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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O MUNDO TERMINA AQUI / Michael Grant
O MUNDO TERMINA AQUI / Michael Grant

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O MUNDO TERMINA AQUI

 

                     299 HORAS E 54 MINUTOS

NUM MINUTO O professor estava falando sobre a Guerra Civil. No minuto seguinte, desapareceu.

Assim.

Sumiu.

Sem nenhum "puf". Sem clarão de luz. Sem explosão.

Sam Temple estava na aula de história, no terceiro período, olhan­do com expressão vazia para o quadro de giz, mas seus pensamentos estavam longe. Seus pensamentos estavam na praia, ele e Quinn. Na praia com as pranchas, gritando, preparando-se para o primeiro mer­gulho na água fria do Pacífico.

Por um momento pensou que havia imaginado aquilo, o desapare­cimento do professor. Por um momento pensou que estava sonhando acordado.

Virou-se para Maria Terrafino, sentada à sua esquerda.

Você viu isso, né?

Maria olhava intensamente para o lugar onde o professor estivera.

Ei... cadê o Sr. Trentlake? — perguntou Quinn Gaither, o me­lhor e talvez único amigo de Sam, sentado atrás dele. Os dois prefe­riam carteiras perto das janelas porque às vezes, se você pegasse o ângulo certo, poderia ver uma lasca minúscula e prateada de água brilhante entre os prédios da escola e as casas mais além.

Deve ter saído — disse Maria, parecendo não acreditar no que dizia.

Edilio, um aluno novo que Sam achava que poderia ser potencial­mente legal, disse:

Não, cara. Puf. — Ele fez uma coisa com os dedos, que era uma ótima ilustração do conceito.

Os alunos olhavam uns para os outros, esticando o pescoço para um lado e para o outro, rindo nervosos. Ninguém estava com medo. Nin­guém estava chorando. Aquela situação toda parecia meio engraçada.

O Sr. Trentlake pufou? — disse Quinn, com um risinho contido na voz.

Ei — disse alguém. — Cadê o Josh?

Cabeças se viraram para olhar.

Ele veio hoje?

Veio, estava bem aqui. Estava aqui do meu lado. — Sam reco­nheceu a voz. Bette. Bette Ricochete.

Ele, você sabe... sumiu — disse Bette. — Como o Sr. Trentlake.

A porta do corredor se abriu. Todos os olhares se fixaram nela. Agora o Sr. Trentlake iria entrar, talvez junto com Josh, e explicaria como tinha feito aquele truque de mágica, e depois voltaria a falar em sua voz empolgada e tensa sobre a Guerra Civil, com a qual ninguém se importava.

Mas não era o Sr. Trentlake. Era Astrid Alliston, conhecida como Astrid Gênio, porque era... bem, era um gênio. Astrid estava em todas as turmas avançadas que a escola oferecia. Em algumas matérias, esta­va fazendo cursos da universidade pela internet.

Astrid tinha cabelo louro indo até os ombros e gostava de usar blusas brancas engomadas, de mangas curtas, que jamais deixavam de atrair o olhar de Sam. Astrid era areia demais para seu caminhão, Sam sabia disso. Mas pensar nela não era proibido.

Cadê o professor de vocês? — perguntou Astrid.

Todos deram de ombros.

Pufou — disse Quinn, como se aquela fosse uma boa piada.

Ele não está no corredor? — perguntou Maria.

Astrid negou balançando a cabeça.

Alguma coisa estranha está acontecendo. Meu grupo de estudos de matemática... só tinha três pessoas na sala, além da professora. Todo mundo desapareceu.

O quê? — perguntou Sam.

Astrid olhou diretamente para ele. Ele não pôde desviar o olhar, como faria normalmente, porque o olhar dela não era desafiador nem cético, como de costume: estava apavorado. Seus olhos normal­mente penetrantes, de um azul cheio de discernimento, estavam arre­galados, com branco demais aparecendo.

Eles sumiram. Todos simplesmente... desapareceram.

E sua professora? — perguntou Edilio.

Sumiu também — respondeu Astrid.

Sumiu?

Puf — disse Quinn, agora sem rir tanto, começando a pensar que talvez não fosse uma brincadeira, afinal de contas.

Sam notou um som. Na verdade, mais de um. Alarmes de carros distantes, vindo da cidade. Levantou-se, sem jeito, como se na verdade não devesse fazer isso, e foi andando com as pernas rígidas até a porta. Astrid se afastou para que ele pudesse sair. Sam sentiu o cheiro do xampu dela, ao passar.

Sam olhou à esquerda, na direção da sala 211, onde se reunia o grupo de crânios da matemática do qual Astrid fazia parte. Na porta seguinte, da sala 213, um garoto pôs a cabeça para fora. Estava com uma expressão meio apavorada, meio divertida, como alguém logo antes de embarcar em uma montanha-russa.

Na outra direção, na sala 207, a garotada ria alto demais. Tão alto que era assustador. O pessoal do quinto ano. Do outro lado do corre­dor, na 208, três alunos do sexto ano saíram de repente para o corre­dor e se imobilizaram. Olharam para Sam, como se ele fosse gritar com eles.

A escola de Praia Perdida era uma escola de cidade pequena, com todo mundo, desde o jardim de infância até o nono ano, num prédio só. O ensino médio ficava a uma hora de carro, em San Luis.

Sam foi em direção à sala de Astrid, que seguiu logo atrás, junto com Quinn.

A sala estava vazia. Carteiras, a cadeira da professora, tudo vazio. Livros de matemática estavam abertos em três carteiras. Cadernos também. Todos os computadores, uma fileira de seis Macs velhos, mostravam telas em branco, chuviscando.

No quadro de giz lia-se claramente "Polin".

Ela estava escrevendo a palavra "polinômio" — disse Astrid num sussurro adequado para uma igreja.

É, eu tinha pensado nisso — respondeu Sam, secamente.

Já tive um polinômio uma vez — disse Quinn. — O médico fez uma operação para tirar.

Astrid ignorou a débil tentativa de humor.

Ela desapareceu enquanto escrevia o "o". Eu estava olhando bem para ela.

Sam fez um movimento leve, apontando na direção do quadro. Havia um pedaço de giz no chão, bem onde teria caído se alguém es­tivesse escrevendo a palavra "polinômio" — o que quer que isso sig­nificasse — e tivesse desaparecido antes de terminar o círculo do "o".

Isso não é normal — disse Quinn. Ele era mais alto do que Sam, mais forte do que Sam, um surfista quase tão bom quanto Sam. Mas, com seu meio sorriso meio doido e a tendência de se vestir com o que só poderia ser chamado de fantasia, hoje estava com bermudas larguíssimas, velhas botas do exército para deserto, uma camisa de golfe cor-de-rosa e um chapéu de feltro cinza que tinha encontrado no sótão de seu avô, Quinn tinha um jeito esquisitão que afastava uns e apavorava outros. Quinn era único, e talvez fosse esse o motivo pelo qual ele e Sam se davam bem.

Sam Temple era discreto. Mantinha-se fiel aos jeans e camisetas simples, nada que atraísse a atenção. Havia passado a maior parte da vida em Praia Perdida, estudando nesta escola, e todo mundo sabia quem ele era, embora poucas pessoas tivessem certeza do que ele era. Era um surfista que não andava com surfistas. Era inteligente, mas não exatamente um nerd. Era bonitinho, mas não o suficiente para que as garotas pensassem nele como um gato.

A única coisa que a maioria do pessoal da escola sabia sobre Sam Temple é que ele era o Sam do Ônibus Escolar. Tinha ganhado esse apelido quando estava no sétimo ano. A turma estava fazendo um passeio quando o motorista sofreu um ataque cardíaco. Iam pela Auto-estrada 1. Sam puxou o homem do banco, guiou o ônibus para o acostamento, parou-o em segurança e calmamente ligou para o 911 pelo celular do motorista.

Se tivesse hesitado ao menos um segundo, o ônibus teria mergulha­do pelo penhasco e caído no oceano.

Sua foto saiu no jornal.

Os outros dois garotos, além da professora, sumiram. Todos menos Astrid — disse Sam. — Isso definitivamente não é normal. — Tentou não tropeçar no nome dela quando falou, mas não conseguiu. Ela possuía esse efeito sobre ele.

É. Está meio quieto aqui, brou — disse Quinn. — Certo, agora estou pronto para acordar. — Pela primeira vez, Quinn não estava brincando.

Alguém gritou.

Os três saíram rapidamente para o corredor, agora cheio de alunos. Uma menina do sexto ano, chamada Becka, estava gritando. Seu celu­lar estava firmemente seguro em suas mãos.

Ninguém atende. Ninguém atende — gritou. — Não tem nada.

Durante dois segundos todo mundo congelou. Em seguida, uma agitação atabalhoada, seguida pelo som de dezenas de dedos apertan­do dezenas de teclados.

Não está acontecendo nada.

Minha mãe devia estar em casa, ela atenderia. Não está nem tocando.

Ah, meu Deus: não tem internet também. Tem sinal, mas não acontece nada.

Tem três barras de sinal.

No meu também, mas não tem conexão.

Alguém começou a uivar, um som arrepiante subindo pela pele. Todo mundo falava ao mesmo tempo, as vozes crescendo até virar gritos.

Tente o 190 — pediu uma voz apavorada.

Para quem você acha que eu liguei, imbecil?

O 190 não atende?

Não acontece nada. Já liguei para a metade dos números da memória, e não acontece absolutamente nada.

O corredor estava cheio de alunos, como aconteceria durante uma troca de salas. Mas as pessoas não corriam para a aula seguinte, nem brincavam, nem giravam as trancas dos armários. Não havia direção. As pessoas simplesmente ficavam paradas, como um rebanho de gado esperando por um estouro.

A campainha tocou, alta como uma explosão. Pessoas se encolhe­ram, como se nunca tivessem ouvido isso antes.

O que vamos fazer? — perguntaram várias vozes.

Deve haver alguém na secretaria — gritou uma voz. — A cam­painha tocou.

Ela funciona com um timer, seu idiota. — reclamou Tom Howard. Howard era um vermezinho, mas era o capanga número um do Ore, e Ore era um bandido do oitavo ano, uma montanha de gordura e músculos que apavorava até o pessoal do nono ano. Ninguém ques­tionou Howard. Qualquer insulto a Howard era um ataque contra Ore.

Tem uma TV na sala dos professores — disse Astrid.

Sam e Astrid, com Quinn correndo logo atrás, dispararam em dire­ção à sala dos professores. Voaram escada abaixo até o primeiro an­dar, onde havia menos salas de aulas, menos crianças. A mão de Sam encostou na porta da sala dos professores. Eles pararam.

A gente não deveria entrar aí — disse Astrid.

Você se importa com isso mesmo? — perguntou Quinn.

Sam empurrou a porta. Os professores tinham uma geladeira, que estava aberta. Um pote de iogurte sabor blueberry estava caído ao chão, com o conteúdo cremoso esparramado pelo tapete puído. A TV estava ligada, mas não havia imagem, só estática.

Sam procurou o controle remoto. Onde estava o controle?

Quinn achou e começou a zapear pelos canais. Nada e nada e nada.

A TV a cabo está fora do ar — disse Sam, sabendo que aquilo era uma coisa idiota para se dizer.

Astrid enfiou a mão atrás do aparelho e desatarraxou o cabo coaxial. A tela tremulou e a qualidade da estática mudou um pouco, mas enquanto Quinn zapeava pelos canais, tudo que havia continuava a ser nada e nada e nada.

Sempre dá para pegar o canal nove — disse Quinn. — Mesmo sem cabo.

Os professores, alguns alunos, a TV a cabo, a TV aberta, celula­res, tudo sumindo ao mesmo tempo? — Astrid franziu a testa, tentan­do chegar a alguma conclusão. Sam e Quinn esperaram, como se ela pudesse ter uma resposta. Como se pudesse dizer: "Ah, claro, agora entendo." Ela era Astrid Gênio, afinal de contas. Mas tudo que disse foi: — Não faz sentido nenhum.

Sam tirou o telefone fixo do gancho.

Não tem sinal de discagem. Tem algum rádio aí?

Não havia. A porta se abriu com um estrondo e dois garotos do quinto ano entraram correndo, com o rosto agitado.

Nós somos os donos da escola! — gritou um deles, e o outro deu um grito em resposta. — Vamos arrebentar a máquina de doces.

Talvez não seja uma boa idéia — disse Sam.

Você não manda na gente. — O garoto parecia dividido, pouco seguro de si, sem saber se estava certo.

É verdade, moleque. Mas, olha, que tal a gente tentar ficar frio até descobrir o que está acontecendo? — disse Sam.

Fica frio você — gritou o garoto. O outro gritou de novo e am­bos partiram.

— Acho que seria errado pedir que eles me trouxessem um Twix — murmurou Sam.

Quinze anos — disse Astrid.

Não, cara, eles tinham uns 10 — respondeu Quinn.

Eles, não. Os caras da minha turma. Jink e Michael. Os dois eram bons em matemática, melhores do que eu, mas tinham dificulda­des de aprendizagem, tipo dislexia, que fez com que se atrasassem nos estudos. Os dois eram um pouco mais velhos. Eu era a única de 14 anos.

Acho que o Josh, da nossa turma, tinha 15 — disse Sam.

E?

E aí que ele tinha 15 anos, Quinn. Ele simplesmente... desapare­ceu. Num piscar de olhos, sumiu.

Corta essa — disse Quinn, balançando a cabeça. — Todos os adultos e os alunos mais velhos da escola simplesmente somem? Não faz sentido.

Não é só a escola — disse Astrid.

O quê? — reagiu Quinn bruscamente.

Os telefones e a TV? — disse Astrid.

Não, não, não, não, não. — Quinn estava balançando a cabeça, quase sorrindo, como se tivessem contado uma piada ruim.

Minha mãe — disse Sam.

Cara, corta essa — disse Quinn. — Certo? Não é engraçado.

Pela primeira vez Sam sentiu uma pontada de pânico, como um frio na base da coluna. Seu coração estava martelando no peito, trabalhan­do como se ele tivesse corrido uma maratona.

Sam engoliu em seco. Inspirou, mas era incapaz de respirar fundo. Olhou o rosto do amigo e percebeu que nunca tinha visto Quinn tão apavorado. Os olhos de Quinn estavam por trás de óculos escuros, mas sua boca estremecia, e uma mancha cor-de-rosa começava a subir pelo pescoço. Astrid ainda estava calma, mas franziu a testa, concen­trando-se, tentando entender tudo aquilo.

Temos de verificar — disse Sam.

Quinn soltou o ar numa espécie de soluço. Já estava se movendo, virando-se. Sam segurou seu ombro.

Me solta, cara — reagiu Quinn, rispidamente. — Preciso ir para casa. Preciso ver.

Todos precisamos ver — disse Sam. — Mas vamos juntos.

Quinn começou a se afastar mas Sam o segurou com mais força.

Quinn. Juntos. Qual é, cara, é que nem levar um caixote, tá sa­bendo? Se você cai no rolo, o que faz?

Tenta não se agitar — murmurou Quinn.

Isso mesmo. Mantém a cabeça reta durante todo o ciclo de gi­ros. Certo? Depois nada em direção à luz.

Metáfora de surfe? — perguntou Astrid.

Quinn parou de resistir. Soltou a respiração com um tremor.

É, tá. Você está certo. Juntos. Mas vamos primeiro na minha casa. Esse negócio tá estranho... Estranho demais.

Astrid? — perguntou Sam, sem ter certeza, sem saber se ela que­ria ir com ele e Quinn. Parecia presunçoso perguntar, mas parecia er­rado não perguntar.

Ela olhou para Sam, parecendo esperar encontrar algo no rosto dele. De repente, Sam percebeu que Astrid Gênio não sabia o que fazer, nem aonde ir, estava tão perdida quanto ele. Isso parecia impossível.

No corredor, ouviram uma cacofonia crescente de vozes. Altas, apavoradas, algumas balbuciando, como se tudo fosse ficar bem desde que não parassem de falar. Algumas vozes pareciam simplesmente en­louquecidas.

Não era um som agradável. Era apavorante por si só.

Venha com a gente, certo Astrid? — disse Sam. — Vamos ficar mais seguros juntos.

Astrid se encolheu ao ouvir a palavra "seguros". Mas assentiu.

Agora a escola estava perigosa. Pessoas apavoradas faziam coisas apavorantes; às vezes, até crianças. Sam sabia disso por experiência própria: o medo podia ser perigoso. O medo podia fazer as pessoas se machucarem. E não havia nada além do medo correndo enlouquecidamente pela escola.

A vida em Praia Perdida tinha mudado. Algo grande e terrível havia acontecido.

Sam esperava que não fosse ele a causa.

 

                       298 HORAS E 38 MINUTOS

ALUNOS JORRAVAM PARA fora da escola, sozinhos ou em pequenos bandos. Algumas meninas andavam em grupos de três, abraçadas umas às outras, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Alguns garotos caminhavam encolhidos, como se o céu pudesse cair sobre suas cabe­ças, sem abraçar ninguém. Um monte deles chorava também.

Sam se lembrou de vídeos que tinha visto sobre tiroteios em esco­las. Aquilo dava essa mesma sensação. As crianças estavam perplexas, apavoradas, histéricas ou escondendo a histeria com risadas e demons­trações ousadas de grosseria.

Irmãos e irmãs se uniram. Amigos se uniram. Algumas das crianças muito pequenas, do jardim de infância ou primeiro ano, andavam per­didas, sem ir realmente a lugar nenhum. Não tinham idade para saber ir para casa.

A maior parte dos pré-escolares de Praia Perdida freqüentava a Creche da Bárbara, uma casa no centro da cidade decorada com adesivos pálidos de personagens de desenho animado que ficava perto da loja de ferramentas Ace e em frente ao McDonald's na praça.

Sam imaginou se as crianças pequenas da creche estariam bem. Provavelmente. Isso não era responsabilidade sua, mas tinha de dizer alguma coisa.

E todas essas criancinhas? — perguntou. — Vão acabar na rua e ser atropeladas.

Quinn parou e olhou em volta. Não as crianças, mas a rua.

Estão vendo algum carro andando?

O sinal de trânsito mudou de vermelho para verde, mas não havia carros esperando para se mover. Agora o som de alarmes de automó­veis era mais alto, talvez três ou quatro alarmes diferentes, talvez mais.

Primeiro vamos procurar nossos pais — disse Astrid. — Não é possível que não haja nenhum adulto em lugar nenhum. — Ela não parecia ter muita certeza disso, por isso consertou: — Quero dizer, é improvável que não haja adultos.

É — concordou Sam. — Com certeza tem adultos por aí. Certo?

Minha mãe ou vai estar em casa ou jogando tênis — disse Astrid. — A não ser que tenha algum compromisso. Minha mãe ou meu pai deve estar com meu irmão menor. Meu pai está no trabalho. Ele tra­balha na UNPP.

A UNPP era a Usina Nuclear de Praia Perdida. A usina ficava a ape­nas 16 quilômetros da escola. Ninguém na cidade sabia muita coisa sobre ela, mas muito tempo antes, nos anos 1990, havia acontecido um acidente. Um acidente excêntrico, como disseram. Uma coinci­dência, tipo um em um milhão. Nada com que se preocupar.

As pessoas diziam que era por isso que Praia Perdida ainda era uma cidade pequena, por isso nunca havia ficado realmente grande como Santa Barbara, mais abaixo no litoral. O apelido de Praia Perdida era Área Radioativa. Não eram muitas as pessoas que queriam se mudar para um lugar chamado Área Radioativa, ainda que toda a radioativi­dade tivesse acabado.

Os três, com Quinn alguns passos adiante, andando rápido com suas pernas compridas, foram pela avenida Sheridan e viraram à direi­ta na Alameda.

Na esquina da avenida Sheridan com a avenida Alameda, havia um carro com o motor ligado. O carro havia se chocado com um utilitário Toyota estacionado. O alarme do Toyota ligava e desligava, berrando num minuto e em seguida ficando silencioso.

Os air bags do Toyota haviam sido acionados: balões brancos frou­xos, desinflados, pendendo do volante e do painel.

Não havia ninguém no utilitário. Saía vapor de debaixo do capô amassado.

Sam notou uma coisa, mas não quis dizer em voz alta.

Mas Astrid disse:

As portas ainda estão trancadas. Estão vendo as travas? Se al­guém estivesse aí dentro e saído, as portas estariam destrancadas.

Alguém estava dirigindo e se pirulitou — disse Quinn. Não es­tava dizendo como se fosse engraçado. O engraçado não existia mais.

A casa de Quinn ficava a apenas dois quarteirões, seguindo pela avenida Alameda. Quinn estava tentando manter a compostura, ten­tando permanecer tranqüilo. Tentando agir como o Quinn maneiro. Mas, de repente, começou a correr.

Sam e Astrid correram também, mas Quinn foi mais rápido. Seu chapéu voou da cabeça e Sam se abaixou para pegá-lo.

Quando o alcançaram, Quinn havia escancarado a porta de casa e já estava lá dentro. Sam e Astrid foram até a cozinha e pararam.

Mãe. Pai. Mãe. Ei!

Quinn estava no andar de cima, gritando. Sua voz ficava mais alta a cada vez que gritava. Mais alta e mais rápida, e o soluço era mais claro, era mais difícil para Sam e Astrid fingirem não ouvir.

Quinn desceu correndo a escada, ainda gritando pela família, rece­bendo de volta apenas o silêncio.

Ainda estava de óculos escuros, por isso Sam não podia ver os olhos do amigo, mas as lágrimas escorriam pelo rosto de Quinn, e embarga­vam sua voz. Sam praticamente podia sentir o nó na garganta do ou­tro, porque o mesmo nó estava em sua garganta. Não sabia o que fazer para ajudar.

Sam pôs na bancada o chapéu de Quinn que parou na cozinha, ofegando.

Ela não está aqui, cara. Não está aqui. Os telefones estão mudos. Ela deixou um bilhete ou alguma coisa? Vocês viram algum bilhete? Procurem por um bilhete.

Astrid acendeu uma luz.

A eletricidade ainda está funcionando.

E se eles estiverem mortos? — perguntou Quinn. — Isso não pode estar acontecendo. É só um pesadelo ou sei lá o quê. Isso... isso nem é possível. — Ele pegou o telefone, apertou o botão de ligar e ouviu. Apertou de novo, pôs o fone no ouvido de novo, depois digi­tou, batendo nos botões com o indicador e falando sem parar.

Por fim, pousou o telefone e olhou para o aparelho. Olhou para o telefone como se ele fosse começar a tocar a qualquer segundo.

Sam estava desesperado para chegar em casa. Desesperado e com medo, querendo saber e morrendo de medo de saber. Mas não podia apressar Quinn. Se fizesse o amigo sair de casa agora, seria como dizer a Quinn para desistir, que seus pais haviam sumido.

Eu tive uma briga com meu pai ontem à noite — disse Quinn.

Não comece a pensar desse jeito — sugeriu Astrid. — Uma coisa a gente sabe: não foi você que causou isso. Nenhum de nós causou isso.

Ela pôs a mão no ombro de Quinn, e foi como se esse fosse o sinal para ele finalmente desmoronar. Ele soluçava abertamente, tirou os óculos e largou-os no chão.

Vai ficar tudo bem — disse Astrid. Parecia que estava tentando convencer Quinn, mas também a si mesma.

É — disse Sam, sem acreditar. — Claro que vai. Isso é só um...

Ele não conseguiu pensar num modo de terminar a frase.

Talvez tenha sido Deus — disse Quinn, levantando os olhos, subitamente esperançoso. Seus olhos estavam vermelhos e fixos, com uma energia súbita, maníaca. — Foi Deus.

Talvez — respondeu Sam.

O que mais poderia ser, não é? En... então... então... então...

Quinn se controlou e engoliu o gaguejar, em pânico. — Então vai ficar tudo bem. — A idéia de alguma explicação, qualquer explicação, não importando quão frágil fosse, pareceu ajudar. — É, claro que vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem, totalmente.

A casa de Astrid é a próxima — disse Sam. — É a que fica mais perto.

Você sabe onde eu moro? — perguntou Astrid.

Não era uma boa hora para admitir que ele a havia seguido até em casa uma vez, pretendendo falar com ela, talvez convidá-la para ir ao cinema, mas tinha perdido a coragem. Deu de ombros.

Devo ter visto você por aí alguma vez.

Era uma caminhada de dez minutos até a casa de Astrid, uma casa de dois andares, quase nova, com uma piscina nos fundos. Astrid não era rica, mas sua casa era muito mais legal do que a de Sam, e o fez se lembrar da casa em que morava antes que seu padrasto fosse embora. O padrasto também não era rico, mas tinha um bom emprego.

Sam sentiu-se estranho na casa de Astrid. Tudo nela parecia legal e meio chique. Mas tudo estava guardado. Não havia nada ao alcance das mãos e que pudesse ser quebrado. As mesas tinham pequenas almofadas de plástico nas quinas. As tomadas tinham cobertura de pro­teção para crianças. Na cozinha, as facas ficavam num armário com porta de vidro e com tranca à prova de crianças. Os botões do fogão também eram protegidos.

Astrid reparou que ele estava notando as precauções.

Não é para mim — disse arrogante. — É para o Pequeno Pete.

Eu sei. Ele é... — Sam não sabia a palavra certa.

E autista — disse Astrid, com ar superior, como se isso não fosse grande coisa. — Bom, não tem ninguém aqui — anunciou ela. Seu tom de voz dizia que já imaginava isso, e tudo bem.

Onde está seu irmão? — perguntou Sam.

Então Astrid gritou, algo que ele não soubera que ela era capaz de fazer.

Não sei, está bem? Não sei onde ele está. — Ela cobriu a boca com uma das mãos.

Chame-o — sugeriu Quinn, numa voz estranhamente enuncia­da, formal. Estava sem graça por causa do ataque que tivera. Mas, ao mesmo tempo, ainda não estava totalmente calmo.

Chamar? Ele não vai responder — disse Astrid com os dentes trincados. — Ele é autista. Muito. Ele não... ele não se relaciona. Não vai responder, certo? Posso ficar gritando o nome dele o dia inteiro.

Tudo bem, Astrid. Vamos olhar — disse Sam. — Se ele estiver aqui, vamos encontrá-lo.

Astrid assentiu, lutando para controlar as lágrimas.

Reviraram a casa centímetro por centímetro. Embaixo das camas. Dentro dos armários.

Atravessaram a rua até a casa de uma senhora que às vezes cuidava do Pequeno Pete. Não havia ninguém lá. Revistaram cada cômodo. Sam sentiu-se como um ladrão.

Ele deve estar com minha mãe, ou talvez meu pai o tenha levado à usina. Ele faz isso quando não tem ninguém para ficar de babá. — Sam percebeu o desespero na voz dela.

Talvez meia hora tivesse se passado desde o desaparecimento súbi­to. Quinn ainda estava esquisito. Astrid parecia a ponto de desmoro­nar. Nem era hora do almoço, mas Sam já estava pensando na noite.

Os dias eram curtos, era 10 novembro, quase o feriado de Ação de Graças. Dias curtos, noites longas.

Vamos ficar em movimento — disse Sam. — Não se preocupe com o Pequeno Pete. Vamos achá-lo.

Isso é uma afirmação pró-forma ou um compromisso realista? — perguntou Astrid.

O quê?

Não, desculpe. Quero dizer, você vai me ajudar a achar o Pete?

Claro. — Sam queria acrescentar que a ajudaria a fazer qualquer coisa, a qualquer momento, para sempre, mas isso era apenas o seu medo falando, fazendo-o sentir vontade de desandar num blá-blá-blá. Em vez disso, começou a ir na direção de sua casa, agora sabendo, sem qualquer dúvida, o que encontraria, mas precisando verificar assim mesmo, e verificar outra coisa também. Precisando ver se estava maluco.

Precisando saber se a coisa continuava lá.

Isso tudo era louco. Mas, para Sam, a loucura havia começado muito antes.

Pela centésima vez, Lana esticou a cabeça para olhar para trás e verifi­car como estava seu cachorro.

Ele está bem. Pare de pular no banco — disse o vovô Luke.

Patrick pode pular para fora.

Ele é burro, certo. Mas não acho que vá pular.

Ele não é burro. É um cachorro muito inteligente. — Lana Arwen Lazar estava no banco da frente da velha picape de seu avô, que já fora vermelha. Patrick, seu labrador amarelo, estava na carroceria, orelhas balançando ao vento, a língua pendurada.

Patrick tinha recebido esse nome por causa de Patrick Estrela, o personagem não muito inteligente do desenho Bob Esponja. Lana queria que ele fosse na frente, com ela. Vovô Luke tinha recusado.

Seu avô ligou o rádio. Música country.

O vovô Luke era velho. Um monte de crianças tinha avós mais jo­vens. Na verdade, os outros avós de Lana, que eram de Las Vegas, eram muito mais novos. Mas o vovô Luke era velho de um jeito que parecia couro enrugado. O rosto e as mãos eram de um marrom escu­ro, em parte por causa do sol e em parte porque ele era um índio chumash. Usava um chapéu de caubói feito de palha, manchado de suor, e óculos escuros.

O que vou fazer no resto do dia? — perguntou Lana.

Vovô Luke virou o volante para evitar um buraco.

O que você quiser.

Você não tem TV nem DVD, nem internet nem nada.

O assim chamado rancho do vovô Luke era muito isolado, e o ve­lho mesmo era tão pão-duro, que seu único objeto tecnológico era um rádio antiqüíssimo que só parecia pegar uma única estação religiosa.

Você trouxe livros, não trouxe? Ou então pode limpar o estábulo. Ou subir o morro. — Ele apontou com o queixo na direção das montanhas. — A vista lá de cima é bonita.

Eu vi um coiote em cima do morro.

Os coiotes são inofensivos. Na maioria das vezes. O velho irmão coiote é esperto demais para se meter com os humanos. — Ele pro­nunciava coiote como "cai-out".

Já estou presa aqui há uma semana. Não basta? Quanto tempo vou ter de ficar aqui? Quero ir para casa.

O velho nem olhou para ela.

Seu pai pegou você tirando vodca de casa para algum vagabundo.

Tony não é vagabundo — contra-atacou Lana.

Vovô Luke desligou o rádio e começou um sermão:

Um garoto que usa uma garota desse jeito, que coloca a menina no meio dessa confusão, é um vagabundo.

Se eu não pegasse para ele, Tony tentaria usar um documento falso e talvez entrasse em encrenca.

Não tem talvez nisso aí. Um garoto de 15 anos tomando birita vai arranjar encrenca. Eu comecei a beber quando tinha sua idade, 14 anos. Trinta anos da minha vida desperdicei na garrafa. Agora estou sóbrio há trinta e um anos, seis meses e cinco dias, graças a Deus lá em cima e à sua avó, que Deus a tenha. — Em seguida, ligou o rádio de novo.

Sem contar com o fato de a loja de bebidas mais perto estar a 16 quilômetros, em Praia Perdida.

Vovô Luke riu.

É. Isso também ajuda.

Pelo menos ele tinha senso de humor.

A caminhonete chacoalhava loucamente à beira de um penhasco seco que descia uns 30 metros até alcançar mais areia e arbustos de artemísia, pinheiros retorcidos, cornisos e capim seco. Segundo o vovô Luke, algumas vezes por ano, quando chovia, a água descia cor­rendo pela garganta, às vezes numa torrente súbita.

Era difícil imaginar isso enquanto ela, distraída, olhava a longa encosta.

Então, sem aviso, a caminhonete saiu da estrada.

Lana olhou para o banco vazio onde seu avô estivera uma fração de segundo antes.

Ele havia sumido.

A caminhonete estava indo diretamente para o fundo do penhasco. O cinto de segurança pressionou o peito de Lona.

A velocidade aumentou. A caminhonete bateu com força numa ár­vore pequena e partiu-a.

O carro continuou descendo numa nuvem de poeira, sacudindo-se com tanta força que Lana bateu acima do pára-brisa e os ombros se chocaram contra a janela. Os dentes chacoalharam. Ela tentou agarrar o volante, mas ele estava fora de controle, e de repente a caminhonete capotou.

E capotou de novo. E de novo.

O cinto de segurança se rompeu, e Lana foi jogada impotente de um lado para o outro da cabine. O volante batia nela como o agitador de uma máquina de lavar. Seus ombros se chocavam contra o pára-brisa, a alavanca de câmbio era como um porrete no rosto, o retrovi­sor se despedaçou contra sua nuca.

A caminhonete parou.

Lana ficou deitada, com o rosto para baixo, o corpo retorcido de modo impossível, pernas e braços abertos. A poeira sufocava seus pul­mões. A boca estava cheia de sangue. Algo bloqueava a visão de um de seus olhos.

O que ela podia ver com o outro olho era difícil de entender, a princípio. Estava de cabeça para baixo, olhando um agrupamento de cactos baixos que pareciam crescer em ângulo reto com relação a ela.

Tinha de sair. Orientou-se como pôde e estendeu a mão para a porta.

O braço direito não se movia.

Olhou para ele e gritou. O antebraço direito, do cotovelo ao pulso, não formava mais uma linha reta. Estava dobrado num ângulo como um "V" achatado, torcido com a palma virada para fora. As pontas lascadas dos ossos ameaçavam brotar através da pele.

Lana se sacudiu, em pânico.

A dor foi tão terrível que seus olhos reviraram e ela desmaiou.

Mas não por muito tempo. Não por tempo suficiente.

Quando acordou, a dor no braço, na perna esquerda, nas costas e na cabeça fizeram seu estômago se revirar. Ela vomitou sobre o que fora a borda acima do pára-brisa da caminhonete.

Socorro — grasnou. — Socorro. Alguém me ajude!

Mas, mesmo em sua agonia, teve consciência de que não havia nin­guém para ajudar. Estavam a quilômetros de Praia Perdida, onde Lana havia morado até um ano antes, quando sua família se mudou para Las Vegas. Essa estrada só levava ao rancho. Talvez uma vez por sema­na outra pessoa passasse por ali, um mochileiro perdido ou a senhora que jogava damas com vovô Luke.

Vou morrer — disse Lana a ninguém.

Mas ainda não estava morta, e a dor não ia embora. Tinha de sair da caminhonete.

Patrick. O que aconteceu com Patrick?

Com a voz rouca, chamou o nome dele, mas não havia nada.

O pára-brisa estava totalmente rachado e quebrado, mas ela não conseguiu chutá-lo para fora com a perna boa.

O único caminho era a janela do lado do motorista, atrás dela. Sa­bia que o simples ato de se virar seria agonizante.

De repente, Patrick surgiu, cutucando-a com o nariz preto, ofegando e ganindo, ansioso.

Bom garoto — disse Lana.

Patrick balançou o rabo.

Patrick não era um cachorro de filmes, que de repente ficou inteligente e heróico. Não puxou Lana dos destroços fumegantes. Mas não saiu do seu lado enquanto ela passava uma hora infernal arrastando-se para a areia.

Lana descansou com a cabeça à sombra de um arbusto de artemísia. Patrick lambeu o sangue de seu rosto.

Com a mão boa, Lana detalhou os ferimentos. Um olho estava co­berto de sangue saído de um talho na testa. Uma perna estava quebrada, ou pelo menos torcida, e não dava para pisar. Algo doía dentro dela, na parte inferior das costas, onde ficavam os rins. O lábio superior estava entorpecido. Ela cuspiu um dente quebrado e ensangüentado.

O pior de tudo era a visão aterrorizante do braço direito. Não su­portava olhar para ele. Uma tentativa de levantá-lo foi abandonada imediatamente: a dor era insuportável.

Desmaiou de novo e acordou muito mais tarde. O sol não tinha piedade. Patrick estava enrolado junto dela. E no céu lá em cima, meia dúzia de urubus, com asas pretas abertas, circulavam, esperando.

 

                       298 HORAS E 5 MINUTOS

AQUELE CAMINHÃO — DISSE Sam, apontando. — Outro acidente.

Um caminhão da FedEx havia atravessado uma cerca e batido num olmo no jardim de alguém. O motor ainda estava ligado.

Encontraram duas crianças, um menino do quarto ano e a irmã menor, jogando bola desanimados no gramado da frente de casa.

A mamãe não está em casa — disse o mais velho. — Tenho aula de piano hoje de tarde, mas não sei chegar lá.

E eu tenho aula de sapateado. Vamos receber as roupas da apre­sentação — disse a menina. — Vou ser uma joaninha.

Vocês sabem como chegar à praça? Sabem, na cidade? — per­guntou Sam.

Acho que sim.

Vocês deveriam ir para lá.

Minha mãe não me deixa sair de casa — disse a menor.

Nossa avó mora em Laguna Beach — disse o garoto. — Ela po­dia vir pegar a gente. Mas não conseguimos falar com ela. O telefone não funciona.

Eu sei. Talvez seja melhor ir esperar na praça, certo? — Como o garoto simplesmente ficou olhando-o, Sam disse: — Ei, não fique tão preocupado, está bem? Vocês têm biscoito ou sorvete em casa?

Acho que sim.

Bom, não tem ninguém aqui dizendo para vocês não comerem um biscoito, tem? Seus pais vão aparecer logo, eu acho. Mas, enquan­to isso, comam um biscoito, e depois é só ir para a praça.

É assim que você resolve os problemas? Comendo um biscoito? — perguntou Astrid.

Não, resolvo os problemas correndo até a praia e me esconden­do até que tudo isso acabe — disse Sam. — Mas um biscoito não vai fazer mal.

Continuaram andando, Sam, Quinn e Astrid. A casa de Sam ficava a leste do centro da cidade. Ele e sua mãe moravam numa pequena casa de um andar, de aparência achatada, com um quintal cercado minúsculo nos fundos e nenhum jardim na frente, apenas uma calça­da. A mãe de Sam não ganhava muito dinheiro como enfermeira no­turna na Academia Coates. O pai de Sam estava fora de cena, sempre estivera. Ele era um mistério na vida de Sam. E, no ano passado, o padrasto tinha ido embora também.

E essa aí — disse Sam. — A gente não gosta de chamar atenção com uma casa grande e coisa e tal.

Bom, você mora perto da Praia da Cidade — disse Astrid, apon­tando para a única vantagem da sua casa e dos arredores.

É. Dois minutos a pé. Menos, se cortar caminho pelo quintal da casa onde mora a gangue de motoqueiros.

Gangue de motoqueiros? — perguntou Astrid.

Não a gangue inteira; na verdade, só Matador e sua namorada, Cúmplice. — Astrid franziu a testa e Sam disse. — Desculpe. Piada ruim. Não são vizinhos muito simpáticos.

Agora que havia chegado, Sam não queria entrar. Sua mãe não es­taria lá dentro.

E havia algo em sua casa que talvez Quinn e Astrid, em especial não deveriam ver.

Na frente dos outros, subiu os três degraus de madeira pintados de cinza e desbotados pelo sol que rangiam ao ser pisados. A varanda era estreita, e alguns meses antes alguém havia roubado a cadeira de ba­lanço que sua mãe tinha posto ali, para se sentar e se balançar no fim de tarde, antes de ir para o trabalho. Agora precisavam arrastar cadei­ras da cozinha.

Essa era sempre a melhor hora do dia para a família, o início do horário de trabalho da mãe, o fim do de Sam. Sam chegava da escola e sua mãe estaria acordada, depois de dormir durante a maior parte do dia. Ela tomava uma xícara de chá e Sam tomava um refrigerante ou um suco. Ela perguntava como tinha sido o dia na escola e ele não contava muito, na verdade, mas era bom pensar em como poderia contar, se quisesse.

Sam abriu a porta. Estava silencioso lá dentro, a não ser pela gela­deira. O compressor era velho e barulhento. Na última vez em que conversaram na varanda, com os pés apoiados no corrimão, sua mãe havia perguntado se deveriam mandar consertar o compressor, ou se seria mais barato conseguir uma geladeira de segunda mão. E se per­guntaram como iriam levá-la para casa sem uma caminhonete.

Mãe? —- disse Sam para a sala de estar vazia.

Não houve resposta.

Talvez ela esteja lá no morro — disse Quinn. — "No morro" era a expressão usada na cidade para falar da Academia Coates, um colé­gio interno, mas morro era mais como uma montanha.

Não — disse Sam. — Ela sumiu, como todos os outros.

O fogão estava ligado. Uma frigideira havia queimado até ficar pre­ta. Não havia nada na panela. Sam desligou o fogo.

Esse vai ser um problema na cidade inteira — disse ele.

É — concordou Astrid. — Fogões acesos, carros rodando. Al­guém precisa andar por aí e garantir que as coisas estejam desligadas e as crianças pequenas estejam acompanhadas. E há remédios, bebida, e algumas pessoas provavelmente têm armas.

Algumas pessoas daqui têm armas com certeza — disse Sam.

Tem de ser Deus — observou Quinn. — Quero dizer, que outra coisa poderia ser, certo? Ninguém poderia fazer isso. Simplesmente fazer todos os adultos desaparecerem?

Todo mundo com mais de 15 anos — corrigiu Astrid. — Quinze anos não é adulto. Acredite, eu estudava com eles. — Ela andou, hesi­tante, pela sala de estar, como se estivesse procurando algo. — Posso usar o banheiro, Sam?

Ele concordou, de má vontade. Estava sem graça com ela ali. Nem Sam nem sua mãe eram bons em serviços domésticos. O lugar era mais ou menos limpo, mas não como a casa de Astrid.

Astrid fechou a porta do banheiro. Sam ouviu o som de água cor­rendo.

O que a gente fez? — perguntou Quinn. — É isso que não en­tendo. O que a gente fez para deixar Deus tão puto?

Sam abriu a geladeira. Olhou a comida lá dentro. Leite. Uns dois refrigerantes. Metade de uma melancia pequena posta de lado num prato. Ovos, maçãs. E limões para o chá de sua mãe. O de sempre.

Quero dizer, a gente fez alguma coisa para merecer isso, certo? — perguntou Quinn. — Deus não faz coisas assim sem motivo.

Não acho que tenha sido Deus — disse Sam.

Cara. Só pode ser.

Astrid estava de volta.

Talvez Quinn esteja certo. Não existe nada, você sabe, normal, que possa fazer isso — argumentou. — Existe? Não faz nenhum sen­tido. Não é possível e, no entanto, aconteceu.

Às vezes, coisas impossíveis acontecem — disse Sam.

Não acontecem, não — reagiu Astrid. — O universo tem leis. Todas as coisas que aprendemos na aula de ciências. Você sabe, como as leis do movimento, ou que nada pode ser mais rápido do que a luz. Ou a gravidade. Coisas impossíveis não acontecem. E isso que impos­sível significa. — Astrid mordeu o lábio. — Desculpe. Não é hora para ficar fazendo sermão, não é?

Sam hesitou. Se mostrasse a eles, se ultrapassasse essa barreira, não poderia fazer com que esquecessem. Iriam insistir até que ele contasse tudo.

Iriam olhá-lo de modo diferente. Ficariam assustados, como ele estava.

Vou trocar a camisa, certo? No meu quarto. Já volto. Na gela­deira tem coisas para beber. Podem pegar.

Fechou a porta do quarto.

Odiava o seu quarto. A janela dava para um beco e o vidro era da­quele tipo translúcido, que não dava para ver direito o que estava do lado de fora. O quarto era escuro mesmo nos dias ensolarados. À noite, era escuro demais.

Sam odiava o escuro.

Sua mãe o fazia trancar a casa à noite, quando ela estava no trabalho.

Agora você é o homem da casa — dizia. — Mas, mesmo assim, eu me sinto melhor sabendo que você trancou a porta.

Ele não gostava quando a mãe dizia isso, sobre ser o homem da casa agora.

Agora.

Talvez ela não quisesse dizer realmente nada com isso. Mas como não poderia? Fazia oito meses que seu padrasto havia ido embora da casa antiga. Seis meses desde que Sam e a mãe tinham se mudado para este barraco precário, nesse bairro decrépito e sua mãe fora obrigada a pegar o emprego mal pago, num horário péssimo.

Duas noites antes uma tempestade com trovões caíra, e a luz havia acabado durante um tempo. Sam ficou na escuridão total, a não ser por fracos relâmpagos que davam uma aparência fantasmagórica às coisas familiares do quarto.

Tinha conseguido dormir por um tempo, mas um trovão gigantes­co o acordou. Ele saíra de um pesadelo aterrorizante para a escuridão total, numa casa vazia.

A combinação foi demais. Sam gritou pela mãe. Um garoto grande e forte como ele, de 15 anos, quase 15, gritando "Mamãe" no escuro. Estendeu a mão agarrando a escuridão.

E então... luz.

Ela havia aparecido, quase saindo de seu armário. Sam poderia meio que escondê-la, fechando a porta do armário. Mas, quando tentou fe­char a porta até o final, a luz simplesmente passou por ela. Como se a porta nem estivesse ali. Por isso, a porta estava só entreaberta. Ele havia pendurado algumas camisas casualmente na parte de cima da porta, blo­queando a maior parte da luz, mas aquele ardil desajeitado não duraria muito. Eventualmente sua mãe veria... bom, quando voltasse, veria.

Abriu a porta do armário. A camuflagem caiu.

A luz continuava ali.

Ela era pequena, mas ofuscante. E pairava, sem se mover, sem estar ligada a coisa nenhuma, apenas uma bolinha de luz pura.

Era impossível. Era algo que não podia existir. No entanto, ali es­tava. A luz que aparecera do nada quando Sam havia precisado, e não tinha ido embora.

Tocou-a, mas não exatamente. Seus dedos simplesmente passaram por ela, sentindo apenas um brilho morno, tão quente quanto água de banho.

— É, Sam — murmurou para si mesmo — ainda está aí.

Astrid e Quinn achavam que o dia de hoje havia sido o início, mas Sam sabia que não. A vida normal tinha começado a se despedaçar oito meses antes. Depois, normalidade de novo. E então, esta luz.

Quatorze anos de normalidade para Sam. Depois o normal havia começado a sair dos trilhos.

Hoje a normalidade dera de cara na parede, capotado e sido feita em pedacinhos.

Sam?

Era Astrid chamando da sala. Ele olhou para a porta ansioso, com medo de que ela entrasse e visse. Fez o máximo, às pressas, para es­conder a luz de novo, e voltou aos colegas.

Sua mãe estava escrevendo no laptop — disse Astrid.

Provavelmente vendo os e-mails. — Mas, quando sentou-se à mesa e olhou para a tela, Sam viu que o computador estava aberto num documento de texto, e não num navegador de internet.

Era um diário. Apenas três parágrafos na página.

Aconteceu de novo ontem à noite. Eu gostaria de poder contar isso a G. Mas ela vai achar que estou maluca, e eu poderia perder o emprego. Vai pensar que estou usando drogas. Se eu tivesse um modo de colocar câmeras em toda parte, poderia conseguir algu­ma prova. Mas não tenho prova, e a "mãe" de C é rica e genero­sa com a AC. Eu seria demitida. Mesmo que eu conte toda a verdade a alguém, eles só irão me humilhar dizendo que é tudo alucinação da mãe exausta.

Cedo ou tarde, C ou algum dos outros vai fazer alguma coisa séria. Alguém vai se machucar. Como S com T.

Talvez eu confronte C. Não creio que ele vá confessar. Faria diferença se ele soubesse de tudo?

Sam olhou para a página. O documento não tinha sido salvo. Sam procurou no computador e encontrou a pasta intitulada "Diário". Cli­cou nela, mas era protegida por senha. Se sua mãe tivesse salvado esta última página, ela também estaria inacessível.

"AC" era fácil. Academia Coates. E "G" provavelmente significava Grace, a diretora. "S" também era fácil: Sam. Mas quem era "C"? Uma frase parecia vibrar do seu olhar: "Como S com T." Astrid estava lendo por cima de seu ombro. Tentava ser sutil, mas estava definitivamente xeretando. Ele fechou o laptop.

Vamos embora?

Para onde? — perguntou Quinn.

Para qualquer lugar que não seja aqui — respondeu Sam.

 

                             297 HORAS E 40 MINUTOS

VAMOS PARA A praça — disse Sam. Em seguida fechou a porta da casa, trancou-a e enfiou a chave nos jeans.

Por quê? — perguntou Quinn.

É para onde as pessoas provavelmente irão — respondeu Astrid.

Não tem nenhum outro lugar, tem? A não ser que voltem para a escola. Se alguém souber de alguma coisa, ou se houver algum adulto, é para onde eles irão.

Praia Perdida ocupava uma ponta de terra a sudoeste da auto-estrada litorânea. No lado norte da auto-estrada, as montanhas se erguiam íngre­mes, de um marrom seco com retalhos verdes, e formavam uma série de cristas que penetravam no mar a noroeste e sudeste da cidade, limitando-a a apenas esse espaço, confinando-a a apenas essa protuberância.

Havia apenas pouco mais de três mil moradores em Praia Perdida - agora, muito menos. O mercado mais próximo ficava em San Luis. O shopping center grande mais próximo ficava a mais de 30 quilôme­tros descendo a costa. Para o norte, subindo o litoral, as montanhas se comprimiam tão perto do mar, que não havia espaço para constru­ções, a não ser a faixa estreita onde ficava a usina nuclear. Depois disso, ficava o parque nacional, uma floresta de sequóias antigas.

Praia Perdida havia permanecido como uma cidadezinha sonolenta, com ruas retas ladeadas por árvores e, na maioria, bangalôs antigos de estuque, em estilo espanhol, com telhados cor de laranja ou tetos planos em estilo antigo. A maioria das pessoas tinha gramados verdes e bem aparados. A maioria das pessoas tinha um quintal cercado. No minúsculo centro da cidade, ao redor da praça, havia palmeiras e um monte de vagas de estacionamento na diagonal.

Praia Perdida tinha um resort ao sul da cidade, a Academia Coates nas montanhas e a usina nuclear, mas, fora isso, havia apenas uns poucos estabelecimentos comerciais. A loja de ferramentas Ace, o McDonald's, um café chamado Bean There, uma lanchonete Subway, umas duas lojas de conveniência, uma mercearia e um posto Chevron na auto-estrada.

Quanto mais Sam, Astrid e Quinn se aproximavam, mais crianças eles encontravam indo em direção à praça. Era como se, de algum modo, as crianças da cidade deduzissem que deveriam ficar juntas, para se protegerem. Ou talvez fosse apenas a solidão esmagadora de casas que subitamente não eram mais acolhedoras.

Meio quarteirão adiante, Sam sentiu cheiro de fumaça e viu crian­ças correndo.

A praça era um pequeno espaço aberto, uma espécie de parque com trechos de grama, no meio, uma fonte que quase nunca funciona­va. Havia bancos, caminhos calçados de tijolos e latas de lixo. Em frente à praça, ficavam lado a lado a modesta prefeitura e uma igreja. Lojas cercavam a praça, algumas fechadas para sempre, e, em cima de algumas delas, havia apartamentos. A fumaça saía da janela do segun­do andar do apartamento que ficava em cima de uma floricultura fali­da e um desenxabido escritório de seguros. Quando Sam parou, ofegante, um jato de chamas irrompeu de uma janela no alto.

Várias crianças estavam paradas olhando. Sam achou aquela multi­dão muito estranha, e depois entendeu porquê: não havia adultos, só crianças.

— Tem alguém lá? — gritou Astrid. Ninguém respondeu.

O fogo pode se espalhar — disse Sam.

Ninguém atende ao telefone de emergência — observou al­guém.

Se o fogo se espalhar, pode queimar metade da cidade.

Está vendo algum bombeiro? — Um dar de ombros impotente.

A creche ficava lado a lado com a loja de ferramentas, e as duas eram separadas do incêndio apenas por um beco estreito. Sam achou que era possível tirar as crianças da creche se agissem depressa, mas a loja de ferramentas era uma coisa que não podiam se dar ao luxo de perder.

Devia haver umas quarenta crianças ali paradas, boquiabertas. Nin­guém parecia disposto a fazer alguma coisa.

Fantástico — disse Sam. Em seguida pegou dois garotos que conhecia de vista. — Vocês, vão para a creche. Vamos tirar as crianças pequenas de lá.

Os garotos o olharam, sem se mexer.

Agora. Vão. Façam o que estou mandando! — gritou ele, e os dois partiram correndo.

Sam apontou para outros dois garotos.

Vocês dois. Vão à loja de ferramentas e peguem a mangueira mais comprida que encontrarem. Peguem um bico de borrifar tam­bém. Acho que tem uma torneira naquele beco. Comecem a jogar água na lateral da loja de ferramentas e no telhado.

Os dois também o olharam inexpressivos.

Pessoal, não é para amanhã. Agora. Agora. Vão! Quinn? É me­lhor ir com eles. Precisamos molhar a loja de ferramentas. É para onde o vento vai levar o fogo em seguida.

Quinn hesitou.

As pessoas não estavam entendendo. Como podiam não ver que precisavam fazer alguma coisa, e não ficar simplesmente olhando?

Sam foi até a frente da multidão e disse em voz alta:

Ei, escutem. Isso aqui não é o Disney Channel. Não podemos só ficar olhando. Não tem adultos. Não tem bombeiros. Nós somos os bombeiros.

Edilio estava ali. Ele disse:

Sam está certo. Do que você precisa, Sam? Pode dizer.

Certo. Quinn? As mangueiras na loja de ferramentas. Edilio? Vamos pegar as mangueiras grandes do posto dos bombeiros e ligar no hidrante.

Elas são pesadas. Vou precisar de uns caras fortes.

Você, você, você, você. — Sam agarrou o ombro de cada um, sacudindo-os, empurrando-os para andarem. — Andem. Você. Você. Vamos!

E então veio o grito.

Sam congelou.

Tem alguém lá — gemeu uma menina.

Quietos — sussurrou Sam, e todo mundo ficou em silêncio, ouvindo o ronco e os estalos do fogo, os alarmes distantes dos carros, e depois um grito:

Mamãe.

De novo.

Mamãe.

Alguém imitou a voz, zombando em falsete:

Mamãe, tô com medo.

Era Ore, realmente achando a situação engraçada. As crianças se afastaram dele.

O quê? — perguntou, sem entender.

Howard, nunca distante de Ore, zombou:

Não se preocupem, o Sam do Ônibus Escolar vai salvar a gente, não vai, Sam?

Edilio. Vá — disse Sam baixinho. — Traga tudo o que puder.

Cara, você não pode entrar lá — disse Edilio. — Deve haver tanques de oxigênio e outras coisas no posto de bombeiros. Espere, eu trago tudo. — Ele já estava correndo, guiando sua turma de garotos fortes.

Ei, você aí em cima — gritou Sam. — Pode chegar à porta ou à janela?

Olhou para o alto, esticando o pescoço. Havia seis janelas na fren­te do prédio, uma no beco. O fogo estava na janela mais à esquerda, mas agora a fumaça saía da segunda janela também. O fogo ia se espa­lhando.

Mamãe! — gritou a voz. Era uma voz clara, não engasgada com a fumaça. Ainda não.

Se você vai entrar aí, enrole isso no rosto. — De algum modo Astrid havia arrumado um pano, que havia conseguido com alguém e encharcado.

Eu disse que ia entrar lá? — perguntou Sam.

Não se machuque — disse Astrid.

Bom conselho — respondeu Sam secamente, antes de enrolar o pano molhado na cabeça, por cima da boca e do nariz.

Ela segurou seu braço.

Olha, Sam, não é o fogo que mata, e sim a fumaça. Se você respirar fumaça demais, seus pulmões vão inchar, vão se encher de líquido.

Quanto é demais? — perguntou ele, com a voz abafada pelo pano.

Astrid sorriu.

Eu não sei tudo, Sam.

Sam queria segurar a mão dela. Estava apavorado. Precisava de al­guém para lhe dar coragem. Queria segurar a mão de Astrid. Mas não era a hora certa. Então, ele conseguiu dar um sorriso trêmulo e disse:

Vamos lá.

Vai fundo, Sam — gritou uma voz encorajando-o. Houve um coro de gritos de estímulo.

A entrada do prédio estava destrancada. Dentro havia caixas de correio, uma porta dos fundos que dava na floricultura e uma escada escura e estreita que subia.

Sam quase conseguiu chegar ao topo da escada antes de bater numa parede opaca de fumaça em redemoinhos. O pano molhado não aju­dava em nada. Bastou uma inspiração e ele estava de joelhos, sufocan­do e engasgando. Lágrimas enchiam os olhos ardidos.

Agachou-se mais e encontrou um pouco de ar.

— Ei, você aí, está me ouvindo? — gritou rouco. — Grite, preciso ouvir você.

Desta vez o "mamãe" soou fraco, vindo do corredor à esquerda, quase no outro lado do prédio. Talvez a criança pulasse pela janela, no colo de alguém, disse Sam a si mesmo. Seria idiotice morrer se a crian­ça pudesse simplesmente pular.

O fedor de fumaça era intolerável, terrível, estava em toda parte. Tinha um gosto azedo, como fumaça misturada a leite talhado.

Sam ficou de joelhos e se arrastou pelo corredor. O lugar era estra­nho, fantasmagórico. A passadeira puída embaixo dele parecia normal demais: uma estampa oriental desbotada, bordas esgarçadas, algumas migalhas de comida e uma barata morta. Uma luz estava acesa no teto, filtrando a luz pálida pelo cinza agourento.

A fumaça descia lentamente em redemoinhos, pressionando-o, obrigando-o a se abaixar cada vez mais para conseguir oxigênio.

Devia haver seis ou sete apartamentos. Não dava para saber qual era o certo, pois a criança não estava mais gritando. Mas o apartamen­to que pegava fogo era provavelmente o que ficava logo à sua direita. A fumaça jorrava por baixo da porta, densa, rápida e furiosa como um rio. Ele tinha segundos, e não minutos.

Rolou de costas. A fumaça que jorrava por baixo da porta era como uma cachoeira ao contrário, caindo para cima numa cascata. Sam chu­tou a porta, mas isso não adiantou. A fechadura ficava no alto; seu chute apenas chacoalhou a porta. Para arrombá-la teria de ficar de pé, direto naquela fumaça assassina.

Estava apavorado. E estava enlouquecendo também. Onde estavam as pessoas que deveriam fazer isso? Onde estavam os adultos? Por que ele tinha de resolver as coisas? Era só um garoto. E por que mais nin­guém fora suficientemente louco ou idiota para entrar correndo num prédio em chamas?

Estava furioso com todos eles e, se Quinn estivesse certo e isso fosse algo feito por Deus, estava furioso com Deus também.

Mas se a culpa dos acontecimentos fosse de Sam... se Sam tivesse feito tudo isso acontecer... não havia ninguém com quem ficar furioso, apenas com ele próprio.

Inspirou todo o ar que pôde, pôs-se de pé e se jogou contra a porta num movimento frenético.

Nada.

E de novo.

Nada.

E de novo, e respirar agora era urgente, necessário, mas a fumaça estava em toda parte, no nariz, nos olhos, cegando-o. Bateu de novo, e a porta se abriu e ele caiu no chão, de rosto para baixo.

A fumaça presa na sala irrompeu pelo corredor, explodindo como um leão escapando da jaula. Por alguns segundos, houve uma camada de ar respirável no nível no chão e Sam inspirou uma vez. Precisou lutar para não tossi-lo de volta para fora. Se fizesse isso, morreria, com certeza.

E, por apenas um segundo, ficou parcialmente claro no apartamen­to. Como uma abertura nas nuvens que dá uma ligeira pista do céu azul e limpo lá no alto antes de ser encoberto de novo.

A criança que estava no chão, engasgando, tossindo, era só uma menininha, de 5 anos no máximo.

— Estou aqui — disse Sam, com a voz estrangulada.

Ele devia estar com a aparência aterrorizante. Um vulto alto envol­to em fumaça, com o rosto coberto, fuligem preta no cabelo e na pele.

Devia parecer um monstro. Essa era a única explicação. Porque a menininha, a menininha aterrorizada, em pânico, levantou as duas mãos, com as palmas para a frente, e daquelas mãozinhas gorduchas saiu uma explosão, jatos de pura chama.

Chamas. Explodindo das mãos minúsculas.

Chamas!

Apontadas contra ele.

As chamas erraram Sam por pouco. Passaram por cima da cabeça dele com um uuush e bateram na parede atrás. Eram como napalm, gasolina gelatinosa, fogo líquido, que se grudou à parede e queimou com intensidade louca.

Por um segundo, ele só pôde ficar olhando, imóvel e espantado.

Aquilo era insano.

Impossível.

A menininha gritou aterrorizada e levantou as mãos de novo. Des­ta vez, não erraria. Desta vez, ela o mataria.

Sem pensar, apenas reagindo, Sam estendeu o braço com a palma da mão para fora. Houve um clarão de luz, brilhante como uma estre­la explodindo.

A criança caiu de costas.

Sam se arrastou até ela, tremendo, com a barriga contraída, que­rendo gritar, pensando: não, não, não, não.

Pegou a criança nos braços, com medo tanto de ela acordar quanto de não acordar. Levantou-se.

A parede à direita caiu e fez um barulho parecido com papelão rasgando. O reboco se soltava, revelando a estrutura da parede, as tábuas e os caibros. O fogo estava dentro da parede.

Um jato de calor, como a porta de um forno se abrindo, fez Sam cambalear. Astrid havia dito que não era o fogo que matava. Bom, ela não tinha visto esse fogo, nem pensaria que uma menininha podia lançar chamas com as mãos.

Sam segurou a menina no colo. Havia fogo à direita e às suas cos­tas, eriçando os cílios, assando a pele.

Havia uma janela bem à frente.

Cambaleou adiante. Largou a menina no chão como um saco de terra e abriu a janela com as duas mãos. A fumaça se espalhou, com o fogo logo atrás, em direção à nova fonte de oxigênio.

Sam tateou na semi-escuridão, procurando a criança. Levantou-a e ali, milagrosamente, havia um par de mãos esperando para pegá-la. Mãos que se estendiam através da fumaça, parecendo quase sobrena­turais.

Sam desmoronou contra o parapeito, meio pendurado pela janela, e alguém o agarrou, puxando-o para a escada de alumínio. Sua cabeça batia nos degraus, mas ele não se importou nem um pouco, porque aqui fora havia luz e ar, e através dos olhos entreabertos e úmidos pôde ver o céu azul.

Edilio e um garoto chamado Joel carregaram Sam até a calçada.

Alguém molhou-o com uma mangueira. Será que achavam que ele estava pegando fogo?

Ele estava pegando fogo?

Abriu a boca e engoliu a água fria, sedento. Ela se esparramou pelo seu rosto.

Mas ele não conseguiu se agarrar à consciência. Flutuou para lon­ge. Flutuou de costas numa onda suave.

Sua mãe estava ali. Estava sentada na água, ao seu lado, o queixo apoiado nos joelhos. Ela não olhava para ele.

O que foi? — perguntou Sam.

Tinha cheiro de frango frito — respondeu ela.

O quê? — disse ele.

Sua mãe estendeu a mão e lhe deu um tapa no rosto com força.

Seus olhos se abriram bruscamente.

Desculpe — disse Astrid. — Precisei acordar você.

Ela se ajoelhou ao lado dele e encostou algo na sua boca. Uma más­cara de plástico. Oxigênio.

Ele tossiu e respirou. Afastou a máscara e vomitou ali mesmo na calçada, dobrado ao meio como um bêbado na sarjeta.

Astrid, discreta, afastou o olhar. Mais tarde ele ficaria sem graça. Neste momento estava simplesmente feliz por conseguir vomitar.

Respirou mais oxigênio.

Quinn estava segurando a mangueira de jardim. Edilio foi corren­do conectar uma das maiores, dos bombeiros, ao hidrante. Saiu um fio d'água, depois, enquanto Edilio virava a chave de cabo comprido e abria o hidrante até o final, um jorro forte. As crianças na outra extre­midade precisaram lutar com a mangueira como se ela fosse uma ji­bóia. Teria sido engraçado em qualquer outra ocasião.

Sam sentou-se. Ainda não conseguia falar.

Com um aceno de cabeça, indicou o lugar onde meia dúzia de crianças se ajoelhava ao redor da pequena incendiária. Sua pele negra estava ainda mais escura devido à cobertura de fuligem. Seu cabelo havia sumido num dos lados, queimado. Do outro, tinha uma maria-chiquinha de criança, presa com elástico cor-de-rosa.

Sam sabia, pelo modo reverente com que as crianças estavam ajoe­lhadas ali. Sabia, mas teve de perguntar assim mesmo. Sua voz era um grasnido fraco.

Astrid balançou a cabeça.

Sinto muito, Sam — respondeu.

Sam assentiu.

Os pais dela provavelmente estavam com o fogão ligado quando desapareceram — disse Astrid. — Provavelmente foi isso que causou o incêndio. Ou talvez um cigarro.

Não, pensou Sam. Não foi isso.

A menininha tinha o poder. Tinha o mesmo poder de Sam, ou pelo menos, algo parecido.

O poder que ele havia usado quando, em pânico, criou uma luz impossível.

O poder que ele havia usado uma vez e quase matado alguém.

O poder que tinha usado novamente, condenando a própria pessoa que ele estava se esforçando tanto para salvar.

Ele não era o único. Não era a única aberração. Havia — ou hou­vera — pelo menos mais uma.

De algum modo, saber disso não era reconfortante.

 

                     291 HORAS E 7 MINUTOS

A NOITE CHEGOU em Praia Perdida.

Os postes se acenderam automaticamente, sem conseguir vencer a escuridão, lançando somente sombras profundas nos rostos apavorados.

Quase cem crianças se espalhavam pela praça. Todo mundo parecia estar segurando um doce e um refrigerante. A lojinha, que vendia principalmente cerveja e salgadinhos, tinha sido saqueada. Sam pegara uma barra de caramelo com amendoim e um refrigerante Dr. Pepper. Os Reese's, Twix e Snickers já tinham acabado quando ele chegou. Tinha deixado dois dólares no balcão, como pagamento, mas o di­nheiro sumiu em segundos.

O prédio de apartamentos havia queimado até a metade antes que a energia do fogo se exaurisse. O teto tinha desmoronado, levando metade do andar superior. O térreo parecia ter condições de agüentar, mas as vitrines das lojas estavam enegrecidas por dentro, por causa da fumaça, que subia em fiapos, e não em rolos, e espalhava o fedor por toda parte.

Mas a loja de ferramentas e a creche tinham sido salvos.

O corpo da menininha ainda estava na calçada. Alguém havia pos­to um cobertor em cima, e Sam ficou grato por isso.

Sam e Quinn estavam sentados na grama, perto do centro da praça, junto à fonte desligada. Quinn se balançava para trás e para a frente, abraçando os joelhos.

Bette Ricochete veio e parou, sem jeito, diante de Sam, segurando a mão do irmãozinho.

Sam, você acha que podemos ir para casa? A gente precisa pegar uma coisa.

Sam deu de ombros.

Bette, eu sei tanto quanto você.

Bette assentiu, hesitou e foi andando.

Todos os bancos da praça estavam ocupados. Alguns pequenos gru­pos familiares abriram lençóis em cima dos bancos, formando tendas frouxas. Muitas crianças foram para suas casas vazias, mas outras pre­cisavam ter pessoas à sua volta. Algumas encontravam conforto na multidão. Algumas só precisavam ver o que estava acontecendo.

Dois garotos que Sam não conhecia, provavelmente do quinto ano, chegaram e disseram:

Você sabe o que vai acontecer?

Sam balançou a cabeça.

Não, pessoal, não sei.

Bom, o que a gente deveria fazer?

Acho que só ficar por aí um tempo, sabem?

Você diz, ficar por aqui?

Ou então ir para casa. Dormir na sua cama. O que acharem melhor.

Não estamos com medo nem nada.

Não? — perguntou Sam, desconfiado. — Eu estou tão apavora­do que mijei nas calças.

Um garoto riu.

Não se molhou, não.

Não. É verdade. Mas não tem problema ficar com medo, cara. Todo mundo aqui está com medo.

Isso vinha acontecendo um bocado. Crianças se aproximavam de Sam, faziam perguntas para as quais ele não tinha resposta.

Sam só queria que elas parassem.

Ore e seus amigos arrastaram cadeiras de jardim da loja de ferra­mentas e se acomodaram no meio do que havia sido o cruzamento mais movimentado de Praia Perdida. Estavam bem embaixo do semá­foro, que continuava mudando de verde para amarelo para vermelho.

Howard estava dando bronca num puxa-saco de posto inferior que tinha acendido um pedaço de lenha artificial e tentava fazer uma fo­gueira. A turma do Ore trouxe uns dois cabos de machado e bastões de beisebol de madeira da loja de ferramentas e estava tentando quei­má-los, sem sucesso.

Também trouxeram da loja bastões de metal e pequenas machadi- nhas. Esses eles guardaram.

Sam não falou sobre a menininha, sobre o modo como ela estava ali deitada. Se falasse, seria seu trabalho fazer alguma coisa. Cavar uma sepultura e enterrá-la. Ler a Bíblia ou dizer algumas palavras. Nem sabia o nome dela. Ninguém parecia saber.

Não consigo achar. — Era Astrid, reaparecendo depois de uma ausência de pelo menos uma hora. Tinha ido à procura do irmão mais novo. — Petey não está aqui. Ninguém o viu.

Sam lhe entregou um refrigerante.

— Aqui. Eu paguei. Pelo menos tentei pagar.

Geralmente não bebo essa coisa.

Você está vendo algum "geralmente" por aqui? — disse Quinn, repreendendo-a.

Quinn não olhou para ela. Seus olhos estavam inquietos, indo de uma pessoa a outra, de uma coisa a outra, como um pássaro nervoso, jamais fazendo contato visual direto. Parecia estranhamente nu sem os óculos escuros e o chapéu de feltro.

Sam estava preocupado com ele. Dos dois, era Sam que geralmente ficava sério demais.

Astrid desconsiderou a grosseria de Quinn e continuou:

Obrigada, Sam. — Tomou metade da lata, mas não se sentou. — O pessoal está dizendo que foi algum erro militar. Ou então terroristas. Ou alienígenas. Ou Deus. Um monte de teorias. Nenhuma resposta.

Você ao menos acredita em Deus? — perguntou Quinn. Estava procurando uma briga.

Acredito — respondeu Astrid. — Só não acredito no tipo de Deus que faz pessoas desaparecerem sem motivo. Deus deveria ser amor. Isso não parece amor.

Parece o pior piquenique do mundo — disse Sam.

Acho que é isso que chamam de humor de cadafalso — disse Astrid. Notando a expressão vazia de Sam e Quinn, continuou: — Desculpe. Eu tenho uma tendência irritante a analisar o que as pessoas dizem. Ou vocês se acostumam ou decidem que não me suportam.

Estou mais inclinado para a segunda opção — murmurou Quinn.

O que é humor de cadafalso? — perguntou Sam.

Cadafalso, o lugar onde enforcam pessoas. Às vezes, quando as pessoas estão nervosas ou com medo, elas fazem piada. — Depois acrescentou, meio pesarosa. — Claro, algumas pessoas ficam pedantes quando estão nervosas ou com medo. E, se não sabem o que é pedan­te, aí vai uma dica: tem uma foto minha na descrição do dicionário.

Sam riu.

Um menininho, que não deveria ter mais de 5 anos, carregando um urso de pelúcia velho e de olhos tristes, se aproximou.

Você sabe cadê minha mãe?

Não, rapazinho, desculpe — respondeu Sam.

Você pode telefonar para ela? — A voz dele tremia.

Nada está funcionando — disse Quinn rispidamente. — Nada funciona e estamos sozinhos aqui.

Sabe o que eu acho? — perguntou Sam ao menino. —Acho que tem biscoito na creche. É ali do outro lado da rua. Tá vendo?

Eu não posso atravessar a rua.

Tudo bem. Eu vigio enquanto você vai, certo?

O menino conteve um soluço, depois foi andando para a creche, apertando o urso.

As crianças procuram você, Sam — disse Astrid. — Esperam que você faça alguma coisa.

Fazer o quê? Só posso sugerir que comam um biscoito — disse Sam, com raiva demais na voz.

Salve as crianças, Sam — disse Quinn, amargo. — Salve todas elas.

Elas estão apavoradas, como nós — disse Astrid. — Não há nin­guém no comando, ninguém dizendo às pessoas o que fazer. Elas sen­tem que você é um líder, Sam. Elas procuram você.

Não sou líder de nada. Estou tão apavorado quanto elas. Estou tão perdido quanto elas.

Você soube o que fazer quando o apartamento estava pegando fogo — disse Astrid.

Sam pulou de pé. Era apenas energia nervosa, mas o movimento atraiu o olhar de dezenas de crianças por perto. Todos o olharam como se ele fosse fazer alguma coisa. Sam sentiu um nó no estômago. Até Quinn estava olhando-o cheio de expectativa.

Sam xingou baixinho. Então, numa voz com altura suficiente para chegar a apenas alguns metros, disse:

Olha, a gente só precisa ficar firme. Alguém vai descobrir o que aconteceu e vem encontrar a gente, certo? Então, pessoal: fiquem frios, não façam nada maluco, ajudem uns aos outros e tentem ser corajosos.

Para seu espanto, Sam ouviu uma onda de vozes repetindo o que ele havia dito, passando a fala adiante como se fosse alguma coisa brilhante.

A única coisa que devemos temer é o próprio medo — sussurrou Astrid.

O quê?

Foi o que o presidente Roosevelt disse quando o país inteiro estava apavorado por causa da Grande Depressão — explicou ela.

Sabe — disse Quinn —, a única coisa boa nisso foi que eu ti­nha escapado da aula de história. Agora a aula de história está me seguindo.

Sam riu. Não muito, mas foi um alívio perceber que Quinn ainda tinha algum senso de humor.

Preciso achar meu irmão — disse Astrid.

Onde mais ele poderia estar? — perguntou Sam.

Astrid deu de ombros, impotente. Parecia sentir frio com a blusa fina. Sam desejou ter um casaco para oferecer a ela.

Com meus pais, em algum lugar. Os lugares mais prováveis são o trabalho do meu pai ou onde minha mãe joga tênis. No Penhasco.

Penhasco era o resort e hotel que ficava logo acima da praia predi­leta de Sam para surfar. Ele nunca estivera lá dentro, nem mesmo no terreno do hotel.

Acho que o mais provável é o Penhasco — disse Astrid. — Eu sei que é chato, mas vocês poderiam ir comigo?

Agora? — perguntou Quinn, incrédulo. — À noite?

Sam deu de ombros.

É melhor do que ficar parado aqui, Quinn. Talvez a TV esteja funcionando lá.

Ouvi falar que a comida no Penhasco é ótima. Serviço de alto nível. — Ele estendeu a mão e Sam puxou-o até ficar de pé.

Passaram pela multidão apinhada. Crianças gritavam para Sam e perguntavam o que estava acontecendo, perguntavam o que deveriam fazer. E ele dizia coisas como: "Fiquem firmes. Vai ficar tudo bem. Só curta as férias, cara. Curtam os doces enquanto podem. Seus pais vão voltar logo e resolver isso tudo."

E as crianças concordavam, riam ou mesmo diziam: "Obrigado", como se ele tivesse lhes dado alguma coisa.

Ouviu seu nome ser repetido. Ouviu trechos de conversas.

"Eu estava no ônibus daquela vez." Ou "Cara, ele entrou correndo no prédio." Ou "Tá vendo? Ele disse que vai ficar tudo bem."

O nó em seu estômago foi ficando mais doloroso. Seria um alívio andar pela noite. Queria se afastar daqueles rostos apavorados olhando-o, esperando algo dele.

Passaram perto do acampamento de Ore no cruzamento. A foguei­ra desenxabida estava estalando, derretendo o asfalto embaixo da ma­deira. Uma embalagem de seis latas de cerveja Coors estava num isopor cheio de gelo. Um dos amigos de Ore, um panaca com cara de bebê chamado Cookie, estava meio tonto e enjoado.

Ei. Aonde vocês pensam que vão? — perguntou Howard quan­do eles se aproximaram.

Dar uma volta — respondeu Sam.

Dois surfistas idiotas e um gênio?

Isso mesmo. Vamos ensinar Astrid a surfar. Algum problema?

Howard deu uma risada e olhou Sam de cima a baixo.

Você acha que é o cara, não é, Sam? Sam do Ônibus Escolar. Grande coisa. Você não me impressiona.

Que pena, porque passei a vida inteira com esperança de im­pressionar você, Howard — disse Sam.

O rosto de Howard ficou astuto.

Você precisa trazer uma coisa de volta para a gente.

Do que você está falando?

Não quero que os sentimentos do Ore sejam magoados — disse Howard. — Não importa o que vocês forem pegar, acho que devem trazer um pouco para ele.

Ore estava esparramado numa cadeira saqueada, pernas abertas, prestando apenas um pouquinho de atenção. Seus olhos, nunca muito focalizados, estavam vagueando. Mas ele grunhiu:

É.

No momento em que ele falou, vários de sua turma de repente fi­caram interessados no grupo de Sam. Um deles, um garoto alto e magricelo apelidado de Panda por causa dos olhos com círculos escuros, bateu com o bastão de metal no asfalto, ameaçando.

Então você é um grande herói, não é? — disse Panda.

Essa frase já está gasta — disse Sam.

Não, não, o Sammy não, ele não acha que é melhor do que o resto de nós — zombou Howard. E fez uma paródia grosseira de Sam na hora do incêndio: — Você pegue uma mangueira, você pegue as crianças, faça isso, faça aquilo, eu estou no comando, eu sou... Sam. Sam, o Surfista.

Vamos indo agora — disse Sam.

Ah ah ah — disse Howard, e apontou para o semáforo acima com um floreio. — Espere até ficar verde.

Durante alguns tensos segundos, Sam pensou se deveria entrar nes­sa briga agora ou se deveria evitá-la. Então a luz do semáforo mudou, Howard gargalhou e sinalizou para eles passarem.

 

                           290 HORAS E 7 MINUTOS

NINGUÉM FALOU POR vários quarteirões.

As ruas foram ficando mais vazias e mais escuras à medida que chegavam à estrada da praia.

O mar tá estranho — observou Quinn.

Tá flat — concordou Sam. Ele sentia como se olhos estivessem seguindo-o, mesmo que já estivessem fora das vistas da praça.

Mais do que flat, brou — disse Quinn. — Parece vidro. Mas tem uma frente de baixa pressão aí fora. Deveria ser um período longo de swell. Em vez disso, parece um lago.

A previsão do tempo nem sempre acerta — respondeu Sam. Em seguida, ouviu com atenção. Quinn era melhor em ler as condições climáticas. Alguma coisa parecia estranha no ritmo. Mas Sam não ti­nha certeza.

Luzes piscavam aqui e ali, nas casas à esquerda, nos postes das ruas, mas estava bem mais escuro do que o normal. Ainda era o iní­cio da noite, quase na hora do jantar. As casas deveriam estar ilumi­nadas. Em vez disso, as únicas luzes eram as que estavam ligadas a temporizadores ou que tinham sido deixadas acesas durante todo o dia. Numa casa, a luz azulada de uma TV tremulava. Quando Sam espiou pela janela, viu dois garotos comendo batata frita e olhando para a estática.

Todos os pequenos ruídos de fundo, todos os pequenos sons que você mal registra — telefones tocando, motores de carro, vozes —, haviam sumido. Eles podiam ouvir cada passo que davam. Cada respi­ração. Quando um cachorro surgiu latindo freneticamente, todos pu­laram.

Quem vai dar comida a esse cachorro? — perguntou Quinn.

Ninguém sabia responder. Haveria cães e gatos por toda a cidade.

E com certeza haveria bebês em casas vazias agora mesmo. Era tudo demais. Demais para pensar.

Sam espiou em direção aos morros, franzindo os olhos para deixar de fora as luzes da cidade. Às vezes, se os refletores do campo de atle­tismo estivessem ligados, dava para ver um brilho distante de luz vindo da Academia Coates. Mas não esta noite. De lá, só vinha a escuridão.

Parte de Sam negava que sua mãe tivesse sumido. Parte dele queria acreditar que ela estava lá em cima, trabalhando, como em qualquer outra noite.

As estrelas continuam lá — disse Astrid. Depois disse: — Não. As estrelas estão no alto, mas não as que estariam logo acima do hori­zonte. Acho que Vênus deveria estar quase se pondo. Não está lá.

Os três pararam e olharam por cima do oceano. Parados, tudo que ouviam era a regularidade estranha, plácida, das ondas batendo, como um metrônomo.

Isso pode soar esquisito, mas o horizonte parece mais alto do que deveria — disse Astrid.

Alguém viu o sol se pôr? — perguntou Sam.

Ninguém tinha visto.

Vamos continuar andando — disse Sam. — Devíamos ter trazi­do bicicletas ou skates.

Por que não um carro? — perguntou Quinn.

Você sabe dirigir? — perguntou Sam.

Já vi outras pessoas dirigindo.

Já vi fazerem cirurgia cardíaca pela TY também — dísse Astrid. — Isso não significa que eu vá tentar.

Você assiste a cirurgias cardíacas na TV? — perguntou Quinn. — Isso explica muita coisa, Astrid.

A estrada fez uma curva, se afastando da praia e subindo para o Penhasco. O discreto letreiro de néon, aninhado na beira da estrada entre cercas vivas cuidadosamente aparadas, estava aceso. A grandiosa entrada estava iluminada como se fosse Natal — haviam pendurado fiadas de luzes brancas antes do tempo.

Um carro estava parado, vazio, com uma das portas abertas, porta- malas aberto, malas num carrinho de carregador de hotel.

Quando se aproximaram, a porta automática do hotel se abriu.

O saguão era aberto e arejado, com um balcão de madeira clara e polida que se curvava por cerca de nove metros, piso de ladrilhos re­luzentes, placas de latão brilhante indicando um bar mais sombreado. Um dos vários elevadores estava aberto, esperando.

Não estou vendo ninguém — disse Quinn num sussurro contido.

É — concordou Sam. Havia uma TV no bar, sem nada passando. Ninguém na recepção, nem na porta, nem no saguão, nem no bar. Os passos dos meninos ecoavam nos ladrilhos.

A quadra de tênis é por aqui — disse Astrid, e guiou-os para longe. — É onde minha mãe e o Pequeno Pete estariam.

As quadras de tênis estavam iluminadas. Nenhum som de raquetes acertando bolas. Absolutamente nenhum som.

Eles viram ao mesmo tempo.

Atravessando direto a quadra de tênis mais distante, cortando o paisagismo bem cuidado, cortando a piscina, havia uma barreira.

Uma parede.

Ela brilhava leve e continuamente.

Não parecia opaca, mas a pouca luz que passava através dela era leitosa, indistinta e não mais brilhante do que o ambiente ao redor. A parede era ligeiramente reflexiva, como uma janela de vidro fosco. Não fazia nenhum som. Não vibrava. Na verdade, quase parecia en­golir o som.

Podia ser apenas uma membrana, pensou Sam. Com apenas um milímetro de espessura. Algo que ele poderia cutucar com um dedo e estourar como um balão. Podia até não passar de uma ilusão. Mas o instinto, o medo, a sensação na boca do estômago, diziam que ele es­tava olhando uma parede. Não era ilusão, nem cortina, mas uma pa­rede.

A barreira ia até muito alto, mas ia sumindo contra o fundo do céu noturno. Estendia-se até onde eles podiam ver, à esquerda e à direita. Nenhuma estrela brilhava através dela, mas no final, lá no alto, as es­trelas reapareciam.

O que é isso? — perguntou Quinn. Havia espanto em sua voz.

Astrid apenas balançou a cabeça.

O que é isso? — repetiu Quinn, mais ansioso.

Aproximaram-se da barreira com passos lentos, preparados para

sair correndo, mas precisando chegar mais perto.

Entraram na área cercada de tela e passaram pela quadra de tênis. A barreira atravessava a rede, que começava num mastro vertical e terminava na brancura tremeluzente da barreira.

Sam puxou a rede, mas ela permaneceu firme no lugar. Não impor­tava o quanto puxasse, nenhuma parte a mais da rede atravessava a barreira.

Cuidado — sussurrou Astrid.

Quinn ficou para trás, deixando Sam assumir a liderança.

Ela tá certa, brou, cuidado.

Sam estava a pouco mais de um metro da barreira, com a mão es­tendida. Hesitou. Viu uma bola de tênis verde no chão e jogou-a con­tra a barreira.

Ela quicou de volta.

Pegou a bola no ar e olhou-a. Nenhuma marca. Nenhum sinal de que tivesse feito algo além de ricochetear.

Deu os últimos três passos e, desta vez, sem hesitar, pressionou as pontas dos dedos contra a barreira.

Aaai! — Ele puxou a mão de volta e olhou-a.

O que foi? — gritou Quinn.

Queimou. Ah, cara. Isso doeu. — Sam sacudiu a mão para afas­tar a dor.

Deixe eu olhar — disse Astrid.

Sam estendeu a mão.

Agora está normal.

Não dá para ver nenhuma marca de queimadura — disse Astrid, virando a mão dele.

E — concordou Sam. — Mas, acredite, você não vai querer to­car nessa coisa.

Mesmo agora, com tudo que estava acontecendo, Sam registrou o toque da menina como uma espécie de choque elétrico muito diferen­te. A mão de Astrid estava fria. Ele gostou disso.

Quinn pegou uma cadeira que estava junto a uma das linhas late­rais da quadra. Era uma sólida cadeira de ferro fundido. Quinn levan­tou-a bem alto, segurou-a à frente do corpo e bateu com as pernas da cadeira contra a barreira.

A barreira não cedeu.

Quinn bateu de novo, com mais força ainda, com força suficiente para que o coice da cadeira o fizesse girar para trás.

A barreira não cedeu.

De repente, Quinn estava gritando, xingando, batendo com a ca­deira loucamente contra a barreira.

Sam não conseguia chegar suficientemente perto para impedi-lo sem ser acertado. Colocou a mão no braço de Astrid, contendo-a.

Deixe ele pôr para fora.

Quinn bateu com a cadeira contra a parede, repetidas vezes. Não deixou nenhuma marca.

Por fim, largou a cadeira, sentou-se no pavimento, pôs a cabeça nas mãos e gritou.

As luzes estavam brilhando fortes dentro do McDonald's quando Albert Hillsborough entrou. Um alarme de fumaça estava soando, estri­dente. Um bip, bip, bip destacado pedia atenção urgente em meio aos berros mais altos e mais furiosos do alarme.

Crianças haviam passado para trás do balcão e pegado os biscoitos e os salgadinhos que estavam na vitrine. Uma caixa de brinquedos do McLanche Feliz, com personagens de um filme que Albert ainda não tinha visto, estava aberta, com os brinquedos espalhados. Não havia batatas fritas na caixa metálica, mas havia um bocado no chão.

Sentindo-se sem jeito, Albert foi até a porta da cozinha e tentou abri-la. Estava trancada. Voltou e pulou por cima do balcão.

Parecia meio ilegal estar do outro lado.

Um cesto de batatas fritas queimadas, pretas, estava no óleo quen­te. Albert encontrou uma toalha, pegou o cabo do cesto e tirou-o do óleo. Prendeu-o no suporte, de modo que o óleo pingasse direito. As batatas estavam ali desde a manhã.

— Acho que essas estão meio passadas — disse Albert a si mesmo.

O timer da fritadeira continuava soltando bips. Levou um segundo, mas ele encontrou o botão certo e apertou. Isso calou um dos baru­lhos.

Três biscoitos minúsculos, pretos, estavam na grelha. Na verdade eram hambúrgueres que, como as batatas fritas, tinham passado do ponto umas dez horas atrás.

Albert encontrou uma espátula, tirou os hambúrgueres e jogou-os no lixo. A carne havia parado de soltar fumaça muito antes, mas nin­guém estivera por perto para desligar o alarme. Albert demorou al­guns minutos para deduzir como subir sem cair na grelha quente, para empurrar o botão certo.

O silêncio foi um alívio.

— Assim está melhor. — Albert desceu. Imaginou se deveria desli­gar as fritadeiras e a grelha. Seria a coisa mais segura, desligar tudo e sair, em direção à escuridão da praça, onde as crianças se reuniam, apavoradas, procurando um resgate que estava demorando demais para chegar. Mas ele realmente não conhecia ninguém ali.

Albert tinha 14 anos, era o mais novo de seis filhos, e o menor, também. Seus três irmãos e duas irmãs iam dos 15 aos 27 anos. Albert já havia verificado sua casa: nenhum deles estava lá. A cadeira de ro­das de sua mãe estava vazia. O sofá onde ela normalmente estaria deitada e assistindo à TV, comendo e reclamando da dor nas costas, estava abandonado. Seu cobertor continuava lá, e nada mais.

Era estranho estar sozinho, mesmo por pouco tempo. Era estranho não ter um irmão mandão dizendo o que fazer. Não conseguia se lem­brar de um tempo em que não fosse tratado como capacho.

Agora Albert andava pela cozinha do McDonald's mais sozinho do que jamais poderia imaginar.

Encontrou o frigorífico. Puxou a grande maçaneta cromada e a porta de aço se abriu com uma arfada e um sopro de vapor frio.

Dentro havia prateleiras de metal e caixas e mais caixas de hambúr­gueres bem rotulados, grandes sacos plásticos de nuggets de frango, tirinhas de frango, batatas pré-cozidas congeladas. Um número menor de caixas de patê de salsicha. Mas, principalmente, um monte de ham­búrgueres.

Foi até a geladeira, que era tão grande quanto o frigorífico, não tão fria e arrumada, porém mais interessante. Havia bandejas cobertas de plástico com tomate fatiado, sacos de alface picada, grandes tubos plásticos de molho para Big Mac, maionese e ketchup, blocos e mais blocos de queijo amarelo fatiado.

Encontrou uma minúscula sala de descanso enfeitada com carta­zes sobre segurança e manobra de Heimlich, todos em inglês e espa­nhol. As mercadorias secas estavam empilhadas de encontro às pare­des: gigantescas caixas com copos de papel e caixinhas impermeáveis para os sanduíches. Cilindros de metal opaco com xarope de Coca-Cola.

Nos fundos, perto da porta de serviço, havia altas estantes com rodinhas, cheias de pães e bolinhos.

Tudo estava em seu devido lugar. Tudo era organizado. Tudo era limpo, ainda que coberto por uma película de gordura.

Num determinado ponto, e ele notou realmente o momento exato, Albert tinha parado de ver tudo isso como objetos de interesse e co­meçado a analisar como um inventário. Estava traduzindo mental­mente os ingredientes separados em Big Macs, sanduíches de frango, McMuffins com ovo.

A irmã de Albert, Rowena, tinha-o ensinado a cozinhar. Com a mãe incapacitada, os filhos precisavam sempre se virar sozinhos. Rowena fora a cozinheira não oficial até que Albert fez 12 anos, e então, parte dos serviços de cozinha havia passado para ele.

Sabia fazer feijão vermelho e arroz, o prato predileto de sua mãe. Sabia fazer cachorro-quente. Sabia fazer torradas com bacon. Albert nunca tinha admitido a Rowena, mas gostava de cozinhar. Era muito melhor do que fazer a limpeza, o que, infelizmente, ainda era seu tra­balho, mesmo que agora também fosse responsável pelo jantar das sextas e dos sábados.

O gerente tinha um escritório minúsculo, que estava com a porta escancarada. Dentro havia uma mesa atulhada, um cofre trancado, um telefone, um computador e uma estante se dobrando ao peso de vários manuais grossos.

Ouviu um som: vozes e alguém batendo numa caixa de canudinhos, depois pedindo desculpas. Dois garotos do sétimo ano estavam inclinados sobre o balcão, olhando o menu do alto como se esperas­sem para fazer um pedido.

Albert hesitou, mas não por muito tempo. Podia fazer aquilo, disse a si mesmo, quase surpreso com o pensamento.

Bem-vindos ao McDonald's — disse. — Em que posso servi-los?

Vocês estão funcionando?

O que vocês querem?

Os garotos deram de ombros.

Dois Número Um?

Albert olhou para o computador. Era um labirinto de botões com códigos de cores. Isso teria de esperar.

Vão beber o quê?

Refrigerante de laranja?

Já está saindo. — Albert encontrou hambúrgueres crus numa gaveta refrigerada embaixo da grelha. Eles fizeram um barulho satis­fatório ao bater na chapa.

Viu um chapéu de papel numa prateleira. Colocou-o na cabeça.

Enquanto os hambúrgueres chiavam, abriu o grosso manual e pro­curou batatas fritas no índice.

 

                       289 HORAS E 45 MINUTOS

LANA ESTAVA DEITADA no escuro, olhando para as estrelas.

Não podia mais ver os urubus, mas eles não estavam longe. Vários tinham tentado pousar ali perto, e Patrick os havia espantado. Mas Lana sabia que continuavam por ali.

Estava apavorada. Com medo de morrer. Com medo de nunca mais ver a mãe e o pai. A mãe e o pai, que provavelmente nem sabiam que ela estava desaparecida. Eles ligavam toda noite para o vovô Luke e falavam com Lana, diziam que a amavam... e se recusavam a deixá-la voltar para casa.

— Queremos que você fique um pouco longe da cidade, querida — dizia sua mãe. — Queremos que tenha tempo de pensar, clareie as idéias.

Lana ardia de fúria contra os pais. Especialmente contra a mãe. Se deixasse, a raiva podia arder tão quente que quase a faria esquecer a dor.

Mas não totalmente. Não de verdade. Não por muito tempo. Ago­ra a dor era todo o seu mundo. A dor e o medo.

Imaginou como estaria sua aparência agora. Nunca tinha sido bo­nita, de verdade — achava os olhos pequenos demais, o cabelo escuro liso demais para qualquer coisa além de escorrer frouxo. Mas agora, com o rosto transformado numa massa de hematomas, cortes e sangue coagulado, provavelmente parecia algo saído de um filme de terror.

Onde estaria o vovô Luke? Só lembrava vagamente os segundos anteriores ao acidente, e o acidente em si era apenas um borrão, ima­gens descontínuas de espaço girando em volta, enquanto seu corpo era espancado.

Tudo era confuso. Não fazia sentido. Seu avô simplesmente havia desaparecido da caminhonete: num minuto estava ali, no outro não estava. Ela não tinha lembrança da porta da caminhonete ter se aberto ou fechado, e por que o vovô pularia?

Loucura.

Impossível.

De uma coisa tinha certeza. Não houvera nenhuma palavra de avi­so dada pelo avô. Num instante, havia sumido, e ela mergulhara para o barranco.

Lana estava com uma sede desesperada. O lugar mais perto que conhecia onde poderia beber alguma coisa era o rancho. Provavel­mente não ficava a mais de um quilômetro e meio dali. Se conseguisse subir até a estrada... mas, mesmo à luz do dia, mesmo saudável, a su­bida seria quase impossível.

Levantou um pouco a cabeça, que latejava, e virou-a até ver a ca­minhonete. Estava a pouco mais de um metro de distância, as rodas para cima, em silhueta contra as estrelas.

Algo passou correndo sobre seu pescoço. Patrick sentou-se, con­centrado no som fraco.

Não deixe nada me pegar, garoto — implorou.

Patrick soltou um latido, como fazia quando queria brincar.

Não tenho comida para você, garoto. Não sei o que vai aconte­cer com a gente.

Patrick se acomodou de novo, a cabeça sobre as patas.

Acho que a mamãe vai ficar feliz. Acho que vai ficar realmente feliz por ter me mandado para cá.

Não teria notado os olhos brilhando no escuro, só que Patrick se levantou imediatamente, eriçado e rosnando de um modo que ela nunca vira.

O que é, garoto?

Olhos verdes, pairando, sem corpo. Olhando diretamente para ela. Os olhos piscaram numa velocidade preguiçosa, abriram-se de novo.

Agora Patrick estava latindo feito louco, avançando e recuando.

O leão da montanha rugiu. Era um som áspero, gutural; um rosnado.

Lana gritou:

Vá embora! Me deixe em paz! — Sua voz era patética: fraca e consciente da própria fraqueza.

Patrick correu de volta para Lana, depois se virou, encontrando a coragem de novo, e encarou o leão da montanha.

Num clarão, a batalha teve início, uma explosão de rosnados cani­nos e felinos, sons profundos, terríveis. Em meio minuto estava termi­nada e os olhos brilhantes do leão da montanha reapareceram mais longe. Piscaram uma vez, olharam, em seguida sumiram.

Patrick voltou devagar. Deixou-se cair, pesadamente junto de Lana.

Bom garoto, bom garoto — cantarolou Lana. — Você espantou aquele leão velho, não foi, garoto? Ah, meu cachorro bonzinho. Bom garoto.

Patrick balançou o rabo debilmente.

Ele machucou você, garoto? Machucou você, meu garoto bonzinho?

Ela passou a única mão boa sobre o cachorro. O pelo estava molha­do, escorregadio ao toque. Só podia ser sangue. Tateou, e Patrick ge­meu de dor.

Então sentiu o jorro. Havia um corte fundo no pescoço de Patrick. O sangue estava bombeando, jorrando a cada batimento cardíaco, drenando a vida do cachorro.

Não, não, não — chorou Lana. — Você não pode morrer. Não pode morrer.

Se Patrick morresse, ela estaria sozinha no deserto, incapaz de se mexer. Sozinha.

O leão da montanha iria voltar.

E depois os urubus.

Não. Não. Isso não ia acontecer.

Não.

O medo era demasiado para ser contido, não era possível argumen­tar com ele, não era possível resistir. Lana gritou de terror:

Mamãe. Mamãe. Mamãe. Eu quero minha mãe! Socorro, alguém me ajude! Mamãe, desculpe, desculpe, quero ir para casa, quero ir para casa.

Soluçou e balbuciou, e a dor da solidão e do medo era ainda maior do que a agonia do corpo espancado. Sufocou o ar nos pulmões.

Estava sozinha. Sozinha e com dor. E logo os dentes do leão da montanha...

Patrick precisava viver. Tinha de viver. Era tudo que ela possuía.

Aninhou o cachorro o mais perto que pôde, sem que sua própria dor apagasse a consciência. Pôs a palma da mão sobre o ferimento dele, apertando com o máximo de força que ousou.

Iria estancar o sangue.

Iria segurá-lo e impedir que sua vida escapasse.

Iria segurar a vida dentro dele e ele não morreria.

Mas o sangue continuava escorrendo por entre seus dedos.

Manteve-se firme e concentrou toda a força de vontade em ficar acordada para segurar o ferimento, para manter o amigo vivo.

-— Bom garoto — sussurrou por entre os lábios rachados.

Lutou para permanecer acordada. Mas a sede e a fome, a dor e o medo, a solidão e o horror eram demais para ela. Depois de um longo tempo, caiu no sono.

E sua mão escorregou do pescoço do cachorro.

Sam, Quinn e Astrid passaram boa parte da noite procurando o Peque­no Pete no hotel. Astrid deduziu como acessar o sistema de segurança do hotel e fez um cartão-chave que funcionava em todas as portas.

Verificaram cada quarto. Não encontraram o irmão de Astrid nem mais ninguém.

Pararam exaustos no último quarto. A barreira o atravessava dire­tamente. Era como se alguém tivesse posto uma parede no meio do quarto.

Ela atravessa a TV — disse Quinn. Em seguida pegou um con­trole remoto e apertou o botão de ligar. Nada aconteceu.

Eu adoraria saber como está a situação do outro lado da barrei­ra — disse Astrid. Será que a meia TV de alguém se acendeu do lado de lá?

Se for assim, eles poderiam me dizer se os Lakers ganharam o jogo — disse Quinn, mas ninguém, nem mesmo ele, estava com clima para rir.

Seu irmão provavelmente está em segurança do outro lado, As­trid — disse Sam, depois acrescentou: — com sua mãe, provavelmente.

Não sei — reagiu Astrid, rispidamente. — Tenho de presumir que ele esteja sozinho, desamparado, e que eu seja a única que possa fazer alguma coisa para ajudar.

Ela cruzou os braços e se apertou com força. Depois:

Desculpem. Pareceu que eu estava com raiva de vocês.

Não. Só pareceu que estava com raiva. Não de mim — disse Sam. — Não podemos fazer mais nada esta noite. É quase meia-noite. Acho que devíamos voltar para aquele quarto grande que a gente viu.

Astrid só pôde confirmar com a cabeça, e Quinn parecia a ponto de desmaiar. Encontraram a suíte. Tinha uma varanda enorme dando para o oceano lá embaixo. À esquerda, a barreira bloqueava a vista.

Seguia até longe no oceano, até onde podiam ver. Era como uma pa­rede se estendendo do próprio hotel, uma parede sem fim.

A suíte tinha um quarto com uma cama enorme e outro com duas não tão grandes, todas muito macias. Havia um frigobar com bebidas alcoólicas, cerveja, refrigerante, castanhas, uma barra de cereais, um Toblerone e alguns outros salgadinhos.

Quarto dos garotos —- disse Quinn, e se deixou cair numa das camas, de rosto para baixo. Em segundos estava dormindo.

Sam e Astrid ficaram juntos por um tempo na varanda, dividindo o Toblerone. Nenhum dos dois disse nada durante um longo tempo.

O que acha que é isso? — perguntou Sam, finalmente. Não pre­cisava explicar o que queria dizer com "isso".

Às vezes, acho que é um sonho. É tão estranho ninguém ter aparecido! Quero dizer, esse lugar devia estar apinhado de militares, cientistas e repórteres. De repente, aparece um muro vindo do nada, a maioria das pessoas na cidade desaparece, e ainda assim não tem nenhuma equipe de reportagem?

Sam já havia chegado a uma conclusão sinistra sobre isso. Imaginou se Astrid também teria.

Sim.

Não creio que seja simplesmente uma parede reta separando a gente do sul, sabe? Acho que pode ser um círculo. Pode fazer uma volta ao redor de nós. Podemos estar isolados em todas as direções. Na verdade, como ninguém veio nos salvar, acho que isso é bem pro­vável. Não acha?

É. Estamos numa armadilha. Mas por quê? E por que fazer su­mir todo mundo com mais de 14 anos?

Não sei.

Sam deixou o silêncio se demorar, não querendo fazer a próxima pergunta que estava em sua mente, sem saber se queria a resposta. Por fim:

O que acontece quando as pessoas fazem 15 anos?

Astrid virou os olhos azuis para ele, e trocaram um olhar.

Quando é seu aniversário, Sam?

Vinte e dois de novembro. Cinco dias antes do dia de Ação de Graças. Daqui a 12 dias. Não, daqui a 11 dias, já que passou da meia- noite, não é? E você?

Só em março.

Gosto mais de março. Ou de julho, ou agosto. É a primeira vez em que quis ser mais novo.

Para que ela não ficasse olhando-o daquele jeito, sentindo pena dele, Sam perguntou:

Acha que eles ainda estão vivos em algum lugar?

Acho.

Acha isso de verdade ou só porque quer que eles estejam vivos?

É — respondeu, e sorriu. — Sam?

O quê?

Eu estava no ônibus da escola naquele dia. Lembra?

Vagamente — disse ele, e riu. — Meus 15 minutos de fama.

Você foi a pessoa mais corajosa e mais maneira que já conheci. Todo mundo pensou isso. Você foi o herói de toda a escola. E depois, não sei. Foi como se tivesse simplesmente... se apagado.

Ele se ressentiu um pouco. Não tinha se apagado. Tinha?

Bom, na maior parte dos dias o motorista de ônibus não tem um ataque cardíaco — disse.

Astrid riu.

Você é uma dessas pessoas, acho. Segue na vida, tipo, só viven­do. Mas, quando alguma coisa dá errado, lá está você. Aparece e faz o que tem de ser feito. Tipo hoje, no incêndio.

É, bem, para dizer a verdade, meio que prefiro a outra parte. A parte em que só vivo a vida.

Astrid assentiu como se entendesse, mas depois disse:

-— Dessa vez isso não vai acontecer.

Sam baixou a cabeça e olhou o gramado lá embaixo. Um lagarto correu por um caminho de pedras. Rápido, lento, rápido, depois de­sapareceu.

—- Olhe, não espere muito de mim, certo?

Certo, Sam. — Ela disse, mas não como se acreditasse: — Ama­nhã vamos descobrir o que é isso.

E encontrar seu irmão.

E encontrar meu irmão.

Ela se virou. Sam ficou na varanda. Não podia ouvir as ondas. Ha­via muito pouco vento, Mas podia sentir o cheiro de flores vindo de baixo. E o cheiro salgado do Pacífico não havia mudado.

Tinha dito a Astrid que estava com medo, e estava. Mas havia ou­tros sentimentos também. O vazio da noite quieta demais penetrou nele. Estava sozinho. Mesmo com Astrid e Quinn, estava sozinho. Sabia o que eles não sabiam.

A mudança era tão grande que ele não podia fazer a mente absor­ver tudo.

Tudo estava conectado, tinha certeza. O que havia feito com seu padrasto, o que havia feito em seu quarto, o que havia acontecido com a pequenina lança-chamas de maria-chiquinha, o desaparecimento de todo mundo com mais de 14 anos, e essa barreira impermeável, im­possível — tudo eram peças do mesmo quebra-cabeça.

E o diário de sua mãe, também.

Estava apavorado, esmagado, sozinho. Mas, de certa forma, menos sozinho do que nos últimos meses. A pequena incendiária havia pro­vado que ele não era o único com um poder.

Não era a única aberração.

Estendeu as mãos e olhou para as palmas. Pele rosada, calos de passar cera na prancha, uma linha da vida, uma linha do destino. Só uma palma.

Como? Como aconteceu?

O que significava?

E, se ele não era a única aberração, isso significava que não era responsável por essa catástrofe?

Estendeu as mãos, com as palmas para a frente, em direção à bar­reira, como se fosse tocá-la.

Em pânico, ele podia fazer luz.

Em pânico, podia queimar a mão de um homem.

Mas certamente não poderia ter feito isso.

O que lhe trouxe um sentimento de alívio. Não, ele não era respon­sável por isso.

No entanto alguém, ou alguma coisa, era.

 

                       287 HORAS E 27 MINUTOS

— FIQUE PARADA, ESTOU tentando trocar sua fralda — pediu Maria Terrafino à criança.

Não é fralda — respondeu a menininha. — Fralda é para bebês. É minha calça de treino.

Ah, desculpe — disse Maria. — Eu não sabia.

Terminou de puxar para cima a calça de treino e sorriu, mas a me­nininha se debulhou em lágrimas.

Minha mãe sempre veste minha calça de treino.

Eu sei, querida. Mas hoje sou eu que estou fazendo isso, tudo bem?

Maria também queria chorar. Nunca quisera tanto chorar. A noite havia caído. Ela e seu irmão de 9 anos, John, tinham distribuído o último pacote de salgadinho sabor cheddar. Tinham distribuído todas as caixas de suco. Quase não tinham mais fraldas. A Creche da Bárba­ra não estava preparada para atendimento noturno. Possuía apenas um suprimento limitado de fraldas.

Eram 28 crianças no quarto maior. Vigiando-as estavam Maria, John e uma menina de 10 anos chamada Eloise, que ficava principal­mente de olho em seu irmão, de 4. Eloise era uma das mais ou menos responsáveis. Algumas outras crianças, com o peso da responsabilida­de, sem saber como se virar, tinham simplesmente largado seus ir­mãos, sem fazer qualquer tentativa de ficar e dar uma força.

Maria e John haviam preparado leite em pó e enchido mamadeiras. Tinham feito "refeições" com tudo que houvesse na creche e qualquer coisa que John conseguisse arranjar. Tinham lido livros em voz alta. Tocaram os CDs infantis inúmeras vezes.

Maria tinha dito as palavras "Não se preocupe, vai ficar tudo bem" um milhão de vezes. Tinha abraçado cada criança várias vezes, a pon­to de parecer que estava numa linha de montagem de abraços.

Mesmo assim as crianças choravam; chamando as mães. Mesmo assim perguntavam: "Quando mamãe vem? Por que ela não tá aqui? Cadê ela”? Exigiam com vozes petulantes e apavoradas. "Quero mi­nha mãe. Quero ir para casa. Agora!"

Maria estava tremendo de exaustão.

Deixou-se cair na cadeira de balanço e só ficou olhando em volta. Berços. Colchonetes no chão. Corpos minúsculos enrolados para um lado e para o outro. A maioria dormindo. A não ser a menina de 2 anos que não parava de chorar. E o bebê que entrava e saía de ataques de berros.

Seu irmão, John, estava lutando contra o sono, os cachos balançan­do quando erguia a cabeça, até que ela voltava a baixar... mais ainda. Estava largado numa poltrona do outro lado do quarto, balançando um berço que, na verdade, era apenas uma comprida jardineira de plás­tico tirada da loja de ferramentas. Maria atraiu o olhar dele e disse:

Estou tão orgulhosa de você, John.

Ele deu seu sorriso doce e Maria quase desmoronou. Seu lábio es­tremeceu. Lágrimas pipocaram nos olhos. Surgiu um calombo em sua garganta e uma dor no peito.

Quero fazer xixi — alguém gritou.

Maria localizou a fonte.

Venha, Cassie, vamos — chamou. O banheiro ficava perto do quarto principal. Ela foi na frente, depois esperou encostada na pare­de. Em seguida, enxugou o bumbum da menininha.

Minha mãe sempre faz isso — disse Cassie.

Eu sei, querida.

Minha mãe sempre me chama assim.

-— Querida? Ah. Quer que eu chame você de outra coisa?

Não. Mas quero saber quando minha mãe vem. Tô com saudade dela. Sempre abraço ela e ela me beija.

Eu sei. Mas, enquanto ela não vem, posso te dar um beijo?

Não. Só minha mãe.

Certo, querida. Vamos voltar para a cama.

De volta ao quarto principal, Maria foi até John.

Ei, irmãozinho. — Ela desgrenhou os cachos ruivos dele. — Es­tamos ficando sem várias coisas. Vamos ter problemas de manhã. Pre­ciso ver o que posso conseguir. Pode segurar as pontas aqui?

Posso. Eu sei limpar bundas.

Maria saiu para a noite, em direção à praça quase silenciosa. Algu­mas crianças dormiam nos bancos. Algumas se amontoavam em pe­quenos grupos, ao redor de lanternas. Viu Howard andando com uma garrafa de refrigerante numa das mãos e um bastão de beisebol na outra.

Você viu o Sam? — perguntou Maria.

O que você quer com ele?

Não posso cuidar de todas aquelas crianças pequenas só com o John para me ajudar.

Howard deu de ombros.

Quem pediu para você fazer isso?

Ele passou dos limites. Maria era alta e forte; Howard, apesar de ser um garoto, era menor. Maria deu dois passos, pondo o rosto qua­se em cima do dele.

Escute aqui, seu vermezinho. Se eu não cuidar daquelas crian­ças, elas vão morrer. Entendeu? Tem bebês que precisam de comida e de fraldas, e parece que sou a única que percebe isso. E provavelmen­te tem ainda mais crianças em casa, sozinhas, sem saber o que aconte­ceu, sem saber comer sozinhas, morrendo de medo.

Howard deu um passo atrás, levantou o bastão, hesitando, depois deixou-o cair.

E o que eu deveria fazer sobre isso? — reclamou.

Você? Nada. Cadê o Sam?

Se mandou.

Como assim, "se mandou"?

Ele, Astrid e Quinn se mandaram.

Maria piscou, sentindo-se idiota e lenta.

Quem está no comando?

Acha que só porque Sam gosta de bancar o grande herói de vez em quando isso faz dele o chefão?

Maria estivera no ônibus dois anos antes, quando o motorista, o Sr. Colombo, teve o ataque cardíaco. Estava com a cabeça num livro, sem prestar atenção, mas levantou os olhos quando sentiu o ônibus balan­çar. Assim que entendeu o que estava acontecendo, viu que Sam estava guiando o ônibus para o acostamento.

Nos dois anos seguintes, Sam estivera tão quieto, discreto e sem se envolver na vida social da escola, que Maria meio que havia esquecido aquele momento de heroísmo. A maioria das pessoas também esque­cera.

No entanto, não tinha se surpreendido quando foi Sam quem se apresentara durante o incêndio. E de algum modo havia presumido que, se alguém fosse ficar no comando, seria Sam. Sentiu raiva dele por não estar ali agora: ela precisava de ajuda.

Vá chamar o Ore — ordenou Maria.

Eu não digo ao Ore o que fazer, sua vaca.

O quê? — reagiu ela. — De que você me chamou?

Howard engoliu em seco.

Foi sem querer, Maria.

Cadê o Ore?

Acho que está dormindo.

Vá acordá-lo. Preciso de ajuda. Não posso continuar acordada. Preciso de pelo menos duas pessoas que tenham experiência em cuidar de crianças. E preciso de fraldas, mamadeiras, chupetas, cereais e mui­to leite.

Por que eu vou fazer tudo isso?

Maria não tinha resposta.

Não sei, Howard. Talvez porque você não seja um canalha com­pleto. Talvez você seja realmente um ser humano decente, não é?

Isso lhe rendeu um olhar cético e uma fungadela de desprezo.

Olha, o pessoal vai fazer o que o Ore mandar — disse Maria. — Eles têm medo dele. Só estou pedindo para o Ore agir como Ore.

Howard pensou nisso. Maria quase podia ver as engrenagens gi­rando na cabeça dele.

Esquece — falou finalmente. — Converso com Sam quando ele voltar.

É, ele é o grande herói, não é? — disse Howard, pingando sar­casmo. — Mas, ei, onde é que ele está? Você viu o cara por aí? Eu não.

Vai me ajudar ou não? Preciso voltar.

Certo. Vou pegar o que você quer, Maria. Mas é melhor se lem­brar de quem ajudou você. Você está trabalhando para o Ore e para mim.

Eu estou cuidando das criancinhas. Se estou trabalhando para alguém, é para elas.

Como eu disse, lembre-se de quem estava aqui quando você precisou. — Howard deu meia-volta e foi andando.

Duas babás e comida — gritou Maria para as costas do garoto.

Maria retornou à creche. Três crianças estavam chorando e o choro se espalhava. John cambaleava entre os berços e colchonetes.

Voltei — disse Maria. — Durma um pouco, John.

John simplesmente desmoronou. Estava roncando antes de bater no chão.

— Tudo bem — disse Maria à primeira criança que chorava. — Vai ficar tudo bem.

 

                     277 HORAS E 6 MINUTOS

SAM DORMIU SEM trocar de roupa e acordou cedo demais.

Tinha passado a noite no sofá da sala da suíte do hotel. Sabia, des­de os acampamentos na praia, que Quinn falava enquanto dormia.

Piscou e viu Astrid, uma sombra esguia contra o sol. Estava parada diante da janela, mas olhando na sua direção. Ele enxugou rapida­mente a boca no travesseiro.

Desculpe, babei dormindo.

Eu não queria acordar você, mas olha isso.

O sol da manhã havia surgido por trás da cidade, vindo de cima da cordilheira. Os raios de sol que brilhavam e dançavam na água pare­ciam incapazes de tocar o vazio cinzento da barreira. Ela se curvava, lá longe no mar, uma parede subindo do oceano.

Que altura isso deve ter? — perguntou-se Sam em voz alta.

Talvez eu conseguisse calcular — disse Astrid. — A gente mede desde a base da parede até um determinado ponto, depois deduz o ângulo e... não importa. Com certeza tem pelo menos uns 60 metros de altura. Nós estamos no terceiro andar e continuamos muito longe do topo. Se é que existe um topo.

O que você quer dizer com isso?

Não tenho certeza. Não leve nada do que eu digo muito a sério: só estou pensando em voz alta.

Então pense alto o suficiente para eu escutar.

Astrid deu de ombros.

Certo. Pode não haver um topo. Pode não ser uma parede, pode ser uma cúpula.

Mas estou vendo o céu. Vejo nuvens. Elas estão se movendo.

Certo. Bom, imagine o seguinte: você está segurando um peda­ço de vidro preto na mão. Como uma lente de óculos escuros bem grande e bem escura. Se você inclinar para um lado, ela é opaca. Se inclinar para outro, parece que quase dá para ver a luz atravessando-a. Tudo depende do ângulo e do...

Ouviu isso? — perguntou Quinn. Ele havia chegado sem ser notado, coçando-se indiscretamente.

Sam prestou atenção.

Um motor. E não está longe.

Saíram correndo da sala, desceram a escada a toda velocidade e passaram pela porta dupla até o terreno do hotel. Viraram a esquina, voltando para as quadras de tênis.

— É o Edilio. O garoto novo — disse Sam.

Edilio Escobar estava sentado na cabine aberta de uma pequena retroescavadeira amarela. Bem na frente dos seus olhos, Edilio mano­brou até a barreira e baixou a pá, mordendo a grama e voltando com um monte de terra.

Ele está tentando cavar uma saída — disse Quinn. Em seguida começou a correr e pulou impulsivamente ao lado de Edilio na retro­-escavadeira. Edilio pulou meio metro, mas depois começou a rir.

Edilio desligou o motor.

Ei, pessoal. Acho que vocês meio que notaram isso, hein? — Ele apontou um polegar para a barreira. — Aliás, não toquem na parede.

Sam confirmou com a cabeça, pesaroso.

É. A gente descobriu.

Edilio ligou o motor e cavou mais três pás de terra. Depois desceu da máquina, pegou uma pá manual e tirou os últimos centímetros de terra entre o buraco e a barreira.

A barreira continuava, mesmo sob o solo.

Trabalhando juntos, Edilio, Sam e Quinn cavaram um pouco mais de um metro com a retro-escavadeira e a pá, mas não encontraram o fundo da barreira.

Mas Sam não queria parar. Tinha de haver um fundo. Tinha de haver. Estava encontrando pedras, incapaz de fazer a pá mecânica ca­var mais fundo. Cada bocado de terra era menor do que o anterior.

Talvez uma britadeira. Ou pelo menos umas picaretas para quebrar aí embaixo. — Só então, não ouvindo resposta, Sam percebeu que era o único ainda cavando. Os outros estavam parados, olhando para ele.

É, talvez — disse Edilio, finalmente. Em seguida, se abaixou, estendeu a mão e puxou Sam para fora do buraco.

Sam subiu, jogou a pá de lado e bateu a terra dos jeans.

— Foi uma boa idéia, Edilio.

Como o que você fez no incêndio, cara — respondeu o outro. — Salvou a loja de ferramentas e a creche.

Sam não queria pensar no que tinha salvado ou não.

Eu não teria salvado nada, nem o meu rabo, sem você, Edilio. E Quinn e Astrid —- acrescentou como um pensamento de última hora.

Quinn lançou um olhar duro para Edilio.

Então, por que você está aqui?

Edilio suspirou e encostou sua pá na barreira. Enxugou o suor do rosto e olhou o terreno bem cuidado ao redor.

—- Minha mãe trabalha aqui — respondeu.

Quinn deu um risinho.

Ela é tipo... a gerente?

-— Ela é arrumadeira — disse Edilio, tranqüilamente.

É? Onde você mora? — perguntou Quinn.

Edilio apontou para a barreira.

Lá. Uns 3 quilômetros pela estrada. A gente tem um trailer, meu pai e meus dois irmãos menores. Eles ficaram doentes, por isso mamãe deixou os dois em casa. Álvaro, meu irmão mais velho, está no Afega­nistão.

No exército?

Forças Especiais — riu Edilio. — A elite.

Ele não era um garoto grande, mas sua postura era tão ereta que não parecia baixo. Seus olhos eram escuros, parecendo quase não ter a parte branca, gentis mas não assustados. Tinha mãos ásperas, com cicatrizes, que pareciam pertencer a outro corpo. Mantinha os braços ligeiramente afastados do tronco, as mãos com as palmas viradas um pouquinho para a frente, como se estivesse pronto para pegar alguma coisa. Parecia, ao mesmo tempo, completamente imóvel e pronto para entrar em ação.

Isso é idiotice, quando a gente pensa bem. As pessoas do outro lado da barreira sabem o que aconteceu — disse Quinn. — Quero di­zer, elas não podem ter deixado de notar que a gente ficou, de repen­te, atrás dessa parede.

E daí? — perguntou Sam.

E daí que eles têm equipamentos e coisas melhores do que nós, certo? Podem cavar muito mais fundo, passar por baixo da barreira. Ou em volta. Ou voar por cima. Isso aqui é uma perda de tempo.

Não sabemos até onde essa barreira vai — disse Astrid. — Pare­ce que para a uns 60 metros de altura, mas talvez seja ilusão de ótica.

Por cima, por baixo, em volta ou através — disse Edilio. — Tem de haver um modo.

Tipo quando vocês atravessam a fronteira com o México, não é? — disse Quinn.

Sam e Astrid olharam chocados para Quinn.

Edilio ficou mais ereto ainda e, apesar de ser 15 centímetros mais baixo do que Quinn, parecia estar olhando-o de cima. Numa voz cal­ma e baixa, respondeu:

Meu pessoal é de Honduras. Eles tiveram de atravessar o Méxi­co inteiro antes de chegar aqui. Minha mãe é arrumadeira. Meu pai é agricultor. Nós moramos num trailer e temos um carro velho. Ainda falo com um pouco de sotaque porque aprendi espanhol antes de aprender inglês. Precisa saber de mais alguma coisa, cara?

Eu não estava tentando começar nada, amigo — disse Quinn.

Que bom — respondeu Edilio.

Não era uma ameaça, não de verdade. E, de qualquer modo, Quinn era 10 quilos mais pesado que Edilio, mas foi ele quem recuou.

Precisamos ir embora — disse Sam. A Edilio, explicou: — Esta­mos procurando o irmãozinho de Astrid. Ele... precisa de cuidados. Astrid acha que ele pode estar na usina.

Meu pai é engenheiro lá — explicou Astrid. — Mas a usina fica a uns 15 quilômetros daqui.

Sam hesitou antes de pedir que Edilio se juntasse a eles. Isso irrita­ria Quinn, que não estava agindo em seu modo normal, o que não era de se estranhar, dado o que estava acontecendo. Sam, aliás, achava isso inquietante. Edilio, por outro lado, havia mantido a cabeça no lugar durante o incêndio. Havia se apresentado.

Astrid tomou a decisão por ele.

Edilio? Quer vir com a gente?

Agora Sam ficou meio aborrecido. Será que Astrid achava que ele não podia cuidar das coisas? Será que precisava do Edilio?

Astrid revirou os olhos para Sam.

Pensei em resolver a questão de uma vez e evitar mais poses de macho.

Eu não estava posando — resmungou Sam.

Como vocês vão até lá? — perguntou Edilio.

Não acho que a gente devesse pegar um carro, se é isso que você quer dizer — respondeu Sam.

Acho que talvez tenha a solução. Não é um carro, mas é me­lhor do que andar 15 quilômetros. — Edilio levou-os até uma porta de garagem escondida, atrás do vestiário da piscina. Levantou a por­ta da garagem, revelando dois carrinhos de golfe com o logotipo do hotel nas laterais. — Os jardineiros e os caras da segurança usam isso para andar por aí e ir até o campo de golfe do outro lado da auto-es­trada.

Você já dirigiu algum desses? — perguntou Sam.

Já. Meu pai às vezes trabalha no campo de golfe cuidando do gramado. Eu costumo ir com ele, para ajudar.

Isso simplificou a decisão. Até Quinn pôde ver a lógica.

Certo — disse Quinn, de má vontade. — Você dirige.

Podemos tentar a rua que vai direto até a auto-estrada — disse Sam. — É a primeira à direita.

Você quer evitar o centro da cidade — completou Astrid. — Não quer crianças procurando-o e perguntando o que devem fazer.

Você quer chegar à usina nuclear? — perguntou Sam. — Ou quer ficar olhando enquanto digo às pessoas que não têm nada a te­mer, a não ser o próprio medo?

Astrid riu, e na opinião de Sam, foi provavelmente o som mais doce que ele já ouvira.

Você se lembra — disse Astrid.

É. Eu lembro. Roosevelt. A Grande Depressão. Às vezes, se eu forçar de verdade o cérebro, posso até fazer multiplicação.

Humor defensivo? — provocou Astrid.

Entraram no carrinho, atravessaram o estacionamento e chegaram à rua. Ali, viraram à direita, chegando a um trecho estreito, recém- pavimentado. O carrinho de golfe diminuiu a velocidade ao subir o morro, até um ritmo praticamente de caminhada. Logo viram que a rua terminava na barreira. Pararam e olharam solenemente para o fim abrupto do pavimento.

É como um desenho do Papa-léguas — disse Quinn. — Se você pintar um túnel nela, a gente consegue passar, mas o Coiote vai se arrebentar.

Certo. De volta para a estrada do penhasco, então, mas pegue as ruas de trás até a auto-estrada. Não passe perto da praça — explicou Sam. — Precisamos achar o Pequeno Pete. Não quero ter de parar e falar com um monte de crianças.

Além disso, não queremos que ninguém roube o carro — disse Edilio.

-— É. Isso também — admitiu Sam.

— Para! — gritou Astrid, e Edilio pisou no freio.

Astrid pulou do banco e correu até alguma coisa branca junto ao meio-fio. Ajoelhou-se e pegou um graveto.

É uma gaivota — disse Sam, perplexo ao ver que Astrid se im­portava. — Talvez tenha batido na barreira, não é?

Talvez. Mas olhem isso. — Ela cutucou o pé do pássaro com o graveto, levantando-o.

O que é?

Ele é palmado, é claro. Como deveria. Mas olhe como os dedos se estendem. Olhe as unhas. São garras. Como uma ave de rapina. Como um falcão ou uma águia.

Tem certeza de que não é uma gaivota comum?

Eu gosto de pássaros — explicou Astrid. — Isso não é normal. As gaivotas não precisam de garras. Logo, não têm garras.

E daí, é um pássaro esquisito — disse Quinn. — Podemos con­tinuar?

Astrid se levantou.

Não é normal.

Quinn soltou uma gargalhada.

Astrid, nós não estamos nem no mesmo fuso horário da norma­lidade. É com isso que você está preocupada? Com dedos de pássaros?

Ou esse pássaro é uma aberração solitária, uma mutação aleató­ria — continuou Astrid —, ou é uma espécie nova que apareceu de repente. Que evoluiu.

De novo, vou ter de dar uma de: "e daí"? — disse Quinn.

Astrid estava a ponto de dizer alguma coisa. Depois balançou um pouco a cabeça, dizendo a si mesma que não.

Deixa para lá, Quinn. Como você disse, nós estamos bem longe da normalidade.

Embarcaram de novo e partiram a 20 quilômetros por hora. Vira­ram na Terceira Avenida e voltaram, distanciando-se da cidade, e em seguida subiram pela Quarta, que era uma rua residencial mais antiga, calma, sombreada e decididamente pobre, perto da casa de Sam.

Os únicos carros que viram no caminho estavam estacionados ou batidos. As únicas pessoas que viram foram algumas crianças atraves­sando a rua atrás deles. Ouviram sons de TV vindos de uma casa, mas decidiram rapidamente que era um DVD.

Pelo menos a eletricidade ainda está funcionando — disse Quinn. — Eles não tiraram nossos DVDs. Os MP3 ainda funcionam também, mas sem acesso à internet. Ainda teremos música.

Eles — observou Astrid. — Passamos de "Deus" para "eles".

Chegaram à auto-estrada e pararam.

Bom. Isso é arrepiante — disse Quinn.

No meio da auto-estrada havia um trator com um trailer, da UPS. O trailer havia se soltado e estava caído de lado, como um brinquedo abandonado. O trator, a parte que servia para puxar o trailer, ainda estava de pé, mas na lateral da estrada. Havia um conversível batido contra a frente, e não havia se saído bem. O impacto tinha sido fron­tal, e o carro fora esmagado até quase metade do tamanho normal. E tinha pegado fogo.

Os motoristas pufaram, o do carro e o do trator — disse Quinn.

Pelo menos ninguém se machucou — completou Edilio.

A não ser que houvesse alguma criança no carro — observou Astrid.

Ninguém sugeriu que verificassem. Nada teria sobrevivido àquela batida ou ao incêndio subseqüente. Nenhum deles queria ver se havia algum corpinho no banco de trás.

A auto-estrada tinha quatro pistas, duas indo para cada lado, não divididas, mas com uma via de retorno no meio. Sempre havia tráfe­go. Mesmo no meio da noite havia tráfego. Agora, apenas silêncio e vazio.

Edilio deu um riso meio trêmulo.

Continuo esperando que algum grande caminhão velho venha a toda velocidade atropelar a gente.

Seria quase um alívio — murmurou Quinn.

Edilio pisou no pedal, o motor elétrico zumbiu e eles entraram na auto-estrada, dando a volta no trailer da UPS capotado.

Era uma experiência fantasmagórica. Estavam indo mais devagar do que um ciclista profissional numa auto-estrada onde ninguém anda­va a menos de cem quilômetros por hora. Passaram lentamente por uma oficina de amortecedores e pela Lubrificação Jiffy, por um prédio atarracado que abrigava um escritório de advocacia e contabilidade. Em vários lugares, os carros da auto-estrada haviam batido em veículos estacionados. Um conversível tinha arrancado a vitrine e estava total­mente dentro da lavanderia a seco. Roupas embrulhadas em plástico estavam espalhadas pelo capô e pelos bancos do carro.

O silêncio era sepulcral. O único som vinha dos pneus de borracha e do zumbido difícil do motor elétrico.

A cidade estava à esquerda. À direita, o terreno subia íngreme até uma crista elevada, que ficava acima de Praia Perdida como outra es­pécie de parede. Nunca ocorrera a Sam, com tanta ênfase, que Praia

Perdida já era cercada por barreiras, por montanhas a norte e a leste, pelo oceano ao sul e a oeste. Esta estrada, esta estrada silenciosa e vazia, era praticamente o único caminho de entrada e saída.

À frente, ficava o posto Chevron. Sam pensou ter visto movimento lá.

O que vocês acham? — perguntou.

Talvez eles tenham comida. É um mini-mercado, certo? — disse Quinn. — Estou com fome.

A gente devia continuar — disse Astrid.

Edilio? — perguntou Sam.

Ele deu de ombros.

Não quero ser paranóico. Mas, cara, quem sabe?

Acho que voto por continuar — disse Sam.

Edilio assentiu e desviou o carrinho de golfe para o lado esquerdo da estrada.

Se houver crianças lá, nós sorrimos, acenamos e dizemos que estamos com pressa — disse Sam.

Sim, senhor — respondeu Quinn.

Corta essa, brou. Nós fizemos uma votação — disse Sam.

É. Certo.

Era óbvio que havia pessoas no posto Chevron. Uma brisa leve carregou um saco de Doritos rasgado pela estrada, na direção deles, flashes de vermelho e dourado enquanto era levado pelo vento.

Enquanto o carrinho de golfe se aproximava, um garoto, depois outro, veio para a estrada. Cookie era o primeiro. Sam não reconhe­ceu o segundo garoto.

E aí, Cookie? — gritou Sam quando chegaram a uns 20 metros.

E aí, Sam? — respondeu Cookie.

Estamos procurando o irmão de Astrid, cara.

Parem aí — disse Cookie. Ele estava segurando um bastão de beisebol de metal. O outro garoto ao lado tinha um martelo de croqué com listras verdes.

—- Não dá, cara, nós estamos numa missão, falamos com vocês mais tarde — disse Sam. Em seguida acenou e Edilio manteve o pé no pedal. Estavam a pouco mais de um metro e logo iriam ultrapassá-los.

Façam-nos parar — gritou uma voz do posto Chevron. Howard estava correndo e, atrás dele, Ore. Cookie parou na frente do carro.

Não pare — sussurrou Sam.

Edilio alertou Cookie:

Cara, cuidado.

Cookie pulou de lado no último segundo. O outro garoto girou o martelo com força. O cabo de madeira bateu na barra de aço que sus­tentava o toldo do carrinho, a cabeça do martelo se partiu e quase acertou Quinn.

Em seguida, haviam ultrapassado e Quinn gritou para trás:

Ei, você quase arrebentou minha cabeça, seu babaca!

Estavam a uns 10 metros e se afastando quando Ore gritou:

Peguem esses caras, seus idiotas.

Cookie era um garoto grande, mas não era rápido. Mas o outro, o que segurava o martelo quebrado, era menor e mais veloz. Começou a correr. Howard e Ore estavam muito atrás, correndo o mais rápido possível, mas Ore era pesado e lento, e Howard se afastou dele.

O garoto com o martelo alcançou-os.

É melhor pararem — disse ofegando, correndo ao lado.

Acho que não — respondeu Sam.

Cara, vou acertar você com esse pau — ameaçou o garoto, mas estava ofegando bastante. Tentou um golpe débil com a ponta despe­daçada do martelo.

Sam pegou-o e torceu, arrancando o martelo da mão dele. O garo­to tropeçou e caiu no chão. Sam jogou fora o pedaço de pau, com desprezo.

Howard estava quase ao alcance, vindo diretamente atrás do carri­nho. Astrid e Quinn olharam calmamente enquanto Howard se esfor­çava mais, com os braços magros girando como as pás de um moinho. Ele lançou um olhar para trás e viu que Ore não iria alcançá-los.

Howard, o que você acha que está fazendo, cara? — perguntou Quinn em um tom perfeitamente razoável. — O que vai fazer se alcan­çar a gente?

Howard entendeu o argumento e diminuiu a velocidade.

É uma perseguição em baixa velocidade, cara — disse Edilio. — Talvez a gente saia no noticiário.

Isso provocou um riso nervoso.

Cinco minutos depois, ninguém estava rindo.

Tem um jipe enorme vindo depressa — avisou Astrid. — Preci­samos parar.

Eles não vão atropelar a gente — disse Quinn. — Nem o Ore é tão idiota.

Podem até não querer nos atropelar — disse Astrid —, mas é um garoto de 14 anos dirigindo um Hummer. Você quer mesmo estar na estrada?

Quinn confirmou com a cabeça.

- Vamos levar uma cacetada.

 

                   274 HORAS E 27 MINUTOS

O HUMMER COSTURAVA de um lado para o outro na estrada, mas não havia como fingir que não iria alcançá-los.

Continuo ou paro? — perguntou Edilio. Suas mãos estavam brancas por apertar o volante.

Eles vão acertar nossa traseira agora — gritou Quinn. — A gen­te já devia ter parado. Eu disse que a gente devia ter parado, mas não...

O Hummer diminuiu a distância com velocidade chocante.

Eles vão acertar a gente — gritou Astrid.

Quinn saltou do carrinho e correu. O Hummer parou, estremecen­do. Cookie e o Garoto do Martelo desceram e foram atrás de Quinn.

Pare — disse Sam. Em seguida pulou do carrinho e foi ajudar Quinn.

Quinn tentou saltar por cima da vala ao lado da estrada, mas caiu mal. Os dois valentões estavam em cima dele antes que pudesse se recuperar, e Cookie lhe deu um soco nas costas.

Sam deu uma voadora para cima de Cookie. Agarrou Cookie na dobra do braço e o empurrou à frente com seu ímpeto.

Cookie caiu mal, de barriga, e Sam rolou para se livrar. Cookie havia largado o bastão para socar Quinn, e Sam mergulhou para pegá-lo. Martelo, Edilio e Quinn tiveram uma briga breve mas violenta, acabou com Edilio e Quinn de pé e o outro garoto caído. Mas isso dera tempo para Ore e Howard descerem do jipe.

Ore girou seu bastão e acertou Edilio na parte de trás dos joelhos. Edilio caiu como um saco de cimento.

Agarrando o bastão de Cookie, Sam correu para ficar entre Ore e Edilio.

Não quero brigar com você — gritou Sam.

Sei que você não quer brigar comigo — disse Ore, cheio de con­fiança. — Ninguém quer brigar comigo.

Astrid se aproximou.

Todos vocês, parem com isso — gritou. Seus punhos estavam fechados e havia lágrimas nos seus olhos. Mas ela estava com raiva, e não triste. — Não precisamos desta bosta.

Howard ficou entre Ore e Astrid.

Fique fora disso, Astrid, meu chapa Ore tem de dar uma lição nesse vagabundo.

Ficar fora? — reagiu Astrid. — Não me diga para ficar fora, seu... seu invertebrado.

Astrid, não se meta, eu resolvo — disse Sam. Edilio tentou per­manecer firme, mas mal conseguia ficar de pé.

Surpreendentemente, Ore interrompeu:

Ei. Deixe Astrid falar.

Cheio de adrenalina, Sam quase não o ouviu. Mas então processou o que Ore havia dito e manteve a boca fechada.

Astrid respirou fundo. Seu cabelo estava desgrenhado, o rosto ver­melho, e finalmente, lutando para ficar calma, disse:

Não estamos procurando briga.

Fale por você — murmurou Cookie.

Isso é loucura — disse Astrid. — Só estamos procurando meu irmão.

Os olhos de Ore se estreitaram ainda mais.

O retardado?

Ele é autista — respondeu Astrid, irritada.

É. O Pequeno Pe-tardado — zombou Ore, mas não foi em frente.

Você deveria ter parado, Sammy. — Howard fez um tsk-tsk, balançando a cabeça lentamente de um lado para o outro.

Foi o que eu disse, e acabo levando pancada? — Quinn gesticu­lou feito louco, com raiva de Sam.

Howard assentiu para Quinn, achando divertido.

Você deveria ter ouvido o seu brou aí, Sam. Ontem à noite eu disse para cuidar do meu chapa Ore.

Cuidar dele? O que você quer dizer? — perguntou Astrid.

Howard virou os olhos frios para ela.

Você tem de demonstrar algum respeito pelo capitão Ore, é o que eu quis dizer.

Capitão? — Sam resistiu à ânsia de gargalhar.

Howard chegou mais perto, corajoso, com Ore logo atrás.

— É. Capitão. Alguém tinha de se apresentar e assumir o comando, certo? Você estava ocupado, surfando ou sei lá o quê, por isso o capi­tão Ore se voluntariou para a posição de comando.

Comando para quê? — perguntou Quinn.

Para impedir que todo mundo fique correndo por aí feito maluco.

É — concordou Ore.

As crianças estavam invadindo tudo, pegando tudo o que que­riam — continuou Howard.

É.

E aquele monte de melequentos, aquelas criancinhas correndo de um lado para o outro, ninguém fazendo os bebês pararem de cho­rar, nem trocando fraldas. Ore garantiu que alguém cuidasse delas. — Howard deu um riso enorme. — Ele as tranqüilizou. Ou pelo me­nos fez alguém tomar conta disso.

Isso mesmo — concordou Ore, como se pela primeira vez esti­vesse ouvindo a coisa ser dita desse modo.

Ninguém mais queria controlar a situação, então Ore controlou — disse Howard. — Por isso, agora ele é o capitão, até os adultos voltarem.

Só que eles não vão voltar — completou Ore.

Isso é totalmente certo — concordou Howard. — Isso que o capitão disse.

Sam olhou para Astrid. A verdade é que alguém precisava fazer as pessoas pararem de agir feito malucas. Ore não seria a escolha de Sam para o serviço, mas ele próprio não queria essa responsabilidade.

A briga havia praticamente sido esquecida. E agora que os dois la­dos estavam cara a cara, não havia dúvida de quem venceria se ela recomeçasse. Eram quatro contra quatro, mas entre os quatro valen­tões estava Ore, e ele valia por pelo menos três.

Só queremos procurar o Pequeno Pete — disse Sam finalmente, engolindo a raiva.

É? Se vão procurar alguma coisa, é melhor irem devagar — dis­se Howard, com um risinho.

Vocês querem o carrinho de golfe — deduziu Sam.

E isso que estou falando, Sammy — disse Howard, abrindo os braços num gesto de conciliação.

É, tipo, as pessoas pagam impostos, não é? — disse Martelo.

Exato — concordou Howard. — É um imposto.

Quem é você, afinal? — perguntou Astrid ao garoto. — Nunca vi você na escola.

Estudo na Academia Coates.

Minha mãe é a enfermeira lá, no turno da noite — disse Sam.

Não é mais — respondeu o garoto.

Por que você está aqui embaixo? — perguntou Astrid de novo.

Não me dou bem com os caras lá de cima. — O garoto tentou fazer com que parecesse uma piada, mas o efeito foi solapado pelo medo em seus olhos.

Tem algum adulto lá? — perguntou Sam, esperançoso.

Ai — disse Howard. — Sammy quer a mamãe dele.

-— Peguem o carro de golfe — disse Sam.

Não perca seu tempo tentando dar uma de mau para cima de mim. Olha, eu sei qual é a sua, cara — disse Howard. — Sam do Ôni­bus Escolar. Sr. Bombeiro. Você dá uma de herói e depois some. Não é? Isso vive acontecendo com você. Ontem à noite todo mundo estava tipo: "Cadê o Sam? Cadê o Sam?" E precisei dizer: "Bom, pessoal, o Sam foi embora com Astrid Gênio, porque ele não gosta de ficar com gente comum como a gente. Sam tem de sair por aí com a namoradinha loura."

Ela não é minha namorada — reclamou Sam, e se arrependeu instantaneamente.

Howard riu, deliciado por tê-lo provocado.

Veja só, Sam, você sempre tem de ficar no seu mundinho, bom demais para todo mundo, enquanto eu, o capitão Ore e o nosso pes­soal vamos estar sempre por perto. Você pula fora e a gente fica por dentro.

Sam podia sentir Astrid e Quinn olhando, esperando que ele negas­se o que Howard estava dizendo. Mas de que adiantava? Sam havia sentido as expectativas de muitas crianças na praça, crianças querendo que ele ficasse por dentro, como Howard havia dito. E ele só queria ir embora. Tinha aproveitado a chance de ir com Astrid sem pensar duas vezes.

Estou de saco cheio disso — grunhiu Ore.

Howard riu.

Certo, Sam. Pode ir procurar o Pequeno Pete, mas quando vol­tar é melhor ter um belo presente para o capitão. O capitão comanda o LGAR, cara.

Comanda o quê? — perguntou Astrid.

Howard claramente estava adorando a pergunta.

Eu mesmo bolei isso. LGAR. Significa Lugar da Galera da Área Radioativa. Ou seja: na Área Radioativa, quem manda somos nós.

Howard deu uma risada maldosa.

Não se preocupe, Astrid. É só um LGAR. Sacou? Só um LGAR como qualquer outro.

O sol queimava seu rosto. Lana abriu os olhos e viu formas aladas, cheias de mau agouro, flutuando acima, atravessando o sol, indo e vindo. Os urubus olhavam e esperavam, confiantes em uma refeição.

Sua língua estava tão inchada que preenchia a boca, quase sufocando-a. Os lábios estavam rachados. Lana estava morrendo.

Olhou em volta, procurando o corpo do pobre cachorro. Ele deve­ria estar bem ali ao lado. Mas não havia nenhum corpo.

Ouviu um latido familiar.

Patrick?

Ele veio pulando até ela, agitado, instigando-a a brincar.

Lana ergueu o braço bom e tocou o pescoço de Patrick. O pelo continuava cheio de sangue seco, mas, ao sondar onde deveria estar a mordida fatal, percebeu que o ferimento havia se fechado. Havia uma casca no lugar, mas não sangrava mais e, a julgar pelo comportamento de Patrick, ele estava se sentindo novo em folha.

Será que ela havia sonhado com tudo aquilo? Não: o sangue seco era a prova.

Esforçou-se para se lembrar dos últimos momentos de consciência, à noite. Tinha rezado? Seria isso? Um milagre? Não se lembrava de ter rezado, não era uma pessoa que acreditava em orações.

Ela teria causado aquilo? De algum modo, teria curado Patrick?

Quase riu. Estava delirando. Estava enlouquecendo. Imaginando coisas.

Louca de dor, de sede e fome.

Louca.

Sentiu um fedor. Enjoativamente doce e repulsivo.

Olhou para o braço direito despedaçado. A carne, especialmente a carne rasgada, que mal continha os ossos partidos, estava preta e fi­cando verde. O cheiro era medonho.

Lana respirou fundo várias vezes, lutando contra o terror. Tinha ouvido falar em gangrena. Era o que acontecia quando a carne morria ou a circulação era cortada. Seu braço estava morrendo. O cheiro era de carne humana apodrecendo.

Um urubu planou até pousar a poucos metros de Lana. Encarou-a com os olhos pequenos e balançou o pescoço sem penas. O urubu também conhecia aquele cheiro.

Patrick voltou, latindo, e o urubu bateu asas, afastando-se com re­lutância.

— Não vai me pegar — grasnou Lana, mas a fraqueza de sua pró­pria voz só a amedrontou mais ainda. Os urubus iam pegá-la. Com certeza.

Mas ali estava o Patrick, curado, depois de um ferimento aparente­mente fatal.

Lana pôs a mão esquerda na carne logo abaixo do osso do braço direito. A carne estava quente ao toque e parecia fofa sob a crosta de sangue seco.

Fechou os olhos e pensou: o que quer que tenha feito isso, como quer que tenha acontecido com o Patrick, agora preciso disso para mim. Não quero morrer. Não quero morrer.

Então desmaiou, pensando em sua casa. Em seu quarto. Pôsteres nas paredes, um mobile indígena pendurado na frente da janela, animais de pelúcia esquecidos num cesto de vime, um armário explodindo de roupas, a coleção de leques asiáticos que todo mundo achava esquisita.

Não estava mais furiosa com os pais. Só sentia falta deles. Queria a mãe mais do que qualquer coisa, e o pai também. Ele saberia como salvá-la.

Teve sonhos febris, imagens que a fizeram ofegar, respirar com di­ficuldade e fizeram seu coração bater forte e descompassado.

Sentiu-se flutuando numa fina crosta de terra. A terra era como a pele de um balão. Embaixo, um espaço aberto cheio de nuvens em redemoinhos e jatos súbitos de chamas. E, mais embaixo ainda, um monstro, algo saído de sua infância, o monstro que costumava fazê-la acordar assustada.

Era esculpido em pedra viva, uma fera áspera, lenta, inteligente, com olhos pretos chamejantes.

E, dentro daquela fera terrível, um coração. Só que esse coração reluzia verde, e não vermelho. E esse coração era como um ovo, ra­chado de modo que uma luz brilhante e dolorosa escapava.

Acordou assustada com o som de seu próprio grito.

Sentou-se, como sempre fazia ao acordar de um pesadelo em sua cama.

Sentou-se.

A dor foi terrível. A cabeça latejava, as costas, o... Olhou para o braço direito.

Por um tempo esqueceu de respirar. Esqueceu-se até mesmo da dor na cabeça, nas costas e na perna. Esqueceu tudo, porque a dor no bra­ço havia sumido.

O braço estava reto. Do cotovelo ao pulso, formava uma linha reta de novo.

A gangrena também havia sumido. O cheiro de morte havia sumi­do.

O braço ainda estava coberto por uma crosta de sangue seco, mas isso não era nada, absolutamente nada comparado ao que estivera ali, não tinha nada a ver com o que Lana vira há pouco.

Tremendo, levantou o braço direito.

Ele se mexeu.

Lentamente apertou o punho direito.

Os dedos se juntaram.

Não era possível. Não era possível. O que ela estava vendo não podia estar acontecendo.

Mas a dor não mentia. E a dor lancinante que antes ardia no braço agora não passava de um latejamento surdo.

Pôs a mão esquerda na perna quebrada.

Não foi rápido. Demorou um tempo enorme e ela estava terrivel­mente fraca, pela sede e pela fome. Mas manteve a mão ali até que, uma hora mais tarde, fez o que havia temido jamais fazer de novo: Lana Arwen Lazar ficou de pé.

Dois urubus estavam empoleirados em cima da picape virada.

— Acho que vocês esperaram à toa — disse Lana.

 

                          273 HORAS E 39 MINUTOS

SAM, QUINN, EDILIO e Astrid seguiram a pé, acompanhados por insul­tos e risos.

Quinn, Edilio, vocês estão bem? — perguntou Astrid.

Sem contar com o hematoma enorme que provavelmente vai aparecer nas minhas costas? — respondeu Quinn. — Claro. Sem con­tar com o fato de que fui espancado sem motivo, estou perfeito. Gran­de, brou. Funcionou bem. Perdemos o carrinho de golfe e fomos es­pancados e humilhados.

Sam conteve a vontade de gritar com o amigo. Quinn não estava errado. Sam tinha votado por ignorar o bloqueio na estrada e todos tiveram que pagar o preço.

As palavras de Howard feriam. Era como se o vermezinho tivesse arrancado sua pele e mostrado ao mundo o que Sam realmente era. Não quanto a pensar que fosse bom demais para todo mundo, isso não era verdade, mas quanto a ele não querer ficar por perto. Sam tinha seus motivos, mas, neste momento, eles não importavam tanto quanto a sensação causticante de ter sido envergonhado na frente dos amigos.

Vou ficar bem, não é nada demais — disse Edilio a Astrid. — Se eu continuar andando, vai passar.

Ah, é, fantástico, seja bonzinho, Edilio. — Quinn deu uma risa­da irônica. —Talvez você goste de umas porradas. Eu, não. Não gosto de ser espancado. E agora a gente ainda tem que andar até a usina? Por que, para procurar um garotinho que provavelmente nem sabe que está perdido?

De novo, Sam resistiu ao impulso de raiva. O mais calmamente que pôde, disse:

Meu irmão, ninguém está obrigando você a ir.

Está dizendo que eu não devo ir? — Quinn deu dois passos rá­pidos e agarrou o ombro de Sam. — Está dizendo que quer que eu vá embora, brou?

Não, cara. Você é o meu melhor amigo.

Seu único amigo.

-— É. Isso mesmo — admitiu Sam.

Só estou dizendo isso: quem morreu e deixou você no trono? Você está agindo como se fosse o chefe aqui. Como isso aconteceu? Por que estou recebendo ordens de você?

—- Você não está recebendo ordens — disse Sam, com raiva. — Não quero que ninguém receba ordens de mim. Se eu quisesse pessoas recebendo ordens minhas, só precisava ficar na cidade e começar a dizer às pessoas o que fazer. — Em voz mais baixa, disse: — Você pode ficar no comando, Quinn.

Eu nunca disse que queria ficar no comando — bufou o outro, mas estava esgotando seu ressentimento. Lançou um olhar sombrio para Edilio, um olhar cauteloso para Astrid. — Só é esquisito, brou. Antigamente éramos só você e eu, certo?

É — concordou Sam.

Com uma voz chorosa, Quinn disse:

Só quero pegar nossas pranchas e ir para a praia. Quero que tudo volte a ser como era. — Depois, num grito espantoso: — Cadê todo mundo? Por que não vieram pegar a gente? Cadê meus pais?

Recomeçaram a andar, Edilio mancando um pouco, Quinn ficando para trás e murmurando. Sam andava ao lado de Astrid, ainda sem graça na presença dela.

Você cuidou bem do Ore lá atrás — falou. — Obrigado.

Eu o tratei com matemática terapêutica. — Ela deu um sorriso torto. — Ele se sente um pouco intimidado por mim, mas não pode­mos contar muito com isso.

Caminharam pelo meio da auto-estrada. Era estranho ver a linha amarela embaixo dos pés.

Lugar da Galera da Área Radioativa — disse Astrid.

É. Acho que isso vai pegar, não é?

Talvez não seja só uma piada — disse Astrid. — Talvez isso tenha a ver com a Área Radioativa.

Sam olhou-a rapidamente.

Quer dizer que talvez tenha havido um acidente na usina nu­clear?

Ela deu de ombros.

Não sei se quero dizer alguma coisa.

Mas você acha que isso pode estar ligado? Tipo a usina explodiu ou algo assim?

A energia ainda está ligada. Praia Perdida recebe a eletricidade da usina. As luzes ainda estão acesas. Assim, de um modo ou de outro, a usina ainda está funcionando.

Edilio parou.

Ei, pessoal. Por que a gente está andando?

Porque aquele escroto do Ore e o merdinha do Howard rouba­ram nosso carro de golfe — disse Quinn.

Olha — indicou Edilio, apontando para um carro que havia saído da estrada e parado na vala de drenagem. Havia duas bicicletas presas no suporte superior.

Eu me sinto mal pegando a bicicleta de outra pessoa — disse Astrid.

Supere isso — respondeu Quinn. — Se você não notou, esse é um mundo totalmente novo. É o LGAR.

Astrid levantou os olhos e viu uma gaivota voando não muito aci­ma deles.

É, Quinn. Eu notei.

Pegaram as duas bicicletas e montaram, dois em cada uma. Quinn se empoleirou no guidão de Edilio e Astrid no de Sam. O cabelo da menina batia no rosto dele, pinicando um pouco. Sam ficou triste quando encontraram mais duas bicicletas.

A auto-estrada não ia até a usina; era necessário pegar uma estrada lateral. Havia uma impressionante guarita de pedra no entroncamento e uma cancela com listras vermelhas, como um cruzamento ferroviá­rio. A cancela estava fechada, barrando o caminho, mas eles deram a volta na barreira.

A estrada serpenteava por morros cobertos por capim seco e flores amarelas murchas. Não havia casas nem lojas perto da usina; ela era cercada por dezenas de hectares de vazio em todas as direções. Encos­tas íngremes e alguns poucos bosques, campinas e riachos secos.

Por fim, a estrada se desviou, descendo para o litoral rochoso. A vista era estonteante, mas as ondas, normalmente explosivas, estavam suaves, domadas. A estrada subia e descia, dobrou-se totalmente algu­mas vezes, escondeu-se atrás de morros e depois se abriu para um novo panorama do oceano.

Tem outro portão de segurança ali na frente — disse Astrid.

Se houver um guarda lá, dou um beijo nele — exclamou Quinn.

Isso tudo aqui é constantemente vigiado e patrulhado — disse Astrid. — Eles têm praticamente um exército particular para proteger a usina.

Não mais — observou Sam.

Chegaram a uma cerca de tela, com arame farpado por cima. A cerca descia até as pedras à esquerda e desaparecia morro acima, à di­reita. Ali havia uma guarita muito mais séria, quase uma fortaleza. Parecia capaz de suportar um grande ataque. O portão era uma seção alta da cerca de tela que podia rolar para a frente e para trás ao co­mando de um botão.

Pararam de pedalar e olharam para o obstáculo.

Como vamos entrar? — perguntou Astrid.

Alguém escala o portão — disse Sam. — Zerinho ou um.

Os três jogaram e Sam perdeu.

Ele escalou a cerca rapidamente, mas o arame farpado o fez parar. Tirou a camisa e enrolou no trecho mais problemático, depois passou com cuidado uma perna por cima e gritou quando o arame picou sua coxa. Só então passou o resto do corpo e pulou para o chão, deixando a camisa para trás no arame.

Entrou na guarita. O ar-condicionado estava no máximo, fazendo-o lamentar imediatamente ter largado a camisa na cerca.

Uma fileira de monitores coloridos mostrava a estrada que tinham acabado de descer, além de uma variedade de cenas externas mudando em loop: oceano, rochas e montanha. Também mostrava várias portas protegidas por cartões de passagem, dentro da usina.

No banheiro, viu um cartão eletrônico preso num cordão pendura­do num gancho. Alguém estivera usando o banheiro na hora do desa­parecimento. Sam pendurou o cordão no pescoço.

Num closet fora da sala principal, encontrou uma camisa de uni­forme verde-acinzentada estilo militar, vários números maior do que o seu. Encostado na parede havia um armário trancado, com armas automáticas, submetralhadoras. A sala cheirava a óleo e enxofre.

Olhou as armas por um longo tempo. Armas automáticas versus bastões de beisebol.

Não pense nisso — murmurou.

Saiu do closet de armas e fechou a porta com firmeza. Mas sua mão se demorou um tempo na maçaneta. Depois balançou a cabeça. Não. A coisa não havia chegado a esse ponto.

Ainda.

A força da tentação o deixou tonto. Qual era o seu problema, para sequer ter considerado a possibilidade por um segundo?

Apertou o botão para abrir o portão.

Por que demorou tanto? — perguntou Quinn, com suspeitas.

Estava procurando uma camisa.

A usina nuclear ficava em perfeito isolamento, um complexo vasto e imponente de prédios que mais pareciam armazéns, dominados por duas imensas redomas de concreto.

Durante toda a vida, Sam ouvira falar da usina nuclear. Parecia que metade das pessoas de Praia Perdida trabalhava lá. Enquanto crescia, tinha ouvido as frases feitas garantindo a segurança. E, de fato, não sentia medo da energia nuclear. Mas agora, vendo a usina de verdade

uma fera brilhante, eriçada, agachando-se sobre mar e sob as mon­tanhas —, ficou um tanto nervoso.

Seria possível amontoar todas as casas de Praia Perdida nesse lugar — disse Sam. — Nunca tinha visto de perto. É grande.

Meio que me lembra de quando estive em Roma e vi a catedral de São Pedro, que é realmente enorme — disse Quinn. — É tipo... você sabe, a pessoa fica pequena só de olhar. Tipo como se a gente devesse se ajoelhar, só para garantir.

Pergunta idiota, certo: mas não vamos ficar radioativos, não é? - perguntou Edilio.

Isso aqui não é Chernobyl — respondeu Astrid, irritada. — Lá eles nem tinham torres de contenção. É o que são aquelas duas cúpu­las enormes. Os reatores de verdade estão embaixo das cúpulas de contenção, de modo que se alguma coisa acontecer, o gás ou o vapor radioativo fica contido lá dentro.

Quinn deu um tapa nas costas de Edilio, fingindo amizade.

E é por isso que não há com que se preocupar. A não ser que... bem... eles chamam esse lugar de Área Radioativa. Por que será? Já que tudo é totalmente seguro e coisa e tal.

Quinn e Sam conheciam a história, mas por causa de Edilio, Astrid apontou a cúpula mais distante.

Está vendo como a cor é diferente, que uma das cúpulas parece mais nova? A de lá foi acertada por um meteorito, há quase 15 anos. Mas quais são as chances de isso acontecer de novo?

Quais são as chances de acontecer uma vez? — murmurou Quinn.

Um meteorito? — ecoou Edilio, e olhou para o céu. O sol já havia passado bastante do ponto mais alto e ia se pondo em direção à água.

Um pequeno meteorito movendo-se em alta velocidade — ex­plicou Astrid. — Acertou o vaso de contenção e o explodiu. Vaporizou. Acertou o reator e não parou. Na verdade, foi bom ele estar se movendo tão depressa.

Sam viu um filme na cabeça. Podia imaginar a grande pedra espa­cial descendo a uma velocidade impossível, com uma cauda de fogo, explodindo a cúpula de concreto.

Por que é bom ele ter vindo rápido? — perguntou Sam.

Porque fez um buraco na terra e carregou noventa por cento do combustível de urânio para a cratera. Empurrou o urânio até quase 30 metros de profundidade. Assim, o pessoal da usina basicamente apenas encheu o buraco, cimentou em cima e aí eles reconstruíram o reator.

Ouvi falar que um cara morreu — disse Sam.

Astrid confirmou com a cabeça.

Um engenheiro. Acho que estava trabalhando na área do reator.

Está dizendo que há um bocado de urânio embaixo do chão e ninguém acha isso perigoso? — perguntou Edilio com ceticismo.

Um bocado de urânio e os ossos de um cara — disse Quinn. — Bem-vindo a Praia Perdida, onde nosso slogan é: "Radiação? Que ra­diação?"

Astrid foi à frente, pois tinha visitado a usina muitas vezes com o pai. Encontrou uma porta sem qualquer placa, comum, na lateral do prédio da turbina. Sam passou o cartão na fenda e a porta se abriu.

Dentro, encontraram um espaço gigantesco, com pé-direito alto, cheio de vigas entrelaçadas e piso de concreto pintado. Havia quatro motores enormes, cada um maior do que uma locomotiva. O barulho era incrível.

Essas são as turbinas — gritou Astrid, acima do uivo de furacão. — O urânio cria uma reação que esquenta a água, que faz vapor, que vem para cá, gira as turbinas e gera eletricidade.

Então você está dizendo que não tem hamsters gigantes numa roda? — gritou Quinn de volta. — Fui mal informado.

Acho melhor procurarmos aqui primeiro — gritou Sam. E olhou para Quinn.

Quinn prestou continência languidamente, zombando.

Espalharam-se pela sala da turbina. Astrid lembrou-lhes que o Pequeno Pete geralmente não vinha quando era chamado, então o único modo de achá-lo era olhar em cada canto, cada espaço onde um garotinho pudesse estar escondido, de pé ou sentado.

O Pequeno Pete não estava na sala da turbina.

Finalmente, Astrid sinalizou para irem em frente. Depois de passar por duas portas, podiam falar normalmente de novo.

Vamos à sala de controle — sugeriu Astrid, e foi na frente, se­guindo por um corredor meio escuro, até uma sala de controle de aparência antiquada. Parecia um cenário de um centro espacial da NASA, com computadores e conectores de dados antigos, monitores piscando e painéis demais, com luzes demais e interruptores demais.

Ali, sentado no chão da sala de controle, balançando-se ligeiramen­te para a frente e para trás, jogando um videogame portátil sem som, estava o Pequeno Pete.

Astrid não correu até ele. Olhou para o irmão com uma expressão que Sam achou que era quase de desapontamento. Pareceu até se en­colher um pouco.

Mas então forçou um sorriso e foi até ele.

Petey — chamou Astrid, em voz calma. Como se ele nunca tivesse se perdido, como se os dois estivessem juntos o tempo todo e não houvesse nada estranho em vê-lo sozinho no meio da sala de controle de uma usina nuclear, jogando Pokémon num Game Boy.

Graças a Deus ele não estava nos reatores — disse Quinn. — Eu iria dizer um grande N-Ã-O se propusessem procurar lá.

Edilio concordou com a cabeça.

O Pequeno Pete tinha 4 anos e era louro como a irmã, mas com sardas e quase parecia uma menina, de tão bonito. Não parecia nem um pouco lento ou idiota; na verdade, se não soubesse, você pensaria que ele era uma criança normal, provavelmente inteligente.

Mas, quando Astrid o abraçou, ele mal pareceu notar. Só depois de quase um minuto levantou uma das mãos do controle do videogame e tocou o cabelo dela de modo distraído.

Você comeu alguma coisa? — perguntou Astrid. Depois revisou a pergunta. — Com fome?

Ela possuía um modo especial de falar com o Pequeno Pete quando queria a atenção do irmão. Segurou o rosto dele com as mãos, cuida­dosamente bloqueando a visão periférica, meio que cobrindo os ouvi­dos. Aproximou o rosto do dele e falou calmamente, mas devagar e com cuidado.

Com fome? — perguntou, lenta e firmemente.

Os olhos do Pequeno Pete tremularam e ele assentiu.

Certo — disse Astrid.

Edilio estava inspecionando os equipamentos eletrônicos de apa­rência ultrapassada que cobriam a maior parte de uma das paredes. Franziu a testa.

Tudo parece normal — informou.

Quinn zombou:

Desculpe, mas você é engenheiro nuclear, além de motorista de carrinho de golfe?

Só estou olhando os mostradores, cara. Acho que verde significa que tudo bem, certo? — Ele foi até uma mesa baixa e curva, onde es­tavam três monitores de computador, diante de três velhas cadeiras giratórias.

Não consigo nem ler essas coisas — admitiu Edilio, espiando de perto um monitor. — São só números e símbolos.

Vou até a sala de descanso ver se acho alguma comida para o Pequeno Pete — anunciou Astrid. Assim que começou a se afastar, o Menino desandou a gemer, como um cachorrinho quando quer algu­ma coisa.

Astrid olhou para Sam, implorando.

Na maior parte do tempo, ele nem percebe que eu estou por perto. Odeio deixá-lo quando ele está se relacionando.

Eu pego a comida — disse Sam. — Do que ele gosta?

Nunca recusa chocolate. Ele... — Astrid começou a falar, mas parou.

Vou encontrar — disse Sam.

Edilio havia andado até o que parecia o equipamento mais recente da sala, uma tela de plasma presa à parede.

Quinn também estava olhando a tela, girando lentamente numa das cadeiras dos engenheiros.

Veja se consegue pegar outro canal. Esse é chato.

É um mapa — disse Edilio. — Ali está Praia Perdida. Tem umas cidades pequenas nos morros. Vai até San Luis.

O mapa luzia em azul-claro, branco e cor-de-rosa, com uma bola verde no centro.

O cor-de-rosa é o padrão de radiação, caso haja um vazamento

disse Astrid. — O vermelho é a área mais próxima, onde a radiação seria intensa. Ele pega os dados a partir dos padrões de vento, dos contornos do terreno, dos ventos de grande altitude, de tudo isso, e ajusta o mapa.

O vermelho e o cor-de-rosa são a parte perigosa? — perguntou Edilio.

É. É o lugar onde a radioatividade ficaria acima dos níveis aceitáveis.

É um bocado de terreno — disse Edilio.

Mas é estranho — observou Astrid. Em seguida, puxou o Peque­no Pete até ele ficar de pé e foi mais para perto do mapa. — Nunca vi isso desse jeito. Em geral, a área marcada vai para o interior, você sabe, devido aos ventos mais fortes vindos do oceano. Às vezes, a área se estende até Santa Barbara. Ou então sobe, atravessando o parque nacional, dependendo do tempo.

O padrão cor-de-rosa era um círculo perfeito. A zona vermelha era como um alvo no centro do círculo externo.

O computador não está recebendo dados climáticos do satélite - disse Astrid. — Por isso deve ter retomado ao ajuste básico, que é o círculo vermelho com um raio de 16 quilômetros e um círculo cor-de-rosa com um raio de 160 quilômetros.

Sam olhou o mapa, a princípio incapaz de entender. Então come­çou a localizar a cidade, as praias que conhecia, outros marcos.

A cidade inteira está na zona vermelha — disse Sam.

Astrid assentiu.

A zona vermelha vai até a extremidade sul da cidade.

É.

Sam olhou para ela, para descobrir se estavam vendo a mesma coisa.

Atravessa direto o Penhasco.

É — disse ela, devagar. — Atravessa.

Você está pensando...

É — disse Astrid. — Estou achando uma coincidência bem incrí­vel a barreira parecer se alinhar com a borda da zona de perigo. — Depois acrescentou: — Pelo menos a parte que conhecemos da barrei­ra. Não sabemos se ela inclui toda a parte vermelha.

Isso significa que houve algum tipo de vazamento de radiação?

Astrid balançou a cabeça.

Acho que não. Haveria alarmes de radiação tocando em toda parte. Mas o estranho é que é como causa e efeito, só que ao contrá­rio. O LGAR foi o que deixou de fora os dados do clima, fazendo o computador voltar ao padrão básico. Primeiro o LGAR, depois o mapa vai para o básico. Então por que a barreira seguiria um mapa cujas li­nhas ele causou?

Sam balançou a cabeça e deu um sorriso triste.

Devo estar cansado. Não entendi nada. Vou arranjar alguma comida. — Ele foi pelo corredor, na direção que Astrid havia indica­do.

Quando voltou, ela estava de pé, olhando o mapa, com uma ex­pressão tensa e séria.

Astrid viu que Sam a observava. Os olhares dos dois se grudaram. A menina se assustou, como se ele a tivesse surpreendido fazendo al­guma coisa. Pôs o braço em volta do Pequeno Pete, que havia enterra­do o rosto de volta no jogo. Astrid fechou os olhos, olhou para baixo, respirou fundo com um tremor e deliberadamente virou as costas.

 

                               272 HORAS E 47 MINUTOS

CAFÉ. — MARIA DISSE a palavra como se pudesse ser mágica. — Café. É disso que eu preciso.

Estava na sala dos professores da Creche da Bárbara, um lugar atu­lhado e estreito, revirando a geladeira em busca de alguma coisa, qual­quer coisa, para dar a uma menininha que se recusava a comer. Tinha quase caído dentro da geladeira de tão cansada, e então viu a cafeteira.

Era o que sua mãe fazia quando estava cansada. Era o que todo mundo fazia quando estava cansado.

Em resposta ao desesperado pedido de ajuda da madrugada, Howard havia fornecido um único pacote de fraldas para a creche. Eram para recém-nascidos. Inúteis. Havia mandado duas caixas de três litros de leite e meia dúzia de sacos de salgadinhos e biscoitos salgados. E tinha mandado Panda, que se mostrou pior do que inútil Maria ouviu-o ameaçando dar um tapa numa criança chorona de 3 anos e o expulsou.

Mas as gêmeas, Anna e Emma, tinham vindo ajudar por conta pró­pria. Não era o suficiente, nem de longe, mas Maria pudera conseguir duas horas de sono.

Mas então, quando acordou de manhã — não era tarde, era? — ela havia perdido a noção. Estava tão grogue que não somente não tinha idéia da hora, mas nos primeiros segundos não fez idéia de onde estava.

Maria nunca havia feito café, mas tinha visto fazerem. Com a ex­pressão sonolenta tentou deduzir. Havia uma colher de medida. Havia filtros.

A primeira tentativa foi uma longa espera por nada. Só depois de ficar sentada num estado parecido com coma durante dez minutos, percebeu que tinha esquecido de pôr água na máquina. Quando fez isso, ela explodiu num jato de vapor. Mas, depois de mais cinco minu­tos, conseguira um perfumado bule de café.

Encheu uma xícara e tomou um gole, hesitando. Estava muito quente e muito amargo. Não tinha leite sobrando, mas havia um pou­co de açúcar. Começou com duas colheradas grandes.

Assim ficava melhor.

Não bom, mas melhor.

Levou a xícara de volta ao quarto principal. Pelo menos seis crian­ças estavam chorando. Fraldas precisavam ser trocadas. As crianças menores precisavam comer. De novo.

Uma menina de 3 anos, com cabelos louros finíssimos, viu Maria e veio correndo. Sem pensar, Maria se abaixou. O café se derramou no pescoço e no ombro da criança.

A menina soltou um berro.

Maria gritou de medo.

Ah, meu Deus!

John veio correndo.

O que aconteceu?

A menininha uivava.

Maria congelou.

—- O que devemos fazer? — gritou John.

Anna veio correndo com um bebê no colo.

Ah, meu Deus, o que aconteceu?

A menininha berrava e berrava.

Maria pôs o café na bancada com cuidado. Depois, saiu correndo da sala e da creche.

Correu aos prantos até em casa, a dois quarteirões dali. Abriu a porta. Mal conseguia enxergar através das lágrimas. Soluços profun­dos sacudiam todo o seu corpo.

Estava fresco e silencioso dentro de casa. Tudo exatamente como sempre. Só que tão quieto, tão quieto que seus soluços pareciam sons guturais, selvagens.

Maria se acalmou.

— Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem. — A mesma mentira que viera dizendo às crianças. Aquietou os soluços que sacudiam seu corpo.

Sentou-se à mesa da cozinha. Pôs a cabeça nos braços, pretendendo chorar mais um pouco, em silêncio. Mas a hora das lágrimas havia passado.

Durante um tempo, apenas ouviu o som de sua própria respiração. Olhou para os veios da madeira da mesa. A exaustão fazia com que girassem em redemoinhos.

Era impossível acreditar que sua mãe e seu pai não estavam em casa.

Onde estavam? Onde estavam todos?

Seu quarto, sua cama, ficavam logo no andar de cima.

Não podia fazer isso. Não podia ir dormir. Se dormisse, horas e horas se passariam.

As crianças precisavam dela. Seu irmão, pobre John, estava agüen­tando as pontas enquanto ela pirava.

Abriu o freezer. Sorvete Ben & Jerry's sabor brownie com calda. Picolés de chocolate. Podia comer isso e sentir-se melhor.

Podia comer e sentir-se pior.

Se começasse, não pararia. Se começasse a comer quando estava assim, só pararia quando a vergonha ficasse tão grande que ela se obri­garia a vomitar tudo.

Maria sofria de bulimia desde os 10 anos. As comilanças eram se­guidas por vômitos provocados, repetidamente, num ciclo cada vez mais rápido que a haviam deixado 20 quilos acima do normal num determinado ponto, e com os dentes ásperos e descoloridos por causa do ácido estomacal.

Fora esperta o suficiente para esconder o problema durante um longo tempo, mas os pais acabaram descobrindo. Então vieram os terapeutas e um acampamento especial. E, quando nada disso ajudou, medicação. Por falar nisso, lembrou-se, precisava pegar o frasco em seu armário de remédios.

Agora estava melhor, com o Prozac. A ânsia de comer estava sob controle. Ela não provocava mais vômitos. Tinha perdido parte do peso extra.

Mas por que não comer agora? Por que não?

O ar frio do freezer a envolveu. O sorvete, o picolé de chocolate, ali estavam. Não iria fazer mal, se fosse só uma vez. Principalmente agora, que estava morrendo de medo, sozinha e tão cansada.

Só um picolé.

Tirou-o da caixa e, com dedos agitados, ansiosos, rasgou a embala­gem. Estava em sua boca num instante, tão bom, tão gelado, o choco­late escorregadio e gorduroso derretendo na língua. O estalo da casca ao ser mordida, o sorvete de baunilha macio e suculento do recheio.

Comeu-o inteiro. Comeu como um lobo.

Pegou o Ben & Jerry's, e agora estava começando a chorar de novo enquanto o colocava no micro-ondas, para amaciar, durante vinte se­gundos. Queria mole, queria que fosse como sopa de chocolate fria. Queria engolir de uma vez.

A campainha do micro-ondas apitou.

Ela pegou uma colher, uma grande, uma colher de sopa. Arrancou a tampa do sorvete e pegou com a colher, meio que derramando o cho­colate denso garganta abaixo, mal sentindo o gosto, de tanta ansiedade.

Estava chorando e comendo, lambendo as mãos, sacudindo a colher.

Lambeu a tampa.

Chega, disse a si mesma.

Pegou dois grandes sacos de lixo. Sistematicamente encheu um deles com qualquer coisa que as crianças pudessem comer: salgadinhos, creme de amendoim, mel, cereais, barras de cereal, castanhas de caju.

O segundo saco ela carregou para o andar de cima. Enfiou dentro fronhas e lençóis, papel higiênico e toalhas — especialmente toalhas, porque podiam substituir fraldas.

Achou o frasco de Prozac. Abriu-o e virou na mão. As pílulas eram verde e laranja, compridas. Pôs uma na boca e engoliu com água da torneira apanhada com a mão em concha.

Só restavam dois comprimidos.

Arrastou os dois sacos até a porta da frente.

Depois voltou para seu banheiro, em cima. Cuidadosamente tran­cou a porta.

Ajoelhou-se diante do vaso sanitário, levantou a tampa e enfiou o dedo na garganta até que a ânsia forçou a comida a sair do estômago.

Quando terminou, escovou os dentes, voltou para baixo, pegou os sacos e começou a arrastá-los para a creche.

— Acho que o Pequeno Pete não vai se equilibrar no guidão da bicicle­ta — disse Sam a Astrid.

Não, não vai — confirmou ela.

Tudo bem, então, vamos à pé. São o quê, quatro horas? Talvez seja melhor passarmos a noite aqui e ir de manhã. — Sem jeito por causa das reclamações anteriores de Quinn, Sam perguntou: — O que acha, Quinn? Ficar ou ir?

Quinn deu de ombros.

Estou morto. Além disso, aqui tem uma máquina de doces.

O escritório do gerente da usina tinha um sofá, que Astrid podia dividir com o Pequeno Pete. Ela ofereceu as almofadas do encosto para Edilio, que ainda estava meio rígido.

Sam e Quinn reviraram as instalações até que encontraram a enfer­maria. Ali havia maças e camas hospitalares com rodas.

Quinn riu.

O mar tá bombando, brou.

Sam hesitou. Mas Quinn partiu correndo, chegou à maca a toda velocidade, pulou em cima e até conseguiu ficar de pé antes de bater numa parede.

Certo — disse Sam. — Eu consigo.

Fizeram alguns minutos de surfe de maca pelos corredores abando­nados, e Sam descobriu que ainda podia rir. Parecia fazer um milhão de anos desde que tinha surfado com Quinn. Um milhão de anos.

Sam e Quinn estacionaram as maças na sala de controle. Nenhum deles entendia realmente nada que havia ali, mas aquele parecia o lu­gar certo para ficar.

Descobriram que Edilio havia juntado cinco roupas anti-radiação, quase como trajes espaciais, cada uma com capuz, máscara contra ga­ses e um pequeno tanque de oxigênio.

Legal, Edilio — disse Quinn. — Só por garantia?

Edilio pareceu desconfortável.

É, só por garantia.

Quando Quinn deu um risinho, Edilio disse:

Você não acha que tudo que aconteceu tem a ver com esse lu­gar? Olhe aquele mapa, cara. A bola vermelha que parece passar exa­tamente onde a barreira passa? Talvez aquele tal de Howard tenha sacado direito, entende? Lugar da Galera da Área Radioativa? É uma tremenda coincidência.

Astrid, cansada, disse:

—A radiação não faz barreiras aparecerem ou pessoas desaparecerem.

É um negócio mortal, certo? — pressionou Edilio.

Quinn suspirou e empurrou a maca para um canto escuro, entediado com a discussão. Sam esperou para ouvir a resposta de Astrid.

A radiação pode matar — concordou a garota. — Pode matar depressa ou pode matar devagar, pode dar câncer, pode só deixar en­joado ou pode não fazer nada. E pode causar mutações.

Mutação como uma gaivota que de repente tem garras de fal­cão? — perguntou Edilio, objetivamente.

É, mas só num tempo muito, muito longo. Não da noite para o dia. — Ela se levantou e pegou a mão do Pequeno Pete. — Preciso le­vá-lo para a cama. — Por cima do ombro, disse: — Não se preocupe, Edilio, você não vai sofrer uma mutação durante a noite.

Sam se esticou em sua maca. A sala de controle tinha luzes fracas que ficaram quase escuras quando Astrid encontrou o interruptor. Os monitores de computador e os mostradores de cristal líquido brilhavam.

Sam poderia ter optado por deixar mais luzes acesas. Duvidava de que seria capaz de dormir.

Ficou deitado, lembrando-se da última vez em que tinha ido surfar com Quinn. No dia seguinte ao Dia das Bruxas. Havia apenas um sol de início de novembro, mas na sua memória, o dia estava muito claro, cada rocha, cada pedrinha e cada siri delineado em ouro. Em sua lem­brança, as ondas eram maravilhosas, vivas, azuis, verdes e brancas, chamando-o, desafiando-o a deixar as preocupações para trás e sair para brincar.

Então a cena mudou e sua mãe estava no topo do penhasco, sorrin­do e acenando para ele. Lembrou-se daquele dia. Ela quase sempre dormia de manhã, quando Sam surfava. Mas nesse dia tinha ido olhar.

Estava usando a saia envelope, de flores azuis e brancas, e uma blusa branca. O cabelo, muito mais claro do que o dele, se agitava na brisa forte, e ela parecia frágil e vulnerável lá em cima. Sam quis gritar para ela ficar longe da beirada.

Mas a mãe não podia ouvir.

Gritou, mas ela não ouviu.

Acordou de repente da lembrança que havia se tornado um sonho. Não havia janelas, nenhum modo de ver se era dia ou noite lá fora. Mas não havia mais ninguém acordado.

Deslizou para fora da maca e ficou de pé, com cuidado para não fazer nenhum som. Um a um, verificou os outros. Quinn em silêncio, para variar, sem falar durante o sono; Edilio roncando nas almofadas que Astrid havia oferecido; Astrid enrolada numa ponta do sofá no escritório e o Pequeno Pete dormindo na outra.

A segunda noite de todos sem os pais. A primeira noite fora num hotel, e agora aqui, nessa usina nuclear.

Onde seria a noite seguinte? Sam não queria voltar a morar em sua casa. Queria sua mãe de volta, mas não a casa.

Na mesa do escritório do gerente, viu um iPod. Não se sentia oti­mista com o gosto musical do gerente que, a julgar pela foto de família na mesa, teria uns 60 anos. Mas não achou que conseguiria dormir de novo.

Atravessou o escritório o mais silenciosamente possível, quase to­cando a mão de Astrid. Passou ao redor da mesa, mexeu a cadeira li­geiramente, inclinando-se com cuidado para ficar longe de uma estan­te de troféus — a maioria de golfe.

Um movimento súbito junto aos pés, um rato. Pulou para trás e se chocou contra o vidro do mostruário de troféus.

Houve um estrondo tremendo.

Os olhos do Pequeno Pete se abriram.

— Desculpe — disse Sam, mas, antes que pudesse falar outra sílaba, Pete começou a berrar. Era um som primitivo, animalesco, lancinante, insistente, repetitivo, assustador.

Tudo bem — disse Sam. — É...

Sua garganta se apertou e sufocou qualquer som. Não conseguia falar.

Não conseguia respirar.

Sam apertou a garganta. Sentia mãos invisíveis enroladas no pesco­ço, dedos de aço impedindo a entrada do ar. Bateu naqueles dedos e tentou arrancá-los, e o tempo todo o Pequeno Pete guinchava e balan­çava os braços como um pássaro tentando voar.

Edilio e Quinn vieram correndo.

Sam sentiu sangue nos olhos, escurecendo a visão. Seu coração martelava. Os pulmões se contraíam violentamente, sugando nada.

Petey, Petey, está tudo bem — disse Astrid, acalmando o irmão, acariciando sua cabeça, aninhando-o contra o corpo. Seus olhos esta­vam desesperados de medo. — Banco da janela, Petey. Banco da jane­la, banco da janela, banco da janela.

Sam cambaleou até a mesa.

Astrid pegou o Game Boy do Pequeno Pete. Ligou-o.

O que está acontecendo? — gritou Quinn.

Ele ouviu um barulho alto — gritou Astrid. — Levou um susto. Quando ele está com medo, pira de vez. Tudo bem, Pete, tudo bem, estou aqui. Olha o seu jogo.

Sam queria berrar dizendo que não estava nada bem, que estava sufocando, mas não conseguia emitir nenhum som. Sua cabeça estava girando.

Ei, Sam, o que você está fazendo? — perguntou Quinn.

Ele está sufocando! — disse Edilio.

Não pode fazer esse garoto idiota calar a boca? — gritou Quinn.

Ele só vai parar quando todo mundo estiver calmo — disse As­trid, com os dentes trincados. — Banco da janela, Petey, vá para o seu banco da janela.

Sam caiu sobre um dos joelhos.

Era loucura.

Ele ia morrer.

O medo o dominou.

Seu mundo estava ficando preto.

Suas mãos, com as palmas para a frente, empurraram o nada.

De repente, houve um clarão de luz brilhante.

Era como se uma pequena estrela tivesse virado supernova no es­critório do gerente da usina.

Sam caiu, inconsciente.

Dez segundos depois, estava consciente de novo, de costas, com os rostos apavorados de Quinn e Edilio olhando-o.

O Pequeno Pete estava em silêncio. Seus olhos bonitos demais esta­vam grudados no videogame.

Ele está vivo? — perguntou Quinn, numa voz distante.

Sam inspirou, com força e de repente. Em seguida, de novo.

Estou bem — disse, rouco.

Ele está bem? — perguntou Astrid, com uma voz à beira do pâ­nico, mas era visível que ela tentava se controlar para evitar que o Pequeno Pete explodisse de novo.

De onde veio aquela luz? — perguntou Edilio. — Vocês viram aquilo?

Cara: deu para ver aquilo da lua. — Os olhos de Quinn estavam arregalados.

Vamos sair desse lugar — disse Edilio.

Onde nós podemos... — começou Astrid.

Edilio a interrompeu.

Não importa. Vamos sair daqui.

Você está certo — disse Quinn. Em seguida, estendeu a mão e ajudou Sam a ficar de pé.

A cabeça de Sam ainda estava girando, as pernas bambas. Não ha­via sentido em resistir, o pânico estava em cada rosto a sua volta. Não era hora de discutir nem explicar.

Não confiava em si mesmo para falar, então simplesmente apontou para a porta e assentiu.

Eles correram.

 

                         258 HORAS E 59 MINUTOS

NÃO LEVARAM NADA, apenas correram, com Quinn à frente, Edilio a seguir, embolado com Astrid e Pete, e Sam, tonto, atrás.

Correram até passar pelo portão principal. Pararam, ofegantes, e se curvaram, pousando as mãos nos joelhos. Estava muito escuro. À noi­te, a usina parecia mais ainda ser uma coisa viva, respirando. Era ilu­minada por uma centena de refletores, o que apenas fazia os morros acima parecerem mais escuros.

Certo, o que foi aquilo? — Quinn exigiu saber. — O que foi aquilo?

Pete só entrou em pânico — disse Astrid.

— É, essa parte eu saquei — falou Quinn. — Mas e a luz que apa­receu?

Não sei — Sam conseguiu ofegar.

Com quê você estava sufocando, brou?

Eu só estava engasgando — respondeu Sam.

Só engasgando? Engasgando com ar?

Não sei, talvez... talvez eu tenha tido um ataque de sonambulismo ou sei lá o quê, e peguei alguma coisa para comer e engasguei. — Era uma péssima explicação, e a expressão incrédula de Quinn, espe­lhada na de Edilio, dizia que eles não acreditavam.

Provavelmente foi isso — disse Astrid.

Foi tão inesperado que nem mesmo Sam conseguiu esconder uma expressão de surpresa.

O que mais poderia ter feito com que ele engasgasse? — pergun­tou Astrid. — E a luz deve ter sido de algum sistema interno de alarme sendo acionado.

Sem ofensa, Astrid, mas nem vem — disse Edilio. Em seguida, pôs as mãos nos quadris, virou-se para Sam e continuou: — Olha, está na hora de você começar a contar a verdade. Eu respeito você, cara. Mas como vou ter respeito se você mentir para mim?

Sam foi apanhado desprevenido. Era a primeira vez que ele, ou qualquer um dos outros, via Edilio demonstrar raiva.

Como assim? — embromou Sam.

Tem alguma coisa acontecendo, cara, e tem a ver com você, certo? Aquela luz que apareceu. Já vi aquela luz antes. Vi logo antes de tirar você da janela daquele incêndio no prédio.

A cabeça de Quinn girou bruscamente.

O quê? Sobre o que você está falando?

A parede e as pessoas que sumiram, isso não é tudo. Tem outras coisas estranhas acontecendo. Tem alguma coisa acontecendo com você, Sam. E com Astrid também, já que ela foi bem rápida em tentar te acobertar agora mesmo.

Sam ficou surpreso ao perceber que Edilio estava certo: Astrid também sabia de alguma coisa. Ele não era o único que guardava segredos. Sentiu uma onda de alívio. Não precisava ficar sozinho naquilo.

Certo. — Sam respirou fundo e tentou organizar os pensamen­tos antes de começar a pôr tudo para fora. — Primeiro, não sei o que é, certo? Não sei como acontece. Não sei de nada, a não ser que, às vezes... aparece uma... aparece uma luz.

O que você tá falando, brou? — perguntou Quinn.

Sam levantou as mãos, virando as palmas para o amigo.

Eu consigo... cara, sei que parece que estou doido, mas, às vezes, uma luz pula das minhas mãos.

Quinn soltou uma risada.

Não, cara, isso nem é maluquice. Maluquice é você dizer que é melhor do que eu surfando. Isso aqui é insanidade. Isso é piração de­mais. Quero ver você fazer isso.

Não sei como se faz — confessou Sam. — Aconteceu quatro vezes antes, mas não sei fazer acontecer.

Quatro vezes você disparou lasers com as mãos. — Quinn estava no limite entre rir e gritar. — Eu conheço você, tipo... há metade da nossa vida, e agora você é o Lanterna Verde? Sei.

É verdade — disse Astrid.

Besteira. Se é verdade, faça. Mostre.

Você não está entendendo — insistiu Sam —, só acontece quan­do fico em pânico ou sei lá o quê. Eu não faço acontecer, apenas acon­tece.

Isso já aconteceu quatro vezes? — disse Edilio. — Eu vi o clarão no incêndio. Vi agora. E as outras duas vezes?

A vez anterior foi na minha casa. Eu vi... quero dizer, fiz... uma luz. Tipo uma espécie de lâmpada. Estava escuro. Eu tive um pesade­lo. — Ele encontrou o olhar fixo de Astrid e, subitamente uma lâmpa­da se acendeu em sua mente. — Você viu — ele acusou-a. — Você viu a luz no meu quarto. Você sabia o tempo todo.

É — admitiu Astrid. — Eu sei desde aquele primeiro dia. E sei sobre o Petey há muito mais tempo.

Edilio ainda queria que o básico fosse exposto.

O incêndio, aqui, esse negócio de lâmpada, são três.

A primeira vez que aconteceu foi com o Tom — disse Sam. O nome não significava nada para Edilio, mas Quinn sabia quem era.

Seu padrasto? Quero dizer, ex-padrasto.

É.

Quinn estava olhando para Sam com a expressão dura.

Brou, você não está dizendo o que acha que está dizendo, está?

Eu pensei que ele estava tentando machucar minha mãe. Pen­sei... eu estava dormindo, aí acordei, desci as escadas e os dois estavam gritando na cozinha, Tom segurava uma faca, e um clarão de luz pulou da minha mão.

Sam sentiu lágrimas ardendo nos olhos. Isso o surpreendeu, pois não estava triste. No mínimo, sentia-se aliviado. Nunca havia contado isso a ninguém. Era um peso que saía de seus ombros. Mas, ao mesmo tempo, registrou o modo como Quinn recuava um passo, aumentando a distância entre eles.

Minha mãe sabia, é claro. Ela disfarçou na emergência do hos­pital. Tom estava gritando que eu havia atirado nele. Os médicos vi­ram uma queimadura, por isso souberam que não era um tiro. Minha mãe contou alguma mentira, dizendo que Tom havia caído sobre o fogão.

Então ela teve de escolher entre proteger você ou apoiar o ma­rido — disse Astrid.

É. É assim que a dor estava sob controle, Tom percebeu que iria acabar na ala psiquiátrica se continuasse falando que seu enteado ti­nha lançado raios de luz contra ele.

Você decepou a mão do seu padrasto? — perguntou Quinn, com a voz esganiçada.

Epa, calma aí. Fez o quê? — quis saber Edilio. Era sua vez de ficar surpreso.

Quinn disse:

O padrasto dele acabou com um gancho, cara. Tiveram de am­putar a mão dele, mais ou menos aqui. — Ele fez um movimento de corte no antebraço. — Eu vi o cara, tipo, há uma semana, lá em San Luis. Agora ele usa um daqueles ganchos, sabe?, com... sei lá... duas pinças; estava comprando cigarro e entregou o dinheiro com o gan­cho. — Quinn fez uma imitação, usando dois dedos como as pinças da prótese. — Então você é uma espécie de aberração? —- perguntou Quinn para Sam. Ainda parecia indeciso se ficava furioso ou achava engraçado.

Não sou o único — disse Sam, defensivo. — Aquela garotinha do incêndio. Acho que foi ela que começou o fogo. Quando me viu, entrou em pânico. Foi como se fogo líquido saísse das mãos dela.

Então você atirou de volta — completou Edilio. — Você fez esse negócio contra ela. — Sam podia ver apenas a silhueta do rosto do garoto no escuro. — Foi isso que ficou incomodando você. Você acha que a machucou.

Não sei como controlar esse negócio. Não peço para isso acon­tecer e não sei como fazer para que vá embora. Só fico feliz por não ter machucado o Pequeno Pete. Eu estava sufocando.

Quinn e Edilio voltaram a atenção para o menininho. Pete esfregou os olhos sonolentos e olhou para além deles, indiferente a eles, talvez nem mesmo consciente de que estavam lá. Talvez imaginando por que estaria no ar úmido da noite, do lado de fora de uma usina nuclear. Talvez sem pensar nada.

Ele também é — acusou Quinn. — É uma aberração.

Ele não sabe o que faz — disse Astrid.

Isso não é exatamente tranqüilizador — reagiu Quinn. — Qual é o truque dele? Dispara mísseis pela bunda ou algo assim?

Astrid alisou o cabelo do irmão e deixou os dedos percorrerem seu rosto.

Banco da janela — sussurrou. Depois, virou-se para os outros. — Banco da janela é uma frase-gatilho. Ajuda Petey a encontrar um lugar calmo. É o banco da janela do meu quarto.

Banco da janela — disse o Pequeno Pete, inesperadamente.

Ele fala — exclamou Edilio.

Sim — concordou Astrid. — Mas não muito.

Ele fala. Fantástico. O que mais ele faz? — perguntou Quinn, objetivamente.

Parece que consegue fazer um monte de coisas. Na maior parte do tempo, nós dois estamos bem. Na maior parte do tempo ele não me nota muito. Mas, uma vez, eu estava fazendo a terapia dele, traba­lhando com um livro de figuras que usamos às vezes. Eu mostro uma imagem e tento fazer com que ele diga a palavra e, não sei, acho que naquele dia eu estava de mau humor... Acho que fui muito brusca quando peguei a mão dele e coloquei o dedo na figura, como a gente deve fazer. Ele ficou furioso. E, de repente, eu não estava mais ali. Num segundo estava no quarto dele, no outro, estava no meu.

Houve um silêncio mortal quando os quatro olharam para o Pe­queno Pete.

Então talvez ele possa lançar a gente para fora do LGAR, de volta para a nossa família — disse Quinn, finalmente.

O silêncio caiu de novo. Os cinco estavam no meio da pista, com a usina iluminada zumbindo atrás deles, um caminho escuro seguindo à frente.

Eu fico esperando você dar uma risada, Sam — disse Quinn. — Sabe, dizer "te peguei". Dizer que é um truque. Dizer que só está curtindo com a minha cara.

Nós estamos num mundo novo — disse Astrid. — Olha, eu sei sobre o Pete há um tempo. Tentei acreditar que era uma espécie de milagre. Como você, Quinn, queria acreditar que era Deus que fazia isso.

O que está fazendo isso acontecer? — perguntou Edilio. — Quero dizer, você está falando que esse negócio acontecia antes do LGAR.

Olha, supostamente eu sou inteligente, mas isso não significa que saiba mais sobre isso — admitiu Astrid. — Só sei que, sob as leis da biologia e da física, nada disso é possível. O corpo humano não tem nenhum órgão que gere luz. E o que Petey fez, mover coisas de um lugar para outro? Os cientistas deduziram como fazer isso com alguns átomos. Não com seres humanos inteiros! Seria necessário mais ener­gia do que a usina inteira produz, o que significa, basicamente, que as leis da física teriam de ser reescritas.

Como é que a gente reescreve as leis da física? — perguntou Sam.

Astrid levantou as mãos.

Eu só consigo, por muito pouco, acompanhar a física da turma avançada na escola. Para entender isso você teria de ser Einstein, Heisenberg ou Feynman, nesse nível. Só sei que coisas impossíveis não acontecem. Portanto, isso não está acontecendo ou, de algum modo, as regras mudaram.

Como se alguém tivesse dado uma de hacker no universo — dis­se Quinn.

Exato — confirmou Astrid, surpresa por Quinn ter entendido.

Como se alguém tivesse dado uma de hacker no universo e reescrito o programa.

Não tem nenhum adulto, uma parede enorme apareceu do nada, e de repente, meu melhor amigo é o garoto maravilha — disse Quinn.

Eu pensava... tipo, certo: pelo menos, independentemente de qual­quer coisa, ainda tenho meu brou, ainda tenho meu melhor amigo.

Ainda sou seu amigo, Quinn — disse Sam.

Quinn suspirou.

É. Bem, não é exatamente a mesma coisa, é?

Provavelmente há outros — disse Astrid. — Outros como Sam e Petey. E a menininha que morreu.

Precisamos manter isso em segredo — sugeriu Edilio. — Não podemos contar a ninguém. As pessoas não gostam de pessoas que acham ser melhores do que elas. Se os caras comuns descobrirem isso, vai haver encrenca.

Talvez não — disse Astrid, com esperança.

Você é inteligente, Astrid, mas se acha que as pessoas vão ficar felizes com essa história, não conhece as pessoas — respondeu Edilio.

Bom, eu não vou falar — disse Quinn.

É — concordou Astrid —, acho que provavelmente Edilio está certo. Pelo menos por enquanto. E, especialmente, não podemos dei­xar ninguém descobrir sobre Petey.

Eu não vou dizer nada — afirmou Edilio.

Vocês sabem. E isso basta — disse Sam.

Começaram a andar em direção à cidade distante. Caminhavam em silêncio. A princípio, agrupados. Depois, Quinn avançou à frente. E Edilio se afastou para o lado. Astrid estava com o Pequeno Pete.

Sam se deixou ficar para trás. Queria silêncio. Queria privacidade. Parte dele gostaria de ficar cada vez mais para trás, até ser abandona­do, esquecido pelos outros.

Mas agora estava amarrado àquelas quatro pessoas. Eles sabiam o que Sam era. Conheciam seu segredo. E não tinham se virado contra ele.

O som de Quinn cantando "Três Passarinhos" chegou até seus ou­vidos. Sam acelerou o passo para alcançar os amigos.

 

                               255 HORAS E 42 MINUTOS

SAM, ASTRID, QUINN e Edilio se deixaram cair na grama da praça, exaustos. O Pequeno Pete continuou de pé, brincando com seu jogo, sem perceber nada, como se uma caminhada noturna de 15 quilôme­tros fosse apenas um passeio. O sol nascente punha em silhueta as montanhas atrás deles e iluminava o oceano calmo demais.

A grama estava molhada de orvalho, que atravessava a camisa de Sam. Ele pensou: nunca vou conseguir dormir nesse lugar. E, no mi­nuto seguinte estava dormindo.

Acordou com o sol nos olhos. Piscou e sentou-se. O orvalho havia evaporado e agora a grama estava ressecando ao sol. Havia um monte de crianças em volta. Mas ele não viu os amigos. Talvez tivessem ido procurar comida; também estava com fome.

Quando se levantou, percebeu que a multidão estava se movendo, todos em uma só direção, indo para a igreja.

Juntou-se ao movimento. Uma garota que ele conhecia veio pas­sando, e Sam perguntou-lhe o que estava acontecendo.

Ela deu de ombros.

— Só estou indo atrás de todo mundo.

Sam continuou andando, até que a multidão começou a parar. En­tão ele pulou para o encosto de um banco da praça, equilibrando-se precariamente, mas podendo ver por cima da cabeça de todo mundo.

Quatro carros vinham pela avenida Alameda. Vinham numa velo­cidade imponente, como num desfile. Aumentando essa impressão, o terceiro carro da fila era um conversível com a capota baixada. Os quatro carros eram escuros, poderosos e caros. O último era um utili­tário preto. Vinham com as luzes acesas.

Alguém vem salvar a gente? — gritou um garoto do quinto ano para Sam.

Não estou vendo nenhum carro da polícia, por isso duvido. Se­ria bom você se afastar, cara.

São os alienígenas?

Acho que, se fossem alienígenas, seriam espaçonaves, e não BMWs.

O desfile, procissão, comboio ou o que quer que fosse chegou jun­to ao meio-fio, na parte de cima da praça, em frente à prefeitura, e parou.

Garotos desceram de cada carro. Usavam calças pretas e camisas brancas. Garotas usavam saias pretas pregueadas e meias até os joe­lhos, combinando. Tanto os garotos quanto as garotas vestiam blazers num tom de vermelho discreto, com um brasão grande costurado no peito. Tanto os garotos quanto as garotas usavam gravatas com listras vermelhas, pretas e douradas.

O brasão tinha as letras "A" e "C", ornadas, em fio dourado sobre um fundo que mostrava uma águia dourada e um leão da montanha. Embaixo do brasão estava o lema em latim da Academia Coates: Ad augusta, per angusta. A lugares altos, por estradas estreitas.

São da Academia Coates. — Foi Astrid quem disse. Ela e o Pe­queno Pete estavam com Edilio. Sam pulou para ficar ao lado deles. — Uma apresentação bem ensaiada — disse Astrid, como se lesse a mente de Sam.

Enquanto os garotos da Coates desciam dos carros, a multidão re­cuou um passo. Sempre houvera rivalidade entre os garotos da cidade, que pensavam em si mesmos como garotos normais, e os da Coa­tes, que tendiam a ser ricos e, ainda que a Academia tentasse disfarçar, estranhos.

A Coates era o lugar para onde os pais ricos mandavam os filhos quando as outras escolas os consideravam "difíceis".

Os garotos da Coates se enfileiraram, não exatamente com a preci­são de um pelotão fazendo ordem unida, mas com certeza como se tivessem treinado.

Quase militares — disse Astrid em voz baixa, discreta.

Então, um garoto usando, em vez do blazer, um suéter amarelo vibrante com gola em V ficou de pé no conversível. Deu um sorriso sem graça e desceu agilmente do banco de trás para o porta-malas. Deu um aceno auto-depreciativo, como se não acreditasse no que esta­va fazendo.

Era bonito, até Sam notou. Tinha cabelos e olhos escuros, não mui­to diferentes dos de Sam. Mas o rosto parecia brilhar com uma luz interior. Irradiava confiança, mas sem arrogância ou condescendência. De fato, conseguia parecer genuinamente humilde mesmo parado so­zinho, olhando por cima de todo mundo.

Oi, pessoal — começou. — Sou Caine Soren. Provavelmente vocês deduziram que eu... nós... somos da Academia Coates. Isso ou todos simplesmente temos o mesmo mau gosto para roupas.

Houve alguns risos na multidão.

Uma piada auto-depreciativa para nos deixar relaxados — disse Astrid, continuando a comentar aos sussurros.

Com o canto dos olhos, Sam notou o Garoto do Martelo. Estava se virando, agachando-se, como se tentasse se esconder. Ele era aluno da Coates. O que foi que ele havia dito? Que não se dava bem com os garotos da Coates? Algo assim.

Sei que há uma tradição de rivalidade entre o pessoal da Acade­mia Coates e o de Praia Perdida — disse Caine. — Bom, isso era nos velhos tempos. Percebi que nós todos estamos nisso juntos. Todos te­mos os mesmos problemas agora. E deveríamos trabalhar juntos para resolver esses problemas, não acham?

Cabeças estavam concordando em resposta.

Sua voz era clara e só um pouco mais aguda, talvez, do que a de Sam, mas era forte e decidida. Ele tinha um modo de olhar a multidão que fazia parecer que estava encarando cada pessoa, vendo cada um como um indivíduo.

Você sabe o que aconteceu? — perguntou alguém.

Caine balançou a cabeça.

Não. Acho que provavelmente não sabemos mais do que vocês. Todo mundo com mais de 15 anos desapareceu. E tem a parede, a barreira.

Nós chamamos de LGAR — disse Howard em voz alta.

LUGAR? — Caine pareceu interessado.

L-G-A-R. Lugar da Galera da Área Radioativa.

Caine pensou nisso um momento, depois riu.

Excelente. Foi você quem bolou isso?

Foi.

E vital manter o senso de humor quando de repente o mundo parece ter virado um lugar estranho. Qual é o seu nome?

Howard. Sou o cara número um do capitão. Do capitão Ore.

Uma onda de desconforto percorreu a multidão. Caine leu-a ins­tantaneamente.

Espero que você e o capitão Ore se juntem a mim e a todo mun­do que queira sentar-se e falar sobre os planos para o futuro. Porque nós temos um plano para o futuro. — Ele enfatizou a última frase com um movimento de corte, como se estivesse decepando o passado.

-— Quero minha mãe — gritou, de repente, um menininho.

Todas as vozes ficaram em silêncio. O menino havia dito o que to­dos sentiam.

Caine pulou do carro e foi até o menino. Ajoelhou-se e segurou a mão dele. Perguntou seu nome e se apresentou de novo.

Todos queremos nossos pais de volta — disse, gentilmente, mas alto o suficiente para ser ouvido com clareza por quem estava mais perto. — Todos queremos isso. E acredito que vai acontecer. Acredito que vamos ver nossas mães e nossos pais, e nossos irmãos e irmãs mais velhos, e até nossos professores de novo. Acredito nisso. Você acredita também?

Acredito. — O menino soluçou.

Caine o envolveu num abraço e disse:

Seja forte. Seja o garotão forte da mamãe.

Ele é bom — continuou Astrid. — Ele é muito, muito bom.

Então Caine se levantou. As pessoas haviam formado um círculo em volta dele, próximo mas respeitoso.

Todos temos de ser fortes. Todos precisamos superar isso. Se trabalharmos juntos para escolher bons líderes e fazer a coisa certa, vamos conseguir.

Toda a multidão de crianças pareceu ficar um pouquinho mais ereta. Havia expressões determinadas em rostos que antes pareciam can­sados e com medo.

Sam estava hipnotizado pela atuação do garoto. Em apenas alguns minutos, Caine havia infundido esperança num punhado de crianças extremamente apavoradas e desanimadas.

Astrid também parecia hipnotizada, mas Sam achou que detectava o brilho frio do ceticismo nos olhos dela.

Sam também estava cético. Desconfiava de apresentações ensaia­das. Desconfiava do charme. Mas era difícil não pensar que Caine estava ao menos tentando se aproximar dos garotos de Praia Perdida. Era difícil não acreditar nele, pelo menos um pouco. E se Caine tives­se mesmo um plano, não seria uma coisa boa? Ninguém mais parecia fazer a mínima idéia.

Caine voltava a falar alto.

Se todo mundo concordar, eu gostaria de pegar emprestada a igreja de vocês. Gostaria de me sentar com seus líderes, na presença de nosso Senhor, e discutir meu plano, e quaisquer mudanças que vocês queiram fazer. Será que existem, talvez, humm, uma dúzia de pessoas que possa falar por vocês?

Eu — disse Ore, abrindo caminho com os ombros. Ainda carre­gava seu bastão de beisebol de alumínio. E tinha conseguido um capa­cete de policial, um dos capacetes de plástico que os policiais de Praia Perdida usavam quando patrulhavam de bicicleta.

Caine fixou um olhar penetrante no valentão.

Você deve ser o capitão Ore.

É. Sou eu.

Caine estendeu a mão.

É uma honra conhecê-lo, capitão.

O queixo de Ore caiu. Ele hesitou. Sam achou que, provavelmente, era a primeira vez na vida turbulenta do valentão que alguém havia dito que se sentia honrado em conhecê-lo. E provavelmente era a pri­meira vez que lhe ofereciam a mão para ser apertada. Ore estava cla­ramente confuso. Olhou para Howard.

Howard estava olhando de Ore para Caine, avaliando a situação.

Ele está demonstrando respeito, capitão — disse Howard.

Ore grunhiu, mudou o bastão da mão direita para a esquerda e es­tendeu a pata grossa. Caine segurou-a com as duas mãos e olhou Ore solenemente nos olhos enquanto eles se cumprimentavam.

Maneiro — disse Astrid, baixinho.

Ainda segurando a mão de Ore, Caine desafiou:

Agora, quem mais fala por Praia Perdida?

Bette Ricochete disse:

Sam Temple entrou num prédio pegando fogo para salvar uma menininha. Ele pode falar por mim, pelo menos.

Houve um murmúrio de concordância.

É, Sam é um herói de verdade — disse uma voz.

Ele poderia ter morrido — disse outra.

É, Sam é o cara.

O sorriso de Caine surgiu e desapareceu tão rapidamente que Sam não teve certeza de que aquilo havia acontecido. Durante aquele milissegundo, houve uma expressão de triunfo. Caine foi direto até Sam, aberto e expansivo, a mão estendida.

Provavelmente há pessoas melhores do que eu — disse Sam, recuando.

Mas Caine segurou seu cotovelo e o manobrou para um aperto de mão.

Sam, não é? Parece que você é mesmo um herói. Você é parente da enfermeira da nossa escola, Connie Temple?

Ela é minha mãe.

Não fico surpreso por ela ter um filho corajoso — disse Caine, cheio de compreensão. — Ela é uma mulher muito boa. Vejo que você é humilde, além de corajoso, Sam, mas eu... eu peço sua ajuda. Preciso da sua ajuda.

Com a menção de sua mãe, tudo se encaixou. Caine. "C". Quais seriam as chances de "C" ser algum outro garoto da Coates?

Cedo ou tarde, C ou algum dos outros vai fazer alguma coisa séria. Alguém vai se machucar. Como S com T.

— Certo — disse Sam. — Se é o que as pessoas querem.

Alguns outros nomes foram mencionados, e Sam, sem muito empe­nho, mas com lealdade, indicou Quinn.

Os olhos de Caine saltaram de Sam para Quinn e, por apenas um milissegundo relampejou ali um olhar cínico, de quem sabia das coi­sas. Mas sumiu num instante, substituído pela treinada expressão de humildade e decisão.

Então vamos entrar juntos — disse Caine. Em seguida, se virou e marchou decidido, subindo os degraus da igreja. O resto dos esco­lhidos foi atrás.

Uma das alunas da Coates, uma garota de olhos escuros e muito bonita, chegou perto de Sam e estendeu a mão. Sam apertou-a.

Sou Diana — disse ela, sem soltar a mão dele. — Diana Ladris.

Sam Temple.

Os olhos noturnos dela encontraram os dele e Sam quis se virar, sem jeito, mas por algum motivo não conseguiu.

Ah — exclamou ela, como se alguém tivesse lhe dito algo fasci­nante. Depois soltou-o e deu um risinho. — Ora, ora. Acho melhor entrarmos. Não queremos deixar o Intrépido Líder sem seguidores.

Era uma igreja católica, construída cem anos antes pelo rico dono da fábrica de enlatados, que agora estava enferrujada e abandonada, uma monstruosidade forrada de lata, perto da marina.

Com arcos altíssimos, meia dúzia de estátuas de santos e maravi­lhosos bancos de madeira bem gastos, a igreja provavelmente era muito mais grandiosa do que a pequena cidade de Praia Perdida me­recia. Das seis altas janelas pontudas, três mantinham os vitrais origi­nais, representando Jesus em várias parábolas. Os outros três haviam sido perdidos com o tempo para vândalos, mau tempo ou terremotos, e foram substituídos por vitrais mais baratos, com motivos abs­tratos.

Quando Astrid entrou na igreja, abaixou-se sobre um dos joelhos e fez o sinal da cruz, olhando o crucifixo de tamanho intimidante acima do altar.

É essa igreja que você freqüenta? — perguntou Sam, num sus­surro.

É. E você?

Ele negou com a cabeça. Era a primeira vez que Sam entrava ali. Sua mãe era judia, mas não seguia os ritos, ninguém falava sobre o que o pai dele era, e o próprio Sam tinha apenas um vago interesse por religião. A igreja o fez sentir-se pequeno e definitivamente deslocado.

Caine havia se movido confiante para o altar. O altar propriamente dito não era muito grandioso, era só um retângulo de mármore claro em cima de três degraus cobertos de carpete marrom. Caine não foi até o púlpito alto e antiquado, ficou no segundo dos três degraus.

No total, 15 jovens estavam ali, inclusive Sam Temple, Quinn, Astrid e o Pequeno Pete, Albert Hillsborough e Mary Terrafino; Elwood Booker, o melhor atleta do nono ano e a namorada dele, Dahra Baidoo; Ore, cujo nome verdadeiro supostamente era Charles Merriman; Howard Bassem; e Cookie, cujo nome verdadeiro era Tony Gilder.

Da Academia Coates, além de Caine Soren, havia Drake Merwin, um garoto sorridente, jocoso, de olhar cruel, com cabelo crespo cor de areia; Diana Ladris; e um garoto do quinto ano, com óculos gran­des e cabelos louros amarrotados, como se tivesse acabado de acordar, apresentado por Caine como Jack Computador.

Todos os garotos de Praia Perdida sentaram-se nos bancos da igreja, com Ore e sua turma se esparramando no da frente. Jack Computador sentou-se o mais longe que pôde, na lateral. Drake Merwin ficou de pé, sorrindo, braços cruzados no peito, à esquerda de Caine, e Diana Ladris, à direita de Caine, observava a multidão.

De novo, Sam percebeu que os garotos da Coates haviam ensaiado tudo para aquela manhã, desde a carreata — que deveria ter exigido horas de treino de direção — até esta apresentação. Eles deviam ter começado a planejar e treinar logo depois da chegada do LGAR.

Esse era um pensamento perturbador.

Depois de todas as apresentações, Caine partiu rapidamente para explicar seu plano.

— Precisamos trabalhar juntos — anunciou. — Acho que devería­mos nos organizar de modo que as coisas não sejam destruídas e que os problemas possam ser enfrentados. Na minha opinião, nosso obje­tivo deveria ser a manutenção. De modo que, assim que a barreira baixar e as pessoas desaparecidas voltem, eles vejam que fizemos um ótimo trabalho mantendo as coisas em ordem.

O capitão já está fazendo isso — disse Howard.

Ele obviamente fez um trabalho excelente — admitiu Caine, descendo os degraus e indo na direção de Ore enquanto falava. — Mas isso é um fardo. Por que o capitão Ore tem de fazer todo o servi­ço? Acho que precisamos de um sistema, e também de um plano. Ca­pitão Ore — ele se dirigiu diretamente ao valentão —, tenho certeza de que você não quer precisar alocar comida, cuidar dos doentes e manter aquela creche funcionando, e ler todas as coisas que teria de ler, e escrever todas as coisas que teria de escrever, para estabelecer um novo sistema aqui em Praia Perdida.

Astrid sussurrou:

Ele adivinhou que Ore é quase analfabeto.

Ore olhou para Howard, que parecia hipnotizado por Caine, e deu de ombros. Como disse Astrid, a menção a ler e escrever deixou-o desconfortável.

Exatamente — disse Caine, como se o dar de ombros de Ore significasse concordância. Em seguida, voltou ao centro do palco e se dirigiu a todo o grupo: — Parece que temos uma fonte de eletricidade confiável, mas as comunicações estão cortadas. Meu amigo, Jack Computador, acha que consegue fazer os celulares funcionarem... — Houve um murmúrio empolgado, mas Caine levantou as mãos. — Não estou dizendo que poderemos falar com alguém do lado de fora do... como é que foi a expressão brilhante do Howard? Do LGAR? Mas pelo menos poderemos nos comunicar entre nós.

O olhar de todos foi na direção de Jack Computador, que engoliu em seco, balançou a cabeça concordando e empurrou os óculos para cima, vermelho.

Isso vai exigir um tempo, mas juntos podemos conseguir — disse Caine. Ele enfatizou sua certeza batendo o punho direito fechado na pal­ma da mão esquerda. — Além de um xerife para garantir que as regras sejam seguidas, um trabalho que acho que Drake Merwin está qualificado para fazer, já que seu pai é tenente da patrulha rodoviária, precisamos de um chefe de bombeiros para cuidar das emergências, e eu nomeio Sam Temple. Baseado no que as pessoas disseram antes sobre sua corajosa atuação no tal incêndio, acho que é uma escolha óbvia, não acham?

Houve cabeças balançando afirmativamente e murmúrios de con­cordância.

Ele está aliciando você — sussurrou Astrid. — Ele sabe que você é um concorrente.

Você não confia nele — sussurrou Sam de volta. Não era uma pergunta.

Ele é um manipulador, mas isso não significa que seja mau. Pode ser gente boa.

Mary falou:

Sam salvou a loja de ferramentas e a creche. E quase salvou aquela menininha. Aliás, alguém precisa enterrá-la.

Exato — disse Caine. — Se Deus quiser, não enfrentaremos essa necessidade de novo, mas alguém precisa enterrar os mortos. Assim como alguém precisa ajudar as pessoas que ficarem doentes ou se ma­chucarem. E alguém precisa cuidar das crianças pequenas.

Dahra Baidoo se levantou e disse:

Maria está cuidando totalmente das crianças peque... quero di­zer, pré-escolares — explicou. — Ela e o irmão, John.

Mas precisamos de ajuda — interrompeu Maria, rapidamente.

Não conseguimos dormir nunca. Estamos sem fraldas, comida e... - suspirou — tudo o mais. John e eu conhecemos as crianças, agora, e podemos organizar as coisas, mas precisamos de ajuda. Precisamos de muita ajuda.

Caine pareceu ficar triste, quase como se fosse derramar uma lágri­ma. Foi rapidamente até Maria, levantou-a e a envolveu com o braço.

Que pessoa nobre você é, Maria! Você e seu irmão poderão convocar quantas pessoas precisarem. Quantas serão necessárias para cuidar de tudo?

Maria calculou na cabeça.

Nós dois e mais quatro, talvez. — Depois, ganhando confiança, continuou: — Na verdade, precisamos de quatro de manhã, quatro à tarde e quatro à noite. E precisamos de fraldas e leite em pó. E preci­samos pedir às pessoas para nos trazer coisas, tipo comida.

Caine assentiu.

Os pequeninos são nossa maior responsabilidade. Maria e John, vocês têm autoridade absoluta para convocar qualquer pessoa que ne­cessitarem, e para exigir qualquer suprimento que for preciso. Se al­guém questionar, Drake e o pessoal dele, inclusive o capitão Ore, vão garantir que vocês tenham o necessário.

Maria pareceu emocionada e agradecida.

Howard, muito menos.

Espera aí. Deixei passar antes, mas você está dizendo que o Ore trabalha para esse cara? — Ele apontou o polegar para Drake, que apenas sorriu como um tubarão. — Nós não trabalhamos para nin­guém. O capitão Ore não trabalha para ninguém, nem sob o comando de ninguém, nem segue ordens de ninguém.

Sam viu uma expressão fria e furiosa surgir no rosto bonito de Cai­ne, e desaparecer tão rápido quanto viera.

Ore devia ter visto também, porque ficou de pé e Cookie o acom­panhou. Os dois seguraram firme seus bastões. Drake, ainda sorrindo, ficou entre eles e Caine. Uma luta estava chegando, súbita como um tornado.

Diana Ladris, estranhamente, estava olhando para Sam com aten­ção, como se não se preocupasse com Ore.

Caine suspirou, levantou as mãos e usou as duas palmas para alisar o cabelo.

Houve um ronco surdo, subindo pelo chão e pelos bancos. Um pequeno terremoto, bem pequeno, nada que Sam, como a maioria dos californianos, não tivesse sentido antes.

Todo mundo se levantou de um pulo; todos sabiam o que devia ser feito durante um terremoto.

Mas em seguida veio um som lacerante, de aço e madeira se torcen­do, e o crucifixo se separou da parede. Os parafusos que o prendiam no lugar se soltaram, como se um gigante invisível o tivesse arrancado do lugar.

Ninguém se mexeu.

Uma chuva de reboco e pedrinhas caiu no altar.

O crucifixo tombou para a frente. Caiu, como uma árvore serrada.

Durante sua queda Caine baixou as mãos ao lado do corpo. Seu rosto estava sério, duro e raivoso.

O crucifixo, que tinha pelo menos 3 metros de comprimento, ba­teu com força chocante no primeiro banco. O impacto foi alto e súbi­to como uma batida de carro.

Ore e Howard pularam de lado, mas Cookie foi lento demais. A barra horizontal da cruz acertou seu ombro direito.

Ele caiu e uma mancha vermelha começou a se espalhar pelo chão.

Tudo isso aconteceu em alguns instantes, tão rápido que as pessoas que estavam de pé não tiveram chance de fugir.

— Me ajudem, me ajudem! —- gritou Cookie.

Ele estava berrando no chão. O sangue escorria pelo tecido da ca­miseta, empoçava-se no chão de ladrilhos.

Elwood empurrou a cruz de cima dele e Cookie gritou.

Caine não havia se mexido. Drake Merwin ficou com o olhar frio fixo em Ore, os braços ainda cruzados, parecendo indiferente.

Diana Ladris manteve o foco em Sam. O risinho de quem sabia das coisas não sumiu de seu rosto.

Astrid agarrou o braço de Sam e sussurrou:

Vamos sair daqui. Precisamos conversar.

Diana viu isso também.

Ahhh, ahhh, me ajuda, ah, cara, estou machucado! — gritou Cookie.

Ore e Howard não fizeram qualquer movimento para ajudar o co­lega caído.

Caine, perfeitamente calmo, disse:

Isso é terrível. Alguém tem noção de primeiros socorros? Sam? Sua mãe era enfermeira.

O Pequeno Pete, que estivera quieto e imóvel como uma pedra, começou a se balançar cada vez mais rápido. Suas mãos se balançavam como se ele estivesse tentando evitar um ataque de abelhas.

Preciso tirá-lo daqui, ele está cada vez mais nervoso — disse Astrid, e levou o Pequeno Pete para longe. — Banco da janela, Petey, banco da janela.

Não sou enfermeiro — disse Sam, bruscamente. — Não sei...

Foi Dahra Baidoo que saiu de seu transe atordoado para se ajoelhar ao lado de Cookie, que se sacudia e berrava.

Eu sei um pouco de primeiros socorros. Elwood, me ajude.

Acho que temos nossa nova enfermeira — disse Caine, não pa­recendo mais agitado nem preocupado do que um diretor de escola anunciando um nome para o quadro de funcionários.

Diana se virou, passou por Caine e sussurrou algo no ouvido dele. Os olhos escuros de Caine varreram sobre os garotos chocados, pare­cendo avaliar um de cada vez. Formou um sorriso simples e assentiu imperceptivelmente para Diana.

Esta reunião está adiada até que possamos ajudar nosso colega ferido, o... como é mesmo o nome dele? Cookie?

A voz de Cookie estava mais urgente ainda, exigindo ajuda, à beira da histeria.

Dói mesmo, dói muito mesmo. Ah, meu Deus.

Caine levou Drake e Diana pelo corredor, passando por Sam, se­guindo Astrid e o Pequeno Pete para fora da igreja.

Drake parou na metade do caminho, virou-se e falou pela primeira vez. Numa voz divertida, disse:

Ah, é... capitão Ore? Mande seu pessoal, os que não estão feri­dos, fazer fila lá fora. Vamos pensar nas suas... hum... tarefas.

Com um riso que era quase um rosnado, Drake acrescentou, cheio de animação:

Mais tarde.

 

                           251 HORAS E 32 MINUTOS

JACK DEMOROU A perceber que deveria seguir Caine e os outros para fora da igreja. Pulou depressa demais e bateu com força no ban­co, fazendo um barulho que atraiu a atenção do garoto quieto que Caine havia chamado de herói.

Desculpe — disse Jack.

Jack saiu rapidamente. A princípio, não pôde ver nenhum dos ou­tros alunos da Coates. Havia um monte de gente do lado de fora da igreja, em grupos, falando sobre o que acontecera lá dentro. Os gritos de dor de Cookie estavam apenas ligeiramente abafados.

Jack notou a garota alta e loura que tinha visto dentro da igreja, junto com o irmãozinho.

Com licença, você sabe para onde o Caine e todo mundo foram?

A garota, ele não lembrava o nome, olhou-o nos olhos.

Está na prefeitura. Onde mais estaria o nosso novo líder?

Jack costumava não notar as nuances na fala das pessoas, mas não deixou de perceber o sarcasmo frio.

Desculpe incomodar você. — Ele empurrou os óculos de volta para o topo do nariz e tentou sorrir ao mesmo tempo. Balançou a ca­beça e olhou em volta, procurando a prefeitura.

É ali. — A garota apontou a direção certa. Depois disse: — Meu nome é Astrid. Você acha mesmo que pode fazer os celulares funcio­narem?

Claro. Mas vai demorar um tempo. Agora o sinal vai do seu te­lefone até a torre, certo? — Sua voz era condescendente e ele fez com as mãos o esquema de uma torre com raios confluindo. — Depois é mandado para um satélite, depois para baixo até um roteador. Mas não podemos mandar sinal para o satélite agora, de modo que...

Foi interrompido por um grito de dor chocante, vindo de dentro da igreja. Isso o fez encolher-se.

Como sabemos que não podemos alcançar o satélite? — pergun­tou Astrid.

Ele piscou, surpreso, e fez a expressão presunçosa que fazia sempre que alguém questionava sua capacidade técnica.

Duvido que você entenda.

Experimente, garoto — disse Astrid.

Para surpresa de Jack, a menina pareceu acompanhar tudo que ele dizia. Por isso, ele continuou explicando como poderia reprogramar alguns bons computadores para servir como um roteador primitivo para o sistema telefônico.

Não seria rápido. Quero dizer, não poderíamos fazer mais do que, digamos, uma dúzia de ligações simultâneas, mas deve funcionar em nível básico.

O irmãozinho de Astrid parecia estar hipnotizado pelas mãos de Jack, que agora as torcia, nervoso. Jack ficava ansioso longe de Caine. Antes de terem saído da Academia Coates, Drake Merwin havia aler­tado todo mundo de que deveriam evitar ao máximo muitas conversas com o pessoal de Praia Perdida.

E um aviso de Drake era coisa séria.

Bom, é melhor eu ir — disse Jack.

Astrid o impediu.

Então você curte computadores.

É. Sou ligado em tecnologia.

Quantos anos você tem?

Doze.

É bem novo para saber isso tudo.

Ele riu sem dar importância.

Nada que eu estive explicando é difícil de fazer. Não é uma coi­sa que a maioria das pessoas consegue, mas para mim não é difícil.

Jack nunca fora tímido quando o assunto era sua capacidade técni­ca. Havia ganhado seu primeiro computador de verdade com 4 anos, no Natal. Os pais ainda contavam a história de como o menino passou 14 horas com a máquina naquele primeiro dia, parando apenas para comer barras de cereal e tomar suco de caixinha.

Quando tinha 5 anos, podia facilmente instalar programas e nave­gar pela internet. Aos 6, seus pais lhe pediam ajuda com o computa­dor. Aos 8, ele tinha seu próprio site e atuava como suporte técnico não oficial da escola.

Aos 9 anos, Jack invadiu o sistema do departamento de polícia de sua cidade para apagar uma multa de trânsito do pai de um amigo.

Seus pais descobriram e entraram em pânico. No semestre seguin­te, ele foi enviado à Academia Coates, conhecida como um lugar para onde mandar crianças inteligentes e difíceis.

Mas Jack não era difícil, e ficou magoado. De qualquer modo, isso não o ajudou a ficar longe de encrenca. Pelo contrário; na Coates ha­via garotos que os pais de Jack chamariam de más influências. Alguns, eles chamariam de influências muito más.

E alguns eram simplesmente maus.

Então, o que seria difícil para você, Jack? — perguntou Astrid.

Quase nada — respondeu ele, com sinceridade. — Mas o que eu gostaria mesmo de fazer é colocar algum tipo de internet funcionan­do. Aqui no... o que quer que isso seja.

Parece que estamos chamando de LGAR.

É. Aqui no LGAR. Quero dizer, acho que existem cerca de 225 computadores bons, baseado no número de casas e empresas. A área de terra é bem pequena, por isso seria bastante fácil montar um Wi-Fi. Isso é mole. E, se eu tivesse um par de G5 velhos para trabalhar, acho que poderia montar um sistema local limitado.

Ele sorriu, feliz com o pensamento.

Seria fantástico. Então diga, Jack Comp... realmente devo cha­mar você de Jack Computador?

É como todo mundo me chama. Às vezes, é só Jack.

Certo, Jack. O que Caine está armando?

Jack foi apanhado desprevenido.

O quê?

O que ele está armando? Você é um garoto inteligente, deve ter alguma idéia.

Jack queria ir embora, mas não conseguia deduzir como. Astrid se aproximou e tocou seu braço. O garoto olhou para a mão dela.

Sei que ele está aprontando alguma coisa — disse Astrid. Seu irmãozinho fixou os olhos vazios e enormes na direção de Jack. — Sabe o que eu acho?

Jack balançou a cabeça lentamente.

Acho que você é uma pessoa legal. Acho que é muito inteligente, de modo que as pessoas nem sempre tratam você bem. Têm medo do seu talento. E tentam usar você.

Jack se pegou assentindo.

Mas não acho que aquele garoto, o Drake, seja uma pessoa le­gal. Estou certa, não estou?

Jack ficou completamente imóvel. Não queria revelar nada. Não era tão rápido em entender pessoas quanto em entender máquinas. A maioria das pessoas não era tão interessante.

Ele é barra-pesada, não é? Quero dizer, Drake.

Jack deu de ombros.

Foi o que pensei. E Caine?

Quando Jack não respondeu, Astrid deixou a pergunta no ar. O menino engoliu em seco e tentou desviar o olhar, mas não conseguiu.

Caine — repetiu Astrid. — Há alguma coisa errada com ele, não é?

A resistência de Jack Computador desmoronou, mas não sua cau­tela. Ele baixou a voz até um sussurro:

Ele consegue fazer coisas — disse Jack. — Consegue...

Jack. Aí está você.

Jack e Astrid levaram um susto. Era Diana Ladris. Ela acenou cor­dialmente para Astrid.

Espero que seu irmãozinho esteja bem. Pelo modo como você saiu correndo de lá, achei que talvez ele estivesse passando mal.

Não. Não, ele está bem.

Ele tem sorte de ter você. — Quando disse isso, Diana segurou a mão de Astrid, como se estivesse decidida a cumprimentá-la. Mas Jack sabia que não era assim.

Astrid puxou a mão.

Diana tinha um belo sorriso, mas não o usou agora. Jack se pergun­tou se Diana pudera acabar com Astrid. Provavelmente não; geral­mente ela demorava mais para ler o nível de poder de uma pessoa.

O clima de confronto foi quebrado pelo som de um motor a diesel. Era um garoto que parecia mexicano dirigindo uma retro-escavadeira pela rua.

Quem é aquele? — perguntou Diana.

Edilio — respondeu Astrid.

O que ele está fazendo?

O garoto na pá mecânica começou a cavar uma vala, bem na grama da praça, perto da calçada onde o corpo da menininha estava sob o cobertor, evitado por todos.

O que ele está fazendo? — repetiu Diana.

Acho que enterrando a menina morta — disse Astrid, baixinho.

Diana franziu a testa.

Caine não mandou que ele fizesse isso.

Quem se importa? — perguntou Astrid. — Isso precisava ser feito. Na verdade, acho que vou ver se posso ajudar. Você sabe, se achar que Caine não vai se importar.

Diana não sorriu. Também não rosnou, e Jack a vira fazer isso em mais de uma ocasião.

Você parece uma garota legal, Astrid — falou Diana. — Aposto que é um daqueles tipos nerds como Lisa Simpson, cheia de grandes idéias e preocupada em salvar o planeta ou seja lá o quê. Mas as coisas mudaram. Esta não é mais nossa vida antiga. É como... sabe como é? É como se você morasse antes num bairro muito bom e agora vivesse num bairro totalmente barra-pesada. Você não parece muito forte, Astrid.

O que provocou essa coisa? O LGAR. Você sabe? — perguntou Astrid, recusando-se a ficar intimidada.

Diana riu.

Alienígenas. Deus. Uma mudança súbita no contínuo espaço-tempo. Ouvi alguém chamar você de Astrid Gênio, então provavel­mente pensou em explicações que eu nem consigo imaginar. Não im­porta. Aconteceu. Aqui estamos.

O que Caine quer?

Jack não pôde acreditar que Astrid não tivesse murchado diante da confiança de Diana. A maioria das pessoas fazia isso. A maioria das pessoas não conseguia enfrentá-la. Quem enfrentava, lamentava.

Jack pensou ter visto uma fagulha de apreciação brilhar nos olhos escuros de Diana.

O que o Caine quer? Ele quer o que quer. E vai conseguir — disse Diana. — Agora, vá correndo lá para o enterro. Fique fora do meu caminho. E cuide do seu irmãozinho. Jack?

O som de seu nome arrancou Jack do transe.

O quê?

Vamos.

Jack foi andando atrás de Diana, envergonhado por sua obediência instantânea, canina.

Subiram os degraus da prefeitura. Caine havia ocupado o escritório do prefeito, o que não era surpresa para quem o conhecia. Estava atrás de uma enorme mesa de mogno, balançando-se devagar de um lado para o outro, numa cadeira de couro marrom grande demais.

Aonde você foi? — perguntou Caine.

Pegar Jack.

Os olhos de Caine piscaram rapidamente.

E onde estava o Jack Computador?

Em lugar nenhum — disse Diana. — Só andando por aí, perdido.

Ela estava protegendo-o, percebeu Jack, chocado.

Eu esbarrei com aquela garota — disse Diana. — A loura com o irmão estranho.

E?

O pessoal a chama de Astrid Gênio. Acho que ela tem a ver com aquele garoto, o do incêndio.

O nome dele é Sam — lembrou Caine.

Acho que temos de ficar de olho em Astrid.

Você a leu?

Consegui uma leitura parcial, por isso não tenho certeza.

Caine abriu as mãos, exasperado.

Por que eu estou implorando por informação? Só diga.

Ela tem umas duas barras.

Alguma idéia de qual pode ser o poder dela? Luz? Velocidade? Camaleão? Não outra Dekka, espero. Ela era difícil. E espero que não seja uma Leitora como você, Diana.

Diana balançou a cabeça.

Não faço idéia. Nem tenho certeza se ela alcança duas barras.

Caine assentiu. Depois suspirou como se o peso do mundo estives­se em seus ombros.

Ponha-a na lista, Jack. Astrid Gênio: duas barras. Com ponto de interrogação.

Jack pegou seu palmtop. O aparelho não se conectava mais à inter­net, claro, mas as outras funções permaneciam. Digitou o código de segurança e abriu o arquivo.

A lista se abriu. Havia 28 nomes, todos de alunos da Coates. Na coluna ao lado de cada nome havia um número: um, dois ou três. Só um nome tinha um quatro anotado depois: Caine Soren.

Jack se concentrou em digitar a informação.

Astrid. Duas barras. Ponto de interrogação.

Tentou não pensar no que isso significava para a loura bonita.

A coisa foi melhor do que eu esperava — disse Caine a Diana. — Eu previ que haveria algum valentão com quem teríamos de lidar. E disse que haveria um líder natural. O valentão está trabalhando para nós e precisamos ficar de olho no líder até que a gente possa cuidar dele.

Vou ficar de olho nele — disse Diana. — Ele é um gato.

Conseguiu fazer uma leitura?

Jack tinha visto Diana segurar a mão de Sam, por isso ficou espan­tado quando ela respondeu:

Não. Não tive chance.

Jack franziu a testa, sem saber se deveria lembrar a Diana. Mas era idiotice. Claro que Diana saberia, se tivesse lido Sam.

Faça isso o mais rápido que puder — disse Caine. — Você viu como todo mundo olhava para ele? E, quando pedi indicações, o nome dele foi o primeiro que mencionaram. Não gosto disso, já que é filho da enfermeira Temple. É uma coincidência ruim. Faça uma leitura dele. Se ele tiver o poder, talvez não possamos esperar para resolver isso.

Lana estava curada.

Mas estava fraca. Com fome. Com sede.

A sede era o pior. Não sabia se conseguiria suportar.

Mas havia passado pelo inferno e sobrevivido, e isso lhe dava al­gum motivo para ter esperança.

O sol havia nascido, mas ainda não estava tocando-a com seus raios. A ribanceira estava na sombra. Lana sabia que sua melhor chan­ce era voltar ao rancho antes que o chão ficasse quente como uma torta recém-saída do forno.

Não comece a pensar em comida — disse, rouca. Ficou animada ao descobrir que ainda possuía voz.

Tentou subir direto até a estrada, mas depois de arranhar os dois joelhos e ralar as duas palmas admitiu que não conseguiria. Nem Patrick conseguia subir. Era íngreme demais.

Com isso, restava seguir pela ribanceira até que, assim esperava, ela desse em algum lugar. Não era uma caminhada fácil. Na maioria dos lugares o terreno era duro, mas em outros, se soltava, deslizava e a fazia cair.

A cada vez que caía ficava mais difícil se levantar de novo. Patrick estava ofegando, andando com dificuldade, cansado e com os pés tão machucados quanto ela.

Estamos nisso juntos, certo, garoto?

Arbustos arranhavam as pernas, pedras machucavam os pés. Em alguns lugares, havia montes de espinheiros que tinham de ser trans­postos. Num lugar, os espinhos não puderam ser evitados, e ela preci­sou abrir caminho com uma cautela que desperdiçava tempo e acumu­lava arranhões que queimavam como fogo nas pernas nuas.

Mas, assim que passou, ela pôs a mão nos arranhões e a dor foi sumindo. Depois de uns dez minutos, não havia sinal dos arranhões.

Era milagroso. Lana estava convencida disso. Sabia que não tinha pessoalmente o poder de curar cães ou pessoas. Nunca tinha feito isso antes. Mas não sabia como o milagre funcionava. Sua mente estava em questões mais urgentes: como escalar essa encosta súbita ou rodear aquele trecho de espinheiros ou onde, nesta paisagem ressecada, ela poderia encontrar água e comida.

Desejou ter prestado muito mais atenção ao terreno enquanto ia e vinha do rancho. Essa garganta ia em direção ao rancho ou se desviava para longe? Ela estava chegando? Estaria andando às cegas para o verdadeiro deserto? Alguém estaria procurando por ela?

As paredes da ribanceira não eram mais tão altas, mas continuavam íngremes e ficavam mais próximas uma da outra. A fenda ia se estrei­tando. Isso com certeza era bom. Se ia se estreitando e ficando mais rasa, isso não significava que estaria chegando perto do fim?

Estava olhando para o chão, atenta para a possibilidade de cobras, quando Patrick parou.

O que foi, garoto? — Mas ela viu o que era. Havia uma parede atravessando a garganta. A parede era impossivelmente alta, mais alta do que a própria ribanceira, uma barreira feita de... algo que ela nun­ca tinha visto antes.

O simples tamanho, combinado com a absoluta estranheza neste lugar, provocou medo. Mas aquilo não parecia estar fazendo nada. Era só uma parede, translúcida como leite aguado. Brilhava só um pouqui­nho, como se tivesse um efeito de vídeo. Era absurda. Impossível. Uma parede onde parede nenhuma deveria estar.

Chegou mais perto, mas Patrick se recusou a ir junto.

Temos de ver o que é isso, garoto — instigou ela.

Patrick discordou. Não tinha o menor interesse em ver o que era.

De perto, ela conseguiu ver um leve reflexo de si mesma.

Provavelmente é bom eu não conseguir me ver melhor — mur­murou. Seu cabelo estava duro com o sangue seco. Sabia que estava imunda. Podia ver que as roupas estavam rasgadas, e não de um modo artístico, chique; só transformadas em tiras em alguns lugares.

Lana percorreu os últimos passos até a barreira e tocou-a com um dedo.

Ahh!

Gritou e puxou o dedo de volta. Antes do acidente, teria descrito a dor como lancinante. Agora tinha padrões diferentes para o que signi­ficava dor verdadeira. Mas não tocaria na parede de novo.

É algum tipo de cerca elétrica? — perguntou a Patrick. — O que isso está fazendo aqui?

Agora não havia opção, a não ser tentar escalar a lateral da gargan­ta. O problema é que Lana tinha quase certeza de que o rancho ficava à esquerda, e esse lado era impossível de subir. Precisaria de cordas e pinos de alpinista.

Achou que poderia conseguir pelo lado direito, indo de uma pedra tombada à outra. Mas, nesse caso, a não ser que tivesse virado total­mente ao contrário, colocaria a garganta entre ela e o rancho.

A alternativa restante era voltar por onde tinha vindo. Tinha demo­rado metade do dia para chegar até ali. O dia terminaria antes que ela pudesse retornar ao ponto de partida. Morreria onde havia começado.

Venha, Patrick. Vamos sair daqui.

Parecia ter demorado uma hora para subir a encosta da direita. O tempo todo sob o olhar silencioso e malévolo da parede que Lana passara a considerar uma coisa viva, uma enorme força malévola deci­dida a impedi-la.

Quando finalmente chegou ao topo, piscou e protegeu os olhos, depois olhou da esquerda para a direita, por todo o campo de visão. Foi então que quase desmoronou. Não havia nenhum sinal da estrada. Nenhum sinal do rancho. Apenas uma encosta íngreme e não mais do que cerca de um quilômetro de terreno plano antes que ela tivesse de começar a subir.

E aquela parede impossível. Aquela parede impossível, que não po­deria estar ali.

Um lado bloqueado pela garganta, o outro pelas montanhas, o tercei­ro pela parede, que atravessava a paisagem como se tivesse caído do céu.

O único caminho possível era voltar na direção de onde tinha vin­do, pela faixa estreita de terreno plano que acompanhava a garganta.

Abrigou os olhos e piscou ao sol.

Espera — disse a Patrick. — Tem alguma coisa lá.

Aninhado de encontro à barreira, não distante do pé das monta­nhas, era realmente um trecho de verde, tremeluzindo nas ondas de calor que subiam? Com certeza era uma miragem.

O que você acha, Patrick?

Patrick estava indiferente, seu ânimo havia sumido. Ele não estava em melhor condição do que ela.

Acho que tudo que temos é uma miragem.

Partiram juntos. Pelo menos era mais fácil do que subir a garganta, mas agora o sol parecia uma marreta, batendo na cabeça desprotegida de Lana. Ela podia sentir o corpo desistindo ao mesmo tempo em que seu espírito era torturado pela dúvida. Estava perseguindo uma mira­gem, com o que restava das forças. Morreria perseguindo uma mi­ragem idiota.

Mas o retalho verde não desapareceu. Foi lentamente ficando maior à medida que a distância diminuía. Agora, a consciência de Lana era uma vela tremulando. Acendendo e apagando. Alerta por alguns segundos, depois perdida num sonho disforme.

Lana cambaleava, os pés se arrastando, meio cega pela claridade implacável do sol, quando percebeu que seu pé havia passado da poei­ra para a grama.

Os dedos dos pés registraram a textura esponjosa da grama.

Era um gramado minúsculo, com 4x4 metros. No centro, havia um esguicho móvel, desligado. Mas uma mangueira partia do esguicho, rodeando uma pequena cabana de madeira sem janela.

Não era exatamente uma cabana, não era maior do que um único cômodo. Atrás, havia um barracão de madeira meio arruinado e uma espécie de moinho de vento, na verdade, só uma hélice de avião presa em cima de uma torre precária, com 6 metros de altura.

Lana cambaleou ao longo da mangueira, acompanhando-a até a fonte. Vinha de um tanque de aço que já fora pintado, agora estava lixado pela areia, sobre uma plataforma de dormentes ferroviários sob o moinho improvisado. Um tubo enferrujado se projetava do chão embaixo do moinho. Havia válvulas e tubos de conexão. A mangueira terminava numa torneira soldada no final do tanque.

É um poço, Patrick.

Lana atacou freneticamente com os dedos fracos a conexão da mangueira.

Ela se soltou.

Virou a torneira. Uma água quente e cheirando a minerais e ferru­gem saiu num jorro.

Lana bebeu. Patrick bebeu.

A menina deixou a água correr sobre o rosto. Deixou-a lavar o sangue do rosto. Deixou-a amaciar o cabelo cheio de sujeira.

Mas não tinha vindo até aqui para deixar sua salvação se esvair por um prazer momentâneo. Fechou a torneira de novo. A última gota tremeu na borda de latão, ela pegou-a na ponta do dedo e usou-a para limpar a crosta do olho ensangüentado.

Então, pela primeira vez numa eternidade, riu.

- Ainda não estamos mortos, não é, Patrick? Ainda não.

 

                                 HORAS E 12 MINUTOS

É PRECISO FERVER a água primeiro. Depois você coloca a massa - disse Quinn.

Como você sabe? — Sam estava franzindo a testa, girando uma caixa azul de macarrão parafuso e tentando encontrar as instruções.

Porque já vi minha mãe fazer desse tipo, um milhão de vezes. A água tem de começar a ferver primeiro.

Sam e Quinn olharam para a grande panela de água no fogo.

Uma panela vigiada não ferve nunca — disse Edilio. Sam e Quin olharam para o lado. Ediliu riu.

É só um ditado. Não é verdade verdadeira.

Eu sabia — disse Sam. Depois riu. — Certo, eu não sabia.

Talvez você pudesse acelerar o processo com suas mãos mágicas - sugeriu Quinn.

Sam ignorou-o. Achava irritantes as provocações de Quinn sobre esse assunto.

O posto dos bombeiros era um cubo de dois andares feito de blo­cos de concreto. Embaixo ficava a garagem que abrigava o caminhão e a ambulância.

O segundo andar era uma espécie de sala de estar, uma área grande que também abrigava uma cozinha, uma mesa comprida e dois so­fás que não combinavam. Uma porta levava a um quarto separado, estreito, cheio de camas, com espaço para seis pessoas.

A sala era quase alegre, mas não totalmente. Havia fotos de bom­beiros, alguns em poses rígidas e formais, alguns brincando com os colegas. Havia cartas de agradecimento de várias pessoas, inclusive cartas ilustradas da visita de alunos do primeiro ano, todas começando com "Querido Bombeiro", se bem que às vezes a grafia era misteriosa.

Quando os três tinham chegado, havia uma grande mesa redonda com os restos de um jogo de pôquer abandonado abruptamente — car­tas caídas, batatas fritas, charutos em cinzeiros —, mas ela já fora limpa.

E havia uma copa surpreendentemente bem abastecida: vidros de molho de tomate, latas de sopa, caixas de macarrão. Uma lata pintada de vermelho, com biscoitos feitos em casa, agora bem rançosos, mas não impossíveis de ser comidos, se fossem postos no micro-ondas por 15 segundos.

Sam havia aceitado a nomeação como chefe dos bombeiros não porque quisesse, mas porque tantas outras pessoas queriam que ele aceitasse. Esperava que ninguém o chamasse para fazer alguma coisa por que, depois de três dias no posto dos bombeiros, os três ainda nem sabiam como ligar o caminhão, quanto mais levá-lo a qualquer lugar ou fazer qualquer coisa com ele.

Na única vez em que um garoto chegou correndo e gritando "Fogo", Sam, Quinn e Edilio tinham praticamente arrastado uma mangueira e uma chave de hidrante por seis quarteirões até descobrir que o irmão do garoto havia posto uma lata no micro-ondas. A fuma­ça era só de um forno de micro-ondas queimado.

Mas, pensando pelo lado positivo, eles sabiam onde encontrar to­dos os suprimentos de emergência na ambulância. E tinham treinado com a mangueira grande e o hidrante do lado de fora, de modo que podiam ser mais rápidos e eficientes do que Edilio havia sido no pri­meiro incêndio.

E tinham dominado totalmente o mastro de descida dos bombeiros.

— Estamos sem pão — disse Edilio.

Não é preciso pão, se tiver massa — disse Sam. — Os dois são carboidratos.

Quem está falando em nutrição? O pão deve acompanhar a co­mida.

Achei que vocês comiam tortilhas — disse Quinn.

Tortilhas são pães.

Bom, não temos pão — disse Sam. — De tipo nenhum.

Dentro de mais uma semana ninguém vai ter pão — observou Quinn. — Pão tem de ser feito fresco, você sabe. Fica mofado depois de um tempo.

Três dias haviam se passado desde que Caine e seu grupo chegaram à cidade e basicamente assumiram o comando. Três dias sem que nin­guém viesse resgatá-los. Três dias da depressão se aprofundando. Três dias da aceitação crescente de que, pelo menos por enquanto, isso era a vida.

E o LGAR propriamente dito — todo mundo agora o chamava assim — tinha cinco dias de idade. Cinco dias sem adultos. Cinco dias sem mães, pais, irmãos mais velhos, professores, policiais, vendedores, pediatras, padres, dentistas. Cinco dias sem televisão, internet ou tele­fones.

A princípio Caine fora bem-vindo. As pessoas queriam alguém no comando. Queriam respostas. Queriam regras. Caine era bom em es­tabelecer a autoridade. A cada vez que Sam tivera de lidar com ele, saiu impressionado ao ver que Caine agia com confiança total, como se tivesse nascido para o cargo.

Mas, em apenas três dias, as dúvidas já haviam crescido também. As dúvidas giravam em torno de Caine e Diana, porém mais ainda em Drake Merwin. Alguns garotos argumentavam que era preciso alguém um pouco amedrontador para garantir que as regras fossem obedeci­das. Outros concordavam com isso, mas observavam que Drake era mais do que um pouco amedrontador.

Crianças que desafiavam Drake ou algum dos seus "xerifes" tinham levado tapas, socos, empurrões, sido derrubadas ou, uma vez, arrastada até um banheiro e tido a cabeça enfiada no vaso enquanto a descarga era dada. Ter medo de Drake estava substituindo o medo do desconhecido.

Eu sei fazer tortilhas frescas — disse Edilio. — Só preciso de farinha, um pouco de manteiga, sal e fermento. Temos tudo isso aqui.

Guarde para a noite dos tacos — disse Quinn. Em seguida pegou o macarrão da mão de Sam e jogou na panela.

Edilio franziu a testa.

Vocês ouviram alguma coisa?

Sam e Quinn congelaram. O som mais alto era a água fervendo.

Então todos ouviram. Uma voz gemendo alto.

Sam deu dois passos até o mastro dos bombeiros, enrolou os braços e as pernas nele e desceu pelo buraco no piso, pousando na garagem fortemente iluminada, lá embaixo.

A garagem estava aberta ao ar da tarde. Alguém — uma garota, a julgar pelo cabelo ruivo comprido — estava caído na entrada, como se tentasse engatinhar, mas sem ir de fato a lugar nenhum.

Três figuras avançavam vindas da rua.

Me ajuda — implorou a garota, baixinho.

Sam se ajoelhou ao lado dela. Em seguida, se encolheu, chocado.

Bette?

O lado esquerdo do rosto de Bette Ricochete estava coberto de sangue. Havia um talho em sua têmpora. Ela estava ofegando, engas­gando, como se tivesse despencado depois de uma maratona e tentas­se, com o último grama de energia, se arrastar até a linha de chegada.

Bette, o que aconteceu?

Eles estão tentando me pegar — gritou Bette, e agarrou o braço de Sam.

As três figuras escuras avançaram até a borda do círculo de luz. Uma era obviamente Ore; ninguém mais era tão grande. Edilio e Quinn chegaram à entrada da garagem.

Sam soltou-se de Bette e se posicionou ao lado de Edilio.

Se querem apanhar, vão apanhar! — gritou Ore.

O que está acontecendo aqui? — perguntou Sam. Em seguida, estreitou os olhos e reconheceu os outros dois garotos, um chamado Karl, do sétimo ano da escola, e Chaz, do oitavo na Coates. Os três estavam armados com bastões de alumínio.

Não é da sua conta — disse Chaz. — Estamos resolvendo uma coisa.

Resolvendo o quê? Ore, você bateu na Bette?

Ela violou as regras — disse Ore.

Você bateu numa garota, cara? — perguntou Edilio, ultrajado.

Cala a boca, cucaracha — retrucou Ore.

Cadê o Howard? — perguntou Sam, só para embromar enquan­to tentava pensar no que fazer. Já havia perdido uma briga com o grandalhão.

Ore recebeu a pergunta como um insulto.

Não preciso do Howard para cuidar de você, Sam.

Ore marchou direto até Sam, parou a meio metro de distância e pôs o bastão no ombro, como se estivesse disposto a rebater para um home run. Como um rebatedor pronto para a próxima bola rápida. Só que isso era mais como uma bola parada: era impossível não acertar a cabeça de Sam.

Saia da frente, Sam — ordenou Ore.

Certo, não vou entrar nessa de novo — disse Quinn. — Deixe que ele fique com ela, Sam.

Não vem com essa de "deixe" — reagiu Ore. — Eu faço o que eu quero.

Sam notou movimento atrás de Ore. Havia pessoas vindo pela rua, vinte ou mais. Ore também notou e olhou por cima dos ombros.

Eles não vão salvar você — disse Ore, e girou o bastão com força.

Sam se abaixou. O bastão passou fazendo vento junto à sua cabeça, e Ore girou meia-volta, levado pelo ímpeto.

Sam ficou desequilibrado, mas Edilio estava preparado. Soltou um rugido e se jogou de cabeça contra Ore. Edilio devia ter metade do tamanho de Ore, mas o grandão foi derrubado. Esparramou-se no concreto.

Chaz foi atrás de Edilio, tentando tirá-lo de cima de Ore.

A multidão de crianças que tinha vindo correndo pela rua avançou. Soaram vozes furiosas e ameaças, todas contra Ore.

Elas gritavam, notou Sam, mas não entravam realmente na luta desigual.

Uma voz atravessou todo o barulho.

Ninguém se mexa — disse Drake.

Ore empurrou Edilio de cima e ficou de pé. Começou a chutar Edilio, acertando golpes de Nike tamanho 45 nos braços defensivos de Edilio. Sam pulou para ajudar o amigo, mas Drake foi mais rápido. Chegou atrás de Ore e o agarrou pelo cabelo, puxou sua cabeça para trás e deu uma cotovelada no seu rosto.

Sangue jorrou do nariz de Ore e ele uivou de fúria.

Drake o acertou de novo e soltou Ore caído no concreto.

Que parte do "ninguém se mexa" você não entendeu, Ore? — perguntou Drake.

Ore se ajoelhou e partiu para Drake como um atacante de futebol americano. Drake se desviou de lado, ágil como um toureiro. Esten­deu a mão e disse a Chaz:

Me dê isso.

Chaz lhe entregou o bastão.

Drake acertou Ore nas costelas com um golpe rápido e forte do bastão. Depois de novo, nos rins e, de novo, na lateral da cabeça. Cada golpe era medido, preciso, eficaz.

Ore rolou de costas, impotente, exposto.

Drake empurrou o lado grosso do bastão contra a garganta de Ore.

Cara. Você precisa mesmo ouvir quando eu falo.

Então Drake riu, deu um passo atrás, girou o bastão no ar, pegou-o e pousou no ombro. Riu para Sam.

Agora, que tal dizer o que está acontecendo, senhor chefe dos bombeiros?

Sam já havia enfrentado valentões antes. Mas nunca tinha visto nada como Drake Merwin. Ore tinha pelo menos 20 quilos a mais, mas Drake havia cuidado dele como se fosse um bonequinho de ação.

Sam apontou para Bette, ainda encolhida no chão.

Acho que Ore bateu nela.

É? E daí?

E daí que eu não ia deixar que ele batesse de novo — disse Sam, o mais calmo que pôde.

Não me pareceu que você estava se preparando para salvar nin­guém. Parece que ia ter a cabeça arrancada dos ombros.

Bette não estava fazendo nada de errado — gritou uma voz agu­da no meio da multidão.

Sem olhar para trás, Drake disse:

Cala a boca. — E apontou para Chaz. — Você. Explique o que houve.

Chaz era um garoto de aparência atlética, com cabelos louros indo quase até os ombros e óculos de grife. Estava usando o uniforme da Coates, sujo e amarrotado depois de dias de uso.

Essa garota estava fazendo alguma coisa. — Apontou para Bette. — Estava usando o poder.

Sam sentiu um arrepio gelado na coluna.

O poder, ele havia dito. Como se fosse algo que a gente mencionas­se numa conversa comum. Como se fosse uma coisa comum da qual todo mundo soubesse.

Drake deu um risinho.

Ora, o que você está dizendo, Chaz? — O modo como ele falou era uma ameaça inconfundível.

Nada — respondeu Chaz, rapidamente.

Ela estava fazendo um truque de mágica — gritou uma voz. — Não estava machucando ninguém.

Eu falei para parar. — Ore estava de pé outra vez, olhando para Drake com ódio sem disfarces, mas também com alguma cautela.

Ore é um sub-xerife — disse Drake, em voz razoável. — Portan­to, quando ele manda alguém parar de fazer alguma coisa errada, a pessoa tem de parar. Se essa garota se recusou a obedecer, bom, acho que ela teve o que merecia.

Vocês não têm o direito de bater nas pessoas — disse Sam.

Drake tinha um riso de tubarão: dentes demais, humor de menos.

Alguém tem de fazer com que as pessoas sigam as regras. Certo?

Há regras contra fazer truques de mágica? — perguntou Edilio.

Sim — respondeu Drake. — Mas acho que as pessoas não sa­biam. Chaz? Dê a última cópia das regras ao chefe dos bombeiros.

Sam pegou um pedaço de papel amarrotado e dobrado, sem olhá-lo.

Aí está — disse Drake. — Agora você sabe as regras.

Ninguém está fazendo mágica por aqui — disse Quinn, apaziguador.

Então meu trabalho está feito — respondeu Drake, e riu de sua própria piadinha. Em seguida, jogou o bastão de beisebol de volta para Chaz. — Certo. Todo mundo vá para casa.

Bette vai ficar aqui um tempo — disse Sam.

Tanto faz.

Drake saiu acompanhado por Ore e os outros. A multidão se divi­diu para ele passar.

Sam se ajoelhou ao lado de Bette.

Vamos fazer uns curativos em você.

Que negócio de truques de mágica é esse? — perguntou Quinn.

Bette balançou a cabeça.

Não foi nada.

Ela vez umas bolinhas de luz saírem das mãos — disse uma criança pequena. — Foi um truque maneiro.

Certo, vocês ouviram o que o Drake disse: todo mundo fora daqui — disse Quinn em voz alta. — Todos vão para casa.

Sam, Quinn e Edilio carregaram Bette para dentro e fizeram com que ela se sentasse na ambulância. Edilio usou gaze estéril para limpar o sangue do rosto dela, aplicou uma pomada antibiótica e usou dois curativos adesivos para fechar o ferimento.

Você pode passar a noite aqui, Bette — disse Sam.

Não, preciso ir para casa, meu irmão vai precisar de mim — dis­se Bette. — Mas obrigada. — Ela conseguiu sorrir para Edilio. — Des­culpe, por fazer você ser chutado.

Edilio deu de ombros, sem graça.

Não foi grande coisa.

Sam saiu para levar Bette até em casa. Quinn e Edilio subiram a escada de volta.

Quinn foi até a panela e usou a escumadeira para pegar alguns pe­daços de macarrão parafuso. Provou um.

Está que nem mingau, cara.

Cozinhou demais — concordou Edilio, olhando por cima do ombro dele.

Um pacote de Cheerios? — perguntou Quinn.

Serviu-se de um pouco e começou a cantarolar sozinho, decidido a não conversar com Edilio. Mal estava suportando Edilio. Sua animação. Sua competência em praticamente tudo. E agora mesmo, o modo como havia se lançado contra Ore como uma espécie de super-herói mexicano.

Era idiotice, pensou Quinn, era idiotice ir contra um cara como o Ore. Já era ruim o que havia acontecido com Bette, mas de que adian­tava arranjar briga com alguém que você não podia vencer? Se Drake não tivesse aparecido, Edilio teria sorte se estivesse andando agora.

Pensando bem...

Sam retornou. Assentiu para Edilio e mal olhou para Quinn.

Quinn trincou os dentes. Perfeito. Agora Sam estava com raiva dele por não ter tido a cabeça arrebentada. Como se Sam fosse um tremen­do herói. Quinn podia se lembrar de montes de vezes em que Sam havia choramingado fugindo de ondas que Quinn enfrentara. Um monte de vezes.

O macarrão não sobreviveu — disse Quinn.

Levei Bette para casa. Espero que ela esteja bem. Ela disse que estava bem.

Bette tem o que você tem, não é? — perguntou Quinn, enquan­to Sam se sentava e mergulhava em sua própria tigela de cereal.

É. Talvez menos, acho. Ela disse que só consegue fazer as mãos meio que se iluminarem.

Então ela ainda não queimou o braço de ninguém até ser ampu­tado, não é? — Quinn estava cansado de como Sam o olhava, com uma mistura de pena e desprezo. Estava cansado de ser menosprezado só porque tinha um pouco de bom-senso e cuidava da própria vida.

Sam levantou a cabeça, com os olhos estreitados, como se fosse discutir. Mas apertou os lábios numa linha séria, empurrou a comida para longe e não disse nada.

É por isso que você não pode contar a ninguém — disse Quinn. — As pessoas vão achar que você é uma aberração. Você sabe o que acontece com as aberrações.

Bette não é uma aberração — disse Sam, no modo calmo força­do que tinha, com aquela sua coisa de dentes trincados. — É só uma garota da escola.

Não seja idiota, Sam. Bette, o Pequeno Pete, a garota do incên­dio, você. Se existem quatro, existem mais. As pessoas normais não vão gostar disso. As pessoas normais vão achar que vocês são perigo­sos ou sei lá o quê.

É o que você acha, Quinn? — perguntou Sam, em voz baixa. Mas, mesmo assim, evitou encarar Quinn.

Sam encontrou a folha de regras no bolso de trás, desdobrou-a e abriu sobre a mesa.

Só estou dizendo para olhar em volta, cara — disse Quinn. — O pessoal já tem muito com que ficar apavorado. Como é que as pessoas normais...

Quer parar de dizer "pessoas normais" desse jeito? — reagiu Sam, rispidamente.

Edilio, agora sempre o pacificador entre Sam e Quinn, disse:

Leia as regras, cara.

Sam suspirou. Alisou o papel com cuidado, olhou a página inteira e fez um ruído grosseiro.

A número um diz que Caine é o prefeito de Praia Perdida e de toda a área conhecida como LGAR.

Edilio fungou.

Ele não é nem um pouco presunçoso, não é?

Número dois: Drake é nomeado xerife e tem o poder de imple­mentar as regras. Número três, eu sou o chefe dos bombeiros e res­ponsável por cuidar das emergências. Fantástico. Sorte minha. — Ele ergueu os olhos e acrescentou: — Sorte nossa.

Legal da sua parte se lembrar das pessoas sem importância — provocou Quinn.

Número quatro, ninguém pode entrar em nenhuma loja e pegar nada sem permissão do prefeito ou do xerife.

Você é contra isso? — disse Quinn. — As pessoas não podem ficar saqueando as coisas o tempo todo, pegando o que quiserem.

Não sou contra isso — concordou Sam, relutante. — A cinco diz que todos temos de ajudar Mãe Maria na creche, dar o que ela pedir e ajudar sempre que precisar. Certo. Bastante justo. Seis: não matarás.

Verdade? — perguntou Quinn.

Sam deu um sorriso triste, como fazia quando estava cansado de ficar furioso e esperava que todo mundo também estivesse.

Brincadeira — disse.

Certo, para de palhaçada e leia.

Só estou tentando manter o senso de humor enquanto o mundo desmorona ao nosso redor — disse Sam. — Seis: temos de ajudar em trabalhos como revistar casas ou coisas do tipo. Sete: todos devemos dar informações sobre mau comportamento a Drake.

Então todos devemos ser informantes — disse Edilio.

Não se preocupe, não tem polícia contra imigração — disse Quinn. — E, de qualquer modo, se alguém puder descobrir como mandar você de volta para o México, eu vou junto.

Honduras — respondeu Edilio. — Não México. Pela, sei lá, décima vez.

Número oito, aqui está. Vou ler exatamente como está escrito — disse Sam. — As pessoas não farão truques de mágica nem qualquer outro ato que cause medo ou preocupação.

O que isso quer dizer? — perguntou Quinn.

Significa que Caine obviamente sabe sobre o poder.

Grande surpresa. — Edilio balançou a cabeça por cima da tigela de cereal. — A garotada falando disso como se fosse um ato de Deus. Eu sempre disse que Caine tinha o poder. As pessoas ficam dizendo que Caine é como um mago.

Não, cara — disse Quinn. — Se ele tivesse o poder, não manda­ria Ore e Drake impedir as pessoas de usarem também.

Claro que mandaria, Quinn — respondeu Sam. — Se ele quises­se ser o único que tivesse.

Que paranóia, brou!

Número nove — Sam continuou a ler. — Estamos em situação de emergência. Durante esta crise, ninguém deve criticar, ridicularizar nem atrapalhar qualquer pessoa que esteja cumprindo seus deveres oficiais.

Quinn deu de ombros.

Bom, nós estamos numa crise, certo? Se isso não for uma crise, não sei o que seria.

Então de repente não podemos dizer nada? — Sam estava balan­çando a cabeça, incrédulo. O momento de tentativa de reconciliação havia passado. Sam estava desapontado com Quinn de novo.

Olha, é que nem na escola, certo? — argumentou Quinn. — Você não pode detonar os professores. Pelo menos não na cara deles.

Então você vai adorar o número dez, Quinn. "O xerife pode decidir que as regras acima são insuficientes para cobrir algumas situações de emergência. Nesses casos, o xerife pode formular quaisquer regras necessárias para manter a ordem e as pessoas em segurança."

Formular — fungou Quinn. — Parece que Astrid ajudou a escrever.

Sam empurrou o papel.

Não. Não é o estilo de Astrid. — Ele cruzou as mãos, colocou-as na mesa e anunciou. — Isso é errado.

A expressão preocupada de Edilio espelhava a de Sam.

É, cara, isso não é certo. Isso é dizer que Caine e Drake podem fazer o que quiserem, quando quiserem.

É exatamente isso — concordou Sam. — E ele está fazendo as pessoas começarem a suspeitar umas das outras, virando umas contra as outras.

Quinn riu.

Você não sacou, brou. As pessoas já têm suspeitas. Esse não é um tempo normal, certo? Nós estamos isolados, não temos nenhum tipo de adulto, nem polícia, nem professores, nem pais, e, sem ofensa, al­guns de nós estão... tipo, sofrendo mutações ou sei lá o quê. Você age como se esperasse que tudo continuasse normal, como se não existisse o LGAR.

Sam estava farto de bancar o paciente.

E você age como se achasse que Bette merecia aquela surra. Por que não está chateado, Quinn? Por que concorda com a idéia de que uma garota que nós conhecemos, uma garota que nunca fez mal a ninguém, seja espancada pelo Ore?

Ah, é por aí que você vai? Como se fosse minha culpa? — Quinn se levantou e empurrou a cadeira para trás. — Olha, Sam, não estou dizendo que é certo baterem nela, está bem? Mas o que você queria? Quero dizer, tem gente que é apanhada por usar roupa inadequada, fazer bobagem no esporte ou qualquer coisa assim. E isso quando existem professores e pais por perto. É a vida. Você acha que agora, com tudo tão bagunçado desse jeito, o pessoal vai pensar: "ah, o Sam consegue disparar raios de fogo pelos olhos ou sei lá o quê, tudo bem, isso é maneiro?" Não, brou, as coisas não são assim.

Para surpresa de Quinn, e mais ainda de Sam, Edillio disse:

Ele está certo. Se houver mais pessoas, você sabe, como você e Bette, vão haver problemas. Algumas pessoas com poder, outras sem. Eu estou acostumado a ser cidadão de segunda classe. — Ele lançou um olhar sombrio para Quinn, mas Quinn ignorou. — As outras pes­soas vão ficar com ciúme, vão se amedrontar e, de qualquer modo, todo mundo está apavorado, então vão procurar alguém para culpar. Em espanhol nós chamamos isso de cabeza de turco. Significa alguém a quem culpar por todos os seus problemas.

Bode expiatório — traduziu Quinn.

Edilio assentiu.

É isso aí. Bode expiatório.

Quinn abriu os braços numa expressão de inocência sofrida.

O que eu estive dizendo? É como é: se você é diferente, acaba sendo vítima. Você tenta bancar o superior, Sam, todo indignado, mas ainda não sacou. O pior que acontecia quando a gente ficava encren­cado era receber uma suspensão, um zero ou algo assim. Sempre hou­ve valentões, mas os adultos ainda estavam no comando. Agora? Ago­ra os valentões comandam. E um jogo diferente, irmão, um jogo totalmente diferente. Agora jogamos pelas regras dos valentões.

 

                         169 HORAS E 18 MINUTOS

— PRECISO DE MAIS comprimidos — gritou Cookie, numa voz que, para consternação de Dahra Baidoo, nunca parecia enfraquecer nem ficar mais rouca.

É muito cedo — disse Dahra, pela milionésima vez nos últimos três dias.

Me dá os comprimidos! — berrou Cookie. — Tá doendo. Tá doendo demais.

Dahra apertou os ouvidos com as mãos e tentou entender o texto aberto à sua frente. Provavelmente seria fácil deduzir o que fazer se ainda tivesse internet. Então poderia abrir uma página no Google e digitar "Vicodin" e "overdose". Era mais difícil conseguir uma respos­ta direta no grosso e muito manuseado Livro de referência médica que alguém lhe trouxera do único consultório médico de Praia Perdida.

O problema, dentre outras coisas, era que ela estava brincando de fazer misturas com tudo, desde Advil até Vicodin e Tylenol com codeína. Não havia nada no livro sobre como controlar a dor misturan­do um pouquinho disso e um pouquinho daquilo e não o suficiente de qualquer coisa.

O namorado de Dahra, Elwood, estava caído numa poltrona, apa­gado. Ele fora um amigo fiel, pelo menos ficando perto e fazendo companhia. E sempre a ajudava a levantar Cookie para enfiar a coma­dre embaixo de sua bunda quando ele precisava.

Mas havia limites ao que seu namorado faria. Ele não limpava a comadre. Não segurava o urinol quando Cookie precisava urinar.

Dahra havia feito isso. Nos três dias desde que, acidentalmente, se tornara responsável por esse reino de sofrimento subterrâneo, sórdi­do, sem janelas e sem alegria, embaixo da igreja. Fizera todo tipo de coisas que nunca se imaginara capaz de fazer. Coisas que certamente não queria fazer, inclusive dar injeções diárias de insulina em uma criança diabética de 7 anos.

Houve uma batida à porta e Dahra girou a cadeira para longe da mesa e do círculo de luz que se derramava sobre o livro quase inútil.

Maria Terrafino estava ali com uma menina que aparentava ter uns 4 anos.

Oi, Maria — disse Dahra. — O que temos aí?

Desculpe incomodar. Sei como você está ocupada. Mas ela está com algum tipo de dor de barriga.

As duas garotas se abraçaram. Conheciam-se desde muito antes do LGAR, mas agora eram como irmãs.

Dahra se ajoelhou para ficar no mesmo nível da menininha.

Oi, querida. Qual é o seu nome?

Ashley.

Certo, Ashley, vamos verificar sua temperatura e ver o que está acontecendo. Pode vir aqui e se sentar na mesa?

Dahra enfiou o termômetro eletrônico numa cobertura de plástico nova e enfiou-o na boca da menina.

Você leva jeito — disse Maria, e sorriu.

Cookie berrou de repente, tão alto e de modo tão chocante que Ashley quase engoliu o termômetro.

Estou ficando sem comprimidos para dor — disse Dahra. — Não sei o que fazer. Esvaziamos o consultório do médico e às vezes recebemos uns remédios que as pessoas encontram quando revistam casas. Mas ele está sentindo dor demais.

Ele está melhorando? Quero dizer, do ombro?

Não. E não vai melhorar. Eu só posso manter o ferimento lim­po. — Ela examinou o termômetro. — Trinta e sete vírgula seis. Está dentro do normal. Deite-se e deixe eu ver uma coisa. Vou apertar sua barriga. Pode fazer um pouco de cócegas.

Você vai me dar injeção? — perguntou a menina.

Não, querida. Só quero apertar sua barriga. — Dahra apertou com as pontas dos dedos, apertou bem até embaixo e soltou de repen­te. — Isso doeu?

Só cosquinha.

O que você está verificando? — perguntou Maria.

Apendicite. — Dahra deu de ombros. — É praticamente só isso que eu sei, Maria. Quando procuro "dor de barriga" tem milhões de resultados, desde prisão de ventre até câncer de estômago. Provavel­mente ela precisa fazer cocô. — Virando-se para a menininha, disse: — Você fez cocô hoje?

Acho que não.

Vou colocá-la no vaso — disse Maria.

Dá um pouco d'água para ela. Tipo, uns dois copos.

Maria apertou sua mão.

Sei que você não é médica, mas fico feliz que esteja aqui.

Dahra suspirou.

Estou tentando ler aquele livro. Mas, na maior parte do tempo, ele me apavora. Quero dizer, tem um milhão de doenças de que nunca ouvi falar e em que nem quero pensar.

É. Imagino.

Maria estava embromando. Dahra perguntou se havia mais alguma coisa.

Escuta, sei que isso é esquisito e coisa e tal — disse Maria, bai­xando a voz para um tom de confidência. — Mas qualquer coisa que eu disser a você...

Não comento com ninguém sobre o que acontece aqui — disse Dahra, meio seca.

Eu sei. Desculpe. Não é... quero dizer, é um negócio meio ver­gonhoso.

Maria. Eu estou para além da vergonha. Agora estou enfiada no humilhante e nojento, de modo que nada que você disser vai me inco­modar.

Maria assentiu. Em seguida torceu os dedos e disse rapidamente:

Olha, eu tomo Prozac.

Para quê?

Só uns... você sabe... uns probleminhas. O negócio é que os meus acabaram. Sei que não é tão importante quanto um monte de coisas que você faz. — Lançou um olhar para o Cookie. — É só que, quando estou sem os comprimidos, eu fico... — Ela sugou o ar com força e deu um suspiro que era quase um soluço.

Sem problema — disse Dahra. Ela queria mais informações, mas seu instinto a mandou deixar para lá. — Deixe eu ver o que tenho. Você sabe qual é dosagem do comprimido que você toma?

Quarenta miligramas, uma vez por dia.

Preciso mijar — gemeu Cookie, numa voz de dar pena.

Dahra foi até o armário onde guardava os remédios. Alguns esta­vam em grandes frascos brancos, de farmácia, alguns em frascos me­nores, marrons, com tampa de rosca. E tinha algumas caixas de amos­tras grátis do consultório do médico.

Elwood acordou fungando.

Ah. Cara. Caí no sono.

Oi, Elwood — disse Maria.

Ahã — resmungou Elwood. Em seguida, pousou a cabeça na mão e voltou a dormir.

Ele é legal, ficando com você — disse Maria.

Ele é inútil — disse Dahra, rispidamente. Mas depois cedeu. — Por outro lado, pelo menos está aqui. Acho que posso dar uns compri­midos de 20 miligramas e você toma dois. — Ela jogou as cápsulas na mão. — Tem o bastante para uma semana. Desculpe, não tenho um vidro nem nada.

Maria pegou os comprimidos, agradecida.

Você é uma boa pessoa, Dahra. Quando isso tudo acabar, algum dia, você sabe, quando a gente crescer... Você pode virar médica.

Dahra deu um riso amargo.

Depois disso, Maria, a última coisa que eu quero ser é médica.

A porta do hospital se abriu de súbito. As duas garotas se viraram rapidamente e viram Bette Ricochete. Ela veio cambaleando, apertan­do a cabeça com as mãos.

Minha cabeça dói — disse Bette. Mal dava para entendê-la, tão enrolada estava sua voz. O braço esquerdo parecia sem vida, penden­do frouxo ao lado do corpo. A perna esquerda se arrastava enquanto ela dava vários passos mais para perto.

Dahra correu para pegá-la enquanto Bette desmaiava.

Elwood, acorda! — gritou Dahra.

Dahra, Elwood e Maria praticamente carregaram Bette até a maca onde Ashley fora examinada.

Preciso fazer cocô agora — disse Ashley.

Ah, meu Deus, preciso de mais comprimidos! — uivou Cookie.

Cala a boca! — gritou Dahra. Em seguida, apertou os ouvidos com as mãos e fechou os olhos com força. — Todo mundo cala a boca!

Agora Bette estava na maca, sussurrando:

Desculpe. — Parecia mais "sscup".

Não era com você, Bette — desculpou-se Dahra. — Apenas dei­te-se. —- Dahra olhou o rosto dela e disse a Elwood. — Pegue o livro.

Ela colocou o Livro de referência médica aberto na barriga de Bette e começou a folhear o índice.

Mm beç dói — disse Bette. Ela levantou o braço bom para tocar o calombo sangrento na lateral da cabeça.

Alguém bateu em você, Bette? — perguntou Elwood.

Bette pareceu confusa com a pergunta. Franziu a testa, como se não fizesse sentido. Gemeu de dor.

Um lado do corpo dela não está funcionando direito — disse Dahra. — Olhe como a boca está torta. E os olhos. Não estão virados para o mesmo lado.

Mm beç dói mui — gemeu Bette.

Acho que ela está dizendo que a cabeça dói — disse Maria. — O que vamos fazer?

Não sei, que tal eu abrir a cabeça dela e ver se posso consertar?

Dahra estava com a voz esganiçada. — Depois vou fazer uma cirur­gia rápida no Cookie. Sem problema. Quero dizer, eu tenho esse livro idiota. — Ela pegou o livro e jogou-o longe. Ele deslizou pelo piso de linóleo encerado.

Dahra respirou fundo várias vezes. A menininha, Ashley, estava chorando. Maria olhava para Dahra como se ela tivesse enlouquecido. Cookie estava alternando entre gritar pedindo comprimidos e chorar dizendo que precisava mijar.

C'dar mer mão — disse Bette. Ela agarrou o braço de Maria.

Mer mão inh.

O rosto de Bette se contorceu de dor. E então suas feições se rela­xaram.

Bette — disse Dahra.

Bette. Ah... não faça isso, Bette.

Bette — sussurrou Dahra.

Em seguida, pôs dois dedos no pescoço de Bette.

O que ela disse? — perguntou Elwood. Maria respondeu:

Acho que estava pedindo para a gente cuidar do irmão dela.

Dahra levantou os dedos do pescoço de Bette. Acariciou uma vez o rosto da menina, uma despedida demorada.

Ela... — Maria não conseguiu terminar a pergunta.

É — sussurrou Dahra. — Provavelmente estava sangrando den­tro da cabeça, não só do lado de fora. Quem bateu na cabeça dela, matou-a. Elwood, vá procurar o Edilio no posto dos bombeiros. Diga que precisamos enterrar Bette.

Ela está com Deus agora — disse Maria.

Não sei se existe Deus no LGAR — respondeu Dahra.

Enterraram Bette perto da garotinha incendiária, na praça, à uma da madrugada. Não havia lugar para manter os corpos, e nenhum modo de prepará-los para a sepultura.

Edilio abriu a cova com a retro-escavadeira. O som da máquina, o esforço do motor, as sacudidas súbitas da pá, tudo parecia horrivel­mente alto e deslocado.

Sam estava ali, junto com Astrid e o Pequeno Pete; também esta­vam Maria, Albert, que veio do McDonald's, Elwood, representando Dahra, que teve de ficar com Cookie, e as gêmeas Anna e Emma. O irmãozinho de Bette, de 9 anos, também estava ali, soluçando abraça­do a Sam. Quinn optou por não comparecer.

Sam e Edilio haviam carregado o corpo de Bette pelos poucos me­tros desde o porão da igreja até a praça.

Não conseguiram pensar num modo gentil ou digno de baixar Bet­te na cova, por isso, no fim, apenas a rolaram para dentro. Ela fez o som de uma mochila largada.

A gente deveria dizer alguma coisa — sugeriu Anna. — Talvez coisas que a gente lembre sobre a Bette.

E fizeram isso, contando as poucas histórias que conseguiam recor­dar. Nenhum deles tinha sido amigo íntimo dela.

Astrid começou a rezar o Pai-Nosso.

Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso nome. — O Pequeno Pete rezou junto com ela. Mais palavras do que qualquer pessoa o tinha ouvido falar. Os outros, exceto Sam, acompanharam.

Então cada um jogou uma pá de terra sobre ela e recuou, enquanto Edilio usava a retro-escavadeira para terminar o serviço.

Amanhã vou fazer uma cruz para ela — disse Edilio, quando terminou.

Enquanto a cerimônia estava terminando, Ore e Howard aparece­ram, fantasmas na névoa, olhando. Ninguém falou com eles. Partiram depois de alguns minutos.

Eu não deveria ter deixado que ela fosse para casa — disse Sam a Astrid.

Você não é médico. Não havia como saber que ela estava com uma hemorragia interna. E, de qualquer modo, o que poderia ter fei­to? A questão é: o que vamos fazer agora?

O que você quer fazer?

Ore assassinou Bette — disse Astrid, categoricamente. — Talvez não tenha sido intencional, mas mesmo assim é assassinato.

É. Ele matou-a. E o que você quer fazer?

Pelo menos podemos exigir que alguma coisa seja feita com o Ore.

Exigir de quem? — Sam fechou o zíper da jaqueta. Estava frio. — Quer exigir justiça do Caine?

Pergunta retórica — comentou Astrid.

Isso significa que é uma pergunta que eu não devo esperar que você possa responder?

Astrid assentiu. Nenhum deles teve nada a dizer durante um tempo. Maria e as gêmeas, rebocando o irmão de Bette, voltaram para a creche.

Elwood disse, a ninguém em particular:

Não sei se Dahra vai conseguir agüentar a barra por muito mais tempo. — Depois ajeitou os ombros e marchou de volta para o hospital.

Edilio veio para perto de Sam e Astrid.

Isso não pode ser só uma coisa que aconteceu — disse ele. — Ouviram? Se nós deixarmos para lá, onde isso vai parar? As pessoas não podem espancar as outras a ponto de elas morrerem.

Você tem alguma sugestão? — perguntou Sam, com frieza.

Eu? Eu sou o cucaracha, lembra? Não sou daqui, nem conheço essas pessoas. Não sou a grande gênio nem sou o sujeito que tem um tal poder, cara. — Edilio chutou a terra com força, como se fosse al­guém que ele quisesse machucar. Parecia a ponto de dizer mais alguma coisa, mas mordeu o lábio, girou e foi embora.

Caine tem Drake e Ore, Panda e Chaz — disse Sam. — E ouvi dizer que o Martelo fez as pazes com ele. E talvez meia dúzia de outros caras.

Você tem medo deles? — perguntou Astrid.

Tenho, Astrid.

Certo — disse ela. — Mas você também tinha medo de entrar num prédio em chamas.

Você não está entendendo, né? — perguntou Sam, com raiva suficiente para fazer Astrid dar um passo atrás. — Sei o que você quer, certo? Sei o que você e um punhado de outras pessoas querem. Que­rem que eu seja o anti-Caine. Vocês não gostam de como ele está fazen­do as coisas e querem que eu o enfrente. Bom, vocês só não sabem de uma coisa: mesmo que pudesse fazer isso, eu não seria nem um pouco melhor do que ele.

Você está errado, Sam. Você é...

Sabe aquela noite em que usei o poder pela primeira vez? Quan­do machuquei meu padrasto? Como você acha que eu me senti?

Triste. Arrependido. — Astrid olhou para o rosto dele como se a resposta estivesse escrita ali. — Com medo, provavelmente.

  1. Tudo isso. E mais uma coisa. — Ele levantou a mão a centíme­tros do nariz dela e fechou os dedos formando um punho. — Também senti uma força, Astrid. Um barato. Pensei: ah, meu Deus, olha o poder que eu tenho. Olha o que posso fazer. Um barato enorme, louco.

O poder corrompe — disse Astrid, baixinho.

É — concordou Sam, sarcástico. — Já ouvi dizer.

O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. Esqueci quem disse isso.

Eu cometo muitos erros, Astrid. Não quero cometer mais esse. Não quero ser aquele cara. Não quero ser Caine. Quero... — Ele abriu os braços, um gesto de desamparo. — Só quero surfar.

Você não vai se corromper, Sam. Você não faria essas coisas. — Ele havia recuado. Ela diminuiu a distância.

Como você pode ter tanta certeza?

— Bom, por dois motivos. Primeiro, não é do seu caráter. Claro que você sentiu um barato com o poder. Depois empurrou isso para longe. Você não o agarrou; se afastou disso. Este é o motivo número um. Você é você, você não é Caine, Drake ou Ore.

Sam queria concordar, queria aceitar, mas sentia que sabia que não era assim.

Não tenha tanta certeza,

E o motivo número dois: você tem a mim.

— Tenho?

Tem.

Isso drenou a raiva e a frustração dele como se alguém tivesse pu­xado um tampão. Por um longo momento, Sam ficou perdido, olhando-a nos olhos. Ela estava muito perto. O coração dele mudou para um ritmo mais profundo, que vibrava em todo o corpo.

Havia apenas centímetros entre eles. Sam diminuiu a distância à metade e parou.

Não posso beijar você com seu irmão olhando — disse ele.

Astrid recuou, segurou o Pequeno Pete pelos ombros e virou-o para o outro lado.

E agora?

 

                         164 HORAS E 32 MINUTOS

ALBERT SAIU DA cerimônia fúnebre e atravessou a praça em direção ao McDonald's. Desejava ter alguém com quem conversar. Talvez, se acen­desse as luzes, alguém apareceria para comer um sanduíche muito tardio.

Mas o grupo de pessoas se dispersou antes que ele pudesse destran­car a porta da frente do McDonald's — seu McDonald's — e a praça ficou vazia e silenciosa, a não ser por um leve zumbido dos fios de eletricidade acima.

Albert ficou parado, com as chaves numa das mãos e seu boné do McDonald's na outra — tinha-o tirado por respeito pela morta — e deixou que um sentimento de tristeza e mau presságio o dominasse. Era uma pessoa naturalmente otimista, mas um funeral noturno para uma garota assassinada por valentões... não era algo que ajudava mui­to a melhorar o ânimo.

Albert havia gostado de ficar sozinho desde a chegada do LGAR. Preocupava-se com os irmãos e irmãs. Sentia falta da mãe. Mas, num instante, havia deixado de ser o mais novo de seis, o bode expiatório, a vítima, o garoto que trabalhava demais e não era apreciado, e se transformado numa pessoa responsável e respeitada naquela comuni­dade nova e estranha.

Nada disso mudava o fato de que, agora mesmo, com o cheiro de terra recém-revirada nas narinas e o cérebro inquieto, ele adoraria estar assistindo a um daqueles medonhos programas sobre crimes, que eram os prediletos de sua mãe, e pegando pipoca do pote no colo dela.

As grandes questões do LGAR — o quê, porquê e como — não incomodavam muito Albert. Ele era uma pessoa prática, e, de qual­quer modo, essas eram coisas para alguém como Astrid pensar. Quan­to aos acontecimentos desta noite — o assassinato de Bette —, eram para Sam, Caine e os outros caras resolverem.

O que preocupava Albert era algo totalmente diferente: ninguém estava trabalhando. Ninguém, a não ser Maria, Dahra e, ocasional­mente, Edilio. Todo mundo matava o tempo, andava à toa, brigava ou só ficava sentado, jogando videogame ou assistindo a DVDs. Todos eram como ratos vivendo numa casa abandonada: comiam o que en­contravam, faziam sujeira onde quisessem e deixavam as coisas mais bagunçadas e mais arruinadas do que haviam encontrado.

Isso não poderia continuar. Todo mundo estava simplesmente ma­tando o tempo. Mas se tudo que fizessem fosse matar o tempo, o tempo acabaria matando-os.

Albert acreditava nisso. Sabia disso. Mas não conseguia explicar a ninguém e fazer com que ouvissem. Não podia argumentar com a se­gurança consistente de Caine ou com o distanciamento intelectual de Astrid. Quando Albert falava, as pessoas não prestavam atenção como faziam com Sam.

Ele precisava das palavras de outra pessoa para explicar o que seus instintos diziam ser verdade.

Jogou as chaves no bolso e marchou pela rua com um passo decidi­do, que ecoava nas fachadas escuras. A coisa inteligente a fazer seria ir para casa, dormir algumas horas. Logo iria amanhecer. Mas ele não iria dormir, sabia disso. Sam, Caine, Astrid e Jack Computador tinham suas coisas a fazer, as coisas que sabiam, mas essa era uma coisa de Albert.

— Não podemos ser ratos — murmurou sozinho. — Temos de ser... — Mas mesmo tentando explicar a si mesmo, não sabia as pala­vras certas.

A biblioteca pública de Praia Perdida não era um lugar impressio­nante. Era uma construção empoeirada, escura, de teto baixo, cujo cheiro de mofo o acertou em cheio quando ele abriu a porta. Nunca havia entrado ali antes e ficou meio surpreso ao descobrir que estava destrancada, com as luzes fluorescentes ainda piscando e chiando.

Albert olhou em volta e riu.

Ninguém entra aqui desde o LGAR — disse para uma prateleira de livros de bolso amarelados.

Olhou na velha mesa de carvalho da bibliotecária. Nunca se sabia onde uma barra de chocolate estaria escondida. Encontrou uma lata de balas de hortelã. Pareciam estar ali havia um bom tempo, para se­rem dadas a crianças que nunca vinham.

Jogou uma na boca e começou a andar pelas estantes solitárias. Sabia que precisava entender alguma coisa, mas não sabia o quê. A maioria dos livros parecia ter estado ali, sem serem incomodados, des­de antes do seu nascimento.

Encontrou algumas enciclopédias — como a Wikipedia —, mas de papel e muito volumosas. Sentou-se no tapete puído e abriu o primeiro livro. Não sabia o que estava procurando, mas sabia por onde começar. Puxou o volume do "T" e procurou o verbete de "trabalho". Havia dois principais. Um tinha a ver com trabalho enquanto termo de física.

O outro falava de trabalho como "atividades necessárias para a sobrevivência da sociedade".

É — disse Albert. — É disso que estou falando.

Começou a ler. Pulou de um volume a outro, entendendo apenas parte do que lia, mas entendendo o suficiente para seguir para a pista seguinte, e depois outra. Era exatamente como seguir hiperlinks, só que mais devagar, e com mais levantadas.

"Trabalho" levou a "mão de obra" que levou a "produtividade", que levou a alguém chamado "Karl Marx", que levou a outro cara chamado "Adam Smith".

Albert nunca fora um estudante muito dedicado. Mas o que tinha aprendido na escola nunca importava muito pelo seu ponto de vista. Isso importava. Agora tudo importava.

Caiu lentamente no sono e acordou com um susto, sentindo olhos fixos observando-o.

Girou, saltou de pé e soltou um enorme suspiro de alívio ao ver que era só um gato. O gato era amarelo rajado, meio gordo, provavel­mente velho. Tinha uma coleira cor-de-rosa e uma medalha de latão em forma de coração. Portava-se com confiança total no meio do cor­redor. Espiou-o com seus olhos verdes. A cauda estremeceu.

— Oi, gatinho — disse Albert.

O gato desapareceu.

Sumiu.

Albert se encolheu chocado, o rosto subitamente chamejando de dor. O gato estava em cima dele, em seu rosto, cravando as garras como navalhas em sua cabeça. O gato chiou, com dentes parecendo agulhas, expostos por uma careta feroz a um milímetro dos olhos de Albert.

Albert gritou por socorro, gritou para o gato. O gato cravou as garras com mais força. Albert ainda tinha um volume da enciclopédia na mão direita — o do "S". Bateu-o com força na própria cabeça.

O gato havia sumido. O livro acertou-o, deixando-o tonto.

E agora o gato estava do outro lado da sala, sentado calmamente em cima da mesa da bibliotecária.

Era impossível. Nada se movia tão depressa. Nada.

Albert respirou trêmulo e começou a recuar em direção à porta da rua.

Sem qualquer movimento que os olhos de Albert pudessem detec­tar, o gato foi da mesa para a nuca de Albert. Estava em cima dele como uma coisa louca, gadanhando, arranhando, rasgando, sibilando.

Mais uma vez Albert golpeou com o livro pesado, e de novo o gol­pe acertou sua própria carne, porque o gato estava empoleirado numa estante de livros, espiando Albert, zombando dele com desprezo nos olhos verdes.

Iria atacá-lo de novo.

O instinto fez Albert girar o livro para proteger o rosto.

Sentiu o livro pular violentamente nas mãos.

A cara do gato, distorcida pela fúria, estava a um centímetro do rosto de Albert.

Mas o livro continuava no lugar.

E o gato estava no livro.

Não, através do livro.

Albert olhou chocado, enquanto os olhos do gato escureciam, e sua alma animal ia embora.

Largou a enciclopédia no chão.

O livro, o pesado volume encadernado em couro, dividia o gato logo atrás das patas dianteiras. Era como se alguém tivesse cortado o gato ao meio e o costurado ao livro em dois pedaços. A parte de trás do gato se projetava da contracapa.

Albert estava ofegando, tanto de terror quanto do esforço. Aquela coisa no chão... aquela coisa não era possível. O modo como o gato havia se mexido não era possível.

— Pesadelo. Você está tendo um pesadelo — disse a si mesmo.

Mas, se era um sonho, era um sonho com um bocado de complexi­dade. Certamente ele não sonharia com o cheiro de mofo. Certamen­te não sonharia com o modo como a bexiga e as entranhas do gato haviam se esvaziado numa sujeira no momento da morte.

Albert se lembrou de ter visto a grande bolsa a tiracolo da bibliote­cária sobre a mesa. Com mãos trêmulas, esvaziou o conteúdo: batom, carteira, pó compacto, um celular, tudo espalhado.

Pegou a enciclopédia. Era pesada. O peso do gato acrescentado ao livro devia ser de uns 10 quilos. E o gato-livro era volumoso, grande demais para caber com facilidade na bolsa.

Mas precisava mostrar aquilo a alguém. Era uma coisa impossível. Impossível. Só que era real. Albert precisava de mais alguém para lhe dizer que aquilo era real, alguém para confirmar que ele não estava sonhando, nem ficando louco.

Caine, não. Sam? Devia estar no posto de bombeiros, mas esta não era uma coisa para o Sam, era uma coisa para Astrid. Dois minutos depois, estava na varanda iluminada de Astrid.

Astrid abriu a porta cautelosamente, só depois de espiar pelo olho mágico.

Albert? É tarde da... Ah, meu Deus, o que aconteceu com o seu rosto?

Seria bom ter uns Band-Aids — disse Albert. Havia esquecido como devia estar sua aparência. Havia esquecido a dor. — É. Seria bom ter alguma ajuda. Mas não é por isso que vim aqui.

Então...

Astrid, eu preciso... —Mas as palavras não vieram. Agora, seguro na porta da casa de Astrid, o medo o dominou e por um minuto ele simplesmente não conseguia formar uma palavra nem fazer algum som.

Astrid puxou-o para dentro e fechou a porta.

Eu preciso... — começou de novo, e de novo não pôde falar mais. Numa voz estrangulada, disse:

Só olhe.

Largou o gato-livro no tapete persa.

Astrid ficou completamente imóvel.

Ele era rápido demais. Me atacou. Nem conseguia ver ele se mexer. Era tipo... ele estava num lugar, certo? E depois estava em cima de mim. Quero dizer, ele não pulava, Astrid. Só... aparecia.

Astrid se ajoelhou para empurrar o livro cautelosamente. Tentou fazer o livro se abrir, mas o corpo do gato atravessava todas as páginas e as mantinha juntas. Não era como se o gato tivesse feito um buraco no livro: era como se o gato tivesse se fundido ao papel.

O que foi isso, Astrid? — implorou Albert.

Ela não disse nada, apenas ficou olhando. Albert podia praticamen­te ver as engrenagens rodando no cérebro de Astrid. Mas ela não lhe deu resposta e, depois de um tempo, Albert aceitou que a resposta não viria. Nenhuma explicação era possível para uma coisa que não podia acontecer.

Mas ela vira a coisa, a coisa impossível. Ele não estava maluco.

Depois do que pareceu um longo tempo, Astrid sussurrou:

Venha, Albert, vamos fazer alguma coisa com esses arranhões.

Lana estava deitada na escuridão da cabana, ouvindo os sons misteriosos do deserto lá fora. Algo fez um som fraco, escorregadio, como a mão de alguém acariciando seda. Outra coisa emitiu rápidos estouros percussivos, um minúsculo inseto tocador de tambor, que diminuiu a velocidade depois de alguns segundos, parou e ficou em silêncio antes de recomeçar.

O moinho de vento guinchava tanto, que parecia estar com raiva. Nunca por muito tempo, nunca com qualquer padrão. Não havia uma brisa de verdade, apenas sussurros que giravam as gastas pás de madei­ra num quarto de volta... um guincho... ou meia-volta... um guincho, outro guincho... ou mal as cutucava, produzindo um som como o pio agudo de um filhote de passarinho.

Junto com tudo isso havia o ronco tranqüilizador de Patrick. Ele roncava, parava e roncava de novo, e, de vez em quando, soltava um latido baixinho que Lana achava fofo.

O corpo de Lana estava bem. Os ferimentos haviam sido curados milagrosamente. Ela havia lavado as crostas de sangue. Tinha água, comida e abrigo.

Mas o cérebro de Lana era um motor ligado em velocidade espan­tosa. Girava e girava em redemoinhos, através das lembranças de dor, de terror, vislumbres do banco do avô vazio, a queda pela encosta, os urubus, o leão da montanha.

Mas, por mais que fossem terríveis, essas imagens eram apenas como tinta fresca passada sobre imagens mais permanentes. As que permaneciam eram de sua casa. Da escola. Do shopping. O carro de seu pai e a van da mãe. A piscina comunitária. A fantástica e excitante silhueta da avenida principal de Las Vegas, visível da janela de seu quarto.

Tudo junto, as imagens borbulhando e borbulhando em sua cabeça, alimentavam uma fúria que queimava devagar.

Ela deveria estar em casa, e não ali. Deveria estar em seu quarto. Deveria estar com seus amigos. Não sozinha.

Não sozinha, ouvindo barulhos fantasmagóricos, guinchos e roncos.

Se tivesse tido um pouco mais de cuidado... Tinha tentado escon­der a garrafa de vodca em sua bolsa a tiracolo, a bonitinha, com con­tas, da qual gostava. A bolsa era pequena demais, mas a única de tama­nho suficiente era a dos livros e ela não queria levá-la porque não combinava com a roupa.

Por isso havia sido apanhada. Por uma questão idiota de moda, por querer ficar bonita.

E agora...

Um maremoto de fúria contra sua mãe varreu-a. Era como se fosse se afogar naquela fúria.

A culpa era de sua mãe. O pai só fazia o que a mãe mandava. Ele tinha de apoiá-la, mesmo sendo o mais legal, não tão rígido ou enxerido quanto sua mãe.

Qual era o grande problema se ela ia dar uma garrafa de vodca a Tony? Ele não iria dirigir, mesmo.

A mãe de Lana simplesmente não entendia Las Vegas. Vegas não era como Praia Perdida. Havia pressões sobre ela em Las Vegas. Era uma metrópole, e não uma cidade, e não era qualquer cidade. A garotada crescia mais depressa em Vegas. Exigências eram feitas, mesmo para gen­te do sétimo ano, do oitavo, quanto mais do nono como no caso dela.

Sua mãe idiota. A culpa era toda dela.

Embora fosse meio forçado culpar a mãe pela parede vazia e intimidante no deserto. Era meio difícil culpá-la por isso.

Talvez fosse coisa de alienígenas e agora mesmo houvesse uns monstros arrepiantes perseguindo sua mãe e seu pai pelas ruas de Las Vegas, como naquele filme Guerra dos mundos. Talvez.

Lana achou esse pensamento estranhamente reconfortante. Afinal de contas, pelo menos ela não estava sendo perseguida por alienígenas em tripés gigantescos. Talvez a parede fosse algum tipo de defesa con­tra os alienígenas. Talvez ela estivesse segura deste lado da parede.

A garrafa de vodca não havia sido a única coisa que ela havia afa­nado para o Tony. Lana tinha apanhado um pouco do Xanax da mãe para ele. E tinha roubado uma garrafa de vinho numa loja de conve­niência, uma vez.

Não era ingênua. Nunca pensou que Tony a amasse ou algo assim. Sabia que ele a estava usando. Mas ela o estava usando também, ao seu modo. Tony tinha algum status na escola, e parte desse status havia se transferido para ela.

Patrick fungou e levantou a cabeça de repente.

O que foi, garoto?

Ela rolou da cama estreita e se agachou, quieta e com medo, na cabana escura.

Havia alguma coisa lá fora. Podia ouvi-la se mexendo. Sons baixos de pés almofadados no chão.

Patrick se levantou, mas de um modo estranho, em câmera lenta. Os pelos no pescoço e nas costas estavam ficando eriçados. Ele olhava atentamente para a porta.

Houve um som raspado, exatamente como um cão faria, tentando entrar.

E então Lana ouviu, ou pensou ter ouvido, um sussurro distorcido.

Saia.

Patrick deveria estar latindo, mas não estava. Estava rígido, ofegando demais, olhando muito fixamente.

— Você só está imaginando coisas — sussurrou Lana, tentando se tranqüilizar.

Saia — repetiu o sussurro grave.

Lana descobriu que precisava fazer xixi. Precisava muito mesmo, e não havia nada parecido com um banheiro na cabana.

Tem alguém aí fora? — gritou.

Não houve resposta. Talvez fosse apenas sua imaginação. Talvez fosse só o vento.

Esgueirou-se até a porta e prestou atenção. Nada. Olhou para Pa­trick. Seu cão ainda estava com os pelos eriçados, mas tinha relaxado um pouco. A ameaça, seja lá o que fosse, havia se afastado.

Lana abriu uma fresta na porta. Nada. Pelo menos nada que pudes­se ver. E Patrick definitivamente não estava mais preocupado.

Não tinha escolha: precisava correr até o banheiro e ele ficava lá fora. Patrick foi saltitando ao seu lado.

O banheiro era uma simples caixa vertical, sem enfeites, não exata­mente fedorenta e bastante limpa. Não havia luz, claro, por isso ela precisou tatear, localizar o assento e o papel higiênico.

Num determinado ponto, começou a rir. Afinal de contas, era meio engraçado fazer xixi num banheiro no meio do nada com seu cachor­ro montando guarda.

A caminhada de volta à cabana foi um pouco mais tranqüila. Lana se demorou um momento olhando o céu noturno. As estrelas... bem, as estrelas pareciam estranhas. Mas ela não sabia bem por que achava isso.

Voltou a caminhar para a cabana e se imobilizou. Entre ela e a por­ta da frente havia um coiote. Mas não era como os coiotes que seu avô lhe havia mostrado de longe. Nenhum daqueles era nem de longe tão grande quanto Patrick. Mas este animal peludo e amarelado era do tamanho de um lobo.

Patrick não tinha visto nem ouvido o animal se aproximar, e ago­ra parecia quase chocado demais para reagir. Patrick, que havia sal­tado para lutar com um leão da montanha, agora parecia covarde e inseguro.

O avô de Lana havia feito sermões sobre os animais do deserto: o coiote devia ser respeitado, mas não temido; os lagartos espantavam a gente com súbitas explosões de velocidade; os cervos mais se pareciam com ratos gigantes do que com o Bambi; os burros selvagens eram tão diferentes de seus irmãos domesticados; e as cascavéis, não eram ameaça desde que você usasse botas e ficasse de olhos abertos.

Xô — gritou Lana, e balançou as mãos como seu avô havia en­sinado, para o caso de chegar perto demais de um coiote.

O coiote não se mexeu.

Em vez disso, emitiu um som agudo que fez Lana saltar para trás. Com o canto do olho, viu formas escuras correndo em sua direção, três ou quatro, e eram rápidas.

Agora Patrick reagiu. Rosnou ameaçadoramente, mostrou os den­tes e eriçou os pelos da nuca, mas o coiote não se mexeu, e seus com­panheiros estavam se aproximando depressa.

Tinham dito a Lana que os coiotes não eram perigosos para os hu­manos, mas agora não havia como acreditar nisso. Desviou-se para a direita, esperando enganar o coiote, mas o animal era rápido demais para ser iludido.

Patrick, pega! — instigou, impotente.

Mas Patrick não faria mais do que rosnar e fazer cena, e em segun­dos os outros coiotes chegariam, e então... bom, quem sabia o quê?

Lana não tinha escolha: precisava chegar à cabana. Tinha de chegar à cabana para não morrer.

Gritou o mais alto que pôde e correu direto para o coiote que esta­va no seu caminho.

O animal encolheu-se, surpreso.

Houve um clarão de algo pequeno e escuro, e o coiote gritou de dor.

Lana passou por ele num segundo. Dez passos até a porta da caba­na. Dez, nove, oito, sete, seis...

Patrick correu à sua frente, em pânico, e disparou para dentro.

Lana estava logo atrás, girou e fechou a porta sem ao menos dimi­nuir a velocidade. Deslizou até parar, virou-se, correu de volta à porta e se jogou contra ela.

Mas os coiotes não a perseguiram. Tinham outros problemas. Ela ouviu ganidos loucos, gritos caninos de dor e fúria.

Depois de um tempo, os ganidos ficaram mais lentos, mais baixos e finalmente pararam. Outro coiote começou com uivos loucos, uivos para a lua.

Depois silêncio.

De manhã, com o sol claro e os terrores da noite banidos, Lana encontrou o coiote morto a 30 metros da porta. Ainda presa em seu focinho havia uma cobra com cabeça grande em forma de losango. O corpo dela fora mastigado e cortado ao meio, mas não antes que o veneno penetrasse no sangue do coiote.

Olhou por longo tempo para a cabeça da cobra. Era uma cobra, sem qualquer dúvida, no entanto tinha certeza de que a vira voar.

Lana tirou isso da mente. E junto descartou o sussurro que tinha ou­vido, porque cobras voadoras e coiotes que sussurravam e eram do tama­nho de cães dinamarqueses, bem, nada disso era possível. Havia uma palavra para pessoas que acreditavam em coisas impossíveis: malucas.

— Acho que o vovô não era um grande especialista na vida selva­gem do deserto, afinal de contas — disse a Patrick.

 

                            132 HORAS E 46 MINUTOS

— VOCÊ PODE NÃO gostar do cara, mas ele está fazendo coisas óti­mas. — Quinn estava preparado para bater à porta da terceira casa aonde iam naquela manhã. Sam, Quinn e uma garota da Coates, cha­mada Brooke, eram a "equipe de busca número três".

Era o oitavo dia do LGAR. O quinto desde que Caine havia apare­cido e assumido o controle.

O segundo dia desde que Sam havia beijado Astrid ao lado de uma sepultura recém-cavada.

Caine tinha organizado dez equipes de busca para percorrer a cida­de, cada uma cobrindo um quarteirão, para começar. A idéia era en­trar em cada casa, em cada uma das quatro ruas que formavam o quarteirão. Deveriam garantir que estivessem desligados o fogão, o ar- condicionado, a TV e as luzes internas, e que as da varanda estivessem acesas. Deveriam desligar os sistemas de irrigação automáticos e os aquecedores de água.

Se não conseguissem fazer alguma dessas coisas, acrescentariam a uma lista para o Edilio verificar. Edilio sempre parecia capaz de resol­ver coisas mecânicas. Estava andando por Praia Perdida com um cinto de ferramentas e dois garotos da Coates como "ajudantes".

As equipes de busca também deveriam procurar crianças perdidas, bebês que podiam ter sido deixados para trás, que podiam estar presos em seus berços. E animais de estimação também.

Em cada casa faziam uma lista de qualquer coisa útil, como compu­tadores, e de qualquer coisa perigosa, como armas ou drogas. Deve­riam anotar quanta comida havia e coletar todos os remédios para serem mandados a Dahra. Fraldas e leite em pó iam para a creche.

Era um bom plano. Era uma boa idéia.

Caine tinha algumas idéias boas. Caine havia posto Jack Computa­dor montando um sistema de comunicação de emergência. Jack Com­putador teve a idéia de partir para o estilo antigo: tinha colocado rá­dios de ondas curtas na prefeitura, no posto de bombeiros, na creche e na casa abandonada que Drake usava com alguns de seus xerifes.

Mas Caine não fizera nada contra Ore.

Sam tinha ido até ele, exigindo alguma ação.

O que eu posso fazer? — perguntara Caine, em tom razoável. — Bette estava violando as regras, e Ore é um xerife. Foi uma tragédia para todos os envolvidos. Ore se sente muito mal.

Assim, Ore ainda percorria as ruas de Praia Perdida. Pelo que Sam sabia, o sangue de Bette ainda estava no bastão do sujeito. E agora o medo dos que eram chamados de xerifes fora multiplicado por dez.

Vamos acabar logo com isso — disse Sam. Ele não entraria numa discussão sobre Caine na frente de Brooke. Presumia que a garota de 10 anos fosse espiã. De qualquer modo, ele estava de péssimo humor, porque uma das casas que deveriam visitar mais tarde era a sua.

Quinn bateu. Tocou a campainha.

Nada. — Experimentou a porta. Estava trancada. — Traga a marreta — disse.

Cada equipe de busca tinha um carrinho, tirado da loja de ferra­mentas ou emprestado do quintal de alguém. Carregavam, no carri­nho, uma marreta pesada.

Eles haviam demorado duas horas para lidar com as duas primeiras casas. Passaria-se um bom tempo antes que cada casa de Praia Perdida tivesse sido revistada e considerada segura.

Quer fazer a parte da marreta? — perguntou Sam, cedendo a vez a Quinn.

Eu vivo para a marreta, brou.

Quinn sopesou a marreta e bateu-a contra a porta, logo abaixo da maçaneta. A madeira lascou e Quinn empurrou a porta para trás.

O cheiro os acertou com força.

Ah, cara, o que morreu aí dentro? — perguntou Quinn, em tom de piada.

Não foi engraçado.

Logo depois da porta, no piso de madeira, havia uma chupeta de bebê. Os três a olharam.

Não, não, não. Não posso fazer isso — disse Brooke.

Os três ficaram na varanda; ninguém queria entrar, mas ninguém queria fechar a porta e ir embora, tampouco.

As mãos de Brooke estavam tremendo tanto que Sam segurou-as.

Tudo bem — disse. — Você não precisa entrar.

Ela era gorducha, sardenta, com cabelo meio ruivo e seco como palha. Usava uniforme da Coates e parecera, até esse momento, quase uma nulidade. Nunca brincava nem fazia piadas, só fazia o que era necessário, seguindo o comando de Sam.

É só que, depois da Coates... — disse Brooke.

O que é que tem a Coates? — perguntou Sam.

Brooke ficou vermelha.

Nada. Só, você sabe, todos os adultos sumindo. — Então, sen­tindo que precisava explicar mais, disse: — É... tipo... não quero ver mais nada assustador, certo?

Sam lançou um olhar significativo para Quinn, mas Quinn apenas deu de ombros e disse:

Tem... tipo... uma criança morta aí dentro. Não precisamos en­trar para saber.

Sam gritou o mais alto que pôde:

Tem alguém aí dentro? — Depois, para Quinn: — Não podemos simplesmente ignorar isso.

Talvez a gente só devesse informar ao Caine — disse Quinn.

Não vejo o Caine andando de casa em casa — reagiu Sam, rispidamente. — Ele está sentado em cima do rabo e agindo como se fosse o imperador de Praia Perdida.

Vendo que ninguém engoliria a isca, Sam disse:

Mê dá um saco de lixo grande.

Quinn pegou um no carrinho.

Dez minutos depois, Sam havia terminado. Arrastou o saco com seu triste conteúdo pelo tapete, até a porta da frente. Levantou-o pe­los barbantes de amarrar e carregou-o até o carrinho.

E que nem levar o lixo para fora -— disse Sam a ninguém. Suas mãos estavam tremendo. Sentia tanta raiva que queria machucar al­guém. Sentia tanta raiva que, se pudesse pôr as mãos em quem causou tudo aquilo, teria esganado a pessoa.

Mas estava com raiva principalmente de si mesmo. Nunca havia conhecido muito bem essa família. Era a casa de uma mãe solteira, que recebia vários namorados. E do menininho. A família não era sua ami­ga, nem mesmo conhecida, mas mesmo assim ele deveria ter pensado em verificar o bebê. Esse devia ter sido seu primeiro pensamento. De­veria ter se lembrado, mas isso não aconteceu.

Sem olhar para Quinn e Brooke, disse:

Abram as janelas. Deixem entrar um pouco de ar aí dentro. Po­demos voltar quando não estiver tão... quando o cheiro tiver sumido.

Brou, eu não vou entrar aí — disse Quinn.

Sam chegou rapidamente perto dele. Vendo seu rosto, Quinn deu um passo atrás.

Eu peguei o bebê e o enfiei num saco de lixo, certo? Então entre aí e abra as janelas. Só faça o que estou dizendo.

Cara, você precisa realmente ficar frio. Eu não recebo ordens suas.

Não, você recebe ordens do Caine — disse Sam.

Quinn estendeu a mão, quase provocando.

Desculpe. Estou chateando você? Por que não queima minha mão até arrancá-la, garoto mágico?

Sam e Quinn tinham tido muitas discussões no correr dos anos. Mas, desde o início do LGAR, especialmente desde que Sam havia contado a Quinn a verdade a seu respeito, discordâncias simples ha­viam ficado rapidamente venenosas. Agora estavam se encarando de perto, como se fossem começar a trocar socos. Sam estava furioso o suficiente para isso.

Eu faço isso, Sam — disse Brooke.

Sam, com o rosto ainda a centímetros do de Quinn, disse:

Não quero que a coisa seja assim entre nós.

Quinn relaxou os músculos. Forçou um riso.

Não é grande coisa, brou.

Sam se virou para Brooke.

Abra as janelas. Depois vá dizer ao Edilio para cavar outro bu­raco. Eu vou pra minha casa. Seria bom se você pudesse empurrar o carrinho para o centro da cidade. Mas se não puder, eu entendo.

Sem outra palavra para Quinn, ele partiu, mas parou alguns passos depois.

Brooke, veja se consegue encontrar uma foto dele e da mãe, certo? Não quero que ele seja enterrado sozinho. Ele deveria ter...

Não conseguiu dizer mais nada. Com a vista turva por lágrimas inesperadas, seguiu pela rua e subiu os degraus de sua casa, a casa que ele odiava, e bateu a porta depois de entrar.

Demorou um tempo até notar que o laptop de sua mãe havia sumido.

Foi até a mesa. Tocou o tampo, bem onde o laptop estivera, como para se certificar de que não estava imaginando coisas.

Depois notou as gavetas abertas. Os armários abertos. A comida não tinha sido levada, só espalhada, uma parte indo parar no chão.

Correu para seu quarto. A luz ainda estava ali. Sua débil tentativa de camuflá-la havia sido destruída.

Alguém sabia. Alguém tinha visto.

Mas a coisa não parava aí. No quarto de sua mãe, as gavetas e o armário tinham sido saqueados.

Sua mãe mantinha uma caixa de metal cinza, chata, trancada den­tro do armário. Sam sabia disso porque ela a havia mostrado em mais de uma ocasião.

Se alguma coisa acontecer comigo, é aqui que meu testamento está. — Tinha dito ela, séria; mas depois continuou: — Você sabe, caso eu seja atropelada por um ônibus.

Não temos ônibus em Praia Perdida — observou ele.

Humm. Acho que isso explica por que eles nunca passam na hora — respondeu ela, depois riu e puxou-o para dar um abraço.

Enquanto o segurava, ela sussurrou:

Sam, sua certidão de nascimento também está ali.

Certo.

Você é que sabe se quer vê-la.

Ele havia se enrijecido no abraço. Ela estava oferecendo uma chan­ce de ele ver o que estava escrito em sua certidão. Haveria nomes: o de sua mãe e o do seu pai.

Talvez. Talvez não — disse ele.

Ela o apertou com força, mas ele se soltou gentilmente e ficou se­parado. Então quis dizer alguma coisa. Pedir desculpas pelo que acon­tecera com o Tom. Perguntar se também, de algum modo, havia feito seu pai verdadeiro fugir apavorado.

Mas sua vida tinha segredos. E mesmo que a mãe tivesse feito a oferta, Sam sabia que ela não queria que ele violasse o código de se­gredo.

Fazia meses que Sam sabia sobre a caixa. Sabia onde podia encon­trar a chave.

Agora a caixa havia sumido.

Tinha pouquíssima dúvida de quem a havia levado, quem havia revistado a casa.

A essa altura, Caine já sabia que Sam tinha o poder.

Pegou sua bicicleta. Nesse momento, queria desesperadamente es­tar com Astrid. Ela faria com que tudo fizesse sentido.

Agora a maioria do pessoal andava de bicicleta — nem sempre próprias — ou de skate. Só os pequenos caminhavam. E enquanto ele atravessava a praça até a casa de Astrid, havia uma procissão deles andando do outro lado da rua. O Irmão John estava na frente. Mãe Maria empurrava um carrinho de bebê de dois lugares. Uma garota com uniforme da Coates carregava um menininho no colo. Dois ou­tros garotos, convocados para aquele dia, arrebanhavam a fila de cer­ca de trinta pré-escolares. Pareciam solenes para um grupo de crian­ças, mas pelo menos havia algumas brincadeiras, o suficiente para fazer Maria gritar:

Julia e Zosia, voltem para a fila.

As gêmeas, Emma e Anna, fechavam a fila. Sam as conhecia bastan­te bem, já tendo saído uma vez com Anna. Emma estava com um car­rinho de bebê simples e Anna empurrava um carrinho da mercearia Ralph's cheio de salgadinhos, fraldas e mamadeiras.

Sam parou e esperou que eles atravessassem a rua. O grupo se man­tinha na faixa de pedestres, o que ele achou que era bom. Era melhor que os pequenos aprendessem a atravessar a rua como se pudesse ha­ver algum tráfego. Alguns dos maiores estavam dirigindo carros, fre­qüentemente com maus resultados. Agora Caine tinha regras para isso também: ninguém tinha permissão de dirigir, a não ser algumas pessoas do Caine e Edilio, que teoricamente podia ter de dirigir a ambu­lância ou o caminhão de bombeiros. Se descobrisse como.

E aí, Anna? — perguntou Sam, educadamente.

Oi, Sam. Onde você andou?

Ele deu de ombros.

No posto dos bombeiros. Meio que moro lá, agora.

Anna apontou para os pequenos que seguiam à sua frente.

Cuidando dos bebês.

Que saco, hein — disse Sam.

Tudo bem. Não me incomodo.

E ela é fantástica nisso — gritou Maria para trás, encorajando.

Consigo trocar uma fralda em menos de sessenta segundos — disse Anna, rindo. — Menos ainda, se for só xixi.

Aonde vocês vão?

A praia. Fazer um piquenique.

Maneiro. Vejo você mais tarde.

Anna acenou por cima do ombro enquanto passava.

Ei, deseje feliz aniversário a Anna e a mim, Sam — gritou Emma.

Parabéns para vocês duas.

Sam se levantou sobre os pedais da bicicleta e ganhou velocidade, indo para a casa de Astrid.

Sentiu-se meio triste pensando em seu único encontro com Anna. Era uma garota legal. Mas, na época, ele não estava muito interessado em namoro, na verdade. Tinha ido apenas porque achava que era ne­cessário. Não queria que o pessoal pensasse que ele era otário. E sua mãe vivia perguntando se ele ia sair com alguém, por isso Sam levou Anna ao cinema. E na verdade, se lembrava até do filme: Stardust, o mistério da estrela.

Sua mãe os havia levado. Era a noite de folga dela. Sua mãe os dei­xou no cinema e pegou-os depois. Ele e Anna tinham ido ao Califór­nia Pizza Kitchen e dividido uma pizza de frango na brasa.

Aniversário?

Sam fez a bicicleta dar uma volta brusca e pedalou de novo, voltan­do para onde havia passado pelas crianças. Não demorou muito a alcançá-las. Estavam chegando à praia, todos os menininhos e menininhas andando sem firmeza acima do baixo quebra-mar, rindo enquanto tiravam os sapatos e corriam para a areia, e Mãe Maria, parecendo uma professora, gritou:

Segurem os sapatos, não percam os sapatos. Alex, pegue seus sapatos e carregue.

Anna e Emma haviam estacionado o carrinho de compras cheio de salgadinhos, biscoitos, fraldas e mamadeiras. Emma estava tirando seu bebê do carrinho.

Verifique a fralda dele — lembrou Mãe Maria, e Emma fez isso.

Sam jogou a bicicleta no chão e correu ofegando até Anna.

O que há, Sam?

Que aniversário? — ofegou ele.

O quê?

Aniversário de quantos anos, Anna?

Demorou um tempo para ela absorver o medo dele. Demorou um tempo até que compreendesse o motivo do medo.

Quinze — disse Anna, num sussurro.

Qual é o problema? — perguntou Emma, sentindo o humor de sua gêmea. — Não quer dizer nada.

Não — sussurrou Anna.

Provavelmente você está certa — disse Sam.

Ah, meu Deus — ofegou Anna. — Nós vamos sumir?

Quando você nasceu? — perguntou Sam. — A que horas?

As gêmeas trocaram olhares de medo.

Não sabemos.

Sabe, ninguém sumiu desde aquele primeiro dia, de modo que provavelmente...

Emma desapareceu.

Anna gritou.

As outras crianças notaram, os pequenos também.

Ah, meu Deus! — gritou Anna. — Emma. Emma. Ah, meu Deus!

Ela agarrou as mãos de Sam e ele a segurou com força.

Alguns pequeninos captaram o medo. Mãe Maria se aproximou.

O que está acontecendo? Vocês assustaram as crianças. Cadê Emma?

Anna só ficava dizendo: "Ah, meu Deus", e chamando o nome da irmã.

Cadê Emma? — perguntou Maria de novo. — O que está acon­tecendo?

Sam não queria explicar. Anna estava machucando-o com a pressão dos dedos se cravando nas costas de suas mãos. Os olhos da menina estavam gigantescos, cavando buracos nele.

Com quanto tempo de diferença vocês nasceram? — perguntou Sam.

Anna apenas ficou olhando para ele, num terror vazio.

Sam baixou a voz para um sussurro urgente.

Com quanto tempo de diferença vocês nasceram, Anna?

Seis minutos — sussurrou. — Segure minhas mãos, Sam. — Não me solte.

Não vou soltar, Anna, não vou soltar você.

O que vai acontecer, Sam?

Não sei, Anna.

Nós vamos para onde nossos pais estão?

Não sei, Anna.

Eu vou morrer?

Não, Anna. Você não vai morrer.

Não me solte, Sam.

Agora Maria estava ali, com um bebê no colo. John estava ali. Os pequenos, alguns, olhavam com expressões sérias e preocupadas.

Não quero morrer — repetiu Anna. — Eu... não sei como é.

Tudo bem, Anna.

Anna sorriu.

Foi um encontro legal. Quando a gente saiu.

Foi.

Numa fração de segundo, foi como se Anna ficasse turva. Rápido demais para ser real. Ela ficou turva e Sam quase pôde jurar que ela havia sorrido para ele.

E seus dedos apertaram o nada.

Durante um tempo terrivelmente longo, ninguém se mexeu nem disse nada.

Os pequeninos não choraram. Os mais velhos apenas ficaram olhando.

As pontas dos dedos de Sam ainda se lembravam da sensação das mãos de Anna. Olhou para o lugar onde o rosto dela estivera. Ainda podia ver sua expressão desesperada.

Incapaz de se conter, estendeu a mão para o espaço que ela havia ocupado. Procurando um rosto que não estava mais ali.

Alguém soluçou.

Alguém gritou, outras vozes vieram em seguida, os pequenos co­meçaram a chorar.

Sam ficou nauseado. Quando seu professor havia sumido, ele não esperava. Desta vez, vira o que ia acontecer, como um monstro num pesadelo, em câmera lenta. Desta vez, ele vira a coisa chegando, como se estivesse enraizado nos trilhos do trem, incapaz de pular para o lado.

 

                     131 HORAS E 03 MINUTOS

— ACABOU DE ACONTECER — anunciou Drake.

Caine estava sentado em sua poltrona de couro grande demais, que pertencera ao prefeito de Praia Perdida. Ela o fazia parecer pequeno. Fa­zia-o parecer muito novo. E, para piorar a situação, ele estava roendo a unha do polegar, o que quase fazia parecer que estava chupando o dedo.

Diana estava no sofá, deitada lendo uma revista e mal prestando atenção.

O que aconteceu?

As duas garotas que você me mandou seguir. As duas deram o grande salto. Elas pufaram, como diz aquele idiota do Quinn.

Caine saltou de pé.

Como eu previ. Exatamente como falei. —- Caine não parecia feliz por estar certo. Veio de trás da mesa e, para grande deleite de Drake, arrancou a revista da mão de Diana e jogou-a longe. — Você acha que talvez pudesse prestar atenção?

Diana suspirou, sentou-se devagar e espanou um fiapo da blusa.

Não fique irritadinho da vida comigo, Caine — alertou. — Fui eu que disse que a gente precisava começar a coletar certidões de nas­cimento.

Drake arranjara tempo para verificar a ficha psicológica de Diana no dia seguinte ao início do LGAR. Mas sua ficha havia sumido. No lugar, ela deixara a ficha de Drake aberta na mesa do doutor e dese­nhado uma carinha sorridente ao lado da palavra "sádico".

Drake já a odiava. Mas, depois disso, odiar Diana se tornou uma ocupação de tempo integral.

Para desgosto de Drake, Caine aceitou a resposta de Diana.

É. Foi boa idéia — disse Caine. — Muito boa idéia.

Sam, o garoto de Diana, estava lá — observou Drake.

Diana não reagiu à provocação.

Ele estava segurando a mão de uma das garotas quando ela su­miu — acrescentou Drake. — Olhando bem nos olhos dela. Veja bem, a primeira garota sumiu, e nesse ponto todos sabiam o que ia aconte­cer. A segunda ficou chorando por causa disso. Eu estava muito longe para ouvir o que ela disse, mas dava para ver que estava abrindo o maior berreiro.

Sadismo — disse Diana. — Desfrutar da dor de outro.

Drake esticou seu riso de tubarão.

Palavras não me amedrontam.

Você não seria um psicopata se isso acontecesse, Drake.

Parem com isso, vocês dois — disse Caine. Em seguida, se dei­xou cair de volta na cadeira grande demais e começou a roer a unha de novo. — Estamos em 17 de novembro. Tenho cinco dias para des­cobrir como vencer isso.

Cinco dias — ecoou Drake.

Não sei o que a gente faria se você sumisse, Caine — disse Drake. Em seguida, lançou um olhar para Diana dizendo que sabia exatamente o que faria caso Caine não estivesse mais por perto.

Jack Computador entrou num rompante na sala, com seu jeito agi­tado e os olhos arregalados de sempre, carregando um laptop aberto.

O que é? — rosnou Caine.

Consegui entrar — disse Jack Computador, com orgulho. Quan­do recebeu olhares vazios em resposta, disse: — O laptop da enfer­meira Temple.

Caine não pareceu empolgado.

O quê? Ah, ótimo. Tenho problemas maiores. Dê à Diana. E saia.

Jack Computador entregou o laptop a Diana e saiu rapidamente da sala.

Vermezinho medroso, não é? — disse Drake.

Não mexa com ele. Ele é útil — alertou Caine. — Drake. O que você viu exatamente quando a garota... partiu?

A primeira eu não estava olhando direto quando aconteceu. Na segunda, fiquei de olho. Num minuto estava ali, no outro já era.

—À1hl7?

Drake deu de ombros.

—- Por aí, perto disso, acho.

Caine bateu com a mão na mesa.

Não quero perto, seu idiota — gritou ele. — Estou tentando descobrir o que é isso. Sabe, não sou só eu, Drake. Todos nós ficamos mais velhos. Você vai chegar lá um dia, esperando para desaparecer.

Doze de abril, só um minuto depois da meia-noite, Drake — disse Diana. — Não que eu tenha memorizado o dia exato, a hora e o minuto ou... — Ela ficou em silêncio, lendo a tela do computador.

O que foi? — perguntou Caine.

Diana o ignorou, mas estava claro que havia encontrado algo de grande interesse no diário de Connie Temple. Diana se levantou com graça ágil, felina, e abriu o armário do arquivo. Pegou uma caixa de metal cinza e colocou-a quase com reverência na mesa de Caine.

Ninguém abriu ainda? — perguntou ela.

Eu estava mais interessado no computador da enfermeira Tem­ple — disse Caine. — Por quê?

Seja útil, Drake — ordenou Diana. — Quebre essa fechadura. Drake pegou uma espátula de cartas, enfiou a lâmina na fechadura

barata e torceu. A fechadura se partiu. Diana abriu a caixa.

Isto parece um testamento. E, ah, isso é interessante. Um recor­te de jornal sobre o negócio do ônibus escolar, de que ouvimos falar. E... aqui está.

Ela estendeu uma pasta de plástico que protegia uma certidão de nascimento impressa elaboradamente. Olhou-a e começou a garga­lhar.

Já chega, Diana — alertou Caine. Em seguida, pulou e arrancou a certidão da mão dela. Olhou o papel, franzindo a testa. Depois sen­tou-se com força, como se fosse uma marionete e alguém tivesse cor­tado os fios.

Vinte e dois de novembro — disse Diana, rindo com desprezo.

Coincidência — reagiu Caine.

Ele é três minutos mais velho do que você.

É coincidência. Nós não somos parecidos.

Qual é a palavra para gêmeos não idênticos? — Diana pôs o dedo na boca, uma paródia de pensamento profundo. — Ah, sim, gê­meos fraternos. Mesmo útero, mesmos pais, óvulos diferentes.

Caine parecia a ponto de desmaiar. Drake nunca o vira assim.

É impossível.

Nenhum de vocês conhece o pai de verdade — disse Diana. Agora ela estava bancando a boazinha, o mais próximo da simpatia que jamais conseguira parecer. — E quantas vezes você me disse que não se parece nem um pouco com seus pais, Caine?

Não faz sentido — ofegou Caine. Em seguida estendeu a mão para a de Diana e, depois de hesitar por um segundo, ela o deixou pegá-la.

Do que vocês dois estão falando? — perguntou Drake. Ele não gostava de ser a única pessoa que não entendia a piada. Mas os dois o ignoraram.

Isso está no diário também — disse Diana. — A enfermeira Tem­ple sabia que você era mutante. Suspeitava de que você possuía algum tipo de poder impossível, e obviamente também estava sacando alguns dos outros. Suspeitava que você havia causado meia dúzia de ferimen­tos que ninguém conseguia descobrir a causa. Drake soltou uma gargalhada, entendendo.

Está dizendo que a enfermeira Temple era mãe do Caine? O rosto de Caine queimou de raiva súbita.

Cala a boca, Drake.

Dois menininhos nascidos em 22 de novembro — disse Diana.

Um fica com a mãe. Um é levado para longe, adotado por outra família.

Ela era sua mãe, deu você para outra pessoa e ficou com o Sam?

disse Drake, rindo e desfrutando da humilhação de Caine. Caine girou a cadeira para longe de Diana e estendeu as mãos, com as palmas na direção de Drake.

Grande erro — disse Diana, mas não estava claro se se referia a Drake ou a Caine.

Algo acertou o peito de Drake. Foi como ser atropelado por um caminhão. Ele foi levantado e jogado contra a parede. Bateu contra duas gravuras emolduradas e caiu desajeitado no chão.

Obrigou-se a ficar frio. Queria partir para cima de Caine, acabar com ele depressa, antes que aquela aberração pudesse acertá-lo de novo. Mas Caine estava ali, em cima dele, o rosto vermelho, dentes à mostra, parecendo um cão louco.

Lembre-se de quem é o chefe, Drake — disse Caine, a voz grave, gutural, como se viesse de um bicho.

Drake assentiu, vencido. Pelo menos por enquanto.

Levante-se — ordenou Caine. — Temos trabalho a fazer.

Astrid estava na varanda da frente com Pete. Era o melhor lugar para pegar um pouco de sol. Estava sentada na grande cadeira de balanço de vime, com os pés apoiados no corrimão. As pernas nuas eram branquíssimas ao sol. Ela sempre fora clara e nunca o tipo de pessoa que é obcecada por um bronzeado, mas hoje estava sentindo necessidade de sol. Dias com o Pequeno Pete tendiam a ser passados dentro de casa e, depois de uns dois assim, a casa estava virando uma prisão.

Imaginou se era desse modo que sua mãe se sentia. Será que isso explicava por que a mãe tinha mudado, e em vez de passar cada dia e cada noite se dedicando ao Pequeno Pete, começara a aproveitar qual­quer desculpa para largá-lo com o primeiro que aceitasse?

A rua em que Astrid morava havia se alterado de maneira discreta depois do LGAR. Carros parados, jamais se movendo. Nunca havia tráfego. Todos os gramados estavam ficando altos demais. As flores que o Sr. Massilio, duas casas adiante, mantinha sempre lindas, esta­vam murchando por falta de cuidados. As bandeirolas em algumas caixas de correio estavam levantadas, esperando por um carteiro que nunca viria. Havia um guarda-chuva aberto sendo soprado preguiçosamente pela rua, movendo-se um ou dois centímetros de cada vez. A umas duas casas de distância, um animal selvagem, ou talvez apenas um bichinho de estimação faminto, tinha virado a lata de lixo e espa­lhado cascas de banana pretas, jornais encharcados e ossos de frango na calçada.

Astrid viu Sam pedalando furiosamente em sua bicicleta. Ele havia dito que viria para levá-la à mercearia, e ela estivera esperando com uma mistura desconfortável de emoções. Queria vê-lo. E estava nervo­sa com isso.

O beijo fora definitivamente um erro.

A não ser que não tivesse sido.

Sam jogou a bicicleta no gramado e subiu os degraus.

Oi, Sam. — Estava óbvio que ele estava perturbado. Astrid bai­xou as pernas e sentou-se inclinada para a frente.

Anna e Emma acabaram de pufar.

O quê?

Eu estava junto. Estava olhando. Estava segurando as mãos de Anna quando aconteceu.

Astrid se levantou e, sem pensar de verdade, envolveu Sam com os braços, como fazia quando tentava consolar o Pequeno Pete.

Mas, diferentemente do Pequeno Pete, Sam reagiu ao toque, abraçando-a de volta, sem jeito. Por um momento, o rosto dele estava no cabelo dela, e ela ouviu sua respiração entrecortada perto do ouvido. E parecia que poderiam fazer de novo, aquela coisa do beijo, mas en­tão, ao mesmo tempo, os dois se afastaram.

Ela estava apavorada — disse Sam. — Anna. Ela viu Emma de­saparecer. As duas nasceram com diferença de seis minutos. Então primeiro foi Emma. Depois Anna, esperando acontecer. Sabendo que aquilo viria.

Que horrível! Entre, Sam. — Ela olhou para o irmão. Ele estava brincando com seu jogo, como sempre.

Astrid levou Sam à cozinha e serviu-lhe um copo d'água. Ele bebeu metade num gole só.

Eu tenho cinco dias — queixou-se Sam. — Cinco. Dias. Nem ao menos uma semana.

Você não tem certeza.

Não, é? Nem vem com essa. Não me conte nenhuma historinha dizendo que tudo vai ficar bem. Não vai.

Certo — disse Astrid. — Você está certo. De algum modo, os 15 anos são uma linha, e quando você chega lá, pufa.

Essa confirmação pareceu acalmá-lo. Ele simplesmente precisara de que a verdade fosse posta às claras, sem evasões. Ocorreu a Astrid que esse era um modo de ajudar Sam, não apenas agora, mas no futu­ro. Se eles tivessem um futuro.

Eu estava evitando. Não pensava nisso. Meio que tinha me con­vencido de que não iria acontecer. — Ele conseguiu dar um riso torto, parecia que principalmente para despreocupá-la. Podia ver seu pró­prio medo refletido nela e agora estava tentando encobri-lo. — Do lado positivo, parece que não temos de nos preocupar em saber como o Dia de Ação de Graças vai ser deprimente aqui no LGAR.

Pode haver um meio de vencer isso — disse Astrid, com cautela.

Ele olhou-a com esperança, como se ela talvez tivesse uma respos­ta. Ela balançou a cabeça, por isso ele disse:

Ninguém nem mesmo procurou uma saída do LGAR. Talvez haja um modo de escapar daqui. Pelo que sabemos, pode haver um portão grande, escancarado, na barreira. Talvez no mar. Talvez no deserto ou no parque nacional. Ninguém nem olhou.

Astrid resistiu à ânsia de rotular esse sentimento como "agarrar-se a esperanças fúteis".

Em vez disso, falou:

Se houvesse um modo de sair, haveria um modo de entrar. E o mundo inteiro deve saber o que aconteceu. Praia Perdida, a usina nu­clear, a auto-estrada bloqueada subitamente. O mundo não pode dei­xar de ter notado. E eles têm mais pessoal e mais recursos do que nós. Devem ter metade dos cientistas do mundo trabalhando nisso. Mas ainda estamos aqui.

Eu sei. Sei tudo isso. — Agora ele estava mais calmo e sentou-se num dos bancos altos junto à bancada da cozinha. Passou a mão sobre a lisa superfície de granito como se gostasse da frieza da pedra. — An­dei pensando, Astrid. Que tal um ovo?

Ah. Não tem ovos aqui.

Não, quero dizer, pense num ovo. O pintinho abre caminho quebrando a casca do ovo, não é? Mas se você tentar quebrar o ovo de fora para dentro, ele se despedaça. — Sam fez um gesto de esmagamento com os dedos, para ilustrar. Quando ela não respondeu, ele se encolheu e disse: — Fez todo o sentido quando eu estava pensando.

Na verdade, faz um certo sentido — disse ela.

Sam ficou claramente pasmo. Seus olhos piscaram de um modo que agradou a Astrid, e ele deu um sorriso torto.

Você parece surpresa — disse.

Estou, um pouco. Talvez essa seja uma analogia perspicaz.

Você só está dizendo "analogia perspicaz" para me lembrar de que é mais inteligente do que eu — provocou ele.

Os olhares dos dois se encontraram. Depois ambos olharam para o lado, sorrindo sem graça.

Não me arrependo, sabia? — disse ele. — Quero dizer, foi na hora errada, lugar errado e coisa e tal, mas não me arrependo.

Quer dizer...

É.

Nem eu — respondeu Astrid. — Bom, foi o meu primeiro. Que­ro dizer, se não contar quando beijei Alfredo Slavin no primeiro ano.

Seu primeiro beijo?

Bom. É. E você?

Ele balançou a cabeça e se encolheu, lamentando. Depois disse:

Mas foi o primeiro de verdade.

Um silêncio confortável baixou entre os dois.

Depois Astrid disse:

Sam, o negócio da casca do ovo: o que você está dizendo é que, se as pessoas de fora tentarem penetrar na barreira, isso pode ser pe­rigoso para nós. E as pessoas lá fora podem ter deduzido isso. Talvez só nós possamos quebrar a barreira com segurança e sair. Talvez o mundo inteiro esteja esperando, olhando, esperando que a gente des­cubra como quebrar o ovo. — Ela abriu o armário no alto e pegou um saco de biscoitos pela metade. Colocou na bancada e pegou um. — É uma boa teoria, mas você percebe que ainda não é provável.

Eu sei. Mas não quero ficar aqui sentado, esperando o relógio andar, se houver um modo de sair do LGAR.

O que você quer fazer?

Ele deu de ombros. Tinha um modo de fazer isso sem expressar dúvida ou incerteza, mas sim como alguém tirando um fardo pesado, liberando-se para agir.

Quero começar seguindo a barreira e vendo se, por acaso, sim­plesmente existe algum portão grande. Talvez a gente atravesse o por­tão e todo mundo esteja lá, sabe? Minha mãe, seus pais, Anna e Emma.

Os professores — sugeriu Astrid.

Não arruíne uma imagem feliz.

O que acontece se você realmente achar um portão, Sam? Vai passar por ele? O que acontece com todo o pessoal que ainda está no LGAR?

Eles saem também.

Você não vai saber com certeza se é um portão a não ser que passe por ele. E, assim que passar, pode não haver como voltar.

Astrid, em cinco dias eu sumo. Pufo. Cavo um buraco.

Você tem de pensar em si mesmo — disse ela sem inflexão.

Sam ficou chocado.

Não acho justo...

O que quer que ele fosse dizer, perdeu-se, porque nesse momento houve dois barulhos em rápida sucessão. O primeiro foi uma pancada surda vinda de fora. O segundo foi o berro do Pequeno Pete.

Astrid correu pela porta e encontrou o Pequeno Pete enrolado, tre­mendo, uivando, pronto para começar um chilique em escala total.

Havia uma pedra no chão ao lado dele.

E parados na calçada, rindo, estavam Panda, um garoto da Coates chamado Chris, e Quinn. Panda e Chris seguravam bastões de beise­bol. Chris também carregava um saco de lixo branco. Dentro do saco, ligeiramente visível, havia o logotipo de um novo modelo de videogame.

Vocês jogaram uma pedra no meu irmão? — gritou Astrid, sem medo em seu ultraje. Ela se ajoelhou ao lado do Pequeno Pete.

Sam estava na metade do gramado, andando com passo decidido.

O que você fez, Panda?

Ele estava me ignorando — disse Panda.

Panda estava só brincando, Sam — disse Quinn. E ficou entre Sam e Panda.

Jogar uma pedra num garotinho indefeso é só brincar? E o que você está fazendo com esse babaca, afinal?

Quem você está chamando de babaca? — perguntou Panda. Em seguida, apertou com mais força o bastão de beisebol, mas não como se quisesse começar a usá-lo de verdade.

Quem eu estou chamando de babaca? Qualquer um que jogue uma pedra numa criança pequena — disse Sam, sem recuar.

Quinn levantou as mãos, bancando o pacificador.

Olha, fica frio, brou. Nós só estamos numa missãozinha para Mãe Maria. Ela convocou o Panda e mandou ele procurar o urso de pelúcia de uma criança, certo? Nós estávamos fazendo uma boa ação.

Fazendo o bem e roubando alguma coisa de alguém? — Sam apontou para o saco de lixo na mão de Chris. — E, na volta, pensaram em jogar uma pedra e acertar uma criança autista?

Ei, corta essa — disse Quinn. — Nós vamos levar o jogo para Maria, para as crianças terem alguma coisa que fazer.

Agora o Pequeno Pete estava gritando no ouvido de Astrid, de modo que ela não podia ouvir tudo que era dito, apenas trechos de pa­lavras raivosas entre Quinn, cada vez mais irritado, e Sam, numa fúria gelada.

Então Sam deu meia-volta e voltou para ela. Quinn ergueu o dedo médio para as costas dele e foi andando relaxado pela rua com Panda e o garoto da Coates.

Sam se deixou cair violentamente numa cadeira da varanda. Nos dez minutos que Astrid demorou para acalmar o irmão e redirecioná-lo para o videogame, Sam apenas fumegou.

Ele está virando um inútil. Pior do que inútil — disse Sam. De­pois, cedendo, disse: —Vamos superar isso.

Quer dizer, você e o Quinn?

É.

Astrid pensou em ficar de boca fechada, sem pressionar. Mas essa era uma conversa que precisaria ter com Sam cedo ou tarde.

Acho que ele não vai superar.

Você não o conhece tão bem assim.

Ele tem ciúme de você.

Bom, é claro, já que eu sou terrivelmente bonito — disse Sam, esforçando-se para fazer disso uma piada.

Ele é um tipo de pessoa, você é outra. Quando a vida segue nor­malmente, vocês são meio parecidos. Mas quando a vida fica estranha e assustadora, quando há uma crise, de repente vocês são pessoas to­talmente diferentes. Na verdade, não é culpa do Quinn, mas ele não é corajoso. Não é forte. Você é.

Você ainda quer que eu seja o grande herói.

Quero que você seja quem é. — Ela permaneceu junto do Pe­queno Pete, mas estendeu a mão para segurar a de Sam. — Sam, as coisas vão piorar. Neste momento, todo mundo está meio em choque. Está com medo. Mas as pessoas ainda nem perceberam como deve­riam estar apavoradas. Cedo ou tarde, a comida vai acabar. Cedo ou tarde, a usina vai se desligar. Quando estivermos sozinhos no escuro, com fome, desesperados, quem vai assumir o comando? Caine? Ore? Drake?

Bom — disse ele, seco. — Você faz parecer que será muito divertido.

Certo, vou parar de pegar no seu pé — disse Astrid, sentindo que precisava recuar. Estava pedindo o impossível àquele garoto que mal conhecia. Mas sabia que era a coisa certa a fazer.

Acreditava nele. Sabia que ele tinha um destino.

Perguntou-se por quê. Não era lógico, realmente. Não acreditava em destino. Durante toda a vida, Astrid havia contado com o cérebro, com a percepção dos fatos. Agora uma parte que ela mal sabia que existia, alguma parte enterrada e negligenciada de sua mente, estava instigando-a. Não eram bons raciocínios, apenas um instinto que fica­va pressionando-a a pressionar Sam.

Mas tinha certeza.

Certeza.

Astrid virou o rosto para o Pequeno Pete de modo que Sam não visse sua preocupação, mas não soltou a mão dele.

Tinha certeza. Como se perguntassem quanto eram dois mais dois. Esse tipo de certeza.

Soltou a mão dele. Respirou fundo, trêmula. E agora não tinha certeza nenhuma. Sua preocupação aumentou.

Vamos pegar as coisas de comer — disse.

Ele estava em outro lugar, preocupado, por isso não notou o modo como Astrid olhou para as próprias mãos, o rosto franzido de concen­tração. Ela enxugou as mãos no short.

É — disse ele. — É melhor irmos enquanto ainda podemos.

 

                           129 HORAS E 34 MINUTOS

— MOSTRE SUA LISTA— exigiu Howard. Ele estava diante da porta da mercearia Ralph's, sentado numa cadeira de jardim, com os pés apoia­dos numa segunda cadeira. Tinha uma pequena TV com DVD acopla­do, passando Homem-Aranha 3. Mal levantou os olhos quando eles se aproximaram.

Não tenho lista — disse Astrid.

Howard deu de ombros.

Você precisa de lista. Ninguém entra sem lista.

Certo — disse Sam. —Você tem um pedaço de papel e um lápis?

Por acaso tenho, Sam — respondeu Howard. Em seguida, pes­cou um pequeno caderno espiral no bolso de uma jaqueta de couro que não lhe caía bem e entregou a Astrid.

Ela escreveu a lista e entregou a Howard.

Vocês podem pegar todos os produtos frescos que quiserem. Tudo vai apodrecer. O sorvete acabou quase todo, mas talvez tenha algum picolé. — Ele olhou para o Pequeno Pete. — Gosta de picolé, Pe-tardado?

Anda logo — disse Sam.

Se vocês quiserem coisas enlatadas ou tipo... macarrão ou sei lá o quê, têm de conseguir permissão especial do Caine ou de um xerife.

O que você está falando? — perguntou Astrid.

Estou falando que podem pegar alface, ovos, coisas de delicatessen e leite, porque tudo vai ficar velho logo, mas estamos guardando as coisas como sopa enlatada ou qualquer coisa que não estrague.

Astrid concordou:

Certo, faz sentido, acho.

O mesmo com relação a produtos de papel. Todo mundo pega um rolo de papel toalha. Portanto façam com que dure. — Ele olhou a lista de novo. — Tampões? Que tamanho?

Cala a boca — disse Sam.

Howard riu.

Podem ir. Mas vou verificar tudo na saída, e se não estiver legal, faço devolverem.

A loja estava uma bagunça. Antes de Caine ter posto um guarda, fora saqueada de praticamente todos os salgadinhos, biscoitos e coisas do tipo. E as crianças que haviam saqueado não tinham sido organiza­das nem cuidadosas. Havia vidros de maionese quebrados, mostruários virados, portas de vidro dos freezers arrebentadas.

Havia moscas em toda parte. O lugar tinha começado a feder a lixo. Algumas luzes do teto haviam se queimado, deixando bolsões de escuridão. Cartazes multicoloridos ainda pendiam acima das cabeças, anunciando produtos especiais e ofertas.

Sam pegou um carrinho e Astrid colocou o Pequeno Pete no assento.

As flores no cantinho da floricultura pareciam todas cansadas. Uma dúzia de balões de plástico metalizado com escritos de "Feliz aniversá­rio" ou mensagens do Dia de Ação de Graças ainda flutuavam, mas estavam perdendo altitude.

Talvez eu devesse procurar um peru — disse Astrid, olhando o mostruário de comidas relacionadas ao Dia de Ação de Graças: mistu­ra para torta de abóbora, carne moída, molho de amora, espeto para assar perus, recheio.

Você sabe preparar peru?

Posso encontrar instruções na internet. — Ela suspirou. — Ou não. Talvez eles tenham um livro de culinária por aí.

Acho que nada de molho de amora.

Nada enlatado.

Sam foi à frente para a seção de produtos frescos e parou, perce­bendo que Astrid ainda estava olhando o mostruário do Dia de Ação de Graças. Ela estava chorando.

Ei, qual é o problema?

Astrid enxugou as lágrimas, mas outras vieram.

Nós três sempre fazíamos compras juntos, mamãe, Petey e eu. Era uma ocasião em que a gente podia conversar, toda semana. Você sabe, a gente fazia compras meio devagar e falava sobre o que comer e outras coisas, também. Só devagar. Nunca estive aqui sem minha mãe.

Nem eu.

É esquisito. Parece igual, mas não é.

Nada é igual — disse Sam. — Mas mesmo assim as pessoas pre­cisam comer.

Isso provocou um sorriso relutante em Astrid.

Certo. Vamos fazer compras.

Pegaram alface, cenouras e batatas. Sam passou atrás do balcão para pegar dois bifes e embrulhar em papel. Havia muitas moscas em alguns cortes de carne deixados do lado de fora quando os açouguei­ros desapareceram, mas a carne dentro do balcão gelado parecia into­cada.

Mais alguma coisa, senhora? — perguntou ele.

Bom, como ninguém mais está pegando, acho que vou levar aquela peça para assado.

Sam se abaixou para olhar sob o balcão.

Certo. Desisto. Qual é a peça para assado?

Aquela coisa grande ali. — Ela bateu no vidro. — Posso colocar no freezer.

-— Claro. A peça para assado. — Sam levantou-a e pôs em cima de uma folha de papel impermeável. — Você sabe que são uns... 24 dóla­res por quilo, mais ou menos.

Ponha na minha conta.

Passaram para o balcão de laticínios. E ali estava Panda, nervoso e segurando seu bastão, a postos.

Você de novo? — perguntou Sam, rispidamente.

Panda não respondeu.

Astrid gritou,

Sam se virou, mas teve apenas um vislumbre de Drake Merwin antes que algo acertasse a lateral da sua cabeça. Sam cambaleou contra uma prateleira de queijo parmesão, derrubando os vidros verdes em toda parte.

Viu um bastão girando, tentou bloqueá-lo, mas sua cabeça estava girando e os olhos, fora de foco.

Seus joelhos se afrouxaram e ele despencou no chão.

Como se viessem de longe, viu garotos se movendo depressa, qua­tro ou cinco, talvez. Dois agarraram Astrid e prenderam suas mãos atrás do corpo.

Houve a voz de uma garota, uma voz que Sam não reconheceu até que ouviu Panda dizer:

Diana.

Cubram as mãos dele com um saco — disse Diana.

Sam resistiu, mas não tinha controle dos músculos. Algo passou por cima de sua mão esquerda, depois da direita. Dedos fortes o pren­diam com firmeza.

Quando finalmente pôde focalizar, olhou de modo idiota para o que tinha sido feito. Seus pulsos estavam presos juntos, com uma presilha plástica. Em volta de cada mão havia um balão de plástico metalizado, vazio, preso com fita adesiva.

Diana Ladris ajoelhou-se, trazendo o rosto para o nível dele.

É plástico metalizado. É uma superfície espelhada. Assim, eu não tentaria fazer seu feitiço, Sam: você fritaria as próprias mãos.

O que você está fazendo? — perguntou Sam, com a voz quase incompreensível.

Seu irmão quer ter uma conversinha com você.

Aquilo não fazia sentido, e Sam não teve certeza de que estava ou­vindo direito. A única pessoa que ele chamava de "irmão" era Quinn.

Solte Astrid — disse Sam.

Drake passou por Diana e chutou as costas de Sam, que estava com as pernas torcidas atrás do corpo. Drake ficou acima dele e empurrou a ponta do bastão contra seu pomo de adão. O mesmo movimento que tinha usado contra Ore na noite anterior.

Se você for um garotinho bonzinho, nós vamos ser legais com sua namorada e o irmão retardado dela. Se causar problema, eu acabo com ela.

O Pequeno Pete havia começado sua preparação para um uivo total.

Cale a boca desse garoto ou eu mesmo calo por você — disse Drake, bruscamente, para Astrid. Então, para Howard, Panda e os outros, disse: — Peguem o grande herói e o joguem num carrinho de compras.

Sam foi levantado e posto num carrinho.

Howard é que estava empurrando.

-— Sammy, Sammy, Sammy. O Sam Ônibus Escolar agora é o Sam do Carrinho de Compras, hein?

Drake se inclinou e a última coisa que Sam viu foi uma tira de fita adesiva cobrindo seus olhos.

Empurraram-no pela autoestrada no carrinho de compras. Empurraram-no através da cidade. Ele não podia ver, mas podia sentir as sacudidas bruscas. E podia ouvir os risos e as provocações de Howard e Panda.

Sam tentou entender a rota, tentou deduzir para onde iam. Depois do que pareceu um longo tempo, pôde sentir que estavam subindo um morro.

Howard começou a reclamar.

Cara, alguém me ajude a empurrar essa coisa. Ei, Freddie, cara, me ajuda.

O carrinho acelerou por um tempo, depois ficou lento de novo. Sam pôde ouvir respirações ofegantes.

Chame umas pessoas dessas que estão paradas aí — pediu Freddie.

É. Ei, você: venha cá e ajude a empurrar o carrinho.

Não, cara. De jeito nenhum.

Quinn. O coração de Sam pulou. Quinn iria ajudá-lo.

O carrinho parou.

Howard disse:

O que foi, está com medo que o seu garoto aqui descubra o que você andou aprontando?

Cala a boca, cara — disse Quinn.

Sammy, quem você acha que deu à gente a dica de que você ia fazer compras com Astrid? Hein?

Cala a boca, Howard — disse Quinn, parecendo desesperado.

Quem você acha que contou à gente sobre os seus poderes, Sam?

Eu não sabia que eles iam fazer isso -— disse Quinn. — Eu não sabia, brou.

Sam descobriu que nem estava surpreso. Mas mesmo assim, a trai­ção de Quinn doeu mais do que qualquer coisa que Drake tinha feito. Queria gritar com Quinn. Queria chamá-lo de Judas. Mas gritar, ber­rar, chorar, iria fazer com que ele parecesse fraco.

Eu não sabia, irmão, estou dizendo a verdade — disse Quinn.

É. Você achou que talvez a gente só quisesse fazer uma reunião do fã-clube do Sam Temple — disse Howard, e gargalhou da própria piada. — Agora pegue e empurre.

O carrinho começou a se mexer de novo.

Sam sentiu um enjôo por dentro. Quinn o havia traído. Astrid es­tava com Drake e Diana. E não havia nada que ele pudesse fazer.

A coisa pareceu demorar uma eternidade. Mas finalmente pararam.

Sem aviso, o carrinho virou e Sam caiu no pavimento. Rolou sobre as mãos e os joelhos e tentou disfarçadamente raspar o balão de plás­tico contra o concreto.

O chute nas costelas tirou seu fôlego.

Ei — gritou Quinn. — Você não precisa chutá-lo.

Mãos agarraram Sam pelos braços e então ele escutou a voz de Ore.

Se aprontar alguma, eu arrebento você.

Fizeram-no subir, cambaleando, alguns degraus. Havia uma porta, aparentemente grande, pelo som. Então os pés ecoaram em linóleo encerado.

Pararam. Outra porta se abriu. Sam foi levado através dela. Ore chutou-o na parte de trás dos joelhos e ele caiu de rosto no chão.

Ore montou em suas costas, agarrou seu cabelo e puxou a cabeça para trás com força.

Tire a fita — ordenou uma voz.

Howard segurou a ponta da fita e arrancou-a, tirando junto parte das sobrancelhas de Sam.

Sam reconheceu o lugar imediatamente. O ginásio de esportes da escola.

Estava caído no piso de madeira polida, com Caine parado calma­mente diante dele, braços cruzados, tripudiando.

Ei, Sam — disse Caine.

Sam girou a cabeça para a esquerda e para a direita. Ore, Panda, Howard, Freddie e Chaz, todos armados com bastões de beisebol. Quinn tentou se encolher fora das vistas.

Você tem um monte de caras, Caine. Eu devo ser perigoso.

Caine assentiu, pensativo.

Gosto de ser cuidadoso. Claro, Drake está com sua namorada. Portanto, se eu fosse você, tentaria não causar problemas. Drake é um cara violento, perturbado.

Howard gargalhou.

Deixem que ele fique de pé — ordenou Caine.

Ore desceu das costas de Sam, mas não sem primeiro cravar um joelho em suas costelas. Sam se levantou, trêmulo, mas satisfeito por não estar no chão.

Examinou Caine atentamente. Tinham se encontrado na praça quando Caine havia chegado. Desde então, Sam só vira Caine de pas­sagem.

Caine o examinou com igual atenção.

O que você quer comigo? — perguntou Sam.

Caine começou a morder o polegar, depois baixou as mãos ao lado do corpo, de modo que quase parecia em posição de sentido.

Gostaria que houvesse algum modo de podermos ser amigos, Sam.

Não vejo você morrendo de vontade de ser meu coleguinha.

Caine riu.

Está vendo? Você tem senso de humor. Isso não deve ter vindo da sua mãe. Ela nunca me pareceu muito divertida. Será que veio de seu pai?

Não faço idéia.

Não? Por quê?

Você está com o laptop da minha mãe. Está com todos os docu­mentos pessoais dela. E Quinn andou respondendo perguntas sobre mim. Então, acho que você já sabe a resposta.

Caine assentiu.

É. Seu pai desapareceu logo depois de você nascer. Acho que ele não ficou muito impressionado com você, não é? — Caine riu da pró­pria piada, e alguns de seus lacaios o acompanharam sem muito âni­mo, já que não haviam entendido direito. — Bom, não se sinta mal. Por acaso meu pai biológico também desapareceu. E minha mãe.

Sam não respondeu. Suas mãos estavam dormentes devido à amar­ra de plástico. Estava com medo, mas decidido a não demonstrar.

Você não deveria usar sapatos de rua no piso do ginásio — disse Sam.

Então seu pai desaparece e você nem quer saber por quê? — perguntou Caine. — Interessante. Eu sempre quis saber quem eram meus pais de verdade.

Deixe-me adivinhar: secretamente você é um mago que foi cria­do por trouxas.

O sorriso de Caine foi frio. Ele levantou a mão com a palma para a frente. Um punho invisível acertou o rosto de Sam, fazendo-o cam­balear para trás. Mal se segurou de pé, mas sua cabeça estava girando. Sangue escorreu do nariz.

É. Mais ou menos — disse Caine.

Ele estendeu as duas mãos e Sam sentiu-se sendo erguido do chão.

Caine o levantou cerca de um metro, depois girou os dedos e Sam caiu violentamente.

Sam levantou-se devagar. Sua perna esquerda estava bamba. O tor­nozelo parecia torcido.

—- Temos um sistema para medir o poder — disse Caine. — Na verdade, foi Diana que descobriu. Ela consegue ler as pessoas ao segu­rar as mãos delas... Sabe dizer quanto poder elas têm. Diana descreve isso como um sinal de celular. Uma barra, duas barras, três barras. Sabe o que eu sou?

Maluco? — Sam cuspiu o sangue que escorria em sua boca.

Quatro barras, Sam. Sou o único que ela já leu e que tem quatro barras. Eu poderia pegar você, jogar contra o teto ou contra uma pa­rede. — Ele ilustrou o argumento com movimentos de mão que fa­ziam parecer que estava dançando hula-hula.

Você poderia trabalhar num circo — disse Sam, animado.

Uuuuh, que cara machão! — Caine parecia chateado por Sam não ter reagido com espanto.

Olha, Caine, minhas mãos estão amarradas, você tem cinco capan­gas em volta de mim com bastões de beisebol, e eu deveria ficar aterro­rizado porque você sabe fazer truques de mágica? -— Sam fez a contagem de "cinco" em vez de "seis". Não contaria Quinn como coisa alguma.

Caine registrou a omissão e lançou um olhar de suspeita para Quinn. Quinn ainda parecia um garoto que não sabia onde ficar nem o que fazer consigo mesmo.

E um desses cinco — disse Sam — é um assassino. Um assassino e um punhado de covardes. Esse é o seu pelotão, Caine.

Os olhos de Caine se arregalaram. Ele mostrou os dentes, furioso, e de repente Sam foi lançado pelo ginásio.

Voando como se tivesse sido atirado de uma catapulta.

O ginásio girou ao redor.

Ele bateu com força no aro de basquete, com a cabeça se chocando contra o vidro da tabela. Ficou pendurado um momento no aro e de­pois caiu de costas.

Foi arrastado por mãos invisíveis, de força terrível, como se fosse varrido por um tornado. Veio parar aos pés de Caine.

Desta vez, demorou a voltar a si. O sangue do nariz foi acompa­nhado por outro fio que escorria da testa.

Vários de nós desenvolveram poderes estranhos, de uns meses para cá — disse Caine, em tom casual. — Éramos como um clube se­creto. Frederico, Andrew, Dekka, Brianna, alguns outros. Nós traba­lhamos em conjunto para desenvolvê-los. Encorajávamos uns aos ou­tros. Veja, esta é a diferença entre o pessoal da Coates e vocês, da cidade. Num colégio interno, é difícil guardar segredo. Mas logo ficou claro que meus poderes eram de um nível totalmente diferente. Viu o que eu acabei de fazer com você? Ninguém mais poderia fazer isso.

É, foi maneiro — disse Sam, com desafio trêmulo. — Pode fazer de novo?

Ele está provocando você. — Diana entrava no ginásio e obvia­mente não estava nem um pouco feliz com o que via.

Ele está tentando provar que é durão — reagiu Caine rispidamente.

É. E provou. Vá em frente.

Olha como fala comigo, Diana — ameaçou Caine.

Diana andou presunçosa até Caine. Cruzou os braços sobre o peito e balançou a cabeça para Sam, numa falsa consternação.

Bom, você está com uma cara bem ruim, Sam.

Vai ficar pior ainda — ameaçou Caine.

Diana suspirou.

O negócio é o seguinte, Sam. Caine quer que você responda al­gumas coisas.

Por que não pergunta ao Quinn?

Porque ele não sabe as respostas, mas você sim, portanto é o seguinte: se você não responder às perguntas do Intrépido Líder, Drake vai começar a espancar Astrid. E, só para você saber, Drake é doente da cabeça. Não digo isso para amedrontar, estou dizendo por­que é verdade. Eu sou má, Caine tem delírios de grandeza, mas Drake é completamente louco. Ele pode matá-la, Sam. E vai começar em cinco minutos, a não ser que eu volte e diga para não fazer isso. Por­tanto, tique-taque.

Sam engoliu sangue e bile.

Que perguntas?

Diana revirou os olhos e se virou para Caine.

Viu como foi fácil?

Espantosamente, Caine aceitou a atitude de Diana. Sem ameaças, sem ataques contra ela, apenas raiva contida, ressentimento e aceitação.

Ele está apaixonado por ela, percebeu Sam, chocado. Nas vezes em que vira os dois juntos, nunca testemunhara qualquer sinal externo de afeto, mas não existia outra resposta possível.

Fale do seu pai — disse Caine.

Sam deu de ombros, um movimento doloroso que o fez se encolher.

Ele não fez parte da minha vida. Só sei que minha mãe não gos­tava de falar dele.

Sua mãe. A enfermeira Temple.

É.

O nome na sua certidão, o nome do seu pai. E "Taegan Smith".

Certo.

Taegan. Um nome muito incomum. Muito raro.

E daí?

Mas "Smith" é realmente comum. É um nome que poderia ser usado por alguém que quisesse esconder o nome verdadeiro.

Olha, estou respondendo às suas perguntas. Mande soltar Astrid.

Taegan — repetiu Caine. — Bem ali na certidão de nascimento. Mãe: Constance Temple. Pai: Taegan Smith. Data de nascimento: 22 de novembro. Hora do nascimento: 22 horas e 12 minutos. Hospital Regional Sierra Vista.

Bom, agora você pode fazer meu horóscopo.

Você não está interessado em nada disso?

Sam suspirou.

Estou interessado no que está acontecendo. Por que o LGAR começou. Como podemos fazer com que isso pare, ou então como podemos escapar dele. Na grande lista de coisas com as quais me preo­cupar, meu pai biológico desconhecido, que nunca foi nada para mim, está bem no final.

Você vai sumir em cinco dias, Sam. Está interessado nisso?

Solte Astrid.

Ande, Caine — disse Diana. — Vá em frente.

Caine deu um risinho.

Estou muito interessado na questão do desaparecimento. Sabe por quê? Porque não quero morrer. E não quero, de repente, me ver de volta ao mundo. Gosto daqui, do LGAR.

-— É isso que você acha que acontece? Que a gente pula de volta para o mundo?

Eu estou fazendo as perguntas — reagiu Caine, rispidamente.

Solte Astrid.

A questão — continuou Caine — é que você e eu temos algo em comum, Sam. Nós nascemos com apenas três minutos de diferença.

Sam sentiu um arrepio subir pela coluna.

Três minutos — disse Caine, chegando mais perto. — Você vai primeiro. E depois eu.

Não — disse Sam. — Não pode ser.

Pode. E é. E você é... meu irmão.

A porta se abriu com um estrondo. Drake Mervin entrou correndo, procurando por alguma coisa.

Ela está aqui?

Quem? — perguntou Diana.

Quem você acha? A loura e o irmão retardado dela.

Você a deixou fugir? — perguntou Caine, esquecendo-se de Sam por um momento.

Não a deixei fugir. Eles estavam na sala comigo. A garota estava me irritando tanto que eu lhe dei uma cacetada. Então eles desapare­ceram. Sumiram.

Caine lançou um olhar assassino para Diana. Diana disse:

Não. Faltam meses para ela fazer 15 anos. E, de qualquer modo, o irmão dela tem quatro.

Então como? — Caine franziu a testa. — Pode ser o poder?

Diana balançou a cabeça.

Eu li Astrid de novo quando vim para cá. Ela nem tem duas barras. De jeito nenhum. Teletransportar duas pessoas?

A cor sumiu do rosto de Caine.

E o retardado?

Ele é autista, é como se vivesse num mundo próprio — protes­tou Diana.

Você o leu?

Ele é um garotinho autista, por que eu iria lê-lo?

Caine virou-se para Sam.

O que você sabe sobre isso? — E levantou a mão numa ameaça. Com o rosto a centímetros do de Sam, gritou: — O que você sabe?

Bom. Sei que gosto de ver você apavorado, Caine.

O punho invisível jogou Sam esparramado para trás.

Pela primeira vez, Diana pareceu preocupada. Seu usual risinho de desprezo havia sumido.

A única vez que vimos teletransporte foi com a Taylor, lá na Coates. E ela só conseguia ir de um lado da sala até o outro. Ela era três barras. Se esse garoto pode se teletransportar junto com a irmã, atravessando paredes...

Ele poderia ser um quatro — disse Caine, baixinho.

É — concordou Diana. — Poderia ser um quatro. — Quando disse a palavra "quatro", ela olhou direto para Sam. — Talvez até mais.

Caine se agitou.

Ore, Howard: tranquem o Sam, amarrem de um jeito que ele não consiga tirar o plástico espelhado das mãos, depois peçam ajuda a Freddie. Ele já fez bloco de concreto, sabe o que fazer. Peguem o que precisarem na loja de ferramentas. — Em seguida, agarrou Drake pelo ombro. — Encontre Astrid e aquele garoto.

Como vou pegá-los se eles podem sumir quando quiserem?

Eu não falei pegar — disse Caine. — Leve uma arma, Drake. Atire nos dois antes que eles o vejam.

Sam pulou contra Caine e o derrubou antes que ele pudesse reagir, e o impacto levou os dois para o chão. Sam deu uma cabeçada no nariz de Caine, que foi lento demais para se recuperar, mas Drake e Ore pularam sobre Sam e o chutaram até tirá-lo de Caine.

Sam gemeu de dor.

Você não pode matar pessoas, Caine. Está maluco?

Meu nariz esta doendo.

Você é doente, Caine. Precisa de ajuda. Você é doido.

É — disse Caine, tocando o nariz e se encolhendo de dor. — É o que viviam me dizendo. É o que a enfermeira Temple... mamãe... me disse. Só fique feliz porque preciso manter você por perto, Sam. Pre­ciso ver você desaparecer, preciso deduzir como impedir que isso aconteça comigo. Ore, leve o heroizinho. Drake: vá.

Se machucar os dois, Drake, vou caçar e matar você — gritou Sam.

Não gaste seu fôlego — disse Diana. — Você não conhece o Drake. Sua namorada já está praticamente morta.

 

                         128 HORAS E 32 MINUTOS

ASTRID QUERIA GRITAR com Drake e Diana, acusá-los, exigir saber que tipo de seres humanos indignos usavam o LGAR como desculpa para a violência.

Mas precisava manter o Pequeno Pete calmo. Esta era a sua princi­pal prioridade, seu irmão. Seu irmão de rosto vazio, impotente, inca­paz de amar.

Ressentia-se dele. Ele a havia transformado em mãe aos 14 anos. Não estava certo. Este deveria ser seu tempo de brilhar, de ser ousada. Era seu tempo de usar o intelecto, aquele dom supostamente fantásti­co. Em vez disso, era uma babá.

Astrid e o Pequeno Pete foram levados, com cortesia zombeteira, para uma sala de aula. Não era uma das salas onde Astrid estudava, mas po­deria ter sido. Tudo era dolorosamente familiar: livros abertos nas cartei­ras, paredes enfeitadas com trabalhos de arte e projetos dos alunos.

Sente-se. Leia um livro, se quiser — disse Diana. — Sei que você gosta desse tipo de coisa.

Astrid sopesou um dos livros.

É, matemática do quarto ano. Adoro esse tipo de coisa.

Sabe, eu realmente não gosto de você — disse Diana.

Claro que não gosta de mim. Eu faço com que você se sinta in­ferior.

Os olhos de Diana chamejaram.

Não me sinto inferior a ninguém.

Verdade? Porque geralmente as pessoas que fazem coisas ruins reconhecem que há alguma coisinha errada com elas. Sabe? Mesmo quando tentam suprimir isso, sabem que são doentes por dentro.

É — disse Diana, laconicamente. — Eu me sinto mal com isso. Meu coração maligno e coisa e tal. Me dê sua mão.

O quê?

Prometo não contagiar você com minha maldade. Me dê sua mão.

Não.

Drake. Faça ela me dar a mão.

Drake se afastou da parede.

Astrid estendeu a mão. Diana segurou-a.

Você lê as pessoas — disse Astrid. — Eu deveria ter deduzido antes. Você tem o poder, não é? — Ela olhou para Diana como se ob­servasse um espécime num laboratório.

É — respondeu Diana, soltando-a. — Eu leio pessoas. Mas não se preocupe, só leio níveis de poder, não seus pensamentozinhos se­cretos sobre o quanto quer um amasso com o Sam Temple.

Astrid ficou vermelha, mesmo contra a vontade. Diana riu.

Ah, por favor, isso é óbvio. Ele é bonitinho. É corajoso. É inte­ligente, mas não tanto quanto você. Ele é perfeito.

Ele é meu amigo.

Ahã. Bom, vamos descobrir até que ponto ele é um bom amigo. Ele sabe que estamos com você. Se não contar tudo o que Caine quer saber, se não fizer o que o Caine mandar, Drake está aqui para machu­car você.

O estômago de Astrid virou geléia.

O quê?

Diana suspirou.

Bom, é por isso que a gente mantém o Drake por perto. Ele gosta de machucar pessoas. A gente não o mantém por perto pelos papos interessantes.

Drake parecia com vontade de atacar Diana. Seus olhos estreitos, de lagarto, se estreitaram mais ainda. Diana não deixou de perceber a expressão.

Vá em frente, levante a mão contra mim, Drake — provocou Diana. — Caine mataria você. — Para Astrid, disse: — É melhor se comportar, agora ele está todo irritadinho.

Diana saiu.

Astrid sentiu os olhos de Drake fixos nela, mas não pôde encará-lo. Manteve o olhar abaixado para o livro de matemática. Depois olhou o irmão, que estava sentado brincando com seu jogo idiota, incapaz, sem vontade, sem se importar.

Astrid sentiu vergonha do próprio medo. Vergonha de não ser ca­paz de olhar o bandido encostado despreocupadamente na parede.

Não tinha dúvida de que Sam faria o máximo para salvá-la. Mas Caine poderia pedir alguma coisa que Sam não poderia dar.

Precisava pensar. Precisava bolar um plano. Estava com medo, sempre tivera medo da violência física. Tinha medo do vazio que sen­tia em Drake Merwin.

Puxou a carteira para perto do Pequeno Pete e pôs a mão no ombro dele. Não houve reação. Ele sabia que ela estava ali, mas não demons­trava nada, absorvido no jogo.

Ainda sem olhar para Drake, Astrid disse:

Você não se incomoda quando Diana o trata como a um animal selvagem que ela mantém na coleira?

Você não se incomoda em andar por aí com esse retardado? — perguntou Drake. — Ficar com um retardadinho praticamente gruda­do em você?

Ele não é retardado — disse Astrid, em tom calmo.

Ah. Essa palavra é errada? "Retardado"?

Ele é autista.

Retardado — insistiu Drake.

Astrid olhou-o. Fez força para enfrentar o olhar dele.

"Retardado" é uma palavra que não se usa mais. Quando usam, é para significar uma diminuição da inteligência. Pete não tem a inte­ligência diminuída desse jeito. Ele tem um QI no mínimo normal, e talvez até acima do normal. De modo que a palavra não serve.

É? Ah. Mas eu gosto da palavra "retardado". Na verdade gosta­ria de ouvir você dizer. Retardado.

Astrid sentiu o pavor minar sua força. Em sua mente não havia a menor dúvida de que ele pretendia machucá-la. Sustentou o olhar por um tempo, mas depois baixou os olhos.

Retardado — insistiu Drake. — Diga.

— Não — sussurrou Astrid.

Drake veio andando pela sala. Não estava segurando uma arma. Não precisava. Pôs os punhos na carteira e se inclinou sobre ela.

Retardado — disse. — Diga: meu irmão é retardado.

Astrid não se sentia em condições de falar. Estava engolindo as lá­grimas. Queria acreditar que era corajosa, mas agora, com o bandido a centímetros de distância, soube que não era.

Meu. Irmão. Vamos, diga comigo. Meu. Diga.

O tapa foi tão rápido que ela mal percebeu a mão dele se mover.

Diga. Meu...

Meu — sussurrou ela.

Mais alto. Quero que o retardadinho escute. Meu irmão é retar­dado.

O segundo tapa foi tão forte que ela quase caiu da cadeira.

Pode falar enquanto seu rosto ainda está bonito, ou pode dizer depois de eu ter arrebentado com ele. A escolha é sua. Meu irmão é retardado.

Meu irmão é retardado — disse Astrid, com a voz trêmula.

Drake gargalhou, adorando aquilo, e foi até o Pequeno Pete, que havia levantado os olhos do jogo e parecia quase registrar o que estava acontecendo. Drake pôs o rosto bem pertinho do Pequeno Pete e, com uma das mãos, puxou Astrid pelo cabelo, de modo que a boca da ga­rota ficasse perto do ouvido do Pequeno Pete, e disse:

Mais uma vez, bem alto. — Empurrou o rosto de Astrid contra a lateral da cabeça do Pequeno Pete e gritou: — Meu irmão é...

E Astrid caiu de costas em sua cama.

Sua cama. Seu quarto.

O Pequeno Pete estava no banco da janela, de pernas cruzadas, se­gurando o videogame.

Astrid soube imediatamente o que havia acontecido. Mas, mesmo assim, aquilo causava uma desorientação tremenda. Num segundo es­tava na escola, no outro, em seu quarto.

Não podia olhar para ele. Seu rosto queimava com o tapa, porém mais ainda com a vergonha.

Obrigada, Petey — sussurrou.

Ore arrastou Sam do ginásio para a sala dos pesos.

Howard olhou em volta, pensando no que deveria fazer.

Howard, cara, você não pode estar nessa — implorou Sam. — Não pode concordar com Caine querendo matar Astrid e o Pequeno Pete. Ore, nem você pode concordar com isso. Você não queria matar Bette. Isso já é passar do ponto demais.

É. É passar do ponto — admitiu Howard, preocupado, com a boca torcida de lado ironicamente.

-— Vocês precisam me ajudar. Me deixem ir atrás do Drake.

Acho que não, Sammy. Veja bem, eu já vi o tipo de coisa que o Caine pode fazer. — Para Ore, Howard disse: — Vamos colocá-lo em cima desse banco. De cara para cima. Vamos amarrar as pernas nos suportes, aqui.

Ore levantou Sam e jogou-o no banco de supino.

Ore, isso vai ser assassinato a sangue-frio — disse Sam.

Eu, não, cara — disse Ore. — Só estou amarrando você.

Drake vai assassinar Astrid. Ela ajudou você a passar em mate­mática. Você pode impedir isso, Ore.

Ela não deveria ter contado isso a ninguém — resmungou Ore. — De qualquer modo, não tem mais aula de matemática.

Os dois usaram uma corda para prender seus tornozelos às pernas do banco. Amarraram outra corda na cintura.

Certo, agora vem a parte boa — disse Howard. — Vamos colo­car uns pesos na barra. Vamos amarrar as mãos do Sam à barra e bai­xar a barra pelo deslizador, certo? Ele vai ficar ocupado mantendo a barra longe do pescoço.

Ore demorou a entender, por isso Howard demonstrou. Então Ore juntou placas de peso à barra.

Quanto você consegue levantar no supino, Sam? — perguntou Howard. — Eu diria para colocar duas de 20 quilos em cada ponta, certo? Com a barra vão ser 90 quilos.

De jeito nenhum ele consegue 90 — opinou Ore.

Acho que você está certo, Ore. Acho que ele vai ficar ocupado só tentando não ser sufocado pela barra.

Isso não está certo, Howard — disse Sam. — Você sabe que não está certo. Vocês não fazem coisas assim, nenhum dos dois. Vocês são valentões, não assassinos a sangue-frio.

Howard suspirou.

Sammy, esse é um mundo totalmente diferente, não notou? É o LGAR, cara.

Ore baixou o peso. A barra pousou nos pulsos amarrados de Sam, que pressionavam contra seu pomo de adão. Ele empurrou para cima com toda a força, mas nem em seus melhores dias ele conseguiria le­vantar 90 quilos. Só conseguia manter pressão suficiente para conti­nuar respirando.

Ore riu e disse:

Vem, cara, é melhor encontrar o Caine antes que a gente perca mais diversão.

Howard acompanhou Ore, mas parou junto à porta.

É meio estranho, Sam. Naquela primeira noite, achei que o ve­lho Sam do Ônibus Escolar iria comandar as coisas logo, se a gente não tomasse cuidado. Todo mundo estava esperando você fazer algu­ma coisa. Você sabe disso. Mas não, você foi tranqüilo demais para agir daquele jeito. E foi embora sem falar com ninguém, foi embora com Astrid. — Ele riu. — Claro, ela é uma gata, não é? E agora Caine está comandando o LGAR e Drake vai matar sua namorada.

Sam lutou contra o peso, mas não havia como levantá-lo. Mesmo que tivesse um bom ângulo de pegada, não conseguiria.

Mas, apesar de toda a inteligência, Howard havia deixado de per­ceber uma coisa: nessa posição Sam podia alcançar o plástico espelha­do em suas mãos com os dentes.

Tentou rasgá-lo, mas era um trabalho lento e ele não tinha tempo. Não havia dúvidas de que o Pequeno Pete havia se teletransportado com Astrid para casa. Drake iria encontrá-los lá.

Tentou prender o plástico com os dentes, mas ele era escorregadio e forte. E, quando se concentrava nisso, perdia o foco em manter o peso longe do pescoço.

A barra comprimia os nós dos dedos contra a garganta. Fez força para cima, mas seus braços já estavam com cãibras. Os músculos iam se enfraquecendo.

Poderia rasgar o plástico e livrar as mãos ou poderia impedir a bar­ra de sufocá-lo. Era impossível fazer as duas coisas.

E, mesmo que libertasse as mãos, o que fazer? Não era como Cai­ne. Não tinha controle sobre os poderes. Poderia rasgar o plástico e continuar incapaz de fazer qualquer coisa.

A barra escorregou mais para baixo.

Ele estava com o plástico entre os dentes.

Mastigou-o, tentando fazer um pequeno buraco que pudesse alargar.

A essa altura, Drake já estaria fora da escola e indo procurar Astrid. Será que teria de parar em algum lugar para arrumar uma arma?

Astrid saberia que eles iriam atrás dela. Saberia que era perigoso ficar em casa. Será que agiria suficientemente rápido?

E aonde ela poderia ir?

Sam sentiu seus dentes rangendo. Tinha feito um buraco.

Mas estava com dificuldade para respirar.

Mal notou a porta se abrindo.

Passos rápidos no carpete e o som e a sensação de uma das placas de peso escorregando para fora da barra. Sam respirou.

Agüenta firme, brou.

Quinn tirou o resto dos pesos da barra.

Com braços trêmulos, Sam empurrou a barra para longe do pescoço.

Eu não sabia que eles iam fazer isso, brou. Não sabia mesmo, cara. — Quinn estava pálido. Como se nunca tivesse visto o sol. — Você precisa acreditar, Sam. — Ele estava soltando as cordas. Sam sentou-se.

Quinn estava arrasado. Estivera chorando, os olhos vermelhos e inchados.

Juro por Deus, eu não sabia.

Eu sei. Eu sei. Isso é uma tremenda confusão.

Com as pernas livres, Sam ficou de pé.

Isso é outro truque? Eles vão me seguir para achar Astrid?

Não, cara. Eles me dariam uma surra se descobrissem que soltei você. — Quinn abriu os braços, implorando. — Você precisa me levar junto.

Como posso confiar em você, Quinn?

Se me deixar aqui, o que acha que Caine vai fazer comigo?

Sam não tinha tempo para discutir. Decidiu rapidamente

É melhor você rezar para Astrid não estar machucada, Quinn. Se estiver fazendo isso para me entregar, é melhor garantir que eu seja morto também.

Quinn lambeu os lábios, nervoso.

Não precisa me ameaçar, brou.

Não me chama de brou. Não sou seu irmão.

 

                         128 HORAS E 22 MINUTOS

ASTRID SENTIU UMA onda de alívio, seguida por uma onda muito maior de desprezo por si mesma. Tinha deixado Drake aterrorizá-la. Tinha chamado o Pequeno Pete de retardado.

Suas mãos estavam tremendo. Tinha traído o irmão. Odiava-o por ele ser o que era, por ser tão necessitado, e o havia traído para se poupar. E agora sentia muito mais raiva de si mesma do que jamais sentira dele.

Mas agora precisava pensar. Depressa. O que fazer?

Drake iria encontrá-la de novo. Sem dúvida Caine ou aquela cria­tura maligna, Diana, deduziriam o que havia acontecido.

Drake demoraria apenas alguns segundos para informar a eles. Mais alguns segundos até Caine perceber o que aconteceu. Se Diana realmente era capaz de ler o poder nas pessoas, saberia que não era Astrid que os havia teletransportado. Saberia que o Pequeno Pete ti­nha o poder.

Ela e o Pequeno Pete precisavam ir embora. Mas para onde?

Algum lugar onde Drake não procuraria. Algum lugar onde Sam poderia procurar.

Se escapasse.

Se ao menos estivesse vivo.

Seu cérebro estava se movendo em câmera lenta, girando em círcu­los, incapaz de focalizar. Ficava vendo aquele rosto terrível, doentio, sentindo a ardência da mão dele, o modo como o calor dela permane­cia e se juntava com seu rubor quente de vergonha.

Pense, idiota — ralhou consigo mesma. — Pense. É só para isso que você serve.

Eles não poderiam atravessar a cidade. Não poderiam pegar um carro — era tarde demais para começar a aprender a dirigir.

Sua mente era uma filmadora desfocada, girando e fazendo rede­moinhos e voltando repetidamente ao momento em que o medo to­mou conta, quando não pôde mais resistir, quando traiu o irmão. De novo e de novo, eram repetidas na sua cabeça as palavras: "Meu irmão é retardado."

O Penhasco.

O quarto em que tinham ficado naquela primeira noite.

É. Sam deduziria. Mas Quinn havia estado lá, também. Ele poderia chegar à mesma conclusão.

Astrid hesitou. Não havia tempo para hesitar; Drake não hesitaria. Nesse ponto já estaria atrás deles. Já estava a caminho.

Não podia enfrentá-lo de novo.

Petey, precisamos ir. — Astrid pegou a mão dele e puxou-o esca­da abaixo. Não havia tempo para parar por nada. Não havia tempo.

Até a porta da frente. Não. Era melhor a de trás.

Andaram pelo quintal dos fundos — raramente o Pequeno Pete aceitava correr. A cerca de madeira era razoavelmente baixa, mas mes­mo assim foi um trabalho exaustivo e demorado fazer o Pequeno Pete escalar por ela. Correram pelo quintal do vizinho.

Fique fora das ruas — disse a si mesma.

Foram até onde puderam, de um quintal dos fundos ao outro, de­pois se esgueiraram para a rua quando o caminho foi bloqueado e, em seguida, de volta a quintais e becos.

Não viram ninguém. Mas não havia como saber se estavam sendo vigiados.

Chegaram ao morro que marcava o limite da cidade e o início do terreno do Resort do Penhasco. Subiram com dificuldade em meio aos arbustos agarrados à areia. Astrid puxava o Pequeno Pete, desesperada para mover-se depressa, mas com medo de fazer qualquer coisa que o perturbasse.

O hotel não havia mudado. A barreira continuava ali. O saguão ainda estava limpo, brilhante, vazio.

Astrid ainda tinha a chave eletrônica que haviam feito naquela pri­meira noite. Encontrou a suíte, abriu a porta e desmoronou na cama.

Ficou ali deitada, ofegando, olhando o teto vazio. A cama era ma­cia. O ar-condicionado zumbia.

Podia dar uma explicação para as palavras que Drake havia posto em sua boca. Eram palavras sem importância. Apenas palavras. O Pe­queno Pete não se importava.

Mas não podia explicar seu medo. Ele a envergonhava.

Pôs a mão fria no rosto, para ver se estava mesmo tão quente quan­to em sua imaginação.

— Para onde vamos, Sam? — perguntou Quinn, ansioso. Estavam se movendo com agilidade, não exatamente numa corrida, mas numa semi-corrida que podiam sustentar.

Sam o guiou direto através da cidade, através da praça, como se estivesse indiferente a alguma perseguição.

Vamos encontrar Astrid antes do Drake.

Vamos olhar na casa dela.

Não. O bom de um gênio é que você não precisa pensar se ela está fazendo a coisa mais óbvia. Ela vai saber que tem de sair de casa.

Para onde ela iria?

Sam pensou um momento.

Para a usina nuclear.

A usina?

É. Por isso vamos pegar um barco e subir pelo litoral.

Certo. Mas, brou... quero dizer, cara, a gente não devia estar disfarçando um pouquinho, em vez de sair correndo pela cidade?

Sam não respondeu. Parte do motivo para estar indo em linha reta em vez de disfarçar era que esperava pegar Edilio no posto dos bom­beiros. A outra era que precisava saber se Quinn iria traí-lo na primei­ra chance que tivesse.

E havia uma questão de tática que Sam entendia intuitivamente: Caine tinha mais poder, por isso Sam precisaria de mais velocidade. Quanto mais tempo deixasse o jogo correr, maior era a probabilidade de Caine vencer.

Chegaram ao posto dos bombeiros. Edilio estava sentado na cabine do caminhão com o motor ligado. Viu Sam e Quinn e se inclinou para fora da janela.

Bem na hora, cara, vou tentar sair, dar uma... — Ele ficou quie­to ao ver o rosto de Sam coberto de sangue.

Edilio. Venha. Precisamos ir.

Certo, cara, só me deixe pegar...

Não. Tem de ser agora. Drake está procurando Astrid. Ele vai matá-la.

Edilio pulou do caminhão.

Para onde?

Para a marina. Vamos pegar um barco. Acho que Astrid vai para a usina nuclear.

Os três correram em direção à marina. Sam sabia que Ore e Ho­ward estavam na escola com Caine. Drake estava indo para a casa de Astrid. Com isso, restariam alguns capangas andando por ali, mas Sam não ficou muito preocupado com nenhum deles.

Viram o Martelo e um cara da Coates à toa na escadaria da prefei­tura. Nenhum dos dois questionou enquanto eles passavam correndo.

A marina não era grande, possuía apenas quarenta embarcadouros, com cerca de metade ocupados. Havia uma doca seca e o armazém velho e enferrujado que já havia sido uma fábrica de enlatados e agora abrigava oficinas de barcos. Havia um monte de barcos na água, pre­sos a estacas, parecendo desajeitados, como se uma brisa forte pudesse emborcá-los.

Não havia ninguém ali. Ninguém bloqueava o caminho deles.

O que vamos pegar? — perguntou Sam. Tinha chegado ao pri­meiro objetivo, mas não sabia nada sobre barcos. Olhou para Edilio e recebeu um gesto de ombros encolhidos.

Certo. Alguma coisa que carregue cinco pessoas. Uma lancha. Com tanque cheio de gasolina. Quinn, veja os barcos da direita, Edi­lio, da esquerda. Eu vou até o fim do cais e voltar. Andem.

Separaram-se e começaram a trabalhar, pulando em cada barco promissor, procurando chaves, tentando deduzir como verificar a ga­solina enquanto o tempo passava.

Em sua mente, Sam viu Drake revistando a casa de Astrid. Com uma arma na mão. Ele se demoraria um pouco com o medo de que Astrid e o Pequeno Pete pudessem simplesmente se teletransportar de novo. Drake não saberia que o Pequeno Pete realmente não controla­va seus poderes, por isso tentaria ser discreto, seria paciente.

Isso era bom. Quanto mais incerteza Drake tivesse, mais devagar iria.

De repente, um motor foi ligado. Sam pulou de um barco que estivera explorando de volta para o cais. Saiu correndo até encontrar Quinn sentado, todo orgulhoso, numa Boston Whaler, uma lancha aberta.

Ela está com o tanque cheio — disse Quinn, por cima do baru­lho chacoalhante do motor.

Bom trabalho, cara — disse Sam. Em seguida pulou no barco ao lado de Quinn. -— Edilio, zarpar.

Edilio soltou as cordas das estacas e pulou no barco.

Vou avisar, cara: eu sinto enjoo no mar.

Não é o nosso maior problema, certo? — respondeu Sam.

Eu liguei, mas não sei pilotar — disse Quinn.

Nem eu — admitiu Sam. — Mas acho que vou aprender.

Ei! Ei! — Era a voz estrondeante de Ore. — Não se mexam.

Ore, Howard e Panda estavam no fim do cais.

-— O Martelo — disse Sam. — Ele viu a gente. Deve ter contado.

Os três valentões começaram a correr.

Sam olhou freneticamente para os controles. O motor estava liga­do, o barco desatracado, ia se afastando do cais, mas muito lentamen­te. Até Ore poderia pular facilmente nele.

Acelerador — disse Edilio, apontando para uma alavanca com ponta vermelha. — Isso faz ele andar.

É. Espera aí.

Sam moveu a alavanca um pouquinho. O barco saltou adiante e bateu numa estaca. Sam foi sacudido, mas não chegou a cair. Edilio agarrou a borda e se segurou com força. Quinn caiu sentado na proa.

A proa passou raspando na estaca e, quase por acidente, terminou virada para o mar aberto.

Talvez seja melhor ir devagar no começo — disse Edilio.

Pare! Pare esse barco — gritou Ore ofegante, correndo pelo cais. — Vou arrebentar a cabeça de vocês, seus idiotas.

Sam guiou a lancha -— com sorte — na direção certa e foi se afas­tando lentamente. Agora Ore não conseguiria pular no barco de jeito nenhum.

Caine vai matar vocês — gritou Panda.

Quinn, seu traidor — berrou Howard.

Diga que eu obriguei você a fazer isso — disse Sam.

O quê?

Diga — sibilou Sam.

Quinn ficou de pé, pôs as mãos em concha e gritou:

Ele me obrigou a fazer isso.

Agora diga que estamos indo para a usina nuclear.

Cara.

Diga — insistiu Sam. — E aponte.

Nós vamos para a usina nuclear — gritou Quinn. E apontou para o norte.

Sam soltou o volante, girou e deu um gancho de esquerda, com força, no rosto de Quinn, que caiu sentado de novo.

Que diab...

Tive de fazer com que parecesse real — disse Sam. Não era um pedido de desculpas.

Agora o barco estava na área livre. Sam levantou a mão bem acima da cabeça, com o dedo médio estendido, avançou o acelerador mais um pouquinho e virou para o norte, em direção à usina.

Qual é a parada? — perguntou Edilio, perplexo. E ficou bem longe de Sam, para o caso de Sam decidir lhe dar um soco também.

Ela não deve estar na usina — disse Sam. — Vai estar no Penhas­co. Só vamos para o norte enquanto Ore estiver olhando.

Você mentiu para mim — acusou Quinn. Ele estava mexendo no queixo, certificando-se de que o maxilar continuava ligado ao resto do rosto.

E.

Não confiou em mim.

Ore, Howard e Panda desapareceram de vista, presumivelmente correndo de volta para a cidade, indo informar ao Caine. Assim que teve certeza de que eles haviam ido embora, Sam girou o volante, em­purrou o acelerador até o final e foi para o sul.

Drake morava numa casa vazia perto da praça. Era uma caminhada de menos de um minuto até a prefeitura. O lugar pertencera a um sujeito que vivia sozinho, era pequena, com só dois quartos, muito limpa, muito organizada, como Drake gostava das coisas.

O cara, o dono — Drake esquecera o nome dele — tinha armas. Três no total, uma espingarda calibre 20, um rifle de caça 30-06 com mira telescópica, e uma pistola semiautomática Glock 9mm.

Drake mantinha as três armas carregadas o tempo todo. Ficavam sobre a mesa de jantar, à mostra, algo para ser contemplado com amor.

Naquele momento sopesou o rifle. O cabo era liso como vidro, poli­do até brilhar. Cheirava a aço e óleo. Ele hesitou quanto a levar o rifle porque nunca havia atirado antes com arma de cano longo. Não fazia idéia de como usar a mira telescópica. Mas não poderia ser difícil, não é?

Enfiou o braço pela alça de couro e testou a liberdade de movimen­to dos ombros. A arma era pesada e um pouco comprida. A culatra com almofada de borracha chegava até a parte de trás da coxa. Mas Drake conseguia andar carregando-a.

Depois sopesou a pistola. Apertou o cabo com ranhuras entrecruzadas e envolveu o gatilho com o dedo. Drake adorava a sensação dessa arma na mão.

Seu pai havia lhe ensinado a atirar, usando a pistola de serviço, Drake ainda se lembrava da primeira vez. Carregar as balas no pente. Enfiar o pente no cabo da arma. Empurrar o cursor para pôr uma bala no lugar. Apertar a trava.

Clique. Travada.

Clique. Mortal.

Lembrou-se de que seu pai o havia ensinado a segurar o cabo com força, mas não com força demais. Descansar a mão direita na palma da esquerda e mirar com cuidado, virar o corpo de lado para apresen­tar um alvo menor caso alguém estivesse atirando de volta. Seu pai tivera de gritar, porque os dois usavam proteção para os ouvidos.

— Se estiver atirando num alvo, centre a mira da frente na fenda da mira de trás. Levante até que as miras estejam bem embaixo do alvo. Solte o ar lentamente e aperte.

O primeiro estrondo, o coice, o modo como a arma recuou 15 centímetros, o cheiro de pólvora — estava tudo claro na mente de Drake, a lembrança mais clara de todas que tinha.

Seu primeiro tiro havia errado completamente o alvo.

O mesmo aconteceu com o segundo, porque depois de sentir o coice da primeira vez ele havia se encolhido em antecipação.

O terceiro tiro acertou o alvo, tirando um pedacinho do canto in­ferior.

Naquele primeiro dia, disparou uma caixa de munição e, quando havia terminado, estava acertando aquilo em que mirava.

E se eu não estiver atirando em alvos? — perguntara ao pai. — E se estiver atirando numa pessoa?

Não atire numa pessoa — respondera o pai. Mas então cedeu, aliviado, sem dúvida, por encontrar algo que podia compartilhar com o filho perturbador. — Pessoas diferentes vão ter técnicas diferentes. Mas pessoalmente, digamos que estou cuidando de um sinal de trân­sito e acho que vi o cidadão tentando pegar uma arma, e acho que talvez tenha de dar um tiro rápido. Simplesmente aponto. Aponto como se o cano fosse um sexto dedo. Você aponta e, se tiver de dispa­rar, dispara metade do carregador de uma vez, bang, bang, bang, bang.

Por que tantas vezes?

Porque, se você tiver de atirar, atire para matar. Numa situação assim, você não mira com cuidado na cabeça ou no coração, aponta para o centro da massa e espera conseguir um tiro de sorte mas, se não tiver, se só acertar ombro ou barriga, a pura velocidade do tiro vai derrubar o cara.

Drake não achava que seriam necessários seis tiros para matar Astrid.

Lembrava-se com detalhes nítidos, em câmera lenta, da vez em que havia atirado em Holden, o filho do vizinho que gostava de vir chateá-lo. Tinha atingido o garoto na coxa, com uma arma de pequeno cali­bre, e mesmo assim ele quase morreu. Aquele "acidente" havia posto Drake na Coates.

Agora estava segurando uma Glock 9mm, menos poderosa do que o Smith & Wesson calibre 45 de seu pai, mas muito mais do que a 22 que tinha usado contra Holden.

Um tiro bastaria. Um para a loura metida a besta, um para o retar­dado. Seria maneiro. Ele voltaria e faria o relatório a Caine: "Dois alvos, dois tiros". Isso tiraria aquele risinho da cara de Diana.

A casa de Astrid não ficava longe. Mas o truque seria pegá-la antes que o irmãozinho usasse o poder para sumir de novo.

Drake odiava o poder. Só havia um motivo para Caine, e não Drake, estar comandando o show: os poderes de Caine.

Mas Caine sabia que os garotos com poder tinham de ser controla­dos. E, assim que Caine e Diana tivessem todas as aberrações sob con­trole, o que impediria Drake de usar seus 9mm de magia para pegar tudo para si?

Uma coisa de cada vez.

Da metade do quarteirão, olhou para a casa de Astrid. Procurando qualquer sinal do cômodo em que ela poderia estar.

Esgueirou-se pelos fundos e subiu para a varanda de trás. A porta estava trancada. Qualquer um que trancasse a porta de trás trancaria a da frente, mas talvez não as janelas. Ele pulou no corrimão da varan­da e se inclinou para fazer força contra a janela, que deslizou para cima com facilidade. Não era uma coisa fácil passar pela janela sem fazer muito barulho.

Levou dez minutos para examinar cada cômodo da casa, olhar em cada armário, embaixo de cada cama, atrás de cada cortina, até mes­mo nos espaços apertados do sótão.

Então sentiu um momento de pânico. Astrid podia estar em qual­quer lugar. Ele pareceria um idiota se não a pegasse.

Para onde ela iria?

Verificou a garagem. Nada ali. Nem carros, certamente nada de Astrid. Mas havia um cortador de grama, e onde havia um cortador de grama haveria... é, uma lata de gasolina.

Imaginou o que aconteceria se Astrid e o retardado se teletransportassem para uma casa em chamas.

Abriu a lata de gasolina, foi até a cozinha e começou a derramar a gasolina nas bancadas, na sala de estar, um bocado nas cortinas e fa­zendo uma trilha até a sala de jantar, por cima da mesa e mais um bocado nas cortinas da frente.

Não conseguiu achar um fósforo. Rasgou um pedaço de toalha de papel e acendeu no fogão. Jogou o papel aceso na mesa da sala de jantar e saiu pela porta da frente, sem se incomodar em fechá-la.

— Este é um lugar onde ela não vai poder se esconder — disse a si mesmo.

Correu de volta à praça e subiu a escadaria da igreja. A igreja tinha uma torre. Não era muito alta, mas teria uma boa visão da cidade.

Subiu pela escada circular. Empurrou um alçapão e subiu até um espaço apertado, empoeirado e cheio de teias de aranha tomado por um sino. Com cuidado, evitou encostar nele — o som iria longe.

As janelas estavam fechadas, cobertas por venezianas que deixavam o ar passar e o som sair, mas só lhe permitiam ver o que estava embai­xo. Usou a coronha do rifle para arrebentar a primeira janela. Ela tombou no chão embaixo.

Crianças que estavam na praça olharam para cima. Tudo bem. Quebrou as outras três janelas e elas caíram com estrondo. Agora ti­nha uma visão irrestrita, em todas as direções, por cima das telhas la­ranjas de Praia Perdida.

Começou a partir da casa de Astrid, que já estava começando a soltar fumaça. Prosseguiu metodicamente, um caçador, procurando qualquer movimento. A cada vez que via alguém andando, a pé ou de bicicleta, olhava pela mira telescópica do rifle, colocava as pessoas nas linhas cruzadas.

Sentia-se como um Deus. Só precisava apertar o gatilho.

Mas nenhuma das formas que se moviam lá embaixo era Astrid. Não havia como se enganar com aquele cabelo louro. Não. Não era Astrid.

Então, justo quando estava desistindo, viu atividade na marina. Gi­rou a mira telescópica e, de repente, Sam Temple estava nítido no círculo claro. Por um momento, a cruz da mira estava no peito dele. Mas então ele sumiu. Havia pulado num barco.

Impossível. Caine estava com Sam na escola. Como havia saído?

Edilio e Quinn também estavam no barco, afastando-se. Drake po­dia ver a água borbulhando do motor.

Quinn. Era como Sam havia fugido. Tinha de ser.

Drake teria uma bela conversa com Quinn.

No cais, pôde ver Ore sacudindo um bastão, gritando, incapaz de fazer qualquer coisa. O barco ganhou velocidade e virou para o norte, deixan­do uma esteira branca e longa como uma flecha desenhada na água.

Não havia dúvida de que Sam tentaria encontrar Astrid. E estava indo para o norte.

Para a usina nuclear. Tinha de ser.

Drake xingou e, de novo, apenas por um momento, sentiu um medo quase desesperado de fracassar com Caine. Não estava preocu­pado com o que Caine faria com ele — afinal de contas, Caine preci­sava dele — mas sabia que, se fracassasse em cumprir as ordens de Caine, Diana riria.

Pousou o rifle. Poderia chegar à usina antes de Sam?

De jeito nenhum. Mesmo que pegasse um barco estaria apostando corrida. Um carro? Talvez. Mas não sabia o caminho e a viagem de barco seria mais direta. Ele demoraria um tempo para chegar à marina e... mas, espera. Espera um minuto.

A lancha estava fazendo uma curva.

— Você é bem esperto, Sam — sussurrou Drake. — Mas não o su­ficiente.

Pela mira pôde vislumbrar a expressão de Sam ao volante, com o vento no rosto, tendo escapado de Caine, tendo enganado Ore, e ago­ra todo presunçoso e seguro de si, enquanto acelerava para o sul.

Não havia como atirar desta distância. Drake sabia disso.

Girou a mira da arma para o sul e parou na barreira. Sam não iria muito longe naquela direção.

A praia na base do penhasco? Se ela estivesse lá embaixo, Drake jamais poderia alcançá-la antes de Sam chegar de lancha. Se ela esti­vesse lá embaixo, o jogo estava terminado.

Mas e se não... se, digamos, ela estivesse no hotel, no Penhasco? Nesse caso ele teria chance, se andasse depressa.

Não seria fantástico atirar nela bem onde Sam Temple pudesse as­sistir?

 

                         127 HORAS E 45 MINUTOS

ASTRID QUASE DEIXOU de ver o barco. Tinha ido à janela só para fe­char as venezianas, mas com o canto do olho viu a lancha à distância, a única coisa sobre a água.

Por um breve momento, imaginou se seriam adultos, alguém vindo resgatá-los do LGAR. Mas não, se o resgate viesse de fora do LGAR, não seria numa única lancha.

E, de qualquer modo, Astrid estava convencida de que ninguém viria. Pelo menos por enquanto. Provavelmente nunca.

Forçou a vista, mas não pôde ver quem estava no barco. Se ao me­nos tivesse um binóculo! Pareciam ser três pessoas. Talvez quatro. Não dava para ter certeza. Mas o barco vinha se aproximando.

Ajoelhou-se para ver o que ainda havia no frigobar. Na estadia an­terior, ela, Sam e Quinn tinham acabado com quase tudo. Só restavam algumas castanhas de caju.

Teria de alimentar o Pequeno Pete logo. Antes que as pessoas do barco chegassem.

— Venha, Petey — disse, puxando-o da beira da cama. — Venha, vamos arranjar comida. Nham nham? — disse, usando uma expressão-gatilho que às vezes funcionava. — Nham nham?

Poderiam ir ao restaurante do Penhasco e provavelmente encontra­riam alguma coisa, talvez preparar um sanduíche de frango ou algo assim, ou pelo menos encontrar algum iogurte. Ou poderiam arriscar menos e simplesmente esvaziar os frigobares dos outros quartos.

Abriu a porta. Olhou o corredor. Estava vazio.

Barras de chocolate — disse, percebendo que não tinha coragem de descer ao restaurante.

O quarto ao lado tinha um frigobar, mas estava sem a chave na tranca. Experimentou mais quartos antes de perceber que simples­mente tinha tido sorte naquela primeira noite. Todos os frigobares estavam trancados. Mas, pensou, talvez todas as chaves fossem inter-cambiáveis.

Venha, vamos voltar ao nosso quarto — disse.

Nham nham — protestou o Pequeno Pete.

Nham nham — confirmou Astrid. — Venha, Petey.

Saíram para o corredor de novo, e então ela ouviu o ping de um elevador. Os suaves motores elétricos abrindo a porta.

Seria Sam? Imobilizou-se, travada entre o medo e a esperança.

O medo venceu.

O elevador estava no fim do corredor, depois de uma esquina. As­trid tinha segundos.

Venha — sussurrou, e empurrou o Pequeno Pete. Com os dedos agitados, passou o cartão-chave na fenda. Rápido demais. Precisava fazer isso mais devagar. De novo. Continuou sem luz verde. Mais uma vez e agora pôde ouvir a porta do elevador fechando.

Era ele. De repente, teve certeza que era o Drake.

Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco. — Foi a única oração em que conseguiu pensar.

Tentou a chave de novo. A luz verde piscou.

Virou a maçaneta.

Ele estava ali. No fim do corredor. Parado com um rifle pendurado no ombro e uma pistola na mão.

Astrid quase desmaiou.

Drake riu, levantou a pistola e mirou.

Astrid empurrou o Pequeno Pete para o quarto e entrou depois dele.

Bateu a porta e virou o trinco. Depois acrescentou a tranca de se­gurança.

Um barulho incrivelmente alto.

Surgiu um buraco do tamanho de uma moeda na porta, com o me­tal franzido para fora.

Outra explosão e a maçaneta estava pendurada pela metade.

O Pequeno Pete poderia salvá-los. Poderia. Ele tinha o poder, mas ainda estava calmo, ainda não percebera nada.

Inútil.

A varanda. Era a única saída.

Petey, venha! — disse rouca.

Nham nham — insistiu ele.

Drake se jogou contra a porta, mas ela agüentou. A tranca ainda estava no lugar.

Ele disparou de novo e de novo, frustrado, tentando arrebentar a tranca.

Estava aterrorizado com a possibilidade de Petey teletransportá-los de novo.

Astrid precisava fazer com que ele acreditasse que isso havia acon­tecido.

Arrastou o Pequeno Petey para a varanda, abriu a porta e olhou para baixo. O chão ficava longe. Longe demais. Mas havia outra va­randa diretamente abaixo deles.

Passou por cima do corrimão, morrendo de medo, tremendo, mas sem alternativa.

Como poderia fazer com que o Pequeno Petey fosse atrás? Agora ele estava fixado em comida.

Game Boy — sussurrou, e empurrou o brinquedo para perto do rosto dele. — Venha, Petey, venha, Game Boy.

Guiou o irmão, fazendo-o passar pelo parapeito, pôs a mão dele no corrimão — só uma, porque agora ele estava no jogo de novo, perdido em seu jogo idiota, calmo demais para usar o poder, imprevisível demais.

Bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus — soluçou Astrid.

Isso não ia dar certo. Ela conseguiria, mas como poderia fazer o irmão acompanhá-la?

Ele era pequeno. Ela poderia pendurá-lo. Poderia segurá-lo pelos poucos segundos necessários.

Santa Maria, mãe de Deus...

Agarrou o corrimão com a mão esquerda, segurou o pulso do Pe­queno Pete com a direita e arrancou-o do corrimão. Ele caiu. Ela pe­gou-o, seguro pelas unhas, e então ele estava caindo. Bateu na poltro­na da varanda embaixo.

Ele havia batido com força. Estava atordoado.

Astrid ouviu Drake batendo de novo contra a porta e escutou um som de madeira lascada quando a tranca cedeu. Agora só a frágil corrente ainda segurava a porta, e ele iria passar por isso num instante.

...rogai por nós, pecadores, agora...

Girou para baixo e quase caiu em cima do Pequeno Pete. Não ha­via tempo para pensar na dor lancinante na perna, não havia tempo para o sangue e a pele arranhada, só para agarrar o Pequeno Pete, abraçá-lo, abraçá-lo com força e recuar contra a porta de vidro da varanda.

Banco da janela, banco da janela, bebê, banco da janela — sus­surrou, com a boca encostada no ouvido dele.

Ouviu Drake no quarto acima.

Ouviu-o abrir a porta e sair à varanda.

Os dois estavam fora do seu campo de visão. Drake só os veria se se inclinasse bem para longe.

"Rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte", termi­nou a oração em silêncio e continuou apertando o irmão.

Amém.

Ouviu Drake xingar furioso.

Conseguiram. Ele pensou que os dois haviam desaparecido.

Obrigado, meu Deus, rezou Astrid em silêncio.

E então o Pequeno Pete começou a choramingar.

O jogo havia caído quando ela o largou na varanda de baixo. A parte de trás estava aberta e uma das pilhas tinha rolado para longe. E agora o Pequeno Pete estava tentando fazer com que ele funcionasse, mas não funcionava.

Astrid quase soluçou alto.

Drake parou de xingar.

Ela olhou para cima, e ali estava ele, inclinado para longe por cima das grades. O riso de tubarão era largo.

A arma estava em sua mão, mas ele não conseguia um ângulo para acertá-los, por isso passou por cima do corrimão, agachou-se como Astrid havia feito e agora podia vê-los claramente.

Mirou.

Deu uma gargalhada.

E, de repente, berrou de dor e caiu.

Astrid saltou para perto do corrimão. Drake estava na grama abai­xo, esparramado de costas, inconsciente, caído sobre o rifle e com a pistola ao lado.

Astrid — disse Sam.

Ele estava acima dela, ainda segurando o abajur que tinha usado para acertar a mão de Drake, inclinando-se por cima do corrimão.

Sam.

Você está bem?

Assim que pegar a pilha do Petey, vou ficar. — Isso pareceu idio­ta e ela quase gargalhou.

Estou com um barco lá na praia.

Para onde nós vamos?

Que tal para qualquer lugar longe daqui?

 

                           127 HORAS E 42 MINUTOS

FAZIA DOIS DIAS desde que Lana tinha sobrevivido aos coiotes. Aos coiotes falantes. Dois dias desde que sua vida fora salva por uma co­bra. Uma cobra voadora.

O mundo tinha enlouquecido.

Lana havia molhado a grama naquela manhã, tendo o cuidado de se manter atenta a coiotes e cobras. Prestava atenção a cada latido, rosnado ou estremecimento de Patrick. Ele era seu sistema de alarme. Nos velhos tempos, os dois haviam sido dona e bicho de estimação, ou talvez pudéssemos dizer amigos. Mas agora eram uma equipe, parcei­ros num jogo de sobrevivência: os sentidos de Patrick, o cérebro dela.

Era uma coisa idiota a fazer, molhar a grama, já que não dava para ter certeza de que haveria água suficiente para ela própria. Mas o dono daquela arruinada residência no deserto tinha amado aqueles poucos metros de grama. Era um ato de desafio contra o deserto. Desafio, ainda que ele tivesse optado por viver ali no meio de absolutamente nada.

De qualquer modo, num mundo maluco, por que ela não seria louca também?

O dono da cabana se chamava Jim Brown. Ela descobriu isso em papéis na escrivaninha dele. O velho e simples Jim Brown. Não havia fotos dele, mas tinha apenas 48 anos, um pouco novo demais, pensou Lana, para deixar a civilização para trás e virar ermitão.

O barracão atrás da cabana tinha pilhas de ração de sobrevivência até o teto. Absolutamente nada fresco, mas uma quantidade suficiente de latas de biscoitos enlatados, latas de creme de amendoim, pêssego em calda, coquetel de frutas, cozido, carne processada e refeições no estilo militar, prontas para comer, capazes de durar um ano para Lana e Patrick. Talvez mais.

Não havia telefone. Nem TV ou qualquer equipamento eletrônico. Nem ar-condicionado para suavizar o calor brutal da tarde. Não havia eletricidade. As únicas coisas mecânicas eram o moinho de vento que virava a bomba que trazia a água do lençol freático abaixo e um esme­ril movido a pedal, usado para afiar picaretas, pás e serrotes. Havia um bom número de picaretas, pás, serras e marretas.

Também existia evidências da existência de um carro ou caminho­nete. Marcas de pneus atravessavam a areia a partir de uma espécie de garagem meio tombada de encontro à casa. Havia latas de óleo vazias no lixo e dois tanques de aço vermelhos, de 100 litros, que pelo chei­ro deviam estar cheios de gasolina.

Mais atrás ficava um monte de dormentes ferroviários, bem-arrumados numa pilha quadrada. Ao lado disso, madeira em tamanho me­nor, boa parte eram caibros usados, com marcas de pregos.

O ermitão Jim, como Lana pensava nele, devia ter saído. Talvez tivesse partido para sempre. Talvez o que acontecera com seu avô ti­vesse acontecido com ele também, e agora ela fosse a única pessoa que restava viva no mundo.

Não queria estar ali, caso ele voltasse. Não tinha como saber se era possível confiar num homem que morava num vale causticante, entre morros empoeirados, no fim de lugar nenhum, e que possuía um gra­mado luxuriante como um campo de golfe.

Lana terminou de molhar a grama e espirrou água em Patrick, brin­cando, antes de desligar a mangueira.

— Quer um pouco de cozido, garoto? — perguntou ao cachorro.

Entrou na frente. Dentro, a cabana parecia um forno, tão quente que ela começou a suar antes de passar pela porta, mas Lana não pen­sou que jamais reclamaria de algo tão pequeno. Principalmente depois do que havia passado.

Calor? Grande coisa. Tinha água, comida e todos os seus ossos es­tavam inteiros, isso já era bom.

O cozido vinha numa lata grande. Sem refrigeração, precisavam comer tudo antes que estragasse, por isso era cozido depois de cozido, até acabar. Mas pelo menos havia coquetel de frutas para a sobremesa. Amanhã talvez ela abrisse uma das latas grandes de pudim de baunilha e simplesmente comesse pudim durante uns dois dias.

Não havia fogão, só um fogareiro de uma boca. Nem pia. Havia uma única cadeira e uma mesa, e um catre desconfortável encostado numa parede. A única decoração era um puído tapete persa no centro do cômodo único. O melhor lugar para se sentar na casa era uma pol­trona que se reclinava, fedorenta, mas confortável, sobre esse tapete. Estava travada na posição reclinada, mas, para Lana, tudo bem. Ela adorava se recostar e levar as coisas numa boa.

A única coisa a fazer era ler. O ermitão Jim tinha exatamente 38 livros. Ela os havia inventariado. Havia romances relativamente re­centes, de Patrick O'Brien, Dan Simmons, Stephen King e Dennis Lehane, e alguns livros que ela supunha que fossem de filosofia, de escritores como Thoreau. Havia clássicos cujos nomes pareciam fami­liares: Oliver Twist, O lobo do mar, O sono externo, Ivanhoé.

Nada tinha exatamente atraído sua atenção, nenhum livro de J. K. Rowling ou Meg Cabot, nada para jovens. Mas no decorrer do pri­meiro dia, ela havia lido Orgulho e preconceito inteiro e agora estava começando O lobo do mar. Nenhum dos dois era fácil. Mas Lana não tinha nada além de tempo.

— Não podemos ficar aqui, Patrick — disse, enquanto o cão ataca­va sua tigela de cozido. — Cedo ou tarde, teremos de ir embora. Meus amigos devem estar preocupados. Todo mundo deve estar. Até mamãe e papai. Eles devem achar que estou morta.

Mas, mesmo ao dizer essas palavras, Lana tinha dúvidas. Não res­tava muito a fazer já que havia feito um inventário da comida, por isso passava a maior parte do tempo sentada na cadeira, lendo, ou simples­mente olhando a paisagem do deserto. Puxava a cadeira para a porta, onde poderia ter um pouco de sombra, e olhava os morros em volta, para além do gramado. Tinha dominado o truque de ler um parágrafo de cada vez, levantando os olhos para examinar a área em busca de algum perigo, verificando sinais de alerta em Patrick, depois afundan­do de novo no livro para outro parágrafo.

Depois de um tempo, o vazio interminável começou a minar seu espírito de otimismo, que nunca fora muito forte.

A barreira continuava lá. Ficava atrás da cabana, não em seu campo de visão, a não ser que ela se afastasse.

Lana levou uma caneca de estanho até a porta, pretendendo beber enquanto dava outra olhada no gramado, e de repente ali estava Patrick, correndo para ela. Seu pelo estava eriçado. Ele balançava a cabeça como se tivesse um ataque.

Entra! — gritou Lana.

Manteve a porta aberta. Patrick entrou a toda velocidade. Ela ba­teu a porta e fechou o trinco.

Patrick bateu no tapete, deslizou, rolou duas vezes e acabou numa posição sentada. Havia algo em sua boca. Algo vivo.

Lana se aproximou cautelosamente. Abaixou-se para ver.

Um lagarto chifrudo? É isso que você tem aí? Você quase me matou de medo por causa de um lagarto chifrudo? — Ela sentiu o coração bater forte enquanto voltava a funcionar. — Cuspa essa coisa. Nossa, Patrick, eu conto com você e você pira de vez por causa de um lagarto chifrudo idiota?

Patrick não queria abrir mão de sua presa. Lana decidiu deixar que ele ficasse com o bicho. Aquela coisa estava morta, de qualquer modo, e ela achou que Patrick tinha direito à sua própria versão de loucura.

Leve para fora e você pode ficar com ele — disse. Em seguida, foi para a porta, mas primeiro se ajoelhou para ajeitar o tapete. Então notou o alçapão no piso.

Puxou o tapete mais para longe, dobrando-o por cima da poltrona reclinável.

Hesitou, sem certeza se queria ver o que havia debaixo das tábuas do chão. Talvez o ermitão Jim fosse Jim, o assassino em série.

Mas não tinha mais nada para fazer. Empurrou a poltrona para o lado e enrolou o tapete. Havia uma argola de aço embutida. Puxou-a.

No espaço embaixo, viu tijolos de metal bem empilhados, cada um com 15 ou 20 centímetros de comprimento e 5 a 7 de espessura.

Na mente de Lana não existia dúvida do que era aquilo.

Ouro, Patrick. Ouro.

As barras de ouro eram pesadas, com 10 quilos ou mais, mas ela levantou um número suficiente para conseguir ver o tamanho da pilha. Avaliou que haveria 14 no total, cada uma com pelo menos 10 quilos.

Lana não fazia idéia do valor do ouro, mas sabia quanto custava um par de brincos de argola de ouro.

Isso é um monte de brincos — disse.

Patrick olhou perplexo para o buraco.

Sabe o que isso significa, Patrick? Todo esse ouro aqui e todas aquelas picaretas e pás lá fora? O ermitão Jim é mineiro de ouro.

Correu para fora, até a pseudo-garagem onde o ermitão Jim coloca­va a caminhonete. Patrick veio junto, esperando uma brincadeira. Às vezes, ela jogava um cabo de machado quebrado para ele pegar, mas hoje Patrick ficaria desapontado.

Pela primeira vez, Lana acompanhou com cuidado as marcas de pneus. Elas estavam ficando mais fracas, mas continuavam visíveis. A 30 metros da casa, elas se separavam. Algumas marcas, aparentemente mais antigas, iam numa direção, sudeste, provavelmente para Praia Perdida. Marcas um tanto mais novas iam em direção à base das mon­tanhas ao norte.

Ela acreditava que Praia Perdida estaria a uns 25, 30 quilômetros dali, uma caminhada muito longa no calor. Mas se a mina ficasse na base das montanhas, não seria nem mesmo a um décimo dessa distân­cia. O ermitão Jim ainda poderia estar lá, de qualquer modo.

Sentia uma aversão profunda pela idéia de se aventurar no ermo de novo. Tinha chegado muito, muito perto de morrer, da última vez. E os coiotes ainda podiam estar por ali, esperando pacientes. Mas o quilômetro e meio até a mina? Ela poderia fazer isso.

Encheu uma garrafa de plástico com água. Engoliu o máximo de água possível e se certificou de que Patrick também se hidratasse. En­cheu os bolsos com coisas fáceis de comer e pôs mais numa toalha que torceu, formando uma bolsa. Cobriu-se de filtro solar tirado de um kit médico de emergência.

Vamos dar uma volta, Patrick.

Edilio riu quando Astrid ocupou o banco no lado esquerdo da lancha Boston Whaler.

Graças a Deus. Agora pelo menos temos uma pessoa inteligente nesse barco.

Edilio e Quinn empurraram a lancha para fora da areia, de volta às ondas suaves. Subiram a bordo e depois balançaram as pernas do lado de fora para tirar a areia.

Sam guiou o barco para o mar, na direção da barreira. Esperava que Drake estivesse morto ou pelo menos muito ferido. Mas não tinha certeza e queria se afastar bastante, antes que aquele psicopata come­çasse a atirar neles.

Ocorreu a Sam que nunca na vida havia desejado a morte de al­guém. Oito dias tinham se passado desde a chegada do LGAR. Oito dias e ele vira loucura suficiente para o resto da vida. E agora estava fantasiando sobre a morte de um garoto.

Assim que empurrou o acelerador para a frente e estava fora do alcance de qualquer projétil, começou a sentir-se melhor. Isso era o mais próximo de surfar que chegava desde o início do LGAR. As on­das eram curtas e nem um pouco impressionantes, mas a lancha batia nelas com uma força maravilhosa, que se traduzia subindo por suas pernas, chacoalhava os dentes e trazia um sorriso aos seus lábios. Os borrifos salgados voavam e, para Sam, era difícil ficar sério quando os borrifos do mar batiam em seu rosto.

Obrigado, Edilio. Você também, Quinn — disse Sam. Ainda es­tava furioso com Quinn, mas agora todos estavam, muito literalmen­te, no mesmo barco.

Veja o quanto vai me agradecer quando eu vomitar nesse barco inteiro — disse Edilio. Ele estava meio verde.

Sam se lembrou de manter uma distância segura da barreira do LGAR, mas ao mesmo tempo queria mantê-la próxima. Ainda havia a tentadora possibilidade de uma fenda, um portão, uma abertura pela qual pudessem todos ir embora e dar adeus a essa loucura.

Longe, ao norte, podia ver os penhascos que marcavam a angra ocupada pela usina. Para além disso, apenas uma mancha na névoa, a silhueta de uma ilha, a mais próxima de meia dúzia de pequenas ilhas particulares.

Astrid havia apanhado os coletes salva-vidas e estava prendendo um no Pequeno Pete. Edilio aceitou um também, mas Quinn recusou.

Astrid também encontrou um pequeno isopor cheio de refrigeran­tes quentes, um pão e o resto do material para sanduíches de creme de amendoim e geléia.

Não vamos morrer de fome — disse. — Pelo menos não agora.

A barreira estava à esquerda deles, uma parede terrível, imponente, vazia. As ondas batiam nela, um som impaciente. A água também que­ria escapar.

Sam era um peixe num aquário e a parede do LGAR era a lateral do aquário. Era o mesmo mistério translúcido que em terra firme.

Seguiu ao longo dela até ver que o Penhasco não era maior do que um LEGO empoleirado numa fina fita de areia. Praia Perdida parecia uma pintura a óleo, pontos e manchas coloridas sugerindo uma cida­de, sem dar qualquer detalhe.

Vou tentar uma coisa — anunciou ele.

Sam desligou o motor. O barco parecia querer deslizar ao longo da parede. Havia uma corrente, bem fraca, mas discernível. A corrente perseguia a lateral da parede, afastando-se da terra, seguindo a longa curva que penetrava mais no mar.

Temos uma âncora? — perguntou Sam.

A resposta foi um som de ânsia de vômito. Sam desviou o olhar enquanto Edilio abria mão do almoço.

Não faz mal — disse Sam. — Eu procuro.

Não havia âncora. Mas ele notou que Astrid estava fazendo san­duíches de creme de amendoim e geléia. Entregou um a Sam.

Ele não havia percebido como estava faminto. Enfiou metade do sanduíche na boca.

É por isso que chamam você de Astrid Gênio — murmurou através do creme de amendoim.

Cara, não fala em comida — gemeu Edilio.

Sam fez uma busca na pequena lancha. Não havia âncora em lugar nenhum, mas havia alguns pára-choques que ele pendurou na lateral, para o caso de roçar na barreira. E havia um rolo de corda de náilon azul e branca. Amarrou uma ponta bem firme num gancho e a outra no tornozelo. Tirou a camisa e chutou os tênis, ficando de bermuda. Remexendo num dos depósitos do porão, encontrou uma chave de fenda comprida.

O que você está fazendo? — perguntou Quinn.

Sam o ignorou.

Edilio, cara, você vai sobreviver?

Espero que não — respondeu Edilio, com os dentes trincados.

Vou mergulhar, ver se posso passar por baixo da barreira.

Astrid pareceu cética, preocupada, mas Sam podia ver que ela esta­va pensando consigo mesma, aflita. Provavelmente, tentando absorver o fato de que quase fora morta a tiros.

Eu puxo, se você se embolar — disse Quinn.

Sam assentiu, não se sentindo preparado para falar com Quinn. Nem sabendo se algum dia conseguiria falar com Quinn novamente. Então entrou na água.

A água era uma amiga bem-vinda. Fria, um choque, mas bem-vinda. Ele riu do gosto de sal.

Respirou fundo algumas vezes, prendeu a última respiração e mer­gulhou. Nadou com pernadas fortes e uma das mãos livre, enquanto a outra segurava a chave de fenda para se manter longe da parede do LGAR. Não queria ser jogado contra ela. Tocar com um dedo havia doído. Encostar um ombro ou uma coxa não seria agradável.

Desceu e desceu. Desejou ter pensado em usar algum equipamento de mergulho ou pelo menos pegar uma máscara e pés de pato na mari­na, mas na ocasião estivera meio preocupado. A água era bastante lím­pida, mas mesmo assim a visibilidade era reduzida à sombra da barreira.

Quando chegou ao fim do fôlego, deu um golpe na direção da bar­reira. A chave de fenda não acertou em nada, e ele sentiu um jorro momentâneo de empolgação, que desapareceu quando o golpe se­guinte parou contra uma resistência sólida.

Partiu para a superfície e ofegou, buscando o ar.

A barreira se estendia pelo menos 4 metros abaixo da superfície. Se houvesse um fundo, ele teria de encontrá-lo usando um tanque de ar e pés de pato.

O barco estava balançando contra a barreira, a 15 metros de dis­tância. Sam ouviu o estalo nítido e o pff quando Astrid abriu uma Coca para o Pequeno Pete. Quinn estava sentado na proa segurando a corda, e Edilio ainda parecia a ponto de vomitar uma parte do fígado.

Sam nadou até a lancha, demorando-se, gostando demais da água na pele para sentir-se frustrado por não ter encontrado uma saída do LGAR.

Ouviu o som do motor e os estalos dos impactos contra as ondas antes de ver o barco. Chutou com força para levantar a cabeça acima da água o suficiente para ver.

Ei — gritou.

Quinn tinha ouvido o motor ao mesmo tempo.

Barco chegando. Depressa — gritou Quinn.

De onde?

Da cidade — informou Quinn. — Depressa.

 

                                 126 HORAS E 10 MINUTOS

SAM NADOU A toda velocidade e logo estava na borda da lancha Bos­ton Whaler. Quinn puxou-o a bordo e Sam passou por cima da borda e rolou no convés.

Num segundo estava de pé e viu a grande lancha, do tipo que cha­mavam de lancha cigarrete, vindo para eles, a menos de 400 metros de distância. O barco produzia uma enorme onda de proa. No volante estava um garoto que Sam não reconheceu de longe. De pé, agarrando-se como se não quisessem perder a vida, Howard e Ore. Nada do Drake.

Não podemos ir mais rápido do que eles — disse Quinn.

A adrenalina parecia ter acalmado o estômago de Edilio.

Talvez, cara, mas só vamos saber quando tentarmos.

Não, Quinn está certo — disse Sam. —Astrid, segure o Pequeno Pete.

Edilio puxou a corda, com as duas mãos voando rápidas. Não po­diam deixá-la na água, para não atrapalhar a hélice.

Assim que a corda estava a bordo, Sam empurrou o acelerador e rapidamente ganhou velocidade seguindo ao longo da barreira. O bar­co de Ore fez uma curva para acompanhá-lo.

Segurando o irmão, Astrid olhou por cima da amurada e gritou:

Ele está apenas seguindo, não quer nos interceptar.

Sam demorou um segundo para entender o que ela queria dizer. A lancha cigarrete poderia ter estabelecido um ângulo de interceptação e cortado facilmente o caminho deles. Mas o piloto não havia pensado nisso.

Quase tarde demais, o piloto da lancha rápida virou para a direita, tentando ficar atrás de Sam, mas a curva foi malfeita e a velocidade era grande demais. A lancha bateu de lado na barreira com uma pancada surpreendentemente alta, parecendo a de um bumbo. Então, quan­do a hélice ganhou sustentação de novo, a lancha saltou adiante e passou a toda velocidade pelo barco de Sam.

Segurem firme — alertou Sam.

A onda provocada pela lancha cigarrete passou por cima da Whaler e fez com que ela se chocasse contra a barreira. Sam foi sacudido, mas se manteve firme, com os pés descalços lutando para encontrar tração no convés que se inclinava feito louco.

A Boston Whaler permaneceu virada para cima, e quando a hélice encontrou água de novo ganhou velocidade. Dispararam à direita da lancha cigarrete, tão perto que Sam poderia ter estendido o braço e dado um tapa na mão de Howard.

Agora a Whaler estava a toda velocidade, saltando de onda em onda, com a barreira voando à esquerda, afastando-se cada vez mais da terra.

Mas a outra lancha era muito mais rápida e, agora que o piloto havia se recuperado, veio rugindo atrás de Sam e logo estava chacoa­lhando na esteira de Sam.

Pare aí, seu panaca — berrou Ore para Sam.

Sam ignorou. Sua mente estava em aceleração máxima. Como po­deria se livrar? Seu barco era mais lento. Era mais ágil, mas era defini­tivamente mais lento. E a lancha era tão maior, tão mais pesada, que poderia passar direto por cima da Boston Whaler.

Pare ou vamos afundar vocês — gritou Ore de novo.

Não seja idiota, Sammy — gritou Howard, em voz mais fraca, quase inaudível acima do rugido dos motores e da água.

De repente Astrid estava ao seu lado.

Sam. Você pode fazer alguma coisa?

Talvez. Tenho uma idéia.

Num sussurro tenso, ela disse:

Você está falando em...

Não sei como fazer isso, Astrid, a coisa simplesmente acontece. E esta não é exatamente a hora para eu consultar Yoda sobre como usar a força.

Agora Edilio estava junto deles.

Você tem um plano, Sam?

Não é dos melhores.

Sam pegou o microfone do rádio ao lado do acelerador. Apertou o botão.

Aqui é o Sam, vocês estão captando? Câmbio.

Olhando para trás, viu a surpresa no rosto de Howard. É, estavam captando. Howard levantou seu microfone e franziu a testa para ele.

Sam acionou seu rádio.

Segure o botão, Howard — disse. — Depois, quando tiver ter­minado, diga "câmbio" e solte o botão. Câmbio.

Você precisa parar — disse Howard, com a voz saindo mecânica no alto-falante minúsculo. — Ah, câmbio.

Acho que não vamos fazer isso, Howard. Drake tentou matar Astrid. Você e Ore quase me mataram. Câmbio.

Isso deixou Howard ocupado por um minuto, enquanto ele pensa­va numa boa mentira.

Tudo bem, Sammy, Caine mudou de idéia. Diz que, se vocês se comportarem, vai soltar todos. Câmbio.

É. Acredito em você 100% — disse Sam.

Sam levou seu barco para mais perto ainda da barreira. Estava tão perto que ele poderia tocá-la.

Apertou de novo o botão para falar.

Se tentarem me afundar, vocês podem bater na barreira — aler­tou. — Câmbio.

Houve silêncio. Em seguida, uma voz nova, fraca, mas audível. Ti­nha de estar vindo de um rádio em terra.

Peguem-no — ordenou a voz. — Peguem-no ou não voltem.

Caine. Estava falando pelo rádio que usava para fazer contato com Drake, a creche e o posto de bombeiros.

Ei, Caine — disse Howard — eles estão com Astrid e o retarda­do. E o Quinn.

O quê? Repita. Astrid está com eles?

Foi Sam que respondeu, adorando o momento, mesmo que o triun­fo provavelmente tivesse vida curta.

Isso mesmo, Caine. Seu psicopata de estimação fracassou.

Peguem todos eles — ordenou Caine.

E se eles usarem o poder? — gemeu Howard.

Se eles pudessem usar o poder, já teriam feito isso — disse Cai­ne, com um risinho que se transportou pelas ondas do rádio. — Sem desculpa: acabem com eles. Caine desligando.

Sam — disse Astrid — se você puder fazer, você precisa fazer.

O quê? — perguntou Edilio. — Ah. A coisa?

O rádio estalou de novo. Howard disse:

Vou contar até dez, Sammy. Depois vamos bater e afundar vo­cês. Não precisa ser assim, mas não temos escolha. Portanto... dez.

Edilio, você, Astrid e o Pequeno Pete, fiquem abaixados no con­vés. Quinn, vá com eles.

Nove.

Edilio puxou Astrid e os dois se deitaram no convés, com o Peque­no Pete no meio.

Oito.

E melhor ser um plano bom, brou — disse Quinn. Mas foi se agachar perto de Astrid.

Sete. Seis.

A proa da lancha cigarrete erguia-se acima da proa da "Whaler, um enorme cutelo vermelho, subindo e descendo, abrindo caminho até eles. O rugido dos três motores ricocheteava na barreira, torcendo e amplificando o som.

Cinco.

Ele tinha um plano. Mas era um plano suicida.

Quatro.

Todo mundo pronto?

Pronto para quê?

Três.

Ele vai acertar na gente.

Esse é o seu plano? — berrou Quinn.

Dois.

Mais ou menos — disse Sam.

Um.

Sam ouviu os dois motores da lancha cigarrete acelerando. O cute­lo vermelho da proa saltou adiante. Era como se alguém tivesse pren­dido um foguete atrás.

Sam colocou o acelerador em ponto morto e virou para roçar o lado esquerdo da lancha na parede do LGAR.

A Whaler diminuiu a velocidade de repente.

Segurem-se!

Ele se agachou, ajoelhando-se no convés molhado, segurando o volante com uma das mãos, e aí virou-o bruscamente para a direita, depois firmou-o. Cobriu a cabeça com o braço livre, gritando para manter a coragem.

A Boston Whaler diminuiu a velocidade.

A lancha cigarrete, não.

A proa alta, afiada como uma adaga, passou por cima da metade esquerda da proa da Boston Whaler.

Houve um guincho de fibra de vidro despedaçada. O impacto ar­rancou Sam do volante. A parte de trás da Whaler desceu e de repente os cinco e todo o barco estavam embaixo d'água. Sam gritava na água, berrando e lutando para evitar ser sugado para cima, para as hélices que faziam tornados na água um milímetro acima de sua cabeça.

A lancha cigarrete bloqueou o sol, um vermelho profundo e um branco de morte, uma faca atravessando o barco menor. Os grandes motores de popa gritavam.

Mas a lancha cigarrete não esmagou exatamente o barco menor. Em vez disso, acertando-o em ângulo, a lancha cigarrete decolou como um carro de acrobacia passando por uma rampa. Girou no ar e bateu com a parte superior na barreira, despedaçando o pára-brisa e amarrotando a amurada.

A lancha cigarrete bateu na água com força, de lado, 6 metros à frente da Boston Whaler. Pousou como se desse uma barrigada lateral, mergulhou tão fundo que Sam achou que ela poderia ficar lá embaixo, mas então voltou como um submarino emergindo e se ajeitou.

A Whaler havia sofrido um bocado. A proa estava esmagada, a amurada da esquerda havia sumido, o motor com carenagem preta estava torto, embora ainda preso. Faltava um grande pedaço de fibra de vidro na proa. Sessenta centímetros de água chacoalhavam no convés. O console de co­mando estava dobrado para a frente e para o lado, de modo que o volan­te ficara torto e a alavanca do acelerador estava fora da fenda, pendendo frouxa. O motor tinha sido inundado e morreu com gorgolejos.

Mas Sam não estava ferido.

— Astrid! — gritou, aterrorizado quando não a viu de imediato. O Pequeno Pete estava sozinho, olhando fixamente para o nada, quase como se isso, pelo menos, tivesse penetrado em sua consciência.

Quinn e Edilio saltaram de pé e se inclinaram por cima da popa. Tinham visto a mão magra de Astrid segurando a amurada. Puxaram- na a bordo, meio afogada e sangrando de um talho na perna.

Ela está bem?

Edilio assentiu, engasgado demais com a água para responder.

Sam virou a chave e sentiu esperança. O grande motor Mercury rugiu. A alavanca estava rígida, travada, mas, empurrando com toda a força, conseguiu movê-la à frente. O volante torto ainda virava.

A lancha cigarrete continuava adiante, parada. Ore estava na água, gritando em fúria. Howard andava de um lado para o outro tentando encontrar um colete salva-vida enquanto o piloto tentava ligar os mo­tores de novo. Infelizmente, eles não pareciam danificados.

Era agora ou nunca.

Com dedos frenéticos, Sam desamarrou a corda do tornozelo e segurou a ponta solta nos dentes. Pulou na água e nadou pelos poucos metros que separavam sua lancha da lancha cigarrete.

Ele está nadando para cá. O barco dele está afundando — gritou o piloto da lancha, sem entender.

Mas Howard sabia que não era isso.

Ele está armando alguma.

Sam mergulhou. Tinha de ser agora, antes que o piloto conseguisse ligar os motores. Se aquelas hélices começassem a girar, seria tarde demais e havia uma boa chance de que Sam perdesse os dedos ou até a mão inteira.

Lutando contra a flutuabilidade do corpo, Sam ficou embaixo d'água, tentando enxergar através da água agitada, os dedos tentando sentir... pronto. Era uma hélice.

Enrolou a corda de náilon na hélice da direita e apertou o máximo que pôde. Depois virou à esquerda, soprando o resto de ar para per­manecer submerso.

Ouviu a ignição estalar, a chave sendo virada. Bastaria uma virada de dedos do piloto e...

O motor se sacudiu. Sam recuou em pânico.

As duas hélices se sacudiram. Então a da direita se travou e a es­querda girou e parou.

Com o resto das forças, Sam enrolou a corda na hélice, nadou para longe da proa e emergiu a pouco mais de um metro, para respirar.

Ouviu os motores sendo ligados de novo, e pararem outra vez.

Só então o piloto da lancha cigarrete percebeu o que havia aconte­cido, e Howard estava na popa gritando ameaças furiosas.

Sam se virou e começou a nadar a toda velocidade para a Whaler, que balançava de encontro à barreira.

— Sam. — Era Astrid gritando. — Atrás de você.

O golpe foi totalmente inesperado.

A cabeça de Sam girou. Seus olhos não focalizavam. Todos os mús­culos dos membros estavam frouxos.

Já estivera nessa situação, antes. Era como quando caía da prancha e ela retornava e batia nele. Um canto de sua mente sabia o que fazer: evitar o pânico, demorar alguns segundos para limpar a cabeça.

Só que aquilo não era uma prancha de surfe. Um segundo impacto acertou bem ao lado dele, errando a cabeça e golpeando seu ombro.

A dor aguda ajudou Sam se concentrar.

Viu Howard levantar a comprida vara de alumínio com um gancho na ponta, para dar um terceiro golpe, mas dessa vez Sam o evitou fa­cilmente. Enquanto a vara batia na água, Sam se jogou, pondo todo o peso em cima dela.

Howard perdeu o equilíbrio e Sam puxou. Howard soltou a vara e bateu de peito num dos motores.

Novamente Sam se virou para a Whaler, mas era tarde demais. Agora Ore estava em cima dele, e enquanto uma mão gigante tentava agarrar o pescoço de Sam, a outra lhe dava um soco.

O punho de Ore bateu na água antes de acertar o nariz de Sam, de modo que a velocidade foi reduzida, mas ainda assim o impacto foi chocante. Sam se encolheu e impulsionou as duas pernas com o máxi­mo de força que pôde contra o plexo solar de Ore. Seu golpe também teve a velocidade diminuída pela água, mas empurrou Sam para a frente e Ore para trás.

Sam nadava melhor, mas Ore era mais forte. Enquanto Sam tentava escapar, Ore agarrou a cintura da bermuda de Sam e segurou com firmeza.

Agora Howard estava de pé, gritando incentivos e elogios para Ore. A luta estava exatamente sob a proa esmagada da Whaler. Sam deu uma cambalhota para trás, bateu com os pés descalços contra o casco e mergulhou. Esperava que, quando a cabeça de Ore submergis­se, ele entrasse em pânico e o soltasse. Deu certo, e Sam estava livre. Livre, mas preso num canto apertado entre a parede do LGAR e a proa do barco.

O rosto de Ore era uma terrível máscara de fúria. Ele foi direto para Sam, e Sam não teve escolha. Esperou Ore, agarrou a camisa dele, torceu e, usando o ímpeto do outro, empurrou o valentão de cara contra a parede do LGAR.

Ore gritou. Balançou os braços loucamente e gritou de novo.

Sam bateu as pernas usando o corpo de Ore para se impulsionar. O chute impeliu Ore de lado contra a barreira e ele berrou como um touro morrendo.

Sam nadou, agarrou a amurada de estibordo e se segurou.

— Edilio. Vá.

Edilio empurrou o acelerador para a frente enquanto Sam, com a ajuda de Astrid e Quinn, subia a bordo.

Ore estava gritando palavrões incoerentes, quase afogado. Howard estendia a mão para ele, e o piloto do barco parecia em choque, sem saber o que fazer.

A corda foi amarrada com firmeza no cunho do convés. O cunho não agüentaria, mas uma boa puxada poderia acabar pelo menos com uma das hélices amarradas.

Edilio virou a lancha para longe da barreira e disse:

Cuidado com a corda, Sam.

O aviso chegou bem a tempo, já que a corda se esticou e saltou da água. A corda se retesou, batendo no braço de Sam.

A pequena lancha se sacudiu com o impacto. O cunho foi arrancado do convés. Mas agora as hélices da lancha cigarrete eram inúteis.

Certo, aquilo foi maluquice — disse Edilio, gargalhando.

Acho que agora você superou o enjôo, não é?

O rádio estalou com a voz familiar de Howard, agora contida e com medo, gemendo.

Aqui é o Howard. Eles foram embora.

A voz fraca vinda de terra respondeu:

Por que será que não estou surpreso?

Então, Howard de novo.

Nosso barco não funciona.

Sam — disse Caine. — Se pode me ouvir, irmão, é melhor saber que vou matá-lo.

Irmão? Por que ele está chamando você de irmão? — perguntou Astrid.

Longa história.

Sam sorriu. Agora havia tempo suficiente para contar histórias. Eles haviam conseguido. Tinham escapado. Mas era uma vitória oca.

Agora não podiam ir para casa.

Certo — disse Sam. — Então é escapar ou nada.

Pôs o leme num curso que seguia a barreira longa e curva. Astrid encontrou uma garrafa de água sanitária com a parte de cima cortada e começou o longo serviço de tirar a água do barco.

 

                           125 HORAS E 57 MINUTOS

LANA DEMOROU MUITO mais do que havia esperado para chegar ao fim dos rastros da caminhonete. O que parecera no máximo um qui­lômetro e meio deviam ter sido três. E carregar a água e a comida no calor causticante não tornara a coisa mais fácil.

Era de tarde quando arrastou os pés cansados em volta de um aflora­mento da montanha. Ali, diante de seus olhos espantados, estava o que parecia uma cidade mineira abandonada. Devia ter sido um tremendo acampamento algum dia; uma dúzia de construções, todas amontoadas na fenda estreita da montanha, que tinha paredes íngremes. As construções eram quase impossíveis de ser distinguidas umas das outras, meras co­leções de paus cinzentos, mas antigamente devia ter havido uma espécie de rua, com não mais do que o tamanho de meio quarteirão.

Era um lugar fantasmagórico, silencioso, sombrio, com janelas quebradas e sem vidros, parecendo olhos observadores.

Atrás dos destroços da rua principal, fora das vistas de algum pas­sante — se bem que Lana não imaginava por que alguém viria a um lugar tão desolado e feio —, havia uma estrutura mais forte. Era cons­truída com as mesmas tábuas cinzentas, mas ainda estava de pé e co­berta por um telhado de zinco. A estrutura era do tamanho de uma garagem para três carros. As marcas de pneus chegavam ali.

— Venha, garoto — disse Lana.

Patrick correu à frente, farejou uma erva daninha perto da porta do barracão e voltou com a cauda ainda empinada.

Então não tem ninguém dentro — tranqüilizou-se Lana. — Caso contrário você teria latido.

Ela abriu a porta, não querendo se esgueirar como alguma garota de filme de terror.

A luz do sol entrava por uma dúzia de buracos e emendas no teto de zinco e pelos nós da madeira. Mesmo assim estava escuro.

A caminhonete estava ali. Mais nova do que a do seu avô, com carroceria mais comprida.

Olá? Olá? — Ela esperou. E depois: — Olá?

Verificou primeiro a caminhonete. O tanque estava pela metade. As chaves não estavam à vista. Ela procurou cada centímetro quadrado da caminhonete, e nada.

Frustrada, começou uma busca pelo resto do barracão. Havia prin­cipalmente máquinas. O que parecia uma máquina de quebrar pedras. Algo que parecia um grande tanque com jatos de calor posicionados embaixo. Um tanque de gás liquefeito de petróleo, num canto.

Certo. Ou achamos a chave e provavelmente nos matamos co­migo na direção — resumiu Lana para o atento Patrick —, ou anda­mos quantos quilômetros forem necessários, no meio do calor, até Praia Perdida e talvez morremos de sede.

Patrick latiu.

Concordo. Vamos continuar procurando as chaves.

Além da alta porta dupla na frente do barracão, havia uma menor, nos fundos. Através dela Lana encontrou um caminho bastante usado, que serpenteava em meio a feias pilhas de pedras, por um pátio cheio de máquinas enferrujadas e que terminava numa abertura emoldurada com madeira, no chão. Parecia a boca surpresa da montanha, um qua­drado torto e preto com duas traves de suporte quebradas, formando dentes serrilhados.

Um estreito conjunto de trilhos de trem entrava na mina.

Acho que não queremos entrar aí — disse Lana.

Patrick chegou cautelosamente mais perto da entrada. Os pelos de sua nuca se eriçaram e ele rosnou.

Mas não estava rosnando para a abertura.

Lana ouviu o som de patas almofadadas. Pela lateral da montanha, como uma avalanche silenciosa, veio correndo uma matilha de coio­tes, talvez duas dúzias, talvez mais.

Escorriam montanha abaixo com velocidade chocante.

Enquanto se aproximavam, Lana pôde ouvi-los sussurrando em vo­zes tensas, guturais:

Comida... comida.

Não — disse Lana a si mesma.

Não. Tinha de estar imaginando isso.

Lançou um olhar de pânico por cima do ombro, para o barracão que agora estava longe. A ala direita da matilha já corria para intercep­tar seu caminho.

Patrick — gritou, e correu para a mina.

No instante em que passaram pela entrada, a temperatura baixou dez graus. Era como entrar em um local com sistema de ar-condicionado. Não havia luz além da que vinha de fora, e os olhos de Lana não tiveram tempo de se ajustar.

Havia um cheiro terrível. Algo sujo, adocicado e enjoativo.

Patrick se virou para encarar os coiotes e se eriçou. Os coiotes se juntaram agitados em volta da entrada da mina, mas pararam ali.

Lana, meio cega, tateou no escuro, procurando alguma coisa, qual­quer coisa. Encontrou pedras do tamanho do punho de um adulto. Começou a atirá-las, sem mirar, apenas jogando freneticamente as pe­dras contra os coiotes.

Vão embora. Xô. Saiam daqui.

Nenhuma das pedras de Lana acertou o alvo. Os coiotes se desvia­vam sem se abalar, sem esforço, como se estivessem participando de um jogo não muito desafiador.

A matilha se dividiu em duas, formando um corredor. Um coiote — não era o maior, mas era o mais feio — caminhou com a cabeça erguida em meio à matilha. Uma das suas orelhas enormes estava meio rasgada, ele tinha um tipo de sarna que deixava pedaços de pele apa­recendo na lateral do focinho astuto, e os dentes do lado esquerdo da boca eram parcialmente expostos devido a algum ferimento antigo que lhe dera um permanente rosnado lateral.

O coiote líder rosnou para ela.

Ela se encolheu, mas levantou uma pedra grande, ameaçando.

Para trás — alertou Lana.

Não humanos aqui. — A voz era engrolada, como botas se ar­rastando em cascalho molhado, mas aguda.

Durante vários e longos segundos, Lana ficou só olhando. Não era possível. Mas parecia que a voz tinha vindo do coiote.

O quê?

Saia — disse o coiote. Desta vez era inconfundível. Ela vira o focinho dele se mexer, captou a luta de sua língua atrás dos dentes afiados.

Você não pode falar — disse Lana. — Isso não é real.

Saia.

Vocês vão me matar.

Sim. Saia, morra depressa. Fique, morra devagar.

Você pode falar — disse Lana, sentindo que estava louca, louca de verdade, agora.

O coiote não respondeu.

Lana tentou embromar.

Por que não posso ficar na mina?

Não humanos aqui.

Por quê?

Saia.

Venha, Patrick — disse Lana, num sussurro trêmulo. Começou a recuar para longe do coiote líder da matilha, mais para o fundo da escuridão.

Seu pé bateu em alguma coisa. Ela olhou para baixo rapidamente e viu uma perna se projetando de um macacão sujo de sangue. Tinha encontra­do a fonte do cheiro. O ermitão Jim estava morto havia muito tempo.

Pulou para trás, por cima do corpo, colocando-o entre ela e o coiote.

Você o matou — acusou Lana.

Sim.

Por quê? — Ela viu uma lanterna, apenas uma grande lanterna quadrada. Abaixou-se rapidamente e pegou-a.

Não humanos aqui.

O coiote latiu um comando para sua matilha e eles entraram cor­rendo na caverna e pularam por cima do corpo. Lana e Patrick se vi­raram e correram.

Enquanto corria, Lana tentava encontrar o interruptor da lanterna. A escuridão rapidamente tornou-se quase completa.

Uma dor aguda em seu tornozelo quase a derrubou, mas ela conti­nuou em frente, cambaleando. Encontrou o interruptor e, de repente, o túnel da mina foi banhado por uma luz fantasmagórica que revelava apenas rochas irregulares e travas de madeira meio esmagadas pelo peso das pedras. As sombras pareciam dedos em garras fechando-se ao redor dela.

Os coiotes, espantados pela luz, ficaram para trás. Seus olhos bri­lhavam. Os dentes eram fracos risos brancos.

E então vieram atrás dela.

Um torno que se parecia uma mandíbula se fechou em volta do seu tornozelo e ela caiu embolada. Os coiotes partiram em bando para cima dela. O fedor deles estava em seu nariz, seu peso a esmagava.

Lutou para se apoiar nos cotovelos. Um segundo torno se fechou sobre seu antebraço e ela caiu, sabendo que jamais se levantaria de novo. Ouviu os latidos aterrorizados de Patrick, muito mais profun­dos e altos do que os sons agudos dos coiotes.

De súbito os coiotes soltaram-na. Ganiram de surpresa e giraram as cabeças para a esquerda e para a direita.

Lana estava caída, sangrando por uma dúzia de mordidas, num círculo fantasmagórico de luz lançada pela lanterna.

O líder da matilha rosnou e os coiotes se acalmaram pelo menos um pouco, mas estava claro que algo os havia amedrontado e conti­nuava amedrontando.

Os coiotes se agitaram, nervosos, ariscos. Todas as orelhas se levan­taram e se viraram para as sombras profundas mais adiante no túnel. Como se estivessem escutando alguma coisa.

Lana se esforçou para ouvir o que eles escutavam, mas o soluçar áspero de sua própria respiração era alto demais. Seu coração marte­lava, como se fosse partir as costelas com as pancadas.

Os coiotes não a atacavam mais. Algo havia mudado. Algo no ar. Algo em suas inescrutáveis almas caninas. Ela havia se transformado de presa em prisioneira.

O líder dos coiotes se aproximou devagar e focinhou-a.

— Ande, humana.

Ela se abaixou mais e pôs a mão no pior ferimento de mordida. A dor foi sumindo enquanto a cura começava.

Mas ainda estava perdendo sangue de uma dúzia de pequenos fu­ros, quando se levantou e andou mais para o fundo da caverna, mais fundo, com Patrick permanecendo ao seu lado e os coiotes vindo atrás.

Foram cada vez mais para dentro. O trilho do trem acabou e eles entraram no que parecia uma nova seção de túnel. Ali a madeira usada para sustentar o teto ainda era verde, as cabeças de pregos ainda eram brilhantes. O piso do túnel estava menos atulhado de pedras caídas e décadas de poeira.

Era ali que o ermitão Jim estivera trabalhando, cavando, seguindo o veio de metal amarelo brilhante.

Enquanto andava, Lana foi ficando com medo, mas de um jeito diferente. Havia suportado o medo assustador, sufocante, da morte. Isso era diferente. Essa nova sensação transformava seus músculos em geléia, parecia minar o calor do corpo e encher as artérias com água ge­lada e o estômago com bile.

Estava com frio. Frio até não poder mais.

Seus pés pesavam 50 quilos cada um, os músculos não serviam para levantá-los e empurrá-los à frente.

Cada canto de seu cérebro instigava, "Corra, corra, corra!", mas ela não podia correr, não podia fisicamente fazer isso. O único modo era avançar enquanto se sentia cada vez mais atraída para o fundo, por uma vontade que não fazia parte dela.

Finalmente, Patrick não suportou mais. Virou-se e saiu correndo, abrindo caminho por entre os cães selvagens cheios de desprezo.

Ela queria chamá-lo, mas nenhum som saía de seus lábios acovar­dados.

Cada vez mais fundo. Cada vez mais frio.

A lanterna enfraqueceu, e enquanto a luz ia diminuindo, Lana ia percebendo que as paredes da caverna luziam com um verde fraco.

Agora estava mais perto.

A coisa.

O que quer que fosse, estava mais perto.

A lanterna caiu de seus dedos entorpecidos.

Seus olhos se reviraram na cabeça e ela caiu de joelhos, indiferente, sem perceber sequer a dor nas rótulas batendo em pedras afiadas.

De joelhos, sem enxergar, Lana esperou.

Uma voz explodiu dentro de sua cabeça. Suas costas se arquearam num espasmo e ela caiu de lado. Cada terminação nervosa, cada célu­la do corpo gritava de dor. Dor como se estivesse sendo fervida viva.

Jamais saberia quanto tempo isso durou.

As palavras exatas que ouviu — se é que eram mesmo palavras —, ela jamais recordaria.

Mais tarde acordaria, tendo sido arrastada para fora da caverna por dois coiotes.

Eles a arrastaram da caverna para a noite.

E ali esperaram pacientemente que ela vivesse ou morresse.

 

                           123 HORAS E 52 MINUTOS

SAM, EDILIO, QUINN, Astrid e o Pequeno Pete seguiram a parede do LGAR, e a curvatura da barreira os levou para longe do litoral e, de­pois, de volta a ele.

Não havia abertura na parede. Não havia nenhum alçapão de esca­pe fácil.

O sol estava se pondo enquanto viajavam ao norte de um punhado de minúsculas ilhas particulares. Uma dessas ilhas tinha um lindo iate branco chocado contra as pedras. Sam pensou em se desviar para olhar de perto, mas decidiu não fazer isso. Estava determinado a exa­minar toda a parede do LGAR. Se tinha de ficar preso como um peixe dourado num aquário, queria ver o aquário inteiro.

A parede do LGAR encontrou a terra no meio do parque nacional Stefano Rey, depois de riscar um longo semicírculo na face do mar, que tinha uma placidez fantasmagórica.

O litoral era impossível, uma fortaleza de rochas afiadas e penhas­cos tocados pela luz dourada do sol poente.

É lindo — disse Astrid.

Eu preferiria que fosse feio e tivesse um lugar para desembarcar -— respondeu Sam.

As ondas ainda eram fracas, mas seria preciso muito pouco para que as pedras abrissem um buraco no casco da lancha, que já estava mutilada.

Foram para o sul, devagar, esperando um local para desembarcar antes que o tanque ficasse vazio e a noite caísse.

Por fim, viram um trecho minúsculo, em forma de V, com não mais de quatro metros de largura e dois metros de profundidade. Sam achou que, com sorte, poderia levar o barco até ali e encalhá-lo. Mas o barco não sobreviveria muito tempo e eles estariam a pé, sem mapa, na base de um penhasco de vinte metros.

Como está a gasolina, Edilio?

Edilio enfiou um pedaço de pau no tanque e puxou-o de volta.

Não tem muita. Uns dois centímetros.

Certo. Bem, então acho que é isso. Apertem os coletes salva- vidas.

Sam empurrou o acelerador e apontou direto para a praia minús­cula. Precisava manter a velocidade, caso contrário as ondas mansas iriam empurrá-lo para as rochas que se apinhavam dos dois lados.

O barco subiu pela areia. O impacto sacudiu Astrid, mas Edilio segurou sua mão antes que ela caísse. Os quatro saíram rapidamente, mas o Pequeno Pete não pôde ser convencido a sair, ou mesmo a reco­nhecer a existência deles. Assim, com medo de que a qualquer mo­mento o Pequeno Pete pudesse pirar e esganá-lo, ou que pelo menos começasse a uivar, Sam carregou o garoto para a praia.

Edilio levou o kit de emergência do barco, que tinha pouco mais do que alguns Band-Aids, uma carteia de fósforos, dois sinalizadores de emergência e uma bússola minúscula.

Como vamos fazer o Pequeno Pete subir esse penhasco? — per­guntou Sam, pensando em voz alta. — Não é uma subida difícil, mas...

Ele consegue subir — disse Astrid. — Às vezes ele sobe em árvo­res. Quando quer.

Sam e Edilio tinham idênticas expressões de dúvida.

Ele consegue — insistiu Astrid. — Só preciso lembrar as palavras-gatilho. Algo a ver com um gato.

Certo.

Uma vez ele subiu uma árvore atrás de um gato.

Não sei se ainda temos marés — disse Quinn —, mas, se tiver­mos, esta praia vai ficar embaixo d'água logo.

Charlie Atum — disse Astrid.

Os três garotos a encararam.

O gato — explicou ela. — O nome dele era Charlie Atum. — Em seguida, se agachou perto do Pequeno Pete. — Petey. Charlie Atum? Charlie Atum, lembra?

Isso é doideira demais — murmurou Quinn, baixinho.

Certo — disse Sam —, que tal, isso: Edilio, vá na frente, depois Astrid, para o Pequeno Pete seguir você. Quinn e eu vamos atrás para o caso de Pete escorregar.

Por acaso Astrid estava certa, o Pequeno Pete conseguia escalar. Na verdade quase passou à frente de Astrid na subida. Mesmo assim de­moraram até o escurecer para chegar ao topo do penhasco. Quando finalmente se deixaram cair num leito de capim e agulhas de pinheiro embaixo de arvores altíssimas, precisaram de cada um dos Band-Aids que Edilio havia trazido.

Acho que vamos dormir aqui — disse Sam.