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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O MACHÃO / Harold Robbins
O MACHÃO / Harold Robbins

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MACHÃO

 

1933

           Era o oitavo dia da tempestade. Nunca antes houvera uma tempestade como aquela. Nem mesmo na memória do velho Mustapha, o cameleiro, que já era um velho quando todos os outros membros da caravana ainda eram meninos.

           Segurando o ghutra de encontro ao rosto, ele caminhou penosamente em direção à tenda de Fouad, o chefe da caravana, parando de vez em quando para espiar através das pequenas fendas do pano e certificar-se de que não perdera o rumo e se afastara do pequeno abrigo do oásis para o inferno de areia que turbilhonava, dilacerando tudo no deserto.

           Cada vez que ele parava, os grãos de areia se cravavam em seu rosto, como chumbos de uma espingarda. Ele procurou reunir toda a saliva que lhe restava e cuspir, antes de entrar na tenda.

           Mas não havia a menor umidade em sua boca, apenas a secura áspera da areia.

           Fouad estava sentado numa cadeira junto à mesinha onde tremeluzia uma lamparina, enchendo a tenda de sombras. Ele fitou o cameleiro sem dizer uma só palavra. Homem gigantesco, não era muito dado a palavras.

           Mustapha empertigou-se em toda a sua altura de quase um metro e meio, como sempre fazia quando se dirigia ao chefe da caravana.

           — Há areia nos olhos de Deus. Ele está cego e nos perdeu de vista.

           Fouad resmungou. Por uma vez, encontrou palavras:

           — Bobagem. Agora que fizemos a jornada a Meca, acha que ele tiraria os olhos de nós em nosso retorno para casa?

           — Há morte no ar — insistiu Mustapba, teimosamente. — Até mesmo os camelos podem cheirá-la. Pela primeira vez, eles estão nervosos.

           — Ponha mantas sobre as cabeças deles. Se não puderem ver, sonharão apenas os sonhos dos camelos.

           — Já fiz isso, mas eles arrancaram as mantas das cabeças. Perdi duas mantas.

           — Dê-lhes então um pouco de haxixe para mastigarem — insistiu Fouad. — Não o bastante para que fiquem loucos, mas o suficiente para ficarem quietos.

           — Eles dormirão durante dois dias.

           O chefe da caravana fitou-o.

           — Não tem importância, pois nesse período não iremos a parte alguma.

           O pequeno cameleiro arrastou os pés no chão.

           — Mesmo assim, é um mau presságio. Como está o amo?

           — Ele é um bom homem. Passa o tempo todo cuidando da esposa e o seu tapete de orações está sempre virado para Meca.

           O cameleiro estalou os lábios.

           — Acha que as preces deles serão atendidas, agora que já fizeram a peregrinação?

           Fouad fitou-o expressivamente.

           — Tudo está nas mãos de Alá. Mas a hora dela está cada vez mais próxima. Em breve saberemos.

           — Um filho.. — murmurou Mustapha. — Rogo a Alá que lhes dê um filho. Três filhas representam um fardo pesado demais, mesmo para um bom homem como ele.

           — Um filho. . . — repetiu Fouad. — Que Alá seja misericordioso!

           Ele ergueu-se, muito acima do pequeno cameleiro, e rugiu subitamente:

           — Agora vá tratar dos seus camelos ou enterrarei esses ossos velhos no esterco deles!

           A grande tenda, armada no centro do oásis entre quatro imensas palmeiras, estava iluminada por lâmpadas elétricas, colocadas estrategicamente nos cantos. De trás de uma cortina vinha o ruído monótono do gerador a gasolina que fornecia a eletricidade. De trás de outra cortina vinha o cheiro adocicado de carne tostando em pequenos braseiros de carvão.

           Pela vigésima vez naquele dia, o Dr. Samir Al Fay levantou a cortina de entrada da tenda e contemplou a tempestade.

           A areia entrou-lhe nos olhos, pela pequena abertura. Ele não conseguiu divisar o topo das árvores, cinco metros acima, nem a extremidade do oásis, onde a areia em redemoinho formava um paredão que se erguia até o céu. Fechou a cortina e esfregou os olhos, removendo a areia, enquanto voltava para o centro do cômodo principal da tenda. Os pés moviam-se silenciosamente sobre os macios tapetes que cobriam o chão de areia.

           Nabila, sua esposa, fitou-o ansiosa e perguntou em sua voz suave:

           — Melhorou?

           Ele sacudiu a cabeça.

           — Não.

           — Quando acha que vai parar?

           — Não sei. De qualquer forma, não há o menor indício de que esteja começando a abrandar.

           — Está arrependido?

           Ele aproximou-se da cadeira em que a esposa estava sentada.

           — Não.

           — Você não teria feito essa peregrinação, se eu não tivesse insistido.

           — Não foi por sua causa que fiz a peregrinação. Foi por nosso amor.

           — Mas não acreditava que a peregrinação a Meca pudesse alterar alguma coisa. Disse-me que o sexo de uma criança é determinado no momento de sua concepção.

           — Disse isso porque sou médico. Mas também sou um crente.

           — E se a criança for menina?

           Ele não respondeu.

           — Iria então divorciar-se de mim ou tomar uma segunda esposa como deseja seu tio, o Príncipe?

           Ele segurou-lhe as mãos.

           — Está dizendo tolices, Nabila.

           Ela perscrutou o rosto do marido, enquanto sombras lhe obscureciam os olhos.

           — Está quase na hora. E sinto cada vez mais medo.

           — Não há nada de que ter medo — disse ele, em tom tranqüilizador.

           — Além do mais, você vai ter um filho. Eu não lhe disse que as batidas do coração são de menino?

           — Samir, Samir... Você diria qualquer coisa para que eu não fique preocupada.

           Ele levou as mãos dela aos lábios.

           — Eu a amo, Nabila. Não quero outra esposa, nenhuma outra mulher. Se não tivermos um filho desta vez, teremos na próxima.

           — Não haverá próxima vez. Seu pai já deu a palavra ao Príncipe. Seu filho será o herdeiro masculino do título.

           — Deixaremos o país. Podemos ir viver na Inglaterra. Foi lá que estudei, tenho muitos amigos.

           — Não, Samir. Seu lugar é aqui. Nosso povo precisa de você. Já o está ajudando com as coisas que aprendeu. Quem haveria de imaginar que o gerador que trouxe da Inglaterra para iluminar a sua sala de operações daria origem a uma companhia que está fornecendo luz para a nossa terra.

           — E mais riqueza para a nossa família — acrescentou ele. — Uma riqueza de que não precisamos, pois já possuímos tudo.

           — Mas você é o único que pode compreender e providenciar para que a riqueza seja usada em benefício de todos e não apenas de uns poucos. Não, Samir, você não pode partir. Nosso povo precisa de você.

           Ele ficou em silêncio. Nabila fitou-o nos olhos e continuou:

           — Você tem que fazer-me uma promessa. Se for uma menina, deixe-me morrer. Não posso suportar a idéia de toda uma existência sem você.

           — É a tempestade, tem que ser a tempestade... Não pode haver outra explicação para as idéias loucas que estão surgindo em sua mente, Nabila.

           Ela baixou os olhos diante do olhar insistente dele e sussurrou:

           — Não é a tempestade, Samir. Olhe, as dores já estão começando.

           — Tem certeza?

           De acordo com os seus cálculos, estavam três semanas antes do prazo.

           — Já tive três crianças e sei muito bem. A primeira contração foi há duas horas atrás e a última ainda há pouco, quando você estava contemplando a tempestade lá fora.

           Mustapha estava dormindo, abrigado da tempestade por três mantas sobre a cabeça e aquecido pelos corpos dos camelos entre os quais se achava deitado. Sonhava com um paraíso iluminado por um sol dourado, povoado por lindas huris da mesma cor, com seios, barrigas e nádegas fartas.

           Eram lindos sonhos de haxixe, porque ele não era egoísta o bastante para recusar-se a partilhar o haxixe que dera a seus camelos e deixá-los a vaguear sozinhos pelo paraíso, sem a sua orientação. Sem ele, as pobres criaturas certamente ficariam perdidas.

           Acima dele a tempestade rugia. A areia despejou-se em cima das mantas e depois foi removida, quando o vento mudou de direção.

           Na beira do paraíso um camelo se mexeu e um frio súbito lhe enregelou os ossos. Instintivamente, ele se aproximou do calor do animal, mas este se afastava cada vez mais. Aconchegando-se nas mantas que o cobriam, chegou-se mais para perto do outro camelo. Mas este também se mexera e agora o frio atacava-o de todos os lados. Lentamente, ele começou a despertar.

           Os camelos ficaram de pé. Como sempre acontecia quando estavam nervosos, eles começaram a defecar e a urinar. E um deles fê-lo justamente em cima das mantas, fazendo com que Mustapha despertasse completamente. Furioso e dizendo palavrões, por ter sido arrancado de seu sonho, ele rolou para longe do jato ácido e quente.

           Ficando de quatro, espiou debaixo das mantas. Subitamente, a respiração congelou-se em sua garganta. Da muralha de areia surgira um homem vindo em sua direção, montado num burro. Atrás vinha outro burro, a sela vazia. O homem virou-se para olhá-lo.

           Foi então que Mustapha gritou. O homem tinha duas cabeças. Dois rostos brancos com um só corpo fitaram-no com um olhar maléfico.

           Mustapha levantou-se de um pulo. Esquecendo a areia que lhe mordia o rosto, ele correu para a tenda do chefe da caravana.

           — Socorro! Socorro! É o anjo da morte que está vindo para nos buscar!

           Fouad saiu da tenda como um raio, segurando Mustapha nos braços gigantescos, suspendendo-o e sacudindo-o como se fosse uma criança.

           — Cale-se! Não acha que o nosso amo já tem problemas demais na cabeça, com a sua esposa em trabalho de parto, para ter que ficar ouvindo os seus sonhos de dopado?

           — O anjo da morte! Eu vi!

           Os dentes de Mustapha tremiam, estrepitosamente. Ele apontou.

           — Olhem ali, perto dos camelos!

           Àquela altura, diversos homens já tinham corrido até eles. Todos se viraram para a direção apontada pelo dedo estendido de Mustapha.

           Soou um suspiro coletivo de medo quando os dois burros emergiram da escuridão e da cortina de areia. Montado no burro da frente, vinha o homem de duas cabeças.

           Quase tão rapidamente quanto haviam chegado, os outros homeus desapareceram, cada um voltando ao seu próprio abrigo individual, deixando apenas Mustapha ainda a se debater nos braços de Fouad.

           Involuntariamente, Fouad afrouxou o aperto com que prendia o cameleiro, que se aproveitou disso para libertar-se e correr para o interior da tenda, deixando-o ali sozinho para enfrentar o anjo da morte.

           Quase paralisado, Fouad observou os burros pararem à sua frente. Uma voz de homem lhe disse então:

           — As-salaam alaykum.

           Automaticamente, Fouad respondeu:

           — Ahzykum as-salaam.

           — Suplico a sua ajuda. Estamos perdidos na tempestade há dias e minha esposa está doente e prestes a dar à luz.

           Lenta e cuidadosamente o homem desmontou. Foi só então que Fouad percebeu que a manta estivera cobrindo duas pessoas. Ele adiantou- se imediatamente.

           — Deixe-me ajudá-lo.

           Samir apareceu, vestido com um mishlah bege.

           — O que está acontecendo aqui?

           Fouad virou-se, a mulher como uma pena em seus braços.

           — São viajantes que se perderam na tempestade, amo.

           O homem estava de pé, apoiado no burro.

           — Não sei quantos dias ficamos na tempestade.

           Ele cambaleou, quase caiu. Samir adiantou-se e passou o braço por baixo de seus ombros.

           — Vamos, apóie-se em mim.

           O homem apoiou-se nele, agradecido. Em voz débil, sussurrou:

           — Ela ficará boa — assegurou Samir, dirigindo-se depois ao chefe da caravana: — Leve-a para a minha tenda.

           — Os burros...

           — Eles serão cuidados também — disse Samir. — Você é bem vindo em minha casa.

           O rosto do homem estava todo arranhado e sangrando, conseqüência da areia soprada pelo vento. Seus lábios estavam inchados e cobertos de bolhas. As mãos cobertas de cicatrizes escondiam completamente a xícara de chá que seguravam. Ele era alto, mais alto do que Samir, com cerca de um metro e oitenta, nariz grande, olhos azuis penetrantes, semi-ocultos por trás das pálpebras inchadas. Estava observando Samir no momento em que o médico se levantou de junto da enxerga onde estava deitada sua esposa.

           Samir virou-se para ele. Não sabia o que dizer. A mulher estava morrendo. Achava-se quase completamente desidratada, a pulsação era fraca e irregular, e tinha pressão sanguínea alarmantemente baixa.

           — Quantos dias vocês passaram na tempestade?

           O homem fitou-o em silêncio por algum tempo, antes de sacudir a cabeça e responder:

           — Não sei. Pareceu a própria eternidade.

           — Ela está muito mal.

           O homem tornou a ficar em silêncio, olhando para a sua xícara de chá. Seus lábios se moveram, mas Samir não pôde entender o que diziam.

           Depois ele fitou Samir.

           — Você é médico?

           Samir assentiu.

           — Ela viverá?

           — Não sei.

           — Minha esposa queria que o nosso filho nascesse na terra santa.

           Mas os ingleses não quiseram dar-nos os vistos. Por isto, pensamos que, se pudéssemos atravessar o deserto, conseguiríamos passar pela retaguarda, sem sermos percebidos.

           O choque e a surpresa se manifestaram na voz de Samir:

           — Com apenas dois burros? Mas ainda tinham quase mil quilômetros de deserto para atravessar!

           — A tempestade começou e perdemos os nossos suprimentos. Foi um terrível pesadelo.

           Samir virou-se para contemplar novamente a mulher. Depois bateu as mãos e Alda, a criada de sua esposa, apareceu.

           — Prepare um copo de água com açúcar.

           Alda se foi e ele tornou a falar ao homem:

           — Deve tentar fazer com que ela engula um pouco.

           O homem assentiu, continuando em silêncio por mais algum tempo.

           — Sabe, é claro, que nós somos judeus.

           — Sei.

           — Mesmo assim, ainda está disposto a nos ajudar?

           — Somos todos viajantes no mesmo mar. Iria recusar-me a sua ajuda, se as nossas posições fossem inversas?

           O homem sacudiu a cabeça.

           — Não. Em nome da humanidade, como poderia fazê-lo?

           — Então estamos entendidos.

           Samir sorriu e estendeu a mão.

           — Eu sou Samir Al Fay.

           O homem apertou-lhe a mão.

           — Isaiah Ben Ezra.

           Alda voltou com um copo e uma colher. Samir pegou-os e pediu:

           — Traga-me uma toalha pequena.

           Ele sentou-se ao lado da enxerga com a toalha que lhe fora trazida. Molhou-a na água com açúcar e em seguida comprimiu-a contra a boca da mulher.

           — Veja como estou fazendo — disse ele ao homem. — Deve gentilmente fazer com que os lábios dela se abram, deixando as gotas pingarem na garganta. É o único substituto que posso imaginar para a alimentação intravenosa de glicose. Mas faça-o bem devagar, para que ela não fique sufocada.

           — Entendi.

           Samir levantou-se.

           — Agora devo ir cuidar da minha própria esposa.

           Ben Ezra fitou-o, interrogativo.

           — Estávamos voltando para casa de uma peregrinação a Meca e a tempestade obrigou-nos a parar aqui. Como vocês, queríamos que o nosso filho nascesse em casa. Agora, porém, é pouco provável que isso aconteça. Minha esposa entrou em trabalho de parto três semanas mais cedo.

           Samir fez uma pausa e um gesto expressivo.

           — Os caminhos de Alá são misteriosos. Se não tivéssemos ido a Meca para lhe pedir um filho, se vocês não tivessem desejado que sua criança nascesse na terra santa, jamais iríamos encontrar-nos.

           — Agradeço ao Senhor por estarem aqui. Que Ele lhes dê o filho que estão desejando!

           — Obrigado. E que Alá proteja a sua esposa e a criança que está para nascer.

           Ele atravessou a cortina que separava os cômodos no interior da tenda, enquanto Ben Ezra se inclinava sobre a esposa, comprimindo a toalha umedecida em seus lábios.

           Foi na hora que antecede a madrugada que a tempestade atingiu o auge. Fora da tenda o vento rugia como o eco de um canhão distante e os golpes de areia contra a tenda eram como granizo a cair de um céu furioso. Foi neste momento que Nabila gritou, de dor e medo.

           — A criança dentro de mim está morta! Não mais lhe estou sentindo a vida e os movimentos!

           — Fique quieta — disse-lhe Samir, a voz suave. — Está tudo bem.

           Nabila segurou-lhe o braço. Em sua voz, havia um tom de desespero.

           — Samir, por favor, lembre-se do que me prometeu. Deixe-me morrer!

           Ele fitou-a, as lágrimas, começando a toldar sua visão.

           — Eu a amo, Nabila. E você viverá, para dar-me um filho.

           Ele foi rápido, tão rápido que ela nem sentiu a picada da agulha hipodérmica em sua veia, apenas o suave término da dor, quando a morfina tomou conta de si.

           Samir endireitou o corpo, exausto. Há duas horas que ele não conseguia descobrir as pulsações da criança com o estetoscópio. Enquanto isso, as dores de Nabila haviam aumentado, mas a passagem permanecia fechada, não havia a menor dilatação.

           — Alda, chame o chefe da caravana. Vou precisar da ajuda dele para fazer o pano. Mas diga-lhe que se lave meticulosamente antes de entrar na tenda.

           Ela assentiu, o medo estampado em seus olhos, e saiu. Rapidamente, Samir começou a enfileirar os instrumentos na toalha branca limpa ao lado da cama.

           Subitamente, Nabila estremeceu e o sangue começou a jorrar de dentro dela. Algo estava errado, pois Nabila estava tendo uma hemorragia. O corpo a arquejar parecia estar querendo expelir a criança. Mas Samir não pôde sentir a cabeça da criança. Ele sabia agora o que estava errado. As páreas estavam obstruindo a saída do útero.

           A mancha nos lençóis crescia rapidamente e Samir procurou conter o medo que o invadia.

           Ele dilatou com a mão o colo do útero de Nabila, a fim de poder remover as páreas Depois de remover o tecido ensangüentado, rompeu a bolsa de água e guiou o bebê para baixo e para fora do corpo da esposa. Cortou o cordão umbilical e concentrou-se em Nabila. Por um momento ficou com a respiração suspensa, mas logo deixou escapar um suspiro de alívio ao verificar que a hemorragia cessara. Só então olhou pela primeira vez para a criança.

           Era uma menina e estava morta. Ele o soube sem mesmo ter necessidade de tocá-la. As lágrimas escorriam de seus olhos quando ele se virou para olhar Nabila. Agora ela nunca mais poderia gerar-lhe um filho. Nem mesmo uma menina. Ele providenciaria para que ela nunca mais ficasse grávida, pois o risco seria grande demais. Sentiu o desespero dominá-lo. Talvez ela tivesse razão, talvez a morte fosse preferível.

           — Doutor!

           Ben Ezra surgiu na cortina aberta. Samir fitou o judeu, os olhos enevoados. Não conseguiu dizer uma só palavra. A voz de Ben Ezra estava assustada.

           — É minha esposa, Doutor! Ela parou de respirar!

           Num reflexo, Samir pegou a sua maleta médica. Olhou mais uma vez para Nabila. A morfina já exercera o seu efeito e ela dormia placidamente. Ele passou imediatamente para o outro cômodo da tenda.

           Ajoelhou-se junto à mulher em silêncio, procurando seu coração com o estetoscópio. Não havia o menor som. Rapidamente, ele preparou uma injeção de adrenalina e aplicou-a diretamente no coração da mulher. Abriu-lhe a boca e tentou soprar algum ar em seus pulmões. Mas era tudo em vão. Finalmente, ele virou-se para o homem e disse:

           — Sinto muito.

           Ben Ezra fitou-o surpreso.

           — Ela não pode estar morta! Vi o seu estômago se mexendo!

           Samir olhou para a mulher. Ben Ezra estava certo, O estômago dela estava pulsando.

           — A criança.

           Ele abriu a maleta e tirou um bisturi.

           — O que vai fazer? — indagou Ben Ezra.

           — Alnda não é tarde demais para salvarmos a criança.

           Ele fitou o homem demoradamente e acrescentou:

           — Você pode ajudar-me. Segure os joelhos dela e puxe as pernas para baixo.

           Em silêncio, Ben Era fez o que lhe era ordenado. Samir não tinha tempo para abrir as roupas da mulher. Cortou-as agilmente. O ventre ficou exposto, azulado e inchado.

           — Agora, feche os olhos. Em hipótese nenhuma olhe para cá — advertiu Samir.

           Novamente Ben Ezra obedeceu. Cuidadosamente, Samir marcou as linhas da incisão. A pele fina quase que estalou, com um estampido abafado: Samir abriu o abdome e um momento depois tinha a criança em suas mãos. Cortou o cordão umbilical e amarrou-o. Dois tapas vigorosos nas nádegas da criança e o gemido saudável de um bebê invadiu a tenda. Ele olhou para Ben Ezra e informou:

           — Você tem um filho.

           Ben Ezra fitou-o também, com uma expressão estranha no rosto, sem dizer uma palavra.

           — Você tem um filho — repetiu Samir.

           Os olhos de Ben Ezra encheram-se de lágrimas.

           — E o que vou fazer com um filho? Não tenho mais mulher e ainda me restam mil quilômetros de deserto para atravessar. A criança vai morrer.

           — Nós lhe daremos suprimentos.

           O judeu sacudiu a cabeça.

           — Isso não vai adiantar grande coisa. Já me estou escondendo da polícia.. Nada tenho a oferecer à criança.

           Samir ficou calado, ainda segurando a criança em seus braços.

           Ben Ezra indagou-lhe:

           — E sua criança?

           — Nasceu morta. Creio que Alá, em Sua sabedoria, julgou por bem não atender a nossas preces.

           — Era um menino?

           Samir sacudiu a cabeça, desalentado.

           — Não, uma menina.

           — Talvez Alá seja mais sábio que nós dois e foi por isso que nos reuniu neste deserto.

           — Não estou entendendo...

           — Se não fosse por você, a criança teria morrido juntamente com a mãe. É mais pai dela do que eu.

           — Você está louco!

           — Não — insistiu Ben Ezra, sua voz parecendo cada vez mais forte. — Comigo, o menino certamente morrerá. E o fardo de cuidar dele provavelmente acarretará também a minha morte. Mas Alá atendeu à sua prece por um filho. Com você, ele poderá crescer forte e seguro.

           Samir fitou o judeu nos olhos.

           — Mas assim ele crescerá como muçulmano e não como judeu!

           — Será que isso tem realmente alguma importância? Não me disse ainda há pouco que somos todos viajantes no mesmo mar?

           Samir contemplou o menino em seus braços e subitamente sentiu-se invadido por um amor como nunca experimentara antes Era verdade, Alá atendera a suas preces, à maneira dele.

           — Temos que agir depressa. Siga-me.

           Samir levou o bebê para o seu quarto.

           — Leve essa criança com você.

           Ben Ezra pegou a natimorta e levou-a para a sua câmara. Samir colocou o filho do judeu em cima da mesa e enrolou-o num lençol limpo. Acabara de fazê-lo quando entraram Alda e Fouad. Ele olhou para a criada e ordenou:

           — Limpe e lave o meu filho.

           A mulher fitou-o nos olhos por um momento, depois seus lábios se mexeram e ela disse:

           — Alá seja louvado!

           — Haverá tempo de sobra para isso nas preces matutinas — disse Samir, olhando depois para o chefe da caravana e dizendo-lhe:

           — Venha comigo.

           E os dois saíram da câmara.

           Tão subitamente quanto chegara, a tempestade se foi. O dia amanheceu claro e sereno. Os dois homens estavam imóveis junto às sepulturas recém-escavadas, à margem do oásis. Ao lado de Ben Ezra estavam os seus dois burros, um carregado com água e suprimentos, o outro com a sela de couro já gasta. Ben Ezra e Samir se fitaram, constrangidos. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

           Isaiah Ben Ezra estendeu a mão.

           Em silêncio, Samir apertou-a. Havia agora amizade e um vínculo a uni-los. Depois de um momento, eles se separaram e o judeu montou no burro.

           — Khatrak.

           Samir fitou-o demoradamente. Com a mão direita, fez o gesto tradicional, tocando a testa, os lábios e finalmente o coração.

           — As-salaam alaykum. Vá em paz.

           Ben Ezra ficou em silêncio por um momento. Olhou para as sepulturas, depois para Samir. Os olhos de ambos estavam cheios de lágrimas.

           — Aleichem shalon.

           Depois ele virou os burros e se afastou.

           Samir ficou a contemplá-lo por alguns minutos, voltando em seguida para a sua tenda, vagarosamente. Alda esperava-o na entrada e sua voz era excitada:

           — A ama está acordando.

           — Já disse a ela?

           A criada sacudiu a cabeça negativamente.

           Samir passou pelas cortinas e foi pegar a criança. Estava parado ao lado da esposa quando ela abriu os olhos. Sorrindo ele fitou-a.

           — Samir, sinto muito...

           — Mas não há motivo nenhum — disse ele suavemente, colocando a criança nos braços dela. — Alá atendeu a nossas preces. Temos um filho.

           Nabila ficou olhando para o bebê em silêncio durante vários minutos, depois levantou o rosto para o marido, os olhos cheios de lágrimas.

           — Tive um sonho terrível, Samir. Sonhei que o bebê tinha morrido.

           — Foi um sonho, Nabila. Apenas um sonho...

           Nabila tornou a olhar para o menino, os dedos afastando o lençol branco do seu rosto.

           — Ele é lindo...

           Uma expressão de surpresa surgiu então em seu rosto e ela levantou os olhos para o marido.

           — Samir, nosso filho tem olhos azuis!

           Ele riu.

           — Mulher, mulher... Será que nunca vai aprender? Todo recém nascido tem olhos azuis.

           Mas Alá realmente realizara um milagre. Pois Baydr Samir Al Fay cresceu com os olhos de um azul bem escuro, quase violeta, a cor do céu nas noites do deserto.

 

O Fim da Primavera

1973

           O som do jato fino do chuveiro em sua cabeça abafou o som dos quatro grandes motores a jato. O vapor começou a enevoar as paredes do pequeno boxe do chuveiro. Rapidamente, ele transformou o sabonete numa espuma perfumada sobre o seu corpo, depois enxaguou-se e passou a água de quente para fria. Instantaneamente, a fadiga lhe deixou o corpo e ele sentiu-se totalmente alerta. Desligou a água e saiu do boxe.

           Como sempre, Jabir estava à sua espera, com um roupão felpudo e várias toalhas no braço. Ele envolveu o corpo do amo com as toalhas, dizendo suavemente em árabe:

           — Boa noite, amo.

           — Boa noite, amigo — respondeu Baydr, esfregando-se vigorosamente.

           — Que horas são?

           Jabir consultou o imenso Seiko de aço inoxidável que o amolhe dera.

           — São 19:15, horário francês — disse ele, orgulhoso. — O amo teve um bom descanso?

           — Tive, obrigado — respondeu Baydr, largando as toalhas e enfiando-se no roupão que o criado abrira. — Onde estamos?

           — Sobre o Canal da Mancha, O comandante pediu-me que lhe informasse que chegaremos a Nice às 20:40.

           — Ótimo.

           Jabir manteve aberta a porta do pequeno banheiro para que Baydr passasse para sua cabina. Embora a cabina do amo fosse grande, ocupando quase um terço do Boeing 707, o ar estava sobrecarregado com os cheiros fortes de haxixe e nitrito de amila Baydr estacou bruscamente. Ele não se importava com aqueles odores quando os estava usando, mas depois eram-lhe profundamente desagradáveis.

           — Está fedendo aqui dentro. É uma pena que não possamos abrir uma janela para arejar um pouco. Mas a dez mil metros de altitude, isso poderia ser embaraçoso.

           Jabir não sorriu.

           — Sim, senhor.

           Ele atravessou a cabina rapidamente, abrindo todos os canais de ventilação, depois pegou um aerosol perfumado e vaporizou-o pela cabina. Voltou em seguida ao lugar em que Baydr estava.

           — O amo já decidiu a roupa que vai vestir?

           — Alnda não.

           Biydr olhou para a cama imensa, que ocupava quase a metade da cabina.

           As duas moças estavam abraçadas, os corpos nus rebrilhando à suave luz dourada da cabina. A recordação de Baydr do que acontecera horas antes foi tão nítida como se estivesse acontecendo naquele momento.

           Ele estava parado ao lado da cama, observando-as enquanto se amavam. Às cabeças de cada uma estavam entre as pernas da outra, as bocas e as línguas a se devorarem viciosamente. Subitamente elas rolaram e uma ficou montada em cima da outra, um par de nádegas brancas, como meias luas gêmeas, a brilharem para ele. A excitação invadira-o e ele baixara os olhos para a sua ereção, sentindo-se duro e a pulsar. Rapidamente, ele pegara as cápsulas de nitrito de amila na mesa e, ajoelhando-se por cima da garota, colocara seu pênis na abertura do ânus dela. Metera o braço por baixo da barriga da garota e segurara-a firmemente contra si. Baixara a mão, até sentir a púbis dela.

           A língua da outra garota, lambendo o clitóris da sua companheira, tocou-lhe a ponta dos dedos. Selvagemente, Baydr puxara a garota para trás e se arremessara para frente, entrando fundo no ânus dela.

           A garota ficou paralisada por um momento diante do ataque inesperado, e em seguida abriu a boca para gritar. Enquanto ela ofegava em busca de ar, Baydr quebrara duas ampolas diante do seu rosto.

           Ao invés de gritar, ela atingira o clímax, num orgasmo frenético e espasmódico. Um segundo depois, Baydr rompera uma cápsula para si e explodira num orgasmo que pensara nunca mais terminaria. A cabina começara a girar e ele mergulhou na escuridão. Seu próximo ato consciente fora acordar e ir tomar o banho de chuveiro. Agora ele estava novamente parado junto à cama, a contemplálas.

           Mas desta vez não sentiu absolutamente nada. Estava acabado.

           Elas tinham sido usadas e haviam correspondido à sua função, aliviando o tédio da longa viagem desde Los Angeles. Agora ele nem ao menos podia recordar como se chamavam. Ele seguiu para a porta da cabina, de onde se virou e disse a Jabir:

           — Acorde-as e diga-lhes que se vistam.

           Ele saiu e fechou a porta. Atravessou o estreito corredor, passando diante das duas cabinas de hóspedes e entrando no salão principal.

           Dick Carriage, o seu assistente-executivo, estava no escritório na frente do salão, sentado a uma escrivaninha, perto dos telefones e do telex. Como sempre, o jovem advogado estava formalmente vestido, de camisa branca, gravata e terno escuros. Baydr não se lembrava de tê-lo visto alguma vez em mangas de camisa. Carriage levantou-se imediatamente ao vê-lo e disse em tom também formal:

           — Boa noite, chefe. Teve um bom descanso?

           — Tive, obrigado. E você?

           O jovem advogado fez uma careta breve, o máximo de expressão que ele se permitia.

           — Nunca pude dormir em aviões.

           — Mas ainda vai conseguir — disse Baydr, sorrindo. — Dê-se apenas um pouco mais de tempo.

           Carriage não sorriu.

           — Se não aprendi a fazê-lo em dois anos, receio que jamais aprenda.

           Baydr apertou o botão de serviço.

           — Aconteceu alguma coisa?

           — Está tudo tranqüilo. É que estamos em fim-de-semana.

           Baydr assentiu. Era sábado. Ele não esperava mesmo que ocorresse alguma coisa. Ao partirem de Los Angeles, era uma hora da madrugada.

           Raoul, o chefe dos comissários de bordo, apareceu.

           — Pois não, senhor?

           — Café, americano.

           Baydr não sentia o estômago disposto a aceitar o forte café filtrado que Raoul gostava de servir. Virou-se em seguida para Carriage e indagou:

           — Entrou em contato com o iate?

           — Falei com o Capitão Petersen. Ele já providenciou tudo para a festa desta noite. O Rolls Royce e o San Marco estarão no aeroporto. Se o mar estiver calmo, o San Marco poderá levá-lo a Cannes em vinte minutos. O carro irá demorar cerca de uma hora, — o tráfego está um pouco lento por causa do festival.

           O comissário voltou com o café. Enquanto ele enchia uma xícara, Baydr acendeu um cigarro. Ele tomou um gole.

           — Deseja alguma coisa para comer, senhor?

           — Por enquanto, não. Obrigado.

           Baydr tornou a falar a Carriage:

           — Minha esposa está no iate?

           — O Capitão disse que ela está na villa Mas Youssef já chegou a Paris e está a bordo. Pediu-me que lhe informasse que trouxe alguns talentos sensacionais para esta noite.

           Bydr assentiu. Youssef Ziad era o chefe do seu escritório em Paris. Ele tinha um em cada país. Jovens inteligentes, encantadores e educados, que adoravam dinheiro e a proximidade do poder. A principal função deles era encontrar lindas jovens para decorar as festas que Baydr oferecia no curso dos seus negócios.

           — Chame a Sra. Al Fay ao telefone.

           Ele voltou à sala de jantar do avião, sentando-se à mesa redonda de mogno. Raoul tornou a encher a xícara. Enquanto tomava o café, Baydr ficou em silêncio, meditando. Um momento depois o telefone tocou e ele atendeu, ouvindo a voz de Carriage informar-lhe:

           —A Sra Al Fay não está em casa. Acabei de falar com a sua secretária, que me informou que ela saiu para ver um filme e disse que seguiria diretamente para o iate.

           — Obrigado — disse Baydr, desligando o telefone.

           Ele não estava surpreso. Não esperava mesmo que Jordana estivesse em casa, especialmente quando se estava realizando um festival ou uma festa. Ela tinha que estar onde a ação estivesse. Por um momento sentiu-se aborrecido, mas, isso logo passou. Afinal, fora exatamente isso o que primeiro o atraíra nela. Jordana era americana e não árabe. As moças americanas não ficam em casa. Já tentara explicar isso à sua mãe, mas ela realmente não compreendera. Alnda estava desapontada por ele não se haver casado com outra árabe, depois de divorciar-se da sua primeira esposa.

           O telefone tornou a tocar e ele atendeu. Era o piloto, Comandante Andrew Hyatt.

           — Com sua permissão, senhor, gostaria de pedir à Alr France que fizesse uma verificação completa no avião, se vamos ficar em Nice o tempo suficiente para tal.

           Baydr sorriu para si mesmo. Aquela era a maneira delicada do comandante de dizer-lhe que a tripulação estava precisando descansar alguns dias em terra.

           — Creio que podemos calcular uma estada até quarta-feira. Crê que seja tempo suficiente, Andy?

           — É, sim, senhor.

           — Foi um bom vôo, Andy. Obrigado.

           — Obrigado, senhor.

           A voz do piloto era bastante satisfeita ao desligar.

           Baydr apertou o botão para falar novamente com Carriage.

           — Hospede a tripulação no Negresco até terça.feira.

           — Pois não, chefe.

           Carriage hesitou por um momento, depois acabou perguntando:

           — E as moças, devo convidá-las para a festa?

           — Não.

           A voz de Baydr era indiferente. Youssef já providenciara aquele item.

           — E o que vamos fazer com elas?

           — Hospede-as no Negresco com a tripulação. Depois dê quinhentos dólares a cada uma e passagens de volta a Los Angeles.

           Ele desligouo o telefone e ficou olhando pela janela. Já estava quase escuro e lá embaixo começavam a cintilar as luzes do interior francês. O que será que Jordana estava fazendo naquele momento?

           Fazia quase um mês que a vira pela última vez, em Beirute, com as crianças. Eles haviam combinado encontrar-se no Sul da França, para o aniversário dela. Pensou no colar de diamantes Van Cleef e se indagou se ela iria gostar. Ele simplesmente não sabia. Ultimamente o gosto geral era pelas calças americanas desbotadas e pelas jóias falsas.

           Nada mais era autêntico, nem mesmo a maneira como se sentiam um pelo outro.

           Jordana levantou-se da cama e seguiu para o banheiro, recolhendo as suas roupas no caminho.

           — Por que tanta pressa, querida? — indagou o homem, ainda estendido na cama.

           Ela parou na porta do banheiro e olhou para ele.

           — Meu marido está chegando e tenho de ir para o iate a tempo de mudar de roupa para a festa.

           — Talvez o avião dele atrase um pouco.

           — O avião de Baydr nunca se atrasa.

           Ela entrou no banheiro e fechou a porta. Inclinou-se sobre o bidê e girou as torneiras, controlando a água quente e a fria até o jato único estar na temperatura de que ela gostava. Abrindo a sua bolsa, ela tirou seu sabonete pessoal de uma caixa de plástico, sentando-se no bidê e começando a se lavar.

           — Algum dia eu simplesmente não me vou lavar — pensou ela.

           — Fico imaginando se ele vai descobrir alguma coisa quando me comer.

           Ela rejeitou a idéia, rindo para si mesma. Os homens eram tão obcecados com a idéia do poder irresistível de seus pênis invencíveis que simplesmente não podiam imaginar que qualquer mulher por eles penetrada fizesse outra coisa que não fosse ter um orgasmo depois do outro. Ela podia contar nos dedos das duas mãos o número de vezes em que realmente gozara. Mas de uma coisa tinha certeza: se concedessem prêmios da Academia às mulheres que representassem um orgasmo, ela certamente ganharia um por ano.

           Ela fechou as torneiras e se levantou, enxugando-se enquanto a água escorria pelo cano. Os bidês dos hotéis franceses faziam sempre o mesmo barulho, quer em Paris, quer em Cannes ou nas províncias. Glug, glug, glug, glug, glug... Já enxugada, ela derramou um pouco de perfume na ponta dos dedos e esfregou-os ligeiramente na superfície macia do seu púbis. Depois vestiu-se rapidamente e saiu do banheiro.

           O homem estava sentado na camas inteiramente nu, brincando com o pênis, novamente ereto.

           — Olhe o que aconteceu, querida.

           — Bom proveito.

           — Suces moi. Paz partir comme ça.

           Ela sacudiu a cabeça.

           — Sinto muito, querido, mas já estou atrasada.

           — Talvez mais tarde, na festa, possamos encontrar um lugar sossegado, longe da multidão...

           Ela fitou-o nos olhos.

           — Você não irá à festa. — Mas por que não, querida? Afinal, passei a semana inteira no iate com você.

           — É justamente esse o motivo. Baydr não é nenhum tolo.

           — Então quando tornarei a vê-la? — indagou ele, o pênis já começando a baixar.

           Jordana sacudiu os ombros.

           — Não sei.

           Ela abriu a bolsa e tirou um envelope pequeno, cheio de notas de cem francos. Jogou-o na cama, ao lado dele, dizendo:

           — Isso deve dar para cobrir suas despesas e os gastos com o hotel. Tem mais alguma coisa para sustentá-lo até que consiga fazer outra ligação. A voz do homem estava magoada:

           — Está pensando, querida, que foi tudo por causa de dinheiro?

           Jordana riu.

           — Espero que não. Eu detestaria pensar que sou tão ruim assim.

           — Nunca mais encontrarei outra mulher como você!

           — Basta procurar. Há uma porção como eu por aí. E se precisar de referências, diga-lhes que você é o melhor que eu conheci.

           Ela saiu do quarto antes que ele pudesse responder. Parada no vestíbulo, à espera do elevador, olhou para o relógio. Faltavam quinze minutos para oito horas. Mal teria tempo de chegar ao iate e tomar um banho quente de banheira antes da festa.

          

           Youssef viu logo o conversível branco Corniche de Jordana estacionado diante do Hotel Carlton, assim que saltou do táxi. Olhou ao redor, à procura dela, enquanto pagava o táxi, mas viu apenas o motorista de Jordana, Guy, conversando com outros motoristas. Ele entrou no saguão.

           Era o dia anterior à abertura oficial do festival de cinema e quase todos os cartazes já estavam colocados nos postos e nos stands dos pequenos vendedores de filmes. Youssef parou por um momento para olhá-los.

           O destaque maior era de uma gigantesca faixa que ia de um lado ao outro do saguão: ALEXANDRE SALÁIND APRESENTA: “OS TRÊS MOSQUETEIROS”. Lentamente, ele leu os créditos: Michael York, Oliver Reed, Richard Chamberlain, Raquel Welch, Charlton Heston, Faye Dunaway. Era realmente um elenco de estrelas. Mesmo ele, fá de cinema desde garoto, ficou impressionado. Ele seguiu depois para o balcão da portaria.

           Elie, o chefe da portaria, sorriu-lhe e fez uma pequena reverência.

           — É um prazer vê-lo novamente, Monsieur Ziad.

           Youssef retribuiu o sorriso.

           — É sempre bom estar aqui, Elie.

           — E o que posso fazer pelo senhor?

           — Vim encontrar-me com o Sr. Vincent, Elie. Ele já chegou?

           — Está esperando Monsieur no bar.

           — Obrigado.

           Youssef virou-se para ir até o bar. Deu dois ou três passos, mas logo voltou e indagou:

           — Por falar nisso, viu Madame Al Fay por aqui?

           Sem a menor hesitação, Elie sacudiu a cabeça.

           — Não. Quer que eu tente localizá-la?

           — Não precisa. Não era nada importante.

           Youssef seguiu para o pequeno bar, ao lado dos elevadores.

           Elie pegou o telefone embaixo do balcão e sussurrou um número.

           O ascensorista do elevador que descia atendeu. Desligou um momento depois e disse para Jordana:

           — Monsieur Elie sugere que talvez a senhora queira descer pelo elevador do lado do hotel que dá para a Rue du Canada. Ele mandou um homem ir esperá-la no mezanino.

           Jordana olhou para o ascensorista. O rosto do homem estava inexpressivo e ele já estava parando no mezanino. Ela assentiu.

           — Obrigada.

           Saltou do elevador e atravessou o mezanino até a outra extremidade do hotel. Cumprindo a sua palavra, Elie postara ali um homem para operar o pequeno e antiquado elevador que ainda servia àquela extremidade do prédio, em ocasiões especiais.

           Ela saiu do hotel pelo Carlton Bar, desceu para o terraço e depois subiu o caminho para a entrada principal. Guy, seu motorista, viu-a e rapidamente abriu a porta do Rolls Royce. Antes de descer os degraus, ela virou-se e olhou para o saguão. Além da multidão de pessoas diante do balcão da portaria, ela fitou Elie nos olhos. Fez um gesto com a cabeça, em agradecimento. Sem mudar de expressão, Elie inclinou ligeiramente a cabeça.

           Guy manteve aberta a porta do carro para que ela entrasse. Ela não sabia por que Elie lhe pedira que mudasse o caminho, mas era suficiente que o tivesse feito. Ele era provavelmente o homem mais sábio de toda a Riviera. E também o mais discreto.

           O pequeno bar estava apinhado, mas Michael Vincent ocupava uma mesa distante de todas as outras, entre o balcão e a entrada. Ele levantou-se assim que Youssef entrou e estendeu-lhe a mão. Youssef apertou-a.

           — Desculpe o atraso, mas é que o tráfego na Croisette estava horrível.

           — Não há problema.

           Era surpreendente ouvir a voz suave saindo daquele gigante de muito mais de um metro e noventa. Ele fez um gesto na direção das moças que lhe estavam fazendo companhia na mesa e acrescentou:

           — Como pode ver, eu estava agradavelmente ocupado.

           Youssef sorriu. Ele as conhecia. Eram integrantes do grupo que trouxera de Paris.

           — Suzanne, Monique — murmurou ele, ao sentar-se.

           Elas se levantaram quase que imediatamente. Conheciam os sinais.

           Aquela era uma reunião de negócios. Deviam ir para os seus quartos e preparar-se para a festa.

           O garçom aproximou-se com uma garrafa de Dom Pérignon e segurou-a à frente de Youssef, para que ele a aprovasse. Youssef assentiu.

           O garçom rapidamente abriu a garrafa e ofereceu uma taça para que ele a provasse. Youssef assentiu novamente e o garçom olhou para Michael Vincent.

           — Eu continuarei no scotch — disse o produtor-diretor.

           O garçom terminou de encher a taça de Youssef e afastou-se.

           Ele ergueu-a e disse:

           — Espero que os aposentos escolhidos tenham sido do seu agrado.

           O gigante sorriu.

           — A melhor suíte do hotel e você ainda quer saber se eu gostei? O que eu queria saber foi como o conseguiram. Duas semanas atrás, quando liguei para cá, não havia um só quarto disponível em toda a cidade, durante o festival do cinema. E agora você me chama com um só dia de antecedência e, como num passe de mágica, logo aparece um quarto.

           Youssef sorriu misteriosamente.

           — Digamos que possuímos alguma influência.

           — Pois então bebamos a essa influência.

           O americano terminou o seu uísque e pediu outro.

           — O Sr. Al Fay pediu-me que lhe expressasse os seus agradecimentos por ter-se dado ao trabalho de vir até aqui. Ele está aguardando com ansiedade a reunião.

           — Pois eu também.

           Ele hesitou por um momento, e em seguida acabou dizendo o que lhe ia na mente.

           — Acho quase impossível acreditar.

           — Como assim?

           — Em tudo. Levei mais de cinco anos para levantar o dinheiro necessário para fazer Gandhi e de repente você me aparece com a oferta de dez milhões de dólares e perguntando se eu não estou interessado em transformar a vida de Maomé num filme.

           — Para mim, não há nada de surpreendente nisso. E também não haverá para o senhor, depois que conhecer o Sr. Al Fay. Ele é um homem de grandes inspirações. E, depois que viu os filmes que fez sobre grandes filósofos — Moisés, Jesus Cristo, Gandhi —, era mais do que natural que o procurasse para transformar em filme a maior de todas as histórias.

           O produtor assentiu, ressalvando:

           — Vamos enfrentar muitos problemas.

           — Eu sei. Sempre há problemas.

           Vincent franziu o rosto.

           — Encontraremos dificuldades na distribuição do filme. Há muitos judeus na indústria cinematográfica.

           Youssef sorriu.

           — Vamos preocupar-nos com isso quando chegar a ocasião. Talvez o Sr. Al Fay compre uma das companhias e ele próprio se encarregue da distribuição do filme.

           Vincent tomou outro gole do seu uísque.

           — Esse Sr. Al Fay deve ser um homem e tanto.

           — É o que nós achamos.

           Ele estudou o diretor e ficou imaginando se o homem sentiria a mesma coisa se descobrisse quão cuidadosamente fora investigado antes que Baydr o escolhesse. Tudo o que Vincent fizera desde que era criança estava relatado num dossiê entregue a Baydr. Não se ignorava nenhuma detalhe de sua vida particular. As namoradas, as mulheres, a bebida, até mesmo a participação na supersecreta John Birch Society e em outros grupos sutilmente anti-semitas. Estava tudo no dossiê. Até mesmo uma análise dos motivos pelos quais ele era considerado persona non grata na indústria cinematográfica. Era difícil ocultar o anti-semitismo numa indústria tão sensível quanto a cinematográfica. Fazia cinco anos que Gandhi fora concluído e ainda não fora distribuído no mundo ocidental. E desde então não se concretizara nenhum projeto para Vincent. Nos últimos anos ele vinha vivendo à custa dos amigos e de promessas. E da garrafa de uísque.

           Youssef não lhe disse que Baydr conversara com diversos outros diretores antes de procurá-lo. Todos, porém, haviam recusado a proposta. Não porque discordassem do fato de que a vida do Profeta era um bom assunto para um filme, mas por acharem que a realização naquele momento teria razões mais de propaganda do que filosóficas.

           Todos, contudo, sabiam que não era bem por isso. Era dos judeus que tinham medo; os judeus tinham grande força na indústria cinematográfica e eles temiam hostilizá-los.

           Youssef olhou para o seu relógio e levantou-se.

           — Desculpe, mas tenho que ir. Há alguns assuntos importantes e urgentes que preciso tratar.

           — Claro, claro... Obrigado por ter vindo procurar-me.

           — O prazer foi todo meu.

           Youssef fez uma pausa e ficou olhando demoradamente para Vincent, antes de acrescentar:

           — O iate estará ancorado na baía, diante do hotel. A partir de dez e meia haverá uma frota de lanchas na extremidade do cais de Carlton para o transporte até lá. Depois dessa hora, será bem-vindo a qualquer momento.

           O garçom aproximou-se com a conta. Youssef assinou-a, enquanto Vincent se levantava. Os dois homens apertaram-se as mãos e Youssef deixou o bar no momento em que o americano pedia outro uísque.

           Ao sair do hotel, ele notou que o carro de Jordana já se fora.

           Olhou para o Piaget em seu pulso. Passavam alguns minutos das oito horas. Ele desceu os degraus para ir para o Martínez. Os curiosos já estavam começando a se reunir. Nas próximas semanas ocorreriam ali cenas de loucura, uma multidão se agrupando para contemplar, embasbacada, as celebridades e as estrelas do cinema. Ele atravessou rapidamente a multidão, sem olhar para os lados. Alnda dispunha de meia hora antes de ter que ir para o iate a fim de se encontrar com Baydr.

           O saguão do Martínez não estava tão apinhado quanto o do Carlton.

           Youssef seguiu diretamente para o elevador e subiu para o último andar. Atravessou o corredor até a suíte com terraço que ficava na extremidade do prédio. Apertou o botão e lá dentro soou um carrilhão, suavemente. Ele esperou um momento, depois tornou a apertar o botão impacientemente.

           Pela porta fechada, ouviu uma voz forte e sonora a perguntar:

           — Qui est là?

           — C’est moi. Ouvrez la porte.

           Houve o ruído de uma corrente sendo removida e então a porta foi aberta, revelando a presença de um jovem alto e louro. Ele fitou Youssef com uma expressão truculenta.

           — Você está atrasado. Disse que voltaria uma hora antes.

           — Eu lhe disse que tinha negócios a tratar — explicou Youssef, passando por ele e entrando na suíte. — Como sabe muito bem, tenho que trabalhar para ganhar a vida.

           — Você está mentindo!

           A voz do jovem estava furiosa e ele fechou a porta com um estrondo.

           — Você estava era com Patrick!

           — Já lhe disse que Patrick está em Paris. Eu não quis que ele viesse para cá.

           — Ele está aqui! Eu o vi na praia esta tarde. Ele estava com aquele inglês que é dono das lojas de departamentos.

           Youssef ficou calado, controlando a raiva que fervilhava dentro dele. Dera a Patrick ordens expressas para que permanecesse no hotel e não saísse senão no dia seguinte.

           — O miserável! Pois eu vou dar um jeito nele quando o encontrar.

           Ele foi até a mesa onde fora improvisado um bar. Havia uma garrafa aberta de Dom Pérignon dentro de um balde de gelo. Serviu-se de uma taça e depois virou-se para o rapaz louro, mais moço do que ele.

           — Não quer beber um pouco, querido?

           — Não.

           O rapaz estava evidentemente mal-humorado.

           — Ora, Jacques, não fique assim — disse Youssef em tom conciliador.

           — Sabe muito bem os grandes planos que tenho para você.

           Pela primeira vez desde que ele tinha entrado, Jacques fitou-o.

           — Quando vou encontrá-la?

           — Esta noite, no iate. Já providenciei tudo.

           — Eu vou com você?

           Youssef sacudiu a cabeça.

           — Não. Você nem mesmo me conhece. Se ela suspeitar que somos amigos, você não terá a menor chance. Dei um jeito para que você escolte a Princesa Mara à festa. Ela o apresentará à anfitriã.

           — Mas por que tinha de ser Mara? Você sabe, muito bem que eu não a suporto.

           — Porque ela faz tudo o que eu desejo. Durante a noite, ela levará Jordana para um canto e lhe dirá como você é maravilhoso na cama e que possui um pênis espetacular.

           Jacques fitou-o em dúvida.

           — E isso fará com que a dama se apaixone por mim?

           — Não. Isso será obra sua. Mas Jordana ainda é bastante americana para se impressionar quando uma mulher experiente como Mara o recomendar. Além disso, Jordana é louca por pênis.

           O jovem estava em silêncio quando atravessou o quarto e foi servir-se de uma taça de champanha. Tomou um gole e comentou:

           — Espero que você esteja certo. Mas se ela estiver interessada por outra pessoa?

           — E estava. Soube-o pela tripulação do iate. Mas, se bem conheço Jordana, ela já se livrou dele, porque não quer complicações enquanto o marido estiver por perto.

           — E se ela não gostar de mim? — insistiu Jacques.

           Youssef sorriu e pôs sua taça em cima da mesa. Aproximou-se do rapaz e puxou o cordão que lhe prendia o roupão, abrindo-o.

           Youssef segurou o pênis de Jacques e apertou-o gentilmente, murmurando:

           — Vinte e cinco lindos centímetros... Como ela poderá deixar de gostar dele?

           

           O teletipo começou a bater assim que o avião parou na extremidade oeste da pista, perto dos hangares. Dick Carriage desabotoou o cinto de segurança e foi até a máquina. Esperou que o ruído cessasse, depois arrancou a mensagem e foi sentar-se à escrivaninha, abrindo o livro de código, que sempre levava consigo.

           Baydr olhou-o, e em seguida virou-se para as duas moças. Elas já tinham desabotoado os cintos e estavam-se levantando. Ele levantou-se também e sorriu-lhes:

           — Espero que se divirtam nesta estada na Riviera.

           A moça loura retribuiu o sorriso.

           — Estamos bastante emocionadas. Esta é a nossa primeira viagem até aqui. Só lamentamos o fato de que não mais iremos vê-lo.

           Ele fez um gesto vago.

           — São os negócios, sempre os negócios...

           Ele estava pensando na mensagem. Não podia deixar de ser importante, para o teletipo funcionar no fim-de-semana.

           — Mas, se precisarem de alguma coisa, basta falarem com Carriage. Ele cuidará de tudo.

           — Está certo — disse a morena, estendendo-lhe a mão formalmente. — Muito obrigada pela viagem maravilhosa.

           A loura riu.

           — Foi uma viagem maravilhosa...

           Baydr riu também.

           — Obrigado por terem vindo.

           Raoul aproximou-se.

           — O carro das damas está esperando no portão.

           Baydr ficou observando as moças se afastarem com Raoul e depois virou-se para Carriage. O jovem advogado acabou de decifrar a mensagem, rasgando a folha do bloco onde o fizera e entregando-a a Baydr.

          DEZ MILHÕES LIBRAS ESTERLINAS DEPOSITADOS SUA CONTA BANCO DA SIRIA GENEBRA CONFORME ACORDO. ENTRE CONTATO ALI YASFIR NO HOTEL MIRAMAR CANNES PARA MAlS DETALHES. (ass.) ABU SAAD

           Baydr olhou impassível a mensagem, depois rasgou-a em pedacinhos.

           Carriage fez a mesma coisa com o teletipo e pôs todos os pedacinhos dentro de um envelope. Foi até a escrivaninha e tirou de sob a mesma o que parecia ser uma, cesta de papel comum, com uma tampa na qual havia uma fenda. Abriu a cesta e jogou os papéis lá dentro, fechando-a em seguida e apertando um botão que ha via no lado. O botão ficou vermelho por um momento, logo voltando à cor preta. Ele abriu a cesta e olhou. As mensagens estavam reduzidas a cinzas. Assentiu, satisfeito, e voltou para junto de Baydr.

           — Quando gostaria de ver o Sr. Yasfir?

           — Esta noite. Convide-o para a festa.

           Carriage assentiu e voltou para a sua escrivaninha. Baydr recostou-se na cadeira, pensando. Era sempre assim. Por mais cuidadosamente que ele planejasse os seus feriados, sempre acontecia algo para interferir. Mas aquilo era importante e ele não podia deixar de tratar do assunto. Abu Saad era o agente financeiro do Al-Ikhwah, um dos mais poderosos grupos dissidentes de fedayeen. As somas de dinheiro que passavam por suas mãos eram astronômicas. As contribuições provinham dos xecados e monarquias ricos em petróleo, como o Kuwait, Dubay e Arábia Saudita, ansiosos por manterem intactas as suas imagens no mundo muçulmano. E com a cautela típica do Oriente Médio, parte do dinheiro era desviada para investimento e depósito em lugar seguro, no caso de o movimento vir a fracassar. Provavelmente não mais do que cinqüenta por cento do dinheiro recebido eram de fato canalizados para a luta pela libertação.

           Baydr suspirou. Os caminhos de Alá eram estranhos, A liberdade sempre fora um sonho ilusório para o mundo árabe. Talvez estivesse escrito que assim deveria permanecer para sempre. Certamente havia aqueles, como ele próprio, para quem Alá sorria, mas para os outros a vida era apenas miséria e luta. Os portões do paraíso, no entanto, estavam abertos para todos os que tinham fé. Algum dia eles chegariam àqueles portões. Talvez...

           Ele levantou-se e foi até a escrivaninha, pedindo a Carriage:

           — Pegue o colar no cofre.

           Meteu a caixa recoberta de veludo no bolso do paletó e caminhou para a porta do avião, dizendo a Carriage antes de sair:

           — Espero-o no iate às onze horas.

           — Sim, senhor.

           Jabir estava esperando-o ao pé da escada.

           — O carro já está pronto para levá-lo à lancha, amo. O grande Rol Royce preto estava na pista, ao lado do avião.

           Rauol estava parado ao lado do carro, junto de um homem com o uniforme do serviço alfandegário francês. O homem tocou no quepe numa semi-saudação.

           — A vez-vous quelque chose pour déclarer, monsieur?

           Baydr sacudiu a cabeça.

           — Não.

           — Merci, monsieur.

           Baydr entrou no carro. Jabir fechou a porta e foi sentar-se ao lado do motorista. O carro partiu, em direção à extremidade oeste da pista.

           A San Marco estava ali, atracada a um velho cais ameaçando ruir. Dois marinheiros e o imediato do iate estavam à sua espera. O imediato saudou-o quando saltou do cano.

           — É um prazer vê-lo de volta, Sr. Al Fay.

           Baydr sorriu.

           — Obrigado, John.

           Um marinheiro estendeu-lhe a mão e Baydr segurou-a para saltar para a lancha. Jabir seguiu-o. Baydr foi postar-se atrás dos controles.

           O imediato apresentou-lhe um impermeável amarelo e um quepe.

           — Seria bom usar isto aqui, senhor. Está ventando bastante e esta lancha sempre levanta uma boa quantidade de espuma.

           Em silêncio, Baydr estendeu os braços e o imediato ajudou-o a vestir o impermeável. Jabir pegou outro e vestiu-o, o mesmo fazendo os marinheiros. Baydr virou-se para os controles e apertou o botão de partida. O motor começou a funcionar com um rugido que povoou a noite. Baydr olhou para trás e ordenou:

           — Desatraquem.

           Um marinheiro assentiu e puxou o cabo de atracação. A corda pulou da estaca como uma cobra. O marinheiro do cais empurrou a lancha do cais e começou a enrolar a corda a seus pés.

           — Tudo em ordem, senhor.

           Baydr empurrou a embreagem e a lancha começou a adiantar-se lentamente. Baydr foi apertando aos poucos o acelerador, levando a lancha para mar aberto. Sem o menor esforço, a lancha ia cortando as águas. Ele sentou-se e amarrou ao colo o cinto de segurança, dizendo aos outros:

           — Amarrem-se também, pois vou dar o máximo.

           Por trás dele houve o barulho de intensa atividade e logo depois a voz do imediato gritou-lhe, por cima do rugido do motor:

           — Tudo pronto, senhor.

           Baydr empurrou o acelerador ao máximo; a lancha pareceu sair da água num salto súbito. A espuma levantada pela proa formava um arco acima deles. O vento batia no rosto de Baydr e ele expôs os dentes num sorriso. Um olhar para o velocímetro informou-lhe que já estavam desenvolvendo uma velocidade de 40 nós. Ele quase riu, ao virar gentilmente o volante da lancha, fazendo-a seguir em direção a Cannes. A força de 320 cavalos em suas mãos, o vento e a água batendo-lhe no rosto. . . De certa forma, aquilo era até melhor do que sexo.

           O telefone começou a tocar no apartamento de Ali Yasfir. O atarracado libanês atendeu.

           — Yasfir.

           A voz americana estalou em seu ouvido. Ele escutou por um momento, depois assentiu.

           — Claro. O prazer será todo meu. Estou aguardando ansiosamente o encontro com Sua Excelência.

           Ele desligou o telefone e voltou bamboleando para junto de seus amigos, anunciando, com satisfação.

           — Está tudo resolvido. Vamo-nos encontrar esta noite, no iate.

           — Isso é ótimo para você — disse o francês magro e moreno, sentado no sofá. — Mas não resolve ainda o nosso problema.

           — Pierre tem razão — observou o americano com uma camisa toda colorida. — Meus contatos na América estão com um problema de grandes proporções.

           Ali Yasfir virou-se para ele.

           — Nós compreendemos e estamos fazendo todo o possível para resolvê-lo.

           — Mas não estão fazendo com rapidez suficiente. Vamos ter que fazer negócios com outras fontes.

           — Mas que diabo — disse Pierre. — E logo agora que a fábrica de processamento está funcionando tão bem!

           — E também não houve nenhuma falta de matéria-prima — comentou Ali. — Os plantadores têm correspondido, a colheita deste ano foi muito boa. E não tem havido a menor interferência com as entregas nas fábricas. Tenho a impressão, Tony, de que a falha é em seu próprio sistema de entrega. Os últimos dois carregamentos grandes que despachamos da França foram interceptados nos Estados Unidos.

           O rosto do americano se endureceu.

           — As informações partiram daqui. De outra forma, os federais jamais conseguiriam apreender os carregamentos. Vamos ter que descobrir outra rota de entrada no país.

           — Podia ser através da América do Sul — sugeriu o francês.

           — Não vai adiantar nada. Fizemos isso da última vez e o carregamento foi também apreendido. A origem do problema está aqui.

           Ali olhou para o francês, comentando:

           — Parece que a falha está em sua organização, Pierre.

           — Isso é impossível. Verificamos minuciosamente todos os homens que trabalham pára nós.

           — Talvez não tenhamos alternativa — disse Ali. — Não podemos continuar a financiar sua operação, se a mercadoria não chega ao mercado.

           O francês ficou em silêncio por um momento, pensando.

           — Não vamos ser precipitados. Esta semana vai partir um carregamento.

           Vamos esperar para ver o que acontece.

           Ali Yasfir olhou para o americano. O americano assentiu. Ali virou-se para o francês.

           — D’accord, Pierre. Vamos esperar para ver o que acontece.

           Depois que o francês partiu, Tony indagou a Ali:

           — O que você está pensando?

           Ali sacudiu os ombros.

           — Quem sabe o que pensar numa situação dessas?

           — Ele pode estar-nos traindo. A mercadoria continua a entrar nos Estados Unidos pela costa do Pacífico. Estamos pagando grandes ágios às quadrilhas de lá para termos o mínimo de mercadoria suficiente para continuarmos operando.

           — A mercadoria deles vem da Indochina?

           Tony assentiu.

           — E é bem mais barata do que a nossa.

           Ali sacudiu a cabeça.

           — Mas isso é facilmente explicável. Nossos custos também seriam menores, se fôssemos financiados pela CIA.

           — Isto é apenas uma parte do problema. Atualmente, lá nos Estados Unidos, o produto de maior demanda é a coca. E é justamente nisso que estamos fracos. Temos procurado soluções para isso. Fizemos alguns contatos em Bogotá e eu mesmo irei até lá na próxima semana.

           — Os rapazes ficarão satisfeitos ao saberem disso. Preferimos continuar negociando com você, a sair à procura de outros associados.

           Ali levantou-sé. A reunião estava terminada.

           — Vamos continuar a fazer negócios junto por um longo tempo.

           Ele acompanhou o americano até a porta.

           — Vamo-nos encontrar em Nova York, no início do próximo mês.

           — Espero que, até lá, as coisas tenham melhorado.

           — Eu não tenho a menor dúvida quanto a isso.

           Ali fechou a porta depois que o homem saiu, passou a chave e prendeu a corrente de segurança. Foi diretamente para o banheiro, onde lavou as mãos meticulosamente. Depois de enxugá-las, foi até a porta do quarto e bateu gentilmente.

           A porta abriu-se, revelando uma jovem parada ali. A pele morena, os olhos negros e o longos cabelos pretos não condiziam com os trajes ao melhor estilo St. Tropez, calça americana toda manchada e uma blusa simples.

           — A reunião já terminou?

           Ali assentiu.

           — Gostaria de tomar algo gelado?

           — Tem uma Coca?

           — Claro.

           Ali foi até a cozinha e tirou uma Coca-Cola da geladeira. Despejou-a num copo e entregou à moça, que bebeu sofregamente.

           — Quando vamos partir? — indagou ela.

           — Estamos com passagens reservadas no avião de amanhã para Beirute. Mas talvez haja um pequeno atraso.

           Ela fitou-o, interrogadora. Os olhos de Ali se encontraram com os dela.

           — Tenho uma reunião esta noite com o seu pai.

           Ela ficou surpresa e colocou o copo sobre a mesa a seu lado.

           — Não vai entregar-me, não é? Eles prometeram-me que papai de nada saberia. De outra forma, eu não teria deixado a escola na Suíça.

           — A reunião nada tem a ver com você. Seu pai não desconfia de coisa alguma. É que nós temos alguns negócios com ele.

           — Que espécie de negócios?

           O tom de voz da moça era desconfiado.

           — Seu pai é quem manipula os investimentos para nós. Ele tem acesso a áreas onde não poderíamos penetrar de outra forma. Ele pode também comprar os suprimentos e materiais que não nos vendem diretamente.

           — Ele sabe que é para a causa?

           — Sabe.

           Uma expressão estranha surgiu no rosto da moça e Ali apressou-se em dizer:

           — Ele é um simpatizante.

           — Não confio nele! Meu pai não simpatia com nada, a não ser dinheiro e poder. O sofrimento do povo e a justiça nada significam para ele.

           — Seu pai é árabe!

           — Não é, não! Ele é mais ocidental do que árabe. Se não fosse, não se teria divorciado da minha mãe para casar-se com aquela mulher. O mesmo acontece com os seus negócios. Quanto tempo ele passa com o seu próprio povo, em sua própria terra? Duas semanas por ano? Eu não ficaria surpresa se descobrisse que ele negocia até mesmo com os israelenses. Ele tem muitos amigos no Ocidente que são judeus.

           — À sua própria maneira, seu pai tem feito muito pela causa.

           Ali, de repente, via-se na situação de defender um homem que nem mesmo conhecia.

           — Nossa batalha não pode ser ganha apenas pelos soldados.

           — Nossa batalha será ganha por aqueles que estão dispostos a derramar seu sangue e a dar as suas vidas, jamais por homens como meu pai, cujo único interesse está nos lucros que pode ganhar.

           Furiosa, ela recuou para dentro do quarto e bateu a porta violentamente.

           Ali bateu novamente na porta e, gentilmente, indagou:

           — Leila, gostaria que eu pedisse alguma coisa para jantar?

           — Vá-se embora e deixe-me em paz! Não estou com fome!

           Do interior do quarto veio o som fraco de soluços. Ali continuou parado à porta por um momento, indeciso, depois foi para o seu quarto, a fim de vestir-se para o jantar. Os jovens estavam sempre inebriados de ideais. Para eles, era tudo branco ou preto. Não existiam as sombras intermediárias. Era bom ou era ruim.

           Mas a sua função não era emitir julgamento. As causas não se conduzem apenas com ideais. Os jovens nunca sabem que é preciso dinheiro para se fazer com que as coisas aconteçam. Dinheiro para comprar-lhes uniformes, alimentá-los, dar-lhes armas, munições e treinamento. A guerra moderna, mesmo a luta de guerrilhas, era bastante dispendiosa. E aquele era o verdadeiro motivo de terem gastado tanto tempo a doutriná-la. Haviam usado os ressentimentos que ela tinha contra o pai, até que chegasse ao ponto de comprometer-se fisicamente com os fedayeen. Não era apenas pelo que ela podia fazer.

           Muitas outras jovens poderiam ter uma atuação tão boa quanto ela.

           Mas nenhuma delas tinha um pai que figurava entre os homens mais ricos do mundo. Ali deixou que um suspiro escapasse de seus lábios. Depois de amanhã, ela estaria num campo de treinamento nas montanhas do Líbano. Depois que ela lá estivesse, sob o controle deles, talvez Baydr Al Fay se mostrasse mais dócil a alguns dos planos que ele já rejeitara. Ela seria muito melhor que uma arma apontada para a cabeça dele.

           

           — Sua ligação para os Estados Unidos já está feita, Sr. Carriage

           — informou em inglês a telefonista do hotel.

           — Obrigado.

           Houve um zunido e depois uma série de cliques, surgindo em seguida uma voz.

           — Alô — disse Dick.

           Houve mais cliques e depois o som de uma campainha.

           — Alô, alô —gritou ele.

           Subitamente a ligação ficou perfeita e ele ouviu a voz da esposa.

           — Alô, Margery.

           — Richard? — murmurou ela, desconfiada.

           — Claro que sou eu, Richard — disse ele, estranhamente aborrecido.

           — Quem estava pensando que fosse?

           — É que você parece estar tão longe...

           — E estou bastante longe. Estou em Cannes.

           — E o que está fazendo aí? Pensei que estivesse trabalhando.

           — Meu Deus, Margery, estou trabalhando! Eu lhe disse que o chefe estava planejando passar fim-de-semana aqui, para o aniversário de sua esposa.

           — Aniversário de quem?

           — De sua esposa. . . oh, esqueça, Margery! Como estão as crianças?

           — Estão ótimas. Somente Timmy é que está um pouco resfriado e por isso não õ deixei ir hoje à escola. Quando você vai voltar?

           — Não sei. O chefe tem uma porção de coisas a fazer.

           — Mas você disse que desta vez seriam apenas três semanas!

           — As coisas se acumularam. Não é culpa minha.

           — Estávamos muito melhor quando você trabalhava para a Aramco. Pelo menos você passava todas as noites em casa.

           — Também ganhava muito menos dinheiro. Apenas doze mil dólares por ano, ao invés dos quarenta mil que ganho agora.

           — Mas é que eu sinto muito a sua falta...

           Havia a ameaça de lágrimas na voz dela. Dick passou a falar gentilmente.

           — Eu também sinto saudades suas, querida. E também das crianças.

           — Richard...

           — O que é, querida?

           — Você está bem?

           — Estou ótimo.

           — Fico o tempo todo preocupada. Tenho a impressão de que você está sempre voando, que nunca pára em lugar nenhum o tempo suficiente para descansar.

           — Já aprendi a dormir num, avião — mentiu ele. — Estou muito bem.

           Com a mão livre, ele pegou um cigarro e acendeu-o.

           — De qualquer forma, ficaremos aqui até quarta-feira. Poderei pôr o sono em dia.

           — Fico feliz em saber disso. Vai voltar em breve para casa?

           — O mais breve possível.

           — Eu o amo, Richard.

           — Eu também a amo. Dê um beijo grande nas crianças por mim.

           — Darei, meu amor. Adeus.

           — Adeus querida.

           Ele desligou o telefone e deu uma tragada longa no cigarro. Olhou ao redor, contemplando o quarto do hotel. Parecia estranhamente vazio e estéril. Os quartos de hotéis eram iguais em toda parte do mundo. Eram projetados de forma a que os hóspedes não se sentissem em casa.

           Ele desejou ser mais parecido com Baydr. Seu chefe parecia sentir-se à vontade em qualquer lugar onde chegasse. Os quartos estranhos e os lugares estranhos não pareciam exercer o menor efeito sobre ele. Ele tinha, é verdade, suas próprias casas ou apartamentos na maioria das grandes cidades. Nova York, Los Angeles, São Francisco, Paris, Londres, Genebra, Beirute, Teerã. Mas, mesmo quando ele ficava num hotel, tinha um jeito todo especial de mudar o quarto para adaptá-lo ao seu estilo.

           Talvez fosse porque ele passara toda a sua vida em terras estrangeiras.

           Quando menino, o pai mandara-o para uma escola na Inglaterra.

           Depois fora cursar a universidade nos Estados Unidos, fazendo primeiro a Faculdade de Administração de Harvard e depois Stanford. De forma curiosa, sua vida fora planejada por ele desde o nascimento. Primo do Emir reinante e seu único descendente masculino, era natural que lhe fossem confiados todos os negócios da família.

           Com a ampliação substancial dos arrendamentos de petróleo, o dinheiro começara a fluir para os cofres da família em quantidades consideráveis. Os investimentos tinham sido entregues a Baydr, porque eles não conseguiam ter confiança nos ocidentais. Além das diferenças básicas de filosofia e religião, havia uma longa história de opressão colonial. Nascendo rico, Baydr tornara-se ainda mais rico.

           Somente em comissões, seus rendimentos ultrapassavam cinco milhões de dólares por ano. Ele controlava um fundo internacional de investimentos de mais de quinhentos milhões de dólares. E o mais curioso é que ele conduzia os seus negócios sem uma organização centralizada. Em cada país havia um pequeno grupo de empregados reportando-se diretamente a ele. No final, era ele quem tomava todas as decisões. Era o único que sabia tudo o que estava acontecendo.

           Agora, depois de dois anos, Dick estava começando a ter uma visão mais ampla da operação, mas ainda descobria a cada dia um novo desenvolvimento, que o tomava completamente de surpresa.

           A primeira vez que constatara que Baydr poderia estar envolvido com a A1-Ikhwah fora ao ler o telex enviado por Abu Saad, o representante financeiro do grupo. Ele sempre pensara que Baydr, em seu conservadorismo, repudiasse a ação dos fedayeen, que julgava mais nociva que útil à causa árabe. Contudo, parecia que Baydr estava fazendo negócios com eles. Carriage era inteligente o bastante para saber que devia haver uma razão para isso. Algo estava acontecendo e somente Baydr tinha pleno conhecimento do que era. Ele procurou imaginar o que poderia ser. Mas não adiantava, jamais iria adivinhar. Com o tempo, porém, acabaria descobrindo. Quando Baydr estivesse disposto a revelar-lhe.

           Carriage olhou para o seu relógio de pulso. Eram quase dez horas.

           Estava na hora de vestir-se e seguir para o iate. Baydr gostava de que ele estivesse por perto quando havia negócios em andamento.

           Baydr parou na porta que ligava os dois camarotes. Ficou em pé ali por um momento, pensando, depois voltou à sua cômoda e pegou a caixa da jóia recoberta de veludo. Seus chinelos não faziam o menor ruído no tapete grosso do chão. O único barulho que se ouvia era o farfalhar de sua jellaba de algodão ao atravessar o quarto.

           O camarote dela estava imerso na escuridão e a única luz era a que entrava pela porta agora aberta. Ele viu-lhe o vulto oculto sob os lençóis. Suavemente, fechou a porta e foi até a cama, onde se sentou. Ela não se mexeu. Ele então falou:

           — Jordana. . .

           Não houve o menor indício de que ela o tivesse ouvido.

           — Você está acordada?

           Não houve resposta. Ele inclinou-se para a frente e colocou a caixa da jóia em cima do travesseiro, ao lado da cabeça dela. Depois levantou-se e começou a recuar para a porta. Ao segurar a maçaneta, as luzes subitamente se acenderam. Ele piscou e olhou para trás.

           Ela estava sentada na cama, os longos cabelos louros a lhe caírem pelos ombros brancos e pelos seios cheios e com os bicos rosados.

           Ela não disse uma palavra.

           — Pensei que você estivesse dormindo, Jordana.

           — E estava. Fez boa viagem?

           — Fiz. Os meninos vão ficar contentes em vê-lo. Poderá passar algum tempo com eles desta vez?

           — Estou pretendendo ficar aqui até quarta-feira. Talvez amanhã possamos levá-los para Capri e passar algum tempo lá.

           — Eles vão gostar.

           Ela afastou as cobertas e saiu da cama. Seu roupão estava sobre uma cadeira e ela pegou-o. Pelo espelho na outra extremidade do camarote ela viu que Baydr a contemplava.

           — Tenho que vestir-me para a festa — disse ela, virando-se para ele enquanto se enfiava no roupão.

           Ele não respondeu.

           — É bom você ir vestir-se também.

           — Eu já vou.

           Ele ficou observando-a entrar no banheiro e fechar a porta, depois olhou para a cama. A caixa da jóia ainda estava em cima do travesseiro.

           Ela nem mesmo a notara.

           Ele foi até a cama e pegou-a, voltando depois ao seu próprio camarote. Apertou a campainha, chamando por Jabir. O criado apareceu no mesmo instante, como num passe de mágica.

           — Sim, amo?

           Baydr estendeu-lhe a caixa.

           — Mande o capitão guardar isto no cofre. Vamos devolver pela manhã.

           — Sim, amo — respondeu Jabir, guardando a caixa no bolso do paletó. — Preparei o dinner-jacket azul, de shantung, para esta noite. Está bem assim?

           Baydr assentiu.

           — Está ótimo.

           — Obrigado, amo.

           Jabir fez uma reverência e saiu do camarote. Baydr ficou olhando para a porta que ele fechara atrás de si. Era impossível. Ela não podia ter deixado de perceber a caixa da jóia no travesseiro, a seu lado.

           Ela decidira ignorá-la.

           Abruptamente ele se virou e voltou para o camarote da esposa.

           Ela estava sentada à penteadeira, mirando-se no espelho. Viu a imagem refletida de Baydr e virou-se.

           A palma aberta dele atingiu-a em pleno rosto. Ela caiu da cadeira, o braço derrubando os perfumes e os potes variados de cosméticos que estavam na penteadeira. Fitou-o, os olhos arregalados, mais de surpresa do que de medo. Tocou o rosto e quase pôde sentir a marca da mão dele. Não fez o menor movimento para levantar-se.

           — Foi uma estupidez da sua parte — murmurou ela, em tom quase impessoal. — Agora eu não poderei comparecer à minha própria festa de aniversário.

           — Você irá à festa de qualquer maneira. Mesmo que tenha de usar um véu, como todas as boas mulheres muçulmanas.

           Os olhos dela o acompanharam até a porta, onde ele parou e virou-se.

           — Feliz aniversário — disse ele, fechando a porta em seguida.

           Dick estava parado junto ao bar, olhando para o seu empregador no deck. Baydr estava no meio de um grupo formado por Youssef e diversas outras pessoas. À sua maneira atenta e delicada, ele ouvia uma das intermináveis histórias de Youssef. Dick olhou para o relógio. Era quase uma hora da madrugada. Se Baydr estava perturbado pelo fato de Jordana ainda não ter aparecido, não o deixava transparecer.

           A música saía pelos alto-falantes instalados no dossel sobre o deck. Vários casais estavam dançando, seus corpos fluidos à luz dos refletores espalhados pelo iate especialmente para a festa. Outros casais estavam sentados em banquetas junto à amurada e em mesinhas na pista de dança. O buffet fora posto no deck principal, embaixo, mas Baydr ainda não dera o sinal para o jantar.

           Ali Yasfir aproximou-se dele, O rosto do atarracado libanês estava brilhando de suor, apesar do frio da noite.

           — É um belo barco. Qual o tamanho dele?

           — Tem 55 metros — informou Dick.

           — Parece maior.

           Yasfir olhou para Baydr e comentou:

           — Nosso anfitrião parece estar-se divertindo bastante.

           Carriage sorriu.

           — Ele sempre se diverte. Não conheço nenhum outro homem que saiba combinar tão bem quanto ele os negócios e o prazer.

           — Aparentemente o prazer vem primeiro.

           A voz de Yasfir era ligeiramente desaprovadora. Carriage disse-lhe em tom delicado mas frio:

           — Não podemos esquecer que hoje é o aniversário da esposa e que ele não esperava tratar de negócios nesta viagem.

           Yasfir aceitou a censura implícita sem o menor comentário.

           — Por falar nisso, ainda não a vi.

           Carriage permitiu-se um sorriso.

           — É o aniversário dela e sabe como são as mulheres. Deve estar planejando uma entrada em grande estilo.

           Yasfir assentiu, solenemente.

           — As mulheres ocidentais são muito diferentes das árabes. Elas tomam liberdades que nossas mulheres jamais sonhariam. Minha esposa...

           Sua voz se apagou enquanto ele olhava para a escada que vinha do deck inferior. Carriage seguiu-lhe o olhar.

           Jordana acabara de fazer o seu aparecimento. Todos os sons de conversa se extinguiram. Somente a música continuou a sair pelos alto-falantes, mudando bruscamente para os acordes selvagens do “Misirlou”.

           Uma luz parecia envolver Jordana enquanto ela seguia para o centro da pista de danças. Ela estava vestida como uma dançarina oriental.

           Um brassière de ouro lhe cobria os selos. Abaixo dele ela estava despida, até a cinta cheia de jóias de onde pendiam as faixas multicoloridas de chiffon que constituíam a sua saia. Ela usava um diadema na cabeça e os cabelos louros caíam-lhe pelos ombros. Um véu de seda cobria-lhe o rosto, de maneira que apenas os seus olhos sedutores estavam visíveis. Ela ergueu as mãos acima da cabeça e assim ficou por um momento.

           Carriage ouviu o libanês prender a respiração. Jordana nunca parecera tão bonita. Cada linha do seu magnífico corpo estava exposta.

           Lentamente, Jordana começou a se remexer aos compassos da música.

           Primeiro os címbalos em suas mãos pegaram o ritmo. Quando as batidas se tornaram mais pronunciadas, ela começou a dançar.

           Carriage já presenciara as exibições de muitas dançarinas de ventre.

           Ele provinha de uma família do Oriente Médio e conhecia a dança do ventre desde menino. Mas jamais vira uma exibição como aquela.

           Era o auge da sensualidade. Cada movimento de Jordana trazia-lhe recordações das muitas mulheres que conhecera, todas concentradas no erotismo da sua dança. Deliberadamente e com grande esforço, ele desviou os olhos de Jordana e olhou para o deck.

           Todos estavam sentindo a mesma coisa, homens e mulheres igualmente.

           Suas paixões e desejos estavam estampados na maneira como olhavam para Jordana, enquanto ela prosseguia na dança, aproximando-se do momento culminante. Todos, exceto Baydr.

           Ele estava imóvel, em silêncio, observando cada movimento da esposa. Mas seus olhos estavam distantes, o rosto impassível. Sua expressão não se alterou nem mesmo quando Jordana se aproximou dele e se ajoelhou à sua frente, fazendo os clássicos movimentos de oferecimento. A música atingiu o clímax e Jordana, de joelhos, desabou em frente a ele, a cabeça encostando nos pés de Baydr.

           Por um momento houve silêncio, depois todos prorromperam em aplausos. Havia gritos de bravo, misturados com o árabe ahsanti.

           Jordana continuou imóvel.

           Depois de um momento, Baydr abaixou-se e, segurando-lhe a mão, fê-la levantar-se. Todos ainda estavam aplaudindo quando ele se virou para os convidados, erguendo a mão para que fizessem silêncio.

           Os aplausos cessaram instantaneamente.

           — Em nome da minha esposa e no meu próprio, agradeço a presença de todos neste momento de alegria.

           Houve mais aplausos e gritos de feliz aniversário. Ele esperou até que se fizesse novamente o silêncio.

           — Agora, não há nada mais que possamos dizer, a não ser... o jantar está servido.

           Alnda segurando a mão de Jordana, ele seguiu para a escada que levava ao deck inferior e todos o seguiram. Novamente os murmúrios de conversas encheram a noite.

          

           Camareiros uniformizados estavam postados junto à mesa do buffet para ajudar os convidados. A mesa achava-se repleta de comida — rosbife, presuntos, perus e uma gigantesca lagosta, apanhada naquele mesmo dia no Mediterrâneo. O prato principal era um imenso peixe esculpido em gelo, sobre o qual estava uma tigela de cristal contendo cinco quilos de caviar Malossol.

           Muitas mesas já tinham sido ocupadas pelos convidados famintos quando Carriage viu Baydr pedir licença e atravessar o salão até a porta. Ele virou-se e olhou para Carriage, fazendo um gesto com a cabeça na direção de Yasfir, que estava esperando na fila para servir-se. Depois Baydr virou-se e passou pela porta, sem olhar para trás.

           Carriage aproximou-se imediatamente do libanês.

           — O Sr. Al Fay está à sua espera no momento que o senhor julgar mais conveniente.

           Yasfir olhou para a mesa do buffet e depois para Carriage. Seu estômago começara a murmurar à vista da comida. Relutantemente, ele pôs em cima da mesa o prato que estava segurando. Dick pegou o prato.

           — Mandarei um camareiro ir levar-lhe o jantar.

           — Obrigado.

           Dick entregou o prato a um camareiro e instruiu-o para que levasse o jantar ao Sr. Yasfir no estúdio, virando-se em seguida.

           — Se quiser ter a gentileza de acompanhar-me...

           Yasfir acompanhou-o pelo salão e pelo corredor que levava aos camarotes. No meio do barco, Carriage parou diante de uma porta de mogno e bateu. A voz de Baydr veio lá de dentro:

           — Entre.

           Carriage abriu a porta e ficou de lado para que Yasfir pudesse entrar. Ele mesmo não entrou, indagando a Baydr:

           — Deseja mais alguma coisa, senhor?

           — Ligue o seu bip. Posso precisar de você mais tarde.

           — Pois não, senhor.

           Um camareiro chegou neste momento com o prato de Yasfir e Carriage determinou-lhe que o levasse para dentro do estúdio. Depois que o camareiro saiu, ele fechou a porta, ouvindo-a ser trancada ao afastar-se pelo corredor.

           — Peço desculpas pelo incômodo — disse Baydr a Yasfir.

           O libanês já estava sentado, a comer. Entre um punhado e outro de caviar, ele respondeu:

           — Não há problema.

           Uma gota preta escorreu-lhe pelo canto da boca e ele limpou-a delicadamente com o guardanapo.

           Baydr foi até a escrivaninha e tirou uma pasta da gaveta do meio. Colocou-a em cima da mesa, ao lado do prato de Yasfir.

           — De acordo com as minhas conversações com os seus superiores, preparei uma relação de investimentos, abrangendo ações blue chips e bens imóveis. Calculamos, em termos conservadores, que tais investimentos deverão proporcionar um resultado de doze por cento ao ano, ao longo de um período de dez anos. Isso inclui um índice de crescimento do capital investido de seis por cento ao ano, com igual quantia de dividendos em dinheiro. Significa que, ao fim do período de dez anos, teremos recebido um retorno em espécie acima de quarenta por cento ou dez milhões de libras esterlinas, enquanto o principal terá dobrado de valor.

           — Isso é ótimo — disse Yasfir, a boca ocupada com um pedaço de galinha.

           — Tudo o que preciso agora para pôr o plano em execução é da aprovação de seus superiores.

           Yasfir não fez o menor gesto para olhar a pasta. Pôs o osso de galinha no prato e estalou os lábios, a indicar que apreciara devidamente a comida.

           — Posso lavar as mãos?

           Baydr assentiu, conduzindo o libanês a um pequeno banheiro.

           Quando ele voltou, Baydr estava sentado atrás da escrivaninha. Deixando a pasta na mesa, ao lado do seu prato vazio, ele foi sentar-se na cadeira em frente à escrivaninha. Baydr ficou esperando, polidamente, que ele falasse.

           — O homem põe e Deus dispõe — disse Yasfir.

           Baydr continuou em silêncio.

           — As circunstâncias exigem uma alteração em nossos planos — informou Yasfir, — Infelizmente não poderemos prosseguir no plano de investimento.

           O rosto de Baydr permaneceu impassível e ele nada disse.

           — Outros compromissos foram feito para os recursos.

           — Compreendo — disse Baydr calmamente. — Vou providenciar para que os dez milhões de libras lhes sejam devolvidas imediatamente.

           — Isso não será necessário. Não vemos razão para que o senhor não possa cuidar do assunto por nós. Com a sua comissão habitual, é claro.

           Baydr assentiu, em silêncio.

           — Como sabe, Israel está-se tornando mais poderoso a cada dia. E mais opressiva também. O sofrimento do nosso povo sob o domínio deles continua a aumentar. Ele grita por seus irmãos, querendo ajuda. O tempo é cada vez mais curto. Em breve teremos que entrar em ação, ou estaremos todos perdidos para sempre.

           O libanês fez uma pausa para respirar.

           — Fizemos alguns acordos com a Société Anonyme Matériel Militaire para o fornecimento de suprimentos no valor de seis milhões de libras esterlinas. Por causa da confiança que depositamos no senhor, resolvemos aprová-lo como o nosso agente nesta operação. Pagando-lhe, é claro, a sua comissão usual de dez por cento sobre o gasto.

           Baydr continuou cajado.

           — Quanto à sobra de três milhões e quatrocentas mil libras, reservamos um milhão para investimento em fazendas colombianas. Todas elas plantações de café, evidentemente.

           — Entendo — disse Baydr finalmente, num tom de voz que indicava que ambos sabiam que não era bem assim. — Alnda sobrarão dois milhões e trezentas mil libras.

           Yasfir sorriu. Estava satisfeito. Sabia que, uma vez depositado o dinheiro na conta de Baydr, não haveria maiores dificuldades em assegurar sua ajuda. Não importava quão rico ele fosse, sempre haveria de querer mais.

           — Alnda não fizemos planos para o restante da quantia. Pensamos que o senhor poderia preparar um esquema de investimento para ela. Nós lhe daríamos os números de certas contas na Suíça e nas Bahamas nas quais poderiam ser creditados os resultados.

           — Entendo.

           — Também receberia, é claro, a sua comissão de dez por cento sobre a quantia restante. Com isso, o senhor receberia um milhão de libras, apenas para que as operações sejam feitas por seu intermédio.

           Baydr fitou-o demoradamente, o rosto impassível. Aquela era a fraqueza do mundo árabe. A corrupção e o suborno haviam-se tornado parte integrante dos negócios. De dez milhões de libras, apenas seis milhões seriam usadas em beneficio do povo. Um benefício, aliás, bastante duvidoso, pois o povo precisava muito mais de alimentos e educação do que de armas.

           E certamente não precisava sacrificar-se para enriquecer seus líderes.

           O libanês encarou o seu silêncio como assentimento. Levantou-se, satisfeito.

           — Posso então informar aos meus superiores que o senhor concordou em tratar do assunto para eles.

           —Não.

           Yasfir abriu a boca, surpreso, repetindo.

           — Não...

           Baydr levantou-se também, encarando...

           — O dinheiro será devolvido assim que os bancos abrirem, na segunda-feira de manhã. Quero que transmita à sua gente o meu pesar por não poder servi-los neste caso, mas não me sinto capacitado a desempenhar as funções que desejam de mim. Tenho certeza de que eles encontrarão outros mais capacitados.

           — Está escrito que uma decisão tomada às pressas é quase sempre lamentada.

           — E está escrito também que um homem honesto vive a sua vida sem arrependimentos.

           Baydr apertos um botão no painel de comunicação do relógio digital que tinha sobre a mesa, indo depois para a porta.

           — Sr. Al Fay...

           Baydr virou-se para Yasfir.

           — Sim?

           — Haverá guerra antes do inverno — disse o libanês, falando em árabe pela primeira vez. — E, quando terminar, estaremos no controle do Oriente Médio. Israel não mais existirá, porque obrigaremos o mundo a ficar de joelhos. A velha ordem está acabando e um novo poder emana do povo. Se se juntar a nós agora, estará entre os vitoriosos.

           Baydr não respondeu e Yasfir acrescentou:

           — As areias do deserto ficarão vermelhas com o sangue dos nossos inimigos.

           — E com o nosso também — respondeu Baydr. — Quando a guerra tiver acabado, nada terá mudado. Só umas poucas centenas de metros ali, outras poucas centenas de metros mais além. Somos apenas peões nas mãos das grandes potências. A Rússia e a América não se podem dar ao luxo de permitir que qualquer dos dois lados ganhe.

           — Mas eles terão que nos ouvir. Controlamos o seu suprimento de petróleo. Se o cortarmos, eles ficarão de joelhos.

           — Só até um certo ponto. Depois eles nos obrigarão a ficar de joelhos.

           Houve uma batida na porta. Baydr destrancou-a e abriu-a, dizendo a Carriage:

           — Por favor, acompanhe o Sr. Yasfir de volta à festa.

           Ele virou-se em seguida para o libanês:

           — Se houver mais alguma coisa que possa tornar a sua visita mais agradável, estamos à sua disposição.

           Yasfir encarou-o. A amargura do seu desapontamento formava-lhe um bolo na garganta. Apesar disso, forçou-se um sorriso. As coisas seriam diferentes quando Baydr descobrisse que sua filha estava com eles.

           — Khatrak. Com sua permissão?

           — Vá em paz — disse Baydr formalmente, em árabe.

           Ele fechou a porta e voltou à mesa. Pegou a pasta, examinou-a um momento e depois jogou-a numa cesta de papel. Aquilo era apenas um estratagema para envolvê-lo. Ele sabia agora que eles jamais haviam tencionado efetuar os investimentos, Sabia também que eles não desistiriam. Não descansariam enquanto não arrastassem o mundo inteiro para o seu lado. Ou, falhando isso, até que o destruíssem. Subitamente exausto, sentou atrás da escrivaninha e fechou os olhos. Viu os olhos suaves e sábios do pai a fitá-lo, quase a lhe perscrutar a alma. À cena era de sua infância. Ele tinha no máximo dez anos de idade.

           Às crianças estavam brincando de guerra e ele batia em seu companheiro com uma cimitarra de madeira, gritando com toda a força dos seus pulmões :

           — Morra, infiel, morra! Em nome do Profeta, morra!

           Ele sentiu a cimitarra ser arrancada de suas mãos e virou-se surpreso para encontrar o pai. Seu colega gritava e chorava. Furioso, ele indagara:

           — Por que me deteve? Ahmad estava fingindo que era judeu.

           O pai ajoelhara-se, de forma a que os rostos ficassem no mesmo nível. E disse gentilmente:

           — Você estava blasfemando. Usava o nome do Profeta para justificar as suas próprias ações.

           — Não. Eu estava era defendendo o Profeta.

           O pai sacudira a cabeça.

           — Você esqueceu, meu filho, que o Profeta que você tentava defender por um ato de violência é também conhecido como o Mensageiro da Paz.

           Isso acontecera trinta anos antes e agora outros ontens se acumulavam e forçavam o ingresso em sua recordação.

          

           A pista de aterrissagem cintilava no calor do sol do meio-dia. quando o DC-3 bimotor circulou o campo à beira do deserto, preparando-se para o pouso. Baydr olhou para baixo, — janela, ao ouvir o trem de aterrissagem sendo baixado. Na outra extremidade da pista havia diversas limusines Cadillac, pretas, esperando; além delas, descansando à sombra de umas palmeiras, estavam alguns camelos e seus condutores. O som estridente dos flaps indicou que o avião iniciara a arremetida final.

           Baydr voltou a olhar para o interior da cabina. A aeromoça já estava em sua poltrona, apertando o cinto de segurança. Jabir estava sentado à sua frente, já tendo apertado também o seu cinto de segurança.

           Baydr apertou o seu próprio cinto, enquanto o avião baixava suavemente em direção ao deserto.

           A areia corria por baixo de soa janela e parecia que o piloto estava para pousar sobre o chão do deserto. Mas logo surgiu a pista de concreto e o avião estremeceu quando as rodas a tocaram. Um momento depois o piloto apertou os freios e Baydr sentiu-se arremessado para a frente, de encontro ao cinto de segurança. A pressão cessou abruptamente e o avião rolou suavemente até a extremidade da pista.

           Diminuiu o barulho dos motores na cabina e a aeromoça deixou sua poltrona e aproximou-se dele.

           Uma americana loura, ela tinha o mesmo sorriso impessoal e profissional que todas as aeromoças pareciam cultivar, não importando de que companhia fossem. O fato de aquele ser o avião particular de seu pai não parecia fazer a menor diferença na atitude dela.

           — Espero que tenha apreciado o vôo, Sr. Al Fay.

           — Foi ótimo, obrigado.

           — Fizemos um excelente tempo. Apenas oitenta e sete minutos de Beirute até aqui.

           — Foi de fato excelente.

           O avião parou. Pela janela, ele pôde ver as limusines se aproximando.

           Alguns homens, semi-uniformizados, saltaram do primeiro carro. Cada um carregava uma submetralhadora e todos eles assumiram posições ao redor do avião. As portas da segunda limusine permaneceram fechadas. Baydr não podia ver o seu interior, por causa dos vidros escuros. A escada de desembarque foi empurrada de encontro ao avião por quatro trabalhadores.

           Baydr desabotoou o cinto de segurança, levantou-se e seguiu para a porta. Jabir estendeu o braço, detendo-o.

           — Se o amo puder esperar um momento...

           Baydr assentiu e deixou que o criado fosse até a porta na sua frente. O co-piloto saíra da cabina de comando e estava parado junto à porta, com a aeromoça. Eles não fizeram o menor movimento para abri-la; Jabir abriu o paletó e tirou uma automática Luger. Puxou a trava de segurança e manteve a arma em posição de disparo.

           Houve uma batida na porta. Uma, duas, três. O co-piloto ergueu a mão, olhando para Jabir, que lhe disse:

           — Dê duas batidas na porta. Eles devem responder com quatro. Qualquer coisa, nós levantamos vôo imediatamente.

           O co-piloto assentiu e bateu duas vezes na porta.

           A resposta foi imediata e correta, O co-piloto puxou a tranca da porta e abriu-a. Dois guardas armados já estavam no alto da escada de desembarque, havendo mais dois ao pé da escada.

           Baydr começou a encaminhar-se para a porta, mas Jabir deteve-o novamente.

           — Com a sua permissão, amo...

           Ele saiu do avião e trocou algum palavras rápidas, em árabe, com um dos guardas. Depois virou-se para Baydr e fez um gesto de assentimento.

           O intenso calor do deserto atingiu o jovem antes mesmo que ele saísse do avião. Piscando os olhos diante da claridade, Baydr começou a descer a escada. Nesse momento a porta da segunda limusine se abriu e seu pai apareceu.

           Ele passou pelos guardas e caminhou lentamente ao encontro de Baydr. Usava as roupas tradicionais de xeque do deserto, a cabeça e o pescoço protegidos contra os raios fortes do sol por um ghutra.

           Baydr avançou rapidamente na direção do pai e segurou a mão estendida, levando-a aos lábios, no gesto tradicional de respeito.

           Samir estendeu ambos os braços e ergueu a cabeça do filho.

           Por um longo momento seus olhos examinaram o rosto do jovem, depois ele inclinou-se para a frente, abraçando-o e beijando-o nas duas faces.

           — Marhab. Seja bem-vindo de volta a casa, meu filho.

           — Ya halabik. Estou feliz por estar em casa, meu pai.

           Baydr empertigou-se. Estava uma cabeça mais alto do que o pai. Samir admirou-o e disse com orgulho:

           — Você cresceu, meu filho. Tornou-se um homem.

           Baydr sorriu.

           — Estamos em 1951, pai. Não se permanece eternamente um menino.

           Samir assentiu.

           — Estamos orgulhosos de você, meu filho. Estamos orgulhosos de suas conquistas nas escolas americanas, orgulhosos das honras que nos trouxe, orgulhosos por ter sido aceito na grande Universidade de Harvard em Boston, Cambridge, Massachusetts.

           — Procuro apenas proporcionar honra e alegria aos meus pais — disse Baydr, olhando para o carro. — Como estão minha mãe e minhas irmãs?

           Samir sorriu.

           — Elas estão bem. Você as verá em breve. Sua mãe espera-o ansiosamente em casa e esta noite suas irmãs e os maridos irão jantar conosco.

           Por mais desapontado que estivesse por elas não estarem ali para recebê-lo, Baydr sabia que era melhor não demonstrá-lo. Ali não era a América, onde ele vivera nos últimos cinco anos. As mulheres árabes não apareciam em público, pelo menos não as mulheres respeitáveis.

           — Estou ansioso por vê-las, pai.

           O pai segurou-lhe o braço.

           — Vamos entrar no carro. Lá dentro está mais fresco. É do último modelo e o ar condicionado nos protegerá deste calor insuportável.

           — Obrigado, pai.

           Baydr esperou respeitosamente que o pai entrasse primeiro no carro. Um guarda com uma submetralhadora correu rapidamente para o carro e fechou a porta, indo depois sentar-se no banco da frente, ao lado do motorista. Os outros guardas se ajeitaram na limusine que estava parada na frente. Quando os carros começaram a andar, Baydr viu os cameleiros levando os animais para a pista, a fim de recolher a bagagem e os suprimentos. Os carros deixaram o campo de aterrissagem e entraram numa estrada de concreto que levava às montanhas, a poucos quilômetros de distância. Um Land Rover blindado, com uma metralhadora montada no topo, seguiu atrás do cortejo.

           Baydr olhou para o pai e disse:

           — A guerra terminou há muitos anos. Pensei que os guardas não fossem mais necessários.

           — Alnda há muitos bandidos nas montanhas.

           — Bandidos?

           — Isso mesmo. Eles atravessam as nossas fronteiras para roubar, violar e matar. Há quem pense que são guerrilheiros israelenses.

           — Mas os israelenses não têm fronteiras conosco.

           — Ê verdade, mas podem ser agentes a soldo dos israelenses. Não podemos relaxar a vigilância.

           — Já foi incomodado por esses bandidos?

           — Não. Temos sido felizes. Mas sabemos de muitos que o foram. Samir fez uma pausa e sorriu — Mas vamos falar de outros assuntos mais agradáveis Já soube que sua irmã mais velha está esperando criança para as próximas semanas?

           Os automóveis começaram a subir a montanha. Alguns minutos depois, Baydr viu o primeiro vestígio de verde nas margens da estrada.

           Os cactos deram lugar a moitas e logo surgiram as buganvílias e a grama verde. O pai estendeu a mão e apertou um botão, para abaixar as janelas. O ar fresco e perfumado entrou dentro do carro, substituindo o ar viciado e esfriado artificialmente.

           O pai respirou fundo.

           — O homem tem muitas invenções, mas ainda não conseguiu reproduzir o aroma do ar da montanha.

           Baydr assentiu. Aproximavam.se rapidamente do alto da montanha.

           A casa deles ficava do outro lado, de frente para o mar. Ele ficou imaginando se ainda era como a lembrava.

           A casa surgiu à sua vista no momento em que chegaram ao alto da montanha e começaram a descer. Baydr, olhando pela janela, contemplou os telhados brancos da casa abaixo dele. A casa era maior do que se recordava, pois novos prédios haviam sido acrescentados. Uma piscina grande fora construída na extremidade da propriedade, dando para o mar.

           Havia ainda uma coisa que ele nunca vira antes.

           Uma imensa muralha fora erguida ao redor de toda a propriedade.

           Em cima da muralha, a intervalos de aproximadamente cinqüenta metros, havia pequenas guaritas, cada uma ocupada por uma sentinela, armada de metralhadora. Ao lado de cada guarita havia poderosos projetores, que podiam varar a noite em qualquer direção.

           A casa em si estava oculta pelas árvores. Baydr virou-se para o pai e perguntou:

           — Todas as casas agora estão assim?

           Samir assentiu.

           — Algumas têm até mais guardas. O Príncipe mantém mais de cem homens em sua residência de verão.

           Baydr não fez nenhum comentário. Algo estava errado quando os homens tinham que se tornar prisioneiros de si mesmos a fim de se sentirem seguros. O carro saiu da estrada e entrou no caminho que levava à casa. Logo depois passaram pelas árvores que o ocultavam de quem passava pela estrada e chegaram aos imensos portões de ferro na muralha. Lentamente os portões começaram a se abrir, acionados por motores elétricos silenciosos. Sem parar, os automóveis passaram por eles, indo parar meio quilômetro depois, diante da imponente casa branca. Um criado correu para abrir as portas do carro.

           Samir saltou primeiro, Baydr seguiu-o.

           Seus olhos subiram pelos degraus de mármore que levavam à porta. Esta achava-se aberta. Uma mulher estava parada ali, sem véu, mas com uma touca branca na cabeça.

           — Mamãe! — gritou Baydr, subindo a escada a correr e tomando-a nos braços.

           Nabila contemplou o filho, as lágrimas aflorando aos olhos.

           — Perdoe, meu filho, mas não pude esperar mais tempo para vê-lo.

           Como não era uma ocasião formal e apenas os membros da família estavam presentes, todos comeram juntos. Nas ocasiões formais, os homens jantavam sozinhos e as mulheres comiam depois ou simplesmente não o faziam.

           Baydr olhou para as suas irmãs. Fátima, três anos mais velha do que ele, o rosto redondo e o corpo cheio da criança que trazia dentro de si, estava radiante ao sentar-se orgulhosamente ao lado do marido.

           — Vai ser um menino — disse ela. — só nascem homens na família de Salah e todos dizem que eu estou igual à mãe dele quando o trazia no ventre.

           Samir riu.

           — Isso não passa de conversa de velhas. Não é muito científico, mas até descobrirmos um método que seja mais eficiente, estou disposto a concordar.

           — Eu lhe darei o seu primeiro neto — disse Fátima, a voz mordaz, olhando para sua irmã Nawal, cuja primeira criança fora uma menina.

           Nawal não disse nada. Seu marido, Omar, um médico que trabalhava no hospital do sogro, também ficou calado.

           — Menino ou menina — disse Baydr — será a vontade de Alá.

           Todos concordaram e Samir levantou-se.

           — Os ocidentais possuem um costume que considero dos mais agradáveis: os homens se retirarem para outra sala, a fim de apreciarem um bom charuto.

           O pai seguiu na frente para o gabinete. Baydr e seus cunhados seguiram-no. Um criado abriu e fechou a porta depois que eles passaram.

           Samir abriu uma caixa de charutos que estava sobre a mesa. Tirou um e cheirou-o, com evidente satisfação.

           — Charutos cubanos. Foram-me enviados de Londres.

           Ele estendeu a caixa. Salah e Omar tiraram um charuto, mas Baydr recusou. Tirou um maço de cigarros americanos do bolso e comentou:

           — Prefiro isto aqui.

           Samir sorriu.

           — Até a sua linguagem, meu filho, está mais americana do que árabe.

           — Não é o que os americanos acham — respondeu Baydr.

           Ele acendia seu cigarro e ficou esperando que os outros acendessem os charutos.

           — O que acha deles? — indagou Samir.

           — Sob que aspecto?

           — Quase todos são judeus — disse Salah.

           Baydr virou-se para ele.

           — Isso não é correto. Em comparação com a população global, existem bem poucos judeus.

           — Eu estive em Nova York — anunciou Salah. — A cidade fervilha de judeus. Eles controlam tudo. O governo, os bancos...

           Baydr contemplou o cunhado. Salah era um jovem corpulento e pedante, cujo pai ganhara uma fortuna emprestando dinheiro e possuía agora um dos maiores bancos de Beirute.

           — Então quer dizer que vocês negociam com bancos judeus?

           Uma expressão de horror estampou-se no rosto de Salah.

           — Mas é claro que não! Negociamos apenas com os maiores bancos, o Banco da América, o First National e o Chase Manhattan.

           — E eles não são judeus?

           Pelo canto do olho, Baydr surpreendeu o sorriso do pai. Samir já compreendera aonde ele estava querendo chegar.

           — Não — respondeu Salah.

           — Então os judeus não controlam tudo na América, não é mesmo?

           — Felizmente. Mas bem que eles gostariam, se tivessem a oportunidade.

           — Contudo, a América é favorável a Israel — observou Samir.

           — É mesmo — assentiu Baydr.

           — Por quê?

           — É preciso compreender a mentalidade americana. Eles sentem a maior simpatia pelos oprimidos e é assim que Israel tem-se apresentado em sua propaganda, alcançando os objetivos desejados. Primeiro em relação aos ingleses, agora em relação a nós.

           — E como podemos alterar essa situação?

           — É simples: basta deixar Israel em paz. É apenas uma pequena faixa de terra, não maior do que uma pulga no dorso de um elefante. Que mal poderá causar-nos?

           — Só que eles não permanecerão uma pulga — declarou Salah. — Estão chegando refugiados de toda a Europa aos milhares. A ralé da Europa. Eles não ficarão satisfeitos com o que têm. Os judeus sempre querem tudo.

           — Alnda não podemos ter certeza disso. Talvez, se os recebermos como irmãos e trabalharmos juntos pára desenvolver as nossas terras, ao invés de nos opormos a eles, as coisas funcionem de maneira diferente. Há muito tempo atrás se disse que uma espada poderosa pode cortar um carvalho, de um só golpe, mas não pode cortar um lenço de seda flutuando no ar.

           — Receio que seja tarde demais para isso — disse Salah. — Os gritos dos nossos irmãos que vivem sob o domínio de Israel estão retinindo em nossos ouvidos.

           Baydr sacudiu os ombros.

           — A América não sabe disso. Tudo o que eles sabem é que uma diminuta nação de um milhão de habitantes está vivendo no meio de um mundo inimigo que a cerca e com uma população cem vezes maior.

           O pai assentiu gravemente.

           — Há muito que se pensar a respeito. O problema é bastante complexo.

           — Não tem nada de complexo — declarou Salah. — Marquem minhas palavras e um dia descobrirão que eram a pura verdade. Alnda haveremos de nos unir para destruí-los.

           Samir olhou para o seu outro genro.

           — Qual é a sua opinião, Omar?

           O jovem medido pigarreou, embaraçado. Ele era excessivamente tímido.

           — Não sou político. Por isso, realmente, não costumo pensar nesses problemas. Nas universidades estrangeiras da Inglaterra e da Fiança, onde estudei, havia muitos professores que eram judeus. Eram todos bons médicos e bons professores.

           — O mesmo aconteceu comigo — disse Samir, olhando em se guida para Baydr. — Espero que não tenha feito nenhum plano para amanhã, meu filho.

           — Estou em casa, meu pai. Que planos preciso fazer?

           — Ótimo, porque amanhã nós vamos ter que jantar com Sua Excelência, o Príncipe Feiyad. Ele deseja comemorar o seu décimo oitavo aniversário.

           Baydr ficou surpreso. Seu aniversário ocorrera alguns meses antes.

           — Sua Excelência está aqui?

           — Não, está em Alayh, gozando umas férias da família e de suas obrigações. Fomos convidados a ir de avião até lá e nos juntarmos a ele amanhã.

           Baydr sabia que era melhor não indagar do motivo para aquela visita. Na devida ocasião, seu pai lhe contaria.

           — Será um prazer, meu pai.

           — Ótimo — disse Samir, sorrindo. — Vamos-nos reunir agora à sua mãe e suas irmãs? Sei que elas estão esperando ansiosamente que você lhes conte mais histórias sobre a América.

          

           Alayh era uma pequena aldeia nas montanhas, a cinqüenta quilômetros de Beirute. Não havia indústria, comércio ou agricultura.

           Tinha apenas uma razão para justificar a sua existência: o prazer.

           Ambos os lados da rua principal, que cortava a aldeia ao meio, eram ocupados por restaurantes e cafés, que apresentavam dançarinas orientais e cantoras de todo o Oriente Médio. Os turistas ocidentais eram desencorajados, e raramente se via um por lá. A clientela era constituída pelos ricos xeques, príncipes e homens de negócios, que iam até lá para escapar à moral rígida e ao tédio do seu próprio mundo.

           Ali eles podiam comprazer-se em todas as coisas que não eram aceitáveis em suas terras. Podiam beber à vontade e apreciar as comidas que a severa lei muçulmana proibia. E talvez o mais importante fosse o fato de que, ali, eram todos anônimos. Não importava o quão conhecido um homem fosse, ninguém o reconhecia nem lhe dirigia a palavra, a menos que fosse convidado a tal.

           Já eram mais de dez horas da noite seguinte quando a limusine de Samir parou em frente ao maior café da rua principal. De acordo com a sua importância, o Príncipe Feiyad requisitara todo o café para a noite. Não seria próprio para ele misturar-se com o visitante eventual. Ele era o monarca absoluto de uma faixa de terra de 1.500 quilômetros quadrados, que tinha fronteiras com quatro países, Iraque, Arábia Saudita, Síria e Jordânia. Não tinha a menor importância que suas terras tirassem um pouco do território de cada um desses países, pois a sua existência independente servia a um propósito útil. Era a seu país que todos podiam ir, em impunidade e segurança, para dirimir as discórdias e os problemas surgidos entre eles. A avó de Baydr era a irmã do pai do Príncipe Feiyad. Como primos da família real, os Al Fays constituíam a segunda mais importante família do país.

           Fora ao pai de Baydr que o Príncipe dera os direitos de exploração de todos os serviços públicos. As companhias de eletricidade e telefônica eram de propriedade de Samir. Em compensação, a família construíra escolas e hospitais, onde se proporcionava tratamento gratuito a todos que os procurassem. Eles já tinham começado ricos, mas com as concessões haviam-se tornado ainda mais ricos, quase sem esforço algum.

           Fora um grande desapontamento para toda a família o fato de o Príncipe não ter tido herdeiros masculinos a quem pudesse transmitir o trono. Casara-se algumas vezes e sempre cumprira exatamente os seus deveres. E, quando cada esposa deixava de lhe produzir o desejado herdeiro masculino, ele se divorciara dela. Tinha agora sessenta anos de idade. Há muito chegara à conclusão de que, se era a vontade de Alá que ele não tivesse um herdeiro direto, seu primo é que teria de lhe proporcionar um.

           Fora por esse motivo que, dezoito anos antes, Samir fizera sua peregrinação a Meca. Suas preces tinham sido atendidas com o nascimento de Baydr. Mas, apesar de suas promessas, Feiyad ainda não designara o rapaz como seu herdeiro. Ao invés disso, ele insistira para que Baydr fosse educado à maneira ocidental, vivendo e aprendendo tudo o que pudesse sobre o mundo ocidental. Samir sentia-se satisfeito com isso. Seu filho tornar-se-ia um médico como ele, e trabalhariam juntos, lado a lado.

           Mas o Príncipe tinha outras idéias. Havia muitos outros que iam tornar-se médicos. Baydr deveria ser educado em assuntos mais importantes: comércio e investimentos. Era apenas através de uma crescente sofisticação no comércio que o seu pai — isto é, ele e a sua família — continuaria a prosperar, tornando-se cada vez mais rico e importante. Seu desejo estava relacionado com a desconfiança árabe em relação aos ocidentais com que negociam. Ele sentia que os ocidentais consideravam-no de certa forma inferior, quase uma criança em sua falta de conhecimento. Fora por isso que ele decidira que Baydr não iria para a Inglaterra, seguindo as pegadas do pai, e sim para a América, onde is negócios eram a profissão admirada e respeitada.

           Samir olhou orgulhoso para o filho quando ele saiu da limusine.

           Vestido nos trajes árabes tradicionais, o ghutra caindo-lhe pelo pescoço, as roupas aderindo ao corpo esbelto, ele era de fato um rapaz bonito, O queixo forte, o nariz proeminente e os olhos de um azul bem escuro, cravados nas faces azeitonadas e salientes, ofereciam a promessa de força e caráter. O Príncipe ficaria satisfeito. Talvez agora ele designasse Baydr como o seu herdeiro.

           Mentalmente, ele pediu perdão a Alá por suas esperanças e vaidades terrenas. Já fora milagre suficiente ter-lhe trazido um filho no meio do deserto. Deveria contentar-se com isso. Seja feita a vontade de Alá!

           Ele fez um gesto para Baydr, que o seguiu pelos degraus que levavam à entrada do café. O mordomo do Príncipe estava na porta, com dois guardas armados. Ele reconheceu Samir imediatamente e fez a reverência tradicional.

           — As-salaam alaykum.

           — Alaykum as-salaam — respondeu Samir.

           — Sua Excelência está aguardando a chegada do seu primo favorito com grande expectativa — disse o mordomo. — Disse-me que o levasse à sua presença assim que chegasse. Ele está no apartamento la em cima.

           Eles seguiram o mordomo pelo salão vazio do café até a escada que ficava nos fundos, O café estava bastante tranqüilo. Os garçons, normalmente atarefados, estavam reunidos em grupos, conversando.

           Perto do palco, a orquestra estava sentada, todos os músicos fumando e conversando. Nenhuma das cantoras e dançarinas estava visível.

           Nada começaria enquanto o Príncipe não desse o sinal.

           Os apartamentos em cima do café estavam reservados aos clientes muito especiais e a seus convidados que se sentissem cansados demais para voltarem para casa depois de uma noite de diversões ou que desejasse ficar e partilhar mais alguns prazeres proporcionados pela direção do estabelecimento. O mordomo parou em frente de uma porta e bateu.

           — Quem é? — indagou uma voz de rapaz.

           — O Dr. Al Fay e seu filho estão aqui para falarem com Sua Excelência.

           A porta foi aberta por um rapazinho em calça e camisa de seda.

           Os olhos estavam pintados, ele tinha muge nas faces, as unhas eram longas e pintadas.

           — Por favor, entrem — disse ele em inglês.

           Baydr e seu pai entraram no quarto. O cheiro adocicado e familiar de haxixe pairava no ar. Não havia mais ninguém no quarto.

           — Por favor, sentem-se — disse o rapaz, indicando os sofás e as poltronas.

           O rapaz deixou-os ali e foi para o outro quarto. Baydr e seu pai se entreolharam, sem fazerem nenhum comentário. O rapaz voltou logo.

           — Sua Excelência estará aqui dentro de um momento. Há alguma coisa que eu possa fazer? Um doce? Um refresco? Temos uísque inglês, se preferirem.

           Samir sacudiu a cabeça.

           — Não, obrigado.

           A porta abriu-se novamente e o Príncipe Feiyad entrou. Ele estava vestido com os trajes reais, a cabeça coberta por uma musselina branca. Atravessou rapidamente o quarto. Samir e Baydr levantaram-se e fizeram o gesto tradicional de obediência ao monarca. Feiyad segurou os braços de Samir sorrindo.

           — Será essa a maneira correta de se cumprimentarem dois primos que há muito não se vêem?

           Ele pôs os braços sobre os ombros de Samir e beijou-o nas faces, virando-se depois, ainda sorridente, para Baydr.

           — E este é o garotinho que chorava quando partiu para a escola.

           Baydr sentiu-se corar.

           — Isso foi há muito tempo atrás, Excelência.

           — Nem tanto assim — disse o Príncipe, rindo. — Creio que você tinha seis anos naquela ocasião.

           — Ele está com dezoito anos agora — disse Samir. — E é um homem adulto, louvado seja Alá.

           — Al-hamdu li-llah — ecoou o Príncipe, olhando novamente para Baydr, bem mais alto do que eles dois. — Seu filho é alto. Mais alto do que qualquer outro membro da nossa família.

           — É a dieta, Excelência — explicou Samir. — A comida na América é enriquecida por muitas vitaminas e minerais. Toda a geração mais jovem está-se tornando mais alta que os pais.

           — Vocês, cientistas, fazem verdadeiros milagres — comentou o Príncipe.

           — Os milagres são obra de Alá, Excelência. Nós somos apenas os Seus instrumentos.

           O Príncipe assentiu.

           — Temos muito que conversar, meu primo. Mas deixaremos isso para amanhã de manhã. Esta noite devemos festejar a alegria do nosso encontro e da companhia um do outro.

           Ele bateu palmas.

           — Mandei preparar uma suíte para vocês, a fim de que possam recuperar-se da longa jornada. À meia-noite vamo-nos reunir lá em baixo no café, onde será realizada uma festa para nós.

           Samir fez uma reverência.

           — Somos profundamente gratos pela bondade da sua hospitalidade.

           O rapazinho apareceu novamente e o Príncipe ordenou-lhe:

           — Mostre aos meus primos os aposentos deles.

           O quarto de Baydr estava separado do quarto do pai por uma grande sala de estar. Ele separou-se do pai e foi para o seu quarto, ricamente mobiliado, com muitas sedas e cetins. Os sofás estavam cobertos de almofadas de veludo. Assim que ele entrou, bateram suavemente na porta.

           — Entre.

           Uma jovem criada entrou e Inclinou a cabeça para ele, respeitosamente. Em voz suave, os olhos apropriadamente abaixados, ela perguntou:

           — Posso servir o amo em alguma coisa?

           — Não há nada que me ocorra no momento.

           — Talvez eu possa preparar um banho quente para o mestre, para que se livre da fadiga de sua jornada.

           — Seria ótimo.

           — Obrigada, amo — disse a jovem, atravessando o quarto e entrando no banheiro.

           Baydr ficou a olhá-la, pensativo. Agora ele sabia que estava em casa. Um serviço como aquele não existia na América.

           O som do kanoon e dos tambores inundou o café. No pequeno palco, uma dançarina girava, as faixas multicoloridas flutuando ao redor dela, o porta-seios de metal prateado refletindo as luzes cintilantes.

           Numa mesa em forma de ferradura diante do palco, o Príncipe e seus convidados observavam atentamente.

           O Príncipe estava sentado no centro da mesa, Samir no lugar de honra, à sua direita, Baydr à esquerda. Atrás do Príncipe, em banquinhos, estavam diversos jovens, todos com pintura no rosto, como o rapazinho que os recebera na suíte do Príncipe. Atrás deles estava o mordomo, que supervisionava o serviço dos garçons e dos outros membros da criadagem. Junto a cada convidado havia baldes de gelo com garrafas de champanha. As taças eram constantemente reenchidas. A mesa estava coberta por mais de cinqüenta variedades de hors d’oeuvres e todas as especialidades da região. Os convidados comiam com os dedos e um criado delicadamente limpava-lhes as mãos a todo momento, com uma toalha úmida sempre nova. Na porta e encostadas na parede, estavam doze homens da guarda pessoal de Feiyad, que jamais tiravam os olhos do Príncipe.

           A música foi num crescendo e a dançarina finalmente caiu de joelhos, no grand finale. O Príncipe comandou os aplausos. A um gesto seu, os garçons tiraram as garrafas dos baldes e, ajoelhando-se diante do palco, fizeram as rolhas saltarem com um estampido, disparando-as acima da cabeça da dançarina ajoelhada. Indolentemente, o Príncipe pegou uma nota na pilha que estava à sua frente, amassoua e jogou-a no palco, em frente à dançarina.

           Com um movimento gracioso, a dançarina pegou o dinheiro e meteu-o no cinto, um pouco abaixo do umbigo. Fez uma reverência e, com um sorriso sedutor, recuou para o fundo do palco.

           Baydr olhou para o pai. O rosto de Samir estava impassível. Ele ficou imaginando o que o pai deveria estar pensando daquela festa.

           Eram notas de cem libras que o Príncipe estava jogando de forma tão negligente para as dançarinas — mais dinheiro do que o trabalhador médio ganhava num ano inteiro de trabalho árduo.

           O Príncipe fez um sinal chamando o mordomo e sussurrou-lhe alguma coisa ao ouvido. O mordomo assentiu. Virou-se e fez um gesto para os rapazinhos sentados atrás do Príncipe, fazendo depois um sinal para que a orquestra recomeçasse a tocar.

           Ao primeiro acorde da música, quatro moças entraram no palco e começaram a dançar. Gradativamente, as luzes foram-se apagando, até que o salão ficasse quase totalmente às escuras, à exceção dos pequenos projetores de luz azul concentrados nas dançarias. À medida que o ritmo foi-se tornando mais intenso, de vez em quando os projetores perdiam uma dançarina, reencontrando-a um pouco depois a dançar mais freneticamente e com movimentos mais excitantes. A dança durou mais de quinze minutos. Ao final, as moças estavam num estado de completo frenesi, caindo no chão do palco, que ficou completamente às escuras.

           Por um momento houve silêncio. Depois, pela primeira vez, o Príncipe começou a aplaudir entusiasticamente. Lentamente as luzes foram-se reacendendo. As dançarinas, ainda prostradas no chão, começaram a se levantar, uma a uma. Baydr ficou olhando, incrédulo.

           As dançarinas no palco não eram as mesmas moças que haviam iniciado a dança. Haviam sido substituídas pelos rapazinhos que estavam sentados atrás do Príncipe.

           Desta vez o Príncipe não se deu ao trabalho de amassar as notas.

           Jogou o dinheiro no palco aos punhados, enquanto as rolhas de champanha espocavam furiosamente. O Príncipe olhou para Baydr e disse em francês:

           — C’est beau, c’est magnifique, non

           Baydr encarou-o. Os olhos do Príncipe estavam atentos e avaliadores.

           — Oui.

           Baydr hesitou por um momento, mas terminou acrescentando:

           — C’est tout pédéraste?

           O Príncipe assentiu.

           — Vouz aimez? Choisissez quelqu’un pour vôire plaisir.

           Baydr continuou fitando os olhos cio Príncipe. Sacudiu a cabeça.

           — Merci, non. Pas pour moi. Je préfère les femmes.

           O Príncipe riu alto e virou-se para Samir.

           — Seu filho é encantador e possui um gosto saudável, É também muito americano.

           Samir olhou para o filho e sorriu, orgulhoso. Baydr compreendeu que passara pelo primeiro teste do Príncipe.

           Eram cinco horas da madrugada e o dia começava a raiar nas montanhas quando Baydr desejou boa noite a seu pai e foi para o quarto. As cortinas estavam arriadas, o quarto completamente escuro.

           Ele estendeu a mão para acender a luz. Outra mão segurou-lhe o braço.

           A mulher tinha uma voz suave e um ligeiro sotaque egípcio.

           — Acenderemos velas, Excelência.

           O cheiro débil de almíscar penetrou nas narinas de Baydr quando ela se afastou dele. Ele ficou imóvel na escuridão, tentando enxergá-la. Mas nada conseguiu divisar até que um fósforo foi riscado e uma chama rompeu a escuridão. Os olhos pretos e de sobrancelhas espessas sorriam para ele enquanto a vela era acesa.

           A chama amarelada derramou-se pelo quarto. Baydr reconheceu uma das dançarinas que se exibira durante a festa. A única parte do seu traje que fora trocada era o corpinho. Os seios não mais estavam contidos por uma placa de metal. Estavam cobertos por véus diáfanos de seda, através dos quais podia-se ver a sombra escura dos mamilos.

           Ela sorriu-lhe novamente.

           — Já preparei um banho quente para o caso de Sua Excelência estar cansado.

           Ele não respondeu.

           A dançarina bateu palmas e mais duas mulheres emergiram dos cantos da sala, onde estavam ocultas nas sombras. Estavam ainda menos vestidas que a primeira. Apenas véus transparentes cobriam-lhes os seios e caíam dos quadris, envolvendo as pernas. Ao se aproximarem de Baydr, passaram diante da luz e ele pôde perfeitamente divisar-lhes os corpos nus e os montes de Vênus inteiramente raspados.

           Apenas a parte inferior do rosto estava oculta pelo tradicional véu muçulmano.

           A primeira mulher tornou a bater palmas e uma quarta mulher surgiu no centro do quarto. Ela ligou uma vitrola e a música suave inundou o quarto. Começou a balançar-se ao ritmo da música.

           As duas mulheres seguraram-lhe as mãos e levaram-no para o banheiro. O contato delas era suave e delicado ao despirem-no. Ele ainda não dissera uma só palavra.

           A primeira mulher acendeu um cigarro e entregou-lhe. Baydr deu uma tragada. O cheiro adocicado do haxixe flutuou em suas narinas.

           Ele sentiu um calor invadir-lhe o corpo. Deu outra tragada e devolveu o cigarro, perguntando à mulher:

           — Como é seu nome?

           — Nádia, Excelência — disse ela, fazendo o gesto tradicional de obediência.

           Ele sorriu, sentindo o sexo intumescer.

           — Devemo-nos banhar?

           Ela riu.

           — O que Sua Excelência desejar.

           Baydr olhou ao redor. Podia sentir os efeitos do haxixe em seu sexo. Olhou para o pênis, comprido, esguio e duro. Depois tornou a fitar a primeira mulher:

           — Desejo todas vocês.

          

           Ele estendeu-se na cama. Ele despertou com os raios do sol entrando pela janela do quarto e viu Jabir parado ao lado da cama, segurando uma xícara fumegante do forte café turco. Tomou um gole, escaldou a boca.

           — Que horas são?

           — Meio-dia, amo.

           Ele olhou ao redor. Não podia lembrar-se de quando as mulheres tinham ido. Sua última recordação delas era uma confusão de corpos e calor. Uma delas esfregara óleo no corpo inteiro dele e depois todas começaram a lambê-lo com a língua, o ânus, o escroto, os mamilos, o pênis, a barriga, até que a sensação se tornara tão intensa que o sêmen irrompera de dentro dele num gêiser final e impetuoso.

           Depois ele adormecera.

           Ele tomou outro gole do café escaldante.

           — Meu pai está acordado?

           — Está, amo. Ele está com o Príncipe e ambos esperam-no para o desjejum.

           Baydr tomou outro gole do café e saiu da cama.

           — Diga-lhes que tomarei um banho de chuveiro e logo irei reunir-me a eles.

           Ele abriu a água fria primeiro, depois a quente, a fria novamente.

           Logo ficou inteiramente desperto. Passou a mão pelo queixo e concluiu que poderia barbear-se depois. Ao sair do banheiro, descobriu que Jabir já estendera sobre a cama uma camisa e uma calça para ele vestir.

           O Príncipe e o pai ainda estavam sentados à mesa quando ele entrou. O mordomo estava acabando de tirar os pratos. Baydr beijou o pai no rosto, depois o nariz e a mão do Príncipe. A um gesto do Emir ele sentou-se:

           — Gostaria de comer alguma coisa? — perguntou-lhe o Príncipe, delicadamente.

           — Não, obrigado.

           Seria uma falta imperdoável comer alguma coisa depois que eles já tinham terminado.

           — Então uma xícara de café.

           — Obrigado.

           O mordomo apressou-se em encher sua xícara. Baydr provou.

           Estava doce e não muito forte. Ele ficou esperando em silêncio, respeitosamente.

           Embora as cortinas estivessem arriadas, para que o sol não entrasse no quarto, o Príncipe usava óculos escuros, de maneira a que não se vissem seus olhos. Ele esperou até que Baydr terminasse de tomar o café.

           — Seu pai e eu estivemos falando sobre o seu futuro.

           Baydr inclinou a cabeça.

           — Sou um criado para servi-lo.

           O Príncipe sorriu.

           — Antes disso, porém, é meu primo, do meu sangue.

           Baydr ficou calado. Não se esperava, aliás, que ele dissesse alguma coisa.

           — O mundo está mudando rapidamente. Muitas coisas aconteceram desde o seu nascimento. E nossos planos devem mudar de acordo.

           Ele bateu palmas. O mordomo retirou-se silenciosamente, fechando a porta ao sair. Eles ficaram a sós no quarto. O Príncipe esperou por um momento. Ao recomeçar a falar, a voz era quase um sussurro:

           — Sabe que sempre pensei em você como o meu herdeiro. Minha intenção era que um dia me substituísse como governante do nosso país.

           Baydr olhou para o pai, mas o rosto dele estava inexpressivo.

           Tornou a fitar o Príncipe, que continuou:

           — Mas os tempos mudaram. Há outros problemas mais importantes que exigem a nossa atenção. Por todo o Oriente Médio a onda do futuro flui de sob as areias do deserto, prometendo riquezas que jamais foram sequer sonhadas. A fonte dessas riquezas é o petróleo, o fluido vital do moderno mundo ocidental industrializado. E nosso pequeno país repousa sobre um dos maiores lençóis petrolíferos até hoje conhecidos pelo homem.

           Ele fez uma pausa para respirar e tomou um gole de café.

           — No mês passado concluí um acordo com diversas companhias americanas, inglesas e européias para a exploração desse petróleo. Pelos direitos de sondagem, eles nos pagaram dez milhões de dólares. Se for descoberto petróleo, eles nos pagarão somas adicionais por cada poço produtivo, assim como royalties sobre todo o petróleo que for exportado. Eles também se comprometeram a construir refinarias e ajudar a desenvolver o nosso país. Tudo isso representa uma grande promessa, mas mesmo assim não me sinto tranqüilo.

           — Não estou entendendo — disse Baydr.

           Mas ele bem que entendia. Fora exatamente por isso que o tinham mandado aprender o sistema de vida ocidental.

           — Olhe, acho que você está entendendo perfeitamente — disse o Príncipe. — Mas deixe-me continuar. Embora o mundo tenha renunciado ao imperialismo e ao colonialismo como sistema de vida, há outras maneiras de escravizar um país e seu povo: tornando-os economicamente dependentes. Não tenciono permitir que o Ocidente faça isso conosco, mas o meu plano é deixar que eles paguem o nosso progresso.

           Baydr assentiu. Começava a sentir um novo respeito pelo Príncipe. Por trás do seu comportamento estranho, escondia-se um homem que sabia ver as coisas.

           — Em que posso ser útil? Estou inteiramente à sua disposição.

           O Príncipe olhou para Samir e assentiu aprovadoramente. Samir sorriu. O Príncipe voltou a dirigir-se a Baydr:

           — Tenho para você uma tarefa mais importante do que suceder-me. Quero um homem que saiba mover-se no mundo ocidental e cuidar dessas riquezas que eles nos estão concedendo de má vontade, fazendo com que elas se tomem ainda maiores. E se quiser assumir esse encargo, para o qual tem sido educado e o será mais ainda, prometo que o seu primeiro filho homem se tomará meu herdeiro e o próximo príncipe.

           — Não preciso de nenhuma promessa do meu príncipe soberano. Terei a maior alegria em atender a seus desejos.

           O Emir levantou-se e abraçou Baydr.

           — Meu próprio filho não poderia fazer mais por mim.

           — Agradeço a Vossa Excelência pela confiança. Minha única prece é para que Alá, em Sua sabedoria, me faça digno dela.

           — Seja feita a vontade de Alá!

           O Príncipe voltou para o seu lugar e continuou:

           — Você voltará para a escola na América. Só que, agora, a sua educação ficará aos cuidados de alguns homens que me foram indicados pelas companhias petrolíferas americanas. Não fará o curso normal. Receberá uma educação especializada, que deverá estar concluída em três anos.

           Baydr assentiu.

           — Entendo.

           — Alnda resta um assunto que precisamos acertar: o seu casamento.

           Baydr fitou-o surpreso. Não esperava por aquilo.

           — Meu casamento?

           O Príncipe sorriu.

           — Não precisa ficar tão surpreso assim. Pelo que eu soube da última noite, deverá proporcionar-me muitos filhos.

           Baydr ficou calado.

           — Seu pai e eu conversamos demoradamente sobre o assunto. Depois de muito pensar, escolhemos uma noiva para você, da qual pode sentir-se muito orgulhoso. Ela é jovem e linda e pertence a uma das melhores famílias do Líbano. Trata-se de Maryam Riad, filha de Mohammed Riad, o famoso banqueiro.

           — Eu conheço a moça — apressou-se Samir a dizer. — Ela é realmente muito bonita. E também muito religiosa.

           Baydr indagou ao pai:

           — Quantos anos ela tem?

           — Dezesseis. Embora nunca tenha estado no exterior, é bastante instruída. No momento está cursando o Colégio Americano para Moças de Beirute.

           — Ela ainda é muito jovem para o casamento — comentou Baydr.

           O Emir desatou a rir.

           — Tenho certeza de que escolhi sabiamente. Talvez na América uma virgem de dezesseis anos seja jovem, mas em nossa terra está madura o suficiente.

           Baydr ficou em silêncio no carro, durante a viagem de volta a Beirute. E somente quando chegaram aos subúrbios da cidade é que Samir lhe falou:

           — Qual é o problema, meu filho?

           — Nenhum, meu pai.

           — Está desapontado por não ser o herdeiro do Príncipe?

           — Não.

           — Então é por causa do seu casamento iminente, não é?

           Baydr hesitou, mas acabou dizendo o que estava pensando:

           — Nem mesmo conheço a moça. Nunca tinha ouvido falar dela antes desta tarde.

           — Creio que compreendo. Está pensando por que nos demos a todo esse trabalho de educá-lo no sistema ocidental, revertendo depois aos nossos próprios costumes na hora de providenciar-lhe o casamento. Não é isso?

           — Acho que é. Na América, a gente conhece primeiro a moça, para descobrir se os dois se gostam.

           — Isso também acontece aqui, meu filho. Mas nós não somos gente comum. Temos responsabilidades que vão muito além dos nossos sentimentos pessoais.

           — Mas o senhor e mamãe conheceram-se antes do casamento. Praticamente cresceram juntos.

           Samir sorriu.

           — Isso é verdade. Mas nosso casamento foi acertado quando ainda éramos crianças. Sabíamos disso e o conhecimento fez com que nos uníssemos mais ainda.

           — Ter-se-ia casado com outra moça se assim fosse acertado? Mesmo sabendo o que sentia em relação a mamãe?

           Samir pensou por um momento, depois assentiu.

           — Teria. Poderia não gostar, mas não me restaria outra alternativa. Cada um deve fazer o que é sua obrigação. É a vontade de Alá.

           Baydr contemplou o pai e suspirou. A vontade de Alá. . . Aquilo abrangia tudo, O homem tinha bem poucas opções.

           — Eu gostaria de conhecer a moça, pai.

           — Isso já está acertado. A família dela foi convidada a passar o fim-de-semana conosco, nas montanhas. Eles chegarão depois de amanhã.

           Um pensamento súbito ocorreu a Baydr.

           — Sabia do acerto há muito tempo?

           — Não muito, O Príncipe só me falou a respeito na semana passada.

           — Mamãe sabe?

           — Sabe.

           — Ela aprova?

           — O casamento? Claro.

           — Tive a impressão de que o senhor hesitou, pai.

           — Sua mãe sonhava que você se tornasse o Príncipe. As mulheres não são muito práticas.

           — E o senhor, pai, também está desapontado?

           Samir fitou o filho nos olhos.

           — Não.

           Seu pensamento voltou por um instante à noite em que o filho nascera e ele acrescentou:

           — Você sempre foi e sempre será o meu príncipe.

           Maryam Riad, como a maioria das moças libanesas, era baixa, com menos de um metro e meio, e tinha olhos negros e grandes. Os cabelos pretos estavam amarrados no alto da cabeça, na última moda de Paris, para dar a impressão de que era mais alta. A pele era cor de oliva e ela tinha tendência para engordar, o que combatia continuamente com uma dieta rigorosa, para desespero dos seus pais, que preferiam o corpo cheio das mulheres árabes. Ela falava francês fluentemente e inglês com dificuldade, detestava freqüentar o Colégio Americano para Moças e fazia questão de constantemente deixar seus pais saberem que deveriam tê-la mandado estudar nas escolas suíças ou francesas, como as filhas de outras famílias prósperas de Beirute.

           A essa queixa o pai tinha sempre a mesma resposta. As mulheres não precisavam de uma educação muito esmerada, porque depois do casamento tinham apenas que dirigir a casa e criar os filhos. Amargurada, Maryam vira seu irmãos irem estudar no exterior, enquanto ela permanecia em casa, sem nem ao menos gozar da liberdade das suas amigas que freqüentavam a escola em Beirute. Tinha que chegar a casa imediatamente depois das aulas, não podia ir a festas e não saía de casa sem estar acompanhada, o que só ocorria em ocasiões especiais previamente aprovadas pelo pai.

           Na limusine a caminho da casa de Baydr, o pai fitou-a com evidente satisfação.

           — Agora, minha filha, talvez você compreenda por que seus pais cuidaram de você da maneira como o fizemos. Agora é possível que você nos aprecie devidamente.

           Ela tirou os olhos da janela e disse obedientemente:

           — Tem razão, pai.

           — Acha que teria sido escolhida para esse casamento pelo próprio Príncipe se tivesse estudado em escolas no exterior? Não! O que ele queria era uma verdadeira mulher árabe, não uma que estivesse maculada por influências estrangeiras.

           Ela olhou para a mãe, que estava em silêncio. A mãe nunca falava quando o pai estava perto.

           — Tem razão, pai — disse novamente.

           — Quero que você tome muito cuidado com as suas maneiras. Acima de tudo, seja respeitosa e conveniente. Não quero saber das atitudes frívolas que aprendeu com as suas colegas no colégio.

           — Sim, pai.

           — Esse casamento será o mais importante do país. Todo mundo sabe que seu primeiro filho será o herdeiro do Príncipe.

           Ela olhou para o pai com o canto dos olhos, uma expressão zombeteira:

           — E se eu só tiver meninas?

           O pai ficou chocado.

           — Você terá filhos homens! Está ouvindo? Você terá filhos homens!

           — Se assim for a vontade de Alá.

           — Sua vontade será feita — disse a mãe automaticamente — Pois é a vontade de Alá. Caso contrário, por que ele teria arrumado esse casamento?

           Maryam ficou bastante impressionada com o que viu depois que o carro cruzou os portões de ferro da vasta propriedade. Ela conhecia a riqueza, mas nada como aquilo. Comparado com Samir, seu pai, um dos homens mais ricos de Beirute, era apenas remediado. Ali havia incontáveis criados e guardas. Parecia um outro mundo.

           Em atenção à ocasião, a família usava as roupas tradicionais, mas nas malas levavam os últimos modelos de Paris, que vestiriam para o grande banquete daquela noite.

           — Ajuste o véu — disse a mãe a Maryam, quando o carro parou e um criado adiantou-se para abrir a porta.

           Maryam cobriu o rosto rapidamente, de forma que apenas seus olhos ficaram visíveis. Olhando para o alto dos degraus, ela viu o Dr. Al Fay descendo na direção deles. Um pouco atrás vinha Baydr.

           Maryam prendeu a respiração. Eles estavam também com as roupas tradicionais e o porte do seu noivo indicava toda uma herança do deserto.

           Somente um verdadeiro xeque poderia ter aquela aparência.

           Seu pai saltou do carro e Samir aproximou-se dele, os braços estendidos.

           — Ahlan, Ahlan.

           — Ahlan fikum.

           Os dois homens se abraçaram, beijando-se nas faces. Depois Samir virou-se e apresentou o filho. Baydr fez o gesto tradicional de obediência e respeito, desejando boas-vindas ao futuro sogro. Depois estendeu-lhe a mão, à maneira ocidental.

           Apertaram-se as mãos e foram para o carro. A Sra. Riad saltou do carro e foi cumprimentada por Samir. Maryam desceu em seguida.

           O pai estendeu-lhe a mão para que a segurasse e levou-a ao médico.

           — Lembra-se do Dr. Al Fay?

           Ela levantou os olhos por um instante, depois baixou-os, como era adequado. Assentiu e fez o gesto de obediência. Samir pegou-lhe a mão.

           — Minha filha, seja bem-vinda. Que a nossa casa seja para sempre a sua casa.

           — Obrigada. Que assim seja a vontade de Alá!

           Samir fez um gesto e Baydr adiantou-se. Ela manteve os olhos baixos, de forma que somente pudesse ver a ponta dos sapatos dele, sob a jellaba.

           — Maryam, permite que lhe apresente meu filho, Baydr, seu futuro marido?

           Ela fez o gesto de obediência antes de levantar os olhos. Terminou levantando bruscamente a cabeça inteira. Estava perplexa. Ninguém lhe dissera que os olhos dele eram azuis. O coração de Maryam disparou e ela sentiu o rubor invadir-lhe o rosto, por baixo do véu. Havia muitas coisas que ninguém lhe dissera a respeito dele. Que ele era muito alto. E bonito. Ela tornou a baixar os olhos e mal ouviu as palavras de boas-vindas de Baydr, de tal forma o coração batia forte. Pela primeira vez em sua vida ela estava sinceramente grata por seus pais não a terem mandado estudar no exterior. Maryam estava perdidamente apaixonada.

           O jantar foi bastante formal. Samir mandara vir de Beirute o seu cozinheiro francês para prepará-lo. Em vez do mezzeh libanês usual, os hors d’oeuvres foram paté de foie gras e caviar iraniano. Ao invés do costumeiro mouloukhieh, coelho e arroz, os pratos principais foram coq au vin e gigot. Mas a sobremesa foi típica: baklava, em mais de vinte variedades.

           Durante toda a refeição foi servido champanha, sendo essa a única exceção à lei muçulmana. As mulheres em seus vestidos longos de Paris e os homens de dinner jackets travaram as conversas polidas e superficiais, habituais quando duas famílias estão-se conhecendo.

           Quando o jantar chegou ao fim, o Sr. Riad levantou-se.

           — Se me permitem, eu gostaria de propor um brinde ao nosso anfitrião, o bom Doutor Al Fay. Que Alá cumule de bênçãos a ele e a sua família!

           Ele ergueu sua taça e tomou um gole, logo acrescentando:

           — E quero fazer outro brinde ao meu futuro genro, a quem já considero como um filho, e à minha filha. Que Alá abençoe essa união com muitos filhos!

           Maryam corou ao ouvir o coro de risadas. Não se atreveu a olhar para Baydr, do outro lado da mesa. Logo ouviu seu pai recomeçar a falar:

           — Embora a questão do dote nunca tenha surgido entre as nossas famílias, eu não gostaria de deixar de lado esse costume antigo e honrado. De que outra maneira pode um homem demonstrar sua afeição pela filha e apreço pelo seu marido?

           Samir levantou-se, protestando.

           — Não, Mohammed, o presente de sua filha já é riqueza suficiente.

           O banqueiro sorriu.

           — Meu caro Doutor, poderia negar-me esse prazer?

           — É claro que não — disse Samir, voltando a sentar-se.

           O Sr. Riad virou para Baydr e declarou:

           — Meu filho, no dia do seu casamento será aberta uma conta em seu nome, no meu banco em Beirute, no valor de um milhão de libras libanesas. Serão suas, para fazer o que bem desejar, Baydr olhou para Maryam antes de levantar-se para agradecer ao sogro. O rosto dela estava ruborizado e seus olhos não se despregavam da toalha.

           — Meu honrado pai, que Alá testemunhe a sua bondade e generosidade. Há só uma coisa mais que posso pedir: que me dê sua orientação para que eu saiba fazer um uso sensato do seu presente.

           — Você a terá — disse Mohammed imediatamente.

           Ele estava satisfeito. Estava tudo correndo exatamente como ele planejara. Tinha certeza de que aquela conta era apenas o início dos negócios que seu banco começaria a fazer com a família Al Fay.

           Samir levantou-se. O jantar estava acabado. Ele olhou para Baydr e disse:

           — Seria ótimo se fosse mostrar os jardins à sua noiva, enquanto nós vamos conversar um pouco na biblioteca.

           Baydr assentiu, deu a volta à mesa e segurou a cadeira de Maryam para que ela se levantasse. Sorriu-lhe e disse baixinho:

           — Parece que eles estão querendo livrar-se de nós.

           Maryam assentiu. Ele segurou-lhe o braço e os dois seguiram para os jardins. Ao passarem pela porta, a Sra. Riad comentou para Nabila:

           — Eles não fazem um lindo casal?

           Chegaram à piscina, na outra extremidade do jardim, sem que nenhum dos dois tivesse dito uma só palavra. E então, subitamente, os dois começaram a falar ao mesmo tempo. Maryam parou, dizendo apenas:

           — Desculpe.

           — A culpa foi minha — disse Baydr rapidamente. — O que estava querendo dizer?

           — Nada de importante. E você, o que ia dizer?

           Eles riram, um pouco embaraçados um pelo outro. Baydr fitoua atentamente.

           — Eu estava imaginando como você deve sentir-se, a respeito do nosso casamento.

           Ela baixou os olhos, sem responder.

           — Não precisa responder. Alás, não foi multo delicado da minha parte. Mas você não teve a oportunidade de escolher, não é mesmo?

           Ela levantou os olhos.

           — E você, teve?

           Foi a vez de ele não responder. Tirou um maço de cigarros do bolso do paletó e estendeu para ela.

           — Fuma?

           Maryam sacudiu a cabeça. Baydr acendeu um e deu uma tragada.

           — É um tanto antiquado, não acha?

           — Acho.

           — Na América, eu quase tinha esquecido como fazemos as coisas por aqui.

           — Sempre desejei ir estudar no exterior, mas meu pai não permitiu. Você gosta de lá?

           — Gosto. Às pessoas são mais simples e a maior parte do tempo sabemos exatamente o que elas estão pensando.

           Maryam hesitou por um momento, antes de perguntar:

           — Tem alguma namorada lá?

           — Nenhuma em especial, mas saí com uma porção de garotas. E você?

           — Meu pai é muito severo e quase não permitia que eu saísse de casa. Quase houve briga quando eu quis entrar para o colégio.

           Eles tornaram a ficar em silêncio. Baydr contemplou a ponta em brasa do cigarro. Desta vez, foi ela quem falou primeiro:

           — Você tem olhos azuis.

           — Tenho. Meu pai disse que essa característica da família remonta ao tempo das guerras santas. De vez em quando surge alguém com olhos azuis na família.

           Ela virou-se para o mar e disse cm voz baixa:

           — Devo ser um grande desapontamento para você, depois de todas as garotas ocidentais que conheceu.

           — Isso não é verdade. Nunca pude levar nenhuma delas a sério. Não têm nada na cabeça, são muito diferentes de nós.

           — Mesmo assim, elas são muito bonitas. . . e altas.

           — Maryam...

           Ela virou-se para ele.

           — Você também é muito bonita.

           — Sou mesmo? Acha realmente isso?

           — Acho.

           Ele segurou-lhe a mão.

           — Você ainda gostaria de conhecer o exterior?

           — Gostaria.

           Baydr sorriu.

           — Então passaremos a nossa lua-de-mel na Europa.

           E foi o que fizeram. Casaram-se no fim de julho e passaram o mês de agosto passeando pela Europa. Quando Baydr trouxe Maryam de volta a Beirute em setembro e retornou à escola na América, ela já estava grávida.

          

           A dança recomeçou no deck superior logo depois do jantar.

           Como sempre, Baydr desaparecera assim que a comida começara a ser servida. Tinha o hábito de realizar suas reuniões enquanto todos estavam comendo, para que não sentissem a sua falta até o momento de sua volta, no final da refeição.

           Jordana foi sentar-se a uma mesa da qual poderia observar o retorno de Baydr ao salão. Ele ainda era um estranho para ela, mesmo depois de nove anos de casamento. Havia algo em Baydr que ela jamais compreenderia. Havia ocasiões em que ele parecia nem ao menos estar consciente da existência dela. E então, abruptamente, ele aparecia — e Jordana compreendia que ele nada deixava de saber a respeito dela.

           Como naquela noite. Ela vira a caixa sobre o travesseiro. Mas, por alguma razão que nem ela própria conseguia compreender, decidira não tomar conhecimento dela. Talvez fosse porque ela não quisesse desculpar suas idas e vindas com o recebimento de outro presente.

           Ao contrário dos homens americanos a quem conhecera, Jordana não conseguia fazer com que Baydr se sentisse culpado. Ele era assim e nada se podia fazer para mudá-lo. A reação dele era simples e direta. O selvagem sempre emergia da escuridão que era o seu íntimo.

           Fora a sua própria reação que a surpreendera. Havia algo de confortador na violência de Baydr. Era como se ela se tivesse comportado como uma criança a provocar o pai para que a castigasse, como um meio de certificar-se do amor dele. Ela esclareceu assim os seus sentimentos de culpa e começou a pensar em meios de reconquistar o agrado do marido.

           Assim que ele batera a porta ao sair, ela se olhara no espelho.

           A marca da mão dele estava patente em seu rosto. Ela apertara um botão chamando a sua secretária e pedira que lhe trouxesse um saco de gelo. Ficara sentada em seu quarto durante uma hora, segurando o saco de gelo de encontro ao rosto, até que não estivesse mais inchado.

           Fora então que decidira qual a roupa que usaria para aquela noite.

           Seria uma esposa muçulmana, se era isso o que ele desejava. Uma esposa, uma huri, uma escrava. Não era justamente isso o que Alá prometia para quando eles cruzassem os portões do paraíso?

           Ela levou uma taça de champanha aos lábios, sem tirar os olhos da porta pela qual Baydr desaparecera. Neste momento soou uma voz em seu ouvido:

           — Jordana, querida, sua dança estava linda!

           Ela reconheceu imediatamente a voz. Estendendo o rosto para os beijos habituais, ela disse:

           — Está sendo mais do que bondosa, Mara.

           — Não, querida, é a pura verdade. Foi a coisa mais erótica que eu já vi. Se eu fosse homem, garanto que a teria violentado ali mesmo.

           Ela riu e acrescentou:

           — Coisa que, aliás, ainda posso fazer.

           Jordana riu também.

           — Esse é o maior elogio que poderia fazer-me, Mara.

           A Princesa inclinou-se para falar ao ouvido de Jordana:

           — O que você fez foi espetacular. Notou o rapaz que eu trouxe comigo? Pois ele ficou quase louco. Cheguei a pensar que a calça dele ia estourar.

           Jordana fitou-a atentamente. Não era típico de Mara ser tão efusiva assim.

           — É mesmo, querida?

           — E, sim. E ele está morrendo de vontade de conhecê-la Tem um momento disponível?

           Por cima do ombro da Princesa, Jordana viu Carriage saindo para o salão com o Sr.Yasfir.

           — Agora não. Baydr deve voltar a qualquer momento.

           Yasfir veio até ela e fez-lhe uma reverência.

           — Madame Al Fay...

           — Sr. Yasfir...

           — Quero expressar-lhe meus agradecimentos por uma noite maravilhosa e apresentar minhas desculpas por ter que partir tão cedo, mas é que tenho assuntos urgentes a tratar em terra.

           Ela estendeu-lhe a mão.

           — Sentiremos a sua falta.

           Yasfir beijou-lhe a mão.

           — Talvez, na próxima vez, tenhamos a oportunidade de nos conhecer melhor — disse Jordana.

           — Aguardarei essa ocasião ansiosamente. Bonsoir.

           Enquanto Yasfir descia a escada para pegar a lancha que o 1evaria de volta à terra, Jordana viu Carriage aproximar-se de Youssef.

           Ele e o diretor de cinema americano, Michael Vincent, seguiram Carriage pelo salão e entraram no corredor que levava ao gabinete Baydr.

           — Outra reunião? — indagou Mara.

           Jordana sacudiu os ombros em silêncio e ergueu sua taça de champanha. A Princesa sentou-se na cadeira a seu lado.

           — Um dos meus maridos era assim. Esqueci qual deles. Estava sempre metido em reuniões. Era cansativo demais e por isso divorciei-me dele.

           Jordana sorriu.

           — Baydr pode ser muitas coisas, mas garanto que não é cansativo.

           — Eu não disse que ele era. Mas alguns maridos não compreendem que existem outras coisas na vida além de negócios.

           Jordana não respondeu. Tomou outro gole de champanha. Subitamente, sentiu-se arrasada. Parecia que nada mais estava dando certo entre eles.

           — Vamos, querida — insistiu a Princesa. — Conheça o meu jovem. Isso o deixará feliz e poderá diverti-la por alguns minutos.

           — Onde ele está?

           — É aquele louro alto perto da escada.

           — Ele parece bem jovem.

           A Princesa riu.

           — E é, querida. Tem vinte e cinco anos e a capacidade de um garanhão. Nunca conheci um homem como ele desde que Rubi estava no esplendor da sua forma.

           — Gigolô?

           — Claro, querida. Todos os rapazes bonitos não o são? Mas isso torna a vida mais simples quando a gente fica cansada deles. Basta dar-lhes alguns francos e eles vão embora. Não há complicações.

           — Já está cansada dele? É por isso que está tentando passá-lo adiante?

           Mara riu.

           — Não, querida. É somente porque ele me deixa exausta. Não consigo acompanhá-lo. Ele não se cansa de meter o seu lindo pênis em mim e já não sou tão jovem. Ando exausta.

           — Pelo menos você está sendo sincera.

           A voz de Mara ficou magoada.

           — Eu sempre fui sincera, querida. Então, quer conhecê-lo?

           Jordana olhou para o salão. Carriage estava voltando, sozinho.

           Youssef e Vincent haviam ficado com Baydr. Ela sacudiu os ombros.

           — Está certo. Traga-o até aqui.

           Baydr entregou o scotch com água a Vincent e fez um gesto para que ele se sentasse. Youssef retirou-se discretamente para um canto do gabinete, enquanto Baydr se sentava em frente ao americano.

           — Sou um admirador da sua obra há muito tempo, Sr. Vincent — disse Baydr.

           — Obrigado, Sr. Al Fay. Sinto-me realmente lisonjeado.

           — Tenho certeza de que não sou o único.

           Baydr decidiu ir direto ao ponto. Afinal, o homem era americano e não havia necessidade de rodeios.

           — Foi por isso que resolvi indagar-lhe se não estaria interessado em fazer um filme baseado na vida do Profeta. Alguma vez pensou no assunto?

           — Para ser franco, Sr. Al Fay, nunca tinha pensado nisso.

           — Por algum motivo em particular, Sr. Vincent?

           Vincent sacudiu a cabeça.

           — É que jamais me ocorreu. Talvez seja porque nós, americanos, conhecemos muito pouco a respeito de Maomé.

           — Mas há mais de quatrocentos milhões de pessoas que seguem os seus ensinamentos.

           — Sei disso agora. O Sr. Ziad andou-me falando a respeito. Deu-me também diversas biografias do Profeta para ler e devo confessar que fiquei fascinado pela idéia.

           — Acha então que se pode fazer um filme?

           — Perfeitamente. . . e um filme excelente.

           — Um filme que alcançasse sucesso no mundo ocidental? Um filme que possa ajudar os ocidentais a compreender que temos uma civilização baseada na moralidade, assim como a deles?

           — Quanto ao sucesso, não sei, pois haverá problemas na exibição. Em termos de compreensão, eu diria que sim. Desde que, é claro, o filme possa ser amplamente exibido.

           — Compreendo. Mas suponhamos que todos os obstáculos venham a ser removidos. Qual seria o primeiro passo que teríamos que dar para iniciar a execução do filme?

           — Todos os filmes começam com um roteiro.

           — Escreveu os roteiros dos seus outros filmes. Escreveria o desse também?

           — Escreveria, se conhecesse o problema mais a fundo.

           — E se eu lhe providenciasse a ajuda de que precisará para isso?

           — Precisaria também ter a certeza de que o filme seria feito.

           — E se eu garantir que o filme será produzido?

           Vincent olhou para Baydr e respirou fundo. Se ele dissesse que sim e o filme não fosse feito, estaria definitivamente liquidado na indústria cinematográfica. Os judeus cuidariam para que tal acontecesse.

           Mas, se o filme fosse produzido e ficasse bem, seria exibido até mesmo nos cinemas de propriedade dos judeus. Eles não se importariam com o que o filme dissesse, desde que fizesse o dinheiro entrar nas bilheterias.

           — Eu sou um homem caro, Sr. Al Fay.

           — Eu já o sabia, Sr. Vincent. Acha que um milhão de dólares de honorários e mais uma participação nos lucros é pouco?

           A música que fluía dos alto-falantes era lenta e romântica quando Jacques tirou a taça de champanha da mão de Jordana e levou-a para a pista de dança apinhada. Ele sorriu.

           — Esperei um longo tempo pela música certa, a fim de poder convidá-la para dançar.

           Jordana sentiu o champanha zumbindo em seus ouvidos e retribuiu o sorriso.

           — É muito delicado. . .

           Ele puxou-a para mais perto de si.

           — Vocês, americanas. . . É tudo o que sabe dizer?

           — Americana? Eu não sou americana! Não está vendo pela minha roupa?

           — Não fale, apenas dance.

           Ele aproximou a cabeça de Jordana do seu ombro e com a outra mão comprimiu-lhe os quadris de encontro ao seu corpo. Movia-se lentamente ao ritmo da música, deixando que ela sentisse a sua ereção cada vez maior.

           Depois de um momento, ele fitou-a. Os olhos de Jordana estavam fechados. Ele baixou a mão que a segurava no quadril e levou-a para um trecho da amurada em que ninguém podia vê-los. Segurou a mão de Jordana e começou a esfregá-la contra a imensa protuberância em sua calça. Depois, sussurrou ao ouvido dela:

           — Minha calça é de botões e não de zíper. Desabotoe. Ela levantou os olhos arregalados para ele.

           — Você está louco! Há muita gente vendo!

           — Ninguém pode ver! Estamos de costas para todo mundo. Já me masturbei duas vezes depois da sua dança. Agora você tem de me tocar!

           Os dedos de Jordana encontraram os botões da calça, desabotoando-os. Ele não usava cueca e o falo saltou para a mão dela. Ele apertou a cabeça de Jordana contra seu peito, obrigando-a a olhar para baixo. E ordenou:

           — Tire-o para fora.

           A mão de Jordana não cobria mais do que um terço do comprimento.

           À luz fraca, ela podia ver a glande vermelha emergindo da pele protetora. Sentiu a umidade na palma de sua mão.

           — Aperte com mais força!

           Ela não mais ouvia a música, O único ritmo era o de sua mão movendo-se para trás e para frente, para trás e para frente, por toda a extensão dele.

           — Agora! — sussurrou ele. — Aponte para o mar!

           Olhando para baixo, Jordana viu os jatos de sêmen saindo do pênis a estremecer. Terminara. Ela levantou o rosto para ele.

           — Obrigado — disse ele, sorridente, tirando o lenço do bolso e entregando-lhe. — Enxugue as mãos.

           Ela pegou o lenço e enxugou a umidade em sua mão, devolvendo-o.  Mas ele sacudiu a cabeça.

           — Enxugue-me também. Ela enxugou-o e ele voltou a meter-se dentro da calça.

           — Agora pode jogar o lenço fora.

           O lenço caiu no mar e eles afastaram-se da amurada, voltando à pista de danças apinhada.

           — Tenho que vê-la novamente — sussurrou ele. — Onde posso telefonar-lhe?

           — Você não pode telefonar-me. Deixe que eu o procuro.

           — Estou no Martínez. Vai telefonar-me? Promete?

           Ela assentiu. A música parou e ela viu Baydr, acompanhado por Youssef e pelo diretor americano, subindo a escada para o deck superior.

           — Meu marido...

           Ela começou a afastar-se, mas o rapaz segurou-a pela mão.

           — Amanhã?

           — Sim!

           Ela libertou a mão e seguiu rapidamente na direção de Baydr.

           Seu rosto estava corado e ela sentia-se como se tivesse acabado uma sessão de haxixe.

           — Oh, querido, que linda festa de aniversário! Como posso demonstrar-lhe o meu agradecimento?

          

           Já passava de meia-noite e Leila estava começando a ficar entediada de estar sentada no quarto do hotel. Levantou-se e foi até a janela, ficando a olhar para a Croisette. As multidões ainda andavam de um lado para o outro, na noite quente. Os cartazes luminosos nos refúgios centrais anunciavam os filmes que seriam exibidos durante o festival. O ambiente era alegre e descontraído.

           Ela afastou-se da janela. Tinha agüentado demais. Acabaria louca se não saísse para dar uma volta. Pegou o blusão de zuarte e a chave e saiu para o corredor. Vestiu o blusão enquanto esperava o elevador.

           Ao sair do hotel, parecia-se com muitas outras moças que vagueavam pela noite, de calça americana e blusão.

           Começou a descer em direção ao Carlton, parou para comprar um sorvete na esquina da Rue du Canada, depois atravessou a rua para o lado da praia, onde a multidão não era tão compacta. Sentou-se na mureta de concreto em frente ao Carlton e ficou observando as pessoas que entravam e saíam do hotel.

           Terminou o sorvete e comeu a casquinha, lambendo os dedos ao acabar. Ouviu o barulho de um motor de lancha e virou-se para olhar.

           Uma Riva estava atracando no ancoradouro do Carlton. Estava vazia, exceto pelos dois marinheiros de camisa de meia branca e calça de brim. Um deles saltou para o ancoradouro e prendeu o cabo numa pilastra. O outro marinheiro saltou também para o ancoradouro e os dois ficaram fumando e conversando.

           Ela olhou além da lancha, O iate do seu pai estava ancorado a várias centenas de metros da praia, as luzes cintilando na noite. O ruído fraco da música chegava à praia. Ela tirou um cigarro e acendeu-o.

           Olhou para o hotel. Nada estava acontecendo ali. Ela deu uma tragada no cigarro. Um carro pequeno diminuiu a marcha e parou em frente a ela. O motorista inclinou-se, baixou a janela e gritou-lhe alguma coisa.

           Ela não ouviu direito o que o homem disse, mas sabia o que ele estava querendo. Com uma expressão de desprezo, sacudiu-lhe a cabeça, levantou.se e virou-lhe as costas, O motorista tocou a buzina em resposta e afastou-se rapidamente.

           Num impulso, Leila desceu os degraus para a praia e começou a andar pelo molhe. Ao ouvirem os passos, os marinheiros automaticamente se empertigaram. Ao verem-na, porém, relaxaram e continuaram a fumar, os olhos avaliando-a.

           Leila parou na parte superior do ancoradouro e olhou para eles, sem dizer uma palavra. 

           — Bonsoir — disse o marinheiro mais alto. 

           — Bonsoir. 

           Leila examinou a lancha. Era luxuosamente decorada, com radiotelefone e toca-fitas estereofônico. Ela não tinha a menor dúvida de que pertencia a seu pai. Ele era louco pelos brinquedos americanos.

           Em francês, maliciosamente, o marinheiro mais baixo indagou: 

           — Os negócios não estão indo bem esta noite?

           Ela ignorou-o. O marinheiro alto riu.

           — Desça até aqui. Nós lhe pagaremos dez francos por uma rapidinha.

           Ela fitou-o. Fez um gesto na direção do iate e zombeteiramente perguntou:

           — Qual é o problema? As garotas de lá são muito caras para vocês?

           O marinheiro alto era insistente.

           — Vinte francos de cada um. É a nossa oferta máxima.

           Leila sorriu-lhe.

           — Pois eu darei de graça aos dois, se me levarem até lá.

           Os dois marinheiros se entreolharam e o alto disse:

           — Não podemos fazer isso.

           — Estão com medo de perder o emprego? O que está acontecendo por lá que é tão importante assim?

           — É o aniversário da esposa do nosso patrão, o Xeque Al Fay.

           Provocantemente, Leila desabotoou o blusão e abriu-o. Ela pôs as mãos sob os seios cheios e suspendeu-os para que eles pudessem admirá-los.

           — Regardez tétons. Não gostariam de ter estas belezas na boca?

           Eles sacudiram a cabeça, pesarosos. O alto disse finalmente:

           — Damos vinte e cinco francos.

           — Sinto muito — disse Leila, abotoando o blusão e virando-se.

           — Vocês tiveram a sua chance.

           — Amanhã — gritou o marinheiro alto, quando ela começou a afastar-se. — Apareça no velho cais e nós a levaremos até lá.

           — Amanhã eu não estarei mais aqui.

           — Espere! — gritou o baixo.

           Ele disse rapidamente algumas palavras ao companheiro que Leila não pôde ouvir, e depois virou-se para ela.

           — Está bem. Nós a levaremos até lá e daremos uma só volta pelo iate, voltando em seguida. Certo?

           — Certo.

           Leila desceu para o ancoradouro, enquanto o marinheiro alto pulava para dentro da lancha. O rugido do motor encheu a noite. O marinheiro baixo estendeu-lhe a mão para ajudá-la a entrar na lancha, mas Leila pulou sem a sua ajuda e foi sentar-se lá atrás.

           O marinheiro baixo soltou o cabo de atracação e pulou também para a lancha. Virou-se para Leila e disse:

           — É melhor vir sentar-se aqui na frente. Ficará ensopada com a espuma aí atrás.

           Leila sorriu.

           — Não tem importância. Adoro a água.

           Quando a Riva ganhou velocidade, ele foi sentar-se ao lado dela, desabotoando os dois botões de seu blusão. Uma mão calosa segurou o seio um tanto bruscamente.

           — Magnifique, épatan. . .

           — Mas que pressa é esta? Temos muito tempo...

           Ele inclinou-se e prendeu a boca sôfrega no mamilo. Os dentes machucaram-na e ela afastou-o, furiosa.

           — Espere até terminarmos o passeio.

           Ele encarou-a, vermelho de raiva. Leila sorriu-lhe.

           — Não se preocupe que não vou passá-lo para trás.

           Ela tirou o blusão e entregou-lhe.

           — Pode ficar com isto como garantia.

           Ele levantou-se, segurando o blusão.

           — Mas afinal o que você está pretendendo?

           O radiotelefone tocou antes que Leila pudesse responder. O marinheiro alto atendeu. Ouviram uma voz furiosa sair do aparelho. Ele olhou para trás ao fazer a volta com a lancha.

           — Temos que voltar para o cais. O capitão está uma fera conosco. Tem gente lá em terra esperando para ir a bordo.

           — Mas que diabo! — disse o marinheiro baixo.

           Ele devolveu o blusão a Leila.

           — Vista-se.

           — Eu bem que disse que não deveríamos fazer — disse o marinheiro alto.

           — Merde!

           Em silêncio, Leila abotoou o blusão. Olhou para o cais e viu um grupo de pessoas à espera, em trajes a rigor. O marinheiro alto desligou o motor e a lancha flutuou até o ancoradouro.

           Havia dois homens e duas mulheres à espera. Olharam-na curiosos quando ela saltou da lancha, mas não disseram uma só palavra.

           Ela subiu para a parte superior do cais antes de virar-se. O marinheiro baixo estava ajudando as damas a entrarem na Riva, com uma solicitude exagerada. Subitamente ele levantou os olhos para Leila.

           — C’est la vie — gritou ela, sorrindo.

           Os homens já estavam dentro da lancha, que começou a afastar-se lentamente. O marinheiro baixo pulou para dentro dela e virou-se para contemplar Leila. Depois riu e ergueu as mãos, num típico gesto gaulês de impotência.

           Leila estava percorrendo o cais em direção da praia quando ele emergiu abruptamente das sombras das cabanas.

           — Mas o que há com você? Será que perdeu o juízo? Você poderia pôr tudo a perder!

           — Eu não o vi deixar o iate.

           — Quando cheguei ao apartamento e vi que você não estava lá — disse Ali Yasfir — quase fiquei louco. Você sabe muito bem que não devia sair do quarto!

           — Eu me sentia entediada.

           — Você se sentia entediada. . . — repetiu Yasfir sarcasticamente — E por isso tinha que sair e dar um passeio de lancha?

           — E por que não? Quem tem mais direito do que eu? Afinal, a lancha pertence a meu pai.

           Já passava de quatro horas da madrugada quando o último convidado entrou na lancha e partiu para o cais. Jordana estava-se despedindo da Princesa Mara e de Jacques quando Youssef atravessou o deck até Baydr, que estava sozinho. Fazendo um gesto para as duas atrizes que estavam com Vincent, ele indagou:

           — Devo deixar as moças aqui?

           Baydr sacudiu a cabeça.

           — Quer que eu fique a bordo?

           — Não precisa. Falarei com você no hotel pela manhã.

           — Está certo — disse Youssef, sorrindo. — Boa noite.

           — Boa noite.

           Baydr já se fora quando Jordana se afastou da escada externa.

           Ela seguiu lentamente para o salão. Um camareiro aproximou-se dela.

           — Deseja alguma coisa, Madame?

           — Não, obrigada. Viu por acaso o Sr. Al Fay?

           — Creio que ele foi para o seu camarote, Madame.

           Jordana percorreu o corredor até o seu camarote. Somente a lâmpada na mesinha de cabeceira estava acesa. A camisola e o roupão já estavam devidamente estendidos sobre a cama. Ela despiu-se lentamente. Sentia-se exausta e vazia. A face que Baydr esbofeteara tinha recomeçado a doer.

           Ela foi para o banheiro, abriu o armário de remédios e tirou um vidro de Percodan. Pôs na boca duas drágeas amarelas e empurrou-as pela garganta abaixo com um gole de água. Olhou-se no espelho. Deveria tirar a maquilagem, mas isso exigiria demasiado esforço. Voltou para o quarto e vestiu a camisola. Exausta, meteu-se debaixo das cobertas e, apagando a luz, afundou nos travesseiros.

           A luz entrava em seu quarto por baixo da porta. Baydr ainda estava acordado. Ela fechou os olhos quando a dor começou a desvanecer-se. Estava quase dormindo quando a porta que dava para o camarote de Baydr foi aberta bruscamente. Ela abriu os olhos imediatamente.

           Ele ficou parado na porta, ainda todo vestido. Por um longo momento, manteve-se calado.

           — Quero as crianças a bordo às nove horas da manhã — disse ele finalmente.

           — Está certo, Baydr. Será ótimo. Faz muito tempo que não ficamos juntos com as crianças.

           A voz dele era fria e inexpressiva.

           — Eu disse que queria meus filhos, não você.

           Ela ficou em silêncio.

           — Eu os trarei de volta no domingo.

           — Não dá para ir a Capri e voltar em tão curto prazo.

           — Não iremos a Capri. Tenho que estar em Genebra na manhã de segunda-feira. Iremos apenas até St. Tropez e à Porquerolles.

           A porta fechou-se atrás dele e o quarto ficou novamente às escuras. Ela olhou para o mostrador luminoso do relógio digital da mesinha de cabeceira. Já passava de cinco horas.

           Pegou um cigarro e acendeu-o. Era tarde demais para dormir ali, se tinha que entregar as crianças no iate às nove horas da manhã.

           Jordana acendeu a luz e apertou botão, chamando a sua criada.

           Era melhor vestir-se e ir logo de uma vez para a vila. As crianças estariam acordadas às sete horas da manhã. Poderia dormir depois que elas se fossem.

           Michael Vincent entrou no restaurante do hotel. Seus olhos estavam inchados da falta de sono, o rosto vincado e marcado por tanto uísque.

           Procurou Youssef, semicerrando os olhos pelo sol da manhã.

           Encontrou-o numa mesa perto da janela.

           Youssef acabara de barbear-se. Os olhos estavam límpidos. Em cima da mesa havia um binóculo. Ele sorriu.

           — Bom dia.

           — Bom dia — resmungou Vincent, sentando-se a piscar os olhos.

           — Como é que consegue? Já passava de seis horas quando você foi deitar-se. Alnda são nove e meia e já me está chamando para uma reunião!

           — Quando o chefe está por perto, ninguém dorme. Youssef pegou o binóculo e estendeu-o para Vincent.

           — Veja por si mesmo. Ele já está de pé, andando de esqui aquático.

           Vincent pegou o binóculo e ajustou as lentes até ter uma visão nítida do iate. Depois focalizou a Riva correndo pela baía. Atrás dela, segurando o cabo do reboque com uma das mãos, vinha Baydr; a outra mão segurava um menino sentado em seu ombro.

           — Quem é o menino? — indagou Vincent.

           — O filho mais moço do chefe, Samir. Tem quatro anos e o mesmo nome do avô. O filho mais velho, Príncipe Muhammad, também está andando de esqui, um pouco atrás do pai. Ele está com dez anos.

           Vincent, que estivera focalizando Baydr, não notara a segunda lancha. Mudou a direção do binóculo e viu o menino. Era em tudo e por tudo uma miniatura do pai; esguio e forte, também segurava o cabo do esqui com uma só mão.

           — Príncipe Muhammad? Então Baydr é...

           — Não — explicou Youssef rapidamente. — Baydr é primo do Príncipe Feiyad, o nosso príncipe reinante. Como ele não teve herdeiras do sexo masculino, indicou o filho de Baydr como o seu sucessor no trono.

           — Fascinante.

           Vincent baixou o binóculo quando o garçom se aproximou.

           — Será que é muito cedo para se conseguir um Bloody Mary?

           — Não aqui — afirmou Youssef, sorrindo. — Um Bloody Mary, por favor.

           O garçom assentiu e desapareceu. Youssef inclinou-se na direção do diretor americano.

           — Peço desculpas por incomodá-lo tão cedo, mas o chefe ligou-me esta manhã e terei que acompanhá-lo numa viagem durante alguns dias. Por isso achei que era importante concluirmos o nosso negócio antes da minha partida.

           — Pensei que tivesse ficado tudo acertado ontem à noite.

           O garçom voltou com a bebida. Youssef esperou que ele se retirasse e que Vincent tomasse a primeiro gole. Disse então suavemente:

           — Quase tudo. Falta apenas a comissão de agenciamento.

           — Eu não tenho agente. Sempre tratei diretamente de todos os meus negócios.

           — Mas desta vez você tem. Compreenda, trata-se de um costume. E nós somos pessoas que respeitamos os costumes.

           Vincent estava começando a compreender, mas queria que o próprio Youssef o dissesse.

           — E quem é o meu agente?

           — O seu maior fã, o homem que o recomendou para esse trabalho: eu.

           Vincent ficou em silêncio por um momento, depois tomou outro gole do Bloody Mary. Sentiu que a cabeça começava a desanuviar-se.

           — Os costumeiros dez por cento?

           Youssef sacudiu a cabeça, sempre sorrindo.

           — Esse é o costume ocidental. A nossa taxa é de trinta por cento.

           — Trinta por cento? Mas isso é inacreditável!

           — Não é nada injusto, em se tratando dos honorários que vai receber. Um milhão de dólares é uma quantia sem precedentes. Por acaso sei que é cinco vezes mais do que recebeu por seu último filme. E você não receberia a proposta, se eu não soubesse que o filme era um velho sonho de Baydr e que ele lhe ofereceria uma soma considerável, para garantir a sua cooperação.

           Vincent examinou o rosto de Youssef. O árabe ainda estava sorrindo, mas seus olhos estavam sérios.

           — Quinze por cento.

           — Tenho muitas despesas... Mas você é meu amigo e não irei barganhar. Vinte e cinco por cento.

           — Que despesas? — indagou Vincent, realmente curioso. — Pensei que trabalhava para Baydr. Ele não lhe paga bem?

           — O suficiente para ter uma boa existência. Mas um homem deve pensar no futuro. Tenho uma família grande para sustentar e preciso guardar alguns dólares para a velhice.

           Vincent tateou os bolsos em busca do maço de cigarros. Youssef antecipou-o. Abriu uma cigarreira de ouro e estendeu-a na direção do americano.

           — É uma linda cigarreira — comentou Vincent, pegando um cigarro.

           Youssef sorriu e pôs a cigarreira na mesa, diante de Vincent.

           — É sua.

           Vincent fitou-o, perplexo. Não havia jeito de compreender aquele homem.

           — Mas isso é ouro maciço! Não pode dá-la para mim sem mais nem menos!

           — Por que não? Afinal, você gostou dela.

           — Mas isso não é razão suficiente!

           — Você tem os seus costumes, nós temos os nossos. Consideramos uma bênção poder ofertar um presente.

           Vincent sacudiu a cabeça, resignado.

           — Está certo. Vinte por cento.

           Youssef sorriu e estendeu-lhe a mão.

           — Negócio fechado.

           Apertaram-se as mãos. Vincent pôs o cigarro na boca e Youssef acendeu-o com um isqueiro Dupont de ouro. O americano deu uma tragada, depois soltou uma risada.

           — Não me atrevo a admirar o seu isqueiro, pois você seria capaz de dá-lo também.

           Youssef sorriu.

           — Você está apreendendo os nossos costumes rapidamente.

           — Tenho que fazê-lo, se pretendo realizar um bom filme.

           — Tem razão. Vamos trabalhar juntos neste filme. Quando chegar a ocasião, creio que poderei mostrar-lhe como ambos poderemos ganhar bastante dinheiro.

           — De que jeito?

           — O dinheiro que lhe cobrarão por serviços e material será muito mais do que pediriam a mim. Juntos, poderemos poupar uma boa quantia ao chefe e ao mesmo tempo encontrar um razoável benefício por nossos esforços.

           — Pode deixar que não me esquecerei disso. Provavelmente vou chamá-lo muitas vezes.

           — Estarei sempre à sua disposição.

           — Quando os contratos estarão prontos para serem assinados?

           — Dentro de uma semana. Estão sendo preparados em Los Angeles e serão transmitidos por telex para cá assim que estiverem concluídos.

           — Por que Los Angeles? Não existem bons advogados em Paris?

           — Claro que existem, mas precisa ir logo compreendendo o chefe. Ele exige o melhor em tudo. E os melhores advogados da indústria cinematográfica estão em Hollywood.

           Youssef consultou seu relógio.

           — Tenho que ir agora, pois já estou atrasado. O chefe quer que eu reúa as moças e as leve para bordo comigo.

           Vincent levantou-se também. Estava estupefacto.

           — As moças? Mas a Sra. Al Fay não vai objetar?

           — A Sra. Al Fay resolveu permanecer na vila, a fim de dar ao chefe mais tempo para passar sozinho em companhia dos filhos.

           Apertaram-se as mãos e Youssef saiu para o saguão. Vincent tornou a sentar-se. Havia muita coisa sobre aquela gente que ele precisava aprender. Eles tão eram tão simples quanto pareciam à primeira vista, O garçom aproximou-se e ele pediu outro Bloody Mary. O melhor era começar o dia da maneira certa.

           As atrizes e Patrick estavam esperando no saguão com as malas quando Youssef saiu do restaurante. Ele pediu a Elie que mandasse levar as malas para o ancoradouro e as pusessem na Riva. Depois virou-se para o grupo que o esperava:

           — Vão na frente. Irei daqui a pouco. Alnda tenho que dar um telefonema.

           Ele foi até a cabina telefônica mais próxima e ligou para Jacques, no Martínez. A campainha tocou dez vezes antes que uma voz sonolenta atendesse.

           — C’est moi, Youssef. Acordei-o?

           — Acordou — respondeu Jacques, mal-humorado.

           — O chefe pediu.me que passasse alguns dias com ele no iate e estou de partida agora. Queria saber em que pé ficou a sua situação com ela.

           — Ela ficou de telefonar-me.

           — E acha que ela vai mesmo telefonar?

           — Não sei. Mas não tive a menor dificuldade em fazer com que ela me segurasse.

           — Então ela vai telefonar — disse Youssef, satisfeito. — O primeiro passo para se meter entre as pernas dela é entrar em sua mão.

           — Quando você voltará?

           — Domingo à noite, quando o chefe partirá para Genebra. Se ela não o tiver procurado até então, oferecerei um jantar para o diretor americano e poderão assim encontrar-se.

           — Mas não terei que ir novamente com a Princesa Mara, não é? Não suporto aquela mulher!

           — Não. Desta vez você irá sozinho.

           Youssef saiu da cabina e deu alguns francos de gorjeta à telefonista.

           Meteu a mão no bolso para tirar a cigarreira e só depois se lembrou de que a dera. Disse um palavrão a si mesmo, mas depois sorriu, ao descer os degraus que levavam à rua. Não fora um mau negócio. A cigarreira de trezentos dólares lhe valera os últimos cinco por cento. E cinqüenta mil dólares não era dinheiro de se jogar fora.

           Ela estava parada junto à janela, olhando para o mar, quando ele entrou no quarto.

           — Já está pronta?

           — Já — disse ela, sem se virar. — O iate do meu pai está partindo.

           Ele chegou à janela e olhou. O iate estava-se virando e deslizando sobre o mar em direção ao Estérel. O céu e a água eram de um azul quase igual e o sol brilhava intensamente.

           — Vai fazer um dia quente — comentou ele.

           Ela continuou sem se virar para ele.

           — Meu pai estava esquiando ainda há pouco com os seus filhos.

           — Seus irmãos?

           A voz dela estava amarga.

           — Eles não são meus irmãos! São filhos dele! Algum dia meu pai ainda vai descobrir isso!

           Ali Yasfir ficou em silêncio, vendo Leila atravessar o quarto e sentar-se numa poltrona junto à cama. Ela acendeu um cigarro. Leila não fazia idéia de como era realmente a imagem do pai. O corpo esguio e forte não era da família da mãe. Maryam, como a grande maioria das mulheres árabes, tinha uma tremenda tendência a engordar.

           — Quando eu era pequena, ele, costumava levar-me e à minha irmã para passeios de esqui aquático. Era ótimo e nós nos divertía-mos bastante. Depois que ele se divorciou de minha mãe, cessou tudo.

           Nunca mais foi ver-nos. Jogou-nos fora como se fôssemos sapatos velhos.

           Contra a sua própria vontade, Ali pôs-se a defender Baydr.

           — Seu pai precisava de filhos. E sua mãe não podia mais ter nenhum.

           A voz de Leila estava carregada de desprezo.

           — Vocês, homens, são todos iguais. Talvez algum dia vocês descubram que não somos apenas criaturas feitas para servi-los. Agora mesmo, as mulheres estão dando mais à causa que a maioria dos homens.

           Ele não queria discutir com Leila. Aquela não era a sua obrigação.

           Ele tinha era que levá-la para Beirute e daí ao campo de treinamento nas montanhas. Depois, ela poderia discutir tudo o que desejasse.

           Ele apertou um botão, chamando o criado.

           — Que avião vamos pegar?

           — Vamos pela Alr France até Roma e pela MEA até Beirute.

           — Vai ser uma viagem cansativa!

           Ela levantou-se e foi até a janela, contemplando o iate que se afastava.

           — O que diria meu pai se soubesse que eu estou aqui?

           Baydr olhou para o seu relógio de pulso.

           — Ternos cinco horas antes de a Bolsa abrir em Nova York.

           — Isso não nos deixa muito tempo para refinanciarmos os dez milhões de libras esterlinas — disse Monsieur Brun, o banqueiro suíço — E é muito tarde para cancelar as ordens de compra.

           John Sterling-Jones, seu associado inglês, assentiu.

           — Será impossível. Sugiro que reconsidere a sua decisão, Sr. Al Fay.

           Dick Carriage estava observando seu empregador da outra extremidade da sala. Nenhuma expressão surgiu no rosto de Baydr embora ele soubesse perfeitamente o que o banqueiro inglês estava sugerindo. Seria bastante simples ele pegar o telefone e informar a Abu Saad que estava de acordo com a nova proposição. Mas, se o fizesse, eles passariam a mandar nele. E Baydr não ia deixar que isso acontecesse.

           Não depois de todos os anos que passara a construir sua independência.

           Ninguém poderia mandar nele agora. Nem mesmo o seu príncipe soberano.

           — Minha posição permanecerá a mesma, Sr. Sterling-Jones — disse Baydr calmamente. — Não tenciono entrar no negócio de armamentos. Se o quisesse já o teria feito há alguns anos.

           O inglês nada disse e Baydr virou-se para o suíço.

           — Quanto posso pegar em seu banco?

           O suíço olhou para um papel em sua escrivaninha.

           — Possui um crédito em sua conta corrente de cinco milhões de libras.

           — E qual o meu crédito para um empréstimo?

           — Nas atuais circunstâncias?

           Baydr assentiu.

           — Nenhum. A menos que altere a sua posição. Então, é claro, terá a quantia de que precisar.

           Baydr sorriu. Os banqueiros eram sempre iguais.

           — Se eu fizesse isso, não precisaria do seu dinheiro.

           Baydr meteu a mão no bolso e tirou um talão de cheques.

           — Poderia emprestar-me uma caneta, Monsieur Brun?

           — Claro, Monsieur Al Fay.

           O suíço entregou-lhe uma caneta. Baydr pôs o talão em cima da mesa e rapidamente preencheu um cheque. Separou-o do talão e estendeu-o juntamente com a caneta para o banqueiro. Ao pegar e ver o cheque, o banqueiro suíço ficou perplexo.

           — Monsieur Al Fay, se pagarmos este cheque de cinco milhões de libras, esvaziaremos a sua conta.

           Baydr levantou-se.

           — Exatamente, Monsieur Brun. E pode encerrá-la. Vou para o hotel agora e espero que, dentro de uma hora, mande para lá a cópia do aviso de transferência para o meu banco em Nova York.

           Baydr encaminhou-se até a porta e virou-se antes de sair.

           — Receberá também instruções sobre a disposição dos recursos em outros fundos de investimentos sob os meus cuidados, ainda esta manhã. Confio em que o senhor dê ao fechamento dessas contas a mesma atenção que dispensou à abertura.

           A voz do banqueiro virou quase um gemido.

           — Monsieur Al Fay, ninguém até hoje retirou quarenta milhões de libras de um banco num só dia!

           — Pois alguém está retirando agora.

           Baydr sorriu e fez um gesto para que Carriage o seguisse. Os dois atravessaram o banco em direção à rua.

           Já estava quase na saída quando Sterling-Jones os alcançou.

           — Sr. Al Fay!

           Baydr virou-se para ele.

           — Sim, Sr. Sterling-Jones?

           O inglês quase gaguejou em sua pressa de falar.

           — Monsieur Brun e eu reconsideramos a nossa decisão. Que espécie de banqueiros seríamos, se não concedêssemos um empréstimo a um antigo e importante cliente? Terá o empréstimo de cinco milhões de libras.

           — Dez milhões. Não vejo por que eu deva usar o meu próprio dinheiro.

           O inglês fitou-o por um momento; indeciso, depois assentiu.

           — Está certo, dez milhões de libras.

           — Isso é ótimo, Sr. Sterling-Jones.

           Baydr virou-se para Dick e determinou:

           — Volte com o Sr. Sterling-Jones e pegue o cheque que acabei de entregar. Vou diretamente para a reunião da Aramco. Encontre-se comigo lá.

           — Sim senhor.

           Baydr fez um aceno cordial para o banqueiro e virou as costas sem se despedir, indo até a limusine que o esperava no meio-fio. O motorista saltou do carro para abrir-lhe a porta.

           Baydr afundou no assento com um suspiro de alívio. O que os banqueiros não sabiam era que ele estava blefando. Não havia condição de encerrar as contas nos fundos de investimentos sem o consentimento dos responsáveis. Mas o cheque de cinco milhões de libras fizera com que eles se esquecessem de tudo o mais.

           Ele acendeu um cigarro. No dia seguinte já não teria a menor importância. O Chase Manhattan em Nova York poderia dar-lhe setenta por cento do valor das ações no mercado, tendo-se como garantia.

           Ele transferiria o dinheiro para o banco suíço, porque os juros bancários em Nova York eram bem mais baixos. Dessa forma, seu débito ali seria de apenas três milhões de libras, que poderia cobrir com a sua própria conta, se fosse necessário.

           O resultado final até que não fora mau. Talvez ele devesse realmente fazer um agradecimento a Ali Yasfir. Por causa da retirada do apoio deles, ele ficara como acionista majoritário de um pequeno banco em La Joila, Califórnia, uma companhia de seguros que operava por via postal, sediada em Richmond, Virgínia, e uma companhia de empréstimos hipotecários e financiamentos com quarenta filiais espalhadas pela Flórida. As três companhias totalizavam bens no valor de sessenta milhões de dólares, dos quais pelo menos vinte milhões eram conversíveis em dinheiro a curto prazo. Deduzidos os impostos, os lucros anuais chegavam a dez milhões de dólares.

           Abruptamente, ele decidiu não ir mais à reunião da Aramco.

           Não tinha realmente muito o que fazer por lá. As quotas de produção e de vendas para o ano estavam sendo cumpridas. Mandou que o motorista o levasse de volta ao Hotel Presidente Wilson, onde mantinha uma suíte.

           Ligou para a Aramco, pedindo desculpas pelo cancelamento da reunião à última hora e que mandassem Carriage voltar para o hotel, assim que lá chegasse. Ligou depois para o piloto no aeroporto e pediu que preparasse o avião para partir imediatamente para os Estados Unidos.

           Foi para o quarto, tirou o paletó e estendeu-se na cama. Jabir apareceu quase que imediatamente, saindo do seu pequeno quarto, que ficava atrás do de Baydr.

           — O amo gostaria de que eu lhe preparasse um banho?

           — Não, obrigado. Quero apenas ficar deitado aqui e pensar um pouco.

           — Sim, amo.

           Jabir virou-se para partir, mas Baydr chamou-o.

           — Onde está a moça?

           Ele quase esquecera que trouxera Suzanne, a atriz francesa ruiva que Youssef lhe apresentara em Cannes.

           — Ela saiu para fazer compras, amo. Disse que não iria demorar.

           — Ótimo. Providencie para que eu não seja incomodado, pelo menos durante uma hora.

           — Sim, amo. Quer que eu feche as cortinas?

           — Boa idéia.

           Quando Jabir se retirou, Baydr fechou os olhos. Havia muita coisa a fazer e muita coisa em que pensar, com tão pouco tempo!

           Era-lhe difícil acreditar que no dia anterior, à tarde, estivera passeando de esqui aquático com os filhos.

           Passara todas as horas do dia com os meninos. Tinham percorrido as praias, à procura de conchas que nunca encontravam, alugado bote em St. Tropez, mergulhado nas Porquerolles, realizado um piquenique na Ilha do Levante. À noite, depois do jantar, assistiram a filmes de Disney, que mantinha na biblioteca do iate para eles. Tinha outros filmes também, mas esses eram impróprios para crianças.

           Mas fora somente na volta a Cannes, no fim da tarde de domingo, que ele compreendera que algo o estava perturbando.

           Estavam no salão, assistindo a Branca de Neve e os Sete Anões, quando a idéia lhe ocorrera. Olhou para os rostos infantis que assistiam ao filme, embevecidos. Erguendo a mão, mandou que o camareiro que operava o projetor parasse o filme. As luzes do saião se acenderam.

           — Alnda não está na hora de, ir para a cama, papai — disse Muhammad.

           — Não, não está — respondeu ele em árabe. — É que me lembrei de que estávamos tão ocupados, divertindo-nos, que ainda não tivemos tempo de conversar.

           — Muito bem, papai. Sobre o que vamos conversar?

           Baydr fitou-o, um pouco surpreso. Muhammad respondera em inglês.

           — E se conversássemos em árabe?

           Uma expressão constrangida surgiu no rosto do menino, mas ele assentiu e respondeu em árabe:

           — Está certo, papai.

           Baydr virou-se para o filho mais moço.

           — Também concorda, Samir?

           O pequeno assentiu, sem falar.

           — Vocês dois têm estudado o Alcorão?

           Ambos assentiram.

           — Já chegaram às Profecias?

           Ambos novamente assentiram.

           — O que aprenderam?

           O mais velho, hesitante, disse:

           — Aprendi que só há um Deus e que Maomé é o seu profeta.

           Pela resposta, Baydr compreendeu que ele esquecera completamente as lições. Indulgente, virou-se para Samir:

           — E você, o que aprendeu?

           — A mesma coisa — respondeu Samir rapidamente, em inglês.

           — Pensei que fôssemos conversar em árabe — disse Baydr suavemente.

           — É que é difícil falar, papai.

           Baydr ficou em silêncio. Uma expressão preocupada estampou-se no rosto de Samir.

           — Não está zangado comigo, não é, papai? Conheço as palavras em francês — la même chose.

           — Não estou zangado com você, Samir. Está tudo bem.

           — Então podemos voltar a assistir ao filme?

           Ele assentiu e fez um sinal para o camareiro. As luzes do salão novamente se apagaram e o filme voltou a ser projetado na tela. Poucos momentos depois, eles estavam entretidos nas aventuras de Branca de Neve. Havia, porém, uma ameaça de lágrimas nos olhos de Muhammad. Baydr estendeu os braços para o filho, gentilmente, indagando em árabe:

           — Qual é o problema, meu filho?

           O menino levantou o rosto para ele e logo as lágrimas começaram a jorrar de seus olhos. Ele tentou reprimir os soluços. Baydr ficou desesperado.

           — Vamos, filho, conte-me tudo.

           — É que falo muito mal, pai — disse o menino em árabe, com um forte sotaque inglês. — Sinto que está envergonhado de mim.

           — Jamais ficarei envergonhado de você, meu filho — disse Baydr, abraçando o menino com força. — Pelo contrário, sinto o maior orgulho de você.

           Um sorriso surgiu por entre as lágrimas.

           — Realmente, pai?

           — Realmente, meu filho. Agora assista ao filme.

           Depois que os meninos foram para a cama, ele ficou por longo tempo no salão às escuras. Youssef e as duas francesas entraram. Youssef acendeu a luz, antes de compreender que Baydr estava ali.

           — Desculpe, chefe. Não sabia que estava aqui.

           — Não há problema. Eu já estava mesmo indo para o meu camarote, a fim de trocar de roupa.

           Uma idéia ocorreu-lhe subitamente e ele perguntou em árabe:

           — Estava presente quando Jordana e os meninos chegaram de Beirute?

           — Acompanhei-os na passagem pela Alfândega.

           — O preceptor árabe também veio?

           Youssef pensou por um momento.

           — Creio que não. Só a babá.

           — Por que será que Jordana não o trouxe?

           — Não sei, chefe. Ela não me disse nada.

           O rosto de Baydr estava impassível e ele não fez nenhum comentário.

           — Mas Jordana e eu não temos muitas oportunidades de conversarmos. Ela está sempre ocupada com as muitas coisas que têm por aqui.

           — Imagino. Lembre-me de telegrafar para Beirute de manhã. Quero que meu pai mande um professor pelo primeiro avião.

           — Sim, chefe.

           Quando Baydr já ia saindo do salão, Youssef perguntou-lhe:

           — O Mouscardins está bom para o jantar às dez horas em St. Tropez?

           — Perfeito.

           Baydr desceu para o seu camarote. Youssef podia servir-se à vontade. Lei Mouscardins era o melhor restaurante de St. Tropez e Youssef fazia questão de só ter o melhor.

           Baydr ligou do aeroporto para Jordana na manhã seguinte, antes de o avião decolar para Genebra.

           — O que aconteceu com o preceptor árabe? Pensei que ele viesse com você.

           — Ele caiu doente e não houve tempo de providenciar outro.

           — Não houve tempo? — repetiu Baydr, sarcástico. — Você poderia ter telefonado para meu pai. Ele arrumaria outro e o mandaria imediatamente.

           — Não pensei que fosse tão importante assim. Afinal, são as férias de verão dos meninos. Eles não deveriam estudar.

           A voz de Baydr ficou fria de tanta raiva.

           — Não é importante. O que lhe dá o direito de decidir o que é e o que não é importante? Compreende que Muhammad está fadado a tornar-se o governante de quatro milhões de árabes e que nem mesmo sabe falar a sua própria língua?

           Jordana ficou calada.

           — Estou compreendendo agora que deixei as coisas demais em suas mãos. Já telegrafei para meu pai, pedindo que ele mande outro preceptor. E quando os meninos voltarem, no outono, irão viver na casa de meu pai. Talvez lá eles sejam educados adequadamente.

           Jordana ficou calada por um momento. Ao falar, havia mágoa em sua voz:

           — E eu? Quais são os planos que tem para mim?

           — Absolutamente nenhum. Pode fazer tudo o que lhe aprouver. Eu a informarei quando precisar de você.

           Jordana estava embriagada, mais embriagada do que já estivera em qualquer outro momento da sua vida. Era a espécie de embriaguez que se segue a uma depressão profunda, fazendo com que se sentisse como se estivesse fora do seu próprio corpo. E, ao mesmo tempo, ela estava-se mostrando alegre, encantadora, espirituosa e inteligente.

           Depois do telefonema de Baydr naquela manhã, ela ficara extremamente deprimida. As duas únicas coisas do mundo que realmente amava eram os seus filhos. Outrora pensara que amava Baydr com a mesma intensidade. Mas agora não tinha muita certeza do que sentia em relação a ele. Talvez fosse porque não tinha certeza do que sentia em relação a si mesma.

           Pela primeira vez, sentira-se satisfeita em receber um convite de Youssef. Ela não gostava de Youssef. Mas a verdade é que jamais gostara dos lacaios permanentes e alcoviteiros eventuais de Baydr.

           Nunca compreendera por que o marido precisava cercar-se daquele tipo de homens, quando poderia ter a mulher que desejasse a um simples estalar dos dedos. Ele ainda era o homem mais excitante e atraente que ela já conhecera.

           Quando Youssef explicara que estava oferecendo uma pequena festa a Michael Vincent, o homem que iria dirigir o filme de Baydr, O Mensageiro. Jordana concordara em que seria um gesto delicado de sua parte se comparecesse como anfitriã. Especialmente depois que Youssef insinuara que Baydr ficaria bastante satisfeito com a sua presença.

           A pequena festa de Youssef foi um jantar para vinte pessoas no Restaurante La Bonne Auberge, a meio caminho entre Cannes e Nice.

           Como anfitriã, ela sentou-se à cabeceira da mesa, com Vincent, o convidado de honra, à sua direita, e Youssef, à esquerda. Como Baydr não estava presente, a outra cabeceira foi deixada deliberadamente vaga. No meio da mesa, entre duas lindas mulheres, estava Jacques, o gigolô louro que a Princesa Mara lhe apresentara na noite da sua festa de aniversário. Ela se perguntou com quem ele estaria.

           O jantar, escolhido por Youssef, foi magnífico. O Dom Pérignon jorrou num fluxo interminável. Ela soube, logo no primeiro gole, que iria sentir os efeitos do champanha. Mas naquela noite não se importava. Michael Vincent era um homem dos mais agradáveis, embora só bebesse scotch. Além do mais, era também um americano com quem ela podia partilhar piadas que ninguém mais na mesa podia compreender.

           No meio do jantar, percebeu que Jacques não tirava os olhos dela. Cada vez que Jordana olhava em sua direção, ele tentava fixar-lhe o olhar. Mas estavam muito longe um do outro para se empenharem numa conversa.

           Depois do jantar, Youssef sugeriu que seguissem todos para uma discoteca, a fim de continuarem a festa. Àquela altura, Jordana já estava alta o suficiente para considerar a proposta como uma idéia maravilhosa. Ela adorava dançar. E só depois de estarem há quase uma hora no whisky é que ela levantou os olhos e viu Jacques parado à sua frente. Ele fez uma reverência meio cerimoniosa.

           — Posso convidá-la para esta dança?

           Ela ficou ouvindo a música, reagindo imediatamente ao ritmo impetuoso dos Rolling Stones. Olhou para Vincent e disse:

           — Com licença...

           Ele assentiu e virou-se para falar com Youssef, que estava do outro lado. Ela já estava dançando antes mesmo de chegar à pista.

           Jacques virou-se para fitá-la e começou a dançar. Por um momento ela olhou-o criticamente. O rock não era realmente do estilo francês. Ele dançava com os movimentos desajeitados e duros que os franceses consideravam como animados. Seria melhor que ele se limitasse aos números dos bailes. Mas Jordana logo se esqueceu dele, inebriada em sua própria dança.

           A voz de Jacques elevou-se acima da música.

           — Você disse que ia telefonar-me.

           — Eu disse?

           — Disse.

           — Não me lembro.

           Jordana estava falando a verdade, não se lembrava mesmo.

           — Você está mentindo!

           Sem dizer uma só palavra, ela se virou e partiu para fora da pista. Jacques segurou-a pelo braço, puxando-a.

           — Peço que me desculpe. Por favor, dance comigo.

           Jordana fitou-o em silêncio por um momento, depois recomeçou a dançar. A música passou do rock para uma balada. Jacques tomou-a nos braços e apertou-a firmemente contra o seu corpo.

           — Há três dias que não consigo dormir nem comer.

           Jordana permaneceu indiferente.

           — Não preciso de um gigolô.

           — Eu, melhor do que ninguém, sei disso perfeitamente. Uma mulher tão linda como você não precisa recorrer a isso. Eu a quero por mim mesmo.

           Ela fitou-o com uma expressão cética. A dureza de Jacques comprimiu-se contra o seu corpo.

           — Sinta o quanto eu a quero.

           Os olhos de Jordana se fecharam e ela apoiou a cabeça no ombro dele. Deixou-se apreciar com a pressão. Talvez ele estivesse mesmo dizendo a verdade.

           O que ela não percebeu foi o sorriso trocado entre Jacques e Youssef.

           O algodão cáqui ordinário da blusa e da calça informes arranhavam a sua pele enquanto ela seguia as cinco outras mulheres, também recrutas, para a barraca da oficial comandante. As botas de couro duro ecoaram pesadamente no chão de madeira. A luz amarelada dos lampiões de querosene projetavam sombras mutantes no interior da barraca. A oficial comandante estava sentada atrás de uma mesa, com um soldado uniformizado de cada lado. Examinava um documento e não levantou os olhos até elas pararem à sua frente.

           — Sentido! — gritou o sargento que as comandava.

           — An-nasr. Vitória!

           Todas elas gritaram ao mesmo tempo, como tinham sido treinadas a fazer desde o primeiro dia da chegada ao acampamento, alguns dias antes. Leila sentiu o soutien apertar-se contra os seios. Era feito também de algodão ordinário e áspero. Ela olhou firme para a frente.

           Lentamente, a oficial comandante levantou-se. Leila viu que ela usava nos ombros as insígnias de coronel. Fitou-as em silêncio por um momento e depois, bruscamente, em voz surpreendentemente forte, gritou.

           — Idbah al-adu!

           — Massacrem o inimigo! — responderam as recrutas em coro.

           Ela assentiu, um sorriso débil de aprovação surgindo no rosto. Em voz mais normal, ela disse:

           — À vontade.

           Houve o farfalhar do algodão enquanto as mulheres assumiam uma posição mais confortável. A oficial deu a volta à mesa.

           — Em nome da Irmandade dos Lutadores Palestinos pela Liberdade, eu lhes dou as boas-vindas à nossa guerra santa, à luta para libertar o nosso povo do jugo de Israel e da escravidão do imperialismo.

           Sei que cada uma de vocês fez muitos sacrifícios para vir para cá, como a separação de entes queridos, talvez o ostracismo por parte dos vizinhos. Mas uma coisa eu lhes posso prometer: ao final da nossa luta, existe uma liberdade maior do que qualquer outra que já se conheceu até hoje.

           “E por causa disso, a nossa luta está apenas começando. Vocês terão que fazer ainda muitos sacrifícios mais. Sua honra, seu corpo e talvez mesmo as suas vidas tenham que ser sacrificadas para a conquista da liberdade pela qual ansiamos. Pois não resta a menor dúvida de que a vitória final será nossa."

           “Aprenderão aqui muitas coisas. A usar armas. Revólveres, rifles, facas. A fazer bombas, pequenas e grandes. A matar com as mãos nuas. A lutar. Tudo isso para que, junto com os nossos homens, possamos empurrar os usurpadores sionistas para o mar, recuperando a terra para o seu dono de direito, o nosso povo."

           “Cada uma de vocês já fez o juramento sagrado de obediência à nossa causa. E, a partir desse momento, seus verdadeiros nomes serão esquecidos e jamais usados neste acampamento. Atenderão apenas aos nomes que lhes foram designados. Dessa maneira, no caso de uma captura imprevista, não poderão entregar as suas camaradas. A partir desse momento, a única lealdade de vocês é para com a nossa causa e a irmandade em armas."

           A oficial comandante fez uma pausa. As recrutas estavam em silêncio, numa atenção extasiada.

           — Os próximos três meses serão os mais difíceis que já conheceram em toda a sua vida. Mas; ao final, poderão tomar seus lugares ao lado de Fatmah Bernaoui, Minam Shakhashir, Alda Issa e Leila Khaled, outras do nosso sexo que provaram ser iguais a nossos irmãos na luta pela liberdade.

           Ela voltou para trás da mesa, tomando posição entre os dois homens.

           — Desejo-lhes boa sorte.

           — Sentido! — berrou o sargento.

           — An-nasr — gritaram as recrutas, tomando posição de sentido.

           — Idbah al-adu! — gritou a comandante.

           — Idbah al-adu!

           A comandante bateu continência:

           — Debandar!

           Elas seguiram o sargento para a noite das montanhas, O sargento disse-lhes secamente:

           — Vão para os seus alojamentos. O dia de vocês começará amanhã às cinco horas.

           Ele virou-se e seguiu para o setor masculino do acampamento, enquanto elas se dirigiam para o pequeno alojamento que ocupavam.

           Leila virou-se para a jovem alta que se deitava na cama ao lado da sua e comentou:

           — A comandante não é maravilhosa? Pela primeira vez, sinto que a minha vida tem um sentido!

           A jovem olhou-a como se ela fosse uma criatura de outro planeta.

           — Fico satisfeita em saber que se sente assim. Só me alistei para ficar perto do meu namorado. Mas até agora ainda não consegui encontrar-me com ele em canto nenhum e estou tão faminta que não ficaria surpresa se fosse para a sua cama esta noite e devorasse toda você.

           A doze mil metros de altitude, sobrevoando o Oceano Atlântico, num céu azul-escuro repleto de estrelas, Baydr dormia profundamente, enquanto seu avião seguia para Nova York. De repente, ele acordou com um estremecimento. Sentou-se na cama, os olhos molhados de lágrimas.

           Afastou-as com os dedos e pegou um cigarro. Devia ter sido um pesadelo. Mas havia um pressentimento de terror dentro dele, um presságio que lhe apertava o coração.

           A moça a seu lado acordou também e indagou em voz sonolenta.

           — Q’est-ce que c’est, chéri?

           — Rien. Dors.

           Ela se calou e, um momento depois, o zunido dos jatos fê-lo sentir-se sonolento outra vez. Ele apagou o cigarro e voltou a dormir.

 

OUTRO LUGAR: JUNHO DE 1973

           O Cadillac preto, com chapa do Corpo Diplomático, parou diante do prédio da administração e três homens saltaram — dois em roupas civis e o outro com o uniforme de coronel do Exército americano.

           Começaram a subir os degraus para a porta do prédio. Os soldados israelenses que estavam de sentinela apresentaram armas e o coronel bateu continência.

           O sargento na mesa de recepção levantou-se rapidamente, batendo continência. O coronel retribuiu. O sargento sorriu.

           — Já sabe. o caminho, Coronel?

           Era mais uma declaração do que uma pergunta. O coronel retribuiu o sorriso, assentindo.

           — Já estive aqui antes, Sargento.

           Ele virou-se para os dois homens.

           — Queiram acompanhar-me, por gentileza.

           Conduziu-os pelo corredor até o elevador e apertou o botão de chamada. As portas se abriram silenciosamente e eles entraram. O coronel apertou um botão no painel e o elevador começou a descer.

           Seis andares abaixo da superfície, o elevador parou e suas portas tornaram a se abrir silenciosamente.

           O coronel levou os dois homens à paisana para outra sala de recepção, na qual também havia um sargento sentado atrás de uma mesa.

           Esse sargento, porém, não se levantou. E olhou para uma lista que estava sobre a mesa e pediu:

           — Por favor, cavalheiros, queiram identificar-se.

           O coronel falou primeiro:

           — Alfred R. Weygrin, Coronel do Exército dos Estados Unidos.

           O civil de terno falou em seguida:

           — Robert L. Harris, do Departamento de Estado dos Estados Unidos.

           O homem com o paletó esporte amarrotado foi o último:

           — Sam Smith, da Companhia Americana de Fornecimento de Material de Sondagem.

           O sargento não se permitiu um único sorriso pelo disfarce absurdo do agente da CIA. Ele comparou os nomes com os de sua lista e depois entregou a cada homem um cartão de identificação de plástico amarelo, que eles afixaram na lapela. Apertou um botão na mesa e de uma porta à direita saiu um cabo.

           — Por favor, acompanhe esses homens à Sala de Conferências A.

           A Sala de Conferências A ficava ao final de um longo e estreito corredor, guardada por dois soldados e mais um sargento sentado atrás de uma mesa. O cabo levou-os até a mesa, onde o sargento verificou os cartões plásticos de identificação. Depois apertou uma campainha que abria as portas, controladas eletronicamente. Os visitantes entraram na sala e as portas se fecharam automaticamente atrás deles.

           Nove homens já estavam reunidos na sala de conferências, sendo que apenas dois estavam com o uniforme do Exército de Israel — um brigadeiro-general e um coronel. O general adiantou-se, a mão estendida:

           — É um prazer vê-lo novamente, Alfred.

           O americano sorriu ao apertar-lhe a mão.

           — Também sinto a maior alegria em revê-lo. Gostaria de apresentá-lo a Bob Harris, do Departamento do Estado, e a Sam Smith. Senhores, o General Eshnev.

           Apertaram-se as mãos. O general apresentou-os aos outros e depois fez um gesto na direção da grande mesa redonda que ficava na outra extremidade da ampla sala de conferências.

           — Que tal se nos sentássemos, cavalheiros?

           Havia placas com nomes indicando o lugar que cada um deveria ocupar. Quando todos se sentaram, ainda restava uma cadeira vaga na mesa. Estava situada à esquerda do general israelense. Como ele era o oficial de patente mais alta presente, isso significava que aquela cadeira seria ocupada por um superior seu. Os americanos olharam para a placa, curiosos, mas sem fazerem nenhum comentário. Notando o olhar deles, o General Eshnev disse:

           — Desculpem o atraso, senhores, mas fui informado de que o General Ben Ezra já está a caminho. Ele foi retardado pelo tráfego, mas deverá chegar a qualquer momento.

           — Ben Ezra? — sussurrou Harris para o coronel. — Nunca ouvi falar nele.

           O Coronel Weygrin sorriu.

           — Receio que ele não seja do seu tempo, Bob. O Leão do Deserto é uma figura quase lendária. Sinceramente, eu pensava que ele já tivesse morrido.

           O General Eshnev ouviu o final do comentário.

           — Como era mesmo que o General MacArthur de vocês costumava dizer? Ah, sim! Os velhos soldados nunca morrem, apenas desaparecem. Ben Ezra é a prova de que essa afirmativa está errada. Ele se recusa a morrer e a desaparecer.

           — Ele deve estar agora com setenta anos — disse o homem da CIA. — A última vez em que ouvimos falar dele foi depois da guerra de 67, quando voltou para o seu kibbutz.

           — Ele está com setenta e quatro anos. E quanto à sua permanência no kibbutz, não há meio de sabermos quanto tempo ele efetivamente passa lá. O kibbutz inteiro, está sob o seu encantamento. Nem mesmo as crianças dizem o que quer que seja a seu respeito. Assim, nunca sabemos se ele está por lá ou não.

           — Pois acho que, se desejam saber o que ele está fazendo, o melhor seria mantê-lo em Tel Aviv — comentou Harris.

           — Isso pode ser bastante embaraçoso — disse Eshnev, sorrindo. — O Leão do Deserto nunca foi famoso por seu tato. Parece que o seu Presidente ainda se lembra dos comentários que ele fez quando Eisenhower deteve a tomada do Canal de Suez pelos ingleses e franceses, em 56. Ele é que tinha planejado toda a operação para os ingleses.

           — Eu não sabia disso — falou Harris. — Mas por que o nosso Presidente deveria ter ficado furioso, se não era Presidente na ocasião?

           — Ele era Vice-Presidente e Ben Ezra foi muito franco sobre o apoio dele a certos elementos árabes, aos quais atribuiu a responsabilidade pela decisão de Eisenhower. Ben Ezra chegou ao ponto de aconselhar os ingleses a mandarem Eisenhower meter-se com a sua própria vida. E receio que a sua linguagem não tenha sido muito diplomática. Depois disso, Ben Gurion não teve outra alternativa senão aceitar o seu pedido de demissão. Foi quando ele seguiu para o Sinai, a fim de viver num kibbutz.

           — Não tinha falado que ele reapareceu em 67? — insistiu Harris.

           — Exatamente. Mas o seu reaparecimento não foi oficial. E foi novamente embaraçoso. Ele queria que só parássemos depois de chegarmos ao Cairo e conseguirmos a rendição total. Disse-nos que o seu serviço particular de informações podia provar que, se não o fizéssemos, dentro de sete anos teríamos que travar outra guerra.

           — E o que o faz pensar que os seus recursos são superiores aos nossos? — indagou o homem da CIA.

           — A mãe dele era árabe e há gente que ainda afirma que ele é mais árabe do que judeu. De qualquer forma, ele vive entre milhares de árabes. É estranho, mas os árabes parecem confiar nele e procuram-no em busca de justiça. Dizem que ele é um “Imam” — um homem santo, um sábio, um homem que vive segundo os princípios sagrados. Ele atravessa a fronteira impunemente e sozinho.

           — Ele se casou? — indagou Harris.

           — Duas vezes — respondeu o General Eshnev. — Uma vez quando ainda era jovem. A primeira esposa morreu no deserto ao dar à luz uma criança, quando tentavam passar pelas linhas inglesas para chegarem à Palestina. O segundo casamento foi depois de ele ter-se retirado. Casou-se com uma jovem árabe. E pelo que eu sei, ela ainda está viva e morando com ele no kihbu:z. Eles não têm filhos.

           — A presença dele aqui significa então que vocês estão esperando barulho? — indagou o Coronel Weygrin.

           O general israelense sacudiu os ombros.

           — Nós, judeus, estamos sempre esperando barulho. Especialmente quando estão acontecendo coisas que não compreendemos.

           — Tais como? — indagou Harris.

           — É justamente por isso que nos estamos reunindo. Vamos esperar por Seu Ezra. Ele acaba de reaparecer depois de dois meses de completo desaparecimento e pediu que fosse convocada uma reunião.

           A voz de Harris tornou-se ligeiramente desdenhosa:

           — Basta então que o velho peça uma reunião e todos se dispõem a atendê-lo?

           — Não foi bem assim. Primeiro ele teve que convencer Dayan de que realmente tinha algo importante. Dayan foi então procurar o Primeiro-Ministro, que foi quem aprovou a reunião.

           — Era de se esperar que, depois de tanta insistência, ele pelo menos chegasse na hora — disse Harris.

           — Ele já está bem idoso — disse Eshnev, em tom de desculpas. — Insiste em usar o seu próprio carro, um velho Volkswagen que vive quebrando. Ele simplesmente se recusa a aceitar um dos nossos carros. E, se eu não tivesse dado um aviso especial, nem mesmo o deixariam entrar no estacionamento.

           O telefone à sua frente tocou. Ele atendeu, sacudiu a cabeça e desligou.

           — Senhores, o General já chegou.

           As portas eletrônicas abriram-se silenciosamente e todos se viraram. O homem parado ali era alto, com mais de um metro e noventa.

           Usava trajes beduínos empoeirados. Os cabelos e a barba branca cobriam um rosto enrugado e queimado pelo sol, que parecia mais árabe do que judeu. Somente os olhos de um azul bem escuro negavam a ascendência árabe. Seu andar era firme e orgulhoso quando se aproximou do General Eshnev, A voz era áspera, como que corroída pelo tempo e pela areia do deserto.

           — Lev — disse ele, estendendo a mão.

           — General — disse Lev Eshnev, levantando-se e apertando-lhe a mão. — Senhores, permitam-me apresentar-lhes o General Ben Ezra.

           Ele apresentou cada um dos presentes, Ben Ezra olhou cada um olhos, repetindo os nome Quando as apresentações acabaram, se sentaram.

           Eshnev disse então a Ben Ezra:

           — A reunião é sua, General.

           — Obrigado — disse o velho, num inglês sem sotaque. — Suponho que todos já saibam da concentração de forças egípcias no Canal de Suez e sírias nas Colinas de Golan. E suponho também que todos já saibam dos novos equipamentos militares que estão chegando, em quantidades maiores do que nunca, da Rússia e da China. E suponho ainda que estejam conscientes de que, se contInuar esse fluxo de armamento, eles logo alcançarão uma igualdade militar e talvez um potencial de ataque superior ao nosso, dentro de bem pouco tempo.

           — Isso é verdade — confirmou Eshnev. — Todos nós sabemos disso.

           — Tenho certeza de que também sabem da chegada de pilotos norte-coreanos de caças e bombardeiros.

           — Também sabemos — disse Eshnev. — Mas sabe também que Sadat está sofrendo fortes críticas dos moderados, por causa da influência russa.

           Ben Ezra assentiu.

           — Mas não podemos permitir que isso nos leve a um falso sentimento de segurança. Pela primeira vez, eles estão constituindo uma máquina de guerra capaz. E ninguém faz isso, a menos que pretenda de fato usá-la.

           — Concordo — disse Eshnev. — Mas pode ser que se passe mais um ano e meio antes que eles estejam prontos.

           — Eles já estão prontos e podem atacar a qualquer momento — afirmou Ben Ezra.

           — Então o que estão esperando?

           A voz de Eshnev era polida, mas tinha um tom de impaciência.

           — Até agora, ainda não nos disse nada que já não soubéssemos.

           Ben Ezra manteve-se calmo.

           — Desta vez, não poderemos avaliar as decisões deles apenas numa base militar. Outros fatores são por demais importantes nos planos deles. Eles têm-se infiltrado no Ocidente através de investimentos financeiros. Além disso, estão agrupando os países produtores de petróleo para criarem uma força econômica que possa ser utilizada para reduzir o apoio que estamos tendo dos países tecnológicos.

           Eles só atacarão quando todos os planos estiverem concluídos, antes não.

           — Tem alguma informação específica?

           — Não. Tudo o que sei foi o que ouvi em minhas peregrinações. Há rumores no Sinai de que os fedayeen estão exercendo uma forte pressão sobre os moderados. Estão escolhendo alvos entre os próprios árabes, a fim de forçarem os ricos produtores de petróleo à cooperação.

           — Alguma informação concreta?

           O velho general sacudiu a cabeça.

           — Foi exatamente por isso que convoquei esta reunião.

           Ele olhou para os americanos do outro lado da mesa e acrescentou:

           — Pensei que os nossos atarefados amigos pudessem saber alguma coisa a respeito dessas pressões.

           Harris olhou para os seus companheiros.

           — Bem que gostaríamos, mas sabemos muito pouco.

           Ben Ezra não deixou transparecer a menor reação.

           — Você não é do Departamento de Estado?

           Harris assentiu.

           — Então é compreensível — disse Ben Ezra, olhando em seguida para o homem da CIA. — E vocês, o que sabem?

           Smith ficou embaraçado.

           — Temos conhecimento dos planos econômicos deles.

           — Sim?

           — Mas até agora ainda não conseguimos delineá-lo. A arremetida no setor econômico parece estar sob a direção de um único homem, o representante pessoal do Príncipe Feiyad, Baydr Al Fay. Mas parece que ele é completamente independente, conservador notório, e advoga a aproximação com Israel. Não porque ele goste de vocês, mas por achar que isso traria uma solução econômica que beneficiaria todo o Oriente Médio. Mas não temos meios de sabê-lo com certeza, pois ainda não conseguimos infiltrar-nos em sua organização.

           Eshnev fitou-o.

           — Alnda não?

           O americano sacudiu a cabeça.

           — Não.

           Eshnev sorriu, em triunfo.

           — Então talvez possamos ser de alguma ajuda, pois temos um homem lá dentro.

           Houve um momento de silêncio, rompido por Ben Eira:

           — E daí?

           — O principal interesse de Al Fay no momento parece ser a produção de um filme baseado na vida de Maomé, a ser chamado O Mensageiro. Sabemos também que ele rejeitou uma proposta do alto comando da Al-Ikhwah para cuidar de certas compras para eles.

           Ben Ezra indagou:

           — Ali Yasfir estava envolvido nessa proposta?

           Foi a vez de Eshnev ficar surpreso.

           — Como soube?

           — Eu não sabia. Mas Yasfir acaba de aparecer num dos campos de treinamento da Al-Jkhwah no Líbano, com o que eles consideram a mais importante recruta que já tiveram: a filha do homem mais rico do mundo árabe. Esse homem de quem estão falando tem alguma filha?

           — Tem duas — informou Eshnev. — Uma é casada e vive em Beirute com a mãe, a primeira esposa de Al Fay. A mais moça estuda numa escola da Suíça.

           — Tem certeza de que ela está mesmo lá?

           — Não temos nenhuma notícia em contrário. Mas poderemos verificar facilmente.

           — Ele tem outros filhos?

           — Dois meninos, da sua atual esposa, uma americana. O mais velho, atualmente com dez anos, deverá ser indicado pelo Príncipe Feiyad como o herdeiro do trono.

           — Então, se eles estiverem com a garota, poderão controlar Al Fay — disse Ben Ezra.

           — Possivelmente.

           — Verei o que consigo descobrir no Sinai. Vocês continuem a trabalhar com as suas próprias fontes.

           — Faremos isso — disse Eshnev.

           — De acordo — falou Smith.

           — Mas ainda nos falta a resposta para a questão mais importante — comentou Eshnev. — Quando acha que eles atacarão?

           — Logo depois da festa do Ramadã.

           Eshnev ficou espantado.

           — Mas eles jamais atacariam nos dias santificados! O respeito pelas leis de Moisés ainda é uma parte importante da religião deles.

           Ben Era levantou-se.

           — Não tanto quanto da nossa.

           — Pois, se eles atacarem, estaremos prontos para recebê-los.

           — Espero que sim. Mas há outros meios melhores.

           — Um ataque preventivo? — falou Eshnev, ele próprio se encarregando de responder à pergunta — Sabe que não podemos fazê-lo. Nossos aliados não permitiriam.

           Ben Ezra fitou-o longamente, depois aos americanos.

           — Talvez eles concordem, se compreenderem que, sem nós, perderão a sua força no Oriente Médio. A Sexta Esquadra não poderá atravessar o deserto para ocupar os campos de petróleo.

           — O Departamento de Estado está convencido de que os árabes não efetuarão nenhum ataque em futuro previsível — declarou Harris, categoricamente.

           Ben Eira sorriu e olhou para o homem da C

           — Essa também é a sua opinião?

           Smith não respondeu. Não era a sua função fazer declarações oficiais. Ben Ezra dirigiu-se então ao coronel americano.

           — Já foram concluídas em Suez e nas Colinas de Golan as instalações dos mais modernos mísseis russos terra-ar. Eu as vi, com os meus próprios olhos. Não acha que a hora do ataque começa a partir do momento em que as próprias defesas estão prontas?

           Weygrin assentiu.

           — Concordo plenamente.

           — E quando saberemos o momento em que eles irão atacar? — indagou Eshnev.

           O velho general sacudiu os ombros.

           — Não o saberemos, senão no momento em que o ataque começar. A menos..

           — A menos o quê?

           Uma expressão pensativa surgiu nos olhos do velho como se estivesse imerso em recordações.

           — Pode parecer-lhes estranho, mas dentro de mim tenho a sensação de que poderemos encontrar a resposta em Al Fay. Os ventos que sopram pelo deserto não mais se originam no Leste — eles vêm do Ocidente. Os xeques árabes despertaram para o poder de suas riquezas.

           Isso representará o fim da influência russa. O comunismo não é a resposta que eles procuram. E o controle do Oriente Médio é apenas o princípio. Se investirem inteligentemente as suas riquezas, em breve poderão controlar o mundo, sem disparar um único tiro.

           Ele fez uma pausa e olhou ao redor da mesa, onde todos o ouviam em silêncio.

           — Lamento desiludi-los, senhores, mas o fato é que não temos mais nenhuma importância para o Islã. A não ser como uma questão de orgulho. Eles precisam conquistar alguma vitória sobre nós, por menor que seja, para resguardarem o seu orgulho. Mas o grande ataque começará depois que a batalha estiver terminada.

           Ele virou-se para os americanos e acrescentou:

           — Vamos precisar da ajuda de vocês, agora. Mais tarde, vocês é que precisarão da nossa ajuda.

           Harris foi polido, mas desdenhoso.

           — O que o leva a pensar assim?

           — Porque nós, mais do que quaisquer outros no mundo, somos capazes de compreendê-los — disse o velho general, sorrindo. — E porque são vocês, e não nós, o verdadeiro objetivo deles.

           Novamente houve silêncio, desta vez rompido por Eshnev.

           — Continuará a manter-nos informados de tudo o que puder descobrir?

           Ben Ezra assentiu.

           — Claro que sim. Mas gostaria que fizessem um favor.

           — Se for possível, será atendido — declarou Eshnev.

           — Gostaria de ter um relatório completo sobre Al Fay. A sua vida inteira. E tudo a respeito dele, a parte pessoal e a de negócios. Quero saber de tudo.

           Eshnev olhou ao redor da mesa. Ninguém levantou nenhuma objeção. Ele assentiu.

           — Providenciaremos o mais rápido possível.

           — Irá transmitir as minhas opiniões ao Primeiro-Ministro? — indagou Ben Ezra.

           — Irei.

           — Dê-lhe também um beijo por mim — disse Ben Ezra, sorrindo.

           — Tenho certeza de que poderá fazer bom uso dele.

           Houve um murmúrio de risadas delicadas na sala. O telefone tocou neste momento e Eshnev atendeu. Ouviu em silêncio por um momento, desligando sem dizer uma só palavra.

           — Acaba de ocorrer outro seqüestro de avião. Desta vez foi um avião da Lufthansa, em Dusseldorf. Está a caminho de Beirute.

           Ben Ezra sacudiu a cabeça, tristemente.

           — Isso é muito triste e uma estupidez completa. O resultado efetivo desses seqüestros não vai além das manchetes de jornal. E enquanto nos distraímos com as notícias, calmamente, debaixo dos nossos narizes, sem que ninguém realmente o esteja percebendo, eles estão seqüestrando o mundo.

 

O Fim do Verão

1973

           Youssef entrou no restaurante da Praia de Tahiti pela porta que dava para a entrada. Ele parecia deslocado em seu terno escuro, camisa branca e gravata, ao abrir caminho por entre a multidão de homens e mulheres seminus até a praia. Piscou os olhos ao emergir novamente na claridade intensa da manhã. Viu-o imediatamente, sentado no balcão coberto da praia. Ele conversava com um jovem preto de boa aparência.

           Jacques levantou os olhos quando a sombra de Youssef caiu em cima de si. Levantou-se, e disse em francês:

           — Youssef! Mas que surpresa agradável! Não o estávamos esperando.

           Youssef não retribuiu o sorriso e disse friamente:

           — É o que estou vendo. Diga ao seu petit ami para sumir.

           Uma expressão mal-humorada surgiu no rosto de Jacques.

           — Que direito você tem. . .

           Youssef não o deixou acabar.

           — Eu sou dono de você, seu desgraçado! Agora diga-lhe para sumir ou o jogarei de volta às sarjetas de Paris, onde o encontrei, agarrando turistas para dar golpes de dez francos!

           O preto levantou-se, os músculos saltando nos braços ao cerrar os punhos.

           — Quer que eu me livre dele para você, Jacques?

           Youssef olhou firme para Jacques, que acabou baixando os olhos.

           — Acho melhor você ir, Gerard — disse ele, sem olhar para o preto.

           Os lábios de Gerard se entreabriram numa expressão de desprezo e ele disse para Jacques:

           — Poules!

           Depois virou as costas e afastou-se. Deitou-se na areia a alguns metros de distância, cobrindo os olhos com o braço e parecendo não lhes dar a menor atenção.

           O garçom aproximou-se no momento em que Youssef se sentou na cadeira que o preto deixara vaga.

           — Monsieur?

           — Uma Coca-Cola, com bastante gelo.

           Ele virou-se em seguida para Jacques e indagou:

           — Onde ela está?

           Jacques não olhou para ele ao responder de mau humor:

           — E como diabo vou saber? Estou esperando-a aqui na praia há quase duas horas.

           — Mas você devia saber! Para que acha que lhe estou pagando todo esse dinheiro? Para trepar com petits nègres na praia?

           O garçom pôs a Coca-Cola na mesa e afastou-se. Youssef bebeu-a com prazer.

           — Esteve com ela ontem à noite?

           — Estive.

           — E conseguiu tirar as fotografias?

           — De que jeito? Ela nem foi ao apartamento. Deixou-me na discoteca às três horas da madrugada e disse-me que viesse encontrá-la hoje na praia, ao meio-dia.

           — E passou o resto da noite com aquele preto?

           — E o que esperava que eu fizesse? Que me poupasse para ela?

           Youssef meteu a mão no bolso interno do paletó e tirou a sua nova cigarreira de ouro. Abriu-a lentamente e tirou um cigarro. Bateu-o no tampo da cigarreira, colocou-o entre os lábios e acendeu-o.

           — Você não é nada esperto. Isto mesmo, não é nada esperto...

           — Mas como posso tirar as fotografias se ela não vai ao apartamento? Nunca. Sempre o fazemos no lugar que ela escolhe!

           Ele olhou por cima do ombro de Youssef e murmurou:

           — Ela está chegando.

           Youssef virou-se. A grande San Marco estava vindo do mar aberto para a praia. Ele meteu a mão no bolso do paletó e tirou uma chave, jogando-a em cima da mesa, na frente de Jacques.

           — Reservei um apartamento para você no Byblos. Todo equipamento já está instalado. Há microfones no quarto e um fotógrafo estará esperando no quarto ao lado, para que você o deixe entrar. Leve-a até lá. Não quero saber como. vai conseguir, mas leve-a até lá de qualquer maneira. Só lhe resta agora esta noite.

           — Por que essa pressa súbita?

           — Tenho no bolso um telegrama do marido dela. Amanhã à tarde Jordana estará num avião a caminho da Califórnia.

           — E se ela não quiser ir, o que deverei fazer? Dar-lhe uma paulada na cabeça? Pode acontecer como na noite passada, em que ela me deixou às três horas da madrugada, foi para a San Marco e voltou a Cannes.

           Youssef levantou-se, fitando Jacques.

           — Darei um jeito para que a lancha tenha problemas no motor. O resto é com você.

           Ele olhou por cima do ombro. A lancha aproximava-se lentamente da praia.

           — Agora vá até a praia, garotão, e ajude a dama a desembarcar.

           Em silêncio, Jacques levantou-se e seguiu para a praia. Youssef ficou a observá-lo por um momento, depois tornou a atravessar o restaurante e foi pegar seu carro, que deixara estacionado na entrada.

           Entrou no carro e ficou sentado por um momento, sem ligar a ignição. Se ao menos Jordana não o odiasse... Nada disso seria então necessário. Mas ele sabia que Jordana muitas vezes tentara virar Baydr contra ele, porque se ressentia do seu relacionamento. E, afinal de contas, ele era apenas um empregado, enquanto ela era esposa do patrão. Se houvesse um choque definitivo, ele não tinha a menor dúvida de quem sairia vitorioso. Jordana ganharia facilmente. Mas, se Jacques tivesse sucesso naquela noite, isso jamais aconteceria. A ameaça de apresentar a Baydr as provas de sua infidelidade seria suficiente para mantê-la na linha. Youssef sabia que o melhor aliado era um inimigo conquistado.

           Jordana abriu os olhos no momento em que cessou o rugido do motor da lancha. Olhou para o relógio. Haviam passado quarenta minutos desde a sua saída de Cannes. Pela estrada, com todo o tráfego, teria levado uma hora e meia. Aquele caminho não era apenas o mais rápido, pois o mar estava tão sereno que ela dormira o tempo todo.

           Ela sentou-se, pegando a parte de cima do biquíni e a blusa.

           Contemplou-se enquanto apertava o soutien. Os seios estavam tão bronzeados quanto o resto de seu corpo, um castanho dourado. Os mamilos eram mais para o púrpura, cor de ameixa, ao invés do rosa normal. Estava satisfeita consigo mesma. Os seios ainda estavam firmes. Não começara a ficar com a carne frouxa, como muitas mulheres da sua idade.

           Instintivamente, olhou por cima do ombro para ver se os dois marinheiros no comando da lancha a estavam observando. Os olhos deles estavam cuidadosamente fixados no caminho à frente, mas ela sabia que ambos a admiravam pelo espelho retrovisor. Sorriu para si mesma. Para provocá-los, cobriu os seios com as mãos, sugestivamente, de forma a que os mamilos endurecessem. Só depois é que apertou o soutien.

           Um barco a remo, com duas garotas topless, aproximou-se da lancha. Olharam para a San Marco de setenta mil dólares com indisfarçável esperança e curiosidade. Novamente Jordana sorriu para si mesma ao ver a expressão de desapontamento que surgiu no rosto delas, quando descobriram que ela era a única passageira da lancha.

           Elas eram oferecidas demais. O barco a remo afastou-se lentamente.

           — Alô!

           O chamado veio do outro lado da lancha. Ela virou-se. Era Jacques que se aproximava, num pequeno barco com motor de popa. Os cabelos louros dele haviam embranquecido por completo ao sol do verão, tornando o seu bronzeado, em contraste, ainda mais escuro. Jordana acenou-lhe sem falar.

           — Vim até aqui para levá-la à praia. Sei que detesta molhar os pés.

           — Já vou para aí.

           Ela virou-se para os marinheiros e disse-lhes em francês:

           — Esperem aqui. Eu os chamarei quando estiver pronta para partir.

           — Oui, Madame.

           Um dos marinheiros levantou-se para ajudá-la. Ela entregou-lhe a sacola de praia grande que sempre levava consigo. Dentro tinha um par de sapatos, uma muda de roupa para a noite, o receptortransmissor portátil para a comunicação com a lancha, assim como cosméticos, cigarros, dinheiro e cartões de crédito.

           O marinheiro estendeu o braço e puxou o bote de Jacques para junto da lancha. Entregou a sacola a Jacques e depois segurou o braço de Jordana pára ajudá-la a passar. Assim que ela se sentou, o marinheiro empurrou o bote para longe.

           Ela sentou de frente para a popa, onde Jacques estava.

           — Desculpe o atraso.

           — Não há problema — disse ele, sorrindo. — Dormiu bem?

           — Muito bem mesmo. E você?

           Jacques fez uma careta.

           — Não muito bem. Estava muito. . . como é mesmo que se diz?...frustrado.

           Jordana fitou-o atentamente. Não conseguia chegar a uma conclusão sobre ele. Mara dissera que ele era gigolô, mas nas diversas vezes em que lhe dera dinheiro Jacques devolvera-o com uma expressão magoada. Afirmava sempre que o caso entre os dois não era de negócio, que estava apaixonado por ela. Mesmo assim, não fazia sentido. Ele morava num apartamento caríssimo no Miramar, bem na Croisette, em Cannes, possuía um Citroen SM novo e parecia nunca estar sem dinheiro. Jamais deixava que ela pagasse uma conta, como faziam muitos outros, gigolôs ou não. Por diversas vezes ela o surpreendera olhando fixamente para outros rapazes, mas jamais fizera qualquer movimento com ela por perto. Jordana tinha certeza quase absoluta de que ele era bi e que o seu verdadeiro amante devia ser um homem que o mandara passar o verão na Côte d’Azur. Isso, porém, não a perturbava. Há muito que ela chegara à conclusão de que os homens bissexuais eram os melhores amantes.

           — Com todo o talento que havia disponível lá na discoteca? — comentou Jordana, rindo. — Pensei que você não teria o menor problema. — E não tive.

           Jacques pensou na sua noite com Gerard. Sentiu-se ficar duro ao recordar o preto de pé acima dele, a pele do prepúcio recuando para expor a cabeça intumescida e avermelhada. Lembrou como ficara de costas como uma mulher e levantara as pernas, a requintada agonia do imenso pênis forçando caminho para dentro de seu ânus. Ele se lamuriara como uma mulher e depois gritara, quando o sêmen de Gerard o inundara. Libertando o pênis ereto do calção, ele disse para Jordana:

           — Está vendo só o que você me fez? Fico assim no momento em que a vejo. Por três vezes, na noite passada, eu tive que aliviar-me.

           Ela riu.

           — Nunca ninguém lhe disse que isso não faz bem? Pode prejudicar o seu crescimento, se o fizer demais.

           Jacques não riu.

           — Quando você vai passar uma noite inteira comigo? Só uma vez, para que eu possa sentir que estamos fazendo amor sem que você esteja de olho no relógio, para que possamos tirar o máximo de prazer um do outro.

           Jordana riu novamente.

           — Você é insaciável. Esquece que eu sou uma mulher casada e tenho as minhas responsabilidades. Tenho que estar em casa todas as noites, a fim de poder ver meus filhos ao acordar.

           — E o que haveria de terrível se isso não acontecesse um só dia?

           — Eu negligenciaria o único dever que meu marido exige de mim. E isso eu não faço de jeito nenhum.

           — Seu marido não se importa Caso contrário, ele teria vindo vê-la e às crianças pelo menos uma vez, nos três últimos meses.

           A voz de Jordana tornou-se subitamente fria.

           — O que meu marido faz ou deixa de fazer não é da sua conta.

           Jacques sentiu no mesmo instante que fora longe demais.

           — Mas eu amo você e estou ficando louco de tanto desejá-la!

           Ela assentiu lentamente, relaxando.

           — Então não se esqueça de manter as coisas nas devidas proporções. E se pretende continuar a brincar com o seu pênis acho melhor irmos logo para a praia, antes que haja um acidente.

           — Se eu for, você me dará uma chupada?

           — Não neste momento, estou com muito mais vontade de tomar um vinho branco gelado.

           Ela estava alta. O Papagayo achava-se apinhado. As luzes estroboscópicas eram como um projetor em câmara lenta em seus olhos.

           A batida forte do grupo de rock torturava seus ouvidos. Ela tomou um gole do vinho branco e olhou pela mesa. Nela estavam sentadas quatorze pessoas, tendo que gritar uma para a outra a fim de serem ouvidas acima do barulho reinante na discoteca.

           Jacques conversava com a inglesa à sua direita. Era uma atriz que acabara de fazer um filme com Peter Sellers. Estava com um grupo de pessoas que viera de Paris para o fim-de-semana. Jordana estivera colecionando-as na praia naquela tarde. Completara o grupo no restaurante L’Escale, onde tinham tomado coquetéis e jantado.

           Por volta de meia-noite seguiram todos para a discoteca.

           A razão por ter reunido toda aquela gente era o fato de estar aborrecida com Jacques. Ele parecia tomar tudo como favas contadas.

           De certa forma, era em muitas coisas parecido com uma mulher, só que, no seu caso, parecia pensar que o mundo inteiro girava em torno do seu pênis. Ela estava começando a ficar cansada dele. Mas, tirando alguns raros visitantes masculinos, não havia por perto ninguém que fosse realmente digno de atenção. Fora o tédio que a levara a fumar um “baseado”. Geralmente ela não fumava em público. Mas, quando a inglesa lhe oferecera uma tragada no banheiro das mulheres, ela tinha ficado lá até que ambas terminassem o cigarro.

           Depois disso, ela não mais se preocupava com a noite. Parecia que nunca rira tanto, em toda a sua vida. Todos estavam excessivamente alegres e espirituosos. Agora ela queria dançar, mas todo mundo estava ocupado em conversar.

           Levantou-se e foi sozinha para a pista de danças. Metendo-se entre a multidão, começou a dançar. Entregou-se à música, feliz por estar no Sul da França, onde ninguém achava estranho que uma mulher ou um homem quisesse dançar sozinho. Ela fechou os olhos.

           Quando os abriu, o preto alto e bonito estava dançando em frente a ela. Ele a fitou, mas não se falaram, Jordana já o notara antes, naquele mesmo dia, na praia; vira-o depois no bar do L’ Escale; agora ele estava ali. Ela o vira sentado a uma mesa não muito distante da sua.

           Ele dançava maravilhosamente, o corpo ágil sob a camisa aberta até a cintura e amarrada um pouco acima da calça presa que parecia colada no corpo. Ela começou a dançar com ele.

           Passado um momento, ela indagou:

           — Você é americano, não é?

           — Como soube?

           O sotaque dele era do Sul.

           — Você não dança como um francês, que se sacode de cima para baixo, nem como um inglês, que se sacode de um lado para o outro.

           Ele riu.

           — Eu nunca tinha pensado nisso.

           — De onde você é?

           — Da Geórgia.

           — Nunca estive lá.

           — Pois não perdeu grande coisa. Gosto mais daqui. Nunca poderíamos dançar assim por lá.

           — A situação ainda é assim?

           — Alnda. Eles não mudam nunca.

           Jordana ficou calada e ele disse:

           — Je m’appelle Gerard.

           Ela ficou surpresa. O francês dele era parisiense, sem o menor sotaque.

           — Seu francês é muito bom.

           — Não podia deixar de ser. Meus pais mandaram-me estudar aqui quando eu tinha oito anos. Voltei aos Estados Unido, quando meu pai foi morto. Não suportei aquilo lá. Voltei direto para Paris, no momento em que reuni o dinheiro suficiente para a passagem. Isso aconteceu quando eu tinha dezesseis anos.

           Jordana conhecia as escolas francesas e sabia que não eram nada baratas. A família dele devia ter dinheiro.

           — O que seu pai fazia?

           A voz dele permaneceu inalterada ao explicar:

           — Ele era cafetão. Tinha, porém, uma fatia de uma porção de outras coisas. Mas ele era preto e os caras não podiam suportar isso. Por isso, mataram-no num beco escuro e atribuíram a culpa a um negro que passava pelo local. Depois enforcaram o negro e ficou tudo em ordem.

           — Sinto muito.

           Ele sacudiu os ombros.

           — Meu pai costumava dizer que era isso que eles fariam com ele um dia. Não tinha queixas, pois levava uma boa vida.

           A música parou e o conjunto desceu do palco, enquanto o discotecário punha para tocar uma música mais lenta.

           — Foi um prazer conversar com você — disse Jordana, começando a voltar para a mesa.

           Ele segurou-a pelo braço, fazendo-a parar.

           — Não precisa voltar para lá.

           Ela ficou calada.

           — Você parece uma dama que gosta de viver intensamente e por lá só tem bolha.

           — Em que está pensando?

           — Ação. Foi uma coisa que aprendi com meu velho. Só gosto de viver intensamente. Por que não se vai encontrar comigo lá fora?

           Ela novamente ficou calada.

           — Eu vi a maneira como você estava olhando. Precisa desligar-se daquela turma lá.

           Ele sorriu subitamente.

           — Já fez alguma vez com um preto?

           — Não.

           — Eu sou muito melhor do que eles dizem que são.

           Ela olhou para a mesa. Jacques ainda estava conversando com a inglesa. Ele provavelmente nem mesmo percebera que ela se afastara.

           Ela virou-se para Gerard.

           — Está bem. Mas teremos apenas uma hora, pois terei que ir logo embora.

           Ele riu.

           — Uma hora é suficiente. Nesse tempo, poderei levá-la numa viagem à Lua, ida e volta.

           Quando ela saiu, ele estava parado no cais em frente à discoteca, observando o último artista de calçada recolher os seus artigos, depois de um dia inteiro e uma noite de trabalho. Ele virou-se ao ouvir o som de seus saltos altos na calçada.

           — Teve algum problema para sair?

           — Não. Eu disse que ia até o banheiro.

           Ele sorriu.

           — Importa-se de andar um pouco? Meu quarto fica lá no alto da rua, depois de Le Gorifle.

           — É o único meio de voar — disse Jordana, acompanhando.

           Apesar do adiantado da hora, ainda havia muita gente pelas ruas. Estavam todos empenhados em sua diversão principal: olharem-se uns aos outros e aos lindos iates ancorados na baía. Para muitos, era a única coisa que podiam fazer, depois de pagarem os preços exorbitantes de temporada pelos quartos e pelas refeições. Os franceses não tinham a menor compaixão pelos turistas de qualquer nacionalidade, nem mesmo pelos próprios franceses.

           Eles passaram por Le Gorille, com seu cheiro de ovos estrelados e batatas fritas, começando a subir a escadaria estreita. No meio do quarteirão, ele parou em frente à porta de uma casa velha, que tinha uma boutique no térreo. Abriu a porta com uma chave de ferro pesada e antiquada e apertou o interruptor que havia logo à entrada, acendendo as luzes do corredor.

           — Vamos ter que subir dois lances de escada.

           Ela assentiu e seguiu-o pela velha escada de madeira. O apartamento dele ficava logo no início do segundo. A porta tinha uma fechadura mais moderna. Ele abriu-a e segurou-a para que ela passasse.

           Jordana parou assim que entrou, pois o quarto estava completamente às escuras. Ela ouviu a porta ser fechada e o clique do interruptor.

           O quarto foi inundado pela luz vermelha de duas lâmpadas, uma em cada lado da cama encostada na parede em frente. Ela examinou o quarto, curiosa.

           Os móveis eram baratos e bastante usados, do tipo que os franceses costumam fornecer aos veranistas. A um canto havia uma pia e um bidê. O vaso ficava atrás de uma porta estreita, que mais parecia a de um armário embutido. Não havia banheira, chuveiro, nem cozinha, apenas uma chapa elétrica em cima de uma cômoda, ao lado de um armário. Ele comentou:

           — Não é muito, mas é um lar.

           Jordana riu.

           — Já vi piores. Você tem sorte de o banheiro não ser no corredor.

           Ele foi até a cômoda, abriu uma gaveta e tirou um cigarro, acendendo-o. O cheiro acre e adocicado da marijuana entrou pelas narinas de Jordana, quando ele estendeu o cigarro em sua direção.

           — Não tenho nada para beber.

           — Isto basta — disse ela, dando uma tragada no “baseado”. — Isto é “grama” da melhor qualidade.

           Ele sorriu.

           — Foi-me trazida por um amigo que acaba de chegar de Istambul. Ele também me trouxe uma cocaína da melhor qualidade. Já tomou alguma vez?

           — Já — respondeu Jordana, devolvendo-lhe o cigarro.

           Ela olhou-o enquanto ele tragava. Largou a sacola de praia e aproximou-se dele. Sentia um zumbido na cabeça e a umidade entre as pernas. Aquela “grama” era realmente ótima, se só uma tragada podia provocar aquilo. Ela puxou o nó da camisa dele.

           — Vamos ficar conversando ou vamos logo trepar? Lembre-se de que eu só tenho uma hora.

           Lentamente, ele colocou o cigarro num cinzeiro e depois puxou a blusa transparente dela, expondo-lhe os seios. Cobriu os dois com as mãos, apertando os mamilos entre o polegar e o indicador, até que ela começo a sentir dor.

           — Sua cadela branca! — disse ele, sorrindo.

           O sorriso dela foi igualmente provocante.

           — Negro sujo!

           As mãos dele forçaram-na a ficar de joelhos.

           — Tem que aprender a implorar um pouco, se quer que um preto entre na sua pombinha branca!

           Ela já desabotoara a camisa, agora puxou o zíper da calça. Ele nada usava por baixo e o falo saltou para a frente, livre, quando ela puxou a calça até a altura dos joelhos. Ela segurou-o e puxou-o em direção à sua boca. A mão dele manteve o rosto de Jordana longe.

           — Implore!

           Ela levantou os olhos para ele e sussurrou:

           — Por favor.

           Ele sorriu e tirou as mãos da cabeça de Jordana, deixando que ela o tomasse na boca. Ele meteu a mão na gaveta aberta da cômoda e pegou um frasco contendo cocaína. A colherzinha dourada estava presa à tampa por uma corrente. Habilmente, ele encheu-a e aspirou o pó para ambas as narinas. Depois olhou para ela.

           — É a sua vez.

           — Eu já estou feliz — disse Jordana, beijando-o e lambendo-lhe os testículos. — Não vou precisar.

           Ele segurou-a pelos cabelos e empurrou-lhe a cabeça para trás.

           — Sua cadela branca!

           Obrigou-a a levantar-se e encheu a colherzinha.

           — Faça o que eu estou mandando. Aspire!

           Ela aspirou e o pó passou da colher para o seu nariz. No instante seguinte ele pôs a colherzinha novamente cheia em sua outra narina. Desta vez ela aspirou sem que ele precisasse dizer nada. Sentiu uma dormência no nariz quase que imediatamente e o pó logo explodiu em seu cérebro, uma força extraordinária fluindo para os seus genitais.

           — Por Deus! Isso é maravilhoso!

           Ele sorriu.

           — E você ainda não viu nada, boneca. Vou-lhe mostrar alguns truques com essa droga que meu pai me ensinou.

           Um momento depois, eles estavam nus na cama e Jordana ria alegremente. Ela nunca se sentira tão bem. Ele encheu outra colher de cocaína e esfregou nas gengivas, mandando que ela fizesse o mesmo. Depois ele lambeu-lhe os mamilos até que ficassem úmidos de sua língua e salpicados com um pouco do pó branco, passando em seguida a trabalhá-los com a boca e com os dedos. Jordana nunca os sentira tão grandes e tão duros. Ela chegou a pensar que eles iriam explodir, tamanho era o prazer. Começou a gemer e a se contorcer:

           — Entre em mim! Entre em mim!

           — Alnda não — disse ele, rindo. — Estamos apenas começando.

           Ele abriu-lhe as pernas e salpicou um pouco de cocaína em seu clitóris, descendo depois a cabeça até lá. E logo Jordana estava gritando como nunca gritara antes. Cada orgasmo parecia levá-la a um ponto mais culminante do que qualquer outro que já alcançara antes. Ela estendeu a mão para pegar o falo dele e, virando-se, meteu-o na boca. Chupou-o sofregamente. Queria engoli-lo todo, sufocar-se até a morte naquele imenso e lindo instrumento.

           Subitamente ele se afastou. Jordana fitou-o, quase incapaz de até mesmo respirar. Ele estava de joelhos entre as suas pernas, o falo apontando para a sua vagina. Ele pegou o frasco e salpicou a glande com cocaína, até que ela pareceu estar coberta de açúcar. Então afastou bem as pernas dela e entrou devagar.

           Jordana sentiu os pulmões congestionados. Ele parecia tão grande! Por um momento chegou a pensar que não iria agüentá-lo, que não caberia todo dentro de si. Mas ele logo entrara todo e por um longo momento ficou imóvel. Ela sentia a vibração na barriga. Ele começou a mexer lentamente, suavemente a princípio, com arremetidas longas e suaves, acelerando o ritmo aos poucos, até passar a golpeá-la como um martelo.

           De algum lugar distante, ela ouviu-se gritar, dilacerada por orgasmos após orgasmos. Nunca antes gozara daquela maneira. Nunca!

           Ela sempre pensara que aquela espécie de excitação sexual era algo sobre o qual as pessoas apenas falavam ou liam. Uma espécie de jogo que todo mundo fazia, apenas para esconder as suas próprias sensações débeis. E se fosse verdade, achava ela, era algo além da sua capacidade de sentir. Para ela, o sexo não passava de um triunfo sobre o macho; qualquer satisfação daí derivada era puramente acidental. Mas aquilo era diferente, ela agora estava sendo usada, estava sendo agradada. Estava dando, estava recebendo, estava sendo completada.

           Finalmente ela não pôde agüentar mais e gritou:

           — Pare! Por favor, pare!

           O corpo dele descansou contra o seu; ele ainda estava duro dentro dela. Ela contemplou-o. À difusa luz vermelha, viu uma camada de suor a cobrir-lhe o rosto e o peito, fazendo-os brilhar como cobre.

           Os dentes brancos brilharam num sorriso.

           — Você está bem, dama branca?

           Ela assentiu, lentamente.

           — Você gozou?

           — Não. Isso foi a única coisa que meu pai não me ensinou. Use-o bastante para fazer uma dama feliz e isso é o suficiente para impedir que você mesmo goze.

           Ela fitou-o em silêncio por um longo tempo, depois, súbita e inexplicavelmente, começou a chorar.

           Ele ficou a observá-la e logo se levantou, sem dizer uma palavra, indo até a pia. Inclinando-se, abriu a torneira do bidê, explicando:

           — A gente tem que deixar a água correr por alguns minutos, para que ela fique quente.

           Ele abriu um pequeno armário em cima da pia e tirou uma toalha, estendendo-a nos canos de ligação. Depois experimentou a água com o dedo.

           — Já está boa.

           Ela fitou-o, sem dizer nada.

           — Você não disse que tinha apenas uma hora?

           Ela assentiu, sentando-se.

           — Não sei se vou conseguir andar.

           Ele sorriu.

           — Não terá problemas, assim que começar a se mexer.

           Jordana saiu da cama. Ele estava certo, Depois do primeiro passo, as forças começaram a retomar a suas pernas. Ela agachou-se sobre o bidê e pegou o sabonete e a esponja que ele lhe estendia. Lavou-se rapidamente. A água morna estava revigorante. Pegou a toalha e enxugou-se. Enquanto se vestia, ele lavou-se também.

           — Lamento muito você não ter gozado.

           — Não há problema. Prometi-lhe uma viagem à Lua e queria que a fizesse mesmo.

           — E fiz realmente. Acho que nunca mais me vou esquecer.

           Ele hesitou por um momento

           — Não poderíamos voltar a fazer em outra ocasião?

           — Talvez.

           Vestida, ela pegou a sacola e tirou algumas notas grandes estendendo para ele.

           — Espero que não se incomode. . .

           Ele pegou o dinheiro.

           — Posso perfeitamente usá-lo. Mas não precisa dar-me nada.

           — É que não lhe dei mais nada.

           — Deu-me o suficiente, largando todos os seus amigos para vir comigo. Isso vale alguma coisa.

           Algo no tom de voz dele despertou a curiosidade de Jordana.

           — Você me conhece?

           Ele sacudiu a cabeça.

           — Não.

           — Então por que me chamou?

           — Eu a vi esta tarde na praia, depois que aquele homem mandou Jacques ao seu encontro.

           — Você conhece Jacques?

           — Conheço. Passei a outra noite com ele.

           Ela ficou calada por um momento.

           — Jacques é. . .

           Ele assentiu.

           — Tenho certeza de que Jacques gostaria de ser mulher.

           — E você?

           — Eu gosto de trepar. Não me importo absolutamente, desde que haja um buraco onde meter.

           — Conhece o homem que falou com Jacques?

           — Nunca o vi antes. Tinha cabelos pretos e falava francês com um sotaque árabe. Ouvi-o dizer que Jacques tinha que fazer alguma coisa esta noite, porque amanhã você estaria partindo para a Califórnia.

           Disse também que Jacques não deveria preocupar-se, porque ele daria um jeito para que a San Marco não pudesse levá-la de volta a Cannes.

           Subitamente Jordana compreendeu tudo. Youssef era o único que sabia que ela partiria no dia seguinte. Ele viera de Paris para tomar todas as providências relativas à viagem, por determinação de Baydr.

           Há muito tempo atrás ela ouvira falar sobre uma ligação entre Youssef e a Princesa Mara. E Mara empurrara Jacques para cima dela.

           O que ela não entendia era o possível benefício que Youssef poderia tirar da situação. A menos. . . a menos que pretendesse usá-la contra ela, junto a Baydr.

           Uma sensação desconhecida de medo apoderou-se dela. Youssef realmente jamais gostara dela, mas isso não parecia ser o suficiente para explicar algo assim. Ela simplesmente não podia fazer a menor idéia. Tudo o que sabia era que precisava voltar à villa naquela noite mesmo, de um jeito ou de outro.

           Mas aquilo constituía um tremendo problema. Não havia táxis em St. Tropez depois da meia-noite. E ela dera a Guy, seu motorista, a noite de folga, de forma que não poderia também falar com ele.

           Ela olhou para Gerard.

           — Você tem carro?

           — Não.

           — Oh, meu Deus! Uma expressão preocupada estampou-se em seu rosto.

           — Mas tenho uma moto. Poderei levá-la de volta, se não se importar de ir na garupa.

           — Você é maravilhoso! — disse ela abruptamente. Sorriu e abraçou-o, sentindo um alívio súbito. Beijou-o no rosto, comovida. — Acho que vai ser bem divertido.

           Ele abaixou-lhe os braços subitamente embaraçado.

           — Não tenha tanta certeza assim. Espere para ver se continua a pensar do mesmo modo depois que chegarmos lá.

          

           Já se haviam passado duas horas desde que tinham decolado de Paris. As aeromoças estavam atarefadas, preparando-se para servir o almoço. Jordana olhou para trás e disse a Youssef:

           — Acho que eu gostaria de dormir um pouco.

           Youssef desabotoou o cinto de segurança e levantou-se.

           — Mandarei que preparem as poltronas imediatamente.

           Ele olhou para Diana, a secretária de Jordana. Ela estava cochilando na poltrona a seu lado, junto à janela, o drinque inacabado descansando na bandeja à sua frente.

           Ele foi até ao chefe dos comissários de bordo, que estava parado junto à cozinha.

           — Madame Al Fay gostaria de descansar um pouco.

           — Mas já vamos servir o déjeuner!

           — Ela não está com fome.

           — Oui, monsieur.

           Ele afastou-se rapidamente e passou pelas cortinas que separavam a primeira classe da classe econômica.

           Youssef virou-se e olhou para Jordana. Os olhos dela estavam ocultos pelos imensos óculos escuros, mas não havia em seu rosto o menor vinco que indicasse que não dormita na noite anterior. Ela estava folheando a revista da Alr France em seu colo e tomando um copo de vinho branco.

           Youssef conteve um bocejo. Ele estava exausto. Estava acordado desde as quatro horas da manhã, quando Jacques lhe telefonara de St. Tropez, para dizer que Jordana desaparecera.

           A San Marco ainda estava no ancoradouro e não havia o menor vestígio dela em qualquer parte da aldeia. Jacques estivera em todos os restaurantes e discotecas que ainda estavam abertos. Youssef desligara, furioso.

           Nada havia que pudesse fazer, a não ser esperar o momento de ir até a villa na manhã seguinte, para levá-la ao aeroporto. Ele não conseguira voltar a dormir. Todo o dinheiro que dera a Jacques, todos os planos que tinha feito, resultavam em absolutamente nada.

           Mesmo dizer ao mecânico da garagem Citroen, naquela manhã, que tirasse o SM de Jacques, não lhe dera nenhuma satisfação.

           Jordana estava tomando café quando ele chegara à vila, às nove horas da manhã. Ela nada lhe dissera a respeito dos acontecimentos da noite anterior, nem a que horas chegara a casa. Ele descobrira, junto a um dos guardas da vila, que ela chegara de Cannes de táxi, por volta de cinco horas da manhã.

           No carro, a caminho do aeroporto, ele explicara os arranjos que fizera para o vôo. Ele reservara as quatro últimas poltronas da primeira classe. Duas eram para ela e os dois assentos de trás seriam ocupados por ele e por Diana, a secretária de Jordana. Reservara também os três primeiros assentos da classe econômica. Assim, se ela desejasse repousar, poderia deitar-se lá. Havia também tomado providências com relação à bagagem. Seria colocada na própria cabina do avião, à fim de não terem que ficar esperando quando chegassem a Los Angeles. Haveria um agente especial da Alfândega dos Estados Unidos à espera deles, a fim de que a bagagem pudesse ser imediatamente transferida para o helicóptero que os levaria ao Rancho dei Sol. Seriam então quatro horas da tarde em Los Angeles. O jantar no Rancho dei Sol estava marcado para as oito horas. Se tudo corresse de acordo com o previsto, ela teria tempo de sobra para vestir-se.

           O chefe dos comissários voltou.

           — Está tudo pronto para a senhora.

           — Obrigado.

           Youssef foi transmitir a informação a Jordana.

           — Já está tudo pronto.

           Ela assentiu e levantou-se. Abriu a bolsa e tirou um pequeno frasco, jogando duas pílulas na mão. Engoliu-as imediatamente, com um pouco de vinho.

           — Isto é para ter certeza de que conseguirei dormir.

           — Certo.

           — Por gentileza, providencie para que eu seja acordada pelo menos uma hora e meia antes de aterrissarmos.

           — Pode deixar. Descanse bem.

           — Obrigada.

           Youssef ficou observando-a desaparecer atrás das cortinas e depois acomodou-se em sua poltrona. A seu lado, Diana remexeu-se, mas não abriu os olhos. Ele olhou para o relógio e depois pela janela.

           Alnda restavam onze horas de vôo. Desta vez ele não conteve o bocejo.

           Fechou os olhos, na esperança de conseguir dormir um pouco.

           A Air France fizera um bom trabalho. Tinham fixado cortinas temporárias em torno dos seus assentos, do tipo das que estão sendo usadas para o descanso da tripulação extra, naqueles vôos longos sem escala. As cortinas da janela estavam fechadas, e lá dentro estava escuro. Jordana deitou-se e cobriu-se.

           Ficou imóvel, esperando que as pílulas para dormir fizessem efeito.

           Começou a sentir o protesto do corpo dolorido, enquanto a exaustão a invadia. Alnda podia sentir os sacolejos da motocicleta na estrada, enquanto corriam pela madrugada em direção a Cannes. Ela pedira a Gerard que a deixasse na estação ferroviária, no centro da cidade. Lá sempre havia táxis. Oferecera-lhe mais dinheiro, mas ele recusara.

           — Já me deu o suficiente.

           — Obrigada.

           Ele engrenara a motocicleta.

           — Procure-me quando voltar a St. Tropez.

           — Está certo. E mais uma vez obrigada por tudo.

           Ele pegara o capacete que emprestara a ela para a viagem e prendera-o na garupa.

           — Adeus.

           — Adeus.

           Ele arrancara. Jordana ficara observando-o até virar na esquina da rua que levava ao mar, depois se encaminhara para o primeiro táxi da fila e o pegara.

           O sol já raiara e passavam alguns minutos das cinco horas quando entrara em seu. quarto. As malas já estavam arrumadas, encostadas na parede, para o caso de ela querer levar mais alguma coisa. Um bilhete de sua secretária estava encostado no abajur da mesinha de cabeceira.

           Ela apanhara-o. Era conciso, no estilo habitual de Diana:

           Partida da Villa — 9 horas

           Partida Nice — Paris — 10 horas

           Partida Paris — Los Angeles — 12 horas

           Chegada Los Angeles — 16 horas, horário da costa do Pacífico.

           Olhara novamente para o relógio. Se queria tomar café com os meninos às sete horas, não havia por que deitar-se agora. Seria melhor que adiasse o sono para o avião.

           Fora ao banheiro, abrira o armarinho de remédios e tirara um vidro. Metera um Dexamyl na boca e engolira-o com um pouco de água. Aquilo a manteria acordada pelo menos até que o avião decolasse de Paris.

           Lentamente, começara a se despir. Ao ficar inteiramente nua, contemplara-se no espelho de corpo inteiro embutido na parede do quarto de vestir. Havia algumas manchas arroxeadas nos seios, nos lugares apertados por Gerard. Mas não seriam vistas numa luz difusa e à luz do dia poderia perfeitamente disfarçá-las com um pouco de maquilagem. A barriga continuava achatada e não havia nenhuma gordura extra nos quadris e nas coxas. Ela colocara a mão sobre o púbis e gentilmente separara os cabelos louros, examinando-se atentamente.

           Sentia a vagina inchada e parecera-lhe ligeiramente vermelha e irritada. Estremecera ao recordar como o preto a possuíra. Ela nunca sonhara que pudesse gozar tantas vezes. Voltara ao armarinho de remédios do banheiro e pegara um pacote de Massengill. Uma ducha não a machucaria e pelo menos poderia aliviá-la um pouco. Enquanto misturava a solução, outro pensamento lhe ocorrera.

           E se o preto tivesse alguma doença venérea? Sempre havia uma possibilidade, especialmente pelo fato de ele ser bi. Ela lera em algum lugar a informação de que o maior índice de infecções venéreas ocorria entre os homossexuais. Abrira novamente o armarinho de remédios e engolira dois tabletes de penicilina. Colocara o vidro na bolsa, a fim de não se esquecer de continuar a tomá-los pelos dias seguintes.

           O Dexamyl começara a fazer efeito. Ao terminar a ducha, fora direto para o banheiro. Água fria e quente, fria e quente, fria e quente. Três vezes, como aprendera com Baydr. Ao sair do banheiro, sentira-se revigorada, como se tivesse dormido a noite inteira.

           Sentara-se na penteadeira e lentamente começara a se maquilar.

           Depois se vestira e descera para reunir-se aos meninos para o café da manhã.

           Eles tinham ficado surpresos ao vê-la. Geralmente Jordana não tomava café com eles. Em vez disso, eles subiam para o seu quarto assim que ela acordava, o que normalmente acontecia pouco antes do almoço deles.

           — Para onde está indo, mamãe? — indagara Muhammad.

           — Estou indo encontrar-me com papai na Califórnia.

           O rosto dele se iluminara num sorriso.

           — Nós também vamos?

           — Não, querido. É uma viagem rápida. Estarei de volta dentro do poucos dias.

           Ele ficara visivelmente desapontado.

           — Papai voltará com a senhora?

           — Não sei.

           Era verdade, Jordana não sabia. Baydr apenas pedira que ela fosse ao seu encontro. Ele nada dissera a respeito de seus planos futuros.

           — Espero que ele volte com a senhora — dissera Samir.

           — Eu também — dissera ela.

           — Queremos que ele veja como estamos falando bem o árabe.

           — A senhora dirá a ele, mamãe? — pedira Muhammad.

           — Direi. Papai ficará muito orgulhoso de vocês.

           Os dois meninos sorriram.

           — Diga-lhe também que sentimos a falta dele — pedira Muhammad.

           — Direi.

           Samir fitara-a, pensativo.

           — Por que papai não vem para casa como os outros pais? Os pais dos meus amigos voltam para casa todas as noites. É porque ele não gosta de nós?

           — Papai ama vocês dois, mas é um homem muito ocupado e tem que trabalhar bastante. Ele tem vontade de voltar para casa a fim de ver vocês dois, mas não pode.

           — Eu gostaria de que ele voltasse todos os dias para casa, como os outros pais — dissera Samir.

           Para mudar de assunto, Jordana perguntara-lhes:

           — O que vão fazer hoje?

           O rosto de Muhammad se iluminara.

           — A babá vai levar-nos a um piquenique.

           — Deve ser divertido.

           — É, sim. Mas ainda é mais divertido quando papai nos leva para andar de esqui aquático.

           Ela contemplara os filhos. Havia algo naqueles rostos graves e nos olhos que lhe tocara o coração. Sob muitos aspectos, eles eram miniaturas do pai. Muitas vezes Jordana sentia que podia fazer muito pouco por eles. Os meninos precisam modelar-se à imagem do pai.

           Será que Baydr sabia disso? Ela de vez em quando achava que Baydr não pensava em outra coisa que não fossem os seus negócios.

           A babá entrara na sala, dizendo em seu sotaque escocês:

           — Está na hora da lição de equitação, meninos. O professor já chegou.

           Eles pularam das suas cadeiras e correram para a porta, gritando de alegria. A babá interrompera-os:

           — Esperem um momento, meninos. Não se estão esquecendo de alguma coisa?

           Os dois meninos haviam-se entreolhado e depois, envergonhados, voltaram para junto da mãe, oferecendo-lhe os rostos para que ela os beijasse.

           — Tenho uma idéia — dissera Samir de repente, fitando-a.

           Ela olhara para o menino, sorrindo. Já sabia o que estava para acontecer.

           — E qual é?

           — Quando a senhora voltar, poderia trazer-nos um presente de surpresa. Não acha que é uma boa idéia?

           — É mesmo. E que espécie de presente você está imaginando?

           Ele inclinara-se e sussurrara alguma coisa ao ouvido do irmão. Muhammad assentira.

           — Conhece os bonés de beisebol que papai usa quando está no iate?

           Jordana assentira.

           — Poderia trazer uns iguais para a gente?

           — Tentarei.

           — Obrigado, mamãe — disseram ambos, em coro.

           Ela beijara-os e eles tinham saído correndo da sala, sem olhar para trás. Ela ficara sentada à mesa mais um pouco, depois voltara para seu quarto. Às nove horas, quando Youssef chegara com a limusine, ela estava pronta, à sua espera.

           O zumbido dos jatos e as pílulas para dormir começaram a fazer efeito. Jordana fechou os olhos e pensou em Youssef. O que será que ele estava tentando fazer? Estaria agindo por conta própria ou seguindo instruções de Baydr? Era estranho que Baydr estivesse longe há tanto tempo, quase três meses. Nunca antes tinham ficado separados por um período tão longo. E não era simplesmente por causa de outra mulher. Ela conhecia-o bastante para saber que não se tratava disso. Tomara conhecimento de Baydr e suas mulheres muito antes de que se tivessem sequer casado. Assim como ele soubera dos seus casos passageiros.

           Não, era outra coisa que estava acontecendo. Mais profunda e mais importante. Mas ela jamais o saberia, a não ser que o próprio Baydr lhe dissesse.

           Embora ele se tivesse ocidentalizado sob muitos aspectos e ela se tivesse tornado uma muçulmana, ainda permaneciam separados por mil anos de filosofias diferentes. Apesar de o Profeta ter concedido às mulheres mais direitos do que elas jamais tinham tido até então, mesmo assim não lhes concedera a plena igualdade. Na verdade, todos os direitos das mulheres estavam sujeitos ao alvitre dos homens.

           Isso era uma coisa bastante clara na relação dos dois. Ela sabia e ele também. Nada havia que Baydr não lhe pudesse tirar se o desejasse, até mesmo as crianças.

           Um calafrio percorreu-lhe o corpo e ela imediatamente afastou o pensamento. Não, ele nunca faria isso. Alnda precisava dela para muitas coisas. Como agora, quando desejava que ela aparecesse a seu lado no mundo ocidental, a fim de que não o considerassem como um ser totalmente estranho.

           Foi esse o último pensamento de Jordana antes de adormecer.

           

           O sol do meio-dia se filtrava pelas árvores e ia desenhar padrões delicados nas toalhas encarnadas das mesinhas do bar externo do Beverly Hilis Hotel. Baydr estava sentado à sombra de um dos reservados, protegidos do sol. Carriage e os dois japoneses estavam sentados à sua frente. Ele ficou a observá-los enquanto terminavam o almoço.

           Meticulosamente, colocaram a faca e o garfo estendidos sobre o prato, à maneira européia, para indicar que haviam terminado a refeição.

           — Querem café? — indagou ele.

           Todos assentiram. Ele fez um sinal para o garçom e pediu quatro cafezinhos. Ofereceu-lhes cigarros, que foram recusados. Baydr acendeu um e recostou-se na cadeira, continuando a observá-los.

           O japonês mais velho disse algo em sua língua a seu associado.

           O mais jovem inclinou-se sobre a mesa.

           — O Sr. Hokkaido perguntou se já teve tempo de considerar nossas propostas.

           Baydr dirigiu-se ao japonês mais moço, embora soubesse que Hokkaido entendia todas as suas palavras.

           — Já pensei no assunto.

           — E então?

           O mais moço não conseguia ocultar sua ansiedade. Baydr viu a expressão de desaprovação surgir no rosto de Hokkaido e desaparecer imediatamente.

           — Não vai dar certo. Os termos são muitos desiguais.

           — Não estou entendendo — disse o japonês mais moço. — Estamos dispostos a construir os dez petroleiros pelo preço que nos propôs. Tudo o que pedimos é que use os nossos bancos para o financiamento.

           — Não creio mesmo que esteja entendendo — disse Baydr calmamente. — Vocês estão falando em efetuar uma venda e eu estou interessado em formar um consórcio total. Não vejo vantagem em competirmos entre nós, na compra de certas propriedades. Assim tudo o que conseguimos é elevar o preço que pagaremos ao final.

           Tomemos como exemplo o caso do Rancho deI Sol. Um dos seus grupos acaba de comprá-lo.

           — Foi outro grupo, não o nosso — disse o japonês mais moço rapidamente. — Mas eu não sabia que o senhor estava interessado nele.

           — E não estava. Mas há outra grande área de desenvolvimento potencial na mesma região pela qual estamos interessados, assim como o grupo de vocês. O resultado da nossa disputa é que o preço quase dobrou. Assim, qualquer que seja o grupo que termine comprando-a, estará tendo prejuízo antes mesmo de iniciar o negócio.

           — Está negociando por intermédio de seu banco em La Jolla? 

           Baydr assentiu.

           O jovem virou-se para Hokkaido e falou rapidamente em japonês.

           Hokkaido ouviu atentamente, acenando com a cabeça, e respondeu em seguida. O jovem tornou a virar-se para Baydr.

           — O Sr. Hokkaido pede desculpas por estarmos competindo por aquela propriedade, mas diz que as negociações começaram antes que entrássemos em contato.

           — Eu também lamento, mas foi exatamente por isto que os procurei. Para chegarmos a um acordo. Nenhum de nós precisa do dinheiro do outro. Cada um possui dinheiro próprio, mais do que suficiente. Mas, se trabalharmos juntos, talvez possamos ser de grande valia um para o outro, em muitos assuntos. Foi por isso que lhes falei em construírem petroleiros para nós.

           — Mas mesmo isso está-nos dificultando — disse o japonês mais moço. — Construiremos os dez petroleiros que está querendo, mas onde iremos encontrar dez petroleiros para entrega imediata? Não há nenhum à venda no mercado.

           — Sei disso. Mas a empresa transportadora de vocês possui mais de cem petroleiros. Seria bem simples transferirem dez para a nossa companhia. Continuariam a possuir cinqüenta por cento de cada um. Dessa forma, não estariam realmente perdendo os benefícios que lhes proporcionam.

           — Estaremos perdendo cinqüenta por cento dos lucros que eles proporcionam. E não vemos nada que possa substituir isso.

           — Isso poderia ser solucionado com cinqüenta por cento dos petroleiros que irão construir. E creio que o governo de vocês encararia favoravelmente que cinqüenta por cento dos seus investimentos estrangeiros fossem feitos por meu intermédio.

           — Não estamos encontrando a menor dificuldade para a aprovação dos nossos investimentos no exterior.

           — As condições mundiais podem-se alterar — disse Baydr suavemente. — Uma recessão no Ocidente poderá desequilibrar a balança de pagamentos de vocês.

           — No momento, não há a menor perspectiva de que isso possa acontecer.

           — Nunca se sabe. Uma alteração qualquer no fornecimento de energia poderia acarretar uma paralisação súbita na tecnocracia ocidental. Vocês então teriam que enfrentar dois problemas: uma escassez de clientes e a sua própria incapacidade de manter o atual ritmo de produtividade.

           Novamente o jovem falou em japonês a Hokkaido. O mais velho assentiu lentamente, enquanto ouvia. Depois virou-se para Baydr e disse em inglês:

           — Se concordarmos com a sua proposta, usará os petroleiros para levar petróleo até o Japão?

           Baydr assentiu.

           — Exclusivamente?

           Baydr assentiu novamente.

           — E qual a quantidade de petróleo que nos poderia garantir?

           — Isso dependeria inteiramente do quanto o meu governo vai permitir. Creio que, nas circunstâncias corretas, pode-se chegar a um acordo satisfatório.

           — Pode assegurar-nos uma cláusula de nação mais favorecida?

           — Posso.

           Hokkaido ficou em silêncio por um momento, depois encarou Baydr.

           — Gostaria de analisar todo o problema com os meus associados no Japão.

           — Certo.

           — Poderia ir a Tóquio, se desejássemos prosseguir com as negociações?

           — Poderia.

           Os japoneses levantaram-se. Baydr levantou-se também. O Sr. Hokkaido fez uma mesura e estendeu-lhe a mão.

           — Muito grato pelo almoço bastante agradável e esclarecedor, Sr. Al Fay.

           Baydr sacudiu a cabeça.

           — Eu é que devo agradecer pela disposição do seu tempo e de sua paciência.

           Ele apertou a mão de Hokkaido e depois tornou a sentar-se, quando os japoneses se afastaram. Olhou por cima da mesa para Carriage, com um sorriso no rosto.

           — E ainda me chamam de machão e dizem que nós somos muito difíceis de compreender.

           Carriage riu. Fez um sinal pedindo a conta e assinou-a.

           — Michael Vincent está no bangalô, à nossa espera.

           — Então vamos indo. A que horas chega o avião de Jordana?

           — Estava marcado para as quatro horas. Verifiquei antes do almoço. Está quinze minutos atrasado. Devemos deixar o hotel por volta de três e meia.

           Eles passaram pelo bar imerso nas sombras e saíram novamente ao sol, seguindo pelo caminho que levava aos bangalôs. Os passos ecoavam na calçada de cimento rosa.

           — Já verificou com o Rancho dei Sol? — indagou Baydr.

           Carriage assentiu.

           — Já está tudo pronto. Reservamos uma casa particular para você perto do edifício principal, dando para o campo de golfe. O pessoal do banco ficará no próprio clube. O jantar será servido num salão particular, precedido por coquetéis. Isso nos dará a oportunidade de nos conhecermos.

           — Algum cancelamento?

           — Nenhum. Estarão todos presentes. Estão tão curiosos a seu respeito quanto você em relação a eles.

           Baydr riu.

           — O que será que eles pensariam se eu aparecesse num traje árabe tradicional?

           Carriage riu também.

           — Eles provavelmente se cagariam todos. Já ouvi dizer que eles desconfiam de que você não passa de um selvagem. O grupo é bastante esnobe. Tudo WASP. Não tem judeus, nem católicos, nem estrangeiros.

           — Então eles vão adorar Jordana.

           Era verdade. Ela nascera e fora criada na Califórnia e não podia haver ninguém mais WASP do que ela.

           — Quanto a isso, não tenho a menor dúvida — confirmou Carriage.

           — Mesmo assim, não vai ser fácil. Notei uma falta de entusiasmo por parte deles na procura de novos negócios, E perdemos algumas contas importantes, depois que assumimos o banco.

           — De acordo com os relatórios que me entregaram, atribuem a culpa a alguns bancos de Los Angeles, controlados por judeus.

           — Isso não passa de um pretexto para satisfazer-me. Fico desconfiado quando me dizem algo que esperam que eu vá aceitar. Eles trabalharam mal no caso do Rancho Estrela e permitiram que os japoneses nos levassem a uma situação de termos que oferecer um lance maior.

           — Eles dizem que os japoneses estão operando por intermédio dos bancos de Los Angeles.

           — Não é desculpa suficiente. Eles estavam no local e deviam ter acertado tudo antes mesmo que Los Angeles sequer tomasse conhecimento do assunto. Agora temos que ir até Tóquio para resolver o impasse.

           Já estavam no bangalô. Carriage abriu a porta e entraram. O quarto escuro e esfriado pelo ar condicionado estava bastante agradável, depois da claridade intensa do calor do exterior.

           Vincent levantou-se, o inevitável copo de uísque na mesinha à sua frente.

           — É um prazer vê-lo novamente, Baydr.

           — O mesmo digo eu, meu amigo.

           Apertaram-se as mãos. Baydr deu a volta à mesinha e sentou-se no sofá.

           — Como está indo o roteiro?

           — Era sobre isso que eu queria falar-lhe. A princípio pensei que ia ser fácil. Sabe como é... Como nos meus filmes sobre Moisés e Jesus, haveria alguns milagres, proporcionando a necessária emoção visual. A divisão do Mar Vermelho para os israelenses, a Ressurreição. Mas não há nada disso. O seu Profeta não tem milagre algum a seu favor. Ele foi apenas um homem.

           Baydr riu.

           — É verdade. Apenas um homem, como todos nós. Nem mais, nem menos. Isso o desaponta?

           — Cinematograficamente, sim.

           — Mas parece-me que isso tornará a mensagem do Profeta ainda mais convincente e dramática, o fato de ter sido apenas um homem, como qualquer outro, que tenha trazido as revelações de Alá para os seus semelhantes. Mas o que me diz de sua perseguição pelos árabes pagãos, os insultos dos judeus e cristãos, o degredo e a fuga de Medina? E de sua batalha para voltar a Meca? Tenho certeza de que esses fatos proporcionam material altamente dramático para diversos filmes.

           — Para o mundo muçulmano talvez, mas duvido muito de que o mundo ocidental vá aceitar a idéia de que é o vilão da história. E o senhor disse que queria que o filme fosse exibido no mundo inteiro, não é?

           — Exatamente.

           — Pois é justamente esse o nosso problema. Vincent pegou o copo de uísque e esvaziou-o.

           — Vamos ter que resolver esse problema, antes mesmo de começar o roteiro.

           Baydr ficou em silêncio. A verdade no Alcorão era evidente por si mesma. Por que então sempre surgia esse problema? Os incrédulos nem mesmo queriam ouvi-la. Por que, uma vez só, não abriam suas mentes e seus corações para a mensagem do Profeta? Se tal acontecesse, veriam a luz. Ele fitou o diretor, pensativo.

           — Se me lembro da sua versão da vida de Cristo, ele foi crucificado pelos romanos e não pelos judeus, não é mesmo?

           Vincent assentiu e Baydr continuou:

           — Mas isso não foi o contrário do que realmente aconteceu? Não foram os próprios judeus que condenaram Cristo à cruz?

           — Há opiniões divergentes. Porque o próprio Cristo era um judeu e foi traído por um dos seus apóstolos, Judas, que também era judeu, e porque Ele era odiado pelos rabinos dos templos ortodoxos, por ameaçar o poder e a autoridade deles, muita gente acredita que os judeus forçaram os romanos a crucificá-lo.

           — Mas os romanos pagãos é que ficaram sendo os vilões do filme, não é mesmo?

           — É.

           — Então temos a solução. Faremos o nosso filme em torno do conflito do Profeta com os Quraish, que o levou à fuga de Medina.

           As guerras do Profeta, na realidade, não foram contra os judeus, que já tinham aceitado o princípio de um só Deus, mas contra as três grandes tribos árabes, que idolatravam muitos deuses. Foram elas que o expulsaram .de Meca, e não os judeus.

           Vincent fitou-o, surpreso.

           — Lembro-me de ter lido a respeito, mas nunca encarei o fato sob esse ponto de vista. Tinha a impressão de que os árabes sempre tinham apoiado o Profeta.

           — Não no princípio. A tribo Quraish era formada por árabes pagãos que adoravam muitos deuses e foi para eles e não para os judeus e cristãos que Maomé dirigiu os seus ensinamentos sobre o verdadeiro Alá. Foi a eles que o Profeta primeiro chamou de “Infiéis”.

           — Pois então tentarei fazer o roteiro sob esse ângulo.

           Vincent tornou a encher seu copo, dirigindo-se novamente a Baydr.

           — Tem certeza de que não está interessado em escrever o roteiro comigo?

           Baydr riu.

           — Sou um homem de negócios e não um escritor. Deixarei essa parte para você.

           — Mas o fato é que conhece a história melhor do que qualquer outra pessoa que já encontrei.

           — Leia o Alcorão novamente. Talvez então veja a mesma coisa que eu.

           Baydr levantou-se.

           — Youssef chegará esta tarde e depois do fim-de-semana iremos todos encontrar-nos para debater o assunto. Agora, se me dá licença, tenho que ir para o aeroporto, a fim de esperar minha esposa.

           Vincent levantou-se também.

           — Não vou prendê-lo então por mais tempo. Mas estou satisfeito por termos podido conversar. Creio que me pôs no caminho certo. Vou começar a trabalhar imediatamente nesse novo ângulo. Apertaram-se as mãos e Vincent saiu do bangalô. Baydr virouse para Carriage.

           — O que você está achando?

           — Se me permite dar uma opinião, chefe, acho que deveria pagar-lhe pelo trabalho que teve até agora e esquecer o assunto. A única coisa que pode conseguir com um filme desses será um prejuízo inevitável.

           — O Alcorão ensina que o homem pode beneficiar-se de muitas formas com suas ações. Portanto, não deve visar apenas o lucro, mas também o bem.

           — Espero que tenha razão, mas eu seria bastante cauteloso antes de prosseguir com a produção do filme.

           — Você é um homem estranho. Jamais pensa em outra coisa que não sejam dólares e cents?

           Carriage enfrentou o olhar atento de Baydr.

           — Não, quando estou trabalhando. E não creio que você me tenha contratado pela minha convivência social.

           — Acho que não. Mas existem outras coisas mais importantes do que o dinheiro.

           — Essa decisão não compete a mim, especialmente quando se trata do seu dinheiro. Ele começou a guardar na maleta alguns documentos, acrescentando:

           — Meu trabalho é fazer com que você saiba de todos os riscos envolvidos em cada caso. O resto é com você.

           — E acha que o filme é um risco muito grande?

           — Acho.

           Baydr pensou por um momento.

           — Pois pensaremos nisso antes de começar a produção. Voltaremos a falar sobre o assunto quando o roteiro estiver concluído e pronto o orçamento do filme.

           — Certo.

           Baydr foi até a porta do seu quarto, onde parou e disse:

           — Obrigado, Dick. Não quero que jamais pense que não aprecio o que está procurando fazer por mim.

           Dick corou. Não era sempre que Baydr lhe fazia um elogio.

           — Não precisa agradecer-me, chefe.

           Baydr sorriu.

           — Vou tomar um banho de chuveiro rápido e estarei pronto para partir dentro de alguns minutos. Pode chamar o carro para vir até aqui apanhar-nos.

           — Certo, chefe.

           Carriage já estava falando ao telefone antes mesmo que Baydr fechasse a porta do quarto.

          

           Como sempre, o avião procedente de Paris estava atrasado em cerca de uma hora. Silenciosamente, Baydr amaldiçoou a empresa aérea. Eram todas iguais. Jamais davam informações precisas sobre a chegada dos seus vôos, a não ser quando já era tarde demais e não restava outra alternativa que não fosse ficar sentado no aeroporto, esperando a chegada do avião.

           O telefone tocou na pequena sala de espera reservada a personalidades e a recepcionista atendeu-o. Ouviu por um momento, depois disse:

           — O vôo 003 está aterrissando neste momento. Deverá aproximar-se do portão em poucos minutos.

           Baydr levantou-se. Ela saiu de trás da sua mesinha e aproximou-se deles.

           — O Sr. Hansen irá encontrá-los no portão e providenciará para que a Sra. Al Fay seja liberada de todas as formalidades.

           — Obrigado — disse Baydr.

           Havia uma pequena multidão junto ao portão de desembarque.

           O Sr. Hansen, um homem corpulento no uniforme da Alr France, aproximou-se deles e imediatamente os levou por uma escada até a sala da Alfândega. Um agente de imigração sem uniforme juntou-se a eles e chegaram à sala de fiscalização no momento em que Jordana desembarcava do avião.

           Baydr sorriu, aprovadoramente. Jordana possuía o instinto das conveniências. Esquecera completamente as calças americanas desbotadas e as blusas transparentes que costumava usar no Sul da França.

           Em vez disso, estava convenientemente vestida como uma jovem esposa californiana. O modelo Dior que usava, o chapeuzinho desabado e a pouca pintura eram o aceitável na sociedade em que estavam prestes a entrar. Ele adiantou-se para cumprimentá-la.

           Jordana estendeu o rosto para que ele beijasse.

           — Você está maravilhosa — disse Baydr.

           — Obrigada — respondeu ela, sorrindo.

           — O vôo foi confortável?

           — Dormi quase o tempo todo. Eles improvisaram um leito para mim.

           — Ótimo. Vamos ter um programa cansativo.

           Youssef, num terno escuro um pouco amarrotado, apareceu neste momento, acompanhado por Diana, a secretária de Jordana. Baydr apertou as mãos dos dois, enquanto o funcionário da Alr France pegava os passaportes para o visto imediato. Ele levou Jordana para longe da multidão, a fim de que pudessem conversar em particular.

           — Desculpe não ter podido voltar este verão — disse. Baydr.

           — Nós também lamentamos. Especialmente os meninos. Eles mandaram um recado para você.

           — Qual?

           — Pediram-me que lhe dissesse que já estão falando o árabe perfeitamente, que não precisa mais envergonhar-se deles.

           — E estão?

           — Creio que sim. Insistem em falar árabe com todo mundo, quer os outros compreendam ou não.

           Ele sorriu, satisfeito.

           — Fico contente. E você, o que andou fazendo?

           — Nada demais. A mesma coisa de sempre.

           — Você está com um ótimo aspecto.

           Jordana não respondeu.

           — Muitas festas este ano?

           — Há sempre muitas festas.

           — Alguma coisa emocionante?

           — Nada de especial. Mas você emagreceu, está bem mais magro.

           — Terei que comer mais. Não poderei voltar ao Oriente Médio deste jeito, pois todo mundo pensará que estou passando por dificuldades.

           Jordana sorriu. Ela sabia do que Baydr estava falando. Os árabes ainda julgam o sucesso de um homem por sua circunferência. Um homem corpulento sempre recebe mais consideração que um magro.

           — Pois coma mais pão e batatas. E também mais carneiro.

           Baydr riu. Jordana conhecia perfeitamente como o paladar dele era ocidental. Ele detestava comidas amiláceas e gordurosas, preferindo os bifes magros.

           — Vou anotar a recomendação para não me esquecer.

           Hansen aproximou-se deles.

           — Já está tudo resolvido. Temos um carro esperando na pista, para levá-los ao heliporto.

           — Podemos ir então — disse Baydr.

           Ele fez um gesto na direção de Youssef, que se aproximou imediatamente.

           — Vincent está no Beverly Hills Hotel. Passe o fim-de-semana com ele e tente descobrir exatamente em que pé estamos. Entrarei em contato com você na segunda-feira.

           Youssef tentou disfarçar seu desapontamento. Ele detestava ser deixado de fora de tudo o que lhe parecia ser importante.

           — Acha que há algum problema com Vincent?

           — Não sei. Mas acredito que, em três meses, ele deveria pelo menos ter começado alguma coisa.

           — Deixe comigo, chefe — disse Youssef, confiante. Acenderei uma fogueira debaixo dele e garanto que ele passará a funcionar em alta rotação.

           — Vamos levar cerca de meia hora daqui até lá — informou o piloto do helicóptero no momento em que levantaram vôo.

           — Qual será o traje para esta noite? — indagou Jordana. — E quanto tempo ainda temos?

           Baydr olhou para o relógio.

           — Os coquetéis começarão a ser servidos às oito horas e o jantar sairá às nove. O traje é rigor.

           Jordana sabia como ele detestava trajes a rigor.

           — Você deve estar-se sentindo profundamente aborrecido.

           — Tem razão, mas quero causar uma boa impressão a eles. Tenho o palpite de que estão ressentidos por eu ter assumido o controle do banco.

           — Tenho a certeza de que isso acabará, assim que o conhecerem.

           — É o que eu também espero, mas tenho as minhas dúvidas. Eles são muito exclusivistas por aqui.

           — E são mesmo. Conheço essa gente a fundo. Mas não precisa ficar preocupado, pois eles são iguais a todo mundo: pendem sempre para o lado em que está o dinheiro.

           O gigantesco buquê de rosas vermelhas que Jordana recebeu ao chegar, presente do presidente do banco, Joseph E. Hutchinson III, e de sua esposa, Dolly, provava que ela estava certa, pelo menos em parte.

           Houve uma batida de leve na porta e a voz abafada de Jabir anunciou:

           — São sete e quinze, amo.

           — Obrigado — disse Baydr.

           Ele levantou-se da mesinha onde estivera lendo os últimos balanços do banco. Alnda tinha tempo para outro banho de chuveiro, antes de vestir o dinner jacket. Rapidamente tirou a camisa e a calça e, nu, encaminhou-se para o banheiro que separava o seu quarto do de Jordana.

           Abriu a porta no mesmo instante em que ela se erguia, brilhando, do banho perfumado. Quase sem pensar, o pedido de desculpas aflorou a seus lábios.

           — Sinto muito. Não sabia que você ainda estava aqui. . .

           — Não há problema — disse ela, um tom de ironia na voz. — Não precisa pedir desculpas.

           Baydr ficou calado. Ela pegou uma toalha e começou a enrolar-se. Ele estendeu a mão para detê-la e Jordana fitou-o com uma expressão interrogadora.

           — Eu tinha quase esquecido como você é bonita...

           Lentamente, ele tirou a toalha das mãos dela e deixou-a cair no chão. Os dedos dele tocaram-lhe o rosto e desceram pelo mamilo e pelo umbigo até a protuberância do monte de Vênus.

           — Muito bonita mesmo...

           Ela não se mexeu.

           — Olhe para mim! — disse ele, a voz subitamente insistente.

           Jordana encarou-o. Nos olhos dele havia uma expressão de pesar.

           — Jordana. . .

           — O que é?

           — Jordana, o que nos aconteceu que nos tornamos dois estranhos? Inesperadamente, os olhos dela encheram-se de lágrimas.

           — Não sei. . .

           Ele tomou-a nos braços e apertou-lhe a cabeça contra o ombro.

           — Há tantas coisas que estão erradas. . . Eu não saberia por onde começar para corrigi-las.

           Ela queria falar-lhe, mas não conseguia encontrar as palavras adequadas. Eles provinham de mundos diferentes. No mundo dele, a mulher não era nada, o homem era tudo. Se ela dissesse que sentia as mesmas necessidades que ele, os mesmos anseios sociais e sexuais, Baydr encararia isso como uma ameaça à sua supremacia masculina.

           E pensaria imediatamente que ela não estava sendo uma esposa adequada.

           Contudo, tinham sido as mesmas necessidades que os haviam reunido.

           Ela apertou o rosto contra o peito do maridos soluçando silenciosamente.

           Ele afagou-lhe os cabelos gentilmente.

           — Sinto a maior saudade de você. . .

           Ele segurou o queixo de Jordana e levantou-lhe o rosto.

           — Para mim, não existe outra mulher como você.

           Ela então perguntou a si mesma: “Então por que passa tanto tempo longe de mim? Por que as outras?”

           Como se estivesse lendo os seus pensamentos, Baydr respondeu:

           — Elas nada significam. São mero passatempo.

           Ela continuou calada.

           — Com você é a mesma coisa?

           Ela encarou-o. Ele sabia. Sempre soubera. No entanto, jamais lhe falara uma só palavra a respeito. Ela assentiu.

           Os lábios de Baydr comprimiram-Se por um momento e depois se afrouxaram num suspiro.

           — Um homem inicia o seu paraíso ou o seu inferno aqui mesmo nesta Terra. Assim como eu comecei o meu.

           — Não está zangado comigo?

           — Será que eu tenho esse direito? O julgamento será feito quando chegarmos à presença de Alá e for lido o livro da nossa vida. Meus próprios pecados já são demais para mim. E você não é uma de nós. Assim, é possível que nem mesmo as nossas leis possam ser aplicáveis ao seu caso. Mas só há um pedido que eu lhe faço.

           — Qual é?

           — Que não seja com um judeu. Com qualquer outro, eu serei tão cego quanto você.

           Ela baixou os olhos.

           — E tem que haver outros?

           — Não posso responder por você. Mas eu sou um homem.

           Nada havia que ela pudesse responder. Baydr levantou-lhe a cabeça e beijou-a.

           — Eu amo você, Jordana.

           Ela sentiu o calor dele a fluir para o seu corpo quando o abraçou. Ele ficou duro contra a sua barriga e Jordana baixou a mão para pegá-lo. Estava úmido e como pedra entre os seus dedos.

           — Baydr! — gritou ela. — Bada!

           Ele fitou-a nos olhos por um longo momento, depois suspendeu-a pelas axilas e por um instante manteve-a no ar. Automaticamente ela abriu as pernas para enlaçá-lo pela cintura, baixando depois lentamente ao encontro dele. Perdeu a respiração ao senti-lo penetrá-la. Parecia que ele estava enfiando uma haste em brasa até o seu coração. Alnda segurando-a, Baydr começou a mover-se lentamente cada vez mais para dentro dela.

           O calor começou a percorrer-lhe o corpo e Jordana não mais se conteve. Agarrando-se a ele como um macaco, ela começou a mexer-se freneticamente, enquanto orgasmo após orgasmo a fazia estremecer. Os pensamentos corriam loucamente por sua mente. Aquilo não estava direito. Não era o que merecia. Não era o castigo que desejava.

           Ela abriu os olhos e encarou-o, desvairada.

           — Machuque-me!

           — Como?

           — Machuque.me, por favor... Como fez da última vez. Eu não mereço outra coisa!

           Ele ficou imóvel por um instante. Depois, lentamente, baixou-a até o chão e afastou-lhe os braços. Sua voz tornara-se subitamente fria.

           — E melhor vestir-se, Jordana, ou chegaremos atrasados na festa.

           Ele se virou bruscamente e voltou para o seu quarto. Jordana começou a tremer. Pegou a toalha, amaldiçoando-se. Ela simplesmente não conseguia fazer nada direito.

          

           O calor intenso do sol branco e ofuscante parecia fazer tremer as pedras e a areia do deserto que se estendia à sua frente. De vez em quando surgia uma moita raquítica, amarelada e cansada, inclinando- se ao vento quente. Subitamente cessou o espocar da metralhadora que estivera disparando em algum lugar lá na frente.

           Leila estava deitada na pequena trincheira, imóvel. Sentia o suor a escorrer das axilas, entre os seios e entre as pernas. Cuidadosamente rolou para um lado e ficou deitada de costas, deixando escapar um suspiro de alívio. A dor nos seios, comprimidos contra o chão duro, começou a diminuir. Ela esquadrinhou o céu e imaginou quanto tempo ainda teria que ficar ali. O mercenário sírio encarregado do treinamento das recrutas dissera-lhe que não saísse do lugar enquanto o resto do pelotão não a alcançasse. Ela olhou para o pesado cronômetro de homem em seu pulso. Já deveriam ter chegado há uns dez minutos.

           Estoicamente, ela forçou-se a esperar. Talvez fosse apenas um exercício, mas as balas eram de verdade e uma mulher já morrera e outras três estavam feridas. Depois do último exercício, a piada em voga no acampamento era saber quem liquidaria com mais fedayeen — eles próprios ou os israelenses?

           Ela sentiu vontade de fumar um cigarro, mas não se mexeu.

           Uma sombra de fumaça no ar claro atrairia o fogo em sua direção. Ouviu um barulho na retaguarda da trincheira.

           Silenciosamente, ela tornou a rolar e ficou de barriga para baixo, virando-se na direção do barulho e apontando o rifle ao mesmo tempo. Aproximou-se da beira da trincheira e lentamente começou a levantar a cabeça, para ver o que estava acontecendo.

           Uma mão pesada desceu sobre a sua cabeça, empurrando o capacete de aço até as orelhas. Em meio à dor, ouviu a voz rude do mercenário a dizer-lhe:

           — Sua cadela estúpida! Não lhe disse que ficasse de cabeça abaixada? Poderia tê-la acertado de cem metros de distância.

           Ele escorregou para dentro da trincheira, ofegando. Era um homem forte e atarracado, de pouco fôlego e menor paciência.

           — O que está acontecendo lá em frente? — indagou ele.

           — Como é que vou saber? — disse Leila, furiosa. — Não me disse para manter a cabeça abaixada?

           — Mas você tinha que saber, pois é a nossa batedora.

           — Pois então me diga como posso fazer as duas coisas ao mesmo tempo — falou ela, sarcasticamente. — Explique-me como poderei saber o que está acontecendo lá na frente sem levantar a cabeça acima da trincheira.

           Ele nada disse. Tirou um maço de cigarros do bolso e ofereceu a Leila. Ela tirou um e ele acendeu os cigarros de ambos.

           — Pensei que não deveríamos fumar — comentou Leila.

           — Que vão para o inferno! Estou cansado dessas brincadeiras estúpidas!

           — Quando é que o pelotão vai chegar?

           — Só depois do escurecer. Decidimos que não era seguro deslocá-lo antes disso.

           — Então por que veio até aqui?

           Ele fitou-a nos olhos, mal-humorado.

           — Alguém tinha que informá-la da alteração nos planos.

           Leila sustentou-lhe o olhar. Ele poderia perfeitamente ter mandado uma das recrutas, não precisaria vir pessoalmente. Mas ela sabia muito bem por que ele assim agira. Àquela altura, ela era a única mulher do pelotão com quem ele ainda não se deitara.

           Ela não estava muito preocupada. Poderia cuidar dele tranqüilamente, se fosse necessário. Ou então não, se assim o desejasse. Sob muitos aspectos, fora tudo facilitado. Todos os tabus tradicionais do Islã tinham sido suprimidos. Na luta pela liberdade, as mulheres tinham sido instruídas no sentido de que era seu dever proporcionar alivio e consolo a seus homens. Na nova e livre sociedade, não haveria ninguém que fosse culpá-las por i»o. Era apenas mais outro meio de as mulheres ajudarem a ganhar a guerra santa.

           Ele tirou o cantil do cinto e desatarraxou a tampa. Jogou a cabeça para trás e deixou que a água escorresse lentamente por sua garganta, passando depois o cantil a Leila. Ela deixou cair algumas gotas nos dedos e delicadamente molhou o rosto.

           — Por Alá, como está quente! — murmurou ele.

           Ela assentiu, devolvendo-lhe o cantil.

           — Você até que está com sorte. Estou aqui há duas horas e você terá que esperar menos do que isso até o anoitecer.

           Leila tornou a ficar de costas e puxou para baixo o visor do capacete, a fim de proteger os olhos do sol. Poderia pelo menos ajeitar-se o mais confortavelmente possível enquanto esperava. Depois de um momento, sentiu que ele a fitava fixamente. Pelas pálpebras semi cerradas, ela pôde vê-lo a contemplá-la. Tornou-se subitamente consciente das manchas escuras de suor em seu uniforme de algodão: de baixo dos braços, em torno dos seios, entre as pernas. Era quase como se estivessem marcadas todas as suas partes mais íntimas.

           — Vou tentar descansar um pouco — disse ela. — O calor está acabando comigo.

           Ele não respondeu. Leila olhou para o céu. Tinha aquela coloração azul peculiar que só parecia surgir ao final de verão. Era estranho. Até aquele momento ela sempre associara aquele azul com o fim das férias de verão e a volta às aulas. Uma recordação lhe surgiu de súbito na mente. Fora num dia como aquele, sob o mesmo céu azul, que sua mãe lhe dissera que o pai ia divorciar-se dela. Por causa daquela cadela americana. E porque um aborto a deixara estéril, de forma que não poderia dar-lhe um filho.

           Leila estava brincando na praia com a irmã mais velha naquela tarde, quando subitamente apareceu a governanta, Farida. Ela parecia estranhamente agitada.

           — Voltem imediatamente para casa. Seu pai tem que partir e quer despedir-se de vocês duas.

           — Está certo. Mas primeiro vamos trocar as roupas de banho.

           — Não há tempo para isso. Seu pai está com pressa.

           Ela se virou rapidamente para casa. As duas seguiram-na.

           — Pensei que papai estava planejando ficar conosco por algum tempo — disse Amal. — Por que ele está viajando assim de repente?

           — Não sei. Sou apenas uma criada. Não cabe a mim fazer perguntas. 

           As duas meninas se entreolharam. Farida fazia questão de saber de tudo o que estava acontecendo. Se ela dizia que não sabia, era certamente porque não queria que elas soubessem.

           Ela parou em frente da entrada lateral da casa e ordenou:

           — Tirem a areia dos pés. O pai de vocês está esperando no salão da frente.

           Elas limparam os pés rapidamente e correram pelo interior da casa. O pai estava esperando perto da porta, enquanto Jabir levava suas malas para o carro.

           Baydr virou-se para elas e sorriu. Em seus olhos, porém, havia uma estranha expressão de tristeza. Ele abaixou-se, apoiado num joelho, quando elas correram em sua direção, abraçando-as.

           — Fico contente por terem chegado a tempo. Já estava receando ter que partir sem me despedir de vocês.

           — Para onde está indo, papai? — indagou Leila.

           — Tenho que voltar para a América, numa viagem de negócios muito importante.

           — Pensei que ia ficar conosco algum tempo. — disse Ama!.

           — Não posso.

           — Mas prometeu que iria levar-nos para uma volta de esqui aquático — disse Leila.

           — Desculpem.

           A voz dele pareceu sumir e seus olhos ficaram subitamente cheios de lágrimas. Ele as abraçou com força.

           — Quero que vocês duas sejam boas meninas e obedeçam à sua mãe.

           Alguma coisa estava errada. Elas podiam senti-lo, mas não sabiam o que era.

           — Quando voltar, vai levar-nos para passear de esqui aquático? — indagou Leila.

           O pai não respondeu. Em vez disso, abraçou-as mais fortemente ainda. Largou-as abruptamente e levantou-se. Leila contemplou o seu rosto, pensando em como ele era bonito. Nenhum dos outros pais era como ele.

           Jabir apareceu na porta atrás dele.

           — Está ficando tarde, amo. Temos que nos apressar, se queremos pegar o avião.

           Baydr abaixou-se e beijou as filhas, primeiro Amal e depois Leila.

           — Conto com vocês duas para tomarem conta de sua mãe e obedecerem-na em tudo.

           Em silêncio, elas assentiram. Ele encaminhou para a porta e ambas seguiram-no. Ele já estava no meio da escada quando Leila gritou-lhe:

           — Vai ficar muito tempo fora, papai?

           Ele pareceu hesitar por um momento, mas logo estava dentro do carro e a porta era fechada antes que respondesse. As duas ficaram observando o carro afastar-se e depois voltaram para dentro de casa.

           Farida estava à espera delas. Amal perguntou:

           — Mamãe está em seu quarto?

           — Está. Mas ela está descansando. Não se está sentindo bem e pediu para não ser incomodada.

           — Ela vai descer para o jantar? — indagou Leila.

           — Creio que não. Mas agora vocês duas vão tomar banho e tirar toda a areia do corpo. Quer sua mãe desça ou não para jantar, quero que estejam limpas e arrumadas para se sentarem à mesa.

           Só mais tarde, à noite, é que elas souberam o que estava acontecendo.

           Os avós chegaram logo depois do jantar. Quando a avó as viu, desatou em lágrimas. Apertou-as de encontro aos selos fartos, dizendo:

           — Minhas pobres órfãs! O que será de vocês agora?

           O avô Riad ficou imediatamente furioso.

           — Silêncio, mulher! O que está tentando fazer? Assustar as meninas?

           Amal imediatamente começou a chorar.

           — O avião de meu pai caiu!

           — Está vendo? — disse o avô, triunfante. — O que foi que eu lhe disse?

           Ele empurrou a esposa para o lado e abraçou a menina mais velha.

           — Não aconteceu nada com seu pai. Ele está bem.

           — Mas Nana disse que estávamos órfãs!

           — Vocês não estão órfãs. Alnda têm sua mãe e seu pai. E a nós.

           Leila olhou para a avó. O olho bastante maquilado dela estava todo manchado.

           — Então por que Nana está chorando?

           O avô ficou embaraçado.

           — Ela está aborrecida porque seu pai foi embora.

           Leila sacudiu os ombros.

           — Isso não é nada. Papai está sempre indo embora. Mas não há problema, pois ele sempre volta.

           O avô olhou-a longamente, sem dizer uma palavra. Farida entrou neste momento no salão e ele perguntou:

           — Onde está sua ama?

           — Está no quarto — respondeu Farida, dirigindo-se em seguida para as meninas. — Está na hora de irem deitar.

           — É isso mesmo — disse Riad rapidamente. — Vão para a cama. Nós as veremos pela manhã.

           — O senhor nos leva à praia? — pediu Leita.

           — Levo. Agora obedeçam a Farida e vão para a cama.

           Enquanto subiam a escada, Leila ouviu o avô dizer a Farida:

           — Diga à sua ama que nós estamos esperando no salão.

           A voz de Farida era desaprovadora.

           — A ama está muito transtornada. Ela não vai descer.

           A voz do avô tornara-se mais firme.

           — Ela descerá. Diga-lhe que eu falei que é muito importante.

           Mais tarde, já deitadas, elas ouviram as vozes altas dos adultos lá embaixo. Saíram de suas camas e abriram a porta do quarto. A voz da mãe era estridente e furiosa.

           — Entreguei toda a minha vida a ele! E esse é o agradecimento que recebo! Ser trocada por uma cadela americana, de cabelos louros, que lhe deu um filho bastardo!

           A voz do avô era mais baixa e mais calma, mas mesmo assim elas puderam ouvi-la perfeitamente.

           — Ele não tinha escolha. Foi uma ordem do Príncipe.

           — Você está defendendo-o! — disse a mãe, em tom acusador.

           — Defende injustiça contra a sua própria carne e sangue. Tudo o que o está preocupando é o seu banco e o seu dinheiro. Contanto que tenha os depósitos deles, não se importa com o que possa acontecer a mim!

           — E o que lhe está acontecendo, mulher? Falta-lhe alguma coisa? Foi deixada como milionária. Ele não tirou as crianças de você, como poderia ter feito, de acordo com a lei. Deixou-lhe muito dinheiro e as casas, esta e a de Beirute, além de uma pensão para as meninas. O que mais pode querer?

           — É culpa minha se não pude dar-lhe um filho? — gritou Maryam. — Por que sempre a mulher é que é a responsável? Não lhe dei duas filhas, não fui uma esposa fiel, apesar de saber que ele se estava metendo com rameiras infiéis do mundo inteiro? Sob as leis de Alá qual de nós teve a vida mais virtuosa? Certamente fui eu e não ele!

           — É a vontade de Alá que um homem tenha um filho. E como você não teve nenhum, era não só direito dele como também uma obrigação proporcionar-se um herdeiro.

           A voz de Maryam estava agora mais serena, mas ainda tinha um tom fervoroso.

           — Pode ser a vontade de Alá, mas um dia ainda pagará por isso. As filhas saberão de sua traição e ele nada será aos olhos delas. Ele nunca mais tornará a vê-las.

           As vozes baixaram então e elas nada mais puderam ouvir. Em silêncio, as meninas fecharam a porta do quarto e voltaram para suas camas. Era tudo muito estranho e elas não estavam realmente entendendo nada.

           No dia seguinte, na praia, Leila de repente olhou para o avô, que estava sentado debaixo de um guarda-sol a ler o jornal, e indagou:

           — Se papai realmente queria um filho, por que ele não me pediu? Eu ficaria contente de ser um menino.

           O avô baixou o jornal.

           — Não é tão fácil assim, menina.

           — É verdade o que mamãe disse, que nunca mais voltaremos a ver papai?

           Ele ficou calado bastante tempo, antes de responder.

           — Sua mãe estava zangada. Com o tempo, isso vai passar.

           Mas não passou. E no decorrer dos anos, as meninas foram gradativamente aceitando a atitude da mãe em relação ao pai. E, como o pai não fazia a menor tentativa de transpor a distância que os separava, elas finalmente ficaram convencidas de que a mãe é que estava com a razão.

           O ar começou a ficar frio, à medida que o sol desaparecia no horizonte e o azul do verão se desvanecia na escuridão. Leila rolou de lado e olhou para o sírio.

           — Quanto tempo ainda falta?

           — Cerca de meia hora — respondeu ele, sorrindo. — Tempo suficiente para nós dois.

           Ele estendeu a mão para segurá-la, mas Leila afastou-se rapidamente.

           — Não faça isso.

           — O que há com você? É por acaso uma lésbica?

           — Não.

           — Então não seja tão antiquada. Por que acha que estamos dando as pílulas a todas as moças?

           Ela fitou-o gravemente. Os homens eram todos iguais. Havia desprezo em sua voz quando lhe disse

           — Para a minha proteção, não para a sua conveniência.

           Ele sorriu-lhe, no que pensava ser um sorriso vitorioso, e novamente estendeu a mão para pegá-la.

           — Então, vamos. Talvez eu possa ensiná-la a gostar.

           Leila moveu-se rapidamente apontando o rifle para a barriga dele.

           — Duvido muito. Pode ter-me ensinado a usar esta arma, mas há muito que já sei trepar.

           Ele olhou para o rifle e depois para o rosto dela. Uma risada borbulhou em sua garganta e ele disse rapidamente:

           — Jamais duvidei disso. Estava apenas preocupado. . . você poderia perder a prática.

           Lentamente, Leila arrastou-se pela superfície dura e arenosa do rochedo, até alcançar os rolos de arame farpado. Parou, ofegando, para recuperar o fôlego. Depois de um momento, virou-se e olhou para trás, à luz pálida do luar. Soad, a egípcia grande, e Ayida, a libanesa, estavam logo atrás dela.

           — Onde está Hamid? — indagou ela.

           — E como diabo vou saber? — respondeu a egípcia. — Pensei que ele estivesse na nossa frente.

           — Jamila arranhou o joelho lá atrás — disse Ayida. — Eu o vi fazendo um curativo nela.

           — Isso foi há uma hora atrás — murmurou Soad, sarcasticamente — A esta altura, ele provavelmente já pôs a coisa dela numa tipóia.

           — O que vamos fazer agora? — indagou Leila. — Precisamos de um alicate para passar por esse arame farpado.

           — Acho que Farida tem um — informou Ayida.

           — Então passe para trás a mensagem para ela mandá-lo aqui para a frente — pediu Leila.

           Rapidamente o aviso seguiu até a retaguarda da linha de mulheres. Logo depois o alicate chegou até Leila, passado de mão em mão.

           Soad entregou-lhe o alicate, indagando:

           — Já usou isso antes?

           — Não. E você?

           Soad sacudiu a cabeça.

           — Mas não deve ser difícil. Vi a maneira como Hamid cortou o arame farpado da última vez.

           Segurando o pesado alicate, Leila arrastou-se até a cerca de arame farpado. Rolou de costas e depois ergueu o alicate acima de sua cabeça. O metal polido refletiu o luar. Não durou mais do que uma fração de segundo, mas imediatamente a metralhadora lá na frente começou a pipocar, as balas zunindo por cima das cabeças delas.

           — Maldição! — exclamou Leila, irritada, tentando comprimir o corpo de encontro ao chão.

           Ela não se atrevia a virar a cabeça para trás, para ver as outras.

           — Onde estão vocês?

           — Estamos aqui atrás — sussurrou Soad. — Não nos estamos mexendo.

           — Mas temos que sair daqui, pois eles já nos localizaram.

           — Você pode-se mexer, se quiser. Nós não vamos a lugar algum até aquela arma parar de atirar.

           — Se nos arrastarmos, estaremos em segurança, pois eles estão disparando um metro acima de nossas cabeças.

           — Eles são árabes — disse Soad sarcasticamente. — E nunca conheci um só árabe que soubesse atirar direito. Eu vou ficar aqui mesmo.

           — Pois eu vou sair daqui. Se quiserem, podem ficar aqui a noite inteira.

           Cautelosamente, ela virou de barriga para baixo e começou a arrastar- se ao longo da cerca de arame farpado. Alguns minutos depois, ouviu um ruído atrás de si. Olhou para trás. As outras mulheres estavam-na seguindo.

           Ela só parou quase meia hora depois. A metralhadora ainda estava disparando, mas as balas já não zumbiam por cima de suas cabeças.

           Elas estavam fora do seu alcance.

           Desta vez ela não correu nenhum risco. Passou um pouco de terra no alicate, a fim de que o luar não se refletisse nele. Novamente rolou de costas e levantou o alicate para o arame farpado. Era mais duro do que ela imaginava e o estalido ao se quebrar ressoou pela quietude da noite. Mas ninguém pareceu ouvir. Alguns minutos depois, ela conseguiu passar pelo primeiro rolo de arame farpado. Mais dois obstáculos iguais e elas estariam em campo aberto.

           Apesar do frio, Leila estava começando a suar. Ansiosamente, começou a trabalhar no segundo fio. Levou quase vinte minutos para cortar um caminho por ele, pois era construído com arames duplos.

           O terceiro era de arames triplos e ela levou quarenta minutos para cortá-lo.

           Ficou deitada de costas, recuperando o fôlego, os braços e os ombros doendo intensamente do esforço. Depois de um momento, olhou para Soad, logo atrás.

           — Vamos continuar agachadas até chegarmos às marcas brancas. Devem estar a cerca de duzentos metros daqui. Depois disso, estaremos em campo aberto.

           — Está certo.

           — Lembrem-se de manterem as cabeças abaixadas — recomendou Leila.

           Ela tornou a rolar de barriga para baixo e começou a arrastar-se para a frente. Os duzentos metros pareceram mil quilômetros em sua barriga.

           Finalmente ela viu as marcas brancas no solo, alguns metros à frente. Ao mesmo tempo, ouviu vozes — vozes de homens.

           Leila levantou a mão, a palma para trás, a fim de que as mulheres ficassem em silêncio. Seria uma vergonha se elas fossem localizadas agora. Todas elas se comprimiram contra o chão. As vozes vinham da esquerda. O luar permitiu que Leila visse os três soldados. Um deles estava acendendo um cigarro, os outros dois estavam sentados atrás de uma metralhadora. O soldado atirou longe o fósforo ainda aceso e ele foi cair perto do rosto de Leila.

           — Aquelas rameiras ainda estão lá do outro lado — disse o soldado que estava fumando.

           Um dos outros dois levantou-se, sacudindo os braços para esquentar-se.

           — Hamid vai ter uma porção de pombas congeladas nas mãos.

           O soldado com o cigarro riu.

           — Ele bem que podia dar algumas para mim. Eu iria mostrar-lhe como degelá-las.

           — Hamid não dá coisa nenhuma — disse o soldado que permanecera sentado. — Ele age como um paxá em seu harém.

           Soou uma campainha, bastante baixa. O soldado com o cigarro pegou um receptor-transmissor portátil. Leila não pôde ouvir o que ele disse ao aparelho, mas ouviu o comentário que fez para os companheiros depois que desligou:

           — Era o Posto Um. Eles as localizaram, mas logo depois perderam-nas de vista. Acham que elas talvez tenham vindo nesta direção.

           — Isso é bobagem — disse o que estava sentado. — Pode-se ver a quase um quilômetro de distância com este luar. Não há ninguém aqui por perto.

           — De qualquer forma, fiquem atentos. Não seria nada bom que algumas garotas nos fizessem de bobos.

           Leila sorriu para si mesma. Era exatamente isso o que elas iam fazer. Ela recuou e bateu no ombro de Soad, formulando as palavras silenciosamente:

           — Ouviu o que eles disseram?

           Soad assentiu, assim como as mulheres atrás dela. Todas tinham ouvido.

           Leila fez um gesto circular com a mão. Todas compreenderam.

           Iriam arrastar-se num círculo amplo, que as levaria para a retaguarda da metralhadora. Lentamente, prendendo a respiração, elas começaram a se deslocar.

           Levaram quase uma hora. Já estavam bem além das marcas brancas e diretamente atrás da metralhadora quando Leila deu o sinal.

           Com um grito, as mulheres se levantaram e atacaram. Com palavrões, os soldados se viraram e encontraram-se diante dos canos dos rifles seguros pelas mulheres.

           — Vocês são nossos prisioneiros — disse Leila.

           O cabo sorriu subitamente.

           — É, acho que não há outro jeito.

           Leila reconheceu-o como o que estivera fumando um cigarro.

           Ela não pôde suprimir o tom de triunfo em sua voz:

           — Talvez agora pense de maneira diferente sobre as mulheres-soldados.

           O cabo assentiu.

           — É possível.

           — O que vamos fazer agora? — indagou Soad.

           — Não sei — disse Leila. — Acho que devemos chamar o comando e informar sobre a captura que fizemos.

           Ela virou-se para o cabo e disse:

           — Dê-me o seu receptor-transmissor.

           Ele estendeu o aparelho para Leila. Alnda estava sorrindo.

           — Posso fazer uma sugestão?

           — Se quiser... — disse Leila, em tom indiferente.

           — Somos seus prisioneiros, não é mesmo?

           Leila assentiu.

           — Então por que não nos violentam antes de informar sobre a nossa captura? Prometemos que não nos vamos queixar.

           As mulheres começaram a rir. Leila ficou furiosa. Os homens árabes representavam o pior tipo de porco chauvinista. Leila apertou o botão de chamada do recepto-transmissor. Mas, antes que obtivesse uma resposta, viu Hamid e Jamila aproximarem-se deles, caminhando distraidamente como se estivessem passando uma tarde no parque.

           — Onde diabo você se meteu? — gritou ela para Hamid.

           — Estava bem atrás de vocês.

           — E por que não nos ajudou?

           Ele sacudiu os ombros.

           — Para quê? Vocês estavam indo muito bem.

           Leila olhou para Jamila. A rechonchuda palestina tinha uma expressão relaxada no rosto e Leila sabia qual o motivo. Ela virou-se para Hamid.

           — Como passaram pelo arame farpado?

           — Foi fácil — disse ele, com um sorriso amplo. — Escavamos uma pequena trincheira e nos metemos ao longo dela.

           Leila manteve o rosto sério o mais que pôde, mas logo desatou a rir. O mercenário sírio tinha um estranho senso de humor, mas era inegavelmente engraçado. Ela entregou-lhe o receptor

           — Tome, pode falar. Talvez você consiga fazer com que eles mandem um caminhão apanhar-nos. Bem que estamos precisando de um banho quente o mais depressa possível.

           O vapor se elevava por cima dos boxes de chuveiro do alojamento. Por cima do ruído da água correndo, ouvia-se o murmúrio das conversas das mulheres.

           Cada boxe tinha quatro chuveiros e fora projetado para um uso comum, quatro mulheres de cada vez. Como havia apenas dois boxes, sempre se fazia uma fila de mulheres esperando por uma vaga.

           Leila preferia esperar até que quase todas as outras já tivessem tomado banho, a fim de não ter que apressar-se para ceder o lugar a outra. Ela encostou-se na janela, fumando um cigarro e escutando as conversas.

           Quase três meses já se tinham passado desde que ela chegara ao acampamento. Durante todo esse tempo ela se exercitara de manhã até a noite. A gordura que por acaso existira em seu corpo há muito que já desaparecera. Estava esguia agora, os músculos da barriga e dos quadris eram firmes, os seios, como duas maçãs. Os cabelos pretos lustrosos, cortados rente quando ela ali chegara, caíam agora até os ombros.

           Todas as manhãs fazia-se duas horas de ginástica e ordem unida, antes do café. Depois havia exercícios com armas, as mulheres aprendendo a usá-las e a cuidar delas. Também eram instruídas sobre granadas e plastiques, as técnicas de preparar e esconder bombas em cartas e os mecanismos detonadores transistorizados. As tardes eram gastas na prática das técnicas de combate corpo a corpo, com as mãos nuas e arma contra arma. No fim do dia, recebiam preleções políticas. A doutrinação ideológica era importante, porque cada uma delas era considerada como uma missionária da nova ordem que seria implantada no mundo árabe.

           Mais tarde as preleções políticas foram substituídas por aulas de tática militar, infiltração paramilitar e sabotagem, luta de guerrilha e diversão subversiva.

           No último mês elas tinham-se exercitado no campo, pondo em prática tudo o que haviam aprendido. Leila foi-se sentindo cada vez mais forte e resistente. Pensava em si mesma, como mulher, cada vez menos. O propósito para o qual estava sendo treinada dominara-a por completo e transformara-se num modo de vida. Era por intermédio dela e de outras, como ela, que viria o novo mundo. Por um momento pensou na mãe e na irmã. Elas estavam em Beirute, ainda vivendo no velho mundo — a irmã com seus pequenos problemas familiares e sociais, a mãe ainda amargurada e ressentida pela maneira como fora descartada pelo pai, mas sem fazer nada de construtivo com a sua vida. Ela fechou os olhos, recordando aquele dia no Sul da França, antes de vir para ali. Pensou no pai e em seus filhos esquiando na baía, em frente ao Carlton. O pai não mudara muito desde que ela o vira pela última vez, nove anos antes. Alnda era alto e bonito, cheio de força e vitalidade. Se ao menos ele pudesse compreender, se ao menos soubesse o quanto podia fazer para libertar os árabes do imperialismo de Israel e da América. . . Se ele soubesse das necessidades, do sofrimento e da opressão em que viviam seus irmãos, não ficaria indiferente, permitindo que isso acontecesse. Mas aquilo era apenas um sonho otimista. É claro que ele sabia.  Ele não podia deixar de saber.

           Ele simplesmente não se importava. Nascera rico e sua única preocupação era aumentar a riqueza. Amava o luxo e o poder de um mero aceno do seu dedo. A terrível verdade era que ele não estava sozinho.

           Os xeques, os príncipes e os reis, os banqueiros e os ricos eram todos iguais, árabes ou não. Importavam-se apenas com eles mesmos.

           Quaisquer que fossem os benefícios que se filtrassem dos seus esforços para os que estavam abaixo, eram apenas incidentais e não podiam ser comparados com os benefícios resultantes para si mesmos. Havia ainda milhões de camponeses em cada país árabe vivendo quase ao nível de inanição, enquanto os seus governantes passeavam em Cadilacs com ar condicionado, voavam em jatos particulares, mantinham palácios e mansões no mundo inteiro — e ainda tinham a coragem de falar pomposamente em liberdade para o seu povo.

           Um dia essa liberdade chegaria. A guerra não era apenas contra os estrangeiros, este era apenas o primeiro passo. O segundo passo, e provavelmente o mais difícil, seria a guerra contra os seus próprios opressores — homens como seu pai, homens que tomavam tudo e não partilhavam nada.

           Um boxe estava agora vago e Leila pendurou a toalha na janela, entrando debaixo do jato de água. O calor da água espalhou-se por seu corpo como um bálsamo tranqüilizante. Podia sentir a tensão abandonando seus músculos. Lenta e languidamente, ela começou a ensaboar-se, o contato dos dedos na pele proporcionando-lhe um prazer sensual.

           Nisso, ela era como seu pai. Viu-o novamente nos esquis aquáticos, os músculos tensos no esforço, todo o seu ser apreciando o esforço físico de habilidade e equilíbrio.

           Ela ensaboou os cabelos do púbis, até que ficassem recobertos por uma espuma branca. Depois jogou-se para a frente e deixou que a água caísse diretamente em cima de si. Um formigamento e um calor extremo invadiram-na. Suave e quase automaticamente, ela começou a acariciar-se. O orgasmo e a visão do pai nos esquis aquáticos chegaram juntos, tomando-a de surpresa. Antes que ela conseguisse parar, outro orgasmo sacudiu-lhe o corpo. Leila ficou chocada, depois furiosa, enojada de si mesma. Estava irritada por até mesmo permitir tais pensamentos. Violentamente, fechou a água quente e abriu a fria, ficando imóvel sob o jato gelado até que sua carne estivesse azul de frio. Saiu então do chuveiro, enrolando-se na toalha.

           Era uma loucura completa! Ela nunca antes tivera pensamentos como aquele. Mas estava em seu sangue, a mãe o dissera muitas vezes.

           Ela era como o pai. Ele era governado por seu corpo, seus desejos e apetites nunca eram saciados. A mãe lhe contara histórias sobre ele e suas mulheres. Ele não era um homem que pudesse contentar-se com uma boa mulher apenas. Sangue ruim, dizia a mãe, numa advertência.

           Ela esfregou-se até ficar seca, depois seguiu para o alojamento.

           Soad, cuja cama era ao lado da sua, estava quase vestida.

           — O que você vai fazer esta noite?

           Leila pegou um roupão.

           — Nada. Tinha pensado em deitar-me e ler um pouco.

           Soad começou a passar batom nos lábios.

           — Tenho um encontro com Abdullah e um amigo dele. Por que você não vem também?

           — Não estou realmente com vontade.

           — Ora, vamos. Far-lhe-ia bem se saísse um pouco.

           Leila não respondeu. Lembrou-se de Soad no primeiro dia em que ali tinham chegado. Ela viera até ali para ficar perto do seu namorado e contara a todo mundo como não podia esperar o momento de estar com ele. Mas, quando ele não apareceu, ela não se aborreceu.

           Levava a sério as suas idéias de libertação feminina. As mulheres tinham direitos iguais naquele Exército e ela tivera relações sexuais com o acampamento inteiro, sem a menor cerimônia.

           — O Cairo não era nada parecido — costumava ela comentar, com uma risada estridente.

           Soad fitou Leila e disse-lhe em tom solene:

           — Vou fazer uma coisa: se sair conosco, deixarei Abdullah para você. Ele é o melhor homem do acampamento na cama. Eu ficarei com o amigo dele.

           — Acho que não vou, mesmo assim.

           — Mas para que a está guardando? Mesmo que não queira usá-la por si mesmo, isso faz parte de seu dever. Não se lembra de que a comandante disse que era a nossa obrigação proporcionar alívio e conforto aos nossos homens? Pois não posso imaginar um meio melhor de combinar o dever e o prazer.

           Leila começou a rir. Soad tinha uma mente obsessiva.

           — Você é maravilhosa, Soad, mas a verdade é que nenhum dos homens por aqui me atrai.

           — Você nunca pode saber enquanto não os experimentar. Os homens algumas vezes surpreendem. Os grandes amantes algumas vezes têm uma aparência insignificante.

           Leila sacudiu a cabeça. Uma expressão desconcertada surgiu no rosto de Soad.

           — Você por acaso é virgem?

           Leila sorriu.

           — Não.

           Soad desistiu.

           — Então não a entendo.

           Era a coisa mais verdadeira que Soad já dissera. Mas como podia ela fazer as outras mulheres compreenderem que havia para ela coisas mais importantes do que o sexo?

          

           Passavam dez minutos do toque de alvorada quando a porta do alojamento foi aberta inesperadamente e Hamid gritou da entrada:

           — Sentido!

           Houve uma grande agitação, enquanto as mulheres assumiam posição de sentido, em frente de suas camas, em diversos estágios de vestimenta.

           Hamid deu um passo para trás, a fim de que a comandante pudesse entrar. Os olhos pretos e atentos dela abrangeram todo o alojamento num só olhar. Ela foi até ao meio, seguida por Hamid.

           Ficou em silêncio por um longo momento. Ao começar a falar, sua voz era clara e desprovida de emoção.

           — Hoje será o último dia de vocês aqui O treinamento já foi concluído, o nosso trabalho está encerrado. Este acampamento será fechado e cada uma de nós será designada para servir em algum outro lugar.

           Ela fez uma pausa. As mulheres não se mexeram, nem tiraram os olhos dela.

           — Estou orgulhosa de vocês, de todas vocês. Houve quem nos encarasse com desdém e ceticismo. Diziam que as mulheres, especialmente as mulheres árabes, não podiam tomar-se bons soldados, que serviam apenas para cozinhar, lavar e cuidar das crianças. Provamos que estavam completamente errados. Vocês agora pertencem à Al-Ikhwah. São iguais a qualquer homem de nossos exércitos. Concluíram o mesmo treinamento que os homens recebem e saíram-se tão bem quanto qualquer um deles.

           As mulheres continuaram caladas e a comandante logo retornou sua fala:

           — Vocês têm exatamente uma hora para arrumarem os seus pertences pessoais e estarem prontas para partir. Falarei com cada uma, individualmente, a fim de lhes informar sobre a sua próxima atribuição.

           Mas não devem conversar entre vocês sobre qual será a próxima missão de cada uma. Devem guardar para si mesmas, pois é uma informação altamente secreta. Qualquer conversa sobre a missão de cada uma será considerada como traição, punida com a morte, pois um confidente mal escolhido pode provocar a morte de muitos dos nossos camaradas.

           Ela foi até a porta e em seguida virou-se para encará-las.

           — An-nasr, eu as saúdo! Que Alá as proteja!

           — An-nasr! — gritaram todas, retribuindo a saudação. — Idbah al-adu!

           Assim que a porta se fechou atrás dela, o alojamento povoou-se de um murmúrio de vozes excitadas.

           — Algo grande deve estar para acontecer!

           — Mas é um mês antes do que nos haviam dito!

           — Algo está errado!

           Leila não disse uma só palavra. Abriu o seu armário e começou a retirar a roupa que usava ao chegar ao acampamento. Em silêncio, arrumou seu uniforme e as roupas. de faxina numa pilha cuidadosamente dobrada sobre a cama. Arrumou até mesmo os soutiens e as calcinhas, os sapatos, as botas e as meias.

           Abriu a pequena valise que trouxera da França. Pegou a calça americana que comprara pouco antes de sua partida para ali e vestiu-a.

           Só então compreendeu como o seu corpo mudara. A calça, outrora bastante justa em seu corpo, estava agora larga na cintura e no traseiro. Até a camisa estava larga e ela enrolou as mangas, por ter a impressão de que tinham ficado maiores. Amarrou a camisa na cintura e calçou as sandálias macias. Guardou o pente, a escova e os cosméticos. Esquadrinhou o armário. Estava vazio. Ela fechou a valise.

           Depois sentou-se na cama e acendeu um cigarro. As outras mulheres ainda estavam debatendo ø que levar e o que deixar. Soad fitou-a.

           — Você está usando as suas próprias roupas?

           Leila assentiu.

           — A comandante falou em pertences pessoais. Estas são as únicas coisas que me pertencem.

           — E o que me diz dos uniformes? — perguntou outra mulher.

           — Se quisessem que nós os levássemos, teriam dito claramente.

           — Acho que Leila está certa — disse Soad. — E creio que não me vou importar de vestir as minhas próprias roupas, para variar.

           Um momento depois, ela deixou escapar uma exclamação de surpresa.

           — Mas nada cabe em mim! Está tudo grande demais!

           Leila riu, apagando o cigarro.

           — Não é tão ruim assim. Pense em toda a alegria que irá sentir ao comprar roupas novas.

           Ela saiu do alojamento. O sol da manhã estava-se erguendo acima das montanhas. O ar era fresco e límpido. Leila respirou profundamente.

           — Está pronta? — indagou Hamid atrás dela.

           Leila virou-se. Ele estava encostado na parede do alojamento, o eterno cigarro pendurado nos lábios.

           — Estou pronta, como sempre estarei.

           Hamid fitou-a firmemente.

           — Você não é como as outras e sabe disso.

           Leila não respondeu.

           — Não precisava fazer isso. Você é rica, podia ter tudo o que desejasse.

           Os olhos do mercenário eram avaliadores.

           — Poderia mesmo? E como pode saber o que eu quero?

           — Não acredita em todo esse papo furado, não é mesmo? — disse ele com uma risada. — Já passei por três guerras. E em todas foi a mesma coisa. Os slogans, os gritos, as ameaças, as promessa de vingança. Mas, quando as balas começam a voar, acaba tudo. Eles se viram e correm. Só os políticos continuam a se perpetuar.

           — Talvez algum dia vá ser diferente.

           Ele tirou outro cigarro do bolso e acendeu-o na guimba do anterior.

           — O que acha que acontecerá se recuperarmos a Palestina?

           — O povo será livre.

           — Livre de quê? Livre para morrer de fome com o resto de nós? Apesar de todo e dinheiro que está entrando agora nos países árabes, o povo continua a passar fome.

           — Isso terá que ser mudado também.

           — Acha que Hussein, os xeques do petróleo, até mesmo seu pai e o príncipe dele, vão repartir de boa vontade o que possuem com as massas? Pelo menos agora eles têm que fazer alguma coisa. Mas, se ganharmos e não houver pressão sobre eles, o que acontecerá então? Quem irá obrigá-los a partilhar o que possuem? Não, eles simplesmente vão ficar cada vez mais ricos e o povo cada vez mais pobre.

           — Caberá ao povo alterar essa situação.

           Hamid riu, amargurado.

           — Estou quase lamentando esse trabalho ter acabado. Era muito bom. Agora terei que procurar outro.

           — Como assim? Eles não têm outra missão para você?

           — Eu sou um profissional, recebo pagamento. Ganho mil libras libanesas por mês para fazer o treinamento de vocês. Não conheço nenhum outro lugar onde possa ganhar esse dinheiro.

           — Mas deve haver um lugar para você no Exército.

           — Por 150 libras mensais eu tenho que me matar de trabalhar. Prefiro a Irmandade, pois paga melhor. Ela parece que tem sempre dinheiro de sobra para jogar fora.

           — Não acredita no que está fazendo?

           — Claro que acredito. Apenas não acredito em nossos líderes. Há líderes demais, cada um preocupado em encher os próprios bolsos, enquanto luta para derrubar os outros e ser o maioral.

           — Não podem ser todos assim.

           Hamid sorriu.

           — Você ainda é muito jovem. Com o tempo, aprenderá.

           — Por que a súbita mudança nos planos? O que aconteceu?

           Ele sacudiu os ombros.

           — Não sei. As ordens chegaram à noite passada e a comandante parece que ficou tão surpresa quanto todos nós. Ela passou a noite inteira acordada, preparando as coisas.

           — Não acha que ela é uma mulher extraordinária?

           Hamid assentiu.

           — Talvez se ela fosse homem eu tivesse mais confiança em nossos líderes.

           Ele fez uma pausa e olhou para Leila atentamente.

           — Você está-me devendo uma coisa.

           Ela ficou perplexa.

           — Eu? E o que é que estou-lhe devendo?

           Ele fez um gesto para o alojamento às suas costas.

           — Há quatorze garotas no pelotão. Você é a única com que ainda não fui para a cama.

           Leila riu.

           — Sinto muito.

           — E deveria estar-se sentindo pior ainda. Treze é um número de azar. Alguma coisa ruim vai acontecer.

           — Não acredito. Veja as coisas por outro ângulo: assim ainda tem alguma coisa para desejar.

           Ele sorriu.

           — Então vamos fazer um trato. Se nos encontrarmos novamente, seja onde for, daremos uma trepada.

           Leila estendeu-lhe a mão.

           — Combinado.

           Apertaram as mãos.

           — Devo dizer que, para uma mulher, você até que não é um mau soldado.

           — Obrigada.

           Ele olhou para o relógio.

           — Acha que elas já estão prontas?

           — Devem estar. Ninguém aqui tem muita coisa para levar.

           Ele jogou o cigarro fora e foi abrir a porta do alojamento.

           — Muito bem, meninas! Vamos formar em fila dupla!

           Passaram-se quase duas horas antes que começassem a ser introduzidas no quartel-general da comandante. Enquanto esperavam, o acampamento foi desmantelado perante seus olhos. Homens e caminhões estavam por toda parte, removendo os equipamentos — armas, roupas, camas. O acampamento começava a assumir uma aparência de cidade-fantasma. E com as portas e janelas abertas, a areia do deserto entrava nos alojamentos, ansiosa por reclamar o terreno que lhe pertencia de direito.

           As mulheres ficaram paradas em frente ao quartel-general, contemplando um caminhão carregado depois do outro a afastar-se. A própria sede do quartel-general foi a última. Os móveis já estavam sendo retirados lá de dentro quando elas foram introduzidas.

           Por ordem alfabética, Leila foi a primeira a ser chamada. Fechou a porta ao entrar, aproximou-se da mesa da comandante e bateu continência.

           — Al Fay apresentando-se.

           De certa forma, não parecia tão marcial em calça americana como no uniforme. A comandante retribuiu a continência, num gesto cansado.

           — À vontade, An-nasr,

           Ela olhou para um papel à sua frente.

           — Seu nome é Al Fay, não é?

           — Sim, senhora.

           Pela primeira vez Leila pensava nela como uma mulher. A  comandante estava visivelmente exausta.

           — Deve voltar para a casa de sua mãe em Beirute. Entraremos em contato com você lá e a encaminharemos para a sua próxima missão.

           — Isso é tudo? Mais nada?

           — Isso é tudo, por enquanto. Mas não se preocupe, pois receberá noticias nossas.

           — Mas como vou saber? Não há nenhum nome em código ou outro meio de eu ter certeza. . .

           A comandante interrompeu-a.

           — Quando a convocação chegar, fique tranqüila que saberá. Por enquanto, deve ficar em casa e esperar. Não deverá envolver-se nem mesmo se aproximar de qualquer grupo político, por mais simpático que seja à nossa causa. Deverá guardar segredo e permanecer dentro dos limites sociais normais de sua família. Entendido?

           — Sim, senhora.

           A comandante fitou-a pensativa por um momento. Parecia que ia dizer mais alguma coisa, mas acabou limitando-se a falar:

           — Boa sorte. Está dispensada.

           Leila bateu continência, deu meia-volta e saiu da sala. Ao sair, as outras mulheres olharam-na, curiosas, mas ela não disse uma única palavra. Havia um caminhão estacionado em frente ao quartel general.

           Hamid fez um gesto na direção dele.

           — Sua limusine está esperando, moça.

           Leila assentiu e subiu em silêncio no caminhão, indo sentar-se num dos bancos de madeira. Em menos de meia hora o caminhão já estava lotado.

           Todas elas estavam em silêncio. Subitamente pareciam completamente estranhas, presas a suas ordens, receosas de que pudessem inadvertidamente revelar alguma coisa.

           Foi Soad quem quebrou a tensão, com o seu estridente sotaque egípcio.

           — Sabem, vou realmente sentir saudades deste lugar. Não era tão ruim assim e foi aqui que dei algumas das melhores trepadas da minha vida.

           Todas riram e recomeçaram a falar ao mesmo tempo. Havia muitas coisas a recordar, muitas pilhérias a fazer — sobre os acidentes, os enganos, até mesmo as dificuldades. Meia hora se passou e o caminhão continuou parado.

           — O que estamos esperando? — perguntou uma das mulheres a Hamid.

           — A comandante. Ela deve sair a qualquer momento.

           Ele estava certo. Um momento depois, ela apareceu na porta atrás dele. As mulheres ficaram em silêncio ao verem-na.

           Era a primeira vez que elas a viam sem o uniforme. Estava usando um costume de algodão, ao estilo francês, mas que não se ajustava bem a seu corpo. A blusa era muito curta e a saia comprida demais.

           As costuras das meias estavam tortas e ela caminhava pouco à vontade nos sapatos de saltos altos que calçava, para aparentar uma altura maior. Desaparecera por completo a imagem de comando que ela tinha de uniforme. Até mesmo o rosto parecia apenas gorducho e indeciso.

           Leila pensou: “Se ela fosse um pouco mais gorda, seria igualzinha a minha mãe. Ou a qualquer outra mulher da minha família.”

           Hamid abriu a porta e ela entrou no caminhão, sentando-se ao lado do motorista. Ele correu até a traseira e subiu para junto das mulheres, gritando para o motorista.

           — Podemos ir!

           Elas tiveram uma última visão do acampamento ao entrarem na curva em torno da montanha, na extremidade sul. Parecia vazio e deserto.

           As mulheres voltaram a ficar em silêncio. Ninguém mais brincava. Estavam todas ocupadas com os seus próprios pensamentos.

           Estavam na estrada há menos de uma hora quando ouviram o barulho de explosões na área do acampamento lá atrás. Um momento depois ouviram o zunido de motores e logo os aviões estavam sobre elas. Lá na frente, um caminhão explodiu em chamas.

           Hamid levantou-se e gritou para o motorista:

           — Caças israelenses! Saia da estrada!

           Mas, em meio ao barulho ensurdecedor, o motorista não o ouviu.

           Em vez disso, pisou no acelerador, batendo no caminhão da frente.

           Nesse momento outro jato passou num vôo rasante sobre o comboio.

           Mais balas zuniram pelo ar. Outro caminhão foi atingido e explodiu.

           As mulheres começaram a gritar, tentando chegar à traseira do caminhão.

           — Saltem pelos lados! — gritou Hamid. — Abriguem-se nas valas!

           Leila moveu-se automaticamente. Caiu no chão e rolou para o lado da estrada, mergulhando de cabeça na vala de irrigação.

           Outro jato lançou-se num vôo rasante. Desta vez ela pôde ver as trilhas flamejantes deixadas por seus foguetes. Mais caminhões explodiram em nuvens de fumaça.

           — Por que também não estamos atirando neles? — ela ouviu alguém gritar.

           — Com o quê? — respondeu outra mulher. — Todas as armas ficaram guardadas nos caminhões!

           Outra mulher pulou para dentro da vala, caindo a seu lado. Leila ouviu-a soluçar. Ela não levantou a cabeça para olhar, pois outro avião estava atacando.

           Desta vez um míssil atingiu o caminhão em que ela estivera.

           Ele explodiu em mil fragmentos e gritos angustiados encheram o ar.

           Os detritos que caíram ao seu redor eram formados por pedaços de metal e restos de corpos humanos.

           Leila comprimiu-se ainda mais contra o fundo da vala, tentando enterrar-se na terra fétida. De alguma forma, ela tinha que escapar da morte nas garras daqueles monstros voadores.

           Novamente os aviões rugiram por cima de sua cabeça, os gemidos permanecendo atrás deles, enquanto os mísseis eram despejados contra o comboio. E logo eles se foram, tão subitamente quanto haviam chegado, subindo para o céu e virando para oeste, os raios do sol refletindo-se nas estrelas azuis pintadas nas asas.

           Por um momento reinou o silêncio, mas logo os sons de dor se elevaram no ar. Eram gemidos, gritos, pedidos de ajuda. Leila ergueu a cabeça lentamente.

           Algumas pessoas se moviam na estrada. Ela virou-se para olhar a mulher que pulara na vala, a seu lado. Era Soad.

           — Você está bem, Soad?

           A egípcia virou-se para fitá-la, devagar. Sua voz era estranhamente suave quando disse:

           — Acho que estou ferida.

           — Então deixe-me ajudá-la.

           — Obrigada — sussurrou Soad.

           Ela tentou levantar a cabeça, mas logo deixou-a cair novamente no chão. Uma golfada de sangue saiu por sua boca e nariz, manchando a terra. Seus olhos se arregalaram num olhar fixo.

           Leila contemplou-a. Era a primeira vez que via alguém morrer, mas não precisava de que ninguém lhe dissesse que Soad estava morta.

           Leila sentiu um calafrio percorrer-lhe o corpo. Forçou-se a desviar os olhos e levantou-se.

           Saiu do fosso. A estrada estava coberta de destroços. À sua frente havia uma mão amputada. O anel de diamante em um dos dedos faiscava à luz do sol. Leila chutou-a para longe e aproximou-se do caminhão.

           Nada restava dele, a não ser ferros retorcidos e madeiras chamuscadas.

           Ao redor, havia corpos ensangüentados e dilacerados. Ela contemplou a cena apaticamente e depois foi até a frente do caminhão. O corpo da comandante estava estendido metade sobre o motorista e metade para fora. A saia estava repuxada obscenamente sobre as suas coxas gordas.

           Com o canto dos olhos, Leila viu um movimento. Um soldado descobrira a mão decepada e estava arrancando o anel de diamante do dedo. Tirou o anel e jogou a mão fora, examinando-o atentamente e depois guardando-o no bolso. Ele levantou os olhos e viu Leila a contemplá-lo.

           Ela não disse nada. Ele sorriu humildemente, comentando:

           — Os mortos não precisam de nada.

           Depois ele caminhou para a traseira do caminhão. Leila sentiu a náusea subir-lhe pela garganta e dobrou-se para vomitar na estrada, sentindo uma dor intensa. Experimentou uma fraqueza cada vez maior e estava começando a cair ao chão quando um braço forte segurou-a pelos ombros.

           — Calma, calma. . . — disse Hamid.

           Ela agora estava inteiramente vazia, mas sentia-se fraca e tremia toda. Virou-se para ele e enterrou a cabeça em seus ombros.

           — Por quê? Por que eles tinham que fazer isso conosco? Nós nunca lhes fizemos nada!

           — È a guerra — disse Hamid calmamente.

           Ela levantou o rosto para fitá-lo. Havia sangue em uma de suas faces.

           — Eles sabiam que o ataque era iminente, por isso é que nos mandaram deixar o acampamento.

           Hamid não disse nada. Com raiva na voz, Leita acrescentou:

           — Foi uma estupidez o que eles fizeram, pondo todos esses caminhões juntos na estrada, proporcionando-lhes um alvo fácil.

           Hamid continuou calado, o rosto inexpressivo.

           — Foi para isso que fomos treinados? Para sermos chacinados como carneiros?

           — Não será o que vão dizer esta noite no rádio. Aposto que dirão que conseguimos, heroicamente, derrubar pelo menos seis jatos israelenses.

           Leila ficou estupefata.

           — Mas sobre o que você está falando? Ficou maluco? Nós não disparamos um tiro sequer!

           — Tem razão. Mas existem cem milhões de árabes que não estavam aqui para ver isso.

           — Os judeus são uns animais. Estávamos indefesos e mesmo assim eles nos atacaram!

           — Ontem conquistamos uma grande vitória, segundo o rádio. Em Tel Aviv, foi explodido um ônibus escolar, matando trinta crianças. Acho que essa foi a maneira deles de mostrar que não gostaram do que aconteceu.

           — A Irmandade está certa. A única maneira de detê-los é exterminá-los.

           Hamid fitou-a em silêncio por um momento, depois meteu a mão no bolso e tirou um cigarro, acendendo-o. Soprou a fumaça pelo nariz e disse:

           — Vamos embora daqui. Não há nada mais que possamos fazer e temos uma longa caminhada pela frente.

           — Podíamos ficar e ajudar a enterrar os mortos.

           Hamid apontou para trás. Leila virou-se e viu os homens revistando os destroços.

           — Neste momento eles estão ocupados procurando o que quer que possam encontrar. Depois começarão a lutar entre si para ficarem com o que encontrarem. Finalmente só restará você por que lutar, pois é a única mulher que sobrou.

           Leila ficou muda.

           — Não creio que o seu desejo de proporcionar alívio e conforto aos nossos camaradas vá ao ponto de satisfazer vinte ou trinta homens ao mesmo tempo.

           — E como sabe que eles não virão atrás de nós?

           Hamid abaixou-se e pegou algo que estava no chão, a seus pés. Leila reparou pela primeira vez no rifle automático e no revólver em sua cintura.

           — Você já estava esperando por isso?

           Ele sacudiu os ombros.

           — Eu lhe disse que era um profissional. Eu tinha as armas debaixo do banco e peguei-as antes de pular do caminhão. Além disso, eu estava com um pressentimento. Não lhe falei que treze era um número de azar?

          

           Baydr observou Jordana no outro lado da sala. Ele estava satisfeito. Tomara a decisão correta. Jordana era exatamente o ponto de equilíbrio de que ele precisava. Ela estava agora despedindo-se dos Hutchinsons. Causara a melhor impressão nas esposas e não havia a menor dúvida de que fora esse o fator fundamental para alterar suas relações com os dirigentes do banco. Eles agora formavam uma equipe.

           É claro que a sua proposta de participação nos lucros ajudara bastante. Não haveria mal algum em que quinze por cento dos lucros fossem distribuídos entre os empregados, na mesma proporção dos dividendos por ações. Havia uma coisa que todas as pessoas tinham em comum: ganância.

           Joe Hutchinson aproximou-se dele e disse em seu sotaque californiano

           — Fico satisfeito por essa oportunidade de nos reunirmos. É um prazer descobrir que o homem com quem estamos trabalhando tem as mesmas idéias que a gente.

           — Eu também estou satisfeito, meu amigo — disse Baydr.

           — As mulheres também se deram muito bem — comentou Hutchinson, olhando para sua esposa. — A sua esposa convidou Dolly a visitá-la no Sul da França no próximo verão.

           Baydr sorriu.

           — Isso é ótimo. Mas você vai também. Poderemos divertir-nos bastante.

           O californiano piscou os olhos maliciosamente e sorriu.

           — Ouvi uma porção de coisas sobre as garotas francesas. . . É verdade que elas vão à praia sem a parte de cima do biquíni?

           — Em algumas praias.

           — Então pode apostar que estarei lá. Não cheguei a ir à Europa durante a guerra. Fiquei mesmo na África do Norte e as únicas garotas que conheci por lá foram algumas rameiras de quinta categoria. Nenhum homem que se respeita poderia tocá-las. Ou estavam cheias de doenças ou tinham um negro à espera num beco escuro para enfiar uma faca na gente.

           Aparentemente Hutchinson não percebia que estava falando sobre países árabes. Mas, para ele, não havia a menor relação entre os nativos da África do Norte e o homem que estava de pé à sua frente.

           — A guerra foi uma coisa terrível — comentou Baydr.

           — Sua família esteve envolvida nela?

           — Não. Nosso país é bem pequeno e acho que ninguém achou que era importante o bastante para que se lutasse por, ele.

           Ele não mencionou o acordo feito pelo Príncipe Feiyad estipulando que, caso a Alemanha ganhasse a guerra, os nazistas assumiriam o controle de toda a exploração de petróleo no Oriente Médio.

           — E qual é a sua opinião? Vai ou não haver outra guerra no Oriente Médio?

           — O seu palpite vale tanto quanto o meu.

           — Mas, se alguma coisa acontecer, espero que vocês lhes dêem uma lição. Já está na hora de alguém pôr esse judeus em seu lugar.

           — Não temos muitos clientes judeus, não é?

           — Claro que não — disse o banqueiro, entusiasmado. — Nós simplesmente não os encorajamos.

           — Não será por causa do loteamento do Rancho dei Sol? Segundo eu soube, muitos dos envolvidos eram judeus.

           — Deve ser esse o motivo — disse Hutchinson rapidamente. — Eles queriam fazer negócios com os bancos judeus de Los Angeles.

           — Fiquei curioso, pois alguém me disse que ofereceram uma taxa menor do que a nossa. Los Angeles deu-lhes o dinheiro a uma taxa inferior em meio por cento.

           — Os judeus fizeram isso de propósito, para nos suplantar.

           — Da próxima vez reduza também a nossa taxa. Quero que o nosso banco seja competitivo. É a única maneira de atrair os grandes negócios.

           — Mesmo sendo de judeus?

           A voz de Baydr tornou-se categórica

           — Não confunda as coisas. Estamos falando é sobre dólares. Dólares dos Estados Unidos da América. Aquele negócio poderia ternos feito ganhar dois milhões de dólares em três anos. Se tivéssemos reduzido a taxa em meio por cento, ainda assim o nosso lucro seria alto, de um milhão e meio de dólares. Não quero renunciar a esse tipo de dinheiro.

           — Mas mesmo assim os judeus ainda ofereceriam uma taxa inferior à nossa. 

           — Talvez. Mas temos que nos lembrar de que, a partir de agora, estaremos emprestando dinheiro em pé de igualdade.

           — Está certo. Faremos como quiser.

           — Por falar nisso, a última cifra que me deu sobre a Leisure City ainda está de pé?

           — Está. Doze milhões de dólares. Os japoneses é que forçaram a alta.

           — Pois então reserve-a para nós por esse preço.

           — Mas espere um instante! — protestou Hutchinson. — Não temos tanto dinheiro assim disponível.

           — Eu disse para fazer a reserva e não para comprar. Creio que teremos um sócio à nossa disposição até o final da semana.

           — A reserva irá custar-nos dez por cento, um milhão e duzentos mil dólares. Se o tal associado não comparecer, perderemos esse dinheiro. Com isso, lá se vão os nossos lucros deste ano. Os inspetores não vão gostar.

           — Correrei o risco. Se o pior acontecer, eu mesmo cobrirei o dinheiro.

           Se tudo corresse bem, nem ele nem o banco teriam que entrar com nada. Os japoneses entrariam com seis milhões e os outros seis milhões viriam de seu grupo do Oriente Médio, os quais poderiam ser financiados pelo banco de Nova York. O banco receberia os juros e os lucros por sua participação, ele receberia os lucros por sua participação no consórcio japonês e também os lucros por sua participação no grupo do Oriente Médio. O dinheiro, ao que parecia, possuía a estranha capacidade de alimentar-se a si próprio e crescer.

           Finalmente os Hutchinsons partiram e Jordana voltou ao salão, afundando exausta numa poltrona.

           — Céus, eu nem acredito!

           Baydr sorriu.

           — Em que você não acredita?

           — Que ainda existam no mundo pessoas assim. Pensei que elas já tivessem desaparecido inteiramente. Lembro-me delas do tempo em que eu era criança.

           — Vai descobrir que as pessoas realmente não mudam.

           — Acho que está enganado. Você mudou, eu mudei.

           Baydr fitou-a nos olhos.

           — Mas não necessariamente para melhor, não é?

           — Depende de como se sente. Eu não acredito que possa voltar a ter essa espécie de vida. Assim como você não mais pode voltar para seu país e ficar por lá.

           Baydr ficou calado. De certa forma, ela tinha razão. Não havia condição de ele voltar e viver como seu pai. Havia muita coisa acontecendo no mundo.

           — Eu bem que podia fumar um pouco — murmurou Jordana.

           — Será que Jabir ainda tem algum daquele seu haxixe especial?

           — Tenho certeza de que sim — respondeu Baydr, batendo palmas.

           Jabir saiu da sala contígua.

           — Sim, amo?

           Baydr falou-lhe rapidamente em árabe. Jabir sumiu e voltou logo depois, com uma cigarreira de prata. Abriu-a e ofereceu a Jordana.

           Os cigarros estavam impecavelmente enrolados, com pontas de cortiça. Jordana tirou um. Jabir estendeu a cigarreira para Baydr, que também tirou um. Jabir colocou a cigarreira na mesinha em frente a Jordana e acendeu um fósforo. Manteve a chama na distância exata, a fim de que apenas a ponta tocasse no cigarro e o calor não se espalhasse por ele. Acendeu o cigarro de Baydr exatamente da mesma forma. 

           — Obrigada — disse Jordana.

           Jabir fez o gesto tradicional de obediência, ao sair do salão.

           — Sinto-me honrado, ama.

           Jordana aspirou a fumaça até o fundo dos seus pulmões, sentindo imediatamente os efeitos tranqüilizantes.

           — Isto está maravilhoso! Ninguém consegue prepará-los como Jabir!

           — A produção é da nossa família, que faz o cultivo numa pequena fazenda não muito distante do lugar em que meu pai nasceu. Os árabes chamam isso de matéria-prima com que se fabricam sonhos.

           — E eles estão certos — comentou Jordana, rindo subitamente. — Acho que já estou alta, pois não me sinto mais cansada.

           — Eu também não.

           Baydr sentou-se na poltrona em frente a ela, pôs o cigarro num cinzeiro e inclinou-se para a frente, segurando-lhe as mãos.

           — O que você gostaria de fazer agora?

           Jordana fitou-o, os olhos subitamente marejados de lágrimas.

           — Eu gostaria de voltar ao tempo em que nos conhecemos e começar tudo novamente.

           Ele ficou calado por um longo momento e depois disse suavemente:

           — Eu também gostaria, mas isso é impossível.

           As lágrimas escorriam pelo rosto de Jordana. Ela escondeu o rosto nas mãos de Baydr, gemendo.

           — Baydr, Baydr, o que aconteceu conosco? O que saiu errado? Estávamos tão apaixonados naquele tempo!

           Ele puxou a cabeça de Jordana para o seu peito e olhou tristemente para o vazio. Sua voz era um murmúrio nos ouvidos dela:

           — Não sei. . .

           Ele começou a pensar em como Jordana estava bonita na primeira vez em que a vira.

           Fazia frio e a ofuscante luz branca refletia-se da neve e dos prédios brancos que cercavam os palanques armados para a cerimônia de posse. O maior país do mundo estava dando posse a seu novo presidente, um jovem chamado John F. Kennedy.

           Seis meses antes, ninguém no Oriente Médio jamais tinha ouvido falar nele. E então, subitamente, ele se tornara candidato do Partido Democrata e um telegrama do Príncipe aparecera na mesa de Baydr “Qual é a política de Kennedy com relação ao Oriente Médio?”

           Sua resposta fora igualmente sucinta:

           “Pró Israel. Não se sabe de mais.”

           O telefonema que recebera no dia seguinte fora igualmente conciso.

           O próprio Príncipe estava ao telefone:

           — Descubra um meio de contribuir com um milhão de dólares para a campanha de Nixon.

           — Não será fácil. Os Estados Unidos têm leis muito rígidas sobre as contribuições para campanhas eleitorais.

           O Príncipe rira maliciosamente.

           — Os políticos são iguais em toda parte do mundo. Tenho certeza de que você encontrará um meio. O Sr. Nixon e o Sr. Eisenhower foram muito bons para nós quando os ingleses e os franceses tentaram tomar o Canal de Suez em 1956. Devemos pelo menos demonstrar o nosso reconhecimento.

           — Darei um jeito. Mas gostaria de sugerir que fizéssemos também uma contribuição simbólica para a campanha de Kennedy, apenas como garantia.

           — Por quê? Acha que ele tem alguma chance?

           — Segundo as pesquisas, não. Mas isto aqui é a América e tudo é possível.

           — Deixarei a seu critério. Estou começando a pensar que você está mais americano do que árabe.

           Baydr rira.

           — Não é o que os americanos pensam.

           — Como estão sua esposa e filhas? — indagara o Príncipe.

           — Estão muito bem. Falei com elas a noite passada. Continuam em Beirute.

           — Seria bom que você lhes fizesse uma visita. Alnda estou esperando aquele herdeiro que me prometeu, E não gostaria de que ele se demorasse muito. Afinal, o tempo está passando e eu não estou rejuvenescendo.

           — Alá irá preservá-lo e viverá para sempre.

           — No paraíso, espero eu — dissera o Príncipe, rindo. — Não aqui na Terra.

           Baydr desligara o telefone, pensativo. O Príncipe nunca dizia coisa alguma ao acaso. Será que ele ouvira dizer que Maryam não podia ter mais filhos, depois do nascimento da última menina? Mas, se soubesse, não lhe teria pedido um herdeiro.

           Teria insistido para que Baydr se divorciasse e casasse com outra mulher. A esterilidade era uma razão válida para o divórcio, segundo a lei muçulmana. Mas Baydr estava relutante. Não era por que estivesse apaixonado por Maryam. Nunca houvera tal sentimento entre eles e, quanto mais tempo tinham de casados, menos pareciam ter em comum. Ela era por demais provinciana e realmente não gostava da Europa e da América. Só se sentia verdadeiramente feliz quando estava em seu próprio ambiente, num mundo que era capaz de compreender.

           Esse era o verdadeiro problema. Maryam era excessivamente árabe. E a simples idéia de casar-se com outra mulher árabe deixava Baydr assustado.

           Talvez o Príncipe estivesse com a razão. Talvez ele tivesse sendo por demais americano. Pois decididamente preferia as mulheres ocidentais às mulheres da sua terra. Elas tinham uma vida, um estilo, uma maneira de ser, uma liberdade que as mulheres árabes não possuíam.

           Baydr acabara encontrando um meio de fazer as contribuições.

           Ambas. Eles tinham muitos amigos entre os homens de negócios de ambos os partidos. A contribuição compensara e o Príncipe recebera um convite da comissão encarregada das cerimônias de posse. Ele declinara, alegando problemas de saúde, e designara Baydr como seu representante especial na posse.

           Baydr ficou no palanque destinado aos representantes dos países estrangeiros, bem perto do palanque em que o próprio Presidente seria empossado. Estava-se sentindo pouco à vontade e com muito frio, dentro do fraque exigido para a cerimônia. A cartola, bem enfiada na cabeça para que não fosse arrancada pelas rajadas de vento, em nada contribuía para esquentar-lhe a cabeça.

           Ele olhou ao redor. Alguns dos outros diplomatas e suas esposas haviam-se preparado melhor do que ele. Eram mais velhos e provavelmente já tinham passado anteriormente por aquela experiência.

           Volta e meia eles bebiam alguma coisa de pequenos frascos de prata.

           Algumas garrafas térmicas estavam à vista.

           Baydr olhou para o relógio. Já passavam quase quinze minutos do meio-dia. Estavam atrasados, pois a cerimônia fora marcada para começar pontualmente às doze horas. Ele meteu a mão no bolso e tirou os óculos escuros. Seus olhos estavam cansados de ficarem semicerrados contra a claridade intensa do sol e da neve. Mudou de idéia, contudo. Ninguém mais estava usando óculos escuros. Houve uma agitação nos palanques. Ele levantou os olhos quando os aplausos começaram. O Presidente eleito estava subindo na plataforma.

           Havia nele algo jovem e estranhamente vulnerável, enquanto se deslocava em passos firmes, o vento a desmanchar-lhe os cabelos. O frio parecia não incomodá-lo. Era o único no palanque que não usava chapéu nem colete.

           Um momento depois, um sacerdote adiantou-se e pronunciou uma prece. Sua voz era cadenciada e monótona, como as vozes de todos os sacerdotes, de qualquer fé. Mas o jovem Presidente permaneceu imóvel, as mãos unidas, a cabeça respeitosamente inclinada.

           Alá não teria insistido numa prece tão longa num tempo tão frio, pensou Baydr.

           Quando o sacerdote acabou, outro homem se adiantou. Era velho e de cabelos brancos, o rosto parecendo esculpido do mesmo granito do prédio às suas costas. Baydr ouviu sussurros ao seu redor. Era Robert Frost, um dos maiores poetas americanos.

           O velho começou a falar, a respiração transformada em vapor no ar frio do inverno. Baydr não conseguiu entender as palavras muito bem. Um momento depois, ele parou de falar. Parecia que surgira um problema qualquer.

           Outro homem se adiantou e ergueu um chapéu por cima do atril.

           Aparentemente o sol ofuscara o velho, impedindo-o de ler o que estava no papel à sua frente. Outro sussurro correu pelo palanque. O homem que segurava o chapéu era Lyndon Johnson, o futuro Vice-Presidente. O velho disse alguma coisa e Lyndon Johnson recuou.

           Robert Frost recomeçou a falar, recitando um poema de memória. Sua voz saía pelo sistema de alto-falantes, mas Baydr não mais estava prestando atenção. Concentrava-se numa jovem que estava no palanque, três fileiras atrás do Presidente.

           Ela parecia alta, mas ele não podia realmente ter certeza. O palanque era construído em degraus, de forma a que todos pudessem ver e ser vistos. Os olhos azuis estavam fixados em cima de faces salientes, que descaíam num queixo quase quadrado. Os lábios, enquanto ela ouvia atentamente o poeta, entreabriram-se, deixando à mostra dentes brancos e perfeitos. Quando o poeta terminou, ela sorriu, riu e aplaudiu entusiasticamente. Por algum motivo que não sabia dizer qual era, Baydr concluiu que ela era da Califórnia.

           Depois o Presidente prestou juramento. A cerimônia em si pareceu durar apenas um momento, depois do que ele se aproximou do atril para iniciar o seu discurso. Baydr ouviu atentamente.

           Houve uma frase que o levou a pensar que o Presidente talvez tivesse lido o Alcorão. Poderia perfeitamente ter sido extraída do Livro Santo.

           — A cortesia não é um sinal de fraqueza e a sinceridade tem sempre que ser posta à prova.