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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O NÁUFRAGO DO CYNTHIA / Júlio Verne
O NÁUFRAGO DO CYNTHIA / Júlio Verne

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O NÁUFRAGO DO CYNTHIA

 

A espantosa odisseia vivida por um jovem que procura encontrar e conhecer os pais.

Qual era a sua pátria, quem seriam os seus pais? Estariam ainda vivos? Teria, em algum país longínquo, irmãos ou irmãs que não conhecia?

«O mais pobre filho das ruas, o mais miserável camponês, sabem ao menos quem é o seu pai e a que grande família humana estão ligados!», dizia consigo, quando cogitava nestas coisas. «Eu, eu ignoro tudo! Apareci no globo terrestre como um arrojo do mar, como um grão de areia, transportado nas asas do vento, sem se saber de onde veio! Não tenho país, nem tradições, nem passado! A terra onde minha mãe nasceu, onde seus restos repousam ou hão-de repousar um dia, quem sabe se estará desonrada pelo estrangeiro, calcada aos pés por ele, e nem ao menos me é dado defendê-la e derramar por ela o meu sangue!»

 

 

         O AMIGO DO SR. MALARIUS.

Provavelmente não há na Europa,(1) nem noutra qualquer parte, um sábio cuja fisionomia seja mais universalmente conhecida que a do Dr. Schwaryencrona, de Estocolmo; o seu retrato, reproduzido nos rótulos de milhões de garrafas lacradas de verde, circula com elas até aos confins do Globo.

A verdade força-nos a dizer que as tais garrafas apenas contêm óleo de fígado de bacalhau, medicamento estimável e benéfico, que, para os habitantes da Noruega, representa todos os anos, em kroners, ou coroas, do valor de 250 réis (1,39 fr.), outros valores totais de umas poucas de cifras.

Noutros tempos eram os pescadores que tinham o exclusivo deste fabrico. Hoje, são mais científicos os processos de extracção, e o príncipe desta indústria especial é precisamente o célebre Dr. Schwaryencrona.

Ninguém deixa de reparar para aquela barba a acabar em ponta, para os óculos, para o nariz adunco, para o boné de lontra. A gravura nem por isso é das melhores, mas a verdade é que está muitíssimo parecida. A prova é o que sucedeu um dia na escola primária de Noroé, na costa ocidental da Noruega, a algumas léguas de Bergen.

Tinham soado duas horas depois do meio-dia.

 

*1. A acção deste livro decorre durante a união da Noruega à Suécia. Após a derrota de Napoleão, a Suécia recebeu a Noruega pelo Tratado de Quília (1814). Esta união foi dissolvida sem efusão de sangue, em 1905, por vontade da Noruega. (N. do T.)

 

Os discípulos estavam na classe, na grande sala arejada - as raparigas à esquerda, e os rapazes à direita-, ocupados a seguir, num quadro pintado de preto, a demonstração de uma teoria que lhes ensinava o professor, o Sr. Malarius, quando a porta se abriu de repente, e se apresentou no limiar uma forma humana envergando uma pelica de grandes peles, botas forradas das mesmas, e um boné de lontra.

Imediatamente os alunos se levantaram com respeito, como é justo quando a uma aula chega qualquer visitante. Nenhum tinha visto ainda o recém-chegado. E, apesar disso, cada um murmurou ao ouvido do vizinho:

- É o Sr. Dr. Schwaryencrona!

Tamanha era a semelhança do retrato gravado nas garrafas do doutor!

Convém dizer-se que os discípulos do Sr. Malarius tinham quase todos os dias à vista tais garrafas, pois uma das suas principais fábricas de óleo de fígado de bacalhau está precisamente estabelecida em Noroé. Mas também não é menos verdade que, desde há muitos anos, o sábio não pusera os pés naquela localidade, e nenhuma das crianças até àquele dia podia gabar-se de o ter visto em carne e osso.

Na imaginação, sim; isso é outro caso. Falava-se muito do Dr. Schwaryencrona nos serões de Noroé. E se fosse real o prejuízo popular a tal respeito, pelo muito que dele se ocupava, as orelhas se lhe fariam encarnadas muitas vezes.

Fosse como fosse, este reconhecimento, tão unânime como espontâneo, constituía um verdadeiro triunfo para o incógnito autor do retrato, triunfo que deveria orgulhar o modesto artista e causar inveja ao mais apreciado fotógrafo.

Sim, ali estavam, física e realmente, a barba acabada em ponta, os óculos, o nariz adunco e o boné de lontra do afamado sábio. Não havia erros nem confusão possíveis. Todos os discípulos do Sr. Malarius iriam jurá-lo com as mãos no fogo.

Mas o que lhes causava admiração e até os contrariava um tanto era acharem no doutor um homem de mediana e vulgar estatura, em vez do gigante que antes teriam imaginado. Como é que um sábio tão ilustre podia contentar-se com uma estatura de cinco pés e três polegadas? A cabeça grisalha dava apenas pelos ombros do Sr. Malarius, e este, demais a mais, estava já recurvado pela idade. Era, porém, bem mais magro que o doutor, e por isso fazia-o parecer duas vezes mais alto. O largo casacão cor de castanha, a que o muito uso dera cores verdoengas, flutuava-lhe como uma bandeira ao vento. Vestia calções curtos e trazia sapatos de fivela; na cabeça um boné de seda preta, donde se escapavam algumas madeixas de cabelos brancos. A fisionomia rosada e sorridente respirava a mais completa doçura. Também usava óculos, que não trespassavam ninguém como os do doutor, e através dos quais os olhos azuis pareciam contemplar todas as coisas com uma benevolência inexaurível.

Não havia memória de que o Sr. Malarius tivesse dado castigo a um só dos seus discípulos, o que não obstava a que fosse respeitado à força de ser amado. Que era um excelente coração, toda a gente o sabia! Era público em Noroé que na sua mocidade fizera brilhantes exames, e que, se quisesse, poderia ter alcançado altos graus, ser herr professor numa grande universidade e conquistar honras e riqueza. Mas tinha uma irmã, a pobre Kristina, sempre doente e sofrendo. E como, por nada deste mundo, ela se resolveria a sair da aldeia, porque era medrosa da cidade e receava morrer lá, o Sr. Malarius tinha-se docemente sacrificado. Aceitou as rudes e humildes funções de mestre-escola. Mais tarde, quando após vinte anos de sofrimentos, Kristina sucumbiu, abençoando-o, o Sr. Malarius, afeito já à vida obscura e ignorada, nem sequer havia pensado em principiar outra de género diferente. Absorvido em trabalhos pessoais, de que se esqueceu de dar parte ao mundo, achava supremo prazer em ser um educador modelo, em dirigir a escola mais bem cuidada de todo o país, e sobretudo em sair do domínio do ensino primário para dar lições a níveis mais elevados. Gostava de adiantar nos estudos os seus melhores discípulos, de iniciá-los nas ciências, nas literaturas antigas e modernas, em tudo que é privilégio das classes ricas ou abonadas e não dos pescadores ou camponeses.

- Porque o que é bom para uns não o há-de ser também para os outros?-dizia ele. - Se os pobres não podem ter todas as alegrias cá neste mundo, porque se lhes há-de recusar o prazer de conhecerem Homero e Shakespeare, de nomearem a estrela que os guia nos mares e a planta que calcam à superfície da terra? Lá virá tempo em que o trabalho os consuma e os curve sobre os campos! Que ao menos na infância bebam em fontes puras e participem do património comum dos homens!

Em mais de um país tem-se julgado este sistema imprudente, próprio para desgostar os humildes da modéstia da sua posição e para arremessá-los no meio das aventuras, mas na Noruega ninguém se inquieta com isso. A doçura patriarcal da índole, o afastamento das cidades, os hábitos laboriosos de uma população pouco densa, parece que tiram todo o perigo a estas espécies de experiências. E por isso são elas mais frequentes naquele país do que poderia crer-se. Em parte nenhuma vai a educação e o ensino tão longe, como lá, tanto nas mais pobres escolas rurais, como nos colégios. É por isso que a península escandinava se pode gabar de produzir, em proporção aos seus habitantes, mais sábios e homens mais distintos em todos os géneros que outra qualquer região da Europa. O viajante a cada passo se maravilha do contraste que apresenta a natureza semi-selvagem com as oficinas e trabalhos de arte, que supõem uma civilização das mais adiantadas.

É tempo, porém, de voltarmos ao Dr. Schwaryencrona, que deixámos à porta da escola de Noroê.

Se os alunos foram prontos em reconhecê-lo, apesar de nunca o terem visto, não aconteceu o mesmo com o mestre, que contudo o conhecia de longa data.

- Eh, bom dia, meu caro Malarius! - exclamou cordialmente o visitante, dirigindo-se com a mão estendida para o mestre-escola.

- Bem-vindo, senhor - respondeu, um tanto atrapalhado, um tanto tímido, como todos os solitários, e surpreendido no meio da sua demonstração. - Peço desculpa de perguntar a quem tenho a honra?...

- Quê!... Assim me encontras mudado desde o tempo em que ambos corríamos pela neve em Cristiânia e fumávamos por compridos cachimbos?... Esqueceste já o Colégio Krauss, ou será preciso, para te lembrares, que te chame meu condiscípulo e amigo?

- Schwaryencrona!... - exclamou o Sr. Malarius.- É possível? És tu realmente?... É o senhor doutor?...

- Pelo amor de Deus! Deixemos as cerimónias!... Não serei porventura o teu velho Roff, como tu serás sempre o meu amigo Olaf... o melhor e mais caro amigo da mocidade? Decerto. É a minha ideia!... O tempo passa e ambos temos feito alguma mudança. Já lá vão trinta anos! Mas o coração é sempre moço, não é verdade? Lá fica um cantinho destinado aos que aprenderam a amar-se, quando comiam ao lado um do outro o pão seco dos vinte anos!

E o doutor ria e apertava ambas as mãos do Sr. Malarius, que, por seu lado, tinha os olhos húmidos de lágrimas.

- Meu caro amigo, meu bom, meu excelente doutor! - dizia. - Vamos já sair daqui. Vou dar sueto aos meus vadios, que por certo ficarão bem contentes, e vens daí comigo para casa...

- Isso é que não - declarou o doutor, voltando-se para os alunos, que seguiam com vivo interesse os pormenores desta cena. - Não devo estorvar-te nos teus trabalhos nem perturbar o estudo destas formosas mocidades!... Se me queres dar prazer, deixa-me sentar aqui e ouvir as lições...

- Está bem, já que o queres--respondeu o Sr. Malarius-; mas, para falar verdade, acabou-se-me a disposição para a geometria, e, depois de ter dado sueto aos rapazes, tenho um certo escrúpulo de retractar a minha palavra!... Parece-me, porém, que há um meio de conciliar tudo. É que o Dr. Schwaryencrona se digne dar aos meus discípulos a honra de os interrogar sobre os seus estudos, e, depois, dar-lhes liberdade por hoje...

- Excelente ideia!... Está dito!... Aí vou eu feito mestre-escola!

Depois, dirigiu-se à classe:

- Vamos lá a saber: qual é o melhor estudante de vós todos? - perguntou o doutor, instalando-se na cadeira magistral.

- Erik Hersebom!-responderam sem hesitar cinquenta vozes infantis.

- Ah! É Erik Hersebom?... Óptimo! Erik Hersebom,

anda cá.

Um rapazinho de doze anos saiu da primeira bancada e chegou-se à cadeira. Era uma criança séria e grave, de fisionomia pensativa e grandes olhos profundos, que em toda a parte mereciam nota, e eram principalmente para se admirarem no meio das cabeças louras que o rodeavam. Ao passo que os seus condiscípulos dos dois sexos tinham todos o cabelo cor de linho, tez rosada, olhos verdes ou azuis, Erik possuía cabelos castanho-es-curos, como os olhos, e a pele trigueira. As faces não eram salientes, nem o nariz curto, nem ele tinha o andar tardio dos filhos da Escandinávia. Numa palavra, fisicamente considerado, distinguia-se da raça tão original e claramente característica a que pertenciam os condiscípulos.

Como o deles, o vestuário era de pano grosso do país, à moda dos da província de Bergen; mas a finura, a pequenez da cabeça alçada num pescoço delgado e elegante, a graça natural dos movimentos e atitudes, tudo parecia indicar nele uma origem estrangeira. Nenhum fisiologista deixaria de se impressionar com o conjunto destas particularidades, e foi isso mesmo que sucedeu ao Dr. Schwaryencrona.

Contudo não havia motivo para desde logo fazer disso questão, e por isso limitou-se a proceder ao exame.

- Por onde havemos de começar? Pela gramática? - inquiriu ao rapazinho.

O doutor fez-lhe duas perguntas muito simples, e ficou admirado de ver que lhe dava resposta exacta, não só em língua sueca, mas também em francês e inglês. Hábito esse adquirido com o Sr. Malarius.

Dizia ele que era tão fácil aprender três línguas a um tempo como uma só.

- Tu também lhes ensinas o francês e o inglês? - perguntou o doutor, voltando-se para o seu amigo.

- Porque não, como elementos do grego e do latim?... Não vejo que daí possa vir-lhe mal algum.

- Nem eu tão-pouco!-disse o doutor a rir.

E abriu ao acaso um volume de Cícero, de que Erik Hersebom traduziu muito bem algumas frases.

Tratava-se nesta passagem da cicuta bebida por Sócrates. O Sr. Malarius pediu ao doutor que perguntasse a que família pertencia esta planta. Erik declarou sem hesitar que era da família das umbelíferas, tribo das esmírnias, e indicou todos os caracteres.

Da botânica passou-se à geometria. Erik deu em bons termos ao doutor a demonstração do teorema relativo à soma dos ângulos de um triângulo.

O Dr. Schwaryencrona ia de surpresa em surpresa.

- Vamos agora a um bocado de geografia. Qual é o mar que limita pelo norte a Escandinávia, a Rússia e a Sibéria?

- É o oceano Glacial Árctico.

- E os mares com que este oceano comunica?

- O Atlântico a oeste e o Pacífico a leste.

- Queira indicar-me dois ou três pontos importantes no Pacífico.

- Citarei Iocoama no Japão, Melburne na Austrália, São Francisco no Estado da Califórnia.

- Bem. Se o oceano Glacial Árctico comunica por uma parte com o Atlântico, que banha as nossas costas, e pela outra com o Pacífico, não lhe parece que o caminho mais curto para irmos de Iocoama a São Francisco seria por aquele mar Árctico?

- Com certeza, senhor doutor - respondeu Erik-, seria esse o caminho mais curto, se fosse praticável. Mas, até hoje, todos os navegadores que têm tentado segui-lo encontraram o obstáculo dos gelos e tiveram de renunciar à empresa, se é que também não encontraram a morte.

- Parece-me que me disse que se tinham feito tentativas para se descobrir a passagem do nordeste?

- Há três séculos para cá talvez cinquenta vezes, e todas sem resultado.

- Poderia citar-me algumas dessas expedições?

- A primeira organizou-se em 1532 sob a direcção de Francisco Sebastião Cabot. Compunha-se de três navios, sob o comando do infeliz Sir Hugh Willoughby, que pereceu na Lapónia com toda a sua equipagem. Um dos seus imediatos, Chancellor, a princípio foi mais feliz do que ele, e conseguiu abrir caminho directo pelos mares árcticos, entre a Mancha e a Rússia. Mas, quando quis fazer a segunda tentativa, naufragou e morreu. Um capitão enviado à sua procura, Stephen Borough, conseguiu atravessar o estreito que separa a Nova Zembla da ilha Waigate e penetrar no mar de Cara; mas os gelos e as brumas impediram-no de ir mais além... Duas expedições tentadas em 1580 foram infrutuosas.

«Foi recomeçado mais tarde, quinze anos depois, novo projecto pelos holandeses, que sucessivamente armaram três expedições, sob o comando de Barentz, para procurar a passagem nordeste. Em 1596, Barentz sucumbiu nos gelos da Nova Zembla... Dez anos depois, Henry Hudson, enviado pela Companhia das índias Holandesas, viu também malogrados os seus esforços no curso de três sucessivas expedições... Os dinamarqueses não foram mais felizes em 1653... Em 1676, outro malogro do capitão John Wood... E desde então o intento julgou-se irrealizável e foi abandonado por todas as potências marítimas.

- Então, não tornou a ser tentado por ninguém, desde essa época para cá?

- Sim, senhor; tentou-o a Rússia, que, como todas as nações setentrionais, teria o máximo interesse em descobrir uma via marítima entre as suas costas e a Sibéria. Durante um século, não enviou menos de dezoito expedições sucessivas para exploração da Nova Zembla, mar de Cara e limites orientais e ocidentais da Sibéria. Mas, se estas expedições conseguiram o resultado de tornarem mais conhecidas aquelas paragens, concluíram por declarar impossível a passagem contínua pelo mar Árctico. O académico Van Baèr, que tentou também a aventura uma última vez em 1837, depois do almirante Lutke e de Pachtusow, declara categoricamente que este oceano é «uma simples geleira», tão impraticável para os navios como se fosse terra firme.

- Visto isso, devemos renunciar à passagem nordeste?

- É essa, pelo menos, a conclusão que parece resultar de tantas tentativas sempre inúteis. Diz-se, porém, que o nosso grande viajante Nordenskiold pensa renovar a empresa, depois de se ter preparado para ela com explorações parciais nos mares árcticos. Se o facto é verdadeiro, é porque o feito se lhe afigura praticável. E se tal é a sua opinião, ele é bastante competente para que se a tome a sério.

O Dr. Schwaryencrona era um dos mais ardentes admiradores de Nordenskiold, e foi por isso que dirigiu o interrogatório para a passagem nordeste. E então ficou encantado com a clareza destas respostas.

Fixava os olhos em Erik Hersebom, com expressão do mais vivo interesse.

- Onde aprendeu o meu filho todas estas coisas? - perguntou-lhe depois de longo silêncio.

- Aqui, senhor doutor - respondeu Erik, surpreendido da pergunta.

- Nunca frequentou outra escola?

- É claro que não.

- O Sr. Malarius pode ter gosto em tal discípulo! - tornou o doutor, voltando-se para o mestre.

- É verdade - disse este. - Estou muito contente com Erik. Há oito anos já que é meu discípulo, porque era bem pequeno quando principiou, e foi sempre o primeiro da sua secção.

O doutor recaíra no silêncio. Fixou em Erik os olhos penetrantes com singular intensidade. Parecia entretido na solução de um problema que não julgou a propósito enunciar em voz alta.

- Não é possível responder-se melhor a todas as perguntas, e julgo escusado continuar o exame! - declarou por fim. - Não demorarei mais a vossa saída, meus filhos, e, já que o Sr. Malarius assim o quer, poremos ponto final por hoje.

A tais palavras, o mestre bateu as palmas. Todos os alunos à uma se levantaram, tomaram conta dos livros, e vieram enfileirar-se em quatro filas no espaço devoluto em frente dos bancos.

O Sr. Malarius bateu as palmas outra vez. A coluna pôs-se em marcha e saiu marcando passo com precisão militar.

Foi dado terceiro sinal, e toda a escola, destroçando, levantou voo com gritos de alegria. Em alguns segundos, tinha-se dispersado ao redor das águas do fiorde, onde Noroé espelha os seus telhados de relva.

 

 

         EM CASA DE UM PESCADOR DE NOROÊ.

A habitação de maaster Hersebom, como todas as de Noroé, é coberta de relva e construída com enormes troncos de pinheiros, segundo o velho traço escandinavo: dois grandes corpos separados por estreito corredor, que conduz ao alpendre, onde se abrigam as lanchas, utensílios de pesca e pilhas de dorsels, ou bacalhau pequeno da Noruega e Islândia, que, depois de seco, é enrolado e entregue ao comércio sob o nome de rondfish (peixe redondo) ou de stockfish (peixe-pau).

Qualquer dos dois corpos serve a um tempo de convívio e de quarto de cama. Uma espécie de gavetas, acomodadas nas paredes de madeira, encerram todo o preparo dos leitos, que se compõe de colchões e cobertores de peles, que só à noite se tiram do seu lugar. Este arranjo - e também as cores claras das portas e a elegância da alta chaminé, colocada a um canto, onde arde sempre uma grande fogueira de lenha - dá às mais humildes habitações uns ares de limpeza e luxo doméstico, desconhecidos dos camponeses da Europa Meridional.

Naquela noite toda a família estava reunida em redor do lar, onde fervia em cachão a enorme panela, que continha uma miscelânia de sillsallat, ou arenque fumado, salmão e batatas.

Maaster Hersebom, assentado numa elevada cadeira de pau, fazia rede, como era seu invariável costume, quando não estava no mar ou no alpendre da seca. Era um rude marinheiro, de faces tisnadas pelas brisas polares e de cabelos já grisalhos, posto que estivesse ainda na força da vida. O seu filho Otto, um forte rapaz de catorze anos, que se parecia muito com o pai e dava todos os jeitos de vir também a ser um valente pescador, estava então todo aplicado a penetrar os mistérios da regra de três, cobrindo de algarismos uma pedra de contas, com uma grossa mão, que parecia muito mais própria para manejo de remos. Erik, inclinado sobre a mesa de comer, estava engolfado na leitura de um volumoso livro de história que o Sr. Malarius lhe tinha emprestado. Ali ao pé, Katrina Hersebom, a boa mãe de família, fiava plàcidamente na sua roca - enquanto a sua pequenina Vanda, uma lourita de doze anos, assentada num escabelo, fazia com todo o ardor uma grossa meia de lã vermelha. Aos pés, dormia enroscado um grande cão branco e amarelado, de pêlo tão espesso como o de um carneiro.

Havia uma hora ou mais que o silêncio não tinha sido interrompido e o candeeiro de cobre, alimentado com óleo de peixe, alumiava serenamente com seus quatro bicos todos os pormenores do tranquilo interior.

A falar a verdade, o silêncio parecia desagradar à mãe Katrina que, em certos momentos, manifestava por diversos sintomas a necessidade de desatar a língua.

Até que, finalmente, não pôde conter-se mais.

- Basta já de trabalho por esta noite - disse ela. - É tempo de irmos para a mesa cear.

Sem uma só palavra de protesto, Erik, pegando no seu volumoso livro, foi mais para o pé da chaminé, enquanto Vanda,. guardando a meia, se dirigiu ao armário para buscar pratos e colheres.

- Tu não disseste, Otto - tornou a dona da casa -, que o nosso Erik respondeu muito bem ao senhor doutor?

- Muito bem! - exclamou Otto com entusiasmo.. - Falou como um livro, a verdade é esta! Não sei onde foi buscar tanta coisa... Quanto mais o doutor perguntava, mais ele respondia... e palavras, e mais palavras!... Ah, o Sr. Malarius não cabia em si de contente!

- E eu também estava contente - disse Vanda, com toda a gravidade.

- Oh! Todos nós o estávamos, pois é claro! ó mãe, se visse como nós estávamos a ouvi-lo de boca aberta!... Todos tínhamos medo de nos chegar a vez do exame!... Ele, sim! Ele é que não tinha medo nenhum. Respondia ao doutor como se fosse ao nosso mestre!

- Ora essa! - disse Erik, a quem estes elogios à quei-ma-roupa parecia que não agradavam. - O Sr. Malarius vale bem o doutor; é o que penso, e é tão sábio como outros que se inculcam!

O velho pescador aprovou estas palavras.

- Tens razão, pequeno - disse, sem interromper o trabalho que estava a fazer com as mãos calosas. - Se o Sr. Malarius quisesse, levaria as lampas a todos os doutores lá da cidade!... E pelo menos não se serve da ciência para arruinar os pobres!

- O Dr. Schwaryencrona arruinou alguém? - perguntou Erik com curiosidade.

- Ah!... Ah!... Se o não fez, não foi por falta de diligência. Eu mesmo, que vos estou a falar, pensais que vejo com bons olhos a fábrica que esfumaça lá em cima, à borda do fiorde?... Tua mãe pode dizer-te que noutro tempo fabricávamos o nosso óleo e o vendíamos muito bem em Bergen por cento e cinquenta e às vezes duzentos kroners por ano... Agora, nada! Ninguém quer o óleo trigueiro, e chega a não valer a pena ir a Bergen vendê-lo. Estamos reduzidos a vender o fígado à fábrica e pelo valor que o gerente do doutor nos queira dar! Agora ganha-se apenas quarenta e cinco kroners e tenho três vezes mais trabalho do que dantes! Pois bem!... Sabes o que te digo? Que isto não é justo e que o doutor faria muito melhor em tratar os seus doentes lá em Estocolmo do que vir aqui tirar-nos o ganha-pão!

A estas palavras amargas sucedeu o silêncio. Por instantes ouviu-se apenas o tilintar dos pratos que Vanda ia dispondo na mesa, enquanto a mãe vazava o conteúdo da panela num prato enorme de barro vidrado.

Erik reflectia profundamente no que maaster Herse-bom tinha dito. Acudiam-lhe em tumulto ao espírito muitas objecções; e, sincero como era, não pôde deixar de formulá-las.

- Pai, parece-me que tem razão nas queixas que faz a respeito da diminuição dos lucros antigos, mas não se deve acusar disso o Dr. Schwaryencrona. Porventura o seu óleo não é mais bem fabricado do que o óleo usual?

- Ah!, sim... É um pouco mais claro, eis tudo. Dizem que não tem gosto a resina, como o nosso!... E é por isso que é preferido pelas delambidas lá da cidade! Mas leve-o o diabo, se é capaz de fazer tão bem aos pulmões como o nosso bom velho óleo de outras eras!

- Mas, enfim, por essa ou por outra razão, o certo é que lhe dão preferência! E, como é medicamento salutar, é essencial que o público experimente quando o toma a menor repugnância possível. E quando um médico acha meio de diminuir a repugnância, modificando o modo do fabrico, não será dever seu aplicar a descoberta?

Maaster Hersebom coçava as orelhas.

- Sem dúvida - disse a pesar seu -, sem dúvida, é talvez um dever de médico. Mas não é razão para privar os pobres pescadores de ganharem a vida...

- Eu pensava que a fábrica do doutor ocupava trezentos pescadores, e no tempo de que o pai fala talvez não houvesse vinte em Noroé - objectou Erik, timidamente.

- É justamente por isso que hoje o trabalho não vale nada! - exclamou Herbesom.

- Vamos! A ceia está tirada, venham para a mesa! - disse Katrina, que via a discussão aquecer-se além do recomendável.

Erik, compreendendo que mais longa insistência era inconveniente, nada replicou ao argumento de maaster Hersebom e foi ocupar o seu lugar do costume ao lado de Vanda.

- O doutor e o Sr. Malarius tratam-se por tu. Serão amigos de infância? - perguntou Erik, para desviar o curso da conversa.

- Decerto - respondeu o pescador, assentando-se à mesa. - Nasceram ambos em Noroé, e lembro-me ainda de os ver brincar na praça da escola, apesar de serem mais velhos do que eu talvez dez anos. O Sr. Malarius era filho de um médico que cá existia, e o doutor de um simples pescador. Fez carreira!

Diz-se que hoje tem muitos milhões de seu e que habita em Estocolmo um verdadeiro palácio!... Oh! A instrução é uma bela coisa! Com este aforismo, o excelente homem preparava-se para mergulhar a colher no prato de peixe e batatas a fumegar; mas não completou o movimento porque alguém bateu nessa ocasião à porta.

- Pode-se entrar, maaster Hersebom?--clamava no corredor uma voz forte e bem timbrada.

E, sem esperar a licença, entrou na sala o próprio de quem se estava a falar, trazendo consigo uma rajada de ar gelado.

- O Sr. Dr. Schwaryencrona! - exclamaram as três crianças, ao passo que o pai e a mãe se levantavam com a maior prontidão.

- Amigo Hersebom-disse o sábio, apertando nas suas a mão do pescador-, há muitos anos que não nos vemos; mas ainda não perdi a lembrança do seu excelente pai, e pensei que podia apresentar-me em sua casa como um amigo de infância!

O digno homem, um tanto mortificado sem dúvida pela recordação das acusações que há bem pouco ainda tinha dirigido contra o visitante, não atinava com resposta a estas palavras. Contentou-se em retribuir ao doutor o aperto de mão com um sorriso de cordiais boas-vin-das, enquanto a mulher corria de um lado para outro.

- Depressa, Otto, Erik, ajudem o senhor doutor a tirar a pelica; e tu, Vanda, põe aí mais um talher!-dizia, toda levada de ideias de hospitalidade, como as outras donas de casa norueguesas. - O senhor doutor faz-nos o favor de se sentar à mesa connosco, não é verdade?

- Com certeza, não poderia recusar - volveu o doutor -, se tivesse apetite, porque está ali um prato de salmão bem tentador... Mas há uma hora que ceei com o meu amigo Malarius, e por certo não viria tão cedo se soubesse que os encontraria ainda à mesa!... Se me querem dar gosto, vou pedir-lhes que tornem para os vossos lugares e continuem como se eu aqui não estivesse.

- Oh! Senhor doutor - implorou a boa mulher -, pelo menos há-de aceitar alguns snorgas e uma chávena de chá?

- Bem, aceitarei o chá, mas com uma condição: é que hão-de comer primeiro - respondeu o doutor-, sentando-se na grande cadeira que lhe estendia os braços.

Vanda pôs discretamente a chaleira ao lume e desapareceu como uma sílfide na sala vizinha, enquanto o resto da família, compreendendo que, com a sua cortesia inata, insistindo causaria incómodo ao hóspede, recomeçava a refeição interrompida.

Em poucos momentos estava o doutor à sua vontade. Ao mesmo tempo que atiçava o lume na chaminé e aquecia as pernas na labareda de lenha seca que Katrina lá deitara, antes de vir de novo para a mesa, conversava do bom tempo antigo, dos que tinham morrido, dos que ainda viviam, das mudanças que tinha havido na localidade e em Bergen. Estava como em sua casa, e, coisa singular, até já conseguira que maaster Hersebom voltasse para a sua cadeira, quando Vanda regressou com um tabuleiro de madeira cheio de pires com aperitivos e o apresentou tão gentilmente que o doutor não pôde resistir.

Eram os afamados snorgas da Noruega, tiras de carne de rena fumada, filetes de arenques com pimentão, fatias de pão negro, queijo apimentado, e outros ferozes condimentos que se comem a toda a hora para abrir o apetite.

Ora estes correspondiam tão bem ao seu destino que o doutor, que tinha provado só por deferência, ficou em estado de fazer as honras ao doce de amoras bravas, que era a especial glória da Sr.a Katrina, e com uma sede que não conseguiu aplacar nem com sete ou oito chávenas de chá sem açúcar.

Maaster Hersebom apresentou então uma talhada de excelente schiedam, provinda de um fornecedor holandês. E depois, finda a ceia, o doutor aceitou das mãos do hóspede um enorme cachimbo, que encheu e fumou com satisfação de todos.

É inútil dizer que, quando as operações chegaram a esta fase, havia muito se tinha derretido o gelo da primeira apresentação, e parecia assim que o doutor fizera desde sempre parte da família. Toda a gente ria e chalaceava.

Reinava a máxima intimidade quando começaram a dar dez horas no velho relógio de madeira.

- Oh, meus bons amigos! - disse então o doutor. - Isto vai-se fazendo tarde. Se quisessem ter a bondade de mandar os pequenos para a cama. Precisamos de falar de coisas sérias.

A um sinal de Katrina, Otto, Erik e Vanda deram imediatamente as boas-noites e retiraram-se.

- Devem desejar saber a que vim? - começou o doutor, depois de um instante de silêncio e fixando um olhar penetrante em maaster Hersebom.

- Um hóspede é sempre bem-vindo - respondeu sentenciosamente o pescador.

- Sim, eu sei, eu sei que em Noroé não se esquece a hospitalidade!... Mas, enfim, devem ter pensado que houve um motivo que me obrigou a deixar a companhia do meu velho amigo Malarius para vir à vossa casa!... Aposto que a Sr.a Hersebom desconfia já de qual o motivo.

- Sabê-lo-emos quando o senhor doutor no-lo quiser dizer - replicou diplomaticamente a boa mulher.

- Vamos! - acrescentou o doutor com um suspiro.- Visto que não querem ajudar-me, não tenho remédio senão falar eu só!... O seu filho Erik, maaster Hersebom, é uma criança bem notável.

- Não tenho razão de queixa dele - respondeu o pescador.

- É singularmente inteligente e instruído para a sua idade - prosseguiu o doutor. - Hoje, na escola, tive ocasião de interrogá-lo e fiquei muito admirado pelas faculdades pouco vulgares de trabalho e reflexão que tal exame me revelou nele!... E bem admirado fiquei, também, quando lhe soube o nome, ao ver que se parece tão pouco de figura convosco e não tem parecenças nenhumas com os filhos do país!

O pescador e a mulher estavam imóveis e silenciosos.

- Na verdade - continuou o sábio com certa impaciência -, esta criança não me causa só interesse, provoca-me também curiosidade. Conversei com Malarius a seu respeito.

Fiquei a saber que lhes não pertence, que não é vosso filho, que um naufrágio o deitou à costa, que o recolheram, educaram e adoptaram até lhe darem o vosso nome. Tudo isto é verdade, não é?

- Sim, senhor doutor - confirmou gravemente Hersebom.

- Se não é nosso filho pelo sangue, é-o pelo coração e pelo afecto! - exclamou Katrina, de olhos húmidos e lábio trémulo. - Nós não fazemos diferença entre ele e o nosso Otto e a nossa Vanda! Nunca pensámos sequer que pudesse haver qualquer diferença entre eles!

- Sentimentos esses que lhes dão honra - volveu o doutor, comovido com a agitação da excelente mulher. - Mas, meus amigos, peço-lhes que me contem a história da criança. Vim expressamente para sabê-la, e asseguro-lhes que só lhes quero bem.

O pescador, coçando na orelha, pareceu hesitar um instante. Mas, vendo que o doutor esperava com impaciência, resolveu-se a falar.

- As coisas passaram-se na realidade como o senhor doutor as contou, e o rapaz não é nosso filho - afirmou o pescador, como que pesaroso.-Já lá vão mais de doze anos. Tinha eu ido pescar para além do ilhéu que esconde a entrada do fiorde do lado do mar!... O senhor doutor sabe que ele está assente num banco de areia e que lá o bacalhau é abundante!... O dia fora bom; levantei as últimas linhas e preparei-me para içar a vela. Nisto vejo boiar sobre as águas, ao sol-posto e quase a uma milha de distância, uma coisa qualquer, branca, que atraiu a minha atenção. O mar estava belo, não havia precisão de recolher logo a casa. Em vez de aproar a Noroé, tive a curiosidade de virar o leme em direcção à tal coisa branca, para ver o que era. Daí a dez minutos estava ao pé dela. O objecto que assim flutuava, impelido para a costa pela enchente da maré, era um berçozinho de vime, com armação de musselina, bem amarrado a uma bóia. Puxei-o para mim com a comoção que pode imaginar-se; segurei a bóia, tirei-a da água e descobri então no berço um probrezito bebé a dormir, com as mãozitas fechadas!

Estava, é verdade, um tanto amarelito e frio, mas parecia que nada sofrera com a aventurosa viagem, porque, com vigor pouco vulgar, logo que se sentiu livre das águas desatou aos berros. Eu sabia como se tratam esses chorões porque já era nascido o nosso Otto. Fiz logo uma rolha com um bocado de trapo, molhei-a em água aguardentada, e meti-lha na boca para a chupar!... Calou-se num instante e parece que aceitou este cordial com verdadeiro prazer. Mas desconfiei que lhe não duraria muito o sossego, e por isso tratei de regressar a Noroé quanto antes. Tinha, já se vê, desarmado o berço, e colocara-o aos meus pés, no fundo do barco. Segurando a escota da vela, observava ao mesmo tempo o pobre pequenino ser e pensava de onde poderia ter vindo. De um navio naufragado, sem dúvida alguma! O mar de noite tinha estado embravecido, o vento desandara em temporal e devia ter havido desastres às dúzias. Mas por que concurso de circunstâncias pôde a criança escapar à sorte dos que cuidavam dela? Quem teria a lembrança de a amarrar a uma bóia? Há quantas horas pairava assim sobre as águas? Que seria feito do pai, da mãe, dos que a amavam? Outras tantas perguntas que ficariam decerto sem resposta, porque o pobre bebé era incapaz de dá-la! Meia hora depois, entrava em casa e confiava a Katrina o meu achado! Possuíamos então uma vaca, que logo constituímos em ama de leite do pequeno. Era tão gentil, tão sorridente e coradinho, que, quando ficou saciado de leite e quentinho ao lume, por Deus lhe juro que começámos a amá-lo tanto como se fosse nosso!... E, depois, é o que se está a ver!... Conservámo-lo, educámo-lo, e nunca fizemos diferença entre ele e os nossos dois filhos!... Não é assim, mulher?... - acrescentou maaster Hersebom, dirigindo-se a Katrina.

- Pois não havia de ser? Pobre pequeno! - respondeu a dona da casa, enxugando os olhos, que as suas recordações enchiam de lágrimas. - E é na realidade nosso filho, porque o adoptámos!... Não sei que necessidade tinha o Sr. Malarius de dizer-lhe o contrário!

E a corajosa mulher, sinceramente indignada, pôs-se a mover a roca com toda a energia.

- É verdade! - apoiou Hersebom. - Que tem alguém com isso, a não sermos nós?

- Com toda a certeza - concordou o doutor, com as maneiras mais conciliadoras. - Agora o que não devem é acusar de indiscreto o bom Sr. Malarius. Eu é que fiquei admirado da fisionomia do rapaz e pedi confidencialmente ao mestre que me contasse a história dele. Malarius não me deixou ignorar que Erik se julgava filho desta casa e que toda a gente de Noroé se tinha esquecido de como ele veio para cá. Julgo que viram que nada lhes perguntei diante do rapaz e que principiei por pedir para mandá-lo para a cama, assim como ao irmão e à irmã... Mas creio que me disse que Erik teria sete ou oito meses quando o encontrou?

- Sim, devia andar por aí. O maroto tinha já quatro dentes, e olhe que nem por isso se passou muito tempo antes de se servir deles! - afirmou Hersebom, rindo.

- Oh, era uma criança soberba! - acrescentou Katrina com vivacidade. - Branco, direito, entroncado!... E que braços e que pernas!... Só vendo...

- Como vinha ele vestido? - perguntou o Dr. Schwaryencrona.

Hersebom não respondeu, mas a mulher foi menos discreta.

- Como um príncipe pequeno! - exclamou. - Imagine o senhor doutor um vestidinho de pique, todo guarnecido de rendas, uma pelica debruada de cetim, mais bela do que a que poderia ter o filho de um rei, uma touca toda pregueada, uma capa de veludo branco!... O que há de mais belo! Se quiser ver, ainda ali tenho tudo intacto. Bem se pode fazer ideia de que nos não divertimos a vestir o bebé com aquela rouparia!... Comecei a vesti-lo com os fatinhos que o nosso Otto ia deixando e eu conservava, e que mais tarde ainda serviram para Vanda!... Contudo, o enxoval está ali e vou mostrá-lo ao senhor doutor.

Enquanto falava, a digna Sr.a Hersebom ajoelhara-se diante de um grande baú de carvalho com ferragem antiga, abriu a tampa, e procurou diligentemente num dos compartimentos.

De lá tirou, uma a uma, todas as peças de roupa anunciadas, que se pôs a desdobrar com orgulho sob os olhos do doutor, e, além delas, os cueiros muito finos, um bibe magnífico com rendas, uma cobertazinha de seda, sapatinhos de lã branca. Todas as peças estavam marcadas com um monograma elegantemente bordado com as iniciais E. D., como o doutor pôde ver de um simples relance.

- E. D. Foi por causa destas letras que puseram ao pequeno o nome de Erik?

- É como diz - respondeu Katrina, a quem esta exibição visivelmente causava alegria, ao passo que parecia fazer ensombrar o rosto do marido. - E aqui está ainda o mais bonito, o que trazia ao pescoço!...-acrescentou, tirando do escaninho uma medalha de ouro e coral, pendente de uma cadeiazinha.

Também lá estavam as duas iniciais E. D., cercadas de uma divisa,latina: Semper idem.

- Chegámos a pensar ao princípio que era o nome do bebé - continuou, vendo o doutor a decifrar a divisa -, mas o Sr. Malarius ensinou-nos que isso queria dizer: «Sempre o mesmo.»

- É como o Sr. Malarius lhes disse - respondeu o doutor a este falar de Katrina, que evidentemente era uma pergunta indirecta. - Claro que a criança pertencia a uma família rica e distinta - acrescentou, enquanto Katrina repunha o enxoval no baú. - Não têm alguma desconfiança de que país teria vindo?

- Como quer o senhor doutor que eu lhe diga seme lhante coisa, se foi no mar que fiz o achado? - replicou Hersebom.

- Sim, mas o berço, segundo me contou, vinha amarrado a uma bóia, e todas as marinhas têm por costume inscrever nas bóias o nome do navio a que estas pertencem - retorquiu o doutor, fixando de novo nos dos pescador os olhos penetrantes.

- Decerto - admitiu este, abaixando a cabeça.

- Muito bem; e essa bóia que nome trazia?

- Ora! Senhor doutor, eu cá não sou nenhum sábio!...

Da minha língua ainda percebo alguma coisa, mas das estrangeiras, boas-noites!... E demais a mais já lá vai tanto tempo!

- E, contudo, é quase certo que deve estar lembrado!... E também é certo que, como o resto, foi mostrar essa bóia ao Sr. Malarius!... Vamos, maaster Hersebom, um pequeno esforço. O nome inscrito na bóia não era "Cynthia"?

- Sim, creio que era uma coisa desse género - respondeu vagamente o pescador.

- É um nome estrangeiro!... De que país lhe parece, maaster Hersebom?

- Sei lá disso!... Tenho obrigação de conhecer todos os países do diabo, eu que nunca saí das paragens de Noroé e de Bergen, a não ser uma ou duas vezes para ir pescar à costa da Islândia e da Gronelândia? - replicou o pescador, com um tom cada vez mais renitente.

- Facilmente me poderia certificar talvez se é um nome inglês ou alemão - insistiu o doutor, fingindo não reparar naquelas maneiras -, pela forma das letras, se visse a bóia. Não a guardou?

- Na verdade, não! Há bom tempo que foi queimada! - exclamou Hersebom triunfantemente.

- Segundo as recordações de Malarius, as letras eram romanas - disse o doutor, como falando consigo próprio - e a marca da roupa, essa, é com certeza. É, pois, provável que o "Cynthia" não fosse um navio alemão, ínclino-me a que fosse inglês. Não é essa também a sua opinião, maaster Hersebom?

- Ora! Dá-me tudo isso um grande cuidado! - replicou o pescador. - E até a primeira coisa em que penso é se era inglês, russo ou patagão o navio!... Há bom tempo, segundo todas as aparências, que foi dizer o seu segredo ao oceano a três ou quatro mil metros de profundidade!

- Quem o ouvisse, pensaria que estava contentíssimo por saber que o segredo ficara oculto tão abaixo do nível dos mares.

- Mas, enfim, nunca tentou alguns esforços para descobrir a família da criança?

- teimou o doutor, cujas lunetas neste momento parece que brilharam com profunda ironia. - É provável que escrevesse ao governador de Bergen e mandasse lançar anúncios nos jornais?

- Eu! - exclamou o pescador. - Eu não fiz nada disso!... Só Deus sabe donde vinha o bebé; quem é que se inquietava por ele? Tinha eu meios de despender dinheiro para andar à procura de pessoas que não se importavam com ele?... Ponha-se o senhor doutor no meu lugar. Eu não sou milionário! E ainda que despendêssemos tudo o que possuíamos de maravilhas descobriríamos alguma coisa?... Assim, temos feito o mais que podemos: vamo-lo educando como se fosse nosso filho, damos-lhe amor e carinho...

- E mais ainda que aos outros, se é possível!...--interrompeu Katrina, enxugando os olhos com a ponta do avental-, porque, se de alguma coisa devemos ter remorsos, é talvez de lhe ter dado uma parte demasiada da nossa ternura!

- A Sr.a Hersebom não me fará a injustiça de supor que as suas bondades para com o pequenino náufrago me inspiram outro sentimento que não seja a mais viva admiração! - exclamou o doutor. - Não, por amor de Deus, não pensem semelhante coisa!... Mas, se querem que lhes fale com inteira franqueza, creio que é essa mesma ternura o que os cega acerca do cumprimento do vosso dever! Esse seria antes de tudo tratarem de procurar, na medida das vossas forças, a família da criança!

Houve um grande silêncio.

- É possível! - admitiu por fim maaster Hersebom, que, a esta censura, tinha curvado a cabeça. - Mas o que está feito está feito! Erik é toda a nossa graça, e cá por mim não tenciono contar-lhe estas velhas histórias.

- Fiquem descansados, não serei eu quem vá trair a vossa confiança! - replicou o doutor, levantando-se.-- Vai-se fazendo tarde... Vou deixá-los, meus bons amigos; desejo-lhes uma boa noite... uma noite sem remorsos-- acrescentou com serenidade.

E, dizendo isto, envergou a pelica forrada e sem aceitar o oferecimento do pescador, que queria ir acompanhá-lo, apertou cordialmente a mão dos seus hóspedes e retirou-se.

Hersebom ficou um bocadinho ao limiar, vendo-o afastar-se à claridade da Lua.

- Que diabo de homem! - murmurou entre dentes,

quando se resolveu enfim a fechar a porta.

 

 

         AS IDEIAS DE MAASTER HERSEBOM.

No dia seguinte de manhã findava o Dr. Schwaryencrona o almoço com o seu gerente, depois de uma inspecção completa à fábrica, quando viu entrar uma personagem em que a princípio lhe custou a reconhecer maaster Hersebom.

Trajado com o fato domingueiro, grande colete cheio de bordados, casaca forrada, e de chapéu alto na cabeça, o pescador diferia muito do que era com o trajo de trabalho. Mas o que acabava de o mudar de todo era o ar profundamente triste e humilhado da fisionomia. Tinha os olhos vermelhos como quem não havia dormido.

Efectivamente assim tinha sucedido. Maaster Hersebom, que até àquele dia não tivera o mínimo remorso de consciência, passara bem tristes horas no seu colchão de couro. Pela manhã trocara com a Sr.a Katrina as mais dolorosas reflexões. Ela, por sua parte, também não pregara olho.

-Mulher, estou a pensar no que nos disse o doutor! - proferira, depois de muitas horas de insónia.

--Eu também penso nisso, desde que ele partiu - respondera a digna dona de casa.

- Vou crendo que há alguma verdade no que nos disse, e que fomos talvez mais egoístas do que pensávamos! Quem sabe se o pequeno não terá direito a alguma fortuna, de que está privado por nossa negligência?... Quem sabe se estará a ser chorado há onze anos por alguma família, que poderá com razão arguir-nos de nada termos tentado para restituir-lho?

- É isso precisamente o que me faz cismar-declarou Katrina, suspirando. - Se a mãe ainda vive, que horrível pesar deverá sentir a pobre mulher, julgando o filho afogado!... Cada um ponha o caso em si, e nós, se perdêssemos o nosso Otto!... Nunca decerto nos consolaríamos!

- A mãe ainda não é tudo o que me inquieta, porque, segundo todas as aparências, já morreu - tornou Hersebom, depois de silêncio, entrecortado de uma e outra parte por novos suspiros. -- Como pode supor-se que uma criança daquela idade viajasse sem a mãe, e que a atassem daquele modo a uma bóia e a confiassem aos acasos do oceano, se ela fosse viva?...

- Isso é verdade... mas no fim de contas o que sabemos realmente?... Talvez também escapasse por milagre!...

- Quem sabe se lhe tiraram o filho! É uma ideia que às vezes me surge - volveu Hersebom.. - Quem nos diz a nós que não haveria interesse em o fazer desaparecer? Expô-lo assim numa bóia é um processo tão extraordinário que dá margem a todas as suposições... E neste caso aí estamos cúmplices de um crime, cujo êxito nos temos encarregado de favorecer!... Não é bem horrível pensamento este?

- Quem nos poderia dizer tal coisa, se julgávamos fazer uma boa obra de caridade adoptando o pobrezinho?

- Oh, isso é claro, andámos sem malícia! Criámo-lo e temo-lo educado o melhor que podemos! O que não obsta a que tenhamos procedido levianamente e que o pequeno um dia, por isso, se julgue no direito de no-lo lançar em rosto.

- Ah, a esse respeito não há que recear, tenho a certeza! Mas assim mesmo já acho muito termos de nos repreender a nós mesmos!

- É notável que esta acção, encarada sob um ponto de vista diferente, possa ser julgada de tão opostas maneiras! Nunca poderia imaginar uma coisa assim!...

E bastaram algumas palavras do doutor para nos pôr a cabeça às aranhas!

E assim conversava intimamente o honesto casal.

O resultado da troca de tais reflexões nocturnas foi maaster Hersebom ir consultar o Dr. Schwaryencrona sobre o que seria possível fazer-se para se reparar o passado erro.

O doutor entendeu que não devia referir-se mais ao que se dissera na véspera. Acolheu o pescador com benevolência, falou-se do tempo e do preço do peixe, e fingiu receber a vinda dele como uma simples visita de cortesia.

Ora, isso é que não convinha a maaster Hersebom, que principiou a fazer uns certos rodeios a respeito do motivo da sua preocupação, falou da escola do Sr. Malarius e decidiu-se finalmente a lançar-se em pleno mar.

- Senhor doutor - disse, tomando a sua resolução -, minha mulher e eu estivemos a pensar toda a noite no que ontem nos disse a respeito do pequeno... Nunca julgámos que poderíamos um dia prejudicá-lo, educando-o como nosso filho!... Mas o senhor doutor fez-nos mudar de opinião, e eu desejava saber que conselho nos dá para não continuarmos a pecar por ignorância... Pensa que ainda será tempo de se procurar a família de Erik?

- Sempre é tempo para se cumprir um dever - respondeu o doutor -, ainda que, com toda a certeza, a tarefa seja agora bem mais complicada do que o teria sido nos primeiros momentos... Querem confiar-ma? Encarrego-me dela com prazer, e prometo-lhes que me hei-de desempenhar com a eficiência que se deseja, no entanto com uma condição, que vem a ser: que ao mesmo tempo me hão-de confiar o pequeno para o levar comigo para Estocolmo...

Uma marreta caindo sobre a cabeça de maaster Hersebom não o teria atordoado tanto. Empalideceu e perturbou-se visivelmente.

- Confiar Erik ao senhor doutor?... Deixá-lo ir para Estocolmo?... E para que é isso? - perguntou com voz alterada.

- Já lho vou dizer... O que atraiu a minha atenção para essa criança, ao mesmo tempo que os seus caracteres físicos, pelos quais à primeira vista se distingue dos condiscípulos, foi a sua viva inteligência e a evidente vocação para estudos superiores. Antes de saber por que série de acasos tinha vindo naufragar em Noroê, já eu pensava que era uma barbaridade deixar um rapaz tão bem dotado numa escola de aldeia, ainda que dirigida por um mestre como Malarius, porque ainda não há nada que possa auxiliar o desenvolvimento das suas faculdades excepcionais: nem museus, nem colecções científicas, nem bibliotecas, nem émulos dignos dele... Foi o que me levou a fazer perguntas a respeito de Erik e a pedir a sua história. Antes de a conhecer, já tinha o maior desejo de procurar para esta criança as vantagens de uma educação completa... Agora, já pode compreender que, uma vez de posse dos esclarecimentos que me deu, cada vez me inclinava mais a este projecto. E a missão de que me quero encarregar em favor dele não será o que me há-de estorvar... Escuso de lembrar-lhe outra vez, maaster Hersebom, que evidentemente o seu filho adoptivo pertence a uma família rica e distinta. E quer que eu me exponha, dado que a encontre, a restituir-lhe um rapaz criado na aldeia e desprovido de uma educação sem a qual estaria deslocado no seio da sociedade a que iria pertencer?... Não seria razoável, e maaster Hersebom tem muito bom senso para o não compreender...

Hersebom estava cabisbaixo. Sem dar por isso, duas grossas lágrimas deslizavam-lhe pelas faces crestadas.

- Mas desse modo - objectou - seria uma separação definitiva!... Ainda antes de saber se se encontrará a família, havemos de expulsar de casa o pequeno?... Ah, senhor doutor, é pedir-me de mais, e é pedir de mais à minha mulher!... Ele é feliz em nossa casa!... Porque não há-de cá ficar, enquanto não tiver a certeza de sorte mais brilhante?

- Feliz!... E quem diz que o será mais tarde?... Quem lhe garante que, quando chegar a ser homem, não terá pena de ter sido salvo! Inteligente, superior, como talvez será, há-de estiolar-se nesta vida que lhe prepara em Noroê, meu caro Hersebom!...

- Em boa verdade, senhor doutor, a vida de que

tanto desdenha, para nós é tão boa!... Porque o não será também para o pequeno?

- Eu não desdenho dessa vida - emendou o sábio

com calor. - Ninguém haverá que mais do que eu admire e honre o trabalho! Julgará porventura, maaster Hersebom, que me tenha esquecido de onde saí?... Meu pai e meu avô eram também pescadores! E foi justamente porque tiveram a previdência de me dar educação, que eu aprecio este bem em todo o seu valor e desejaria assegurá-lo a uma criança que o mereça!... Pode crer que é unicamente isso o que me guia...

- Eu! Que hei-de então dizer? Erik estará bem adiantado quando o senhor doutor o tiver transformado num «figurão» que nem sequer saberá servir-se dos braços!... E se não se encontrar a família, como é mais que provável, passados doze anos, teremos feito obra limpa!... Pense bem, senhor doutor: é uma vida valente a do homem do mar e vale tanto como outra qualquer... Um bom barco sob os pés, vento fresco nos cabelos, quatro ou cinco dúzias de bacalhaus no cabo das linhas de fundo, é bastante para um pescador norueguês, que nada teme nem deve nada a ninguém!... Disse que Erik não se julgaria feliz com esta vida? Dê-me licença que julgue o contrário! Conheço-o muito bem, o meu rapaz!... Gosta dos livros; mais que tudo, porém, adora o mar! Dir-se-ia que ainda se lembra de ter sido embalado por ele, e nem todos os museus do mundo seriam capazes de o consolar de se ver longe dele!

- Mas em Estocolmo também temos mar - observou o doutor, sorrindo-se comovido, mau grado seu, desta afectuosa resistência.

- Enfim - tornou o pescador, cruzando os braços -, que quer decididamente o senhor doutor? Que deseja?

- Bem! Vai vendo que, apesar de tudo, sente a necessidade de que se dê algum passo. Aí vai a minha proposta. Erik tem doze anos, treze em breve, e parece ser uma criança excepcionalmente bem dotada. Pouco importa de onde procede...

Ponhamos de parte a questão de origem... Merece que se lhe facultem os meios de desenvolver e utilizar as suas faculdades; eis do que presentemente nos devemos ocupar. Sou rico e não tenho filhos. Encarrego-me de lhe fornecer esses meios, de lhe dar os melhores mestres e todas as facilidades possíveis para poder tirar proveito das lições... A experiência durará dois anos... Nesse meio tempo, ponho-me em campo, procedo a investigações, mando anúncios para os jornais, remexo o céu e a terra para descobrir os parentes da criança!... Se em dois anos nada puder descobrir, por certo que não o conseguirei em mais tempo! Descobrem-se os parentes? Naturalmente decidirão o que convirá fazer-se!... No caso contrário, restituo-lhes Erik!... Terá então quinze anos, conhecerá o mundo!... Será chegada a hora de dizer-lhe a verdade acerca do seu nascimento, e poderá, com os nossos conselhos e juízos motivados dos seus mestres, decidir-se com conhecimento de causa acerca da carreira que há-de seguir!... Quer ser pescador... não serei eu quem lhe faça oposição!... Quer continuar os estudos... naturalmente é porque será digno disso e comprometo-me a fazer-lhos concluir e abrir-lhe a profissão que escolher!... Não lhe parece isto razoável?

- Mais que razoável!... É a própria sabedoria a falar pela sua boca, senhor doutor! - exclamou maaster Hersebom, vencido nos últimos entrincheiramentos. - O que é ter-se estudado!.... - concluiu, sacudindo a cabeça.- Põem-se os ignorantes a um canto!... Agora o que será difícil é repetir tudo isto a minha mulher!... É para já que deseja levar o pequeno?...

- Amanhã!... Não posso demorar nem mais um dia o meu regresso a Estocolmo.

Maaster Hersebom arrancou um suspiro, que se parecia bem com um soluço.

- Amanhã... é tão cedo!... - objectou Hersebom. - Enfim! O que tiver de ser, será!... Vou conversar com minha mulher...

- Assim deve ser. Consulte também o Sr. Malarius. Verá que é da minha opinião.

- Oh, disso estou eu certo - replicou o pescador, com

um sorriso de tristeza.

Apertou a mão que lhe estendia o Dr. Schwaryencrona e retirou-se, todo engolfado em pensamentos.

À tarde, antes da hora do jantar, o doutor dirigiu-se de novo a casa de maaster Hersebom. Encontrou a família toda reunida em redor do lar, mas já sem os mesmos sentimentos de quietação e de ventura. O pai estava sentado longe do lume, calado, mãos ociosas. Katrina, com os olhos arrasados de lágrimas, tinha estreitadas entre as suas as mãos de Erik, que, de face animada pela esperança de novos destinos e de olhos turvos pela saudade de deixar tudo o que amava, não sabia por qual dos dois sentimentos devia deixar-se dominar. A pequena Vanda tinha a fronte escondida sobre os joelhos do pescador. Apenas se lhe viam as longas tranças de um louro argênteo, que caíam, fartas e pesadas, pelos ombros delicados e graciosos. Otto, também vivamente comovido pela iminente separação, conservava-se imóvel ao pé do seu irmão adoptivo.

- Como vós todos estais sombrios e desconsolados! - exclamou o doutor, parando à porta. - Pela pena que vos vejo ter, parece que pensais que Erik está em vésperas de partir para uma expedição, a mais longínqua e perigosa que é possível! Meus bons amigos, assevero-lhes que não têm razão para tanto! Estocolmo não fica lá nos antípodas, nem o nosso rapaz os abandonará para sempre! Pode escrever-lhes a cada passo, e estou certo de que o há-de fazer muitas vezes! Este caso é exactamente igual ao de um rapaz que vai para o colégio. Dentro de dois anos, há-de regressar, maior e muito instruído, um moço perfeito! Que motivo há, pois, para tanta mágoa?... Seriamente, isto não é razoável!

Katrina erguera-se com toda a dignidade inata das camponesas do Norte.

- Herr doutor, tomo a Deus por testemunha de todo o reconhecimento que lhe voto pelo favor que tem dispensado ao nosso Erik - disse. - Mas não deve censurar-nos pela nossa tristeza.

Hersebom explicou-me que esta separação é necessária. Ah, mas não exija de nós que o vejamos partir sem saudade!

- Mãe - exclamou Erik -, se a minha saída lhe causa muita pena, não partirei!

- Não, querido filho, não - tornou a digna mulher, envolvendo-o nos braços. - A educação é um bem que não temos direito a recusar-te!... Vai, meu filho, e agradece ao senhor doutor o seu desejo de te dar instrução e mostra-lhe, pela tua aplicação aos estudos, que aprecias as suas grandes bondades!

- Ora pois, ora pois! - disse o doutor, cujos óculos parece que se queriam embaciar com certa nuvem notável. - Aposto que vós tendes também tenção de me comover!... Falemos antes de coisas práticas, que é o que melhor serve. Estão já cientes de que havemos de partir amanhã cedo, e de que tudo deve ficar pronto então? Quando digo tudo, não é porque julgue necessário um grande enxoval. Vamos de trenó até Bergen, e lá tomaremos o caminho de ferro. Erik precisa apenas de alguma roupa branca; o resto se arranjará em Estocolmo...

- Há-de estar tudo pronto - respondeu simplesmente a Sr.a Katrina. - Vanda - acrescentou ela, com a sua cortesia de norueguesa -, olha o senhor doutor, que ainda está de pé!

A pequena foi logo empurrar para junto do Dr. Schwaryencrona uma grande cadeira de braços, de carvalho envernizado.

- Tenho de retirar-me - declarou o doutor. - Malarius espera-me para jantar... Diga-me, flika (rapariga) - continuou, pousando a mão na loura cabeça de Vanda -, quer-me muito mal por levar comigo o seu irmão?

- Não, senhor doutor - respondeu Vanda. - Erik será mais feliz lá em baixo. Não nasceu para estar sempre aqui, na aldeia!

- E não se julga infeliz por lhe faltar a sua companhia?

- A praia ficará deserta - replicou docemente a pobre menina. - As gaivotas hão-de chamá-lo e ele não lhes responderá mais. As pequenas ondas azuis ficarão admiradas de o não tornarem a ver, e a casa parecer-me-á sem gente! Mas Erik será feliz, porque terá muitos livros e será um grande sábio.

- E a sua excelente irmãzinha há-de alegrar-se com a felicidade dele, não é assim, querida filha? - disse o doutor, dando um beijo na fronte da criança. - E terá orgulho dele quando voltar!... Vamos, está o assunto resolvido! Preciso de me pôr a andar quanto antes! Até amanhã!

- Senhor doutor - murmurou Vanda, timidamente -, queria... queria pedir-lhe um favor.

- Fale, flika!

- Não disse que partia de trenó? Pois o meu desejo, se os meus pais consentissem, era que mo deixasse guiar até à primeira muda.

- Ah!... Ah!... é que ajustei para esse fim a Regnild, a filha do meu gerente.

- Sei, ela disse-mo. Mas consente em ceder-me o lugar, se o senhor doutor autorizasse.

- Muito bem, nesse caso só lhe falta a licença dos pais.

- Já ma deram.

- Pois por mim não há dúvida, querida filha! - volveu o doutor, saindo.

 

No dia seguinte de manhã, quando o grande trenó parou diante da porta da casa dos Hersebom, a pequena Vanda, conforme o pedido que fizera, segurava as rédeas, sentada no lugar próprio. Ia guiar o veículo até à aldeia mais próxima, onde o doutor alugaria outro cavalo e arranjaria outra rapariga para guia e condutor, e assim até Bergen. Este cocheiro de nova espécie é para fazer admirar um estrangeiro; mas tal é o costume na Suécia e na Noruega. Os homens, se exercessem estas funções, pensariam que perdiam o seu tempo, e não é raro confiar-se a crianças de dez ou doze anos pesados tiros de cavalos, que elas sabem conduzir com desembaraço consumado.

O doutor estava já instalado no fundo do veículo, bem agasalhado em peles. Erik tomou lugar ao lado de Vanda, depois de ter abraçado ternamente o pai e o irmão, que se limitaram a exprimir-lhe por sua muda tristeza o pesar que lhes causava a partida. A boa Katrina foi mais expansiva.

- Adeus, filho! - dizia-lhe, banhada em lágrimas. - Não te esqueças nunca do que te ensinaram os teus pobres pais! Sê honrado e corajoso! Nunca mintas! Trabalha o mais que puderes! Protege sempre os que forem mais fracos do que tu! E, se não encontrares a felicidade que mereces, vem recuperá-la junto de nós!

Vanda tangeu o cavalo, que partiu a trote largo, fazendo soar as campainhas. Corria uma aragem fria e a estrada estava dura como vidro. Muito achegado ao horizonte, um Sol pálido desdobrava pela paisagem de neve o seu manto de ouro. Em poucos minutos, Noroé sumiu-se lá ao longe.

 

 

         EM ESTOCOLMO

O Dr. Schwaryencrona habitava em Estocolmo uma casa magnífica, na ilha de Stadsholmen. É o quarteirão mais antigo e mais procurado desta deliciosa capital, uma das mais amáveis da Europa, uma das que os estrangeiros mais frequentemente visitariam, se a moda e o prejuízo não tivessem, sobre os planos de viagem do turista, pelo menos tanta influência como sobre a forma do seu chapéu.

Situada entre o lago Melar e o Báltico, sobre um grupo de oito ilhas, ligadas umas às outras por pontes inumeráveis e guarnecida de magníficos cais, animada pelo movimento de barcos a vapor, que substituem os ónibus, pelo bem-estar de uma população laboriosa e contente, a mais hospitaleira, bem-educada e instruída da Europa, Estocolmo é, com os seus grandes jardins públicos, bibliotecas, museus e estabelecimentos científicos, uma verdadeira Atenas do Norte e ao mesmo tempo um importantíssimo centro comercial.

Entretanto Erik estava ainda sob a impressão que Vanda lhe fizera sentir no momento de se separarem na primeira estação de muda. Os adeuses foram mais sérios do que era de esperar na idade de ambos; aqueles corações tão novinhos não tinham podido ocultar um ao outro a sua profunda comoção.

Mas quando a carruagem, que fora à gare esperar Erik, parou diante de uma grande casa de tijolos vermelhos, com as duplas janelas a brilhar aos clarões do gás, Erik ficou maravilhado. A aldraba de cobre da porta pareceu-lhe de fino ouro. Mas o que acabou de o mergulhar em completo assombro foi o vestíbulo, lajeado de mármore, ornado de estátuas, de candelabros de bronze, de grandes vasos da China. Enquanto um criado de libré desembaraçava o amo das peles de agasalho, informando-se da sua saúde com a cordialidade peculiar dos criados suecos, Erik lançava em redor de si olhares admirados.

Um rumor de vozes atraiu a sua atenção para a escada de grande corrimão de carvalho, coberta com espesso tapete. Reparou e viu duas pessoas, cujo traje lhe pareceu a última palavra da elegância.

A mais velha era uma dama de cabelos grisalhos e de mediana estatura, toda aprumada no seu vestido preto pregueado, suficientemente curto para deixar ver as meias vermelhas com seus quadrados amarelos e sapatos de fivela. Da cinta, preso por uma corrente de aço, caía-lhe um molho enorme de chaves. Trazia a cabeça levantada e deitava para todos os lados olhares vivos e penetrantes. Era a fru (senhora) Greta Maria, a governanta-despenseira do doutor, a autocrata incontestada da casa em todos os assuntos culinários e domésticos.

Atrás vinha uma rapariguinha dos seus onze a doze anos, que apareceu aos olhos de Erik como uma princesa de conto de fadas. Em vez do traje nacional, único que ele tinha visto em crianças daquela idade, esta trajava um vestido de veludo azul-escuro, sobre o qual caíam em sedosas tranças os cabelos dourados; trazia calçadas meias pretas e sapatos de cetim; um laço de fita cor de cereja, posto no alto da cabeça como uma borboleta, animava com a sua cor viva uma fisionomia singular e pálida, alumiada pelo raio fosforescente de uns olhos verdes.

- Ah! Meu tio, que felicidade tornar a vê-lo!... Fez boa viagem? - perguntou ela, deitando-se ao pescoço do doutor.

Para Erik, que modestamente se pusera de lado, apenas se dignara abaixar a vista.

O doutor retribuiu-lhe as carícias, deu um aperto de mão à governanta, e depois fez sinal ao seu protegido para se aproximar.

- Kajsa, e Sr.a Greta, a ambas peço toda a benevolência para com Erik Hersebom, que trago comigo da Noruega - disse o doutor. - E tu, meu rapaz, não tenhas medo! - continuou com bondade. - A senhora não é tão severa como o seu parecer inculca, e a minha sobrinha Kajsa em breve tempo há-de dar-se contigo!... Não é assim, Kajsa? - acrescentou, beliscando ligeiramente a face da fadazinha.

Kajsa respondeu apenas com uma momice muito desdenhosa. Quanto à governanta, parece que não se tomou de mais entusiasmo pela nova personagem que lhe era apresentada.

- Herr doutor, dá licença que pergunte - disse, com ares rabugentos, quando subia a escada - quem é este rapaz?

- Pois não! - respondeu o doutor. - Hei-de contar-lhe tudo isso, Sr.a Greta, não tenha dúvida!... Mas, antes de mais nada, iremos comer alguma coisa, se lhe parece.

Na matsal, ou sala de jantar, a mesa, já servida, apresentava toda a bela disposição dos seus cristais e dos snorgas estendidos por cima da branca toalha. Era um luxo de que o pobre Erik não podia ter a mínima ideia, porque a roupa de mesa é totalmente desconhecida aos aldeões da Noruega; os próprios pratos há pouco tempo ainda começam a ser empregados. Um grande número de camponeses come ainda o seu peixe em cima de rodelas de pão negro, e não se dão mal com esse uso. Por isso foram precisos reiterados convites do doutor para que o rapaz se sentasse à mesa, e o desengraçado dos seus movimentos atraiu da froken (menina) Kajsa mais de um volver de olhos pesados de ironias. Mas nem por isso a refeição deixou de correr bem, atento o bom apetite dos viajantes. Aos snorgas seguiu-se um jantar que, por sua solidez maciça, causaria espanto a um estômago francês, além de, pela abundância, poder saciar o apetite de um batalhão de infantaria depois de uma marcha de vinte e oito quilómetros:

sopa de peixe, pão fabricado em casa, pato recheado de castanhas, carne de vaca cozida e flanqueada de um monte de legumes, batatas em pirâmide, ovos cozidos às dúzias, pudim de uvas, passas no cacho - tudo foi valentemente acometido e desmantelado.

Findo, quase sem trocar palavra, o copioso banquete, foram todos para o locutório, um vasto salão assoalhado, de seis janelas, cujos vãos, fechados por pesados reposteiros de pano, bastariam para um arquitecto francês formar nele um aposento completo. O doutor instalou-se ao canto do fogão, num grande cadeirão de couro; Kajsa sentou-se-lhe aos pés, num tamborete, enquanto Erik, intimidado e pouco à vontade, se aproximava de uma janela, com bons desejos de refugiar-se na profunda escuridão deste reduto. Mas o doutor não lhe deu tempo.

- Vamos, meu rapaz, vem daí aquecer-te - gritou-lhe com voz sonora -, e dize-nos alguma coisa do que pensas de Estocolmo.

- As ruas são tão negras, tão estreitas, e as casas tão altas! - respondeu Erik.

- É verdade - concordou o doutor, rindo-se -, um pouco mais altas que as de Noroé.

- Elas tiram a vista às estrelas - tornou o rapazinho.

- E sabe porquê? - replicou Kajsa, irritada com estas críticas. - É porque estamos no quarteirão nobre. Basta passar as pontes para se verem ruas mais largas.

- Já as vi quando viemos da gare - retrucou Erik -, mas a mais bonita ainda não é tão larga como o fiorde de Noroè!

- Ah! Ah!... - disse o doutor -, teremos já a nostalgia da tua terra?

- Não - respondeu Erik resolutamente -, não senhor, e estou-lhe em muita obrigação, senhor doutor, para poder um só instante que fosse arrepender-me de ter vindo. Mas como me perguntou o que pensava de Estocolmo, disse-lho.

- Noroé deve ser um covil horrível! - aventurou Kajsa.

- Um covil horrível?! - repetiu Erik com indignação. - Os que disserem tal coisa é porque não têm olhos, froken Kajsa! Se pudesse ver tão-sòmente a cinta de granito que fazem os rochedos ao nosso fiorde, e as nossas montanhas, as nossas geleiras e as nossas florestas de pinheiros, tão negros, elevando as ramarias de encontro ao céu desmaiado! E para além o grande mar, umas vezes tumultuoso e terrível, outras tão doce que parece querer embalar a gente! E as gaivotas, que passam voando, a perder-se no infinito, e voltam logo a roçar-nos com a ponta das asas!... Oh, tudo isto é belo, mais belo do que a cidade!

- Eu não falava da paisagem, mas sim das casas -

tornou Kajsa -, São choupanas de aldeões, não é assim,

onkel (tio)?

- Choupanas de aldeões onde nasceram, assim como eu também, o teu pai e o teu avô, minha filha - respondeu gravemente o doutor.

Kajsa corou e calou-se.

- É verdade que são apenas casas de madeira - disse Erik -, mas valem bem outras melhores!... Muitas vezes à noite, enquanto o pai conserta as redes e a mãe fia na roca, nós os três, Otto, Vanda e eu, assentamo-nos num banquinho, tendo aos pés o nosso grande cão «Klaas», e repetimos em coro as velhas sagas, olhando para as sombras que brincam nos tectos. E quando o vento sopra lá fora e todos os pescadores estão recolhidos, como é bom sentirmo-nos quentes dentro de casa! Está-se ali tão bem como no mais belo quarto... como neste...

- Este quarto ainda não é o mais belo - afirmou Kajsa com orgulho. - Se lhe fosse mostrar o salão grande, então é que havia de ver!

- Mas aqui há tantos livros!... - notou Erik. - Ainda haverá mais no salão?...

- É boa! Livros!... Quem fala agora disso? Cadeiras de veludo, cortinados de rendas, um grande pêndulo francês, tapetes do Oriente... era do que eu queria falar!

Erik nem por isso parecia seduzido por esta enumeração, antes lançava olhares de inveja para uma grande estante de carvalho, que ocupava uma parede inteira do locutório.

- Podes ir examinar e ler os livros que quiseres - autorizou o doutor.

Erik não esperou que lhe repetisse o consentimento.

Foi escolher um volume, e, instalando-se a um canto onde se via bem, em breve ficou absorvido na leitura. Mal deu pela entrada de dois sujeitos idosos, comensais do Dr. Schwaryencrona, que quase todas as noites vinham jogar o whist.

O primeiro chamava-se Professor Hochstedt. Era um ancião de elevada estatura, de maneiras frias e majestosas, que muito acadèmicamente expressou ao doutor o seu prazer pelo regresso. Apenas instalado na cadeira de braços a que pelo longo uso se costumava já chamar «a cadeira do professor», ouviu-se um toque de campainha firme e forte.

- É Bredejord! - disseram os dois amigos. Abriu-se dentro em pouco a porta, por onde entrou

um homem baixinho, magro e cheio de vivacidade, que penetrou como uma rajada de vento, estreitou ambas as mãos do doutor, deu um beijo na fronte de Kajsa, trocou com o professor um cumprimento afectuoso e passou em volta do locutório um olhar brilhante como o de um rato. Era o senhor advogado Bredejord, uma das ilustrações do foro de Estocolmo.

- Eh lá... - disse de súbito, quando avistou Erik. - Temos gente nova? Um moço pescador de bacalhau, ou, para melhor dizer, um marujo de Bergen? E está a ler Gibbon em inglês! - acrescentou, depois de certificar-se de qual era o livro tão absorvente em cuja leitura o rapaz estava mergulhado. - Esse livro realmente interessou-o, meu rapaz? - perguntou-lhe.

- Sim, senhor; é uma obra que há muito andava com desejo de ler: o primeiro volume da «Decadência do Império Romano» - respondeu Erik ingenuamente.

- Bravíssimo! - tornou o advogado.- Parece que os marujos de Bergen gostam bastante de leituras sérias!...

Mas, diga-me, é efectivamente de Bergen? - volveu ele, quase em seguida.

- Sou de Noroé, que não é muito longe de lá - elucidou Erik.

- Ah!... Então em Noroè as pessoas têm assim esse cabelo e olhos tão escuros como os seus?

- Não, senhor. Meu irmão e minha irmã e todos os meus são louros, quase como esta menina - explicou Erik. - Agora o que não sabem é vestir-se tão bem - acrescentou sorrindo-se. - E por isso pouco se parecem com ela.

- Não, com certeza - afirmou o Sr. Bredejord.- A menina Kajsa é um produto da civilização. Lá, é a bela natura, «que só tem por enfeite a própria singeleza»(*). Mas perdoe a minha curiosidade: o que vem fazer a Estocolmo?

- O senhor doutor quer ter a bondade de me mandar para o colégio - declarou Erik.

- Ah! Ah!... - fez o advogado, batendo na caixa do rapé com as extremidades dos dedos.

E o seu olhar fino parecia querer interrogar o doutor acerca deste problema vivo. Mas, por um sinal quase imperceptível, conheceu que era necessário deixar a explicação para outra vez, e mudou logo de conversa.

Falou-se, pois, da Corte, da cidade, do que se tinha passado na sociedade durante a ausência do doutor. Depois veio a Sr.a Greta abrir a mesa do jogo e preparar os tentos e as cartas. E em breve reinou completo silêncio, ficando os três amigos embebidos nas sábias combinações do whist.

O doutor tinha a inocente presunção de ser de primeira força a este jogo, e o hábito, por certo menos inocente, de se mostrar implacável para com os erros que escapavam aos parceiros. Não podia conter-se sem exultar ruidosamente quando os erros dos outros o faziam ganhar e de se escandalizar todo quando o faziam perder; além disso, o seu grande prazer no fim de cada róber era explicar ao delinquente por onde tinha pecado,

 

*1. «Most adorned when unadorned.»

 

que carta deveria jogar depois de tal e tal vaza, que «puxada» deveria fazer depois de outra tal. São caprichos e altercações frequentes nos jogadores de whist, mas que nada têm de amáveis, principalmente quando degeneram em mania e todas as noites são exercidos contra as mesmas vítimas.

Felizmente para si, o doutor jogava com dois amigos que o desarmavam sempre, o professor pela fleuma inalterável e o advogado pela serenidade do seu cepticismo.

- Tem razão, doutor - dizia gravemente o primeiro, como resposta às mais acerbas acusações.

- Meu caro Schwaryencrona, já deve saber que perde o tempo com os seus sermões! - observava rindo o Sr. Bredejord. - Toda a minha vida hei-de cometer ao whist os erros mais crassos, e o pior é que não levo jeito de me arrepender!

Que fazer com pecadores tão endurecidos? O doutor via-se reduzido a meter no saco as suas críticas, mas para as renovar pouco depois, porque era incorrigível!

Quis a sorte que nessa noite precisamente estivesse sempre a perder. Daí um mau humor, que se traduzia nas mais acres observações contra o professor, contra o advogado e até contra o «morto»(*) quando esta personagem imaginária não tinha um certo número de trunfos que o doutor queria por força que tivesse.

Mas o professor alinhava imperturbavelmente os tentos da marcação, e o advogado respondia só com facécias às mais amargas censuras.

- Porque quer o doutor que eu mude de método, se eu ganho jogando mal e o doutor vai perdendo, apesar de jogar maravilhosamente? - volveu ele.

Assim se passou o tempo até às dez horas. Kajsa fez o chá num magnífico samovar de cobre, serviu-o com toda a graciosidade, e depois desapareceu discretamente. A Sr.a Greta veio chamar Erik para o conduzir ao quarto que lhe era destinado - um lindo quartozinho muito branco

 

*1. Chamado entre nós perna-de-pau; um quarto parceiro imaginário no jogo do whist de três parceiros.

 

e asseado, no segundo andar da casa. Os três amigos ficaram sós.

- Dir-nos-á, enfim, quem é este pescadorzito de Noroé que lê Gibbon no texto original?. - perguntou então o Sr. Bredejord, deitando açúcar na segunda chávena de chá. - Ou o caso deve ficar cuidadosamente reservado e interdito à nossa indiscrição?

- O assunto nada tem de misterioso e de boa vontade lhes contarei a história de Erik se forem capazes de a guardar para vós - respondeu o Dr. Schwaryencrona, com os seus restos de ressentimento.

- Ah! Bem dizia eu que o rapaz tinha uma certa história! - exclamou o advogado, instalando-se com toda a comodidade numa cadeira de braços. - Vamos ouvi-la, caro amigo, e fique certo de que não terá de arrepender-se da sua confidência!... Confesso-lhe que o rapazelho me está a intrigar como um problema.

- E é, com efeito, um problema vivo - tornou o doutor, lisonjeado da curiosidade do amigo -, um problema cuja solução ouso crer que descobri. Vou-lhes comunicar todos os dados. Depois me dirão se concluem como eu.

O Dr. Schwaryencrona chegou-se ao grande fogão de louça e, principiando no ponto em que começa esta história, disse de que modo tinha chegado a notar Erik na escola de Noroê e as inquirições que fizera a seu respeito. Contou o que soubera do Sr. Malarius e de maaster Hersebom, não omitiu nenhum pormenor, falou da bóia com o nome de "Cynthia", dos vestidinhos que a Sr.a Katrina lhe mostrara, do monograma bordado neles, da medalha de coral, da divisa, enfim dos caracteres etnográficos francamente revelados em Erik.

- Estão os senhores agora de posse dos elementos do problema, tal como apareceu aos meus olhos - continuou o doutor. - E apresso-me a fazer-lhes notar que o grau de instrução desta criança, tão excepcional como lhes parece, é um fenómeno secundário, devido à intervenção de Malarius, e em que não vale a pena pensar. Este grau de instrução foi que me fez notar o pequeno e procurar indagações acerca dele; mas, na verdade, nenhum papel importante representa na questão que vou propor-lhes: De onde veio esta criança? Por onde havemos de começar as investigações no sentido de encontrar a sua família?

«Os verdadeiros elementos do problema, únicos que nos podem guiar, são pois:

 

(1. Os indícios físicos de raça que o pequeno apresenta;

(2. O nome de "Cynthia" escrito na bóia.

 

«Acerca do primeiro não há dúvidas possíveis. O rapaz é de raça céltica. Até mesmo apresenta o tipo celta em toda a sua beleza e pureza.

«Passemos ao segundo ponto. "Cynthia" é certamente o nome do navio a que a bóia pertencia. O nome pode convir tanto a um navio alemão como a um inglês. Mas não estava escrito com letras góticas. Logo, o navio era inglês, digamos antes anglo-saxónico, para sermos mais precisos.

«Além de que tudo confirma esta hipótese, porque só um navio inglês, indo para Inverness ou para as órcades, ou regressado de lá, é que poderia ser impelido pela tempestade para as paragens de Noroé. E os senhores não devem esquecer que o pequeno náufrago não poderia andar a flutuar muito tempo, pois de outra forma não teria resistido aos jejuns e aos riscos da perigosa navegação!... Pois bem, posto tudo isto, qual é a vossa conclusão, meus amigos?

Nem o professor, nem o advogado julgaram a propósito arriscar uma única palavra.

- A conclusão vejo já que não a encontram - tornou o doutor, com um tom de onde sobressaía um secreto triunfo. - Aposto até que hão-de achar certa contradição entre estes dois elementos: uma criança de raça céltica, um navio de nome anglo-saxónico. É simplesmente porque se esquecem de uma circunstância capital, da existência, nos bancos da Grã-Bretanha, de um povo de raça céltica, da ilha irmã, da Irlanda!... A princípio também não pensei nisso, e era o que me impedia de dar claramente com a solução do problema. Desde então a solução impõe-se: a criança é, decerto, irlandesa! Não é esta a sua opinião, Hochstedt?...

Se havia coisa neste mundo de que o digno professor pouco gostasse era de enunciar sobre qualquer assunto uma opinião positiva. Ora é preciso convir que, no caso agora sujeito ao seu juízo imparcial, toda e qualquer opinião seria prematura. Assim, contentou-se em abanar evasivamente a cabeça, dizendo:

- Sim, é incontestável que os irlandeses pertencem ao ramo céltico da raça ariana.

O que certamente não era aforismo que se devesse alcunhar de excessivo atrevimento.

Mas o Dr. Schwaryencrona ficou logo satisfeito com o acerto, no qual viu a inteira confirmação da sua teoria.

- Ah, então concorda! - exclamou com fogo. - Sendo os irlandeses de raça céltica, tendo a criança todos os caracteres desta raça e pertencendo o Cynthia à marinha inglesa, parece que estamos senhores do fio necessário para encontrar a família do pobre pequeno. É na Grã-Bretanha que se deve procurar. Alguns anúncios no «Time» bastarão provavelmente para lhe descobrirmos os vestígios!

O doutor ia, sem dúvida, desenvolver o seu plano de indagações, quando notou o silêncio obstinado que o advogado guardava e o olhar levemente irónico com que parecia acolher as suas deduções.

- Se não é da minha opinião, Bredejord, é preciso que o diga. Sabe muito bem que não temo a discussão! - declarou o doutor, retraindo-se de repente.

- Eu não disse nada! - respondeu o Sr. Bredejord. - Hochstedt é testemunha de que eu não disse nada...

- Não, mas vejo bem que não se conforma com a minha opinião. Eu tinha curiosidade de saber porquê? - tornou o doutor, ainda cheio do mau humor que o whist lhe tinha provocado. - Cynthia é ou não é um nome inglês? Decerto, porque não estava escrito em letras góticas; aliás indicaria um nome alemão... Os irlandeses são ou não são celtas? Seguramente! Entendeu-o assim um homem competentíssimo, qual é o amigo Hochstedt, que o proclamou ainda agora!... Tem ou não o rapaz todos os caracteres da raça céltica? Está em tempo de os verificar, se é que o julga necessário, porque vi que ficou impressionado, como se eu desde logo lhe tivesse feito notar o caso! De onde concluo que só por insigne má fé não quer conformar-se com a minha opinião e reconhecer, juntamente comigo, que o rapaz deve pertencer a uma família irlandesa!

- Má fé, acho forte - replicou o Sr. Bredejord. - Se a palavra se dirige a mim, observo-lhe que ainda não expressei a mínima opinião...

- Não, mas está dando a conhecer que não se conforma com a minha!

- Estou talvez no meu direito!...

- Mas é preciso dar um motivo valioso em favor da sua tese!

- E quem lhe disse que eu tinha alguma?

- Então faz oposição sistemática, por necessidade de me contradizer em tudo, como no whist!

- Afirmo-lhe que isso está muito longe do meu pensar! Os seus argumentos não me parecem peremptórios, ora aí está!

- E porquê, faz favor de me dizer? Tinha curiosidade de o saber!...

- Gastaria muito tempo. Lá estão a cair as onze horas!... Limito-me a propor-lhe uma aposta: apostemos o seu Plínio, de Aldo Manúcio, contra o meu Quintiliano, edição príncipe de Veneza, em como o doutor não adivinhou ao certo, e que o rapaz não é de raça irlandesa!

- Deve saber que não gosto de apostas - disse o doutor-, já dulcificado por aquele inalterável bom humor. Mas sinto tanto prazer em confundi-lo que aceito o seu desafio.

- Ora ainda bem! É o que se chama um negócio ajustado... E quanto tempo para as investigações?...

- Espero que hão-de bastar alguns meses. Com Hersebom, porém, falei em dois anos, para estar mais seguro do caso.

- Está bem, fiaquemos nos dois anos. Hochstedt servirá de árbitro. E sem zanga de parte a parte, não é assim?

- Sem zanga, por certo. O que vejo é o seu Quintiliano em grande risco de vir fazer companhia ao meu Plínio - replicou o doutor.

E depois de ter apertado a mão aos seus dois amigos, acompanhou-os até à porta.

 

 

         TRETTEN YULE DAGE

Desde o dia seguinte, pela manhã, a nova existência de Erik principiou o seu curso normal. O Dr. Schwaryencrona, depois de o ter levado a casa de um alfaiate que lhe fez vestuário à moda da cidade, foi apresentá-lo ao director de uma das melhores escolas.

Era uma das que correspondem aos nossos liceus e na Suécia se chama Hogre Elementar Latovek. Ensinam-se as línguas vivas e mortas, as ciências elementares e tudo o que é indispensável saber-se. Como na Alemanha e Itália, todos os alunos são externos. Os que não têm família na cidade residem em casa dos professores ou dos correspondentes. A retribuição escolar é modicíssima, e até, quando o aluno não tem meios alguns, fica reduzida a zero. A cada uma das grandes escolas elementares estão adjuntos enormes ginásios. Desta forma, a educação física vai sempre a par da cultura intelectual.

Desde logo, se adiantou Erik na frente do seu ano. Aprendia tudo com extrema facilidade, e então crescia-lhe muito tempo. Por isso o director julgou a propósito utilizar-lhe os serões fazendo-o frequentar o curso da Slodjskolan, ou grande escola industrial de Estocolmo. É um instituto especialmente destinado à prática das ciências, às experiências da física e química, construções geométricas, a tudo o que no colégio se aprende teoricamente. O Dr. Schwaryencrona pensava com razão que o ensino desta escola - uma das maravilhas de Estocolmo - daria novo impulso aos rápidos progressos de Erik, mas nunca ousou esperar resultados tais como os que veio a dar esta dupla direcção dos estudos.

De facto, o seu moço protegido adaptava-se a olhos vistos aos conhecimentos que o faziam penetrar no próprio âmago de todas as ciências fundamentais. Em vez de noções vagas e superficiais - o que de ordinário se aprende -, armazenava uma provisão completa de ideias justas, precisas, definitivas. O seu desenvolvimento ulterior destes excelentes princípios seria apenas uma questão de tempo. Daí por diante podia principiar, sem custo e como a brincar, a estudar matérias mais sérias do ensino universitário. O mesmo serviço que o Sr. Malarius lhe tinha prestado no ensino das línguas, na história, na geografia e na botânica, ensinando-lhe desde logo a investigar profundamente os princípios, lho prestou igualmente a Slodjskolan em relação às ciências, patenteando-lhe o á-bê-cê das artes industriais, sem o qual as lições mais belas podem permanecer muito tempo como letra morta.

Em vez de fatigarem o cérebro de Erik, a multiplicidade e variedade destes exercícios mais o fortificavam do que se se tivesse sujeitado a estudos muito especiais. Além de que, lá estava o ginásio para dar a desforra ao corpo, depois de o espírito fazer o seu exercício, e no ginásio, como nos bancos da escola, Erik era o primeiro. Depois, em dia feriado, nunca deixava de ir visitar o mar, que amava com filial ternura, conversando também com os marinheiros e pescadores, a quem às vezes não deixava de apertar as mãos, e até sucedia trazer para casa um ou outro belo peixe, que a Sr.a Greta acolhia de todo o coração.

A boa mulher em breve prazo criou verdadeira afeição ao novo hóspede da casa. Erik era tão meigo, tão naturalmente cortês e afável, tão estudioso e ao mesmo tempo tão bom, que parecia quase impossível conhecê-lo sem o amar. Em oito dias tornou-se o favorito do Sr. Bredejord e do Professor Hochstedt, como já o era do Dr. Schwaryencrona. Uma só pessoa lhe não mostrava graça: era Kajsa. Ou porque a fadazinha se julgasse ferida na incontestada soberania que até então exercera na casa, ou porque se desgostasse de Erik, pelos sarcasmos, aliás muito anódinos, que os seus ares de princesa tinham inspirado ao doutor, o certo é que persistia em tratar o recém-chegado com uma frieza desdenhosa, de que as maiores delicadezas e atenções nunca chegavam a triunfar. As ocasiões de manifestar estes desdéns felizmente apresentavam-se raras vezes, porque Erik estava sempre ou fora de casa ou encerrado no seu quarto.

As coisas iam, pois, seguindo o seu pacífico curso e passava-se o tempo sem incidentes notáveis. Vamos aproveitar tudo isto para transpor na companhia do leitor um intervalo de dois anos e voltarmos a Noroé.

Desde a partida de Erik era esse o segundo Natal. É esta a grande festa anual em toda a Europa Central e Setentrional, porque coincide com a estação morta de todas as indústrias. Na Noruega, especialmente, a festa prolonga-se por treze dias, tretten Yule dage (treze dias de Natal), e fazem-se por essa ocasião extraordinários festejos. É a época das reuniões de família, dos jantares e dos casamentos. As provisões amontoam-se até nas mais humildes habitações. Em toda a parte a mais ampla hospitalidade. A Yule 61, ou cerveja de Natal, corre abundantemente. A todo o visitante se oferece a caneca cheia até cima, caneca que é de madeira engastada em ouro, prata ou cobre, que as famílias ainda as mais modestas transmitem de pais para filhos desde tempo imemorial. É de rigor que seja bebida de pé, trocando com o hóspede os desejos «de boas festas e bons anos». É finalmente no Natal que os criados de toda a ordem recebem dos patrões os vestuários novos, que muitas vezes constituem a parte mais positiva e clara dos seus salários; que os bois, os carneiros e até as aves do céu têm direito a ração dobrada ou a generosidades excepcionais.

Quando na Noruega querem dizer que um homem é muito pobre, exprimem-se por esta frase: «É tão pobre que nem sequer no Natal pode dar de jantar aos pássaros.»

Dos treze dias tradicionais, o da véspera de Natal é o mais alegre. É de uso que os rapazes e raparigas vão pelos campos fora com os seus schnec-shuhe (esqui para a neve) calçados, para defronte das casas e cantar em coro as velhas melodias nacionais. As suas vozes claras e frescas, rompendo de súbito pelo ar fino da noite, no meio da solidão dos vales, cobertos com o seu adorno hibernal, produzem um efeito, a um tempo agradável e fantástico. Abrem-se logo todas as portas; cantores e cantoras são convidados a entrar e oferecem-lhes bolos, frutas secas e cerveja; às vezes organizam-se danças. Depois deste frugal repasto sai o alegre rancho, como um bando de gaivotas, e prossegue a excursão. As distâncias de nada valem com os schnec-shuhe, verdadeiros deslizadores de madeira de bétula, de três metros de comprido, que se prendem sob os pés com correias de couro. Em cima deles os aldeões noruegueses, servindo-se de um forte pau para se arremessarem por aí fora e acelerarem a corrida, percorrem com maravilhosa rapidez distâncias de muitas milhas.

Neste ano, em casa dos Hersebom, a festa ia ser completa. Esperavam Erik. Uma carta de Estocolmo anunciava que chegaria na própria véspera de Natal. Otto e Vanda não podiam sossegar. A todo o instante corriam à porta para verem se o viajante chegava. A Sr.a Katrina, ao passo que os repreendia pela impaciência, partilhava-a plenamente. Maaster Hersebom, silencioso, esse fumava cachimbo, parecendo dividir-se entre o desejo de tornar a ver o seu filho adoptivo e o receio de o não reter ao pé de si muito tempo.

Talvez pela centésima vez, Otto fora à descoberta, quando voltou a toda a pressa gritando:

- Mãe! Vanda! Parece-me que é ele!

Todos se precipitaram para a porta.

Ao longe, na estrada de Bergen, distinguia-se efectivamente um ponto negro.

Este ponto negro foi aumentando rapidamente e tomou a forma de um rapaz vestido de pano escuro, de boné de peles, e trazendo elegantemente aos ombros um saco de viagem. Deslizava, rapidamente, nos seus esquis e aproximava-se a olhos vistos.

Daí a pouco cessaram todas as dúvidas.

O viajante descobrira os que o esperavam defronte da casa, e, tirando logo o boné, agitava-o por cima da cabeça.

Dois minutos mais tarde Erik caía nos braços da Sr.a Katrina, de Otto, de Vanda, de maaster Hersebom, que se tinha levantado do cadeirão para vir até à soleira da porta.

Abraçavam-no a valer, devoravam-no de carícias, extasiavam-se com a sua bela figura. Katrina Hersebom, principalmente, não era senhora de si.

Pois quê! Era aquele o filho querido que tinha criado sobre os seus joelhos!... Aquele moço alto, de ares francos e decididos, de ombros largos e estatura elegante, em cujo lábio já se esfumava uma sombra de bigode!... Era possível?...

A excelente mulher sentia-se como tomada de uma espécie de respeito pelo adolescente que criara. Sentia-se orgulhosa especialmente pelas lágrimas de felicidade que lhe via nos olhos pretos. E, por sua parte, ele estava igualmente comovido.

- Mãe, querida mãe! - dizia-lhe. - Enfim, torno a vê-la e a abraçá-la!... Como estes dois anos me pareceram longos!... Não é verdade que nunca me esqueci, como também se não esqueceram de mim?

- É certo. - confirmou gravemente maaster Hersebom. - Não se passou um dia que não falássemos de ti... Mas tu, rapaz, também não nos esqueceste, lá na grande cidade?... Sentes-te feliz em vires ver o velho país e a velha casa?

- Ah, por certo não duvidam disso, imagino eu! - volveu Erik, que voltou a encher de abraços toda a família. - Podem crer que estavam sempre presentes no meu pensamento! Mas principalmente, quando o vento soprava de tempestade, é que pensava no pai! Dizia comigo: Onde estará a esta hora? Já entraria em casa? Teve ao menos o cuidado de se pôr em abrigo?... E à noite consultava o boletim meteorológico no jornal do doutor, para saber se o tempo regulava o mesmo nesta costa que na da Suécia. E via que cá há muito mais vezes tempestades que em Estocolmo, que vêm a correr contra os nossos montes, impelidas da América!...

Ah, que vontade eu tinha nesses momentos de estar com o pai na barca, a ajudá-lo a segurar a vela e a vencer todas as dificuldades! Pelo contrário, quando o tempo estava belo via-me prisioneiro dentro daquela cidade com casas de três andares! Sim! Teria dado tudo para estar uma hora no mar e sentir-me, como noutro tempo, livre e contente aos sopros da brisa!

Um sorriso alumiava o rosto crestado do pescador.

- Os livros não o estragaram! - reconheceu com profunda satisfação. - Alegres festas e bons anos, querido filho! - acrescentou. - E agora vamos, vem sentar-te à mesa! O jantar só espera por ti.

Uma vez sentado à mesa, no seu antigo lugar, à direita da boa Katrina, pôde enfim Erik olhar bem em redor de si e notar as mudanças que estes dois anos tinham trazido às pessoas da família. Otto era agora um alto e vigoroso rapaz de dezasseis anos com aparências de vinte. Pelo que respeita a Vanda, os dois anos tinham-na feito crescer e ganhar uma singular beleza. O rosto formoso possuía agora uma expressão mais delicada. Os magníficos cabelos louros-cendrados formavam-lhe em redor do rosto uma nuvem de prata. Modesta e doce como sempre, andava entretida, sem se fazer notar, para que nada faltasse a qualquer das pessoas da família.

- Vanda está bem crescida - fez notar a mãe, com orgulho. - E se tu soubesses como estuda e como trabalha para se instruir depois que tu partiste! Agora é a mais adiantada da escola. O Sr. Malarius diz que só ela o pode consolar de tu teres deixado de ser seu discípulo.

- O Sr. Malarius! O querido Sr. Malarius! - exclamou Erik. - Grande vontade tenho também de o abraçar! Então a nossa Vanda está assim uma sábia como a mãe diz? - continuou Erik com interesse, enquanto a bela rapariga corava até à raiz dos cabelos com tantos elogios maternos.

- Anda também a aprender a tocar órgão - informou Katrina - e o Sr. Malarius diz que ela tem a mais bonita voz de todo o coro!

- Oh! Mas, decididamente, venho encontrar a rapariga mais completa de todo o mundo! - gracejou Erik, rindo-se, para dissipar a perturbação da irmã. - É preciso que de amanhã em diante nos mostre todos os seus talentos!

E depois, sem afectação, dirigiu a conversa acerca das pessoas de Noroè, perguntando notícias de cada um, inquirindo dos antigos condiscípulos, do que se tinha passado depois da sua partida, das aventuras da pesca, das minuciosidades da vida local; e por fim, para satisfazer a curiosidade da família, teve de contar a sua existência em Estocolmo, e falar da Sr.a Greta, de Kajsa e do doutor.

- Isto faz-me lembrar, meu pai, que tenho uma carta para lhe entregar - disse, tirando-a do bolso interior do jaleco. - Ignoro o que contém, mas o doutor disse-me que tomasse cuidado nela porque me diz respeito.

Maaster Hersebom pegou na carta fechada e pô-la em cima da mesa ao pé de si.

- Então não faz tenção de a ler já? - perguntou Erik.

- Não - respondeu laconicamente o pescador.

- Mas se ela me diz respeito! - insistiu ele.

- O sobrescrito é para mim, na verdade - disse maaster Hersebom, levando a carta aos olhos.. - Bem! Irei lê-la logo, quando tiver vagar!

A obediência filial é a base da família norueguesa. Todos se levantaram da mesa, e os três moços, indo sentar-se no seu antigo banquinho debaixo da chaminé, lá se foram entreter na conversação íntima, em que nós contamos tudo o que os outros desejam saber e repetimos tudo o que cem vezes já tínhamos dito.

Entretanto Katrina ia e vinha pela sala, pondo todas as coisas em ordem e exigindo que Vanda «fizesse de senhora», como ela dizia, isto é, que, por esta vez somente, deixasse de se ocupar do governo da casa.

Quanto a maaster Hersebom, esse tinha-se recostado no seu grande cadeirão, e silenciosamente fumava o seu cachimbo.

E só depois de ter levado a bom fim esta importante operação é que se resolveu a abrir a carta do doutor.

Leu-a sem dar palavra, depois fechou-a, guardou-a no bolso, encheu segunda vez o cachimbo e fumou-o como o primeiro, sem dizer nada. Toda a noite esteve absorvido nas suas reflexões.

Apesar de não ser falador, este silêncio não deixava de ser singular. A Sr.a Katrina, que tinha finalmente acabado a sua lida e que por sua vez viera sentar-se ao pé do lume, fez uma ou duas tentativas para obter alguma resposta do marido. Mas, vendo-se repelida, caiu depressa em profunda melancolia, e os próprios filhos, depois de terem papagueado até perderem o fôlego, também começaram a sentir-se dominados pela tristeza evidente dos pais.

De súbito, vinte vozes frescas, entoando um coro defronte da porta, causaram uma diversão muito a propósito. Era um grupo alegre de alunos e alunas da escola, que vinham desejar a Erik cordiais boas-vindas.

Tratou-se logo de os mandar entrar e ofereceu-se-lhes o manjar tradicional, enquanto todos em redor do antigo condiscípulo lhe exprimiam o vivo contentamento de o tornarem a ver. Erik, muito comovido com a visita imprevista dos seus amigos de infância, quis por força acompanhá-los, quando falaram em continuar o seu passeio de Natal. Otto e Vanda naturalmente mostraram o mesmo desejo. A Sr.a Katrina recomendou-lhes que não se afastassem para longe e que voltassem breve com o irmão, que certamente havia de ter necessidade de repousar.

Apenas fechou a porta, a digna mulher veio direita ao marido.

- E, então, o doutor descobriu alguma coisa? - perguntou com ansiedade.

Por única resposta maaster Hersebom tirou a carta da algibeira, abriu-a e pôs-se a lê-la em voz alta, não sem hesitar em certos pontos por causa de palavras que para ele eram um tanto novas.

Escrevia o doutor:

 

«Meu caro Hersebom:

Há quase dois anos que me confiou o seu filho, e todos os dias sinto novo prazer ao descobrir os progressos que faz em tudo.

Tem uma inteligência tão viva e penetrante como um coração generoso. Erik é na verdade uma natureza privilegiada, e os pais que perderam tal filho, se pudessem conhecer a extensão da sua perda, teriam todas as razões para chorá-lo. Mas é mais que duvidoso, na ocasião presente, que os pais existam. Como tínhamos combinado, a nada me poupei para descobrir vestígios deles. Escrevi para Inglaterra a muitas pessoas, encarreguei uma agência especial de fazer todas as indagações, inseri anúncios em vinte jornais ingleses, irlandeses e escoceses. Nem o mínimo lampejo veio esclarecer o mistério, e devo até acrescentar: todas as informações colhidas até hoje contribuem, pelo contrário, para o obscurecer ainda mais.

O nome de "Cynthia" é, de facto, muito vulgar na marinha inglesa. O registo do Lloyd deu-me conta de nada menos de dezassete navios de todas as lotações com esta denominação. Destes, uns pertencem aos portos da Inglaterra, outros aos de Escócia e Irlanda. A minha hipótese acerca da nacionalidade do rapaz fica assim confirmada tanto quanto possível, e de cada vez tenho por mais evidente que Erik é oriundo de família irlandesa. Não sei, meu caro Hersebom, se já lhe tinha comunicado esta conclusão, mas a verdade é que, no meu regresso a Estocolmo, dei parte dela a dois meus amigos íntimos. Repito que tudo tem vindo corroborá-la.

Até hoje, porém, a tal família irlandesa não deu sinal de si, ou seja porque desapareceu inteiramente, ou porque tem interesse em não se dar a conhecer.

Outra circunstância singular, e, a meu ver, ainda mais suspeita, é não estar registado no Lloyd nem nas companhias de seguros marítimos qualquer naufrágio que coincida com a data da chegada da criança às nossas paragens. Dois Cynthia pereceram, é certo, neste século; mas um foi no mar das índias, há trinta e dois anos, e o outro à vista de Portsmouth, há dezoito.

Temos, pois, de chegar à conclusão de que a criança não foi vítima de naufrágio. Sem dúvida, foi voluntariamente exposta sobre as ondas!... Só deste modo pode explicar-se ficarem todos os anúncios sem resposta.

Fosse como fosse, depois de ter sucessivamente mandado interrogar todos os armadores ou proprietários de navios que se chamavam Cynthia, depois de ter esgotado todos os meios de investigação, parece-me poder concluir que não há já esperança de descobrir a família de Erik.

A questão que se nos oferece agora, e a que principalmente lhe diz respeito, meu caro Hersebom, é ver que destino se há-de dar a Erik e o que devemos fazer por ele.

No seu lugar, e declaro-lhe com toda a sinceridade, confiar-lhe-ia desde já o que lhe importa saber e deixá-lo-ia livre de tomar o partido que mais conveniente se lhe afigurasse. O meu amigo está certo de que combinámos adoptar esta linha de proceder, se as minhas investigações fossem infrutuosas. Chegou o momento de cumprirmos a palavra. Quis deixar-lhe o cuidado de contar tudo a Erik. Indo a Noroê, ainda ignora que não é seu filho e não sabe se voltará a Estocolmo ou se ficará de vez com a família. Cabe-lhe dizer-lho.

Deve lembrar-se de que, se recusar diante deste dever, Erik terá um dia o direito de se admirar. Deve lembrar-se, sobretudo, de que é um rapaz dotado de tão notável inteligência que é uma pena ficar toda a vida condenado sem apelação a uma vida obscura e iletrada. Tal sentença, há dois anos, seria já imerecida; hoje, porém, que obteve em Estocolmo os sucessos mais brilhantes, seria injustificável.

Renovo-lhe, por isso, os meus oferecimentos. Far-lhe-ei acabar os estudos até tomar em Upsal o título de doutor em medicina; continuarei a tratá-lo como filho, e não terá mais do que seguir o grande caminho para chegar às honras e à riqueza.

Sei perfeitamente que, dirigindo-me ao pai e à excelente mãe adoptiva de Erik, confio a sorte dele a boas mãos. Decerto que nenhuma consideração pessoal os há-de cegar para não aceitarem a minha proposta. Em todo o caso, tomem o parecer de Malarius. Esperando a sua resposta, Sr. Hersebom, aperto-lhe afectuosamente as mãos, e peço-lhe que apresente as minhas melhores lembranças à sua digna esposa e a seus filhos.

  1. W. SCHWARYENCRONA, M. D.»

 

Quando Hersebom acabou a leitura, a Sr.a Katrina, que estivera a ouvir, chorando, perguntou-lhe o que tencionava fazer.

- É bem claro: falar ao rapaz - disse ele.

- É também o meu parecer para acabarmos com isto, a ver se temos algum sossego - murmurou ela, enxugando os olhos.

E ambos recaíram no silêncio.

Passava da meia-noite quando os três voltaram da excursão. De tez animada pela corrida ao ar, de olhos brilhantes de prazer, foram ocupar o seu lugar ao canto da lareira e, para terminarem alegremente a véspera de Natal, dispuseram-se a devorar a última torta, defronte da acha enorme, que se ia escavando como se fora uma caverna ardente.

 

         A DECISÃO DE ERIK.

Na manhã seguinte o pescador chamou Erik, e diante da Sr.a Katrina, de Vanda e Otto, falou-lhe assim: - Erik, a carta do Dr. Schwaryencrona de facto diz-te respeito. Atesta que tens dado a melhor conta aos teus mestres, e o doutor quer fazer todos os gastos dos estudos até final, se deveres continuá-los. Mas esta carta exige que sejas tu mesmo quem decida com conhecimento de causa a questão de saber se deverás mudar definitivamente de condição, ou ficar para sempre connosco em Noroé, como nós mais desejamos, podes crê-lo... E a este propósito é preciso dizer-te um grande segredo, um segredo que tua mãe e eu teríamos preferido guardar para sempre.

Neste momento a Sr.a Katrina, incapaz de reter as lágrimas, desatou aos soluços e agarrou-se às mãos de Erik, apertando-o ao coração, como para protestar contra o que o moço estudante ia ouvir.

- Este segredo - prosseguiu Hersebom, com voz cada vez mais alterada pela comoção - é que tu és apenas nosso filho adoptivo!... Achei-te no mar, querido filho, e recolhi-te, tendo tu talvez oito ou nove meses. Tomo Deus por testemunha de como nunca pensei dizer-te isto um dia; nem tua mãe nem eu fizemos a mínima diferença entre ti, Otto ou Vanda!... Mas o Dr. Schwaryencrona exige que to diga!... Lê, pois, o que me escreveu!

Erik ficou subitamente de palidez mortal. Otto e Vanda, confundidos com a novidade, cada um deles soltou um grito de pasmo. E, quase em acto contínuo, fizeram como a mãe. Depois de terem passado um braço em redor do pescoço de Erik, tinham-no estreitamente apertado, um da direita e outro da esquerda. Em seguida, Erik pegou na carta do doutor e, sem tentar disfarçar a comoção que a leitura lhe causou, leu-a até ao fim.

Maaster Hersebom repetiu então por miúdo a narração que fizera ao doutor. Explicou como o Dr. Schwaryencrona tinha tomado a peito descobrir a família de Erik, e como, afinal de contas, ele, Hersebom, não havia andado mal, não tentando até ali procurar resolver o insolúvel problema. Depois, a Sr.a Katrina ergueu-se, correu ao baú nosso conhecido e de lá tirou os vestidinhos do bebé e mostrou a medalha de coral que trazia ao pescoço. Por um efeito natural, a história inspirou aos três filhos um interesse tão dramático que fez desaparecer toda a sua amargura. Observaram admirados as rendas e os veludos, o colarzinho e a divisa - quase como se assistissem a um conto de fadas em realidade. E até a impossibilidade de obter algum resultado prático para estes indícios, como o doutor julgava, parecia dar àqueles objectos um carácter quase sagrado.

Erik contemplava-os como em sonho, e o seu pensamento voava para aquela mãe desconhecida, que sem dúvida o vestira com suas próprias mãos com aqueles fatinhos, e mais de uma vez decerto agitara o colarzinho de coral diante dos olhos do filhinho para o fazer sorrir.

Parecia-lhe, quando punha a mão nestes objectos, que ficava em comunicação directa com ela através do tempo e do espaço!...

E, contudo, onde é que ela estava, aquela mãe? Chorava o seu filho, ou, pelo contrário, este filho devia julgá-la perdida para sempre?...

Havia muitos minutos que ele estava absorvido nos seus pensamentos, pendia a fronte sobre o peito, quando algumas palavras da Sr.a Katrina vieram despertá-lo.

- Erik, tu és sempre nosso filho!... - bradou ela, inquieta com semelhante silêncio.

Neste momento o inteligente moço lançou o olhar em redor de si e observou todas aquelas amoráveis e excelentes criaturas, o olhar materno da digna mulher, a face leal de maaster Hersebom, a de Otto, mais afectuosa ainda que normalmente, e a de Vanda, séria e triste. Lendo tanta ternura e inquietação em todos aqueles rostos, Erik sentiu derreter-se-lhe o coração, como se costuma dizer. Voltou-lhe de súbito o sentimento da sua situação, reviu toda a cena tal como o pai lha tinha contado - o berço abandonado à mercê das vagas, recolhido por um rude pescador, e simplesmente entregue à esposa, e estas pessoas, humildes e pobres como eram, sem hesitar em tomar conta de uma criança estranha, antes pelo contrário adoptando-a e acariciando-a como se fora seu próprio filho - não lhe falando sequer nestas coisas durante catorze anos, e afinal, nesta hora, suspensos de seus lábios como se esperassem um veredicto de vida ou de morte.

Tudo isto o comoveu tão profundamente que lhe rebentaram as lágrimas. Um sentimento de gratidão e amor percorreu-lhe todas as fibras. Experimentou uma espécie de desejo de, por seu lado, dedicar-se também e pagar a estes queridos seres uma parte da cega ternura que lhe manifestavam, recusando-se deixá-los, ficando para sempre com eles em Noroè, e contentando-se com a sua humilde condição!

- Mãe - disse ele, e arremessou-se nos braços de Ratona -, pensa que posso hesitar, agora que sei tudo?... Vamos escrever ao doutor agradecendo-lhe as suas bondades e participar-lhe que fico!... Serei pescador como a nossa família, como meu pai, e como tu, Otto!... Já que me deram um canto no vosso lar, peço que me deixem ficar com ele! Já que me alimentaram com o trabalho das vossas mãos, peço que me deixem retribuir aos vossos velhos anos os cuidados que tão generosamente prestaram à minha infância!

- Deus seja louvado! - exclamou a Sr.a Katrina, estreitando Erik de encontro ao coração, num arrebatamento de ternura e alegria.

- Bem me parecia que o rapaz havia de preferir o mar a todos os seus livros! - disse simplesmente maaster Hersebom, sem atingir o sacrifício que representava a decisão de Erik. - Vamos pois!... É caso resolvido!... Não se fale mais nisto e tratemos de passar alegremente a festa do Natal!

Todos se abraçaram, com os olhos húmidos de ventura e jurando nunca se separarem.

Quando Erik ficou só, se não pôde eximir-se de suspirar, pensando em todos os sonhos de trabalho e glória a que tinha de renunciar, pelo menos havia no próprio sacrifício uma austera alegria que soube saborear.

«Se esta é a vontade dos meus pais adoptivos, que importa o resto? Devo resignar-me a trabalhar para eles na esfera em que a sorte e a dedicação deles me colocaram!... Se por vezes tenho ambicionado um destino mais elevado, foi sempre com o sentido de que participassem dele! Mas se são felizes assim e não desejam outra sorte, devo contentar-me, esforçando-me apenas em lhes causar a maior satisfação com o meu proceder e com o meu trabalho! Adeus pois aos livros e viva o mar!»

Pensava assim, mas bem cedo o pensamento volvendo-se ao que lhe haviam contado, cismava de que paragens teria vindo, quando Hersebom o achara pequenino a flutuar sobre as vagas. Qual era a sua pátria, quem seriam os seus pais? Estariam ainda vivos? Teria, em algum país longínquo, irmãos ou irmãs que não conhecia?

Também em Estocolmo, em casa do Dr. Schwaryencrona, houve serão extraordinário.

Os leitores devem recordar-se de que para esta data tinha sido aprazado o julgamento da aposta contraída entre o Sr. Bredejord e o seu eminente amigo, devendo ser juiz o Professor Hochstedt.

Durante os dois anos, nem uma só palavra os dois tinham trocado acerca do objecto da aposta. O doutor prosseguia insistentemente nas suas averiguações em Inglaterra, escrevia às agências marítimas, multiplicava os anúncios nos jornais, mas não se abstinha de confessar que os seus esforços eram quase estéreis.

Quanto ao Sr. Bredejord, com reserva do melhor gosto, evitava levar a conversação para este lado e contentava-se, quando se oferecia ocasião, em fazer discretas alusões à beleza do exemplar de Plínio, saído dos prelos de Aldo Manúcio, que se via brilhando na biblioteca do doutor.

E a não ser a maneira maliciosa como tamborilava os dedos na caixa do rapé, ninguém neste momento diria que ele pensava assim:

«Ora ali está um exemplar de Plínio que não deve ficar muito mal entre o Quintiliano, edição príncipe de Veneza, e o meu Horácio de grandes margens em papel da China, dos irmãos Elzevir!»

Em todo o caso, o doutor interpretava assim a pantomina, o que tinha o dom especial de lhe irritar os nervos.

Nestas noites esteve insuportável ao whist, e não perdoava nada ao seu infeliz parceiro.

O tempo, porém, nem por isso deixava de seguir o seu curso e finalmente soou a hora em que a questão houve de ser submetida à arbitragem imparcial do Professor Hochstedt.

O Dr. Schwaryencrona falou com a máxima franqueza. Apenas Kajsa, retirando-se, o deixou só com os dois amigos, confessou-lhes, como já o fizera por carta a maaster Hersebom, o resultado negativo das investigações. Coisa alguma viera esclarecer o mistério da origem de Erik, e o doutor, muito sinceramente, via-se obrigado a reputá-lo insolúvel.

- E todavia - acrescentou - seria injusto comigo mesmo se lhes não declarasse com igual sinceridade que julgo não ter perdido a aposta. É certo que não descobri a família de Erik; mas as informações que recebi servem mais para corroborar a minha opinião do que para invalidá-la. O "Cynthia" era ou é de facto um navio inglês, tanto que há nada menos de dezassete inscritos com este nome nos registos do Lloyd. Quanto aos caracteres etnográficos, continuam ainda hoje, como no passado, a ser evidentemente célticos. Saiu, pois, vitoriosa do inquérito, parece-me poder dizê-lo, a minha hipótese acerca da nacionalidade de Erik. Para mim é mais que nunca certo que é irlandês, como já tinha desconfiado. O que não posso é obrigar a família a manifestar-se, se tem algumas razões para o não fazer, ou se realmente desapareceu!... Eis, meu caro Hochstedt, o que tinha a dizer. Pertence-lhe agora decidir se o Quintiliano do nosso amigo Bredejord deve por título legítimo ser transferido para a minha biblioteca.

A tais palavras, que pareceu provocarem-lhe uma prodigiosa vontade de rir, o advogado remexeu-se na cadeira, agitando levemente a mão para protestar; depois fixou os olhinhos brilhantes no Professor Hochstedt a ver como ele se saía do caso.

O Professor Hochstedt nem por isso se mostrou tão atrapalhado como os dois pensavam. Certamente ficaria se o doutor, fornecendo qualquer argumento invencível, o colocasse assim na dolorosa necessidade de se pronunciar por qualquer das partes.

O seu carácter prudente e irresoluto obrigava-o a preferir em tudo qualquer solução indecisa. Em casos tais, no que ele se tornava eminente era em mostrar um após outro os dois aspectos da questão, e ficava nadando no indefinido como um peixe na água. Por isso, nessa noite, estava à altura das circunstâncias.

- É incontestável - articulou, abanando a cabeça - que, no facto de existirem dezassete navios ingleses com o nome de "Cynthia", há um dos mais sérios indícios em favor da conclusão expressa pelo nosso distinto amigo. Esse indício, aproximado como é dos caracteres etnográficos do rapaz, é certamente de grande peso e não hesito em dizer que me parece quase decisivo. Não sinto até dificuldade em confessar que, se tivesse de exprimir uma opinião pessoal acerca da nacionalidade de Erik, ela seria a seguinte: todas as probabilidades são a favor da nacionalidade irlandesa!... Mas uma coisa é a probabilidade e outra a certeza, e, ouso dizê-lo, a certeza é que é indispensável para decidir a aposta de que se trata. As probabilidades poderão na verdade ser bem grandes em favor da opinião de Schwaryencrona, mas Bredejord pode sempre alegar que não está feita a prova absoluta. Não vejo, pois, razão suficiente para declarar que o doutor ganhou o Quintiliano; mas também não a vejo para decidir que perdeu o Plínio. A meu ver, ficando a questão indecisa, a aposta deve anular-se, e em tal caso é a coisa mais feliz que pode suceder!

Como em todos os julgamentos que colocam as partes em igualdade de circunstâncias, é bem de ver que o do Professor Hochstedt não agradou a nenhuma delas.

O doutor desenhou com o lábio inferior um trejeito que bem claramente indicava o seu desagrado. O Sr. Bredejord, esse saltou da cadeira a pés juntos, gritando:

- Mais devagar, meu caro Hochstedt, não tenha tanta pressa na conclusão!... Diz que Schwaryencrona não pode provar suficientemente um facto, que aliás parece provável, e por isso não quer decidir que ganhou!... Então que responderia o meu amigo se eu lhe provasse aqui já que o "Cynthia" não era um navio inglês?

- O que responderia? - disse o professor, um tanto perturbado por este súbito ataque. - Na verdade, não sei bem!... Havia de ver, de examinar a questão sob os diversos aspectos...

- Pois então examine-a à sua vontade!-replicou o advogado, mergulhando a mão direita no bolso interior da sobrecasaca, para de lá tirar uma carteira, e sacando desta uma carta, cujo sobrescrito, cor de canário, indicava logo à primeira vista uma origem americana. - Aqui está um documento que penso não será recusado - acrescentou, pondo a carta em frente dos olhos do doutor, que a leu em voz alta:

 

«Ao senhor advogado Bredejord, Estocolmo. Nova Iorque, 27 de Outubro.

Em resposta à sua apreciável carta de 5 do corrente, apresso-me a informá-lo dos factos seguintes:

  1. Um navio denominado Cynthia, capitão Barton, propriedade da Companhia Geral de Transportes Canadianos, pereceu casco e carga, há justamente catorze anos, nas alturas das ilhas Feroê.
  2. Este navio estava seguro na General Steam Navigation Insurance, de Nova Iorque, pela soma de três milhões e oitocentos mil dólares.
  3. Tendo ficado sem explicação a desaparição do Cynthia, e não parecendo suficientemente claras, à companhia de seguros, as causas do sinistro, houve pleito, que os proprietários do dito navio perderam.
  4. A perda do processo arrastou a dissolução da Companhia de Transportes Canadianos, que deixou de existir há onze anos por liquidação.

Esperando as suas novas ordens, aceite, senhor advogado, os nossos sinceros cumprimentos.

Jeremias Smith, Walter fy C." Agentes marítimos.»

 

- E então que dizem os senhores a esta carta? - perguntou o Sr. Bredejord quando o doutor acabou de ler. Hão-de concordar que este documento tem algum valor...

- Convenho de boa mente - respondeu o doutor. - Mas como diabo se lembrou...?

- Muito simplesmente. No dia seguinte em que me falou no Cynthia como devendo ser um navio necessariamente inglês, pensei que o doutor limitava muito o campo das investigações e que o navio podia muito bem ser americano. Vendo que o tempo passava e que o doutor não conseguia resultados, porque, de outra forma, no-los teria comunicado, tive ideia de escrever para Nova Iorque. À terceira carta obtive o resultado que lhes mostrei agora! A coisa não é complicada!... Não crê que seja suficiente para me assegurar a posse do seu Plínio?

- Não me parece conclusão necessária - replicou o doutor, que relia a carta em silêncio, como para nela procurar novos argumentos em favor da sua tese.

- Parece-lhe que não é necessariamente esta a conclusão? - exclamou o advogado. - Essa é melhor! Se lhe provo que o navio era americano, que se perdeu nas alturas das ilhas Feroé, isto é, perto da costa da Noruega, precisamente na época correspondente à aparição do rapaz, ainda se não dá por convencido do seu erro depois de tudo isto?

- De maneira nenhuma! - retorquiu o doutor. - Note, meu caro amigo, que não me atrevo a contestar o grandíssimo valor do seu documento. Descobriu, é certo, o que não pude conseguir: saber qual foi o verdadeiro "Cynthia" que veio perder-se a pouca distância das nossas costas na época calculada!... Mas permita-me que lhe faça notar que a descoberta vem confirmar precisamente a minha teoria. Porque, em última análise, o navio era canadiano, isto é, inglês, e como o elemento irlandês é muito considerável no Canadá, razão de sobra para eu cada vez estar mais certo de que o rapaz é de origem irlandesa!

- De modo que é essa a conclusão a que o doutor chegou com a leitura da minha carta! - exclamou o Sr. Bredejord, mais vexado do que na realidade queria mostrar. - E, sem dúvida, teima também em crer que não perdeu o seu Plínio?

- Certamente que não perdi.

- É até capaz de julgar que tem alguns direitos ao meu Quintiliano?

- Espero, em todo o caso, chegar a demonstrar esses direitos, servindo-me das suas próprias descobertas e querendo o meu amigo dar-me mais tempo e renovar a aposta.

- De acordo! Com todo o gosto! Que tempo deseja?

- Ajustemos outros dois anos, e fique a decisão adiada para a segunda festa do Natal que se seguir à deste ano.

- Está dito! - acedeu Bredejord. - Mas, meu caro doutor, asseguro-lhe que talvez faria melhor mandando-me já sem perda de tempo o seu Plínio!

- Afianço-lhe que não! Espero que ele venha um dia a fazer uma bela figura na minha biblioteca ao lado do seu Quintiliano!

 

         O CONSELHO DE VANDA.

No princípio, Erik, todo dedicado ao fervor do sacrifício, entregou-se de alma e coração à vida de pescador, forcejando em boa fé por esquecer-se de que já tinha conhecido outra melhor. Era quem se levantava mais cedo e o primeiro a aparelhar o barco de seu pai adoptivo e a preparar tudo para que maaster Hersebom apenas tivesse o trabalho de empunhar a cana do leme e partir. Se fazia calmaria, Erik manobrava com vigor os pesados remos e parecia que tomava gosto aos serviços mais rudes e fatigantes. Nada o desanimava, nem as longas demoras no tonel de duplo fundo, onde o pescador de bacalhau espera, até que o peixe vá morder na linha, nem os diversos preparativos por que deve passar a captura, pois é mister extrair-lhe primeiro a língua, por ser uma das partes mais saborosas, em seguida a cabeça, e depois os ossos, para enfim ser lançado no interior do tanque, onde é salgado pela primeira vez. Fosse lá o trabalho que fosse, Erik executava-o, não só conscienciosamente, mas com uma espécie de paixão. O cuidado que dedicava aos mínimos serviços da profissão fazia admirar a placidez de Otto.

- Como tu devias sofrer lá na cidade! - observava-lhe ingenuamente o bom rapaz. - Parece que, para andares no teu elemento, te é preciso sair do fiorde e entrar em pleno mar!

Ora, quando a conversação levava este caminho, Erik ficava-se quase sempre silencioso. Outras vezes, pelo contrário, era ele próprio quem chamava o assunto a terreiro, e fazia todos os esforços para provar a Otto, ou, dizendo melhor, para demonstrar a si mesmo, que não podia haver mais bela existência do que a sua actual.

- Essa é também a minha opinião! - declarava o outro, com um sorriso tranquilo.

E o pobre Erik voltava a cabeça para sufocar um suspiro.

A verdade é que sofria cruelmente por ter de renunciar aos seus estudos e ver-se condenado a um trabalho puramente manual. Quando tais pensamentos lhe acudiam, fazia todas as diligências para os sacudir de si, e, por assim dizer, batia-se com eles corpo a corpo. Mas, apesar de tudo, sentia-se dominado pela amargura e pela saudade. Por coisa alguma do mundo deixaria adivinhar o seu desânimo. Recalcava-o, então, dentro de si, e sofria assim muito mais. Uma catástrofe que ocorreu no princípio da Primavera veio dar a esse desgosto um carácter ainda mais agudo.

Nesse dia, no telheiro devia haver grande faina no empilhamento de bacalhau salgado. Maaster Hersebom confiou o trabalho a Erik e Otto e partiu só para a pesca. Fazia um tempo brusco e pesado, pouco próprio da estação. Os dois moços, deitando-se ao trabalho com actividade, não deixaram de notar quanto lhes era excepcionalmente penoso. Dir-se-ia que todas as coisas em redor deles pesavam mais que normalmente.

- É singular - notou Erik -, sinto zumbidos nos ouvidos como se me encontrasse suspenso num balão à altura de quatro ou cinco mil metros!

E dentro em pouco desatou a deitar sangue pelo nariz. Otto experimentava também sintomas análogos, ainda que não soubesse defini-lo com tanta exactidão.

- Suponho que o barómetro deve ter uma baixa considerável! - tornou Erik. - Se tivesse tempo de chegar a casa do Sr. Malarius, havia de ir observá-lo.

- Tens tempo - volveu Otto. - O nosso trabalho está quase acabado, e, ainda que não estivesse, podias ir, que eu findava-o sozinho!

- Está bem, então vou - aceitou Erik. - Não sei porquê, inquieta-me o estado da atmosfera!... Desejava bem que o pai já tivesse regressado!

De caminho para a escola, encontrou-se com o Sr. Malarius.

- Ah és tu, Erik! - disse-lhe o professor. - Estou bem contente por te ver e de saber que não foste ao mar!... Ia precisamente certificar-me disso!... O barómetro tem baixado com tal rapidez há meia hora para cá!... Nunca vi coisa assim. Está actualmente a 718 milímetros. Vamos com toda a certeza ter mudança de tempo!

Ainda bem o Sr. Malarius não tinha acabado de falar, eis que cortou os ares um ribombo longínquo, seguido de uma espécie de lúgubre piar. O céu, que quase instantaneamente se cobrira, na direcção de oeste, com manchas de negro retinto, escureceu por todos os lados com prodigiosa rapidez. E, passado um intervalo de completo silêncio, subitamente a ventania varreu, pelo solo fora, folhas de árvores, palhas, areias, pedras. O temporal principiava.

Foi de inaudita violência. As chaminés, as bandeiras das janelas e em certos sítios os próprios telhados voaram pelos ares como penas. Surribavam-se casas. Todos os telheiros sem excepção foram arrebatados e destruídos pelo vento. E com estrondo atroador formavam-se e vinham quebrar-se na costa enormes ondas, no fiorde, normalmente tão calmo como uma piscina, mesmo em ocasiões em que as mais terríveis tempestades agitavam o mar largo.

O ciclone esbravejou uma hora, e depois, captado pelos altos cimos da Noruega, revirou-se para o sul e lá se foi a varrer a Europa Continental. Nos anais da meteorologia ficou assinalado como um dos mais extraordinários e desastrosos que têm caído sobre o Atlântico. Estes grandes movimentos atmosféricos actualmente são quase sempre previstos e anunciados de antemão pelo telégrafo. A maior parte dos portos da Europa, avisados por telegramas, tiveram, felizmente, tempo de notificar a tormenta aos navios prestes a marchar, ou mal abrigados nos ancoradouros. Por isso, até certo ponto, atenuaram-se os desastres. Mas nas costas pouco frequentadas, nas povoações de pescadores e no mar, o número dos naufrágios foi superior a todos os cálculos. Só o Bureau Veritas, na França, e o Lloyd registaram nada menos de setecentos e trinta.

O primeiro pensamento da família Hersebom, assim como o de milhares de outras famílias de pescadores, neste dia nefasto, dirigiu-se naturalmente para os que lhe pertenciam e andavam no mar. Maaster Hersebom tinha por costume seguir para a costa ocidental de uma ilha, bastante grande, que ficava a duas milhas para além da entrada do fiorde - a mesma onde em tempo recolhera Erik deitado no seu berço flutuante. Estavam esperançados de que, à hora do temporal, tivesse tempo de pessoalmente poder abrigar-se, embora se visse obrigado a encalhar o batel na costa baixa e areenta. Mas, de inquietos que estavam, nem Erik nem Otto tiveram paciência de esperar até à tarde para verem se a hipótese era fundada.

Apenas o fiorde retomou a sua tranquilidade normal, depois da passagem do furacão, conseguiram que um vizinho lhes emprestasse o barco para irem buscar notícias. O Sr. Malarius insistiu em acompanhar os dois moços nesta expedição. Partiram pois, todos três, seguidos pelos ansiosos olhares da Sr.a Katrina e de sua filha.

No fiorde, o vento quebrara quase de todo, mas virara a oeste, e para ganharem a embocadura foi-lhes preciso ir a remos. Gastaram assim mais de uma hora.

Quando lá chegaram, ei-los em frente de um espectáculo inesperado. A tempestade assanhava-se ainda por sobre o oceano, e as vagas, despedaçando-se de encontro ao ilhote que fecha a entrada do fiorde de Noroê, determinavam duas correntes opostas, que iam encontrar-se Pelo lado de trás do mesmo ilhote e engolfar-se com violência pelo canal dentro, como num funil. Em tais condições, nem pensar-se sequer em atravessar o canal: um navio a vapor com custo o conseguiria, quanto mais um frágil barco movido a remos, com vento contrário pela proa.

Forçoso foi tornar para Noroé e esperar.

Chegou a hora habitual do regresso, sem que maaster Hersebom aparecesse. Mas também nem um só dos pescadores que tinham ido ao mar naquele dia regressara ainda. Podia-se, pois, ter esperança de que um impedimento comum os retinha fora do fiorde, antes de suspeitar-se um desastre pessoal. Triste, profundamente triste aquela noite para as famílias onde alguém faltava! E à medida que a noite ia passando sem os ausentes reaparecerem, a ansiedade aumentava. Em casa dos Hersebom ninguém se deitou. As longas horas de espera passaram-nas ao pé do lar, silenciosos e aflitos.

Nestas altas latitudes, o dia no mês de Março rompe ainda bem tarde, mas ao menos é logo claro e brilhante. Soprava a brisa do lado de terra para o largo; era provável que se pudesse atravessar o canal. Uma verdadeira flotilha de barcos de pesca, composta de quase todos os que estavam disponíveis em Noroé, preparavam-se para ir à descoberta, quando se divisaram muitas embarcações para os lados da embocadura do fiorde. Em pouco tempo chegaram à povoação.

Eram as que tinham partido de véspera, antes do ciclone - todas, menos a de maaster Hersebom.

Ninguém pôde dar notícias dele. A própria circunstância de não regressar na companhia dos outros era uma excepção inquietadora, porque todos os pescadores haviam corrido grandes perigos. Uns tinham sido apanhados de surpresa pelo ciclone e arremessados de encontro à costa, onde as embarcações vararam. Outros, felizmente, haviam conseguido refugiar-se a tempo em baías abrigadas do furacão. No mar, e no momento crítico, tinha ficado apenas o menor número.

Ficou decidido que a flotilha, preparada para partir, fosse procurar o pescador que faltava. O Sr. Malarius quis ainda fazer parte da expedição, na companhia de Erik e de Otto. Um grande animal amarelado, que dava mostras evidentes de agitação, também obteve permissão de ir com eles. Era «Klaas», o cão gronelandês, que maaster Hersebom trouxera consigo da sua viagem ao cabo Farewell.

À saída do porto, todos os barcos se dispersaram, uns para a direita, outros para a esquerda, a fim de explorarem as costas das inumeráveis ilhas semeadas nos arredores do fiorde de Noroé como em toda a costa norueguesa.

Quando ao meio-dia tornaram a reunir na ponta sul da embocadura, conforme a senha convencionada, nenhum vestígio de maaster Hersebom se tinha descoberto. E como a procura fora bem delineada e executada, todos eram de parecer que infelizmente nada havia mais a esperar-se, e por isso trataram de regressar.

Erik, porém, é que não se quis dar por vencido, nem renunciar tão depressa a toda a esperança. Declarou que, tendo visitado só as ilhas do sul, queria ir explorar também as do norte. O Sr. Malarius e Otto apoiaram o plano. Vendo a insistência dele, deixaram-nos ir. Confiaram-lhes um escaler de fácil manobra para tentarem o último esforço no mar, e depois disseram-lhes adeus.

A insistência devia ser recompensada. Pelas duas horas, vogando a embarcação perto de um ilhote vizinho de terra, «Klaas» começou de repente a ladrar com furor. Depois, sem que se pudesse ter mão nele, precipitou-se na água e nadou em direcção aos recifes.

Erik e Otto fizeram força de remos na mesma esteira. Em pouco tempo viram o cão chegar à borda do ilhote e saltar aos uivos em redor de um objecto que lhes pareceu uma forma humana estendida sobre um rochedo de cor pardacenta.

Por sua vez, atracaram.

Era, sim, era um homem ali estirado, e esse homem era Hersebom!... Hersebom, todo ensanguentado, pálido, imóvel e frio, inanimado! Morto talvez!... «Klaas» lambia-lhe as mãos, em gemidos.

O primeiro movimento de Erik foi prostrar-se de joelhos ao pé do corpo gelado e apoiar-lhe o ouvido no coração.

- Ele vive!... Sinto pulsar!... - exclamou.

O Sr. Malarius, que tinha pegado num dos braços de maaster Hersebom e tacteado o pulso, abanou tristemente a cabeça em sinal de dúvida; mas nem por isso quis deixar de empregar todos os meios aconselhados em casos tais. Depois de ter desdobrado uma larga cinta de lã, que trazia em redor dos rins, dividiu-a em três partes, deu uma a cada um dos moços pescadores, e todos três se dispuseram a friccionar com vigor o peito, as pernas e os braços do velho pescador.

Cedo se viu que este simples tratamento produzia bom efeito e reanimava a circulação. Acentuaram-se as pulsações do coração, o peito principiou a arfar, uma ténue respiração saiu do delíquio em que estava mergulhado, deixando exalar um suspiro ininteligível.

O Sr. Malarius e os dois moços pescadores levantaram-no nos braços e apressaram-se a conduzi-lo para a embarcação, onde o deitaram num leito arranjado com velas. Nessa ocasião abriu ele os olhos.

- De beber! - pediu com voz fraca.

Erik chegou-lhe aos lábios uma garrafa de aguardente de que engoliu um gole, e parece que ficou então com consciência do que lhe estava a acontecer, tão afectuoso e reconhecido era o seu olhar. Mas quase logo, tornando a sucumbir à fadiga, se deixou recair num sono que se assemelhava a uma letargia completa.

Os seus salvadores, julgando com razão que o melhor que tinham a fazer era regressar sem demora, lançaram mãos dos remos e despegaram com força em direcção ao porto. Lá chegaram em pouco tempo, e, favorecidos pela brisa, não tardou que chegassem a Noroé.

Maaster Hersebom, transportado para o seu leito e coberto de compressas, de arnica montana e reconfortado com um caldo e um copo de cerveja, voltou a si definitivamente. Tinha fractura no antebraço e contusões e feridas por todo o corpo. O Sr. Malarius exigiu absoluto repouso e nada de se fatigar a falar. Ele adormeceu sossegadamente.

Só no dia seguinte pela manhã é que se consentiu que abrisse a boca e explicasse em poucas palavras o que lhe sucedera.

Surpreendido pelo ciclone no momento em que içava a vela para regressar a Noroé, Hersebom fora arremessado contra os recifes do ilhote, onde o barco se despedaçou em mil bocados, que a tempestade logo arrastou pelo mar fora. Ele havia-se lançado ao mar antes do desastre para escapar ao impetuoso choque.

Mas por pouco não caiu desconjuntado sobre as rochas, e só com imensa dificuldade é que conseguiu ver-se fora do alcance das vagas. Esgotado de fadiga, tendo um braço quebrado e todo o corpo coberto de equimoses, caíra sem forças e perdera o tino de como decorreram as vinte horas de espera, passando sem dúvida de um acesso de febre a prolongado delíquio.

Agora via-se livre de todo o perigo, mas nem por isso deixou de se dar grandes lamentos pela perda do batel e por ter o seu braço imobilizado entre duas talas de madeira. O que seria o futuro, ainda mesmo admitindo que pudesse vir a servir-se um dia deste braço, passadas oito ou dez semanas de descanso? O barco era o único capital da família, e eis que desaparecera de vez ao sopro do vento! Trabalhar por conta de outros era bem duro na sua idade! E acharia assim mesmo trabalho? O caso era duvidoso, porque em Noroé ninguém queria serviçais e a própria fábrica reduzira ultimamente o pessoal.

Tais eram as amargas reflexões de maaster Hersebom, enquanto jazia no leito da dor, e principalmente quando, uma vez levantado da cama, pôde ir sentar-se no seu cadeirão habitual, com o braço ao peito.

Esperando pela cura completa, a família vivia dos seus últimos recursos e do produto do bacalhau salgado, que ainda conservava no depósito. O futuro, porém, era negro, e ninguém via de que modo se havia de aclará-lo.

A miséria iminente fez dar em breve novo curso às meditações de Erik. Dois ou três dias esteve de todo dominado pelo pensamento da felicidade de ter salvo a vida a maaster Hersebom - essa honra devia-a à sua abnegação apaixonada. Como se sentia altivo e contente quando via o olhar da Sr.a Katrina ou de Vanda, húmido de reconhecimento, a fixar-se nele, como que a dizer:

«Querido Erik, teu pai salvou-te das águas; mas tu, em paga, arrancaste-o à morte!...»

Era certamente a mais elevada recompensa que poderia ambicionar, para a abnegação de que tinha dado provas, quando se condenou à vida de pescador. Pois podia haver pensar mais reconfortante e mais doce do que o de dizer a cada passo a si mesmo que de certo modo tinha pago de uma vez só todos os benefícios que a sua família de adopção lhe tinha prestado?

Mas esta família, que tão generosamente havia repartido com ele os frutos do seu trabalho, estava agora em vésperas de não ter mais pão para comer. Havia de continuar a ser um fardo pesado para ela? Não lhe corria antes o dever imperioso de tudo tentar para vir em seu auxílio?

Erik tinha clara consciência desta obrigação. Todas as suas hesitações eram no caminho a adoptar: umas vezes pensava ir a Bergen alistar-se como marinheiro, outras vezes cismava em qualquer outro meio de poder ser-lhe útil imediatamente.

Um dia deu parte das suas dúvidas ao Sr. Malarius, que ouviu as suas razões, aprovou-as, mas protestou com todas as suas veras contra o projecto de ser marinheiro.

- Eu compreendia - disse-lhe -, ainda que com muito sentimento, que te tivesses resignado a ficar aqui para partilhares a vida dos teus pais adoptivos! Mas o que nunca poderia levar à paciência era que fosses condenar-te longe deles a uma profissão sem futuro, quando o Dr. Schwaryencrona te oferece uma carreira liberal! Reflecte bem nisto, caro filho, antes de tomares uma tal decisão.

O que, porém, o Sr. Malarius não disse foi que já tinha escrito para Estocolmo, pondo o doutor ao facto da situação em que o ciclone de 3 de Março colocara a família de Erik. Por isso também não o tomou de surpresa a carta que três dias depois recebeu e foi logo comunicar aos Hersebom. A carta rezava assim:

 

«Estocolmo, 17 de Março.

Meu caro Malarius.

Cordialmente te agradeço as notícias que me dás das desastrosas consequências que ao digno maaster Hersebom causou o furacão de 3 do corrente. Deu-me alegria e orgulho saber que Erik se portou nessas circunstâncias como sempre: um valente moço e filho dedicado.

Incluso te envio um cheque de 500 kroners, que te peço lhe entregues de meu mando.

Diz-lhe que, se essa quantia não for bastante para comprar em Bergen o melhor barco de pesca que se possa encontrar, mo mande dizer sem demora. A esse barco dará o nome de "Cynthia", e depois que o ofereça a maaster Hersebom como lembrança filial. E feito isto, Erik, se quiser atender aos meus conselhos, que volte para a minha casa em Estocolmo para continuar os seus estudos. Ao meu lar terá sempre assento; e se preciso for invocar um pretexto para o decidir a voltar, acrescentarei que tenho agora dados certos e esperanças de penetrar o mistério do seu nascimento. Crê-me sempre, caro Malarius, teu amigo sincero e dedicado.

  1. W. Schwaryencrona, M. D.»

 

Pode imaginar-se com que alegria foi esta carta recebida.

O doutor mostrava, dirigindo aquele brinde a Erik, quanto compreendia e apreciava o carácter do velho pescador. Oferecido directamente, seria pouco provável que maaster Hersebom tivesse aceitado. Mas como havia de recusar um barco dado por seu filho adoptivo, e demais a mais com o nome de "Cynthia", que era a recordação viva da maneira como ele tinha entrado na família?

O reverso da medalha, o pensamento que assombrava já todas as frontes, era a perspectiva de o verem tornar a partir. Ninguém ousava falar em tal, suposto fosse o pensamento de todos. O próprio Erik pendia a cabeça sobre o peito, sentia-se dividido entre o desejo, bem natural, de satisfazer ao doutor, realizando os votos secretos do seu coração, e o outro, não menos natural, de não ofender os pais adoptivos.

Vanda foi quem se encarregou de romper o gelo.

- Erik - disse ela, com a sua voz doce e grave- -, tu não podes dizer que não ao doutor, depois de te haver escrito uma carta assim! E não podes, porque isso seria a um tempo uma ingratidão para com ele e um pecado contra ti mesmo!

Há muito que penso assim! E já que ninguém ousa dizer-to, digo-to eu!

- Vanda tem razão! - exclamou o Sr. Malarius, com um sorriso.

- Vanda tem razão! - repetiu a Sr.a Katrina, enxugando uma lágrima.

E foi assim que, pela segunda vez, ficou resolvida a partida de Erik.

 

 

         PATRICK O'DONOGHAN.

Não era de grande tomo a novidade que o doutor conseguira colher, mas enfim sempre podia considerar-se uma indicação para abrir caminho.

Sabia o nome do ex-director da Companhia de Transportes Canadianos, o Sr. Joshua Churchill.

Ora, o paradeiro deste sujeito depois da liquidação da sociedade, isso é que completamente se ignorava e, portanto, as investigações foram todas dirigidas a este fito. Se se chegasse a descobrir o Sr. Joshua Churchill, era provável obter-se por sua via a comunicação dos antigos registos da Companhia - e talvez assim a lista dos passageiros do "Cynthia". O bebé devia lá estar mencionado com sua família ou pessoas encarregadas da sua guarda. E desde então ficava limitado o campo das indagações. Fora este o conselho dado pelo solicitor(*) que em tempo tivera em seu poder os referidos registos, na qualidade de liquidatário da sociedade, sem que, todavia, há dez anos pelo menos, soubesse o que era feito do Sr. Joshua Churchill.

Houve um momento em que o Dr. Schwaryencrona se possuiu de ilusória alegria por ter conhecimento de que os jornais americanos costumam publicar a lista dos passageiros embarcados com destino à Europa. Pensou logo que provavelmente bastaria recorrer a uma colecção de periódicos antigos para encontrar a lista do "Cynthia".

 

         *. Procurador ou advogado.

 

Mas, feita a experiência, viu que a hipótese era mal fundada - datava apenas de alguns anos o recente costume da publicação destas listas. Assim mesmo, os periódicos velhos tiveram a sua utilidade, porque davam a data exacta da partida do "Cynthia", que desamarrara em 3 de Novembro, não de um porto canadiano, como a princípio se julgava, mas sim do de Nova Iorque, com destino a Hamburgo.

Era, pois, nesta última cidade, primeiramente, e depois nos Estados Unidos, que o doutor andava colhendo informações.

Em Hamburgo, o resultado foi quase nulo. Os consignatários da Companhia de Transportes Canadianos nada sabiam dos passageiros do "Cynthia", e puderam simplesmente indicar a natureza da carga, o que já se sabia.

Erik estava de regresso em Estocolmo, havia já seis meses, quando, finalmente, chegaram notícias de Nova Iorque, informando que o ex-director Joshua Churchill tinha, sete anos antes exalado o último suspiro num hospital da Nona Avenida, sem deixar herdeiros conhecidos, nem provavelmente qualquer herança. No que respeitava aos registos da Companhia, há muito decerto tinham sido vendidos como papel de refugo e transformados em cartuchos pelos comerciantes de tabaco de Nova Iorque.

A pista, portanto, não conduzia a parte alguma, e o único resultado desta longa investigação foi desenvolver-se a veia sarcástica do Sr. Bredejord, suposto que no fundo o mais calmamente possível, contra o seu amigo doutor, cujo amor-próprio sofria assim dolorosas torturas.

A história de Erik era agora de notoriedade comum em casa do doutor. Ninguém já se constrangia em falar francamente do assunto, e todas as fases de investigação eram discutidas à mesa ou na sala. Talvez que o doutor tivesse andado melhor se, como fizera nos dois anos precedentes, conservasse em segredo aquelas circunstâncias. Era um alimento certo à tagarelice da Sr.a Greta e de Kajsa, e por igual também às reflexões de Erik - às vezes bem cheias de profunda melancolia. Não conhecer os pais, não saber se viviam ainda, pensar que talvez nunca viria a descobrir o segredo do seu nascimento, era já por si só uma meditação assaz penosa. Mas mais triste era ainda ignorar a pátria onde vira a luz.

«O mais pobre filho das ruas, o mais miserável camponês, sabem ao menos quem é o seu pai e a que grande família humana estão ligados!», dizia consigo, quando cogitava nestas coisas. «Eu, eu ignoro tudo! Apareci no globo terrestre como um arrojo do mar, como um grão de areia, transportado nas asas do vento, sem se saber de onde veio! Não tenho país, nem tradições, nem passado! A terra onde minha mãe nasceu, onde seus restos repousam ou hão-de repousar um dia, quem sabe se estará desonrada pelo estrangeiro, calcada aos pés por ele, e nem ao menos me é dado defendê-la e derramar por ela o meu sangue!»

Estes pensamentos enchiam de tristeza o pobre rapaz. Em tais momentos de nada lhe servia querer consolar-se com a ideia de ter encontrado uma mãe na Sr.a Katrina, um lar em casa de maaster Hersebom, uma pátria em Noroé, de nada lhe servia jurar a si mesmo restituir-lhes ao cêntuplo as bondades que lhe prodigalizaram e ser sempre para a Noruega o mais dedicado dos filhos. Via-se, sim, numa situação excepcional.

Tudo lhe fazia reviver este pensar doloroso, desde as diferenças físicas, que observava entre si e as pessoas da sua convivência, até à cor dos seus olhos e da pele, que divisava quando casualmente deitava os olhos ao espelho. Às vezes perguntava a si mesmo que pátria preferiria se lhe dessem a escolher. Era por isso especialmente que estudava a história e a geografia e passava em revista as civilizações e os povos. E tinha assim uma espécie de consolação, podendo calcular que era de raça céltica, e procurava nos livros a confirmação do facto asseverado pelo doutor.

Mas quando o sábio lhe repetia que, a seu ver, ele era certamente irlandês, Erik sentia confranger-se-lhe o coração. Pois quê, de todos os povos celtas, havia logo de pertencer ao mais oprimido?... É verdade que, se tivesse uma prova absoluta deste facto, sem dúvida teria bem amado aquela pátria desditosa, e tanto como a amaram os seus maiores e mais ilustres filhos! Mas essa prova faltava! E, então, porque não havia de imaginar que poderia talvez ser francês, por exemplo?... Não existiam também celtas na França? Ora eis aí uma pátria que ele bem desejaria que fosse a sua, com suas tradições grandiosas, com sua história dramática e princípios que disseminou por todo o mundo. Oh! Como teria amado com entusiasmo e servido com dedicação uma pátria assim! Como se sentiria orgulhoso de lhe pertencer! De quanta ternura filial ficaria penetrado, estudando-lhe os gloriosos anais, lendo os livros dos seus escritores, admirando as obras dos seus artistas!... E tinha de perder para sempre a esperança de conseguir precisamente esta série de suaves comoções!... Sim, ele bem o sabia. O problema da sua origem nunca seria resolvido, porque ainda o não tinha sido, depois de empregadas tantas diligências!

Todavia, afigurava-se a Erik que, se pessoalmente indagasse na origem das informações já obtidas, se continuasse por seu próprio esforço e nas localidades já conhecidas a procurar, quanto possível, novos vestígios, talvez conseguisse algum resultado. Não poderia, porventura, completar com a sua actividade e entusiasmo o que não tinham podido fazer os cuidados dos agentes assalariados a dinheiro? Oh! Havia de empregar com ardor uma vontade de vencer que por certo outro não poderia despender!

Esta ideia, que não lhe saía do sentido, exerceu insensivelmente nos trabalhos de indagação uma acção bem acentuada, e quase sem se dar por isso imprimiu-lhes uma direcção toda especial. Como se fosse coisa assente desde logo que devia ir viajar, principiou a estudar a fundo a cosmografia, geografia, arte náutica, todo o programa das escolas de marinha.

«Qualquer dia», dizia consigo, «habilito-me para exame de capitão de longo curso(*), e poderei ir então a Nova Iorque, à minha custa, recomeçar a investigação a respeito do Cynthia!

 

*. O que pode comandar um navio mercante de qualquer tipo, em viagens de longo curso.

 

Por natural pendor, as suas conversações deixavam a cada passo reflectir este projecto de indagações e expandi-lo com a maior ingenuidade.

O Dr. Schwaryencrona, o Sr. Bredejord e o Professor Hochstedt deixaram-se afinal impregnar do mesmo projecto, a ponto de o adoptarem também para si; porque a questão da origem de Erik, que a princípio se lhes apresentava simplesmente como um problema interessante, de dia para dia mais os ia apaixonando. Eles viam quanto Erik o tomava a peito, e, como o amavam sinceramente e compreendiam a importância que lhe ligava, estavam dispostos a empregar todos os meios para fazerem luz neste mistério.

Foi assim que numa bela noite nasceu neles a ideia de partirem juntos para Nova Iorque em excursão de férias, e irem ver com os seus olhos se do que já se sabia poderia colher-se mais alguma coisa.

Qual deles formulou primeiro esta ideia? Ponto foi que ficou sempre obscuro, e serviu muito tempo de tema às discussões do doutor e do Sr. Bredejord. Cada um pretendia ter a prioridade. Sem dúvida, adveio-lhes ao mesmo tempo, porque, à força de a cultivar, Erik tinha com ela saturado o ar ambiente. Fosse, porém, como fosse, o certo é que foi tomando corpo até ser definitivamente adoptada, e em Setembro do ano seguinte os três amigos, acompanhados de Erik, embarcaram em Cristiânia para os Estados Unidos.

Dez dias depois, estavam em Nova Iorque e estabeleciam relações com a casa Jeremias Snith, Walker & C.a, que fora a que enviara as primeiras informações.

Daí por diante ia entrar em cena um novo agente, cuja força até então ninguém tinha conhecido. Este agente era a actividade pessoal de Erik. De Nova Iorque e dos Estados Unidos, de tantos espectáculos para ele inteiramente novos, via principalmente o que podia ter relação com o objecto das suas pesquisas. Ao romper de alva já estava a pé, para correr ao porto, marchar ao longo dos cais, acercar-se dos navios fundeados, procurando e coligindo sem descanso algum dos mais minuciosos esclarecimentos.

- Conheceu a Companhia dos Transportes Canadianos? Poderia indicar-me um oficial, um passageiro, um marujo que tivesse navegado no "Cynthia"?--era a pergunta invariável que fazia a todos.

Mercê do perfeito conhecimento que tinha da língua inglesa, da sua doce e séria fisionomia e da familiaridade que inculcava ter com as coisas do mar, por toda a parte era bem acolhido. Indicaram-lhe sucessivamente muitos antigos oficiais, marujos ou empregados da extinta Companhia de Transportes Canadianos. Alguns conseguiu encontrá-los. De outros nem sinais havia. Mas nenhum pôde dar-lhe informações úteis a respeito da última viagem do "Cynthia". Foi-lhe necessário gastar quinze dias de marcha e contramarcha e indagações incessantes para conseguir finalmente um esclarecimento que, pela sua formal precisão, ficava acima de toda a massa confusa de notícias, por vezes contraditórias, que até então Erik tinha colhido. Em boa verdade, a última parecia valer o seu peso de ouro.

Corria como certo que um marinheiro chamado Patrick O'Donoghan sobrevivera ao naufrágio do "Cynthia" e tinha até regressado a Nova Iorque muitos meses depois dessa fatalidade. Dizia-se que este Patrick O'Donoghan servia, na qualidade de grumete, a bordo do "Cynthia" por ocasião da última viagem deste barco. Era especialmente impedido no serviço do comandante e, segundo todas as probabilidades, devia ter conhecido quais os passageiros de primeira classe, que vão sempre comer à mesa de ré. Ora, a calcular-se pela finura dos vestidinhos, não era lícito duvidar-se de que a criança amarrada à bóia do "Cynthia" pertencia a esta categoria. Podia, pois, ser da mais alta importância a descoberta deste marinheiro.

E tal foi a conclusão do doutor e do Sr. Bredejord, quando Erik lhes contou a novidade durante o jantar, num grande hotel da Quinta Avenida. A discussão, porém, logo tomou outro caminho, porque o doutor quis tirar deste elemento novo uma prova mais em favor da sua tese favorita.

- Se há nome irlandês, é, com toda a certeza, este de Patrick O'Donoghan!...

Bem dizia eu que a Irlanda figurava neste caso de Erik!

- Por enquanto não vejo certeza absoluta! - respondeu, sorrindo-se, o Sr. Bredejord. - Um grumete irlandês a bordo não é prova decisiva. O que seria difícil, creio, era descortinarmos um navio americano de cuja tripulação não fizesse parte um filho da verde Erin!

A verdade é que o caso dava assunto para discorrer duas ou três horas, e assim aconteceu. Desde esse dia Erik concentrou todos os seus esforços neste único sentido: descobrir Patrick O'Donoghan.

Não pôde infelizmente ir tão longe; à força, porém, de indagar e inquirir, conseguiu no cais de Hudson dar com um marinheiro que tinha conhecido aquela individualidade e quis prestar acerca dela alguns pormenores. Patrick O'Donoghan era efectivamente irlandês, natural de Innishannon, no condado de Cork, homem de trinta e três a trinta e cinco anos, de estatura média, cabelo ruivo, olhos pretos e nariz esborrachado por causa de um desastre.

- Um tipo que se conhece logo entre mil! - acrescentou o marinheiro. - Lembro-me muito bem dele, apesar de o não ver há já sete ou oito anos!

- Era em Nova Iorque que o encontrava habitualmente?

- Em Nova Iorque e noutras partes. Mas com certeza a última vez foi em Nova Iorque.

- Não me poderia indicar alguém que quisesse informar-me do paradeiro dele?

- Palavra que não sei... Oh!... Só se for o proprietário da hospedaria da Red Anchor, em Brooklyn!... Patrick O'Donoghan ia lá pousar quando vinha a Nova Iorque!... Um tal Bowles, um antigo marinheiro!... Se este também nada souber, não sei quem possa dar-lhe informes de O'Donoghan!

Erik saltou para um dos barcos a vapor que fazem serviço no rio do Leste, e vinte minutos depois estava em Brooklyn.

À porta da Red Anchor via-se uma mulher idosa, extremamente asseada, muito ocupada a pelar batatas.

- Mister Bowles está em casa, minha senhora? - perguntou Erik, cumprimentando com a cortesia própria do seu país adoptivo.

- Está em casa, mas preparando-se para dormir a sesta - disse a boa dama, lançando olhares curiosos ao seu interlocutor. - Contudo, se tem alguma coisa a dizer-lhe, pode confiar-ma que lha comunicarei... Sou Mistress Bowles.

- Ó minha senhora - replicou Erik -, creio que poderá esclarecer-me tão bem como o Sr. Bowles. Desejava saber se conhecem um marinheiro chamado Patrick O'Donoghan, se está agora cá, ou se podem dizer-me onde o posso encontrar!

- Patrick O'Donoghan?... Conheço! Por sinal que há cinco ou seis anos que não põe cá os pés!... E para dizer-lhe onde estará agora, via-me em completa atrapalhação.

A fisionomia de Erik exprimiu tão profunda desilusão que a idosa mulher notou-o logo e sentiu-se naturalmente comovida.

- Tinha então muita necessidade de ver o Patrick O'Donoghan? - perguntou-lhe. - Assim parece pelo desgosto que mostra de não o encontrar aqui.

- Sim, minha senhora, tinha grandíssima necessidade - respondeu o pobre moço com tristeza. - Era a única pessoa que talvez me pudesse ajudar a esclarecer o mistério que hei-de tratar de desvendar durante todo o tempo que tiver de vida!

Havia três semanas andava Erik a correr por todos os lados para se informar; tinha já certa experiência das coisas deste mundo. Por isso conheceu logo que vivamente havia estimulado a curiosidade de Mistress Bowles, e pensou que não andaria inconvenientemente se insistisse. Foi-lhe perguntando se tinha um copo de gasosa que lhe desse, e, sendo afirmativa a resposta, entrou na hospedaria.

A sala de tecto baixo, onde se assentou, era mobilada de mesas de madeira envernizada e cadeiras de palhinha: estava totalmente deserta. Esta mesma circunstância afoitou Erik a entrar em conferência com a velha dama, logo que ela regressou da garrafeira com uma botija de grés na mão.

- Minha senhora - disse-lhe com a sua voz suave -, talvez venha a pensar consigo mesma no que posso querer a O'Donoghan; pois vou já dizer-lho: Patrick O'Donoghan, parece-me, assistiu ao naufrágio do "Cynthia", um navio que se perdeu há dezassete anos, pouco mais ou menos, nas costas da Noruega!... Ora eu, que lhe estou a falar, fui recolhido por um pescador norueguês, que me encontrou, era eu pequenino, tinha apenas nove meses, num berço que boiava à mercê das ondas, amarrado a uma bóia do "Cynthia"!... Procuro O'Donoghan para saber se me poderia dar alguma informação da minha família, ou ao menos da minha pátria!...

Um grito soltado por Mistress Bowles interrompeu de súbito as explicações de Erik.

- A uma bóia, disse a uma bóia?... Apareceu amarrado a uma bóia?

E, sem esperar qualquer resposta, correu para a escada.

-Bowles!... Bowles!... Desce cá depressa!... - gritou com voz aguda. - A uma bóia! Ele é a criança da bóia? Quem poderia julgar semelhante coisa? - repetia, voltando-se para Erik, pálido de surpresa e de esperança.

Iria finalmente saber o segredo que tão apaixonadamente procurava?

Sentiram-se passos pesados na escada de madeira, e pouco depois apareceu à porta um velhito, rosado, de formas arredondadas, vestido com um fato completo de grosso pano azul, grandes suíças brancas em redor da cara e anéis de ouro nas orelhas.

- Quê?... Que é?... Que há?... - perguntou, vindo ainda a esfregar os olhos.

- O que há? Há que temos precisão da tua pessoa - afirmou peremptoriamente Mistress Bowles. - Senta-te e ouve a este senhor o que já me disse a mim.

O Sr. Bowles obedeceu sem protesto. Erik imitou-o e repetiu-lhe quase pelas mesmas palavras o que tinha declarado à boa mulher.

Com o que a forte humanidade do Sr. Bowles se dilatou como uma lua cheia, a boca desenhou um longo sorriso e, cravando os olhos na mulher, pôs-se a esfregar muito as mãos. Por sua parte, ela não parecia menos satisfeita.

- Devo supor que conhece já a minha história? - perguntou Erik, cujo coração palpitava.

O Sr. Bowles fez um sinal afirmativo, coçou a orelha e decidiu-se finalmente a falar.

- Conheço-a sem a conhecer - volveu -, e minha mulher conhece-a tanto como eu!... Muitas vezes temos falado ambos nela, sem a compreendermos.

Erik, pálido e de boca cerrada, ouvia estas palavras, à espera de qualquer esclarecimento. Mas a verdade é que as trevas continuavam. O Sr. Bowles não tinha o dom da eloquência nem o da clareza. Era possível que as suas ideias estivessem ainda perturbadas com o sono.

Depois de dormir, para recobrar o estado normal, precisava geralmente de tomar dois ou três copos de um licor decorado com o nome de Pick Me Up, que se assemelhava grandemente ao gim.

Só quando a mulher lhe pôs em cima da mesa, diante dele, uma garrafa com dois copos, é que se resolveu a falar.

Embrenhou-se então numa narração muito confusa, em que apenas se podiam apurar alguns factos em meio de uma infinidade de pormenores inúteis. A narração não durou menos de duas horas. Para Erik poder aproveitar alguma coisa de todo aquele imbróglio, foi-lhe precisa toda a atenção e o ardente interesse que lhe ligava. À força de perguntas e insistências, e graças ao auxílio de Mistress Bowles, sempre conseguiu colher alguns esclarecimentos.

 

         QUINHENTAS LIBRAS ESTERLINAS DE GRATIFICAÇÃO.

Pelo que Erik pôde compreender através das reticências e divagações de Mister Bowles, não era Patrick O'Donoghan precisamente um modelo de virtude. O proprietário da Red Anchor tinha-o conhecido primeiramente grumete, depois marinheiro, antes e depois do naufrágio do "Cynthia". Até essa época, Patrick O'Donoghan era pobre, como o são de ordinário os homens do mar. Em seguida ao naufrágio, voltara da Europa com um grande maço de notas do Banco de Inglaterra, declarando que tinha recebido uma herança na Irlanda, o que parecia bem pouco verosímil.

Mister Bowles nunca tinha acreditado na tal herança. Pensava até que tão súbita fortuna devia ter relação, por qualquer forma, mas provavelmente pouco digna de se poder confessar, com o naufrágio do "Cynthia", porque era claríssimo que Patrick O'Donoghan assistira ao desastre, e, ao contrário do costume dos marinheiros em idênticos casos, evitava cuidadosamente falar dele; e quando a conversação recaía em tal assunto mudava logo para outro, por sinal bem desastradamente. Quando a companhia de seguros intentou processo civil aos proprietários do "Cynthia", tratou logo de abalar, com o fim de não se ver implicado no processo, ainda que fosse só como testemunha, proceder que pareceu ainda mais suspeito, por ser Patrick O'Donoghan então o único sobrevivente conhecido da tripulação. Mister Bowles nunca pudera descobrir o fio da meada, mas tanto ele como a mulher achavam a coisa muito equívoca.

O que maior desconfiança causava ainda era Patrick nunca ter falta de dinheiro durante o tempo que se demorava em Nova Iorque. Das viagens não o trazia ele. Mas, dias depois do regresso, não lhe faltava ouro e notas, e quando se embriagava, o que lhe sucedia frequentes vezes, gabava-se de possuir um segredo que equivalia a uma fortuna. E nas divagações acudiam-lhe constantemente estas palavras: «a criança da bóia».

- A criança da bóia, Mister Bowles! - repetia ele, batendo com o punho em cima da mesa. - A criança da bóia vale o seu peso em ouro!...

E, muito satisfeito de si, ainda por cima punha-se a chasquear do caso. Nunca fora possível tirar-lhe qualquer explicação destas palavras, as quais durante anos deram à família Bowles motivo para mil suposições.

Daí a comoção de Mistress Bowles quando Erik lhe comunicou que era ele precisamente a "criança da bóia".

Patrick O'Donoghan, que há quinze anos tinha por costuma alojar-se na Red Anchor, quando vinha a Nova Iorque, já lá não aparecia há quatro anos, pouco mais ou menos. E neste facto, segundo os dizeres de Bowles, havia ainda o seu quê de mistério. O irlandês recebera uma noite a visita de um homem, que se tinha encerrado com ele perto de uma hora. Depois disso, Patrick O'Donoghan, cheio de desassossego e de pressa, pagou a sua conta de despesa, levou o saco de marinheiro e partiu.

Desde então nunca mais o tinham visto.

Os Bowles ignoravam, muito naturalmente, a causa da súbita retirada. Mas ficaram sempre a pensar que tinha relação com o naufrágio do "Cynthia" e com a história da "criança da bóia". Era opinião deles que o visitante de Patrick viera preveni-lo de que corria algum grave perigo, e o irlandês, à vista disso, julgara prudente abandonar imediatamente Nova Iorque. Os esposos Bowles supunham que não voltara desde essa época. «Se tivesse vindo», acrescentava, «tê-lo-íamos sabido por outros fregueses da nossa hospedaria, que não deixariam de admirar-se se Patrick não viesse alojar-se na Red Anchor e lhe perguntariam decerto o motivo.»

Tal foi, em suma, a narração que Erik pôde obter. Tinha pressa de a transmitir aos seus amigos, e por isso despediu-se logo dos esposos Bowles para ir reunir-se a eles.

O relatório foi acolhido na Quinta Avenida com o interesse que merecia. Pela primeira vez depois de tantas buscas iam na pista de um homem que fazia repetidas alusões à "criança da bóia". É verdade que não se sabia onde esse homem estava, mas já podiam ter esperanças de descobri-lo um ou outro dia. Ainda não havia surgido incidente de tal importância. E tão grave se lhes afigurou o caso que decidiram telegrafar a Mistress Bowles, pedindo-lhes que preparasse um jantar para seis talheres. Foi o Sr. Bredejord quem sugeriu este meio de colher daquela boa gente tudo o que pudesse saber: irem instalar-se-lhe em casa, fazê-los sentar à mesma mesa e travarem conversação com eles.

Erik não esperava ir ouvir mais daquilo que já sabia. Ficara a conhecer bem os esposos Bowles e convencera-se de que os tinha obrigado a dizer tudo. Com o que não contava, porém, era com a grande prática do Sr. Bredejord em inquirir testemunhas nos tribunais de justiça, conseguindo tirar das respostas delas conclusões de que nem elas mesmo podiam ter desconfiança.

Mistress Bowles despicou-se. Fez pôr a mesa no aposento mais asseado do primeiro andar, e em menos de uma hora improvisou um excelente jantar; e, toda lisonjeada por tomar parte nele e também o marido, sentou-se à mesa e prestou-se, com a melhor vontade do mundo, ao interrogatório do eminente advogado. E o certo é que assim se puderam colher alguns factos que tinham tal ou qual importância.

Em primeiro lugar, Patrick O'Donoghan, por ocasião do processo instaurado pela companhia de seguros, dissera que se ia embora, palavras formais, «para não ser convocado como testemunha». Prova evidente de que não gostava de explicar as circunstâncias, o que de resto bem se demonstrava já por seu modo habitual de proceder.

Em segundo lugar, a fonte dos rendimentos suspeitos de Patrick, adquiridos por ele à custa de um segredo, estava em Nova Iorque ou subúrbios, porque, quando chegava, carecia sempre de dinheiro, e depois de ter passado a tarde fora, apenas regressava à noitinha, já trazia as algibeiras cheias de ouro.

Não se podia duvidar de que o segredo dissesse respeito à "criança da bóia", porque ele assim o dizia amiudadas vezes.

Tudo levava a crer que Patrick O'Donoghan quis tirar partido definitivo deste segredo e a simples tentativa provocou uma crise. Efectivamente, ainda na véspera da sua súbita partida afirmava que estava fatigado de navegar, que não tencionava voltar mais e queria desde então residir em Nova Iorque, vivendo dos seus rendimentos.

Finalmente, o indivíduo que viera visitar Patrick O'Donoghan tinha interesse real em o obrigar a partir, porque, na manhã seguinte à saída dele, viera de novo à Red Anchor perguntar pelo irlandês, e mostrou ficar muito satisfeito de já o não encontrar. Mister Bowles assegurava que podia reconhecer este indivíduo se o visse, o qual, pelo andar e modos, lhe pareceu que era um detective, ou agente de polícia oficioso, dos que costuma haver nas grandes cidades.

Destas circunstâncias concluía o Sr. Bredejord que a pessoa de quem Patrick sacava dinheiro, quando vinha a Nova Iorque, lhe tinha metido medo sistematicamente e lhe despachara o tal detective, para mais o fazer persuadir de que poderia ser envolvido num processo criminal. Só assim se conseguia explicar que o irlandês houvesse partido precipitadamente depois da visita, para nunca tornar a aparecer.

O mais importante em tal caso era tomar nota dos sinais do detective, bem como dos de Patrick O'Donoghan, que os Bowles puderam fornecer com a maior precisão. E, compulsando o livro das suas contas, acharam também a data exacta da partida do Mandes, que remontava a quatro anos menos três meses, e não a cinco ou seis anos, como a princípio julgavam.

Ao Dr. Schwaryencrona causou imediatamente impressão a data da partida, e, por conseguinte, da visita do detective, porque correspondia precisamente à dos primeiros anúncios que se tinham mandado publicar na Grã-Bretanha para descobrir os sobreviventes do "Cynthia".

A concordância de datas era de si tão frisante que seria impossível não se ver a correlação existente entre os dois fenómenos.

Parecia, pois, que no problema começava a derramar-se certa luz. O abandono de Erik sobre uma bóia devia ter sido produto de um crime, crime de que o grumete O'Donoghan, embarcado a bordo do "Cynthia", provavelmente fora testemunha ou cúmplice. Conhecia decerto o autor, que devia habitar em Nova Iorque ou subúrbios, e havia muito tempo explorava em seu interesse o segredo comum. Um dia, enfim, o outro, cansado das exigências do irlandês e preocupado com os anúncios insertos nos jornais, tratou de o assustar sofrivelmente, e assim o decidiu a abalar por sua vez.

Em todo o caso, mesmo quando estas deduções saíssem rigorosamente exactas, havia ainda assim elementos bastantes para um sério inquérito judicial. Erik e os seus amigos saíram, portanto, da Red Anchor com a firme esperança de alcançarem brevemente algum resultado.

Na manhã seguinte, o Sr. Bredejord conseguia, por intermédio do embaixador da Suécia, ser apresentado ao superintendente da polícia de Nova Iorque, a quem comunicou os factos já conhecidos. Ao mesmo tempo entrava em relações com os solicitadores da companhia de seguros que em tempo pleitearam contra os proprietários do "Cynthia", e obtinha extrair os autos do processo das pastas poeirentas onde havia longos anos dormiam.

Mas o exame desta papelada não forneceu qualquer documento de importância. Nenhuma das partes havia apresentado testemunhas. Toda a questão versava sobre pontos de direito e sobre o exagero da cifra do seguro, oposta ao valor real do navio e da carga. O tribunal, fundado, ao que parece, na deficiência da defesa, decidira a favor da parte adversa. Além disso, a companhia foi obrigada a pagar muitos seguros de vida aos herdeiros de diversos passageiros. Mas em parte nenhuma, nos processos como nas transacções, havia o mínimo vestígio de qualquer criança de nove meses.

Durou muitos dias o exame destes autos, e quando estava no fim o Sr. Bredejord recebeu aviso para se apresentar em casa do superintendente da polícia, que lhe expôs que, com grande mágoa sua, nada pudera descobrir. Em Nova Iorque ninguém conhecia o detective oficial ou oficioso com os sinais declarados pelo Sr. Bredejord. Também ninguém fornecera a menor indicação do tal indivíduo que podia ter interesse em desfazer-se de Patrick O'Donoghan, e, a respeito deste marinheiro, presumia-se que havia quatro anos, pelo menos, não punha os pés em Nova Iorque. Para o que desse e viesse, sempre se foi tomando nota dos sinais, a qual talvez um dia ainda viesse a ter préstimo. Mas o superintendente não pôde ocultar ao Sr. Bredejord a sua opinião de que o inquérito dera o que tinha a dar. E, demais, os factos remontavam a época tão afastada e próxima da prescrição de vinte anos, que, ainda admitindo-se o regresso imediato de Patrick O'Donoghan, era problemático que a justiça quisesse tomar conta do caso.

Em suma, a solução que num certo momento Erik julgava poder conseguir caía por terra e escapava-lhe, talvez sem remissão.

Nada mais restava senão regressar à Suécia, passando pela Irlanda, a ver se por acaso Patrick O'Donoghan teria recolhido a penates, para se entreter em plantar as suas couves.

Foi o que fizeram o Dr. Shwaryencrona e os seus amigos, depois de terem ido despedir-se de Mister e Mistress Bowles.

Os vapores de Nova Iorque a Liverpul fazem sempre escala por Cork. Os nossos viajantes tomaram, pois, esta via, e foi suficiente para ficarem a poucas milhas de Innishannon.

Lá souberam que Patrick O'Donoghan não regressara mais ao seu país desde a idade de doze anos e nunca tinha dado notícias suas.

- E, agora, aonde havemos de ir procurá-lo? - perguntava o Dr. Schwaryencrona, na ocasião de embarcar para Londres, para daí alcançar Estocolmo.

- Nos portos de mar, evidentemente, e em particular nos portos não americanos - respondeu-lhe o Sr. Bredejord. - E a razão é, peço-lhes que notem bem este ponto, que um marinheiro, um homem do mar já calejado, não renuncia facilmente à sua profissão aos trinta e cinco anos de idade. É a única em que se vê habilitado. Patrick deve andar embarcado. E como os navios navegam de uns portos para outros, é aí que podemos ter esperança de encontrá-lo. Que diz a isto, Hochstedt?

- Parece-me bem deduzido o raciocínio, ainda que talvez um tanto absurdo - respondeu o professor, com a sua habitual prudência.

- Suponhamos que assim é - prosseguiu o Sr. Bredejord. - Dado que Patrick O'Donoghan abalasse sob a impressão de verdadeiro terror, e provavelmente sob a ameaça de um processo-crime, o natural é que receie a extradição. E assim há todas as probabilidades de que se esforce em não ser reconhecido, e, por conseguinte, há-de tratar de se afastar dos antigos camaradas. Frequentará de preferência os portos aonde eles não costumem abordar... Bem sei que tudo isto não passa de uma hipótese, mas suponhamos provisoriamente que tem algum fundamento: o número de portos onde os americanos deixam de ter frequentemente negócio não é tamanho que não possamos facilmente arranjar a lista deles. Penso que poderíamos começar por aí e tratarmos desde logo de indagar nesses portos notícias de um indivíduo que apresente os sinais de Patrick O'Donoghan.

- E porque se não há-de recorrer simplesmente ao anúncio? - perguntou o Dr. Schwaryencrona.

- Porque Patrick O'Donoghan com certeza se absterá de responder, se quer permanecer oculto, ainda supondo que o anúncio possa chegar ao conhecimento de um marítimo.

- Sim, mas não podemos publicar um anúncio todo animador para ele, advertindo-o de que em qualquer caso está protegido pela prescrição e terá todas as vantagens possíveis, dando-nos os esclarecimentos de que precisamos?

- De acordo. Mas ainda fica de pé a minha objecção: receio muito que o anúncio não seja visto por um simples marítimo, como ele é.

- Não custa nada tentar, oferecendo-se uma gratificação a Patrick O'Donoghan, ou a quem der notícias dele. Que dizes, Erik?

- Parece-me que tais anúncios, para produzirem efeito, precisam de ser repetidos em grande número de jornais. Isso custaria muito caro e, por mais atraentes que fossem, serviriam só para causar cada vez mais susto a Patrick O'Donoghan, se realmente tem interesse em não se dar a conhecer. Não seria mais proveitoso confiar-se a alguém o cuidado de ir pessoalmente indagar o caso nos portos onde supomos que se pode encontrar o homem?

- Muito bem, mas quem será o homem de confiança a quem havemos de encarregar tal serviço?

- Se o meu mestre quiser, o homem está pronto. Sou eu.

- Tu, querido filho... E os teus estudos?

- Os meus estudos nada hão-de sofrer... Viajando, posso continuar a estudar... E, demais, já encontrei meio de viajar de graça.

- Como? - perguntaram ao mesmo tempo os Srs. Schwaryencrona, Bredejord e Hochstedt.

- Habilitando-me simplesmente para o exame de capitão de longo curso. Se for preciso, amanhã mesmo posso apresentar-me a ele, e depois, munido desse diploma, ser-me-á fácil embarcar como imediato para o primeiro porto que aparecer.

- O quê. pois conseguiste habilitar-te sem me dizeres nada? - exclamou o doutor, meio despeitado, enquanto o advogado e o professor se riam com gosto.

- É verdade - declarou Erik -, julgo que até aqui não foi grande o meu crime, porque me limitei a perguntar quais as matérias do exame e a aprendê-las! Mas nunca fiz tenção de ir ao exame sem o dar a saber ao senhor doutor, e, já agora, peço a devida licença...

- Que te dou, grande tratante! - disse o doutor, acalmado com o argumento. - Quanto a deixar-te partir desde já, e demais a mais só, falaremos mais tarde!... Para isso havemos de esperar que chegues à maioridade.

- Oh! É também assim que o entendo! - volveu Erik, tomado de reconhecimento e submissão de que não era possível duvidar-se.

Não obstante, o doutor nem por isso renunciou à sua ideia. No seu modo de ver, a indagação pessoal nos portos não poderia passar de um expediente, ao passo que o anúncio chegaria a toda a parte ao mesmo tempo. Se Patrick O'Donoghan se não escondia, o que era bem possível, o meio empregado devia fazê-lo aparecer directamente, se, porém, se ocultava, podia servir para que fosse encontrado. Tendo-se maduramente pensado em todas estas coisas, redigiu-se enfim o anúncio seguinte, que, traduzido em sete ou oito línguas, em breve iria voar pelas cinco partes do mundo, transportado nas asas de cem jornais dos mais lidos:

 

«Patrick O'Donoghan, marinheiro ausente de Nova Iorque há quatro anos. Cem libras esterlinas de gratificação a quem declarar onde pára. Quinhentas libras esterlinas a ele pessoalmente, se quiser travar correspondência com o signatário deste. Nada tem a recear: a prescrição já cobriu os factos passados.

Dr. Schwaryencrona, Estocolmo.»

 

A 20 de Outubro, o doutor e os seus companheiros de viagem regressaram a suas casas. Na manhã seguinte o anúncio foi entregue na Agência-Geral de Publicidade de Estocolmo e, três dias depois, já tinha aparecido em vários jornais. Erik, lendo-o, não pôde conter um suspiro - pressentimento talvez de derrota definitiva.

O Sr. Bredejord, esse, declarou categoricamente que fora a maior sandice deste mundo tal anúncio, e que daquela hora em diante reputava o negócio inteiramente perdido.

Erik e o Sr. Bredejord enganaram-se. Senão, ver-se-á pelo decurso dos sucessos.

 

 

         TUDOR BROWN, ESQUIRE.

Numa manhã de Maio, estava o doutor no seu gabinete quando o criado lhe apresentou o cartão de um visitante. Era de minúsculas proporções, como se costuma fazê-los na Inglaterra, e continha um nome: Mister Tudor Brown, e uma indicação: on board the «Albatroz», o que significa: Sr. Tudor Brown, a bordo do «Albatroz».

- Tudor Brown? - disse o doutor consigo, procurando na sua memória, sem lá encontrar nada que se adaptasse àquela denominação.

- Este senhor pede para falar ao senhor doutor -

tornou o criado.

- E porque não há-de vir à hora das consultas?

- Diz que é para negócios pessoais.

- Então diga-lhe que entre.

Ergueu a cabeça quando a porta se abriu e considerou com singular surpresa a excêntrica personalidade que ao prenome feudal de Tudor ligava o nome plebeíssimo de Brown.

Imagine-se um homem que aparentava ter uns cinquenta anos, testa coberta de uma multidão de pequenos anéis «à Titus», de cor arruivada, que à simples vista se conhecia que não eram de cabelo, mas sim de seda crua, nariz adunco, sobre o qual se encavalgava um par de óculos fixos de vidros defumados, dentes alongados como os de um cavalo, faces sem barba, sumidas entre enormes colarinhos postiços, saindo-lhe, debaixo do queixo, um tufo de barba ruiva, cabeça esquisita, coberta com um chapéu alto, que parecia estar pregado com uma tarraxa, porque o seu proprietário nem sequer fazia o simulacro de lá pôr a mão para o tirar. E este todo assentava num grande corpo magro, anguloso, grosseiramente esquadriado, vestido de cima a baixo de fazenda de lã, de quadradinhos verdes e pardos. Um alfinete de gravata com diamante do tamanho de uma avelã, uma cadeia de relógio a serpentear entre as pregas do colete com botões de ametista, uma dúzia de anéis nos dedos, nodosos como os de um chimpanzé, completavam o conjunto mais pretensioso, mais exótico e mais grotesco que imaginar se pode.

Esta individualidade penetrou no gabinete do doutor, tal qual como se fosse a entrar numa estação de caminho de ferro, sem esboçar o mais leve cumprimento. Simplesmente parou para dizer em voz que se assemelhava à de Polichinelo, com acento ao mesmo tempo gutural e nasal:

- É o Dr. Schwaryencrona?

- Sou eu - respondeu o doutor, muito admirado de semelhantes maneiras.

Estava já a ver se devia chamar alguém para mandar pôr na rua o grosseiro sujeito, quando uma palavra dele o fez mudar logo de resolução.

- Vi o seu anúncio acerca de Patrick O'Donoghan - dizia o estrangeiro - e pensei que desejaria conhecer o que sei a tal respeito.

«Tenha a bondade de se sentar, senhor», ia o doutor para dizer-lhe.

Mas depressa se desenganou, pois o estrangeiro não esperara pelo convite. Depois de ter escolhido a cadeira que mais confortável lhe pareceu, pôs-se a jeito de aproximar-se do doutor, em seguida recostou-se comodamente, firmou os calcanhares na orla da janela próxima, e pôs-se a olhar para o interlocutor, com visíveis ares de satisfação. E tornou:

- Sempre pensei que havia de ter prazer em ouvir estas informações, a prova é o oferecimento das quinhentas libras esterlinas! Ora é exactamente por isso que venho dar-lhas.

O doutor inclinou-se sem dizer palavra.

- Há-de querer saber, decerto, quem sou - prosseguiu o outro com a sua voz fanhosa. - Vou já satisfazê-lo. Como já deve ter visto no cartão de visita, chamo-me Tudor Brown, súbdito britânico.

- Da Irlanda, talvez? - perguntou o doutor, com interesse.

O estrangeiro, visivelmente surpreendido, hesitou um momento e continuou depois:

- Não, escocês... Oh! Sei perfeitamente que ninguém

me julga tal, e antes tenho todas as aparências de um ianque. Mas isso não quer dizer nada, sou realmente escocês!

E, reiterando esta afirmação, olhava para o Dr. Schwaryencrona, como quem diz:

«Pode acreditar o que quiser, que para mim é perfeitamente indiferente.»

- De Inverness, talvez? - sugeriu o doutor, que prosseguia na sua ideia favorita.

O estrangeiro teve outro momento de hesitação.

- Não, de Edimburgo - respondeu. - Mas afinal

tudo isso pouco importa para a questão!... Tenho uma fortuna independente e não devo nada a ninguém. Se lhe digo quem sou, é porque tenho gosto em lho dizer e não porque seja obrigado a tanto!

- Permita-me que lhe diga que não lho perguntei - observou o doutor, sorrindo.

- Não. Pois está bem! Espero que me não interrompa, senão nunca chegaremos a entender-nos. Tem publicado anúncios para saber o que é feito de Patrick O'Donoghan, não é assim? Decerto é porque tem precisão das pessoas que o sabem. Pois eu, que lhe estou a falar, sei-o perfeitamente.

- Sabe? - perguntou o doutor, aproximando a sua cadeira da do estrangeiro.

- Sei, sim! Mas antes de lho dizer, quero que me conte porque se interessa em tal indagação.

- É muito justo! - replicou o doutor.

E contou-lhe em poucas palavras a história de Erik, a qual o visitante escutou com profunda atenção.

- E o rapaz vive ainda? - perguntou Tudor Brown.

- Certamente! Vive, está de boa saúde e no próximo mês de Outubro vai começar os estudos de medicina na Universidade de Upsal.

- Ah! Ah! - fez o estrangeiro, que se deu a reflectir. - E, diga-me, não tem nenhum outro meio de penetrar o mistério do nascimento do rapaz, senão dirigindo-se a Patrick O'Donoghan?

- Não vejo outro - declarou o doutor. - Depois de demoradas indagações, pude saber enfim que este O'Donoghan estava de posse de segredos que só ele poderia desvendar-me, e eis porque procuro notícias dele por intermédio dos jornais. Mas, a falar verdade, poucas esperanças tenho nesse expediente.

- Mas porquê?

- Porque há razões para crer que O'Donoghan tem graves motivos para se conservar na sombra, e por isso é pouco provável que responda aos meus anúncios. Tive, pois, a tenção de recorrer em breve tempo a outro processo. Possuo os sinais dele, sei quais os portos que de preferência deve frequentar, e estou com a ideia de o mandar lá procurar por agentes especiais.

Não se pense que o Dr. Schwaryencrona revelava levianamente estas coisas. Enunciava-as com a intenção formal de ver o efeito que produziam no homem que tinha defronte de si.

E tanto que o doutor notou logo, na face deslavada do estrangeiro, apesar da fleuma que este apresentava, um certo bater de pálpebras, além de ligeira contracção da comissura dos lábios. Mas quase logo retomou a impassibilidade habitual.

- Pois, doutor, se não tem outro meio de se informar, senão pelo encontro do O'Donoghan, pode perder de todo a esperança!... Patrick O'Donoghan morreu.

Por muito dolorosamente surpreendido que o doutor ficasse com tal notícia, teve assim mesmo o cuidado de nem pestanejar, e limitou-se a observar o seu visitante, que continuou nestes termos:

- Morto e enterrado, ou, para melhor dizer, morto e mergulhado a trezentas braças de fundo! O acaso quis que este homem, cujo passado me parece misterioso e que por esta razão eu tinha notado, fosse há três anos empregado, na qualidade de gajeiro, a bordo do meu iate, o «Albatroz». Devo desde já dizer-lhe que este meu iate é um bom navio, a cujo bordo tenho feito cruzeiros de sete a oito meses. Ora, haverá três anos, quando singrávamos próximo da ilha da Madeira, o gajeiro Patrick O'Donoghan caiu ao mar. Mandei logo parar o navio, arriar escaleres, e tanto se procurou que pudemos encontrá-lo, e a bordo ordenei que lhe dedicassem os maiores cuidados. Mas tudo foi inútil. O'Donoghan estava morto. Tivemos de restituir às ondas a presa que tentáramos arrancar-lhe!... Muito naturalmente mandei lançar no livro de bordo o processo verbal do acidente, e, pensando que essa nota lhe poderia ser útil, aqui lhe trago uma cópia autenticada.

Dizendo isto, o Sr. Tudor Brown puxou da carteira, abriu-a, tirou de lá uma folha de papel coberta de selos e apresentou-a ao doutor.

Este percorreu-a rapidamente com os olhos. De facto, era um extracto do livro de bordo do «Albatroz», proprietário Tudor Brown, referindo-se ao óbito do gajeiro Patrick O'Donoghan, ao través da ilha da Madeira, todo devidamente autenticado sob juramento de duas testemunhas diplomadas, como sendo conforme o original, e registado em Londres, em Sommerset-House, pelos comissários de Sua Majestade Britânica.

Este documento tinha evidentemente todos os caracteres de autenticidade. Mas a maneira como lhe vinha às mãos era tão singular, que o doutor não pôde deixar de formular em voz alta a admiração que lhe causava. Foi o que fez, mas ainda assim com toda a sua cortesia.

- Há-de permitir-me uma pergunta, só uma pergunta, senhor - disse ao visitante.

- Fale, doutor.

- Porque traz consigo semelhante documento, assim

preparado, e devidamente autenticado, com toda a legalidade?... E para que veio mostrar-mo?

- Se bem sei contar, não é uma, são duas perguntas - observou Tudor Brown.

- Vou já responder a cada uma delas. Trago este documento comigo porque, tendo visto há dois meses os seus anúncios e podendo fornecer ao doutor a informação que deseja, quis dar-lha tão completa e definitiva quanto estivesse nas minhas possibilidades... E mostro-lho porque, vindo aportar a estas paragens a bordo do meu iate, achei natural apresentar-lhe pessoalmente este insignificante papel, para satisfazer a um tempo a minha e a sua curiosidade!

Nada havia a responder a este raciocínio. Por isso também o doutor achegou-se à única conclusão que se poderia inferir dele.

- Está então aqui com o «Albatroz»?. - perguntou-lhe com vivacidade.

- Estou.

- E tem a bordo alguns marinheiros que conhecessem Patrick O'Donoghan?

- Muitos, com certeza.

- Consentir-me-á que os veja?

- Como lhe parecer. Quer vir a bordo já, neste momento?

- Se não acha nisso inconveniente...

- Nenhum - afirmou o estrangeiro, erguendo-se.

O Dr. Schwaryencrona tocou a campainha, mandou vir a bengala, o chapéu, e saiu com Tudor Brown. Em cinco minutos chegaram ao cais onde o «Albatroz» estava amarrado.

Foram recebidos por um velho lobo do mar, de face rubicunda e suíças grisalhas, cuja fisionomia respirava franqueza e lealdade.

- Ward, está aqui um gentleman que deseja ser informado da sorte de Patrick O'Donoghan - disse Tudor Brown para o marinheiro.

- Patrick O'Donoghan! - exclamou o velho. - Deus haja a sua alma!... Bom trabalho nos deu a pescá-lo, no dia em que se afogou, nas alturas da ilha da Madeira! E não sei para quê, porque foi em pouco tempo restituído aos peixes.

- Conhecia-o há muito tempo? - perguntou o doutor.

- Aquele tubarão?... Não, senhor. Talvez há um ou dois anos. Parece-me que foi em Zanzibar que o engajámos! Não é assim, ó Tommy Duff?

- Quem me chama? - perguntou um marinheiro moço, que estava muito ocupado a polir uma bola de cobre no corrimão da escada.

- Aqui! - respondeu o outro. - Não foi em Zanzibar que recrutámos o Patrick O'Donoghan?

- Patrick O'Donoghan? - repetiu o marinheiro, como quem já não tinha recordações muito precisas. - Ah, sim, já me lembro!... O gajeiro que se deixou desandar, caindo às ondas nas alturas da Madeira! Sim, Sr. Ward, foi de Zanzibar que ele veio!

O Dr. Schwaryencrona pediu que lhe descrevessem os sinais de Patrick O'Donoghan e viu que se coadunavam perfeitamente com os que conhecia. Aqueles homens tinham ar de honrados e sinceros e fisionomias francas e ingénuas. É verdade que as respostas que davam, tão uniformes e tão concertadas, eram para causar estranheza, mas também podia ser a consequência natural dos próprios factos. Conheceram Patrick O'Donoghan um ano apenas ou pouco mais, dele tinham simplesmente a recordação dos sinais e da morte, não podiam por isso saber grandes coisas e limitavam-se a contar o que viram. ,' Por outro lado, o «Albatroz» era um barco tão bem aparelhado que, se tivesse alguns canhões, poderia muito bem passar por um navio de guerra. Reinava a bordo o mais rigoroso asseio. Os homens andavam de boa saúde, bem vestidos, admiravelmente disciplinados, porque eles lá estavam todos no seu posto a bordo, quando de um salto poderiam, se quisessem, ir para terra. Enfim, toda aquela harmonia inspirava uma convicção tal que não pôde deixar de actuar irresistivelmente no espírito do doutor.

Declarou-se, pois, inteiramente satisfeito e levou o seu instinto de sacrifício ou de hospitalidade ao ponto de, na retirada, convidar para jantar o Sr. Tudor Brown, que andava de passeio, em todas as direcções, pelo tombadilho, assobiando uma ária só dele conhecida.

Mas o Sr. Tudor Brown não se deu ao incómodo de aceitar o convite, e declinou-o nestes termos corteses:

- Obrigado, não posso... Nunca vou jantar à cidade.

O Dr. Schwaryencrona nada mais tinha a fazer ali, retirou-se, sem que a esquisita personagem levasse ao menos a mão ao chapéu em sinal de cortesia.

Foi logo contar a aventura ao Sr. Bredejord, que o ouviu sem dizer palavra, mas garantindo no seu íntimo proceder por seus próprios meios a uma contraprova.

Quando, porém, nesse mesmo dia quis começá-la em companhia de Erik, a quem tinha contado tudo no seu regresso da escola à refeição do meio-dia, esbarrou numa leve dificuldade. O «Albatroz» despegara de Estocolmo sem declarar para onde saía nem a direcção que tomara.

A única coisa estável em toda esta aventura vinha a ser a certidão de óbito de Patrick O'Donoghan, devidamente autenticada.

Seria de valor sério e real este documento? Para o Sr. Bredejord era caso de muita dúvida, apesar do testemunho do cônsul-geral da Inglaterra em Estocolmo, a quem o documento foi presente, que declarou reconhecer a autenticidade dos selos e assinaturas insertas nele. Também mandou recolher informações a Edimburgo, onde ninguém conhecia Tudor Brown, circunstância esta que o tornava suspeito.

Entretanto, era incontestável, e contra esse facto não poderia vingar qualquer oposição, que ninguém já falava em Patrick O'Donoghan, e os anúncios ficavam sem resposta.

Ora tendo Patrick O'Donoghan desaparecido para sempre, desvanecia-se toda a esperança de chegar-se a desvendar o mistério do nascimento de Erik. O pobre moço era o primeiro a convir nisso e a reconhecer que não tinham base quaisquer novas investigações que se tentassem.

Foi esta a razão por que, no Outono seguinte, não pôs a mínima dificuldade em principiar os estudos de medicina na Universidade de Upsal, segundo os desejos do doutor. Em todo o caso quis, antes de tudo, fazer exame de capitão de longo curso. E este intento só por si manifestava que de forma alguma renunciaria aos seus projectos de viagem.

Não, não podia renunciar. Tomava-lhe o coração outro cuidado, um cuidado acerbo para o qual não achava outro remédio senão a agitação e o movimento das grandes aventuras. Sem que o doutor o suspeitasse, Erik experimentava a necessidade de encontrar um pretexto para abandonar aquela casa, logo que findasse os estudos, e o mais plausível seria com certeza um plano geral de viagem. A causa de semelhante necessidade era a aversão, cada vez mais manifesta, que froken Kajsa, a sobrinha do doutor, não perdia ocasião de lhe demonstrar, e da qual por nada deste mundo ele desejaria que o excelente homem sequer desconfiasse.

Tinham sempre sido bem singulares as relações de Erik com aquela rapariga. A seus olhos, agora, como há sete anos, no dia da chegada a Estocolmo, a linda fadazinha era um modelo de todas as elegâncias e perfeições mundanas. Dedicava-lhe uma admiração sem reserva, e fazia esforços heróicos para ser seu amigo. Mas Kajsa nunca se habituara a ver o «intruso», como ela lhe chamava, como uma pessoa de família, tratado como filho adoptivo pelo doutor e favorito dos três amigos. Os sucessos escolares de Erik, a sua bondade, a doçura do carácter, longe de lhe atraírem graças, eram, ao contrário, novos motivos de inveja. Na verdade, o que ela não podia perdoar àquele rapaz era que fosse simplesmente um pescador e um campónio. Parecia-lhe que esta circunstância deslustrava a casa, e até a fazia descer, a ela, Kajsa, do alto grau a que se comprazia elevar-se na escala social.

Mas ainda foi pior quando lhe veio ao conhecimento que Erik estava ainda abaixo de um campónio - que era enjeitado. Tal facto pareceu-lhe então a um tempo monstruoso e cheio de desonras. Não se encontrava longe de pensar que um enjeitado, na hierarquia dos seres, ainda ficava abaixo do gato e do cão, e manifestava claramente estes sentimentos com olhares soberanamente desdenhosos, com os mais humilhantes silêncios e com as ofensas mais cruéis. Se Erik, por exemplo, era convidado com ela para uma reunião de jovens numa casa amiga, recusava-se redondamente a dançar com ele. À mesa afectava não responder ao que ele dizia, ou então não fazer o menor caso. Em qualquer ocasião, tomava sempre a seu cargo enchê-lo de humilhações.

O pobre Erik adivinhava o motivo deste proceder pouco caridoso. Não podia compreender porque considerava um agravo contra ele não conhecer família nem pátria. Um dia tentou discutir com Kajsa e fazer-lhe compreender a injustiça e a crueldade de semelhante desabono, mas ela nem sequer lhe deu a honra de o ouvir. Enquanto os dois iam crescendo, mais fundo se tornava o abismo que os separava. Aos dezoito anos, Kajsa fizera a sua estreia na sociedade. Era acariciada e adulada como uma boa herdeira, e tais homenagens mais a confirmavam na ideia de que era feita de massa diferente da do comum dos mortais.

Erik, a princípio apoquentado com estes desdéns, chegou afinal a indignar-se e a fazer protestos de triunfar deles. Este sentimento da sua humilhação até concorria em grande parte para o ardor apaixonado que dedicava ao estudo. Tinha veleidade de se exalçar tão alto na estima pública, que todos se vissem um dia obrigados a inclinar-se diante dele. Mas também jurava consigo sair em ocasião oportuna daquela casa, onde cada dia registava uma nova humilhação para si. O que, porém, se tornava indispensável era que o doutor ignorasse os motivos da saída. Era necessário que a atribuísse só à paixão pelas viagens. E eis que Erik falava a cada passo em se inscrever, mal findos os estudos, em alguma expedição científica. E eis aí também a razão por que, ao mesmo tempo que seguia os estudos de medicina em Upsal, se preparava, por meio dos mais severos trabalhos e exercícios, à vida de fadigas e perigos que é o destino fatal dos grandes viajantes.

 

         ESCREVEM-NOS DA "VEGA"...

Era no mês de Dezembro de 1878. Erik entrava nos vinte anos e havia pouco fizera o seu primeiro exame para o doutoramento. Na Suécia científica e no mundo inteiro, se pode dizer, quase a única preocupação era a grande expedição árctica do navegador Nordenskiold. Depois de se ter preparado para a empresa, fazendo muitas viagens às regiões polares, e de ter estudado a fundo todos os dados do problema, Nordenskiold ia tentar, mais uma vez, a descoberta da passagem nordeste do Atlântico ao Pacífico, que, há três séculos para cá, havia zombado dos esforços de todas as navegações marítimas.

O programa desta expedição foi elaborado pelo navegador sueco numa memória magistral, em que expunha os motivos que o levavam a crer praticável na época do Verão a passagem nordeste, e os meios pelos quais esperava conseguir a realização deste desiderato geográfico. A inteligente liberalidade de dois armadores escandinavos e o concurso do Governo sueco forneceram-lhe os elementos para poder organizar a expedição nas condições que julgava necessárias ao êxito da tentativa.

Nordenskiold largara de Tromsoé a bordo da "Vega", em 21 de Julho de 1878, para tentar a passagem do estreito de Béringue pelo norte da Rússia e da Sibéria. O tenente Palanders, da marinha sueca, comandava o navio, a cujo bordo, além do chefe e inspirador da viagem, ia um completo estado-maior de botânicos, geólogos, médicos e astrónomos. A "Vega", especialmente aparelhada para a expedição, consoante os próprios planos de Nordenskiold, era um navio de quinhentas toneladas, recentemente construído em Bremen, e munido de hélice com uma máquina de sessenta cavalos. Para o acompanharem até pontos determinados e sucessivos da costa siberiana iam três barcos com carvão. Tudo estava previsto para uma expedição de dois anos, se fosse mister invernar no caminho. Mas Nordenskiold não ocultava a sua esperança de chegar antes do Outono ao estreito de Béringue, tendo em vista a precisão das medidas que tinha tomado, e toda a Suécia partilhava dessa esperança.

Largando do porto mais setentrional da Noruega, a "Vega" chegou a 29 de Julho à Nova Zembla, no dia 1 de Agosto ao mar de Cara, e em 6 de Agosto à embocadura do Yenisei. A 9 de Agosto dobrou o cabo Tchelynskin ou Nordeste, ponto extremo do velho continente, que nenhum navio até então havia ultrapassado. A 7 de Setembro ancorou na foz do Lena e aí separou-se do seu terceiro barco de carvão. E a 16 de Outubro, um telegrama, levado a Irkutsk por esse mesmo barco, anunciou ao mundo o sucesso da primeira parte da expedição.

Não pode formar-se ideia da impaciência com que os amigos do navegador sueco esperavam os pormenores da viagem. Só nos primeiros dias de Dezembro é que chegaram, porque se a electricidade transpõe as distâncias com a rapidez do pensamento, já assim não sucede com os correios da Sibéria. As cartas da "Vega", lançadas em irkutsk ao mesmo tempo que o telegrama, não gastaram menos de seis semanas a vir a Estocolmo, mas enfim sempre lá chegaram, e no dia 5 de Dezembro um dos jornais suecos de maior formato publicava, a respeito da primeira parte da viagem, uma correspondência devida à pena de um jovem médico adido à expedição.

Nesse mesmo dia, ao almoço, quando o advogado Bredejord se ocupava com vivo interesse em percorrer os pormenores publicados em quatro colunas, pousou-se-lhe a vista num parágrafo que o pôs em sobressalto.

Tornou a lê-lo com atenção, releu-o outra vez, e depois, levantando-se precipitadamente, envergou com rapidez a pelica, atirou-se ao chapéu e, num pulo, achou-se em casa do Dr. Schwaryencrona.

- Leu a correspondência da "Vega"? - exclamou, entrando como um furacão no matsal onde o seu amigo estava para ir almoçar na companhia de Kajsa.

- Comecei apenas a lê-la - respondeu o doutor - e preparava-me para a concluir quando fosse fumar o meu cachimbo.

- Então não viu ainda - tornou o Sr. Bredejord, todo ofegante e sem tomar fôlego -, não viu ainda o conteúdo total da correspondência?

- Não - respondeu o Dr. Schwaryencrona, com inteira placidez.

- Está bem! Ouça isto - exclamou Bredejord, chegando-se à janela. - É o diário de um dos seus colegas, naturalista a bordo da "Vega"... Ouça, ouça:

 

«30 e 31 de Julho. - Entramos no estreito de Jugor e ancoramos defronte de uma aldeia samoieda, chamada Chabarova. Saltamos em terra. Examino alguns indígenas para verificar pelo método de Holmegren a extensão que têm do sentido das cores. Descubro que este sentido é neles normalmente desenvolvido... Compro a um pescador samoiedo dois magníficos salmões...»

 

- Perdão - interrompeu o doutor, sorrindo-se. - Isso é alguma charada? Confesso que não sei o interesse que essas minúcias possam ter.

- Ah! Não vê interesse? - bradou Bredejord, com ares triunfantes. - Está bem, espere aí, já vai ver...

 

«Compro a um pescador samoiedo dois magníficos salmões de espécie não conhecida, que aproveito para a nossa tina de álcool, apesar dos protestos e desgostos do nosso cozinheiro. Incidente: o pescador cai à água no momento em que saía do navio e íamos dar à vela. Tiram-no da água meio asfixiado e entorpecido pelo frio como se fosse uma barra de ferro, e ainda por cima ferido na cabeça. Transportado sem sentidos à enfermaria da "Vega", despido e metido no leito, reconhece-se que o pescador samoiedo é um europeu. Tem cabelo ruivo, nariz achatado em virtude de desastre, e no peito, ao nível do coração, lêem-se-lhe estas palavras, gravadas, por meio de tatuagem, num quadrado: Patrick O'Donoghan, "Cynthia"...»

 

Neste ponto, o Dr. Schwaryencrona soltou um grito de surpresa.

- Espere um pouco - recomendou o Sr. Bredejord -, ouça a continuação.

E prosseguiu a leitura.

 

«Pela acção de fricções enérgicas, voltou a si, mas em semelhante estado é impossível desembarcá-lo. Fica connosco. Tem febre e delírio. Ora aí está no que deram as nossas experiências nos samoiedos acerca do sentido da cor: em coisa nenhuma.

«3 de Agosto. - O pescador de Chabarova está completamente restabelecido das suas fadigas. Parece que ficou admirado de se ver a bordo da "Vega" e em viagem para o cabo Tchelynskin, mas depressa se conformou. Como o conhecimento que tem da língua samoieda nos pode ser útil, resolvemos levá-lo connosco ao longo da costa da Sibéria. Fala inglês com acento nasal, como os ianques. Assevera que veio à Nova Zembla na companhia de pescadores russos e que há doze anos está estabelecido nestas paragens. O nome tatuado no peito é, segundo diz, o de um dos seus amigos de infância, que morreu há já muito tempo. Ele chama-se Johnny Bowles...»

- É com toda a certeza o nosso homem! - exclamou o doutor, sobressaltado por forte comoção.

- Pois pode lá haver alguma dúvida? - respondeu o advogado. - Está aí tudo: o nome, o navio e os sinais. E que de provas superabundantes! Até na escolha do pseudónimo Johnny Bowles, até no cuidado de dizer que Patrick O'Donoghan morreu!

Ambos se ficaram em silêncio, a reflectir nas consequências de tal revelação.

- Como se há-de ir procurar tão longe? - disse afinal o doutor.

- É difícil, na verdade - concordou o Sr. Bredejord. - Mas, enfim, já é muito saber-se que existe e a parte do mundo onde pára! E demais é necessário contarmos com o imprevisto!

Quem sabe se não continuará a permanecer até ao fim a bordo da "Vega", e se não virá em pessoa a Estocolmo para nos dar as explicações que desejamos? E, no caso contrário, poderemos talvez ter mais tarde ou mais cedo ocasião de comunicarmos com ele. Por causa desta empresa de Nordenskiold estou em que as viagens à Nova Zembla hão-de ser daqui por diante mais frequentes. A alguns armadores tenho ouvido que querem enviar navios todos os anos à foz do Yenisei...

Com semelhante tema, a discussão prolongava-se inesgotàvelmente, e ainda os dois amigos estavam emaranhados nela quando Erik chegou de Upsal, às duas horas. Já tinha lido também a grande notícia, e, sem perder um instante, metera-se no trem e regressara. Mas - coisa singular! - não era prazer o que sentia, era sim a inquietação que o dominava.

- Sabem o que receio agora? - disse ao doutor e ao advogado. - É que suceda alguma desgraça à "Vega"... Pensemos bem que hoje são 5 de Dezembro e os chefes da expedição contavam chegar ao estreito de Béringue antes de Outubro!... Se a previsão se tivesse realizado já hoje devíamos sabê-lo, porque então a "Vega" há muito estaria no Japão ou pelo menos em Petropaulowsk, ou nas ilhas Aleútes, ou numa estação do Pacífico, de onde já havia tempo de chegarem notícias!... Ora os despachos de cartas provenientes de Irkutsk têm a data de 7 de Setembro, quer dizer, que há três meses não se sabe o que é feito da "Vega"... Quer dizer mais que o navio não chegou a tempo ao estreito de Béringue... Quer dizer ainda que provavelmente teve a sorte comum de todas as expedições árcticas que há três séculos para cá têm tentado descobrir a passagem nordeste! É a conclusão a que devo chegar!

- A "Vega" talvez se visse forçada a invernar nos gelos, como também estava previsto - objectou o doutor!

- De acordo, mas essa é a hipótese mais favorável, e ainda assim a invernagem em tais condições é cercada de tantos perigos que equivale a um naufrágio. Em todo o caso, há um facto incontestável, ou seja, se houvermos de ter notícias da "Vega", não chegarão antes do próximo Verão.

- E porquê?

- Pela razão de que, se a "Vega" não naufragou, deve estar actualmente encerrada nos gelos, e portanto, supondo o melhor, só poderá safar-se deles em Junho ou julho!

- É verdade - concordou o Sr. Bredejord.

- E desse argumento que conclusão pretendes tirar? - perguntou o doutor, inquieto pela brusca entonação que Erik empregou quando o expôs.

- A conclusão é que julgo ser-me impossível esperar tanto tempo para me desenganar a respeito deste problema, que tem para mim tanta importância!...

- Mas que contas tu fazer? Não podemos deixar de aceitar o inevitável!...

- Excepto se o inevitável é simplesmente aparente - replicou Erik. - Não é verdade que as cartas vieram dos mares árcticos pela via de Irkutsk? Porque não hei-de eu ir pela mesma via?... E colher informações dos habitantes da região se têm ou não ouvido falar de um navio prisioneiro dos gelos naquelas paragens!... Até é muito possível que chegue a encontrar Nordenskiold... e Patrick O'Donoghan!... Aqui está uma empresa que vale bem a pena tentar!

- Em pleno Inverno?

- E porque não? É a estação mais favorável para as viagens de trenó nas latitudes elevadas.

- Sim, mas vejo que te esqueces de que ainda não estás nas latitudes elevadas, e de que, quando chegares, já a Primavera te há-de ter precedido.

- É verdade - admitiu Erik, forçado a reconhecer a força da objecção.

E, fixando os olhos no chão, ficou-se a meditar, absorvido nos seus pensamentos.

- Não importa! - volveu rapidamente. - É preciso ir ao encontro de Nordenskiold e, com ele, de Patrick ODonoghan!... Hei-de consegui-lo, ou deixar de ser quem sou!... Portanto, de momento, o que interessa é comunicar aos jornais de Estocolmo, sob a forma de nota impessoal, o dilema acerca da sorte provável da "Vega", ou soçobrara, ou então estava actualmente aprisionada entre os gelos, concluindo pela necessidade de se marchar à sua procura.

O raciocínio era tão forte e tão universal o interesse pela tentativa de Nordenskiold, que o moço estudante de Upsal devia esperar que a questão fosse discutida nos círculos científicos. A verdade, porém, é que o efeito da nota excedeu a sua expectativa. Todos os jornais sem excepção comentaram e aprovaram a nota. A opinião pública pronunciou-se com uma unanimidade sem exemplo a favor de uma expedição de socorro. Formaram-se comissões, abriram-se subscrições para a preparar. O comércio, a indústria, as escolas, os tribunais de justiça, todas as classes, enfim, quiseram contribuir para a empresa. Um armador rico ofereceu-se para equipar à sua custa um navio que teria de seguir o rasto da "Vega", e ao qual pôs o nome de «Nordenskiold».

O entusiasmo ia aumentando sempre à proporção que decorriam os dias sem que chegassem novas positivas de Nordenskiold. Já nos fins de Dezembro as somas subscritas atingiam uma cifra considerável. No alto das listas de subscrição viam-se os nomes do Dr. Schwaryencrona e do advogado Bredejord, cada um com dez mil kroners. Eles faziam parte da comissão directora, que elegera Erik para secretário.

O nosso estudante era verdadeiramente a grande alma do plano. O seu ardor, a sua modéstia e a competência de que dava provas evidentes em todos os assuntos relativos à empresa, que estudava e sem descanso dirigia, bem cedo lhe atraíram a mais decisiva influência. Desde o princípio dera a conhecer que o seu sonho dourado era fazer parte da expedição, ainda que não fosse senão na qualidade de simples marujo, que tinha nela um interesse pessoal e superior, e isto mesmo dava maior peso a todas as excelentes ideias que sugeria aos organizadores da empresa. Foi assim que pôde vir a dirigir pessoalmente todos os trabalhos preparatórios.

Logo de princípio se revolveu que devia ir adjunto ao «Nordenskiold» outro navio, para que as buscas fossem completas, e que esse devia ser, como a "Vega", movido a vapor. O próprio Nordenskiold tinha demonstrado que o principal motivo de insucesso em todas as tentativas anteriores fora o emprego de navios à vela. Os navegadores árcticos, especialmente em viagens de exploração, têm, de facto, de poder contar com uma velocidade média, e, quando seja necessário, forçar a marcha para vencerem qualquer passagem perigosa, e sobretudo, finalmente, para irem procurar o mar livre onde o houver, à vela, tudo isto é impossível.

Assente este ponto fundamental, foi seguidamente decidido que o navio fosse revestido de madeira de azinheira, de seis polegadas de espessura, e dividido em repartimentos à prova de água - o que o tornaria independente das avarias parciais causadas pelos choques dos gelos, que fosse de diminuta flutuação, que todo o seu aparelhamento se efectuasse de modo que pudesse acomodar uma provisão relativamente considerável de carvão.

De entre as ofertas feitas à comissão recaiu a escolha desta numa escuna acabada de fresco em Bremen, cuja manobra podia muito bem ser feita por uma equipagem de dezoito homens. Esta escuna, a que conservaram a mastreação, foi provida de uma máquina a vapor de oitenta cavalos e de uma hélice colocada de forma que pudesse ser içada a bordo, se os gelos a pusessem em risco. A fornalha de uma das caldeiras foi adaptada para queimar óleos ou gorduras, que facilmente se podem adquirir nas regiões árcticas, se porventura chegasse a faltar o carvão. O casco, protegido pelo revestimento de azinheira, foi assim mesmo reforçado com vigas transversais, para oferecer ainda maior resistência à pressão dos gelos. Finalmente, a proa era couraçada e armada de um quebra-mar de aço para poder cortar caminho na própria massa de gelo, se a espessura desta não fosse maior que o limite da linha de flutuação.

A escuna, comprada e reposta no estaleiro, foi baptizada com o nome de "Alaska", em razão da direcção a que era destinada, porque foi efectivamente decidido que, como o «Nordenskiold» tinha de seguir a própria esteira da "Vega", era conveniente que o outro navio seguisse a rota oposta, para entrar no mar siberiano pela península de Alaska e estreito de Béringue. Ficavam assim duplicadas as probabilidades de se encontrar a expedição sueca, se estivesse em perigo, ou os seus vestígios, se houvesse perecido, porque, enquanto um dos navios a seguia pela retaguarda, o outro saía-lhe, por assim dizer, ao encontro.

Erik, que fora o autor desta ideia, muitas vezes se sentia perplexo a qual das duas marchas daria preferência, mas afinal decidira-se pela segunda.

«O "Nordenskiold"», pensou, «vai seguir o roteiro da "Vega" e então é-lhe indispensável ser tão feliz como ela na primeira parte da sua viagem, isto é, chegar a dobrar o cabo Tchelynskin, e nada nos leva a crer que chegará tão longe, porque esse resultado apenas uma única vez se alcançou! Por outro lado, segundo as últimas notícias, a "Vega" estava distante do estreito de Béringue apenas umas duzentas ou trezentas léguas. Se formos por este caminho é que vejo todas as probabilidades de lhe sair ao encontro. Pode bem suceder que o "Nordenskiold" a siga muitos meses sem a descobrir, e isto no caso mais favorável. Os que forem em sentido inverso não poderão deixar de a encontrar, se ainda existe, porque vai a navegar ao longo da costa da Sibéria.»

Ora, no pensar de Erik, o grande sucesso era encontrar a "Vega" quanto mais depressa melhor, a fim de falar com Patrick O'Donoghan também o mais breve possível.

O doutor e o Sr. Bredejord aprovaram plenamente estas razões quando Erik lhas expôs.

Entretanto, os trabalhos de aparelhamento do "Alaska" prosseguiam com afã: os abastecimentos, os víveres, os vestuários arranjados consoante os princípios consagrados pela experiência, e a equipagem composta de marinheiros escolhidos, refractários ao frio pelas tempestades da pesca na Islândia ou na Gronelândia. E, enfim, o comandante, nomeado pela comissão, era um oficial da marinha sueca, presentemente ao serviço de uma companhia marítima, e bem conhecido por suas viagens nos mares árcticos, o tenente Marsilas.

O imediato tinha de ser o próprio Erik, lembrado para este posto pela energia de que dera provas no serviço da empresa e, demais, qualificado pela sua carta de capitão de longo curso, para segundo e terceiro oficiais foram escolhidos dois homens do mar experimentados, os Srs. Bosewitz e Kjellquist.

O "Alaska" levava matérias explosivas para fazer, sendo necessário, saltar os gelos, e abundantes provisões antiescorbúticas, para lutar contra as moléstias árcticas. Ia, além disso, munido de um calorífero, a fim de, em todas as latitudes, conservar uma temperatura quente e regular, e provido de um observatório chamado «ninho-de-corvo», que, na região dos gelos flutuantes, é içado no topo do mastro grande, para dar conta da aproximação dos icebergues. Por proposta de Erik, neste observatório foi colocado um potente foco de luz eléctrica alimentado pela própria máquina do navio, o qual de noite serviria para alumiar a marcha do "Alaska". Foram igualmente embarcados sete escaleres auxiliares, dos quais dois baleeiros e um cúter a vapor, seis trenós, um jogo de schnee-shuhe, ou esquis para a neve, para cada um dos homens da equipagem, e ainda quatro canhões «Gattling», trinta espingardas de repetição e as necessárias munições.

Os preparativos iam quase no fim quando maaster Hersebom e seu filho Otto, que chegaram de Noroé com o seu grande cão "Klaas", solicitaram o favor de servirem como marinheiros a bordo do "Alaska". Maaster Hersebom punha em relevo a sua experiência das paragens gronelandesas e a utilidade de que podia servir o seu cão "Klaas" como chefe de fila no transporte dos trenós. Otto apenas podia alegar a sua robusta saúde, força hercúlea e dedicação a toda a prova. Devido ao empenho do doutor e do Sr. Bredejord, a comissão aceitou-os.

No princípio de Fevereiro de 1879 tudo estava pronto. O "Alaska" tinha cinco meses inteiros para poder estar no estreito de Béringue no fim de Junho, época esta que se julgava a mais favorável para a exploração. Ia, além disso, marchar pela via mais directa, isto é, pelo Mediterrâneo, canal do Suez, oceano Índico e mares da China, tocando sucessivamente, para tomar carvão, em Gibraltar, Adem, Colombo de Ceilão, Singapura, Hong-Kong, Iocoama e Petropaulowsk.

De todas estas estações, o "Alaska" devia telegrafar para Estocolmo, e ficou naturalmente combinado também que se, no intervalo, houvesse notícias da "vega", não deixariam de o participar ao navio.

A viagem do "Alaska" com destino a uma expedição árctica ia assim começar pelo trânsito através dos mares tropicais e ao longo dos continentes mais favorecidos pelo sol. O programa não fora traçado para recreio, era sim o resultado de uma imperiosa necessidade, pois convinha chegar ao estreito de Béringue pelo caminho mais curto, estando sempre em comunicação telegráfica com Estocolmo até ao último instante.

Uma dificuldade grave ameaçava, todavia, a partida. Tanto se tinha despendido com o armamento do navio, que havia risco de que os fundos restantes não fossem de mais para os gastos indispensáveis da expedição. De facto, era necessário contar-se com compras consideráveis de carvão e com várias outras despesas. Houve de recorrer-se a nova emissão de fundos. Mas na ocasião em que foi anunciada, a comissão ficou surpreendida com a recepção, ao mesmo tempo, de duas cartas registadas.

Uma era do Sr. Malarius, professor público em Noroé, laureado da Sociedade de Botânica. Continha uma nota de cem kroners e o pedido para ser adjunto à expedição do "Alaska" na qualidade de naturalista auxiliar.

A outra continha um cheque de vinte e cinco mil kroners com esta nota lacónica:

«Para a viagem do "Alaska". Da parte de Tudor Brown, com a condição de ser admitido como passageiro.»

 

         PASSAGEIROS INESPERADOS.

Não podia deixar de ser acolhida com benevolência pela comissão directora a petição do Sr. Malarius, em virtude da comovente ideia que a caracterizava. Foi, pois, votada com entusiasmo, e o digno professor, cuja reputação como botânico era ainda maior do que supunha, foi nomeado naturalista auxiliar da expedição.

Pelo que respeitava à condição imposta por Tudor Brown acerca da entrada em caixa dos seus vinte e cinco mil kroners, o Dr. Schwaryencrona e o Sr. Bredejord a princípio tiveram veleidades de combatê-la. É claro, porém, que tinham de expor os motivos da sua repugnância, e aí é que estava a dificuldade. Que razão haviam de alegar perante a comissão para fundamentar o pedido de rejeição de tão importante entrada? Valiosa não a tinham. Tudor Brown viera, é certo, trazer ao Dr. Schwaryencrona a certidão de óbito de Patrick O'Donoghan, e agora havia todas as suspeitas de que Patrick O'Donoghan existia. Mas, onde estava a prova de má fé de Tudor Brown neste assunto? Naturalmente e com justa razão devia ser esta a pergunta da comissão antes de rejeitar uma soma que a livrava de dificuldades. Demais, Tudor Brown podia muito bem sustentar que fora sincero. O passo que dava agora era uma prova. E talvez que o seu fim fosse unicamente ir também em pessoa verificar como podia ser que Patrick O'donoghan, que supunha mergulhado para sempre nas alturas da Madeira, aparecesse agora vivo nas costas da Sibéria. Ainda que Tudor Brown tivesse porventura outros projectos, podia realmente ter interesse em o vigiar, em o conhecer bem, e em o ter debaixo das suas vistas. Porque, em suma, o dilema era este: ou não queria intrometer-se nas indagações de que havia tanto tempo se ocupavam os amigos de Erik, e então era escusado tratá-lo como adversário, ou, ao contrário, tinha interesse pessoal neste negócio tão obscuro, e, em tal caso, melhor era mil vezes vê-lo em acção, para poderem combatê-lo de frente.

O doutor e o Sr. Bredejord, pensando assim, começaram por não pôr obstáculos ao embarque do sujeito. Depois, sentiram-se gradualmente dominados do desejo de estudarem por si aquele homem singular e de saberem porque queria passagem a bordo do "Alaska". Mas como o haviam de conseguir se não embarcassem também? A ideia nem por isso era absurda, vamos lá! O itinerário do "Alaska", pelo menos a primeira parte, era bem sedutor. Nem se passou muito tempo sem que o Dr. Schwaryencrona, grande amador de viagens, pedisse também passagem, ainda que fosse unicamente para acompanhar a expedição até aos mares da China, mediante a paga que a comissão entendesse.

O seu exemplo actuou com força no Sr. Bredejord, que havia muito meditava numa excursão aos países do sol. Deliberou-se, pois, a solicitar também um camarote com iguais condições.

Todo Estocolmo julgou então que o professor Hochstedt ia imitá-los, não só por curiosidade científica, como também pelo terror de passar longos meses sem a companhia dos seus amigos. O professor, vivamente tentado a partir, como era de crer, pôs-se a pensar nos prós e contras a ponto de ser-lhe impossível adoptar qualquer decisão. Sabem o que fez para livrar-se de mais dúvidas? Jogou a viagem a cruzes e cunhos, e a sorte ordenou-lhe que ficasse.

A partida foi irrevogàvelmente determinada para 10 de Fevereiro. A 9, Erik esperava o Sr. Malarius. Ficou agradavelmente surpreendido vendo também chegar a Sr.a Katrina e Vanda, que vieram de propósito para dizer-lhe adeus. Elas foram hospedar-se numa modesta hospedaria da cidade, mas o doutor exigiu que viessem para sua casa, com grande desgosto de Kajsa, que não achava que fossem hóspedes de grande distinção.

Vanda agora era já uma elegante rapariga, cuja beleza primitiva cumprira bem todas as suas promessas. Havia pouco, tinha completado em Bergen exames muito difíceis, que a habilitavam para um curso de professora em qualquer escola superior. Preferia, porém, permanecer em Noroé com a mãe, e ia substituir o Sr. Malarius, na sua ausência. Sem ter perdido a seriedade e a meiguice, devia à sólida instrução que recebera um encanto extraordinário e profundamente original, que nem por isso lhe fez mudar a simplicidade dos seus costumes caseiros. Notável e inesperado era ver-se uma formosa rapariga, com o seu pitoresco traje norueguês, dar singelamente a sua opinião nas mais altas questões científicas, ou sentar-se ao piano e tocar com talento consumado uma sonata de Beethoven. E ainda mais lhe aumentava o encanto a ausência de pretensões e a perfeita naturalidade das suas maneiras. Não procurava encarecer-se, nem se mostrava mais vaidosa dos seus talentos que envergonhada dos sapatos de fivela que usava. Desabrochava na sua graça natural, como a flor selvagem colhida à borda do fiorde e cultivada pelo velho mestre no jardim que verdeja por detrás da escola.

À noite, em reunião íntima, juntou-se no locutório toda a família adoptiva de Erik. Bredejord e o doutor jogaram a última partida de whist com o professor Hochstedt. Viu-se então que o Sr. Malarius era de primeira força neste nobre jogo, o que dava esperanças de se passarem bem os ócios a bordo do "Alaska". Infelizmente, o digno professor logo declarou que era muito sujeito ao enjoo, e provavelmente teria de estar quase sempre deitado, uma vez que pusesse pés no navio. O que o decidira a embarcar fora tanto a sua afeição por Erik como também a ambição, que sempre acariciara no decurso de uma laboriosa existência, de acrescentar algumas novas variedades às famílias botânicas já catalogadas.

Depois do whist, a música. Kajsa, com ares desdenhosos, tocou uma valsa da moda. Vanda cantou uma antiga melodia escandinava com uma voz admiravelmente extensa e firme. Serviu-se em seguida o chá e bebeu-se uma grande taça de ponche ao bom êxito da expedição. Erik notou que Kajsa fingia não querer pegar no copo.

- Não deseja, então, que façamos uma viagem feliz? - perguntou-lhe a meia voz.

- De que serve desejar-se o que não se espera? - respondeu ela.

 

No dia seguinte, ao romper do dia, estava toda a gente a bordo, com excepção de Tudor Brown. Desde a remessa da carta registada, não dera mais sinais de vida.

A partida fora designada para as dez horas. À primeira badalada, o comandante Marsilas mandou levantar ferro e tocar a sineta de partida, para advertir os visitantes de que deviam recolher a terra.

- Adeus, Erik! - exclamou Vanda, enlaçando-lhe o pescoço com os braços.

- Adeus, querido filho! - disse Katrina, apertando o jovem imediato de encontro ao coração.

- Menina Kajsa, não me diz nada? - perguntou Erik, dirigindo-se a ela, como para também a abraçar.

- Desejo-lhe que não gele o nariz e que possa descobrir que é um príncipe disfarçado! - replicou, rindo-se impertinentemente.

- E, se assim for, poderei ganhar um dia ao menos um bocadinho da sua amizade? - volveu Erik, pretendendo dissimular com um sorriso a amargura do seu coração, que tal sarcasmo lhe estava a causar.

- Ainda o duvida? - respondeu Kajsa, voltando-lhe as costas e dirigindo-se ao tio, para dar assim a entender que estavam findas as despedidas.

E nada mais.

As advertências da sineta de bordo cada vez eram mais imperiosas. A multidão dos visitantes acumulava-se na escada, onde no fim dela estavam os botes para os recolherem. No meio desta confusão ninguém reparou num passageiro tardio, que subiu à coberta de mala na mão.

O passageiro era Tudor Brown. Apresentou-se ao capitão e reclamou o seu camarote, que imediatamente foi posto ao seu dispor.

Um minuto depois, a máquina silvou uns assobios estridentes e prolongados, a hélice começou a funcionar, viu-se uma fervura de espuma a clarear as águas de popa, e o "Alaska", cortando majestosamente as águas verdes do Báltico, saiu de Estocolmo por entre as aclamações da multidão, que agitava chapéus e lenços.

Erik, de pé em cima da ponte, comandava a manobra. O Sr. Bredejord e o doutor, debruçados sobre os fileretes de bombordo, enviavam o último adeus a Kajsa e a Vanda, que ficavam no cais. O Sr. Malarius, já horrivelmente enjoado, fora-se estender em cima da camilha. Comovidos como todos estavam com a saudade da separação, nem uns nem outros repararam na chegada de Tudor Brown. Por isso, o doutor não pôde reprimir um movimento de surpresa quando, ao dar uma volta, o viu surgir das profundezas do navio e caminhar direito a ele, com as mãos nas algibeiras, vestido como lhe aparecera na sua primeira e única conferência e com o chapéu invariavelmente pregado na cabeça.

- Bom tempo - disse Tudor Brown, com ares de cumprimento e de intróito.

O doutor ficou estupefacto com esta petulância. Ainda esperou alguns momentos que o celebérrimo sujeito tentasse ao menos uma desculpa e desse qualquer explicação do seu proceder. Vendo que não se saía, rompeu o fogo.

- Então que me diz, senhor, parece que Patrick O'Donoghan não está tão morto como se contava? - exclamou, com a sua vivacidade habitual.

- É precisamente o que vamos tratar de saber - redarguiu o estrangeiro, com uma pachorra imperturbável -, e é para ficar com opinião assente a esse respeito que quis tomar parte na viagem.

E, dizendo isto, Tudor Brown voltou as costas ao doutor, e, julgando a explicação perfeitamente satisfatória, pôs-se a passear a passos largos pela coberta, assobiando a sua área favorita.

Erik e o Sr. Bredejord tinham seguido este rápido colóquio com uma curiosidade bem natural. Era completamente nova para ambos a pessoa de Tudor Brown, razão por que a estudavam atentamente, com mais atenção ainda que a dispensada pelo doutor. Afigurou-se-lhes que o estrangeiro, se bem que afectasse indiferença, lançava de tempos a tempos para o lado onde eles estavam certos olhares fugidios, como a ver a impressão que produzia. Por isso, mesmo sem combinação, fingiram imediatamente não lhe ligarem importância. Mas não tardou que fossem todos três conferenciar no salão para onde se abriam as portas dos camarotes.

Que fim teria em vista este Tudor Brown tratando de propalar e confirmar a morte de Patrick O'Donoghan? E, partindo agora no "Alaska", que intento era o seu? Impossível adivinhar-se, havia, porém, todos os motivos para suspeitar de que tal procedimento devia prender-se pouco mais ou menos com a história do "Cynthia" e da "criança da bóia". De facto, o interesse de Erik e dos seus amigos pela pessoa de Patrick O'Donoghan baseava-se no conhecimento provável que ele devia ter dos factos, e só por causa dessas informações é que tinham o maior desejo de descobrir o irlandês. Ora, estava ali na presença deles um homem que, sem o mínimo convite, lhes comunicara a notícia da morte de Patrick O'Donoghan. E esse homem vinha agora impor-se àquela expedição de pesquisa, no momento em que a sua declaração fora desmentida da maneira mais imprevista possível.

A conclusão necessária era que em tudo isto havia um certo interesse pessoal, e o próprio facto da conferência com o Dr. Schwaryencrona indicava a conexão desse interesse com as indagações promovidas pelo doutor.

Tudo assim parecia demonstrar que, no problema do "Cynthia", era Tudor Brown um elemento pelo menos tão importante como o próprio Patrick O'Donoghan. Quem sabe até se já estava de posse do segredo que se ia tentar descobrir? E, se assim fosse, deveriam felicitar-se de o levarem a bordo, ou, pelo contrário, sentir-se inquietos com a presença dele?

O Sr. Bredejord inclinava-se a esta última opinião e achava a presença e a figura daquele homem muito pouco tranquilizadora. O doutor foi de parecer diverso: alegava que Tudor Brown podia muito bem andar de boa fé e, sob aparências excêntricas, ocultar um fundo de honradez.

Erik, esse, nem sequer ousava exprimir o sentimento que o aspecto do figurão lhe tinha despertado. Era mais que repulsão - era ódio-, era um desejo instintivo de se precipitar sobre ele e atirá-lo ao mar. Impunha-se-lhe a convicção irresistível de que aquele homem tomava parte activa na infelicidade do seu viver. Teve, porém, vergonha de se dar a semelhante prevenção. Contentou-se, pois, com dizer que, se tivesse voto na comissão, Tudor Brown nunca seria admitido a bordo.

Qual o procedimento a haver com ele? A tal respeito, também se dividiram as opiniões. O doutor entendia que seria diplomático tratar-se Tudor Brown com benevolência, a ver se assim podiam resolvê-lo a dar à língua. Tanto Bredejord como Erik sentiam invencível repugnância em representar este papel, e, em suma, não era bem certo que o próprio Schwaryencrona tivesse forças para conformar-se com o seu programa. Decidiram por fim deixar a Tudor Brown e às circunstâncias regular o futuro procedimento com ele.

Não houve que esperar muito. Ao bater o meio-dia, tocou o sino para almoçar. O Sr. Bredejord e o doutor abancaram à mesa do comandante. Mas antes deles já Tudor Brown lá se instalara, sempre com o chapéu enterrado na cabeça e sem manifestar qualquer intenção de travar relações com os vizinhos. O homem era na realidade de uma grosseria que desarmava a indignação. Parecia que ignorava os mais simples rudimentos do bom-toque. Era o primeiro que se servia, escolhia para si os melhores bocados, comia e bebia como um lobo. Por duas ou três vezes tanto o comandante como o Dr. Schwaryencrona lhe dirigiram a palavra, a que não se dignou responder, ou então não respondia senão por gestos, o que não obstou a que, no fim do jantar, enquanto esgaravatava os dentes à vontade com um palito gigantesco e se estendia pela cadeira fora, se dirigisse desta forma ao comandante Marsilas:

- Em que dia chegaremos a Gibraltar?

- Conto que a 19 ou 20 - respondeu o capitão. Tudor Brown tirou do bolso uma carteira de apontamentos e consultou o calendário.

- Nesse caso, podemos estar em Malta a 22, a 25 em Alexandria, e no fim do mês em Adem - replicou, como falando consigo.

E, sem mais palavra, subiu à coberta e pôs-se a passear pelo tombadilho.

- Sim, senhores - não pôde deixar de notar o Sr. Marsilas -, a comissão impingiu-nos um belo companheiro!

O Sr. Bredejord ia replicar, quando lhe cortou a palavra um alarido enorme, que retumbou no cimo da escada. Eram gritos e vozes confusas de envolta com o ladrar dos cães. Todos se levantaram e correram à coberta.

"Klaas", o cãozarrão gronelandês de maaster Hersebom, foi quem causou a baralha. Parece que a figura de Tudor Brown nem por isso lhe agradou, porque, depois de lhe ter dado a conhecer a sua hostilidade, rosnando surdamente quando o via passar e repassar ao pé, arremeteu-lhe por fim às pernas sem mais cerimónias. Tudor Brown sacou logo de um revólver e dispunha-se a usá-lo contra o cão, quando Otto interveio a tempo para impedir o desforço e meter o cão no respectivo canil. Levantou-se então discussão em que ninguém se entendia. Tudor Brown, pálido de cólera ou de susto, queria à viva força meter uma bala na cabeça do cão. Maaster Hersebom, que acudiu neste meio tempo, protestava calorosamente contra tal projecto. Felizmente, o comandante apareceu a propósito para impor sossego, pedindo a Tudor Brown que guardasse o revólver, e ordenando que "Klaas" desde então ficasse preso à cadeia.

Este ridículo incidente foi o único que ocorreu nos primeiros dias de viagem. Pouco a pouco todos se foram habituando ao mutismo e extravagantes modos de Tudor Brown. À mesa do comandante, chegaram por fim a ocupar-se tanto dele como se não existisse.

Cada qual criou para si usos e distracções próprias. O Sr. Malarius, tendo passado dois dias na cama, principiou a comer e em breve se pôs em termos de fazer uma perna nas intermináveis partidas de whist do doutor e do Sr. Bredejord. Erik, todo ocupado no serviço, se alguns momentos tinha de folga, empregava-os na leitura. A navegação do "Alaska" seguia o seu curso normal e regular.

A 11 passou-se a ilha de Oland, a 12 atravessou-se o Sund, atingiu-se SkagerRack a 13, avistou-se Heligoland a 14, fez-se a travessia do Pas-de-Calais a 15, e dobrou-se a 16 o cabo de La Hague.

Pelo meio da noite seguinte, Erik dormia no seu camarote, quando foi despertado no silêncio que reinava a bordo: não se ouvia a trepidação da hélice. Não havia razão para se inquietar. Era Kjellquist quem estava de quarto, mas por curiosidade sempre se levantou para colher informações.

Soube então, pelo que lhe expôs o primeiro-maquinista, que se tinha torcido o primeiro tirante da bomba de circulação, o que dera como resultado a necessidade de se apagarem as caldeiras. Naquela ocasião o "Alaska" navegava à vela com brisa muito fraca de sudoeste.

A inspecção levou muito tempo, sem que fosse possível esclarecer-se a causa da avaria. O maquinista pediu que se arribasse ao porto mais próximo para a reparar.

O comandante Marsilas, depois de ter ido examinar pessoalmente, adoptou aquela opinião. Como o "Alaska" singrava a umas trinta milhas de Brest, deu ordem para aproar a este grande porto francês.

 

         ENCOSTADOS A SUDOESTE.

Na manhã seguinte o "Alaska" entrou no porto de Brest. A avaria, felizmente, não era importante. Um engenheiro, chamado imediatamente, garantiu que o conserto poderia ficar pronto em três dias. Era uma demora de pouca monta, que se ia compensar de alguma forma a meter carvão, e assim era escusado tocar em Gibraltar, como a princípio fora resolvido. Ficava, pois, sendo Malta a próxima estação de arribada, o que dava um ganho de vinte e quatro horas, e assim reduzia-se o atraso a dois dias.

Ora, o itinerário do "Alaska" concedia, para qualquer eventualidade, trinta dias pelo menos, não havia portanto razão para inquietações, e todos se dispuseram a sofrer o contratempo o mais filosoficamente possível.

Mas o melhor foi que o contratempo se transformou em festa. Em poucas horas correu pela cidade a notícia da chegada do "Alaska", e como pelos jornais eram sabidos os fins da viagem, em breve o estado-maior do navio sueco foi alvo das mais lisonjeiras atenções. O almirante-prefeito marítimo e o maire de Brest, o comandante do porto e os dos navios no ancoradouro foram oficialmente visitar o capitão Marsilas. Deu-se um jantar e um baile em honra dos arrojados exploradores que iam à procura de Nordenskiold. Apesar da pouca inclinação que o doutor e o Sr. Malarius tinham por semelhantes reuniões públicas, forçoso lhes foi comparecer à mesa. O Sr. Bredejord, esse estava no seu verdadeiro elemento.

Entre os convidados pelo prefeito para honrarem o estado-maior do "Alaska" via-se um respeitável ancião de fisionomia fina e melancólica. Erik, que lera no olhar um tanto triste deste velho uma irresistível simpatia, logo reparou nele. Era o Sr. Durrieu, cônsul-geral honorário, membro militante da Sociedade de Geografia, bem conhecido pelas suas viagens na Ásia Menor e no Soldão, cuja descrição Erik havia lido com vivíssimo interesse. Quando apresentado ao sábio francês, falou-lhe delas como homem competente. O certo é que nem sempre os viajantes conseguem alcançar uma satisfação tão completa, por muito legítima que seja. Pode suceder que, quando as aventuras são muito faladas, haja por eles da parte da multidão uma admiração banal, mas o que poucas vezes lhes acontece é verem os seus trabalhos apreciados nas salas por juizes bem informados. Foi por isso que a respeitosa curiosidade do moço marinheiro achou o caminho do coração do venerando geógrafo e lhe atraiu um sorriso aos descorados lábios.

- Não tive grande mérito nessas descobertas - afirmou em resposta a algumas palavras de Erik em relação às felizes escavações havia pouco levadas a efeito nas cercanias de Assuão. - Caminhei directamente para a frente, como quem procura esquecer cruéis desgostos, sem se importar com os resultados, contanto que se entregue a trabalhos de seu gosto. O resto foi devido a simples acaso...

Vendo Erik e o Sr. Durrieu tão bons amigos, o almirante teve o cuidado de lhes dar lugar na mesa ao lado um do outro, e desta forma puderam continuar a conversação, que se prolongou todo o tempo do jantar.

Ao café, o imediato do "Alaska" foi cumprimentado por um homem baixinho e calvo, que lhe foi apresentado sob o nome de Dr. Kergaridec, o qual sem mais cerimónias lhe perguntou qual era o seu país natal. Erik, a princípio admirado da pergunta, respondeu que era sueco, ou para falar mais propriamente, que era norueguês, e sua família vivia no Governo de Bergen. E em seguida desejou saber o motivo da pergunta.

- O motivo é muito simples - respondeu o seu interlocutor. - Há uma hora, durante o jantar, que o estou a observar, e nunca vi em parte nenhuma um exemplar céltico mais característico!... Porque é mister que lhe diga que me dedico muito aos estudos célticos!... Pois, sim, senhor, declaro-lhe que é a primeira vez que vejo num homem da Escandinávia o tipo céltico! Ora eis aí uma preciosa indicação para a ciência e já agora torna-se necessário classificar a Noruega entre os países visitados pelos nossos antepassados gaêls!

Erik ia, sem dúvida, explicar ao sábio de Brest as razões que destruíam o valor da hipótese, quando o Dr. Kergaridec se afastou para dirigir os seus cumprimentos a uma dama que entrava então nas salas do prefeito marítimo. A conversação não teve, por isso, seguimento, nem dela se lembraria talvez o moço imediato do "Alaska" se na manhã seguinte o Dr. Schwaryencrona, com quem passeava por uma rua vizinha do mercado, lhe não dissesse, apontando para um vaqueiro do Morbihan:

- Querido filho, se algumas dúvidas pudesse ter ainda acerca da tua origem céltica, acabavam-se agora de vez! Repara como os bretões se parecem contigo!... Olha como têm a mesma cor mate, crânio ósseo, olhos escuros, cabelos pretos, e até em geral as tuas maneiras!... Bredejord pode dizer o que quiser, cá por mim assevero e afirmo que és um celta de pura raça!

Erik contou-lhe então o que na véspera lhe estivera a dizer o Dr. Kergaridec, e o Dr. Schwaryencrona ficou tão contente que não falou noutra coisa todo o dia.

Tudor Brown recebeu e aceitou o convite do prefeito marítimo, como os outros passageiros do "Alaska". Até a princípio se julgou que ia lá com o seu traje habitual, porque foi assim que desembarcou à própria hora do jantar, mas por certo achou muito dura a necessidade de ter de despregar o chapéu da cabeça porque, no momento em que ia a entrar em casa do seu hóspede, houve por bem mudar de resolução. Ninguém mais o viu em toda a noite.

Regressando ao navio, depois de ter no baile dançado muito e bem, Erik soube por Hersebom que Tudor Brown tinha recolhido às sete horas e jantado só. Depois foi ao camarote do comandante consultar uma carta marítima e em seguida, eram oito horas, tornou a embarcar no bote em direcção a terra.

Foram as últimas notícias que dele houve.

No dia seguinte, às cinco horas da tarde, ainda não tinha reaparecido. E todavia era de crer que soubesse que as reparações da máquina estavam concluídas, acesas as caldeiras, e que não podia tardar a partida do "Alaska"... O comandante tivera o cuidado de prevenir a todos, e por isso mandou levantar ferro.

O navio largava já os cabos quando, dos lados do cais, se viu chegar um bote a grande velocidade. Todos julgavam que era Tudor Brown, mas, em breve, do bote deram a entender que traziam uma carta, vendo-se, com geral surpresa, que era dirigida a Erik.

Abriu-a e viu que continha simplesmente um bilhete de visita do Sr. Durrieu, cônsul-geral honorário, membro da Sociedade de Geografia, com estas palavras, escritas a lápis:

Boa viagem!... Pronto regresso!...

Quem puder que explique o que se passou na alma de Erik. Chegou-lhe ao coração esta delicadeza de um sábio amável e distinto e fez-lhe chegar as lágrimas aos olhos. Ao abandonar aquela terra hospitaleira, que conhecia apenas havia três dias, parecia-lhe que saía propriamente da sua pátria. Guardou na carteira o bilhete do Sr. Durrieu, dizendo consigo que este adeus do respeitável ancião lhe daria felicidade.

Dois minutos depois, o "Alaska" pôs-se em movimento, dirigindo-se para a saída do porto. Ultrapassou-a às seis horas, despedindo-se então o piloto com desejos de boa viagem.

Era o dia 20 de Fevereiro. O tempo estava límpido. O Sol desaparecia na linha do horizonte, tão desanuviado como em dia de Verão. Mas principiava a noite, que daí a pouco devia ser profundamente escura, porque a Lua nascia só lá para essas dez horas. Erik, de serviço no primeiro quarto, passeava ligeiramente pelo castelo de popa. Parecia-lhe que com Tudor Brown tinha desaparecido o génio mau da expedição.

«Contanto que lhe não dê na cabeça ir-nos esperar a Malta ou a Suez», pensou.

E, com efeito, era bem possível - provável até - que Tudor Brown se quisesse poupar à grande volta que o "Alaska" tinha de dar até ao Egipto. Enquanto o navio contornava a França, Portugal e a Espanha, podia, se assim quisesse, ir passar uma semana em Paris, ou noutro qualquer ponto do trajecto por terra, e depois ir ao encontro do "Alaska" pela Mala das índias, em Alexandria ou mesmo em Adem, em Colombo de Ceilão, em Singapura ou em Iocoama.

Mas, enfim, tudo isto não passava de uma possibilidade. A realidade do presente era que ele não ia ali, e isso era o bastante para pôr toda a gente de bom humor, e tanto que o jantar, às seis horas e meia, a hora do costume, foi o mais cordial que até então houvera. À sobremesa, bebeu-se ao bom êxito da expedição, que cada qual associava num pensamento íntimo, mais ou menos claramente, à ausência de Tudor Brown.

Era profunda a noite. Ao longe, para o norte, avistava-se o farol do cabo Saint-Mathieu, o das Pedras Negras, e o de Ouessant. Ao sul ficava para trás a grande luz fixa do Bec- du-Raz e o grande foco intermitente, de eclipse, de Tevennec. Era sinal de boa derrota começar-se a divisar a pequena luz fixa da fraga do Bec-du-Raz, que apenas alumia dois sectores, um de 41 graus e outro de 30 para oeste. A flanco do "Alaska", por bombordo, brilhava também o foco da ilha de Sein, com luz de relâmpago, intermitente, que se sucede de quatro em quatro segundos, precedidos e seguidos de eclipse. Uma fresca brisa de nordeste acelerava a marcha do navio, encostando-se sobre a alheta de bombordo. Oscilava pouco por isso mesmo, apesar de o mar ser de muita vaga.

Quando os passageiros saíram da sala de jantar para a coberta, estava o homem de serviço à popa a deitar a barquinha.

- Dez nós e um quarto - disse ao comandante, que se aproximara para ver o resultado da operação.

- Bela marcha - observou o doutor. - Bom era que durasse assim uns cinquenta ou sessenta dias!

- É verdade - concordou o comandante -, e, nesse caso, pouco carvão havíamos de queimar até ao estreito de Béringue.

E, tendo falado deste modo, deixou o doutor e desceu à câmara, onde se pôs a procurar num grande compartimento, aberto por baixo dos barómetros e cronómetros de bordo, uma carta assente em pano, que desenrolou em cima da sua papeleira, à viva luz de um enorme candeeiro Carcel, suspenso do tecto. Era uma carta do Almirantado britânico, que indicava todas as particularidades da região marítima chamada armoricana, que na ocasião presente o "Alaska" ia percorrendo, entre o grau 47 e o grau 49 de latitude norte e o grau 4 e o grau 5 de longitude oeste de Greenwich. A carta tinha de superfície perto de um metro quadrado. As costas, as ilhas, as luzes fixas e de rotação, os bancos de areia, as profundidades e até as direcções a seguir, tudo lá estava minuciosamente marcado. Com semelhante carta e uma bússola, era de crer que uma criança pudesse guiar qualquer navio, por mais gigantesco que fosse, por estas paragens, aliás tão perigosas, onde outrora um distinto oficial da marinha francesa, o tenente Mage, o explorador do Níger, veio perder-se, vida e haveres, com todos os seus companheiros da «Magicienne», em seguida ao «Sane» e a tantos outros navios.

Quis o acaso que o comandante Marsilas nunca tivesse navegado nestas águas. Se não houvesse sobrevindo a necessidade de arribar a Brest, teria passado muito de largo. Mas vendo-se forçado a entrar nelas, só se podia fiar na carta para bem guiar a marcha. Assim mesmo, a coisa parecia bem simples. Se deixasse à esquerda a Ponta-du-Van, o Bec-du-Raz e a ilha de Sein, moradia lendária das sacerdotisas druidas, quase sempre velada pela poeira das vagas gemebundas, não tinha mais que correr directamente para oeste, e virar ao sul quando se apanhasse ao largo.

A fixa luz da ilha indicava claramente a sua posição, e, segundo a carta, a menos de um quarto de milha a oeste do farol, a ilha rematava a pique em rochas elevadas, rodeada de mar livre com profundezas que rapidamente atingiam cem metros. Como esta indicação era tão preciosa em noite tão escura, o comandante, depois de minucioso exame da carta, decidiu-se a passar por aquele ponto, mais perto do que decerto o teria talvez feito em pleno dia, a três ou quatro milhas ao largo. Neste intuito, subiu à coberta, observou ligeiramente o estado do mar e mandou a Erik que encostasse vinte e cinco graus a sudoeste.

Esta ordem deu que pensar ao moço imediato.

- A sudoeste? - perguntou respeitosamente, julgando ter ouvido mal.

- A sudoeste, sim, foi o que eu disse - repetiu um tanto secamente o comandante. - Não será do seu gosto esta direcção?

- Visto que mo pergunta, comandante, dir-lhe-ei francamente que não. Preferia navegar mais algum tempo para oeste.

- Não sei para quê!... Só se for para perdermos mais uma noite!

O tom com que o comandante falava não admitia réplica. Erik foi dar as ordens tais quais as recebera. Em todo o caso, o seu chefe era um marinheiro experimentado, em que se podia depositar plena confiança.

Ainda que ligeira, mesmo assim a mudança de direcção modificou consideràvelmente a andadura do navio. O "Alaska" começou a oscilar fortemente, e, a cada guinada, furava as ondas com a proa. Agora, em redor dele, sentia-se um burburinho confuso de vagas pequeninas com coroas brancas. A barquinha indicava catorze nós, e como a brisa tinha tendências para refrescar ainda mais, Erik julgou prudente mandar colher dois rizes.

O doutor e o Sr. Bredejord, assaltados por súbito enjoo, tiveram de se retirar para o camarote. O comandante, que esteve alguns minutos a passear ao longo da coberta, imitou-os por fim.

Tinha apenas recolhido à câmara quando Erik lhe apareceu, dizendo-lhe:

- Comandante, agora mesmo ouvi a bombordo uns sussurros suspeitos! Parecem-me ondas a quebrar-se de encontro a rochedos!... Julgo-me conscienciosamente obrigado a dizer-lhe que, segundo creio, vamos a seguir um rumo perigoso!...

- Decididamente, vejo que é de uma insistência que bem se parece com teima! - exclamou o comandante. - Que perigo se pode temer, ficando-nos esta luz a três boas milhas de distância, se não quatro?

E com dedo impaciente mostrava na carta, sempre desdobrada em cima da secretária, a ilha de Sein, que se erguia como sentinela avançada na ponta extrema da costa bretã.

Erik seguiu com os olhos a direcção do dedo. Viu claramente que, de facto, nenhum perigo estava indicado nas proximidades da ilha, de ribas verticais e rodeada de águas profundas. Aos olhos de um marinheiro era a coisa mais tranquilizadora e decisiva possível. Logo, não passava de pura ilusão os tais sussurros das ondas a quebrarem-se, que tinha percebido à esquerda, isto é, a sotavento, e por conseguinte a pouca distância.

Coisa estranha, que nem a si próprio Erik ousava confessar! Parecia-lhe que nos perfis das costas que tinha à vista, desenhados na carta, não reconhecia a imagem sinistra e pérfida que a sua memória conservava destas paragens, tais como as vira nos tratados de geografia. E então para que havia de opor uma impressão fugidia, uma lembrança vaga, a um facto tão terminante e rigoroso como era uma carta do Almirantado britânico?... Erik não se atreveu a tanto. As cartas são feitas precisamente para garantir os navegantes contra os erros e ilusões da memória. Saudou o seu chefe e subiu à coberta.

Ainda não tinha posto os pés na ponte quando retumbaram estes gritos:

- Recifes por estibordo! -logo seguidos destoutros: - Recifes por bombordo!...

Ouviu-se logo um apito, acompanhado de muitos passos indistintos e confusos, uma série de manobras efectuadas uma após outras.

O "Alaska" retardou a marcha e principiou a recuar... O comandante precipitou-se para a escada.

Neste momento sentiu um rumor surdo, igual ao que faz um trenó roçando por cima da neve. De repente, um choque terrível derrubou-o de costas e fez estremecer todo o navio, desde a quilha à ponta dos mastros. Depois o silêncio, e o "Alaska" imobilizou-se.

Ficara entalado como uma cunha entre dois rochedos submarinos.

O comandante Marsilas, com a cabeça ensanguentada pela queda, levantou-se para subir à coberta. Reinava lá indescritível confusão.

Os marinheiros, loucos, desesperados, precipitavam-se desordenadamente para as chalupas. As vagas despedaçavam-se com estrépito sobre este novo escolho, que lhes opunha o navio naufragado.

Os dois olhos luminosos de Tevennec e da ilha de Sein, abertos para o "Alaska" com fixidez implacável, parecia que o estavam a repreender por se haver arremessado para cima dos perigos, que eles tinham a função de indicar. De pé na ponte e inclinando-se a estibordo, Erik procurava medir toda a extensão do desastre.

- Finalmente, o que sucedeu, senhor? - gritou-lhe o comandante, ainda atordoado da queda.

- O que sucedeu? Sucedeu que, encostando-nos a sudoeste, conforme as suas ordens, viemos cair precisamente no meio dos recifes! - replicou Erik.

O comandante Marsilas não disse uma única palavra. E, também, o que havia de dizer?... Voltou as costas e dirigiu-se para a escada.

Era trágica a situação, na realidade, mas, coisa notável, não se afigurava imediatamente perigosa. A imobilidade do navio, a presença dos dois faróis, a vizinhança da terra, como o demonstravam os próprios recifes, entre os quais o "Alaska" se tinha encaixado como uma alavanca, tudo concorria para se julgar aquela catástrofe mais um sucesso triste que aterrador.

Quanto a Erik, via no facto só uma coisa: a expedição comprometida desde já e perdida a ocasião de encontrar Patrick O'Donoghan!...

Deixara escapar aquelas expressões um tanto fortes, ditadas pela amargura do seu coração, mas o mesmo foi dizê-las que arrepender-se logo. Saiu, pois, da ponte para descer à coberta e procurar o seu chefe, com a generosa intenção de o reconfortar, se fosse possível.

Mas o comandante desaparecera, e tinham apenas decorrido uns três minutos quando na câmara estrondeou a detonação de um tiro.

Erik deitou a correr para lá. A porta estava fechada por dentro. Arrombou-a com um pontapé.

Deu com o comandante Marsilas estirado no meio do chão, com a cabeça despedaçada e um revólver na mão direita.

Como viu o navio perdido por sua culpa, deu um tiro na cabeça.

A morte foi instantânea. O doutor e o Sr. Bredejord, que correram atrás de Erik, puderam apenas verificar o óbito.

Não era altura de vãs lamentações. Erik, deixando aos seus amigos o cuidado de levantarem o cadáver e de o depositarem no leito, foi cumprir o dever de voltar à coberta e tratar da salvação da equipagem.

Quando passava por diante do camarote do Sr. Malarius, o excelente homem, despertado pela imobilidade do navio, ou pelo tiro do revólver, abriu a porta e passou para fora a cabeça branca, coberta com o infalível barrete de seda preta.

Desde Brest tinha vindo sempre a dormir e não dera fé de coisa nenhuma.

- Que é isso? Que é? Que há? - perguntou com a sua habitual serenidade.

- O que há? - respondeu Erik. - Há, meu querido mestre, o "Alaska" que deu à costa, e o suicídio do comandante.

- Oh! - exclamou o Sr. Malarius, no cúmulo da surpresa. - Mas então, filho, adeus expedição!

- Isso, querido mestre, ainda havemos de ver - replicou Erik. - Não morri por ora, e, enquanto me restar um sopro de vida, hei-de dizer sempre: Para a frente!

 

         O BAIXIO-FRIO.

O"Alaska" caíra sobre as rochas com tal violência, que lá ficara como encastoado e na mais completa imobilidade. Não obstante, tudo levava a crer que a equipagem não estava em situação imediatamente crítica. As ondas, é certo, encontrando aquele obstáculo fora do costume, rolavam-se à vontade por cima dele, lambendo a coberta de cima a baixo e arremessando as pequeninas gotas nevoentas até à ponta dos mastros, mas como o mar não estava muito picado, também não era instante o perigo. Se o tempo não mudasse, podia-se contar que chegariam até de manhã sem receio de novo desastre.

Erik conheceu tudo isto de um simples relance. Na sua qualidade de primeiro-oficial, tomou naturalmente o comando, e, depois de ter dado ordens de fechar com o maior cuidado as portinholas e escotilhas e de mandar lançar por cima de todas as aberturas encerados alcatroados para o caso de o mar se embravecer, desceu ao porão na companhia do carpinteiro. Aí verificou, com extrema satisfação, que não se abrira qualquer veio de água.

O revestimento exterior do "Alaska" protegera evidentemente o casco interno, e a precaução que se tinha tomado para modificar o embate dos gelos polares servira eficazmente para proteger o navio contra os recifes armoricanos.

É verdade que a máquina a vapor, desconsertada pelo terrível choque, deixara repentinamente de funcionar, mas não se deu a explosão e não havia a deplorar qualquer avaria de importância vital. Erik resolveu esperar pela manhã para desembarcar a gente se fosse necessário.

Limitou-se pois a mandar dar tiros de peça a pedir socorro à ilha de Sein e arriar a chalupa a vapor para a enviar com avisos a Lorient.

- Em parte nenhuma - dizia, com razão - poderemos encontrar meios de salvação tão prontos e eficazes como neste grande arsenal marítimo da França Ocidental!

E assim, à hora trágica em que a bordo se julgava tudo perdido sem remédio, só para ele surgia de novo a luz da esperança. Era uma daquelas almas intrépidas que não conhecem o desalento e nunca se confessam vencidas.

«Se for possível desentalar o "Alaska"», pensava, «veremos então quem dirá a última palavra!»

Mas não era ainda ocasião de expressar esta esperança, porque os mais sem dúvida a julgariam quimérica. Só disse, na volta da visita ao porão, que por enquanto tudo estava regular e havia tempo de sobra para esperarem por socorro.

Depois ordenou uma distribuição de chá com rum por toda a tripulação. Nada mais era mister para pôr de bom humor todas aquelas crianças grandes. A chalupa a vapor foi arriada ao mar com todo o entusiasmo.

Quando estavam a acabar este serviço, partiram do farol de Sein alguns foguetes, sinal de auxílio ao navio naufragado.

No meio do escuro da noite apareceram daí a pouco umas luzes vermelhas, que passaram a barlavento do "Alaska". Ouviram-se vozes a chamar, às quais responderam do navio, sabendo-se então que o local do naufrágio era o Baixio-Frio, do molhe de Sein.

Decorreu uma boa hora antes que o bote de socorro pudesse atracar, tão forte era a ressaca e perigosa a operação. Mas, afinal, os seis homens que o tripulavam conseguiram deitar a mão a um calabrote e içar-se por ele a bordo do "Alaska".

Eram seis fortes pescadores de Sein, grandes e intrépidos valentões, que já tinham dado provas em iguais actos de salvamento.

Aprovaram plenamente a ideia de pedir-se socorro a Lorient, porque o pequeno porto da ilha não podia prestar a necessária assistência.

Ficou assente que dois deles partiriam na chalupa a vapor com maaster Hersebom e Otto, logo que a Lua despontasse acima do horizonte. Enquanto esperavam, deram algumas informações sobre o teatro do naufrágio.

O molhe de Sein é um baixio em forma de bico, que parte da ilha de Sein para oeste, e prolonga-se a nove milhas de distância da costa. Divide-se em duas partes: a Ponta de Sein e o Baixio-Frio.

A Ponta de Sein tem quatro milhas de comprimento e milha e meia de largo, pouco mais ou menos. Compõe-se de uma série de recifes, assaz elevados, que constituem uma cordilheira por cima das águas.

O Baixio-Frio continua a Ponta de Sein pelo mar fora em cinco milhas de comprimento e dois terços de milha em largura média, apresenta igualmente grandíssimo número de recifes, que na maré alta não se elevam muito acima das águas, e na maré baixa só se descobre uma pequena parte.

Os principais são Cornegen, Schomeur, Cornocar-Goulet, Bas-Vent, Madiou e Armen. Porque estão à vista, são também menos temíveis. O número e a irregularidade das pontas submarinas, ainda incompletamente conhecidas, a extrema violência do mar no banco de areia, as correntes que o varrem em todos os sentidos, tornam perigosíssimo o acesso deste ponto e por consequência frequentes os naufrágios.

Foi por isso que se construíram os faróis da ilha de Sein e do Bec-du-Raz, de modo a poderem alumiar e indicar o alinhamento do molhe, que assim é fácil ser reconhecido e evitado pelas embarcações que vêm de oeste. Mas continuou a ser tão perigoso para as que vêm do sul, que, de há muito, se pensava em estabelecer uma luz na ponta. Infelizmente, não há nesta extremidade ilhote ou rocha que possa aguentar qualquer construção, e não era fácil colocar ali farol flutuante por causa da violência do mar.

O único recurso foi levantar o farol na rocha de Armen, situada a três milhas da ponta extrema, e assim mesmo efectuaram-se os trabalhos não sem grandíssimas dificuldades, porque, havendo-se começado este farol em 1876, ainda em 1879 apenas tinha chegado a meia altura, isto é, a treze metros acima da flor das águas.

Conta-se que alguns anos houve em que apenas se pôde trabalhar na construção oito horas, ainda que os operários lá estivessem constantemente a espreitar o momento favorável.

Ora é bem de ver que na ocasião da catástrofe do "Alaska", este farol só existia em projecto, o que ainda assim não podia explicar como o navio, ao desamarrar de Brest, veio logo cair em semelhante perigo. Erik prometeu a si mesmo aprofundar o caso depois da partida da chalupa a vapor.

Em breve surgiu a Lua e a chalupa seguiu para o seu destino. O moço comandante resolveu então que ficasse só na coberta a maruja de quarto e que o resto fosse descansar, como de costume. Em seguida desceu à câmara de honra.

Os Srs. Bredejord, Malarius e o doutor velavam junto ao cadáver. Levantaram-se quando viram entrar Erik.

- Meu pobre filho, diz-nos afinal como foi este drama e como sucedeu tudo isto! - pediu o doutor.

- É inexplicável - respondeu o moço comandante, inclinando-se sobre a carta, ainda desdobrada em cima da secretária. - Eu instintivamente senti que não íamos em boa direcção, e assim o disse. Mas, segundo julgámos, eu e todos os mais, estávamos a três milhas pelo menos a oeste desta luz, pouco mais ou menos aqui - acrescentou, mostrando um certo ponto na carta -, e venham ver, nenhum perigo está indicado neste sítio: nem banco de areia, nem recifes!... Só a cor carregada, a que representa as grandes profundidades!... É inconcebível!... O que se passa é absurdo como um pesadelo!

- Não teria havido erro na posição? Não podia, por exemplo, ter sucedido que não a calculassem bem e que tomassem assim uma luz por outra? - sugeriu Bredejord.

- O que diz é quase impossível num trajecto tão curto como o nosso, desde a saída de Brest! - disse Erik. - Veja bem que nunca chegámos a perder a terra de vista, que marchámos sempre de um a outro sinal! Seria preciso supor que não se acendeu uma das luzes apontadas na carta, ou que houve colocação de uma nova luz suplementar, numa palavra, o inverosímil!... Sem contar que tudo isto nada explicava, porque a nossa marcha foi tão regular e a barquinha tão cuidadosamente deitada, que, por assim dizer, o erro é inadmissível! Podemos dar, a menos de quinhentos metros de diferença, o gráfico da nossa direcção. O termo dele corresponde exactamente à posição que a observação actualmente nos assinala com respeito ao farol da ilha de Sein! E, contudo, a verdade é que caímos sobre o recife, quando, em vista da carta, devíamos estar a trezentos metros de água!...

- Mas como acabará esta situação? Isso é que é preciso saber-se! - exclamou o doutor.

- Vê-lo-emos em breve - respondeu Erik -, se as autoridades marítimas se não demorarem em nos vir prestar socorro. Presentemente, só nos resta esperar, e o melhor que temos a fazer, na ocasião actual, é irmo-nos deitar sossegadamente, como se estivéssemos ancorados na mais segura baía!

O moço comandante não quis acrescentar que reservava para si o cuidado de velar pelos outros, enquanto os seus amigos se entregassem ao sono. Foi o que fez toda a noite, ora passeando pela coberta e verificando se os homens de quarto cumpriam o seu dever, ora descendo alguns minutos ao salão.

Ao despontar do dia teve a satisfação de observar que a brisa diminuíra sensivelmente e com ela o vagalhão. A maré estava no mínimo da baixa e ia em pouco tempo deixar o "Alaska" em seco, o que lhe dava esperanças de verificar prontamente toda a extensão do desastre, e, com efeito, às sete horas da manhã, foi-lhe possível proceder a esse exame.

O navio estava cravado nos dentes das rochas que saíam do banco de areia. Três dessas pontas penetraram na bordagem exterior na ocasião do naufrágio, e assim o conservaram em pé, como servindo-lhe de espeques.

A direcção destes espeques, inclinados para o norte, isto é, em sentido contrário à marcha do "Alaska", explicava porque ele parou de repente, sem que fosse precipitar-se mais além, por cima dos recifes. A ordem suprema, comandada por Erik, tinha também contribuído para que o choque fosse menos terrível. O navio fez manobra e recuou alguns segundos antes de tocar, e veio cair sobre o recife apenas com o resto de velocidade adquirida e com a força da corrente, a não ser assim, decerto se teria despedaçado em mil bocados. Além disso, tendo-se a brisa e as ondas mantido toda a noite em igual sentido, ajudaram a conservar o "Alaska" na mesma situação, em vez de o empurrarem para cima das rochas, o que por certo sucederia se o vento tivesse mudado. Em suma, não podia dar-se maior felicidade em desastre de tal ordem. Do que, porém, se necessitava quanto antes era de desencravar o navio, antes que algum salto de vento viesse modificar tão favoráveis circunstâncias.

Erik resolveu não perder um minuto. Logo depois do almoço, pôs toda a equipagem ao trabalho, a fim de alargar, a grandes machadadas, os três furos principais feitos na bordagem exterior pelas agulhas dos recifes. Se um rebocador, vindo de Lorient, chegasse a tempo e a horas, era muito possível, na maré alta, safar o "Alaska" quase sem esforço. Cheio de impaciência, como é de crer, o moço comandante espreitava no horizonte, a ver se divisava algum penacho de fumo.

Tudo correu à medida dos desejos. O tempo era de perfeita calmaria, quanto se podia esperar. Ao meio-dia apareceu nas águas do "Alaska" um aviso, seguido de perto por um rebocador. O aviso era comandado por um tenente de marinha, que cortesmente veio oferecer-se ao serviço dos náufragos.

Erik e o estado-maior do navio sueco vieram recebê-lo ao portaló, como é de uso, e depois desceram ao salão.

- Não me pode explicar - perguntou o tenente a Erik - como vieram cair no molhe de Sein, à saída de Brest?

- A carta lho explicará. Ela não menciona neste sítio qualquer perigo!

O oficial francês examinou, primeiro com curiosidade, e depois com pasmo, o traçado geográfico que lhe apresentaram.

- E é verdade: não está aqui marcado o Baixio-Frio... nem a Ponta de Sein!... - exclamou. - É uma negligência inaudita!... Esperem!... Ao nível da ilha a cor azul das grandes profundidades!... Um perfil vertical!... A posição do farol, essa mesma dada com inexactidão!... Vou de surpresa em surpresa! E a carta é efectivamente do Almirantado britânico!... Mas, como carta má, é única!... Parece que estiveram a fazê-la de propósito errónea, mentirosa e pérfida!... Os navegadores de outras eras compraziam-se em pregar aos seus rivais estas peças de mau gosto, mas nunca pensei que a Inglaterra ainda conservasse hoje semelhantes tradições!

- É capaz de afirmar com certeza que foi a Inglaterra? - perguntou o Sr. Bredejord, com a sua voz aflautada. - Pois eu tenho cá outra suspeita, e é que a carta pode muito bem ser obra de um falsário, e posta por mão criminosa no escritório do "Alaska"...

- Foi Tudor Brown! - bradou Erik impetuosamente.

- Na noite do jantar em casa do prefeito de Brest... quando se introduziu na câmara de honra com pretexto de consultar uma carta!... Oh! Que infame!... Aí está a razão por que não tornou para bordo!...

- Parece-me evidente! - apoiou o Dr. Schwaryencrona. - E, contudo, só um refinadíssimo celerado seria capaz de tão negra acção!... Mas com que fim?...

- E com que fim foi a Estocolmo, expressamente para comunicar-lhe a morte de Patrick O'Donoghan? - interrompeu o Sr. Bredejord. - Com que fim se subscreveu com vinte e cinco mil kroners para a viagem do "Alaska", quando ela já estava resolvida?... Com que fim embarcou em nossa companhia para nos abandonar quando chegámos a Brest?... Verdade, verdade, só um cego é que não vê na concatenação destes factos um plano tão lógico como horrível! Que interesse pode ter Tudor Brown em tudo isto? Ignoro. Mas deve ser bem grave, bem medonho, para não recuar diante de semelhantes meios a fim de embaraçar os nossos esforços! Agora estou convencido de que foi ele o causador da nossa arribada a Brest e quem nos conduziu, como pela mão, ao escolho onde devíamos encontrar a morte!

- Parece contudo difícil que pudesse ter adivinhado a direcção que o capitão devia escolher - objectou cortesmente o Sr. Malarius.

- Quer saber porquê? É porque a direcção estava naturalmente indicada pela falsificação feita na carta. Tendo-se demorado três dias em Brest, era natural que o comandante Marsilas quisesse readquirir o tempo perdido, seguindo o caminho mais curto! Julgando que havia mar livre na costa de Sein e dirigindo-se para o sul, era de apostar-se nove contra dez em como ia em direitura lançar-se no molhe.

- É verdade - disse Erik -, mas a prova de que o processo era ainda assim bastante incerto, é eu ter insistido com o comandante para que seguíssemos por mais tempo o rumo de oeste.

- E quem lhe diz que não haverá cartas já preparadas com erros noutras paragens, para o caso de podermos escapar ao Baixio-Frio?

- É fácil verificar - replicou Erik, indo buscar outras cartas parciais ao escritório de bordo.

A primeira que abriu era a da Corunha, e, de um relance, o oficial francês notou nela dois ou três erros graves. Outra era a do cabo de São Vicente, o mesmo. Outra era de Gibraltar. Nesta as indicações falsas saltavam logo aos olhos. Mais amplo exame seria supérfluo, todas as dúvidas se desvaneciam. Se o naufrágio do "Alaska" não ocorresse no molhe de Sein, havia forçosamente de dar-se antes de chegar a Malta!

Quanto ao processo empregado para preparar os atentados, foi fácil descobri-lo por meio de um exame atento. As cartas eram efectivamente do Almirantado inglês, mas em certas partes foram lavadas por um processo químico e retocadas de forma que davam indicações falsas no meio das verdadeiras. Apesar de os retoques serem feitos habilmente, a prevenção em que todos estavam deu-lhes a conhecer leves diferenças de tinta e cor. Finalmente, outra circunstância não deixava a mínima dúvida acerca da premeditação do culpado: as cartas de que o "Alaska" se fornecera tinham o selo do Ministério da Marinha sueca, e as que foram intrometidas na colecção não tinham selo. O falsário julgara que para mandar à morte os seus inimigos não precisava daquela formalidade.

Estas sucessivas descobertas causaram a maior consternação em todos os que assistiram ao exame. Erik foi quem primeiro rompeu o silêncio em que ficaram depois da discussão.

- Pobre comandante Marsilas! - disse, muito comovido. - Pagou por nós todos!... Mas visto que escapámos, quase por milagre, à sorte que nos estava reservada, tratemos de não confiar meramente no acaso!... A maré enche e não tardará muito que possamos fazer uma tentativa para safar o "Alaska"!... Meus senhores, se lhes parece, vamos deitar-nos ao trabalho sem demora!

Falava com singela autoridade, com a dignidade modesta que o sentimento da responsabilidade já lhe inspirava. Ver-se em tão curta idade investido do comando de um navio, em tais circunstâncias e no começo de uma expedição tão arriscada, era por certo uma aventura das mais inesperadas. Mas na véspera tivera a certeza de estar à altura da gravidade dos seus deveres, sabia que podia contar consigo e com a sua equipagem, e esta ideia transfigurava-o. A criança de ontem era hoje um homem perfeito. Brilhava-lhe nos olhos a chama dos heróis. O predomínio impunha-se invencivelmente a todos os que o rodeavam, sem mesmo a ele escaparem o Sr. Bredejord e o doutor.

A operação, preparada pelos trabalhos efectuados de manhã, foi ainda mais fácil do que se esperava. O navio, erguido pela maré alta, parece que estava a pedir que o destacassem das pontas das rochas que o aprisionavam. Bastou que o rebocador se pusesse em marcha e exercesse tracção sobre a amarração da ré, para que, com rangidos de madeira que se arrasta e de bordagem que se despedaça, o navio se despegasse da terrível prisão, e de repente se visse no seu elemento natural, entorpecido, é certo, em virtude da água que penetrara nos seus compartimentos interiores, privado do auxílio da hélice, sem máquina, que estava inerte e silenciosa, mas, em suma, ainda capaz de governar-se, obedecendo ao leme, e de navegar, sendo preciso, com os seus dois cutelos e a gávea.

Toda a equipagem, reunida na coberta, seguia com a comoção natural em tais lances as peripécias do esforço decisivo, e com um hurra saudou a libertação do "Alaska". O aviso francês e o rebocador corresponderam aos gritos de alegria com outros iguais. Eram três horas da tarde. Um belo sol de Fevereiro, já próximo do horizonte, derramava a sua luz por sobre o mar tranquilo e cintilante, que àquela hora ia cobrindo as areias e recifes do Baixio-Frio, como para apagar até a própria recordação daqueles dramas nocturnos.

Nessa mesma noite ficou o "Alaska" em segurança no porto de Lorient. Logo pela manhã, as autoridades marítimas, com perfeita amabilidade, autorizaram a entrada do navio na doca seca de Caudan. As avarias do casco não eram de gravidade. As da máquina, essas sim, eram mais complicadas, mas não sem remédio. Noutra qualquer localidade com certeza levaria longo tempo a reparação. Mas, como Erik o tinha previsto, talvez em parte nenhuma do Mundo se encontrassem, de um para outro dia, os preciosos recursos que lhe ofereciam os estaleiros de construções navais, forjas e oficinas de fundição de Lorient. A casa Gamard, Norris & C.a ajustou em fazer todas as reparações em três semanas. Era a 23 de Fevereiro, podiam assim contar que se poriam em marcha a 13 de Março, e desta vez com cartas marítimas verdadeiras.

O transtorno deixava três meses e meio livres para chegarem ao estreito de Béringue. O intento nada tinha de impossível. Erik nem sequer admitia a ideia de que se abandonasse. A única coisa que receava era ver-se constrangido a dar tal passo, e foi esse o motivo por que se recusou a remeter para Estocolmo um relatório acerca do naufrágio, com medo que de lá viesse ordem de retroceder, de dar queixa judicial contra o suposto autor do atentado, e de assim ficar retardada a viagem pela instrução criminal.

Quem sabe, porém, se a impunidade iria afoitar Tudor Brown a semear novos obstáculos no rumo do "Alaska"? Era no que falavam o Sr. Bredejord e o doutor, nas ocasiões em que costumavam jogar o whist com o Sr. Malarius na sala do hotel onde se tinham hospedado à chegada a Lorient.

No pensar do Sr. Bredejord, a questão nem sequer merecia as honras da dúvida. Um patifão da classe do tal Tudor Brown, desde que conhecesse que o atentado se gorara, e decerto havia de vir a sabê-lo, não recuaria diante de outros meios para renová-lo. Era pois uma perfeita ilusão - mais do que isso, era demência - crer-se que se havia de chegar um dia ou outro ao estreito de Béringue. O Sr. Bredejord não calculava de que meios Tudor Brown lançaria mão para obstar a esse facto, mas estava convicto de que havia de empregar os suficientes. O Dr. Schwaryencrona inclinava-se a pensar do mesmo modo e o Sr. Malarius também não alimentava grandes esperanças. Desta forma o desânimo presidia sempre às partidas de whist, e por isso não eram mais alegres os passeios que os três amigos davam pelos arredores da cidade. Agora a única ocupação deles era tomarem conta dos trabalhos da construção do mausoléu em honra do comandante Marsilas, em cujo funeral todo Lorient tomara parte. E a vista do fúnebre monumento não era de jeito para dissipar as ideias tristes dos sobreviventes do "Alaska".

Bastava porém que estivessem com Erik para de novo lhes voltar a esperança. A resolução deste moço era tão inabalável, a actividade que desenvolvia tão firme, mostrava tão rija vontade de ir ao encontro de todos os obstáculos, fossem quais fossem, com a certeza de os vencer, que era impossível manifestarem, e até conservarem intimamente sentimentos menos heróicos que os dele.

E contudo outro facto veio demonstrar que Tudor Brown continuava no seu programa já assente. A 14 de Março, à noite, Erik viu os trabalhos de reparação da máquina quase acabados.

Restava apenas consertar uma bomba, o que devia estar concluído na manhã seguinte. À hora aprazada, o trabalho estaria completo. Ora na noite de 14 para 15, o corpo da bomba desapareceu das oficinas dos Srs. Gamard, Norris & C.a, e foi impossível tornar a encontrá-lo. Como se perpetrara este roubo? Quem foi o seu autor? Impossível saber-se, apesar de minucioso inquérito.

A verdade é que foram precisos mais de dez dias para vencer este contratempo, o que retardava a partida do "Alaska" até 25 de Março.

Muito mais que o naufrágio - coisa singular! - causou este incidente grande impressão no espírito de Erik. Com razão viu no caso a prova evidente de uma vontade teimosa de impedir a viagem do "Alaska". Mas essa evidência redobrou nele ainda mais, se possível foi, o ardente desejo de a levar a bom fim.

Erik empregou os dez dias de demora a examinar o assunto sob todas as faces. Quanto mais o estudava, mais adquiria a convicção de que era certo o insucesso, quando não houvesse ainda por cima algum irreparável desastre, se tratasse de chegar ao estreito de Béringue em três meses, por um rumo que Tudor Brown já conhecia, e isto quando o "Alaska" ainda estava em Lorient, quarenta dias depois de desamarrar de Estocolmo.

Esta conclusão não lhe fez vacilar o ânimo, levou-o sim a pensar que era indispensável modificar o plano original. Guardou-se, porém, de o comunicar a pessoa alguma, julgando com razão que o segredo é a primeira condição da vitória. Limitou-se, apenas, a vigiar com mais atenção que nunca os trabalhos da reparação.

Mas os seus companheiros julgaram notar que ele tinha agora muito menos pressa de partir. Daí concluíram que julgava irrealizável a empresa, como, no seu pensar, eles a julgavam também.

Ora nisso é que se enganavam redondamente.

A 25 de Março, ao meio-dia, o "Alaska" saiu da doca, desceu o porto e fez-se ao largo.

 

         O CAMINHO MAIS CURTO.

Tinham já desaparecido no horizonte as costas da França, quando Erik convocou ao salão os seus amigos e conselheiros para uma comunicação de gravidade.

- Reflecti muito - disse-lhes - nas circunstâncias que assinalaram a nossa viagem desde o dia em que deixámos Estocolmo. Daí tirei uma conclusão fatal, ou seja, devemos esperar que na continuação ainda tenhamos obstáculos e contratempos. Esse homem, que ousou arrastar-nos à morte no Baixio-Frio, não se dará naturalmente por vencido!... Talvez que a esta hora esteja já a espreitar-nos em Gibraltar, em Malta, ou noutra parte... Se não chegar a conseguir a nossa perda, é quase certo, pelo menos, que empenhará todos os esforços para nos retardar... Não poderemos, pois, chegar ao estreito de Béringue no Estio, que é a única estação em que o oceano Glacial é navegável.

- É essa também a minha conclusão - afirmou o Sr. Bredejord. - Guardava-a para mim, porque não era justo que te roubassem a última esperança, querido filho. Mas agora digo-te com franqueza que devemos renunciar, porque não é possível vencermos em três meses a distância que nos separa do estreito de Béringue.

- É também a minha opinião - corroborou o doutor. O Sr. Malarius acenou com a cabeça, indicando que

participava de igual parecer.

- Muito bem - volveu Erik -, assente este caso, que resolução deveremos então adoptar?

- Só vejo uma razoável e em conformidade com o dever - tornou o Sr. Bredejord. - É renunciarmos a uma empresa que reputamos irrealizável e regressarmos a Estocolmo. Vejo que a compreendeste, meu filho, e felicito-te, em nome de nós todos, por teres a força de encarar esta necessidade impreterível.

- Eis um cumprimento que não posso aceitar - declarou Erik, sorrindo-se -, porque de forma alguma o mereço. Não! Não penso por nada deste Mundo em renunciar à empresa, e estou muito longe de a reputar irrealizável!... Julgo simplesmente que, para ir a bom fim, preciso é desmanchar as combinações do celerado que nos está a espiar e, para tal intento, a primeira medida será mudarmos inteiramente de itinerário.

- A mudança de itinerário - replicou o doutor -, o mais que poderá dar é uma complicação de dificuldades, visto que tínhamos já adoptado o mais directo. Se, como está assente entre nós, é agora muito difícil chegarmos em três meses ao estreito de Béringue pelo Mediterrâneo e canal de Suez, seria absolutamente impossível pela via do cabo da Boa Esperança ou do cabo Horn, por qualquer delas não gastaríamos menos de cinco ou seis meses.

- Ainda há outra que abreviaria a viagem em vez de a alongar, e onde ficaríamos seguros de não encontrar Tudor Brown - disse Erik, sem se impressionar com a objecção do doutor.

- Outra? - replicou este. - Dou-te a minha palavra que não a conheço. Só se queres falar da via de Panamá!... Mas essa ainda não é praticável para navios, nem o será ainda daqui a muitos anos!

- Não quero referir-me a Panamá, nem ao cabo Horn, nem ao da Boa Esperança - retorquiu o comandante do "Alaska". - A direcção de que quero falar, a única por onde poderemos chegar em três meses ao estreito de Béringue, é o oceano Glacial, a passagem do noroeste.

E vendo os seus companheiros estupefactos ante esta conclusão inesperada, Erik passou a desenvolvê-la.

- A passagem do noroeste nos nossos dias já não é o que era noutro tempo: o espanto e o tormento dos navegadores. É uma via intermitente, por isso mesmo que em cada ano só é acessível oito a dez semanas, mas na actualidade é perfeitamente conhecida, traçada em cartas excelentes e frequentada por centenas de navios baleeiros. É certo que é pouco usada pelos navios que vão do Atlântico ao Pacífico, de acordo. A maior parte dos que abordam de um e outro lado só parcialmente a percorrem. Pode até acontecer, se as circunstâncias não forem favoráveis, que permaneça fechada diante de nós ou que não a achemos aberta precisamente à hora em que tenhamos necessidade de a passar. É uma carta que se joga!... Mas sempre direi que há muitas razões para esperarmos bom êxito por esta via, enquanto pelas outras não há nenhuma. E, sendo assim, o nosso dever, o mandato que nos foi imposto pelos nossos subscritores, o que a nós mesmos impusemos, é lançarmos mão do único meio que nos resta de chegar a tempo ao estreito de Béringue. Um navio vulgar, aparelhado só para a navegação nos mares tropicais, poderia hesitar em frente desta necessidade. Mas o nosso, o "Alaska", destinado já desde o princípio para a navegação circumpolar, não deve hesitar. Quanto a mim, meus senhores, é possível que regresse a Estocolmo sem ter encontrado Nordenskiold... mas afianço-lhes que tal sucederá só depois de haver esgotado todos os meios e tentativas de o descobrir.

Os argumentos de Erik eram tão concludentes e firmes, que ninguém sequer tentou refutá-los. E o que teriam a objectar o doutor e os Srs. Bredejord e Malarius? As dificuldades do novo plano conheciam-nas eles bem. Mas, ao menos, podiam ser superáveis, ao passo que outro qualquer expediente era, por assim dizer, desesperado. Não hesitaram, pois, em confessar que seria mais fácil a passagem do noroeste, aproveitando o tempo, muitas vezes curtíssimo, em que é praticável!

- Pela minha parte - observou o Dr. Schwaryencrona depois de ficar embebido nas suas reflexões alguns instantes - só vejo uma objecção séria. É a dificuldade do fornecimento de carvão nas regiões árcticas.

Ora, sem carvão, passe por lá muito bem a possibilidade de transpormos a passagem do noroeste, aproveitando o tempo, muitas vezes curtíssimo, em que é praticável!

- Já previ essa dificuldade, que efectivamente é a única - replicou Erik -, e que não acho insolúvel. Em vez de nos dirigirmos a Gibraltar ou a Malta, onde sem dúvida nos esperam novas maquinações de Tudor Brown, o meu plano é irmos a Londres. De lá, pelo cabo transatlântico, mando a uma casa de Montreal ordem de expedir sem demora um barco com carvão, que nos irá esperar à baía de Baffin, e a uma casa de São Francisco ordem também para nos expedir outro barco ao estreito de Béringue. Temos para tudo fundos que chegam e crescem, porque a quantidade da hulha indispensável será, em todo o caso, inferior à que nos seria precisa pela rota da Ásia, pois o trajecto é muito mais curto. É inútil chegarmos à baía de Baffin antes do fim de Maio, e não podemos de modo algum ter tenção de chegar ao estreito de Béringue antes do fim de Junho. Os nossos correspondentes de Montreal e São Francisco terão assim tempo de sobra para executar as nossas ordens, garantidas pelo depósito de fundos num banqueiro de Londres... Depois disto a questão fica reduzida a acharmos praticável a passagem do noroeste, o que evidentemente não depende de nós, se, porém, a encontrarmos fechada, teremos pelo menos a consolação de nada havermos desprezado para alcançar o bom êxito!

- É evidente! - exclamou o Sr. Malarius, perfeitamente convencido. - Os teus argumentos não têm réplica, querido filho!

- Devagar, devagar! - interrompeu o Sr. Bredejord. - Não nos apressemos tanto. Ainda tenho uma objecçãozinha! Pensas, meu caro Erik, que o "Alaska" passará despercebido nas águas do Tamisa? Não é assim? Pois fica certo de que os jornais hão-de falar da tua chegada. As agências telegráficas darão conta dela, e Tudor Brown saberá tudo, e daí há-de também concluir que modificámos os nossos planos. Quem o impedirá, então, de modificar igualmente os seus?

Julgas que não terá facilidade de obstar à chegada ao seu destino dos barcos de carvão, sem os quais nada poderás fazer?

- Tem razão - concordou Erik -, e isso prova que nós devemos pensar em tudo! Não iremos a Londres. Melhor é arribarmos a Lisboa, como se continuássemos no rumo de Gibraltar e Suez. Depois, um de nós partirá para Madrid, e sem explicar porquê nem como, pôr-se-á em comunicação telegráfica com Montreal e São Francisco para encomendar os barcos de carvão. Não se declarará a quem se destinam e ficarão nos pontos designados à disposição do capitão que se apresentar com a senha convencionada.

- Assim muito bem! Será quase impossível que Tudor Brown vá na nossa pista!

- Na minha, é que decerto quis dizer - observou Erik -, pois julgo que não querem acompanhar-me aos mares árcticos!

- Palavra que quero! - respondeu o doutor. - E, sobretudo, porque desejo ficar com o coração tranquilo! Não admito que se possa dizer que aquele celerado Tudor Brown me fez recuar!

- Nem a mim! - exclamaram os Srs. Bredejord e Malarius.

O moço comandante tentou combater esta resolução, explicando aos seus amigos os perigos e monotonia da viagem que com ele queriam fazer. Mas tudo foi em vão para dissuadi-los daquela decisão definitiva. Diziam que era dever de honra irem até ao fim, já que tinham em comum experimentado outros perigos. O único meio de se tornar esta viagem aceitável para uns e outros era não se separarem.

Demais, havia-se tomado a bordo do "Alaska" todas as precauções para não sofrerem frios excessivos. E suecos e noruegueses podiam lá ter medo do gelo!

Erik viu-se obrigado a capitular, e assim ficou resolvido que a modificação do itinerário nenhuma mudança traria ao pessoal do navio.

Rapidamente descreveremos a primeira parte da viagem. A 2 de Abril o "Alaska" chegou a Lisboa. Antes que os jornais portugueses dessem conta da sua presença, o Sr. Bredejord partiu para Madrid, e aí, por intermédio de uma casa bancária e do cabo transatlântico francês, comunicou com duas importantes casas de Montreal e São Francisco, às quais incumbiu a remessa de barcos com carvão a pontos designados, indicando-lhes a senha pela qual Erik se faria reconhecer.

Esta senha era a própria divisa que foi encontrada nele quando andava flutuando no mar, amarrado à bóia do "Cynthia": Semper idem.

Finalmente, a 9 de Abril, depois de ter concluído esta comissão bem e devidamente, o Sr. Bredejord regressou a Lisboa e o "Alaska" fez-se ao largo.

A 25 do mesmo mês, tendo feito com felicidade a travessia do Atlântico, chegou a Montreal, onde tomou carvão e se certificou de que as ordens tinham sido pontualmente executadas. A 29 deixou as águas de São Lourenço para na manhã seguinte passar o estreito de Belle-Isle, que separa o Labrador da Terra Nova. A 10 de Maio encontrou em Godhaven, na costa da Gronelândia, o barco de carvão que lá o precedera.

Erik sabia muito bem que nessa época não devia pensar em transpor o círculo árctico, nem em emaranhar-se nos tortuosos meandros da passagem do noroeste, fechada ainda pelos gelos na maior parte da sua extensão. Mas contava, e com razão, colher nestas paragens, tão frequentadas por navios baleeiros, informações precisas acerca das cartas mais verdadeiras. E também conseguiu comprar, aliás por preço bastante elevado, uma dúzia de cães, que com "Klaas" tinham de completar a matilha destinada a puxar os trenós.

Godhaven é, como todas as outras estações dinamarquesas da costa da Gronelândia, uma aldeia pobre, que serve de depósito aos comerciantes de óleo ou de peles indígenas.

Naquela época do ano, o frio lá não era mais rigoroso que em Estocolmo ou em Noroé. Mas Erik e os seus amigos notaram com surpresa como podem ser profundamente diversas duas regiões situadas a igual distância do pólo. Godhaven fica precisamente na mesma latitude que Bergen.

Ora, ao passo que a Noruega Meridional é, em Abril, inteiramente verde, com as suas florestas, árvores frutíferas, e tendo até as vinhas cultivadas em latadas com boas camadas de adubo, em Maio a Gronelândia ainda está coberta de gelos e neves, e nem uma só árvore alegra a monotonia da paisagem.

A forma do litoral norueguês, recortado em profundos fiordes e abrigado por ilhas encadeadas umas nas outras, contribui quase tanto como a Corrente do Golfo para elevar a temperatura geral. Pelo contrário, na Gronelândia, as costas baixas e regulares recebem em primeira mão as brisas do pólo, e são, por isso, até ao meio da ilha cercadas de uma cinta de gelo de muitos pés de espessura.

Quinze dias demorou esta estação, depois o "Alaska" subiu o estreito de Davis, ao longo da costa gronelandesa, e transpôs o círculo polar.

A 28 de Maio encontrou pela primeira vez gelos flutuantes por 70 graus 15' de latitude norte com a temperatura de dois graus abaixo de zero. Estes primeiros gelos, é certo, apareciam esmigalhados, ou iam agarrados em pequenos troços isolados, mas dentro em pouco começaram a surgir outros mais densos, e para o navio avançar foi preciso abrir caminho a cada passo à força de golpes de quebra-mar.

A navegação não apresentava perigos sérios nem dificuldades reais. E, contudo, mil sinais indicavam que diante dos olhos se abria um mundo novo. Os objectos, um tanto afastados, parecia que eram sem cor e sem corpo. Os olhos não viam onde repousar, na perpétua mobilidade dos horizontes, cujo aspecto se modificava de minuto a minuto, quer pela acção dissolvente das ondas, quer pela do sol nas massas flutuantes. Mas principalmente de noite e sob os raios eléctricos do foco aceso no «ninho-de-corvo», era que o mar de Baffin, onde o "Alaska" estava a entrar, assumia fantásticos aspectos.

«Quem poderá», fala uma testemunha ocular, «pintar aquelas melancólicas imagens, e o marulho das vagas nos cúmulos flutuantes de gelo, e o singular rumor dos pingentes de neve, que inesperadamente se abismam e se desfazem na água, como a luz que crepita ao apagar-se? Quem poderá imaginar as esplêndidas cascatas que de todos os lados se precipitam e as alturas de espuma que aquelas quedas produzem, e o cómico assombro das aves do mar, que ajeitando-se a dormir em cima de uma jangada de gelo, perdem de súbito o ponto de apoio, e se vão por esses ares a voar, a girar, para irem poisar noutra mais além?... E, pela manhã, que extraordinária fantasmagoria quando o Sol, com a sua auréola brilhante de cirros, rompe subitamente a névoa, deixa ver primeiro um lançozinho de céu azul, que pouco a pouco se vai alargando, e por fim parece que persegue até aos confins do horizonte as nuvens vaporosas, que fogem diante dele em completa debandada?»

Estes e todos os mais espectáculos que os mares glaciais apresentam, puderam Erik e os seus amigos gozá-los plenamente, ao deixarem a costa da Gronelândia, que percorreram até às alturas de Uppnernawik, para em seguida tomarem o rumo do oeste e atravessarem o mar de Baffin em toda a largura.

Aí foram mais sérias as dificuldades, porque este mar é o grande itinerário dos gelos polares arrastados pelas correntes que nele vão desembocar. O "Alaska" viu-se obrigado quase constantemente a abrir caminho através de imensos campos de gelo. Às vezes tinha de parar em frente de barreiras insuperáveis, as quais precisava de contornar, porque as não podia romper, ou então era assaltado por tempestades de neve, que lhe cobriam o tombadilho, os mastros, e o massame com uma pasta espessa. Cercado de infinitos cúmulos de gelo, que o vento arrastava subitamente sobre ele, esteve muitas vezes em risco de ficar sepultado. Outras vezes internava-se numa grande wacke, espécie de lago cercado pelo banco de gelo, e fechado como um beco sem saída. Se conseguia sair para o mar livre, preciso era ainda ter os olhos bem abertos para não ser apanhado pelo flanco por algum monstruoso icebergue a correr do norte com rapidez vertiginosa, cuja massa enorme podia esmagar o "Alaska" como se fora uma casca de noz.

Mas o perigo muito mais grave era o dos gelos submarinos, em que a quilha emperrava de quando em quando, despregando-se uns dos outros, verdadeiros paradoxos hidrostáticos, que estavam à espera apenas de que lhes tocassem para treparem à superfície com violência quase sempre terrível, despedaçando tudo que encontrassem no seu choque formidável. O "Alaska" perdeu neste embate as suas duas chalupas, e umas poucas de vezes viu-se forçado a içar a hélice a fim de lhe consertar as pás.

Para se fazer uma ideia, sequer aproximada, dos perigos que a todos os momentos acarreta a navegação nos mares árcticos é necessário passar por todas estas provas. Numa ou duas semanas de semelhante luta, a mais intrépida equipagem fica com as forças esgotadas e é-lhe absolutamente necessário o descanso.

Felizmente estas provas e perigos tinham sua compensação na rapidez com que os graus de longitude se iam vencendo, inscritos no livro de bordo. Houve dias em que se contavam dez e às vezes doze, é verdade que noutros se contava só um e ainda menos. Mas, finalmente, a 11 de Junho o "Alaska" tornou a avistar terra e ancorou à entrada do estreito de Lencastre.

Julgou Erik que seria forçado a esperar alguns dias para poder seguir derrota naquele estreito corredor. Com surpresa e alegria achou-o livre, pelo menos à entrada. Por ela penetrou resolutamente, mas pela manhã achou-se bloqueado pelos gelos, e assim esteve três dias inteiros. As correntes impetuosas, que costumam varrer este canal árctico, vieram enfim libertar o navio - o que os baleeiros de Godhaven lhe tinham já anunciado - e pôde então continuar a marcha.

A 17 chegou ao estreito de Barrow, que transpôs a todo o vapor. Mas a 19, quando ia a desembocar em Melville-Sund, nas alturas do cabo Walk, mais uma vez os gelos lhe impediram a passagem.

Não havia outro remédio senão sofrer com paciência, à espera do degelo, mas os dias sucediam-se uns aos outros e o degelo não chegava.

Neste meio tempo, as distracções não faltaram aos viajantes. Como o "Alaska" ficou preso nos gelos muito perto da costa, puderam organizar vários passeios de trenó, caçar a foca, e ver de longe os passatempos das baleias, tinham ido prevenidos com tudo que lhes era necessário para que fosse menos precária a sua situação. Estava próximo o solstício do Verão, desde o dia 15, o "Alaska" gozava do imponente e nunca visto espectáculo - ainda mesmo para noruegueses e suecos meridionais - do Sol da meia-noite, a roçar pela orla do horizonte, sem se esconder, e daí elevando-se para o céu.

Quem subisse a um alto que há nessas desoladas paragens, o qual não mereceu ainda ter um nome qualquer, podia ver o astro do dia descrever no espaço, em vinte e quatro horas, um círculo completo. À noite, ao passo que as alturas eram alumiadas pela luz do Sol, viam-se ao longe as regiões do sul mergulhadas nas trevas. Esta luz, é certo, era pálida e sem vida, as formas perdem o seu relevo, a sombra dos objectos cada vez é mais frouxa, toda a natureza tem a aparência de uma visão. Em tais momentos é que a gente mais sente em que mundo extremo se encontra e quão perto está do pólo!... E, contudo, o frio nem por isso era muito rigoroso. A temperatura não desceu abaixo de 4 ou 5 graus centígrados. Às vezes o ambiente era tão doce que mal cuidavam estar realmente no coração da zona árctica.

Mas tais curiosidades não satisfaziam o espírito de Erik, nem conseguiram fazer-lhe perder de vista o fim da expedição. Não viera àquelas paragens nem para herborizar, como o Sr. Malarius, que todas as noites, quando recolhia, vinha mais e mais entusiasmado com as suas explorações por terra e com as plantas desconhecidas com que aumentava o seu herbário, nem para saborear, com o doutor e o Sr. Bredejord, a novidade de aspectos que lhes oferecia a natureza circumpolar. O seu fim era encontrar Nordenskiold e Patrick O'Donoghan, e cumprir um dever sagrado, descobrindo talvez ao mesmo tempo o segredo do seu nascimento. E eis aí porque, com a maior actividade, fazia todos os esforços para romper o círculo de gelo em que se via encerrado. Excursões em trenó, corridas com schnee-shuhe até aos limites do horizonte, reconhecimentos em chalupa a vapor, durante dez dias, tudo isto empregou, sem alcançar ver qualquer saída.

A oeste, como pelo norte, conservava-se fechado o banco de gelo.

Chegou o dia 26 de Junho e estava ainda bem longe do mar da Sibéria! Havia então de confessar-se vencido? Erik não desanimou. Por meio de repetidas sondagens descobrira que sob os gelos existia uma corrente que se dirigia para o estreito de Franklin, isto é, para o sul. Pensou que se empregasse um esforço, desproporcionado que fosse, talvez conseguisse provocar o degelo, e resolveu-se a tentá-lo.

Num comprimento de sete milhas marítimas mandou praticar no banco de gelo uma série de escavações de minas, espaçadas de duzentos a trezentos metros umas das outras, e em cada uma lançou um quilograma de dinamite. Ligou os buracos com um fio de cobre metido em manga isoladora de gutapercha. Em 30 de Junho, às oito horas da manhã, Erik foi o próprio quem, da coberta do "Alaska", comunicou fogo às minas, comprimindo o botão de um aparelho eléctrico.

Imediatamente retumbou no ar uma explosão formidável. Cem vulcões de gelo moído arremessaram por esses ares uma infinidade de partículas. O banco de gelo estremeceu e agitou-se como por efeito de um tremor submarino. Nuvens de aves do mar, enlouquecidas, puseram-se a voltear, soltando gritos roucos. Quando se estabeleceu o silêncio, o campo de gelo apareceu, a perder-se a vista, listrado por um comprido traço negro, cortado em todas as direcções com prodigiosas fendas laterais. O banco de gelo, alçado pela explosão dos gases e despedaçado em virtude da força destruidora do terrível agente, rompeu-se de vez. Houve um momento de demora, como de hesitação, mas daí a nada operou-se o degelo, como se para tanto estivesse à espera de sinal.

Estalando por toda a parte, gretado, esmigalhado, o banco de gelo desagregou-se completamente, cedeu à acção da corrente, que na base o estava roendo, e lá se foi num instante à garra pela água abaixo. Aqui e além ainda se ficou a ver um continente ou uma península de gelo, como protesto vivo contra tal violência.

Mas na manhã seguinte era livre a passagem: o "Alaska" podia acender as fornalhas.

Erik e a dinamite tinham feito o que o pálido sol árctico só poderia completar talvez um mês depois.

A 2 de Julho chegou a expedição ao estreito de Banks. A 4 desembocava no oceano Glacial propriamente dito. Desde então, ficava aberto o caminho, a despeito dos icebergues, das brumas e das neves. A 12, o "Alaska" dobrou o cabo Gelado, a 13, o cabo Lisburne, a 14, às 10 horas da manhã, entrava no golfo Kotsebue, ao norte do estreito de Béringue, e lá encontrava, conforme o ajuste, o barco de carvão vindo de São Francisco. E assim, em dois meses e dezasseis dias, se cumpriu o programa decidido no golfo da Gasconha.

Ainda o "Alaska" não tinha bem acabado de parar, já Erik se havia atirado para dentro de uma baleeira e atracava ao barco de carvão.

- Semper idem - disse Erik, dirigindo-se ao patrão.

- Lisboa - respondeu o ianque.

- Há quanto tempo está à minha espera?

- Há cinco semanas! Largámos de São Francisco um mês depois do seu telegrama!

- Tem algumas notícias de Nordenskiold?

- Em São Francisco não as havia positivas. Mas, desde que cá estou, tenho falado com muitos baleeiros, que dizem ter ouvido contar aos indígenas de Serdze-Kamen que está preso nos gelos, a oeste daquele cabo, um navio europeu. Pensam que é a "Vega".

- Com toda a certeza! - exclamou Erik, com alegria fácil de compreender-se. - Julga que ainda lá estará e não transpôs o estreito?

- Posso afirmá-lo. Não passou por aqui um só navio há cinco semanas, com que eu viesse à fala.

- Graças a Deus! Dar-nos-emos por bem pagos de todos os trabalhos se conseguirmos encontrar Nordenskiold.

- Não serão os primeiros - disse o ianque, com um sorriso irónico. - Precede-os um iate americano, que passou aqui há três dias, e também colheu informações minhas de Nordenskiold.

- Um iate americano? - perguntou Erik, cheio de

assombro.

- Sim, o "Albatroz", capitão Tudor Brown, com procedência de Vancôver. Apenas lhe disse o que sabia, imediatamente aproou a Serdze-Kamen!

 

         DE SERDZE-KAMEN A LJAKOW.

Tudor Brown tivera notícia da mudança de itinerário do "Alaska"! E, ainda para mais, conseguira antecipar-se-lhe no estreito de Béringue!... Como e por que caminho? O caso parecia quase sobrenatural, mas nem por isso era menos evidente.

Erik, apesar de impressionado terrivelmente com semelhante nova, como era natural, não o deu a mostrar. O que fez foi apressar com toda a diligência o transbordo do carvão, sem perda de tempo, e, apenas cheios os paióis, aproou, sem esperar sequer um minuto, ao mar da Sibéria.

Serdze-Kamen é um comprido promontório asiático, situado a uma centena de milhas apenas a oeste do estreito de Béringue, e todos os anos visitado pelos navios baleeiros do Pacífico.

O "Alaska" galgou rapidamente a distância que lhe faltava para lá chegar em vinte e quatro horas, e logo no extremo da baía de Koljutschin pôde reconhecer, por trás de grandes acumulações de gelo, a fina mastreação da "Vega", ali presa havia já nove meses completos.

A barreira que detinha cativo Nordenskiold não chegava a abranger dez quilómetros de largo. O "Alaska" contornou-a e virou depois para leste, a fim de fundear numa pequena enseada, que, por estar abrigada dos ventos do norte, permanecera livre.

Em seguida, Erik tratou de desembarcar com os seus três amigos e caminharam por terra em direcção ao estabelecimento que a "Vega" fundara na costa siberiana para passar a longa invernada. Uma coluna de fumo dava sinal onde era.

A costa da baía de Koljutschin é constituída por uma planície pouco elevada, com leves ondulações e cortada de vales corroídos. Não tem árvores, mas simplesmente alguns maciços de salgueiros anões e alfombras de camarás e licopódios, e aqui e além alguns pés de artemísia. No meio destes brejos, o Verão fazia já despontar algumas plantas, que o Sr. Malarius reconheceu serem de espécies muito comuns na Noruega, tais como a airela, o taraxaco e outras.

O acampamento da "Vega" compunha-se de um grande depósito de víveres, instalado ali, segundo as ordens de Nordenskiold, para o caso de as neves destruírem inopinadamente o navio, como frequentes vezes acontece no Inverno nestas horríveis paragens. Um pormenor patético: os pobres habitantes desta costa, por via de regra sempre esfaimados e para os quais o depósito de víveres representava uma incalculável riqueza, tinham-lhe guardado respeito, apesar de não ser muito bem vigiado. As choças de peles dos Tschutskes pouco a pouco foram-se agrupando em volta da estação de depósito. A parte mais importante de toda ela era a tintinjaranga, ou casa de gelo, especialmente destinada a servir de observatório magnético, para o que se transportaram para lá os necessários utensílios e instrumentos. Foi construída com belos paralelepípedos de gelo, delicadamente coloridos de azul e unidos com neve à laia de cimento, o tecto, tabuado, cobriu-se com um toldo de lona.

Os viajantes do "Alaska" foram cordialmente recebidos pelo moço director que ali estava, na ocasião da chegada deles, em companhia de um guarda. Com a máxima delicadeza ofereceu-se para os guiar a bordo da "Vega" pelo atalho, traçado na neve, que punha o navio em comunicação com a terra firme. Ao lado do atalho estavam cravadas estacas pelas quais corria uma corda para servir de guia nas noites escuras. Pelo caminho, contou-lhes as aventuras da expedição, ocorridas depois que o mundo civilizado deixou de ter quaisquer notícias a respeito dela.

Tendo saído da embocadura do Lena, Nordenskiold dirigira-se para as ilhas da Nova Sibéria, com tenção de as explorar, mas, vendo que era quase impossível abordá-las por causa dos gelos que as cercavam e pouca profundidade do mar numa zona de muitas milhas, resignou-se a continuar a sua navegação para leste. Até 10 de Setembro a "Vega" não encontrou grandes dificuldades, mas nesta data já as contínuas brumas e as geadas nocturnas lhe iam afrouxando a marcha, a escuridão das noites obrigava-a a parar frequentemente. Só a 27 de Setembro é que a "Vega" pôde chegar ao cabo de Serdze-Kamen. Ancorou num banco de gelo, esperando poder transpor, na manhã seguinte, as poucas milhas que a separavam do estreito de Béringue, isto é, das águas livres do Pacífico. Mas o vento norte, que se levantou pela noite, arrastou de volta do navio cúmulos de gelos, que nos dias seguintes foram crescendo e amontoando-se cada vez mais. A "Vega" viu-se assim forçada ao cativeiro e condenada à invernagem no próprio momento em que ia realizar o seu fim.

- Foi grande a nossa decepção, como podem imaginar - continuou o moço astrónomo -, mas para logo tomámos o nosso partido, dispondo-nos a aproveitar para a ciência a nossa demora forçada. Travámos em pouco tempo relações com os Tschutskes vizinhos, que até então não tinham sido estudados de perto por nenhum viajante. Conseguimos elaborar um dicionário da língua deles e reunir uma colecção de utensílios, armas e ferramentas. Os naturalistas da "Vega" têm adicionado um grande número de espécies novas à flora e à fauna das regiões árcticas. Numa palavra, conseguimos o fim principal da nossa viagem, pois fomos os primeiros a dobrar o cabo Tchelynskin e a transpor a distância que separa a embocadura do Yenisei da do Lena. Está descoberta e reconhecida a passagem do nordeste! Teria sido para nós muito mais agradável vencê-la em dois meses, e pouco faltou realmente... apenas algumas horas, mas em todo o caso, quando nos virmos brevemente desbloqueados, como o estão a dar a entender numerosos sintomas, poderemos então regressar com a certeza de havermos levado a cabo uma obra útil!

Os viajantes iam a caminhar e a ouvir o seu guia com profundo interesse. Tão perto chegavam já da "Vega" que podiam distinguir-lhe a metade do lado da proa, coberta com um grande toldo de pano até à ponte, ficando só ao ar livre o tombadilho e os flancos protegidos por altas pilhas de neve, as manobras reduzidas aos ovéns e estais, e a chaminé cuidadosamente forrada para prevenir os efeitos das geadas.

As cercanias muito próximas do navio eram ainda mais dignas de nota.

Ele não estava, como era natural supor-se, encaixado num leito de gelo unido e compacto, mas de certo modo suspenso no meio de um verdadeiro labirinto de lagos, ilhas e canais, tendo havido necessidade, para passar-se de uns para outros, de lançar entre eles vários pontilhões de madeira.

- A explicação do mistério é simplicíssima - volveu o moço astrónomo a uma das perguntas que Erik lhe fez sobre o caso. - Quando uma embarcação se demora alguns meses, como a nossa, no meio de uma jangada de gelo, principia a formar-se em volta dela uma camada de detritos, dos quais um dos principais elementos é a cinza do carvão queimado. Como estes objectos são de cor mais escura que a neve e absorvem por isso mais calórico, segue-se que umas vezes aceleram a fusão e outras a retardam, actuando como isoladores, conforme se vão acumulando em quantidades mais ou menos densas ou consideráveis. Assim, quando sobrevêm o degelo, a zona próxima do navio adquire em pouco tempo o aspecto que está a ver: um verdadeiro caos de depressões, umas grandes, outras pequenas, buracos em forma de funil e terraços de neve todos recortados e rebicados.

A tripulação da "Vega", com vestuários árcticos, e dois ou três oficiais, todos agrupados no tombadilho, estavam a ver chegar os visitantes europeus na companhia do astrónomo. Foi grande a sua alegria ouvindo que eram saudados em língua sueca e reconhecendo, entre os recém-chegados, a fisionomia tão popular do Dr. Schwaryencrona.

O professor Nordenskiold não estava a bordo nem tão-pouco o seu fiel companheiro nas viagens árcticas, o capitão Palander.

Andavam em excursão geológica no interior das terras, e esperava-se que só regressassem daí a cinco ou seis dias(*).

Foi a primeira decepção que os nossos viajantes tiveram, pois naturalmente contavam, quando encontrassem a "Vega", apresentar as suas homenagens e felicitações ao grande explorador.

Mas esta decepção não devia ser a única. Chegando à sala dos oficiais, Erik e os seus amigos souberam que três dias antes a "Vega" recebera a visita de um iate americano, ou melhor, do seu proprietário, o Sr. Tudor Brown. Este gentleman trouxera notícias do resto do Mundo, das quais os internados na baía de Koljutschin estavam, como não podia deixar de ser, muito desejosos. Tinha-lhes contado o que se passara na Europa desde a sua partida, a ansiedade tanto da Suécia como de todas as mais nações civilizadas pela sua sorte, e a partida do "Alaska" à sua procura.

O Sr. Tudor Brown vinha da ilha de Vancôver, no Pacífico, onde o seu iate o esperara três meses.

- Os senhores devem por força conhecê-lo! - exclamou neste ponto um médico ainda moço, adido à expedição. - Disse-nos que embarcara primeiro no "Alaska", e que em Brest o tinha deixado, por desconfiar de que a empresa não chegasse a bom fim...

- Efectivamente, tinha excelentes razões para abrigar essa dúvida - replicou Erik, com frieza, sentindo-se estremecer interiormente.

- Telegrafou ao seu iate, fundeado em Valparaíso, que o fosse esperar a Vitória, na costa de Vancôver -, prosseguiu o médico -, depois seguiu pessoalmente pela linha de Liverpul a Nova Iorque,

 

* Regressaram mais cedo, porque a 18 de Julho operou-se a descongelação, e a "Vega", depois de duzentos e sessenta e quatro dias de cativeiro nos gelos, pôde continuar a viagem. A 20 de Julho saía do estreito de Béringue e seguia para Iocoama.

 

e caminho de ferro do Pacífico. Eis como se explica ter chegado aqui antes dos senhores.

- Ele disse o que vinha fazer aqui? - perguntou o Sr. Bredejord.

- Vinha oferecer-nos socorro, se dele precisássemos, e também saber informações de um esquisito sujeito, de quem falei na minha correspondência, e pelo qual o Sr. Tudor Brown manifestou o mais vivo interesse.

Os quatro visitantes trocaram entre si um olhar.

- Patrick O'Donoghan?... Não é este o nome do tal homem? - perguntou Erik.

- Justamente! Pelo menos era esse o nome que trazia gravado na pele por meio de tatuagem, embora quisesse inculcar que não era o seu, mas sim o de um amigo! O que ele dava era o de Johnny Bowles...

- Permite-me que lhe pergunte se esse homem está cá?

- Há dez meses que nos deixou. Ao princípio julgámos que nos podia ser útil para servir-nos de intermediário com os naturais da costa, por causa do conhecimento que aparentava ter da língua samoieda, mas logo nos desenganámos, pois esse conhecimento era muito superficial e se reduzia a saber apenas algumas palavras. Além de que, fosse ou não acaso, o certo é que, desde Chabarova até aqui não pudemos travar relações com os habitantes das regiões que íamos costeando. Por conseguinte, o intérprete era inútil. Demais a mais, o tal Johnny Bowles ou Patrick O'Donoghan era um preguiçoso, bêbedo, e só podia causar inconvenientes, motivo por que acolhemos com verdadeiro prazer o pedido que nos fez de o desembarcarmos com algumas provisões na grande ilha Ljakow, na ocasião em que íamos a passar pela costa meridional.

- Pois quê! Lá é que ele ficou? - exclamou Erik. - Mas essa ilha não é desabitada?

- Absolutamente desabitada! Segundo parece, o que seduziu o homem foi a ilha achar-se literalmente coberta de ossadas de mamutes e portanto de marfim fóssil. Concebera o plano de lá se estabelecer, de empregar os meses de Verão a fazer a colheita da maior quantidade possível de marfim, e depois, quando o Inverno gelasse o braço de mar que separa do continente a ilha Ljakow, transportar de trenó as suas riquezas até à costa da Sibéria, a fim de as vender aos compradores russos, que vêm até aí procurar os produtos de que necessitam.

- E deu ao Sr. Tudor Brown todas essas informações?

- perguntou Erik.

- Dei, sim! Pois ele vinha de tão longe buscá-las!

- explicou o médico, sem desconfiar do interesse profundo e pessoal que o comandante do "Alaska" ligava às perguntas que lhe dirigia.

Neste ponto, generalizou-se a conversação. Falou-se da relativa facilidade com que o programa de Nordenskiold se realizara. Quase em parte nenhuma do trajecto lutara com dificuldades sérias. Discutiram-se então as consequências que para o comércio do Mundo inteiro teria a descoberta deste novo caminho. Concordavam os oficiais da "Vega" que não viria a ser muito frequentado em toda a extensão, mas que em todo o caso a viagem da "Vega" deveria necessariamente habilitar as nações marítimas do Atlântico e do Pacífico a considerarem como possíveis as relações directas por mar com a Sibéria. E, em contrário à crença geral, em parte nenhuma a actividade humana poderá encontrar um campo mais vasto e mais rico.

- Não é singular - observava o Sr. Bredejord - que durante três séculos tenham falhado completamente tantas tentativas desta empresa, e só agora a "Vega" conseguisse levá-la a fim quase sem dificuldades?

- A singularidade é apenas aparente - afirmou um dos oficiais. - Aproveitámo-nos no Norte da Ásia, como os senhores há pouco fizeram no Norte do continente americano, da experiência adquirida pelos que nos precederam, muitas vezes com risco da vida. E aproveitámo-nos também da profunda experiência pessoal do nosso chefe. O professor Nordenskiold preparou-se para este supremo esforço durante mais de vinte anos, nos quais efectuou oito expedições árcticas, como tinha congregado com suprema paciência todos os elementos do problema, marchou agora, quase com inteira certeza, à solução final.

Além disso, tivemos o que faltou aos nossos predecessores: um navio a vapor, especialmente aparelhado para esta viagem, o que nos permitiu transpor em dois meses distâncias em que decerto gastaríamos dois anos num navio à vela. Pudemos assim, não só escolher constantemente, mas ainda procurar o rumo que mais nos convinha, fugir diante dos gelos flutuantes e ganhar em velocidade as correntes ou os ventos! Ainda assim, não conseguimos evitar uma invernagem! Que dificuldades não teriam os marinheiros das eras passadas, reduzidos a esperar as brisas favoráveis e perdendo muitas vezes os mais belos meses de Verão a navegar ao acaso?... Connosco até sucedeu que vinte vezes achámos mar livre em pontos onde as cartas indicam gelos eternos, quando não marcavam continentes ou ilhas! Mas podíamos ir reconhecê-lo, e quando havia necessidade recuávamos a marcha e continuávamos depois o nosso rumo, ao passo que os antigos navegadores as mais das vezes estavam reduzidos a conjecturas!

Passou-se a tarde conversando-se e discutindo-se deste modo. Os visitantes, depois de terem aceitado o jantar na "Vega", convidaram para bordo do seu barco a oficialidade que não estava de serviço. De parte a parte se trocaram as notícias e informações que puderam dar. Erik teve cuidado de se certificar do itinerário seguido pela "Vega" e das precauções que devia tomar para utilizar-se do seu traçado. Bebeu-se ao sucesso definitivo de todos, fizeram-se recíprocos votos sinceros de regresso à pátria, e em seguida despediram-se uns dos outros. O romper da alva do dia seguinte era a hora destinada para o "Alaska" desamarrar em direcção à ilha de Ljakow. Quanto à "Vega", tinha de esperar pelo degelo para ganhar o Pacífico.

Estava assim cumprida a primeira parte da missão de Erik, que era o encontro de Nordenskiold. Restava-lhe a segunda: descobrir Patrick O'Donoghan, para ver se era possível arrancar-lhe o seu segredo, segredo que, segundo o pensar de todos naquele momento, devia ser de extraordinária importância, visto a grande obstinação de Tudor Brown em ser ele só a encontrar-se com o homem que o sabia.

Chegariam primeiro que ele à ilha Ljakow? Era pouco provável, porque lhes levava três dias de dianteira. Embora! Iriam tentar a aventura! Podia muito bem ser que o "Albatroz" perdesse o rumo ou encontrasse obstáculos imprevistos, e haver assim probabilidades de o apanhar ou mesmo de lhe passar além. Enquanto restasse uma esperança de bom êxito, era mister empregar todos os esforços.

Diremos de passagem que era animador o estado benigno da temperatura, a qual se conservava tépida e um tanto húmida, as leves brumas no horizonte indicavam o mar livre por todos os lados, para além da faixa de gelos que ainda cingia a costa siberiana, onde a "Vega" estava cativa. Começava agora o Verão, e o "Alaska" podia razoavelmente contar com dez semanas de tempo favorável. A experiência adquirida no meio dos gelos americanos tinha um valor precioso e dava ousio para olhar-se a nova empresa como relativamente fácil. Finalmente, a passagem do nordeste era sem contestação a via mais directa para o regresso à Suécia, e, além do doloroso interesse que impelia Erik a adoptar esta derrota, havia demais a mais o outro, verdadeiramente científico, de executar em sentido inverso o trajecto efectuado por Nordenskiold. Se o chegasse a conseguir - e porque não? -, seria essa a prova e a aplicação prática do princípio posto pelo grande explorador.

A brisa quis também tomar parte no intento e favorecer o "Alaska". Em dez dias soprou constantemente do sudoeste, o que lhe trouxe uma andadura média de nove a dez nós, sem queimar carvão. Era uma preciosa vantagem, além da de arrastar para o norte os gelos flutuantes e por conseguinte facilitar assim muito mais a navegação. Só por acaso é que se encontraram nestes dez dias algumas massas de drift-ices(*), ou gelo podre, como os marinheiros árcticos chamam aos resíduos meio derretidos dos bancos invernais.

 

*. Gelos flutuantes.

 

É verdade que no undécimo dia houve uma tempestade de neve, seguida de intensos nevoeiros, que retardaram sensivelmente a marcha do "Alaska". Mas a 29 de Julho o Sol readquiriu todo o seu brilho, e a 2 de Agosto, pela manhã, avistou-se a ponta oriental da ilha Ljakow.

Erik deu logo ordem de a rodear, não só para verificar se o "Albatroz" estaria oculto em qualquer enseada, como para escolher ancoradouro a sotavento da ilha. Operado o reconhecimento, mandou largar ferro num fundo de areia, a três milhas pouco mais ou menos da costa meridional, e depois embarcou na baleeira com os seus três amigos e seis homens da tripulação. Meia hora mais tarde, atracava numa enseada bastante profunda.

Não foi sem razão que Erik optou pela costa meridional. Calculava que Patrick O'Donoghan devia ter escolhido, para residir, um ponto da costa donde pudesse vigiar o mar, fosse ou não para travar relações de comércio de marfim com a Sibéria, ou para sair, quando achasse melhor ocasião, da ilha onde quisera desembarcar. Podia até afirmar, com algum grau de certeza, que o ponto escolhido deveria ficar num alto e o mais próximo possível da costa da Sibéria. E, sobretudo, a necessidade de abrigo contra os ventos polares era mais um motivo para ele preferir um sítio elevado meridional. Erik não queria impor estas suposições como infalíveis, mas dizia que, em todo o caso, podiam servir de base a uma exploração sistemática.

O sucesso justificou plenamente o seu juízo. Os viajantes teriam apenas andado uma hora pela praia fora quando divisaram, num alto perfeitamente abrigado por uma enfiada de colinas e voltado para o Sol, um objecto que nenhuma outra coisa podia ser senão uma habitação. E até, com grande surpresa sua, viram que a casa era pequena sim, mas muito bem construída, de forma cúbica, branca e que parecia rebocada de cal. Se tivesse janelas verdes, poderia confundir-se com uma casa de campo marselhesa ou com um desses elegantes cottages ingleses.

Aproximaram-se e, tendo ido até ao alto, acharam a explicação do fenómeno. A casa não era rebocada de cal, mas sim de ossadas gigantescas, colocadas umas sobre outras e dispostas com certa arte, dando-lhe a cor branca que os viajantes tinham notado. Singulares materiais, sem dúvida, mas a ideia de os aproveitar fora bem natural. Não só não havia outros na ilha, cuja vegetação parecia pobríssima, como também a colina e altos próximos estavam literalmente cobertos de fragmentos ósseos, que o Dr. Schwaryencrona, logo à primeira vista, reconheceu como sendo restos de mamutes, bisontes e uros(*).

 

*. Mamute, elefante que se extinguiu nos primeiros tempos da época quaternária, bisontes e uros, bois selvagens do Norte.

 

         ENFIM!

Aporta da cabana estava aberta de par em par. Os quatro visitantes entraram e o mesmo foi que convencerem-se de que o aposento único de que se compunha estivera habitado até há pouco tempo. No lar, formado de três grandes pedras, viam-se tições apagados, ainda com alguma cinza, da que se parece com o algodão em rama, e que à mais leve brisa se despega e voa por aí fora. O leito, arranjado com um estrado de madeira sobre que estava estendida uma maca de marinheiro, mostrava ainda vestígios de se ter lá deitado um corpo humano.

Esta maca, que Erik se apressou a examinar, tinha a marca da "Vega".

Em cima de uma espécie de mesa, feita de uma omoplata fóssil com quatro fémures servindo de pés, viam-se migalhas de bolacha, um copo de estanho e uma colher de pau, de fabrico sueco.

De todo este exame resultava que estavam realmente na habitação de Patrick O'Donoghan e, segundo todas as aparências, ele saíra havia muito pouco tempo.

Seria para se ir embora da ilha, ou, pelo contrário, sairia para a percorrer?

Eis o que nenhum indício revelava e que só a exploração da ilha podia dar a conhecer.

Em redor da habitação havia indícios de trabalhos bastante activos, valas abertas e terra escavada. Numa espécie de planalto, que constituía o cume da colina, uns vinte dentes de marfim fóssil, alinhados ao pé uns dos outros, indicavam a natureza dos trabalhos. Os viajantes compreenderam logo a razão das escavações quando verificaram que os numerosos esqueletos de elefantes e mamutes espalhados à flor da terra estavam todos privados do seu marfim.

Sem dúvida os indígenas da costa siberiana não se resolveram a esperar pela visita de Patrick O'Donoghan à ilha Ljakow. Foram pessoalmente explorar-lhe as riquezas, e com certeza o irlandês já não encontrara preciosidades à superfície do solo.

Viu-se, pois, reduzido a fazer escavações para exumar o marfim que porventura estivesse soterrado, mas cuja qualidade, segundo mostrava o que estava à vista, nem por isso devia ser das mais superiores.

Ora, tanto o médico da "Vega" como o proprietário da hospedaria da Red Anchor em Nova Iorque tinham afirmado que a preguiça era um dos traços característicos de Patrick O'Donoghan. E, assim, parecia pouco provável que se quisesse sujeitar mais tempo a um trabalho ingrato e pouco remunerador, era muito possível que na primeira ocasião oportuna tivesse abandonado a ilha Ljakow. A única esperança que ainda havia de o encontrar eram os vestígios da sua recente presença na cabana.

Um carreiro, praticado na vertente oposta à que tinham subido, conduzia à praia. Desceram-no e em breve chegaram a um terreno baixo, onde as neves derretidas haviam formado uma espécie de lago, separado do mar por uma riba de rochedos. O carreiro seguia pela margem do lago, torneava as ribas e ia findar num verdadeiro porto natural.

Na praia via-se um trenó abandonado e vestígios de fogueira extinta pouco antes. Erik examinou o porto e suas imediações com a maior atenção, mas não descobriu qualquer sinal que indicasse ter ali amarrado alguma embarcação.

Voltou para junto dos companheiros, mas, próximo a um arbusto e chegado ao sítio da fogueira, deparou-se-lhe um objecto de cor vermelha, que apanhou.

Era uma caixa de folha, pintada de carmim pela parte de fora, das que são destinadas à conserva da carne de vaca, vulgarmente chamadas endaubage(*), que actualmente todos os navios do mundo trazem nas suas despensas. O achado, à primeira vista, nada tinha de extraordinário, porque a "Vega" fornecera a Patrick O'Donoghan provisões de boca. Mas o que pareceu singular a Erik foi o nome que vinha na etiqueta impressa na caixa vazia: "Martinez Domingo, Valparaíso."

- Tudor Brown passou por aqui! - exclamou ele

logo. - Disseram-nos a bordo da "Vega" que o navio dele estava em Valparaíso, quando lhe telegrafou para o ir esperar a Vancôver!... Além de que, com certeza, não foi a "Vega" que deixou aqui esta caixa com a marca "Valparaíso" e aberta de fresco! Não há três dias, talvez não haja vinte e quatro horas que foi esvaziada.

O Dr. Schwaryencrona e o Sr. Bredejord acenavam a cabeça, como se hesitassem em aceitar tão formal conclusão, quando Erik, que mexia e voltava a caixa em todos os sentidos, lhes mostrou uma nota que tirava todas as dúvidas. Era a palavra "Albatroz", escrita a lápis na tampa da caixa, provavelmente pelo fornecedor dela e de outras de igual natureza.

- Tudor Brown passou por aqui - repetiu Erik. - E para que havia de vir cá senão para levar consigo Patrick O'Donoghan? Vamos lá, o caso está claro! Desembarcou nesta enseada! A tripulação, enquanto esteve à sua espera, pôs-se a almoçar em redor desta fogueira! Brown subiu até à casa do irlandês e, por jeito ou por força, foi-o levando! Estou tão certo de tudo isto como se o visse!

A despeito desta convicção, Erik quis explorar aquelas imediações para certificar-se se Patrick O'Donoghan estaria ainda ou não na ilha. Mas um passeio de uma hora bastou para convencê-lo de que o resto da ilha era completamente desabitado.

Não havia vestígios de qualquer caminho, nem de seres vivos. Por todos os lados, dunas e vales a perderem-se de vista, sem sombra de vegetação, sem uma ave,

 

*. Comestíveis conservados dentro de manteiga de porco ou de caixas de folha hermeticamente fechadas.

 

sem um insecto a animarem aquelas solidões. E, por toda a parte, ossadas gigantescas jazendo pelo solo, como se um exército inteiro de mamutes, de rinocerontes e de uros tivesse vindo outrora, em virtude de espantoso cataclismo, refugiar-se nesta ilha deserta para aqui morrerem. No último plano, além das dunas e dos vales uma cordilheira de elevações cobertas de neves e de geleiras.

- Partamos! - disse o Dr. Schwaryencrona. - De nada nos pode servir uma exploração mais completa, e o que vimos é mais que suficiente para nos assegurar que não foi preciso instar muito com Patrick para o resolver a partir!

Antes das quatro horas a baleeira atracou ao "Alaska", que logo se pôs em marcha.

Erik não dissimulava que as suas esperanças tinham levado um golpe decisivo. Agora, era bem pouco provável encontrar Tudor Brown, que conseguira precedê-lo na vinda à ilha Ljakow, e sem dúvida levara consigo Patrick O'Donoghan! Um homem que foi capaz de fazer o que se sabe já contra o "Alaska", que desenvolveu tão feroz energia para vir a tal lugar raptar o irlandês, como não havia de empregar agora meios infalíveis a fim de escapar-se à perseguição! O Mundo é grande, e toda a vasta amplidão dos mares ficava aberta ao "Albatroz"! Como se havia de adivinhar para onde a rosa-dos-ventos arrebatava O'Donoghan e o seu segredo?

Assim pensava o comandante do "Alaska", a passear pela coberta, depois de dar ordem de aproar ao este. E a cogitações tão dolorosas acresciam ainda os remorsos de ter consentido que os seus amigos partilhassem com ele os perigos e as fadigas desta inútil expedição! Duas vezes inútil, não só porque Tudor Brown encontrara Nordenskiold antes do "Alaska", como também por haver precedido a expedição sueca à ilha Ljakow! Iam pois regressar a Estocolmo - se é que regressassem - sem ter alcançado qualquer dos fins da viagem. Era na realidade azar de mais!... Que ao menos o regresso servisse de alguma utilidade, como contraprova da viagem da "Vega", e que a passagem do nordeste ficasse consagrada por uma segunda experiência!...

A todo o custo convinha chegarem ao cabo Tchelynskin e dobrá-lo de leste a oeste! A todo o custo era necessário regressar à Suécia pelo mar de Cara!

Neste intuito, o "Alaska" meteu proa a todo o vapor em direcção ao formidável cabo Tchelynskin, outrora ainda reputado inabordável. O itinerário que seguiu foi exactamente o da "Albatroz", que, como fica dito, partira da embocadura do Lena, onde fez estação, em direcção à ilha Ljakow. Erik nenhum motivo tinha para descer até à costa da Sibéria. Deixou a estibordo as ilhas Stolbo-voY e Semenoffski, que avistou a 4 de Agosto, singrou a oeste seguindo pouco mais ou menos o paralelo 76, e fez tão boa marcha que em oito dias transpôs trinta e cinco graus de longitude, desde o grau 140 até o 105 a leste de Greenwich. É verdade que tão excelente rota se não fez sem excessivo gasto de hulha, porque o vento foi quase sempre contrário, mas Erik pensou com razão que era necessário sacrificar tudo à necessidade de sair o mais cedo possível destas perigosas paragens, e, uma vez que chegasse à embocadura do Yenisei, sempre se lhe proporcionariam meios de arranjar combustível.

A 14 de Agosto, ao meio-dia, não se puderam fazer observações solares por causa das densas brumas que toldavam o céu no horizonte, mas, pelo cálculo, deviam estar próximo do grande promontório asiático. Assim Erik prescreveu a mais rigorosa vigilância, ao passo que deu ordem para retardar o andamento do navio, e à noite até chegou a mandar pô-lo à capa.

Não foram inúteis as precauções. Na manhã seguinte, em pleno dia, a sonda deu apenas trinta braças de fundo, e uma hora mais tarde houve vista de terra. O "Alaska" bordejou até divisar alguma baía onde pudesse lançar ferro.

Resolveram esperar que se dissipassem as névoas para saltarem em terra. Mas, havendo-se passado os dias 15 e 16 sem resultado favorável, Erik decidiu-se a atracar, na companhia dos Srs. Bredejord e Malarius e do doutor.

Um reconhecimento ligeiro deu-lhes a conhecer que o golfo onde o "Alaska" ancorara ficava na extremidade norte e entre as duas pontas do cabo Tchelynskin.

De ambos os lados as terras ao pé do mar eram baixas, mas iam-se elevando gradualmente em doce declive para o sul, até umas montanhas que o nevoeiro descobria por momentos, e que parecia terem de altura trezentos a quatrocentos metros. Em parte nenhuma se avistavam neves nem gelos, com excepção de uma cinta à beira-mar, como sucede em todas as regiões árcticas. Cobria o solo argiloso uma abundante vegetação de musgos, relvas e líquenes. Grande número de adens, patos bravos e algumas dúzias de focas animavam a costa. Na aresta de uma rocha um urso branco ostentava a sua magnífica pelagem. Em suma, se não fosse o nevoeiro, que tudo cobria com o seu manto pardacento, o aspecto geral do famoso cabo Tchelynskin, ou Severo, não se apresentaria particularmente carrancudo e desabrido, nem justificaria a desagradável nomeada que tantos séculos conservou.

Os nossos viajantes dirigiram-se para a ponta extrema a oeste do golfo e descortinando uma espécie de monumento, que lhe coroava o cimo, apressaram-se a ir visitá-lo. Chegando ao pé, viram que era um cairn, ou montão de pedras, a que servia de base uma coluna de madeira, feita de um barrote.

Nesta coluna estavam gravadas duas inscrições. A primeira rezava assim:

A 19 de Agosto de 1878, a "Vega", proveniente do Atlântico, dobrou o cabo Tchelynskin, e continuou a sua derrota para o estreito de Béringue.

A segunda:

A 12 de Agosto de 1879, o "Albatroz", proveniente do estreito de Béringue, dobrou o cabo Tchelynskin e continua a sua derrota para o Atlântico.

E assim mais uma vez Tudor Brown se tinha adiantado ao "Alaska". Era em 16 de Agosto. Segundo a inscrição, havia apenas quatro dias que ele passara por ali!

Aos olhos de Erik, esta inscrição tinha um sentido irónico e cruel, como se lhe estivessem a dizer:

 

«Até ao fim serás vencido! Até ao fim serás inútil!... Nordenskiold fez a experiência e Tudor Brown a contraprova! Tu ficarás humilhado e confuso, sem teres podido levar a fim qualquer demonstração, nem encontrado nem sabido nada!»

Erik queria logo partir sem acrescentar palavra às inscrições da coluna. Mas o Dr. Schwaryencrona, esse é que se não deixou afinar pelo mesmo tom. Tirando um canivete da algibeira, com ele gravou no fuste da coluna as seguintes palavras:

A 16 de Agosto de 1879, o "Alaska", procedente de Estocolmo, pelo Atlântico, mar de Baffin, estreitos americanos árcticos e mar da Sibéria, dobrou o cabo Tchelynskin e continuou a sua derrota para concluir o primeiro périplo circumpolar.

Que admirável não é o poder das palavras! Aquela simples frase, recordando a Erik a importância do esforço geográfico que estava em vésperas de conseguir, quase sem dar por isso, bastou para restituir-lhe o seu bom humor. Sim, era bem verdade o que o doutor dizia! O "Alaska" de facto ia terminar o primeiro périplo circumpolar! Certo era que antes dele outros viajantes tinham atravessado os estreitos árcticos americanos e descoberto a passagem do nordeste! Antes dele, Nordenskiold e Tudor Brown tinham dobrado o Tchelynskin e transposto a passagem do nordeste! Mas o que ainda ninguém tinha conseguido era descrever em redor do pólo, pelos mares árcticos, o círculo completo de 360 graus. Faltavam apenas 80 para que os concluísse! Em rigor, era intento para dez dias de navegação.

Esta perspectiva de nova espécie causou em todos tanto ardor que logo se cuidou na partida imediata. Erik ainda assim quis esperar até a manhã seguinte, a ver se o nevoeiro se dissipava, as brumas, porém, parecia que eram a moléstia crónica do cabo Tchelynskin, e, como o dia rompesse embuçado no manto do costume, sem abrir campo ao sol, o "Alaska" levantou ferro.

Ficou para o sul do golfo de Taymis, que dá o seu nome à península siberiana, cujo extremo é o cabo Tchelynskin, e o "Alaska" prosseguiu a sua derrota para oeste e navegou sem cessar todo o dia e noite de 17. Desapareceu, enfim, a 18, a névoa, que uma atmosfera pura e cheia de sol veio substituir. Ao meio-dia tomaram a altura. Mal era acabada esta operação, quando a vigia deu sinal de uma vela a sudoeste.

Uma vela, nestes mares pouco frequentados, era fenómeno tão extraordinário que devia merecer atenção especial. Erik trepou sem demora ao "ninho-de-corvo", e de óculo em punho examinou muito tempo o navio à vista. Pareceu-lhe raso na água, armado em escuna, e munido de chaminé, ainda que naquela ocasião não navegasse a vapor.

Descendo à coberta, o mancebo estava muito pálido. - Tem todos os jeitos de ser o "Albatroz". - disse ao doutor.

Em seguida mandou activar as fornalhas da máquina. Em menos de um quarto de hora viu-se claramente que ganhava vantagem sobre o navio, cujo casco em breve se distinguia a olho nu. Além de navegar à vela com brisa muito fraca, a direcção que levava fazia um ângulo muito agudo com a do "Alaska".

Mas subitamente o seu andamento sofreu mudança. Jorrou da chaminé um fumo espesso, que ia deixando para trás extenso penacho negro. Principiou assim a marchar a vapor e na mesma direcção que o "Alaska". - Já não há dúvida! É o "Albatroz"! - murmurou Erik.

E deu ordem ao primeiro-maquinista para activar ainda mais as fornalhas. A velocidade era já de catorze nós. Daí a um quarto de hora chegava a dezasseis.

Como o navio perseguido não podia ainda atingir tal velocidade, o "Alaska" continuou a ganhar vantagem sobre ele. Em trinta minutos avançou tão próximo que pôde distinguir-lhe as particularidades da mastreação, a esteira, os homens a andar em manobras de um para outro lado, e finalmente os ornamentos da ré e as letras que formavam este nome: "Albatroz".

Erik mandou içar o pavilhão sueco. Imediatamente, o "Albatroz" içou o pavilhão estrelado da União Americana.

Volvidos alguns minutos, os dois navios apenas se distanciavam trezentos ou quatrocentos metros. Então o comandante do "Alaska", de pé na ponte e munido de um porta-voz, chamou o "Albatroz" em inglês:

- Olá!... ó do navio!... Pretendo falar ao vosso capitão!...

Subiu alguém à ponte do "Albatroz". Era Tudor Brown.

- Sou eu o proprietário e capitão deste iate - declarou. - Que me quer?

- Desejo saber se leva a seu bordo Patrick O'Donoghan?

- Patrick O'Donoghan está aqui e vai pessoalmente responder-lhe - bradou Tudor Brown.

Fez um sinal e logo apareceu um homem na ponte.

- Aqui está Patrick O'Donoghan - tornou o proprietário do "Albatroz". - Diga o que lhe quer.

Erik havia muito desejava esta conversação, que de tão longe viera procurar, e todavia, achando-se inesperadamente em frente daquele homem de cabelos ruivos e nariz esborrachado, que o estava a observar com olhares desconfiados, sentiu-se apanhado de improviso, e a princípio não soube o que perguntar-lhe. Mas enfim, reunindo as suas ideias e fazendo um esforço, explicou:

- O que tenho a dizer-lhe leva muito tempo e é confidencial. Há muitos anos que ando à sua procura e foi para lhe falar que vim a estes mares. Quer ter o incómodo de passar a meu bordo?

- Mas se eu não o conheço e se me sinto bem onde estou... - respondeu o homem.

- Mas conheço-o eu! Mister Bowles, de Nova Iorque, contou-me que o senhor assistiu ao naufrágio do "Cynthia" e lhe falou muitas vezes na "criança da bóia"! Pois, sou eu esse mesmo que andou a boiar no mar, num berço amarrado a uma bóia, e é a tal respeito que desejava me desse todas as informações que souber.

- Peça-as a outro, se quiser, que eu não me sinto com disposição de lhas dar.

- Mas assim faz-nos desconfiar que elas não lhe serão muito honrosas.

- Desconfie o que lhe parecer, é-me completamente

indiferente.

Erik estava decidido a não se mostrar irritado.

- Era-lhe mais vantajoso declarar-me de boa vontade o que tenho interesse em saber do que expor-se a ser citado para esse fim perante os tribunais - acrescentou friamente.

- Os tribunais!... Ora! Primeiro que tudo, era preciso que pudesse arrastar-me lá - retorquiu o homem.

Tudor Brown interveio, então, dizendo a Erik:

- Bem vê que só eu posso dar-lhe a explicação que deseja. O melhor é acabarmos com isto e cada qual seguir um rumo diverso.

- Um rumo diverso!... Pois não acha mais simples que sigamos ambos a mesma derrota até chegarmos a um país civilizado, onde possamos regularizar os negócios que nos dizem respeito? - respondeu o moço comandante do "Alaska".

- Não tenho negócios com o senhor nem preciso de companhia! - replicou Tudor Brown, dando a entender que ia descer da ponte.

Erik com um gesto obrigou-o a ficar.

- Proprietário do "Albatroz" - insistiu -, participo-lhe que sou encarregado de uma comissão oficial do meu Governo, e, por conseguinte, oficial de polícia marítima!... Intimo-o a que me comunique imediatamente os papéis de bordo!

Tudor Brown nem sequer se dignou responder e desceu da ponte com o homem que lá tinha chamado.

Erik esperou dois minutos e depois tornou a dizer:

- Proprietário do "Albatroz", acuso-o de tentativa de naufrágio do meu navio no Baixio-Frio de Sein, e intimo-o a que venha responder por esta acusação perante qualquer tribunal marítimo!... Se não obedecer à intimação, cumprirei o meu dever se a tanto me obrigar, empregando a força!

- Se o coração lho pede, experimente! - gritou Tudor Brown, dando as ordens para continuar a marcha.

Enquanto durou a conferência, o "Albatroz" fora virando insensivelmente até pôr-se em ângulo recto com a proa do "Alaska". De súbito, a hélice entrou em movimento e bateu as águas, que levantaram turbilhões de espuma. Cortou os ares um extenso assobio, e o "Albatroz", voando por cima das ondas, partiu a todo o vapor na direcção do Pólo Norte.

Dois minutos depois o "Alaska" precipitava-se em perseguição dele.

 

         TIROS DE CANHÃO.

Ao mesmo tempo que dava caça ao "Albatroz", mandou Erik pôr em bateria o canhão da proa do "Alaska", operação em que se gastou muito tempo. Quando o canhão ficou livre do estojo alcatroado em que estava metido, carregado e pronto para fazer fogo, viu-se que o inimigo estava já fora do alcance. Aproveitara-se naturalmente do tempo de demora do outro, para activar fortemente as fornalhas, e distanciava-se já umas três ou quatro milhas. Para um canhão "Gattling" não pode dizer-se com rigor que seja muito, mas por causa do balanço, da velocidade dos dois navios e do alvo muito limitado que o iate americano oferecia ao tiro, havia mais probabilidades de acertarem as balas na água do que na mira desejada. Mais valia, por isso, esperar, e ainda porque a dianteira que o "Albatroz" levava não aumentou, suposto que também não diminuiu. Prova evidente de que ambos os navios eram, a toda a velocidade, tão bons veleiros um como o outro. Muitas horas conservaram o mesmo intervalo que os separava.

O capricho custava enorme dispêndio de carvão, género que cada vez mais rareava a bordo do "Alaska", e o pior era que, se se não apanhasse o "Albatroz" antes da noite, perdia-se todo aquele gasto sem lucro. Entendeu Erik que não tinha direito de jogar esta última cartada sem consultar a equipagem. Convocou à coberta toda a gente e expôs-lhe francamente a situação:

- Os meus amigos sabem perfeitamente do que se trata: é de ver se capturamos, para o entregar à justiça marítima, aquele celerado que projectou dar-nos a morte no Baixio-Frio, ou se, pelo contrário, devemos deixá-lo escapar! O carvão que nos resta chegará para seis dias. Qualquer desvio de marcha vai expor-nos a findar a nossa viagem à vela, o que pode até fatalmente comprometê-la. Por outro lado, o "Albatroz" conta certamente com a noite para nos dar cheque, adiantando-se cada vez mais. Tem de nos ser essencial vigiá-lo sob o foco do nosso projector eléctrico, além de não enfraquecermos um momento o andamento. Convém saber-se ainda que esta corrida há-de ter necessariamente um termo, talvez amanhã e talvez no dia seguinte, por causa da barreira de neves eternas que defende as imediações do pólo no grau 78 ou 79. Não quis, porém, continuar a perseguição sem os consultar, para me dizerem se a aprovam ou não, e se, em caso afirmativo, de antemão se sujeitam às complicações que nos pode acarretar!

Os homens conferenciaram entre si em voz baixa e encarregaram a maaster Hersebom de dar a resposta.

- Somos de parecer - disse ele tranquilamente - que o dever do "Alaska" é sacrificar tudo à captura daquele miserável!

- Muito bem! - volveu Erik. - Iremos empregar todos os meios para a conseguirmos!

Confiando assim na adesão da tripulação, Erik não poupou combustível e conseguiu manter-se a igual intervalo, apesar dos esforços desesperados de Tudor Brown para se distanciar. Ao pôr do Sol, o olho eléctrico do "Alaska" iluminou-se no topo do mastro grande, e fixou-se implacàvelmente no "Albatroz", para não o deixar mais até ao dia. Toda a noite conservaram os dois navios a mesma distância. A alvorada deu com eles a correrem desesperadamente para o pólo. Ao meio-dia a observação solar indicou que a posição do "Alaska" era de 78 graus 21 14 de latitude norte por 98 graus de longitude leste.

Apareciam já com muita frequência os gelos flutuantes, que havia dez ou quinze dias não se avistavam. Às vezes era necessário rachá-los a golpes de quebra-mar, como sucedera no mar de Baffin.

Erik, convencido de que não tardaria a descortinar-se o banco de gelo, teve a prevenção de obliquar ligeiramente à direita do "Albatroz", para lhe cortar a marcha a leste, se tentasse mudar de rumo, quando encontrasse obstáculos ao norte.

Esta precaução ficou plenamente justificada porque, pela volta das duas da tarde, uma longa barreira de gelo ostentou o seu perfil no horizonte. Imediatamente o iate americano virou a oeste, deixando o banco de gelo quatro a cinco milhas ao largo por estibordo. O "Alaska" imitou acto contínuo aquela manobra, mas desta vez obliquando à esquerda do "Albatroz", com o fim de o cortar pela frente, se tentasse voltar ao sul.

A caça era cada vez mais interessante. Seguro da direcção que o "Albatroz" forçosamente havia de tomar, o "Alaska" propunha-se atacá-lo de flanco, a fim de o empurrar mais e mais contra o banco de gelo. O iate, numa vacilação crescente, retardado pelos gelos flutuantes, mudava a cada instante de rumo, ora encostando ao norte, ora atirando-se doidamente a oeste.

Erik seguia do "ninho-de-corvo" os mais insignificantes estratagemas do navio perseguido, para com movimentos apropriados lhos frustrar todos, quando viu o iate parar de repente, virar de bordo e apresentar a proa em face. A causa da manobra estava à vista: era uma compridíssima linha branca, que se estendia a oeste, o "Albatroz" caíra no fundo de um golfo, formado pelo promontório meridional do banco de gelo e, qual fera acossada pela matilha, fazia-lhe frente.

Mal o moço comandante desceu à coberta, passou-lhe uma bomba a sibilar por cima da cabeça.

O "Albatroz" estava armado e contava defender-se!

- Estimo até que assim seja e que tenha atirado primeiro - disse Erik consigo, dando ordem para replicar.

A sua bomba não foi mais feliz que a de Tudor Brown: caiu a duzentos ou trezentos metros do alvo. O combate, porém, principiou nesse momento e regularizou-se desde então o tiro de ambos os lados. Um projéctil americano partiu em duas a verga grande do "Alaska", caiu na coberta e, rebentando, matou dois homens. Uma bomba sueca acertou em cheio no tombadilho do "Albatroz", onde devia ter feito muito destroço.

Grande número de outros projécteis de um e outro lado caíram no casco e nas manobras.

Os dois navios iam-se aproximando um do outro para de súbito se acometerem com mútuas descargas, quando o rolar de um trovão longínquo veio confundir-se com o troar do canhão, e as tripulações, erguendo os olhos ao céu, viram-no a leste completamente negro.

Viria um temporal, um véu de brumas ou de neve interpor-se entre o "Albatroz" e o "Alaska" e permitir assim a fuga a Tudor Brown? Era o que Erik por modo nenhum desejava. Resolveu saltar à abordagem. Armou toda a sua gente com sabres, machados e facas, e, pondo o navio em marcha, arremessou-se a todo o vapor sobre o iate.

Tudor Brown não tinha tenção de o esperar. Bateu em retirada, pondo-se a navegar ao longo do banco de gelo, e atirando de cinco em cinco minutos um tiro de canhão para a retaguarda. Mas o seu campo de acção era já muito limitado. Apertado cada vez mais entre o continente de gelo e o "Alaska", viu que estava irremediavelmente perdido e só poderia salvar-se arriscando-se audaciosamente a fugir da linha de operações para ganhar o alto mar. Neste intuito começou em manobras fingidas, com o fim de iludir o adversário.

Erik deixou-o andar. E depois, no momento preciso em que o "Albatroz" ia a escapar a toda a força de vapor, arremessou-se a ele para o varar com o seu quebra-mar de aço.

Foi terrível o efeito do choque. Abriu-se no flanco do iate uma brecha escancarada, que logo o fez entorpecer e quase o impossibilitou para toda e qualquer manobra. Quanto ao "Alaska", recuou após o feito e preparava-se para outra vez voltar ao assalto. Mas o estado do mar, mais e mais ameaçador, não lhe deu tempo.

Sobreveio o temporal. Era um fortíssimo vento de sudeste, acompanhado de turbilhões de neve, que não só produzia o efeito de elevar as ondas a formidáveis alturas, mas ainda impelia violentamente para dentro do golfo, onde estavam os dois navios como no fundo de um funil, massas enormes de gelos flutuantes. Podia dizer-se que de todos os pontos do horizonte aqueles montões tinham dado palavra para congregarem-se ali. Erik compreendeu que não tinha um minuto a perder para fugir sem demora daquele beco sem saída, aliás arriscava-se a ficar enterrado lá dentro, talvez sem remédio. Virando de bordo para leste, esforçou-se em lutar contra o vento, contra a neve e contra o exército ululante dos gelos.

Mas em breve se convenceu de que o seu intuito era impossível. O temporal embravecia-se com violência tal que tanto a máquina como o quebra-mar de aço do "Alaska" foram de todo impotentes. Além de avançar pouco, o navio era demais a mais forçado a recuar muitos metros. Os mastros rangiam a cada lufada de vento. A neve densa, escurecendo o céu e cegando a tripulação, chegou a encher a coberta e as manobras com mais de um pé de espessura. Os gelos foram-se acumulando, acumulando, e erguendo a cada rajada de vento uma muralha impenetrável. Não houve mais remédio senão retroceder até ao banco de gelo, procurar aí, quase às apalpadelas, uma enseada e resignar-se a esperar alguma aberta.

O iate americano havia desaparecido da vista no meio da tormenta, mas, no estado em que o golpe de ariete do "Alaska" o tinha posto, era mais que problemático que pudesse resistir. Quanto a sair do golfo, o capitão Erik nem sequer chegou a conceber receios de tal. E, demais, a situação era tão grave que em primeiro lugar estavam os cuidados pessoais, o certo é que de minuto a minuto se tornava mais aterradora.

Nada há que possa representar o horror e o espanto das tempestades árcticas, nas quais parece que as forças da natureza primitiva ressuscitam outra vez, para darem aos navegadores um espécime do que outrora foram os cataclismos do período glaciário. Era profunda a escuridão, apesar de serem apenas cinco horas da tarde nos países onde dia e noite se distinguem bem. Como a máquina a vapor deixou de funcionar, não se podia acender o foco eléctrico. Aos terríveis rumores do furacão, ao rolar dos trovões, ao estrépito dos gelos flutuantes, entrechocando-se e precipitando-se uns contra os outros, acrescia no meio das trevas o estridor que se ouvia no banco de gelo a deslocar-se, a estalar por toda a parte. Quando as fendas se produziam, sentia-se, a cada uma, o estrondear de uma detonação, que se destacava da voz profunda da tempestade, como os tiros de canhão a pedirem socorro num naufrágio. A frequência das explosões indicava que as fendas deviam ser inumeráveis.

Pouco tardou que no "Alaska" se não repercutissem os temerosos choques. A pequena enseada onde pudera refugiar-se foi afinal invadida pelo drift-ice, bem como os mais insignificantes recantos do golfo. Formou-se em volta do navio, cercou-o, apertou-o num torno, um montão de cúmulos de gelo, compactos, cimentados pela neve, que não cessava de cair. E daí, principiou também o "Alaska" a estremecer, a ranger, a estalar sob o esforço dos gelos. As suas cavernas gemiam de concerto com o banco de gelo em que estavam incrustadas. A todo o instante era de recear que o casco se despedaçasse, e por certo assim teria acontecido se não houvesse sido reforçado na ocasião da construção, como foi, na previsão de pressões tão terríveis.

Erik, resoluto a não sucumbir na ingente luta, tinha, aos primeiros anúncios do temporal, ocupado a tripulação em colocar verticalmente de redor do navio grossos barrotes, destinados a atenuar o mais possível as pressões, que assim se repartiram por mais extensa superfície. Mas estes espeques, se serviram de muito para a protecção do casco, também deram causa a um resultado imprevisto, que ameaçava ser fatal.

O navio, em vez de ser esmagado pelos gelos, erguia-se à tona de água a cada movimento do banco de gelo, e caía depois com todo o peso, como um martelo-pilão. De um para outro momento estava-se a ver que se fazia em mil pedaços, que ia a pique, que desaparecia. Ora, para acudir ao perigo, só havia um recurso, e era reforçar mais uma vez, reforçar sem descanso, a barreira do drift-ice e de neve, que de alguma forma protegia o casco, de modo que constituísse uma massa o mais homogénea possível e pudesse acompanhar o movimento de vaivém dos gelos.

Todos se deitaram com ardor ao trabalho. Foi um comovente espectáculo ver aquela meia dúzia de homens a valer-se dos seus músculos pigmeus para resistirem ao poder da natureza, a fazer as diligências para cerzir a toda a pressa com âncoras, cabos e pranchas os rasgões que operavam no gelo, enchendo depois as costuras, até que um simples movimento respiratório do oceano polar vinha de pronto descoser todos aqueles remendos. Passadas quatro ou cinco horas de trabalho sobre-humano, as forças estavam esgotadas, e todavia o perigo cada vez era maior, porque o temporal ia sempre aumentando.

Erik reuniu conselho com os oficiais e nele se decidiu que se pusesse em segurança no banco de gelo um depósito de víveres e munições para o caso de que o "Alaska" não pudesse resistir àqueles horrorosos embates. Além disso, já cada homem nos primeiros momentos de perigo tinha recebido provisões pessoais para oito dias, com instruções adequadas em caso de desastre e ordem de conservar a tiracolo a espingarda, até na ocasião de trabalho. Nem por isso foi muito fácil a operação do transbordo de umas vinte e tantas barricas, mas sempre se levou a bom fim, depositando-se aquela porção de víveres a uns duzentos metros do navio, por debaixo de um toldo alcatroado, que em pouco ficou coberto com um espesso manto branco de neve.

Adoptada esta precaução, todos se sentiram mais animados em caso de possível naufrágio, e a tripulação descansou um pouco para tomar uma refeição suplementar e chá com rum.

De súbito e no meio da ceia, um abalo mais violento que os antecedentes agitou o banco de gelo. Uma pressão formidável rompeu o leito de gelos e neve sobre que o "Alaska" repousava. O navio foi comprimido pelo lado da ré e principiou a erguer-se com rangidos terríveis, mergulhando a proa no abismo como para ir a pique. Houve grande pânico. Todos se precipitaram na coberta. Alguns homens da tripulação imaginaram que era chegado o momento de procurar refúgio no banco de gelo, e, sem esperarem ordens dos seus chefes, saltaram para as trincheiras.

Quatro ou cinco destes desgraçados ainda conseguiram cair em cima da neve. Dois ficaram metidos entre os cúmulos do gelo, que cercavam o navio e a borda de estibordo, na própria ocasião em que o "Alaska", recuperando o equilíbrio, se endireitava, rangendo clamorosamente.

Perderam-se, atabafados na voz do furacão, os gritos de dor e o estridor dos ossos triturados dos dois infelizes. Sobreveio a calma e o navio ficou imóvel.

A lição era trágica. Erik apresentou-a como texto para recomendar à tripulação que conservasse o sangue-frio e aguardasse em toda e qualquer ocasião as ordens dos superiores.

- O que infelizmente observaram - disse-lhes - deve convencê-los de que o desembarque é um remédio supremo, a que só devemos recorrer na última extremidade. Todos os nossos esforços devem convergir a salvarmos o "Alaska"! Se o perdermos, a nossa situação no banco de gelo será bem precária! Portanto, só quando o navio se não puder aguentar de todo é que não teremos outro remédio senão evacuá-lo. E, em todo o caso, é indispensável no mais alto grau que esse passo, quase irremediável, se dê com ordem, para não se transformar em desastre! Conto com que todos vão tranquilamente acabar de cear e confiem aos oficiais a resolução do que for mais conveniente fazer!

A firmeza desta linguagem produziu o efeito imediato de tranquilizar os mais tímidos, e todos os homens desceram à entrecoberta.

Erik chamou então maaster Hersebom, pediu-lhe que soltasse o cão "Klaas" e que o seguisse sem fazer rumor.

- Vamos sair para o campo de gelo - disse-lhe a meia voz - ver se recolhemos os fugitivos e os fazemos entrar no dever. Vale mais proceder assim do que deixá-los por aí entregues ao acaso.

Os pobres diabos lá estavam ainda à borda do banco de gelo, cheios de vergonha pela fuga. Às primeiras palavras de Erik, regressaram logo ao "Alaska".

Erik e maaster Hersebom, depois de os verem entrar, rodearam o depósito de víveres, onde supunham que mais algum marinheiro teria vindo procurar asilo. Não encontraram ninguém.

- Há um instante que penso - disse então Erik - se para prevenir outro pânico não seria mais conveniente mandar desembarcar já uma parte da tripulação?

- Seria talvez melhor, seria - concordou o pescador. - O inconveniente que vejo é que os que permanecerem a bordo podem ficar com inveja dos outros e desmoralizarem-se com essa medida, que lhes há-de causar inquietação.

- Diz bem! O mais prudente será ocupá-los até à última na luta contra a tempestade, e é também a única probabilidade que temos de salvar o navio. E agora, já que estamos aqui no banco de gelo, não lhe parece bom irmos examinar qual o seu estado? Porque, confesso-lhe que estes estalos e detonações que estamos a ouvir, deixam-me muitas dúvidas a respeito da sua solidez!

Erik e o pai adoptivo teriam dado no máximo trezentos passos ao norte do depósito de víveres, quando se viram obrigados a parar repentinamente. Sob os pés abriu-se-lhes uma fenda gigantesca. Para a transpor, precisavam de grandes vigas, de que por esquecimento não vinham munidos. Por isso trataram de regressar a bordo, obliquando para oeste, a verem até onde a fenda se prolongava.

Observaram então que a fenda, ou, mais propriamente, o rasgão, continuava naquela direcção de oeste, em linha muito longa, e tanto que, tendo caminhado mais de meia hora, não lhe viram o fim. Retrocederam afinal, tranquilizados com a extensão do campo de gelo onde estava o depósito dos víveres.

A meio caminho, pouco mais ou menos, da distância que os separava do depósito, sentiram nova vibração do banco, com detonações, estalidos e estrondo de ensurdecer, produzidos pelos gelos a chocarem-se uns nos outros. Não se inquietaram em excesso, mas estugaram o passo, com impaciência de saberem se este novo abalo teria sido de consequências fatais para o "Alaska".

Em pouco tempo chegaram ao depósito, e daí à pequena enseada onde o navio estava abrigado.

Erik e maaster Hersebom esfregaram os olhos e perguntaram um ao outro se não sonhavam: o "Alaska" havia desaparecido!...

O seu primeiro pensamento foi que se teria abismado sob as águas, o que era bem natural com o temporal que fazia.

Mas pouco tardou que eles mudassem de opinião, porque nenhuns vestígios havia da catástrofe e também porque a pequena enseada durante a ausência deles tomara um aspecto inteiramente novo. A massa de drift-ice, que a tempestade acumulara ao redor do "Alaska", onde tinha ficado incrustado, já se não via. Desse montão restava apenas a forma rebicada, como se o banco de gelo conseguisse enfim tornar-se independente de todas as peças deste ornato acidental.

Quase no mesmo instante, maaster Hersebom notou uma circunstância em que não havia reparado quando percorreu o banco em todos os sentidos, mas que naquela ocasião se apresentava evidente, visto achar-se outra vez no ponto de partida: o vento tinha virado para o oeste.

À vista disso, não podia ter acontecido que a tempestade, mudando de direcção, houvesse empurrado para o fundo do golfo os gelos flutuantes no meio dos quais o "Alaska" estava preso?

Sim, evidentemente o facto podia ter-se dado assim. Restava verificá-lo.

Sem mais tardar, Erik dirigiu-se para o fundo do golfo, seguido de maaster Hersebom.

Andaram muito tempo, o espaço de quatro ou cinco quilómetros. Em todo o percurso, viram a borda do banco inteiramente livre de drift-ices, as ondas em fúria vinham quebrar-se nele como numa riba, mas não se divisava o fundo do golfo e, o que mais extraordinário ainda parecia, era que também desaparecera o promontório que o fechava pelo sul.

Erik parou. Desta vez compreendia bem a situação. Pegou na mão de Hersebom e estreitou-a nas suas.

- Pai - disse-lhe -, sei que posso dizer-lhe a verdade toda!...

Pois a verdade é que o banco de gelo dividiu-se e afastou-se da massa onde o "Alaska" estava preso, e nós ambos ficámos aqui numa ilha de gelo de alguns quilómetros de comprido, de algumas centenas de metros de largura, transportados pelas vagas à mercê da tempestade!

 

         TIROS DE ESPINGARDA.

Às duas horas da manhã, Erik e maaster Hersebom meteram-se debaixo do toldo que cobria o depósito dos víveres, e deitaram-se ao lado um do outro, entre duas barricas, abrigando-se contra o frio com o pêlo quente de "Klaas". Dentro em pouco adormeceram. Quando despertaram, o Sol ia já alto no horizonte, o céu recuperara o seu manto azul e o mar era tranquilo. O trapo imenso do banco do gelo que os transportava parecia imóvel, tão suave e regular era o seu movimento. Mas ao longo das duas extremidades mais próximas, viam-se passar com espantosa velocidade enormes icebergues, chocando-se e às vezes esmagando-se uns contra os outros. A paisagem formada por todos estes gigantescos cristais, reflectindo ou decompondo como um prisma os raios solares, não era das menos maravilhosas que Erik tinha contemplado. O próprio maaster Hersebom, pouco inclinado como era em geral, e em especial na condição presente, a admirar os esplendores da natureza, ficou também surpreendido.

- Como seria formoso ver todas estas maravilhas da coberta de um bom navio! - disse, suspirando.

- Ora! - respondeu-lhe Erik, com o seu habitual bom humor. - Se estivéssemos a bordo, todo o nosso cuidado seria evitar os icebergues para nos não fazer em pedaços, enquanto aqui, em cima desta ilha de gelo, essas misérias não nos vêm inquietar!

Era ser optimista de mais.

Maaster Hersebom limitou-se a sorrir com tristeza. Erik, porém, entendeu dever encarar a situação pelo lado melhor.

- E, então, não tivemos uma grande felicidade em ficar ao pé do depósito de provisões? - continuou. - A nossa situação decerto seria desesperada se estivéssemos desprevenidos de tudo. Mas, assim, vinte barricas de biscoito, de carne de fumeiro e bebidas espirituosas, com as nossas armas de sobressalente e cinturão com cartuchos, que temos a recear? Mal nos irá se em poucas semanas não descobrirmos uma terra aonde possamos arribar!... Fique certo, querido pai, de que havemos de sair sãos e salvos desta aventura, tal como saíram os náufragos da "Hansa"!

- Da "Hansa"? - perguntou maaster Hersebom, com curiosidade.

- Sim, um navio que partiu em 1869 para os mares árcticos. Uma parte da tripulação ficou, como nós, separada do navio, em cima de uma jangada de gelo, para onde tinham transportado víveres e carvão. Os intrépidos homens tiveram de se acomodar o melhor que puderam no gelo flutuante. Viveram assim seis meses e meio, percorrendo milhares de léguas, até que conseguiram abordar às terras árcticas da América do Norte.

- Praza a Deus que nos aconteça a mesma felicidade! - disse maaster Hersebom, suspirando... - Entretanto, não faríamos mal se comêssemos alguma coisa.

- Digo também o mesmo - replicou Erik. - Venha um biscoitinho e uma fatia de carne de fumeiro.

Maaster Hersebom destampou duas barricas para tirar os elementos do almoço. Com a ponta da faca praticou um furo num barril de bebidas espirituosas, que logo tapou com uma rolha de madeira, que fez de um arco de barrica, para quando fosse preciso extrair o líquido. Depois, trataram de honrar as provisões escolhidas para o almoço.

- A jangada da tripulação da "Hansa" seria tamanha como esta nossa? - perguntou o velho pescador, passados dez minutos, que foram conscienciosamente empregados a restaurar as forças.

- Não creio! A nossa deve ter pelo menos dez ou doze quilómetros de comprido! A da "Hansa" era de apenas dois. E com seis meses de serviço ficou reduzida à expressão mais simples. Os infelizes náufragos viram-se obrigados a abandoná-la, quando as ondas foram visitá-los ao último refúgio. O que lhes valeu, felizmente, foi possuírem um grande bote, e essa circunstância proporcionou-lhes o ensejo de se deslocarem, quando o banco de gelo deixava de ser habitável, e irem procurar outro. Passaram assim de um para outro muitas vezes, como se fossem ursos brancos, até ao momento em que finalmente lhes foi possível encontrarem terra firme.

- Ora aí está! - disse maaster Hersebom -, eles tinham um bote, e nós é coisa que não temos!... Para sairmos da jangada, só se nós embarcarmos numa destas barricas depois de vazia!

- Veremos isso, quando for maré - volveu Erik. - Por agora, o melhor que temos a fazer é proceder a uma exploração completa do nosso domínio!

Ergueram-se ambos e começaram a subir por uma espécie de montículo de gelos e neves - hummock, é o nome técnico - para poderem formar uma ideia geral do banco de gelo. Ele tinha o aspecto de uma comprida jangada, ou, mais propriamente, de uma ilha, de doze ou talvez quinze quilómetros de uma a outra extremidade, figurando grosseiramente um cetáceo prodigioso, deitado à superfície do oceano polar. O depósito de víveres achava-se colocado ao nível de uma linha que delimitava o primeiro terço, ou a cabeça do cetáceo. Mas, em suma, era assaz difícil formar uma ideia completa da extensão ou da forma verdadeira. Um grande número de hummocks acidentavam-lhe a superfície e fechavam-lhe a vista por todos os lados. A extremidade mais afastada era a que na véspera correspondia ao fundo do golfo. Resolveram dirigir-se desde logo para aí. Pela posição do Sol, parecia, quanto seguramente podia afirmar-se, que este extremo do banco, que na ocasião da separação da massa de que fazia parte, se estendia para oeste, estava agora voltado ao norte. Havia, pois, motivo para supor que a jangada vogava para o sul, sob a influência de correntes ou da brisa, e esta hipótese era corroborada pelo facto de já não se divisarem vestígios da comprida barreira de gelos que se prolongavam para o paralelo 78, na direcção de leste-oeste.

A neve cobria inteiramente o banco, e nela viam-se aqui e acolá certas manchas negras, que maaster Hersebom soube logo o que eram - ougiouks -, uma espécie de focas com barbas, muito apreciáveis. As focas habitavam sem dúvida as fendas ou cavernas do banco e, muito confiadas em que ninguém as perseguiria, estavam-se a aquecer ao sol.

Os nossos dois náufragos gastaram mais de uma hora de marcha para chegarem à ponta extrema da jangada. Foram percorrendo a costa leste, o que lhes permitiu explorar a um tempo o mar e o banco. A todo o instante, "Klaas", saltitando na frente, fazia fugir os ougiouks, que se viam de longe, os quais se arrastavam desjeitosamente até à borda do banco, para de lá se precipitarem no mar. Seria facílimo matar uma grande quantidade destes anfíbios. Mas para quê, se não podiam pensar em acender lume para assar ou grelhar a carne, aliás bem delicada, dos pobres animais? Outras eram as precauções de Erik: examinava com atenção o solo do banco e verificava que estava bem longe de ser homogéneo. Ao menor choque, era de recear que o campo de gelo se partisse em mil bocados, tantas eram as fendas e rachas que se viam em toda a extensão. É verdade que cada um dos fragmentos ainda ficaria de sofrível tamanho. Mas bastava a possibilidade do acidente para se tornar imperiosa a necessidade de se conservarem sempre perto do depósito de víveres, aliás podia despegar-se inopinadamente e verem-no ir sem remédio pelo mar fora. A espessa camada de neve que caiu na véspera principiava já a fechar as fendas ou pelo menos a calafetá-las, mas não havia que fiar. Erik, em todo o caso, resolveu escolher com o maior cuidado, entre as divisões assim delimitadas, a mais maciça e resistente, a fim de a adoptar como quartel-general, e transferir para lá a provisão de víveres.

Com este intuito, ele e maaster Hersebom recomeçaram a exploração pelo oeste, depois de descansarem alguns minutos na ponta do lado norte.

Agora seguiam aquela borda do banco que duas horas antes desenhava ainda a praia do golfo onde o iate americano viera encurralar-se. "Klaas" corria na frente, animado pela frescura do ar, e parecia que estava no seu verdadeiro elemento, neste tapete de gelo, que sem dúvida lhe recordava os plainos da Gronelândia.

De súbito, Erik viu-o absorver ar, partir como uma flecha, e desatar em ladridos defronte de um objecto qualquer, ainda oculto por um cúmulo de gelo.

«Outra vez um ougiouk ou uma foca», pensou ele, sem estugar o passo.

Não era ougiouk nem foca o objecto que jazia na borda do banco de gelo, motivo dos espantos de "Klaas". Era sim um homem, mas um homem sem dar sinais de vida, todo ensanguentado, vestido de peles, que não pertencia aos marinheiros do "Alaska". Foi o que mais impressionou Erik, porque lhe recordou a invernagem da "Vega". Ergueu a cabeça daquele homem. Espessa cabeleira ruiva cobria-lhe toda. O nariz era chato, esmagado como o de um negro...

Erik perguntou a si mesmo se não era ludíbrio de uma ilusão. Desabotoou-lhe com mão trémula a camisola, o peito ficou à vista. Era talvez mais para observar se estava lá escrito um nome do que para verificar se o coração ainda pulsava...

Ah! Sim! Lá estava o nome, o nome tatuado de azul, num quadrado grosseiramente desenhado: "Patrick O'Donoghan, Cynthia".

E o coração pulsava ainda!... E aquele homem não estava morto!... Tinha, é verdade, uma larga ferida na cabeça, outra num ombro, e no peito uma contusão que gradualmente lhe devia dificultar os movimentos respiratórios.

- É indispensável transportá-lo ao nosso abrigo,

curá-lo, restituí-lo à vida! - disse Erik a maaster Hersebom.

E acrescentou em voz baixa, como se receasse ser ouvido:

- Pai, é ele, é ele, a quem há tanto tempo andamos a procurar, sem nunca o termos encontrado! É Patrick O'Donoghan!... Ei-lo aqui, quase morto!

O pensamento de que o segredo da sua vida estava ali, sob aquele crânio espesso e a escorrer sangue, onde parecia que a morte havia já imprimido o seu cunho fatal, acendia nos olhos de Erik uma chama sombria. O seu pai adoptivo adivinhava o que lhe ia na alma, mas encolhia os ombros como quem diz:

«Agora é que há-de lucrar muito com a descoberta do mistério!... Na nossa situação devem importar-nos muito todos os segredos do mundo!»

O que não obstou, todavia, a que segurasse o corpo do marinheiro pelos pés, enquanto Erik o sustentava pela cabeça, pondo-se depois a caminho, carregados com aquele peso. Com o movimento o ferido abriu os olhos. Não tardou que, por causa das feridas, sentisse dores vivíssimas, que exalou em queixumes confusos, nos quais dominava a palavra inglesa drink, bebida. Ainda estavam longe do depósito das provisões. Erik tomou a resolução de parar, encostar o infeliz na neve, de encontro a um hummock, e chegara-lhe aos lábios o seu cantil de couro.

Estava quase vazio, mas o golo de aguardente que O'Donoghan bebeu como que lhe restituiu a vida. Olhou em redor de si, soltou um profundo suspiro e perguntou:

- Jones, onde está?

- Encontrámo-lo ao senhor sozinho à borda do banco de gelo - explicou Erik. - Há quanto tempo estava lá?

- Não sei - replicou o ferido com esforço. - Dêem-me mais de beber! - tornou, fixando os olhos nos de Erik.

Engoliu outro golo de aguardente e recuperou forças para falar, explicando-se deste modo:

- Quando rompeu o temporal, o iate foi a pique. Alguns da tripulação ainda tiveram tempo de se lançar para dentro dos botes, os outros pereceram. Jones fez-me sinal para o acompanhar num pequeno kaiak de salvação, suspenso à popa, e de que toda a gente desdenhava pelas pequenas dimensões, tinha, porém, a vantagem de ser insubmersível. Foi o único que abicou ao banco de gelo!...

Todas as chalupas soçobraram antes de lá chegarem! Fomos horrivelmente maltratados quando as ondas arremessaram sobre o drift-ice o nosso kaiak, mas, enfim, sempre conseguimos pôr-nos fora do alcance delas, esperando a manhã, e logo muito cedo Jones deixou-me, para ver se matava alguma foca ou ave marítima para o nosso sustento. Não tornei mais a vê-lo...

- Esse Sr. Jones é algum marinheiro do "Albatroz"? - perguntou Erik.

- É o proprietário e capitão - respondeu O'Donoghan, com ar de quem ficara surpreendido com semelhante pergunta.

- Então o proprietário não é o Sr. Tudor Brown?

- Eu... eu não sei - volveu o ferido, com certa hesitação e como já arrependido de ter falado tanto.

Erik não quis insistir mais neste assunto. Tinha outras perguntas a fazer-lhe, muito mais importantes.

- Ora vamos - disse ao irlandês, sentando-se na neve ao pé dele. - Há dias não quis vir a meu bordo conversar comigo, e essa recusa deu em resultado bastantes desgraças. Mas agora, que estamos aqui reunidos, porque não havemos de aproveitar o tempo, conversando como pessoas razoáveis? O Patrick está aqui num pedaço de gelo flutuante, ferido, sem provisões, e incapaz por esforço próprio de escapar a uma morte certa! Meu pai adoptivo e eu temos aqui tudo o que lhe falta, de comer, de beber e armas à vontade! O nosso maior desejo é tratá-lo, repartir tudo o que temos e pô-lo completamente restabelecido!... E, em troca dos nossos cuidados, porque não há-de prestar-nos um bocadinho de confiança?

O irlandês fixou em Erik um olhar indeciso, misto de gratidão e medo - mas medo obscuro e indeterminado.

- Isso depende do grau de confiança que desejam - respondeu ele evasivamente.

- Oh! Deve saber muito bem qual ele é! - observou Erik, fazendo esforço para sorrir-se e pegando nas mãos do ferido. - Já há dias lho disse, sabe com certeza o que desejo conhecer, o que vim buscar a estes mares longínquos!... Vamos, Patrick O'Donoghan, faça um leve sacrifício! Diga-me o segredo que tem para mim tamanha importância, declare-me o que sabe acerca da "criança da bóia"! Dê-me somente uma indicação, por meio da qual eu possa ir procurar a minha família!... Que tem a recear, se mo disser? Que perigo teme se quiser ter essa condescendência?

O'Donoghan não respondia e parecia pesar na obtusa cabeça os argumentos aduzidos por Erik.

- Mas - disse com custo -, se nós nos pudermos escapar daqui e se chegarmos a um país onde houver justiça, o senhor é capaz de me fazer mal!

- Não sou, não, juro-lho... Juro-lho pelo que há de mais sagrado!... - asseverou Erik com força. - Sejam quais forem os seus erros para comigo ou outros, garanto-lhe que daí não lhe advirão consequências más!... Demais a mais, há uma coisa que parece ignorar, e é que em todos esses casos já recaiu a prescrição, quero dizer que, tendo-se passado esses acontecimentos, quaisquer que tenham sido, há mais de vinte anos, já a justiça humana não tem direito a tomar-lhe contas!

- Isso é verdade? - perguntou Patrick, ainda com um resto de desconfiança. - O Sr. Jones contou-me que o "Alaska" vinha mandado pela polícia, e o senhor mesmo falou em tribunais...

- Falei, sim, mas foi a respeito de factos de há pouco tempo e de um acidente que nos sucedeu no princípio da viagem! Fique certo, Patrick, que foi vítima das zombarias do Sr. Jones! Sem dúvida ele tem algum interesse em que não fale!

- Olá se tem! - disse o irlandês, com convicção. - Mas como é que o senhor descobriu que eu sabia o segredo? - acrescentou, olhando para Erik.

- Mister e Mistress Bowles, da Red Anchor, de Brooklyn, ouviram-no muitas vezes falar da "criança da bóia".

- É verdade!... - confirmou o irlandês. E ficou ainda a reflectir.

- Sempre é certo que não vêm do mando da polícia? - insistiu ele.

- Não, mil vezes não! Que absurda ideia!... Sou mandado por mim mesmo, pelo ardente desejo, pela sede que tenho de saber qual é o meu país e quem são os meus pais. É tudo!

O'Donoghan não pôde deixar de sorrir com certa vaidade.

- É, em suma, o que deseja saber? - perguntou. - Pois bem, é verdade, só eu lho posso dizer!... É verdade que sei tudo.

- Diga-mo, O'Donoghan, diga-mo! - suplicou Erik, que o viu abalado. - Diga-mo e prometo-lhe o perdão para todas as suas faltas, se as tem, e a gratidão, se me der ensejo para lhe dar provas dela!

O pobre irlandês deitou olhares ávidos para o cantil de couro.

- Já tenho a garganta seca de falar tanto. Bebia ainda mais um golo de aguardente, se me permitisse...

- O cantil já não tem, vai-se buscar mais ao depósito! Temos duas grandes vasilhas dela - informou Erik, dando a garrafa a maaster Hersebom.

Este afastou-se logo, seguido de "Klaas".

- Pouco se há-de demorar - tornou Erik, voltando-se para o ferido. - Vamos, meu amigo, não mercadeje a sua confiança!... Ponha-se por um momento no meu lugar! Suponha que ignorou toda a vida qual era o seu país natal e o nome da sua mãe, que um dia se encontra na presença de um homem que sabe tudo isso, e que esse homem se recusa a dar-lhe as informações mais preciosas na própria ocasião em que o salvou e lhe restituiu a vida!... Seria bem cruel, não é assim? Ah! Seria intolerável!... Veja bem que não lhe peço impossíveis!... Nem sequer o acuso, ainda que motivos houvesse para tanto!... Dê-me unicamente uma indicação, insignificante que seja, mostre-me o caminho, nada mais desejo!...

- Vou dar-lhe esse prazer - acedeu Patrick, evidentemente comovido. - Saberá que eu era grumete do "Cynthia"...

Deixou repentinamente de falar.

Erik estava-lhe suspenso dos lábios... Até que enfim... iria saber a palavra do enigma, conhecer o nome da família, da pátria? Na verdade, esta esperança agora não parecia quimérica... Todo entregue às palavras do ferido, tinha os olhos pregados nele, haurindo com avidez, de antemão, o que ia revelar-lhe. Por coisa nenhuma perturbaria a narração, nem com um gesto. De modo que não notou que na sua retaguarda surgira uma sombra. Pois a vista desta sombra foi que interrompeu de súbito a narração de Patrick.

- O Sr. Jones!... - exclamou, tal como um aluno de escola surpreendido em flagrante delito de bisbilhotice.

Erik voltou-se e viu Tudor Brown de pé, defronte de um hummock próximo, que até então o havia ocultado às vistas de ambos. A exclamação do irlandês confirmava a suspeita, que poucos momentos antes o assaltara, de que os Srs. Jones e Tudor Brown eram uma e a mesma pessoa!

Teve apenas tempo de formular este juízo no seu espírito.

Duas detonações, com intervalo de três segundos uma da outra, estenderam sem vida dois homens.

Tudor Brown, pondo a espingarda à cara, atirou ao coração de Patrick O'Donoghan, que caiu instantaneamente fulminado.

Mas antes de ter tempo de sequer abaixar a arma, Tudor Brown apanhou com uma bala na testa e caiu de face no solo.

- Fiz bem em regressar, logo que vi passos suspeitos na neve! - declarou maaster Hersebom, aparecendo com a espingarda ainda a deitar fumo.

 

         O FIM DO PÉRIPLO.

Erik soltara um grande grito e precipitara-se de joelhos diante de Patrick O'Donoghan, buscando ainda um clarão de esperança no último lampejo daquela vida que findava!... Mas, ah!, desta vez o irlandês estava bem morto e levava para o túmulo o seu segredo!

Quanto a Tudor Brown, o corpo estremeceu-lhe em suprema convulsão, as mãos largaram a arma a que se agarrara no momento em que caiu, e expirou sem pronunciar uma palavra.

- Pai, que fez? - bradou amargamente Erik. - Para que foi suprimir a única probabilidade que me restava de desvendar o mistério da minha vida?... Não valia mais arrojar-se sobre este homem e fazê-lo prisioneiro?

- E pensas que me daria tempo para isso?... - respondeu maaster Hersebom. - O segundo tiro era destinado a ti, podes crer!... Vinguei o assassínio deste desgraçado, puni o crime de Baixio-Frio e talvez ainda outros! Sejam quais forem as consequências, não me arrependo!... E, demais, que importa o mistério da tua vida, meu filho, na situação em que nos achamos?... O mistério da tua vida iremos com certeza daqui a pouco perguntá-lo a Deus!

Não acabava bem de dizer estas palavras quando retumbou um tiro de canhão, que se repercutiu pelos icebergues e bancos de gelo. Era como uma resposta às vozes de desânimo do velho pescador e sem dúvida o era também aos dois tiros que tinham detonado na jangada de gelo.

- O canhão do "Alaska"!... Estamos salvos!... - bradou Erik, levantando-se para trepar acima de um hummock, a fim de explorar com a vista o mar sem limites.

A princípio viu simplesmente icebergues sem conta, arrastados pela brisa, balanceando-se à luz do Sol. Maaster Hersebom carregou, porém, de novo a espingarda e disparou para o ar, e quase em seguida respondeu-lhe outro tiro de canhão.

Desta vez enxergou Erik muito bem uma fita de fumo para os lados do oeste, a subir no meio do azul do céu. Começou depois um tiroteio de canhão e de espingarda, com intervalos de alguns minutos, e enfim o "Alaska", saindo detrás de um icebergue, apareceu, correndo a todo o vapor para o norte do banco de gelo.

Erik e maaster Hersebom arremessaram-se aos braços um do outro, chorando de alegria. Acenaram com os lenços, atiraram os bonés ao ar, e procuraram por todos os meios dar sinal de si aos amigos.

O "Alaska" parou finalmente. Desamarrou de bordo uma baleeira e vinte minutos depois atracava ao banco de gelo.

Difícil é explicar a profunda alegria do Dr. Schwaryencrona, dos Srs. Bredejord e Malarius e de Otto, encontrando sãos e salvos os que supunham perdidos!

Contou-se tudo o que se passara: os espantos e desesperos da noite, as chamadas sem resultado, as cóleras que de nada serviram. O "Alaska", quando rompeu o dia, viu-se livre de gelos, e para acabar de se libertar usou as cargas de mina. O Sr. Bosewitz, na qualidade de imediato, assumiu o comando e começou logo à procura do campo de gelo flutuante, na direcção do vento que o impelia. Esta navegação no meio dos gelos movediços era a mais perigosa que até então o "Alaska" executara. Mas graças à excelente disciplina que o moço comandante mantivera na tripulação, à experiência adquirida, à precisão de manobras, o certo é que se moveu sem desastre por entre as massas errantes. Outra vantagem era o "Alaska" singrar na mesma direcção dos gelos flutuantes com velocidade superior à deles. Quis a sorte que a busca não fosse em vão. Às nove da manhã foi avistando o banco de gelo a barlavento, e de cima do "ninho-de-corvo" até a própria forma dele fora reconhecida. Daí a pouco os dois tiros de espingarda deram todas as esperanças de que os náufragos deviam lá estar.

Desde então o resto pouco importava. O navio ia já seguir o rumo do Atlântico, e pouca sorte teria se lá não chegasse - à vela bem entendido, porque carvão já não havia.

- À vela, não! - disse Erik. - Tenho cá outras ideias. A primeira é irmos a reboque do banco de gelo todo o tempo que ele se dirigir para o sul ou para oeste, o que nos poupará combates incessantes contra os icebergues, que a nossa jangada se há-de encarregar de desviar pela frente, a segunda é colhermos no próprio banco o combustível necessário para acabarmos a viagem, quando nos convier recuperar a nossa autonomia, separando-nos do banco.

- Essa é a melhor! - observou o doutor, rindo-se. - Aposto que queres descobrir no ventre do gelo uma mina de hulha!

- Não é precisamente uma mina de hulha - retorquiu Erik -, mas uma coisa que se parece: uma mina de carvão animal, sob a forma de toucinho de ougiouk. Quero tentar a experiência, visto termos fornalhas destinadas expressamente a este combustível.

Antes da partida prestaram-se as últimas honras aos dois mortos, que foram lançados ao mar com uma bola amarrada aos pés. O "Alaska" foi depois atracar pelo flanco ao banco de gelo, seguindo-lhe os movimentos, mas sempre protegido pela sua própria massa. Esta evolução permitiu-lhe recolher facilmente a bordo os víveres desembarcados, que era de alta importância não se perderem. Terminada a operação, o navio foi amarrar ao banco pela extremidade norte, onde mais protegido ficava contra os icebergues. Erik calculara que assim rebocado corria termo médio seis nós, o que já era um bom andamento até nova ordem, e, ainda para mais, acabava-se o receio dos gelos flutuantes.

Ao passo que o banco marchava assim majestosamente na direcção do sul, como um continente à garra, levando um satélite a reboque, começou-se a dar caça regular aos ougiouks.

Duas ou três vezes por dia, grupos de homens armados de espingardas e arpéus, acompanhados de todos os cães gronelandeses, desembarcavam no campo de gelo e cercavam os monstros marinhos, adormecidos à borda das tocas. Matavam-nos com balas nos ouvidos, cortavam-nos aos pedaços, extraíam-lhes as gorduras e carregavam os trenós, que os cães logo transportavam ao "Alaska". A caça era tão fácil e de tão bom resultado que em oito dias os paióis ficaram totalmente abarrotados.

O "Alaska", sempre rebocado pelo banco, achava-se então por 40 graus de longitude leste, no paralelo 74, isto é, deixara para trás a Nova Zembla, passando-lhe pelo norte.

A jangada de gelo estava já quase reduzida a metade, e o resto, aquecido pelo sol e atravessado de fendas cada vez mais profundas, aproximava-se manifestamente da decomposição total. Era chegada a ocasião de a grande ilha se desfazer em drift-ices. Erik não quis esperar. Levantou ferro e aproou directamente a oeste.

O toucinho de foca, imediatamente utilizado nas fornalhas ad hoc de que o "Alaska" ia munido, deu um combustível excelente, combinado com alguns poucos restos que havia ainda de hulha. O único defeito que tinha era engordurar a chaminé, que, por isso, precisava de ser todos os dias lavada. Quanto ao cheiro, que sem dúvida impressionaria desagradàvelmente um meridional, constituía apenas um inconveniente secundário para aquela equipagem sueca e norueguesa.

O certo é que, graças a este novo suprimento, o "Alaska" navegou a vapor até ao fim, transpôs rapidamente, apesar dos ventos contrários, a distância que o separava ainda dos mares da Europa, e chegou a 5 de Setembro à vista do cabo Norte da Noruega, sem sequer arribar a Tromsoê, como poderia fazer em caso de necessidade, prosseguiu activamente a derrota, contornou a península escandinava, passou o Skager Ragg e regressou ao ponto de partida. A 14 de Setembro largava ferro defronte de Estocolmo, nas próprias águas donde desamarrara em 10 de Fevereiro precedente. E assim, em sete meses e quatro dias, um navegador de vinte e dois anos perfazia o primeiro périplo circumpolar.

Este importantíssimo sucesso geográfico, que completava e comprovava tão de pronto a grande expedição de Nordenskiold, não devia tardar que desse brado em todo o Mundo. Mas no próprio momento da chegada, nem jornais nem revistas tinham ainda explicado os méritos de tão grande empreendimento. Só os iniciados estavam em circunstâncias de os apreciar, e desses só uma pessoa deixava de ligar-lhes importância - era Kajsa.

O sorriso de superioridade com que acolheu a narração da viagem foi muito de ver-se. Por único comentário, disse:

- Vejam que insensatez irem voluntariamente expor-se a semelhantes perigos!

E isto foi ainda condimentado com a seguinte referência a Erik, logo que encontrou ensejo azado:

- Ainda bem que foi morto o irlandês, para ficarmos livres para sempre deste fastidioso assunto!

Que diferença entre estes conceitos duros e frios e a carta cheia de efusões e ternuras que Erik não tardou a receber de Noroé! Vanda contava-lhe os transes por que ela e a mãe tinham passado naqueles longos meses e dizia-lhe que o pensamento de ambas não havia cessado de estar com os viajantes, que se sentiam bem felizes por eles terem chegado a porto de salvamento!... Que se a expedição não tinha dado todos os resultados que Erik pretendia, não devia afligir-se extraordinariamente por isso, porque devia saber que, na falta da verdadeira família, tinha, na pobre aldeia norueguesa, outra que ternamente o amava e o acompanhava sempre com o pensamento. Perguntava-lhe se não ia fazer-lhe uma visita, a essa família que o considerava sempre como seu e não queria renunciar a ele! Podia roubar um mês que fosse aos seus trabalhos para lho dedicar!

Eram os votos mais ardentes da sua mãe adoptiva e da sua irmãzita Vanda.

E tudo isto acompanhado de três formosas florzinhas, colhidas à borda do fiorde, em cujo perfume Erik cuidou ver reproduzida toda a sua infância descuidosa e alegre. Ah! Como estes extremos foram doces ao seu pobre coração desiludido, e lhe deram resignação para sofrer os dissabores finais da expedição!

E, contudo, pouco tardou que a viagem do "Alaska" não fosse considerada como um sucesso, que igualava em grandeza o da "Vega". Por toda a parte se associava o nome de Erik ao nome glorioso de Nordenskiold. Os jornais não falavam de outra coisa senão do novo périplo. Os navios de todas as nações, surtos em Estocolmo, embandeiraram em honra desta grande vitória náutica. Erik, surpreendido e envergonhado, viu-se em toda a parte recebido com as ovações próprias dos triunfadores. As sociedades científicas foram, incorporadas, dar as boas-vindas ao comandante e à equipagem do "Alaska", e os poderes públicos propuseram em sua honra uma recompensa nacional.

Todos estes elogios e nomeada incomodavam sinceramente Erik. Metendo-se na empresa, tinha a consciência de haver obedecido a considerações de ordem pessoal, e sentia escrúpulos em aceitar uma glória que, pelo menos, achava exagerada. E, assim, aproveitou a primeira ocasião que se lhe ofereceu para dizer francamente o que fora fazer aos mares polares - sem todavia ter conseguido resultado-: procurar saber o segredo do seu nascimento, da sua origem, do naufrágio do "Cynthia".

Essa ocasião surgiu-lhe na forma de um indivíduo imberbe, baixinho, mas vivo como um azougue, que fazia parte, na qualidade de repórter, de um dos principais jornais de Estocolmo, e que se apresentou a bordo do "Alaska" para solicitar o favor de uma "conversação pessoal" com o moço comandante. O fim do inteligente gazetilheiro, precisamos já de dizê-lo, era unicamente arrancar à vítima os elementos de uma biografia de cem linhas. O certo é que não podia encontrar sujeito mais disposto à vivissecção.

Erik tinha sede de dizer a verdade e de proclamar que não merecia ser considerado como um Cristóvão Colombo. Contou, pois, tudo sem reticências, narrou de novo a sua história, como fora recolhido no mar por um pobre pescador de Noroè, educado depois pelo Sr. Malarius, trazido a Estocolmo pelo Dr. Schwaryencrona, como viera a saber-se que Patrick O'Donoghan conhecia provavelmente a palavra do enigma, como se descobrira que estava a bordo da "Vega", como o foram procurar, qual a razão da mudança de itinerário, a necessidade de seguirem até à ilha Ljakow, até ao cabo Tchelynskin... E tudo isto dizia Erik para de alguma forma se desculpar de ser um herói. E dizia-o porque tinha agora vergonha de se ver sobrecarregado de elogios pelo que se lhe afigurava tão natural e tão simples.

Enquanto falava, o lápis do repórter, o Sr. Squirrélius, corria sobre o papel com rapidez estenográfica. De tudo tomou notas, das datas, dos nomes, dos mínimos pormenores. O Sr. Squirrélius dizia consigo, palpitando-lhe o coração, que a confissão não produziria só cem linhas!... Uma narração vibrante, apanhada ao vivo, comovedora como um folhetim!

Na manhã seguinte, a narrativa enchia três colunas do jornal mais lido da Suécia. Como quase sempre sucede em tais casos, a sinceridade de Erik, em vez de diminuir os seus méritos, ainda mais os fez valer pela modéstia que atestava o interesse romanesco que suscitava a sua história. A imprensa e o público interessaram-se avidamente por ela. Os esboços biográficos, dentro em pouco traduzidos em todas as línguas, percorreram a Europa inteira.

E foi assim que chegaram também a Paris e penetraram uma noite, sob a cinta ainda húmida de um jornal francês, numa modesta sala da Rue de Varennes, no segundo andar de uma casa antiga.

Estavam duas pessoas naquela sala. Uma senhora de vestido preto e cabelos brancos, posto que parecesse ainda bem nova, fisionomia, traje e aspecto respiravam eterno luto. Sentada à mesa, sobre a qual estava um candeeiro com abat-jour, trabalhava maquinalmente num bordado, fixando um tanto os olhos na sombra, como se estivesse a recordar-se de algum sucesso inolvidável e doloroso.

Do outro lado da mesa, um velho venerando percorria com olhos distraídos o jornal que o criado lhe trouxera.

Era o Sr. Durrieu, cônsul-geral honorário e um dos secretários da Sociedade de Geografia - aquele mesmo que estava em Brest, em casa do prefeito marítimo, por ocasião da passagem do "Alaska".

Por certo, e em razão disto mesmo, o nome de Erik atraiu particularmente a sua atenção, porque, ao ler o artigo biográfico consagrado ao moço navegador sueco, sentiu-se estremecer todo. Releu depois o artigo com profunda atenção. Pouco a pouco, intensa palidez invadiu-lhe o rosto, que já era bem pálido, as mãos começaram a tremer nervosamente. A perturbação chegou a ser tão visível que não pôde passar despercebida à senhora vestida de luto.

- Sente-se mal? Tem alguma coisa, meu pai? - perguntou-lhe, cheia de cuidado.

- Eu... eu... creio que está muito calor aqui... muito calor no fogão!... Vou ao meu quarto tomar ar!... Isto não é nada!... É um incómodo passageiro! - respondeu o Sr. Durrieu, levantando-se para ir à sala contígua.

Como por inadvertência, levou consigo o jornal que estivera a ler. Se a filha tivesse podido ler no pensamento dele, havia de ver, no meio do tumultuar de esperanças e receios que se lhe cruzavam no cérebro, dominar a firme vontade de subtrair o jornal às suas vistas.

Assim mesmo, ainda teve ideia de seguir o pai ao quarto, mas ao mesmo tempo pareceu-lhe que ele desejava ficar só e submeteu-se discretamente a esse capricho. E em breve se tranquilizou de todo, sentindo o pai passear de um lado para outro, a passos largos, e abrir e fechar a janela.

Passada uma hora é que se decidiu a entreabrir a porta para ver o que o Sr. Durrieu estava a fazer. Sentado à secretária, escrevia uma carta.

O que ela não viu foi o ancião com os olhos arrasados de lágrimas quando estava a escrever.

 

         UMA CARTA DE PARIS.

Desde o regresso a Estocolmo, Erik recebia quase diariamente de todos os países da Europa uma volumosa correspondência. Eram corporações científicas ou particulares a dirigir-lhe felicitações. Governos estrangeiros a decretar-lhe honras ou recompensas, armadores e negociantes a solicitar-lhe informações prestáveis a seus interesses. Por isso não ficou surpreendido de receber, uma manhã, duas cartas com o carimbo de Paris.

A primeira que abriu era um convite da Sociedade de Geografia da França para si e seus companheiros de viagem, a fim de irem pessoalmente receber uma grande medalha de honra, outorgada em sessão solene ao "autor do primeiro périplo circumpolar pelos mares árcticos".

O segundo sobrescrito causou tremuras a Erik quando foi a abri-lo. A modo de sinete, sobre o fecho, estava um medalhão gravado com as iniciais E. D., cercadas da divisa Semper idem...

Iniciais e divisa vinham reproduzidas ao canto da carta encerrada no sobrescrito e assinada pelo Sr. Durrieu. A carta dizia como se segue:

 

«Meu querido filho, consinta que desde já lhe dê este nome, suceda o que suceder. Li agora num jornal francês uma nota biográfica traduzida do sueco, a qual me está a impressionar além de toda a expressão. Essa nota diz-lhe respeito. A crer-se no que ela assevera, o meu filho foi salvo em pleno mar, há vinte e dois anos, por um pescador norueguês das proximidades de Bergen, e ia a flutuar amarrado a uma bóia onde estava inscrito o nome de "Cynthia", a sua viagem árctica teve por fim, segundo expõe a mesma nota, descobrir um sobrevivente do navio daquele nome, naufragado em Outubro de 1858 na altura das ilhas Feroé, finalmente, e ainda segundo a nota, a expedição não deu o resultado que se desejava.

Se tudo isto é verdade (oh! e quanto não daria eu para o saber nesta hora), peço-lhe encarecidamente que, sem perda de um minuto, corra ao telégrafo e mo diga, porque se assim é, meu filho - faça ideia da minha impaciência, ansiedade e alegria -, saiba que é o meu querido neto, a quem há tantos anos choro, que julguei perdido para sempre, e por quem minha pobre filha, com o coração horrivelmente despedaçado pelo drama do "Cynthia", chama e suspira a cada hora! Era o seu único filho, o seu sorriso e a sua consolação, e tem sido neste entretanto o desespero da sua viuvez!...

Acho felicidade extraordinária e grande de mais para ela e para mim termos agora a certeza de que esse filho existe e cheio de glória! Não ouso crê-lo antes que as suas notícias me autorizem a tanto!... E, todavia, parece tudo tão verosímil!... Todos os pormenores concordam tão rigorosamente!... A sua fisionomia e maneiras recordam com tanta semelhança as do meu infeliz genro! Na primeira e única vez que nos encontrámos senti-me atraído para o meu filho por simpatia tão súbita e profunda!... Parece impossível que tudo isto não tenha alguma razão de ser!

Mande uma palavra, uma palavra só, e quanto antes, pelo telégrafo!... Até à chegada desse telegrama pode crer que fico com a vida suspensa. Praza a Deus que me mande a resposta que espero e que ardentemente desejo! Praza a Deus que ela traga a felicidade a minha filha e a mim, para nos fazer olvidar uma vida inteira de saudades e de lágrimas!

 

  1. Durrieu

CÔNSUL-GERAL HONORÁRIO, 104, Rue de Varennes, Paris.»

 

A esta carta vinha anexa uma nota justificativa, que Erik devorou com avidez. Era igualmente do punho do Sr. Durrieu e continha o seguinte:

 

«Eu era cônsul da França em Nova Orleães, quando minha filha única, Catarina, casou com um moço francês, Jorge Durrieu, nosso parente afastado e de origem bretã como nós. Jorge Durrieu era engenheiro de minas. Fora aos Estados Unidos explorar umas fontes de petróleo recentemente descobertas, e contava demorar-se lá alguns anos. Recebido na minha casa como o devia ser um homem do seu mérito, que usava o nosso nome, e filho de um amigo íntimo da minha mocidade, pediu-me um dia a mão de minha filha, que lhe concedi com prazer. Pouco tempo depois do casamento fui imprevistamente transferido para o posto consular de Riga, e como interesses consideráveis prendiam meu genro nos Estados Unidos, minha filha ficou com o marido. Desta união nasceu um filho, que recebeu os meus prenomes e os do pai, chamando-se Emílio Henrique Jorge.

Seis meses mais tarde, o meu genro faleceu vítima de intoxicação na mina. Depois de regularizar os seus negócios a minha pobre filha, viúva aos vinte anos, embarcou em Nova Iorque, no "Cynthia", com destino a Hamburgo, para vir ter comigo pela via mais directa.

A 7 de Outubro de 1858 o "Cynthia" naufragou a leste das ilhas Feroê. As circunstâncias do naufrágio deram motivo a suspeitas e ficaram sempre sem explicação. O certo é que, no momento do desastre, na própria ocasião em que os passageiros se acomodavam cada um como podia na chalupa, ou caiu ou foi arremessado ao mar, e desapareceu, o meu netinho, que a mãe tinha amarrado com o berço a uma bóia de salvação.

A minha filha, completamente louca com este horrível espectáculo, quis precipitar-se nas ondas, mas salvaram-na à viva força e deitaram-na sem sentidos numa embarcação onde iam mais três pessoas, e essa foi a única que se salvou. No fim de quarenta e nove horas, o bote arribou a uma das ilhas Feroê. Foi daí que ela veio para a minha companhia, graças aos cuidados e dedicação de um marinheiro, que a salvou e a acompanhou, tendo contudo esperado ainda sete mortais semanas. O bravo marinheiro, chamado John Denman, morreu mais tarde ao meu serviço na Ásia Menor.

Nenhuma esperança séria podíamos ter de que o pobrezito bebé sobrevivesse ao naufrágio. Ainda assim mandei fazer explorações das ilhas Feroé, Shetland, e na costa norueguesa ao norte de Bergen. Parecia inadmissível a ideia de que o berço fosse mais além. Só renunciei às investigações passados anos, e, se não chegaram até Noroé, foi por ser um ponto extremamente afastado e sem relações directas com a costa marítima.

Quando definitivamente perdemos a esperança, consagrei-me todo à minha filha, cuja saúde tísica e moral exigia os maiores cuidados e carinhos. Consegui ir comissionado ao Oriente e procurei distraí-la por meio das viagens e empresas científicas. Foi a companheira inseparável dos meus trabalhos, mas nunca alcancei curá-la da sua imensa tristeza. Finalmente, há dois anos, aposentei-me e regressei à França. Habitamos alternadamente em Paris e na velha casa que possuo em Val-Féray, perto de Brest.

Teremos ainda a ventura de nela vermos entrar um dia o meu neto, aquele que há tantos anos choramos? Considero lisonjeira de mais essa promessa para que me resolva a comunicá-la à minha filha, enquanto se não transformar em certeza. Seria uma verdadeira ressurreição! Todavia, se tivesse agora de renunciar a ela, que decepção horrível!

É hoje segunda-feira. Disseram-me no correio que no sábado próximo posso ter a resposta!...»

 

Com custo pôde Erik acabar a leitura. As lágrimas obscureciam-lhe a vista. Por sua parte tinha também receio de se entregar à esperança que subitamente lhe renascia. A si próprio repetia que todas as circunstâncias se combinavam - as datas, os sucessos e as mínimas particularidades. Mas, não seria felicidade de mais? Não era para desconfiar de tanta sorte?... Encontrar a um tempo, família, uma mãe verdadeira e pátria!... E que pátria!...

 

A própria que teria escolhido entre todas, porque, por assim dizer, encarna as grandezas, as graças e o carácter supremo da humanidade, e é nela que se reúne e confunde o génio das civilizações antigas e a chama e espírito dos tempos modernos!

Teve medo de que tudo isto fosse apenas um sonho. Perdera já tantas vezes as ilusões!... Quem sabe se o doutor com uma única palavra não lhe iria destruir pela base aquele novo edifício! Em todo o caso, era ele quem devia escolher para juiz.

O doutor leu com toda a atenção os documentos que Erik lhe apresentou e de vez em quando deixava escapar exclamações de surpresa e alegria.

- Sem sombra de dúvida! - disse finalmente. - Todos os pormenores concordam rigorosamente, até os que a carta deixa de mencionar: as iniciais das roupas brancas e a divisa gravada na medalha, que é a mesma da carta!... Querido filho, desta vez é certo teres encontrado a tua família! É preciso que vás, já, já, expedir um telegrama a teu avô...

- Mas que lhe hei-de dizer? - perguntou Erik, pálido de alegria.

- Diz-lhe que amanhã partes daqui para o ires apertar em teus braços e mais a tua mãe.

O moço capitão nada mais fez do que estreitar ao coração a mão do excelente homem, e metendo-se num cabriole foi a toda a pressa para o telégrafo.

Nesse mesmo dia partiu de Estocolmo, seguindo o caminho de ferro, que desembarcou em Malmõe, na costa noroeste da Suécia, atravessou o estreito em vinte minutos, seguiu de Copenhaga pelo expresso da Holanda e Bélgica, chegou a Bruxelas, e dirigiu-se logo para Paris.

No sábado, às sete horas da tarde, seis dias exactos depois de que o Sr. Durrieu lançara a carta no correio, estava este a esperar o neto na Gare do Norte. Telegramas sucessivos de Erik, durante o trajecto, tinham concorrido para acalmar-lhe a impaciência.

Enfim, o comboio entrou a silvar sob a alta cúpula de vidro. O Sr. Durrieu e o neto caíram nos braços um do outro. Nos últimos dias de espera tinham convivido tanto pelo pensamento comum que naquele momento parecia-lhes que já se conheciam há muito.

- Minha mãe? - perguntou Erik.

- Não me atrevi a contar-lhe nada, enquanto não

viesses - respondeu o Sr. Durrieu, empregando pela primeira vez o tu, doce como uma carícia materna, que todas as outras línguas invejam à francesa.

- Então ela não sabe nada ainda?

- Está desconfiada, cheia de temor e de esperança! Desde o teu telegrama todos os dias a tenho ido preparando para a alegria imensa que a espera! Falei-lhe de novo no moço oficial da marinha sueca, com quem havia estado em Brest, e disse-lhe que ele me tinha indicado uma pista que eu começara a seguir!... Saber com certeza não sabe ela nada, mas anda hesitante, parece que desconfia de que está para acontecer alguma novidade! Esta manhã ao almoço vi-me aflito para ocultar-lhe a minha impaciência! Tinha os olhos pregados em mim, observava-me com tal atenção!... Por duas ou três vezes julguei que ia exigir-me uma declaração formal!... Confesso-te que cheguei a ter medo! Ora imagina que se dava um engano, um contratempo súbito, ou, pior ainda, uma desgraça que nos viesse cair sobre a cabeça... Em ocasiões como esta nossa, tudo é de recear!... O certo é que para me escapar não jantei em casa. Pretextei um negócio e subtraí-me, fugindo, a uma situação intolerável.

Sem esperarem pelas bagagens, partiram ambos no cupé em que o Sr. Durrieu tinha vindo.

Neste meio tempo, a Sr.a Durrieu, sozinha na casa da Rue de Varennes, aguardava com impaciência a volta do pai, que de facto tinha adivinhado quando receou que ao jantar ela lhe pedisse explicações. Havia alguns dias andava inquieta com aquelas idas e vindas, telegramas contínuos que o pai recebia e duplos sentidos que as suas palavras encerravam. Habituada a comunicar com ele os mínimos pensares e as mais simples impressões, nem sequer podia compreender que cuidasse de ocultar-lhe fosse o que fosse. Muitas vezes esteve para reclamar-lhe a chave do enigma, mas calava-se em face do obstinado silêncio que ele guardava.

«Anda a preparar-me alguma surpresa», dizia consigo. «Não devo regatear-lhe a alegria que deve ter!»

E contudo, nos últimos dois ou três dias e especialmente naquela manhã, tinha-a admirado a espécie de impaciência que todos os movimentos do Sr. Durrieu indicavam, o ar de satisfação que lhe animava os olhos, a insistência com que lhe acudiam aos lábios as alusões, que durante tempo evitara, ao desastre do "Cynthia". E, de repente, fez-se-lhe na alma como uma iluminação extraordinária, mas indefinida. Compreendera vagamente que havia alguma novidade, que o pai, com ou sem razão, julgava ir na pista de um indício favorável, que talvez lhe renascesse a esperança tanto tempo alimentada de descobrir o seu filho, e, sem poder supor que as coisas estivessem tão adiantadas, tomara a resolução decisiva de perguntar ao pai o que acontecia.

A Sr.a Durrieu jamais abandonara a ideia da existência provável do filho. Uma mãe, enquanto não tem sob os olhos um filho seu no estado de cadáver, recusa-se, por assim dizer, a sancionar com a sua adesão o facto irreparável da morte. Alega sempre que as testemunhas podem ter-se enganado e que as aparências muitas vezes são ilusórias. Crê sempre na possibilidade de um regresso repentino. Pode dizer-se que o espera todos os dias e a todas as horas. Milhares de mães de soldados e marítimos conservam anos e anos esta comovente ilusão. Ora a Sr.a Durrieu tinha, mais que qualquer outra, razões para a conservar. De facto, a trágica cena de vinte e dois anos antes andava-lhe sempre diante dos olhos como no próprio dia. Representava-se-lhe à imaginação o "Cynthia" invadido pelas vagas e arriscado a ir a pique a cada uma que o acometia. Via-se a si mesma a atar com as suas próprias mãos o filhinho a uma grande bóia, na ocasião em que todos, passageiros e marinheiros, em horrível confusão, se precipitavam para dentro das chalupas. Dela ninguém fazia caso, mas gritava e implorava que ao menos tomassem conta do menino. Nisto, um homem arrancou-lhe das mãos a bóia onde ia o precioso depósito.

Depois, lançaram-na para dentro de um bote. E, senão quando sobreveio um lanço de mar, uma tromba de água por sobre a sua cabeça, e depois foi um horror ver a bóia a rastejar o casco do vapor no dorso de uma vaga, e a tempestade a envolver-se entre as musselinas do berço, e o furacão a arrebatar como uma pena pelos mares além a sua presa, no meio de neblinas de espuma! E, depois ainda, um grito terrível entre tantos outros, uma luta corpo a corpo, e a treva do espírito - a inconsciência! Mais tarde, o despertar, o desespero infindo, noites de febre e de delírio! Mais tarde ainda, a dor incessante, as longas buscas sem resultado e a convicção da impossibilidade aumentando, aumentando sempre, impondo-se-lhe, submergindo toda a esperança! Ah! Sim! A pobre mulher lembrava-se de tudo! Para falar mais propriamente, todo o seu ser ficara abalado com este drama terrível, a ponto de se considerar aniquilada para toda a vida. Havia quase um quarto de século que tais cenas se tinham passado, e, apesar disso, a Sr.a Durrieu chorava ainda o seu filho como no primeiro dia! Aquele coração essencialmente maternal todo se concentrara no seu luto e consumia lentamente a vida na sombria contemplação do drama inolvidável!

Por uma espécie de miragem moral, às vezes afigurava-se-lhe o filho a crescer, a passar pelas fases sucessivas da infância, adolescência e virilidade. De ano para ano representava-se-lhe como ele seria, como era talvez, porque conservava uma crença de que vivia e havia de voltar! E contra esta obscura esperança nada prevalecera, nem as buscas inúteis, nem o tempo que ia passando!

E eis a razão por que, nessa noite, estava à espera do pai com a firme resolução de o interrogar, para ficar com o coração livre de inquietações e de suspeitas.

Entrou afinal o Sr. Durrieu, acompanhado de um elegante moço. O respeitável ancião apresentou-o à filha nestes termos:

- Minha filha, apresento-te o Sr. Erik Hersebom, de quem tantas vezes te tenho falado e que há pouco chegou a Paris, convidado pela Sociedade de Geografia, que lhe conferiu a grande medalha de honra. Quis dar-nos o prazer de aceitar a nossa hospitalidade!

Tinham combinado pelo caminho que as coisas se passariam assim, e Erik mais tarde falaria por incidente da criança recolhida em Noroé, e ir-se-ia assim, sem grandes comoções, dispondo as coisas para a confissão da identidade. Mas quando chegou à presença da mãe, faltaram-lhe as forças para desempenhar aquele papel. O mais que pôde fazer foi inclinar-se profundamente sem articular palavra.

Nesta altura, ela tinha-se levantado da cadeira e encarava-o com bondade. Mas de repente abriu desmesuradamente os olhos, tremeram-lhe os lábios, a mão estendeu-se instintivamente para ele.

- Meu filho!... Este é o meu filho! - exclamou. E depois, caminhando para ele:

- Sim! Tu és o meu filho! És o vivo retrato de teu pai, que ressuscita em cada uma das tuas feições!

Erik caiu-lhe aos pés, desfeito em pranto. A pobre mãe, tomando-lhe a cabeça entre as mãos, desmaiava de prazer, entre mil beijos de felicidade indizível.

 

         O VAL - FÉRAY - CONCLUSÃO.

Uns meses depois reuniu-se em festa íntima, no Val-Féray, a meia légua de Brest, toda a família adoptiva de Erik com a mãe e o avô. A Sr.a Durrieu quis delicadamente associar à sua profunda e inexprimível felicidade os entes singelos e bons que tinham salvo o seu filho. Exigira que a Sr.a Katrina e Vanda, maaster Hersebom e Otto viessem de viagem com o Dr. Schwaryencrona e Kajsa e os Srs. Bredejord e Malarius.

No meio da rústica natureza bretã e junto do sombrio mar armoricano, era natural que os seus hóspedes da Noruega se sentissem menos desnaturalizados que na Rue de Varennes. Davam longos passeios por entre os arvoredos, contavam uns aos outros o que cada um ainda ignorava, e comunicavam entre si os fragmentos de verdade que possuíam a respeito de toda esta história obscura. E pouco a pouco ficaram esclarecidos os pontos que o não estavam ainda. Nascia a luz dos confrontos das diversas circunstâncias, das longas conversas, das frequentes discussões.

Faltava saber-se, primeiro que tudo, quem era aquele Tudor Brown. Que interesse teria em evitar que Erik descobrisse a sua família por intermédio de Patrick O'Donoghan? Uma palavra do infeliz irlandês esclarecera o caso. O verdadeiro nome de Tudor Brown era Jones, e só por ele Patrick O'Donoghan o conhecia. Ora Noah Jones era precisamente o sócio do pai de Erik na exploração da mina de petróleo descoberta pelo moço engenheiro na Pensilvânia.

Basta o simples enunciado do facto para se descortinar a luz sinistra dos sucessos ainda misteriosos. O naufrágio suspeito do "Cynthia", a queda da criança no mar, e talvez a morte do pai de Erik - tudo deveria ter origem no contrato de sociedade que o Sr. Durrieu achou entre os seus papéis e que elucidou com alguns comentários, falando deste modo aos amigos de Erik:

- Poucos meses antes do casamento, o meu genro tinha descoberto perto de Harrisburg uma nascente de petróleo. Faltava-lhe, porém, o capital necessário para adquirir a propriedade, e por falta dele via-se arriscado a perder as infalíveis vantagens do importante achado. Por acaso travara relações com o tal Noah Jones, que se inculcava negociante de bois do Far-West, mas que na realidade, como se soube mais tarde, era um importador de escravos da Carolina do Sul. Este homem comprometeu-se a fornecer as somas necessárias para a compra e exploração da nascente de petróleo, mas, em troca do capital oferecido, obrigou Jorge a assinar um contrato absolutamente leonino. Eu ignorava o conteúdo do contrato na época do casamento de minha filha, e o próprio Jorge nem sequer pensava nele. Em tais assuntos era de uma ignorância sem igual. Admiravelmente ilustrado a todos os respeitos, como matemático, químico e engenheiro de minas, nada, absolutamente nada, percebia de negócios, e por duas vezes já tinha pago a sua ingenuidade à custa de verdadeiras fortunas. É claro que com esse Noah Jones portou-se com a habitual inexperiência. Provavelmente assinou de olhos fechados o contrato de sociedade que ele apresentou. Vou ler-lhes os artigos principais, extractados e resumidos da fraseologia anglo-saxónica, em que estavam envolvidos:

 

«... Art. 3.° A propriedade da nascente Vandalia ficará pro indiviso entre o descobridor, Sr. Jorge Durrieu, e o comandatário, Sr. Noah Jones.

«Art. 4. Ao Sr. Noah Jones competirá a administração dos capitais que fornecer para a exploração da nascente. Venderá os produtos, cobrará as receitas, pagará as despesas, com a obrigação de em cada ano prestar contas ao referido seu sócio e dividir com ele o lucro líquido. O Sr. Jorge Durrieu dirigirá os trabalhos e serviços técnicos da exploração.

«Art. 5. No caso em que qualquer dos dois proprietários-sócios queira vender a sua parte, ficará obrigado a oferecer o direito de preferência ao outro sócio, ficando logo marcado o prazo de três meses para declarar se aceita, e esse poderá efectuar a compra e ficar assim único proprietário, pagando o capital com três por cento do rendimento líquido que constar do último inventário.

«Art. 6. Somente os filhos de cada um dos sócios herdarão os seus respectivos direitos. Na falta de filhos do sócio que morrer, ou em caso de morte, antes de vinte anos completos, do filho ou filhos do sócio falecido, reverte a propriedade em pleno ao sócio sobrevivente, com exclusão de todos e quaisquer herdeiros do dito falecido.

«N. 8. - O presente artigo é motivado pela diversa nacionalidade dos dois sócios e pelas complicações de processo a que outro qualquer acordo daria causa.»

- Tal foi - continuou o Sr. Durrieu - o contrato que o meu futuro genro assinou, numa época em que, sem dúvida, ainda não pensava em casar-se e em que toda a gente ignorava, com exclusão talvez de Noah Jones, o imenso valor que mais tarde a nascente Vandalia havia de adquirir. Naquele momento Jorge estava na maré das tentativas e dos dissabores. O plano do ianque era desgostar o sócio da empresa, exagerando as dificuldades do começo, para assim com pouca despesa ficar proprietário exclusivo. O que veio modificar completamente a situação foi o casamento de Jorge com a minha filha, o nascimento do nosso querido filho, e a certeza rápida da prodigiosa riqueza da nascente. Já se vê que, desde este facto, o homem não podia por uma migalha adquirir para si só a esplêndida empresa, para tal suceder, necessário era que Jorge em primeiro lugar e depois o seu único filho desaparecessem do mundo. Ora, dois anos depois do casamento e seis meses após o nascimento do meu neto, Jorge foi encontrado morto perto de um dos poços de extracção, e disseram os médicos que asfixiado por gases irrespiráveis. Já então eu não estava nos Estados Unidos, mas no consulado de Riga, para onde fora transferido nesse intervalo, os assuntos da herança foram incumbidos a um solicitador. Noah Jones mostrou-se disposto a todas as combinações oferecidas por minha filha. Ficou ajustado que ele continuasse a explorar a nascente social, pagando todos os semestres no Central Bank, de Nova Iorque, a parte de lucros líquidos pertencentes à criança. Nem sequer saldou o primeiro semestre!... A minha filha tomou passagem no "Cynthia" para vir para a minha companhia. O "Cynthia" perdeu-se totalmente, em condições tão suspeitas que a companhia de seguros conseguiu exonerar-se judicialmente de toda a responsabilidade, mas nesse naufrágio desapareceu o único herdeiro de Jorge. Desde então, Noah Jones ficou proprietário da nascente Vandalia que, termo médio, desde aquela data lhe deu anualmente cento e oitenta mil dólares!

- Nunca desconfiou que ele interviesse activamente em todas essas sucessivas desgraças? - perguntou o Sr. Bredejord.

- Nem podia deixar de assim ser, naturalmente, porque tal acumulação de desastres, tendentes ao mesmo fim, dava infelizmente nas vistas, mas como havia de dar vulto às minhas suspeitas e quais os elementos para fundamentá-las perante a justiça? Os dados que eu tinha eram todos vagos. Já sabia por experiência que nas reclamações internacionais pouco se pode contar com os tribunais de justiça. Além de que, tinha de consolar e distrair a minha pobre filha, e um processo, cujo móbil demais a mais seria apenas o interesse, far-lhe-ia reviver todos os seus pesares. Em breve me resignei ao silêncio. Fiz mal? Devo arrepender-me? Não o creio, e fico convicto de que não teria obtido nenhum resultado. Senão, vejam como ainda hoje, reunindo todas as impressões e factos que são do nosso conhecimento, nos é difícil chegar a uma conclusão precisa!

- Mas como explicar-se o papel que Patrick O'Donoghan representou em tudo isto? - inquiriu o Dr. Schwaryencrona.

- Nesse, como noutros muitos pontos, temos de recorrer às conjecturas. Parece-me, porém, que há uma bastante plausível. Esse O'Donoghan, grumete a bordo do "Cynthia", adstrito ao serviço pessoal do capitão, estava em constantes relações com os passageiros de primeira classe, que vão sempre à mesa do comandante. Sabia, pois, decerto o nome de minha filha, conhecia-lhe a nacionalidade francesa, fácil lhe era não a perder de vista. Teria sido encarregado por Noah Jones de alguma tenebrosa comissão? Seria um dos causadores do naufrágio tão suspeito do "Cynthia", ou apenas incumbido de arremessar a criança ao mar? Eis o que nunca saberemos ao certo, porque esse homem já não é deste mundo. Seja, porém, como for, o que não podia ignorar era a importância que a "criança da bóia" tinha para o ex-sócio de Jorge. E tanto que tratou de explorar em seu proveito o que sabia, e não admira que assim procedesse sendo, como era, um beberrão e um indolente. O'Donoghan saberia que a "criança da bóia" não tinha morrido? Ajudaria até a salvá-la, recolhendo-a do mar, para depois a deixar nas proximidades de Noroè, ou empregando outro qualquer meio? É mais um ponto duvidoso, mas no que não pode restar dúvida é que afirmou a Noah Jones que a "criança da bóia" não se adoçara, gabou-se-lhe de conhecer a terra onde foi recolhida, e provavelmente declarou-lhe que tomara todas as medidas para que a criança de tudo ficasse ao facto no momento em que a ele O'Donoghan acontecesse alguma desgraça. Noah Jones viu-se assim obrigado a pagar-lhe o silêncio por bom preço. Era essa talvez a fonte das rendas intermitentes que o irlandês cobrava em Nova Iorque, quando lá ia.

- Tudo isso me parece bem verosímil - declarou o Sr. Bredejord. - E acrescento que a sucessão dos factos confirma plenamente a hipótese. Os primeiros anúncios do Dr. Schwaryencrona inquietaram sobremodo a Noah Jones. Nessa ocasião julgou indispensável suprimir Patrick O'Donoghan, mas viu-se forçado a proceder com certa prudência, precisamente porque o irlandês afirmava ter tomado todas as precauções. Contentou-se, pois, em assustá-lo com a intervenção imediata da justiça criminal em virtude dos anúncios. Isto resulta da própria narrativa que nos fez em Nova Iorque o proprietário da Red Anchor, Mister Bowles, e da pressa com que O'Donoghan se pôs a andar. É quase certo que foi ameaçado com a extradição e só isso explica ter emigrado para tão longe, para os samoiedos e com um pseudónimo. Noah Jones, conselheiro provável desta resolução, julgou-se então ao abrigo de qualquer surpresa. Mas os anúncios a reclamar Patrick continuaram a fazer-lhe abalo, uma ideia fixa, como costuma dizer-se, e, vai daí, fez a viagem a Estocolmo, de propósito para nos comunicar a notícia da morte do irlandês e talvez também para ver com os seus olhos o estado das nossas investigações. Finalmente sobreveio a correspondência da "Vega" e a partida do "Alaska" para os mares árcticos. Noah Jones ou Tudor Brown, vendo-se então em perigo iminente, porque a sua confiança em Patrick devia ser das mais limitadas, não recuou diante das maiores perversidades para assegurar-se da impunidade. Por fortuna, as coisas saíram-lhe ao inverso, mas agora podemos dizer que escapámos de boa!

- Quem sabe? Talvez que esses mesmos perigos contribuíssem para alcançarmos o êxito desejado! - lembrou o doutor. - Se não fosse o desastre do Baixio-Frio, é muito provável que tivéssemos seguido pelo canal de Suez e que chegássemos ao estreito de Béringue já tarde para lá encontrarmos a "Vega". Se na companhia de Tudor Brown fôssemos ao encontro de Patrick O'Donoghan, era bem problemático que este nos fizesse qualquer confidência... Demais, toda a nossa viagem foi determinada pelos trágicos sucessos do começo, e unicamente devido ao périplo executado pelo "Alaska" e à celebridade que desse factor adveio a Erik, é que conseguimos descobrir a sua família!

- É verdade! - disse com orgulho a Sr.a Durrieu, passando as mãos pelos cabelos do filho. - Foi a glória que mo restituiu!

E quase em seguida acrescentou:

- ... assim como foi o crime que mo arrebatou, e a bondade de vós todos que mo conservou e o converteu num homem superior...

- Assim como foi a malvadez de Noah Jones a causa de ser o nosso Erik actualmente um dos homens mais ricos das duas Américas - interrompeu o Sr. Bredejord.

Todos olharam com pasmo para o Sr. Bredejord.

- Sem dúvida nenhuma - continuou o eminente advogado. - É ou não Erik herdeiro de seu pai na propriedade da nascente Vandalia?... Tem ou não estado há vinte e dois anos privado das suas rendas? É claro. Resta justificar a identidade filial e creio que lhe não será difícil, com todas estas testemunhas, desde maaster Hersebom e a Sr.a Katrina até ao Sr. Malarius e nós. Se Noah Jones deixou filhos, eles são responsáveis pelos rendimentos caídos, o que absorverá provavelmente toda a parte no capital social. Se não ficaram filhos daquele traficante, Erik é o único herdeiro da propriedade plena nos termos do contrato que o Sr. Durrieu nos leu. De todas as maneiras, pois, deve ter na Pensilvânia um rendimento parecido aí com os seus cento e cinquenta ou duzentos mil dólares!

- Eh! Eh!... - disse a rir-se o Dr. Schwaryencrona. - Vejam que partidão nos não saiu o tal pescadorzito de Noroé!... Laureado pela Sociedade de Geografia, autor do primeiro périplo circumpolar e agora acabrunhado com uma modesta renda de duzentos mil dólares, digo-lhes que é um marido que actualmente não é fácil de encontrar-se em Estocolmo!,.. Que dizes tu a isto, Kajsa?

A tais palavras, ela fez-se extremamente corada. O tio também não compreendeu quanta crueldade elas repressentavam. Há um instante, estava Kajsa precisamente a pensar como fora inepta repelindo aquele namorado tão distinto, e fazia já os seus cálculos de para futuro lhe mostrar a maior consideração.

Por sua vez, porém - coisa singular! -, Erik nem para ela olhava desde que se sentia superior aos seus injustos desdéns. Ou fosse porque a ausência e as reflexões das suas noites de quarto no alto mar lhe abrissem os olhos a respeito da secura do coração de Kajsa, ou pela satisfação de já não ser aos olhos dela um simples "enjeitado" - o certo é que lhe não consagrava agora mais do que a parte de estrita cortesia a que tinha direito como dama e como sobrinha do Dr. Schwaryencrona.

Todas as suas preferências eram para Vanda, que realmente cada vez se tornava mais interessante, acabando de perder totalmente em companhia de uma senhora amável e distinta, como era a mãe de Erik, os seus acanhamentos de aldeã. Todos que a viam a amavam pela sua extrema bondade, graça natural e perfeita singeleza de maneiras. Havia apenas oito dias que estava em Val-Féray e já a Sr.a Durrieu declarava que desde então lhe seria impossível separar-se dela.

Erik incumbiu-se de conciliar todos os desejos, decidindo maaster Hersebom e a Sr.a Katrina a consentirem que Vanda ficasse em França, com a condição expressa de ir todos os anos, acompanhada por ele, fazer-lhes uma visita a Noroê. Chegou até a pensar em transferir para a Bretanha a sua família adoptiva, oferecendo-se para mandar vir, peça por peça, para a borda do porto de Brest, a casa de madeira onde tinha passado a sua infância. Mas este projecto de emigração em massa foi considerado impraticável. Maaster Hersebom e a Sr.a Katrina eram idosos de mais para criarem novos hábitos, nunca se dariam por felizes num país cuja língua e costumes desconheciam. Foi pois forçoso deixá-los partir, não sem ficar assegurado para o resto dos seus dias o bem-estar que jamais aquela boa gente havia podido adquirir numa longa vida de trabalho e de honradez.

Erik queria pelo menos que Otto ficasse. Mas se ele também preferia o seu fiorde a todos os portos do mundo e não achava existência melhor que a de pescador! Pede a verdade que se diga que à predilecção invencível que Otto tinha por Noroè não eram estranhos os cabelos cor de linho e os olhos azuis de Regnild, filha do gerente da fábrica de óleo. Foi a conclusão a que todos chegaram quando se soube que estava justo o casamento para o Yule (Natal) próximo.

 

O Sr. Malarius conta ainda educar os filhos dele, como educou Erik e Vanda. Foi outra vez ocupar o seu modesto emprego de mestre-escola da aldeia, depois de ter visto o seu nome associado às honras deferidas pela Sociedade de Geografia da França ao comandante do "Alaska". Actualmente está corrigindo as provas da sua magnífica obra sobre a flora dos mares árcticos, editada à custa da Sociedade Lineana. Quanto ao Dr. Schwaryencrona, esse está a dar a última demão ao grande "Tratado Iconográfico", que por certo transmitirá o seu nome à posteridade.

O último processo judiciário em que o advogado Bredejord tomou parte foi o relativo aos direitos de Erik à propriedade plena da nascente Vandalia. Ganhou-o em primeira instância e sem apelação, o que já constitui um grandioso sucesso.

Erik aproveitou-se dessa decisão, e da enorme fortuna que lhe foi entregue, para comprar o "Alaska", que converteu em seu iate de recreio. Serve-se dele todos os anos para ir a Noroé, em companhia da Sr.a Durrieu e de Vanda, ver a sua família adoptiva. Posto ter rectificado o estado civil e usar hoje legalmente do seu nome de Emílio Durrieu, quis acrescentar-lhe o apelido de Hersebom, e todos os seus conservam o costume de lhe chamarem Erik.

Os votos íntimos da mãe são vê-lo um dia casado com Vanda, a quem ama como filha, e são eles tão conformes com a inclinação de ambos, que não será para admirar que mais dia menos dia se realizem.

Kajsa permanece solteira. Às vezes acode-lhe o vago sentimento de que "perdeu a maré", como costuma dizer-se de quem deixa escapar a ocasião por sua própria culpa. O Dr. Schwaryencrona, o Sr. Bredejord e o professor Hochstedt continuam a jogar o whist.

Uma noite, em que o doutor estava a jogar mal, contra o costume, o Sr. Bredejord, dando piparotes na caixa do rapé, deu-se ao prazer de lhe recordar uma circunstância que já estava a esquecer:

- É verdade, ó doutor, em que dia resolve mandar-me o seu Plínio de Aldo Manúcio? - perguntou-lhe, com um raio de malícia nos olhos. - Creio que já não sustentará agora que Erik seja de origem irlandesa?

O doutor ficou um momento aturdido com o golpe. Mas, recuperando o sangue-frio, exclamou com convicção:

- Essa é melhor! Pois se um ex-presidente da República Francesa descende dos reis de Irlanda, que grande milagre que o mesmo se dê na família Durrieu!

- Evidentemente - replicou o Sr. Bredejord. - O caso é tão verosímil que estou vai não vai para mandar ao doutor o meu Quintiliano!

 

                                                                                Júlio Verne  

 

                      

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