito de um único componente do tabaco.

Cable não parou por aí. Escolheu outro componente e obrigou Bronsky a admitir que não podia dizer, quanto mais confirmar, ao júri o seu efeito sobre os brônquios e as membranas. Pelo menos não o podia fazer de forma específica.

Rohr protestou, mas o Meritíssimo não aceitou o protesto, justificando a sua decisão pelo facto de se tratar de um interrogatório indirecto. E nos interrogatórios indirectos as testemunhas podiam ser inquiridas em relação a todo o tipo de aspectos, relevantes ou não relevantes.

Doyle continuou sentado no seu lugar, na terceira fila dos espectadores, parecendo aborrecido e na expectativa de que surgisse uma oportunidade para sair. A sua presença ali tinha como objectivo único procurar arapariga. Mas o pior é que esta missão já se arrastava há dois dias. Já tinha ficado no corredor do primeiro andar durante quatro horas, já tinha passado uma tarde inteira sentado numa grade de Dr. Pepper, perto das máquinas de refrigerantes, a conversar com um contínuo e a vigiar a porta da frente. Já tinha bebido litros de café em todos os cafés e bares das redondezas. Sentia que estava a perder tempo: ele, Pang e outros dois homens, mas não havia nada que pudesse fazer contra. O chefe ficava contente assim!

Depois de se sentar no mesmo sítio seis horas por dia, Nicholas já tinha percebido a rotina diária de Fitch. Os seus homens, independentemente da função que exercessem, estavam sempre em movimento. Entravam e saíam silenciosamente da sala de audiências, aproveitando os pequenos intervalos. Raramente conversavam uns com os outros. Observavam com atenção as testemunhas e os jurados e, no minuto seguinte, punham-se a fazer palavras cruzadas ou a olhar pelas janelas.

Nicholas já tinha percebido que, a esta aparente distracção dos homens de mão de Fitch, seguia-se a sua saída da sala de audiências.

Nicholas escreveu um bilhete, dobrou-o e convenceu Loreen Duke a pegar-lhe mesmo sem o ler. Durante uma pausa, enquanto Cable consultava as suas anotações, Nicholas convenceu-a a inclinar-se para a frente e entregar o papel a Willis, o polícia que estava encostado à parede, junto da bandeira. Acordado bruscamente da sua letargia, Willis hesitou por um segundo até conseguir orientar-se e só então é que percebeu que devia entregar o papel ao juiz.

Doyle viu Loreen entregar o papel ao polícia, mas não viu quem é que lho tinha dado para as mãos.

O juiz Harkin pegou no papel e, no momento em que Cable recomeçava a fazer perguntas, fê-lo deslizar sobre a mesa para que ficasse suficientemente perto da sua toga. Harkin desdobrou lentamente o papel. Era de Nicholas Easter, número dois, e dizia:

«Meritíssimojuiz,

O homem que está sentado à esquerda, na terceira fila, perto da passagem, seguiu-me ontem quando saí do tribunal. Foi a segunda vez que o vi. Será possível verificar a sua identidade?

Respeitosamente, Nicholas Easter.»

O Meritíssimo olhou para Durr Cable antes de olhar para os espectadores. O homem estava sozinho e olhava para o juiz como se soubesse que estava a ser observado. 118

Para Frederick Harkin aquela situação era um novo desafio. Na verdade, naquele preciso momento, não conseguia lembrar-se de nenhuma situação parecida ou, sequer, remotamente semelhante àquela. Não era um homem com grande capacidade para formular opiniões e quanto mais pensava sobre uma situação menos ideias tinha a esse propósito.

Harkin sabia perfeitamente que ambas as partes tinham a sala de audiências, o tribunal e as proximidades sob vigilância apertada. Ele próprio já se tinha apercebido da presença misteriosa e discreta de algumas pessoas na sala e percebia que o profissionalismo com que se movimentavam só podia querer dizer que eram pessoas experientes naquele tipo de julgamento e que, por isso mesmo, não queriam chamar a atenção.

Harkin tinha experiência suficiente para saber que, num ápice, o homem podia desaparecer sem deixar rasto se decidisse fazer um curto intervalo.

Era um momento de grande tensão para o juiz. Depois de todas as histórias e rumores que tinham circulado acerca dos outros julgamentos, depois de tanta advertência feita aos jurados, o juiz via-se confrontado com a presença na sala de audiências de um daqueles agentes misteriosos de que se falava, de um detective contratado por uma das partes para seguir os jurados.

Por norma, os polícias dos tribunais vestem uniforme e é-lhes distribuída uma arma. Mas, também por norma, são completamente inofensivos. Aos polícias mais jovens são distribuídas missões de rua e aos polícias mais velhos, quase na idade da reforma, normalmente são confiados os tribunais. O juiz Harkin olhou para a sala e o leque de opções em que conseguia pensar diminuiu ainda mais.

Willis, encostado à parede junto da bandeira, parecia ter voltado a mergulhar no seu estado habitual de semi-torpor, com a boca entreaberta e um fio de saliva a escorrer. Jip e Rasco estavam posicionados na passagem, exactamente à frente de Harkin, mas a pelo menos trinta metros de distância. Eram eles que guardavam a porta principal. Naquele momento, Jip estava sentado na última fila, perto da porta, com os seus óculos de leitura postos na ponta do nariz grosso. Estava entretido a ler o jornal da região. Há dois meses, Jip tinha sido operado à anca, pelo que sentia dificuldade em manter-se de pé durante muito tempo. Por isso, tinha uma autorização especial para se sentar durante as sessões do julgamento. Rasco, apesar de ter quase sessenta anos, era o mais novo do grupo. A sua rapidez de movimentos tinha conquistado alguma fama. Por regra, designava-se um polícia jovem para guardar a porta principal. Infelizmente, o que tinha sido designado para cumprir essa missão fora destacado para o detector de metais no átrio do tribunal. Durante a selecção do júri, Harkin tinha feito questão em poder contar com uma forte presença de polícias uniformizados. Mas o entusiasmo inicial de Harkin tinha-se esbatido ao longo de uma semana de audição de testemunhas. Naquele momento, aquele era um julgamento como outro qualquer, talvez até mais entediante. A única diferença ainda visível era o montante de dinheiro em jogo.

Estudadas as competências dos polícias presentes, Harkin decidiu que não era boa ideia abordar o suspeito. Fingindo ignorar o homem, escreveu rapidamente algumas palavras num papel, segurou-o passando-o depois para Glória Lane, a Secretária da Circunscrição, que se sentava numa mesa perto da sua e de frente para os jurados. O bilhete identificava o lugar em que o homem estava sentado e continha indicações precisas: Glória devia fixar a fisionomia do homem, se bem que conviesse que tal fosse feito de forma discreta, chamar o xerife e pedir-lhe que agisse em conformidade com outras instruções que o juiz tinha anotado. Infelizmente, estas últimas instruções não chegaram a ser necessárias.

Depois de assistir ao impiedoso interrogatório a que o doutor Bron-sky foi sujeito durante mais de uma hora, Doyle estava pronto para sair. A rapariga não se encontrava no tribunal. Aliás, nunca lhe tinha passado pela cabeça que a pudesse encontrar ali. Mas, ordens são ordens. E tinha ordens para também a procurar naquela sala. Doyle não gostou daquele movimento de bilhetes à volta do juiz. Por isso, entendeu que estava na sua hora: dobrou o jornal e saiu da sala sem ser interpelado, Harkin olhou incrédulo. Chegou a segurar o microfone com a mão direita, como se estivesse na disposição de mandar o homem parar, sentar-se e responder a algumas perguntas. Mas controlou-se a tempo. Provavelmente, o homem havia de voltar.

Nicholas olhou para o Meritíssimo e cruzaram os seus olhares repletos de frustração. De repente, Cable fez uma pausa entre duas perguntas e o juiz bateu com o martelo.

— Intervalo de dez minutos. Acho que os jurados precisam de um pequeno descanso.

Willis passou a palavra a Lou Dell que, enfiando a cabeça na porta entreaberta, disse:

— Senhor Easter, posso falar consigo um minuto?

Até chegarem à porta lateral da sala do juiz, Nicholas seguiu-a através de um labirinto de corredores estreitos. Harkin estava sozinho, sem a toga, com uma chávena de café nas mãos. O juiz pediu a Willis que os deixasse sozinhos e trancou a porta.

— Por favor, sente-se, senhor Easter. — Apontou para uma cadeira em frente da sua mesa atulhada de papéis. De facto, aquele não era o seu gabinete: era uma sala partilhada pelos juizes a quem, naquele momento, estavam atribuídos casos naquele tribunal. — Café?

— Não, obrigado.

Harkin sentou-se e, apoiado num cotovelo, inclinou-se para a frente.

— Onde é que o senhor viu aquele homem?

Nicholas tinha tudo planeado ao pormenor. O vídeo ia ficar para mais tarde.

— Ontem, depois do último intervalo: ia a pé para o meu apartamento e parei para comer um gelado no Mike's. Sabe onde fica, não sabe? É logo ao dobrar da esquina. Entrei na geladaria e, distraida-mente, olhei para a rua. O homem estava a espreitar lá para dentro. Não me viu, mas naquele momento tive a sensação de que já o tinha visto nalgum sítio. Comprei o gelado e retomei o caminho para casa. Como tive a sensação de estar a ser seguido, resolvi não tomar o caminho mais directo e, aliás, até dei uma série de voltas inúteis. Só para confirmar. E a verdade é que ele estava sempre atrás de mim.

— E já alguma vez o tinha visto?

— Já! Trabalho numa loj a de computadores e houve uma noite em que esse homem passou uma série de vezes pela porta sem entrar. Mas, de cada vez que passava, espreitava lá para dentro. A loja é num centro comercial e às tantas resolvi ir ao café beber uma Coca-Cola. Assim que cheguei ao café, o homem apareceu atrás de mim.

O juiz relaxou na cadeira e passou a mão no cabelo.

— Seja franco comigo, senhor Easter, algum outro jurado mencionou uma história parecida?

— Não, senhor.

— Mas se alguém falar nisso posso contar consigo? Ou seja, o senhor conta-me?

— Claro.

— Esta nossa conversa é muito importante. O senhor compreende que tenho de estar ao corrente de tudo o que se passa...

— E como é que faço se precisar de falar com o senhor doutor juiz?

— Mande-me um bilhete através de Lou Dell. No bilhete escreva apenas que quer conversar comigo. Não precisa de dizer sobre que assunto é, até porque ninguém pode garantir que Lou Dell não sucumba à tentação de ler o bilhete.

— Esteja descansado.

Harkin respirou lentamente e começou à procura de alguma coisa numa pasta aberta. Encontrou um jornal e empurrou-o na direcção de Nicholas.

— Viu isto? É o Wall Street Journal de hoje.

— Não. Não leio esse jornal.

— Óptimo. Traz uma grande reportagem sobre o julgamento e o potencial impacto económico de um veredicto a favor da acusação na indústria do tabaco.

Nicholas não resistiu a deixar passar a oportunidade.

— A única pessoa que lê esse jornal é o Frank Herrera. Lê-o todas as manhãs, de fio a pavio.

— E hoje? Também o viu a ler o jornal?

— Vi. Enquanto estivemos à espera para entrar na sala de audiências, leu e releu o jornal.

— Fez algum comentário ?

—  Que eu saiba, não.

— Que maçada!

— Não sei porquê... — disse Nicholas fixando o olhar na parede.

— Não sabe?

— Eu não... Ele já tem a opinião formada!

Olhando atentamente para Nicholas, Harkin inclinou-se para a frente outra vez.

— O que é que quer dizer com isso?

— Na minha opinião, não devia ter sido escolhido para jurado. Não sei como é que ele respondeu ao questionário escrito mas, seja lá como for, posso garantir-lhe que não disse a verdade. Se tivesse dito, a estas horas, não estava onde está. Lembro-me perfeitamente das perguntas que nos fizeram durante a selecção do júri. E tenho a certeza de que ele mentiu ao responder.

— Pode continuar... sou todo ouvidos.

— Se não queria que o Meritíssimo ficasse zangado!... Ontem de manhã conversámos um bocado. Só estávamos nós os dois na sala do júri e, juro, não falávamos deste caso em particular. Mas começámos a falar sobre o tabaco e Frank confessou que tinha deixado de fumar há alguns anos. E também disse que as pessoas que não conseguem deixar de fumar não lhe inspiram qualquer tipo de simpatia.

O senhor sabe como é: o homem foi militar. Já está reformado, mas mantém uma atitude arrogante e rígida...

— Eu também estive na Marinha.

— Desculpe, Meritíssimo juiz. Quer que me cale?

— De modo nenhum. Peço-lhe até que continue.

— Eu continuo, mas é só porque o senhor doutor juiz me disse para continuar. Isto tudo põe-me tão nervoso que não imagina...

— Compreendo. Mas peço-lhe que continue.

— Com certeza. O coronel Frank acha que uma pessoa que fuma três maços de cigarros por dia, durante quase trinta anos, merece tudo o que lhe possa vir a acontecer. O caso não lhe inspira a mais pequena simpatia. Conversámos um bocadinho sobre este assunto, o senhor compreende que também sentimos necessidade de fazer conversa, mas veja lá que ele chegou ao ponto de me acusar de querer votar a favor da queixosa.

As palavras de Nicholas foram um rude golpe para o Meritíssimo juiz que, fechando e esfregando os olhos, com os ombros curvados para a frente, se afundou um pouco na cadeira.

— Era só o que me faltava — disse ele.

— Se soubesse não tinha dito nada.

— Não, agiu bem. Aliás, a culpa é minha.

O juiz sentou-se direito na cadeira, penteou o cabelo com os dedos e, forçando um sorriso, continuou:

— Senhor Easter. Vou pedir-lhe uma coisa, mas por favor não me interprete mal. Não quero fazer de si um delator. Mas estou preocupado com o júri... por causa das pressões externas. Como sabe, este tipo de litígio tem sido envolto em histórias estranhas. Por isso, peço-lhe que me comunique se vir ou ouvir alguma coisa, nem que seja apenas remotamente relacionada com um contacto não autorizado. Nessa altura, e com mais dados nas mãos, resolvemos o assunto de uma vez por todas.

— Pode contar comigo, senhor doutor juiz.

O artigo na primeira página do Journal era assinado por Agner l ,ay son, um repórter veterano que assistira a grande parte da selecção do júri e aos depoimentos de todas as testemunhas. Layson era formado em direito e, inclusivamente, tinha exercido advocacia durante muitos anos. Aquele artigo, o primeiro de uma série, apresentava os pontos básicos dos itens em julgamento e fazia a caracterização dos envolvidos. O artigo não veiculava nenhuma opinião sobre o andamento do julgamento, nem aventava nenhuma hipótese sobre o possível vencedor. Sobre o conteúdo do julgamento, o artigo não fazia mais do que descrever de forma correcta as conclusões médicas que a acusação tinha apresentado até àquela data.

Em consequência directa do artigo de Agner Layson, as acções da Pynex caíram um dólar na abertura da Bolsa mas, ao meio-dia, o mercado já parecia ter-se recomposto e as acções já tinham subido novamente.

O artigo provocou uma série de telefonemas com origem nas corretoras de Nova Iorque e com destino aos seus analistas deslocados em Biloxi. A decisão do júri era de importância capital para os profissionais da Bolsa mas, infelizmente, os analistas designados para acompanhar o julgamento não tinham a mais pálida ideia sobre o sentido de voto daquele júri.

 

O interrogatório de Bronsky terminou tarde na quinta-feira e Marlee atacou furiosamente na sexta-feira de manhã. Konrad atendeu o primeiro telefonema às sete e vinte e cinco, passou-o rapidamente a Fitch, que estava a falar ao telefone com Washington. Konrad ficou a ouvir o telefonema posto em sistema de alta voz.

—  Bom-dia, Fitch — disse ela, docemente.

—  Bom-dia Marlee — respondeu Fitch com voz jovial, fazendo o seu melhor para ser agradável. — Como vai?

— Fabulosamente. O número dois, Easter, vai estar vestido com uma camisa de ganga azul clara, jeans desbotadas, meias brancas, ténis velhos de corrida, Nike, acho eu. E vai ter na mão um número do Rolling Stones de Outubro, Meat Loaf na capa. Tomou nota de tudo?

—  Sim. Quando é que podemos encontrar-nos para conversar?

—  Quando estiver pronta. Adios. — Desligou. O telefonema foi localizado no pátio de um motel em Hattiesburg, Mississipi, a pelo menos noventa minutos de carro.

Pang, que estava num café a três quarteirões do apartamento de Easter, em poucos minutos estava parado à sombra de uma árvore, a cinquenta metros do apartamento, no seu antigo carocha. Exactamente às sete e quarenta e cinco, Easter saiu do prédio pela porta da frente e começou a sua habitual caminhada de vinte minutos até ao tribunal. Parou no mesmo mercado da esquina para comprar jornais e café.

Como era de esperar, estava vestido exactamente como Marlee disse que estaria.

O segundo telefonema também foi de Hattiesburg, mas de outro telefone.

— Tenho outra informação para si, Fitch. E vai adorar. Quase sem respirar, Fitch respondeu:

—  Estou a ouvir.

— Hoje, quando os jurados entrarem na sala, em vez de se sentarem, adivinhe o que vão fazer?

Fitch ficou petrificado. Mal podia mexer os lábios. Sabia que ela não esperava uma sugestão inteligente.

—  Desisto — disse.

— Vão fazer um juramento de bandeira. Fitch olhou incrédulo para Konrad.

—  Ouviu, Fitch? — perguntou ela, quase em tom de gozo.

—  Ouvi sim. Desligou.

O terceiro telefonema foi para o escritório de advocacia de Wendall Rohr que, de acordo com uma secretária, estava muito ocupado e não podia atender. Marlee compreendeu perfeitamente, mas explicou que tinha uma mensagem importante para o doutor Rohr. A mensagem chegaria dentro de cinco minutos por fax, portanto, seria possível a secretária ter a bondade de o receber e levar imediatamente ao doutor Rohr, antes de ele sair para o tribunal? A secretária concordou com relutância e, cinco minutos depois, encontrou a única folha de papel na bandeja do fax. Dactilografada a um espaço. No centro da página, a mensagem dizia:

«WR: jurado número 2, Easter, hoje vai estar de camisa de ganga azul-clara, calças desbotadas, meias brancas, Nikes velhos. Ele gosta da revista Rolling Stones e vai provar que é um bom patriota.»

A secretária correu para o escritório de Rohr onde ele estava a arrumar a sua pasta para a batalha daquele dia. Rohr leu o fax, fez um rol de perguntas à secretária, depois chamou o seu sócio para uma reunião extraordinária.

A atmosfera podia ser perfeitamente classificada como festiva, especialmente para doze pessoas que estavam ali contra vontade. Mas era sexta-feira e a conversa correu leve quando se reuniram, trocando cumprimentos. Nicholas sentou-se à mesa, perto de Herman Grimes, de frente para Frank Herrera, e esperou um intervalo na conversa. Olhou para Herman, que estava muito ocupado com o computador e disse:

— Herman, tive uma ideia.

Naquela altura Herman já conseguia distinguir as vozes dos onze jurados e a mulher tinha passado horas a descrever-lhe cada um deles. Conhecia perfeitamente a voz de Easter.

—  Sim, Nicholas.

Nicholas levantou a voz, num esforço para captar a atenção de todos.

—Quando era garoto, estudei numa escola particular e ensinaram--nos a começar o dia com o juramento de bandeira. Sempre que vejo a bandeira de manhã, tenho vontade de recitar o juramento. — Quase todos estavam a ouvir. Poodle tinha saído para fumar. — E no tribunal temos uma bela bandeira atrás do juiz e tudo o que fazemos é sentar-nos e olhar para ela.

— Não tinha reparado — disse Herman.

— Você quer fazer o juramento de bandeira na sala de audiências? — perguntou Herrera, Napoleão, o coronel reformado.

—  Isso mesmo. Porque não, uma vez por semana?

—  Não tem mal nenhum — disse Jerry Fernandez, recrutado secretamente para o acontecimento.

—  E o juiz? — perguntou a senhora Gladys Card.

—  Que mal é que tem? Porque é que alguém se há-de importar se ficarmos de pé por um momento homenageando a nossa bandeira?

—  Não está a brincar, pois não? — perguntou o coronel.

De repente, Nicholas ficou ofendido. Olhou para o coronel no outro lado da mesa e disse magoado:

—  O meu pai morreu no Vietname... Foi condecorado. A bandeira significa muito para mim.

E com isso, o caso ficou resolvido.

Quando entraram em fila na sala, o juiz Harkin recebeu-os com um caloroso sorriso de sexta-feira. Estava preparado para a rotina habitual sobre contactos não autorizados e para ir em frente com as testemunhas. Levou um segundo para perceber que não estavam a sentar-se como todos os dias. Ficaram todos de pé, depois olharam para a parede à sua esquerda, atrás do banco das testemunhas, com a mão direita sobre o coração. Easter abriu a boca e conduziu-os numa recitação vigorosa do juramento de bandeira.

A primeira reacção de Harkin foi de incredulidade total. Nunca tinha visto uma cerimónia daquelas numa sala de tribunal. Pelo menos, protagonizada por um grupo de jurados. Nem nunca tinha ouvido falar de uma coisa parecida, e neste momento da sua vida, Harkin pensava que já linha visto e ouvido de tudo. Não fazia parte do ritual diário, não fora aprovado por ele, na verdade não constava de nenhum manual ou compêndio. Assim, o seu primeiro impulso, depois do choque, foi mandar sentarem-se todos e parar com aquilo e conversar sobre o assunto mais tarde. Porém, no mesmo instante compreendeu que ia parecer horrivelmente antipatriótico, talvez até pecaminoso, interromper um grupo de cidadãos bem intencionados que homenageavam a sua bandeira. Olhou para Rohr e para Cable e o que viu foi duas bocas abertas.

Assim, o juiz ficou de pé. Mais ou menos no meio do juramento: i nclinou-se para a frente e para cima, a toga negra flutuando em volta dele, virou-se para a parede, levou a mão ao peito e entrou no coro.

Com o júri e o juiz homenageando a bandeira, de repente tornou-se imperativo que todos fizessem o mesmo, especialmente os advogados, que não podiam arriscar o desfavor do júri ou do juiz, nem demonstrar

o menor sinal de deslealdade. Levantaram-se de um salto, empurrando pastas e derrubando cadeiras. Glória Lane e sua equipa, a estenógrafa e Lou Dell, sentada na primeira fila, no outro lado, também ficaram de pé e acompanharam a recitação. Porém, o fervor perdeu o impulso mais ou menos na terceira fila dos espectadores. Desse modo, Fitch, por sorte, livrou-se de ficar de pé como um escoteiro e resmungar palavras que mal lembrava.

Estava sentado na última fila, com José de um lado, e Holly, uma sócia bonita e jovem, do outro. Pang estava fora da sala, no pátio de entrada. Doyle estava outra vez sentado sobre uma grade de Dr. Peper no primeiro andar, perto das máquinas de Coca-Cola, vestido como um operário, conversando com os porteiros e vigiando a porta da frente.

Fitch observou e ouviu completamente atónito. O espectáculo de um júri, por iniciativa própria e funcionando como um grupo, assumindo o controlo de um tribunal era simplesmente inacreditável. O facto de Marlee saber que aquilo ia acontecer era espantoso.

O facto de que ela estava a jogar era uma ideia estimulante.

Pelo menos, Fitch tinha uma ideia do que iam fazer. Wendall Rohr sentiu-se completamente encurralado. Ficou tão espantado quando viu Easter vestido exactamente como dizia a mensagem, segurando uma revista que pôs debaixo da cadeira para conduzir os jurados no juramento de bandeira, que só conseguiu dizer as últimas palavras, sem som. Fez isso sem olhar para a bandeira. Olhava para o júri, especialmente para Easter, tentando imaginar o que estava a acontecer.

Quando a última frase «... e justiça para todos» ecoou no tecto, os jurados tomaram os seus lugares e, em grupo, olharam rapidamente para a sala a fim de ver a reacção que tinham provocado. O juiz Harkin ajeitou a toga, enquanto remexia nos papéis sobre a mesa e parecia resolvido a agir como se todos os júris fizessem aquilo. O que podia dizer? Ao todo, a coisa durou trinta segundos.

A maior parte dos advogados procurava disfarçar o embaraço com aquela tola demonstração de patriotismo mas, se os jurados estavam felizes, eles estavam felizes também. Só Wendall continuou parado, aparentemente mudo de espanto. Um dos seus advogados encostou a mão ao seu braço e os dois começaram a conversar em voz baixa, enquanto o Meritíssimo seguia apressadamente com os comentários e perguntas da praxe para os jurados.

—  Acho que estamos prontos para a próxima testemunha — disse o juiz, ansioso para retomar o ritmo normal.

Rohr levantou-se, ainda atordoado, e disse:

— A acusação chama o doutor Hilo Kilvan.

Enquanto o novo especialista era conduzido da sala das testemunhas, atrás da cadeira do juiz, Fitch saiu da sala discretamente com José atrás dele. Atravessaram a rua e entraram na antiga loja que servia de escritório.

Os dois consultores de júri estavam calados na sala escura. No ecrã principal, um deles assistia ao começo do interrogatório do doutor Kilvan. Num monitor mais pequeno, o outro assistia à repetição do juramento de bandeira. Fitch parou ao lado do monitor e perguntou.

— Quando é que foi a última vez que assistiu a uma coisa parecida?

— A ideia foi de Easter — disse o consultor —, convenceu-os a fazer aquela cena..

— É claro que foi Easter—disse Fitch, irritado. — Toda a gente percebeu isso. — Como sempre, Fitch não estava a fazer jogo limpo. Nenhum dos consultores sabia dos telefonemas de Marlee, porque ele só tinha informado os seus agentes: S wanson, Doyle, Pang, Konrad e Holly.

-— Continuem a ver e rever a cena e vejam se me dizem alguma coisa que eu não saiba. — Saiu, bateu a porta e foi para o seu escritório.

Um novo advogado da acusação, Scotty Mangrum, de Dálias, encarregou-se do interrogatório directo do doutor Hilo Kilvan. Mangrum linha feito a sua fortuna processando empresas petroquímicas por acidentes provocados por tóxicos e agora, aos quarenta e dois anos, preocupava-se com produtos de consumo que causavam danos físicos e a morte. Depois de Rohr, foi o primeiro advogado a contribuir com um milhão para financiar o caso Wood, e ficou resolvido que ele devia informar-se a fundo sobre os dados estatísticos acerca do cancro de pulmão. Nos últimos quatro anos, Mangrum passou várias horas a ler todos os estudos e relatórios sobre o assunto e viajou extensivamente para conversar com especialistas. Com extremo cuidado, e sem se importar com despesas, escolheu o doutor Kilvan para visitar Biloxi e partilhar os seus conhecimentos com o júri.

O inglês do doutor Kilvan era perfeito, mas deliberadamente acrescentava-o com um leve sotaque, o que, de imediato, impressionou o júri. Poucas coisas podem ser mais persuasivas num tribunal do que um especialista que viajou de longe para estar ali e tem um nome e um sotaque exóticos. O doutor Kilvan morava em Montreal há quarenta anos, e o facto de ser de outro país acrescentava muito à sua credibilidade. O júri estava instalado muito antes de ele começar o seu depoimento. Ele e Mangrum, numa integração perfeita, descreveram o seu intimidante currículo, enfatizando especialmente o número de livros publicados sobre as probabilidades estatísticas de ocorrência de cancro do pulmão.

Finalmente, depois de questionado, Durr Cable concordou que o doutor Kilvan estava qualificado para testemunhar sobre o assunto. Scotty Mangrum agradeceu e começou com o primeiro estudo — a comparação dos índices de mortalidade por cancro de pulmão entre fumadores e não fumadores. O doutor Kilvan, que há vinte anos estudava esse assunto na universidade de Montreal, descontraiu-se na cadeira e explicou ao júri as bases da sua pesquisa. Para os homens americanos, e tinha estudado grupos de homens e mulheres em todo o mundo, mas principalmente canadianos e americanos, que fumam quinze cigarros por dia, durante trinta anos, o risco de ter cancro de pulmão é dez vezes maior do que para quem não fuma. Aumente para dois maços por dia, e o risco é vinte vezes maior. Com três maços, o número de maços fumados por Jacob Wood, o risco era vinte e cinco vezes maior do que para um não fumador.

Diagramas com cores vivas foram montados em três tripés e o doutor Kilvan, cuidadosamente e sem pressa, demonstrou perante o júri os resultados das suas pesquisas.

O estudo seguinte foi a comparação do índice de mortes por cancro do pulmão em relação ao tipo de tabaco usado. O doutor Kilvan explicou as diferenças básicas entre o fumo de cachimbo e o do cigarro e a incidência de cancro de pulmão entre os americanos que usavam estes dois tipos de tabaco. Tinha dois livros publicados sobre essa comparação e estava perfeitamente preparado para demonstrar a próxima série de diagramas e gráficos. Os números acumulavam-se e começavam a ficar confusos.

Loreen Duke foi a primeira a criar coragem para tirar o seu prato da mesa e ir comer sozinha a um canto. Como o almoço era pedido de acordo com a lista, às nove horas da manhã, e como Lou Dell e Willis, o segurança, e o pessoal da O'Reilly's Deli, além de todos os outros envolvidos na operação, procuravam ter a comida na mesa ao meio-dia em ponto, era necessária uma certa ordem. Os jurados passaram a sentar-se sempre nos mesmos lugares. Loreen ficava directamente à frente de Stella Hulic, que falava com a boca cheia e deixava grandes pedaços de pão pendurados entre os dentes. Stella era uma arrivista social, vestia-se com mau gosto e passava a maior parte dos intervalos tentando desesperadamente convencer os outros onze jurados de que ela e o marido, executivo aposentado de uma firma de canalizações chamado Cal, tinham mais dinheiro do que todos os outros. Cal tinha um hotel, um complexo de apartamentos, uma máquina de lavagem automática de carros, etc. Havia outros investimentos que saltavam para fora junto com a comida, como se ambos fossem apenas acidentes. Viajavam o tempo todo. O seu país favorito era a Grécia. Cal tinha um avião e vários barcos.

Como era do conhecimento geral, ao longo de toda a Costa, alguns anos atrás, Cal tinha usado um velho barco de pesca de camarão para transportar haxixe do México. Verdade ou não, os Hulic agora eram ricos e competia a Stella falar sobre isso com quem quisesse ouvir. Ela falava continuamente com uma voz monótona e fanhosa.

— Espero que hoje isto acabe mais cedo. Eu e o meu marido vamos passar o fim-de-semana a Miami. Abriram umas lojas fabulosas.

Todas as cabeças estavam inclinadas para os pratos, porque ninguém aguentava ver metade de um pãozinho preso entre os dentes. Cada sílaba era permanentemente acompanhada pelo som da comida colada aos dentes.

Loreen saiu da mesa antes de começar a comer. Foi seguida por Rikki Coleman, que se desculpou dizendo que precisava de se sentar perto da janela. De repente Lonnie Shaver precisou de trabalhar durante o almoço. Pediu licença e debruçou-se sobre o seu computador enquanto comia uma coxa de galinha.

— O doutor Kilvan é uma testemunha impressionante, não é? — perguntou Nicholas aos que estavam na mesa. Alguns olharam para Herman, que comia a sua habitual sanduíche de peru com pão branco, sem maionese e sem mostarda ou qualquer outro condimento. Uma sanduíche de peru fatiado e uma porção de batatas fritas podiam ser consumidos sem o benefício da visão. Por instantes, o movimento de mastigação de Herman ficou mais lento, mas não disse nada.

— É difícil ignorar aquelas estatísticas — disse Nicholas, sorrindo para Jerry Fernandez. Era uma tentativa deliberada de provocar o líder.

— Chega — disse Herman.

— Está a falar de quê, Herman?

— Das suas conversas sobre o julgamento. Conhece as regras do juiz.

— Mas o juiz não está aqui, pois não? E não pode saber sobre o que conversamos, ou pode? A não ser, é claro, que lhe conte.

— Quem sabe?... - .  /

— Quer conversar sobre quê?                                    , -

— Sobre qualquer coisa, menos o julgamento.

— Escolha um assunto. Futebol, o tempo...

— Não vejo futebol.

— Ha,ha!

Seguiu-se um pesado silêncio só quebrado pelo movimento da comida na boca de Stella Hulic. Evidentemente a breve troca de palavras entre os dois homens criou uma atmosfera de nervosismo e Stella começou a mastigar mais depressa ainda.

Mas Jerry Fernandez perdeu a paciência.

— Quer fazer o favor de deixar de fazer tanto barulho com a sua comida! — disse ele, irritado.

O comentário apanhou-a no meio de uma garfada, a boca aberta, a comida a aparecer. Olhou para Stella como se fosse agredi-la, respirou fundo e disse:

— Desculpe, está bem? Só que você tem uns modos horríveis à mesa.

Por um segundo ela ficou atónita. Depois embaraçada. Então, atacou. Muito vermelha, conseguiu engolir uma grande parte do que tinha na boca.

— Talvez também não goste dos seus modos — disse ela ofendida, e todos baixaram as cabeças. Todos queriam que aquele momento passasse.

— Pelo menos eu como em silêncio e com a boca fechada — disse Jerry, consciente da sua atitude infantil.

—Eu também — disse Stella.

-— Está enganada •— respondeu Napoleão que, por infelicidade, se sentava ao lado de Loreen Duke, em frente de Stella. — Você faz mais barulho do que uma criança de três anos.

Herman pigarreou ruidosamente e disse:

— Vamos todos respirar fundo e acabar o nosso almoço em paz. Enquanto todos se esforçavam para acabar de comer houve um

silêncio pesado. Jerry e Poodle saíram para a sala de fumadores seguidos por Nicholas Easter que não fumava, mas precisava de uma mudança de cenário. Caía uma chuva fina e o passeio diário pela cidade foi cancelado.

Encontraram-se na sala pequena e quadrada com cadeiras desdobráveis e uma janela aberta. Angel Weese, a mais calada de todos, logo se juntou a eles. Stella, a quarta fumadora, estava ofendida e resolveu ficar na sala dos jurados.

Poodle não se importava de falar sobre o julgamento. Nem Angel. O que mais tinham em comum? Aparentemente concordavam com a

opinião de Jerry: toda a gente sabe que o tabaco provoca cancro. Portanto, quem fuma está consciente do risco que corre.

Porque razão se havia de dar milhões aos herdeiros de um homem morto que fumou durante trinta anos? Não havia nenhuma razão para isso.

 

Embora os Hulic desejassem viajar num jacto pequeno e elegante, com bancos de couro e dois pilotos, tinham de se contentar com um velho bimotor Cessna que Cal podia pilotar quando o Sol estava alto e não havia nuvens. Mas Cal não ousava voar à noite, especialmente, para um lugar tão movimentado como Miami. Por isso, apanharam um avião no aeroporto municipal de Gulfport com destino a Atlanta. E de Atlanta voaram para o aeroporto internacional de Miami, em primeira classe. Stella bebeu dois martinis e um copo de vinho em menos de uma hora. Tinha sido uma longa semana. Estava arrasada dos nervos com aquele julgamento.

Depois de arrumarem a bagagem no táxi, foram para Miami Beach e hospedaram-se num Sheraton.

Marlee seguiu-os. Sentou-se atrás deles no primeiro avião e, no segundo, viajou em segunda classe. Mandou o táxi esperá-la enquanto deu voltas ao hotel para se certificar de que estavam de facto ali instalados. A seguir, instalou-se a um quilómetro, num hotel de turismo num quarto junto à praia. Esperou quase até às onze horas da noite de sexta-feira para telefonar.

Stella estava cansada e a única coisa que queria era tomar uma bebida e jantar no quarto. Uma bebida, não! Stella queria várias bebidas. No dia seguinte ia fazer compras, mas antes precisava de beber. Quando o telefone tocou, Stella estava quase inconsciente deitada na cama. Cal, de cuecas, atendeu o telefone.

— Está...

— Senhor Hulic? — disse a voz muito clara e profissional de uma mulher jovem. — O senhor devia ter cuidado.

— Como?

— Os senhores estão a ser seguidos.    

Cal esfregou os olhos.                              

— Quem fala?

— Ouça com atenção. A sua mulher está a ser vigiada por uns homens. Estão aqui em Miami. Sabem que vieram no voo 4476, de Biloxi para Atlanta, e no voo 533 da Delta, para Miami. E sabem perfeitamente em que quartos estão instalados. Vigiam todos os vossos movimentos.

Cal olhou para o telefone e bateu com a mão na testa.

— Desculpe, eu...

—Tenha atenção porque, provavelmente, vão pôr-lhes os telefones sob escuta — acrescentou. — Portanto, por favor, tenha cuidado.

— Está a falar de quem? — perguntou em voz alta. E, nesse momento, Stella ergueu-se na cama. Conseguiu pôr os pés no chão e ol liou para o marido com os olhos embaciados.

— De pessoas contratadas pelas tabaqueiras — foi a resposta. — são muito perigosas.

A mulher desligou. Cal olhou para o auscultador e depois para a mulher que estendeu a mão na direcção do maço de cigarros.

— O que foi? — perguntou Stella com uma voz arrastada. E Cal repetiu todas as palavras que tinha ouvido ao telefone.

— Oh, meu Deus!— disse Stella com uma voz estridente. Dirigiu-se à mesa onde estava a televisão e, pegando numa garrafa, serviu-se

de outro copo de vinho. — Por que é que andarão atrás de mim? — perguntou, deixando cair o corpo sobre uma cadeira e entornando o vi nho por cima do roupão do hotel. — Porquê eu?

— A mulher não disse que te iam matar — explicou Cal, num tom em que era possível vislumbrar um leve desapontamento.

— Por que é que me andam a seguir? — Stella estava quase a chorar.

— Como é que hei-de saber? — rosnou Cal. Tirou uma cerveja do

minibar e os dois ficaram a beber em silêncio durante alguns minutos, estavam confusos e evitavam olhar um para o outro.

O telefone voltou a tocar e Stella desatou aos gritos. Lentamente, Cal pegou no auscultador.

— Estou...

— Sou eu outra vez — disse a mesma voz, mas agora num tom alegre. — Esqueci-me de lhe dizer uma coisa: nem pense em chamar a polícia. As pessoas que os estão a vigiar sabem fazer as coisas. Finja que não se passa nada.

— Quem é a senhora? — perguntou ele.

— Até logo — e desligou.

A Listing Foods não tinha apenas um jacto, tinha três, e um deles fora mandado a Biloxi, no sábado bem cedo, para ir buscar o senhor Lonnie Shaver e trazê-lo até Charlotte. Lonnie ia viajar sozinho. A mulher não tinha encontrado uma baby-sitter disponível para lhe ficar com os três filhos. Os pilotos receberam-no calorosamente e, antes de levantar, ofereceram-lhe café e frutas.

Ken estava à espera dele no aeroporto com uma carrinha da firma. Quinze minutos depois de se terem encontrado estavam na sede da SuperHouse, num subúrbio de Charlotte. Lonnie foi recebido por Ben, o segundo homem que conhecera em Biloxi. Juntos, percorreram rapidamente o edifício da companhia. A sede estava instalada num prédio novo: uma construção térrea de tijolo com muito vidro que em nada se distinguia das dezenas de outras que tinham visto no trajecto desde o aeroporto. Os corredores eram largos, de azulejos imaculadamente limpos. Os escritórios pareciam esterilizados e era possível reconhecer sinais de tecnologia por todo o lado. A sensação de prosperidade era tão grande que Lonnie deu por si a imaginar que ouvia tilintar moedas.

Beberam um café no escritório de George Teaker, um dos directores executivos. O escritório era espaçoso, tinha vista para um pequeno terraço com plantas de plástico. Teaker era um jovem vigoroso. Vestia jeans e camisa, facto que mereceu uma explicação:

— É o meu uniforme de sábado. Aos domingos, uso fato de treino

Teaker fez a apologia da companhia: estava a crescer e estavam interessados em Lonnie. Logo de seguida, Teaker saiu para uma reunião.

Numa sala pequena e sem janelas, Lonnie sentou-se em frente de uma mesa sobre a qual havia café e bolinhos. Quando as luzes se apagaram e apareceu uma imagem na parede, Ben desapareceu, mas Ken ficou sentado ao seu lado. Era um vídeo de trinta minutos sobre a SuperHouse — um breve historial da empresa, a sua posição actual no

mercado e alguns minutos dedicados aos ambiciosos planos de crescimento. Os lucros previstos eram espantosos.

Quando as luzes se acenderam de novo apareceu um jovem atarefado e sentou-se no outro lado da mesa. Era especialista em regalias laborais e sabia tudo sobre seguros de saúde, planos de poupança-reforma, férias, feriados, baixas médicas e direito de opção para a compra de acções por parte dos empregados. Estava tudo explicado ao pormenor num dossier posto em cima mesa em frente de Lonnie que, mais tarde, o poderia ler e estudar com calma.

Depois de um demorado almoço com Ben e Ken num elegante restaurante daqueles subúrbios, Lonnie voltou para a sala fechada para ter mais algumas reuniões. Numa delas o tema era o programa de formação que lhe queriam oferecer. Na reunião seguinte, apresentada em vídeo, mostrava-se a estrutura da companhia, com centro na sede, e explicava-se ao pormenor a sua situação em relação à concorrência. No final desta segunda sessão de vídeo, Lonnie estava completamente entediado. Tinha passado a semana inteira sentado a ouvir discussões de advogados com especialistas de várias áreas do saber e estava farto. Aquela não era a melhor maneira de passar a tarde de sábado. Por mais entusiasmado que estivesse com a visita e com as perspectivas de trabalho e promoção, Lonnie começou a pensar que precisava de respirar ar puro.

Ken apercebeu-se da situação e, assim que o vídeo terminou, sugeri u uma partida de golfe, apesar de Lonnie nunca ter jogado golfe antes. Mais uma vez, Ken apercebeu-se da situação e rapidamente mudou de opinião, sugerindo apenas que saíssem do edifício para apanhar sol. O BMW de, Ken era azul e estava imaculadamente limpo. Ken era um condutor muito cauteloso. Passaram por quintas bem tratadas, grandes propriedades e por uma estrada ladeada de árvores que desembocava no Country Club.

Para um negro de uma família de classe média de Gulfport, a ideia de entrar num Country Club era assustadora. A princípio, Lonnie tentou defender-se e jurou a si mesmo que, se não visse outro negro no clube, saía dali a toda apressa. Mas, pensando bem, sentia-se de certo modo lisonjeado com a consideração que os seus empregadores pareciam ter por ele. Eram umas pessoas amáveis, sinceras e, aparentemente, estavam ansiosos para que ele se ajustasse à cultura da empresa. Até àquele momento, ainda não tinham falado de salário. Mas com certeza que não havia de ser menos do que aquele que Lonnie já auferia.

Entraram no Club Lounge, numa sala enorme com cadeiras de couro, animais empalhados nas paredes e uma nuvem azul de fumo a pairar perto do tecto. Era uma sala tipicamente masculina.

Encontraram George Teaker, agora vestido para jogar golfe, numa mesa grande perto da janela, com o campo de golfe por baixo. George Teaker estava a tomar uma bebida com dois homens negros, também muito bem vestidos e que, aparentemente, tinham acabado de voltar do campo de golfe. Os três levantaram-se e cumprimentaram calorosamente Lonnie, aliviado por ver aquelas almas gémeas.

Ao ver os dois negros, Lonnie sentiu que lhe tinham tirado um enorme peso de cima do peito e, de repente, sentiu-se pronto para beber uma bebida, embora fosse sempre muito cuidadoso com o álcool.

O negro maior era Morris Peei, efusivo e alegre, com um grande sorriso. E foi Morris quem apresentou o outro, Percy Kellum, de Atlanta. Tinha quarenta e poucos anos e, quando pediu a primeira rodada de bebidas, Peei explicou que era vice-presidente da Listing Foods, em Nova Iorque, e Kellum tinha um posto importante numa das filiais.

Não foi estabelecida nenhuma ordem hierárquica, nem era preciso. Estava claro que Peei, da empresa mãe em Nova Iorque, tinha um cargo superior ao de Teaker, director executivo, mas apenas de uma empresa. Kellum estava um pouco abaixo. Ken, ainda mais abaixo. E Lonnie sentia-se simplesmente feliz por estar ali. Durante a segunda bebida, e depois de já terem percorrido todos os temas recomendados socialmente, Peei, com grande prazer e humor, contou a sua biografia. Dezasseis anos antes tinha sido o primeiro negro a chegar ao cargo de gerente de nível médio e a entrar para o mundo da Listing Foods. E não tinha sido nada fácil. Contratado como um símbolo, e não como um talento, foi obrigado a lutar arduamente para subir na firma. Processou a empresa por duas vezes, e ganhou. Mas quando os administradores perceberam que Peei estava perfeitamente determinado a juntar-se a eles, e que tinha as capacidades necessárias, aceitaram-no como pessoa. Ainda agora, nem sempre era fácil, mas Peei tinha conquistado o respeito de toda a gente. Teaker, já no terceiro copo, inclinou-se para a frente e confidenciou a Lonnie que Peei estava a ser preparado para assumir um grande cargo.

— Provavelmente, estamos aqui sentados a conversar com um futuro director executivo, um dos mais importantes directores executivos de uma empresa Fortune 500.

Por causa de Peel, a Listing Foods tinha implementado uma política agressiva de recrutamento e promoção de gerentes negros. Era aí que se podia encaixar Lonnie. A Hardley Brothers era uma empresa decente mas antiquada, eivada de tradições sulistas. Por isso, era surpresa para a Listing encontrar apenas alguns negros com mais autoridade do que as mulheres da limpeza.

Durante duas horas, enquanto a noite caía sobre o campo de golfe e um pianista tocava e cantava no bar do clube, beberam, conversaram e fizeram planos para o futuro. O jantar foi servido no outro lado do hall, numa sala privada, com a lareira encimada por uma cabeça de alce americano. Comeram bifes espessos com molho de cogumelos. Naquela noite, Lonnie dormiu no terceiro andar do Country Clube e acordou no dia seguinte, com uma ligeira ressaca, mas com uma vista fantástica sobre o campo de golfe.

Lonnie só tinha duas breves reuniões programadas para a manhã de domingo. A primeira, novamente com a presença de George Teaker, que chegou com um fato de jogging, vindo da sua corrida de oito quilómetros.

— Correr é o melhor que há para curar a ressaca — disse ele.

Teaker queria que Lonnie dirigisse o supermercado em Biloxi. Queriam fazer-lhe um novo contrato e pô-lo à experiência durante noventa dias. Depois disso, reavaliavam o seu desempenho. Se ficassem satisfeitos, e tinham a certeza de que iriam ficar, transferiam-no para um supermercado maior, provavelmente na área de Atlanta. Uma casa maior significava mais responsabilidades e um ordenado melhor. Ao fim de um ano, seria reavaliado novamente e, o mais provável, era mandarem-no para outro supermercado. Durante esse período de quinze meses, devia passar pelo menos uma semana por mês em Charlotte, num programa de formação na área de gestão, que aliás estava descrito em pormenor num dos dossiers que estava em cima da mesa.

Finalmente, Teaker terminou a prelecção e pediu mais café.

O último orador era um jovem negro, magro e forte, calvo, vestido com fato e gravata. Chamava-se Taunton, era advogado em Nova Iorque, mais precisamente em Wall Street. A sua firma representava a Listing Foods. E, com ar solene, Taunton explicou que se ocupava exclusivamente dos negócios da Listing. Estava ali para apresentar uma proposta de contrato laboral, uma questão de pura rotina, mas muito importante. Entregou a Lonnie um documento de apenas três ou quatro páginas, mas que parecia muito mais pesado depois da longa viagem de Wall Street. Lonnie estava extremamente impressionado.

— Leia isso — disse Taunton, batendo com uma caneta de marca no queixo — e conversamos na próxima semana. É o contrato habitual. O parágrafo que trata das regalias tem várias partes em branco. Preenchemo-las mais tarde.

Lonnie olhou para a primeira página, depois juntou aos papéis os dossiers e a pilha de memorandos que crescia a cada momento. Taunton tirou do bolso um bloco de apontamentos, como se se estivesse a preparar para iniciar um severo interrogatório.

— São só umas perguntas sem importância — disse ele.

A imagem do tribunal de Biloxi passou como umflash pela mente de Lonnie: os advogados tinham sempre «apenas umas perguntas sem importância.»

—Claro — disse Lonnie, consultando o relógio, embora não pudesse evitar o que se seguiria.

— Já alguma vez foi parte interessada num processo criminal?

— Não. Só tive algumas multas por excesso de velocidade.

— Já alguma vez foi movido um processo contra si?

— Não.

— E contra a sua mulher?

— Não.

— Alguma vez foi à falência?

— Não.

— Já foi preso?

- Não.

— E indiciado?

—Também não.

Taunton virou a página.

— Como gerente, alguma vez se envolveu num litígio?

— Sim. Deixe-me ver. Mais ou menos há quatro anos, um velho escorregou e caiu no chão molhado. Entrou com um processo na justiça e fui chamado a depor.

- Foi julgado? — perguntou Taunton com grande interesse. Tinha investigado o registo criminal de Lonnie, tinha a pasta cheia de papéis e conhecia-os todos em pormenor. Claro que também estava ao corrente do pedido de indemnização do velho.

— Não. A companhia de seguros fez um acordo extra-judicial. Acho que pagaram mais ou menos vinte mil.

Eram vinte mil. Mas Taunton anotou a quantia no bloco. Teaker continuou a ler o seu inquérito como estivesse a ler o guião de um filme e disse a deixa seguinte:

— Malditos advogados de barra. São uma praga da sociedade. Taunton olhou para Lonnie, depois para Teaker, e disse defensivamente:

— Não sou advogado de barra.

— Eu sei! — respondeu Teaker. — O que detesto são aqueles advogados que andam sempre a ver se descobrem desgraças e acidentes para ver se tramam os potenciais culpados.

— Sabe quanto é que pagámos no ano passado de seguros de responsabilidade civil para cobrir danos potencialmente causados por produtos? — Taunton fez esta pergunta a Lonnie, embora tivesse a certeza de que ele não saberia responder. Lonnie abanou a cabeça.

— A Listing pagou mais de vinte milhões.

— Só para manter os tubarões à distância! — acrescentou Teaker. Fez-se um silêncio dramático ou, pelo menos, o silêncio foi feito com

o propósito de criar um ambiente dramático. Taunton e Teaker mordiam os lábios, demonstrando desta forma a sua aversão aos «tubarões», o que em linguagem corrente se pode traduzir por «advogados». O ar pensa-ti vo devia-se, com certeza, à indignação que lhes causava pensar no dinheiro desperdiçado na protecção contra eventuais processos.

Taunton consultou o seu bloco de apontamentos, olhou para Teaker e perguntou:

— Suponho que não falaram sobre o julgamento? Teaker ficou surpreendido.

— Acho que não é necessário. Lonnie é um dos nossos. Já vestiu a camisola.

Taunton ignorou a observação.

— O julgamento contra as tabaqueiras, em Biloxi, tem sérias implicações em toda a economia, especialmente em empresas como a nossa.

— disse Taunton dirigindo-se a Lonnie, que meneou a cabeça afirmati -vãmente, tentando demonstrar com esse simples gesto que percebia muito bem o tipo de implicações que aquele julgamento podia ter noutras empresas que não fossem a Pynex. Teaker disse a Taunton:

— Não tenho a certeza se deva falar sobre isso. Taunton continuou:

— Está coberto de razão: aliás, a lei impede-nos de conversar sobre este assunto, mas o Lonnie não se importa, pois não? Quero dizer, podemos confiar em si, não podemos?

— Claro. A minha boca não se vai abrir.

— Se a acusação ganhar esse caso e se o veredicto lhe for favorável, ficam abertas as portas para uma grande guerra contra todas as tabaqueiras do país. Os advogados de barra vão ficar loucos de entusiasmo e convencem-se que podem levar as tabaqueiras à falência. E o pior é que se as coisas forem assim, até podem.

— Ganhamos muito dinheiro com a venda de cigarros, Lonnie — disse Teaker no momento exacto.

— Provavelmente, a seguir, vão lembrar-se de processar as indústrias de lacticínios, alegando que o colesterol mata. — Taunton levantou a voz e inclinou-se para a frente no outro lado da mesa. O assunto tinha atingido um ponto sensível. —Há que acabar com este tipo de processos. Até hoje, a indústria do tabaco ainda não perdeu nenhum processo. Acho que já ganhou cinquenta e cinco processos sem sofrer uma única derrota. Tem tido a sorte de os jurados perceberem que quem fuma tem de assumir os seus próprios riscos.

— Lonnie compreende isso... — disse Teaker num tom defensivo. Taunton respirou profundamente.

— Claro. Desculpe se falei de mais. O que acontece é que nesse julgamento de Biloxi há demasiadas coisas em jogo.

— Não tem problema nenhum! Eu percebo — disse Lonnie. E, na verdade, a conversa não o perturbava. Afinal, Taunton era advogado e certamente conhecia a lei. Portanto, talvez não fosse aceitável falar dos pormenores do processo, mas com certeza que não tinha mal nenhum em falar do assunto em geral. Lonnie estava satisfeito. Já tinha vestido a camisola: era um deles. Pelo seu lado, não via problema nenhum em abordar aquele assunto.

De repente, Taunton, todo sorridente, guardou o bloco de apontamentos e prometeu telefonar a Lonnie a meio da semana. A reunião tinha acabado e Lonnie era um homem livre. Ken levou-o de carro até ao aeroporto, onde o mesmo avião, com os mesmos simpáticos pilotos, o esperavam.

A meteorologia prometia chuva para a tarde e, isso, para Stella, era

o suficiente. Cal insistia que não havia nenhuma nuvem no céu, mas ela recusava-se a olhar. Fechou as persianas e, até ao meio-dia, esteve a ver filmes na televisão. Pediu uma tosta de queijo e dois bloody niarys. Depois, dormiu com a corrente de segurança posta e com uma cadeira encostada à porta a travar a maçaneta. Cal saiu para a praia, mais propriamente para uma praia de topless, de que já tinha ouvido falar várias vezes, sem nunca ter tido a oportunidade de a visitar. Stella estava sempre demasiado perto. Desta vez, como tinha ficado em segurança no quarto do hotel, no décimo andar, estava livre para passear na areia e admirar carne jovem. Bebeu uma cerveja num barzinho de praia com telhado de palha, enquanto pensava no bem que lhe estava a saber aquela viagem. Stella estava com medo de ser vista e, por isso, e pelo menos durante aquele fim-de-semana, os cartões de crédito estavam a salvo.

No domingo de manhã apanharam o avião e voltaram para Biloxi.

Depois de passar o fim-de-semana em constante vigilância, Stella estava de ressaca e exausta. Pensava na segunda-feira e no tribunal com grande apreensão.

 

Na manhã de segunda-feira, os cumprimentos foram pouco entusiastas. Aquela rotina já começava a cansar. O pior não era a repetição; era a incomodidade de ninguém lhes saber dizer até quando é que aquilo se ia arrastar. Formaram pequenos grupos e conversaram sobre o que lhes tinha acontecido durante os dias de liberdade do fim da semana. De um modo geral, tinham-se ocupado com afazeres domésticos e familiares: fizeram compras, visitaram a família, foram à igreja, ou seja, fizeram todo o tipo de coisas que adquirem mais importância quando as pessoas estão fora de casa durante a semana.

Como Herman chegou atrasado houve comentários murmurados sobre o julgamento. Nada de muito importante, mas ficou claro um consenso geral: todos achavam que o caso da acusação estava afundado num pântano de gráficos, mapas e estatísticas.

Todos acreditavam que o tabaco provocava cancro e, por isso, teriam gostado que a acusação apresentasse novas informações. Logo de manhã, Nicholas conseguiu isolar Angel Weese. Durante o julgamento tinham trocado breves amabilidades, nada mais. Ela e Loreen Duke eram as únicas mulheres negras no júri e, estranhamente, guardavam uma certa distância uma da outra. Angel era magra, quieta, solteira e trabalhava numa distribuidora de cerveja. Aparentava suportar silenciosamente uma grande dor e não era fácil conversar com ela.

Stella chegou tarde e parecia a própria imagem da morte. Olhos vermelhos e inchados, o rosto pálido. Quando se serviu de café tinha as mãos a tremer e foi directamente para o fim do corredor, para a sala de fumadores. Jerry Fernandez e Poodle já lá estavam: como de costume, aproveitavam todos os intervalos para conversar e «flirtar» um pouco.

Nicholas estava ansioso para ouvir a descrição do fim-de-semana de Stella.

— Apetece-lhe um cigarro?— perguntou Nicholas a Angel, a quarta fumador oficial do grupo.

— Desde quando é que passou a fumar? — perguntou ela, sorrindo.

— Na semana passada. Quando o julgamento acabar, paro. — Saíram da sala do júri sob o olhar curioso de Lou Dell e juntaram-se aos outros: Jerry e Poodle continuavam a conversar; Stella, com o rosto i nexpressivo, encontrava-se à beira de um colapso nervoso.

Nicholas pediu um Camel a Jerry e acendeu-o com um fósforo.

—  EntãoMiami?Foibom?— perguntou a Stella. Ela virou a cabeça bruscamente e disse:

— Choveu! — Mordeu o filtro do cigarro e deu uma passa profunda. Não queria falar com ninguém. A conversa ficou ainda menos animada porque os presentes concentravam-se nos cigarros. Faltavam dez para as nove, ou seja, aquela era a hora certa para a última dose de nicotina antes de a sessão do dia começar.

—  Acho que este fim-de-semana fui seguido — disse Nicholas depois de um minuto de silêncio.

Continuaram todos a fumar, tentando não dar grande importância ao que tinha sido dito.

— Desculpe, o que é que disse? — perguntou Jerry.

— Seguiram-me — repetiu Nicholas, reparando nos olhos de Stella: estavam arregalados de medo.

— Quem? — quis saber Poodle.

— Não sei. Só sei que no sábado, quando saí de casa para ir trabalhar, vi um homem parado junto do meu carro. Quando cheguei ao emprego, já lá estava. Deve ser um espião ou um bandido contratado pelas tabaqueiras.

Stella abriu a boca e o seu queixo tremeu-lhe. Saiu-lhe fumo cinzento pelas narinas como se tivesse deixado de controlar os movimentos.

— Vai contar isso ao juiz? — perguntou, sustendo a respiração. Ela e Cal já tinham conversado sobre isso.

— Não.

— Porque não? — perguntou Poodle, sem muita curiosidade.

— Não tenho a certeza. Quero dizer, tenho a certeza de que fui seguido, mas não sei por quem. Por isso, que é que tenho para dizer ao juiz?

- Diga que foi seguido — sugeriu Jerry.

- Mas o que é que pode justificar que o tenham seguido? — per-

guntou Angel.

_ Não sei. Mas suponho que seja pela mesma razão porque nos

vigiam a todos.

— Não acredito nisso — disse Poodle.

Claro que Stella acreditava.... mas se Nicholas, ex-estudante de Direito achava que não devia contar ao juiz, quem era ela para ter uma opinião diferente. Também não ia contar nada.

— Mas porque é que acha que nos estão a seguir? — perguntou

Angel, nervosa.

_ porque é isso que eles fazem. As tabaqueiras gastaram milhões para nos escolher e, agora, gastam o que for preciso para nos vigiar.

— O que é que eles procuram?

- Uma maneira de chegar até nós. Amigos com quem podemos conversar. Lugares que podemos frequentar. Espalham boatos nas nossas comunidades, pequenas histórias sobre o falecido, inventam erros que tenha feito em vida... Estão sempre à procura de um ponto fraco. Por isso é que nunca perderam um julgamento.

- Como é que sabe que são as tabaqueiras? — perguntou Poodle,

acendendo outro cigarro.

- Não sei. Mas têm mais dinheiro do que a queixosa. Na verdade,

dispõem de fundos ilimitados para enfrentar estes casos.

Jerry Fernandez, sempre pronto a ajudar com uma piada ou uma

brincadeira, disse:

- Pensando bem, este fim-de-semana, também me lembro de ter visto um homem estranho e pequeno a olhar para mim numa esquina. E vi-o mais do que uma vez. — Olhou para Nicholas à espera de aprovação, mas Nicholas estava a olhar para Stella. Jerry piscou o olho

a Poodle, mas ela não viu. Lou Dell bateu à porta.

Na segunda-feira de manhã foram dispensados os juramentos e os hinos. O juiz Harkin e os advogados ficaram na expectativa: ao mais pequeno sinal de que os jurados se fossem levantar para repetir a cena do juramento de bandeira, eles próprios também se levantavam com inabalável patriotismo. Mas nada aconteceu! Os jurados sentaram-se com um ar cansado e aparentemente resignado: aquilo era o começo de mais outra longa semana de depoimentos. Harkin olhou para eles com um caloroso sorriso de boas-vindas e prosseguiu com o seu monólogo sobre contactos não autorizados. Stella olhava para o chão, sem dizer uma palavra. Cal estava presente, sentado na terceira fila, para apoiar a mulher.

Scotty Mangrum levantou-se e informou o tribunal de que a acusação gostaria de continuar com o depoimento do doutor Hilo Kilvan, saído de um recôndito lugar da sala e passado para o banco das testemunhas. Cumprimentou o júri com uma amável inclinação da cabeça. Ninguém respondeu.

Para Wendall Rohr e a equipa de advogados da acusação, o fim-de-semana não tinha significado descanso do trabalho árduo. O julgamento propriamente dito apresentava desafios suficientes, mas o fax de MM, na sexta-feira, tinha criado o caos e abalado o aparente ambiente de ordem até aí vivido por todos. Tinham conseguido descobrir que o fax fora enviado de um posto de abastecimento de camiões situado perto de Hattisburg. Um dos empregados, depois de um não muito dispendioso suborno, descreveu vagamente a rapariga que o tinha enviado: vinte e poucos anos, talvez trinta, cabelo escuro, um barrete de pescador castanho e o rosto escondido sob uns enormes óculos escuros. Era baixa, ou talvez de estatura média. Um e setenta ou um e oitenta. Talvez. Era magra, disso estava certo, e não conseguia ser mais preciso: tudo tinha acontecido às nove horas da manhã de sexta--feira, um dos períodos mais movimentados do posto. Pagou cinco dólares pelo envio do fax de uma página para um número em Biloxi, de um escritório de advogados, e foi isso que o empregado tinha achado estranho. Aliás, foi por isso que não se esqueceu. A maioria dos faxes enviados dali eram sobre licenças para abastecer e cargas especiais.

O empregado não tinha a mais pequena ideia sobre o carro em que ela seguia, mas como já tinha dito o posto estava cheio.

A opinião unânime dos oito principais advogados de acusação, que em conjunto perfazem 150 anos de experiência em julgamentos, era de que um facto assim era completamente novo. Nenhum deles se lembrava de um caso em que uma pessoa alheia ao julgamento entrasse em contacto com os advogados envolvidos adiantando previsões sobre os actos dos jurados. Todos achavam que ela, MM, voltaria. E, embora a princípio lhes tivesse sido difícil admiti-lo, durante o fim-de-semana tinham chegado à conclusão de que, provavelmente, ia exigir dinheiro. Ou seja, ia tentar negociar um acordo: dinheiro a troco de um veredicto.

A equipa de acusação nem conseguia delinear uma estratégia para negociar com a mulher. Pelo menos de momento. Talvez mais tarde, mas naquele momento não...

Fitch, pelo seu lado, não pensava noutra coisa. Naquela altura, e descontados os dois milhões destinados às despesas do julgamento, o Fundo ainda dispunha de meio milhão de dólares. O dinheiro tinha liquidez quase imediata e grande mobilidade. Fitch passou o fim-de-semana a vigiar os jurados, a conversar com os advogados, a ler novamente os dossiers compilados sobre o júri e passou muito tempo ao telefone a conversar com D. Martin Jankle, da Pynex. Ficou satisfeito com o resultado da actuação de Ken e Ben, em Charlotte. E George Teaker garantiu que Lonnie Shaver era um homem em quem podiam confiar. Chegou até a ver um vídeo filmado secretamente durante a última reunião de Lonnie com Taunton e Teaker. Praticamente só tinha faltado convencerem Shaver a assinar um compromisso.

No sábado, Fitch dormiu quatro horas e, no domingo, cinco. Fitch dormia pouco, por isso aquelas poucas horas de sono não saíam da sua média habitual. Sonhou com Marlee e com as vantagens que ainda lhe pudesse vir a trazer. Aquele podia vir a ser o veredicto mais fácil de todos.

Na segunda-feira assistiu à abertura da sessão na sala onde, através de ecrãs de televisão, se podia ver tudo o que se passava na sala de audiências. Acompanhava-o um especialista em júris. A câmara escondida estava a funcionar tão bem que resolveram experimentar uma melhor, com lentes maiores e imagem mais definida. Puseram-na dentro da mesma pasta, debaixo da mesma mesa e sabiam que ninguém, na sempre movimentada sala de audiências, imaginava sequer o que se passava.

Parecia estar tudo em ordem, mas Fitch já o esperava. Se não fosse assim, Marlee ter-lhe-ia telefonado antes.

Ouviu o resumo final do depoimento do doutor Hilo Kilvan e quase sorriu com a expressão de medo dos jurados. Os seus consultores e advogados eram unânimes na certeza de que as testemunhas de acusação não tinham conseguido cativar o júri. Os especialistas im-

pressionavam pelo método visual com que expunham as suas ideias e pelos diplomas e credenciais com que se apresentavam. Mas a defesa sabia que isso não era suficiente: já tinha assistido a situações como aquela.

A defesa seria simples e subtil. Os seus médicos argumentariam exaustivamente no sentido de provar que o tabaco não provoca cancro. Outros especialistas, com excelentes referências profissionais e curriculares, provariam que a escolha dos fumadores é perfeitamente informada. E, finalmente, os seus advogados argumentariam que se o tabaco é tão perigoso como dizem, não é aceitável que os fumadores não tenham pleno conhecimento dos riscos que correm.

Fitch já tinha passado por situações como aquela muitas vezes. Sabia de cor o que as testemunhas iam dizer. Já tinha sofrido com os argumentos dos advogados, suado enquanto os júris deliberavam, mas nunca tivera a hipótese de comprar um veredicto.

Segundo o doutor Kilvan, o tabaco mata quatrocentos mil americanos por ano e apresentou quatro gráficos para provar a sua afirmação. Para este especialista, o tabaco é o produto mais mortífero que se encontra no mercado. Nenhum outro se lhe aproxima em termos numéricos e de impacto na saúde pública. Isto, exceptuando, talvez, as armas de fogo.

Este ponto provocou um certo impacto no júri e não seria esquecido mais tarde. Às dez e meia, os jurados estavam prontos para o intervalo: precisavam de tomar café e de ir à casa de banho. Nicholas passou um bilhete a Lou Dell e ela entregou-o a Willis que, por acaso, estava acordado. Pegou no bilhete e levou-o até ao juiz. Easter queria ter uma conversa particular com o juiz. Se possível, ao meio-dia. Era urgente.

Nicholas pediu que o dispensassem do almoço, alegando que não estava bem do estômago. Queria ir à casa de banho e, assim que se sentisse melhor, voltava. Ninguém ligou importância à explicação de Nicholas. Estavam mais interessados nas movimentações em torno da mesa: a maior parte dos jurados saía da mesa antes que tivesse de ficar perto de StellaHulic.

Nicholas passou pelos corredores estreitos e entrou no escritório onde o juiz o esperava, sozinho, com uma sanduíche fria à sua frente. Cumprimentaram-se muito tensos. Nicholas tinha na mão uma pasta castanha.

—  Precisamos de conversar — disse ele, sentando-se na frente do

juiz.

—  Os outros sabem que está aqui?

— Não. Mas não posso demorar.

— O que é que tem para me dizer? — Harkin comeu um pedaço de pão de milho e empurrou o prato.

— Três coisas. Stella Hulic, número quatro, sentada na primeira fila, foi a Miami no fim-de-semana e foi seguida por pessoas desconhecidas, supostamente contratadas pelas tabaqueiras.

O Meritíssimo parou de mastigar.

— Como é que sabe?                                                      

—Esta manhã ouvi uma conversa: Stella estava a contar esta história em voz baixa a outro jurado. Não me pergunte como é que ela soube que estava a ser seguida. Não consegui ouvir a conversa toda. Mas a pobre mulher está um trapo. Tenho a impressão que antes de vir para o tribunal hoje de manhã deve ter estado a beber.

—  Continue.

— Segundo: Frank Herrera, número sete, que já lhe disse que tem opinião formada, anda a tentar influenciar as outras pessoas.

— Pode continuar.

— Preocupa-me. Compreendo que a reforma seja pesada para um homem como ele, mas uma pessoa que vem para o julgamento com a opinião pré-formada pode ser um bom jurado?

— Ele conversa sobre o caso com os outros jurados?

— Conversou comigo, como lhe disse. Não o ouvi falar com mais ninguém, mas também o Herman orgulha-se muito do título de líder e não tolera nenhuma conversa sobre o julgamento.

— Isso é bom.

— É bom, mas não chega. Sozinho não consegue controlar tudo. E, como sabe, as pessoas não resistem. Faz parte da natureza humana não aguentar o silêncio por muito tempo. Seja como for, Herrera é um veneno no meio do júri.

— Muito bem. E qual é a terceira coisa?

Nicholas abriu a pasta de couro e tirou de lá de dentro uma cassete vídeo.

— Isto funciona? — perguntou, indicando com a cabeça uma televisão e um gravador/leitor de vídeo que estava sobre um carrinho, a um canto da sala.

— Acho que sim. Pelo menos na semana passada funcionava.

— Posso?

— Esteja à vontade.

Nicholas ligou a televisão, depois o vídeo, pôs a cassete de vídeo dentro do leitor.

— Lembra-se da história do homem que estava na sala de audiên-cias na semana passada? Aquele que me estava a seguir?

— Lembro-me, claro! — Harkin levantou-se da cadeira e aproximou-se da televisão.

—Muito bem, veja-o aí. — A imagem não era muito nítida mas dava perfeitamente para ver a porta abrir-se e o homem entrar em casa de Easter. Depois de entrar, olhou à volta, nervoso, olhou directamente para a câmara que estava escondida no aparelho de ventilação de ar, ao pé do frigorífico. Nicholas parou o vídeo no momento em que se via a imagem do homem de frente e disse: — Lembra-se? O homem é este!

O juiz Harkin repetiu sem respirar.

— O homem é este!

A gravação continuou com o homem, Doyle, entrando e saindo de foco constantemente. Via-se o homem a tirar fotografias, a inclinar-se sobre o computador e a abandonar a casa em menos de dez minutos.

— Quando é que ele... — Harkin falou devagar, com o olhar ainda fixo na televisão.

— Sábado à tarde. Fui para a loja no turno da tarde e o homem entrou em minha casa enquanto estava a trabalhar. — Não era verdade, mas Harkin também não tinha maneira de confirmar este facto. Nicholas tinha reprogramado o vídeo fazendo aparecer no canto direito da imagem a data de sábado anterior.

— Porque é que tem a casa sob...

—  Há cinco anos, quando morava em Mobile, fui roubado, espancado e quase morri. Arrombaram a porta do meu apartamento. Desde aí, passei a ser muito cuidadoso.    152

Esta explicação tornava as coisas perfeitamente plausíveis. Percebia-se que, apesar de ganhar pouco, depois do que tinha vivido, Nicholas tivesse resolvido investir na sua segurança. Qualquer pessoa podia entender isso.

— Quer ver o vídeo outra vez?

— Não. Tenho a certeza de que é ele. Nicholas retirou a cassete e entregou-a ao juiz.

— Pode ficar com a cassete. Tenho uma cópia.

Fitch foi interrompido quando estava a comer uma sanduíche de rosbife. Konrad parou à porta e disse as palavras que ele queria ouvir:

— A rapariga está ao telefone.

Passou as costas da mão pela boca, cofiou a barbicha e pegou no telefone.

— Estou?

— Fitch, meu querido — disse ela —, sou eu, a Marlee.

— Sim, querida.

— Não consegui saber o nome do homem, mas é aquele que mandou ir ao apartamento de Easter na quinta-feira, dia 19, às 16:52. Para ser mais precisa: há onze dias. — Fitch ficou sem ar e teve de cuspir pedaços da sanduíche. Praguejou em silêncio e endireitou o corpo na cadeira. Ela continuou: — A seguir a isso, mandei um recado a dizer que Nicholas ia aparecer com uma camisa cinzenta e insjeans. Lembra-se?

— Perfeitamente — disse ele com voz rouca.

— Depois disso, mandou o homem ir ao tribunal. Se calhar à minha procura. Mas foi muito mal feito: Easter reconheceu o homem e mandou um recado ao juiz, que também se apercebeu de tudo. Está a ouvir, Fitch?

Fitch ouvia perfeitamente, embora tivesse cada vez com mais dificuldades de respiração.

— Estou!— respondeu, zangado.

— Óptimo. O juiz já sabe que o homem invadiu o apartamento de Easter e assinou um mandado de prisão. Por isso, o melhor que tem a fazer é mandar o indivíduo sair da cidade o mais depressa possível.

Fitch tinha vontade de fazer uma série de perguntas, mas não se atrevia. E mais, sabia que seria perfeitamente inútil fazer as tais perguntas. Nunca lhe responderia. A eventualidade de Doyle ser reconhecido e detido era preocupante. E se não aguentasse a pressão e falasse de mais? Fitch nem conseguia pensar nisso com clareza. Aliás, invasão ao domicílio era um crime suficientemente grave só por si. Fitch tinha de agir rapidamente.

— Mais alguma coisa? — perguntou.

— Não. Por enquanto, é tudo.

Supostamente, Doyle estava a almoçar num restaurante vietnamita, a quatro quarteirões do tribunal. Mas, na verdade, quando o bip soou estridentemente no seu cinto estava no Lucy Luck a jogar vinte-e-um a dois dólares. Era Fitch, do escritório. Três minutos depois, Doyle já estava na estrada 90 e dirigia-se para Leste. Tinha escolhido o Leste porque depois deveria voar para Chicago.

Fitch levou uma hora a investigar e a certificar-se de que não havia nenhum mandado de prisão contra Doyle Dunlap, nem contra nenhuma pessoa parecida com ele. Mas isso não servia de consolo. Persistia o facto de Marlee saber que tinha invadido o apartamento de Easter.

Fitch não conseguia perceber como é que ela estava ao corrente! E era aí que residia o cerne da questão. Fitch gritou por Konrad e Pang e, durante três horas, os três conferenciaram até encontrar a resposta.

Às três e meia de segunda-feira, o juiz Harkin mandou interromper o depoimento do doutor Kilvan e mandou-o para casa. Anunciou, perante a estupefacção dos advogados, que precisava de resolver imediatamente alguns problemas muito graves relacionados com o júri. Mandou os jurados para a sala do júri e a sala de audiências foi evacuada. Quando a sala ficou vazia, Jip e Rasco trancaram a porta.

Cuidadosamente, Oliver McAdoo empurrou a pasta com o pé para debaixo da mesa, de modo a que a câmara focasse a cadeira do juiz. Ao lado daquela pasta estavam mais quatro mochilas e outras pastas, para além de duas caixas de papelão cheias com depoimentos e outros papéis legais. McAdoo não sabia o que estava para acontecer, mas suspeitou, correctamente, que Fitch haveria de querer ver tudo em pormenor.

O juiz Harkin pigarreou e dirigiu-se aos advogados que o observavam com atenção.

— Meus senhores, chegou ao meu conhecimento que alguns, senão todos os jurados, desconfiam que estão a ser vigiados e seguidos. Tenho provas incontestáveis de que pelo menos um deles viu o seu apartamento invadido.

Esperou o suficiente para garantir que as suas palavras surtiam efeito. E não ficou decepcionado. Os advogados ficaram perplexos e, de imediato, começaram a alegar a sua inocência e a atribuir a culpa à outra parte.

— Muito bem, tenho duas opções. Posso anular o julgamento ou posso isolar o júri. Estou inclinado pela segunda hipótese, por mais desagradável que seja. Doutor Rohr?

Rohr levantou-se vagarosamente e, por um raro momento, ficou sem saber o que dizer.

— Pelo nosso lado, é óbvio que não estamos interessados na anulação. Quero dizer, sei que não fizemos nada de ilegal. — Olhou para a mesa da defesa. — Alguém entrou em casa de um jurado? — perguntou.

— Daqui a pouco já mostro a prova de que disponho. Doutor Cable?

Sir Durr levantou-se e abotoou o casaco elegantemente.

— É chocante, Meritíssimo.

— Estamos de acordo.                                                    <

— Não estou em posição de responder, pelo menos até saber com mais pormenores o que se passou. — Devolveu o olhar de suspeita para os óbvios culpados: os outros advogados.

— Muito bem. Tragam a jurada número quatro, Stella Hulic. — Ordenou o Meritíssimo a Willis.

Stella, rígida de medo e muito pálida, entrou na sala.

— Por favor, sente-se, senhora Hulic. Isto não demora mais de um minuto. — O juiz sorriu tranquilizadoramente e apontou-lhe uma cadeira.

Stella olhou apavorada para todos os lados e sentou-se.

—  Muito obrigado. Queria fazer-lhe algumas perguntas, senhora Hulic.

A sala estava silenciosa: os advogados seguravam as canetas e ignoravam os sagrados blocos de apontamentos, esperando a revelação do grande segredo. Depois de quatro anos de guerra, porque a pre-

paração do julgamento tinha sido uma guerra, sabiam de antemão pra-l icamente tudo o que uma testemunha pudesse vir a dizer. A perspectiva de irem assistir a depoimentos não ensaiados parecia-lhes fascinante.

Era óbvio que Stella ia revelar algum pecado hediondo cometido pelo outro lado. Stella olhou para o juiz com olhos suplicantes. Achou que alguém tinha sentido o cheiro de álcool no seu hálito e a tinha denunciado ao juiz.

— No último fim-de-semana, a senhora foi a Miami?

— Fui — respondeu devagar.

— Com o seu marido?

— Sim. — Cal saíra do tribunal depois do almoço. Tinha assuntos inadiáveis a tratar.

— E qual foi o propósito dessa viagem?

— Fui fazer compras.

— Enquanto lá esteve, aconteceu alguma coisa fora do normal? Ela respirou profundamente e olhou para os advogados, atentos e

amontoados à volta das compridas mesas. Depois, voltou-se para o juiz Harkin e disse:

— Aconteceu sim, senhor.

— Por favor, conte-nos o que aconteceu.

Stella, na iminência de se descontrolar, estava com os olhos marejados de lágrimas. O juiz Harkin apercebeu-se da situação e disse:

— A senhora não fez nada de mal. Conte-nos apenas o que aconteceu.

Ela mordeu o lábio e cerrou os dentes.

— Chegámos ao hotel na sexta-feira à noite. Passadas duas ou três horas, o telefone tocou. Era uma mulher a dizer que as tabaqueiras ti nham espiões a seguir-nos. Disse que nos tinham seguido desde Biloxi e até sabiam os números dos nossos voos. Disse que iam seguir-nos durante todo o fim-de-semana e que, provavelmente, até iam pôr os nossos telefones sob escuta.

Rohr e a sua equipa respiraram aliviados. Foram lançados um ou dois olhares malévolos em direcção à mesa onde Cable e os seus ho-| mens estavam petrificados.

— A senhora viu alguém que parecesse estar a segui-la?

— Para ser franca, eu nem saí do quarto. Fiquei muito nervosa. O meu marido, Cal, saiu algumas vezes e viu um homem, que pareciacubano, com uma câmara na praia. Depois viu o mesmo homem no sábado, quando estávamos a sair do hotel. — De repente, Stella compreendeu que aquela podia ser a sua saída, o momento em que podia fazer perceber que estava de tal forma arrasada que não podia continuar. Sem grande esforço, as lágrimas jorraram dos seu solhos.

— Mais alguma coisa, senhora Hulic?

— Não ...— disse ela entre soluços — é tão horrível. Não posso parar de... — e as palavras desfizeram-se em angústia.

O Meritíssimo olhou para os advogados.

— Vou dispensar a senhora Hulic. No lugar dela ficará o substituto número um.

Stella deu um pequeno gemido e a exibição de tamanho sofrimento tornava impossível uma argumentação a favor da sua continuação no júri. O isolamento pairava ameaçador sobre os jurados e, naquele estado, Stella Hulic não poderia desempenhar os seus deveres.

— A senhora pode voltar para a sala dos jurados, pegar nas suas coisas e ir para casa. Muito obrigado pela sua cooperação e sinto muito o ocorrido.

— Eu também sinto muito. — Stella levantou-se da cadeira e saiu da sala.

A sua partida foi um golpe para a defesa. A senhora Hulic fora muito bem cotada durante a selecção. E, depois de duas semanas de observação contínua pelos especialistas dos dois lados, a opinião quase unânime era a de que não seria favorável à acusação. Stella Hulic fumava há vinte e quatro anos sem que alguma vez tivesse tentado deixar de fumar.

O seu substituto era temido pelos dois lados, especialmente pela defesa.

— Traga o jurado número dois, Nicholas Easter — disse Harkin a Willis, que estava de pé ao lado da porta aberta. Glória e uma assistente levaram uma grande televisão e um leitor de vídeo para o centro da sala num suporte com rodas. Os advogados começaram a morder as canetas, especialmente a defesa.

Durwood Cable fingiu ocupar-se de outras coisas na mesa, mas a única pergunta na sua mente era: o que é que Fitch fez desta vez? Antes do julgamento, Fitch dirigiu tudo, a composição da equipa da defesa, a selecção das testemunhas, dos especialistas, a contratação dos consultores de júri, a investigação de todos os potenciais jurados, encarregou-se da delicada comunicação com o cliente e a Pynex e vigiava os advogados de acusação como uma águia. Mas a maior parte do que Fitch tinha feito depois do começo do julgamento era segredo. Cable não queria saber. Ele tomava conta da parte nobre do caso: o julgamento. Fitch encarregava-se dos trabalhos sujos.

Easter sentou-se no banco das testemunhas e cruzou as pernas. Se estava assustado ou nervoso, não o demonstrou. O juiz perguntou sobre o homem misterioso que o estava a seguir e Easter referiu as horas e os locais específicos em que o tinha visto. Explicou com detalhes perfeitos o que aconteceu na quarta-feira quando olhou para a sala do tribunal e viu o mesmo homem sentado na terceira fila.

Descreveu então o equipamento de segurança que tinha no apartamento e pegou na cassete de vídeo que estava nas mãos do juiz Harkin. Pô-la no vídeo e os advogados sentaram-se nas pontas das cadeiras. Todos puderam ver a gravação completa: nove minutos e meio de gravação e, quando terminou, Nicholas voltou para a cadeira das testemunhas e confirmou a identidade do intruso — o mesmo homem que

o tinha seguido, que tinha visto na sala de audiências na quarta-feira.

Fitch não podia ver a imagem no maldito monitor porque o desajeitado McAdoo, ou outro cretino qualquer, tinha empurrado a pasta com a câmara escondida para debaixo da mesa. Mas Fitch ouviu tudo, palavra por palavra e, fechando os olhos, imaginava claramente o que estava a acontecer no tribunal. Uma tremenda dor de cabeça começava a formar-se na base do crânio. Tomou uma aspirina com água mineral. (Queria fazer uma única pergunta a Easter. Para alguém tão preocupado com segurança a ponto de instalar câmaras escondidas, porque não instalava também um sistema de alarme na porta? Mas ninguém teve a ideia de fazer essa pergunta.

O Meritíssimo disse:

— Posso atestar também que o homem no vídeo é o mesmo que estava nesta sala na última quarta-feira.

Mas o homem no vídeo há muito tempo que tinha desaparecido, enquanto todos no tribunal o viam entrar no apartamento de Nicholas e andar de um lado para outro, como se nunca pudesse ser apanhado,

O homem estava escondido e em segurança, em Chicago.    

— Pode voltar para a sala dos jurados, senhor Easter.

Passou-se uma hora e os advogados apresentavam os seus fracos e improvisados argumentos contra o isolamento do júri. Assim que as coisas aqueceram mais um pouco, começaram a voar de um lado para o outro alegações de delito civil, tendo a defesa como alvo do tiroteio mais cerrado. Os dois lados sabiam coisas que não podiam provar e, portanto, não as podiam dizer, de modo que as acusações eram mais ou menos generalizadas.

Os jurados ouviram da boca de Nicholas um relato bastante aumentado de tudo o que tinha acontecido, tanto na sala de audiências como no vídeo. Na pressa, o juiz Harkin tinha-se esquecido de proibir Nicholas de discutir o assunto com os outros membros do júri. Nicholas imediatamente tirou vantagem da omissão e mal podia esperar para estruturar a história a seu modo. Tomou também a liberdade de explicar a partida intempestiva de Stella que saiu a chorar copiosamente.

Por muito pouco Fitch não teve dois pequenos enfartes enquanto caminhava furioso no escritório, passando a mão pelo pescoço e pelas têmporas, puxando a barba e exigindo de Konrad, Swanson e Pang respostas impossíveis. Além destes três, Fitch tinha a jovem Holly, Joc Boy, um detective particular local com pés incrivelmente macios, Dante, um ex-polícia negro de D.C., e Dubaz, outro garoto local com uma ficha do tamanho de um braço. E quatro pessoas no escritório com Konrad, mais uma dezena que, à sua chamada, podiam chegar a Biloxi em três horas, e montes de advogados e consultores de júri. Fitch tinha uma porção de gente que custava um monte de dinheiro, mas não mandara ninguém a Miami no fim-de-semana para vigiar as compras de Stella e Cal.

— Um cubano? Com uma máquina fotográfica? Fitch atirou um livro de telefones contra a parede quando disse isto.

— E se for a rapariga? — sugeriu Pang, erguendo a cabeça devagar, depois de a ter baixado para se desviar do livro de telefones.

— Qual rapariga?

— Marlee. Hulic disse que foi uma rapariga quem telefonou. — A calma de Pang contrastava com a agitação explosiva do seu chefe.

Fitch parou e sentou-se por um momento. Tomou outra aspirina e mais água mineral e, finalmente, disse:

— Acho que tem razão.                                     

E tinha. O cubano era um «consultor de segurança» barato que Marlee encontrou nas páginas amarelas. Pagou duzentos dólares para ele parecer suspeito, o que não era difícil, e deixar que os Hulic o vissem com uma câmara quando saíssem do hotel.

Os onze jurados e três substitutos voltaram para a sala do tribunal. A cadeira vazia de Stella, na primeira fila, foi ocupada por Phillip Sável lê, um homem esquisito de quarenta e oito anos que nenhum dos dois lados tinha conseguido definir. Segundo ele, era um cirurgião de árvores e trabalhava por conta própria. Mas não tinham encontrado nenhum registo dessa profissão na Costa do Golfo nos últimos cinco anos. Era também um soprador de vidro avant-garde cujo forte eram as criações de cores vivas e amorfas, às quais dava obscuros nomes aquáticos e marinhos. Ocasionalmente expunha nas pequenas e insignificantes galerias de Greenwich Village. Gabava-se de ser um marinheiro experiente e tinha construído um ketch em que costumava navegar até às Bermudas até o barco naufragar nas águas calmas. Às vezes apresentava-se também como arqueólogo e, depois de o barco se ter afundado, passou onze meses numa prisão hondurenha por fazer escavações ilegais.

Era solteiro, agnóstico, formado pela Grinenell, e não fumava. Todos os advogados na sala do tribunal morriam de medo de Savelle.

O juiz Harkin pediu desculpa pelo que ia fazer. O isolamento de um júri era um acontecimento raro e radical, tornado necessário por circunstâncias extraordinárias e quase sempre usado em casos sensacionais de assassinatos. Mas não tinha escolha. Houve três casos de contacto não autorizado. Apesar das suas advertências, não havia razão para acreditar que não se iam repetir. Não gostava nada da decisão que tinha tomado e sentia-se aborrecido por todo o inconveniente que isso ia causar. Mas a sua obrigação era garantir um julgamento justo.

Explicou que há alguns meses elaborara um plano para essa contingência. O condado reservara um conjunto de quartos num motel próximo, cujo nome não foi mencionado. A segurança seria reforçada. Ele tinha uma lista de regras que estudaria com os jurados. O julgamento entrava agora na segunda semana de depoimentos de testemunhas e ele encarregar-se-ia de fazer com que os advogados trabalhassem com afinco para terminar o mais breve possível.

Os quinze jurados deviam sair, ir para casa, fazer as malas, pôr em ordem os seus negócios e apresentar-se no tribunal na manhã seguinte, preparados para passar as duas próximas semanas isolados.

Não houve nenhuma reacção imediata dos jurados: estavam atónitos de mais. Só Nicholas Easter achou engraçado.

 

Como Jerry gostava de cerveja, jogos de azar, futebol e movimento, Nicholas sugeriu que, na segunda-feira, se encontrassem num casino para comemorar as suas últimas horas de liberdade. Jerry achou a ideia magnífica. Quando os dois saíram do tribunal pensaram em convidar alguns dos jurados. À partida, parecia boa ideia, mas a verdade é que não funcionou. À partida, Herman estava de fora. Lonnie Shaver saiu apressado, muito agitado, sem falar com ninguém. Savelle era novo e desconhecido. Só restava Herrera, Nap, o coronel, e eles simplesmente não queriam a companhia dele. Já bastava a ideia de passarem duas semanas fechados na mesma sala com ele.

Jerry convidou Sylvia Taylor-Tatum, a Poodle. Os dois estavam numa espécie de flirt discreto. Ela era divorciada pela segunda vez e Jerry estava no meio do seu primeiro divórcio. Uma vez que Jerry conhecia todos os casinos da Costa, sugeriu um novo, chamado O Diplomata. Tinha um bar desportivo, com um grande ecrã, e as bebidas eram baratas. Além disso, era suficientemente grande para assegurar uma certa privacidade e as empregadas tinham pernas altas e pouca roupa.

Quando Nicholas chegou, às oito, Poodle já estava a guardar uma mesa no bar completamente cheio. Estava a tomar uma cerveja e sorria, amável, coisa que nunca tinha feito no tribunal. O cabelo crespo e solto estava penteado para trás. Vestia jeans desbotados, camisola larga e umas botas de cowboy vermelhas. Não era bonita mas, de qualquer forma, parecia muito melhor num bar do que no banco do júri.

Os olhos escuros de Sylvia eram tristes e muito vívidos: olhos de uma mulher maltratada pela vida e, enquanto Jerry não chegava, Nicholas tinha resolvido aproveitar o tempo o melhor possível. Pediu outra rodada de cerveja e dispensou a conversa convencional.

— É casada? — perguntou, sabendo perfeitamente que

Sylvia tinha casado pela primeira vez aos dezanove anos e tivera dois filhos gémeos, agora já com vinte anos. Um trabalhava numa plataforma de petróleo ao largo da costa, o outro estava na universidade. Eram gémeos, mas completamente diferentes. O primeiro marido deixou-a ao fim de cinco anos de casamento, e Sylvia tinha criado os filhos sozinha.

— E você? — perguntou ela.

— Não. Tecnicamente ainda sou estudante, mas agora estou a trabalhar.

O segundo marido era mais velho e felizmente não tiveram filhos. O casamento durou sete anos e terminou quando ele a trocou por uma manequim mais nova. Nessa altura, Sylvia prometeu a si mesma que nunca mais voltaria a casar. Os Bears estavam a perder com os Packers e Sylvia assistia com interesse ao jogo. Adorava futebol e tinha orgulho pelos seus dois filhos terem sido escolhidos como os melhores atletas nos últimos anos do liceu.

Jerry chegou agitado e sempre a olhar para trás. Num ápice, e mesmo antes de pedir desculpa pelo atraso, tomou a primeira cerveja e explicou que achava que estava a ser seguido. Poodle disse que não acreditava, que era tudo psicológico: todos os membros do júri tinham passado a achar que estavam a ser seguidos.

— Esqueça o júri — disse Jerry —, acho que é a minha mulher. —A sua mulher? — perguntou Nicholas.

— Sim, a minha mulher. Acho que contratou um detective particular para me seguir.

— Sendo assim, deve estar ansioso para ficar isolado — disse Nicholas.

— Pode crer — respondeu Jerry, e piscou um olho em direcção a Poodle.

Tinha apostado quinhentos dólares na vitória dos Packers por seis pontos de vantagem, mas a aposta era só para os pontos combinados do primeiro tempo. No intervalo do jogo, fez outra aposta. Explicou aos dois novatos que estavam ao seu lado que, qualquer jogo, profissional ou amador, oferecia uma enorme variedade de apostas e praticamente nenhuma tinha relação directa com o resultado final do jogo. Jerry às vezes apostava em quem ia cometer o primeiro erro, em quem fazia o primeiro golo, em quem faria o maior número de intercepções. Jerry

assistia ao jogo com a tensão nervosa de quem tinha apostado muito mais do que aquilo que podia perder. No primeiro tempo bebeu quatro cervejas. Nicholas e Sylvia não conseguiram acompanhá-lo.

Nos intervalos da incessante conversa de Jerry sobre futebol e a arte de apostar para ganhar, Nicholas tentou em vão falar sobre o julgamento. O isolamento dos jurados era um assunto desagradável e, uma vez que nunca tinham experimentado aquela sensação, não havia muito para dizer. A testemunha daquele dia fora bastante aborrecida e a ideia de comentar as opiniões do doutor Kilvan naquele tempo livre parecia-lhes cruel. Sylvia ficou especialmente aborrecida com uma si mples tentativa de discutir o conceito geral de responsabilidade aplicado ao julgamento.

A senhora Grimes estava no átrio quando o juiz Harkin enumerou us regras para o isolamento. Quando levou Herman para casa, explicou-lhe que ia passar as próximas duas semanas num quarto de motel, em terreno desconhecido, sem a companhia dela. Assim que chegaram a casa, telefonou ao juiz Harkin e disse-lhe tudo o que pensava sobre os últimos acontecimentos. O seu marido era cego, lembrou ela mais de uma vez, e precisava de ajuda. Sentado no sofá, tomando a sua única cerveja diária, Herman ouvia furioso a conversa da mulher.

O juiz Harkin encontrou uma solução de imediato. Estava disposto a permitir que a senhora Grimes ficasse com o marido no quarto do motel. Podia tomar o pequeno-almoço e o jantar com ele, mas tinha de evitar contactos com os outros jurados. Além disso, não podia mais assistir ao julgamento porque era imperativo que não pudesse conversar a esse respeito com Herman. A senhora Grimes não ficou muito satisfeita com esta imposição. Afinal, era talvez a única pessoa que desde o início do julgamento tinha feito questão de não perder uma única palavra do que ali era dito. E, embora ainda não tivesse conversado a esse propósito com o marido, ou sequer adiantasse essa conversa no telefonema com o juiz Harkin, a verdade é que já tinha uma opinião segura sobre o caso. O juiz foi firme. Herman ficou furioso. Mas a senhora (irimes fez valer a sua decisão e foi para o quarto fazer as malas.

Na noite de segunda-feira, Lonnie Shaver fechou-se no escritório e leu o trabalho de uma semana. Depois de várias tentativas, encontrou George Teaker em casa, em Charlotte, e explicou que o júri ia ser isolado até ao fim do julgamento. Como tinha combinado falar com Taunton durante aquela semana, esta decisão do juiz deixara-o particularmente preocupado. Explicou ainda que o juiz tinha proibido qualquer telefonema directo do e para o motel e não ia ser possível um encontro até ao fim do julgamento. Teaker foi compreensivo e, durante a conversa, expressou uma sombria preocupação com o resultado do julgamento.

— Os nossos colegas de Nova Iorque acham que um veredicto contrário aos interesses da tabaqueira pode desencadear ondas de choque em toda economia do país. Especialmente no nosso negócio. Só Deus sabe onde irão parar os preços dos seguros.

— Farei o meu melhor — prometeu Lonnie.

— O júri não está a apontar para um veredicto a favor do queixoso, pois não?

— Neste momento é difícil dizer. Ainda vamos a meio da apresentação do caso da acusação. É cedo de mais.

— Tem de nos proteger, Lonnie. Sei que o que lhe estou a pedir é um grande sacrifício, mas o que é que posso fazer? Está dentro do júri. Tem de lutar pelos nossos interesses. Está a perceber?

— Percebo perfeitamente. Vou fazer o que for possível.

— Estamos a contar consigo. Não desanime. Não desanime.

O confronto com Fitch foi breve e nada conclusivo. Na segunda-feira, em que os escritórios dos advogados se preparavam para uma vigília de trabalho, Durwood Cable esperou quase até às nove horas da noite por Fitch, a quem pediu que se encontrasse com ele. Fitch acedeu, embora estivesse com pressa para voltar para o outro lado da rua.

— Gostaria de esclarecer um assunto — disse Durr, secamente, de pé em frente ao seu lado na mesa.

— Do que se trata? — rosnou, agressivo, Fitch, com as mãos na cintura. Sabia exactamente qual era o assunto.

— Esta tarde no tribunal ficámos constrangidos.

— Não ficaram constrangidos. Se bem me lembro, o júri não estava presente. Portanto, seja lá o que for que tenha acontecido, não vai influenciar em nada o veredicto final.

— Foi apanhado e ficámos numa posição desagradável.

— Não fui apanhado.

— Então, como é que considera o que aconteceu?         

— Considero uma mentira. Não mandámos ninguém seguir Stella l lulic. Por que é que havíamos de ter feito uma coisa dessas?

— Então, quem é que lhe telefonou?

— Sei lá. Mas tenho a certeza de que não foi nenhum dos nossos. Mais perguntas?

— Sim. Quem era o homem no apartamento?

— Não sei. Não é um dos meus homens. Não cheguei a ver o vídeo, portanto não lhe vi a cara, mas tenho a certeza de que devia ser um homem contratado por Rohr.

— Tem provas disso?

— Não tenho que provar nada. E não tenho de responder a mais perguntas. O seu trabalho é advogar este processo e deixar-me em paz. A segurança está a meu cargo.

— Não me embarace, Fitch.

— Não me embarace você. Veja lá se não perde o caso.

— Raramente perco.

Fitch foi até à porta.

— Eu sei. E está a fazer um bom trabalho, Cable. Só precisa de uma pequena ajuda de fora.

Nicholas foi o primeiro a chegar com duas mochilas cheias de roupa e artigos de toilette. Lou Dell, Willis e outro polícia mais novo esperavam no corredor, fora da sala dos jurados, para pegarem na bagagem e guardá--la numa sala vazia. Eram oito e vinte da manhã de terça-feira.

— Como é que a bagagem vai ser transportada para o motel? — perguntou Nicholas, desconfiado, mantendo as suas mochilas nas mãos.

— Esteja descansado. Nós encarregamo-nos disso. Levamo-la durante o dia — disse Willis —, mas antes temos de revistar tudo.

— Era o que faltava!

— Como?

— Ninguém vai revistar as minhas malas — disse Nicholas. E entrou na sala vazia dos jurados.

— São ordens do juiz — disse Lou Dell atrás dele.

— Quero lá saber! Ninguém vai revistar a minha bagagem. — Deixou as mochilas num canto, foi até ao café e falou dirigindo-se a Willis e Lou Dell, que estavam à porta. — Importam-se de sair? Esta é a sala dos jurados.

Os dois recuaram e Lou Dell fechou a porta. Passado pouco tempo, ouviu vozes no corredor. Nicholas abriu a porta e viu Millie Dupree, com a testa coberta de suor, enfrentando Lou Dell e Willis com duas enormes malas Samsonite.

— Eles julgam que podem revistar as nossas malas, mas estão enganados — explicou Nicholas. — Vamos deixá-las aqui. — Nicholas pegou na que estava mais perto de si e, com grande esforço, levantou-a do chão e levou-a para junto das suas mochilas.

— Ordens do juiz! — ouviram Lou Dell resmungar.

— Não somos terroristas — disse Nicholas, a arfar com o peso da mala. — O que é que ele pensa? Que vamos contrabandear armas, droga ou alguma coisa assim?

Millie pegou num bolinho e agradeceu a Nicholas por proteger a sua privacidade. Havia coisas naquelas malas que não queria ver mexidas por homens como Willis.

— Saiam — disse Nicholas, apontando para Lou Dell e Willis, que recuaram outra vez para o corredor.

Às oito e quarenta e cinco os doze jurados estavam presentes e a sala cheia de bagagens. Nicholas encarregou-se de evitar que as malas fossem revistadas e guardou-as num canto da sala. À medida que os jurados e as respectivas malas iam chegando, Nicholas fingia estar cada vez mais indignado e cada vez reclamava mais e discutia mais alto. O júri estava furioso e pronto para um protesto. Às nove horas, Lou Dell bateu à porta e depois girou a maçaneta para entrar.

A porta estava trancada por dentro. Bateu outra vez. Na sala do júri, só Nicholas se mexeu. Foi até à porta e disse:

— Quem é?

— Lou Dell. Está na hora de ir para o tribunal. O juiz está à vossa espera.

— Diga ao juiz para ir para o inferno.

Lou Dell olhou para Willis que, com os olhos arregalados, levou a mão ao revólver enferrujado. A rispidez daquelas palavras chocou mesmo alguns dos jurados, mas continuaram unidos na sua fúria.

— O que é que disse? — perguntou Lou Dell.

Ouviu-se um estalo e a maçaneta girou. Nicholas saiu para o corredor e fechou a porta.

— Diga ao juiz que não vamos sair daqui. — Olhou furioso para lou Dell, fixando o olhar na sua franja grisalha e suja.

— Não podem fazer isso — disse Willis com a maior agressividade possível que, aliás, não tinha nada de agressivo.

— Cala a boca, Willis.

Na terça de manhã, as notícias de novos problemas com o júri atraíram os curiosos: a dispensa de um jurado, a invasão do apartamento de outro e a notícia de que a fúria do juiz o tinha feito optar pelo isolamento do júri, espalharam-se rapidamente. Surgiram de imediato boatos, sendo o mais picante de todos um acerca de um espião a soldo da indústria tabaqueira que teria sido apanhado no apartamento de um jurado. Dizia-se que já tinha sido assinado um mandado de captura contra esse homem e que a polícia e os agentes do FBI já tinham montado um esquema para o apanhar.

Os jornais matutinos de Biloxi, Nova Orleães, Mobile e Jackson faziam as suas capas com esta notícia depois desenvolvida em extensas reportagens.

Os habituais frequentadores do tribunal voltaram a comparecer às audiências. Os advogados locais arranjaram desculpas para ter de visitar o juiz Harkin e, apesar de anunciarem que o que os movia eram assuntos breves, faziam tudo por tudo para se demorar o mais possível. Ao lado da acusação, logo na primeira fila, havia uma meia dúzia de repórteres de vários jornais. Os jovens analistas de Wall Street, que tinham abandonado a sala de audiências à medida que descobriam os encantos da região: casinos, pesca de alto mar e as longas noites em Nova Orleães, voltaram em massa.

Assim, foi bastante grande o número de pessoas que viram Lou Dell sair da porta do júri e aproximar-se do juiz na ponta dos pés. Inclinados para a frente, os dois conversaram por um momento. Num gesto instintivo, Harkin virou a cabeça para o lado e olhou para a porta de entrada do júri onde Willis estava imóvel, como se tivesse ficado congelado.

Transmitida a mensagem, Lou Dell voltou rapidamente para onde Willis a esperava. O juiz Harkin olhou para os advogados curiosos, depois para os espectadores. Rabiscou alguma coisa que nem mesmo ele seria capaz de ler e pensou um momento.

O seu júri estava em greve! O que diria o manual dos juizes a este respeito? Aproximou o microfone da boca e disse:                   

— Minhas senhoras e meus senhores, há um pequeno problema com os jurados. Antes de adiantar mais pormenores, preciso de falar com eles. Peço ao doutor Rohr e ao doutor Cable para me acompanharem. Todos os outros devem permanecer onde estão.

A porta estava trancada outra vez. O juiz bateu educadamente, três batidas rápidas, seguidas por um movimento giratório na maçaneta. A porta não abriu.

— Quem é? — perguntou uma voz de homem.

— É o juiz Harkin — disse ele em voz alta.

Nicholas estava ao lado da porta. Voltou-se e sorriu triunfante para os outros. Millie Dupree e a senhora Gladys Card estavam a um canto, ao lado de uma pilha de malas, nervosas, com medo da prisão ou de qualquer outra coisa que o juiz determinasse. Mas os outros ainda estavam indignados.

Nicholas girou a chave e abriu a porta. Sorriu amavelmente, como se não houvesse nenhum problema, como se as greves fizessem parte da rotina dos julgamentos.

— Entre — disse ele.

Harkin, vestido com um fato cinzento e sem toga, entrou com Rohr e Cable.

— Qual é o problema? — perguntou, olhando à sua volta.

A maioria dos jurados estava sentada e havia pratos vazios e jornais espalhados por toda aparte. Phillip Savelle estava sozinho ao lado de uma das janelas. Lonnie Shaver a um canto, com o computador no colo. Easter era sem dúvida o líder; provavelmente até o instigador da situação.

— Não achamos justo que a polícia reviste as nossas malas.

— Por que não?

— Parece-nos óbvio. São objectos de uso pessoal. Não somos terroristas, não somos traficantes de droga e o senhor não é funcionário da alfândega. — O seu tom era autoritário e o facto de falar com tanta desenvoltura com um juiz encheu de orgulho a maioria dos jurados.

Nicholas era um deles. Independentemente do que Herman pensava, aquele era sem dúvida o seu líder, e por mais do que uma vez já tinha ditoque eram eles — não o juiz, não os advogados, não as partes em litígio —, os jurados, as pessoas mais importantes do julgamento.

— É um procedimento de rotina nos casos de isolamento do júri — disse o Meritíssimo, dando um passo em direcção a Easter que era oito centímetros mais alto do que ele e que não ia deixar-se intimidar.

— Até pode ser. Pelo menos, na sua opinião. Ou essa decisão não depende da vontade do juiz?

— Claro que depende. Mas tenho razões ponderosas para ter tomado esta atitude.

— Nada disso é da nossa conta. Não vamos sair daqui, Meritíssimo, até prometer que a nossa bagagem não será revistada. — Easter disse estas palavras com os músculos do rosto tensos e um leve sorriso de desprezo. Tornou-se evidente para o juiz e para os advogados que falava a sério. Além disso, estava a falar em nome do grupo. Ninguém mais se tinha manifestado. Muito menos em sentido contrário ao de Nicholas.

Harkin cometeu o erro de olhar para trás, para Rohr, que mal podia esperar para dizer o que pensava.

— Desculpe, juiz, mas que importância é que tem a bagagem desta gente? — disse ele, impaciente — Não vieram para o tribunal carregados de explosivos.

— Chega—disse Harkin, mas Rohr tinha conseguido um pouco da simpatia do júri. Cable, é claro, apercebeu-se e também queria expressar a sua absoluta confiança em tudo aquilo que os jurados tinham decidido pôr nas suas malas, mas Harkin não deu tempo.

— Muito bem — disse o Meritíssimo. — As malas não serão revistadas. Mas se vier a saber que algum dos jurados tem em seu poder alguma das coisas que fiz incluir na lista de artigos proibidos que ontem vos mandei entregar, esse jurado responderá judicialmente por desobediência ao tribunal e pode ser detido. Estamos entendidos?

Easter olhou à volta, avaliando cada um dos seus jurados. A maioria parecia aliviada e alguns menearam a cabeça afirmativamente.

— Estamos combinados, Meritíssimo — disse ele.

— Muito bem. Agora, podemos continuar com o julgamento?

— Bem, há outro problema.                         

- O que é?

Nicholas pegou num papel que tinha em cima da mesa e leu-o:

— De acordo com o regulamento que nos foi dado, temos direito a uma visita conjugal por semana. Achamos que é pouco.

— Quantas é que querem?

— Tantas quanto possível.

Para a maior parte dos jurados aquilo era novidade. Alguns dos homens tinham feito alguns comentários acerca do número de visitas conjugais, especialmente Easter, Fernandez e Lonnie Shaver. Mas as mulheres não tinham dito nada. A senhora Gladys Card e Millie Du-pree ficaram embaraçadas pensando que o juiz pudesse fazer uma ideia errada a seu respeito. Parecia-lhes vergonhoso que o juiz pudesse pensar que elas, umas senhoras, achavam que deviam ter tanto sexo quanto possível. Há alguns anos, o senhor Card tinha tido um problema na próstata e a senhora Gladys Card pensou revelar esse facto, só para defender o seu bom nome. Herman Grimes adiantou-se:

— Para mim, chegam duas.

A ideia do velho Herman tacteando debaixo das cobertas, à procura da senhora Grimes, provocou risos que aliviaram a tensão.

— Acho que não vale a pena fazer uma pesquisa pormenorizada — disse o juiz Harkin. — Concordam com duas visitas? Não se esqueçam de que só estamos a falar de duas semanas...

— Talvez. Duas ou três. — Foi a contraproposta de Nicholas.

— Está bem. Estão todos de acordo? — O Meritíssimo olhou à volta. Loreen Duke estava sentada à mesa, rindo baixinho. A senhora Gladys Card e Millie faziam o possível para não se fazer notar, evitando os olhos dojuiz.

— Sim, está bem — disse Jerry Fernandez, com olhos vermelhos da ressaca. Quando passava um dia sem fazer sexo, Jerry tinha dores de cabeça. Mas também sabia que, por um lado, a sua mulher estava feliz com a sua ausência de duas semanas e, desta forma, ele e Poodle podiam arranjar-se e consumar a história que os estava a entreter.

— Não concordo com a maneira como isto está exposto — disse Phillip Savelle, dajanela. E aquelas foram as suas primeiras palavras desde o início do julgamento. Tinha na mão o papel com as regras: a definição de pessoas elegíveis para participar nas visitas conjugais deixava muito a desejar.

Em linguagem bastante clara, o ponto a que se referia determinava:

Durante cada visita conjugal, cada jurado pode passar duas horas sozinho, no quarto, com o cônjuge, namorado ou namorada.»

O juiz Harkin, os dois advogados e os outros jurados leram com atenção a ordem, imaginando o que aquele estranho homem pretendia com o seu comentário. Mas Harkin não estava disposto a descobrir.

— Posso garantir, senhor Savelle e restantes membros do júri, que não pretendo restringir de modo algum as suas visitas conjugais. Para

ser franco, não me importa o que vão fazer ou com quem.

Aparentemente aquela resposta satisfez Savelle. Mas humilhou a senhora Gladys Card.

-— Muito bem, mais alguma coisa?

— É tudo, Meritíssimo, e obrigado — respondeu Herman em voz alta, retomando a sua posição de líder.

— Obrigado — respondeu Nicholas.

Assim que o júri tomou posição, Scotty Mangrum anunciou que tinha terminado o interrogatório ao doutor Kilvan. Durr Cable começou o interrogatório indirecto com tanta delicadeza que parecia completa-mente intimidado pelo grande especialista. Concordaram com alguns dados estatísticos, mas na verdade também não eram importantes. O doutor Kilvan afirmou que, baseado nos dados apresentados, estava em posição de afirmar que cerca de dez por cento dos fumadores tinha cancro do pulmão.

Cable reforçou este ponto, como aliás vinha a fazer desde o início do depoimento.

— Então, doutor Kilvan, se o tabaco provoca cancro do pulmão, porque é que há tão poucos fumadores com cancro do pulmão?

— O tabaco aumenta consideravelmente o risco de cancro do pulmão.

— Mas nem sempre o provoca. Não é?                          

— É. Nem todos os fumadores têm cancro do pulmão.

- Muito obrigado.

— Mas para os que fumam o risco de cancro do pulmão é muito maior.

Feito o aquecimento, Cable começou a pressionar. Perguntou ao doutor Kilvan se estava a par de um estudo feito há vinte anos, na Universidade de Chicago, estudo que revelava uma maior incidência de cancro do pulmão nos fumadores que moravam nas áreas metropolitanas do que naqueles que moravam nas áreas rurais. Kilvan conhecia perfeitamente o estudo, embora não tivesse nada a ver com ele.

— Pode explicar isso? — perguntou Cable.

— Não.

— Pode fazer uma suposição?

— Sim. O estudo provocou controvérsia quando foi publicado porque indicava que outros factores, que não o tabaco, podiam causar cancro do pulmão.

— Como a poluição do ar?

— Sim.

— O senhor acredita nisso?

— É possível.

— Então o senhor admite que a poluição do ar pode causar cancro do pulmão?

— Poderá. Mas prefiro ficar com os resultados da minha pesquisa. Os fumadores das áreas rurais têm mais cancro do pulmão do que os não fumadores dessas áreas, e os fumadores das áreas urbanas têm mais cancro do que os não fumadores.

Cable ergueu outro relatório com muitas folhas e começou a virar as páginas teatralmente. Perguntou ao doutor Kilvan se conhecia um estudo feito em 1989, na Universidade de Estocolmo, no qual se declarava que havia uma relação entre hereditariedade, tabaco e cancro do pulmão.

— Eu li o relatório — disse o doutor Kilvan.

— Tem alguma opinião a este respeito?

— Não. A hereditariedade não é a minha especialidade.

— Nesse caso, não pode dizer sim ou não sobre a possibilidade de haver uma relação entre hereditariedade, tabaco e cancro do pulmão?

— Não, não posso.

— Mas não contesta este relatório, pois não? —Não tenho nenhuma posição a esse respeito.

— O senhor conhece os especialistas que conduziram esta pesquisa?

— Não.

— Então, não pode dizer-nos se são ou não qualificados?

— Não. Estou certo de que o senhor falou com eles.

Cable foi até à sua mesa, pegou noutro relatório e voltou para junto do doutor Kilvan.

Depois de duas semanas de severo escrutínio, mas pouco movimento, as acções da Pynex encontraram uma razão para alterar sua posição. Até àquela segunda-feira à tarde, o julgamento não tinha produzido nenhum episódio dramático. Um dos vários advogados de defesa confiou a um dos analistas financeiros que Stella Hulic era considerada por todos como um bom jurado a favor da defesa. Isso foi repetido algumas vezes e, a cada repetição, a importância de Stella para a indústria do tabaco aumentava um ponto. Quando foram feitos os telefonemas para Nova Iorque, a defesa tinha perdido o seu bem mais valioso — Stella Hulic, que estava agora em casa, deitada num sofá, em coma alcoólico.

A deliciosa história da invasão do apartamento de um dos jurados foi acrescentada aos rumores sobre o julgamento. Era fácil supor que o intruso fora contratado pela indústria tabaqueira e, uma vez que a indústria tinha sido apanhada, ou pelo menos considerada como a principal suspeita, as coisas não pareciam muito favoráveis para a defesa. Tinham perdido um jurado. Foram apanhados num acto anti-ético. O céu estava a cair sobre as suas cabeças.

Na terça-feira, a Pynex abriu a setenta e nove e meio, rapidamente caiu para setenta e oito à medida que cresciam os rumores sobre o julgamento. A meio da manhã, estava em setenta e seis e um quarto, quando receberam um novo relatório de Biloxi. Um analista que estava na sala de audiências telefonou para o seu escritório dizendo que o júri se tinha recusado a comparecer ao julgamento naquela manhã; na verdade tinha entrado em greve porque estava farto e cansado de fastidiosos depoimentos feitos pelos especialistas da acusação.

Em poucos segundos, a notícia foi repetida centenas de vezes e, em Wall Street, não havia dúvida de que o júri estava a revoltar-se contra a acusação. O preço subiu para setenta e sete, passou de setenta e oito, atingiu setenta e nove e, à hora do almoço, estava quase nos oitenta.

 

Das seis mulheres do júri, a que Fitch mais queria conquistar era Rikki Coleman, trinta anos, saudável e atraente mãe de dois filhos. Ganhava vinte e um mil dólares por ano como administradora dos arquivos de um hospital local. O marido ganhava trinta e seis mil como piloto particular. Moravam num elegante subúrbio com um belo relvado, numa casa com uma hipoteca de noventa mil dólares e tinham dois carros japoneses inteiramente pagos. Economizavam sem ambição e investiam com conservadorismo — oito mil dólares no ano anterior, só em fundos. Eram muito activos na igreja do bairro — ela ensinava na catequese e ele cantava no coro.

Aparentemente os Coleman não tinham vícios. Nenhum dos dois fumava e não havia provas de que gostassem de beber. Ele corria e jogava ténis, ela passava uma hora por dia num ginásio. Fitch temia-a como jurada, devido à vida exemplar e às suas preocupações com a saúde.

Os registos médicos obtidos com o obstetra de Rikki não revelavam nada de importante. Engravidou duas vezes e teve partos e pós--partos normais. Fazia devidamente os check-ups anuais. Uma mamografia realizada dois anos antes não revelou nenhuma patologia. Rikki tinha um metro e sessenta e sete de altura e pesava cinquenta e oito quilos.

Fitch tinha as fichas médicas de sete dos doze jurados. A de Easter não foi encontrada por motivos óbvios. Herman Grimes era cego e não tinha nada a esconder. Savelle era novo e Fitch estava a investigá-lo. Lonnie Shaver não ia ao médico há pelo menos vinte anos. Quanto a Sylvia Taylor-Tatum, como o seu médico tinha morrido no ano anterior num acidente de barco, tratava-se agora com um novato na profissão que não conhecia as regras do jogo.

O jogo era agressivo e sério, com a maior parte das regras determinadas por Fitch. Todos os anos, o Fundo contribuía com um milhão de dólares para uma organização conhecida como Aliança da Reforma Indiciaria, uma presença marcante em Washington, fundada por companhias de seguros, associações médicas, grupos industriais e empresas fabricantes de cigarros. A contabilidade das Quatro Grandes registava comtribuições anuais de cem mil dólares cada uma, com Fitch e o Fundo a passarem um milhão por baixo da mesa. O objectivo da ARJ era o lobby a favor de leis que restringissem o montante dos prémios nos processos de indemnização por danos. Especificamente, para eliminar as inconvenientes medidas punitivas.

Luther Vandemeer, director executivo da Trellco, fazia parte da direcção da ARJ e tinha direito a voto. Fitch fornecia-lhe discretamente as informações e Vandermeer, geralmente, pressionava os membros da organização. Sem aparecer, Fitch conseguia o que queria. Através de Vandemeer e da ARJ, Fitch pressionava as companhias de seguros, que pressionavam vários médicos locais que, por sua vez, deixavam passar informações sensíveis e estritamente confidenciais sobre determinado paciente. Assim, quando Fitch resolveu que o doutor Dow, em Biloxi, devia enviar as fichas médicas da senhora Gladys Card para uma caixa postal em Baltimore, mandou Vandemeer pressionar os seus contactos na Saint Louis Mutual, a respeito do seguro do doutor Dow de protecção contra acusações de negligência médica. O doutor Dow foi in formado pela Saint Louis Mutual que a cobertura do seu seguro para tais casos seria anulada se não entrasse neste jogo e ele imediatamente se declarou feliz por colaborar.

Fitch tinha uma grande colecção de fichas médicas, mas nada ainda que pudesse influenciar um veredicto. A sua sorte mudou durante o almoço, na terça-feira.

Quando Rikki Coleman era ainda Rikki Weld, estudava numa pequena faculdade em Montgomery, Alabama, onde era muito popular. Algumas das mais bonitas alunas da escola costumavam sair com os rapazes de Auburn. O homem contratado por Fitch para a investigação rotineira do passado de Rikki aventou a hipótese de que ela tivesse tido muitos namorados. Fitch interessou-se pela sugestão e, por intermédio da ARJ, após duas semanas de infrutíferas investigações, finalmente encontrou a clínica certa.

Era um pequeno hospital particular para mulheres, no centro de Montgomery, uma das três soluções possíveis para se fazer um aborto na cidade naquela época. Nos primeiros anos de faculdade, uma semana depois de completar vinte anos, Rikki Weld fez um aborto.

Fitch tinha os registos. Foi avisado por um telefonema de que os registos estavam a ser enviados e, rindo sozinho, recolheu as folhas de papel no seu fax. O nome do pai não constava, mas isso não importava. Rikki tinha conhecido Rhea, seu marido, um ano depois de terminar o segundo ano. Na época do aborto, Rhea estava no último ano da Texas A&M e era pouco provável que se conhecessem.

Fitch era capaz de apostar qualquer quantia em como o aborto era um segredo, completamente esquecido por Rikki e jamais revelado ao marido.

O motel era um Siesta Inn em Pass Christian, a trinta minutos do tribunal, ao longo da Costa. A viagem foi feita num autocarro alugado, com Lou Dell e Willis sentados à frente com o motorista e os catorze jurados (efectivos e suplentes) espalhados pelos bancos. Ninguém se sentou no mesmo banco. Não houve nenhuma conversa. Estavam cansados e desanimados, sentindo já a prisão e o isolamento, antes mesmo de conhecerem o seu novo lar temporário. Nas duas primeiras semanas do julgamento, o intervalo das cinco horas significava uma fuga. Voltavam apressadamente para a realidade, para as suas casas, os seus filhos, as suas refeições quentes, para as suas tarefas, alguns para os seus escritórios. Intervalo agora significava uma viagem de autocarro para outra cela onde seriam vigiados, monitorizados e protegidos contra as sombras malignas que pairavam sobre si.

Só Nicholas Easter estava feliz, mas procurava parecer tão desanimado como os outros.

Harrison County tinha-lhes alugado todo o primeiro andar de uma ala, vinte quartos ao todo, embora só fossem precisar de dezanove. Lou Dell e Willis tinham quartos separados, ao lado da porta que conduzia ao prédio principal, onde ficavam a recepção e o restaurante. Chuck, um polícia jovem e grande, tinha o quarto no fim do corredor, para guardar ostensivamente a porta que se abria para o estacionamento.

Os quartos foram designados pelo próprio juiz Harkin. As malas já haviam sido transportadas e levadas para os quartos, intactas. As chaves foram distribuídas como balas por Lou Dell, que a cada minuto se sentia mais importante. As camas foram inspeccionadas e empurradas — camas de casal em todos os quartos. As televisões foram ligadas em vão. Nada de programas, nada de noticiários durante o isolamento, apenas filmes da estação privada do motel. As casas de banho foram revistadas e as torneiras verificadas. Duas semanas ali iam parecer anos.

É claro que o autocarro foi seguido pelos homens de Fitch. Saiu do tribunal com uma escolta da polícia, motos à frente e atrás. Era fácil segui-los. Dois detectives contratados por Rohr também acompanharam a viagem. Ninguém esperava que a localização do hotel fosse mantida em segredo.

O quarto de Nicholas ficava entre o de Savelle e o do coronel Her-rcra. Os homens ficaram todos num lado do corredor, as mulheres no outro, como se a segregação fosse necessária para evitar comunicação não autorizada. Cinco minutos depois de as portas serem abertas, voltaram a ser fechadas e, dez minutos depois, Willis bateu com força, perguntando se tudo estava bem.

— Às mil maravilhas — disse Nicholas, sem abrir a porta.

Os telefones foram retirados, bem como os minibares. Os móveis de um quarto no fim do corredor foram substituídos por duas mesas redondas, telefones, cadeiras confortáveis, uma televisão com ecrã grande e um bar completo com todas as bebidas não alcoólicas imagináveis. Alguém chamou a este quarto «Sala de Festas» e a alcunha pegou. Só podiam telefonar com a aprovação dos guardiães e as chamadas de fora não eram permitidas. As emergências seriam resolvidas através da recepção. No quarto número 40, no outro lado do corredor, de frente para a Sala de Festas, as camas também foram retiradas e substituídas por uma mesa de jantar.

Nenhum jurado podia sair daquela ala sem prévia aprovação do juiz Harkin, de Lou Dell, ou de um dos polícias. Não havia hora de recolher porque não tinham onde ir, mas a Sala de Festas fechava às dez.

O jantar era das seis às sete, pequeno-almoço das seis às oito e meia e não se esperava que todos comessem ao mesmo tempo. Podiam andar à vontade. Podiam preparar o prato e voltar para o quarto. O jui/. Harkin estava muito preocupado com a qualidade da comida e todas as manhãs queria saber se havia alguma reclamação.

O jantar de terça-feira foi galinha frita ou peixe cozido, com saladas e muitos vegetais. Incrivelmente, todos demonstravam grande apetite. Para quem não fez nada durante o dia, a não ser ficar sentado a ouvir, quase todos estavam famintos quando chegaram ao motel, às seis horas. Nicholas foi o primeiro a servir-se e sentou-se à cabeceira da mesa, conversando com todos e insistindo para que todos comessem juntos. Estava animado e alegre, como se o isolamento não passasse de uma aventura. O seu entusiasmo era levemente contagioso.

Só Herman Grimes jantou no quarto. A senhora Grimes preparou dois pratos e saiu apressadamente da sala. Uma ordem rigorosa, por escrito, do juiz Harkin, proibia-a de comer com os jurados. O mesmo para Lou Dell, Willis e Chuck. Assim, quando Lou Dell entrou na sala, para preparar o seu prato, e encontrou Nicholas no meio de uma história, a conversa parou de repente. Ela serviu-se de peito de galinha, um pouco de feijão-verde, um pãozinho e saiu.

Agora eram um grupo de isolados e exilados, separados da realidade e banidos contra a vontade, no Siesta Inn. Só se tinham uns aos outros. Easter estava resolvido a mantê-los satisfeitos. Seriam uma fraternidade, ou mesmo uma família. Esforçar-se-ia para evitar discussões que pudessem levar à divisão do grupo.

Viram dois filmes na Sala de Festas. No fim, estavam todos a dormir.

— Estou pronto para a minha visita conjugal — anunciou Jerry Fer-nandez durante o pequeno-almoço, olhando na direcção da senhora Gladys Card, que corou.

— Francamente! — disse ela, revirando os olhos para o tecto.

Jerry sorriu-lhe com se fosse o objecto dos seus desejos. O pequeno-almoço era um verdadeiro banquete, havia desde presunto frito a flocos de milho.

Nicholas chegou a meio da refeição e cumprimentou todos com uma leve inclinação da cabeça, visivelmente aborrecido. •    — Não compreendo por que não podemos ter telefones no quarto — foi a primeira coisa que disse e imediatamente a atmosfera agradável da manhã desapareceu. Sentou-se de frente para Jerry, que o olhou e compreendeu a deixa.

— Por que não podemos beber cerveja gelada? — perguntou Jerry. - Em casa, bebo uma cerveja gelada todas as noites, às vezes duas.

Quem tem o direito de dar ordens sobre o que bebemos aqui?

— O juiz Harkin — disse Millie Dupree, que evitava o álcool.

— Que chatice!

— E a televisão? — perguntou Nicholas — Por que razão não podemos ver televisão? Tenho visto televisão desde o princípio do julgamento e não me lembro de ter visto nada interessante sobre o assunto.

— Virou-se para Loreen Duke, uma mulher grande, com o prato cheio de ovos mexidos. — Viu algum noticiário especial com notícias do julgamento?

— Nunca.

Ele olhou para Rikki Coleman, sentado com um pequeno prato de flocos à sua frente.

— E que tal um ginásio para descontrair um pouco depois de oito horas no tribunal? Podiam ter escolhido um motel com ginásio. — Rikki meneou a cabeça afirmativamente, concordando.

Loreen engoliu os ovos e disse:

— O que não entendo é porque é que não podemos ter telefone. Os meus filhos podem precisar de falar comigo. Até parece que algum bandido podia telefonar para o meu quarto para me ameaçar.

— Já me contentava com uma ou duas cervejas geladas — disse Jerry. — E talvez mais algumas visitas conjugais. — Acrescentou, olhando novamente para a senhora Gladys Card.

O descontentamento foi subindo de tom e, dez minutos depois da chegada de Easter, os jurados estavam à beira de uma revolta. As irritações ocasionais eram agora uma lista completa de maus tratos. Até Herrera, o coronel reformado que tinha acampado na selva, estava i nsatisfeito com a escolha de refrigerantes oferecidos na Sala de Festas. Millie Dupree queixava-se da ausência de jornais. Lonnie Shaver tinha negócios urgentes e, desde o início, foi o que mais se opôs à ideia do isolamento.

— Posso muito bem pensar sozinho — disse ele. — Ninguém me consegue influenciar. Precisava pelo menos de usar um telefone sem restrições.

Phillip Savelle fazia ioga no bosque todos os dias ao nascer do Sol, sozinho, só ele a comungar com a natureza, e não havia uma árvore num raio de cem metros do motel. E a igreja? A senhora Card era uma baptista devota que nunca perdia a oração das noites de quarta-feira, as visitas na terça, o clube das mulheres nas sextas e, como não podia deixar de ser, o seu sabbath repleto de compromissos.

— Acho melhor acertarmos isto tudo agora — disse Nicholas solenemente. — Vamos ficar aqui duas semanas, talvez três. Acho que devemos chamar a atenção do juiz Harkin para estes problemas.

O juiz Harkin estava com nove advogados amontoados na sua sala, discutindo os assuntos daquele dia, que não deviam chegar ao conhecimento do júri. Exigia que os advogados aparecessem todas as manhãs, às oito, para fazerem o aquecimento para a luta, e geralmente obrigava-os a ficar uma hora ou duas depois de o júri se ter retirado. Uma pancada vigorosa na porta interrompeu um debate acalorado entre Rohr e Cable. Glória Lane empurrou a porta, que bateu numa cadeira ocupada por Oliver McAdoo.

— Temos um problema com o júri — disse ela, muito séria. Harkin levantou-se da cadeira como uma mola.

— O que é?

— Querem falar consigo. É tudo o que sei. Harkin olhou para o relógio.

— Onde estão eles?

— No motel.

— Não podemos trazê-los para cá?

— Não. Já tentámos. Não virão antes de falar com o senhor. Harkin abriu a boca e curvou os ombros para a frente, num gesto de

desânimo.

— Isto está a tornar-se ridículo — disse Wendall Rohr, para ninguém em particular.

Os advogados olharam para o juiz, que olhava pensativo para a pilha de papéis na sua mesa. Então, esfregou as mãos e disse com um sorriso largo e forçado:

— Vamos vê-los.                                                     

Konrad atendeu o primeiro telefonema às oito horas e dois minutos. Não queria falar com Fitch, apenas queria que lhe dissessem que o júri estava outra vez perturbado e resolvido a não comparecer no tribunal enquanto Harkin não fosse ao motel para acalmar os ânimos. Konrad correu para a sala de Fitch e transmitiu a mensagem.

Às oito e nove telefonou outra vez e informou Konrad de que Easter estava com uma camisa de ganga escura sobre uma T-shirt beige, com meias vermelhas e as calças engomadas do costume. Meias vermelhas, repetiu ela.

Às oito e doze, no terceiro telefonema, pediu para falar com Fitch que estava às voltas na sua mesa, puxando a barbicha. Ele atendeu.

— Estou!

— Bom-dia, Fitch — disse ela.

— Bom-dia, Marlee.

— Já esteve no St. Regis Hotel, em Nova Orleães?

— Não.

— Fica na Canal Street, no French Quarter. Tem um bar a céu aberto no último andar, o Terrace Grill. Consiga uma mesa com vista para o Quarter. Esteja lá às sete esta noite. Chegarei mais tarde. Está a ouvir?

— Estou.

— E vá sozinho, Fitch. Vou vê-lo entrar no hotel e se estiver acompanhado, nada feito. Percebeu?

— Percebi.

— E se tentar seguir-me, desapareço.

— Dou-lhe a minha palavra.

— Por que será que a sua palavra não me convence, Fitch? — E desligou.

Cable, Rohr e o juiz Harkin encontraram Lou Dell na recepção, nervosa, assustada e dizendo que aquilo nunca lhe tinha acontecido. Sempre tinha conseguido manter os júris sob controlo. Conduziu-os à Sala de Festas, onde estavam reunidos treze dos catorze jurados. Her-man Grimes era o único que não concordava. Tinha discutido com o grupo condenando aquela táctica e Jerry Fernandez, irritado, acabou por insultá-lo. Jerry acentuou o facto de Herman ser o único que estava na companhia da mulher, que não sentia falta de jornais ou televisão, que já não bebia e que provavelmente não precisava de fazer exercício. A pedido de Millie Dupree, Jerry acabou por pedir-lhe desculpa. Se o Meritíssimo estava resolvido a agir autoritariamente, a verdade é que desistiu. Depois de alguns «como vai» e «bom-dia», começou a conversa com o pé esquerdo:

— Estou um pouco aborrecido com tudo isto. E Nicholas respondeu:

— Não estamos dispostos a aceitar qualquer tipo de abuso. Rohr e Cable, expressamente proibidos de dizer uma palavra que

fosse, ficaram perto da porta, divertindo-se com o espectáculo. Ambos sabiam que a cena a que estavam a assistir dificilmente se repetiria, era um caso único para recordar durante o resto das suas vidas de advogados.

Nicholas tinha feito uma lista das reclamações. O juiz Harkin tirou o casaco, sentou-se e foi atacado por todos os lados, um contra todos e praticamente indefeso.

A cerveja não era problema. Os jornais podiam ser censurados na recepção. Fazia sentido a ideia de telefonemas à vontade. O mesmo para a televisão, mas só se prometessem não ver o noticiário local. A sala de ginástica podia ser um problema, mas ia estudar o caso. Podiam arranjar-se as visitas à igreja.

Na verdade, tudo era flexível.

— Pode explicar-nos porque estamos aqui fechados? — quis saber Lonnie Shaver.

Ele tentou. Pigarreou e, com relutância, procurou justificar as razões para o isolamento. Falou um pouco sobre o contacto não autorizado, sobre o que já tinha acontecido com aquele júri e fez vagas referências a acontecimentos ocorridos noutros julgamentos de processos contra tabaqueiras.

As contravenções estavam bem documentadas e no passado as duas partes haviam incorrido em culpa. Alguns advogados da acusação tinham cometido falhas graves noutros casos, mas o juiz Harkin não podia falar sobre isso diante do júri. Devia agir com cautela para não prejudicar nenhuma das partes.

As negociações estenderam-se por uma hora. Harkin pediu garantias de que não haveria mais nenhuma greve, mas Easter não se quis comprometer.

As acções da Pynex abriram com uma queda de dois pontos, devido às notícias da greve que, segundo um analista que estava no tribunal, era provocada por uma reacção negativa e indefinida dos jurados a certas tácticas usadas na véspera pela defesa. As tácticas também oram indefinidas. Outro analista, em Biloxi, esclareceu um pouco mais as coisas sugerindo que ninguém no tribunal sabia ao certo o porquê da greve. As acções subiram meio ponto durante a manhã.

O alcatrão do cigarro provoca cancro, pelo menos em ratos de laboratório. O doutor James Ueuker, de Paio Alto, trabalhava desde há quinze anos com ratos e macacos. Conduziu pessoalmente vários estudos e tinha-se debruçado exaustivamente sobre o trabalho de investigadores de todo o mundo. Pelo menos seis importantes estudos, na sua opinião, demonstravam conclusivamente a relação do cigarro com o cancro de pulmão. Explicou detalhadamente ao júri como ele e a sua equipa haviam recolhido concentrados de fumo de cigarro, geralmente chamado «alcatrão», e os haviam esfregado directamente na pele de um milhão de ratos. Os quadros eram grandes e coloridos. Os ratos com mais sorte receberam apenas um pouco de alcatrão, os outros foram completamente pintados. Não foi surpresa verificar que quanto maior a quantidade de alcatrão, mais depressa se desenvolvia o cancro de pele.

Há uma grande distância entre tumores superficiais em roedores e cancro do pulmão em seres humanos e o doutor Ueuker, conduzido por Rohr, não conseguiu estabelecer uma relação entre os dois. A história da medicina está repleta de estudos nos quais os resultados da pesquisa de laboratório se aplicam aos seres humanos. São raras as excepções. Embora ratos e homens vivam em ambientes extremamente diversos, os resultados de alguns testes em animais são inteiramente consistentes com os resultados epidemiológicos dos testes feitos em seres humanos.

Todos os consultores de júri disponíveis estavam no tribunal durante o testemunho de Ueuker. Pequenos roedores nojentos eram uma coisa, mas coelhos e cães podiam ser animais de estimação. O estudo seguinte de Ueuker consistia em esfregar o alcatrão em coelhos, praticamente com os mesmos resultados. O último teste foi feito em trinta cães beagles que ensinou a fumar através de tubos na traqueia. Os maiores fumadores chegaram a nove cigarros por dia, aproximada-mente o equivalente a quarenta cigarros para um homem de setenta e cinco quilos. Nos cães foram detectados tumores invasivos nos pulmões depois de 875 dias consecutivos de uso de tabaco. Ueuker usou cães porque eles reagem exactamente como os humanos ao fumo do cigarro.

Mas não chegou a contar ao júri as suas experiências com coelhos e beagles. A qualquer amador, bastaria olhar para Millie Dupree para saber que estava a morrer de pena dos ratos e revoltada contra Ueuker por matar os animaizinhos. Sylvia Taylor-Tatum e Angel Weese demonstravam também o seu desagrado. A senhora Gladys Card e Phillip Savelle expressaram verbalmente a sua reprovação. Os outros homens ficaram impassíveis.

Posto isto, durante o intervalo do almoço, Rohr e a sua equipa resolveram desistir do resto da explanação do doutor James Ueuker.

 

Jumper, o segurança do tribunal que, treze dias antes, entregara o bilhete de Marlee a Fitch, foi abordado durante o almoço com uma nota de cinco mil dólares para inventar uma doença, cólica, diarreia, . qualquer coisa parecida e, vestido à paisana, ir com Pang a Nova Orleães para uma noite de boa comida, divertimento, talvez uma mulher. Jumper ficou interessado. Pang só ia precisar de algumas horas de trabalho leve. Jumper precisava do dinheiro.

Saíram de Biloxi mais ou menos ao meio dia e meia numa carrinha alugada. Quando chegaram a Nova Orleães, duas horas depois, Jumper deixou-se convencer a trocar o uniforme por trajes civis e trabalhar durante algum tempo para a Arlington West Associates. Pang ofereceu-lhe vinte cinco mil dólares por seis meses de trabalho, mais nove mil do que aquilo que ganhava num ano.

Hospedaram-se no St. Regis, em dois quartos separados, um de cada lado do quarto de Fitch, que só tinha conseguido quatro quartos. O quarto de Holly ficava mais adiante no corredor. Dubaz, Joe Boy e Dante estavam a quatro quarteirões do St. Regis, no Royal Sonesta. Instalaram Jumper num banco do bar, de onde poderia vigiar a porta de entrada do hotel.

Começou a espera. Nenhum sinal dela quando a tarde começou a transformar-se em noite, o que não surpreendeu ninguém. Jumper mudou de lugar quatro vezes e rapidamente se fartou daquele trabalho de vigilância.

Fitch saiu do quarto alguns minutos antes das sete e apanhou o elevador para o bar no terraço. A sua mesa ficava num canto com uma bela vista do Quarter. Holly e Dubaz estavam a três metros, numa outra mesa. Joe Boy era o responsável pelas fotografias.

Às sete e meia ela apareceu, vinda não se sabe de onde. Nem Jumper nem Pang a tinham visto perto do hall de entrada do hotel. Ela entrou pelas portas de vidro do bar e num instante estava sentada na mesa de Fitch. Mais tarde, Fitch calculou que devia ter feito o mesmo que eles — devia ter conseguido um quarto no hotel usando outro nome e recorrendo à escada em vez do elevador. Usava calças informais e era muito bonita — cabelo escuro curto, olhos castanhos, queixo forte e pouca maquilhagem. Na verdade não precisava de maquilhagem. Fitch calculou que devia ter entre vinte e oito e trinta e dois anos. Sentou-se tão depressa que ele nem teve oportunidade de lhe oferecer uma cadeira. Sentou-se de frente para ele, de costas para as outras mesas.

— É um prazer conhecê-la — disse ele em voz baixa, olhando em volta para ver se alguém o estava a ouvir.

— Sim, um verdadeiro prazer — respondeu ela, apoiando os cotovelos na mesa.

O empregado apareceu rápida e eficazmente e perguntou se ela ia tomar alguma coisa. Não, não. O empregado fora muito bem pago para retirar imediatamente da mesa qualquer coisa em que ela tocasse — copos, pratos, talheres, cinzeiros, qualquer coisa. Mas não teve oportunidade de o fazer.

—Está com fome?—perguntou Fitch, bebendo a sua água mineral.

— Não. Estou com pressa.

— Porquê?                                                                    

— Porque quanto mais tempo aqui ficar, mais fotografias os seus homens me tiram.

— Eu vim sozinho.

— É claro que veio. Gostou das meias vermelhas?

Uma banda dejazz começou a tocar, mas ignorou esse facto. Não tirava os olhos de Fitch.

Fitch inclinou a cabeça para trás com um sorriso de incredulidade. Ainda não podia acreditar que estava a falar com a amante de um dos jurados. Tivera contacto indirecto com jurados, antes, várias vezes, de formas diferentes, mas nunca tão perto.

E foi ela que o procurou!

- De onde é ele? — perguntou Fitch.

— Que diferença faz?

— É seu marido?

- Não.

— Namorado?

— Faz muitas perguntas.

— E você levanta muitas questões, minha jovem, e espera que eu faça as perguntas.

— É apenas um conhecido.                                                     ;

— Quando é que adoptou o nome de Nicholas Easter?

— Que diferença faz? É o seu nome legal. É residente no Estado de Mississipi, eleitor recenseado. Pode mudar de nome uma vez por mês, se quiser.

Mantinha as mãos cruzadas sob o queixo. Fitch sabia que Marlee não cometeria o erro de deixar impressões digitais.

— E você? — perguntou ele.

— Eu?

— Sim, não está registada como eleitora no Mississipi.

— Como sabe?

— Fazemos investigação. Supondo, é claro, que Marlee é o seu verdadeiro nome e que o escrevemos correctamente.

— Está a supor muita coisa.

— É o meu trabalho. É da Costa?                                            :

— Não.

Joe Boy inclinou-se para a frente, entre as folhagens o tempo suficiente para tirar seis fotografias de perfil. Uma vista mais completa exigiria um acto de malabarismo no parapeito de tijolos. Ia ficar entre as folhagens, esperando por um ângulo melhor quando ela saísse.

Fitch sacudiu o gelo no copo de água.

— Então, porque estamos aqui?—perguntou ele.

— Um encontro leva a outro.

— E para onde nos levam todos os encontros?

— Para o veredicto.

— Através de uma remuneração, tenho a certeza.

— Remuneração parece muito limitado. Está a gravar esta conversa? — Sabia perfeitamente que Fitch estava a gravar tudo.

— É claro que não.

Para Marlee, Fitch podia ouvir a gravação mesmo quando dormia. Não tinha nada a ganhar se a mostrasse a qualquer outra pessoa. Com a bagagem que carregava, ele não podia recorrer à polícia ou ao juiz, afinal, esse não era o seu modus operandi. A ideia de chantagem com ameaça de denunciá-la às autoridades jamais ocorreu a Fitch, e ela sabia-o.

Podia tirar todas as fotografias que quisesse e com os seus homens espalhados pelo hotel podiam seguir, espiar e ouvir. Faria o jogo deles por algum tempo, evitando-os e escondendo-se para que fizessem jus ao dinheiro que estavam a ganhar. Não iam descobrir coisa alguma.

— Não vamos falar de dinheiro agora, está bem, Fitch?

— Vamos falar do que quiser. Este espectáculo é seu.

— Porque é que invadiu o apartamento dele?

— Porque é isso que fazemos.

— O que acha de Herman Grímes? — perguntou ela.

— Porque é que pergunta? Sabe exactamente o que está a acontecer na sala dos jurados.

— Quero ver se você é mesmo esperto. Estou interessada em saber se o trabalho de todos aqueles especialistas em júris e advogados valo o que lhes paga.

— Nunca perdi, portanto recupero sempre o meu dinheiro.

— Então, o que acha de Herman?

Fitch pensou um segundo e pediu outro copo de água.

—  Ele vai ter muita importância na decisão do veredicto: é um homem de opinião. No momento, ainda está com a opinião em aberto. Absorve cada palavra pronunciada no tribunal e provavelmente sabe mais do que qualquer outro jurado,com excepção, é claro, do seu amigo. Acertei?

— Chegou muito perto.

— É bom ouvir isso. Com que frequência conversa com o seu amigo?

— Ocasionalmente. Herman foi contra a greve esta manhã. Sabia?

— Não.

— Foi o único.

— Qual a causa da greve?

— As condições do isolamento. Telefones, televisão, cerveja, sexo, igreja, os desejos comuns da humanidade.

— Quem liderou a greve?

— A mesma pessoa que lidera tudo desde o primeiro dia.

- Compreendo.

- É por isso que estou aqui, Fitch. Se o meu amigo não estivesse a controlar as coisas, não teria nada para oferecer.

- E o que é que tem para oferecer?

— Já disse que não vamos falar de dinheiro agora.

O empregado pôs o copo na frente de Fitch e perguntou outra vez a Marlee se queria tomar alguma coisa.

- Sim, uma Coca-Cola Light num copo de plástico, por favor.

— Não temos copos de plástico—respondeu o empregado, olhando confuso para Fitch.

- Então esqueça. — Ela sorriu e olhou para Fitch. Fitch pressionou.

— Qual é o estado de espírito do júri neste momento?

— Estão todos fartos. Para eles, todos os advogados de barra são lixo e acham que devia haver severas restrições a processos legais frívolos.

— O seu amigo é o meu herói. Podia convencer os companheiros?

— Não. Não tem companheiros. É desprezado por todos, é definitivamente o mais ignorado membro do júri.

— E entre as mulheres, quem é a mais amistosa?

— Millie é a mãe de todos, mas não terá nenhuma influência. Rikki é bonitinha, popular e muito preocupada com a vida saudável. Pode ser um problema para vocês.

— Isso não é surpresa.

— Quer uma surpresa, Fitch?

— Quero, avance

— Qual o jurado que começou a fumar no primeiro dia do julgamento?

Fitch semicerrou os olhos e inclinou a cabeça para a esquerda. Será que tinha ouvido bem?

— Que começou a fumar?

— Isso mesmo.

- Desisto.

— Easter. Está espantado?

— O seu amigo?

— Exactamente. Tenho de ir. Telefono-lhe amanhã. — Levantou-se e desapareceu tão depressa como tinha aparecido.

Dante, com a mulher contratada, reagiu antes de Fitch, que ficou atónito um segundo com a rapidez daquela partida. Dante comunicou por rádio com Pang e este viu-a sair do elevador e do hotel, Jumper seguiu-a a pé dois quarteirões antes de a perder numa rua movimentada.

Durante uma hora procuraram-na em vão nas ruas, nos estacionamentos, nos hotéis e nos bares. Fitch estava no seu quarto no St. Regi s quando Dubaz telefonou do aeroporto. Ela estava à espera do voo da ponte aérea que devia sair dentro de uma hora e meia e chegava a Mobile às dez e cinquenta. Não a siga, ordenou Fitch, e depois telefonou para dois agentes em Biloxi, que correram para o aeroporto de Mobile.

Marlee morava num apartamento alugado, de frente para a Back Bay, em Biloxi. Quando faltavam vinte minutos para chegar, ligou do telemóvel para a polícia de Biloxi e explicou que estava a ser seguida desde Mobile por dois homens num Ford Taurus, que eram assaltantes perigosos e que temia pela sua vida. Com o polícia ao telefone a ordenar os seus movimentos, Marlee deu uma porção de voltas num bairro tranquilo e parou de repente num posto que ficava aberto a noite toda. Enquanto enchia o depósito, um carro da polícia parou atrás do Taurus, que estava a tentar esconder-se na esquina, em frente de uma tinturaria fechada. Os polícias mandaram os homens descer do carro e caminhar com eles até junto da mulher que estavam a seguir.

Marlee desempenhou maravilhosamente o papel de vítima apavorada. Quanto mais chorava, mais os polícias se irritavam. Os homens de Fitch foram levados para a cadeia.

Às dez horas, Chuck, o polícia grande e carrancudo, instalou uma cadeira de armar no fim do corredor, à frente do seu quarto, e sentou-se para a vigília da noite. Era quarta-feira, a segunda noite do isolamento. De acordo com o plano, Nicholas telefonou para o quarto de Chuck às onze e quinze. Assim que o polícia deixou o posto para atender, Jerry e Nicholas saíram dos seus quartos e dirigiram-se calmamente para a porta da frente do motel, perto do quarto de Lou Dell, que àquela hora dormia profundamente. Quanto a Willis, embora dormisse constante-mente no tribunal, estava também debaixo dos cobertores a roncar furiosamente.

Evitando o pátio de entrada e procurando as sombras, encontraram o taxi que os esperava, como haviam combinado. Quinze minutos depois, entraram no Nugget Casino, em Biloxi Beach. Beberam três cervejas no bar e Jerry perdeu cem dólares num jogo. Tentaram seduzir duas mulheres casadas, cujos maridos estavam a ganhar ou a perder fortunas na mesa de dados. A sedução começou a ficar mais séria e, à uma hora, Nicholas saiu do bar para jogar o «vinte e um» a cinco dólares e tomar um descafeinado. Jogou e esperou, esperou, enquanto o casino esvaziava aos poucos.

Marlee sentou-se na cadeira ao seu lado e não disse nada. Nicholas empurrou uma pilha de fichas para junto dela. O único jogador na mesa era um estudante embriagado.

— Lá em cima — murmurou ele entre as mãos, quando o croupier se virou para falar com o gerente do jogo.

Encontraram-se numa varanda, com vista para o estacionamento e para o oceano. Novembro tinha chegado e o ar estava leve e frio. Não havia ninguém por perto. Beijaram-se e abraçaram-se sentados num banco. Ela contou tudo sobre a viagem a Nova Orleães, todos os pormenores, palavra a palavra. Riram dos dois homens de Mobile que estavam agora na cadeia. Ao nascer do dia, ela ia telefonar para que Fitch tratasse de os libertar.

Conversaram brevemente sobre negócios porque Nicholas queria voltar para o bar e apanhar Jerry antes que ele bebesse demais e perdesse todo o dinheiro ou fosse apanhado com a mulher de alguém.

Os dois tinham telemóveis de bolso não inteiramente seguros. Combinaram novos códigos.

Nicholas despediu-se com um beijo e deixou-a sozinha na varanda.

Wendall Rohr percebeu que o júri estava cansado de ouvir estudiosos a descrever as suas descobertas e a dar aulas com os seus gráficos e mapas. Os consultores diziam que os jurados tinham ouvido o suficiente sobre cancro de pulmão e fumo, que provavelmente já estavam convencidos antes do julgamento que o cigarro vicia e é perigoso. Rohr tinha a certeza de ter estabelecido uma relação causal bastante forte entre os cigarros Bristol e os tumores que mataram Jacob Wood. Estava na hora de rematar o caso. Na quinta-feira de manhã anunciou que a acusação gostaria de chamar Lawrence ICrigler para depor. Era visível a tensão na mesa da defesa durante o breve tempo utilizado para chamar o senhor Krigler, sentado bem ao fundo da sala. Outro advogado da acusação, John Riley Milton, de Denver, levantou -se e sorriu docemente para o júri.

Lawrence Krigler tinha quase setenta anos, estava bronzeado e era saudável, apresentou-se bem vestido e caminhou com passos rápidos. Era a primeira testemunha sem doutor antes do nome, desde o vídeo do depoimento de Jacob Wood. Morava na Flórida desde que se aposentara da Pynex. John Riley Milton passou rapidamente pelas informações preliminares para chegar depressa à parte mais saborosa.

Formado em engenharia pela universidade da Carolina do Norte, trabalhara durante trinta anos na Pynex, até deixar a empresa no meio de um processo legal, treze anos antes. Processou a Pynex. A empresa, por sua vez, moveu-lhe um processo. Fizeram um acordo extra-judicial cujos termos não foram revelados.

Quando Krigler entrou para a empresa, que então se chamava Union Tobacco, ou simplesmente U-Tab, foi mandado para Cuba para estudar a produção de tabaco. Desde então tinha trabalhado na produção, ou pelo menos até ao dia em que deixou a empresa. Conhecia a fundo as folhas de tabaco e milhares de modos de incrementar a sua produção. Krigler considerava-se um especialista nesse campo, embora não fosse testemunhar como tal, nem dar opiniões. Apenas factos.

Em 1969, ainda na empresa, completou um estudo de três anos sobre a possibilidade de cultivar uma folha de tabaco experimental conhecida apenas como Raleigh 4. Tinha um terço da nicotina do tabaco comum. Krigler concluiu, com o apoio de um generoso orçamento para pesquisa, que a Raleigh 4 podia ser cultivada e produzida com a mesma eficiência de todos os outros tipos de tabaco então cultivados e produzidos pela U-Tab.

Foi um trabalho monumental, do qual se orgulhava, e ficou arrasado quando o seu estudo foi ignorado pelos directores da empresa. Com grande esforço, abriu caminho através da burocracia hierárquica, sem resultado. Ninguém parecia interessar-se pelo novo tipo de tabaco com baixo teor de nicotina.

Foi então que descobriu que estava errado: os seus chefes preocupavam-se muito com os níveis de nicotina. No Verão de 1971 chegou às suas mãos um memorando interno instruindo a administração para desacreditar discretamente o trabalho de Krigler com o Raleigh 4. A sua própria gente estava a apunhalá-lo pelas costas. Krigler procurou manter a calma, não contou a ninguém que tinha lido o memorando e elaborou um plano para descobrir o motivo daquela conspiração contra si.

Nesse ponto do seu depoimento, John Riley Milton introduziu como evidência duas provas — o estudo completado por Krigler em 1969 e o i nemorando de 1971.

A resposta tornou-se clara como cristal e condizia com as suas suspeitas. A U-Tab não podia dar-se ao luxo de produzir uma folha com menos nicotina porque esta significa lucro. Desde os anos 30 que a indústria sabia que a nicotina cria dependência.

— Como é que sabe que a indústria tem conhecimento desse facto? — perguntou deliberadamente Milton. Com excepção dos advogados de defesa, que faziam o melhor possível para parecer entediados e indiferentes, toda a sala do tribunal ouvia com a maior atenção.

— É do conhecimento geral neste meio — respondeu Krigler. — No fim dos anos 30 foi feito um estudo secreto, pago por uma tabaqueira, e o resultado provou, sem sombra de dúvida, que a nicotina do cigarro vicia.

— Chegou a ver esse relatório?

— Não. Como devem imaginar, foi muito bem escondido. — Krigler fez uma pausa e olhou para a mesa da defesa. A bomba estava a chegar e ele saboreava o momento. — Mas vi o memorando.

— Protesto! — gritou Cable, levantando-se. — Esta testemunha não pode declarar o que pode ou não ter visto num documento. As razões são inúmeras e explicadas minuciosamente nos dossiers que apresentámos a este respeito.

Os dossiers continham oitenta páginas e há um mês que estavam a ser discutidos. O juiz Harkin já tinha dado o seu parecer por escrito a esse respeito.

— O seu protesto será anotado nos autos, doutor Cable. Senhor Krigler, pode continuar.

— No Inverno de 1973, vi um memorando de uma página com o sumário do estudo sobre a nicotina realizado nos anos 30. O memorando foi copiado várias vezes, era muito velho e estava bastante alterado.

— Alterado em que sentido?

— A data foi apagada, bem como o nome da pessoa que o enviou.

.    — Para quem é que foi enviado?

— Era dirigido a Sander S. Fraley, naquele tempo presidente da Allegheny Growers, a predecessora de uma empresa que hoje se chama ConPack.

— Uma tabaqueira?

— Basicamente, sim. Supostamente é uma empresa que produz vários tipos de produtos de consumo geral, mas o seu forte é o tabaco.

— Quando é que ele foi presidente da empresa?

— De 1931 a 1942.

— Seria certo supor que o memorando foi enviado antes de 1942?

— Sim. O senhor Fraley morreu em 1942.

— Onde é que o senhor estava quando viu esse memorando?

— Na Pynex, em Richmond. Quando a Pynex era ainda Union Tobacco, a sede da empresa era em Richmond. Em 1979 mudou de nome e mudou a sede para Nova Jérsia. Mas os prédios em Richmond ainda são usados e era lá que eu trabalhava. A maior parte dos antigos arquivos da empresa está lá e um conhecido meu mostrou-me o memorando.

— Quem era esse seu conhecido?

— Um amigo que já morreu. E prometi-lhe que jamais revelaria a sua identidade.

— O senhor teve o memorando nas mãos?

— Tive. Na verdade, até fiz uma cópia.

— E onde é que está a sua cópia?

— Não durou muito. Guardei-a na gaveta da minha secretária e no dia seguinte fui chamado para tratar de negócios fora da cidade. Enquanto estava fora, alguém revistou a minha secretária e tirou de lá várias coisas, incluindo a cópia do memorando.

— Está lembrado do que dizia o memorando?

— Perfeitamente. E compreende-se: há algum tempo que tentava descobrir uma confirmação para as minhas suspeitas. Ver o memorando foi um momento inesquecível.

— O que dizia o memorando?

— O memorando era curto: três parágrafos, talvez quatro, uma coisa breve e directa. O redactor do memorando explicava que acabara

de ler o relatório sobre nicotina fornecido confidencialmente pelo chefe de pesquisas da Allegheny Growers, uma pessoa cujo nome não era rilado. Na sua opinião, o estudo apresentava pró vas conclusivas, e acima de qualquer dúvida, de que a nicotina vicia. Se bem me lembro, esse era o ponto principal dos dois primeiros parágrafos.

— E o seguinte? Era sobre quê?

— O relator sugeria a Fraley que a empresa devia pensar seriamente em aumentar o nível de nicotina nos cigarros. Mais nicotina significa mais fumadores, o que quereria dizer mais vendas e mais lucro.

Krigler disse estas palavras com um tom discretamente dramático e todos as absorveram avidamente. Os jurados, pela primeira vez em muitos dias, observavam cada movimento da testemunha. A palavra ••lucro» pairou sobre a sala como uma neblina suja.

John Riley Milton fez uma pequena pausa e disse:

— Muito bem, agora vamos esclarecer isto. O memorando foi feito por alguém de outra empresa e enviado ao presidente daquela. Não é assim?

— Uma empresa que naquele tempo, como agora, era concorrente da Pynex?

— Exactamente.

— Como é que o memorando foi parar à Pynex em 1973?

— Não sei: nunca consegui descobrir. Mas a Pynex certamente sabia do estudo. Na verdade, no início dos anos 70, ou até antes, toda a indústria do tabaco sabia.

— Como é que sabe?

— Não se esqueça que trabalhei trinta anos nesta indústria. E passei todo esse tempo na produção. Falei com muita gente, especialmente com os que nas outras empresas trabalhavam na produção. Digamos que, às vezes, as tabaqueiras podem ser solidárias umas com as outras.

— Alguma vez tentou obter outra cópia do memorando junto do seu amigo?

— Tentei, mas não funcionou. Vamos parar por aqui.

Apesar do intervalo de quinze minutos para o café, às dez e meia, Krigler testemunhou durante as três horas da sessão da manhã. Foi como se tivesse durado apenas alguns minutos e foi um momento crucial no julgamento. O drama de um ex-funcionário revelando segredos condenáveis foi desempenhado com perfeição. Os jurados chegaram a esquecer o seu apetite para o almoço. Os advogados observavam-nos mais atentamente do que nunca, e o juiz parecia anotar cada palavra que ele dizia.

A atitude dos jornalistas era de invulgar reverência e a dos consultores de júri de atenção fora do vulgar. Os vigilantes de Wall Street contavam os minutos até ao momento em que poderiam sair apressa para fazer os seus telefonemas tensos para Nova Iorque. Os advogados locais, sempre entediados, iam comentar aquele testemunho durante anos. Até Lou Dell, na primeira fila, interrompeu o seu tricot.

Fitch observava e ouvia, na sala dos monitores ao lado do seu gabinete. O testemunho de Krigler fora originalmente marcado para a semana seguinte e por momentos houve até a possibilidade de não testemunhar. Fitch era uma das poucas pessoas ainda com vida que tinha visto o memorando escrito por Krigler com espantosa correcção. Era evidente para todos, até para Fitch, que a testemunha estava a dizer a verdade.

Uma das primeiras tarefas de Fitch, nove anos antes, quando foi contratado pelas Quatro Grandes, consistiu em localizar cada cópia do memorando e destruí-las todas.

Nem Cable, nem nenhum advogado da defesa contratado por Fitch, tinha visto o memorando.

O problema da admissão da existência do memorando no tribunal provocou uma pequena guerra. Por motivos óbvios, as regras da evidência normalmente proibiam a descrição de documentos perdidos. A melhor prova é o próprio documento. Mas, como em todas as áreas da lei, havia excepções e excepções às excepções e Rohr e a sua equipa realizaram um magnífico trabalho junto do juiz, convencendo-o de que o júri devia ouvir a descrição de Krigler daquilo que era, na realidade, um documento perdido.

Naquela tarde o interrogatório indirecto de Cable seria brutal, mas o mal estava feito. Fitch desistiu do almoço e trancou-se no escritório.

Na sala do júri, a atmosfera durante o almoço era completamente diferente. A conversa habitual sobre futebol e troca de receitas foi substituída por um silêncio quase total. Como um grupo deliberativo, o júri fora exposto até quase à apatia a fastidiosos testemunhos científicos de especialistas regiamente pagos para viajar até Biloxi e fazer as suas palestras. Agora, era sacudido pela sensacional revelação de segredos feita por Krigler.

Comeram menos e pensaram mais. A maior parte queria estar noutra sala com o seu amigo favorito e rever o que acabava de ouvir. Teriam ouvido bem? Será que todos tinham compreendido o que o homem acabara de dizer? Os altos níveis de nicotina eram intencionalmente mantidos para viciar os fumadores?

Conseguiram o que queriam. Os fumadores, agora reduzidos a três desde a partida de Stella, e Easter, apesar de não ser fumador inveterado e de preferir ficar com Jerry, Poodle e Angel Weese, comeram rapidamente, pediram licença e saíram. Sentaram-se nas cadeiras de armar, fumando e olhando para fora pela janela aberta. Sabendo do alto nível de nicotina, o tabaco agora parecia um pouco mais pesado. Mas quando Nicholas disse isso, ninguém achou graça.

A senhora Gladys Card e Milhe Dupree saíram para a casa de banho ao mesmo tempo. Depois de um longo momento sozinhas, demoraram-se a lavar as mãos, conversando diante do espelho. Loreen Duke entrou na casa de banho, encostou-se no rolo das toalhas e despejou todo o seu espanto e descontentamento em relação às tabaqueiras.

Depois de levantada a mesa, Lonnie Shaver abriu o seu computador portátil, separado por duas cadeiras de Herman, que digitava rapidamente no seu computador braile. O coronel disse a Herman:

— Acho que não precisa de tradutor para este depoimento, pois não?

Herman resmungou e depois disse:

— Realmente é espantoso. — Foi o mais perto que Herman chegou de uma possível discussão sobre qualquer aspecto do caso.

Lonnie Shaver não estava espantado ou impressionado por coisa alguma.

Phillip Savelle pediu cortesmente, e foi atendido pelo juiz, para passar parte do intervalo de almoço a fazer ioga, debaixo de um grande carvalho atrás do tribunal. Foi escoltado por um polícia até à árvore, tirou a camisa, as meias e os sapatos, e sentou-se na relva macia, enroscando o corpo como uma enguia. Quando começou a cantilena, o polícia afastou-se discretamente, sentou-se num banco de cimento e baixou a cabeça para não ser reconhecido.

Cable cumprimentou Krigler como se fossem velhos amigos. Kri-gler sorriu e disse:

— Boa-tarde, doutor Cable — disse perfeitamente confiante.

Sete meses antes, no escritório de Rohr, Cable e a sua equipa passaram três dias a gravar em vídeo o depoimento de Krigler. O vídeo foi visto e estudado por nada menos do que duas dúzias de advogados, vários especialistas em júris e até por dois psiquiatras. Krigler estava a dizer a verdade, mas agora a verdade tinha de ser encoberta. Isto era um interrogatório indirecto crucial, portanto a verdade que fosse para o diabo. A testemunha tinha de ser desacreditada.

Depois de centenas de horas de planos, haviam desenvolvido uma estratégia. Cable começou por perguntar a Krigler se ele estava zangado com os seus antigos patrões.

— Estou — respondeu ele.

— O senhor odeia a empresa?

— A empresa é uma entidade. Como é que se pode odiar uma coisa?

— O senhor odeia a guerra?

— Nunca estive na guerra.

— Odeia o abuso de crianças?

— Tenho a certeza de que é nauseante, mas felizmente nunca tive nenhum contacto com essa realidade.

— O senhor odeia a violência?

— Tenho a certeza de que é horrível mas, também nesta matéria, tenho tido sorte.

— Então, não odeia nada?

— Brócolos.

Risotas discretas de vários pontos da sala e Cable percebeu que tinha as mãos cheias.

— O senhor não odeia a Pynex?

— Não.

— Odeia alguém que trabalha na empresa?

— Não. Não gosto de alguns deles.

— Quando trabalhava na empresa, odiava alguém que lá traba lhava?

— Não. Tinha inimigos, mas não me lembro de odiar ninguém.

— E as pessoas que foram alvo do seu processo?

— Não. Nesse caso também eram inimigos, mas só estavam a fazer o seu trabalho.                         

— Então, o senhor ama os seus inimigos?

— Na verdade, não. Sei que devia tentar, mas é difícil. Não me lembro de ter dito que os amava.

Cable esperava marcar um pequeno ponto sugerindo a possibilidade de retribuição ou vingança da parte de Krigler. Talvez se insistisse na palavra «ódio» chegasse a impressionar alguns dos jurados.

— Qual é o seu motivo para depor neste processo?

—  É uma questão complicada.

— É dinheiro?

— Não.

— O doutor Rohr, ou alguém relacionado com a queixosa, paga-lhe para o senhor testemunhar?

— Não. Concordaram em reembolsar as minhas despesas de viagem, mas mais nada.

A última coisa que Cable queria era uma porta aberta para Krigler expor as suas razões para testemunhar. Havia tocado levemente no assunto durante o interrogatório directo de Milton e este passou cinco horas a explicar pormenorizadamente cada razão. Era de importância crucial fazer com que Krigler falasse sobre outros assuntos.

— O senhor alguma vez fumou, senhor Krigler?

— Sim. Infelizmente fumei durante vinte anos.

— Então, desejaria nunca ter fumado?

— É claro.

— Quando começou?

— Quando entrei para a empresa, em 1952. Naquele tempo encorajavam todos os empregados a fumar. Ainda fazem isso.

— Acredita que prejudicou a sua saúde por fumar durante vinte anos?

— É claro que sim. Só por sorte não estou morto, como o senhor Wood.

— Quando deixou? • >

— Em 1973, depois de saber a verdade sobre a nicotina.

— Acha que a sua saúde actual foi abalada de algum modo pelo facto de ter fumado durante vinte anos?

— É claro.

— Na sua opinião, a empresa foi, de algum modo, responsável pela sua decisão de começar a fumar?

— Sim. Como já disse, encorajavam-nos. Todos fumavam. Comprávamos cigarros por metade do preço na loj a da empresa. Todas as reuniões começavam com uma caixa cheia de cigarros a passar à volta da mesa. Era uma parte importante da cultura da empresa.

— Os escritórios eram ventilados?

— Não.

— Qual a intensidade do efeito de inalação passiva?

— É enorme. Havia sempre uma névoa azulada a pairar não muito acima das nossas cabeças.

— Então, hoje, o senhor culpa a empresa por não ser tão saudável quanto devia ser?

— A empresa tem muito a ver com isso. Felizmente consegui deixar o vício. Não foi fácil.

— E guarda ressentimentos contra a empresa por isso?

—Digamos que teri a preferido trabalhar numa outra indústria quando me formei.

— Indústria? Guarda ressentimento contra toda a indústria?

— Não sou um admirador da indústria do tabaco.

— É por isso que está aqui? •   —Não.

— Cable consultou as suas notas e mudou rapidamente de direcção.

— Muito bem, o senhor teve uma irmã, não teve, senhor Krigler? . —Sim, tive.

— O que é que lhe aconteceu? ,   — Morreu em 1970.

— Como é que morreu?

— Com cancro do pulmão. Fumou dois maços por dia durante mais ou menos vinte e três anos. O tabaco matou-a, doutor Cable, se é isso que quer ouvir.

— O senhor e a sua irmã eram muito unidos? — perguntou Cable com compaixão suficiente para aliviar um pouco a crueldade de lembrar uma tragédia.

— Éramos muito unidos. Não tínhamos mais irmãos.

— E a morte da sua irmã abalou-o, não foi?

— Foi. Era uma pessoa muito especial e ainda sinto a sua falta.

— Lamento estar a falar nisso, senhor Krigler, mas é relevante.

— A sua compaixão é comovente, doutor Cable, mas não há nada de relevante nisso.

— Qual era a opinião dela a respeito de o senhor fumar?

— Não gostava. Quando estava a morrer, pediu-me para largar o tabaco. Era isso que queria ouvir, doutor Cable?

— Só se for a verdade.

— Oh, é verdade, doutor Cable. Um dia antes de morrer, fez-me prometer que ia deixar o tabaco. E eu deixei, embora tenha levado três longos anos para o conseguir. Estava viciado, tal como a minha irmã, porque a empresa que fabricava os cigarros que a mataram, e que me teriam matado também a mim, mantinha intencionalmente o mais elevado nível de nicotina possível nos cigarros.

— Agora...

— Não me interrompa, doutor Cable. A nicotina isolada não é cancerígena, o senhor sabe isso, é apenas um veneno, um veneno que vicia o fumador e que permite que os elementos cancerígenos possam mais tarde tomar conta do nosso corpo. Por isso o cigarro é inerentemente perigoso.

Cable ouviu, com perfeita calma.

— Já terminou?

— Estou pronto para a próxima pergunta. Mas não me interrompa outra vez.

— Certamente, e peço desculpa. Agora diga-me, quando é que se convenceu de que o tabaco é inerentemente perigoso?

— Não sei exactamente quando. É um facto conhecido há algum tempo. Naquele tempo, como hoje, não era preciso ser um génio para entender isso. Mas diria que foi no começo dos anos setenta, quando terminei o meu estudo, depois da morte da minha irmã e pouco antes de ver o infame memorando.

— Em 1973?

— Mais ou menos por aí.

— E quando é que deixou de trabalhar para a Pynex? Em que ano?

— Em 1982.

— Então continuou a trabalhar para a empresa fabricante de um produto que o senhor considerava inerentemente perigoso?

— Continuei.

— Quanto ganhava em 1982?

- Noventa mil dólares por ano.

Cable fez uma pausa, foi até à mesa, pegou num outro bloco de apontamentos que estudou alguns segundos, mordendo a ponta do aro dos óculos de leitura, depois voltou-se para Krigler e perguntou por que razão tinha processado a empresa em 1982. Krigler não gostou da pergunta e olhou para Rohr e Milton, pedindo ajuda. Cable continuou a perguntar sobre pormenores dos acontecimentos que levaram ao litígio, um litígio de ordem pessoal e extremamente complicado, interrompendo definitivamente o curso do depoimento. Rohr protestou, Milton protestou e Cable reagiu como se não tivesse a mínima ideia do motivo dos protestos. Os advogados reuniram-se para confabular em frente da mesa do juiz Harkin e Krigler começou a ficar cansado com a demora.

Cable continuou a martelar na tecla do desempenho profissional de Krigler nos seus últimos dez anos na Pynex, sugerindo claramente que outras testemunhas podiam ser chamadas para o contradizer.

A estratégia quase funcionou. Incapaz de abalar os aspectos prejudiciais do testemunho de Krigler, a defesa resolveu confundir o júri. Se uma testemunha não pode ser abalada, então é preciso procurar anulá-la com pormenores insignificantes.

Porém, a estratégia foi explicada ao júri por Nicholas Easter, que tinha dois anos de direito e que no intervalo para o café, ao fim da tarde, resolveu lembrar aos seus companheiros esse facto. Ignorando as objecções de Herman, Nicholas expressou o seu ressentimento contra a tentativa de Cable de desacreditar a testemunha e confundir o júri.

— Ele pensa que somos burros — disse, revoltado.

 

Reagindo aos telefonemas frenéticos de Biloxi, as acções da Pynex fecharam a setenta e cinco e meio na quinta-feira, uma queda de quase quatro pontos, atribuída aos acontecimentos dramáticos no tribunal.

Noutros julgamentos de fabricantes de cigarros, ex-empregados tinham testemunhado sobre pesticidas e insecticidas usados nas plantações de tabaco e os especialistas tinham relacionado esses produtos com o cancro. Isso não impressionou os júris. Num dos julgamentos, um antigo empregado revelou que os seus ex-empregadores visavam os jovens adolescentes com anúncios onde idiotas charmosos e magros com queixos e dentes perfeitos se deliciavam com o prazer de fumar.

IA mesma empresa visava os adolescentes mais velhos com anúncios onde cowboys e pilotos de automóveis enfrentavam a vida com um cigarro entre os lábios.

Mas os jurados nesses julgamentos não premiaram os queixosos.

Porém, nenhum ex-empregado provocou tanto prejuízo como Lawrence Krigler. O infame memorando dos anos 30 fora visto por um pequeno número de pessoas, mas jamais citado num processo legal. A versão apresentada por Krigler ao júri era a mais próxima do verdadeiro memorando que qualquer advogado da acusação já havia conseguido. O facto de o juiz Harkin ter permitido a descrição do memorando em frente dos jurados seria calorosamente contestado na apelação, independentemente de quem vencesse o julgamento.

Krigler foi rapidamente escoltado para fora da cidade pelos segu-ranças de Rohr e, uma hora depois de terminar o seu testemunho, estava num avião particular de regresso à Flórida Várias vezes, desde que saiu da Pynex, Krigler se viu tentado a entrar em contacto com a acusação dos processos movidos contra os fabricantes de tabaco, mas nunca tinha tido coragem.

A Pynex tinha pago extra-judicalmente trezentos mil dólares só para se livrar de Krigler. A empresa insistiu para que ele concordasse em nunca testemunhar num julgamento semelhante ao de Wood, mas ele recusou. E quando recusou, tornou-se um homem marcado.

Eles, fossem quem fossem, garantiram que o matariam. As ameaças foram poucas e com grandes intervalos ao longo dos anos, sempre feitas por vozes anónimas e quando menos esperava. Krigler não era homem para se esconder. Escreveu um livro, uma denúncia que, segundo ele, seria publicada no caso de ter morte suspeita. O livro estava com um advogado em Melbourne Beach. O advogado era um amigo que arranjou o seu primeiro encontro com Rohr e que tinha também um diálogo aberto com o FBI, para o caso de acontecer alguma coisa com o senhor Krigler.

O marido de Millie Dupree, Hoppy, era dono de uma pequena imobiliária em Biloxi. Certamente não do tipo agressivo, tinha poucas propriedades para vender e poucos negócios em andamento, mas trabalhava arduamente com o pouco que conseguia. Uma parede da sala da frente tinha as fotografias das oportunidades disponíveis, pregadas compunaises num quadro de papelão — a maioria eram casas pequenas com belos relvados e alguns velhos duplex.

A febre do jogo atraiu para a Costa um novo grupo de ousados vendedores de imóveis, que não tinham medo de fazer grandes empréstimos para desenvolver o negócio. Hoppy e os pequenos vendedores continuaram com o seu jogo seguro, cada vez mais envolvidos com o tipo de mercado que melhor conheciam: pequenos e encantadores imóveis para «início de vida», para «recém-casados» e pequenas «adaptações» para os mais desesperados que não tinham condições para contrair um empréstimo.

Mas conseguia pagar as suas contas e sustentar a família -— a mulher, Millie, e cinco filhos, três numa universidade que só oferecia os dois primeiros anos, e dois no liceu. A certa altura, tinha adicionado ao seu escritório as licenças de meia dúzia de vendedores associados, que trabalhavam à comissão, na sua maioria um punhado de perdedores desanimados que partilhavam a sua aversão por dívidas e pela agressividade nos negócios. Hoppy gostava de jogar cartas e muitas das suas horas eram passadas na mesa dos fundos. Os vendedores de imóveis, independentemente do talento, gostam de sonhar com o grande negócio. Hoppy e o seu grupo não se furtavam a uma pequena bebida ii (arde, jogando cartas e falando em grandes negócios. Pouco antes das seis horas, na quinta-feira, quando o jogo estava quase no fim e se preparavam para encerrar outro dia improdutivo, um jovem homem de negócios muito bem vestido com uma pasta negra e brilhante, entrou no escritório e perguntou pelo senhor Dupree. Hoppy estava com pressa para ir para casa, uma vez que Millie estava isolada no motel. Foram feitas as apresentações. O jovem apresentou um cartão comercial que o identificava como Todd Ringwald, do Grupo de Propriedades KLX, de Las Vegas, Nevada. O cartão impressionou Hoppy o suficiente para mandar embora o último dos seus sócios vendedores e trancar a porta do escritório. A simples presença de alguém tão bem vestido, vindo de tão longe, só podia significar assuntos muito sérios.

Hoppy ofereceu-lhe uma bebida, depois café, que podia ser feito num instante. O senhor Ringwald declinou e perguntou se tinha chegado numa hora imprópria.

—Não, de modo nenhum. O nosso horário de trabalho é completa-mente louco, como deve saber. É um negócio louco.

O senhor Ringwald sorriu e concordou, porque também tinha estado naquele negócio até há poucos anos. Primeiro, umas palavras sobre a sua empresa. A KLX era uma empresa privada com holdings numa dúzia de estados. Embora não fosse proprietária de casinos e não pretendesse ser, havia desenvolvido uma especialidade relacionada com eles, uma especialidade muito lucrativa. A KLX era «rastreadora» de casinos. Hoppy meneou vigorosamente a cabeça, como se conhecesse a fundo esse tipo de negócio.

Quando os casinos chegam a um sítio, o mercado imobiliário muda drasticamente. Ringwald tinha a certeza de que Hoppy sabia tudo a esse respeito e Hoppy concordou, como se acabasse de fazer uma fortuna na sua cidade. A KLX trabalhava discretamente — e Ringwald fez questão de enfatizar a característica secreta da empresa — um passo atrás dos casinos, promovendo o desenvolvimento de áreas comerciais, dispendiosos condomínios e complexos de apartamentos da classe alta. Os casinos pagam bem, geram muitos empregos, muita coisa muda na economia local e havia muito mais dinheiro flutuando e a KLX queria a sua parte.

— A nossa empresa é um verdadeiro abutre — explicou Ringwakl com um sorriso malicioso. — Nós sentamo-nos e observamos os casinos. Quando eles se mexem, nós entramos para reclamar a presa.

— Brilhante! — exclamou Hoppy, sem poder controlar-se. Entretanto, a KLX demorou muito a mudar-se para a Costa e, confidencialmente, isso custou alguns empregos em Las Vegas. Mas ainda havia oportunidades incríveis e Hoppy disse: — Certamente. Ring-wald tirou da pasta um mapa de propriedades que deixou dobrado sobre os joelhos. Ele, como vice-presidente de desenvolvimento, preferia tratar com pequenos vendedores locais. As grandes firmas tinham gente a mais, muitas donas de casa obesas lendo os anúncios à espera do menor sinal de boato.

— Disse muito bem! — concordou Hoppy, olhando para o mapa. — Além disso, consegue um melhor serviço se recorrer a uma pequena empresa como a minha.

Você foi especialmente recomendado — disse Ringwald, e Hoppy não pôde conter um sorriso.

O telefone tocou. Era o filho mais novo para saber o que era o jantar e quando voltaria a mãe para casa. Hoppy foi amável, mas breve. Estava muito ocupado, explicou, e devia haver uma lasanha no frigorífico.

O mapa foi aberto sobre a mesa de Hoppy. Ringwald apontou para um terreno marcado a vermelho em Hancock County, ao lado de Har-rison e dos três condados, o mais próximo do extremo oeste. Os dois homens aproximaram-se da mesa, um de cada lado.

— A MGM Grand está a chegar— disse Ringwald, apontando para uma baía. — Mas ainda ninguém sabe e você não deve contar isto a ninguém.

Hoppy meneava a cabeça, «claro que não!», antes mesmo de Ringwald acabar de falar.

—Vão construir o maior casino da Costa, provavelmente em meados do próximo ano. Dentro de três meses começarão a anunciar a construção. Vão comprar aproximadamente cem hectares deste terreno aqui.

— Um belo terreno. Praticamente intacto — Hoppy nunca tinha estado perto da propriedade, mas morava na Costa há quarenta anos.

— Nós queremos isto — disse Ringwald, apontando outra vez para o terreno marcado a vermelho. — Quinhentos hectares, para fazer isto: — Tirou a folha de cima do mapa, revelando o desenho artístico de um esplêndido plano de uma unidade de desenvolvimento. O nome Still-water Bay estava escrito em letras grandes e azuis na parte superior do desenho. Condomínios, prédios de escritórios, grandes residências, residências mais pequenas, parques infantis, igrejas, uma praça central, uma galeria comercial, uma rua só para peões, um cais, uma marina, um quarteirão comercial, parques, pista para correr, ciclovias, até um liceu. Era uma utopia planeada para Hancock County por pessoas de Las Vegas com muita visão.

— Fantástico! — disse Hoppy. Uma verdadeira fortuna estava sobre a sua mesa.

— Quatro fases diferentes durante quatro anos. A coisa toda vai custar trinta milhões. É de longe o maior plano de desenvolvimento urbano jamais visto nesta região.

— Não há aqui nada que se pareça com isso.

Ringwald virou outra página revelando outro desenho da área do cais, depois outro com um plano aproximado do bairro residencial.

—Estes são apenas desenhos preliminares. Mostrarei outros quando puder ir ao nosso escritório.

— Vegas?

— Sim. Se chegarmos a um acordo sobre a sua representação, então gostaríamos que passasse alguns dias em Las Vegas para conhecer o pessoal, ver os desenhos de todo o projecto.

Hoppy sentiu as pernas moles e respirou profundamente. Vai devagar, pensou.

—Sim, e que tipo de representação têm em mente?

— Para já, precisamos de uma imobiliária que se encarregue da compra das terras. Uma vez compradas, precisamos de convencer as autoridades locais a aprovar o nosso plano. Isso, como sabe, pode levar algum tempo e provocar controvérsias. Levamos algum tempo até à elaboração dos planos de comissões e ao planeamento dos lotes. Vamos até aos tribunais, se necessário. Mas é apenas uma parte do nosso negócio. Você ficará envolvido nessa fase do negócio. Uma vez aprovado, precisamos de uma empresa imobiliária para o marketing de Still-water Bay.

Hoppy recostou-se na cadeira, fazendo os cálculos.   

— Quanto vai custar o terreno? — perguntou.

— É caro, muito caro para esta área. Dez mil por hectare, por uma terra que vale apenas metade disso.

Quinhentos hectares a dez mil dólares o hectare perfaz um total de cinco milhões de dólares, dos quais seis por cento, ou trezentos mil, seriam a comissão de Hoppy, supondo, é claro, que não haveria mais imobiliárias envolvidas no negócio. Ringwald observou, com olhar inexpressivo, Hoppy a fazer a matemática mental.

— Dez mil é de mais — disse Hoppy, com autoridade.

— Sim, mas o terreno não está no mercado. Os proprietários realmente não querem vender, portanto temos de entrar rapidamente, antes que fiquem a saber da vinda da MGM. É por isso que precisamos de uma empresa local. Se chegar ao conhecimento do público que uma grande empresa de Las Vegas está interessada naquelas terras, o preço sobe para vinte mil o hectare. É o que acontece sempre.

O facto de o terreno não estar no mercado fez disparar o coração de Hoppy. Nenhum outro corretor estava envolvido. Só ele. Só o pequeno Hoppy e os seis por cento de comissão. O seu navio tinha finalmente chegado a bom porto. Ele: Hoppy Dupree, após décadas a vender apartamentos a reformados, estava prestes a fazer o negócio da sua vida.

Sem mencionar o «marketing de Stillwater Bay». Todas aquelas casas, condomínios, propriedades comerciais, trinta milhões em propriedades com as tabuletas de Dupree Imóveis em todas elas. Hoppy podia ficar milionário em cinco anos.

Ringwald apertou o cerco.

— Estou a calcular a sua comissão em oito por cento. É o que pagamos normalmente.

— É claro — disse Hoppy, as palavras passando velozes na língua muito seca. De trezentos mil para quatrocentos mil, assim sem mais nem menos. — Quem são os proprietários? — perguntou, mudando rapidamente de assunto, agora que tinham concordado com oito por cento.

Ringwald suspirou dramaticamente e curvou os ombros, mas só por um instante.

— É aí que a coisa se complica.

O coração de Hoppy caiu-lhe aos pés.

— A propriedade fica no sexto distrito de Hancock County... — disse Ringwald lentamente —... e o sexto distrito é dominado por um supervisor chamado...

— Jimmy Hull Moke — adiantou Hoppy, com desânimo.

— Conhece-o?

—Toda a gente conhece Jimmy Hull. Está nesse lugar há trinta unos. O ladrão mais desonesto de toda a Costa.

— Conhece-o pessoalmente?

— Não. Só de nome. E fama!

— Que, segundo soubemos, é bastante duvidosa.

— Duvidosa é um elogio para Jimmy Hull. A nível local, o homem controla tudo na sua parte do condado.

Ringwald olhou para Hoppy confuso, como se ele e a sua empresa não soubessem como deviam proceder. Hoppy esfregou os olhos tristes enquanto pensava num meio de conservar a sua fortuna. Durante um minuto não olharam um para o outro, então Ringwald disse:

— Não é prudente comprar terrenos, a não ser que tenhamos alguma garantia do senhor Moke e das autoridades locais. Como sabe, tem de haver um labirinto de papéis que devem ser aprovados para o projecto.

— Planeamento, loteamento, arquitectura, erosão do solo, tudo o que se possa imaginar — disse Hoppy, como se lutasse contra essas coisas todos os dias.                                                                

— Soubemos que o senhor Moke controla tudo isso.

— Com mão de ferro. Outra pausa.

— Talvez fosse bom conseguirmos uma entrevista com o senhor Moke — disse Ringwald.

— Não, acho que não.

— Porquê?

— Entrevistas não funcionam.

— Não entendendo.

— Dinheiro. Puro e simples. Jimmy Hull gosta do dinheiro por baixo da mesa, grandes malas com notas não marcadas.

Ringwald fez um gesto afirmativo com um sorriso solene, como se fosse uma pena, mas nada inesperado.

— Foi o que ouvimos dizer — disse, quase para si mesmo. — Na verdade, isso não é invulgar, especialmente nas áreas em que aparecem casinos. Há muito dinheiro estrangeiro e as pessoas ficam gananciosas.

— Jimmy Hull já nasceu ganancioso. Começou a roubar trinta anos antes dos casinos aparecerem.

— Nuncafoi apanhado?

— Não. Para um supervisor local, Hull é bastante inteligente. Tudo a dinheiro, nenhuma pista, protege-se com cuidado. Hoppy enxugou a testa com o lenço. Inclinou-se e retirou dois copos de uma gaveta da mesa e depois uma garrafa de vodka. Serviu duas bebidas generosamente e colocou uma na frente de Ringwald—Saúde! — disse Hoppy, antes que Ringwald tocasse no copo.

— Então, o que fazemos? — perguntou Ringwald.

— O que é que fazem normalmente em situações como esta?

— Normalmente procuramos um meio de trabalhar com as autoridades locais. Há demasiado dinheiro envolvido para desistir.

— Com as autoridades locais, como?

—Temos os nossos meios. Contribuímos para campanhas de reeleição. Honramos os nossos compromissos oferecendo férias dispendiosas. Pagamos consultas de saúde às mulheres e aos filhos...

— Alguma vez pagaram um suborno em dinheiro vivo?

— Bem, prefiro não falar nisso.

— É isso que vão precisar. Jimmy Hull é um homem simples. Apenas dinheiro. — Hoppy bebeu um longo gole e estalou os lábios.

— Quanto?

— Sabe-se lá! Mas é bom que seja suficiente. Se forem mesquinhos com ele de início, ele mata o seu projecto mais tarde e ainda fica com o dinheiro. Jimmy Hull não devolve nada.

— Fala como se o conhecesse muito bem.

— Todas as pessoas que têm negócios na Costa conhecem o jogo dele. Hull é uma espécie de lenda local.

Ringwald meneou a cabeça, incrédulo.

— Bem-vindo ao Mississipi — disse Hoppy e bebeu mais um gole de vodka.

Ringwald não tocou na bebi da.

Durante trinta e cinco anos, Hoppy tinha feito jogo honesto e não pretendia comprometer-se agora. O dinheiro não valia o risco. Tinha filhos, família, uma reputação, era bem visto pela sociedade. Ia à igreja ocasionalmente e ao Rotary Clube. Quem seria exactamente aquele estranho sentado à sua frente com um fato elegante e sapatos de marca, oferecendo-lhe o mundo caso concordasse com o que eles queriam? Ele, Hoppy, certamente ia telefonar e verificar o tal Grupo de Propriedade KLX e o senhor Todd Ringwald, assim que ele saísse do seu escritório.                                                                              

— Isso é habitual — disse Ringwald. — Temos tempo.

— Qual é o vosso procedimento?

— Bem, acho que o seu primeiro passo deveria ser procurar o senhor Moke e estudar a possibilidade de um acordo.

— Ele está sempre pronto para um acordo.

—Então, determinamos os termos do acordo. Como disse, decidiremos quanto dinheiro vamos oferecer. — Ringwald parou para beber um pequeno gole de vodka. — Está disposto a envolver-se nisto?

— Não sei. De que modo?

— Não conhecemos ninguém em Hancock County. Tentamos não aparecer. Somos de Vegas. Se começarmos a fazer perguntas, o projecto vai por água-abaixo.

— Quer que fale com Jimmy Hull?

— Só se quiser envolver-se. De contrário, seremos obrigados a procurar outra pessoa.

— Tenho uma boa reputação — disse Hoppy, com espantosa firmeza, depois engoliu em seco à ideia de um competidor entrar na posse dos seus quatrocentos mil dólares.

— Não esperamos de si nenhuma desonestidade. — Ringwald fez uma pausa, procurando as palavras certas. Hoppy estava a pressioná-lo. — Digamos que temos meios para entregar ao senhor Moke aquilo que ele pedir. Você não precisa de tocar em nada. Na verdade, quando a coisa acontecer, nem vai saber.

Hoppy endireitou o corpo na cadeira, como se tivessem tirado um peso dos seus ombros. Talvez houvesse um meio termo em tudo aquilo. Ringwald e a sua empresa eram experientes nestas coisas. Provavelmente tratavam com aldrabões muito mais sofisticados do que Jimmy Hull Moke.

— Estou a ouvir — disse Hoppy.

— Você tem pulso nesta terra. Somos de fora, portanto vamos confiar em si. Que tal marcar um encontro com o senhor Moke, só vocês os dois, e falar em termos gerais sobre o nosso plano? Os nossos nomes não serão mencionados, diz-lhe apenas que tem um cliente interessado em trabalhar com ele. Vai dizer-lhe um valor e, se estiver dentro das nossas possibilidades, diz-lhe que o negócio está fechado. Nós encarregamo-nos da entrega e você nunca saberá se o dinheiro chegou a mudar de mãos. Você não faz nada de errado. Ele fica feliz e nós também porque estamos em vias de ganhar muito dinheiro, juntamente consigo, devo acrescentar.

Hoppy gostou! Nenhuma lama ia chegar às suas mãos. O negócio sujo ficava por conta do cliente e de Jimmy Hull. Ficava fora e simplesmente olhava para o outro lado mas, mesmo assim, queria agir com cautela. Disse que gostaria de algum tempo para pensar.

Conversaram mais um pouco, examinaram os planos outra vez e despediram-se às oito horas. Ringwald ficou de voltar na sexta-feira de manhã.

Antes de ir para casa, Hoppy ligou para o número no cartão de Ringwald. Atendeu-lhe uma eficiente recepcionista de Las Vegas.

— Boa-tarde. Grupo Propriedade KLX.

Hoppy sorriu, depois pediu para falar com o senhor Todd Pvingwald. A chamada foi transferida, com música rock suave ao fundo, para o escritório do senhor Ringwald e Hoppy falou com Madeline, uma assistente. Ela informou-o de que o senhor Ringwald estava fora da cidade e que não o esperavam antes de segunda-feira. Perguntou quem queria falar com ele e Hoppy desligou rapidamente.

Pronto. A KLX existia.

As ligações de fora eram atendidas na recepção, registadas em folhas amarelas de um bloco de mensagens e enviadas para Lou Dell, que as distribuía como o coelho da Páscoa distribuindo ovos de chocolate. A mensagem de George Teaker chegou às sete e quarenta da noite, na quinta-feira, e foi entregue a Lonnie Shaver, que, em vez de ver o filme na televisão, estava a trabalhar no seu computador. Telefonou imediatamente para Teaker e, durante os dez minutos seguintes, tudo o que fez foi responder a perguntas sobre o julgamento. Lonnie confessou que não tinha sido um bom dia para a defesa. Lawrence Krigler causou um grande impacto em todos os jurados, menos em Lonnie, é claro. Lonnie garantiu a Teaker que não estava impressionado. Todos em Nova Iorque estavam preocupados, disse Teaker repetidamente. Era um grande alívio saber que Lonnie estava no júri e que podiam contar com ele em qualquer circunstância, mas as coisas pareciam não ir muito bem. Estariam enganados? Lonnie disse que era muito cedo para confirmar.

Teaker disse que precisavam de atar as pontas soltas do contrato de trabalho. Lonnie só sabia de uma ponta solta: a remuneração. Actualmente ganhava quarenta mil dólares por ano. Teaker afirmou que a SuperHouse pagaria cinquenta mil, com direito a subscrição de algumas acções e um prémio, baseado no seu desempenho, que podia chegar a vinte mil.

Eles queriam que Lonnie fizesse um curso de reciclagem para gerentes, em Charlotte, assim que o julgamento terminasse. A referência ao julgamento provocou uma nova série de perguntas sobre o estado de espírito do júri.

Uma hora depois, Lonnie estava à janela, olhando para o estacionamento, tentando convencer-se de que estava prestes a ganhar setenta mil dólares por ano. Três anos antes, ganhava vinte e cinco mil.

Nada mau para um garoto com um pai que conduzia uma carrinha de entrega de leite a três dólares por hora.

 

Na sexta-feira de manhã, o Wall Street Journal trazia um artigo de primeira página sobre Lawrence Krigler e o seu depoimento da véspera. Escrito por Agner Layson, que até então não havia perdido nem uma palavra do julgamento, o artigo descrevia com precisão o que o júri tinha ouvido. Layson especulava sobre o impacto do depoimento de Krigler no júri. A outra metade do artigo tentava mostrar o outro lado da questão, citando observações dos bons e velhos rapazes da Con-Pack, antiga Allegheny Growers. Como era de esperar, negavam veementemente tudo o que Krigler tinha dito. A empresa não fez nenhum estudo sobre nicotina nos anos 30, pelo menos ninguém da actual Con-Pack sabia desse estudo. Muito tempo tinha passado. Ninguém da ConPack tinha visto o infame memorando. Provavelmente uma criação da imaginação de Krigler. Não era do conhecimento geral na indústria tabaqueira o facto de a nicotina contribuir para criar dependência. O veneno não era mantido artificialmente em altos níveis pela ConPack, ou por qualquer outro fabricante de cigarros. A empresa não admitia, na verdade negava uma vez mais e por escrito, que a nicotina fosse um factor de dependência.

A Pynex também deu alguns tiros para o ar, todos de fontes anónimas. Krigler era um desajustado. Considerava-se um cientista de investigação, quando na verdade não passava de um engenheiro. O seu trabalho com o Raleigh 4 tinha apresentado falhas graves, a produção dessa folha era completamente impraticável. A morte da irmã afectou seriamente o seu trabalho e a sua conduta. Não demorou a ameaçar com um processo legal. Havia claras insinuações de que o acordo feito fora dos tribunais, treze anos antes, tinha sido completamente favorável à Pynex. Seguia-se uma breve descrição do desempenho das acções da Pynex, que tinham fechado a setenta e cinco e meio, três pontos abaixo, no mercado comprador, depois da última recuperação.

O juiz Harkin leu o artigo uma hora antes da chegada do júri. Telefonou para Lou Dell, no Siestalnn, para se certificar de que os jurados não leriam aquele jornal. Ela garantiu que só recebiam os jornais locais, todos censurados, de acordo com as instruções. Lou Dell adorava recortar as reportagens e artigos sobre o julgamento. Ocasionalmente, também recortava reportagens que nada tinham a ver com o assunto, só para se divertir, para lhes causar curiosidade sobre o que estariam a perder. Nunca o saberiam.

Hoppy Dupree dormiu pouco. Depois de lavar os pratos e de passar o aspirador na sala, falou quase uma hora com Millie ao telefone. Ela estava muito bem disposta.

Hoppy levantou-se da cama à meia-noite e foi sentar-se na varanda, pensando na KLX, em Jimmy Hull Moke e na fortuna que estava lá fora, quase ao alcance da sua mão. O dinheiro seria utilizado com os filhos, Hoppy decidiu isto antes de sair do escritório. Era o fim das faculdades de segunda classe. Era o fim dos empregos a meio tempo. Iriam para as melhores escolas. Também não seria mal pensado uma casa maior, mas só porque a deles era demasiado pequena para as crianças. Ele e Millie podiam morar num sítio qualquer: eram pessoas com exigências e hábitos simples.

Ficaria sem dívidas. Depois de pagar os impostos, faria dois investimentos: fundos do tesouro e imóveis. Compraria pequenas propriedades comerciais com sólidos contratos de arrendamento. Podia começar já a enumerar uma meia dúzia.

O acordo com Jimmy Hull Moke preocupava-o. Hoppy nunca se tinha envolvido em subornos. Um primo seu que vendia carros usados passou três anos na prisão por acumular duas e três hipotecas. Destruiu o casamento e arruinou a vida dos filhos.

A certa altura do seu pensamento, antes do nascer do dia, Hoppy acabou por se convencer de que a reputação de Jimmy Hull Moke garantia a sua segurança. O homem tinha de tal maneira refinado a prática da corrupção que a transformara numa forma de arte. Enriqueceu com um escasso salário de funcionário público. E toda a gente o sabia!

Moke saberia certamente como fazer o acordo sem ser apanhado. Hoppy não ia sequer chegar perto do dinheiro, nem saberia com certeza se ou quando seria entregue.

Comeu umapop-tart ao pequeno-almoço e resolveu que o risco era mínimo. Teria uma conversa sem compromisso com Jimmy Hull. Seguiria o rumo escolhido por Jimmy, porque tinha a certeza de que rapidamente estariam a falar em dinheiro. Depois, falaria com Ringwald. Descongelou torradas de canela para os filhos, deixou o dinheiro para o almoço deles na mesa da cozinha e, às oito horas, foi para o escritório.

No dia seguinte ao depoimento de Krigler, a defesa adoptou um estilo mais suave. Era imperativo aparentar descontracção, não se mostrarem atingidos pelo golpe severo desfechado pela acusação na véspera. Toda a equipa estava com fatos de cores mais claras, cinzento e azul--claro e até um caqui. Desapareceram os fatos negros e o azul-mari-nho. Desapareceu também a seriedade de homens sobrecarregados com a sua própria importância. Assim que a porta se abriu e o primeiro jurado apareceu, largos sorrisos cheios de dentes cintilaram na mesa da defesa. Até um ou dois risos breves e abafados. Não eram mais do que um bando de homens tranquilos.

O juiz Harkin disse «olá», mas foram poucos os sorrisos no banco dos jurados. Era sexta-feira, o que significava o início do fim da semana, um fim-de-semana que passariam encarcerados no Siesta Inn. Durante o pequeno-almoço tinham resolvido que Nicholas mandaria entregar um bilhete ao juiz, pedindo que considerasse a possibilidade de trabalhar no sábado. Os jurados preferiam estar no tribunal, tentando acabar com aquele sofrimento, a ficar nos quartos sem fazer nada e a pensar no julgamento.

A maioria dos jurados notou o sorriso idiota de Cable e da sua equipa. Reparou nos fatos de Verão, o ar jovial, os murmúrios bem-humorados.

— Por que diabo estão tão felizes? — murmurou Loreen Duke enquanto Harkin lia a sua lista de perguntas.

— Querem fingir que está tudo sob controlo — murmurou Nicholas. — Olhem para eles com insistência.

Wendall Rohr levantou-se e chamou a sua próxima testemunha.

—Doutor Roger Bunch—disse solenemente, observando a reacção do júri ao nome anunciado.

Era sexta-feira. Não haveria nenhuma reacção do júri.

A fama de Bunch tinha dez anos, começara quando, como chefe supremo do serviço de saúde dos Estados Unidos, combateu incansavelmente a indústria tabaqueira. Durante os seis anos em que ocupou o cargo, incentivou inúmeros estudos, vários ataques frontais, fez milhares de discursos contra o fumo, escreveu três livros sobre o assunto e pressionou as agências do governo para uma regulamentação de controlo mais severa. As suas vitórias foram poucas e espaçadas. Depois de deixar o cargo, continuou a sua cruzada, com grande talento para a publicidade.

Era um homem de muitas opiniões e estava ansioso por partilhá-las com o júri. A prova era conclusiva — o tabaco causa cancro do pulmão. Todas as organizações médicas profissionais do mundo que estudaram o assunto haviam determinado que os cigarros causam cancro do pulmão. As únicas organizações com opinião contrária eram as dos fabricantes e dos seus porta-vozes, aliás pagos para isso — lobbies e coisas parecidas.

O tabaco vicia. Pergunte a qualquer fumador que tenha tentado deixar de fumar. A indústria afirma que fumar é uma questão de escolha. «Pura palermice, típica das empresas tabaqueiras», disse, com desprezo. Na verdade, durante os seus seis anos como ministro da saúde tinha publicado três estudos separadamente: todos provavam conclusivamente que o tabaco vicia.

As empresas tabaqueiras gastam milhões para enganar o público. Conduzem estudos para provar que o fumo é praticamente inócuo. Gastam dois mil milhões por ano em publicidade e depois afirmam que a escolha entre fumar ou não fumar é uma opção perfeitamente informada. Isso não é verdade. As pessoas, especialmente os adolescentes, recebem sinais confusos. Fumar parece divertido, sofisticado, até saudável.

Gastam toneladas de dinheiro com todo o tipo de estudos idiotas que, segundo eles, provam o que afirmam. A indústria no seu todo é famosa pelas suas mentiras e dissimulações. Anunciam e promovem como loucos, mas quando um consumidor do seu produto morre de cancro do pulmão, afirmam que a pessoa devia saber que o fumo faz mal.

Bunch fez um estudo que provava que o tabaco contém resíduos de insecticida e pesticida, fibras, material não identificado e lixo. Embora não se poupem a despesas em publicidade, as empresas não se dão ao trabalho, nem fazem nenhuma despesa para eliminar adequadamente os resíduos venenosos do seu produto.

Bunch dirigiu um projecto para demonstrar como os fabricantes de cigarros escolhem especialmente como alvo os jovens e os pobres, como desenvolvem e anunciam marcas diferentes para sexos e classes diferentes.

Como ex-ministro da saúde, o doutor Bunch podia partilhar as suas opiniões sobre uma vasta gama de assuntos. Em vários momentos, naquela manhã, deixou bem claro o seu ódio pela indústria do tabaco e, quando esse ódio se tornou evidente, a sua credibilidade foi prejudicada. Mas conseguiu interessar o júri. Não se viam bocejos, nem olhares perdidos no espaço.

Todd Ringwald achava que o encontro devia ser no escritório de Hoppy, no seu território, onde Jimmy Hull Moke teria menos defesas. Hoppy supôs que isso fazia sentido. Na verdade, não tinha a menor ideia de como essas coisas eram feitas. Teve sorte em encontrar Moke em casa. Estava a tratar do jardim e disse-lhe que já estava a pensar ir a Biloxi. Moke disse que tinha ouvido falar em Hoppy. Hoppy respondeu que era um assunto muito importante relacionado com um plano de desenvolvimento potencialmente grande em Hancock County. Combinaram um almoço, uma sanduíche rápida no escritório de Hoppy. Moke disse que sabia exactamente onde ficava.

Perto da hora do almoço, três dos seus sócios de vendas estavam na sala da frente do escritório. Um deles conversava com um amigo ao telefone. Outro lia os anúncios. O terceiro parecia estar a fazer horas para o jogo de cartas. Com grande dificuldade, Hoppy despachou-os para a rua, onde estavam as verdadeiras oportunidades imobiliárias. Não queria ninguém por perto quando Moke chegasse.

O escritório estava deserto quando Jimmy Hull entrou com calças de ganga e botas de cowboy. Hoppy recebeu-o com um aperto de mãos nervoso e voz esganiçada e conduziu-o à sua sala, nas traseiras, onde, em cima da mesa, já os esperavam duas sanduíches e chá gelado. Enquanto comiam falaram sobre política local, casinos e pescaria, embora Hoppy estivesse completamente sem apetite. O seu estômago contraía-se de medo e as suas mãos não paravam de tremer. Retirou os pratos da mesa e abriu sobre ela o desenho artístico de Stillwater Bay que Ringwald havia levado mais cedo e que não continha nenhuma pista sobre quem estava por detrás do projecto. Em dez minutos Hoppy fez um rápido sumário do projecto proposto e, à medida que falava, sentia-se mais seguro. Na sua opinião, foi uma óptima apresentação, limtny Hull olhou para o desenho, passou a mão pelo queixo e disse:

- Trinta milhões de dólares?

- Pelo menos — respondeu Hoppy. De repente, o seu estômago relaxou.

- E quem é que vai fazer isto?

Hoppy tinha ensaiado a resposta e falou com convincente autoridade. Simplesmente, não podia revelar o nome, pelo menos naquele momento não. Jimmy Hull gostava de segredos. Fez perguntas, todas relacionadas com dinheiro e financiamentos. Hoppy respondeu a quase todas.

— O loteamento pode vir a ser um grande problema—disse Jimmy l lull, franzindo atesta.

— Certamente.

— E a comissão de planeamento vai lutar furiosamente contra isto.

— Já estamos a contar com isso.

— É claro que a decisão final é dos supervisores. Como sabe, as recomendações para loteamento e planeamento são apenas consultivas. Nós os seis damos o resultado final, de acordo com o que queremos. — Riu divertido e Hoppy riu também. No Mississipi, os seis supervisores dos condados eram reis absolutos.

— O meu cliente sabe como as coisas funcionam e está ansioso por trabalhar consigo.

Jimmy Hull tirou os cotovelos da mesa e recostou-se na cadeira. Semicerrou os olhos, franziu a testa, passou a mão pelo queixo e os seus pequenos olhos negros lançaram raios laser para o outro lado da mesa, atingindo o pobre Hoppy no peito, como balas. Hoppy apertou os dez dedos sobre a mesa para conter o tremor das mãos.

Quantas vezes teria Jimmy Hull estado nesta situação, avaliando a presa antes do golpe de misericórdia?

— Sabe que controlo tudo no meu distrito?! — disse ele, quase sem mexer os lábios.

— Sei exactamente como as coisas funcionam — respondeu Hoppy, com a maior calma possível.

— Se quiser que isto seja aprovado, o projecto passa sem problemas. Se não gostar, já está liquidado.

Hoppy limitou-se a mexer afirmativamente a cabeça.

Jimmy Hull queria saber quais as outras imobiliárias locais que estavam envolvidas, quem sabia o quê e qual o grau de secretismo do projecto até ao momento. >    —Não há ninguém envolvido localmente. Só eu—garantiu Hoppy.

— O seu cliente tem alguma coisa a ver com o jogo?

— Não. Mas são pessoas de Las Vegas. Sabem como são feitas as coisas a nível local. E estão ansiosos por agir rapidamente.

Vegas foi a palavra chave e Jimmy Hull saboreou-a com prazer. Examinou o escritório pequeno e pobre. Era simples e espartano, indicando uma certa inocência, como se nada de importante acontecesse ali e nada de importante fosse esperado. Tinha telefonado para dois amigos em Biloxi e ambos informaram que o senhor Dupree era um homem inofensivo: vendia bolo de frutas no Natal para o Rotary Clube. Tinha uma grande família e conseguia evitar controvérsias e o comércio em geral. A pergunta óbvia era: porque razão os tipos do projeclo Stillwater Bay queriam associar-se a um escritório tão conservador como a Dupree Imóveis.

Hull resolveu não perguntar isso.

— Sabe, o meu filho é um óptimo consultor para projectos deste tipo.

— Não sabia. Mas tenho a certeza de que o meu cliente adoraria trabalhar com o seu filho.

— Ele está em Bay St. Louis.

— Quer que lhe telefone?

— Não, eu encarrego-me disso.

Randy Moke tinha dois camiões de cimento para pavimentação e passava a maior parte do tempo a tratar de um barco de pesca que alugava a turistas para pesca no alto mar. Deixou a escola muito cedo, dois meses antes de ser condenado por tráfico de droga.

Hoppy insistiu. Ringwald tinha exaltado a importância de conseguir a adesão de Moke o mais depressa possível. Se não chegassem logo a um acordo, Moke podia voltar para Hancock County e começar a falar sobre o projecto.

— O meu cliente está ansioso para determinar os pagamentos preliminares antes de comprar o terreno. Quanto é que o seu filho cobra pelos seus serviços?

— Cem mil.

Hoppy não mexeu um músculo e ficou orgulhoso com a própria calma. Ringwald tinha calculado um suborno na faixa de cem a duzentos mil. A KLX pagaria alegremente. Na verdade era barato, comparado com Nova Jérsia.

— Compreendo, é...pagável...

— ...Em dinheiro.

— O meu cliente está disposto a discutir o assunto.

— Nada de discussão. Dinheiro adiantado ou nada feito.

— E quais são as condições?

— Cem mil em dinheiro agora e o projecto está em andamento. Tem a minha palavra. Um centavo a menos e anulo tudo com um telefonema.

Era incrível. Não havia o menor sinal de ameaça na voz dele. Mais tarde, Hoppy disse a Ringwald que Jimmy Hull simplesmente expôs os termos do negócio como se estivesse a vender pneus na feira da ladra.

— Preciso de fazer um telefonema — disse Hoppy. — Fique à vontade.

Foi para a sala da frente, que felizmente estava ainda vazia, e ligou para Ringwald, que estava no hotel, sentado ao lado do telefone. Os termos foram expostos, discutidos durante alguns segundos, e Hoppy voltou para o seu escritório.

— Negócio fechado. O meu cliente paga. — Hoppy falou devagar, e francamente era uma boa sensação a de fechar um negócio em que se falava de milhões. A KLX de um lado, Moke do outro, e Hoppy no meio de tudo, no centro do fogo e completamente fora do trabalho sujo.

Jimmy Hull descontraiu-se e sorriu.

— Quando?

— Telefono-lhe na segunda-feira.            

 

Na tarde de sexta-feira, Fitch ignorou o julgamento. Tinha assuntos urgentes para tratar: assuntos sobre um dos jurados. Fechados na sala de conferências do escritório de Cable, Fitch, Pang e Cari Nussman observaram durante uma hora as imagens projectadas na parede.

A ideia foi de Fitch e só de Fitch. Era um tiro no escuro, um dos palpites mais malucos que já tivera, mas era pago para cavar debaixo de pedras em busca de coisas que ninguém mais conseguia encontrar. O dinheiro proporcionava o luxo de sonhar com o improvável.

Quatro dias antes havia dado ordem para Nussman enviar no dia seguinte, de Biloxi, todos os documentos do julgamento Cimmino, que decorrera um ano antes, em Allentown, Pensilvânia. O júri do caso Cimmino ouviu as testemunhas durante quatro semanas e deu mais um veredicto favorável à indústria tabaqueira. Trezentos jurados potenciais foram convocados em Allentown. Um deles era um jovem chamado David Lancaster.

A ficha de Lancaster era pequena. Trabalhava numa loja de vídeo e dizia-se estudante. Morava num apartamento em cima de um supermercado coreano de segunda categoria e, aparentemente, deslocava-se de bicicleta. Não havia indícios de outro veículo, e no registo do condado não constava o pagamento de nenhuma licença, nenhum carro ou camioneta em seu nome. A ficha de informação do júri dizia que tinha nascido em Filadélfia a 8 de Maio de 1967, mas isso não foi verificado na época do julgamento. Não havia motivo para suspeitar que estivesse a mentir. Os homens de Nussman chegaram à conclusão de que a data de nascimento era fictícia. A ficha dizia também que nunca fora condenado; não tinha servido em nenhum júri no condado no ano anterior; não tinha nenhum motivo de ordem médica para não servir e era eleitor devidamente qualificado. Recenseara-se cinco meses antes do início do julgamento.

Não havia nada de estranho nos documentos, excepto o memorando de um consultor, escrito à mão, dizendo que, quando Lancaster se apresentou no júri, no primeiro dia, a secretária do tribunal verificou que o .u nome não constava da lista dos que tinham sido chamados. Ele apresentou uma intimação aparentemente válida e foi incluído no grupo de possíveis jurados. Um dos consultores de Nussman notou que Lancaster parecia ansioso para servir no júri.

A única foto do jovem foi tirada a uma certa distância e mostrava-o a raminho do trabalho na sua mountain bike. Estava de boné, óculos escuros e barba espessa. Uma das agentes de Nussman conversou com Lancaster quando foi alugar vídeos na loja onde ele trabalhava e informou que estava de calças de ganga desbotadas, ténis Birkenstocks, meias de lã e camisa de flanela. O cabelo estava penteado para trás e preso num rabo-de-cavalo enfiado no colarinho. Foi gentil, mas de poucas palavras.

Lancaster não teve sorte quando os números foram sorteados, mas passou nas duas primeiras eliminatórias e estava quatro filas atrás quando o júri foi escolhido.

A sua ficha foi fechada imediatamente.

Agora estava aberta outra vez. Nas últimas vinte e quatro horas, tinham descoberto que David Lancaster simplesmente desaparecera de Allentown um mês depois do fim do julgamento. O coreano, seu senhorio, não sabia de nada. O seu chefe na loj a de vídeo disse que um dia não foi trabalhar e nunca mais souberam dele. Não encontraram mais ninguém na cidade que admitisse saber da existência de Lancaster. Os homens de Fitch estavam a procurar, mas não esperavam encontrar nada. Ainda estava registado como eleitor mas, segundo o escrivão do condado, as listas só seriam actualizadas dentro de cinco anos.

Na quarta-feira à noite, Fitch estava certo de que David Lancaster era Nicholas Easter.

Bem cedo, naquinta-feira, Nussman recebeu do seu escritório em Chicago duas grandes caixas com os documentos do julgamento Gla-vine, em Broken Arrow, Oklahoma. O caso Glavine fora uma briga furiosa no tribunal, dois anos antes, contra a Trellco, com Fitch garantindo o seu veredicto muito antes de os advogados acabarem de se digladiar. Nussman passou a noite de quinta-feira em claro, examinando os documentos da pesquisa do júri do caso Glavine.

Em Broken Arrow havia um jovem branco chamado Perry Hirsch, com vinte e cinco anos na época, supostamente nascido em St. Louis, numa data que as investigações verificaram ser falsa. Disse que trabalhava numa fábrica de lâmpadas e nos fins-de-semana entregava pizzas. Solteiro, católico, não tinha terminado o liceu, nunca fora jurado, tudo de acordo com as suas declarações num breve questionário entregue aos advogados antes do julgamento. Registou-se como eleitor quatro meses antes do julgamento e, supostamente, morava com uma tia num parque de caravanas. Era um dos duzentos que responderam à chamada para servir no júri.

Havia duas fotografias de Hirsch. Numa delas estava a transportar uma pilha de pizzas para o carro, um Punto muito usado, com uma camisa azul e vermelha e um boné nos mesmos tons. Usava óculos com aro de metal e barba. Na outra, estava de pé ao lado da caravana onde morava, mas o rosto mal aparecia.

Hirsch quase foi escolhido para o júri de Glavine, mas foi cortado pela acusação, por motivos que não ficaram muito claros na época. Como era de esperar, deixou a cidade algum tempo depois do julgamento. A fábrica onde trabalhava tinha o registo de um homem chamado Terry Hurtz, mas nenhum Perry Hirsch.

Fitch estava a pagar a um investigador local para trabalhar intensamente na matéria. A tia sem nome não foi encontrada. Ninguém em Rizzo se lembrava de nenhum Perry Hirsch.

Fitch, Pang e Nussman, sentados no escuro, passaram a tarde de sexta-feira a olhar para as imagens na parede. As fotos de Hirsch, Lancaster e de Easter foram ampliadas e focadas o melhor possível. Easter, é claro, estava agora sem barba. A foto foi tirada quando estava a trabalhar, sem óculos escuros e sem boné.

Os três rostos eram da mesma pessoa.

O grafólogo de Nussman chegou de DC na sexta-feira depois do almoço, num jacto da Pynex. Em menos de trinta minutos tinha opinião formada. As únicas amostras disponíveis eram as fichas de informações do júri de Cimmino e Wood e o curto questionário de Glavine. Era mais do que suficiente. O especialista não teve dúvidas em afirmar que Perry Hirsch e David Lancaster eram a mesma pessoa. A letra de Easter era muito diferente da de Lancaster, mas cometeu um grave erro quando tentou diferenciar-se de Hirsch. As letras quadradas, cuidadosamente

desenhadas, foram usadas por Easter como disfarce. Trabalhou arduamente para criar um estilo completamente novo, que não tivesse nenhuma ligação com o passado. O seu erro estava no fim da ficha, na assinatura. O «t» era muito baixo e inclinado da esquerda para a direita.

I lirsch tinha usado um estilo cursivo descuidado, sem dúvida para insinuar pouca instrução. O «t» em St. Louis, seu suposto local de nascimento, era idêntico ao «t» em Easter, embora para um leigo nada nas duas letras parecesse semelhante.

— Hirsch e Lancaster são a mesma pessoa — disse o especialista sem a menor dúvida. — Hirsch e Easter são a mesma pessoa. Logo, Lancaster e Easter são a mesma pessoa.

— Os três são a mesma pessoa—disse Fitch lentamente, avaliando

o valor dessa descoberta.

— Exacto. É muito, muito inteligente. Brilhante mesmo.

() grafólogo saiu do escritório de Cable. Fitch voltou para o seu escritório, onde ficou toda tarde e parte da noite de sexta-feira com nng e Konrad. Tinha agentes a trabalhar em Allentown e em Broken Airow, investigando, subornando, na tentativa de conseguir fichas de emprego e impostos retidos na fonte em nome de Hirsch e Lancaster.

— Você já tinha visto alguém com a mania de «caçar» julgamentos? — perguntou Konrad.

— Nunca! —rosnou Fitch.

O regulamento para as visitas conjugais era simples. Entre as sete e nove horas da noite de sexta-feira, cada jurado podia receber a visita dos cônjuges, companheiros ou fosse quem fosse, nos seus quar-

tos. Os visitantes podiam entrar e sair a qualquer hora, mas só depois de serem registados por Lou Dell, que os examinava de alto abaixo como se só tivesse o poder de aprovar o que iam fazer.

O primeiro a chegar, pontualmente, às sete horas, foi Derrick Males, o belo namorado da jovem Angel Weese. Lou Dell escreveu o seu nome, apontou para o corredor e disse:

— Quarto cinquenta e cinco.

Ninguém mais o viu até às nove horas, quando saiu para tomar ar.

Nicholas não ia ter visitas naquela noite. Nem Jerry Fernandez. A mulher de Jerry estava a dormir num quarto separado há um mês, e não ia perder tempo a visitar um homem que desprezava. Além disso, Jerry e Poodle exerciam os direitos conjugais todas as noites. A mulher do coronel Herrera estava fora da cidade. A de Lonnie Shaver nãoen-controu uma baby-sitter. Assim, quatro homens viram o filme de John Wayne na Sala de Festas, lamentando o estado das suas vidas amorosas. O velho e cego Herman tinha uma vida amorosa, mas eles não.

Phillip Savelle teve uma visita, mas Lou Dell recusou-se a revelar aos outros homens o sexo, a raça, a idade ou qualquer outra coisa sobre o visitante. Acontece que era uma jovem muito amável que parecia indiana ou paquistanesa.

A senhora Gladys Card viu televisão no quarto com o senhor Nelson Card. Loreen Duke, que era divorciada, recebeu a visita das duas filhas adolescentes. Rikki Coleman exerceu os seus direitos conjugais com o marido Rhea, depois falou sobre os filhos durante a hora e quarenta e cinco que sobrou.

E Hoppy Dupree levou flores para Millie e uma caixa de bombons que quase esvaziou, enquanto ele saltava pelo quarto, num acesso de entusiasmo como ela nunca tinha visto. As crianças estavam óptimas, todos tinham saído com os namorados e os negócios iam de vento em popa. Na verdade, os negócios nunca tinham estado tão bons. Hoppy tinha um segredo, um segredo enorme e maravilhoso sobre um negócio que ia fazer, mas ainda não podia contar-lhe. Talvez na segunda-feira. Talvez mais tarde. Mas agora não. Ficou uma hora e, a seguir, voltou a correr para o escritório, para trabalhar mais.

O senhor Nelson Card saiu às nove horas e Gladys cometeu o erro de entrar na Sala de Festas, onde os homens bebiam cerveja e comiam pipocas assistindo a uma luta de boxe. Tirou um refrigerante e sentou--se à mesa. Jerry olhou para ela desconfiado.

— Sua marota — disse ele. — Vá, conte-nos tudo.

Ela abriu a boca e ficou muito vermelha. Não podia falar.

— Vá lá, Gladys. Nós não tivemos nada disso. Elapegou na garrafa e levantou-se de repente.

— Paciência — disse zangada e marchou para fora da sala. Jerry riu. Os outros homens estavam cansados e desanimados de mais para esboçarem qualquer reacção.

O carro de Marlee era um Lexus alugado em Biloxi, com um leas-ing de três anos a seiscentos dólares por mês em nome do Rochelle Group, uma empresa novinha em folha, sobre a qual Fitch não conseguiu descobrir nada. Um transmissor de quase meio quilo foi preso com um íman debaixo do pára-lamas da roda traseira esquerda, de forma a que Marlee pudesse ser vigiada por Konrad sentado à secretária. Joe IJoy tinha instalado o transmissor algumas horas depois de começarem a segui-la.

O espaçoso condomínio onde morava era alugado em nome da mesma empresa por quase dois mil dólares por mês. Marlee tinha grandes despesas gerais, mas a equipa de Fitch não conseguiu encontrar nenhum sinal de emprego.

Ela telefonou já tarde na noite de sexta-feira, minutos depois de Fitch se esparramar na cama, em boxers largos e com meias pretas, como uma baleia encalhada na praia. Estava na suite presidencial, no último andar do Colonial Hotel, em Biloxi, na estrada 90, a cem metros do Golfo. Quando se lembrou de olhar, viu que tinha uma bela vista da praia. Ninguém fora do seu pequeno círculo sabia onde estava.

O telefonema para a recepção do hotel, com uma mensagem urgente para o senhor Fitch, criou um dilema ao recepcionista da noite. O hotel estava a ser pago regiamente para proteger a privacidade e a identidade do senhor Fitch. O recepcionista não podia admitir que ele era um dos hóspedes. Mas a jovem ao telefone tinha planeado tudo.

Quando Marlee voltou a telefonar, dez minutos depois, a ligação foi transferida imediatamente, obedecendo às ordens do senhor Fitch. Fitch estava agora de pé com as cuecas puxadas quase até ao peito, mas, mesmo assim, descendo até ao meio das suas coxas gordas. Coçava a testa e imaginava como é que Marlee o teria encontrado.

— Boa-noite — disse ele.

— Fitch, desculpe estar a ligar tão tarde. — Na verdade, não se incomodava nada com isso. O «Fitch» foi pronunciado deliberadamente forte, uma coisa que ocasionalmente acontecia com Marlee. Era um esforço para imitar um pouco a fala arrastada do sul. As gravações de todos os seus telefonemas, por mais breves que fossem, juntamente com a gravação da conversa em Nova Orleães, tinham sido ouvidas minuciosamente por técnicos de Nova Iorque, especializados em vozes e dialectos. Marlee era do centro oeste, do leste de Kansas ou oeste do Missouri, provavelmente de alguma localidade a cento e cinquenta quilómetros de Kansas City.

— Não faz mal — respondeu ele, verificando o gravador na pequena mesa de armar ao lado da cama. — Como está o seu amigo?

— Solitário. Esta noite foi a noite conjugal, sabia?

— Foi o que me disseram. «Conjugaram-se» todos?

— Não. Na verdade, é muito triste: os homens viram filmes de John Wayne, enquanto as mulheres faziam tricot.

— Ninguém acasalou?

— Poucos. Angel Weese, mas ela está no meio de um romance muito quente. Rikki Coleman. O marido de Millie Dupree apareceu mas não se demorou muito. Os Card estiveram juntos. Não posso dizer nada sobre Herman. E Savelle teve uma visita.

— Que tipo de humanidade é atraída por Savelle?

— Não sei. Ninguém viu.

Fitch descansou o traseiro avantajado na ponta da cama e apertou a parte superior do nariz.

— E você? Não visitou o seu namorado? — perguntou Fitch.

— Quem disse que somos namorados?

— São o quê?

- Amigos. Adivinhe quais os dois jurados que estão a dormir juntos?

—  Como é que posso saber?

— Advinhe.

Fitch sorriu para o espelho, feliz com tanta sorte.

— Jerry Fernandez e alguém.

— Muito bem. Jerry está para se divorciar e Sylvia está muito só. Os seus quartos ficam um na frente do outro e, bem, não há muito para fazer no Siesta Inn.

— O amor é lindo, não é?

— Tenho uma coisa para lhe dizer, Fitch. Krigler fez um óptimo trabalho para a acusação.

—E eles ouviram-no, não foi?

— Palavra a palavra. E acreditaram. Ele virou-lhes a cabeça.

— Conte-me uma coisa boa.

— Rohr está preocupado. — Fitch ficou tenso.

— Que é que o incomoda? — perguntou ele, vendo a sua curiosidade no próprio rosto reflectido no espelho. Não devia surpreender-se pelo facto de ela estar a falar com Rohr. Então porque razão teria ficado chocado? Sentia-se traído.

— Você. Ele sabe que anda à solta nas ruas, a inventar coisas para chegar ao júri. E se fosse você no lugar dele? Não ficaria preocupado se uma pessoa como você estivesse a trabalhar arduamente para a acusação?

— Ficaria apavorado.

— Rohr não está apavorado. Só preocupado.

— Com que frequência fala com ele?

— Muita. Ele é mais doce do que você, Fitch. É um homem muito agradável, além disso não grava os meus telefonemas, não manda espiões seguir o meu carro. Nada disso.

— Ele sabe como encantar uma mulher, não é?

— E. Mas é fraco naquilo que interessa.

— E o que é que interessa?

— A carteira. Não pode competir com os seus recursos.

— Quanto dos meus recursos é que quer?

— Mais tarde, Fitch. Tenho de ir. Há um carro suspeito parado do outro lado da rua. Deve ser um dos seus palhaços. — Desligou.

Fitch tomou um duche e tentou dormir. Às duas da manhã foi de carro até ao Lucy Luck, onde jogou o «vinte e um» a quinhentos dólares a mão, bebeu Spríte até ao nascer do dia e saiu com quase vinte mil dólares de lucro.

 

O primeiro sábado de Novembro chegou com temperaturas abaixo dos 15 graus, frio de mais para o clima quase tropical da Costa. Uma brisa leve do norte sacudia as árvores e espalhava folhas nas ruas e nos passeios. O Outono geralmente chegava tarde e durava até ao primeiro dia do ano, quando cedia o lugar à Primavera. A Costa não tinha Inverno.

Algumas pessoas faziamjogging de manhãzinha. Ninguém notou o Chrysler negro parado à entrada de uma modesta casa de tijolos com varanda. Era muito cedo para que os vizinhos vissem os dois jovens com fatos escuros iguais descer do carro, tocar a campainha, esperar pacientemente. Era muito cedo, mas em menos de uma hora começaria nos jardins o movimento dos ancinhos recolhendo as folhas e, nos passeios, o movimento das crianças.

Hoppy acabava de pôr água na cafeteira eléctrica quando ouviu a campainha. Apertou o cinto do velho roupão e tentou pentear o cabelo com os dedos. Àquela hora deviam ser os escoteiros a vender bolinhos. Esperava que não fossem outra vez testemunhas de Jeová. Se fossem, ia perder a paciência. Um serviço religioso àquela hora era de mais! Movimentou-se rapidamente porque no segundo andar havia uma série de adolescentes que ainda dormia. Na última contagem: seis. Cinco e um amigo da faculdade de algum deles. Uma típica noite de sexta-feira em casa dos Dupree.

Hoppy abriu aporta e viu dois jovens muito sérios que imediatamente tiraram do bolso e mostraram distintivos dourados sobre couro negro. Um deles começou a falar muito depressa e tudo que Hoppy ouviu, pelo menos duas vezes, foi «FBI» e quase desmaiou.

— O senhor chama-se Dupree? — perguntou o agente Nitchman.

Hoppy engoliu em seco.

— Sim, mas...

- Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas — disse o agente Napier, dando um passo na sua direcção.

— Sobre quê? — perguntou Hoppy secamente. Tentou olhar entre os dois para o outro lado da rua, onde, sem dúvida, Mildred Yancy devia estar a espiar atrás da janela.

Nitchman e Napier trocaram um olhar de conspiradores e Napier disse:

— Podemos falar aqui ou, se preferir, noutro lugar qualquer.

— São apenas perguntas sobre Stillwater Bay, Jimmy Hull Moke, coisas deste tipo — explicou Nitchman e Hoppy segurou com força no batente da porta.

— Oh, meu Deus — disse ele, sentindo que todo o ar lhe saía dos pulmões e que os seus órgãos vitais estavam a congelar.

— Podemos entrar? — perguntou Napier.

Hoppy baixou a cabeça e esfregou os olhos, como se fosse chorar.

— Não, por favor, aqui não. — Os filhos! Normalmente dormiam até às nove ou dez horas; quando Millie deixava até ao meio dia, mas ouvindo vozes em casa, certamente iam acordar. — No meu escritório — conseguiu dizer.

— Nós esperamos — disse Napier.

— Mas não demore — respondeu Nitchman.

— Muito obrigado. — Hoppy fechou e trancou a porta rapidamente. Atirou-se para o sofá, olhando para o tecto, que lhe parecia girar no sentido dos ponteiros do relógio. Nenhum som do andar de cima. Os filhos ainda dormiam. O seu coração batia com força e, por um minuto, pensou que ia morrer. Naquele momento a morte seria bem-vinda. Queria poder fechar os olhos e voar para longe dali; dentro de horas, um dos filhos encontrá-lo-ia e chamaria a polícia. Hoppy tinha cinquenta e três anos e na sua família materna já tinha havido casos de acidentes cardíacos. Millie receberia cem mil dólares do seguro de vida.

Quando percebeu que o coração tinha resolvido continuar a bater, levantou-se devagar. Ainda atordoado, foi até à cozinha e serviu uma chávena de café. O relógio digital do forno marcava sete horas e cinco minutos. Quatro de Novembro. Sem dúvida um dos piores dias da sua vida. Como podia ter sido tão idiota?

Pensou telefonar para Todd Ringwald e também para Mi llard Putt, o seu advogado. Mas resolveu esperar. De repente, ficou com pressa. Queria sair da casa antes de os filhos acordarem e queria aqueles dois agentes longe da sua casa antes de os vizinhos os verem. Além disso, Millard Putt só tratava de casos relacionados com negócios de imóveis, e mesmo nisso não era um grande especialista. Este caso era um caso criminal.

Um caso criminal! Sem tomar banho, vestiu-se em segundos. Estava a escovar os dentes quando olhou para o espelho. Tinha a palavra «traição» escrita no rosto e gravada nos olhos para quem quisesse ver. Não podia mentir. Mentir não era próprio da sua natureza. Muito menos enganar alguém. Era apenas Hoppy Dupree, um homem honesto com uma bela família e boa reputação. Nunca tinha mentido nas suas declarações de impostos!

Sendo assim, porque razão estariam dois agentes do FBI à sua espera para o levarem até à cidade, para um lugar discreto, onde, como um pequeno-almoço, o devorariam ao mesmo tempo que lhe revelassem a sua fraude? A viagem ainda não era para a cadeia, mas isso certamente viria mais tarde. Resolveu não fazer a barba. Talvez fosse boa ideia telefonar para o pastor da igreja. Escovou o cabelo e pensou em Millie, na desgraça pública, nos filhos e naquilo que toda a gente iria pensar a seu respeito.

Antes de sair da casa de banho, Hoppy vomitou.

Lá fora, Napier insistiu em ir no carro de Hoppy. Nitchman seguiu-os no Chrysler negro. Não disseram uma palavra.

Imóveis Dupree não era o tipo de negócio que atrai os madrugadores. E esta máxima tanto era válida aos sábados como no resto da semana. Hoppy sabia que o lugar estaria deserto até pelo menos às nove horas, talvez mesmo até às dez. Abriu a porta, acendeu as luzes e só falou quando chegou o momento de perguntar se queriam café. Declinaram e pareciam ansiosos para começar a carnificina. Hoppy sentou-se no seu lado da mesa. Eles ficaram muito juntos, como gémeos, no outro lado. Hoppy evitava os olhos dos dois homens.

Nitchman começou por dizer:

— O senhor sabe o que é StillwaterBay?     

— Sei.                                                       

— Conhece um homem chamado Todd Ringwaláf

— Conheço.

— Assinou qualquer tipo de contrato com ele?

— Não.

Napier e Nitchman trocaram um olhar, como se soubessem que estava a mentir. Napier disse suavemente:

— Ouça, senhor Dupree, isto seria mais fácil se dissesse a verdade.

— Juro que estou a dizer a verdade.

— Quando é que se encontrou pela primeira vez com Todd Ringwald? — perguntou Nitchman, tirando um bloco de apontamentos do bolso e começando a escrever.

— Na quinta-feira.

— Conhece Jimmy Hull Moke?

— Conheço.

— Quando é que esteve com ele pela primeira vez?

— Ontem.

— Onde?

— Aqui mesmo.

— Qual foi o objectivo desse encontro?

— Discutir o projecto de Stillwater Bay. Supostamente, deveria representar uma empresa chamada Propriedades KLX. A KLX quer construir Stillwater Bay, que fica no distrito supervisionado pelo senhor Moke, cm Hancock County.

Durante alguns minutos, que pensou terem sido horas, Napier e Nitchman olharam para Hoppy digerindo a informação. Hoppy repetiu mentalmente as suas próprias palavras. Teria dito alguma coisa errada ou ilegal? Alguma coisa que fosse apressar a sua viagem para a prisão? Talvez fosse melhor parar com aquilo e procurar um advogado.

Napier pigarreou.

— Há seis meses que estamos a investigar o senhor Moke e há duas semanas ele concordou em reconhecer a sua culpa e colaborar connosco a troco de uma pena reduzida: a mínima prevista por lei para estes casos.

O calão legal significava muito pouco para Hoppy. Ouviu o que lhe disseram, mas não conseguiu perceber o sentido das palavras.

— O senhor ofereceu dinheiro ao senhor Moke?—perguntou Napier.

— Não. — Não podia dizer que sim. Falou rápida e quase automaticamente, sem força ou convicção. — Não — repetiu. Na verdade, não tinha oferecido dinheiro. Apenas abriu caminho para o seu cliente fazer a oferta. Pelo menos, era assim que interpretava o que tinha feito.

Com gestos lentos, Nitchman procurou no bolso do casaco e tirou um pequeno volume que pôs no centro da mesa.

— Tem a certeza? — perguntou, em tom quase jocoso.

— Claro que tenho — disse Hoppy, olhando boquiaberto para aquela coisa pequena e sinistra.

Delicadamente Nitchman carregou no botão. Hoppy parou de respirar e fechou os punhos. Não havia dúvida: aquela era a sua voz, tagarelando nervosamente sobre política local e casinos e esperando que Moke abordasse o assunto.

— Ele gravou a nossa conversa! — exclamou Hoppy, ofegante e completamente derrotado.                                                   ;.

— É verdade — disse um deles solenemente. Hoppy olhava atónito para o gravador.

— Nem sei o que dizer... — murmurou.

As palavras tinham sido ditas e gravadas há menos de vinte e quatro horas, ali mesmo, na sua mesa, em frente das sanduíches de frango e chá gelado. Jimmy Hull sentou-se onde Nitchman estava agora e aceitou o suborno de cem mil dólares com um gravador do FBI preso em alguma parte do corpo.

A conversa arrastou-se dolorosa e desastradamente até ao final, quando Hoppy e Jimmy Hull se despediram com pressa.

— Quer ouvir tudo outra vez? — perguntou Nitchman tocando no botão.

— Não, por favor — disse Hoppy, apertando a parte superior do nariz —, devo procurar um advogado? — perguntou, sem levantar os olhos.

— Não é má ideia — disse Napier amavelmente.

Finalmente ergueu os olhos vermelhos e molhados. O seu lábio tremia, mas Hoppy levantou o queixo e tentou ser corajoso.

— Então, o que é que estou a enfrentar? — perguntou ele. Napier e Nitchman descontrairam-se ao mesmo tempo. Napier levantou-se e foi até uma estante de livros.

— É difícil dizer — respondeu ele, com se a solução do caso dependesse de outra pessoa. — No ano passado investigámos uma dezena de supervisores. Os juizes estão fartos deles. As sentenças estão a ficar mais carregadas.

— Mas não sou supervisor — disse Hoppy.

— Tem toda a razão. Diria que as sentenças vão de três a cinco anos. Prisão federal; não estadual.

— Conspiração para subornar um funcionário do governo — acrescentou Napier prestimosamente e voltou a sentar-se ao lado de Nitchman. Estavam nas beirinhas das cadeiras, como se estivessem prontos a saltar sobre a mesa e punir Hoppy por todos os seus pecados.

O microfone estava na tampa de uma Bic azul, inocentemente misturada com uma dúzia de lápis e canetas baratas, amontoadas num copo empoeirado sobre a mesa de Hoppy. Ringwald tinha-a deixado ali na sexta-feira, enquanto Hoppy foi à casa de banho. As canetas e os lápis pareciam nunca ter sido usados, eram o tipo de colecção que passa meses sem ser tocada. Se Hoppy ou outra pessoa resolvesse usar a Bic azul, teria visto que estava sem tinta e tê-la-ia deitado fora. A tampa da caneta só podia ser desmontada por um especialista. E só um especialista seria capaz de encontrar o microfone.

As palavras eram enviadas da mesa para um transmissor pequeno e potente, escondido junto do purificador de ar que se encontrava no armário debaixo do lavatório da casa de banho que fica ao lado do escritório de Hoppy. Do transmissor, as palavras seguiam para uma carrinha não identificada, parada no outro lado da rua, junto de um centro comercial. As palavras eram gravadas na carrinha e depois levadas até ao escritório de Fitch.

Jimmy Hull não tinha nenhum gravador, não estava a trabalhar para o FBI e apenas tinha feito aquilo que melhor sabia fazer: pedir um suborno.

Ringwald, Napier e Nitchman eram ex-polícias que agora trabalhavam como detectives particulares para uma firma internacional de segurança de Bethesda. Uma firma a que Fitch recorria muitas vezes. O golpe contra Hoppy ia custar ao Fundo oitenta mil dólares.

Uma ninharia!

Hoppy mencionou outra vez a possibilidade de procurar um advogado. Napier desconversou e fez uma longa exposição sobre os esforços do FBI para acabar com a desenfreada corrupção na Costa, atribuindo toda a culpa à indústria do jogo.

Era imperativo evitar que Hoppy procurasse um advogado. Um advogado ia querer nomes e telefones, registos e documentos. As credenciais falsas de Napier e Nitchman eram suficientemente boas para enganar o pobre Hoppy. Mas não chegavam para enganar um bom advogado.

De acordo com a longa exposição de Napier, o que tinha começado por ser uma mera investigação de rotina de Jimmy Hull transformara-se numa investigação de peso sobre o jogo e, nas suas palavras mágicas, sobre «o crime organizado». Na medida do possível, Hoppy prestava atenção. Mas era-lhe difícil. A sua mente agitava-se pensando em Millie, nos filhos e num meio de sobrevivência para os seus três anos na prisão.

— Portanto, o senhor não era o nosso alvo, não é verdade — interrogou Napier.

— E francamente, nunca ouvimos falar da KLX Propriedades — acrescentou Nitchman. — Tropeçámos nela por acaso.

— Não podem ir tropeçar para outro lado? — perguntou Hoppy, com um sorriso suave e desanimado.

— Talvez — disse Napier intencionalmente. Depois, olhou para Nitchman como se tivessem algo ainda mais dramático para dizer a Hoppy.

— Talvez o quê? — perguntou.

Os dois afastaram-se da mesa ao mesmo tempo num ritmo perfeito, como se tivessem ensaiado durante horas ou feito isso centenas de vezes. Olharam muito sérios para Hoppy, que se encolheu e olhou para a mesa.

— Sabemos que não é desonesto, senhor Dupree — disse Nitchman suavemente.

— Apenas cometeu um erro — acrescentou Napier.

— É isso mesmo —murmurou Hoppy.

— Está a ser usado por escroques extremamente sofisticados. Chegam, falam de planos grandiosos, de muito dinheiro... estamos cansados de ver situações como esta nos casos de drogas.

Drogas! Hoppy ficou chocado mas não disse nada. Outra pausa enquanto os dois continuavam a olhar para ele.

— Podemos oferecer-lhe um acordo daqui a vinte e quatro horas? — perguntou Napier.

— Não posso recusar!

— Vamos manter isto em sigilo durante vinte e quatro horas. O senhor não diz uma palavra a ninguém. Não conta nada ao seu advogado e não o processamos. Pelo menos, não o processamos nas próximas vinte e quatro horas.

— Não compreendo.

— Não podemos explicar tudo. Precisamos de tempo para avaliar a situação.

Nitchman inclinou-se para a frente, outra vez com os cotovelos na mesa.

— Ainda pode haver uma saída, senhor Dupree. Hoppy começava a animar-se.   •

— Sou todo ouvidos.

— O senhor é um peixe pequeno e insignificante apanhado numa rede muito grande — explicou Napier. —-Talvez possamos dispensá-lo.

Hoppy achou que era uma boa ideia.

— Que é que vai acontecer nestas vinte e quatro horas?

— Encontramo-nos aqui amanhã outra vez às nove.

— Combinado.

— Claro que se disser uma palavra que seja a Ringwald, ou mesmo à sua mulher, o seu futuro corre sério perigo.

— Dou-lhes a minha palavra de honra.

O autocarro alugado saiu do Siesta Inn às dez horas com os catorze jurados, a senhora Grimes, Lou Dell e o marido, Benton, Willis e Ruby, a sua mulher, cinco polícias à paisana, Earl Hutto, o xerife de Harrison County e a mulher, Claudelle e dois assistentes do escritório de Glória Lane. Vinte e oito pessoas ao todo, mais o motorista. Todos aprovados pelo juiz Harkin. Duas horas depois estavam na Canal Street, em Nova Orleães, após o que desceram do autocarro na esquina de Magazine. O almoço foi numa sala reservada nas traseiras de um antigo bar de marisco em Decatur, no French Quarter, e pago pelos contribuintes de Harrison County.

Tiveram permissão para passear no Quarter. Fizeram compras nos mercados ao ar livre, passearam com os turistas na Jackson Square,

olharam para os corpos nus nas espeluncas, em Bourbon, compraram camisas e outras lembranças. Alguns descansaram nos bancos na mar gem do rio. Outros entraram em bares para ver o futebol. Às quatro horas reuniram-se na margem do rio e apanharam um barco para fazer um passeio turístico. Às seis horas jantaram numapizzaria do Canal. Às dez, estavam fechados nos seus quartos em Pass Christian, cansa dos e prontos para dormir. Jurados ocupados são jurados felizes.

 

No fim da tarde de sábado, com o êxito do projecto Hoppy garantido,

Fitch resolveu desferir o próximo assalto ao júri. Era um golpe cuidadosa-

mente planeado e tão chocante quanto o de Hoppy fora astuto.

Na manhã de domingo bem cedo, Pang e Dubaz, com camisas beges  o cartão de uma firma de canalizadores nos bolsos, abriram a fechadura da porta do apartamento de Easter. Não soou nenhum alarme. Dubaz foi direito à conduta de ar, por cima do frigorífico, retirou a tela, depois a câmara escondida que havia filmado a intrusão de Doyle no apartamento. De seguida, guardou a câmara na caixa de ferramentas que tinham levado.

Pang encarregou-se do computador. Tinha estudado as fotografias de Doyle e treinado num aparelho idêntico que Fitch instalara ao seu lado no escritório. Soltou os parafusos e removeu a parte de trás do computador. O disco rígido estava exactamente onde tinham previsto

que estivesse. Em menos de um minuto, tinha retirado o disco do apare-

lho. Numa estante ao lado do monitor, Pang encontrou duas pilhas com dezasseis disquetes de três polegadas e meia.

Enquanto Pang se encarregava da delicada tarefa de remover o

disco rígido, Dubaz abriu gavetas e, silenciosamente, revistou os móveis a procura de outras disquetes. O apartamento era tão pequeno e tinha tão poucos sítios que potencialmente servissem de esconderijo que a tarefa foi fácil. Revistou as gavetas da cozinha, os armários e as caixas de papelão onde Easter guardava meias e a roupa interior. Mas não encontrounada.

Aparentemente, todos os aparelhos ligados ao computador estavam ao seu lado.

— Vamos embora — disse Pang, arrancando os fios do computador do monitor e da impressora.                                

Atiraram o computador para cima do sofá velho e puído onde Dul já tinha empilhado almofadas e roupas. A seguir, regaram tudo com gás de isqueiro. Quando o sofá, a cadeira, o computador, os tapetes e as peças de roupa ficaram suficientemente encharcados, os dois homens foram para a porta e Dubaz atirou um fósforo aceso lá para dentro. O fogo pegou rápida e silenciosamente, pelo menos para quem estivesse do lado de fora. Esperaram até que as chamas chegassem

ao tecto e o apartamento ficasse cheio de fumo escuro e saíram trancando a porta. Desceram pela escada e no primeiro andar accionaram o alarme de incêndio. Dubaz subiu outra vez a escada, correndo até onde já se via fumo a sair debaixo da porta e começou a gritar e a bater nas outras portas. Pang fez o mesmo no primeiro andar. Os corredores encheram-se imediatamente de gritos e de moradores em pânico, vestidos com roupões e fatos de treino. O ruído estridente dos antigos alarmes de incêndio aumentava a histeria.

«Vejam se têm cuidado e não matam ninguém», tinha dito Fitch à medida que o fumo ficava mais denso, Dubaz insistia batendo nas portas. Certificou-se de que todos os apartamentos próximos do de Easter estavam vazios. Puxava as pessoas pelos braços, perguntava se todos tinham saído e apontava para as saídas de emergência.

Os moradores começaram ajuntar-se no parque de estacionamento, e Pang e Dubaz separaram-se e começaram a afastar-se lentamente. Já se ouviam as sirenes dos bombeiros. O fumo apareceu nas janelas de dois apartamentos do segundo andar — o de Easter e o do vizinho Moradores envoltos em cobertores e carregando crianças e bebés foram abandonando o prédio e juntando-se aos outros. Todos esperavam impacientes pela acção dos bombeiros.

Quando finalmente chegaram, Pang e Dubaz recuaram mais ainda e desapareceram.

Ninguém morreu. Ninguém ficou ferido. Quatro apartamentos foram completamente destruídos, onze seriamente danificados, quase trinta famílias ficaram sem casa. Pelo menos, até que fossem feitas obras de limpeza e recuperação.

Não conseguiram entrar no disco rígido de Easter que o tinha barrado da melhor forma contra curiosos e vírus. Os especialistas de Fitch em informática não puderam fazer nada. Tinham vindo expressamente para este efeito de Washington no sábado. Eram pessoas honestas e não faziam a mais pequena ideia do modo como Fitch tinha arranjado aquele disco e as disquetes. Sem grandes explicações, Fitch trancou-os numa sala com um sistema idêntico ao de Easter e disse o que queria. A maioria das disquetes tinha a mesma protecção do disco. Porém, quando estavam mais ou menos a meio da análise da totalidade das disquetes, a tensão desfez-se: conseguiram identificar as passewords que Easter tinha utilizado. Uma disquete antiga protegida inadequadamente foi o meio de acesso encontrado. A lista de arquivo mostrava dezasseis entradas com nomes de documentos que não revelaram nada. Fitch foi informado quando o primeiro documento estava a ser impresso. Era um sumário de seis páginas com dados sobre a indústria do tabaco, com data de 11 de Outubro de 1994. Eram mencionadas reportagens do Time, do The Wall Street Journal e da Forbes. O segundo documento era uma narrativa, uma divagação a propósito de um documentário a que Easter tinha assistido. O tema era um processo judicial movido num caso de um implante de seios. O terceiro documento era um poema escrito por ele: um texto idiota sobre rios. O quarto era outra compilação de artigos recentes sobre julgamentos em torno de casos de cancro do pulmão.

Fitch e Konrad leram atentamente todas as páginas. A redacção era clara e corrente, apesar de se perceber que tinha sido tudo escrito á pressa: erros ortográficos absurdos denunciavam esta situação. Escrevia como um repórter imparcial. Parecia impossível determinar se Easter estava a favor dos fumadores ou apenas interessado naquele tipo de litígio.

Havia mais poemas horríveis. Um conto não terminado. E, finalmente, encontraram aquilo que procuravam. O documento número quinze era uma carta de duas páginas dirigida à mãe, a senhora Pamela Blanchard, residente em Gardner, no Texas. A carta tinha a data de 20 de Abril de 1995 e dizia: «Mãe querida: estou a viver em Biloxi, Mississipi, na Costa do Golfo», e continuava descrevendo como gostava do mar, das praias, e afirmando que nunca mais poderia viver no campo. Pedia mil desculpas por não ter escrito antes, desculpava-se também pelos dois longos parágrafos que demonstravam a sua tendência para a divagação e prometia escrever mais vezes. E melhor. Fazia várias perguntas sobre Alex, dizendo que não falava com ele há já três meses, pelo que não sabia se já teria chegado ao Alasca e encontrado emprego de guia de pesca. Ao que parecia, Alex era o irmão de Nicholas. A carta não fazia menção ao pai. Nem a nenhuma rapariga chamada Marlee.

Nicholas dizia que tinha conseguido um emprego num casino e que, embora sem futuro, pelo menos por enquanto, era divertido. Acrescentava que gostaria de ser advogado, pelo que pedia desculpa por ter abandonado a faculdade de Direito. Fosse como fosse, duvidada que alguma vez voltasse a estudar. Confessava estar feliz, vivendo simplesmente, com pouco dinheiro e com poucas responsabilidades. Acabava atabalhoadamente: "Tenho de ir. Gosto muito de si. Dê um beijinho à tia Sammie e diga-lhe que assim que puder telefono."

A carta terminava com uma simples assinatura: "Jeff". Em nenhuma parte da carta havia referência ao seu apelido.

Uma hora depois da primeira leitura da carta, Dante e Joe Boy embarcaram para Gardner num jacto privado com instruções de Fitch para que contratassem todos os detectives particulares da cidade.

Os técnicos de informática conseguiram entrar noutra disquete:

na penúltima das dezasseis. Conseguiram novamente iludir as barreiras de protecção criadas por Easter seguindo uma complicada série de pistas de descodificação de passewords. Apesar disso, ficaram muito impressionados com os conhecimentos informáticos de Easter.

A disquete continha parte de um único documento — o registo de eleitores de Harrison County, por ordem alfabética, mas apenas de A a K. Imprimiram mais de dezasseis mil nomes e respectivos endereços. Fitch verificava o trabalho dos dois, cotejando a informação impressa com a sua própria lista de todos os eleitores registados no condado. Não era uma lista secreta. Na verdade, Glória Lane vendia-a por trinta e cinco dólares. Nos anos de eleições, os candidatos a cargos políticos compravam-na sem discutir.

Havia duas coisas estranhas na lista de Easter: primeiro, percebia-se que tinha copiado a informação a partir de um disco rígido, o que significava que tinha conseguido entrar no computador de Glória Lane e roubar a informação. Em segundo lugar, por que razão quereria um estudante/pirata informático aquela lista?

Se Easter conseguia entrar no sistema informático do tribunal, então também poderia ter incluído o seu próprio nome na lista de potenciais jurados para o caso Wood.

 (Quanto mais Fitch pensava sobre este assunto, mais esta hipótese parecia fazer sentido.

No domingo de manhã, pelas nove horas, com os olhos vermelhos e

húmidos, Hoppy tomava café no seu escritório. Estava à espera. Desde a manhã de sábado que só tinha comido uma banana: tudo tinha mudado no momento em que Hoppy ligara a máquina do café e que a campainha da porta tinha tocado. Tinha sido aí que Napier e Nitchman tinham entrado na sua vida. O seu aparelho gastrintestinal estava arruinado; os nervos em frangalhos. Na noite de sábado até tinha bebido vodka em casa, coisa que Millie proibia.

No sábado, os filhos dormiram quase o dia todo. Hoppy não contou nada a ninguém: na verdade, nem teve vontade de contar. A humilhação ajudava-o a manter em segredo o vergonhoso caso.

Exactamente às nove horas, Napier e Nitchman entraram com um terceiro homem, mais velho, também com fato escuro e rosto severo, como se estivesse ali para castigar pessoalmente o pobre Hoppy. Nitchman apresentou-o como George Cristano. De Washington! Departamento de Justiça!

O aperto de mão de Cristano foi frio. Não era pessoa para muita conversa.

- Diga-me Hoppy, importava-se se conversássemos noutro lugar?

- perguntou Napier olhando com desprezo para a sala.

— É mais seguro — acrescentou Nitchman, a título de explicação.

— Nunca se sabe. Esta sala pode estar cheia de microfones — disse

Cristano.

— A quem o diz!... — comentou Hoppy, mas ninguém percebeu o seu amargo sentido de humor. Além disso, Hoppy não estava em posição de recusar as propostas que lhe fizessem. — Claro, tem toda a razão — concedeu.

Saíram num Lincoln Town Car negro imaculadamente limpo. Nitchman e Napier iam à frente; Hoppy atrás com Cristano, que começou a explicar que era uma espécie de assistente do procura-dor-geral, um cargo de muita importância no Departamento de Justiça. Quanto mais perto chegavam do Golfo, mais odiosa se tornava a sua posição. Depois disso, calou-se.

— Hoppy, você é democrata ou republicano? — perguntou Cristano em voz baixa durante um longo intervalo na conversa. Napier entrou na estrada da praia e seguiu para oeste, acompanhando a costa.

Hoppy não queria ofender ninguém.

—Eu? Não sei. Voto sempre na personalidade dos candidatos! Não ligo a partidos. Percebe o que quero dizer?

Cristano olhou para fora, como se não fosse esta a resposta que

queria ter ouvido.

— Tinha uma secreta esperança que fosse um bom republicano —

afirmou, olhando para o mar.

Hoppy podia ser qualquer coisa, qualquer coisa que quisessem que fosse. Qualquer coisa! Um comunista fanático, membro do partido, o que fosse, desde que isso agradasse ao senhor Cristano.

— Votei em Reagan e Bush — disse, com orgulho. — E em Nixon.

Até em Goldwater.

Cristano meneou a cabeça ao de leve e afirmativamente. Hoppy

conseguiu soltar o ar dos pulmões.

Fez-se outra vez silêncio no carro. Napier parou num cais perto da baía St. Louis, a quarenta minutos de Biloxi. Hoppy seguiu Cristano no pontão e entraram num barco de aluguer de sessenta pés, chamado Afternoon Delight. Nitchman e Napier esperaram ao lado do carro, onde não podiam ser vistos do barco.

— Sente-se, Hoppy. — Cristano apontou para um banco com uma almofada de espuma no convés.

Hoppy sentou-se. O barco balançava levemente. A água estava quase parada. Cristano sentou-se de frente para ele e inclinou-se, de modo que as suas cabeças ficaram a uma distância de um metro.

— Belo barco — comentou Hoppy, passando a mão pela imitação

de couro do banco.

— Não é nosso. Ouça, Hoppy, você não tem nenhum microfone,

pois não?

Hoppy ficou tenso, chocado com a insinuação.     .

— É claro que não!

— Desculpe, mas estas coisas acontecem. Acho que devia revistá-lo.

— Rapidamente, Cristano olhou-o de alto abaixo. Para Hoppy, a ideia de ser revistado por aquele estranho era terrível. E pior: estavam os dois sozinhos no barco.

— Juro que não tenho microfones escondidos. A minha palavra não lhe chega? — disse Hoppy, orgulhoso com a firmeza da própria voz. Cristano relaxou.

— E você? Quer revistar-me? — perguntou.

Hoppy olhou em volta disfarçadamente, para ver se havia alguém por perto. Ia parecer um bocado estranho se alguém visse dois homens adultos num barco ancorado apalpando-se mutuamente emplenaluz

do dia.

— Tem microfones escondidos? — perguntou Hoppy.

— Não.

— Jura?

— Juro.

— Óptimo. — Hoppy ficou aliviado e, ao mesmo tempo, ansioso por acreditar naquele homem. A alternativa era simplesmente inimaginável.

Cristano sorriu mas de repente franziu a testa. Inclinou-se outra vez para a frente A conversa de circunstância tinha acabado.

— Vou ser breve, Hoppy. Vamos fazer-lhe uma proposta que lhe permite sair disto completamente ileso. Sem um arranhão. Sem uma beliscadura. Sem prisão, sem condenação. E, claro, sem fotografias nos jornais. Se aceitar a nossa proposta ninguém vai saber de nada.

Parou para respirar e Hoppy atacou.

— Sou todo ouvidos.                                           

— É uma proposta bizarra que nunca fizemos a ninguém. Não tem nada a ver com a lei, a justiça, ou punições. É uma proposta política, Hoppy Puramente política. Não haverá nenhum registo em Washington desta proposta. Ninguém saberá, anão ser eu, você e aqueles dois homens que estão à nossa espera no carro. E talvez mais umas dez pessoas do Departamento de Justiça. Chegamos a acordo, faz a sua parte e fica tudo esquecido.

— Já me convenceu. Diga-me o que quer que faça.

— Hoppy costuma preocupar-se com os índices de crimes, com os problemas de droga, com factores de insegurança? Que pergunta mais parva. Claro que se preocupa. Está farto de histórias de subornos e de

corrupção?

Estranha pergunta. Naquele momento, Hoppy sentia-se como a criança fotografada num cartaz de uma campanha contra a corrupção.

— Sim! Claro que estou!

— Em Washington há muitos bandidos, Hoppy. No Departamento de Justiça ainda há gente, como eu, que dedica a sua vida à luta contra o crime. Estou a falar de crimes graves, Hoppy, de dinheiro ganho com drogas, subornos ajuízes e congressistas que aceitam dinheiro de inimigos estrangeiros. Estou a falar de um tipo de criminalidade que pode ameaçar a nossa democracia. Percebe o que quero dizer?

Embora sem muitas certezas sobre o assunto ali em causa, Hoppy já simpatizava com Cristano e com os seus amigos de Washington.

— Sim, sim — confirmou.

— Hoje em dia, tudo é política, Hoppy. Estamos constantemente a lutar contra o congresso e contra o presidente. Quer saber do que precisamos em Washington, Hoppy?

Fosse o que fosse, Hoppy queria que tivessem o que precisavam. Cristano não esperou pela resposta.

— Precisamos de mais republicanos. Mais bons e conservadores republicanos que nos dêem dinheiro e saiam do nosso caminho. Os democratas estão sempre a criar problemas, sempre a ameaçar com cortes no orçamento, têm a obsessão das reestruturações, sempre preocupados com os direitos daqueles pobres criminosos que combatemos. Em Washington há uma guerra sem quartel, Hoppy. E estamos lá todos os dias a batalhar.

Olhou para Hoppy, como se fosse o momento indicado para ele dizer alguma coisa. Mas Hoppy estava a tentar ajustar-se àquela guerra. Meneou gravemente a cabeça, concordando com tudo o que tinha sido dito, e olhou para os pés.

— Temos de proteger os nossos amigos, Hoppy. E é aí que o seu papel pode ser importante.

— Com certeza!

— Volto a dizer-lhe que esta é uma proposta estranha. Aceite-a e a gravação da sua oferta de suborno ao senhor Moke será destruída.

— Aceito. Tem é de me dizer do que se trata.

Cristano fez uma pausa e olhou para o cais. Alguns pescadores falavam alto a certa distância do barco. Chegou-se mais perto e tocou no joelho de Hoppy.

— É sobre a sua mulher — disse, quase num murmúrio. Depois recuou e esperou o efeito das suas palavras.

— A minha mulher?

— Sim. A sua mulher.

— Millie?

— Isso mesmo.

— Mas o que é que...

— Vou explicar.

— Millie? — repetiu Hoppy, perplexo. O que tinha a doce Millie a ver com aquela baralhada toda?

— É o julgamento, Hoppy — disse Cristano, e a primeira peça do puzzle encaixou-se.

— Adivinhe quem é que contribui com mais dinheiro para os candidatos republicanos ao congresso?

Hoppy estava confuso e espantado de mais para tentar adivinhar.

— Isso mesmo, as tabaqueiras. Investem milhões nas campanhas políticas porque têm medo da FDA e estão fartos dos regulamentos do governo. Patrocinam a livre iniciativa para pessoas como você, Hoppy. Acreditam que as pessoas fumam porque querem fumar e estão fartas do governo e dos advogados que tentam tirá-las do mercado.

— É política—disse Hoppy, olhando incrédulo para o Golfo.

— É só política. Se a Big Tobacco perder este julgamento, vai haver uma avalanche de processos iguais. As tabaqueiras perderão milhares de milhões e nós, em Washington, perderemos milhões. Pode ajudar-nos, Hoppy?

Arrastado de volta à realidade, Hoppy só conseguiu dizer:

— Não se importa de repetir?

— Pode ajudar-nos?

— Claro, claro... mas como?

—Millie. Fale com sua a mulher: faça tudo para que ela compreenda como este caso é absurdo e perigoso. É preciso que Millie assuma o controlo dos jurados e que se oponha com firmeza aos liberais que fazem parte do júri. Tenho razões para acreditar que podem estar a querer decidir-se por um veredicto insuportável. Pode falar com a sua mulher?

— Claro que posso.

— Eu sei que pode. A questão é: vai falar com ela, Hoppy? Não queremos usar aquela gravação... por isso, ajude-nos, e a gravação desaparece para sempre.

De repente, Hoppy lembrou-se da gravação.

— Está combinado. Logo à noite vou estar com Millie.

— Então, comece já a trabalhar. Isto é extremamente importante: para nós no Departamento de Justiça, para o bem do país e, para si, claro. Se tudo correr bem fica livre de cinco anos de cadeia. A última frase foi dita com uma gargalhada e uma palmada na perna. Hoppy ri n também.

Falaram sobre estratégia durante uma hora. Quanto mais tempo ficavam no barco, mais perguntas afloravam o pensamento de Hoppy. E se Millie votasse a favor da tabaqueira, mas o resto do júri votasse a favor de um pesado veredicto? O que iria acontecer-lhe a ele, Hoppy, se as coisas se passassem assim?

Cristano prometeu honrar a sua parte do acordo, independentemente do veredicto, desde que Millie votasse a favor da tabaqueira.

Ao saírem do barco, Hoppy andou pelo cais num passo quase saltitante. Quando se encontraram com Napier e Nitchman, Hoppy era um novo homem.

Depois de ter levado três dias para deliberar, o juiz Harkin voltou atrás e na tarde de sábado resolveu proibir a ida dos jurados às suas igrejas no domingo. Harkin estava convencido de que os catorze jurados iam demonstrar um repentino e intenso desejo de comungar com o Espírito Santo e a ideia dos seus jurados espalhados pelas várias igrejas do condado causava-lhe arrepios. Telefonou para o seu pastor que, por sua vez, fez alguns telefonemas e conseguiu encontrar um jovem estudante de religião. Planearam um serviço religioso para as onze horas da manhã de domingo na sala de festas do Siesta Inn.

O juiz Harkin enviou uma mensagem escrita e pessoal a cada um dos jurados, mensagem que foi posta debaixo das portas dos quartos, antes de voltarem do passeio a Nova Orleães, no sábado à noite.

Seis pessoas compareceram ao serviço religioso que, por sinal, foi bastante enfadonho. A senhora Gladys Card estava presente e surpreendentemente mal-humorada. Há dezasseis anos que não faltava à escola dominical na Igreja Baptista do Calvário. A sua última ausência tinha tido como motivo a morte da irmã, em Baton Rouge. Dezasseis anos seguidos sem uma falta. Tinha as medalhas de Assiduidade Perfeita enfileiradas sobre a cómoda. No Calvário, o recorde de assiduidade pertencia a Esther Knoblach, da União da Missão Feminina, com vinte e dois anos de assiduidade contínua, mas Esther tinha setenta e nove anos e era hipertensa. Gladys tinha sessenta e três e gozava de perfeita saúde. Por isso, ainda tinha grandes hipóteses de vir a alcançar o recorde de Esther. Embora não confessasse a ninguém esta sua secreta esperança, todos no Calvário suspeitavam das suas intenções.

Mas agora, graças ao juiz Harkin — um homem que lhe desagradava desde a primeira hora e que agora desprezava —, estava tudo perdido. E, além disso, a senhora Gladys não gostou do estudante de religião.

Rikki Coleman compareceu com o seu fato de treino. Millie Dupree levou consigo o seu exemplar da Bíblia. Loreen Duke era uma devota frequentadora da igrej a e ficou escandalizada com a brevidade do serviço religioso. Começou às onze e acabou às onze e meia, com o estilo (ipicamente apressado dos brancos. Já tinha ouvido falar deste tipo de situações, mas era a primeira vez que assistia a um serviço religioso celebrado daquele modo. O seu pastor costumava demorar uma hora a subir ao púlpito e, geralmente, não o abandonava em menos de três horas. Quando estava bom tempo, faziam um intervalo para o almoço no terreno da igreja e depois voltavam para outra dose. Loreen Duke, comendo devagar um pãozinho-doce, sofria em silêncio.

O senhor e a senhora. Herman Grimes estavam presentes. Não por razões religiosas, mas apenas porque as paredes no quarto cinquenta e oito estavam a tornar-se numa prisão. Desde a infância que Herman não ia à igreja voluntariamente.

Durante a manhã ficaram a saber que Phillip Savelle se irritava apenas com a ideia de uma qualquer reunião religiosa. Disse a alguém que era ateu e a notícia espalhou-se rapidamente. O seu protesto consistiu em sentar-se na cama despido, ou quase, com as pernas e os braços musculados enrolados numa posição de ioga, recitando os seus cânticos em voz alta. E fez estes exercícios com a porta aberta.

Phillip Savelle falava tão alto que, durante o serviço religioso, podia ser ouvido na perfeição na sala de festas. E, sem dúvida, que esse foi um dos factores decisivos para que o estudante de religião apressasse o serviço.

Lou Dell marchou decidida pelo corredor para mandar calar Savelle mas, perante a sua nudez, recuou imediatamente. Willis foi a seguir, mas Savelle, sem abrir os olhos e sem fechar a boca, simplesmente ignorou-o. Willis manteve a distância.

Os outros jurados fecharam-se nos seus quartos com o volume da televisão no máximo.

Às duas horas, começaram a chegar as visitas com mudas de roupas e alimentos para a semana. Nicholas Easter era o único jurado sem contacto com o exterior. O juiz ordenou que Willis conduzisse Easter ao seu apartamento num carro da polícia.

O fogo estava dominado há várias horas. Os bombeiros já tinham ido embora há muito tempo. O estreito relvado e o passeio em frente do prédio estavam cheios de escombros chamuscados e pilhas de roupas encharcadas de água. Os moradores, ainda atordoados, esforçavam-se por começar a limpeza.

— Qual é o seu? — perguntou Willis, quando parou o carro e olhou boquiaberto para a cratera aberta pelo fogo no centro do prédio.

— É lá em cima — disse Nicholas, tentando apontar e balançar a cabeça ao mesmo tempo. Com as pernas bambas, desceu do carro e aproximou-se do primeiro grupo de pessoas: uma família vietnamita que examinava em silêncio um candeeiro de mesa derretido.

— Quando é que isto aconteceu? — perguntou. O cheiro enjoativo de madeira, tinta e alcatifas queimados enchia o ar.

Ninguém lhe respondeu.

— Esta manhã, mais ou menos às oito — disse uma mulher que passava carregando uma caixa de cartão.

Nicholas olhou para os vizinhos. Não sabia o nome de nenhum deles. Na estreita portaria, uma senhora atarefada com um bloco de apontamentos nas mãos, tirava notas e, ao mesmo tempo, falava para um telemóvel. A escada principal para o segundo andar estava sob vigilância de um segurança particular que, naquele preciso momento, ajudava uma mulher de idade a arrastar um tapete molhado.

— O senhor mora aqui? — perguntou a mulher.

— Moro. O meu nome é Easter. Vivo no 312.

—Lamento muito, mas o seu apartamento estácompletamente destruído. Provavelmente o fogo começou aí.

— Gostaria de ver o apartamento...

O segurança conduziu Nicholas e a mulher até ao segundo andar, onde os danos eram mais evidentes. Pararam ao pé de uma fita amarela

que protegia a cratera aberta pelo fogo. O fogo tinha avançado atravessando a argamassa dos tectos e as vigas baratas e tinha aberto dois enormes buracos no telhado, exactamente por cima do quarto de Easter. Depois, tinha alastrado para baixo, danificando severamente o apartamento por baixo do de Nicholas. Não tinha sobrado nada do 312, excepto a parede da cozinha, onde o lavatório, pendurado para um dos lados, parecia estar quase a cair. Mais nada! Não tinha sobrado o mais pequeno vestígio dos móveis baratos ou da sala. Do quarto, apenas tinham restado as paredes queimadas.

para horror de Nicholas, não havia o mais pequeno vestígio que fosse do seu computador.

O soalho, as paredes e o tecto do apartamento tinham praticamente desaparecido, ficando em seu lugar apenas um buraco escancarado.

— Alguém ficou ferido? — perguntou Nicholas em voz baixa.

— Não. Você estava em casa? — perguntou ela.

— Não, não estava. E quem é a senhora?

— Trabalho para a empresa que administra o condomínio. Tenho aqui uns inquéritos e uns formulários para o senhor preencher.

Voltaram à portaria, onde Nicholas preencheu apressadamente os fornulários e foi-se embora com Willis.

 

Phillip Savelle, num bilhete bastante agressivo, chamou a atenção do juiz Harkin para o facto de que a palavra «conjugal», segundo o dicionário Webster, apenas abrangia o sentido de marido e mulher, e que tinha objecções em relação ao uso deste termo. Não era casado e tinha pouco respeito pela instituição casamento. Savelle sugeria que, em vez de «conjugal», fosse usada a expressão «encontros amorosos», e continuava criticando a cerimónia religiosa daquela manhã. Acarta foi enviada por fax para o juiz Harkin que a recebeu em casa durante o quarto tempo do jogo dos Saints. LouDell enviou o fax através de um aparelho instalado no balcão da recepção do motel. Vinte minutos de pois recebeu a resposta do Meritíssimo que tinha mudado a palavra «conjugal» para «pessoal» e transformado a expressão «visitas conjugais» para «visitas pessoais». Mandou-a fazer cópias para todos os jurados. Por ser domingo, concedeu que as «visitas pessoais» tivessem mais uma hora: das seis da tarde às dez da noite, em vez das seis às nove. Finalmente, Harkin telefonou para saber se, por acaso, o senhor Savelle queriamais alguma coisa e perguntou sobre o estado de espírito dos jurados em geral.

Lou Dell não teve coragem de contar ao juiz que tinha visto o senhor Savelle quase nu sentado na cama. Achou que o juiz já tinha muito com que se preocupar. Estava tudo bem, afirmou ela.

Hoppy foi o primeiro a chegar e Lou Dell levou-o rapidamente para > o quarto de Millie onde, mais uma vez, presenteou a mulher com chocolates e flores. Trocaram um rápido beijo no rosto e, sem sequer pen sarem em qualquer actividade conjugal, deitaram-se a ver o «60 Minutos». Aos poucos, Hoppy conduziu a conversa para o julgamento e, durante algum tempo, conseguiu mantê-la interessada no assunto.

— Não faz sentido as pessoas moverem este tipo de processos. Quero dizer, na verdade, isto é tudo uma palermice. Toda a gente sabe

que o tabaco vicia e é perigoso. Por isso, quem fuma tem que assumir as suas responsabilidades. Lembras-te do BoydDogan que fumou «Salem» durante vinte e cinco anos e deixou de fumar com a maior facilidade?

— Estalou os dedos.

— É verdade... quando o médico lhe disse que tinha cancro de pulmão, deixou de fumar num instante — lembrou Millie, acrescentando um divertido estalar de dedos.

— No caso dele foi por causa disso, mas há muita gente que deixa de fumar só porque lhe apetece. É o domínio do pensamento sobre o

corpo. O que não está certo é fumar durante anos afio e depois, quando o vício está a ponto de matar o fumador, mover um processo de milhões de dólares.

—Hoppy, cuidado com a linguagem.

— Desculpa, não queria falar de mortes. — Hoppy perguntou à mulher que reacção tinham tido os outros jurados aos argumentos da acusação. O senhor Cristano achava que o melhor era tentar convencer Millie pondo em evidência a vacuidade dos argumentos da acusação i; nunca aterrorizando-a com a verdade. Tinham conversado sobre isso durante o almoço. Hoppy sentia-se como um traidor, conspirando contra a mulher, mas cada vez que essa sensação de culpa se manifestava era acompanhada pela ideia de cinco anos na prisão.

Durante o segundo intervalo do jogo daquela noite Nicholas saiu do

quarto. O corredor estava vazio: não havia sinal nem de jurados nem de polícias. Ouviu vozes na sala de festas — ao que parecia, amaior parte

era de vozes de homens. Uma vez mais, os homens estavam a beber cerveja e a ver futebol na televisão. As mulheres aproveitavam ao máximo as suas «visitaspessoais» ou «encontros amorosos», conforme »terminologia adoptada.

Silenciosamente, no fim do corredor, passou pela porta dupla de vidro e passou para o outro lado. Passou pelas máquinas de refrigerantes e subiu a escada em direcção ao segundo andar. Marlee esperava-o num quarto pago em dinheiro e alugado sob o nome de Elsa Broone, um dos seus muitos nomes de guerra. Foram directamente para a cama, com um mínimo de palavras e preliminares.

Tinham percebido que aquela separação de oito noites consecutivas era não só um recorde, mas também pouco saudável.

Marlee conhecera Nicholas quando ambos tinham outros nomes. O ponto de encontro tinha sido um bar em Lawrence, Karisas, onde trabalhava como empregada e onde ele passava grande parte das noites com colegas da faculdade de Direito.

Quando foi viver para Lawrence, Marlee já tinha dois diplomas e como não se sentia ansiosa para iniciar uma carreira, estava a ponderar inscrever-se na faculdade de Direito. Marlee não tinha pressa.

Alguns anos antes de conhecer Nicholas, tinha perdido a mãe e herdado quase duzentos mil dólares. Tinha aceite aquele emprego num bar porque o sítio era sofisticado e, se não fizesse nada, rapidamente ficaria farta. O trabalho mantinha-a em forma. Tinha um velho Jaguar, administrava sensatamente o seu dinheiro e só saía com estudantes de Direito.

Muito antes de trocar as primeiras palavras, os dois já se tinham apercebido da presença do outro. Ele chegou tarde com o seu pequeno grupo, os rostos de sempre, e sentou-se numa mesa, num canto propício a um debate abstracto e incrivelmente fastidioso sobre teorias judiciais. Ela serviu cerveja em caneca e tentou flirtar com distintos graus de sucesso. No primeiro ano do curso, Nicholas estava apaixonado pelo Direito e quase não dava atenção às mulheres. Ela procurou informar-se e conseguiu saber que Nicholas era bom aluno, o terceiro da turma, mas mais nada de excepcional. Sobreviveu ao primeiro ano e voltou para o segundo. Ela cortou o cabelo e, embora não precisasse, perdeu cinco quilos.

Quando Nicholas terminou o liceu, inscreveu-se em trinta faculdades de Direito. Foi aceite por onze, mas nenhuma entre as dez melhores. Para escolher, tirou à sorte deitando uma moeda ao ar e foi de carro para Lawrence, lugar que não conhecia. Alugou um apartamento de duas assoalhadas nas traseiras de uma casa muito velha de uma viúva. Estudava com afinco e tinha pouco tempo para a vida social, pelo menos durante os dois primeiros semestres.

No Verão, depois do seu primeiro ano, trabalhou para uma grande firma em Karisas City, empurrando um carrinho com correspondência que entregava de andar em andar. A firma abrigava sob o seu tecto trezentos advogados e, às vezes, parecia que todos estavam a trabalhar num único julgamento — a defesa de Smith Greer num caso de tabaco e cancro de pulmão, em Joplin. O julgamento durou cinco semanas e terminou com um veredicto a favor da defesa. Mais tarde, a firma deu uma festa onde compareceram mil pessoas. Diziam que a Smith Greer tinha pago oito mil dólares pelo bufet e pela organização da festa. Mas ninguém ligava a mais pequena importância a esse facto: o Verão tinha sido uma experiência terrível.

Nicholas detestava a firma e, a meio do seu segundo ano, estava farto do Direito em geral. Não estava disposto a passar cinco anos fechado num cubículo a escrever e reescrever os mesmos documentos para cobrar quantias enormes a grandes clientes.

A primeira vez que saíram juntos foram a uma festa com cerveja, depois de um jogo de futebol. A música era ensurdecedora, a cerveja tthundante, o haxixe distribuído como se fosse um rebuçado. Saíram cedo porque Nicholas não gostava de barulho e ela não gostava do cheiro de haxixe. Alugaram vídeos e cozinharam esparguete no apartamento dela que era bastante espaçoso e bem mobiliado. Ele dormiu no sofá.

Um mês depois ele mudou-se para o apartamento dela e, pela primeira vez, começou a falar em deixar a faculdade. Ela estava a pensar recomeçar a estudar Direito. À medida que o romance crescia, o interesse dele por assuntos académicos diminuiu a ponto de Nicholas quase não completar os exames do Outono. Estavam loucamente apaixonados e não importava mais nada. Além disso, como Marlee tinha algum dinheiro, não viviam sob pressão. Entre os semestres do seu segundo e último ano, passaram o Natal na Jamaica.

Quando Nicholas deixou a faculdade, ela já estava há três anos em lawrence e pronta para mudar. Ele estava disposto a segui-la para onde quer que fosse.

Marlee tinha pouca informação sobre o incêndio de sábado. Suspeitavam de Fitch, mas não podiam imaginar o motivo. A única coisa de alor era o computador e Nicholas tinha a certeza de que ninguém comseguia violar o seu sistema de segurança. As disquetes importantes estavam num cofre no apartamento de Marlee. O que poderia Fitch ganhar incendiando um velho apartamento? Intimidação talvez, mas não lhe parecia que fosse uma atitude muita lógica. Parecia pouco provável que se tratasse de incêndio criminoso.

Já tinham dormido em sítios melhores e piores do que o Siesta Inn. Em quatro anos tinham vivido em quatro cidades, conhecido uma meia dúzia de países e percorrido quase toda a América do Norte. Visitaram o Alasca e o México, viajando com a mochila às costas. Por duas vezes, fizeram canoagem no Colorado e, uma vez, chegaram a percorrer de barco o Amazonas. Tinham acompanhado os processos contra as tabaqueiras e isso obrigou-os a viver em sítios como Broken Arrow, Allentown e agora Biloxi. Juntos, sabiam mais sobre níveis de nicotina, produtos cancerígenos, probabilidades estatísticas de ocorrência de cancro de pulmão, selecção de júris, tácticas de tribunal e Rankin Fitch do que qualquer grupo de poderosos especialistas.

Depois de uma hora debaixo dos lençóis, acendeu-se uma luz ao lado da cama e Nicholas apareceu, despenteado, procurando a sua roupa. Marlee vestiu-se e olhou para o parque de estacionamento através da persiana fechada.

No quarto debaixo do deles, Hoppy tentava do melhor modo possível diminuir a importância das revelações escandalosas de Lawrence Krigler, a testemunha que, aparentemente, mais havia impressionado Millie. Esta relatou ao marido o depoimento e as conclusões de Krigler e sentia-se bastante intrigada com o vigor dos argumentos contrários de Hoppy.

Só por diversão, Marlee estacionara o seu carro a meio do quarteirão do escritório de Weridall Rohr. Tanto ela como Nicholas agiam supondo que Fitch seguia todos os seus movimentos. Era divertido imaginar Fitch a contorcer-se com a ideia de que ela estava no escritório de Rohr, falando pessoalmente com ele e fazendo algum acordo cujo conteúdo só Deus podia conhecer. Para a «visita pessoal», Marlee chegara num carro alugado, um dos muitos que tinha usado no último mês.

De repente, Nicholas ficou farto daquele quarto, uma réplica exacta daquele a que estava confinado. Deram um longo passeio de carro seguindo a Costa: ela conduzia e ele bebia cerveja. Caminharam num pontão por cima do Golfo e beijaram-se enquanto a água balançava suavemente sob os seus pés. Falaram pouco sobre o julgamento.

Às dez e meia, Marlee saiu do carro a dois quarteirões do escritório de Rohr. Caminhou apressadamente pelo passeio e Nicholas acompanhou-a de perto. O carro dela era o único estacionado naquela rua. Joe Boy viu-a entrar no carro e passou a informação a Konrad via rádio. Assim que ela saiu dali, Nicholas voltou rapidamente para o motel no carro alugado.

Rohr estava no meio de uma reunião do conselho, o encontro diário dos oito advogados de barra que haviam contribuído com um milhão cada um para aquele processo. O assunto da noite de domingo era o número de testemunhas que a acusação ainda ia chamar e, como sempre, havia oito opiniões diferentes sobre o que deveria ser feito. Havia oito tendências muito firmes e muito diferentes sobre o que seria mais eficaz.

Contando os três dias para a selecção do júri, o julgamento estava agora na terceira semana. No dia seguinte começaria a quarta semana e a acusação tinha especialistas e testemunhas para pelo menos mais duas. Cabie tinha o seu exército particular de especialistas, embora normalmente nestes casos a defesa usasse menos de metade do tempo da acusação. Seis semanas era uma previsão razoável até ao fim do julgamento, o que significava que ojúri ficaria isolado por mais quatro semanas, e esta possibilidade deixava todos preocupados. Era óbvio que mais dia menos dia o júri havia de rebelar-se e, como a acusação tinha usado a maior parte do tempo do julgamento, seria esta parte quem mais tinha a perder com a situação. Por outro lado, uma vez que a defesa era a última a apresentar-se e nessa altura o júri já estava cansado, talvez dirigisse a sua má vontade para Cable e a Pyriex. A discussão seguiu acalorada durante uma hora.

Wood versus Pynex era um caso único por ser o primeiro julgamento deste tipo com ojúri isolado. Na verdade, era o primeiro júri civil isolado na história do estado. Rohr era de opinião que o júri já tinha ouvido o suficiente. Só queria chamar mais duas testemunhas e, na terça-feira, dar o caso por terminado. A seguir, descansaria e esperaria pela actuação de Cable. Scotty Mangrum, de Dálias, e André Durond, de Nova Orleães, concordavam com ele. Jonathan Kotiack, de San Diego, queria mais três testemunhas.

A opinião contrária era vigorosamente defendida por John Riley Milton, de Denver, e Rayner Lovelady, de Savana. Não viam razão para pressas, sobretudo tendo em consideração que tinham gasto tanto tlinheiro para conseguir a maior colecção de especialistas do mundo. Ainda faltavam alguns depoimentos cruciais de testemunhas muito importantes. Ojúri não podia fazer nada. Claro que os jurados haviam de ficar cansados, mas isso era o que acontecia com todos os jurados e em todos os julgamentos. Era muito mais seguro continuar com o plano delineado desde a primeira hora e deixar as coisas correr do que saltar do barco no meio da corrente, só para evitar que alguns jurados se cansassem.

Em todas as reuniões, Carney Morrison, de Boston, repetia cons-tantemente: «Este júri ainda não está convencido!» À luz das leis do Mississipi, para um veredicto precisavam de nove dos doze jurados. Morrison tinha a certeza de que ainda não tinham nove jurados do seu lado. Carney achava que Rohr não dava a devida atenção ao modo como Jerry Fernandez esfregava os olhos, ao facto de Loreen Duke mudar constantemente de posição na cadeira e ao movimento que o pobre Herman fazia com o pescoço quando o doutor fulano de tal estava a testemunhar. Para ser franco, Rohr estava farto dos consultores de júri e especialmente farto das obscenas quantias que recebiam. Uma coisa era contar com a sua colaboração para investigar potenciais jurados; outra, muito diferente, era ter de aguentar a sua presença em todo o lado, durante todo o julgamento, sempre ansiosos por preparar um relatório diário para informarem os advogados sobre o desenrolar do caso. Rohr sabia interpretar as reacções de um júri muito melhor do que qualquer um dos consultores.

Arnold Levine, de Miami, falou pouco porque o grupo já conhecia a sua opinião. Chegou a defender a General Motors num julgamento que durou onze meses, portanto, para ele, seis semanas eram um mero aquecimento.

Quando empatavam, as decisões não eram tomadas à sorte. Muito antes da selecção do júri ter terminado, tinha ficado resolvido e assumido que o responsável por aquele julgamento era Wendall Rohr. O processo dera entrada na justiça na sua cidade natal, era disputado no seu tribunal, com o seu juiz e os seus jurados. O conselho de julgamento da acusação era um corpo democrático, mas só até certo ponto. Rohr tinha poder de veto e esse poder não podia ser contestado.

No fim da tarde de domingo, Rohr tomou uma decisão e os egos mais acesos sofreram algumas equimoses, mas nada de permanente. Havia coisas de mais em jogo para ficarem horas a discutir e a aventar hipóteses.

 

O primeiro ponto da agenda para a manhã de segunda-feira era um rncontro particular do juiz Harkin com Nicholas, para falar sobre o i ncêndio e o seu bem-estar. Encontraram-se, só os dois, na sala do juiz. N icholas garantiu que estava bem e que tinha roupa suficiente no motel. Era apenas um estudante e não tinha perdido muita coisa, apenas um bom computador e algum equipamento de vigilância muito caro. E, claro, nada disso estava no seguro.

Falaram brevemente sobre o incêndio e, uma vez que estavam sozinhos, Harkin perguntou:

— Então, como vão os seus amigos?

Conversar assim com um jurado, fora dos autos, não era impróprio, mas situava-se certamente na área cinzenta do procedimento legal. O mais correcto seria ter os advogados presentes e uma estenógrafa do tribunal para registar tudo o que fosse dito. Mas Harkin só queria alguns minutos de informação. Podia confiar naquele rapaz.

— Está tudo óptimo — disse Nicholas.

— Nada fora do normal?

— Não. Que me lembre, não.

— O caso tem sido comentado?

— Não. Quando estamos juntos, tentamos evitar o assunto.

— Óptimo. Alguma desavença ou discussão?

— Ainda não.

— A comida é boa?

— As «visitas pessoais» são suficientes?

— Acho que sim. Não ouvi nenhuma reclamação.

Harkin adoraria saber se havia algum caso amoroso entre os jurados. Não porque isso tivesse algum significado legal, mas apenas porque o juiz tinha a mente suja.

— Óptimo. Avise-me se houver algum problema. E vamos manter esta conversa em segredo.

— Claro — disse Nicholas. Apertou a mão do juiz e saiu. Harkin cumprimentou os jurados calorosamente, dando as boas-vindas

a mais uma semana. Pareciam ansiosos por começar o trabalho e acabar rapidamente com o sofrimento.

Rohr levantou-se, chamou a sua próxima testemunha, Leon Robi lio, e começou outro acto da peça. Leon foi conduzido à sala por uma porta lateral. Passou cauteloso na frente do júri a caminho do banco das testemunhas, onde o ajudaram a sentar-se. Robilio era velho e pálido, usava um fato escuro, camisa branca, sem gravata. Tinha um orifício no pescoço coberto por um fino curativo branco e disfarçado com uma écharpe de linho branco. Jurou dizer a verdade segurando junto ao pescoço um microfone que parecia um lápis. A sua voz tinha o tom monótono, típico das vítimas de cancro da garganta que já perderam a laringe.

Mas as palavras que dizia eram audíveis e claras. O senhor Robil io segurava o microfone muito perto do pescoço e a voz ecoava pela sala toda. Era assim que agora falava. Agora e para o resto da vida. Queria ser compreendido.

Rohr foi directo ao assunto. O senhor Robilio tinha sessenta e quatro anos, era um sobrevivente de cancro. Tinha perdido o órgão vocal havia oito anos e aprendera a falar pelo esófago. Durante quase quarenta anos fumara exageradamente e esse vício quase o matou. Agora, para além dos efeitos secundários do cancro, sofria também do coração e tinha efisema. Tudo por causa do tabaco.

Os ouvintes habituaram-se facilmente à voz amplificada. Conquistou a atenção de todos quando disse que durante duas décadas tinha feito lobby para a indústria do tabaco. Deixou o emprego quando o cancro foi diagnosticado e descobriu que, mesmo doente, não conseguia deixar de fumar. Era viciado em nicotina, física e psicologicamente. Durante dois anos, depois de a sua laringe ter sido retirada e da quimioterapia lhe ter arrasado o corpo, continuou a fumar. Só deixou o vício após um enfarte quase fatal.

Embora com saúde precária, ainda trabalhava em horário integral em Washington, mas agora estava do outro lado da barricada: era conhecido como sendo um activista anti-tabagista, feroz e intensamente devotado. Muita gente lhe chamava guerrilheiro.

Numa vida anterior, o senhor Robilio tinha trabalhado para a Tobacco Focus Council. — Uma organização de «lobistas», financiada inteiramente pela indústria — disse com desdém. — A nossa missão era aconselhar os fabricantes de cigarros sobre a legislação em vigor e tentar regulamentar a indústria. Tínhamos um orçamento generoso com recursos ilimitados para oferecer jantares e todo tipo de animação a políticos influentes. Fazíamos jogo duro e ensinávamos aos apologistas do fumo o que era «in» e «out» na luta livre da política.

No conselho, Robilio tinha acesso a inúmeros estudos da indústria tabaqueira. Na verdade, parte da missão do conselho consistia na assimilação meticulosa de todos os estudos conhecidos, projectos e experiências. Sim, Robilio tinha visto o infame memorando sobre a nicotina descrito por Krigler. Vira várias vezes, mas não tinha nenhuma cópia. Era sabido no conselho que os fabricantes mantinham altos níveis de nicotina para garantir a dependência do fumador.

Dependência foi a palavra que Robilio repetiu mais vezes. Tinha visto estudos pagos pelas empresas que descreviam a rápida criação de dependência em vários animais através da nicotina do tabaco. Viu e ajudou a esconder estudos que provavam, acima de qualquer dúvida, que entre os adolescentes viciados o índice dos que deixavam de fumar era extremamente baixo. Tornavam-se clientes para toda a vida.

Rohr apresentou uma caixa cheia de pastas grossas com relatórios para Robilio os identificar. Os estudos foram considerados uma prova, como se os jurados tivessem tempo para examinar dez mil páginas de documentos antes de tomar uma decisão.

Robilio estava arrependido de muitas das coisas que tinha feito como «lobista», mas o seu maior pecado, do qual se arrependia diariamente, era a negação vigorosa, apresentada em frases astutamente construídas, de que a indústria do tabaco tentasse visar os adolescentes nos seus anúncios.

— A nicotina vicia. O vício significa lucro. A sobrevivência da indústria depende do vício adquirido por cada nova geração. Os jovens recebem mensagens disfarçadas através dos anúncios. A indústria gasta milhões para dar ao cigarro uma conotação de produto sofisticado, charmoso e até inofensivo. Os jovens viciam-se com mais facilidade e ficam mais tempo viciados. Por isso é imperativo seduzir os jovens. Robilio conseguiu transmitir amargura através da sua caixa de voz artificial, conseguiu olhar com desdém para a mesa da defesa e, ao mesmo tempo, olhou calorosamente para os jurados.

— Gastávamos milhões para estudar os comportamentos dos jovens. Sabíamos que eles conseguiam referir os nomes das três marcas de cigarros que mais apareciam nos anúncios. E o que faziam os fabricantes? Reforçavam os anúncios.

— O conselho sabia quanto ganhavam os fabricantes de cigarros com as vendas a crianças? — perguntou Rohr, certo da resposta.

— Cerca de cem milhões por ano. É claro que sabíamos. Estudávamos o lucro ano a ano, mantínhamos as nossas empresas bem informadas. Nós sabíamos tudo. — Calou-se, balançou a mão na direcção da mesa da defesa, com ar de desprezo, como se fossem todos leprosos. — Eles bem sabem. Sabem que todos os dias há três mil adolescentes que começam a fumar, e podem dar uma relação precisa das marcas que compram. Eles sabem que praticamente todos os fumadores adultos começaram a fumar na adolescência e querem lançar o anzol à próxima geração. Também sabem que um terço dos três mil jovens que começam a fumar hoje acabam por morrer por causa do vício.

Robilio cativou o júri. Para manter a intensidade do drama, Rohr examinou os seus apontamentos por um momento. Deu alguns passos atrás e à frente, como se precisasse de exercitar as pernas. Coçou o queixo, olhou para o tecto e perguntou:

— Quando trabalhava para o Tobacco Focus Council, quais os argumentos que usava para provar que a nicotina não cria dependência?

— As empresas fabricantes de cigarros têm uma linha comum, que ajudei a formular. É mais ou menos assim: os fumadores escolhem o vício. Portanto, é uma questão de escolha. O cigarro não vicia mas, mesmo que vicie, ninguém obriga ninguém a fumar. É tudo uma questão de escolha.

— Naquele tempo eu próprio formulava este raciocínio de forma muito convincente e hoje são eles que fazem com que tudo isto pareça convincente. O problema é que não é verdade.

— Porque é que não é verdade?

— Porque estamos a falar de vício e nesse caso o viciado não tem grande escolha. Além disso, os jovens viciam-se muito mais depressa do que os adultos.

Rohr, pela primeira vez, evitou a compulsão típica dos advogados pura exagerar o volume das provas. Robilio era eficiente com palavras e o esforço para ser claro e ouvido cansou-o ao fim de uma hora e meia. Rohr entregou-o a Cable para um interrogatório indirecto e o juiz Harkin, que precisava de tomar café, ordenou um intervalo.

Hoppy Dupree fez a sua primeira visita ao tribunal na segunda-feira de manhã. Entrou a meio do depoimento de Robilio. Ele e Millie trocaram um olhar, ela satisfeita com a visita do marido. Contudo, era estranho aquele interesse repentino pelo julgamento. Na noite anterior Hoppy não tinha falado de outra coisa.

Depois de vinte minutos para o café, Cable aproximou-se da testemunha e atacou ferozmente. O seu tom era estridente, quase agressivo, como se Robilio fosse um traidor à causa, um vira-casacas. Cable marcou imediatamente um ponto com a revelação de que Robilio estava a ser pago para testemunhar e que tinha sido ele a procurar os advogados da acusação. Estava também a receber para depor em dois outros julgamentos contra fabricantes de cigarros.

— Sim, estou a ser pago para estar aqui, doutor Cable, tal como o senhor — disse Robilio, dando a típica resposta dos especialistas. Mas a nódoa do dinheiro manchou levemente a sua imagem.

Cable fê-lo confessar que começou a fumar quando tinha quase vinte e cinco anos, casado e com dois filhos. Ou seja, já não era um adolescente que pudesse ser seduzido pela arte charmosa dos anúncios. Durante a maratona de cinco dias de gravação dos depoimentos, cinco meses antes, os advogados tiveram a prova do temperamento fervilhante de Robilio e Cable estava decidido a explorar isso. As suas perguntas eram agressivas, destinadas a provocar a testemunha.

— Quantos filhos tem? — perguntou Cable.

— Três.

— Algum deles já fumou?

— Sim.

— Quantos?

— Três.

— Que idade tinham quando começaram? — Várias.

— Em média?

— Começaram pouco antes dos vinte.

— Que anúncios considera responsáveis por isso?

- Não me lembro exactamente.

— Não pode dizer ao júri quais os anúncios responsáveis por os seus filhos terem começado a fumar?

— Havia tantos... ainda há. É impossível apontar um ou dois que realmente os tenham influenciado.

— Então foram os anúncios?

— Tenho a certeza de que os anúncios foram eficazes. Ainda são.

— Então, a culpa foi de outras pessoas?

— Eu não os encorajei a fumar.

—- Tem a certeza? Está a dizer ao júri que os seus filhos, os filhos de um homem que durante vinte anos trabalhou para encorajar o mundo a fumar, começaram a fumar por causa de alguns anúncios insidiosos?

— Tenho a certeza de que os anúncios ajudaram. É para isso que existem.

— O senhor fumava em casa, à frente dos seus filhos?

— Fumava.

— A sua mulher também?

— Sim.

— Alguma vez pediu a uma visita que não fumasse em sua casa?

— Não. Naquela altura não

— Então podemos dizer que o ambiente da sua casa era favorável aos fumadores?

— Naquele tempo, sim.

— Mas os seus filhos começaram a fumar por causa dos anúncios insidiosos? É isso que está a afirmar perante o júri?

Robilio respirou fundo, contou devagar até cinco:

— Eu gostava de ter feito muitas coisas de outra forma, doutor Cable. Gostava de nunca ter fumado, por exemplo.

— Os seus filhos deixaram de fumar?

— Dois deles, mas com grande dificuldade. O terceiro está a tentar há dez anos.

A última pergunta fora feita impulsivamente, e por um momento Cable desejou não a ter feito. Estava na hora de passar para a outra parte.

— Senhor Robilio, o senhor está a par dos esforços da indústria do tabaco para reprimir o fumo entre os adolescentes?

A risada de desprezo de Robilio soou como um trovão ampliado pelo seu pequeno microfone.

— Nenhum esforço sério — disse.

— Quarenta milhões de dólares no último ano para a campanha Jovens Livres do Fumo.

— Parece uma das coisas que eles gostam de fazer. Insinuando vagamente um pouco de calor humano, não acha?

— O senhor sabe que a indústria apoia a legislação que proíbe as máquinas de vender cigarros nas áreas frequentadas por jovens?

— Acho que ouvi falar nisso. Parece encantador, não parece?

— O senhor sabe que no ano passado a indústria deu dez milhões de dólares ao estado da Califórnia para um programa de âmbito nacional, nos cursos primários, com a finalidade de advertir os menores contra os perigos do tabaco?

— Não, não sabia. E para advertir os maiores? Por acaso disseram as crianças que é correcto fumar depois de completar dezoito anos? Provavelmente disseram.

Cable tinha uma lista e parecia contentar-se em disparar as perguntas, ignorando as respostas.

— O senhor sabe que a indústria apoia um projecto de lei no Texas para proibir o tabaco em todas as pastelarias e noutros locais frequentados por adolescentes?

— Sei. E o senhor sabe por que razão fazem isso? Vou dizer-lhe porquê. É para poderem contratar pessoas como você para virem contar isso a jurados como estes. Esse é o único motivo: soa bem dizer estas coisas num tribunal.

— O senhor sabe que a indústria apoia oficialmente a legislação que impõe penalidades às lojas de conveniência que vendem tabaco a menores?

— Sim, também ouvi falar nisso. É uma camuflagem. Espalham dólares aqui e ali para fazer pose e comprar respeitabilidade. E se o fazem é porque conhecem a verdade... e a verdade é que dois milhões de dólares por ano, em anúncios, garantem a dependência da próxima geração. E o senhor é um tolo se não acredita nisso.

O juiz Harkin inclinou-se para a frente.

— Senhor Robilio, isso foi inoportuno. Não repita. Quero que seja retirado dos autos.

— Desculpe, Meritíssimo. E o senhor também, doutor Cable. Peço-lhe que me desculpe. Está só a fazer o seu trabalho. O que não suporto são os seus clientes.

Cable perdeu o impulso do ataque. Perguntou apenas:

— Porquê? — E imediatamente desejou ter ficado calado.

— Porque são muito desonestos. Essa gente da indústria do tabaco é brilhante, inteligente, instruída, implacável. Olham as pessoas nos olhos e dizem com toda a sinceridade que o cigarro não vicia. E sabem que é mentira.

— Não tenho mais perguntas — disse Cable, voltando para a sua mesa.

Gardner é uma cidade de dezoito mil habitantes, a uma hora de Lubbock. Pamela Blanchard morava na parte velha da cidade, a dois quarteirões da Rua Principal, numa casa construída no princípio do século e restaurada com bom gosto. Árvores de folhagem vermelha, dourada e brilhante, sombreavam o jardim. Viam-se crianças a andar de bicicleta e de skate pela rua.

Às dez horas da manhã de segunda-feira, Fitch sabia o seguinte: Pamela Blanchard era casada com o presidente do banco local, que perdera a primeira mulher dez anos antes. Não era o pai de Nicholas Easter, ou de Jeff, ou de fosse quem fosse. O banco estivera quase falido durante a crise do petróleo, no início dos anos 80, e muitas pessoas ainda tinham medo de pôr o seu dinheiro no banco. O marido de Pamela era natural da cidade. Ela não! Podia ter vindo de Lubbock, ou talvez de Amarillo. O seu casamento no México, há oito anos, foi referido brevemente no semanário local, mas sem fotografia. Apenas um anúncio ao lado dos obituários dizendo que N. Forrest Blanchard Jr. tinha casado com Pamela Kerr e que, depois de uma curta lua-de-mel em Cozumel, iam morar em Gardner.

A melhor fonte da cidade era um detective particular chamado Rafe, polícia na cidade durante vinte anos. Garantia conhecer toda a gente. Rafe, depois de receber uma boa quantia em dinheiro, trabalhou sem dormir durante toda a noite de domingo. Sem dormir, mas com muito wiskey, e de madrugada cheirava a malte azedo. Dante e Joe Boy trabalharam no sujo escritório do detective, na Rua Principal, declinando repetidamente a oferta de wiskey.

Rafe consultou todos os polícias de Gardner e finalmente encontrou um que conseguiu falar com uma senhora que moravano outro lado da rua, em frente da casa dos Blanchard. Bingo! Pamela tinha dois filhos de um primeiro casamento que terminara em divórcio. Não falava muito sobre eles, mas sabia-se que um estava no Alasca e que o outro era udvogado, ou estudante de Direito, ou qualquer coisa do género.

Como nenhum dos dois tinha crescido em Gardner, a pista arrefeceu. Ninguém os conhecia. Na verdade, Rafe não encontrou ninguém que já tivesse visto os filhos de Pamela. Foi então que telefonou para o seu advogado, especialista em divórcios. O advogado conhecia uma secretária do banco do senhor Blanchard. Rafe falou com a secretária particular do senhor Blanchard e descobriram que Pamela não era de Lubbock, nem de Amarillo, mas de Austin. Quando conheceu o senhor Blanchard trabalhava para a Associação de Banqueiros em Austin. A secretária sabia do casamento anterior e era de opinião que havia terminado muitos anos antes. Não, nunca tinha visto os filhos de Pamela. O senhor Blanchard nunca falava neles. O casal levava uma vida tranquila e raramente tinha visitas.

Fitch recebia relatórios de Dante e Joe Boy de hora a hora. No final da manhã de domingo, telefonou para um conhecido de Austin, um homem com quem tinha trabalhado num julgamento de fabricantes de tabaco, em Marshall, Texas. Era uma emergência, explicou Fitch. Em poucos minutos, uma dúzia de detectives estava a pesquisar listas telefónicas e a fazer telefonemas. Os cães de caça não demoraram a encontrar a pista.

Pamela Kerr era secretária-executiva da Associação dos Banqueiros do Texas, em Austin. Um telefonema levou a outro e encontraram uma antiga colega de trabalho que era agora conselheira de uma escola particular. Dizendo que Pamela era um dos potenciais jurados num julgamento de crime capital em Lubbock, o detective apresentou-se como assistente do promotor distrital: estava a tentar conseguir informações legítimas sobre os jurados. Ela sentiu-se obrigada a responder a algumas perguntas, embora não visse Pamela nem tivesse qualquer contacto com ela há anos.

Pamela tinha dois filhos, Jeff e Alex. Alex, dois anos mais velho, fez o liceu em Austin e foi para Oregon. Jeff também terminou o liceu em Austin, com distinção, e foi para Rice, a fim de fazer a faculdade. O pai abandonou a família quando os rapazes ainda eram muito pequenos e Pamela tinha feito um trabalho magnífico na educação dos filhos.

Dante desembarcou de jacto particular e acompanhou um detective à escola onde tiveram autorização para consultar os livros do ano na biblioteca. A foto de formatura de Jeff Kerr era colorida — um smoking azul, grande papillon, também azul, cabelo curto, rosto muito sério, olhando directamente para a câmara. O mesmo rosto que Dante havia estudado durante horas, em Biloxi. Sem hesitar, disse:

— Este é o nosso homem — e disfarçadamente rasgou a página do livro. Escondido entre as estantes telefonou para Fitch do seu telemó-vel.

Três telefonemas para Rice revelaram que Jeff Kerr se tinha formado em 1989 em Psicologia. Fazendo-se passar por representante de um empregador em perspectiva, Dante encontrou um professor de ciências políticas que se lembrava muito bem de Kerr. Disse que o jovem fora para a faculdade de Direito em Karisas.

Fitch contactou por telefone com uma empresa de segurança que, a troco de uma boa soma em dinheiro, se dispôs a largar tudo o que tinha em mãos para procurar em Lawrence, Karisas, algum sinal de Jeff Kerr.

Para uma pessoa sempre tão animada, Nicholas estava calado de mais durante o almoço. No O'Reilly's não disse uma palavra enquanto comia uma batata assada com recheio. Evitou os olhares dos outros jurados e parecia extremamente triste.

Os jurados compartilhavam esse estado de espírito. A voz de Leon Robilio continuava a acompanhá-los, uma voz mecânica substituindo a verdadeira, perdida para a devastação provocada pelo fumo. Uma voz robótica revelando a imundice que no passado Robilio ajudara a esconder. Ainda soava aos seus ouvidos: «Três mil jovens por dia, um terço dos quais acaba por morrer por causa do vício.»

Loreen Duke cansou-se de mexer com o garfo na sua salada de galinha. Olhou para Jerry Fernandez, no outro lado da mesa, e disse:

— Posso perguntar uma coisa? —- A sua voz quebrou o silêncio.

— Claro — disse ele.

— Com que idade começou a fumar?

— Catorze.

— Porque é que começou?

— Por causa do homem da Marlboro. Todos os rapazes com quem me dava fumavam Marlboro. Éramos rapazes do campo, gostávamos de cavalos e de rodeos. Não era possível resistir à sofisticação do homem da Marlboro.

Nesse preciso momento, todos os jurados viam mentalmente os cartazes — o rosto de traços fortes, o queixo, o chapéu, o cavalo, o couro muito usado, talvez as montanhas e um pouco de neve, a independência no acender um Marlboro enquanto o mundo o deixava em paz. Por que é que um rapaz de catorze anos não havia de querer ser o homem da Marlboro?

— Você é viciado? — perguntou Rikki Coleman, mexendo com o garfo no prato sem gordura, cheio de alface e peru cozido. A palavra «viciado» saiu-lhe dos lábios como se estivessem a falar de heroína.

Jerry pensou por momentos e percebeu que o estavam a ouvir. Queriam conhecer a força que mantinha a pessoa presa ao vício.

— Não sei — respondeu ele. — Suponho que posso deixar de fumar. Já tentei algumas vezes. Sem dúvida que seria bom abandonar o tabaco. É um hábito muito desagradável.

— Não tem prazer quando fuma? — perguntou Rikki.

— Bem, há certos momentos em que o cigarro acerta no alvo, mas agora estou a fumar dois maços por dia: é de mais.

— E você, Angel? — perguntou Loreen a Angel Weese, sentada ao seu lado e que geralmente falava o mínimo possível. — Que idade linha quando começou?

— Treze — informou Angel, timidamente.

— Eu tinha dezasseis — admitiu Sylvia Taylor-Tatum antes que lhe perguntassem.

— Eu comecei com catorze — disse Herman, à cabeceira da mesa, para entrar na conversa. — Deixei quando tinha quarenta.

— Mais alguém? — indagou Rikki, continuando a hora da confissão.

— Comecei com dezassete anos, quando entrei para o exército — esclareceu o coronel. — Mas larguei há trinta anos. — Frisou, como sempre, orgulhoso da sua autodisciplina.

—Mais alguém?—perguntou Rikki novamente, depois de um longo silêncio.

— Eu. Comecei com dezassete e deixei dois anos depois. — Ni cholas estava a mentir.

— Alguém aqui começou a fumar depois dos dezoi to anos?.

Nem uma palavra.

Nitchman encontrou-se com Hoppy para comerem rapidamente uma sanduíche. Hoppy, nervoso com a ideia de ser visto na companhia de um agente do FBI, ficou aliviado quando o viu aparecer de jean.s e camisa de xadrez. Não era provável que os conhecidos de Hoppy pudessem identificar um agente federal, mas mesmo assim estava nervoso. Além disso, Nitchman e Napier tinham dito que pertenciam a uma unidade especial de Atlanta.

Hoppy repetiu o que tinha ouvido no tribunal naquela manhã. Disse que Robilio, o homem sem voz, causou uma forte impressão e aparentemente havia conquistado o júri. Nitchman, não pela primeira vez, demonstrou pouco interesse no julgamento e explicou novamente que estava apenas a cumprir ordens dos seus chefes em Washington. Entregou a Hoppy uma folha de papel dobrada, com números e palavras em letras pequenas espalhados na parte superior e na parte inferior e disse que fora enviado por Cristano, da Justiça. Queriam que Hoppy visse o papel.

Na verdade, era uma criação da equipa de Fitch encarregada dos documentos, dois ex-agentes da CIA aposentados que circulavam em Washington e que tinham prazer em práticas escusas.

Era uma cópia enviada por fax de um relatório com aparência sinistra sobre Leon Robilio. Não trazia indicação da fonte, nem da data: apenas quatro parágrafos sob um título misterioso «Memorando Confidencial». Hoppy leu rapidamente comendo batatas fritas. Robilio estava a receber uma fortuna para testemunhar. Robilio foi expulso do Tobacco Fo-cus Council por desvio de fundos, chegou a ser indiciado, porém, mais tarde, as acusações foram retiradas. Além disso, tinha uma história de problemas psiquiátricos e fora acusado de assédio sexual a duas secretárias do conselho. A causa do cancro de garganta era provavelmente o alcoolismo e não o fumo. Robilio tinha fama de mentiroso, odiava o conselho e estava empenhado numa cruzada de vingança.

— Nossa Senhora! — comentou Hoppy, enchendo a boca com batatas fritas.

— O senhor Cristano acha que você deve entregar isto à sua mulher — disse Nitchman. — E ela só deve mostrar aos jurados em quem tem confiança.

- Tudo bem - concordou Hoppy, dobrando o papel rapidamente e guardando-o no bolso. Olhou para o restaurante cheio como se se sentisse culpado de alguma coisa.

Trabalhando a partir dos anuários da faculdade de Direito e com as limitadas informações fornecidas ficaram a saber que Jeff Kerr se havia matriculado no primeiro ano de Direito da Universidade de Karisas no Outono de 1989. O seu rosto sério aparecia na fotografia da turma do segundo ano, em 1991, mas depois disso não havia qualquer sinal dele. Não se formou em Direito.

No segundo ano jogou rugbi na equipa da faculdade. Uma fotógrafa da equipa mostrava-o de braço dado com dois amigos — Michael Dale e Tom Ratliff — que haviam terminado a faculdade no ano seguinte. Dale trabalhava para os serviços judiciais em Dês Moines. Ratliff era funcionário de uma firma de advogados em Wichita. Foram enviados detectives para as duas cidades.

Dante chegou a Lawrence e foi levado à faculdade de Direito, onde confirmou a identidade de Kerr nos anuários. Passou uma hora a examinar fotografias de 1985 a 1994 e não viu nenhuma mulher parecida com a jovem que se dizia chamar Marlee. Foi um tiro no escuro. Muitos alunos não eram fotografados. Os anuários referiam-se ao segundo ano com fotografias de jovens adultos muito sérios. O trabalho de Dante consistia apenas em dar vários tiros no escuro.

No fim do dia, na segunda-feira, um detective chamado Sinali encontrou Tom Ratliff muito ocupado no seu modesto escritório mal mobilado da Wise & Watkins, uma importante empresa no centro da cidade de Wichita. Concordaram em encontrar-se uma hora depois num bar.

Small falou com Fitch para conseguir toda a informação possível, ou pelo menos tudo o que Fitch estivesse disposto a revelar. Small era um ex-polícia com duas ex-mulheres. Intitulava-se especialista em segurança, o que significava que fazia de tudo, desde vigilância de motéis a testes com polígrafo. Não era brilhante e Fitch percebeu logo isso.

Ratliff chegou tarde e pediram as bebidas. Small esforçou-se ao máximo para tornar o seu bluf convincente e para parecer informado, Ratliff ficou desconfiado. A princípio falou pouco, o que era de esperar de uma pessoa interrogada por um estranho sobre um antigo conhecido.

— Não o vejo há quatro anos — informou Ratliff.

— Tem falado com ele?

— Não. Nem uma palavra. Deixou a faculdade no fim do nosso segundo ano.

— Eram muito amigos?

— Conheci-o bem no primeiro ano, mas não éramos muito amigos. Afastou-se depois disso. Jeff está metido nalguma confusão?

— Não. De modo algum.

— Talvez deva dizer-me por que razão está tão interessado nele. Small recitou em termos gerais o que Fitch queria que dissesse,

conseguiu acertar em quase tudo e chegar muito perto da verdade. Jeff Kerr era um potencial jurado num grande julgamento algures no país, e Small foi contratado por uma das partes para investigar o seu passado.

— Onde é esse julgamento? — perguntou Ratliff.

— Não posso dizer. Mas garanto que nada disto é ilegal. É advogado e certamente compreende.

Sim, compreendia. Ratliff tinha passado a maior parte da sua breve carreira a trabalhar como escravo para um sócio especialista em litígios. A investigação do júri era algo que aprendera a detestar.

— Como é que posso verificar isso?—perguntou, como um verdadeiro advogado.

— Não tenho autoridade para divulgar dados específicos sobre o julgamento. Vamos chegar a um acordo. Se fizer alguma pergunta que o senhor ache que possa prejudicar Kerr, não responde. Está de acordo?

- Podemos tentar! Mas se ficar nervoso, saio daqui.

- Está bem. Porque é que abandonou a faculdade?

Ratliff bebeu um pequeno gole de cerveja e tentou lembrar-se.

— Ele era bom aluno, brilhante até. Mas depois do primeiro ano, de repente, começou a detestar a ideia de ser advogado. Naquele Verão trabalhou no escritório de uma grande firma em Karisas City e ficou farto. Além disso, apaixonou-se.

Fitch queria desesperadamente saber se havia uma mulher na vida de Jeff.

— Quem era a mulher? — perguntou.

— Claire.

— Claire quê? Mais um gole de cerveja.

— Já não me lembro.

— Conheceu-a?

— Eu sabia quem era. Claire trabalhava num bar no centro de Law-i cnce, um lugar frequentado pelos estudantes de Direito. Acho que foi onde se conheceram.

— Pode descrevê-la?

— Para quê? Pensei que o caso era sobre o Jeff.

— Pediram-me para obter uma descrição da namorada dele na faculdade. É tudo o que sei. — Small encolheu os ombros, como se não dependesse de si.

Os dois estudaram-se algum tempo. «Quero lá saber!», pensou Ratliff. Nunca mais ia ver aquela gente e Jeff e Claire não passavam de lembranças distantes.

— Altura média, cerca de um metro e setenta. Magra, cabelo escuro, olhos castanhos, bonita e com tudo o que pode atrair numa mulher.

— Era aluna da faculdade?

— Não tenho a certeza. Talvez fosse. Ou talvez já estivesse formada.

— Pela universidade de Karisas?

—  Não sei.

— Qual era o nome do bar?

— Mulligan's, no centro da cidade.

Small conhecia o bar. Ia lá frequentemente para afogar os problemas e admirar as estudantes.

— Já bebi uns copos no Mulligan's.

— Também eu. E tenho algumas saudades... — confessou Ratliff

— O que é que ele fez depois de deixar a faculdade?

— Não tenho a certeza. Ouvi dizer que ele e Claire tinham saído da cidade, mas nunca mais tive notícias deles.

Small agradeceu e perguntou se podia telefonar para o escritório se ti vesse mais dúvidas. Ratliff disse estar muito ocupado, mas que podia tentar.

O chefe de Small em Lawrence tinha um amigo que conhecia o homem que fora dono do Mulligan's durante quinze anos — vantagens de uma cidade pequena. Os registos de emprego não eram exactamente confidenciais, sobretudo para o dono de um bar que declarava menos de metade das suas vendas. O nome dela era Claire Clement.

Quando recebeu a informação, Fitch esfregou as mãos gorduchas de satisfação. Adorava aquela caçada. Marlee era agora Claire, uma mulher que tinha trabalhado arduamente para esconder o seu passado.

— Conhece o teu inimigo! — disse Fitch em voz alta para as paredes. Era a primeira regra das operações de guerra.

 

Os números voltaram com toda a força na tarde de segunda-feira. () mensageiro era um economista treinado para investigar a vida de Jacob Wood e determinar o seu valor exacto em dólares. Chamavam-lhe doutor Art Kallison, professor aposentado de uma escola particular, em Oregon, que ninguém conhecia. A matemática não era complicada e os tribunais não eram uma realidade desconhecida para o doutor Kallison. Sabia como testemunhar, como expor os números com si mplicidade. Escreveu tudo com muita clareza num quadro de ardósia.

Quando morreu, aos cinquenta e um anos, o salário-base de Jacob Wood era de quarenta mil dólares por ano, mais o fundo de pensão pago pelo seu empregador, além de outros benefícios. Supondo que poderia ter vivido e trabalhado até aos sessenta e cinco, Kallison calculou os seus ganhos futuros em setecentos e vinte mil dólares. De acordo com a lei, a inflação podia ser calculada nessa projecção, o que dava um total de um milhão, cento e oitenta mil dólares. Então, a lei exigia que esse total fosse reduzido para os valores actuais, um conceito que perturbou um pouco a clareza dos cálculos. Nesse ponto, Kallison fez uma breve dissertação para ojúri sobre o valor actual. O dinheiro podia valer um milhão e cento e oitenta mil dólares se fosse pago num espaço de quinze anos, mas para fins do processo em julgamento era necessário determinar o seu valor naquele momento. Assim, teriam de fazer um desconto. A nova quantia era então de oitocentos e trinta e cinco mil dólares.

Kallison fez um trabalho magnífico, garantindo ao júri que essa quantia dizia respeito apenas ao salário perdido. Como economista, era-lhe complicado avaliar o valor não económico da vida de uma pessoa. O seu trabalho nada tinha a ver com a dor e o sofrimento do senhor Wood. Nem tinha nada a ver com a perda sofrida pela família.

Um jovem advogado da defesa, chamado Felix Mason, falou pela primeira vez. Era um dos sócios de Cable, especialista em previsões económicas e, infelizmente para ele, o seu único papel no drama ia ser breve. Começou o interrogatório indirecto do doutor Kallison, perguntando quantas vezes por ano testemunhava em tribunais.

— Ultimamente é tudo o que faço. Sou professor aposentado — respondeu Kallison. Respondia à pergunta em todos os julgamentos.

— Pagam-lhe para testemunhar? — Uma pergunta tão cansada como a resposta.

— Sim. Sou pago para estar aqui, tal como o senhor.

— Quanto?

— Cinco mil dólares para consultoria e depoimento. — Nenhum advogado duvidou de que Kallison era o especialista mais barato do julgamento.

Mason tinha um problema com o índice de inflação usado por Kallison nos seus cálculos e, durante trinta minutos, os dois discutiram sobre a inflação. Se Mason marcou um ponto, ninguém notou. Ele queria que Kallison concordasse que o total dos ordenados não pagos ao senhor Wood era de seiscentos e oitenta mil dólares.

Na verdade, isso não era importante. Rohr e o seu bando de selectos advogados aceitariam os dois números. Os pequenos ordenados eram apenas o ponto de partida. Rohr acrescentar-lhes-ia a dor e o sofrimento, a falta do prazer de viver, a perda de camaradagem e alguns outros factores, como o custo do tratamento médico do senhor Wood e o preço do seu enterro. Aí Rohr iria direito à mina de ouro: mostraria aos jurados qual a dívida da Pynex e pediria uma grande parte dessa dívida como indemnização punitiva por danos causados.

Com uma hora pela frente, Rohr anunciou orgulhosamente:

— A acusação chama a sua última testemunha, a senhora dona Celeste Wood.

O júri não esperava que a acusação estivesse quase no fim do seu desempenho. Sentiu subitamente um certo alívio. O ar pesado e húmido do fim de tarde ficou mais leve. Vários jurados não conseguiram esconder um sorriso. Vários outros desfranziram as testas. As suas cadeiras balançaram quando voltaram à vida.

Aquela noite seria a sétima do isolamento. De acordo com a última teoria de Nicholas, a defesa não levaria mais de três dias para terminar.

Fizeram as contas e calcularam que passariam o fim-de-semana em casa!

Durante as três semanas em que permaneceu sentada na mesa comprida, Celeste Wood mal deixou escapar um murmúrio. Demonstrou uma capacidade espantosa para ignorar os advogados, ignorar os rostos dos jurados e olhar directamente para as testemunhas, com o rosto inexpressivo. Tinha usado todas as tonalidades de negro e cinza, sempre com meias e sapatos pretos.

Na primeira semana Jerry chamara-lhe viúva Wood.

Celeste estava agora com cinquenta e cinco anos, a mesma idade que o marido teria se não fosse o cancro do pulmão. Era muito magra, pequena, com cabelo grisalho curto. Trabalhava numa biblioteca regional e tinha criado três filhos. Retratos da família foram mostrados ao júri.

Celeste fizera o seu depoimento há um ano, orientada pelos profissionais contratados por Rohr. Estava controlada, nervosa, mas não agitada, e resolvida a não demonstrar emoção. Afinal, o marido tinha morrido há quatro anos.

Ela e Rohr seguiram literalmente o script. Celeste falou da sua vida com Jacob, como eram felizes, os primeiros anos, os filhos, depois os netos, os sonhos da reforma. Alguns solavancos na estrada, mas nada importante, nada até ele ficar doente. Ele queria tanto deixar de fumar, tentou várias vezes sem sucesso. A dependência era forte de mais.

Celeste despertou simpatia sem grande esforço. A sua voz não tremeu nem por um momento. Rohr tinha imaginado, e estava certo, que lágrimas falsas não seriam bem recebidas pelo júri. De qualquer modo, ela não chorava com facilidade.

Cable dispensou o interrogatório indirecto. Que poderia perguntar-lhe? Levantou-se e, com expressão triste e humilde, disse simplesmente:

— Meritíssimo, não temos perguntas para esta testemunha.

Fitch tinha um monte de perguntas para a testemunha, mas não podiam ser feitas em pleno tribunal. Depois de um período convencional de luto, na verdade mais de um ano depois do funeral, Celeste começou a sair com um homem divorciado, sete anos mais novo. Segundo fontes fidedignas, estavam a planear um casamento discreto assim que terminasse o processo. Fitch sabia que o próprio Rohr a tinha proibido de casar antes do julgamento.

O júri não ia ouvir isso no tribunal, mas Fitch estava a trabalhar num plano para passar essa informação pela porta dos fundos.

— A acusação encerra o seu caso — anunciou Rohr, depois de levar Celeste até à cadeira ao lado da mesa. Os advogados das duas partes formaram pequenos grupos, conferenciando muito sérios.

O juiz Harkin olhou para a papelada na sua mesa, depois para os exaustos jurados.

— Senhoras e senhores, tenho boas e más notícias. A boa notícia é óbvia. A acusação terminou e estamos na metade final do julgamento. A defesa deverá chamar um número de testemunhas menor que o da acusação. A má notícia é que neste ponto do processo devemos discutir uma grande quantidade de moções. Faremos isso amanhã, provavelmente durante todo o dia. Lamento, mas não temos escolha.

Nicholas levantou a mão. Harkin olhou para ele alguns segundos e por fim perguntou:

— O que deseja?

— Quer dizer que amanhã vamos ficar no motel o dia todo?

— Receio que sim.

— Não compreendo porquê.

Os grupos de advogados desfizeram-se, interrompendo as suas pequenas reuniões e todos olharam para Easter. Era raro um jurado falar em pleno tribunal.

— Porque temos muitas coisas para fazer sem a presença do júri.

— Sim, isso compreendo. Mas porque razão temos de ficar inactivos no motel?

— Que é que o senhor quer fazer?

— Sei lá, montes de coisas. Podemos alugar um barco, dar um passeio no Golfo, pescar se quisermos.

— Não posso pedir aos contribuintes do condado para pagar isso, senhor Easter.

— Pensei que éramos contribuintes.

— A resposta é não, sinto muito.

— Esqueça os contribuintes. Tenho a certeza de que estes advogados não se vão importar se o senhor os envolver nesta causa: peça a cada parte para contribuir com mil dólares. Podemos alugar um barco grande e passar um dia maravilhoso.

Cable e Rohr reagiram no mesmo instante, mas Rohr, levantando-se de repente, conseguiu falar primeiro.

— Teríamos muito prazer em pagar metade, Meritíssimo.

— Uma grande ideia, Meritíssimo! — acrescentou Cable rapidamente, erguendo a voz.

Harkin levantou as duas mãos.

—  Um momento — disse ele. Passou as mãos nas têmporas, procurando lembrar um precedente. É claro que não havia nenhum. Nenhuma regra ou lei que proibisse aquele passeio, nenhum conflito de interesses.

Loreen Duke tocou levemente no braço de Nicholas e murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. O Meritíssimo disse:

— Muito bem, não há dúvida de que nunca ouvi falar numa coisa assim. Parece encaixar-se na categoria discricionária. Doutor Rohr?

— É inofensivo, Meritíssimo. Cada parte paga metade. Não há problema.

— Doutor Cable?

— Não me lembro de nenhum estatuto ou regra que possa impedir. Concordo com o doutor Rohr. Se as duas partes dividirem a despesa, e Qual é o problema?

Nicholas levantou a mão outra vez.

— Com licença, Meritíssimo. Fui informado de que alguns jurados preferem fazer compras em Nova Orleães a passear de barco.

Mais uma vez Rohr ganhou por uma fracção de segundo.

— Teremos muito prazer em dividir o custo de um autocarro, Meretíssimo. E do almoço.

— Nós também — disse Cable. — O jantar também.

Glória Lane aproximou-se dos jurados com um papel. Nicholas, Jerry Fernandez, Lonnie Shaver, Rikki Coleman, Angel Weese e o coronel Herrera escolheram passear de barco. Os outros preferiram as compras.

Incluindo o vídeo de Jacob Wood, Rohr e a sua equipa levaram treze dias para apresentar ao júri dez testemunhas. Foi construído um caso sólido. Agora cabia aos jurados determinar, não se o tabaco era perigoso, mas se estava na hora de punir os seus fabricantes.

Se o júri não estivesse isolado, Rohr teria chamado pelo menos mais três especialistas. Um para falar sobre a psicologia da publicidade, um especialista em dependência do cigarro, o terceiro para descrever em pormenor a aplicação de insecticidas e pesticidas nas folhas de tabaco.

Mas o júri estava isolado e Rohr sabia que era chegado o momento de parar. Evidentemente aquele não era um júri habitual: um cego; um desajustado que fazia ioga à hora do almoço; duas greves até àquele momento; listas de exigências a toda hora; pratos de louça e talheres normais para o almoço; cerveja depois do trabalho, pagamento pelos contribuintes do condado; encontros amorosos e «visitas pessoais».

Realmente, para Fitch, não era um júri habitual. E já tinha sabotado mais júris do que qualquer outra pessoa na história da jurisprudência americana. Fitch tinha usado as armadilhas de sempre e conseguira informações sujas. Apenas a jovem Marlee conseguira mudar tudo. Por seu intermédio, poderia comprar um veredicto, um julgamento pago a favor da defesa que humilharia Rohr e os seus amigos e assustaria a legião de advogados famintos que pairavam como abutres à espera dos cadáveres.

Nesse julgamento, o maior contra os fabricantes de cigarros, com os melhores advogados de acusação recebendo milhões, a sua adorada pequena Marlee iria dar-lhe o veredicto. Fitch acreditava nisso e a ideia consumia-o. Pensava nela a toda a hora e via-a em sonhos.

Se não fosse Marlee, Fitch não poderia dormir. Era o tempo certo para um veredicto a favor da acusação — o tribunal certo, o juiz certo, o estado de espírito certo. Os especialistas eram os melhores que Fitch tinha encontrado nos seus nove anos de organização da defesa. Nove anos, oito julgamentos, oito decisões a favor da defesa. Por mais que detestasse Rohr, apenas o admitia para si mesmo, ele era o advogado certo para finalmente condenar a indústria do tabaco.

Uma vitória sobre Rohr em Biloxi seria uma forte barricada em qualquer processo contra o tabaco. Podia salvar a indústria.

Quando Fitch calculava os votos do júri, começava sempre por Rikki Coleman, por causa do aborto. Tinha o voto dela no bolso, mas Rikki não o sabia ainda. Então, acrescentava Lonnie Shaver. Depois o coronel Herrera. Millie Dupree ia ser fácil. Os seus consultores de júri estavam convencidos de que Sylvia Taylor-Tatum era praticamente incapaz de qualquer simpatia. Além disso, fumava. Mas os especialistas não sabiam que andava a dormir com Jerry Fernandez. Jerry e Easter eram amigos. Fitch previa que os votos dos três — Sylvia, Jerry e Nicholas — seriam iguais. Loreen Duke sentava-se ao lado de Nicholas e os dois conversavam muitas vezes em voz baixa durante o julgamento. Fitch achava que acompanharia Easter. E, se Loreen o acompanhasse, o mesmo faria Angel Weese, a única mulher que faltava, negra. Era impossível definir Weese.

Ninguém duvidava de que Easter ia liderar as deliberações. Agora que Fitch já sabia dos dois anos de Easter em Direito, era capaz de apostar que todo o júri o sabia.

Era impossível prever como Herman Grimes ia votar. Mas Fitch não estava a contar com ele. Nem com Phillip Savelle. Fitch confiava na senhora Gladys Card. Era idosa, conservadora e provavelmente não concordaria quando Rohr pedisse uma indemnização de vinte milhões ou mais.

Assim, Fitch tinha quatro no bolso, possivelmente cinco, contando com a senhora Gladys Card. Quanto a Herman Grimes, era um caso de cara ou coroa. Talvez tivesse de descontar Savelle, uma vez que alguém tão sintonizado com a natureza não devia certamente gostar dos fabricantes de cigarros. Sobrava então Easter e o seu grupo de cinco. Cada lado do veredicto precisava de nove votos. Menos do que isso criaria um impasse e Harkin seria obrigado a anular o julgamento. Julgamentos anulados são julgamentos futuros e Fitch não queria tal coisa naquele caso.

O grupo de analistas e estudiosos que observavam o julgamento concordava em pouca coisa, mas era unânime na previsão de que doze votos a favor da Pynex ia arrefecer, ou mesmo congelar por completo, os processos contra a indústria do tabaco por uma década.

Fitch estava resolvido a ter esse veredicto, custasse o que custasse.

O ambiente no escritório de Rohr mostrava-se muito menos carregado na noite de segunda-feira. Sem mais testemunhas para chamar, no momento estavam livres de pressão. Um bom scotch foi servido na sala de conferências. Rohr bebia a sua água mineral e comia queijo e biscoitos.

Agora abola estava do lado de Cable. Iriam passar alguns dias a preparar as testemunhas e a identificar documentos. Rohr só precisava

 de reagir e fazer o interrogatório indirecto. Já tinha visto e ouvido dezenas de vezes todos os depoimentos das testemunhas da defesa gravados em vídeo.

Jonathan Kotlack, o advogado encarregado da pesquisa do júri, também só bebia água e especulava com Rohr a respeito de Herman Grimes. Ambos achavam que podiam contar com ele e também com Mil lie Dupree e Savelle, o mais estranho dos jurados. Herrera preocupava-os. Os três negros — Lonnie, Angel e Loreen — estavam garantidos. Afinal, era um caso de uma pessoa insignificante contra uma empresa grande e poderosa. Sem dúvida os negros votariam contra a força, votavam sempre assim.

Easter seria a chave, porque era o líder, todos o sabiam. Rikki iria acompanhá-lo. Jerry era seu amigo, Sylvia Taylor Tatum era passiva e ia acompanhar a maioria. Bem como a senhora Gladys Card.

Só precisavam de nove votos e Rohr estava certo de que os tinha.

 

Em Lawrence, o detective Small verificou todas as pistas da sua lista e não encontrou nada. Na segunda-feira à noite foi até ao Mulligan's para beber, contrariando as ordens, e conversar ocasionalmente com as empregadas e os estudantes de Direito. A única coisa que conseguiu foi levantar suspeitas aos olhos de todos.

Na terça-feira de manhã, fez uma visita extra. O nome da mulher era Rebecca e alguns anos antes, quando ainda aluna da universidade de Karisas, tinha trabalhado no Mulligan's com Claire Clement. Segundo uma fonte descoberta pelo chefe de Small, eram amigas. Actualmente era gerente de um banco na cidade. Small apresentou-se um tanto hesitante e ela ficou desconfiada.

— Trabalhou com a Claire Clement há alguns anos, não trabalhou? —perguntou, olhando para um bloco de apontamentos, de pé em frente

da mesa, porque ela estava de pé no lado oposto. Small não tinha sido convidado para entrar e ela estava muito ocupada.

— Talvez. Quem é que quer saber?—perguntou Rebecca, de braços cruzados, com a cabeça inclinada para o lado, enquanto o telefone tocava atrás de si. Ao contrário de Small, estava bem vestida e atenta a tudo.

— Sabe onde é que ela está agora?

— Não. Por que pergunta?

Small repetiu o que tinha decorado. Era tudo o que tinha.

— Bem, ela é potencialmente jurada num grande julgamento e a minha empresa foi contratada para efectuar uma investigação pormeno-rizada sobre o seu passado.

— Onde é o julgamento?

— Não posso dizer. Trabalharam juntas no Mulligan's, não foi?

— Sim. Mas foi há muito tempo.

— De onde é que ela era?          

— Porquê? Isso é importante?

— Bem, para ser franco, está na minha lista de perguntas e nós só estamos a verificar as coisas. Sabe de onde era?

— Não.

Esta pergunta era importante porque a pista de Claire tinha começado e acabado em Lawrence.

— Tem a certeza?

Inclinou a cabeça para o outro lado e olhou para o idiota.

— Não sei de onde era. Quando a conheci trabalhava no Mulligan's e a última vez que a vi estava a trabalhar no Mulligan's.

— Falou com ela recentemente?

— Não. Nos últimos quatro anos, não.

— Conhecia Jeff Kerr?

— Não.

— Quem eram os amigos dela aqui em Lawrence?

— Não sei. Estou muito ocupada e o senhor está a perder o seu tempo. Não conhecia a Claire muito bem. Sem dúvida que era boa rapariga, mas não éramos grandes amigas. Agora, por favor, tenho muito que fazer. — Estava a apontar para a porta quando acabou de falar e Small, com relutância, saiu do escritório.

Com Small fora do banco, Rebecca fechou a porta do escritório e ligou para um apartamento em St. Louis. A voz gravada do outro lado da linha era a da sua amiga Claire. Conversavam pelo telefone pelo menos uma vez por mês, mas há um ano que não se viam. Claire e Jeff levavam uma vida estranha, nunca paravam no mesmo sítio, nunca estavam dispostos a revelar onde estavam. Só o apartamento em St. Louis se mantinha.

Claire tinha-a avisado de que apareceriam pessoas com perguntas estranhas. Mais de uma vez insinuara que ela e Jeff trabalhavam para o governo numa função misteriosa.

Rebecca deixou uma mensagem no gravador de chamadas sobre a visita de Small.

Marlee verificava as gravações no seu telefone todas as manhãs e a mensagem de Lawrence deixou-a gelada. Passou uma toalha molhada no rosto e tentou acalmar-se.