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O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA / Irving Wallace
O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA 

 

         EXIBIÇÃO UM - A AMA DO GENERAL WASHINGTON

Numa manhã de Agosto de 1835, a maioria dos 270. 000 habitantes da cidade de Nova Iorque acordou e descobriu um fenómeno novo. Tivera início uma nova era: a era do espectáculo.

Nas semanas e meses anteriores a essa manhã fatídica, todas as classes de nova-iorquinos (os antiquados descendentes dos primeiros colonos holandeses, os nouveaux riches' ou Shoddyites, os profissionais e os artistas) orgulhavam-se de possuir e de frequentar mais igrejas do que locais de diversão. As leis eram azuis 2 e a vida cinzenta. Os teatros e as mostras públicas eram considerados obra do diabo. As actividades desportivas limitavam-se à intoxicação, ao estupro e à fornicação discreta.

Os jornais, ainda tímidos, dedicavam-se a reportagens castas: o Partido Democrático nomeara para Presidente o diminuto mas empertigado Martin Van Buren; a Oberlin College aceitava alunos negros, com o intuito de dramatizar a sua atitude para com a escravatura; um químico inglês de nome James Smithson legara uma herança de 100. 000 para a criação de um instituto americano "para o aumento e difusão do conhecimento entre os homens"; a National Trades' Union censurava a utilização de trabalho infantil nas indústrias do algodão e da lã; a fragata Constitution voltara recentemente da Europa, sendo o seu mais ilustre passageiro Edward Livingston, embaixador dos Estados Unidos em França; o general Sam Houston fora empossado como comandante do exército do Texas; o campeão de vendas da temporada fora Rienzi,

 

1 Em francês, no original.

2 "Blue laws", no original. Estas "leis azuis" limitavam as actividades seculares ao domingo, tendo o nome origem no trabalho de Samuel A. Peter, General History of Connecticut, que apresentava uma lista de regulamentos rígidos para o Sabat e que foi impresso em papel azul; outra possível origem do termo poderá ser o significado dado no século XVIII à palavra "blue": "rigidamente moral".

 

de Edward Bulwer-Lytton, e The Letters and Papers of Washington, organizado por Jared Sparks, acabara de ser editado.

Pouco havia, contudo, de curiosidade, maravilha e sensação, até essa manhã de Agosto, em que os nova-iorquinos acordaram e leram, em anúncios publicados em jornais, em cartazes de rua e em panfletos vendidos a seis cêntimos por cópia, que uma mulher de cor, de 161 anos de idade, que fora a ama do presidente George Washington, seria exibida ao público no Niblo's Garden. O nome da anciã era Joice Heth e o do expositor Phineas T. Barnum.

Os anúncios diziam: "A Maior Curiosidade Natural e Nacional do Mundo. JOICE HETH, ama do general George Washington (Pai da nossa Nação)... Joice Heth é, sem dúvida, a mais espantosa e interessante curiosidade do mundo! Foi escrava de Augustine Washington (pai do general Washington) e a primeira pessoa a vestir o bebé que, posteriormente, levaria os nossos ilustres antepassados à glória, à vitória e à liberdade. Utilizando as suas palavras quando fala do ilustre Pai da Nossa Nação, "ela criou-o". Joice Heth nasceu no ano de 1674, tendo, consequentemente, chegado à espantosa IDADE DE 161 ANOS. Tem apenas Vinte e Três Quilos, mas continua muito alegre e interessante. Mantém as suas faculdades a um nível sem igual, conversa espontaneamente, canta inúmeros hinos religiosos e relata muitas narrativas interessantes sobre o rapaz Washington, rindo-se com frequência dos seus próprios comentários ou dos proferidos pelos espectadores. Encontra-se muito bem de saúde e possui uma aparência bastante razoável. É baptista e sente grande prazer em dialogar com sacerdotes e com pessoas religiosas. A visão desta maravilhosa relíquia da antiguidade pasma o espectador, convencendo-o de que os seus olhos admiram o mais velho espécime da mortalidade alguma vez visto. Os documentos originais, autênticos e incontestáveis que a acompanham provam, por mais espantoso que esse facto seja, que Joice Heth é, em todos os aspectos, a pessoa que afirma ser."

O anúncio era electrizante. Diferia da monotonia pesada de todos os dias. Encontrava-se ali o elo vivo com o primeiro Presidente, falecido havia já trinta e seis anos, tendo-se tornado uma deidade austera para a nova geração. Ali estava um ser humano venerável, cuja voz enrouquecida embalara o bebé Washington e cujas mãos enrugadas o tinham acariciado. Apreciar esta relíquia desenterrada de um passado obscuro seria um divertimento estranho e até mesmo um acto patriótico. E, uma vez que os anúncios garantiam que era uma Verdadeira Crente, que cantava "hinos" e que sentia prazer em "dialogar com sacerdotes", visitar aquela aberração histórica decerto não ofenderia o clero, nem iria contra os editais que se opunham à frivolidade e ao hedonismo.

Ao mesmo tempo que milhares de nova-iorquinos entusiasmados se preparavam para invadir Niblo's Garden em busca de um dia de diversão, outros milhares reflectiam sobre a atracção, questionando a sua autenticidade. Afinal de contas, quem era esse P. T. Barnum? Teria reputação suficiente para garantir a sua fantástica descoberta?

Nos finais do Verão de 1835, renome e reputação era coisa que P. T. Barnum não possuía. Era, na verdade, uma nulidade, embora quase pela última vez numa vida que acabaria por ser famosa e espectacular. Mais tarde, é claro, viria a fazer uma fortuna de quatro milhões de dólares, tornando-se, graças a isso, um nome conhecido na América e por todo o mundo. Tornar-se-ia amigo pessoal da rainha Vitória e de Abraham Lincoln, de William Ewart Gladstone e de Mark Twain, de William Makepeace Thackeray e de Horace Greeley. Apresentaria à América o museu público moderno, o concerto popular e o circo de três pistas, tudo precursores do vaudeville, do cinema e da televisão. Inventaria a publicidade moderna e a arte do mestre de cerimónias. E acabaria por tornar-se uma lenda internacional. Quando conheceu o general Ulysses S. Grant, teria dito: "General, desde a sua viagem em redor do mundo, o senhor tornou-se o homem mais conhecido do planeta", ao que Grant teria replicado com sinceridade: "Não, o seu nome é conhecido por inúmeras pessoas que nunca ouviram falar em mim. Nas nações mais longínquas que visitei, o facto de eu ser americano levava a que me perguntassem constantemente se conhecia o senhor Barnum."

Estávamos, contudo, em 1835, e P. T. Barnum era ainda um indivíduo desconhecido e sem sucesso. Na altura em que promoveu Joice Heth, tinha apenas vinte e cinco anos de idade.

Era um ianque do Connecticut com um metro e oitenta e cinco, detentor de uma energia espantosa, com cabelo encaracolado que apresentava entradas sobre uns olhos azuis sinceros, nariz bolboso, boca carnuda sorridente, queixo fendido e voz aguda. Até esse momento fora pau para toda a obra, sem dominar nenhuma. Trabalhara em várias lojas, conduzira lotarias legais, fora dono da sua própria loja de fruta, editara um semanário liberal, vendera chapéus e bonés à comissão e, finalmente, abrira uma pequena mercearia em Nova Iorque, com um tal de John Moody como sócio, complementando os seus rendimentos com uma pensão que geria com a esposa. Até descobrir Joice Heth, não encontrara ainda o seu rumo. Mas, sobre a extravagante exibição dessa ama-seca definhada e repulsiva, viria a admitir mais tarde: "Finalmente encontrara a minha verdadeira vocação." Facto igualmente importante, o público ansioso e voraz descobrira finalmente uma forma de se divertir sem ter de recear o fogo e o enxofre.

Como surgiu a era do espectáculo?

Durante um dia de trabalho normal, nos finais de Julho de 1835, o jovem PhineasT. Barnum dedicava-se melancolicamente à sua mercearia e consultava anúncios no jornal New York Sun, na esperança de encontrar uma oportunidade de ouro, quando lhe surgiu um antigo vizinho e cliente chamado Coley Bartram, de Redding, no Connecticut.

Enquanto fazia compras, Bartram falou sobre algumas das suas actividades recentes e então, ao recordar o interesse constante do proprietário em investimentos especulativos, contou a Barnum o último projecto que rejeitara. Bartram explicou que, recentemente, ele e um tal R. W. Lindsay tinham adquirido uma curiosidade como investimento, uma escrava que se pensava ter

161 anos de idade e que fora a ama do presidente Washington. Tinham-na exibido no Masonic Hall, em Filadélfia, mas Bartram fartara-se rapidamente do projecto, tendo vendido a sua parte a Lindsay. Este, por seu lado, com saudades do Kentucky natal e sentindo-se pouco dotado enquanto mestre de cerimónias, desejava livrar-se da mulher, procurando um comprador. Será que ele estaria interessado?

Barnum dedicou de imediato toda a sua atenção a Bartram. Recordava-se vagamente de ter lido na imprensa nova-iorquina alguns parágrafos sobre a exposição. Será que Bartram lhe podia reavivar a memória? É claro que podia e apresentou a Barnum um recorte do The Pennsylvania Inquirer, datado de 15 de Julho de 1835:

"CURIOSIDADE. - Os habitantes de Filadélfia e arredores têm a oportunidade de testemunhar no Masonic Hall uma das maiores curiosidades naturais alguma vez vista, nomeadamente JOICE HETH, uma negra de 161 anos de idade, em tempos pertencente ao pai do general Washington. É membro da Igreja Baptista há cento e dezasseis anos e sabe muitos hinos, cantando-os segundo a maneira antiga. Nasceu perto do velho rio Potomac, na Virgínia, tendo vivido durante noventa e um anos em Paris, no Kentucky, com a família Bowling.

"Todos os que viram esta mulher extraordinária ficaram convencidos da verdade sobre a sua idade. As provas da respeitável família Bowling são fortes, mas a nota de compra original de Augustine Washington, escrita pela sua própria mão, para além de outras provas na posse do dono, irão satisfazer até a mais incrédula das pessoas.

"Durante a tarde e a noite uma acompanhante irá receber todas as senhoras que desejem comparecer."

Houve algo que se agitou em Barnum. Tinha de ver este caso bizarro com os próprios olhos. Na primeira oportunidade que teve apanhou a diligência para Filadélfia, procurou Lindsay no Masonic Hall, confirmou que Joice Heth estava à venda e depois pediu para conhecê-la.

Foi conduzido solenemente à presença da extraordinária anciã. "Estava deitada num divã, no meio da sala", diria mais tarde na sua autobiografia. "Os membros inferiores encontravam-se erguidos, com os joelhos elevados cerca de meio metro acima do divã. Estava, aparentemente, de boa saúde e lúcida, mas uma enfermidade antiga ou a velhice, quem sabe uma combinação de ambos os casos, impediam-na de mudar de posição. Na verdade, embora pudesse mover um dos braços à vontade, os membros inferiores encontravam-se fixos naquela posição e não podiam ser endireitados. Era completamente cega e os globos oculares estavam tão enterrados nas órbitas que pareciam ter desaparecido. Não tinha dentes, mas possuía uma espessa cabeleira grisalha. O braço esquerdo encontrava-se atravessado sobre o peito, não sendo capaz de o mover. Os dedos da mão esquerda estavam quase fechados, permanecendo fixos e imóveis. As unhas dessa mão tinham cerca de dez centímetros de comprimento, ultrapassando o pulso. As unhas dos dedos grandes dos pés tinham também crescido até alcançarem uma espessura de quase meio centímetro."

Ao observá-la, Barnum pensou que poderia facilmente ter "mil anos ou qualquer outra idade" e encetou um diálogo com ela. De início considerou-a "sociável" e finalmente "tagarela", especialmente enquanto divagava sobre o tempo passado ao serviço do pai de George Washington e sobre os deveres como ama do "querido George" até este atingir idade adulta. Finalmente, acabou a discutir a Igreja Baptista e cantou um hino.

Barnum ficou encantado e chamou Lindsay à parte. Só faltava conversar sobre um assunto: a prova da idade da mulher. Lindsay disse-lhe possuir essa prova e explicou que antes do nascimento de George Washington, Augustine Washington vendera Joice Heth à cunhada, Elizabeth Atwood, que também vivia em Bridges Creek, na Virgínia. Quando George Washington nasceu, no dia 22 de Fevereiro de 1732, o pai pediu Joice Heth emprestada à cunhada e ficou com ela para que educasse o futuro presidente. A prova física encontrava-se guardada numa moldura envidraçada. Tratava-se de um documento amarelecido, muito amarrotado e gasto, uma factura de venda em nome de Augustine Washington à sua cunhada, Elizabeth Atwood, de "uma negra, de nome Joice Heth, com a idade de cinquenta e quatro anos, pela soma de trinta e três libras em dinheiro corrente na Virgínia". O documento tinha a data de 5 de Fevereiro de 1727, e a transacção fora testemunhada por William Washington e por Richard Buckner.

Barnum ficou satisfeito. Só mais uma questão o incomodava. Por que razão a existência "de uma idosa tão extraordinária" não viera a lume anos antes? Lindsay tinha a resposta a esta dúvida. Redarguiu "que ela jazera durante anos num anexo de John S. Bowling, no Kentucky, e que ninguém sabia, nem parecia importar-se com a sua idade. Ela fora trazida da Virgínia havia muito tempo e a questão da sua idade extremamente avançada só viera ao de cima recentemente, devido ao facto do filho de Mr. Bowling ter encontrado aquela antiga factura no Arquivo de Documentação da Virgínia. Este, ao examinar os documentos antigos dessa instituição, reparara, por acaso, no papel com o nome de Joice Heth".

Lindsay, vizinho do respeitável Mr. Bowling, ouvira falar na antiguidade viva e adquirira-a, encontrando-se agora pronto a cedê-la a Barnum por $3. 000. Este, que sempre fora um excelente negociador, reagiu de forma desfavorável ao preço. Os dois homens regatearam e, ao terminarem, Lindsay concordou em aceitar $1. 000 pela sua exibição.

Barnum só tinha $500 dólares em seu nome. Ficou com direito de opção sobre Joice Heth por dez dias e regressou a Nova Iorque, a fim de angariar o resto do dinheiro. Não foi tarefa fácil. Barnum convenceu a esposa de que, embora fosse verdade que existia o risco de Joice Heth morrer, levando-os a perder todo o investimento, o empreendimento era suficientemente prometedor para que valesse a pena arriscar todas as suas poupanças. Depois, impressionando um amigo com a maravilha que era a aberração que descobrira, conseguiu que este lhe emprestasse os restantes $500. Finalmente, e porque precisava de dinheiro para sobreviver e para despesas que pudessem surgir, vendeu a sua parte da mercearia ao sócio, Moody. Regressou então a Filadélfia, pagou a Lindsay e transformou-se, de um dia para o outro, em mestre de espectáculos e dono de uma escrava.

O local a escolher para a exibição era de suma importância e Barnum decidiu-se pelo Niblo's Garden. Este atraente salão, ou centro de refrigério ao ar livre, repleto de flores e de árvores, apresentava espectáculos musicais. Em tempos, Barnum candidatara-se a um trabalho como empregado de bar e agora, voltando ao local, ficou grato por Niblo não se recordar da ocasião anterior.

Niblo não desejava exibir Joice Heth no seu salão, mas concordou em alugar a Barnum um grande apartamento no prédio ao lado. Em troca do aluguer do quarto, do financiamento de todos os materiais impressos e publicitários e do fornecimento de um bilheteiro, foi prometido a Niblo metade dos lucros das entradas. De seguida, Barnum contratou um assistente, alguém que o ajudasse na promoção e que servisse de mestre de cerimónias. Esse assistente foi Levi Lyman, antigo advogado que exercera em Penn Yan, Nova Iorque. "Era um ianque perspicaz, sociável e um pouco indolente", disse Barnum, "era profundamente conhecedor da natureza humana, educado, agradável e conseguia conversar sobre muitos assuntos". O palco foi montado para a "Tia Joice", como Barnum gostava de chamar ao seu investimento.

Barnum encheu os jornais de anúncios e inundou a metrópole com cartazes provocantes. Levi Lyman redigiu um panfleto erudito sobre a ama de Washington e também isto foi acrescentado à chuva de publicidade. Em apenas uma semana, toda a cidade de Nova Iorque tomou conhecimento de Joice Heth. Depois, o edifício adjacente ao Niblo's Garden foi aberto ao público, tendo este respondido favoravelmente.

Muitas vezes, enquanto os clientes se reuniam com reverência perante o divã onde a vetusta criatura se reclinava ("uma múmia animada", chamou-lhe o Sun; "uma carcaça repugnante", decidiu um crítico posterior), Barnum e Lyman apresentavam o espectáculo em conjunto. Segundo Barnum: "A nossa exposição abria, normalmente, com uma declaração sobre a forma como a idade de Joice Heth fora descoberta, bem como com um relato dos seus antecedentes na Virgínia, e com a leitura da declaração de venda. De seguida, eram-lhe colocadas questões sobre o nascimento e a juventude do general Washington, ao que ela respondia sempre de forma satisfatória a cada pormenor. Era questionada com frequência por indivíduos presentes no público, sendo submetida a interrogatórios rigorosos, mas sem nunca se desviar do que só poderia tratar-se de uma declaração de factos sinceros e verdadeiros."

Joice Heth falava ou cantava regularmente com membros da audiência. Certa vez, um sacerdote baptista idoso acompanhou-a enquanto cantava um hino. Quando ele prosseguiu, entoando outros menos conhecidos, ela continuou o dueto, fornecendo a letra sempre que o padre se esquecia. Numa outra ocasião, Grant Thorburn, jornalista do Evening Star, encontrou-a calmamente a fumar cachimbo, perguntando-lhe há quanto tempo tinha esse vício. "Cento e vinte anos!" replicou ela animadamente.

A imprensa, deleitada, publicitava-a com entusiasmo. "Matusalém tinha 969 anos de idade quando morreu", declarava o DailyAdvertiser, "mas nunca se falou da idade da mulher... Não seria de estranhar que as mulheres desses idos fossem como as filhas do presente, não se mostrando dispostas a revelar a sua idade. Joice Heth é uma excepção, dizendo frontalmente que já passou dos 160." E o Spirit ofthe Times comentava: "A simpática velhinha, após ter vivido um namoro desesperado com a Morte, conseguiu finalmente deixá-la para trás." Chegou a ouvir-se um médico optimista a admitir que Joice Heth poderia, quem sabe, vir a provar ser imortal.

O Sun observou que durante vários meses Joice Heth "causou sensação entre os apaixonados pelo curioso e pelo maravilhoso". E, em cada semana destes meses, Barnum dividia uma receita de $1. 500 com Niblo. Nunca antes vira tanto dinheiro e, quando o negócio começou a fraquejar em Manhattan, Barnum decidiu lançar-se à estrada com a sua exibição.

Apresentou brevemente Joice à população de Providence e depois, na esteira de uma campanha de saturação com cartazes e anúncios de jornal, entrou na austera Boston. Mostrou Joice no seu divã no centro de um pequeno salão de baile em Concert Hall, e a sensação original repetiu-se. Os sérios habitantes de Boston compareceram em peso.

A competir com Barnum e Joice em Concert Hall, encontrava-se o ainda mais famoso Johann Nepomuk Maelzel, com o seu Terrível Turco, um autómato jogador de xadrez. Maelzel e a máquina pensadora ocupavam o maior salão de baile e eram já uma atracção popular antes da chegada de Barnum.

Este visitou de imediato o espectáculo do rival, provavelmente com alguma apreensão. Maelzel era inventor, mecânico e músico, de estatura baixa e com sessenta e três anos, dirigindo-se à audiência com uma forte pronúncia germânica. O seu robô, ao qual dedicara mais de trinta e um anos de vida, era mais impressionante. Barnum não deixou qualquer descrição do que aconteceu a seguir, mas Edgar Allan Poe, que assistiu à exibição nesse mesmo ano, presenteou-nos com algumas palavras. "À hora marcada para a exibição retira-se uma cortina... e a máquina rola até cerca de três metros e meio dos espectadores mais próximos, estando uma corda esticada entre eles e ela (a máquina)."

O autómato era um cavalheiro turco de escala maior do que a real, esculpido em madeira e trajado com um turbante emplumado e um esvoaçante manto oriental. Encontrava-se sentado numa cadeira, atrás de uma secretária ou arca com um metro de largura, setenta centímetros de comprimento e setenta e cinco centímetros de altura. No topo dessa secretária estava incrustado um tabuleiro de xadrez.

Barnum observou atentamente Maelzel abrir o peito da máquina e revelar uma massa de rodas, alavancas, cilindros e outros dispositivos complicados. Depois, fazendo rodar o robô, Maelzel abriu a porta traseira, aproximou uma vela acesa e revelou que também esta parte estava repleta de maquinaria.

De seguida, Maelzel dispôs as peças de xadrez sobre o tabuleiro e convidou um espectador a jogar contra a máquina. Depois, Maelzel fez girar uma chave no orifício da parte esquerda do peito e a máquina começou a retinir, a estridular e a roncar ruidosamente. Devagar, o Turco ergueu o braço direito, deslocou-o em direcção à peça que queria movimentar, segurou-a com dedos rígidos, depositou-a no quadrado respectivo, retirou o braço e repousou-o sobre uma almofada. O perplexo adversário humano executou a jogada seguinte, enquanto o Turco de madeira o observava, impassível. Depois, por entre ruídos metálicos, o autómato efectuou a sua jogada. Em meia hora a máquina saíra vitoriosa e o jogo chegara ao fim.

Barnum ficou, sem dúvida, espantado, talvez receando que a ama de Washington acabasse por não se revelar uma atracção tão grande como aquela misteriosa máquina pensante. Quanto a isso, no entanto, não precisava de se preocupar, pois um autómato, mesmo tendo derrotado Napoleão, Catarina, a Grande, Frederico, o Grande e Benjamin Franklin, não poderia competir com uma criatura viva desde há 161 anos. A partir desse dia, o pequeno salão de baile de Barnum encheu-se ao ponto de sufocação, enquanto o salão mais amplo de Maelzel se encontrava quase vazio. Finalmente, Barnum, que por essa altura já se apresentara ao seu rival, implorou a Maelzel que fechasse temporariamente a sua exibição (por uma quantia em dinheiro, obviamente) e que cedesse o salão maior a Joice Heth. Surpreendentemente, Maelzel aceitou.

Maelzel, que durante sete anos fora Mecânico Real na Corte do Imperador em Schõnbrunn, possuía uma longa história de produções de entretenimento de sucesso. Embora lhe tivesse sido erroneamente atribuída a invenção do metrónomo, realizara algum trabalho de melhoria do instrumento. Em 1812, fascinara Beethoven com os seus autómatos musicais, chegando mesmo a convencer o compositor a criar uma sinfonia medíocre mas popular, a Vitória de Wellington, para a orquestra mecânica de metais que anunciava como Panharmónica. Mesmo com todos os seus feitos e experiência, Maelzel não deixou de se impressionar com a capacidade do jovem Barnum em obter publicidade gratuita. "Vejo que compreende a imprensa", disse a Barnum, "e isso é muito bom. Nada ajuda mais o empresário do espectáculo do que as formas tipográficas e a tinta. Quando a sua idosa morrer, venha ter comigo, e farei a sua fortuna. Deixá-lo-ei ficar com o meu carrossel, com o meu autómato tocador de trombeta e com muitas coisas curiosas que lhe darão muito dinheiro."

Barnum ficou grato pela oferta. Respeitava Maelzel e considerava-o "o grande pai dos fornecedores de divertimento público". Durante muitas tardes, enquanto Levi Lyman apresentava Joice Heth no salão de baile, Barnum sentava-se aos pés do mestre e tinham "grandes conversas". Lera algo sobre a história do incrível autómato jogador de xadrez e vira Maelzel trabalhar com ele, mas agora queria saber todos os pormenores curiosos, e Maelzel acedeu. Barnum viria a aprender uma grande lição com a história de Maelzel, uma lição que o ajudaria a fazer fortuna. Aprendeu a importância da utilização da realeza e das classes altas, a fim de construir e explorar um espectáculo para as massas. Também acabaria por aprender com Maelzel o modo de transformar Joice Heth num sucesso ainda maior em Boston.

Maelzel confessou que não inventara o autómato jogador de xadrez. Essa tarefa coubera ao barão Wolfgang von Kempelen, um engenheiro hidráulico que fora conselheiro da Câmara Real da Hungria. O barão construíra o Turco em Viena, em 1769, para divertimento da imperatriz Maria Teresa, tendo viajado depois com a máquina. Certa vez, em Berlim, o Turco foi desafiado por Napoleão Bonaparte. Embora Napoleão fosse um jogador de xadrez reconhecidamente sofrível, encarou o Turco com confiança. Segundo o IllustratedLondon News da altura: "Após cerca de meia dúzia de jogadas, ele [Napoleão] executou deliberadamente uma jogada errada, a criatura inclinou a cabeça, repôs a peça no sítio e fez sinal a Napoleão, para que este voltasse a jogar. Mais uma vez realizou uma jogada falsa; desta vez, o Autómato retirou a peça ofensiva do tabuleiro e fez a sua própria jogada. Napoleão ficou deliciado e, a fim de testar ainda com mais severidade a paciência do rival, voltou a jogar de forma incorrecta, após o que o Autómato ergueu o braço e, lançando ao chão as peças, recusou-se a continuar o jogo."

O barão morreu em 1804 e o autómato foi vendido a um tal de Anthon, que, por sua vez, o vendeu a Maelzel. Em 1826, Maelzel trouxe o Turco para os Estados Unidos, transformando-o num êxito imediato em Nova Iorque, e levando-o posteriormente em digressão para oeste, até ao Cincinnati. Em Baltimore, ao ser desafiado por Charles Carroll de Carrollton, o octogésimo nono e último sobrevivente dos signatários da Declaração da Independência, o autómato, graciosamente, decidiu perder o jogo.

Invariavelmente, os espectadores, e também Barnum, perguntavam a Maelzel: "O Autómato é uma máquina verdadeira ou não?" E, invariavelmente, Maelzel respondia: "Sobre esse assunto não direi nada." Barnum não conseguiu descobrir o segredo. Corriam boatos que diziam que Maelzel operava a máquina com os pés, e outros que se utilizavam as mãos, mas só dois anos depois de Barnum ter visto Maelzel foi revelado algo mais próximo da verdade.

Em 1837, em Paris, um perito em xadrez embriagado, M. Mouret, vendeu um relato pormenorizado sobre o Turco a uma revista francesa reles, tendo esse artigo sido publicado no Washington Gazette. Mouret disse que a maquinaria era uma camuflagem e que o Turco era controlado por um homem de pequenas dimensões oculto no peito. Admitiu que ele próprio fora um dos que Maelzel contratara para essa tarefa. O indivíduo escondido dessa forma "ficava sentado numa espécie de banco baixo, movimentado através de rodízios, e tinha à sua disposição as condições que lhe permitiam mudar de posição como se fosse uma enguia. Enquanto uma parte da máquina era revelada ao público, o homem refugiava-se noutra..."

Em 1859, Robert Houdin, o célebre mágico, aprofundou o relato na sua autobiografia. Durante uma rebelião em Riga, em

1796, um oficial chamado Worousky tentou escapar aos russos "e ficou com ambas as coxas despedaçadas por uma bala de canhão". Um médico solidário salvou-o, amputando-lhe as pernas e escondendo-o em seguida. Durante a convalescença de Worousky, o barão von Kempelen visitou o médico. Fascinado pelo génio de Worousky no xadrez, o barão concebeu uma forma de ajudar o aleijado a fugir. Em três meses construiu o autómato e ocultou o atrofiado Worousky no seu interior, empregando-o, posteriormente, como alter ego do Turco.

Quando Maelzel comprou a máquina e a levou para a América, Worousky ficou para trás. Edgar Allan Poe pensou que Maelzel teria contratado um perito alsaciano em xadrez chamado William Schlumberger com o mesmo objectivo em vista. "Há um homem, Schlumberger, que o acompanha [a Maelzel] para todo o lado, mas que não possui qualquer ocupação aparente, que não auxiliá-lo a montar e a desmontar o autómato. Este homem é de estatura média e tem uma corcunda considerável entre os ombros... Há alguns anos, Maelzel visitou Richmond com o seu autómato... Schlumberger adoeceu subitamente e, durante essa maleita, não foram realizadas quaisquer apresentações do Jogador de Xadrez."

Três anos depois de ter conhecido Barnum, Maelzel levou Schulmberger de férias a Havana, onde este morreu de febre amarela. Regressando de barco aos Estados Unidos, Maelzel tentou afogar a sua mágoa com vinho, tendo ele próprio acabado por morrer no seu camarote. O Turco foi levado para o Museu Chinês de Filadélfia, onde foi destruído no incêndio de 1854.

O tempo que Barnum passou em Boston com Maelzel foi mais do que uma simples diversão, tendo conseguido transformá-lo em lucro. Após várias semanas, Joice Heth começou a perder o fascínio e as multidões foram escasseando. Ao escutar Maelzel e ao observar o Turco, Barnum teve uma ideia. Por que não anunciar que Joice Heth era também um autómato e reavivar o entusiasmo?

Em breve surgiu na imprensa de Boston uma carta aberta assinada por "Um Visitante". Em parte, a missiva dizia: "Joice Heth não é um ser humano. O que se diz ser uma idosa extremamente velha não passa de um autómato elaborado de forma curiosa, feito de osso de baleia, borracha e de inúmeras molas engenhosamente dispostas, movimentadas segundo a vontade de quem a controla. O expositor é um ventríloquo e todas as conversas mantidas com a vetusta senhora são imaginárias, pelo menos no que diz respeito à criatura..."

A curiosidade renascia. Todos os que já tinham visto Joice Heth quiseram observá-la novamente e os outros estavam entusiasmados por admirar um aparelho ainda mais estranho do que o Turco. O negócio de Barnum foi de vento em popa e, desta vez, não havia Niblo com quem dividir as receitas.

Depois de Boston, Barnum e Lyman, com Joice Heth a reboque, fizeram uma digressão pelo estado de Nova Inglaterra, de Hingham a Hartford, regressando depois ao Niblo's Garden para uma segunda exibição, de onde seguiram para New Haven, Newark e Albany. Joice foi exposta no Albany Museum, a par de outras atracções simultâneas. Uma destas, um imigrante italiano que fazia girar pratos, caminhava sobre andas e equilibrava espingardas com baionetas no nariz, chamou a atenção de Barnum. O italiano apresentava-se como Signor António. Barnum encontrou-se com ele e ficou a saber que estava disponível e sem compromissos, tendo-o contratado de imediato durante um ano, garantindo-lhe um salário de doze dólares por semana, alojamento e despesas de viagem.

De regresso a Nova Iorque, Barnum obrigou o italiano a tomar o primeiro banho do ano e depois alterou-lhe o nome para Signor Vivalla, preparando-se para o vender. Barnum encurralou William Dinneford, gerente do Franklin Theater, e expôs detalhadamente os feitos de Vivalla. Dinneford não se mostrou interessado, mas Barnum insistiu. "Não duvido que tenha presenciado coisas estranhas durante a sua vida, mas, meu caro senhor, nunca teria importado o Signor Vivalla de Itália, caso não tivesse provas reais de que ele é o único artista do género a ter deixado o país... Pode utilizá-lo por uma noite, gratuitamente." Dinneford sucumbiu.

Durante três dias, Barnum publicitou a sua descoberta estrangeira única e, na noite de estreia, o Franklin Theater estava a abarrotar. Barnum surgiu em palco como assistente de Vivalla, dispondo-lhe os pratos, entregando-lhe os mosquetes e segurando-lhe nas andas. A actuação foi recebida com uma ovação estrondosa. Vivalla foi contratado por duas semanas e Barnum recebeu cinquenta dólares por noite.

Em Janeiro de 1836, encorajado pelo sucesso do empreendimento, Barnum deixou Joice Heth entregue a Levi Lyman, dirigindo-se com o seu malabarista para Washington, D. C. que se encontrava bloqueada pela neve. Barnum alugou um teatro obscuro por cinquenta dólares por noite, ficando desiludido quando a receita do primeiro espectáculo não ultrapassou os trinta dólares. Enquanto o Signor Vivalla continuava a regalar cadeiras vazias, Barnum esforçava-se por pensar em outra atracção e, de súbito, lembrou-se de uma quase ali à mão. Partiu então a visitar Anne Royall, uma das mais notórias mulheres de toda a América.

Anne Royall, nascida no Maryland, em 1769, fora criada nos ermos da fronteira da Pensilvânia. Depois de o pai ter sucumbido a um machado de guerra índio e de o padrasto ter falecido, Anne acompanhou a mãe até à propriedade do abastado capitão William Royall, na Virgínia, onde trabalhou, juntamente com a mãe, como empregada doméstica. Após doze anos, o excêntrico capitão Royall casou-se com Anne, educou-a e legou-lhe a sua fortuna. Durante uma batalha legal com os familiares sobre o património, Anne não foi capaz de provar a validade do casamento, acabando por ser destituída. Viajou para Washington, a fim de reclamar a pensão da Guerra Revolucionária de Royall e começou a escrever livros de viagem. Fez publicidade aos maçãos, denunciou o aspecto mais sórdido da vida americana e censurou políticos em The Black Book3, um comentário em três volumes sobre a cena nacional. Envolvida numa disputa com os Evangélicos, foi detida por "difamação", considerada culpada, condenada à "cadeira submersa"4 e depois posta em liberdade, mediante o pagamento de uma multa. Com sessenta e três anos de idade, cinco anos antes de Barnum se ter encontrado com ela, dera início à publicação de um panfleto de escândalos chamado Paul Pry e conseguira arrancar uma entrevista ao presidente John Quincy Adams, enquanto este nadava nu no rio Potomac.

Barnum encontrou-a, enrugada, cáustica e deprimida na sua decrépita tipografia Ramage. Antes de Barnum conseguir falar de negócios, Anne Royall perguntou-lhe em quem pensava votar nas eleições presidenciais que se avizinhavam.

"Bem, creio que vá votar em Matty", replicou Barnum, referindo-se a Martin Van Buren5.

Barnum nunca esqueceria o que aconteceu a seguir. "No meu tempo vi coisas assustadoras", declarou, "explosões repentinas de paixões tempestuosas, mas nunca assisti a uma tempestade de fúria como a que irrompeu de Mrs. Anne Royall, como réplica à minha resposta... "Meu Deus! Meu Deus! Será possível? Vai apoiar um tal macaco, um canalha, um vilão, um biltre, um inimigo do país como é Martin Van Buren! Barnum, o senhor é um canalha, um traidor, um patife, um hipócrita! O senhor é um espião, um propagandista idiota, e espero que o próximo barco em que entre se afunde e o leve com ele."

Anne acalmou-se passada meia hora e Barnum juntou-se-lhe na tarefa de dobrar panfletos para serem enviados pelo correio. Acabou por apresentar a sua proposta. "Tentei contratá-la para dez ou vinte palestras sobre o Governo, nas cidades da Costa Leste, mas ela não se deixaria tentar por qualquer contrapartida pecuniária, ao que fui obrigado a desistir dessa especulação, a qual, já agora, tinha a certeza de vir a ser lucrativa."

Com relutância, Barnum regressou ao Signor Vivalla. O empreendimento de Washington revelou-se um fracasso completo e Barnum viu-se obrigado a empenhar tudo para conseguir chegar a Filadélfia. As receitas no Walnut Street Theater foram melhores, mas Barnum continuou insatisfeito. Na segunda noite, ao observar

 

3 O Livro Negro.

4 Forma de castigo, especialmente utilizada em mulheres, em que o condenado era sentado numa cadeira e submerso nas águas de um rio durante vários minutos, acabando, muitas vezes, por morrer.

5 Martin Van Buren (1782-1862) foi presidente dos Estados Unidos entre 1837 e 1841.

 

o público escasso e olhando, sem grande atenção, para Vivalla a exibir o seu repertório no palco, Barnum recebeu uma inspiração redentora. "Era óbvio que alguma coisa tinha de ser feita para estimular o público. E agora esse instinto, creio que foi isso, aquilo que consegue despertar uma comunidade e levá-la a pagar, conquanto o artigo oferecido mereça receber pagamento, um instinto que me viria a servir de forma estranha nos anos seguintes, espantando o público e surpreendendo-me a mim, chegou em meu auxílio, e essa ajuda, por estranho que pareça, surgiu na forma de um apupo vigoroso vindo da plateia!"

Vivalla, que nunca antes fora apupado, ficou exasperado. Barnum procurou o importunador, encontrou-o e tentou silenciá-lo. Afinal, o indivíduo, chamado Roberts, era um malabarista de circo que insistia alto e bom som que a actuação de Vivalla possuía uma qualidade medíocre e que ele próprio seria capaz de fazer tudo o que Vivalla fazia, e talvez ainda melhor. Declarou-se finalmente um armistício e Vivalla completou a actuação, mas o desempenho de Barnum ainda mal começara. Entusiasmado, entrou em contacto com os jornais diários de Filadélfia, onde colocou um anúncio oferecendo $1. 000 a qualquer pessoa que conseguisse, em público, igualar os feitos do Signor Vivalla.

Tal como Barnum previra, Roberts aceitou o desafio. Barnum apresentou os $1. 000, que pedira emprestados a um amigo, mas primeiro insistiu para que Roberts assinasse um acordo (a ser publicado) onde renunciava à soma caso não reproduzisse todos os feitos de Vivalla. Roberts hesitou. Parecia agora que era capaz de executar a maior parte dos truques de Vivalla, e até mesmo alguns desconhecidos do italiano, mas não conseguia duplicar todos, não tendo experiência com as andas e com o equilíbrio de pratos. Barnum insistiu que teria de ser tudo ou nada. Furioso, Roberts insultou-o. Barnum ouviu-o calmamente, guardou os $1. 000 e apresentou uma nova proposta. Daria trinta dólares a Roberts para que este fingisse desafiar Vivalla para um duelo de malabarismo, que seria ensaiado e dirigido por Barnum, embora ninguém o soubesse, acabando Vivalla, é claro, por sair vencedor. Roberts aceitou prontamente.

Barnum tratou de reservar o Walnut Street Theater por dois terços das receitas de bilheteira. Depois redigiu e distribuiu panfletos que anunciavam o duelo de malabarismo pelo prémio de $1. 000. Na noite da refrega, o teatro estava apinhado. Vivalla conseguira uma receita de setenta e cinco dólares no serão do apupo histórico. Agora, as receitas alcançaram os $593.

"O concurso foi muito interessante", recordou Barnum com satisfação. "Claro que Roberts seria derrotado, e ficou acordado que Vivalla começaria por apresentar os seus feitos mais fáceis, para que a batalha durasse o mais possível. Roberts foi imitando o desempenho de Vivalla. Cada lado era continuamente aplaudido pelos amigos e assobiado pelos oponentes... O concurso durou cerca de quarenta minutos, até que Roberts se declarou derrotado. Foi obrigado a desistir da proeza de equilibrar dois pratos a girar ao mesmo tempo, um em cada mão."

Seguiram-se aplausos e ovações e Barnum teve uma ideia para prolongar a peleja. Surgiu à frente do pano para revelar que Roberts, que fora prejudicado por um pulso torcido, desafiava mais uma vez Vivalla. O duelo prosseguiria na semana seguinte, no mesmo local e ao mesmo preço.

Após a actuação seguinte, novamente vencida por Vivalla perante um teatro cheio, os combatentes foram transportados para Nova Iorque, onde continuaram a contenda no palco do Franklin Theater, e depois, durante mais um mês, nas povoações vizinhas.

Por esta altura, Barnum já não possuía dois espectáculos, mas apenas um: Joice Heth adoecera, retirando-se para uma alcova do meio irmão de Barnum, Philo, na sua casa em Bethel, no Connecticut. Profundamente reconhecido à anciã que lhe apresentara uma vocação, Barnum financiou-a e pagou a uma negra para que cuidasse dela.

No dia 21 de Fevereiro de 1836, Barnum foi informado pelo meio irmão de que Joice Heth já não existia. Falecera dois dias antes, e os restos mortais estavam na rua, tendo sido levados de trenó por estradas cobertas de neve até à porta da pensão de Barnum. Durante os preparativos para o funeral, Barnum recordou que em tempos prometera a um famoso cirurgião, o Dr. David L. Rogers, que este poderia realizar um exame post-mortema Joice. Barnum iria manter a sua palavra.

No dia seguinte, o cadáver da ama de Washington foi transportado para o salão médico de Barclay Street, onde era aguardado pelo Dr. Rogers e por "um grande número de médicos, alunos e vários clérigos e editores". Entre estes últimos encontrava-se o conhecido Richard Adams Locke, inglês de nascimento e formado em Cambridge, que fora destacado para a história por Benjamin H. Day, fundador e editor do New York Sun. Locke, embora de estatura invulgarmente baixa e com um rosto profundamente marcado pela varíola, era um homem impressionante. "A sua figura possui um ar de distinção", observou Poe, "o ar nobre de um génio." A par de Locke e dos outros, Barnum e Levi Lyman encontravam-se por perto a fim de acompanharem a dissecação da anatomia de Joice. Quando a cirurgia terminou, o Dr. Rogers parecia surpreendido e incomodado. O que o espantara fora a ausência de ossificação nas artérias na região do coração.

Depois de os espectadores terem saído, o Dr. Rogers e o seu grande amigo Locke ficaram para discutir a autópsia com Barnum e com Lyman. O cirurgião tinha algo em mente, e agora expunha as suas ideias a Barnum. Disse que "certamente deveria haver algum engano em relação à alegada idade de Joice; que em vez de ter 161 anos de idade, provavelmente não teria mais de oitenta".

Barnum ficou espantado, ou pelo menos sempre o disse. "Repliquei-lhe com a mais pura das verdades. Contratara Joice em boa fé e guiara-me pela sua aparência e pelos documentos como sendo provas da verdade do seu relato." Recordou o Dr. Rogers de que este ficara impressionado com a primeira apresentação no Niblo's Garden, mas o médico foi inflexível. Embora a aparência da mulher tivesse enganado toda a gente, ele próprio incluído, o bisturi revelara a verdade. Disse a Barnum que "os documentos deviam ter sido forjados, ou então eram relativos a outra pessoa".

Se Barnum esperava que o embuste não fosse tornado público, o seu desejo foi frustrado no dia seguinte. Destacado na edição do New York Sun encontrava-se um editorial assinado por Richard Adams Locke:

 

"DISSECAÇÃO DE JOICE HETH - ANTERIOR EMBUSTE EXPOSTO. O exame anatómico realizado ontem ao corpo de Joice Heth veio a revelar um dos mais insignes embustes alguma vez impostos a uma comunidade de crédulos."

 

O editorial prosseguia, enumerando todos os pormenores do exame post-mortem, e, em breve, toda a cidade de Nova Iorque comentava a intrujice. Até Philip Hone, antigo mayorda cidade, achou por bem registar no seu diário o escândalo de uma "negra chamada Joice Heth", a quem "os nossos médicos curiosos e descrentes, que sempre foram impertinentes ao ponto de duvidar dos factos neste caso de longevidade", realizaram uma autópsia, que "resultou na convicção de que ela não poderia ter mais de 75 ou 80 anos de idade".

Em vez de permitir que o escândalo esmorecesse, Levi Lyman, que possuía uma veia humorística distorcida, decidiu pregar uma partida a James Gordon Bennett, o escocês estrábico que editava o sensacionalista New York Herald, ao mesmo tempo que ripostava a Locke e ao Sun. Lyman informou Bennett de que ele e Barnum tinham pregado uma partida a Locke e ao Dr. Rogers, e que Joice Heth ainda estava viva no Connecticut, pertencendo o corpo dissecado a uma negra idosa e desconhecida, que falecera recentemente no Harlem.

Entusiasmado, Bennett publicou a revelação no Herald de 27 de Fevereiro de 1836, com o título "OUTRO EMBUSTE! ". Bennett garantiu aos leitores: "Joice Heth não está morta. Quarta-feira passada, e segundo fonte fidedigna, ela vivia em Hebron, no Connecticut. O espécime no qual o Doutor Rogers e a Faculdade de Medicina de Barclay Street empregaram as suas facas e a sua ingenuidade, é o corpo de uma respeitável negra de nome Tia Nelly..."

Locke defendeu o artigo original e, embora Bennett tivesse ripostado, acabou por perceber que fora enganado. Quando encontrou Lyman na rua, censurou-o severamente. Lyman pediu desculpa por "uma brincadeira inofensiva" e, à laia de compensação, prometeu revelar a verdadeira história de Joice Heth, a qual nunca antes fora publicada. Acompanhou Bennett ao gabinete deste e ditou os "factos". Disse que Barnum encontrara Joice no Kentucky, que lhe tinha arrancado os dentes para a fazer parecer mais velha e que lhe ensinara a fábula da ama de Washington. Mais uma vez, Bennett utilizou letras garrafais para anunciar:

 

"O EMBUSTE JOICE HETH!" Chamou à fraude de Barnum "um embuste estupendo, representativo dos avanços da medicina, das capacidades dos médicos e da complacência e credulidade gerais do público".

 

Barnum admitiu a existência de um embuste, mas argumentou que tinha sido enganado a par do público, negando com veemência a história de Bennett. Ainda assim, o público pareceu aceitá-la e, a partir daí, pensou-se que Barnum arquitectara deliberadamente toda a exibição absurda. Quase uma década mais tarde, a recordação ainda tinha força suficiente para que a Taifs Edinburgh Magazine colocasse Barnum "entre os burlões, batoteiros, velhacos, carteiristas e vigaristas do seu tempo", acrescentando: "Comparado com Barnum, o próprio Cagliostro 6 não passava de um novato, ou talvez fosse mais justo dizer que teve o azar de ser dotado de uma consciência mais clemente. Mais do que qualquer outro impostor, Barnum intrujou o mundo..."

Barnum passou o resto da vida a negar ter tido parte na farsa de Joice Heth. Foi, segundo ele, "um esquema em cuja criação não participei; algo que há já algum tempo estava perante o público e que possuía tantos defensores da sua legitimidade, que eu próprio, aquando da compra, acreditei ser genuíno..." Além disso, Barnum também se perguntava, "se Joice Heth era uma impostora, quem lhe ensinou aquelas coisas? E como ganhou tanta familiaridade, não só com a salmodia antiga, mas também com tantos pormenores sobre a família Washington? A tudo isto, respondo sem hesitações, não sei. Não lhe ensinei nada disso. Ela já o sabia antes de a ter conhecido..."

A nível privado, Barnum acreditava ter sido enganado por R. W. Lindsay em Filadélfia, mas nunca lhe guardou rancor. Na verdade, quando veio a saber que Lindsay adoecera e se encontrava na miséria, enviou cem dólares ao infeliz.

É surpreendente que na altura, e mais tarde, tenha existido tanta indignação sobre o embuste Joice Heth. As fraudes elaboradas não eram novidade para os nova-iorquinos nem para a América. Numa era de leis azuis, a partida inofensiva era uma válvula de escape e uma forma de entretenimento para o público. Apenas onze anos antes do aparecimento de Joice Heth, os nova-iorquinos

 

6 Conde Alessandre di Cagliostro (1743-1795), considerado uma figura importante do ocultismo, a partir da segunda metade do século XIX começou a ser visto como um charlatão.

 

(a maioria deles, pelo menos) deliciara-se (pois não lhes custara nada) com um embuste amador de proporções gigantescas. No Verão de 1824, dois empresários aposentados, Lozier e John DeVoe, não tendo nada melhor para fazer, anunciaram a amigos que tinham sido contratados para serrar a ilha de Manhattan e virá-la ao contrário.

O projecto ridículo poderia ter morrido sob uma chuva de gargalhadas, caso Lozier, falando com a autoridade da fortuna, não tivesse convencido trabalhadores, empreiteiros e comerciantes, de que contava com o apoio do mayor Stephen Allen. Segundo Lozier, este e o mayor tinham concluído que a ilha de Manhattan estava a começar a abater no lado de Battery, no lado sul, devido ao peso dos novos edifícios comerciais. A situação era perigosa e tinham decidido separar a Ilha pelo lado de Kingsbridge, a norte, depois trazê-la a flutuar ao largo de Ellis Island, virá-la, trazê-la de volta e fundeá-la numa posição mais propícia.

DeVoe surgiu com um livro-razão impressionante e começou a admitir operários e a conceder empreitadas. Durante as oito semanas seguintes, o par endiabrado localizou um conjunto de serras colossais, com trinta metros de comprimento e dentes com 90 centímetros, contratou trezentos operários para proceder ao corte, depois encontrou duas dúzias de remos com setenta e cinco metros de comprimento e contratou dois mil homens para que levassem a ilha a remo através da baía. Âncoras gigantes foram disponibilizadas para manter a Ilha firme, em caso de tempestade. Quando chegou a data marcada para o início dos trabalhos, apresentaram-se ao serviço nas ruas Bowery e Spring quase mil pessoas, com as respectivas ferramentas. Estavam quase todos presentes, excepto Lozier e DeVoe, que tinham saído da cidade. Muito tempo passaria até que regressassem, ou que as gargalhadas chegassem ao fim. A Ilha de Manhattan continuou a abater, mas intacta.

Um embuste ainda mais admirável e de grande alcance, muito apreciado por Barnum na altura em que começou a exibir Joice Heth e a proclamava autêntica, foi levado a cabo por Richard Adams Locke, o mesmo homem que mais tarde viria a desmascarar Joice no New York Sun.

Em Agosto de 1835, o Sun, nessa altura um diário jovem de quatro folhas, começou a publicar uma série exclusiva de quatro artigos, intitulada: "Grandes Descobertas Astronómicas Efectuadas Recentemente por Sir John Herschel no cabo da Boa Esperança." Esta série, redigida por Locke, entusiasmou Nova Iorque e a América durante dois meses. Adiantava que Sir John Herschel inventara um telescópio de sete toneladas, com uma lente de sete metros de diâmetro, capaz de ampliar um objecto quarenta e duas mil vezes, algo tão impressionante que a flora e a fauna da Lua pareciam estar apenas a cerca de oito quilómetros da Terra. Sir John, assistido por Sir David Brewster, transportara secretamente o telescópio para África e, oito meses antes, vira a vida lunar como nunca antes fora contemplada por outro ser humano.

O par observou pormenorizadamente catorze espécies de animais. Existiam "manadas de quadrúpedes castanhos, apresentando todas as características externas do bisonte", com extensões peludas sobre os olhos para os proteger da luz extrema; existiam monstros "gregários", azuis e velozes, "do tamanho de bodes, com a cabeça e barbichas semelhantes, e um único corno"; havia pelicanos, garças, ursos e "uma estranha criatura anfíbia de forma esférica, que rolava a grande velocidade pela praia pedregosa." Todas estas espécies cabriolavam sobre montanhas de ametista em forma de pirâmide, entre trinta e oito espécies de árvores, ou junto a lagos com quatrocentos e vinte e cinco quilómetros de comprimento.

Mas a maior atracção foi guardada para o artigo final. Sir John Herschel vira "quatro bandos sucessivos de grandes criaturas aladas", tendo-as, mais tarde, observado a "caminhar erectas em direcção a um pequeno bosque". Ajustando as lentes até que as criaturas parecessem ter sido trazidas a uma mera dezena de metros de distância dos seus olhos, conseguiu, por fim, vê-las claramente. "Em média, tinham cerca de um metro e vinte, estavam cobertas por um pêlo curto e lustroso da cor do cobre, excepto na cara, e possuíam asas compostas por uma membrana fina, sem pêlo, que lhes repousava nas costas, desde o topo dos ombros até à barriga das pernas. A cara, de um tom de pele amarelado, era uma ligeira evolução das feições de um orangotango grande..."

Estes artigos eram tão ricos em pormenores e em terminologia científica, que grande parte do público os engoliu sem qualquer esforço. O The New York Times considerou os artigos "prováveis e plausíveis", acreditando que demonstravam "um grande e profundo conhecimento de astronomia". O New Yorker encarou as descobertas como sendo de um "interesse espantoso, criando uma nova era para a astronomia e para a ciência em geral". O Daily Advertiser considerou a série como sendo uma das mais importantes dos últimos anos. "Sir John veio adicionar à nossa era uma porção de conhecimentos que irão imortalizar o seu nome, levando-o aos píncaros das páginas da ciência."

Locke recebeu uma gratificação. A circulação diária do Sun, o jornal sensacionalista de Day, era de dois mil e quinhentos exemplares. Com o relato sobre os homens alados de um metro e vinte de altura que habitavam a Lua, a tiragem subiu para os noventa mil exemplares. Alguns destes leitores, em especial um clube feminino de Springfield, no Massachusetts, chegaram a ser incitados a angariar fundos para o envio de missionários ao planeta lunar. Em forma de panfleto, a série de artigos vendeu sessenta mil cópias num mês, deixando Locke e Day cerca de $25. 000 mais ricos.

Ainda assim, havia quem se mostrasse céptico. Philip Hone registou no seu diário: "Pensando friamente, se este relato for verdadeiro, é um acontecimento extremamente maravilhoso e, se não passar de uma fábula, o estilo da narrativa, com todos os seus pormenores científicos... concederá a esta história engenhosa um lugar ao lado das Viagens de Gullivere de Robinson Crusoé." Edgar Allan Poe, consciente de que nenhum telescópio poderia revelar tais pormenores, mesmo a uma distância visual de oitenta metros, quanto mais oito quilómetros, considerou os artigos como sendo ficção. Confessou que encontrara poucos indivíduos dispostos a dar-lhe ouvidos, "tal era a ânsia de serem iludidos, tal a capacidade mágica de encanto de um estilo que servia como veículo para uma invenção exageradamente atrapalhada. Nem uma pessoa em cada dez considerou a história falsa".

Quando, por fim, Locke confessou a fraude a um colega jornalista do Journal of Commerce, que o denunciou, e quando Sir John Herschel, informado sobre as histórias de Locke, se riu e negou as descobertas, a verdade viu a luz do dia e o "Embuste da Lua" foi relegado para a história do entretenimento e não para a da ciência. Afinal, o motivo de Locke fora mais estético do que comercial. Farto das especulações e da popularidade do Dr. Thomas Dick, um astrónomo escocês cujos livros (que defendiam a comunicação com a Lua através de gigantescos símbolos em pedra dispostos na Terra) eram o último grito da moda na sociedade americana, Locke pretendeu ridicularizar as declarações pomposas de Dick. Aparentemente, acabou por perder o controlo da sua sátira.

Contudo, apenas dez meses após o seu próprio embuste, Locke censurara a primeira incursão de Barnum no campo do entretenimento. Pouco depois destes acontecimentos, Locke deixou o Sun para dar início a um periódico próprio, o New Era. Mais tarde, tornou-se editor do Eagle, de Brooklyn, e, finalmente, passou a ser inspector aduaneiro. Mas, no final das contas, a revelação da falsidade de Joice Heth acabou por não ter importância. Gradualmente, Barnum veio a conquistar mais admiração do que rancor, pois as pessoas precisavam desesperadamente daquilo que ele tinha para lhes oferecer.

É claro que outros fornecedores de prazer actuavam na mesma altura, tal como até então, mas os seus talentos eram limitados e de menor expressão, causando pouco impacto na sua época ou nas futuras. Não eram impulsionadores, nem agitadores, nem o que Arthur O'Shaughnessy chamou de "sonhadores de sonhos". Barnum era. Foi com ele que a era do mestre de espectáculos e da diversão teve início. Mais do que isso, com a fraude de Joice Heth, nascia o primeiro grande apresentador de espectáculos da história, talvez até o maior de todos eles.

 

         EXIBIÇÃO DOIS - IVYISLAND

Barnum sempre lamentou não ter feito vindo ao mundo a Quatro de Julho, tendo falhado a data por um dia. Nasceu no dia 5 de Julho de 1810, em Bethel, no Connecticut, a alguns quilómetros de Danbury, e foi baptizado Phineas Taylor Barnum em honra do avô materno. Phineas era um nome bíblico, que significava "boca descarada".

Durante a sua curta vida, o pai, Philo Barnum, teve dez filhos de duas esposas, sendo Phineas Taylor Barnum o sexto filho e primeiro da segunda esposa. O pai de Barnum foi agricultor, alfaiate, estalajadeiro e merceeiro, mas a mãe religiosa, Irene, permaneceu uma estranha criatura sombria em todas as vastas reminiscências posteriores de Barnum, algo provavelmente intencional. O avô paterno era o capitão Ephraim Barnum, miliciano na então recente Guerra Revolucionária.

Mas o ramo da árvore genealógica de Barnum que mais peso teve na sua vida e que lançou uma sombra divertida sobre os anos do seu crescimento foi o que deu origem ao avô materno, Phineas Taylor, uma turbulenta figura de óculos e de cabelo revolto, que poderia ter saído da pena de Thackeray. O idoso adorava o neto, dedicando-lhe boa parte do seu tempo e dando-lhe tudo o que podia, e Barnum idolatrava o velhote. "O meu avô", recordava sempre Barnum, "ia mais longe, aguardava mais tempo, trabalhava com mais afinco e dava mais asas à imaginação para levar a cabo uma partida do que para qualquer outra coisa."

Tal como o embuste em Nova Iorque, as partidas na América, e em especial na Nova Inglaterra, eram uma arma de sobrevivência, uma das poucas formas de divertimento socialmente permissíveis. O velho avô Taylor era um ás nesse desporto e tal imagem permaneceria para sempre gravada na memória de Barnum.

Aquando do nascimento de Barnum, e nos anos que se seguiram, Bethel era um pequeno cárcere de puritanismo, semelhante a milhares de outras povoações espalhadas pela nova América, mas talvez mais rígida. Bethel sobrevivia graças ao fabrico de pentes e de chapéus, empregando cerca de trezentas pessoas nessas indústrias. Na aldeia propriamente dita, existiam pouco mais de cinquenta residências.

A Igreja Congregacional dominava a comunidade. A detenção por um diácono e consequente multa ou encarceramento aguardavam o homem que conduzisse a sua carruagem ao domingo. Quarenta chicotadas era o castigo dos blasfemos. Todos viviam sob o que se chamou "a terrível sombra da lei calvinista". Segundo Harvey W. Root: "Todos os tipos de divertimentos eram considerados pecaminosos, tudo aquilo que se aproximasse da natureza de um espectáculo ou do teatro era rigorosamente proibido e até os indivíduos que fossem descobertos na prática de um jogo de cartas eram presos e multados." A mãe de Barnum conformou-se com este medievalismo e Barnum foi educado, de acordo com as suas palavras, "com medo do inferno, e sempre que frequentava... reuniões de oração, com treze ou catorze anos, voltava a casa e rezava, chorava e implorava a Deus que me libertasse da existência, se fosse esse o caminho para a minha salvação".

O avô Taylor era um dos raros dissidentes, e foi ele quem salvou Barnum, para que o neto, por sua vez, pudesse salvar a América de uma solenidade extrema. Taylor não só se rebelou contra a igreja estabelecida, aderindo ao Universalismo mais liberal, como também conduzia os camaradas ao único divertimento legal que tinham disponível: as partidas.

A mais memorável das façanhas de Taylor ocorreu durante uma viagem de rotina, de Norwalk para Nova Iorque. A chalupa ficou imobilizada durante cinco dias devido à falta de vento e a maioria dos passageiros, entre eles um clérigo alto, de nariz azulado e suíças ruivas, não trouxera lâminas de barbear para o que esperavam ser uma jornada de oito horas. Todos precisavam desesperadamente de se barbear e, ao aproximarem-se de Nova Iorque, assemelhavam-se a uma matilha de bárbaros peludos. Apenas Taylor possuía uma lâmina e pelo menos uma dúzia dos seus companheiros pediu-lha emprestada.

"Cavalheiros, serei justo, " disse Taylor. "É óbvio que, apenas com uma lâmina, não teremos tempo de nos barbearmos todos antes de chegarmos a Nova Iorque. Uma vez que não seria acertado que metade de nós fosse para terra com o rosto limpo, deixando os restantes a bordo, a aguardar a sua vez de se barbear, imaginei um plano, o qual acho que todos irão considerar justo e equitativo."

"E qual é?" perguntaram-lhe.

"Cada homem irá barbear metade do rosto, passando a lâmina ao seguinte, e, quando estivermos todos metade escanhoados, faremos a rotação, barbeando a outra metade."

Todos os passageiros concordaram com o método, à excepção do clérigo. Contudo. Taylor mostrou-se insistente e também o sacerdote se viu obrigado a aceitar. A operação teve início de imediato. Em dez minutos, um dos lados "do rosto e do queixo de Taylor, a partir de meio do nariz, estava tão lisa como as costas da sua mão, enquanto a outra metade parecia um arbusto denso num pântano do campo." A seguir a lâmina foi entregue ao clérigo, realizando o seu trabalho. "O lado esquerdo do seu rosto estava tão nu como o de uma criança, ao passo que na outra face se erguia, em forte contraste, uma enorme suíça ruiva de dez centímetros. Ninguém poderia ter imaginado nada mais ridículo." Em breve, todos os elementos do grupo tinham escanhoado metade do rosto. Taylor sugeriu uma rodada de bebidas no convés, antes de completarem a tarefa. Todos concordaram. No auge do convívio, Taylor escusou-se. "Vou até à cabina barbear o outro lado, " explicou. "Subirei assim que tiver terminado e darei a vez ao sacerdote."

Dez minutos depois, Taylor regressou, perfeitamente escanhoado, trazendo a navalha e uma tira de couro para a afiar.

O clérigo, com os outros em linha atrás de si, aguardavam, mas Taylor insistiu em amolar a lâmina primeiro. Firmando o pé na amurada, começou a passar a lâmina pela tira de couro. De súbito, a navalha voou-lhe da mão e mergulhou no oceano. "Homessa!" exclamou Taylor. "A navalha caiu à água!"

Pouco depois, quando a chalupa atracou, a miserável tribo de passageiros, cada um dos homens metade escanhoado, metade com barba, como se fossem monstros de outro planeta, marchou com relutância para a cidade. O clérigo enrolou um lenço à volta do rosto e correu em busca de auxílio. Taylor, esse, riu-se da sua partida, deliciado por saber que teria um assunto de conversa hilariante para os meses seguintes.

Barnum respeitava estes absurdos necessários, tendo tentado, ao longo da vida, imitar o avô, acreditando que passar a perna a alguém, contanto que não fosse prejudicial e que contribuísse para o divertimento geral, fazia parte dos prazeres da vida. Mas nem todos concordavam com o valor desta filosofia. Em 1885, ao fazer a crítica à autobiografia do mestre do espectáculo, a Taifs Edinburgh Magazine comentou com acidez: "Barnum foi educado numa má escola. As partidas, as quais, na sua maioria, são a forma de humor dos biltres, e que se compõem de mentiras encenadas em vez de serem ditas (e que nenhum homem de bom gosto, educação ou bom senso sente prazer em pregar), eram o divertimento preferido do seu progenitor e do pai deste, bem como das suas famílias." Este julgamento foi, talvez, mais virtuoso e antiquado do que correcto. No contexto do seu tempo, o uso dado por Barnum à partida, ao embuste e à fraude era desculpável, pois era desejado e necessário, servindo para aliviar o enfado e as tensões de toda uma nação.

Uma partida em particular foi crucial para o futuro de Barnum, pois não só viria a afectar o seu carácter, como também, num sentido prático, constituiu uma ajuda para a sua entrada no mundo do espectáculo. Teve início pouco depois do seu nascimento e foi levada a cabo pelo avô. De uma certa forma, quase poderia dizer-se que esta partida acabaria por simbolizar o estilo da sua educação.

Quando Barnum foi baptizado, o avô Taylor presenteou-o com uma escritura de cinco acres de terra, na paróquia de Bethel, uma região conhecida popularmente como Ivy Island. Entre os quatro e os dez anos de idade, Barnum foi constantemente recordado de que era proprietário de terras. "Aos vizinhos e a estranhos, o meu avô sempre falou de mim (na minha presença) como sendo a criança mais rica da cidade, pois eu era o dono de toda a "Ivy Island", uma das fazendas mais valiosas do Estado. Os meus pais recordavam-me com frequência da minha fortuna e esperavam que, ao atingir a maioridade, fizesse alguma coisa pela família. Os vizinhos professavam o seu receio de que pudesse recusar-me a brincar com os filhos, por ter herdado uma propriedade de tamanha dimensão." O jovem Barnum garantia-lhes com generosidade que não deixaria a fortuna subir-lhe à cabeça. Imaginava-se como governante de Ivy Island, soberano de um domínio de riquezas para além da imaginação.

No Verão de 1820, altura em que fez dez anos, Barnum implorou a seu pai que o deixasse ver Ivy Island, desejo esse que foi realizado. Durante três noites, que passou em branco enquanto aguardava a expedição, Barnum sonhou com a "terra prometida... onde corria leite e mel... cavernas de esmeraldas, diamantes e outras pedras preciosas, a par de minas de ouro e de prata".

Acompanhado pelo pai e por um empregado, Barnum percorreu a distância que o separava de Ivy Island. Mal conseguia conter-se enquanto se aproximavam, e ia fazendo perguntas sobre a sua localização. "Só mais um pouco, " respondia o pai, apontando, "no extremo norte deste prado, onde se vê aquelas belas árvores que se erguem à distância."

Atravessando pântanos e ribeiras, passando por entre silvas e ninhos de vespas, Barnum chegou finalmente ao centro do seu precioso domínio, um fim de mundo quente e húmido. Quedou-se incrédulo. "Não vi nada para além de algumas heras enfezadas e uma mancheia de árvores. Apercebi-me então da verdade. Durante anos fora alvo da chacota da família e dos vizinhos. A minha valiosa "Ivy Island" era um pedaço de terra estéril quase inacessível e sem qualquer valor."

O empregado e o pai de Barnum riram-se à gargalhada e, mais tarde, quando Barnum regressou a casa, o avô felicitou-o com ar grave. Barnum nunca mais voltou ao seu domínio. Um dia, Ivy Island seria "parte do peso que faria a roda da sorte começar a girar a meu favor, numa altura em que me encontrava de cabeça para baixo", mas nessa altura, para o rapaz de dez anos, foi um desastre e uma humilhação. Tratou-se da mais longa partida que o avô Taylor alguma vez pregara e a que Barnum durante mais tempo recordaria.

Em Sketches in Criticism, Van Wyck Brooks analisou as consequências abrangentes deste episódio:

"É raro ouvir-se falar de um avô a enganar uma criança pequena, de uma mãe a conspirar para troçar do seu rebento, de uma família inteira a convidar a aldeia a ludibriar o seu membro mais jovem e mais indefeso. E, quando se pensa no efeito nefasto que tais experiências vividas durante a infância acabam por ter na vida da vítima, é impossível não se retirar certas conclusões... Em primeiro lugar, somos levados a pensar que a força do motivo dominador de Barnum, enganar os outros, está, de certa forma, relacionado com o grau em que ele próprio, quando criança, foi enganado. Em segundo lugar, que o motivo da família, longe de ser conscientemente malévolo, tal como se poderia supor, foi dar-lhe uma lição para que não voltasse a ser enganado... Barnum recebera a sua educação, mesmo que imperfeita, e transmitiu-a, por sua vez. Sempre que enganava o público, este dava-lhe o seu melhor: aguçava assim os instintos através dos quais um regime comercial é levado a cabo."

Esta foi a melhor parte da sua educação. Dedicou-se então à parte menos interessante, ou formal, chegando ao que hoje é conhecido por ensino secundário. Pertencia aos melhores da turma e era excelente a matemática. A par disso sempre trabalhou, desde tenra infância, normalmente ajudando o pai, nessa altura lavrador, nos campos. Detestava o trabalho físico. "Adorava o trabalho mental. Estava sempre pronto a tramar uma partida, ou a congeminar planos para fazer dinheiro, mas o trabalho manual não me agradava de todo."

Com o seu primeiro emprego, o jovem Barnum teve a oportunidade de aplicar o "trabalho mental". Desesperado com os fracos resultados na agricultura, Philo Barnum, juntamente com um sócio, construíra e abrira um armazém de venda e troca de produtos alimentares, ferramentas e têxteis. Barnum foi colocado como gerente. De ambos os lados do balcão regateava-se com afinco, algo em que Barnum era bastante competente.

Barnum gostava de ilustrar a moralidade empresarial daquela altura com uma história que ouvira com frequência e que repetira amiúde.

Era um relato sobre o proprietário de um armazém de aldeia, indivíduo que também acumulava as funções de diácono. Certa vez, antes do pequeno almoço, gritou para o empregado, que se encontrava no rés do chão: "John, já diluiu o rum com água?"

"Já sim, senhor."

"E acrescentou areia ao açúcar?"

"Sim, senhor."

"E poeira à pimenta?"

" Sim, senhor."

"E chicória ao café?"

"Sim, senhor."

"Então venha cá acima fazer as suas orações."

Quando Barnum tinha quinze anos, o pai faleceu, com a idade de quarenta e oito anos. Após o negócio ter sido liquidado e todas as contas terem sido feitas, descobriu-se que a família Barnum se encontrava na bancarrota. Havia seis crianças em casa e Phineas, o mais velho, tornou-se o único sustento da família.

Graças à experiência de balcão, em breve Barnum encontrou trabalho num armazém em Grassy Plain, uma povoação a cerca de quilómetro e meio de Bethel. Rapidamente marcou a sua presença. Chegou um bufarinheiro com um carregamento de garrafas verdes comuns, que Barnum trocou por bens sem venda, de preços muito altos.

O patrão de Barnum não gostou do negócio. "Foi um tolo, pois ficou com garrafas suficientes para garantir as necessidades da vila durante anos."

Barnum prometeu livrar-se do carregamento num prazo de três meses.

"Se conseguir, é um milagre."

Barnum preparou-se para realizar o dito milagre. Recordando- se de que o avô estivera encarregue de uma rifa de igreja e sabendo que estas ainda eram legais, Barnum começou a organizar um sorteio. Foram vendidos mil bilhetes, a cinquenta cêntimos cada um. Estavam prometidos quinhentos e cinquenta prémios, que variavam entre cinco a vinte e cinco dólares em produtos, a serem seleccionados pela gerência do armazém.

"As rifas desapareceram num abrir e fechar de olhos", comentou Barnum. "Os clientes não pensavam na natureza dos prémios. Na indústria de manufactura de chapéus, compraram rifas operários, donos, aprendizes e decoradoras. Em dez dias, tinham sido vendidas todas as rifas."

Realizou-se o sorteio e uma em cada duas rifas tiveram prémio. Os clientes vencedores encheram o armazém, em busca dos prémios em mercadorias... e saíram com garrafas verdes. "Alguns dos clientes ficaram aborrecidos, " admitiu Barnum, "mas a maioria riu-se da piada." E, milagre dos milagres, em menos de duas semanas já não existiam garrafas verdes.

Era óbvio que Barnum se destinava a coisas melhores e a horizontes mais amplos. Ao completar dezasseis anos, mudou-se para Brooklyn, a fim de trabalhar numa mercearia mais cosmopolita e passar o tempo a passear pela Broadway, entre as fileiras imponentes de álamos, passando por hotéis e restaurantes magníficos, interrogando-se constantemente sobre como fazer parte de tudo aquilo. Saiu-se tão bem em Brooklyn, que o avô prontificou-se a criar-lhe o seu próprio negócio se regressasse a Bethel. Barnum não desperdiçou a oportunidade.

Converteu em loja de fruta e confeitaria metade da garagem do avô. Também à mão estava um barril de cerveja, uma feliz vantagem. Abriu as portas em Maio de 1828, no Dia de Treinos Militares, altura em que a milícia se exibia no campo local, e, rapidamente, a cerveja foi vendida, bem como boa parte dos restantes produtos, tendo recuperado quase todo o seu investimento. Encorajado, importou "livros de bolso, pentes, missangas, anéis baratos, canivetes e alguns brinquedos" de Nova Iorque, ao que acrescentou ostras guisadas, tendo ainda dado início a uma agência de lotaria, por uma comissão de dez por cento.

Durante estes dias, Barnum teve a primeira visão do seu futuro. Hackaliah Bailey tornou-se cliente da loja e este foi um dos mestres de espectáculo pioneiros da América.

Até então, Barnum ainda não estabelecera qualquer contacto com o mundo pecaminoso do entretenimento. É certo que alguns anos antes revelara possuir os instintos de um mestre de espectáculo. Um vizinho que acabara de regressar de uma visita a Litchfield County entrara na loja de Barnum. Este perguntou-lhe sobre as novidades nessas paragens longínquas, ao que o vizinho respondeu que testemunhara algo curioso. "Vi um cão de tamanho normal com duas caudas naturais, uma delas com cerca de noventa centímetros de comprimento." Barnum quis aproveitar-se de imediato da situação. Era uma exibição perfeita. Estava à venda? "Creio que sim, acho que por cinco ou dez dólares o vendem." Barnum insistiu para que o vizinho o levasse a Lichtfield e lhe mostrasse esse cão extraordinário, sendo aconselhado a ir sozinho. Barnum estava a montar a cavalo para partir, quando o vizinho se recordou de algo. "Esqueci-me de mencionar que o cão com duas caudas estava a sair de um curtume, e uma das caudas era a de uma vaca que ele trazia na boca." Barnum desmontou acanhadamente por entre as gargalhadas, mas revelara o seu instinto de mestre de espectáculo.

Hackaliah Bailey, por outro lado, era genuíno. Sem possuir qualquer relação com o Bailey posterior, que viria a ser sócio de Barnum, Hackaliah Bailey criara as bases do circo moderno com a sua pequena exibição itinerante de animais vivos. Quando Barnum era um rapazinho de cinco anos, Bailey deixava a sua marca com Old Bet, o segundo elefante a ser visto nos Estados Unidos. O irmão de Bailey, capitão de um navio, comprara Old Bet em Londres, por vinte dólares. Bailey pagou $1. 000 ao irmão pelo paquiderme e alcançou a segurança financeira através da exibição do animal. Viajava com Old Bet apenas à noite, para que ninguém a visse sem pagar bilhete. Ao longo de doze anos exibiu Old Bet a dez cêntimos por pessoa, embora por vezes aceitasse um barril de dez litros de rum como preço de entrada de uma família inteira.

Durante os últimos anos com Old Bet, Bailey associou-se a um indivíduo chamado Nathan Howes, o qual enviou em digressão com o elefante, esperando pela sua metade dos lucros. Após muitas semanas, não lhe chegara um tostão. Não respondendo Howes às suas inquirições, Bailey partiu atrás dele, alcançando-o em New Bedford, no Massachusetts. Bailey exigiu a sua parte nos lucros, ao que Howes replicou que não tinha havido lucro.

Bailey, ao ver as multidões que acorriam à exibição, ficou, justificadamente, desconfiado. "Não continuará responsável por este elefante enquanto eu for parte interessada", disse ao sócio.

"Gostaria de o ver impedir-me", redarguiu Howes. "O contrato que assinámos estipula que eu sou o responsável pelo elefante e que no próximo Outono deveremos acertar as nossas contas."

"Mas também estipula que deverá remeter-me metade dos lucros assim que eles surjam."

Howes repetiu que não existia qualquer lucro e Bailey disse ao sócio que queria comprar a parte dele. Howes declinou. Bailey disse-lhe então que desejava vender a sua parte, mas Howes não estava interessado. Bailey avisou Howes que não devia viajar nem mais um quilómetro com o elefante. Howes desafiou-o e Bailey ameaçou fazer alguma coisa quanto a isso. Howes disse-lhe que fizesse o que quisesse.

Nessa madrugada, Howes dirigiu-se ao estábulo, pronto para levar Old Bet para a aldeia seguinte. Bailey aguardava ao lado do elefante com um mosquete carregado, que encostou ao ombro e apontou a Old Bet.

"EM", gritou Howes. "Metade desse elefante é meu!"

"Estou a apontar à minha metade", replicou Bailey.

Howes entregou rapidamente metade dos lucros e a companhia seguiu viagem. Em Julho de 1816, Old Bet foi apresentada em Alfred, no Maine. Após a exibição, um agricultor atacou-a e matou-a a tiro. A motivação do assassino nunca ficou clara. Ou era um membro fanático de uma seita religiosa e confundiu Old Bet com o terrível beemote da Bíblia ou, tal como o Dr. William Bentley registou no seu diário, "o pobre elefante foi destruído no Maine, pois ficava com o dinheiro dos que não o podiam gastar". Bailey sepultou Old Bet em Somers, Nova Iorque, próximo do belo Hotel Georgiano que abrira e ao qual dera o nome de "Hotel Elefante". Em frente da entrada do hotel encontrava-se um pilar de pedra com uma réplica em madeira lacada a ouro de Old Bet.

A par do avô, o jovem Barnum idolatrava Hackaliah Bailey (ou "Hack", como viria a chamar-lhe) mais do que qualquer outro homem. Eram estes os heróis humanos que invocava quando, mais tarde, avançou para a profissão de mestre de espectáculo.

A pequena loja Barnum em Bethel teve tanto sucesso que, pela primeira vez, conseguiu dar atenção a assuntos menos comerciais. Apaixonara-se aos dezasseis anos. Na altura trabalhava em Grassy Plain, ficando em casa de Mrs. Jerusha Wheeler, uma modista de chapéus de senhora. Um dia, Charity Hallett, uma jovem de Bethel, entrou para comprar um chapéu a Mrs. Wheeler. À noite instalara-se uma trovoada e Charity ficou com medo da viagem solitária até Bethel. Mrs. Wheeler, lembrando-se de que Barnum regressava sempre a Bethel ao fim de semana, mandou-o chamar e pediu-lhe que acompanhasse Charity a casa. Barnum olhou para a jovem: "uma rapariga loura, de faces rosadas e aspecto alegre, com uns belos dentes brancos", que respondia pelo nome de Charity. Fascinado, concordou.

Viajou a cavalo com Charity o quilómetro e meio até Bethel e, com ou sem tempestade, Barnum desejou que fossem vinte. Ao conversar com ela, considerou-a "afável e de todo afectada" e ficou a saber que era modista. Nessa noite, sonhou com aquele rosto maravilhoso. Na manhã seguinte, e praticamente todos os domingos desse ano, viram-se na igreja.

De início, encontravam-se clandestinamente e, depois, de forma mais aberta, tendo a corte ficado mais séria. Quando Barnum fez dezanove anos e Charity vinte e um, pediu-a em casamento. Ela aceitou de imediato. Ao depararem com resistência por parte de ambas as famílias (a mãe de Barnum pensava que ele "não demonstrava ter grandes ambições no mundo" e a família de Charity considerava-a "demasiado boa para Taylor Barnum"), o casal decidiu fugir para se casar.

Charity foi a Nova Iorque visitar um tio preferido, Nathan Beers, que vivia em Allen Street. Pouco tempo depois, Barnum dirigiu-se à metrópole a fim de adquirir bens para a loja que ia de vento em popa. Na noite de 8 de Novembro de 1829, o reverendo Dr. McAuley casou Barnum e Charity, na presença dos familiares nova-iorquinos desta.

A mãe de Barnum perdoou-os e este, que se mudara para a pensão onde a esposa vivia, levou a noiva a jantar. Mais tarde admitiria que era demasiado jovem para casar e que, em geral, discordava dos casamentos realizados entre jovens, mas acrescentou que, se esperasse mais vinte anos, "poderia não encontrar outra mulher tão adequada ao seu espírito e tão valiosa enquanto esposa, mãe e amiga".

Inspirado pela companheira, os três anos seguintes foram bastante proveitosos para Barnum. Manteve a loja em Bethel, abriu várias agências de lotaria em Danbury, Norwalk, Stamford e várias outras povoações, e construiu uma modesta casa de dois andares e meio. Mas isto não era suficiente e, com vinte e um anos, construíra um edifício de três andares no centro de Bethel, usando o rés-do-chão como grande armazém e os dois últimos andares como apartamentos domésticos.

Ao atingir a maioridade e o direito ao voto, interessou-se pela política. Tal como o avô, era um democrata convicto. (Anos mais tarde, depois de ter feito a sua fortuna e de ter conhecido Lincoln, viria a tornar-se republicano. Foi um período de agitação e de entusiasmo. A velha igreja estabelecida, com os seus puritanos zelosos, sofria com a deserção de democratas liberais e de universalistas liberais (Barnum entre eles) e agora a velha igreja apresentava o seu próprio partido político. O Church and State Party, partido cristão e conservador, era uma ameaça momentânea à liberdade. Barnum resistiu, pois acreditava veementemente que a igreja e o estado deviam manter-se separados.

Estava ansioso por dar voz aos seus sentimentos apaixonados, a fim de esclarecer os camaradas. Não existia jornal em Bethel, mas em Danbury era publicado um semanário pacífico, o Recordar. Barnum enviou várias cartas emocionais a esta publicação, nas quais exprimia as suas convicções, mas o editor recusou-se a publicá-las. Barnum decidiu que este estava a ser abafado pelo crescente Church and State Party e, se não existia um jornal onde contar a verdade, nesse caso Barnum fundaria o seu. Comprou prelo, formas tipográficas e um lápis afiado e, no dia 19 de Outubro de 1831, editou o primeiro número do Herald of Freedom.

Sob o nome do jornal de quatro páginas bem impressas do editor Barnum surgia uma citação de Thomas Jefferson: "Pois jurei perante o Altar de Deus hostilidade eterna contra qualquer forma de tirania sobre a mente do homem." Nas suas colunas, Barnum criticava o calvinismo militante e a opressão religiosa e prometia constantemente à sua vasta audiência que pelejaria contra "a intolerância, a superstição, o fanatismo e a hipocrisia". Após examinar os primeiros números do semanário, o conservador Spirit ofthe Times, de Bridgeport, comentou asperamente: "Possui um notório carácter mação e anticlerical. Opinamos que Mr. Barnum, após um breve julgamento, irá descobrir que tem vindo a combater fantasmas."

Embora a assinatura enviada por correio custasse um dólar e cinquenta cêntimos por ano, o Herald of Freedom encontrou leitores assíduos em quinze estados. Era a invectiva destemida de Barnum que os atraía. Ler o Herald of Freedom transmitia a mesma sensação que assistir a um combate de boxe de mãos nuas. O Church and State Party, dizia Barnum, era composto por "bípedes de qualidade inferior, tais como usurários, diáconos novos, vendedores de rum abstémios, vira-casacas políticos e religiosos... ". No que dizia respeito à antiga ordem de governo: "O povo trabalhador e pagador de impostos já é governado pela aristocracia há tempo suficiente [e] está determinado a colocar o governo [onde ele pertence], nas suas próprias mãos."

Em três anos, Barnum foi preso três vezes por difamação. No primeiro caso, um talhante de Danbury, acusado de espiar uma reunião política do Partido Democrático, processou-o e ganhou várias centenas de dólares. O segundo processo foi retirado antes do julgamento. O terceiro colocou Barnum na prisão.

Barnum publicara um editorial onde acusava um diácono de Bethel, Seth Seelye, de ser "culpado de receber usura de um órfão", e foi a palavra usura que levou Barnum a tribunal. Caso tivesse utilizado o termo extorsão, seria intocável, mas usura era condenado pela Bíblia, e Bethel vivia segundo a Bíblia, e não segundo Blackstone 7. A presidir ao julgamento encontrava-se o juiz David Daggett, que Barnum chamou de "monte de superstição".

 

7 Sir William Blackstone (1723-1780) foi um jurista e educador inglês que redigiu a mais completa recensão legal até à altura.

 

Gideon Welles, na altura editor do Hartford Times e acérrimo defensor de Barnum, considerou o juiz "inimigo dos amigos da liberdade civil e religiosa", alguém que "perseguira os Democratas durante trinta anos".

Barnum foi julgado perante o Tribunal Superior em Danbury. Foi considerado culpado, multado em cem dólares mais as despesas do julgamento e condenado a sessenta dias na prisão de Danbury. Os amigos da liberdade de imprensa e da liberdade de expressão manifestaram-se em seu redor. As paredes da cela para o martírio de Barnum foram forradas com um papel de parede de cores garridas e o chão atapetado. Foi bem alimentado, recebeu um sem-número de simpatizantes e, tal como acontecera com Leigh Hunt antes dele, editou o jornal a partir da cela. Ficou satisfeito ao constatar que o furor aumentara a circulação em várias centenas de exemplares. E ficou satisfeito ao saber por Charity que esta se encontrava grávida pela primeira vez.

Entretanto, muitos dos apoiantes mostraram-se extremamente verbais. Um dos mais fortes, o reverendo Theophilus Fiske, editor de um periódico religioso liberal em New Haven, no Connecticut, defendeu Barnum na imprensa.

"Será possível que um Americano - um Homem Livre - um marido - tenha sido arrancado ao seio da família, " escreveu o reverendo Fiske, "e encarcerado pelo longo braço da opressão entre as paredes sombrias de uma Prisão Comum! Um Cidadão Americano! Arrebatado à gloriosa luz do sol pela mão de ferro do poder - e por crime algum! "

Embora Barnum tenha ficado um pouco deprimido pela detenção, apreciou a publicidade que o caso lhe granjeou. Tal como escreveu a Gideon Welles: "Os meus inimigos são dirigidos pelo mesmo espírito que... levou Michael Servetus à morte na fogueira por ordem de João Calvino. É grande o entusiasmo que se vive nesta cidade e nas populações vizinhas, e terá um grande efeito."

Após sessenta dias, Barnum foi libertado. A ocasião foi transformada em festa pelos seus apoiantes. Organizou-se um jantar em sua honra, no tribunal onde fora julgado. Participaram várias centenas de simpatizantes e o reverendo Fiske proferiu mais um discurso inflamado. Ao festim seguiu-se um desfile.

"P. T. Barnum e a banda de música tomaram os seus lugares num coche puxado por seis cavalos, que fora preparado para a ocasião", relatou o HeraldofFreedom, a 12 de Dezembro de 1832. "O veículo era precedido por quarenta cavaleiros e por um mestre de cerimónias com o estandarte nacional. Imediatamente a seguir ao coche seguia a carruagem do Orador e do Presidente do dia, seguida pelo Comité de Preparativos e por sessenta carruagens de cidadãos, os quais se juntaram à escolta do editor até à sua casa, em Bethel.

"Quando o desfile teve início, por entre o troar de canhões, ouviram-se três vivas por parte das várias centenas de cidadãos que não tomaram parte na procissão. A banda de música continuou a tocar uma variedade de árias nacionais, até à chegada a Bethel (a uma distância de cinco quilómetros), altura em que entoaram a bela e apropriada melodia de "Home, Sweet Home! "8. Após três vivas calorosos, a comitiva regressou a Danbury. Ao longo de todo o dia prevaleceu uma harmonia extrema, bem como uma unanimidade de sentimentos, e satisfaz-nos acrescentar que não se verificou qualquer incidente que prejudicasse as festividades da ocasião."

Foi uma ocasião emocionante para Barnum, então com vinte e um anos de idade. Fora a sua primeira experiência de estrelato e, a partir daí, nunca mais ficaria satisfeito. Barnum regressou ao Herald ofFreedom, negligenciando os restantes empreendimentos, continuando mesmo a atacar o diácono Seth Seelye, o seu antagonista, por este ter obtido uma licença de venda de bebidas alcoólicas. Em breve, contudo, confessava nas páginas da sua publicação que as agências de lotaria tinham sido encerradas devido a uma nova lei, que o armazém ia de mal a pior e que o jornal se encontrava numa débil situação económica. Não poderia continuar a publicá-lo sem auxílio.

Aparentemente, essa ajuda não iria surgir. Em 1834, após cento e sessenta números publicados, Barnum vendeu o Herald ofFreedom ao cunhado, o armazém foi vendido a dois amigos e a casa também foi vendida. No Verão de 1834, com os bens quase liquidados, Barnum, acompanhado por Charity e pela filha bebé, Caroline, que nascera em Maio, deixou Bethel para trás, para

 

8 "Lar, Doce Lar!"

 

sempre. Mudou-se para Nova Iorque: "em busca de fortuna", diria.

Durante um breve período, trabalhou relutantemente como vendedor de chapéus e bonés. Candidatou-se a um trabalho como empregado de bar no Niblo's Garden, mas mudou de ideias quando Niblo insistiu num contrato de três anos. Sempre atraído pelo mundo do espectáculo, respondeu a um anúncio publicado por um professor que possuía uma exposição no Museu Americano de Scudder. "Uma Imensa Especulação por pouco capital!" prometera o anúncio. "$10. 000 facilmente conseguidos no prazo de um ano!" O professor oferecia-se para vender a Barnum "o grande Microscópio de Hidro-oxigénio", por $2000. Barnum, quase falido, recusou o negócio.

Então, de um dia para o outro, alguns devedores em Bethel pagaram as suas dívidas. Barnum investiu estas poucas centenas de dólares numa pensão e numa sociedade com John Moody, abrindo uma mercearia. Por fim, quando Coley Bartram, de Reading, no Connecticut, chegou com a notícia da ama de George Washington, Barnum descobriu a sua profissão: "Satisfazer o insaciável desejo da natureza humana: o amor pelo divertimento."

Depois de Locke ter exposto Joice Heth e de esta ter sido "respeitavelmente" enterrada no seu caixão de mogno em Bethel, Barnum decidiu-se a continuar no ramo do espectáculo. Ainda tinha o contrato com o ágil Signor Vivalla. Tentou encontrar alguém com quem fazer sociedade e chamou-lhe a atenção Aaron Turner, de Danbury, um inglês que dera à América o primeiro circo numa tenda fechada. Turner, antigo sapateiro analfabeto, conseguira uma pequena fortuna com cavalos amestrados e com acrobatas, estando prestes a lançar-se de novo à estrada. Barnum dirigiu-se-lhe e fecharam negócio. Em troca da actuação de Vivalla e dos seus próprios serviços como vendedor de bilhetes e contabilista, Barnum receberia oitenta dólares por mês e um quinto dos lucros da companhia de circo.

Em Abril de 1836, Barnum mandou Charity e a filha para Bethel e fez-se à estrada com os carros garridos e com o agitado regimento de três dúzias de homens de Turner. Hyatt Frost, gerente do antigo Van Amburgh Circus, sempre recordou que, em rapaz, vira a companhia de Turner chegar à cidade. "Nessa altura, o circo tinha apenas nove cavalos e quatro carros", comentou. "Oito puxavam o espectáculo inteiro e um magnífico cavalo de picadeiro abria a comitiva. Os músicos levantavam a tenda e os executantes construíam a pista. Os artistas vestiam-se em hotéis e desfilavam a cavalo. A entrada custava vinte e cinco cêntimos e as crianças pagavam meio bilhete." Barnum ficou quase nove meses com Turner e este período de gestação produziu um mestre de espectáculo mais sábio. Barnum acompanhou Turner pelos estados de Nova Iorque, Massachusetts, Pensilvânia, Virgínia e Carolina do Norte, sempre a observar, a escutar e a absorver.

Começava a crístalizar-se uma certa atitude em relação ao mundo do espectáculo, algo enraizado na mesma força que criara o Herald of Freedom. Quando um sacerdote de Lenox, no Massachusetts, condenou o circo a partir do púlpito, Barnum dirigiu-se às escadas e defendeu aguerridamente a liberdade de divertir o público e de este se divertir.

A vida com Turner parecia familiar a Barnum, pois assemelhava-se à vida com o avô Taylor. Turner dedicava mais criatividade a partidas do que ao circo. Em Annapolis, no Maryland, o negócio era lucrativo, e Turner dedicou-se em pleno ao divertimento. O resultado foi quase a morte de Barnum.

Num domingo de manhã, Turner e Barnum tomavam uma bebida no bar do hotel com mais vinte pessoas. Quando Barnum, com o seu melhor fato de domingo, resolveu sair, Turner apontou-o de súbito e disse aos outros: "Acho estranho que permitam que aquele biltre ande pelas vossas ruas em plena luz do dia. Em Rhode Island tal não seria permitido, e creio que foi por essa razão que o canalha se mudou para cá."

"Porquê, quem é ele? ", indagaram várias pessoas.

"Quer dizer que não sabem?" interrogou-se Turner. "Aquele é o reverendo E. K. Avery, o assassino de Miss Cornell!"

Três anos antes, Sarah Cornell, uma operária fabril de trinta e um anos de idade, fora descoberta enforcada, num terreiro nos arredores de Tiverton, em Rhode Island, tendo, aparentemente, sido assassinada. Entre os seus bens, foi encontrado um bilhete que lançava suspeitas sobre o reverendo Avery, um sacerdote metodista das redondezas. Em Maio de 1833, Avery foi julgado por homicídio pelo Supremo Tribunal Judicial, o primeiro caso de um clérigo julgado por este crime nos Estados Unidos, o que causou grande celeuma. Defendido por seis advogados, Avery acabou por ser absolvido, mas o público nunca lhe perdoou, tendo acabado por desaparecer de Rhode Island (voltando a surgir, muito mais tarde, como agricultor no Ohio).

Quando Turner indicou Barnum como sendo Avery, o pequeno grupo presente no bar perseguiu-o e, quando o alcançaram, eram já mais de cem. Arrancaram-lhe o casaco, lançaram-no à terra e prepararam-se para o linchar. Barnum nunca tinha falado tão depressa. "Não sou o Avery", implorou. "Desprezo esse vilão... O meu nome é Barnum... O meu sócio, Turner, enganou-os com esta história ridícula."

Barnum foi arrastado de volta ao hotel, onde Turner aguardava no alpendre, rindo-se a bandeiras despregadas. Explicou a piada e grande parte da turba juntou-se à paródia.

Mais tarde, Barnum exigiu saber por que razão Turner lhe pregara uma partida tão arriscada, ao que Turner replicou com seriedade. "Meu caro Barnum, foi tudo para nosso bem. Lembre-se, tudo aquilo de que precisamos para garantir o sucesso é publicidade. Vai ver que toda a cidade vai ficar a saber do incidente... e amanhã à noite o nosso pavilhão vai estar a abarrotar."

Na noite seguinte, o pavilhão encontrava-se, de facto, a abarrotar e Barnum nunca esqueceu a moral da história.

Na Carolina do Norte, Barnum, mil e duzentos dólares mais rico, acabou finalmente por se separar de Turner. Tendo ficado com o Signor Vivalla e com um dançarino e cantor negro chamado James Sanford, Barnum partiu por conta própria. Imediatamente antes de um espectáculo, Sanford despediu-se. Uma grande multidão esperava-o, conforme anunciado, e por isso Barnum pintou o rosto de preto, apresentou-se ao público como sendo Sanford, cantou energicamente "Zip Coon", foi aplaudido e ouviram-se bis.

Voltando a encontrar-se com Turner, Barnum comprou-lhe cavalos e carros, alugou-lhe o palhaço e mágico Joe Pentland, baptizou o grupo como "BarnunYs Grand Scientific and Musical Theatre" e marchou pela Geórgia e pelo Alabama. Passaram dias repletos de nervosismo ao atravessar uma reserva Cherokee (certos elementos hostis da tribo tinham recentemente atacado uma diligência de correio e chacinado todos os ocupantes) e o Signor Vivalla tremia mais do que todos os outros, ao mesmo tempo que apregoava ser capaz de lidar com cinquenta peles-vermelhas. Para descontrair a companhia, Barnum disfarçou Pentland de índio e mandou-o perseguir Vivalla. O acrobata aterrorizado quase morreu de susto antes que a partida fosse revelada.

Ao longo do caminho, Barnum associou-se a vários indivíduos, separou-se deles e, quando Vivalla acabou por deixá-lo para se aposentar em Cuba, Barnum percebeu que era chegada a altura de regressar a casa. No dia 4 de Junho de 1838, chegou a Nova Iorque e reuniu-se à família.

A odisseia trouxera-lhe lucros, mas não suficientes. Estava "desagradado com a vida de um mestre de espectáculos itinerante" e ansiava temporariamente por "um negócio respeitável e permanente". Anunciou nos jornais que tinha $2. 500 para investir num empreendimento são. Recebeu de imediato noventa e três propostas: de um penhorista que queria um sócio, um farmacêutico que precisava de apoio financeiro, um inventor com uma máquina de movimento perpétuo (Barnum descobriu a mola real oculta num poste oco), um mercador que pensava ser capaz de se disfarçar de Quaker e enganar os clientes com sacos de aveia mais pequenos, e um falsificador que precisava de $2. 500 para novos corantes, papel e tinta.

Uma proposta, contudo, atraiu Barnum. Um alemão de nome Proler, com cartas de grande recomendação, precisava de um sócio que se lhe juntasse no fabrico de água de colónia, graxa e cola à prova de água. Durante a Primavera de 1839, Barnum e Proler montaram o negócio e venderam os seus produtos por atacado a comerciantes em paragens tão longínquas como Cleveland. A empresa prosperou durante vários meses. E então, uma manhã, Barnum acordou e descobriu que Proler levantara arraiais e fugira para Roterdão com as verbas da firma.

Desesperado e quase sem dinheiro, Barnum levou a cabo mais uma tentativa no mundo do espectáculo. Alugou um salão em Vauxhall Garden e apresentou uma série de actuações, mas o empreendimento foi um fracasso total. Descobrindo um dançarino negro bastante bom, chamado John Diamond, Barnum meteu-se à estrada, apresentando espectáculos em Toronto, Ottawa e St. Louis. Ao chegar a Nova Orleães, não tinha mais dinheiro do que quando começara. Lembrou-se do concurso de malabarismo entre Vivalla e Roberts e recriou a façanha, colocando Diamond contra um dançarino negro do Kentucky. As receitas de bilheteira subiram em flecha. Em Mobile, Diamond, que devia somas consideráveis de dinheiro ao patrão, desertou. Desanimado, Barnum regressou mais uma vez a Nova Iorque de mãos a abanar.

Barnum tinha trinta e um anos de idade e sentia-se desalentado com o mundo do espectáculo. Mas, ao mesmo tempo que se dedicava à venda de uma Bíblia ilustrada publicada por Robert Sears, alugava mais uma vez o salão em Vauxhall Garden, para um programa de variedades. Nenhum dos empreendimentos teve sucesso e Barnum ficou satisfeito ao obter um emprego a redigir anúncios para o Bowery Amphitheatre, por quatro dólares por semana. Conheceu os editores principais, complementou o escasso rendimento ao escrever artigos independentes para as edições de domingo e sonhou com glória.

E então, num dia de Outono de 1841, aconteceu. Barnum regista o acontecimento de forma quase despreocupada na sua autobiografia. "Enquanto trabalhava como empregado externo para o Bowery Amphitheatre, descobri casualmente que a colecção de curiosidades que constituía o Museu Americano de Scudder, na esquina da Broadway com Ann Street, estava à venda." Era o convite para a grandeza. Com Joice Heth, o mestre de espectáculo nascera; com o Museu Americano, o mestre de espectáculo granjeou sucesso. "O Museu Americano", escreveu Barnum, "foi a escada com a qual subi à fortuna."

Neste momento, talvez seja útil fazer uma reflexão momentânea sobre a força de carácter, inspirada pela hereditariedade e pelo ambiente, que acabou inevitavelmente por conduzir Phineas T. Barnum ao seu destino.

O que levou, afinal de contas, Barnum a ser mestre de espectáculo? Sabemos, é claro, o que fez dele um dos maiores mestres de espectáculo de todos os tempos. Foi o talento, uma espécie de génio, se quisermos, uma dádiva dos cromossomas, ou do Criador, a compreensão instintiva daquilo que agitava, espantava, sobressaltava, excitava, entusiasmava, o toque especial que fazia com que soubesse o que despertava a curiosidade do Zé Povinho e a melhor forma de explorar essa curiosidade. Foi o talento que deu sucesso a Barnum. Mas o que fez dele mestre de espectáculo e não qualquer outra coisa que poderia ter sido? Poderia facilmente ter sido Boss Tweed9, ou Daniel Drew10, ou BillySunday11, ou Andrew Johnson12, ou William Randolph Hearst13, mas, em vez disso, transformou-se no protótipo do empresário para todo o sempre.

Profundamente entranhado em Barnum (uma veia muitas vezes subestimada) estava o desejo de se divertir e de divertir os outros, sem qualquer motivo visível que não o prazer sensual da diversão. Não há dúvida de que este desejo natural foi o resultado da sua infância severa e limitada, ou floresceu como consequência desses antecedentes. Barnum sentia-se atraído pelo mundo do espectáculo pois, mesmo enquanto editor jornalístico, procurava um meio para combater as forças religiosas, políticas e comerciais que tornavam a vida sensaborona. Não só Nova Inglaterra e Nova Iorque eram afligidos por este mal, como toda a América. Mesmo no distante Ohio, a emigrante inglesa e autora prolífica Mrs. Frances Trollope, mãe de AnthonyTrollope, observara: "Nunca vi pessoas que parecessem viver com tão pouco divertimento como os habitantes do Cincinnati." Existiam leis contra os jogos de cartas e contra o bilhar. Nunca se realizavam festas nem concertos. Raramente se organizavam bailes. O único teatro de Cincinnati quase não tinha espectadores. "Raramente se vêem senhoras nesse local e a grande maioria das mulheres considera assistir a uma peça uma ofensa contra a religião", escreveu Mrs. Trollope.

Barnum acreditava que o divertimento e a agitação eram direitos das massas, as quais pouco mais possuíam, e que quem as privava desse prazer era mau. Enquanto mestre de espectáculo, poderia conceder a Nova Iorque, depois à América, e finalmente ao mundo, a dádiva do divertimento. Por isso, contra tudo e contra todos, lutou para transformar o entretenimento e a diversão em prazeres respeitáveis. O facto de ter sido bem sucedido está

 

9 WHIliam Marcy "Boss" Tweed (1823-1878), líder político corrupto de Nova Iorque.

10 Daniel Drew (1797-1879), empresário e banqueiro americano que chegou a milionário, mas acabou por morrer na miséria.

11 William Ashley "Billy" Sunday (1862-1935) foi jogador profissional de baseball até 1886, altura em que se tornou ministro evangelista, pregando, acima de tudo, contra o álcool.

12 Andrew Johnson (1808-1875) foi o décimo sétimo presidente dos Estados Unidos.

13 William Randolph Hearst (1863-1951) foi um dos mais importantes magnatas americanos da comunicação social.

 

patente em todos os circos, concertos, peças legítimas, filmes e programas de televisão a que nós, seus herdeiros, assistimos, com liberdade e inocência.

Claro que seria ridículo atribuir a Barnum apenas os motivos mais nobres na escolha da sua carreira. É óbvio que queria dinheiro. Também desejava fama, possivelmente mais do que dinheiro. Tal como comentou Gamaliel Bradford: "Muitas vezes os estrangeiros acusam os americanos de idolatrarem o dólar. É um erro. Na verdade, o homem de negócios americano não se importa com o dólar... Aquilo que ele idolatra não é o dinheiro, mas sim o sucesso... Isto é uma grande verdade no que diz respeito a Barnum." Mas havia mais. A sua cruzada tinha como objectivo tornar a vida um carnaval livre de pecado, fazer com que a alegria e o espectáculo passassem a ser aceitáveis, enquanto partes necessárias da vida diária.

Os meios que utilizou para alcançar os seus fins foram, muitas vezes, questionáveis. Com frequência, era em parte Merlim14, em parte Psalmanazar15, em parte John Law 16. Talvez a farsa elaborada, o truque complicado e o anúncio exagerado tenham sido utilizados para o enriquecer e para o manter na luz da ribalta, mas os embustes eram sempre inofensivos e reflectiam a sua ligação à paródia ianque. E por vezes, quem sabe, talvez fossem utilizados de outra forma: como armas de um homem na sua longa luta para fazer do divertimento algo digno de reconhecimento num mundo relativamente triste.

O dinheiro, claro está. Fama e sucesso, sim. Mas também, e sempre, o factor mais profundo e enérgico. Ele próprio o disse no começo do que viria a ser uma carreira espantosa e fulminante:

"Este é um mundo de negócios e os homens, as mulheres e as crianças, que não podem viver apenas da gravidade, precisam de algo que lhes satisfaça a vida e que os deixem mais alegres. Aquele que satisfizer esta necessidade encontra-se envolvido num negócio criado pelo Autor da nossa natureza. Se cumprir validamente a sua missão e divertir sem corromper, nunca terá de pensar que viveu em vão."

Foi por isto que Phineas T. Barnum se tornou um mestre de espectáculo.

 

14 Merlim, o feiticeiro da corte lendária do rei Artur.

15 George Psalmanazar (16797-1763), cujo nome verdadeiro não é conhecido, foi um impostor literário que, entre outras coisas, se fez passar por habitante da Formosa, tendo chegado a inventar uma língua completa.

16 John Law (1671-1729) foi um economista teórico que utilizou pela primeira vez conceitos modernos, tal como, por exemplo, a "oferta e a procura".

 

         EXIBIÇÃO TRÊS - A SEREIA DAS FIGI

O Museu Americano de Scudder era uma imponente estrutura de cinco andares em mármore, situada na baixa da Broadway, na esquina com Ann Street, e alojava $50. 000 em "relíquias e curiosidades raras" de todos os cantos do mundo.

Na América, o pequeno museu enquanto empresa privada não era algo novo. Uma vez que o teatro e o circo não eram bem vistos, o museu surgiu como forma alternativa de providenciar entretenimento. O primeiro museu de alguma importância foi fundado em 1786, por Charles Wilson Peale, o excêntrico genial que pintara o primeiro retrato conhecido de George Washington e que chamara aos filhos Rembrant, Rafael, Ticiano e Rubens. A colecção de curiosidades e de arte foi exibida no seu estúdio de Filadélfia.

Em 1790, surgia o Tammany Museum, na cidade de Nova Iorque, exibindo de forma confusa as suas maravilhas na ala oeste de um edifício do governo, que fazia lembrar uma antiga igreja Quaker. Em 1810, John Scudder ficou com a colecção, expandiu-a ao adquirir inúmeras peculiaridades de capitães de navio que chegavam em visita de paragens distantes, e obteve o primeiro sucesso ao mostrar uma tartaruga gigante. Posteriormente, mudou-se para a City Hall e, finalmente, em 1830 arrendou um edifício de cinco andares acabado de construir, no terreno de um antigo parque de diversões, conhecido por Spring Garden. Aí abriu o seu Museu Americano.

Scudder tinha olho para o bizarro e para a história, mas não fora talhado para o espectáculo. Ainda assim, e uma vez que os locais de entretenimento eram bastante escassos, a colecção de pássaros e de répteis empalhados, as esculturas em cera de vilões e de homens famosos, a colecção viva de animais e de aberrações (que iam de um cão chamado Apollo, que jogava às cartas e ao dominó, a uma anã de vinte e seis anos com noventa centímetros de altura) e o professor esforçado, que contratara para apresentar um seminário diário sobre um qualquer assunto de interesse científico, atraía uma audiência lucrativa.

Quando Scudder morreu, deixou a colecção do Museu Americano às filhas. Nessa altura, as mulheres tinham pouca preparação para gerir um negócio volumoso e o Museu entrou em declínio. Em três anos, as receitas não foram além dos $34. 000. Finalmente, em 1841, as jovens Scudder decidiram livrar-se do elefante branco. Indicaram ao administrador do património, John Heath, e ao senhorio do Museu, um comerciante rico reformado de nome Francis W. Olmsted, que colocassem a colecção e o aluguer do edifício no mercado.

Quando Barnum, que se debatia com trabalho de publicidade, ouviu dizer que o Museu Americano se encontrava à venda, ficou estranhamente agitado, tal como acontecera aquando da disponibilidade de Joice Heth.

Queria ser mestre de espectáculos e desejava uma exposição permanente. Possuía todas as qualificações para o empreendimento, excepto dinheiro. Visitara o Museu muitas vezes para se descontrair, mas agora regressava com uma visão diferente. "Vi, ou imaginei ver, que apenas era necessário energia, tacto e liberalidade para lhe dar vida e lançá-lo numa direcção lucrativa." Para o transformar na principal atracção do género na América, só tinha de "apresentar devidamente os seus méritos ao público".

Estava determinado a comprá-lo. Quando relatou a decisão a um amigo, este ficou incrédulo: "Você quer comprar o Museu Americano? E pretende comprá-lo com o quê?"

"Com lata", respondeu Barnum, "pois ouro e prata não tenho."

Barnum decidiu que Francis W. Olmsted, dono do edifício do Museu, era o homem com quem falar. Após pensar em várias abordagens, Barnum sentou-se e escreveu uma carta a Olmsted. Com audácia e todos os artifícios de negócio ianque que conseguiu entranhar nas suas palavras, Barnum compôs uma missiva que desarmava graças à franqueza.

Escreveu que desejava adquirir a colecção do Museu a crédito e alugar o edifício. Confessou não ter dinheiro, mas disse possuir "tacto e experiência, a par de uma total devoção ao negócio." A proposta era que Olmsted comprasse a colecção de curiosidades à família Scudder e que depois a vendesse a Barnum, a prestações, e que lhe arrendasse o edifício. "Com efeito, Mr. Olmsted, poderá cingir-me como quiser e de qualquer forma que ache necessário dê-me apenas a oportunidade de me movimentar, ou rastejar, e fá-lo-ei, ou compensarei todo o trabalho e incómodo que possa ter causado." Barnum prometeu cumprir todas as prestações, ficando apenas com doze dólares e cinquenta cêntimos por semana para sustentar a família. Estava preparado para apresentar referências, caso Olmsted lhe concedesse uma entrevista.

Barnum levou a carta à residência de Olmsted, em Park Place, e entregou-a a um empregado. Aguardou nervosamente durante dois dias. E então, de súbito, recebeu a resposta. Olmsted concordava em encontrar-se com ele.

Ao chegar para a entrevista, Barnum achou Olmsted distante e aristocrático, embora julgasse ter detectado um brilho divertido e afável nos olhos do comerciante. Ficou satisfeito quando Olmsted lhe deu os parabéns pela pontualidade e depois respondeu longamente a questões sobre os seus antecedentes, descrevendo a família em Bethel, a educação e os hábitos. No que diz respeito à experiência, absteve-se de referir Joice Heth, centrando-se no circo de Turner e nos espectáculos em Vauxhall Garden.

Olmsted foi ouvindo, acabando por interrompê-lo. "Quem apresenta como referências?"

"Qualquer homem na minha área de trabalho", replicou Barnum. Mencionou rapidamente William Niblo, Aaron Turner, Edrrund Simpson, de ParkTheater, e Moses Yale Beach, o inventor do conceito de agência noticiosa, que ficara com o Sun do sogro, Day, e que levaria a circulação do jornal às 50. 000 cópias.

"Será que algum deles poderia vir falar comigo?"

Barnum tinha a certeza que sim. Otmsted indicou que receberia os homens no dia seguinte e que, na manhã do outro dia, Barnum deveria comparecer para tomar conhecimento do veredicto.

Entusiasmado, Barnum foi convencer os amigos a apoiá-lo. A maioria mostrou-se bastante receptiva. No dia seguinte, William Niblo visitou Olmsted, sendo seguido por Beach e por vários homens do mundo do espectáculo. Na manhã marcada, Barnum regressou à casa de Olmsted.

O rosto do homem era uma máscara e Barnum aguardou.

"Não gosto das suas referências, Mr. Barnum", disse o comerciante subitamente.

Barnum sentiu um aperto no estômago e balbuciou que sentia muito.

"Todos eles falam demasiado bem de si", continuou Olmsted e depois riu-se. "Na verdade, falam como se fossem todos seus sócios e pretendessem partilhar os lucros."

Barnum ficou profundamente satisfeito e Olmsted prosseguiu. Para comprar a colecção Scudder e entregá-la a Barnum, juntamente com o edifício, exigia um contrato de dez anos com uma renda de $3. 000 por ano. Barnum não se opôs e esperou que não surgissem mais exigências, mas Olmsted fez questão de mais um pormenor, sobre o qual dependia todo o negócio.

Insistiu em ter algum tipo de segurança. Barnum não oferecia quaisquer garantias e os poucos edifícios que possuía no Connecticut encontravam-se profundamente hipotecados. Olmsted foi inflexível. "Se pelo menos tivesse algum imóvel livre que pudesse apresentar como garantia, creio que poderia arriscar-me a fazer negócio consigo."

Barnum sabia que estava tudo em jogo. Não tinha qualquer segurança palpável, mas lembrou-se que, em tempos, na sua juventude, acreditara ser rico. Fora dono de Ivy Island. E ainda era. Tinham-lhe pregado essa partida, por que não pregá-la também a Olmsted? Decerto não havia nada de mal nisso. Afinal de contas, era um imóvel livre.

"Tenho cinco acres de terra no Connecticut", disse abruptamente, "livres de retenção e de hipotecas."

"Deveras? Quanto pagou pelo terreno?"

"Foi um presente do meu falecido avô, Phineas Taylor, que também me deu o nome."

"O seu avô era rico?"

"Era considerado abastado, por essas bandas."

Olmsted interrogou-se sobre como poderia Barnum ser capaz de se separar de uma propriedade tão valiosa e sentimental. Barnum não estaria a separar-se dela, pois esperava cumprir pontualmente os pagamentos pelo Museu.

Olmsted pareceu satisfeito. "Bem, creio que farei negócio consigo. Mas, seja como for, vou pensar no assunto e, entretanto, deverá encontrar-se com o administrador e com as herdeiras do património: chegue a acordo com eles e encontre-se aqui comigo, quando regressar à cidade, daqui a uma semana."

A semana seguinte foi um período de regateio. John Heath, administrador da família Scudder, queria $15. 000 pela colecção no interior do Museu. Barnum ofereceu-lhe $10. 000 e chegaram a acordo com o valor intermédio de $12. 000.

Quando Olmsted regressou à cidade, ficou satisfeito. Concordou em comprar a colecção e entregá-la, juntamente com o prédio, a Barnum. Heath tratou dos papéis necessários. Barnum surgiu na manhã combinada para assiná-los e tomar posse. Foi então que Heath o informou de que não havia papéis: a colecção e o edifício do Museu seriam vendidos a outro licitante. Os directores do Museu Peale, um rival de longa data do Museu Americano de Scudder, tinham oferecido $15. 000 e pago $1. 000 de sinal em dinheiro.

"Fiquei estupefacto", recordou Barnum. "Apelei-lhe à honra, ao que me replicou que não assinara qualquer contrato comigo, não estando, assim, legalmente comprometido, e que era seu dever fazer o melhor que pudesse pelas órfãs." Em desespero, Barnum dirigiu-se a Olmsted e implorou-lhe. Olmsted disse não poder fazer nada. Barnum sempre constituíra um risco, algo que não acontecia com os Pelae. Sendo obrigado a escolher, teria de seleccionar o arrendatário mais solvente e permanente. Tinha pena que Barnum tivesse de ser "lançado borda fora", mas negócio era negócio.

Se Barnum tivesse entrado em desespero e desistido, talvez acabasse relegado para a obscuridade, perdendo-se para sempre nas brumas do tempo, mas sentiu que aquele era um momento crucial na sua vida. Além disso, estava furioso. Por mais inútil que pudesse parecer, estava decidido a ripostar e reconquistar o Museu.

Investigou por sua conta os directores do Museu Peale e descobriu que nenhum membro da respeitável família Peale estava ligado à organização. Rubens Peale vendera por alguns milhares de dólares as suas curiosidades a uma companhia dirigida por um antigo banqueiro sem sucesso. O banqueiro e os seus comparsas eram burlões e não homens do mundo do espectáculo. Assim que deitassem as mãos ao Museu Americano, tencionavam vender ao público $50. 000 em acções, reter $30. 000 do dinheiro da venda para si e depois abandonar o empreendimento nas mãos dos accionistas.

Na posse destes factos, Barnum reuniu-se com Beach, do New York Sun, e com mais meia dúzia de outros editores metropolitanos importantes, e apresentou-lhes o relato do caso. "Se me garantirem o uso das vossas colunas, revelarei esta especulação." Beach, que três anos mais tarde viria a publicar o embuste de Poe sobre oito pessoas a bordo de um balão que teriam atravessado o Atlântico em três dias, estava sempre pronto para tudo. Os restantes editores, antecipando um bom escândalo, concordaram também em colaborar. Barnum começou de imediato a debitar parágrafo atrás de parágrafo sobre o carácter baixo dos directores de Peale e sobre a emissão falsa de acções. Face a isto, a quadrilha de Peale emitiu as suas acções... mas quase ninguém as comprou.

Entretanto, Barnum apressou-se a reunir-se com Heath. Queria saber quando estariam os directores de Peale a pensar pagar os restantes $14. 000 pelo Museu. Heath respondeu que a verba teria de ser entregue em sete semanas, no dia 26 de Dezembro de 1841, caso contrário a entrada seria confiscada e o negócio cancelado. Barnum tinha a certeza de que eles nunca respeitariam a data estipulada. Heath estava confiante que sim. Barnum explicou que teria de se ausentar da cidade devido a uma digressão com uma exposição, mas que o adiaria, caso tivesse a oportunidade de recuperar o Museu. "Se estiver disposto a fazer um acordo confidencial comigo", propôs Barnum, "caso estes cavalheiros não lhe paguem no dia 26 de Dezembro, ficarei com tudo no dia 27, por $12. 000. Irei correr esse risco e aguardar na cidade até essa data." O acordo pareceu ser do agrado de Heath e, mais tarde, Olmsted também viria a concordar.

Febrilmente, Barnum regressou à campanha de imprensa contra o grupo de Peale. Denegria-os a cada passo e as acções não vendiam. Em breve, tal como Barnum esperara, teve notícias do grupo de Peale. Queriam uma reunião no museu deles.

Dias depois, Barnum estava frente a frente com os seus inimigos mais opulentos. O ex-banqueiro e os seus directores eram todos sorrisos e amizade. E também mostravam respeito, pois reconheciam um camarada pirata em Barnum. Como não eram capazes de o derrotar, iriam comprá-lo. Disseram-lhe que tinham vindo a acompanhar-lhe de perto a carreira e que era prometedor. Queriam contratá-lo para gerir ambos os museus, pelo que lhe pagariam $3. 000 por ano. Barnum fez-se de inocente. Com gratidão, aceitou o emprego, a começar no dia 1 de Janeiro de 1842.

A reunião chegou ao fim e, enquanto Barnum se dirigia à porta, o banqueiro disse-lhe: "É claro, Mr. Barnum, que acabaram as suas crónicas nos jornais".

"Faço sempre o possível por servir os interesses dos meus empregadores", retorquiu Barnum.

Ao sair, sabia que estavam a rir-se às suas custas. Mas também sabia que seria o último a rir: "Eles pensavam que me tinham apanhado. Eu sabia que os tinha apanhado a eles."

Os cálculos de Barnum estavam correctos. Os directores de Peale, certos de que haviam eliminado a oposição, descontraíram-se. Uma vez que ninguém lhes iria tirar o Museu Americano, não viram necessidade de fechar o negócio. Decidiram reter as acções até que a má publicidade fosse esquecida, voltando então a emiti-las e comprando o Museu nessa altura. O dia 26 de Dezembro chegou e passou e o grupo de Peale não se preocupou em entrar em contacto com Heath, nem em cumprir a data do pagamento. Chegou então o dia 27 de Dezembro e Barnum, acompanhado por um advogado, encontrou-se com Heath e Olmsted. Quatro horas depois, o Museu Americano era o Museu Americano de Barnum. A era do espectáculo, que começara com Joice Heth, estava prestes a tornar-se uma realidade dominante na cena americana.

Phineas T. Barnum abriu as portas do seu Museu Americano na manhã do Dia de Ano Novo de 1842.

Na semana antes de assumir o controlo activo, conseguiu inspeccionar cuidadosamente a situação interior e exterior do Museu. A vizinhança agradava-lhe. Encontrava-se no centro da maior cidade americana e a que mais rapidamente crescia. Carreiras de coches e diligências despejavam centenas de potenciais clientes quase à sua porta. De um dos lados da entrada do Museu existia um salão de bilhar, que fora convertido em alojamento para a sua família, agora obrigada a sobreviver com $600 por ano, até que o Museu estivesse completamente pago. Do outro lado ficava uma chapelaria, propriedade de John N. Genin, que Barnum transformaria em figura nacional, e, além desse estabelecimento, existia também uma tabacaria e uma loja de roupa.

Do outro lado da rua, ocupando um quarteirão inteiro, estava a torre de granito conhecida por The Astor House, construída por John Jacob Astor uma década antes, e quartel-general da maioria dos estadistas e políticos em visita a Nova Iorque. Nas redondezas ficava a St. Paul's Church e um estúdio que em breve albergaria o estabelecimento de daguerreótipos de Mathew B. Brady.

De todos os empresários da vizinhança, provavelmente Brady era o que mais fascinava Barnum. Quando o conheceu, o esguio fotógrafo irlandês de aparência erudita tinha vinte e um anos de idade. Brady estudara pintura com Samuel F. B. Morse, o inventor do telégrafo. Este conhecera Daguerre na Europa e regressara ao seu país com o objectivo de fazer experiências com a fotografia com colódio húmido. Isto veio a interessar Brady mais do que a pintura e, após cinco anos de estudo, abriu a sua galeria à frente do Museu de Barnum. Vinte anos depois, levaria uma carruagem que servia de câmara escura e um grupo de assistentes para os campos de batalha da Guerra Civil, quase perderia a vida em Fredericksburg e tornar-se-ia imortal com as reproduções violentas da acção em Buli Run, Antietam e Gettysburg. Mas, por enquanto, com o seu negócio na Broadway, contentava-se em realizar daguerreótipos formais de Abraham Lincoln, Edgar Allan Poe, John Howard Payne e James Fenimore Cooper. Eventualmente, acabaria também por ter uma fotografia do amigo Barnum, olhando de esguelha para uma bailarina morena que trabalhava no Museu.

Igualmente na vizinhança, a uma distância de poucos minutos a pé, encontravam-se outras duas celebridades que se envolveriam com Barnum ao longo da vida do mestre de espectáculos. Um deles, que começou como amigo e admirador e acabou como inimigo, era James Gordon Bennett, o qual fundara o ácido New York Herald havia sete anos. Utilizando os mesmos métodos extravagantes que Barnum empregou noutro campo, Bennett, um imigrante escocês corpulento e vigoroso, transformara uma folha única, editada a partir de uma cave, numa instituição nacional. Fizera a cobertura em primeira mão do grande incêndio de vinte milhões de dólares de Nova Iorque, em 1835, obtinha notícias europeias dias antes dos seus rivais, uma vez que enviava o seu próprio barco ao encontro dos navios que se dirigiam à América, e publicara as primeiras cotações do mercado bolsista. Ao intervir no caso do homicídio da prostituta Ellen Jewett, e ao relatar passo a passo como fora publicamente agredido à bengalada por um antigo sócio, elevou a tiragem do jornal para 9. 000 e, por fim, para

  1. 000 cópias. Ridicularizava os católicos, os protestantes e a Bíblia. "Não tenho Moisés em grande conta, " escreveu. "Um homem que demora quarenta anos a atravessar um deserto com um grupo de jovens não pode passar de um mandrião." Foi ele quem enviou Stanley para a África mais profunda, a fim de encontrar Livingston. Logo desde o início, embora enganado pelo caso Joice Heth, respeitou o entusiasmo e a forma de publicidade de Barnum. Chamou-lhe "Napoleão dos Fornecedores Públicos". Mais tarde, viria a chamar-lhe ladrão e vigarista.

A outra celebridade vizinha que se envolveu com Barnum, e amigo de toda a vida (embora visse demasiada "fealdade e deformidade" no mundo para apreciar as aberrações de Barnum), era Horace Greeley, o impressor de Nova Inglaterra, de trinta e um anos, um autêntico génio do mundo do jornalismo e parte integrante da consciência da América. Meses antes de Barnum assumir o Museu, Greeley fundara o New York Tribune numas águas-furtadas sobranceiras à calçada de Ann Street. Era um homem alto e desajeitado, de cabelo ralo e faces pálidas, de cabeça grande e míope, e um rosto que lembrava a avozinha preferida de alguém. Bennett odiava-o e chamava-lhe "o mais completo idiota ligado ao jornalismo, " insistindo que "uma abóbora grande da Nova Inglaterra... seria um editor tão capaz como Horace." Mas Emerson admirava a mente de Greeley, tal como também o viriam a admirar 300. 000 leitores.

Greeley combateu monopólios e defendeu sindicatos. Lutou contra a escravatura, mas ofereceu-se para se tornar fiador de Jefferson Davis. Patrocinou Mark Twain e os seus inocentes no estrangeiro17, publicou "O Corvo", de Edgar Allan Poe, apresentou à América os escritos de Charles Dickens e contratou Karl Marx como correspondente estrangeiro. Foi amado pelos pobres, pois queria que cada um possuísse um pedaço gratuito da terra pública, ao mesmo tempo que era odiado, por apoiar as leis de recrutamento obrigatório durante a Guerra Civil. Tomou parte na cruzada pelo desenvolvimento do Oeste, publicando o conselho de John Babsone Lane Soule, "Jovem, vai para oeste!" - embora Greeley se referisse à Pennsylvania e não à Califórnia. Considerou Ulysses S. Grant uma desgraça e, para se livrar dele, concorreu a presidente. Sofreu bastante ao longo da campanha, pelo que protestou: "Fui injuriado tão severamente que já nem sei se estou a concorrer à presidência ou à penitenciária." Obteve um resultado de quarenta e três por cento, mas perdeu por 700. 000 votos. Honrava constantemente a mesa frugal de Barnum, tendo permanecido seu amigo íntimo e conselheiro durante toda a vida.

Após investigar o bairro em redor do Museu e conhecer muitos dos seus colegas empresários, Barnum retirou-se para o interior sombrio do expositor cavernoso. A entrada dava para um átrio grande, decorado com criaturas grotescas e relíquias vetustas penduradas nas paredes, enfiadas em caixas de vidro, animadas em jaulas e erectas em alcovas escuras. Amplas escadarias elevavam-se de forma convidativa através dos cinco andares até um telhado vazio, o qual Barnum rapidamente converteu em salão

 

17 Referência à obra The Innocents Abroad, escrita por MarkTwain após o regresso da viagem pelo Mediterrâneo e pela Terra Santa patrocinada por Greeley.

 

de refrescos, cercado por vasos de flores alegres e de cedros.

No dia da inauguração, Barnum teve de se contentar em mostrar $50. 000 de materiais herdados de Scudder. Havia panoramas e dioramas rachados e bolorentos de "A Caverna das Fadas" e de "A Criação", modelos em miniatura cobertos de pó de Dublin, Paris e Jerusalém. Havia uma exposição de sopro de vidro, um pássaro automatizado que batia as asas, um robô e uma curiosa máquina mecânica de tricotar, operada por um cão. Viam-se filas de animais empalhados, que contrastavam com jaulas de criaturas vivas, onde se incluíam uma anaconda, um orangotango e um crocodilo. Havia o braço ensanguentado de um pirata chamado Tom Trouble, um trabalho em cera representando os perigos da intemperança e, finalmente, a galeria de arte, com quadros de americanos famosos. Era interessante, mas muito calmo e estático. E já lá estava há demasiado tempo.

Quase de um dia para o outro, tornou-se evidente o toque de Barnum. O ávido mestre de espectáculos procurou excentricidades maiores, mais acção e divertimento, mais variedade. "As atracções temporárias do Museu eram constantemente diversificadas, " disse, "e cães instruídos, pulgas diligentes, autómatos, malabaristas, ventríloquos, estátuas e quadros vivos, ciganos, albinos, rapazes gordos, gigantes, anões, equilibristas em corda, "ianques" vivos, pantomimos, música instrumental, canto e dança em grande variedade... o primeiro teatro de fantoches inglês neste país, fantoccini italianos [marionetas]... projecção contínua de diapositivos, índios americanos que recriavam em palco as suas cerimónias de guerra e religiosas... todas estas, entre outras, foram sucessos estrondosos."

Tudo isto era bom e razoável por vinte e cinco cêntimos por bilhete, as crianças pagando meio bilhete, mas não era suficiente para Barnum, que queria um Museu que entusiasmasse e excitasse. Queria-o na boca do mundo. Com este fim em vista, caçou cada nova atracção com o fervor de um cavaleiro medieval na demanda do Santo Graal.

Em poucas semanas, Barnum conseguiu deixar o Museu menos bafiento e pedante. Transformou-o num parque de diversões. Ao procurar algo distintivo para publicitar, deparou-se com um engenhoso modelo funcional das Cataratas do Niágara, criado por um artista paciente chamado Grain. O modelo tinha apenas quarenta e cinco centímetros de altura, mas pela minúscula catarata escorria água verdadeira e os edifícios, árvores e penhascos circundantes tinham sido criados à escala. Barnum pagou $200 ao artista pelo modelo, instalou-o num lugar de honra e depois criou anúncios quase tão imponentes como o próprio modelo. "O Grandioso Modelo das Cataratas do Niágara, Com Água Verdadeira, " berravam os anúncios. O Museu americano encheu-se de visitantes, incluindo muitos casais recém-casados e em lua-de-mel que não podiam visitar o verdadeiro Niágara, todos eles cheios de expectativa. Ao depararem com o modelo raquítico, ficavam, regra geral, desapontados, mas, explicou Barnum, "tinham o Museu todo para visitar por 25 cêntimos, acabando o problema inicial por ser ignorado".

A publicidade chamou a atenção dos Comissários da Junta da Água, do recém-inaugurado reservatório de Croton, e Barnum foi convocado à sua presença. Recordaram-no com severidade de que a conta da água que pagava era de apenas vinte e cinco dólares por ano. Era assim tão baixa, pois presumia-se que iria utilizar quantidades normais, nunca o suficiente para criar cascatas para as cataratas do Niágara. Com algum embaraço, Barnum disse aos comissários que não deviam acreditar em tudo o que liam nos jornais. Explicou que estas cataratas do Niágara apenas precisariam de uma pequena bomba e de um único barril de água, utilizado continuamente, e que "se oferecia para pagar um dólar por gota" de água empregue a mais do que esse barril em cada mês.

Embora os clientes continuassem a ser atraídos para as suas cataratas do Niágara, Barnum ansiava por manter os críticos afastados. Quando Louis Gaylor Clark, editor do influente Knickerbocker, o veio visitar, Barnum procurou desesperadamente desviá-lo das cataratas. Contudo, Clark ficou curioso com as multidões e insistiu em segui-las. Nervoso, Barnum explicou que estava a ser exibido um modelo das cataratas do Niágara.

"Ó, ah sim, sim, já me lembro, " disse Clark. "Reparei nos seus anúncios e cartazes magníficos a publicitar as cataratas do Niágara com água verdadeira. Tenho muita curiosidade em ver essa catarata a funcionar."

Enquanto Clark subia para uma cadeira, a fim de obter um melhor ponto de vista sobre as cabeças dos clientes à sua frente, Barnum ganhou coragem e começou rapidamente a louvar o objecto exposto. "Orgulho-me do facto de, no que diz respeito a originalidade e ingenuidade, esta criação se encontrar muito à frente de qualquer invenção dos tempos modernos."

Clark mirou o modelo ofegante e enfezado por uns instantes e depois espreitou para Barnum. "Original! Sim, é deveras original. Nunca sonhei que pudesse existir tal coisa. Nunca na minha vida tinha visto algo assim..." Depois fez uma pausa e declarou: "E espero, muito sinceramente, nunca mais voltar a ver!"

Antes de as cataratas do Niágara perderem o seu encanto, Barnum instalou maravilhas fisicamente mais coerentes com a publicidade. Sempre se sentira atraído pelos extremos da dimensão humana e, sempre que encontrava um gigante, contratava a criatura descomunal para o Museu. O primeiro colosso impressionante que exibiu foi Robert Hales, um quaker de dois metros e vinte que pesava cerca de duzentos e trinta quilos. Quando o público se fartou deste Golias, Barnum descobriu Eliza Simpson, que rivalizava com Hales em altura. Depois casou o par legalmente, no palco do seu Museu.

Mais tarde, Barnum obteve os serviços do coronel Routh Goshen, um árabe nascido em Jerusalém, com dois metros e meio de altura e cerca de duzentos e noventa quilos de peso. A seu lado encontrava-se um elegante gigante belga, com dois metros e trinta, chamado Monsieur Bihin. Entre os dois existia uma rivalidade ardente e, um dia, após uma troca de epítetos, Goshen e Bihin pegaram em armas e prepararam-se para se agredir. Uma dúzia de empregados do Museu interveio até que Barnum fosse chamado do escritório do rés-do-chão.

O que mais espantou Barnum não foi a violência eminente, mas a acção pouco profissional dos participantes. "Escutem! ", gritou-lhes. "Isso está tudo muito bem. Se querem lutar um com o outro, e ficarem estropiados, ou quem sabe matarem-se um ao outro, o problema é vosso. Mas eu tenho interesses no assunto: vocês os dois assinaram um contrato comigo e, se esse duelo for avante, eu e o público temos o direito de participar. Será anunciado e terá lugar em palco... Nenhuma outra exibição de vossa parte seria uma melhor atracção e, se se matarem um ao outro, o nosso contrato poderá terminar com o vosso duelo."

Barnum estava a falar a sério e a sua profunda lealdade à arte do espectáculo divertiu de tal forma Goshen e Bihin que estes caíram nos braços um do outro, riram-se à gargalhada e a paz foi restaurada.

A par dos gigantes, Barnum nutria uma verdadeira afeição pelo valor comercial dos índios selvagens. O Leste civilizado e sedentário sentia uma atracção irresistível pelos ataques e massacres levados a cabo pelos peles-vermelhas no Oeste, especialmente pelos Sioux, no Midwest, ali tão perto. De início, Barnum tentou saciar esta curiosidade contratando actores locais para comporem e representarem índios, mas em breve as audiências reconheciam a camuflagem tosca. Finalmente, Barnum conseguiu importar do lowa uma companhia de índios verdadeiros (bravos, squawsepapooses) com um mínimo de aspecto civilizado. Nenhum deles alguma vez vira uma linha de caminho de ferro, um barco a vapor ou um trólei puxado por cavalos, até à viagem para Nova Iorque. Barnum instalou-os na sala maior do quinto andar. Viviam de acordo com um estilo comunal, deitando-se no chão e cozinhando as suas próprias refeições. Todos os dias apresentavam danças de guerra desenfreadas no palco do Museu. Também muitas vezes ficavam tão entusiasmados, envolvendo-se de forma tão realística no manejo dos tomahwks e das facas, que Barnum se viu obrigado a proteger os convidativos escalpes da orquestra e da audiência com uma monumental barreira de corda entre o palco e o público.

Após uma semana, tentando variar os desempenhos, Barnum sugeriu uma Dança índia de Casamento, a ter lugar duas vezes por dia. Antes da dança inaugural, o chefe da tribo exigiu o tradicional "cobertor de algodão, grande e novo, no valor de dez dólares, para o noivo oferecer ao pai da noiva". Da primeira vez, Barnum acedeu prontamente, mas, quando descobriu que os índios exigiam um cobertor novo antes de cada Dança de Casamento, a fim de preservar a tradição, ficou espantado e protestou. Afinal de contas, era tudo só a fingir. O chefe não se demoveu. Por mais fictícia que fosse a cerimónia, a Dança do Casamento era bastante real. Quando Barnum se viu forçado a gastar $120 em cobertores de dote numa única semana, mudou o programa de apresentações. Depois, Dohumme, uma das mais belas squaws da tribo, morreu de forma inesperada e os selvagens do lowa ficaram descoroçoados. Enterraram-na nos arredores de Nova Iorque, deixaram alimentos no telhado do Museu para os bons espíritos e regressaram às suas planícies distantes.

Nessa altura, contudo, já Barnum apresentara mais uma dúzia de outras diversões. Começou a encenar concursos como atracções especiais. Realizou concursos de cães, de pássaros, de frangos, de flores e, finalmente, de bebés, com prémios pecuniários e medalhas para os vencedores e um reconhecimento considerável por parte da imprensa. O concurso dos bebés foi o que obteve maior sucesso. Barnum limitou o número de concorrentes a uma centena. Quando entregou pessoalmente o primeiro prémio, quase que rebentou um motim por parte das restantes noventa e nove mães. Barnum escapou ileso mas, a partir daí, o vencedor de cada concurso de bebés foi anunciado por Barnum através de um comunicado... a uma distância segura.

Mesmo gostando do seu trabalho, Barnum tinha pouco interesse pessoal nas exibições e promoções originais. "Aprecio um tipo de divertimento de um nível superior", confessou, "e frequentava com assiduidade a ópera, concertos de música clássica, palestras, e outros acontecimentos do género. Mas o meu objectivo era fazer dinheiro e sabia que a única forma de ganhar dinheiro com os meus espectadores era dar-lhes muitas e boas atracções por uma pequena quantia."

Vivia frugalmente, obcecado com a necessidade de pagar o que devia a Olmsted e ser o seu próprio patrão. Uma bela tarde, seis meses depois de ter assumido o Museu, Barnum estava sentado na bilheteira, mordiscando um pouco de carne de conserva e pão, quando lhe surgiu Olmsted.

Este ficou surpreendido. "É assim que almoça? ", perguntou.

"Não como uma refeição quente desde que adquiri o Museu, excepto ao domingo", replicou Barnum, "e não penso voltar a fazê-lo durante a semana até liquidar a minha dívida."

Deliciado, Olmsted congratulou-o. "Ah! Vai sair-se bem e pagar o Museu antes do fim do ano."

Na verdade, Barnum precisou de dezoito meses para pagar a Olmsted os $12. 000 que devia pela colecção Scudder. A exibição que tornou isso possível, e uma das mais constantes fontes de rendimento, foi a Sala de Palestras do Museu.

A Sala de Palestras de Scudder era "apertada, mal concebida e inconveniente". Os oradores eram monótonos e só abria uma tarde por semana. Barnum estava determinado a conseguir algo mais. Com efeito, queria um teatro, mas por todo o lado se condenava o teatro como sendo uma ferramenta de Satanás.

O teatro em Nova Iorque encontrava-se em maré baixa. Apenas uma mancheia de salas eram consideradas minimamente respeitáveis. Uma mulher sem acompanhante não poderia assistir a uma peça, nem num camarote nem na plateia. A galeria, ou terceiro balcão, de todos os teatros era terreno de caça de prostitutas e local de encontros amorosos entre dândis e suas acompanhantes. Salvo em três salas, no palco representavam-se dramas de muito fraca qualidade.

Barnum dispôs-se a reparar a situação e a ter o seu próprio teatro. Reconstruiu a Sala de Palestras, transformando-a "num dos mais belos e amplos salões de diversão da cidade de Nova Iorque". Eliminou o terceiro balcão. Não vendia álcool no local e, quando percebeu que os detentores de bilhetes deixavam o teatro para consumir bebidas entre os actos, passou a barrar a entrada gratuita a quem saísse do teatro nos intervalos. As peças eram morais, educativas e, muitas vezes, religiosas, tendo sido banida "toda a vulgaridade e profanidade". Fez questão de convidar mulheres e crianças a assistir às peças, garantindo-lhes que as encenações se destinavam a "todos que não aprovam as distracções, a decadência, a profanidade, a vulgaridade e outras abominações que caracterizam o teatro moderno".

No palco da Sala de Palestras de Barnum, The Drunkard iniciou a sua longa carreira. Foi aí representada uma das primeiras versões de A Cabana do Pai Tomás, adaptada do vastamente lido romance de Mrs. Stowe. Christian Martyrs introduziu o teatro espectáculo, com os seus cenários da Roma pagã, os crentes atirados aos leões e a cruz de Constantino iluminada no céu. Moses in Egypt foi outro espectáculo popular, apesar da objecção de James Gordon Bennett quanto à glorificação de "um mandrião".

Até mesmo os dramas e as comédias de Shakespeare foram considerados interessantes, depois de Barnum ter conseguido que fossem "despojados de todas as características repreensíveis quando encenados no meu palco."

Muitos actores que mais tarde viriam a tornar-se famosos fizeram a sua estreia no palco puritano de Barnum. O mais conhecido de entre eles foi o inglês Edward A. Sothern, que conquistou as graças do proprietário com a sua propensão para as partidas e que se tornou popular em Our American Cousin.

A Sala de Palestras também se dedicava a um tipo de vaudeville inocente. O incrível Dan Rice, um jóquei que veio a tornar-se o primeiro palhaço da América, começou a sua carreira apresentando um porco letrado chamado Lord Byron, dedicando-se posteriormente a um período de piadas e de canções no palco de Barnum. O palhaço ainda não evoluíra para a peruca, o nariz redondo, a cara branca e as calças largas. Rice surgia como o Tio Sam das suíças.

Quando Rice decidiu que chegara a altura de extravasar as paredes do Museu, fez-se à estrada com a sua própria companhia. No auge da carreira, fazia $100. 000 por ano, recebeu a patente de coronel do presidente Zachary Taylor e entre os seus melhores amigos contava-se Stephen A. Douglas18 e Robert E. Lee19. Depois de a esposa o ter deixado, a sorte mudou. Rice tornou-se um alcoólico e perdeu popularidade ao apoiar a causa sulista. Publicou um jornal, foi derrotado na eleição para o Congresso pela Pensilvânia e fez campanha pela nomeação à presidência dos Estados Unidos. Morreu com setenta e sete anos, falido e amargo, em casa de familiares de Nova Jérsia.

Outro personagem que se formou na Sala de Palestras de Barnum foi Tony Pastor, que, com nove anos, fugira da quinta do pai para fazer uma actuação de canto e dança. Pastor tornou-se mestre de espectáculo com vinte e quatro anos. Foi subindo e

 

18 Stephen Arnold Douglas (1813-1861) foi membro da Assembleia de Representantes e senador pelo estado de Illinois.

19 General Robert Edward Lee (1807-1870), proeminente militar americano, é acima de tudo conhecido pela sua actuação como líder militar do Sul durante a Guerra Civil americana.

 

expandindo-se cada vez mais, de um teatro reles na Broadway até uma grande cervejaria em Bowery e, finalmente, o justamente respeitado Tony Pastor's New Fourteenth Street Theater, onde Lillian Russel fez a sua primeira aparição pública. Com o passar dos anos, o anafado Pastor com o seu bigode, que memorizara mil e quinhentas canções, entrou em competição com o seu mentor, apresentando os mais populares espectáculos de variedades em Nova Iorque e inventando o sorteio de prémios entre a audiência uma vez por semana.

O sucesso da Sala de Palestras de Barnum acabou por permitir-lhe alargá-la para além dos limites do Museu. Com frequência, três mil pessoas enchiam diariamente o teatro moral e, durante os feriados, as sessões, realizadas de hora a hora à matiné e ao serão, esgotavam. Um biógrafo teatral comentou que a maioria destas pessoas "teria ficado horrorizada se lhes dissessem que tinham frequentado o teatro".

A mestria de Barnum em relação ao mundo do espectáculo era evidente não só no seu instinto sagaz, que lhe permitia oferecer às massas aquilo que elas queriam, mas também na capacidade de lhes ditar o desejo por aquilo que Barnum pensava que deviam querer. A mais lamentável contribuição de Barnum para a história foi a moderna publicidade de grande pressão.

"Se existe um cânone de santos da publicidade", escreveu Philip Guedalla, "um Rol de Honra da publicidade, uma hierarquia de Impulsionadores, perante cujas imponentes (e favoravelmente exibidas) imagens os inúmeros Comodistas de dois continentes se prostram, de certeza que a figura de Mr. Barnum se encontra bem próxima do topo..." Numa gravação da voz de Barnum, voltada a editar em 1940, o Professor William Lyon Phelps chamou a Barnum "o maior psicólogo que alguma vez viveu... o Shakespeare da publicidade".

Todos os homens têm a sua estrela. A de Barnum era um ponto de exclamação. "Compreendi a fundo a arte da publicidade", escreveu, "não só através da tinta de imprensa, que sempre utilizei profusamente, e à qual confesso dever bastante pelo meu sucesso, mas também por transformar todas as circunstâncias a meu favor. Fazer do Museu a maravilha da cidade e o assunto de conversa de todos foi a minha obsessão." Sempre que lhe perguntavam qual o segredo, Barnum respondia: "A publicidade é como o conhecimento: em pouca quantidade é algo perigoso." Afirmava que o único líquido que um homem poderia utilizar em excesso de forma segura era a tinta das impressoras. Os seus anúncios não só acentuavam o invulgar, como também forçavam os leitores a submeter-se, graças a uma reiteração persistente. Quando um anúncio surge pela primeira vez, disse Barnum: "um homem não o vê; da segunda vez repara nele; da terceira vez, lê-o; da quarta, pensa nesse anúncio; da quinta comenta-o com a esposa; e da sexta ou sétima, está pronto para adquirir o produto."

A sua publicidade começou com o próprio Museu. Numa manhã, era um edifício de mármore, imenso e pesado, e, espanto dos espantos, na outra um arco-íris empolgante, um caleidoscópio de cor e de curiosidade. De um dia para o outro, Barnum instalou pinturas ovais monstruosas à volta do quarto piso do edifício, de "pássaros, animais e coisas arrepiantes" e bizarras. A isto acrescentou, tal como Lyman Abbott se recorda de observar na rua, "uma colecção de vidros garridos e iluminados... mantidos em ebulição nas paredes do Museu por um qualquer aparelho", a fim de atrair o trânsito nocturno. "Uma caixa de cores garridas", foi um comentário ácido sobre o Museu, mas Barnum preferia chamar-lhe a sua "magnífica revista pictórica", e calculou que isso viesse acrescentar cem dólares por dia aos seus lucros.

Na varanda do terceiro andar, sobranceira à rua, Barnum instalou uma grande banda desarmónica para tocar serenatas aos pedestres. Flâmulas esvoaçantes anunciavam: "Música gratuita para as Massas." Juntavam-se multidões para ouvir os concertos e depois recuavam. "Fiz das tripas coração para seleccionar e manter a mais reles banda que consegui encontrar", disse Barnum, "cujas notas dissonantes levavam a multidão ao interior do Museu, para longe da minha orquestra exterior." Depois, de uma forma defensiva, acrescentou: "É claro que a música era má. Quando as pessoas esperam conseguir "alguma coisa por coisa nenhuma" quase de certeza que vão ser enganadas."

Quando um tocador de trompete procurou trabalho na banda de Barnum, ficou surpreendido ao ser contratado nesse preciso momento. Mas ficou ainda mais espantado ao passarem várias semanas sem receber salário e dirigiu-se ao jovem mestre de espectáculos. "Pagar! ", bradou Barnum. "Eu, pagar-lhe a si? Nem pensar. É o senhor que deveria pagar-me. Parece não entender, meu jovem amigo, que esta banda é composta por homens que estão a aprender a tocar e querem um bom local ao ar livre para praticar e para se habituarem a tocar em conjunto. Não se importam de pagar, e é justo que assim seja, pois em nenhum outro local da América um músico zeloso poderá progredir na sua arte como aqui, na banda do grandioso Museu Americano de Barnum."

Muitas vezes, especialmente em feriados, Barnum pendurava flâmulas e bandeiras sobre a rua. Por ocasião do primeiro Quatro de Julho no Museu, esticou uma corda de bandeiras americanas sobre a Broadway e prendeu-a a uma árvore no adro da St. Pauis Church. À medida que as multidões se aglomeravam em frente do Museu para um concerto de música festiva, dois membros da igreja acercaram-se de Barnum na rua e protestaram contra o uso da sua propriedade para os anúncios. Se não retirasse a corda com as bandeiras, eles próprios iriam cortá-la. Barnum avaliou o humor dos espectadores que se iam juntando e virou-se para os clérigos. "Gostava de os ver a lançar ao chão a bandeira americana no Quatro de Julho", gritou. "Devem ser britânicos, para proferirem tal ameaça. Mas, se tentarem derrubar a nossa bandeira neste aniversário da liberdade americana, mostro-lhes mil pares de mãos ianques numa questão de minutos!" Os espectadores começaram a resmungar de forma ameaçadora e os clérigos fugiram para a segurança da igreja.

A juntar aos seus elementos visuais berrantes, Barnum instalou poderosos holofotes de cálcio (os primeiros a surgir em Nova Iorque) no cimo do telhado do Museu, transformando todas as noites a escuridão em dia, e as luzes brilhantes atraíam mais clientes do que traças.

O sentido publicitário de Barnum transformava muitas vezes o encontro mais fortuito num anúncio público. Um dia, um pedinte rechonchudo pediu uma esmola. Em vez disso, Barnum ofereceu-lhe um emprego a um dólar e meio por dia. Entregou cinco tijolos ao pedinte confuso.

"Agora", indicou Barnum, "vá colocar um tijolo no passeio da esquina da Broadway com Ann Street. Outro junto do Museu. Um terceiro junto da Astor House, diagonalmente oposto à esquina da Broadway com Vesey Street. Coloque o quarto no passeio em frente da St. Paul's Church. Depois, com o quinto tijolo na mão, percorra rapidamente o circuito, trocando de tijolo em cada ponto e não diga nada a ninguém."

O pobre homem ficou estupefacto. "Qual o objectivo de tudo isto?"

Barnum aconselhou-o a não se preocupar com o fim em vista. "É para minha diversão, e, a fim de me assistir devidamente, tem de parecer surdo que nem uma porta. Ostente um ar sério. Não responda a perguntas. Não preste atenção a ninguém. Cumpra rigorosamente a sua tarefa e, a cada hora que passe pelo relógio de St. PauPs, mostre este bilhete à porta do Museu. Entre e passeie solenemente por cada corredor do edifício. Depois saia e recomece o seu trabalho."

O pedinte afastou-se com os cinco tijolos e deu início à idiotice. Meia hora depois, era seguido por mais de quinhentos curiosos. Passada uma hora, a multidão duplicara. Quando o flautista de Hamelin assentador de tijolos entrou no Museu, dezenas de pessoas compraram bilhete para o seguir. Acena repetiu-se durante vários dias e o negócio de Barnum verificou um aumento satisfatório. Contudo, quando a polícia teve conhecimento deste truque publicitário, Barnum foi forçado a retirar o assentador de tijolos, considerado um aborrecimento público e uma obstrução ao tráfego.

Acima de tudo, é claro, Barnum utilizou a imprensa. "Publiquei colunas inteiras nos jornais, apresentando as maravilhas do meu estabelecimento", comentou Barnum. "Os "botas-de-elástico" arregalaram os olhos, espantados com um homem que gastou centenas de dólares para anunciar uma exibição de "peles de macaco empalhadas". Mas esses mesmos botas-de-elástico acabaram por pagar o ingresso..." Barnum investiu a maior parte dos lucros do primeiro ano em anúncios pagos. Os jornais mostraram-se receptivos. Abriram-lhe as colunas das notícias gratuitamente, e foi aí que obteve os maiores sucessos. Entre os primeiros destes sucessos encontra-se a Sereia das Fiji, um dos embustes mais deliberados e cuidadosamente planeados da história do mundo do espectáculo.

A saga da Sereia das Fiji teve início em Calcutá, em 1817. Aí, o capitão de um navio com destino a Boston deparou com "um espécime preservado de uma verdadeira sereia, obtido, segundo garantia, de marinheiros japoneses". Tão impressionado ficou o capitão com esta maravilha náutica mumificada, um rosto humano agonizante com um corpo coberto de escamas e com as barbatanas de um peixe, que desviou $6. 000 dos fundos do navio para a adquirir. Abandonando o navio a um imediato, o capitão viajou para Londres com a sua aquisição, em busca de fortuna.

Exibiu a sereia num salão de café de Piccadilly e, durante algum tempo, a criatura atraiu trezentos curiosos por dia. Aquilo que viram foi relatado pelo reverendo Dr. Philip na Gentlemen's Magazine, de Julho de 1822:

"A cabeça é quase do tamanho da de um babuíno. Possui uma leve camada de cabelo preto, liso e sem tendência para encaracolar. A cabeça encontra-se virada para trás e o semblante ostenta uma expressão de terror, o que lhe confere o aspecto de uma caricatura do rosto humano. As orelhas, o nariz, os lábios, o queixo, o peito, os mamilos, os dedos e as unhas assemelham-se aos da figura humana. A aparência dos dentes é prova suficiente de que se encontra na idade adulta... O comprimento do animal é de noventa centímetros.

"A semelhança com espécie humana cessa imediatamente abaixo das mamas... A partir do ponto em que termina a figura humana, cerca de trinta centímetros abaixo do vértice da cabeça, assemelha-se a um peixe grande da espécie do salmão. Está completamente coberta de escamas... A figura da cauda é exactamente a que é dada na habitual representação da sereia. Foi capturada por um pescador, algures no norte da China."

Quando as receitas baixaram de forma abrupta, o capitão regressou a Boston com a sereia. Fez um seguro à curiosidade, colocou-a num local protegido e fez-se novamente ao mar para pagar ao empregador os $6. 000 emprestados dos fundos do navio. Quando morreu, a única propriedade que deixou ao filho marinheiro foi a sereia. O marujo preferia dinheiro a uma raridade e vendeu a coisa a Moses Kimball, proprietário do Boston Museum. Mas este, possivelmente receando o ridículo, decidiu não a exibir e, no início do Verão de 1842, levou-a a Nova Iorque, para mostrá-la a Barnum.

Este gostou imediatamente da sereia, mas Joice Heth continuava-lhe fresca na memória. Trouxe um naturalista em quem confiava e perguntou-lhe se aquela coisa era verdadeira. O cientista examinou-a e não conseguiu descobrir provas de embuste. A sereia era perfeita. Nem sequer imaginava como poderia ter sido fabricada.

"Por que razão acha que terá sido fabricada? ", perguntou Barnum.

"Porque não acredito em sereias", replicou o naturalista.

Mas Barnum acreditava em sereias. Comprou de imediato a criatura a Kimball e depois estudou a forma de vender o objecto ao público em geral, pois tinha a certeza de que o público seria tão céptico como o naturalista. A sereia não podia simplesmente ser colocada no Museu e anunciada. Primeiro, o público teria de se tornar receptivo. Era preciso uma apresentação. Analisando o problema, Barnum resolveu-o prontamente e meteu mãos à obra.

Poucas semanas depois, surgiu no New York Herald um boletim informativo de um correspondente em Montgomery, no Alabama. Tratava de assuntos locais, colheitas, política e, de forma bastante casual, seguía-se um parágrafo sobre "o Dr. Griffin, agente do Lyceum of Natural History em Londres, recentemente chegado de Pernambuco, que tem em sua posse uma curiosidade extraordinária, nada mais nada menos do que uma verdadeira sereia, recolhida nas ilhas Fiji e preservada na China, onde o Doutor a comprou por uma soma avultada para o Lyceum of Natural History". Dez dias depois, surgiu num outro jornal de Nova Iorque um boletim semelhante de Charleston, na Carolina do Sul. Pouco depois, era publicado num terceiro jornal de Nova Iorque um terceiro boletim, oriundo de Washington, D. C. O último correspondente acrescentava uma nota: esperava "que os editores da Capital implorassem para ver a extraordinária curiosidade antes que o Dr. Griffin embarcasse para Inglaterra".

Pouco a pouco, o honrado e misterioso Dr. Griffin aproximava- se de Nova Iorque. Fez uma pausa de alguns dias em Filadélfia e ficou tão grato pelo alojamento concedido pelo gerente do hotel que lhe permitiu dar uma espreitadela à sereia. Entusiasmado, o gerente pediu para convocar uns poucos amigos, alguns deles editores, para testemunharem aquela maravilha, ao que o Dr. Griffin acedeu. Os editores chegaram e foram conquistados. A imprensa encheu-se com a Sereia das Fiji e os jornais de Nova Iorque aguardavam ansiosamente.

O Dr. Griffin registou-se no Pacific Hotel de Nova Iorque e foi cercado por jornalistas. Ninguém reconheceu na sua digna pose britânica o rosto familiar de Levi Lyman, advogado, adepto de partidas e colaborador de Barnum no embuste de Joice Heth. Enquanto Lyman permitia que a imprensa admirada visse o espécime raro, Barnum atarefava-se nos bastidores. Tinha prontas três xilogravuras românticas de uma sereia e entregou-as a três editores de jornais de domingo, resmungando que esperara adquirir a sereia e fracassara, sendo que agora as xilogravuras já não possuíam qualquer utilidade para si. As imagens foram acompanhadas por artigos extensos e o furor cresceu. Entretanto, Barnum imprimiu dez mil cópias de um panfleto publicitário sobre a Sereia das Fiji e guardou-os.

Quando chegou a altura correcta, Barnum distribuiu os panfletos a um cêntimo cada. Depois, colocando-se totalmente à margem, enviou para todos os jornais avisos públicos que declaravam que "de acordo com numerosas e urgentes solicitações de cavalheiros científicos desta cidade, MR. J. GRIFFIN, proprietário da Sereia, recentemente chegado de Pernambuco, na América do Sul, consentiu expô-la ao público, por uma única semana!" O local escolhido fora Concert Hall, na Broadway, e a entrada custava vinte e cinco cêntimos.

Milhares de pessoas visitaram a miserável criatura, enquanto Lyman, disfarçado de professor inglês, apresentava o seu comentário científico. Após uma semana, a Sereia das Fiji foi mudada para o Museu Americano, sem qualquer objecção. À frente da entrada do Museu, Barnum içou uma enorme bandeira, representando uma sereia com cinco metros de comprimento.

Quando viu a bandeira, Lyman, num raro momento de consciência, ou talvez por isso tornar mais difícil a sua tarefa de orador, explodiu e disse a Barnum que teria de ser retirada imediatamente. "Ninguém pode satisfazer o público com o nosso espécime mirrado de cinquenta centímetros de comprimento depois de mostrar uma imagem que a representa com cinco metros. É ridículo."

"Disparate", replicou Barnum. "Isso é só para encher o olho. Eles não estão à espera de ver uma sereia desse tamanho."

Lyman não cedeu e preparou-se para desistir. "Se quiser combater sob esse pavilhão, esteja à vontade, mas eu não vou fazê-lo."

Alegremente, Barnum acusou-o de ser um desertor.

"Sim", disse Lyman, "abandono certas cores quando estas são demasiado berrantes."

Pesaroso, pois a bandeira custara-lhe setenta dólares, Barnum arriou a sereia.

Antes de finalmente abandonar Nova Iorque e Barnum para abraçar o mormonismo em Nauvoo, no Illinois, e servir como braço direito de Brigham Voung em Salt Lake City, Lyman continuou a exaltar os méritos da Sereia das Fiji. O público acorria ao Museu em grande número e as receitas chegavam quase aos mil dólares por semana. Ocasionalmente, surgiam dissidentes. Certa vez, após escutar o discurso de Lyman, um dos visitantes protestou: "Mas eu vivi dois anos nas ilhas Fiji e nunca ouvi falar de tal coisa." Lyman encolheu os ombros. "Não há como justificar a ignorância de certos homens", replicou.

Embora três décadas mais tarde Barnum viesse a admitir o embuste, insistiu que não fabricara a Sereia das Fiji, nem sabia quem o tinha feito. Mais para o fim da vida, leu um trabalho sobre o Japão de Philipp Franz von Siebold, um natural da Bavária, que escreveu que a sereia de Barnum fora criada por um pescador japonês que "uniu a metade superior de um macaco à metade inferior de um peixe, de uma forma tão perfeita que desafiava qualquer inspecção normal".

A Sereia das Fiji foi tão vastamente publicitada que, pela primeira vez, o Museu Americano tornou-se uma instituição nacional e Barnum o primeiro mestre de espectáculos da América.

Toda a competição se rendia a Barnum. Este fora brevemente ameaçado pelo Museu de Peale, quando o filho do artista fundador deste repositório de Filadélfia, Rubens Peale, invadira Nova Iorque em 1826. Exibiu medalhas, caixas de rapé, dentes de baleia, índios Senec, aberrações (com destaque para uma menina de cinco anos que pesava cento e cinquenta e dois quilos), cópias de antigos mestres como Leonardo da Vinci e uma colecção de animais vivos, que incluía um vitelo com duas cabeças e seis pernas, um rinoceronte e um sortido de tigres, cascavéis e ursos. Por volta de 1830, perdera o seu local de exposição para os credores e, por fim, um ex-banqueiro e camaradas especuladores (os quais Barnum derrotara aquando da compra do Museu Americano) assumiram o controlo. Quando a fraude com as acções fracassou, venderam tudo a um expositor que tentou apelar à sociedade com apresentações mais "científicas". Quando também este fracassou, vendeu tudo a um mestre de espectáculos agressivo chamado Henry Bennett.

Sob a gerência de Bennett, o Museu de Peale rivalizou com Barnum por um breve período de tempo. Bennett baixou os preços e caricaturou as novidades de Barnum, Quando este mostrou a Sereia das Fiji, Bennett respondeu com a Sereia de Fudg-ee. Contudo, isso não foi suficiente. Seis meses depois da Sereia das Fiji, Bennett cedeu ao senhorio, que vendeu o Museu de Peale a Barnum por $7. 000. Depois, Barnum contratou Bennett em segredo, para que este continuasse no Museu de Peale, com o objectivo de manter a sua rivalidade e antagonismo. Barnum cansou-se rapidamente do jogo, absorveu o Museu de Peale e anunciou "Dois Museus Num Só".

Nos três anos antes de Barnum assumir o Museu Americano de Scudder, este facturara $34. 000. Nos três anos após Barnum ter ficado à frente do Museu, este arrecadou mais de $100. 000. Barnum pagara-o e era seu. Conquistara Nova Iorque e depois toda a América. Agora, inquieto, mirava mais longe - e interrogava-se sobre se o mundo estaria também ao seu alcance.

 

         EXIBIÇÃO QUATRO - O HOMEM DE SESSENTA CENTÍMETROS

Foi devido à severidade de um dia de Inverno em Novembro de 1842 que Barnum, então com trinta e dois anos de idade, descobriu a exibição que o levaria à fama internacional.

Barnum era dono do Museu Americano havia quase um ano e encontrava-se em Albany, no estado de Nova Iorque, em negócios para o Museu. Estava um tempo gelado. Quando chegou a altura de Barnum regressar a casa de barco, soube que a viagem fora cancelada, pois o rio Hudson congelara. Forçado a mudar de planos, Barnum embarcou no comboio da velha linha Housatonic para a primeira parte da viagem até à cidade de Nova Iorque. Uma vez que a linha terminava em Bridgeport, no Connecticut, onde Philo, o meio irmão de Barnum geria o Franklin Hotel, o mestre de espectáculos decidiu passar aí a noite.

Bridgeport, uma comunidade pacata de quatro mil habitantes, parecia ter pouco para oferecer a Barnum, para além de um breve descanso. Mas a mente de Barnum era um verdadeiro arquivo no que dizia respeito a curiosidades. Os visitantes mencionavam-lhe constantemente, ou correspondentes escreviam-lhe, sobre novas excentricidades. Não podia investigar a maioria, pois encontrava-se sempre demasiado ocupado, mas nunca se esquecia de uma sugestão ou indicação. Agora, no seu quarto de hotel em Bridgeport, descontraído na companhia do irmão, recordou que alguém lhe contara sobre "uma criança extraordinariamente pequena em Bridgeport". Será que Philo sabia de quem se tratava?

Claro que sim. Todos em Bridgeport conheciam o filho de cinco anos de Sherwood Stratton, uma criança do tamanho de uma boneca pequena e que não pesava mais do que um cachorrinho de estimação.

Mais interessado do que nunca, Barnum perguntou ao irmão se poderia convencer os Stratton a mostrar-lhe o filho. Philo Barnum pensou que talvez se pudesse conseguir um encontro e, no dia seguinte, regressou ao hotel com o rapaz em miniatura pela mão.

Barnum olhou, incrédulo, para o menino. A criança tinha sessenta centímetros de altura e pesava sete quilos e meio. O pé tinha um comprimento de sete centímetros e meio. "A mais pequena criança que alguma vez vira que conseguia andar sozinha", recordou Barnum. E o melhor de tudo: "Era um rapazinho perfeito e de olhos vivos, com cabelo louro e faces rosadas, que gozava de uma saúde perfeita. Era extremamente tímido mas, após algum incentivo, foi convencido a falar comigo, tendo-me dito que era filho de Sherwood E. Stratton e que o seu nome era Charles S. Stratton. Depois de o ter visto e falado com ele, decidi-me a convencer os pais a conceder-me os seus serviços e a exibi-lo em público."

Os Stratton eram pobres e Barnum não teve grande dificuldade em negociar com o casal. Barnum desejava apenas um acordo a curto prazo. Não tinha vontade de arriscar muito numa criança que poderia começar a crescer de repente. Ofereceu-se para contratar Charles por quatro semanas. Pagaria à família três dólares por semana, as despesas de viagem para Nova Iorque e quarto e alimentação para o rapaz e para a mãe. Os Stratton consideraram a oferta bastante generosa.

Começava assim, com um aperto de mão, a saga do General Tom Thumb 20. Com o seu anão, Phineas T. Barnum transformou-se num gigante.

Nos meses seguintes, Barnum ficou a saber tudo sobre a curta vida de Charles S. Stratton. Quando Cynthia Stratton deu à luz, no dia 4 de Janeiro de 1838, nada fazia supor que a criança pudesse não ser normal. Os Stratton descendiam de uma sólida linhagem

 

20 Tom Thumb é o personagem conhecido em português como Pequeno Polegar.

 

da Guerra Revolucionária, tendo existido sempre um homem Stratton na milícia. Além disso, as duas filhas dos Stratton, Frances, de quatro anos, e Mary, de dois, eram perfeitamente normais.

Charles fora um bebé robusto, que nascera com quatro quilos e meio. Em seis meses, crescera até aos sete quilos e meio e não parecia haver qualquer problema. Mas, com um ano, continuava com o mesmo peso e não crescera mais do que sessenta e dois centímetros. Aos dois e aos três anos continuava com o mesmo peso e altura, bem como aos quatro e aos cinco. Nessa altura, os Stratton perceberam que eram pais de um anão.

A ciência médica não podia fazer nada pelos Stratton. Na altura não se conheciam as razões para a interrupção do crescimento. Só três anos depois da morte de Charles Stratton, em 1886, mais exactamente, é que se descobriu que a responsável pela deficiência na estatura era a glândula pituitária, situada na base do crânio: a pituitária deficiente, ao não libertar hormonas de crescimento, dava origem a um indivíduo atrofiado.

Barnum, que não sabia nada sobre subtilezas fisiológicas, referia-se sempre a Charles Stratton como "o meu anão". Contudo, este nome não era exactamente adequado 21. O seu protegido era um anão, mas não o tipo de anão micromélico mais vulgar em que Barnum estaria a pensar. Em ambos os casos, o problema é o tamanho diminuto, mas existe uma distinção. O anão micromélico tem a parte superior do corpo normal, mas os membros inferiores são deformados devido a um funcionamento deficiente da tiróide, o que lhe confere um aspecto geral grotesco. Por outro lado, Charles Stratton enquadrava-se numa outra categoria de anões, mais rara, que são proporcionalmente perfeitos, uma cópia de um ser humano normal, mas em escala mais reduzida.

Existem versões contraditórias dos primeiros anos de vida de Charles Stratton. Segundo alguns relatos, a infância do anão foi miserável. Dizia-se que o pai severo e puritano o via como prova do desagrado de Deus. Também se dizia que era mantido prisioneiro em casa, pois as aparições em público causavam demasiada agitação. De acordo com outras histórias, Charles era o favorito da família, sendo mimado e acarinhado, e sempre tratado da forma o mais normal possível. Tinha liberdade para percorrer

 

21 A língua inglesa possui dois termos para se referir aos dois tipos diferentes de anões, "dwarf", o anão micromélico, e "midget", o tipo de anão mais raro. Charles Stratton enquadrava-se nesta segunda categoria.

 

as ruas e os campos e, segundo Barnum, os nativos estavam tão habituados ao tamanho da criança que não o consideravam anormal nem curioso. Independentemente da verdade, a saída de Bridgeport foi uma evolução.

Quando Cynthia Stratton trouxe o minúsculo filho de cinco anos para Nova Iorque, no dia 8 de Dezembro de 1842, ficou horrorizada ao descobrir, através dos panfletos e dos cartazes do Museu Americano, que era mãe do "General Tom Thumb, um anão de onze anos de idade, acabado de chegar de Inglaterra".

Para acalmar Mrs. Stratton, Barnum tentou explicar-lhe os motivos por detrás da metamorfose. O nome Charles Stratton era demasiado vulgar. Ao procurar algo mais apelativo, Barnum recuara na história e descobrira a lenda do Sir Tom Thumb original, um dos cavaleiros do rei Artur, que vivia num palácio dourado minúsculo, com uma porta com dois centímetros de largura, que viajava numa carruagem puxada por seis ratos brancos, e que fora morto durante um duelo com uma aranha. Barnum decidiu que Tom Thumb era mais excitante do que Charles Stratton e, daí em diante, o anão passou a ser tratado por esse nome. Quanto à pomposa patente de general, o absurdo do título era uma tentação irresistível.

Barnum sentiu a necessidade de alterar a idade do anão (fonte permanente de confusão para os biógrafos). Exibi-lo como uma criança de cinco anos faria descer o nível de curiosidade. Inevitavelmente, as pessoas começariam a questionar-se sobre se seria um verdadeiro anão e se poderia crescer até atingir uma estatura normal. Mas, enquanto rapaz de onze anos, seria visto como anormal e verdadeiramente diferente.

No que diz respeito à história sobre a sua importação de Inglaterra, tratava-se de um snobismo que seria apreciado pelo público. O Connecticut encontrava-se demasiado próximo, era familiar e comum. As maravilhas não provinham de aldeias industriosas. Eram originárias de paragens distantes. Quando, mais tarde, Barnum escreveu sobre a ficção que criara, não se mostrou apologético. "Observara o gosto americano pelo exotismo europeu e, por vezes, tal como no caso de Vivalla, tinha-me aproveitado dele. E se esse engano, praticado durante uma temporada na minha experiência com o anão, teve algum efeito para refrear a nossa vergonhosa preferência por estrangeiros, terei de ser perdoado pela ofensa que aqui reconheço."

A família de Barnum, preparada para acolher Mrs. Stratton e Tom Thumb, expandira-se desde que Barnum prosperara. Três filhas estavam instaladas no salão de bilhar convertido ao lado do Museu: Caroline, com nove anos, Helen, com dois, e Frances, uma bebé nascida oito meses antes (e que viria a falecer antes do segundo aniversário). Ainda viria a surgir uma quarta rapariga, Pauline, mas que só nasceria em 1846. Preparou-se um lugar para os visitantes de Bridgeport no salão sobrelotado, o qual transmitia a atmosfera de uma escola feminina. Enquanto Mrs. Stratton era instalada confortavelmente pela atormentada e frágil Charity, Barnum ocupou-se com a educação do seu anão.

Tentando descobrir um modelo segundo o qual pudesse adaptar Tom Thumb, Barnum estudou os mais conhecidos anões do passado. Finalmente encontrou alguém, um incrível anão histórico, que mais tarde viria a ser muito admirado pelo próprio Tom Thumb. O ídolo era Sir Jeffery Hudson.

Sir Jeffery nasceu em Inglaterra em 1619. Até aos trinta anos, nunca ultrapassou os quarenta e cinco centímetros de altura. Aos sete anos, o pai, tratador dos touros de arena do duque de Buckingham, entregou-o ao seu mestre. O duque, por sua vez, serviu Sir Jeffery à rainha Henrietta Maria numa empada fria. A rainha ficou encantada com o homem minúsculo e convenceu o rei a torná-lo o primeiro e único anão cavaleiro da história. Sir Jeffery foi capitão de cavalaria e o deleite da corte de Carlos I.

Em 1630, a rainha enviou-o a França, para que este lhe trouxesse uma parteira. Ao regressar, Sir Jeffery foi capturado por corsários holandeses, acabando por ser libertado. As suas aventuras continuaram. Lutou contra um peru e foi salvo das garras da ave. Quase que se afogou numa bacia, sendo salvo por William Evans, o camareiro de dois metros e quarenta da corte.

Em 1644, seguiu a sua rainha para o exílio em França. Provocado e insultado pelo irmão de Lord Crofts, Sir Jeffery desafiou o adulto normal para um duelo. Crofts apareceu com pistolas de água. Afrontado, Sir Jeffery reiterou o desafio de forma mais veemente. Lutaram a cavalo com pistolas e o anão matou o antagonista. Sir Jeffery foi aprisionado por homicídio, libertado por ordem da rainha e tornou-se o seu mais valente defensor. Foi capturado pelos turcos da Barbaria e vendido como escravo. Após muitas privações, foi resgatado. Regressou a Inglaterra, cresceu até atingir um metro e doze e viveu de uma pensão. O seu melhor amigo era outro anão, Richard Gibson, com um metro e quinze, cujos retratos da realeza se encontram hoje em Hampton Court, ao lado de obras de Rembrandt e de Leonardo da Vinci. Gibson casou com uma anã chamada Jane Shephard (levada ao altar por Carlos I) e teve nove filhos normais. Sir Jeffery foi mais infeliz. Foi implicado no Golpe Papista e aprisionado durante três anos, tendo morrido pouco depois, com sessenta e três anos de idade.

O estudo desta vida singular foi de extrema importância para Barnum, que viu as alturas a que um anão poderia chegar. Além disso, percebeu o que teria de fazer com Tom Thumb. Tal como Sir Jeffery, o anão de Barnum teria de ser autocrático, impudente e régio. Só dispunham de uma semana para se prepararem. Barnum treinou Tom Thumb dia e noite, ensinando-lhe boas maneiras, a andar e uma variedade de papéis. "Era um bom aluno, com muito talento inato e um bom sentido do ridículo", disse Barnum. "Progrediu rapidamente ao preparar-se para as actuações que eu queria que apresentasse, e ficou muito ligado ao seu professor."

Na véspera da estreia, Barnum levou Tom Thumb para o apresentar aos editores dos jornais. O General saltou para o meio dos papéis e dos tinteiros sobre as suas mesas e, em casa de James Gordon Bennett, dançou por entre os pratos na mesa do jantar. Os editores divertiram-se e deram ao "pequeno cavalheiro cómico" o benefício das suas colunas.

Quando Tom Thumb surgiu no palco da Sala de Palestras, o auditório encontrava-se esgotado. A sua actuação abria com um monólogo pontuado pelos trocadilhos de Barnum. "Boa noite, senhoras e senhores", começou. "Sou apenas um Polegar, mas tenho boa mão para a diversão, pois embora pequeno, sou bastante elevado... Resumindo, não me tenham em grande conta, pois fazer-me inchar seria fazer-me diminuir. Embora me exceda por vós, não fico maior por isso."

A isto seguia-se alguma réplica, com Barnum ou um mestre de cerimónias. Barnum, dirigindo-se à audiência, começava. "Apenas quando contrastamos o General com uma criança pequena é que o público tem a noção da sua verdadeira estatura. Será que algum menino poderia vir ao palco por alguns momentos?" Ao que Tom Thumb acrescentava, com um tom esganiçado e desapontado: "Eu preferia uma menina."

Depois começava a actuação principal de Tom Thumb, na qual representava uma variedade de papéis. Em collants cor de carne, e com um arco e uma aljava de flechas, cabriolava na pele de Cupido. Depois, enquanto soldado da Guerra Revolucionária e brandindo uma espada de vinte e cinco centímetros e trauteando "Yankee Doodle Dandy", executava os passos de um exercício militar. Mais tarde, representando o David bíblico, em traje a condizer, encenava um combate com os dois Golias, Coronel Goshen e Monsieur Bihin, os gigantes do Museu. Seguiram-se outros estudos humorísticos: foi um gladiador semi-nu, um marinheiro americano com calças à boca de sino, Napoleão Bonaparte vestido ao pormenor.

A estreia de Tom Thumb foi recebida com explosões de gargalhadas e aplausos. Ficou na boca de Nova Iorque de um dia para o outro. Duas vezes por dia, às três da tarde e às sete da noite, subia ao palco da Sala de Palestras. Entre apresentações, exibia-se ao lado dos gigantes, do rapaz anafado e do adivinho.

Parecia que todos o queriam ver, incluindo o incansável exmayor Philip Hone. Na entrada relativa ao dia 12 de Julho de 1843, Hone anotou no seu diário: "Ontem à noite fui com a minha filha Margaret ao Museu Americano, ver o maior de entre os pequenos mortais que alguma vez foram exibidos. É um rapaz elegante e bem formado, de onze anos de idade, com sessenta e dois centímetros de altura e sete quilos e meio de peso. Sinto-me repugnado ao ver monstros, abortos e aberrações humanas... mas, neste caso, não senti nada disso. O General Tom Thumb (tal como é chamado) é um pequeno cavalheiro elegante, bem formado e bastante proporcional, vivo, agradável, bem disposto e falador, sem qualquer deficiência a nível do intelecto... A mão é do tamanho de uma moeda de meio dólar e o pé tem sete centímetros de

 

22 "Yankee Doodle chegou à cidade, montado num pónei".

 

comprimento e, ao andar a seu lado, o topo da cabeça mal chegava ao meu joelho. Quando entrei na sala, dirigiu-se a mim, ofereceu-me a mão e disse, "Como vai, Mr. Hone? ", pois o guardião já o informara sobre a minha pessoa."

As quatro semanas voaram. Barnum encontrava-se agora certo de que possuía em Tom Thumb um enorme trunfo. Também se convencera de que o seu anão valia bem um investimento, apesar da possibilidade de poder crescer em estatura. Como consequência, Barnum estabeleceu um novo acordo com Cynthia e Sherwood Stratton, contratando Tom Thumb por um ano, pelo dobro do salário antigo, ou seja, sete dólares por semana, com um bónus de cinquenta dólares no fim do ano.

De acordo com o novo contrato, Barnum utilizou Tom Thumb de formas diferentes. Por vezes, exibia-o no Museu durante semanas a fio, envíando-o depois para fora com a família e um representante do Museu, a fim de testar a sua popularidade em outras cidades. Tanto em Nova Iorque como em todos os outros lados, Tom Thumb continuou a atrair e a divertir. Passados seis meses, Barnum aumentou-lhe o salário para vinte e cinco dólares por semana e começou a pensar no futuro.

O sonho privado de Barnum era a Europa. Nunca fora ao estrangeiro e era praticamente desconhecido fora dos Estados Unidos. Queria conquistar novos mundos. Na pessoa de um menino engraçado que podia andar direito debaixo de uma mesa normal sem bater com a cabeça, pensou que, finalmente, encontrara o meio com que viria a obter a fama internacional.

A aventura europeia, em que pensava constantemente, começou a tomar forma na mente de Barnum. De súbito, um dia, decidiu alterá-la. "Por mais que sonhasse com o sucesso", escreveu muito tempo depois, "nem nos meus momentos mais optimistas poderia antecipar uma ínfima parte do que me estava reservado. Não previa nem sonhava que, em breve, estaria perto de reis, rainhas, lordes e plebeus ilustres e que, graças a tais conhecimentos conseguidos através da minha exibição, seria apresentado ao grande público e ao dinheiro desse público, que viria a encher-me os cofres. E, se por acaso tinha um vislumbre de tal futuro, era onírico, vago e tinha-o com os olhos quase fechados..."

Assim que se decidiu, Barnum pôs rapidamente em andamento a máquina para a sua invasão continental. Negociou um novo contrato com os Stratton. Ficaria com Tom Thumb por mais um ano, a cinquenta dólares por semana. Levaria para o estrangeiro não só Tom Thumb, mas também os seus pais, um tutor e pagaria todas as despesas. Sherwood Stratton acedeu em desistir da profissão de carpinteiro em Bridgeport, para trabalhar como bilheteiro do filho. A esta companhia, Barnum adicionou mais um elemento: o professor Guillaudeu, um naturalista francês empregado atempo inteiro no Museu. Barnum esperava que, assim que o anão fosse lançado, ele e o professor pudessem explorar a Europa, em busca de novas curiosidades. Para garantir que o seu nome não fosse esquecido enquanto estivesse fora, Barnum conseguiu ficar como correspondente estrangeiro do New York Atlas. Prometeu enviar boletins noticiosos regulares da Europa e, antes do fim da viagem, entregara e publicara mais de uma centena.

No dia 18 de Janeiro de 1844, Barnum e a sua comitiva embarcaram no Yorkshire, um veleiro novo e elegante, com destino a Liverpool. Quando a âncora foi içada, os olhos de Barnum encontravam-se marejados pelas lágrimas. O que o comovia não era a separação de Charity, das filhas ou dos amigos, mas uma repentina sensação de isolamento e de solidão. Pela primeira vez, este homem público estava sem audiência, ficara sozinho, tendo apenas um destino estranho e desconhecido à sua frente. E com essa ideia chegaram as lágrimas. Barnum, mais do que a maioria das pessoas, precisava de muita gente em seu redor. Era algo tão necessário ao seu espírito como o oxigénio para o corpo.

A travessia decorreu sem contratempos. Por vezes, o navio encontrava mares alterosos e em outras ocasiões tudo ficava calmo, mas Barnum era um bom marinheiro e considerou a viagem agradável. Recuperara da breve melancolia da partida e agora ansiava por ver Inglaterra. Após dezanove dias, o Yorkshire atracou em Liverpool.

Uma multidão considerável aguardava no cais para saudar os americanos (Barnum tivera o cuidado de avisar sobre a chegada do General Tom Thumb com antecedência) mas Cynthia Stratton conseguiu ocultar o General e passar pelos curiosos em direcção à cidade, fingindo que o filho era um bebé nos seus braços.

Ainda mal Barnum alojara a companhia no Waterloo Hotel quando teve uma visita. O proprietário de um museu de cera pouco conhecido ofereceu a Barnum dez dólares por semana pela utilização de Tom Thumb. Barnum mandou-o embora e retirou-se para o quarto a fim de matutar sobre a situação. O medo apoderava-se dele. Não organizara itinerários nem conseguira contratos para Tom Thumb. E se não obtivesse nenhum? Ou, mesmo que surgisse algum contrato, o que aconteceria se o público não estivesse interessado? O velho sentimento de solidão regressou para o oprimir. "Era um perfeito estranho naquela terra, " escreveu Barnum. "As minhas cartas de apresentação não tinham sido entregues. Não vira um único rosto, nem ouvira uma voz familiar, para além do meu círculo restrito. Sentia-me nostálgico, com saudades de casa, quase em desespero." Sem constrangimentos, Barnum chorou.

Mas depois chegou a alvorada e Barnum deu uso às cartas de apresentação, descobrindo simpatia um pouco por todo o lado. Alugou um salão e começou a exibir Tom Thumb, enquanto tentava formular o ataque a realizar sobre Londres. Entretanto, o gerente do Princess' Theater em Londres apareceu, para observar Tom Thumb. Aparentemente, ficou satisfeito. Ofereceu a Barnum um contrato a longo prazo com um valor generoso, mas o mestre de espectáculos declinou. A velha confiança fora restaurada pela nova actividade. Contrapôs a proposta, sugerindo que Tom Thumb aparecesse no Princess' Theater em Londres por três noites (decidira que esta era uma boa "forma de publicidade"), ao que o gerente acedeu.

A companhia dirigiu-se então a Londres. Tom Thumb fez as suas aparições no palco do Princess'Theater perante casas cheias. A reacção foi exactamente a esperada por Barnum. Tom Thumb era um êxito e a populaça discutia avidamente o pimpolho talentoso.

Barnum sabia que poderia apresentar Tom Thumb por sua conta quando quisesse e que seria bem sucedido, mas, ainda assim, conteve-se. Recordava-se do exemplo de Maelzel com o

 

23 A Batalha de Waterloo, travada no dia 18 de Junho de 1815, em Waterloo, na Bélgica, foi a última batalha de Napoleão, e a que ditou a sua derrota e eventual deposição do trono de imperador francês. As forças aliadas eram comandadas pelo duque de Wellington e por Gebhard Leberecht von Blúcher, da Prússia.

 

autómato que jogava xadrez: obter a sanção da nobreza, da realeza, dos abastados. Com esse objectivo em vista, Barnum alugou a mansão anteriormente ocupada por Lord Talbot, situada no popular West End, contratou um mordomo a rigor e enviou um número limitado de convites a aristocratas e a editores, convidando-os a tomar chá com Tom Thumb. Em breve surgiram as carruagens engalanadas e o salão de Barnum encheu-se de membros da nobreza e de jornalistas. Tom Thumb causou uma impressão espantosa em todos eles.

Barnum continuava a não estar preparado. Só quando Edward Everett, embaixador americano destacado para Inglaterra, respondeu ao convite é que o mestre de espectáculos realizou a sua jogada final. Com franqueza, disse ao embaixador que queria que Tom Thumb fosse apresentado à rainha Vitória no Palácio de Buckingham. Foi bastante convincente. A rainha de vinte e cinco anos de idade, há seis anos no trono e casada havia quatro, estivera de luto pela morte do sogro. Agora, ela e a família poderiam apreciar algum tipo de descontracção. Everett prometeu ver o que podia fazer. O que fez foi levar Charles Murray, camareiro-mor da rainha, a convidar Barnum e Tom Thumb para tomar o pequeno almoço. Murray ficou impressionado e indagou quais os planos de Barnum. Este explicou que tencionava partir para França em breve, mas que poderia adiar a viagem, caso Tom Thumb fosse autorizado a ter a sua audiência com a rainha. Murray prometeu dar o seu melhor.

Entretanto, a baronesa Rothschild, esposa do banqueiro mais rico do mundo, convidou Barnum e Tom Thumb para a sua casa de Piccadilly. Recebido por meia dúzia de criados, o imponente Barnum e o seu rapaz em miniatura foram levados por uma escadaria de mármore à presença da Baronesa e de um grupo de vinte damas e cavalheiros. Tom Thumb divertiu o grupo durante duas horas. Quando se preparavam para partir, recorda Barnum, "colocaram-me discretamente na mão uma bolsa bem recheada. A chuva de ouro começara a cair..."

Barnum sabia que chegara a altura ideal. Alugou imediatamente o Egyptian Hall, no centro de Londres, lançou a torrente de publicidade que já tinha pronta e colocou Tom Thumb em exposição. A resposta foi esmagadora. Tanto plebeus como aristocratas encheram o auditório para ver a criança de sessenta centímetros personificar Napoleão, Golias e Cupido. E foi então que chegou o homem que Barnum mais desejava ver. Era um dos membros da Guarda Real de Sua Majestade, fardado a rigor, e arauto de uma mensagem. Fora enviada pela rainha Vitória, que convidava o General Tom Thumb e o guardião, Mr. Barnum, para se deslocarem ao Palácio de Buckingham.

Algumas horas mais tarde, Murray confirmou o convite e transmitiu o desejo da Rainha de que "o General deveria apresentar-se-lhe tal como o faria em qualquer outro lugar, sem preocupação com o uso dos títulos da nobreza, pois a Rainha gostaria de o ver de forma natural e sem constrangimentos".

Na noite da grande actuação, Barnum pendurou com orgulho um cartaz na porta do Egyptian Hall, o qual dizia a toda a cidade de Londres: "Encerrado esta noite, uma vez que o General Tom Thumb se encontra no Palácio de Buckingham, por ordem de Sua Majestade."

Ao chegarem ao Palácio de Buckingham, Barnum, de calças de montar pelo joelho, e Tom Thumb, de fraque de veludo castanho e calções, foram informados sobre como deveriam comportar-se perante a rainha. Acima de tudo, explicaram-lhes, deveriam recordar-se que tinham de responder a todas as questões de Sua Majestade através do nobre que serviria de intermediário, nunca se dirigindo directamente à rainha, e retirar-se às arrecuas quando a audiência terminasse.

Foram levados por um longo corredor, depois por uma ampla escadaria e finalmente para a galeria de retratos reais. Do outro lado da sala, completamente vestida de preto e sem ornamentos, estava a jovem rainha Vitória, de pé. A seu lado, também de pé, o príncipe Alberto. Alinhados atrás de si, ficavam a duquesa de Kent e duas dezenas de membros da nobreza, trajando segundo a mais recente moda.

Tom Thumb (que parecia "uma boneca de cera dotada do poder de locomoção", comentou Barnum) avançou destemidamente para a rainha, fez uma vénia e depois chilreou para todos: "Boa noite, senhoras e senhores!"

A saudação foi recebida com hilaridade. Sorrindo, a rainha Vitória pegou na mão do anão e levou-o a apreciar a galeria de retratos. Tom Thumb analisou os óleos com gravidade e disse à rainha que estes eram de "primeira classe". Quando a rainha perguntou sobre a carreira de Tom Thumb, este divertiu-a com respostas espirituosas. Olhou em seu redor e indagou sobre o filho da monarca, o príncipe de Gales, futuro rei Eduardo VII. Ela disse-lhe que o rapaz estava a dormir e que em breve seria combinado um encontro. Depois o príncipe Alberto e os outros convidados rodearam Tom Thumb e Barnum ficou alguns momentos a sós com a rainha. Esta começou por questioná-lo acerca da família e da educação do anão. Ao início, Barnum respondeu cuidadosamente através do nobre que servia de intermediário, mas, uma vez que o método era incómodo e aborrecido, Barnum acabou por conversar directamente com a rainha. O nobre estremeceu, mas a rainha não se sentiu ofendida.

A visita durou uma hora, sendo a maior parte desse tempo dedicado às "canções, danças e imitações" de Tom Thumb. Quando a actuação terminou, Barnum recordou-se da etiqueta da saída. De uma forma um pouco apressada, começou a afastar-se pela longa galeria, recuando sempre virado para a rainha. Tom Thumb tentou imitá-lo, mas com menos sucesso, uma vez que as suas pernas eram mais curtas. Barnum nunca esqueceu o que se passou a seguir:

"Sempre que o General pensava estar a perder terreno, virava-se e corria alguns passos. Depois retomava a posição às arrecuas, virava-se novamente e corria, continuando a alternar o método de chegar à porta, até que a galeria ecoava com o divertimento dos espectadores da realeza. Foi deveras uma das cenas mais interessantes que já vi. Naquela circunstância, correr foi uma ofensa grave o suficiente para despertar a indignação do caniche favorito da Rainha, o qual mostrou o descontentamento ladrando com tanta força que fez com que o General perdesse a compostura. Tom Thumb recuperou de imediato e começou a atacar o cão com a sua pequena bengala, seguindo-se uma peleja divertida, a qual renovou e aumentou a boa disposição do grupo real."

Quando Barnum e Tom Thumb alcançaram a segurança da antecâmara, a rainha enviou as suas desculpas pelo comportamento do animal. Serviram-se então refrescos numa divisão adjacente e Barnum regressou de imediato a uma atitude empresarial. Ao saber que a audiência teria direito a uma ou duas linhas no Court Journal oficial, e que esse comentário seria visto por toda a imprensa, Barnum pediu para falar com o editor, que se apresentou. Barnum perguntou-lhe se seria possível receber uma crítica favorável, em vez de uma mera referência. O editor sugeriu que Barnum deveria escrever o que gostaria de ver publicado. Barnum assim fez e, no dia seguinte, não só se referiu a audiência, como também a actuação de Tom Thumb recebeu uma crítica: "A imitação do Imperador Napoleão suscitou gargalhadas, a que se seguiu uma representação das Estátuas Gregas e, finalmente, o General procedeu a uma dança tradicional de marinheiros e cantou várias das suas melodias predilectas."

A rainha gostara de Tom Thumb e convidou-o rapidamente para uma segunda audiência, que serviria para satisfazer a curiosidade do príncipe de Gales, na altura com três anos de idade. O encontro teve lugar numa sala de visitas apainelada a ouro. Tom Thumb elogiou a rainha pelo magnífico "candelabro" da sala. A rainha apertou-lhe a mão e disse-lhe que esperava que ele estivesse bem.

"Sim, minha senhora, estou óptimo", respondeu Tom Thumb.

Depois a rainha Vitória levou-o até ao filho mais velho. "General, apresento-lhe o Príncipe de Gales.

"Como está, Príncipe? ", cumprimentou Tom Thumb, apertando a mão do rapaz. Comparou a sua altura com a do Príncipe e comentou: "O Príncipe é mais alto do que eu, mas sinto-me grande como ninguém."

Uma terceira audiência teve lugar no Palácio de Buckingham, mais uma vez presidida pela rainha Vitória, mas desta vez contando também com a presença do rei Leopoldo dos belgas. Quando a Rainha pediu que Tom Thumb cantasse uma melodia à sua escolha, o general lançou-se de imediato a "Yankee Doodle Dandy", o que suscitou um prazer chocado, pois as recordações da revolução nas colónias continuava fresca na memória de todos. Mas a escolha de Tom Thumb fora mais pessoal do que patriótica.

Vira um pónei Shetland no pátio e queria tê-lo para si. Quando cantou o verso "Yankee Doodle carne to town, a-riding on a pony", fê-lo com ênfase especial, apontando para a rainha. Esta, contudo, não percebeu e Tom Thumb teve de se contentar com um lápis de ouro.

O patrocínio real causou o seu efeito sobre o público. Tom Thumb deixara de ser uma curiosidade, passando a ser um monumento. Tornou-se, de imediato, a sensação de Londres. A revista Punch chamou-lhe "A mascote do Palácio". Os jovens dançavam a "The General Tom Thumb polka" e os salões de música ressoavam com canções que lhe eram dedicadas. Por todo o lado, as crianças brincavam com bonecas e figuras recortadas de Tom Thumb.

Durante a Primavera e o Verão de 1844, os bilhetes para o Egyptian Hall foram vendidos a preços acima da média. Celebridades acotovelavam-se com plebeus e o Duque de Wellington assistiu ao espectáculo várias vezes. Numa certa ocasião, Tom Thumb encontrava-se a meio da imitação de Napoleão quando o duque chegou. Levado à presença deste, o anão, ainda com a farda do recente imperador francês, surgiu muito pensativo. O duque perguntou-lhe o que o apoquentava e Tom Thumb replicou: "Estava a pensar na derrota na Batalha de Waterloo." A observação espirituosa atravessou a ilha de uma ponta à outra, servindo para dar uma publicidade renovada a Tom Thumb.

Numa outra secção do Egyptian Hall, Benjamin Robert Haydon, o histórico pintor e amigo de Keats, exibia o seu "Banishment of Aristedes" por um preço modesto. Com sessenta anos, Haydon sofrera muito devido à pobreza e fora preso duas vezes por dívidas. Foi bastante valorizado graças a esta exposição mas, numa semana em que as receitas de Barnum ascendiam a três mil dólares, as de Haydon apenas orçavam os trinta e cinco. Desesperado e amargurado, escreveu no seu diário: "Vêm aos milhares ver Tom Thumb. Empurram-se, gritam, brigam, desmaiam, gritam "olho ladrão" e "ó da guarda"! e ó! e ah! Olham para o meu programa, para os meus cartazes, para a minha exposição e não os vêem. Têm os olhos abertos, mas os sentidos fechados. É uma insanidade, uma raiva, uma loucura, um furor, um sonho. Não acreditava que o povo inglês fosse capaz de tal." Após registar estas palavras, Haydon cortou a garganta com uma faca e depois deu um tiro na cabeça com uma pistola.

À fama juntava-se assim o escândalo e o dinheiro continuou a entrar. Barnum estimou as receitas do Egyptian Hall em quinhentos dólares por dia. A esta verba juntou, é claro, três generosas ofertas em dinheiro da Rainha Vitória. E ao serão e aos fins-de-semana, Tom Thumb comparecia em festas privadas pela quantia de cinquenta dólares por aparição. Entre as personalidades que divertiram desta forma encontravam-se a rainha Adelaide, viúva de Guilherme IV, Sir Robert Peei e Lady Blessington.

Durante este furor, Barnum não se esqueceu do Museu Americano. No início do ano de 1845, realizou duas visitas rápidas a Paris, a primeira para obter curiosidades para o Museu e a segunda com o objectivo de preparar o terreno para a chegada de Tom Thumb. Foi durante a primeira visita que Barnum iniciou a sua amizade com Robert Houdin, de quarenta anos de idade, o fundador da magia moderna Houdin deixara a relojoaria do pai, em Blois, para se tornar malabarista e prestidigitador. Acabou por dedicar o seu interesse à invenção de autómatos. O primeiro aparelho rentável foi um dos primeiros relógios despertadores. "Colocava-se ao nosso lado quando íamos para a cama", escreveu nas suas memórias, "e, à hora desejada, um repique despertava o adormecido, ao mesmo tempo que uma vela já acesa saía de uma pequena caixa." Dedicou um ano da sua vida à criação de um robô que respondia às perguntas dos espectadores, desenhando ou escrevendo. Tal como disse a Barnum, concentrou-se de tal maneira na elaboração desta "máquina complicada, que perdeu os poderes mentais durante um período considerável de tempo". Agora o robô era o grande sucesso da Exibição de Paris. Luís-Filipe, o rei liberal da classe média, que apagara o brasão real da carruagem e nunca andava sem o seu guarda-chuva verde, visitou a exibição e perguntou ao robô qual era a população de Paris. O homem mecânico escreveu: "Paris contém 998. 964 habitantes", e o Rei concedeu que a resposta estava correcta até ao último dígito. Houdin mostrou o robô a

 

24 Robert Houdin, 1805-1871, um dos pais da magia moderna, foi a inspiração para o famoso mágico americano Harry Houdini, que adoptou o nome do mestre.

 

Barnum, o qual, encantado, o comprou "por um belo preço redondo" e o enviou para Londres para que fosse exibido, tendo-o depois despachado para o Museu Americano. Barnum visitou o teatro de Houdin no Palais Royal, observou a sua brilhante prestidigitação, escutou o relato sobre ilusões e fraudes e, posteriormente, aceitou os conselhos que lhe foram dados sobre a aquisição de outras curiosidades mecânicas, bem como de um diorama de $3. 000 que representava a remoção do corpo de Napoleão de St. Helena para Paris. Barnum nutria uma grande afeição por Houdin, tendo acompanhado de perto a sua carreira. O apogeu da vida de Houdin ocorreu em 1857, quando aceitou uma estranha missão política para o seu governo. Os rebeldes argelinos sentiam um grande entusiasmo e deixavam-se influenciar pelos seus profetas sagrados, ou marabutos, os quais empregavam truques de magia a fim de provar os seus poderes sobrenaturais. Os franceses queriam que o feiticeiro nacional Houdin enfrentasse os faquires argelinos fanáticos, que "empregasse os seus truques contra os deles e, através de maravilhas mais espantosas do que as mostradas por eles, destruísse o prestígio acumulado pelos faquires".

No Algiers Theater, perante uma audiência de chefes árabes hostis, Houdin fez aparecer bolas de canhão de uma cartola vazia e fez entrar uma moeda de cinco francos numa caixa vazia suspensa do tecto. A sua pièce de résistance 25 foi uma pequena caixa que "fica pesada ou leve ao meu comando; uma criança poderia erguê-la com facilidade, e, contudo, o mais poderoso dos homens não a conseguiria deslocar". Houdin convidou o mais musculoso dos árabes a levantar a caixinha. Após um esforço terrível, o árabe não conseguiu movê-la um centímetro que fosse. Houdin, por seu lado, foi capaz de a levantar com um dedo. A magia, é claro, provinha de um electroíman oculto, mas os árabes não o sabiam, tendo Houdin conseguido desencantar os revolucionários em relação aos seus marabutos.

Aquando da segunda visita a Paris, Barnum fez os preparativos para a exibição de Tom Thumb. Com a assistência de Dion Boucicault, o dramaturgo que escrevera a versão de Rip Van Winkle de Joseph Jefferson, Barnum alugou o Salle Musard para o anão,

 

25 Em francês, no original.

 

adquiriu alojamentos para a companhia no Hotel Bedford e contratou um professor de inglês chamado Pinte para servir como tutor de Tom Thumb e como intérprete da tagarelice deste para os espectadores franceses. Posto isto, Barnum visitou William Rufus King, embaixador dos Estados Unidos em França, e quis saber se Tom Thumb poderia ser apresentado a Luís-Filipe. Estabelecera-se o precedente no Palácio de Buckingham e o embaixador estava certo de que as Tulherias se mostrariam igualmente receptivas.

A exploração de Tom Thumb em Paris foi ainda maior do que em Londres. No dia seguinte à chegada de Barnum e respectiva comitiva, receberam uma convocatória real da parte de Luís-Filipe. Mais uma vez, o mestre de espectáculos e o anão vestiram os calções. Chegados às Tulherias, foram escoltados até o grande salon 26. O rei e a rainha, uma grande variedade de Duques e duquesas e uma dúzia de cidadãos ilustres aguardavam-nos.

Houve menos formalidades do que em Londres, e todos conversaram livremente com Tom Thumb. Luís-Filipe colocou inúmeras questões sobre os Estados Unidos e recordou o tempo em que ele próprio vivera como exilado em Filadélfia. "Referiu-se alegremente à altura em que ganhara a vida como tutor", escreveu Barnum, "e disse que passara, de um modo geral, por maus bocados, tendo chegado a dormir em tendas índias." Finalmente, Tom Thumb apresentou a sua actuação, para deleite de todos, e o rei presenteou-o com um broche de esmeraldas, incrustado com diamantes.

O editor do periódico oficial Journal dês Débats, o qual testemunhou a audiência de uma hora com o rei, relatou aos concidadãos parisienses, no dia 23 de Maio de 1845, o que vira:

"O General Tom Thumb, acompanhado pelo seu guia, Mr. Barnum, foi agraciado com a elevada honra de ser recebido no palácio das Tulherias, por suas Altezas Reais, o Rei e a Rainha dos franceses. Suas Senhorias condescenderam em colocar pessoalmente ao General várias questões a respeito do seu nascimento, filiação e carreira... O Rei presenteou este homenzinho cortês e fantástico com um alfinete esplêndido, incrustado com brilhantes, mas este apresentou o inconveniente de ser desproporcional em relação à altura e tamanho do anão.

 

26 Em francês, no original.

 

Poderá ter de responder pela sua espada...

"Na verdade, Tom Thumb é de uma extraordinária leveza e fragilidade, mesmo para um anão. Na presença do Rei, executou uma dança original, que não era uma polca, nem uma mazurca, nem, com efeito, nada que fosse conhecido. Esta dança foi obviamente inventada para o General e, depois dele, ninguém se aventurará a repeti-la. O mesmo poderá ser dito de outro exercício que ele executa, com grande prazer. Referimo-nos à imitação das Estátuas Gregas... Preferimos ver Tom Thumb quando surge no papel de um cavalheiro. Puxa do relógio e diz-nos as horas, oferece-nos uma pitada de rapé, uma pastilha ou um charuto, tudo em uniformidade com o seu tamanho. Fica ainda melhor quando se senta numa cadeira dourada, de perna cruzada, e nos olha com um ar inteligente e quase trocista. É assim que se torna divertido. É mais inimitável do que nunca quando não se encontra a imitar nada - quando é ele próprio..."Não faremos menção a uma farda ilustre que trajou em Londres, e que obteve um sucesso estrondoso entre os nossos vizinhos ultramarinos. O General Tom Thumb revelou possuir bom gosto suficiente para não levar essa máscara às Tulherias. Esperamos, assim, uma vez que é detentor de sentimentos tão elevados, que deixe esse fato no fundo da sua mala, enquanto permanecer em Paris."

Seguiram-se mais três audiências com Luis-filipe e, durante uma delas, o rei pediu para ver a "farda ilustre... no fundo da sua mala". Tratava-se, claro está, da farda de Napoleão Bonaparte. Na maior das confidencialidades, Tom Thumb envergou a roupa de Napoleão e imitou-o para o rei.

Em troca deste entretenimento, Barnum pediu um favor ao rei. Aproximava-se um feriado, o dia de Longchamps 27, e Barnum queria a carruagem de Tom Thumb no grupo reservado à realeza. O rei acedeu.

A carruagem de Tom Thumb, construída especialmente por Fillingham, de Londres, fora um presente surpresa de Barnum. A carruagem, com vinte e sete centímetros de largura e meio metro de altura, era pintada de azul e branco. As janelas em vidro laminado encontravam-se cobertas por persianas e o interior era

 

27 Celebrado durante a Semana de Paixão, o Dia de Longchamps consistia numa procissão de carruagens privadas e alugadas, que se dirigia ao local onde em tempos existiu um convento de freiras, famosas pelo canto.

 

decorado em brocado. O brasão nas portas incluía as bandeiras britânica e americana e o lema: "Em Frente!" Com a carruagem vinham quatro póneis Shetland espantosos, quase iguais e com oitenta e cinco centímetros de altura. O veículo e os póneis tinham custado $2. 000 a Barnum mas, quando Tom Thumb atravessou as ruas apinhadas de Paris, no dia de Longchamps, e milhares de pessoas o saudaram e bradaram com prazer, Barnum soube que o investimento valera a pena.

O sucesso de Barnum em Paris foi ainda maior do que o de Londres. O Figaro e a restante imprensa francesa publicitava cada movimento de Tom Thumb. Um café recebeu o seu nome. Caixas de rapé ostentavam o seu retrato na tampa. A sua estátua em gesso decorava centenas de montras de lojas. Inspirou poemas e litografias. Foi eleito membro honorário da Sociedade Dramática Francesa. Os seus dois espectáculos diários no Salle Musard encontravam-se esgotados com dois meses de antecedência. "Era obrigado", disse Barnum, "a apanhar um táxi todas as noites para levar o meu saco cheio de prata."

Após uma longa estadia em Paris, Barnum levou Tom Thumb em digressão por França. A esta seguiu-se uma jornada em Espanha, onde o anão assistiu a touradas com a rainha Isabel II. Na Bélgica, o professor Pinte perguntou a Barnum quais as qualificações de um mestre de espectáculos de sucesso, ao que Barnum respondeu: "Deve possuir gosto por servir o público; muito boas faculdades de discernimento; tacto; um profundo conhecimento da natureza humana; uma grande finura; e muitas latas de "graxa"." Em Bruxelas, o grupo foi recebido pelo rei Leopoldo. Finalmente, após visitar o campo de batalha de Waterloo e ter comprado algumas relíquias para o Museu (mais tarde veio a descobrir que eram fabricadas anualmente em Birmingham), Barnum levou a companhia de regresso a Inglaterra através do Canal. Realizaram-se exibições lucrativas em Londres, em outras cidades inglesas importantes e na Irlanda.

Tinham passado três anos e chegara a altura de voltar a casa. "O General", escreveu Barnum, "deixara a América, três anos antes, como um rapazinho tímido e inculto; voltou um homenzinho educado e realizado. Vira muitas coisas e lucrara muito. Foi para o estrangeiro pobre e regressou a casa rico." Barnum esqueceu-se de que poderia ter escrito quase as mesmas palavras sobre si próprio.

Embora Barnum continuasse a sua relação de proximidade com Tom Thumb, com base numa sociedade igualitária, durante mais de três décadas, nunca deixou de procurar outro Tom Thumb.

Em 1861, quando o General acrescentara um bigode às feições e vinte e cinco centímetros à estatura, tendo aumentado o peso para vinte e seis quilos, um anão ainda mais diminuto visitou Barnum no Museu. De nome George Washington Morrison McNutt, era filho de um agricultor do New Hampshire. Tinha dezoito anos, setenta e dois centímetros de altura e doze quilos de peso. Vários mestres de espectáculo estavam interessados, mas Barnum assinou com ele um contrato de três anos por $30. 000. A nova descoberta foi baptizada de Comodoro Nutt e trajada com uma farda da marinha.

Tornou-se um favorito imediato e Abraham Lincoln convidou Barnum a levá-lo à Casa Branca. Uma reunião de estado foi interrompida para que o par pudesse ser apresentado. A entrevista foi breve mas afável e, quando chegou a altura de o anão partir, Lincoln apertou-lhe a mão. "Comodoro", disse o presidente, "permita-me que lhe dê um conselho de despedida. Quando se encontrar ao comando da sua frota e se arriscar a ser feito prisioneiro, aconselho-o a vadear até à costa." Todos se riram, excepto o Comodoro, que ergueu lentamente o olhar pelas longas pernas de Lincoln e replicou: "Imagino, Sr. Presidente, que se saísse melhor do que eu."

No ano após ter adquirido o Comodoro Nutt, Barnum ouviu falar de uma anã notável chamada Mercy Lavinia Warren Bump, que preferia o nome Lavinia Warren. Embora os pais tivessem ambos um metro e oitenta, e sete dos irmãos e irmãs fossem de estatura normal, tinha uma irmã mais nova chamada Minnie, que também era anã. Aos vinte anos, Lavinia tinha exactamente oitenta centímetros de altura e pesava quinze quilos. Apesar do tamanho, fora professora primária de alunos do terceiro ano em Middleboro, no Massachusetts, e, recentemente, viajara num barco de espectáculos pelo Mississipi. Barnum considerou-a "uma jovem extremamente inteligente e refinada, com uma boa educação, e uma mulher em miniatura completa, bonita e perfeitamente desenvolvida", tendo-lhe apresentado de imediato um contrato a longo prazo.

O pequeno mundo de Barnum descontrolou-se imediatamente, pois o surgimento de Lavinia, morena e atraente, criou um triângulo liliputiano. O Comodoro Nutt, que trabalhava a seu lado, apaixonou-se por Lavinia. Depois, Tom Thumb, que se afastara temporariamente aos vinte e três anos e que gozava dos prazeres da sua mesa de bilhar em miniatura em Bridgeport e do iate em Long Island Sound, surgiu em Nova Iorque, bateu com os olhos em Lavinia e apaixonou-se perdidamente. A disputa pela mão da jovem tornou-se tão acirrada que o Comodoro, durante um ataque de ciúmes, derrubou o fraco General com um soco. O Comodoro tinha vigor e força a seu favor, mas Tom Thumb possuía fama e fortuna. Tom Thumb implorou a Barnum que intercedesse a seu favor junto de Lavinia. Barnum recusou-se. "Deverá fazer a sua própria corte", disse ao General.

Tom Thumb assim fez. Numa tarde de Outono de 1862, preparou tudo para se encontrar a sós com Lavinia na sala de estar da mansão de Bridgeport de Barnum. Vários convidados da casa esconderam-se sem o conhecimento de Barnum e ouviram o que aconteceu, tendo a declaração de Tom Thumb ficado registada para a posteridade.

O General falou sobre o seu património, as viagens à Europa e a visita de Lavinia ao estrangeiro, que já estava marcada. Comentou que gostaria de partir com ela.

"Pensei que no outro dia tinha dito que possuía dinheiro suficiente e estava cansado de viajar", disse Lavinia, à laia de provocação.

"Tudo depende da minha companheira de viagem."

"Pode não gostar da minha companhia", replicou Lavinia.

"Estaria disposto a arriscar... Gostaria mesmo que a acompanhasse?"

"Claro que sim."

Tom Thumb passou o braço em redor da cintura dela. "Não acha que seria mais agradável se viajássemos como marido e mulher?" Lavinia disse-lhe para não brincar. Tom Thumb retorquiu que nunca falara tão a sério. Lavinia disse que era tudo muito repentino. Tom Thumb contrapôs que pensava em casar-se havia meses. "Devia casar-se", disse a Lavinia. "Amo-a de todo o coração e quero tê-la como esposa." Nervosa, Lavinia respondeu: "Acho que o amo o suficiente para consentir, mas sempre disse que nunca me casaria sem o consentimento da minha mãe."

Agora tudo dependia da mãe de Lavinia. Mrs. Bump não gostou de Tom Thumb devido ao bigode e à pomposidade. Receava também que o casamento tivesse sido maquinado por Barnum como golpe publicitário, mas uma série de cartas de Tom Thumb e de Lavinia, a par de garantias por parte de Barnum e de George A. Wells, proprietário de um hotel de Bridgeport, amigo dos Stratton, amoleceu-a e, por fim, a senhora deu o seu consentimento.

Assim que o casamento foi anunciado, Nova Iorque ficou impaciente. Tom Thumb juntou-se a Lavinia no Museu e milhares de pessoas acorreram para os ver. As receitas elevavam-se com frequência a três mil dólares por dia. Barnum ofereceu quinze mil dólares ao par para que adiassem o casamento por um mês e continuassem a exibir-se. "Nem por cinquenta mil dólares", bradou o General.

Uma voz ergueu-se contra o matrimónio. James Gordon Bennett insinuou que Barnum tinha combinado tudo para estimular o negócio e que as pessoas se dirigiam em rebanho ao Museu para ver o casal devido à aberração sexual que era apresentada. "Qual o nível de ideias a que Barnum apelou quando anunciou de forma tão vasta o noivado? ", indagou Bennett. "Só era preciso ouvir as conversas dos nossos concidadãos e concidadãs enquanto olhavam embasbacados para a pequena Rainha de Beleza, ou escutar as inúmeras piadas que andavam em circulação sobre o assunto, para receber uma resposta adequada a estas questões."

Barnum não fez nada para encorajar a curiosidade do público em relação à vida sexual do casal de anões, mas ela continuou, quer antes, quer depois do casamento. Segundo Walter Bodin e Burnet Hershey, em lt's a Small World, a maioria dos anões verdadeiros possuem um desenvolvimento sexual normal, que é consistente com a sua estatura. "Embora dotadas do desejo sexual das mulheres adultas de estatura normal, as mulheres anãs encontram-se quase sempre equipadas com órgãos sexuais que não ultrapassam a dimensão dos de uma menina de cinco ou seis anos... Os problemas sexuais dos homens anões são mais simples. De forma geral, são três. A potência tardia, a impotência prematura e a certeza do escárnio sempre que a paixão recai sobre mulheres de estatura normal, o que é frequentemente o caso." Dizia-se que Lavinia e Tom Thumb eram sexualmente normais.

Duas mil pessoas foram convidadas para o casamento e muitos indivíduos sem convite ofereceram até sessenta dólares por um lugar. Os presentes chegaram às centenas, incluindo biombos chineses do Presidente e da Primeira Dama e uma caixa de música (um pássaro chilreante era libertado por uma alavanca) de Barnum. No dia 10 de Fevereiro de 1863, na Grace Church de Nova Iorque, perante uma assembleia que incluía vários governadores, generais do exército, congressistas e milionários, Lavinia Bump e Tom Thumb foram unidos pelo matrimónio pelo reverendo Junius Willey, de Bridgeport.

Após o casamento e o copo de água, o casal minúsculo foi recebido na Casa Branca. "Meu rapaz", disse Lincoln, dirigindo-se ao General e indicando as respectivas estaturas, "Deus gosta de fazer coisas engraçadas; aqui tem o maior e o mais pequeno do que Ele fez." Com respeito pela elevada patente militar do General, o presidente perguntou-lhe se teria algum conselho a dar sobre a condução da Guerra Civil. Tom Thumb anuiu. "O meu amigo Barnum", disse a Lincoln, "resolveria esse assunto no espaço de um mês."

Ao concluírem o encontro em Washington, Lavinia e Tom Thumb retiraram-se para o apartamento do noivo, na casa de $30. 000 de Bridgeport que o pai deste construíra. A residência encontrava-se atulhada de mobília em escala reduzida, fabricada por Sherwood Stratton, embora a cama em pau-rosa em miniatura, com flores esculpidas na cabeceira, tivesse sido uma oferta de Barnum. Certa vez, em retribuição, Tom Thumb deu ao mestre de espectáculos um relógio de ouro que fazia soar um alarme a cada quinze minutos. Mais tarde, sob os auspícios de Barnum, o par recém-casado realizou uma digressão mundial bem sucedida, durante três anos e ao longo de quase 90. 000 quilómetros, durante a qual conheceram o papa Pio IX, Napoleão III e o rei Victor Emanuel, da Itália.

Acreditava-se que Lavinia dera um herdeiro a Tom Thumb, e que esse filho morrera devido a uma inflamação cerebral, com dois anos de idade. Embora ainda hoje se acredite nessa história, ela não tem um fundo de verdade. O filho do casal de anões era fruto da imaginação de Barnum, tendo sido inventado com fins publicitários. Contudo, Minnie, a irmã anã de Lavinia, casada com um patinador inglês ligeiramente mais alto do que um anão, morreu durante o parto, após ter dado à luz uma menina de dois quilos setecentos e cinquenta, que também faleceu.

Lavinia e Tom Thumb foram um casal feliz durante vinte anos. O General tornou-se imponente e chegou à altura de um metro. Também se tornou extravagante. Era dono de uma chalupa, de cavalos puro sangue, de uma carruagem com condutor e fumava charutos caros. Era mação em trigésimo-segundo grau e cavaleiro templário. Na manhã do dia 15 de Julho de 1883, morreu com uma apoplexia, com quarenta e cinco anos. Mais de dez mil pessoas estiveram presentes no funeral, tendo ido a enterrar no Mountain Grove Cemetery, de Bridgeport, que Barnum ajudara a criar. Sobre a sua campa, no cimo de uma coluna de mármore de doze metros, foi colocada uma estátua de granito em tamanho natural de Tom Thumb, obra essa mandada fazer em tempos pelo próprio.

Apesar do facto de ter ganho vários milhões de dólares durante a vida, o General deixou Lavinia com pouco mais do que o seu nome. Tudo o que restou da enorme fortuna que ele esbanjara foram alguns terrenos e $16. 000. Para minimizar a sua dor, Lavinia foi em digressão com uma companhia. O outro cabeça de cartaz era o conde Primo Magri, que recebera o título do papa, e em tempos trabalhara para Tom Thumb. O conde, tocador de flautim e pugilista, tinha um metro e doze e era oito anos mais novo do que Lavinia. Após dois anos de viuvez, Lavinia casou-se com o conde.

O interesse por anões dissipara-se e a vida de Lavinia transformou-se num pesadelo de espectáculos únicos. Ela e o conde apareceram numa actuação de vaudeville, em quatro filmes de comédia e, finalmente, num circo de aberrações de Conney Island. Afastaram-se, finalmente, para uma casa em miniatura em Marion, no Ohio, que se tornou uma atracção turística. Com a velhice, Lavinia ficou gorda e tagarela, dedicando-se de alma e coração à Ciência Cristã e à D. A. R. 28. Morreu em 1919, com setenta e oito anos, tendo o segundo marido falecido pouco tempo depois.

Lavinia usou até ao fim um medalhão de ouro que continha a fotografia do primeiro marido. Amara Tom Thumb mais do que a Magri e, ao morrer, pediu para ser enterrada a seu lado. Sobre o caixão do tamanho de uma criança, à sombra do monumento a Tom Thumb, foi erigida uma pequena lápide. Nela apenas se liam duas palavras: "Sua Esposa."

Estas foram as pessoas pequenas que ajudaram Barnum a tornar-se grande. O mestre de espectáculos nunca esqueceria que, dos oitenta e dois milhões de bilhetes vendidos pela sua grande variedade de atracções, vinte milhões pertenceram ao General Tom Thumb.

 

28 Daughters of the American Revolution, ou Filhas da Revolução Americana.

 

         EXIBIÇÃO CINCO - CHANG E ENG

Barnum regressou a Nova Iorque, vindo da Europa, em Fevereiro de 1847, com dois objectivos imediatos: primeiro, obter um maior controlo sobre o Museu Americano, renovando o contrato de arrendamento; segundo, "fazer do Museu uma instituição permanente da cidade".

Olmsted morrera e Barnum negociou com os herdeiros, exigindo um acordo a longo prazo e ameaçando construir o seu próprio edifício na Broadway, caso não levasse a sua avante. Finalmente, os herdeiros cederam e Barnum assinou um contrato de vinte e cinco anos pelo Museu Americano, com uma renda de $10. 000 por ano. Uma vez que as curiosidades rendiam agora num único dia o lucro que em tempos arrecadava numa semana, Barnum poderia suportar a renda elevada.

Concentrou as energias em fazer do Museu o ex libris da cidade. A forma como o conseguiu na década seguinte pode ser avaliada através da consulta do principal guia turístico da altura, New-York, de E. Porter Belden, publicado em 1849. O capítulo intitulado "Entretenimento e Diversão" menciona Castle Garden, The Lyceum Gallery, The Mechanics' Institute e a estância balnear de Coney Island, mas o lugar de honra é dado à exibição de Barnum.

"De todas as instituições do género no continente, "declara o guia de Belden," o MUSEU AMERICANO é o mais popular. Foi fundado em 1810, pelo falecido John Scudder, Esq. mas deve o seu lugar no coração do público à gerência do actual proprietário, Phineas T. Barnum, Esq. que adquiriu o estabelecimento em 1842... O Museu Americano possui agora as mais recentes curiosidades, bem como numerosos e valiosos espécimes de todos os departamentos de arte e de história natural. Encontra-se ligada ao estabelecimento uma sala de palestras, onde são realizados concertos, experiências filosóficas e uma grande variedade de entretenimentos."

Com a enérgica campanha para fazer do Museu um sinónimo de diversão, Barnum apresentou ao público toda a perspicácia, estratégia e capacidade ao seu dispor. Começou com a sua melhor e mais publicitada atracção: o agora cosmopolita Tom Thumb. Após duas semanas do regresso de Barnum do estrangeiro, podia ler-se em anúncios de jornal:

"O GENERAL TOM THUMB, o mais pequeno homem em Miniatura do mundo conhecido, pesando apenas SETE QUILOS E MEIO, que recebeu o mecenato de toda a REALEZA da Europa e que foi visto por mais de 5. 000. 000 de pessoas, regressou à América, no paquete Cambria, e fará a sua GRANDE ESTREIA no seu antigo quartel-general nesta cidade, o Museu Americano, onde se levaram a cabo grandes preparativos para o receber."

Barnum prometeu, é claro, as imitações familiares de Napoleão e das Estátuas Gregas, mas deixou bem claro que fora acrescentado algo novo:

"Também irá aparecer no seu magnífico TRAJE DA CORTE, oferecido pela Rainha Vitória, da Inglaterra, e envergado perante as principais Cortes da Europa. Posteriormente surgirá no MAGNÍFICO TRAJE ESCOCÊS, com o qual dançará o HIGHLAND FLING."

Durante um mês, Tom Thumb actuou para grandes audiências na Sala de Palestras. O clamor do resto dos Estados Unidos para ver o homenzinho foi de tal ordem que Barnum acedeu, finalmente, em levá-lo em digressão. Após visitar o presidente James K. Polk na Casa Branca, o mestre de espectáculo e o general prosseguiram para Filadélfia, Boston e Buffalo, depois foram para Havana e regressaram a Macon, Mobile e Nova Orleães. Os lucros de Barnum foram consideráveis: ao passo que as despesas não ultrapassavam, em média, os $200 por semana em digressão, as receitas de bilheteira ascendiam, normalmente, aos $3. 000 semanais.

Quando regressou ao gabinete, ao lado da exposição no primeiro andar do Museu, Barnum pensou em novas excentricidades para estimular o negócio. Após uma breve hibernação, surgiu com um novo leque de ideias. Realizou um concurso de beleza para encontrar "a mais bela mulher da América" (através de daguerreótipos enviados), exibindo as imagens para avaliação pública numa Galeria de Beleza. Exibiu Old BlindTom, um pianista negro capaz de reproduzir imediatamente no teclado tudo o que ouvia mesmo que uma só vez, incluindo erros, bem como um inventor negro que possuía uma erva que transformaria em brancas todas as pessoas de cor. Barnum apregoou o caso como a solução para a escravatura e exibiu o charlatão. Mostrou Anna Swan, uma gigante inteligente e atraente, com dois metros e trinta e sete de altura e duzentos e seis quilos de peso. Quando ouviu falar dela através de um amigo quaker, Barnum enviou um agente para Pictou, na Nova Escócia, a fim de a trazer para Nova Iorque. Anna Swan acabou por apaixonar-se por outro dos gigantes de Barnum, o Capitão N. V. Bates, com mais um centímetro do que ela e com duzentos e trinta e nove quilos, tendo casado com ele. Após muitos anos no mundo do espectáculo, retiraram-se para uma casa colossal, com portas de dois metros e setenta, no Ohio. Exibiu Voung Herman, o Expansionista, que podia inflar o peito de noventa e cinco centímetros para um metro e meio. Tal como o seu patrão, Herman gostava de uma boa partida. Em Nova Iorque ou Londres, relatou a English lllustrated Magazine, gostava de visitar lojas de roupa. "No interior, deixa-se ficar pequeno. O vendedor tira-lhe as medidas e dá-lhe um casaco para noventa centímetros. Considera-o muito pequeno. Experimenta um casaco maior, que também acha demasiado pequeno. Este processo repete-se até que se descobre o maior casaco do estabelecimento, altura em que Herman espanta o vendedor, rebentando com os botões." Acima de tudo, exibiu "a mais espantosa maravilha do século XIX", Madame Josephine Fortune Clofullia, elegante, feminina e com uma barba exuberante.

Desde então, a mulher de barba transformou-se numa atracção normal em todas as feiras e circos de aberrações, mas, no tempo de Barnum, uma mulher de barba era uma raridade e Madame Clofullia foi uma pioneira da espécie. Nascera Josephine Boisdechene, em Versoix, na Suíça. Com a tenra idade de oito anos, possuía uma barba de cinco centímetros. Aos catorze anos, chegava aos dez centímetros. Aos vinte e cinco, altura em que Barnum a contratou, ostentava, segundo os anúncios, uma "barba e suíças perfeitamente desenvolvidas, que o mais exigente dândi teria orgulho em envergar". Na sua juventude, fora exibida por um mestre de espectáculo francês, e recebera ofertas de Napoleão III. Um pintor chamado Clofullia achou que a barba não era obstáculo para o romance e casou com ela. Tiveram dois filhos e o rapaz sobrevivente (também contratado por Barnum) possuía um rosto tão peludo como um Yorkshire terrier.

Madame Clofullia teria permanecido uma curiosidade rotineira se um cliente do Museu Americano, William Charr, não tivesse olhado para ela com cepticismo e corrido para a polícia, queixando-se de ter sido enganado. Charr argumentava que a Madame era "nada mais nada menos do que um homem de vestido" e que "ela e Barnum eram impostores". Fora burlado na sua entrada de vinte e cinco cêntimos e pretendia vingar-se.

O caso de fraude foi levado ao Tribunal de Tombs, em Julho de 1853. Barnum disponibilizou-se para testemunhar que uma equipa de médicos de boa reputação lhe havia garantido que Madame Clofullia era do sexo feminino e que as suas suíças não eram fisicamente impossíveis. O pai idoso de Madame depôs que Josephine era, na verdade, sua filha e não seu filho. Monsieur Clofullia compareceu para declarar com indignação que Madame era sua esposa legal desde há dois anos e que esta lhe dera dois filhos. Finalmente, por iniciativa de Barnum, o Dr. Covil, ligado ao Tombs, anunciou que ele e uma enfermeira tinham examinado Madame, considerando-a do sexo feminino a todos os níveis.

O caso foi anulado e William Charr continuou um quarto de dólar mais pobre. Barnum, por uma feliz coincidência, teve a sua agitação e ainda mais multidões no Museu. Mas será que se tratou deveras de um acidente? Um editor céptico do Connecticut ouvira dizer (publicou que tinha havido "uma fuga de informação") que Charr fora contratado pelo astuto Barnum para instigar o processo. O editor não levantou qualquer objecção. A única coisa que sentia era admiração e, aparentemente, o mesmo se passou com o público.

Ao longo dos muitos anos de vida do Museu, mais de 600. 000 exibições, algumas delas vivas, outras inanimadas, muitas temporárias, foram adquiridas e apresentadas por Barnum. Deste número, talvez o mais representativo da galeria no seu apogeu (especialmente por o nome da exibição se ter tornado parte da língua americana e entrado nos dicionários Webster) tenham sido os gémeos siameses.

Hoje em dia, qualquer monstruosidade dupla é designada por Gémeos Siameses, mas Chang e Eng, que não eram siameses mas sim chineses, foram os originais. Embora o par unido tenha sido a mais famosa das exibições do mestre de espectáculos, à excepção de Tom Thumb, Barnum não gostava dos irmãos. Por um lado, eles eram já famosos quando Barnum os recebeu, não podendo reivindicar qualquer crédito pela descoberta ou pela atracção que exerciam. Por outro lado, eram independentes e antipáticos. Na verdade, os Gémeos detestavam e evitavam Barnum. Mesmo estando em desacordo sobre muita coisa, ambos consideravam Barnum um sovina.

Chang e Eng nasceram em Meklong, no Sião, uma pequena aldeia perto de Banguecoque. O pai era um pescador chinês empobrecido. Desde o nascimento que se encontravam unidos por um ligamento grosso e carnudo coberto de pele, como se fosse um braço de dez centímetros que ligava a parte de baixo dos peitos. De início, este vínculo mantinha-os face a face mas, à medida que foram crescendo, o ligamento alongou-se até perto dos vinte centímetros, permitindo-lhes levantar-se e deslocar-se de lado. A ligação era sensível, mas forte. Se lhe tocassem ao meio, ambos os rapazes o sentiam. Mas era tão forte que, se por acaso um dos gémeos tropeçasse e perdesse o equilíbrio, o ligamento segurava-o, dependurado mas firme.

Com alguma dificuldade, Chang e Eng aprenderam a andar a par e posteriormente a nadar com alguma agilidade no rio próximo. Com dezanove anos, e após terem passado a ser uma visão familiar para os vizinhos, foram vistos a nadar por um oficial de navio americano, o capitão Coffin, do navio Sachem. Espantado com o que viu, o capitão consultou Robert Hunter, um mercador escocês, e decidiram comprar os rapazes e exibi-los. Fizeram perguntas pelas redondezas. O pai dos gémeos falecera recentemente e a mãe estava disposta a negociar. A seu tempo assinou-se um contrato, algum dinheiro mudou de mãos e Coffin e Hunter levaram os Gémeos Siameses para Inglaterra.

Depois de terem sido exibidos no Velho Continente durante muitos anos, Chang e Eng foram levados para Boston e depois para Nova Iorque. Anunciados como "Os Rapazes Siameses Duplos", tornaram-se de imediato o centro de grande interesse e controvérsia. Correu o boato de que não se encontravam verdadeiramente ligados. A controvérsia atraiu Barnum, que os conheceu, ficou satisfeito em como eram verdadeiras aberrações e comprou o contrato. Após isso, foram exibidos com regularidade no Museu Americano.

Os Gémeos Siameses eram os mais temperamentais da família de aberrações de Barnum. A Natureza pregara-lhes mais do que uma partida cruel, pois, embora Chang e Eng estivessem condenados um ao outro, eram opostos em todos os aspectos e detestavam-se mutuamente. Chang, o Gémeo ligeiramente mais baixo e à esquerda, gostava de vinho e de mulheres. Eng, o mais estudioso e intelectual, apreciava um serão de xadrez. As suas diferenças foram relatadas em 1874 pelo Philadelphia Medicai Times: "Aquilo que Chang gostava de comer, Eng detestava. Eng era afável e Chang mal-humorado e irritável. Uma eventual enfermidade de um não afectava o outro, sendo que um poderia estar com febre, enquanto que o ritmo cardíaco do outro permanecia normal. Chang bebia muito, chegando a embriagar-se frequentemente, mas Eng nunca sofria qualquer influência pelo deboche do irmão. Discutiam com regularidade e é claro que, em tais circunstâncias, os desentendimentos eram amargos. Por vezes tornavam-se violentos e, em dada ocasião, o caso teve de ser entregue a tribunal."

Sozinhos, amuavam em silêncio. Por vezes, concordavam em fazer primeiro o que um queria, satisfazendo de seguida os desejos do outro. Os únicos interesses que partilhavam era a caça, a pesca e as xilogravuras. Embora a sua anormalidade os tivesse deixado ricos, viviam apenas com o objectivo de se livrarem um do outro. Inúmeros médicos foram visitados, mas nenhum lhes garantiu que pudessem viver separados um dia que fosse.

Certa vez, após uma discussão particularmente aguerrida, decidiram desafiar os conselhos médicos. Segundo o Medical Times: "Chang e Eng solicitaram ao Dr. Hollingsworth que os separasse. Eng afirmou que Chang era tão mau que não poderia continuar a viver com ele. Chang declarou que ficava satisfeito em ser separado, pedindo apenas que lhe dessem uma oportunidade igual à do irmão e que a ligação fosse cortada exactamente ao meio. Acabaram por prevalecer conselhos mais assisados."

Desfrutando da liberdade e dos dólares americanos, os gémeos decidiram requerer a cidadania. No gabinete de naturalização, descobriram que teriam de ter um nome de baptismo ou de família. Nunca tinham possuído outros nomes para além de Chang e Eng. Ao ouvir a natureza do problema, um requerente que aguardava na fila atrás deles ofereceu-lhes o seu apelido, Bunker. E foi assim que os Gémeos Siameses se tornaram Chang Bunkere Eng Bunker, cidadãos americanos.

Finalmente, cansados da rotina severa do Museu, pediram demissão a Barnum e retiraram-se para uma plantação perto de Mount Airy, na Carolina do Norte, onde descansaram e deixaram que os escravos fizessem todo o trabalho. Depois, quase em simultâneo, aos quarenta e dois anos de idade, apaixonaram-se pelas filhas jovens de um pobre agricultor irlandês da vizinhança. Realizaram um casamento duplo. Eng casou com Sally Yates e Chang com Addie Yates. Agora era necessário uma boa dose de diplomacia e de transigência. Os Gémeos construíram uma segunda mansão, a pouco mais de um quilómetro da primeira, estabelecendo-se dois lares separados. Chang, Eng e Sally passavam três dias na casa de Eng e depois Chang, Eng e Addie passavam três dias na casa de Chang. Aparentemente, o acordo não era motivo de constrangimento, pois os Gémeos tiveram vinte e um filhos.

A Guerra Civil levou-lhes os escravos e a fortuna, tendo sido forçados a regressar ao mundo do espectáculo. Pediram a Barnum que voltasse a representá-los, ao que este acedeu. Quando o regresso se revelou um fracasso em Nova Iorque, Barnum decidiu enviá-los para o estrangeiro. "Mandei-os para a Grã-Bretanha, onde, nos locais mais importantes, e durante cerca de um ano, as suas apresentações estiveram constantemente esgotadas, " escreveu o mestre de espectáculos. "Quase de certeza que o grande sucesso deste empreendimento foi ampliado, se não mesmo causado, pelos anúncios antecipados de que o principal objectivo da visita de Chang-Eng a França era a consulta com os mais proeminentes talentos médicos e cirúrgicos, tendo em vista a possibilidade de separar os gémeos de forma segura."

Voltaram a ficar ricos. E, mais uma vez, separaram-se de Barnum e regressaram com as esposas à plantação perto de Mount Airy. Tinham sessenta e três anos de idade e, embora Chang não se encontrasse de perfeita saúde, o futuro parecia radiante. O fim chegou de forma súbita e o Annual Register relatou, em 1874, aos vastos seguidores ingleses dos Gémeos:

"Encontravam-se na residência de Chang e a tarde desse dia era a altura marcada para a mudança para a casa de Eng. O dia estivera frio e Chang queixava-se já há dois meses que se sentia muito doente. No fim da tarde de sexta-feira, retiraram-se sozinhos para um pequeno quarto e foram para a cama, mas Chang estava inquieto. Algures entre a meia noite e a alvorada, levantaram-se e sentaram-se à lareira. Mais uma vez Eng protestou e disse que queria deitar-se, pois estava com sono. Chang recusou-se terminantemente, dizendo que lhe doía o peito quando se deitava. Após algum tempo, voltaram à cama e Eng adormeceu profundamente. Por volta das quatro, um dos filhos entrou no quarto e, acercando-se da cama, descobriu que o tio estava morto. Eng acordou com o barulho e, alarmado, virou-se e olhou para a forma inerte a seu lado, sendo acometido por violentos espasmos nervosos.

"Não se encontravam médicos por perto e, uma vez que a vila de Mount Airy se encontrava a cinco quilómetros de distância, passou algum tempo até que chegasse assistência. Foi enviado um mensageiro para o Dr. Hollingsworth, que enviou o irmão, também ele médico, de imediato para a plantação, mas, antes de chegar, a chama vital extinguiu-se e os Gémeos siameses morreram." Aparentemente, o facto de Eng nunca ter sentido os efeitos do álcool consumido por Chang não significava que os Gémeos fossem pessoas separadas. Era provável que Chang possuísse menos tolerância aos estimulantes e que o seu sistema nervoso fosse mais sensível. A autópsia revelou que os fígados e a corrente sanguínea dos Gémeos eram únicos e que teriam de viver juntos, ou então não viver de todo.

Tal como Tom Thumb, Chang e Eng elevaram a reputação de Barnum enquanto mestre de espectáculos. O seu luto foi breve e foram alvo apenas de uma breve menção na autobiografia de Barnum, pois a sua mente já há muito se dirigira para outras maravilhas.

Poucos clientes durante a vida de Barnum se aperceberam da agressividade com que este procurava excentricidades. O negócio tornara-se grande e, por isso mesmo, menos personalizado. Ao longo dos anos, viu-se obrigado a delegar poderes nos funcionários. Em vez de esperar que lhe surgisse uma curiosidade, de aguardar por alguma notícia, de investigar por si próprio, passou a contratar batedores e agentes por todo o mundo. Um deles era um alemão, dono de uma peixaria em Hamburgo, em 1848, e chamado Gottfried Claus Hagenback. Um dia, a par do pescado habitual, recebeu de pescadores locais várias focas vivas. Exibiu-as em tinas de madeira e elas atraíram mais clientes do que os produtos que vendia. Encorajado, transformou a loja em aquário de animais vivos e bizarros do oceano profundo. Os resultados justificaram novos investimentos em vida animal. Quando Barnum ouviu falar de Hagenback, contratou-o e fez encomendas de animais estranhos no valor de milhares de dólares. A fim de satisfazer Barnum, o seu mais importante cliente, bem como centenas de jardins zoológicos, Hagenback enviou expedições completas para o Bornéu, Sumatra, índia e Congo.

Não havia limite para os gastos nem para a persistência de Barnum quando queria encontrar uma nova curiosidade. Um caso específico foi registado por William A. Croffut, durante algum tempo um dos secretários privados de Barnum. O jovem Croffut sentia- se fascinado pelo oculto e perguntou ao patrão por que motivo não mandava buscar à índia um yogue ou dois, para exibir. Barnum replicou secamente que não existia nenhuma criatura como o yogue, e que tal não passava de um mito. Em tempos, depois de ter ouvido periodicamente narrativas de viajantes sobre os milagreiros yogue, Barnum enviara "dois ianques astutos e eruditos, que também eram viajantes orientais e conheciam a geografia e o povo indianos" para localizar uma série de yogues que pudessem ser contratados por cinquenta dólares por noite cada um, durante um ano.

Os agentes de Barnum palmilharam a índia, mas não tiveram sorte. "Anunciaram que pagariam um salário de dez mil dólares por ano a cada yogue, " disse Barnum a Croffut. "Não descobriram yogues em lado nenhum, embora tenham encontrado prestidigitadores inferiores aos nossos e grandes quantidades de mahatmas, os padres hindus... Sim, custou-me vários milhares de dólares, não interessa quantos, provar o maravilhoso mito do yogue milagreiro. A razão pela qual não exibo um yogue é a mesma para não expor o Pai Natal. Não consigo apanhá-lo!"

Barnum sentia-se cada vez menos inclinado para o tipo de fraude da Sereia das Fiji. Ainda assim, nunca foi capaz de resistir a uma piada inofensiva. Num certo Quatro de Julho, a fim de acomodar os milhares que se esforçavam para entrar no Museu já cheio, Barnum fez o carpinteiro cortar uma parede que dava para Ann Street e instalar um lanço de escadas temporário a fim de esvaziar o edifício, mas apenas uma mancheia de pessoas utilizaram essa saída. No ano seguinte, no dia de St. Patrick, quando milhares de irlandeses encheram o Museu, a nova saída foi novamente preparada. Contudo, Barnum descobriu que apenas três pessoas tinham utilizado esta saída especial. A maioria das famílias irlandesas pretendia aproveitar o dia, vendo as exposições, almoçando a refeição que tinham levado e recomeçando o trajecto. Desesperado para deixar entrar os clientes que faziam fila no exterior, Barnum chamou um pintora parte e segredou-lhe qualquer coisa. Quinze minutos depois, uma tela com um metro quadrado era pendurada sobre a saída das traseiras. Dizia: "Port AQUI PARA O REGRESSO." Centenas de pessoas reuniram-se à volta do aviso, curiosas. Alguém disse a outro: "O rigresso. De certeza que é um animal que ainda não vimos." A multidão saiu para Ann Street (descobrindo apenas uma maravilha: que tinham sido ludibriados) enquanto novos clientes se acotovelavam pela entrada principal.

Uma fraude posterior, levada a cabo no interior do Museu, foi apenas uma brincadeira inofensiva, apreciada por todos e amplamente publicitada. Num dia de Outono, Barnum anunciou "uma novidade misteriosa". Os leitores não foram capazes de resistir ao enigma e compareceram em número apreciável perante o palco do Museu. Viram uma mesa, onde fora pregado um saco branco, com a legenda: "O gato escondido com o rabo de fora."

Barnum fez a sua entrada e depois a sua rábula. Enquanto estava de férias, declarou, o gerente subalterno, o inglês John Greenwood, Jr. gastara vinte e cinco dólares na compra de um "gato da cor de uma cereja" a um agricultor. Quando o curioso gato foi entregue, Mr. Greenwood ficou desanimado. Mas, acrescentou Barnum, "acho que recebeu aquilo que comprara". Barnum fez sinal a um assistente que abriu o saco e retirou um gato preto normal, escanzelado e assustado. A audiência limitou-se a fitá-lo, sem expressão. Quando o agricultor prometera um "gato da cor de uma cereja", referia-se, claro está, a um "gato da cor de uma cereja preta", e aqui estava ele. Em vez de ameaças de que seria linchado, a audiência recebeu a fraude a Mr. Greenwood e a ela própria com uma súbita gargalhada, tendo apelidado o gato de "Black Crook"29. Mais uma vez, Barnum tivera razão. As pessoas queriam divertir-se, mesmo que à sua própria custa.

Os maiores embustes eram normalmente encenados no exterior do Museu. Barnum perpetrava-os, segundo o próprio, por prazer, bem como por dinheiro, e, acima de tudo, disse, para publicitar o Museu sem o envolver directamente. Ao participar no aniversário da batalha de Bunker Hill, no dia 17 de Junho de 1843, Barnum preparava-se para ouvir uma oração de Daniel Webster, mas rapidamente foi distraído pelo conteúdo de uma velha tenda ali próxima. Ao investigar, Barnum descobriu que a tenda continha quinze vitelos de búfalo com cerca de um ano, esfomeados e exaustos. Os animais tinham sido trazidos do Extremo Oeste por

 

29 "Patife Preto".

 

  1. D. French, um cavaleiro experiente e artista de laço, que possivelmente tencionava exibi-los. Barnum teve uma ideia. Ofereceu a French $700 dólares pelos animais e a proposta foi aceite. Depois contratou French por trinta dólares por mês para tomar conta dos animais, alojou a manada num estábulo de Nova Jérsia e aconselhou French a empanturrar de comida os animais mortiços.

Barnum meteu mãos à obra com o seu estilo inimitável. A imprensa diária começou a ser polvilhada com histórias que falavam de uma horda de búfalos selvagens capturados nas montanhas Rochosas e que se dirigiam para Nova Iorque, de onde seriam enviados para a Europa. Os editores engoliram o isco e redigiram artigos onde sugeriam que alguém deveria exibir os animais, que estes valeriam bem bilhetes de um dólar e que de certeza que pelo menos 50. 000 nova-iorquinos corresponderiam. Quando o interesse estava já suficientemente desperto, Barnum emitiu panfletos, cartazes e anúncios de jornal que diziam:

"Grande Caça ao Búfalo, Gratuita. - Em Hoboken, quinta-feira, dia 31 de Agosto, às 3, 4 e 5 horas da tarde. Mr. C. D. French, um dos mais destemidos e experientes caçadores do Oeste, chegou até nós na sua viagem para a Europa, com uma Horda de Búfalos, capturados por si, perto de Santa Fé. Mr. French irá exibir o método de caça dos Búfalos Selvagens e do manejo do laço... Mr. French surgirá vestido de índio, montado num Cavalo da Pradaria e com uma sela mexicana, perseguirá os Búfalos pela Pista de Corrida, e capturará um com o laço...

"Não haverá qualquer perigo, pois foi instalada uma cerca dupla ao longo de toda a pista, a fim de evitar a possibilidade de os Búfalos se aproximarem dos espectadores. Serão colocados barcos adicionais à disposição..."

Não foi feita qualquer menção ao filantropo que iria produzir este entretenimento gratuito. Nos bastidores, Barnum negociara o aluguer de todos os barcos de passageiros que faziam a travessia para Hoboken no dia do espectáculo. Também conseguira a concessão do fornecimento de comida e bebida na Pista de Corridas junto ao Hoboken Ferry.

O grande dia chegou. A enchente foi de tal ordem que teve de ser acrescentado um barco para efectuar as travessias. Em sete horas, 24. 000 pessoas (pagando doze cêntimos e meio pela viagem de ida e volta) fizeram a viagem de barco para testemunhar a caça ao búfalo gratuita. Enquanto se acotovelavam atrás da cerca dupla, consumindo comida e bebida e aguardando os animais ferozes, ouviam uma banda de metais. Finalmente, chegou o momento excitante. Todos os olhares estavam postos no curral central. A porta abriu-se.

French, a cavalo, picava os búfalos emagrecidos e de patas feridas, incitando-os a avançar, tendo entrado com relutância na arena. Barnum observava nervosamente e relatou: "Ele seguiu-os de imediato, pintado e vestido como um índio, montado num corcel fogoso, com um laço numa mão e uma vara afiada na outra, mas os pobres vitelos amontoavam-se e recusavam-se a mexer-se! Acena foi de tal modo inesperada e tão ridícula que os espectadores começaram a rir-se sem parar."

Assustados pelas gargalhadas, os quinze búfalos começaram a trotar. Os milhares espectadores aplaudiram e o trovão que brotou das suas gargantas espantou tanto os búfalos, que estes largaram num galope desordenado. Precipitaram-se através das finas cercas de tábuas, fazendo com que famílias inteiras corressem em busca de segurança. Agora todos corriam, os búfalos assustados mais do que todos os outros. Finalmente, a manada trémula encontrou refúgio num pântano próximo. Um dos animais foi laçado e arrastado de volta, para deleite da multidão, que sabia que tinha sido enganada, mas ninguém se importou. Todos se tinham divertido.

O incansável Philip Hone resumiu o acontecimento no seu diário:

"Anunciou-se uma caça ao búfalo com laço que iria realizar-se "sem dinheiro e sem preço", salvo pelo que foi gasto em transporte e bebida... Ao ser capturado pelo laço, um dos animais ultrapassou a vedação e, seguido pelos restantes, avançou por entre a multidão, derrubando tudo à sua passagem e provocando tal gritaria e correria entre os atormentadores, como nunca antes fora ouvida nos campos Elísios. Um homem morreu ao cair de uma árvore, para onde subira em busca de refúgio. O búfalo aprisionado arrastou o caçador até um paul, onde o deixou, após o que a manada partiu em direcção às Montanhas Rochosas, ou pelo menos é o que se julga. No que diz respeito ao barco de transporte dos passageiros e à taverna, imagino que a especulação tenha resultado segundo a expectativa do responsável."

O Ilustre Philip Hone não precisava de se preocupar, pois Barnum fizera $3. 500 com o negócio. Após alguns dias, Barnum anunciou que "o proprietário do Museu Americano fora responsável pela partida, tendo assim utilizado a caça ao búfalo com o objectivo de atrair a atenção do público para o Museu. Esse propósito foi alcançado e, embora algumas pessoas tenham gritado "vigarice", tinha aumentado a popularidade, tal como desejava, e fiquei contente. Quanto à acusação de "vigarice", tal nunca me prejudicou, encontrando-me na posição do actor que prefere ser injuriado a não ser notado de todo".

Após recuperar os búfalos do pântano, Barnum repetiu o entretenimento gratuito em Camden, Nova Jérsia, com o mesmo sucesso. Finalmente, exportou metade dos búfalos para Inglaterra e vendeu os restantes para talhos, a um dólar o quilo.

Um embuste mais representativo do talento de Barnum para o espectáculo, e que revelou a sua capacidade para utilizar um acontecimento corrente a seu favor, ocorreu com a aquisição e exibição do seu Espécime, ou Cavalo Lanoso.

Durante o Verão de 1848, quando Barnum se encontrava no Cincinnati com Tom Thumb, aceitou um prospecto que convidava o público para a exibição de um "cavalo lanoso". Barnum foi ver a curiosidade. O que se lhe deparou foi um cavalo mais pequeno do que o habitual, sem crina nem pêlo na cauda, mas com o corpo totalmente coberto pelo que parecia ser lã de ovelha muito encaracolada. O animal era tão estranho que Barnum comprou-o de imediato, enviou-o para o Connecticut e mandou-o esconder num estábulo. Sabia que lhe poderia dar uso, mas ainda não tinha a certeza da maneira de o fazer.

Em breve, surgiu uma oportunidade. O intrépido John Charles Frémont, governador da Califórnia recentemente julgado em tribunal marcial e em breve candidato presidencial pelos republicanos radicais, encontrava-se na sua quarta expedição às montanhas Rochosas. Ao trabalhar para interesses privados que queriam uma rota ferroviária para oeste, Frémont perdeu-se nas tempestades de neve e tornou-se alvo de um vasto interesse nas primeiras páginas dos jornais. Subitamente, reapareceu na Califórnia, mais morto do que vivo, tendo perdido todo o equipamento e com onze elementos da expedição mortos. As manchetes eram maiores do que nunca e o público quase não falava de outra coisa. Barnum aproveitou o momento.

O cavalo lanoso foi retirado do esconderijo. Cuidadosamente enrolado em cobertores e perneiras que cobriam tudo, excepto os olhos e os cascos, foi levado para Nova Iorque e colocado num curral atrás do Museu. De seguida, Barnum inventou uma notícia e fez com que esta chegasse do Oeste por diligência e fosse entregue aos jornais mais importantes. De acordo com a notícia, que revelava as aventuras do coronel Frémont na neve, o Coronel e a sua expedição "tinham, após uma perseguição de três dias, capturado um espécime extraordinário, semelhante a um cavalo, mas sem crina nem cauda e coberto por uma espessa camada de lã... O Coronel enviara o maravilhoso animal como presente para o Quartel-Mestre-General dos E. U. A. ".

Alguns dias mais tarde, foi divulgado que o astuto P. T. Barnum conseguira o animal do Exército dos Estados Unidos e estava preparado para o exibir num edifício perto do Museu. "O Espécime, ou Cavalo Lanoso, do Cor. Frémont será exibido durante alguns dias na esquina da Broadway com Reade Street, antes da partida do animal para Londres, " diziam os anúncios. "A Natureza parece ter usado de todo seu engenho na produção deste espantoso animal, que é extremamente complexo, sendo feito a partir de Elefante, Veado, Cavalo, Búfalo, Camelo e Ovelha. É do tamanho de um Cavalo adulto, possui os quartos traseiros do Veado, a cauda do Elefante, uma fina lã encaracolada da cor do pêlo do Camelo, tendo à vontade três metros e meio a quatro metros e meio. Todos os naturalistas e os mais antigos caçadores garantiram ao Cor. Frémont que, antes da sua descoberta, o animal era desconhecido. É, sem dúvida, "o último da sua espécie" e o mais rico espécime alguma vez recebido da Califórnia. Poderá ser visto todos os dias desta semana. Entrada 25 cêntimos; crianças pagam meio bilhete."

O equídeo sarnento fez um negócio moderado em Nova Iorque e um negócio razoável nas cidades vizinhas, mas foi, embora durante pouco tempo, um enorme sucesso em Washington, D. C. em grande medida devido à irritação que causou ao sogro do coronel Frémont.

O poderoso senador Thomas Hart Benton, do Missouri, levantara objecções quando a filha de dezasseis anos se apaixonara por Frémont. Após o casamento, contudo, havia sete anos, acolhera Frémont debaixo da asa. Quando o senador Benton ouviu falar da exposição de Barnum, foi ver do que se tratava e ficou perturbado. Processou de imediato o agente de Barnum, por lhe ter retirado vinte e cinco cêntimos mediante "alegações falsas". O senador argumentou que recebera muitas cartas de Frémont, sem que nenhuma delas mencionasse um cavalo lanoso. O processo foi para tribunal e, uma vez que o coronel Frémont se encontrava na distante Califórnia, todas as provas revelaram-se inconcludentes. No fim, o processo foi retirado e Barnum acabou por lucrar nas bilheteiras. Pouco tempo depois, o cavalo lanoso foi enviado para um pasto próximo da residência de Bridgeport de Barnum, onde continuou a publicitar o promotor às diligências e comboios que por ali passavam.

Sete anos mais tarde, Barnum repetiu a proeza de ter um animal invulgar nos seus terrenos privados, sendo que desta vez o efeito causado foi ainda maior. Importara uma manada de dez elefantes selvagens do Ceilão e, durante quatro anos proveitosos, fez deles as atracções principais da "Grande Caravana, Museu e Parque Zoológico Asiático de Barnum" - na verdade, uma forma de colocar o Museu Americano sobre rodas.

Quando se fartou, Barnum livrou-se da Caravana e dos animais, excepto de um único elefante. Este animal solitário foi instalado na fazenda de seis acres ao lado da casa de Barnum. O tratador, trajando uma indumentária oriental e de horário de comboios em riste, começava a arar os campos sempre que os comboios de Nova Iorque e de New Haven surgiam no horizonte.

Os jornalistas correram para o local. Foram publicados os artigos mais crédulos, dizendo que o elefante construíra as vedações e o muro de pedra de Barnum, que plantara o milho, que regava o relvado, que apanhava a fruta e que ordenhava as vacas. Durante os dois meses em que trabalhou nos campos, o elefante do arado atraiu uma enchente de centenas de cartas. Todos queriam saber se o elefante era um animal agrícola rentável. Barnum garantia que era a melhor das ajudas a ter para uma fazenda.

Um colega agricultor e amigo de Barnum, Gideon Thompson, veio visitá-lo. Observou o enorme animal durante quinze minutos, testou o terreno e mirou Barnum com cinismo.

"Qual é o seu objectivo, cavalheiro, ao trazer este grande animal asiático para uma fazenda da Nova Inglaterra? ", perguntou Thompson.

"Fazê-lo arar", retorquiu Barnum com inocência.

"Arar? Não me venha falar de aragem! Estive no terreno que o bicho arou e o solo é tão macio que pensei que o fosse atravessar e aparecer na China. Não, meu caro, não consegue intrujar-me. Teve outro objectivo em mente ao trazer este elefante para aqui. Qual foi?"

Barnum insistiu que o elefante se tratava apenas de mais um animal de carga, empregue para realizar os trabalhos pesados. Thompson duvidava que o animal pudesse ser rentável, tendo em conta o que provavelmente comia diariamente. Barnum respondeu que não comia mais do que um quarto de tonelada de feno e quatro medidas de aveia por dia.

"Exactamente, era isso mesmo que pensava", replicou Thompson. "Ele é capaz de puxar o mesmo que duas parelhas dos meus bois e custa mais do que uma dúzia."

"Está enganado, amigo Thompson. Aquele elefante é um animal poderoso. Tem mais força do que quarenta juntas de bois e trazê-lo para aqui compensa-me bem."

"Quarenta juntas de bois! ", exclamou Thompson. "Não quero dizer-lhe que duvido da sua palavra, mas gostaria de saber o que é ele capaz de fazer."

"Puxa a atenção de vinte milhões de cidadãos americanos ao Museu de Barnum", retorquiu o mestre de espectáculo com um sorriso.

Pouco mais havia a dizer, excepto o que Barnum acrescentou na sua autobiografia, quando se referiu ao elefante do arado, ao cavalo lanoso, à caça ao búfalo selvagem, ao gato cor de cereja e ao terrível egresso. Escreveu Barnum:

"É fácil de ver que grande parte do sucesso obtido durante os muitos anos em que fui proprietário do Museu Americano se deveu à publicidade e, especialmente, aos meus originais métodos de propaganda... Estudei formas de prender a atenção do público; de surpreender, de fazer com que as pessoas falassem e se maravilhassem; em resumo, fiz com que o mundo soubesse que eu tinha um Museu."

Nem todos os esforços de Barnum para obter as atracções mais espectaculares foram bem sucedidas. Por vezes, os seus pedidos depararam com resistência por parte de pessoas reticentes e que não gostavam de publicidade. Muitas vezes, no caso dos pedidos mais bizarros, Barnum não esperava obter aquilo que procurava. Em vez disso, através da sua audácia, queria apenas cada vez mais publicidade gratuita. Mas existia em Barnum um cerne duro de insensibilidade, e pouco havia na Terra que fosse impossível de exigir ou de esperar.

Quando estava em Inglaterra com Tom Thumb, Barnum tentou negociar a compra da casa em Stratford-on-Avon onde, em 1564, William Shakespeare nascera. A casa fora tristemente negligenciada e a sala de estar transformada em talho. Barnum desejava enviar a casa em secções para Nova Iorque, voltando a montá-la no interior do Museu Americano.

Quando o seu intuito se tornou conhecido, os ingleses ficaram horrorizados. Vários londrinos proeminentes e abastados uniram-se para comprar a casa por três mil libras, entregando-a posteriormente aos Administradores do Local de Nascimento de Shakespeare. Por fim, estes restauraram a propriedade em 1857, elevando-a à categoria de monumento nacional. "Se tivessem ficado a dormir por mais alguns dias, " disse Barnum, "teria realizado uma bela especulação, pois garantiram-me mais tarde que o povo britânico me teria subornado com vinte mil libras, para que a casa não fosse levada para a América."

Durante a estadia em Londres, Barnum ficou interessado nos populares trabalhos em cera de Madame Tussaud, localizados em Baker Street. MarieTussaud, nativa da Suíça, aprendera a arte da escultura em cera com um tio, que fundara o museu de cera original em Paris. Durante a Revolução Francesa, Marie Tussaud fez moldes do rosto de monárquicos decapitados, juntando-os, a par de uma guilhotina verdadeira que adquirira, à colecção do tio, que incluía figuras como Luís XVI, Voltaire e Benjamin Franklin, tendo todas essas estátuas sido feitas a partir dos modelos vivos. Mais tarde, Marie Tussaud criou modelos do falecido Robespierre e do ainda vivo Napoleão Bonaparte. Mudando-se para Londres em 1802, com quarenta e dois anos, fez em cera uma galeria notável de modelos famosos, entre eles a rainha Carolina, Mrs. Siddons, William Hare (da infame equipa de Burke e Hare), Sir Walter Scott, Lord Byron e o Duque de Wellington, até existirem várias centenas, na altura em que Barnum visitou a galeria.

Embora em 1844 Marie Tussaud continuasse viva, com oitenta e quatro anos (viveria ainda mais seis anos na casa adjacente à galeria), Barnum negociou as peças em cera com os filhos Joseph e Francis. Chegaram a redigir-se contratos, prontos a serem assinados, mas os filhos mudaram de ideias. A exposição permaneceu em Baker Street, mas a associação de Barnum com a família Tussaud não se ficou por aí. O bisneto de Madame Tussaud, John Theodore Tussaud, recordou nas suas memórias: "Barnum posou para mim na Primavera de 1890, cerca de um ano antes de falecer, e devo dizer que foi o mais divertido de todos os meus modelos... Enquanto o moldava, ele ia fazendo sugestões para que não prestasse muita atenção às rugas do rosto, e percebi que o velho mestre de espectáculos devia pensar que parecia mais velho do que na verdade se sentia..."

Impávido pelo fracasso na negociação pelas obras em cera, Barnum ofereceu $2. 500 por uma árvore histórica, onde Lord Byron gravara o nome (possivelmente o carvalho que o jovem lorde plantara no parque de Newstead e a que mais tarde dedicaria um poema) mas também esta oferta foi recusada.

Numa outra ocasião, ao saber que os ingleses haviam capturado o rei Cetewayo, monarca dos Zulus, Barnum ficou imediatamente fascinado. O robusto e imponente Cetewayo conquistara já uma fama curiosa. Uma companhia inglesa fora emboscada e massacrada pelos Zulus no Natal. Em 1879, foi enviado um destacamento de vingança para a savana africana, com o intuito de castigar os nativos rebeldes. No destacamento incluíam-se o príncipe Napoleão, de vinte e três anos, filho único do falecido Luís-Napoleão, e a Imperatriz Eugenia, na altura exilada. Também esta companhia foi surpreendida pelos Zulus, sob o comando de Cetewayo. O capitão Carey e os seus homens fugiram, abandonando o jovem Napoleão, que foi derrubado, morto, despido e mutilado. Mais tarde, em Durham, o capitão Carey foi levado a tribunal marcial, considerado culpado, salvo da execução a pedido de Eugenia, tendo vindo a morrer na índia.

Depois de os Zulus terem sido suprimidos e Cetewayo capturado, Eugenia visitou o Natal para contemplar, pesarosa, a ravina onde o seu filho adorado tombara e para escutar o relatório de Cetewayo, na prisão, sobre a bravura de Napoleão. Em 1883, Cetewayo regressou ao antigo trono, embora inimigos zulus o tenham derrubado no espaço de uma semana, enviando-o para o exílio. Mas a publicidade, na altura da sua captura, foi demasiada para que Barnum pudesse resistir. O mestre de espectáculos ofereceu $100. 000 ao governo da rainha Vitória, para exibir o líder zulu durante cinco anos. Indignado, o governo britânico rejeitou a proposta de Barnum.

Quando Giuseppe Fiorelli e a sua equipa de quinhentos e doze homens abandonaram as escavações das ruínas de Pompeia, Barnum ofereceu-se para continuar a exploração, caso fosse autorizado a reter durante cinco anos todas as ruínas clássicas da antiguidade e esqueletos preservados, enterrados sob a macia pedra-pomes do Vesúvio. O governo italiano não achou piada à proposta. Numa outra ocasião, foi aventada a hipótese de colocar à venda as cataratas do Niágara e terrenos circundantes. Barnum ofereceu-se para comprar as cataratas americanas de cinquenta metros de altura, vedá-las e cobrar bilhete aos turistas, mas o negócio foi por água abaixo. Mais tarde, Barnum negou ter feito essa oferta seriamente, explicando a um amigo que tinha "demasiada reverência por esse local para o exibir de forma tão vulgar". Contudo, chegou a considerar a hipótese de rebocar um icebergue verdadeiro da zona do Pólo Norte para uma área ao largo do porto de Nova Iorque, onde realizaria visitas ao fragmento glaciar flutuante. Apenas desistiu do projecto quando se convenceu de que um icebergue não sobreviveria muito tempo no clima mais ameno.

No final da Guerra Civil, o presidente da Confederação Jefferson Davis foi aprisionado na Georgia, tendo sido lançado o boato falso de que tentara fugir vestido de mulher. Barnum aproveitou imediatamente a oportunidade de ter uma canção, "Jeff de Saiote", apresentada no seu palco, tendo oferecido quinhentos dólares pelo traje feminino ao Davis detido e ao Quarto Regimento de Cavalaria do Michigan, que o capturara. Uma vez que a única peça de vestuário feminina utilizada por Davis fora apenas o raglã da esposa, em que pegara por engano, em vez da sua capa, nada foi enviado.

Em 1858, foi ligado com sucesso o primeiro cabo a atravessar o oceano Atlântico, um fio com mais de três mil e cem quilómetros de comprimento, a uma profundidade de três quilómetros. Em Liverpool, Barnum ofereceu cinco mil dólares pelo privilégio de enviar a primeira mensagem de vinte palavras através deste cabo, desde Londres até ao Museu em Nova Iorque. A soma avultada foi rejeitada e a rainha Vitória fez as honras, com uma mensagem para o presidente James Buchanan. Aparentemente, Barnum estivera muito a sério. Após o acontecimento, comentou: "A mensagem em si não teria grande valor, mas, caso tivesse conseguido a fama de enviar as primeiras palavras através do cabo, para mim essa mensagem teria valido um milhão de dólares, e não cinco mil."

Se uma forma de publicidade falhava, existia sempre outra. Em 1874, passados onze anos sobre a publicação da primeira obra de ficção científica de Júlio Verne, Cinco semanas de Balão, Barnum disse à imprensa que estava disposto a financiar uma viagem de balão de Nova Iorque a Paris. Um tal professor Hodsman, de Dublin, que atravessara de balão o canal da Irlanda no ano anterior, garantira a Barnum que o projecto não era perigoso. O professor inflara um balão de teste com gás e, após trinta dias, não mostrava vestígios de qualquer fuga ou quebra.

Convencido de que um balão de tule, com vinte e quatro metros de diâmetro, poderia atravessar o Atlântico em quarenta e oito horas, Barnum começou a fazer planos. O projecto iria custar-lhe $30. 000. Uma vez que Barnum não desejava arriscar o pescoço nessa viagem pioneira, conseguiu um voluntário famoso, John Wise, de Filadélfia, que estava preparado para pilotar o balão. Wise já realizara 440 ascensões durante a vida e acreditava piamente na viagem aérea. "Se a velocidade do progresso mecânico acompanhar a marcha do intelecto humano", declarou, "os nossos filhos viajarão para qualquer parte do globo sem inconvenientes, fumo, faúlhas ou enjoos. E a uma velocidade de 30 quilómetros por hora!" No ano antes de se encontrar com Barnum, Wise, não conseguindo um apoio de $15. 000 do Congresso para uma viagem transatlântica, convencera o New York Daily Graphic a financiar o empreendimento. O enorme balão, cheio com 120. 000 metros cúbicos de gás, transportava uma baleeira, onde viajavam os passageiros. Quando Wise teve um desentendimento de última hora com os financiadores, foi substituído por outros três homens, um dos quais Washington H. Donaldson, que mais tarde viria a ser o aeronauta preferido de Barnum. O enorme saco de gás partiu de Brooklyn e despenhou-se no Connecticut, a sessenta e cinco quilómetros de distância. Sem desanimar, Wise ofereceu-se a Barnum. Mas no fim, após inúmeras colunas de publicidade, o mestre de espectáculos desistiu do projecto, explicando que não desejava fazer perigar as vidas de Wise e dos restantes passageiros.

Quando Barnum se empenhava numa exibição, por vezes não aceitava recusas. Tal foi a sua atitude no caso do Gigante de Cardiff. No dia 15 de Outubro de 1869, dois trabalhadores que escavavam um poço na fazenda de Willian Newell, perto de Cardiff, Nova Iorque, descobriram o corpo intacto de um enorme homem fossilizado, com três metros e dezasseis centímetros de altura e pesando 1. 500 quilos. Três dias depois, um jornal de Syracuse ostentava a manchete "Uma Descoberta Maravilhosa" e, em breve, todo o mundo estava a par da notícia.

Peritos de todos os ramos juntaram-se em redor do Gigante de Cardiff. Dois professores de Yale, um paleontólogo e um químico, declararam que o Gigante era um fóssil verdadeiro. Ralph Waldo Emerson concordou. O director do New York State Museum decidiu que o Gigante era uma estátua, mas antiga, e que "neste país fora revelado o mais espantoso objecto até à data". Oliver Wendell Holmes concordou.

Mas havia quem discordasse. O pPresidente da Cornell University pensou que o Gigante fora feito em gesso e que detectara as marcas do cinzel de um escultor. Foi convocado um escultor de renome, que declarou que tudo aquilo não passava de um embuste. Enquanto a controvérsia prosseguia, Newell, o feliz agricultor, montou uma tenda sobre o Gigante de Cardiff e foi vendendo bilhetes, primeiro a cinco cêntimos cada, depois a cinquenta cêntimos e, finalmente, a um dólar.

Barnum enviou rapidamente um agente para o local, para que este averiguasse o que se estava a passar. O agente ficou menos interessado no Gigante e na sua autenticidade, do que nas 3. 000 pessoas presentes, muitas delas tendo chegado em comboios especiais oriundos de Syracuse, e que se debatiam para verem a atracção. Informado sobre o sucesso do Gigante, Barnum ficou interessado. Ofereceu a Newell $60. 000 pelo aluguer do objecto por três meses, mas o agricultor recusou. Barnum tentou persuadi-lo, mas o homem continuou impassível.

Irritado, Barnum contratou um escultor de Syracuse, o Professor Cari C. F. Otto, para que este duplicasse o Gigante até ao mais ínfimo pormenor. Quando finalmente uma associação retirou a descoberta de Newell do local e se preparou para a exibir em Nova Iorque, em 1871, descobriu que Barnum já mostrava a sua versão do Gigante de Cardiff, numa tenda em Brooklyn.

A associação foi para tribunal, a fim de conseguir uma ordem formal, mas Barnum ripostou. Declarou que apenas exibia um embuste feito sobre um logro, e que isso não era crime. O tribunal deu a razão a Barnum e, a partir daí, dois enormes fósseis lutaram, a pouca distância um do outro, pela atenção do público. Desesperadamente, a infeliz associação tentou competir com os estentóricos anúncios de Barnum com uma enorme flâmula que proclamava: "Genuíno. GIGANTE DE CARDIFF. Original. Mais Alto Do Que O Golias Abatido Por David... P. T. Barnum ofereceu $150. 000 pelo Gigante. A MAIS VALIOSA EXPOSIÇÃO ACTUAL DE TODO O MUNDO."

Entretanto, os jornalistas ficaram a saber que George Hull, um antigo fabricante de charutos de Binghamton, fora sócio de Newell na exibição do Gigante de Cardiff. Ao investigar a história de Hull, os repórteres descobriram que em tempos adquirira um grande bloco de gesso em Fort Dodge, no lowa, contratara um canteiro em Chicago e enviara uma enorme caixa de maquinaria para Cardiff. Confrontado com as provas crescentes de fraude, George Hull cedeu e confessou a verdade.

Irritado com os clérigos (e com um pregador metodista em particular), os quais citavam sempre o Génesis sobre uma raça de grandes dimensões ("Nesses dias havia gigantes na Terra"), Hull decidiu ridicularizá-los. Comprou um bloco de três metros e meio de gesso, perto da casa da irmã, no lowa, enviou a pedra de cinco toneladas para o barracão de um amigo em Chicago, contratou um canteiro, Edward Salle, para esculpir o Gigante, depois envelheceu-o com tinta, areia e ácido sulfúrico e encheu-o de poros, atravessando-lhe à martelada agulhas de cerzir. Enviou-o como sendo maquinaria para a fazenda do primo (Newell era esse parente), enterrou-o durante um ano e depois escavou-o. O logro custara-lhe, na totalidade, $2. 200 dólares e rendera-lhe $35. 000. O embuste de Barnum deste logro (a dada altura, o mestre de espectáculos chamava original à sua réplica do Gigante de Cardiff e falso ao original) custara-lhe muito menos e rendera-lhe muito mais.

No quarto de século da sua existência, o Museu Americano tornou-se exactamente aquilo que Barnum esperava: uma instituição permanente. Para as crianças que cresciam, permaneceu sempre uma alegre e fantasiosa recordação da juventude. Para os turistas que chegavam a Nova Iorque vindos de todos os cantos do país e de distantes pontos do estrangeiro, era uma ilha de maravilha e de divertimento. Para as celebridades e para o comum dos mortais, homens brancos e homens de todas as cores, ricos e pobres, era um nivelador, uma fonte de diversão e de encanto para todos de igual forma.

Henry James recorda que, quando era um jovem tímido, nos anos antes de se tornar um expatriado em Inglaterra e mundialmente famoso por romances como Os Embaixadores, o "prazer e aventura" da infância ia "de Union Square ao grande Museu Americano de Barnum, ao lado da City Hall". Atrás do irmão mais velho, William, que viria a tornar-se o grande psicólogo e filósofo, Henry James nunca esqueceu "a longa espera, nos corredores poeirentos dos logros e das sereias engarrafadas, "mulheres de barba" e maquetas frias, pela abertura da sala de palestras, o verdadeiro centro do prazer", e, uma vez lá dentro, a emoção de ver A Cabana do Pai Tomás e de ter o romance secreto com Emily Mestayer, "que deu forma à minha concepção de actriz dramática no seu melhor. Tinha um nariz adunco, narinas enormes, um busto vastamente protuberante e sempre os caracóis húmidos e cerrados". Embora viesse a tornar-se uma lenda muito depois, remoto e sofisticado, Henry James nunca esqueceria que "o retrato de Barnum, ignóbil e horrível, o rosto descarado evidenciando-se com as inúmeras bandeiras que adejavam, pobres insígnias de um tamanho vulgar, sobre relíquias espúrias e falsos monstros em efígie", era "a flor do ideal... o dia ideal".

E ainda outros que nunca o esqueceriam, como por exemplo o jovem Chauncey M. Depew, que viria a tornar-se senador dos Estados Unidos e presidente do New York Central Railroad. Mas primeiro fora um jovem espantado de Peekskill, vindo à cidade para ver os selvagens peles-vermelhas no Museu Americano.

"Ocorrera um massacre índio nas planícies do Oeste, " recordou Depew. "Os pormenores encheram os jornais, e levaram a uma retaliação por parte do governo. Barnum anunciou que contratara os guerreiros Sioux capturados pelo governo, e que eles iriam encenar todos os dias a sangrenta batalha de que haviam saído vitoriosos.

"O dia em que cheguei vindo do campo foi uma das tardes mais quentes de Agosto. Os índios estavam no último andar, abaixo do tecto. A actuação foi suficientemente arrepiante para satisfazer o mais ávido leitor dos pasquins sensacionalistas. Depois do espectáculo, quando a audiência saiu, eu estava demasiado fascinado para me ir embora e deixei-me ficar ao fundo da sala, a mirar aqueles selvagens horríveis. Um deles tirou o cocar, largou o tomahawke a faca de escalpar, e disse ao vizinho, no mais puro irlandês: "Se o tempo não refresca, ainda derreto."

Ao entrar no Museu, os mais eminentes estrangeiros transformavam-se em crianças. Entre os primeiros a visitá-lo, chegado à América apenas três semanas depois de Barnum ter tomado posse da exposição, esteve Charles Dickens, de trinta e um anos de idade, tendo já na sua esteira Pickwick Papers e Oliver Twist.

Durante a sua primeira visita, Dickens passou três semanas em Nova Iorque. Foi tratado com respeito em todo o lado. Três mil pessoas de fato de cerimónia compareceram no Boz Bali dado em sua honra. Desfrutou de bebidas com Washington Irving, de uma peça de teatro no Bowery Theater, de visitas ao Asilo de Lunáticos e à prisão municipal, a qual cheirava a "mil guarda-chuvas encharcados e bolorentos". Por todo o lado havia alguma coisa que preocupasse Dickens. Não só a falta de uma lei de direitos de autor internacional, como também coisas menos importantes. A Broadway estava pejada de porcos, e os homens comiam com os canivetes e expectoravam torrentes de suco de tabaco. Verdade fosse dita, os americanos eram "por natureza francos, corajosos, cordiais, hospitaleiros e afectuosos", e as mulheres com os seus guarda-sóis coloridos eram bonitas, mas, ainda assim, os americanos não eram "um povo divertido e o temperamento sempre me pareceu de natureza sombria e melancólica." Esta última característica era o que mais incomodava Dickens.

Nas suas American Notes, escreveu: "Mas as ruas são tão calmas! Não existem bandas itinerantes; nada de instrumentos de sopro ou de corda? Nada, nem um. Durante o dia não existem Marionetas, Fantoches, Cães Bailarinos, Malabaristas, Ilusionistas ou Realejos? Nada, nem um... Não existem divertimentos? Sim. Há uma sala de palestras do outro lado da rua..."

E Dickens dirigiu-se à Sala de Palestras do Museu e conheceu o homem que estava a tentar ensinar os americanos a divertir-se. Barnum foi o seu guia. Ao visitar o salão principal, detiveram-se perante Zip, O Homem Macaco, um idiota africano que grunhia e sorria, comia os charutos que os visitantes lhe davam e fazia as suas moedas desaparecerem de forma permanente. Na verdade, Zip era um negro inteligente chamado William Jackson, que fez carreira a partir de um crânio deformado em forma de cone. Dickens fitou-o e virou-se para Barnum. "Que é isto? ", perguntou o autor inglês. Deliciado, Barnum bateu as palmas. "É isso mesmo que é... um Que-é-isto!" E, a partir daí, Zip, baptizado pelo criador de Scrooge e de Fagin, ficou o "Que-é-isto?"

Entre os últimos visitantes estrangeiros importantes do Museu, esteve Eduardo, príncipe de Gales, na altura com dezoito anos, que chegou à América quase duas décadas depois de Dickens. O infeliz príncipe, fugitivo de Oxford e da mãe extenuante (a rainha Vitória julgava-o abertamente, dizendo que ele possuía "qualidades mentais deficientes"), desfrutou de um Baile na Academia de Música, onde estiveram 5. 000 pessoas. Mas, acima de tudo, ele queria visitar o Museu Americano.

No dia 13 de Outubro de 1860, o príncipe de Gales e a sua vasta comitiva entraram no Museu. O gerente subalterno, Greenwood, escondera mesmo a tempo uma terrível réplica de cera da rainha Vitória. Agora, entre vénias e salamaleques, Greenwood levou o príncipe pelos corredores. Sua Alteza inspeccionou Chang e Eng, o idoso Zip, Anna Swan, a família Albina, o esqueleto vivo, as crianças aztecas e o rapaz anafado (que lhe beijou a mão). Mas o príncipe parecia estar em busca de uma outra exibição. Finalmente, pediu para ver Barnum, que recordava ter conhecido com Tom Thumb. Disseram-lhe que Barnum não se encontrava na cidade. O príncipe abanou a cabeça, pesaroso. "Perdemos a mais interessante figura deste estabelecimento", lamentou.

Afinal de contas, as coisas tinham chegado a este ponto: a instituição permanente da América para o divertimento não era o Museu, mas o próprio Phineas T. Barnum.

 

         EXIBIÇÃO SEIS - O ROUXINOL SUECO

Ser o mais notável mestre de espectáculos do mundo era gratificante, mas, ainda assim, não o suficiente. No mais íntimo do seu ser, Phineas T. Barnum guardava uma derradeira ambição. Queria ser mais do que um mero apresentador de aberrações e de coisas bizarras. Queria ser conhecido como empresário de uma atracção artística.

Confessava frequentemente que os seus gostos privados tendiam mais para a música do que para o Museu. Com feitos e exibições grosseiras e vulgares, pintara com as cores do arco-íris um novo e vasto horizonte de diversão para a América e para o mundo. Mas o quadro permanecia incompleto. Faltava um apogeu. Algo que era conhecido por cultura.

Sereias agonizantes, cavalos de pêlo aos caracóis e homens em miniatura estavam muito bem, mas não eram, de todo, dignificantes. Barnum sentia que o artístico e o estético podiam, e deviam, sem qualquer preconceito, fazer parte da cena americana. Imiscuída neste desejo altruísta, encontrava-se a obsessão egoísta de ser reconhecido não apenas como promotor astuto do estranho e do invulgar, um espalhafatoso vendedor de monstruosidades, mas também como um refinado fornecedor de artistas polidos e civilizados. Em Outubro de 1849, era este o desafio.

Mas como poderia transformar-se de mestre de espectáculos em empresário? E em que termos, qual a personificação a realizar, para traduzir a curiosidade vulgar dessa arte em curiosidade artística? Ao pensar em tudo isto, enquanto considerava a improbabilidade de efectuar a transformação com sucesso, pensou subitamente em Jenny Lind, uma cantora sueca que nunca ouvira ou conhecera, nem sequer vira.

Na sua ideia, Jenny Lind representava cultura. Também poderia conseguir fazê-lo ganhar dinheiro, mas esse não era o objectivo. Mesmo que fracassasse, Barnum teria obtido prestígio. "Uma vez que o meu nome se encontra desde há muito associado aos "embustes", reflectiu Barnum, "e o público americano suspeita que as minhas capacidades não vão além do poder de exibir uma pele de macaco empalhada ou uma sereia morta, posso dar-me ao luxo de perder cinquenta mil dólares em tal empreendimento como seja trazer a este país, no auge da sua vida e celebridade, a maior maravilha musical do mundo..."

Ter pensado em Jenny Lind naquele momento não foi, de todo, surpreendente. Três meses depois de Barnum ter partido de Londres com Tom Thumb, a vetusta cidade fora mais uma vez agitada com a visita de Jenny Lind. Após um triunfo recente em Bona, onde a rainha Vitória, o príncipe Alberto e o rei Leopoldo dos belgas tinham ficado estarrecidos com a sua voz, após as vitórias também recentes em Viena, onde recebera vinte e cinco subidas de pano e os espectadores haviam tentado soltar os cavalos para que pudessem puxar a carruagem em que viajava, e em Estugarda, onde os estudantes tinham arrancado os seus lençóis como recordações, Jenny Lind arrebatou Londres. Depois da estreia lírica no Her Majesty's Theatre, no dia 4 de Maio de 1847, enquanto a vasta plateia, que incluía Felix Mendelssohn e Fanny Kemble, a ovacionavam, a rainha Vitória lançou um ramo de flores aos pés da soprano.

Durante três dos dias agitados que se seguiram, a Câmara dos Comuns foi incapaz de reunir quorum, pois os seus membros haviam sido arrastados pela febre de Lind, encontrando-se a prestar-lhe homenagem no teatro. "O enlevo que se viveu por Jenny Lind nessa temporada por toda a cidade de Londres", registou nas suas memórias David Masson, biógrafo de Milton e professor de literatura inglesa nas universidades de Londres e de Edinburgo. "Casa cheia todas as noites para a escutar e para a adorar em público. E o velho Duque de Wellington, sempre junto dela em concertos privados, como se fosse um avô enamorado, esquecendo-se de Waterloo, enquanto lhe punha o xaile pelos ombros, após as canções!" A imprensa era quase unânime. "Chegámos a uma nova fase da nossa experiência de palco, " declarou o Illustrated London News. "Fomos arrebatados por uma nova percepção de arte musical. É como se descobríssemos, pela primeira vez, o que na verdade é cantar... Todas as convenções foram derrubadas, todas as tradições do espectáculo lírico desprezadas... e pelo quê? Pelo surgimento de Mdlle. Jenny Lind, no Her Majesty's Theatre."

Embora pouco deste entusiasmo tenha atravessado o Atlântico até ao público americano, Barnum estava totalmente a par dele, graças à correspondência com agentes e amigos.

Enquanto pensava na importação da mulher de vinte e nove anos, alcunhada de "Rouxinol Sueco" pela revista Punch, começou a aperceber-se de que o empreendimento até poderia vir a ser rentável. Conseguir prestígio a par de lucro era quase esperar demasiado. Mas, sentado de lápis em riste à frente do livro-razão, avaliando os possíveis custos e o resultado potencial, percebeu que a arriscada especulação poderia dar azo a um "sucesso pecuniário imenso".

Contudo, reconheceu também que as probabilidades estavam contra ele. Com Tom Thumb, o investimento fora tão pequeno como o objecto mostrado e a promoção mantivera-se nos limites das suas capacidades já provadas. O empreendimento Jenny Lind seria dispendioso e algo completamente estranho aos seus talentos. "Sabia que era possível ocorrerem circunstâncias que fizessem do empreendimento um desastre", declarou Barnum. "O público" é um animal muito estranho e, embora um bom conhecimento da natureza humana leve, regra geral, o fornecedor de diversões a chegar às pessoas, estas são volúveis e frequentemente perversas. Um pequeno erro na gerência de um entretenimento público destrói, com regularidade, o mais prometedor dos empreendimentos."

Ainda assim, iria arriscar. Aceitaria o desafio e tornar-se-ia empresário. Só faltava dar um passo. Estava convencido acerca de Jenny Lind. Agora teria de convencer Jenny Lind sobre Barnum.

Decidiu não viajar ele próprio para a Europa e procurou um representante, que encontrou na pessoa do inglês John Hall Wilton, o qual viajara pelos Estados Unidos como director de uma orquestra. Prometeu a Wilton "uma soma avultada", caso este conseguisse contratar Jenny Lind, mas, se fracassasse, apenas cobriria as despesas. Quando Wilton aceitou a incumbência, Barnum delineou os termos que deveriam ser repetidos à cantora. Esta poderia escolher entre uma percentagem sobre a bilheteira ou $1. 000 por noite, por um qualquer número de noites, até um máximo de 150. Barnum também prometeu financiar três assistentes musicais, bem como todas as despesas da secretária e dos serviçais. Caso quisesse uma garantia sobre o pagamento, ele depositaria a quantia global com os seus banqueiros em Londres, Baring Brothers & Company.

No dia 6 de Novembro de 1849, armado com contratos e instruções escritas assinadas por Barnum, Wilton partiu para Inglaterra. Ao chegar, soube que Jenny Lind partira para uma cura de repouso em Lúbeck, na Alemanha, onde estudava propostas de concertos em Berlim e Moscovo. De imediato, e utilizando os papéis timbrados de Barnum, Wilton escreveu a Jenny Lind, explicando a proposta do patrão.

A sorte de Barnum foi a carta de Wilton ter chegado a Lúbeck num momento oportuno. A vocalista sueca recuperava de um romance infeliz e planeava uma mudança de cena. E, embora os seus rendimentos fossem elevados, estava ansiosa por adquirir uma soma avultada em pouco tempo, tanto para facilitar a sua retirada de palco como para poder fundar escolas e hospitais na sua Suécia nativa. Não tinha qualquer desejo de viajar para a Rússia, mas estava curiosa em relação à América. Considerou a oferta de Barnum "brilhante" e uma resposta às suas preces, escrevendo a Wilton, para que este viesse imediatamente a Lúbeck.

Quando Wilton se encontrou com ela na suite do Hotel du Nord, a cantora mostrou-se franca e profissional. Disse que mantinha negociações com quatro pessoas para uma digressão na América: um empresário de ópera londrino; um agente teatral de Manchester; o maestro da orquestra da Her Majesty's Opera, em Inglaterra; e o advogado e diletante americano Henry Wikoff, que em tempos (substituindo um amigo empresário que morrera subitamente) patrocinara com sucesso a digressão americana da bailarina Fanny Ellsler. Jenny Lind admitiu estar inclinada para o encantador e persuasivo Wikoff. Na altura, embora a cantora não o soubesse, Wikoff, que fora armado cavaleiro pela rainha de Espanha e vivia como playboy abastado e reformado, era agente secreto dos ingleses. Antes disso, fora editor de uma revista em Nova Iorque e diplomata americano em Londres. Quando Jenny Lind comentou a proposta substancial de Barnum com Wikoff, este ridicularizou-o, considerando-o um "mero mestre de espectáculos", que a "colocaria numa jaula para a exibir pelo país, a vinte e cinco cêntimos por cabeça".

Jenny Lind admitiu a Wilton que o aviso de Wikoff a perturbara, tendo escrito de imediato a Joshua Bates, do banco Baring Brothers, em Londres, inquirindo sobre Barnum. O financista garantiu-lhe que Barnum era um indivíduo de "carácter, capacidade e responsabilidade". Lind teve outra garantia (embora não o tivesse comentado a Wilton, mas sim ao próprio Barnum, mais tarde) ao analisar o papel timbrado do mestre de espectáculos, com o qual Wilton lhe escrevera. O cabeçalho apresentava uma gravura da magnífica casa oriental de Barnum, em Bridgeport. "Atraiu a minha atenção," confessou Jenny Lind a Barnum. "Disse para comigo que um cavalheiro cujo sucesso na sua profissão que lhe permitiu construir e residir num palácio assim não poderia ser apenas um mero aventureiro." Foi arrebatada por um último motivo. Os outros empresários que a queriam insistiam que devia trabalhar com base em percentagens, sujeitando-a a perdas, bem como a lucros. Barnum, por outro lado, estava preparado para lhe pagar um valor fixo, sem qualquer risco por parte dela.

No dia 9 de Janeiro de 1850, Jenny Lind assinou um contrato em que prometia surgir em 150 "concertos ou oratórias" por $150. 000, mas reservava-se o direito de cancelar o contrato após setenta e cinco aparições, bem como o direito de cantar para caridade sempre que lhe aprouvesse. Exigia também despesas pagas e um salário para uma aia, um camareiro e uma amiga. Finalmente, seria acompanhada por Sir Julius Benedict, o compositor, pianista e maestro alemão, a quem seria pago $25. 000 adicionais. E Giovanni Belletti, o barítono italiano, que receberia $12. 500. O total de $187. 500 em salários deveria ser depositado em adiantado no banco Baring Brothers. Acrescente-se que o cavaleiro Henry Wikoff, ao perder Jenny Lind para Barnum, tentou esquecer a mágoa num casamento com uma herdeira americana. Na noite antes do casamento, a herdeira mudou de ideias e fugiu sozinha de Londres para Génova. Wikoff seguiu-a, tentou raptá-la e o seu ardor foi recompensado com uma pena de quinze meses numa cadeia italiana.

Com o contrato de Jenny Lind no bolso, o jubiloso Wilton regressou a casa. Demorou seis semanas na viagem para Nova Iorque e, lá chegado, Barnum encontrava-se ausente em Filadélfia, em negócios. Utilizando um código previamente combinado, Wilton enviou as notícias por telégrafo. Informou Barnum de que o feito fora conseguido e que Jenny Lind estaria em Manhattan dali a oito meses. Barnum admitiu ter ficado "surpreendido com o súbito anúncio", respondendo a Wilton que as novidades deveriam ser mantidas em segredo até ele determinar a melhor forma de as tornar públicas.

Ao regressar a Nova Iorque, no dia seguinte, Barnum comprou alguns jornais em Princeton e ficou perturbado ao ver que o acordo com Jenny Lind transpirara, encontrando-se nas colunas da imprensa. Subitamente ansioso por saber qual a reacção do público às notícias, Barnum perguntou ao revisor do comboio o que este pensava da iminente aparição de Jenny Lind.

"Jenny Lind? ", perguntou o revisor. "É uma bailarina?"

Barnum recordaria para sempre que a resposta do revisor "arrepiou-me como se as palavras fossem gelo". Percebeu de súbito que, embora Jenny Lind fosse a coqueluche da Europa, apenas era conhecida nos Estados Unidos por uma mancheia de "pessoas da música, viajantes que haviam visitado o Velho Mundo e pelos condutores da imprensa". Os milhões de que ele dependia para conseguir o seu sucesso ignoravam-na completamente.

Enquanto se debatia em busca de uma forma de esclarecer as massas, tão deficientes em cultura, tentou atarefadamente angariar os $187. 500 aguardados em Londres. O seu activo em dinheiro não era suficiente. Tentou obter um empréstimo do seu banco, oferecendo segundas hipotecas e o contrato com Jenny Lind como garantias, mas deparou-se com um muro. "Mr. Barnum, " confessou-lhe o presidente do banco, "em Wall Street acredita-se que o seu acordo com Jenny Lind o vai arruinar."

Furioso, Barnum foi de banco em banco, mas sem sucesso, até que finalmente uma empresa de investimentos, que tinha tanto o mestre de espectáculos como a vocalista em grande consideração, lhe garantiu um empréstimo substancial. Mas ainda faltava parte da verba a Barnum. Vendeu algumas propriedades, mas continuava a precisar de mais $5. 000. Ao comentar o seu desespero a um amigo clérigo de Filadélfia, recebeu deste o empréstimo da quantia em falta.

Após enviar para Londres o total dos seus activos líquidos em forma de títulos e uma carta de crédito, Barnum reviu o empreendimento à luz fria da realidade. Jenny Lind? É uma bailarina? As palavras ainda o arrepiavam. Todo o seu futuro dependia da voz de uma nórdica frágil, desconhecida de grande parte do Novo Mundo. Subitamente, oito meses parecia muito pouco para educar toda uma nação. Mas era isso que teria de conseguir, para que em breve ninguém fizesse outra coisa que não pensar em Jenny Lind, falar sobre Jenny Lind e desejar Jenny Lind.

Contudo, sabia que primeiro teria de se educar a si próprio. Quem, na verdade, era este Rouxinol Sueco? Qual era a sua história, e o que poderia existir nessa história que entusiasmasse e cativasse? Deu início à investigação.

Jenny Lind tinha catorze anos quando os pais finalmente se casaram.

Nascera fora do casamento em Estocolmo, no dia 6 de Outubro de 1820, e o nascimento ilegítimo moldou-lhe o resto da vida. A mãe severa, Anne-Marie Fellborg, uma neurótica infeliz, casara aos dezoito anos com um capitão do exército chamado Radberg, acabando por se divorciar ao descobrir que ele lhe fora infiel. Mais tarde, tornou-se amante de um contabilista de vinte e dois anos chamado Niclas Jonas Lind, cinco anos mais novo, mas só se casariam quase duas décadas depois, após a morte do primeiro marido.

Atravessando a infância com o estigma de bastarda, Jenny Lind foi educada numa atmosfera de pobreza excessiva e de devoção, sentindo-se sempre perseguida e indesejada. Como resultado, alcançou a maturidade sofrendo de inferioridade, introversão e moralidade agressiva. Mas a sua odiada herança concedeu-lhe uma compensação: uma voz de sereia.

Um dia, a criada de uma bailarina de ópera chamada Lundberg ouviu por acaso a pequena Lind a cantar para o gato de estimação, relatando imediatamente à ama a descoberta de um génio. Jenny Lind, então com nove anos de idade, foi levada para o Teatro Real de Estocolmo, onde o nobre responsável, de início repelido pela falta de jeito da criança, acabou por ser levado às lágrimas pela sua voz. Ofereceram-lhe uma carreira lírica, às custas do governo. A mãe via o palco como um antro de Satanás, mas acabou por convencer-se de que a voz de Jenny era uma dádiva de Deus.

Aos dezasseis anos participou na primeira ópera, que fora composta por Adolf Fredrik Lindblad. Este e a esposa Sophie acabaram por se tornar seus mentores e encorajaram-na a viver com eles. Aos dezoito anos, teve o seu primeiro sucesso, como Agatha, na ópera Der Freischútz, de Weber. Aos vinte e um anos descobriu, chocada, que Lindblad, com o dobro da sua idade, estava apaixonado por si, tendo fugido para Paris.

Na verdade, a visita a Paris tinha outro objectivo, para além da busca por refúgio. Percebera que a reputação na Suécia fora construída mais sobre um talento para a arte dramática do que propriamente graças à capacidade de cantar. Todavia, era como vocalista que desejava notabilizar-se. Embora desprezasse a imoralidade francesa, estava preparada para a suportar se conseguisse estudar com Manuel Garcia, filho de um reputado tenor que compusera quarenta e oito óperas. Garcia fora-lhe recomendado por Giovanni Belletti, com quem trabalhara na Suécia. Ao contrário da maioria dos professores, Garcia era fascinado pela fisiologia dos cantores, tendo sido mais tarde aclamado pela invenção de um instrumento através do qual um indivíduo poderia estudar as suas cordas vocais. Garcia fora tão bem sucedido no treino da filha mais velha, Madame de Malibron, para uma carreira de canto, que esta viria a ser imortalizada com uma figura no museu de cera de Madame Tussaud. Tremendo de medo, Jenny Lind apresentou-se para uma audição perante Garcia. Cantou escalas e depois iniciou uma ária de Lúcia di Lammermoor, a qual, no ano anterior, cantara trinta e nove vezes na Suécia. Durante a ária, a voz alterou-se e cedeu. Ficou horrorizada. Garcia abanou a cabeça. "Seria inútil ensiná-la, Mademoiselle, " disse. "Já não tem voz." Convenceu-o a dar-lhe mais uma oportunidade e Garcia acedeu a ouvi-la novamente dali a seis semanas.

Quando Lind regressou, Garcia ficou agradado com a exibição. Aceitou-a por duas aulas por semana, a vinte francos por hora. jJenny Lind estudou com Garcia durante um ano. Embora lhe respeitasse a inteligência e o ouvido exacto, Garcia considerava que o seu futuro não era prometedor e pensava que a voz de soprano (que variava de ré menor a fá maior) era inferior à de outra aluna, chamada Henriette Nissen, a qual viria mais tarde a cantar no Théâtre Italien.

Após as horas de estudo, quando Jenny Lind não estava a praticar as escalas ou a respiração, frequentava o teatro de Paris. Tal como Charlotte Brontè, Emerson e quase toda a Europa, possuía uma enorme admiração pela incomparável actriz trágica que era Rachel, a qual deu ao conde Alexandre Waleski, filho ilegítimo de Napoleão e Marie Waleski, o seu próprio filho ilegítimo. Comparando-se à actriz, Jenny Lind escreveu o seguinte para a Suécia: "A diferença entre Mademoiselle Rachel e eu própria é que ela consegue ser esplêndida quando furiosa, mas não foi feita para a ternura. Eu fico profundamente feia e má quando me zango, mas creio sair-me melhor nas partes ternas. Claro que não me comparo a Rachel. De todo. Ela é incomensuravelmente maior do que eu. Coitada de mim." Mais tarde, seria o sucesso de Jenny Lind nos Estados Unidos, em 1850, que levaria Rachel a determinar-se em conquistar a América, em 1855. Mas a sua vida pessoal escandalosa precedia-a, jogando contra si em Nova Iorque, Boston e Charleston, tendo arrecadado menos dois terços nas bilheteiras do que a virtuosa sueca.

Quando as aulas de Jenny Lind com Garcia chegaram ao fim (e tinham sido inestimáveis, embora anos depois ela dissesse a um editor de Estocolmo que não seguia o método de Garcia, nem o método de qualquer outra pessoa, apenas "o dos pássaros (o mais que consigo), pois o seu Professor foi o único que respondeu às minhas exigências de verdade, clareza e expressão"), abandonou Paris com alívio. Nunca, em toda a magnífica carreira que se lhe seguiu, viria a cantar em público em Paris. Explicou que o seu "nariz abatatado" não seria atraente para os parisienses e que a sociedade pecaminosa destes não a atraía. Apenas surgiu em França uma vez, aos quarenta e seis anos de idade, para um espectáculo de caridade para com um hospital da Riviera.

Agora, no seu auge, ia de triunfo em triunfo. Novamente Estocolmo, depois Copenhaga, Berlim, Viena e Londres renderam-se aos seus dotes. E, por todo o lado, parecia que os admiradores a consideravam mais bela do que era na verdade. Durante um jantar em Berlim, Lady Westmorland, esposa do embaixador inglês na Prússia, cruzou-se com Jenny Lind, sentada ao lado do piano, "uma rapariga magra, pálida e de feições vulgares, com um ar embaraçado e nervoso". No entanto, quando mais tarde começou a cantar, deu-se "uma transfiguração maravilhosa, não há outro termo, que lhe dominou o rosto e a figura, iluminando-os com o fogo e a dignidade do seu génio". Após a festa, o embaixador, que ficara em casa, perguntou à esposa: "Ela é assim tão bela? ", ao que Lady Westmorland retorquiu: "Ao entrar vi uma rapariga normal, mas quando começou a cantar, o seu rosto literalmente brilhou, como se se tratasse de um anjo. Nunca vi nada, nem ouvi nada assim." No Teatro Real de Copenhaga, o feio e desajeitado Ichabod Grane30 que era Hans Christian Andersen, o filho de um sapateiro que maravilhou crianças com os seus contos de fadas, mas que pessoalmente não gostava de crianças, viu-a e ouviu-a cantar, apaixonando-se.

"Não há livros, nem homens, que me tenham influenciado de forma mais exaltada enquanto poeta do que Jenny Lind", escreveu Andersen. E ainda: ela "mostrou-me arte na sua forma mais santificada". Estimulado por Lind, criou O Rouxinol do Imperador. Chamou-lhe uma das "Virgens Vestais" da arte e pediu-a em casamento três vezes, mas Lind recusou-o alegremente e sempre se referiu a Andersen como "irmão".

 

30 O personagem de aspecto ridículo do conto The Legend of Sleepy Hollow", de Washington Irving, que também viu rejeitados os seus avanços para com uma bela jovem.

 

Outro indivíduo que amou Jenny Lind, mas que nunca deu qualquer passo para um compromisso, uma vez que tinha um casamento feliz e recente, foi o encantador Felix Mendelssohn. "Ele é um homem", escreveu Lind ao guardião, em 1846. Mendelssohn falava muitas vezes com ela sobre a vida e sobre música. Jenny Lind retribuía-lhe o entusiasmo, embora fosse inútil sequer pensar numa relação séria. "Nem que passem cem anos irá nascer outro ser tão dotado como ela", disse Mendelssohn a Andersen, considerando-a, enquanto cantora, "a melhor que alguma vez conheci", tendo composto para ela a oratória de Elijah.

A lenda Jenny Lind espalhou-se por todo o Velho Mundo. Um perfume cujo frasco ostentava uma gravação do seu rosto tornou-se popular e o seu perfil adornava latas de doces, pacotes de sabão e caixas de charutos. Os génios do seu campo não lhe poupavam elogios à voz. Frédéric Chopin disse: "O seu canto é puro e honesto; não há palavras que descrevam o encanto dos trechos." Hector Berlioz, que gostava de pouco, defendia a aclamação. "O seu talento é superior a tudo o que ouvimos nos teatros francês e alemão." Richard Wagner e Giacomo Meyerbeer, o qual lhe compôs The Camp in Silesia, uniram-se no louvor à voz de ouro.

Mas nem todos eram unânimes. O historiador escocês Thomas Carlyle não foi conquistado. Considerou que a voz possuía "pouca riqueza de tons", e o programa "não passou de qualquer absurdo para cantar e dançar... não tenciono voltar a ouvir Lind". William Makepeace Thackeray aborreceu-se enquanto a ouvia "gorgolejar" e quis sair antes do fim do primeiro acto. Nathaniel Hawthorne partilhou da mesma falta de entusiasmo por Lind. Henry F. Chorley, um dos mais importantes críticos de Londres, considerou o registo mais agudo "rico, brilhante e poderoso", mas a parte mais grave "com pouca força, abafada, e até mesmo rouca e quase desafinada". Wilkíe Collins, autor de The Moonstone, admirava a sua voz, mas não o carácter, considerando-a hipócrita. Acreditava na história que corria Londres de que quando Jenny Lind, a partir de uma janela sobranceira à entrada, observara a multidão que entrava no Her Majesty's Theatre, fizera o seguinte comentário: "É uma pena pensar que todas estas pessoas estão a desperdiçar o seu tempo vindo ouvir-me cantar, quando poderiam estar a utilizá-lo para fazer tanto bem."

Mesmo assim, conquistara os habitantes de Londres e, entre estes, contava-se o capitão Claudius Harris, recentemente chegado da índia, bem-parecido, mas formal e muito chegado à mãe. Mesmo tendo exclamado, depois de conhecer o capitão, "Ó! que jovem tão enfadonho! ", ficou satisfeita quando a perseguiu por Edimburgo, Glasgow e Dublin. Lind terminara recentemente um noivado, em que se chegara a trocar alianças, com Julius Gunther, um tenor de Estocolmo, e agora, no rescaldo, reagia favoravelmente à corte do capitão. Anunciaram o noivado. Contudo, quando Harris deixou claro que considerava o entretenimento público algo maligno e exigiu que Lind assinasse um documento onde prometia que após o casamento não voltaria a subir ao palco, Jenny Lind desistiu do matrimónio e fugiu para Lubeck, onde o agente de Barnum a encontrou.

Em Nova Iorque, Barnum estava satisfeito por a carreira de Lind ter sido brilhante, mas os concidadãos americanos desconheciam-na totalmente. Para eles, tinha ainda menos nome do que o mais reles actor burlesco dos palcos locais. Barnum percebeu que apresentar os sucessos e a fama de Lind aos restantes americanos seria bastante fácil, mas sentiu que faltava alguma coisa. Outros artistas já tinham sido agraciados na Europa. O que tinha Jenny Lind de tão especial?

Ao examinar-lhe a carreira e o carácter, Barnum decidiu aproveitar algo de apelativo para a temperança da altura. Esse algo era a virtude. Depois apercebeu-se de outra coisa. Jenny Lind não utilizava os rendimentos de forma auto-indulgente, mas sim para a caridade. A quantidade de acções benevolentes era impressionante. Imagine-se, Lind vinha à América, acima de tudo, para angariar fundos para um hospital pediátrico em Estocolmo! Seria este o tom ideal: uma criatura casta, imaculada e virgem, que utilizava a dádiva de Deus que era a sua voz no antro infernal que era o teatro, a fim de angariar dinheiro para os pobres e desafortunados.

Assim sendo, Barnum enviou à imprensa de Nova Iorque o anúncio oficial da vinda de Jenny Lind. Foi publicado em todos os jornais no dia 22 de Fevereiro de 1850 e copiado por diários de todo o país. Um excerto dizia o seguinte:

"Posso não ganhar dinheiro com este empreendimento, mas garanto que, mesmo sabendo que não faria um tostão, renovaria o contrato, tal é a minha ansiedade por que os Estados Unidos recebam a visita de uma senhora cujos poderes vocais nunca se verificaram em nenhum outro ser humano e cujo carácter é a caridade, a simplicidade e a bondade em pessoa.

"Miss Lind recebeu inúmeras ofertas mais vantajosas do que a minha, mas deseja ardentemente visitar a América. Ela fala deste país e das suas instituições com a mais elevada estima e, uma vez que o dinheiro não é, de todo, o maior incentivo que lhe pode ser proporcionado, encontra-se determinada a visitar-nos. No seu contrato comigo (que inclui Havana), reserva o direito de realizar concertos de caridade sempre que o achar adequado.

"Desde a sua estreia em Inglaterra, tem oferecido aos pobres do seu próprio bolso mais do que a verba que concordei em pagar-lhe, e os lucros dos concertos por causas beneficentes na Grã-Bretanha, em que canta gratuitamente, somaram mais do que dez vezes esse montante."

Milhares de leitores saudaram entusiasticamente a declaração. Lenta e gradualmente, Barnum deu início à construção da lenda do Rouxinol Sueco, até que a sua chegada era antecipada com mais fervor do que a Segunda Vinda de Cristo.

Por cinquenta dólares, Barnum adquiriu de um artista sueco um retrato romantizado de Jenny Lind, que reproduziu em jornais, periódicos e panfletos. Contratou um jornalista inglês, que em tempos ouvira Jenny Lind cantar, e mandou-o produzir artigos em que enfatizasse a castidade, a caridade e os triunfos europeus. Estas histórias foram enviadas para a imprensa como tendo origem em Londres. Barnum encorajou os editores a publicar panfletos biográficos sobre a sua vocalista. Todos os meses eram colocadas à venda revistas dedicadas exclusivamente a Lind. Até chegou a haver um concurso de canções.

A competição para encontrar letras de músicas a serem utilizadas como grande final da estreia de Jenny Lind não só produziram uma ode aceitável, como também deram a Barnum um amigo para a vida, na pessoa do compositor vencedor. Mais de setecentos poetas enviaram letras, com o título "Greeting to America"31, pelo prémio de $200. 0 júri de cinco elementos atribuiu o primeiro lugar a um poeta, romancista e vagabundo de vinte e cinco anos chamado Bayard Taylor. A sua efusão lírica começava da seguinte forma: "l greet with a full heart the Land of the West, / /Whose Banner of Stars o'er a world is unrolled; / Whose empire

o'ershadows Atlantic's wide breast, / And opens to sunset its gateway of gold! "32

Felizmente, a personalidade e actividade de Taylor eram de qualidade superior à dos seus versos. Antes de se tornar poeta laureado de Barnum, editara um jornal, dera aulas num colégio feminino e representara na Europa o Tribunede Horace Greeley. Na altura em que ganhou os $200 de Barnum, Taylor sentiu-se suficientemente próspero para casar com uma paixão da infância, que viria a morrer de tuberculose dois meses mais tarde. Depois disso, Taylor nunca mais sossegou. Serviu como imediato a bordo de um dos quatro navios de guerra do comodoro Matthew Perry, que abriram o Japão ao Ocidente, em 1853. Percorreu o globo, da Lapónia à China e da Arábia à índia, publicando treze livros de viagens e romances. Após servir como cônsul na Rússia, ensinou literatura alemã na Cornell University e passou os últimos anos da sua vida como embaixador americano na Alemanha. Embora permanecesse amigo de Barnum, sempre sentiu remorsos por ter escrito Greeting to America. Nos anos que se seguiram, esse poema foi mais recordado do que a maioria das suas produções mais sérias, até que finalmente se interrogou sobre se seria essa canção que lhe "salvaria o nome do esquecimento".

Em resumo, o volume de publicidade dedicado a Jenny Lind foi espantoso, fazendo-lhe do nome algo mágico e extraordinário. A faísca criada por Barnum pegara e transformara-se num incêndio. Joel Benton, biógrafo de Emerson e amigo chegado de Barnum, resumiu a campanha em 1891: "Nunca, na história da música, ou na história do entretenimento na América, a vinda de um artista estrangeiro causou tanto entusiasmo. Grande parte deste interesse público era natural e genuíno, devendo-se à própria Miss Lind. Contudo, uma parte considerável deveu-se à publicidade astuta e

 

31 "Saudação à América".

32 "Saúdo de todo o coração a Terra do Ocidente, / Cuja Bandeira de Estrelas ondula sobre o mundo; / Cujo império domina o amplo seio do Atlântico, / e abre ao ocaso o portão de ouro!"

 

enérgica de Mr. Barnum. A digressão americana da grande cantora teria sempre sido bem sucedida, mas nenhum outro empresário para além de Barnum teria feito dela o que foi."

Na manhã do dia 21 de Agosto de 1850, após a rainha Vitória em pessoa se ter despedido dela, Jenny Lind embarcou no navio a vapor Atlantic, no porto de Liverpool. Atrás dela seguiam Sir Julius Benedict, Giovanni Belletti, o agente de Barnum, John Hall Wilton, a melhor amiga da cantora, Josephine Ahmansson, o primo e secretário, Max Hjortsberg, uma aia e um camareiro.

O navio demorou onze dias a atravessar o Atlântico. Numa das noites, Jenny Lind deu um concerto pago aos cento e cinquenta passageiros, sendo as receitas entregues à tripulação. O piano que a acompanhava fora comprado por Barnum. Nas outras noites dançou e, durante uma tempestade, foi a única do seu grupo que não enjoou e permaneceu no convés. Entretanto, em Nova Iorque, as entregas diárias de Barnum à imprensa atiçavam o público em relação ao progresso da cantora.

O Atlantic tinha a chegada prevista para o dia 1 de Setembro, um domingo, altura que os cidadãos se encontravam livres e se sentiam festivos. Na noite anterior, agitado e nervoso, Barnum dirigiu-se a Staten Island, onde dormiu na casa do amigo Dr. A. Sidney Doane, director de Saúde do Porto. O grande dia amanheceu limpo e Barnum vestiu a sua melhor roupa e aguardou com impaciência. Ao meio-dia, o vapor surgiu no horizonte.

Barnum foi levado ao navio com o Dr. Doane, tendo então subido a escada até ao convés, segurando com firmeza um grande ramo de flores. De imediato, descobriu Jenny Lind à conversa com o proprietário do navio, que conseguira subir mais cedo a bordo, com um ramo que fazia o de Barnum parecer minúsculo. O mestre de espectáculos passou pelo empresário e pegou calorosamente na mão da cantora. Finalmente encontravam-se frente a frente.

Talvez Barnum tenha ficado surpreendido por ela não ser bela. O que viu foi uma morena de trinta anos, baixa, não tendo mais de um metro e sessenta, com um rosto simples e quase rústico. Os olhos azuis tinham um ar divertido e expressivo e o nariz e as maçãs do rosto eram largos. A boca era grande e a pele morena não ostentava qualquer maquilhagem. A sua figura, o peito voluptuoso e a cintura de vespa, era quase perfeita. Mas Barnum viria a descobrir que só quando ela cantava ocorria a transformação em algo etéreo e delicado.

E quanto a Jenny Lind, que viu ela? Perante si estava um homem imponente, uma espécie de S. Nicolau33, prematuramente calvo e corpulento aos quarenta anos. O rosto, embora extremamente redondo e rechonchudo, parecia o rosto de qualquer recém-nascido. As sobrancelhas eram farfalhudas e os olhos penetrantes. O nariz era proeminente como um punho, a boca marcada por rugas de expressão e o maxilar largo.

Libertou-lhe a mão e trocaram as amabilidades formais costumeiras. Finalmente, ela quis saber onde e quando a ouvira cantar.

"Até este momento nunca tive o prazer de a ver", respondeu Barnum.

Jenny Lind ficou espantada. "Como é possível que tenha arriscado tanto dinheiro com uma pessoa que nunca ouviu cantar?"

"Arrisquei", explicou Barnum simplesmente, "devido à sua reputação, na qual, em assuntos musicais, confio muitíssimo mais do que no meu próprio julgamento."

Enquanto o vapor se dirigia à doca, milhares de pessoas gritavam e aplaudiam de outros barcos ancorados e do cais. O molhe estava negro com a multidão que ali gritava. Os jornalistas estimaram em trinta mil o número de pessoas ali presentes. Jenny Lind, levada pelo braço do capitão do navio, desceu a prancha atapetada até uma carruagem privada. Barnum estava logo atrás e seguiu-a para o veículo. Foram levados através de dois arcos triunfais, decorados com flores e verduras, um deles ostentando uma águia e com a legenda "Bem-vinda à América! ", e o outro com a inscrição, "Bem-vinda, Jenny Lind!"

Chegados ao seu destino, a Irving House, na Broadway, o tumulto e o frenesim repetiram-se. Cinco mil pessoas aguardavam para saudar o Rouxinol Sueco. A polícia abriu caminho até ao hotel. Mesmo depois de ter entrado no quarto, o burburinho continuava na rua. Veio à varanda e acenou com o lenço, mas o barulho não esmoreceu.

Uma vez lá dentro, Jenny Lind pediu a Barnum que jantasse

 

33 O Pai Natal.

 

com ela. Quando a refeição foi servida, ergueu o copo de vinho num brinde ao empreendimento. Ficou surpreendida por Barnum não fazer qualquer menção de erguer o seu próprio copo. "Miss Lind", explicou, "creio que não existe nada neste mundo que eu não lhe concedesse, caso mo pedisse, mas sou abstémio, e tenho de lhe rogar que me permita brindar à sua saúde e felicidade com um copo de água fresca." E assim, embora Lind continuasse surpresa, Barnum tocou-lhe na taça com o seu copo de água.

À meia-noite, o entusiasmo nas ruas crescera. A multidão chegava já às vinte mil pessoas e agora trezentos bombeiros de camisa vermelha e de tochas em riste, seguidos por uma banda de música de duzentos elementos, em representação da New York Musical Fund Society, marchavam até à entrada do hotel, a fim de realizar uma serenata ao Rouxinol. Um coro de vozes exigiu que Jenny Lind se mostrasse e, por fim, Barnum, que estivera com ela durante todo o dia e todo o serão, acompanhou-a até à varanda, onde escutou "Hail Columbia" e outras árias patrióticas durante uma hora.

O segundo dia foi uma repetição do primeiro. Chegaram visitas por parte do Mayor e de celebridades. Os principais chapeleiros, modistas e donos de lojas de acessórios bombardearam-na com ofertas dos seus produtos. Os jornais não falavam de outra coisa e o corredor do quarto de hotel encontrava-se repleto de jornalistas. Com dificuldade, Barnum conseguiu retirá-la, disfarçada, afim de inspeccionar vários locais para os concertos. O mais impressionante local de todos foi Castle Garden, uma fortaleza de tijolo abandonada, que se erguia como uma ilha circular nas águas ao largo de Battery, e que era acessível através de uma ponte de madeira ligada a terra, edificação essa que fora convertida em ópera, possuindo o maior número de lugares sentados do país. Aqui fora recebido em 1824 o velho marquês de Lafayette, e Samuel Morse apresentara o seu código telegráfico, em 1835. Jenny Lind concordou prontamente com Barnum, que Castle Garden deveria ser o local da sua estreia em solo americano.

No terceiro dia após a chegada da prima donna, foi efectuada uma alteração ao contrato. Segundo Barnum, foi ele quem a sugeriu. Ao ver que Lind deveria ser um sucesso para além das suas expectativas, quis evitar qualquer descontentamento. Aventou que ela continuasse a receber $1. 000 por actuação e todas as despesas pagas, mas, depois de ele próprio receber $5. 500 por noite pelos seus serviços e gastos, os lucros deveriam ser divididos de forma igual entre eles. Barnum recordou que o Rouxinol ficou tão espantado que ergueu a mão, disse-lhe que era um "cavalheiro de honra" e exclamou: "Cantarei para si o tempo que quiser; cantarei para si na América, na Europa, em qualquer lugar!"

Contudo, a versão de Jenny Lind desta história, ou antes, a versão adiantada pelos seus conselheiros, diz que foi ela a dar início à revisão do contrato. Quando percebeu o seu potencial na América, exprimiu abertamente o descontentamento com as cláusulas originais. Se forçada, cumpriria o primeiro acordo, mas não de bom grado. Um dos seus advogados, Maunsell B. Field, escreveu: "Miss Lind ia continuamente desejando que se procedessem a alterações no contrato, mudanças essas a seu favor, e Mr. Barnum cedia sempre. Fosse qual fosse o seu motivo, mostrou-se bastante prestável..."

Os ensaios tiveram início em Castle Garden. Jenny Lind revelou-se surpreendentemente temperamental. Barnum convidara críticos musicais e jornalistas, a fim de assistirem à atracção, e estes, por sua vez, convidaram hordas de amigos. O grande número de convidados incomodou a diva, que protestou, tendo Barnum sido obrigado a expulsar todos os presentes, excepto os próprios críticos.

Os críticos que assistiram aos ensaios ficaram extasiados e os louvores prévios ajudaram a estimular a antecipação. Representativo destes primeiros artigos foi a promessa publicada no New York Herald, na véspera da estreia do Rouxinol: "Falamos de forma sóbria - calma - séria. Durante a última semana, a expectativa do público tem sido enorme - maior do que em qualquer outro período dos nossos anais musicais. Mas, por mais alto que tenha chegado, a realidade - o facto - o concerto - a voz e o poder de Jenny Lind - irão ultrapassar todas as expectativas. Jenny Lind é uma maravilha, e um prodígio na canção - que não existam dúvidas."

Quatro dias antes da estreia, Barnum realizou um leilão público de bilhetes para a primeira noite de Jenny Lind. Três mil pessoas enfrentaram chuva torrencial e pagaram doze cêntimos e meio para entrar em Castle Garden, a fim de participar. A competição pelo primeiro bilhete foi frenética. Finalmente, o martelo do leiloeiro ressoou no púlpito três vezes e entregou o prémio a John N. Genin, proprietário de uma loja de chapéus ao lado do Museu Americano, por $225.

Antes, Barnum aconselhara Genin a oferecer qualquer preço pelo primeiro lugar. Garantiu ao vizinho que o valor da publicidade seria incalculável, e tinha razão. De um dia para o outro, Genin, que parecia um senador romano e acabou por publicar a história dos chapéus, tornou-se famoso. Quase todos os jornais do país exibiam o nome de Genin. Um homem no lowa descobriu a etiqueta de Genin num velho chapéu esmurrado e conseguiu leiloá-lo por catorze dólares a partir dos degraus da estação de correios local. Os clientes rumavam à loja de Genin, preparados para pagar um dólar extra pelos chapéus, só para conseguirem ficar com a sua mercadoria e poder vê-lo. Nos doze meses que se seguiram, vendeu mais 10. 000 chapéus do que no ano anterior. Não ficou registado se apreciou o concerto ou não.

O leilão continuou e, durante algum tempo, os bilhetes foram arrematados a cerca de vinte dólares, embora mais tarde os preços dos lugares variassem entre um a sete dólares. O preço médio por bilhete, tanto neste leilão como noutro que se seguiu dois dias depois, variou entre os seis e os sete dólares. Castle Garden ficou completamente esgotado e a receita foi de $17. 864. A frugal Jenny Lind ficou tão espantada com os preços pagos que sentiu ser "uma obrigação" entregar em segredo cada centavo da sua parte nos lucros para caridade.

O dia do concerto, quarta-feira, 11 de Setembro de 1850, foi recebido pela imprensa e pelo público como feriado. A tensão e a expectativa cresceram ao longo do dia pelas cinco horas da tarde, três horas antes do início do espectáculo, Barnum achou necessário abrir as portas de Castle Garden aos clientes inquietos.

A ponte de madeira de sessenta metros que fazia a ligação ao Garden fora iluminada e coberta com um toldo. Um sem-fim de carruagens aproximava-se ruidosamente, sendo recebidas por uma força de sessenta agentes da polícia, que mantinham a ordem. As pessoas entravam no amplo salão, disse Barnum, "com tanta ordem e silêncio como em qualquer assembleia religiosa numa igreja". No interior, iluminado por fileiras de luzes alimentadas a gás, o Garden dividia-se em quatro secções. Cada uma encontrava-se identificada por uma cor diferente, e os arrumadores ostentavam emblemas e empunhavam varas dessa cor. Os espectadores limitavam-se a exibir a cor do bilhete e eram prontamente encaminhados à secção correcta. No palco sombrio erguia-se um arco de madeira, pintado com arabescos brancos e dourados e enfeitado com bandeiras dos Estados Unidos e da Suécia. Do balcão estava suspenso um letreiro, no qual flores garridas foram dispostas com a seguinte inscrição: "Bem-vinda, Gentil Gorjeadora."

Às oito horas, quando Sir Julius Benedict e a sua orquestra de sessenta elementos surgiu para tocar a abertura do Oberon, de Weber, apenas um terço do auditório estava ocupado. Ao longo de toda a abertura foram chegando pessoas, enquanto gritos, berros e apitos de um milhar de arruaceiros e ébrios, em duzentos barcos na água, se iam fazendo ouvir. Durante duas horas abafaram a música aos espectadores na parte de trás do balcão, até que finalmente acabaram por ser dispersados. Quando a abertura terminou e Belletti concluiu o seu solo, o Garden encontrava-se apinhado com cinco mil portadores de bilhete, sete oitavos dos quais eram homens.

"Seguiu-se um momento de expectativa", relatou o New York Tribune, enquanto Barnum aguardava ansiosamente, com todo o seu futuro em jogo. "Após alguns instantes, JENNY LIND, de vestido branco, que combinava com a honestidade franca do seu rosto, avançou por entre a orquestra. É impossível descrever a ovação espontânea que a recebeu. A vasta assembleia ergueu-se como um só indivíduo e, durante alguns minutos, nada mais se viu para além das mãos e dos lenços a acenar, e nada mais se ouviu, para além do troar das aclamações tumultuosas. O entusiasmo do momento, por instantes desenfreado, acabou por esmorecer... e a divina cantora, com aquela pose perfeita, aquele ar de total dignidade e ternura, misturando uma simplicidade infantil e uma modéstia senhoril tremente com a bela confiança do Génio e a serena sabedoria da Arte, deu início às suas canções..."

Começou com "Casta Diva", da Norma, de Bellini. "Na última parte da cavatina, " frisou Barnum, "a audiência encontrava-se tão arrebatada que o resto da ária foi abafada numa verdadeira tempestade de ovações." Seguiu-se um dueto com Belletti do Turco in Itália, de Rossini, e um número sueco, a "Canção do Vaqueiro", e o aplauso foi ainda maior. À medida que Jenny Lind prosseguia, cada canção recebida com mais entusiasmo do que a anterior, Barnum percebeu que ganhara. "O entusiasmo fora levado ao extremo", escreveu, "mas o poder musical de Jenny Lind excedeu todas as brilhantes antecipações criadas, sendo o seu triunfo completo."

O número final foi "Greeting to America", de Bayard Taylor, para a qual Benedict compôs a música em menos de uma semana. Quando Jenny Lind terminou, Castle Garden era um pandemónio. Foi chamada três vezes ao palco para agradecer e acenar. Depois gritou-se pelo empresário. Barnum retraiu-se num acesso de modéstia atípico, tendo-se por fim juntado ao Rouxinol. Acalmou a audiência e fez um pequeno discurso. Disse que Jenny Lind lhe implorara que não revelasse o seu segredo, mas que devia fazê-lo. A totalidade dos quase $10. 000 que ela lucraria nessa noite, declarou, seriam entregues a uma vasta lista de obras de caridade americanas, incluindo o Fundo dos Bombeiros, a Sociedade para o Fundo Musical, o Asilo de Órfãos de Cor e o Lar para as Mulheres Indigentes. Iria ser feita também uma contribuição a Harriet Beecher Stowe, para ajudar a autora a libertar escravos.

Na manhã seguinte, receando uma reacção da imprensa contra a sua diva, Barnum aguardou nervosamente pelos jornais. Contudo, um breve olhar à manchete do Tribune (uma crítica anónima, provavelmente redigida por George W. Curtis, uma autoridade sobre a Síria que ajudara Thoreau a construir a sua cabana em Walden Pond) dissipou todas as preocupações sentidas por Barnum. "O primeiro concerto de Jenny Lind terminou e todas as dúvidas desapareceram. Ela é a maior cantora que já ouvimos e o seu sucesso é tudo o que se antecipara do seu génio e fama." Os outros jornais ficaram igualmente arrebatados. Barnum, exausto mas contente, registaria: "O povo encontrava-se extasiado. O poder do acúmen, das formas tipográficas e da tinta editorial eram inadequados para reproduzir os louvores. Já não havia volta e o sucesso do empreendimento Jenny Lind fora alcançado. Imagino que, no dia a seguir ao primeiro concerto, existissem cem homens em Nova Iorque dispostos a pagar-me $200. 000 pelo meu contrato. Recebi ofertas consecutivas de um oitavo, um décimo e um dezasseis avos do equivalente a esse preço. Mas o risco fora meu e estava determinado a conseguir o triunfo."

Claro que existiram vozes discordantes. Walt Whitman escreveu no New York Evening Post "O Cisne Sueco, mesmo com toda a sua lisonja, nunca chegou a comover-me... estava curioso em relação a tal destreza vocal e, na verdade, todas as piruetas e saltos mortais foram bonitos. Mas, mesmo as maiores árias religiosas, verdadeiras obras-primas dos compositores alemães, executadas por esta mulher estranhamente sobrestimada, os críticos que digam o que quiserem, foram um fracasso. Existiu um vácuo no espírito da execução." Washington Irving gostou, mas mais da mulher do que da cantora. E o chefe Oshkosh e os seus bravos Menominee, de visita a Nova Iorque após a assinatura do tratado com o presidente Millard Fillmore, foram convidados por Barnum para ouvir Jenny Lind. Oshkosh não pôde comparecer, mas os seus bravos estiveram presentes. Quando lhes perguntaram a opinião, um deles replicou: "Primeiro fez um grande barulho e depois um barulho mais pequeno. O homem branco deve ter muito mais dinheiro do que precisa, para pagar tanto para ouvir esta senhora a cantar."

Mas as poucas críticas adversas diluíram-se na lindomania que cobriu Nova Iorque e o resto do país. Foram-lhe dedicadas canções, poesias e polcas. Chapéus, luvas, xailes e robes foram baptizados em sua honra. Surgiram cachimbos, pianos, charutos, botões de colete, fogões, cartas, sofás e uísque Jenny Lind. Um veleiro foi baptizado em honra de Jenny Lind, bem como um cavalo de corrida. Mathew Brady, sob o protesto de Barnum, realizou um daguerreótipo dela, que a imprensa considerou "sem rival". Os nova-iorquinos pagaram $87. 055 pelos primeiros seis concertos, e $282. 216 pelos trinta e cinco realizados ao longo de nove meses.

Agora Barnum ia levar a sua maravilha em digressão: Filadélfia, Boston, Baltimore, Washington, D. C. St. Louis, Cincinnati, Memphis, Nova Orleães, Havana. Realizaram-se sessenta concertos fora de Nova Iorque e, por todo o lado, repetiu-se a cena de Castle Garden.

Os maiores jornais publicavam artigos regulares, em colunas diárias permanentes, sobre os movimentos e acções da cantora. Raramente desapontava os seguidores. Em Boston, onde recebeu Henry Wadsworth Longfellow e facturou $70. 388 nas bilheteiras por sete actuações, ficou muito impressionada com Daniel Webster. O secretário de Estado maravilhou-a, tal como em tempos fizera Mendelssohn, e comentou com o empresário: "Ah, Mr. Barnum, isto é um homem. Nunca antes tinha visto um homem assim!" Também em Boston, o seu secretário, Hjortsberg, contou-lhe sobre uma rapariga na bilheteira, que, ao adquirir um bilhete por três dólares, comentara: "Lá se vai metade de um mês de ordenado, mas estou determinada a ouvir Jenny Lind." A cantora, que se comovia facilmente, mandou Hjortsberg escadas abaixo, com uma peça de ouro de vinte dólares para a rapariga. Antes de deixar Boston, escreveu à família na Suécia, dizendo que tinha saudades do seu arenque, batatas e sopa de leite natais, que estava a fartar-se do impacto de tantas caras novas, e que Barnum continuava "extremamente generoso e razoável; e parece que o seu objectivo de vida é deixar-me satisfeita".

Em Filadélfia, milhares de pessoas juntaram-se sob a janela do seu quarto de hotel. Jenny Lind estava com dor de cabeça e recusou-se a aparecer. Prontamente, Barnum colocou o chapéu e o xaile na companheira de Lind, Miss Ahmansson, e a multidão foi enganada, mas ficou feliz. Em Baltimore, Barnum levou a filha Caroline, que se juntara à companhia, à igreja. Quando Caroline cantou no coro, os fiéis convenceram-se de que tinham ouvido o Rouxinol Sueco gratuitamente. Em Washington, o presidente Fillmore visitou Jenny Lind no hotel desta, mas a cantora tinha saído. Deixou-lhe o cartão. No dia seguinte, pelo braço de Barnum, ela retribuiu a gentileza, passando todo o serão com o chefe de Estado e sua família na Casa Branca.

De Charleston, Barnum, a sua diva e respectivo séquito seguiram para Cuba a bordo do vapor Isabella, para três espectáculos. Depois de Nova Iorque, Havana seria o maior de todos os desafios. Uma aura de hostilidade geral recebeu Barnum. A maioria dos frequentadores de teatro, habituados aos preços baixos praticados pela Ópera Tacón, que o empresário alugara para Jenny Lind, não gostaram dos preços mais altos que foram anunciados. Os jornais de Havana chamaram-lhe "Pirata ianque". Além disso, uma companhia de ópera italiana encontrava-se em Havana ao mesmo tempo, e metade da cidade considerou os cantores latinos superiores ao apregoado talento nórdico de Miss Lind. O antagonismo perturbou Barnum, mas este escondeu do Rouxinol tudo o que se passava.

Na noite de estreia, a Ópera Tacón estava cheia, mas o ar encontrava-se carregado. A abertura de Sir Julius Benedict e o solo de Belletti foram recebidos com um silêncio aterrador. Depois, trazida por Belletti, Jenny Lind foi apresentada aos cubanos. "Três ou quatro centenas de pessoas aplaudiram-na", relatou um correspondente do New York Tribune, "mas esta prova de aprovação foi desde logo silenciada por pelo menos dois mil e quinhentos assobios. Assim, ficando demonstrado que não existiria uma opinião pública pré-concebida e que os aplausos a Jenny Lind naquela casa teriam primeiro de ser conquistados, instalou-se um silêncio profundo."

Pela primeira vez na sua digressão, Jenny Lind ficou chocada, deixando transparecer na expressão que se encontrava nervosa. Para os latinos, este era o momento da verdade. Se vacilasse e desistisse, estaria acabada. Se continuasse, seria obrigada a penetrar, com a sua voz trémula de soprano, numa espessa cortina de cepticismo. Hesitou apenas por um momento, e depois avançou para o palco. "A sua expressão alterou-se num instante para uma calma altiva", continuou o Tribune, "os olhos emanavam desafio e, ficando imóvel como uma estátua, quedou-se ali, perfeitamente calma e bela. Estava satisfeita por ter uma provação a ultrapassar e uma vitória a conquistar, dignas dos seus poderes. Por um momento, os seus olhos perscrutaram a vasta audiência, a música começou e depois seguiram-se - como o poderei descrever? acordes tão celestiais como nenhum mortal alguma vez produziu, excepto Jenny Lind, e nenhum mortal alguma vez ouviu, excepto dos seus lábios... O fluxo harmonioso prosseguiu até que, no final, superou todos os obstáculos e arrebatou-os à sua passagem. Nem um único vestígio de oposição permaneceu, tendo a audiência irrompido numa ovação como nunca até então presenciara."

Por entre o clamor, foi chamada cinco vezes para agradecer. Finalmente, Barnum surgiu a seu lado. "Deus a abençoe, Jenny", exclamou, "conquistou-os!" Chorando de alegria, ela abraçou-o. "Está satisfeito? ", perguntou-lhe. Estava satisfeito. "Nunca como nessa noite", diria Barnum mais tarde, "ela me pareceu tão bela."

Antes de deixar Havana, Barnum reuniu-se com o Signor Vivalla, o malabarista dos dias iniciais com Joice Heth. Vivalla sofrera uma trombose (o lado esquerdo do corpo encontrava-se paralisado) e vivia na pobreza, empregando um cão amestrado para fazer girar uma roca e para fazer acrobacias. Sensibilizada pela sua história, Jenny Lind enviou-lhe $500. Profundamente comovido, Vivalla respondeu com uma cesta de fruta e insistiu em diverti-la com o cão. "Pobre homem, pobre homem, deixe-o vir, " pediu Jenny Lind a Barnum. A cantora recebeu calorosamente Vivalla na sua sala de visitas, ajoelhando-se para fazer festas ao cão, e questionou o malabarista sobre o passado. Mais tarde, aplaudiu a pequena actuação e depois cantou-lhe. Foi a despedida de Vivalla. Poucos meses depois morria, sendo os nomes de Jenny Lind e de Barnum as últimas palavras a deixarem os seus lábios.

À medida que a digressão progredia, Barnum começou a perceber o seu Rouxinol. O seu humor era volátil: por vezes, era introvertida e distante, outras vezes excessivamente alegre e rejubilante. Numa festa, antagonizou um editor francês ao recusar-se a dançar, socializar ou conversar sem utilizar monossílabos. Não recebia visitas durante períodos extensos. Quando a filha de um abastado plantador da Georgia subornou uma criada, para que esta lhe deixasse vestir a sua farda e levar o chá a Jenny Lind, esta não gostou da brincadeira. Barnum pensou que tal mostra de admiração a fosse agradar. "Não é admiração, é apenas curiosidade, e não irei encorajar tais disparates", retorquiu Jenny Lind.

"Com todas as suas excelentes e até mesmo extraordinárias qualidades, Jenny Lind não deixava de ser humana... ", escreveu Barnum. "Fora acarinhada, quase idolatrada, durante tanto tempo, que seria estranho que a sua popularidade sem limites não a tivesse, até certo ponto, afectado... Tal como a maioria das pessoas detentoras de um talento raro, possuía uma determinação que, por vezes, considerava insustentável." De facto, um amigo do Rouxinol, Lê Grand Smith, deu os parabéns a Barnum, por este ter conseguido mostrar ao público apenas o "lado angélico de Jenny".

Mas, no seu círculo mais íntimo, e especialmente com Barnum, conseguia ser expansiva e de uma feminilidade maravilhosa. Durante uma festa de Ano Novo na sua suite, esteve bastante animada. Convidou Barnum para dançar e este avisou-a de que nunca dançara na vida. "Ainda melhor", gritou ela. "Agora venha dançar um cotilhão comigo. De certeza que é capaz." Recebeu-a nos seus braços e passou mais tempo em cima dos pés de Lind do que no chão. Ela riu-se da falta de jeito. "Disse que me concedia a honra de ser o pior dançarino que já vira! ", confessou Barnum com pesar.

Sempre que existia privacidade, adorava descontrair-se ao ar livre. "Brincava, corria, cantava e ria-se como uma menina", observou Barnum. O seu desporto preferido era brincar à apanhada com uma bola de borracha. Muitas vezes tentava convencer Barnum a entrar na brincadeira. Em breve, ele bufava como um golfinho e levantava as mãos. "Desisto." E ela ria-se e gritava: "Ó, Mr. Barnum, é demasiado gordo e preguiçoso. Nem sequer aguenta jogar à bola comigo!"

Claro que a proximidade entre os dois encorajou rumores sobre amor e casamento. Os boatos chegaram aos ouvidos de Jenny Lind, que foi contá-los a Barnum. "Ouvi dizer que o senhor e eu nos vamos casar em breve", disse-lhe. "Ora como é que um comentário tão absurdo como esse poderá ter sido iniciado?" Barnum sorriu. "Talvez devido ao facto de estarmos "comprometidos", respondeu.

Mas isto era o melhor da digressão. O resto eram nervos e tensão. Quando a pequena companhia regressou a Nova Iorque para mais uma série de concertos, a fricção começava a notar-se. Sir Julius Benedict, a sua saúde debilitada pelas viagens e a sua natureza sensível irritada pelos aspectos circenses dos programas de Barnum, invocou um anterior compromisso com o Her Majesty's Theatre, em Londres, e deixou a companhia, regressando a Inglaterra. De imediato, Jenny Lind mandou buscar à Europa Otto Goldschmidt, um jovem pianista intenso que a acompanhara na Alemanha e que ao piano era considerado inferior apenas a Mendelssohn, para servir de substituto de Benedict.

Barnum considerou Goldschmidt "um cavalheiro sossegado e inofensivo e um músico bastante dotado". Jenny Lind tinha-o na mais alta consideração. Apaixonou-se loucamente por ele, e este amor foi correspondido, o que perturbou bastante Giovanni Belletti, que também a amava. No início da digressão, Belletti não escondera a sua paixão, e Jenny Lind aceitara esses sentimentos, fazendo dele o seu companheiro de passeio e confidente. Mas, com a chegada de Goldschmidt, Belletti tornou-se apenas mais um barítono. O primeiro advogado de Jenny Lind, Maunsell B. Field, registou que Belletti "costumava passar o dia na cama, chorando e gemendo pela afeição não correspondida". Finalmente, num acto de desespero, também ele abandonou a companhia.

Entretanto, Barnum tinha os seus próprios problemas com o Rouxinol. Ao escrever a Joshua Bates, o banqueiro de Londres, expôs os problemas: "Neste país, temos a noção de que a rápida acumulação de riqueza cria sempre muita inveja, e esse sentimento, em breve, acaba por transformar-se em malícia. Tais são, até certa medida, os elementos em jogo contra mim. Embora entre Miss Lind, Benedict e eu próprio não tenha havido, que eu saiba, outros sentimentos que não os da amizade, não creio que isso possa continuar por muito mais tempo, tendo em conta que, quase todos os dias, eles permitem a aproximação de pessoas (algumas das quais pertencentes às classes mais altas da sociedade) que passam horas a difamar-me. Até mesmo o advogado dela, Mr. John Jay, tem zelado tão cegamente pelos seus interesses, que chega a envenená-la contra mim, enchendo-lhe os ouvidos com os disparates mais ridículos. Tudo coisas que redundam em nada e até menos do que nada - tal como o pesar por ser um "mestre de espectáculos", ter exibido Tom Thumb, etc. etc."

O círculo de Jenny Lind tentou, efectivamente, virá-la contra Barnum. Argumentavam que o seu desempenho enquanto empresário era medíocre e a sua publicidade nada digna. Disseram que nos seus concertos, tal como o de Fitchburg Depot, em Boston, onde a acústica era pobre, o calor insuportável e se dizia que o soalho era perigoso, eram vendidos bilhetes a mais, num acto de ganância, sem qualquer consideração pela saúde e pelos nervos da cantora. Em Filadélfia, o secretário de Jenny Lind, cuja ambição era tornar-se o empresário da diva, denegriu o National Theater, uma antiga arena de circo alugada por Barnum. Segundo Field, a cantora indignada disse a Barnum "que não era um cavalo e, por isso, não actuaria nesse local". Também estava farta da exploração que Barnum fazia do seu nome. Field, que a considerava "mais calculista do que emocional", recordou: "Ela detestava intrujice uma palavra que se encontrava constantemente na sua boca." E, gradualmente, John Jay, que sucedera a Field como seu advogado, recordava-a de que Barnum era uma pedra no seu sapato, e que ela poderia e merecia ficar com os lucros adicionais que lhe surgiriam, caso estivesse por sua própria conta.

Finalmente, no início de Junho de 1851, na véspera do nonagésimo terceiro concerto, Barnum decidiu-se a colocar um ponto final no conflito. Ofereceu-se para a libertar do contrato, caso Lind lhe pagasse $7. 000 pelos sete concertos que ainda não haviam tido lugar e devolvesse os $25. 000 que ele depositara em Londres, por conta de uma digressão mais extensa. Toda ela educação e afabilidade, Jenny Lind concordou, e prima donna e empresário separaram-se enfim, após uma pareceria de nove meses e nove dias.

Fora um sucesso muito para além de todas as expectativas de Barnum. A série de concertos rendera $712. 161. A aposta em Jenny Lind, um talento quase desconhecido num país que nunca antes aceitara daquela forma a exibição de cultura estrangeira, rendera $176. 675 à cantora e $535. 486 ao recém-coroado empresário.

Acima de tudo, graças a Barnum, o caminho estava aberto ao surgimento de Melba, Patti, Paderewski, Caruso, Kreisler e Schumann-Heink.

A partir daí, a carreira de Jenny Lind foi um anticlímax.

Continuou sozinha a digressão americana, com sucessos cada vez menores. Os pormenores dos negócios enfadavam-na. Cruzando-se com Barnum em várias ocasiões, disse-lhe: "As pessoas enganam-me e vigarizam-me muito e acho muito irritante dar concertos por minha própria conta." Sem a mestria de Barnum, o encanto decresceu. Um jornal de Filadélfia relatou que mostrava "mau feitio e irritação" em palco e que ficava furiosa "como um ninho de vespas e carregada como uma trovoada, tudo porque a casa não estava cheia".

Pior do que tudo, estava tão cega de amor por Goldschmidt, que começou a forçá-lo perante um público cada vez mais resistente. O pianista alemão era demasiado formal e apagado, mas, no entanto, Jenny Lind fazia com que surgisse duas vezes em cada concerto, enquanto Sir Julius apenas aparecia uma. Acompanhava-o para o palco e para fora deste e, quando ele tocava, fitava-o com olhos sonhadores e encorajava a audiência a aplaudir. Tudo isso era romântico e enternecedor para Lind, mas não estimulava a audiência.

No dia 5 de Fevereiro de 1852, Jenny Lind tornou-se Madame Otto Goldschmidt, passando a anunciar-se assim daí em diante. A decisão de casar com o homem que amava foi difícil. Por exemplo, ele era judeu e isso incomodava Jenny Lind, além de que era nove anos mais jovem do que ela. Mas, ao mesmo tempo, era refinado, possuía solidez, talento e, acima de tudo, um profundo amor, que tivera início durante a infância de ambos. Lind foi incapaz de resistir e casaram-se em Boston, na casa de um banqueiro, segundo os rituais da Igreja Episcopal.

Numa noite chuvosa, quatro meses mais tarde, deu o concerto de despedida em Castle Garden. As receitas foram menos de metade das da sua estreia, sob o auspício de Barnum. O mestre de espectáculos recebeu um bilhete gratuito e foi despedir-se aos bastidores. Recordou-a de que Deus lhe dera uma voz superior a todas as outras e que nunca devia deixar de a utilizar. "Sim", concordou ela, "continuarei a cantar enquanto a minha voz o permitir, mas, acima de tudo, serão obras de caridade, pois estou grata por dizer que tenho todo o dinheiro de que alguma vez poderei precisar."

Jenny Lind e Goldschmidt instalaram-se numa casa em Malvern Hills, na Inglaterra vitoriana que ela tanto admirava. Esta casa foi o único luxo pessoal que adquiriu com o considerável montante que ganhara na América. O resto permaneceu num fundo a ser utilizado em obras de caridade e bolsas de estudo na Suécia. Sete anos depois deu à luz um rapaz, Walter, que viria a tornar-se oficial do exército, uma rapariga, Jenny, que herdou alguns dos dotes musicais da mãe e que se casou com um elemento do governo chamado Maude, e um segundo rapaz chamado Ernest.

Embora nos anos que se seguiram raramente cantasse por interesse pessoal, continuou longe de se aposentar. Antes e depois do nascimento dos filhos, deu concertos um pouco para todos os tipos de causas. Cantou para a sua igreja. Cantou para angariar dinheiro para a amiga Florence Nightingale, que possuía o seu próprio fundo de assistência. Cantou para expandir a carreira do marido. Na verdade, o seu último concerto público, que teve lugar quando Lind tinha cinquenta anos, destinou-se a promover uma oratória, Ruth, composto por Goldschmidt, que ela apresentara havia três anos. É possível que tenha cantado durante demasiado tempo. Perto do fim, os críticos notaram que os tons eram "abafados e fracos" e que as passagens poderosas eram efectuadas graças a um grande esforço.

Os bons amigos eram muitos. Sir Arthur Sullivan, cuja ópera H. M. S. Pinafore esteve em cena setecentas noites, era um deles. A rainha Vitória era outra. Jenny Lind continuou indelicada e até mesmo pedante com os caçadores de curiosidades. Quando um grupo de turistas americanos a foi visitar, perguntou-lhes o que desejavam. O porta-voz disse que apenas queriam vê-la. "Bom, esta é a minha cara", disse ela, com rispidez, e depois, virando-se, "e estas são as minhas costas. Agora podem ir para casa e dizer que me viram." E bateu com a porta.

Falava abertamente sobre os contemporâneos e sobre o seu papel de esposa, de uma forma que deixava Goldschmidt arrepiado. Uma vez, durante uma visita do formidável crítico musical vienense Eduard Hanslick, disse-lhe: "Os cantores actuais perdem todos a voz aos trinta anos, pois estudaram pouco e gritaram muito. Eu nunca tive grande voz, mas mantive-a intacta. Com efeito, canto agora com muito menos esforço do que antes... Em casa, nunca canto uma única nota, pois sou dona de casa e trabalho como uma cadela."

Numa estância de férias, um amigo inglês encontrou-a ao fim da tarde, sentada numa praia, fitando o horizonte, com uma Bíblia luterana aberta no colo. O amigo interrogou-a sobre o motivo que a levara a abandonar a carreira no seu auge. Jenny Lind pensou na carreira por uns instantes e depois replicou: "Se, todos os dias, me fazia pensar menos nisto", e indicou a Bíblia, "e absolutamente nada naquilo", e apontou para o pôr do sol, "que mais poderia eu fazer?"

Aos sessenta e três anos, o príncipe de Gales convidou-a para ser professora de Canto na nova Royal College of Music, convite que aceitou. No dia 2 de Novembro de 1887, após uma hemorragia cerebral e seis semanas de paralisia, morreu com a idade de sessenta e sete anos. Ao saber da notícia em Nova Iorque, Barnum recordou o empreendimento que tiveram juntos: "A voz gloriosa do Rouxinol, que não esteve sozinha no arrebatamento do canto sem rival, mas que era meiga e doce, com lamentos e palavras ternas, enquanto procurava reconfortar quem sofria; ou ecoando nas gargalhadas sinceras da jovem mulher alegre e vigorosa." Enviou os pêsames por telegrama a Goldschmidt, onde também frisava: "Assim se desvanece o último eco da mais gloriosa voz que o mundo alguma vez escutou."

Mas a imprensa não a deixava descansar. Três anos depois, no New York Tribune, era reeditado um artigo que declarava que Goldschmidt perdera o interesse em Jenny Lind antes da morte desta e que agora negligenciava a sua campa. Barnum refutou estas palavras de imediato. Acabara de jantar com Goldschmidt em Londres e o alemão enviava flores frescas diariamente para o túmulo. E, durante a vida, amara-a profundamente. No North American Review, Barnum escreveu que Goldschmidt era "um homem adorável e válido... em vez de esbanjar o dinheiro da esposa, tal como fora alegado, duplicara-o nas suas mãos. Tudo o resto que se dizia de desfavorável sobre ele era também completamente sem fundamento."

Em tempos, Barnum dissera-lhe que estavam "comprometidos". Para ele, isso significara durante toda a vida, e mais além.

 

         EXIBIÇÃO SETE - IRANISTAN

O empreendimento Jenny Lind ocupara dez meses intensos da vida de Barnum. Com o sucesso obtido, alcançara o auge da fama na carreira enquanto mestre de espectáculos. Agora estava cansado. "Após tantos meses de ansiedade, trabalho e entusiasmo com a empresa Jenny Lind", disse, "será fácil de imaginar que desejava alguma tranquilidade."

Durante perto de quatro anos, Barnum dedicou mais tempo ao lar e à família no Connecticut do que ao Museu, visitando Nova Iorque apenas uma ou duas vezes por semana. Finalmente, até mesmo o interesse pelo Museu, o qual dominara a sua vida durante treze anos, começou a esmorecer.

Por fim, no Verão de 1855, Barnum decidiu aposentar-se completamente. Vendeu a colecção de curiosidades do Museu a John Greenwood, Jr. o seu assistente, e a Henry D. Butler, por $24. 000. O contrato de arrendamento a longo prazo do edifício, que passara para o nome da esposa, foi subarrendado a Greenwood e Butler por uma renda anual de $29. 000.

Em 1855, desimpedido, abastado, famoso e apenas com quarenta e cinco anos de idade, Phineas T. Barnum pôde descontrair-se e apreciar os frutos da sua imaginação e do seu trabalho. Pela primeira vez desde que se tornara um homem vertical, deixara de correr, dedicando-se a si próprio e à vida pessoal. Mas deste aspecto da sua existência, Barnum, publicista e anunciante, pouco falou.

Poucas pessoas souberam no seu próprio tempo, e poucas descobriram no século seguinte, quais os interesses pessoais de Barnum fora do mundo do espectáculo, os seus hábitos, preconceitos, crenças, carácter, a sua relação com a esposa e as três filhas. Nos tempos modernos seria difícil encontrar outra figura pública com tão pouca coisa conhecida ou publicada sobre a vida pessoal. Em Trumpets ofJubilee, Constance M. Rourke comentou-o com espanto. "Quase nada de substancial sobre ele emerge do aglomerado de informações contemporâneas. Poucas figuras de proporções equivalentes deixaram tão pouco atrás de si, no que diz respeito a elementos pessoais. Obrigatoriamente, acaba por se transformar numa lenda - um desfecho que decerto teria apreciado."

Contudo, por detrás da fachada elaborada de mestre de espectáculos, encontrava-se um homem despojado de espectáculo. Mas que tipo de homem?

Talvez possuísse uma ligação, uma estranha afinidade, com Coleridge. Talvez tivesse lido: "In Xanadu did Kubla Khan, / Astately pleasure-dome decree... "34 A prosaica Bridgeport não era um Xanadu, mas o majestoso palácio de Barnum nesta cidade de Nova Inglaterra pareceria adequadamente familiar e exótico a Coleridge e a Cublaicã. O palácio do mestre de espectáculos era Iranistan. Atrás das suas paredes orientais vivia o verdadeiro Phineas T. Barnum.

Barnum e Charity haviam escolhido Bridgeport como local de residência já em 1846. Situava-se suficientemente próxima de Nova Iorque por caminho de ferro e por via fluvial para que Barnum fizesse diariamente a viagem de ida e volta para o seu local de trabalho, mas afastada quanto bastasse para lhe transmitir a sensação de uma vida no campo. A cidade prometia também um certo crescimento e expansão, o que fazia de um investimento imobiliário uma aposta razoável. Assim sendo, Barnum adquiriu

17 acres a menos de um quilómetro e meio a oeste da cidade. O local era excelente. Ficava sobranceiro ao estuário de Long Island Sound. A área circundante era bucólica. E, um aspecto importante, o caminho de ferro ficava próximo: "Imaginei que um agrupamento de edifícios originais poderia servir indirectamente

 

34 "Em Xanadu Cublai Cão decretou / Um Magnífico domo de prazer..." Primeiros versos de "Kubla Khan", poema de Samuel Taylor Coleridge.

 

de publicidade ao meu Museu", comentou Barnum.

Só depois de visitar Inglaterra com Tom Thumb é que Barnum decidiu qual a arquitectura a reproduzir pelos seus "edifícios originais". Em Brighton, ficou encantado pelo Pavilhão Oriental, mandado construir em 1787 por Jorge IV. Nunca vira nada assim na Grã-Bretanha ou na América, e percebeu instintivamente que seria algo que se esperaria dele. Sem demora, contratou um arquitecto de Londres para reproduzir a planta do Pavilhão, para que o pudesse duplicar nos seus dezassete acres na vizinhança de Bridgeport.

A vistosa mansão (que baptizou de Iranistan, que significava "vivenda oriental", ou "quinta do Leste") demorou dois anos a ser construída e custou $150. 000. Em parte bizantino, em parte mouro, em parte turco, a estrutura central de três andares era encimada por uma cúpula central, que se erguia a vinte e sete metros do chão. Em seu redor encontravam-se minaretes e galerias cobertas mais pequenas. A casa tinha trinta e sete metros de largura na entrada, encontrando-se virada para um parque com uma fonte enorme e alces domesticados, tudo cercado por uma vedação de ferro.

O interior espantava e desconcertava o visitante incauto. Uma grande escadaria subia até ao segundo andar, ladeada por nichos com estátuas de mármore importadas da Itália. A mobília de cada sala era de um período diferente. A sala de visitas, com o tecto branco e dourado, os painéis cobertos de murais das quatro estações e as portas com espelhos, apresentava móveis de pau-rosa. A biblioteca era chinesa, embora a mesa de tartaruga estivesse muitas vezes coberta de porcelana e pratas adquiridas a um príncipe russo. O estúdio privado de Barnum encontrava-se forrado a cetim cor de laranja, com "mobiliário de uma elegância concordante". Adjacente ficava a maravilha do período, uma casa de banho com um chuveiro onde corria água quente e fria. A cúpula sobre a estrutura, com uma circunferência de dezoito metros, servia também de observatório astronómico.

A paisagem em redor da casa, em tempos vazia, em breve continha um pomar de árvores adultas, uma cavalariça, vários estábulos repletos de gado e uma estação privada de tratamento de água completa. No dia 14 de Novembro de 1848, o terreno, e a própria casa, encheram-se com mil convidados, incluindo Tom Thumb e seus pais ("os pobres e os ricos", comentou Barnum com orgulho), que se encontravam presentes para assistir à inauguração formal da casa. Fora um grande salto desde a pensão e o salão de bilhar ao lado do Museu. Iranistan estava destinada a permanecer o refúgio de Barnum ao longo de quase uma década.

A festa de inauguração caracterizou-se pela hospitalidade demonstrada. Barnum gostava de pessoas, especialmente de ouvintes. Joel Benton, uma visita frequente, considerava Barnum o anfitrião perfeito. "Ninguém o ultrapassava enquanto anfitrião. Conhecia as fontes do conforto - o que evitar, bem como o que fazer, por um convidado. Dominava a arte suprema de nos deixar à vontade, como se estivéssemos na nossa casa." Entre os convidados que partilharam a mesa de Barnum, em Iranistan e em casas posteriores, encontravam-se o coronel George A. Custer, Matthew Arnold, Horace Greeley e Mark Twain. Barnum tentava com frequência levar Mark Twain a escrever sobre ele e os seus empreendimentos, mas sem sucesso.

Quando não tinha convidados por perto, Barnum seguia uma rotina severa e inflexível. Levantava-se às sete e dedicava toda a manhã à secretária atafulhada no estúdio cor de laranja onde, de pena em riste, respondia a cartas ou conduzia os seus negócios. As visitas comerciais eram normalmente recebidas com brevidade durante essas horas matutinas mas, depois de esses compromissos estarem tratados, Barnum não permitia novas interrupções por parte dos amigos ou da família. Pouco depois do meio dia, saía do estúdio para passear de carruagem. Ao regressar a Iranistan, almoçava copiosamente, por vezes com membros da família. A isto seguia-se uma sesta de cinco minutos, após a qual, dizia ele, "me sentia tão revigorado como se tivesse dormido horas". Antes do anoitecer seguia-se mais uma saída de carruagem.

Os serões em Iranistan eram curtos. Salvo quando ia ao teatro, Barnum gostava de ler durante uma hora, ou ouvir piano ou música de cordas. Acima de tudo, gostava de receber vizinhos para jogos de cartas ou xadrez. Às nove e meia era suposto as visitas saírem. Caso se esquecessem, Barnum recordava-as directamente que tencionava deitar-se às dez horas em ponto. Certa vez, ao ser interrogado sobre quais os hábitos que lhe proporcionavam a sua saúde de ferro, Barnum respondeu: "Em primeiro lugar, a regularidade; em segundo, a abstinência das coisas que costumam encurtar a vida."

Quando ainda possuía a colecção do Museu, dedicava grande parte das manhãs a corresponder-se com caçadores pagos de aberrações, espalhados por todo o mundo. Liberto do Museu, conseguiu dedicar mais tempo ao outro correio. Cada entrega trazia-lhe centenas de cartas, algumas destas enviadas por admiradores, mas a grande maioria esquemas para fazer dinheiro. Os correspondentes ofereciam-lhe sociedade em novas invenções, em empreendimentos imobiliários, em acções de exploração mineira. No geral, dizia Barnum, os esquemas eram "tão alucinados e impraticáveis como uma linha férrea até à lua, enquanto talvez uma vez em mil era sugerido algo razoável".

Barnum tinha uma resposta padrão para as visitas de negócios que lhe vinham sugerir uma especulação. Antes que o visitante tivesse oportunidade de revelar a ideia, Barnum declarava abruptamente: "Está muito enganado em pensar que estou ansioso e pronto a fazer dinheiro. Pelo contrário, apenas desejo uma coisa no mundo: tranquilidade. Tenho a certeza de que o seu projecto não me vai dar isso, pois duvido que me tivesse visitado caso não precisasse de utilizar o meu cérebro ou a minha bolsa provavelmente até os dois. Bem, quanto ao primeiro, não o posso dispensar. Quanto ao segundo, o que tenho encontra-se investido, e não desejo incomodá-lo." Quando o visitante protestava, dizendo que o que tinha para oferecer era especial, Barnum costumava interrompê-lo com um tom de voz firme. "Mesmo que me oferecesse a possibilidade de criar uma sociedade para converter lajes em diamantes, com a perspectiva de vir a ganhar um milhão por ano, não iria juntar-me a si. Assim sendo, se a sua especulação não for melhor do que isso, nem precisa de a explicar, pois não devo estar interessado."

Normalmente, este ataque frontal mantinha as reuniões de Barnum breves. Poucas vezes se voltava a ouvir falar nos esquemas, embora uma das mais exóticas especulações que foi oferecida a Barnum tivesse sido realizada mais tarde. Um homem viera ter com Barnum, sugerindo-lhe que se importassem camelos para transportar passageiros por terra para a Califórnia. Barnum livrou-se do visionário com um comentário sarcástico: "Disse-lhe que pensava que os burros eram melhores do que os camelos, mas que não seria um deles."

Ainda assim, em 1853, um grupo de empresários de Nova Iorque organizou The American Camel Company". 35 Pouco depois, graças ao incentivo do secretário para a Guerra, Jefferson Davis, o Congresso destinou $30. 000 para a "importação de camelos e dromedários, a fim de serem utilizados com objectivos militares". Em 1856, o navio americano Supply deixou Esmirna com trinta e três camelos a bordo e passados três meses atracou em Indianola, no Texas. O tenente Edward Beale, amigo de Kit Carson, foi incumbido da tarefa de levar os camelos pelo árido Sudeste americano, do Texas à Califórnia, com o objectivo de abrir uma nova rota para o transporte militar. Utilizando condutores turcos, Beale guiou a estranha caravana (compras posteriores tinham aumentado o número de animais para setenta e cinco) através da terra dos índios até Los Angeles e pelo caminho inverso, seis mil e quinhentos quilómetros escaldantes por ano, para provar o seu valor. Mas o rebentar da Guerra Civil acabou por enterrar o esquema, e Barnum ficou satisfeito por não ter participado nesta colorida mas dispendiosa diversão da história americana.

Nas várias ocasiões em que Barnum especulou em projectos fora do mundo do espectáculo, não conseguiu qualquer lucro. Deteve dezassete por cento do North America, um vapor controlado pelo comodoro Cornelius Vanderbilt, que possuía outros cem vapores em serviço na costa Leste, e que viria a acumular cem milhões de dólares. Quando Barnum e Vanderbilt se conheceram, o rabugento comodoro bradou: "Será possível que o senhor seja Barnum? Esperava ver um monstro, parte leão, parte elefante, e uma mistura de rinoceronte e tigre!" Quase em simultâneo com o naufrágio do North America no Pacífico, Barnum vendia a sua parte do navio a outro milionário, Daniel Drew, saindo assim ileso.

Por volta da mesma altura, Barnum ficou interessado numa invenção inglesa, o aniquilador de fogo de Philipps, que era suposto

 

35 "Companhia americana de camelos".

 

ser mais eficaz do que a água a apagar um incêndio. Barnum empregou $10. 000 no esquema, mas, no primeiro teste contra um edifício em chamas, o aniquilador não conseguiu aniquilar e o investimento do mestre de espectáculos esvaiu-se em fumo.

Especulando mais uma vez num campo que lhe era familiar, Barnum trocou $20. 000 por um terço de um novo semanário ilustrado, que viria a chamar-se Illustrated News. Os seus sócios eram dois irmãos chamados Beech. Para editor, Barnum contratou o duvidoso Rufus Wilmot Griswold, difamador de Põe, e Griswold escolheu para assistente Charles Godfrey Leland, um advogado transformado em jornalista que estudara em Princeton, Heidelberg, Munique e na Sorbonne.

Do par, aquele que Barnum mais admirava era Leland, pois este parecia-se consigo. Segundo Van Wyck Brooks, Leland era "famoso havia duas gerações por adorar o maravilhoso, o proibido, o divertido e o alucinado... Sentia-se naturalmente atraído por feiticeiras, faquires, magos, remendões, vagabundos e por aqueles que viviam em tendas e caravanas". Leland gostava de Barnum pela sua inocência, pelas partidas e pelo sorriso contagioso. Durante um breve período, os dois conduziram uma coluna humorística no semanário. Mais tarde, Leland recordaria que "Barnum entrava a sorrir com alguma curiosidade literária, tal como o "reverso" [uma frase que se lê da mesma maneira para trás e para a frente ("Lewd did live & evil did dwel")36, ou um enigma ou piada novos, apreciando-os de alma e coração, e deliciava-se com as provas, como se ver algo seu na imprensa fosse uma novidade. Passámos os dois "tempos maravilhosos" com aquela coluna, pois Barnum ainda possuía muito de "menino"... Barnum dava-me sempre a primazia na coluna humorística, tal como um menino pequeno perante um mais velho, numa questão sobre o jogo dos berlindes, ou sobre o jogo da macaca. E isso era feito sem fingimento, nem subterfúgios, ambos éramos muito sinceros. Até parece que o estou a ver, a entrar a sorrir com o rosto de lua cheia, com uma piada nova para partilhar, e depois sentávamo-nos à secretária e "editávamos".

Passado um mês do início da publicação, o Illustrated News atingia uma circulação de 70. 000 exemplares e, pouco depois,

 

36 Em português, um exemplo simples seria, se ignorarmos a acentuação "Ana é anã".

 

  1. 000. Griswold, a braços com uma crise doméstica, despediu-se e Leland ficou entregue ao jornal. Embora se queixasse do parco salário, não gostasse de estar numa redacção atafulhada "a dois dedos da casa das máquinas", protestasse contra a falta de ajuda e deplorasse a "terrível insuficiência" de todo o projecto, manteve-se leal, pois gostava de Barnum. Contudo, por mais que gostasse do patrão, Leland recusava-se terminantemente a publicitá-lo. "Nunca, de forma alguma, iria promovê-lo, ajudá-lo ou fazer propaganda dos seus grandes espectáculos ou do Museu, nem enalteceria o seu elefante", disse Leland. "Mais depressa deixaria o jornal... Toda a imprensa americana esperava, naturalmente, que o Illustrated News servisse de meio publicitário para o grande mestre de espectáculos, e, tal como demonstrei a Mr. Barnum, essa conduta arruinaria rapidamente a publicação. Hoje em dia não sei se agi correctamente, mas uma coisa a favor de Mr. Barnum foi nunca ter insistido no caso e, no seu próprio jornal, ter-se feito notar pela ausência." Uma vez que Barnum e os irmãos Beech eram pessoas demasiado ocupadas para se dedicarem a tempo inteiro ao periódico e demasiado forretas para fazer dele algo mais do que um mero repositório de reedições, em breve o Illustrated News começou a sofrer devido a esta falta de amor e de verba. Após um ano, disse Leland, o jornal "sofreu um acidente", mas Barnum e os sócios conseguiram vendê-lo sem prejuízo a uma editora de Boston.

Nos anos que se seguiram, Leland levou uma existência variada. Conseguindo a independência graças à herança do património do pai, tornou-se um expatriado. Em Heidelberg, passou muitas horas com Thomas Medwin, o primo mais velho de Shelley, que estudara árabe com o poeta em Pisa e cavalgara com Lord Byron. Em Munique, Leland apaixonou-se pela desinibida Lola Montez, mas viria, mais tarde, a recusar-se a fugir com ela. Percorreu o Velho Mundo para estudar a vida cigana em Bruxelas, em Moscovo e no Cairo. Linguista espantoso, ganhou conhecimentos de islandês, romeno, provençal, inglês pidgin e ilírio. Foi feito membro honorário da Royal Society of Literature graças à descoberta do shelta, um dialecto gaélico-irlandês esquecido. Publicou vinte e três obras sobre os mais variados assuntos, como por exemplo os ciganos, Abraham Lincoln, a educação industrial, o calão e Virgílio, nunca perdendo o contacto com o seu admirável "Tio Barnum".

O periódico fora divertido mas, de todos os investimentos de Barnum, o único a conceder-lhe grandes lucros era a especulação imobiliária. O seu principal objectivo não era a aquisição de mais fortuna. Especulava em terrenos pois não suportava a ociosidade. Ainda mais importante, queria construir uma cidade onde até então não existira nenhuma.

Estava há três anos em Iranistan quando decidiu criar uma comunidade industrial a cerca de oitocentos metros do rio de Bridgeport. Em 1851, em conjunto com William H. Noble, um vizinho abastado, Barnum adquiriu duzentos e vinte e quatro acres de um belo terreno plano. Este foi o início do que se viria a chamar East Bridgeport.

Nesta propriedade, Barnum e Noble delinearam uma cidade completa, com ruas, árvores e um parque de sete acres. Depois começaram a vender os lotes alternados como residência ou negócio. A fim de encorajar o crescimento, financiaram do seu próprio bolso algumas das habitações, exigindo apenas pequenos pagamentos mensais. O custo total de uma casa e lote variava entre $1. 500 e $3. 000. Barnum insistiu em certas restrições. Todas as casas deveriam ser construídas a uma distância específica da rua, Barnum teria de aprovar a planta e todas teriam de ser delimitadas por uma vedação e mantidas limpas e em condições. Além disso, todos os proprietários, em troca do direito de construção em East Bridgeport e do financiamento de Barnum, teriam de assinar um contrato onde prometiam nunca mais voltar a beber uísque nem a fumar. Apesar destas restrições (vindas de um homem que durante muito tempo combatera as leis azuis), as famílias começaram a construir casas. O primeiro dos muitos negócios a surgir foi uma fábrica de carruagens.

Em dez anos, Barnum conseguiu que a sua cidade florescesse. East Bridgeport possuía três igrejas, um sistema de transportes puxados por cavalos e um Agrupamento de Escolas Barnum. Fábricas de máquinas de costura e outras indústrias empregavam milhares de operários. Estes viviam em pequenas casas impecáveis com as suas grandes famílias, cada habitação com um alpendre e portadas verdes, todas elas livres da maldição do álcool e da nicotina, em ruas chamadas Barnum, Hallett, Caroline, Helen e Pauline.

Mas Barnum tinha mais do que uma cidade. Possuía uma sinecura e uma fonte de lucro. Durante anos, ele e Noble reservaram para si próprios cada lote alternado. "Buscávamos o nosso lucro", explicou Barnum, "apenas na subida de valor dos lotes reservados, os quais acreditávamos viriam a valorizar." E isso acabou mesmo por acontecer. Barnum pagara em média $200 por cada acre em East Bridgeport. Uma década mais tarde, cada um valia $4. 000.

As idiossincrasias pessoais de Barnum reflectiam-se com frequência nos seus negócios. O edital severo contra os estimulantes e o tabaco nos seus terrenos eram simplesmente uma reacção contra os seus hábitos antigos. Não existem provas de que Barnum tenha alguma vez sido um alcoólico, mas é sabido que até à meia-idade bebia bastante.

Quando construiu Iranistan, tinha mais orgulho da adega bem recheada do que de qualquer outra sala da mansão. Não gostava de scotch nem de bourbon, mas todos os dias, ao almoço, consumia uma garrafa de champanhe. Por vezes, no lugar do champanhe, bebia uma garrafa de vinho do porto ou o seu equivalente em cerveja. Ao início da tarde, encontrava-se normalmente ébrio (o que talvez justifique o hábito de se concentrar no trabalho durante toda a manhã) e ansioso por ar fresco e por uma sesta. Quando Mrs. Hannah Hallett, a sogra que vivia debaixo do seu tecto, o acusava de "estar com os copos", Barnum zangava-se. Culpava o excesso de comida, e não o champanhe, pela lentidão que o assolava. Se a sogra ou a esposa lhe davam um sermão, ameaçava substituir a dieta vinícola por uísque puro, a fim de lhes mostrar o que era uma verdadeira bebedeira.

Num dia de Outono, ao visitar a Feira Estadual em Saratoga Springs, em Nova Iorque, Barnum ficou chocado ao observar vários milionários e intelectuais de destaque a cambalearem num estado de embriaguez. A situação deixou-o preocupado. Será que também ele poderia vir a tornar-se um alcoólico? Jurou nunca tocar em uísque, limitando-se à menos prejudicial garrafa de vinho. Uma vez que até nem apreciava uísque, o sacrifício não foi muito grande. Ainda assim, a intoxicação perturbava-o. Decidiu informar-se mais sobre o vício e convidou o amigo reverendo E. H. Chapin, um cruzado da sobriedade, para apresentar um sermão na Igreja Baptista de Bridgeport.

O reverendo Mr. Chapin compareceu e, como tema, escolheu "O Bebedor Moderado". Aparentemente, o reverendo era um evangelista convincente, pois a audiência escutou-o, cativada. O verdadeiro problema, disse o orador, "não era o bêbado na valeta", mas o "bebedor moderado", o qual os jovens tomavam como exemplo. O bebedor moderado dava ao vício um perigoso ar de respeitabilidade, sendo a sua influência a mais nefasta de todas.

O reverendo Mr. Chapin repetiu as palavras com que se dirigia em privado a todos os que alegavam beber apenas vinho. "Meu caro senhor, ou considera deixar de beber uma privação e um sacrifício ou não. Qual é o caso? Se diz que tanto se lhe dá beber ou deixar a bebida, que pode deixar o álcool sem pensar que é uma negação dos seus desejos, então apelo-lhe enquanto homem, faça-o, pelo bem dos seus irmãos humanos sofredores."

Durante a longa noite que se seguiu, Barnum não pregou olho. Levantou-se de madrugada, os olhos raiados de sangue, tendo tomado uma decisão. Depois de se vestir, chamou o cocheiro. Juntos, desceram à adorada adega onde mais de setenta garrafas de champanhe se encontravam guardadas. Barnum e o empregado levaram as garrafas para o exterior, partiram o gargalo de cada uma e despejaram o conteúdo espumoso para o relvado. Depois, Barnum enviou o vinho do porto para as famílias da vizinhança, que poderiam utilizar a bebida com fins medicinais e devolveu o uísque às garrafeiras.

Quando a adega ficou vazia, Barnum procurou o reverendo Mr. Chapin, a quem implorou o compromisso de abstémia. O reverendo não escondeu a sua surpresa, pois partira do princípio de que o mestre de espectáculos o mandara chamar por já ser abstémio. Rapidamente apresentou o compromisso, que Barnum assinou.

Ao regressar a Iranistan, Barnum revelou o seu acto de interdição à esposa, que chorou de alegria. Confuso, quis saber por que motivo o compromisso a levara às lágrimas. Ela respondeu-lhe, disse Barnum, "que passara muitas noites a chorar, receando que o consumo de vinho me levasse ao caminho do alcoolismo. Repreendia-a por não partilhar os seus medos comigo, mas ela replicou que sabia que eu andava iludido e que qualquer comentário de sua parte seria recebido com raiva".

Ao almoço, faltava a alegre garrafa de champanhe, e esposa e sogra ficaram radiantes com o ébrio corrigido. No fim da refeição, Barnum sentiu-se bastante satisfeito consigo próprio e suficientemente sóbrio para transmitir a revelação a outros. Nesse dia, convenceu vinte amigos a assinar compromissos de abstémia. Durante o resto da vida foi um homem sóbrio e útil (ou talvez insuportável).

Apresentou palestras por todo o lado sobre os malefícios do álcool. Falou em todo o estado de Nova Inglaterra durante um Inverno e uma Primavera, às suas próprias custas. Foi a Nova Iorque, num ano em que vinte e um mil homens e onze mil mulheres haviam sido detidos por embriaguez, e tentou levar os habitantes da sua cidade a boicotar as sete mil garrafeiras e bares. Discursou sobre o bebedor moderado em Toledo, St. Louis e Montreal. Invadiu o Winsconsin em ano de eleições para apoiar os proibicionistas e dirigiu-se a uma audiência feminina na sala das mulheres do vapor Lexington. Em Nova Orleães, encheu o Lyceum Hall e, quando um indivíduo importuno interrompeu a sua tirada sobre a força destruidora do álcool com a pergunta "Como é que nos afecta, externamente ou internamente? ", Barnum gritou em resposta "E-ternamente".

O tabaco foi algo mais difícil de deixar. Barnum fumava dez charutos por dia. Por várias vezes, por uma questão de economia, tentou desistir do vício. Nesses dias de tortura, mastigava flores de camomila, mas confessou que "elas quase me mataram" e voltou ao tabaco. Só o deixou com quase cinquenta anos. Um dia chegou ao Museu com um ataque de asfixia e com palpitações no coração. Certo de que estava a ter um ataque cardíaco, dirigiu-se ao seu médico, que lhe disse que o coração estava bem. "O seu problema é só a nicotina", explicou o médico. "Deixe de fumar." E Barnum deixou. A partir daí, os charutos e os cigarros eram pregos para o caixão. Mascava pedaços de raiz de cálamo para se esquecer.

O seu principal passatempo era a agricultura. Embora detestasse trabalho físico, por vezes gostava de plantar batatas ou flores. Não tinha, contudo, grande dedo para as plantas. Certa vez, ao observar o jardineiro a podar ramos e folhas inúteis dos áceres, tentou imitá-lo, acabando por destruir todos os enxertos. Em 1848, e durante os três anos que se seguiram, foi presidente da Sociedade Agrícola de Fairfield County e gostava de dissertar sobre o valor do estrume com todos os que estavam dispostos a ouvi-lo. Durante os mandatos, patrocinou seis feiras, gerindo-as como mestre de espectáculos que era. Uma delas foi animada com uma competição de aragem. Milhares de espectadores vieram assistir aos agricultores e às suas equipas a abrir roços em parcelas vedadas de cento e oitenta metros quadrados. Numa outra feira, numa altura em que as receitas estavam a decair, o xerife apanhou um carteirista inglês no acto de surripiar uma mala. Barnum convenceu o xerife de que o ladrão deveria ser exibido na feira, com o objectivo de novas identificações. Quando o xerife assentiu, Barnum distribuiu prontamente panfletos garantindo a todos que poderiam ver um "Carteirista vivo". Centenas de pessoas percorreram grandes distâncias para observar o meliante algemado.

Barnum era uma pessoa sedentária. Não possuía qualquer interesse em ginástica nem em jogos, para além da ocasional partida de bilhar com Henry Ward Beecher, no Irving Hall. Salvo duas corridas de cavalos que vira em Inglaterra, até mesmo os desportos de assistência o enfadavam. Tal como disse ao editor do New York Standard, numa época em que Charles "Old Hoss" Radbourne vencia vinte e seis jogos consecutivos para Providence com o seu lançamento baixo e em que Paddy Ryan vencia o titulo de pesos pesados em oitenta e sete assaltos: "Nunca assisti ao "magnífico e grandioso" jogo nacional que é o baseball, nem espero fazê-lo. Nunca vi uma partida de boxe, nem uma regata nem uma briga de galos."

Era mais apreciador de actividades internas. Possuía um talento nato para a mímica e gostava de imitar muitas das celebridades que conhecia. Apreciava a prática do ventriloquismo, em que era medíocre, e de truques de magia, em que era excelente. Gostava tanto de ler como de jogar às cartas e, com os óculos raramente vistos por estranhos, lia avidamente. Entre os autores preferidos contavam-se Emerson, Whittier, Oliver Wendell Holmes, Shelley, Smollett e Thomas Moore. Entre os livros mais estimados estavam uma antologia intitulada Library of Choice Reading, um volume de referência chamado Positive Facts, a Encyclopedia of English Literaturee uma colecção da Pictorial History of England. Também consultava com frequência volumes encadernados do Annual Report da Smithsonian Institution, e do Illustrated London News.

Numa fase mais tardia da vida, Barnum dedicou-se a trabalhos religiosos e inspiradores. Dizia ler a Bíblia da família com regularidade e, a par dela, gostava de uma pequena antologia de prosa e verso, de "homens sábios e santos de muitas épocas", intitulada Daily Strength for Daily Needs. Disse que lia uma página deste volume todas as manhãs e na guarda de uma das duas cópias que possuía, escreveu: "Acredito que este livro ensina a filosofia da Vida e da morte... Gostaria que todas as pessoas o lessem diariamente." Outro livro que Barnum lia todas as manhãs era Manna - Daily Worship, de J. W. Hanson, D. D. uma colecção de orações editada pelos Universalistas. "As suas lições sobre a Bíblia e as suas orações oferecem um grande consolo àqueles que desejam amar a Deus e praticar o Evangelho, através de uma Vida consciente, honesta e o mais altruísta possível", escreveu Barnum neste livro.

Era um coleccionador inveterado de pinturas a óleo. A busca pela arte dava-lhe prazer, embora incomodasse os amigos. O gosto de Barnum era abominável. Visitara frequentemente Londres e Paris quando os trabalhos de Turner, Rossetti, Whistler, Constable, Ingres, Corot, Delacroix e Courbet estiveram disponíveis, muitos deles ao preço da chuva. Contudo, os óleos que adornavam as suas paredes predilectas eram uma cena de Adirondacks, um retrato de Colombo e duas vistas das Cataratas do Niágara, todos eles por artistas que não sobreviveram ao seu tempo. Também em Iranistan pendurou retratos encomendados de Charity, das três filhas e dele próprio, e, em residências posteriores, um óleo do neto Clinton H. Seeley quando criança.

Mas, ainda mais do que a arte e do que a leitura, as partidas continuavam a proporcionar-lhe o maior dos prazeres. Quando uma das filhas saiu de Bridgeport para passara noite de núpcias em Boston, na manhã seguinte Barnum esperava-os nessa cidade, para embaraçar os noivos ao pequeno-almoço. Por vezes, as suas piadas eram mais elaboradas. Durante a digressão de Jenny Lind, a filha Caroline viajou com ele e manteve um diário e, no dia 1 de Abril de 1851, registou o seguinte: "Bem, hoje é Dia das Mentiras e acho que todos nós tivemos a nossa dose de partidas. Hoje o Pai pregou uma das melhores partidas que alguma vez vi. Procurou papéis de telégrafo em branco e envelopes e escreveu as mais espantosas notícias para a nossa companhia. Recebi uma que dizia que a Mãe iria ter connosco a Louisville, na segunda-feira, e, acreditando que era verdade, fiquei muito contente. Em breve recebi outra que dizia que Minerva [filha de Philo Barnum] viria com ela, o que me deixou radiante. Também dizia que o pai de Mrs. Lyman [Mrs. Lyman, uma viúva de Bridgeport, era a companheira de Caroline durante a viagem] vendera a casa e comprara outra em Trumbull, o que a deixou muito triste. Em breve, Mr. Wells [o proprietário do hotel de Bridgeport] chegou com uma mensagem de telégrafo que dizia que os antigos Franklin Hotel, Sterling Hotel, etc. tinham ardido, e que o vento era forte, o que, por esse motivo, incendiara a nova Igreja Presbiteriana. Imaginem a nossa consternação. Mr. Wells e Mrs. Lyman tinham o ar de quem perdera todos os amigos no mundo. Depois de Mr. Wells se ter ido embora, contudo, pensámos bem no assunto e Mrs. Lyman chegou à conclusão de que se tratava de partidas do Dia das Mentiras..."

Embora Barnum importasse milhares de animais para as massas e incontáveis brinquedos pseudocientíficos para os curiosos, não gostava de animais de estimação, nem se interessava por experiências ou discussões científicas.

Gostava de falar, ou melhor, de expor. Conquistara uma reputação pelo seu espírito, mas não era espirituoso nem inteligente. Por vezes, quando estava inspirado, lançava uma réplica engraçada. Quando o bispo de Londres se despediu dele e lhe garantiu que voltariam a encontrar-se no Paraíso, Barnum replicou: "Se Vossa Senhoria lá estiver." Numa outra ocasião, comentou: "Depois da tempestade vem a festança." Convidado por amigos para jantar num restaurante, ficou saciado antes do fim do festim. Quando as travessas continuaram a surgir, ergueu a mão. "Não, obrigado", disse. "Se não se importarem, levo o resto em dinheiro."

A sua conversação era colorida e não sagaz. O mais conhecido comentário atribuído à sua pessoa foi: "Nasce um otário a cada minuto. "37 Diz-se que proferiu esta pérola do cinismo durante um discurso, mas nunca se encontrou qualquer registo desse discurso nem provas de que Barnum tivesse dito estas palavras. Com efeito, Robert Edmund Sherwood, que trabalhou para Barnum durante vinte anos, negou que o comentário tivesse sequer sido proferido. "O grande empresário nunca se exprimiu dessa maneira", escreveu Sherwood. "Em primeiro lugar, a palavra "sucker" enquanto calão não se encontrava em uso durante a vida de Barnum. A sua expressão preferida era "o povo americano gosta de ser defraudado"." Com orgulho, Barnum autodenominara-se o "Príncipe dos logros".

No seu livro The Humbugs ofthe Worlc, publicado em 1865, Barnum dissertou sobre o pecado do cinismo. "O maior logro de todos é o homem que acredita - ou finge acreditar - que tudo e todos são logros. Por vezes, encontramos uma pessoa que professa a inexistência de virtude, que todos os homens e todas as mulheres têm o seu preço. Que uma declaração de qualquer um tanto pode ser considerada falsa como verdadeira e que a única forma de escolher entre elas é decidir qual das duas, a verdade ou a mentira, seria mais proveitosa nesse caso particular. Considera que a religião é um dos maiores negócios de impostura que existem, um investimento de primeira classe e, para todos os efeitos, o disfarce mais respeitável que um empresário mentiroso ou vigarista pode envergar. Acredita que a honra é uma fraude. Vê a honestidade como uma palavra que floresce aos olhos da porção mais verde da nossa raça... Pobre diabo! Expôs a sua nudez. Em

 

37 No original, "There's a sucker bom every minute", em que "sucker" é a palavra de calão que significa tolo, palerma.

38 Os logros do mundo.

 

vez de mostrar que os outros são corruptos no seu interior, provou que ele próprio o é."

Tal como Polonius, Barnum era dado a profundidades banais. No ano em que se mudou para Iranistan, pediram-lhe conselhos sobre como ser bem sucedido nos negócios, ao que declarou o seguinte, em forma de máximas: "Seleccione o tipo de negócio que se adeque às suas inclinações e características naturais... Que a sua palavra seja sagrada... Faça o que fizer, execute-o com todas as suas forças... Sobriedade. Não utilize qualquer tipo de bebida alcoólica... Deixe que a esperança predomine, mas não seja demasiado visionário... Não disperse os seus poderes... Contrate funcionários responsáveis... Publicite o negócio. Não esconda as suas qualidades... Evite a extravagância e viva sempre de acordo com o seu rendimento, se puder fazê-lo sem morrer à fome!... Não dependa dos outros."

Cada palavra de Barnum foi sincera. Acreditava piamente no que pregava em público. Na privacidade do seu bloco de memorandos, com a data de 15 de Abril de 1889, resumiu o seu credo do que seria O Homem Completo: "A mais nobre das artes é a que deixa os outros felizes, a honestidade, sobriedade, indústria, economia, educação, bons hábitos, perseverança, alegria, amor a Deus e boa vontade para com os homens. Estes são os requisitos essenciais para garantir Saúde, Independência ou uma Vida Feliz, o respeito da Humanidade e os favores especiais do nosso Pai do Céu."

Embora Barnum sempre se tivesse sentido satisfeito, até mesmo orgulhoso, da profissão de mestre de espectáculos, muitas vezes desejava que os seus talentos retóricos o tivessem auxiliado de outra forma. Em certa ocasião, em que atravessava o Atlântico, foi encenado a bordo um julgamento para divertimento dos passageiros. Barnum saiu-se muito bem como promotor. Excitado com o sucesso da actuação, comentou mais tarde com Joel Benton: "Permito-me a vaidade de pensar que, caso o destino me tivesse encaminhado para aquela profissão, teria dado um advogado bastante razoável."

Para além do seu egotismo sem limites, da sua paixão pelo pronome eu, e da contínua relação de amor consigo próprio, para além de tudo isto e da sua generosidade autoproclamada, pouco mais se conheceu sobre o carácter de Barnum durante a sua vida. Contudo, uma cuidadosa pesquisa junto de amigos, inimigos e funcionários, que deixaram memórias obscuras sobre ele, revela algo mais.

Era um indivíduo de boa índole, assim como atencioso e gentil na maioria das relações pessoais. Lyman Abbott, que o conheceu, escreveu: "Se estiver correcto ao descrever um homem de boa índole como alguém que deseja fazer as outras pessoas felizes, então o epíteto boa índole servirá para o descrever adequadamente." Joel Benton recordou um incidente que se passou quando um rapaz pobre adoeceu pouco antes de a parada do circo de Barnum passar, tendo ficado inconsolável por não poder assistir ao desfile. Nos seus gatafunhos infantis, o rapaz escreveu a Barnum, pedindo "se ele não poderia alterar o trajecto da parada numa determinada direcção que iria nomear, para que passasse à sua porta, pois levá-lo-iam à janela para ver o desfile". Apesar dos inconvenientes, Barnum alterou o percurso do desfile e não publicitou a sua consideração.

Benton sempre sentiu que o ego do mestre de espectáculos se devia mais a um profundo sentido de negócio do que a vaidade. "Quando descobriu que a sua celebridade era um factor importantíssimo para o sucesso, fez tudo aquilo de que se lembrou para expandir a exploração do seu nome. Isto não tinha como objectivo alimentar sonhos vãos, nem se devia ao orgulho. Servia para promover o negócio."

A maioria das pessoas que trabalhava para Barnum não se coibia de o admirar enquanto ser humano e carreirista, mesmo quando não se encontravam ao seu serviço. Em 1893, Charles Godfrey Leland recordou: "De todos os homens que conheci em serviço naquele tempo, Mr. Barnum, o grande logro americano, era de longe o mais honesto e livre de artifícios, falsidade ou "hábitos sombrios ou truques vãos". Era bondoso, benevolente e dotado de um sentido de divertimento ainda mais forte do que o seu desejo por dólares... Era um génio como Rabelais, mas empregava negócios e pessoas como materiais, em vez de literatura, tal como Abraham Lincoln, outro exemplo deste tipo de pessoas, fazia uso de patriotismo e de política. Os três abordavam vastos problemas, financeiros, intelectuais ou naturais, através da simples estrutura de uma piada." Ainda em 1926, Robert Edmund Sherwood nomeava Barnum como o mais importante mestre de espectáculos da história. "Considero-o o maior génio a ter levado a cabo um empreendimento de diversão neste país, um homem de imaginação superlativa, coragem indomável e temperamento artístico."

Claro que algumas pessoas não se sentiam muito atraídas por certas características de Barnum. Tinha mau perder às cartas e muitas vezes embaraçava os convidados com a sua falta de desportivismo. Embora pudesse investir uma fortuna numa Jenny Lind ou num Comodoro Nutt, ou oferecer largas somas a obras de caridade, era mesquinho com a mais pequena das despesas domésticas. Os Gémeos Siameses tinham-no considerado parcimonioso, e não foram os únicos.

O major James Burton Pond, o veterano da Guerra Civil que fizera das palestras um grande negócio graças à sua gestão de Mark Twain, Henry Ward Beecher e Henry M. Stanley, sempre recordou Barnum com uma amálgama de sentimentos. "Nunca se ouviu um homem mais plausível e agradável", escreveu Pond. "Ouvi-lo a conversar era tão bom como o próprio espectáculo." Contudo, acrescentou Pond, "Creio que nunca conheci um homem mais impiedoso, ou que soubesse mais sobre o valor e as possibilidades de um dólar, do que P. T. Barnum."

Na sua juventude, Pond representou Barnum durante uma digressão de palestras sobre a abstinência na Nova Inglaterra. Barnum, que receberia $2. 000 e todas as despesas pagas por vinte palestras, foi recebido por Pond na estação de caminhos de ferro de Boston. O mestre de espectáculos recusou uma carruagem devido ao custo, insistindo em andar até ao hotel. "Era o homem mais económico que jamais conheci", disse Pond.

Barnum contratava os mais baratos e não os melhores músicos para as suas orquestras. Os cartazes coloridos eram preparados para que pudessem ser reutilizados ano após ano. Preferia casais para os espectáculos duplos de curiosidades, pois recusava-se a fornecer mais do que uma cama para cada par em digressão. Segundo Pond, o mestre de espectáculos, que sabia que o seu bilheteiro costumava enganar o público no troco e não se incomodava com a situação, admitiu espontaneamente que o empregado lhe pagara $5. 000 para conseguir o trabalho.

Pond via Barnum como um promotor frio e despojado de emoção nas suas relações com os funcionários. Os seres humanos eram permanentemente subordinados ao sucesso do espectáculo. Certa vez, durante uma actuação circense, uma mulher gigante foi atropelada por um coche e morta instantaneamente. Barnum observou o sucedido sem qualquer reacção visível. Pond virou-se para ele, horrorizado. "Isto é terrível, não acha?" Barnum encolheu os ombros. "Tenho outra à espera do seu lugar. Até é um benefício e não uma perda."

Barnum acreditava em Deus e na fé universalista, frequentando a igreja com regularidade, acompanhado da esposa, mas só se tornou membro da igreja numa fase tardia da vida. Tinha poucas superstições, para além do ominoso número treze, que dizia persegui-lo ao longo da vida e que lhe trazia azar.

Ainda menos conhecida do que a personalidade privada, era a vida pessoal enquanto marido, pai e amante. Embora surgisse constantemente nas manchetes dos jornais, conseguiu suprimir a maioria dos boatos e notícias domésticas, até mesmo dos pasquins de escândalos que infestavam Nova Iorque.

Em 1855, Charity, a esposa de mais de um quarto de século, tinha quarenta e oito anos de idade. Encontrava-se prematuramente envelhecida. O rosto ostentava os estragos causados pelos anos fatigantes e solitários que passara como companheira de um homem público. Usava o cabelo em canudos. A testa alta, os olhos estreitos, o nariz afilado, os lábios finos e o queixo recuado faziam com que a sua expressão contrastasse de forma impressionante com o rosto grande, alegre e expansivo do marido. Pouco se sabe da esquiva Charity Barnum, da sua personalidade ou da relação com o mestre de espectáculos, pois quase nada ficou registado. Mesmo na volumosa autobiografia, Barnum dedicou à vida da esposa menos linhas do que à Sereia das Fiji, e nunca mais do que dedicou a uma única dança ou brincadeira com Jenny Lind.

Charity fora criada na pobreza e, mesmo depois de se casar com Barnum, continuou a saber economizar. Quando ele assumiu o Museu e decidiu que o lar seria gerido com seiscentos dólares por ano, Charity avançou uma proposta de orçamento de quatrocentos dólares. Dera três filhas a Barnum antes de terem posses para tal e uma enquanto ficava rico, e sofreu ao ver a terceira das quatro filhas morrer em 1844, com a idade de dois anos.

Depois das filhas terem nascido, Charity foi ficando cada vez mais doente e enfraquecida. Barnum construiu-lhe uma estufa, onde ela dispunha as suas "flores raras e belas". Um dos poucos interesses exteriores era a afiliação à exclusiva Bridgeport Charitable Society. Barnum quase nunca a consultava em relação a assuntos pessoais. Em Março de 1851, enquanto estava em St. Louis com Jenny Lind, Barnum disse inesperadamente à filha Caroline que pretendia vender Iranistan e mudar-se com a família para uma propriedade nos arredores de Filadélfia. Caroline ficou lavada em lágrimas. "O Pai ainda não escreveu à Mãe a contar-lhe, " queixou-se no diário que mantinha. "Imagino que ela vá ficar desconsolada, pois encontra-se tão ligada a Bridgeport como eu e, após tantos problemas com a nossa casa e com os terrenos, creio ser abominável ter de os deixar..." Mais tarde, foi Caroline, e não Barnum, que revelou a notícia a Charity. No fim, Barnum acabou por decidir não se mudar.

Excepto por duas visitas com as filhas a Londres, em 1844 e 1857, não existem registos que confirmem que Charity alguma vez tenha viajado com o marido, quer ao estrangeiro, quer dentro dos Estados Unidos. Quando Barnum se encontrava em Havana, para a série de concertos com Jenny Lind, convidou Charity para uma viagem marítima até Cuba. Ela declinou o convite à última da hora, explicando que "não tinha coragem" para enfrentar os enjoos. De uma maneira geral, o seu papel era o de mãe, anfitriã e de pessoa caseira. Barnum raramente escrevia sobre a esposa, ou falava dela em público, embora uma vez, no Museu, tivesse dito à audiência: "Sem Charity, não sou nada". Claro que a afirmação poderia não passar de um trocadilho, uma vez que se encontrava a recuperar de um período difícil e todo o dinheiro estava em nome da mulher. Quando Charity morreu, a dor de Barnum foi grande, disse, mas de curta duração.

Vivendo no mundo do espectáculo, Barnum encontrava-se regularmente exposto aos encantos de outras mulheres que não eram aberrações. Conviveu com uma grande variedade de actrizes e senhoras da sociedade e possuidoras de título atraentes, não só na América, como também em Inglaterra. A proximidade destas mulheres, o seu arrebatamento e adulação, a par das longas ausências do lar por parte do mestre de espectáculos, deram origem a boatos sobre infidelidade.

Se Barnum tinha casos amorosos, nunca, durante a sua vida, chegaram aos jornais. Contudo, as línguas agitavam-se, pelo menos a ponto de o seu amigo Sherwood continuar a tentar silenciá-las no século seguinte. Em Here We Are Again, Sherwood escreveu: "Outra falsidade... é a declaração de que ele era um libertino e, consequentemente, vivia infeliz com a família. Estas afirmações indecentes e escandalosas foram proferidas apenas por motivos sensacionalistas e não contêm em si um pingo de verdade. Nunca viveu um homem que amasse mais a família do que Mr. Barnum."

No dia 17 de Janeiro de 1897, seis anos depois da morte de Barnum, o New York World publicou uma exposição sensacionalista da vida sexual extramarital do mestre de espectáculos, revelada pelo "Correspondente Especial" do periódico em Bridgeport. "Além das três filhas, Barnum teve um filho", declarou o World. "Essa circunstância não é conhecida de uma forma geral, mas não deixa de ser um facto. O indivíduo não tem o nome de Barnum, por a lei não o permitir. A mãe era uma actriz francesa, em tempos uma das atracções do velho Museu Barnum, quando esse monumento notável se encontrava na esquina de Ann Street com a Broadway, em Nova Iorque, onde agora se ergue o novo arranha-céus Havemeyer. Barnum nunca negou a paternidade deste filho. Cuidou dele durante a infância e educou-o como médico. Actualmente com um nome que sugere apenas de forma indirecta as suas origens, detém um lugar honroso entre os praticantes de medicina de uma importante cidade da União...

"Pouco depois de Barnum se ter casado com a sua última esposa [Nancy Fish, a segunda esposa de Barnum], este filho ilegítimo surgiu de forma inesperada e de todo bem-vinda em Bridgeport. Havia uma possibilidade mais ou menos remota de existir um herdeiro masculino dos milhões de Barnum (algo muito desejado pelo velho mestre de espectáculos) e o filho verdadeiro, mas não reconhecido, veio exigir que o pai lhe concedesse alguma propriedade. Barnum redigiu um contrato rígido, pelo qual o filho receberia $60. 000, com a condição de, após a morte de Barnum, não tentar incomodar os herdeiros, nem reclamar fosse o que fosse do testamento. O filho tem vindo a cumprir escrupulosamente o contrato."

Em 1904, Julian H. Sterling, um familiar de Barnum, corroborou a revelação ao escrever que, algures entre 1851 e 1855, o mestre de espectáculos "trouxera à Franklin House... uma mulher do circo que, pouco depois, deu à luz um filho. Barnum educou o rapaz e, para o fim da vida, deu-lhe uma fortuna. O rapaz foi bem sucedido e vive agora em Richmond".

As antigas famílias de Bridgeport ainda se lembram que uma Mrs. Candee, cujo marido editava o Bridgeport Daily Syandard, costumava falar de "um jovem vistoso chamado Phineas Taylor, que se dizia ser filho ilegítimo de P. T. Barnum". Havia quem pensasse que a mãe era Ernestine de Faiber, actriz e bailarina no Museu.

As três filhas de Barnum eram o seu maior prazer doméstico e, possivelmente, o seu maior desafio. Em 1855, Caroline tinha vinte e dois anos de idade, a seguinte, Helen, quinze e a mais jovem, Pauline, nove. "Tinham sido educadas", disse Barnum, um pouco pesaroso, "no meio do luxo. Estavam acostumadas a chamar um criado para cada desejo e a gastar dinheiro de forma quase ilimitada." Em resumo, tinham sido estragadas.

Caroline, uma morena alta, elegante e de olhos escuros, era a filha preferida de Barnum. Dizia-se ter um sentido empresarial de primeira categoria, capacidades linguísticas consideráveis e um talento inato para a conversação. No dia 19 de Outubro de 1852, mil convidados compareceram ao seu casamento com David W. Thompson, um jovem episcopaliano de vinte e um anos, que partilhava com o pai um próspero negócio de selaria em Bridgeport. A maioria dos convidados foi levada para o exterior quando uma parte de Iranistan começou a arder. O noivo ficou extremamente perturbado, mas Barnum tranquilizou-o: "Não faz mal! Estas coisas não estão nas nossas mãos. Provavelmente a casa vai arder, mas, se ninguém morrer nem ficar ferido, irão casar esta noite, mesmo que sejamos obrigados a realizar a cerimónia na cocheira." Felizmente, os bombeiros extinguiram as chamas e o casamento teve lugar como o previsto.

Caroline deu a Thompson uma filha e um filho, mas o rapaz morreu ainda bebé. A rapariga, Francês Leigh, que morreu em 1939, foi a última neta sobrevivente de Barnum. Na segunda metade da vida, Thompson dedicou-se ao negócio do carvão, tornou-se vice-presidente de um banco de Bridgeport e aceitou uma posição governamental, na alfândega de Nova Iorque. Provocou a ira de Barnum durante a Guerra Civil graças à sua simpatia para com a secessão e, quando concorreu ao Senado em 1865 como Copperhead39, tendo sofrido uma derrota estrondosa, Barnum ficou deliciado. Thompson morreu em 1915. Caroline morrera quatro anos antes, aos setenta e oito anos, em resultado de uma queda e consequente traumatismo craniano. Quando morreu, valia um milhão e meio de dólares.

Helen, uma morena formosa, veio a casar-se aos dezassete anos com Samuel H. Hurd, em 1857. O local do casamento foi a casa de Caroline e não Iranistan. Hurd, que Barnum adorava como a um filho, era accionista de uma empresa que vendia bens vindos da Califórnia, a leste. Geria também um negócio de peles. Após o casamento com Helen, aceitou um emprego como tesoureiro de Barnum. Da união entre Helen e Hurd nasceram três filhas. De toda a sua prole, Barnum considerava Helen a mais extravagante. "Era uma rapariga afectuosa e generosa, mas que não sabia literalmente nada sobre o valor do dinheiro e da dificuldade em adquiri-lo." Pouco antes do casamento, quando ainda frequentava um colégio interno francês exclusivo em Washington, D. C. Helen soube que o pai se encontrava numa grave situação financeira, oferecendo-se para regressar a casa e dar aulas de piano para o ajudar. Barnum ficou extremamente comovido e considerou que a preocupação da filha "valia dez mil dólares".

Pauline, a filha mais nova de Barnum, era uma rapariga

 

39 Nome dado aos habitantes do Norte que simpatizavam com o Sul durante a Guerra Civil americana.

 

entroncada e vigorosa, dotada de grande beleza. Desenvolveu uma magnífica voz para o canto e diz-se que por várias vezes o pai lhe financiou digressões de vaudeville. Finalmente, em 1866, desistiu da carreira para casar com Nathan Seeley, um corrector da bolsa. Quinhentos convidados, onde se incluíam três congressistas e John N. Genin, o famoso chapeleiro, assistiram à cerimónia formal em Bridgeport. Um correspondente do New York Times elogiou a forma como Barnum geriu a ocasião. "Era o casamento da última filha e a celebração foi conduzida sumptuosamente. Posso acrescentar que não se encontravam presentes quaisquer tipos de estimulantes e que o sucesso do acontecimento se deveu a isso."

Do casamento de Pauline com Seeley resultaram dois filhos e uma filha. A morte prematura de Pauline, em 1877, com trinta e um anos de idade, foi atribuída a "difteria e sarampo", tendo o seu falecimento afectado profundamente Barnum. "Esse choque ter-me-ia sido insuportável", disse, "caso não o tivesse recebido como vindo do nosso bom Pai do Céu, que tudo faz com justiça." Seeley voltou, mais tarde, a casar-se e morreu em 1917.

Segundo o relato do New York World, nem todas as filhas de Barnum tiveram vidas exemplares. Aparentemente, a ardente Helen era infiel a Hurd, acabando por deixá-lo para viver com outro homem. "A carreira de uma das filhas de Barnum foi tão sensacional como qualquer outro acontecimento na história da família Barnum", disse o World. "Esta filha casou e viveu com o marido na mais elegante casa da Fairíield Avenue, numa localidade chamada Lindenhurst, uma residência que Barnum construíra para si próprio após o incêndio em Iranistan. Seguiram-se tempos divertidos em Lindenhurst, enquanto os Hurd lá viveram. Um atraente empregado de alfaiate era um dos convidados preferidos, a tal ponto de a esposa deixar o marido pelo rapaz. O empregado morreu pouco depois, o que veio trazer um fim a esse escândalo.

"Mas a filha em breve iniciou outro ainda mais sensacional. Fugiu do marido com um médico, tendo os dois ido morar juntos abertamente para Chicago. O pobre Barnum, que comia do pão que o diabo amassara, tentou abafar o escândalo, mas um jornal de Nova Iorque publicou-o, juntamente com um diagrama do apartamento de Chicago.

O marido vilipendiado deu início ao processo de divórcio, mas Barnum convenceu-o a abandonar o caso, por consideração às suas duas outras filhas. Alguns anos mais tarde, a filha fugida divorciou-se discretamente no Oeste e casou com o médico. Também ela, a exemplo do filho ilegítimo, surgiu em Bridgeport logo após o casamento de Barnum com a segunda esposa, acontecendo uma cena terrível em "Waldemere", o nome dado por Barnum à sua casa em Seaside Park. Barnum estava prestes a levar o seu grandioso espectáculo para Londres e acabara de fazer o testamento. A filha fora completamente excluída, nem sequer tendo sido feita menção ao nome dela. Após muita discussão, Barnum concordou em dar-lhe uma parcela de terreno, mas insistiu em deixar-lhe o nome ausente do testamento."

Certos elementos deste relato chocante podem ser confirmados através do que se sabe sobre a actividade de Helen e sobre o testamento de Barnum. Segundo as memórias das mais antigas famílias de Bridgeport, Helen fugiu deveras com um médico, vivendo abertamente com ele enquanto sua amante. Helen divorciou-se de Hurd, o qual ficou com a custódia dos filhos e permaneceu em Bridgeport, trabalhando com Barnum. Segundo um familiar vivo, "Barnum ficou furioso com o divórcio - gostava bastante de Hurd". Helen realmente casou em segundas núpcias com um médico. No dia 22 de Março de 1871, casou-se em South Bend, no Indiana, com o Dr. William Harmon Buchtel, um nativo do Ohio que servira na Guerra Civil e exercia medicina. Pouco depois da cerimónia, Helen e o Dr. Buchtel mudaram-se para Denver, no Colorado, onde ele se tornou professor de Obstetrícia na Gross Medical College e, mais tarde, seu presidente, antes de a escola ser incorporada à Denver University. Helen teve duas filhas com o segundo marido, tendo a mais velha morrido antes de completar três anos de idade. Embora o nome de Helen fosse referido várias vezes no testamento de Barnum, ela acabou por não receber dinheiro, ficando com uma "parcela de terreno" perto de Denver.

No testamento original de Barnum, redigido no dia 30 de Janeiro de 1882, oito anos antes de casar pela segunda vez, foi prometido a Helen "o relógio de ouro utilizado pela mãe e a Madonna de marfim, bem como os dois antigos quadros de tapeçaria na sala de visitas e um vaso dourado comprado em Paris". Também lhe seria deixado $1. 500 por ano durante o resto da vida. Contudo, sete anos mais tarde, em 1889, Barnum redigiu o primeiro codicilo do testamento e corrigiu o legado a Helen: "Por mútuo e amigável acordo a que chegámos eu e a minha filha, Helen M. Buchtel, no segundo dia de Maio de 1884, transferi para seu nome uma propriedade valiosa, a qual ela aceitou em substituição de todo e qualquer direito ou exigência sobre o meu património após o meu falecimento. Concordou também em aceitar o mesmo enquanto provisão justa e liberal de minha parte para si sobre o meu património, sendo o que poderá esperar ou desejar na sua condição de minha filha. Assim sendo, revogo e anulo quaisquer provisões, anuidades, ofertas, legados e cláusulas contidas no meu testamento, ou em qualquer outro documento testamental, para e em seu benefício, declarando todas essas menções nulas, exceptuando sempre o vaso dourado, que lhe é concedido por este codicilo. O referido artigo já lhe foi entregue. P. T. B."

Barnum considerava essa "propriedade valiosa" que transmitira a Helen como sendo "inútil", justificando esse engano como o castigo adequado para a desgraça que ela trouxera à família. Mas a última a rir seria Helen, pois, ironicamente, após a morte de Barnum veio a descobrir-se que a propriedade "inútil" era, afinal, rica em depósitos minerais, deixando Helen mais próspera do que todos os restantes herdeiros de Barnum juntos.

Entre 1882, quando Barnum lhe atribuiu ofertas e anuidades, e 1884, altura em que as revogou pelo acordo imobiliário, o mestre de espectáculos poderá ter vivido a "cena terrível em "Waldemere" com Helen. Todavia, no ano anterior à sua morte, Barnum viajou para oeste a fim de visitar Helen e o Dr. Buchtel, acompanhado pela segunda esposa, a qual insistira na reconciliação.

Helen, escreveu o World, sempre atribuiu as culpas das suas paixões e infortúnios ao exemplo do pai. Quando Barnum a repreendeu com severidade pelo romance com o empregado de alfaiate, antes de Helen fugir com o amante médico, ela censurou-o com as seguintes palavras: "Como poderia tê-lo evitado? Não serei, afinal, filha de P. T. Barnum?"

De entre os numerosos netos, Barnum favorecia os dois rapazes, filhos de Pauline, Clinton H. Seeley e Herbert Seeley. Barnum deixou um património no valor de $4. 100. 000. Após ter sido extremamente generoso para com a segunda mulher, os amigos e as suas obras de caridade, deixou um terço a Clinton, Herbert e à irmã destes, Jessie, um terço a duas das filhas que Helen abandonara com Samuel H. Hurd (Helen B. Rennell e Julia H. Clarke) e um terço à sua filha mais velha, Caroline. Clinton H. Seeley também ficou com três por cento dos lucros (nunca excedendo $10. 000 por ano) dos empreendimentos do mundo do espectáculo de Barnum, e $25. 000 extras, caso Clinton fizesse por manter vivo o nome de Barnum.

"Uma vez que não tenho um filho", escreveu Barnum no seu testamento, "não podendo assim o nome Barnum ter continuação na minha família, excepto pela minha esposa, e uma vez que gostaria de perpetuar o meu apelido, e como possuo uma profunda estima e respeito pelo meu referido neto, Clinton H. Seeley, além de confiar na sua integridade, tendo a certeza de que irá honrar o nome, concedo ao meu neto, Clinton H. Seeley, Vinte e Cinco Mil Dólares ($25. 000), na expressa condição de ele alterar o nome legalmente, ou fazer alterá-lo para Clinton Barnum Seeley, e usar habitualmente o nome Barnum, seja como Clinton Barnum Seeley, C. Barnum Seeley, ou Barnum Seeley, para que o nome Barnum seja para sempre reconhecido como seu nome." Em breve, o mais velho dos dois rapazes tornou-se C. Barnum Seeley.

Contudo, a certeza por parte de Barnum de que C. Barnum iria "honrar o nome" poderia ter sido abalada, caso tivesse vivido mais algum tempo. Com efeito, no último mês de 1896, os dois netos de Barnum envolveram-se num escândalo que agitou e divertiu Nova Iorque. A fim de festejar o casamento próximo de C. Barnum Seeley com FlorenceTuttle, o jovem Herbert, que saíra recentemente de West Point, após dois anos infelizes, organizou uma festa de despedida de solteiro na suite do primeiro andar do restaurante Sherry. Vinte cavalheiros da sociedade participaram no que o World viria a designar mais tarde por "paródia suja no Sherry's", e o reverendo A. H. Lewis chamaria de cena idêntica "aos mais licenciosos períodos de Pompeia".

O divertimento dos Seeley teve como protagonista uma jovem formosa de nome Catherine Devine, vulgarmente conhecida por Little Egypt40, provavelmente a mesma que, três anos antes, exibira os seus encantos e meneios desinibidos na Columbian Exposition de Chicago, lado a lado com atracções como John Philip Sousa, Sandow, Susan B. Anthony, a casa John Brown, Swami Vivekanada e o cavalo empalhado Comanche, único sobrevivente da Derradeira Batalha de Custer. Ao que parece, Little Egypt cabriolou nua em cima de uma mesa, enquanto os Seeley e os restantes convidados, já quentes do vinho, lhe agarravam as pernas nuas.

Agindo por intermédio de uma denúncia, o capitão da Polícia George Chapman e dois detectives invadiram o bacanal, mas os Seeley tinham sido alertados e esconderam a bailarina a tempo. Mais tarde, protestaram contra a invasão de privacidade e o capitão Chapman foi levado a tribunal. Ao mesmo tempo, o Grande Júri indiciou Herbert Seeley por "conspiração para levar a mulher conhecida como Little Egypt a cometer o crime de atentado ao pudor". Esta indiciação acabou por ser retirada, o mesmo se passando com as acusações contra o capitão Chapman. A partir daí, Little Egypt passou a anunciar-se como veterana do "Escabroso Jantar Seeley" (até morrer, em 1908, deixando quase um quarto de milhão de dólares). O capitão Chapman recebeu os parabéns da Woman's Purity Association. C. Barnum Seeley casou alegremente naTrinity Chapel de Nova Iorque (tendo infelizmente assistido à cerimónia um grande número de indivíduos "não convidados" e "indesejados", que tinham ouvido falar de "um incidente que ocorrera durante um jantar").

Embora Barnum desejasse que Clinton ficasse com o seu nome, foi o neto Herbert quem acabou por se tornar mais parecido com o mestre de espectáculos. "Herbert parecia ser o único descendente de Barnum com uma veia para o circo, como P. T. ", " disse recentemente um membro da família Barnum. "Herbert era um solteirão despreocupado, que serviu na Guerra Hispano-Americana e que apenas se casou pouco antes da sua morte, com quarenta e três anos. O irmão mais velho, Clinton Barnum Seeley, apenas trabalhou com o circo durante um breve período após a morte de P. T. Em 1907, Clinton mudou-se para Bridgeport,

 

40 "Pequena Egipto". Segundo a definição de um dicionário bíblico de 1897, "Egipto" também queria dizer "aquele que perturba ou oprime".

 

foi presidente da Bridgeport Trust Company e foi membro e depois presidente do Park Board durante trinta e um anos. Dedicou-se ao Union League Club, ao New York Yacht Club, à genealogia e ao golfe. Morreu em 1958. Os restantes descendentes de Barnum levaram vidas sossegadas e vulgares, longe das luzes da ribalta, do ouropel, da serradura, parecendo todos ter alguma vergonha do dinheiro oriundo do circo."

Assim era Barnum, avô, ser humano e mero mortal. William Roscoe Thayer chamou-lhe "o americano típico" da segunda metade do século XIX, opinião partilhada por muitos outros escritores. Mas, em 1923, Robert C. Benchley discordou. "Considerar Barnum um "americano típico" é o mesmo que considerar um gato como sendo um rato típico. O "americano típico" era o alimento de Barnum... Nunca se pode chamar "típico" a um génio."

 

EXIBIÇÃO OITO - A JEROME CLOCK COMPANY

Se Barnum chegou a reler o Velho Testamento depois de se ter reformado, poderá ter encontrado no Génesis um estranho portento. Nas suas páginas, o Faraó revelou um sonho a José: "Vão chegar sete anos de grande abundância a todo o território do Egipto. Mas sete anos de fome surgirão a seguir de modo que toda a abundância desaparecerá e a fome devastará o país. "41

Barnum conhecera os anos de abundância, dez ou mais, e agora chegavam os anos de fome. Em 1855, isolado em Iranistan, parecera inatingível, poderoso, virtualmente indestrutível. Antes do fim do ano, a sua vida encontrava-se de rastos. Tudo o que tão arduamente construíra com o Museu Americano, com a digressão de Tom Thumb, com a aventura Jenny Lind (reputação, fortuna, um porto de abrigo), foi destruído ao longo de uma década de desastres. Parte do que aconteceu poderá ser atribuído a um destino ingrato, ou a um acidente, mas grande parte foi provocado por si próprio.

A desintegração teve início de uma forma modesta e foi de sua autoria. Começou com a escrita de um livro, a autobiografia, um acto comum de vaidade a que estava subjacente o desejo de imortalidade. Até este livro chegar ao público, a sua reputação na América e em Inglaterra permanecera relativamente honrada. Com o surgimento da obra, transformou-se, de um dia para o outro, num patife e num velhaco. Cometera a incrível loucura, causada por alguma insensibilidade ou necessidade de causar sensação,

 

41 Génesis, 41: 29, 30.

 

de deixar que o seu vasto público entrasse nos bastidores, onde poderiam descobrir, pela primeira vez, a extensão e os pormenores dos truques ocasionais. Graças a este acto, o profeta da nova arte do espectáculo fez com que os seus admiradores se sentissem tolos. E muitos houve que não o perdoaram.

Durante grande parte de 1854, trabalhou na autobiografia ("tendo a garantia dos editores de que tal obra teria uma grande circulação, e dos amigos pessoais de que seria um livro bastante agradável de ler") e por fim, em 1855, as 404 páginas foram colocadas à disposição do público por J. S. Redfield, de Nova Iorque, que também publicava Fitz-Greene Halleck e Edgar Allan Poe. Intitulava-se: The Life of P. T. Barnum, Written by Himself. 42

Barnum insistiu que tinha sido ele o autor, embora Charles Godfrey Leland, editor do Illustrated News, o defunto periódico de Barnum, pensasse que teria existido um escritor fantasma envolvido. Leland disse que Barnum lhe pedira que redigisse o livro, mas que recusara. "Teria sido um trabalho divertido e lucrativo", admitiu Leland, "mas receava a ideia de ser identificado com essa obra." A opinião de Leland era de que Barnum teria então recorrido a Rufus Wilmot Griswold, outro editor da publicação.

Griswold era o mais desagradável personagem do círculo de Barnum. Em tempos ministro baptista, trabalhara como editor em vinte revistas e produzira quarenta livros. Em várias ocasiões fora despedido por desonestidade. Mentiroso psicopata e plagiador, difamava os católicos e Thomas Jefferson. Designado executor literário de Edgar Allan Poe, denegriu-o maliciosamente por escrito assim que o autor morreu. Sobre Poe, escreveu: "Irascível, invejoso - bastante mau, mas não o pior, pois estes ângulos salientes encontravam-se disfarçados por um cinismo frio e repelente, e as suas paixões eram expressas com desdém. Parecia não ter qualquer susceptibilidade moral e, algo espantoso para uma natureza orgulhosa, pouco ou nada da verdadeira honra. Possuía, a um ponto de tal modo excessivo que raiava o mórbido, o desejo de crescer que vulgarmente se chama ambição..." Griswold era um escriba capaz e é possível que tenha escrito em segredo a autobiografia de Barnum. Contudo, o estilo do livro publicado era tão idêntico ao do mestre de espectáculos, que ou Griswold era

 

42 A vida de P. T. Barnum, escrita por si próprio.

 

um extraordinário camaleão literário, ou então foi o próprio Barnum que redigiu a obra.

A extensa confissão de Barnum, publicitada como sendo a história de sucesso de um homem que subiu a pulso e um guia para ficar rico, era extraordinariamente franca. "Poderão ver que não ocultei os meus, por assim dizer, "logros", escreveu Barnum, "tendo, isso sim, apresentado um relato total de esquemas como "Joice Heth", a "Sereia das Fiji" e o "Cavalo Lanoso"... Embora parte das minhas "confissões" possam ser consideradas indiscretas, prefiro, de um modo sincero, "aceitar os louros" sempre que tenha tido mão na sua colheita."

Tal como a maioria dos livros sérios da altura, foi vendido por subscrição. Vendedores que iam de porta em porta exaltavam-lhe as virtudes e citavam o seu conteúdo. Também se encontrava à venda no Museu Americano. Em breve competia pelo título de campeão de vendas com Tempos Difíceis, de Charles Dickens, Walden, de Henry Thoreau, e com Ten Nights in a Barroom, de T. S. Arthur.

Os críticos atacaram severamente a obra e o autor. Nos Estados Unidos, o New York Times abria as hostilidades. "O facto mais importante apresentado por Mr. Barnum nesta biografia de si próprio é que o sucesso foi alcançado (a sua fortuna adquirida), a reputação e a consideração estabelecidas graças a um plano sistemático, sagaz e contínuo que visava obter dinheiro do grande público através de fraudes... Nada neste livro é mais espantoso do que a nítida insensibilidade de Mr. Barnum para com o verdadeiro personagem das suas revelações. É óbvio que se orgulha da audácia e da enormidade das imposições com que conquistou a sua fortuna. Ele não as confessa, gaba-se... O livro será bastante lido e causará inúmeros problemas. Vai encorajar a tendência, que se revela sempre demasiado forte nos jovens deste país, de buscar a fortuna através de outros meios que não o trabalho..." A isto, Severn T. Wallis acrescentou a sua bênção. "Mintam e vigarizem o quanto quiserem, diz-nos a voz de Iranistan, mas por favor leiam a Bíblia e afastem-se do brande!"

Estas críticas, contudo, seriam meiguices, quando comparadas com a recepção que aguardava Barnum em Inglaterra.

A Blackwood's Magazine, que em tempos procurara destruir aquele "Cockney, John Keats, apontava agora as suas batarias contra Barnum. "Poucas vezes nos deparamos com velhacos que se vangloriem abertamente do sucesso da sua velhacaria, ao mesmo tempo que exigem o aplauso e a admiração do público... Sentimo-nos felizes por dizer que Mr. Phineas Taylor Barnum não é nativo deste país... Há muito tempo que não líamos um livro tão reles e ofensivo como este... Se conseguíssemos tirar algum prazer da narrativa que nos é apresentada por este livro impudente, sentir-nos-íamos tentados a considerar a sua publicação o mais audaz embuste que o autor alguma vez realizou sobre o público. Mas apenas fomos capazes de sentir repulsa pelas fraudes descritas, espanto pela sua audácia, desprezo pela hipocrisia, aversão pelo desvio moral revelado e uma pena sincera pelo desgraçado que compilou este volume. O indivíduo não deixou nada para o seu pior inimigo fazer, pois enforcou-se sozinho. Uma ave de rapina, pregada de forma desonrosa à porta de um estábulo, não representa um espectáculo mais humilhante do que Phineas Taylor Barnum, tal como ele se apresenta na sua autobiografia."

A Taifs Edinburgh Magazine caracterizava Barnum como um burlão e um vilão, cuja carreira era "um libelo vivo contra tudo o que é humano na humanidade". O periódico insurgia-se contra ele pela "presunção desprezível" e depois continuava: "Até que ponto se deve acreditar nas revelações de Mr. Barnum e quanto será um rol de mentiras e disparates? A questão é exactamente essa. Quem poderá dizer se depois desta especulação autobiográfica ter servido o seu propósito, trazendo a esperada adição de dólares aos cofres do mestre de espectáculos, não surgirá outro volume, no qual o escritor renuncie a toda a reles depravação com a qual decidiu revestir-se neste livro, colocando-se sob uma nova luz. Sinceramente, duvidamos que esta confissão seja mais do que uma impostura e um logro, a par da Avó Heth, da sereia e de Tom Thumb. Certos apenas estamos de que foi criado com o mesmo objectivo especial: a saber, levar mais além a ganância e avidez do autor."

O crítico de Edinburgo tinha razão numa coisa: viria a surgir um novo volume, no qual o autor tentou suavizar a "reles depravação" presente no primeiro livro. Catorze anos mais tarde, após comprar os estereótipos do primeiro livro e destruí-los, Barnum produziu uma nova versão da autobiografia, com um novo título. Em 1869, J. B. Burr & Company, de Hartford, publicou Struggles and Triumphs; or, Forty Years' Recollections of P. T. Barnum, Wrítten by Himself43. Esta versão, com quase o dobro do tamanho da primeira e com um peso de quilo e meio, tinha mais de 700 páginas e foi vendida por três dólares e cinquenta cêntimos. Certas secções de Struggles and Triumphs foram compreensivelmente eliminadas ou resumidas. Os anos tinham amolecido Barnum. Queria ser respeitável e não desejava ser imolado por uma nova geração de críticos. Em consequência, muitos dos episódios que o poderiam denegrir foram minimizados. Certos pormenores do truque realizado com a Sereia das Fiji foram omitidos, bem como a falsificação da idade e local de nascimento de Tom Thumb. Acrescentaram-se as histórias dos sucessos mais recentes e um relato indignado do seu declínio final.

Mais uma vez, a autobiografia vendeu bem, embora continuasse a ser desprezada pelos críticos. Após alguns anos, Barnum comprou os estereótipos a Burr e decidiu ser ele próprio a publicá-los. Utilizando alguns dos antigos estereótipos, a que juntou novos com uma letra de corpo mais pequeno, Barnum criou uma edição condensada de 300 páginas, imprensa em Buffalo. Cada volume custou-lhe nove cêntimos e foi vendido por um dólar. Continuou a alterar o livro até 1888, acrescentando, de forma regular, relatos das actividades mais recentes, como se se tratasse de um anuário ou almanaque pessoal, colocando periodicamente estas novas edições ao dispor do público. São conhecidas nove versões da autobiografia, embora talvez tenham sido publicadas cerca de vinte.

Em 1884, desejando publicidade e não lucro, Barnum colocou o livro em domínio público, oferecendo o conteúdo livre de direitos de autor a qualquer editor que se dispusesse a publicá-lo. Um editor de Chicago correspondeu de imediato, dando-lhe o novo título How Made Millions44. Em 1883, Barnum dizia que tinha sido vendido meio milhão de cópias e, seis anos mais tarde, o número adiantado era de mais de um milhão. Começou por ser vendido no

 

43 Lutas e triunfos; ou, quarenta anos de recordações de P. T. Barnum, escrito pelo próprio.

44 Como fiz milhões.

 

Museu e finalmente no circo. Para onde quer que Barnum fosse, o livro acompanhava-o.

Considerava a autobiografia o melhor presente que qualquer ser humano poderia receber. Em 1920, George Conklin, um dos domadores de leões de Barnum, revelou que Barnum guardara um grande caixote fechado, no escritório do alojamento de Inverno do circo, em Bridgeport. No caixote estava pintado o aviso: "Não Abrir Antes Da Morte De P. T. Barnum." Um tratador de elefantes inglês, que em tempos fora tratador de Jumbo, chamado Matthew Scott, convenceu-se de que o caixote misterioso continha o dinheiro que herdara de Barnum. "Quando, após a morte de Mr. Barnum, o caixote foi aberto, descobriu-se que estava cheio de cópias da sua vida escritas por ele, e cada um dos velhotes ali presentes recebeu um exemplar." O desapontamento deixou Scott em frangalhos. Não conseguiu perceber que, ao dar este livro, Barnum oferecia-lhe o maior tesouro que alguma vez possuíra.

A autobiografia de Barnum continuou a ser publicada após a sua morte, já no século XX. Ainda em 1927, a The Viking Press e Alfred A. Knopf lançaram edições do livro, tendo ambos os casos combinado o melhor das inúmeras revisões de Barnum. George S. Bryan, que organizou a publicação em dois volumes de Knopf, considerou a obra "uma narrativa rica e simples, realizada com grande satisfação. O estilo, tal como seria de esperar, é acessível, de uma forma divertida e despreocupada. Tendo em conta o tamanho, a história consegue manter o interesse... Quem tocar neste livro, toca num ser humano - toca numa carreira com uma evolução invulgarmente rica, variada e agradável".

Mas, em 1855, verificava-se a selvajaria dos críticos. Joel Benton argumentou em 1902, na The Century Magazine, que eles não tinham compreendido a intenção de Barnum. O livro "não deveria ter sido levado à letra, mas foi isso que aconteceu e a crítica foi muito dura. O público mais sóbrio e prosaico dessa altura não percebeu o carácter pickwickiano45 e a idiossincrasia das declarações com que a obra se encontrava impregnada. A impressão fria não poderia conter em si o brilho dos olhos do autor". O que mais feriu Barn um foi ter sido acusado de forma generalizada de ter construído uma carreira assente em estratagemas e não

 

45 Relativo ao personagem Samuel Pickwick, da obra Pickwick Papers, de Charles Dickens; significa que o que é dito deve ser assumido ou percebido com outro sentido que não o óbvio ou literal.

 

em traído e graças à sua inteligência.

Antes de conseguir recuperar deste golpe, sofreu outro com consequências muito mais vastas e drásticas. Desta vez não foi o seu orgulho a ficar ferido, mas sim o seu bolso. Nos finais de 1855, deu consigo na bancarrota, devido à exagerada ambição para East Bridgeport e à ingenuidade em relação à maior parte dos assuntos exteríores ao mundo do espectáculo.

Homem que ainda tão recentemente fora apelidado de burlão pelos críticos foi, segundo as suas próprias palavras, "cruelmente burlado e deliberadamente defraudado". Todos foram apanhados de surpresa. Mais tarde, Barnum tentou explicar a sua vulnerabilidade a uma audiência: "Muitas pessoas acharam estranho que um homem considerado tão arguto como eu tenha sido arrastado por embaraços como o que me afligiu, e não foram poucas as que declararam que "Barnum foi um tolo". Apenas posso responder que nunca me gabei da perspicácia de um agiota, e espero nunca perder a confiança na natureza humana a ponto de considerar cada homem um vigarista por instinto ou um velhaco por necessidade. "É melhor ser enganado às vezes do que desconfiar sempre", disse Lord Bacon, e eu concordo com ele." Tirando o facto de Lord Bacon46 nunca ter proferido tal declaração, o sentimento era adequado. Barnum, que sempre se deixou impressionar pela riqueza e pela posição, nunca imaginou que Chauncey Jerome e seu filho, respectivamente presidente e secretário da Jerome Clock Company, fossem vigaristas ou velhacos, tendo acabado por sofrer à conta disso.

Segundo Barnum, Chauncey Jerome visitou-o em Iranistan, em Setembro de 1855. Mais tarde, na sua própria autobiografia, Jerome viria a negar o caso. "Quero que se entenda que nunca vi P. T. Barnum, durante todo o tempo em que se encontrou ligado à empresa de Qual eu era membro." Jerome declarou que na altura se encontrava afastado e que a visita deveria ter sido feita pelo filho. Foi sugerida uma proposta a Barnum. A Jerome Clock Company mudar-se-ia de bom grado de New Haven para a adorada East Bridgeport do mestre de espectáculos, em troca de um empréstimo por parte de Barnum. A empresa valia $587. 000 (existiam livros-razão

 

46 Lord Francis Bacon (1561-1626), filósofo, escritor e estadista inglês.

 

razão que o provavam) mas a temporada fora fraca. Caso a empresa não conseguisse angariar mais $110. 000 imediatamente, seria obrigada a despedir um grande número de trabalhadores.

Barnum ficou interessado. Em troca de um empréstimo temporário a uma empresa firmada e de boa reputação, teria a fábrica em East Bridgeport. Investigou de imediato Chauncey Jerome. Descobriu que este fizera a sua fortuna ao inventar um mecanismo de relógio em latão, dezoito anos antes. Através da produção em série de elementos de latão padronizados a partir de moldes de aço, Jerome conseguia vender relógios em metal por quatro dólares, minando assim o mercado dos relógios de madeira, vendidos a doze dólares. Os relógios Jerome eram utilizados em paragens tão distantes como a China, onde se removia o interior para que as caixas pudessem ser utilizadas como templos para os Deuses, "provando que a fé era possível sem um "mecanismo interior", acrescentaria Barnum, enquanto ainda possuía bom humor. Jerome oferecera uma igreja de $40. 000 a New Haven e um relógio enorme a uma capela de Bridgeport. Barnum estava satisfeito. "Uma empresa tão abastada e sobejamente conhecida seria uma magnífica aquisição para a minha cidade", decidiu.

Barnum realizou, assim, o fatídico acordo com a Jerome Clock Company, assinando uma série de promissórias garantindo os empréstimos de que os Jerome necessitavam. A data de pagamento foi deixada em branco em algumas das promissórias, permitindo que a firma as utilizasse a seu bel-prazer, nunca podendo, contudo, exceder o total de $110. 000. Seguiu-se uma série de transacções financeiras complexas, tendo algumas das antigas promissórias de Barnum sido devolvidas, em troca de novas. O filho de Jerome garantiu-lhe que a próspera empresa poderia em breve "fazer os bancos dançar ao som da sua música", Barnum ficou descansado e, ao descontrair-se, cometeu o derradeiro erro. Continuou a assinar promissórias novas, sem se preocupar em confirmar se as antigas haviam sido todas canceladas.

Ao fim de três meses descobriu a verdade: "O terrível facto de que financiara a empresa de relógios em mais de meio milhão de dólares, tendo a maioria das promissórias sido trocadas por velhas promissórias da Jerome Company, devidas a bancos e outros credores. O agente que fez estas descobertas surpreendentes regressou à minha presença com a bela notícia de que eu era um homem arruinado!" Não só a Jerome Company se encontrava na bancarrota, como o mesmo sucedera a Barnum.

Ficou incrédulo. Nem queria acreditar. Atingira o auge, seguro contra todas as emergências, garantido, e agora, de repente, era pobre.

"Que idiota que eu fui! ", gritou em fúria. "Ora aqui estava uma grande empresa que fingia valer $587. 00, pedindo uma assistência temporária no valor de $110. 000, e que quando fica arruinada por eu ter retirado a minha ajuda, me arrasta consigo. Fracassou e, mesmo após ter absorvido a minha fortuna, apenas pagou doze a quinze por cento das suas obrigações. E, para cúmulo, nunca chegou a mudar-se para East Bridgeport, mesmo tendo sido essa a única condição que me levou a avançar com dinheiro para o maldito negócio!"

Barnum, desesperado, chegou a pensar em suicídio mas, após muita introspecção, concluiu "que o golpe tinha como derradeiro objectivo o meu benefício" e que uma autoridade mais elevada desejava ensinar-lhe a lição "de que existe algo infinitamente melhor do que o dinheiro, a posição ou a prosperidade terrena... ".

Salvo o aluguer do Museu, que se encontrava em nome de Charity e que lhe rendia $19. 000 por ano, tudo estava perdido. Iranistan e a restante propriedade pessoal caiu nas mãos dos credores. Barnum alugou uma casa mobilada na cidade de Nova Iorque, mudou-se para lá com a família e tentou devolver um pouco de ordem ao caos. Todavia, enxames de credores, impacientes por recuperar alguma parte das promissórias, mantiveram-no nos tribunais, numa série de julgamentos separados que o deixaram exausto e desesperado.

Durante um desses inúmeros julgamentos, um advogado raquítico e impertinente, em representação de um credor que comprara uma promissória de mil dólares por $700, apoquentou Barnum até ao limite da sua paciência.

"Qual é a sua actividade? ", exigiu o advogado.

"Atender à barra"47, respondeu Barnum calmamente.

"Atender à barra? Atender à barra! Mas o senhor não se gaba de ser um homem sóbrio, um abstémio?"

"Exactamente."

"E, no entanto, tem a audácia de dizer que serve rum o dia inteiro, não bebendo o senhor uma única gota?"

"Duvido que essa seja uma pergunta relevante", comentou pacientemente Barnum.

Terei de apelar ao Senhor Doutor Juiz, caso não me responda de imediato."

Barnum pensou um pouco e depois replicou: "Atendo à barra e, contudo, nunca bebo álcool."

"Onde exerce o senhor essa actividade, e para quem? ", inquiriu o advogado.

"Atendo à barra deste tribunal, quase todos os dias, para benefício de pseudo-advogados de meia tigela e dos seus clientes gananciosos", foi a resposta de Barnum.

A partir daí os julgamentos foram em menor número.

Já não sendo poderoso, tornou-se alvo de todo o tipo de ataques por parte da imprensa, do clero e de amigos da onça. A imprensa regozijava-se com o desastre de "Barnum e o desastre Jerome Clock". Para Barnum, as calúnias sádicas eram inacreditáveis. Durante anos, a imprensa fora sua amiga, sua colaboradora, até mesmo o sangue da sua vida. Agora, tornava-se sua carrasca. "Fui dissecado", disse, "analisado, remontado, pontapeado, vilipendiado, revirado, fui alvo de sermões, tema de sermões e utilizado de todas as formas possíveis e imaginárias por um mundo ávido de sensações."

Fora uma lição duradoura, que Barnum nunca esqueceria. "Indivíduos que me tinham lisonjeado nos meus tempos prósperos escarneciam agora da minha adversidade. Pessoas que eu favorecera grandemente esforçavam-se por demonstrar a sua ingratidão. Jornais que me tinham bajulado quando possuía os meios para que procurassem merecer os meus favores tentavam agora esmagar-me com insultos..." Tal como acontecera com o livro, o pior de tudo eram os pregadores e os moralistas, que declaravam que o que estava a acontecer com Barnum era a justa retribuição pelos seus "ganhos indevidamente conquistados".

E isso quando trabalhara dia e noite pelo que fora conquistado e merecido.

Claro que os inimigos tiveram um dia em cheio. James Gordon Bennett, que antipatizava profundamente com ele, encontrava-se na vanguarda dos caluniadores. No dia 17 de Março de 1856, o New York Hera/d publicava o seguinte editorial:

"A QUEDA DE BARNUM - O autor do livro que o glorificava como milionário graças à arte e aos meios de obter dinheiro com fraudes está, segundo as suas próprias declarações em tribunal, completamente destroçado. Todos os lucros conseguidos com as suas Sereias das Fiji, cavalos lanudos, baleias da Gronelândia, Joice Heths, pretos transformados em brancos, Tom Thumbs e monstros e imposturas de todos os tipos, incluindo os $70. 000 recebidos pelos direitos de autor do livro acima mencionado, foram levados, palácio hindu e elefantes incluídos, pelo implacável administrador de falência do até agora invencível mestre de espectáculos. É um caso que se adapta na perfeição a "pregar uma moral ou embelezar um conto".

Bennett não o incomodava. O que o magoava era a deserção de tantos amigos. Mais de um ano depois, continuavam a tratá-lo como se fosse um leproso. "Com frequência, ao subir e descer a Broadway", recordou, "via amigos prósperos antigos que se aproximavam, mas, se me vissem antes de nos cruzarmos, entravam numa loja, ou atravessavam a estrada, ou encontravam casualmente alguém com quem tinham negócios urgentes a tratar, ou ficavam muito interessados em algo que viam no seu caminho, ou no topo da City Hall."

A amargura acabou por se transformar em divertimento secreto e sardónico. Jurou lembrar-se dos seus "amigos esvoaçantes" assim que escapasse à "confusão lançada pela corda avariada dos relógios".

Foi então que, na noite do dia 17 de Dezembro de 1857, surgiu outro golpe terrível.

Iranistan estava vazia desde há dois anos, enquanto os agentes imobiliários tentavam vendê-la em nome dos credores de Barnum. Mas a concepção estranha e o tamanho desmedido afastavam qualquer potencial comprador. Finalmente, os credores acederam a que Barnum se mudasse novamente com a família, até que se encontrasse um comprador ou que se realizasse um leilão.

Com os fundos de que dispunha, Barnum enviou de imediato pintores e carpinteiros para a mansão, para que a renovassem e reparassem. Deu ordens para que os trabalhadores não fumassem no interior do edifício. Contudo, quando durante a hora de almoço os pintores e os carpinteiros subiam à cúpula do observatório para se esparramarem no assento circular, costumavam fumar enquanto iam conversando, após a refeição. Segundo se veio a apurar, numa dessas tardes um trabalhador esqueceu-se do cachimbo aceso no assento do divã curvado. O cachimbo tombou, deixando cair tabaco a arder para o enchimento da almofada. Não se sabe quantas horas ou dias o enchimento demorou a arder, mas, uma hora antes da meia-noite de um dia da semana antes do Natal, Iranistan estava em chamas.

Os esforços dos bombeiros foram em vão, à medida que as chamas da pira de madeira iluminavam o terreno congelado e o céu escuro. Em duas horas, o palácio oriental de Barnum transformava-se num monte grotesco de brasas fumegantes. Apenas a sua recordação e pedaços chamuscados de mobília sobreviveram ao incêndio.

Pesaroso, Philo, o meio irmão de Barnum, enviou para Nova Iorque um telegrama com as notícias. Quando na manhã seguinte Barnum acordou no seu quarto na Astor House, a missiva aguardava-o. "A minha bela Iranistan desapareceu! ", escreveu. "Não só foi uma dura perda para o meu património, pois deverá ter custado pelo menos $150. 000, como também foi considerado uma calamidade pública. Era o único edifício na América com o seu estilo arquitectónico peculiar, e muitas pessoas visitavam Bridgeport todos os anos, tendo como único objectivo apreciar Iranistan."

Financeiramente, a perda foi incomensurável. Na sua dificuldade, Barnum deixara que o seguro da propriedade baixasse de $62. 000 para $28. 000. Esta soma relativamente pequena foi engolida pelos credores. Agora, os dezassete acres, livres da excêntrica habitação, foram facilmente vendidos por esses mesmos credores. O terreno foi comprado por um amigo chegado de Barnum, Elias Howe, Jr. cuja invenção da máquina de costura, doze anos antes, o deixara suficientemente abastado para pagar do seu bolso uma companhia de camaradas no Exército de Potomac, durante a Guerra Civil. Chegara mesmo a fretar um comboio especial para trazer esses homens a casa durante uma licença. Howe pagou $50. 000 pelo terreno e tencionava construir outra mansão, mas a longa litigação com Isaac Merrit Singer e outros pela patente da máquina de costura, bem como o recrutamento na guerra como soldado raso, atrasou os seus planos, tendo morrido sem desenvolver a propriedade.

Grande parte do período de maiores dificuldades de Barnum coincidiu com o agonizante fratricídio que assolou o país entre 1861 e 1865. Aquando do rebentar das hostilidades, Barnum tinha cinquenta e um anos de idade, sendo demasiado velho para se alistar. Em vez disso, e tal como era habitual na época, pagou a quatro soldados para o substituírem na frente de batalha. Uma vez que se opunha à escravatura, contribuiu generosamente para com a causa da União.

Em breve estava envolvido pessoalmente numa luta caseira para evitar sabotagem e traição. O Connecticut encontrava-se recheado de advogados da paz a qualquer preço e de simpatizantes do Sul. Após a derrota federal em Buli Run, muitos desses grupos pacíficos começaram a fazer uma propaganda aberta. Quando Barnum ouviu dizer que um dos grupos iria realizar uma manifestação em Stepney, a dezasseis quilómetros a norte de Bridgeport, juntou-se a Elias Howe, Jr. a fim de participar nesse encontro, para apurar qualquer eventual deslealdade.

Ao chegarem à manifestação, Barnum e Howe foram acompanhados por dois comboios de soldados da União, que se encontravam de licença. Quando uma bandeira branca da paz foi içada em substituição da bandeira americana, e o orador principal, um pastor, começou a falar sobre a agressão do Norte, os soldados ali presentes invadiram o palco. Na escaramuça que se seguiu, o orador fugiu para um milharal, enquanto os seus confederados sacavam de revólveres e brandiam mosquetes. Um dos pacifistas chegou a disparar um tiro antes de ser perseguido para fora da cidade. Os restantes foram rapidamente desarmados. Os soldados carregaram Barnum em ombros até ao palco, onde "fez um discurso cheio de patriotismo, apimentado com o humor da ocasião". Um oficial da União proferiu outro discurso, depois The Star-Spangled Banner" foi cantada a plenos pulmões e, finalmente, Elias Howe, Jr. subiu ao palco para gritar: "Rapazes, se eles dispararem, lancem fogo à cidade, que eu pago!"

Ao regressar a Bridgeport, os soldados resmungaram qualquer coisa sobre incendiar as instalações do Farmer, um jornal local com simpatias secessionistas. Barnum aconselhou-os a cumprir a lei e a evitar a violência. Contudo, assim que Barnum se afastou para enviar por telégrafo a história para os jornais de Nova Iorque, os soldados correram para o jornal, destruíram as máquinas e espalharam as formas tipográficas pela rua. Aflito, Barnum ofereceu-se para angariar dinheiro para o editor, mas este não se mostrou interessado e fugiu para a Georgia.

Em 1863, Barnum era um membro proeminente do "Prudential Committee", uma das organizações de vigilantes civis. Por várias vezes foi ameaçado de morte, mantendo uma provisão de foguetes para serem lançados caso a sua casa alguma vez fosse sitiada. Em várias ocasiões teve soldados federais a guardar a sua residência.

Um dos factos menos conhecidos da Guerra Civil foi a trama confederada para incendiar e tomar Nova Iorque, como retaliação pela selvagem marcha de desgaste do general William T. Sherman em direcção ao mar. Barnum acabou por ser uma das vítimas menores, pois o Museu Americano, que regressara às suas mãos, foi um dos principais alvos.

Sem a genialidade do mestre, Greenwood e Butler obtiveram resultados medíocres com o Museu e, cinco anos após o desastre Jerome Clock, Barnum ofereceu-se para voltar a comprar a colecção. Greenwood e Butler não se importaram de aceder à proposta. Barnum voltara a possuir o Museu, que florescia novamente, havia quatro anos, quando os invasores confederados quase o transformaram em cinzas. De certa forma, foi o prenúncio do eventual destino do Museu.

A grande trama incendiária confederada foi organizada por Jefferson Davis, a fim de levantar a moral do Sul e de aterrorizar o Norte, para que este acabasse com a guerra. Davis enviou uma mensagem a Jacob Thompson, no Mississipi, a fim de que este executasse o plano. Thompson, um advogado abastado, congressista e secretário do Interior do presidente Buchanan, partiu de imediato para estabelecer um quartel-general em Toronto, no Canadá. O seu fundo de guerra ascendia a um milhão de dólares em moeda federal.

Os resultados foram imediatos. Dois vapores nos Grandes Lagos foram capturados e afundados. Vários barcos foram incendiados em St. Louis. St. Albans, no Vermont, foi invadida com sucesso, tendo três bancos ficado sem $200. 000. Mas o grande plano era, segundo as palavras de Thompson, "um esquadrão para incendiar a cidade de Nova Iorque". O coronel Robert Maxwell Martin, um nativo do Kentucky de bigode e com vinte e seis anos, que abrira caminho pelo Ohio enquanto comandante da cavalaria de guerrilha de Morgan, foi seleccionado para liderar a força de intervenção de oito elementos. Três dos seus mais proeminentes adidos eram o ébrio Robert C. Kennedy, do Louisiana, o tenente John W. Headley, do Kentucky, e o tenente John T. Ashbrook.

O esquema dependia em grande medida da colaboração dos grupos pacifistas da metrópole, os quais eram aliados dos grupos que Barnum combatia no Connecticut. Tinham garantido a Thompson e ao coronel Martin que os Sons of Liberty, uma sociedade secreta que apoiava o direito de secessão de qualquer estado em qualquer altura, possuíam um número de membros que se cifrava nos 300. 000, dos quais 85. 000 se encontravam no Illinois, 50. 000 no Indiana e 20. 000 na cidade de Nova Iorque. Aquando do sinal combinado (o incendiar dos hotéis e locais de diversão de Nova Iorque) os Copperheads iriam sublevar-se e deixar os cidadãos em pânico, levando assim ao bloqueio do movimento das tropas. Os Sons of Liberty deveriam tomar a City Hall e o gabinete do superintendente da Polícia com mosquetes e bombas e fazer explodir Fort Lafayette, no porto de Nova Iorque.

O coronel Martin, o capitão Kennedy e seis outros entraram em Nova Iorque na véspera da eleição presidencial de 1864, em que Abraham Lincoln viria a derrotar o general George B. McCIellan por 400. 000 votos. O dia da eleição, altura em que vários grupos pacifistas de Nova Jérsei e do Connecticut estariam reunidos em Nova Iorque com os camaradas subversivos, seria o dia dos incêndios e da revolta. Toda a cidade estava absorvida pela votação iminente. A campanha fora dura. O arrogante McCIellan, de trinta e oito anos, até chegara a chamar Lincoln de "gorila original... um babuíno bem intencionado".

Os oito invasores rebeldes encontraram-se com três representantes dos Sons of Liberty numa loja de pianos propriedade de um deles. Os contactos de Nova Iorque eram Henry W. McDonald, dono da loja de pianos, James A. McMasters, editor do Freeman's Journal, e o capitão E. Longuemare, que coligira a lista de hotéis a serem queimados e tratara da produção de um grande número de bombas incendiárias, cheias com o químico conhecido como fogo grego. Todavia, na manhã seguinte, antes que os rebeldes pudessem agir, o atarracado general Benjamin Butler marchou por Nova Iorque com 10. 000 tropas. Era o mesmo Butler que, enquanto administrador de Nova Orleães, foi desprezado por todas as mulheres sulistas. Quando as belles lhe viraram as costas, comentou com admiração: "Estas mulheres sabem qual o seu lado melhor." Obviamente, Butler era um homem que não admitia disparates. Fez saber imediatamente que estava a par de uma qualquer trama e que se encontrava prestes a prender os conspiradores. Muito tempo depois, os rebeldes descobriram que haviam sido traídos por um homem chamado Godfrey Hyams, o qual sabia dos planos traçados no Canadá e que vendeu as suas informações à União por $70. 000.

A chegada das tropas da União fez com que os oito invasores adiassem a sabotagem. Depois, pensando subitamente que tudo aquilo era demasiado romântico e impraticável, o editor e o negociante de pianos retiraram o seu apoio. Desencorajado, o Capitão Longuemare também desistiu. Agora, privados da ajuda dos Sons of Liberty, os rebeldes poderiam ter regressado ao Canadá se não tivessem lido as notícias onde se dizia que Sherman incendiara Atlanta. Espicaçados pelas exigências de retaliação por parte do coronel Martin, seis dos oito concordaram em ficar e reduzir Nova Iorque a cinzas. O tenente Headley visitou um farmacêutico idoso em Washington Square e levantou uma mala, de sessenta centímetros por um metro e vinte, contendo 144 garrafas de cerca de cem gramas de fogo grego incendiário. Dividiram-se sessenta das garrafas e os seis homens separaram-se, a fim de se registarem com nomes falsos em dezanove hotéis.

No fim da tarde do Dia de Acção de Graças, a 25 de Novembro de 1864, teve início a trama para incendiar Nova Iorque. "Quando faltavam vinte minutos para as sete dirigi-me ao meu quarto na Astor House", disse o tenente Headley. "Pendurei os lençóis sobre a tábua dos pés da cama, empilhei cadeiras, gavetas e outro material em cima da cama, enfiei jornais no monte e despejei uma garrafa de terebintina sobre o amontoado. Depois abri uma garrafa de "fogo grego" e espalhei-o rapidamente por cima de tudo. Inflamou-se instantaneamente. Tranquei a porta e desci. Deixando a chave na recepção, como de costume, saí. Fiz o mesmo no City Hotel, na Everett House e no United States Hotel."

Enquanto isso, o coronel Martin incendiava a Hoffman House e o Fifth Avenue Hotel. Às nove horas, todos os dezanove hotéis estavam a arder. Entretanto, o tenente Ashbrook, destacado para as avenidas mais agitadas da Nova Iorque festiva, lançou uma garrafa de fogo grego para a audiência do Niblo's Garden e outra para o Winter Garden, onde três mil pessoas se encontravam arrebatadas pelo desempenho de John Wilkes Booth como Marco António, na peça de Shakespeare Júlio César. Headley, respirando a brisa marítima no cais do North River, depositou várias bombas incendiárias nas embarcações ali ancoradas, tendo afundado uma barca de feno e danificado outras duas embarcações.

Os bombeiros metropolitanos, alertados de imediato, chegaram às combustões na sua fase inicial. Hordas de pessoas confusas e receosas começaram a encher a Broadway. O capitão Kennedy, que incendiara três hotéis e reforçara a coragem que se ia desvanecendo com uma bebida, deu consigo preso na multidão, em frente do iluminado Museu Americano de Barnum.

Abraçando a mala ainda meio cheia, e temendo ser reconhecido e consequentemente linchado, Kennedy pagou vinte e cinco cêntimos e refugiou-se na segurança do Museu. Uma vez lá dentro, misturou-se com os clientes, observando várias exibições. De súbito, levado pela recordação do malvado Sherman, percebeu que se encontrava no local perfeito para um espectacular acto de demolição. Eliminar o mundialmente famoso Museu de Barnum seria uma jogada extremamente desmoralizadora. Descendo a escadaria principal, parou, abriu a mala, retirou uma bomba de vidro e lançou-a aos degraus. Seguiu-se uma repentina parede de chamas e o Museu ficou a arder.

Enquanto Kennedy corria para a rua, o Museu tornou-se o cenário da conflagração mais eficaz da noite. Na Sala de Palestras, duas mil e quinhentas pessoas eram embaladas por uma das peças morais de Barnum. Greenwood, o gerente, irrompeu pela sala, gritando alertas de fogo. De imediato, o auditório transformou-se em caos, à medida que os assistentes fugiam e se debatiam para chegar à saída. Houve ferimentos, mas nenhuma fatalidade.

Agora, a entrada principal do Museu encontrava-se envolta em fumo. Milhares de pessoas na rua afastaram-se quando os bombeiros entraram para combater as chamas. Uma cliente encurralada no segundo andar foi salva por escada. Uma das aberrações de Barnum, uma gigante de dois metros e dez, possivelmente Anna Swan, cambaleou até à entrada, histérica e quase sufocada. Quando Greenwood e três bombeiros tentaram ajudá-la, lançou os pigmeus para o chão. Foi controlada por seis homens, sendo adormecida rapidamente com sedativos.

Gradualmente, os animais selvagens foram sendo retirados para a Broadway, onde eram vigiados de perto. Em poucas horas, o fogo foi extinto. Barnum avaliou os estragos em $1. 000. Fora por pouco.

Ao amanhecer, depois de nove horas corajosas, os combatentes da camisa vermelha tinham extinto todas as fogueiras rebeldes. Excepto por um prejuízo de $10. 000 declarado por um hotel, os estragos foram poucos. O que salvou a cidade não foi apenas a eficiência dos seus bombeiros, mas também a ineficácia das garrafas de fogo grego. Com a excepção da garrafa de vidro utilizada no Museu, todas as bombas haviam sido fracas e mal sucedidas. Como resultado, a incursão desesperada acabara em futilidade. Informado do resultado em Toronto, Thompson fez o seguinte comentário: "A sua confiança no fogo grego provou ser um infortúnio. Não se pode confiar nesse agente para tal trabalho.

Não tenho qualquer fé nele e, sob as minhas ordens, nunca se repetirá nova tentativa com materiais do género."

Dois dias depois, com uma recompensa sobre as suas cabeças, os incendiários esgueiraram-se de Nova Iorque num comboio para Albany, tendo finalmente chegado a Toronto em segurança. Tempos mais tarde, Kennedy, que ateara o fogo no Museu de Barnum, e Ashbrook embarcaram num comboio em Detroit, com o objectivo de regressar ao Sul. Detectados por agentes dos serviços secretos da União, Ashbrook fugiu por uma janela. Kennedy foi apanhado e detido por dois agentes. Acusado de fogo posto e espionagem, regressou, manietado, a Nova Iorque, onde, em Março de 1865, foi julgado por um tribunal militar e considerado culpado. Foi enforcado em Fort Lafayette. Barnum ficara com o seu precioso Museu e a gigante intactos. Contudo, acabou por não ser por muito tempo. O infortúnio ainda lhe mordia os calcanhares.

O último golpe severo surgiu no dia 13 de julho de 1865. O que os Confederados tinham começado seria agora finalizado pelo Destino cruel. Na casa das máquinas do Museu Americano, havia maquinaria que produzia vapor para fazer rodar as grandes ventoinhas que refrescavam o edifício e que bombeavam água fresca para o aquário recentemente instalado. Essas máquinas deram origem a um incêndio. As chamas tomaram o gabinete adjacente do gerente (normalmente ocupado por Greenwood e pelo seu assistente, o infeliz Samuel H. Hurd, genro de Barnum) e espalharam-se lestamente pelo rés-do-chão e depois para os andares superiores.

Foi um holocausto de grandes proporções. Ao mesmo tempo que se chamava rapidamente as brigadas de bombeiros da metrópole, Hurd dirigia-se à secretária em chamas para salvar vários milhares de dólares em dinheiro da bilheteira. Receando expor o dinheiro à multidão agitada que se reunia no exterior, depositou-o no cofre de metal de Barnum.

De Maiden Lane a Chambers Street, a Broadway encontrava-se apinhada com quarenta mil pessoas que observavam um braseiro digno da arte de Nero. Embora o Museu se tivesse transformado rapidamente numa tocha, nenhum ser humano perdeu a vida. Barnum estava em Hartford e Greenwood também se encontrava ausente. Após esconder o dinheiro, Hurd mal conseguiu alcançar a segurança da rua. Os poucos visitantes escaparam com facilidade, mas as aberrações viram-se em piores lençóis. Imensas colunas de fumo invadiram os andares superiores e muitas das exibições ficaram incapacitadas. Felizmente, inúmeros carros de bombeiros chegaram ao edifício a tempo.

Entre os heróicos soldados da paz encontrava-se John Denham, da Companhia de Mangueiras Número Quinze, que correu para o interior vezes sem conta, a fim de salvar vítimas. Levou a mulher Albina para lugar seguro e, graças a uma surpreendente reserva de forças, salvou a mulher gorda, cujo peso era anunciado pela propaganda como sendo de duzentos quilos. A partir de um quarto do outro lado da rua, Nathan D. Urner, jornalista do New York Tribune de Greeley, testemunhou o salvamento de Anna Swan, a gigante de dois metros e trinta e sete da Nova Escócia.

Miss Swan, que perdeu as suas poupanças no valor de $1. 200 em ouro e todo o guarda-roupa para as chamas, foi encontrada no cimo da escadaria do terceiro andar, quase inconsciente. "Não havia uma única porta por onde o seu corpo enorme pudesse passar", relatou Urner. "Também se receava que as escadas cedessem, mesmo que as tivesse conseguido alcançar. O seu melhor amigo, o esqueleto vivo, ficou a seu lado tanto tempo quanto conseguiu suportar, mas acabou por abandoná-la, enquanto a transpiração dela, que devido ao calor lhe escorria pelo rosto em regatos, ressoava musicalmente no chão. Como último recurso, os funcionários do local acabaram por procurar um guindaste enorme que, por graça do destino, se encontrava nas redondezas, e ergueram-no ao lado do Museu. Uma porção da parede foi então derrubada de cada lado da janela, o forte guincho foi preparado, a mulher alta foi atada a uma das extremidades e passada por sobre as cabeças do povo nas ruas, com dezoito homens a segurar a outra extremidade da corda, acabando por ser descida do terceiro andar, por entre ovações entusiásticas. Uma carruagem de grande capacidade estava à espera e, depois de entrar no transporte, a jovem foi levada para um hotel."

Os bombeiros conseguiram chegar às gaiolas de pássaros tropicais dos andares superiores e um grande número de catatuas e papagaios foram libertados, voando sobre a cidade. Um condor e vários abutres e águias (uma das quais travou um combate mortal com uma cobra, do qual a ave saiu vencedora) foram também libertados.

Todavia, dois leões agitados, que rebentaram as grades da sua jaula, em breve tinham sido vencidos pelo fumo. Um urso imponente tentou fugir por uma janela do segundo andar mas, não conseguindo fazê-lo, acabou por se perder nas chamas. O bombeiro voluntário George Collyer acabou com o sofrimento de uma pitão de nove metros que se contorcia agonizante no soalho ardente.

Alguns dos animais chegaram à rua e instalaram o pânico. Várias serpentes alcançaram a Broadway, forçando os espectadores a debandar. Um tigre de Bengala saltou do segundo andar para a via pública. A polícia descarregou os revólveres sobre o animal, mas sem qualquer resultado, até que o bombeiro Denham matou o tigre com um único golpe do machado. Um orangotango sociável chegou à redacção de James Gordon Bennett e tentou realizar uma entrevista. "A pobre criatura", escreveu Urner, "mal acabada de ser libertada do cativeiro, e sem dúvida imaginando que poderia preencher alguma vaga no corpo editorial do jornal em questão, descera pela calha e refugiara-se instintivamente no santuário providenciado pelo estabelecimento." Foram necessários os músculos de Bennett e de toda a equipa para controlar o potencial jornalista.

Com o cair da noite, o Museu Americano era um monte de ruínas carbonizadas. Durante a evolução do incêndio, ao perceber que tudo estava perdido, Hurd enviou um telegrama a Barnum, que na altura servia como representante eleito da assembleia municipal de Hartford. No momento em que o telegrama chegou, Barnum discursava contra o monopólio ferroviário. Fez uma pausa na oração a fim de olhar para a mensagem e depois, sem a menor hesitação ou mudança de expressão, terminou o discurso.

Ao finalizar, Barnum mostrou o telegrama aos colegas. O principal antagonista na questão ferroviária apertou-lhe a mão, num gesto de simpatia. "Mr. Barnum, " disse, "Lamento muito pelo seu grande infortúnio." Com uma bravata nada inesperada, Barnum retorquiu: "Lamentar? Ora, meu caro senhor, durante pelo menos uma semana não vou ter tempo para me lamentar! Vou precisar desse tempo para conseguir deixar de me rir da lição que lhe ensinei com esta tentativa de lei ferroviária."

Mas Barnum estava bastante perturbado. Na manhã seguinte, em frente dos destroços ainda fumegantes do que em tempos fora o alicerce da sua carreira, sentiu uma tristeza profunda. "Aqui foram destruídos", escreveu, "quase de um fôlego, os resultados acumulados de muitos anos de trabalho incessante, meu e dos meus predecessores, para reunir míriades de curiosas produções da natureza e da arte de todas as partes do globo - uma assembleia de raridades que nem meio milhão de dólares poderia restituir, nem um quarto de século voltar a juntar."

Não se salvaram nem sequer mil dólares de propriedade pessoal. Claro que o cofre de metal com o dinheiro da bilheteira estava intacto. Uma foca amestrada, um urso, o orangotango jornalístico, alguns macacos, cobras e pássaros tinham sido poupados. Uma parte das figuras de cera, incluindo estátuas do presidente Buchanan, de Tom Thumb e do próprio Barnum, foram salvas, embora um pouco derretidas, ao passo que relíquias sem preço da Guerra Revolucionária tinham ardido. Finalmente, é claro que Anna Swan e as aberrações estavam vivas. Contudo, dos 600. 000 artigos em exposição, Barnum ficara com uma mínima parte. As perdas orçaram pelo menos $400. 000. O seguro valia apenas $40. 000.

O seu primeiro instinto foi desistir. O escândalo dos relógios, a destruição do seu lar e este acidente final eram um fardo bastante pesado. Já não era abastado, mas possuía um rendimento potencial do imóvel do Museu e do investimento em East Bridgeport que seria suficiente para se aposentar.

Falou com o amigo chegado Horace Greeley e pediu-lhe conselhos. O que deveria fazer?

"Aceite este incêndio como um aviso para desistir", sugeriu Greeley, "e vá pescar."

"Pescar?"

"Sim, pescar. Há trinta anos que desejo ir pescar, e ainda não consegui tempo para o fazer."

Barnum considerou essa hipótese. Sabia que o conselho de Greeley era "assisado e justo", mas sentiu que o editor não o dissera com sinceridade. Recordou o editorial de Greeley na edição do New York Tribune do dia após o incêndio. O editor lamentara publicamente a morte de um local de espectáculos que fora "uma fonte de prazer", uma maravilha "em que acreditava implicitamente, tal como acontecia com as diversões das Mil e Uma Noites", um local que "divertia, instruía e espantava".

O editorial concluíra da seguinte forma: "Choramos a sua perda, mas não sem um consolo. O Museu de Barnum desapareceu, mas o próprio Barnum, felizmente, não partilhou do destino das cascavéis... Existem peixes no mar e animais nas florestas; os pássaros continuam a voar nos céus e criaturas estranhas ainda vagueiam pelo deserto; gigantes e pigmeus ainda deambulam pela Terra; o homem mais velho, a mulher mais gorda e o bebé mais pequeno ainda vivem e Barnum irá encontrá-los."

O caminho de Barnum era claro e tomou uma decisão. A pescaria ia ter de esperar. Algures, "o homem mais velho, a mulher mais gorda e o bebé mais pequeno" aguardavam e ele iria encontrá-los, exibi-los e, finalmente, renascer das cinzas.

 

         EXIBIÇÃO NOVE - A BALEIA BRANCA

Após o fracasso da Jerome Clock Company, Barnum avaliou a sua posição. Saldara todas as dívidas pessooais, mas ainda devia meio milhão de dólares em promissórias com a sua assinatura. A Clock Company pagava quinze cêntimos por dólar aos credores. Barnum decidiu pagar trinta e três cêntimos por dólar pelas somas que eram da sua responsabilidade.

Enviou a seguinte missiva a um grupo de credores de New Haven: "Fui levado a financiar e a aceitar facturas por essa empresa até um limite de $110. 000 - nada mais. Encontro-me disposto a pagar essa soma por conta da minha ingenuidade, a par da soma adicional de $40. 000 pela vossa esperteza, perfazendo um total de $150. 000, que serão vossos, caso acedam em ficar "quites" com o mestre de espectáculos depenado e o" deixem em paz."

Aparentemente, a maioria dos credores aceitou liberar Barnum com este acordo. Contudo, outros quiseram as promissórias pagas na totalidade, tendo alguns vendido os documentos a especuladores, por um preço reduzido. Fosse comofosse, em breve Barnum já se tinha mentalizado da dívida total, sabendo quanto teria de conseguir para poder voltar a considerar-se independente.

Ao mesmo tempo que ficava determinado a ripostar e se esforçava por pensar numa forma de se emdireitar, um grande número de pessoas juntava-se para o apoiar. Em Junho de 1856, foi enviada a Barnum uma carta assinada por um milhar de nova-iorquinos proeminentes. Essa carta dizia oo seguinte: "A ruína financeira de um homem de uma energia e uma iniciativa reconhecidas é uma calamidade pública. Assim sendo, o golpe inesperado que retirou a fortuna acumulada ao longo dos anos a um homem como o senhor justifica, a nosso ver, a compreensão do público." Os mil signatários ofereciam "uma série de benefícios". Em Bridgeport, um grupo de empresários implorou a Barnum que este aceitasse um empréstimo de $50. 000 e dezenas de elementos do mundo do espectáculo, desde Laura Keene, a actriz, a William Niblo, proprietário do Garden, sugeriram "uma noite de receitas dos seus teatros".

Barnum sentiu-se profundamente comovido. "Enquanto os meus inimigos e uma porção de pessoas invejosas e de moralistas desencaminhados me vilipendiavam e difamavam", disse ele, "o infortúnio revelou-me incontáveis amigos desconhecidos que me apresentavam mais do que mera compreensão. Ofereceram-me fundos ilimitados para apoiar a minha família e para me restabelecer na minha actividade." Barnum rejeitou com gratidão todas essas ofertas. "Recuso essas propostas pois, por uma questão de princípio, nunca aceitei favores pecuniários..."

Entre as muitas ofertas de ajuda que recebeu, uma delas comoveu e interessou o mestre de espectáculos acima de todas as outras. Redigida no papel timbrado do Jones' Hotel de Filadélfia, encontrava-se assinada pelo general Tom Thumb:

"Meu Caro Mr. Barnum - pelo que sei, os seus amigos (e isso significa "toda a criação") pretendem angariar benefícios para a sua família. Peço-lhe apenas, cavalheiro, que se digne a recordar que eu pertenço a essa multidão poderosa, e quero meter o dedo (ou pelo menos um "polegar") nesse assunto... Acabei de dar início à minha digressão pela zona ocidental, tendo comigo a minha carruagem, póneis e assistentes, mas estou pronto a partir para Nova Iorque de armas e bagagens, dispondo-me a ficar ao serviço de Mrs. Barnum durante o tempo em que a minha pequena pessoa possa ser útil. Dê-me todo o trabalho "pesado" que quiser. Talvez não consiga erguer tanto como as restantes pessoas, mas veja só como consigo arrastar uma grande carga. Ainda hoje arrastei duzentas toneladas de uma só vez, abarcando duas mil pessoas, que reuni em segurança numa única exibição, tendo todas ficado satisfeitas. Esperando que consiga dispor de imãs suficientes para atrair toda a cidade de Nova Iorque, e oferecendo-me para me sentar em qualquer parte da sua carga, saiba que sou, como sempre, o seu pequeno mas fiel amigo..."

De início, Barnum recusou o antigo sócio em miniatura. Tom Thumb, por seu lado, e como seu próprio empresário, continuou a digressão para oeste. Barnum, que ainda acalentava esperanças para East Bridgeport, dedicou-se à persuasão da próspera Wheeler & Wilson Sewing Machine Company, para que esta ocupasse uma fábrica vazia. Quando a mudança foi efectuada, Barnum acabou por aceitar um empréstimo de $5. 000, sem garantias, concedido pela Sewing Machine Company. Juntando este valor às poupanças privadas da esposa, Barnum comprou muitos acres por desenvolver da propriedade de East Bridgeport, os quais haviam sido vendidos em hasta pública pelos credores. Embora o investimento não lhe tivesse trazido um alívio imediato, acabou por admitir que a compra lhe depositou "mais dinheiro no bolso do que o que a complicação com Jerome retirara".

Entretanto, menos de um ano depois, Tom Thumb concluiu a digressão pelo Oeste e voltou a oferecer-se ao homem que o descobrira. Desta vez, determinado a regressar ao mundo do espectáculo, Barnum aceitou. Todavia, desejava outra novidade para reforçar Tom Thumb. Não foi necessário procurar muito.

Na altura, Cordelia Howard, de nove anos de idade, era um sucesso no papel de Little Eva, em A Cabana do Pai Tomás. Quando o romance de Mrs. Stowe surgiu, o pai de Cordelia, empresário de uma companhia teatral, descobriu que os direitos dramáticos não estavam ainda reservados. Destacou um actor da companhia, o primo George L. Aikin, para converter o romance em drama. Toda a família Howard (pai, mãe e a pequena Cordelia, então com cinco anos, como Little Eva) estreou-se na peça em Julho de 1853 e, em breve, encontravam-se no caminho para a fortuna. Exibiam A Cabana do Pai Tomás havia quatro anos quando Barnum assinou um contrato com a companhia para uma digressão europeia. Agora, em 1857, Cordelia era uma das esperanças de Barnum. Satisfeito com a menina prodígio e com o anão, Barnum partiu para Inglaterra. (Pouco depois de regressar do estrangeiro, com doze anos de idade, a loura Cordelia afastou-se dos palcos.

Oito anos depois, casou-se com um encadernador de Cambridge. Morreu em 1941, com noventa e três anos.

A publicação da autobiografia e as notícias sobre o fracasso nos negócios deixavam Barnum incerto quanto à recepção que o esperava em Londres, mas rapidamente ficou descansado. O seu velho amigo Dr. Albert Smith, um antigo dentista e autor que agora apresentava com sucesso palestras dramáticas sobre a sua conquista do Mont Blanc, em 1851, recebeu Barnum de braços abertos e convidou-o vezes sem conta para o Garrick Club. Sir Julius Benedict e Giovanni Belletti visitaram-no com convites para jantar. Otto Goldschmidt, em seu nome e em nome de Jenny Lind, avançaram com propostas de ajuda financeira. Joshua Bates, da Baring Brothers & Company, e George Sala, um correspondente estrangeiro que trabalhara para Dickens, honraram Barnum com festas em suas casas.

E, melhor do que tudo isto, William Makepeace Thackeray, de quarenta e seis anos, cuja Feira das Vaidades era publicada mensalmente na revista Punch, e que vinha a tentar, sem sucesso, ser eleito para a Câmara dos Comuns, renovou o contacto com Barnum. Tinham-se conhecido cinco anos antes. Segundo Barnum: "Ele visitou-me no Museu com uma carta de apresentação do nosso amigo mútuo Albert Smith. Passou uma hora comigo, basicamente com o objectivo de me pedir conselhos sobre a melhor forma de gerir uma série de palestras relacionadas com o tema "Os Humoristas Ingleses do Século XVIII", que se propunha a apresentar, tal como veio a fazer, com grande sucesso, nas principais cidades da União. Ofereci-lhe os melhores conselhos que pude em relação a essa gestão e às cidades que deveria visitar, tendo ele ficado muito grato." Contudo, segundo Eyre Crowe, secretário e empresário de Thackeray, Barnum ouviu dizer que o romancista se encontrava em Nova Iorque e convocou-o. Quando se encontraram, Barnum pediu a Thackeray que escrevesse uma série de artigos para o Illustrated News, que o mestre de espectáculos se preparava para editar com Griswold e Leland, com a opinião do escritor sobre os Estados Unidos. Barnum sugeriu também outras colaborações, mas Thackeray replicou que preferia fazê-lo sozinho.

Agora em Londres, Thackeray recebeu Barnum calorosamente. "Mr. Barnum", disse, apertando-lhe a mão, "admiro-o mais do que nunca. Li os relatos nos jornais sobre os interrogatórios de que foi alvo nos tribunais de Nova Iorque, e a coragem que revelou, mesmo a braços com o seu embaraço pecuniário, é digna de louvor. Nunca teria recebido qualquer crédito pela filosofia que defende, caso estes infortúnios financeiros não o tivessem acometido." Barnum interrompeu para exprimir os seus agradecimentos, mas Thackeray prosseguiu. "Diga-me, Barnum, encontra-se mesmo a necessitar de auxílio? Pois se estiver, deverá ser ajudado."

Barnum riu-se. "De todo", explicou. "Preciso de mais dinheiro, a fim de sair da bancarrota, e tenciono ganhá-lo. Mas, no que diz respeito ao pão diário, encontro-me à vontade, pois a minha esposa vale entre 30. 000 a 40. 000 libras."

Thackeray arregalou os olhos de espanto. "Será possível? Pois bem, perdeu toda a minha compreensão. Ora, isso é mais do que alguma vez espero vir a valer. Não voltarei a ter pena de si."

Mais ninguém teria de voltar a sentir pena de Barnum. De regresso ao trabalho, bombardeando a imprensa com publicidade, inundando a cidade com cartazes e panfletos provocantes, Barnum percebeu que ainda possuía o seu toque de Midas. Durante muitas semanas, o regresso de Tom Thumb foi recebido por audiências cada vez maiores, e Cordelia Howard, no papel de Little Eva, foi um sucesso imediato. Barnum prosperou.

Levou a companhia para uma apresentação em Paris e depois para Estrasburgo. Na cidade alemã, de uma forma quase apologética, foi ver um relógio. "Por esta altura, seria de esperar que estivesse farto de relógios até ao fim dos meus dias, mas... Não me esqueci, nem deixei de testemunhar, o grandioso relógio de igreja, o qual é quase tão famoso como a própria catedral. Ao meio-dia em ponto, um galo mecânico canta; os sinos repicam; figuras dos doze apóstolos surgem e iniciam uma procissão." Seguiram-se visitas a Baden-Baden, Ems, Homburgo, Wiesbaden e Francoforte. "Estas exibições foram das mais rentáveis alguma vez conseguidas", disse Barnum, "e consegui enviar milhares de dólares para os meus agentes nos Estados Unidos, a fim de ajudar na aquisição do meu imobiliário e na compra do maior número possível de promissórias que fossem colocadas à venda."

Embora as atracções tivessem obtido menos sucesso em Amsterdão e Roterdão ("o povo é demasiado frugal para gastar dinheiro em divertimentos"), Barnum gostou mais da Holanda do que de qualquer outro país estrangeiro que até então visitara, com a excepção da Inglaterra. Deliciou-se com a limpeza, a indústria e a sobriedade visíveis por todo o lado. Quando visitou uma feira, o velho instinto de mestre de espectáculos foi mais uma vez desperto ao ver uma família albina, Rudolph Lucasie, a esposa e o filho, todos eles brancos e cor de rosa, embora nascidos de pais negros. Contratou-os de imediato, de olhos postos no futuro próximo.

Ao regressar a Nova Iorque no final de 1857, Barnum descobriu que fizera progressos na dívida enorme, mas ainda era preciso mais dinheiro. Por esse motivo, depois de Iranistan ter sido consumida pelas chamas, decidiu realizar uma digressão pela Escócia e pelo País de Gales com Tom Thumb. Durante a digressão, Barnum percebeu que o anão não necessitava de cuidados permanentes de sua parte. Assim sendo, entregou Tom Thumb a vários assistentes e, com o intuito de aumentar os rendimentos, dedicou-se à sua própria conversão em exibição pública.

Após a sugestão feita por vários amigos americanos em Londres, Barnum concordou em apresentar uma série de palestras pagas sobre o tema "A Arte de Fazer Dinheiro". De início, ainda a lamber as fendas causadas pelos relógios, comentou, lastimoso, que as palestras deveriam ser intituladas "A Arte de Perder Dinheiro". Contudo, os amigos recordaram-no de que não teria perdido meio milhão de dólares se antes não o tivesse ganho.

A estreia teve lugar no espaçoso St. James Hall, tendo sido amplamente divulgada para o serão do dia 29 de Dezembro de 1858. Três mil ingleses pagaram entre cinquenta a setenta e cinco cêntimos para assistir, acabando por restar apenas lugares de pé. Encorajado pela afluência e pelos muitos rostos familiares, Barnum esteve no seu melhor.

"Nos Estados Unidos, onde temos mais terra do que pessoas", começou, "não é de todo difícil para os indivíduos saudáveis fazerem dinheiro." Misturando clichés com humor original, referindo-se com frequência a Benjamin Franklin, Micawber, Madame Tussaud, Henry Ward Beecher, Salomão, Cromwell, Rothschild, Goethe, John Jacob Astor e a Genin, o chapeleiro, Barnum advogou a concentração, a organização, a moderação, a propaganda e a integridade. Inúmeras vezes foi buscar exemplos ao seu próprio passado. "Nasci no Estado do Connecticut, das leis azuis", disse, "onde os velhos Puritanos tinham leis tão rígidas que se dizia que multavam um homem se este beijasse a esposa ao domingo. Mas estes velhos Puritanos ricos tinham investimentos de vários milhares de dólares e, ao sábado à noite, valeriam uma determinada quantia... Ao acordarem na segunda-feira de manhã, estavam muito mais ricos do que na noite do sábado anterior, simplesmente porque o dinheiro que tinham investido trabalhara para eles durante todo o dia de domingo, segundo a lei!" Mas existiam armadilhas. "O dinheiro, em muitos aspectos, é como o fogo - é um excelente servo, mas um mestre terrível." John Randolph, o excêntrico da Virgínia, tivera a ideia certa, dizendo ao Congresso: "Sr. Presidente, descobri a pedra filosofal: pagar sempre a pronto."

Barnum deixou um aviso enfático, algo que aprendera com uma experiência recente. "Não endossem sem uma garantia. Defendo que ninguém deverá endossar uma promissória, ou ser a segurança de outra pessoa, seja seu pai ou irmão, por mais do que aquilo que pode perder sem se preocupar, sem que consiga uma boa garantia." E, finalmente: "A todos os homens e mulheres, digo em consciência, façam dinheiro de forma honesta, e não de outra forma, pois Shakespeare disse, em boa verdade, "Aquele que deseja dinheiro, meios e felicidade, perde três bons amigos"48."

A palestra foi bem recebida, tendo sido elogiada por nove dos maiores jornais de Londres. O Times considerou Barnum "um dos oradores mais divertidos que alguma vez se dirigiu a uma audiência sobre um tema universalmente perceptível" e aprovou o "humor seco", a "voz sonora" e a "exposição bastante clara". Animado por essa aprovação, Barnum apresentou a mesma palestra cem vezes por toda a Inglaterra, incluindo aparições tumultuosas em Cambridge e Oxford. Recusou a oferta de um editor londrino de $6. 000 pelo discurso, mas mais tarde veio a incluí-lo na

 

48 William Shakespeare, Como Lhe Aprouver, Acto III, Cena 2.

 

autobiografia e num panfleto impresso especialmente. Gostava de apresentar palestras e, durante a vida, dirigiu-se a cerca de 1. 300. 000 pessoas. Ao deixar Inglaterra com Tom Thumb, consideravelmente mais rico, Barnum estava satisfeito: "A palestra em si foi uma admirável ilustração d'"A Arte de Fazer Dinheiro".

De regresso a Nova Iorque, e após adquirir de volta a colecção de curiosidades a Greenwood e Butler, Barnum anunciou que estava mais uma vez no negócio. Cartazes berrantes gritavam de cada esquina à populaça: "Barnum de novo de pé!" E, no New York Herald, um anúncio prometia que, no serão do dia 24 de Março de 1860, Barnum surgiria no palco da Sala de Palestras, a fim de tomar posse do local. "Entre o primeiro e o segundo actos, Mr. P. T. Barnum surgirá e procederá ao relato das suas Aventuras como Relojoeiro, mostrando como o relógio se atrasou e como se lhe deu corda..."

Aguardava-o uma casa cheia. Em vez de surgir entre actos, Barnum subiu ao palco antes da início da peça de costumes. Foi recebido por uma ovação maior do que qualquer outra que alguma vez recebera. Encarou os aplausos ensurdecedores com o rosto lavado em lágrimas. Finalmente, com a voz embargada, começou a falar:

"Senhoras e senhores", disse. "Seria mais ou menos do que humano, se fosse capaz de receber, sem a mais profunda das emoções, este testemunho inesperado e esmagador às vossas mãos. A minha ligação pessoal com o Museu voltou a ser estabelecida e aproveito-me desta circunstância para o explicar. Nunca me sentira tão forte na minha prosperidade terrena do que em Setembro de 1855. Três meses depois, encontrava-me tão embaraçado que não tinha a certeza de nada, a não ser da incerteza de tudo. Uma combinação de esforços e circunstâncias excepcionais levaram-me a depositar a minha assinatura em documentos que acabaram por me levar à falência. Após quase cinco anos de uma luta intensa para me manter à tona da água, bati por fim no fundo e aqui, esta noite, sinto-me feliz por poder anunciar que consegui chegar à costa. Todas as dívidas de relógios que são do meu conhecimento foram eliminadas."

O anúncio da sua solvência e regresso ao mundo do espectáculo foi recebido por uma poderosa ovação da audiência e por uma mistura de felicitações e dúvidas por parte da imprensa. Como que em resposta aos críticos cépticos, Barnum regressou à gerência do Museu com um novo vigor. Com apenas cinquenta anos de idade ("ainda muito jovem para ser embalsamado e colocado numa caixa de vidro no Museu", declarou), Barnum iria provar ao mundo que estava melhor do que nunca.

Após uma semana de renovação, o Museu reabriu sob o seu estandarte e acompanhado pela banda de música errática. Logo à partida, era óbvio que o génio para o espectáculo não o abandonara. Novidades mais recentes e mais espantosas, animadas e inanimadas, foram introduzidas e retiradas, sendo substituídas por outras. Em poucos meses, as visitas diárias ao Museu tinham duplicado.

Ao mesmo tempo que melhorava a colecção, Barnum mantinha-se atento a empreendimentos exteriores. Um mês após ter regressado ao activo, surgiu-lhe um desses empreendimentos. Era um velho caçador do Oeste de cabelo grisalho, batido e nodoso, de barba branca e trajando um boné feito da cabeça de um lobo e um fato de pele de gamo, ornamentado com caudas de animais. Apresentou-se como sendo James C. Adams, conhecido por quase todo o Oeste como "Grizzly" Adams.

Adams narrou a sua história enquanto Barnum o escutava, fascinado. Durante anos, Adams desafiara todo o tipo de perigos para caçar e montar armadilhas nas montanhas da Sierra Nevada. Capturou animais selvagens e, embora tivesse sido maltratado por eles, domesticara-os como animais de estimação. Agora, finalmente, em busca de segurança para a esposa há muito negligenciada e para a filha, trouxera uma colecção de bestas da Califórnia a bordo do veleiro Golden Fleece, contornando o cabo Horn. Importara entre vinte a trinta ursos pardos enormes (ao líder chamara Old Sampson e ao mais delinquente General Frémont), bem como seis outras espécies de ursos, e um sortido de lobos, leões, tigres, búfalos e alces, a par de um imponente leão marinho que respondia pelo nome de Old Neptune.

Enquanto explicava a Barnum as dificuldades envolvidas na domesticação destes animais, Adams tirou o boné de lobo e mostrou o topo da cabeça. O crânio fora esmagado e, tal como Barnum pôde observar, o cérebro exposto, "ficando o seu funcionamento visível". (A moderna opinião médica concorda que Barnum poderia não estar a exagerar quando dizia que o cérebro de "Grizzly" Adams estava visível, pois, provavelmente, encontrava-se coberto pelo epicrânio, ou tecido espesso e transparente que contém o fluido espinal. Enquanto Barnum analisava a ferida aberta com um fascínio mórbido, Adams descreveu como o ferimento ocorrera. Sempre que treinava os ursos, estes divertiam-se a bater-lhe na cabeça. Assim sendo, esta fora partida e curada muitas vezes. Mais recentemente, o urso conhecido por General Frémont agredira-o e a cabeça estalara como uma casca de ovo.

Barnum comentou que parecia ser "um ferimento perigoso e que poderia vir a revelar-se fatal". Adams aquiesceu complacentemente. "Sim, isso vai dar cabo de mim. Já estava quase curado, mas antes de deixar a Califórnia o velho Frémont abriu-o pela terceira ou quarta vez, e fez um serviço tão perfeito que acabou com o resto. Mas acho que ainda vou viver mais seis meses, ou um ano."

Barnum perguntou-lhe se, encontrando-se naquelas condições, não se sentia preocupado em comparecer perante o público com os ursos pardos.

O caçador explicou que, estivesse ou não preocupado, não tinha grande escolha. "Mr. Barnum, já não sou o mesmo homem de há cinco anos atrás. Nessa altura sentia-me capaz de suportar o abraço de qualquer urso pardo à face da Terra, e nunca me importava de enfrentar, sozinho, qualquer tipo de animal que se me deparasse. Mas já fui feito em papas, quase que me arrancaram os membros e praticamente fui mastigado e cuspido fora por estes ursos traiçoeiros. Mas ainda vou durar mais alguns meses e, quando chegar a minha hora, espero já ter ganho o suficiente para deixar a minha patroa numa situação confortável, pois estive longe dela durante alguns anos."

Barnum acedeu prontamente em apresentar a Colecção de Animais da Califórnia com base numa sociedade igualitária. Faria a publicidade e iria gerir o espectáculo. Adams cuidaria dos animais. Ao saber que a esposa de Adams vivia no Massachusetts, Barnum trouxe-a para Nova Iorque, para que cuidasse do marido. Mandou também chamar o seu médico, que examinou o ferimento da cabeça e ficou espantado. O médico predisse que Adams estaria morto dali a poucas semanas, mas o paciente maltratado riu-se da profecia.

Levando a peito as palavras do médico, Barnum apressou-se a levar o espectáculo ao público e mandou erguer uma tenda de lona num terreno vazio na esquina da Broadway com a Thirteenth Street. Depois, após uma chuva de publicidade, inaugurou o que talvez tenha sido a primeira grande parada de circo da história. Na manhã da estreia, um grande número de espectadores juntou-se na Broadway, para admirar James C. Adams, no seu trajo bizarro, montado no surpreendentemente dócil General Frémont, ambos transportados numa carroça. Precedido por uma banda estridente e seguido por jaula após jaula de animais estranhos à costa leste americana, Adams dirigiu-se à tenda do espectáculo.

Diariamente, embora hesitante devido à enfermidade, o caçador comandou os animais nas suas actuações, perante milhares de espectadores que assistiam com admiração. Após seis semanas de espectáculos, o enfraquecido Adams cedeu ao médico de Barnum, concordando em desistir e vendendo a sua parte ao mestre de espectáculos. Mas, quando descobriu que Barnum tencionava exibir a Colecção de Animais pelo Connecticut e pelo Massachusetts, utilizando um treinador alemão chamado Driesback no seu lugar, Adams protestou. Os animais não confiariam em mais ninguém a não ser nele. Além disso, queria todos os centavos que pudesse ganhar. Tomaria conta do jardim zoológico ambulante, disse, por sessenta dólares por semana, mais as despesas pagas para ele e sua esposa. Barnum achou que o caçador não sobreviveria a tal digressão. Adams desdenhou essa teoria. "O que me dará, para além do meu salário, se eu viajar e exibir os ursos todos os dias durante dez semanas?" Barnum riu-se. "Quinhentos dólares", respondeu alegremente. "Fechado!" exclamou Adams.

Determinado a receber o bónus de Barnum, Adams seguiu em digressão, a qual se tornou uma corrida contra a morte. Após cinco semanas, Barnum visitou o caçador em New Bedford. Os seus olhos estavam vidrados, as mãos ásperas tremiam e queixava-se do calor. Barnum implorou-lhe que desistisse e ofereceu-lhe $250 se regressasse a casa, mas Adams rejeitou qualquer acordo. Prosseguiu com os ursos, mal conseguindo erguer um braço, até ao fim da décima semana. Então, com exclamações de triunfo, aceitou os $500.

Antes de se retirar para Neponset, no Massachusetts, com a esposa, Adams avistou um fato de caçador em pele de castor que Barnum encomendara para o treinador alemão. Adams pediu-o emprestado. Barnum acedeu, contanto que lhe fosse devolvido. "Claro", disse Adams, "quando já não precisar dele." Acompanhou a esposa para Neponset, onde a filha os aguardava, foi imediatamente para a cama e não saiu de lá vivo. Em cinco dias tinha morrido. O seu último pedido foi que o enterrassem no fato novo - pois ainda precisava dele, e precisaria sempre, e isto seria uma das maiores partidas alguma vez pregadas a Barnum. Foi enterrado no seu fato de castor e Barnum lamentou a sua morte.

Os ursos pardos, vinte ou trinta exemplares, e os restantes animais, tornaram-se atracções permanentes do Museu. Mais tarde, Barnum vendeu-os a todos, excepto Old Neptune, o leão marinho, que era apaparicado num enorme tanque de água salgada.

Sempre em busca de novas sensações, Barnum provou mais uma vez não ter perdido a sua velha astúcia. Em 1864, leu que uma dúzia de chefes índios há muito temidos, em representação de quatro tribos, tinham sido persuadidos a visitar Washington, D. C. a fim de encetar negociações de paz com o presidente Lincoln. O membro mais proeminente da delegação era White Buli49, sobrinho de Sitting Buli50, e com uma posição de destaque na hierarquia da tribo. Acompanhavam-no Yellow Bear51, acabado de chegar das montanhas Wichita, e Yellow Buffalo52, ambos Kiowas. Depois seguiam-se War Bonnet53, o qual, juntamente com Black Kettle54, dominara o Colorado, e Lean Bear55 e Hand-in-the-Water56, todos eles Cheyenne. Barnum teve uma inspiração imediata. Encontrou-se com o intérprete dos índios e ofereceu-lhe um suborno generoso para que os trouxesse a Nova Iorque, a fim de visitar o Museu. O intérprete aceitou o suborno e concordou em

 

49 Touro Branco.

50 Touro Sentado.

51 Urso Amarelo.

52 Búfalo Amarelo.

53 Boné de Guerra.

54 Chaleira Negra.

55 Urso Magro.

56 Mão-na-Água.

 

trazê-los, embora não pudesse garantir por quanto tempo. "Só conseguirá mantê-los enquanto pensarem que os seus clientes vêm prestar-lhes visitas de honra", explicou a Barnum. "Se suspeitarem que o seu Museu é um local onde as pessoas pagam por entretenimento, não conseguirá que fiquem por um momento que seja após a descoberta."

Em breve os doze chefes chegavam a Nova Iorque, tendo Barnum sido apresentado como anfitrião. Durante vários dias guiou-os pelo Museu, acabando sempre por levá-los ao palco da Sala de Palestras, à hora do início do espectáculo. Quando já não havia mais nada para se ver no Museu, os índios acompanharam Barnum em carruagens para se encontrarem com o mayor, para visitar escolas e cavalgar no Central Park - regressando sempre, no fim do dia, ao palco do Museu, onde pensavam estar a ser homenageados por enchentes de visitantes ilustres.

No palco, os chefes índios sentavam-se em círculo, enquanto Barnum os percorria e anunciava o nome de cada um e informava o auditório repleto sobre os seus antecedentes. Sempre que chegava a Yellow Bear, a quem desprezava pelo registo de carnificinas, Barnum dava-lhe uma palmadinha no ombro e, em troca, era afagado no braço com afeição pelo chefe. Sabendo que nem Yellow Bear nem os colegas percebiam uma palavra de inglês, Barnum fingia elogiá-lo. Mas, enquanto sorria e lhe dava palmadas nas costas, Barnum dizia à audiência: "Este pequeno índio, minhas senhoras e meus senhores, é Yellow Bear, chefe dos Kiowas. Matou, sem dúvida, imensas pessoas brancas, e deve ser o mais vil dos patifes que vivem no Faroeste." Nesse momento, Barnum dava uma palmadinha na cabeça de Yellow Bear, ao que este lhe afagava o braço, satisfeito por ter um campeão. Depois Barnum continuava: "Se este vilãozinho sanguinário percebesse o que eu estou a dizer, matar-me-ia num abrir e fechar de olhos. Mas, como julga que o estou a elogiar, posso, com segurança, contar-lhes a verdade, que ele é um monstro mentiroso, ladrão e assassino. Torturou até à morte pobres mulheres indefesas, assassinou os seus maridos, esmagou o crânio dos seus filhos inocentes. E não teria problemas em fazer o mesmo a todos nós, se julgasse poder escapar impune. Esta é uma pálida descrição do carácter de Yellow Bear." Mais uma vez, Barnum dava uma palmadinha na cabeça do pele-vermelha e o índio levantava-se para agradecer as gargalhadas e os aplausos.

Com o intuito de preservar o bom humor das atracções, Barnum tentava satisfazer todos os seus caprichos. Quando viam conchas ou relíquias raras, pediam-nas. "Isto custou-me muitos espécimes valiosos", viria Barnum a queixar-se, embora estivesse a fazer uma fortuna com os índios, somente pelo preço de um suborno. Um dos chefes exigiu uma antiga placa peitoral de cota de malha. Custara várias centenas de dólares a Barnum e este resistiu. O chefe explicou que precisava dela para combater os Utes quando regressasse às montanhas Rochosas. Agora, estava disposto a trocar o seu mais recente fato de pele de veado pela armadura. Barnum foi forçado a ceder.

Após uma semana, um membro mais curioso do grupo de paz índio descobriu que estava a ser cobrado bilhete para entrar no Museu, tendo percebido que estava a ser utilizado como uma reles curiosidade. Em fúria, passou a palavra a todos os chefes. Insultados, perseguiram Barnum com "olhos selvagens e faiscantes". Sendo a discrição o mais importante valor para a sobrevivência, o mestre de espectáculos tornou-se indisponível. No dia seguinte, o intérprete nervoso apressou-se a fazer regressar os chefes a Washington.

Pouco tempo depois de terem deixado o palco de Barnum, dois destes chefes envolveram-se em dois dos mais sangrentos massacres do Faroeste. Quando War Bonnet deixou o Museu americano, após uma semana agradável com a família albina, a gigante e o esqueleto vivo, regressou à sua aldeia monótona na curva de Sand Creek, no Colorado. Foi aí que, em Novembro de 1864, o coronel J. M. Chivington, antigo pregador metodista, devido a uma provocação insignificante, levou o seu Segundo de Cavalaria do Colorado a carregar de forma selvagem sobre os pacíficos peles-vermelhas. Foram mortos trezentos índios desarmados e Chivington foi repreendido oficialmente.

Outro dos veteranos do Museu de Barnum acabou por envolver-se num acto de vingança devido aos acontecimentos de Sand Creek. Em Junho de 1876, uma vasta horda de índios atacou o major-general George Custer e cinco companhias do Sétimo de Cavalaria em Little Big Horn. Em menos de meia hora, Custer e os seus duzentos e sete homens foram aniquilados. O herói da maior das vitórias índias foi White Buli, o qual capturou doze cavalos, sete escalpes de soldados e abateu a tiro outros dois, sendo um deles, provavelmente, o próprio Custer. Por incrível que pareça, White Buli conseguiu sobreviver à vingança dos perseguidores caras-pálidas, tendo morrido de causas naturais em 1947, oitenta e três anos depois do tratado com Lincoln e de ter actuado para Barnum.

Em 1861, o romance Moby Dick: ou A Baleia Branca, de Herman Melville, fora publicado havia já dez anos. Contudo, embora alvo de bastante discussão nos círculos literários, não vendera bem, mesmo ao preço de um dólar e cinquenta cêntimos por exemplar. Melville, com problemas de saúde, ganhava a vida apresentando palestras na costa oeste. Mas se a sua baleia não lhe trouxera lucros, acabou por dar inspiração a Barnum para uma das suas atracções mais populares.

Ao ler que uma baleia branca viva fora capturada por pescadores na embocadura do rio St. Lawrence, Barnum ficou fascinado por saber que Moby Dick existia na verdade. Decidiu-se a possuir uma baleia branca, ou melhor, duas baleias, um macho e uma fêmea, para exibir. Com este fim em vista, construiu na cave do Museu um tanque de tijolo e cimento, com cinco metros e meio por quinze metros. Posto isto, partiu, qual Capitão Acab, em busca das suas baleias brancas.

Apanhando um comboio de Nova Iorque para o Quebeque, e viajando daí por comboio e barco até Hazel Island, no St. Lawrence, contratou vinte e quatro pescadores franco-canadianos. Contratou-os ao dia, prometendo-lhes um bónus avultado se capturassem duas baleias brancas vivas. Os pescadores construíram um kraal (estacas em forma de V enfiadas na lama) no rio e depois aguardaram que duas baleias brancas nadassem para o V, o qual planeavam fechar rapidamente com os barcos.

Durante dias a fio, Barnum observou o esguicho de baleias que brincavam em redor do kraal, sem nunca lá entrarem. Por fim, desiludido, regressou ao Quebeque. Assim que lá chegou, recebeu a informação de que duas baleias brancas haviam sido capturadas: tinham nadado para o interior do kraal, foram encurraladas lá dentro, ficaram encalhadas com a maré baixa e depois foram arrastadas para caixas forradas com algas, puxadas por cordas atadas às caudas.

Rapidamente, Barnum alugou um vagão de mercadorias privado para transportar os mamíferos durante a viagem de cinco dias até Nova Iorque. Cada baleia branca repousava desconfortavelmente numa caixa parcialmente cheia de água salgada e algas, onde eram assistidas por um empregado de Barnum, que lhes humedecia constantemente a boca e o espiráculo com uma esponja embebida em água salgada.

Barnum alimentou a curiosidade dos nova-iorquinos expectantes sobre o progresso das baleias com um ritmo incessante de publicidade. Cada paragem, cada entreposto, desde o Quebeque a Nova Iorque, encontrava-se apinhado de nativos alertas. Eram enviados despachos à imprensa de hora a hora, e uma torrente de boletins foi afixada em frente do Museu. Por fim, os mamíferos chegaram e foram levados ao tanque da cave, cheio de água doce artificialmente salgada, pois não se conseguiu providenciar de imediato água salgada verdadeira. "Milhares de indivíduos ansiosos correram literalmente para o Museu, a fim de ver as curiosidades mais estranhas que alguma vez tinham sido exibidas em Nova Iorque", disse Barnum com satisfação. "A minha primeira expedição baleeira foi assim um grande sucesso. Contudo, eu não sabia como alimentar ou cuidar dos monstros e, além disso, encontravam-se em água doce. Este facto, aliado ao ar de fraca qualidade da cave, poderá ter acelerado a sua morte, que veio a ocorrer poucos dias depois da chegada, mas não antes que milhares de pessoas as tivessem visto."

Tentado pelo desafio e suas recompensas, Barnum fez os preparativos para que mais duas baleias fossem capturadas e entregues. Desta vez, planeou com mais cuidado a longevidade dos animais. Enquanto os pescadores de St. Lawrence se mantinham atentos ao kraal, Barnum construiu um novo tanque no segundo andar do Museu, por um custo de $4. 000. Este aquário tinha sete metros quadrados, com um chão de ardósia e paredes feitas de vidro francês importado, com uma espessura de dois centímetros e meio. Um cano de ferro projectado sob as ruas até à baía providenciava um fluxo constante de água salgada verdadeira. Em pouco tempo, mais duas baleias brancas encontravam-se no Museu. "Foi uma grande sensação", disse Barnum, "e veio acrescentar milhares de dólares ao meu cofre. Mas as baleias morreram rapidamente - a sua popularidade súbita e imensa foi demasiado para elas."

Sem desanimar, Barnum encomendou um terceiro par. Os mamíferos foram prontamente capturados por trinta e cinco homens e entregues por comboio com um custo de $10. 000. A propaganda de Barnum quase se equiparava, em dimensão, às atracções marinhas. "É extremamente gratificante", anunciou no fim de uma notificação, "poder garantir ao público que elas chegaram em segurança, um MACHO e uma FÊMEA, com comprimentos que variam entre os quatro metros e meio e os seis metros, estando agora a nadar no oceano em miniatura do meu Museu, para deleite dos visitantes. Sendo duvidoso que estas maravilhosas criaturas possam ficar vivas durante mais do que alguns dias, será importante que o público perceba a importância de as ver logo no primeiro momento."

Um jornalista do Tribune de Greeley observou-as nos dois metros de água salgada e dedicou-lhes grande parte de uma coluna. "As formas e movimentos são graciosos, e os lombos e dorsos prateados brilham através do líquido. Uma intimidade duradoura ligou-as uma à outra, e agem como se se tratassem de um par de amantes, fazendo jorrar a admiração mútua de uma maneira extremamente enfática... Ora aqui está uma verdadeira sensação. Não acreditamos que o empreendimento de Mr. Barnum se quede pelas baleias brancas. Irá decerto abarcar cachalotes e sereias, e todas as estranhas criaturas que nadam, voam e rastejam, até que o Museu se transforme num vasto microísmo [s/c] da criação animal. Um quarto de dólar parece perfeitamente irrisório quando pesado contra tal festim."

Quando os cínicos apregoaram que as baleias eram falsas, sendo, na verdade, botos, Barnum, indignado, mandou chamar à Harvard University o eminente professor Louis Agassiz, o naturalista suíço cujos estudos geológicos das costas do lago Superior, da Florida, da Califórnia e do Brasil o haviam tornado mundialmente famoso. Agassiz colocou-se perante o tanque, espreitou pelo vidro francês e anunciou que os monstros marinhos suspeitos eram, na verdade, baleias genuínas. Orgulhoso, Barnum fez com que o professor assinasse um certificado de autenticidade, o qual publicou um pouco por todo o lado.

Contudo, aparentemente o Museu não era um bom habitat para Moby Dick. Primeiro uma das baleias morreu e depois a outra. O Tribune, deitando as culpas da catástrofe sobre o cheiro horrendo de um urso pardo ressentido, publicou um obituário extenso. "O golpe foi profundo. Para Mr. Barnum deve ser uma severa lembrança da nulidade de qualquer plano humano. Empreendimento, gastos liberais, coragem - de que valem essas qualidades perante o terrível destruidor. Até mesmo às baleias chega a altura de se afundarem para não mais regressarem à superfície."

O imponente tanque não ficou vazio durante muito tempo. Um hipopótamo africano de três anos de idade suplantou as baleias, sendo seguido, por sua vez, por tubarões, cavalos marinhos, peixes anjo e, finalmente, por botos.

As baleias brancas, os ursos pardos, os chefes índios indomáveis, foram a despedida de Barnum a duas décadas pioneiras como mestre de espectáculos. Em Junho de 1865, o Museu Americano era um monte de cinzas e, com a sua destruição, a década desastrosa de Barnum chegava ao fim.

Ignorando o conselho de Greeley sobre dedicar-se à pesca, Barnum alugou um velho edifício no lado oeste da Broadway, entre Spring Street e Prince Street, conhecido por Chinese Museum. Após quatro meses intensos a dirigir os trabalhos de carpintaria e de pintura, encheu-o de curiosidades adquiridas a várias centenas de pequenas colecções e exibições. Instalou rapidamente as aberrações e a velha companhia de actores e, no dia 13 de Novembro de 1865, o Novo Museu Americano de Barnum abria as suas portas.

O único senão era a falta de relíquias, tendo-se perdido no incêndio muitas, grande parte delas insubstituíveis. Afim de adquirir mais, conseguiu uma viagem de $1. 200 para John Greenwood, Jr. mais uma vez seu assistente, a bordo de um vapor de 1. 800 toneladas, o Quaker City, que levava sessenta e dois passageiros no primeiro cruzeiro americano pelo Mediterrâneo, em Junho de 1867, culminando a viagem com uma peregrinação pela Terra Santa.

No vapor, Greenwood juntou-se a Moses Sperry Beach, proprietário do Sun, cujo pai dera garantias por Barnum, quando o mestre de espectáculos tentou comprar o Museu pela primeira vez, Bloodgood Cutter, o excêntrico poeta de Long Island, e Mark Twain, então com trinta e dois anos, na altura conhecido apenas por The Celebrated Jumping Frog of Calaveras County. Esta excursão agradável (Três quartos dos passageiros do Quaker City tinham entre quarenta e setenta anos de idade! Ora aí está um belo grupo para piqueniques! ", escreveu Mark Twain) levou os viajantes exaustos a Gibraltar, Marrocos, França, Itália, Grécia e à Palestina. O cruzeiro de cinco meses foi celebrado por Mark Twain no sucesso de vendas The Innocents Abroad, e apreciado por Barnum devido ao grande número de relíquias trazidas por Greenwood da Terra Santa.

Tendo melhorado a sua colecção de bricabraques, Barnum concentrou-se em fazer da sua colecção de animais a mais populosa da América. Havia leões e tigres em abundância, a única girafa do país e o mais pequeno elefante encontrado em África. Finalmente, em colaboração com a Van Ambrugh Menagerie Company, Barnum conseguiu o animal que mais desejava, um enorme e feroz gorila africano.

Embora Barnum tenha escrito que o gorila era tão forte que "dobrava as barras de ferro da jaula" e que uma vez agarrou num atiçador de brasas e o "dobrou como se fosse um pedaço de arame", outras testemunhas viam o gorila sob uma luz diferente. Uma delas, Matthew Hale Smith, escreveu em 1869 que via o animal como sendo "tão feroz como um gatinho pequeno". Vastas multidões foram atraídas pelo suposto gorila selvagem. Um professor da Smithsonian Institution visitou a exposição e pediu para falar com Barnum.

"É um belo espécime de babuíno, mas não é um gorila", disse o professor a Barnum.

"Por que razão não é ele um gorila? ", indagou o mestre de espectáculos.

O professor explicou que os verdadeiros gorilas não tinham cauda.

"Eu sei que os gorilas normais não têm cauda", replicou Barnum, "mas o meu tem, o que torna o espécime ainda mais notável."

Mais tarde, segundo a sua própria versão, Barnum declarou que os agentes tinham sido enganados, trazendo um babuíno por um gorila, e que reconhecera de imediato que o animal não passava disso mesmo. Embora continuasse a anunciar o animal como sendo um gorila, Barnum sabia que seria exposto em breve. Em antecipação do que viria a acontecer, escreveu uma carta humorística onde repreendia Paul du Chaillu, o primeiro a dar a conhecer ao mundo os pigmeus e os gorilas, após as suas explorações africanas, dizendo que, "uma vez que ele apenas tinha morto gorilas... nós capturáramos um exemplar vivo, trazendo-o em segurança, da África para a América. Informei-o ainda de que todos os gorilas que ele vira e descrevera não tinham cauda, ao passo que o nosso espécime ainda mais espantoso ostentava uma cauda com, à vontade, um metro e vinte de comprimento! ".

Mais uma vez, Barnum foi bem sucedido. O Novo Museu tinha mais sucesso do que o Niblo's Garden ou o Wallack's Theater. Partindo em busca de outro empreendimento, não tardou a descobri-lo. Isaac A. Van Amburgh, um domador de leões míope, cuja colecção itinerante de animais apresentava a maior caravana do país, morrera recentemente e os sócios necessitavam de alguém que o substituísse. Barnum ocupou esse lugar vago e, em breve, a colecção de animais no valor de $2. 000. 000 de Van Amburgh tornava-se um trunfo de sucesso na estrada. O pesadelo da Jerome Clock Company transformava-se numa mera recordação. Os "amigos esvoaçantes" regressavam. A popularidade de Barnum fora restaurada. Mas uma mancheia de indivíduos implacáveis permanecia sua inimiga.

James Gordon Bennett era um adversário perpétuo. Talvez reconhecesse em Barnum algo do seu próprio ser inferior, aquele defeito de carácter que explorou, embora desprezasse acima de tudo, e talvez o seu ódio fosse dirigido a si próprio. Barnum não parecia incomodar-se com as invectivas do editor antagonista. "Sempre considerei as calúnias de Bennett mais lucrativas do que os elogios", escreveu Barnum, "mesmo podendo ter os louvores ao mesmo preço, ou seja, por nada. Tornava-se especialmente rentável quando conseguia ser alvo de inúmeras linhas nos seus editoriais reprovadores sem qualquer custo, em vez de lhe pagar quarenta cêntimos por linha em anúncios, os quais não atrairiam uma décima parte da atenção. Bennett tentara prejudicar-me ocasionalmente durante vinte anos, chegando a recusar os meus anúncios durante um ano. Mas consegui sempre sair vencedor neste jogo."

A peleja de Bennett com Barnum atingiu o auge pouco depois de o antigo Museu ter ardido. Barnum contratou um agente imobiliário, um tal de Homer Morgan, para se desfazer dos restantes onze anos de aluguer da propriedade. Bennett estava ansioso para que o terreno fosse seu, a fim de construir um edifício maior para o jornal. Perguntou qual o preço do mestre de espectáculos, ao que este respondeu que o contrato valia $275. 000, mas que o venderia a Bennett por $200. 000. O editor, não pensando o suficiente no negócio, concordou e entregou a Barnum um cheque sobre o Chemical Bank no valor de $200. 000. Depois, por outros $500. 000, comprou o próprio terreno.

Ainda mal Bennett concluíra os negócios, leu nos periódicos rivais "que a soma que pagara por um lote de terreno que media apenas dezassete metros por trinta, fora a mais elevada alguma vez paga em qualquer cidade no mundo por um lote daquelas dimensões". Não só Bennett pensou imediatamente que tinha sido enganado, como o seu profundamente entranhado sentimento escocês de prosperidade foi abalado. Decidiu que Barnum avaliara incorrectamente a propriedade e enviou o advogado ao mestre de espectáculos, com o pedido de que os $200. 000 fossem devolvidos. Barnum recusou-se. "Não sou pessoa de voltar atrás com a palavra", foi a resposta.

No dia seguinte, os anúncios do Novo Museu Americano foram cancelados no New York Herald. Sem conseguir obter satisfações de Bennett, Barnum apresentou um protesto junto da New York Managers' Association. De imediato, todos os grandes teatros e centros de entretenimento da metrópole boicotaram o diário de Bennett. Este continuou a imprimir os anúncios do Niblo's Garden e do Wallack's Theater gratuitamente, tentando bajulá-los para que se afastassem do grupo que estava contra si, tendo Niblo e os restantes encabeçado os seus anúncios nos periódicos rivais com a legenda: "Este estabelecimento não anuncia no New York Herald".

Furioso, Bennett começou a difamar todos os gerentes que o haviam ofendido, assim como actores, cantores e bailarinos. Para espanto de Bennett, a publicidade negativa fez aumentar o negócio teatral por todo o lado. Na sua guerra de dois anos com Barnum, o editor perdeu $200. 000 em anúncios e contratos de impressão, bem como uma fatia considerável da tiragem, especialmente entre os leitores que desejavam notícias diárias sobre divertimentos. Finalmente, a contenda foi resolvida e todos voltaram a anunciar no Herald, excepto Barnum, que viu que o periódico não lhe fazia falta, decidindo que anunciar naquele jornal não valia o preço que custava.

Um inimigo mais dócil foi o imponente Henry Bergh, de ar fúnebre e sempre de sobrecasaca, amigo de todos os animais e inimigo de alguns homens, e fundador da Sociedade Americana para a Prevenção da Crueldade Contra os Animais. A prolongada disputa entre Bergh e Barnum possuía um tom de ópera cómica.

Bergh, que se formara na Columbia University, servira como diplomata na Rússia, antes de ficar possuído pela obsessão de proteger todos os animais irracionais. Aos quarenta e cinco anos, deu início à Sociedade. Um ano depois, em 1866, com o apoio de Horace Greeley, do comerciante rico Alexander Stewart e do inimigo de todos os que vestiam peles, John Jacob Astor, conseguiu forçar a aprovação de uma lei no Estado de Nova Iorque, a qual permitia que a Sociedade procedesse a detenções em todos os casos de crueldade para com os animais. Quando, no mercado, via tartarugas vivas com as barbatanas atadas, levava os proprietários a tribunal. Quando assistia a cavalos emagrecidos a puxar carruagens, detinha os veículos. Interferia em lutas de galos e de cães e substituiu os pombos vivos por aves de barro em todos os jogos de tiro ao alvo. As classes altas apoiaram-no até ao dia em que tentou eliminar a caça à raposa.

Barnum, o mais destacado importador de animais da América, era uma presa natural para Bergh. Quando o mestre de espectáculos exibiu um rinoceronte, Bergh exigiu que lhe fosse fornecido um tanque de água para nadar. Barnum teve de provar que o animal não era anfíbio. Quando Barnum mantinha as cobras vivas alimentando-as com sapos e lagartos, o grito angustiado de Bergh fez estremecer o Museu. Barnum teve de provar que sem sapos, as cobras morreriam. Quando o mestre de espectáculos alimentava as boas com pássaros e pequenos mamíferos vivos, Bergh chamou-o de "semibárbaro" e avisou-o: "Na próxima ocorrência desta cruel exibição, a sociedade tomará medidas legais para punir o perpetrador." Desesperado, Barnum apelou ao confiável professor Agassiz, ao que o nobre naturalista retorquiu: "Não conheço outra forma de induzir as cobras a ingerir a sua comida, que não de forma natural - ou seja, viva... Pelo que vejo, a sociedade de que fala defende que se evite a crueldade desnecessária contra os animais. É um objectivo louvável, mas duvido que os membros mais activos da sociedade se abstenham de comer salada de lagosta só porque a dita foi fervida viva..." Perante tal augusta autoridade, Bergh recuou.

O duelo final teve lugar em 1880, devido a uma actuação nova que fora amplamente publicitada por Barnum. Um cavalo amestrado, Salamander, iria saltar através de um arco em chamas. Bergh protestou "com base em crueldade para com o animal". Barnum desafiou Bergh a testemunhar a actuação. Em seu lugar, Bergh enviou um assistente, Hatfield, e sete assessores, bem como vinte agentes da polícia. Enquanto milhares de espectadores assistiam num estado de ansiedade, Salamander foi levado para a pista e os arcos foram incendiados. Com um gesto de grande desdém, Barnum, de cartola na mão, atravessou calmamente um dos arcos em chamas, sem queimar um único fio de cabelo. Foi seguido por dez palhaços e finalmente por Salamander. Posto isto, Barnum convidou o assistente de Bergh a testar a "crueldade" do arco em chamas. Hatfield acedeu, saindo incólume, tendo timidamente pedido desculpas em nome de Bergh.

Apesar do incómodo causado por esta meiga fanática, Barnum respeitava e nutria afecto por Bergh e respectiva cruzada. No seu testamento, Barnum deixou $1. 000 para que se erguesse uma estátua em Bridgeport, em honra de Bergh. Mas o verdadeiro monumento foi o seguinte: no início da sua carreira, nenhum estado ou território possuía leis contra a crueldade para com os animais; aquando da sua morte, em 1888, trinta e nove estados incluíam tais leis nos respectivos estatutos.

O regresso de Barnum à vida pública (prova de que a sua popularidade atingira o auge) foi dramatizada graças à entrada no mundo da política. Em 1852, recusara a nomeação democrata para governador do Connecticut. Em 1888, rejeitou a ideia de concorrer a presidente dos Estados Unidos sob a bandeira da lei seca. Ainda assim, acreditava na participação activa na política. "Sempre acreditei", escreveu, "que um homem que "não se interessa por política" não merece viver num país onde o governo se encontra nas mãos do povo."

Em 1865, Barnum foi eleito como republicano para a legislatura do estado do Connecticut pela cidade de Fairfield. A sua falta foi imediatamente sentida em Hartford. Dois candidatos concorriam ao lugar de presidente da Assembleia, sendo um deles apoiado pelo lobbyferroviário. Barnum juntou-se à oposição e, pela primeira vez, o até então invencível monopólio ferroviário foi derrotado.

Quando a Décima-Quarta Emenda para abolir a escravatura foi posta a votação, Barnum apoiou-a verbalmente e nas urnas. "A palavra "branco" na Constituição não pode ser entendida literalmente", declarou num discurso. "A oposição expressa um grande amor pelo sangue branco. Será que apenas vão permitir que um mulato tenha direito a meio voto, um quadroon57 a três quartos e um octaroon58 a sete oitavos? Se não, por que não? Irão escravizar sete oitavos de um homem branco, só porque esse oitavo não é caucasiano? Será que essa atitude é democrática? Será que a maioria sete não deveria controlar a minoria um? Fora com tal "democracia"!"

Quando um representante de Milford receou que a aprovação da Emenda viesse a encorajar os casamentos inter-raciais, Barnum replicou: "É bom que o cavalheiro se recorde que quando os seus filhos pedirem jovens negras em casamento, elas poderão ter uma

 

57 Indivíduo com um quarto de sangue negro.

58 Indivíduo com um oitavo de sangue negro.

 

palavra a dizer em objecção a tal pedido. É uma questão de gosto, e os gostos das mulheres de cor poderão não lhe ser favoráveis."

A sua luta contínua contra o lobby ferroviário de Nova Iorque e New Haven foi acompanhada por todo o estado. Opôs-se com veemência a uma proposta de lei destinada a aumentar a taxa de comutação e apresentou propostas de lei próprias, incluindo uma destinada a abolir a pena capital. A sua liberalidade e óbvia sinceridade conquistaram o apoio de muitos jornais neutros. Um deles escreveu com agrado: "O povo do Connecticut está em dívida para com ele por ter suplantado os grupos ferroviários que desde há tanto tempo infestavam a legislatura e que, por várias formas, tentaram controlá-la. Quando os membros da Câmara de Representantes regressarem a casa, será com uma ideia mais elevada sobre P. T. Barnum e o seu carácter franco, inteligente e recto..."

O currículo de Barnum foi tão satisfatório que, um ano mais tarde, foi reeleito para a legislatura. Em 1867, com maiores aspirações, concorreu pelos republicanos do Fourth District à Câmara dos Representantes, em Washington. Embora não gostasse do "trabalho sujo" da política ("apertar a mão de indivíduos que desprezo e beijar os bebés imundos das pessoas a quem se bajula em troca de votos"), sentiu-se atraído pela posição importante e concorreu energicamente contra o líder político local, que era seu oponente.

O Nation, na sua edição de 7 de Março de 1867, manifestou-se contra Barnum. Os democratas, diziam os editores do periódico, já tinham desgraçado o país ao eleger para o Congresso, vindo do Fifth District de Nova Iorque ("graças aos votos dos estrangeiros ignorantes"), o ex-pugilista irlandês John Morrissey, que derrubara John C. Heenan em onze assaltos para vencer o campeonato americano de pesos-pesados, e agora os republicanos saíam- se com algo ao mesmo nível. Barnum, diziam os editores, "é a personificação (e, longe de o esconder ou negar, ele gaba-se disso) de um certo tipo reles de intrujão... Se ir ver coisas estranhas ou bizarras é honroso ou instrutivo, então será honroso coleccioná-las e exibi-las. E, se Barnum se tivesse limitado a isso, mesmo que não o escolhêssemos para legislador nem gostassemos de o ver no Congresso em representação do Estado de Nova Inglaterra, não o acusaríamos, como fazemos agora, de ter sido, ao longo de vinte ou trinta anos, uma influência para a depravação e para a desmoralização".

Mas não era preciso o Nation preocupar-se. Avizinhava-se uma avalancha democrata, que veio a assolar o Connecticut, e Barnum deu consigo soterrado. Os apoiantes bradaram fraude, argumentando que se tinha subornado e transportado votantes de outros estados, mas não se provou qualquer irregularidade e a eleição continuou válida. Só em 1877 Barnum veio a deter outro cargo político, tendo sido eleito em Bridgeport para a assembleia geral do Connecticut. No ano seguinte foi reeleito.

A aventura política que lhe deu mais satisfação foi a eleição, no dia 5 de Abril de 1875, por uma margem de cento e quarenta e um votos, como mayorde Bridgeport. Ocupou o cargo durante um ano preenchido e agitado. O Farmer, um jornal democrata, queixou-se: "O seu forte tem sido o disparate e a interjeição de comentários pessoais durante os debates, atitude nada própria de um parlamento." Mas o eleitorado gostava dele. O mayorBarnum opôs-se às licenças para venda de bebidas alcoólicas e procedeu ao encerramento dos saloons aos domingos. Defendia serviços de utilidade pública mais baratos. Exigiu um melhor abastecimento de água e pediu banhos públicos. Fez com que a fruta fosse vendida ao peso e não à medida. Atacou a discriminação dos sindicatos em relação aos negros. Tentou reduzir o desemprego, convencendo a população de que qualquer trabalho era melhor do que a devoção inútil ao baseball e ao bilhar. "Existem demasiadas mãos (e cabeças) frouxas à espera de um trabalho pequeno por um salário grande", disse.

A mais acérrima cruzada de Barnum enquanto mayor, foi contra as casas locais de prostituição. Ordenou peremptoriamente que o chefe da polícia encerrasse todos os bordéis de Bridgeport num prazo de vinte e quatro horas. Se o chefe demonstrasse qualquer hesitação, seria o próprio Barnum a fechá-las. Visivelmente contrariado, o chefe visitou duas das casas, leu a ordem de Barnum em voz alta e recebeu a garantia de ambas as madames de que as "internas" seriam mandadas embora de imediato. Contudo, quando os apoiantes do chefe declararam na imprensa que o próprio mayor Barnum possuíra três casas em Nova Iorque "que eram alugadas com propósitos indecorosos, " Sua Excelência ficou furiosa. Barnum negou alto e bom som ter sido dono de qualquer bordel, tendo-se dedicado abruptamente a outros assuntos municipais. Presume-se que as "internas" de Bridgeport tenham regressado às suas casas.

Na sua última reunião municipal, o mayor Barnum concluiu o mandato com uma nota característica: "Cavalheiros", disse, "agora que estamos prestes a encerrar os nossos trabalhos com um espírito de harmonia e nos despedimos em termos amigáveis, apenas nos resta, tal como aos árabes "enrolar as tendas e escapulir-nos em silêncio", com o orgulho de ser essa a única vez em que temos de nos escapulir."

Desde o momento em que conseguiu recuperar a sua posição e fortuna, Barnum sonhava em fazer reviver a antiga glória que fora Iranistan. Finalmente, em 1860, construiu a sua nova habitação, apenas a quinhentos metros a oeste do local onde o palácio oriental em tempos se erguera. Segundo uma sugestão do amigo Bayard Taylor, o "maravilhoso local" foi baptizado com o nome Lindencroft. Comparada com o que conhecera no passado, era relativamente pequena e conservadora. Mesmo destacando com orgulho que "predominava a elegância pura e simples", era fácil de ver que o seu coração não se encontrava naquela casa.

Entretanto, procurou uma residência em Nova Iorque, pois preferia a cidade para passar o Inverno. "Existe uma certa satisfação", disse, "mesmo nos passeios limpos após uma tempestade de neve, e uma felicidade quase egoísta em observar a dita a partir da janela de uma biblioteca aconchegante ou de uma sala de visitas. Gostamos de encontrar os jornais matutinos, acabados de sair das máquinas, sobre a mesa do pequeno-almoço. E a cidade é o centro das atracções no que diz respeito a óperas, concertos, galerias de arte, bibliotecas, à melhor música e às melhores oratórias..." Afim de satisfazer esta necessidade, Barnum gastou $80. 000 para adquirir uma casa na Fifth Avenue.

Em breve, Lindencroft era abandonada de vez. A saúde de Charity continuava fraca e o médico sugeriu que ela deveria viver perto da água. Com prazer, Barnum desfez-se de Lindencroft e planeou uma mansão que fosse mais representativa dos seus gostos. Em 1869, em Seaside Park, um subúrbio de 210 acres em Bridgeport (quatro anos antes, Barnum doara uma pequena porção do terreno à cidade), nascia o amplo, ornamentado e vistoso castelo de Waldemere, "Bosque junto ao mar".

Waldemere era um produto do amor. A estátua de um índio pacificado recebia os visitantes no portão exterior. A seguir a uma fonte, e entre as nogueiras e inúmeros leitos de flores, erguia-se o edifício em espiral que terminava em cúpula, e que fazia lembrar um hotel de Saratoga.

Em 1877, um inglês convidado de Waldemere publicou no jornal londrino Worldas suas impressões: "A casa em si não é de fácil descrição, sendo uma curiosa mas agradável mistura de arquitectura e decoração gótica, italiana e francesa, apresentando uma frente de cinquenta metros até à água, desfrutando a maioria dos quartos de uma excelente vista. Ao entrar, ficamos espantados com a vastidão dos salões e dos quartos. É possível respirar tão bem no interior como ao ar livre. Nada é pequeno ou constrangido... Quadros de grande mérito encontram-se pendurados nas paredes e expostos em cavaletes. Jarras chinesas de um estilo singular e maravilhoso guardam as lareiras. Bustos e estatuetas preenchem todos os cantos e recantos. As estantes enormes não chegam para albergar as obras mais recentes, enquanto prateleiras e étagères59 exibem bricabraques numa confusão artística... Num lugar de honra, sobre um pedestal, ergue-se um busto em mármore de Jenny Lind... Um suporte de canto numa sala acolhedora exibe um pequeno Baco pário - um presente de Natal do Rouxinol sueco para Mr. Barnum, ridicularizando de forma bem humorada os seus princípios e práticas abstémias. Numa étagère60 nesta mesma sala observam-se modelos em mármore da mão e do pé de Tom Thumb, feitos na altura de menor dimensão e maior fama... A mansão é atravessada por uma verdadeira rede de canos de água, não havendo quase um único quarto sem a sua própria casa de banho e lavatório."

Os quartos de hóspedes pareciam nunca mais acabar e muitos tinham o nome dos frequentadores mais habituais. Um dos mais

 

59 Em francês, no original.

60 Em francês, no original.

 

confortáveis era o "quarto Greeley". Horace Greeley fazia visitas amiúdes e Barnum era-lhe muito dedicado. "Uma vez disse-me", comentou Joel Benton, "que lhe custava ver Mr. Greeley omitir aqueles pequenos cuidados aos quais tinha todo o direito no final da vida. Por isso, quando era seu hóspede por vários dias seguidos, fazia questão de lhe providenciar um roupão folgado e chinelos confortáveis, não o deixando sentar-se acidentalmente numa cadeira normal, reservando-lhe sempre a mais cómoda."

A cozinha situava-se no exterior para que os odores pudessem manter-se afastados da casa. Carreiros dirigiam-se ao chalé construído para residência de Caroline e Thompson, o "Ninho da Petrel", e a "Wavewood", o lar de Pauline e Seeley. Apenas a filha Helen resistia à vida feudal. Um sistema de iluminação a gás fornecia luz aos chalés e à casa principal. Nos estábulos encontrava-se gado importado da Holanda, e nas cavalariças cavalos de puro sangue. Alarmes magnéticos contra ladrões cercavam a propriedade, existindo um telefone directo para a polícia. Tal como o amigo Mark Twain, o primeiro autor a utilizar uma máquina de escrever, Barnum era célere na adopção de todas as invenções modernas. Não perdera tempo para instalar um dos primeiros telefones da América. Quando o anfitrião estava em casa, uma flâmula de seda com as iniciais "P. T. B." adejava na haste de bandeira sobre a cúpula de vidro.

Tudo era serenidade em Waldemere até à manhã do dia 3 de Março de 1868. Barnum lia o jornal ao pequeno-almoço, prestando atenção moderada à esposa e às convidadas do outro lado da mesa. De súbito, os olhos ainda pousados no jornal, falou em voz alta. "Olá! ", exclamou. "O Museu Barnum ardeu."

Era verdade. Durante a noite (uma noite de Inverno tão fria que a água das mangueiras congelava quando batia nas paredes de granito da casa de espectáculos da cidade), o Novo Museu Americano tivera o mesmo destino do antigo. Quando as chamas foram extintas, o Museu era uma casca oca de carvão e picos de gelo. A maioria dos animais valiosos tinha morrido e a colecção de curiosidades desaparecera. A colecção valia $288. 000. O seguro era de $160. 000.

Barnum já não desejava tentar o destino. Tinha cinquenta e oito anos de idade e era milionário. Finalmente decidiu aceitar o antigo conselho de Horace Greeley e "dedicar-se à pesca". Poucas semanas após a perda do Museu, anunciou a sua retirada. Ficaria espantado se soubesse que à sua frente aguardava uma aventura final, aquela que imortalizaria o seu nome no mundo do espectáculo.

 

         EXIBIÇÃO - DEZ JUMBO

Durante dois anos, entre o Verão de 1868 e o Verão de 1870, Barnum descansou e evitou qualquer enredo de negócios. De início apreciou o ócio. Orgulhava-se de poder dizer aos amigos que não mantinha um escritório em Nova Iorque, acrescentando: "Já trabalhei o suficiente, e agora irei divertir-me até ao fim dos meus dias." Do agradável recesso do estúdio octogonal apainelado a madeira, observava os vizinhos abastados, banqueiros e comerciantes, a atravessar as intempéries para se dirigirem ao trabalho em Bridgeport, e sentia-se contente por não se contar entre eles.

Todavia, eventualmente esta hibernação começou a pesar-Ihe. "Ler é um passatempo agradável", decidiu. "Escrever sem um propósito definido acaba por cansar. Um jogo de xadrez serve de condimento. Palestras, concertos, óperas e festas têm o seu encanto. Mas, para um homem saudável e robusto com uma carreira empresarial de quarenta anos, é preciso mais alguma coisa para se sentir realizado. Por vezes, qual rapazinho da escola, vejo-me com todos os amigos ocupados e sem parceiro de brincadeira."

Enchia Weldemere de convidados, mas havia muitas "noites de solidão" com Charity, inválida, e essas não conseguia suportar. Aproveitava todas as oportunidades para apresentar uma palestra, em qualquer lugar, sobre qualquer tópico, para qualquer causa. Ainda assim, "o tempo pesava-me nas mãos" e, em desespero, procurou absorver-se em viagens.

Fez uma longa excursão a Cuba, com velhos amigos, e depois ao Sul destroçado, voltando a casa pelo estado de Washington. De seguida, com outro pequeno grupo, Barnum embarcou num comboio com destino à Califórnia. Agendara três palestras pelo caminho, uma delas em Salt Lake City.

Duas décadas antes, Brigham Young, o líder mórmone, guiara corajosamente o êxodo do seu povo perseguido a partir do Illinois, acabando por fundar Salt Lake City. Por duas vezes fora nomeado governador do Utah. Em 1852, Young tornara pública a doutrina do casamento plural, ou poligamia, como dogma dos Santos dos Últimos Dias, ficando notório por isso. Certa vez recebeu Horace Greeley, que achou o déspota como sendo de boa índole e iletrado. Durante a entrevista de duas horas, Greeley perguntou a Brigham Young: "Qual o maior número de mulheres que pertence a um único homem?" Young replicou: "Eu possuo quinze. Não conheço ninguém que tenha mais. Mas algumas das que estão comigo são idosas que vejo mais como mães do que como esposas, mas que levei para minha casa para estimar e apoiar." No seu auge polígamo, Young, que vulgarmente proferia comentários indecorosos em relação às mulheres, tinha vinte e sete esposas, segundo números de uma das filhas, e cinquenta e seis descendentes ainda vivos, trinta e um dos quais raparigas.

Quando Barnum apresentou a palestra no Salt LakeTheatre, mais de uma dezena das esposas de Brigham Young encontravam-se na assistência. "Ao sair do teatro", recordou Barnum, "um dos Apóstolos apresentou-me a cinco das suas esposas de seguida! As mulheres mórmone que visitei na companhia dos seus maridos declararam-se satisfeitas com a sua posição. Mas tenho de confessar que duvido da sinceridade dessas palavras. Todas as mulheres com quem o nosso grupo conversou (e algumas das nossas acompanhantes falaram com estas esposas mórmone em segredo) expressaram a convicção solene de que a poligamia era o verdadeiro sistema doméstico sancionado pelo Todo Poderoso, embora tenham confessado que gostariam que fosse correcto para um homem possuir apenas uma única esposa."

Sempre interessado em curiosidades, Barnum estava ansioso por conhecer Brigham Young, que até mesmo os gentios consideravam um dos mais importantes colonizadores e estadistas americanos. Em breve recebeu o convite. Na mansão presidencial, a Colmeia, Brigham Young aguardava, todo ele amabilidade.

Após alguma conversa de ocasião, Brigham Young perguntou subitamente, num tom leve: "Barnum, quanto me dá para me exibir em Nova Iorque e nas cidades da Costa Leste?"

"Bem, Sr. Presidente, dou-lhe metade das receitas, as quais garanto serão de $200. 000 por ano, pois considero-o o melhor espectáculo da América."

"Por que motivo não me contratou há alguns anos, quando ainda não era importante? ", indagou Young.

"Porque nessa altura não teria atraído ninguém", foi a resposta de Barnum.

Prosseguindo para ocidente até São Francisco, onde passou uma semana, Barnum descobriu que o interesse enquanto mestre de espectáculos interferia com o seu turismo. Quando via gigantescos leões marinhos, alguns deles pesando uma tonelada, reunidos em Seal Rock, pensou que possuir dez deles lhe valeria $50. 000. Quando conheceu um anão de nove anos ainda mais pequeno do que Tom Thumb fora com essa idade (chamava-se Leopold Kahn e falava alemão tão fluentemente como inglês), Barnum foi incapaz de resistir. Contratou o anão, baptizou-o de Almirante Dot, mostrou-o durante três semanas em São Francisco e depois levou-o para leste, apresentando-o como "O Elfo do El Doradd'. Ao mesmo tempo, Barnum tornou-se sócio comanditário da aventura à volta do mundo de Lavinia e Tom Thumb, bem como da mostra de Anna Swan e dos Gémeos Siameses em Inglaterra.

Exteriormente, continuava a tentar manter a ficção do afastamento. Após três meses inquietos em Waldemere, juntou-se a um grupo de dez homens que partiam para o Kansas, a fim de caçar búfalos. O seu amigo coronel George A. Custer, sete anos antes de Little Big Horn, era o comandante de Fort Hayes. Recebeu Barnum como se de realeza se tratasse, ofereceu-lhe cavalos e carabinas e uma escolta de cinquenta soldados da cavalaria. Barnum e os companheiros investiram sobre uma manada de búfalos que pastavam calmamente e abateram vinte animais. Quando o desporto se transformou em "massacre gratuito", a caçada foi cancelada.

Mais uma vez em Waldemere, Barnum decidiu que as caçadas aos búfalos "não podiam tornar-se o prato do dia", que era inútil continuar a tentar "domar energias características da minha natureza" e que precisava de trabalhar, como "válvula de escape". Assim sendo, no Outono de 1870, com a discrição de uma bala disparada de um canhão, Barnum abandonou a reforma. Nunca mais voltaria a permitir-se vegetar um dia que fosse, nas duas décadas que se seguiriam. Para o regresso ao mundo do espectáculo, não escolheu o museu permanente nem uma única exibição, mas o entretenimento ao qual o seu nome ficaria para sempre associado: o circo.

Barnum, que sempre se considerara um promotor e "um homem de museu", e não "um homem do circo", conquistara o seu maior sucesso antes da entrada no mundo circense. Apenas os últimos vinte anos da sua longa vida foram dedicados à lona e à serradura. Só no sexagésimo aniversário é que veio a tornar-se um proprietário de circo a tempo inteiro. Persiste o erro de que foi Phineas T. Barnum a inventar o circo. Nada poderia estar mais longe da verdade. Deu ao circo a sua dimensão, as mais memoráveis atracções, e a sua mais vasta popularidade. Mas, enquanto forma de diversão, o circo existia já muito antes de Barnum. Nos dias da outrora, na antiga Creta, no Egipto, na Grécia e em Roma, havia circos. O circo moderno foi criado em Inglaterra por um soldado da cavalaria alto e elegante, Philip Astley, que mostrou actuações equestres na sua arena exterior, e, mais tarde, acrescentou palhaços, a corda bamba, acrobatas e uma banda de três elementos. Nos Estados Unidos, o primeiro circo moderno foi apresentado num anfiteatro de Filadélfia por um cavaleiro inglês chamado John Bill Ricketts. Em 1793, o presidente Washington assistiu por duas vezes ao circo de Ricketts, a fim de apreciar os cavalos amestrados, o equilibrista e o palhaço. Pouco depois, Washington vendeu a Ricketts um cavalo branco de vinte e oito anos, veterano da Revolução, chamado Jack, por $150. Ricketts valorizou muitas vezes o investimento exibindo a relíquia de quatro patas.

A única experiência anterior de Barnum com um circo itinerante fora durante a juventude empobrecida, quando viajara pelo Sul com Aaron Turner, o qual concedera ao entretenimento primitivo a sua tenda. Agora, a convite de William Cameron Coup, um antigo trabalhador não qualificado e gerente de circo de aberrações, e de Dan Castello, antigo palhaço, Barnum preparava-se para entusiasmar o seu antigo público com o maior circo exterior da história.

Embora tenha acabado por se perder no brilho faiscante do grande nome do sócio majoritário, o elegante e barbado Coup foi o principal impulsionador do novo empreendimento. Nascido no Indiana, Coup fora impressor e empregado de vários circos. Tentou assentar numa fazenda no Wisconsin, mas Castello atraiu-o para a promoção de um espectáculo flutuante ao longo dos portos dos Grandes Lagos. Foi nesta altura que Coup pensou em utilizar o nome, o dinheiro e o génio na contratação de atracções de Barnum para criar um circo mais imponente do que qualquer outro até então.

No dia 10 de Abril de 1871, o "grande empreendimento circense" de Barnum, Coup e Catello estreou-se em Brooklyn, sob uma tenda de lona de três acres. À luz trémula do gás, dez mil espectadores espreitaram os animais, as aberrações, as curiosidades, a parada e as actuações circenses propriamente ditas. Depois, o circo fez-se à estrada, desde a Nova Inglaterra pelo Midwest, até à Califórnia. Por todo o lado, Esau, o rapaz de barba, o Coronel Goshen, o gigante, e o Almirante Dot, o anão de sessenta e dois centímetros (que em breve abandonaria o mundo do espectáculo para abrir um saloon, frequentado por John L. Sullivan, em White Plains, no estado de Nova Iorque), foram recebidos com espanto. Nessa primeira temporada, as receitas ascenderam aos $400. 000.

Barnum gostava de dizer que tornara o circo cada vez maior ignorando os protestos receosos de Coup. "Para horror do meu apto, mas demasiado cauteloso gerente, Mr. W. C. Coup", escreveu Barnum na autobiografia, "... aumentei de tal forma as já inúmeras atracções, que se tornou mais do que óbvio que não poderíamos viajar por menos de cinco mil dólares por dia mas, destemido, continuei a despender milhares de dólares, tendo recebido navio após navio de animais raros e valiosos e de obras de arte."

E ainda: "Ao perceber que a minha enorme colecção assumia dimensões tais que seria impossível transportá-la apenas com a força dos cavalos, negociei com todas as empresas ferroviárias entre Nova Iorque e Omaha, no Nebraska, pois o transporte do meu espectáculo por comboio exigia sessenta a setenta vagões de mercadorias, seis carruagens de passageiros e três locomotivas."

A versão de Coup, corroborada por testemunhas imparciais, era diametralmente oposta. Foi ele quem venceu a timidez de Barnum, um conservadorismo aparentemente conseguido pela idade, a fim de transformar o circo no mais ricamente organizado da América. Foi ele quem acrescentou à "BarnurrVs GreatTraveling World's Fair", como veio em breve a chamar-se ao circo, atracções tão dispendiosas como Ben Lusbie, "o bilheteiro relâmpago", que conseguia vender seis mil entradas de cinquenta cêntimos numa hora; o audaz aeronauta Washington H. Donaldson, do Maine, que realizava subidas de balão duas vezes por semana (até que desapareceu durante uma tempestade sobre o lago Michigan, acompanhado por um jornalista de Chicago); uma girafa rara; uma foca de meia tonelada; uma cabra italiana que cavalgava um cavalo em pêlo; e quatro canibais selvagens das Fiji, que tinham sido salvos de uma panela inimiga (e os quais Henry Ward Beecher se recusava a visitar durante a "hora do almoço").

Para além disso, foi Coup quem suplantou a oposição horrorizada tanto de Barnum como das empresas ferroviárias no que dizia respeito à utilização de vagões de plataformas rebaixadas para transportar o circo. Em 1901, Coup escreveu: "Antes de 1872, não existia algo como um "circo ferroviário". Tal como todos os outros dessa altura, o grandioso espectáculo do qual era gerente viajava em carroças... Claro que nos exibíamos em cidades de todos os tamanhos e as nossas receitas diárias variavam entre $1. 000 a $7. 000. Sabendo que as receitas das cidades maiores eram normalmente duas a três vezes superiores às das localidades mais pequenas, convenci-me de que poderíamos pelo menos duplicar o lucro se ignorássemos as povoações mais reduzidas e viajássemos apenas entre cidades grandes... Foi esta a razão que me levou, na temporada seguinte, a querer transportar o circo de comboio. Com este fim em vista, entrei de imediato em contacto com os responsáveis de diferentes companhias ferroviárias, perguntando se nos poderiam acomodar..."

Também foi atribuído a Coup a invenção de um sistema mais eficiente para carregar e descarregar os comboios, a inauguração de excursões que traziam espectadores de municípios vizinhos, a instalação do poste central na tenda, e a concepção de um circo de duas pistas, substituindo o antigo sistema de pista única. Quando Barnum, indo contra o seu próprio conselho oferecido havia tantos anos, tentou limitar a publicidade, Coup afixou sozinho cartazes dentro de um raio de oitenta quilómetros de cada espectáculo. Durante a segunda temporada, o circo facturou quase um milhão de dólares em seis meses.

Segundo Barnum, desde há muito que sonhava com a ideia de uma estrutura circense permanente na cidade de Nova Iorque, que se chamasse o Grande Hipódromo Romano. Durante uma estadia na Europa, em 1873, com o objectivo de procurar novas atracções, soube por Coup que a localização perfeita, um quarteirão inteiro entre a Fourth Avenue e a Madison Avenue, se encontrava disponível. Barnum respondeu a Coup, para que este alugasse o terreno e nele construísse um imenso coliseu coberto, de sessenta por cento e vinte e cinco metros. Todavia, segundo Coup, foi ele quem sugeriu o Hipódromo durante a ausência de Barnum, tendo este rejeitado prontamente a extravagância. Quando Coup ameaçou avançar com o projecto com outros financiadores, Barnum acabou por ceder.

Seja como for, o Grande Hipódromo Romano de P. T. Barnum (com Coup enquanto gerente e Castello como director de diversões) abriu ao público em Abril de 1874. No dia da estreia, os dez mil lugares estavam preenchidos. Uma grandiosa procissão de carros triunfais, transportando mil artistas que representavam monarcas e governantes históricos de todo o mundo, percorreram a arena. Depois seguiram-se corridas de bigas, ao estilo de Ben Hur, em redor de uma pista oval com trezentos metros de comprimento. Finalmente, chegavam os equilibristas, os acrobatas japoneses, as corridas de macacos e os palhaços.

O gigantesco espectáculo do Hipódromo, que mais tarde partiu em digressão, foi um sucesso a todos os níveis. Mas agora, Barnum e Coup, cuja saúde se encontrava afectada devido ao excesso de trabalho, desentendiam-se. De forma pouco assisada, Barnum alugara o uso do seu nome famoso a um colega abstémio, um jovem irlandês gordo e asmático chamado John "Pogey" O'Brien, proprietário de um circo reles. Na estrada, o espectáculo de Barnum com Coup competia com o espectáculo de Barnum com O'Brien, ao mesmo tempo que os circos rivais bradavam na imprensa: "Espectáculo de Barnum Divide-se!" Coup considerava que isto diminuía o valor do nome de Barnum e ficou furioso. Castello já vendera a sua parte a Barnum e agora Coup fazia o mesmo.

Dois anos mais tarde, em parceria com um alemão chamado Charles Reiche, Coup construiu o New York Aquarium, de $500. 000, na Broadway. Quando ele e o sócio discordaram sobre os espectáculos ao domingo (Coup era contra), Coup sugeriu que se separassem, após terem lançado uma moeda ao ar, a fim de determinar quem ficaria com o valioso Aquarium e quem receberia uma mancheia de animais como consolação. A moeda foi lançada. Coup perdeu. Recolheu os seus animais, acrescentou a estes uma baleia branca, zulus verdadeiros e um batalhão zuavo, e partiu a bordo dos seus adorados comboios. Ironicamente, ficou arruinado devido a um acidente ferroviário, acabando por morrer na Florida, pobre e esquecido.

Entretanto, Barnum sofrera uma mudança abrupta na sua vida pessoal. Enquanto se encontrava em Hamburgo a comprar avestruzes e girafas para o novo Hipódromo, recebeu um cabograma do genro, Samuel H. Hurd, informando que Charity morrera.

Após um ataque de paralisia, a companheira de Barnum durante quarenta e quatro anos morrera na casa de Nova Iorque da filha Caroline, às duas horas da tarde do dia 19 de Novembro de 1873, com a idade de sessenta e cinco anos. No dia seguinte, na página três, o Daily Standard de Bridgeport declarava: "Durante muitos anos, Mrs. Barnum foi uma inválida e sofreu bastante, e a sua morte, embora repentina, não foi totalmente inesperada. Era uma mulher de dons naturais elevados e foi a valiosa e adorada companheira de seu marido desde 1829, ou quase meio século.

Estando ausente no estrangeiro, é de todo impossível a presença deste na última despedida àquela que durante tanto tempo manteve consigo a mais próxima e mais abençoada relação terrena."

Um Barnum pesaroso tratou dos serviços fúnebres e do enterro de Charity por cabo. Embalsamada em Nova Iorque, os restos mortais foram enviados para Bridgeport por comboio. Depois, jazendo num dispendioso caixão de pau-rosa, com rosas brancas na cabeceira e aos pés soletrando as palavras "Mãe" e "Charity", ficou em câmara ardente para as filhas, netos e amigos, num salão de Waldemere. Após os presentes terem cantado "Praise God from Whom ali blessings flow", foi levada para um sepulcro no Mountain Grove Cemetery, a fim de aguardar pelo regresso do marido.

Na Alemanha, longe da família, entre estrangeiros e estranhos, Barnum sofreu, segundo disse, "de uma profunda solidão". Sobre este período, escreveu: "Por mais que estivesse habituado a pensar que Deus é bom, e que os Seus caminhos são sempre correctos, que Ele faz vencer o bem sobre o mal, e que nos castiga "para nosso proveito", confesso que o "túnel" parecia tão negro que era difícil de acreditar que poderia haver uma "luz ao fundo". E a minha língua ficou presa, quando tentei dizer, como todos o devemos fazer sem hesitações, "Seja feita a Vossa vontade". Permaneci no meu quarto durante vários dias e, no sábado em que sabia que as minhas filhas e amigos acompanhavam os seus restos ao nosso belo Mountain Grove Cemetery, curvei a minha cabeça solitária e as minhas lágrimas correram em uníssono com as deles..."

Barnum cancelou os planos de viagem para a Itália, regressando à sua Londres favorita, a fim de passar "várias semanas sossegadas". Poderá acrescentar-se que perto de Londres vivia a bonita inglesa quarenta anos mais jovem, a quem amava e com quem viria a casar-se daí a dez meses.

Nancy Fish, a segunda esposa de Barnum, tinha oito anos quando ele a conheceu, na altura com quarenta e oito. Na sua autobiografia revista, honrou o sogro, um dos seus maiores admiradores, com um capítulo inteiro, intitulado "Um Inglês Empreendedor". John Fish fora um operário pobre em Manchester até se deparar com um exemplar de The Life of P. T. Barnum, Written by Himself. Ao ler o livro, Fish pensou que vira "um espírito agradável e um bom coração" sob o "exterior mais rude" do autor. O melhor de tudo foi a inspiração dada pelo exemplo de Barnum. Tal como Fish mais tarde lhe diria: "Pensei para comigo, "Por que razão não avanço e faço dinheiro, tal como Barnum fez? Ele começou sem dinheiro e foi bem sucedido; por que não poderei fazer o mesmo? ". Seguindo este raciocínio, dirigi-me à redacção de um jornal e publiquei um anúncio procurando um sócio com verba para se juntar a mim na criação de uma fiação de algodão." O sócio apareceu, a fábrica de mil teares foi construída e, em breve, Fish era um homem de posses.

Em 1858, Barnum apresentou uma palestra em Manchester. John Fish dirigiu-se-lhe, todo ele gratidão e reverência, e rapidamente eram grandes amigos. Nancy, a atraente filha de Fish, mostrou a mesma reverência na presença do grande mestre de espectáculos. Quando Fish instalou uma máquina nova na fábrica e anunciou que se chamaria "Nancy", a criança exigiu que se chamasse "Barnum".

Uma vez, Barnum escreveu a Fish dizendo que queria que se investigasse um gigante francês de dois metros e quarenta. O futuro sogro correu para Paris, de régua no bolso. Descobriu que o gigante tinha pouco mais de dois metros e dez e que utilizava um tacão bastante grande nas botas para parecer mais alto, pelo que não foi contratado.

Em 1868, durante o afastamento de Barnum em Waldemere, Fish e a filha fizeram a primeira visita aos Estados Unidos. Por essa altura, Nancy Fish amadurecera e era uma jovem bonita e elegante de dezoito anos. Era loura, de olhos expressivos e nariz aquilino, queixo proeminente e "com a pele mais espantosa do mundo". Barnum sempre gostara de inglesas. Na North American Review, escrevera: "Têm um ar extremamente saudável, não podendo as nossas mulheres ser comparadas com elas. As mulheres do campo que vêm de suas casas para Londres têm um rosto tão rosado e rubicundo que poderíamos jurar que eram pintadas, caso não soubéssemos o contrário. E são extremamente bem desenvolvidas a nível de formas." Agora, em Waldemere, Barnum comparou, sem dúvida, esta rapariga inglesa viva e atraente de dezoito anos com a sua esposa enfraquecida e inválida de sessenta.

As visitas queriam ver os Estados Unidos e Barnum insistiu em ser o seu guia. Levou-os, em primeiro lugar, a Cuba e, quando viram o incrível vale de Yumuri, perto de Matanzas, Barnum ficou comovido "ao ver lágrimas de alegria e gratidão correrem pelas faces da jovem dama inglesa". Juntos, visitaram Nova Orleães, Louisville, e as cataratas do Niágara. Talvez tenha sido a proximidade de Nancy que fez Barnum admitir mais tarde: "Vi beleza e grandiosidade em cenas para que antes olhara sem entusiasmo."

Em Liverpool, em 1873, Fish encontrou Barnum durante a viagem do Hipódromo. A imponente casa de Southport, local de nascimento de Nancy, ficava a trinta quilómetros de distância. Barnum passou aí vários dias com Fish e Nancy, prosseguindo depois para o Continente, onde viria a saber que era viúvo. Dez meses mais tarde, no dia 16 de Setembro de 1874, Barnum contraiu matrimónio com Nancy Fish na Church of the Divine Paternity, na Fifth Avenue de Nova Iorque, com o reverendo Mr. Chapin, inimigo dos bebedores moderados, a conduzir a cerimónia. Seguiu-se uma breve lua-de-mel e a segunda Mrs. Barnum mudou-se para Waldemere. Tinha vinte e quatro anos, sendo mais nova do que qualquer das três enteadas já casadas, e Barnum sessenta e quatro.

Os dezassete anos que Barnum viveria com Nancy encontram-se entre os mais felizes da sua vida. Um hóspede inglês, após ter visitado Barnum e Nancy, contou aos leitores do World londrino: "O bom gosto presente nos ornamentos de Waldemere deve-se a Mrs. Barnum, que é bastante estimada pelas melhores famílias de Bridgeport, como sendo uma anfitriã encantadora, uma conversadora inteligente e agradável e uma boa vizinha e amiga. As filhas de Mr. Barnum encaram-na como um tesouro que se veio juntar ao seu prazer e à felicidade e conforto do pai. Quanto a Mr. Barnum, o seu rosto redondo irradia mais sorrisos quando se encontra junto dela. Nunca parece mais feliz do que quando a escuta a tocar música de ópera no piano de cauda, quando passeia a seu lado no landau da família, indo e regressando da igreja, em Sea-side Park ou nas inúmeras avenidas agradáveis nos arredores de Bridgeport."

No seu papel de esposa perfeita, Nancy teve de se habituar ao sentido de humor do marido. Em muitos serões ficava sentada a seu lado, "espantada" (a palavra é de Barnum) com as histórias engraçadas trocadas entre o mestre de espectáculos e os seus amigos, em especial as contadas pelo reverendo Mr. Chapin, um narrador inveterado.

Uma vez, após a saída dos convidados, Nancy perguntou ao marido: "Acha que estas histórias que foram contadas pelo reverendo Chapin e pelos outros eram mesmo verdade, ou foram inventadas?"

"É claro que não são absolutamente fiéis à verdade", respondeu Barnum. "Todas as anedotas são exageradas. Caso contrário, não teriam piada."

"Bem, acho que não faz sentido rirmo-nos de uma mentira", proferiu Nancy com solenidade.

Barnum dedicou-se rapidamente ao desenvolvimento do gosto da jovem esposa pelo disparate. "Ainda não estávamos casados havia três anos", escreveu ele mais tarde, "e já se tornara a mais inveterada das brincalhonas." Quando John Fish, o pai sóbrio, veio de Inglaterra para os visitar e perguntou por que motivo os ovos servidos ao pequeno-almoço não eram frescos, Nancy surpreendeu-o ao retorquir: "As nossas galinhas são todas velhas e não conseguem pôr ovos frescos."

Orgulhoso, em 1890 Barnum pôde relatar o progresso de Nancy, na Murray's Magazine de Londres: "Devo dizer que ela é bastante perspicaz quando lhe apresentam piadas, adivinhas ou enigmas. Possui a faculdade de resolver qualquer enigma que lhe seja proposto e, quando falha a resposta certa, normalmente apresenta outra ainda melhor do que a original."

Em dada ocasião, Barnum perguntou-lhe: "Porque é que a cauda de um cão é parecida com um velho?" A resposta adequada era: "Porque está bem presa 61'." Em vez disso, Nancy, após pensar um pouco, respondeu: "Ora, isso é fácil: a cauda de um cão é parecida com um velho porque estão ambos no fim."

 

61 Em português o jogo de significados é impossível de traduzir. No original, "in firm" significa "bem presa", mas o som é igual à palavra "infirm", que significa "enfermo, débil, fraco".

 

Ao longo do segundo casamento, Barnum sentia-se na segunda infância. De mão dada com Nancy, participou em festas informais e piqueniques, apreciou os concertos semanais ao ar livre de Seaside Park, assistiu a óperas e peças de teatro em Nova Iorque, fez canoagem na estância de Paul Smith, Adirondacks. Na estância, ele e Nancy tiveram um jantar divertido com Grover Cleveland62 e a esposa deste. Os Barnum estiveram juntos em quase todas as viagens. Em 1875, regressaram às cataratas do Niágara e, em 1877, a Inglaterra, para passarem férias e para uma série de palestras. Mesmo na derradeira e triunfal visita a Londres, em 1889, quando já se aproximava do octogésimo aniversário, Nancy esteve a seu lado.

Após a morte do mestre de espectáculos, Nancy Barnum ficou rica. Em 1882, o testamento de Barnum concedia-lhe uma anuidade de $9. 000, a livre utilização da casa durante um ano, "o melhor piano que possua aquando da minha morte, e todos os cavalos, arreios, selas, carruagens e trenós... o meu alfinete de diamantes, corrente e pregador, normalmente utilizado por mim, a minha caixa ou instrumento estereoscópico, juntamente com todos os diapositivos e imagens estereoscópicas, e todas as fotografias e álbuns, excepto o meu álbum de família". Em 1889, o legado de Nancy fora emendado, concedendo-lhe uma anuidade de $25. 000, a casa e grande parte da propriedade pessoal e o alfinete de diamantes. Em 1891, o testamento foi corrigido pela quinta vez, tendo Nancy, como resultado, herdado uma anuidade de $40. 000 durante o resto da vida, a última casa, Marina, grande parte do imobiliário de Bridgeport, pertença de Barnum, e da propriedade pessoal, $100. 000 em dinheiro e o alfinete de diamantes.

Com o falecimento de Barnum, o Connecticut já não a atraía. Vendeu Marina à filha de Pauline Barnum Seeley, Jessie, e ao marido Wilson Marshall, o reputado velejador. Depois, Nancy mudou-se para França e comprou um elegante apartamento em Paris, mobilado com uma curiosa mistura de Segundo Império e Nova Inglaterra, e uma vivenda em Cannes.

Após um curto período de viuvez, Nancy Barnum casou-se com Demetrius Callius Bey, um grego de sangue azul. Regressou de passagem a Bridgeport com o segundo marido (eram

 

62 Grover Cleveland (1837-1908), duas vezes presidente dos Estados Unidos, entre 1885-1889 e 1893-1897.

 

convidados em casa de um fabricante de espartilhos) e um elemento da família de Nancy ainda recorda Bey como sendo "um jovem com bastante apresentação, mais próximo da idade de Nancy do que Barnum, e o verdadeiro amor da sua vida". Tragicamente, menos de nove meses após o casamento, Bay morreu, tendo Nancy ficado viúva outra vez. O terceiro casamento foi com um francês impressionante, de nome Barão d'Alexandry d'Orengiani. Nancy gostava do título, mas não do companheiro. Pouco tempo depois, divorciavam-se.

Enquanto Madame la Baronne d'Alexandry d'Orengiani, Nancy frequentou a mais fina flor da sociedade francesa. Regressava com regularidade à sua Inglaterra nativa e tornou-se íntima da exilada imperatriz Eugenia. A viúva espanhola de Napoleão III comprara o chalé de Farnborough a Longmans, o editor, e Nancy era uma visita habitual, beberricando chá ou leite com a imperatriz na sala matutina vermelha ou no estúdio, onde uma estátua do filho morto se erguia sobre uma pequena área de erva trazida do Natal. "As pessoas vêm ver-me como se fosse uma peça de teatro", gostava Eugenia de dizer, e Nancy encontrava-se entre as espectadoras mais assíduas, não só em Farnborough, como também na vivenda de Eugenia conhecida por Cyrnos, em Cap Martin, e, mais tarde, na sua suite no segundo andar do Hotel Continental, em Paris. A lealdade de Nancy foi recompensada com numerosas ofertas da amiga real, incluindo uma pulseira com miniaturas da família Bonaparte.

Dos três maridos, Barnum era o único recordado por Nancy com o respeito afectuoso dedicado a um familiar. A quem ia conhecendo gostava de mostrar um exemplar da autobiografia de Barnum, onde ele escrevera a dedicatória: "Com amor, para todo o sempre". "No meu tempo conheci muitos cavalheiros, as mais interessantes personalidades do Segundo Império", disse a uma visita, "mas nenhum deles possuía a inteligência e o encanto do meu marido P. T. Barnum." Para companheira permanente, teve consigo até ao fim uma parente afastada de Barnum, Caroline R. Leigh, cunhada da filha de Caroline Thompson, Francês Leigh. No dia 23 de Junho de 1927, com a idade de setenta e sete anos, falecia a segunda esposa de Barnum, indo a enterrar pouco depois em Cannes, ao lado do segundo marido, Demetrius Bey.

Mas em 1874 a morte encontrava-se distante e Nancy parecia dar a Barnum um novo prazer pela vida. Embora tivesse mantido o circo itinerante após leiloar o Hipódromo, dedicou a maior parte do tempo a assuntos não relacionados com negócios. Para além de longos períodos de férias com Nancy, fez palestras sobre o tema "The World and How to Live in It"63, sob os auspícios do Redpath Lyceum Bureau. Por alguns anos, também se entregou à política.

Como sempre, a curiosidade de Barnum pelo mundo exterior era insaciável. Em 1873, esteve presente em Londres, na maratona que foi o julgamento de Arthur Buli Orton, o talhante de 140 quilos de Wagga Wagga, na Austrália, que afirmava ser o há muito desaparecido Sir Roger Tichborne, e herdeiro da fortuna da família. Orton foi declarado culpado de perjúrio e condenado a catorze anos de trabalhos forçados. Em 1874, Barnum ficou comovido pelo rapto de Charley Ross, de quatro anos, do relvado em frente da sua casa em Germantown, na Pensilvânia, por dois homens de carruagem. O pequeno Charley de cabelo aos caracóis, visto pela última vez de panamá e fato de linho castanho, nunca mais regressou, embora o pai tenha gasto $60. 000 para o encontrar e Barnum oferecido uma recompensa de $10. 000. Em 1882, Barnum ficou fascinado pela digressão de palestras do jovem Oscar Wilde, tendo assistido a uma matiné em Nova Iorque, na primeira fila, a fim de escutar o esteta deplorar o papel de parede americano e os sofás de crina de cavalo e elogiar o mobiliário dos Pilgrims. Em 1886, Barnum seguiu de perto a chegada de um novo autómato jogador de xadrez, um Mouro de turbante chamado Ajeeb, que surgiu no edifício de três andares do Éden Musee de Nova Iorque, e que mais tarde derrotou individualmente O. Henry, Sarah Bernhardt e Christy Mathewson.

Todavia, acima de tudo, Barnum continuava interessado no seu circo. Encontrava-se satisfeito por o "BarnunYs Own Greatest Show on Earth" funcionar sem outros sócios. Talvez graças à energia trazida por Nancy, a recente hesitação e conservadorismo que mostrara na sociedade com Coup desaparecera. Um Barnum renovado começou a demonstrar a sua famosa mão para o

 

63 O Mundo e como nele viver.

 

espectáculo. O circo possuía "milhões de dólares" em atracções e fazia uma média de $3. 000 por dia em receitas de bilheteira, mas ainda precisava de ser melhorado.

Mediante um custo de $30. 000, importou seis garanhões alemães de Paris. Os animais actuavam em equipa e marchavam erectos nas patas traseiras. Teve o prazer de adquirir os serviços de uma rapariga inglesa chamada Rosa M. Richter, conhecida profissionalmente como Mademoiselle Zazel, "o Projéctil Humano". Zazel, em collants cor-de-rosa, era lançada de um canhão de madeira através de uma mola e saltava doze metros no ar, sendo apanhada por um colega pendurado de um trapézio. Entre as mais populares atracções novas de Barnum contava-se o autoproclamado Capitão Georgius Constantine, um grego de suíças com o rosto e o corpo mais tatuados do mundo. Nem um centímetro de pele ficara por pintar. Desde o couro cabeludo e pálpebras até aos genitais e dedos dos pés, Constantine encontrava-se coberto por trezentos e oitenta e oito desenhos, na sua maioria de animais selvagens. Barnum anunciou-o com alguém que sofrera o extenso trabalho de tatuagem enquanto em cativeiro. Por vezes, os responsáveis eram albaneses ferozes que odiavam o cristianismo da vítima. Em outras ocasiões eram piratas chineses selvagens da Birmânia. Na verdade, Constantine contratara seis tatuadores durante três meses para realizarem o trabalho.

Subitamente, em 1880, Barnum apercebeu-se que pela primeira vez se encontrava seriamente ameaçado. Um circo conhecido como International Allied Shows, que trouxera a Royal British Menagerie de Sanger, conquistava audiências por todo o país. O Allied Shows pertencia a James E. Cooper, James Anthony Bailey e James L. Hutchinson. O sucesso mais recente fora uma digressão de dois anos que percorrera a Austrália, Java, o Brasil e o Peru. Tinham transportado 168. 000 metros de lona, a colecção de elefantes e girafas e os artistas ao longo de 121. 000 quilómetros sem qualquer problema, regressando a Nova Iorque com um lucro enorme. Agora criavam uma nova sensação ao anunciarem a utilização de electricidade para iluminar as duas pistas, no lugar do gás.

Um dos três donos do Allied Shows era um génio empresarial, tal como Barnum viria em breve a descobrir, o jovem James A. Bailey, de trinta e três anos. O motivo do contacto directo entre Barnum e Bailey foi um elefante. No dia 10 de Março de 1880, em Filadélfia, um elefante fêmea do Allied Shows deu à luz a um filhote baptizado com o nome de Columbia. Este era o primeiro caso de um elefante a nascer em cativeiro e a publicidade estendeu-se por toda a nação. Barnum ficou entusiasmado e determinado a conseguir a cria. Todavia, cometeu o erro de considerar o Allied Shows um competidor menor que teria, certamente, o seu preço, em vez de o encarar como um rival por direito próprio. Quando o rebento de Hebe já tinha dois meses, Barnum enviou um telegrama a Cooper, Bailey e Hutchinson, oferecendo $100. 000 por Hebe e respectiva cria. Barnum ficou chocado quando Bailey enviou uma mensagem onde dizia recusar-se a vender, aconselhando-o com audácia a ter cuidado com os adversários. De imediato, Bailey mandou reproduzir em doze jornais uma cópia aumentada do telegrama de Barnum, legendando-o da seguinte forma: "O que Barnum pensa do Bebé Elefante."

Barnum percebeu que encontrara finalmente um adversário à altura, mas aceitou a revelação de forma humorada e cortês. Se não podia eliminá-los, juntar-se-ia a eles. "Descobri que por fim tinha um inimigo "que me merecia", admitiu Barnum, "e [fiquei] contente por encontrar jovens com um talento para os negócios e uma energia que se aproximavam dos meus. Reuni-me com eles em termos amigáveis e, após alguns dias de negociações, decidimos unir os nossos espectáculos numa combinação gigantesca e, para o que desse e viesse, apresentá-los durante pelo menos uma temporada cobrando apenas um bilhete. O público ficou espantado com a nossa audácia e os velhos mestres de espectáculo declararam que nunca seríamos capazes de fazer dinheiro suficiente para cobrir as despesas, que não seriam menos de $4. 500 por dia."

Os representantes legais de Barnum durante as negociações da fusão foram o inchado e ostentoso William F. Howe e seu sócio minoritário de um metro e meio, Abraham H. Hummel. A união entre os dois circos foi facilitada pelo facto de Howe e Hummel também representarem Cooper, Hutchinson e Bailey. Era bastante natural que Barnum empregasse estes advogados. Eram tão adeptos de uma fraude e da autopromoção como ele e os mais destemidos e famosos ases legais do país. O seu escritório, em frente de The Tombs64, era anunciado por um cartaz com mais de dez metros de largura, o qual era iluminado à noite. Durante quase quatro décadas, Howe e Hummel defenderam em tribunal mais de mil pessoas, acusadas de homicídio involuntário e de assassínio. Para além de Barnum, representaram, em vários momentos, celebridades do entretenimento, do desporto e da sociedade, tais como John Sullivan, Edwin Booth, Lily Langtry, Stanford White, John Barrymore e Lillian Russell. Foram os representantes de Barnum ao longo de toda a sua carreira no circo e deram-lhe um enorme prazer ao incluir em todos os contratos uma cláusula que não permitia o consumo de bebidas alcoólicas pelas aberrações ao seu serviço.

Meia dúzia de anos depois de Howe e Hummel terem ajudado os dois circos a fundir-se, Cooper vendeu a sua parte por uma soma avultada. Em seguida, Hutchinson, que em tempos ganhara a vida a vender a autobiografia de Barnum à percentagem, também se retirou por um preço. Finalmente, para o bem e para o mal, eram apenas Barnum e Bailey.

À semelhança de Barnum, o baixo, magro e nervoso Bailey, de óculos, bigode e barbicha e um ar erudito, subira a escada do sucesso a pulso. Também como Barnum compreendia a inflexibilidade dos tempos e exigia a mais elevada moralidade nos seus espectáculos. Entre as promessas ao público, contava-se: "Não serão autorizados no recinto penetras, mendigos, jogadores, nem pessoas de mau aspecto ou embriagadas. Tudo que possa causar o mínimo incómodo ou ofensa aos espectadores será absolutamente proibido. A moralidade, a pureza e o requinte serão a regra, sem qualquer excepção." Neste ponto terminavam as semelhanças entre os dois sócios.

Bailey nascera James A. McGinnis, em Detroit, corria o ano de 1847. Quando o pai morreu durante uma epidemia de cólera, tendo a mãe falecido pouco depois, foi entregue aos cuidados de irmãos e irmãs por quem nutria uma profunda antipatia. Com doze anos fugiu de casa, foi trabalhar para um hotel de Pontiac e recebeu

 

64 Algo como "O Túmulo", uma das prisões mais importantes da cidade de Nova Iorque, da época pós-colonial.

 

ajuda de dois agentes do circo Robinson & Lake. Um destes agentes era Frederick H. Bailey, o qual deu a McGinnis um trabalho no espectáculo. McGinnis assumiu o nome do benfeitor, passando a ser conhecido por James A. Bailey, pois odiava o nome antigo. Anos mais tarde, quando ouviu dizer que um cavaleiro, Billy Dutton, contava a toda a gente que em tempos jogara ao berlinde com Bailey quando ainda se chamava McGinnis, este despediu Dutton imediatamente. Durante a Guerra Civil, Bailey foi empregado de um vivandeiro civil e, ao ser declarada a paz, regressou à digressão com um pequeno circo. Em breve juntou-se a Cooper e Hutchinson, tendo o seu espantoso talento para a organização feito dele um rapaz prodígio. Tinha apenas vinte e nove anos de idade quando levou o circo Allied Shows numa digressão de dois anos muito bem sucedida à volta do mundo.

Para mestre de espetáculo, era muito retraído. Num contraste absoluto com Barnum, evitava a publicidade pessoal e o exagero. Quando as celebridades ou os jornalistas se encontravam por perto, fugia a esconder-se nos seus aposentos privados. Recusava-se a utilizar o seu retrato em publicidade. Considerava escrever cartas uma obrigação e mantinha quase toda a correspondência por telégrafo, chegando a enviar cinquenta telegramas num único dia. Envergava sempre um chapéu de coco para esconder a calvície e possuía uma dúzia de maneirismos nervosos, tais como mascar elásticos e fazer girar um dólar de prata entre os dedos. Era demasiado sensível para despedir pessoalmente os artistas, por isso delegava sempre essa tarefa a um assistente. Aplicava justiça com severidade, quer a animais, quer a seres humanos. Quando um elefante de mau feitio com dois metros e quarenta chamado Mandarin matou um dos tratadores em Londres, Bailey alojou calmamente o animal no seu contentor para a viagem de regresso a Nova Iorque. Contudo, no meio do oceano, Bailey carregou a jaula de Mandarin com lingotes de ferro e lançou-a ao mar.

A especialidade de Bailey era a logística. Fred Bradna, um alemão que se veio a tornar o director equestre de Bailey, escreveu em The Big Top: "Enquanto me encontrava no exército em Dieuze, a hierarquia militar enviou o quartel-mestre-general para que este viajasse com Bailey e aprendesse a deslocar de comboio grandes quantidades de homens, animais e equipamento. As suas técnicas para carregar e descarregar comboios e para dispor cargas continuam a ser utilizadas hoje em dia, com as devidas modernizações."

À excepção de um período de dois anos em que Bailey se afastou da sociedade em protesto contra o egocentrismo de Barnum, os dois nunca deixaram de ser sócios bem sucedidos e congeniais até à morte deste último. Barnum nunca teve inveja do homem mais novo. Respeitava Bailey pelo seu génio e originalidade, solicitando constantemente à imprensa que lhe concedesse o crédito do sucesso do circo.

Barnum e os três sócios apresentaram pela primeira vez os resultados dos seus talentos combinados (o Barnum & London Circus) à cidade de Nova Iorque no dia 18 de Março de 1881. Duas noites antes, a estreia fora anunciada por um desfile gigantesco à luz de archotes. Meio milhão de pessoas, muitas delas pagando entre cinco a dez dólares por um lugar numa janela, observaram, maravilhadas, as bigas douradas e os carros com representações de quadros históricos, alguns deles puxados por parelhas de zebras e de veados, as jaulas de leopardos e hienas, os vagões envidraçados de serpentes, os trezentos e trinta e oito cavalos, vinte elefantes, catorze camelos e os trezentos e setenta artistas de circo em uniforme, que marchavam para a apreciação do público. À medida que a procissão mágica avançava, parecendo não ter fim, quatro bandas de metais do circo, uma delas composta inteiramente por índios, e um órgão a vapor animavam o acontecimento.

Este primeiro maior espectáculo do mundo estreou-se em Madison Square Garden, no local onde em tempos florescera o Hipódromo. Estiveram presentes nove mil espectadores, incluindo uma centena dos mais destacados editores da costa leste (reunidos durante quatro dias com todas as despesas pagas pelo circo), enquanto outras três mil pessoas bradavam no exterior por um qualquer lugar vago. Pela primeira vez foram utilizadas três pistas, "o único inconveniente, " comentou o Herald, pois sempre que "a cabeça [do espectador] se encontrava virada para um lado, sentia que estava a perder algo igualmente bom do outro". Contudo, se as pistas múltiplas confundiam e espantavam, também contribuíram para o novo encanto do circo. Criavam uma atmosfera de plenitude e de riqueza, de dimensão e maravilha. Faziam com que todas as crianças adultas se sentissem como se estivessem perdidas na oficina do Pai Natal, com apenas um par de mãos insuficientes.

Sob as novas luzes eléctricas, o cortejo introdutório brilhava e cintilava. Seguiam-se depois as memoráveis atracções que viriam a fazer do circo uma instituição nacional: o General Tom Thumb e Lavinia, o gigante chinês de dois metros e quarenta chamado Chang-Yu Sing, o elefante bebé que em tempos Barnum tentara comprar a Bailey, as girafas com arreios, os cavaleiros em pêlo, os equilibristas, os trapezistas audazes, os elefantes amestrados, os malabaristas japoneses.

O espectáculo fez-se depois à estrada por comboio. Barnum acrescentava constantemente novas atracções. Os dois Homens Selvagens de Bornéu, Plutano e Waino, entusiasmavam multidões por todo o lado, uma vez que poucos sabiam que se tratava, isso sim, de Hiram e Barney Davis de Long Island. A rapariga negra de duas cabeças, na verdade gémeas unidas pelas costas, recebiam $600 por semana para dançar e cantar perante assistentes fascinados. A mais popular de todas foi a primeira Banda de Marimha da América, a qual Barnum dizia ter sido trazida de África por Henry M. Stanley, após este ter encontrado Livingston em Ujiji, mas que, na verdade, Barnum recrutara na mais sombria Bowery.

Para onde quer que o circo fosse, era "Dia de Barnum" e feriado cívico. Cartazes publicitários com o seu retrato colocados com antecedência não precisavam de o identificar pelo nome. Bastava a legenda "O Amigo das Crianças". Em Washington, o presidente James A. Garfield esteve presente, bem como o general Sherman e Robert Todd Lincoln. O presidente observou o espectáculo em descrença, tendo mais tarde comentado na presença do mestre de espectáculos: "Mr. Barnum é o Kris Kringle65 da América."

Mesmo tendo pouco a ver com a gestão activa do circo, para além da cedência do nome e da sua intuição para seleccionar novas atracções, Barnum não gostava de ver anunciada a sua não participação. Quando o Philadelphia Sun garantiu que ele se

 

65 Nome por que era conhecido o Pai Natal na América, durante boa parte do século XIX.

 

limitara a emprestar o nome ao grande espectáculo, Barnum instaurou-lhe um processo de $100. 000, apenas retirando a queixa quando o jornal se retractou. A verdade era que até mesmo a publicidade, em tempos gerida por si, estava agora nas mãos de outro indivíduo. Richard F. "Tody" Hamilton, estagiário do Herald de Bennett, de Wall Street e do New York Aquarium de Coup, foi contratado pelo circo como agente de imprensa. Para Hamilton, um adjectivo era tão vital à sobrevivência humana como o oxigénio. "Declarar um facto em linguagem comum é permitir que se instaure uma dúvida em relação a essa declaração", gostava de dizer.

Enquanto Barnum e Bailey iam de sucesso em sucesso, uma minoria acreditava que as massas em breve se fartariam do espectáculo. A uma dessas pessoas, Barnum teceu o seguinte comentário: "Enquanto existirem bebés, vai haver circos." E, acrescentou numa outra altura, desde que existam palhaços e elefantes, os circos terão sucesso.

A maior proeza de Barnum enquanto proprietário de circo, o apogeu da sua carreira de serradura e lantejoulas, foi a brilhante aquisição de um elefante, o internacionalmente famoso Jumbo. "A publicidade de Jumbo nunca me custou um único cêntimo", disse em tempos Barnum ao major J. B. Pond. "Foi a maior publicidade gratuita que alguma vez vi."

O paquiderme que veio a chamar-se Jumbo foi capturado em bebé por um bando de árabes Hamran, na África Central. Transportado de barco ao longo do rio até à costa, foi vendido a um coleccionador de animais da Bavária, Johann Schmidt, o qual, por sua vez, o vendeu ao Jardin dês Plantes de Paris. Tinha apenas um metro e vinte de altura (os elefantes africanos desenvolvem-se muito mais lentamente do que os indianos) quando o desiludido francês o trocou por um rinoceronte com a London Zoological Society.

Jumbo continuou a crescer durante os dezassete anos que esteve nos London Zoological Gardens. Em 1882, tinha três metros e sessenta de altura ao nível dos ombros, pesando seis toneladas e meia. Conseguia alcançar um objecto a oito metros do chão com a tromba de dois metros. Pensava-se que apenas um outro elefante em todo o mundo, membro do séquito de um marajá na índia, era maior. O consumo diário de alimento de Jumbo incluía cem quilos de palha, quinze pães e um sortido de aveia, bolachas, cebolas e fruta. Também ingeria diariamente cinco baldes de água e um litro de uísque. Era uma das principais atracções dos Gardens e um favorito da rainha Vitória e da família real. Era visitado por inúmeras celebridades. Theodore Roosevelt viu-o entre as várias atracções de Londres, o jovem Winston Churchill foi fotografado com ele e Barnum olhava-o muitas vezes com inveja, tendo chegado a andar às suas costas.

Em Janeiro de 1882, um dos muitos agentes de Barnum no estrangeiro, sabendo do desejo do patrão, perguntou ao supervisor Bartlett, dos Gardens, se estaria disposto a vender Jumbo. De início, o supervisor sentiu-se ultrajado pela sugestão. Todavia, quando o agente confirmou que Barnum estava disposto a oferecer $10. 000 pelo colosso, o supervisor reconsiderou.

Jumbo atravessava um período irritável, conhecido como "delírio", comum a todos os elefantes machos. Ficava de mau humor, tendia a descontrolar-se e havia a possibilidade de ter de ser abatido. Se alguma vez fosse vendido, era este o momento. Após dois dias de reuniões privadas, o London Zoological Society Council concordou em vender Jumbo a Barnum. A notícia foi telegrafada ao mestre de espectáculos, que de imediato consultou os sócios. Apenas Hutchinson se opôs ao negócio. "Qual é a diferença entre um elefante com dois metros de altura e outro com três metros e meio? ", perguntou. "Um elefante é um elefante." Mas nada poderia dissuadir Barnum. "Insisti que se tratava do maior animal do mundo e, assim sendo, o Circo Barnum não poderia passar sem ele. Finalmente, a objecção do meu sócio foi derrotada." Barnum enviou de imediato $10. 000 para Londres a bordo de um vapor, sob a forma de uma letra de 2. 000, e o negócio foi concluído. Contudo, assim que a Society tornou pública a venda, desabou uma chuva de protestos como nunca antes se vira na Grã-Bretanha.

A rainha Vitória, o príncipe de Gales, John Ruskin e o The Times exigiram que o contrato fosse cancelado. Se Barnum processasse a Society, o governo estaria pronto a assumir qualquer responsabilidade por danos. O Standardde Londres comparou o acto de separar Jumbo do público inglês ao de um dono de escravos sulista que separa uma família negra em leilão. "Decerto, arrancar esta besta idosa de um lar ao qual se encontra tão ligado, e de uma companhia que sempre lhe demonstrou o seu afecto, não será menos cruel." Milhares de súbditos ingleses, adultos e crianças de igual modo, inundaram a Society e Barnum com cartas, implorando-lhe que retirasse a proposta.

O editor do Daily Telegraphde Londres enviou um telegrama a Barnum: "Cumprimentos do Editor; todas crianças inglesas perturbadas com partida Elefante; centenas correspondentes imploram que questionemos sobre termos em que possa devolver Jumbo. Resposta, pré-paga, ilimitada." Barnum respondeu de imediato: "Os meus cumprimentos Editor do Daily Telegraph e Nação Britânica. Cinquenta e um milhões cidadãos americanos aguardando ansiosamente chegada de Jumbo. Os meus quarenta anos de constante prática de exibição do melhor que o dinheiro consegue comprar faz da presença de Jumbo neste país um imperativo. A minha maior tenda aloja 20. 000 pessoas, e enche duas vezes por dia. Contém quatro pistas, em três das quais três companhias de circo apresentam em simultâneo actuações diferentes."

Desesperado, o Daily Telegraph reproduziu o telegrama e apresentou um editorial pesaroso: "O destino de Jumbo encontra-se traçado. A decepcionante resposta do seu novo proprietário americano prova, sem margem para dúvidas, que não se poderá esperar delicadeza nem remorso de sua parte... Para aumento da consternação geral, a mensagem descreve o tipo de vida que espera por Jumbo. Acabaram-se os calmos passeios no parque, a sombra das árvores, os relvados e as flores. Receamos que Jumbo não vá regressar a nós com vida. Provavelmente, o seu poderoso coração irá partir-se de raiva, vergonha e dor; e talvez voltemos a ouvir falar dele, qual Sansão que provocou o caos entre os Filisteus que o levaram para o cativeiro, morrendo por entre alguma cena de terrível destruição."

O sentimento do público não esmoreceu. "Toda a Inglaterra parecia enlouquecida com Jumbo", disse Barnum. "Imagens de Jumbo, a vida de Jumbo, um panfleto intitulado "Jumbo-Barnum" e todo o tipo de histórias e poesias sobre Jumbo, Chapéus Jumbo, Colares Jumbo, Charutos Jumbo, Gravatas Jumbo, Leques Jumbo, Polcas Jumbo, etc. eram vendidos às dezenas de milhar nas lojas e nas ruas de Londres e de outras cidades inglesas." Durante um banquete em Londres, James Russell Lowell, o embaixador dos Estados Unidos, comentou que "a única questiúncula entre a Inglaterra e a América é o caso Jumbo".

Finalmente, levou-se a cabo um esforço legal para reter Jumbo. Vários Membros da Royal Zoological Society, liderados por um tal Berkeley Hill, em protesto contra a maioria, pediram ao tribunal uma injunção que detivesse a retirada. Argumentavam que a Society não tinha o direito de vender um artigo "valioso para o estudo da história natural" e que era moralmente errado livrar-se de um animal perigoso. A audiência teve lugar na divisão de Chancery do Supremo Tribunal de Justiça, no dia 9 de Março de 1882. Ficou provado que a Society já vendera animais, nomeadamente um gnu, por $750. O Tribunal decidiu que, se Jumbo era perigoso, o problema era de Barnum e não da Society. Em resumo, a venda a Barnum foi considerada válida.

Chegara o momento de remover Jumbo dos Gardens para o circo de Barnum. Este fretara um cargueiro inglês, o Assyrian Monarch, o qual aguardava no rio Tamisa. Todo um convés do navio fora retirado para acomodar o elefante. Quando Matthew Scott, o tratador de Jumbo havia mais de vinte anos, levou com relutância o recluso para as ruas estranhas, o elefante berrou o seu descontentamento e deitou-se no passeio. Toda a Inglaterra chorou. O agente de Barnum enviou um telegrama ao mestre de espectáculos: "Jumbo deitou-se no chão e não se levanta. Que devemos fazer?" Barnum respondeu: "Ele que fique aí deitado uma semana, se quiser. É a melhor publicidade do mundo."

Reflectindo sobre o problema, Barnum concebeu um estratagema para aprisionar o elefante. Mandou construir uma enorme jaula sobre rodas, com portas em ambos os lados, que eram deixadas abertas quando Scott levava Jumbo diariamente até ao terreno de exercício. "Esta artimanha foi repetida durante vários dias", explicou Barnum, "então, ao entrar na jaula, a porta atrás dele foi rapidamente fechada, depois a da frente, e, por fim, Jumbo era meu."

Jumbo ressentiu-se do truque breve e violentamente, mas acabou por sossegar. Durante a noite, foi levado ao longo dos dez quilómetros até ao Tamisa, onde multidões já se encontravam reunidas. Foi então colocado numa barcaça graças a um guindaste a vapor, levado rio abaixo até ao cargueiro e erguido para o convés com um guincho. Após ter sido aplacado com cerveja, descontraiu-se na jaula iluminada, com Scott a ressonar a seu lado. A travessia do Atlântico demorou quinze dias. Jumbo esteve enjoado durante dois dias mas, depois disso, parecia plácido e esperançoso. Na manhã do domingo de Páscoa de 1882, chegou à cidade de Nova Iorque.

Como de costume, a Broadway estava apinhada de gente. Na sua jaula de ferro, Jumbo foi puxado por dezasseis cavalos até ao Madison Square Garden, onde o circo era apresentado. No dia seguinte, tornou-se a estrela do maior espectáculo do mundo. A fim de destacar a sua estatura, era exibido ao lado de um bebé elefante conhecido como Tom Thumb. Uma vez que levara uma longa vida de sossego na Inglaterra, o estrépito das quatro bandas de Barnum e a actividade dos artistas assustaram-no. Mas, passado algum tempo, habituou-se à agitação. Nunca se tornou perigoso.

A compra e o transporte de Jumbo tinham custado a Barnum e aos seus sócios $30. 000. Barnum recuperou esse valor em dez dias e, em seis semanas, Jumbo facturara $336. 000 aos donos. Na primeira temporada de trinta e uma semanas, passadas em Nova Iorque e em digressão pela América, obteve receitas que totalizaram um milhão setecentos e cinquenta dólares. Durante três anos e meio, cavalgado por cerca de um milhão de crianças e engolindo quantidades sem fim de amendoins e doces, enriqueceu as vidas dos jovens americanos e os cofres do circo.

Ao entardecer do dia 15 de Setembro de 1885, Jumbo e Tom Thumb, o seu minúsculo parceiro, tinham acabado a actuação em St. Thomas, Ontário, no Canadá. Os restantes trinta e um elefantes do espectáculo já tinham sido carregados no comboio que aguardava quando, às nove horas, Matthew Scott levou Jumbo e Tom Thumb para a carruagem privada. Atravessando a zona de carga, o trio marchava ao longo de um trecho não utilizado do Grand Trunk Railway. De súbito, ouviu-se o clamor de uma locomotiva que se aproximava. Um comboio de carga imprevisto deu a volta à curva e, a quinhentos metros de distância, fixou os holofotes dianteiros no aterrorizado Jumbo. O comboio, aproximando-se a uma velocidade vertiginosa, tentou travar, mas era demasiado tarde. Scott saltou para o lado no momento em que a locomotiva atingiu Tom Thumb de raspão, fracturando-lhe a perna traseira esquerda, ao mesmo tempo que o lançava para lugar seguro. Depois, a máquina encaminhou-se a direito contra o corpo imponente de Jumbo. A locomotiva e dois carros ficaram esmagados e descarrilaram e o condutor foi morto. Jumbo, com o crânio fracturado, sangue escorrendo-lhe da boca, dos flancos e dos pés, caiu de joelhos e depois tombou para o lado. A tromba acenou a Scott. Numa questão de instantes, Jumbo morria.

O fim lamentável de Jumbo entristeceu o mundo. Segundo Barnum, tinha sido visto por nove milhões de americanos. O mestre de espectáculos insistiu que apenas pensava nos restantes milhares que se veriam privados desse prazer. Barnum nunca deixara que o sentimento interferisse com os negócios. "A perda é tremenda, mas esses casos nunca me afectam os nervos", disse à imprensa. "Há muito que aprendi que para aqueles que têm boas intenções e que tentam praticar o bem, não existem verdadeiros infortúnios. Pelo contrário, para essas pessoas, todos os males aparentes são bênçãos disfarçadas." Assim sendo, ninguém ficou surpreendido quando Barnum lucrou com a morte de Jumbo.

A carcaça gigantesca recebeu a atenção dos taxidermistas. As presas e os ossos de Jumbo vieram a provar que o animal ainda estava a crescer antes da sua morte. Do estômago saiu uma pequena fortuna em moedas inglesas. O esqueleto foi oferecido ao Museu de História Natural, em Nova Iorque. Mas a pele, que sozinha pesava quase mil quilos, foi instalada sobre uma estrutura de madeira, tendo assim Jumbo continuado a servir o circo, até que, finalmente, foi entregue ao Barnum Museum, na Tufts College de Medford, Massachusetts, uma escola favorecida por Barnum devido às inclinações universalistas. Até hoje, Jumbo pode ser visto em Tufts, ao lado do relato escrito por Barnum sobre a sua morte e de um busto do mestre de espectáculos.

Tal como Barnum sempre procurou, mas sem nunca encontrar, uma cantora que se equiparasse a Jenny Lind, continuou a tentar localizar outro elefante que competisse com a atracção de Jumbo nas bilheteiras. Comprou Alice, a companheira de Jumbo nos London Gardens, à Society, tendo-a exibido como "viúva" de Jumbo, ao lado da carcaça empalhada. Mas isto não foi satisfatório e, finalmente, Barnum desistiu.

Ainda no ano anterior à morte de Jumbo, Barnum tentara encontrar outro elefante colorido. Esta promoção, que acabou por se revelar um fracasso, conduziu-o à mais acirrada guerra entre circos da sua carreira. Há muito que Barnum ambicionava exibir um genuíno elefante branco sagrado do Extremo Oriente. Após três anos de esforço e um gasto de $250. 000, segundo os cálculos do mestre de espectáculos, conseguiu-se um elefante branco sagrado, chamado Toung Taloung, em Mandalay, graças à autorização do rei Theebaw, do Sião. Enviado de Rangoon para Londres e daí para Nova Iorque, chegou a bordo do vapor Lydian Monarch, no dia 28 de Março de 1884, tendo o seu surgimento sido celebrado em três poemas laureados, um deles escrito por Joaquin Miller.

Barnum anunciara o elefante sagrado como sendo do mais puro branco. Contudo, quando subiu a bordo do vapor, seguido pela imprensa, a fim de observar a aquisição, descobriu que a pele de Toung Taloung era de um cinza escuro, salvo algumas manchas cor de rosa e olhos da mesma cor. Horrorizado, tentou engolir a decepção. "Bom", disse aos jornalistas, "é mais branco do que eu esperava."

Mais tarde, com Bailey a seu lado, Barnum presidiu à conferência de imprensa realizada na sala de jantar do navio. Um jovem repórter, estimulado pelas bebidas gratuitas, apregoou ao mestre de espectáculos: "Mr. Barnum, acho que o seu elefante não é lá muito branco. "A sala mergulhou num silêncio repentino, mas Barnum nem sequer pestanejou. "Meu rapaz, " disse, "quando era novo, gostava de frequentar acontecimentos sociais. Numa dessas festas, expus, muito pouco ajuizadamente, a minha opinião sobre a falsidade da extraordinária compleição de uma jovem senhora. Infelizmente, ela ouviu o meu comentário nada gracioso.

Ao passar por mim, disse, sem rodeios, "Foi Deus quem fez estas faces". Ora cavalheiro, foi Deus quem fez aquele elefante branco, mas garanto-lhe que, caso tivesse sido feito por mim ou por Mr. Bailey, seria branco como a neve."

Uma vez que o elefante não era branco, Barnum deu-se ao trabalho de fazer com que peritos siameses o autenticassem. Entretanto, o seu mais importante rival circense, o grisalho e egocêntrico Adam Forepaugh, começou a explorar e a exibir um elefante de um branco puro chamado Light of Ásia66.

Forepaugh, um comerciante de carne transformado em mestre de espectáculos, atormentou Barnum durante anos. Roubara Madison Square Garden a Barnum alugando-o com antecedência. Contratara o mais conhecido palhaço da América, Dan Rice, por $1. 000 semanais. Quando Barnum tinha Jumbo, Forepaugh anunciou Bolívar como sendo "o maior e mais pesado elefante do mundo". Agora, Forepaugh convocava a imprensa para observar outro elefante sagrado, mais branco do que o de Barnum.

Enquanto Forepaugh desarmava os repórteres com bebidas, um jornalista sóbrio do Philadelphia Press, Alexander C. Kenealy, esgueirou-se até junto do elefante branco com uma esponja molhada. Esfregou o flanco da criatura e a remoção da camada de tinta branca revelou por baixo o cinzento natural do elefante. Em vez de publicar a descoberta, Kenealy vendeu-a a Barnum, que anunciou a fraude de Forepaugh onde quer que os americanos soubessem ler. Apesar de ter sido desmascarado, o elefante pintado de Forepaugh ultrapassou o genuíno cinzento de Barnum. Quando Forepaugh morreu, em 1890, o seu circo foi adquirido por Bailey.

A derradeira grande aventura de Barnum enquanto mestre de espectáculos teve lugar em Novembro de 1889, quando apresentou com Bailey o seu circo mais dispendioso no London Olympia, uma arena ainda maior do que o Madison Square Garden. Esta primeira invasão a Inglaterra com um circo foi ideia de Bailey. Barnum considerava-o um risco financeiro, mas acabou por concordar com o plano. Em primeiro lugar, antes dos animais e do pessoal, foi enviado através do Atlântico um navio com um carregamento de oito toneladas de material publicitário, incluindo 50. 000 cartazes.

 

66 Luz da Ásia.

 

Depois, os animais foram carregados para o Furnesia através de cabos de suspensão. Uma vez que os leões e os tigres não eram novidade em Inglaterra, Barnum deixou-os para trás. "O problema da alimentação de tantos animais carnívoros durante a viagem", relatou a Harper's Weekly, em 1889, "foi resolvido congelando a carne fresca em cubos, que depois foram armazenados em arcas frigoríficas, entre camadas de gelo." A acompanhar os animais seguiam 1. 240 artistas de circo. Finalmente, com alguma apreensão, Barnum viajou com a esposa Nancy a bordo do Etruria.

Barnum tinha todas as razões para se preocupar, pois temia rancor devido ao incidente com Jumbo. Ele e Bailey tinham gasto $350. 000 no transporte do circo e tinham assinado um contrato com o Olympia, acordando em pagar $12. 000 por dia durante cem dias. Mas a noite de estreia veio dissipar qualquer receio. Quinze mil pessoas encheram o Olympia para aplaudir o espectáculo "Nero, ou O Incêndio de Roma", e os jornais estavam extasiados. O Dramatic News dizia: "Claro que esta semana Barnum foi o tópico em todos os círculos, incluindo o teatral. Na verdade, pouco se fala de outra coisa."

Quase todas as cem noites foram memoráveis. Durante grande parte delas, Barnum surgia pessoalmente. "Sempre que o meu gerente anuncia que estarei presente", explicou, "calcula que as bilheteiras facturam mais 200 libras por dia." A meio do espectáculo, Barnum chegava numa carruagem aberta puxada por uma parelha de cavalos. Todas as actividades nas três pistas cessavam, à medida que ele fazia o percurso sob uma chuva de aplausos, detendo-se várias vezes para gritar à audiência: "Imagino que tenham vindo ver o Barnum, não foi? Ora muito bem, eu sou Mr. Barnum." Depois prosseguia até à saída, altura em que as atracções menores regressavam à vida.

Ninguém que fosse alguém em Londres perdeu o espectáculo. Até mesmo a rainha Vitória, com o príncipe de Gales a reboque, esteve presente. Quando um dos principais palhaços de Barnum, Robert Edmund Sherwood, cabriolou à frente da monarca, fingindo limpar as mãos e estendendo uma para a rainha, o velho mestre de espectáculos, disse Sherwood, "saltava de um lado para o outro, como se fosse um gato num telhado de zinco quente". Mas a rainha aceitou a mão do palhaço e os aplausos foram ensurdecedores. Por mais encantado que estivesse, Barnum não permitiu que Sherwood repetisse a proeza. "Como é que eu sei que não vai convidá-la para jantar, se voltar a fazer o mesmo?"

Quando o antigo primeiro-ministro Gladstone visitou o circo com a esposa e uma comitiva, Barnum foi convidado a ir ao seu camarote. Discutiram a autobiografia de Barnum (Gladstone gostara, mas queixara-se da letra miúda) e depois o espectáculo romano que se desenrolava à sua frente. "Mr. Gladstone cumprimentou-me pela minha aparência", informou Barnum um repórter, "mas deixe-me que lhe diga que ele parece muito mais jovem do que eu. Sabe, ele fez oitenta anos em Dezembro - eu só os faço em Julho."

Ao regressar a Bridgeport para o seu triunfo final, Barnum e Nancy mudaram-se para a casa nova, baptizada Marina por Mrs. Barnum. Há muito que Nancy sentia que Waldemere era demasiado grande para gerir e muito antiquada. Por isso, a poucos metros a leste, Barnum construíra a bastante mais pequena Marina, em estilo Rainha Ana. Possuía electricidade e canalização modernas e, assim que ficou concluída, Barnum demoliu Waldemere e entregou a escritura de Marina à esposa. Segundo Harvey W. Root, em The Unknown Barnun67, quando um amigo se interrogou sobre por que razão Barnum precisava da casa nova, Barnum escreveu-lhe: "A minha esposa tem apenas trinta e oito anos de idade. Em breve terei de a deixar viúva. Ela adora Bridgeport e a sua população. Waldemere é demasiado grande para ela, mas a localização não tem rival. Por isso disse-lhe, "Desenhe e supervisione a construção de uma casa sólida de tijolo e pedra..." E assim erigiu a nova casa. Ela disse: "Que seja feita, " e assim foi."

Em 1880, Barnum estivera gravemente doente, mas uma constituição de ferro ajudara-o a sobreviver. Agora, em 1890, voltava a fraquejar. Após um último período de férias com Nancy no Colorado e uma derradeira visita ao circo em Kansas City, regressou a Marina para descansar. Em Novembro, foi assolado pelo que foi diagnosticado como uma severa congestão cerebral. Durante três semanas, esteve entre a vida e a morte, mas acabou

 

67 O Barnum desconhecido.

 

por recuperar novamente.

Enquanto Bailey conduzia o grande espectáculo, Barnum permanecia confinado a Marina. Era uma instituição nacional e exultou com o estatuto. Quando um envelope com carimbo de Bombaim e destinado apenas a "Mr. Barnum, América", lhe chegou às mãos, sentiu um regozijo infantil. Quando uma empresa que era parcialmente detida por si construiu uma escuna, baptizando-a P. T. Barnum, deixou a cama para acenar à sua passagem pelo porto.

Ocupou-se com o testamento. Ao documento de catorze páginas redigido oito anos antes, acrescentara, na Primavera de 1889, um codicilo de dezassete páginas. Agora juntava mais três codicilos, acrescentando em breve mais outros quatro, o último (que dispunha os planos para "The Barnum Institute of Science and History", em Bridgeport) uma semana antes da sua morte.

Atarefou-se com a autobiografia. A última versão, publicada em 1888, terminara com a derradeira confissão a ser impressa: "Ao terminar este volume, não tenho palavras para exprimir a gratidão que sinto por a minha saúde ter sido preservada, e por ter sido abençoado com um vigor e uma juventude de espírito reservada apenas a alguns. Mas encontro-me perfeitamente consciente de que alcancei o ocaso da vida (o qual, contudo, se encontra bem iluminado), e sinto-me satisfeito por saber que este é, deveras, um mundo belo e agradável, para aqueles que possuem a temperança, a determinação e o julgamento para o deixarem assim. Todavia, felizmente não é a nossa morada. E é desgraçado aquele que abraça com tanta firmeza os prazeres transitórios que se sente relutante em obedecer ao chamado do nosso Pai, em deixar tudo para trás e partir para um lugar mais elevado, para o Grande Futuro, em que tudo o que agora não estimamos (excepto o nosso amor por Deus e pelo homem) acabará por reduzir-se à insignificância." Barnum esperara juntar algo mais da história pessoal, mas sabia agora que era demasiado tarde. Por isso, pediu a Nancy que lhe escrevesse o último capítulo do livro, depois de ele morrer, algo que ela jurou fazer.

Levantava-se todos os dias da cama, vestia-se, sentava-se durante algumas horas à janela de vão sobranceira ao Sound e depois recebia visitas de negócios e amigos. Embora Nancy soubesse que não era assim, Barnum descansava-a continuamente: "Agora sinto que estou mesmo a ficar melhor." Uma vez que ele era assinante do Tribune de Greeley e dos jornais de Bridgeport, percorrendo-os sempre em busca de comentários sobre a sua condição, Nancy viu-se obrigada a pedir à imprensa que se abstivesse de especular sobre a sua morte. Os jornais, em grande parte, acederam ao pedido. À medida que 1890 dava lugar a 1891 e entrava no octogésimo primeiro ano de vida, Barnum percebeu que os jornais preferidos se encontravam repletos de nomes novos: David Belasco, Edward Bellamy, George Eastman, Marie Corelli, DeWolf Hopper, Eugene Field, James J. Corbett, Walter Camp, William Jennings Bryan, Nellie Bly, Rudyard Kipling, Charles Bolden, Clyde Fitch, todos eles entretendo os sessenta e três milhões de americanos que Barnum preparara para um novo século de diversão.

A realidade do fim da vida era intolerável. Talvez, pensava, não fosse um mero mortal. Mais tarde, Nancy Barnum escreveu: "Não creio que, até às últimas duas semanas de doença, Mr. Barnum tivesse desistido da esperança de melhorar. Não houve nada que denunciasse o momento em que deixou de se agarrar à vida que tanto amava. Não falava da sua própria morte; da morte no geral disse: "É uma coisa boa, uma coisa bela, tanto como a vida; e é errado sofrer com ela, e vê-la como algo de mau".

Três médicos velavam por ele e, a fim de mitigar a cada vez maior claustrofobia de Barnum, dois deles, o Dr. C. C. Godfrey e o Dr. John Lynch, alternavam a dormir no seu quarto. Sempre por perto estavam Nancy, um criado de cor, Wyatt Roberts, e uma enfermeira. Quando percebeu que o fim já não poderia continuar a ser adiado, Barnum preparou um funeral modesto (tivera a sua dose de exposições, desfiles e espectáculos) mas, enquanto fazia os preparativos finais, nunca mencionou a palavra morte. Interrogou-se sobre o que diriam os jornais quando partisse. Ao saber disto, o The Evening Sun de Nova Iorque pediu autorização para publicar o obituário antecipadamente, para que Barnum o pudesse apreciar. A permissão foi concedida e, no dia 24 de Março, divertiu-se com o cabeçalho:

 

         "O GRANDIOSO E ÚNICO BARNUM.

         Ele Queria Ler O Seu Obituário. Ei-lo."

Segundo o Sun, Barnum contara a um amigo que ficaria mais feliz se tivesse "a oportunidade de ver que tipo de linhas" seriam escritas sobre ele após a morte. "Mr. Barnum teve quase tudo ao longo da vida, incluindo o cavalo lanoso e Jenny Lind", explicou o Sun, "e não existe qualquer razão para que não tenha este último prazer que pede. Portanto, aqui está a vida do grandioso mestre de espectáculos, contada de uma forma breve e simples, tal como apareceria no The Evening Sun, caso o destino nos tivesse retirado o nosso Grandioso e Único. Será lido com grande interesse, tanto pelo público como por Mr. Barnum." Seguiam-se quatro colunas biográficas ilustradas com gravuras de Barnum na idade actual, de Barnum com quarenta e um anos, da mãe, de Charity e de Jenny Lind.

Recuperou brevemente. E depois voltou a decair. Ao longo de toda a sombria manhã do dia 7 de Abril de 1891, o coração começou a ficar cada vez mais fraco. Nancy enviou telegramas convocando membros da família. Na noite anterior, Barnum indagara sobre os resultados de bilheteira do circo. Foi o seu último pedido relacionado com os negócios. Às duas da manhã, disse à esposa: "Os meus últimos pensamentos vão para si." Às quatro, perguntaram-lhe se queria um copo de água. "Sim", respondeu. Voltou a dormir até às oito. Depois, ao receber algumas notícias eleitorais, declarou: "Fico contente."

"Durante todo esse dia deprimente", escreveu Nancy, "à medida que as filhas e netos pesarosos se reuniam à sua cabeceira, iam-lhe saindo dos lábios débeis palavras ternas para os receber a todos.

"A manhã transformou-se em tarde e a tarde no ocaso do início da noite. A morte foi gentil e não houve dor que perturbasse a figura sossegada na pequena cama. O coração fatigado bateu cada vez mais depressa e depois cada vez mais devagar; e, às seis e trinta e quatro, de coração audaz e mente límpida, saiu deste lugar físico a que chamamos vida um dos mais notáveis e amados homens do país."

Muito, muito antes, ainda um rapazinho de dez anos, sonhara com um lugar mágico e cintilante conhecido por Ivy Island. Desapontara-o. Mas manteve o sonho e, afinal, o mundo inteiro tornou-se o país de fantasia por que ansiara naquele dia quente e solarengo de infância. Esse sonho fora transformado em realidade e agora já não necessitava de sonhar.

Milhares de pessoas que haviam conhecido Barnum juntaram-se na South Congregational Church, enquanto no seu interior o reverendo Robert Collyer, cansado e grisalho, com lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto, dizia as palavras finais sobre o corpo de Barnum.

"Barnum foi um lutador inato que pelejava pelos fracos contra os fortes, pelos oprimidos contra os opressores. O bom coração, tão terno quanto audaz, agitava-se sempre perante um pedido de ajuda, acorrendo com a espada da assistência. Não foi apenas isto que fez dele um homem amado, pois a boa disposição da sua natureza era como uma auréola em seu redor. Encontrava sempre tempo para corrigir um erro, e encontrava sempre tempo para ser um bom cidadão e um patriota da cidade, do Estado e da República em que viveu."

O cortejo fúnebre percorreu com lentidão o último quilómetro interminável, passando por bandeiras a meia haste, até ao belo Mountain Grove Cemetery, onde foi a enterrar ao lado de Charity. Mais tarde, a sua estátua em bronze, obra de Thomas Bali, foi oferecida a Bridgeport por Bailey e outros membros do circo, sendo erigida em Seaside Park, no extremo do Sound.

As últimas críticas ter-lhe-iam agradado. O The Times de Londres liderou todos os jornais.

"Barnum desapareceu. A fina flor da civilização ocidental, o arbiter elegantiarum68 da Democracia... deu, aos olhos dos que procuravam divertimento, esplendor à América... Criou o metier 69 de mestre de espectáculos em grande escala, dando-lhe a dignidade de ser proferido por um homem de génio. Cedo percebeu a característica essencial da democracia moderna, a sua prontidão em ser levada ao que diverte e educa. Sabia que "o povo" significa multidões, multidões pagantes; que as multidões adoram a moda e a seguem; e que o negócio dos homens grandiosos é criar e controlar a moda. O seu ideal era viver entre, para e perante o público. Para bem dele e de si próprio, gostava de levar o público

 

68 Em latim, no original.

69 Em francês, no original.

 

a ver, a aplaudir e a pagar...

"Quando, em 1889, o veterano nos trouxe o seu carregamento de gigantes e de anões, de bigas e de estátuas, de lantejoulas e de cavaleiros, vindo divertir o povo de Londres, quisemos que um bardo se apresentasse com um discurso sobre "o Herói enquanto Mestre de Espectáculos"... foi um espectáculo tripartido - as coisas nos estábulos e nas jaulas, o mestre de espectáculos e o próprio mundo. E dos três, provavelmente Barnum era o mais interessante. As corridas de bigas e as monstruosidades podem ser obtidas alhures, mas o mestre de espectáculos octogenário era único. O seu nome é já proverbial, e proverbial continuará."

A sua imortalidade começou na era a que deu origem. Graças à forma como ultrapassou as barreiras sociais contra o entretenimento e à utilização que deu a curiosidades e sensações, nasceu uma diversidade de herdeiros que vieram a seguir as suas pisadas: Tony Pastor, Oscar Hammerstein l, Charles Frohman, Richard D'Oyly Carte, Florenz Ziegfeld, John Ringling, John Ringling North, C. B. Cochran, Sol Hurok, Mike Todd, Billy Rose, C. C. Pyle, Tex Rickard, os irmãos Shubert e outras centenas, oferecendo todo o tipo e variedade de diversão.

Barnum queria que o último capítulo da sua autobiografia fosse escrito. Fiel à sua palavra, Nancy redigiu-o com graciosidade e afecto antes de partir para França. Publicou-o como panfleto de dezanove páginas e o seu adeus foi uma despedida de todos.

"Mas a maior fama pertence-lhe, pois, embora as mãos atarefadas se encontrem agora cruzadas, a voz alegre silenciada, e o sorriso gentil oculto para sempre, ele vive no amor da família devota; nos corações de todos os que entraram no círculo da sua maravilhosa personalidade magnética; e ainda faltará muito até que o mundo se esqueça de P. T. Barnum."

 

                                                                                 Irving Wallace  

 

                      

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