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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O MARTELO DO ÉDEN / Ken Follett
O MARTELO DO ÉDEN / Ken Follett

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MARTELO DO ÉDEN

 

Uma secreta comunidade hippie, num longínquo vale na Califórnia, tem sua existência ameaçada quando o Estado decide construir uma usina elétrica em seu território.

 Priest, o carismático líder da comunidade, decide proteger seu reduto a qualquer preço e considera que a ameaça de um terremoto seria uma forma eficaz de chantagear o Governo e persuadi-lo a abandonar o projeto.

 Quando o polêmico radialista John Truth leva ao ar a ameaça de provocar um terremoto feita por prováveis terroristas, poucas pessoas o levam a sério. Judy Maddox, uma jovem agente do FBI, extremamente competente, recebe a missão de rastrear o sinistro grupo.

 O chefe de Judy, que não gosta dela, acha que lhe deu uma tarefa inútil e insignificante, que resultará apenas em perda de tempo. As pesquisas da investigadora, no entanto, a conduzem ao sismólogo Michael Quercus, que lhe dá a chocante notícia de que é perfeitamente possível, mesmo para um leigo, provocar um terremoto. E no momento em que um tremor num longínquo deserto da Califórnia exibe provas de ter sido provocado pela mão do homem, Judy certifica-se de que a terrível ameaça é verdadeira.

 Subitamente responsável por uma investigação de vida ou morte, Judy precisa identificar, com precisão, o próximo alvo dos terroristas, e para isso conta com a ajuda do atraente Michael. O irresistível envolvimento romântico dos dois se desenrola à medida que tenta impedir o desastre iminente.

 

 Quando ele deita para dormir, esta paisagem está sempre na sua mente: Uma floresta de pinheiros cobre as montanhas, densa como o pêlo do dorso de um urso. O céu é tão azul, o ar da montanha tão claro que dói a vista olhar para cima.

 A quilômetros da estrada há um vale secreto cujas margens são íngremes e em cuja calha corre um rio. Ali, escondida dos olhos de estranhos, uma encosta voltada para o sul foi limpa e nela crescem, em fileiras meticulosamente alinhadas, as videiras.

 Quando se lembra de como aquilo é bonito, sente que o coração quer se partir.

 Homens, mulheres e crianças deslocam-se vagarosamente por entre as videiras, cuidando das plantas. São seus amigos, suas amantes, sua família. Uma das mulheres ri. É uma mulher grande com cabelos escuros e longos, e ele sente uma afeição especial por ela. A mulher joga a cabeça para trás e abre bem a boca, e a sua voz clara flutua pelo vale como o canto de um pássaro.

 Alguns dos homens anunciam, enquanto trabalham uma boa safra. Aos pés deles, resistem, ainda visíveis e imensos, alguns tocos de árvores, para lembrar a eles o trabalho angustiante que tiveram para limpar aquele terreno vinte e cinco anos atrás. O solo é pedregoso mas é bom, porque as pedras retêm o calor do sol e aquecem as raízes das videiras, protegendo-as do congelamento mortal.

 Além dos vinhedos há um grupo de edificações de madeira, simples, mas bem construídas e à prova d'água. Uma coluna de fumaça sobe da cozinha, isolada em uma cabana.

 Em uma clareira, uma mulher ensina um menino a fazer barris.

 Aquele é um lugar sagrado.

 Protegido pelo segredo e pelas orações, ele permaneceu puro, seu povo livre enquanto o mundo além do vale degenerou-se, vítima da corrupção e hipocrisia, ganância e imoralidade. Mas agora a visão muda.

 Aconteceu algo ao veloz curso de água que ziguezagueava pelo vale. Seu ruído foi silenciado, sua pressa repentinamente detida. Em vez de uma corrente de águas claras, o que há é uma extensão de água escura, silenciosa e parada, cujas margens parecem estáticas, mas que, se ele olhar com atenção por uns instantes, verá que a água represada aumenta.

 Logo é forçado a retrair para cima de uma colina.

 Ele não consegue entender por que os outros não notam aquela maré ascendente. Quando a água negra atinge a primeira fila de videiras, eles continuam trabalhando com os pés mergulhados na água. As casas são cercadas e depois inundadas. O fogo da cozinha é apagado e barris vazios flutuam no lago cada vez maior. Por que não fogem? Ele pergunta a si próprio, e o pânico que sente sobe à sua garganta e ameaça impedi-lo de respirar.

 O céu escurece, coberto de nuvens cor de ferro, e o vento frio fustiga as roupas das pessoas, mas elas continuam a se deslocar ao longo das videiras, abaixando-se e levantando-se, sorrindo umas para outras e falando com vozes discretas, normais. Ele é o único que pode ver o perigo, e percebe que deve pegar uma, duas ou mesmo três das crianças e salvá-las, não deixar que se afoguem. Tenta correr na direção da filha, mas descobre que tem os pés presos na lama e não pode se mover; seu coração se enche de pavor.

 Nos vinhedos a água sobe à altura dos joelhos dos trabalhadores,depois chega às suas cinturas e vai até os pescoços. Ele tenta gritar para as pessoas a quem ama, dizer que elas têm que fazer qualquer coisa agora, rapidamente, nos próximos segundos, ou morreram, mas embora abra a boca e se esforce, não consegue produzir um único som. O terror o domina.

 A água atinge sua boca e começa a afogá-lo. É quando acorda.

 Um homem chamado Priest puxou o chapéu de caubói para a frente e contemplou o deserto do sul do Texas, plano e poeirento.

 As touceiras do espinhento algarobo e de artemísia espalhavam-se em todas as direções até onde sua vista alcançava. Na frente dele, uma trilha cheia de sulcos, com uns três metros de largura, fora aberta através da vegetação. Trilhas como aquela eram chamadas de senderos pelos tratoristas hispânicos que as cortavam em linhas brutalmente retas. De um lado, em intervalos precisos de cinqüenta metros, bandeirolas de plástico cor-de-rosa se agitavam, presas em pedaços de arame, marcando o caminho. Um caminhão deslocava-se lentamente ao longo do sendero.

 Priest tinha que roubar o caminhão.

 Ele roubara seu primeiro veículo aos onze anos de idade, um Lincoln Continental branco novo em folha, estacionado com as chaves na ignição, em frente ao Cinema Roxy, na parte sul da Broadway, em Los Angeles.

 Priest, que naquele tempo era chamado de Ricky, mal podia enxergar por cima do volante. Sentia tanto medo que quase se urinara, mas conseguira andar dez quarteirões e entregara, orgulhosamente, as chaves a Jimmy "Cara de Porco" Riley, que lhe deu cinco pratas e depois levou a namorada para dar uma volta e espatifou o carro na rodovia da Costa do Pacífico. Fora assim que Ricky tornara-se membro da gangue Cara de Porco.

 Mas aquele caminhão não era um veículo comum. Enquanto Priest observava, a poderosa maquinaria localizada atrás da cabina do motorista abaixou lentamente uma placa de aço maciço, com um pouco menos de dois metros quadrados, até o chão. Houve uma pausa, um ruído surdo e prolongado. Uma nuvem de poeira levantou-se em torno do caminhão quando a placa começou a bater ritmadamente na terra. O chão tremeu sob seus pés.

 Aquilo era um vibrador sísmico, uma máquina para enviar ondas de choque através da crosta terrestre. Priest nunca tivera muito estudo; exceto no tocante ao furto de carros, mas era a pessoa mais esperta que ele próprio conhecera e compreendeu como o vibrador funcionava. Era similar ao radar e ao sonar. As ondas de choque refletiam-se na composição do solo — rocha ou líquido — e voltavam para a superfície, onde eram captadas por aparelhos de escuta chamados geofones.

 Priest trabalhava na equipe de geofones. Tinham plantado mais de mil deles em intervalos medidos com precisão em uma grade com uma milha — mil e seiscentos metros — de lado. Cada vez que o vibrador sacudia o solo, os reflexos eram captados pelos geofones e gravados por um supervisor que trabalhava em um trailer conhecido como casa do cachorro. Todos esses dados mais tarde iriam alimentar um supercomputador em Houston, que produziria um mapa tridimensional do que se encontrava sob a superfície da terra. O mapa seria vendido a uma companhia de petróleo.

 O tom das vibrações tornou-se mais agudo, produzindo um barulho que lembrava os poderosos motores de um transatlântico ganhando velocidade. Depois o barulho cessou abruptamente. Priest correu ao longo do sendero até o caminhão, sentindo os olhos arderem por causa da nuvem de poeira.

 Abriu a porta e subiu com dificuldade na cabina. Um homem corpulento e de cabelos negros, com cerca de trinta anos, estava à direção.

 — Ei, Mario — disse Priest, sentando-se do lado do motorista.

 — Ei, Ricky.

 Richard Granger era o nome na carteira de motorista de Priest (categoria B). A carteira era forjada, mas o nome, real.

 Ele carregava um pacote de cigarros Marlboro, a marca que Mario fumava. Jogou o pacote em cima do painel.

 — Aqui, trouxe uma coisa pra você.

 — Ei, cara, você não precisa me comprar cigarros.

 — Estou sempre filando seus cigarros — ele pegou o maço aberto em cima do painel, sacudiu até aparecer um cigarro, que pôs na boca.

 Mario sorriu.

 — Por que você não compra os seus cigarros?

 — De jeito nenhum, cara. Não posso fumar.

 — Você é maluco, cara — Mario deu uma risada.

 Priest acendeu o cigarro. Sempre teve facilidade em relacionar-se com as pessoas, fazer com que gostassem dele. Nas ruas onde crescera, os outros batiam em você se não gostassem da sua cara, e ele fora um garoto miúdo. Por isso desenvolvera a capacidade intuitivamente o que as pessoas queriam dele — deferência, afeição, humor, o que fosse — e o hábito de proporcionar-lhes rapidamente essas coisas. No campo petrolífero, o que unia os homens era o humor: geralmente zombeteiro, às vezes inteligente e quase sempre obsceno.

 Embora estivesse ali apenas há duas semanas, Priest ganhara a confiança dos colegas. Mas ainda não tinha imaginado um modo de roubar o vibrador sísmico. E tinha de fazê-lo nas próximas horas, pois no dia seguinte o caminhão deveria ser levado para um novo local, a mil e duzentos quilômetros de distância, perto de Clovis no estado de Novo México.

 Seu vago plano era pegar uma carona com Mario. A viagem levaria dois ou três dias — o caminhão, que pesava dezoito toneladas, desenvolvia na estrada sessenta e cinco quilômetros por hora. Em algum ponto daria um jeito para Mario tomar um porre ou qualquer coisa e aí sumiria com o caminhão. Tinha esperanças de que um plano melhor lhe ocorresse, mas até agora faltara inspiração.

 — Meu carro anda morrendo — disse. — Quer me dar uma carona até San Antonio amanhã?

 Mario ficou surpreso.

 — Você não vai até Clovis, vai?

 — Nada disso — ele gesticulou na direção da paisagem árida do deserto.

 — Olha só isso aí — disse. — O Texas é tão bonito, não quero ir embora nunca.

 Mario deu de ombros. Não havia nada de estranho em um trabalhador temporário, naquela linha de trabalho, sentir-se irrequieto.

 — Claro, eu dou a carona — era contra as regras da companhia levar passageiros, mas os motoristas faziam isso o tempo todo.

— Encontra comigo no vazadouro.

 Priest fez que sim. O vazadouro de lixo era um buraco desolado, cheio de picapes enferrujadas, aparelhos de televisão esmagados e colchões infestados de bichos, nas cercanias de Liberty, a cidadezinha mais próxima. Ninguém estaria lá para ver Mario pegá-lo a menos que houvesse por lá uma dupla de garotos matando cobras com uma espingarda calibre

 — A que horas?

 — Digamos que às seis.

 — Eu levo café.

 Priest precisava daquele caminhão. Sentia que sua vida dependia dele.

 As palmas de suas mãos coçavam de vontade de pegar Mario naquele instante mesmo, jogá-lo para fora da cabina e dar o fora. Mas não adiantava. Para começar, Mario era quase vinte anos mais moço que Priest e podia não se deixar jogar para fora da cabina com facilidade. Outra coisa é que o roubo só podia ser descoberto após alguns dias. Priest precisava dirigir o caminhão até a Califórnia e escondê-lo antes que a polícia de todo o país fosse alertada para descobrir o paradeiro de um vibrador sísmico roubado.

 Ouviu-se um bipe no rádio, isto indicava que o supervisor na casinha de cachorro checara os dados da última vibração e não encontrara problemas. Mario levantou a placa, engrenou o caminhão e adiantou-se cinqüenta metros, parando exatamente do lado da bandeirola cor-de-rosa seguinte. Em seguida abaixou a placa de novo e enviou um sinal de pronto. Priest a tudo observou cuidadosamente, como fizera diversas vezes antes, assegurando-se de que decorava a ordem em que Mario movimentava as alavancas e acionava os interruptores. Se esquecesse alguma coisa mais tarde, não haveria ninguém a quem pudesse perguntar.

 Esperaram pelo sinal de rádio vindo da casa de cachorro e que daria início à próxima vibração. Podia ser feito pelo motorista no caminhão, mas geralmente os supervisores preferiam reter o comando e dar início ao processo pelo controle remoto. Priest terminou o cigarro e jogou a ponta pela janela.

 Mario indicou o carro de Priest, estacionado uns seiscentos metros adiante na estrada de asfalto de duas pistas.

 — Aquela é a sua mulher?

 Priest deu uma olhada. Star saltara do Honda Civic azul claro imundo e estava encostada no capô, abanando o rosto com o chapéu de palha.

 — É, é ela sim — respondeu.

 — Deixa eu lhe mostrar uma foto — Mario pegou no bolso da calça-jeans uma carteira velha de onde tirou uma foto que passou para Priest. – Esta é Isabella — disse, orgulhosamente.

 Priest viu uma bonita garota mexicana com seus vinte e poucos anos, com um vestido amarelo e um arco também amarelo no cabelo. Segurava um bebê apoiado no quadril e tinha um menino de cabelo bem escuro de pé, timidamente a seu lado.

 — Seus filhos?

 Ele fez que sim.

 — Ross e Betty.

 Priest resistiu à tentação de sorrir ao ouvir os nomes ingleses.

 — Bonitas crianças.

 Ele pensou nos próprios filhos e quase falou com Mario a respeito deles, mas deteve-se a tempo.

 — Onde moram?

 — El Paso.

 O germe de uma idéia pipocou na cabeça dele.

 — Você os vê com freqüência?

 Mario sacudiu a cabeça.

 — Eu só faço trabalhar, cara. Economizando dinheiro para comprar uma casa para eles. Uma casa boa, com uma cozinha grande e uma piscina no quintal. Eles merecem.

 A idéia desabrochou. Priest conteve a excitação e manteve o tom de voz casual, prosseguindo com o papo furado.

 — É, uma bela casa para uma bela família. Certo?

 — É o que penso.

 O rádio emitiu um outro bipe e o caminhão começou a sacudir. O barulho era como o de um trovão, só que mais regular. Começou num tom grave de baixo profundo e foi lentamente subindo. Exatamente depois de catorze segundos, parou.

 No silêncio que se seguiu, Priest estalou os dedos. — Ei, tenho uma idéia... não, acho que não.

 — O que?

 — Não sei se ia funcionar.

 — O quê, homem, o quê?

 — Eu só pensei que, você sabe, sua mulher sendo tão bonita e seus filhos também, está errado você não ver sua família com mais freqüência.

 — É esta a sua idéia?

 — Não, minha idéia é que eu podia dirigir o caminhão até o Novo México enquanto você vai visitá-los, mais nada — era importante não parecer muito entusiasmado, disse Priest a si Próprio. — Mas acho que não ia dar certo — acrescentou, num tom de voz que traduzia indiferença.

 — Não, cara, não é mesmo possível.

 — Provavelmente não. Vejamos, se sairmos amanhã cedo e dirigirmos até San Antonio juntos, eu podia deixar você lá no aeroporto e você chegaria em El Paso ao meio-dia. Brincava com as crianças, almoçava com sua mulher, passava a noite, tomava um avião no de Lubbock a Clovis?

 — Uns cento e quarenta, talvez, cento e sessenta quilômetros.

 — Poderíamos estar em Clovis na mesma noite, ou na manhã seguinte, no mais tardar, e ninguém saberá que você não dirigiu todo o trajeto.

 — Mas você quer ir para San Antonio.

 Droga. Priest não pensara nos detalhes; ia inventando à medida que falava.

 Ei, nunca estive em Lubbock — disse, alegremente. — É onde nasceu Buddy Holly.

 — Quem diabos é Buddy Holly? Priest cantou:

 — "I love you, Peggy Sue." Buddy Holly morreu antes de você nascer, Mario. Eu gostava mais dele do que do Elvis. E não me pergunte quem foi Elvis.

 — Você dirigiria toda essa distância só por minha causa?

 Priest perguntou-se, ansioso, se Mario estaria desconfiado ou apenas grato.

 — Claro que sim — respondeu. — Desde que você me deixe fumar os seus Marlboros.

 Mario sacudiu a cabeça, assombrado.

 — Você é um sujeito e tanto, Ricky. Mas eu não sei.

 Não estava desconfiado, então, só apreensivo. E provavelmente não podia ser forçado a tomar uma decisão. Priest mascarou sua frustração com um show de indiferença.

 — Bem, pense nisso — disse.

 — Se alguma coisa sair errado, não quero perder meu emprego.

 — Você está certo — Priest lutou para conter a impaciência. — Eu lhe digo, a gente conversa mais tarde. Vai ao bar de noite?

 — Claro.

 — Por que não me dá a resposta lá?

 — OK, estamos combinados.

 O rádio transmitiu o bipe que sinalizava tudo bem e Mario acionou a alavanca que levantava a placa do chão.

 — Preciso voltar para a equipe dos geofones — disse Priest. – Temos que enrolar alguns quilômetros de cabos antes da noite cair.

 Ele devolveu a foto da família de Mario e abriu a porta. — Vou lhe dizer uma coisa, cara, se eu tivesse uma garota tão bonita assim, nem saía de casa.

 Priest sorriu, pulou para o chão e bateu a porta.

 O caminhão deslocou-se na direção da bandeirola seguinte enquanto Priest se afastava, as botas de caubói chutando a poeira.

 Enquanto percorria o sendero que ia dar onde o carro estava estacionado, viu que Star começava a andar de um lado para o outro, impaciente e ansiosa.

 Star tinha sido famosa, mesmo que por um breve período. No auge da era hippie morava em Haight-Ashbury, um bairro de San Francisco. Priest não a conhecia nesse tempo — ele gastara o final dos anos 60 ganhando o seu primeiro milhão de dólares — mas tinha tomado conhecimento das histórias dela. Fora uma mulher linda, alta e de cabelos escuros, com um perfil generoso que lembrava uma ampulheta. Tinha gravado um disco recitando poesia com um fundo de música psicodélica executada pela banda Raining Fresh Daisies. O disco fizera certo sucesso, e Star fora uma celebridade por uns dias.

 Mas o que a transformara numa lenda fora sua insaciável promiscuidade sexual. Fazia sexo com quem cismasse: ansiosos garotos de doze anos e espantados homens de sessenta, rapazes que pensavam ser gays e garotas que não sabiam que eram lésbicas, amigos que conhecia havia anos e estranhos que apanhava nas ruas.

 Isso fora muito tempo atrás. Agora ela estava a poucas semanas de completar o qüinquagésimo aniversário e havia faixas grisalhas no seu cabelo. A silhueta ainda era generosa, embora não mais lembrasse uma ampulheta: pesava oitenta quilos. Mas ainda exercia um extraordinário magnetismo sexual. Quando entrava num bar todos os homens olhavam para ela.

 Mesmo agora, inquieta e encalorada, havia um quê de sexual no jeito como andava e se virava ao lado do carro velho e barato, um convite evidente no movimento de suas carnes sob o algodão fino do vestido, e Priest sentiu o impulso de agarrá-la ali mesmo.

 — O que aconteceu? — perguntou ela assim que achou que ele podia ouvi-la.

 Priest sempre era otimista.

 — Tudo bem — disse ele.

 — O que parece ruim — disse ela, ceticamente. Sabia que não devia acreditar em tudo o que ouvia.

 Ele lhe contou a proposta que fizera a Mario.

 — O bom da história é que o Mario é que levará a culpa acrescentou.

 — Como assim?

 — Pense no seguinte. Ele chega a Lubbock, me procura, não estou lá, tampouco o caminhão. Ele imagina que foi tapeado. O que faz? Seque para Clovis e diz à companhia que perdeu o caminhão? Acho que não. Na melhor das hipóteses, será despedido. Na pior, poderá ser acusado de ter roubado o caminhão e ser jogado na cadeia, aposto como ele nem irá a Clovis. Voltará para o avião, seguirá para El Paso, coloca mulher e filhos no carro e desaparece. Aí a polícia vai ter certeza de que ele roubou o caminhão. E Ricky Granger não será sequer um suspeito.

 Ela franziu a testa.

 — É um grande plano, mas ele morderá a isca?

 — Acho que sim.

 Star ficou mais ansiosa e bateu no teto sujo do carro com a palma da mão.

 — Merda, temos que pegar aquele maldito caminhão!

 Ele estava tão preocupado quanto ela, mas disfarçou com um ar confiante.

 — Vamos pegar — disse ele. — Se não for de um jeito, será de outro.

 Ela pôs o chapéu de palha na cabeça, recostou-se no carro e fechou os olhos.

 — Quisera eu ter certeza.

 Priest fez um carinho no rosto dela.

 — Precisa de uma carona, senhora?

 — Sim, por favor. Leve-me para o meu quarto de hotel com ar-condicionado.

 — Haverá um preço a pagar.

 Ela abriu os olhos com fingida inocência.

 — Terei que fazer alguma coisa indecente, senhor?

 Ele deslizou a mão por entre os seios de Star.

 — Terá, sim.

 — Oh, mas que droga — disse ela, levantando a saia até a cintura.

 Estava sem calcinhas.

 Priest sorriu e desabotoou sua Levis.

 — O que é que o Mario vai pensar se nos vir?

 — Sentirá ciúmes — disse Priest, ao mesmo tempo em que a penetrava.

 Eram quase da mesma altura e se ajustavam com a facilidade da longa prática.

 Star beijou-lhe a boca.

 Poucos momentos depois ele ouviu um veículo se aproximando pela estrada. Os dois olharam sem interromper o que estavam fazendo. Era uma picape com três trabalhadores no banco da frente. Os homens puderam ver o que estava acontecendo e eles gritaram e fizeram algazarra pelas janelas abertas quando passaram.

 Star acenou para eles, gritando:

 — Ei, caras!

 Priest riu tanto que gozou.

 

 A crise tinha entrado na fase final e decisiva exatamente três semanas antes.

 Eles estavam sentados na mesa comprida na cabana onde funcionava a cozinha, comendo a refeição do meio-dia, um apimentado ensopado de lentilhas e legumes com pão recém-saído do forno, quando Paul Beale entrou com um envelope na mão.

 Paul engarrafava o vinho que a comunidade de Priest produzia — mas ia além disso. Era o vínculo deles com o exterior, que os capacitava a negociar com o mundo mas mantendo-o à distância. Um homem calvo e barbado, de jaqueta de couro, amigo de Priest desde que os dois eram arruaceiros de catorze anos, rolando embriagados pelas ruas miseráveis de L.A., no início dos anos 60.

 Priest adivinhou que Paul recebera a carta naquela manhã e tinha imediatamente entrado no carro e vindo de Napa. Adivinhou também o que havia na carta, mas esperou que Paul explicasse.

 — É do Bureau de Administração de Terras — disse Paul. Endereçada a Stella Higgins.

 Ele a entregou a Star, sentada em uma das extremidades da mesa, em frente a Priest. Stella Higgins era seu nome verdadeiro, o nome que usara ao arrendar aquela extensão de terra ao Departamento do Interior, no outono de 1969.

 Ao redor da mesa todos ficaram em silêncio. Até mesmo as crianças calaram a boca, sentindo a atmosfera de medo e alarme.

 Star rasgou o envelope e tirou uma folha. Leu o texto com uma única olhada.

 — Sete de junho — disse.

 Priest disse:

 — Sete semanas e dois dias a partir de hoje — este tipo de cálculo era feito automaticamente por ele.

 Diversas pessoas gemeram, em desespero. Uma mulher chamada Song começou a chorar silenciosamente. Um dos filhos de Priest, um menino de dez anos chamado Ringo, perguntou:

 — Por quê, Star, por quê?

 Priest percebeu que era alvo do olhar de Melanie, a mais recente integrante da comunidade. Era alta e magra, com vinte e oito anos de idade e dona de uma aparência admirável: pele muito clara, cabelos compridos cor de páprica, e corpo de modelo. Dusty, o filho de cinco anos de idade, estava sentado ao seu lado.

 — O quê? — perguntou Melanie, chocada. — O que é isso?

 Todo mundo sabia que aquilo aconteceria, mas era deprimente demais falar a respeito e não tinham contado a Melanie. Priest explicou:

 — Temos que abandonar o vale. Sinto muito, Melanie.

 Star leu a carta.

 — A acima referida extensão de terra tornar-se-á perigosa para habitação humana após o dia 7 de junho, e, assim sendo, o seu período de arrendamento terminará naquela data, de acordo com a cláusula nove, parte B, parágrafo dois, do seu contrato.

 Melanie levantou-se. Sua pele alva ficou vermelha e o rosto bonito retorceu-se num súbito acesso de ódio.

 — Não! — gritou ela. — Não! Não podem fazer isso comigo , acabei de encontrar vocês! Não acredito, é mentira — ela voltou sua fúria contra Paul. — Mentiroso! — gritou. — Seu filho da puta mentiroso!

 O filho dela começou a chorar.

 — Ei, pára com isso! — exclamou Paul, indignado. — Sou apenas a droga do carteiro!

 Todo mundo começou a gritar ao mesmo tempo.

 Priest colocou-se ao lado de Melanie com duas passadas. Passou o braço em torno dela e falou baixinho no seu ouvido. — Você está assustando o Dusty — disse. — Sente-se, agora. Você tem direito de estar furiosa, nós todos estamos loucos de raiva.

 — Diga-me que não é verdade — disse ela.

 Priest empurrou-a delicadamente de volta para a cadeira.

 — É verdade, Melanie. É verdade.

 Quando todos se aquietaram, Priest disse:

 — Vamos embora, todo mundo, vamos lavar os pratos e voltar para o trabalho.

 — Por quê? — quis saber Dale. Ele era o vinhateiro. Não um dos fundadores, tinha chegado aos anos 80, desiludido com o mundo comercial.

 Depois de Priest e Star, era a pessoa mais importante do grupo. – Não estaremos aqui para a vindima — prosseguiu. — Temos que ir embora em cinco semanas. Por que trabalhar?

 Priest imobilizou-o com o olhar, a mirada hipnótica que só não intimidava as pessoas dotadas de mais força de vontade. Deixou que a sala ficasse em silêncio, para que todos pudessem ouvir. E por fim disse:

 — Porque milagres acontecem.

 

 Uma postura local proibia a venda de bebidas alcoólicas na cidadezinha de Shiloh, no Texas, mas logo do outro lado do limite urbano havia um bar chamado Doodlebug, com chope barato, uma banda country-faroeste e garçonetes vestindo calças blue jeans apertadas e botas de caubói.

 Priest foi sozinho. Não queria que Star mostrasse o rosto, correndo o risco de que se lembrassem dela mais tarde. Gostaria que ela não tivesse vindo para o Texas. Mas precisava de alguém que o ajudasse a levar o vibrador sísmico de volta. Iam dirigir dia e noite, alternando-se ao volante, usando drogas para permanecerem acordados. Queriam chegar antes de que dessem por falta da máquina.

 Lamentava a indiscrição daquela tarde. Mario vira Star a uns quatrocentos metros de distância e os três trabalhadores na picape a tinham apenas vislumbrado ao passarem, mas sua aparência era marcante e provavelmente seriam capazes de descrevê-la aproximadamente: uma mulher branca, alta, corpulenta, de cabelos escuros compridos...

 Priest mudara de aparência antes de chegar em Liberty. Deixara crescer o bigode e uma barba cerrada e prendera o cabelo comprido numa trança apertada que mantinha enfiada dentro do chapéu.

 No entanto, se tudo corresse de acordo com o seu plano, ninguém pediria descrições dele ou de Star.

 Quando chegou no Doodlebug, Mario já estava lá, sentado a uma mesa com cinco ou seis sujeitos da equipe de geofones e o chefe do grupo, Lenny Petersen, que controlava toda a equipe de exploração sísmica.

 Para não parecer demasiado ansioso, Priest pediu uma Lone Star de gargalo comprido e ficou no bar por algum tempo, tomando a cerveja direto na garrafa e conversando com a garçonete antes de se integrar à mesa de Mario.

 Lenny era um sujeito careca, de nariz vermelho. Tinha sido ele quem dera o emprego a Priest, duas semanas antes. Priest passara uma noite no bar, bebendo moderadamente, sendo amável com a equipe, aprendendo uma ou outra palavra do jargão da exploração sísmica e rindo alto das piadas de Lenny. Na manhã seguinte o encontrara no campo petrolífero e pedira um emprego.

 — Vou aceitar você a título de experiência — dissera Lenny.

 Era tudo de que Priest precisava.

 Ele era trabalhador, aprendia depressa e era uma pessoa fácil de lidar; em poucos dias foi aceito como membro regular da equipe.

 Ao sentar-se, Lenny dirigiu-se a ele com seu sotaque arrastado do Texas:

 — Então, Ricky, você não vai conosco a Clovis.

 — É isso aí — confirmou Priest. — Gosto demais do tempo aqui para sair.

 — Bem, eu só gostaria de dizer, com toda a sinceridade, que foi um verdadeiro privilégio e um prazer conhecer você, mesmo que por um período de tempo tão curto.

 Os outros riram. Lenny fizera a piada usando um lugar-comum. Todos olharam para Priest aguardando sua réplica. Priest fez uma cara solene e disse:

 — Lenny, você é tão bom pra mim que eu vou lhe perguntar mais uma vez. Quer se casar comigo?

 Todos deram risada. Mario deu um tapa nas costas de Priest.

 Lenny pareceu ficar perturbado e disse:

 — Você sabe que não posso me casar com você, Ricky. E eu já lhe disse qual o motivo — ele fez uma pausa para aumentar o efeito dramático e todos se inclinaram um pouco para a frente a fim de não deixarem de escutar o desfecho. — Sou lésbica.

 Desta vez eles chegaram a urrar de tanto rir. Priest deu um sorriso melancólico, reconhecendo a derrota, e pediu um jarro de chope para a mesa.

 A conversa passou para o beisebol. A maioria ali torcia pelos Astros de Houston, mas Lenny era de Arlington e preferia os Rangers do Texas.

 Priest não tinha interesse por esportes, de modo que aguardou impacientemente, intervindo de vez em quando com um a tempo, tinham sido bem pagos e era uma noite de sexta-feira. Priest bebericou lentamente sua cerveja. Nunca bebia muito; detestava perder o controle. Observou Mario bebendo. Quando Tammy, a garçonete deles, trouxe outro jarro, Mario contemplou, com um olhar de desejo, os seios dela, sob a camisa xadrez.

 Continue desejando, Mario — você poderia estar na cama com sua mulher amanhã.

 Depois de uma hora, Mario foi ao banheiro.

 Priest seguiu-o. Ao inferno com esta espera, está na hora de decidir. Colocou-se ao lado de Mario e disse:

 — Acho que a Tammy está usando roupa de baixo preta.

 — Como é que você sabe?

 — Dei uma espiada quando ela se abaixou. Adoro ver um sutiã rendado.

 Mario suspirou. Priest continuou.

 — Você gosta de mulher com roupa de baixo preta?

 — Vermelha — disse Mario, decidido.

 — É, vermelho é bonito também. Dizem que é um sinal de que a mulher realmente está a fim de você, quando veste roupa de baixo vermelha.

 — É mesmo? — o hálito de cerveja de Mario veio um pouco mais depressa.

 — E, ouvi isso não sei onde. — Priest abotoou-se. — Escute, tenho que ir. Minha mulher está me esperando no motel.

 Mario fez uma careta e enxugou o suor da testa.

 — Vi você e ela hoje de tarde, cara.

 Priest sacudiu a cabeça fingindo arrependimento.

 — É minha fraqueza. Eu simplesmente não sei dizer não para uma cara bonita.

 — Vocês estavam transando, não estavam, na maldita estrada?

 — É... Bem, quando você não vê uma mulher há algum tempo, ela fica meio frenética querendo, entende o que quero dizer? Vamos, Mario, vê se entende onde estou querendo chegar!

 — Sim, eu sei. Olha, a respeito de amanhã...

 Priest prendeu a respiração.

 — Bem, se você ainda está querendo fazer o que disse... Sim! Sim!

 — Vamos em frente, certo?

 Priest resistiu à tentação de abraçar o outro. Mario perguntou ansiosamente.

 — Você ainda está disposto, não está?

 — Claro que sim — Priest passou o braço pelos ombros de Mario quando os dois saíram do banheiro. — Ei, para que servem os amigos, entende o que quero dizer?

 — Obrigado, cara — havia lágrimas nos olhos de Mario. Você é um sujeito e tanto, Ricky.

 

 Lavaram as tigelas de cerâmica e as colheres de pau em uma grande banheira de água morna e secaram em uma toalha feita de uma velha camisa de trabalho. Melanie disse a Priest:

 — Bem, começaremos de novo em algum outro lugar! Arranjamos um pedaço de terra, construímos cabanas de madeiras, plantamos videiras, fazemos vinho. Por que não? É o que você fez todos estes anos.

 — É — disse Priest. Pôs sua tigela numa prateleira e jogou a colher numa caixa. Por um momento era novamente jovem, forte como um pônei e dono de uma energia ilimitada, certo de que seria capaz de resolver qualquer problema que a vida lhe oferecesse. Lembrou do corpo jovem de Star, suando quando cavava o solo; da maconha deles, plantada em uma clareira no meio do mato e a doçura embriagadora das uvas quando esmagadas.

 Depois voltou ao presente e sentou-se à mesa.

 — Todos estes anos — ele repetiu — nós alugamos esta terra do governo por quase nada, e depois eles se esqueceram de nós.

 Star interveio:

 — Nunca um aumento do aluguel, em vinte e nove anos.

 Priest continuou:

 — Limpamos a floresta graças ao trabalho de trinta ou quarenta jovens que queriam trabalhar em liberdade, doze a catorze horas por dia, por um ideal.

 Paul Beale fez uma careta.

 — Minhas costas ainda doem quando penso nisso.

 — Conseguimos nossas parreiras de graça, dadas por um bondoso vinicultor do vale do Napa que queria encorajar gente jovem a fazer algo construtivo em vez de ficar sentada tomando drogas o dia inteiro.

 — O velho Raymond Dellavalle — disse Paul. — Já morreu, que Deus o tenha.

 — E o mais importante foi que nós nos determinamos e fomos capazes de viver na linha da pobreza, meio famintos, dormindo no chão, buracos nas solas dos sapatos, por cinco longos anos até colhermos nossa primeira safra vendável.

 Star pegou um bebê que engatinhava pelo chão, limpou o nariz dele e disse:

 — E nós não tínhamos filhos com que nos preocupar.

 — Exatamente — concordou Priest. — Se pudéssemos reproduzir todas aquelas condições, poderíamos começar tudo de novo.

 Melanie não ficou satisfeita.

 — Tem que haver um jeito!

 — Bem, há um outro jeito — disse Priest. — Paul sabe como é. Paul balançou a cabeça afirmativamente.

 — Você pode organizar uma corporação, pedir um empréstimo de um quarto de milhão de dólares a um banco, contratar a mão-de-obra e tornar-se como qualquer outro capitalista ganancioso cuidando das margens de lucro.

 — E isso — arrematou Priest — seria o mesmo que desistir.

 

 Ainda estava escuro quando Priest e Star se levantaram na manhã de sábado em Liberty. Priest tomou café na lanchonete do lado do motel.

 Quando ele voltou, Star estudava um mapa rodoviário à luz do abajur.

 — Você deverá deixar Mario no Aeroporto Internacional de San Antonio por volta das nove e meia, dez horas da manhã de hoje — disse ela. — Depois vai querer deixar a cidade pela Interestadual 10.

 Priest não olhou para o mapa. Mapas o confundiam. Podia seguir as placas indicando a 1-10.

 — Onde nos encontraremos?

 Star calculou.

 — Eu deverei estar mais ou menos uma hora na sua frente — ela pôs o dedo num ponto do mapa. — Há um lugar chamado Leon Springs, a cerca de vinte e quatro quilômetros do aeroporto. Estacionarei lá onde você com certeza verá o carro.

 — Parece bom.

 Estavam tensos e excitados. Roubar o caminhão do Mario era apenas o primeiro passo do plano, mas era crucial; tudo o mais dependia disso.

 Star estava preocupada com coisas práticas.

 — O que vamos fazer com o Honda?

 Priest comprara o carro três semanas atrás por mil dólares em dinheiro.

 — Vai ser difícil vender. Se passarmos por uma revenda de carros usados, podemos conseguir uns quinhentos dólares por ele. Caso contrário, achamos uma região arborizada perto da estrada e o largamos lá.

 — Podemos ficar sem o dinheiro?

 — Dinheiro faz você pobre — Priest citou um dos Cinco Paradoxos de Baghram, o guru cujos ensinamentos eles seguiam. Priest sabia quanto dinheiro tinham até o último centavo, mas conservava todos os demais na ignorância. A maioria dos membros da comunidade nem sequer sabia da existência de uma conta bancária. E ninguém no mundo tinha conhecimento da verba de emergência de Priest, dez mil dólares em notas de vinte, presos com fita adesiva no interior de uma velha guitarra acústica pendurada em um prego na parede da sua cabana.

 Star deu de ombros.

 — Não me preocupei com dinheiro nos últimos vinte e cinco anos, de modo que acho que não vou começar agora. — ela tirou os óculos de leitura.

 Priest sorriu para ela.

 — Você fica bonitinha de óculos.

 Star lhe dirigiu um olhar enviesado e fez uma pergunta surpreendente:

 — Está ansioso para ver Melanie?

 Priest e Melanie eram amantes. Ele segurou a mão de Star.

 — Claro.

 — Gosto de ver você com ela. Ela o faz feliz.

 Uma lembrança súbita de Melanie passou como um relâmpago pela memória de Priest. Ela estava deitada de bruços, atravessada na cama dele, dormindo, com o sol da manhã entrando, oblíquo, na cabana. Ele estava sentado tomando café, observando-a, deleitando-se com a textura da sua pele branca, a curva perfeita do seu traseiro, o modo como o cabelo vermelho comprido se espalhava numa trama confusa. Em mais um momento sentiria o cheiro do café, rolaria o corpo e abriria os olhos, e aí ele voltaria para a cama e faria amor com ela. Mas por ora, ele se comprazia com a antecipação, planejando como a tocaria e a excitaria, saboreando o momento delicioso como um copo de bom vinho.

 A visão desvaneceu-se, e ele viu o rosto de Star com quarenta e nove anos de idade no quarto barato de um motel do Texas.

 — Você não está chateada por causa da Melanie, está?

 — O casamento é a maior das infidelidades — disse ela, citando outro dos Paradoxos.

 Ele assentiu. Nunca tinham pedido um ao outro para serem fiéis. No princípio fora Star quem desprezara a idéia de se comprometer com um único amante. Aí, depois que fez trinta anos e começou a se acalmar, Priest testara a sua permissividade desfilando com outras mulheres em sua frente. Mas nos últimos anos, embora ainda acreditassem no amor livre, nenhum dos dois realmente havia tirado partido disso.

 Assim, Melanie viera como uma espécie de choque para Star. Mas tudo bem. De qualquer maneira a relação deles estava sedimentada. Priest não gostava que ninguém achasse que podia prever o que ele ia fazer. Amava Star, mas a mal disfarçada ansiedade nos olhos dela lhe dava uma agradável sensação de controle.

 Ela brincou com a xícara de plástico.

 — Eu só queria saber como Flower se sente a respeito disso tudo. — Flower era a filha deles, que, com treze anos de idade, era a criança mais velha da comunidade.

 — Ela não foi criada em uma família nuclear — disse ele. — Nós não fizemos dela uma escrava das convenções burguesas. Esta é a vantagem de uma comunidade.

 — Pode ser — concordou Star, mas não o bastante. — Eu só não quero que ela perca você, mais nada.

 Ele acariciou a mão dela.

 — Isto não acontecerá.

 Star apertou os dedos dele.

 — Obrigada.

 — Temos que ir — disse ele, levantando-se.

 Seus poucos pertences tinham sido acondicionados em três sacolas plásticas de compras. Priest pegou-as e jogou dentro do Honda. Star foi atrás.  Tinham pago a conta na noite anterior. O escritório agora estava fechado e ninguém viu quando Star sentou-se ao volante e eles desapareceram na primeira luz da manhã.

 Shiloh era uma cidadezinha de duas ruas, com um único sinal onde elas cruzavam. Não havia muitos veículos circulando àquela hora em uma manhã de sábado. Star avançou o sinal e saiu da cidade. Chegaram no vazadouro poucos minutos antes das seis horas.

 Não havia placa do lado da estrada, nem cerca ou portão, só uma trilha onde a vegetação fora esmagada pelos pneus das picapes. Star seguiu a trilha até uma ligeira elevação. O vazadouro ficava numa reentrância, escondido da estrada. Ela parou ao lado de uma pilha de lixo que ardia sem chama. Nem sinal de Mario ou do vibrador sísmico. Priest podia ver que Star ainda estava perturbada. Tinha que acalmá-la, pensou, preocupado. Ela não podia se dar ao luxo de ter a atenção desviada, logo hoje. Se alguma coisa desse errado, ela teria que estar alerta, concentrada.

 — Flower não vai me perder — disse ele.

 — Que bom — replicou ela, cautelosa.

 — Vamos ficar juntos, nós três. Sabe por quê?

 — Você me diz.

 — Porque nós nos amamos.

 Ele viu o alívio drenar a tensão do rosto de Star. Ela lutou para não chorar.

 — Muito obrigada — agradeceu.

 Ele sentiu-se seguro outra vez. Dera o que ela precisava. Star estaria bem agora.

 Ele a beijou.

 — Mario chegará a qualquer instante. Você vai seguindo, agora. Ganhe alguns quilômetros de vantagem.

 — Não quer que eu espere até que ele chegue?

 — Ele não deve ver você de perto. Não se pode adivinhar o futuro e não quero que ele seja capaz de identificar você.

 — Está bem.

 Priest saltou do carro.

 — Ei — exclamou Star —, não se esqueça do café do Mario — ela lhe passou o saco de papel.

 — Obrigado — ele pegou o saco e bateu a porta do carro. Ela fez um giro amplo e afastou-se depressa, levantando uma nuvem de poeira do deserto do Texas.

 Priest olhou em torno. Era espantoso que uma cidadezinha tão pequena pudesse produzir tamanha quantidade de lixo. Viu bicicletas retorcidas e carrinhos de bebê com aparência de novos, sofás todos manchados e geladeiras antiquadas, além de, pelo menos, dez carrinhos de supermercado. O lugar estava cheio de embalagens de papelão para sistemas de som, pedaços de poliestireno que pareciam esculturas abstratas, sacolas de papel e de plástico, restos de papel-alumínio e uma quantidade imensa de frascos plásticos que originalmente continham substâncias que Priest jamais usara: hidratante, condicionador de cabelos, amaciante de roupas, tinta para fax. Viu um castelo de fadas cor-de-rosa feito de plástico, presumivelmente o brinquedo de alguma criança, e maravilhou-se com o desperdício extravagante de uma construção tão elaborada.

 Não tinham muito lixo em Silver River Valley. Não usavam carrinhos de bebês ou geladeiras e raramente compravam alguma coisa que viesse dentro de uma embalagem. As crianças usavam a imaginação para construírem um castelo de fadas a partir de uma árvore, um barril ou uma viga.

 Um enevoado sol vermelho apareceu por cima da elevação, lançando a sombra comprida de Priest no estrado enferrujado de uma cama. Aquilo fez com que se lembrasse do nascer do sol sobre os picos brancos da Sierra Nevada e ele sentiu um aperto no coração.

 Alguma coisa brilhou de repente aos seus pés. Era um objeto de metal reluzente, meio enterrado. Sem ter o que fazer, escavou a terra seca com a ponta da bota, depois inclinou-se e pegou o objeto. Era uma chave inglesa pesada, que parecia nova. Mario podia achar que fosse útil, pensou Priest: era mais ou menos do tamanho adequado para a maquinaria de grande escala do vibrador sísmico. Mas é claro que o caminhão devia ter um conjunto completo de ferramentas adequadas a cada porca ou arruela usada na sua fabricação. Mario não precisaria de uma ferramenta achada no lixo.

 Priest largou a chave.

 Nesta hora ele ouviu o motor de um veículo, mas não lhe pareceu que fosse um caminhão grande. Levantou a cabeça. Um momento depois, uma picape bege ultrapassou a crista da elevação e veio se sacudindo pela trilha irregular. Era uma Dodge Ram com o pára-brisa rachado: o carro de Mario. Priest sentiu uma pontada de apreensão.

 O que significava aquilo? Mario deveria aparecer ali dirigindo o caminhão com o vibrador sísmico. O carro dele seria levado para o norte por um dos seus companheiros de trabalho, a menos que ele tivesse decidido vendê-lo ali mesmo e comprar outro em Clovis.

 — Merda — exclamou Priest. — Merda.

 Conteve os sentimentos de raiva e frustração quando Mario parou e saltou da picape.

 — Trouxe o seu café — disse, passando o saco de papel para as mãos de Mario. — O que é que há?

 Mario não abriu o saco. Sacudiu a cabeça tristemente.

 — Não posso fazer, cara.

 Merda.

 Mario continuou.

 — Sinceramente fiquei agradecido com a sua oferta, mas tenho que dizer que não.

 O que diabo está havendo? Priest cerrou os dentes e fez com que a voz soasse casual.

 — O que foi que aconteceu para fazer você mudar de idéia, companheiro?

 — Depois que você saiu do bar ontem à noite, Lenny fez um discurso que não acabava nunca sobre quanto o caminhão custava e como eu não tenho que dar carona, nem pegar ninguém pedindo carona na estrada, e como ele confia em mim, essas coisas todas.

 Posso imaginar Lenny num porre federal, todo meloso, deve ter levado você às lágrimas, seu filho da puta burrão.

 — Você sabe como é, Ricky. Este emprego é legal — trabalho duro e o horário é puxado, mas o pagamento é muito bom.

 — Ei, não tem problema — disse Priest, forçando um tom despreocupado.

 — Desde que você ainda possa me levar a San Antonio. Pensarei em alguma coisa daqui até lá.

 Mario sacudiu a cabeça.

 — É melhor não levar, não depois do que o Lenny falou. Não vou levar ninguém a parte alguma naquele caminhão. É por isso que vim no meu carro, para poder lhe dar uma carona de volta à cidade.

 E o que é que vou fazer agora, pelo amor de Deus?

 — E então, o que é que você diz, vai querer ir?

 E depois, o quê?

 Priest tinha construído um castelo nas nuvens, que agora via agonizar e dissipar-se à brisa leve da consciência culpada de Mario. Passara duas semanas naquele deserto quente e poeirento, trabalhando num serviço burro e inútil, além de ter desperdiçado centenas de dólares em passagens aéreas, contas de motel e uma comida nojenta. Não dispunha de tempo para fazer tudo isso de novo.

 O prazo fatal se esgotava em duas semanas e um dia. Mario fechou a cara.

 — Como é, homem, vamos.

 

 — Eu não vou desistir deste lugar — Star dissera a Priest no dia em que a carta chegara. Estava sentada do lado dele em cima do tapete de agulhas de pinheiro que forrava o solo na orla do parreiral, durante o período do descanso do meio da tarde, tomando água fresca e comendo passas de uvas do ano anterior. — Isto aqui não é só uma fazenda destinada à produção de vinho, não é só mais um vale e também não é só uma comunidade. Isto aqui é toda a minha vida. Viemos para cá, há tanto tempo, porque acreditávamos que nossos pais tinham criado uma sociedade distorcida e corrupta e envenenada. E tínhamos razão, pelo amor de Deus!

 O rosto dela ficou congestionado quando deixou transparecer toda a sua paixão, e Priest pensou como Star era bonita, ainda.

 — Olha só o que aconteceu ao mundo lá fora — prosseguiu ela, erguendo a voz. — Violência e feiúra e poluição, presidentes que mentem e violam a lei, violentos distúrbios da ordem, crime e pobreza. Enquanto isso, vivíamos aqui em paz e harmonia, ano após ano, sem dinheiro, sem ciúmes sexuais, sem regras conformistas. Dizíamos que tudo de que precisávamos era amor, e nos chamavam de ingênuos, mas estávamos certos e eles errados. Nós sabemos que descobrimos o modo de viver — nós provamos isso.

 A voz dela tornara-se muito precisa, traindo suas origens. O pai de Star descendia de família rica mas passara a vida como médico em uma favela. Star herdara seu idealismo.

 — Farei qualquer coisa para salvar nossa casa e nosso meio de vida — continuou ela. — Morrerei por isso, se nossos filhos puderem continuar a morar aqui — em seguida a voz prosseguiu mais contida, mas as palavras foram claras e ela falou com determinação, sem remorsos. – Chegarei inclusive a matar disse. — Você está entendendo, Priest? Farei qualquer coisa.

 

 — Você está me ouvindo? — indagou Mario. — Quer uma carona até a cidade ou não?

 — Claro — respondeu Priest. Claro, seu covarde filho da mãe, seu vira-lata poltrão, seu maldito refugo da terra, eu quero uma carona.

 Mario virou-se.

 Os olhos de Priest deram com a chave que ele deixara cair no chão poucos minutos antes. Um novo plano desenrolou-se, completamente formado, na sua cabeça. Quando Mario deu três passos na direção da sua picape, Priest abaixou-se e pegou a ferramenta. Tinha cerca de quarenta e cinco centímetros de comprimento e pesava pouco mais de dois quilos. A maior parte do peso ficava do lado das garras ajustáveis para porcas hexagonais. Era feita de aço.

 Ele deu uma olhada além do ponto onde se encontrava Mario, ao longo da trilha que dava na estrada. Ninguém à vista. Sem testemunhas. Priest deu um passo a frente justo quando Mario abaixou-se para abrir a porta da picape. Teve uma visão súbita e desconcertante: a foto de uma linda mulher mexicana trajando um vestido amarelo, com uma criança nos braços e outra ao lado, e por uma fração de segundo sua decisão perdeu a força, ao pensar no sofrimento terrível que ia causar às suas vidas.

 Mas logo em seguida teve uma visão pior: uma massa de água escura subindo lentamente até submergir um parreiral e afogar os homens, mulheres e crianças que ali trabalhavam. Correu para Mario, erguendo a chave de aço bem acima da sua cabeça.

 Mario estava abrindo a porta do carro. Deve ter visto alguma coisa com o canto do olho, pois quando Priest estava quase em cima dele subitamente deixou escapar um urro de medo e abriu totalmente a porta, usando-a como escudo.

 Priest esbarrou na porta, que voou de encontro a Mario. Era uma porta larga e pesada, e bateu nele de lado. Ambos os homens tropeçaram. Mario perdeu o equilíbrio e caiu de joelhos, de cara para a picape. Seu boné dos Astros de Houston caiu no chão. Priest caiu sentado no chão pedregoso tão pesadamente que largou a chave. Ela bateu em um frasco plástico de meio galão de Coca-Cola e voou para longe.

 — Seu maluco — exclamou Mario, ofegante. Ele apoiou-se num joelho e procurou um ponto de apoio para poder levantar o corpo pesado. Sua mão esquerda agarrou a moldura da porta. Enquanto arquejava, Priest – ainda sentado — encolheu a perna e chutou a porta com toda a força que tinha, batendo com o calcanhar. A porta bateu nos dedos de Mario e abriu de novo. Mario gritou de dor e ajoelhou outra vez, batendo contra o lado da picape.

 Priest pôs-se de pé num pulo.

 A chave cintilava, prateada, ao sol da manhã. Ele pegou-a e olhou para Mario. Então seu coração encheu-se de ódio contra o homem que estragara seu plano tão cuidadosamente formulado, pondo com isso seu modo de vida em perigo. Aproximou-se de Mario e levantou a chave.

 Mario meio que se virou na direção dele. A expressão de seu rosto jovem mostrava um espanto infinito, como se ele não tivesse qualquer entendimento do que estava acontecendo. Abriu a boca e, quando Priest baixou a chave imensa, disse, numa voz indagadora:

 — Ricky...?

 A extremidade pesada da chave fez um nauseante barulho surdo quando atingiu a cabeça de Mario. O cabelo dele era grosso e brilhoso, mas não fez diferença. O couro cabeludo abriu-se, o crânio rachou e a chave mergulhou no cérebro macio que ficava por baixo.

 Mas ele não morreu.

 Priest começou a sentir medo.

 Os olhos de Mario permaneceram abertos e focalizaram Priest. A expressão aturdida de quem fora traído quase não se alterou. Parecia tentar terminar o que começara a dizer. Ergueu uma das mãos, como se quisesse chamar a atenção de alguém.

 Priest deu um passo para trás, assustado. Mario disse:

 — Cara...

 Priest viu-se possuído pelo pânico e ergueu a chave de novo.

 — Morre, seu filho da puta! — gritou, e golpeou Mario de novo.

 Desta vez a chave mergulhou ainda mais fundo. Retirá-la foi como puxar uma coisa que tivesse mergulhado na lama. Priest sentiu ânsias de vômito quando viu a boca ajustável coberta por uma matéria viva cinzenta. Seu estômago deu uma volta e ele engoliu e Mario caiu lentamente de costas e ficou arriado contra o pneu de trás, imóvel. Seus braços ficaram moles e o queixo caiu, mas ele continuou vivo. Os olhos fixaram-se nos de Priest. O sangue jorrava da boca, corria pelo rosto e caía no colarinho aberto da camisa xadrez. Seu fixo aterrorizou Priest.

 — Morra — suplicou ele — pelo amor de Deus, Mario, por favor, morra!

 Nada aconteceu.

 Priest recuou. Os olhos de Mario pareciam suplicar que ele terminasse o serviço, mas ele não podia golpeá-lo de novo. Não tinha uma explicação lógica para aquilo: simplesmente não podia levantar a chave.

 Aí então Mario moveu-se. Sua boca abriu-se, o corpo ficou rígido e da garganta explodiu um estrangulado grito de agonia. Aquilo foi demais para Priest. Ele, também, gritou; depois correu para Mario e bateu nele repetidas vezes, no mesmo lugar, praticamente sem vê-lo através da névoa de pavor que obscureceu sua visão.

 Priest parou com a gritaria, e o ataque de ódio passou.

 Ele retrocedeu, largando a chave no chão.

 O corpo de Mario caiu lentamente de lado até que a coisa que tinha sido sua cabeça bateu no chão. A massa cinzenta e mole infiltrou-se no solo seco.

 Priest caiu de joelhos e fechou os olhos.

 — Deus Todo-Poderoso, me perdoa — implorou. Ajoelhou-se ali mesmo, tremendo. Tinha medo de, se abrisse os olhos, ver a alma de Mario se elevando aos céus.

 Para serenar, recitou seu mantra:

 — Ley, tor, pur-doy-kor...

 Não tinha significado: era por isso que se concentrando com toda a força produzia um efeito calmante. Tinha o ritmo de um versinho infantil que ele nunca esquecera: Um, dois, feijão com arroz, Três, quatro, pé de pato, Cinco, seis, galinha pedrês, Sete oito, chá com biscoito.

 Quando estava entoando o mantra sozinho, freqüentemente passava para a quadrinha infantil. Funcionava igual.

 Enquanto as sílabas tão familiares o acalmavam, ele ia pensando no trajeto do ar no seu corpo, como entrava pelas narinas, seguia através das passagens nasais até a parte de trás da boca, prosseguia pela garganta, descia para o peito e, finalmente, penetrava nos mais remotos alvéolos dos pulmões e logo em seguida refazia toda a jornada no sentido contrário: pulmões, garganta, boca, nariz e narinas. Quando se concentrava totalmente na jornada da sua respiração, nada mais conseguia entrar na sua cabeça — nenhuma visão, pesadelo ou lembrança. Poucos minutos depois ele se levantou, o coração frio, o rosto exibindo uma expressão determinada. Livrara-se de todas as emoções: não sentia remorso ou piedade. O assassinato pertencia ao passado, e Mario era apenas um lixo de que tinha de se livrar.

 Pegou o chapéu de caubói, espanou a poeira e colocou na cabeça.

 Achou o estojo de ferramentas da picape debaixo do banco do motorista.

 Pegou a chave de parafusos e usou-a para tirar as placas, da frente e de trás. Depois andou um pouco e enterrou-as numa pilha de lixo que queimava sem chamas, alguns metros adiante. Inclinou-se sobre o corpo.

 Com a mão direita, agarrou o cinto da calça-jeans de Mario. Com a esquerda, segurou o que pôde da camisa xadrez. Levantou o corpo do chão, gemendo quando as costas arcaram com o esforço. Mario era pesado. A porta da picape continuava aberta. Priest balançou o corpo de Mario para trás e para a frente algumas vezes, pegando o ritmo e, com um esforço maior, atirou o corpo dentro da cabina. Ele caiu em cima do banco, com os saltos das botas saindo pela porta aberta e a cabeça pendurada no lugar dos pés, do lado do carona. Ela gotejava sangue.

 Priest atirou a chave na direção do corpo.

 Agora queria tirar gasolina do tanque. E para isto precisava de um tubo flexível comprido.

 Abriu o capô, localizou o líquido de limpeza do pára-brisa e arrancou o tubo de plástico que levava o líquido do reservatório para os esguichadores. Pegou o frasco de meio galão de Coca-Cola que tinha notado antes, deu a volta até o lado da picape e desatarraxou a tampa do tanque de gasolina. Enfiou o tubo de plástico no tanque, sugou até sentir o gosto da gasolina e aí tirou a ponta que estava na boca e colocou na garrafa de Coca-Cola. Lentamente, ela foi se enchendo.

 A gasolina continuou a derramar no chão enquanto ele esvaziava a garrafa em cima do cadáver de Mario.

 Ouviu o barulho de um carro.

 Priest olhou para o corpo do morto encharcado de gasolina. Se aparecesse alguém naquela hora, não havia nada que pudesse dizer ou fazer para esconder sua culpa.

 A calma que sustentara escrupulosamente até agora o abandonou.

 Começou a tremer, a garrafa de plástico escorregou de seus dedos e ele se agachou no chão como uma criança assustada. Tremendo, fixou os olhos na trilha que levava à estrada. Será que algum sujeito madrugador tinha vindo se livrar de uma lava-louça obsoleta, ou da casa plástica abandonada pelos filhos, crescidos demais para brincar com ela? Ou, quem sabe, livrar-se dos ternos fora de moda de um avô morto? O barulho do motor ficou mais forte quando o carro se aproximou, e Priest fechou os olhos.

 — Ley, tor, pur-doy-kor...

 O barulho começou a desaparecer. O veículo tinha passado pela entrada do vazadouro de lixo e seguido em frente. Não passava de trânsito comum.

 Sentiu que fizera papel de idiota. Levantou-se, recuperando o controle. — Ley, tor, pur-doy-kor...

 Mas o susto fez com que ele se apressasse.

 Encheu de novo a garrafa de Coca-Cola e rapidamente embebeu o banco de plástico e todo o interior da cabina com gasolina, reservando um tanto para fazer uma trilha pelo chão até a parte de trás e para jogar o resto na lateral, perto do tanque. Jogou a garrafa vazia dentro da cabina e recuou.

 Nesta hora notou o boné dos Astros de Hoüston no chão, pegou e o jogou também no interior da cabina, em cima do corpo. Em seguida pegou uma carteirinha de fósforos no bolso da calça, acendeu um e com ele todos os outros; depois jogou a carteirinha em chamas para trás.

 Houve um som sibilante acompanhando uma explosão de labaredas e seguido imediatamente por uma nuvem de fumaça negra. Em questão de um segundo, o interior da cabina transformou-se em uma fornalha. Um momento depois as labaredas serpentearam pelo chão até o tanque de gasolina.

 Houve outro estouro quando o tanque explodiu, balançando a picape. Os pneus de trás pegaram fogo e as chamas logo lamberam o chassi.

 Um cheiro enjoativo encheu o ar, quase como de carne sendo assada.

 Priest engoliu em seco e recuou mais.

 Após uns poucos segundos, o fogo tornou-se menos intenso. Os pneus, o banco e o corpo de Mario continuaram a queimar lentamente.

 Priest esperou uns minutos, observando as chamas, e depois aventurou-se a se aproximar, tentando não respirar fundo para não sentir o fedor. Deu uma olhada no interior da cabina. O corpo e o banco tinham se soldado em uma funesta massa negra de cinzas e plástico derretido. Quando esfriasse, o veículo seria apenas mais uma coisa que as crianças tinham incendiado no vazadouro de lixo.

 Ele sabia que não conseguira se livrar de todos os indícios de Mario.

 Uma olhada casual nada revelaria, mas os policiais examinariam a picape, provavelmente encontrariam a fivela do cinto, os trabalhos dentários e até mesmo os ossos calcinados. Um dia, Priest sabia muito bem, Mario poderia voltar para assombrá-lo. Mas ele fizera tudo o que podia para esconder as provas do seu crime.

 Agora tinha que roubar o caminhão de Mario.

 Deu as costas para o corpo ainda queimando e começou a andar.

 

 Na comunidade havia um grupo mais influente chamado de Os Comedores de Arroz. Eram sete, atualmente, os remanescentes dos que tinham sobrevivido ao inverno terrível de 1972-73, quando foram isolados por uma violenta nevasca e ficaram três semanas direto sem comer outra coisa que não arroz integral cozido em neve derretida. No dia em que a carta chegou, Os Comedores de Arroz ficaram acordados até tarde da noite, sentados na cozinha, bebendo vinho e fumando maconha.

 Song, que em 1972 era uma garota de quinze anos de idade fugida de casa, tocava guitarra acústica, tirando uns acordes de blues. Alguns membros do grupo faziam guitarras no inverno. Guardavam as de que gostavam mais, e Paul Beale levava o resto para uma loja em San Francisco, onde eram vendidas por bons preços. Star cantava com a voz rouca de contralto, inventando as palavras:

 — Não vou tomar aquele trem que não presta... — Star tinha a voz mais sensual do mundo, sempre teve.

 Melanie estava sentada com eles, embora não fosse uma Comedora de Arroz, porque Priest não se dava ao trabalho de expulsá-la e os outros não tinham coragem de desafiar as decisões dele. Ela chorava em silêncio, as lágrimas densas escorrendo pelo rosto. Repetia o tempo todo:

 — Acabei de encontrar vocês.

 — Nós não desistimos — respondeu Priest. — Tem que haver um meio de fazer o governador da Califórnia mudar sua maldita decisão.

 Oaktree, o carpinteiro, um negro musculoso da mesma idade que Priest, disse, pensativo:

 — Sabem, não é muito difícil fabricar uma bomba nuclear — ele estivera nos Fuzileiros, mas desertara depois de matar um oficial durante um exercício de treinamento, e vivia ali desde então. — Eu podia fazer uma, um dia, se tivesse um pouco de plutônio, explodir e mandar Sacramento para o inferno.

 — Não! — exclamou Aneth. Ela estava dando de mamar a uma criança. O menino tinha três anos de idade, e Priest achava que estava na hora de desmamar, mas Aneth era de opinião que ele devia poder mamar enquanto quisesse. — Não se pode salvar o mundo com bombas.

 Star parou de cantar.

 — Não estamos tentando salvar o mundo. Desisti disso em 1969, depois que a imprensa do mundo todo transformou o movimento hippie em uma piada. Tudo o que quero agora é salvar isto. O que nós temos aqui, a nossa vida, para que nossos filhos possam crescer com paz e amor.

 Priest, que já considerara e rejeitara a idéia de fazer uma bomba nuclear, disse:

 — Arranjar o plutônio é a parte mais difícil.

 Aneth afastou o filho do seio e deu uma palmada nas suas costas.

 — Esqueça isso! — disse. — Não quero ter nada a ver com esse troço. É mortal!

 Star começou a cantar de novo.

 — Trem, trem, trem que não presta...

 Oaktree persistiu.

 — Eu podia arranjar um emprego em uma usina nuclear e descobrir uma maneira de furar o sistema de segurança.

 — Eles iam pedir o seu currículo — contrapôs Priest. — E o que você ia dizer que fez nos últimos vinte e cinco anos? Pesquisa nuclear em Berkeley?

 — Diria que vivi com um bando de pirados que agora precisam explodir Sacramento, de modo que tive que tentar conseguir com eles um pouco de radioatividade, cara.

 Os outros riram. Oaktree recostou-se na cadeira e começou a harmonizar com Star:

 — Não, não, não vou pegar esse trem que não presta...

 Priest fez cara feia para a atmosfera pouco séria. Não podia sorrir.

 Seu coração estava cheio de ódio. Mas sabia que idéias inspiradas às vezes nascem de conversas descontraídas, de modo que deixou correr.

 Aneth beijou a cabeça do filho e disse:

 — Podíamos seqüestrar alguém.

 Priest retrucou:

 — Quem? O governador provavelmente tem seis guarda-costas.

 — Que tal o braço direito dele, o tal de Albert Honeymoon? Houve um murmúrio de aprovação; todos odiavam Honeymoon. — Ou o presidente da Coastal Electric?

 Priest fez que sim. Aquilo podia funcionar.

 Ele conhecia esse tipo de coisa. Já fazia muito tempo desde quando vivera na rua, mas se lembrava das regras de uma briga de gangues: planejar cuidadosamente, ficar frio, atacar o alvo de tal forma que ele nem consiga pensar, agir depressa e dar o fora mais depressa ainda. Mas algo o aborrecia.

 — É... discreto demais — comentou. — Digamos que algum figurão do governo seja seqüestrado. E daí? Se você vai assustar as pessoas não pode agir cautelosamente, tem que assustar pra valer.

 Ele se conteve, não querendo falar mais. Quando você tem um cara de joelhos, chorando e se urinando e suplicando, implorando que você não o machuque mais, é quando você diz o que quer; e ele então ficará tão agradecido que chegará a amá-lo por dizer-lhe o que terá de fazer para que a dor pare. Mas esse era o tipo de fala errada para alguém como Aneth.

 Neste ponto, Melanie falou de novo.

 Ela estava sentada no chão com as costas de encontro à cadeira de Priest. Aneth ofereceu-lhe o enorme cigarro de maconha que passava de mão em mão. Melanie enxugou as lágrimas, puxou uma tragada funda e passou para Priest. Em seguida soprou uma nuvem de fumaça e disse:

 — Sabem de uma coisa, há uns dez ou quinze lugares na Califórnia onde as falhas na crosta terrestre se encontram sob uma pressão tão incrível, que seria preciso apenas um empurrãozinho, ou algo assim, para fazer com que as placas tectônicas deslizassem, uma pedrinha, mas o gigante é tão grande que a sua queda sacode a terra.

 Oaktree parou de cantar tempo bastante para dizer:

 — Melanie, meu bem, que porra é essa que você está falando?

 — Estou falando sobre um terremoto — respondeu ela.

 Oaktree riu.

 — Pega, pega aquele trem que não presta...

 Priest não riu. Alguma coisa lhe disse que aquilo era importante. Ele falou com serena intensidade.

 — O que é que você está dizendo, Melanie?

 — Esqueça essa coisa de seqüestros e bombas nucleares disse ela. – Por que não ameaçamos o governador com um terremoto?

 — Ninguém pode causar um terremoto — disse Priest. Seria preciso uma enorme quantidade de energia para fazer a crosta da terra se mexer.

 — É aí que você se engana. Pode precisar apenas de uma quantidade pequena de energia, desde que a força seja aplicada no lugar certo.

 — Como é que você sabe tudo isso? — indagou Oaktree.

 — Estudei. Tenho mestrado em sismologia. Eu deveria estar ensinando em uma universidade, a esta altura. Mas me casei com o professor, e isto foi o fim da minha carreira. Fui rejeitada para um doutorado.

 Seu tom foi amargo. Priest conversara com ela a este respeito, e sabia que Melanie carregava um profundo ressentimento. O marido integrava o comitê universitário que a rejeitara para o doutorado. Fora obrigado a se retirar da reunião quando o caso dela foi discutido, o que pareceu natural a Priest, mas Melanie achava que o marido de alguma forma devia ter feito algo para garantir seu sucesso. O palpite de Priest é que ela não era bastante boa para cursar o doutorado mas ela preferia acreditar em qualquer coisa menos nisso. Assim, ele lhe disse que os homens do comitê ficaram tão aterrorizados com a combinação de beleza e cérebro que ela representava que conspiraram para rejeitá-la. Melanie amou-o por permitir que acreditasse nisso.

 Ela prosseguiu:

 — Meu marido — em breve meu ex-marido — formulou uma teoria de terremotos chamada de teoria da tensão do desencadeamento. Em certos pontos ao longo das falhas geológicas, a pressão de cisalhamento vai aumentando com o passar do tempo até atingir um nível muito alto. Aí então bastará uma vibração relativamente fraca na crosta terrestre para desalojar as placas, liberar toda a energia acumulada e causar um terremoto.

 Priest ficou cativado. Olhou para Star. Ela balançou a cabeça, muito séria. Star acreditava no heterodoxo. Era um artigo de fé para ela que a teoria bizarra acabasse sendo a verdade, que o modo não convencional de vida fosse o mais feliz, e que o plano mais louco tivesse êxito onde as propostas sensatas tivessem falhado.

 Priest estudou a fisionomia de Melanie. Parecia um ser de outro mundo. Sua pele clara, os olhos verdes espantosos e o cabelo vermelho faziam com que parecesse uma linda alienígena. As primeiras palavras que ele lhe dissera tinham sido:

 — Você é de Marte?

 Será que ela sabia do que falava? Estava chapada de maconha, mas às vezes as pessoas têm suas idéias mais criativas nessas horas. Ele perguntou:

 — Se é assim tão fácil, como é que ainda não o fizeram?

 — Eu não disse que seria fácil. Você tem que ser um sismólogo para saber exatamente onde a falha está sob pressão crítica.

 O cérebro de Priest disparou. Quando se está verdadeiramente encrencado, a saída às vezes é fazer alguma coisa tão estranha, tão totalmente inesperada, que seu inimigo fique paralisado pela surpresa. Ele disse para Melanie:

 — Como se causaria essa vibração na crosta terrestre? — Esta seria a parte difícil.

 Pegar, pegar, pegar...

 Vou pegar aquele trem que não presta...

 

 Ao caminhar de volta para a cidadezinha de Shiloh, Priest viu- se pensando obsessivamente sobre o crime: o modo como a chave mergulhara nos miolos macios de Mario, a expressão no seu rosto, o sangue pingando no chão do carro.

 Aquilo não era bom. Ele tinha que permanecer calmo e alerta. Ainda não tinha o vibrador sísmico que ia salvar a comunidade. Matar Mario fora a parte fácil, disse a si mesmo. Agora tinha que iludir Lenny. Mas como?

 Foi jogado de volta ao presente imediato pelo barulho de um carro. Vinha de trás dele, na direção da cidade. Naquela região ninguém andava. A maior parte das pessoas presumiria que o carro dele tivesse enguiçado. Alguns iam parar e oferecer carona. Priest tentou imaginar uma razão pela qual estaria indo para a cidade a pé às seis e meia da manhã de um sábado. Nada lhe ocorreu. Tentou invocar o deus que lhe inspirara a idéia, de matar Mario, mas os deuses estavam mudos.

 Não havia nenhum lugar de onde pudesse estar voltando em um raio de oitenta quilômetros — exceto do único sobre o qual não podia falar: o vazadouro de lixo onde as cinzas de Mario jaziam no banco da picape incendiada.

 O carro reduziu a marcha ao aproximar-se.

 Priest resistiu à tentação de puxar o chapéu para cima dos olhos.

 O que eu estava fazendo?

 — Fui dar uma volta no deserto para observar a natureza. É, artemísia e cobras.

 — Meu carro enguiçou. Onde? Não vi.

 — Fui urinar. Tão longe?

 Embora o ar da manhã estivesse frio, ele começou a suar. O carro passou por ele lentamente. Era um Dodge Neon, modelo recente, verde-metálico e com placa do Texas. Havia só uma pessoa dentro dele, um homem. Podia vê-lo examinando-o pelo espelho. Examinando-o. Podia ser um policial de folga...

 O pânico o dominou e ele teve que lutar contra o impulso de virar-se e correr.

 O carro parou e deu marcha à ré. O motorista abaixou o vidro da direita. Era um jovem de origem asiática, de terno.

 — Ei, companheiro, quer uma carona?

 O que é que eu vou dizer? Não, obrigado, eu adoro andar a pé.

 — Estou um pouco sujo de areia — disse Priest, olhando para a calça jeans. Caí sentado tentando matar um homem.

 — Quem não está, nesta região?

 Priest entrou no carro. Suas mãos tremiam. Colocou o cinto de segurança, só para fazer alguma coisa que pudesse disfarçar sua ansiedade.

 Quando o carro arrancou, o motorista perguntou:

 — O que diabos está fazendo aqui?

 Acabei de matar meu amigo Mario com uma chave inglesa. No último segundo, Priest pensou numa história.

 — Briguei com minha mulher — disse. — Parei o carro, saltei e fui andando. Não esperava que ela fosse embora.

 Ele agradeceu sabe-se lá a que deuses que o tinham ajudado.

 — Seria uma mulher morena e bonita em um Honda azul que passou por mim uns vinte ou trinta quilômetros atrás?

 Jesus Cristo, quem é você, com essa memória prodigiosa?

 O cara sorriu e disse: — Quando se está atravessando o deserto, todo carro é interessante.

 — Não, aquela não era ela — retrucou Priest. — Minha mulher está dirigindo minha maldita picape.

 — Não vi nenhuma picape.

 — Ótimo. Talvez ela não tenha ido muito longe.

 — Provavelmente estacionou na entrada de alguma fazenda debulhando-se em lágrimas, querendo você de volta.

 Priest sorriu aliviado. O cara tinha engolido sua história.

 O carro atingiu as cercanias da cidade.

 — E você? — perguntou Priest. — Por que está acordado tão cedo numa manhã de sábado?

 — Eu não briguei com a minha mulher, estou indo para junto dela, em casa. Moro em Laredo. Viajo vendendo novidades de cerâmica – pratos decorativos, estatuetas, plaquinhas dizendo "Quarto do Bebê", uns troços muito atraentes.

 — É mesmo? Que maneira de desperdiçar a vida.

 — Vendemos principalmente em drugstores.

 — A de Shiloh ainda não abriu.

 — Não estou trabalhando hoje. Mas posso parar para tomar café. Alguma recomendação?

 Priest preferia que o vendedor atravessasse a cidade calado, para que não tivesse oportunidade de falar sobre o cara barbado que pegara perto do vazadouro do lixo. Mas com toda a certeza ele ia ver o Lazy Susan's ao passar, de modo que não adiantava mentir.

 — Tem um restaurante pequeno.

 — Que tal a comida?

 — A canjica é boa. É logo depois do sinal. Você pode me deixar lá.

 Um minuto depois o carro parava numa vaga em 45 graus na frente do Susan's. Priest agradeceu ao vendedor de novidades e saltou.

 — Bom apetite — disse, e afastou-se. E não vai puxar papo com nenhum habitante local, pelo amor de Deus.

 A um quarteirão do restaurante ficava a filial de Ritkin Seismex, a pequena firma de exploração sismológica para quem vinha trabalhando. O escritório era em um trailer grande, estacionado em um terreno vazio. O vibrador sísmico de Mario estava estacionado ao longo do Pontiac Grand Am vermelho-cereja de Lenny.

 Priest parou e examinou o caminhão por um momento. Tinha dez rodas, com enormes pneus para uso fora de estrada que lembravam a carapaça de um dinossauro. Por baixo da camada de poeira do Texas, era pintado de azul-claro. Teve ímpetos de pular na cabina no caminhão, o motor possante e a placa maciça de aço, o tanque e mangueiras e válvulas e manômetros. Eu poderia ligar esse motor num minuto, sem precisar das chaves. Mas se o roubasse agora, cada patrulheiro rodoviário do Texas estaria à sua procura em poucos minutos. Tinha de ser paciente. Vou fazer a terra tremer e ninguém vai me impedir.

 Entrou no trailer.

 O escritório estava movimentado. Havia dois supervisores da equipe de geofones diante de um computador, enquanto um mapa da área ia saindo lentamente da impressora.

 Hoje recolheriam o equipamento instalado no campo e começariam a fazer a transferência para Clovis. Um outro supervisor falava em espanhol ao telefone, enquanto a secretária de Lenny, Diana, checava uma lista. Lenny transpôs uma porta aberta que dava numa repartição menor, onde ele tomava café com um telefone no ouvido. Tinha os olhos vermelhos e o rosto congestionado, sinais da bebida da noite anterior. Reconheceu a presença de Priest com um sinal de cabeça Priest parou junto à porta, esperando que Lenny terminasse. Tinha o coração na boca. Sabia, grosso modo, o que dizer. Mas Lenny engoliria a isca? Tudo dependia disso.

 Após um minuto, Lenny desligou e disse:

 — Ei, Ricky, viu Mario hoje? — o tom de voz era aborrecido. – Ele devia ter saído daqui meia hora atrás.

 — É, eu o vi — disse Priest. — Detesto lhe dar más notícias de manhã tão cedo, mas ele o deixou na mão.

 — De que você está falando?

 Priest contou a história que lhe viera à cabeça, numa inspiração súbita, pouco antes de pegar a chave inglesa e atacar Mario. – Ele estava sentindo tanta falta da mulher e dos filhos que pegou sua velha picape e se mandou.

 — Que merda, só faltava essa. Como foi que você soube?

 — Ele passou por mim na rua, hoje cedo, indo para El Paso.

 — Por que diabos não telefonou para mim?

 — Muito envergonhado por ter deixado você na mão.

 — Bem, só espero que ele continue em frente sempre, atravesse a fronteira e não pare enquanto o carro não cair no mar.

 Lenny esfregou os olhos com os nós dos dedos.

 Priest começou a improvisar.

 — Puxa, Lenny, o cara tem família jovem, não seja muito duro com ele.

 — Duro? Está falando sério? Ele já era.

 — Ele precisa realmente deste emprego.

 — E eu preciso de alguém para dirigir o seu caminhão daqui até o Novo México.

 — Ele está economizando para comprar uma casa com piscina.

 Lenny tornou-se sarcástico.

 — Deixa disso, Ricky, está me fazendo chorar.

 — Então vê se gosta desta — Priest engoliu em seco e tentou parecer casual. — Eu levo o maldito caminhão para Clovis se você prometer conservar o emprego de Mario.

 Lenny olhou fixamente para Priest sem dizer nada.

 — Mario não é um mau sujeito, você sabe disso — continuou Priest. Não atropele as palavras, você está parecendo nervoso, tente parecer relaxado!

 — Você tem carteira de motorista comercial, categoria B?

 — Desde os meus vinte e um anos — Priest pegou a carteira de dinheiro, tirou a licença de motorista e jogou em cima da escrivaninha. Era falsa.

 Star também tinha uma daquelas. Também falsa. Paul Beale sabia onde conseguir essas coisas.

 Lenny examinou-a, ergueu os olhos e perguntou, desconfiado:

 — Mas afinal, você está a fim de quê? Pensei que não queria ir ao Novo México.

 Não me enche o saco, Lenny, diga-me logo sim ou não!

 — De repente quinhentas pratas extras não me fariam mal.

 — Não sei...

 Seu filho da mãe, matei um homem por causa disso, vamos lá!

 — Você iria por duzentos?

 Sim! Muito obrigado! Muito obrigado! Ele fingiu hesitar. — Duzentos é pouco para três dias de trabalho.

 — São dois dias, talvez dois e meio.

 Duzentos e cinqüenta. Qualquer coisa! Basta me dar as chaves!

 — Escuta, eu vou levar o caminhão de qualquer maneira, seja o que for que você me pague, porque Mario é um garoto legal e eu quero ajudá-lo.

 Assim, quero que você me pague o que sinceramente achar que o trabalho vale.

 — Está certo seu filho da mãe espertalhão, trezentos.

 — Você tem um motorista. E eu tenho um vibrador sísmico.

 Lenny disse:

 — Ei, obrigado por me ajudar. Fico muito agradecido a você.

 Priest tentou conter um sorriso radiante.

 — Certo.

 Lenny abriu uma gaveta, pegou uma folha de papel e jogou-a em cima da mesa.

 — Preencha esta folha para o seguro.

 Priest gelou.

 Não sabia ler nem escrever.

 Olhou apavorado para a folha de papel.

 Lenny disse, impaciente:

 — Vamos, peque isso aí, pelo amor de Deus, não é uma cascavel.

 — Não consigo entender nada, esses rabiscos e linhas no papel pulam e dançam, e não sou capaz de fazer com que fiquem quietos!

 Lenny olhou para a parede e dirigiu-se a uma platéia invisível:

 — Um minuto atrás eu seria capaz de jurar que o homem estava acordado!

 Ley tor, pur-doy-kor...

 Priest esticou a mão devagar e pegou a folha de papel. Lenny perguntou:

 — Por que foi tão difícil fazer isso?

 — Bem, é que eu estava pensando no Mario — respondeu Priest. — Você acha que ele está legal?

 — Esqueça ele. Preencha esse papel e se mande. Quero ver aquele caminhão em Clovis.

 — Tudo bem — Priest se levantou. — Vou preencher lá fora.

 — Isso mesmo, assim posso atacar meus outros cinqüenta e sete problemas.

 Priest saiu da sala de Lenny e entrou no escritório principal. Você já viveu esta cena cem vezes, calma, você sabe lidar com isso.

 Parou diante da porta de Lenny. Ninguém tinha prestado atenção nele; todos estavam ocupados. Deu uma olhada no formulário. As letras grandes tinham que se destacar como arvores num capinzal. Se estavam crescendo para baixo é que o papel estava ao contrário.

 Ele estava mesmo com o papel de cabeça para baixo. Consertou-o.

 Às vezes há um X bem grande, em negrito ou escrito a lápis ou tinta vermelha, para lhe mostrar onde assinar; mas este formulário não tinha uma marca para tornar as coisas mais fáceis. Priest sabia escrever o nome, mais ou menos. Era demorado e ele sabia.

 No entanto, não conseguia escrever mais nada.

 Quando garoto, era tão esperto que não precisava ler ou escrever.

 Podia fazer contas de cabeça mais depressa do que qualquer um, muito embora não conseguisse ler os números no papel. Sua memória era infalível. Sempre conseguia com que as pessoas fizesse o que desejava sem ter que escrever nada. Na escola encontrava maneiras de não ter que ler em voz alta. Quando o dever era para escrever qualquer coisa, arranjava para um colega fazer por ele, mas se isto falhasse, tinha mil desculpas, e os professores acabavam por dar de ombros e dizer que, se uma criança não quisesse realmente trabalhar, não podiam forçar.

Ganhou a reputação de preguiçoso e quando via uma crise se aproximando, faltava à aula.

 Tempos depois, conseguiu dirigir um próspero negócio de atacado de bebidas. Nunca escreveu uma carta. Fazia tudo pelo telefone e em pessoa.

 Guardou de cabeça dezenas de números de telefone até que pôde pagar uma secretária para fazer as ligações para ele. Sabia exatamente quanto dinheiro havia na gaveta e quanto havia no banco. Se um vendedor lhe apresentava uma ordem de compra, ele dizia: "Vou lhe dizer o que preciso e você preenche para mim." Contratou um contador e um advogado para lidar com o governo. Tinha ganho um milhão de dólares aos vinte e um anos de idade. Mas já perdera tudo quando conheceu Star e passou a integrar a comunidade — não porque fosse analfabeto, mas por ter fraudado seus clientes, deixado de pagar impostos e apanhado dinheiro emprestado com a Máfia.

 Conseguir que um formulário de seguro fosse preenchido tinha que ser fácil Sentou-se em frente à mesa da secretária de Lenny e sorriu para Diana.

 — Está com um certo ar de cansada, querida — disse.

 Ela suspirou. Era uma loura gorducha de trinta e tantos anos, casada com um sujeito que trabalhava como mão-de-obra não qualificada e que tinha três filhos adolescentes.

 Reagia prontamente às gracinhas dos homens que vinham ao trailer, mas Priest sabia que era sensível a um charme polido.

 — Ricky, tenho tanto o que fazer hoje de manhã que gostaria de ter dois cérebros.

 Ele fez uma cara de quem ficara profundamente desapontado.

 — Má notícia: eu ia lhe pedir para me ajudar com uma coisa.

 Ela hesitou e depois sorriu, melancólica.

 — O que é?

 — Minha letra é tão horrorosa que eu queria que você preenchesse isto aqui pra mim. Mas odeio atrapalhar vendo que você está tão ocupada.

 — Bem, faço um negócio com você — ela apontou para uma pilha de caixas de papelão cuidadosamente etiquetadas, encostadas na parede.

 — Ajudo você com o formulário se você puser todos aqueles arquivos no Chevy Astro Van verde que está lá fora.

 — Negócio fechado — disse Priest, agradecido. Entregou a folha de papel a ela.

 Ela examinou o formulário.

 — Você vai dirigir o vibrador sísmico?

 — Vou. Mario ficou com tanta saudade de casa que foi para El Paso.

 Ela fechou a cara. — Ele não é disso.

 — Claro que não é. Espero que esteja bem.

 Ela deu de ombros e pegou a caneta.

 — Agora, a primeira coisa de que precisamos é o seu nome completo, data e lugar de nascimento.

 Priest deu a informação e ela preencheu os espaços em branco. Fácil.

 Por que entrara em pânico? Só porque aquilo tinha sido inesperado. Lenny o surpreendera com o formulário do seguro, e ele cedera ao medo. Estava acostumado a ocultar sua incapacidade. Chegava inclusive a freqüentar bibliotecas. Foi como descobriu os vibradores sísmicos. Fora à biblioteca central na rua I, no centro de Sacramento — um lugar grande e movimentado onde seu rosto provavelmente não seria lembrado. Na mesa de recepção soubera que os livros de ciência ficavam no segundo andar. Lá, sentira uma pontada de ansiedade ao ver as estantes compridas e a fila de gente que consultava os computadores. Depois atraíra a atenção de uma mulher de aspecto amistoso e que teria mais ou menos a sua idade.

 — Estou procurando informações sobre exploração sísmica — dissera, com um sorriso caloroso. — Será que você pode me ajudar?

 Ela o levou à prateleira certa, pegou um livro e, com um pouco de encorajamento, encontrou o capítulo que interessava.

 — Estou interessado em saber como as ondas de choque são provocadas — explicara. — Gostaria de saber se este livro tem esse tipo de informação.

 Ela folheou o livro com ele.

 — Parece haver três modos — disse. — Uma explosão subterrânea, o baque de um peso e um vibrador sísmico.

 — Vibrador sísmico? — exclamara ele, com os olhos brilhantes. — O que é isso?

 Ela apontara para uma fotografia. Priest ficou fascinado. A bibliotecária dissera:

 — Parece bastante com um caminhão. Para Priest pareceu um milagre.

 — Posso xerocar umas páginas?

 — Claro.

 Sempre há um jeito de fazer com que outra pessoa escreva e leia para você, se você for esperto.

 Diana terminou de preencher o formulário, fez um X bem grande perto de uma linha pontilhada e disse:

 — Você assina aqui.

 Ele pegou a caneta e escreveu o nome, com muita dificuldade. O "R" de Richard era como uma corista de seios grandes levantando uma perna. O G de "Granger" era uma espécie de foice com a lâmina redonda e bem grande e cabo pequeno. Depois do "RG" limitou-se a fazer uma linha sinuosa, como uma cobrinha. Não era bonito, mas todo mundo aceitava. Muita gente assina fazendo uns garranchos, ele sabia disso: as assinaturas não tinham que ser escritas claramente, graças a Deus. Era por isto que sua licença de motorista falsificada tivera que ser no seu nome verdadeiro — era o único que ele sabia escrever. Levantou os olhos. Diana o observava com um olhar curioso, estranhando como escrevia devagar. Quando a surpreendeu, ela ficou ruborizada e desviou o rosto.

 Devolveu o formulário, agradecendo:

 — Muito obrigado pela sua ajuda, Diana. Fico muito agradecido a você.

 — Não foi nada. Vou buscar as chaves do caminhão assim que Lenny sair do telefone — as chaves eram guardadas no escritório do chefe.

 Priest lembrou do que prometera. Pegou um dos arquivos, e levou para fora. A van verde estava estacionada no pátio com a porta de trás aberta. Deixou a caixa e voltou para pegar outra. A cada vez que voltava, espiava a mesa. O formulário continuava lá e não havia chaves visíveis. Depois de ter carregado todas as caixas, sentou-se em frente a ela de novo. Estava ao telefone, falando com alguém sobre reservas em um hotel de Clovis. Priest cerrou os dentes. Estava quase lá, tinha praticamente as chaves do caminhão e era obrigado a ficar ouvindo aquela besteirada sobre quartos de hotel! Obrigou-se a ficar sentado, quieto.

 Finalmente ela desligou.

 — Vou pedir as chaves a Lenny — disse, levando o formulário para a sala interna.

 Chew, um sujeito gordo que dirigia buldôzer, entrou. O trailer sacudiu com o impacto de suas botas de trabalho no piso.

 — Ei, Ricky — disse -, não sabia que você era casado — ele. deu uma risada. Os outros homens presentes no escritório olharam, interessados.

 Merda, que negócio é esse? Priest disse:

 — Onde foi que você ouviu essa história?

 — Vi você saltando de um carro em frente a Susan, há algum tempo.

 Depois tomei o café da manhã com o vendedor que lhe deu uma carona.

 Droga, o que foi que ele lhe disse?

 Diana saiu do escritório de Lenny com um molho de chaves. Priest teve ímpetos de arrancá-lo da mão dela, mas fingiu estar mais interessado em conversar com Chew.

 Chew continuou.

 — Sabe, a omelete rancheiro de Susan é realmente uma coisa. – ele ergueu uma das pernas e soltou um peido. Quando olhou para cima viu a secretária parada no portal, escutando. — Desculpe, Diana. Bem, seja como for, o tal rapaz me contou como pegou você perto do vazadouro de lixo.

— Porra!

 — Você estava andando no deserto sozinho às seis e meia da manhã por conta de ter brigado com sua mulher. Você parou o carro, largou a mulher lá e foi embora — ele abriu um sorriso largo e os outros riram.

 Priest levantou-se. Não queria que lembrassem de que ele estava perto do vazadouro no dia do desaparecimento de Mario. Precisava acabar com aquela conversa. Fez uma cara de magoado.

 — Olha, Chew, vou lhe dizer uma coisa. Se algum dia eu vier a saber de alguma coisa da sua vida particular, especialmente se for vergonhosa, prometo que não vou contar aos berros para todo o pessoal que estiver no escritório ouvir. Agora me diz, o que é que você acha disso?

 Chew retrucou:

 — Não precisa ser tão sensível.

 Os outros homens pareceram ficar encabulados. Ninguém mais quis falar sobre aquilo.

 Houve um silêncio contrafeito. Priest não quis deixar um clima ruim, e por isso falou:

 — Diabos, Chew, sem ressentimentos.

 Chew deu de ombros.

 — Não tive intenção de ofender, Ricky.

 A tensão cedeu.

 Diana deu a Priest as chaves do vibrador sísmico.

 Ele fechou a mão em torno do molho de chaves.

 — Muito obrigado — agradeceu, tentando não demonstrar o entusiasmo que sentia. Mal podia esperar para sair dali e sentar-se atrás do volante. — Até breve, pessoal. Vejo vocês no Novo México.

 — Vê se dirige com segurança, está ouvindo? — disse Diana, quando ele chegou na porta.

 — Deixe comigo — respondeu Priest. — Pode ter certeza de que vou ter muito cuidado.

 Ele pisou do lado de fora. O sol estava alto e o dia ficava mais quente. Ele resistiu à tentação de fazer uma dança da vitória em torno do caminhão. Subiu para a cabina e ligou o motor. Verificou os mostradores. Mario devia ter enchido o tanque na véspera. O caminhão estava pronto para enfrentar a estrada. Não pôde deixar de sorrir quando saiu do pátio.

 Deixou a cidade e foi para o norte, seguindo a rota que Star fizera no Honda.

 Ao se aproximar da saída para o vazadouro, começou a sentir-se estranho. Imaginou Mario ao lado da estrada, com os miolos cinzentos aparecendo no buraco da cabeça. Era uma superstição idiota, pensou, mas não conseguia se livrar dela. O estômago começou a dar voltas. Por um momento sentiu-se fraco, fraco demais para dirigir. Logo em seguida recuperou o autocontrole.

 Mario não era o primeiro homem que tinha matado. Jack Kassner era policial e roubara a mãe de Priest.

 A mãe de Priest era prostituta. Tinha apenas treze anos de idade ao tornar-se mãe dele. Quando Ricky completou quinze anos ela trabalhava com três outras mulheres sediada em um apartamento em cima de uma livraria pornô na zona onde morava a escória, Kassner aparecia uma vez por mês para recolher o dinheiro. Geralmente nesse dia ganhava um boquete. Um dia ele viu a mãe de Priest pegar o dinheiro em uma caixa no quarto dos fundos. Na noite em que o pessoal da Costumes estourou o apartamento, Kassner roubou mil e quinhentos dólares, que era um bocado de dinheiro na década de 1960. A mãe de Priest não se importava de passar uns dias na cadeia, mas ficou desolada por perder todo o dinheiro que economizara. Kassner dizia às mulheres que, se elas se queixassem, ele as acusaria de tráfico de drogas e iriam todas passar uns anos na cadeia.

 Kassner achava que três garotas de bar e um garoto não representavam perigo para ele. Mas na noite seguinte, quando estava no toalete do bar Blue Light urinando algumas cervejas que tomara, o pequenino Ricky Granger enfiou-lhe uma faca de quinze centímetros afiada como uma navalha. Depois de cortar, com facilidade, o paletó de mohair preto e a camisa de náilon branca, a lâmina penetrou no rim. A dor que Kassner sentiu foi tamanha que ele nem chegou a sacar a arma. Ricky esfaqueou-o mais algumas vezes, rapidamente, enquanto o detetive jazia no piso de concreto molhado do toalete, vomitando sangue. Depois lavou a lâmina na torneira e foi embora.

 Ao relembrar este episódio, Priest maravilhava-se com a calma segurança que tivera, aos quinze anos. Foi necessário apenas quinze ou vinte segundos, mas durante este tempo qualquer um podia ter entrado.

 Ele, no entanto, não sentira medo, vergonha ou culpa Só que depois passou a ter medo do escuro.

 Naquele tempo ele não ficava muito no escuro. As luzes geralmente ficavam acesas a noite inteira no apartamento de sua mãe. Mas às vezes ele acordava um pouco antes do raiar do dia em uma noite de pouco movimento, como as de segunda-feira, e via que todo mundo estava dormindo e as luzes apagadas; aí se via possuído por um terror cego e irracional e ficava andando às tontas pelo quarto, esbarrando em criaturas peludas e tocando em estranhas superfícies frias e úmidas, até encontrar o interruptor e se sentar na beira da cama, arquejante e suando, para se recuperar lentamente ao ver que a superfície fria e úmida era o espelho, e a criatura peluda, sua jaqueta forrada de lã de carneiro.

 Sentiu medo do escuro até encontrar Star.

 Lembrou de uma canção que fizera muito sucesso no ano em que a conhecera e começou a cantar:

 — Fumaça na água...

 — a banda era a Deep Purple e todo mundo tocou esse disco naquele verão. Era uma boa canção apocalíptica para cantar ao volante de um vibrador sísmico.

 — Fumaça na água Incêndio no céu

 Passou pela entrada do vazadouro e seguiu em frente, rumo ao norte.

 

 — Vai ser hoje à noite — dissera Priest. — Vamos dizer ao governador que haverá um terremoto daqui a quatro semanas.

 Star ficou em dúvida.

 — Não temos nem certeza se isto é possível. Talvez devêssemos fazer as outras coisas primeiro e, quando estivesse tudo em ordem, expedir o ultimato.

 — De jeito nenhum! — retrucou Priest. A sugestão o enfureceu. Sabia que o grupo tinha de ser liderado. Todos ali precisavam se comprometer.

 Tinham que optar por uma situação perigosa, assumir um risco e sentir que não havia como voltar atrás.

 De outro modo, amanhã pensariam numa porção de razões para se assustarem e baterem em retirada.

 Agora os ânimos de todos estavam exaltados. A carta chegara hoje, e os deixara furiosos e desesperados. Star ficara intensamente determinada; Melanie, uma fúria; Oaktree, pronto para declarar guerra; Paul Beale começara a reverter a seu tipo de malandro de rua. Song mal falara, mas ela era a criança desamparada do grupo e seguiria o que os outros fizessem. Só Aneth se opusera, mas uma oposição seria fraca porque ela era uma pessoa fraca. Seria rápida para colocar objeções, mas recuaria mais depressa ainda.

 Quanto ao próprio Priest, sabia com fria certeza que se aquele lugar cessasse de existir sua vida estaria acabada.

 Foi Aneth quem falou:

 — Mas um terremoto pode matar gente.

 — Vou lhe dizer como imagino que isso terá êxito — respondeu Priest. — Acho que teremos que causar um tremor pequeno e inofensivo, em algum ponto do deserto, só para provar que somos capazes. Aí, quando ameaçarmos um segundo, o governador negociará.

 Aneth desviou a atenção para o filho. Oaktree disse:

 — Estou com o Priest. Hoje à noite. Star cedeu.

 — Como deveremos fazer a ameaça?

 — Um telefonema anônimo ou uma carta, eu acho — respondeu Priest. — Mas tem que ser impossível rastrear.

 — Podemos colocar em um BBS, como são conhecidos na Internet os chamados quadros de avisos. Se usarmos meu laptop e o telefone celular, ninguém poderá rastrear.

 Priest nunca vira um computador até a chegada de Melanie. Lançou um olhar indagador para Paul Beale, que sabia tudo sobre essas coisas. Paul balançou a cabeça e disse:

 — Boa idéia.

 — Está certo — disse Priest. — Peque seus troços. Melanie saiu.

 — Como assinaremos a mensagem? — quis saber Star. Precisamos de um nome.

 Song disse:

 — Algo que simbolize um grupo amante de paz que foi forçado a tomar medidas extremas.

 — Eu sei — disse Priest. — Nós nos chamaremos de o Martelo do Éden.

 Isso se passou pouco antes da meia-noite do dia primeiro de maio.

 

Priest ficou tenso quando chegou nas cercanias de San Antonio. No plano original, Mario teria dirigido o caminhão até o aeroporto. Mas agora Priest estava sozinho ao entrar no emaranhado de rodovias que envolvem a cidade, e começou a suar.

 Não havia jeito dele conseguir ler um mapa.

 Quando tinha que dirigir em uma estrada desconhecida, sempre levava Star junto para atuar como navegadora. Ela e os outros Comedores de Arroz sabiam que ele não era capaz de ler. A última vez que dirigira sozinho em estradas desconhecidas tinha sido no final do outono de 1972, quando fugira de Los Angeles e terminara, acidentalmente, na comunidade de Silver River Valley. Naquela ocasião, não se preocupara com seu destino.

 Na verdade, ficaria contente se viesse a morrer. Mas agora queria viver.

 Até mesmo as placas na estrada eram difíceis para ele. Se parasse e se concentrasse por um instante, poderia distinguir "Leste" de "Oeste" ou "Norte" de "Sul". A despeito de sua notável capacidade para fazer contas de cabeça, não podia ler números sem olhar fixamente e pensar bastante tempo. Com algum esforço, era capaz de reconhecer os sinais indicando a Rota 10: um pauzinho com uma bola. Mas havia uma porção de outras coisas nas placas que nada significavam para ele e confundiam o quadro.

 Tentou manter-se calmo. Mas era difícil. Gostava de manter o controle sobre o que fazia e sentia-se louco de ódio com a sensação de desamparo e o atordoamento que o dominavam quando se perdia. Sabia, orientado pelo sol, onde ficava o norte. Quando achava que alguma coisa estava saindo errada, parava no primeiro posto de gasolina ou centro comercial e pedia instruções. Detestava fazer isso, porque as pessoas reparavam no vibrador sísmico — era um caminhão enorme, e a maquinaria montada em cima dele era meio intrigante. Além do mais, havia o perigo de ser reconhecido. Mas tinha de arriscar.

 E as instruções nem sempre eram úteis. Os frentistas dos postos de gasolina diziam coisas do tipo: "Fácil, basta seguir a estrada para Corpus Christi até ver uma placa indicando a Base Aérea de Brooks."

 Priest obrigou-se a conservar a calma, a continuar fazendo perguntas e a ocultar sua frustração e ansiedade. Desempenhou o papel de um motorista de caminhão amável mas burro, o tipo da pessoa que seria esquecida no dia seguinte. E acabou chegando a San Antonio pela estrada certa, enviando preces de agradecimentos aos deuses que o poderiam estar escutando.

 Poucos minutos mais tarde, passando por uma cidadezinha, sentiu-se aliviado ao ver o Honda azul estacionado junto a um McDonald.

 Ele abraçou Star agradecido.

 — O que foi que aconteceu, droga? — perguntou ela, preocupada. – Achei que você chegaria duas horas atrás.

 Ele decidiu não contar que matara Mario.

 — Eu me perdi em San Antonio — disse.

 — Tive medo disso. Na vinda para cá vi como é complicado o sistema rodoviário.

 — Acho que não é nem a metade da complicação do de San Francisco, mas eu conheço San Francisco.

 — Bem, agora está aqui. Vamos pedir um café e acalmar você.

 Priest comeu um hambúrguer de carne vegetal e ganhou um palhacinho de plástico que guardou cuidadosamente, no bolso, para Smiler, o filho de seis anos.

 Quando voltaram para a estrada, Star assumiu o volante do caminhão. O plano era ir direto até a Califórnia. Levaria pelo menos duas noites e dois dias, talvez mais. Um dormia enquanto o outro dirigia. Tinham trazido anfetaminas para combater o sono.

 Deixaram o Honda no estacionamento do McDonald's. Quando se afastaram, Star entregou a Priest um saco de papel, dizendo:

 — Trouxe um presente para você.

 Dentro havia uma tesoura e um barbeador a pilha.

 — Agora pode tirar essa maldita barba — disse ela.

 Ele sorriu. Virou o espelho retrovisor para poder se ver e começou a cortar. Os grossos pêlos da barba cresciam depressa, e a barba cerrada e o bigode tinham feito com que ficasse com a cara redonda. Agora o seu verdadeiro rosto foi gradualmente reaparecendo. Com a tesoura ele baixou bem a barba e depois usou o barbeador para completar o serviço. Por fim tirou o chapéu de caubói e soltou o cabelo, desfazendo a trança. Jogou o chapéu pela janela e examinou sua imagem. O cabelo, penteado para trás, caía em ondas em torno de um rosto magro e anguloso com a testa alta. O nariz lembrava uma lâmina, as faces eram cavadas, mas tinha uma boca sensual — muitas mulheres lhe tinham dito isso.

 No entanto, era sobre seus olhos que costumavam falar. Eram castanhos, bem escuros, quase pretos, e as pessoas diziam que tinham tal força que podiam hipnotizar. Priest sabia que não eram os olhos em si, mas a intensidade do olhar que podia cativar uma mulher: dava a sensação de que se concentrava exclusivamente nela. Podia fazer isso com homens também. Praticou o olhar ali mesmo, no espelho do caminhão.

 — Demônio bonito — disse Star, rindo dele, mas de um jeito afetuoso.

 — E esperto também — acrescentou Priest.

 — Acho que você é, sim. Conseguiu pegar o caminhão afinal.

 Priest balançou a cabeça.

 — E você ainda não viu nada.

 

 Na manhã de segunda-feira bem cedo, a agente do FBI Judy Maddox esperava sentada na sala de um tribunal situado no décimo quinto andar do Federal Building, número 450 da avenida Golden Gate, em San Francisco.

 O acabamento da sala era em madeira clara. O acabamento dos tribunais novos sempre é em madeira clara. Geralmente não têm janelas, de modo que os arquitetos tentam fazê-los mais alegres usando cores claras. Era a teoria dela. Judy passava um bocado de tempo esperando em salas de tribunal. Como, alias, a maior parte do pessoal que trabalha em órgãos com atribuições policiais.

 Estava preocupada. Nestas ocasiões costumava ficar preocupada. Meses de trabalho, às vezes anos, eram gastos na preparação de um processo, mas não havia como dizer o que aconteceria uma vez que o processo chegasse ao tribunal. A defesa podia estar inspirada ou ser incompetente, o juiz ser um sábio de olhar penetrante ou um velho tolo esclerosado e o júri podia ser um grupo de cidadãos inteligentes e responsáveis ou um bando de marginais que deviam estar, eles próprios, atrás das grades.

 Quatro homens seriam julgados hoje: John Parton, Ernest "Taxman" Dias, Foong Lee e Foong Ho. Os irmãos Foong eram os bandidões, os outros dois seus executivos. Em colaboração com uma trinca de Hong Kong, tinham montado um esquema para lavagem do dinheiro oriundo da rede de tráfico de drogas do norte da Califórnia. Judy precisara de um ano para descobrir como operavam e um outro ano para provar o que descobrira.

 Ela desfrutava de uma grande vantagem quando investigava bandidos asiáticos: suas feições orientais. O pai de Judy era irlandês típico, de olhos verdes, mas ela saíra mais parecida com a finada mãe, vietnamita.

 Judy era esguia e de cabelos escuros, com os olhos oblíquos. Os gângsteres chineses de meia-idade que investigara nunca suspeitaram que aquela bonita garota meio asiática era uma excepcional agente do FBI.

 Judy trabalhava com um assistente de promotor federal que conhecia muitíssimo. O nome dele era Don Riley e até um ano atrás moravam juntos.

 Don tinha a sua idade, trinta e seis anos, e era experiente, enérgico e dono de uma inteligência rápida como um azougue.

 Ela pensara que tinham um caso à prova de furos. Mas os acusados tinham contratado a melhor firma de criminalistas da cidade e sua defesa foi inteligente e vigorosa. Seus advogados minaram a credibilidade das testemunhas que haviam sido, inevitavelmente, arrebanhadas no meio de criminosos semelhantes aos integrantes da quadrilha a ser julgada. Além do mais, tinham explorado a massa de provas documentais coletada por Judy e usado isso para confundir e perturbar o júri.

 Agora nem Judy nem Don eram capazes de adivinhar qual seria o resultado. Judy tinha uma razão especial para se preocupar com aquele caso. Seu chefe imediato, o supervisor do grupo encarregado de investigar as atividades do Crime Organizado Asiático, estava prestes a se aposentar e ela se candidatara ao lugar dele. O chefe geral do escritório de San Francisco, o agente especial encarregado ou AEE, apoiaria sua pretensão, ela sabia, mas Judy tinha um rival: Marvin Hayes, outro destacado agente na mesma faixa etária. Marvin também tinha um apoio poderoso: seu melhor amigo, assistente do encarregado, era o responsável por todos os grupos que trabalhavam investigando o crime organizado e os crimes de colarinho branco.

 As promoções eram decididas por uma junta de carreira, mas as opiniões dos agentes especiais encarregados e de seus assistentes tinham muito peso. Neste exato momento a competição entre Judy e Marvin Hayes era acirrada.

 Queria aquela promoção. Queria subir muito e depressa no FBI. Era uma boa agente, seria uma supervisora destacada e em breve seria a melhor AEE que o bureau já tivera.

 Sentia orgulho do FBI, mas sabia que podia ser melhor, com a introdução mais acelerada de novas técnicas como tabelas e gráficos para análise de dados pessoais característicos por meio do uso de sistemas de gerenciamento simplificados e — acima de tudo — livrando-se de agentes como Marvin Hayes.

 Hayes era o típico policial da velha guarda: preguiçoso, brutal e inescrupuloso. Não tinha prendido tantos bandidos quanto Judy, mas fizera prisões mais notórias. Era ótimo em insinuar-se até conseguir ser nomeado para uma investigação glamourosa e rápido para distanciar-se de um caso destinado a encalhar.

 O encarregado dera a entender a Judy que ela ficaria com o posto, e não Marvin, se ganhasse o caso hoje.

 No tribunal, ao lado de Judy, estava quase toda a equipe do caso Foong: seu supervisor, os outros agentes que trabalharam com ela, um intérprete, a secretária do grupo e dois detetives do Departamento de Polícia da cidade de San Francisco. Para sua surpresa, nem o encarregado nem seu assistente tinham aparecido. Aquele era um caso de grande destaque e o resultado era importante para ambos. Judy sentiu uma pontada de apreensão e perguntou-se se não estaria acontecendo alguma coisa no escritório que não soubesse. Decidiu dar uma saída e telefonar. Mas antes que chegasse na porta, o oficial de justiça do tribunal entrou e anunciou que o júri ia retornar. Sentou de novo.

 Um momento depois Don reapareceu, cheirando a cigarro: tinha voltado a fumar depois da separação. Fez um carinho encorajador no ombro dela, que respondeu com um sorriso. Ele estava bonito, com o cabelo curto muito bem cortado, terno azul-marinho, a camisa branca e a gravata vinho.

 Mas não houve química, nem troca de energia, nem nada. Judy não sentia mais vontade de despentear o cabelo dele, desfazer o laço da sua gravata ou enfiar a mão por baixo da camisa branca.

 Os advogados de defesa regressaram primeiro, depois os de acusação, em seguida o júri e finalmente o juiz surgiu pela porta da sua sala privativa e sentou-se. Judy cruzou os dedos por baixo da mesa. O oficial de justiça levantou-se.

 — Senhores membros do júri, chegaram a um veredicto?

 Um silêncio absoluto abateu-se sobre a sala. Judy percebeu que estava batendo com o pé no chão. Parou.

 O primeiro jurado, um comerciante chinês, levantou-se. Judy passara muitas horas especulando se ele ia ficar com pena dos acusados pelo fato de dois deles serem chineses, ou se os odiaria por terem desonrado a raça. Com voz serena, ele respondeu:

 — Chegamos.

 — E qual foi esse veredicto: culpados ou inocentes?

 — Culpados, segundo a acusação.

 Houve um segundo de silêncio até que a notícia fosse assimilada. Às suas costas, Judy ouviu um grunhido partindo do reservado que se destinava aos réus. Resistiu ao impulso de dar um pulo de alegria e olhou para Don, que lhe dirigiu um sorriso largo. Os caríssimos advogados de defesa ajeitaram seus papéis, evitando olhar nos olhos um do outro. Dois repórteres levantaram-se e saíram apressadamente, dirigindo-se para os telefones.

 O juiz, um homem magro, com ar de desiludido, agradeceu ao júri, suspendeu o julgamento e determinou nova sessão em uma semana, quando decretaria a sentença.

 Consegui, pensou Judy, ganhei o caso. Pus os bandidos na cadeia e minha promoção está no papo.

 Agente Especial de Supervisão Judy Maddox, com apenas trinta e seis anos, uma estrela em ascensão.

 — Todos de pé — disse o oficial de justiça. O juiz saiu.

 Don abraçou-a.

 — Você fez um grande trabalho — ela lhe disse. — Obrigada.

 — Você me deu um grande caso — retrucou ele.

 Ela pôde ver que ele queria beijá-la, e por isso recuou um passo.

 — Bem, nós dois nos saímos bem.

 Judy voltou-se para seus colegas e saiu apertando mãos, dando abraços e agradecendo a todos pelo trabalho realizado. Em seguida os advogados de defesa se aproximaram. O mais velho era David Fielding, sócio da Brooks Fielding. Era um homem com aparência distinta e cerca de sessenta anos de idade.

 — Parabéns, Srta. Maddox, pela vitória merecida — disse ele.

 — Muito obrigada — agradeceu ela. — Foi mais difícil do que eu pensava. Achava que o caso era uma questão liquidada até que o senhor começou a defesa.

 Ele agradeceu o cumprimento com um discreto gesto da cabeça bem penteada.

 — Sua preparação foi irrepreensível. É advogada?

 — Estudei na Faculdade de Direito de Stanford.

 — Bem que achei que devia ser bacharel em direito. Bem, se algum dia se cansar do FBI, venha me ver, por favor. Trabalhando em minha firma poderá ganhar três vezes o seu salário atual em menos de um ano.

 Ela se sentiu lisonjeada, mas ao mesmo tempo também sentiu-se tratada com condescendência, de modo que sua resposta foi cortante.

 — É uma bela oferta, mas quero pôr os bandidos na cadeia, não mantê-los fora dela.

 — Admiro seu idealismo — disse ele, suavemente, e virou-se para falar com Don.

 Judy percebeu que fora dura demais. Era um defeito seu, sabia disso.

 Mas que diabos, não queria um emprego em Brooks Fielding.

 Pegou sua pasta. Estava ansiosa por celebrar sua vitória com o AEE. A filial do FBI em San Francisco era no mesmo edifício do tribunal, dois andares abaixo. Quando se virou para ir embora, Don pegou-a pelo braço.

 — Janta comigo? — perguntou. — Temos que comemorar.

 Ela não tinha compromisso.

 — Claro.

 — Faço as reservas e depois telefono para você.

 Depois que saiu, lembrou-se da sensação que ele lhe passara, a de que queria beijá-la e arrependeu-se por não ter inventado uma desculpa.

 Quando entrou no saguão do escritório do FBI, perguntou-se de novo por que o encarregado e seu assistente não teriam ido à corte para assistir ao veredicto. Não havia sinal de atividades anormais. Os corredores acarpetados estavam em silêncio. O robô carteiro, um carrinho motorizado, zumbia, parando de porta em porta na rota predeterminada.

 Para uma agência dedicada a fazer cumprir a lei, tinham instalações finamente decoradas. A diferença entre o FBI e uma delegacia de polícia comum era a mesma que há entre a sede de uma firma gigantesca e o galpão da fábrica.

 Dirigiu-se para a sala do encarregado.

 Milty Lestrange sempre tivera uma certa queda por ela. Desde o princípio ele apoiara a existência de mulheres agentes, que agora, por sinal, somavam dez por cento do total de agentes. Alguns encarregados berravam as ordens como generais do Exército. Milty era sempre calmo e atencioso.

 Assim que entrou na ante-sala do escritório dele, viu que havia algo errado. Sua secretária, evidentemente, estivera chorando. Judy perguntou:

 — Linda, você está bem?

 A secretária, uma mulher de meia-idade que em geral era friamente eficiente, irrompeu em lágrimas. Judy adiantou-se para consolá-la, mas ela acenou para que se afastasse e apontou para a porta da sala do chefe.

 Judy entrou.

 Era uma sala grande, decorada com uma verba generosa, mobiliada com uma escrivaninha grande e uma bela mesa de reuniões. Sentado à mesa de Lestrange, sem paletó e com o laço da gravata afrouxado, estava Brian Kincaid, um dos assistentes do encarregado, um homem grande e corpulento com uma farta cabeleira branca. Ele levantou os olhos e disse:

 — Entre, Judy.

 — O que é que está acontecendo? Onde está Milt?

 — Tenho más notícias — disse ele, embora seu ar não fosse muito triste.

 — Milt está no hospital. Diagnosticaram câncer no pâncreas.

 — Oh, meu Deus. — Judy sentou-se.

 Lestrange fora ao hospital na véspera — para um check-up de rotina, ele dissera. Mas já devia estar sabendo que havia algo de errado. Kincaid prosseguiu:

 — Ele vai ser operado, algo como um desvio intestinal, e, na melhor das hipóteses, não voltará tão cedo ao trabalho.

 — Pobre Milt! — Judy estava chocada. Ele dava a impressão de estar no apogeu: em forma física, vigoroso e um bom chefe. Agora recebia o diagnóstico de uma enfermidade fatal. Gostaria de fazer algo para reconfortá-lo, mas sentia-se impotente.

 — Jessica deve estar lá — disse ela.

 Jessica era a segunda mulher de Milt.

 — Sim, e o irmão dele está vindo de Los Angeles ainda hoje. Aqui no escritório...

 — E a primeira mulher dele?

 Kincaid pareceu ficar irritado.

 — Não sei dela. Falei com Jessica.

 — Alguém devia contar a ela. Vou ver se consigo seu telefone. — Seja o que for — Kincaid estava impaciente para se livrar do assunto pessoal e voltar a falar sobre o trabalho.

 — Aqui no escritório haverá, inevitavelmente, algumas mudanças.

 Passarei a ser o encarregado, na ausência de Milt.

 O coração de Judy ficou apertado.

 — Parabéns — disse, procurando manter um tom neutro.

 — Estou transferindo você para a carteira do Terrorismo Doméstico.

 A princípio Judy ficou intrigada.

 — Para quê?

 — Acho que você vai se dar bem lá — ele pegou o telefone e falou com Linda. — Peça a Matt Peters para vir me ver imediatamente. — Peters era o supervisor do grupo de Terrorismo Doméstico.

 — Mas acabo de ganhar o meu caso — exclamou Judy, indignada. — Pus os irmãos Foong na cadeia hoje!

 — Bom trabalho. Mas não altera minha decisão.

 — Espere um pouco. Você sabe que me candidatei à função de supervisor no grupo do Crime Organizado Asiático. Se eu for transferida daqui agora vai parecer que tive um problema qualquer.

 — Acho que você precisa ampliar sua experiência.

 — E eu acho que você quer que Marvin ocupe a função lá.

 — Tem razão. Acredito que Marvin seja a melhor pessoa para aquele trabalho.

 Com um movimento brusco involuntário, Judy pensou, furiosa. O cara substitui o chefe e a primeira coisa que faz é promover o amiguinho.

 — Você não pode fazer uma coisa dessas — disse ela. — Nós aqui seguimos as regras da lei de Oportunidades de Emprego Iguais.

 — Vá em frente, apresente uma queixa. — disse Kincaid. — Marvin é mais qualificado que você.

 — Prendi um monte de bandidos a mais que ele.

 Kincaid deu-lhe um sorriso complacente e jogou seu trunfo:

 — Mas ele passou dois anos no quartel-general em Washington.

 Ele tinha razão, pensou Judy, desesperada. Ela nunca havia trabalhado no quartel-general do FBI. E embora não fosse um detalhe impeditivo, acreditava-se que a experiência no quartel-general fosse essencial à função de supervisor. Assim, não havia como apresentar queixa. Todo mundo sabia que ela era melhor agente, mas no papel Marvin parecia melhor. Judy lutou para conter as lágrimas. Trabalhara desesperadamente durante dois anos e conseguira uma vitória importante contra o crime organizado e agora estava sendo fraudada na recompensa que lhe era devida.

 Matt Peters entrou. Era um sujeito corpulento de mais ou menos cinqüenta e cinco anos, careca, usando camisa de manga curta e gravata.

 Como Marvin Hayes, era íntimo de Kincaid. Judy começou a se sentir cercada.

 — Congratulações por ter ganho o seu caso — disse Peters a ela. – Será um prazer tê-la no meu grupo.

 — Muito obrigada — Judy não pôde imaginar outra coisa para dizer.

 Peters tinha uma pasta debaixo do braço.

 — O governador recebeu uma ameaça terrorista de um grupo que se autodenomina O Martelo do Éden.

 Judy abriu a pasta, mas mal conseguiu discernir as palavras. Tremia de raiva e sentia-se dominada por uma esmagadora sensação de insignificância. Para disfarçar suas emoções, tentou falar sobre o caso.

 — O que estão exigindo?

 — Que seja suspensa a construção de novas usinas elétricas na Califórnia.

 — Usinas nucleares?

 — Qualquer tipo. Dão o prazo de quatro semanas para terem a sua exigência atendida. Dizem que são o braço radical da Campanha Califórnia Verde.

 Judy tentou concentrar-se. Califórnia Verde era um grupo de pressão ambiental legítimo baseado em San Francisco. Difícil acreditar que fossem fazer algo assim. Mas todas as organizações do gênero são capazes de atrair gente maluca.

 — E qual é a ameaça?

 — Um terremoto.

 Ela levantou os olhos.

 — Você está brincando comigo.

 Matt sacudiu a cabeça calva.

 Por estar furiosa e perturbada, ela não se deu ao trabalho de amenizar suas palavras.

 — Isto é burrice — disse, sem rodeios. — Ninguém pode causar um terremoto. Seria a mesma coisa que nos ameaçar com um metro de neve.

 Ele deu de ombros.

 — Verifique você mesma.

 Judy sabia que os políticos importantes recebiam ameaças todos os dias. Mensagens de malucos não eram investigadas pelo FBI, a menos que houvesse nelas algo de especial.

 — Como esta ameaça foi enviada?

 — Apareceu num BBS no dia primeiro de maio. Está tudo aí na pasta.

 Ela o encarou diretamente nos olhos. Não estava disposta a engolir papo furado.

 — Há qualquer coisa que você não está me contando. Esta ameaça não tem a menor credibilidade — ela consultou o relógio. — Hoje é dia vinte e cinco. Ignoramos a mensagem por três semanas e meia. Agora, subitamente, com quatro dias para o prazo fatal, por que nos preocupamos?

 — John Truth viu o BBS — surfando na Rede, eu acho. Talvez estivesse desesperado por um assunto quente. De qualquer forma, falou sobre a ameaça no seu programa da noite de sexta-feira e recebeu muitos telefonemas.

 — Entendi — John Truth era um entrevistador de rádio muito discutido.

 Seu programa era irradiado a partir de San Francisco, mas redistribuído por uma porção de outras estações na Califórnia. Judy ficou ainda mais furiosa.

 — John Truth pressionou o governador para fazer alguma coisa a respeito da mensagem.

 — O governador respondeu chamando o FBI para investigar. Assim, temos que cumprir toda a sistemática de uma investigação na qual ninguém realmente acredita. — É por aí.

 Judy respirou fundo e dirigiu-se a Kincaid e não a Peters, porque sabia que aquilo era obra dele.

 — Esta agência vem tentando pegar os irmãos Foong há vinte anos. Hoje eu os pus na cadeia — ela levantou a voz. — E agora vocês me dão um caso de mentira como este aqui?

 Kincaid pareceu secretamente satisfeito consigo mesmo.

 — Se quer permanecer no Bureau, tem que aprender a aceitar o ônus junto com o bônus.

 — Já aprendi isso, Brian!

 — Não me diga.

 — Aprendi — repetiu ela, falando mais baixo — há dez anos, quando era nova e inexperiente e meu supervisor não sabia exatamente o quanto podia confiar em mim. Recebi, então, missões como esta, e as realizei de bom grado e conscienciosamente, provando que merecia muito bem ser encarregada de trabalhos de verdade!

 — Dez anos não são nada — disse Kincaid. — Trabalho aqui há vinte e cinco.

 Ela tentou ponderar.

 — Olha, você acabou de ser designado para responder por este escritório. Seu primeiro ato é dar a um de seus melhores agentes uma missão que deveria atribuir a um recruta. Todo mundo vai saber o que fez. As pessoas pensarão que por trás disso houve um certo ressentimento.

 — Você está certa. Acabo de assumir esta chefia. E você já está me dizendo como agir. Volte para o trabalho, Maddox.

 Ela o encarou com um olhar fixo. Não era possível que ele fosse simplesmente dispensá-la. Ele acrescentou:

 — A reunião está encerrada.

 Judy não podia agüentar aquilo. Tinha que extravasar sua raiva.

 — Não é só a reunião que está encerrada — disse ela. Levantou-se. — Vá se foder, Kincaid.

 Uma expressão de assombro surgiu no rosto dele. Judy finalizou:

 — Eu me demito.

 E saiu pisando firme.

 

 — Você disse mesmo isso? — quis saber o pai dela.

 — Disse. Sabia que você ia desaprovar.

 — Tinha toda a razão.

 Estavam sentados na cozinha, bebendo chá verde. O pai de Judy era detetive da polícia de San Francisco e fazia muitos trabalhos na qualidade de agente secreto. Era um homem de constituição vigorosa, em boa forma física para a idade, olhos verdes e o cabelo grisalho preso atrás num rabo-de-cavalo. Estava prestes a se aposentar, mas tinha medo da aposentadoria. A vida de policial era tudo para ele. Pelo seu gosto, continuaria a exercer a profissão até completar os setenta anos.

 Ficou horrorizado ao saber que a filha demitira-se voluntariamente. Os pais de Judy tinham se conhecido em Saigon. Ele esteve lá no tempo em que os militares americanos ainda eram chamados de "assessores". A mãe vinha de uma família vietnamita de classe média. O avô de Judy trabalhara como contador no Ministério das Finanças de lá. O pai de Judy trouxera sua noiva para casa, e Judy nasceu em San Francisco. Quando pequenina chamava os pais de Bo e Me, o equivalente vietnamita a papai e mamãe. Os policiais se basearam nisso para chamar o pai dela de Bo Maddox. Judy o adorava. Quando tinha treze anos, sua mãe morrera num acidente de carro. Desde então ficara muito ligada a Bo. Depois de romper com Don Riley um ano atrás, mudara-se para a casa do pai e desde então não tivera razão para sair de lá. Ela suspirou.

 — Não é sempre que perco a calma, você tem que admitir. — disse. – Só quando é realmente importante. — Mas agora que eu disse a Kincaid que vou embora, acho que vou mesmo.

 — Agora que você o xingou desse jeito, acho que se verá obrigada a sair.

 Judy levantou-se e serviu mais chá para ambos. Ainda fervia de raiva por dentro.

 — Ele é um idiota rematado.

 — Deve ser mesmo, porque acaba de perder uma boa agente — Bo tomou um gole do chá. — Mas você ainda é pior do que ele — acaba de perder um grande emprego.

 — Ofereceram-me um melhor hoje.

 — Onde?

 — Brooks Fielding, a firma de advocacia. Posso vir a ganhar três vezes o meu salário do FBI.

 — Salvando mafiosos da cadeia! — exclamou Bo, indignado.

 — Todo mundo tem direito a uma boa defesa.

 — Por que não se casa com Don Riley e tem filhos? Com netos eu teria o que fazer na aposentadoria.

 Judy estremeceu. Não contara a Bo a história verdadeira do seu rompimento com Don. A verdade pura e simples era que ele teve um caso. Sentindo-se culpado, confessara. Foi apenas uma breve escapada com uma colega, e Judy tentou perdoá-lo, mas seus sentimentos por ele nunca mais foram os mesmos. Nunca mais sentiu vontade intensa de fazer amor com ele. Tampouco se sentira atraída por outra pessoa. Era como se tivessem acionado um interruptor qualquer dentro dela, desligando seu impulso sexual.

 Bo não sabia nada disso. Via Don Riley como o marido perfeito: bonito, inteligente, bem-sucedido e trabalhando para fazer com que a lei fosse cumprida.

 Judy disse:

 — Don me convidou para um jantar comemorativo, mas creio que vou cancelar.

 — Acho que eu devia saber que não tenho nada que lhe dizer com quem se casar — admitiu ele, com um sorriso melancólico. Levantou-se. — É melhor eu ir andando. Temos uma batida hoje de noite.

 Ela não gostava quando o pai trabalhava de noite.

 — Você já comeu? — perguntou, ansiosa. — Quer que eu faça uns ovos mexidos?

 — Não, obrigado, querida. Como um sanduíche mais tarde — ele vestiu uma jaqueta de couro e beijou-a no rosto. — Amo você.

 — Até logo.

 Quando a porta bateu, o telefone tocou. Era Don.

 — Reservei uma mesa no Masa's.

 Judy suspirou. Era um restaurante finíssimo.

 — Don, detesto deixá-lo, mas prefiro não ir.

 — Sério? Praticamente tive que oferecer minha irmã ao maître para conseguir uma mesa assim tão em cima da hora.

 — Não estou com disposição para celebrar. Aconteceu um problema no trabalho hoje.

 Ela contou a história do câncer de Lestrange e Kincaid lhe ter dado uma missão imbecil.

 — E por isso estou deixando o Bureau.

 Don ficou chocado.

 — Não acredito! Você ama o FBI.

 — Amava.

 — Que coisa mais terrível!

 — Não é tão terrível assim. Já está na hora de eu fazer algum dinheiro, afinal. Fui excelente aluna na faculdade de Direito, você sabe disso. Tive melhores notas do que muita gente que está ganhando fortunas atualmente.

 — Claro, ajudam um assassino a não ir para a cadeia, escrevem um livro a respeito, ganham um milhão de dólares... É o que você quer? Estou falando mesmo com Judy Maddox? Alô?

 — Não sei, Don, mas com tanta coisa na minha cabeça não me sinto em condições de espírito apropriadas para jantar fora. Seguiu-se uma pausa.

 Judy sabia que Don estava se resignando ao inevitável. Depois de um momento, ele disse:

 — Está bem, mas você vai ter que compensar um outro dia. Amanhã?

 Judy não teve energia para continuar negando.

 — Claro — concordou.

 — Obrigado. Ela desligou.

 Ligou a televisão e deu uma olhada na geladeira, pensando no jantar.

 Mas não estava com fome. Abriu uma lata de cerveja. Assistiu televisão por três ou quatro minutos, quando se deu conta de que o programa era em espanhol. Decidiu que não queria a cerveja. Desligou a televisão e derramou a cerveja na pia.

 Pensou em ir ao Everton's, o bar favorito dos agentes do FBI. Gostava de lá, para passar tempo, bebendo cerveja, comendo hambúrgueres e trocando histórias. Mas não tinha certeza se seria bem-vinda agora, especialmente se Kincaid estivesse lá. Já começava a se sentir excluída.

 Decidiu fazer seu currículo. Iria para o escritório sentar-se ao computador. Melhor fazer qualquer coisa do que ficar trancada em casa com claustrofobia.

 Pegou a arma mas hesitou. Os agentes do FBI eram considerados de serviço vinte e quatro horas por dia e eram obrigados a andar sempre armados, exceto no tribunal, dentro de uma cadeia ou no escritório do Bureau. Mas se eu não for mais uma agente, não tenho que andar armada.

 Em seguida ela mudou de idéia. Droga, se eu vir um roubo em andamento e tiver que passar direto por ter deixado a arma em casa, vou me sentir uma perfeita idiota.

 Era uma arma de distribuição padronizada no FBI, uma pistola SIG-Sauer P228 com capacidade para pentes de 13 cartuchos, mas Judy sempre colocava o primeiro na câmara, removia o pente e adicionava um extra, fazendo um total de catorze. Tinha também uma espingarda Remington modelo 870 com uma câmara capacitada para cinco cartuchos.

 Como todos os agentes, fazia exercício de tiro uma vez por mês, geralmente no estande do xerife em Santa Rita. Sua pontaria era testada quatro vezes por ano. Era hábil e nunca tivera qualquer problema: tinha um olhar apurado, a mão firme e reflexos rápidos. Como a maioria dos agentes, jamais disparara suas armas senão nos treinamentos.

 Os agentes do FBI eram investigadores. Todos tinham um alto nível de educação formal e eram bem pagos. Não se vestiam para combate. Era perfeitamente normal fazer uma carreira de vinte e cinco anos no Bureau e jamais se envolver em um tiroteio ou mesmo uma briga comum. Mas tinham que estar preparados.

 Judy pôs a arma em uma bolsa a tiracolo. Vestia um ao dai, uma roupa vietnamita tradicional que lembrava uma blusa comprida, com gola alta e aberturas laterais, sempre usada por cima de calças baggy. Era seu traje favorito por ser muito confortável, mas Judy também sabia que ficava bem com ele: o tecido branco destacava o cabelo preto que descia até os ombros e a pele cor de mel. Como o ao dai era justo, favorecia seu tipo pequeno. Normalmente não vestiria aquilo para ir trabalhar, mas já era tarde da noite e, de qualquer modo, tinha pedido demissão.

 Seu Chevrolet Monte Carlo estava estacionado junto ao meio-fio. Era um carro do FBI e não lamentaria perdê-lo. Quando fosse advogada de defesa poderia comprar algo mais excitante — um pequeno carro esporte europeu, talvez, um Porsche ou um MG.

 A casa do seu pai ficava no bairro de Richmond. Não era muito elegante mas um policial honesto jamais enriquece. Judy foi para o centro da cidade pela via direta Geary. A hora do movimento maior já passara, de modo que chegou ao Federal Building em questão de minutos. Estacionou na garagem do subsolo e pegou o elevador para o décimo segundo andar. Agora que ia sair do Bureau, o escritório assumiu um ar de familiaridade tão acolhedora que a fez sentir-se nostálgica. O carpete cinza, as portas cuidadosamente numeradas, os armários, arquivos e os computadores, tudo aquilo era uma expressão de uma organização poderosa e bem dotada de recursos, confiante e dedicada. Havia umas poucas pessoas fazendo serão. Ela entrou na sala do grupo do Crime Organizado Asiático. Estava vazia. Acendeu as luzes, sentou-se à sua mesa e inicializou o computador. Quando pensou no que iria incluir no currículo, deu um branco na sua cabeça.

 Não havia muito o que dizer a respeito de sua vida antes do FBI: só a faculdade de Direito e dois anos tediosos no departamento jurídico de uma companhia de seguros, a Mutual American Insurance. Precisava redigir uma narrativa clara dos dez anos passado invés de uma narrativa ordenada, sua memória produziu uma série desconexa de flashbacks: o estuprador serial que lhe agradecera do banco dos réus por tê-lo posto na cadeia, onde não poderia mais fazer mal a ninguém; uma firma chamada Investimentos Bíblia Sagrada que roubara as economias de dezenas de viúvas idosas; a vez em que se vira sozinha num quarto com um homem armado que seqüestrara duas crianças e o persuadira a entregar a arma...

 Não podia dar conhecimento desses episódios a uma firma de advogados. Lá o que queriam era Perry Mason, não Wyatt Earp. Decidiu redigir primeiro sua carta formal de demissão. Escreveu a data e depois: "Ao Agente Especial Encarregado em exercício." Prosseguiu: "Caro Brian: este documento confirma meu pedido de demissão."

 Sentia-se magoada.

 Dera dez anos da sua vida ao FBI. Outras mulheres tinham se casado e tido filhos, ou começado o próprio negócio, ou escrito um romance, ou velejado em torno do mundo. Ela não — dedicara-se inteiramente à tarefa de se transformar numa agente do primeiro time. E agora estava jogando tudo fora. O pensamento trouxe-lhe lágrimas aos olhos. Que tipo de idiota sou eu, sentada sozinha no meu escritório, chorando diante do maldito computador?

 Foi quando Simon Sparrow entrou.

 Era um homem muito musculoso. Com o cabelo curto bem cortado e bigode. Um ou dois anos mais velho que Judy. Como ela, estava vestido informalmente, de calça de brim bege e camisa esporte de manga curta.

 Simon tinha doutorado em lingüística e trabalhara cinco anos na Unidade de Ciência Comportamental na Academia do FBI em Quantico, Virgínia. Sua especialidade era análise de ameaças.

 Ele gostava de Judy e ela dele. Com os homens da agência ele falava assuntos de homem, futebol, armas e carros, mas quando estava com Judy notava e comentava a roupa ou as jóias dela como se fosse uma amiga.

 Simon tinha uma pasta nas mãos.

 — Sua ameaça de terremoto é fascinante — disse, com os olhos brilhando de entusiasmo.

 Judy assoou o nariz. Simon certamente percebera que ela estava chorando mas, diplomaticamente, fingiu não ter visto. Simon continuou:

 — Eu ia deixar isto em cima da sua mesa, mas fico feliz por tê-la encontrado.

 Obviamente trabalhara até tarde para ultimar seu relatório, e Judy não queria desapontá-lo contando que estava se demitindo.

 — Sente-se — convidou, controlando-se.

 — Parabéns por ter ganho seu caso hoje!

 — Obrigada.

 — Você devia estar feliz.

 — Devia. Mas tive uma briga com Brian Kincaid logo depois.

 — Oh, ele — Simon fez um gesto como se afastasse o chefe com o dorso da mão. — Se você pedir desculpas direitinho, ele terá que perdoá-la. Não pode se dar ao luxo de perdê-la. Você é boa demais.

 A reação dele foi inesperada. Simon normalmente era muito mais compreensivo. Era quase como se já tivesse sabido o que houvera. Mas se sabia da briga, sabia também que ela se demitira. Por que lhe trouxera então o relatório?

 Intrigada, Judy pediu:

 — Fale-me sobre sua análise da ameaça.

 — Ela me deixou sem saber o que pensar por algum tempo — Simon lhe entregou uma folha com a mensagem impressa, tal como aparecera originalmente na Internet. — O pessoal de Quântico também ficou intrigado — acrescentou.

 Judy sabia que Simon teria consultado automaticamente o pessoal da Academia. Ela vira a mensagem antes: estava na pasta que Matt Peters lhe dera. Estudou-a de novo.

 

 PRIMEIRO DE MAIO

 AO GOVERNADOR DO ESTADO

 

 Oi!

 Você diz que se importa com a poluição e o meio ambiente, mas não nunca faz nada a respeito; assim, nós vamos obrigar você.

 A sociedade de consumo está envenenando o planeta porque vocês são gananciosos demais, e têm que parar com isso já!

 Nós somos o Martelo do Éden, o braço radical da Campanha Califórnia Verde.

 Estamos dizendo a você para anunciar uma paralisação imediata da construção de usinas elétricas. Nada de usinas novas. Ponto final.

 Senão! Senão o que, você vai dizer?

 Senão nós causaremos um terremoto. Exatamente daqui a quatro semanas Estejam avisados! Nós realmente estamos falando a sério!

 

— O Martelo do Éden

 Aquilo não lhe dizia muita coisa, mas Judy tinha certeza de que Simon estudaria cada palavra e cada vírgula até encontrar o verdadeiro significado.

 — O que é que você acha disso? — perguntou ele.

 Ela pensou por um minuto.

 — Vejo um estudante nada atraente, jovem, com o cabelo sujo e oleoso, usando uma camiseta surrada do Guns n' Roses, sentado diante do computador, criando uma fantasia na qual o mundo irá obedecer a ele, ao invés de ignorá-lo do jeito como sempre ignorou.

 — Bem, seria praticamente impossível errar mais — disse Simon, com um sorriso. — Trata-se de um homem sem instrução nos seus quarenta e tantos anos.

 Judy sacudiu a cabeça, assombrada. Sempre se espantava com o modo pelo qual Simon extraía conclusões de indícios que ela nem sequer conseguia enxergar.

 — Como é que você sabe?

 — O vocabulário e a estrutura da frase. Olha só a saudação. Gente com dinheiro não começa uma carta com "Oi", o normal seria "Prezado Senhor".

 E uma pessoa com terceiro grau não costuma usar duas negativas juntas como "não nunca faz nada".

 Judy balançou a cabeça, concordando.

 — Então você está procurando um Zé Operário, com quarenta e cinco anos de idade. O que me parece bastante direto. O que foi que o intrigou?

 — As indicações contraditórias. Outros elementos na mensagem sugerem uma mulher jovem de classe média. A ortografia é perfeita. Há um ponto e vírgula na primeira oração, o que indica algum estudo. E o número de pontos de exclamação sugere uma mulher. Desculpe, Judy, mas é a verdade.

 — Como você sabe que ela é jovem?

 — As pessoas mais velhas normalmente usam letras maiúsculas apenas nas iniciais de expressões como "Governador do Estado", em vez de escreverem tudo em maiúsculas, como foi feito. E também o uso do computador e da Internet sugere alguém ao mesmo tempo jovem e com algum estudo.

 Ela examinou Simon. Estaria ele deliberadamente despertando-lhe o interesse para que ela não se demitisse? Se fosse, não ia adiantar. Uma vez que tomava uma decisão, detestava mudar de idéia. Mas estava fascinada pelo mistério que Simon mostrara.

 — Você está prestes a me dizer que a mensagem foi escrita por alguém com personalidade múltipla?

 — De jeito nenhum. Mais simples que isso. Foi escrito por duas pessoas: o homem ditando, a mulher escrevendo.

 — Esperto! — Judy começava a ver o quadro dos dois indivíduos por trás daquela ameaça. Como perdigueiro que fareja a presa, ela sentiu-se tensa, alerta, a antecipação da caçada correndo pelas veias. Posso sentir o cheiro dessas duas pessoas, quero saber onde se encontram, tenho certeza de que sou capaz de encontrá-las. Mas eu pedi demissão.

 — Pergunto-me por que ele dita — prosseguiu Simon. — Seria a idéia normal se fosse um executivo acostumado a ter secretária, mas esse cara é um sujeito comum.

 Simon falou superficialmente, como se aquilo não passasse de uma especulação sem fundamento, mas Judy sabia que suas intuições sempre eram inspiradas.

 — Alguma teoria?

 — Será que ele é analfabeto?

 — Pode ser simplesmente preguiçoso.

 — Verdade — Simon deu de ombros. — Só,tenho um palpite.

 — Está certo — disse Judy. — Você tem uma garota com faculdade que, de alguma forma, está nas garras de um cara das ruas. Chapeuzinho Vermelho e o Lobo Mau. Ela provavelmente corre perigo, mas alguém mais corre? A ameaça de um terremoto simplesmente não parece real.

 Simon sacudiu a cabeça.

 — Acho que temos que levá-la a sério.

 Judy não pôde conter a curiosidade.

 — Por quê?

 — Como você sabe, analisamos as ameaças de acordo com sua motivação, intenção e seleção do alvo.

 Judy balançou a cabeça. Aquilo era o bê-a-bá do estudo das ameaças.

 — A motivação ou é emocional ou de ordem prática. Em outras palavras, quem ameaça está fazendo aquilo para se sentir bem, ou porque quer alguma coisa?

 Judy achou que neste caso a resposta era bastante óbvia.

 — Tendo em vista a ameaça essas pessoas têm um objetivo específico.

 Querem que o estado pare de construir usinas hidrelétricas.

 — Exato. E isto significa que não querem machucar ninguém. Esperam atingir seu objetivo apenas fazendo uma ameaça.

 — Enquanto tipos mais emocionais iriam preferir matar gente.

 — Exatamente. A seguir, temos a intenção, que pode ser política, criminosa ou própria de quem é mentalmente perturbado.

 — Política, neste caso, pelo menos superficialmente.

 — Certo. Idéias políticas podem ser pretexto para um ato que seja basicamente insano, mas não tenho esta sensação aqui, você tem?

 Judy viu onde ele queria chegar.

 — Você está tentando me dizer que essas pessoas são racionais. Mas é insano ameaçar com um terremoto.

 — Voltarei a isso depois, OK? Finalmente, a seleção do alvo é específica ou aleatória. Tentar matar o presidente é específico; sair disparando uma metralhadora na Disneylândia é aleatório. Levando a sério a ameaça só para poder argumentar, é óbvio que um terremoto mataria uma porção de pessoas indiscriminadamente, donde se conclui que é aleatória.

 Judy inclinou-se para a frente.

 — Muito bem, você tem intenção prática, motivação política e alvo indeterminado. O que isto significa para você?

 — Os manuais dizem que essas pessoas ou estão barganhando ou buscam publicidade. Eu digo que estão barganhando. Se quisessem publicidade não teriam optado por colocar a ameaça em um obscuro BBS na Internet, teriam ido para a televisão ou os jornais. Mas não foram. De modo que eu penso que simplesmente queriam se comunicar com o governador.

 — São ingênuos se pensam que o governador lê as mensagens que lhe são destinadas.

 — Concordo. Essas pessoas exibem uma estranha combinação de sofisticação e ignorância.

 — Mas estão agindo a sério.

 — Sim, e tenho outro motivo para pensar deste modo. A exigência — cessar a construção de novas usinas de eletricidade — não é o tipo de coisa que se escolheria normalmente como pretexto. É muito terra-a-terra. Se fosse apenas um pretexto, iriam preferir algo mais chamativo, como, por exemplo, banir os aparelhos de ar-condicionado de Beverly Hills.

 — Que diabo de gente é essa então?

 — Não sabemos. O terrorista típico exibe um padrão ascendente. Começa com telefonemas ameaçadores e cartas anônimas; depois escreve para os jornais e as estações de televisão; em seguida começa a rodear os prédios do governo. Na hora em que aparece para uma visita turística na Casa Branca, carregando uma pistola barata numa sacola de compras, já temos grande parte do seu trabalho nos computadores do FBI. Mas não é este o caso aqui. Mandei cotejar as características lingüísticas com os registros que temos em Quântico, mas não apareceu nada. Essas pessoas são novas.

 — Então não sabemos nada a respeito delas?

 — Sabemos bastante. Moram na Califórnia, é claro.

 — A mensagem é endereçada "Ao governador do estado". Se fossem de fora, colocariam: "Ao governador da Califórnia".

 — O que mais?

 — São americanos, e não há indicação de qualquer grupo étnico em particular; a linguagem não demonstra nada caracteristicamente negro, asiático ou hispânico.

 — Você deixou uma coisa de fora.

 — O quê?

 — São malucos.

 Ele sacudiu a cabeça.

 — Ora, Simon, deixa disso! Eles pensam que são capazes de causar um terremoto. Têm que ser malucos!

 Ele disse teimosamente:

 — Não sei nada de sismologia, mas conheço psicologia e não me sinto confortável com a teoria de que essas pessoas estejam fora do seu juízo. São mentalmente sãs, falam sério e estão perfeitamente orientadas no sentido do que desejam. O que significa que são perigosas.

 — Não concordo.

 Ele se levantou.

 — Eu me rendo. Topa uma cerveja?

 — Hoje, não, Simon, mas obrigada. E obrigada também pelo relatório. Você é ótimo.

 — Sem dúvida. Então, até logo.

 Judy pôs os pés em cima da mesa e examinou os sapatos. Tinha certeza agora de que Simon estivera tentando persuadi-la a não se demitir.

 Kincaid podia pensar que aquele caso não passava de uma fantasia, mas a mensagem de Simon era de que o Martelo do Éden podia representar uma ameaça genuína, partindo de um grupo que realmente precisava ser encontrado e posto fora de ação.

 E neste caso sua carreira no FBI não estava obrigatoriamente encerrada. Podia transformar em uma vitória um caso que lhe fora dado como um insulto propositado. O que a tornaria uma agente magnífica ao mesmo tempo que faria com que Kincaid parecesse um imbecil. A perspectiva era tentadora.

 Abaixou os pés e deu uma olhada no monitor. Por não ter tocado nas teclas por algum tempo, o protetor de tela fora inicializado. Era uma foto de Judy aos sete anos, com as falhas características nos dentes e um arco plástico prendendo o cabelo. Estava sentada no joelho do pai, que ainda era patrulheiro, com o uniforme da polícia de San Francisco. Ela havia tirado o boné dele e tentava colocá-lo na própria cabeça. A foto fora tirada pela sua mãe.

 Imaginou-se trabalhando para Brooks Fielding, dirigindo um Porsche e indo ao tribunal a fim de defender gente como os irmãos Foong.

 Tocou na barra espacejadora e o protetor de tela desapareceu, permitindo que lesse as palavras que escrevera: "Caro Brian: este documento confirma meu pedido de demissão." Suas mãos pairaram sobre o teclado. Após uma longa pausa, ela disse em voz alta:

 — Droga, com os diabos.

 Em seguida apagou a frase e escreveu: "Gostaria de pedir desculpas pela minha rudeza..."

 

O sol da manhã de terça-feira se levantava sobre a rodovia interestadual I-80. O Plymouth OCuda 1971 de Priest rumava para San Francisco com o motor roncando tanto que fazia os oitenta quilômetros por hora parecerem cento e cinqüenta.

 Ele comprara aquele carro no tempo em que se encontrava no auge da carreira comercial. Depois, com o negócio do atacado de bebidas na crise final e o Imposto de Renda prestes a prendê-lo, fugiu levando apenas a roupa do corpo — um terno azul-marinho de lapelas largas e calças de boca larga — e o carro. Ainda tinha ambos.

 Durante a era hippie, o único carro maneiro era o Fusca. Dirigindo o OCuda amarelo radiante, Priest parecia um cafetão, Star lhe dizia sempre. Por isso, tinham feito no carro uma pintura psicodélica: planetas no teto, flores na tampa da mala e uma deusa indiana com oito braços que se estendiam sobre os pára-lamas, tudo em púrpura, rosa e turquesa. Em vinte e cinco anos as cores tinham desbotado e se transformado em diferentes tonalidades de marrom, mas ainda era possível distinguir o desenho se examinado de perto. E agora o carro passara a ser de colecionador.

 Ele tinha iniciado a viagem às três da madrugada e Melanie dormira o tempo todo. Estava deitada com a cabeça no seu colo, as pernas fabulosamente compridas dobradas em cima do surrado estofamento preto.

 Enquanto dirigia, ia brincando com o cabelo dela. Melanie tinha os cabelos no estilo dos anos sessenta, fio longo e reto repartido no meio, embora tivesse nascido mais ou menos na época em que os Beatles se separaram.

 O garoto também dormia, esticado no banco de trás, boca aberta. O pastor alemão de Priest, Spirit, ia ao seu lado, quieto. Mas toda vez que Priest olhava para trás, abria um olho.

 Priest sentia-se ansioso. Disse a si mesmo que devia sentir-se bem. Era como nos velhos tempos. Na juventude sempre tinha algo em andamento, algum golpe, projeto, um plano qualquer para fazer ou roubar dinheiro, dar uma festa ou iniciar um tumulto. Depois descobrira a paz. Mas às vezes achava que a vida tinha se tornado demasiadamente pacífica. O roubo do vibrador sísmico o fizera rever sua antiga personalidade.

 Sentia-se mais vivo agora, com uma garota bonita ao lado e uma batalha de inteligências adiante. Assim mesmo estava preocupado. Mergulhara naquilo até o pescoço. Gabara-se de que podia dobrar o governador da Califórnia e prometera um terremoto. Se falhasse, estaria terminado.

 Perderia tudo o que lhe era caro e, se fosse apanhado, ficaria preso até a velhice. Mas ele era extraordinário. Sempre soubera não ser igual aos outros homens. Regras não se aplicavam a ele. Fazia coisas em que mais ninguém pensava. E já estava a meio caminho do seu objetivo. Roubara um vibrador sísmico. Matara um homem por causa disso, mas se safara. Não houve repercussões, exceto os pesadelos ocasionais em que Mario saía da picape em chamas com as roupas incandescentes e sangue pingando da cabeça esmagada para ir atrás de Priest, cambaleando.

 O caminhão estava escondido em um vale isolado nos contrafortes da Serra Nevada. Hoje, Priest ia descobrir onde exatamente colocá-lo para provocar um terremoto. E era o marido de Melanie quem forneceria essa informação. Segundo Melanie, Michael Quercus sabia mais do que qualquer outra pessoa no mundo sobre a falha de Santo André.

 Os dados que acumulara estavam armazenados no computador dele. E Priest queria roubar o disquete com a cópia de segurança desses dados. De quebra, tinha que se assegurar de que Michael jamais viesse a saber o que acontecera.

 Para tanto, precisava de Melanie. E era por isso que se preocupava. Priest a conhecia havia apenas umas poucas semanas. Neste curto período tornara-se a pessoa dominante na vida dela, sabia disso; mas nunca a submetera a um teste como este agora. E ela fora casada com Michael durante seis anos. Podia de repente arrepender-se de ter deixado o marido; podia descobrir o quanto sentia falta da máquina de lavar louça ; e do aparelho de televisão; podia perceber todo o perigo e a ilegalidade do que ela e Priest estavam fazendo; não havia como prever o que podia acontecer a uma pessoa tão amarga, confusa e perturbada quanto Melanie.

 No banco de trás, seu filho, de cinco anos de idade, acordou. Spirit, o cachorro, moveu-se primeiro e Priest ouviu o barulho das suas garras arranhando o plástico do banco. Em seguida, o bocejo da criança.

 Dustin, conhecido como Dusty, era um garoto azarado. Sofria de alergias múltiplas. Priest ainda não vira um dos seus ataques, mas Melanie os descrevera: o menino fungava incontrolavelmente, os olhos inchavam e as erupções na pele provocavam fortes coceiras. Ela carregava remédios fortes para conter a alergia mas disse que mitigavam os sintomas apenas parcialmente. Dusty começou a ficar inquieto.

 — Mamãe, tou com sede — disse ele.

 Melanie acordou. Endireitou-se no banco, espreguiçando-se e Priest deu uma espiada de relance no contorno dos seus seios sob a camiseta apertada. Ela virou-se e disse:

 — Beba um pouco d'água, Dusty, você tem uma garrafa.

 — Não quero água — choramingou ele. — Quero suco de laranja.

 — Não temos nenhuma droga de suco — retrucou ela, ríspida. Dusty começou a chorar.

 Melanie era uma mãe nervosa, com medo de agir erroneamente. Era obsessiva com a saúde do filho, e por isto super protetora, mas, ao mesmo tempo, a tensão fazia com que fosse mal-humorada com ele. Certa de que o marido um dia tentaria tirar o menino de sua guarda, tinha pavor de fazer qualquer coisa que possibilitasse que ele dissesse que não era boa mãe.

 Priest assumiu o controle.

 — Ei, espera aí, que negócio é esse que apareceu atrás de nós? – do jeito que falou parecia que ele estava realmente assustado.

 Melanie deu uma espiada.

 — É só um caminhão.

 — Isso é o que você pensa. Está disfarçado de caminhão, mas na verdade é uma espaçonave de combate de Centauro com torpedos impulsionados a fótons. Dusty, preciso que você bata três vezes no vidro de trás para levantar nosso escudo magnético invisível. — Agora, se virmos uma luz laranja piscando num dos pára-lamas é sinal de que ele disparou um torpedo. É melhor você tomar conta disso, Dusty.

 O caminhão aproximava-se depressa, e um minuto mais tarde a lanterna sinalizadora da esquerda piscou e ele começou a ultrapassagem. — Está disparando, está disparando! — gritou Dusty.

 — Tudo bem, tentarei segurar o escudo magnético enquanto você atira nele também! Aquela garrafa d'água na verdade é uma pistola a laser!

 Dusty apontou a garrafa para o caminhão e fez barulhos de tiros eletrônicos. Spirit entrou na brincadeira, latindo furiosamente para o caminhão quando passou.

 Melanie começou a rir.

 Quando o caminhão tomou a pista da direita à frente deles, Priest disse:

 — Puxa, conseguimos! Tivemos sorte de sair desta inteiros. Acho que por ora eles desistiram.

 — Tem mais espaçonaves de Centauro?

 — Você e Spirit tomam conta da retaguarda e me dizem o que virem, OK?

 — OK.

 Melanie sorriu e disse baixinho:

 — Obrigada. Você é muito bom com ele.

—  Sou bom com todo mundo: homens, mulheres, crianças e animais de estimação. Tenho carisma. Não nasci com ele aprendi. É só uma maneira de conseguir que as outras pessoas façam o que você quiser. Qualquer coisa. Desde convencer uma mulher fiel a cometer adultério até fazer com que uma criança chata pare de choramingar. Tudo que você precisa é charme.

 — Me avisa quando estiver na hora de sair da estrada. — disse Priest.

 — Basta seguir as placas que indicam Berkeley. Ela não sabia que ele era incapaz de ler.

 — Provavelmente há mais do que uma placa. Só quero que diga onde é que eu viro.

 Poucos minutos mais tarde eles deixaram a rodovia principal e entraram na arborizada cidade universitária. Priest pôde sentir que a tensão de Melanie aumentou. Ele sabia que toda a raiva dela contra a sociedade e o seu desapontamento com a vida de alguma maneira se concentravam no homem a quem deixara seis meses atrás. Ela orientou Priest,pelas interseções até a avenida Euclid, uma via de casas modestas e edifícios de apartamentos provavelmente alugados por estudantes e professores mais jovens.

 — Ainda acho que eu deveria entrar sozinha — disse ela.

 Estava fora de questão. Melanie não era estável o bastante. Priest não podia confiar nela quando estava ao seu lado, de modo que não havia como confiar nela sozinha.

 — Não — disse ele.

 — Talvez eu...

 Ele permitiu que Melanie visse um lampejo de raiva.

 — Não!

 — Tudo bem, tudo bem — disse ela, apressadamente. Mordeu o lábio.

 Dusty ficou entusiasmado.

 — Ei, é aqui que o papai mora!

 — Isso mesmo, querido — concordou Melanie. Ela indicou um edifício de apartamentos de poucos andares e Priest estacionou na frente.

 Melanie virou-se para Dusty mas Priest antecedeu-se.

 — Ele fica no carro.

 — Não tenho certeza se é seguro.

 — Ele tem o cão.

 — Mas pode ficar com medo.

 Priest virou-se para falar com o menino.

 — Ei, tenente, preciso que você e o cabo Spirit fiquem de guarda tomando conta da nossa espaçonave enquanto o imediato Mamãe e eu entramos no espaço porto.

 — Eu vou falar com o papai?

 — Claro. Mas eu gostaria de ter uns momentos com ele primeiro. Acha que pode dar conta do serviço de guarda?

 — Deixa comigo!

 — Na marinha espacial, você tem que dizer "Sim senhor!", e não "Deixa comigo".

 — Sim senhor!

 — Muito bem. Assuma o comando — Priest saltou do carro. Melanie também saltou, mas parecia preocupada.

 — Pelo amor de Deus, não deixe Michael saber que deixamos o filho dele no carro — disse.

—  Você pode estar com medo de ofender Michael, baby, mas eu não ligo a mínima.

 Melanie pegou a bolsa no banco e passou a alça pelo ombro.

 Dirigiram-se para a porta do prédio. Melanie apertou a campainha do interfone e a manteve comprimida.

 Seu marido era um cara de vida noturna, ela dissera a Priest. Gostava de trabalhar à noite e dormir até tarde. Por isso tinham decidido chegar antes das sete horas da manhã. Priest esperava que Michael estivesse com tanto sono que não imaginaria que a visita pudesse ter um propósito oculto. Se ficasse desconfiado, roubar o disquete talvez fosse impossível.

 Melanie disse também que ele era um workaholic, relembrou Priest enquanto esperava que Michael atendesse. Passava os dias rodando de carro pela Califórnia, checando os instrumentos que mediam movimentos geológicos na falha de Santo André ou qualquer outra, e as noites alimentando o computador com os dados colhidos.

 Mas o que acabara fazendo com que o deixasse foi um incidente com Dusty. Ela e a criança eram vegetarianos havia dois anos e comiam apenas comida orgânica e produtos de lojas de alimentos naturais. Melanie acreditava que a dieta rigorosa reduzira os ataques de alergia do filho, embora Michael fosse cético. Então, um dia, Melanie descobriu que Michael dera um hambúrguer para o menino. Para ela, foi o mesmo que envenená-lo. Ainda tremia de raiva quando contava a história. Saíra de casa no mesmo dia, levando Dusty.

 Priest achava que ela podia estar certa a respeito dos ataques de alergia. A comunidade era vegetariana desde o início dos anos 70, quando ser vegetariano era uma excentricidade. Na época, Priest duvidara do valor da dieta mas fora favorável a uma disciplina que os separasse do resto do mundo. As uvas plantadas por eles eram cultivadas sem a ajuda de produtos químicos simplesmente porque não havia dinheiro para comprá-los, e, assim, tinham transformado em virtude uma necessidade e chamaram o vinho que produziam de orgânico, o que acabou tornando-se uma forte motivação das vendas. Mas ele não pôde deixar de notar que após um quarto de século daquela vida, os integrantes da comunidade formavam um grupo dono de uma notável saúde. Era raro que tivessem uma emergência médica que eles próprios não pudessem resolver: Priest duvidava que isto acontecesse em média mais que uma vez por ano. Assim, agora estava convencido. Mas, ao contrário de Melanie, não era obsessivo com essa coisa de dieta. Ainda gostava de peixe e, de vez em quando, embora sem querer, comia carne numa sopa ou num sanduíche e não ligava. Mas se Melanie descobrisse que sua omelete de cogumelos tinha sido preparada com gordura de bacon, vomitava tudo.

 Ouviram uma voz irritada no interfone.

 — Quem é?

 — Melanie.

 Após um zumbido, a porta do edifício abriu-se. Priest seguiu Melanie escada acima. Michael Quercus estava de pé, parado no portal de um apartamento no segundo andar.

 Priest espantou-se com a aparência dele. Havia esperado um tipo professoral, provavelmente careca, vestindo roupa marrom. Quercus tinha uns trinta e cinco anos. Alto e atlético, tinha os cabelos curtos e ondulados e a sombra de uma barba cerrada no rosto. Estava com uma toalha amarrada na cintura, de modo que Priest pôde ver que tinha ombros largos e musculosos e uma barriga chata. Devem ter formado um casal bonito.

 Quando Melanie atingiu o topo da escada, Michael disse:

 — Estava muito preocupado, onde diabos você tem andado?

 Melanie perguntou:

 — Você não pode vestir qualquer coisa?

 — Você não disse que tinha companhia — respondeu ele, friamente.

 Permaneceu no portal.

— Vai responder à minha pergunta?

 Priest viu que ele mal conseguia conter a raiva acumulada.

 — Estou aqui para explicar — disse Melanie.

 Ela estava gostando da fúria de Michael. Que casamento esculhambado.

 — Este é meu amigo Priest. Podemos entrar?

 Michael olhou para ela furioso.

 — É melhor que seja uma explicação muito boa, Melanie — ele virou de costas e entrou.

 Melanie e Priest o seguiram no pequeno hall de entrada. Ele abriu a porta do banheiro, pegou um robe de algodão azul-marinho de um cabide e vestiu-o, sem pressa. Depois livrou-se da toalha e amarrou o cinto. Por fim, conduziu-os até a sala. Ali era, evidentemente, o escritório. Além do sofá e do aparelho de televisão, havia um monitor e um teclado em cima da mesa e uma fileira de aparelhos eletrônicos com luzes que piscavam em uma prateleira larga. Em algum lugar naquelas caixas cinza-claro tão comuns estava armazenada a informação de que Priest precisava. Sentiu-se atormentado por ter o que tanto desejava absolutamente fora do seu alcance. Não havia como consegui-lo sem ajuda. Tinha que depender de Melanie.

 Uma parede era inteiramente tomada por um imenso mapa.

 — Que diabo é aquilo lá? — perguntou Priest.

 Michael limitou-se a dar-lhe um olhar tipo "quem você pensa que é, porra" e nada disse, mas Melanie respondeu:

 — É a falha de Santo André — ela apontou. — Começa no farol de Ponta Arena a cento e sessenta quilômetros ao norte daqui no condado de Mendocino, vai toda vida para o sul e o leste, passa por Los Angeles e seque até San Bernardino. Uma falha na crosta terrestre com mais de mil e cem quilômetros de comprimento.

 Melanie explicara o trabalho de Michael a Priest. Sua especialidade era calcular a pressão em diferentes lugares ao longo de falhas sísmicas. Tratava-se de medir com precisão os pequenos movimentos na crosta terrestre, assim como estimar a energia acumulada com base no lapso de tempo decorrido desde o último terremoto. Com esse trabalho, ele conquistara vários prêmios acadêmicos, mas um ano atrás deixara a universidade para trabalhar por conta própria, oferecendo consultoria sobre riscos de terremotos a firmas de construção e companhias de seguros.

 Melanie era especializada em computação e o ajudara muito. Fora ela quem programara a máquina para fazer uma cópia de segurança entre as quatro e as seis horas da manhã, quando ele dormia. Tudo no seu computador, ela explicara a Priest, era copiado em um disquete ótico.

 Quando ele ligava o monitor de manhã, retirava o disquete e colocava em uma caixa à prova de fogo. Desse modo, se a máquina quebrasse ou a casa pegasse fogo, os preciosos dados não se perderiam.

 Para Priest era fantástico que as informações sobre a falha de Santo André pudessem caber em um simples disquete, mas os livros também eram um mistério para ele.

 Tinha simplesmente que aceitar o que lhe era dito. O importante era que Melanie, de posse do disquete de Michael, fosse capaz de orientá-lo sobre onde colocar o vibrador sísmico.

 Tinham agora que dar um jeito para afastar Michael dali, tempo suficiente para que ela pegasse o disquete.

 — Me diz uma coisa, Michael. Esses troços todos — exclamou Priest, indicando com um gesto o mapa e os computadores e depois fixando nele o Olhar — como é que fazem você se sentir?

 As pessoas costumavam ficar nervosas quando Priest lhes dirigia o Olhar e fazia uma pergunta pessoal. Às vezes davam uma resposta reveladora por ficarem tão desconcertadas. Mas Michael pareceu imune.

 Limitou-se a fitar Priest com um olhar inexpressivo e disse:

 — Não sinto nada, eu uso — e depois, virando-se para Melanie, perguntou: — E agora, vai me contar por que desapareceu?

 Filho da puta arrogante.

 — Muito simples — disse ela. — Um amigo ofereceu a mim e a Dusty sua cabana nas montanhas. — Priest recomendara para que não dissesse que montanhas eram. — Foi um cancelamento de última hora de uma locação — seu tom de voz indicava que ela não via por que tinha de explicar uma coisa tão simples. — Como não podemos nos dar ao luxo de tirar férias, aproveitei a chance.

 Foi quando Priest a encontrara. Ela e Dusty foram andar na floresta e ficaram completamente perdidos. Melanie era uma garota da cidade e não sabia se orientar pelo sol. Priest naquele dia fora pescar salmão sozinho. Era uma tarde perfeita de primavera, ensolarada e com a temperatura amena. Ele estava sentado na margem do regato, fumando um baseado, quando ouviu o choro de uma criança.

 Sabia que não era uma das crianças da comunidade, cujas vozes teria reconhecido. Seguindo o som, encontrou Dusty e Melanie. Ela estava à beira das lágrimas e quando viu Priest exclamou:

 — Graças a Deus, pensei que fôssemos morrer aqui!

 Ele a examinou por um longo momento. Ela era um tanto estranha, com o cabelo ruivo comprido e olhos verdes, mas um bocado apetitosa, de frente-única e calça-jeans transformada em bermudas. Era meio mágico esbarrar numa donzela em apuros.

 Foi quando lhe perguntara se era de Marte.

 — Não. De Oakland.

 Priest sabia onde ficavam as cabanas para férias. Pegou o caniço e conduziu-a pela floresta, seguindo as trilhas e elevações que lhe eram tão familiares. Foi uma longa caminhada e durante todo o percurso em que foi conversando, fazendo perguntas a respeito dela.

 Era uma mulher metida num tremendo problema. Deixara o marido e passara a viver com um cara que tocava baixo em uma banda de rock, mas o sujeito a pusera para fora após algumas semanas. Não tinha a quem recorrer: o pai era falecido e a mãe morava em NY com um sujeito que tentara se meter na sua cama na única noite em que dormira no apartamento deles. Tinha exaurido a hospitalidade dos amigos e pedira emprestado todo o dinheiro que eles tinham capacidade de emprestar. Sua carreira era um fracasso total, e ela trabalhava em um supermercado, recompletando as prateleiras, deixando Dusty com uma vizinha o dia inteiro. Morava num lugar tão sujo que o menino vivia constantemente sofrendo ataques de alergia. Precisava se mudar para onde houvesse ar puro, mas não conseguia encontrar um emprego fora da cidade.

 Estava num beco sem saída e desesperada. Tentava calcular a exata overdose de pílulas para dormir que a matasse e à criança, quando uma amiga lhe oferecera aqueles dias de férias. Priest gostava de pessoas em dificuldades. Sabia como se relacionar com elas. Tudo o que tinha de fazer era oferecer-lhes aquilo de que precisavam, e elas se tornavam suas escravas. Não se sentia à vontade com tipos confiantes e auto-suficientes — eram difíceis de controlar.

 Quando chegaram à cabana, já era hora de cear. Melanie preparou massa e salada e pôs Dusty na cama. Quando a criança dormiu, Priest seduziu-a em cima do tapete.

 Ela estava frenética de desejo. Toda a sua carga emocional reprimida foi liberada pelo sexo, e ela fez amor com ele como se fosse sua última oportunidade, arranhando suas costas e mordendo seus ombros, além de puxá-lo fundo para dentro de si, como se quisesse engoli-lo. Foi o encontro mais excitante que Priest era capaz de lembrar.

 O arrogante marido de Melanie estava reclamando.

 — Isso foi há cinco semanas. Você não pode simplesmente pegar meu filho e desaparecer sem sequer um telefonema! — Você podia ter me telefonado.

 — Eu não sabia onde você estava!

 — Tenho um celular.

 — Tentei. Mas não tive resposta.

 — O serviço foi cortado porque você não pagou a conta. Você ficou de pagar, foi o que combinamos.

 — Eu só me atrasei dois dias, mais nada! O telefone deve estar funcionando de novo.

 — Bem, você telefonou quando estava fora do ar, acho eu.

 Aquela briga de família não estava aproximando Priest do tal disquete, pensou ele, irritado. Michael tem que sair desta sala, de algum modo, de qualquer modo. Interrompeu para sugerir:

 — Por que não vamos todos tomar um café? — queria que Michael fosse para a cozinha fazer o café.

 Michael sacudiu o polegar por cima do ombro. — Sirva-se — disse, bruscamente.

— Droga. — Michael voltou-se de novo para Melanie.

 — Não interessa o motivo pelo qual não consegui falar com você. Não pude. É por este motivo que você tem que ligar para mim antes de levar Dusty para outro lugar de férias.

 Melanie disse:

 — Escuta, Michael, tem uma coisa que eu ainda não lhe contei.

 Michael pareceu ficar ainda mais exasperado, depois suspirou e disse:

 — Sentem-se, por que não se sentam?

 Melanie afundou num canto do sofá, sentada em cima das pernas dobradas de um jeito que fez com que Priest pensasse que aquele era o seu lugar habitual. Priest acomodou-se no braço do sofá, não querendo sentar-se em nível mais baixo que Michael. Não sou capaz nem de imaginar em qual dessas máquinas está o tal disquete. vamos, Melanie, livre-se desse seu maldito marido!

 O tom de voz dele sugeriu que já passara diversas vezes antes por cenas como aquela com Melanie.

 — Está certo, pode falar — disse, cansado. — O que é desta vez?

 — Vou me mudar para as montanhas, permanentemente. Estou morando com Priest e uma porção de pessoas.

 — Onde?

 Foi Priest quem respondeu. Não queria que Michael soubesse onde viviam.

 — É em Del Norte — o que era o mesmo que dizer que ficava na região das sequóias, extremidade norte da Califórnia. Na verdade a comunidade vivia em Sierra, nos contrafortes de Sierra Nevada, perto da fronteira oriental do estado. Os dois condados ficavam muito longe de Berkeley.

 Michael sentiu-se ultrajado.

 — Você não pode levar Dusty para morar a centenas de quilômetros do pai dele!

 — Há um motivo — insistiu Melanie. — Nas últimas cinco semanas Dusty não teve um único ataque de alergia. Ele é saudável nas montanhas, Michael.

 Priest acrescentou:

 — Provavelmente é o ar puro e a água. Sem poluição.

 Michael mostrou-se cético.

 — É o deserto, e não as montanhas, que normalmente mostra-se benéfico para pessoas alérgicas.

 — Não me fale sobre normalmente! — explodiu Melanie. Não posso ir para o deserto — não tenho dinheiro. Este é o único lugar que posso pagar e onde Dusty pode ser saudável!

 — Priest está pagando o seu aluguel?

 Vá em frente, seu panaca, me insulte, fale sobre mim como se eu não estivesse aqui dentro, e eu simplesmente continuarei comendo sua mulher gostosa.

 Melanie disse:

 — É uma comunidade.

 — Pelo amor de Deus, Melanie, com que espécie de gente você foi se meter agora? Primeiro foi um guitarrista drogado...

 — Espera um minuto — Blade não era um guitarrista drogado. . .

 — agora uma comunidade hippie perdida!

 Melanie estava tão envolvida na discussão que esquecera o motivo pelo qual viera. O disquete, Melanie, o maldito disquete!

Priest interrompeu de novo.

 — Por que não pergunta a Dusty como se sente a respeito disto, Michael?

 — Vou perguntar.

 Melanie dirigiu a Priest um olhar de desespero. Ele a ignorou.

 — Dusty está logo aí fora, no meu carro.

 Michael ficou vermelho de ódio.

 — Você deixou meu filho aí fora dentro do carro?

 — Ele está bem, meu cachorro está com ele.

 Michael olhou furiosamente para Melanie.

 — O que diabo está errado em você? — gritou.

 Priest disse:

 — Por que você não sai e vai buscá-lo?

 — Não preciso da porra da sua permissão para pegar o meu filho. Dê-me as chaves do carro.

 — Não está trancado — retrucou Priest, em tom ameno.

 Michael saiu pisando forte.

 — Eu disse a você para não falar que o Dusty estava aí fora — lamuriou-se Melanie. — Por que fez isso?

 — Para tirar o sujeito desta maldita sala — respondeu Priest. — Agora pegue o disquete.

 — Mas você o enfureceu tanto!

 — Ele já estava irado! — Não adiantava, Priest concluiu logo. Ela podia estar amedrontada demais para fazer o que ele precisava.

 Levantou-se. Segurou-lhe as mãos, obrigou-a a aprumar-se e lhe deu o Olhar. — Você não tem que sentir medo dele. Está comigo.

 — Mas...

 — Diga.

 — Lat hoo, dat soo.

 — Continua.

 — Lat hoo, dat soo, lat hoo, dat soo — ela começou a se acalmar.

 — Agora peque o disquete.

 Ela fez que sim. Ainda dizendo o mantra baixinho, aproximou-se da fileira de máquinas na prateleira. Apertou um botão e um disquete de plástico chato e quadrado pulou para fora de uma fenda.

 Priest já notara que no mundo dos computadores os disquetes sempre eram quadrados.

 Ela abriu a bolsa e pegou outro disquete que parecia similar.

 — Merda! — exclamou.

 — O quê? — apressou-se a perguntar Priest. — O que está errado?

 — Ele mudou de marca!

 Priest olhou os dois disquetes. Pareciam iguais para ele. — Qual é a diferença?

 — Olha, o meu é um Sony, mas o de Michael é Philips.

— Ele vai notar?

 — Pode ser.

 — Droga — era vital que Michael não soubesse que seus dados haviam sido furtados.

 — Ele provavelmente começará a trabalhar assim que tivermos saído. Ejetará o disquete e o trocará com o que está na caixa à prova de fogo, e, se olhar para eles, verá que são diferentes.

 — E sem dúvida nenhuma irá relacionar o acontecido à nossa presença aqui — Priest sentiu uma onda de pânico. Tudo estava saindo errado.

 Melanie disse:

 — Eu podia comprar um Philips e voltar outro dia. Priest sacudiu a cabeça.

 — Não quero fazer isto de novo. Podemos falhar outra vez. E estamos ficando sem tempo. O prazo termina em três dias. Ele tem disquetes sobressalentes?

 — Deve ter. Às vezes o disquete apresenta defeito — ela olhou em torno. — Eu gostaria de saber onde estão. — Ela parou no meio da sala, desorientada.

 Priest teve ímpetos de dar um grito de frustração. Tinha receado algo assim. Melanie ficara totalmente descontrolada e eles não tinham muito mais que um minuto. Era preciso acalmá-la rapidamente.

 — Melanie — disse, esforçando-se para a voz sair grave e tranqüilizadora -, você tem dois disquetes na mão. Ponha ambos dentro da bolsa.

 Ela obedeceu automaticamente.

 — Agora feche a bolsa.

 Ela fechou.

 Priest ouviu a porta do prédio bater. Michael estava voltando. Priest sentiu a nuca ficar molhada de suor.

 — Pense — quando você morava aqui. Michael tinha um armário com material de escritório?

 — Tinha, sim. Bem, uma gaveta.

 — E então? Acorde, garota! Onde está?

 Ela apontou para um armário branco barato encostado na parede. Priest abriu a gaveta de cima. Viu um pacote de blocos amarelos tamanho ofício, uma caixa de esferográficas de plástico, umas duas resmas de papel branco, alguns envelopes — e uma caixa aberta de disquetes.

 Ele ouviu a voz do menino. Parecia vir do vestíbulo, na entrada do apartamento.

 Com os dedos trêmulos, ele tirou um disquete da caixa e passou para Melanie.

 — Este servirá?

 — Sim, é um Philips. Priest fechou a gaveta.

 Michael entrou com Dusty nos braços. Melanie ficou imóvel com o disquete na mão.

 Pelo amor de Deus, Melanie, faça alguma coisa!

 — E você sabe de uma coisa, papai? Eu não espirrei nem uma vez nas montanhas — dizia Dusty.

 A atenção de Michael estava concentrada em Dusty.

 — Que legal, não é mesmo?

 Melanie recuperou o controle. Quando Michael inclinou-se para sentar Dusty no sofá, ela enfiou o disquete virgem que tinha na mão dentro da mesma fenda de onde saíra o outro, o que tinha os dados. A máquina zumbiu suavemente e sugou o disquete, como uma cobra comendo um rato.

 — Você não espirrou? — perguntou Michael ao filho. Nem uma vez?

 — Isso mesmo.

 Melanie endireitou-se. Michael não vira o que ela fizera. Priest fechou os olhos. A sensação de alívio parecia esmagá-lo. Tinham conseguido. Pegaram os dados de Michael — e ele jamais saberia.

 Michael continuou:

 — E o cachorro, não fez você espirrar?

 — Não, Spirit é um cachorro limpo. Priest faz ele tomar banho no regato e depois ele sai e se sacode e é uma chuvarada! — Dusty riu com prazer quando rememorou a cena.

 — É mesmo? — disse o pai.

 — Eu falei, Michael — disse Melanie.

 A voz dela saiu meio trêmula, mas Michael não pareceu notar.

 — Está bem, está bem — disse ele, em tom conciliatório. — Se faz tanta diferença assim para a saúde de Dusty, temos que achar uma solução.

 Ela pareceu aliviada.

 — Obrigada.

 Priest permitiu-se a sugestão de um sorriso. Estava acabado. Seu plano avançara mais um passo crucial.

 Agora só tinham que torcer para o computador de Michael não travar. Se isto acontecesse e ele tentasse recuperar os dados armazenados no disquete, descobriria que estava em branco. Mas Melanie disse que era raro isto acontecer. Com toda a probabilidade não aconteceria logo hoje.

 E à noite o computador produziria uma nova cópia de segurança, enchendo o disquete em branco com os dados de Michael. No dia seguinte a esta hora seria impossível dizer que uma troca fora feita.

 Michael continuou:

 — Bem, pelo menos você veio aqui para dar a notícia pessoalmente. Muito obrigado.

 Priest sabia que Melanie preferia ter falado com o marido pelo telefone. Mas a mudança dela para a comunidade fora um pretexto perfeito para visitar Michael. Ele e Melanie nunca poderiam ter feito uma visita social ao marido dela sem despertar suspeitas. Mas neste caso não ocorreria a Michael desconfiar do motivo que os trouxera.

 Na verdade, Michael não era do tipo desconfiado, Priest tinha certeza. Era um cara inteligente mas ingênuo. Não tinha capacidade de enxergar sob a superfície e ver o que realmente se passava no coração de outro ser humano.

 Quanto a Priest, era extremamente bem dotado desta capacidade.

 Melanie estava falando:

 — Trarei Dusty para vê-lo com a freqüência que você quiser. Eu mesma virei dirigindo.

 Priest era capaz de ler o que se passava no coração dela. Estava sendo boazinha com o marido, agora que ele lhe dera o que queria — tinha a cabeça meio de lado e sorria um sorriso bonito para ele — mas não o amava, não o amava mais.

 Michael era diferente. Estava furioso por ela tê-lo deixado, sem dúvida. Mas ainda se importava com ela. Ainda não se livrara de Melanie, não totalmente. Uma parte dele ainda a queria de volta. Podia até ter pedido, mas era muito orgulhoso. Priest sentiu ciúmes. Odeio você, Michael.

 

 Judy acordou cedo na terça-feira, perguntando-se se ainda teria um emprego.

 Na véspera dissera que se demitia. Mas estava com raiva e frustrada. Hoje tinha certeza de que não queria deixar o FBI. A perspectiva de passar a vida defendendo criminosos, ao invés de prendendo, a deprimia.

 Teria mudado de idéia tarde demais? Na noite seu pedido de desculpas? Ou insistiria na sua demissão?

 Bo chegou às seis da manhã e Judy esquentou para ele um pouco de pho, a sopa de talharim fininho que os vietnamitas tomam no desjejum. Em seguida, vestiu sua roupa mais elegante, um conjunto Armani azul-marinho de saia curta. Num dia bom ele lhe dava um ar sofisticado, autoritário e sexy, tudo ao mesmo tempo. Se vou ser despedida, é bom que tenha a aparência de uma pessoa cuja falta vão sentir.

 Seu corpo doía de tensão ao dirigir o carro para o trabalho. Estacionou na garagem subterrânea do Federal Building e pegou o elevador para o andar do FBI. Foi diretamente para a sala do encarregado. Brian Kincaid estava atrás da mesa enorme, de camisa branca e suspensórios vermelhos. Levantou a cabeça para ver quem era.

 — Bom dia — disse, friamente.

 — Bom d. .. — com a boca seca, Judy engoliu e começou de novo. – Bom dia, Brian. Leu meu bilhete?

 — Li, sim.

 Obviamente ele não ia facilitar as coisas.

 Judy foi incapaz de imaginar algo diferente para dizer, e limitou-se, portanto, a ficar olhando para ele e a esperar.

 Ao cabo de algum tempo ele falou:

 — Seu pedido de desculpas foi aceito. Ela sentiu-se fraca de tão aliviada.

 — Muito obrigada.

 — Pode transferir suas coisas pessoais para a sala do Terrorismo Doméstico.

 — OK — havia destinos piores, refletiu ela. Havia diversas pessoas de quem gostava no grupo do Terrorismo Doméstico. Começou a relaxar.

 Kincaid acrescentou:

 — Comece a trabalhar no Martelo do Éden imediatamente. Precisamos dizer qualquer coisa ao governador.

 Judy ficou surpresa.

 — Você vai falar com o governador?

 — Com o secretário dele — Brian verificou uma anotação em cima da mesa. — Um certo Sr. Albert Honeymoon.

 — Já ouvi falar dele — Honeymoon era a mão direita do governador. O caso então assumira um perfil mais destacado, deduziu Judy.

 — Quero seu relatório amanhã de noite.

 O que praticamente não lhe assegurava tempo para fazer qualquer progresso, tendo em vista o pouco que tinha para começar. O dia seguinte era uma quarta-feira.

 — Mas o prazo termina na sexta.

 — O encontro com Honeymoon é na quinta-feira.

 — Vou lhe arranjar algo de concreto para dar a ele.

 — Você vai poder entregar pessoalmente. O Sr. Honeymoon insiste em falar com a pessoa que ele considera que esteja realmente na ponta da cadeia de comando. Temos que estar no gabinete do governador, em Sacramento, ao meio-dia em ponto.

 — Uau. OK.

 — Alguma pergunta?

 Ela sacudiu a cabeça.

 — Vou começar agora.

 Quando saiu, sentia-se feliz por não ter perdido o emprego mas apreensiva com a notícia de que teria que se reportar ao assistente do governador do estado. Não era provável que conseguisse pegar quem estava por trás daquela ameaça em apenas dois dias, de modo que parecia destinada a relatar o próprio fracasso.

 Esvaziou a gaveta na sala do Crime Organizado Asiático e carregou suas coisas até o Terrorismo Doméstico, no fim do corredor. O novo supervisor, Matt Peters, destinou-lhe uma mesa. Ela conhecia todos os agentes, que a cumprimentaram pelo sucesso no caso dos irmãos Foong, mesmo que em tom contido, já que todo mundo sabia da sua briga com Kincaid na véspera.

 Peters designou um jovem agente para trabalhar com ela no caso do Martelo do Éden. Era Raja Khan, um indiano com diploma de mestre em administração e que falava muito depressa. Tinha vinte e seis anos. Judy ficou satisfeita. Embora inexperiente, era inteligente e perspicaz. Ela o instruiu sobre o caso e mandou que verificasse a Campanha Califórnia Verde.

 — Seja bonzinho — aconselhou. — Diga que não acredita que estejam envolvidos, mas que precisa eliminar qualquer dúvida.

 — O que estou procurando?

 — Um casal: um homem, talvez trabalhador braçal, de cerca de quarenta e cinco anos, e que pode ser analfabeto, e uma mulher instruída, com cerca de trinta anos, que provavelmente é dominada por ele. Mas não creio que os encontre lá. Seria fácil demais.

 — A alternativa é.

 — A coisa mais útil que você pode fazer é conseguir os nomes das pessoas que trabalham na organização, pagas ou voluntárias, e cotejá-las com o nosso banco de dados para ver se alguma tem registro de atividade criminosa ou subversiva.

 — Deixe comigo — disse Raja. — O que é que você vai fazer?

 — Vou estudar terremotos.

 

 Judy estivera em um terremoto importante.

 O terremoto de Santa Rosa causou seis milhões de dólares de prejuízos — não muito, comparando-se com o valor que essas coisas costumam atingir — e fora sentido em uma área relativamente pequena de trinta e um mil quilômetros quadrados. A família Maddox nesse tempo morava em Marin, ao norte de San Francisco, e Judy estava no primeiro grau. Foi um tremor pequeno, sabia agora. Mas naquele tempo tinha seis anos de idade e lhe parecera o fim do mundo.

 Primeiro ouviu-se um barulho que lembrava um trem, mas muito de perto, e ela acordou depressa e olhou em torno do quarto de dormir, à luz clara da madrugada, procurando a origem do barulho, morta de medo.

 Em seguida, a casa começou a tremer. A luminária do teto, com franjas cor-de-rosa, balançava violentamente de um lado para o outro. Sobre a mesinha-de-cabeceira, Os melhores contos de fadas saltou no ar como um livro mágico e desceu aberto no "Pequeno polegar", a história que Bo lera para ela na noite anterior. Sua escova de cabelo e o estojo de pintura de brinquedo dançavam em cima do tampo de fórmica da cômoda. O cavalo de madeira balançou furiosamente, sem ter ninguém montado. Uma fileira de bonecas caiu da prateleira, como se quisessem mergulhar no tapete, e Judy achou que elas tinham ganho vida, como brinquedos de uma fábula. Até que por fim encontrou a voz e gritou: "PAPAI! ! !"

 Do quarto ao lado ouviu o pai praguejar e depois o barulho surdo dos pés dele batendo no chão. O barulho e os tremores pioraram, e Judy ouviu a mãe chorar. Bo tentou girar a maçaneta da porta do quarto da filha mas não conseguiu. A menina ouviu outro baque quando o pai meteu o ombro na porta, que não cedeu.

 A janela rompeu-se e os estilhaços de vidro caíram para o lado de dentro, acumulando-se na cadeira onde a roupa com que iria à escola na manhã seguinte estava cuidadosamente dobrada: saia cinza, blusa branca, suéter verde com decote em V, roupa íntima azul-marinho e meias brancas.

 O cavalo de madeira balançou tanto que caiu em cima da casa de bonecas, esmagando o telhado. Mas Judy sabia que o telhado da sua casa de verdade podia ser esmagado com a mesma facilidade. O retrato emoldurado de um menino mexicano de bochechas rosadas soltou-se do gancho na parede, saiu voando e a atingiu na cabeça. Ela gritou de dor.

 Foi nesta hora que a cômoda começou a andar. Era uma velha cômoda de pinho, com a frente côncava, que sua mãe comprara numa loja de móveis usados e pintara de branco. Tinha três gavetas e se apoiava nas pernas curtas que terminavam em patas como as de um leão. A princípio pareceu dançar no mesmo lugar, incansavelmente apoiada nos quatro pés. Depois deslizou de um lado para o outro, como uma pessoa hesitando, nervosa, em uma porta. Até que, por'fim, começou a dirigir-se para Judy.

 Ela gritou de novo.

 A porta do quarto sacudia enquanto Bo tentava quebrá-la. A cômoda foi avançando aos poucos na direção dela.

 Judy teve esperança de que o tapete detivesse seu avanço, mas a cômoda

simplesmente foi empurrando o tapete com as patas de leão. A cama sacudiu com tanta violência que Judy caiu.

 A poltrona já estava a poucos centímetros dela quando parou. A gaveta do meio abriu-se como se fosse uma boca aberta, pronta para engolir a menina.

 Judy gritou com toda a força.

 A porta estilhaçou-se e Bo entrou.

 Aí o terremoto cessou.

 

 Trinta anos mais tarde ainda era capaz de sentir o terror que a dominara enquanto o mundo desmoronava em torno dela. Passou a sentir medo de fechar a porta do quarto de dormir durante muitos anos depois daquilo e até hoje tinha medo de terremotos. Na Califórnia, sentir o solo se mover em um tremor de pequena intensidade era uma coisa muito comum, mas Judy nunca conseguira realmente se acostumar. E quando sentia a terra tremer, ou via pela televisão imagens de prédios desmoronados, o medo que corria pelas suas veias como uma droga não era o medo de ser esmagada ou de morrer num incêndio e sim o pavor cego de uma garotinha cujo mundo de repente começara a cair.

 Ainda estava muito tensa naquela noite, ao entrar no sofisticado ambiente do Masa's, usando um vestido justo de seda preta e o colar de pérolas que Don Riley lhe dera no Natal, quando moravam juntos.

 Don pediu um borgonha branco chamado Corton Charlemagne, mas bebeu a garrafa quase sozinho: Judy gostava do seu sabor estimulante, mas não se sentia tranqüila bebendo álcool quando levava uma pistola semi-automática carregada com munição de nove milímetros na bolsa de verniz preto.

 Ela contou a Don que Brian Kincaid aceitara seu pedido de desculpas e permitira que retirasse o pedido de demissão.

 — Ele não tinha outra saída — comentou Don. — Recusar seria o mesmo que despedir você. E não ficaria nada bem para ele perder uma das melhores agentes no primeiro dia em que substituiu o encarregado da agência de San Francisco.

 — Talvez você tenha razão — disse Judy, pensando, no entanto, que era fácil para Don ser sábio depois do caso passado.

 — Claro que estou com a razão.

 — Lembre-se de que Brian preparou-se tão bem para a aposentadoria que pode sair do Bureau confortavelmente a qualquer momento que queira.

 — É, mas ele tem o seu orgulho. Imagine só na hora de explicar ao quartel-general como conseguiu deixar você ir embora. "Ela disse: `Vá se foder, Kincaid"." Ao que Washington irá contrapor: "E daí, o que você é? Um padre? Nunca ouviu um agente dizer isso antes?" Nada disso. Kincaid faria papel de bobo se recusasse seu pedido de desculpas.

 — Acho que sim.

 — De qualquer forma, sinto-me verdadeiramente feliz por saber que em breve estaremos trabalhando juntos de novo — ele levantou o copo. – A muitos outros desempenhos brilhantes da excelente equipe formada pelo assistente de promotor federal Don Riley e p Maddox.

 Ela bateu o copo no dele e tomou um gole de vinho. Conversaram sobre o caso durante o jantar, rememorando os erros cometidos, as surpresas feitas à defesa, os momentos de tensão e triunfo. Na hora do café, Don perguntou:

 — Você sente falta de mim?

 Judy franziu a testa. Seria cruel dizer que não, e, de qualquer modo, não estaria falando a verdade. Mas não queria encorajá-lo falsamente.

 — Sinto falta de algumas coisas — respondeu. — Gosto quando você é engraçado e inteligente.

 Sentia falta também de ter um corpo quente ao seu lado durante a noite, mas não ia lhe dizer isto.

 — Sinto falta de falar sobre o meu trabalho — disse ele — e também de ouvir você falando sobre o seu.

 — Acho que agora eu converso com Bo.

 — Sinto falta dele também.

 — Ele gosta de você. Acha que é o marido ideal. ..

 — Eu sou, eu sou! ... para uma mulher que trabalha no FBI. Don deu de ombros. — Isso já me basta.

 Judy sorriu.

 — Talvez você e o Bo devessem se casar.

 — Ho, ho — ele pagou a conta. — Judy, tem uma coisa que eu quero lhe dizer.

 — Estou ouvindo.

 — Acho que estou pronto para ser pai. Por alguma razão aquilo a irritou.

 — O que acha que eu devo fazer, gritar oba e abrir as pernas?

 Ele se surpreendeu.

 — Quer dizer... bem, eu achava que você queria um compromisso sério.

 — Compromisso? Don, eu só queria que você não transasse com a sua secretária, e nem isso você conseguiu fazer!

 Ele pareceu mortificado.

 — OK, não se irrite. Eu só estava tentando lhe dizer que mudei.

 — E agora espera que eu volte correndo como se nada tivesse acontecido?

 — Acho que ainda não entendo você.

 — Provavelmente jamais entenderá. — o evidente sofrimento dele a abrandou. — Vamos, levarei você em casa — quando moravam juntos era sempre ela quem dirigia na volta para casa depois de jantarem fora. Deixaram o restaurante quietos, num silêncio contrafeito.

 No carro ele disse:

 — Achei que podíamos pelo menos conversar a esse respeito. — Don, o advogado, negociando.

 — Podemos conversar. Mas como posso lhe dizer que meu coração está frio?

 — O que aconteceu com Paula... foi o pior erro de toda a minha vida.

 Judy acreditou nele. Don não estava bêbado, apenas alto o suficiente para dizer o que sentia. Ela suspirou. Queria vê-lo feliz. Gostava dele, e detestava vê-lo sofrendo. Aquilo também , a magoava. Parte dela queria conseguir dar-lhe o que ele queria.

 — Tivemos alguns bons momentos juntos — disse Don, pegando na coxa dela por cima do vestido de seda.

 — Se me apalpar enquanto eu estiver dirigindo jogo você para fora do carro.

 Don sabia que ela era capaz de fazer aquilo.

 — Como queira — ele tirou a mão.

 Um momento depois, desejou não ter sido tão rude. Não era uma coisa ruim, ter a mão de um homem na sua coxa. Don — entusiasmado, mas pouco imaginativo — não era o melhor amante do mundo, mas era melhor do que nada, e nada era o que Judy tinha, desde que o deixara.

 Por que não tenho um homem? Não quero envelhecer sozinha. Haverá alguma coisa de errado em mim? Puxa vida, claro que não.

 Um minuto mais tarde ela encostou o carro diante do prédio dele.

 — Obrigada, Don — agradeceu. — Por uma grande atuação na promotoria e por um ótimo jantar.

 Ele inclinou-se para beijá-la. Judy ofereceu-lhe o rosto, mas Don beijou-a nos lábios. Para não fazer daquilo um cavalo de batalha, ela deixou. O beijo dele perdurou até que ela separou-se. Don disse:

 — Entre um pouco. Preparo um cappuccino para você.

 A expressão de desejo nos olhos dele quase fez com que ela cedesse. Que mal tinha? Podia muito bem pôr a arma no cofre dele, beber um conhaque duplo, que lhe aquecesse o coração e passar a noite nos braços de um homem decente que a adorava.

 — Não — disse, com firmeza. — Boa noite.

 Ele a encarou por um longo momento, todo o sofrimento que sentia expresso nos olhos. Ela sustentou o seu olhar, envergonhada e arrependida, mas resoluta.

 — Boa noite — disse Don por fim. Ele saltou e fechou a porta do carro.

 Judy afastou-se e quando olhou pelo retrovisor viu-o de pé na calçada, a mão meio erguida numa espécie de saudação. Avançou um sinal vermelho e virou na primeira esquina. E finalmente sentiu-se sozinha de novo.

 Quando chegou em casa, Bo ria, assistindo ao programa de Conan O'Brien.

 — Esse cara me faz sair do sério — disse.

 Assistiram ao monólogo até o intervalo comercial quando Bo desligou a televisão.

 — Resolvi um assassinato hoje — disse ele. — O que é que me diz disso?

 Judy sabia que ele tinha diversos casos de homicídio não resolvidos.

 — Qual?

 — O estupro seguido de assassinato no Telegraph Hill.

 — Quem foi?

 — Um sujeito que já estava na cadeia. Foi preso por perturbar meninas no parque. Tive um palpite e revistei o apartamento dele. Tinha um par de algemas como as da polícia, mas negou tudo e não pude pegá-lo. Hoje peguei o resultado do seu teste de DNA no laboratório. É o mesmo do sêmen encontrado no corpo da vítima. Contei-lhe isto e ele confessou. Bingo.

 — Parabéns! — ela o beijou no topo da cabeça.

 — E você?

 — Bem, ainda tenho um emprego, mas ainda resta ver se continuo tendo uma carreira.

 — Você tem uma carreira, deixa disso.

 — Não sei não. Se fui rebaixada depois de mandar os irmãos Foong para a cadeia, o que farão comigo se eu fracassar?

 — Você sofreu um revés. Algo apenas temporário. Vai se recuperar, eu garanto.

 Ela sorriu, lembrando do tempo em que achava que não havia nada que o pai não fosse capaz de fazer.

 — Bem, não progredi muito com o meu caso.

 — Ontem à noite você achava que não chegava a ter um caso de verdade.

 — Hoje já não estou tão segura. A análise lingüística mostrou que os envolvidos são pessoas perigosas, sejam quem forem.

 — Mas não podem causar um terremoto.

 — Não sei.

 Bo ergueu as sobrancelhas.

 — Acha possível?

 — Passei hoje praticamente o dia inteiro tentando descobrir. Falei com três especialistas e tive três respostas diferentes.

 — Cientistas são assim mesmo.

 — O que eu realmente queria era que me dissessem firmemente que não é possível. Mas um disse "improvável", outro disse que a possibilidade era "insignificante", e o terceiro disse que seria possível com um artefato nuclear.

 — Será que essa gente — como é mesmo que se chamam?

 — O Martelo do Éden.

 — Eles teriam uma bomba nuclear?

 — É possível. São inteligentes, determinados, sérios. Mas se tivessem, por que iriam falar de terremotos, em vez de nos ameaçar direto com a bomba?

 — Tem razão — concordou Bo, pensativo. — A ameaça seria igualmente aterrorizante e muito mais fácil de acreditar.

 — Mas quem pode dizer como a cabeça dessa gente funciona?

 — Qual é o seu próximo passo?

 — Tenho mais um cientista para ver, um sujeito chamado Michael Quercus. Os outros todos dizem que ele é um tipo meio arredio, mas é a maior autoridade em causas de terremotos.

 Ela já tentara falar com Quercus. No fim da tarde tocara a campainha do seu apartamento. Ele lhe dissera, pelo interfone, que marcasse uma entrevista.

 — Talvez você não tenha me ouvido — dissera ela. — Eu sou do FBI.

 — Isso significa que não tem de marcar entrevistas?

 Ela praguejara baixinho. Era uma agente da Lei, e não uma vendedora.

 — Geralmente significa — respondera. — A maioria das pessoas acha que nosso trabalho é importante demais para esperar.

 — Não, não acha não — ele replicara. — A maioria das pessoas tem medo de vocês, é por isto que deixam que entrem sem marcar hora. Telefone para mim. Meu nome está na lista de assinantes.

 — Estou aqui devido a uma questão de segurança pública, professor.

 Disseram-me que o senhor é um perito que pode dar informações cruciais que ajudarão no nosso trabalho de proteger as pessoas. Desculpe por não ter tido uma oportunidade de telefonar marcando hora, mas agora que estou aqui, ficaria realmente agradecida se o senhor me recebesse por alguns minutos.

 Não houve resposta e ela percebeu que ele desligara.

 Voltara para o escritório fervendo de raiva. Não marcava entrevistas: agentes do FBI raramente faziam isso. Preferia pegar as pessoas desprevenidas. Quase todo mundo que entrevistava tinha algo para esconder. Quanto menos tempo tinham para se preparar, maior era a

probabilidade de cometerem um erro revelador. Mas Quercus estava irritantemente certo: não tinha direito de se impor.

 Engolindo o orgulho, telefonara para ele e marcara uma entrevista para o dia seguinte.

 Decidiu não contar a Bo nada daquilo.

 — O que eu realmente preciso — disse — é de uma pessoa que me explique os aspectos científicos de tal modo que eu possa concluir se um terrorista pode ou não causar um terremoto.

 — E você precisa encontrar essas pessoas do tal Martelo do Éden e prendê-las por fazer ameaças. Algum progresso nesta parte?

 Ela sacudiu a cabeça.

 — Mandei Raja entrevistar todo mundo da Campanha Califórnia Verde. Ninguém corresponde ao perfil de quem procuro. Ninguém tem ficha na polícia ou registro de atividades subversivas; na verdade, não há nada de suspeito lá.

 Bo aquiesceu.

 — Sempre foi improvável que os criminosos tivessem dito a verdade sobre quem eram. Mas não fique desencorajada. Você só está no caso há um dia e meio.

 — É verdade, mas isso deixa apenas dois dias inteiros até o prazo fatal. E eu tenho que ir na quinta-feira a Sacramento a fim de fazer um relatório para o gabinete do governador.

 — É melhor começar cedo amanhã — ele se levantou do sofá.

 Pai e filha subiram a escada. Judy parou na porta do seu quarto.

 — Lembra daquele terremoto, quando eu tinha seis anos?

 Ele fez que sim.

 — Não foi muito forte, pelos padrões da Califórnia, mas você ficou louca de medo.

 Judy sorriu.

 — Pensei que fosse o fim do mundo.

 — O tremor deve ter afetado um pouco a casa, porque a porta do seu quarto empenou, e eu quase quebrei o ombro na tentativa de derrubá-la.

 — Pensei que tivesse sido você quem fez cessar o terremoto. Acreditei nisso por muitos anos.

 — Depois do terremoto você passou a ter pavor daquela cômoda de que sua mãe gostava tanto. Não queria que ela continuasse na nossa casa.

 — Pensei que ela quisesse me comer viva.

 — No final transformei-a em lenha — subitamente Bo pareceu triste. — Gostaria de poder viver aqueles anos de novo.

 Ela sabia que ele estava pensando em sua mãe.

 — É — disse.

 — Boa noite, filha

 — Noite, Bo.

 Enquanto dirigia ao longo da Bay Bridge na manhã da quarta-feira, rumando para Berkeley, Judy foi especulando sobre a aparência de Michael Quercus. Seu jeito irritadiço sugeria um professor mal-humorado, de ombros caídos e usando roupa barata, olhando para o mundo, irritado, através de óculos que insistiam em escorregar pelo nariz. Ou podia ser também um figurão acadêmico, metido num terno de listras, procurando seduzir as pessoas que podiam doar dinheiro para a universidade e contemplando com desdém quem não lhe fosse útil.

 Parou o carro à sombra de uma magnólia na avenida Euclid. Ao tocar a campainha teve a sensação horrível de que ele podia encontrar outra desculpa para mandá-la embora, mas quando disse o nome ouviu um zumbido e a porta se abriu. Subiu dois lances de escada e viu que a porta estava aberta. Foi entrando. O apartamento era pequeno e barato. A firma dele não podia estar dando muito dinheiro. Passou por um vestíbulo e viu-se na sala de estar que era ao mesmo tempo escritório.

 Ele estava sentado à mesa, de calça cáqui, botas de caminhar bege e uma camisa pólo azul-marinho. Michael Quercus não era nem um professor mal-humorado, tampouco um figurão acadêmico, ela viu imediatamente. Ele era um gato: alto, atlético, bonito, com o sujeitos que são tão grandes, bonitos e confiantes que pensam que podem fazer tudo quanto querem.

 Ele também ficou surpreso.

 — Você é a agente do FBI? — perguntou.

 Ela apertou-lhe a mão com firmeza.

 — Estava esperando alguma outra pessoa?

 Michael Quercus deu de ombros.

 — Você não se parece com Efrem Zimbalist.

 Zimbalist era o ator que fazia o papel do inspetor Lewis Erskine numa antiga série de televisão chamada O FBI. Judy respondeu, delicadamente:

 — Trabalho como agente do FBI há dez anos. Pode imaginar o número de pessoas que já fez essa piada?

 Para sua surpresa, ele abriu um largo sorriso.

 — Tudo bem, você me pegou.

 Melhor assim.

 Ela reparou numa foto em um porta-retrato em cima da escrivaninha dele. Era de uma bela ruiva com uma criança nos braços. Geralmente todo mundo gosta de falar sobre os filhos.

 — Quem é? — arriscou ela.

 — Ninguém importante. Quer ir direto ao ponto? Esqueça as amabilidades.

 Ela tomou ao pé da letra o que ele dissera e falou:

 — Quero saber se um grupo terrorista pode desencadear um terremoto.

 — Vocês souberam de alguma ameaça?

 Sou eu quem deve fazer as perguntas.

 — Você não soube? Foi comentada no rádio. Ouve o programa de John Truth?

 Ele sacudiu a cabeça, negativamente.

 — É sério?

 — É exatamente o que preciso estabelecer.

 — OK. Bem, a resposta curta é sim.

 Judy sentiu um arrepio de medo. Quercus parecia absolutamente seguro. Quanto a ela, tinha esperado uma resposta diametralmente oposta.

 — Como?

 — Peque uma bomba nuclear, coloque no fundo de uma mina bem funda e detone. Mas você provavelmente quer uma hipótese mais realista.

 — Sim. Faça de conta que você quisesse desencadear um terremoto.

 — Oh, eu seria capaz mesmo.

 Judy perguntou-se se ele não estaria se vangloriando.

 — OK — ele abaixou-se e pegou embaixo da escrivaninha um pedaço pequeno de madeira e um tijolo comum. Obviamente mantinha aquilo ali justamente com a finalidade de ilustrar aquela explicação. Pôs a madeira em cima da escrivaninha e o tijolo em cima da madeira. Depois levantou uma ponta da madeira lentamente até que o tijolo escorregou e caiu em cima do tampo da mesa.

 — O tijolo desliza quando a gravidade suplanta a fricção que o mantinha imóvel — disse ele. — Tudo bem até aqui?

 — Claro.

 — Uma falha como a de Santo André é um lugar onde duas lâminas adjacentes da crosta terrestre deslocam-se em direções diferentes. Imagine dois icebergs se esfregando um no outro. Eles não deslizam, pelo contrário, ficam presos. Depois, enquanto estiverem presos, a pressão no sentido de separá-los vai aumentando lenta mas constantemente, ao longo dos anos.

 — E como isso resulta em um terremoto?

 — Acontece algo que libera toda a energia acumulada — ele levantou de novo uma ponta da madeira. Desta vez parou pouco antes do tijolo começar a escorregar. — Diversas seções da falha de Santo André estão assim? — prontas para deslizar, a qualquer década — Agora bata com a régua bem na frente do tijolo.

 Ela bateu e o tijolo começou a deslizar.

 Quercus agarrou-o, impedindo que caísse. — Quando a madeira está inclinada, basta uma batidinha com uma régua de plástico para fazer o tijolo mover-se. E num ponto onde a falha de Santo André estiver sob maior pressão, um empurrãozinho talvez seja o quanto baste para soltar as placas. Aí elas deslizam e toda a energia acumulada sacode a terra.

 Quercus podia ser ríspido, mas uma vez que começava a falar sobre a sua especialidade, dava prazer ouvi-lo. Seu pensamento era claro e ele explicava com facilidade, sem o mais leve traço de arrogância. A despeito do quadro ameaçador que estava pintando, Judy tinha de confessar que era prazeroso conversar com ele, não apenas por ser um homem bonito.

 — É isso que acontece na maioria dos terremotos?

 — Acredito que sim, embora outros sismólogos possam discordar. Há vibrações naturais que se propagam pela crosta terrestre de vez em quando. A maioria dos terremotos provavelmente é causada pela vibração certa no lugar adequado no momento oportuno.

 Como é que vou explicar tudo isso ao Sr. Honeymoon? Ele vai querer respostas diretas, sim ou não.

 — Então, como isso ajuda os nossos terroristas?

 — Eles precisam de uma régua e saber onde bater com ela.

 — Qual é o equivalente da régua na vida real? Uma bomba nuclear?

 — Não precisa nada tão poderoso. Só teriam que enviar uma onda de choque através da crosta terrestre, mais nada. Se souberem exatamente onde a falha é vulnerável, podem causar o terremoto com uma carga de dinamite colocada com precisão.

 — E qualquer um pode conseguir uma carga de dinamite, se estiver realmente a fim.

 — A explosão teria que ser subterrânea. Acho que a perfuração necessária para colocar a dinamite lá embaixo seria o grande desafio para um grupo terrorista.

 Judy perguntou-se se o tal trabalhador braçal imaginado por Simon Sparrow não seria operador de um equipamento de perfuração. Esses operadores certamente precisariam de uma licença especial para trabalhar. Numa rápida verificação com o Departamento de Veículos a Motor poderia conseguir uma lista de todos os operadores registrados na Califórnia. Não podia haver muitos.

 Quercus continuou.

 — Eles obviamente precisariam de um perito em equipamento de perfuração e um pretexto qualquer para conseguir permissão. Não eram problemas intransponíveis.

 — É realmente tão simples assim? — quis saber Judy.

 — Olha, não estou lhe dizendo que funcionaria. Estou dizendo que seria possível. Ninguém jamais saberá ao certo antes de tentar. Posso lhe dar noções de como essas coisas acontecem, mas você teria que se arriscar com uma avaliação própria.

 Judy concordou, balançando a cabeça. Usara quase as mesmas palavras na noite anterior para dizer a Bo o que precisava. Quercus podia agir como um panaca de vez em quando mas como o próprio Bo diria, todo mundo precisa de um panaca vez por outra.

 — Quer dizer então que saber onde a carga deve ser colocada é tudo?

 — É.

 — Quem tem essa informação?

 — As universidades, o geólogo do estado... eu. Todos nós temos essa informação.

 — Alguém pode se apossar dela?

 — Não é segredo, embora seja preciso algum conhecimento científico para interpretar os dados.

 — Então, alguém no grupo terrorista teria que ser sismólogo.

 — Sim, podia ser estudante.

 Judy pensou na mulher de cerca de trinta anos, instruída, que digitara a mensagem, segundo a teoria de Simon. Podia ser universitária. Quantos estudantes de geologia existiriam ali na Califórnia? Quanto tempo levaria para encontrar e entrevistar cada um?

 Quercus continuou:

 — E ainda existe um outro fator: as marés da crosta terrestre. Os oceanos se movem sob a influência gravitacional da Lua e a crosta sólida da Terra é sujeita às mesmas forças. Duas vezes por dia abre-se uma janela sísmica, quando a linha da falha está submetida à pressão extra das marés; é quando é mais provável — ou mais fácil — a ocorrência de um terremoto.

 — É possível que alguém tenha obtido esses dados por seu intermédio?

 — Bem, meu negócio é vendê-los — ele deu um sorriso melancólico. — Mas, como pode ver, meu negócio não está me enriquecendo. Tenho um contrato, com uma grande companhia de seguros, e é isto que paga o aluguel, mas, lamentavelmente, é só. Minhas teorias sobre janelas sísmicas fazem de mim uma espécie de dissidente, algo que é odiado neste país. O tom de irônico desdém voltado para si mesmo foi surpreendente, e Judy começou a gostar ainda mais dele.

 — Alguém pode ter conseguido essa informação sem o seu conhecimento. Por acaso você foi roubado nos últimos tempos?

 — Nunca.

 — Seus dados podem ter sido copiados por um amigo ou parente?

 — Acho que não. Ninguém fica aqui nesta sala sem que eu esteja presente.

 Ela pegou a foto na escrivaninha.

 — Sua mulher, ou namorada?

 Ele pareceu ficar aborrecido e tirou a foto da mão dela.

 — Estou separado de minha mulher e não tenho namorada.

 — É mesmo? — Judy já tinha tudo o que precisava dele, e levantou-se. — Muito obrigada por ter me concedido tanto tempo, professor.

 — Por favor, chame-me de Michael. Gostei de falar com você.

 Ela ficou surpresa.

 Ele acrescentou:

 — Você compreende depressa. Fica mais divertido.

 — Bem... que bom.

 Ele a acompanhou até a porta do apartamento e apertou-lhe a mão. Tinha mãos grandes, mas foi surpreendentemente gentil.

 — Qualquer coisa mais que queira saber, terei muito prazer em ajudá-la.

 Ela arriscou uma piada.

 — Desde que eu marque hora antes, certo?

 Ele não sorriu.

 — Certo.

 Atravessando a baía na volta, Judy concluiu que o perigo agora estava claro. O grupo terrorista, em princípio, era capaz de causar um terremoto. Seria preciso dispor de dados exatos sobre pontos críticos na linha da falha e talvez sobre as janelas sísmicas, mas isso poderia ser obtido. Era preciso que no grupo 7 houvesse alguém capaz de interpretar os dados. E precisavam também de um modo pelo qual enviassem ondas de choque através da terra. Seria a tarefa mais difícil, talvez, mas nada que estivesse fora de questão.

 Judy tinha diante de si a desagradável tarefa de dizer ao assistente do governador que a coisa toda era horrivelmente possível.

 

Priest acordou ao raiar do dia na quinta-feira.

 Ele geralmente acordava cedo, o ano todo. Não precisava de muito sono, a menos que estivesse indo muito a festas, o que era raro hoje em dia.

 Mais um dia.

 Do gabinete do governador não vinha nada senão um silêncio irritante. Agiam como se não tivesse havido ameaça. Assim como o resto do mundo, de um modo geral. O Martelo do Éden raramente era mencionado nos noticiários que Priest ouvia no rádio do carro.

 Apenas John Truth os levara a sério, e ficava instigando o governador em seu programa diário. Até a véspera, tudo o que o governador dizia era que o FBI estava investigando. Mas no último programa, John Truth dissera que o governador prometera uma declaração para hoje. Priest ficou entusiasmado. Mas se na declaração ele não cedesse à exigência feita, Priest teria que causar um terremoto. E não sabia ao certo se conseguiria.

 Melanie era convincente quando falava sobre a falha e o que seria preciso para ela deslizar. Só que ninguém jamais tentara aquilo. Mesmo ela, admitia que não podia estar cem por cento certa de que fosse funcionar. E se falhasse? E se funcionasse e eles fossem apanhados? E se funcionasse e ele morresse no terremoto — quem iria cuidar dos integrantes da comunidade e das crianças?

 Ele rolou sobre o próprio corpo. A cabeça de Melanie repousava no travesseiro ao seu lado. Estudou o seu semblante em repouso. A pele era muito branca e os seios quase transparentes. Uma mecha do cabelo comprido, castanho intenso, caía sobre o rosto. Ele abaixou um pouco o lençol e contemplou-lhe os seios, pesados e suaves. Pensou em acordá-la. Introduziu a mão sob a coberta e a acariciou, alisando primeiro a barriga e depois o triângulo de pêlos avermelhados. Ela se remexeu, engoliu, virou-se e se afastou.

 Priest sentou direito. Encontrava-se na casa de um único cômodo que tinha sido seu lar nos últimos vinte e cinco anos. Assim como a cama, tinha um sofá velho na frente da lareira e uma mesa a um canto, com uma grossa vela amarela, num castiçal. Não havia luz elétrica. Nos primeiros dias da comunidade, a maioria das pessoas morava em cabanas como aquela, e as crianças dormiam todas juntas em um alojamento coletivo. Mas com o passar dos anos, alguns casais permanentes tinham se formado e construído cabanas maiores, com cômodos separados para os filhos. Priest e Star conservaram suas casas individuais, mas a tendência era contrária. O melhor seria não lutar contra o inevitável: Priest aprendera isso com Star. Havia agora seis casas de família assim como as quinze cabanas originais. E atualmente a comunidade era constituída por vinte e cinco adultos e dez crianças, mais Melanie e Dusty. Uma cabana estava vazia.

 Aquele ambiente lhe era tão familiar quanto a palma da sua mão, mas ultimamente os objetos tão bem conhecidos tinham adquirido uma nova aura. Durante anos seus olhos passaram por eles sem registrá-los: o retrato de Priest pintado por Star pelo seu trigésimo aniversário; o narguilé rebuscadamente decorado deixado por uma garota francesa chamada Marie-Louise; a nada sólida prateleira que Flower fizera na aula de trabalhos na madeira; o engradado de frutas em que guardava sua roupa.

 Agora que sabia que podia ter que ir embora, cada coisa despretensiosa daquelas parecia especial e maravilhosa, e Priest sentia um nó na garganta só de olhar. Seu quarto era como um álbum de fotografias em que cada foto desencadeava uma série de lembranças: o nascimento de Ringo; o dia em que Smiler quase se afogou no rio; quando fez amor com as gêmeas Jane e Eliza; o dia de outono, quente e seco, quando colheram a primeira vindima; o sabor da safra de 89. Quando olhava à volta e pensava nas pessoas que queriam lhe tirar aquilo tudo, sentia-se tomado por uma raiva tão forte que o queimava por dentro como ácido sulfúrico.

 Pegou uma toalha, calçou as sandálias e saiu, nu. Spirit, seu cachorro, saudou-o com uma fungadela silenciosa. Era uma manhã clara e fria, com fiapos de nuvens altas no céu azul. O sol ainda não aparecera sobre as montanhas e o vale estava na sombra. Não havia mais ninguém por

perto.

 Descendo a colina, ele atravessou a pequena vila, seguido pelo cachorro. Embora o espírito comunal ainda fosse forte, as pessoas tinham personalizado suas casas com toques individuais. Uma mulher plantara flores e pequenos arbustos em toda a volta da sua, como conseqüência, Priest a batizara de Garden. Dale e Poem, que eram um casal, tinham deixado os filhos pintarem as paredes externas, e o resultado foi uma mixórdia colorida. Um homem chamado Slow, que era retardado, tinha construído uma varanda torta, sobre a qual se via uma oscilante cadeira de balanço feita em casa.

 Priest sabia que aquele lugar podia não ser bonito aos olhos de outras pessoas. Os caminhos eram lamacentos, as construções, além de muito frágeis, eram localizadas inteiramente ao acaso. Não havia uma lógica no zoneamento — o dormitório das crianças ficava bem do lado do depósito de vinho, a carpintaria situava-se no meio das cabanas. As privadas eram transferidas todos os anos, mas de nada adiantava: onde quer que estivessem situadas, podia sentir-se seu cheiro num dia quente. Mesmo assim, tudo o que dizia respeito àquele lugar aquecia o coração de

Priest. E quando olhava mais para longe e via as florestas galgando as encostas íngremes das montanhas até os picos azulados da Sierra Nevada, tinha uma vista tão bonita que doía.

 Mas agora, sempre que olhava para aquilo, a idéia de que podia perder tudo o feria com a força de uma punhalada.

 Ao lado do rio, um caixote de madeira em cima de uma pedra grande e arredondada continha sabão, lâminas baratas e um espelho de mão. Ele ensaboou o rosto e se barbeou, mergulhou na corrente fria e tomou banho.

 Secou-se logo depois, esfregando-se bruscamente com a toalha de pano áspero.

 Não tinham água encanada ali. No inverno, quando era frio demais para tomar banho no rio, tinham um banho comunal à noite duas vezes por semana. Aqueciam, então, grandes barris de água na cozinha coletiva para se lavarem uns aos outros: era bastante sexy. Mas no verão só bebês tinham água morna.

 Subiu de volta a colina e vestiu rapidamente a calça-jeans azul e a camisa de trabalho que sempre usava. Dirigiu-se à cozinha e entrou. A porta não estava trancada: não havia portas com fechadura na comunidade. Arrumou a lenha no fogão, acendeu o fogo e pôs a água do café para esquentar em seguida saiu de novo e Gostava de perambular enquanto os outros estavam deitados. Sussurrava seus nomes ao passar por onde moravam: Moon. Chocolate. Giggle. Imaginava cada um deitado lá dentro, dormindo. Apple, uma garota gorda, deitada de costas com a boca aberta, roncando; Juice e Alaska, duas mulheres de meia-idade, entrelaçadas; as crianças no alojamento infantil — os seus filhos, Flower, Ringo e Smiler; Dusty, o filho de Melanie; os gêmeos, Bubble e Chip, todos de bochechas rosadas e cabelo despenteado... Minha gente.

 Que possam todos viver aqui para sempre.

 Passou pela oficina, onde guardavam enxadas, foices e tesouras de poda; o círculo de concreto onde, em outubro, esmagavam as uvas com os pés e o celeiro onde o vinho da safra do ano anterior ficava em imensos tonéis de madeira, decantando lentamente, àquela altura quase pronto para ser misturado e engarrafado. Parou do lado de fora do templo.

 Sentiu-se muito orgulhoso. Desde o princípio tinham falado em construir um templo. Por muitos anos parecera um sonho impossível. Havia sempre muitas outras coisas para fazer — preparar a terra e plantar as videiras, construir celeiros, tratar da horta, da loja comunitária e das lições das crianças. Cinco anos atrás, no entanto, a comunidade pareceu ter atingido um platô. Pela primeira vez, Priest não se preocupou em saber se teriam ou não o que comer no inverno seguinte. Não achou mais que uma safra ruim pudesse acabar com eles. Não havia nada por fazer na lista de tarefas urgentes que trazia na cabeça. Assim, anunciou que estava na hora de construir o templo.

 E ali estava.

 Significava muito para Priest. Demonstrava que a sua comunidade tinha amadurecido. Não viviam mais da mão para a boca. Podiam se alimentar e ter tempo e recursos sobrando para construir um lugar de culto. Deixaram de ser um bando de hippies que experimentava viver um sonho. O sonho funcionava; tinham provado isto. O templo era o símbolo do triunfo deles.

 Ele entrou. Era uma estrutura simples de madeira com uma clarabóia e sem mobília. Todo mundo se sentava, para orar, de pernas cruzadas, em círculo, no chão de tábuas. Servia também como escola e sala de reuniões. A única decoração era uma faixa que Star fizera. Priest não era capaz de ler, mas sabia o que estava escrito:

 Meditação é vida, tudo mais é distração

 Dinheiro empobrece

 Casamento é a maior das infidelidades

 Quando ninguém tem nada todos têm tudo

 Fazer o que se gosta é a única lei

 Eram os Cinco Paradoxos de Baghram. Priest dissera que os aprendera com um guru indiano de quem fora discípulo em Los Angeles, mas na verdade ele tinha inventado todos os cinco. Nada mau para um sujeito que não sabe ler.

 Parou no centro do salão por diversos minutos, olhos fechados, as mãos balançando soltas ao lado do corpo, concentrando sua energia. Não havia nada de insincero naquilo. Ele aprendera técnicas de meditação com Star, e a coisa realmente funcionava. Sentiu a mente clarear como vinho nos tonéis ao decantar as impurezas. Orou para que o coração do governador Mike Robson se abrandasse e ele anunciasse a suspensão da construção de novas usinas de eletricidade na Califórnia.

 Imaginou o governador, um homem bonito em seu terno escuro e camisa branca, sentado em uma cadeira de couro atrás de uma mesa imponente, e, em sua visão, o governador disse: "Decidi dar a essas pessoas o que elas querem — não apenas para evitar um terremoto, mas porque, seja como for, faz sentido."

 Após alguns minutos, a força espiritual de Priest estava renovada. Ele sentiu-se alerta, confiante e equilibrado.

 Quando saiu do templo, resolveu dar uma olhada nos parreirais. Originalmente não havia uvas. Quando Star chegou no vale não havia nada senão uma cabana de caça em ruínas. Por três anos a comunidade arrastou-se de crise em crise, cindida pelas brigas arrasada pelas borrascas, sustentada apenas por expedições à cidade para pedir esmolas.

 Foi preciso menos de um ano para Priest ser reconhecido como líder, no mesmo plano que Star. Primeiro ele organizou as viagens para esmolar de modo a obter o máximo de eficiência. Iam para uma cidade como Sacramento ou Stockton em uma manhã de sábado, quando as ruas estavam coalhadas de gente fazendo compras. Cada um era destinado a uma esquina diferente.

 Todos eram obrigados a ter uma história para contar: Aneth dizia que precisava completar o dinheiro da passagem de ônibus para a casa dos pais, em Nova York; Song tocava o violão e cantava "There but for Fortune"; Slow devia dizer que não comia havia três dias; Bones fazia com que as pessoas sorrissem diante de um cartaz que dizia: "Por que mentir? É para a cerveja."

 Mas mendigar foi apenas um expediente temporário. Sob a direção de Priest, os hippies cortaram uma série de terraços na encosta da montanha, desviaram um regato para irrigação e plantaram um parreiral. Agora o chardonnay deles era procurado pelos conhecedores.

 Priest seguiu ao longo das fileiras cuidadosamente cultivadas. Ervas e flores eram plantadas entre as videiras, em parte por serem úteis e bonitas, mas principalmente por atraírem joaninhas e vespas que destruíam pulgões e outros insetos nocivos.

 Não eram usados produtos químicos: eles confiavam nos métodos naturais. Cultivavam trevo também, pois fixava o nitrogênio do ar. E quando aravam o solo, agia como fertilizante natural.

 As videiras estavam brotando. Maio ia chegando ao fim, de modo que o perigo anual de que o frio matasse os novos brotos passara. Àquela altura do ciclo, a maior parte do trabalho consistia em amarrar os brotos às latadas a fim de orientar seu crescimento e prevenir os danos causados pelo vento.

 Priest aprendera o que sabia sobre vinho durante seus anos de atacadista de bebidas, e Star estudara o assunto nos livros, mas ambos não teriam conseguido êxito sem o velho Raymond Dellavalle, um amável produtor de vinho que os ajudara porque, pelo menos era este o palpite de Priest, gostaria de ter tido uma juventude mais audaciosa.

 O vinhedo de Priest salvara a comunidade, mas a comunidade salvara a vida de Priest. Ele chegara ali como fugitivo escapando da Máfia, da polícia de Los Angeles e do Imposto de Renda, todos juntos. Abusava da bebida e da cocaína, era um homem só, falido e com tendências suicidas.

 Fora de carro pela estrada de terra procurando a comunidade, seguindo algumas orientações de um sujeito que viajava pegando carona e chegara entre as árvores até encontrar um bando de hippies nus, sentados no chão, cantando.

 Ficara contemplando a cena por muito tempo, fascinado pelo mantra e pela sensação de calma profunda que se desprendia do grupo como a fumaça se levantada uma fogueira.

 Um ou dois sorriram para ele, mas continuaram o ritual. Priest acabara tirando a roupa, lentamente, como se estivesse em transe, jogando fora o terno escuro, a gravata rosa, os sapatos plataforma e a cueca tipo sunga vermelha e branca. Depois, nu, sentara-se com eles.

 Ali encontrara paz, uma nova religião, trabalho, amigos. Numa época em que estava pronto a se lançar com o Plymouth Cuda 440-6 amarelo de um despenhadeiro, a comunidade dera sentido à sua vida.

 Agora nunca mais haveria outro tipo de existência para ele. Aquele lugar era tudo o que tinha e Priest morreria para defendê-lo. E pode ser que eu tenha mesmo de morrer.

 Ouviria John Truth à noite. Se o governador fosse abrir a porta para negociações ou fizesse qualquer outra concessão, certamente que seria anunciado ao final do programa.

 Quando saiu na outra ponta do vinhedo, decidiu verificar o vibrador sísmico.

 Subiu a montanha. Não havia estrada, só uma trilha bem usada atravessando a floresta. Seria impossível que qualquer veículo fosse até a aldeia da comunidade. A uns seiscentos metros das casas, ele chegou numa clareira lamacenta. Estacionados sob as árvores estavam o seu velho OCuda, uma Kombi ainda mais velha, o Subaru laranja de Melanie e a picape da comunidade, um Ford Ranger verde-escuro. A partir dali uma trilha de terra, sinuosa, avançava pouco mais de três quilômetros através da floresta, subindo e descendo as elevações, desaparecendo dentro de um lamaçal aqui e passando por um regato ali até que por fim chegava à estrada do condado, com piso de asfalto e duas pistas. Dezesseis quilômetros era a distância a até a cidade mais próxima, Silver City.

 Uma vez por ano toda a comunidade passava um dia inteiro rolando barris de vinho morro acima e por entre as árvores até aquela clareira, onde seriam transportados no caminhão de Paul Beale para sua engarrafadora em Napa. Era um grande dia no calendário deles, que, com um banquete à noite e um feriado no dia seguinte, celebravam mais um ano bem-sucedido. A cerimônia se realizava oito meses depois da vindima, de modo que deveria acontecer em mais alguns dias. Este ano, Priest resolvera, dariam a festa no dia seguinte ao dia em que o governador suspendesse a sentença condenando o vale.

 Em troca do vinho, Paul Beale trazia gêneros alimentícios para a cozinha coletiva e mantinha a loja comunitária estocada: roupas, doces e balas, cigarros, papelaria, livros, absorventes, pasta de dentes, tudo de que qualquer pessoa precisasse. O sistema da contabilidade, e no fim de cada ano depositava o dinheiro que sobrava numa conta bancária de cuja existência só Star e Priest tinham conhecimento.

 Da clareira, Priest seguiu a trilha por mil e quinhentos metros, bordejando as poças de água da chuva e ultrapassando, com dificuldade, os troncos caídos, depois desviando-se para continuar por um caminho invisível por entre as árvores. Não havia marcas de pneus porque ele tinha cuidadosamente recolocado o tapete de agulhas de pinheiro que formavam o chão da floresta. Chegou a uma depressão e parou. Tudo o que podia ver era uma pilha de arbustos e galhos quebrados fazendo um monte de quase quatro metros de altura, arrumada de modo a lembrar uma fogueira tradicional. Agora só tinha que galgar a pilha e afastar um pouco os galhos para confirmar se o caminhão ainda se encontrava ali, sob a camuflagem.

 Não que achasse que viria alguém procurar o caminhão.

 O Ricky Granger, que fora contratado para trabalhar com geofones pela Ritkin Seismex em um campo petrolífero no sul do Texas, não tinha nenhuma ligação passível de ser rastreada com aquele remoto parreiral no condado de Sierra, estado da Califórnia. No entanto, de vez em quando acontecia de uma dupla de mochileiros se perder e vagar pela terra da comunidade — como acontecera com Melanie — e com certeza se qualquer pessoa visse um caminhão com um equipamento tão caro ali iria estranhar.

 Por este motivo, Priest e Os Comedores de Arroz se mataram de trabalhar durante duas horas para esconder o caminhão. Priest sentia-se absolutamente seguro de que não poderia ser visto nem de cima. Descobriu uma roda e chutou o pneu, exatamente como um cético comprador de carro usado. Tinha matado um homem por causa daquele veículo. Pensou por um instante na bonita mulher e nos filhos de Mario sem saber se já teriam se convencido de que ele nunca mais voltaria para casa. Em seguida tirou este pensamento da cabeça.

 Queria ter certeza de que o caminhão estaria pronto para sair no dia seguinte de manhã. Ficava nervoso só de olhar. Sentia ímpetos de sair imediatamente, hoje, agora, só para aliviar a tensão. Mas anunciara um prazo fatal e o tempo seria um fator importante. Aguardar era insuportável. Pensou em entrar e ligar o motor, só para se assegurar de que tudo estava certo; mas seria tolice. Aquilo era nervosismo burro.

 O caminhão estava legal. O melhor que fazia era afastar-se e só voltar no dia seguinte. Abriu outro pedaço da camuflagem e contemplou o prato de aço que martelava a terra. Se o esquema de Melanie funcionasse, a vibração desencadearia um terremoto. Havia uma espécie de justiça pura no plano. Usariam a energia armazenada pela terra para forçar o governador a cuidar do meio ambiente. A terra salvando a terra. Para Priest, tão justo, tão certo, que chegava a ser quase sagrado.

 Spirit deu um latido baixo, como se tivesse ouvido alguma coisa. Devia ser um coelho, mas Priest recolocou nervosamente os galhos e iniciou o caminho de volta. Seguiu o caminho por entre as árvores até a trilha e tomou a direção da aldeia. Parou no meio da trilha, espantadíssimo. Na ida passara por cima de um tronco caído. O mesmo tronco agora fora removido para o lado. Spirit não latira para nenhum coelho.

 Havia mais alguém por ali. Ele não ouvira nada, mas os sons eram rapidamente abafados pela vegetação densa. Quem era? Alguém o seguira? Será que o tinham visto examinando o vibrador sísmico?

 Quando tomou o caminho de casa, Spirit ficou agitado. Quando chegaram a um ponto de onde podiam ver o estacionamento, Priest soube por quê. No meio da clareira lamacenta, estacionado ao lado do seu `Cuda, havia um carro da polícia. O coração de Priest parou.

 Tão cedo! Como podiam tê-lo seguido com tanta rapidez?

 Fixou a vista no carro-patrulha.

 Era um Ford Crown Victoria com uma faixa verde pintada na lateral, uma estrela prateada de seis pontas na porta, quatro antenas e um giroscópio no teto com luzes de três cores: azul, vermelha e laranja.

 Calma. Tudo passa.

 A polícia talvez não estivesse ali por causa do vibrador. Podia ter seguido a trilha por simples curiosidade: nunca acontecera antes, mas era possível. Havia montes de outras razões possíveis. Podia estar procurando um turista que se perdera. Um auxiliar do xerife podia estar procurando um lugar secreto para se encontrar com a mulher do vizinho.

 Podia ser que a polícia nem soubesse que havia uma comunidade ali. E talvez nem precisasse saber. Se se enfiasse de novo na floresta... Tarde demais. No mesmo instante em que a idéia entrou na sua cabeça, um policial saiu de trás de uma árvore.

 Spirit latiu furiosamente.

 — Quieto! — ordenou Priest, e o cachorro ficou em silêncio. O policial usava o uniforme cinza-esverdeado de ajudante de xerife, com uma estrela no bolso esquerdo da jaqueta, chapéu de caubói e uma arma no cinto.

 Ele viu Priest e acenou.

 Priest hesitou, mas acabou levantando a mão vagarosamente e acenando também. Depois, relutante, dirigiu-se para o carro. Priest odiava policiais. Em sua maioria eram truculentos, ladrões, e psicopatas. Usavam o uniforme e a posição para ocultar o fato de que eram criminosos piores que as pessoas a quem prendiam. Mas ele se obrigaria a ser polido, exatamente como se fosse um suburbano rico e idiota que imagina que a polícia existe para protegê-lo. Respirou com calma, relaxou os músculos do rosto, sorriu e disse:

 — Oi.

 O policial estava sozinho. Era jovem, devia ter, talvez, vinte e cinco ou trinta anos, cabelo castanho-claro-curto. O corpo dentro do uniforme já era volumoso; em mais dez anos teria uma barriga proeminente.

 — Há residências aqui perto? — perguntou o policial.

 Priest sentiu-se tentado a mentir, mas à última hora achou que era muito arriscado. O policial tinha que andar apenas uns quatrocentos metros na direção certa para dar com as casas, e ficaria desconfiado ao descobrir a mentira. Por isso Priest disse a verdade.

 — Você não está longe da Vinícola Silver River.

 — Nunca ouvi falar.

 Não por acaso. No catálogo telefônico, o endereço e o número eram os de Paul Beale, em Napa. Nenhum dos integrantes da comunidade era registrado para votar. Nenhum pagava imposto, porque ninguém tinha renda. Eles sempre tinham sido muito reservados. Muitos dos integrantes da comunidade, contudo, tinham uma razão para se esconder.

 Alguns tinham dívidas, outros eram procurados pela polícia. Oaktree era desertor, Song fugira de um tio que abusara dela sexualmente e o marido de Aneth a espancara, jurando que se ela o deixasse iria encontrá-la onde quer que estivesse escondida.

 A comunidade sempre fora também um asilo, e alguns dos seus integrantes mais recentes também eram fugitivos. A única maneira pela qual alguém podia saber da sua existência era por intermédio de pessoas como Paul Beale, que vivera ali por algum tempo e retornara para o mundo lá fora, mas todos tinham muito cuidado em não divulgar o segredo. Nunca a polícia fora ali.

 — Como é que eu nunca ouvi falar deste lugar? — exclamou o policial. — Trabalho aqui há dez anos.

 — É muito pequeno — sugeriu Priest.

 — Você é o proprietário?

 — Não, só um trabalhador.

 — O que é que vocês fazem aqui, fabricam vinho?

 Puxa vida, um gigante intelectual.

 — É, isso mais ou menos resume tudo — o policial não percebeu a ironia e Priest continuou: — O que o traz aqui de manhã tão cedo? Não temos um crime aqui desde que Charlie tomou um porre e votou no Jimmy Carter.

 Priest sorriu. Não havia Charlie algum: só estava tentando fazer o tipo de piada que um policial talvez gostasse. Mas aquele permaneceu sério.

 — Estou procurando os pais de uma menina que diz se chamar Flower.

 Um medo terrível apoderou-se de Priest e de repente ele sentiu-se tão frio quanto um túmulo.

 — Oh, meu Deus, o que foi que aconteceu?

 — Ela está presa.

 — Ela está bem?

 — Não sofreu qualquer ferimento ou contusão, se é isso que está querendo dizer.

 — Graças a Deus. Pensei que você fosse dizer que tinha se envolvido em algum acidente — o cérebro de Priest começou a se recuperar do choque. -Como é que ela pode estar na cadeia? Pensei que estivesse aqui, dormindo!

 — Obviamente não está. Qual é o seu relacionamento com ela?

 — Sou seu pai.

 — Então vai ter que me acompanhar até Silver City.

 — Silver City? Há quanto tempo ela está lá?

 — Foi só esta noite. Não queríamos detê-la por tanto tempo, mas a princípio ela se recusou a nos dizer qual era o seu endereço. Só cedeu há mais ou menos uma hora.

 O coração de Priest afligiu-se de pensar na sua garotinha presa, tentando guardar o segredo da comunidade. Seus olhos encheram-se de lágrimas. O policial prosseguiu:

 — Mesmo assim, isto aqui foi muito difícil de achar. No fim, o que resolveu foram as instruções dadas por um bando de caras esquisitos armados a uns oito quilômetros daqui.

 Priest balançou a cabeça.

 — Los Alamos.

 — Isso mesmo. Tinha lá um cartaz grande dizendo: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos." Panacas.

 — Conheço eles — disse Priest. Eram elementos de extrema direita que tinham se apossado de uma casa de fazenda grande e velha em uma área isolada e agora a guardavam com armas de grosso calibre e sonhavam com rechaçar uma invasão dos chineses. Lamentavelmente eram os vizinhos mais próximos da comunidade.

 — Por que Flower está presa? Fez alguma coisa de errado?

 — É a causa usual — respondeu o policial, sarcasticamente.

 — O que foi que ela fez?

 — Foi presa roubando uma loja.

 — Uma loja? — Por que uma criança com acesso a uma loja onde podia pegar o que quisesse ia querer fazer uma coisa dessas? — O que foi que ela roubou?

 — Uma fotografia grande e colorida de Leonardo DiCaprio.

 

 Priest teve vontade de dar um soco na cara do policial, mas isto não teria ajudado Flower, e assim, ao invés de bater, agradeceu ao sujeito por ter ido procurá-lo e prometeu que ele e a mãe de Flower iriam procurar o xerife dentro de uma hora, a fim de apanhar a filha. Satisfeito, o policial foi embora.

 Priest dirigiu-se para a cabana de Star, que funcionava também como clínica da comunidade. Star não tinha treinamento formal na área de saúde, mas aprendera muito com o pai médico e a mãe enfermeira. Já quando garota, acostumara-se com emergências médicas e chegara inclusive a ajudar na realização de partos. O quarto dela era cheio de caixas de ataduras, frascos de ungüentos, aspirinas, remédios para tosse e contraceptivos.

 Quando Priest acordou-a e lhe deu a má notícia, ela teve um ataque histérico. Star odiava a polícia quase tanto quanto ele. Nos anos 60 fora espancada por policiais em demonstrações, comprara droga de péssima qualidade nas mãos de agentes da Narcóticos disfarçados, e, certa ocasião, fora estuprada por detetives dentro de uma delegacia. Saltou da cama berrando e começou a agredi-lo. Priest segurou-lhe os pulsos e tentou acalmá-la.

 — Temos que sair agora e tirá-la de lá! — gritou Star.

 — Certo — concordou ele. — Mas se vista primeiro, está bem?

 Ela parou de lutar.

 — Está bem.

 Enquanto Star vestia a calça-jeans ele disse:

 — Você me contou que foi presa aos treze anos.

 — É, e um sargento velho e sujo com um cigarro pendurado no canto da boca pôs as mãos nos meus peitos e disse que eu ia ser uma mulher gostosa.

 — Não vai ajudar Flower se você entrar lá furiosa e for presa também — argumentou ele.

 Ela conseguiu se controlar.

 — Tem razão, Priest. Pelo bem dela, temos que cair nas boas graças daqueles filhos da puta — ela penteou o cabelo e olhou-se num espelhinho. — Tudo bem. Estou pronta para engolir minha cota de sapos.

 Priest sempre acreditara que era melhor vestir-se convencionalmente ao tratar com a polícia. Acordou Dale e pegou com ele o velho terno azul-marinho. Era propriedade coletiva agora, e Dale o usara recentemente para ir ao tribunal quando a mulher a quem deixara vinte anos antes finalmente decidira divorciar-se dele. Priest vestiu o terno por cima da camisa de trabalho e colocou a gravata rosa e verde, já com vinte e cinco anos de idade. Como os sapatos tinham acabado havia muito tempo, calçou de novo as sandálias e, junto com Star, foi pegar o `Cuda.

 Quando chegaram na estrada, Priest perguntou:

 — Como é que pode não termos percebido que ela não estava em casa ontem à noite?

 — Fui dizer boa-noite, mas Pearl me disse que ela tinha ido à privada.

 — Foi o que ela me disse também! Pearl deve ter sabido o que aconteceu e quis protegê-la.

 Pearl, filha de Dale e Poem, tinha doze anos de idade e era a melhor amiga de Flower.

 — Voltei mais tarde, mas todas as velas estavam apagadas e o alojamento estava às escuras. Não quis acordá-las. Jamais imaginei...

 — E por que deveria? A danada da menina passou todas as noites de sua vida no mesmo lugar — não havia razão para pensar que estivesse fora.

 Entraram em Silver City. O escritório do xerife ficava ao lado do tribunal e tinha o saguão melancolicamente decorado com recortes amarelados de crimes antigos. Havia uma mesa de recepção atrás de um guichê com um aparelho de intercomunicação, e uma cigarra. Um policial de camisa cáqui e gravata verde perguntou:

 — Em que posso ajudá-los?

 Foi Star quem falou:

 — Meu nome é Stella Higgins e você está com minha filha aqui.

 O policial fechou a cara para eles. Priest imaginou que os estivesse avaliando, querendo descobrir que tipo de pais eles eram. Logo pedia licença (Só um momento, por favor) e desaparecia. Priest falou com Star em um tom bem baixo.

 — Acho que deveríamos nos comportar como cidadãos responsáveis e obedientes à lei, alarmados porque a filha foi presa. Não temos nada senão um respeito profundo por quem trabalha para fazer com que a lei seja obedecida. Lamentamos muito por ter causado problema para gente que trabalha tanto.

 — Deixe comigo — disse Star, muito tensa.

 Uma porta abriu-se e o policial da recepção fez com que entrassem.

 — Sr. e Sra. Higgins — disse ele. Priest não o corrigiu. Sigam-me, por favor.

 Ele os levou até uma sala de reuniões acarpetada de cinza e com uma insípida mobília moderna, onde Flower esperava. Ela ia ser formidável e voluptuosa como a mãe, mas aos treze anos era uma garota alta, magra e desajeitada. Estava emburrada e chorosa ao mesmo tempo. Mas parecia sã e salva. Star abraçou-a em silêncio e depois Priest fez o mesmo.

 — Querida, você passou a noite na cadeia? — perguntou Star.

 Flower sacudiu a cabeça.

 — Numa casa.

 O policial explicou.

 — A lei da Califórnia é muito rígida. Menores de idade não podem ficar presos sob o mesmo teto que criminosos adultos. Por isso, temos na cidade algumas pessoas dispostas a dar abrigo a transgressores menores.

 Flower dormiu na casa da Srta. Waterlow, uma professora que, por acaso, é irmã do xerife. Priest dirigiu-se a Flower.

 — Foi tudo bem lá?

 A criança balançou a cabeça, indiferente.

 Ele começou a se sentir melhor. Diabos, podem acontecer coisas piores às crianças.

 O policial pediu que eles se sentassem:

 — Sentem-se, por favor, Sr. e Sra. Higgins. Sou o encarregado de vigiar os delinqüentes primários cujas penas foram suspensas e faz parte do meu trabalho cuidar dos transgressores juvenis.

 Eles se sentaram.

 — Flower é acusada de roubar um pôster no valor de $9,99 de uma loja de discos, a Silver Disc Music Store.

 Star virou-se para a filha.

 — Não consigo entender isso — falou. — Por que você iria roubar um pôster de um maldito artista de cinema?

 Flower de repente encontrou sua voz.

 — Foi porque eu quis, certo? Foi porque eu quis! — e desatou a chorar.

 Priest dirigiu-se ao policial.

 — Nós gostaríamos de levar nossa filha para casa o mais cedo possível. O que precisamos fazer?

 — Sr. Higgins, devo lembrar-lhe que a penalidade máxima para o que Flower fez seria a prisão até completar vinte e um anos.

 — Jesus Cristo! — exclamou Priest.

 — Eu, no entanto, não daria uma punição tão dura para uma primeira violação da lei. Digam-me uma coisa, Flower já esteve metida em encrenca antes?

 — Nunca.

 — Vocês estão surpresos com o que ela fez?

 — Estamos.

 — Nós estamos estupefatos — disse Star.

 O policial fez perguntas sobre a vida doméstica deles, tentando estabelecer se Flower era bem cuidada. Priest respondeu à maioria das perguntas, dando a impressão de que eram simples trabalhadores agrícolas. Nada falou sobre a vida em comunidade que levavam ou sobre suas crenças. O policial quis saber onde Flower estudava, e Priest explicou que havia uma escola na vinícola para os filhos dos trabalhadores.

 As respostas pareceram satisfazê-lo. Flower teve que assinar uma promessa de aparecer na corte em quatro semanas, às dez horas da manhã. O policial pediu para que um dos pais assinasse também, e Star fez o que ele pediu. Não tiveram que pagar fiança. Estavam fora em menos de uma hora.

 Uma vez na calçada, Priest dirigiu-se à filha:

 — Isto não faz de você uma má pessoa, Flower. Fez uma burrice, mas continuamos amando você tanto quanto sempre a amamos. Só quero que se lembre disso. E falaremos sobre o que aconteceu quando chegarmos em casa.

 Voltaram, então, para o vale. Durante algum tempo, Priest não conseguira pensar em outra coisa que não fosse a integridade física da filha, mas agora que a tinha de volta, começou a refletir sobre as implicações mais amplas de sua prisão. A comunidade jamais atraíra a atenção da polícia. Não havia furtos, porque eles não reconheciam a existência da propriedade privada. Às vezes havia brigas a socos, mas os próprios moradores resolviam estas situações. Ninguém morrera ali — nunca. Não tinham telefone para ligar para a polícia. Não desobedeciam à leis, exceto as referentes a drogas, e mesmo assim eram discretos quanto a isto. Mas agora o lugar fora colocado no mapa. E no pior momento possível para que isto acontecesse. Priest, contudo, não podia fazer nada a este respeito, exceto ser mais cauteloso.

 Resolveu não culpar Flower. Na idade dela era ladrão profissional, com uma folha corrida já com três anos. Se algum pai era capaz de entendê-la, era ele.

 Ligou o rádio do carro. A cada hora certa havia um boletim de notícias. A última foi sobre a ameaça do terremoto.

 — O governador Mike Robson encontra-se com agentes do FBI na manhã de hoje a fim de discutir sobre o grupo terrorista O Martelo do Éden, que ameaçou causar um terremoto disse o locutor. — Um porta-voz do Bureau falou que todas as ameaças são levadas a sério mas que não faria nenhum comentário antes da reunião. O governador faria seu pronunciamento depois de se reunir com o FBI, foi o palpite de Priest. Gostaria que a estação de rádio tivesse dado a hora da reunião.

 Metade da manhã tinha se passado quando chegaram em casa. O carro de Melanie desaparecera do círculo do estacionamento: ela levara Dusty para passar o fim de semana com o pai em San Francisco.

 Havia um ar contido por toda a parte. Um grupo arrancava ervas daninhas no parreiral, trabalhando sem os cantos e risos costumeiros. Do lado de fora da cabana da cozinha Holly, a mãe dos outros dois filhos de Priest — Ringo e Smiler fritava cebolas de cara fechada, enquanto Slow, sempre sensível ao ambiente que o cercava parecia assustado ao colher batatas na horta. Até mesmo Oaktree, o carpinteiro, parecia quieto, debruçado sobre a bancada, serrando uma tábua. Quando viram Priest e Star retornando com Flower, todos foram encerrando suas tarefas e se dirigindo para o templo. Quando havia uma crise sempre se reuniam para discutir. Se fosse uma questão menor, podia esperar até o fim do dia, mas aquilo era importante demais para ser adiado.

 No caminho para o templo, Priest e família foram interceptados por Dale e Poem, com a filha deles, Pearl.

 Dale, um homem baixo de cabelo curto e bem penteado era a pessoa mais convencional do grupo. Tinha uma importância enorme por ser perito na fabricação de vinho e controlar a mistura da safra de cada ano. Mas Dale às vezes tratava a comunidade como se fosse apenas uma aldeia como as outras. Dale e Poem tinham sido o primeiro casal a construir uma cabana para a família.

 Poem, com a pele escura e sotaque francês, era do gênero meio selvagem — Priest sabia, já que dormira com ela muitas vezes — mas com Dale tornara-se meio domesticada. Ela era uma das poucas pessoas que talvez pudesse se reajustar à vida normal se tivesse que sair dali. Priest achava que a maioria não conseguiria; muitos terminariam na cadeia, em asilos ou mortos.

 — Tem uma coisa pra vocês verem — disse Dale.

 Priest notou uma rápida troca de sinais entre as garotas. Flower dardejou um olhar acusador para Pearl, que fez cara de assustada e culpada.

 — O que será agora? — exclamou Star.

 Dale levou todos para a cabana vazia. Atualmente era usada como local de estudo pelas crianças mais velhas. Havia em seu interior uma mesa rústica, algumas cadeiras e um armário com livros e lápis. O teto tinha um alçapão que dava num espaço apertado sob o telhado. O alçapão estava aberto e havia uma escada colocada sob ele. Priest teve a horrível sensação de que sabia o que estava por vir.

 Dale acendeu uma vela e subiu a escada. Priest e Star o seguiram. No espaço entre o teto e o telhado ele viu o esconderijo secreto das meninas, iluminado pela vela trêmula: uma caixa cheia de jóias baratas, pinturas, roupas da moda e revistas de adolescentes.

 Priest murmurou:

 — Todas as coisas que ensinamos que considerassem sem valor.

 — Elas têm ido de carona para Silver City. Três vezes nas últimas quatro semanas. Levam estas roupas e trocam pelos jeans e camisas de trabalho quando chegam lá — disse Dale.

 Star quis saber:

 — O que elas fazem lá?

 — Andam pelas ruas, falam com os garotos e roubam as lojas.

 Priest enfiou a mão na caixa e puxou uma camiseta estreita, azul com uma faixa cor de laranja. Era feita de náilon, muito fininha e vagabunda. O tipo de roupa que ele desprezava: não dava calor nem proteção e nada fazia senão cobrir a beleza do corpo humano com uma camada de feiúra.

 Com a camiseta na mão, ele desceu pela escada. Star e Dale o seguiram. As duas garotas pareciam mortificadas.

 Priest disse:

 — Vamos para o templo discutir isto com o grupo.

 Quando lá chegaram, todos já tinham se reunido, inclusive as crianças. Sentados no chão, pernas cruzadas, esperavam. Priest sentou no meio, como sempre. Em teoria, as discussões eram democráticas, e a comunidade não tinha líderes, mas na prática ele e Star dominavam todas as reuniões. Priest conduzia o diálogo para o resultado que desejava, geralmente mais pelas perguntas que fazia do que por externar seu ponto de vista. Se gostava de uma idéia, encorajava a discussão dos seus benefícios; se queria esmagar uma proposta, perguntava como podiam ter certeza de que aquilo daria certo. E se na reunião todos estivessem contra ele, fingia ter se convencido e depois subvertia a decisão.

 — Quem quer começar? — perguntou Priest.

 Aneth apresentou-se. Era um tipo maternal, com uns quarenta e tantos anos e acreditava mais em compreender do que em condenar. Ela disse:

 — Talvez Flower e Pearl devessem começar contando para nós o motivo pelo qual queriam ir para Silver City.

 — Para conhecer gente — retrucou Flower, desafiadora. Aneth sorriu.

 — Você está querendo dizer, rapazes?

 Flower encolheu os ombros. Aneth prosseguiu:

 — Bem, acho que isso é compreensível... mas por que tiveram que roubar?

 — Para ficar bonitas.

 Star deu um suspiro exasperado.

 — O que há de errado com suas roupas comuns?

 — Mamãe, vê se fala a sério — disse Flower, sarcasticamente.

 Star adiantou-se um pouco e deu-lhe uma bofetada. Flower deu um grito sufocado. Apareceu uma marca vermelha no seu rosto.

 — Não se atreva a falar comigo desse jeito — disse Star. Você acaba de ser apanhada roubando e tive que tirá-la da cadeia, pois então não fale comigo como se eu é que fosse burra. Pearl começou a chorar. Priest suspirou. Devia ter previsto aquilo. Não havia nada de errado com as roupas da loja comunitária. Tinham jeans em três cores, azul, preto ou bege. Camisas de trabalho feitas de pano grosso; camisetas brancas, cinzentas, vermelhas e amarelas; sandálias e botas; suéteres pesados de lã para o inverno; capas impermeáveis para trabalhar na chuva. Mas as mesmas roupas eram usadas por todos e havia muitos anos. Claro que as crianças queriam algo diferente. Trinta e cinco anos antes Priest roubara uma jaqueta dos Beatles de uma butique chamada Rave na rua San Pedro.

 Poem dirigiu-se para a filha:

 — Pearl, chérie, você não gosta de suas roupas?

 Entre soluços, ela disse:

 — Nós queríamos ficar parecidas com Melanie.

 — Ah — fez Priest, e sacou tudo.

 Melanie ainda usava as roupas que trouxera: tops parcimoniosos que mostravam a barriga, minissaias e shorts bem curtos, sapatos nada convencionais e bonés bonitinhos. Parecia chique e sexy. Não era de espantar que as meninas a tivessem tomado por modelo.

 Dale disse:

 — Precisamos conversar sobre Melanie — ele parecia apreensivo. A maioria dos integrantes da comunidade receava dizer qualquer coisa que pudesse ser vista como uma crítica a Priest.

 Priest caiu na defensiva. Fora ele quem trouxera Melanie e era seu amante. E ela era crucial para o plano. Melanie era a única capaz de interpretar os dados constantes do disco de Michael, que agora fora copiado no seu laptop. Priest não podia deixar que se virassem contra ela.

 — Nunca fazemos as pessoas que se juntam a nós trocar de roupa — disse. — Elas usam primeiro suas coisas velhas, tem sido sempre esta a regra.

 Foi Alaska quem falou a seguir. Antiga professora, viera para a comunidade com sua amante, Juice, dez anos antes, depois de terem sido repudiadas na cidadezinha onde moravam por serem lésbicas.

 — Não são apenas as roupas — disse Alaska. — Ela não trabalha muito — Juice balançou a cabeça para manifestar sua concordância.

 Priest argumentou:

 — Eu a vi na cozinha, lavando pratos e assando biscoitos.

 Alaska parecia assustada, mas persistiu.

 — Algumas leves tarefas domésticas. Ela não trabalha no parreiral. Melanie é uma passageira, Priest.

 Star viu Priest começar a ser atacado e veio em seu auxilio.

 — Tivemos muita gente assim. Lembra como Holly era no princípio?

 Holly fora um pouco como Melanie, uma garota bonita, que primeiro se sentira atraída por Priest e depois pela comunidade.

 Holly sorriu, pesarosa.

 — Admito. Eu era preguiçosa. Mas acabei me sentindo mal por não colaborar. Ninguém me disse nada. Só percebi que seria mais feliz fazendo a minha parte.

 Foi a vez de Garden falar. Antiga viciada em drogas, tinha vinte e cinco anos mas aparentava quarenta.

 — Melanie é uma má influência. Conversa com as crianças sobre discos pop, programas de televisão e lixo dessa espécie.

 Priest disse:

 — Obviamente precisamos ter uma conversa com Melanie sobre isto quando ela voltar de San Francisco. Sei que vai ficar muito aborrecida quando tomar conhecimento do que Flower e Pearl fizeram.

 Dale não ficou satisfeito.

 — O que aborrece muitos de nós...

 Priest fechou a cara. Tudo indicava que o grupo andara conversando nas suas costas. Jesus, será que estou às voltas com uma rebelião? Deixou aparecer na sua voz o desprazer que sentia.

 — E então? O que aborrece muitos de vocês?

 Dale engoliu em seco.

 — O telefone celular dela e o computador.

 Não havia eletricidade no vale, portanto tinham poucos aparelhos elétricos, e o pessoal da comunidade tinha desenvolvido uma espécie de puritanismo sobre coisas como televisão e vídeo. Tinha-se de recorrer ao rádio do carro para ouvir as notícias. Todos haviam passado a olhar com desprezo qualquer coisa que fosse elétrica. O equipamento de Melanie, que ela recarregava em uma biblioteca pública de Silver City, atraíra alguns olhares de desaprovação. Diversas pessoas balançaram a cabeça, em sinal de concordância com a queixa de Dale.

 Havia uma razão especial para que Melanie retivesse seu celular e seu computador. Mas Priest não podia explicar isto a Dale. Ele não era um Comedor de Arroz. Embora fosse membro integral do grupo e estivesse ali havia anos, Priest não podia ter certeza de que concordaria com o plano do terremoto. Podia se apavorar.

 Priest viu que tinha que terminar com aquilo. Estava saindo do controle. Pessoas descontentes têm que ser enfrentadas uma por uma, não em uma discussão coletiva onde um reforçava a posição do outro. Mas antes que pudesse falar, Poem fez uma pergunta.

 — Priest, está acontecendo alguma coisa? Alguma coisa sobre a qual você não está nos falando? Realmente nunca entendi por que você e Star tiveram que se afastar durante duas semanas e meia.

 Song, em apoio a Priest, comentou:

 — Puxa, que pergunta desconfiada!

 O grupo estava se dividindo, Priest podia ver. Era a perspectiva iminente de ter que abandonar o vale. Não havia sinal do milagre que ele sugerira. Estavam vendo o mundo deles chegar ao fim.

 Star falou:

 — Pensei que tivesse dito a todo mundo. Eu tinha um tio que, ao morrer, deixou os negócios numa tremenda confusão, e eu era sua única parente, de modo que tive que ajudar os advogados a organizarem tudo.

 Chega. Priest sabia como abafar um protesto. Falou decididamente.

 — Sinto que estamos discutindo essas coisas em uma atmosfera ruim — disse. — Alguém concorda comigo?

 Todos concordavam, claro. A maioria balançou a cabeça, afirmativamente.

 — E o que fazemos então? — Priest olhou para o filho de dez anos, uma criança séria, de olhos escuros. — O que você me diz, Ringo?

 — Nós meditamos juntos — respondeu o menino. Era a resposta que qualquer um daria.

 Priest olhou em torno.

 — Alguém aprova a idéia de Ringo?

 Todos aprovaram.

 — Então vamos nos preparar.

 Cada um assumiu sua posição favorita. Alguns se deitaram de costas, outros se encolheram em posição fetal, um ou dois se deitaram como se estivessem dormindo. Priest e diversos outros se sentaram de pernas cruzadas, mãos soltas sobre os joelhos, olhos fechados, rostos voltados para o céu.

 — Relaxem o dedinho pequeno do pé esquerdo — disse Priest, falando baixo, com voz penetrante. — Depois o quarto dedo, depois o terceiro, depois o segundo, depois o dedão. Relaxem todo o pé... e o tornozelo...e depois a barriga da perna.

 À medida que ele seguia lentamente indicando todo o corpo, uma paz contemplativa desceu sobre a sala. O ritmo da respiração de todos diminuiu e tornou-se regular, os corpos ficaram cada vez mais quietos e os rostos gradualmente tomaram a tranqüilidade da meditação.

 Finalmente Priest disse uma sílaba lenta e grave:

 — Om.

 A uma voz, a congregação respondeu:

 — Ommm...

 Meu povo.

 Que eles possam viver aqui para sempre.

 

 A reunião no gabinete do governador estava marcada para o meio-dia. Sacramento, a capital do estado, ficava a cerca de duas horas de carro de San Francisco. Judy saiu de casa às nove e quarenta e cinco, prevenindo-se para enfrentar o tráfego pesado da saída da cidade. O assessor com quem ia se encontrar, Al Honeymoon, era uma figura bem conhecida na política da Califórnia. Oficialmente secretário do gabinete, na verdade era o encarregado das tarefas desagradáveis. Sempre que o governador Robson precisava passar uma nova rodovia por um lugar bonito, construir uma usina nuclear, despedir mil empregados do governo ou trair um amigo fiel, mandava Honeymoon fazer o trabalho sujo.

 Os dois homens eram amigos havia vinte anos. Quando se conheceram, Mike Robson ainda era apenas um deputado estadual e Honeymoon acabara de se formar em Direito. Honeymoon fora selecionado para esse papel de bandido por ser preto, e o governador, astutamente, calculou que justamente por isto a imprensa hesitaria em falar mal dele. Esse tempo de liberalismo já se passara havia muitos anos, mas Honeymoon amadurecera e transformara-se em um político de grande habilidade e inexcedível impiedade.

 Ninguém gostava dele, mas muita gente o temia.

 Em benefício do FBI, Judy queria causar boa impressão. Não era sempre que os políticos tinham interesse pessoal direto em um caso do FBI. Judy sabia que seu modo de cumprir aquela missão iria caracterizar para sempre a atitude de Honeymoon para com o Bureau em particular e os órgãos com atribuições policiais de um modo geral. A experiência pessoal sempre tem mais impacto que relatórios ou estatísticas.

 O FBI gostava de dar a impressão de ser todo-poderoso e infalível. Mas ela fizera tão pouco progresso naquele caso que ia ser meio difícil desempenhar esse papel, especialmente para um cara durão como Honeymoon. De qualquer modo, não era o estilo dela. Seu plano era simplesmente parecer eficiente e inspirar confiança.

 Tinha também uma outra razão para querer se sair bem. Precisava que a declaração do governador Robson abrisse a porta para um diálogo com o Martelo do Éden. Uma indicação, por menor que fosse, que o governador talvez negociasse podia persuadir os terroristas a esperar um pouco. E se a reação deles fosse uma tentativa de se comunicar, talvez dessem a Judy novos indícios da identidade do grupo. Por ora, era o único modo em que podia pensar para pegá-los. Todas as outras linhas de investigação tinham levado a becos sem saída. Achava que talvez fosse difícil convencer o governador a dar essa indicação. Ele não ia querer dar a impressão de que ouviria as exigências dos terroristas, com medo de encorajar outros grupos. Mas deveria haver um jeito de redigir o pronunciamento de modo que a mensagem fosse clara apenas para o pessoal do Martelo do Éden.

 Não vestira o costume Armani, de executiva poderosa. O instinto lhe disse que era mais provável que Honeymoon recebesse melhor uma pessoa vestida de trabalhadora comum, e por isso preferira um terninho cinza-escuro e prendera o cabelo num coque atrás da cabeça. Quanto à arma, ela a levava num coldre de cintura. Para o caso do conjunto ser demasiado severo, colocou brinquinhos de pérolas que chamavam a atenção para seu pescoço comprido. Nunca fizera mal parecer atraente.

 Gostaria de saber se Michael Quercus a achara atraente. Ele era um gato, pena ser tão irritante. Sua mãe o teria aprovado. Judy se lembrava dela dizendo: "Gosto de homens que sabem o que querem." Quercus vestia-se bem, num jeito discreto. Judy gostaria de saber como seria seu corpo por baixo das roupas. Talvez fosse coberto de pêlos negros, como um macaco: ela não gostava de homens peludos. Talvez fosse pálido e mole, mas não parecia: dava a impressão de estar em boa forma física. Ao dar-se conta de que estava fantasiando sobre Quercus nu, aborreceu-se consigo mesma. A última coisa de que preciso é um ídolo juvenil malcriado.

 Decidiu telefonar para saber como poderia estacionar. Discou o número do gabinete do governador no seu celular e falou com o secretário de Honeymoon.

 — Tenho um encontro ao meio-dia com o Sr. Honeymoon, e gostaria de saber se posso estacionar no prédio do Capitólio. Nunca estive em Sacramento.

 O secretário era um rapaz.

 — Não temos estacionamento para visitantes no prédio, mas há um estacionamento coberto no quarteirão seguinte.

 — Onde, exatamente?

 — Na entrada da rua onde fica o Capitólio, entre a K e a L. O Capitólio é entre a L e a M. Literalmente um minuto de distância. Mas seu encontro não é ao meio-dia, e sim às onze e meia.

 — O quê?

 — Seu encontro está marcado para as onze e meia.

 — Foi alterado?

 — Não, senhora, sempre foi às onze e meia.

 Judy ficou furiosa. Chegar tarde criaria má impressão antes mesmo de abrir a boca. Aquilo já estava saindo errado. Ela controlou a raiva.

 — Acho que alguém cometeu um engano — consultou o relógio, voando baixo podia chegar em noventa minutos. — Não tem problema, estou adiantada — mentiu. — Chegarei a tempo.

 — Ótimo.

 Ela pisou com força no acelerador e viu o velocímetro do Monte Carlo subir até cento e sessenta. Por sorte, a estrada estava vazia. A maior parte do tráfego pela manhã era no sentido contrário, indo para San Francisco.

 Fora Brian Kincaid quem lhe dissera a hora da entrevista, portanto ele também chegaria tarde. Estavam viajando separadamente porque ele tinha um segundo compromisso em Sacramento, no escritório local do FBI. Judy discou o número da agência de San Francisco e falou com a secretária do encarregado.

 — Linda, aqui é Judy. Dá para você ligar para o Brian e dizer que o assessor do governador nos espera às onze e meia e não ao meio-dia, por favor?

 — Acho que ele sabe disso — respondeu Linda.

 — Não, não sabe. Ele me disse doze horas. Vê se consegue ligar para ele e avisar, sim?

 — Pode deixar.

 — Obrigada — Judy desligou e concentrou-se na estrada. Poucos minutos depois ouviu a sirene da polícia. Olhou pelo espelho e viu a pintura bege familiar da patrulha Rodoviária da Califórnia.

 — Juro que não acredito! — exclamou ela.

 Desviou para o acostamento e pisou no freio com força. O carro da patrulha parou atrás. Ela abriu a porta. Uma voz amplificada disse:

 — FIQUE NO CARRO.

 Ela pegou o crachá do FBI segurou-o com o braço esticado para que o policial pudesse ver e saltou.

 — FIQUE NO CARRO!

 Ela percebeu um toque de medo na voz e viu que o patrulheiro estava sozinho. Suspirou. Não era difícil imaginar um recruta puxando a arma e atirando nela de puro nervosismo. Judy levantou mais o escudo do crachá para que ele pudesse ver.

 — FBI! — gritou.

 — Olha só, pelo amor de Deus! — VOLTE PARA O CARRO!

 Ela deu uma olhada no relógio. Dez e meia. Tão frustrada que chegava a tremer, sentou de novo no carro e deixou a porta aberta.

 Foi uma espera irritantemente longa. Finalmente o patrulheiro aproximou-se.

 — A razão pela qual a fiz parar foi que seu carro estava a cento e cinqüenta e nove quilômetros por hora...

 — Olha só para isto aqui — disse ela, levantando o escudo do FBI.

 — O que é?

 — Pelo amor de Deus, é um escudo do FBI! Sou uma agente em missão urgente e você acaba de me fazer perder tempo!

 — Bem, você com certeza não parece...

 Ela saltou do carro, assustando-o, e sacudiu o dedo debaixo do seu queixo.

 — Não me diga que não pareço com a porra de um agente. Se você não reconhece nem o escudo do FBI, como é que vai saber que cara tem um agente? — pôs as mãos nas cadeiras, puxando o paletó para trás a fim de que ele pudesse ver o coldre.

 — Posso ver sua licença, por favor?

 — Claro que não, droga! Estou saindo e vou para Sacramento a cento e cinqüenta e nove quilômetros por hora, está me entendendo? — ela entrou de novo no carro.

 — Você não pode fazer isso — disse ele.

 — Escreva para o seu deputado — retrucou ela, batendo com a porta e acelerando.

 Desviou para a pista da esquerda, acelerou até cento e sessenta e consultou o relógio. Tinha perdido cerca de cinco minutos. Ainda dava para chegar a tempo.

 Perdera a calma com o patrulheiro. Ele contaria a seu chefe, que se queixaria ao FBI. Judy receberia uma repreensão. Mas se tivesse sido polida com o cara, ainda estaria lá.

 — Merda — exclamou, sentida.

 Alcançou a saída para o centro da cidade de Sacramento às onze e vinte. Às onze e vinte e cinco estava entrando na garagem. Gastou uns dois minutos para achar uma vaga. Desceu correndo a escada e atravessou a rua.

 O Capitólio era um palácio de pedra branca que lembrava um bolo de noiva, em meio a um jardim imaculado delimitado por palmeiras gigantescas. Ela atravessou correndo um saguão de mármore até uma porta dupla com a palavra "GOVERNADOR" entalhada. Parou, respirou fundo para se acalmar e checou o relógio. Exatamente onze e trinta. Chegara a tempo. O FBI não ia parecer incompetente. Abriu a porta e entrou.

 Viu-se no interior de um imenso saguão onde a figura de maior destaque era um secretário sentado atrás de uma mesa enorme. De um lado havia uma fila de cadeiras onde, para sua surpresa, viu Brian Kincaid esperando, com ar tranqüilo e descansado, metido num terno cinza-grafite impecável. O cabelo branco penteado cuidadosamente, em nada lembrando uma pessoa que tivesse acabado de chegar correndo.

 Subitamente Judy tomou consciência de que estava suando.

 Quando Kincaid a encarou, ela viu um relâmpago de surpresa brilhar em seus olhos, mas foi rapidamente contido.

 Ela o cumprimentou:

 — Oi, Brian.

 — dia — ele desviou os olhos.

 Não quis agradecer o recado que ela dera dizendo que a reunião seria mais cedo.

 Ela perguntou:

 — A que horas você chegou?

 — Poucos minutos atrás.

 Isto significava que ele sabia a hora certa da reunião. Mas dissera que era meia hora mais tarde. Será que a tinha induzido deliberadamente ao erro? Parecia quase infantil.

 Antes que ela tivesse tido tempo de chegar a uma conclusão, um jovem negro apareceu por uma porta lateral e dirigiu-se a Brian:

 — Agente Kincaid? Ele se levantou.

 — Eu mesmo.

 — Você deve ser então a agente Maddox. O Sr. Honeymoon os verá agora.

 Kincaid e Judy seguiram-no ao longo do corredor. Enquanto andavam, ele disse, pouco antes de virarem à direita:

 — Nós chamamos isto aqui de Ferradura, porque os escritórios do governador são grupados em torno dos três lados de um retângulo.

 A meio caminho do segundo lado, eles passaram por outro saguão, ocupado por duas secretárias. Um rapaz segurando uma pasta esperava sentado em um sofá de couro. Judy achou que devia ser ali o gabinete pessoal do governador. A poucos passos de distância, foram introduzidos na sala de Honeymoon.

 Ele era um homem grande com o cabelo cortado bem curto já ficando branco. Tinha tirado o paletó do terno cinza e com isso podiam ser vistos os suspensórios pretos. Ele enrolara as mangas da camisa branca mas conservara impecável o laço da gravata de seda. Tirou os óculos de aro dourado de meia lente e levantou-se. Tinha um rosto de feições fortes com uma expressão permanente de vê-se-não-me-enche-o- saco. Podia passar por tenente de polícia, só que estava bem vestido demais. A despeito da aparência intimidadora, seus modos eram corteses. Apertou as mãos de Brian Kincaid e Judy Maddox e agradeceu:

 — Sou-lhes muito grato por terem vindo de San Francisco conversar conosco.

 — Tudo bem — disse Kincaid.

 Eles se sentaram. Sem preâmbulos, Honeymoon foi logo ao ponto:

 — Como avaliam a situação?

 — Bem, senhor, o seu pedido foi para ver o agente que estivesse na extremidade operacional do caso. Sendo assim, vou deixar que Judy faça o seu relato.

 Judy disse:

 — Receio ainda não termos pegado essa gente — e logo se xingou por ter começado o relatório com um pedido de desculpas embutido numa frase fraca. Seja positiva! — Estamos razoavelmente seguros de que estes terroristas não estão relacionados com a Campanha da Califórnia Verde — isso não passou de uma fraca tentativa para lariçar indícios falsos. Não sabemos quem são, mas posso lhe contar algumas coisas importantes que descobrimos a respeito deles.

 Honeymoon disse:

 — Prossiga, por favor.

 — Para começar, a análise lingüística da mensagem contendo a ameaça nos diz que estamos tratando não com um indivíduo solitário, e sim com um grupo.

 Kincaid interveio:

 — Bem, com duas pessoas, pelo menos.

 Judy lançou um olhar furioso para Kincaid, mas ele não a encarou.

 Honeymoon perguntou, irritado:

 — O que é afinal, dois ou um grupo?

 Judy sentiu que ficava ruborizada.

 — A mensagem foi redigida por um homem e digitada por uma mulher, de modo que temos no mínimo duas pessoas. Ainda não sabemos se há mais.

 — OK. Mas, por favor, seja precisa.

 Aquilo não estava indo bem.

 Judy prosseguiu.

 — Ponto dois: as pessoas a quem nos referimos não são loucas.

 Kincaid disse:

 — Bem, clinicamente não. Mas com toda a certeza não podem ser normais — ele riu como se tivesse dito alguma coisa inteligente.

 Judy amaldiçoou-o silenciosamente.

 — As pessoas que cometem crimes de violência podem ser divididas em duas espécies, as organizadas e as desorganizadas. O tipo desorganizado age segundo o impulso do momento, usa qualquer arma que esteja disponível e escolhe suas vítimas aleatoriamente. Estas são as pessoas verdadeiramente loucas.

 Honeymoon interessou-se.

 — E o outro tipo?

 — O tipo organizado é o que planeja seus crimes, carrega as armas que vai usar e ataca vítimas previamente selecionadas segundo um critério lógico qualquer.

 Kincaid interveio de novo:

 — São loucos de uma maneira diferente.

 Judy tentou ignorá-lo.

 — Essas pessoas podem ser doentes, mas não são loucas varridas. Podemos pensar nelas como seres racionais e tentar antecipar o que farão.

 — Está bem. E os integrantes do Martelo do Éden são pessoas organizadas?

 — A julgar pela mensagem contendo a ameaça, sim.

 — Você confia muito na análise lingüística — comentou Honeymoon ceticamente.

 — É uma ferramenta poderosa.

 — Não substitui um cuidadoso trabalho investigativo. Mas neste caso, é tudo o que temos — concluiu Kincaid.

 Era como se eles tivessem que confiar na análise lingüística porque Judy não fizera o trabalho que devia ter feito. Sentindo-se desesperada, ela insistiu:

 — Estamos tratando com gente séria — o que significa que, se não puderem provocar um terremoto, poderão tentar outra coisa qualquer.

 — Como por exemplo?

 — Um dos habituais atentados terroristas. Explodir uma bomba, fazer um refém, assassinar uma figura proeminente.

 — Presumindo que tenham capacidade para tal, é claro. Até o presente momento não temos nada indicando esta direção — comentou Kincaid.

 Judy respirou fundo. Era preciso dizer uma coisa que não podia evitar.

 — Não estou, contudo, preparada para desconsiderar a possibilidade de que eles realmente possam causar um terremoto.

 Honeymoon disse:

 — O quê?

 Kincaid soltou uma risada sarcástica. Judy insistiu:

 — Não é provável, mas é concebível. Foi o que me disse o principal perito no assunto do estado da Califórnia, o professor Quercus. Não estaria cumprindo com o meu dever se não lhe dissesse isso.

 Kincaid recostou-se na cadeira e cruzou as pernas.

 — Judy lhe deu as respostas que a gente encontra nos livros, Al — disse ele, com voz de "menina-não-entra". — Agora talvez eu deva lhe dizer qual é o quadro dentro de uma perspectiva de mais idade e experiência.

 Judy olhou para ele com raiva. vou à forra disto nem que seja a última coisa que possa fazer na minha vida, Kincaid. Você levou a tarde inteira querendo me derrubar. Mas e se houver mesmo um terremoto, seu panaca? O que vai dizer aos parentes dos mortos?

 — Por favor, prossiga — disse Honeymoon.

 — Essas pessoas não podem causar um terremoto e não dão a mínima para usinas de eletricidade. Meu instinto me diz que se trata de um garotão tentando impressionar a namorada. Apavorou o governador, fez o FBI correr de um lado para outro como barata tonta e o que armou é assunto toda noite do programa de rádio de John Truth. De repente ele passou a ser um figurão importante e ela ficou deslumbrada.

 Judy sentiu-se totalmente humilhada. Kincaid deixara que relatasse o que descobrira e depois escarnecera de tudo o que dissera. Obviamente que tinha planejado aquilo, e agora ela não tinha a menor dúvida de que deliberadamente a enganara quanto à hora do encontro, na esperança de que chegasse atrasada. A coisa toda não passara de uma manobra destinada a desacreditá-la e, ao mesmo tempo, fazer com que Kincaid se sentisse melhor. Judy sentiu-se revoltada.

 Honeymoon levantou-se bruscamente.

 — Vou aconselhar o governador a não reagir à ameaça disse. — E muito obrigado a ambos — acrescentou, em tom de quem não precisava mais deles.

 Judy não teve dúvida de que era tarde demais para lhe pedir que deixasse aberta a porta do diálogo com os terroristas. O momento passara. E, de qualquer maneira, qualquer sugestão que desse seria ridicularizada por Kincaid. Sentiu-se desesperada. E se a ameaça fosse genuína? E se eles pudessem realmente fazer o que ameaçaram?

 Kincaid disse:

 — Qualquer hora que precise de nós, é só dizer.

 A expressão de Honeymoon foi vagamente sarcástica. Seria difícil imaginar que precisasse de convite para usar os serviços do FBI. Mas, polidamente, estendeu a mão para se despedir.

 Um momento mais tarde, Judy e Kincaid estavam do lado de fora. Judy permaneceu em silêncio enquanto percorriam a Ferradura e atravessavam o saguão. Só aí Kincaid parou e disse:

 — Você se saiu muito bem, Judy. Não tem com que se preocupar.

 Ele não conseguiu esconder o sorriso ostensivamente atrevido.

 Judy estava determinada a não deixar que Kincaid percebesse o quanto estava irritada. Tinha vontade de berrar, mas forçou-se a dizer calmamente:

 — É, acho que cumprimos com a nossa obrigação.

 — Com certeza. Onde estacionou o carro?

 — Na garagem do outro lado da rua — ela indicou com o polegar.

 — Estou do lado oposto. Vejo você mais tarde.

 — Claro.

 Judy observou-o afastar-se e depois virou-se e seguiu na outra direção.

 Ao atravessar a rua viu uma loja de doces Sei. Entrou e comprou uns bombons.

 No caminho de volta para San Francisco, comeu a caixa inteira.

 

 Priest precisava de atividade física para não enlouquecer com a tensão. Depois da reunião no templo foi para o parreiral e começou a trabalhar, arrancando ervas daninhas. Fazia calor e em pouco tempo ele começou a suar e tirou a camisa.

 Star trabalhou ao seu lado. Após uma ou duas horas ela deu uma olhada no relógio.

 — Hora de fazer uma pausa — disse. — Vamos ouvir as notícias.

 Sentaram-se no carro de Priest, que ligou o rádio. O noticiário repetiu o que tinham ouvido antes. Priest rangeu os dentes de tanta frustração.

 — Que droga, o governo tem que dizer qualquer coisa logo!

 Star retrucou:

 — Não esperamos que eles cedam já, esperamos?

 — Não, mas eu esperava que houvesse uma mensagem qualquer, talvez um indício de uma concessão. Puxa vida, a idéia de suspender a construção de novas usinas elétricas não é exatamente uma excentricidade. Milhões de pessoas na Califórnia provavelmente concordariam. Star fez que sim.

 — Respirar em Los Angeles já é perigoso, pelo amor de Deus! Não posso acreditar que haja quem realmente queira viver desse jeito.

 — Mas não acontece nada.

 — Bem, sempre pensamos que precisaríamos dar uma demonstração para que nos ouvissem.

 — É mesmo — Priest hesitou e por fim desabafou: — Acho que estou com medo de que não funcione.

 — O vibrador sísmico?

 Ele hesitou de novo. Não teria sido assim tão franco com ninguém, exceto com Star, e mesmo com ela já estava quase arrependido por ter confessado sua dúvida. Mas já que começara, era melhor acabar.

 — Tudo — explicou. — Tenho medo de que não haja terremoto e aí estaremos perdidos.

 Ele viu que Star ficou um pouco chocada. Estava acostumada a vê-lo absolutamente confiante quanto a tudo o que fazia. Só que Priest nunca tinha feito uma coisa daquelas. Ao voltarem para o parreiral, ela disse:

 — Faça qualquer coisa com Flower hoje à noite.

 — Como assim?

 — Passe algum tempo com ela. Faça alguma coisa com ela. Você brinca com Dusty o tempo todo.

 Dusty tinha cinco anos. Era fácil distrair-se com ele.

 O menino era fascinado por tudo. Flower tinha treze, a idade em que tudo o que os adultos fazem parece burrice. Priest estava prestes a dizer isto, quando percebeu que havia outra razão para o que Star estava dizendo. Ela pensa que eu posso morrer amanhã. A idéia o atingiu com a força de um soco. Ele sabia que o plano do terremoto era perigoso, claro, mas tinha considerado principalmente o perigo que ele próprio corria e o risco de deixar a comunidade sem um líder. Não tinha imaginado Flower sozinha no mundo aos treze anos de idade.

 — O que farei com ela?

 — Ela quer aprender a tocar violão.

 Aquilo era novidade para Priest. Ele não era um grande violonista, mas sabia tocar canções folclóricas e blues simples, o bastante para iniciá-la, pelo menos.

 Deu de ombros.

 Voltaram ao trabalho, mas poucos minutos depois foram interrompidos quando Slow, com um sorriso que ia de orelha a orelha, gritou:

 — Ei, olha só quem está aí!

 Priest levantou os olhos. A pessoa pela qual esperava era Melanie. Ela fora a San Francisco entregar Dusty ao pai. Era a única pessoa capaz de dizer a Priest exatamente onde usar o vibrador sísmico e ele não se sentiria à vontade enquanto ela não estivesse de volta. Mas era cedo demais para esperá-la, e, de qualquer modo, Slow não se entusiasmaria tanto se fosse Melanie.

 Ele viu um homem descendo a colina, seguido por uma mulher carregando uma criança. Priest fechou a cara. Era comum que se passasse um ano sem que aparecesse um único visitante no vale. Naquela manhã tinha sido o policial; agora aquelas pessoas. Mas seriam estranhos? Ele estreitou os olhos. O modo de caminhar deslizante do homem era terrivelmente familiar. Quando os vultos chegaram mais perto, Priest disse:

 — Meu Deus, é mesmo o Bones?

 — É ele, sim! — exclamou Star, entusiasmada. — Nossa mãe! – e saiu correndo na direção dos recém-chegados.

 Spirit associou-se à sua excitação e saiu correndo com ela, latindo.

 Priest seguiu-os mais devagar.

 Bones, cujo verdadeiro nome era Bel Owens, fora um Comedor de Arroz. Mas gostava do modo como as coisas eram antes da chegada de Priest.

 Deliciava-se com a vida da mão para a boca dos primeiros tempos da comunidade. Sentia prazer com as crises constantes e gostava de ficar bêbado ou chapado — ou ambos — algumas horas depois de acordar. Tocava blues na gaita de boca com brilho extraordinário e foi o mendigo mais bem-sucedido que tiveram. Bones não se integrara a uma comunidade para encontrar trabalho, autodisciplina e um ato de devoção diário. Assim, após alguns anos, quando se tornou claro que o regime Priest-Star era permanente, Bones foi embora. E nunca mais aparecera. Agora, depois de mais de vinte anos, estava de volta. Star atirou-se a ele, abraçou-o com força e beijou-lhe os lábios. Aqueles dois tinham tido um caso muito sério. Todos os homens na comunidade dormiam com Star naquele tempo, mas ela sempre tivera um fraco por Bones. Priest sentiu uma pontada de ciúme quando viu Bones apertar o corpo de Star de encontro ao seu.

 Quando se soltaram, Priest pôde ver que Bones não estava bem. Sempre fora magro, mas agora dava a impressão de que estava morrendo de fome. Sempre deixara crescer o cabelo de qualquer maneira, assim como a barba, mas agora esta parecia mais emaranhada que nunca e o cabelo dava a impressão de estar caindo aos montes. A calça-jeans e a camiseta estavam sujos e uma das botas de caubói perdera o salto. Ele veio porque está com problema.

 Bones apresentou a mulher como Debbie: Era mais moça que ele, não tinha mais que vinte e cinco anos, bonita, com um jeito tenso, sofrido. A criança teria uns dezoito meses de idade. Tanto ela quanto o bebê eram quase tão magros e sujos quanto Bones. Estava na hora da refeição do meio-dia. Levaram Bones para a cozinha comunitária. O almoço era uma sopa de cevada em grão, temperada com as ervas cultivadas por Garden. Debbie comeu vorazmente e alimentou a criança, mas Bones só tomou umas colheradas e acendeu um cigarro.

 Falou-se muito sobre os velhos tempos. Bones disse:

 — Vou contar para vocês minha lembrança favorita. Uma tarde, bem ali naquela colina, Star me explicou o que era cunilíngua.

 Houve um frouxo de riso em torno da mesa. Tratava-se de uma risada ligeiramente embaraçada, mas Bones não percebeu e continuou.

 — Eu tinha vinte anos de idade e não sabia que as pessoas faziam aquilo. Fiquei chocado. Mas ela me fez experimentar. E o gosto! Que nojo!

 — Havia muita coisa que você não sabia — disse Star. Lembro de você dizendo que não conseguia entender por que às vezes sentia dor de cabeça pela manhã e eu tive que explicar que isso acontecia sempre que tomava um porre na noite anterior. Você não sabia o significado da palavra "ressaca".

 Ela mudara habilmente de assunto. Nos velhos tempos teria sido perfeitamente normal falar sobre cunilíngua à mesa da comida, mas as coisas tinham mudado desde que Bones se fora. Ninguém jamais fizera questão de que a linguagem fosse mais limpa, mas acontecera naturalmente à medida que as crianças começaram a ganhar mais entendimento.

 Bones estava nervoso, rindo muito, esforçando-se demais para ser amistoso, irrequieto, fumando um cigarro depois do outro. Ele quer alguma coisa. Mas vai me dizer o que é dentro de muito pouco tempo.

 Quando tiraram a mesa e lavaram as tigelas, Bones levou Priest para um canto e disse:

 — Tenho uma coisa que quero mostrar a você. Vamos. Priest deu de ombros e o acompanhou.

 Priest pegou um saquinho com maconha e um maço de papéis de cigarro. Os membros da comunidade geralmente não fumavam maconha durante o dia, porque reduzia o ritmo do trabalho no parreiral, mas hoje era um dia especial e Priest sentiu necessidade de acalmar os nervos. Enquanto subiam a colina e atravessavam as árvores, ele enrolou um baseado com a facilidade conferida pela longa prática.

 Bones lambeu os lábios.

 — Você não tem nada mais forte, tem?

 — O que é que você está usando atualmente, Bones?

 — Um pouquinho de açúcar mascavo aqui e ali, sabe como , é, para manter a cabeça limpa.

 Heroína. Então era isso. Bones virara um adicto, um viciado em heroína.

 — Não temos nenhuma heroína aqui — disse Priest. — Ninguém usa heroína. E eu vou me livrar de quem quer que use , mais depressa do que você consegue piscar um olho. Priest acendeu o baseado.

 Quando chegaram na clareira onde os carros estavam estacionados, Bonés disse:

 — Lá está.

 A princípio Priest não conseguiu perceber o que ele estava olhando. Tratava-se de um caminhão, mas de que tipo? Era pintado com um desenho alegre em vermelho e amarelo e do lado havia a figura de um monstro pondo fogo pela boca e um letreiro nas mesmas cores vulgares.

 Bones, que sabia que Priest não sabia ler, disse:

 — A Boca do Dragão. É um brinquedo de mafuá.

 Priest entendeu então. Muitos brinquedos pequenos de mafuá são montados em caminhões. O motor do caminhão serve para acionar o brinquedo. Este pode ser dobrado e transportado pelo próprio caminhão quando seque para o novo local.

 Priest passou o baseado para Bones e perguntou:

 — É seu?

 Bones puxou uma longa tragada, sustentou a fumaça no pulmão e soprou antes de responder.

 — Ganhei minha vida com isso aí durante dez anos. Mas precisa de manutenção, e não posso pagar. Por isso tenho que vender.

 Priest pôde ver o que estava por vir.

 Bones puxou outra tragada, mas desta vez não devolveu o baseado.

 — Provavelmente vale cinqüenta mil dólares, mas estou pedindo dez.

 Priest aquiesceu.

 — Parece uma pechincha... para alguém.

 — Talvez vocês possam comprar — disse Bones.

 — Que porra vou fazer com um brinquedo de mafuá, Bones?

 — E um bom investimento. Se você tiver um mau ano com o vinho, pode sair com ele e fazer algum dinheiro.

 Eles tinham maus anos, às vezes. Mas Paul Beale estava sempre disposto a lhes dar crédito. Ele acreditava nos ideais da comunidade, muito embora não tivesse sido capaz de viver de acordo com eles. E sabia que sempre haveria uma outra safra no ano seguinte. Priest sacudiu a cabeça.

 — De jeito nenhum. Mas eu lhe desejo sorte, velho camarada. Continue tentando que acabará encontrando um comprador. Bones devia ter imaginado que era uma tentativa com muito pouca chance de sucesso, mas mesmo assim pareceu entrar em pânico.

 — Ei, Priest, quer saber mesmo a verdade? Estou em péssima situação. Será que não dá para me emprestar mil pratas? Já serviria para ajeitar a vida.

 Serviria para você ficar chapadão, é isso que você quer dizer. Alguns dias depois estaria de volta ao mesmo ponto de antes.

 — Nós não temos dinheiro — disse Priest. — Não usamos dinheiro aqui, não se lembra?

 Bones fez uma cara de sabido.

 — Você tem que ter uma grana escondida, cara, deixa disso.

 E você acha que eu ia lhe contar que tenho?

 — Desculpe, meu chapa, não posso ajudar.

 Bones balançou a cabeça.

 — É uma situação difícil, cara, sério. Estou metido numa tremenda complicação.

 — E não vai se aproveitar quando eu estiver de costas para pedir a Star, porque vai ter a mesma resposta — disse Priest, endurecendo a voz.

 — Está me ouvindo?

 — Claro, claro — disse Bones, parecendo assustado. — Fica frio, Priest, fica frio, cara.

 — Estou frio.

 

 Priest se preocupou com Melanie toda a tarde. Ela podia ter mudado de idéia e decidido voltar para o marido ou simplesmente se apavorado e dado o fora no seu carro. Então, tudo estaria terminado. Não havia como ele ou qualquer outra pessoa interpretar os dados do disquete de Michael Quercus e decidir onde instalar o vibrador sísmico.

 Mas ela apareceu no fim da tarde, para seu grande alívio. Ele contou que Flower fora presa e advertiu-a que uma ou mais pessoas queriam pôr a culpa nela e em suas roupas bonitas.

 Melanie disse que ia pegar umas roupas de trabalho na loja comunitária.

 Após a ceia, Priest foi à cabana de Song e pegou o violão dela.

 — Está usando? — perguntou, polidamente.

 Jamais diria "Posso pegar seu violão emprestado?" porque em teoria toda a propriedade era comum a todos, de modo que o violão era tanto dele quanto dela, mesmo que tivesse sido fabricado pela própria Song. No entanto, na prática todos sempre pediam as coisas emprestadas.

 Sentou diante da sua cabana com Flower e afinou o violão. Spirit, o cachorro, prestou atenção, como se também ele fosse aprender a tocar.

 — A maioria das canções têm três acordes — começou Priest. — Se você souber três acordes será capaz de tocar nove em dez canções de todo o mundo. Mostrou o acorde em dó. Enquanto ela lutava para comprimir as cordas com as pontas macias dos dedos, ele estudou seu rosto à luz do final da tarde: a pele perfeita, o cabelo escuro, os olhos verdes como os de Star, a ruguinha na testa quando se concentrava.

 Tenho que permanecer vivo para cuidar de você. Pensou em si próprio com a idade dela, já um criminoso, experiente, treinado, acostumado com a violência, odiando a polícia e desprezando os cidadãos comuns, idiotas o bastante para se deixarem ser roubados. Aos treze anos eu já dera errado. Estava determinado a não permitir que acontecesse a mesma coisa com Flower. Ela fora criada em uma comunidade de paz e amor, sem ser tocada pelo mundo que corrompera o pequeno Ricky Granger e o transformara em bandido antes que lhe crescesse a barba. Você se dará bem, asseguro isso.

 Ela tocou o acorde e Priest percebeu que uma determinada canção ecoava em sua cabeça desde a chegada de Bones. Era uma canção folclórica dos anos 60 de que Star sempre gostara.

 Mostre-me a prisão Mostre-me a cadeia Mostre-me o prisioneiro Cuja vida estagnou.

 — Vou lhe ensinar uma canção que sua mãe costumava cantar quando você era bebê — disse ele. Pegou o violão das mãos dela. — Você se lembra disso? — E cantou:

 Vou lhe mostrar um rapaz Com tantas razões pelas quais.

 Na cabeça dele, Priest ouvia a voz inconfundível de Star, grave e sexy naquele tempo como agora.

 Lá, a não ser que a sorte ajude Vai você ou vou eu Você ou eu.

 Priest era mais ou menos da mesma idade de Bones, e Bones estava morrendo. Priest não tinha a menor dúvida. Em breve, a garota e a criança o abandonariam. Ele mataria o próprio corpo de fome para alimentar o vício. Poderia acabar com uma overdose ou se envenenar com drogas de má qualidade, ou então abusar do organismo até que ele cedesse e sobreviesse uma pneumonia. De um modo ou de outro, era um homem morto.

 Se eu perder este lugar, seguirei o mesmo caminho de Bones. Enquanto Flower lutava para tocar o acorde de lá menor, Priest brincou com a idéia de retornar à sociedade normal. Imaginou-se indo todo o dia para o trabalho, comprando meias e sapatos de liquidação, dono de um aparelho de televisão e de uma torradeira. O pensamento o deixou nauseado. Nunca vivera certinho. Fora criado num prostíbulo, educado nas ruas, tinha sido durante pouco tempo o proprietário de um negócio semi legítimo e, na maior parte da vida, agira como líder de uma comunidade hippie isolada do mundo.

 Ainda se lembrava bem do único emprego certinho que tivera. Aos dezoito anos fora trabalhar para os Jenkinsons, o casal que administrava a loja de bebidas na mesma rua, um pouco mais abaixo. Naquele tempo os considerava velhos, mas via agora que não teriam mais que cinqüenta anos. Sua intenção fora trabalhar o tempo suficiente para descobrir onde guardavam o dinheiro e depois roubá-lo. Mas aí aprendera algo a respeito de si mesmo.

 Descobriu que tinha um raro talento para aritmética. A cada manhã o Sr. Jenkinson punha dez dólares na máquina registradora para troco. À medida que os fregueses compravam suas bebidas, pagavam e tinham troco a receber, ou Priest os servia ele próprio ou ouvia um dos Jenkinsons cantar o total em voz alta: — Um dólar e vinte e nove, por favor, Sra. Roberts — ou: — Três dólares redondos, senhor.

 Os números pareciam se somar sozinhos dentro da sua cabeça. Durante o dia inteiro Priest sempre sabia exatamente quanto dinheiro havia para troco e no fim do dia podia dizer o total ao Sr. Jenkinson antes dele contar.

 De tanto ouvir o Sr. Jenkinson conversar com os vendedores que apareciam na loja, em pouco tempo ele sabia o preço de atacado e de varejo de cada item existente na loja. Daí em diante, o contador automático existente em seu cérebro calculava o lucro em cada transação e ele ficou assombrado com quanto dinheiro os Jenkinsons conseguiam fazer sem roubar ninguém.

 Arranjou para que a loja fosse roubada quatro vezes em um mês e depois fez uma oferta para comprá-la. Quando negaram, providenciou um quinto assalto e desta vez assegurou-se de que a Sra. Jenkinson levasse uma surra. Dessa vez, então, o Sr. Jenkinson aceitou sua oferta.

 Priest pagou o depósito com um empréstimo feito no agiota do bairro e as prestações com o dinheiro que ganhava com a loja. Embora fosse incapaz de ler ou escrever, sabia sempre com exatidão sua posição financeira. Ninguém conseguia fraudá-lo. Uma vez empregou uma senhora de meia-idade e aparência respeitável que roubava um dólar da máquina registradora a cada dia. No fim da semana deduziu cinco dólares do seu salário, deu-lhe uma surra e disse para que nunca mais aparecesse.

 Ao longo de um ano ele tinha quatro lojas; dois anos mais tarde tinha um atacado de bebidas; em três anos era milionário e no fim do quarto ano transformara-se num fugitivo.

 Às vezes perguntava-se o que podia ter acontecido se tivesse pago tudo ao agiota, fornecido números honestos ao seu contador para fazer a declaração de renda e aceito um acordo com a polícia de Los Angeles por conta das acusações de fraude. Talvez hoje tivesse uma firma tão grande quanto a Coca-Cola e estivesse morando em uma daquelas mansões em Beverly Hills, com um jardineiro, um rapaz encarregado da piscina e cinco carros na garagem.

 Mas ao tentar imaginar esse quadro, sabia que nunca poderia ter acontecido. Não seria ele. O cara que descia a escada da mansão metido num robe branco e que friamente mandava a criada preparar um copo de suco de laranja tinha o rosto de outra pessoa. Priest nunca poderia viver no mundo quadrado. Sempre tivera problemas com regulamentos; jamais pudera obedecer a regras impostas por outras pessoas. Era este o motivo pelo qual se encontrava ali. Aqui no vale eu faço as regras, eu mudo as regras, eu sou as regras.

 Flower disse-lhe que os dedos doíam.

 — Então está na hora de parar — disse Priest. — Se quiser, amanhã ensino outra canção. Se eu ainda estiver vivo.

 — Seus dedos também doem?

 — Não, mas é porque estou acostumado. Depois de praticar um pouco, crescem uns calos nas pontas dos dedos, assim como a pele do calcanhar fica mais grossa.

 — Noel Gallagher tem calos duros nas pontas dos dedos?

 — Se ele for um guitarrista pop...

 — Claro! Ele toca na banda Oasis!

 — Bem, então tem. Você acha que gostaria de ser música?

 — Não.

 — A resposta foi bastante decidida. Você tem alguma outra idéia?

 Ela pareceu culpada, como se soubesse que ele ia desaprovar, mas reuniu toda sua coragem e disse:

 — Quero ser escritora.

 Ele não sabia ao certo como se sentia. Seu pai jamais conseguirá ler o seu trabalho. Mas fingiu entusiasmo.

 — Legal! Que tipo de escritora?

 — Dessas que escrevem em revistas. Tipo Teen, talvez.

 — Por que?

 — Porque você conhece estrelas do cinema e televisão e as entrevista e escreve sobre moda e pintura.

 Priest cerrou os dentes e tentou não demonstrar o nojo que sentia.

 — Bem, de qualquer maneira gosto da idéia de que você possa vir a ser uma escritora. Se vier a escrever poesia e histórias, em vez de artigos para revistas, poderá continuar morando aqui.

 — É sim, talvez — concordou ela, incerta.

 Priest podia ver que ela não planejava passar ali o resto de sua vida. Mas era jovem demais para entender. Quando tivesse idade suficiente para decidir sozinha, teria um ponto de vista diferente. É o que espero.

 Star aproximou-se.

 — Hora da verdade — disse. Priest tirou a guitarra de Flower.

 — Vá se aprontar para dormir agora — disse.

 Ele e Star dirigiram-se para o círculo do estacionamento, deixando o violão na cabana de Song. Encontraram Melanie sentada no banco de trás do `Cuda, ouvindo rádio.

 Vestira uma camiseta amarela e uma calça de brim azul da loja comunitária. Ambas as peças eram grandes demais para ela, que enfiara a camiseta dentro da calça, e a apertara com um cinto, destacando a cintura muito fina. Continuava tão sexy quanto antes.

 John Truth tinha uma voz nasalada que podia tornar-se quase hipnótica. Sua especialidade era dizer em voz alta coisas em que seus ouvintes acreditavam do fundo do coração mas que tinham vergonha de admitir. Basicamente repetia bobagens padronizadas características de porcos fascistas: a AIDS era uma punição para o pecado, a inteligência era herdada racialmente, o que o mundo precisava era de mais disciplina, todos os políticos eram burros e corruptos e coisas do gênero. Priest imaginava que sua audiência compunha-se basicamente de homens brancos e gordos que aprendiam tudo o que sabiam nos bares.

 — Esse cara — disse Star- é tudo o que odeio neste país: preconceituoso, hipócrita, moralista e, na verdade, burro pra cacete.

 — É um fato — concordou Priest. — Vamos ouvir.

 Truth estava dizendo:

 — Vou ler uma vez mais a declaração feita pelo secretário do gabinete do governador, o Sr. Honeymoon.

 Os pêlos da nuca de Priest se eriçaram e Star disse:

 — Aquele filho da mãe! — Honeymoon era o homem por trás do esquema da inundação do vale e eles o odiavam.

 John Truth prosseguiu, falando lenta e ponderadamente, como se cada sílaba fosse significativa.

 — Prestem atenção. "O FBI investigou a ameaça que apareceu num BBS da Internet no dia primeiro de maio. A investigação determinou que não há substância na ameaça."

 O coração de Priest ficou pequenino. Era aquilo mesmo que esperava, mas ao mesmo tempo estava assombrado. Tinha esperado pelo menos o indício qualquer de uma concessão. Honeymoon, contudo, parecia ser completamente intratável. Truth continuou lendo.

 — "O governador Mike Robson, seguindo a recomendação do FBI, decidiu não tomar providências"; esta, meus amigos, foi a declaração em sua totalidade — Truth, é óbvio, achara que a declaração fora ultrajantemente curta. — Estão satisfeitos? O prazo fatal dos terroristas termina amanhã. Vocês se sentem tranqüilizados, caros ouvintes? Telefonem para John Truth agora a fim de dizerem ao mundo o que pensam.

 Priest disse:

 — Isto significa que vamos ter que agir.

 Melanie retrucou:

 — Bem, nunca esperei que o governador fosse ceder sem uma demonstração.

 — Eu também não, acho — ele franziu a testa. — A declaração mencionou o FBI duas vezes. A mim me parece que Mike Robson está se preparando para culpar os federais se as coisas saírem errado. O que me faz pensar se, no fundo do coração, ele não estará meio inseguro.

 — Assim, se lhe dermos uma prova de que realmente somos capazes de causar um terremoto...

 — Talvez ele pense uma segunda vez. Star pareceu deprimida.

 — Que merda! — exclamou. — Acho que eu tinha esperança de que não tivéssemos de fazer isso.

 Priest ficou alarmado. Não queria que Star sentisse medo naquela hora. Seu apoio era necessário para conduzir os outros Comedores de Arroz.

 — Podemos fazer isso sem machucar ninguém — disse. — Melanie escolheu a locação perfeita — ele virou-se para o banco de trás. — Conte para Star o que conversamos.

 Melanie inclinou-se para a frente e desdobrou um mapa para que Star e Priest pudessem vê-lo. Ela não sabia que Priest não era capaz de ler mapas.

 — Aqui está a falha do vale de Owens — disse, apontando uma linha vermelha. — Nele houve importantes terremotos em 1790 e 1812, de modo que outro está por acontecer.

 Star ficou curiosa.

 — Não vai me dizer que os terremotos acontecem segundo uma tabela previsível?

 — Não. Mas a história da falha mostra que se acumula pressão suficiente para um terremoto no decurso aproximado de um século. O que significa que podemos causar um agora se formos para o local correto.

 — E onde é? — indagou Star.

 Melanie indicou um ponto no mapa.

 — Mais ou menos aqui.

 — Você não pode ser exata?

 — Não enquanto eu não chegar lá. Os dados de Michael designam um ponto com aproximação de mil e quinhentos metros, mais ou menos. Quando eu olhar a paisagem, serei capaz de precisar o ponto.

 — Como?

 — Indícios de terremotos anteriores.

 — OK.

 — Agora, a melhor ocasião, segundo a janela sísmica de Michael, será entre uma e meia e duas e vinte.

 — Como você pode ter certeza de que ninguém se machucará?

 — Olha só o mapa. O vale de Owens é escassamente povoado, só umas poucas cidadezinhas ao longo de um leito seco. O ponto que escolhi fica a quilômetros de qualquer habitação.

 Priest acrescentou.

 — Podemos ter certeza de que o terremoto será de pequena intensidade. Os efeitos dificilmente serão sentidos na cidade mais próxima – Priest sabia que aquilo não era certo, da mesma forma que Melanie; mas ele lhe dirigiu um olhar penetrante, e ela, portanto, não o contestou.

 Star disse:

 — Se os efeitos mal serão sentidos, ninguém vai dar a mínima. Por que então nos darmos ao trabalho?

 Ela estava sendo do contra, mas era apenas um sinal de como estava tensa. Priest respondeu:

 — Dissemos que íamos causar um terremoto amanhã. Assim que tivermos conseguido, ligaremos para John Truth pelo telefone celular de Melanie e lhe diremos que cumprimos nossa promessa. Que momento glorioso será esse, que sensação!

 — Ele acreditará em nós?

 — Vai ter que acreditar — respondeu Melanie — quando consultar o sismógrafo.

 — Imagine como o governador Robson e sua gente irão se sentir – Priest podia distinguir a exultação na própria voz. Especialmente aquele panaca do Honeymoon. Vão dizer algo como: "Porra! Esses caras são mesmo capazes de causar terremotos, cara. Que é que nós vamos fazer?"

 — E depois? — quis saber Star.

 — Depois ameaçamos repetir a dose. Mas desta vez não daremos um mês. Daremos a eles uma semana.

 — Como faremos a ameaça? Da mesma maneira que antes?

 Foi Melanie quem respondeu.

 — Acho que não. Tenho certeza de que eles têm um jeito de monitorar a BBS e rastrear o telefonema. E se usarmos uma outra BBS, correremos o risco de ninguém tomar conhecimento da nossa mensagem. Lembrem-se de que se passaram três semanas até que John Truth veio a saber da primeira.

 — Quer dizer então que telefonamos e os ameaçamos com um segundo terremoto.

 Priest interveio.

 — Mas da próxima vez não será numa região remota, e sim num lugar onde possam ser causados danos reais — ele percebeu o olhar apreensivo de Star. — Não precisamos falar a sério — acrescentou. — Uma vez que tivermos mostrado nosso poder, apenas a ameaça terá de ser suficiente.

 Star exclamou:

 — Inshallah — ela aprendera a palavra com Poem, que era argelina. – Se Deus quiser.

 

 Estava escuro como breu quando saíram na manhã seguinte. O vibrador sísmico não fora visto à luz do dia em um raio de cento e cinqüenta quilômetros do vale, e Priest queria que continuasse assim. Planejava sair e voltar no escuro. A viagem de ida e volta somaria cerca de oitocentos quilômetros, onze horas dirigindo um caminhão com a velocidade máxima de setenta quilômetros por hora. Levariam o Cuda como reforço, Priest decidira. Oaktree iria com eles a fim de compartilhar a tarefa de dirigir.

 Priest usou a lanterna para iluminar o caminho por entre as árvores até o local onde o caminhão ficara escondido. Os quatro iam silenciosos, cheios de ansiedade.

 Levaram meia hora para remover os galhos que tinham empilhado em cima do veículo.

 Sentia-se tenso quando finalmente sentou-se atrás do volante, enfiou a chave na ignição e ligou o motor. Funcionou de primeira, com um ronco satisfatório, e ele exultou.

 As casas da comunidade ficavam a uns dois quilômetros, e ele tinha certeza de que ninguém ouviria o motor àquela distância. A floresta densa abafava o barulho. Mais tarde, é claro, todo mundo notaria que quatro membros da comunidade tinham desaparecido. Aneth fora instruída para explicar que eles tinham ido a um parreiral que Paul Beale queria que vissem em Napa, onde fora plantada uma nova videira híbrida. Não eram comuns as viagens para fora da comunidade; mas haveria poucas perguntas, porque ninguém gostava de desafiar Priest.

 Ele acendeu os faróis e Melanie instalou-se ao seu lado. Depois foi só engrenar a primeira, dirigir a pesada viatura por entre as árvores até a trilha de terra, subir a elevação e rumar para a estrada. Os pneus apropriados a qualquer terreno ultrapassaram com facilidade as depressões e as imensas poças d'água.

 Jesus, eu só queria saber se isso vai funcionar. Um terremoto? Deixa isso!

 Mas tem que funcionar.

 Ele pegou a estrada e seguiu na direção leste. Vinte minutos depois tinham saído do vale e chegado na Rota 89. Lá Priest virou para o sul. Verificou nos espelhos e viu que Star e Oaktree ainda estavam atrás, no `Cuda.

 Ao seu lado, Melanie mostrava-se muito calma. Sondando delicadamente, ele perguntou:

 — Dusty estava bem ontem à noite?

 — Ótimo, ele gosta de visitar o pai. Michael sempre conseguiu encontrar tempo para ele, nunca para mim.

 A amargura de Melanie era costumeira. O que surpreendeu Priest foi sua falta de medo. Ao contrário dele, não estava muito preocupada com o que aconteceria com o filho caso morresse hoje. Parecia completamente confiante de que nada sairia errado, que o terremoto não a atingiria.

 Seria por saber mais que Priest? Ou era o tipo de pessoa que simplesmente ignorava os fatos desagradáveis? Priest não sabia ao certo.

 De madrugada eles estavam contornando a extremidade norte do lago Tahoe. A água imóvel parecia um disco de aço polido caído entre as montanhas. O vibrador sísmico era um veículo que se destacava na estrada sinuosa que acompanhava a orla de pinheiros do lago, mas os turistas ainda dormiam e o caminhão foi visto apenas por uns poucos trabalhadores de olhos vermelhos de sono, a caminho de seus empregos nos hotéis e restaurantes.

 Quando o sol raiou eles se encontravam na rodovia federal US 395, do outro lado da fronteira, em Nevada, rodando rumo ao sul por uma planície desértica. Descansaram um pouco numa parada para caminhões, estacionando o vibrador sísmico em um ponto de onde não podia ser visto da estrada, e comeram um desjejum de omeletes gordurosas à moda do oeste e café aguado.

 Quando a estrada entrou de novo na Califórnia, subiu a cadeia de montanhas e por umas duas horas o cenário foi majestoso, com trechos íngremes cobertos de florestas, uma versão maior do vale onde moravam. A parada seguinte foi ao lado de um espelho d'água prateado que Melanie disse ser o lago Mono.

 Logo depois, eles se viram em uma estrada de pista dupla que seguia reta ao longo de um vale comprido e poeirento. O vale foi se alargando até que as montanhas do lado mais distante desapareceram em uma névoa azul no horizonte, depois estreitou-se de novo. O solo de ambos os lados da estrada era bege e pedregoso, com umas touceiras de capim baixo aqui e ali. Não havia rio, mas os trechos lisos do terreno onde o sal se depositara lembravam uma distante superfície de água.

 Melanie disse:

 — Isto aqui é o vale do rio Owens.

 A paisagem deu a Priest a sensação de que um desastre qualquer ocorrera naquela região.

 — O que foi que aconteceu aqui? — perguntou ele.

 — O rio secou porque a água foi desviada para Los Angeles há alguns anos.

 Passavam por uma cidadezinha sonolenta mais ou menos a cada quarenta quilômetros. Agora não havia como passar despercebido. Havia pouco tráfego, e o vibrador sísmico atraía olhares curiosos em cada sinal onde paravam. Muitos homens iam se lembrar dele.

 Sim, eu vi aquele caminhão, sim. Parecia desses que trabalham em asfaltamento ou algo assim. O que era, afinal?

 Melanie ligou o laptop, desdobrou o mapa e disse, em tom de devaneio:

 — Em algum ponto debaixo de nós, duas vastas placas da crosta terrestre estão presas uma na outra, lutando para se livrarem.

 A idéia gelou Priest. Mal podia acreditar que pretendia liberar toda aquela força destruidora. Eu devo estar maluco.

 — Um ponto qualquer nos próximos oito ou dezesseis quilômetros – disse ela.

 — Que horas são?

 — Uma e pouco.

 Tinham conseguido fazer no tempo exato. A janela sísmica se abriria em meia hora e estaria fechada cinqüenta minutos mais tarde.

 Melanie fez Priest pegar uma saída lateral que atravessava o vale. Não chegava a ser uma estrada, só uma trilha aberta no meio da vegetação e dos matacões de pedra. Embora o terreno parecesse quase nivelado, a estrada principal desapareceu de vista às costas deles, que agora viam

apenas a parte de cima dos caminhões altos que passavam.

 — Pare aqui — disse Melanie por fim.

 Priest parou o caminhão e os dois saltaram. O sol os castigou, brilhando em um céu impiedoso. O `Cuda parou logo atrás e Star e Oaktree saltaram, esticando os braços e pernas após a longa viagem.

 — Olha só aquilo ali — disse Melanie. — Está vendo a ravina seca?

 Priest viu onde um curso de água, muito tempo atrás, secara e escavara um canal no solo pedregoso. Mas para onde Melanie apontava, a ravina terminava de forma abrupta, como se tivesse sido represada.

 — Estranho — comentou ele.

 — Agora olhe só uns metros à direita.

 Priest seguiu o dedo dela. O canal escavado pela água começava de novo tão abruptamente quanto terminara e continuava na direção do meio do vale. Priest percebeu o que ela apontava.

 — Aquela é a linha da falha — disse ele. — A última vez em que houve um terremoto, todo um lado do vale deslocou-se lateralmente uns cinco metros e se acomodou de novo.

 — É isso aí — concordou Melanie.

 Oaktree perguntou:

 — E estamos prestes a fazer com que isso aconteça de novo, certo? — havia uma nota de assombro na voz dele.

 — Vamos tentar — disse Priest bruscamente. — E não temos muito tempo — ele se virou para Melanie. — O caminhão está no lugar certo?

 — Acho que sim — respondeu Melanie. — Poucos metros para um lado ou para o outro na superfície não deverão fazer muita diferença oito mil metros abaixo do nível do solo.

 — OK — ele hesitou. Quase sentia que devia fazer um discurso. Disse:

 — Bem, vou começar.

 Entrou na cabina do caminhão e ajeitou-se no banco do motorista. Ligou o motor que fazia o vibrador funcionar. Acionou a alavanca que abaixava a placa de aço até o solo. Colocou o vibrador para sacudir por trinta segundos na freqüência média. Olhava através da janela de trás e verificava os controles. Todas as leituras normais. Por fim, pegou o controle remoto que funcionava por ondas de rádio e saltou do caminhão.

 — Tudo pronto — disse.

 Os quatro entraram no `Cuda. Oaktree assumiu a direção.

 Voltaram até a estrada, cruzaram-na e se enfiaram no meio dos arbustos do lado mais distante. Subiram mais ou menos a metade da encosta e, por fim, Melanie disse:

 — Aqui está bom.

 Oaktree parou o carro.

 Priest esperava que não estivessem chamando a atenção de quem passasse na estrada. Se fossem vistos de lá, não havia nada que pudesse fazer.

 Mas as cores esmaecidas da pintura lateral do `Cuda se misturavam bem com a paisagem cor de terra. Oaktree estava nervoso.

 — Estamos bastante longe?

 — Acho que sim — respondeu Melanie friamente. Ela não estava nem um pouco amedrontada. Ao contrário, examinando-lhe o rosto, Priest reconheceu um indício de louca excitação em seus olhos. Uma coisa quase sexual. Estaria se vingando dos sismólogos que a tinham rejeitado, ou do marido que a desapontara ou do maldito mundo? Qualquer que fosse a explicação, estava se excitando enormemente com o que fazia.

 Saltaram e se detiveram, contemplando o vale. Podiam ver apenas a parte de cima do caminhão.

 Star dirigiu-se a Priest:

 — Foi um erro nós dois virmos. Se morrermos, Flower ficará sem ninguém.

 — Ela tem toda a comunidade — retrucou Priest. — Você e eu não somos os únicos adultos que ela ama e em quem confia. Não somos uma família nuclear, e aí está uma boa razão para não sermos.

 Melanie pareceu aborrecida.

 — Estamos a uns quinhentos metros da falha, presumindo que ela corra pela calha do vale — disse, num tom de voz que os advertia para porem um ponto final naquele papo furado. — Vamos sentir a terra se deslocar, mas não correremos perigo. As pessoas que se ferem em terremotos geralmente são as atingidas por partes de construções: tetos que caem, pontes que desmoronam, vidros que voam, coisas desse gênero. Estaremos seguros aqui.

 Star olhou para trás, por cima do ombro.

 — A montanha não vai cair em cima de nós?

 — Pode ser. Da mesma maneira que todos nós podemos morrer em um acidente no trajeto de volta para Silver River. Mas é tão improvável que não deveríamos perder tempo com isso.

 — E fácil para você dizer — o pai do seu filho está a quinhentos quilômetros de distância, em San Francisco.

 Priest disse:

 — Não me importo se morrer aqui. Não posso criar meus filhos nos subúrbios ricos deste país.

 Oaktree resmungou:

 — Isto tem que dar certo. Simplesmente tem que dar certo.

 — Pelo amor de Deus, Priest, não temos o dia inteiro. Aperte logo o maldito botão — ordenou Melanie.

 Priest olhou para os dois lados da estrada e esperou que um Jeep Grand Cherokee Limited verde-escuro passasse.

 — OK — disse, quando a estrada ficou vazia. — É isso aí.

 E apertou o botão do controle remoto.

 Ele ouviu o ronco do vibrador imediatamente, embora amortecido pela distância. Sentiu também a vibração nas solas dos pés, uma sensação muito tênue, mas definida, de que o chão tremia.

 — Oh, Deus! — exclamou Star.

 Uma nuvem de fumaça formou-se em torno do caminhão.

 Os quatro estavam tensos como cordas de um violão, na expectativa do primeiro sinal de que a terra se movimentava. Passaram-se alguns segundos.

 Os olhos de Priest vasculharam a paisagem, procurando sinais do tremor, embora achasse que o sentiria antes de vê-lo. Vamos, vamos!

 As turmas de exploração sísmica normalmente regulam o vibrador para uma "varredura" de sete segundos. Priest preferira que aquela durasse trinta segundos. Pareceu decorrer uma hora.

 Finalmente o ruído cessou.

 Melanie exclamou:

 — Que droga!

 O coração de Priest contraiu-se. Não havia terremoto.

 Falhara. Talvez fosse apenas uma idéia maluca de hippies, como fazer o Pentágono levitar.

 — Tente de novo — disse Melanie.

 Priest olhou para o controle remoto na sua mão. Por que não?

 Havia um caminhão de dezesseis rodas aproximando-se pela US 395, mas desta vez Priest não esperou. Se Melanie estivesse certa, o caminhão não seria afetado pelo tremor. Se Melanie estivesse enganada, todos eles morreriam.

 Apertou o botão.

 O roncar distante teve início, houve uma vibração perceptível no solo e uma nuvem de poeira escondeu o vibrador sísmico.

 Priest perguntou-se se a estrada não iria se abrir sob o caminhão de dezesseis rodas.

 Nada aconteceu.

 Os trinta segundos decorreram mais rapidamente desta vez. Priest ficou surpreso quando o barulho parou. É só isso?

 O desespero o dominou. Talvez a comunidade deles fosse um sonho que tivesse chegado ao fim. O que é que eu vou fazer? Onde vou morar? Como posso evitar ter um fim igual ao de Bones?

 Mas Melanie não estava pronta para desistir.

 — Vamos deslocar o caminhão um pouco e tentar de novo.

 — Mas você disse que a posição exata não importava. "Poucos metros para um lado ou para o outro na superfície não deverão fazer muita diferença a oito mil metros abaixo do nível do solo", foi o que você disse.

 — Então nos deslocaremos mais alguns poucos metros retrucou Melanie, furiosa. — O tempo está acabando, vamos!

 Priest não discutiu. Ela estava transformada. Normalmente era dominada por ele. Era uma mocinha em perigo, ele a salvara e ela tão agradecida por isso tinha de ser eternamente submissa à sua vontade. Mas agora era Melanie quem estava por cima, impaciente e dominadora. Priest podia tolerar isto desde que ela fosse capaz de fazer o que prometera. Depois a colocaria na linha de novo.

 Entraram no `Cuda e venceram rapidamente a distância que os separava do vibrador sísmico. Então, Priest e Melanie subiram na cabina e ela foi dando as instruções enquanto ele dirigia, com Oaktree e Star seguindo de carro. Não foram mais pela trilha, e sim cortando caminho direto através da vegetação. As enormes rodas do caminhão esmagavam os arbustos e rolavam com facilidade por cima das pedras, mas Priest temia que o `Cuda, que era um carro baixo, pudesse ficar danificado. Achou que Oaktree iria buzinar se tivesse algum problema.

 Melanie examinou a região em busca de algo que indicasse onde corria a linha da falha. Priest não viu mais leitos de cursos de água deslocados. Mas uns quinhentos metros depois, Melanie apontou para o que parecia uma mini-escarpa, com cerca de um metro e meio de altura.

 — Conseqüência da falha — disse ela. — Terá uns cem anos de idade.

 — Estou vendo — confirmou Priest.

 Havia uma parte côncava na base, lembrando uma tigela; e uma falha irregular na orla da tigela mostrava onde a terra se deslocara lateralmente, como se tivesse havido uma rachadura depois colada desajeitadamente.

 — Vamos tentar aqui — disse Melanie.

 Priest parou o caminhão e arriou o prato. Rapidamente ele verificou de novo os medidores e ajustou o vibrador. Desta vez programou uma varredura de sessenta segundos.

 Quando tudo estava pronto saltou do caminhão.

 Consultou o relógio, ansioso. Duas horas. Restavam apenas vinte minutos.

 Mais uma vez atravessaram com o `Cuda a US 395 e subiram a colina do outro lado. Os motoristas dos poucos veículos que passavam continuavam a ignorá-los. Mas Priest estava nervoso. Mais cedo ou mais tarde alguém perguntaria o que faziam ali. Não queria ter que se explicar a um policial curioso ou a algum vereador abelhudo. Tinha pronta uma história plausível, de uma pesquisa universitária sobre a geologia do leito seco do rio, mas não queria que ninguém se lembrasse do seu rosto.

 Todos saltaram do carro e dirigiram os olhares para o outro lado do vale, perto da escarpa que marcava a falha, onde tinha ficado o vibrador sísmico. Priest desejou de todo o coração que desta vez ele visse a terra se mover e se abrir. Vamos, Deus — me faça esse favor, está bem? Apertou o botão.

 O caminhão roncou, a terra tremeu ligeiramente e a poeira subiu. A vibração prosseguiu por todo um minuto, em vez de trinta segundos. Mas não houve terremoto. A diferença foi que esperaram mais tempo para se desapontarem. Quando o barulho cessou, Star disse:

 — Isso não vai dar certo, vai?

 Melanie dirigiu-lhe um olhar furioso e virou-se para Priest:

 — Você pode alterar a freqüência das vibrações?

 — Posso — respondeu ele. — Deixei ajustado um valor mediano, de modo que posso subir ou descer. Por quê?

 — Há uma teoria que diz que o tom em que é produzida a vibração pode ser um fator crucial. A terra ressoa constantemente com todos os tipos de vibrações. Por que então não há terremotos o tempo todo? Talvez porque a vibração tenha que ser no tom exato necessário para desalojar as placas da falha. Sabe como uma nota musical pode espatifar um cálice?

 — Nunca vi acontecer, exceto em um desenho animado, mas sei o que você quer dizer. A resposta é sim. Quando o vibrador é usado em explorações sísmicas, eles variam a freqüência da vibração numa varredura de sete segundos.

 — É mesmo? — Melanie ficou curiosa. — Por quê?

 — Não sei. Talvez porque melhore a leitura dos geofones. De qualquer forma, não me pareceu a coisa certa para nós, por isso não selecionei esse recurso, mas é possível.

 — Vamos tentar.

 — OK — mas precisamos nos apressar. Já são duas e cinco. Eles pularam no carro. Oaktree dirigiu depressa, derrapando na areia do deserto.

 Priest reconfigurou os comandos do vibrador para uma varredura de freqüência crescente num período de sessenta segundos. Quando voltaram correndo para o ponto de observação, consultou o relógio de novo.

 — Duas e quinze — disse. — É a nossa última chance.

 — Não se preocupe — disse Melanie. — Acabou o meu estoque de idéias.

 Se isto não funcionar, eu desisto.

 Oaktree parou o carro e eles saltaram de novo.

 A idéia de voltar até Silver River sem nada para comemorar deprimiu Priest tão profundamente que ele pensou que seria melhor bater com o caminhão na estrada e terminar com tudo. Talvez fosse esta a sua saída.

 Gostaria de saber se Star ia querer morrer com ele. Posso ver a cena: nós dois, uma overdose de analgésicos, uma garrafa de vinho para engolir as pílulas...

 — O que é que você está esperando? — perguntou Melanie. — São duas e vinte. Aperte o maldito botão!

 Priest apertou o botão.

 Como antes, o caminhão roncou, o chão tremeu e uma nuvem de poeira se levantou da terra ao redor da placa de aço do vibrador. Mas desta vez o ronco não permaneceu no mesmo tom moderado: começou em um tom muito grave e foi ascendendo gradualmente. Aí aconteceu.

 A terra debaixo dos pés de Priest pareceu ondular como um mar agitado. Depois ele sentiu como se alguém tivesse segurado suas pernas e o derrubado. Caiu de costas na horizontal, batendo com força no chão. Chegou a perder o fôlego.

 Star e Melanie gritaram ao mesmo tempo. Melanie deu um grito agudo e Star um urro de espanto e medo. Priest viu as duas caírem, Melanie junto dele e Star a uns passos de distância. Oaktree balançou, continuou de pé, mas acabou caindo.

 Priest permaneceu silenciosamente apavorado. Consegui, acabou, vou morrer. Houve um barulho como o de um trem expresso passando bem junto deles. Soltou-se uma nuvem de poeira do solo; pequenos seixos voaram pelo ar e os matacões de pedra rolaram em todos os sentidos.

 O solo continuou a se mover como se alguém tivesse segurado a ponta de um tapete e não parasse de sacudir. O efeito geral era uma sensação inacreditavelmente desorientadora, como se o mundo tivesse se tornado, de repente, um lugar completamente estranho. Apavorante. Eu não estou pronto para morrer.

 Priest conseguiu recuperar o fôlego e ajoelhar-se. Depois, quando conseguiu pôr a sola de um pé no chão, Melanie agarrou-o pelo braço e o puxou de novo para baixo.

 Ele gritou com ela:

 — Largue-me sua filha da puta burra! — mas nem ele pôde ouvir a própria voz.

 O solo subiu e o lançou colina abaixo, para longe do carro. Melanie caiu em cima dele. Priest achou que o carro podia virar por cima dos dois, e tentou rolar para fora da trilha dele. Não podia ver Star ou Oaktree. Um graveto passou voando e bateu no seu rosto arranhando-o. A poeira o cegou momentaneamente e ele perdeu todo o senso de direção. Encolheu-se, formando uma bola, cobrindo o rosto com os braços e esperou pela morte.

— Cristo, se vou morrer, queria morrer na companhia da Star.

 As sacudidelas pararam tão repentinamente quanto tinham começado. Não fazia idéia se haviam durado dez segundos ou dez minutos. Um momento depois o barulho cessou por completo. Priest esfregou os olhos e se levantou. Sua visão foi clareando lentamente. Viu Melanie a seus pés. Estendeu a mão e puxou-a.

 — Você está bem? — perguntou.

 — Acho que sim — replicou ela, trêmula.

 A poeira no ar foi diminuindo e ele viu Oaktree se levantando, meio sem firmeza. Onde estaria Star? Só então a viu a alguns metros de distância. Estava deitada de costas com os olhos fechados. O coração dele confrangeu-se. Morta não, por favor, Deus, morta não. Ajoelhou-se ao lado dela.

 — Star! — exclamou, nervoso. — Você está bem?

 Ela abriu os olhos.

 — Jesus — disse -, aquilo foi uma explosão!

 Priest sorriu, contendo as lágrimas de alívio. Ajudou-a a se levantar.

 — Estamos todos vivos — disse ele.

 A poeira estava assentando depressa. Do outro lado do vale, era possível ver o caminhão. De pé e aparentemente intocado. A poucos metros dele havia uma grande fenda no solo, que corria na direção norte-sul pelo meio do vale, estendendo-se tão longe quanto ele podia ver.

 — Bem, macacos me mordam — disse ele baixinho. — Olha só para aquilo.

 — Funcionou — respondeu Melanie.

 — Conseguimos — disse Oaktree. — Porra, nós causamos um filho da puta de um terremoto!

 Priest sorriu para todos eles.

 — É verdade! — confirmou.

 Ele beijou Star, e depois Melanie; em seguida Oaktree beijou ambas e por fim Star beijou Melanie.

 Todos riram. Então Priest começou a dançar. Foi uma espécie de dança índia , ali no meio do vale fraturado, as botas chutando a poeira recém-depositada. Star veio se juntar a ele, e depois Melanie e Oaktree e os quatro rodaram e rodaram em círculo, gritando e berrando e rindo

até que seus olhos se encheram de lágrimas.

 

 Judy Maddox voltava de carro para casa em uma sexta-feira no final da pior semana da sua carreira no FBI. Não podia imaginar o que fizera para merecer aquilo. Tudo bem, gritara com seu chefe, mas ele fora hostil com ela antes, de modo que tinha que haver outra razão. Fora a Sacramento na véspera com a intenção de fazer o Bureau parecer eficiente e competente, e acabara dando uma impressão de confusão e impotência. Sentia-se frustrada e deprimida.

 Nada de bom lhe acontecera desde o encontro com Al Honeymoon. Ligara para professores de sismologia e os entrevistara pelo telefone. Perguntava se o professor estava trabalhando em locações de pontos críticos nas linhas que demarcavam as falhas nas placas tectônicas. Em caso afirmativo, quem mais tinha acesso a esses dados? E alguma dessas pessoas teria por acaso conexões com grupos terroristas?

 Os cientistas não tinham ajudado muito. Os professores de hoje tinham sido estudantes nos anos 60 e 70, quando o FBI pagara a todos os canalhas existentes nos campi universitários para espionar os movimentos de protesto. Fora há muito tempo, mas eles não tinham esquecido. Para eles o Bureau era o inimigo. Judy compreendia como se sentiam, mas gostaria que não fossem nem passivos nem agressivos com agentes que trabalhavam em prol do interesse público.

 O prazo fatal do Martelo do Éden terminava hoje, e não tinha havido terremoto. Judy sentia-se profundamente aliviada, muito embora isto significasse que errara ao encarar seriamente a ameaça. Talvez tudo terminasse assim. Disse a si própria que teria um fim de semana repousante. O tempo estava maravilhoso, ensolarado e quente. Hoje à noite faria galinha frita para Bo e abriria uma garrafa de vinho. Amanhã tinha que ir ao supermercado, mas no domingo podia pegar o carro e subir a costa até a baía de Bodega e sentar na praia, lendo um livro como uma pessoa normal. Na segunda-feira provavelmente lhe dariam nova missão. Talvez pudesse começar tudo ; de novo. Pensou se valeria a pena telefonar para sua amiga Virgínia para ver se ela queria ir à praia.

 Ginny era sua amiga mais antiga. Também filha de policial e da mesma idade que Judy, era diretora de vendas de uma firma de segurança. Mas Judy sabia que não era companhia feminina que queria. Seria ótimo deitar na praia ao lado de alguém com as pernas cabeludas e voz grave. Fazia um ano que brigara com Don: era o período de tempo mais longo que ficava sem um amante desde a adolescência. Na faculdade fora um tanto desregrada, quase promíscua; quando trabalhara numa companhia de seguros, a Mutual American Insurance, tivera um caso com o chefe; depois vivera com Steve Dolen por sete anos e quase se casara com ele. Pensava com freqüência em Steve. Era atraente, inteligente e bom — bom demais, talvez, porque no fim começara a vê-lo como um fraco. Talvez quisesse o impossível. Talvez todos os homens educados e atenciosos fossem mesmo fracos, e todos os fortes, como Don Riley, terminassem transando com suas secretárias.

 O telefone do carro tocou. Não precisava levantar o aparelho. Após dois toques o sistema de viva-voz era acionado automaticamente.

 — Alô — disse ela. — Aqui é Judy Maddox.

 — E aqui é o seu pai.

 — Oi, Bo. Vai jantar em casa? Podíamos comer...

 Ele a interrompeu.

 — Liga o rádio do carro, depressa — disse. — Sintoniza no John Truth.

 Cristo, o que era agora? Judy acionou o botão do rádio. Entrou uma estação que tocava rock. Pressionou o botão onde estava pré-sintonizada a estação de San Francisco que transmitia John Truth Live. O sotaque nasalado dele encheu o carro.

 John Truth estava falando do modo dramático exagerado, que usava para sugerir que o que tinha a dizer era terrivelmente importante.

 — O Departamento de Sismologia do estado da Califórnia acaba de confirmar que houve um terremoto hoje — exatamente no dia em que o Martelo do Éden prometeu que faria a terra tremer. O terremoto teve lugar vinte minutos depois das duas horas da tarde em Owens Valley, exatamente como disse o Martelo do Éden no telefonema dado para este programa há poucos minutos.

 Meu Deus — eles fizeram o que prometeram.

 Judy sentiu-se eletrizada. Esqueceu sua frustração e a depressão desvaneceu- se. Sentia-se viva de novo.

 John Truth continuou falando:

 — Mas o mesmo sismólogo do estado negou que este ou qualquer outro terremoto possa ter sido causado por um grupo terrorista.

 Seria verdade? Judy tinha que saber. O que outros sismólogos pensariam? Tinha que dar uns telefonemas. Depois ouviu John Truth dizer:

 — Em mais um momento tocaremos uma gravação da mensagem deixada pelo Martelo do Éden.

 Uma fita com a voz deles!

 Com isto os terroristas talvez tivessem cometido um erro crucial. Podiam não saber, mas uma voz gravada em fita seria capaz de fornecer uma massa de informações quando analisada por Simon Sparrow.

 Truth prosseguiu.

 — Enquanto isso, o que é que você pensa? Acredita no sismólogo do governo? Ou acha que ele está fingindo não ter medo, como quem passa assobiando pela calçada do cemitério? Talvez você seja sismólogo e tenha uma opinião sobre as possibilidades técnicas do caso. Ou, quem sabe, não passa de um cidadão preocupado, que acha que as autoridades deveriam estar tão preocupadas quanto você. Telefone para John Truth Live agora neste número e diga ao mundo o que pensa. Entrou um comercial de uma casa de móveis e Judy reduziu o volume.

 — Ainda está aí, Bo?

 — Claro.

 — Eles conseguiram, não foi?

 — Com certeza parece que sim.

 Ela gostaria de saber se o pai estava sendo sinceramente desconfiado ou se só queria ser cauteloso.

 — O que diz o seu instinto?

 Ele deu outra resposta ambígua:

 — Que essas pessoas são muito perigosas.

 Judy tentou acalmar o coração em disparada e concentrar-se no que devia fazer em seguida.

 — Acho melhor ligar para Brian Kincaid...

 — O que é que você vai dizer a ele?

 — A notícia... Espere um minuto — Bo estava querendo demonstrar algo.

 — Você não acha que eu deva ligar para ele.

 — Acho que você só deve telefonar para o seu chefe quando puder lhe dizer algo que ele não possa escutar no rádio.

 — Você está certo — Judy se sentiu mais calma quando começou a avaliar as possibilidades. — Acho que vou voltar para o trabalho — ela fez uma curva para a direita.

 — OK. Estarei em casa dentro de mais ou menos uma hora. Telefone se quiser comer qualquer coisa.

 Ela sentiu uma onda de afeição por ele.

 — Obrigada, Bo. Você é um pai maravilhoso. Ele riu.

 — E você também é uma filha ótima. Até logo mais.

 — Até logo — ela pressionou o botão que encerrava a ligação e em seguida aumentou o volume do rádio.

 Ouviu uma voz baixa e sexy falando:

 — Aqui é o Martelo do Éden com uma mensagem para o governador Mike Robson.

 A imagem que lhe veio à cabeça foi de uma mulher madura, com seios grandes e sorriso largo, simpática mas nada convencional.

 Será o meu inimigo?

 O tom mudou e a mulher murmurou.

 — Que merda, eu não esperava ter que falar num gravador.

 Ela não é o cérebro organizacional por trás de tudo isso. É bruta demais. Está recebendo instruções de outra pessoa.

 A mulher retomou a voz formal e continuou:

 — Conforme prometemos, causamos um terremoto hoje, quatro semanas depois da nossa última mensagem. Aconteceu no Owens Valley pouco depois das duas horas, como podem verificar.

 Um distante barulho ao fundo fez com que hesitasse. O que fora aquilo? Simon descobrirá.

 Um segundo mais tarde ela prosseguia:

 — Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos. Agora que sabe que somos capazes de fazer o que dizemos, é melhor pensar de novo na nossa exigência. Anuncie a cessação da construção de novas usinas elétricas na Califórnia. Tem sete dias para se decidir.

 Sete dias! A última vez nos deram quatro semanas.

 — Após esse tempo causaremos outro terremoto. Só que o próximo não será em um lugar desabitado, no meio do nada. Se formos obrigados, causaremos prejuízos reais.

 Uma escalada cuidadosamente calculada da ameaça. Jesus, essas pessoas me amedrontam.

 — Não gostamos disso, mas é o único jeito. Por favor, faça o que pedimos, para que este pesadelo possa terminar.

 John Truth retomou o microfone.

 — O que acabaram de ouvir foi a voz do Martelo do Éden, o grupo que afirma ter desencadeado o terremoto que sacudiu o vale Owens hoje.

 Judy precisava daquela fita. Reduziu o volume de novo e discou o número da casa de Raja. Ele era solteiro. Podia desistir da noite de sexta-feira.

 Quando ele atendeu, ela disse:

 — Oi, aqui é a Judy.

 Ele respondeu imediatamente:

 — Não posso, tenho bilhetes para a ópera!

 Ela hesitou e decidiu aceitar a brincadeira.

 — Qual ópera?

 — Bem... O casamento de Macbeth.

 Judy conteve uma risada.

 — De Ludwig Sebastian Wagner?

 — Exato.

 — Não existe essa ópera, nem esse compositor. Você vai trabalhar hoje à noite.

 — Droga.

 — Por que não inventou um grupo de rock? Eu teria acreditado em você.

 — Eu sempre me esqueço da sua idade.

 Ela riu. Raja tinha vinte e seis anos, Judy trinta e seis.

 — Vou considerar isso como um cumprimento.

 — Qual é a missão? — ele não pareceu relutante.

 Judy voltou a falar sério.

 — OK, aqui vai. Houve um terremoto na região oriental do estado nesta tarde, e o Martelo do Éden afirma ser o autor do fenômeno.

 — Uau! Talvez esses caras existam, afinal! — ele parecia mais satisfeito do que assustado. Era jovem e inteligente, mas não pensou nas implicações.

 — John Truth acaba de reproduzir uma mensagem gravada pelos terroristas. Preciso que você vá à estação de rádio e consiga a fita.

 — Estou a caminho.

 — Certifique-se de que consegue a original, e não uma cópia. Se quiserem engrossar, diga que conseguimos um mandado judicial em menos de uma hora.

 — Ninguém engrossa comigo. Sou o Raja, lembra? Era verdade. Ele era um sedutor.

 — Depois leve a fita a Simon Sparrow e diga a ele que vou precisar de qualquer coisa pela manhã.

 — Deixa comigo.

 Ela desligou o telefone e aumentou o volume do programa de John Truth de novo. Ele estava dizendo:

—  ... um pequeno terremoto, aliás, entre grau cinco e seis de magnitude.

 Como diabos eles conseguiram fazer isso?

 — Nenhum ferido, nenhum dano a casas ou outras propriedades, mas um tremor que foi indubitavelmente sentido pelos residentes de Bishop, Bigpine, Independence e Lone Pine.

 Algumas dessas pessoas devem ter visto os terroristas nas últimas horas, ponderou Judy. Tinha que ir para lá e começar a interrogá-las o mais cedo possível.

 Onde exatamente fora o terremoto? Precisava falar com um perito. A escolha óbvia era o sismólogo do estado. Ele, no entanto, parecia ter a mente fechada. Já declarara de antemão a impossibilidade do terremoto ter sido causado pela mão do homem. Aquilo a irritava. Queria uma pessoa que estivesse disposta a raciocinar sobre todas as possibilidades. Pensou em Michael Quercus. Ele podia ser um pé no saco, mas não tinha medo de especular. Além do mais ficava logo ali, do outro lado da baía, em Berkeley, enquanto que o sismólogo do Estado tinha sede em Sacramento.

 Se aparecesse lá sem marcar a entrevista, se recusaria a atendê-la. Judy suspirou e discou o número dele.

 Por um momento não houve resposta, e ela pensou que ele tivesse saído. Atendeu após seis toques.

 — Quercus — disse, parecendo aborrecido com a interrupção.

 — Aqui é Judy Maddox, do FBI. Preciso falar com você. É urgente e eu gostaria de ir para a sua casa imediatamente.

 — Fora de questão. Estou com uma outra pessoa.

 Eu devia ter imaginado que seria difícil.

 — Quem sabe depois que o seu encontro terminar?

 — Não é um encontro, e só vai acabar no domingo.

 É, tudo bem. Ele estava com uma mulher, pensou Judy. Só que lhe dissera quando se conheceram que não andava vendo ninguém. Por uma razão qualquer ela se lembrava exatamente de suas palavras: "Estou separado de minha mulher e não tenho namorada." Talvez tivesse mentido. Ou podia ser uma pessoa nova mesmo que não parecesse, já que esperava que ela ficasse o fim de semana. Por outro lado, Michael era arrogante o suficiente para presumir que uma garota fosse para a cama com ele no primeiro encontro, da mesma forma que também era atraente o bastante para que muitas garotas provavelmente fossem mesmo. Não sei por que estou tão interessada em sua vida amorosa.

 — Você ouviu o rádio? — perguntou. — Houve um terremoto, e o grupo terrorista sobre o qual falamos afirma ter sido o causador.

 — É mesmo? — ele pareceu intrigado, a despeito de si próprio. – E estão falando a verdade?

 — É isso que preciso discutir com você.

 — Entendo.

 Vamos, seu filho da mãe teimoso — ceda, pelo menos uma vez na vida.

 — É realmente importante, professor.

 — Gostaria de ajudá-la... mas realmente não é possível esta noite... Não, espera. — A voz dele ficou abafada quando cobriu o bocal com a mão, mas assim mesmo Judy conseguiu distinguir as palavras. — Ei, quer conhecer uma agente do FBI de verdade? — não foi possível ouvir a resposta, mas após um momento ele lhe disse: — OK, minha visita gostaria de conhecer você. Venha.

 Ela não gostou da idéia de desfilar como uma espécie de mulher barbada do circo, mas àquela altura não ia dizer isso.

 — Obrigada, estarei aí em vinte minutos — concluiu, desligando o telefone.

 Enquanto percorria a ponte, ia refletindo que nem Raja nem Michael tinham parecido amedrontados. Raja ficara entusiasmado. Michael, intrigado. Ela, também, sentia-se revigorada com o súbito renascimento do seu caso; mas quando lembrou do terremoto de 1989 e das cenas mostradas pela televisão das equipes de salvamento trazendo os corpos das pessoas mortas no desmoronamento do elevado duplo da Nimitz Freeway, ali mesmo em Oakland, e considerou a possibilidade de um grupo terrorista ter como provocar aquilo, sentiu o coração frio e apertado.

 Para espairecer, tentou adivinhar como seria a namorada de Michael Quercus. Tinha visto o retrato da esposa dele, uma ruiva com corpo de supermodelo e olhar distante. Ele parece gostar do exótico. Mas tinham rompido, de modo que ela talvez não fosse o seu tipo de mulher. Judy podia vê-lo na companhia de uma professora, de óculos de aro fino, desses que estão na moda, cabelo curto bem cortado e sem pintura. Só que, por outro lado, esse tipo de mulher não atravessaria sequer a rua para conhecer uma agente do FBI. O mais provável era que ele tivesse pegado uma garota burrinha mas sexy, capaz de se impressionar facilmente. Judy visualizou uma garota de roupa justa, fumando e mascando goma ao mesmo tempo, dando uma olhada no apartamento dele e perguntando: Você leu mesmo todos esses livros?

 Não sei por que estou tão obcecada com a sua namorada quando tenho tantas outras coisas com que me preocupar.

 Parou o carro debaixo do mesmo pé de magnólia. Tocou a campainha do apartamento de Michael, que abriu o fecho elétrico da porta da rua e foi esperá-la na porta descalço, com uma aparência agradável típica de fim de semana: calça-jeans azul e camiseta branca. Uma garota podia se divertir um bocado se passasse um fim de semana transando com ele. Seguiu-o até o escritório que servia ao mesmo tempo de sala de estar.

 Ali, para seu espanto, viu um garotinho de seus cinco anos, a cara cheia de sardas e os cabelos louros, vestindo um pijama estampado de dinossauros. Bastou um momento para reconhecê-lo como sendo a criança cuja foto estava na escrivaninha. O filho de Michael. Era ele o seu convidado para o fim de semana. Sentiu vergonha por ter imaginado uma loura burra. Fui um pouco injusta com você, professor.

 Michael fez a apresentação:

 — Dusty, conheça a agente especial Judy Maddox.

 O menino apertou-lhe polidamente a mão e perguntou:

 — Você trabalha mesmo no FBI?

 — Sim, trabalho.

 — Uau!

 — Quer ver meu crachá? — ela pegou o escudo na bolsa a tiracolo e deu para ele. O menino o segurou reverentemente.

 Michael disse:

 — Dusty gosta de assistir Os Arquivos X. Judy sorriu.

 — Não trabalho no Departamento de Espaçonaves Alienígenas. Só faço é prender criminosos comuns aqui da Terra mesmo.

 — Posso ver sua arma?

 Judy hesitou. Sabia que meninos são fascinados por armas, mas não gostava de encorajar esse interesse. Olhou para Michael, que deu de ombros. Desabotoou o casaco e tirou a arma do coldre de ombro.

 Ao fazê-lo, surpreendeu Michael de olho nos seus seios, e sentiu um súbito frêmito sexual. Agora que ele não estava mal-humorado, era um homem atraente, com os pés descalços e a camiseta para fora da calça.

 Ela disse:

 — Armas são muito perigosas, Dusty, por isso eu vou ficar segurando, mas você pode olhar.

 A expressão de Dusty olhando para a pistola foi a mesma do pai quando ela abriu o casaco. O pensamento fez com que risse.

 Após um minuto Judy recolocou a pistola no coldre. Dusty disse, com caprichada polidez:

 — Nós íamos comer um pouco de Capn Crunch. Você gostaria de nos fazer companhia?

 Judy estava impaciente para interrogar Michael, mas sentiu que seria mais proveitoso se fosse paciente e aceitasse o jogo de Dusty.

 — É muita gentileza sua — disse. — Estou com fome e adoraria comer um pouco de Cap'n Crunch.

 — Vamos para a cozinha.

 Os três se sentaram à mesa forrada de plástico na pequena cozinha e comeram cereal e leite em alegres tigelas de cerâmica azul. Judy deu-se conta de que estava com fome; já era bem tarde.

 — Meu Deus — exclamou ela — eu tinha esquecido como Cap'n Crunch era bom!

 Michael riu. Judy ficou assombrada com a diferença que observou nele. Estava amável e relaxado. Parecia uma pessoa diferente do sujeito rancoroso que a obrigara a voltar para o escritório e marcar uma entrevista pelo telefone. Começava a gostar do professor Michael Quercus.

 Depois que comeram, Michael foi preparar Dusty para dormir. Dusty perguntou ao pai:

 — A agente Judy pode me contar uma história?

 Judy conteve a impaciência. Tenho sete dias. Posso esperar mais cinco minutos. Ela disse:

 — Acho que seu pai vai querer contar uma história para você, Dusty, porque ele não faz isso com a freqüência que gostaria.

 — Está tudo bem — disse Michael com um sorriso. — Eu escuto.

 Os três foram para o quarto de dormir.

 — Não sei muitas histórias, mas me lembro de uma que mamãe costumava me contar — disse Judy. — É a lenda do dragão bonzinho. Gostaria de ouvir?

 — Sim, por favor — pediu Dusty.

 — Também quero — ecoou Michael.

 — Era uma vez, muito, mas muito tempo atrás, um dragão bonzinho que vivia na China, de onde são todos os dragões. Um dia o dragão bonzinho saiu passeando sem rumo. Passeou tanto e foi tão longe que saiu da China e se perdeu numa terra selvagem.

 — Após muitos dias perdido, ele chegou em outro país, bem mais ao sul, e que era o lugar mais bonito que o dragão bonzinho já vira, com florestas, montanhas e vales férteis, e rios onde ele podia tomar banho e chapinhar na água. Havia bananeiras e amoreiras carregadas de frutos maduros. O tempo era sempre quente com uma brisa agradável.

 — Mas havia uma coisa errada. Era uma terra vazia. Ninguém vivia lá: nem gente nem dragões. Assim, embora o dragão bonzinho adorasse sua nova terra, sentiu-se tremendamente solitário.

 — No entanto, ele não sabia o caminho de volta para casa, de modo que vagava de um lado para outro, procurando alguém que lhe fizesse companhia. Finalmente, num dia de sorte, encontrou a única pessoa que vivia ali — uma princesa que também era fada. Era tão bonita que se apaixonou por ela imediatamente. A princesa também se sentia muito só e embora o dragão fosse feio, tinha um coração bondoso e ela o desposou.

 — O dragão bonzinho e a fada princesa se amaram muito e tiveram uma centena de filhos. Todos bravos e bondosos como o pai-dragão e lindos como a mãe-fada.

 — O dragão e a fada cuidaram dos filhos até que todos cresceram. Aí, de repente, desapareceram. Foram viver em amor e harmonia no mundo dos espíritos por toda a eternidade. E seus filhos tornaram-se o bravo, lindo e bondoso povo do Vietnã. A terra onde minha mãe nasceu. Dusty estava de olhos arregalados.

 — É verdade?

 Judy sorriu.

 — Eu não sei, talvez seja.

 — De qualquer maneira, é uma bela história — disse Michael. Ele deu um beijo de boa noite em Dusty.

 Quando Judy saiu do quarto, ouviu Dusty cochichar.

 — Ela é mesmo legal, não é?

 — É — respondeu Michael.

 De volta à sala, Michael agradeceu:

 — Obrigado. Você foi ótima com ele.

 — Não foi nada difícil. Ele é encantador. Michael fez que sim.

 — Saiu à mãe. Judy sorriu.

 Michael também sorriu e comentou:

 — Noto que você não questionou o que eu disse.

 — Não conheço sua esposa. No retrato ela é linda.

 — Ela é linda. E infiel.

 Foi uma confidência inesperada, vinda repentinamente de um homem que considerava tão orgulhoso. Deixou-a comovida. Mas não sabia o que responder.

 Ambos ficaram em silêncio por algum tempo e foi Michael quem falou primeiro:

 — Agora chega da família Quercus. Fale-me sobre o terremoto.

 Finalmente.

 — Aconteceu em Owens Valley esta tarde, vinte minutos depois das duas horas.

 — Vamos dar uma olhada no sismógrafo. — Michael sentou-se à escrivaninha e pôs-se a digitar as teclas do computador.

 Quando Judy deu por si, estava olhando para seus pés descalços. Alguns homens têm pés feios, mas os dele eram bem modelados e vigorosos, com as unhas bem feitas. A pele era branca e havia um pequeno tufo de pêlos escuros em cada dedão.

 Ele não percebeu o exame a que fora submetido.

 — Quando os seus terroristas fizeram aquela ameaça, quatro semanas atrás, especificaram a localização?

 — Não.

 — Na comunidade científica dizem que uma previsão de terremoto bem-sucedida tem que especificar data, localização e magnitude. O seu pessoal só deu a data. Não é muito convincente. Há um terremoto em alguma parte da Califórnia mais ou menos todos os dias. Talvez eles tenham se declarado responsáveis por um fenômeno acontecido naturalmente.

 — Pode me dizer exatamente onde o tremor de hoje teve lugar?

 — Posso. Calcula-se o epicentro por triangulação. Na verdade, o computador faz isso automaticamente. Só tenho que imprimir as coordenadas — após um instante a impressora começou a funcionar.

 — Há algum modo — perguntou Judy — de saber como o terremoto foi causado?

 — Você quer saber se posso dizer pelo gráfico se foi causado pela mão do homem? Sim, devo poder.

 — Como?

 Ele deu um clique no mouse e deu as costas à tela do monitor para encarar Judy.

 — Um terremoto normal é precedido por uma série de tremores menores que vão gradualmente ficando mais fortes. Por contraste, quando o terremoto é causado por uma explosão, não há esse crescimento gradual — o gráfico começa com um ponto alto que lembra uma agulha. Ele virou-se para o computador e Judy ficou pensando que devia ser um bom professor. Explicava as coisas com clareza. Mas devia ser impiedosamente intolerante com os erros dos seus alunos. Do tipo que dava provas de surpresa e se recusava a admitir a entrada na sala de aula de quem chegasse atrasado.

 — Estranho — disse ele.

 Judy olhou por cima do seu ombro para a tela.

 — O que é estranho?

 — O sismógrafo.

 — Não vejo um ponto alto destacado no gráfico.

 — Não. Não houve uma explosão.

 Judy não sabia se devia sentir-se aliviada ou desapontada.

 — Quer dizer então que o terremoto aconteceu naturalmente? Ele sacudiu a cabeça.

 — Não estou seguro. Há tremores prévios, sim. Mas nunca vi desse tipo.

 Judy sentiu-se frustrada. Ele tinha lhe prometido dizer se a afirmativa do Martelo do Éden era plausível ou não. Agora mostrava-se irritantemente incerto.

 — O que é que tem de peculiar nos tremores pequenos? — perguntou.

 — São regulares demais. Parecem artificiais.

 — Artificiais?

 Ele fez que sim.

 — Não sei o que foi que causou essas vibrações, mas elas não parecem naturais. Acredito que os seus terroristas fizeram alguma coisa. Só não sei o que foi.

 — Pode descobrir?

 — Espero que sim. Vou ligar para umas pessoas. Um monte de sismólogos já deve estar estudando estes mesmos dados que tenho aqui. Devemos conseguir chegar a uma conclusão sobre o que significam.

 Michael não parecia muito seguro, mas Judy concluiu que tinha que se contentar com isso por ora. Conseguira dele tudo o que pudera. O que precisava agora era ir até a cena do crime. Pegou a folha que saiu da impressora. Mostrava uma série de referências de mapas.

 — Obrigada por ter me recebido — disse ela. — Fico-lhe muito agradecida.

 — Foi um prazer — ele sorriu, um enorme sorriso luminoso a exibir duas fileiras de dentes muito brancos.

 — Tenha um bom fim de semana com o Dusty.

 — Obrigado.

 Ela entrou no carro e voltou para a cidade. Ia para o escritório verificar na Internet os horários dos vôos, ver se havia um que saísse para um lugar qualquer perto de Owens Valley, no dia seguinte de manhã. Precisava também verificar qual agência do FBI tinha jurisdição sobre Owens Valley e avisar o que estava fazendo. Por fim, ligaria para o xerife local e o poria do seu lado.

 Chegou no número 450 da Golden Gate Avenue, estacionou na garagem subterrânea e pegou o elevador. Ao passar pela sala de Brian Kincaid, ouviu vozes. Ele devia estar fazendo serão.

 Aquela era uma ocasião boa como qualquer outra para colocá-lo a par dos acontecimentos. Entrou na ante-sala e bateu na porta do escritório dele.

 — Pode entrar.

 Ela entrou e ficou desolada quando viu que Kincaid estava com Marvin Hayes. Ela e Marvin se detestavam intensamente. Ele estava sentado diante da mesa de Kincaid, usando um terno de verão bege, camisa branca de botão no colarinho e gravata preta e dourada. Era um homem bonito, com o curto cabelo escuro eriçado e bigode bem aparado. Era a imagem da competência, mas na verdade era tudo o que um agente da lei não devia ser: preguiçoso, brutal, relaxado e inescrupuloso. Quanto a ele, achava que Judy era excessivamente escrupulosa.

 Lamentavelmente, Brian Kincaid gostava dele e Brian agora era o chefe. Os dois homens pareceram assustados e cheios de culpa quando Judy entrou e ela percebeu que deviam estar falando a seu respeito. Para deixá-los mais contrafeitos, ela perguntou:

 — Estou interrompendo alguma coisa?

 — Estávamos falando sobre o terremoto — disse Brian. — Soube da notícia?

 — Claro. Estava trabalhando nisso. Acabei de entrevistar um sismólogo que diz que os pequenos tremores que anteciparam o terremoto não são parecidos com nada que ele tenha visto antes, e que está certo de que foram causados artificialmente. E me deu as coordenadas com a localização exata do tremor. Quero ir para Owens Valley amanhã de manhã procurar testemunhas.

 Os dois homens trocaram um olhar significativo. Brian disse:

 — Judy, ninguém pode causar um terremoto.

 — Não sabemos disso com certeza.

 Marvin disse:

 — Falei pessoalmente com dois sismólogos esta noite e ambos me disseram que era impossível.

 — Os cientistas discordam.

 Brian disse:

 — Nós achamos que esse grupo nunca chegou perto de Owens Valley. Souberam do terremoto e assumiram a autoria. Judy fechou a cara.

 — Esta missão é minha. Como é que pode o Brian estar telefonando para sismólogos?

 — Este caso está ganhando muita notoriedade — disse Brian.

 De repente Judy soube o que estava por vir, e seu coração impotente encheu-se de fúria.

 — Mesmo que não acreditemos que o Martelo do Éden seja capaz de fazer o que diz que faz, poderão conseguir muita publicidade. Não tenho certeza se você será capaz de lidar com esse tipo de coisa.

 Judy lutou para controlar a raiva.

 — Você não pode me tirar do caso sem um motivo.

 — Oh, mas eu tenho um motivo — ele pegou um fax que estava em cima da mesa. — Ontem você teve uma discussão com um patrulheiro rodoviário. Ele a fez parar por excesso de velocidade. De acordo com este fax, você não se mostrou cooperativa e teve comportamento agressivo, recusando-se a lhe mostrar sua licença de motorista.

 — Pelo amor de Deus, eu mostrei meu crachá do FBI!

 Brian ignorou o que ela disse. Judy percebeu que ele não estava realmente interessado nos detalhes. O incidente com o patrulheiro era apenas um pretexto.

 — Estou organizando uma esquadra especial para tratar do caso do Martelo do Éden.

 Ele engoliu em seco, nervoso, depois ergueu o queixo num gesto agressivo e completou:

 — Pedi a Marvin para assumir. Ele não vai precisar da sua ajuda. Você está fora do caso.

 

 Priest mal podia acreditar que conseguira.

 Eu causei um terremoto. De verdade. Eu.

 Enquanto dirigia o caminhão rumo ao norte pela US 395, de volta à casa, com Melanie ao seu lado e Star e Oaktree atrás no `Cuda, ele deixou a imaginação à solta. Visualizou uma repórter da televisão, cara muito branca, dando a notícia de que o Martelo do Éden fizera o prometido; distúrbios nas ruas quando as pessoas entrassem em pânico ante a ameaça de outro terremoto; e um agitado governador Robson, em frente ao prédio do Capitólio estadual, anunciando a paralisação da construção de novas usinas elétricas no estado.

 Mas isto talvez fosse demasiado otimista. A opinião pública podia ainda estar longe de um estado de pânico generalizado. O governador podia não ceder imediatamente. Mas pelo menos seria forçado a abrir negociações com Priest.

 O que a polícia faria? A opinião pública ia querer que pegasse os criminosos. O governador chamara o FBI. Mas eles não tinham idéia de quem seria o Martelo do Éden, tampouco indícios. Sua tarefa seria praticamente impossível.

 Uma coisa saíra errada hoje e Priest não podia deixar de se preocupar com isso. Quando Star ligara para John Truth não falara com ele em pessoa, deixando uma mensagem gravada na secretária eletrônica. Priest a teria interrompido, mas quando percebeu o que se passava era tarde demais. Uma voz desconhecida numa fita não devia ser muito útil para a polícia, era o que ele imaginava. Mesmo assim preferia que não houvessem deixado nem mesmo uma pista tênue como essa.

 O que Priest achava surpreendente era que o mundo continuava na mesma, como se nada tivesse acontecido. Automóveis e caminhões passavam de um lado para outro da rodovia, as pessoas estacionavam no Burger King, a Patrulha Rodoviária parou um rapaz que dirigia um Porsche vermelho, uma turma de operários cortava arbustos ao lado do acostamento. E todos deviam se encontrar em estado de choque.

 Ele começou a duvidar de que o terremoto tivesse acontecido. Será que imaginara tudo, como num sonho de drogado? Vira com os próprios olhos, a fenda aberta na terra em Owens Valley — e, no entanto, o terremoto parecia agora mais improvável e impossível do que quando era uma simples idéia. Na verdade, ansiava por uma confirmação pública; um noticiário de televisão, uma foto na capa de uma revista, pessoas comentando o acontecido num bar ou na fila da máquina registradora do supermercado.

 No fim da tarde, quando estavam no lado da fronteira que pertencia ao estado de Nevada, Priest parou em um posto de gasolina. O `Cuda parou atrás. Priest e Oaktree encheram os tanques, banhados pelos raios oblíquos do sol que se punha, enquanto Melanie e Star iam ao toalete.

 — Espero que estejamos no noticiário — disse Oaktree, nervoso.

 Ele estava pensando a mesma coisa que Priest.

 — Como poderemos não estar? — replicou Priest. — Nós causamos um terremoto!

 — As autoridades podem guardar segredo.

 Como muitos dos hippies da antiga, Oaktree acreditava que o governo controlava as notícias. Quanto a Priest, achava que isso devia ser mais difícil do que Oaktree imaginava e acreditava que a opinião pública exercia sua própria censura. As pessoas recusavam-se a comprar jornais ou assistir a programas de televisão que desafiassem seus preconceitos, e, assim, só tomavam conhecimento de idéias sem substância ou real valor.

 A idéia de Oaktree, contudo, também o preocupava. Não devia ser tão difícil encobrir a ocorrência de um pequeno terremoto em um local afastado.

 Ele entrou para pagar. O ar condicionado fez com que tremesse. O encarregado tinha um rádio tocando atrás do balcão. Ocorreu a Priest que podia escutar o noticiário. Perguntou as horas: cinco para as seis. Depois de pagar, Priest ficou enrolando, fingindo estudar uma pilha de

revistas enquanto ouvia Billy Jo Spears cantando "57 Chevrolet". Melanie e Star saíram do toalete juntas.

 Finalmente o noticiário começou.

 Querendo ter uma razão para se demorar mais, Priest escolheu lentamente umas barras de chocolate e levou-as ao balcão ao mesmo tempo em que ouvia o rádio.

 A primeira notícia foi o casamento de dois atores que faziam papéis de vizinhos em uma comédia da televisão. Quem se importava com aquilo? Priest ouviu impacientemente, batendo com o pé no chão. Depois veio um relatório da visita do presidente à Índia. Tomara que aprendesse um mantra. O encarregado somou os preços das coisas que Priest apanhara e ele pagou. Será que o terremoto vinha a seguir? Mas a terceira notícia foi a respeito de um tiroteio em uma escola de Chicago.

 Priest saiu andando lentamente na direção da porta, seguido por Melanie e Star. Outro cliente acabou de encher o tanque do seu Jeep Wrangler e entrou para pagar.

 Finalmente o locutor falou:

 — O grupo ambientalista de terroristas autodenominado O Martelo do Éden reivindicou a responsabilidade por um terremoto de pequena intensidade que teve lugar em Owens Valley, na região leste da Califórnia.

 Priest sussurrou:

 — Sim! — e deu um soco na palma da mão esquerda, num gesto de triunfo.

 — Nós não somos terroristas! — reclamou Star.

 O locutor prosseguiu:

 — O tremor ocorreu no dia em que o grupo ameaçara provocar um terremoto, mas o sismólogo do estado, Matthew Bird, negou que este ou qualquer outro abalo sísmico possa ser causado pelo homem.

 — Mentiroso! — reclamou Melanie, num fio de voz.

 — O Martelo do Éden reivindicou a autoria do terremoto num telefonema ao programa de entrevistas desta estação, John Truth Live.

 Justo quando Priest ia chegando na porta, ficou chocado ao ouvir a voz de Star. Parou, imóvel. Ela estava dizendo: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos. Agora que você sabe que somos capazes de fazer o que falamos, é melhor que pense de novo sobre a nossa exigência. Anuncie que não serão mais construídas usinas elétricas na Califórnia. Você tem sete dias para se decidir."

 Star explodiu:

 — Jesus Cristo — sou eu!

 — Cala a boca! — disse Priest. Ele olhou por cima do ombro. O homem do Jeep Wrangler falava enquanto o gerente da loja passava o cartão dele na máquina. Nenhum dos dois parecia ter notado o desabafo de Star.

 — O governador Mike Robson não respondeu a esta última ameaça. No mundo esportivo o dia de hoje... Eles saíram.

 Star disse:

 — Meu Deus! Eles irradiaram a minha voz! O que é que vou fazer?

 — Fique calma — disse Priest. Ele próprio não se sentia calmo, mas estava se segurando. Enquanto atravessavam o asfalto na direção dos veículos, disse, num tom de voz controlado e razoável:

 — Ninguém fora da nossa comunidade conhece a sua voz. Você não disse mais que umas poucas palavras para gente de fora em vinte e cinco anos. E as pessoas que podem se lembrar de você dos tempos de Haight-Ashbury não sabem onde está vivendo agora.

 — Acho que você está certo — disse Star, indecisa.

 — A única exceção de que sou capaz de me lembrar é Bones. Pode ser que ouça a fita e reconheça a sua voz.

 — Ele nunca nos trairia. Bones é um Comedor de Arroz.

 — Não sei não. Viciados em drogas são capazes de qualquer coisa.

 — E os outros — como Dale e Poem?

 — É, eles me preocupam — admitiu Priest. — Não havia rádios nas cabanas, mas havia um rádio na picape da comunidade, que Dale às vezes dirigia. — Se acontecer, teremos que abrir o jogo com eles. Ou recorrer à solução do Mario.

 Não, eu não seria capaz — não com Dale e Poem. Ou seria?

 Oaktree aguardava ao volante do `Cuda.

 — Vamos, caras, o que está segurando vocês?

 Star explicou brevemente o que tinham ouvido.

 — Por sorte, ninguém fora da comunidade conhece minha voz — oh, Cristo, acabo de me lembrar de uma coisa! — ela virou-se para Priest. — O policial encarregado dos menores no escritório do xerife.

 Priest praguejou. Claro. Star falara com ele ainda na véspera. O medo comprimiu seu coração. Se ele ouvisse o noticiário e lembrasse, o xerife e meia dúzia de auxiliares podiam estar na comunidade naquele exato momento, esperando que Star voltasse. Mas podia ser que ele não tivesse ouvido a notícia. Priest tinha de checar.

 — Vou telefonar para o gabinete do xerife — declarou.

 — Mas o que é que você vai dizer? — indagou Star.

 — Não sei. Eu penso em algo. Espera aqui.

 Ele entrou, arranjou troco com o sujeito da lojinha do posto e foi até o telefone público. Conseguiu o número do gabinete do xerife de Silver City com o serviço de informações estadual. O nome do policial encarregado dos menores de idade voltou à sua memória.

 — Preciso falar com o Sr. Wicks — disse.

 Uma voz amigável respondeu:

 — O Billy não está.

 — Mas eu o vi ontem.

 — Ele pegou um avião para Nassau na noite passada. A esta altura está deitado numa praia, bebendo uma cerveja e vendo os biquínis, felizardo. Volta em duas semanas. Alguém mais poderia ajudá-lo?

 Priest desligou. Jesus, que sorte. Ele saiu.

 — Deus está do nosso lado — disse para os outros.

 — O quê? — Star estava nervosa. — O que foi que aconteceu?

 — O cara saiu de férias ontem à noite. Vai passar duas semanas em Nassau. Não creio que estações do exterior retransmitam a voz de Star. Estamos salvos.

 Star arriou os ombros, aliviada.

 — Graças a Deus.

 Priest abriu a porta do caminhão.

 — Vamos pegar a estrada — disse.

 

 Era quase meia-noite quando Priest entrou com o vibrador sísmico na trilha sinuosa e irregular que atravessava a floresta até a comunidade. Recolocou o caminhão no mesmo esconderijo de antes. Embora estivesse escuro e todos se sentissem exaustos, assegurou-se de que cobriam cada centímetro quadrado do veículo com vegetação, de maneira que ele ficasse invisível de todos os ângulos e do ar. Depois os quatro entraram no `Cuda para o trecho final. De cerca de dois quilômetros.

 Priest ligou o rádio do carro para o boletim da meia-noite. Desta vez, o terremoto era o assunto principal.

 — Nosso programa John Truth Live de hoje desempenhou um papel importantíssimo no drama do Martelo do Eden, o grupo ambientalista de terroristas que se diz capaz de provocar terremotos — disse uma voz excitada. — Depois que um terremoto moderado sacudiu Owens Valley, na região leste da Califórnia, uma mulher alegando representar o grupo telefonou para John Truth e disse que eles, do Martelo do Éden, tinham causado o tremor.

 Neste ponto a estação reproduziu integralmente a mensagem de Star.

 — Droga — resmungou Star ao ouvir a própria voz.

 Priest não podia evitar a sensação de alarme. Embora tivesse certeza de que aquilo não iria ajudar à polícia, ainda assim odiava ver Star exposta daquela maneira. Parecia torná-la terrivelmente vulnerável e o deixava ansioso para destruir seus inimigos e colocá-la em segurança.

 Depois de tocar a fita, o locutor acrescentou:

 — O agente especial Raja Khan levou esta noite a fita que acabaram de ouvir a fim de ser analisada pelos peritos em psicolingüística do FBI.

 Isto atingiu Priest como um soco no estômago.

 — Que porra é essa de psicolingüística? — exclamou.

 Foi Melanie quem respondeu:

 — Não conheço a palavra, mas acho que eles estudam a linguagem que você usa e extraem conclusões sobre a sua psicologia.

 — Eu não sabia que eles eram tão espertos — disse Priest preocupado.

 Oaktree disse:

 — Fica frio, cara. Eles podem analisar a cabeça da Star tanto quanto quiserem, mas isso não vai revelar o endereço dela.

 — Acho que não vai.

 O locutor continuou falando:

 — Nenhum comentário ainda foi feito pelo governador Mike Robson, mas o chefe da agência do FBI em San Francisco prometeu uma entrevista coletiva para amanhã de manhã. Outras notícias...

 Priest desligou. Oaktree estacionou o `Cuda ao lado do caminhão de Bones. Bones o cobrira com um imenso encerado para esconder a pintura colorida. O que sugeria que ele planejava ficar algum tempo.

 Desceram a colina e atravessaram o parreiral até a aldeia. A cozinha e o galpão infantil estavam às escuras. A luz de uma vela tremeluzia por trás da janela de Apple — ela sofria de insônia e gostava de ler de madrugada — e suaves acordes de violão vinham da cabana de Song. As outras cabanas, no entanto, estavam escuras e silenciosas. Só Spirit, o cachorro de Priest, apareceu para cumprimentá-los, sacudindo alegremente a cauda ao luar. Despediram-se com murmúrios e se arrastaram até suas casas, cansados demais para celebrarem o triunfo.

 Era uma noite quente. Priest deitou-se nu, pensando. Nenhum comentário do governador, mas uma entrevista coletiva do FBI marcada para a manhã seguinte. Isso o intrigou.

 A esta altura do jogo, o governador devia estar em pânico, dizendo: "O FBI falhou, não podemos nos arriscar a ter outro terremoto, tenho de falar com essa gente."

 O fato de nada saber sobre o que o inimigo estava pensando deixava Priest inquieto.

 Ele sempre se arranjava na vida lendo os pensamentos das outras pessoas, adivinhando o que elas realmente desejavam.

 A partir do modo como olhavam, sorriam, cruzavam os braços ou coçavam a cabeça. Ele estava tentando manipular o governador Robson, mas era difícil, sem um contato visual. E o FBI estaria a fim de quê? E haveria mesmo alguma verdade naquele papo de análise psicolingüística? Tinha que descobrir mais coisas. Não podia ficar parado ali esperando que a oposição agisse.

 Pensou em telefonar para o gabinete do governador e tentar falar com ele. Conseguiria ser atendido pelo homem em pessoa? E se fosse, descobriria alguma coisa? Talvez valesse a pena tentar. Não gostava, contudo, da posição que teria de assumir. Seria um suplicante, implorando o privilégio de falar com o grande homem. E a estratégia era impor sua vontade ao governo e não suplicar um favor.

 Ocorreu-lhe, então, que ele poderia ir à entrevista coletiva. Seria perigoso; se fosse descoberto, tudo estaria perdido. Mas a idéia era atraente. Passar-se por repórter era o tipo de coisa que costumava fazer nos velhos tempos. Tinha se especializado em golpes ousados: roubar o Lincoln branco para dar ao Cara de Porco Riley; esfaquear o detetive Jack Kassner no toalete do bar Blue Light; oferecer-se para comprar dos Jenkinsons a loja de bebidas. Sempre conseguira se sair bem, com coisas assim.

 Talvez pudesse se passar por fotógrafo. Podia pedir emprestado a Paul Beale uma câmera especial. Melanie seria a repórter. Era bonita o bastante para fazer qualquer agente do FBI desviar a atenção do que devia.

 Que horas seria a entrevista coletiva?

 Priest rolou para fora da cama, calçou as sandálias e saiu. Ao luar, encontrou o caminho para a cabana de Melanie. Ela estava sentada na beira da cama, nua, escovando o longo cabelo vermelho. Quando ele entrou, levantou a cabeça e sorriu. A luz da vela delineava o seu corpo, lançando uma aura por trás dos ombros bonitos, os mamilos, os ossos dos quadris e o tufo de cabelo vermelho na confluência das suas coxas. Priest chegou a perder o fôlego.

 — Olá — disse ela.

 Ele precisou de um momento para se lembrar do motivo pelo qual fora ali.

 — Preciso usar o seu celular — disse.

 Ela fez um bico, amuada. Não era a reação que desejava de um homem que lhe aparecia nu.

 Ele lhe dirigiu seu sorriso de cara durão.

 — Mas pode ser que eu resolva atirar você no chão e estuprá-la, para depois usar o telefone.

 Ela sorriu.

 — Tudo bem, pode usar o telefone primeiro.

 Ele pegou o telefone, mas hesitou. Melanie fora agressivamente autoconfiante o dia inteiro e ele tivera que tolerar porque era ela a sismóloga; mas acabara. Não gostava de que lhe desse permissão para coisa alguma. Não era esse o relacionamento que deviam ter.

 Permaneceu deitado, segurando o telefone e guiou a cabeça de Melanie — para sua genitália. Ela hesitou, mas fez o que ele queria. Durante cerca de um minuto Priest deixou-se ficar imóvel, desfrutando a sensação. Só depois telefonou para informações.

 Melanie parou o que estava fazendo, mas ele segurou uma mecha do seu cabelo e manteve a cabeça dela no lugar. Melanie hesitou, como se pensando em protestar, mas prosseguiu.

 Assim é melhor.

 Priest conseguiu o número do FBI em San Francisco e discou. Uma voz de homem atendeu:

 — FBI.

 Priest teve uma inspiração, como sempre.

 — Aqui é da estação de rádio KCAR de Carson City, Dave Horlock falando — disse. — Queremos mandar um repórter para sua entrevista coletiva amanhã. Poderia me dar o endereço e a hora?

 — Saíram no comunicado — disse o homem.

 Filho da mãe preguiçoso.

 — Não estou no escritório — improvisou Priest. — E nosso repórter pode ter que sair de manhã cedo.

 — É ao meio-dia, aqui no Federal Building, número 450 da avenida Golden Gate.

 — Precisamos de um convite, ou o nosso homem pode simplesmente aparecer aí?

 — Não há convites. Tudo o que ele precisa é de uma identificação comum de imprensa.

 — Obrigado pela ajuda.

 — De que estação mesmo você disse que era?

 Priest desligou.

 Identificação. Como é que vou me sair dessa?

 Melanie parou de chupar e disse:

 — Espero que não rastreiem esta chamada.

 Priest espantou-se.

 — E por que iriam fazer isso?

 — Sei lá. Talvez o FBI rastreie rotineiramente todas as ligações que recebe.

 Ele franziu a testa.

 — E eles têm como fazer isso?

 — Por meio de computadores, com toda a certeza.

 — Bem, eu não fiquei na linha tempo bastante.

 — Priest, não estamos mais nos anos 60. Não precisa de tempo, o computador faz o serviço em nanossegundos. Eles só têm que consultar os registros que permitem depois cobrar as ligações efetuadas para saber quem é o dono do telefone que ligou para lá quando faltavam três minutos para uma da manhã.

 Priest nunca ouvira a palavra "nanossegundo" antes mas podia adivinhar o que significava. Ele ficou preocupado.

 — Que merda — disse.

 — Eles podem descobrir onde você está?

 — Só enquanto o telefone estiver ligado.

 Priest desligou rapidamente o celular.

 Começava a sentir-se nervoso. Fora surpreendido além da conta naquele dia: pela gravação da voz de Star, pelo conceito da análise psicolingüística e agora pela noção do computador rastreando ligações telefônicas. Haveria mais alguma coisa que ele deixara de antecipar? Sacudiu a cabeça. Estava pensando negativamente. Preocupação e cautela em excesso jamais conseguiram realizar alguma coisa. Imaginação e ousadia eram seus pontos fortes. Compareceria à entrevista coletiva amanhã, daria um jeito de entrar e tomaria conhecimento daquilo que o inimigo estava a fim de fazer.

 Melanie deitou-se de costas na cama, fechou os olhos e disse:

 — Foi um dia longo e cansativo.

 Priest admirou-lhe o corpo, fascinado. Adorava olhar seus seios. Gostava do modo como se moviam quando ela caminhava, com um balanço ritmado lateral. Gostava de vê-la tirando o suéter por cima da cabeça, quando eles, arrastados pelo tecido, ficavam protuberantes como armas apontadas. Gostava também de vê-la vestir o sutiã e ajustar os seios dentro das taças para sentir-se mais confortável. Agora, ali deitada de costas, eles estavam ligeiramente achatados, protuberantes do lado, os mamilos em repouso.

 Era preciso se livrar das preocupações, tirá-las da cabeça. A segunda melhor maneira para fazer isso era a meditação. A melhor estava na frente dele.

 Priest ajoelhou-se sobre ela. Quando beijou-lhe os seios, Melanie suspirou satisfeita mas não abriu os olhos.

 De repente ele viu um movimento com o canto do olho. Olhou para a porta e viu Star, vestindo um robe de seda púrpura. Priest sorriu. Sabia o que ela tinha em mente: Star já fizera aquele tipo de coisa antes. Ela ergueu as sobrancelhas numa expressão indagadora. Priest balançou afirmativamente a cabeça. Ela entrou e fechou a porta silenciosamente.

 Priest sugou o mamilo cor-de-rosa de Melanie, puxando para dentro da sua boca com os lábios, bem devagar. Depois, quando o deixou escorregar de volta, tocou nele provocantemente com a ponta da língua, e repetiu isso muitas vezes, num ritmo constante. Ela gemeu de prazer. Star abriu o robe, deixou que caísse no chão e ficou olhando, acariciando delicadamente os próprios seios. Seu corpo era muito diferente do de Melanie, a pele levemente bronzeada onde a de Melanie era branca, as cadeiras e os ombros mais largos, o cabelo escuro e grosso onde o de Melanie era vermelho, dourado e fino. Após alguns momentos ela se abaixou e beijou a orelha de Priest e passou a mão nas suas costas, ao longo da espinha e entre as pernas, acariciando e apertando.

 Ele começou a respirar mais depressa. Devagar, devagar. Saboreie o momento.

 Star ajoelhou-se ao lado da cama e começou a acariciar o seio de Melanie enquanto Priest o sugava.

 Melanie sentiu que havia algo diferente. Parou de gemer, depois abriu os olhos. Quando viu Star, deu um grito abafado. Star sorriu e continuou a acariciá-la.

 — Seu corpo é muito lindo — murmurou, a voz grave.

 Priest contemplou a cena, como que em transe, quando ela se inclinou e abocanhou o outro seio de Melanie.

 Melanie empurrou os dois e sentou-se direito.

 — Não! — exclamou.

 — Calma — disse Priest. — Está tudo bem. De verdade — ele passou a mão no seu cabelo.

 Star acariciou a parte interna da coxa de Melanie.

 — Você vai gostar — garantiu. — A mulher pode fazer algumas coisas muito melhor do que o homem. Você vai ver.

 — Não — repetiu Melanie fechando as pernas com força.

 Priest viu que aquilo não ia dar certo. Sentiu-se frustrado. Adorava ver Star sobre outra mulher, deixando-a louca de prazer. Mas Melanie estava apavorada demais.

 Star persistiu. Sua mão escorregou para cima da coxa de Melanie e as pontas dos seus dedos tocaram levemente o tufo de pêlos vermelhos.

 — Não! — exclamou Melanie de novo, afastando a mão de Star com um tapa.

 Foi um tapa dado com força e Star disse:

 — Ai! Por que fez isso comigo?

 Melanie empurrou-a para um lado e pulou da cama.

 — Porque você é gorda e velha e eu não quero fazer sexo com você!

 Star chegou a perder o fôlego com o choque e Priest encolheu-se.

 Melanie saiu correndo para a porta e abriu-a.

 — Por favor! — disse. — Deixem-me sozinha!

 Para surpresa de Priest, Star começou a chorar. Ele exclamou, indignado:

 — Melanie!

 Antes que Melanie pudesse responder, Star saiu.

 Melanie bateu a porta.

 Priest disse para ela:

 — Puxa, garota, essa foi cruel.

 Melanie abriu a porta de novo.

 — Você pode ir também, se é assim que se sente. Deixe- me em paz!

 Priest sentiu-se chocado. Em vinte e cinco anos ninguém nunca lhe dissera para deixar uma casa da comunidade. Agora estava sendo expulso por uma bela garota nua cheia de raiva ou excitação ou ambos. Para se sentir mais humilhado ainda, tinha uma ereção que mais parecia um mastro. Estarei perdendo o pulso?

 A idéia o deixou perturbado. Sempre conseguia que as pessoas fizessem o que desejava, especialmente ali na comunidade. Ficou tão espantado que quase obedeceu. Dirigiu-se para a porta sem falar nada. Aí então percebeu que não podia ceder. Talvez nunca mais recuperasse o domínio se a deixasse vencê-lo agora. E ele precisava ter Melanie sob seu controle.

 Ela era crucial para o plano. Não conseguiria desencadear outro terremoto sem a sua ajuda. Não podia permitir que ela afirmasse sua independência daquela forma. Melanie era demasiado importante.

 Fez meia-volta já na porta e encarou-a, nua, mãos nos quadris. O que ela queria? Estivera no controle o dia inteiro, em Owens Valley, por causa dos seus conhecimentos, e isso lhe dera a coragem para aquela exibição de mau humor. Mas no fundo ela não queria ser independente — não estaria ali se quisesse. Preferia que alguém com poder lhe dissesse o que devia fazer. Por isso se casara com o seu professor. Ao abandoná-lo, iniciara um relacionamento com outra figura representativa de autoridade, o líder de uma comunidade. Revoltara-se agora porque não queria compartilhar Priest com outra mulher. Provavelmente temera que Star o tomasse dela. Mas a última coisa que desejava era que Priest fosse embora.

 Ele fechou a porta. Atravessou o pequeno cômodo com três passadas e parou na frente dela. Melanie ainda tinha o rosto congestionado de raiva e respirava com dificuldade.

 — Deita — ordenou ele.

 Ela pareceu perturbada, mas deitou-se na cama.

 — Abre as pernas.

 Após um momento ela obedeceu.

 Priest deitou-se sobre Melanie. Quando penetrou-a, ela subitamente passou os braços em torno dele e segurou-o com força. Ele se moveu depressa para dentro dela, deliberadamente rude. Ela levantou as pernas e passou em torno da sua cintura. Priest sentiu que cravava os dentes no

seu ombro. A mordida doeu, mas ele gostou. Melanie abriu a boca, ofegante.

 — Porra! — disse, em tom baixo e com a voz gutural. — Priest, seu filho da puta, eu amo você.

 

 Quando Priest acordou, foi para a cabana de Star. Ela estava deitada de lado, olhos abertos e fixos na parede. Quando ele deitou na cama ao seu lado, ela começou a chorar. Ele beijou as lágrimas. Estava tendo uma ereção.

 — Fale comigo — murmurou.

 — Você sabia que foi Flower quem pôs Dusty para dormir?

 Ele não esperava por aquilo. Que importância tinha?

 — Eu não sabia.

 — Não gosto.

 — Por que não? — ele tentou não parecer irritado. — Ontem nós desencadeamos um terremoto e hoje você vem chorar por causa das crianças? É muito melhor do que roubar pôsteres de artistas de cinema em Silver City.

 — Mas você tem uma nova família — ela desabafou.

 — O que diabo você quer dizer com isso?

 — Você e Melanie e Flower e Dusty. Vocês são como uma família. E não há lugar nela para mim. Eu não me ajusto nela.

 — Nada disso — exclamou ele. — Você é a mãe da minha filha e é a mulher que eu amo. Como poderia não se ajustar?

 — Eu me senti tão humilhada ontem à noite.

 Ele acariciou seus seios através do tecido de algodão da camisola de dormir. Star cobriu a mão de Priest com a sua e pressionou a palma da mão dele com força de encontro ao seu corpo.

 — O grupo é a nossa família — disse Priest. — Sempre foi assim. Não sofremos com os problemas psicológicos das famílias de papai-mamãe-e-dois-filhos dos subúrbios confortáveis.

 Ele repetia os ensinamentos que recebera dela muitos anos atrás.

 — Nós somos uma grande família. Amamos todo o grupo e todo mundo cuida de todo mundo. Deste modo não temos que mentir uns aos outros, ou para nós mesmos, a respeito de sexo. Você poderá fazer sexo com Oaktree ou com Song e eu saberei que você continua ligando para mim e nossa filha.

 —  Mas Priest, ninguém jamais rejeitou você ou eu até hoje.

 Não havia regras a respeito de quem podia ter sexo com quem, mas é claro que ninguém era obrigado a fazer amor se não quisesse. No entanto, agora que pensava nisso, Priest não conseguiu se lembrar de uma única ocasião em que uma mulher o rejeitara. Evidentemente o mesmo valia para Star até Melanie.

 Um sentimento de pânico se apoderou dele. Sentira-se da mesma forma diversas vezes nas últimas semanas. Era o medo de que a comunidade estivesse ruindo, que estivesse perdendo o controle e que tudo o que amava se encontrasse em perigo. Algo como perder o equilíbrio, como se o chão começasse subitamente a se mover de forma imprevisível e a terra firme se deslocasse e não mais fosse confiável, exatamente como acontecera na véspera. Priest lutou para controlar sua ansiedade. Tinha que permanecer calmo.

 Deitou ao lado de Star e acariciou-lhe o cabelo.

 — Vai dar tudo certo — disse. — Deixamos o governador Robson apavorado ontem. Ele fará o que queremos, você vai ver.

 — Tem certeza?

 Ele tomou os seios de Star com ambas as mãos. Sentiu-se excitado.

 — Confia em mim — murmurou. Apertou-a com força de encontro ao seu corpo para que ela pudesse sentir sua ereção.

 — Faça amor comigo, Priest — disse ela.

 Ele lhe deu seu sorriso velhaco.

 — Como?

 Ela sorriu também, por entre as lágrimas.

 — De qualquer jeito que você quiser.

 

 Ela foi dormir depois. Deitado ao seu lado, Priest ficou pensando no problema da identificação como jornalista até que imaginou uma solução. Aí então levantou-se. Foi até a cabana onde dormiam as crianças e acordou Flower.

 — Quero que você vá comigo a San Francisco — disse. Vista-se.

 Fez torrada e suco de laranja na cozinha deserta. Enquanto ela comia, ele disse:

 — Lembra de uma conversa que tivemos sobre você ser escritora? E você me disse que gostaria de trabalhar para uma revista?

 — Sim, a revista Teen.

 — Certo.

 — Mas você quer que eu escreva poesia para que possa continuar morando aqui.

 — E ainda quero, mas hoje você vai descobrir como é ser repórter.

 Ela pareceu feliz. — Legal!

 — Vou levar você a uma entrevista coletiva do FBI.

 — FBI?

 — É o tipo de coisa que você teria de fazer se fosse repórter.

 Ela torceu o nariz. Tal como a mãe, não gostava de gente que trabalhasse em atividades policiais.

 — Nunca li nada sobre o FBI na Teen.

 — Bem, eu verifiquei e o Leonardo DiCaprio não vai dar entrevista coletiva hoje.

 Ela sorriu envergonhada.

 — Que pena.

 — Mas se você fizer o tipo de perguntas que uma repórter da Teen faria, não tem problema.

 Flower balançou a cabeça, afirmativamente.

 — Sobre o que é a entrevista coletiva?

 — Um grupo que afirma ter provocado um terremoto. Agora, não quero que você fale com ninguém a este respeito. Tem que ser segredo, OK?

 — Tudo bem.

 Ele contaria aos Comedores de Arroz quando voltasse, decidiu.

 — Pode falar com mamãe e Melanie sobre isso, e Oaktree e Song, Aneth e Paul Beale, mas ninguém mais. É realmente importante.

 — Deixa comigo.

 Ele sabia que estava se arriscando loucamente. Se as coisas saíssem erradas, podia perder tudo. Podia inclusive ser preso na frente da própria filha. Mas arriscar-se loucamente sempre fora seu estilo.

 Quando fizera a proposta de plantarem as parreiras, Star lembrara que só tinham um contrato de cessão da terra por um ano. Podiam se matar de trabalhar sem nunca verem o fruto do seu suor. Na opinião dela, deviam negociar uma extensão do prazo de cessão da terra para dez anos, antes de começarem a trabalhar. Parecia sensato, mas Priest viu que seria fatal. Se adiassem o começo, nunca conseguiriam fazer nada. Ele os persuadira a se arriscarem. No fim daquele ano o grupo tornou-se uma comunidade. E o governo renovara o contrato de Star naquele ano e todos os anos, até agora.

 Pensou em vestir o terno azul-escuro, mas era tão fora de moda que chamaria a atenção em San Francisco. Resolveu, então, ir com seu costumeiro jeans azul. Embora estivesse quente, vestiu uma camiseta e uma camisa xadrez de flanela com as fraldas compridas, que deixou para fora da calça. No galpão das ferramentas pegou uma faca pesada com uma lâmina de dez centímetros, e uma bainha de couro. Enfiou-a na cintura da calça, nas costas, escondida pela fralda da camisa.

 A adrenalina correu alta nas veias de Priest durante a viagem de quatro horas até San Francisco. Ele teve visões de pesadelo: os dois sendo presos, ele atirado numa cela, Flower sentada sozinha em uma sala do FBI, sendo interrogada a respeito dos pais. Mas foi agradável, o medo fez com que se sentisse meio alto, como se tivesse bebido.

 Chegaram à cidade por volta das onze horas da manhã. Deixaram o carro em um estacionamento na Golden Gate. Numa loja, Priest comprou um bloco de espiral e dois lápis para Flower. Depois levou-a a um café. Enquanto ela tomava um refrigerante, ele disse:

 — Já volto — e saiu.

 Caminhou na direção da Union Square, examinando os rostos dos passantes, procurando um homem que se parecesse com ele. As ruas estavam cheias de gente que tinha ido às compras, e ele tinha centenas de rostos para escolher um. Viu um homem com o rosto magro e cabelo escuro estudando o cardápio do lado de fora de um restaurante, e por um momento pensou ter achado sua vítima. Ligadíssimo, ficou observando por alguns segundos; mas aí o sujeito virou-se e ele viu que tinha o olho direito permanentemente fechado por um ferimento qualquer.

 Desapontado, Priest seguiu em frente. Havia muitos homens morenos na casa dos quarenta anos, mas quase todos tinham dez ou quinze quilos a mais que Priest. Viu outro candidato provável, mas o sujeito tinha uma máquina de retrato pendurada no pescoço. Turista não era uma boa: Priest precisava de alguém com credenciais locais. Este é um dos maiores centros de compras do mundo, e hoje é uma manhã de sábado; tem que haver um homem por aí parecido comigo.

 Verificou as horas: onze e meia. O tempo estava acabando. Finalmente, um golpe de sorte: um sujeito de rosto fino, com cerca de cinqüenta anos, usando óculos de armação grande, caminhando com passo vivo. Vestia uma calça azul-marinho, slacks e uma camisa pólo verde, mas carregava uma pasta de executivo bege já bem surrada, e parecia pobre: Priest imaginou que ia até o escritório botar o serviço em dia. Agora preciso da sua carteira. Priest seguiu-o, dobrando a esquina, cada vez mais excitado, esperando uma oportunidade. Estou faminto, desesperado, sou um maluco fugido do asilo, preciso de vinte pratas para uma dose, odeio todo mundo, quero cortar e matar, estou furioso, furioso, furioso...

 O homem passou pelo local onde o `Cuda ficara estacionado e entrou em uma rua de velhos prédios de escritórios. Por um momento não havia ninguém à vista. Priest sacou da faca, correu para cima dele e disse:

 — Ei!

 O homem parou no reflexo e virou-se.

 Priest agarrou o homem pela camisa, brandiu a faca na sua cara e gritou:

 — ME DÁ A PORRA DA CARTEIRA SE NÃO QUISER QUE EU TE CORTE A MERDA DA GARGANTA!

 O sujeito devia ter caído duro de medo, mas não. Jesus, é um cara durão. O rosto dele exprimia raiva, não medo. Concentrando-se nos seus olhos, Priest leu o pensamento É só um cara, e não tem um revólver.

 Priest hesitou, subitamente receoso. Que merda, não posso aceitar que isto dê errado. Houve um impasse por uma fração de segundo. Um homem vestido informalmente levando uma pasta para trabalhar em uma manhã de sábado... seria um detetive, um policial?

 Mas era tarde demais para mudar de idéia. Antes que o sujeito pudesse se mover, Priest passou velozmente a lâmina no seu rosto, traçando uma linha vermelha de sangue logo abaixo da lente direita dos óculos.

 A coragem do homem evaporou-se e qualquer idéia de resistir que ele pudesse ter tido abandonou-o. Seus olhos arregalaram-se de medo e o corpo dele pareceu prostrar-se, sem forças.

 — Tudo bem! Tudo bem! — ele gritou, com a voz aguda e trêmula.

 Não é polícia, afinal de contas. Priest gritou:

 — AGORA! AGORA! PASSA A CARTEIRA!

 — Está na pasta...

 Priest tirou a pasta da mão do homem. No último minuto decidiu levar os óculos do cara também. Arrancou-os do seu rosto, virou-se e saiu correndo.

 Na esquina olhou para trás. O sujeito estava vomitando na beirada da calçada.

 Priest virou à direita. Largou a faca em um depósito de lixo e prosseguiu, caminhando. Na outra esquina parou perto de um prédio em construção e abriu a pasta. Dentro havia uns papéis, um caderno e algumas canetas, um embrulho de papel que parecia conter um sanduíche e uma carteira de couro. Pegou a carteira e jogou a pasta por cima do tapume da obra.

 Voltou, então, para o café e sentou-se outra vez com Flower. Seu café ainda estava quente. Não perdi o jeito. Trinta anos depois que fiz isto pela última vez e ainda consigo apavorar um sujeito. É isso aí, Ricky.

 Ele abriu a carteira. Continha dinheiro, cartões de crédito, cartões de visita e um cartão de identidade com uma foto. Priest puxou um cartão de visita e entregou a Flower.

 — Meu cartão, minha senhora. Ela riu.

 — Você é Peter Shoebury, da Watkins, Colefax e Brown.

 — Sou advogado?

 — Acho que sim.

 Ele examinou a foto da identidade. Era três por quatro e tinha sido tirada numa dessas cabines automáticas. Achou que devia ter sido tirada havia uns dez anos. Não parecia exatamente com Priest, mas também não parecia com Peter Shoebury. Fotos costumam ser assim.

 Ainda assim, Priest podia melhorar a semelhança. Shoebury tinha o cabelo liso e escuro, mas cortado curto. Priest disse:

 — Posso usar seu elástico?

 — Claro — Flower tirou o elástico que prendia o cabelo e sacudiu a cabeça, para acertar os cachos ao redor do rosto.

 Priest fez o contrário, prendendo o cabelo num rabo-de-cavalo e amarrando com o elástico. Aí então pôs os óculos. Mostrou a foto a Flower.

 — O que é que você acha da minha identidade secreta? — ela deu uma olhada na parte de trás da identidade.

 — Com isto você tem acesso ao escritório do centro da cidade, mas não à filial de Oakland.

 — Acho que posso conviver com esta limitação.

 Ela riu.

 — Papai, onde foi que você conseguiu isto?

 Ele ergueu uma das sobrancelhas ao fitá-la e respondeu:

 — Pedi emprestado.

 — Você bateu a carteira de alguém?

 — Mais ou menos — Priest viu que ela achava esta possibilidade mais brincalhona que propriamente criminosa. Deixou que acreditasse no que quisesse. Deu uma olhada no relógio da parede. Eram onze e quarenta e cinco.

 — Está pronta?

 — Claro.

 Após uma curta caminhada, entraram no Federal Builbing, um monólito ameaçador de granito cinza ocupando todo um quarteirão. Passaram por um detector de metais no saguão, e Priest ficou satisfeito por ter sido previdente, ao se livrar da faca. Perguntou ao segurança em que andar ficava o FBI. Tomaram o elevador. Priest sentia-se como se estivesse cheio de cocaína. O perigo o tornava superalerta. Se este elevador quebrasse, eu seria capaz de movê-lo com a minha energia psíquica.

 Achava que era bom ser autoconfiante, até mesmo um pouco arrogante, já que representava o papel de um advogado.

 Levou Flower para o interior do escritório do FBI e seguiu uma placa que indicava a sala de reuniões, junto do saguão. No fundo da sala havia uma mesa com microfones. Perto da porta estavam quatro homens, todos altos e com ar de quem estava em plena forma física, usando ternos bem passados e gravatas sóbrias. Tinham que ser agentes.

 Se soubessem quem sou, atiravam em mim sem pensar. Fica frio, Priest — eles não lêem pensamentos, de modo que não podem saber nada a seu respeito.

 Priest tinha um metro e oitenta e três, mas todos eram mais altos. Ele sentiu imediatamente que o chefe era o homem mais velho de cabelo branco grosso e meticulosamente repartido e penteado. Conversava com outro de bigode preto. Dois homens mais jovens ouviam com expressões respeitosas.

 Uma mulher, jovem e carregando uma prancheta, aproximou-se de Priest.

 — Oi, posso ajudá-lo?

 — Bem, eu certamente esperaria que sim — respondeu Priest.

 Os agentes repararam quando falou. Priest percebeu suas reações quando olharam para ele. Ao verem o rabo-de-cavalo e a calça-jeans azul ficaram na defensiva; depois viram Flower e relaxaram de novo.

 Um dos mais jovens perguntou:

 — Está tudo bem aqui?

 Priest disse:

 — Meu nome é Peter Shoebury, sou advogado da firma Watkins, Colefax e Brown aqui na cidade. Minha filha Florence é editora do jornal da escola. Ela ouviu no rádio a notícia da entrevista coletiva e quis cobri-la para o seu jornal. Assim eu imaginei, puxa vida, é um evento aberto ao público, vamos lá. Espero que esteja bem com vocês.

 Todo mundo olhou para o sujeito de cabeça branca, confirmando a intuição de Priest de que ele era o chefe. Seguiu-se um momento horrível de hesitação.

 Olha, garoto, você não é advogado coisa nenhuma! Você é Ricky Granger, que vendia anfetaminas no atacado por intermédio de um monte de lojas de bebidas em Los Angeles lá pelos anos 60 — você está metido nessa merda de terremoto? Revistem-no, rapazes, e algemem a garotinha também. Vamos prendê-los, descobrir o que sabem.

 O homem de cabelo branco estendeu a mão e disse:

 — Eu sou o agente especial encarregado, Brian Kincaid, chefe do escritório do FBI em San Francisco.

 Priest apertou a mão dele.

 — Prazer em conhecê-lo, Brian.

 — Para que firma o senhor disse que trabalhava?

 — Watkins, Colefax e Brown.

 Kincaid franziu a testa.

 — Pensei que fossem corretores imobiliários, não advogados.

 Merda. Priest balançou a cabeça e esforçou-se para exibir um sorriso confiante.

 — É isso mesmo, e o meu trabalho é mantê-los longe de encrencas — Priest achou que tinha que usar um vocabulário bem profissional e rebuscou a memória atrás das palavras adequadas. — Sou assessor jurídico da firma, em tempo integral.

 — Poderia me mostrar uma identidade qualquer?

 — Oh, claro — ele abriu a carteira roubada e tirou o cartão com a foto de Peter Shoebury. Prendeu a respiração.

 Kincaid examinou a foto e checou a semelhança com Priest. Priest poderia garantir que concluiu algo como: É, pode ser ele, sim, eu acho.

 Devolveu a identidade. Priest respirou de novo.

 Kincaid virou-se para Flower:

 — Em que escola você estuda, Florence?

 O coração de Priest bateu mais depressa. Inventa qualquer coisa, garota.

 — Hmm... — Flower hesitou.

 Priest já ia responder pela filha quando ela disse:

 — Eisenhower Junior High.

 Priest sentiu uma ponta de orgulho. Ela herdara sua coragem. Só para o caso de Kincaid conhecer as escolas de San Francisco, ele acrescentou:

 — É em Oakland.

 Kincaid pareceu satisfeito.

 — Bem, teremos muito prazer em tê-la aqui conosco, Florence – disse ele.

 Conseguimos!

 — Muito obrigada, senhor — disse ela.

 — Se houver alguma pergunta que eu possa responder agora, antes que comece a entrevista coletiva...

 Priest tivera cuidado de não preparar Flower excessivamente. Na opinião dele, se ela parecesse tímida, ou gaguejasse na hora de fazer as perguntas, seria apenas natural, enquanto que se se mostrasse muito segura e parecesse bem treinada, podia despertar suspeitas. Mas naquele instante sentiu uma ponta de ansiedade por ela, e teve que conter o instinto paternal de se meter e dizer o que fazer. Mordeu o lábio.

 Ela abriu o bloco de notas.

 — O senhor é o encarregado desta investigação?

 Priest relaxou um pouco. Ela ia se sair bem.

 — Este é apenas um dos muitos inquéritos em que tenho de ficar de olho — respondeu Kincaid, apontando para o homem de bigode escuro. – O agente especial Marvin Hayes é o encarregado deste caso.

 Flower virou-se para Hayes.

 — Acho que a escola ia querer saber que tipo de homem o senhor é, Sr. Hayes.

 Ela é muito criança para flertar com homens adultos, pelo amor de Deus!

 Mas Hayes engoliu a isca. Pareceu ficar satisfeito e disse:

 — Claro, vá em frente.

 — O senhor é casado?

 — Sou. Tenho dois filhos, um menino mais ou menos da sua idade e uma garota um pouco mais moça.

 — Tem algum hobby?

 — Coleciono suvenires relativos ao boxe.

 — É um hobby pouco comum.

 — Acho que sim.

 Priest ficou ao mesmo tempo satisfeito e espantado com a naturalidade com que Flower vivia o papel. Ela é boa nisso. Puxa vida, espero não tê-la criado todos esses anos para escrever para uma revistinha barata.

 Ele estudou Hayes enquanto o agente respondia às perguntas inocentes de Flower. Aquele era seu oponente. Hayes estava vestido cuidadosamente, em estilo convencional. O terno marrom-claro, a camisa branca e a gravata de seda escura provavelmente tinham sido comprados na Brook Brothers. Usava sapatos sociais pretos, muito bem engraxados e com os cordões cuidadosamente atados e apertados. O cabelo e o bigode eram muito bem cortados.

 Priest, contudo, sentiu que a aparência ultraconservadora era falsa. A gravata era chamativa demais, ele usava um anel de rubi enorme no dedo mínimo da mão esquerda e o bigode representava um toque de vulgaridade. Priest achou também que o tipo aristocrata bem-nascido que Hayes estava tentando imitar não estaria tão embonecado em uma manhã de sábado, mesmo para uma entrevista coletiva.

 — Qual é o seu restaurante favorito? — perguntou Flower.

 — Muitos de nós vamos ao Everton's, que realmente é mais um pub que um restaurante.

 A sala onde seria a reunião estava se enchendo de homens e mulheres com blocos de notas e gravadores cassete, fotógrafos assoberbados com câmeras e flashes, repórteres de rádio com microfones grandes e duas equipes de televisão com câmeras manuais de vídeo. Ao entrarem, a moça da prancheta pedia para que assinassem um livro. Priest e Flower pareciam ter passado ao largo desta exigência. Ainda bem. Ele não seria capaz de escrever "Peter Shoebury" nem que fosse para salvar sua vida.

 Kincaid, o chefe, tocou no ombro de Hayes.

 — Precisamos nos preparar agora, Florence. Espero que fique para ouvir a minha declaração.

 — Ah, sim, muito obrigada.

 — O senhor foi realmente muito gentil, Sr. Hayes. Os professores de Florence ficarão sinceramente gratos.

 Os agentes se dirigiram para a mesa no outro lado. Meu Deus, nós os enganamos. Priest e Flower sentaram no fundo e aguardaram. A tensão de Priest diminuiu. Ele realmente conseguira o que queria. Eu sabia que ia conseguir.

 Ainda não colhera muita informação propriamente dita, mas isso viria com a declaração formal a ser feita para a imprensa. O que tinha conseguido mesmo fora sentir as pessoas com quem estava lidando. Sentiu-se tranqüilizado pelo que descobrira. Nem Kincaid nem Hayes lhe pareceram brilhantes. Deram-lhe a impressão de serem policiais comuns, do tipo que vai vivendo segundo uma mistura de rotina obstinada e uma corrupção ocasional. Pouco tinha a temer deles.

 Kincaid levantou-se e apresentou-se. Pareceu confiante, mas com um pouco de exagero, até meio agressivo. Talvez não estivesse exercendo a função de chefe há muito tempo. Começou:

 — Gostaria de começar deixando uma coisa bem clara. O FBI não acredita que o terremoto de ontem tenha sido causado pela ação de um grupo terrorista.

 As lâmpadas dos flashes pipocaram, as fitas começaram a rodar nos gravadores e os repórteres deram início às suas anotações. Priest tentou não deixar que a raiva que sentia transparecesse no seu rosto.

 Os filhos da mãe continuavam a se recusar a levá-lo a sério!

 — Esta também é a opinião do sismólogo do estado, que eu acredito esteja disponível para entrevistas na manhã de hoje, em Sacramento.

 O que tenho de fazer para convencer vocês? Ameacei provocar um terremoto, cumpri a promessa e ainda não acreditam em mim! Será que vou ter que matar gente para que me ouçam ?

 Kincaid continuou:

 — Mesmo assim, uma ameaça terrorista foi feita e o Bureau tenciona pegar as pessoas que formularam essa ameaça. Nossa investigação é chefiada pelo agente especial Marvin Hayes. É com você agora, Marvin.

 Hayes também se levantou. Estava mais nervoso do que Kincaid, Priest viu de imediato. Leu mecanicamente uma declaração preparada com antecedência.

 — Agentes do FBI interrogaram na manhã de hoje todos os cinco empregados pagos da Campanha Califórnia Verde nas respectivas casas. Estão colaborando conosco voluntariamente.

 Priest ficou satisfeito. Deixara uma trilha falsa e os federais a estavam seguindo.

 Hayes continuou:

 — Nossos agentes também visitaram a sede da campanha aqui em San Francisco e examinaram documentos e registros armazenados em seus computadores.

 Deviam estar vasculhando a lista de mala direta da organização em busca de uma pista, imaginou Priest.

 Ele ainda falou mais, mas foi repetitivo.

 Os jornalistas reunidos fizeram perguntas que acrescentaram detalhes e um colorido diferente, mas a história básica em nada mudou. A tensão de Priest foi crescendo novamente quando ele se viu ali preso numa cadeira, esperando impacientemente uma chance para ir embora sem chamar a atenção.

 Ficou satisfeito por ver que a investigação do FBI estivesse tão fora do rumo — sem que eles tivessem chegado ainda à segunda pista falsa que deixara — mas sentia-se furioso por terem se recusado a crer na sua ameaça.

 Finalmente Kincaid deu a sessão por encerrada e os jornalistas começaram a se levantar e reunir sua tralha.

 Priest e Flower dirigiram-se para a porta mas foram detidos pela jovem com a prancheta, que sorriu alegremente e disse:

 — Não creio que tenham assinado aqui, assinaram? — ela passou para Priest um livro e uma caneta. — Basta escreverem os seus nomes e a organização que representam.

 Priest ficou paralisado pelo medo. Não posso, não posso! Não entre em pânico. Relaxe. Ley, tor, pur-doy-cor...

 — Senhor? Dava para fazer o favor de assinar?

 — Claro — Priest pegou o livro e a caneta. E em seguida passou para Flower. — Acho que Florence devia assinar por nós — afinal, ela é que é a jornalista — disse ele, lembrando a Flower do seu nome falso.

 Ocorreu-lhe então que ela podia ter esquecido o nome da escola que supostamente freqüentava.

 Flower nem piscou. Escreveu no livro e o devolveu. Agora, pelo amor de Deus, podemos ir embora?

 — O senhor também, por favor — insistiu a mulher, dando o livro a Priest.

 Ele o pegou com relutância. E agora? Se rabiscasse um garrancho ela podia pedir para que escrevesse o nome com letra de imprensa: isto já lhe acontecera antes. Mas talvez pudesse se recusar e simplesmente dar o fora. Ela era simplesmente uma secretária. Enquanto hesitava, ouviu a voz de Kincaid.

 — Espero que tenha sido interessante para você, Florence.

 Kincaid é um agente — faz parte do seu trabalho ser desconfiado.

 — Sim, senhor, foi — respondeu Flower, polidamente.

 Priest começou a suar por baixo da camisa. Rabiscou um garrancho no lugar onde deveria escrever o nome. Em seguida fechou o livro antes de devolvê-lo à mulher. Kincaid falou com Flower:

 — Você vai se lembrar de me mandar um número do jornal da sua classe quando for impresso?

 — Sim, claro. Vamos, vamos!

 A mulher abriu o livro e disse:

 — Oh, o senhor me desculpe, mas se incomodaria de escrever seu nome aqui? Receio que sua assinatura não seja realmente clara.

 O que é que eu vou fazer?

 — Você vai precisar de um endereço — Kincaid disse a Flower, e pegou um cartão de visitas no bolso da lapela do paletó. — Aqui está.

 — Muito obrigada.

 Priest se lembrou de que Peter Shoebury também tinha cartões de visita. Aí está a resposta — graças a Deus! Abriu a carteira e deu um cartão à mulher. — Minha letra é horrorosa — desculpou-se — use isto aqui. Temos que nos apressar — ele apertou a mão de Kincaid. — O senhor foi maravilhoso. Pode deixar que não vou permitir que Florence se esqueça de lhe enviar o recorte com a notícia.

 Eles saíram da sala. Cruzaram o saguão e esperaram o elevador. Priest imaginou Kincaid vindo atrás dele, empunhando uma arma, dizendo: "Que tipo de advogado não é capaz de escrever o próprio nome, seu panaca?"

 Mas o elevador veio, eles desceram, saíram do prédio e logo respiravam o ar livre da rua.

 Flower disse:

 — Eu tenho o pai mais maluco deste mundo.

 Priest sorriu para ela.

 — É verdade.

 — Por que usamos nomes falsos?

 — Bem, nunca estou a fim de que esses porcos saibam meu nome verdadeiro — respondeu ele.

 Ela aceitaria isso, pensou Priest. Sabia como os pais se sentiam a respeito de policiais.

 Mas ela retrucou:

 — Assim mesmo, fiquei furiosa com você.

 Ele não entendeu.

 — Por quê?

 — Nunca vou perdoá-lo por ter me chamado de Florence — disse ela.

 Priest a encarou fixamente por um instante e os dois caíram na risada.

 — Vamos embora, garota — disse ele, amorosamente. — Vamos para casa.

 

 Judy sonhou que passeava na orla da praia com Michael Quercus, e que os pés descalços dele deixavam marcas nítidas e precisas na areia molhada.

 Na manhã de sábado ela ajudara em uma classe de alfabetização para menores transgressores. Eles a respeitavam porque carregava uma arma.

 Sentou-se no salão de uma igreja ao lado de um bandido de dezessete anos, ajudando-o a praticar a escrever a data, na esperança de que, de alguma maneira, aquilo tornasse menos provável que em mais dez anos tivesse que prendê-lo.

 De tarde, pegou o carro para ir fazer compras na Gala Foods perto da casa de Bo, no Geary Boulevard.

 A rotina dos sábados não conseguiu acalmá-la. Estava furiosa com Brian Kincaid por tê-la tirado do caso do Martelo do Éden, mas não havia nada que pudesse fazer a respeito, de modo que saiu pisando forte para cima e para baixo nos corredores da loja e tentou concentrar-se em coisas como Chewy Chips Ahoy, Rice-A-Roni e Zee Decor Collection", toalhas de papel para a cozinha com desenhos estampados em amarelo. Na gôndola dos matinais lembrou-se de Dusty, o filho de Michael, e comprou uma caixa do cereal Cap'n Crunch.

 Mas não conseguia parar de pensar no caso. Haverá alguém que saiba mesmo causar terremotos? Ou estou maluca? Quando voltou, Bo ajudou-a a descarregar as compras e perguntou como andava a investigação.

 — Eu soube que Marvin Hayes vasculhou a sede da Campanha da Califórnia Verde.

 — Não deve ter adiantado muito — disse ela. — Eles estão todos limpos. Raja entrevistou-os na terça-feira. Dois homens e três mulheres, todos acima dos cinqüenta anos. Sem prontuário criminal — nem mesmo uma multa por excesso de velocidade — e nenhuma associação com pessoas suspeitas. Se forem terroristas, eu sou o Kojak.

 — A televisão disse que Hayes está examinando os registros deles.

 — Certo. Há uma lista de todo mundo que escreveu para eles pedindo informações, inclusive a Jane Fonda. São dezoito mil nomes e endereços. A equipe de Marvin vai ter que passar cada nome no computador do FBI para ver quem vale a pena entrevistar. Pode levar um mês.

 A campainha da porta tocou. Judy foi atender e ficou surpresa ao ver Simon Sparrow. Surpresa mas satisfeita.

 — Ei, Simon, vai entrando!

 Ele estava usando bermuda preta de ciclista, camiseta e tênis Nike e óculos escuros desses inteiriços. Mas não tinha vindo de bicicleta: seu Honda del Sol verde-esmeralda podia ser visto estacionado diante do prédio, com a capota abaixada. Judy imaginou o que sua mãe teria achado de Simon. "Um bom rapaz", talvez dissesse. "Mas não muito másculo."

 Bo apertou a mão de Simon e, às escondidas, dirigiu à filha um olhar que perguntava Quem diabos é essa bicha? Judy chocou-o dizendo:

 — Simon é um dos mais importantes analistas de lingüística do FBI.

 Meio confuso, Bo disse:

 — Bem, Simon, é um prazer conhecê-lo, sem dúvida nenhuma.

 Simon mostrou uma fita cassete e um envelope de papel pardo.

 — Vim lhe trazer meu relatório sobre a fita do Martelo do Éden.

 — Estou fora do caso — disse Judy.

 — Eu sei, mas achei que você ainda estaria interessada. As vozes da fita não correspondem a nenhuma existente em nossos arquivos acústicos, infelizmente.

 — Nada de nomes então.

 — Não, mas um monte de coisas interessantes.

 O interesse de Judy foi despertado.

 — Você disse "vozes". Só ouvi uma.

 — Não, há duas — Simon olhou em torno e viu o radiogravador de Bo em cima da bancada da cozinha. Normalmente era usado para tocar The Greatest Hits of the Everly Brothers. Ele colocou a fita no aparelho.

 — Deixa eu explicar umas coisas ouvindo a fita.

 — Eu adoraria, mas é Marvin Hayes o encarregado do caso agora.

 — Eu gostaria de ter sua opinião de qualquer maneira. Judy sacudiu a cabeça obstinadamente.

 — Você devia falar primeiro com Marvin.

 — Sei o que você está dizendo. Mas o Marvin é um bosta. Sabe quanto tempo faz que ele não prende nenhum bandido?

 — Simon, se você está querendo fazer com que eu trabalhe no caso escondida de Kincaid, pode esquecer!

 — Basta me ouvir, está certo? Não pode fazer mal algum. Simon aumentou o volume e pôs a fita para rodar.

 Judy suspirou. Estava desesperadamente ansiosa para saber o que Simon descobrira a respeito do Martelo do Éden. Mas se Kincaid soubesse que ele falara com ela antes de procurar Marvin, ia dar uma confusão dos infernos.

 Ouviu-se uma voz de mulher:

 — Aqui é o Martelo do Éden, com uma mensagem para o governador Mike Robson.

 Simon parou a fita e olhou para Bo.

 — O que foi que você visualizou ao ouvir isto?

 Bo sorriu.

 — Uma mulher grande, com cerca de cinqüenta anos, com um sorriso largo. Meio sexy. Eu me lembro que achei que gostaria — ele deu uma olhada em Judy e concluiu — de conhecê-la.

 Simon concordou.

 — Seus instintos são confiáveis. Mesmo sem treinamento é possível dizer muita coisa a respeito de uma pessoa só por ouvi-la falar. Quase sempre sabe-se se a voz é de homem ou de mulher, claro. Mas é possível também dizer-se que idade tem e geralmente também o peso e a altura. Às vezes pode-se até adivinhar o estado de saúde.

 — Você tem razão — concordou Judy, intrigada, mesmo que contra a vontade. — Sempre que ouço uma voz no telefone imagino a pessoa que falou, até mesmo quando ouço uma gravação.

 — É porque o som da nossa voz é produzido pelo corpo. Altura, volume, ressonância, rouquidão, enfim, todas as características vocais têm uma causa física. Quem é alto tem um trato vocal mais comprido, velhos têm tecidos enrijecidos e cartilagens que rangem ou chiam, pessoas doentes têm gargantas inflamadas.

 — Isso faz sentido — disse Judy.

 — Só que na verdade eu jamais tinha pensado nessas coisas.

 — Meu computador pega os mesmos indícios que as pessoas, e é mais preciso — Simon pegou um relatório impresso no envelope que trouxera. — Esta mulher tem entre quarenta e sete e cinqüenta e dois anos. É alta, com cerca de um metro e oitenta, pouco mais, pouco menos. Está além do peso ideal, mas não é obesa; provavelmente é dessas pessoas que são avantajadas de natureza. Bebe e fuma, e mesmo assim é saudável.

 Judy sentia-se ansiosa mas excitada. Embora achasse que teria sido melhor se não tivesse deixado que Simon começasse, era fascinante aprender alguma coisa sobre a mulher misteriosa que havia por trás da voz do telefonema.

 Simon olhou para Bo.

 — E você tem razão quando fala no sorriso largo. Ela tem uma cavidade bucal grande e seu discurso não é labializado — ou seja, ela não contrai os lábios.

 — Gosto desta mulher — disse Bo. — O computador diz se ela é boa de cama?

 Simon sorriu.

 — A razão pela qual você pensa que ela é sexy é que sua voz tem qualquer coisa de murmurante. O que pode ser um sinal de excitação sexual. Mas quando é uma característica permanente, não indica obrigatoriamente uma qualidade da libido.

 — Acho que você está enganado replicou Bo. — Mulheres sexy têm vozes sexy.

 — Idem para quem fuma muito.

 — OK, você tem razão.

 Simon rebobinou a fita.

 — Agora prestem atenção ao sotaque dela. Judy protestou.

 — Simon, não creio que devamos...

 — Basta que ouçam. Por favor!

 — Tudo bem, tudo bem.

 Desta vez ele tocou as duas primeiras frases. "Aqui é o Martelo do Éden com uma mensagem para o governador Mike Robson. Que merda, eu não esperava ter que falar num gravador."

 Simon parou a fita.

 — O sotaque é do norte da Califórnia, claro. Mas vocês notaram mais alguma coisa?

 Bo disse:

 — Ela é classe média. Judy franziu a testa.

 — A mim pareceu classe média elevada.

 — Vocês dois têm razão — disse Simon. — O sotaque varia entre a primeira e a segunda oração.

 — E isto é raro? — quis saber Judy.

 — Não. Nosso sotaque sempre resulta, basicamente, da influência do grupo social em que crescemos, se bem que no decurso da vida o modifiquemos. Geralmente as pessoas tentam melhorar: a classe trabalhadora tenta parecer mais rica, e os novos-ricos tentam falar como se tivessem mais tradição. Ocasionalmente acontece o contrário: o político de uma família aristocrática pode querer fazer com que seu sotaque pareça mais comum, para que ele possa passar por um homem do povo, entendem o que estou dizendo?

 Judy sorriu.

 — Melhor do que seria desejável.

 — O sotaque aprendido é usado em situações formais disse Simon, enquanto rebobinava a fita. — Entra em ação quando o orador está composto, emocionalmente estável. Mas nós revertemos aos padrões de fala da nossa infância quando sob tensão. Tudo bem até agora?

 Foi Bo quem respondeu:

 — Claro.

 — Esta mulher fez uma redução no estilo da sua fala. Quis aparentar ser mais da classe trabalhadora do que na realidade é.

 Judy sentia-se fascinada.

 — Você acha que ela pode ser uma espécie de reedição da figura de Patty Hearst?

 — Nessa área, sim. Ela começa com uma sentença formal ensaiada, pronunciada com sua voz de pessoa comum. Agora, na fala do inglês dos Estados Unidos, quanto mais de classe alta você é, mais nitidamente pronuncia o "r". Com isto em mente, ouçam como ela diz a palavra "governador".

 Judy ia interrompê-lo, mas estava interessada demais. A mulher da fita disse: "Aqui é o Martelo do Éden com uma mensagem para o governador Mike Robson."

 — Perceberam como ela diz praticamente "governadô" Mike? Quase não se ouve o "r" final. Isto é a fala das ruas. Mas prestem atenção à sentença seguinte. O aviso da secretária eletrônica a surpreende e ela fala com o sotaque original. "Que merda, eu não esperava ter que falar num gravador" — Embora comece com um expletivo chulo, "merda", ela pronuncia a palavra "gravador" muito corretamente. Fosse mesmo de uma classe social baixa, omitiria o último "r" tanto da palavra "gravador" quanto das anteriores "ter" e "falar" O diplomado mediano do terceiro grau pronunciaria todos os "r", sem , dúvida, mas somente uma pessoa realmente oriunda de uma classe superior pronunciaria cuidadosamente todos os três "r".

 Bo espantou-se.

 — Quem poderia imaginar que seria possível você descobrir tanta coisa em duas frases?

 Simon sorriu, parecendo satisfeito.

 — Mas notaram algo no tocante ao vocabulário?

 Bo sacudiu a cabeça.

 — Nada que eu seja capaz de apontar precisamente.

 — O que é que a gente normalmente chama de "gravador"?

 Bo riu.

 — Bem, "gravador" é a palavra mais geral. Minicassete também é bastante comum. No Vietnã eu tive o que era chamado de gravador de fita — um Grundig, do tamanho de uma maleta pequena, com dois carretéis na parte de cima.

 Judy viu onde Simon queria chegar. O termo "gravador" naquele contexto era ultrapassado no tempo. Mesmo que ela tivesse dito "secretária eletrônica" não seria mais o caso. Quando se tratava de uma instituição do porte de um FBI, há muito tempo que o sistema denominado correio de voz registra as mensagens diretamente no disco rígido de um computador.

 — Ela está vivendo em um desvio do tempo — disse Judy. — O que me faz pensar de novo em Patty Hearst. O que lhe terá acontecido, afinal?

 Bo disse:

 — Passou uma temporada na cadeia, saiu, escreveu um livro e apareceu no Geraldo. Bem-vinda à América.

 Judy levantou-se.

 — Isso foi fascinante, Simon, mas não me sinto à vontade com o que estou fazendo. Acho que você devia se apresentar ao Marvin agora.

 — Só quero mostrar mais uma coisa — insistiu ele, comprimindo o botão que adiantava a fita rapidamente.

 — Sinceramente...

 — Ouça só isto aqui.

 A voz da mulher foi ouvida de novo: "Aconteceu no Owens Valley pouco depois das duas horas, conforme podem verificar." Seguiu-se um intervalo, com um barulho distante ao fundo que fez com que ela hesitasse.

 Simon comprimiu a pausa.

 — Aumentei esse barulhinho, na verdade um murmúrio. Aqui está, reconstruído.

 Ele soltou o botão da pausa. Judy ouviu uma voz de homem, distorcida pelo barulho de fundo mas clara o bastante para se entender o que dizia: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos." O barulho de fundo voltou ao normal, a voz da mulher repetiu esta mesma frase e prosseguiu: "Agora que sabe que somos capazes de fazer o que dizemos, é melhor pensar de novo na nossa exigência."

 Simon parou a fita.

 Judy disse:

 — Ela repetiu um discurso ensinado, esqueceu de algo e ele lembrou o que era.

 Bo disse:

 — Você não achou que a mensagem original da Internet havia sido ditada por um sujeito talvez analfabeto e digitada por uma mulher com instrução?

 — Achei — concordou Simon. — Mas esta é outra mulher — mais velha.

 — E assim — disse Bo, agora dirigindo-se à filha — agora você está começando a levantar os perfis de três indivíduos desconhecidos.

 — Não, não estou não — retrucou Judy. — Estou fora do caso. Deixa disso, Simon, você sabe que isto pode me trazer mais encrenca.

 — OK — ele tirou a fita do aparelho e se levantou. — De qualquer forma, eu já lhe disse tudo o que havia de importante. Fale comigo se tiver algum insight brilhante que eu possa passar para o Marvin Mogadon.

 Judy o acompanhou até a porta.

 — Levarei meu relatório agora mesmo

 — Marvin provavelmente ainda estará trabalhando — disse ele. – Depois vou dormir. Passei a noite toda em claro com isso. — ele entrou no seu carro esporte e saiu, com o motor roncando forte.

 Quando ela voltou, Bo estava fazendo chá verde, ar pensativo.

 — Então esse malandro de rua dispõe de um bando de damas classudas para escrever o que ele dita.

 Judy balançou a cabeça.

 — Acho que sei onde você está querendo chegar.

 — Pode ser um culto. Eu estava certa em pensar em Patty Hearst. – Ela estremeceu. O homem por trás daquilo tudo devia ser uma figura carismática com poder sobre as mulheres. Não tinha instrução, mas isto não era empecilho, pois tinha outras pessoas para executarem suas ordens. — Mas tem uma coisa que não bate. A exigência de que seja suspensa a construção de novas usinas de eletricidade — não é uma coisa irracional ou pelo menos esquisita, como seria de se esperar.

 — Concordo — disse Bo. — Não é nem de grande notoriedade. Acho que devem ter uma razão qualquer concreta e egoísta para querer essa paralisação.

 — Não sei, não — cismou Judy — mas talvez tenham interesse em alguma determinada usina.

 — Judy, essa foi brilhante! Tipo vai poluir o rio onde pescam salmão ou algo assim.

 — Seja como for, será um golpe duro para eles — Judy sentia-se enormemente estimulada. Tinha descoberto alguma coisa.

 — A suspensão das obras de todas as usinas então não passa de um disfarce. Eles têm medo de dizer o nome daquela em que estão realmente interessados com medo de nos darem uma pista para chegar até o local onde se escondem.

 — Mas quantas possibilidades pode haver? Usinas elétricas não são construídas todos os dias. E essas coisas são controversas. Qualquer proposta tem de ser relatada.

 — Vamos verificar.

 Os dois foram para a saleta da televisão. O laptop de Judy ficava em cima de uma mesinha. Ela às vezes redigia relatórios ali enquanto seu pai assistia ao futebol. A televisão não a distraía e ela gostava de ficar perto dele. Ligou o laptop e enquanto esperava que iniciasse, disse:

 — Se prepararmos uma lista dos locais onde estão sendo construídas usinas elétricas, o computador do FBI nos dirá se há algum culto nas proximidades.

 Ela acessou os arquivos do San Francisco Chronicle e procurou referências a usinas elétricas nos três últimos anos. A busca produziu um total de 117 artigos. Judy verificou as manchetes, ignorando matérias sobre Pittsburgh e Cuba.

 — OK, tem aqui um plano para a construção de uma usina nuclear no deserto de Mojave... — ela salvou a história. — Uma hidrelétrica no condado de Sierra... uma usina incendiada perto da fronteira do Oregon...

 Bo disse:

 — Sierra? Isso toca uma campainha. Tem a localização exata?

 Judy clicou em cima do artigo.

 — Sim... a proposta é represar o rio, Silver River.

 Ele franziu a testa.

 — Silver River Valley...

 Judy desviou o olhar da tela do laptop.

 — Espera aí... isso é familiar... Não tem um grupo de vigilantes baseado numa grande extensão de terra ali?

 — Isso mesmo! — exclamou Bo. — São chamados de Los Alamos. Dirigidos por um maníaco da velocidade chamado Poco Latella, original de Daly City. É por isso que os conheço.

 — Certo. Vivem armados até os dentes e se recusam a reconhecer o governo dos Estados Unidos... Cristo, chegaram inclusive a usar a frase na fita: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos."

 Bo, acho que os pegamos.

 — O que é que você vai fazer?

 O coração de Judy ficou pequeno quando ela se lembrou de que estava fora do caso.

 — Se Kincaid descobrir que andei trabalhando neste caso.

 — Los Alamos tem que ser investigado.

 — Vou telefonar para Simon — ela pegou o telefone e ligou para o escritório. O operador da mesa era um sujeito que ela conhecia.

 — Ei, Charlie, aqui é a Judy. Simon Sparrow está na casa?

 — Veio mas já saiu — respondeu Charlie. — Quer que eu tente o carro dele?

 — Por favor.

 Ela aguardou um pouco e logo voltou a ouvir a voz de Charlie.

 — Não responde. Tentei a casa dele também. Quer que eu deixe uma mensagem no seu pager?

 — Sim, por favor — Judy lembrou que ele havia dito que ia dormir. — Mas aposto como vai estar desligado também.

 — Deixo um recado para ele ligar para você.

 — Obrigada — ela desligou e virou-se para o pai. — Bo, acho que vou ter que falar com Kincaid. Pode ser que se eu lhe der uma pista quente, ele não fique furioso comigo.

 Bo limitou-se a encolher os ombros.

 — Você não tem escolha, tem?

 Judy não podia arriscar-se a permitir que morresse gente só porque tinha medo de confessar o que fizera.

 — Não, não tenho escolha — disse.

 Ela estava com uma calça-jeans preta e uma camiseta cor de morango. A camiseta era justa demais para ir ao escritório, mesmo em uma manhã de sábado. Subiu até o quarto e a trocou por uma pólo branca. Depois pegou seu Monte Carlo e foi para o centro da cidade.

 Marvin teria que organizar uma incursão a Los Alamos. Podia haver encrenca; os vigilantes eram malucos. A incursão precisava ter um efetivo razoavelmente grande e ser meticulosamente organizada. O FBI morria de medo de outro Waco. Todo o pessoal da agência seria convocado para fazer parte dela. A agência de Sacramento também seria envolvida. Provavelmente a ação seria desencadeada na madrugada do dia seguinte. Foi direto à sala de Kincaid. A secretária estava na ante-sala, trabalhando no computador, trajando uma roupa de sábado, calça-jeans branca e camisa vermelha. Ela pegou o telefone e disse:

 — Judy Maddox está aqui para ver o senhor — após um momento desligou e disse para Judy: — Pode entrar.

 Judy hesitou na porta da sala de Kincaid. Nas duas últimas vezes em que entrara naquele escritório, sofrera humilhação e desapontamento. Mas não era supersticiosa. Talvez desta vez ele se mostrasse magnânimo e compreensivo.

 Ainda a perturbava ver sua figura corpulenta na cadeira que era de Milton Lestrange, um homem esbelto e elegante no vestir. Deu-se conta neste instante de que ainda não visitara Milt no hospital. Tomou nota mentalmente para visitá-lo ainda naquela noite ou no dia seguinte.

 O cumprimento de Kincaid foi glacial.

 — O que posso fazer por você, Judy?

 — Estive hoje com Simon Sparrow — começou ela. — Ele me trouxe o relatório porque não sabia que eu estava fora do caso. Naturalmente que eu lhe disse para entregar a Marvin.

 — Naturalmente.

 — Mas ele me contou um pouco do que descobriu, o que me fez imaginar que o Martelo do Éden deve ser um culto que se sinta de algum modo ameaçado pelo projeto de construção de uma usina elétrica.

 Brian pareceu aborrecido.

 — Passarei isso para Marvin — disse, impaciente.

 Judy insistiu, inabalável.

 — Há diversos projetos de usinas na Califórnia; eu mesma verifiquei. E um deles é no vale do rio Silver, onde há um grupo de vigilantes de extrema direita chamado Los Alamos. Brian, eu acho que os Los Alamos devem ser o Martelo do Éden. Acho que devíamos fazer uma incursão lá.

 — É isso que você acha? Oh, que merda.

 — Há alguma falha na minha lógica? — perguntou ela, glacialmente.

 — Pode apostar como há — ele se levantou. — A falha é que você não tem nada a ver com este maldito caso.

 — Eu sei — contrapôs ela. — Mas pensei que. . .

 Ele a interrompeu, esticando o braço por cima da mesa grande e apontando um dedo acusador contra o seu rosto.

 — Você interceptou o relatório psicolingüístico e está tentando dar um jeito para voltar ao caso — e eu sei por quê! Você acha que é um caso que pode lhe trazer notoriedade e quer aparecer.

 — Para quem? — perguntou Judy, indignada.

 — A sede do FBI, a imprensa, o governador Robson.

 — Não quero nada!

 — Ouça bem o que vou falar. Você está fora deste caso. Está me entendendo? F-o-r-a, fora. Você não fala com seu amigo Simon a respeito do caso. Você não verifica planos de construção de usinas. E não propõe incursões contra sedes de grupos de vigilantes.

 — Jesus Cristo!

 — Eis o que você vai fazer: você vai para casa. E vai deixar este caso com Marvin e comigo.

 — Brian...

 — Adeus, Judy. Tenha um bom fim de semana.

 Ela o encarou fixamente. Kincaid estava vermelho e respirando com dificuldade. Sentiu-se furiosa mas impotente. Engoliu as respostas furiosas que lhe vieram à mente. Tinha sido forçada a desculpar-se por ter xingado Kincaid uma vez e não queria passar pela humilhação de novo. Mordeu os lábios. Após um longo momento, girou nos calcanhares e saiu da sala.

 

 Priest parou o velho Plymouth `Cuda no lado da estrada, ao raiar do dia. Pegou a mão de Melanie e levou-a por dentro da floresta. O ar da montanha era frio e eles tremiam em suas camisetas até que o esforço da caminhada aqueceu-lhes os corpos. Após alguns minutos deram em um penhasco de onde era possível ver o vale do rio em toda a sua extensão.

 — O vale do rio Silver — disse Priest. — É aqui que querem construir a tal represa para a usina hidrelétrica.

 Justo naquele ponto o vale se estreitava em uma garganta, de tal modo que o outro lado não ficava a mais de quinhentos metros. Ainda estava muito escuro para ver o rio, mas no silêncio da manhã dava para ouvir o rumorejar das águas lá embaixo. Quando o dia clareou mais um pouco, conseguiram distinguir as formas escuras dos guindastes e das gigantescas máquinas de terraplenagem, silenciosas e imóveis, como dinossauros adormecidos.

 Priest praticamente perdera a esperança de que o governador Robson fosse negociar. O terremoto em Owens Valley fora há dois dias e, até agora, nem uma só palavra. Não conseguia imaginar qual seria a estratégia do governador, mas com certeza não era de capitulação. Tinha que haver outro terremoto. Mas ele se inquietava. Melanie e Star podiam relutar, em especial porque o segundo tremor teria que causar mais danos que o primeiro. Tinha que revigorar a dedicação delas à causa, a começar com Melanie.

 — Será criado um lago com dezesseis quilômetros de comprimento, em toda a extensão do vale — disse ele. Pôde ver o rosto oval de Melanie, muito branco, ficar tenso de raiva. — A partir daqui, rio acima, tudo que você está vendo ficará sob a água.

 Depois da garganta, estendia-se o largo fundo do vale. Quando a paisagem ficou visível, puderam ver as casas dispersas aqui e ali, e alguns campos cuidadosamente cultivados, todos ligados por estradinhas de terra. Melanie disse:

 — Certamente que alguém tentou impedir a construção da represa, não?

 Priest aquiesceu.

 — Houve uma enorme batalha legal. Nós não tomamos parte. Não acreditamos em tribunais e advogados. E não queríamos repórteres e equipes de televisão espalhados por toda a parte como praga — um grande número de nós tem segredos para guardar. Este é o motivo pelo qual nem dizemos às pessoas que formamos uma comunidade. A maior parte de nossos vizinhos nem sabe que existimos, e outros pensam que o vinhedo é administrado de Napa e emprega trabalhadores temporários. Por isso não participamos do protesto. Mas alguns dos residentes mais ricos contrataram advogados e os grupos ambientalistas ficaram do lado dos moradores. Não adiantou.

 — Como é que pode?

 — O governador Robson apoiou o projeto da construção da represa e pôs esse tal de Honeymoon no caso — Priest odiava Honeymoon. Ele tinha mentido, enganado e manipulado a imprensa impiedosamente. — Honeymoon distorceu a coisa de tal modo que a imprensa fez o pessoal daqui parecer um bando de caras egoístas que queriam negar energia elétrica para todos os hospitais e escolas da Califórnia.

 — Como se tivessem culpa de que as pessoas em Los Angeles pusessem iluminação subaquática em suas piscinas e tivessem motores elétricos para fechar as cortinas da casa.

 — Certo. E assim, a Coastal Electric teve permissão para construir a represa.

 — E todas essas pessoas perderão suas casas.

 — Além de um centro hípico, um campo de vida selvagem, diversas cabanas de verão e um bando maluco de vigilantes armados conhecidoscomo Los Alamos. Todos recebem compensação financeira — exceto nós, porque não somos os proprietários de nossa terra, só a alugamos na base de contratos de um ano. Não receberemos nada — pelo melhor vinhedo entre Napa e Bordeaux.

 — É o único lugar onde me senti em paz.

 Priest murmurou qualquer coisa em sinal de compreensão. Era assim que queria que a conversa se desenrolasse.

 — Dusty sempre teve aquelas alergias?

 — Desde que nasceu. Na verdade, ele era alérgico a leite de vaca, mamadeira, até mesmo materno. Sobreviveu à base de leite de cabra. Foi quando me dei conta de que a raça humana deve estar fazendo algo de errado para que o mundo esteja tão poluído que o próprio leite do meu seio seja venenoso para meu filho.

 — Mas você o levou aos médicos.

 — Michael insistiu. Eu sabia que não ia adiantar nada. Receitaram remédios para suprimir seu sistema imunológico e impedir que reagisse aos elementos alergênicos. Que tipo de tratamento é esse? O que ele precisava era de água pura, ar limpo e um modo de vida saudável. Acho que procurei um lugar assim desde que ele nasceu.

 — Foi difícil para você.

 — Você não faz idéia de como foi difícil. Uma mulher sozinha com um filho doente não consegue permanecer em nenhum emprego, não consegue morar em um apartamento decente, não pode viver. Você acha que a América é um grande lugar, mas é tudo a mesma droga.

 — Você estava em mau estado quando a encontrei.

 — Estava prestes a me matar e a Dusty também — os olhos dela encheram-se de lágrimas.

 — Aí você encontrou este lugar.

 O rosto dela ficou vermelho de raiva. — Que agora querem tirar de mim!

 — O FBI diz que não fomos nós que causamos o terremoto e o governador nada disse.

 — Ao inferno com ele, teremos que repetir a dose! Só que desta vez de um jeito que não possam ignorar.

 Era o que ele queria ouvi-la dizer.

 — Seria preciso causar danos reais, derrubar algumas edificações. Pode ser que saia gente ferida.

 — Mas não temos escolha!

 — Podíamos deixar o vale, acabar com a comunidade, voltar ao antigo estilo de vida: empregos normais, dinheiro, ar poluído, cobiça, ciúme e ódio.

 Priest conseguiu assustá-la.

 — Não! — exclamou Melanie. — Não diga uma coisa dessas!

 — Acho que você está certa. Não podemos voltar agora.

 — Eu com certeza não posso.

 Ele varreu o vale com o olhar novamente.

 — Vamos nos assegurar de que o vale permaneça tal como Deus o fez.

 Ela fechou os olhos, aliviada, e disse: — Amém.

 Priest segurou-lhe a mão e conduziu-a de volta por entre as árvores até o carro.

 Seguindo ao longo da estreita estrada que acompanhava o vale, Priest perguntou:

 — Você vai pegar Dusty em San Francisco hoje?

 — É, vou, saio depois do almoço.

 Priest ouviu um estranho barulho sobrepondo-se ao ronco asmático do velho motor V8 do `Cuda. Deu uma olhada pela janela lateral e viu um helicóptero.

 — Merda! — exclamou, metendo o pé no freio. Melanie foi lançada para a frente.

 — O que é? — perguntou, assustada.

 Priest parou o carro e saltou. O helicóptero estava desaparecendo na direção norte.

 Melanie também saltou. — O que está havendo?

 — O que um helicóptero está fazendo aqui?

 — Oh, meu Deus — exclamou ela, a voz trêmula. — Acha que está nos procurando?

 O barulho desapareceu e depois voltou. O helicóptero reapareceu de repente sobre as árvores, voando baixo.

 — Acho que são os federais — disse Priest. — Droga! — Após a entrevista coletiva desenxabida da véspera ele achara que ia ficar em segurança por mais uns dias. Kincaid e Hayes pareciam longe de descobrir sua pista. Agora estavam ali, no vale.

 Melanie perguntou:

 — O que vamos fazer?

 — Manter a calma. Eles não vieram por nossa causa.

 — Como é que você sabe?

 — Tomei minhas providências. Ela começou a chorar.

 — Priest, por que fica falando comigo por enigmas?

 — Desculpe — ele se lembrou de que precisava dela para o que ainda tinha que fazer. Por isso tinha que explicar as coisas. Organizou seus pensamentos. — Eles não podem estar vindo atrás de nós porque não sabem de nossa existência. A comunidade não aparece em nenhum registro do governo — nossa terra é cedida para uma pessoa, a Star. Não aparecemos nos arquivos da polícia ou do FBI porque nunca despertamos a atenção deles. Nunca houve um artigo de jornal ou um programa de televisão nos focalizando. Não somos registrados no Imposto de Renda. Nosso vinhedo não aparece em nenhum mapa.

 — Então por que eles estão aqui?

 — Acho que vieram atrás dos Los Alamos. Aqueles malucos devem estar nos arquivos de todas as agências policiais dos Estados Unidos. Pelo amor de Deus, eles ficam junto do portão armados até os dentes com rifles de alto calibre só para que todo mundo saiba que lá moram uns bandidos perigosos e malucos.

 — Como você pode ter certeza de que o FBI está atrás deles?

 — Simples. Quando Star ligou para o programa do John Truth, fiz com que ela dissesse o slogan do pessoal de Los Alamos: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos." Ou seja, deixei uma pista falsa.

 — Estamos seguros, então?

 — Não. Depois que virem que Los Alamos está limpo, os federais podem querer dar uma olhada nas outras pessoas do vale. Vão enxergar o vinhedo do helicóptero e nos fazer uma visita. É melhor a gente ir para casa e avisar os outros.

 Priest pulou dentro do carro. Assim que Melanie sentou, ele meteu o pé no acelerador. Mas o carro tinha vinte e cinco anos e não fora projetado para correr em estradas sinuosas que cortavam montanhas. Priest amaldiçoou os carburadores entupidos e a suspensão cambaleante. Enquanto lutava para conservar a velocidade na estrada cheia de curvas, perguntava a si próprio quem no FBI poderia ter ordenado aquela incursão. Não esperara que Kincaid ou Hayes fossem ter a intuição de fazer aquilo. Tinha que haver mais alguém no caso. Gostaria de saber quem.

 Surgiu um carro preto por trás dele, andando depressa, faróis acesos embora o dia já estivesse claro. Estavam se aproximando de uma curva, mas o motorista buzinou e forçou passagem. Quando passou, Priest viu o motorista e seu companheiro, dois homens jovens e corpulentos, vestidos com roupa esporte mas bem barbeados e de cabelos curtos. Imediatamente depois apareceu um segundo carro, buzinando e piscando os faróis.

 — Que merda — exclamou Priest. Quando o FBI estava com pressa, era melhor sair do caminho. Ele freou e desviou, abrindo passagem. As rodas da esquerda do `Cuda subiram, com um solavanco, o terreno gramado ao lado da estrada. Um segundo automóvel passou chispando e logo veio um terceiro. Priest parou totalmente seu velho carro.

 Ele e Melanie deixaram-se ficar sentados observando a passagem de uma série de veículos. Assim como automóveis de passageiros, havia dois caminhões blindados e três minivans cheios de homens de expressão sinistra e algumas mulheres.

 — É uma blitz — lamentou-se Melanie.

 — Puta que pariu, não brinca! — disse Priest, a tensão tornando-o sarcástico.

 Ela pareceu não notar.

 Um carro saiu do comboio e parou logo atrás do `Cuda. Priest de repente sentiu medo. Olhou para o carro pelo retrovisor. Era um Buick Regal verde-garrafa. O motorista falava ao telefone. Havia outro homem no banco do carona. Priest não conseguiu distinguir seus rostos. Quisera, de todo coração, não ter ido à entrevista coletiva. Um dos caras do Buick podia ter estado lá. E nesse caso, com toda certeza ia querer saber o que um advogado de Oakland estava fazendo ali. Dificilmente poderia ser uma coincidência. Qualquer agente com metade de um cérebro poria imediatamente Priest no topo da lista dos suspeitos.

 O último integrante do comboio passou como um raio. No Buick, o motorista desligou o telefone. A qualquer segundo agora os dois agentes saltariam do carro. Priest debateu-se desesperadamente, procurando inventar uma história plausível. Fiquei tão interessado no caso, e me lembrei de uma reportagem na televisão sobre esse grupo de vigilantes e seu slogan, isso de não reconhecerem a autoridade do governo, a mesma coisa que a mulher disse na secretária eletrônica do programa do John Truth, que aí pensei em bancar o detetive, e verificar eu mesmo o que havia... Mas não iam acreditar. Por mais plausível que fosse sua história iam interrogá-lo de uma forma tão completa que não seria possível enganá-los.

 Os dois agentes saíram do carro. Priest os examinou cuidadosamente pelo espelho.

 Não reconheceu nem um nem outro.

 Relaxou um pouco. Havia uma camada de suor no seu rosto. Esfregou a testa com as costas da mão.

 Melanie disse:

 — Oh, Jesus, o que será que eles querem?

 — Fica fria — disse Priest. — Não dê a impressão de que está louca para se mandar. Vou fingir que estou superinteressado neles. A um ponto tal que fará com que queiram se livrar de nós o mais depressa que puderem. Psicologia reversa — ele saiu do carro.

 — Ei, vocês são da polícia? — disse, entusiasmado. — Tem alguma coisa importante acontecendo?

 O motorista, um homem magro com óculos de armação preta, disse:

 — Somos agentes federais. Senhor, verificamos sua placa e o seu carro está registrado como pertencente à Napa Bottling Company.

 Paul Beale fazia questão de manter o carro no seguro e totalmente regularizado.

 — É onde sou empregado.

 — Posso ver sua licença de motorista?

 — Oh, pois não — Priest pegou a licença no bolso de trás da calça. — Aquele helicóptero que eu vi era de vocês?

 — Sim, senhor, era — o agente examinou sua licença e devolveu. – E onde o senhor foi nesta manhã?

 — Trabalhamos num vinhedo mais acima, aqui mesmo no vale. Ei, espero que vocês tenham vindo atrás desses malditos vigilantes. Eles deixam todo mundo por aqui morrendo de medo. Eles...

 — Onde o senhor foi mesmo nesta manhã?

 — Fomos a uma festa em Silver City ontem à noite. Terminou meio tarde. Mas estou sóbrio, não se preocupem!

 — Tudo bem.

 — Escuta, eu escrevo umas coisinhas para o jornal local, não sei se conhecem, o Silver City Chronicle? Será que posso ter uma declaração qualquer de vocês a respeito desta blitz? Vai ser a maior notícia do condado em muitos anos! — quando as palavras saíram de sua boca ele se deu conta de que aquilo era muito arriscado para um homem que não sabia ler ou escrever. Bateu nos bolsos.

 — Puxa vida, não tenho nem um lápis.

 — Não podemos dizer nada — retrucou o agente. — O senhor terá que telefonar para a pessoa encarregada das ligações com a imprensa, no escritório do Bureau em Sacramento.

 Priest fingiu desapontamento.

 — Oh, sim, claro, claro. Eu entendo.

 — O senhor disse que estava indo para casa.

 — Sim. OK, acho que vamos andando, sim. Boa sorte com os vigilantes!

 — Muito obrigado.

 Os agentes retornaram para o Buick.

 Eles não tomaram nota do meu nome.

 Priest voltou para o seu carro. Pelo espelho, ficou observando os agentes. Nenhum dos dois pareceu estar anotando algo.

 — Jesus Cristo — murmurou, feliz. — Acreditaram na minha história.

 Ele saiu, seguido pelo Buick.

 Ao se aproximar da entrada para Los Alamos, poucos minutos depois, Priest abaixou o vidro da sua janela, para ver se ouvia tiros. Não ouviu nada. Parecia que o FBI tinha apanhado os caras dormindo. Depois de uma curva viu dois carros estacionados perto da entrada de Los Alamos. A porteira de cinco paus que bloqueava a trilha fora esmagada: dava para adivinhar que o FBI passara com os carros blindados por cima sem se deter. O portão normalmente era guardado — onde estaria o sentinela?

 Foi então que viu um homem de calça camuflada, cara no chão, mãos algemadas nas costas, guardado por quatro agentes. Os federais não queriam se arriscar. Os agentes dirigiram um olhar apreensivo para o `Cuda mas relaxaram quando viram o Buick verde que o seguia. Priest vinha dirigindo lentamente, como um passante curioso. Atrás dele, o Buick saiu da estrada e parou perto da porteira arrombada. Assim que se viu fora do alcance das vistas deles, Priest meteu o pé na tábua.

 

 Quando chegou na comunidade, foi direto à cabana de Star, para lhe falar sobre o FBI.

 Encontrou Star na cama com Bones.

 Tocou ligeiramente no ombro dela para acordá-la e disse:

 — Precisamos conversar. Espero lá fora.

 Ela fez que sim. Bones nem se mexeu.

 Priest saiu enquanto Star se vestia. Não tinha objeção a que ela renovasse seu relacionamento com Bones, claro. Ele próprio estava dormindo regularmente com Melanie e Star tinha o direito de se distrair com seu antigo amor. Sentia, ao mesmo tempo, um misto de curiosidade e apreensão. Na cama eles seriam apaixonados, famintos um pelo outro, ou relaxados e bem-humorados? Será que Star pensava em Priest enquanto fazia amor com Bones ou punha todos os outros amantes fora da sua mente e pensava apenas naquele com quem estava? Será que os compararia mentalmente e classificaria um como mais enérgico, mais terno ou mais competente? Tais perguntas não eram novas. Ele se lembrava de ter os mesmos pensamentos sempre que Star tinha um amante. O que acontecia agora era exatamente como nos primeiros tempos, só que estavam muito mais velhos.

 Priest sabia que sua comunidade não era como as outras. Paul Beale seguia o destino de outros grupos. No começo todos perseguiam ideais similares, mas depois tinham cedido. Geralmente ainda oravam juntos, seguindo um guru ou uma disciplina religiosa de alguma espécie, mas tinham revertido à propriedade privada e ao uso do dinheiro e não mais praticavam completa liberdade sexual. Eram fracos, no modo de ver de Priest. Não tinham tido a força de vontade para seguirem sempre seus ideais e fazê-los funcionar. Em momentos de maior imodéstia, dizia para si próprio que era uma questão de liderança.

 Star saiu envergando sua calça-jeans e um suéter azul bem folgado. Para alguém que acabara de se levantar, estava ótima. Foi o que Priest lhe disse.

 — Uma boa trepada faz maravilhas pela minha pele — disse ela.

 Havia qualquer coisa de diferente no seu tom de voz, o bastante para fazer com que Priest pensasse que Bones representava uma espécie de vingança por causa de Melanie. Será que ia ser uma espécie de fator desestabilizante? Ele já tinha coisas demais com que se preocupar. Por ora, tinha que deixar aquilo de lado. Enquanto caminhavam até a cabana da cozinha, lhe contou sobre a blitz do FBI contra Los Alamos.

 — Pode ser que decidam verificar as outras residências existentes no vale e, neste caso, nos encontrarão aqui. Não ficarão desconfiados desde que não saibam que somos uma comunidade. Só teremos que sustentar nossa fachada habitual. Somos trabalhadores itinerantes sem interesses de longo prazo no vale, e, exatamente por isto, não temos motivos para nos preocuparmos com a represa.

 Ela aquiesceu.

 — É melhor você lembrar a todos na hora do café da manhã. Os Comedores de Arroz saberão o que você realmente tem em mente. Os outros pensarão que é nossa política costumeira de não dizer nada que possa atrair atenção.

 — E as crianças?

 — Não vão interrogar as crianças. É o FBI, não a Gestapo.

 — Tudo bem.

 Eles entraram e começaram o café.

 Metade da manhã já se passara quando dois agentes desceram a colina tropeçando e com lama nos mocassins e carrapichos na bainha das calças. Priest os observou do celeiro. Se reconhecesse alguém dos que vira na véspera, seu plano era desaparecer na floresta, fugindo por entre as cabanas. Mas nunca vira aqueles. O mais jovem era alto e largo, com uma aparência nórdica, cabelo louro bem claro e pele muito branca. O mais velho era oriental, com os cabelos negros já escasseando na parte de cima da cabeça. Não eram os que o haviam interrogado de manhã e ele tinha certeza de que também não tinham estado na entrevista coletiva. A maioria dos adultos se encontrava no vinhedo, espargindo molho de pimenta para impedir que os cervos comessem os brotos. As crianças encontravam-se no templo, tendo uma aula de catecismo com Star, que lhes contava a história de Moisés sendo salvo dentro de uma cestinha. A despeito dos preparativos cuidadosos que fizera, Priest sentiu uma pontada de pânico quando os agentes se aproximaram. Havia vinte e cinco anos que o vale era um lugar secreto e sagrado. Até a última quinta-feira, quando um policial aparecera procurando os pais de Flower, nenhuma autoridade jamais pusera os pés ali; nenhum superintendente do condado, nenhum carteiro, nem sequer um coletor de lixo. E aqui estava o FBI. Se pudesse fazer com que caísse um raio na cabeça dos dois agentes, ele o teria feito sem pensar duas vezes.

 Respirou fundo e cruzou a encosta da elevação dirigindo-se ao vinhedo. Dale cumprimentou os dois agentes, conforme o combinado. Priest encheu um latão d'água com a solução de pimenta e começou a aspergir, movendo-se na direção de Dale para que pudesse ouvir a conversa. O oriental falou, num tom de voz amistoso.

 — Somos agentes do FBI, fazendo umas indagações de rotina na área. Meu nome é Bill Ho e este é John Aldritch. Aquilo era encorajador, Priest disse a si próprio. Parecia que eles não tinham interesse especial no vinhedo: estavam só dando uma espiada, na esperança de encontrar alguma pista. Uma sondagem. Mas esta avaliação não fez com que se sentisse menos tenso.

 Ho deu uma olhada com ar de apreciador.

 — Que lugar lindo — comentou, com um gesto que abrangia todo o vale.

 Dale fez que sim.

 — Somos muito ligados a ele.

 Vai com calma, Dale — nada de ironias. Isto aqui não é uma brincadeira.

 Aldritch, o agente mais moço, perguntou, impaciente:

 — É você o encarregado aqui? — ele tinha sotaque do sul.

 — Sou o capataz — respondeu Dale. — O que posso fazer por vocês?

 Foi Ho quem falou:

 — Vocês moram aqui?

 Priest fingiu continuar trabalhando, mas seu coração batia com mais força enquanto ele se esforçava para ouvir.

 — A maior parte da turma aqui é de trabalhadores temporários – disse Dale, seguindo o roteiro combinado com Priest. — A companhia proporciona acomodações porque este lugar é muito longe de tudo.

 — Lugar estranho para uma lavoura de frutas — comentou Aldritch.

 — Não é de frutas, isto aqui é uma vinícola. Gostaria de provar um copo da safra do ano passado? É realmente muito bom.

 — Não, obrigado. A menos que você tenha algum produto sem álcool.

 — Sinto muito. Só temos o artigo verdadeiro.

 — Quem é o dono?

 — A Napa Bottling Company. Aldritch tomou nota.

 Ho virou-se para o conjunto de edificações do outro lado do vinhedo.

 — Você se incomoda se eu der uma espiada?

 Dale deu de ombros.

 — Claro, vá em frente.

 Priest observou ansiosamente os dois agentes se afastarem. À primeira vista, era uma história plausível que aquelas pessoas fossem trabalhadores mal pagos vivendo em acomodações de má qualidade oferecidas por um patrão avarento. Mas havia indícios ali espalhados que podiam levar um agente esperto a fazer mais perguntas. O templo era o mais óbvio. Star dobrara a velha faixa com os Cinco Paradoxos de Baghram. Assim mesmo, alguém com uma mente curiosa podia querer saber por que a escola era uma edificação redonda sem janelas e sem mobília.

 Havia também canteiros de maconha na floresta próxima. Os agentes do FBI não estavam interessados em drogas em quantidade insignificante, mas cultivar droga era uma coisa que não se ajustava à ficção de uma população temporária. Quanto à loja comunitária, era idêntica a qualquer outra loja até você notar que não havia uma única etiqueta com preço em qualquer artigo ou mesmo uma caixa registradora. Havia talvez uma centena de outros modos que poderiam fazer a farsa desmoronar ante uma investigação mais meticulosa, mas Priest tinha esperança de que o interesse do FBI fosse nos vigilantes de Los Alamos e estivesse investigando os vizinhos apenas como uma questão de rotina. Teve de lutar contra a tentação de seguir os agentes. Estava desesperado para ver o que eles iam olhar e ouvir o que diriam um ao outro enquanto caminhavam em torno das cabanas.

 Mas obrigou-se a continuar aspergindo a solução de pimenta nas videiras, levantando os olhos a cada um ou dois minutos para ver onde estavam e o que faziam.

 Entraram na cozinha. Garden e Slow preparavam lasanha para a refeição do meio- dia. O que os agentes estariam dizendo a eles? Garden estaria tagarelando nervosamente e se traindo? Slow teria se esquecido de suas instruções e começado a balbuciar confusa e entusiasticamente sobre a meditação diária?

 Os agentes saíram da cozinha. Priest concentrou o olhar intensamente neles, tentando adivinhar-lhes os pensamentos, mas estavam longe demais para ler a expressão dos seus rostos e a linguagem corporal de ambos nada transmitia.

 Começaram a caminhar, dando uma espiada rápida, por entre as cabanas. Impossível para Priest adivinhar se o que viam faria com que suspeitassem que se encontravam em uma coisa que era algo além de uma vinicultura.

 Eles checaram a máquina que prensava as uvas, os galpões onde o vinho era posto para fermentar e os tonéis com a safra do ano anterior esperando ser engarrafada.

 Teriam observado que nada era movido a eletricidade? Abriram a porta do templo. Falariam com as crianças, contrariando a previsão de Priest? Será que Star perderia a calma e os chamaria de porcos fascistas? Priest conteve a respiração. Os agentes fecharam a porta sem entrar.

 Eles falaram com Oaktree, que cortava aduelas para os tonéis no pátio. Oaktree levantou a cabeça e falou laconicamente, sem parar de trabalhar. Talvez tivesse imaginado que levantaria suspeitas caso fosse amistoso.

 Encontraram Aneth pendurando fraldas na corda. Ela se recusava a usar fraldas descartáveis. Provavelmente estava explicando isso aos agentes, dizendo que não há no mundo árvores suficientes para que cada criança possa usar fraldas descartáveis.

 Desceram até o regato e estudaram as pedras no leito raso, parecendo pensar sobre a possibilidade de atravessar. A maconha era cultivada do outro lado. Mas os agentes aparentemente não tencionavam molhar os pés e voltaram.

 Por fim retornaram ao vinhedo. Priest tentou estudar suas feições sem encará-los. Estariam convencidos ou teriam visto algo que os deixara curiosos? O jeitão de Aldritch era hostil, enquanto que Ho parecia mais amigável, mas isto podia ser teatro.

 Aldritch dirigiu-se a Dale:

 — Algumas dessas cabanas são bem enfeitadas para uma acomodação temporária, não acha?

 Priest gelou. Era uma pergunta cética, dando a entender que Aldritch não acreditara na história. Priest começou a pensar se não haveria algum modo de matar os dois homens do FBI sem ser apanhado.

 — Bem — disse Dale — alguns de nós voltam a cada ano — ele estava improvisando; nada daquilo tinha sido previsto no roteiro de Priest. – E alguns moram aqui o ano inteiro — Dale não era um mentiroso experiente. Se aquilo continuasse por muito tempo, acabaria se traindo.

 Aldritch:

 — Quero uma lista de todos os que moram ou trabalham aqui. A cabeça de Priest pôs-se a funcionar a toda velocidade. Dale não podia usar os nomes que as pessoas tinham na comunidade, pois isso denunciaria a verdade — e, de qualquer maneira, os agentes insistiriam querendo os nomes verdadeiros. Só que alguns ali tinham ficha na polícia, inclusive o próprio Priest. Será que Dale pensaria rápido o bastante para ver que tinha que inventar nomes para todo mundo? Teria coragem para tanto?

 Ho acrescentou:

 — Precisamos também das idades e dos endereços permanentes — o tom de voz dele era de quem pedia desculpas.

 Merda! A coisa está ficando feia.

 — Vocês podem conseguir isso nos arquivos da firma.

 Não, eles não podem.

 — Sinto muito — disse Ho — mas precisamos disso agora. Dale pareceu ficar perplexo.

 — Puxa vida, acho que vocês vão ter que sair andando por aí e perguntando ao pessoal. Não posso saber o dia do aniversário de todos. Sou o capataz deles, não o avô.

 Priest se apavorou. Aquilo era perigoso. Não podia permitir que os agentes interrogassem todo mundo. Eles se denunciariam dezenas de vezes.

 Tomou uma decisão rápida e adiantou-se.

 — Sr. Arnold? — disse, inventando um nome para Dale no impulso do momento. — Talvez eu possa ajudar os cavalheiros — sem planejar, ele adotou a persona de um sujeito amigável, ansioso por ajudar, mas não muito inteligente. Ele dirigiu-se aos agentes. — Já venho aqui há alguns anos, acho que conheço todo mundo e sei a idade também.

 Dale pareceu aliviado de transferir a responsabilidade.

 — OK, vá em frente — disse.

 — Por que não vamos para a cozinha? — Priest perguntou aos agentes. — Já que não bebem vinho, aposto como gostariam de tomar um café.

 Ho sorriu e disse:

 — Seria realmente ótimo.

 Priest conduziu-os de novo por entre as filas de videiras e os levou para o interior da cozinha.

 — Temos que ver uns papéis — explicou ele para Garden e Slow. -Continuem preparando essa massa com um cheiro maravilhoso, mas façam de conta que não estamos aqui.

 Ho ofereceu a Priest seu bloco de anotações.

 — Por que você não escreve os nomes, idades e endereços aqui?

 Ele não pegou o bloco.

 — Puxa vida, minha caligrafia é a pior do mundo — disse, sem se dar por achado. — Agora, vocês se sentam e escrevem enquanto eu faço o café — ele pôs um bule no fogo e os agentes se sentaram a uma mesa de pinho comprida.

 — O capataz é Dale Arnold, tem quarenta e dois anos. Aqueles caras nunca conseguiriam verificar aquilo. Ninguém ali tinha o nome em catálogos de telefone ou qualquer tipo de registro.

 — Endereço permanente?

 — Ele mora aqui. Todo mundo mora.

 — Pensei que vocês fossem trabalhadores temporários.

 — O due é verdade. Mas a maioria vai embora quando chega novembro, a safra já foi colhida e as uvas esmagadas; só que não somos o tipo de gente que pode manter duas casas. Por que pagar aluguel quando você passa tanto tempo morando em outro lugar?

 — O endereço permanente para todos seria então...?

 — Silver City Valley Winery, Silver City, Califórnia. Mas todo mundo tem a correspondência enviada para a firma, em Napa, é mais seguro.

 Aldritch estava ficando irritado e ligeiramente confuso, como fora a intenção de Priest. Pessoas rabugentas não têm paciência com pequenas incoerências.

 Ele serviu o café enquanto ia inventando os nomes. Para se lembrar depois quem era quem, usou variações dos nomes que as pessoas tinham na comunidade: Dale Arnold, Peggy Star, Richard Priestley, Holly Goldman.

 Deixou de fora Melanie e Dusty, que estavam ausentes — Dusty na casa do pai e Melanie porque fora buscá-lo.

 Aldritch o interrompeu.

 — Na minha experiência, a maioria dos trabalhadores rurais temporários neste estado são mexicanos, ou pelo menos hispânicos.

 — É sim, só que aqui é o contrário — concordou Priest. — A firma tem algumas vinícolas, e eu acho que o chefe mantém todos os hispânicos juntos em separado, com capatazes que falam espanhol e põe os outros aqui na nossa equipe. Não é racismo, entende, é só uma coisa prática. Eles pareceram aceitar a explicação de Priest.

 Priest prosseguiu lentamente, prolongando a sessão o máximo possível. Ali na cozinha os agentes não podiam fazer mal. Se ficassem chateados e impacientes para ir embora, tanto melhor.

 Enquanto ele falava, Garden e Slow continuavam preparando a comida. Garden, silenciosa e inexpressiva, conseguia mexer as panelas com um jeito superior. Slow, nervoso, lançava a todo instante um olhar de pavor para os agentes, mas eles não pareciam ligar. Talvez estivessem acostumados a ver as outras pessoas com medo deles. Talvez gostassem disso.

 Priest levou quinze ou vinte minutos para dar os nomes e idades dos vinte e seis adultos da comunidade. Ho já ia fechando o bloco quando Priest disse:

 — Agora, as crianças. Deixa eu pensar um pouco. Puxa, criança cresce depressa, não é mesmo?

 Aldritch deu um grunhido de exasperação.

 — Acho que não precisamos saber os nomes das crianças — disse.

 — Tudo bem — disse Priest, sereno. — Mais café?

 — Não, obrigado — Aldritch olhou para Ho. — Acho que terminamos aqui.

 Ho disse:

 — Quer dizer então que esta terra é de propriedade da Napa Bottling Company?

 Priest viu uma oportunidade para reparar um erro cometido por Dale.

 — Não, não é bem assim — disse. — A companhia opera a vinícola, mas acredito que a terra seja de propriedade do governo.

 — Então o nome no arrendamento é o da Napa Bottling. Priest hesitou.

 Ho, o mais amigável, era quem fazia as perguntas realmente perigosas. Mas como responder? Mentir seria arriscado demais. Podiam verificar uma coisa dessas em segundos. Relutantemente, ele disse:

 — Acho que o nome da pessoa arrendatária é Stella Higgins – ele detestou ter que dar o verdadeiro nome de Star para o FBI. — Foi quem começou a plantação aqui, muitos anos atrás — ele esperava que aquilo não lhes servisse de nada. Não podia imaginar como aquela informação poderia ser útil.

 Ho escreveu o nome.

 — Acho que é só — disse. Priest escondeu seu alívio.

 — Bem, boa sorte para vocês com o resto da investigação — disse, ao conduzi- los para fora da cozinha.

 Conduziu-os por entre as parreiras. Eles pararam para agradecer a Dale a cooperação.

 — Afinal, vocês estão atrás de quem? — indagou Dale.

 — Um grupo terrorista que está tentando chantagear o governador do estado — respondeu Ho.

 — Bem, faço votos para que os peguem — disse Dale, com sinceridade.

 Não, você não faz.

 Finalmente os dois agentes atravessaram o campo e foram embora, tropeçando aqui e ali numa irregularidade do terreno e desaparecendo entre as árvores.

 — Bem, parece que tudo saiu muito bem — disse Dale para Priest, parecendo muito satisfeito consigo próprio.

 Jesus Cristo Todo-Poderoso, se ao menos você soubesse.

 

 Na tarde de domingo, Judy pegou Bo para ver o novo filme do Clint Eastwood no cinema Alexandria, numa esquina da Geary. Para sua surpresa, esqueceu-se de terremotos por duas horas e se distraiu. Depois foram comer um sanduíche em um dos botecos que Bo freqüentava e cujos clientes eram basicamente policiais. Em cima do bar havia uma televisão e na porta um cartaz dizendo: "Roubamos turistas." Bo terminou seu cheeseburger e tomou um gole de Guinness.

 — Clint Eastwood devia fazer um filme sobre a história da minha vida — disse.

 — Deixa disso, Bo. Todo detetive no mundo acha a mesma coisa.

 — Pode ser, mas eu inclusive sou parecido com ele.

 Judy deu uma risada. Bo tinha a cara redonda e o nariz pequeno.

 — Eu preferia que fosse o Mickey Rooney — disse.

 — Pois eu acho que devia ser possível a pessoa se divorciar dos filhos — retrucou Bo, dando risada.

 O noticiário apareceu na televisão. Quando Judy viu as cenas da blitz contra Los Alamos, sorriu, amargurada. Brian Kincaid tinha gritado com ela por interferir no caso — e depois adotara seu plano.

 Não houve, contudo, uma entrevista triunfal com Brian. O que apareceu na tela foi a imagem da porteira esmagada, uma placa que dizia: "Não reconhecemos a jurisdição do governo dos Estados Unidos" e uma equipe da SWAT, com coletes à prova de balas, retornando do local da operação.

 Bo comentou:

 — A mim me parece que não encontraram nada.

 Aquilo intrigou Judy.

 — Estou surpresa — disse ela. — Os caras de Los Alamos pareciam realmente ser os suspeitos mais quentes — ela estava desapontada. Pelo visto, sua intuição errara redondamente.

 O apresentador do noticiário dizia que não fora feita nenhuma prisão.

 — Eles não disseram sequer que foram colhidas provas — comentou Bo. -Gostaria de saber qual é a história verdadeira.

 — Se você já está acabando aqui, podemos ir saber — disse Judy.

 Saíram do bar e entraram no Monte Carlo de Judy. Ela pegou o telefone do carro e ligou para a casa de Simon Sparrow.

 — O que é que você sabe sobre a blitz? — perguntou.

 — Deu em nada.

 — Foi o que pensei.

 — Não há computadores na área, portanto fica difícil imaginar como poderiam ter enviado uma mensagem pela Internet. Ninguém lá passou do segundo grau, e duvido que pelo menos um deles soubesse soletrar a palavra sismólogo. Há quatro mulheres no grupo, mas nenhuma se ajusta aos nossos dois perfis femininos — elas têm quase vinte ou vinte e poucos anos. Além do mais, os vigilantes não têm queixas da represa. Estão felizes com a indenização recebida da Coastal Electric pela terra e se mostraram ansiosos para se mudarem. ! – Oh — para terminar, na sexta-feira, às duas e vinte da tarde, seis dos sete homens se encontravam em uma loja chamada Frank's Sporting Weapons em Silver City, comprando munição.

 Judy sacudiu a cabeça.

 — Bem, de quem foi essa idéia burra da blitz em Los Alamos, afinal?

 Fora dela, claro.

 Simon disse:

 — Na manhã de hoje, durante o briefing, Marvin afirmou que era sua.

 — Bem feito que tenha fracassado — Judy franziu a testa. Não entendo. Parecia uma pista tão boa.

 — Brian tem outro encontro com o Sr. Honeymoon em Sacramento, amanhã de tarde. Parece que ele vai de mãos abanando.

 — O Sr. Honeymoon não vai gostar nada.

 — Pelo que ouvi dizer ele não é o tipo do sujeito muito sensível e delicado.

 Judy sorriu, amargurada. Não gostava de Kincaid, mas não podia sentir prazer com o fracasso da incursão do FBI em Los Alamos. Significava que o Martelo do Éden ainda estava à solta, em algum lugar, planejando outro terremoto.

 — Obrigada, Simon. Vejo você amanhã.

 Assim que desligou, o telefone tocou. Era da mesa do FBI. — Um sujeito chamado professor Quercus deixou um recado que ele disse que era urgente. Tem uma notícia importante para você.

 Judy ficou sem saber se ligava para Marvin e passava o recado para ele. Mas a curiosidade para saber o que Michael tinha a dizer foi grande demais. Ligou para a casa dele.

 Quando Michael atendeu, ela pôde ouvir o fundo musical de um desenho animado na televisão. Dusty ainda devia estar lá.

 — Aqui é Judy Maddox — disse.

 — Oi, como vai?

 Judy levantou as sobrancelhas. Um fim de semana com o filho o adoçara.

 — Estou bem, mas fora do caso — disse ela.

 — Eu sei. Fiquei horas tentando falar com o sujeito que assumiu a investigação, um tipo com nome de cantor...

 — Marvin Hayes.

 — Isso! E agora, "Dancing in the Grapevine, com Marvin Hayes e os Haystacks".

 Judy riu.

 Michael prosseguiu.

 — Mas como ele não retorna meus chamados, estou encalhado com você.

 Bem, agora ele voltara ao normal. — OK, o que é que você tem?

 — Você pode vir até aqui? Eu realmente teria que lhe mostrar.

 Judy ficou satisfeita, até mesmo um pouco excitada com a perspectiva de vê-lo de novo.

 — Você ainda tem Cap'n Crunch?

 — Acho que sobrou um pouco.

 — OK, então estarei aí em quinze ou vinte minutos — ela desligou.

 — Tenho que ver o meu sismólogo — explicou a Bo. Quer que eu deixe você no ponto do ônibus?

 — Não posso andar de ônibus que nem o Jim Rockford. Sou um detetive de San Francisco!

 — E daí? Você é um ser humano.

 — É, mas os caras da rua não sabem disso.

 — Eles não sabem que você é humano?

 — Para eles, eu sou um semideus.

 Ele estava brincando, mas havia alguma verdade no que dissera, Judy reconhecia. O pai vinha botando vagabundo na cadeia daquela cidade havia quase trinta anos. Todo garoto com pedras de crack no bolso da jaqueta tinha medo de Bo Maddox.

 — Então quer ir a Berkeley comigo?

 — Claro, por que não? Estou curioso para conhecer o seu sismólogo bonitão.

 Ela fez um retorno e dirigiu-se para a ponte de Oakland, a Bay Bridge.

 — O que o faz pensar que ele é bonitão?

 Bo sorriu.

 — O modo pelo qual você fala com ele — respondeu, com um sorriso astucioso.

 — Você não devia usar psicologia de policial com a própria família.

 — Psicologia de policial, uma ova. Você é minha filha e sou capaz de ler seus pensamentos.

 — Bem, você está certo. Michael é um gato. Mas não gosto muito dele.

 — Não me diga! — retrucou Bo, cético.

 — É arrogante e difícil. Melhora quando o filho está por perto, o que o suaviza um pouco.

 — Casado?

 — Separado.

 — Separado é casado.

 Judy pôde sentir a perda de interesse de Bo em Michael.

 Era como uma queda de temperatura. Ela sorriu intimamente. O pai ainda estava ansioso por vê-la casada, mas tinha seus escrúpulos antiquados. Logo chegavam em Berkeley e entravam na rua de Michael, a Euclid. Havia um Subaru laranja parado debaixo da magnólia onde Judy estacionava sempre e ela teve que ir para outra vaga.

 Quando Michael abriu a porta do apartamento, achou que a fisionomia dele estava tensa.

 — Oi, Michael, este é meu pai, Bo Maddox.

 — Entrem — disse Michael, em tom abrupto.

 O estado de espírito dele parecia ter se alterado por completo no curto espaço de tempo que ela levara para chegar. Quando entraram na sala, Judy viu a razão.

 Dusty estava deitado no sofá, com uma aparência péssima. Tinha os olhos vermelhos e lacrimejantes, além de parecerem inchados. O nariz estava pingando e ele respirava ruidosamente. A televisão exibia um desenho animado, mas ele não prestava muita atenção.

 Judy ajoelhou-se do lado dele e passou a mão no seu cabelo.

 — Coitadinho do Dusty! O que houve?

 — Ataque de alergia — explicou Michael. — Você chamou o médico?

 — Não precisa. Já dei a ele o remédio que susta a reação.

 — Quanto tempo leva para agir?

 — Já está agindo. O pior já passou. Mas pode ser que ele fique assim alguns dias.

 — Eu gostaria de fazer alguma coisa por você, rapazinho. Judy disse a Dusty.

 Uma voz de mulher fez-se ouvir.

 — Eu tomo conta dele, muito obrigada.

 Judy endireitou-se e virou para trás. A mulher que acabara de entrar dava a impressão de que acabara de descer da passarela de algum grande costureiro. Tinha o rosto oval muito branco e um cabelo vermelho liso que passava dos ombros. Embora fosse alta e magra, o busto era generoso e os quadris cheios. As pernas longas estavam vestidas por uma calça-jeans bem justa de cor bege. Em cima, usava um top verde chique com decote em V.

 Até aquele instante Judy achara que estava bem vestida, com uma bermuda cáqui, mocassins claros que destacavam os belos tornozelos e uma camisa pólo branca que cintilava em contraste com sua pele morena escura. Sentia-se agora brega, de meia-idade e antiquada, comparando-se com aquela visão da moda chique das ruas. Sem dúvida que Michael notaria, por comparação, que ela, Judy, tinha bunda grande e seios pequenos.

 — Esta é Melanie, a mãe de Dusty — disse Michael. Melanie, esta é minha amiga Judy Maddox.

 Melanie balançou a cabeça. Então esta é a sua mulher.

 Michael não mencionara o fato dela ser do FBI. Será que queria que Melanie pensasse que Judy era sua namorada?

 Melanie não se deu ao trabalho de entabular conversa.

 — Eu já estava de saída — disse ela, carregando uma pequena mochila com um desenho do Pato Donald, obviamente do filho.

 Judy sentiu-se humilhada pela mulher de Michael, alta e chique. Ficou aborrecida consigo própria pela reação que teve. Por que eu deveria me incomodar?

 Melanie esquadrinhou a sala com o olhar e disse:

 — Michael, onde está o coelho?

 — Aqui — Michael pegou um boneco encardido que estava em cima da escrivaninha e deu para ela.

 Melanie olhou para a criança no sofá.

 — Isto nunca acontece nas montanhas — disse, com frieza. Michael pareceu angustiado.

 — O que é que eu vou fazer, deixar de vê-lo?

 — Teremos de nos encontrar em algum ponto fora da cidade.

 — Quero que ele fique comigo. Não será a mesma coisa se ele não dormir na minha companhia.

 — Se ele não dormir, não fica assim.

 — Eu sei, eu sei.

 Judy ficou com pena de Michael. Ele estava obviamente angustiado e sua mulher não podia ser mais fria.

 Melanie enfiou o coelho na mochila e passou o fecho.

 — Temos de ir.

 — Eu o carrego até o carro — Michael pegou o filho no sofá. — Vamos, tigre, vamos andando.

 Depois que saíram, Bo virou-se para Judy e comentou:

 — Puxa vida. Que família infeliz.

 Ela concordou. Mas agora gostava de Michael mais do que antes. Gostaria de abraçá-lo e dizer: Você está fazendo o melhor que pode, ninguém poderia fazer melhor.

 — Mas, na verdade, ele é o seu tipo — disse Bo.

 — Eu tenho um tipo?

 — Você gosta de um desafio.

 — Porque fui criada por você.

 — Eu? — ele fingiu que se sentia ultrajado. — Estraguei você por completo.

 Ela deu um beijinho no rosto do pai. — Também — disse.

 Quando Michael retornou, seu rosto estava tenso e preocupado. Não ofereceu uma bebida ou um café a Judy e Bo, e se esqueceu por completo do Cap'n Crunch. Sentou-se diante do computador.

 — Olha só isto aqui — disse, sem preâmbulos.

 Judy e Bo ficaram de pé atrás dele, olhando por cima do seu ombro. Apareceu um diagrama na tela.

 — Aqui está o registro feito pelo sismógrafo do tremor de Owens Valley, com as misteriosas vibrações preliminares que eu não conseguia entender, lembra?

 — Certamente — disse Judy.

 — Aqui está um tremor de terra típico, com mais ou menos a mesma magnitude. Só que ele tem vibrações preliminares normais. Vê a diferença?

 — Vejo — as normais eram desiguais e esporádicas, enquanto as de Owens Valley seguiam um padrão regular demais para ser natural.

 — Agora olha só isto aqui — ele fez aparecer na tela um terceiro diagrama que mostrava um conjunto de vibrações bem regulares, exatamente como as de Owens Valley.

 — O que causou estas vibrações? — indagou Judy.

 — Um vibrador sísmico! — exclamou Michael, triunfante.

 Bo perguntou:

 — O que diabo vem a ser isso?

 Judy quase disse: Eu não sei, mas acho que quero um. Conteve um

sorriso.

 Michael respondeu:

 — É uma máquina usada pela indústria do petróleo para explorar o subsolo. Basicamente, é um imenso martelete montado em cima de um caminhão. Envia vibrações através da crosta terrestre.

 — E essas vibrações causaram o terremoto?

 — Não creio que possa ser uma coincidência.

 Judy fez que sim, balançando a cabeça com ar solene.

 — É isso aí. Eles realmente são capazes de desencadear terremotos — ela sentiu um calafrio quando se deu conta do verdadeiro significado da not&ia